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-The Project Gutenberg EBook of Os Maias, by José Maria Eça de Queirós
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
-almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
-re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
-with this eBook or online at www.gutenberg.org
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-
-Title: Os Maias
- episodios da vida romantica
-
-Author: José Maria Eça de Queirós
-
-Release Date: October 16, 2012 [EBook #40409]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: ISO-8859-1
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MAIAS ***
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-
-Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões,
-Graça Horta and the Online Distributed Proofreading Team
-at http://www.pgdp.net (This file was produced from images
-generously made available by National Library of Portugal
-(Biblioteca Nacional de Portugal) and Biblioteca Dulce
-Ferrão -- Biblioteca-Museu República e Resistência.)
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- *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste
- texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso
- de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
- deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
-
- Na versão original, esta obra é uma compilação de dois volumes, com
- capítulos e paginação independentes, publicadas numa só obra.
- Respeitando o original, compilámos num só ficheiro ambas as partes:
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- Primeiro Volume
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- Segundo Volume
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- Rita Farinha (Agosto 2012)
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-Porto: Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 70
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-EÇA DE QUEIROZ
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-OS MAIAS
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-EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA
-
-VOLUME I
-
-PORTO
-
-
-Livraria Internacional de Ernesto Chardron
-CASA EDITORA
-LUGAN & GENELIOUX, Successores
-
-
-1888
-
-Todos os direitos reservados
-
-
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-
-OBRAS DO MESMO AUCTOR
-
-
- O Crime do Padre Amaro, edição inteiramente refundida, recomposta,
- e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso vol.
- 1$200
-
- O Primo Bazilio. 3.^a edição. 1 grosso vol. 1$000
-
- O Mandarim. 2.^a edição. 1 vol. 500
-
- A Reliquia. 1 grosso vol. 1$000
-
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-
-OS MAIAS
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-VOLUME I
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-
-OS MAIAS
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-
-I
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-A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era
-conhecida na visinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o
-bairro das Janellas Verdes, pela _casa do Ramalhete_ ou simplesmente o
-_Ramalhete_. Apesar d'este fresco nome de vivenda campestre, o
-_Ramalhete_, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de
-estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma timida
-fila de janellinhas abrigadas á beira do telhado, tinha o aspecto
-tristonho de Residencia Ecclesiastica que competia a uma edificação do
-reinado da sr.^a D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo
-assimilhar-se-hia a um Collegio de Jesuitas. O nome de Ramalhete
-provinha de certo d'um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel
-no logar heraldico do Escudo d'Armas, que nunca chegara a ser collocado,
-e representando um grande ramo de girasoes atado por uma fita onde se
-distinguiam letras e numeros d'uma data.
-
-Longos annos o Ramalhete permanecera deshabitado, com teias d'aranha
-pelas grades dos postigos terreos, e cobrindo-se de tons de ruina. Em
-1858 Monsenhor Buccarini, Nuncio de S. Santidade, visitara-o com idéa
-d'installar lá a Nunciatura, seduzido pela gravidade clerical do
-edificio e pela paz dormente do bairro: e o interior do casarão
-agradara-lhe tambem, com a sua disposição apalaçada, os tectos
-apainelados, as paredes cobertas de _frescos_ onde já desmaiavam as
-rosas das grinaldas e as faces dos Cupidinhos. Mas Monsenhor, com os
-seus habitos de rico prelado romano, necessitava na sua vivenda os
-arvoredos e as agoas d'um jardim de luxo: e o Ramalhete possuia apenas,
-ao fundo d'um terraço de tijolo, um pobre quintal inculto, abandonado ás
-hervas bravas, com um cypreste, um cedro, uma cascatasinha secca, um
-tanque entulhado, e uma estatua de marmore (onde Monsenhor reconheceu
-logo Venus Citherêa) ennegrecendo a um canto na lenta humidade das
-ramagens silvestres. Além d'isso, a renda que pedio o velho Villaça,
-procurador dos Maias, pareceu tão exagerada a Monsenhor, que lhe
-perguntou sorrindo se ainda julgava a Egreja nos tempos de Leão X.
-Villaça respondeu--que tambem a nobreza não estava nos tempos do sr. D.
-João V. E o Ramalhete continuou deshabitado.
-
-Este inutil pardieiro (como lhe chamava Villaça Junior, agora por morte
-de seu pae administrador dos Maias) só veio a servir, nos fins de 1870,
-para lá se arrecadaram as mobilias e as louças provenientes do palacete
-de familia em Bemfica, morada quasi historica, que, depois de andar
-annos em praça, fôra então comprada por um commendador brazileiro.
-N'essa occasião vendera-se outra propriedade dos Maias, a _Tojeira_; e
-algumas raras pessoas que em Lisboa ainda se lembravam dos Maias, e
-sabiam que desde a Regeneração elles viviam retirados na sua quinta de
-Santa Olavia, nas margens do Douro, tinham perguntado a Villaça se essa
-gente estava atrapalhada.
-
---Ainda teem um pedaço de pão, disse Villaça sorrindo, e a manteiga para
-lhe barrar por cima.
-
-Os Maias eram uma antiga familia da Beira, sempre pouco numerosa, sem
-linhas collateraes, sem parentellas--e agora reduzida a dois varões, o
-senhor da casa, Affonso da Maia, um velho já, quasi um antepassado, mais
-edoso que o seculo, e seu neto Carlos que estudava medicina em Coimbra.
-Quando Affonso se retirara definitivamente para Santa Olavia, o
-rendimento da casa excedia já cincoenta mil cruzados: mas desde então
-tinham-se accumulado as economias de vinte annos de aldêa; viera tambem
-a herança d'um ultimo parente, Sebastião da Maia, que desde 1830 vivia
-em Napoles, só, occupando-se de numismatica;--e o procurador podia
-certamente sorrir com segurança quando fallava dos Maias e da sua fatia
-de pão.
-
-A venda da _Tojeira_ fôra realmente aconselhada por Villaça: mas nunca
-elle approvara que Affonso se desfizesse de Bemfica--só pela rasão
-d'aquelles muros terem visto tantos desgostos domesticos. Isso, como
-dizia Villaça, acontecia a todos os muros. O resultado era que os Maias,
-com o Ramalhete inhabitavel, não possuiam agora uma casa em Lisboa; e se
-Affonso n'aquella edade amava o socego de Santa Olavia, seu neto, rapaz
-de gosto e de luxo que passava as ferias em Paris e Londres, não
-quereria, depois de formado, ir sepultar-se nos penhascos do Douro. E
-com effeito, mezes antes de elle deixar Coimbra, Affonso assombrou
-Villaça annunciando-lhe que decidira vir habitar o Ramalhete! O
-procurador compoz logo um relatorio a enumerar os inconvenientes do
-casarão: o maior era necessitar tantas obras e tantas despezas; depois,
-a falta d'um jardim devia ser muito sensivel a quem sahia dos arvoredos
-de Santa Olavia; e por fim alludia mesmo a uma lenda, segundo a qual
-eram sempre fataes aos Maias as paredes do Ramalhete, «ainda que
-(acrescentava elle n'uma phrase meditada) até me envergonho de mencionar
-taes frioleiras n'este seculo de Voltaire, Guisot e outros philosophos
-liberaes...»
-
-Affonso riu muito da phrase, e respondeu que aquellas razões eram
-excellentes--mas elle desejava habitar sob tectos tradiccionalmente
-seus; se eram necessarias obras, que se fizessem e largamente; e
-emquanto a lendas e agoiros, bastaria abrir de par em par as janellas e
-deixar entrar o sol.
-
-S. ex.^a mandava:--e, como esse inverno ia secco, as obras começaram
-logo, sob a direcção d'um Esteves, architecto, politico, e compadre de
-Villaça. Este artista enthusiasmára o procurador com um projecto de
-escada apparatosa, flanqueada por duas figuras symbolisando as
-conquistas da Guiné e da India. E estava ideando tambem uma cascata de
-louça na sala de jantar--quando, inesperadamente, Carlos appareceu em
-Lisboa com um architecto-decorador de Londres, e, depois de estudar com
-elle á pressa algumas ornamentações e alguns tons de estofos,
-entregou-lhe as quatro paredes do Ramalhete, para elle ali crear,
-exercendo o seu gosto, um interior confortavel, de luxo intelligente e
-sobrio.
-
-Villaça resentiu amargamente esta desconsideração pelo artista nacional;
-Esteves foi berrar ao seu Centro politico que isto era um paiz perdido.
-E Affonso lamentou tambem que se tivesse despedido o Esteves, exigiu
-mesmo que o encarregassem da construcção das cocheiras. O artista ia
-acceitar--quando foi nomeado governador civil.
-
-Ao fim d'um anno, durante o qual Carlos viera frequentemente a Lisboa
-collaborar nos trabalhos, «dar os seus retoques estheticos»--do antigo
-Ramalhete só restava a fachada tristonha, que Affonso não quizera
-alterada por constituir a phisionomia da casa. E Villaça não duvidou
-declarar que Jones Bule (como elle chamava ao inglez) sem despender
-despropositadamente, aproveitando até as antigualhas de Bemfica, fizera
-do Ramalhete «um museu.»
-
-O que surprehendia logo era o pateo, outr'ora tão lobrego, nú, lageado
-de pedregulho--agora resplandecente, com um pavimento quadrilhado de
-marmores brancos e vermelhos, plantas decorativas, vazos de Quimper, e
-dois longos bancos feudaes que Carlos trouxera de Hespanha, trabalhados
-em talha, solemnes como córos de cathedral. Em cima, na antecamara,
-revestida como uma tenda de estofos do Oriente, todo o rumor de passos
-morria: e ornavam-n'a divans cobertos de tapetes persas, largos pratos
-mouriscos com reflexos metalicos de cobre, uma harmonia de tons severos,
-onde destacava, na brancura immaculada do marmore, uma figura de
-rapariga friorenta, arripiando-se, rindo, ao metter o pésinho n'agoa.
-D'ahi partia um amplo corredor, ornado com as peças ricas de Bemfica,
-arcas gothicas, jarrões da India, e antigos quadros devotos. As melhores
-salas do Ramalhete abriam para essa galeria. No salão nobre, raramente
-usado, todo em brocados de velludo côr de musgo d'outono, havia uma
-bella téla de Constable, o retrato da sogra de Affonso, a condessa de
-Runa, de tricorne de plumas e vestido escarlate de caçadora ingleza,
-sobre um fundo de paisagem enevoada. Uma sala mais pequena, ao lado,
-onde se fazia musica, tinha um ar de seculo XVIII com seus moveis
-enramelhetados d'ouro, as suas sedas de ramagens brilhantes: duas
-tapeçarias de Gobelins, desmaiadas, em tons cinzentos, cobriam as
-paredes de pastores e d'arvoredos.
-
-Defronte era o bilhar, forrado d'um couro moderno trazido por Jones
-Bule, onde, por entre a desordem de ramagens verde-garrafa, esvoaçavam
-cegonhas prateadas. E, ao lado, achava-se o _fumoir_, a sala mais
-commoda do Ramalhete: as ottomanas tinham a fôfa vastidão de leitos; e o
-conchego quente, e um pouco sombrio dos estofos escarlates e pretos era
-alegrado pelas cores cantantes de velhas faienças hollandezas.
-
-Ao fundo do corredor ficava o escriptorio de Affonso, revestido de
-damascos vermelhos como uma velha camara de prelado. A macissa meza de
-pau preto, as estantes baixas de carvalho lavrado, o solemne luxo das
-encadernações, tudo tinha ali uma feição austera de paz
-estudiosa--realçada ainda por um quadro attribuido a Rubens, antiga
-reliquia da casa, um Christo na Cruz, destacando a sua nudez de athleta
-sobre um ceu de poente revolto e rubro. Ao lado do fogão Carlos
-arranjara um canto para o avô com um biombo japonez bordado a ouro, uma
-pelle d'urso branco, e uma veneravel cadeira de braços, cuja tapeçaria
-mostrava ainda as armas dos Maias no desmaio da trama de sêda.
-
-No corredor do segundo andar, guarnecido com retratos de familia,
-estavam os quartos de Affonso. Carlos despozera os seus, n'um angulo da
-casa, com uma entrada particular, e janellas sobre o jardim: eram tres
-gabinetes a seguir, sem portas, unidos pelo mesmo tapete: e, os recostos
-acolchoados, a sêda que forrava as paredes, faziam dizer ao Villaça que
-aquillo não eram aposentos de medico--mas de dançarina!
-
-A casa, depois de arranjada, ficou vazia emquanto Carlos, já formado,
-fazia uma longa viagem pela Europa;--e foi só nas vesperas da sua
-chegada, n'esse lindo outono de 1875, que Affonso se resolveu emfim a
-deixar Santa Olavia e vir installar-se no Ramalhete. Havia vinte e cinco
-annos que elle não via Lisboa; e, ao fim de alguns curtos dias,
-confessou ao Villaça que estava suspirando outra vez pelas suas sombras
-de Santa Olavia. Mas, que remedio! Não queria viver muito separado do
-neto; e Carlos agora, com idéas sérias de carreira activa, devia
-necessariamente habitar Lisboa... De resto, não desgostava do Ramalhete,
-apezar de Carlos, com o seu fervor pelo luxo dos climas frios, ter
-prodigalisado de mais as tapeçarias, os pesados reposteiros, e os
-velludos. Agradava-lhe tambem muito a visinhança, aquella dôce quietação
-de suburbio adormecido ao sol. E gostava até do seu quintalejo. Não era
-de certo o jardim de Santa Olavia: mas tinha o ar sympathico, com os
-seus girasoes perfilados ao pé dos degraus do terraço, o cypreste e o
-cedro envelhecendo juntos como dois amigos tristes, e a Venus Cytherêa
-parecendo agora, no seu tom claro de estatua de parque, ter chegado de
-Versalhes, do fundo do grande seculo... E desde que a agoa abundava, a
-cascatasinha era deliciosa, dentro do nicho de conchas, com os seus tres
-pedregulhos arranjados em despenhadeiro bucolico, melancolisando aquelle
-fundo de quintal soalheiro com um pranto de nayade domestica, esfiado
-gota a gota na bacia de marmore.
-
-O que desconsolara Affonso, ao principio, fôra a vista do
-terraço--d'onde outr'ora, de certo, se abrangia até ao mar. Mas as casas
-edificadas em redor, nos ultimos annos, tinham tapado esse horizonte
-explendido. Agora, uma estreita tira de agoa e monte que se avistava
-entre dois predios de cinco andares, separados por um córte de rua,
-formava toda a paizagem defronte do Ramalhete. E, todavia, Affonso
-terminou por lhe descobrir um encanto intimo. Era como uma téla marinha,
-encaixilhada em cantarias brancas, suspensa do céu azul em face do
-terraço, mostrando, nas variedades infinitas de côr e luz, os episodios
-fugitivos d'uma pacata vida de rio: ás vezes uma véla de barco da
-Trafaria fugindo airosamente á bolina; outras vezes uma galera toda em
-panno, entrando n'um favor da aragem, vagarosa, no vermelho da tarde; ou
-então a melancolia d'um grande paquete, descendo, fechado e preparado
-para a vaga, entrevisto um momento, desapparecendo logo, como já
-devorado pelo mar incerto; ou ainda durante dias, no pó d'ouro das
-sestas silenciosas, o vulto negro de um couraçado inglez... E sempre ao
-fundo o pedaço de monte verde-negro, com um moinho parado no alto, e
-duas casas brancas ao rez d'agoa, cheias de expressão--ora faiscantes e
-despedindo raios das vidraças accezas em braza; ora tomando aos fins de
-tarde um ar pensativo, cobertas dos rosados tenros de poente, quasi
-similhantes a um rubor humano; e d'uma tristeza arripiada nos dias de
-chuva, tão sós, tão brancas, como nuas, sob o tempo agreste.
-
-O terraço communicava por tres portas envidraçadas com o escriptorio--e
-foi n'essa bella camara de prelado que Affonso se acostumou logo a
-passar os seus dias, no recanto aconchegado que o neto lhe preparara
-ternamente, ao lado do fogão. A sua longa residencia em Inglaterra
-dera-lhe o amor dos suaves vagares junto do lume. Em Santa Olavia as
-chaminés ficavam accezas até Abril; depois ornavam-se de braçadas de
-flôres, como um altar domestico; e era ainda ahi, n'esse aroma e n'essa
-frescura, que elle gozava melhor o seu cachimbo, o seu Tacito, ou o seu
-querido Rabelais.
-
-Todavia, Affonso ainda ia longe, como elle dizia, de ser um velho
-borralheiro. N'aquella edade, de verão ou de inverno, ao romper do sol,
-estava a pé, sahindo logo para a quinta, depois da sua boa oração da
-manhã que era um grande mergulho na agoa fria. Sempre tivera o amor
-supersticioso da agoa; e costumava dizer que nada havia melhor para o
-homem--que sabor d'agoa, som d'agoa, e vista d'agoa. O que o prendera
-mais a Santa Olavia fôra a sua grande riqueza d'agoas vivas, nascentes,
-repuxos, tranquillo espelhar d'agoas paradas, fresco murmurio de agoas
-regantes... E a esta viva tonificação da agoa attribuia elle o ter vindo
-assim, desde o começo do seculo, sem uma dôr e sem uma doença, mantendo
-a rica tradição de saude da sua familia, duro, resistente aos desgostos
-e annos--que passavam por elle, tão em vão, como passavam em vão, pelos
-seus robles de Santa Olavia, annos e vendavaes.
-
-Affonso era um pouco baixo, macisso, de hombros quadrados e fortes: e
-com a sua face larga de nariz aquilino, a pelle córada, quasi vermelha,
-o cabello branco todo cortado á escovinha, e a barba de neve aguda e
-longa--lembrava, como dizia Carlos, um varão esforçado das edades
-heroicas, um D. Duarte de Menezes ou um Affonso d'Albuquerque. E isto
-fazia sorrir o velho, recordar ao neto, gracejando, quanto as
-apparencias illudem!
-
-Não, não era Menezes, nem Albuquerque; apenas um antepassado bonacheirão
-que amava os seus livros, o conchego da sua poltrona, o seu _whist_ ao
-canto do fogão. Elle mesmo costumava dizer, que era simplesmente um
-egoista:--mas nunca, como agora na velhice, as generosidades do seu
-coração tinham sido tão profundas e largas. Parte do seu rendimento
-ia-se-lhe por entre os dedos, esparsamente, n'uma caridade enternecida.
-Cada vez amava mais o que é pobre e o que é fraco. Em Santa Olavia, as
-creanças corriam para elle, dos portaes, sentindo-o acariciador e
-paciente. Tudo o que vive lhe merecia amor:--e era dos que não pisam um
-formigueiro, e se compadece da sêde d'uma planta.
-
-Villaça costumava dizer que lhe lembrava sempre o que se conta dos
-patriarchas, quando o vinha encontrar ao canto da chaminé, na sua coçada
-quinzena de velludilho, sereno, risonho, com um livro na mão, o seu
-velho gato aos pés. Este pesado e enorme angorá, branco com malhas
-louras, era agora (desde a morte de _Tobias_, o soberbo cão de S.
-Bernardo) o fiel companheiro de Affonso. Tinha nascido em Santa Olavia,
-e recebera então o nome de Bonifacio: depois, ao chegar á edade do amor
-e da caça, fora-lhe dado o appellido mais cavalheiresco de D. Bonifacio
-de Calatrava: agora, dorminhoco e obeso, entrara definitivamente no
-remanso das dignidades ecclesiasticas, e era o Reverendo Bonifacio...
-
-
-Esta existencia nem sempre assim correra com a tranquillidade larga e
-clara d'um bello rio de verão. O antepassado, cujos olhos se enchiam
-agora d'uma luz de ternura diante das suas rosas, e que ao canto do lume
-relia com gosto o seu Guisot, fôra, na opinião de seu pae, algum tempo,
-o mais feroz Jacobino de Portugal! E todavia, o furor revolucionario do
-pobre moço consistira em lêr Rousseau, Volney, Helvetius, e a
-Encyclopedia; em atirar foguetes de lagrimas á Constituição; e ir, de
-chapeu á liberal e alta gravata azul, recitando pelas lojas maçonicas
-Odes abominaveis ao Supremo Architecto do Universo. Isto, porém, bastára
-para indignar o pae. Caetano da Maia era um portuguez antigo e fiel que
-se benzia ao nome de Robespierre, e que, na sua apathia de fidalgo beato
-e doente, tinha só um sentimento vivo--o horror, o odio ao Jacobino,
-aquem attribuia todos os males, os da patria e os seus, desde a perda
-das colonias até ás crises da sua gota. Para extirpar da nação o
-Jacobino, déra elle o seu amor ao sr. infante D. Miguel, Messias forte e
-Restaurador providencial... E ter justamente por filho um Jacobino,
-parecia-lhe uma provação comparavel só ás de Job!
-
-Ao principio, na esperança que o menino se emendasse, contentou-se em
-lhe mostrar um carão severo e chamar-lhe com sarcasmo--_cidadão_! Mas
-quando soube que seu filho, o seu herdeiro, se misturara á turba que,
-n'uma noite de festa civica e de luminarias, tinha apedrejado as
-vidraças apagadas do sr. Legado d'Áustria, enviado da Santa
-Alliança--considerou o rapaz um Marat e toda a sua colera rompeu. A gota
-cruel, cravando-o na poltrona, não lhe deixou espancar o mação, com a
-sua bengala da India, á lei de bom pae portuguez: mas decidiu expulsal-o
-de sua casa, sem mezada e sem benção, renegado como um bastardo! Que
-aquelle pedreiro livre não podia ser do seu sangue!
-
-As lagrimas da mamã amolleceram-n'o; sobretudo as razões d'uma cunhada
-de sua mulher, que vivia com elles em Bemfica, senhora irlandeza de alta
-instrucção, Minerva respeitada e tutelar, que ensinara inglez ao menino
-e o adorava como um bébé. Caetano da Maia limitou-se a desterrar o filho
-para a quinta de Santa Olavia; mas não cessou de chorar no seio dos
-padres, que vinham a Bemfica, a desgraça da sua casa. E esses santos lá
-o consolavam, affirmando-lhe que Deus, o velho Deus d'Ourique, não
-permittiria jámais que um Maia pactuasse com Belzebut e com a Revolução!
-E, á falta de Deus Padre, lá estava Nossa Senhora da Soledade, padroeira
-da casa e madrinha do menino, para fazer o bom milagre.
-
-E o milagre fez-se. Mezes depois, o Jacobino, o Marat, voltava de Santa
-Olavia um pouco contricto, enfastiado sobretudo d'aquella solidão, onde
-os chás do brigadeiro Senna eram ainda mais tristes que o terço das
-primas Cunhas. Vinha pedir ao pae a benção, e alguns mil cruzados, para
-ir a Inglaterra, esse paiz de vivos prados e de cabellos d'ouro de que
-lhe fallara tanto a tia Fanny. O pae beijou-o, todo em lagrimas, accedeu
-a tudo fervorosamente, vendo ali a evidente, a gloriosa intercessão de
-Nossa Senhora da Soledade! E o mesmo Frei Jeronymo da Conceição seu
-confessor, declarou este milagre--não inferior ao de Carnaxide.
-
-Affonso partiu. Era na primavera--e a Inglaterra toda verde, os seus
-parques de luxo, os copiosos confortos, a harmonia penetrante dos seus
-nobres costumes, aquella raça tão séria e tão forte--encantaram-n'o. Bem
-depressa esqueceu o seu odio aos sorumbaticos padres da Congregação, as
-horas ardentes passadas no café dos Romulares a recitar Mirabeau, e a
-Republica que quizera fundar, classica e voltarianna, com um triumvirato
-de Scipiões e festas ao Ente Supremo. Durante os dias da _Abrilada_
-estava elle nas corridas d'Epsom, no alto d'uma sege de posta, com um
-grande nariz postiço, dando _hurrahs_ medonhos--bem indifferente aos
-seus irmãos de Maçonaria, que a essas horas o sr. infante espicaçava a
-chuço, pelas viellas do Bairro Alto, no seu rijo cavallo d'Alter.
-
-Seu pae morreu de subito, elle teve de regressar a Lisboa. Foi então que
-conheceu D. Maria Eduarda Runa, filha do conde de Runa, uma linda
-morena, mimosa e um pouco adoentada. Ao fim do luto casou com ella. Teve
-um filho, desejou outros; e começou logo, com bellas idéas de patriarcha
-moço, a fazer obras no palacete de Bemfica, a plantar em redor
-arvoredos, preparando tectos e sombras á descendencia amada que lhe
-encantaria a velhice.
-
-Mas não esquecia a Inglaterra:--e tornava-lh'a mais appetecida essa
-Lisboa miguelista que elle via, desordenada como uma Tunis barbaresca;
-essa rude conjuração apostolica de frades e bolieiros, atroando tavernas
-e capellas; essa plebe beata, suja e feroz, rolando do _lausperenne_
-para o curro, e anciando tumultuosamente pelo principe que lhe encarnava
-tão bem os vicios e as paixões...
-
-Este espectaculo indignava Affonso da Maia; e muitas vezes, na paz do
-serão, entre amigos, com o pequeno nos joelhos, exprimiu a indignação da
-sua alma honesta. Já não exigia de certo, como em rapaz, uma Lisboa de
-Catões e de Mucios-Scevolas. Já admittia mesmo o esforço d'uma nobreza
-para manter o seu privilegio historico; mas então queria uma nobreza
-intelligente e digna, como a Aristocracia tory (que o seu amor pela
-Inglaterra lhe fazia idealisar), dando em tudo a direcção moral,
-formando os costumes e inspirando a litteratura, vivendo com fausto e
-fallando com gosto, exemplo de idéas altas e espelho de maneiras
-patricias... O que não tolerava era o mundo de Queluz, bestial e
-sordido.
-
-Taes palavras, apenas soltas, voavam a Queluz. E quando se reuniram as
-côrtes geraes, a policia invadiu Bemfica, «a procurar papeis e armas
-escondidas.»
-
-Affonso da Maia, com o seu filho nos braços e a mulher tremendo ao
-lado--viu, impassivelmente e sem uma palavra, a busca, as gavetas
-arrombadas pela coronha das escopetas, as mãos sujas do malsim
-rebuscando os colxões do seu leito. O sr. juiz de fóra não descobriu
-nada: acceitou mesmo na copa um calice de vinho, e confessou ao mordomo
-«que os tempos iam bem duros...» Desde essa manhã as janellas do
-palacete conservaram-se cerradas; não se abriu mais o portão nobre para
-sahir o coche da senhora; e d'ahi a semanas, com a mulher e com o filho,
-Affonso da Maia partia para Inglaterra e para o exilio.
-
-Ahi installou-se, com luxo, para uma longa demora, nos arredores de
-Londres, junto a Richmond, ao fundo d'um parque, entre as suaves e
-calmas paisagens de Surrey.
-
-Os seus bens, graças ao credito do conde de Runa, antigo mimoso de D.
-Carlota Joaquina, hoje conselheiro rispido do sr. D. Miguel, não tinham
-sido confiscados; e Affonso da Maia podia viver largamente.
-
-Ao principio os emigrados liberaes, Palmella e a gente do _Belfast_,
-ainda o vieram desassocegar e consumir. A sua alma recta não tardou a
-protestar vendo a separação de castas, de gerarchias, mantidas ali na
-terra estranha entre os vencidos da mesma idéa--os fidalgos e os
-desembargadores vivendo no luxo de Londres á forra, e a plebe, o
-exercito, depois dos padecimentos da Galliza, succumbindo agora á fome,
-á vermina, á febre nos barracões de Plymouth. Teve logo conflictos com
-os chefes liberaes; foi accusado de vintista e demagogo; descreu por fim
-do liberalismo. Isolou-se então--sem fechar todavia a sua bolsa, d'onde
-sahiam ás cincoenta, ás cem moedas... Mas quando a primeira expedição
-partiu, e pouco a pouco se foram vasando os depositos de emigrados,
-respirou emfim--e, como elle disse, pela primeira vez lhe soube bem o ar
-d'Inglaterra!
-
-Mezes depois sua mãe, que ficara em Bemfica, morria d'uma apoplexia: e a
-tia Fanny veiu para Richmond completar a felicidade d'Affonso, com o seu
-claro juizo, os seus caracóes brancos, os seus modos de discreta
-Minerva. Alli estava elle pois no seu sonho, n'uma digna residencia
-ingleza, entre arvores seculares, vendo em redor nas vastas relvas
-dormirem ou pastarem os gados de luxo, e sentindo em torno de si tudo
-são, forte, livre e solido,--como o amava o seu coração.
-
-Teve relações; estudou a nobre e rica litteratura ingleza;
-interessou-se, como convinha a um fidalgo em Inglaterra, pela cultura,
-pela cria dos cavallos, pela pratica da caridade;--e pensava com prazer
-em ficar ali para sempre n'aquella paz e n'aquella ordem.
-
-Sómente Affonso sentia que sua mulher não era feliz. Pensativa e triste,
-tossia sempre pelas salas. Á noite sentava-se ao fogão, suspirava e
-ficava calada...
-
-Pobre senhora! a nostalgia do paiz, da parentella, das egrejas, ia-a
-minando. Verdadeira lisboeta, pequenina e trigueira, sem se queixar e
-sorrindo pallidamente, tinha vivido desde que chegara n'um odio surdo
-áquella terra d'herejes e ao seu idioma barbaro: sempre arripiada,
-abafada em pelles, olhando com pavor os ceus fuscos ou a neve nas
-arvores, o seu coração não estivera nunca alli, mas longe, em Lisboa,
-nos adros, nos bairros batidos do sol. A sua devoção (a devoção dos
-Runas!) sempre grande, exaltara-se, exacerbara-se áquella hostilidade
-ambiente que ella sentia em redor contra os «papistas». E só se
-satisfazia á noite, indo refugiar-se no sotão com as creadas
-portuguezas, para resar o _terço_ agachada n'uma esteira--gosando ali,
-n'esse murmurio _d'ave-marias_ em paiz protestante, o encanto de uma
-conjuração catholica!
-
-Odiando tudo o que era inglez, não consentira que seu filho, o Pedrinho,
-fosse estudar ao collegio de Richmond. Debalde Affonso lhe provou que
-era um collegio catholico. Não queria: aquelle catholicismo sem
-romarias, sem fogueiras pelo S. João, sem imagens do Senhor dos Passos,
-sem frades nas ruas--não lhe parecia a religião. A alma do seu Pedrinho
-não abandonaria ella á heresia;--e para o educar mandou vir de Lisboa o
-padre Vasques, capellão do Conde de Runa.
-
-O Vasques ensinava-lhe as declinações latinas, sobretudo a cartilha: e a
-face d'Affonso da Maia cobria-se de tristeza, quando ao voltar d'alguma
-caçada ou das ruas de Londres, d'entre o forte rumor da vida
-livre--ouvia no quarto dos estudos a voz dormente do reverendo,
-perguntando como do fundo d'uma treva:
-
---Quantos são os inimigos da alma?
-
-E o pequeno, mais dormente, lá ia murmurando:
-
---Tres. Mundo, Diabo e Carne...
-
-Pobre Pedrinho! Inimigo da sua alma só havia alli o reverendo Vasques,
-obeso e sordido, arrotando do fundo da sua poltrona, com o lenço do rapé
-sobre o joelho...
-
-Ás vezes Affonso, indignado, vinha ao quarto, interrompia a doutrina,
-agarrava a mão do Pedrinho--para o levar, correr com elle sob as arvores
-do Tamisa, dissipar-lhe na grande luz do rio o pesadume crasso da
-cartilha. Mas a mamã accudia de dentro, em terror, a abafal-o n'uma
-grande manta: depois lá fóra o menino, acostumado ao collo das creadas e
-aos recantos estofados, tinha medo do vento e das arvores: e pouco a
-pouco, n'um passo desconsolado, os dois iam pisando em silencio as
-folhas seccas--o filho todo acobardado das sombras do bosque vivo, o pae
-vergando os hombros pensativo, triste d'aquella fraqueza do filho...
-
-Mas o menor esforço d'elle para arrancar o rapaz áquelles braços de mãe
-que o amolleciam, áquella cartilha mortal do padre Vasques--trazia logo
-á delicada senhora accessos de febre. E Affonso não se atrevia já a
-contrariar a pobre doente, tão virtuosa, e que o amava tanto! Ia então
-lamentar-se para o pé da tia Fanny: a sabia irlandeza mettia os oculos
-entre as folhas do seu livro, tratado d'Addisson ou poema de Pope, e
-encolhia melancolicamente os hombros. Que podia ella fazer!...
-
-Por fim a tosse de Maria Eduarda foi augmentando--como a tristeza das
-suas palavras. Já fallava da «sua ambição derradeira», que era ver o sol
-uma vez mais! Por que não voltariam a Bemfica, ao seu lar, agora que o
-sr. Infante estava tambem desterrado e que havia uma grande paz? Mas a
-isso Affonso não cedeu: não queria ver outra vez as suas gavetas
-arrombadas a coronhadas--e os soldados do sr. D. Pedro não lhe davam
-mais garantias que os malsins do sr. D. Miguel.
-
-Por esse tempo veio um grave desgosto á casa: a tia Fanny morreu, d'uma
-pneumonia, nos frios de março; e isto ennegreceu mais a melancolia de
-Maria Eduarda, que a amava muito tambem--por ser irlandeza e catholica.
-
-Para a distrahir, Affonso levou-a para a Italia, para uma deliciosa
-_villa_ ao pé de Roma. Ahi não lhe faltava o sol: tinha-o ponctual e
-generoso todas as manhãs, banhando largamente os terraços, dourando
-loureiraes e myrtos. E depois, lá em baixo, entre marmores, estava a
-coisa preciosa e santa, o Papa!
-
-Mas a triste senhora continuava a choramigar. O que realmente appetecia
-era Lisboa, as suas novenas, os santos devotos do seu bairro, as
-procissões passando n'um rumor de pachorrenta penitencia por tardes de
-sol e de poeira...
-
-Foi necessario calmal-a, voltar a Bemfica.
-
-Ahi começou uma vida desconsolada. Maria Eduarda definhava lentamente,
-todos os dias mais pallida, levando semanas immovel sobre um canapé, com
-as mãos transparentes cruzadas sobre as suas grossas pelles
-d'Inglaterra. O padre Vasques, apoderando-se d'aquella alma aterrada
-para quem Deus era um amo feroz, tornára-se o grande homem da casa. De
-resto Affonso encontrava a cada momento pelos corredores outras figuras
-canonicas, de capote e solideo, em que reconhecia antigos franciscanos,
-ou algum magro capuchinho parasitando no bairro; a casa tinha um bafio
-de sachristia; e dos quartos da senhora vinha constantemente, dolente e
-vago, um rumor de ladainha.
-
-Todos aquelles santos varões comiam, bebiam o seu vinho do Porto na
-copa. As contas do administrador appareciam sobrecarregadas com as
-mesadas piedosas que dava a senhora: um Frei Patricio surripiára-lhe
-duzentas missas de cruzado por alma do Sr. D. José I...
-
-Esta carolice que o cercava ia lançando Affonso n'um atheismo rancoroso:
-quereria as egrejas fechadas como os mosteiros, as imagens escavacadas a
-machado, uma matança de reverendos... Quando sentia na casa a voz de
-resas, fugia, ia para o fundo da quinta, sob as trepadeiras do mirante,
-ler o seu Voltaire: ou então partia a desabafar com o seu velho amigo, o
-coronel Sequeira, que vivia n'uma quinta a Queluz.
-
-O Pedrinho no entanto estava quasi um homem. Ficara pequenino e nervoso
-como Maria Eduarda, tendo pouco da raça, da força dos Maias; a sua linda
-face oval d'um trigueiro calido, dois olhos maravilhosos e
-irresistiveis; promptos sempre a humedecer-se, faziam-n'o assemelhar a
-um bello arabe. Desenvolvera-se lentamente, sem curiosidades,
-indifferente a brinquedos, a animaes, a flores, a livros. Nenhum desejo
-forte parecera jámais vibrar n'aquella alma meia adormecida e passiva:
-só ás vezes dizia que gostaria muito de voltar para a Italia. Tomára
-birra ao Padre Vasques, mas não ousava desobedecer-lhe. Era em tudo um
-fraco; e esse abatimento continuo de todo o seu ser resolvia-se a
-espaços em crises de melancolia negra, que o traziam dias e dias mudo,
-murcho, amarello, com as olheiras fundas e já velho. O seu unico
-sentimento vivo, intenso, até ahi, fôra a paixão pela mãe.
-
-Affonso quizera-o mandar para Coimbra. Mas, á idéa de se separar do seu
-Pedro, a pobre senhora cahira de joelhos deante d'Affonso, balbuciando e
-tremendo: e elle, naturalmente, lá cedeu perante essas mãos
-supplicantes, essas lagrimas que cahiam quatro a quatro pela pobre face
-de cera. O menino continuou em Bemfica dando os seus lentos passeios a
-cavallo, de creado de farda atraz, começando já a ir beber a sua genebra
-aos botequins de Lisboa... Depois foi despontando n'aquella organisação
-uma grande tendencia amorosa: aos dezenove annos teve o seu
-bastardosinho.
-
-Affonso da Maia consolava-se pensando que, apesar de tão desgraçados
-mimos, não faltavam ao rapaz qualidades: era muito esperto, são, e, como
-todos os Maias, valente: não havia muito que elle só, com um chicote,
-dispersara na estrada tres saloios de varapau que lhe tinham chamado
-_palmito_.
-
-Quando a mãe morreu, n'uma agonia terrivel de devota, debatendo-se dias
-nos pavores do inferno, Pedro teve na sua dôr os arrebatamentos d'uma
-loucura. Fizera a promessa hysterica, se ella escapasse, de dormir
-durante um anno sobre as lageas do pateo: e levado o caixão, sahidos os
-padres, cahio n'uma angustia soturna, obtusa, sem lagrimas, de que não
-queria emergir, estirado de bruços sobre a cama n'uma obstinação de
-penitente. Muitos mezes ainda não o deixou uma tristeza vaga: e Affonso
-da Maia já se desesperava de ver aquelle rapaz, seu filho e seu
-herdeiro, sahir todos os dias a passos de monge, lugubre no seu luto
-pesado, para ir visitar a sepultura da mamã...
-
-Esta dôr exagerada e morbida cessou por fim; e succedeu-lhe, quasi sem
-transição, um periodo de vida dissipada e turbulenta, estroinice banal,
-em que Pedro, levado por um romantismo torpe, procurava affogar em
-lupanares e botequins as saudades da mamã. Mas essa exhuberancia anciosa
-que se desencadeara tão subitamente, tão tumultuosamente, na sua
-natureza desequilibrada, gastou-se depressa tambem.
-
-Ao fim d'um anno de disturbios no Marrare, de façanhas nas esperas de
-toiros, de cavallos esfalfados, de pateadas em S. Carlos, começaram a
-reapparecer as antigas crises de melancolia nervosa; voltavam esses dias
-taciturnos, longos como desertos, passados em casa a bocejar pelas
-salas, ou sob alguma arvore da quinta todo estirado de bruços, como
-despenhado n'um fundo de amargura. N'esses periodos tornava-se tambem
-devoto: lia Vidas de Santos, visitava o Lausperenne: eram d'esses
-bruscos abatimentos d'alma que outr'ora levavam os fracos aos mosteiros.
-
-Isto penalisava Affonso da Maia: preferia saber que elle recolhera de
-Lisboa, de madrugada, exhausto e bebedo,--do que vel-o, de ripanço
-debaixo do braço, com um ar velho, marchando para a Egreja de Bemfica.
-
-E havia agora uma idéa que, a seu pesar, às vezes o torturava:
-descobrira a grande parecença de Pedro com um avô de sua mulher, um
-Runa, de quem existia um retrato em Bemfica: este homem extraordinario,
-com que na casa se mettia medo ás creanças, enlouquecera--e julgando-se
-Judas enforcara-se n'uma figueira...
-
-Mas um dia, excessos e crises findaram. Pedro da Maia amava! Era um amor
-á Romeu, vindo de repente n'uma troca de olhares fatal e deslumbradora,
-uma d'essas paixões que assaltam uma existencia, a assolam como um
-furacão, arrancando a vontade, a rasão, os respeitos humanos e
-empurrando-os de roldão aos abysmos.
-
-N'uma tarde, estando no Marrare, vira parar defronte, á porta de M.^{me}
-Levaillant, uma caleche azul onde vinha um velho de chapéo branco, e uma
-senhora loira, embrulhada n'um chale de Cashmira.
-
-O velho, baixote e reforçado, de barba muito grisalha talhada por baixo
-do queixo, uma face tisnada d'antigo embarcadiço e o ar gôche, desceu
-todo encostado ao trintanario como se um rheumatismo o tolhesse, entrou
-arrastando a perna o portal da modista; e ella voltando de vagar a
-cabeça olhou um momento o Marrare.
-
-Sob as rosinhas que ornavam o seu chapeu preto os cabellos loiros, d'um
-oiro fulvo, ondeavam de leve sobre a testa curta e classica: os olhos
-maravilhosos illuminavam-n'a toda; a friagem fazia-lhe mais pallida a
-carnação de marmore: e com o seu perfil grave de estatua, o modelado
-nobre dos hombros e dos braços que o chale cingia--pareceu a Pedro
-n'esse instante alguma cousa d'immortal e superior á terra.
-
-Não a conhecia. Mas um rapaz alto, macilento, de bigodes negros, vestido
-de negro, que fumava encostado á outra hombreira, n'uma _pose_ de
-tedio--vendo o violento interesse de Pedro, o olhar acceso e perturbado
-com que seguia a caleche trotando Chiado acima, veiu tomar-lhe o braço,
-murmurou-lhe junto á face na sua voz grossa e lenta:
-
---Queres que te diga o nome, meu Pedro? O nome, as origens, as datas e
-os feitos principaes? E pagas ao teu amigo Alencar, ao teu sequioso
-Alencar, uma garrafa de Champagne?
-
-Veiu o Champagne. E o Alencar, depois de passar os dedos magros pelos
-anneis da cabelleira e pelas pontas do bigode, começou, todo recostado e
-dando um puchão aos punhos:
-
---Por uma dourada tarde d'outomno...
-
---André, gritou Pedro ao creado, martellando o marmore da mesa, retira o
-Champagne!
-
-O Alencar bradou, imitando o actor Epiphanio:
-
---O quê! Sem saciar a avidez de meu labio?...
-
-Pois bem, o Champagne ficaria: mas o amigo Alencar, esquecendo que era o
-poeta das _Vozes d'Aurora_, explicaria aquella gente da caleche azul
-n'uma linguagem christã e pratica!...
-
---Ahi vae, meu Pedro, ahi vae!
-
-Havia dois annos, justamente quando Pedro perdera a mamã, aquelle velho,
-o papá Monforte, uma manhã rompera subitamente pelas ruas e pela
-sociedade de Lisboa n'aquella mesma caleche com essa bella filha ao seu
-lado. Ninguem os conhecia. Tinham alugado a Arroios um primeiro andar no
-palacete dos Vargas; e a rapariga principiou a apparecer em S. Carlos,
-fazendo uma impressão--uma impressão de causar aneurismas, dizia o
-Alencar! Quando ella atravessava o salão os hombros vergavam-se no
-deslumbramento de auréola que vinha d'aquella magnifica creatura,
-arrastando com um passo de Deusa a sua cauda de côrte, sempre decotada
-como em noites de gala, e apesar de solteira resplandecente de joias. O
-papá nunca lhe dava o braço: seguia atraz, entalado n'uma grande gravata
-branca de mordomo, parecendo mais tisnado e mais embarcadiço na
-claridade loira que sahia da filha, encolhido e quasi apavorado,
-trazendo nas mãos o oculo, o _libretto_, um saco de _bonbons_, o leque e
-o seu proprio guardachuva. Mas era no camarote, quando a luz cahia sobre
-o seu collo eburneo e as suas tranças de oiro, que ella offerecia
-verdadeiramente a encarnação d'um ideal da Renascença, um modelo de
-Ticiano... Elle, Alencar, na primeira noite em que a vira, exclamara,
-mostrando-a a ella e ás outras, ás trigueirotas da assignatura:
-
---Rapazes! é como um ducado de ouro novo entre velhos patacos do tempo
-do Sr. D. João VI!
-
-O Magalhães, esse torpe pirata, pozera o dito n'um folhetim do
-_Portuguez_. Mas o dito era d'elle, Alencar!
-
-Os rapazes, naturalmente, começaram logo a rondar o palacete de Arroios.
-Mas nunca n'aquella casa se abria uma janella. Os criados interrogados
-disseram apenas que a menina se chamava Maria, e que o senhor se chamava
-Manoel. Emfim uma creada, amaciada com seis pintos, soltou mais: o homem
-era taciturno, tremia deante da filha, e dormia n'uma rêde; a senhora,
-essa, vivia n'um ninho de sedas todo azul-ferrête, e passava o seu dia a
-ler novellas. Isto não podia satisfazer a sofreguidão de Lisboa. Fez-se
-uma devassa methodica, habil, paciente... Elle, Alencar, pertencera á
-devassa.
-
-E souberam-se horrores. O papá Monforte era dos Açores; muito moço, uma
-facada n'uma rixa, um cadaver a uma esquina tinham-n'o forçado a fugir a
-bordo d'um brigue americano. Tempos depois um certo Silva, procurador da
-casa de Taveira, que o conhecera nos Açores, estando na Havana a estudar
-a cultura do tabaco que os Taveiras queriam implantar nas Ilhas
-encontrára lá o Monforte (que verdadeiramente se chamava Forte) rondando
-pelo caes, de chinellas de esparto, á procura de embarque para a
-Nova-Orleans. Aqui havia uma treva na historia do Monforte. Parece que
-servira algum tempo de feitor n'uma plantação da Virginia... Emfim,
-quando reappareceu á face dos céos commandava o brigue _Nova Linda_, e
-levava cargas de pretos para o Brazil, para a Havana e para a Nova
-Orleans.
-
-Escapara aos cruzeiros inglezes, arrancára uma fortuna da pelle do
-africano, e agora rico, homem de bem, proprietario, ia ouvir a Corelli a
-S. Carlos. Todavia esta terrivel chronica, como dizia o Alencar, obscura
-e mal provada, claudicava aqui e além...
-
---E a filha? perguntou Pedro, que o escutara, serio e pallido.
-
-Mas isso não o sabia o amigo Alencar. Onde a arranjara assim tão loira e
-bella? Quem fôra a mamã? Onde estava? Quem a ensinara a embrulhar-se com
-aquelle gesto real no seu chale de Cashmira?...
-
---Isso, meu Pedro, são
-
-
- mysterios que jámais poude Lisboa
- astuta devassar e só Deus sabe!
-
-
-Em todo o caso quando Lisboa descobriu aquella legenda de sangue e
-negros, o enthusiasmo pela Monforte calmou. Que diabo! Juno tinha sangue
-de assassino, a _beltà_ do Ticiano era filha de negreiro! As senhoras,
-deliciando-se em villipendiar uma mulher tão loira, tão linda e com
-tantas joias, chamaram-lhe logo a _negreira_! Quando ella apparecia
-agora no theatro, D. Maria da Gama affectava esconder a face detraz do
-leque, porque lhe parecia ver na rapariga (sobretudo quando ella usava
-os seus bellos rubis) o sangue das facadas que dera o papázinho! E
-tinham-n'a calumniado abominavelmente. Assim, depois de passarem em
-Lisboa o primeiro inverno, os Monfortes sumiram-se: pois disse-se logo,
-com furor, que estavam arruinados, que a policia perseguia o velho, mil
-perversidades... O excellente Monforte, que soffre de rheumatismos
-articulares, achava-se tranquillamente, ricamente, tomando as aguas dos
-Piryneus... Fora lá que o Mello os conhecera...
-
---Ah! o Mello conhece-os? exclamou Pedro.
-
---Sim, meu Pedro, o Mello os conhece.
-
-Pedro d'ahi a um momento deixou o Marrare; e n'essa noite, antes de
-recolher, apesar da chuva fria e miuda, andou rondando uma hora, com a
-imaginação toda accesa, o palacete dos Vargas apagado e mudo. Depois,
-d'ahi a duas semanas o Alencar, entrando em S. Carlos ao fim do primeiro
-acto do _Barbeiro_, ficou assombrado ao ver Pedro da Maia installado na
-frisa da Monforte, á frente, ao lado de Maria, com uma camelia escarlate
-na casaca--egual ás d'um ramo pousado no rebordo de velludo.
-
-Nunca Maria Monforte apparecera mais bella: tinha uma d'essas
-_toilettes_ excessivas e theatraes que offendiam Lisboa, e faziam dizer
-ás senhoras que ella se vestia «como uma comica». Estava de seda côr de
-trigo, com duas rosas amarellas e uma espiga nas tranças, opalas sobre o
-collo e nos braços; e estes tons de ceara madura batida do sol,
-fundindo-se com o ouro dos cabellos, illuminando-lhe a carnação eburnea,
-banhando as suas fórmas de estatua, davam-lhe o esplendor d'uma Ceres.
-Ao fundo entreviam-se os grandes bigodes loiros do Mello, que conversava
-de pé com o papá Monforte--escondido como sempre no canto negro da
-frisa.
-
-O Alencar foi observar «o caso» do camarote dos Gamas. Pedro voltára á
-sua cadeira, e de braços cruzados contemplava Maria. Ella conservou
-algum tempo a sua attitude de Deusa insensivel; mas, depois, no duetto
-de Rosina e Lindor, duas vezes os seus olhos azues e profundos se
-fixaram n'elle, gravemente e muito tempo. O Alencar, correu ao Marrare,
-de braços ao ar, a berrar a novidade.
-
-Não tardou de resto a fallar-se em toda a Lisboa da paixão de Pedro da
-Maia pela _negreira_. Elle tambem namorou-a publicamente, á antiga,
-plantado a uma esquina, defronte do palacete dos Vargas, com os olhos
-cravados na janella d'ella, immovel e pallido d'extasi.
-
-Escrevia-lhe todos os dias duas cartas em seis folhas de papel--poemas
-desordenados que ia compôr para o Marrare: e ninguem lá ignorava o
-destino d'aquellas paginas de linhas encruzadas que se accumulavam
-deante d'elle sobre o taboleiro da genebra. Se algum amigo vinha á porta
-do café perguntar por Pedro da Maia, os criados já respondiam muito
-naturalmente:
-
---O sr. D. Pedro? Está a escrever á menina.
-
-E elle mesmo, se o amigo se acercava, estendia-lhe a mão, exclamava
-radiante, com o seu bello e franco sorriso:
-
---Espera ahi um bocado, rapaz, estou a escrever á Maria!
-
-Os velhos amigos de Affonso da Maia que vinham fazer o seu _whist_ a
-Bemfica, sobretudo o Villaça, o administrador dos Maias, muito zeloso da
-dignidade da casa, não tardaram em lhe trazer a nova d'aquelles amores
-do Pedrinho. Affonso já os suspeitava: via todos os dias um criado da
-quinta partir com um grande ramo das melhores camelias do jardim; todas
-as manhãs cedo encontrava no corredor o escudeiro, dirigindo-se ao
-quarto do menino, a cheirar regaladamente o perfume d'um enveloppe com
-sinete de lacre dourado;--e não lhe desagradava que um sentimento
-qualquer, humano e forte, lhe fosse arrancando o filho á estroinice
-bulhenta, ao jogo, ás melancolias sem rasão em que reapparecia o negro
-ripanço...
-
-Mas ignorava o nome, a existencia sequer dos Monfortes; e as
-particularidades que os amigos lhe revelaram, aquella facada nos Açores,
-o chicote de feitor na Virginia, o brigue _Nova Linda_, toda a sinistra
-legenda do velho contrariou muito Affonso da Maia.
-
-Uma noite que o coronel Sequeira, á mesa do _whist_, contava que vira
-Maria Monforte e Pedro passeando a cavallo, «ambos muito bem e muito
-_distingués_», Affonso, depois d'um silencio, disse com um ar
-enfastiado:
-
---Emfim, todos os rapazes teem as suas amantes... Os costumes são assim,
-a vida é assim, e seria absurdo querer reprimir taes cousas. Mas essa
-mulher, com um pae d'esses, mesmo para amante acho má.
-
-O Villaça suspendeu o baralhar das cartas, e ageitando os oculos d'ouro
-exclamou com espanto:
-
---Amante! Mas a rapariga é solteira, meu senhor, é uma menina
-honesta!...
-
-Affonso da Maia enchia o seu cachimbo; as mãos começaram a tremer-lhe; e
-voltando-se para o administrador, n'uma voz que tremia um pouco tambem:
-
---O Villaça de certo não suppõe que meu filho queira casar com essa
-creatura...
-
-O outro emmudeceu. E foi o Sequeira que murmurou:
-
---Isso não, está claro que não...
-
-E o jogo continuou algum tempo em silencio.
-
-Mas Affonso da Maia principiou a andar descontente. Passavam-se semanas
-que Pedro não jantava em Bemfica. De manhã, se o via, era um momento,
-quando elle descia ao almoço, já com uma luva calçada, apressado e
-radiante, gritando para dentro se estava sellado o cavallo; depois,
-mesmo de pé, bebia um gole de chá, perguntava a correr «se o papá queria
-alguma cousa», dava um geito ao bigode deante do grande espelho de
-Veneza sobre o fogão, e lá partia, enlevado. Outras vezes todo o dia não
-sahia do quarto: a tarde descia, accendiam-se as luzes; até que o pae,
-inquieto, subia, ia encontral-o estirado sobre o leito, com a cabeça
-enterrada nos braços.
-
---Que tens tu?--perguntava-lhe.
-
---Enchaqueca,--respondia n'um tom surdo e rouco.
-
-E Affonso descia indignado, vendo em toda aquella angustia covarde
-alguma carta que não viera, ou talvez uma rosa offerecida que não fôra
-posta nos cabellos...
-
-Depois, por vezes, entre dois _robbers_ ou conversando em volta da
-bandeja do chá, os seus amigos tinham observações que o inquietavam,
-partindo d'aquelles homens que habitavam Lisboa, lhe conheciam os
-rumores--emquanto elle passava alli, inverno e verão, entre os seus
-livros e as suas rosas. Era o excellente Sequeira que perguntava porque
-não faria Pedro uma viagem longa, para se instruir, á Allemanha, ao
-Oriente? Ou o velho Luiz Runa, o primo d'Affonso, que, a proposito de
-cousas indifferentes, rompia lamentando os tempos em que o Intendente da
-policia podia livremente expulsar de Lisboa as pessoas importunas...
-Evidentemente alludiam á Monforte, evidentemente julgavam-n'a perigosa.
-
-No verão, Pedro partiu para Cintra; Affonso soube que os Monfortes
-tinham lá alugado uma casa. Dias depois o Villaça appareceu em Bemfica,
-muito preoccupado: na vespera Pedro visitara-o no cartorio, pedira-lhe
-informações sobre as suas propriedades, sobre o meio de levantar
-dinheiro. Elle lá lhe dissera que em setembro, chegando á sua
-maioridade, tinha a legitima da mamã...
-
---Mas não gostei d'isto, meu senhor, não gostei d'isto...
-
---E porque, Villaça? O rapaz quererá dinheiro, quererá dar presentes á
-creatura... O amor é um luxo caro, Villaça.
-
---Deus queira que seja isso, meu senhor, Deus o ouça!
-
-E aquella confiança tão nobre de Affonso da Maia no orgulho patricio,
-nos brios de raça de seu filho, chegava a tranquillisar Villaça.
-
-D'ahi a dias, Affonso da Maia viu emfim Maria Monforte. Tinha jantado na
-quinta do Sequeira ao pé de Queluz, e tomavam ambos o seu café no
-mirante, quando entrou pelo caminho estreito que seguia o muro a caleche
-azul com os cavallos cobertos de redes. Maria, abrigada sob uma
-sombrinha escarlate, trazia um vestido côr de rosa cuja roda, toda em
-folhos, quasi cobria os joelhos de Pedro sentado ao seu lado: as fitas
-do seu chapéo, apertadas n'um grande laço que lhe enchia o peito, eram
-tambem côr de rosa: e a sua face, grave e pura como um marmore grego,
-apparecia realmente adoravel, illuminada pelos olhos d'um azul sombrio,
-entre aquelles tons rosados. No assento defronte, quasi todo tomado por
-cartões de modista, encolhia-se o Monforte, de grande chapéo panamá,
-calça de ganga, o mantelete da filha no braço, o guarda sol entre os
-joelhos. Iam callados, não viram o mirante; e, no caminho verde e
-fresco, a caleche passou com balanços lentos, sob os ramos que roçavam a
-sombrinha de Maria. O Sequeira ficara com a chavena de café junto aos
-labios, de olho esgazeado, murmurando:
-
---Caramba! É bonita!
-
-Affonso não respondeu: olhava cabisbaixo aquella sombrinha escarlate,
-que agora se inclinava sobre Pedro, quasi o escondia, parecia envolvel-o
-todo--como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sob o verde
-triste das ramas.
-
-O outono passou, chegou o inverno, frigidissimo. Uma manhã, Pedro entrou
-na livraria onde o pae estava lendo junto ao fogão; recebeu-lhe a
-benção, passou um momento os olhos por um jornal aberto, e voltando-se
-bruscamente para elle:
-
---Meu pae,--disse, esforçando-se por ser claro e decidido--venho
-pedir-lhe licença para casar com uma senhora que se chama Maria
-Monforte.
-
-Affonso pousou o livro aberto sobre os joelhos, e n'uma voz grave e
-lenta:
-
---Não me tinhas fallado d'isso... Creio que é a filha d'um assassino,
-d'um negreiro, a quem chamam tambem a _negreira_...
-
---Meu pae!...
-
-Affonso ergueu-se diante d'elle, rigido e inexoravel como a encarnação
-mesma da honra domestica.
-
---Que tens a dizer-me mais? Fazes-me corar de vergonha.
-
-Pedro, mais branco que o lenço que tinha na mão, exclamou todo a tremer,
-quasi em soluços:
-
---Pois póde estar certo, meu pae, que hei de casar!
-
-Sahiu, atirando furiosamente com a porta. No corredor gritou pelo
-escudeiro, muito alto para que o pae ouvisse, e deu-lhe ordem para levar
-as suas malas ao hotel da Europa.
-
-Dois dias depois Villaça entrou em Bemfica, com as lagrimas nos olhos,
-contando que o menino casára n'essa madrugada--e segundo lhe dissera o
-Sergio, procurador do Monforte, ia partir com a noiva para a Italia.
-
-Affonso da Maia sentára-se n'esse instante á mesa do almoço, posta ao pé
-do fogão: ao centro, um ramo esfolhava-se n'um vaso do Japão, á chamma
-forte da lenha: e junto ao talher de Pedro estava o numero da
-_Grinalda_, jornal de versos que elle costumava receber... Affonso ouviu
-o procurador, grave e mudo, continuando a desdobrar lentamente o seu
-guardanapo.
-
---Já almoçou, Villaça?
-
-O procurador, assombrado d'aquella serenidade, balbuciou:
-
---Já almocei, meu senhor...
-
-Então Affonso, apontando para o talher de Pedro, disse ao escudeiro:
-
---Póde tirar d'alli esse talher, Teixeira. D'aqui por diante ha só um
-talher á mesa... Sente-se, Villaça, sente-se.
-
-O Teixeira, ainda novo na casa, levantou com indifferença o talher do
-menino. Villaça sentára-se. Tudo em redor era correto e calmo como nas
-outras manhãs em que almoçara em Bemfica. Os passos do escudeiro não
-faziam ruido no tapete fofo; o lume estalava alegremente, pondo retoques
-d'ouro nas pratas polidas; o sol discreto que brilhava fóra no azul
-d'inverno fazia scintillar crystaes de geada nas ramas seccas; e á
-janella o papagaio, muito patulêa e educado por Pedro, rosnava injurias
-aos Cabraes.
-
-Por fim Affonso ergueu-se; esteve olhando abstrahidamente a quinta, os
-pavões no terrasso; depois ao sahir da sala tomou o braço de Villaça,
-apoiou-se n'elle com força, como se lhe tivesse chegado a primeira
-tremura da velhice, e no seu abandono sentisse alli uma amizade segura.
-Seguiram o corredor, callados. Na livraria Affonso foi occupar a sua
-poltrona ao pé da janella, começou a encher de vagar o seu cachimbo.
-Villaça, de cabeça baixa, passeava ao comprido das altas estantes, nas
-pontas dos pés, como no quarto d'um doente. Um bando de pardaes veiu
-gralhar um momento nos ramos d'uma alta arvore que roçava a varanda.
-Depois houve um silencio, e Affonso da Maia disse:
-
---Então, Villaça, o Saldanha lá foi demittido do Paço?...
-
-O outro respondeu, vaga e machinalmente:
-
---É verdade, meu senhor, é verdade...
-
-E não se fallou mais de Pedro da Maia.
-
-
-
-
-II
-
-
-Pedro e Maria, no entanto, n'uma felicidade de novella, iam descendo a
-Italia, a pequenas jornadas, de cidade em cidade, n'essa via sagrada que
-vae desde as flores e das messes da planicie lombarda até ao molle paiz
-de romanza, Napoles, branca sob o azul. Era lá que tencionavam passar o
-inverno, n'esse ar sempre tepido junto a um mar sempre manso, onde as
-preguiças de noivado teem uma suavidade mais longa... Mas um dia, em
-Roma, Maria sentiu o appetite de Paris. Parecia-lhe fatigante o viajar
-assim, aos balouços das caleças, só para ir ver _lazzaroni_ engolir fios
-de macarrão. Quanto melhor seria habitar um ninho acolchoado nos Campos
-Elyseos, e gozarem alli um lindo inverno de amor! Paris estava seguro,
-agora, com o principe Luiz Napoleão... Além d'isso, aquella velha Italia
-classica enfastiava-a já: tantos marmores eternos, tantas _madonas_
-começavam (como ella dizia pendurada languidamente do pescoço de Pedro)
-a dar tonturas á sua pobre cabeça! Suspirava por uma boa loja de modas,
-sob as chammas do gaz, ao rumor do boulevard... Depois tinha medo da
-Italia onde todo mundo conspirava.
-
-Foram para França.
-
-Mas por fim aquelle Paris ainda agitado, onde parecia restar um vago
-cheiro de polvora pelas ruas, onde cada face conservava um calor de
-batalha, desagradou a Maria. De noite accordava com a _Marselheza_;
-achava um ar feroz á policia; tudo permanecia triste; e as duquezas,
-pobres anjos, ainda não ousavam vir ao _Bois_, com medo dos operarios,
-corja insaciavel! Emfim demoraram-se lá até a primavera, no ninho que
-ella sonhára, todo de velludo azul, abrindo sobre os Campos Elyseos.
-
-Depois principiou a fallar-se de novo em revolução, em golpe d'estado. A
-admiração absurda de Maria pelos novos uniformes da _garde-mobile_ fazia
-Pedro nervoso. E quando ella appareceu gravida, anciou por a tirar
-d'aquelle Paris batalhador e fascinante, vir abrigal-a na pacata Lisboa
-adormecida ao sol.
-
-Antes de partir porém escreveu ao pae.
-
-Fôra um conselho, quasi uma exigencia de Maria. A recusa de Affonso da
-Maia ao principio desesperara-a. Não a affligia a desunião domestica:
-mas aquelle _não_ affrontoso de fidalgo puritano marcara muito
-publicamente, muito brutalmente, a sua origem suspeita! Odiou o velho: e
-tinha apressado o casamento, aquella partida triumphante para Italia,
-para lhe mostrar bem que nada valiam genealogias, avós godos, brios de
-familia--deante dos seus braços nus... Agora porém que ia voltar a
-Lisboa, dar _soirées_, crear côrte, a reconciliação tornava-se
-indispensavel; aquelle pae retirado em Bemfica, com o rigido orgulho de
-outras edades, faria lembrar constantemente, mesmo entre os seus
-espelhos e os seus estofos, o brigue _Nova Linda_ carregado de negros...
-E queria mostrar-se a Lisboa pelo braço d'esse sogro tão nobre e tão
-ornamental, com as suas barbas de Viso-rei.
-
---Dize-lhe que já o adoro, murmurava ella curvada sobre a escrivaninha
-acariciando os cabellos de Pedro. Dize-lhe que se tiver um pequeno lhe
-hei de pôr o nome d'elle... Escreve-lhe uma carta bonita, hein!
-
-E foi bonita, foi terna a carta de Pedro ao papá. O pobre rapaz amava-o.
-Fallou-lhe commovido da esperança de ter um filho varão; as
-desintelligencias deviam findar em torno do berço d'aquelle pequeno Maia
-que alli vinha, morgado e herdeiro do nome... Contava-lhe a sua
-felicidade, com uma effusão de namorado indiscreto: a historia da
-bondade de Maria, das suas graças, da sua instrucção, enchia duas
-paginas: e jurava-lhe que apenas chegasse não tardaria uma hora em ir
-atirar-se aos seus pés...
-
-Com effeito, apenas desembarcou, correu n'um trem a Bemfica. Dois dias
-antes o pae partira para S.^{ta} Olavia: isto pareceu-lhe uma
-desfeita--e feriu-o acerbamente.
-
-Fez-se então entre o pae e o filho uma grande separação. Quando lhe
-nasceu uma filha Pedro não lh'o participou--dizendo dramaticamente ao
-Villaça «que já não tinha pae!» Era uma linda bébé, muito gorda, loira e
-côr de rosa, com os bellos olhos negros dos Maias. Apesar do desejo de
-Pedro, Maria não a quiz crear; mas adorava-a com phrenesi; passava dias
-de joelhos ao pé do berço, em extasi, correndo as suas mãos cheias de
-pedrarias pelas carninhas tenras; pondo-lhe beijos de devota nos
-pésinhos, na rosquinha das côxas, balbuciando-lhe n'um enlevo nomes de
-grande amor, e perfumando-a já, enchendo-a já de laçarotes.
-
-E n'estes delirios pela filha, brotava, mais amarga, a sua colera contra
-Affonso da Maia. Considerava-se então insultada em si mesma e n'aquelle
-cherubim que lhe nascera. Injuriava o velho grosseiramente, chamava-lhe
-o _D. Fuas_, o _Barbatanas_...
-
-Pedro um dia ouviu isto, e escandalisou-se: ella replicou
-desabridamente: e deante d'aquella face abrazada, onde entre lagrimas os
-olhos azues pareciam negros de colera, elle só poude balbuciar
-timidamente:
-
---É meu pae, Maria...
-
-Seu pae! E á face de toda a Lisboa tratava-a então como uma concubina!
-Podia ser um fidalgo, as maneiras eram de villão. Um _D. Fuas_, um
-_Barbatanas_, nada mais!...
-
-Arrebatou a filha, e abraçada n'ella, romperam as queixas por entre os
-prantos:
-
---Ninguem nos ama, meu anjo! Ninguem te quer! Tens só a tua mãe!
-Tratam-te como se fosses bastarda!
-
-A bebé, sacudida nos braços da mãe, desatou a gritar. Pedro correu,
-envolveu-as ambas no mesmo abraço, já enternecido, já humilde; e tudo
-terminou n'um longo beijo.
-
-E elle, por fim, no seu coração, justificava aquella colera de mãe que
-vê desprezado o seu anjo. De resto, mesmo alguns amigos de Pedro, o
-Alencar, o D. João da Cunha, que começavam agora a frequentar Arroios,
-riam d'aquella obstinação de pae gothico, amuado na provincia, porque
-sua nora não tivera avós mortos em Aljubarrota! E onde havia outra em
-Lisboa, com aquellas _toilettes_, aquella graça, recebendo tão bem? Que
-diabo, o mundo marchara, sahira-se já das attitudes empertigadas do
-seculo XVI!
-
-E o proprio Villaça, um dia que Pedro lhe fôra mostrar a pequerruchinha
-adormecida entre as rendas do seu berço, sensibilisou-se, veio-lhe uma
-das suas faceis lagrimas, declarou, com a mão no coração, que aquillo
-era uma caturrice do sr. Affonso da Maia!
-
---Pois peior para elle! não querer ver um anjo d'estes! disse Maria,
-dando deante do espelho um lindo geito ás flores do cabello. Tambem não
-faz cá falta...
-
-E não fazia falta. N'esse outubro, quando a pequena completou o seu
-primeiro anno, houve um grande baile na casa de Arroios, que elles agora
-occupavam toda, e que fôra ricamente remobilada. E as senhoras que
-outr'ora tinham horror á _negreira_, a D. Maria da Gama que escondia a
-face por traz do leque, lá vieram todas, amaveis e decotadas, com o
-beijinho prompto, chamando-lhe «querida», admirando as grinaldas de
-camelias que emmolduravam os espelhos de quatrocentos mil réis, e
-gozando muito os gelados.
-
-Começara então uma existencia festiva e luxuosa, que, segundo dizia o
-Alencar, o intimo da casa, o cortesão de Madame, «tinham um saborsinho
-d'orgia _distinguée_ como os poemas de Byron.» Eram realmente as
-_soirées_ mais alegres de Lisboa: ceiava-se á uma hora com Champagne;
-talhava-se até tarde um _monte_ forte; inventavam-se quadros vivos, em
-que Maria se mostrara soberanamente bella sob as roupagens classicas de
-Helena ou no luxo sombrio do luto oriental de Judith. Nas noites mais
-intimas, ella costumava vir fumar com os homens uma cigarrilha
-perfumada. Muitas vezes, na sala de bilhar, as palmas estalaram, vendo-a
-bater á carambola franceza D. João da Cunha, o grande taco da epoca.
-
-E no meio d'esta festança, atravessada pelo sopro romantico da
-Regeneração, lá se via sempre, taciturno e encolhido, o papá Monforte,
-d'alta gravata branca, com as mãos atraz das costas, rondando pelos
-cantos, refugiado pelos vãos das janellas, mostrando-se só para salvar
-alguma bobèche que ía estalar--e não desprendendo nunca da filha o olho
-embevecido e senil.
-
-Nunca Maria fôra tão formosa. A maternidade dera-lhe um esplendor mais
-copioso; e enchia verdadeiramente, dava luz áquellas altas salas de
-Arroios, com a sua radiante figura de Juno loira, os diamantes das
-tranças, o eburneo e o lacteo do collo nu, e o rumor das grandes sedas.
-Com rasão, querendo ter, á maneira das damas da Renascença, uma flôr que
-a symbolisasse, escolhera a tulipa real opulenta e ardente.
-
-Citavam-se os requintes do seu luxo, roupas brancas, rendas do valor de
-propriedades!... Podia fazel-o! o marido era rico, e ella sem escrupulo
-arruinal-o-hia, a elle e ao papá Monforte...
-
-Todos os amigos de Pedro, naturalmente, a amavam. O Alencar esse
-proclamava-se com alarido seu «cavalleiro e seu poeta». Estava sempre em
-Arroios, tinha lá o seu talher: por aquellas salas soltava as suas
-phrases ressoantes, por esses sophás arrastava as suas _poses_ de
-melancolia. Ia dedicar a Maria (e nada havia mais extraordinario que o
-tom langoroso e plangente, o olho turvo, fatal, com que elle pronunciava
-este nome--Maria!) ia dedicar-lhe o seu poema, tão annunciado, tão
-esperado--Flor de Martyrio! E citavam-se as estrophes que lhe fizera ao
-gosto cantante do tempo:
-
-
- Vi-te essa noite no explendor das sallas
- Com as loiras tranças volteando louca...
-
-
-A paixão do Alencar era innocente: mas, dos outros intimos da casa, mais
-d'um de certo balbuciara já a sua declaração no _boudoir_ azul em que
-ella recebia ás tres horas, entre os seus vasos de tulipas; as suas
-amigas porém, mesmo as peiores, affirmavam que os seus favores nunca
-teriam passado de alguma rosa dada n'um vão de janella, ou de algum
-longo e suave olhar por traz do leque. Pedro todavia começava a ter
-horas sombrias. Sem sentir ciumes, vinha-lhe ás vezes, de repente, um
-tedio d'aquella existencia de luxo e de festa, um desejo violento de
-sacudir da sala esses homens, os seus intimos, que se atropellavam assim
-tão ardentemente em volta dos hombros decotados de Maria.
-
-Refugiava-se então n'algum canto, trincando com furor o charuto: e ahi,
-era em toda a sua alma um tropel de cousas dolorosas e sem nome...
-
-Maria sabia perceber bem na face do marido «estas nuvens», como ella
-dizia. Corria para elle, tomava-lhe ambas as mãos, com força, com
-dominio:
-
---Que tens tu, amor? Estás amuado!
-
---Não, não estou amuado...
-
---Olha então para mim!...
-
-Collava o seu bello seio contra o peito d'elle; as suas mãos corriam-lhe
-os braços n'uma caricia lenta e quente, dos pulsos aos hombros; depois,
-com um lindo olhar, estendia-lhe os labios. Pedro colhia n'elles um
-longo beijo, e ficava consolado de tudo.
-
-Durante esse tempo Affonso da Maia não sahia das sombras de St.^a
-Olavia, tão esquecido para lá como se estivesse no seu jazigo. Já se não
-fallava d'élle; em Arroios, _D. Fuas_ estava roendo a teima. Só Pedro ás
-vezes perguntava a Villaça «como ia o papá.» E as noticias do
-administrador enfureciam sempre Maria: o papá estava optimo; tinha agora
-um cosinheiro francez explendido; St.^a Olavia enchera-se de hospedes, o
-Sequeira, André da Ega, D. Diogo Coutinho...
-
---O _Barbatanas_ trata-se! ia elle dizer ao pae com rancor.
-
-E o velho negreiro esfregava as mãos, satisfeito de o saber assim feliz
-em St.^a Olavia; porque nunca cessara de tremer á idéa de ver em
-Arroios, deante de si, aquelle fidalgo tão severo e de vida tão pura.
-
-Quando porém Maria teve outro filho, um pequeno, o socego que então se
-fez em Arroios trouxe de novo muito vivamente ao coração de Pedro a
-imagem do pae abandonado n'aquella tristeza do Douro. Fallou a Maria de
-reconciliação, a medo, aproveitando a fraqueza da convalescença. E a sua
-alegria foi grande, quando Maria, depois de ficar um momento pensativa,
-respondeu:
-
---Creio que me havia de fazer feliz tel-o aqui...
-
-Pedro, enthusiasmado com um assentimento tão inesperado, pensou em
-abalar para St.^a Olavia. Mas ella tinha um plano melhor: Affonso,
-segundo dizia o Villaça, devia recolher em breve a Bemfica; pois bem,
-ella iria lá com o pequeno, toda vestida de preto, e de repente,
-atirando-se-lhe aos pés, pedir-lhe-hia a benção para seu neto! Não podia
-falhar! Não podia, realmente; e Pedro viu alli uma alta inspiração de
-maternidade...
-
-Para abrandar desde jà o papá, Pedro quiz dar ao pequeno o nome de
-Affonso. Mas n'isso Maria não consentiu. Andava lendo uma novella de que
-era heroe o ultimo Stuart, o romanesco principe Carlos Eduardo; e,
-namorada d'elle, das suas aventuras e desgraças, queria dar esse nome a
-seu filho... Carlos Eduardo da Maia! Um tal nome parecia-lhe conter todo
-um destino de amores e façanhas.
-
-O baptisado teve de ser retardado; Maria adoecera com uma angina. Foi
-muito benigna porém; e d'ahi a duas semanas Pedro podia já sahir para
-uma caçada na sua quinta da _Tojeira_, adiante d'Almada. Devia
-demorar-se dois dias. A partida arranjara-se unicamente para obsequiar
-um italiano, chegado por então a Lisboa, distincto rapaz que lhe fôra
-apresentado pelo secretario da Legação Ingleza, e com quem Pedro
-sympathisara vivamente; dizia-se sobrinho dos Principes de Soria; e
-vinha fugido de Napoles, onde conspirára contra os Bourbons e fôra
-condemnado á morte. O Alencar e D. João Coutinho iam tambem á caçada--e
-a partida foi de madrugada.
-
-N'essa tarde, Maria jantava só no seu quarto, quando sentiu carruagens
-parando á porta, um grande rumor encher a escada; quasi immediatamente
-Pedro apparecia-lhe tremulo e enfiado:
-
---Uma grande desgraça, Maria!
-
---Jesus!
-
---Feri o rapaz, feri o napolitano!...
-
---Como?
-
-Um desastre estupido!... Ao saltar um barranco, a espingarda
-dispara-se-lhe, e a carga, zás, vae cravar-se no napolitano! Não era
-possivel fazer curativos na _Tojeira_, e voltaram logo a Lisboa. Elle
-naturalmènte não consentira que o homem que tinha ferido recolhesse ao
-hotel: trouxera-o para Arroios, para o quarto verde por cima, mandara
-chamar o medico, duas enfermeiras para o velar, e elle mesmo lá ia
-passar a noite...
-
---E elle?
-
---Um heroe!... Sorri, diz que não é nada, mas eu vejo-o pallido como um
-morto. Um rapaz adoravel! Isto só a mim, Senhor! E então o Alencar que
-ia mesmo ao pé d'elle... Podia antes ter ferido o Alencar, um rapaz
-intimo, de confiança! até a gente se ria. Mas não, zás, logo o outro, o
-de cerimonia...
-
-Uma sege, n'esse instante, entrava o pateo.
-
---É o medico!
-
-E Pedro abalou.
-
-Voltou, d'ahi a pouco mais tranquillo. O Dr. Guedes quasi rira d'aquella
-bagatella, uma chumbada no braço, e alguns grãos perdidos nas costas.
-Promettera-lhe que d'ahi a duas semanas podia caçar outra vez na
-_Tojeira_; e o principe estava já fumando o seu charuto. Bello rapaz!
-Parecia sympathisar com o papá Monforte...
-
-Toda essa noite Maria dormiu mal, na excitação vaga que lhe dava aquella
-idéa d'um principe enthusiasta, conspirador, condemnado á morte, ferido
-agora por cima do seu quarto.
-
-Logo de manhã cedo--apenas Pedro sahira a fazer transportar, elle mesmo,
-do hotel, as bagagens do napolitano--Maria mandou a sua criada franceza
-de quarto, uma bella moça d'Arles, acima, saber da parte d'ella como S.
-Alteza passara, e «ver que figura tinha». A arlesiana appareceu, com os
-olhos brilhantes, a dizer á senhora, nos seus grandes gestos de
-Provençal, que nunca vira um homem tão formoso! Era uma pintura de Nosso
-Senhor Jesus Christo! Que pescoço, que brancura de marmore! Estava muito
-pallido ainda; agradecia enternecido os cuidados de Madame Maia; e
-ficara a ler o jornal encostado aos travesseiros...
-
-Maria, desde então, não pareceu interessar-se mais pelo ferido. Era
-Pedro que vinha, a cada instante, fallar-lhe d'elle, enthusiasmado por
-aquella existencia pathetica de principe conspirador, partilhando já o
-seu odio aos Bourbons, encantado com a similitude de gostos que
-encontrava n'elle, o mesmo amor da caça, dos cavallos, das armas. Agora
-logo de manhã, subia para o quarto do Principe, de _robe-de-chambre_, e
-cachimbo na boca, e passava lá horas n'uma camaradagem, fazendo _grogs_
-quentes--permittidos pelo Dr. Guedes. Levava mesmo para lá os seus
-amigos, o Alencar, o D. João da Cunha. Maria sentia-lhes por cima as
-risadas. Ás vezes tocava-se viola. E o velho Monforte, pasmado para o
-heroe, não cessava de lhe rondar o leito.
-
-A Arlesiana, essa, tambem a cada momento apparecia lá a levar toalhas de
-rendas, um assucareiro que ninguem reclamara, ou algum vaso com flores
-para alegrar a alcova... Maria, por fim, perguntou a Pedro, muito seria,
-se além de todos os amigos da casa, duas enfermeiras, dois escudeiros, o
-papá e elle Pedro--era necessaria tambem constantemente a sua propria
-criada no quarto de Sua Alteza!
-
-Não era. Mas Pedro riu muito á idea de que a Arlesiana se tivesse
-namorado do principe. N'esse caso Venus era-lhe propicia! O napolitano
-tambem a achava picante: _un très joli brin de femme_, tinha elle dito.
-
-A bella face de Maria impallideceu de colera. Julgava tudo isso de mau
-gosto, grosseiro, impudente! Pedro fôra realmente um doido em trazer
-assim para a intimidade de Arroios um estrangeiro, um fugido, um
-aventureiro! Demais, aquella troça em cima, entre grogs quentes, com
-guitarra, sem respeito por ella ainda toda nervosa, toda fraca da
-convalescença, indignava-a! Apenas Sua Alteza podesse accommodar-se com
-almofadas n'uma sege, queria-o fóra, na estalagem...
-
---O que ahi vae! Jesus! o que ahi vae!... disse Pedro.
-
---É assim.
-
-E de certo foi muito severa tambem com a Arlesianna, por que n'essa
-tarde Pedro encontrou a moça aos ais no corredor, limpando ao avental os
-olhos affogueados.
-
-D'ahi a dias, porém, o napolitano, já convalescente, quiz recolher ao
-seu hotel. Não vira Maria: mas em agradecimento da sua hospitalidade
-mandou-lhe um admiravel ramo, e, com uma galanteria de principe artista
-da Renascença, um soneto em italiano enrolado entre as flores e tão
-perfumado como ellas: comparava-a a uma nobre dama da Syria dando a gota
-de agua da sua bilha ao cavalleiro arabe, ferido na estrada ardente;
-comparava-a á Beatriz do Dante.
-
-Isto affigurou-se a todos de uma rara distincção, e, como disse o
-Alencar, um rasgo á Byron.
-
-Depois, na _soirée_ do baptisado de Carlos Eduardo, dada d'ahi a uma
-semana, o napolitano mostrou-se, e impressionou tudo. Era um homem
-esplendido, feito como um Apollo, de uma pallidez de marmore rico: a sua
-barba curta e frisada, os seus longos cabellos castanhos, cabellos de
-mulher, ondeados e com reflexos de ouro, apartados á nazarena--davam-lhe
-realmente, como dizia a Arlesianna, uma physionomia de bello Christo.
-
-Dançou apenas uma contradança com Maria, e pareceu, na verdade, um pouco
-taciturno e orgulhoso: mas tudo n'elle fascinava, a sua figura, o seu
-mysterio, até o seu nome de Tancredo. Muitos corações de mulher
-palpitavam quando elle, encostado a uma hombreira, de claque na mão, uma
-melancolia na face, exhalando o encanto pathetico de um condemnado á
-morte, derramava lentamente pela sala o langor sombrio do seu olhar de
-velludo. A marqueza d'Alvenga, para o examinar de perto, pediu o braço a
-Pedro, e foi applicar-lhe, como a um marmore de museo, a sua luneta de
-ouro.
-
---É de appetite! exclamou ella. É uma imagem!... E são amigos, são
-amigos, Pedro?
-
---Somos como dois irmãos d'armas, minha senhora.
-
-N'essa mesma soirée, o Villaça informára Pedro que o pae era esperado no
-dia seguinte em Bemfica. E Pedro, logo que se recolheram, fallou a Maria
-em «irem fazer a grande scena ao papá.» Ella, porém, recusou, e com as
-razões mais imprevistas, as mais sensatas. Tinha cogitado muito!
-Reconhecia agora que um dos motivos d'aquella teima do papá--ultimamente
-chamava-lhe sempre o papá--era essa extraordinaria existencia de
-Arroios...
-
---Mas filha, disse Pedro, escuta, nós não vivemos tambem em plena
-orgia... Alguns amigos que veem.
-
-Pois sim, pois sim... Mas, realmente, estava decidida a ter um interior
-mais calmo e mais domestico. Era mesmo melhor p'ra os bébés. Pois bem,
-queria que o papá estivesse convencido d'essa transformação, para que as
-pazes fossem mais faceis e eternas.
-
---Deixa passar dois ou tres mezes... Quando elle souber como nós vivemos
-quietinhos, eu o trarei, socega... É bom tambem que seja quando meu pae
-partir para as aguas, para os Pyrineos. Que o pobre papá, coitado, tem
-medo do teu... Filho, não achas assim melhor?
-
---És um anjo, foi a resposta de Pedro, beijando-lhe ambas as mãos.
-
-Toda a antiga maneira de Maria pareceu com effeito ir mudando.
-Suspendera as _soirées_. Começou a passar as noites muito recolhidas,
-com alguns intimos, no seu _boudoir_ azul. Já não fumava; abandonara o
-bilhar; e vestida de preto, com uma flôr nos cabellos, fazia _crochet_
-ao pé do candieiro. Estudava-se musica classica quando vinha o velho
-Cazoti. O Alencar, que, imitando a sua dama, entrara tambem na
-gravidade, recitava traducções de Klopstock. Fallava-se com sisudez de
-politica; Maria era muito regeneradora.
-
-E todas essas noites, Tancredo lá estava, indolente e bello, desenhando
-alguma flôr para ella bordar, ou tangendo à guitarra canções populares
-de Napoles. Todos alli o adoravam; mas ninguem mais que o velho
-Monforte, que passava horas, enterrado na sua alta gravata, contemplando
-o Principe com enternecimento. Depois, de repente, erguia-se,
-atravessava a sala, ia-se debruçar sobre elle, palpal-o, sentil-o,
-respiral-o, murmurando no seu francez de embarcadiço:
-
---_Ça aller bien... Hein? Beaucoup bien..._ Ora estimo...
-
-E estas correntes bruscas de affecto communicavam-se decerto, porque
-n'esse momento Maria tinha sempre um dos seus lindos sorrisos para o
-papá ou vinha beijal-o na testa.
-
-De dia occupava-se de cousas serias. Organisara uma util associação de
-caridade, a _Obra pia dos cobertores_, com o fim de fazer no inverno ás
-familias necessitadas distribuições de agasalhos; e presidia no salão de
-Arroios, com uma campainha, as reuniões em que se elaboravam os
-estatutos. Visitava os pobres. Ia tambem amiudadas vezes a uma devoção
-ás Egrejas, toda vestida de preto, a pé, com um véo muito espesso no
-rosto.
-
-O esplendor da sua belleza apparecia agora velado por uma sombra tocante
-de ternura grave: a Deusa idealisava-se em Madona; e não era raro
-ouvil-a de repente suspirar sem razão.
-
-Ao mesmo tempo a sua paixão pela filha crescia. Tinha então dois annos e
-estava realmente adoravel; vinha todas as noites um momento á sala,
-vestida com um luxo de princeza; e as exclamações, os extasis de
-Tancredo não findavam! Fizera-lhe o retrato a carvão, a esfuminho, a
-aguarella; ajoelhava-se para lhe beijar a mãosinha côr de rosa, como ao
-_bambino_ sagrado. E Maria, agora, apesar dos protestos de Pedro, dormia
-sempre com ella entre os braços.
-
-Ao começo d'esse setembro o velho Monforte partiu para os Pyrineos.
-Maria chorou, dependurada do pescoço do velho, como se elle largasse de
-novo para as travessias de Africa.
-
-Ao jantar, porém, chegou já consolada e radiante; e Pedro voltou a
-fallar da reconciliação, parecendo-lhe bom o momento de ir a Bemfica
-recuperar para sempre aquelle papá tão teimoso...
-
---Ainda não, disse ella reflectindo, olhando o seu calice de Bordeus.
-Teu pae é uma especie de santo, ainda o não merecemos... Mais para o
-inverno.
-
-
-Uma sombria tarde de dezembro, de grande chuva, Affonso da Maia estava
-no seu escriptorio lendo, quando a porta se abriu violentamente, e,
-alçando os olhos do livro, viu Pedro deante de si. Vinha todo enlameado,
-desalinhado, e na sua face livida, sob os cabellos revoltos, luzia um
-olhar de loucura. O velho ergueu-se aterrado. E Pedro sem uma palavra
-atirou-se aos braços do pae, rompeu a chorar perdidamente.
-
---Pedro! que succedeu, filho?
-
-Maria morrera, talvez! Uma alegria cruel invadiu-o, á idéa do filho
-livre para sempre dos Monfortes, voltando-lhe, trazendo á sua solidão os
-dois netos, toda uma descendencia para amar! E repetia, tremulo tambem,
-desprendendo-o de si com grande amor:
-
---Socega, filho, que foi?
-
-Pedro então cahiu para o canapé, como cae um corpo morto; e levantando
-para o pae um rosto devastado, envelhecido, disse, palavra a palavra,
-n'uma voz surda:
-
---Estive fóra de Lisboa dois dias... Voltei esta manhã... A Maria tinha
-fugido de casa com a pequena... Partiu com um homem, um italiano... E
-aqui estou!
-
-Affonso da Maia ficou deante do filho, quedo, mudo, como uma figura de
-pedra; e a sua bella face, onde todo o sangue subira enchia-se pouco a
-pouco, de uma grande colera. Viu, n'um relance, o escandalo, a cidade
-galhofando, as compaixões, o seu nome pela lama. E era aquelle filho
-que, despresando a sua auctoridade, ligando-se a essa creatura,
-estragara o sangue da raça, cobria agora a sua casa de vexame. E alli
-estava! alli jazia sem um grito, sem um furor, um arranque brutal de
-homem trahido! Vinha atirar-se para um sophá, chorando miseravelmente!
-Isto indignou-o, e rompeu a passeiar pela sala, rigido e aspero,
-cerrando os labios para que não lhe escapassem as palavras de ira e de
-injuria que lhe enchiam o peito em tumulto...--Mas era pae: ouvia, alli
-ao seu lado, aquelle soluçar de funda dôr; via tremer aquelle pobre
-corpo desgraçado que elle outr'ora emballara nos braços;--parou junto de
-Pedro, tomou-lhe gravemente a cabeça entre as mãos, e beijou-o na testa,
-uma vez, outra vez, como se elle fosse ainda creança, restituindo-lhe
-alli e para sempre a sua ternura inteira.
-
---Tinha razão, meu pae, tinha razão, murmurava Pedro entre lagrimas.
-
-Depois ficaram callados. Fóra, as pancadas successivas da chuva batiam a
-casa, a quinta, n'um clamor prolongado; e as arvores, sob as janellas,
-ramalhavam n'um vasto vento de inverno.
-
-Foi Affonso que quebrou o silencio:
-
---Mas para onde fugiram, Pedro? Que sabes tu, filho? Não é só chorar...
-
---Não sei nada, respondeu Pedro n'um longo esforço. Sei que fugiu. Eu
-sahi de Lisboa na segunda feira. N'essa mesma noite, ella partiu de casa
-n'uma carruagem, com uma maleta, o cofre de joias, uma creada italiana
-que tinha agora, e a pequena. Disse á governante e á ama do pequeno que
-ia ter comigo. Ellas estranharam, mas que haviam de dizer?... Quando
-voltei, achei esta carta.
-
-Era um papel já sujo, e desde essa manhã de certo muitas vezes relido,
-amarrotado com furia. Continha estas palavras:
-
-«É uma fatalidade, parto para sempre com Tancredo, esquece-me que não
-sou digna de ti, e levo a Maria que me não posso separar d'ella.»
-
---E o pequeno, onde está o pequeno? exclamou Affonso.
-
-Pedro pareceu recordar-se:
-
---Está lá dentro com a ama, trouxe-o na sege.
-
-O velho correu, logo; e d'ahi a pouco apparecia, erguendo nos braços o
-pequeno, na sua longa capa branca de franjas e a sua touca de rendas.
-Era gordo, de olhos muito negros, com uma adoravel bochecha fresca e côr
-de rosa. Todo elle ria, grulhando, agitando o seu guiso de prata. A ama
-não passou da porta, tristonha, com os olhos no tapete e uma trouxasinha
-na mão.
-
-Affonso sentou-se lentamente na sua poltrona, e accommodou o neto no
-collo. Os olhos enchiam-se-lhe de uma bella luz de ternura; parecia
-esquecer a agonia do filho, a vergonha domestica; agora só havia ali
-aquella facesinha tenra, que se lhe babava nos braços...
-
---Como se chama elle?
-
---Carlos Eduardo, murmurou a ama.
-
---Carlos Eduardo, hein?
-
-Ficou a olhal-o muito tempo, como procurando n'elle os signaes da sua
-raça: depois tomou-lhe na sua as duas mãosinhas vermelhas que não
-largavam o guiso, e muito grave, como se a creança o percebesse,
-disse-lhe:
-
---Olha bem para mim. Eu sou o avô. É necessario amar o avô!
-
-E áquella forte voz, o pequeno, com effeito, abriu os seus lindos olhos
-para elle, serios de repente, muito fixos, sem medo das barbas
-grisalhas: depois rompeu a pular-lhe nos braços, desprendeu a mãosinha,
-e martellou-lhe furiosamente a cabeça com o guiso.
-
-Toda a face do velho sorria áquella viçosa alegria; apertou-o ao seu
-largo peito muito tempo, poz-lhe na face um beijo longo, consolado,
-enternecido, o seu primeiro beijo d'avô; depois, com todo o cuidado, foi
-collocal-o nos braços da ama.
-
---Vá, ama, vá... A Gertrudes já lá anda a arranjar-lhe o quarto, vá vêr
-o que é necessario.
-
-Fechou a porta, e veiu sentar-se junto do filho que se não movera do
-canto do sophá, nem despregára os olhos do chão.
-
---Agora desabafa, Pedro, conta-me tudo... Olha que nos não vemos ha tres
-annos, filho...
-
---Ha mais de tres annos, murmurou Pedro.
-
-Ergueu-se, allongou a vista á quinta, tão triste sob a chuva; depois,
-derramando-a morosamente pela livraria, considerou um momento o seu
-proprio retrato, feito em Roma aos doze annos, todo de velludo azul, com
-uma rosa na mão. E repetia ainda amargamente:
-
---Tinha razão, meu pae, tinha razão...
-
-E pouco a pouco, passeiando e suspirando, começou a fallar d'aquelles
-ultimos annos, o inverno passado em Paris, a vida em Arroios, a
-intimidade do italiano na casa, os planos de reconciliação, por fim
-aquella carta infame, sem pudor, invocando a fatalidade,
-arremessando-lhe o nome do outro!... No primeiro momento tivera só idéas
-de sangue e quizera perseguil-os. Mas conservava um clarão de razão.
-Seria ridiculo, não é verdade? De certo a fuga fora d'antemão preparada,
-e não havia de ir correndo as estalagens da Europa á busca de sua
-mulher... Ir lamentar-se á policia, fazel-os prender? Uma imbecillidade;
-nem impedia que ella fosse já por esses caminhos fóra dormindo com
-outro... Restava-lhe sómente o desprezo. Era uma bonita amante que
-tivera alguns annos, e fugira com um homem. Adeus! Ficava-lhe um filho,
-sem mãe, com um mau nome. Paciencia! Necessitava esquecer, partir para
-uma longa viagem, para a America talvez; e o pae veria, havia de voltar
-consolado e forte.
-
-Dizia estas cousas sensatas, passeiando devagar, com o charuto apagado
-nos dedos, n'uma voz que se calmava. Mas de repente parou deante do pae,
-com um riso secco, um brilho-feroz nos olhos.
-
---Sempre desejei ver a America, e é boa occasião agora... É uma occasião
-famosa, hein? Posso até naturalisar-me, chegar a presidente, ou
-rebentar... Ah! Ah!
-
---Sim, mais tarde, depois pensarás n'isso, filho, accudiu o velho
-assustado.
-
-N'esse momento a sineta do jantar começou a tocar lentamente, ao fundo
-do corredor.
-
---Ainda janta cedo, hein? disse Pedro.
-
-Teve um suspiro cançado e lento, murmurou:
-
---Nós jantavamos ás sete...
-
-Quiz então que o pae fosse para a mesa. Não havia motivo para que se não
-jantasse. Elle ia um bocado acima, ao seu antigo quarto de solteiro...
-Ainda lá tinha a cama, não é verdade? Não, não queria tomar nada...
-
---O Teixeira que me leve um calice de genebra... Ainda cá está o
-Teixeira, coitado!
-
-E vendo Affonso sentado, repetiu, já impaciente:
-
---Vá jantar meu pae, vá jantar, pelo amor de Deus...
-
-Saiu. O pae ouviu-lhe os passos por cima, e o ruido de janellas
-desabridamente abertas. Foi então andando para a sala de jantar, onde os
-criados que pela ama sabiam de certo o desgosto se moviam em pontas de
-pés, com a lentidão contristada d'uma casa onde ha morte. Affonso
-sentou-se á mesa só; mas já lá estava outra vez o talher de Pedro; rosas
-de inverno esfolhavam-se n'um vaso do Japão; e o velho papagaio agitado
-com a chuva mexia-se furiosamente no poleiro. '
-
-Affonso tomou uma colher de sopa, depois rolou a sua poltrona para junto
-do fogão; e ali ficou envolvido pouco a pouco n'aquelle melancolico
-crepusculo de dezembro, com os olhos no lume, escutando o sudoeste
-contra as vidraças, pensando em todas as cousas terriveis que assim
-invadiam n'um tropel pathetico á sua paz de velho. Mas no meio da sua
-dôr, funda como era, elle percebia um ponto, um recanto do seu coração
-onde alguma cousa de muito doce, de muito novo, palpitava com uma
-frescura de renascimento, como se algures, no seu ser, estivesse
-rompendo, burbulhando uma nascente rica de alegrias futuras; e toda a
-sua face sorria á chama alegre, revendo a bochechinha rosada, sob as
-rendas brancas da touca...
-
-Pela casa no entanto tinham-se accendido as luzes. Já inquieto subiu ao
-quarto do filho; estava tudo escuro, tão humido e frio, como se a chuva
-caisse dentro. Um arrepio confrangeu o velho, e quando chamou, a voz de
-Pedro veiu do negro da janella; estava lá, com a vidraça aberta, sentado
-fóra na varanda, voltado para a noite brava, para o sombrio rumor das
-ramagens, recebendo na face o vento, a agua, toda a invernia agreste.
-
---Pois estás aqui filho! exclamou Affonso. Os criados hão de querer
-arranjar o quarto, desce um momento... Estás todo molhado, Pedro!
-
-Apalpava-lhe os joelhos, as mãos regeladas. Pedro ergueu-se com um
-estremeção, desprendeu-se, impaciente d'aquella ternura do velho.
-
---Querem arranjar o quarto, hein? Faz-me bem o ar, faz-me tão bem!
-
-O Teixeira trouxe luzes, e atraz d'elle appareceu o criado de Pedro, que
-chegára n'esse momento de Arroios, com um largo estojo de viagem
-recoberto de oleado. As malas tinha-as deixado em baixo; e o cocheiro
-viera tambem, como nenhum dos senhores estava em casa...
-
---Bem, bem, interrompeu Affonso. O sr. Villaça lá irá amanhã, e elle
-dará as ordens.
-
-O criado então, em bicos de pés, foi depôr o estojo sobre o marmore da
-commoda: ainda lá restavam antigos frascos de toilette de Pedro: e os
-castiçaes sobre a meza allumiavam o grande leito triste de solteiro com
-os colxões dobrados ao meio.
-
-A Gertrudes toda atarefada entrara com os braços carregados de roupa de
-cama; o Teixeira bateu vivamente os travesseiros; o criado d'Arroios
-pousando o chapéo a um canto, e sempre em ponta de pés, veiu ajudal-os
-tambem. Pedro no entanto, como somnambulo, voltara para a varanda, com a
-cabeça á chuva, attraido por aquella treva da quinta que se cavava em
-baixo com um rumor de mar bravo.
-
-Affonso, então, puxou-lhe o braço quasi com aspereza.
-
---Pedro! Deixa arranjar o quarto! Desce um momento.
-
-Elle seguiu maquinalmente o pae á livraria, mordendo o charuto apagado
-que desde tarde conservava na mão. Sentou-se longe da luz, ao canto do
-sophá, ali ficou mudo e entorpecido. Muito tempo só os passos lentos do
-velho, ao comprido das altas estantes, quebraram o silencio em que toda
-a sala ia adormecendo. Uma braza morria no fogão. A noite parecia mais
-aspera. Eram de repente vergastadas d'agua contra as vidraças, trazidas
-n'uma rajada, que longamente, n'um clamor teimoso, faziam escoar um
-diluvio dos telhados; depois havia uma calma tenebroza, com uma
-susurração distante de vento fugindo entre ramagens: n'esse silencio as
-goteiras punham um pranto lento; e logo uma corda de vendaval corria
-mais furioso, envolvia a casa n'um bater de janellas, redomoinhava,
-partia com silvos desolados.
-
---Está uma noite de Inglaterra, disse Affonso, debruçando-se a espertar
-o lume.
-
-Mas a esta palavra Pedro erguera-se, impetuosamente. De certo o ferira a
-idéa de Maria, longe, n'um quarto alheio, agazalhando-se-lhe no leito do
-adulterio entre os braços do outro. Apertou um instante a cabeça nas
-mãos, depois veiu junto do pae, com o passo mal firme, mas a voz muito
-calma.
-
---Estou realmente cançado, meu pae, vou-me deitar. Boa noite... Amanhã
-conversaremos mais.
-
-Beijou-lhe a mão e saiu de vagar.
-
-Affonso demorou-se ainda ali, com um livro na mão, sem ler, attento só a
-algum rumor que viesse de cima; mas tudo jazia em silencio.
-
-Deram dez horas. Antes de se recolher foi ao quarto onde se fizera a
-cama da ama. A Gertrudes o criado de Arroios, o Teixeira, estavam lá
-cochichando ao pé da commoda, na penumbra que dava um folio posto deante
-do candieiro; todos se esquivaram em pontas de pés quando lhe sentiram
-os passos, e a ama continuou a arrumar em silencio os gavetões. No vasto
-leito, o pequeno dormia como um Menino Jesus cançado, com o seu guiso
-apertado na mão. Affonso não ousou beijal-o, para o não acordar com as
-barbas asperas; mas tocou-lhe na rendinha da camisa, entalou a roupa
-contra a parede, deu um geito ao cortinado, enternecido, sentindo toda a
-sua dôr calmar-se n'aquella sombra de alcova onde o seu neto dormia.
-
---É necessario alguma cousa, ama? perguntou, abafando a voz.
-
---Não, meu senhor...
-
-Então, sem ruido, subiu ao quarto de Pedro. Havia uma fenda clara,
-entreabriu a porta. O filho escrevia, á luz de duas vellas, com o estojo
-aberto ao lado. Pareceu espantado de ver o pae: e na face que ergueu,
-envelhecida e livida, dois sulcos negros faziam-lhe os olhos mais
-refulgentes e duros.
-
---Estou a escrever, disse elle.
-
-Esfregou as mãos, como arripiado da friagem do quarto, e accrescentou:
-
---Amanhã cedo é necessario que o Villaça vá a Arroios... Estão lá os
-criados, tenho lá dois cavalos meus, emfim uma porção de arranjos. Eu
-estou-lhe a escrever. É numero 32 a casa d'elle, não é? O Teixeira ha de
-saber... Boas noites, papá, boas noites.
-
-No seu quarto, ao lado da livraria, Affonso não poude socegar, n'uma
-oppressão, uma inquietação que a cada momento o faziam erguer sobre o
-travesseiro escutar: agora, no silencio da casa e do vento que calmara,
-ressoavam por cima lentos e continuos os passos de Pedro.
-
-A madrugada clareava, Affonso ia adormecendo--quando de repente um tiro
-atroou a casa. Precipitou-se do leito, despido e gritando: um creado
-acudia tambem com uma lanterna. Do quarto de Pedro ainda entreaberto
-vinha um cheiro de polvora; e aos pés da cama, caido de bruços, n'uma
-poça de sangue que se ensopava no tapete, Affonso encontrou seu filho
-morto, apertando uma pistola na mão.
-
-Entre as duas vélas que se extinguiam, com fogachos lividos, deixára-lhe
-uma carta lacrada com estas palavras sobre o enveloppe, n'uma letra
-firme: _Para o papá_.
-
-D'ahi a dias fechou-se a casa de Bemfica. Affonso da Maia partia com o
-neto e com todos os criados para a quinta de S.^{ta} Olavia.
-
-
-Quando Villaça, em fevereiro, foi lá acompanhar o corpo de Pedro, que ia
-ser depositado no jazigo de familia, não pôde conter as lagrimas ao
-avistar aquella vivenda onde passára tão alegres nataes. Um baetão preto
-recobria o brazão d'armas, e esse panno de esquife parecia ter
-distingido todo o seu negrume sobre a fachada muda, sobre os
-castanheiros que ornavam o pateo; dentro os criados abafavam a voz,
-carregados de luto; não havia uma flor nas jarras; o proprio encanto de
-S.^{ta} Olavia, o fresco cantar das aguas vivas por tanques e repuchos,
-vinha agora com a cadencia saudosa de um choro. E Villaça foi encontrar
-Affonso na livraria, com as janellas cerradas ao lindo sol de inverno,
-caido para uma poltrona, a face cavada sob os cabellos crescidos e
-brancos, as mãos magras e ociosas sobre os joelhos.
-
-O procurador veiu dizer para Lisboa que o velho não durava um anno.
-
-
-
-
-III
-
-
-Mas esse anno passou, outros annos passaram.
-
-Por uma manhã de abril, nas vesperas de Paschoa, Villaça chegava de novo
-a S.^{ta} Olavia.
-
-Não o esperavam tão cedo; e como era o primeiro dia bonito d'essa
-primavera chuvosa os senhores andavam para a quinta. O mordomo, o
-Teixeira, que ia já embranquecendo, mostrou-se todo satisfeito de ver o
-sr. administrador com quem ás vezes se correspondia, e conduziu-o á sala
-de jantar onde a velha governante, a Gertrudes, tomada de surpreza,
-deixou cair uma pilha de guardanapos e para lhe saltar ao pescoço.
-
-As tres portas envidraçadas estavam abertas para o terraço, que se
-estendia ao sol, com a sua balustrada de marmore coberta de trepadeiras:
-e Villaça, adiantando-se para os degraus que desciam ao jardim, mal
-poude reconhecer Affonso da Maia n'aquelle velho de barba de neve, mas
-tão robusto e corado, que vinha subindo a rua de romanzeiras com o seu
-neto pela mão.
-
-Carlos, ao avistar no terraço um desconhecido, de chapéo alto, abafado
-n'um cache-nez de pelucia, correu a miral-o, curioso--e achou-se
-arrebatado nos braços do bom Villaça, que largara o guarda sol, o
-beijava pelo cabello, pela face, balbuciando:
-
---Oh meu menino, meu querido menino! Que lindo que está! que crescido
-que está...
-
---Então, sem avisar, Villaça? exclamava Affonso da Maia, chegando de
-braços abertos. Nós só o esperavamos para a semana, creatura!
-
-Os dois velhos abraçaram-se; depois um momento os seus olhos
-encontraram-se, vivos e humidos, e tornaram a apertar-se commovidos.
-
-Carlos ao lado, muito serio, todo esbelto, com as mãos enterradas nos
-bolsos das suas largas bragas de flanella branca, o casquete da mesma
-flanella posta de lado sobre os bellos anneis do cabello
-negro--continuava a mirar o Villaça, que com o beiço tremulo, tendo
-tirado a luva, limpava os olhos por baixo dos oculos.
-
---E ninguem a esperal-o, nem um criado lá em baixo no rio! dizia
-Affonso. Emfim, cá o temos, é o essencial... E como você está rijo,
-Villaça!
-
---E v. ex.^a meu senhor! balbuciou o administrador, engulindo um soluço.
-Nem uma ruga! Branco sim, mas uma cara de moço... Eu nem o conhecia!...
-Quando me lembro, a ultima vez que o vi... E cá isto! cá esta linda
-flor!...
-
-Ia abraçar Carlos outra vez enthusiasmado, mas o rapaz fugiu-lhe com uma
-bella risada, saltou do terraço, foi pendurar-se d'um trapesio armado
-entre as arvores, e ficou lá, balançando-se em cadencia, forte e airoso,
-gritando: «tu és o Villaça!»
-
-O Villaça, de guarda sol debaixo do braço, contemplava-o embevecido.
-
---Está uma linda creança! Faz gosto! E parece-se com o pae. Os mesmos
-olhos, olhos dos Maias, o cabello encaracolado... Mas ha de ser muito
-mais homem!
-
---É são, é rijo, dizia o velho risonho, anediando as barbas. E como
-ficou o seu rapaz, o Manuel? Quando é esse casamento? Venha você cá para
-dentro, Villaça, que ha muito que conversar...
-
-Tinham entrado na sala de jantar, onde um lume de lenha na chaminé de
-azulejo esmorecia na fina e larga luz de abril; porcelanas e pratas
-resplandeciam nos aparadores de pau santo; os canarios pareciam doudos
-de alegria.
-
-A Gertrudes, que ficára a observar, acercou-se, com as mãos cruzadas sob
-o avental branco, familiar, terna.
-
---Então, meu senhor, aqui está um regalo, vêr outra vez este ingrato em
-S.^{ta} Olavia!
-
-E, com um clarão de sympathia na face, alva e redonda como uma velha
-lua, ornada já de um buço branco:
-
---Ah! sr. Villaça, isto agora é outra cousa! Até os canarios cantam! E
-tambem eu cantava, se ainda podesse...
-
-E foi saindo, subitamente commovida, já com vontade de chorar.
-
-O Teixeira esperava, com um riso superior e mudo que lhe ia d'uma á
-outra ponta dos seus altos collarinhos de mordomo.
-
---Eu creio que prepararam o quarto azul ao sr. Villaça, hein? disse
-Affonso. No quarto em que você costumava ficar dorme agora a
-viscondessa...
-
-Então o Villaça apressou-se a perguntar pela sr.^a viscondessa. Era uma
-Runa, uma prima da mulher de Affonso, que, no tempo em que os poetas de
-Caminha a cantavam, casára com um fidalgote gallego, o sr. visconde de
-Urigo-de-la-Sierra, um borracho, um brutal que lhe batia: depois, viuva
-e pobre, Affonso recolhera-a por dever de parentella, e para haver uma
-senhora em S.^{ta} Olavia.
-
-Ultimamente passara mal... Mas, olhando o relogio, Affonso interrompeu a
-relação d'esses achaques.
-
---Villaça, vá-se arranjar, depressa, que d'aqui a pouco é o jantar.
-
-O administrador surprehendido olhou tambem o relogio, depois a mesa já
-posta, os seis talheres, o cesto de flores, as garrafas de Porto.
-
---Então v. ex.^a agora janta de manhã? Eu pensei que era o almoço...
-
---Eu lhe digo, o Carlos necessita ter um regimen. De madrugada está já
-na quinta; almoça ás sete; e janta á uma hora. E eu, emfim, para vigiar
-as maneiras do rapaz...
-
---E o sr. Affonso da Maia, exclamou Villaça, a mudar de habitos, n'essa
-edade! O que é ser avô, meu senhor!
-
---Tolice! não é isso... É que me faz bem. Olhe que me faz bem!... Mas
-avie-se Villaça, avie-se que Carlos não gosta de esperar... Talvez
-tenhamos o abbade.
-
---O Custodio? Rica cousa! Então, se v. ex.^a me dá licença...
-
-Apenas no corredor, o mordomo, ancioso por conversar com o sr.
-administrador, perguntou-lhe, desembaraçando-o do guarda sol e do
-chale-manta:
-
---Com franqueza, como nos acha por cá, pela quinta sr. Villaça?
-
---Estou contente, Teixeira, estou contente. Pode-se vir por gosto a
-S.^{ta} Olavia.
-
-E, pousando familiarmente a mão no hombro do escudeiro, piscando o olho
-ainda humido:
-
---Tudo isto é o menino. Fez reviver o patrão!
-
-O Teixeira riu respeitosamente. O menino realmente era a alegria da
-casa...
-
---Olá! Quem toca por cá? exclamou Villaça, parando nos degraus da
-escada, ao ouvir em cima um afinar gemente de rebeca.
-
---É o sr. Brown, o inglez, o preceptor do menino... Muito habilidoso, é
-um regalo ouvil-o; toca ás vezes á noite na sala, o sr. juiz de direito
-acompanha-o na concertina... Aqui, sr. Villaça, o quarto de v. s.^a...
-
---Muito bonito, sim senhor!
-
-O verniz dos moveis novos brilhava na luz das duas janellas, sobre o
-tapete alvadio semeado de florsinhas azues: e as bambinellas, os
-reposteiros de cretóne, repetiam as mesmas folhagens azuladas sobre
-fundo claro. Este conforto fresco e campestre deleitou o bom Villaça.
-
-Foi logo apalpar os cretónes, esfregou o marmore da commoda, provou a
-solidez das cadeiras. Eram as mobilias compradas no Porto, hein? Pois,
-elegantes. E, realmente, não tinham sido caras. Nem elle fazia idéa!
-Ficou ainda em bicos de pés a examinar duas aguarellas inglezas
-representando vaccas de luxo, deitadas na relva, á sombra de ruinas
-romanticas. O Teixeira, observou-lhe, com o relogio na mão:
-
---Olhe que v. s.^a tem só dez minutos... O menino não gosta de esperar.
-
-Então o Villaça decidiu-se a desenrolar o cache-nez; depois tirou o seu
-pesado collete de malha de lã; e pela camisa entreaberta via-se ainda
-uma flanella escarlate por causa dos rheumatismos, e os bentinhos de
-seda bordada. O Teixeira desapertava as correias da maleta; ao fundo do
-corredor, a rebeca atacara o _Carnaval de Veneza_; e atravez das
-janellas fechadas sentia-se o grande ar, a frescura, a paz dos campos,
-todo o verde d'abril.
-
-Villaça, sem oculos, um pouco arripiado, passava a ponta da toalha
-molhada pelo pescoço, por traz da orelha, e ia dizendo:
-
---Então, o nosso Carlinhos não gosta de esperar, hein? Já se sabe, é
-elle quem governa... Mimos e mais mimos, naturalmente...
-
-Mas o Teixeira muito grave, muito serio, desilludiu o sr. administrador.
-Mimos e mais mimos, dizia s. s.^a? Coitadinho d'elle, que tinha sido
-educado com uma vara de ferro! Se elle fosse a contar ao sr. Villaça!
-Não tinha a creança cinco annos já dormia n'um quarto só, sem lamparina;
-e todas as manhãs, zás, para dentro d'uma tina d'agua fria, ás vezes a
-gear lá fóra... E outras barbaridades. Se não se soubesse a grande
-paixão do avô pela creança, havia de se dizer que a queria morta. Deus
-lhe perdoe, elle, Teixeira, chegara a pensal-o... Mas não, parece que
-era systema inglez! Deixava-o correr, cair, trepar ás arvores,
-molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho de caseiro. E depois o
-rigor com as comidas! Só a certas horas e de certas cousas... E ás vezes
-a creancinha, com os olhos abertos, a aguar! Muita, muita dureza.
-
-E o Teixeira accrescentou:
-
---Emfim era a vontade de Deus, saiu forte. Mas que nós approvassemos a
-educação que tem levado, isso nunca approvámos, nem eu, nem a Gertrudes.
-
-Olhou outra vez o relogio, preso por uma fita negra sobre o collete
-branco, deu alguns passos lentos pelo quarto: depois, tomando de sobre a
-cama a sobrecasaca do procurador, foi-lhe passando a escova pela gola,
-de leve e por amabilidade, em quanto dizia, junto ao toucador onde o
-Villaça acamava as duas longas repas sobre a calva:
-
---Sabe v. s.^a, apenas veiu o mestre inglez, o que lhe ensinou? A remar!
-A remar, sr. Villaça, como um barqueiro! Sem contar o trapesio, e as
-habilidades de palhaço; eu n'isso nem gosto de fallar... Que eu sou o
-primeiro a dizel-o: o Brown é boa pessoa, calado, asseado, excellente
-musico. Mas é o que eu tenho repetido á Gertrudes: póde ser muito bom
-para inglez, não é para ensinar um fidalgo portuguez... Não é. Vá v.
-s.^a fallar a esse respeito com a sr.^a D. Anna Silveira...
-
-Bateram de manso á porta, o Teixeira emmudeceu. Um escudeiro entrou, fez
-um signal ao mordomo, tirou-lhe do braço respeitosamente a sobrecasaca,
-e ficou com ella junto do toucador, onde o Villaça, vermelho e
-apressado, luctava ainda com as repas rebeldes.
-
-O Teixeira, da porta, disse com o relogio na mão:
-
---É o jantar. Tem v. s.^a dois minutos, sr. Villaça.
-
-E o administrador d'ahi a um momento abalava tambem, abotoando ainda o
-casaco pelas escadas.
-
-Os senhores já estavam todos na sala. Junto do fogão, onde as achas
-consumidas morriam na cinza branca, o Brown percorria o _Times_. Carlos,
-a cavallo nos joelhos do avô, contava-lhe uma grande historia de rapazes
-e de bulhas; e ao pé o bom abbade Custodio, com o lenço de rapé
-esquecido nas mãos, escutava, de bocca aberta, n'um riso paternal e
-terno.
-
---Olhe quem alli vem, abbade, disse-lhe Affonso.
-
-O abbade voltou-se, e deu uma grande palmada na côxa:
-
---Esta é nova! Então é o nosso Villaça? E não me tinham dito nada!
-Venham de lá esses ossos, homem!...
-
-Carlos pulava nos joelhos do avô, muito divertido com aquelles longos
-abraços que juntavam as duas cabeças dos velhos--uma com as repas
-achatadas sobre a calva, outra com uma grande corôa aberta n'uma matta
-de cabello branco. E como elles, de mãos dadas, continuavam a
-admirar-se, a estudarem um no outro as rugas dos annos, Affonso disse:
-
---Villaça! a sr.^a viscondessa...
-
-O administrador porém procurou-a debalde, com os olhos abertos pela
-sala. Carlos ria, batendo as mãos:--e Villaça descobriu-a emfim a um
-canto, entre o aparador e a janella, sentada n'uma cadeirinha baixa,
-vestida de preto, timida e queda, com os braços rechonchudos pousados
-sobre a obesidade da cinta. O rosto anafado e molle, branco como papel,
-as roscas do pescoço, cobriram-se-lhe subitamente de rubor; não achou
-uma palavra para dizer ao Villaça, e estendeu-lhe a mão papuda e
-pallida, com um dedo embrulhado n'um pedaço de seda negra. Depois ficou
-a abanar-se com um grande leque de lentejoulas, o seio a arfar, os olhos
-no regaço, como exhausta d'aquelle esforço.
-
-Dois escudeiros tinham começado a servir a sopa, o Teixeira esperava,
-perfilado por traz do alto espaldar da cadeira de Affonso.
-
-Mas Carlos cavalgava ainda o avô, querendo acabar outra historia. Era o
-Manuel, trazia uma pedra na mão... Elle primeiro pensára ir ás boas; mas
-os dois rapazes começaram a rir... De maneira que os correu a todos...
-
---E maiores que tu?
-
---Tres rapagões, vôvô, póde perguntar á tia Pedra... Ella viu, que
-estava na eira. Um d'elles trazia uma foice...
-
---Está bom, senhor, está bom, ficamos inteirados... Vá, desmonte, que
-está a sopa a esfriar. Upa! upa!
-
-E o velho, com o seu aspecto resplandecente de patriarcha feliz, veiu
-sentar-se ao alto da meza, sorrindo e dizendo:
-
---Já se vae fazendo pesado, já não está para collo...
-
-Mas reparou então no Brown, e tornando a erguer-se fez a apresentação do
-procurador.
-
---O sr. Brown, o amigo Villaça... Peço perdão, descuidei-me, foi culpa
-d'aquelle cavalheiro lá ao fundo da meza, o sr. D. Carlos de mata-sete!
-
-O perceptor, solidamente abotoado na sua longa sobrecasaca militar, deu
-toda a volta á meza, rigido e teso, para vir sacudir o Villaça n'um
-tremendo _shake-hands_; depois, sem uma palavra, reoccupou o seu logar,
-desdobrou o guardanapo, cofiou os formidaveis bigodes, e foi então que
-disse ao Villaça, com o seu forte accento inglez:
-
---_Muito bello dia... glorioso!_
-
---Tempo de rosas, respondeu o Villaça, comprimentando, intimidado diante
-d'aquelle athleta.
-
-Naturalmente, n'esse dia, fallou-se da jornada de Lisboa, do bom serviço
-da malla-posta, do caminho de ferro que se ia abrir... O Villaça já
-viera no comboyo até ao Carregado.
-
---De causar horror, hein? perguntou o abbade, suspendendo a colher que
-ia levar á bocca.
-
-O excellente homem nunca saira de Resende; e todo o largo mundo, que
-ficava para além da penumbra da sua sachristia e das arvores do seu
-passal, lhe dava o terror d'uma Babel. Sobre tudo essa estrada de ferro,
-de que tanto se fallava...
-
---Faz arripiar um bocado, affirmou com experiencia Villaça. Digam o que
-disserem, faz arripiar!
-
-Mas o abbade assustava-se sobre tudo com as inevitaveis desgraças
-d'essas machinas!
-
-O Villaça então lembrou os desastres da mala-posta. No de Alcobaça,
-quando tudo se virou, ficaram esmagadas duas irmãs de caridade! Emfim de
-todos os modos havia perigos. Podia-se quebrar uma perna a passear no
-quarto...
-
-O abbade gostava do progresso... Achava até necessario o progresso. Mas
-parecia-lhe que se queria fazer tudo á lufa-lufa... O paiz não estava
-para essas invenções; o que precisava eram boas estradinhas...
-
---E economia! disse o Villaça, puxando para si os pimentões.
-
---Bucellas? murmurou-lhe sobre o hombro o escudeiro.
-
-O administrador ergueu o copo, depois de cheio, admirou-lhe á luz a côr
-rica, provou-o com a ponta do labio, e piscando o olho para Affonso:
-
---É do nosso!
-
---Do velho, disse Affonso. Pergunte ao Brown... Hein, Brown, um bom
-nectar?
-
---_Magnificente!_ exclamou o perceptor com uma energia fogosa.
-
-Então Carlos, estendendo o braço por cima da meza, reclamou tambem
-Bucellas. E a sua razão era haver festa por ter chegado o Villaça. O avô
-não consentiu; o menino teria o seu calice de Collares, como de costume,
-e um só. Carlos crusou os braços sobre o guardanapo que lhe pendia do
-pescoço, espantado de tanta injustiça! Então nem para festejar o Villaça
-poderia apanhar uma gotinha de Bucellas? Ahi estava uma linda maneira de
-receber os hospedes na quinta... A Gertrudes dissera-lhe que como viera
-o sr. administrador, havia de pôr á noite para o chá o fato novo de
-velludo. Agora observavam-lhe que não era festa, nem caso para
-Bucellas... Então não entendia.
-
-O avô, que lhe bebia as palavras, enlevado, fez subitamente um carão
-severo.
-
---Parece-me que o senhor está palrando de mais. As pessoas grandes é que
-palram à meza.
-
-Carlos recolheu-se logo ao seu prato, murmurando muito mansamente:
-
---Está bom, vovô, não te zangues. Esperarei para quando for grande...
-
-Houve um sorriso em volta da meza. A propria viscondessa, deleitada,
-agitou preguiçosamente o leque: o abbade, com a sua boa face banhada em
-extasi para o menino, apertava as mãos cabelludas contra o peito, tanto
-aquillo lhe parecia engraçado: e Affonso tossia por traz do guardanapo,
-como limpando as barbas--a esconder o riso, a admiração que lhe brilhava
-nos olhos.
-
-Tanta vivacidade surprehendeu tambem Villaça. Quiz ouvir mais o menino,
-e pousando o seu talher:
-
---E diga-me, Carlinhos, já vae adiantado nos seus estudos?
-
-O rapaz, sem o olhar, repoltreou-se, mergulhou as mãos pelo cós das
-flanellas, e respondeu com um tom superior:
-
---Já faço ladear a _Brigida_.
-
-Então o avô, sem se conter, largou a rir, cahido para o espaldar da
-cadeira:
-
---Essa é boa! Eh! Eh! Já faz ladear a _Brigida_! E é verdade, Villaça,
-já a faz ladear... Pergunte ao Brown; não é verdade, Brown? E a eguasita
-é uma piorrita, mas fina...
-
---Oh vovô, gritou Carlos já excitado, dize ao Villaça, anda. Não é
-verdade que eu era capaz de governar o _dog-cart_?
-
-Affonso reassumio um ar severo.
-
---Não o nego... Talvez o governasse, se lh'o consentissem. Mas faça-me
-favor de se não gabar das suas façanhas, porque um bom cavalleiro deve
-ser modesto... E sobre tudo não enterrar assim as mãos pela barriga
-abaixo...
-
-O bom Villaça, no entanto, dando estalinhos aos dedos, preparava uma
-observação. Não se podia de certo ter melhor prenda que montar a cavallo
-com as regras... Mas elle queria dizer se o Carlinhos já entrava com o
-seu Phedro, o seu Tito Liviosinho...
-
---Villaça, Villaça, advertiu o abbade, de garfo no ar e um sorriso de
-santa malicia, não se deve fallar em latim aqui ao nosso nobre amigo...
-Não admitte, acha que é antigo... Elle, antigo é...
-
---Ora sirva-se d'esse fricassé, ande abbade, disse Affonso, que eu sei
-que é o seu fraco, e deixe lá o latim...
-
-O abbade obedeceu com deleite; e escolhendo no molho rico os bons
-pedaços de ave, ia murmurando:
-
---Deve-se começar pelo latimsinho, deve-se começar por lá... É a base; é
-a basesinha!
-
---Não! latim mais tarde! exclamou o Brown, com um gesto possante.
-Prrimeiro forrça! Forrça! Musculo...
-
-E repetio, duas vezes, agitando os formidaveis punhos:
-
---Prrimeiro musculo, musculo!...
-
-Affonso appoiava-o, gravemente. O Brown estava na verdade. O latim era
-um luxo d'erudito... Nada mais absurdo que começar a ensinar a uma
-creança n'uma lingua morta quem foi Fabio, rei dos Sabinos, o caso dos
-Grachos, e outros negocios d'uma nação extincta, deixando-o ao mesmo
-tempo sem saber o que é a chuva que o molha, como se faz o pão que come,
-e todas as outras cousas do Universo em que vive...
-
---Mas emfim os classicos, arriscou timidamente o abbade.
-
---Qual classicos! O primeiro dever do homem é viver. E para isso é
-necessario ser são, e ser forte. Toda a educação sensata consiste
-n'isto: crear a saude, a força e os seus habitos, desenvolver
-exclusivamente o animal, armal-o d'uma grande superioridade physica. Tal
-qual como se não tivesse alma. A alma vem depois... A alma é outro luxo.
-É um luxo de gente grande...
-
-O abbade coçava a cabeça, com o ar arripiado.
-
---A instrucçãosinha é necessaria, disse elle. Você não acha, Villaça?
-Que v. ex^a, sr. Affonso da Maia, tem visto mais mundo do que eu... Mas
-emfim a instrucçãosinha...
-
---A instrucção para uma creança não é recitar _Tityre, tu patulae
-recubans_... É saber factos, noções, cousas uteis, cousas praticas...
-
-Mas suspendeu-se: e, com o olho brilhante, n'um signal ao Villaça,
-mostrou-lhe o neto que palrava inglez com o Brown. Eram de certo feitos
-de força, uma historia de briga com rapazes que elle lhe estava a
-contar, animado e jogando com os punhos. O perceptor approvava,
-retorcendo os bigodes. E á mesa os senhores com os garfos suspensos, por
-traz os escudeiros de pé e guardanapo no braço, todos, n'um silencio
-reverente, admiravam o menino a fallar inglez.
-
---Grande prenda, grande prenda, murmurou Villaça, inclinando-se para a
-Viscondessa.
-
-A excellente senhora córou, atravez d'um sorriso. Parecia assim mais
-gorda, toda acaçapada na cadeira, silenciosa, comendo sempre; e, a cada
-gole de Bucellas, refrescava-se languidamente com o seu grande leque
-negro e lentejoulado.
-
-Quando o Teixeira serviu o vinho do Porto, Affonso fez uma _saude_ ao
-Villaça. Todos os copos se ergueram n'um rumor de amizade. Carlos quiz
-gritar _Hurrah!_ O avô, com um gesto reprehensivo, immobilisou-o; e na
-pausa satisfeita que se fez, o pequeno disse com uma grande convicção:
-
---Oh avô, eu gosto do Villaça. O Villaça é nosso amigo.
-
---Muito, e ha muitos annos, meu senhor! exclamou o velho procurador, tão
-commovido que mal podia erguer o calice na mão.
-
-O jantar findava. Fóra, o sol deixára o terrasso e a quinta verdejava na
-grande doçura do ar tranquillo, sob o azul ferrete. Na chaminé só
-restava uma cinza branca: os lilazes das jarras exhalavam um aroma vivo,
-a que se misturava o do creme queimado, tocado de um fio de limão: os
-creados, de colletes brancos, moviam o serviço d'onde se escapava algum
-som argentino: e toda a alva toalha adamascada desapparecia sob a
-confusão da sobremesa onde os tons dourados do vinho do Porto brilhavam
-entre as compoteiras de crystal. A Viscondessa affogueada abanava-se.
-Padre Custodio enrolava devagar o guardanapo, a sua batina coçada luzia
-nas pregas das mangas.
-
-Então Affonso, sorrindo ternamente, fez a ultima saude.
-
---Viva v. s.^a, snr. Carlos de Matta-sete!
-
---Sr. Vôvô! dizia o pequeno escorropichando o copo.
-
-A cabeçinha de cabellos negros, a velha face de barbas de neve,
-saudavam-se das extremidades da mesa--em quanto todos sorriam, no
-enternecimento d'aquella cerimonia. Depois o abbade, de palito na bocca,
-murmurou as _graças_. A Viscondessa, cerrando os olhos, juntou tambem as
-mãos. E Villaça que tinha crenças religiosas não gostou de vêr Carlos,
-sem se importar com as graças, saltar da cadeira, vir atirar-se ao
-pescoço do avô, fallar-lhe ao ouvido.
-
---Não senhor! não senhor! dizia o velho.
-
-Mas o rapaz, abraçando-o mais forte, dava-lhe grandes razões, n'um
-murmurio de mimo dôce como um beijo, que ia pondo na face do velho uma
-fraqueza indulgente.
-
---É por ser festa, disse elle emfim vencido. Mas veja lá, veja lá...
-
-O rapaz pulou, bateu as palmas, agarrou Villaça pelos braços, fêl-o
-redemoinhar, e foi cantando n'um rythmo seu:
-
---Fizeste bem em vir, bem, bem, bem!... Vou buscar a Therezinha, inha,
-inha, inha!
-
---É a noiva, disse o avô, erguendo-se da mesa. Já tem amores, é a
-pequena das Silveiras... O café para o terraço, Teixeira.
-
-O dia fóra convidava, adoravel, d'um azul suave, muito puro e muito
-alto, sem uma nuvem. Defronte do terraço os geranios vermelhos estavam
-já abertos; as verduras dos arbustos, muito tenras ainda, d'uma
-delicadeza de renda, pareciam tremer ao menor sopro; vinha por vezes um
-vago cheiro de violetas, misturado ao perfume adocicado das flôres do
-campo; o alto repuxo cantava; e nas ruas do jardim, bordadas de buxos
-baixos, a areia fina faiscava de leve áquelle sol timido de primavera
-tardia, que ao longe envolvia os verdes da quinta, adormecida a essa
-hora de sesta n'uma luz fresca e loura.
-
-Os tres homens sentaram-se á mesa do café. Defronte do terraço, o Brown,
-de bonet escossez posto ao lado e grande cachimbo na bocca, puchava ao
-alto a barra do trapezio para Carlos se balouçar. Então o bom Villaça
-pedio para voltar as costas. Não gostava de vêr gymnasticas; bem sabia
-que não havia perigo; mas mesmo nos cavallinhos, as cabriolas, os arcos,
-atordoavam-n'o; sahia sempre com o estomago embrulhado...
-
---E parece-me imprudente, sobre o jantar...
-
---Qual! é só balouçar-se... Olhe para aquillo!
-
-Mas Villaça não se moveu, com a face sobre a chavena.
-
-O abbade, esse, admirava, de labios entreabertos, e o pires cheio de
-café esquecido na mão.
-
---Olhe para aquillo Villaça, repetio Affonso. Não lhe faz mal, homem!
-
-O bom Villaça voltou-se, com esforço. O pequeno muito alto no ar, com as
-pernas retesadas contra a barra do trapezio, as mãos ás cordas, descia
-sobre o terraço, cavando o espaço largamente, com os cabellos ao vento;
-depois elevava-se, serenamente, crescendo em pleno sol; todo elle
-sorria; a sua blusa, os calções enfunavam-se á aragem; e via-se passar,
-fugir, o brilho dos seus olhos muito negros e muito abertos.
-
---Não está mais na minha mão, não gosto, disse o Villaça. Acho
-imprudente!
-
-Então Affonso bateu as palmas, o abbade gritou _bravo, bravo_. Villaça
-voltou-se para applaudir, mas Carlos tinha já desapparecido; o trapezio
-parava, em oscillações lentas; e o Brown, retomando o _Times_ que pozera
-ao lado sobre o pedestal d'um busto, foi descendo para a quinta
-envolvido n'uma nuvem de fumo do cachimbo.
-
---Bella cousa, a gymnastica! exclamou Affonso da Maia, accendendo com
-satisfação outro charuto.
-
-Villaça já ouvira que enfraquecia muito o peito. E o abbade, depois de
-dar um sorvo ao café, de lamber os beiços, soltou a sua bella phrase,
-arranjada em maxima:
-
---Esta educação faz athletas mas não faz christãos. Já o tenho dito...
-
---Já o tem dito abbade, já! exclamou Affonso alegremente. Diz-m'o todas
-as semanas... Quer você saber, Villaça? O nosso Custodio matta-me o
-bicho do ouvido para que eu ensine a cartilha ao rapaz. A cartilha!...
-
-Custodio ficou um momento a olhar Affonso, com uma face desconsolada e a
-caixa de rapé aberta na mão; a irreligião d'aquelle velho fidalgo,
-senhor de quasi toda a freguezia, era uma das suas dôres:
-
---A cartilha, sim meu senhor, ainda que v. ex.^a o diga assim com esse
-modo escarnica... A cartilha. Mas já não quero fallar na cartilha... Ha
-outras cousas. E se o digo tantas vezes, sr. Affonso da Maia, é pelo
-amor que tenho ao menino.
-
-E recomeçou a discussão, que voltava sempre ao café, quando Custodio
-jantava na quinta.
-
-O bom homem achava horroroso que n'aquella edade um tão lindo moço,
-herdeiro d'uma casa tão grande, com futuras responsabilidades na
-sociedade, não soubesse a sua doutrina. E narrou logo ao Villaça a
-historia da D. Cecilia Macedo: esta virtuosa senhora, mulher do
-escrivão, tendo passado deante do portão da quinta, avistara o
-Carlinhos, chamara-o, carinhosa e amiga de creanças como era, e
-pedira-lhe que lhe dissesse o _acto de contricção_. E que respondeu o
-menino? _Que nunca em tal ouvira fallar!_ Estas cousas entristeciam. E o
-sr. Affonso da Maia achava-lhe graça, ria-se! Ora alli estava o amigo
-Villaça que podia dizer se era caso para jubilar. Não, o sr. Affonso da
-Maia tinha muito saber, e correra muito mundo; mas d'uma cousa não o
-podia convencer, a elle pobre padre que nem mesmo o Porto vira ainda, é
-que houvesse felicidade e bom comportamento na vida sem a moral do
-cathecismo.
-
-E Affonso da Maia respondia com bom humor:
-
---Então que lhe ensinava você, abbade, se eu lhe entregasse o rapaz? Que
-se não deve roubar o dinheiro das algibeiras, nem mentir, nem maltratar
-os inferiores, por que isso é contra os mandamentos da lei de Deus, e
-leva ao inferno, hein? É isso?...
-
---Ha mais alguma cousa...
-
---Bem sei. Mas tudo isso que você lhe ensinaria que se não deve fazer,
-por ser um peccado que offende a Deus, já elle sabe que se não deve
-praticar, por que é indigno d'um cavalheiro e d'um homem de bem...
-
---Mas, meu senhor...
-
---Ouça abbade. Toda a differença é essa. Eu quero que o rapaz seja
-virtuoso por amor da virtude e honrado por amor da honra; mas não por
-medo ás caldeiras de Pero Botelho, nem com o engodo de ir para o reino
-do céu...
-
-E accrescentou, erguendo-se e sorrindo:
-
---Mas o verdadeiro dever de homens de bem, abbade, é quando vem, depois
-de semanas de chuva, um dia d'estes, ir respirar pelos campos e não
-estar aqui a discutir moral. Portanto arriba! e se o Villaça não está
-muito cançado, vamos dar ahi um giro pelas fazendas...
-
-O abbade suspirou como um santo que vê a negra impiedade dos tempos e
-Belzebut arrebatando as melhores rezes do rebanho; depois olhou a
-chavena e sorveu com delicias o resto do seu café.
-
-Quando Affonso da Maia, Villaça e o abbade recolheram do seu passeio
-pela freguezia, escurecera, havia luzes pelas salas, e tinham chegado já
-as Silveiras, senhoras ricas da quinta da _Lagoaça_.
-
-D. Anna Silveira, a solteira e mais velha, passava pela talentosa da
-familia, e era em pontos de doutrina e de etiqueta uma grande
-auctoridade em Resende. A viuva, D. Eugenia, limitava-se a ser uma
-excellente e pachorrenta senhora, de agradavel nutrição, trigueirota e
-pestanuda; tinha dois filhos, a Theresinha, a _noiva_ de Carlos, uma
-rapariguinha magra e viva com cabellos negros como tinta, e o
-morgadinho, o Eusebiosinho, uma maravilha muito fallada n'aquelles
-sitios.
-
-Quasi desde o berço este notavel menino revelara um edificante amor por
-alfarrabios e por todas as coisas do saber. Ainda gatinhava e já a sua
-alegria era estar a um canto, sobre uma esteira, embrulhado n'um
-cobertor, folheando _in-folios_, com o craneosinho calvo de sabio
-curvado sobre as lettras garrafaes de boa doutrina: depois de
-crescidinho tinha tal proposito que permanecia horas immovel n'uma
-cadeira, de perninhas bambas, esfuracando o nariz: nunca appetecera um
-tambor ou uma arma: mas cosiam-lhe cadernos de papel, onde o precoce
-letrado, entre o pasmo da mamã e da titi, passava dias a traçar
-algarismos, com a lingoasinha de fora.
-
-Assim na familia tinha a sua carreira destinada: era rico, havia de ser
-primeiro bacharel, e depois desembargador. Quando vinha a Santa Olavia,
-a tia Annica installava-o logo á mesa, ao pé do candieiro, a admirar as
-pinturas d'um enorme e rico volume, os _Costumes de todos os Povos do
-Universo_. Já lá estava essa noite, vestido como sempre de escossez, com
-o _plaid_ de flamejante xadrez vermelho e negro posto a tiracollo e
-preso ao hombro por uma dragona; para que conservasse o ar nobre d'um
-Stuart, d'um valoroso cavalleiro de Walter Scott, nunca lhe tiravam o
-bonet onde se arqueava com heroismo uma rutilante penna de gallo; e nada
-havia mais melancolico que a sua facesinha trombuda, a que o excesso de
-lombrigas dava uma molleza e uma amarellidão de manteiga, os seus
-olhinhos vagos e azulados, sem pestanas como se a sciencia lh'as tivesse
-já consummido, pasmando com sisudez para as camponesas da Sicilia, e
-para os guerreiros ferozes do Montenegro appoiados a escupetas, em
-pincaros de serranias.
-
-Deante do canapé das senhoras lá se achava tambem o fiel amigo, o dr.
-delegado, grave e digno homem, que havia cinco annos andava ponderando e
-meditando o casamento com a Silveira viuva, sem se
-decidir--contentando-se em comprar todos os annos mais meia duzia de
-lençoes, ou uma peça mais de bretanha, para arredondar o bragal. Estas
-compras eram discutidas em casa das Silveiras, á brazeira: e as allusões
-recatadas, mas inevitaveis, ás duas fronhasinhas, ao tamanho dos
-lençoes, aos cobertores de papa para os conchegos de janeiro--em logar
-de inflammar o magistrado, inquietavam-n'o. Nos dias seguintes apparecia
-preoccupado--como se a perspectiva da santa consummação do matrimonio
-lhe désse o arrepio de uma façanha a emprehender, o ter de agarrar um
-toiro, ou nadar nos cachões do Douro. Então, por qualquer rasão
-especiosa, adiava-se o casamento até ao S. Miguel seguinte. E alliviado,
-tranquillo, o respeitavel Dr. continuava a acompanhar as Silveiras a
-chás, festas de egreja ou pezames, vestido de preto, affavel, serviçal,
-sorrindo a D. Eugenia, não desejando mais prazeres que os d'essa
-convivencia paternal.
-
-Apenas Affonso entrou na sala deram-lhe logo noticia do contratempo: o
-dr. juiz de direito e a senhora não podiam vir, por que o magistrado
-tivera a dôr; e as Brancos tinham mandado recado a desculpar-se,
-coitadas, que era dia de tristeza em casa, por fazer desesete annos que
-morrera o mano Manuel...
-
---Bem, disse Affonso, bem. A dôr, a tristeza, o mano Manuel... Fazemos
-nós um voltaretesinho de quatro. Que diz o nosso dr. delegado?
-
-O excellente homem dobrou a sua fronte calva, murmurando que «estava ás
-ordens.»
-
---Então ao dever, ao dever! exclamou logo o abbade, esfregando as mãos,
-no ardor já da partida.
-
-Os parceiros dirigiram-se á saleta do jogo--que um reposteiro de damasco
-separava da sala, franzido agora, deixando ver a mesa verde, e nos
-circulos de luz que cahiam dos _abat-jour_ os baralhos abertos em leque.
-D'ahi a um momento o dr. delegado voltou, risonho, dizendo que «os
-deixara para um roquesinho de tres»; e retomou o seu logar ao lado de D.
-Eugenia, cruzando os pés debaixo da cadeira e as mãos em cima do ventre.
-As senhoras estavam fallando da dôr do dr. juiz de direito. Costumava
-dar-lhe todos os tres mezes: e era condemnavel a sua teima em não querer
-consultar medicos. Quanto mais que elle andava acabado, ressequindo,
-amarellando--e a D. Augusta, a mulher, a nutrir á larga, a ganhar
-côres!... A Viscondessa, enterrada em toda a sua gordura ao canto do
-canapé, com o leque aberto sobre o peito, contou que em Hespanha vira um
-caso egual: o homem chegara a parecer um esqueleto, e a mulher uma pipa;
-e ao principio fôra o contrario; até sobre isso se tinham feito uns
-versos...
-
---Humores, disse com melancolia o dr. delegado.
-
-Depois fallou-se nas Brancos; recordou-se a morte de Manuel Branco,
-coitadinho, na flor de idade! E que perfeição de rapaz! E que rapaz de
-juizo! D. Anna Silveira não se esquecera, como todos os annos, de lhe
-accender uma lamparina por alma, e de lhe resar tres padre-nossos. A
-viscondessa pareceu toda afflicta por se não ter lembrado... E ella que
-tinha o proposito feito!
-
---Pois estive para t'o mandar dizer! exclamou D. Anna. E as Brancos que
-tanto o agradecem, filha!
-
---Ainda está a tempo, observou o magistrado.
-
-D. Eugenia deu uma malha indolente no _crochet_ de que nunca se
-separava, e murmurou com um suspiro:
-
---Cada um tem os seus mortos.
-
-E no silencio que se fez, saiu do canto do canapé outro suspiro, o da
-viscondessa, que de certo se recordára do fidalgo d'Urigo de la Sierra,
-e murmurava:
-
---Cada um tem os seus mortos...
-
-E o digno dr. delegado terminou por dizer egualmente, depois de passar
-reflectidamente a mão pela calva:
-
---Cada um tem os seus mortos!
-
-Uma somnolencia ia pesando. Nas serpentinas douradas, sobre as consoles,
-as chammas das velas erguiam-se altas e tristes. Eusebiosinho voltava
-com cautella e arte as estampas dos _Costumes de todos os Povos_. E na
-saleta de jogo, atravez do reposteiro aberto, sentia-se a voz já
-arrenegada do abbade, rosnando com um rancor tranquillo, «passo, que é o
-que tenho feito toda a santa noite!»
-
-N'esse momento Carlos arremettia pela sala dentro arrastando a sua
-noiva, a Theresinha, toda no ar e vermelha de brincar; e logo a grulhada
-das suas vozes reanimou o canapé dormente.
-
-Os noivos tinham chegado d'uma pittoresca e perigosa viagem, e Carlos
-parecia descontente de sua mulher; comportara-se d'uma maneira atroz;
-quando elle ia governando a mala-posta, ella quizera empoleirar-se ao pé
-d'elle na almofada... Ora senhoras não viajam na almofada.
-
---E elle atirou-me ao chão, titi!
-
---Não é verdade! De mais a mais é mentirosa! Foi como quando chegámos á
-estalagem... Ella quiz-se deitar, e eu não quiz... A gente, quando se
-apeia de viagem, a primeira cousa que faz é tratar do gado... E os
-cavallos vinham a escorrer...
-
-A voz de D. Anna interrompeu, muito severa:
-
---Está bom, está bom, basta de tolices! Já cavallaram bastante. Senta-te
-ahi ao pé da sr.^a Viscondessa, Thereza... Olhe essa travessa do
-cabello... Que desproposito!
-
-Sempre detestára ver a sobrinha, uma menina delicada de dez annos,
-brincar assim com o Carlinhos. Aquelle bello e impetuoso rapaz, sem
-doutrina e sem proposito, aterrava-a; e pela sua imaginação de
-solteirona passavam sem cessar idéas, suspeitas de ultrages que elle
-poderia fazer á menina. Em casa, ao agasalhal-a antes de vir para S.^ta
-Olavia, recommendava-lhe com força que não fosse com o Carlos para os
-recantos escuros! que o não deixasse mecher-lhe nos vestidos!... A
-menina, que tinha os olhos muito langorosos, dizia: «Sim, titi.» Mas,
-apenas na quinta, gostava de abraçar o seu maridinho. Se eram casados,
-por que não haviam de fazer néné, ou ter uma loja e ganharem a sua vida
-aos beijinhos? Mas o violento rapaz só queria guerras, quatro cadeiras
-lançadas a galope, viagens a terras de nomes barbaros que o Brown lhe
-ensinava. Ella, despeitada, vendo o seu coração mal comprehendido,
-chamava-lhe _arrieiro_; elle ameaçava boxal-a, á ingleza;--e
-separavam-se sempre arrenegados.
-
-Mas quando ella se accomodou ao lado da Viscondessa, gravesinha e com as
-mãos no regaço--Carlos veiu logo estirar-se ao pé d'ella, meio deitado
-para as costas do canapé, bamboleando as pernas.
-
---Vamos, filho, tem maneiras, rosnou-lhe muito secca D. Anna.
-
---Estou cançado, governei quatro cavallos, replicou elle, insolente e
-sem a olhar.
-
-De repente porém, d'um salto, precipitou-se sobre o Eusebiosinho.
-Queria-o levar á Africa, a combatter os selvagens: e puchava-o já pelo
-seu bello _plaid_ de cavalleiro d'Escossia, quando a mamã accudiu
-atterrada.
-
---Não, com o Eusebiosinho não, filho! Não tem saude para essas
-cavalladas... Carlinhos, olhe que eu chamo o avô!
-
-Mas o Eusebiosinho, a um repellão mais forte, rolara no chão, soltando
-gritos medonhos. Foi um alvoroço, um levantamento. A mãe, tremula,
-agachada junto d'elle, punha-o de pé sobre as perninhas molles,
-limpando-lhe as grossas lagrimas, já com o lenço, já com beijos, quasi a
-chorar tambem. O delegado, consternado, apanhara o bonet escossez, e
-cofiava melancolicamente a bella pena de gallo. E a Viscondessa apertava
-ás mãos ambas o enorme seio, como se as palpitações a suffocassem.
-
-O Eusebiosinho foi então preciosamente collocado ao lado da titi; e a
-severa senhora, com um fulgôr de colera na face magra, apertando o leque
-fechado como uma arma, preparava-se a repellir o Carlinhos que, de mãos
-atraz das costas e aos pulos em roda do canapé, ria, arreganhando para o
-Eusebiosinho um labio feroz. Mas n'esse momento davam nove horas, e a
-desempenada figura do Brown appareceu á porta.
-
-Apenas o avistou, Carlos correu a refugiar-se por detraz da Viscondessa,
-gritando:
-
---Ainda é muito cedo, Brown, hoje é festa, não me vou deitar!
-
-Então Affonso da Maia, que se não movera aos uivos lacinantes do
-Silveirinha, disse de dentro, da mesa do voltarete, com severidade:
-
---Carlos, tenha a bondade de marchar já para a cama.
-
---Oh vôvô, é festa, que está cá o Villaça!
-
-Affonso da Maia pousou as cartas, atravessou a sala sem uma palavra,
-agarrou o rapaz pelo braço, e arrastou-o pelo corredor--em quanto elle,
-de calcanhares fincados no soalho, resistia, protestando com desespero:
-
---É festa, vôvô... É uma maldade!... O Villaça póde-se escandalisar...
-Oh vôvô, eu não tenho somno!
-
-Uma porta fechando-se abafou-lhe o clamor. As senhoras censuraram logo
-aquella rigidez: ahi estava uma cousa incomprehensivel; o avô
-deixava-lhe fazer todos os horrores, e recusava-lhe então o bocadinho da
-soirée...
-
---Oh sr. Affonso da Maia, por que não deixou estar a creança?
-
---É necessario methodo, é necessario methodo, balbuciou elle, entrando,
-todo pallido do seu rigor.
-
-E á mesa do voltarete, apanhando as cartas com as mãos tremulas, repetia
-ainda:
-
---É necessario methodo. Creanças á noite dormem.
-
-D. Anna Silveira voltando-se para o Villaça--que cedera o seu lugar ao
-dr. delegado e vinha palestrar com as senhoras--teve aquelle sorriso
-mudo que lhe franzia os labios, sempre que Affonso da Maia fallava em
-«methodos.»
-
-Depois, reclinando-se para as costas da cadeira e abrindo o leque,
-declarou, a transbordar d'ironia, que, talvez por ter a intelligencia
-curta, nunca comprehendera a vantagem dos «methodos»... Era á ingleza,
-segundo diziam: talvez provassem bem em Inglaterra; mas ou ella estava
-enganada, ou S.^ta Olavia era no reino de Portugal...
-
-E como Villaça inclinava timidamente a cabeça, com a sua pitada nos
-dedos, a esperta senhora, baixo para que Affonso dentro não ouvisse,
-desabafou. O sr. Villaça naturalmente não sabia, mas aquella educação do
-Carlinhos nunca fôra approvada pelos amigos da casa. Já a presença do
-Brown, um heretico, um protestante, como perceptor na familia dos Maias,
-causara desgosto em Resende. Sobretudo quando o sr. Affonso tinha
-aquelle santo do abbade Custodio, tão estimado, homem de tanto saber...
-Não ensinaria á creança habilidades de acrobata; mas havia de lhe dar
-uma educação de fidalgo, preparal-o para fazer boa figura em Coimbra.
-
-N'esse momento, o abbade, suspeitando uma corrente d'ar, erguera-se da
-mesa de jogo a fechar o reposteiro: então, como Affonso já não podia
-ouvir, D. Anna ergueu a voz:
-
---E olhe que o Custodio teve desgosto, sr. Villaça. Que o Carlinhos,
-coitadinho, nem uma palavra sabe de doutrina... Sempre lhe quero contar
-o que succedeu com a Macedo.
-
-Villaça já sabia.
-
---Ah já sabe? Lembras-te viscondessa? Com a Macedo, do acto de
-contricção...
-
-A viscondessa suspirou, erguendo um olhar mudo ao ceu atravez do tecto.
-
---Horroroso! continuou D. Anna. A pobre mulher chegou lá a nossa casa
-embuchada... E eu fez-me impressão. Até sonhei com aquillo tres noites a
-fio...
-
-Calou-se um momento. Villaça, embaraçado, acanhado, fazia girar a caixa
-de rapé nos dedos, com os olhos postos no tapete. Outro langor de
-somnolencia passou na sala; D. Eugenia, com as palpebras pesadas, fazia
-de vez em quando uma malha molle no _crochet_; e a noiva de Carlos,
-estirada para o canto do sophá, já dormia, com a boquinha aberta, os
-seus lindos cabellos negros caindo-lhe pelo pescoço.
-
-D. Anna, depois de bocejar de leve, retomou a sua idéa:
-
---Sem contar que o pequeno está muito atrazado. A não ser um bocado de
-inglez, não sabe nada... Nem tem prenda nenhuma!
-
---Mas é muito esperto, minha rica senhora! accudiu Villaça.
-
---É possivel, respondeu seccamente a intelligente Silveira.
-
-E, voltando-se para Euzebiosinho, que se conservava ao lado d'ella,
-quieto como se fosse de gesso:
-
---Oh filho, dize tu aqui ao sr. Villaça aquelles lindos versos que
-sabes... Não sejas atado, anda!... Vá, Euzebio, filho, sê bonito...
-
-Mas o menino, mollengão e tristonho, não se descollava das saias da
-titi: teve ella de o pôr de pé, amparal-o, para que o tenro prodigio não
-alluisse sobre as perninhas flacidas; e a mamã prometteu-lhe que, se
-dissesse os versinhos, dormia essa noite com ella...
-
-Isto decidio-o: abrio a bocca, e como d'uma torneira lassa veio de lá
-escorrendo, n'um fio de voz, um recitativo lento e babujado:
-
-
- É noite, o astro saudoso
- Rompe a custo um plumbeo céu,
- Tolda-lhe o rosto formoso
- Alvacento, humido véo...
-
-
-Disse-a toda--sem se mexer, com as mãosinhas pendentes, os olhos
-mortiços pregados na titi. A mamã fazia o compasso com a agulha do
-_crochet_; e a viscondessa, pouco a pouco, com um sorriso de quebranto,
-banhada no langor da melopea, ia cerrando as palpebras.
-
---Muito bem, muito bem! exclamou o Villaça, impressionado, quando o
-Euzebiosinho findou coberto de suor. Que memoria! Que memoria! É um
-prodigio!...
-
-Os creados entravam com o chá. Os parceiros tinham findado a partida; e
-o bom Custodio, de pé, com a sua chavena na mão, queixava-se amargamente
-da maneira porque aquelles senhores o tinham esfollado.
-
-Como ao outro dia era domingo, e havia missa cedo, as senhoras
-retiraram-se ás nove e meia. O serviçal dr. delegado dava o braço a D.
-Eugenia; um creado da quinta allumiava adiante com o lampeão; e o moço
-das Silveiras levava ao collo o Eusebiosinho que parecia um fardo
-escuro, abafado em mantas, com um chale amarrado na cabeça.
-
-
-Depois da ceia Villaça acompanhou ainda um momento Affonso da Maia á
-livraria, onde, antes de recolher, elle tomava sempre á ingleza o seu
-cognac e soda.
-
-O aposento, a que as velhas estantes de pau preto davam um ar severo,
-estava adormecido tepidamente, na penumbra suave, com as cortinas bem
-fechadas, um resto de lume na chaminé, e o globo do candieiro pondo a
-sua claridade serena na mesa coberta de livros. Em baixo, os repuchos
-cantavam alto no silencio da noite.
-
-Emquanto o escudeiro rolava para o pé da poltrona de Affonso, n'uma mesa
-baixa, os crystaes e as garrafas de soda, Villaça, com as mãos nos
-bolsos, de pé e pensativo, olhava a braza da acha que morria na cinza
-branca. Depois ergueu a cabeça, para murmurar, como ao acaso:
-
---Aquelle rapazito é esperto...
-
---Quem? O Euzebiosinho? disse Affonso, que se accomodava junto ao fogão,
-enchendo alegremente o cachimbo. Eu tremo de o ver cá, Villaça! O Carlos
-não gosta d'elle, e tivemos ahi um desgosto horroroso... Foi já ha
-mezes. Havia uma procissão e o Eusebiosinho ia de anjo... As Silveiras,
-excellentes mulheres, coitadas, mandaram-n'o cá para o mostrar á
-viscondessa, já vestido de anjo. Pois senhores, distrahimo-nos, e o
-Carlos que o andava a rondar apodera-se d'elle, leva-o para o sotão, e,
-meu caro Villaça... Em primeiro logar ia-o matando porque embirra com
-anjos... Mas o peior não foi isso. Imagine você o nosso terror, quando
-nos apparece o Eusebiosinho aos berros pela titi, todo desfrizado, sem
-uma aza, com a outra a bater-lhe os calcanhares dependurada de um
-barbante, a corôa de rosas enterrada até ao pescoço, e os galões de
-ouro, os tulles, as lentejoulas, toda a vestimenta celeste em
-frangalhos!... Emfim, um anjo depennado e sovado... Eu ia dando cabo do
-Carlos.
-
-Bebeu metade da sua soda, e passando a mão pelas barbas, accrescentou,
-com uma satisfação profunda:
-
---É levado do diabo, Villaça!
-
-O administrador, sentado agora á borda de uma cadeira, esboçou uma
-risadinha muda; depois ficou calado, olhando Affonso, com as mãos nos
-joelhos, como esquecido e vago. Ia abrir os labios, hesitou ainda,
-tossio de leve; e continuou a seguir pensativamente as faiscas que
-erravam sobre as achas.
-
-Affonso da Maia, no entanto, com as pernas estiradas para o lume,
-recomeçara a fallar do Silveirinha. Tinha tres ou quatro mezes mais que
-Carlos, mas estava enfesado, estiolado, por uma educação á portugueza:
-d'aquella edade ainda dormia no chôco com as criadas, nunca o lavavam
-para o não constiparem, andava couraçado de rolos de flanellas! Passava
-os dias nas saias da titi a decorar versos, paginas inteiras do
-_Cathecismo de Perseverança_. Elle por curiosidade um dia abrira este
-livreco e vira lá, «que o sol é que anda em volta da terra (como antes
-de Galileu), e que Nosso Senhor todas as manhãs dá as ordens ao sol,
-para onde ha d'ir e onde ha de parar, etc., etc.» E assim lhe estavam
-arranjando uma almasinha de bacharel...
-
-Villaça teve outra risadinha silenciosa. Depois, como subitamente
-decidido, ergueu-se, fez estalar os dedos, disse estas palavras:
-
---V. Ex.^a sabe que appareceu a Monforte?
-
-Affonso, sem mover a cabeça, reclinado para as costas da poltrona,
-perguntou tranquillamente, envolvido no fumo do cachimbo:
-
---Em Lisboa?
-
---Não senhor, em Paris. Viu-a lá o Alencar, esse rapaz que escreve, e
-que era muito de Arroios... Esteve até em casa d'ella.
-
-E ficaram calados. Havia annos que entre elles se não pronunciara o nome
-de Maria Monforte. Ao principio, quando se retirara para Santa Olavia, a
-preoccupação ardente de Affonso da Maia fôra tirar-lhe a filha que ella
-levara. Mas a esse tempo ninguem sabia onde Maria se refugiara com o seu
-principe: nem pela influencia das legações, nem pagando regiamente a
-policia secreta de Paris, de Londres, de Madrid, se poude descobrir a
-«toca da fera» como disia então o Villaça. Ambos decerto tinham mudado
-de nome; e, dadas essas naturezas bohemias, quem sabe se não errariam
-agora pela America, pela India, em regiões mais exoticas? Depois, pouco
-a pouco, Affonso da Maia descorçoado com aquelles esforços vãos, todo
-occupado do neto que crescia bello e forte ao seu lado, no
-enternecimento continuo que elle lhe dava foi esquecendo a Monforte e a
-sua outra neta, tão distante, tão vaga, a quem ignorava as feições, de
-quem mal sabia o nome. E agora de repente a Monforte apparecia outra vez
-em Paris! e o seu pobre Pedro estava morto! e aquella creança que dormia
-ao fundo do corredor nunca vira sua mãe...
-
-Erguera-se, passeiava na livraria, pesado e lento, com a cabeça baixa.
-Junto á mesa, ao pé do candieiro, o Villaça ia percorrendo um a um os
-papeis da sua carteira.
-
---E está em Paris com o italiano? perguntou Affonso do fundo sombrio do
-aposento.
-
-O Villaça ergueu a cabeça de sobre a carteira, e disse:
-
---Não senhor, está com quem lhe paga.
-
-E como Affonso se aproximava da mesa, sem uma palavra, Villaça,
-dando-lhe um papel dobrado, accrescentou:
-
---Todas estas cousas são muito graves, sr. Affonso da Maia, e eu não
-quiz fiar-me só na minha memoria. Por isso pedi ao Alencar, que é um
-excellente rapaz, que me escrevesse n'uma carta tudo o que me contou.
-Assim temos um documento. Eu não sei mais do que ahi está escripto. Póde
-V. Ex.^a ler...
-
-Affonso desdobrou as duas folhas de papel. Era uma historia simples, que
-o Alencar, o poeta das _Vozes d'Aurora_, o estylista de _Elvira_, ornára
-de flores e de galões dourados como uma capella em dia de festa.
-
-Uma noite, ao sahir da _Maison d'Or_, elle vira a Monforte saltar d'um
-_coupé_ com dois homens de gravata branca; tinham-se logo reconhecido; e
-um momento ficaram hesitando, um defronte do outro, debaixo do candieiro
-de gaz, no _trottoir_. Foi ella que, muito decidida, rindo, estendeu a
-mão ao Alencar, pediu-lhe que a visitasse, deu-lhe a _adresse_, o nome
-por que devia perguntar: M.^{me} de l'Estorade. E no seu _boudoir_, na
-manhã seguinte a Monforte fallou largamente de si: vivera tres annos em
-Vienna d'Austria com Tancredo, e com o papá que se lhes fôra reunir--e
-que lá continuava de certo, como em Arroios, refugiando-se pelos cantos
-das salas, pagando as _toilettes_ da filha, e dando palmadinhas ternas
-no hombro do amante como outr'ora no hombro do marido. Depois tinham
-estado em Monaco; e ahi, dizia o Alencar, «n'um drama sombrio de paixão
-que ella me fez entrever» o napolitano fora morto em duello. O papá
-morrera tambem n'esse anno, deixando apenas da sua fortuna uns magros
-contos de réis, e a mobilia da casa em Vienna: o velho arruinara-se com
-o luxo da filha, com as viagens, com as perdas de Tancredo ao
-_baccarat_. Passára então um tempo em Londres: e d'ahi viera habitar
-Paris, com Mr. de l'Estorade, um jogador, um espadachim, que acabou de a
-arrasar, e que a abandonou legando-lhe esse nome de l'Estorade, que lhe
-era a elle d'ora em diante inutil porque passava a adoptar outro mais
-sonoro de _Vicomte de Manderville_. Emfim, pobre, formosa, doida,
-excessiva, lançara-se na existencia d'aquellas mulheres de quem, dizia o
-Alencar, «a pallida Margarida Gautier, a gentil _Dama das Camelias_ é o
-typo sublime, o symbolo poetico, a quem muito será perdoado porque muito
-amaram.» E o poeta terminava: «ella está ainda no esplendor da belleza,
-mas as rugas virão, e então que avistará em redor de si? As rosas seccas
-e ensanguentadas da sua coroa de esposa. Sahi d'aquelle _boudoir_
-perfumado, com a alma dilacerada, meu Villaça! Pensava no meu pobre
-Pedro, que lá jaz sob o raio de luar, entre as raizes dos cyprestes. E,
-desilludido d'esta cruel vida, vim pedir ao absintho, no _boulevard_,
-uma hora de esquecimento.»
-
-Affonso da Maia deu um repellão á carta, menos enojado das torpezas da
-historia, que d'aquelles lyrismos relambidos.
-
-E recomeçou a passear, emquanto o Villaça recolhia religiosamente o
-documento que tinha relido muitas vezes, na admiração do sentimento, do
-estylo, do ideal d'aquella pagina.
-
---E a pequena? perguntou Affonso.
-
---Isso não sei. O Alencar não lhe fallaría na filha, nem elle mesmo sabe
-que ella a levou. Ninguem o sabe em Lisboa. Foi um detalhe que passou
-desapercebido no grande escandalo. Mas emquanto a mim, a pequena morreu.
-Senão, siga V. Ex.^a o meu raciocinio... Se a menina fosse viva, a mãe
-podia reclamar a legitima que cabe á creança... Ella sabe a casa que V.
-Ex.^a tem; ha de haver dias, e são frequentes na vida d'essas mulheres,
-em que lhe falte uma libra... Com o pretexto da educação da menina, ou
-de alimentos, já nos tinha importunado... Escrupulos não tem ella. Se o
-não faz é que a filha morreu. Não lhe parece a V. Ex.^a?
-
---Talvez, disse Affonso.
-
-E accrescentou, parando deante de Villaça--que olhava outra vez a braza
-morta tirando estalinhos dos dedos:
-
---Talvez... Sopônhamos que morreram ambas, e não se falle mais n'isso.
-
-Estava dando meia noite, os dois homens recolheram-se. E durante os dias
-que Villaça passou em S.^{ta} Olavia não se proferiu mais o nome de
-Maria Monforte.
-
-Mas, na vespera da partida do administrador para Lisboa, Affonso subio
-ao quarto d'elle, a entregar-lha as amendoas da Paschoa que Carlos
-mandava a Villaça Junior, um alfinete de peito com uma magnifica
-saphira--e disse-lhe em quanto o outro, sensibilisado, balbuciava os
-agradecimentos:
-
---Agora outra cousa, Villaça. Tenho estado a pensar. Vou escrever a meu
-primo Noronha, ao André que vive em Paris como você sabe, pedir-lhe que
-procure essa creatura, e que lhe offereça dez ou quinze contos de réis,
-se ella me quizer entregar a filha... No caso, está claro, que esteja
-viva... E quero que você saiba d'esse Alencar a morada da mulher em
-Paris.
-
-O Villaça não respondeu, occupado a metter entre as camisas, bem no
-fundo da maleta, a caixinha com o alfinete. Depois, erguendo-se, ficou
-deante d'Affonso, a coçar reflectidamente o queixo.
-
---Então que lhe parece, Villaça?
-
---Parece-me arriscado.
-
-E deu as suas razões. A menina devia ir nos seus treze annos. Estava uma
-mulher, com o seu temperamento formado, o caracter feito, talvez os seus
-habitos... Nem fallaria o portuguez. As saudades da mãe haviam de ser
-terriveis... Emfim, o sr. Affonso de Maia trazia uma extranha para
-casa...
-
---Você tem rasão, Villaça. Mas a mulher é uma prostituta, e a pequena é
-do meu sangue.
-
-N'esse momento Carlos, cuja voz gritava no corredor pelo vovô,
-precipitou-se no quarto, esguedelhado, escarlate como uma romã.--O Brown
-tinha achado uma corujasinha pequena! Queria que o vovô viesse, ver,
-andara a buscal-o por toda a casa... Era de morrer a rir... Muito
-pequena, muito feia, toda pellada, e com dois olhos de gente grande! E
-sabiam onde havia o ninho...
-
---Vem depressa, ó vovô! Depressa, que é necessario ir pol-a no ninho,
-por causa da coruja velha que se póde affligir... O Brown está-lhe a dar
-azeite. Oh Villaça vem ver! O vovô, pelo amor de Deus! Tem uma cara tão
-engraçada! Mas depressa, depressa, que a coruja velha póde dar pela
-falta!...
-
-E impaciente com a lentidão risonha do vôvo, tanta indifferença pela
-inquietação da coruja velha, abalou atirando com a porta.
-
---Que bom coração! exclamou o Villaça commovido. A pensar nas saudades
-da coruja... A mãe d'elle é que não tem saudades! Sempre o disse, é uma
-fera!
-
-Afonso encolheu tristemente os hombros. Iam já no corredor quando elle,
-parando um momento, baixando a voz:
-
---Tem-me esquecido de lhe contar, Villaça, o Carlos sabe que o pae que
-se matou...
-
-Villaça arredondou os olhos d'espanto. Era verdade. Uma manhã
-entrara-lhe pela livraria, e dissera-lhe:--ó vovô, o papá matou-se com
-uma pistola!--Naturalmente algum creado que lh'o contara...
-
---E vossa excellencia?
-
---Eu... Que havia de fazer? Disse-lhe que sim. Em tudo tenho obedecido
-ao que Pedro me pediu, n'essas quatro ou cinco linhas da carta que me
-deixou. Quiz ser enterrado em S.{ta} Olavia, ahi está. Não queria que o
-filho jámais soubesse da fuga da mãe; e por mim, de certo, nunca o
-saberá. Quiz que dois retratos que havia d'ella em Arroios fossem
-destruidos; como você sabe, obtiveram-se e destruiram-se. Mas não me
-pedio que occultasse ao rapaz o seu fim. E por isso, disse ao pequeno a
-verdade: disse-lhe que n'um momento de loucura, o papá tinha dado um
-tiro em si...
-
---E elle?
-
---E elle, replicou Affonso sorrindo, perguntou-me quem lhe tinha dado a
-pistola, e torturou-me toda uma manhã para lhe dar tambem uma pistola...
-E ahi está o resultado d'essa revelação: é que tive de mandar vir do
-Porto uma pistóla de vento...
-
-Mas, sentindo Carlos em baixo, aos berros ainda pelo avó, os dois
-apressaram-se a ir admirar a corujazinha.
-
-Villaça ao outro dia partiu para Lisboa.
-
-Passadas duas semanas, Affonso recebia uma carta do administrador,
-trasendo-lhe, com a _adresse_ da Monforte, uma revelação imprevista.
-Tinha voltado a casa do Alencar; e o poeta, recordando outros incidentes
-da sua visita a M.^{me} de l'Estorade, contara-lhe que no _boudoir_
-d'ella havia um adoravel retrato de creança, de olhos negros, cabello
-d'azeviche, e uma pallidez de nacar. Esta pintura ferira-o, não só por
-ser d'um grande pintor inglez, mas por ter, pendente sob o caixilho como
-um voto funerario, uma linda coroa de flores de cera brancas e roxas.
-Não havia outro quadro no _boudoir_: e elle perguntara á Monforte se era
-um retrato ou uma phantasia. Ella respondera que era o retrato da filha
-que lhe morrera em Londres. «Estão assim dissipadas todas as duvidas,
-accrescentava o Villaça. O pobre anjinho está n'uma patria. melhor. E
-para ella, _bem melhor_!»
-
-Affonso, todavia, escreveu a André de Noronha. A resposta tardou. Quando
-o primo André procurara M.^{me} de l'Estorade, havia semanas que ella
-partira para Allemanha, depois de vender mobilia e cavallos. E no _Club
-Imperial_, a que elle pertencia, um amigo que conhecia bem M.^{me} de
-l'Estorade e a vida galante de Paris, contara-lhe que a doida fugira com
-um certo Catanni, acrobata do Circo d'Inverno nos Campos Elyseos, homem
-de fórmas magnificas, um Appolo de feira, que todas as cocottes se
-disputavam e que a Monforte empolgára. Naturalmente corria agora a
-Allemanha com a companhia de cavallinhos.
-
-Affonso da Maia, enojado, remetteu esta carta ao Villaça sem um
-commentario. E o honrado homem respondeu: «Tem V. Ex.^a rasão, é atroz:
-e mais vale suppor que todos morreram, e não gastar mais cera com tão
-ruins defuntos...» E depois n'um post-scriptum accrescentava: «Parece
-certo abrir-se em breve o caminho de ferro até ao Porto: em tal caso,
-com permissão de V. Ex.^a, ahi irei e o meu rapaz a pedirmos-lhe alguns
-dias d'hospitalidade.»
-
-Esta carta foi recebida em S.^{ta} Olavia um domingo, ao jantar. Affonso
-lera alto o P. S. Todos se alegraram, na esperança de ver o bom Villaça
-em breve na quinta; e fallou-se mesmo em arranjar um grande pic-nic, rio
-acima.
-
-Mas, terça feira á noite, chegava um telegramma de Manuel Villaça
-annunciando que o pae morrera, n'essa manhã, d'uma apoplexia: dois dias
-depois vinham mais longos e tristes pormenores. Fora depois do almoço
-que, de repente, Villaça se sentira muito suffocado, e com tonturas:
-ainda tivera forças d'ir ao quarto respirar um pouco d'ether: mas ao
-voltar á sala cambaleava, queixava-se de vêr tudo amarello, e caiu de
-bruços, como um fardo, sobre o canapé. O seu pensamento, que se
-extinguia para sempre, ainda n'esse momento se occupou da casa que ha
-trinta annos administrava: balbuciou, a respeito d'uma venda de cortiça,
-recomendações que o filho já não poude perceber: depois deu um grande
-ai; e só tornou a abrir os olhos, para murmurar no derradeiro sopro
-estas derradeiras palavras: _Saudades ao patrão!_
-
-Affonso da Maia ficou profundamente afectado, e em S.^{ta} Olavia, mesmo
-entre os creados, a morte de Villaça foi como um lucto domestico. Uma
-d'essas tardes, o velho, muito melancolico, estava na livraria com um
-jornal esquecido nas mãos, os olhos cerrados--quando Carlos, que ao lado
-rabiscava carantonhas n'um papel, veio passar-lhe um braço pelo pescoço,
-e como comprehendendo os seus pensamentos perguntou-lhe se o Villaça não
-voltaria a vel-os à quinta.
-
---Não filho, nunca mais. Nunca mais o tornamos a vêr.
-
-O pequeno, entre os joelhos e os braços do velho, olhava o tapete, e,
-como recordando-se, murmurou tristemente:
-
---O Villaça, coitado... Dava estalinhos com os dedos... Oh vovô, para
-onde o levaram?
-
---Para o cemiterio, filho, para debaixo da terra.
-
-Então Carlos desprendeu-se devagar do abraço do avô, e muito sério, com
-os olhos n'elle:
-
---Ó vovô! porque não lhe mandas fazer uma capellinha bonita, toda de
-pedra, com uma figura, como tem o papá?
-
-O velho achegou-o ao peito, beijou-o, commovido:
-
---Tens razão, filho. Tens mais coração que eu!
-
-Assim o bom Villaça teve no cemiterio dos Prazeres o seu jazigo--que
-fôra a alta ambição da sua existência modesta.
-
-
-Outros annos tranquillos passaram sobre Santa Olavia.
-
-Depois uma manhã de julho, em Coimbra, Manuel Villaça (agora
-administrador da casa) trepava as escadas do Hotel Mondego, onde Affonso
-se hospedára com o neto, e entrava-lhe pela sala, vermelho, suando,
-berrando:
-
---_Neminè! Neminè!_
-
-Fizera Carlos o seu primeiro exame! E que exame! Teixeira que tinha
-acompanhado os senhores de Santa Olavia correu á porta, abraçou-se quasi
-chorando no menino, agora mais alto que elle, e muito formoso na sua
-batina nova.
-
-Em cima no quarto, Manuel Villaça, soprando ainda, limpando as bagas de
-suor, exclamava:
-
---Ficou tudo espantado, snr. Affonso da Maia! Os lentes até estavam
-commovidos. Ih Jesus! que talento! Vem a ser um grande homem, é o que
-todo o mundo disse... E que faculdade vai elle seguir, meu senhor?
-
-Affonso, que passeava, todo tremulo, respondeu com um sorriso:
-
---Não sei, Villaça... Talvez nos formemos ambos em Direito.
-
-Carlos assomou á porta, radiante, seguido do Teixeira e do outro
-escudeiro--que trazia _champagne_ n'uma salva.
-
---Então venha cá, seu maroto, disse Affonso muito branco, com os braços
-abertos. Bom exame, hein?... Eu...
-
-Mas não pôde proseguir: as lagrimas, duas a duas, corriam-lhe pela barba
-branca.
-
-
-
-
-IV
-
-
-Carlos ia formar-se em Medicina. E como dizia o dr. Trigueiros houvera
-sempre n'aquelle menino realmente uma «vocação para Esculapio».
-
-A «vocação» revelára-se bruscamente um dia que elle descobriu no sotão,
-entre rumas de velhos alfarrabios, um rolo manchado e antiquado de
-estampas anatomicas; tinha passado dias a recortal-as, pregando pelas
-paredes do quarto figados, liaças de intestinos, cabeças de perfil «com
-o recheio á mostra». Uma noite mesmo rompera pela sala em triumpho, a
-mostrar ás Silveiras, ao Euzebio, a pavorosa lithographia de um feto de
-seis mezes no utero materno. D. Anna recuou, com um grito, collando o
-leque á face: e o dr. delegado, escarlate tambem, arrebatou
-prudentemente Euzebiosinho para entre os joelhos, tapou-lhe a face com a
-mão. Mas o que escandalisou mais as senhoras foi a indulgencia de
-Affonso.
-
---Então que tem, então que tem? dizia elle sorrindo.
-
---Que tem, snr. Affonso da Maia!? exclamou D. Anna. São indecencias!
-
---Não ha nada indecente na natureza, minha rica senhora. Indecente é a
-ignorancia... Deixar lá o rapaz. Tem curiosidade de saber como é esta
-pobre machina por dentro, não ha nada mais louvavel...
-
-D. Anna abanava-se, suffocada. Consentir taes horrores nas mãos da
-criança!... Carlos começou a apparecer-lhe como um libertino «que já
-sabia coisas»; e não consentiu mais que a Therezinha brincasse só com
-elle pelos corredores de Santa Olavia.
-
-As pessoas sérias porém, o dr. juiz de direito, o proprio abbade,
-lamentando, sim, que não houvesse mais recato, concordavam que aquillo
-mostrava no pequeno uma grande queda para a medicina.
-
---Se péga, dizia então com um gesto prophetico o dr. Trigueiros, temos
-d'alli coisa grande!
-
-E parecia pegar.
-
-Em Coimbra, estudante do Lyceu, Carlos deixava os seus compendios de
-logica e rhetorica para se occupar de anatomia: n'umas ferias, ao abrir
-das malas, a Gertrudes fugiu espavorida vendo alvejar entre as dobras
-d'um casaco o riso d'uma caveira: e se algum criado da quinta adoecia,
-lá estava Carlos logo revolvendo o caso em velhos livros de medicina da
-livraria, sem lhe largar a beira do catre, fazendo diagnosticos que o
-bom dr. Trigueiros escutava respeitoso e pensativo. Diante do avô já
-chamava mesmo ao menino «o seu talentoso collega».
-
-Esta inesperada carreira de Carlos (pensára-se sempre que elle tomaria
-capello em Direito) era pouco approvada entre os fieis amigos de Santa
-Olavia. As senhoras sobretudo lamentavam que um rapaz que ia crescendo
-tão formoso, tão bom cavalleiro, viesse a estragar a vida receitando
-emplastros, e sujando as mãos no jorro das sangrias. O dr. juiz de
-direito confessou mesmo um dia a sua descrença de que o snr. Carlos da
-Maia quizesse «ser medico a sério».
-
---Ora essa! exclamou Affonso. E porque não ha de ser medico a sério? Se
-escolhe uma profissão é para a exercer com sinceridade e com ambição,
-como os outros. Eu não o educo para vadio, muito menos para amador;
-educo-o para ser util ao seu paiz...
-
---Todavia, arriscou o dr. juiz de direito com um sorriso fino, não lhe
-parece a v. exc.^a que ha outras coisas, importantes tambem, e mais
-proprias talvez, em que seu neto se poderia tornar util?...
-
---Não vejo, replicou Affonso da Maia. N'um paiz em que a occupação geral
-é estar doente, o maior serviço patriotico é incontestavelmente saber
-curar.
-
---V. exc.^a tem resposta para tudo, murmurou respeitosamente o
-magistrado.
-
-E o que justamente seduzia Carlos na medicina era essa vida «a sério»,
-pratica e util, as escadas de doentes galgadas á pressa no fogo de uma
-vasta clinica, as existencias que se salvam com um golpe de bisturí, as
-noites veladas á beira de um leito, entre o terror de uma familia, dando
-grandes batalhas á morte. Como em pequeno o tinham encantado as fórmas
-pittorescas das vísceras--attrahiam-no agora estes lados militantes e
-heroicos da sciencia.
-
-Matriculou-se realmente com enthusiasmo. Para esses longos annos de
-quieto estudo o avô preparára-lhe uma linda casa em Cellas, isolada, com
-graças de cottage inglez, ornada de persianas verdes, toda fresca entre
-as arvores. Um amigo de Carlos (um certo João da Ega) poz-lhe o nome de
-«Paços de Cellas», por causa de luxos então raros na Academia, um tapete
-na sala, poltronas de marroquim, panoplias d'armas, e um escudeiro de
-libré.
-
-Ao principio este esplendor tornou Carlos venerado dos fidalgotes, mas
-suspeito aos democratas; quando se soube porém que o dono d'estes
-confortos lia Proudhon, Augusto Comte, Herbert Spencer, e considerava
-tambem o paiz uma _choldra ignobil_--os mais rigidos revolucionarios
-começaram a vir aos Paços de Cellas tão familiarmente como ao quarto do
-Trovão, o poeta bohemio, o duro socialista, que tinha apenas por mobilia
-uma enxerga e uma Biblia.
-
-Ao fim d'alguns mezes, Carlos, sympathico a todos, conciliára Dandys e
-Philosophos: e trazia muitas vezes no seu _break_, lado a lado, o Serra
-Torres, um monstro que já era addido honorario em Berlim e todas as
-noites punha casaca, e o famoso Craveiro que meditava a _Morte de
-Satanaz_, encolhido no seu gabão d'Aveiro, com o seu grande barrete de
-lontra.
-
-Os Paços de Cellas, sob a sua apparencia preguiçosa e campestre,
-tornaram-se uma fornalha de actividades. No quintal fazia-se uma
-gymnastica scientifica. Uma velha cozinha fôra convertida em sala
-d'armas--porque n'aquelle grupo a esgrima passava como uma necessidade
-social. Á noite, na sala de jantar, moços sérios faziam um _whist_
-sério: e no salão, sob o lustre de crystal, com o _Figaro_, o _Times_ e
-as _Revistas_ de Paris e de Londres espalhadas pelas mesas, o Gamacho ao
-piano tocando Chopin ou Mozart, os litteratos estirados pelas
-poltronas--havia ruidosos e ardentes cavacos, em que a Democracia, a
-Arte, o Positivismo, o Realismo, o Papado, Bismark, o Amor, Hugo e a
-Evolução, tudo por seu turno flammejava no fumo do tabaco, tudo tão
-ligeiro e vago como o fumo. E as discussões metaphysicas, as proprias
-certezas revolucionarias adquiriam um sabor mais requintado com a
-presença do criado de farda desarrolhando a cerveja, ou servindo
-croquettes.
-
-Carlos, naturalmente, não tardou a deixar pelas mesas, com as folhas
-intactas, os seus expositores de medicina. A Litteratura e a Arte, sob
-todas as fórmas, absorveram-no deliciosamente. Publicou sonetos no
-_Instituto_--e um artigo sobre o Parthenon: tentou, n'um _atelier_
-improvisado, a pintura a oleo: e compoz contos archeologicos, sob a
-influencia da _Salammbô_. Além d'isso todas as tardes passeava os seus
-dois cavallos. No segundo anno levaria um _R_ se não fosse tão conhecido
-e rico. Tremeu, pensando no desgosto do avô: moderou a dissipação
-intellectual, acantoou-se mais na sciencia que escolhera: immediatamente
-lhe deram um _accessit_. Mas tinha nas veias o veneno do dilettantismo:
-e estava destinado, como dizia João da Ega, a ser um d'esses medicos
-litterarios que inventam doenças de que a humanidade papalva se presta
-logo a morrer!
-
-O avô, ás vezes, vinha passar uma, duas semanas a Cellas. Nos primeiros
-tempos a sua presença, agradavel aos cavalheiros da partilha de _whist_,
-desorganisou o cavaco litterario. Os rapazes mal ousavam estender o
-braço para o copo da cerveja; e os _vossa excellencia_ isto, _vossa
-excellencia_ aquillo, regelavam a sala. Pouco a pouco, porém, vendo-o
-apparecer em chinelas e de cachimbo na boca, estirar-se na poltrona com
-ares sympathicos de patriarcha bohemio, discutir arte e litteratura,
-contar anecdotas do seu tempo d'Inglaterra e d'Italia, começaram a
-consideral-o como um camarada de barbas brancas. Diante d'elle já se
-fallava de mulheres e de estroinices. Aquelle velho fidalgo, tão rico,
-que lêra Michelet e o admirava--chegou mesmo a enthusiasmar os
-democratas. E Affonso gozava alli tambem horas felizes, vendo o seu
-Carlos centro d'aquelles moços de estudo, de ideal e de veia.
-
-Carlos passava as ferias grandes em Lisboa, ás vezes em Paris ou
-Londres; mas por Nataes e Pascoas vinha sempre a Santa Olavia, que o avô
-mais só se entretinha a embellezar com amor. As salas tinham agora
-soberbos pannos d'Arraz, paizagens de Rousseau e Daubigny, alguns moveis
-de luxo e d'arte. Das janellas a quinta offerecia aspectos nobres de
-parque inglez: através dos macios taboleiros de relva, davam curvas
-airosas as ruas areadas: havia marmores entre as verduras; e gordos
-carneiros de luxo dormiam sob os castanheiros. Mas a existencia n'este
-meio rico não era agora tão alegre: a viscondessa, cada dia mais
-nutrida, cahia em somnos congestivos logo depois do jantar; o Teixeira
-primeiro, a Gertrudes depois, tinham morrido, ambos de pleurizes, ambos
-no entrudo: e já se não via tambem á mesa a bondosa face do abbade, que
-lá jazia sob uma cruz de pedra, entre os goivos e as rosas de todo o
-anno. O dr. juiz de direito com a sua concertina passára para a Relação
-do Porto; D. Anna Silveira, muito doente, nunca sahia; a Therezinha
-fizera-se uma rapariguinha feia, amarella como uma cidra; o
-Euzebiosinho, mollengão e tristonho, já sem vestigios sequer do seu
-primeiro amor aos alfarrabios e ás letras, ia casar na Regoa. Só o dr.
-delegado, esquecido n'aquella comarca, estava o mesmo, mais calvo
-talvez, sempre affavel, amando sempre a pachorrenta Eugenia. E quasi
-todas as tardes, o velho Trigueiros se apeava da sua egoa branca ao
-portão para vir cavaquear com o collega.
-
-As ferias, realmente, só eram divertidas para Carlos quando trazia para
-a quinta o seu intimo, o grande João da Ega, a quem Affonso da Maia se
-affeiçoára muito, por elle e pela sua originalidade, e por ser sobrinho
-d'André da Ega, velho amigo da sua mocidade e, muitas vezes outr'ora,
-hospede tambem em Santa Olavia.
-
-Ega andava-se formando em Direito, mas devagar, muito pausadamente--ora
-reprovado, ora perdendo o anno. Sua mãi, rica, viuva e beata, retirada
-n'uma quinta ao pé de Celorico de Basto com uma filha, beata, viuva e
-rica tambem, tinha apenas uma noção vaga do que o Joãozinho fizera, todo
-esse tempo, em Coimbra. O capellão affirmava-lhe que tudo havia de
-acabar a contento, e que o menino seria um dia doutor como o papá e como
-o titi: e esta promessa bastava á boa senhora, que se occupava sobretudo
-da sua doença de entranhas e dos confortos d'esse padre Seraphim.
-Estimava mesmo que o filho estivesse em Coimbra, ou algures, longe da
-quinta, que elle escandalisava com a sua irreligião e as suas facecias
-hereticas.
-
-João da Ega, com effeito, era considerado não só em Celorico, mas tambem
-na Academia que elle espantava pela audacia e pelos ditos, como o maior
-atheu, o maior demagogo, que jámais apparecera nas sociedades humanas.
-Isto lisonjeava-o: por systema exagerou o seu odio á Divindade, e a toda
-a Ordem social: queria o massacre das classes-médias, o amor livre das
-ficções do matrimonio, a repartição das terras, o culto de Satanaz. O
-esforço da intelligencia n'este sentido terminou por lhe influenciar as
-maneiras e a physionomia; e, com a sua figura esgrouviada e sêcca, os
-pêllos do bigode arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro
-entalado no olho direito--tinha realmente alguma coisa de rebelde e de
-satanico. Desde a sua entrada na Universidade renovára as tradições da
-antiga Bohemia: trazia os rasgões da batina cozidos a linha branca;
-embebedava-se com carrascão; á noite, na Ponte, com o braço erguido,
-atirava injurias a Deus. E no fundo muito sentimental, enleado sempre em
-amores por meninas de quinze annos, filhas de empregados, com quem ás
-vezes ia passar a soirée, levando-lhes cartuchinhos de dôce. A sua fama
-de fidalgote rico tornava-o appetecido nas familias.
-
-Carlos escarnecia estes idyllios futricas; mas tambem elle terminou por
-se enredar n'um episodio romantico com a mulher d'um empregado do
-governo civil, uma lisboetasinha, que o seduziu pela graça d'um corpo de
-boneca e por uns lindos olhos verdes. A ella o que a fanatisára fôra o
-luxo, o _groom_, a egoa ingleza de Carlos. Trocaram-se cartas; e elle
-viveu semanas banhado na poesia aspera e tumultuosa do primeiro amor
-adultero. Infelizmente a rapariga tinha o nome barbaro de Hermengarda; e
-os amigos de Carlos, descoberto o segredo, chamavam-lhe já _Eurico o
-presbytero_, dirigiam para Cellas missivas pelo correio com este nome
-odioso.
-
-Um dia Carlos, andava tomando o sol na Feira, quando o empregado do
-governo civil passou junto d'elle com o filhinho pela mão. Pela primeira
-vez via tão de perto o marido de Hermengarda. Achou-o enxovalhado e
-macilento. Mas o pequerrucho era adoravel, muito gordo, parecendo mais
-roliço por aquelle dia de janeiro sob os agasalhos de lã azul,
-tremelicando nas pobres perninhas rôxas de frio, e rindo na clara
-luz--rindo todo elle, pelos olhos, pelas covinhas do queixo, pelas duas
-rosas das faces. O pae amparava-o; e o encanto, o cuidado com que o
-rapaz ia assim guiando os passos do seu filho, impressionou Carlos. Era
-no momento em que elle lia Michelet--e enchia-lhe a alma a veneração
-litteraria da santidade domestica. Sentiu-se canalha em andar alli de
-cima do seu _dog-cart_, a preparar friamente a vergonha, e as lagrimas
-d'aquelle pobre pae tão inoffensivo no seu paletot coçado! Nunca mais
-respondeu ás cartas em que Hermengarda lhe chamava _seu ideal_. Decerto
-a rapariga se vingou, intrigando-o; porque o empregado do governo civil,
-d'ahi por diante, dardejava sobre elle olhares sangrentos.
-
-Mas a grande «topada sentimental de Carlos», como disse o Ega, foi
-quando elle, ao fim d'umas ferias, trouxe de Lisboa uma soberba rapariga
-hespanhola, e a installou n'uma casa ao pé de Cellas. Chamava-se
-Encarnacion. Carlos alugou-lhe ao mez uma vittoria com um cavallo branco
-e Encarnacion fanatisou Coimbra como a apparição d'uma _Dama das
-Camelias_, uma flôr de luxo das civilisações superiores. Pela Calçada,
-pela estrada da Beira, os rapazes paravam, pallidos de emoção, quando
-ella passava, reclinada na vittoria, mostrando o sapato de setim, um
-pouco da meia de sêda, languida e desdenhosa, com um cãosinho branco no
-regaço.
-
-Os poetas da Academia fizeram-lhe versos em que Encarnacion foi chamada
-_Lirio d'Israel_, _Pomba da Arca_, e _Nuvem da Manhã_. Um estudante de
-theologia, rude e sebento transmontano, quiz casar com ella. Apesar das
-instancias de Carlos, Encarnacion recusou; e o theologo começou a rondar
-Cellas, com um navalhão, para «beber o sangue» ao Maia. Carlos teve de
-lhe dar bengaladas.
-
-Mas a creatura, desvanecida, tornou-se intoleravel, fallando sem cessar
-d'outras paixões que inspirára em Madrid e em Lisboa, do muito que lhe
-dera o conde de tal, o marquez sicrano, da grande posição da sua familia
-ainda aparentada com os Medina-C[oe]li: os seus sapatos de setim verde
-eram tão antipathicos como a sua voz estridula: e quando tentava
-elevar-se ás conversações que ouvia, rompia a chamar ladrões aos
-republicanos, a celebrar os tempos de D. Isabel, a sua _gracia_, o seu
-_salero_--sendo muito conservadora como todas as prostitutas. João da
-Ega odiava-a. E Craveiro declarou que não voltava aos Paços de Cellas
-emquanto por lá apparecesse aquelle montão de carne, pago ao arratel,
-como a de vacca.
-
-Emfim, uma tarde Baptista, o famoso criado de quarto de Carlos
-surprehendeu-a com um Juca que fazia de dama no Theatro Academico. Ahi
-estava, emfim, um pretexto! E, convenientemente paga, a parenta dos
-Medina-C[oe]li, o _Lirio d'Israel_, a admiradora dos Bourbons, foi
-recambiada a Lisboa e á rua de S. Roque, seu elemento natural.
-
-Em agosto, no acto da formatura de Carlos, houve uma alegre festa em
-Cellas. Affonso viera de Santa Olavia, Villaça de Lisboa; toda a tarde
-no quintal, d'entre as acacias e as bella-sombras, subiram ao ar mólhos
-de foguetes; e João da Ega, que levára o seu ultimo _R_ no seu ultimo
-anno, não descansou, em mangas de camisa, pendurando lanternas
-venezianas pelos ramos, no trapesio e em roda do poço, para a
-illuminação da noite. Ao jantar, a que assistiam lentes, Villaça,
-enfiado e tremulo, fez um _speech_; ia citar o nosso _immortal Castilho_
-quando sob as janellas rompeu, a grande ruido de tambor e pratos, o
-_Hymno Academico_. Era uma serenata.--Ega, vermelho, de batina
-desabotoada, a luneta para traz das costas, correu á sacada, a perorar:
-
---Ahi temos o nosso Maia, Carolus Eduardus ab Maia, começando a sua
-gloriosa carreira, preparado para salvar a humanidade enferma--ou acabar
-de a matar, segundo as circumstancias! A que parte remota d'estes reinos
-não chegou já a fama do seu genio, do seu _dog-cart_, do sebaceo
-_accessit_ que lhe ennodôa o passado, e d'este vinho do Porto,
-contemporaneo dos heroes de 20, que eu, homem de revolução e homem de
-carraspana, eu, João da Ega, Johanes ab Ega...
-
-O grupo escuro em baixo desatou aos _vivas_. A philarmonica, outros
-estudantes, invadiram os Paços. Até tarde, sob as arvores do quintal, na
-sala atulhada de pilhas de pratos, os criados correram com salvas de
-dôce, não cessou d'estalar o _champagne_. E Villaça, limpando a testa, o
-pescoço, abafado de calor, ia dizendo a um, a outro, a si mesmo tambem:
-
---Grande coisa, ter um curso!
-
-
-E então Carlos Eduardo partira para a sua longa viagem pela Europa. Um
-anno passou. Chegára esse outono de 1875: e o avô installado emfim no
-Ramalhete esperava por elle anciosamente. A ultima carta de Carlos viera
-de Inglaterra, onde andava, dizia elle, a estudar a admiravel
-organisação dos hospitaes de crianças. Assim era: mas passeava tambem
-por Brighton, apostava nas corridas de Goodwood, fazia um idyllio
-errante pelos lagos da Escocia, com uma senhora hollandeza, separada de
-seu marido, veneravel magistrado da Haya, uma M.^{me} Rughel, soberba
-creatura de cabellos d'ouro fulvo, grande e branca como uma nympha de
-Rubens.
-
-Depois começaram a chegar, dirigidas ao Ramalhete, caixas successivas de
-livros, outras de instrumentos e apparelhos, toda uma bibliotheca e todo
-um laboratorio--que trazia o Villaça, manhãs inteiras, aturdido pelos
-armazens da alfandega.
-
---O meu rapaz vem com grandes idéas de trabalho, dizia Affonso aos
-amigos.
-
-Havia quatorze mezes que elle o não via, o «seu rapaz», a não ser n'uma
-photographia mandada de Milão, em que todos o acharam magro e triste. E
-o coração batia-lhe forte, na linda manhã de outono, quando do terraço
-do Ramalhete, de binoculo na mão, viu assomar vagarosamente, por traz do
-alto predio fronteiro, um grande paquete do _Royal Mail_ que, lhe trazia
-o seu neto.
-
-Á noite os amigos da casa, o velho Sequeira, D. Diogo Coutinho, o
-Villaça--não se fartavam d'admirar «o bem que a viagem fizera a Carlos».
-Que differença da photographia! Que forte, que saudavel!
-
-Era decerto um formoso e magnifico moço, alto, bem feito, de hombros
-largos, com uma testa de marmore sob os anneis dos cabellos pretos, e os
-olhos dos Maias, aquelles irresistiveis olhos do pai, de um negro
-liquido, ternos como os d'elle e mais graves. Trazia a barba toda, muito
-fina, castanho-escura, rente na face, aguçada no queixo--o que lhe dava,
-com o bonito bigode arqueado aos cantos da boca, uma physionomia de
-bello cavalleiro da Renascença. E o avô, cujo olhar risonho e humido
-transbordava d'emoção, todo se orgulhava de o vêr, de o ouvir, n'uma
-larga veia, fallando da viagem, dos bellos dias de Roma, do seu mau
-humor na Prussia, da originalidade de Moscow, das paizagens da
-Hollanda...
-
---E agora? perguntou-lhe o Sequeira, depois de um momento de silencio em
-que Carlos estivera bebendo o seu cognac e soda. Agora que tencionas tu
-fazer?
-
---Agora, general? respondeu Carlos, sorrindo e pousando o copo.
-Descançar primeiro e depois passar a ser uma gloria nacional!
-
-Ao outro dia, com effeito, Affonso veiu encontral-o na sala de
-bilhar--onde tinham sido collocados os caixotes--a despregar, a
-desempacotar, em mangas de camisa e assobiando com enthusiasmo. Pelo
-chão, pelos sophás, alastrava-se toda uma litteratura em rumas de
-volumes graves; e aqui e além, por entre a palha, através das lonas
-descozidas, a luz faiscava n'um crystal, ou reluziam os vernizes, os
-metaes polidos de apparelhos. Affonso pasmava em silencio para aquelle
-pomposo apparato do saber.
-
---E onde vaes tu accommodar este museo?
-
-Carlos pensara em arranjar um vasto laboratorio alli perto no bairro,
-com fornos para trabalhos chimicos, uma sala disposta para estudos
-anatomicos e physiologicos, a sua bibliotheca, os seus apparelhos, uma
-concentração methodica de todos os instrumentos de estudo...
-
-Os olhos do avô illuminavam-se ouvindo este plano grandioso.
-
---E que não te prendam questões de dinheiro, Carlos! Nós fizemos n'estes
-ultimos annos de Santa Olavia algumas economias...
-
---Boas e grandes palavras, avô! Repita-as ao Villaça.
-
-As semanas foram passando n'estes planos de installação. Carlos trazia
-realmente resoluções sinceras de trabalho: a sciencia como mera
-ornamentação interior do espirito, mais inutil para os outros que as
-proprias tapessarias do seu quarto, parecia-lhe apenas um luxo de
-solitario: desejava ser util. Mas as suas ambições fluctuavam, intensas
-e vagas; ora pensava n'uma larga clinica; ora na composição macissa de
-um livro iniciador; algumas vezes em experiencias physiologicas,
-pacientes e reveladoras... Sentia em si, ou suppunha sentir, o tumulto
-de uma força, sem lhe discernir a linha d'applicação. «Alguma cousa de
-brilhante,» como elle dizia: e isto para elle, homem de luxo e homem
-d'estudo, significava um conjuncto de representação social e de
-actividade scientifica; o remecher profundo de idéas entre as
-influencias delicadas da riqueza; os elevados vagares da philosophia
-entremeados com requintes de _sport_ e de gosto; um Claude Bernard que
-fosse tambem um Morny... No fundo era um _dilletante_.
-
-Villaça fôra consultado sobre a localidade propria para o laboratorio; e
-o procurador, muito lisongeado, jurou uma diligencia incançavel.
-Primeira cousa a saber, o nosso doutor tencionava fazer clinica?...
-
-Carlos não decidira fazer _exclusivamente_ clinica: mas desejava de
-certo dar consultas, mesmo gratuitas, como caridade e como pratica.
-Então Villaça suggeriu que o consultorio estivesse separado do
-laboratorio.
-
---E a minha razão é esta: a vista de apparelhos, machinas, cousas, faz
-esmorecer os doentes...
-
---Tem você razão, Villaça! exclamou Affonso. Já meu pae dizia: poupe-se
-ao boi a vista do malho.
-
---Separados, separados, meu senhor, affirmou o procurador n'um tom
-profundo.
-
-Carlos concordou. E Villaça bem depressa descobriu, para o laboratorio,
-um antigo armazem, vasto e retirado, ao fundo de um pateo, junto ao
-largo das Necessidades.
-
---E o consultorio, meu senhor, não é aqui, nem acolá; é no Rocio, alli
-em pleno Rocio!
-
-Esta idéa do Villaça não era desinteressada. Grande enthusiasta da
-_Fusão_, membro do Centro progressista, Villaça Junior aspirava a ser
-vereador da camara, e mesmo em dias de satisfação superior (como quando
-o seu anniversario natalicio vinha annunciado no _Illustrado_, ou quando
-no Centro citava com applauso a Belgica) parecia-lhe que tantas aptidões
-mereciam do seu partido uma cadeira em S. Bento. Um consultorio
-gratuito, no Rocio, o consultorio do dr. Maia, «do seu Maia» reluziu-lhe
-logo vagamente como um elemento de influencia. E tanto se agitou, que
-d'ahi a dois dias tinha lá alugado um primeiro andar d'esquina.
-
-Carlos mobilou-o com luxo. N'uma antecamara, guarnecida de banquetas de
-marroquim, devia estacionar, á franceza, um creado de libré. A sala de
-espera dos doentes alegrava com o seu papel verde de ramagens prateadas,
-as plantas em vasos de Rouen, quadros de muita côr, e ricas poltronas
-cercando a jardineira coberta de collecções do _Charivari_, de vistas
-estereoscopicas, d'albuns de actrizes semi-nuas; para tirar inteiramente
-o ar triste de consultorio até um piano mostrava o seu teclado branco.
-
-O gabinete de Carlos ao lado era mais simples, quasi austero, todo em
-velludo verde-negro, com estantes de pau preto. Alguns amigos que
-começavam a cercar Carlos, Taveira, seu contemporaneo e agora visinho do
-Ramalhete, o Cruges, o marquez de Souzellas, com quem percorrera a
-Italia--vieram vêr estas maravilhas. O Cruges correu uma escala no piano
-e achou-o abominavel; Taveira absorveu-se nas photographias d'actrizes;
-e a unica approvação franca veiu do marquez, que depois de contemplar o
-divan do gabinete, verdadeiro movel de serralho, vasto, voluptuoso,
-fôfo, experimentou-lhe a doçura das molas e disse, piscando o olho a
-Carlos:
-
---A calhar.
-
-Não pareciam acreditar n'estes preparativos. E todavia eram sinceros.
-Carlos até fizera annunciar o consultorio nos jornaes; quando viu porem
-o seu nome em letras grossas, entre o de uma engommadeira á Boa Hora e
-um reclamo de casa de hospedes,--encarregou Villaça de retirar o
-annuncio.
-
-Occupava-se então mais do laboratorio, que decidira installar no
-armazem, ás Necessidades. Todas as manhãs, antes de almoço, ía visitar
-as obras. Entrava-se por um grande pateo, onde uma bella sombra cobria
-um poço, e uma trepadeira se mirrava nos ganchos de ferro que a prendiam
-ao muro. Carlos já decidira transformar aquelle espaço em fresco
-jardinete inglez; e a porta do casarão encantava-o, ogival e nobre,
-resto de fachada d'ermida, fazendo um accesso veneravel para o seu
-sanctuario de sciencia. Mas dentro os trabalhos arrastavam-se sem fim;
-sempre um vago martellar preguiçoso n'uma poeira alvadia; sempre as
-mesmas coifas de ferramentas jazendo nas mesmas camadas de aparas! Um
-carpinteiro esgouroviado e triste parecia estar alli, desde seculos,
-aplainando uma taboa eterna com uma fadiga langorosa; e no telhado os
-trabalhadores que andavam alargando a claraboia, não cessavam de
-assobiar, no sol d'inverno, alguma lamuria de fado.
-
-Carlos queixava-se ao sr. Vicente, o mestre d'obras, que lhe asseverava
-invariavelmente «como d'ahi a dois dias havia de s. ex.^a vêr a
-differença.» Era um homem de meia edade, risonho, de fallar doce, muito
-barbeado, muito lavado, que morava ao pé do Ramalhete, e tinha no bairro
-fama de republicano. Carlos, por sympathia, como visinho, apertava-lhe
-sempre a mão: e o sr. Vicente, considerando-o por isso um «avançado», um
-democrata, confiava-lhe as suas esperanças. O que elle desejava primeiro
-que tudo era um 93, como em França...
-
---O que, sangue? dizia Carlos, olhando a fresca, honrada, e roliça face
-do demagogo.
-
---Não, senhor, um navio, um simples navio...
-
---Um navio?
-
---Sim, senhor, um navio fretado á custa da nação, em que se mandasse
-pela barra fóra o rei, a familia real, a _cambada_ dos ministros, dos
-politicos, dos deputados, dos intrigantes, etc. e etc.
-
-Carlos sorria, ás vezes argumentava com elle.
-
---Mas está o sr. Vicente bem certo, que apenas a _cambada_, como tão
-exactamente diz, desapparecesse pela barra fóra, ficavam resolvidas
-todas as cousas e tudo atolado em felicidade?
-
-Não, o sr. Vicente não era tão «burro» que assim pensasse. Mas,
-supprimida a cambada, não via s. ex.^a? Ficava o paiz desatravancado; e
-podiam então começar a governar os homens de saber e de progresso...
-
---Sabe v. ex.^a qual é o nosso mal? Não é má vontade d'essa gente; é
-muita somma de ignorancia. Não sabem. Não sabem nada. Elles não são
-maus, mas são umas cavalgaduras!
-
---Bem, então essas obras, amigo Vicente, dizia-lhe Carlos, tirando o
-relogio e despedindo-se d'elle com um valente _shakehands_, veja se me
-andam. Não lh'o peço como proprietario, é como correligionario.
-
---D'aqui a dois dias ha de v. ex.^a vêr a differença, respondia o mestre
-d'obras, desbarretando-se.
-
-No Ramalhete, pontualmente ao meio dia, tocava a sineta do almoço.
-Carlos encontrava quasi sempre o avô já na sala de jantar, acabando de
-percorrer algum jornal junto ao fogão, onde a tepida suavidade d'aquelle
-fim de outono não permittia accender lume, mas verdejando todo de
-plantas d'estufa.
-
-Em redor, nos aparadores de carvalho lavrado, rebrilhavam suavemente, no
-seu luxo macisso e sobrio, as baixellas antigas; pelas tapeçarias ovaes
-dos muros apainelados corriam scenas de ballada, caçadores medivaes
-soltando o falcão, uma dama entre pagens alimentando os cysnes de um
-lago, um cavalleiro de viseira callada seguindo ao longo d'um rio; e
-contrastando com o tecto escuro de castanho entalhado a meza
-resplandecia com as flôres entre os crystaes.
-
-O reverendo Bonifacio, que desde que se tornara dignatario da Egreja
-comia com os senhores, lá estava já, magestosamente sentado sobre a
-alvura nevada da toalha, á sombra de algum grande ramo. Era alli, no
-aroma das rosas, que o veneravel gato gostava de lamber, com o seu vagar
-estupido, as sopas de leite servidas n'um covilhete de Strasburgo,
-depois agachava-se, traçava por diante do peito a fofa pluma da sua
-cauda, e, de olhos cerrados, os bigodes tesos, todo elle uma bola
-entufada de pello branco malhado de ouro, gosava de leve uma sesta
-macia.
-
-Affonso,--como confessava, sorrindo e humilhado--ía-se tornando com a
-velhice um _gourmet_ exigente; e acolhia, com uma concentração de
-critico, as obras d'arte do _chef_ francez que tinham agora, um
-cavalheiro de mau genio, todo bonapartista, muito parecido com o
-imperador, e que se chamava Mr. Theodore. Os almoços no Ramalhete eram
-sempre delicados e longos; depois, ao café, ficavam ainda conversando; e
-passava da uma hora, da hora e meia, quando Carlos, com uma exclamação,
-precipitando-se sobre relogio, se lembrava do seu consultorio. Bebia um
-calice de Chartreuse, accendia á pressa um charuto:
-
---Ao trabalho, ao trabalho! exclamava.
-
-E o avô, enchendo de vagar o seu cachimbo, invejava-lhe aquella
-occupação, emquanto elle ficava alli a vadiar toda a manhã...
-
---Quando esse eterno laboratorio estiver acabado, talvez vá para lá
-passar um bocado, occupar-me de chimica.
-
---E ser talvez um grande chimico. O avô tem já a feitio.
-
-O velho sorria.
-
---Esta carcassa já não dá nada, filho. Está pedindo eternidade!
-
---Quer alguma cousa da Baixa, de Babylonia? perguntava Carlos, abotoando
-á pressa as suas luvas de governar.
-
---Bom dia de trabalho.
-
---Pouco provavel...
-
-E no _dog-cart_, com aquella linda egoa, a _Tunante_, ou no _phaeton_
-com que maravilhava Lisboa, Carlos lá partia em grande estylo para a
-Baixa, para «o trabalho.»
-
-O seu gabinete, no consultorio, dormia n'uma paz tepida entre os
-espessos velludos escuros, na penumbra que faziam as stores de seda
-verde corridas. Na sala, porém, as tres janellas abertas bebiam á farta
-a luz; tudo alli parecia festivo; as poltronas em torno da jardineira
-estendiam os seus braços, amaveis e convidativas; o teclado branco do
-piano ria e esperava, tendo abertas por cima as _Canções de Gounod_; mas
-não apparecia jámais um doente. E Carlos,--exactamente como o creado
-que, na ociosidade da antecamara, dormitava sobre o _Diario de
-Noticias_, acaçapado na banqueta--accendia um cigarro Laferme, tomava
-uma Revista, e estendia-se no divan. A prosa porém dos artigos estava
-como embebida do tedio moroso do gabinete: bem depressa bocejava,
-deixava caír o volume.
-
-Do Rocio, o ruido das carroças, os gritos errantes de pregões, o rolar
-dos americanos, subiam, n'uma vibração mais clara, por aquelle ar fino
-de novembro: uma luz macia, escorregando docemente do azul ferrete,
-vinha doirar as fachadas enxovalhadas, as cópas mesquinhas das arvores
-de municipio, a gente vadiando pelos bancos: e essa sussurração lenta de
-cidade preguiçosa, esse ar avelludado de clima rico, pareciam ir
-penetrando pouco a pouco n'aquelle abafado gabinete e resvelando pelos
-velludos pesados, pelo verniz dos moveis, envolver Carlos n'uma
-indolencia e n'uma dormencia... Com a cabeça na almofada, fumando, alli
-ficava, n'essa quietação de sesta, n'um scismar que se ía desprendendo,
-vago e tenue, como o tenuo e leve fumo que se eleva d'uma brazeira meia
-apagada; até que com um esforço sacudia este torpor, passeiava na sala,
-abria aqui e além pelas estantes um livro, tocava no piano dois
-compassos de walsa, espriguiçava-se--e, com os olhos nas flores do
-tapete, terminava por decidir que aquellas duas horas de consultorio
-eram estupidas!
-
---Está ahi o carro? ía perguntar ao creado.
-
-Accendia bem depressa outro charuto, calçava as luvas, descia, bebia um
-largo sorvo de luz e ar, tomava as guias e largava, murmurando comsigo:
-
---Dia perdido!
-
-
-Foi uma d'essas manhãs que preguiçando assim no sophá com a _Revista dos
-Dois Mundos_ na mão, elle ouviu um rumor na antecamara, e logo uma voz
-bem conhecida, bem querida, que dizia por trás do reposteiro:
-
---Sua Alteza Real está visivel?
-
---Oh Ega! gritou Carlos, dando um salto do sophá.
-
-E cahiram nos braços um do outro, beijando-se na face, enternecidos.
-
---Quando chegaste tu?
-
---Esta manhã. Caramba! exclamava Ega, procurando pelo peito, pelos
-hombros, o seu quadrado de vidro, e entalando-o emfim no olho. Caramba!
-Tu vens esplendido d'esses Londres, d'essas civilisações superiores.
-Estás com um ar Renascença, um ar Valois... Não ha nada como a barba
-toda!
-
-Carlos ria, abraçando-o outra vez.
-
---E d'onde vens tu, de Celorico?
-
---Qual Celorico! Da Foz. Mas doente, menino, doente... O figado, o baço,
-uma infinidade de visceras compromettidas. Emfim, doze annos de vinhos e
-aguas ardentes...
-
-Depois fallaram das viagens de Carlos, do Ramalhete, da demora do Ega em
-Lisboa... Ega vinha para sempre. Tinha dito do alto da diligencia, ás
-varzeas de Celorico, o adeus de eternidade.
-
---Imagina tu, Carlos, amigo, a historia deliciosa que me succede com
-minha mãe... Depois de Coimbra, naturalmente, sondei-a a respeito de vir
-viver para Lisboa, confortavelmente, com uns dinheiros largos. Qual, não
-caíu! Fiquei na quinta, fazendo epigrammas ao padre Seraphim e a toda a
-côrte do céu. Chega julho, e apparece nos arredores uma epidemia de
-anginas. Um horror, creio que vocês lhe chamam diphtericas... A mamã
-salta immediatamente à conclusão que é a minha presença, a presença do
-atheo, do demagogo, sem jejuns e sem missa, que offendeu Nosso Senhor e
-attrahiu o flagello. Minha irmã concorda. Consultam o padre Seraphim. O
-homem, que não gosta de me vêr na quinta, diz que é possivel que haja
-indignação do Senhor--e minha mãe vem pedir-me quasi de joelhos, com a
-bolsa aberta, que venha para Lisboa, que a arruine, mas que não esteja
-alli chamando a ira divina. No dia seguinte bati para a Foz...
-
---E a epidemia...
-
---Desappareceu logo, disse o Ega, começando a puxar devagar dos dedos
-magros uma longa luva côr de canario.
-
-Carlos mirava aquellas luvas do Ega; e as polainas de casemira; e o
-cabello que elle trazia crescido com uma mecha frisada na testa; e na
-gravata de setim uma ferradura de opalas! Era outro Ega, um Ega dandy,
-vistoso, paramentado, artificial e com pó d'arroz--e Carlos deixou emfim
-escapar a exclamação impaciente que lhe bailava nos labios:
-
---Ega, que extraordinario casaco!
-
-Por aquelle sol macio e morno de um fim de outono portuguez, o Ega, o
-antigo bohemio de batina esfarrapada, trazia uma pelliça, uma sumptuosa
-pelliça de principe russo, agasalho de trenò e de neve, ampla, longa,
-com alamares trespassados á Brandeburgo, e pondo-lhe em torno do pescoço
-esganiçado e dos pulsos de thisico uma rica e fôfa espessura de pelles
-de marta.
-
---É uma boa pelliça, hein? disse elle logo, erguendo-se, abrindo-a,
-exhibindo a opulencia do forro. Mandei-a vir pelo Strauss... Beneficios
-da epidemia.
-
---Como podes tu supportar isso?
-
---É um bocado pesada, mas tenho andado constipado.
-
-Tornou a recostar-se no sophá, adiantando o sapato de verniz muito
-bicudo, e, de monocolo no olho, examinou o gabinete.
-
---E tu que fazes? conta-me lá... Tens isto explendido!
-
-Carlos fallou dos seus planos, de altas idéas de trabalho, das obras do
-laboratorio...
-
---Um momento, quanto te custou tudo isto? exclamou o Ega
-interrompendo-o, erguendo-se para ir apalpar o velludo dos reposteiros,
-mirar os torneados da secretária de pau preto.
-
---Não sei. O Villaça é que deve saber...
-
-E Ega, com as mãos enterradas nos vastos bolsos da pelliça,
-inventariando o gabinete, fazia considerações:
-
---O velludo dá seriedade... E o verde escuro é a côr suprema, é a côr
-esthetica... Tem a sua expressão propria, enternece e faz pensar...
-Gosto d'este divan. Movel de amor...
-
-Foi entrando para a sala dos doentes, de vagar, de luneta no olho,
-estudando os ornatos.
-
---Tu és o grandioso Salomão, Carlos! O papel é bonito... E o
-cretonesinho agrada-me.
-
-Apalpou-o tambem. Uma begonia, manchada da sua ferrugem de prata, n'um
-vaso de Rouen, interessou-o. Queria saber o preço de tudo; e diante do
-piano, olhando o livro de musica aberto, as _Canções de Gounod_, teve
-uma surpreza enternecida:
-
---Homem, é curioso... Cá me apparece! A _Barcarolla_! É deliciosa,
-hein?...
-
-
- Dites, la jeune belle,
- Ou voulez-vous aller?
- La voile...
-
-
-Estou um bocado rouco... Era a nossa canção na Foz!
-
-Carlos teve outra exclamação, e crusando os braços diante d'elle:
-
---Tu estás extraordinario, Ega! Tu és outro Ega!... A proposito da
-Foz... Quem é essa Madame Cohen, que estava tambem na Foz, de quem tu,
-em cartas successivas, verdadeiros poemas, que recebi em Berlin, na
-Haia, em Londres, me fallavas como os arrobos do _Cantico dos Canticos_?
-
-Um leve rubor subiu ás faces do Ega. E limpando negligentemente o
-monocolo ao lenço de seda branca:
-
---Uma judia. Por isso usei o lyrismo biblico. É a mulher do Cohen, has
-de conhecer, um que é director do _Banco Nacional_... Démos-nos
-bastante. É sympathica... Mas o marido é uma besta... Foi uma
-_flitartion_ de praia. _Voila tout_.
-
-Isto era dito aos bocados, passeiando, puchando o lume ao charuto, e
-ainda córado.
-
---Mas conta-me tu, que diabo, que fazem vocês no Ramalhete? O avô
-Affonso? Quem vae por lá?...
-
-No Ramalhete, o avô fazia o seu _whist_ com os velhos parceiros. Ia o D.
-Diogo, o decrepito leão, sempre de rosa ao peito, e frisando ainda os
-bigodes... Ia o Sequeira, cada vez mais atarracado, a estoirar de
-sangue, á espera da sua apoplexia... Ia o conde de Steinbroken...
-
---Não conheço. Refugiado?... Polaco?...
-
---Não, ministro da Filandia... Queria-nos alugar umas cocheiras e
-complicou esta simples transacção com tantas finuras diplomaticas,
-tantos documentos, tantas cousas com o sello real da Filandia, que o
-pobre Villaça aturdido, para se desembaraçar, remetteu-o ao avô. O avô,
-desnorteado tambem, offereceu-lhe as cocheiras de graça. Steinbroken
-considera isto um serviço feito ao rei da Filandia, á Filandia, vae
-visitar o avô, em grande estado, com o secretario da legação, o consul,
-o vice-consul...
-
---Isso é sublime!
-
---O avô convida-o a jantar... E como o homem é muito fino, um gentleman,
-enthusiasta da Inglaterra, grande entendedor de vinhos, uma auctoridade
-no wisth, o avô adopta-o. Não sae do Ramalhete.
-
---E de rapazes?
-
-De rapazes, apparecia Taveira, sempre muito correcto, empregado agora no
-Tribunal de Contas: um Cruges, que o Ega não conhecia, um diabo
-adoidado, maestro, pianista, com uma pontinha de genio; o marquez de
-Souzellas...
-
---Não ha mulheres?
-
---Não ha quem as receba. É um covil de solteirões. A viscondessa,
-coitada...
-
---Bem sei. Um apopleté...
-
---Sim, uma hemorragia cerebral. Ah, temos tambem o Silveirinha,
-chegou-nos ultimamente o Silveirinha...
-
---O de Resende, o cretino?
-
---O cretino. Enviuvou, vem da Madeira, ainda um bocado thisico, todo
-carregado de luto... Um funebre.
-
-O Ega, repoltreado, com aquelle ar de tranquilla e solida felicidade que
-Carlos já notara, disse puchando lentamente os punhos:
-
---É necessario reorganisar essa vida. Precisamos arranjar um cenaculo,
-uma bohemiasinha dourada, umas _soirées_ de inverno, com arte, com
-litteratura... Tu conheces o Craft?
-
---Sim, creio que tenho ouvido fallar...
-
-Ega teve um grande gesto. Era indispensavel conhecer o Craft! O Craft
-era simplesmente a melhor cousa que havia em Portugal...
-
---É um inglez, uma especie de doido?...
-
-Ega encolheu os hombros. Um doido!... Sim, era essa a opinião da rua dos
-Fanqueiros; o indigena, vendo uma originalidade tão forte como a de
-Craft, não podia explical-a senão pela doidice. O Craft era um rapaz
-extraordinario!... Agora tinha elle chegado da Suecia, de passar tres
-mezes com os estudantes de Upsala. Estava tambem na Foz... Uma
-individualidade de primeira ordem!
-
---É um negociante do Porto, não é?
-
---Qual negociante do Porto! exclamou o Ega erguendo-se, franzindo a
-face, enojado de tanta ignorancia. O Craft é filho d'um _clergiman_ da
-egreja ingleza do Porto. Foi um tio, um negociante de Calcutá ou
-d'Australia, um Nababo, que lhe deixou a fortuna. Uma grande fortuna.
-Mas não negoceia, nem sabe o que isso é. Dá largas ao seu temperamento
-byroneano, é o que faz. Tem viajado por todo o universo, collecciona
-obras d'arte, bateu-se como voluntario na Abyssinia e em Marrocos, emfim
-vive, _vive_ na grande, na forte, na heroica accepção da palavra. É
-necessario conhecer o Craft. Vaes-te babar por elle... Tens razão,
-caramba, está calor.
-
-Desembaraçou-se da opulenta pelliça, e appareceu em peitilho de camisa.
-
---O que! tu não trazias nada por baixo? exclamou Carlos. Nem collete?
-
---Não; então não a podia aguentar... Isto é para o effeito moral, para
-impressionar o indigena... Mas, não ha negal-o, é pesada!
-
-E immediatamente voltou á sua idéa: apenas Craft chegasse do Porto
-relacionavam-se, organisava-se um Cenaculo, um Decameron d'arte e
-dilletantismo, rapazes e mulheres--tres ou quatro mulheres para
-cortarem, com a graça dos decotes, a severidade das philosophias...
-
-Carlos ria-se d'esta idéa do Ega. Tres mulheres de gosto e de luxo, em
-Lisboa, para adornar um cenaculo! Lamentavel illusão de um homem de
-Celorico! O marquez de Souzella tinha tentado, e para uma vez só, uma
-cousa bem mais simples--um jantar no campo com actrizes. Pois fôra o
-escandalo mais engraçado e mais caracteristico: uma não tinha creada e
-queria levar comsigo para a festa uma tia e cinco filhos; outra temia
-que, acceitando, o brazileiro lhe tirasse a mezada; uma consentiu, mas o
-amante, quando soube, deu-lhe uma cóça. Esta não tinha vestido para ir;
-aquella pretendia que lhe garantissem uma libra; houve uma que se
-escandalisou com o convite como com um insulto. Depois, os chulos, os
-queridos, os pôlhos, complicaram medonhamente a questão; uns exigiam ser
-convidados, outros tentavam desmanchar a festa; houve partidos,
-fizeram-se intrigas,--emfim esta cousa banal, um jantar com actrizes,
-resultou em o Tarquinio do Gymnasio levar uma facada...
-
---E aqui tens tu Lisboa.
-
---Emfim, exclamou o Ega, se não apparecerem mulheres, importam-se, que é
-em Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis,
-idéas, philosophias, theorias, assumptos, estheticas, sciencias, estylo,
-industrias, modas, maneiras, pilherias, tudo nos vem em caixotes pelo
-paquete. A civilisação custa-nos carissima com os direitos da alfandega:
-e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas...
-Nós julgamo-nos civilisados como os negros de S. Thomé se suppõem
-cavalheiros, se suppõem mesmo _brancos_, por usarem com a tanga uma
-casaca velha do patrão... Isto é uma choldra torpe. Onde puz eu a
-charuteira?
-
-Desembaraçado da magestade que lhe dava a pelissa o antigo Ega
-reapparecia, perorando com os seus gestos aduncos de Mephistopheles em
-verve, lançando-se pela sala como se fosse voar ao vibrar as suas
-grandes phrases, n'uma lucta constante com o monocolo, que lhe caía do
-olho, que elle procurava pelo peito, pelos hombros, pelos rins,
-retorcendo-se, deslocando-se, como mordido por bichos. Carlos animava-se
-tambem, a fria sala aquecia; discutiam o Naturalismo, Gambetta, o
-Nihilismo; depois, com ferocidade e á uma, malharam sobre o paiz...
-
-Mas o relogio ao lado bateu quatro horas; immediatamente Ega saltou
-sobre a pelissa, sepultou-se n'ella, aguçou o bigode ao espelho,
-verificou a _pose_, e, encouraçado nos seus alamares, sahio com um
-arsinho de luxo e d'aventura.
-
---John, disse Carlos que o achava esplendido e o ia seguindo ao patamar,
-onde estás tu?
-
---No _Universal_, esse sanctuario!
-
-Carlos abominava o _Universal_, queria que elle viesse para o Ramalhete.
-
---Não me convém...
-
---Em todo o caso vaes hoje lá jantar, vêr o avô.
-
---Não posso. Estou compromettido com a besta do Cohen... Mas vou lá
-ámanhã almoçar.
-
-Já nos degraus da escada, voltou-se, entalou o monocolo, gritou para
-cima:
-
---Tinha-me esquecido dizer-te, vou publicar o meu livro!
-
---O quê! está prompto? exclamou Carlos, espantado.
-
---Está esboçado, á brocha larga...
-
-O _Livro do Ega_! Fôra em Coimbra, nos dois ultimos annos, que elle
-começára a fallar do seu livro, contando o plano, soltando titulos de
-capitulos, citando pelos cafés phrases de grande sonoridade. E entre os
-amigos do Ega discutia-se já o livro do Ega como devendo iniciar, pela
-fórma e pela idéa, uma evolução litteraria. Em Lisboa (onde elle vinha
-passar as ferias e dava ceias no Silva) o livro fôra annunciado como um
-acontecimento. Bachareis, contemporaneos ou seus condiscipulos, tinham
-levado de Coimbra, espalhado pelas provincias e pelas ilhas a fama do
-livro do Ega. Já de qualquer modo essa noticia chegára ao Brazil... E
-sentindo esta anciosa espectativa em torno do seu livro--o Ega
-decidira-se emfim a escrevel-o.
-
-Devia ser uma epopêa em prosa, como elle dizia, dando, sob episodios
-symbolicos, a historia das grandes phases do Universo e da Humanidade.
-Intitulava-se _Memorias d'um Atomo_, e tinha a fórma d'uma
-autobiographia. Este atomo (o atomo do Ega, como se lhe chamava a serio
-em Coimbra) apparecia no primeiro capitulo, rolando ainda no vago das
-Nebuloses primitivas: depois vinha embrulhado, faisca candente, na massa
-de fogo que devia ser mais tarde a Terra: emfim, fazia parte da primeira
-folha de planta que surgiu da crosta ainda molle do globo. Desde então,
-viajando nas incessantes transformações da substancia, o atomo do Ega
-entrava na rude structura do Orango, pae da humanidade--e mais tarde
-vivia nos labios de Platão. Negrejava no burel dos santos, refulgia na
-espada dos heroes, palpitava no coração dos poetas. Gota de agua nos
-lagos de Galiléa, ouvira o fallar de Jesus, aos fins da tarde, quando os
-apostolos recolhiam as redes; nó de madeira na tribuna da Convenção,
-sentira o frio da mão de Robespierre. Errara nos vastos anneis de
-Saturno; e as madrugadas da terra tinham-n'o orvalhado, petala
-resplandecente de um dormente e languido lyrio. Fôra omnipresente, era
-omnisciente. Achando-se finalmente no bico da penna do Ega, e cançado
-d'esta jornada atravez do Ser, repousava--escrevendo as suas
-_Memorias_... Tal era este formidavel trabalho--de que os admiradores do
-Ega, em Coimbra, diziam, pensativos e como esmagados de respeito:
-
---É uma Biblia!
-
-
-
-
-V
-
-
-No escriptorio de Affonso da Maia ainda durava, apesar de ser tarde, a
-partida de whist. A mesa estava ao lado da chaminé, onde a chamma morria
-nos carvões escarlates, no seu recanto costumado, abrigada pelo biombo
-japonez, por causa da bronchite de D. Diogo e do seu horror ao ar.
-
-Esse velho dandy,--a quem as damas de outras eras chamavam o «Lindo
-Diogo», gentil toureiro que dormira n'um leito real--acabava justamente
-de ter um dos seus accessos de tosse, cavernosa, aspera, dolorosa, que o
-sacudiam como uma ruina, que elle abafava no lenço, com as veias
-inchadas, rôxo até á raiz dos cabellos.
-
-Mas passára. Com a mão ainda tremula, o decrepito leão limpou as
-lagrimas que lhe embaciavam os olhos avermelhados, compoz a rosa de
-musgo na botoeira da sobrecasaca, tomou um golo da sua agua chasada, e
-perguntou a Affonso, seu parceiro, n'uma voz rouca e surda:
-
---Paus, hein?
-
-E de novo, sobre o panno verde, as cartas foram cahindo n'um d'aquelles
-silencios que se seguiam ás tosses de D. Diogo. Sentia-se só a
-respiração assobiada, quasi silvante, do general Sequeira, muito infeliz
-essa noite, desesperado com o Villaça seu parceiro, resingão, e com todo
-o sangue na face.
-
-Um tom fino retiniu, o relogio Luiz XV foi ferindo. alegremente,
-vivamente, a meia noite;--depois a toada argentina do seu minuete vibrou
-um momento e morreu. Houve de novo um silencio. Uma renda vermelha
-recobria os globos de dois grandes candieiros Carcel; e a luz assim
-coada, cahindo sobre os damascos vermelhos das paredes, dos assentos,
-fazia como uma doce refracção côr de rosa, um vaporoso de nuvem em que a
-sala se banhava e dormia: só, aqui e além, sobre os carvalhos sombrios
-das estantes, rebrilhava em silencio o ouro d'um Sèvres, uma pallidez de
-marfim, ou algum tom esmaltado de velha majolica.
-
---O que! ainda encarniçados! exclamou Carlos que abrira o reposteiro,
-entrava, e com elle o rumor distante de bolas de bilhar.
-
-Affonso, que recolhia a sua vasa, voltou logo a cabeça, a perguntar com
-interesse:
-
---Como vae ella? Está socegada?
-
---Está muito melhor!
-
-Era a primeira doente grave de Carlos, uma rapariga de origem
-alsacianna, casada com o Marcellino padeiro, muito conhecida no bairro
-pelos seus bellos cabellos, loiros, e penteados sempre em tranças
-soltas. Tinha estado á morte com uma pneumonia; e apesar de melhor, como
-a padaria ficava defronte, Carlos ainda ás vezes á noite atravessava a
-rua para a ir vêr, tranquillisar o Marcellino, que, defronte do leito e
-de gabão pelos hombros, suffocava soluços d'amante, escrevinhando no
-livro de contas.
-
-Affonso interessara-se anciosamente por aquella pneumonia; e agora
-estava realmente agradecido á Marcellina por ter sido salva por Carlos.
-Fallava d'ella commovido; gabava-lhe a linda figura, o aceio alsacianno,
-a prosperidade que trouxera á padaria... Para a convalescença, que se
-approximava, já lhe mandára até seis garrafas de Chateau-Margaux.
-
---Então fóra de perigo, inteiramente fóra de perigo?--perguntou Villaça,
-com os dedos na caixa do rapé, sublinhando muito a sua sollicitude.
-
---Sim, quasi rija--disse Carlos, que se approximara da chaminé,
-esfregando as mãos, arrepiado.
-
-É que a noite, fóra, estava regelada! Desde o anoitecer geava, d'um céu
-fino e duro, transbordando de estrellas que rebrilhavam como pontas
-afiadas d'aço; e nenhum d'aquelles cavalheiros, desde que se entendia,
-conhecera jámais o thermometro tão baixo. Sim, Villaça lembrava-se d'um
-janeiro peor no inverno de 64...
-
---É necessario carregar no _punch_, hein, general!--exclamou Carlos,
-batendo galhofeiramente nos hombros macissos do Sequeira.
-
---Não me opponho, rosnou o outro, que fixava com concentração e rancor
-um valete de copas sobre a meza.
-
-Carlos, ainda com frio, remexeu, esfuracou os carvões: uma chuva d'oiro
-cahiu por baixo, uma chamma mais forte ressaltou, rugiu, alegrando tudo,
-avermelhando em redor as pelles de urso onde o Reverendo Bonifacio,
-espapado, torrava ao calor, ronronava de gôso.
-
---O Ega deve estar radiante, dizia Carlos com os pés á chamma. Tem,
-emfim, justificada a pellissa. A proposito, algum dos senhores tem visto
-o Ega estes ultimos dias?
-
-Ninguem respondeu, no interesse subito que causava a cartada. A longa
-mão de D. Diogo recolhia de vagar a vasa--e languidamente, no mesmo
-silencio, soltou uma carta de paus.
-
---Ó Diogo! ó Diogo! gritou Affonso, estorcendo-se, como se o
-trespassasse um ferro.
-
-Mas conteve-se. O general, cujos olhos despediam faiscas, collocou o seu
-valete; Affonso, profundamente infeliz, separou-se do rei de paus;
-Villaça bateu de estalo com o az. E immediatamente foi em redor uma
-discussão tremenda sobre a puchada de D. Diogo--em quanto Carlos, a quem
-as cartas sempre enfastiavam, se debruçava a coçar o ventre fofo do
-veneravel Reverendo.
-
---Que perguntavas tu, filho? disse emfim Affonso erguendo-se, ainda
-irritado, a buscar tabaco para o cachimbo, sua consolação nas derrotas.
-O Ega? Não, ninguem o viu, não tornou a apparecer! Está tambem um bom
-ingrato, esse John...
-
-Ao nome do Ega, Villaça, parando de baralhar as cartas, erguera a face
-curiosa:
-
---Então sempre é certo que elle vae montar casa?
-
-Foi Affonso que respondeu, sorrindo e accendendo o cachimbo:
-
---Montar casa, comprar _coupé_, deitar libré, dar _soirées_ litterarias,
-publicar um poema, o diabo!
-
---Elle esteve lá no escriptorio, dizia Villaça recomeçando a baralhar.
-Esteve lá a indagar o que tinha custado o consultorio, a mobilia de
-velludo, etc. O velludo verde deu-lhe no gôto... Eu, como é um amigo da
-casa, lá lhe prestei informações, até lhe mostrei as contas.--E
-respondendo a uma pergunta do Sequeira:--Sim, a mãe tem dinheiro, e
-creio que lhe dá o bastante. Que em quanto a mim, elle vem-se metter na
-politica. Tem talento, falla bem, o pae já era muito regenerador... Alli
-ha ambição.
-
---Alli ha mulher, disse D. Diogo, collocando com peso esta decisão e
-accentuando-a com uma caricia languida á ponta frisada dos bigodes
-brancos. Lê-se-lhe na cara, basta vêr-lhe a cara... Alli ha mulher.
-
-Carlos sorria, gabando a penetração de D. Diogo, o seu fino olho á
-Balzac; e Sequeira, logo, franco como velho soldado, quiz saber quem era
-a Dulcinea. Mas o velho dandy declarou, da profundidade da sua
-experiencia, que essas cousas nunca se sabiam, e era preferivel não se
-saberem. Depois passando os dedos magros e lentos pela face, deixou
-cahir d'alto e com condescendencia este juizo:
-
---Eu gosto do Ega, tem apresentação; sobretudo tem _degagè_...
-
-Tinham recebido as cartas, fez-se um silencio na meza. O general, vendo
-o seu jogo, soltou um grunhido surdo, arrebatou o cigarro do cinzeiro, e
-puxou-lhe uma fumaça furiosa.
-
---Os senhores são muito viciosos, vou vêr a gente do bilhar, disse
-Carlos. Deixei o Steinbroken engalfinhado com o marquez, a perder já
-quatro mil réis. Querem o _punch_ aqui?
-
-Nenhum dos parceiros respondeu.
-
-E em torno do bilhar Carlos encontrou o mesmo silencio de solemnidade. O
-marquez, estirado sobre a tabella, com a perna meia no ar, o começo de
-calva alvejando á luz crua que cahia dos _abat-jours_, de porcelana,
-preparava a carambola decisiva. Cruges, que apostára por elle, deixára o
-divan, o cachimbo turco, e, coçando com um gesto nervoso a grenha crespa
-que lhe ondeava até á gola do jaquetão, vigiava a bola inquieto, com os
-olhinhos piscos, o nariz espetado. Do fundo da sala, destacando em
-preto, o Silveirinha, o Eusebiosinho de S.^{ta} Olavia, estendia tambem
-o pescoço, affogado n'uma gravata de viuvo de merino negro e sem
-collarinho, sempre macambuzio, mais mollengo que outr'ora, com as mãos
-enterradas nos bolsos--tão funebre que tudo n'elle parecia complemento
-do luto pesado, até o preto do cabello chato, até o preto das lunetas de
-fumo. Junto ao bilhar, o parceiro do marquez, o conde Steinbroken,
-esperava: e apesar do susto, da emoção d'homem do norte aferrado ao
-dinheiro, conservava-se correcto, encostado ao taco, sorrindo, sem
-desmanchar a sua linha britanica,--vestido como um inglez, inglez
-tradicional d'estampa, com uma sobrecasaca justa de manga um pouco
-curta, e largas calças de xadrez sobre sapatões de tacão raso.
-
---Hurrah! gritou de repente Cruges. Os dez tostõesinhos para cá,
-Silveirinha!
-
-O marquez carambolára, ganhando a partida, e triumphava tambem:
-
---Você trouxe-me a sorte, Carlos!
-
-Steinbroken depozera logo o taco, e alinhava já sobre a tabella,
-lentamente, uma a uma, as quatro placas perdidas.
-
-Mas o marquez, de giz na mão, reclamava-o para outras refregas,
-esfaimado d'ouro filandez.
-
---Nada mach!... Vôcê hoje 'stá têrivêl! dizia o diplomata, no seu
-portuguez fluente, mas de accento barbaro.
-
-O marquez insistia, plantado diante d'elle, de taco ao hombro como uma
-vara de campino, dominando-o com a sua macissa, desempenada estatura. E
-ameaçava-o de destinos medonhos n'uma voz possante habituada a ressoar
-nas lezirias; queria-o arruinar ao bilhar, forçal-o a empenhar aquelles
-bellos anneis, leval-o elle, ministro da Filandia e representante d'uma
-raça de reis fortes, a vender senhas á porta da Rua dos Condes!
-
-Todos riam; e Steinbroken tambem, mas com um riso franzido e difficil,
-fixando no marquez o olhar azul-claro, claro e frio, que tinha no fundo
-da sua myopia a dureza d'um metal. Apesar da sua sympathia pela illustre
-casa de Souzella, achava estas familiaridades, estas tremendas chalaças,
-incompativeis com a sua dignidade e com a dignidade da Filandia. O
-marquez, porém, coração d'ouro, abraçava-o já pela cinta, com expansão:
-
---Então se não quereis mais bilhar, um bocadinho de canto, Steinbroken
-amigo!
-
-A isto o ministro accedeu, affavel, preparando-se logo, dando caricias
-ligeiras ás suissas, e aos anneis do cabello d'um loiro de espiga
-desbotada.
-
-Todos os Steinbrokens, de paes a filhos (como elle dissera a Affonso)
-eram bons barytonos: e isso trouxera á familia não poucos proventos
-sociaes. Pela voz captivara seu pae o velho rei Rudolpho III, que o
-fizera chefe das caudelarias, e o tinha noites inteiras nos seus
-quartos, ao piano, cantando psalmos lutheranos, coraes escolares, sagas
-da Dallecarlia--em quanto o taciturno monarcha cachimbava e bebia, até
-que saturado de emoção religiosa, saturado de cerveja preta, tombava do
-sophá, soluçando e babando-se. Elle mesmo, Steinbroken, levara parte da
-sua carreira ao piano, já como addido, já como segundo secretario. Feito
-chefe de missão, absteve-se: foi só quando vio o _Figaro_ celebrar
-repetidamente as walsas do principe Artoff, embaixador da Russia em
-Paris, e a voz de _basso_ do conde de Baspt, embaixador d'Austria em
-Londres, que elle, seguindo tão altos exemplos, arriscou, aqui e alem,
-em _soirées_ mais intimas, algumas melodias filandezas. Emfim cantou no
-Paço. E desde então exerceu com zelo, com formalidades, com praxes, o
-seu cargo de «barytono plenipotenciario,» como dizia o Ega. Entre
-homens, e com os reposteiros corridos, Steinbroken não duvidava todavia
-cantarolar o que elle chamava «cançonetas brejêras»--o _Amant d'Amanda_,
-ou uma certa ballada ingleza:
-
-
- On the Serpentine,
- Oh my Caroline...
- Oh!
-
-
-Este _oh_! como elle o expellia, gemido, bem puxado, n'um movimento de
-batuque, expressivo e todavia digno... Isto entre rapazes e com os
-reposteiros fechados.
-
-N'essa noite, porém, o marquez, que o conduzia pelo braço á sala do
-piano, exigia uma d'aquellas canções da Filandia, de tanto sentimento e
-que lhe faziam tão bem á alma...
-
---Uma que tem umas palavrinhas de que eu gosto, _frisk_, _gluzk_... La
-ra lá, lá, lá!
-
---A Primavera, disse o diplomata sorrindo.
-
-Mas antes de entrar na sala, o marquez soltou o braço de Steinbroken,
-fez um signal ao Silveirinha para o fundo do corredor--e ahi, sob um
-sombrio painel de _Santa Magdalena no deserto_ penitenciando-se e
-mostrando nudezas ricas de nympha lubrica, interpellou-o quasi com
-aspereza:
-
---Vamos nós a saber. Então, decide-se ou não?
-
-Era uma negociação que havia semanas se arrastava entre elles, a
-respeito d'uma parelha d'egoas. Silveirinha nutria o desejo de montar
-carruagem; e o marquez procurava vender-lhe umas egoas brancas, a que
-elle dizia «ter tomado enguiço, apesar de serem dois nobres animaes».
-Pedia por ellas um conto e quinhentos mil réis. Silveirinha fôra avisado
-pelo Sequeira, por Travassos, por outros entendedores, que era _uma
-espiga_: o marquez tinha a sua moral propria para negocios de gado, e
-exultaria em _intrujar um pichote_. Apesar de advertido, Eusebio cedendo
-á influencia da grossa voz do marquez, da robustez do seu phisico, da
-antiguidade do seu titulo, não ousava recusar. Mas hesitava; e n'essa
-noite deu a resposta usual de forreta, coçando o queixo, cosido ao muro:
-
---Eu verei, marquez... Um conto e quinhentos é dinheiro...
-
-O marquez ergueu dois braços ameaçadores como duas trancas:
-
---Homem, sim ou não! Que diabo... Dois animaes que são duas estampas...
-Irra! Sim ou não!
-
-Eusebio ageitou as lunetas, rosnou:
-
---Eu verei... Elle é dinheiro. Sempre é dinheiro...
-
---Queria você, talvez, pagal-as com feijões? Você leva-me a commetter um
-excesso!
-
-O piano resoou, em dois accordes cheios, sob os dedos do Cruges; e o
-marquez, baboso por musica, immediatamente largou a questão das egoas,
-recolheu em pontas de pés. Eusebiosinho ainda ficou a remoer, a coçar o
-queixo; emfim, ás primeiras notas de Steinbroken, veiu pousar como uma
-sombra silenciosa entre a hombreira e o reposteiro.
-
-Afastado do piano segundo o seu costume, curvado, com a cabelleira como
-pousada ás costas, Cruges feria o acompanhamento, d'olhos cravados no
-livro de _Melodias Filandezas_. Ao lado, empertigado, quasi official,
-com o lenço de seda na mão, a mão fincada contra o peito, Steinbroken
-soltava um canto festivo, n'um movimento de tarantella triumphante, em
-que passavam, como um entrechocar de seixos, esses bocados de palavras
-de que o marquez gostava, _frisk_, _slécht_, _clikst_, _glukst_. Era a
-_Primavera_--fresca e silvestre, primavera do norte em paiz de
-montanhas, quando toda uma aldêa dança em córos sob os fuscos abetos, a
-neve se derrete em cascatas, um sol pallido avelluda os musgos, e a
-brisa traz o aroma das resinas... Nos graves e cheios, as cantoneiras de
-Steinbroken ruborisavam-se, inchavam. Nos tons agudos todo elle se ía
-alçando sobre a ponta dos pés, como levado no compasso vivo; despegava
-então a mão do peito, alargava um gesto, as bellas joias dos seus anneis
-faiscavam.
-
-O marquez, com as mãos esquecidas nos joelhos, parecia beber o canto. Na
-face de Carlos passava um sorriso enternecido pensando em Madame Rughel,
-que viajara na Filandia, e cantava ás vezes aquella _Primavera_ nas suas
-horas de sentimentalismo flamengo...
-
-Steinbroken soltou um _stacato_ agudo, isolado como uma voz n'um
-alto,--e immediatamente, afastando-se do piano, passou o lenço sobre as
-fontes, sobre o pescoço, rectificou com um puchão a linha da
-sobrecasaca, e agradeceu o acompanhamento ao Cruges n'um silencioso
-_shake-hands_.
-
---Bravo! bravo! berrava o marquez, batendo as mãos como malhos.
-
-E outros applausos resoaram á porta, dos parceiros do whist, que tinham
-findado a partida. Quasi immediatamente os escudeiros entravam com um
-serviço frio de croquettes e sandwiches, offerecendo St. Emilion ou
-Porto; e sobre uma meza, entre os renques de calices, a puncheira
-fumegou n'um aroma doce e quente de cognac e limão.
-
---Então, meu pobre Steinbroken, exclamou Affonso, vindo-lhe bater
-amavelmente no hombro, ainda dá d'esses bellos cantos a estes bandidos,
-que o maltratam assim ao bilhar?
-
---Fui essfôladito, si, essfôladito. Agradecido, nô, prefiro um copita
-Porto...
-
---Hoje fomos nós as victimas, disse-lhe o general respirando com delicia
-o seu punch.
-
---Você tãbem, meu genêral?
-
---Sim, senhor, tambem me cascaram...
-
-E que dizia o amigo Steinbroken ás noticias da manhã? perguntava
-Affonso. A queda de Mac-Mahon, a eleição de Grevy... O que o alegrava
-n'isto, era o desapparecimento definitivo do antipathico senhor de
-Broglie e da sua _clique_. A impertinencia d'aquelle academico estreito,
-querendo impôr a opinião de dois ou tres salões doutrinarios á França
-inteira, a toda uma Democracia! Ah, o _Times_ cantava-lh'as!
-
---E o _Punch_? Não viu o _Punch_? Oh, delicioso!...
-
-O ministro pousara o calice, e esfregando cautelosamente as mãos disse
-n'uma meia voz grave a sua phrase, a phrase definitiva com que julgava
-todos os acontecimentos que apparecem em telegrammas:
-
---É gràve... É eqsessivemente gràve...
-
-Depois fallou-se de Gambetta; e como Affonso lhe attribuia uma dictadura
-proxima, o diplomata tomou mysteriosamente o braço de Sequeira, murmurou
-a palavra suprema com que definia todas as personalidades superiores,
-homens d'estado, poetas, viajantes ou tenores.
-
---É um hom[~e] mûto forte. É um hom[~e] eqsessivemente forte!
-
---O que elle é, é um ronha! exclamou o general, escorropichando o seu
-calice.
-
-E todos tres deixaram a sala, discutindo ainda a republica--em quanto
-Cruges continuava ao piano, vagueando por Mendelsshon e por Choppin,
-depois de ter devorado um prato de croquettes.
-
-O marquez e D. Diogo, sentados no mesmo sophà, um com a sua chasada
-d'invalido, outro com um copo de S.^t Emilion, a que aspirava o
-_bouquet_, fallavam tambem de Gambetta. O marquez gostava de Gambetta:
-fôra o unico que durante a guerra mostrara ventas de homem; lá que
-tivesse «comido» ou que «quizesse comer» como diziam,--não sabia nem lhe
-importava. Mas era teso! E o sr. Grevy tambem lhe parecia um cidadão
-serio, optimo para chefe do Estado...
-
---Homem de sala? perguntou languidamente o velho leão.
-
-O marquez só o vira na Assembléa, presidindo e muito digno...
-
-D. Diogo murmurou, com um melancolico desdem na voz, no gesto, no olhar:
-
---O que eu queria a toda essa canalha era a saude, marquez!
-
-O marquez consolou-o, galhofeiro e amavel. Toda essa gente, parecendo
-forte por se occupar de cousas fortes, no fundo tinha asthma, tinha
-pedra, tinha gota... E o Dioguinho era um Hercules...
-
---Um Hercules! O que é, é que você apaparica-se muito... A doença é um
-mau habito em que a gente se põe. É necessario reagir... Você devia
-fazer gymnastica, e muita agua fria por essa espinha. Você, na
-realidade, é de ferro!
-
---Enferrujadote, enferrujadote...--replicou o outro, sorrindo e
-desvanecido.
-
---Qual enferrujadote! Se eu fosse cavallo ou mulher, antes o queria a
-você que a esses badamecos que por ahi andam meio podres... Já não ha
-homens da sua tempera, Dioguinho!
-
---Já não ha nada, disse o outro grave e convencido, e como o derradeiro
-homem nas ruinas d'um mundo.
-
-Mas era tarde, ía-se agasalhar, recolher, depois de acabar a sua
-chasada. O marquez ainda se demorou, preguiçando no sophá, enchendo
-lentamente o cachimbo, dando um olhar áquella sala que o encantava com o
-seu luxo Luiz XV, os seus florídos e os seus dourados, as cerimoniosas
-poltronas de Beauvais feitas para a amplidão das anquinhas, as
-tapeçarias de Gobelins de tons desmaiados, cheias de galantes pastoras,
-longes de parques, laços e lãs de cordeiros, sombras d'idyllios mortos,
-transparecendo n'uma trama de seda... Áquella hora, no adormecimento que
-ía pesando, sob a luz suave e quente das velas que findavam, havia ali a
-harmonia e o ar de um outro seculo: e o marquez reclamou do Cruges um
-minuete, uma gavotta, alguma cousa que evocasse Versalhes, Maria
-Antonietta, o rythmo das bellas maneiras e o aroma dos empoados. Cruges
-deixou morrer sob os dedos a melodia vaga que estava diluindo em
-suspiros, preparou-se, alargou os braços--e atacou, com um pedal
-solemne, o _Hymno da Carta_. O marquez fugiu.
-
-Villaça e Euzebiozinho conversavam no corredor, sentados n'uma das arcas
-baixas de carvalho lavrado.
-
---A fazer politica? perguntou-lhes o marquez ao passar.
-
-Ambos sorriram; Villaça respondeu jocosamente:
-
---É necessario salvar a patria!
-
-Eusebio pertencia tambem ao centro progressista, aspirava a influencia
-eleitoral no circulo de Resende, e alli ás noites no Ramalhete faziam
-conciliabulos. N'esse momento porém fallavam dos Maias: Villaça não
-duvidava confiar ao Silveirinha, homem de propriedade, visinho de
-S.^{ta} Olavia, quasi creado com Carlos, certas cousas que lhe
-desagradavam na casa, onde a auctoridade da sua palavra parecia
-diminuir; assim, por exemplo, não podia approvar o ter Carlos tomado uma
-frisa de assignatura.
-
---Para que, exclamava o digno procurador, para que, meu caro senhor?
-Para lá não pôr os pés, para passar aqui as noites... Hoje diz que ha
-enthusiasmo, e elle ahi esteve. Tem ido lá, eu sei? duas ou três
-vezes... E para isto dá cá uns poucos de centos de mil réis. Podia fazer
-o mesmo com meia duzia de libras! Não, não é governo. No fim a frisa é
-para o Ega, para o Taveira, para o Cruges... Olhe, eu não me utiliso
-d'ella; nem o amigo. É verdade, que o amigo está de luto.
-
-Eusebio pensou, com despeito, que se podia metter para o fundo da
-frisa--se tivesse sido convidado. E murmurou, sem conter um sorriso
-molle:
-
---Indo assim, até se podem encalacrar...
-
-Uma tal palavra, tão humilhante, applicada aos Maias, á casa que elle
-administrava, escandalisou Villaça. Encalacrar! Ora essa!
-
---O amigo não me comprehendeu... Ha despezas inuteis, sim, mas, louvado
-Deus, a casa póde bem com ellas! É verdade que o rendimento gasta-se
-todo, até o ultimo ceitil; os cheques voam, voam, como folhas seccas; e
-até aqui o costume da casa foi pôr de lado, fazer bolo, fazer reserva.
-Agora o dinheiro derrete-se...
-
-Eusebio rosnou algumas palavras sobre os trens de Carlos, os nove
-cavallos, o cocheiro inglez, os grooms... O procurador acudiu:
-
---Isso, amigo, é de razão. Uma gente d'estas deve ter a sua
-representação, as suas cousas bem montadas. Ha deveres na sociedade... É
-como o sr. Affonso... Gasta muito, sim, come dinheiro. Não é com elle,
-que lhe conheço aquelle casaco ha vinte annos... Mas são esmolas, são
-pensões, são emprestimos que nunca mais vê...
-
---Desperdicios...
-
---Não lh'o censuro... É o costume da casa; nunca da porta dos Maias, já
-meu pae dizia, sahiu ninguem descontente... Mas uma frisa, de que
-ninguem usa! só para o Cruges, só para o Taveira!...
-
-Teve de se callar. Justamente ao fundo do corredor assomava o Taveira,
-abafado até aos olhos na gola d'uma ulster, d'onde sahiam as pontas d'um
-_cachenez_ de seda clara. O escudeiro desembaraçou-o dos agasalhos; e
-elle, de casaca e collete branco, limpando o bonito bigode humido da
-geada, veiu apertar a mão ao caro Villaça, ao amigo Eusebio, arrepiado,
-mas achando o frio elegante, desejando a neve e o seu _chic_...
-
---Nada, nada, dizia Villaça todo amavel, cá o nosso solzinho portuguez
-sempre é melhor...
-
-E foram entrando no _fumoir_, onde se ouviam as vozes do marquez, de
-Carlos, n'uma das suas sabias e prolixas cavaqueiras sobre cavallos e
-sport.
-
---Então? que tal? A mulher? foi a interrogação que acolheu o Taveira.
-
-Mas antes de dar noticia da estreia da Morelli, a dama nova, Taveira
-reclamou alguma cousa quente. E enterrado n'uma poltrona junto do fogão,
-com os sapatos de verniz estendidos para as brazas, respirando o aroma
-do punch, saboreando uma cigarette, declarou emfim que não tinha sido um
-_fiasco_.
-
---Que ella, a meu vêr, é uma insignificancia, não tem nada, nem voz, nem
-escola. Mas, coitada, estava tão atrapalhada, que nos fez pena. Houve
-indulgencia, deram-se-lhe umas palmas... Quando fui ao palco, ella
-estava contente...
-
---Vamos a saber, Taveira, que tal é ella? inquiria o marquez.
-
---Cheia, dizia o Taveira collocando as palavras como pinceladas; alta;
-muito branca; bons olhos; bons dentes...
-
---E o pésinho?--E o marquez, já com os olhos accesos, passava de vagar a
-mão pela calva.
-
-Taveira não reparara no pé. Não era amador de pés...
-
---Quem estava? perguntou Carlos, indolente e bocejando.
-
---A gente do costume... É verdade, sabes quem tomou a frisa ao lado da
-tua? Os Gouvarinhos. Lá appareceram hoje...
-
-Carlos não conhecia os Gouvarinhos. Em redor explicaram-lhe: o conde de
-Gouvarinho, o par do reino, um homem alto, de lunetas, _poseur_... E a
-condessa, uma senhora inglesada, de cabello côr de cenoura, muito bem
-feita... Emfim, Carlos não conhecia.
-
-Villaça encontrava o conde no centro progressista, onde elle era uma
-columna do partido. Rapaz de talento, segundo o Villaça. O que o
-espantava é que elle podesse ter assim frisa de assignatura, atrapalhado
-como estava: ainda não havia tres mezes lhe tinham protestado uma letra
-de oitocentos mil réis, no tribunal do commercio...
-
---Um asno, um caloteiro! disse o marquez com nojo.
-
---Passa-se lá bem, ás terças feiras...--disse Taveira, mirando a sua
-meia de seda.
-
-Depois fallou-se do duello do Azevedo da _Opinião_ com o Sá Nunes,
-auctor d'_El-Rei Bolacha_, a grande magica da Rua dos Condes, e
-ultimamente ministro da marinha: tinham-se tratado furiosamente nos
-jornaes de _pulhas_ e de _ladrões_: e havia dez interminaveis dias que
-estavam desafiados e que Lisboa, em pasmaceira, esperava o sangue.
-Cruges ouvira que Sá Nunes não se queria bater, por estar de luto por
-uma tia; dizia-se tambem que o Azevedo partira precipitadamente para o
-Algarve. Mas a verdade, segundo Villaça, era que o ministro do reino,
-primo do Azevedo, para evitar o recontro, conservava a casa dos dois
-cavalheiros bloqueada pela policia...
-
---Uma canalha! exclamou o marquez com um dos seus resumos brutaes que
-varriam tudo.
-
---O ministro não deixa de ter razão, observou Villaça. Isto ás vezes, em
-duellos, póde bem succeder uma desgraça...
-
-Houve um curto silencio. Carlos, que caía de somno, perguntou ao
-Taveira, atravez d'outro bocejo, se vira o Ega no theatro.
-
---Podera! La estava de serviço, no seu posto, na frisa dos Cohens, todo
-puxado...
-
---Então essa cousa do Ega com a mulher do Cohen, disse o marquez, parece
-clara...
-
---Transparente, diaphana! um crystal!...
-
-Carlos, que se erguera a accender uma cigarette para despertar, lembrou
-logo a grande maxima de D. Diogo: essas cousas nunca se sabiam, e era
-preferivel não se saberem! Mas o marquez, a isto, lançou-se em
-considerações pesadas. Estimava que o Ega _se atirasse_; e via ahi um
-facto de represalia social, por o Cohen ser judeu e banqueiro. Em geral
-não gostava de judeus; mas nada lhe offendia tanto o gosto e a razão
-como a especie _banqueiro_. Comprehendia o salteador de clavina, n'um
-pinheiral; admittia o communista, arriscando a pelle sobre uma
-barricada. Mas os argentarios, os _Fulanos e C.^{as}_ faziam-n'o
-encavacar... E achava que destruir-lhes a paz domestica era acto
-meritorio!
-
---Duas horas e um quarto! exclamou Taveira, que olhara o relogio. E eu
-aqui, empregado publico, tendo deveres para com o Estado, logo ás dez
-horas da manhã.
-
---Que diabo, se faz no tribunal de contas? perguntou Carlos. Joga-se?
-Cavaquea-se?
-
---Faz-se um bocado de tudo, para matar tempo... Até contas!
-
-Affonso da Maia já estava recolhido. Sequeira e Steinbroken tinham
-partido; e D. Diogo, no fundo da sua velha traquitana, lá fôra tambem a
-tomar ainda gemada, a pôr ainda o emplastro, sob o olho solicito da
-Margarida, sua cozinheira e seu derradeiro amor. E os outros não
-tardaram a deixar o Ramalhete. Taveira, de novo sepultado na _ulster_,
-trotou até casa, uma vivendasinha perto com um bonito jardim. O marquez
-conseguiu levar Cruges no _coupé_, para lhe ir fazer musica a casa, no
-orgão, até ás tres ou quatro horas, musica religiosa e triste, que o
-fazia chorar, pensando nos seus amores e comendo frango frio com fatias
-de salame. E o viuvo, o Eusebiosinho, esse, batendo o queixo, tão morosa
-e soturnamente como se caminhasse para a sua propria sepultura, lá se
-dirigiu ao lupanar onde tinha uma _paixão_.
-
-
-O laboratorio de Carlos estava prompto--e muito convidativo, com o seu
-soalho novo, fornos de tijolo fresco, uma vasta meza de marmore, um
-amplo divan de clina para o repouso depois das grandes descobertas, e em
-redor, por sobre peanhas e prateleiras, um rico brilho de metaes e
-crystaes; mas as semanas passavam, e todo esse bello material de
-experimentação, sob a luz branca da claraboia, jazia virgem e ocioso. Só
-pela manhã um servente ía ganhar o seu tostão diario, dando lá uma volta
-preguiçosa com um espanador na mão.
-
-Carlos realmente não tinha tempo de se occupar do laboratorio; e
-deixaria a Deus mais algumas semanas o privilegio exclusivo de saber o
-segredo das cousas--como elle dizia rindo ao avô. Logo pela manhã cedo
-ía fazer as suas duas horas d'armas com o velho Randon; depois via
-alguns doentes no bairro onde se espalhara, com um brilho de legenda, a
-cura da Marcellina--e as garrafas de Bordeus que lhe mandara Affonso.
-Começava a ser conhecido como medico. Tinha visitas no
-consultorio--ordinariamente bachareis, seus contemporaneos, que
-sabendo-o rico o consideravam gratuito, e lá entravam, murchos e com má
-cara, a contar a velha e mal disfarçada historia de ternuras funestas.
-Salvara d'um garrotilho a filha d'um brazileiro, ao Aterro--e ganhara
-ahi a sua primeira libra, a primeira que pelo seu trabalho ganhava um
-homem da sua familia. O dr. Barbedo convidara-o a assistir a uma
-operação ovariotomica. E emfim (mas esta consagração não a esperava
-realmente Carlos tão cedo) alguns dos seus bons collegas, que até ahi,
-vendo-o só a governar os seus cavallos inglezes, fallavam do «talento do
-Maia»--agora percebendo-lhe estas migalhas de clientella, começavam a
-dizer «que o Maia era um asno.» Carlos já fallava a serio da sua
-carreira. Escrevera, com laboriosos requintes d'estylista, dois artigos
-para a _Gazeta Medica_; e pensava em fazer um livro d'idéas geraes, que
-se devia chamar _Medicina Antiga e Moderna_. De resto occupava-se sempre
-dos seus cavallos, do seu luxo, do seu bric-a-brac. E atravez de tudo
-isto, em virtude d'essa fatal dispersão de curiosidade que, no meio do
-caso mais interessante de pathologia, lhe fazia voltar a cabeça, se
-ouvia fallar d'uma estatua ou d'um poeta, attrahia-o singularmente a
-antiga idéa do Ega, a creação d'uma Revista, que dirigisse o gosto,
-pezasse na politica, regulasse a sociedade, fosse a força pensante de
-Lisboa...
-
-Era porém inutil lembrar ao Ega este bello plano. Abria um olho vago,
-respondia:
-
---Ah, a Revista... Sim, está claro, pensar n'isso! Havemos de fallar, eu
-apparecerei...
-
-Mas não apparecia no Ramalhete, nem no consultorio; apenas se avistavam,
-ás vezes, em S. Carlos, onde o Ega, todo o tempo que não passava no
-camarote dos Cohens, vinha invariavelmente refugiar-se no fundo da frisa
-de Carlos, por trás de Taveira ou do Cruges; d'onde podesse olhar de vez
-em quando Rachel Cohen--e ali ficava, silencioso, com a cabeça appoiada
-ao tabique, repousando e como saturado de felicidade...
-
-O dia (dizia elle) tinha-o todo tomado: andava procurando casa, andava
-estudando mobilias... Mas era facil encontral-o pelo Chiado e pelo
-Loreto, a rondar e a farejar--ou então no fundo de tipoias de praça,
-batendo a meio galope, n'um espalhafato de aventura.
-
-O seu dandysmo requintava; arvorara, com o desplante soberbo d'um
-Brummel, casaca de botões amarellos sobre collete de setim branco; e
-Carlos entrando uma manhã cedo no _Universal_, deu com elle pallido de
-colera, a despropositar com um creado, por causa d'uns sapatos mal
-envernisados. Os seus companheiros constantes, agora, eram um Damaso
-Salcede, amigo do Cohen, e um primo da Rachel Cohen, mocinho imberbe,
-d'olho esperto e duro, já com ares de emprestar a trinta por cento.
-
-Entre os amigos, no Ramalhete, sobretudo na frisa, discutia-se ás vezes
-Rachel, e as opiniões discordavam. Taveira achava-a «deliciosa!»--e
-dizia-o rilhando o dente: ao marquez não deixava de parecer appetitosa,
-para uma vez, aquella carnezinha _faisandée_ de mulher de trinta annos:
-Cruges chamava-lhe uma «lambisgoia relamboria». Nos jornaes, na secção
-do _High-life_, ella era «uma das nossas primeiras elegantes»: e toda a
-Lisboa a conhecia, e a sua luneta d'ouro presa por um fio d'ouro, e a
-sua caleche azul com cavallos pretos. Era alta, muito pallida, sobre
-tudo ás luzes, delicada de saude, com um quebranto nos olhos pisados,
-uma infinita languidez em toda a sua pessoa, um ar de romance e de lyrio
-meio murcho: a sua maior belleza estava nos cabellos, magnificamente
-negros, ondeados, muito pesados, rebeldes aos ganchos, e que ella
-deixava habilmente cahir n'uma massa meia solta sobre as costas, como
-n'um desalinho de nudez. Dizia-se que tinha litteratura, e fazia
-phrases. O seu sorriso lasso, pallido, constante, dava-lhe um ar de
-insignificancia. O pobre Ega adorava-a.
-
-Conhecera-a na Foz, na Assembléa; n'essa noite, cervejando com os
-rapazes, ainda lhe chamou _camelia melada_; dias depois já adulava o
-marido; e agora esse demagogo, que queria o massacre em massa das
-classes medias, soluçava muita vez por causa d'ella, horas inteiras,
-cahido para cima da cama.
-
-Em Lisboa, entre o Gremio e a Casa Havaneza, já se começava a fallar «do
-arranjinho do Ega». Elle todavia procurava pôr a sua felicidade ao
-abrigo de todas as suspeitas humanas. Havia nas suas complicadas
-precauções tanta sinceridade como prazer romantico do mysterio: e era
-nos sitios mais desageitados, fóra de portas, para os lados do
-Matadouro, que ía furtivamente encontrar a creada que lhe trazia as
-cartas d'ella... Mas em todos os seus modos (mesmo no disfarce affectado
-com que espreitava as horas) transbordava a immensa vaidade d'aquelle
-adulterio elegante. De resto sentia bem que os seus amigos conheciam a
-gloriosa aventura, o sabiam em pleno drama: era mesmo talvez por isso,
-que, diante de Carlos e dos outros, nunca até ahi mencionara o nome
-d'ella, nem deixara jámais escapar um lampejo de exaltação.
-
-Uma noite, porém, acompanhando Carlos até ao Ramalhete, noite de lua
-calma e branca, em que caminhavam ambos callados, Ega, invadido decerto
-por uma onda interior de paixão, soltou desabafadamente um suspiro,
-alargou os braços, declamou com os olhos no astro, um tremor na voz:
-
-
- Oh! laisse-toi donc aimer, oh! l'amour c'est la vie!
-
-
-Isto fugira-lhe dos labios como um começo de confissão; Carlos ao lado
-não disse nada, soprou ao ar o fumo do charuto.
-
-Mas Ega sentiu-se decerto ridiculo, porque se calmou, refugiou-se
-immediatamente no puro interesse litterario:
-
---No fim de contas, menino, digam lá o que disserem, não ha senão o
-velho Hugo...
-
-Carlos, comsigo, lembrava furores naturalistas do Ega, rugindo contra
-Hugo, chamando-lhe «saco-roto de espiritualismo», «boca-aberta de
-sombra», «avôsinho lyrico», injurias peiores.
-
-Mas n'essa noite o grande phraseador continuou:
-
---Ah o velho Hugo! o velho Hugo é o campeão heroico de verdades
-eternas... É necessario um bocado d'ideal, que diabo!... De resto o
-ideal póde ser real...
-
-E foi, com esta palinodia, acordando os silencios do Aterro.
-
-Dias depois Carlos, no consultorio, acabava de despedir um doente, um
-Viegas, que todas as semanas vinha alli fazer a fastidiosa chronica da
-sua dyspepsia--quando do reposteiro da sala d'espera lhe surgiu o Ega,
-de sobrecasaca azul, luva _gris-perle_ e um rolo de papel na mão.
-
---Tens que fazer, doutor?
-
---Não, ía a sahir, janota!
-
---Bem. Venho-te impingir prosa... Um bocado do _Atomo_... Senta-te ahi.
-Ouve lá.
-
-Immediatamente abancou, afastou papeis e livros, desenrolou o
-manuscripto, espalmou-o, deu um puxão ao collarinho--e Carlos, que se
-pousara á borda do divan, com a face espantada e as mãos nos joelhos,
-achou-se quasi sem transição transportado dos rugidos do ventre do
-Viegas para um rumor de populaça, n'um bairro de judeus, na velha cidade
-de Heidelberg.
-
---Mas espera lá! exclamou elle. Deixa-me respirar. Isso não é o começo
-do livro! Isso não é o cahos...
-
-Ega então recostou-se, desabotoou a sobrecasaca, respirou tambem.
-
---Não, não é o primeiro episodio... Não é o cahos. É já no seculo XV...
-Mas n'um livro d'estes póde-se começar pelo fim... Conveiu-me fazer este
-episodio: chama-se a _Hebrea_.
-
-A Cohen! pensou Carlos.
-
-Ega tornou a alargar o collarinho--e foi lendo, animando-se, ferindo as
-palavras para as fazer viver, soltando grandes cheios de voz nas
-sonoridades finaes dos periodos. Depois da sombria pintura d'um bairro
-medival de Heidelberg, o famoso Atomo, o _Atomo do Ega_, apparecia
-alojado no coração do esplendido principe Franck, poeta, cavalleiro, e
-bastardo do imperador Maximiliano. E todo esse coração de heroe
-palpitava pela judia Esther, perola maravilhosa do Oriente, filha do
-velho rabbino Salomão, um grande doutor da Lei, perseguido pelo odio
-theologico do Geral dos Dominicanos.
-
-Isto contava-o o Atomo n'um monologo, tão recamado d'imagens como um
-manto da Virgem está recamado d'estrellas--e que era uma declaração
-d'elle, Ega, á mulher do Cohen. Depois abria-se um intermedio
-pantheista: rompiam coros de flores, coros de astros, cantando na
-linguagem da luz, ou na eloquencia dos perfumes, a belleza, a graça, a
-pureza, a alma celeste de Esther--e de Rachel... Emfim, chegava o negro
-drama da perseguição: a fuga da familia hebraica, atravéz de bosques de
-bruxas e brutas aldêas feudaes; a apparição, n'uma encrusilhada, do
-principe Franck que vem proteger Esther, de lança alta, no seu grande
-corcel; o tropel da turba fanatica, correndo a queimar o rabbino e os
-seus livros herejes; a batalha, e o principe atravessado pelo chuço d'um
-_reitre_, indo morrer no peito d'Esther, que morre com elle n'um beijo.
-Tudo isto se precipitava como um sonoro e tumultuoso soluço; e era
-tratado com as maneiras modernas d'estylo, o esforço atormentado
-inchando a expressão, as camadas de côr atiradas á larga para fazer
-ressaltar o tom de vida...
-
-Ao findar o _Atomo_ exclamava, com a vasta solemnidade d'um cheio
-d'orgão:--«assim arrefeceu, parou, aquelle coração de heroe que eu
-habitava; e evaporado o principio de vida, eu, agora livre, remontei aos
-astros, levando comigo a essencia pura d'esse amor immortal.»
-
---Então?...--disse Ega, esfalfado, quasi tremulo.
-
-Carlos só poude responder:
-
---Está ardente.
-
-Depois elogiou a serio alguns lances, o coro das florestas, a leitura do
-_Ecclesiastes_, de noite, entre as ruinas da torre d'Othon, certas
-imagens d'um grande vôo lyrico.
-
-Ega, que tinha pressa, como sempre, enrolou o manuscripto, reabotoou a
-sobrecasaca, e já de chapéu na mão:
-
---Então, parece-te apresentavel?...
-
---Vaes publicar?
-
---Não, mas emfim...--e ficou n'esta reticencia, fazendo-se corado.
-
-Carlos comprehendeu tudo dias depois, encontrando na _Gazeta do Chiado_
-uma descripção «da leitura feita em casa do ex.^{mo} sr. Jacob Cohen,
-pelo nosso amigo João da Ega, de um dos mais brilhantes episodios do seu
-livro--_As memorias d'um atomo_.» E o jornalista accrescentava, dando a
-sua impressão pessoal: «é uma pintura dos sofrimentos porque passaram,
-nos tempos da intolerancia religiosa, aquelles que seguem a Lei
-d'Israel. Que poder de imaginação! Que fluencia d'estylo! O effeito foi
-extraordinario, e quando o nosso amigo fechou o manuscripto ao succumbir
-da protagonista--vimos lagrimas em todos os olhos da numerosa e
-estimavel colonia hebraica!»
-
-Oh, furor do Ega! Rompeu n'essa tarde pelo consultorio, pallido,
-desorientado...
-
---Estas bestas! Estas bestas d'estes jornalistas! Leste? _Lagrimas em
-todos os olhos da numerosa e estimavel colonia hebraica!_ Faz cahir a
-cousa em ridiculo... E depois a _fluencia d'estylo_. Que burros! Que
-idiotas!
-
-Carlos, que cortava as folhas d'um livro, consolou-o. Aquella era a
-maneira nacional de fallar d'obras d'arte... Não valia a pena bramar...
-
---Não, palavra, tinha vontade de quebrar a cara áquelle folliculario!
-
---E porque lh'a não quebras?
-
---É um amigo dos Cohens.
-
-E foi grunhindo improperios contra a imprensa, a passos de tigre pelo
-gabinete. Por fim irritado com a indifferença de Carlos:
-
---Que diabo estás tu ahi a ler? _Nature parasitaire des accidents de
-l'impaludisme_... Que blague, a medicina! Dize-me uma cousa. Que diabo
-serão umas picadas que me veem aos braços, sempre que vou a
-adormecer?...
-
---Pulgas, bichos, vermina...--murmurou Carlos com os olhos no livro.
-
---Animal! rosnou Ega, arrebatando o chapéu.
-
---Vaes-te, John?
-
---Vou, tenho que fazer!--E junto do reposteiro, ameaçando o céu com o
-guarda-chuva, chorando quasi de raiva:--Estes burros d'estes
-jornalistas! São a escoria da sociedade!
-
-D'ahi a dez minutos reappareceu, bruscamente: e já com outra voz, n'um
-tom de caso serio:
-
---Ouve cá. Tinha-me esquecido. Tu queres ser apresentado aos
-Gouvarinhos?
-
---Não tenho um interesse especíal, respondeu Carlos, erguendo os olhos
-do livro, depois de um silencio. Mas não tenho tambem uma repugnancia
-especial.
-
---Bem, disse Ega. Elles desejam conhecer-te, sobretudo a condessa faz
-empenho... Gente intelligente, passa-se lá bem... Então, decidido! Terça
-feira vou-te buscar ao Ramalhete, e vamo-nos _gouvarinhar_.
-
-Carlos ficou pensando n'aquella proposta do Ega, na maneira como elle
-sublinhára o _empenho_ da condessa. Lembrava-se agora que ella era muito
-intima da Cohen: e ultimamente, em S. Carlos, n'aquella facil visinhança
-de frisa, surprehendera certos olhares d'ella... Mesmo, segundo o
-Taveira, ella realmente _fazia-lhe um olhão_. E Carlos achava-a picante,
-com os seus cabellos crespos e ruivos, o narizinho petulante, e os olhos
-escuros, d'um grande brilho, dizendo mil cousas. Era deliciosamente bem
-feita--e tinha uma pelle muito clara, fina e doce á vista, a que se
-sentia mesmo de longe o setim.
-
-Depois d'aquelle dia tristônho de aguaceiros, elle resolvera passar um
-bom serão de trabalho, ao canto do fogão, no conforto do seu
-robe-de-chambre. Mas ao café, os olhos da Gouvarinho começaram a
-faiscar-lhe por entre o fumo do charuto, a fazer-lhe _um olhão_,
-collocando-se tentadoramente entre elle e a sua noite d'estudo,
-pondo-lhe nas veias um vivo calor de mocidade... Tudo culpa do Ega, esse
-Mephistopheles de Celorico!
-
-Vestiu-se, foi a S. Carlos. Ao sentar-se porém á boca da frisa,
-preparado, de collete branco e perola negra na camisa,--em logar dos
-cabellos crespos e ruivos, avistou a carapinha retinta de um preto, um
-preto de doze annos, trombudo e lusidio, de grande collarinho á mamã
-sobre uma jaqueta de botões amarellos; ao lado outro preto, mais
-pequeno, com o mesmo uniforme de collegio, enterrava pela venta aberta o
-dedo calçado de pellica branca. Ambos elles lhe relancearam os olhos
-bogalhudos, côr de prata embaciada. A pessoa que os acompanhava,
-escondida para o fundo, parecia ter um catharro ascoroso.
-
-Dava-se a _Lucia_ em beneficio, com a segunda dama. Os Cohens não tinham
-vindo--nem o Ega. Muitos camarotes estavam desertos, em toda a tristeza
-do seu velho papel vermelho. A noite chuviscosa, com um bafo de
-sudoeste, parecia penetrar alli, derramando o seu pesadume, a morna
-sensação da sua humidade. Nas cadeiras, vasias, havia uma mulher
-solitaria, vestida de setim claro; Edgardo e Lucia desafinavam; o gaz
-dormia, e os arcos das rebecas, sobre as cordas, pareciam ir adormecendo
-tambem.
-
---Isto está lugubre, disse Carlos ao amigo Cruges, que occupava o escuro
-da frisa.
-
-Cruges, amodorroado n'um accesso de _spleen_, com o cotovello sobre as
-costas da cadeira, os dedos por entre a cabelleira, todo elle embrulhado
-em crepes, sobrepostos de melancolia, respondeu, como do fundo d'um
-sepulchro:
-
---Pesadote.
-
-Por indolencia, Carlos ficou. E pouco a pouco, aquelle preto de que os
-seus olhos se não podiam despegar, alli enthronisado na poltrona de reps
-verde da Gouvarinho, com a manga da jaqueta plantada no rebordo onde
-costumava alvejar um lindo braço,--foi-lhe arrastando, a seu pesar, a
-imaginação para a pessoa d'ella; relembrou _toilettes_ com que ella alli
-estivera; e nunca lhe pareceram tão picantes, como agora que os não via,
-os seus cabellos ruivos, côr de braza ás luzes, d'um encrespado forte,
-como crestados da chamma interna. A carapinha do preto, essa, em logar
-de risca tinha um sulco cavado á thesoura na massa de lã espessa. Quem
-seriam, por que estavam alli, aquelles africanos de perfil trombudo?
-
---Tu já reparaste n'esta extraordinaria carapinha, Cruges?
-
-O outro, que se não mexera da sua attitude de estatua tumular, grunhiu
-da sombra um monosyllabo surdo.
-
-Carlos respeitou-lhe os nervos.
-
-De repente, ao desafinar mais aspero d'um coro, Cruges deu um salto.
-
---Isto só a pontapé... Que empreza esta! rugio elle, envergando
-furiosamente o paletot.
-
-Carlos foi leval-o no coupé á rua das Flores, onde elle morava com a mãe
-e uma irmã; e até ao Ramalhete não cessou de lamentar comsigo o seu
-serão d'estudo perdido.
-
-O creado de Carlos, o Baptista, (familiarmente, o _Tista_) esperava-o,
-lendo o jornal, na confortavel antecamara dos «quartos do menino»,
-forrada de velludo côr de cereja, ornada de retratos de cavallos e
-panoplias de velhas armas, com divans do mesmo velludo, e muito
-allumiada a essa hora por dois candieiros de globo pousados sobre
-columnas de carvalho, onde se enrolavam lavores de ramos de vide.
-
-Carlos tinha desde os onze annos este creado de quarto, que viera com o
-Brown para S.^{ta} Olavia, depois de ter servido em Lisboa, na Legação
-ingleza, e ter acompanhado o ministro, sir Hercules Morrisson, varias
-vezes a Londres. Foi em Coimbra, nos Paços de Cellas, que Baptista
-começou a ser um personagem: Affonso correspondia-se com elle de S.^{ta}
-Olavia. Depois viajou com Carlos; enjoaram nos mesmos paquetes,
-partilharam dos mesmos _sandwiches_ no buffete das gares; Tista
-tornou-se um confidente. Era hoje um homem de cincoenta annos,
-desempenado, robusto, com um collar de barba grisalha por baixo do
-queixo, e o ar excessivamente _gentleman_. Na rua, muito direito na sua
-sobrecasaca, com o par de luvas amarellas espetado na mão, a sua bengala
-de cana da India, os sapatos bem envernisados, tinha a consideravel
-apparencia de um alto funccionario. Mas conservava-se tão fino e tão
-desembaraçado, como quando em Londres aprendera a walsar e a _boxar_ na
-rude balburdia dos salões-dançantes, ou como quando mais tarde, durante
-as ferias de Coimbra, acompanhava Carlos a Lamego e o ajudava a saltar o
-muro do quintal do sr. escrivão de fazenda--aquelle que tinha uma mulher
-tão garota.
-
-Carlos foi buscar um livro ao gabinete d'estudo, entrou no quarto,
-estendeu-se, cançado, n'uma poltrona. Á luz opalina dos globos, o leito
-entre-aberto mostrava, sob a seda dos cortinados, um luxo effeminado de
-bretanhas, bordados e rendas.
-
---Que ha hoje no _Jornal da Noite_? perguntou elle bocejando, em quanto
-Baptista o descalçava.
-
---Eu li-o todo, meu senhor, e não me pareceu que houvesse cousa alguma.
-Em França continúa socego... Mas a gente nunca póde saber, porque estes
-jornaes portuguezes imprimem sempre os nomes estrangeiros errados.
-
---São umas bestas. O sr. Ega hoje estava furioso com elles...
-
-Depois, em quanto Baptista preparava com esmero um _grog_ quente, Carlos
-já deitado, aconchegado, abriu preguiçosamente o livro, voltou duas
-folhas, fechou-o, tomou uma cigarette, e ficou fumando com as palpebras
-cerradas, n'uma immensa beatitude. Atravéz das cortinas pesadas
-sentia-se o sudoeste que batia o arvoredo, e os aguaceiros alagando os
-vidros.
-
---Tu conheces os srs. condes de Gouvarinho, Tista?
-
---Conheço o Pimenta, meu senhor, que é creado de quarto do sr. conde...
-Creado de quarto e serve a meza.
-
---E que diz então esse Tormenta? perguntou Carlos, n'uma voz indolente,
-depois d'um silencio.
-
---Pimenta, meu senhor! O Manuel é Pimenta. O sr. Gouvarinho chama-lhe
-Romão, por que estava acostumado ao outro creado que era Romão. E já
-isto não é bonito, porque cada um tem o seu nome. O Manuel é Pimenta. O
-Pimenta não está contente...
-
-E Baptista, depois de collocar junto da cabeceira a salva com o _grog_,
-o assucareiro, as cigarettes, transmittiu as revelações do Pimenta. O
-conde de Gouvarinho, além de muito massador e muito pequinhento, não
-tinha nada de cavalheiro: dera um fato de cheviot claro ao Romão (ao
-Pimenta), mas tão coçado e tão cheio de riscas de tinta, de limpar a
-penna á perna e ao hombro, que o Pimenta deitou o presente fóra. O conde
-e a senhora não se davam bem: já no tempo do Pimenta, uma occasião, á
-mesa, tinham-se pegado de tal modo que ella agarrou do copo e do prato,
-e esmigalhou-os no chão. E outra qualquer teria feito o mesmo; por que o
-sr. conde, quando começava a repisar, a remoer, não se podia aturar. As
-questões eram sempre por causa de dinheiro. O Tompson velho estava farto
-de abrir os cordões á bolsa...
-
---Quem é esse Tompson velho, que nos apparece agora, a esta hora da
-noite? perguntou Carlos, a seu pesar interessado.
-
---O Tompson velho é o pae da sr.^a condessa. A sr.^a condessa era uma
-miss Tompson, dos Tompson do Porto. O sr. Tompson não tem querido
-ultimamente emprestar nem mais um real ao genro: de sorte que, uma vez,
-já no tempo do Pimenta tambem, o sr. conde, furioso, disse á senhora que
-ella e o pae se deviam lembrar que eram gente de commercio e que fora
-elle que fizera d'ella uma condessa; e com perdão de v. ex.^a, a senhora
-condessa ali mesmo á mesa mandou o condado á tabúa... Estas cousas não
-estão no genero do Pimenta.
-
-Carlos bebeu um gole de grog. Bailava-lhe nos labios uma pergunta, mas
-hesitava. Depois reflectiu na puerilidade de tão rigidos escrupulos, a
-respeito d'uma gente, que ao jantar, diante do escudeiro, quebrava a
-porcelana, mandava á tabua o titulo dos antepassados. E perguntou:
-
---Que diz o sr. Pimenta da senhora condessa, Baptista? Ella diverte-se?
-
---Creio que não, meu senhor. Mas a creada de confiança d'ella, uma
-escosseza, essa é desobstinada. E não fica bem á senhora condessa ser
-assim tão intima com ella...
-
-Houve um silencio no quarto, a chuva cantou mais forte nos vidros.
-
---Passando a outro assumpto, Baptista. Vamos a saber, ha quanto tempo,
-não escrevo eu a madame Rughel?
-
-Baptista tirou do bolso interior da sua casaca um livro de apontamentos,
-aproximou-se da luz, encavalou a luneta no nariz, e verificou, com
-methodo, estas datas:--«Dia 1 de janeiro, telegramma expedido com
-felicitações do começo d'anno a madame Rughel, Hotel d'Albe, Champs
-Élyseés, Paris. Dia 3, telegramma recebido de madame Rughel,
-reciprocando comprimentos, exprimindo amizade, annunciando partida para
-Hamburgo. Dia 15, carta lançada ao correio, para madame Rughel,
-_William-Strasse, Hamburgo, Allemagne_. Depois--mais nada. De modo que
-havia já cinco semanas que o menino não escrevia a madame Rughel...
-
---É necessario escrever ámanhã, disse Carlos..
-
-Baptista tomou uma nota.
-
-Depois, entre uma fumaça languida, a voz de Carlos ergueu-se de novo na
-paz dormente do quarto:
-
---Madame Rughel era muito bonita, não é verdade, Baptista? É a mulher
-mais bonita que tu tens visto na tua vida!
-
-O velho creado metteu o livro no bolso da casaca, e respondeu, sem
-hesitar, muito certo de si:
-
---Madame Rughel era uma senhora de muita vista. Mas a mulher mais linda
-em que tenho posto os olhos, se o menino dá licença, era aquella senhora
-do coronel de hussards que vinha ao quarto do hotel em Vienna.
-
-Carlos atirou a cigarette para a salva--e escorregando pela roupa
-abaixo, todo invadido por uma onda de recordações alegres, exclamou da
-profundidade do seu conforto, no antigo tom de emphase bohemia dos Paços
-de Cellas.
-
---O sr. Baptista não tem gosto nenhum! Madame Rughel era uma nympha de
-Rubens, senhor! Madame Rughel tinha o explendor d'uma deusa da
-Renascença, senhor! Madame Rughel devia ter dormido no leito imperial de
-Carlos Quinto...--Retire-se, senhor!
-
-Baptista entalou mais o _couvre-pieds_, relanceou pelo quarto um olhar
-solicito, e, contente, da ordem em que as cousas adormeciam, saíu,
-levando o candieiro. Carlos não dormia: e não pensava na coronela de
-hussards, nem em madame Rughel. A figura que no escuro dos cortinados
-lhe apparecia, n'um vago dourado que provinha do reflexo de seus
-cabellos soltos, era a Gouvarinho--a Gouvarinho que não tinha o
-explendor d'uma deusa da Renascença como madame Rughel, nem era a mulher
-mais linda em que Baptista pozera os seus olhos como a coronela de
-hussards: mas, com o seu nariz petulante e a sua boca grande, brilhava
-mais e melhor que todas na imaginação de Carlos--porque elle esperara-a
-essa noite e ella não tinha apparecido.
-
-Na terça-feira promettida Ega não veiu buscar Carlos para se irem
-_gouvarinhar_. E foi Carlos que d'ahi a dias, entrando como por acaso no
-_Universal_, perguntou rindo ao Ega:
-
---Então quando nos _gouvarinhamos_?
-
-N'essa noite, em S. Carlos, n'um entre-acto dos _Huguenotes_, Ega
-apresentou-o ao sr. conde de Gouvarinho, no corredor das frizas. O
-conde, muito amavel, lembrou logo que já tivera, mais de uma vez, o
-prazer de passar pela porta de S.^{ta} Olavia, quando ia vêr os seus
-velhos amigos, os Tedins, a Entre-Rios--uma formosa vivenda tambem.
-Fallaram então do Douro, da Beira, compararam outras paisagens. Para o
-conde, nada havia, no nosso Portugal, como os campos do Mondego: mas a
-sua parcialidade era perdoavel, pois n'esses ferteis vales nascera e se
-creara: e fallou um momento de Formozelha, onde tinha casa, onde vivia
-edosa e doente sua mãe, a sr.^a condessa viuva...
-
-Ega, que affectara beber as palavras do conde, começou então uma
-controversia, sustentando como se se tratasse dos dogmas d'uma fé, a
-belleza superior do Minho, «esse paraiso idillico.» O conde sorria: via
-ali, como elle observou a Carlos, batendo amavelmente no hombro do Ega,
-a rivalidade das duas provincias. Emulação fecunda, de resto, no seu
-pensar...
-
---Ahi está, por exemplo, dizia elle, o ciume entre Lisboa e Porto. É uma
-verdadeira dualidade como a que existe entre a Hungria e a Austria...
-Ouço por ali lamental-a. Pois bem, eu, se fosse poder, instigal-a-hia,
-acirral-a-hia, se v. ex.^{as} me permittem a expressão. N'esta lucta das
-duas grandes cidades do reino, podem outros vêr despeitos mesquinhos, eu
-vejo elementos de progresso. Vejo civilisação!
-
-Proferia estas cousas como do alto d'um pedestal, muito acima dos
-homens, deixando-as providamente caír dos thesouros do seu intellecto á
-maneira de dons inestimaveis. A voz era lenta e rotunda; os cristaes da
-sua luneta d'ouro faiscavam vistosamente; e no bigode encerado, na pera
-curta, havia ao mesmo tempo alguma cousa de doutoral e de casquilho.
-
-Carlos dizia: «Tem v. ex.^a razão, sr. conde.» O Ega dizia: «Você vê
-essas cousas d'alto, Gouvarinho». Elle cruzara as mãos por baixo das
-abas da casaca--e estavam todos tres muito serios.
-
-Depois o conde abriu a porta da friza, Ega desappareceu. E d'ahi a um
-momento, Carlos, apresentado como «visinho de camarote», recebia da
-sr.^a condessa um grande _shake-hand_, em que tilintaram uma infinidade
-d'aros de prata e de _blangles_ indios sobre a sua luva preta de doze
-botões.
-
-A sr.^a condessa, um pouco corada, ligeiramente nervosa, lembrou logo a
-Carlos que o vira no verão passado em Paris, no salão baixo do Café
-Inglez: até por signal estava n'essa noite um velho abominavel com duas
-garrafas vazias diante de si, e contando alto, para uma meza defronte,
-historias horrorosas do sr. Gambetta: um sujeito ao lado protestou; o
-outro não fez caso, era o velho duque de Grammont. O conde passou os
-dedos lentos pela testa, com um ar quasi angustioso: não se lembrava de
-nada d'isso! Queixou-se logo amargamente da sua falta de memoria. Uma
-cousa tão indispensavel em quem segue a vida publica, a memoria! e elle
-desgraçadamente, não possuia nem um atomo. Por exemplo, lera (como todo
-o homem devia lêr) os vinte volumes da _Historia Universal de Cesar
-Cantu_; lêra-os com attenção, fechado no seu gabinete, absorvendo-se na
-obra. Pois, senhores, escapara-lhe tudo--e ali estava sem saber
-historia!
-
---V. ex.^a tem boa memoria, sr. Maia?
-
---Tenho uma rasoavel memoria.
-
---Inapreciavel bem de que goza!
-
-A condessa voltara-se para a platéa, coberta com o leque, com o ar
-constrangido, como se aquellas palavras pueris do marido a diminuissem,
-a desfeiassem... Carlos então fallou da opera. Que bello escudeiro
-huguenote fazia o Pandolli! A condessa não aturava o Corcelli, o tenor,
-com as suas notas asperas e aquella obesidade que o tornava _buffo_. Mas
-tambem (lembrava Carlos) onde havia hoje tenores? Passara essa grande
-raça dos Marios, homens de belleza, de inspiração, realisando os grandes
-typos lyricos. Nicolini era já uma degeneração... Isto fez lembrar a
-Patti. A condessa adorava-a, e a sua graça de fada, e a sua voz
-semelhante a uma chuva d'ouro!...
-
-Os olhos brilhavam-lhe, diziam mil cousas; em certos movimentos, o
-cabello crespamente ondeado, tomava tons de oiro vermelho: e em torno
-d'ella errava, no calor do gaz e da enchente, um aroma exagerado de
-verbena. Estava de preto, com uma gargantilha, de rendas negras, á
-Valois, affogando-lhe o pescoço onde pousavam duas rosas escarlates. E
-toda a sua pessoa tinha um arsinho de provocação e de ataque. De pé,
-callado, grave, o conde batia a coxa com a claque fechada.
-
-O quarto acto começara, Carlos ergueu-se; e os seus olhos encontraram
-defronte, na frisa do Cohen, o Ega, de binoculo, observando-o, mirando a
-condessa e fallando a Rachel, que sorria, movia o leque com um ar
-dolente e vago.
-
---Nós recebemos ás terças feiras, disse a condessa a Carlos--e o resto
-da phrase perdeu-se n'um murmurio e n'um sorriso.
-
-O conde acompanhou-o fóra, ao corredor.
-
---É sempre uma honra para mim, dizia elle caminhando ao lado de Carlos,
-fazer o conhecimento das pessoas que valem alguma cousa n'este paiz ...
-V. ex.^a é d'esse numero, bem raro infelizmente.
-
-Carlos protestou, risonho. E o outro, na sua voz lenta e rotunda:
-
---Não o lisongeio. Eu nunca lisongeio... Mas a v. ex.^a podem-se dizer
-estas cousas, porque pertence á _elite_: a desgraça de Portugal é a
-falta de gente, Isto é um paiz sem pessoal. Quer-se um bispo? Não ha um
-bispo. Quer-se um economista? Não ha um economista. Tudo assim! Veja v.
-ex.^a mesmo nas profissões subalternas. Quer-se um bom estofador? Não ha
-um bom estofador...
-
-Um cheio de instrumentos e vozes, d'um tom sublime, passando pela porta
-da frisa entreaberta, cortou-lhe umas ultimas palavras sobre a
-defficiencia dos photographos... Escutou, com a mão no ar:
-
---É o _coro dos punhaes_, não? Ah vamos a ouvir... Ouve-se sempre isto
-com proveito. Ha philosophia n'esta musica... É pena que lembre tão
-vivamente os tempos da intolerancia religiosa, mas ha alli
-incontestavelmente philosophia!
-
-
-
-
-VI
-
-
-Carlos, n'essa manhã, ia visitar de surpreza a casa do Ega, a famosa
-«Villa Balzac», que esse phantasista andára meditando e dispondo desde a
-sua chegada a Lisboa, e onde se tinha emfim installado.
-
-Ega dera-lhe esta denominação litteraria, pelos mesmos motivos porque a
-alugára n'um suburbio longiquo, na solidão da Penha de França,--para que
-o nome de Balzac, seu padroeiro, o silencio campestre, os ares limpos,
-tudo alli fosse favoravel ao estudo, ás horas d'arte e d'ideal. Por que
-ia fechar-se lá, como n'um claustro de lettras, a findar as _Memorias
-d'um Atomo!_ Sómente, por causa das distancias, tinha tomado ao mez um
-coupé da companhia.
-
-Carlos teve difficuldades em encontrar a «Villa Balzac»: não era, como
-tinha dito Ega no Ramalhete, logo adiante do largo da Graça um
-_chaletsinho_ retirado, fresco, assombreado, sorrindo entre arvores.
-Passava-se primeiro a Cruz dos Quatro Caminhos; depois penetrava-se
-n'uma vereda larga, entre quintaes, descendo pelo pendor da collina, mas
-accessivel a carruagens; e ahi, n'um recanto, ladeada de muros,
-apparecia emfim uma cazota de paredes enxovalhadas, com dois degraus de
-pedra á porta, e transparentes novos d'um escarlate estridente.
-
-N'essa manhã, porém, debalde Carlos deu puxões desesperados á corda da
-campainha, martellou a aldrava da porta, gritou a toda a voz por cima do
-muro do quintal e das copas das arvores o nome do Ega:--a «Villa Balzac»
-permaneceu muda, como deshabitada, no seu retiro rustico. E todavia
-pareceu a Carlos que, justamente antes de bater, ouvira o estalar de
-rolhas de _Champagne_.
-
-Quando Ega soube esta tentativa, mostrou-se indignado com os criados,
-que assim abandonavam a casa, lhe davam um ar suspeito de Torre de
-Nesle...
-
---Vae lá ámanhã, se ninguem responder, escala as janellas, pega fogo ao
-predio, como se fossem apenas as Tulherias.
-
-Mas no dia seguinte, quando Carlos chegou, já a «Villa Balzac» o
-esperava, toda em festa: á porta «o pagem», um garoto de feições
-horrívelmente viciosas, perfilava-se na sua jaqueta azul de botões de
-metal, com uma gravata muito branca e muito teza; as duas janellas em
-cima, abertas, mostrando o reps verde das bambinellas, bebiam á larga
-todo o ar do campo e o sol de inverno: e no topo da estreita escada,
-tapetada de vermelho, Ega, n'um prodigioso robe-de-chambre, de um estofo
-adamascado do seculo dezoito, vestido de côrte de alguma das suas avós,
-exclamou dobrando a fronte ao chão:
-
---Bem vindo, meu principe, ao humilde tegurio do philosopho!
-
-Ergueu, com um gesto rasgado, um reposteiro de reps verde, d'um verde
-feio e triste, e introduziu o «principe» na sala onde tudo era verde
-tambem: o reps que recobria uma mobilia de nogueira, o tecto de taboado,
-as listas verticaes do papel da parede, o pano franjado da mesa, e o
-reflexo d'um espelho redondo, inclinado sobre o sophá.
-
-Não havia um quadro, uma flôr, um ornato, um livro--apenas sobre a
-jardineira uma estatueta de Napoleão I, de pé, equilibrado sobre o orbe
-terrestre, n'essa conhecida attitude em que o heroe, com um ar pansudo e
-fatal, esconde uma das mãos por traz das costas, e enterra a outra nas
-profundidades do seu collete. Ao lado uma garrafa de _Champagne_,
-encarapuçada de papel dourado, esperava entre dois copos esguios.
-
---Para que tens tu aqui Napoleão, John?
-
---Como alvo de injurias, disse Ega. Exercito-me sobre elle a fallar dos
-tyrannos...
-
-Esfregou as mãos, radiante. Estava n'essa manhã em alegria e em verve. E
-quiz immediatamente mostrar a Carlos o seu quarto de cama: ahi reinava
-um cretone de ramagens alvadias sobre fundo vermelho; e o leito enchia,
-esmagava tudo. Parecia ser o motivo, o centro da «Villa Balzac»; e
-n'elle se esgotara a imaginação artistica do Ega. Era de madeira, baixo
-como um divan, com a barra alta, um roda-pé de renda, e d'ambos os lados
-um luxo de tapetes de felpo escarlate; um largo cortinado de seda da
-India avermelhada envolvia-o n'um apparato de tabernaculo; e dentro, á
-cabeceira, como n'um lupanar, reluzia um espelho.
-
-Carlos, muito seriamente, aconselhou-lhe que tirasse o espelho. Ega deu
-a todo o leito um olhar silencioso e dôce, e disse depois de passar uma
-pontinha de lingua pelo beiço:
-
---Tem seu chic...
-
-Sobre a mesinha de cabeceira erguia-se um montão de livros: a _Educação_
-de Spencer ao lado de Beaudelaíre, a _Logica_ de Stuart Mill por cima do
-_Cavalleiro da Casa Vermelha_. No marmore da commoda havia outra garrafa
-de Champagne entre dous copos; o toucador, um pouco em desordem,
-mostrava uma enorme caixa de pó d'arroz no meio de plastrons e gravatas
-brancas do Ega, e um masso de ganchos do cabello ao lado de ferros de
-frisar.
-
---E onde trabalhas tu, Ega, onde fazes tu a grande arte?
-
---Alli! disse o Ega, alegremente, apontando para o leito.
-
-Mas foi mostrar logo o seu recantosinho estudioso, formado por um
-biombo, ao lado da janella, e tomado todo por uma mesa de pé de gallo,
-onde Carlos assombrado descobriu, entre o bello papel de cartas do Ega,
-um _Diccionario de Rimas_...
-
-E a visita á casa continuou.
-
-Na sala de jantar, quasi nua, caiada de amarello, um armario de pinho
-envidraçado abrigava melancolicamente um serviço barato de louça nova; e
-do fecho da janella pendia um vestuario vermelho, que parecia roupão de
-mulher.
-
---É sobrio e simples--exclamou o Ega--como compete áquelle que se
-alimenta d'uma codea d'Ideal e duas garfadas de Philosophia. Agora, á
-cosinha!...
-
-Abriu uma porta. Uma frescura de campos entrava pelas janellas abertas;
-e entreviam-se arvores de quintal, um verde de terrenos vagos, depois lá
-em baixo o branco de casarias rebrilhando ao sol; uma rapariga muito
-sardenta e muito forte sacudiu o gato do collo, ergueu-se, com o _Jornal
-de Noticias_ na mão. Ega apresentou-a, n'um tom de farça:
-
---A sr.^a Josepha, solteira, de temperamento sanguineo, artista
-culinaria da «Villa Balzac», e como se póde observar pelo papel que lhe
-pende das garras, cultora das boas letras!
-
-A moça sorria, sem embaraço, habituada de certo a estas familiaridades
-bohemias.
-
---Eu hoje não janto cá, senhora Josepha, continuava o Ega no mesmo tom.
-Este formoso mancebo que me acompanha, duque do Ramalhete, e principe de
-Santa Olavia, dá hoje de papar ao seu amigo e philosopho... E, como
-quando eu recolher, talvez a senhora Josepha esteja entregue ao somno da
-innocencia, ou á vigilia da devassidão, aqui lhe ordeno que me tenha
-amanhã para meu _lunch_ duas formosas perdizes.
-
-E subitamente, n'uma outra voz, com um olhar que ella devia perceber:
-
---Duas perdizesinhas bem assadas e bem córadinhas. Frias, está claro...
-O costume.
-
-Travou do braço de Carlos, voltaram á sala.
-
---Com franqueza, Carlos, que te parece a «Villa Balzac»?
-
-Carlos respondeu como a respeito do episodio da _Hebrea_:
-
---Está ardente.
-
-Mas elogiou o aceio, a vista da casa e a frescura dos cretones. De
-resto, para um rapaz, para uma cella de trabalho...
-
---Eu, dizia o Ega, passeiando pela sala, com as mãos enterradas nos
-bolsos do seu prodigioso robe de chambre, eu não tolero o _bibelot_, o
-_bric-à-brac_, a cadeira archeologica, essas mobilias d'arte... Que
-diabo, o movel deve estar em harmonia com a idéa e o sentir do homem que
-o usa! Eu não penso, nem sinto como um cavalleiro do seculo XVI, para
-que me hei de cercar de cousas do seculo XVI? Não ha nada que me faça
-tanta melancolia, como ver n'uma sala um veneravel contador do tempo de
-Francisco I recebendo pela face conversas sobre eleições e altas de
-fundos. Faz-me o effeito d'um bello heroe de armadura d'aço, viseira
-cahida e crenças profundas no peito, sentado a uma mesa de voltarete a
-jogar copas. Cada seculo tem o seu genio proprio e a sua attitude
-propria. O seculo XIX concebeu a Democracia e a sua attitude é
-esta...--E enterrando-se d'estalo n'uma poltrona, espetou as pernas
-magras para o ar.--Ora esta attitude é impossivel n'um escabello do
-tempo do Prior do Crato. Menino, toca a beber o _Champagne_.
-
-E como Carlos olhava a garrafa desconfiado, Ega accudiu:
-
---É excellente, que pensas tu? Vem directamente da melhor casa
-d'Epernay, arranjou-m'o o Jacob.
-
---Que Jacob?
-
---O Jacob Cohen, o Jacob.
-
-Ia cortar as guitas da rolha, quando o atravessou uma subita recordação,
-e pousando a garrafa outra vez, entalando o monocolo no olho:
-
---É verdade! Então, n'outro dia, que tal, em casa dos Gouvarinhos? Eu
-infelizmente não poude ir.
-
-Carlos contou a _soirée_. Havia dez pessoas, espalhadas pelas duas
-salas, n'um zum-zum dormente, á meia luz dos candieiros. O conde
-massara-o indiscretamente com a politica, admirações idiotas por um
-grande orador, um deputado de Mesão Frio, e explicações sem fim sobre a
-reforma da instrucção. A condessa, que estava muito constipada,
-horrorisou-o, dando sobre a Inglaterra, apesar de ingleza, as opiniões
-da rua de Cedofeita. Imaginava que a Inglaterra é um paiz sem poetas,
-sem artistas, sem ideaes, occupando-se só de amontoar libras... Emfim,
-seccara-se.
-
---Que diabo! murmurou o Ega n'um tom de viva desconsolação.
-
-A rolha estalou, elle encheu os copos em silencio; e n'uma _saude_ muda
-os dois amigos beberam o _Champagne_--que Jacob arranjara ao Ega, para o
-Ega se regalar com Rachel.
-
-Depois, de pé, com os olhos no tapete, agitando de vagar o copo
-novamente cheio onde a espuma morria, Ega tornou a murmurar, n'aquella
-entoação triste de inesperado desapontamento:
-
---Que ferro!...
-
-E após um momento:
-
---Pois menino, pensei que a Gouvarinho te appetecía...
-
-Carlos confessou que nos primeiros dias, quando Ega lhe fallara d'ella,
-tivera um caprichosinho, interessara-se por aquelles cabellos côr de
-brasa...
-
---Mas agora, mal a conheci, o capricho foi-se...
-
-Ega sentara-se, com o copo na mão; e depois de contemplar algum tempo as
-suas meias de seda, escarlates como as d'um prelado, deixou cair, muito
-serio, estas palavras:
-
---É uma mulher deliciosa, Carlinhos.
-
-E, como Carlos encolhia os hombros, Ega insistio: a Gouvarinho era uma
-senhora de intelligencia e de gosto; tinha originalidade, tinha audacia,
-uma pontinha de romantismo muito picante...
-
---E, como corpinho de mulher, não ha melhor que aquillo de Badajoz para
-cá!
-
---Vae-te d'ahi, Mephistopheles de Celorico!
-
-E Ega, divertido, cantarolou:
-
-
- Je suis Mephisto...
- Je suis Mephisto...
-
-
-Carlos no entanto, fumando preguiçosamente, continuava a fallar na
-Gouvarinho e n'essa brusca saciedade que o invadira, mal trocara com
-ella tres palavras n'uma sala. E não era a primeira vez que tinha
-d'estes falsos arranques de desejo, vindo quasi com as formas do amor,
-ameaçando absorver, pelo menos por algum tempo, todo o seu ser, e
-resolvendo-se em tedio, em «secca». Eram como os fogachos de polvora
-sobre uma pedra; uma fagulha atêa-os, n'um momento tornam-se chamma
-vehemente que parece que vae consumir o Universo, e por fim fazem apenas
-um rastro negro que suja a pedra. Seria o seu um d'esses corações de
-fraco, molles e flaccidos, que não podem conservar um sentimento, o
-deixam fugir, escoar-se pelas malhas lassas do tecido relles?
-
---Sou um ressequido! disse elle sorrindo. Sou um impotente de
-sentimento, como Satanaz... Segundo os padres da Egreja, a grande
-tortura de Satanaz é que não póde amar...
-
---Que phrases essas, menino! murmurou Ega.
-
-Como phrases? Era uma atroz realidade! Passava a vida a ver as paixões
-falharem-lhe nas mãos como phosphoros. Por exemplo, com a coronela de
-hussards em Vienna! Quando ella faltou ao primeiro _rendez-vous_,
-chorara lagrimas como punhos, com a cabeça enterrada no travesseiro e
-aos coices á roupa. E d'ahi a duas semanas, mandava postar o Baptista á
-janella do hotel, para elle se safar, mal a pobre coronela dobrasse a
-esquina! E com a hollandeza, com Madame Rughel, peior ainda. Nos
-primeiros dias foi uma insensatez: queria-se estabelecer para sempre na
-Hollanda, casar com ella (apenas ella se divorciasse), outras loucuras;
-depois os braços que ella lhe deitava ao pescoço, e que lindos braços,
-pareciam-lhe pesados como chumbo...
-
---Passa fóra, pedante! E ainda lhe escreves! gritou Ega.
-
---Isso é outra cousa. Ficamos amigos, puras relações de intelligencia.
-Madame Rughel é uma mulher de muito espirito. Escreveu um romance, um
-d'esses estudos intimos e delicados, como os de Miss Brougthon: chama-se
-as _Rosas Murchas_. Eu nunca li, é em hollandez...
-
---As _Rosas Murchas_! em hollandez! exclamou Ega apertando as mãos na
-cabeça.
-
-Depois vindo plantar-se diante de Carlos, de monocolo no olho:
-
---Tu és extraordinario, menino!... Mas o teu caso é simples, é o caso de
-D. Juan. D. Juan tambem tinha essas alternações de chamma e cinza.
-Andava á busca do seu ideal, da _sua mulher_, procurando-a
-principalmente, como de justiça, entre as mulheres dos outros. E _après
-avoir couché_, declarava que se tinha enganado, que não era aquella.
-Pedia desculpa e retirava-se. Em Hespanha experimentou assim mil e tres.
-Tu és simplesmente, como elle, um devasso; e has de vir a acabar
-desgraçadamente como elle, n'uma tragedia infernal!
-
-Esvasiou outro copo de _Champagne_, e a grandes passadas pela sala:
-
---Carlinhos da minha alma, é inutil que ninguem ande á busca da _sua
-mulher_. Ella virá. Cada um tem a _sua mulher_, e necessariamente tem de
-a encontrar. Tu estás aqui, na Cruz dos Quatro Caminhos, ella está
-talvez em Pekin: mas tu, ahi a raspar o meu reps com o verniz dos
-sapatos, e ella a orar no templo de Confucio, estaes ambos
-insensivelmente, irresistivelmente, fatalmente, marchando um para o
-outro!... Estou eloquentissimo hoje, e temos dito cousas idiotas. Toca a
-vestir. E, em quanto eu adorno a carcassa, prepara mais phrases sobre
-Satanaz!
-
-Carlos ficou na sala verde, acabando o charuto--em quanto dentro o Ega
-batia com as gavetas, lançando, a todo o desafinado da sua voz roufenha,
-a _Barcarolla_ de Gounod. Quando appareceu, vinha de casaca, gravata
-branca, enfiando o paletot--com o olho brilhante do _Champagne_.
-
-Desceram. O pagem lá estava á porta perfilado, ao pé do coupé de Carlos,
-que esperara. E a sua fardeta azul de botões amarellos, a magnifica
-parelha baia reluzindo como um setim vivo, as pratas dos arreios, a
-magestade do cocheiro louro com o seu ramo na libré, tudo alli fazia,
-junto da «Villa Balzac», um quadro rico que deleitou o Ega.
-
---A vida é agradavel, disse elle.
-
-O coupé partiu, ia entrar no largo da Graça, quando uma caleche de
-praça, aberta, o cruzou a largo trote. Dentro um sujeito de chapéo baixo
-ía lendo um grande jornal.
-
---É o Craft! gritou Ega, debruçando-se pela portinhola.
-
-O coupé parou. Ega de um pulo estava na calçada, correndo, bradando:
-
---Oh Craft! oh Craft!
-
-Quando, d'ahi a um momento, sentiu duas vozes approximarem-se, Carlos
-desceu tambem do coupé, achou-se em face d'um homem baixo, louro, de
-pelle rosada e fresca, e apparencia fria. Sob o fraque correcto
-percebia-se-lhe uma musculatura de athleta.
-
---O Carlos, o Craft, gritou o Ega, lançando esta apresentação com uma
-simplicidade classica.
-
-Os dois homens, sorrindo, tinham-se apertado a mão. E Ega insistia para
-que voltassem todos á Villa Balzac, fossem beber a outra garrafa de
-_Champagne_, a celebrar o _advento do Justo_! Craft recusou, com o seu
-modo calmo e placido; chegara na vespera do Porto, abraçara já o nobre
-Ega, e aproveitava agora a viagem áquelle bairro longinquo para ir vêr o
-velho Shlegen, um allemão que vivia á Penha de França.
-
---Então outra cousa! exclamou Ega. Para conversarmos, para que vocês se
-conheçam mais, venham vocês jantar comigo amanhã ao Hotel Central. Dito,
-hein? Perfeitamente. Ás seis.
-
-Apenas o coupé partiu de novo, Ega rompeu nas costumadas admirações pelo
-Craft, encantado com aquelle encontro que dava mais um retoque luminoso
-á sua alegria. O que o enthusiasmava no Craft era aquelle ar
-imperturbavel de gentleman correcto, com que elle egualmente jogaria uma
-partida de bilhar, entraria n'uma batalha, arremetteria com uma mulher,
-ou partiria para a Patagonia...
-
---É das melhores cousas que tem Lisboa. Vaes-te morrer por elle... E que
-casa que elle tem nos Olivaes, que sublime bric-a-brac!
-
-Subitamente estacou, e com um olhar inquieto, uma ruga na testa:
-
---Como diabo soube elle da _Villa Balzac_?
-
---Tu não fazes segredo d'ella, hein?
-
---Não... Mas tambem não a puz nos annuncios! E o Craft chegou hontem,
-ainda não esteve com ninguem que eu conheça... É curioso!
-
---Em Lisboa sabe-se tudo...
-
---Canalha de terra! murmurou Ega.
-
-
-O jantar no Central foi addiado, porque o Ega, alargando pouco a pouco a
-idéa, convertera-o agora n'uma festa de ceremonia em honra do Cohen.
-
---Janto lá muitas vezes, disse elle a Carlos, estou lá todas as
-noites... É necessario repagar a hospitalidade... Um jantar no Central é
-o que basta. E para o effeito moral, pespego-lhe á meza o marquez e a
-besta do Steinbroken. O Cohen gosta de gente assim...
-
-Mas o plano teve ainda de ser alterado: o marquez partira para a
-Gollegã, e o pobre Steinbroken estava soffrendo d'um incommodo de
-entranhas. Ega pensou no Cruges e no Taveira--mas receiou a cabelleira
-desleixada do Cruges, e alguns dos seus ataques de amargo _spleen_ que
-estragaria o jantar. Terminou por convidar dois intimos do Cohen; mas
-teve então de supprimir o Taveira, que estava de mal com um d'esses
-cavalheiros por palavras que tinham trocado em casa da «Lola gorda».
-
-Decididos os convidados, fixado o jantar para uma segunda feira, Ega
-teve uma conferencia com o _maitre de hotel_ do Central, em que lhe
-recommendou muita flôr, dois ananazes para enfeitar a meza, e exigiu que
-um dos pratos do _menu_, qualquer d'elles, fosse _à la Cohen_; e elle
-mesmo suggeriu uma idéa: _tomates farcies à la Cohen_...
-
-N'essa tarde, ás seis horas, Carlos, ao descer a rua do Alecrim para o
-Hotel Central, avistou Craft dentro da loja de bric-a-brac do tio
-Abrahão.
-
-Entrou. O velho judeo, que estava mostrando a Craft uma falsa faiença do
-Rato, arrancou logo da cabeça o sujo barrete de borla, e ficou curvado
-em dois, diante de Carlos, com as duas mãos sobre o coração.
-
-Depois, n'uma linguagem exotica, misturada d'inglez, pediu ao seu bom
-senhor D. Carlos da Maia, ao seu digno senhor, ao seu _beautiful
-gentleman_, que se dignasse examinar uma maravilhasinha que lhe tinha
-reservada; e o seu muito _generous gentleman_ tinha só a voltar os
-olhos, a maravilhasinha estava alli ao lado, n'uma cadeira. Era um
-retrato d'hespanhola, apanhado a fortes brochadellas de primeira
-impressão, e pondo, sobre um fundo audaz de côr de rosa murcha, uma face
-gasta de velha garça, picada das bexigas, caiáda, ressudando vicio, com
-um sorriso bestial que promettia tudo.
-
-Carlos, tranquillamente, offereceu dez tostões. Craft pasmou d'uma tal
-prodigalidade; e o bom Abrahão, n'um riso mudo que lhe abria entre a
-barba grisalha uma grande boca d'um só dente, saboreou muito a «chalaça
-dos seus ricos senhores.» Dez tostõesinhos! Se o quadrinho tivesse por
-baixo o nomesinho de Fortuny, valia dez continhos de réis. Mas não tinha
-esse nomesinho bemdito... Ainda assim valia dez notasinhas de vinte mil
-réis...
-
---Dez cordas para te enforcar, hebreu sem alma! exclamou Carlos.
-
-E sahiram, deixando o velho intrujão á porta, curvado em dois, com as
-mãos sobre o coração, desejando mil felicidades aos seus generosos
-fidalgos...
-
---Não tem uma unica cousa boa, este velho Abrahão, disse Carlos.
-
---Tem a filha, disse o Craft.
-
-Carlos achava-a bonita, mas horrivelmente suja. Então, a proposito do
-Abrahão, fallou a Craft d'essas bellas collecções dos Olivaes, que o
-Ega, apesar do desdem que affectava pelo _bibelot_ e pelo movel d'arte,
-lhe descrevera como sublimes.
-
-Craft encolheu os hombros.
-
---O Ega não entende nada. Mesmo em Lisboa, não se póde chamar ao que eu
-tenho uma collecção. É um bric-a-brac d'acaso... De que, de resto, me
-vou desfazer!
-
-Isto surprehendeu Carlos. Comprehendera das palavras do Ega ser essa uma
-collecção formada com amor, no laborioso decurso de annos, orgulho e
-cuidado d'uma existencia de homem...
-
-Craft sorrio d'aquella legenda. A verdade era que só em 1872, elle
-começara a interessar-se pelo bric-a-brac; chegava então da America do
-Sul; e o que fora comprando, descobrindo aqui e além, accumulara-o
-n'essa casa dos Olivaes, alugada então por phantasia, uma manhã que
-aquelle pardieiro, com o seu bocado de quintal em redor, lhe parecera
-pittoresco, sob o sol de abril. Mas agora se podesse desfazer-se do que
-tinha, ia dedicar-se então a formar uma collecção homogenea e compacta
-d'arte do seculo desoito.
-
---Aqui nos Olivaes?
-
---Não. N'uma quinta que tenho ao pé do Porto, junto mesmo ao rio.
-
-Entravam então no peristilo do Hotel Central--e n'esse momento um coupé
-da Companhia, chegando a largo trote do lado da rua do Arsenal, veiu
-estacar á porta.
-
-Um esplendido preto, já grisalho, de casaca e calção, correu logo á
-portinhola; de dentro um rapaz muito magro, de barba muito negra,
-passou-lhe para os braços uma deliciosa cadelinha escosseza, de pellos
-esguedelhados, finos como seda e côr de prata; depois apeando-se,
-indolente e _poseur_, offereceu a mão a uma senhora alta, loura, com um
-meio véo muito apertado e muito escuro que realçava o explendor da sua
-carnação eburnea. Craft e Carlos affastaram-se, ella passou diante
-d'elles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita,
-deixando atraz de si como uma claridade, um reflexo de cabellos d'ouro,
-e um aroma no ar. Trazia um casaco collante de velludo branco de Genova,
-e um momento sobre as lages do peristillo brilhou o verniz das suas
-bottinas. O rapaz ao lado, esticado n'um fato de xadresinho inglez,
-abria negligentemente um telegramma; o preto seguia com a cadelhinha nos
-braços. E no silencio a voz de Craft murmurou:
-
---_Trés chic_.
-
-Em cima, no gabinete que o creado lhes indicou, Ega esperava, sentado no
-divan de marroquim, e conversando com um rapaz baixote, gordo, frisado
-como um noivo de provincia, de camelia ao peito e plastron azul celeste.
-O Craft conhecia-o; Ega apresentou a Carlos o sr. Damaso Salcêde, e
-mandou servir vermouth, por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse
-requinte litterario e satanico do _absintho_...
-
-Fôra um dia d'inverno suave e luminoso, as duas janellas estavam ainda
-abertas. Sobre o rio, no céu largo, a tarde morria, sem uma aragem,
-n'uma paz elysea, com nuvensinhas muito altas, paradas, tocadas de côr
-de rosa; as terras, os longes da outra banda já se iam affogando n'um
-vapor avelludado, do tom de violeta; a agoa jazia liza e luzidia como
-uma bella chapa d'aço novo; e aqui e alem, pelo vasto ancoradouro,
-grossos navios de carga, longos paquetes estrangeiros, dois couraçados
-inglezes, dormiam, com as mastreações immoveis, como tomados de
-preguiça, cedendo ao affago do clima doce...
-
---Vimos agora lá em baixo, disse Craft indo sentar-se no divan, uma
-esplendida mulher, com uma esplendida cadellinha _griffon_, e servida
-por um esplendido preto!
-
-O sr. Damaso Salcêde, que não despegava os olhos de Carlos, acudiu logo:
-
---Bem sei! Os Castro Gomes... Conheço-os muito... Vim com elles de
-Bordeus... Uma gente muito chic que vive em Paris.
-
-Carlos voltou-se, reparou mais n'elle, perguntou-lhe, affavel e
-interessando-se:
-
---O senhor Salcêde chegou agora de Bordeus?
-
-Estas palavras pareceram deleitar Damaso como um favor celeste:
-ergueu-se immediatamente, approximou-se do Maia, banhado n'um sorriso:
-
---Vim aqui ha quinze dias, no _Orenoque_. Vim de Paris... Que eu em
-podendo é lá que me pilham! Esta gente conheci-a em Bordeus. Isto é,
-verdadeiramente conheci-a a bordo. Mas estavamos todos no _Hotel de
-Nantes_... Gente muito chic: creado de quarto, governanta ingleza para a
-filhita, femme de chambre, mais de vinte malas... Chic a valer! Parece
-incrivel, uns brazileiros... Que ella na voz não tem _sutaque_ nenhum,
-falla como nós. Elle sim, elle muito _sutaque_... Mas elegante tambem,
-v. ex.^a não lhe pareceu?
-
---Vermouth? perguntou-lhe o creado, offerecendo a salva.
-
---Sim, uma gotinha para o appetite. V. ex.^a não toma, sr. Maia? Pois
-eu, assim que posso, é direitinho para Paris! Aquillo é que é terra!
-Isto aqui é um chiqueiro... Eu, em não indo lá todos os annos, acredite
-v. ex.^a, até começo a andar doente. Aquelle _boulevarsinho_, hein!...
-Ai, eu goso aquillo!... E sei gosar, sei gosar, que eu conheço aquillo a
-palmo... Tenho até um tio em Paris.
-
---E que tio! exclamou Ega, approximando-se. Intimo do Gambetta, governa
-a França... O tio do Damaso governa a França, menino!
-
-Damaso, escarlate, estourava de gôso.
-
---Ah, lá isso influencia tem. Intimo do Gambetta, tratam-se por tu, até
-vivem quasi juntos... E não é só com o Gambetta; é com o Mac-Mahon, com
-o Rochefort, com o outro de que me esquece agora o nome, com todos os
-republicanos, emfim!... É tudo quanto elle queira. V. ex.^a não o
-conhece? É um homem de barbas brancas... Era irmão de minha mãe,
-chama-se Guimarães. Mas em Paris chamam-lhe Mr. de Guimaran...
-
-N'esse momento a porta envidraçada abriu-se de golpe, Ega exclamou:
-«Saude ao poeta»!
-
-E appareceu um individuo muito alto, todo abotoado n'uma sobrecasaca
-preta, com uma face escaveirada, olhos encovados, e sob o nariz
-aquilino, longos, espessos, romanticos bigodes grisalhos: já todo calvo
-na frente, os anneis fôfos d'uma grenha muito secca cahiam-lhe
-inspiradamente sobre a golla: e em toda a sua pessoa havia alguma cousa
-de antiquado, de artificial e de lugubre.
-
-Estendeu silenciosamente dous dedos ao Damaso, e abrindo os braços
-lentos para Craft, disse n'uma voz arrastada, cavernosa, atheatrada:
-
---Então és tu, meu Craft! Quando chegaste tu, rapaz? Dá-me cá esses
-ossos honrados, honrado inglez!
-
-Nem um olhar dera a Carlos. Ega adiantou-se, apresentou-os:
-
---Não sei se são relações. Carlos da Maia... Thomaz d'Alencar, o nosso
-poeta...
-
-Era elle! o illustre cantor das _Vozes d'Aurora_, o estylista de
-_Elvira_, o dramaturgo do _Segredo do Commendador_. Deu dois passos
-graves para Carlos, esteve-lhe apertando muito tempo a mão em
-silencio--e sensibilisado, mais cavernoso:
-
---V. ex.^a, já que as etiquetas sociaes querem que eu lhe dê
-excellencia, mal sabe a quem apertou agora a mão...
-
-Carlos, surprehendido, murmurou:
-
---Eu conheço muito de nome...
-
-E o outro com o olho cavo, o labio tremulo:
-
---Ao camarada, ao inseparavel, ao intimo de Pedro da Maia, do meu pobre,
-do meu valente Pedro!
-
---Então, que diabo, abracem-se! gritou Ega. Abracem-se, com um berro,
-segundo as regras...
-
-Alencar já tinha Carlos estreitado ao peito, e quando o soltou,
-retomando-lhe as mãos, sacudindo-lh'as, com uma ternura ruidosa:
-
---E deixemo-nos já de excellencias! que eu vi-te nascer, meu rapaz!
-trouxe-te muito ao collo! sujaste-me muita calça! Co'os diabos, dá cá
-outro abraço!
-
-Craft olhava estas cousas vehementes, impassivel; Damaso parecia
-impressionado; Ega apresentou um copo de _vermouth_ ao poeta:
-
---Que grande scena, Alencar! Jesus, Senhor! Bebe, para te recuperares da
-emoção...
-
-Alencar esgotou-o d'um trago: e declarou aos amigos que não era a
-primeira vez que via Carlos. Já o admirara no seu phaeton, muitas vezes,
-e aos seus bellos cavallos inglezes. Mas não se quizera dar a conhecer.
-Elle nunca se atirava aos braços de ninguem, a não ser das mulheres...
-Foi encher outro calice de _vermouth_, e com elle na mão, plantado
-diante de Carlos, começou, n'um tom pathetico:
-
---A primeira vez que te vi, filho, foi no Pote das Almas! Estava eu no
-Rodrigues, esquadrinhando alguma d'essa velha litteratura, hoje tão
-despresada... Lembro-me até que era um volume das _Eclogas_ do nosso
-delicioso Rodrigues Lobo, esse verdadeiro poeta da natureza, esse
-rouxinol tão portuguez, hoje, está claro, mettido a um canto, desde que
-para ahi appareceu o Satanismo, o Naturalismo e o Bandalhismo, e outros
-esterquilinios em _ismo_... N'esse momento passaste, disseram-me quem
-eras, e cahiu-me o livro da mão... Fiquei alli uma hora, acredita, a
-pensar, a rever o passado...
-
-E atirou o _vermouth_ ás goellas. Ega, impaciente, olhava o relogio. Um
-creado, entrando, accendeu o gaz; a mesa surgiu da penumbra, com um
-brilho de cristaes e louças, um luxo de camelias em ramos.
-
-No entanto Alencar (que á luz viva parecia mais gasto e mais velho)
-começara uma grande historia, e como fôra elle o primeiro que vira
-Carlos depois de nascer, e como fôra elle que lhe dera o nome.
-
---Teu pae, dizia elle, o meu Pedro, queria-te pôr o nome d'Affonso,
-d'esse santo, d'esse varão d'outras edades, Affonso da Maia! Mas tua mãe
-que tinha lá as suas idéas teimou em que havias de ser Carlos. E
-justamente por causa d'um romance que eu lhe emprestára; n'esses tempos
-podiam-se emprestar romances a senhoras, ainda não havia a pustula e o
-puz... Era um romance sobre o ultimo Stuart, aquelle bello typo do
-principe Carlos Eduardo, que vocês, filhos, conhecem todos bem, e que na
-Escossia, no tempo de Luiz XIV... Emfim, adiante! Tua mãe, devo dizel-o,
-tinha litteratura e da melhor. Consultou-me, consultava-me sempre,
-n'esse tempo eu era _alguem_, e lembro-me de lhe ter respondido...
-(Lembro-me apesar de já lá irem vinte e cinco annos... Que digo eu?
-Vinte e sete! Vejam vocês isto, filhos, vinte e sete annos!) Emfim,
-voltei-me para tua mãe, e disse-lhe, palavras textuaes: «Ponha-lhe o
-nome de Carlos Eduardo, minha rica senhora, Carlos Eduardo, que é o
-verdadeiro nome para o frontespicio d'um poema, para a fama d'um
-heroismo ou para o labio d'uma mulher!»
-
-Damaso, que continuava a admirar Carlos, deu _bravos_ estrondosos; Craft
-bateu ligeiramente os dedos; e o Ega, que rondava a porta, nervoso, de
-relogio na mão, soltou de lá um _muito bem_ desenxabido.
-
-Alencar, radiante com o seu effeito, derramava em roda um sorriso que
-lhe mostrava os dentes estragados. Abraçou outra vez Carlos, atirou uma
-palmada ao coração, exclamou:
-
---Caramba, filhos, sinto uma luz cá dentro!
-
-A porta abriu-se, o Cohen entrou, todo apressado, desculpando-se logo da
-sua demora--emquanto Ega, que se precipitara para elle, lhe ajudava a
-despir o palletot. Depois apresentou-o a Carlos--a unica pessoa alli de
-quem o Cohen não era intimo. E dizia, tocando o botão da campainha
-electrica:
-
---O marquez não pôde vir, menino, e o pobre Steinbroken, coitado, está
-com a sua gôtta, a gôtta de diplomata, de lord e de banqueiro... A gôtta
-que tu has de ter, velhaco!
-
-Cohen, um homem baixo, apurado, de olhos bonitos, e suissas tão pretas e
-luzidias que pareciam ensopadas em verniz, sorria, descalçando as luvas,
-dizendo, que, segundo os inglezes, havia tambem a gôtta de gente pobre;
-e era essa naturalmente a que lhe competia a elle...
-
-Ega, no entanto, travara-lhe do braço, collocara-o preciosamente á mesa,
-á sua direita: depois offereceu-lhe um botão de camelia d'um ramo: o
-Alencar florio-se tambem--e os creados serviram as ostras.
-
-Fallou-se logo do crime da Mouraria, drama fadista que impressionava
-Lisboa, uma rapariga com o ventre rasgado á navalha por uma companheira,
-vindo morrer na rua em camisa, dois faias esfaqueando-se, toda uma
-viella em sangue--uma _sarrabulhada_ como disse o Cohen, sorrindo e
-provando o Bucellas.
-
-Damaso teve a satisfação de poder dar detalhes; conhecera a rapariga, a
-que dera as facadas, quando ella era amante do visconde da Ermidinha...
-Se era bonita? Muito bonita. Umas mãos de duqueza... E como aquillo
-cantava o _fado_! O peior era que mesmo no tempo do visconde, quando
-ella era chic, já se empiteirava... E o visconde, honra lhe seja, nunca
-lhe perdera a amisade; respeitava-a, mesmo depois de casado ía vel-a, e
-tinha-lhe promettido que se ella quizesse deixar o _fado_ lhe punha uma
-confeitaria para os lados da Sé. Mas ella não queria. Gostava d'aquillo,
-do Bairro Alto, dos cafés de _lepes_, dos chulos...
-
-Esse mundo de fadistas, de faias, parecia a Carlos merecer um estudo, um
-romance... Isto levou logo a fallar-se do _Assommoir_, de Zola e do
-realismo:--e o Alencar immediatmente, limpando os bigodes dos pingos de
-sôpa, supplicou que se não discutisse, á hora aceada do jantar, essa
-litteratura _latrinaria_. Alli todos eram homens d'aceio, de sala, hein?
-Então, que se não mencionasse o _excremento_!
-
-Pobre Alencar! O naturalismo; esses livros poderosos e vivazes, tirados
-a milhares de edições; essas rudes analyses, apoderando-se da Egreja, da
-Realeza, da Bureocracia, da Finança, de todas as cousas santas,
-dissecando-as brutalmente e mostrando-lhes a lesão, como a cadaveres
-n'um amphitheatro; esses estylos novos, tão precisos e tão ducteis,
-apanhando em flagrante a linha, a côr, a palpitação mesma da vida; tudo
-isso (que elle, na sua confusão mental, chamava a _Idéa nova_) caindo
-assim de chofre e escangalhando a cathedral romantica, sob a qual tantos
-annos elle tivera altar e celebrara missa, tinha desnorteado o pobre
-Alencar e tornara-se o desgosto litterario da sua velhice. Ao principio
-reagiu. «Para pôr um dique definitivo á torpe maré», como elle disse em
-plena Academia, escreveu dois folhetins crueis; ninguem os leu; a «maré
-torpe» alastrou-se, mais profunda, mais larga. Então Alencar refugiou-se
-na _moralidade_ como n'uma rocha solida. O naturalismo, com as suas
-alluviões de obscenidade, ameaçava corromper o pudor social? Pois bem.
-Elle, Alencar, seria o paladino da Moral, o gendarme dos bons costumes.
-Então o poeta das _Vozes d'Aurora_, que durante vinte annos, em
-cançoneta e ode, propozera commercios lubricos a todas as damas da
-capital; então o romancista de _Elvira_ que, em novella e drama, fizera
-a propaganda do amor illegitimo, representando os deveres conjugaes como
-montanhas de tedio, dando a todos os maridos formas gordurosas e
-bestiaes, e a todos os amantes a belleza, o esplendor e o genio dos
-antigos Apollos; então Thomaz Alencar que (a acreditarem-se as
-confissões autobiographicas da _Flôr de Martyrio_) passava elle proprio
-uma existencia medonha de adulterios, lubricidades, orgias, entre
-velludos e vinhos de Chypre--d'ora em diante austero, incorruptivel,
-todo elle uma torre de pudicicia, passou a vigiar attentamente o jornal,
-o livro, o theatro. E mal lobrigava symptomas nascentes de realismo n'um
-beijo que estalava mais alto, n'uma brancura de saia que se arregaçava
-de mais--eis o nosso Alencar que soltava por sobre o paiz um grande
-grito de alarme, corria á penna, e as suas imprecações lembravam (a
-academicos faceis de contentar) o rugir de Isaias. Um dia porém, Alencar
-teve uma d'estas revelações que prostram os mais fortes; quanto mais
-elle denunciava um livro como immoral, mais o livro se vendia como
-agradavel! O Universo pareceu-lhe cousa torpe, e o auctor de _Elvira_
-encavacou...
-
-Desde então reduziu a expressão do seu rancor ao minimo, a essa phrase
-curta, lançada com nojo:
-
---Rapazes, não se mencione o _excremento_!
-
-Mas n'essa noite teve o regosijo de encontrar alliados. Craft não
-admittia tambem o naturalismo, a realidade feia das cousas e da
-sociedade estatelada nua n'um livro. A arte era uma idealisação! Bem:
-então que mostrasse os typos superiores d'uma humanidade aperfeiçoada,
-as fórmas mais bellas do viver e do sentir... Ega horrorisado apertava
-as mãos na cabeça--quando do outro lado Carlos declarou que o mais
-intoleravel no realismo eram os seus grandes ares scientificos, a sua
-pretenciosa esthetica deduzida d'uma philosophia alheia, e a invocação
-de Claude Bernard, do experimentalismo, do positivismo, de Stuart Mill e
-de Darwin, a proposito d'uma lavadeira que dorme com um carpinteiro!
-
-Assim atacado, entre dois fogos, Ega trovejou: justamente o fraco do
-realismo estava em ser ainda pouco scientifico, inventar enredos, crear
-dramas, abandonar-se á phantasia litteraria! a fórma pura da arte
-naturalista devia ser a monographia, o estudo secco d'um typo, d'um
-vicio, d'uma paixão, tal qual como se se tratasse d'um caso pathologico,
-sem pittoresco e sem estylo!...
-
---Isso é absurdo, dizia Carlos, os caracteres só se podem manifestar
-pela acção...
-
---E a obra d'arte, accrescentou Craft, vive apenas pela fórma...
-
-Alencar interrompeu-os, exclamando que não eram necessarias tantas
-philosophias.
-
---Vocês estão gastando cêra com ruins defuntos, filhos. O realismo
-critica-se d'este modo: mão no nariz! Eu quando vejo um d'esses livros,
-enfrasco-me logo em agua de colonia. Não discutamos o _excremento_.
-
---_Sole normande_? perguntou-lhe o creado, adiantando a travessa.
-
-Ega ía fulminal-o. Mas, vendo que o Cohen dava um sorriso enfastiado e
-superior a estas controversias de litteraturas, calou-se; occupou-se só
-d'elle, quiz saber que tal elle achava aquelle S.^t Emilion; e, quando o
-viu confortavelmente servido de _sole normande_, lançou com grande
-alarde de interesse esta pergunta:
-
---Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... O emprestimo faz-se ou
-não se faz?
-
-E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados, que aquella questão do
-emprestimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episodio
-historico!...
-
-O Cohen collocou uma pitada de sal á beira do prato, e respondeu, com
-auctoridade, que o emprestimo tinha de se realisar _absolutamente_. Os
-emprestimos em Portugal constituiam hoje uma das fontes de receita, tão
-regular, tão indispensavel, tão sabida como o imposto. A unica occupação
-mesmo dos ministerios era esta--_cobrar o imposto_ e _fazer o
-emprestimo_. E assim se havia de continuar...
-
-Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, d'esse modo, o
-paiz ia alegremente e lindamente para a _banca-rota_.
-
---N'um galopesinho muito seguro e muito a direito, disse o Cohen,
-sorrindo. Ah, sobre isso, ninguem tem illusões, meu caro senhor. Nem os
-proprios ministros da fazenda!... A _banca-rota_ é inevitavel: é como
-quem faz uma somma...
-
-Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hein! E todos
-escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o calice de novo, fincara
-os cotovellos na meza para lhe beber melhor as palavras.
-
---A _banca-rota_ é tão certa, as cousas estão tão dispostas para
-ella--continuava o Cohen--que seria mesmo facil a qualquer, em dois ou
-tres annos, fazer fallir o paiz...
-
-Ega gritou sofregamente pela _receita_. Simplesmente isto: manter uma
-agitação revolucionaria constante; nas vesperas de se lançarem os
-emprestimos haver duzentos maganões decididos que cahissem á pancada na
-municipal e quebrassem os candieiros com vivas á Republica; telegraphar
-isto em letras bem gordas para os jornaes de Paris, Londres e do Rio de
-Janeiro; assustar os mercados, assustar o brazileiro, e a _banca-rota_
-estalava. Sómente, como elle disse, isto não convinha a ninguem.
-
-Então Ega protestou com vehemencia. Como não convinha a ninguem? Ora
-essa! Era justamente o que convinha a todos! Á _banca-rota_ seguia-se
-uma revolução, evidentemente. Um paiz que vive da _inscripção_, em não
-lh'a pagando, agarra no cacete; e procedendo por principio, ou
-procedendo apenas por vingança--o primeiro cuidado que tem é varrer a
-monarchia que lhe representa o _calote_, e com ella o crasso pessoal do
-constitucionalismo. E passada a crise, Portugal livre da velha divida,
-da velha gente, d'essa collecção grotesca de bestas...
-
-A voz do Ega sibillava... Mas, vendo assim tratados de _grotescos_, de
-_bestas_, os homens d'ordem que fazem prosperar os Bancos, Cohen pousou
-a mão no braço do seu amigo e chamou-o ao bom-senso. Evidentemente, elle
-era o primeiro a dizel-o, em toda essa gente que figurava desde 46 havia
-mediocres e patetas,--mas tambem homens de grande valor!
-
---Ha talento, ha saber, dizia elle com um tom de experiencia. Você deve
-reconhecel-o, Ega... Você é muito exagerado! Não senhor, ha talento, ha
-saber.
-
-E, lembrando-se que algumas d'essas _bestas_ eram amigos do Cohen, Ega
-reconheceu-lhes talento e saber. O Alencar porém cofiava sombriamente o
-bigode. Ultimamente pendia para idéas radicaes, para a democracia
-humanitaria de 1848: por instincto, vendo o romantismo desacreditado nas
-letras, refugiava-se no romantismo politico, como n'um asylo paralello:
-queria uma republica governada por genios, a fraternisação dos povos, os
-Estados Unidos da Europa... Além d'isso, tinha longas queixas d'esses
-politiquotes, agora gente de Poder, outr'ora seus camaradas de redacção,
-de café e de _batota_...
-
---Isso, disse elle, lá a respeito de talento e de saber, historias... Eu
-conheço-os bem, meu Cohen...
-
-O Cohen acudiu:
-
---Não senhor, Alencar, não senhor! Você tambem é dos taes... Até lhe
-fica mal dizer isso... É exageração. Não senhor, ha talento, ha saber.
-
-E o Alencar, peranta esta intimação do Cohen, o respeitado director do
-_Banco Nacional_, o marido da divina Rachel, o dono d'essa hospitaleira
-casa da rua do Ferregial onde se jantava tão bem, recalcou o
-despeito--admittiu que não deixava de haver talento e saber.
-
-Então, tendo assim, pela influencia do seu Banco, dos bellos olhos da
-sua mulher e da excellencia do seu cosinheiro, chamado estes espiritos
-rebeldes ao respeito dos Parlamentares e á veneração da Ordem, Cohen
-condescendeu em dizer, no tom mais suave da sua voz, que o paiz
-necessitava reformas...
-
-Ega porém, incorrigivel n'esse dia, soltou outra enormidade:
-
---Portugal não necessita refórmas, Cohen, Portugal o que precisa é a
-invasão hespanhola.
-
-Alencar, patriota à antiga, indignou-se. O Cohen, com aquelle sorriso
-indulgente de homem superior que lhe mostrava os bonitos dentes, vio
-alli apenas «um dos paradoxos do nosso Ega.» Mas o Ega fallava com
-seriedade, cheio de razões. Evidentemente, dizia elle, invasão não
-significa perda absoluta de independencia. Um receio tão estupido é
-digno só de uma sociedade tão estupida como a do _Primeiro de Dezembro_.
-Não havia exemplo de seis milhões de habitantes serem engolidos, de um
-só trago, por um paiz que tem apenas quinze milhões de homens. Depois
-ninguem consentiria em deixar cahir nas mãos de Hespanha, nação militar
-e maritima, esta bella linha de costa de Portugal. Sem contar as
-allianças que teriamos, a troco das colonias--das colonias que só nos
-servem, como a prata de familia aos morgados arruinados, para ir
-empenhando em casos de crise... Não havia perigo; o que nos aconteceria,
-dada uma invasão, n'um momento de guerra europea, seria levarmos uma
-sova tremenda, pagarmos uma grossa indemnisação, perdermos uma ou duas
-provincias, ver talvez a Galliza estendida até ao Douro...
-
---_Poulet aux champignons_, murmurou o creado, apresentando-lhe a
-travessa.
-
-E em quanto elle se servia, perguntavam-lhe dos lados onde via elle a
-_salvação do paiz_, n'essa catastrophe que tornaria povoação hespanhola
-Celorico de Basto, a nobre Celorico, berço de heroes, berço dos Egas...
-
---N'isto: no ressuscitar do espirito publico e do genio portuguez!
-Sovados, humilhados, arrasados, escalavrados, tinhamos de fazer um
-esforço desesperado para viver. E em que bella situação nos achavamos!
-Sem monarchia, sem essa caterva de politicos, sem esse tortulho da
-_inscripção_, porque tudo desapparecia, estavamos novos em folha,
-limpos, escarollados, como se nunca tivessemos servido. E recomeçava-se
-uma historia nova, um outro Portugal, um Portugal serio e intelligente,
-forte e decente, estudando, pensando, fazendo civilisação como
-outr'ora... Meninos, nada regenera uma nação como uma medonha tarêa...
-Oh Deus d'Ourique, manda-nos o castelhano! E você, Cohen, passe-me o
-S.^t Emilion.
-
-Agora, n'um rumor animado, discutia-se a invasão. Ah, podia-se fazer uma
-bella resistencia! Cohen affiançava o dinheiro. Armas, artilheria, iam
-comprar-se á America--e Craft offereceu logo a sua collecção de espadas
-do seculo XVI. Mas generaes? Alugavam-se. Mac-Mahon, por exemplo, devia
-estar barato...
-
---O Craft e eu organisamos uma guerrilha, gritou Ega.
-
---Ás ordens, meu coronel.
-
---O Alencar, continuava Ega, é encarregado de ir despertar pela
-provincia o patriotismo, com cantos e com odes!
-
-Então o poeta, pousando o calice, teve um movimento de leão que sacode a
-juba:
-
---Isto é uma velha carcassa, meu rapaz, mas não está só para odes! Ainda
-se agarra uma espingarda, e como a pontaria é boa, ainda vão a terra um
-par de gallegos... Caramba, rapazes, só a idéa d'essas cousas me põe o
-coração negro! E como vocés podem fallar n'isso, a rir, quando se trata
-do paiz, d'esta terra onde nascemos, que diabo! Talvez seja má, de
-accordo, mas, caramba! é a unica que temos, não temos outra! É aqui que
-vivemos, é aqui que rebentamos... Irra, fallemos d'outra cousa, fallemos
-de mulheres!
-
-Dera um repellão ao prato, os olhos humedeciam-se-lhe de paixão
-patriotica...
-
-E no silencio que se fez Damaso, que desde as informações sobre a
-rapariga do Ermidinha emmudecera, occupado a observar Carlos com
-religião, ergueu a voz pausadamente, disse, com um ar de bom senso e de
-finura:
-
---Se as cousas chegassem a esse ponto, se pozessem assim feias, eu cá, á
-cautela, ía-me raspando para Paris...
-
-Ega triumphou, pulou de gosto na cadeira. Eis alli, no labio synthetico
-de Damaso, o grito espontaneo e genuino do brio portuguez! Raspar-se,
-pirar-se!... Era assim que d'alto a baixo pensava a sociedade de Lisboa,
-a malta constitucional, desde El-Rei nosso Senhor até aos cretinos de
-secretaria!...
-
---Meninos, ao primeiro soldado hespanhol que appareça á fronteira, o
-paiz em massa foge como uma lebre! Vae ser uma debandada unica na
-historia!
-
-Houve uma indignação, Alencar gritou:
-
---Abaixo o traidor!
-
-Cohen interveiu, declarou que o soldado portuguez era valente, á maneira
-dos turcos--sem disciplina, mas teso. O proprio Carlos disse, muito
-serio:
-
---Não senhor... Ninguem ha de fugir, e ha de se morrer bem.
-
-Ega rugiu. Para quem estavam elles fazendo essa _pose_ heroica? Então
-ignoravam que esta raça, depois de cincoenta annos de
-constitucionalismo, creada por esses saguões da Baixa, educada na
-piolhice dos lyceus, roída de syphlis, apodrecida no bolôr das
-secretarias, arejada apenas ao domingo pela poeira do Passeio, perdera o
-musculo como perdera o caracter, e era a mais fraca, a mais covarde raça
-da Europa?...
-
---Isso são os lisboetas, disse Craft.
-
---Lisboa é Portugal, gritou o outro. Fóra de Lisboa não ha nada. O paiz
-está todo entre a Arcada e S. Bento!...
-
-A mais miseravel raça da Europa! continuava elle a berrar. E que
-exercito! Um regimento, depois de dois dias de marcha, dava entrada em
-massa no hospital! Com seus olhos tinha elle visto, no dia da abertura
-das Côrtes, um marujo sueco, um rapagão do Norte, fazer debandar, a
-soccos, uma companhia de soldados; as praças tinham litteralmente
-largado a fugir, com a patrona a batter-lhe os rins; e o official,
-enfiado de terror, metteu-se para uma escada, a vomitar!...
-
-Todos protestaram. Não, não era possivel... Mas se elle tinha visto, que
-diabo!... Pois sim, talvez, mas com os olhos fallazes da phantasia...
-
---Juro pela saude da mamã! gritou Ega furioso.
-
-Mas emmudeceu. O Cohen tocara-lhe no braço. O Cohen ía fallar.
-
-O Cohen queria dizer que o futuro pertence a Deus. Que os hespanhoes
-porém pensassem na invasão isso parecia-lhe certo--sobretudo se viessem,
-como era natural, a perder Cuba. Em Madrid todo o mundo lh'o dissera. Já
-havia mesmo negocios de fornecimentos entabolados...
-
---Hespanholadas, gallegadas! rosnou Alencar, por entre dentes, sombrio e
-torcendo os bigodes.
-
---No _Hotel de Paris_, continuou Cohen, em Madrid, conheci eu um
-magistrado, que me disse com um certo ar que não perdia a esperança de
-se vir estabelecer de todo em Lisboa; tinha-lhe agradado muito Lisboa,
-quando cá estivera a banhos. E em quanto a mim, estou que ha muitos
-hespanhoes que estão á espera d'este augmento de territorio para se
-empregarem!
-
-Então Ega cahiu em extasi, apertou as mãos contra o peito. Oh que
-delicioso traço! Oh que admiravelmente observado!
-
---Este Cohen! exclamava elle para os lados. Que finamente observado! Que
-traço adoravel! Hein, Craft? Hein, Carlos? Delicioso!
-
-Todos cortezmente admiraram a finura do Cohen. Elle agradecia, com o
-olho enternecido, passando pelas suissas a mão onde reluzia um diamante.
-E n'esse momento os creados serviam um prato de ervilhas n'um molho
-branco, murmurando:
-
---_Petits pois a la Cohen_.
-
-_A la Cohen?_ Cada um verificou o seu _menu_ mais attentamente. E lá
-estava, era o legume: _petits pois a la Cohen!_ Damaso, enthusiasmado,
-declarou isto «chic a valer!» E fez-se, com o Champagne que se abria, a
-primeira saude ao Cohen!
-
-Esquecera-se a banca rota, a invasão, a patria--o jantar terminava
-alegremente. Outras _saudes_ crusaram-se, ardentes e loquazes: o proprio
-Cohen, com o sorriso de quem cede a um capricho de creança, bebeu á
-Revolução e á Anarchia, brinde complicado, que o Ega erguera, já com o
-olho muito brilhante. Sobre a toalha, a sobremeza alastrava-se,
-destroçada; no prato do Alencar as pontas de cigarros misturavam-se a
-bocados de ananaz mastigado. Damaso, todo debruçado sobre Carlos,
-fazia-lhe o elogio da parelha ingleza, e d'aquelle _phaeton_ que era a
-cousa mais linda que passeiava Lisboa. E logo depois do seu brinde de
-demagogo, sem razão, Ega arremettera contra Craft, injuriando a
-Inglaterra, querendo excluil-a d'entre as nações pensantes, ameaçando-a
-de uma revolução social que a ensoparia em sangue: o outro respondia com
-acenos de cabeça, imperturbavel, partindo nozes.
-
-Os creados serviram o café. E como havia já tres longas horas que
-estavam á meza, todos se ergueram, acabando os charutos, conversando, na
-animação viva que dera o _Champagne_. A sala, de tecto baixo, com os
-cinco bicos de gaz ardendo largamente, enchera-se de um calor pesado,
-onde se ia espalhando agora o aroma forte das chartreuses e dos licores
-por entre a nevoa alvadia do fumo.
-
-Carlos e Craft, que abafavam, foram respirar para a varanda; e ahi
-recomeçou logo, n'aquella communidade de gostos que os começava a ligar,
-a conversa da rua do Alecrim sobre a bella collecção dos Olivaes. Craft
-dava detalhes; a cousa rica e rara que tinha era um armario hollandez do
-seculo XVI; de resto, alguns bronzes, faianças e boas armas...
-
-Mas ambos se voltaram ouvindo, no grupo dos outros, junto á meza,
-estridencias de voz, e como um conflicto que rompia: Alencar, sacudindo
-a grenha, gritava contra a _palhada philosophica_; e do outro lado, com
-o calice de cognac na mão, Ega, pallido e affectando uma tranquillidade
-superior, declarava toda essa babuge lyrica que por ahi se publica digna
-da policia correccional...
-
---Pegaram-se outra vez, veiu dizer Damaso a Carlos, approximando-se da
-varanda. É por causa do Craveiro. Estão ambos divinos!
-
-Era com effeito a proposito de poesia moderna, de Simão Craveiro, do seu
-poema a _Morte de Satanaz_. Ega estivera citando, com enthusiasmo,
-estrophes do episodio da _Morte_, quando o grande esqueleto symbolico
-passa em pleno sol no Boulevard, vestido como uma cocotte, arrastando
-sedas rumorosas
-
-
- «E entre duas costellas, no decotte,
- Tinha um bouquet de rosas!»
-
-
-E o Alencar, que detestava o Craveiro, o homem da _Idéa nova_, o
-paladino do Realismo, triumphara, cascalhara, denunciando logo n'essa
-simples estrophe dois erros de grammatica, um verso errado, e uma imagem
-roubada a Beaudelaire!
-
-Então Ega, que bebera um sobre outro dois calices de cognac, tornou-se
-muito provocante, muito pessoal.
-
---Eu bem sei por que tu fallas, Alencar, dizia elle agora. E o motivo
-não é nobre. É por causa do epigramma que elle te fez:
-
-
- O Alencar d'Alemquer,
- Acceso com a primavera...
-
-
---Ah, vocês nunca ouviram isto? continuou elle voltando-se, chamando os
-outros. É delicioso, é das melhores cousas do Craveiro. Nunca ouviste,
-Carlos? É sublime, sobre tudo esta estrophe:
-
-
- O Alencar d'Alemquer
- Que quer? Na verde campina
- Não colhe a tenra bonina
- Nem consulta o malmequer...
- Que quer? Na verde campina
- O Alencar d'Alemquer
- Quer menina!
-
-
-Eu não me lembro do resto, mas termina com um grito de bom senso, que é
-a verdadeira critica de todo esse lyrismo pandilha:
-
-
- O Alencar d'Alemquer
- Quer cacete!
-
-
-Alencar passou a mão pela testa livida, e com o olho cavo fito no outro,
-a voz rouca e lenta:
-
---Olha, João da Ega, deixa-me dizer-te uma cousa, meu rapaz... Todos
-esses epigrammas, esses dichotes lorpas do rachitico e dos que o
-admiram, passam-me pelos pés como um enxurro de cloaca... O que faço é
-arregaçar as calças! Arregaço as calças... Mais nada, meu Ega. Arregaço
-as calças!
-
-E arregaçou-as realmente, mostrando a ceroula, n'um gesto brusco e de
-delirio.
-
---Pois quando encontrares enchurros d'esses, gritou-lhe o Ega, agacha-te
-e bebe-os! Dão-te sangue e força ao lyrismo!
-
-Mas Alencar, sem o ouvir, berrava para os outros, esmurrando o ar:
-
---Eu, se esse Craveirete não fosse um rachitico, talvez me entretivesse
-a rolal-o aos pontapés por esse Chiado abaixo, a elle e á versalhada, a
-essa lambisgonhice excrementicia com que seringou Satanaz! E depois de o
-besuntar bem de lama, esborrachava-lhe o craneo!
-
---Não se esborracham assim craneos, disse de lá o Ega n'um tom frio de
-troça.
-
-Alencar voltou para elle uma face medonha. A colera e o cognac
-incendiavam-lhe o olhar; todo elle tremia:
-
---Esborrachava-lh'o, sim, esborrachava, João da Ega! Esborrachava-lh'o
-assim, olha, assim mesmo!--Rompeu a atirar patadas ao soalho, abalando a
-sala, fazendo tilintar crystaes e louças.--Mas não quero, rapazes!
-Dentro d'aquelle craneo só ha excremento, vomito, puz, materia verde, e
-se lh'o esborrachasse, por que lh'o esborrachava, rapazes, todo o miollo
-podre sahia, empestava a cidade, tinhamos o cholera! Irra! Tinhamos a
-peste!
-
-Carlos, vendo-o tão excitado, tornou-lhe o braço, quiz calmal-o:
-
---Então, Alencar! Que tolice... Isso vale lá a pena!...
-
-O outro desprendeu-se, arquejante, desabotoou a sobrecasaca, soltou o
-ultimo desabafo:
-
---Com effeito, não vale a pena ninguem zangar-se por causa d'esse
-Craveirote da _Idéa nova_, esse caloteiro, que se não lembra que a porca
-da irmã é uma meretriz de doze vintens em Marco de Canavezes!
-
---Não, isso agora é de mais, pulha! gritou Ega, arremeçando-se, de
-punhos fechados.
-
-Cohen e Damaso, assustados, agarraram-n'o. Carlos puchara logo para o
-vão da janella o Alencar que se debatia, com os olhos chammejantes, a
-gravata solta. Tinha cahido uma cadeira; a correcta sala, com os seus
-divans de marroquim, os seus ramos de camelias, tomava um ar de taverna,
-n'uma bulha de faias, entre a fumaraça de cigarros. Damaso, muito
-pallido, quasi sem voz, ía d'um a outro:
-
---Oh meninos, oh meninos, aqui, no Hotel Central! Jesus!... Aqui no
-Hotel Central!...
-
-E, d'entre os braços do Cohen, Ega berrava, já rouco:
-
---Esse pulha, esse covarde... Deixe-me, Cohen! Não, isso hei de
-esbofeteal-o!... A D. Anna Craveiro, uma santa!... Esse calumniador...
-Não, isso hei de esganal-o!...
-
-Craft, no entanto, impassivel, bebia aos golos a sua chartreuse. Já
-presenceára, mais vezes, duas litteraturas rivaes engalphinhando-se,
-rolando no chão, n'um latir de injurias: a torpeza do Alencar sobre a
-irmã do outro fazia parte dos costumes de critica em Portugal: tudo isso
-o deixava indifferente, com um sorriso de desdem. Além d'isso sabia que
-a reconciliação não tardaria, ardente e com abraços. E não tardou.
-Alencar sahiu do vão da janella, atraz de Carlos, abotoando a
-sobrecasaca, grave e como arrependido. A um canto da sala, Cohen fallava
-ao Ega com auctoridade, severo, á maneira d'um pae: depois voltou-se,
-ergueu a mão, ergueu a voz, disse que alli todos eram cavalheiros: e
-como homens de talento e de coração fidalgo os dois deviam abraçar-se...
-
---Vá, um _shake-hands_, Ega, faça isso por mim!... Alencar, vamos,
-peço-lh'o eu!
-
-O auctor de _Elvira_ deu um passo, o auctor das _Memorias d'um Atomo_
-estendeu a mão: mas o primeiro aperto foi gôche e molle. Então Alencar,
-generoso e rasgado, exclamou que entre elle e o Ega não devia _ficar uma
-nuvem!_ Tinha-se excedido... Fôra o seu desgraçado genio, esse calor de
-sangue, que durante toda a existencia só lhe trouxera lagrimas! E alli
-declarava bem alto que Anna Craveiro era uma santa! Tinha-a conhecido em
-Marco de Canavezes, em casa dos Peixotos... Como esposa, como mãe, Anna
-Craveiro era impeccavel. E reconhecia, do fundo d'alma, que o Craveiro
-tinha carradas de talento!...
-
-Encheu um copo de _Champagne_, ergueu-o alto, diante do Ega, como um
-calice de altar:
-
---Á tua, João!
-
-Ega, generoso tambem, respondeu:
-
---Á tua, Thomaz!
-
-Abraçaram-se. Alencar jurou que ainda na vespera, em casa de D. Joanna
-Coutinho, elle dissera que não conhecia ninguem mais scintillante que o
-Ega! Ega affirmou logo que em poemas nenhuns corria, como nos do
-Alencar, uma tão bella veia lyrica. Apertaram-se outra vez, com palmadas
-pelos hombros. Trataram-se de _irmãos na arte_, trataram-se de
-_genios_!...
-
---São extraordinarios, disse Craft baixo a Carlos, procurando o chapéo.
-Desorganisam-me, preciso ar!...
-
-A noite alongava-se, eram onze horas. Ainda se bebeu mais cognac. Depois
-Cohen sahiu levando o Ega. Damaso e Alencar desceram com Carlos--que ia
-recolher a pé pelo Aterro.
-
-Á porta, o poeta parou com solemnidade.
-
---Filhos, exclamou elle tirando o chapéo e refrescando largamente a
-fronte, então? Parece-me que me portei como um gentleman!
-
-Carlos concordou, gabou-lhe a generosidade...
-
---Estimo bem que me digas isso, filho, porque tu sabes o que é ser
-gentleman! E agora vamos lá por esse Aterro fóra... Mas deixa-me ir alli
-primeiro comprar um pacote de tabaco...
-
---Que typo! exclamou Damaso, vendo-o affastar-se. E a cousa ía-se pondo
-feia...
-
-E immediatamente, sem transição, começou a fazer elogios a Carlos. O sr.
-Maia não imaginava ha quanto tempo elle desejava conhecel-o!
-
---Oh senhor...
-
---Creia v. ex.^a... Eu não sou de sabujices... Mas pode v. ex.^a
-perguntar ao Ega, quantas vezes o tenho dito: v. ex.^a é a cousa melhor
-que ha em Lisboa!
-
-Carlos, baixava a cabeça, mordendo o riso. Damaso, repetia, do fundo do
-peito.
-
---Olhe que isto é sincero, sr. Maia! Acredite v. ex.^a que isto é do
-coração!
-
-Era realmente sincero. Desde que Carlos habitava Lisboa, tivera alli,
-n'aquelle moço gordo e bochechudo, sem o saber, uma adoração muda e
-profunda; o proprio verniz dos seus sapatos, a côr das suas luvas eram
-para o Damaso motivo de veneração, e tão importantes como principios.
-Considerava Carlos um typo supremo de _chic_, do seu querido _chic_, um
-Brummel, um d'Orsay, um Morny,--uma «d'estas cousas que só se vêem lá
-fóra», como elle dizia arregalando os olhos. N'essa tarde sabendo que
-vinha jantar com o Maia, conhecer o Maia, estivera duas horas ao espelho
-experimentando gravatas, perfumara-se como para os braços d'uma
-mulher;--e por causa de Carlos mandara estacionar alli o coupé, ás dez
-horas, com o cocheiro de ramo ao peito.
-
---Então essa senhora brazileira vive aqui? perguntou Carlos, que dera
-dous passos, olhava uma janella allumiada no segundo andar.
-
-Damaso seguiu-lhe o olhar.
-
---Vive lá do outro lado. Estão aqui ha quinze dias... Gente _chic_... E
-ella é de appetecer, v. ex.^a reparou? Eu a bordo atirei-me... E ella
-dava cavaco! Mas tenho andado muito preso desde que cheguei, jantar
-aqui, soirée acolá, umas aventurasitas... Não tenho podido cá vir,
-deixei-lhes só bilhetes; mas trago-a d'olho, que ella demora-se...
-Talvez venha cá ámanhã, estou cá agora a sentir umas cocegas... E se me
-pilho só com ella, zás, ferro-lhe logo um beijo! Que eu cá, não sei se
-v. ex.^a é a mesma cousa, mas eu cá, com mulheres, a minha theoria é
-esta: attracão! Eu cá, é logo: attracão!
-
-N'esse momento Alencar voltava do estanco, de charuto na boca. Damaso
-despediu-se, atirando muito alto ao cocheiro, para que Carlos ouvisse, a
-adresse da Morelli, a segunda dama de S. Carlos.
-
---Bom rapaz, este Damaso, dizia Alencar, travando de braço de Carlos, ao
-seguirem ambos pelo Aterro. É lá muito dos Cohens, muito querido na
-sociedade. Rapaz de fortuna, filho do velho Silva, o agiota, que esfolou
-muito teu pae; e a mim tambem. Mas elle assigna Salcede; talvez nome da
-mãe; ou talvez inventado. Bom rapaz... O pae era um velhaco! Parece que
-estou a ouvir o Pedro dizer-lhe com o seu ar de fidalgo, que o tinha e
-do grande: «Silva judeu, dinheiro, e a rôdo!»... Outros tempos, meu
-Carlos, grandes tempos. Tempos de gente!
-
-E então por esse longo Aterro, triste no ar escuro, com as luzes do gaz
-dormente luzindo em fila d'enterro, Alencar foi fallando d'esses
-«grandes tempos» da sua mocidade e da mocidade de Pedro; e, atravéz das
-suas phrases de lyrico, Carlos sentia vir como um aroma antiquado d'esse
-mundo defunto... Era quando os rapazes ainda tinham um resto de calor
-das guerras civis, e o calmavam indo em bando varrer botequins ou
-rebentando pilecas de sejes em galopadas para Cintra. Cintra era então
-um ninho de amores, e sob as suas romanticas ramagens as fidalgas
-abandonavam-se aos braços dos poetas. Ellas eram Elviras, elles eram
-Antonys. O dinheiro abundava; a côrte era alegre; a Regeneração
-litterata e galante ia engrandecer o paiz, bello jardim da Europa; os
-bachareis chegavam de Coimbra, frementes de eloquencia; os ministros da
-corôa recitavam ao piano; o mesmo sopro lyrico inchava as odes e os
-projectos de lei...
-
---Lisboa era bem mais divertida, disse Carlos.
-
---Era outra cousa, meu Carlos! Vivia-se! Não existiriam esses ares
-scientificos, toda essa palhada philosophica, esses badamecos
-positivistas... Mas havia coração, rapaz! Tinha-se faisca! Mesmo n'essas
-cousas da politica... Vê esse chiqueiro agora ahi, essa malta de
-bandalhos... N'esse tempo ía-se alli á camara e sentia-se a inspiração,
-sentia-se o rasgo!... Via-se luz nas cabeças!... E depois, menino, havia
-muitissimo boas mulheres.
-
-Os hombros descahiam-lhe na saudade d'esse mundo perdido. E parecia mais
-lugubre, com a sua grenha d'inspirado sahindo-lhe de sob as abas largas
-do chapéo velho, a sobrecasaca coçada e mal feita collando-se-lhe
-lamentavelmente ás ilhargas.
-
-Um momento caminharam em silencio. Depois, na rua das Janellas Verdes, o
-Alencar _quiz refrescar_. Entraram n'uma pequena venda, onde a mancha
-amarella d'um candieiro de petroleo destacava n'uma penumbra de
-subterraneo, allumiando o zinco humido do balcão, garrafas nas
-prateleiras, e o vulto triste da patroa com um lenço amarrado nos
-queixos. Alencar parecia intimo no estabelecimento: apenas soube que a
-sr.^a Candida estava com dôr de dentes, aconselhou logo remedios,
-familiar, descido das nuvens romanticas, com os cotovellos sobre o
-balcão. E quando Carlos quiz pagar a canna branca zangou-se, bateu a sua
-placa de dois tostões sobre o zinco polido, exclamou, com nobreza:
-
---Eu é que faço a honra da bodega, meu Carlos! Nos palacios os outros
-pagarão... Cá na taberna pago eu!
-
-Á porta tomou o braço de Carlos. Depois d'alguns passos lentos no
-silencio da rua, parou de novo, e murmurou n'uma voz vaga,
-contemplativa, como repassada da vasta solemnidade da noite:
-
---Aquella Rachel Cohen é divinamente bella, menino! Tu conhecel'a?
-
---De vista.
-
---Não te faz lembrar uma mulher da Biblia? Não digo lá uma d'essas
-viragos, uma Judith, uma Dalila... Mas um d'esses lyrios poeticos da
-Biblia... É seraphica!
-
-Era agora a paixão platonica do Alencar, a sua dama, a sua Beatriz...
-
---Tu viste ha tempos, no _Diario Nacional_, os versos que eu lhe fiz?
-
-
- «Abril chegou! Sê minha»
- Dizia o vento á rosa.
-
-
-Não me sahiu mau! Aqui ha uma maliciasinha: _Abril chegou, sê minha_...
-Mas logo: _dizia o vento á rosa_. Comprehendes? Calhou bem este effeito.
-Mas não imagines lá outras cousas, ou que lhe faço a côrte... Basta ser
-a mulher do Cohen, um amigo, um irmão... E a Rachel, para mim,
-coitadinha, é como uma irmã... Mas é divina. Aquelles olhos, filho, um
-velludo liquido!...
-
-Tirou o chapeu, refrescou a fronte vasta. Depois n'outro tom, e como a
-custo:
-
---Aquelle Ega tem muito talento... Vae lá muito aos Cohens... A Rachel
-acha-lhe graça...
-
-Carlos parára, estavam defronte do Ramalhete. Alencar deu um olhar á
-severa frontaria de convento, adormecida, sem um ponto de luz.
-
---Tem bom ar esta vossa casa... Pois entra tu, meu rapaz, que eu vou
-andando por aqui para a minha toca. E quando quizeres, filho, lá me tens
-na rua do Carvalho, 52, 3.^o andar. O predio é meu, mas eu occupo o
-terceiro andar. Comecei por habitar no primeiro, mas tenho ido
-trepando... A unica cousa mesmo que tenho trepado, meu Carlos, é de
-andares...
-
-Teve um gesto, como desdenhando essas miserias.
-
---E has de ir lá jantar um dia. Não te posso dar um banquete, mas has de
-ter uma sopa e um assado... O meu Matheus, um preto, (um amigo!) que me
-serve ha muito anno, quando ha que cosinhar, sabe cosinhar! Fez muito
-jantar a teu pae, ao meu pobre Pedro... Que aquillo foi casa de alegria,
-meu rapaz. Dei lá cama e mesa, e dinheiro para a algibeira, a muita
-d'essa canalha que hoje por ahi trota em coupé da companhia e de correio
-atraz... E agora, quando me avistam, voltam para o lado o focinho...
-
---Isso são imaginações, disse Carlos com amisade.
-
---Não são, Carlos, respondeu o poeta, muito grave, muito amargo. Não
-são. Tu não sabes a minha vida. Tenho soffrido muito repellão, rapaz. E
-não o merecia! Palavra, que o não merecia.
-
-Agarrou o braço de Carlos, e com a voz abalada:
-
---Olha que esses homens que por ahi figuram embebedavam-se comigo,
-emprestei-lhes muito pinto, dei-lhes muita ceia... E agora são
-ministros, são embaixadores, são personagens, são o diabo. Pois
-offereceram-te elles um bocado do _bolo_ agora que o teem na mão? Não.
-Nem a mim. Isto é duro, Carlos, isto é muito duro, meu Carlos. E que
-diabo, eu não queria que me fizessem conde, nem que me dessem uma
-embaixada... Mas ahi alguma cousa n'uma secretaria... Nem um chavelho!
-Emfim, ainda há para o bocado do pão, e para a meia onça do tabaco...
-Mas esta ingratidão tem-me feito cabellos brancos... Pois não te quero
-massar mais, e que Deus te faça feliz como tu mereces, meu Carlos!
-
---Tu não queres subir um bocado, Alencar?
-
-Tanta franqueza enterneceu o poeta.
-
---Obrigado, rapaz, disse elle, abraçando Carlos. E agradeço-te isso,
-porque sei que vem do coração... Todos vocês teem coração... Já teu pae
-o tinha, e largo, e grande como o d'um leão! E agora crê uma cousa: é
-que tens aqui um amigo. Isto não é palavriado, isto vem de dentro...
-Pois adeus, meu rapaz. Queres tu um charuto?
-
-Carlos acceitou logo, como um presente do ceu.
-
---Então ahi tens um charuto, filho! exclamou Alencar com enthusiasmo.
-
-E aquelle charuto dado a um homem tão rico, ao dono do Ramalhete,
-fazia-o por um momento voltar aos tempos em que n'esse Marrare elle
-estendia em redor a charuteira cheia, com o seu grande ar de Manfredo
-triste. Interessou-se então pelo charuto. Accendeu elle mesmo um
-phosphoro. Verificou se ficava bem acceso. E que tal, charuto rasoavel?
-Carlos achava um excellente charuto!
-
---Pois ainda bem que te dei um bom charuto!
-
-Abraçou-o outra vez; e estava batendo uma hora, quando elle emfim se
-affastou, mais ligeiro, mais contente de si, trauteando um trecho de
-_fado_.
-
-
-Carlos no seu quarto, antes de se deitar, acabando o pessimo charuto do
-Alencar estirado n'uma chaise-longue, em quanto Baptista lhe fazia uma
-chavena de chá, ficou pensando n'esse estranho passado que lhe evocara o
-velho lyrico...
-
-E era sympathico o pobre Alencar! Com que cuidado exagerado, ao fallar
-de Pedro, d'Arroios, dos amigos e dos amores d'então, elle evitara
-pronunciar sequer o nome de Maria Monforte! Mais de uma vez, pelo Aterro
-fóra, estivera para lhe dizer:--pódes fallar da mamã, amigo Alencar, que
-eu sei perfeitamente que ella fugiu com um italiano!
-
-E isto fêl-o insensivelmente recordar da maneira como essa lamentavel
-historia lhe fôra revelada, em Coimbra, n'uma noite de troça, quasi
-grotescamente. Por que o avô, obdecendo á carta testamentaria de Pedro,
-contara-lhe um romance decente: um casamento de paixão,
-incompatibilidades de naturezas, uma separação cortez, depois a retirada
-da mamã com a filha para a França, onde tinham morrido ambas. Mais nada.
-A morte de seu pae fôra-lhe apresentada sempre como o brusco remate
-d'uma longa nevrose...
-
-Mas Ega sabia tudo, pelos tios... Ora uma noite tinham ceiado ambos; Ega
-muito bebedo, e n'um accesso de idealismo, lançara-se n'um paradoxo
-tremendo, condemnando a honestidade das mulheres como origem da
-decadencia das raças: e dava por prova os bastardos, sempre
-intelligentes, bravos, gloriosos! Elle, Ega, teria orgulho se sua mãe,
-sua propria mãe, em logar de ser a santa burgueza que resava o terço á
-lareira, fosse como a mãe de Carlos, uma inspirada, que por amor d'um
-exilado abandonara fortuna, respeitos, honra, vida! Carlos, ao ouvir
-isto, ficara petrificado, no meio da ponte, sob o calmo luar. Mas não
-poude interrogar o Ega, que já taramellava, agoniado, e que não tardou a
-vomitar-lhe ignobilmente nos braços. Teve de o arrastar á casa das
-Seixas, despil-o, aturar-lhe os beijos e a ternura borracha, até que o
-deixou abraçado ao travesseiro, babando-se, balbuciando--«que queria ser
-bastardo, que queria que a mamã fosse uma marafona!...»
-
-E elle mal podera dormir essa noite, com a idéa d'aquella mãe, tão outra
-do que lhe haviam contado, fugindo nos braços d'um desterrado--um polaco
-talvez! Ao outro dia, cedo, entrava pelo quarto do Ega, a pedir-lhe,
-pela sua grande amisade, a verdade toda...
-
-Pobre Ega! Estava doente: fez-se branco como o lenço que tinha amarrado
-na cabeça com pannos de agua sedativa: e não achava uma palavra,
-coitado! Carlos, sentado na cama, como nas noites de cavaco,
-tranquillisou-o. Não vinha alli offendido, vinha alli curioso!
-Tinham-lhe occultado um episodio extraordinario da sua gente, que diabo,
-queria sabel-o! Havia romance? Para alli o romance!
-
-Ega, então, lá ganhou animo, lá balbuciou a sua historia--a que ouvira
-ao tio Ega--a paixão de Maria por um principe, a fuga, o longo silencio
-d'annos que se fizera sobre ella...
-
-Justamente as ferias chegavam. Apenas em S.^{ta} Olavia, Carlos contou
-ao avô a bebedeira do Ega, os seus discursos doidos, aquella revelação
-vinda entre arrotos. Pobre avô! Um momento nem poude fallar--e a voz por
-fim veiu-lhe tão debil e dolente como se dentro do peito lhe estivesse
-morrendo o coração. Mas narrou-lhe, detalhe a detalhe, o feio romance
-todo até áquella tarde em que Pedro lhe apparecera, livido, coberto de
-lama, a cahir-lhe nos braços, chorando a sua dôr com a fraqueza d'uma
-creança.--E o desfecho d'esse amor culpado, accrescentara o avô, fôra a
-morte da mãe em Vienna d'Austria, e a morte da pequenita, da neta que
-elle nunca vira, e que a Monforte levara... E eis ahi tudo. E assim,
-aquella vergonha domestica estava agora enterrada, alli, no jazigo de
-S.^{ta} Olavia, e em duas sepulturas distantes, em paiz estrangeiro...
-
-Carlos recordava-se bem que n'essa tarde, depois da melancolica conversa
-com o avô, devia elle experimentar uma egoa ingleza: e ao jantar não se
-fallou senão da egoa que se chamava _Sultana_. E a verdade era que d'ahi
-a dias tinha esquecido a mamã. Nem lhe era possivel sentir por esta
-tragedia senão um interesse vago e como litterario. Isso passara-se
-havia vinte e tantos annos, n'uma sociedade quasi desapparecida. Era
-como o episodio historico de uma velha chronica de familia, um
-antepassado morto em Alcacer-Kebir, ou uma das suas avós dormindo n'um
-leito real. Aquillo não lhe dera uma lagrima, não lhe pozera um rubor na
-face. De certo, prefiriria poder orgulhar-se de sua mãe, como d'uma rara
-e nobre flôr de honra: mas não podia ficar toda a vida a amargurar-se
-com os seus erros. E porque? A sua honra d'elle não dependia dos
-impulsos falsos ou torpes que tivera o coração d'ella. Peccara, morrera,
-acabou-se. Restava, sim, aquella idéa do pae, findando n'uma poça de
-sangue, no desespero d'essa traição. Mas não conhecera seu pae: tudo o
-que possuia d'elle e da sua memoria, para amar, era uma fria tela mal
-pintada, pendurada no quarto de vestir, representando um moço moreno, de
-grandes olhos, com luvas de camurça amarellas e um chicote na mão... De
-sua mãe não ficara nem um daguerreotypo, nem sequer um contorno a lapis.
-O avô tinha-lhe dito que era loura. Não sabia mais nada. Não os
-conhecera; não lhes dormira nos braços; nunca recebera o calor da sua
-ternura. Pae, mãe, eram para elle como symbolos d'um culto convencional.
-O papá, a mamã, os seres amados, estavam alli todos--no avô.
-
-Baptista trouxera o chá, o charuto do Alencar acabara;--e elle
-continuava na chaise-longue, como amollecido n'estas recordações, e
-cedendo já, n'um meio adormecimento, á fadiga do longo jantar... E
-então, pouco a pouco, diante das suas palpebras cerradas, uma visão
-surgiu, tomou côr, encheu todo o aposento. Sobre o rio, a tarde morria
-n'uma paz elysia. O peristillo do Hotel Central alargava-se, claro
-ainda. Um preto grisalho vinha, com uma cadelinha no collo. Uma mulher
-passava, alta, com uma carnação eburnea, bella como uma Deusa, n'um
-casaco de velludo branco de Genova. O Craft dizia ao seu lado
-_très-chic_. E elle sorria, no encanto que lhe davam estas imagens,
-tomando o relevo, a linha ondeante, e a coloração de cousas vivas.
-
-Eram tres horas quando se deitou. E apenas adormecera, na escuridão dos
-cortinados de seda, outra vez um bello dia de inverno morria sem uma
-aragem, banhado de côr de rosa: o banal peristillo de Hotel alargava-se,
-claro ainda na tarde; o escudeiro preto voltava, com a cadellinha nos
-braços; uma mulher passava, com um casaco de velludo branco de Genova,
-mais alta que uma creatura humana, caminhando sobre nuvens, com um
-grande ar de Juno que remonta ao Olympo: a ponta dos seus sapatos de
-verniz enterrava-se na luz do azul, por trás as saias batiam-lhe como
-bandeiras ao vento. E passava sempre... O Craft dizia _très-chic_.
-Depois tudo se confundia, e era só o Alencar, um Alencar colossal,
-enchendo todo o céu, tapando o brilho das estrellas com a sua
-sobrecasaca negra e mal feita, os bigodes esvoaçando ao vendaval das
-paixões, alçando os braços, clamando no espaço:
-
-
- Abril chegou, sê minha!
-
-
-
-
-VII
-
-
-No Ramalhete, depois do almoço, com as tres janellas do escriptoro
-abertas bebendo a tepida luz do bello dia de março, Affonso da Maia e
-Craft jogavam uma partida de xadrez ao pé da chaminé já sem lume, agora
-cheia de plantas, fresca e festiva como um altar domestico. N'uma facha
-obliqua de sol, sobre o tapete, o Reverendo Bonifacio, enorme e fôfo,
-dormia de leve a sua sesta.
-
-Craft tornara-se, em poucas semanas, intimo no Ramalhete. Carlos e elle,
-tendo muitas similitudes de gosto e de idéas, o mesmo fervor pelo
-_bric-a-brac_ e pelo _bibelot_, o uso apaixonado da esgrima, egual
-dilettantismo d'espirito, uniram-se immediatamente em relações de
-superficie, faceis e amaveis. Affonso, por seu lado começara logo a
-sentir uma estima elevada por aquelle gentleman de boa raça ingleza,
-como elle os admirava, cultivado e forte, de maneiras graves, de habitos
-rijos, sentindo finamente e pensando com rectidão. Tinham-se encontrado
-ambos enthusiastas de Tacito, de Macaulay, de Burke, e até dos poetas
-lakistas; Craft era grande no xadrez; o seu carater ganhara nas longas e
-trabalhadas viagens a rica solidez d'um bronze; para Affonso da Maia
-«aquillo era deveras um homem». Craft, madrugador, sahia cedo dos
-Olivaes a cavallo, e vinha assim ás vezes almoçar de surpreza com os
-Maias; por vontade de Affonso jantaria lá sempre;--mas ao menos as
-noites passava-as invariavelmente no Ramalhete, tendo emfim, como elle
-dizia, encontrado em Lisboa um recanto onde se podia conversar bem
-sentado, no meio de idéas, e com boa educação.
-
-Carlos sahia pouco de casa. Trabalhava no seu livro. Aquella revoada de
-clientella que lhe dera esperanças d'uma carreira cheia, activa, tinha
-passado miseravelmente, sem se fixar; restavam-lhe tres doentes no
-bairro; e sentia agora que as suas carruagens, os cavallos, o Ramalhete,
-os habitos de luxo, o condemnavam irremediavelmente ao _dillettantismo_.
-Já o fino dr. Theodosio lhe dissera um dia, francamente: «você é muito
-elegante p'ra medico! As suas doentes, fatalmente, fazem-lhe olho! Quem
-é o burguez que lhe vae confiar a esposa dentro d'uma alcova?... Você
-aterra o pater-familias!» O laboratorio mesmo prejudicara-o. Os collegas
-diziam que o Maia, rico, intelligente, avido de innovações, de
-modernismos, fazia sobre os doentes experiencias fataes. Tinha-se
-troçado muito a sua idéa, apresentada na _Gazeta Medica_, a prevenção
-das epidemias pela inoculação dos virus. Consideravam-no um phantasista.
-E elle, então, refugiava-se todo n'esse livro sobre a medicina antiga e
-moderna, o _seu livro_, trabalhado com vagares d'artista rico,
-tornando-se o interesse intellectual de um ou dous annos.
-
-N'essa manhã, em quanto dentro proseguia grave e silenciosa a partida de
-xadrez, Carlos no terrasso, estendido n'uma vasta cadeira india de
-bambu, á sombra do toldo, acabava o seu charuto, lendo uma _Revista_
-ingleza, banhado pela caricia tepida d'aquelle bafo de primavera que
-avelludava o ar, fazia já desejar arvores e relvas...
-
-Ao lado d'elle, n'uma outra cadeira de bambu, tambem de charuto na boca,
-o sr. Damaso Salcede percorria o _Figaro_. De perna estirada, n'uma
-indolencia familiar, tendo o amigo Carlos ao seu lado, vendo junto ao
-terrasso as rosas das roseiras de Affonso, sentindo por trás, atravez
-das janellas abertas, o rico e nobre interior do Ramalhete--o filho do
-agiota saboreava alli uma d'essas horas deliciosas que ultimamente
-encontrava na intimidade dos Maias.
-
-Logo na manhã seguinte ao jantar do Central, o sr. Salcede fôra ao
-Ramalhete deixar os seus bilhetes, objectos complicados e vistosos,
-tendo ao angulo, n'uma dobra simulada, o seu retratosinho em
-photographia, um capacete com plumas por cima do nome--DAMASO CANDIDO DE
-SALCEDE, por baixo as suas honras--Commendador de Christo, ao fundo a
-sua adresse--_Rua de S. Domingos, á Lapa_; mas esta indicação estava
-riscada, e ao lado, a tinta azul, esta outra mais apparatosa--Grand
-Hotel, Boulevard des Capucines, Chambre N.^o 103. Em seguida procurou
-Carlos no consultorio, confiou ao creado outro cartão. Emfim, uma tarde,
-no Aterro, vendo passar Carlos a pé, correu para elle, pendurou-se
-d'elle, conseguiu acompanhal-o ao Ramalhete.
-
-Ahi, logo desde o pateo, rompeu em admirações extaticas, como dentro
-d'um museu, lançando, diante dos tapetes, das faienças e dos quadros, a
-sua grande phrase--«_chic_ a valer!» Carlos levou-o para o _fumoir_,
-elle aceitou um charuto; e começou a explicar, de perna traçada, algumas
-das suas opiniões e alguns dos seus gostos. Considerava Lisboa chinfrin,
-e só estava bem em Paris--sobre tudo por causa do genero «femea» de que
-em Lisboa se passavam fomes: ainda que n'esse ponto a Providencia não o
-tratava mal. Gostava tambem do _bric-a-brac_; mas apanhava-se muita
-espiga, e as cadeiras antigas, por exemplo, não lhe pareciam commodas
-para a gente se sentar. A leitura entretinha-o, e ninguem o pilhava sem
-livros á cabeceira da cama; ultimamente andava ás voltas com Daudet, que
-lhe diziam ser muito _chic_, mas elle achava-o confusote. Em rapaz
-perdia sempre as noites, até ás quatro ou cinco da madrugada, no
-delirio! Agora não, estava mudado e pacato; emfim, não dizia que de vez
-em quando não se abandonasse a um excessozinho; mas só em dias duples...
-E as suas perguntas foram terriveis. O sr. Maia achava _chic_ ter um
-_cab_ inglez? Qual era mais elegante, assim para um rapaz de sociedade
-que quizesse ir passar o verão lá fóra, Nice ou Trouville?... Depois ao
-sahir, muito serio, quasi commovido, perguntou ao sr. Maia (se o sr.
-Maia não fazia segredo) quem era o seu alfaiate.
-
-E desde esse dia, não o deixou mais. Se Carlos apparecia no theatro,
-Damaso immediatamente arrancava-se da sua cadeira, ás vezes na
-solemnidade d'uma bella aria, e pisando os botins dos cavalheiros,
-amarrotando a compostura das damas, abalava, abria d'estalo a _claque_,
-vinha-se installar na frisa, ao lado de Carlos, com a bochecha corada,
-camelia na casaca, exhibindo os botões de punho que eram duas enormes
-bolas. Uma ou duas vezes que Carlos entrara casualmente no Gremio,
-Damaso abandonou logo a partida, indifferente á indignação dos
-parceiros, para se vir collar á ilharga do Maia, offerecer-lhe
-marrasquino ou charutos, seguil-o de sala em sala como um rafeiro. N'uma
-d'essas occasiões, tendo Carlos soltado um trivial gracejo, eis o Damaso
-rompendo em risadas soluçantes, rebolando-se pelos sophás, com as mãos
-nas ilhargas, a gritar que rebentava! Juntaram-se socios; elle,
-suffocado, repetia a pilheria; Carlos fugiu vexado. Chegou a odial-o;
-respondia-lhe só com monossyllabos; dava voltas perigosas com o
-_dog-cart_ se lhe avistava de longe a bochecha, a coxa roliça. Debalde:
-Damaso Candido Salcede filara-o, e para sempre.
-
-Depois, um dia, Taveira appareceu no Ramalhete com uma extraordinaria
-historia. Na vespera, no Gremio (tinham-lhe contado, elle não
-presenceara) um sujeito, um Gomes, n'um grupo onde se commentavam os
-Maias, erguera a voz, exclamara que Carlos era um asno! Damaso, que
-estava ao lado mergulhado na _Ilustração_, levantou-se, muito pallido,
-declarou que, tendo a honra de ser amigo do sr. Carlos da Maia, quebrava
-a cara com a bengala ao sr. Gomes se elle ousasse babujar outra vez esse
-cavalheiro; e o sr. Gomes tragou, com os olhos no chão, a affronta, por
-ser rachitico de nascença--e porque era inquilino de Damaso e andava
-muito atrasado na renda. Affonso da Maia achou este feito brilhante: e
-foi por desejo seu que Carlos trouxe o sr. Salcede uma tarde a jantar ao
-Ramalhete.
-
-Este dia pareceu bello a Damaso como se fosse feito de azul e oiro. Mas
-melhor ainda foi a manhã em que Carlos, um pouco incommodado e ainda
-deitado, o recebeu no quarto, como entre rapazes... D'ahi datava a sua
-intimidade: começou a tratar Carlos por _você_. Depois, n'essa semana,
-revelou aptidões uteis. Foi despachar á alfandega (Villaça achava-se no
-Alemtejo) um caixote de roupa para Carlos. Tendo apparecido n'um momento
-em que Carlos copiava um artigo para a _Gazeta Medica_ offereceu a sua
-boa letra, letra prodigiosa, de uma belleza lithographica; e d'ahi por
-diante passava horas á banca de Carlos, applicado e vermelho, com a
-ponta da lingua de fóra, o olho redondo, copiando apontamentos,
-transcripções de Revistas, materiaes para o livro... Tanta dedicação
-merecia um _tu_ de familiaridade. Carlos deu-lh'o.
-
-Damaso, no entanto, imitava o Maia com uma minuciosidade inquieta, desde
-a barba que começava agora a deixar crescer até á forma dos sapatos.
-Lançara-se no _bric-a-brac_. Trazia sempre o _coupé_ cheio de lixos
-archeologicos, ferragens velhas, um bocado de tijolo, a aza rachada de
-um bule... E se avistava um conhecido, fazia parar, entreabria a
-portinhola como um addito de sacrario, exhibia a preciosidade:
-
---Que te parece? _Chic_ a valer!... Vou mostral-a ao Maia. Olha-me isto,
-hein! Pura meia edade, do reinado de Luiz XIV. O Carlos vae-se roer de
-inveja!
-
-N'esta intimidade de rosas havia todavia para Damaso horas pesadas. Não
-era divertido assistir em silencio, do fundo d'uma poltrona, ás
-infindaveis discussões de Carlos e de Craft sobre arte e sobre sciencia.
-E, como elle confessou depois, chegara a encavacar um pouco quando o
-levaram ao laboratorio para fazer no seu corpo experiencias de
-electricidade...--«Pareciam dois demonios engalphinhados em mim, disse
-elle á sr.^a condessa de Gouvarinho; e eu então que embirro com o
-spiritismo!...»
-
-Mas tudo isto ficava regiamente compensado, quando á noite, n'um sophá,
-do Gremio, ou ao chá n'uma casa amiga, elle podia dizer, correndo a mão
-pelo cabello:
-
---Passei hoje um dia divino com o Maia. Fizemos armas, _bric-a-brac_,
-discutimos... Um dia, _chic_! Ámanhã tenho uma manhã de trabalho com o
-Maia... Vamos ás colxas.
-
-N'esse domingo, justamente, deviam ir ás colxas, ao Lumiar. Carlos
-concebera um _boudoir_, todo revestido de colxas antigas de setim,
-bordadas a dous tons especiaes, perola e botão d'ouro. O tio Abrahão
-esquadrinhava-as por toda a Lisboa e pelos suburbios; e n'essa manhã
-viera annunciar a Carlos a existencia de duas preciosidades, _so
-beautiful! oh! so lovely!_ em casa de umas senhoras Medeiros que
-esperavam o sr. Maia ás duas horas...
-
-Já tres vezes Damaso tossira, olhara o relogio,--mas, vendo Carlos
-confortavelmente mergulhado na _Revista_, recahia tambem na sua
-indolencia de homem _chic_, investigando o _Figaro_. Emfim, dentro, o
-relogio Luiz XV cantou argentinamente as duas...
-
---Esta é boa, exclamou Damaso ao mesmo tempo, com uma palmada na coxa.
-Olha quem aqui me apparece! A Suzanna! A minha Suzanna!
-
-Carlos não despegara os olhos da pagina.
-
---Oh Carlos, accrescentou elle, fazes favor? Ouve. Ouve esta que é boa.
-Esta Suzanna é uma pequena que eu tive em Paris... Um romance!
-Apaixonou-se por mim, quiz-se envenenar, o diabo!... Pois diz aqui o
-_Figaro_ que debutou nas _Folies-Bergeres_. Falla n'ella... É boa, hein?
-E era rapariguita _chic_... E o _Figaro_ diz que ella teve aventuras,
-naturalmente sabia o que se passou comigo... Todo o mundo sabia em
-Paris. Ora a Suzanna!... Tinha bonitas pernas. E custou-me a vêr livre
-d'ella!
-
---Mulheres! murmurou Carlos, refugiando-se mais no fundo da _Revista_.
-
-Damaso era interminavel, torrencial, inundante a fallar das «suas
-conquistas», n'aquella solida satisfação em que vivia de que todas as
-mulheres, desgraçadas d'ellas, soffriam a fascinação da sua pessoa e da
-sua toilette. E em Lisboa, realmente, era exacto. Rico, estimado na
-sociedade, com _coupè_ e parelha, todas as meninas tinham para elle um
-olhar doce. E no _démi-monde_, como elle dizia, «tinha prestigio a
-valer.» Desde moço fôra celebre, na capital, por pôr casas a
-hespanholas; a uma mesmo dera carruagem ao mez; e este fausto
-excepcional tornara-o bem depressa o D. João V dos prostibulos.
-Conhecia-se tambem a sua ligação com a viscondessa da Gafanha, uma
-carcassa esgalgada, caiada, rebocada, gasta por todos os homens validos
-do paiz: ía nos cincoenta annos, quando chegou a vez do Damaso--e não
-era decerto uma delicia ter nos braços aquelle esqueleto rangente e
-lubrico; mas dizia-se que em nova dormira n'um leito real, e que
-augustos bigodes a tinham lambuzado; tanta honra fascinou Damaso, e
-collou-se-lhe ás saias com uma fidelidade tão sabuja, que a decrepita
-creatura, farta, enojada já, teve de o enxotar á força e com desfeitas.
-Depois gozou uma tragedia: uma actriz do _Principe Real_, uma montanha
-de carne, apaixonada por elle, n'uma noite de ciume e de genebra,
-engoliu uma caixa de phosphoros; naturalmente d'ahi a horas estava boa,
-tendo vomitado abominavelmente sobre o collete do Damaso que chorava ao
-lado--mas desde então este homem de amor julgou-se fatal! Como elle
-dizia a Carlos, depois de tanto drama na sua vida quasi tremia, tremia
-verdadeiramente de fitar uma mulher...
-
---Passaram-se scenas com esta Suzanna! murmurou elle depois de um
-silencio em que estivera catando pelliculas nos beiços.
-
-E, com um suspiro, retomou o _Figaro_. Houve outra vez um silencio no
-terrasso. Dentro, a partida continuava. Para lá da sombra do toldo,
-agora, o sol ía aquecendo, batendo a pedra, os vasos de louça branca,
-n'uma refracção d'ouro claro em que palpitavam as azas das primeiras
-borboletas voando em redor dos craveiros sem flor: em baixo, o jardim
-verdejava, immovel na luz, sem um bolir de ramo, refrescado pelo cantar
-do repuxo, pelo brilho liquido da agoa do tanque, avivado, aqui e além,
-pelo vermelho ou o amarello das rosas, pela carnação das ultimas
-camelias... O bocado de rio que se avistava entre os predios era azul
-ferrete como o céu: e entre rio e céu o monte punha uma grossa barra
-verde-escura, quasi negra no resplendor do dia, com os dois moinhos
-parados no alto, as duas casinhas alvejando em baixo, tão luminosas e
-cantantes que pareciam viver. Um repouso dormente de domingo envolvia o
-bairro: e, muito alto, no ar, passava o claro repique d'um sino.
-
---O duque de Norfolk chegou a Paris, disse Damaso n'um tom entendido e
-traçando a perna. O duque de Norfolk é _chic_, não é verdade, ó Carlos?
-
-Carlos, sem erguer os olhos, lançou para os céus um gesto, como
-exprimindo o infinito do _chic_!
-
-Damaso largara o _Figaro_ para metter um charuto na boquilha; depois
-desapertou os ultimos botões do collete, deu um puchão á camisa para
-mostrar melhor a marca que era um S enorme sob uma corôa de conde, e de
-palpebra cerrada, com o beiço trombudo, ficou mamando gravemente a
-boquilha...
-
---Tu estás hoje em belleza, Damaso, disse-lhe Carlos que deixara tambem
-a _Revista_ e o contemplava com melancolia.
-
-Salcede corou de gozo. Escorregou um olhar ao verniz dos sapatos, á meia
-côr de carne, e revirando para Carlos o bogalho azulado da orbita:
-
---Eu agora ando bem... Mas, muito _blazè_.
-
-E foi realmente com um ar _blazè_ que se ergueu a ir buscar a uma mesa
-de jardim, ao lado, onde estavam jornaes e charutos, a _Gazeta
-Illustrada_, «para vêr o que ia pela patria.» Apenas lhe deitou os olhos
-soltou uma exclamação.
-
---Outro debute? perguntou Carlos.
-
---Não, é a besta do Castro Gomes!
-
-A _Gazeta Illustrada_ annunciava que «o sr. Castro Gomes, o cavalheiro
-brasileiro que no Porto fôra victima da sua dedicação por occasião da
-desgraça occorrida na Praça Nova, e de que o nosso correspondente J. T.
-nos deu uma descripção tão opulenta de colorido realista, acha-se
-restabelecido e é hoje esperado no Hotel Central. Os nossos parabens ao
-arrojado gentleman.»
-
---Ora está s. ex.^a restabelecida! exclamou Damaso, atirando para o lado
-o jornal. Pois deixa estar, que agora é a occasião de lhe dizer na cara
-o que penso... Aquelle pulha!
-
---Tu exageras, murmurou Carlos, que se apoderara vivamente do jornal, e
-relia a noticia.
-
---Ora essa! exclamou Damaso, erguendo-se. Ora essa! Queria vêr, se fosse
-comtigo... É uma besta! É um selvagem!
-
-E repetiu mais uma vez a Carlos essa historia que o magoava. Desde a sua
-chegada de Bordeus, logo que o Castro Gomes se installara no Hotel
-Central elle fôra deixar-lhe bilhetes duas vezes--a ultima na manhã
-seguinte ao jantar do Ega. Pois bem, s. ex.^a não se dignara agradecer a
-visita! Depois elles tinham partido para o Porto; fôra ahi que,
-passeiando só na Praça Nova, vendo a parelha de uma caleche desbocada,
-duas senhoras em gritos, Castro Gomes se lançára ao freio dos
-cavallos--e, cuspido contra as grades, tinha deslocado um braço. Teve de
-ficar no Porto, no Hotel, cinco semanas. E elle immediatamente (sempre
-com o olho na mulher) mandara-lhe dois telegrammas: um de sentimento,
-lamentando; outro de interesse, pedindo noticias. Nem a um, nem a outro,
-o animal respondeu!
-
---Não, isso--exclamava Salcede, passeiando pelo terraço, e recordando
-estas injurias--hei de lhe fazer uma desfeita!... Não pensei ainda o
-quê, mas ha de amargar-lhe... Lá isso, desconsiderações não admitto a
-ninguem! a ninguem!
-
-Arredondava o olho, ameaçador. Desde o seu feito no Gremio, quando o
-rachitico apavorado emmudecera diante d'elle, Damaso ia-se tornando
-feroz. Pela menor cousa fallava em «quebrar caras.»
-
---A ninguem! repetia elle, com puxões ao collete. Desconsiderações, a
-ninguem!
-
-N'esse momento ouviu-se dentro, no escriptorio, a voz rapida do Ega--e
-quasi immediatamente elle appareceu, com um ar de pressa, e atarantado.
-
---Olá, Damasosinho!... Carlos, dás-me aqui em baixo uma palavra?
-
-Desceram do terraço, penetraram no jardim, até junto de duas olaias em
-flôr.
-
---Tu tens dinheiro?--foi ahi logo a exclamação anciosa do Ega.
-
-E contou a sua terrivel atrapalhação. Tinha uma letra de noventa libras
-que se vencia no dia seguinte. Além d'isso, vinte e cinco libras que
-devia ao Eusebiosinho, e que elle lhe reclamara n'uma carta indecente: e
-era isto que desesperava o Ega...
-
---Quero pagar a esse canalha, e quando o vir collar-lhe a carta á cara
-com um escarro. Além d'isso a letra! E tenho para tudo isto quinze
-tostões...
-
---O Eusebiosinho é homem de ordem... Emfim, queres cento e quinze
-libras, disse Carlos.
-
-Ega hesitou, com uma côr no rosto. Já devia dinheiro a Carlos. Estava-se
-sempre dirigindo áquella amisade, como a um cofre inexgotavel...
-
---Não, bastam-me oitenta. Ponho o relogio no prego, e a pelissa, que já
-não faz frio...
-
-Carlos sorriu, subiu logo ao quarto a escrever um cheque--em quanto Ega
-procurava cuidadosamente um bonito botão de rosa para florir a
-sobrecasaca. Carlos não tardou, trazendo na mão o cheque, que alargara
-até cento e vinte libras, para o Ega ficar _armado_...
-
---Seja pelo amor de Deus, menino! disse o outro, embolsando o papel, com
-um bello suspiro de allivio.
-
-Immediatamente trovejou contra o Eusebiosinho, esse villão! Mas tinha já
-uma vingança. Ia remetter-lhe a somma toda em cobre, n'um sacco de
-carvão, com um rato morto dentro, e um bilhete, começando
-assim:--_ascorosa lombriga e immunda osga, ahi te atiro ao focinho_,
-etc...
-
---Como tu podes consentir aqui, usando as tuas cadeiras, respirando o
-teu ar, aquelle ser repulsivo!...
-
-Mas era até sujo mencionar o Eusebiosinho!... Quiz saber dos trabalhos
-de Carlos, do grande livro. Fallou tambem do seu _Atomo_:--e, por fim,
-n'uma voz differente, applicando o monocolo a Carlos:
-
---Dize-me outra cousa. Porque não tens tu voltado aos Gouvarinhos?
-
-Carlos tinha só esta rasão: não se divertia lá.
-
-Ega encolheu os hombros. Parecia-lhe aquillo uma puerilidade...
-
---Tu não percebeste nada, exclamou elle. Aquella mulher tem uma paixão
-por ti... Basta que se pronuncie o teu nome, sobe-lhe todo o sangue á
-cara.
-
-E como Carlos ria, incredulo, Ega, muito grave, deu a sua palavra de
-honra. Ainda na vespera, estava-se fallando de Carlos, e elle
-espreitara-a. Sem ser um Balzac, nem uma broca de observação, tinha a
-visão correcta: pois bem, lá lhe vira na face, nos olhos, toda a
-expressão de um sentimento sincero...
-
---Não estou a fazer romance, menino... Gosta de ti, palavra! Tenl-a
-quando quiseres.
-
-Carlos achava deliciosa aquella naturalidade mephistophelica com que Ega
-o induzia a quebrar uma infinidade de leis religiosas, moraes, sociaes,
-domesticas...
-
---Ah bem, exclamou Ega, se tu me vens com essa _blague_ da cartilha e do
-codigo, então não fallemos mais n'isso! Se apanhaste a sarna da virtude,
-com comichões por qualquer cousa, então era uma vez um homem, vae para a
-Trappa commentar o _Ecclesiastes_...
-
---Não--disse Carlos, sentando-se n'um banco sob as arvores, ainda com
-uns restos da preguiça do terraço--o meu motivo não é tão nobre. Não vou
-lá, porque acho o Gouvarinho um massador.
-
-Ega teve um sorriso mudo.
-
---Se a gente fosse a fugir das mulheres que tem maridos massadores...
-
-Sentou-se ao lado de Carlos, começou a riscar em silencio o chão areado;
-e sem erguer os olhos, deixando cahir as palavras, uma a uma, com
-melancolia:
-
---Antes de hontem, toda a noite, a pé firme, das dez á uma, estive a
-ouvir a historia da demanda do Banco Nacional!
-
-Era quasi uma confidencia, e como o desabafo dos tedios secretos em que
-se debatia, n'aquelle mundo dos Cohens, o seu temperamento de artista.
-Carlos enterneceu-se.
-
---Meu pobre Ega, então toda a demanda?
-
---Toda! E a leitura do relatorio da assembléa geral! E interessei-me! E
-tive opiniões!... A vida é um inferno.
-
-Subiram ao terraço. Damaso reoccupara a sua cadeira de vime, e, com um
-canivetesinho de madreperola, estava tratando das unhas.
-
---Então decidiu-se? perguntou elle logo ao Ega.
-
---Decidiu-se hontem! Não ha _cotillon_.
-
-Tratava-se de uma grande soirée mascarada que íam dar os Cohens, no dia
-dos annos de Rachel. A idéa d'esta festa sugerira-a o Ega, ao principio
-com grandes proporções de gala artistica, a ressurreição historica de um
-sarau no tempo de D. Manuel. Depois viu-se que uma tal festa era
-irrealisavel em Lisboa--e desceu-se a um plano mais sobrio, um simples
-baile _costumé_, a capricho...
-
---Tu, Carlos, já decidiste como vaes?
-
---De dominó, um severo dominó preto, como convém a um homem de
-sciencia...
-
---Então, exclamou Ega se se trata de sciencia, vae de rabona e chinellas
-de ourello!... A sciencia faz-se em casa e de chinellas... Nunca ninguem
-descobriu uma lei do Universo mettido dentro de um dominó... Que
-sensaboria, um dominó!...
-
-Justamente a sr.^a D. Rachel desejava evitar, no seu baile, essa
-monotonia dos dominós. E em Carlos não havia desculpa. Não o prendiam
-vinte ou trinta libras; e, com aquelle esplendido physico de cavalleiro
-da Renascença, devia ornar a sala pelo menos com um soberbo Francisco I.
-
---É n'isto, ajuntava elle com fogo, que está a belleza de uma soirée de
-mascaras! Não lhe parece, você, Damaso? Cada um deve aproveitar a sua
-figura... Por exemplo, a Gouvarinho vae muito bem. Teve uma inspiração:
-com aquelle cabello ruivo, o nariz curto, as maçãs do rosto salientes, é
-Margarida de Navarra...
-
---Quem é Margarida de Navarra? perguntou Affonso da Maia, apparecendo no
-terraço com Craft.
-
---Margarida, a duqueza d'Angouleme, a irmã de Francisco I, a Margarida
-das Margaridas, a perola dos Valois, a padroeira da Renascença, a sr.^a
-condessa de Gouvarinho!...
-
-Rio muito, foi abraçar Affonso, explicou-lhe que se discutia o baile dos
-Cohens. E appellou logo para elle, para o Craft tambem, acerca do
-nefando dominó de Carlos. Não estava aquelle mocetão, com os seus ares
-de homem d'armas, talhado para um soberbo Francisco I, em toda a gloria
-de Marignan?
-
-O velho deu um olhar enternecido á belleza do neto.
-
---Eu te digo, John, talvez tenhas razão; mas Francisco I, rei de França,
-não se póde apear de uma tipoia e entrar n'uma sala, só. Precisa côrte,
-arautos, cavalleiros, damas, bobos, poetas... Tudo isso é difficil.
-
-Ega curvou-se. Sim senhor, d'accordo! Alli estava uma maneira
-intelligente de comprehender o baile dos Cohens!
-
---E tu, de que vaes? perguntou-lhe Affonso.
-
-Era um segredo. Tinha a theoria de que, n'aquellas festas, um dos
-encantos consistia na surpreza: dois sujeitos por exemplo que tendo
-jantado juntos, de jaquetão, no Bragança, se encontram á noite, um na
-purpura imperial de Carlos V, outro com a escopeta de bandido da
-Calabria...
-
---Eu cá não faço segredo, disse ruidosamente Damaso. Eu cá vou de
-selvagem.
-
---Nú?
-
---Não. De Nelusko na _Africana_. Oh sr. Affonso da Maia, que lhe parece?
-Acha _chic_?
-
---_Chic_ não exprime bem, disse Affonso sorrindo. Mas _grandioso_, é,
-decerto.
-
-Quizeram então saber como ía Craft. Craft não ía de cousa nenhuma; Craft
-ficava nos Olivaes, de robe de chambre.
-
-Ega encolheu os hombros com tedio, quasi com colera. Aquellas
-indifferenças pelo baile dos Cohens feriam-n'o como injurias pessoaes.
-Elle estava dando a essa festa o seu tempo, estudos na bibliotheca, um
-trabalho fumegante de imaginação; e pouco a pouco ella tomava aos seus
-olhos a importancia de uma celebração d'arte, provando o genio de uma
-cidade. Os «dominós», as abstenções, pareciam-lhe evidencias de
-inferioridade de espirito. Citou então o exemplo do Gouvarinho: alli
-estava um homem de occupações, de posição politica, nas vesperas de ser
-ministro, que não só ía ao baile, mas estudara o seu _costume_:
-estudara, e ía muito bem, ía de _marquez de Pombal_!
-
---Reclame para ser ministro, disse Carlos.
-
---Não o precisa, exclamou Ega. Tem todas as condições para ser ministro:
-tem voz sonora, leu Mauricio Block, está encalacrado, e é um asno!...
-
-E no meio das risadas dos outros, elle, arrependido de demolir assim um
-cavalheiro que se interessava pelo baile dos Cohens, acudiu logo:
-
---Mas é muito bom rapaz, e não se dá ares nenhuns! É um anjo!
-
-Affonso reprehendia-o, risonho e paternal:
-
---Ora tu, John, que não respeitas nada...
-
---O desacato é a condição do progresso, sr. Affonso da Maia. Quem
-respeita decahe. Começa-se por admirar o Gouvarinho, vae-se a gente
-esquecendo, chega a reverenciar o monarcha, e quando mal se precata tem
-descido a venerar o Todo-Poderoso!... É necessario cautela!
-
---Vae-te embora, John, vae-te embora! Tu és o proprio Anti-Christo...
-
-Ega ía responder, exhuberante e em veia--mas dentro o tinir argentino do
-relogio Luiz XV, com o seu gentil minuete, emmudeceu-o.
-
---O que? quatro horas!
-
-Ficou aterrado, verificou no seu proprio relogio, deu em redor rapidos,
-silenciosos apertos de mão, desappareceu como um sopro.
-
-Todos de resto estavam pasmados de ser tão tarde! E assim passara a hora
-de ir ao Lumiar vêr as colxas antigas das senhoras Medeiros...
-
---Quer você então meia hora de florete, Craft? perguntou Carlos.
-
---Seja: e é necessario dar a lição ao Damaso...
-
---É verdade, a lição...--murmurou Damaso, sem enthusiasmo, com um
-sorriso murcho.
-
-A sala de esgrima era uma casa terrea, debaixo dos quartos de Carlos,
-com janellas gradeadas para o jardim, por onde resvalava, atravez das
-arvores, uma luz esverdinhada. Em dias enevoados era necessario accender
-os quatro bicos de gaz. Damaso seguiu, atraz dos dois, com uma lentidão
-de rez desconfiada.
-
-Aquellas lições, que elle sollicitara por amor do _chic_, íam-se-lhe
-tornando odiosas. E n'essa tarde, como sempre, apenas se enchumaçou com
-o plastrão d'anta, se cobriu com a caraça de arame, começou a
-transpirar, a fazer-se branco. Diante d'elle Craft, de florete na mão,
-parecia-lhe cruel e bestial, com aquelles seus hombros de Hercules
-sereno, o olhar claro e frio. Os dois ferros rasparam. Damaso estremeceu
-todo.
-
---Firme, gritou-lhe Carlos.
-
-O desgraçado equilibrava-se sobre a perna roliça; o florete de Craft
-vibrou, rebrilhou, voou sobre elle; Damaso recuou, suffocado,
-cambaleando e com o braço frouxo...
-
---Firme! berrava-lhe Carlos.
-
-Damaso, exhausto, abaixou a arma.
-
---Então que querem vocês, é nervoso! É por ser a brincar... Se fosse a
-valer, vocês veriam.
-
-Assim acabava sempre a lição; e ficava depois abatido sobre uma banqueta
-de marroquim, arejando-se com o lenço, pallido como a cal dos muros.
-
---Vou-me até casa, disse elle d'ahi a pouco, fatigado de tanto crusar de
-ferro. Queres alguma cousa, Carlinhos?
-
---Quero que venhas cá jantar ámanhã... Tens o marquez.
-
---_Chic_ a valer... Não faltarei.
-
-Mas faltou. E, como toda essa semana aquelle moço ponctual não appareceu
-no Ramalhete, Carlos sinceramente inquieto, julgando-o moribundo, foi
-uma manhã a casa d'elle, á Lapa. Mas ahi, o creado (um gallego
-achavascado e triste, que, desde as suas relações com os Maias, Damaso
-trazia entalado n'uma casaca e mortalmente aperreado em sapatos de
-verniz) affirmou-lhe que o sr. Damasosinho estava de boa saude, e até
-sahira a cavallo. Carlos veiu então ao tio Abrahão; o tio Abrahão tambem
-não avistara, havia dias, aquelle bom senhor Salcede, _that beautiful
-gentleman!_ A curiosidade de Carlos levou-o ao Gremio: no Gremio nenhum
-creado vira ultimamente o sr. Salcede. «Está por ahi de lua de mel com
-alguma bella andaluza» pensou Carlos.
-
-Chegara ao fim da rua do Alecrim quando viu o conde de Steinbroken que
-se dirigia ao Aterro, a pé, seguido da sua vittoria a passo. Era a
-segunda vez que o diplomata fazia exercicio depois do seu desgraçado
-ataque de entranhas. Mas não tinha já vestigios da doença: vinha todo
-rosado e loiro, muito solido na sua sobrecasaca, e com uma bella rosa de
-chá na botoeira. Declarou mesmo a Carlos que estava «más forrte». E não
-lamentava os soffrimentos, porque elles lhe tinham dado o meio de
-apreciar as sympathias que gosava em Lisboa. Estava enternecido. Sobre
-tudo o cuidado de S. M.--o augusto cuidado de S. M.--fizera-lhe melhor
-que «todos os drogues de botique»! Realmente nunca as relações entre
-esses dois paizes, tão estreitamente alliados, Portugal e a Filandia,
-tinham sido «màs firmes, pur assi dizerre, màs intimes, que durrante seu
-ataque de intestinaes»!
-
-Depois, travando do braço a Carlos, alludiu commovido ao offerecimento
-de Affonso da Maia, que pozera á sua disposição S.^ta Olavia, para elle
-se restabelecer n'esses ares fortes e limpos do Douro. Oh, esse convite
-tocara-o _au plus profond de son c[oe]ur_. Mas, infelizmente, S.^{ta}
-Olavia era longe, tão longe!... Tinha de se contentar com Cintra, d'onde
-podia vir todas as semanas, uma, duas vezes, vigiar a Legação. _C'était
-ennuyeux, mais_... A Europa estava n'um d'esses momentos de crise, em
-que homens d'estado, diplomatas, não podiam affastar-se, gosar as
-menores ferias. Precisavam estar alli, na brecha, observando,
-informando...
-
---C'est très grave, murmurou elle, parando, com um pavor vago no olhar
-azulado... C'est excessivement grave!
-
-Pediu a Carlos que olhasse em torno de si para a Europa. Por toda a
-parte uma confusão, um _gachis_. Aqui a questão do Oriente; alem o
-socialismo; por cima o Papa, a complicar tudo... Oh, très grave!
-
---Tenez, la France, par exemple... D'abord Gambetta. Oh, je ne dis pas
-non, il est très fort, il est excessivement fort... Mais... Voilà! C'est
-très grave...
-
-Por outro lado os radicaes, _les nouvelles couches_... Era
-excessivamente grave...
-
---Tenez, je vais vous dire une chose, entre nous!
-
-Mas Carlos não escutava, nem sorria já. Do fim do Aterro approximava-se,
-caminhando depressa, uma senhora--que elle reconheceu logo, por esse
-andar que lhe parecia de uma deusa pisando a terra, pela cadellinha côr
-de prata que lhe trotava junto ás saias, e por aquelle corpo
-maravilhoso, onde vibrava, sob linhas ricas de marmore antigo, uma graça
-quente, ondeante e nervosa. Vinha toda vestida de escuro, n'uma toilette
-de _serge_ muito simples que era como o complemento natural da sua
-pessoa, collando-se bem sobre ella, dando-lhe, na sua correcção, um ar
-casto e forte; trazia na mão um guarda-sol inglez, apertado e fino como
-uma cana; e toda ella, adiantando-se assim no luminoso da tarde, tinha,
-n'aquelle caes triste de cidade antiquada, um destaque estrangeiro, como
-o requinte raro de civilisações superiores. Nenhum véo, n'essa tarde,
-lhe assombreava o rosto. Mas Carlos não poude detalhar-lhe as feições;
-apenas d'entre o esplendor eburneo da carnação sentiu o negro profundo
-de dois olhos que se fixaram nos seus. Insensivelmente deu um passo para
-a seguir. Ao seu lado Steinbroken, sem vêr nada, estava achando Bismarch
-assustador. Á maneira que ella se affastava, parecia-lhe maior, mais
-bella: e aquella imagem falsa e litteraria de uma deusa marchando pela
-terra prendia-se-lhe á imaginação. Steinbroken ficara aterrado com o
-discurso do Chanceller no Reichstag... Sim, era bem uma deusa. Sob o
-chapéo, n'uma fórma de trança enrolada, apparecia o tom do seu cabello
-castanho, quasi louro á luz; a cadelinha trotava ao lado, com as orelhas
-direitas.
-
---Evidentemente, disse Carlos, Bismarck é inquietador...
-
-Steinbroken porém já deixara Bismarck. Steinbroken agora atacava lord
-Beaconsfield.
-
---Il est très fort... Oui, je vous l'accorde, il est excessivement
-fort... Mais voilà... Ou va-t-il?
-
-Carlos olhava para o caes de Sodré. Mas tudo lhe parecia deserto.
-Steinbroken antes de adoecer, justamente, tinha dito ao ministro dos
-negocios estrangeiros aquillo mesmo: lord Beaconsfield é muito forte,
-mas para onde vae elle? O que queria elle?... E s. ex.^a tinha encolhido
-os hombros... S. ex.^a não sabia...
-
---Eh, oui! Beaconsfield est très fort... Vous avez lu son speech chez le
-Lord-Maire? Epatant, mon cher, epatant!... Mais voilà... Où va-t-il?
-
---Steinbroken, não me parece que seja prudente deixar-se estar aqui a
-arrefecer no Aterro...
-
---Devérras? exclamou o diplomata, passando logo a mão rapidamente pelo
-estomago e pelo ventre.
-
-E não se quiz demorar um instante mais! Como Carlos ía recolher tambem,
-offereceu-lhe um logar na vittoria até ao Ramalhete.
-
---Venha então jantar comnosco, Steinbroken.
-
---Charmé, mon cher, charmé...
-
-A vittoria partiu. E o diplomata agazalhando as pernas e o estomago n'um
-grande plaid escossez:
-
---Pôs, Maia, fezemos um bello passêo... Mas este Atêrro no é deverrtido.
-
-Não era divertido o Aterro!... Carlos achara-o n'essa tarde o mais
-delicioso logar da terra!
-
-Ao outro dia, voltou mais cedo; e, apenas dera alguns passos entre as
-arvores, viu-a logo. Mas não vinha só; ao seu lado o marido, esticado,
-apurado n'uma jaqueta de casimira quasi branca, com uma ferradura de
-diamantes no setim negro da gravata, fumava, indolente e languido, e
-trazia a cadellinha debaixo do braço. Ao passar, deu um olhar
-surprehendido a Carlos--como descobrindo emfim entre os barbaros um ser
-de linha civilisada, e disse-lhe algumas palavras baixo, a ella.
-
-Carlos encontrara outra vez os seus olhos, profundos e serios: mas não
-lhe parecera tão bella; trazia uma outra toilette menos simples, de dois
-tons, côr de chumbo e côr de creme, e no chapéo, d'abas grandes á
-ingleza, vermelhava alguma cousa, flôr ou penna. N'essa tarde não era a
-deusa descendo das nuvens d'ouro que se enrolavam alem sobre o mar; era
-uma bonita senhora estrangeira que recolhia ao seu hotel.
-
-Voltou ainda tres vezes ao Aterro, não a tornou a vêr; e então
-envergonhou-se, sentiu-se humilhado com este interesse romanesco que o
-trazia assim, n'uma inquietação de rafeiro perdido, farejando o Aterro,
-da rampa de Santos ao caes de Sodré, á espera de uns olhos negros e de
-uns cabellos louros de passagem em Lisboa, e que um paquete da _Royal
-Mail_ levaria uma d'essas manhãs...
-
-E pensar que toda essa semana deixara o seu trabalho abandonado sobre a
-meza! E que todas as tardes, antes de sahir, se demorava ao espelho,
-estudando a gravata! Ah, miseravel, miseravel natureza...
-
-
-Ao fim d'essa semana, Carlos estava no consultorio, já para sahir,
-calçando as luvas, quando o creado entreabriu o reposteiro, e murmurou
-com alvoroço:
-
---Uma senhora!
-
-Appareceu um menino muito pallido, de caracoes louros, vestido de
-velludo preto--e atraz uma mulher, toda de negro, com um véo justo e
-espesso como uma mascara.
-
---Creio que vim tarde, disse ella, hesitando, junto da porta. O sr.
-Carlos da Maia ía sahir...
-
-Carlos reconheceu a Gouvarinho.
-
---Oh senhora condessa!
-
-Desembaraçou logo o divan dos jornaes e das brochuras; ella olhou um
-momento, como indecisa, aquelle amplo e molle assento de serralho;
-depois sentou-se á borda e de leve, com o pequeno junto de si.
-
---Venho trazer-lhe um doente, disse ella sem erguer o véu, como fallando
-do fundo d'aquella toilette negra que a dissimulava. Não o mandei
-chamar, por que realmente pouco é, e tinha hoje de passar por aqui...
-Além d'isso, o meu pequeno é muito nervoso; se vê entrar o medico,
-parece-lhe que vae morrer. Assim é como uma visita que se faz... E não
-tens medo, não é verdade, Charlie?
-
-O pequeno não respondeu; de pé, quedo ao lado da mamã; mimoso e debil
-sob os caracoes d'anjo que lhe cahiam até aos hombros, devorava Carlos
-com uns grandes olhos tristes.
-
-Carlos poz um interesse quasi terno na sua pergunta:
-
---Que tem elle?
-
-Havia dias, apparecera-lhe uma empigem no pescoço. Além disso, por traz
-da orelha, tinha como uma dureza de caroço. Aquillo inquietava-a. Ella
-era forte, de uma boa raça, que dera athletas e velhos de grande edade.
-Mas na familia do marido, em todos os Gouvarinhos, havia uma anemia
-hereditaria. O conde mesmo, com aquella solida apparencia, era um
-achacado. E ella, receiando que a influencia debilitante de Lisboa não
-conviesse a Charlie, estava com o vago projecto de lhe fazer ir passar
-algum tempo ao campo, em Formoselha, a casa da avó.
-
-Carlos, approximando ligeiramente a cadeira, estendeu os braços a
-Charlie:
-
---Ora venha cá o meu lindo amigo, para vermos isso. Que magnifico
-cabello elle tem, senhora condessa!...
-
-Ella sorrio. E Charlie, seriosinho, bem ensinado, sem aquelle terror do
-medico de que fallara a mamã, veio logo, desapertou delicadamente o seu
-grande collarinho, e, quasi entre os joelhos de Carlos, dobrou o pescoço
-macio e alvo como um lyrio.
-
-Carlos vio apenas uma pequena mancha côr de rosa desvanecendo-se; do
-«caroço» não havia vestigio; e então uma ligeira vermelhidão subiu-lhe
-ao rosto, procurou vivamente os olhos da condessa, como comprehendendo
-tudo, querendo vêr n'elles a confissão do sentimento que a trouxera alli
-com um pretexto pueril, sob aquella toilette negra, aquelles véos que a
-mascaravam...
-
-Mas ella permaneceu impenetravel, sentada á borda do divan, com as mãos
-crusadas, attenta, como esperando as suas palavras, n'um vago susto de
-mãe.
-
-Carlos abotoou o collarinho do pequeno, e disse:
-
---Não é absolutamente nada, minha senhora.
-
-No entanto, fez perguntas de medico sobre o regimen e a natureza de
-Charlie. A condessa, n'um tom pesaroso, queixou-se de que a educação da
-creança não fosse, como ella desejava, mais forte e mais viril; mas o
-pae oppunha-se ao que elle chamava «a aberração ingleza», a agua fria,
-os exercicios a todo o ar, a gymnastica...
-
---A agoa fria e a gymnastica, disse Carlos sorrindo, teem melhor
-reputação do que merecem... É o seu unico filho, senhora condessa?
-
---É, tem os mimos de morgado, disse ella passando a mão pelos cabellos
-louros do pequeno.
-
-Carlos assegurou-lhe que, apezar do seu aspecto nervoso e delicado,
-Charlie não devia dar-lhe cuidado; nem havia necessidade de o exilar
-para os ares de Formoselha... Depois ficaram um momento callados.
-
---Não imagina como me tranquillisou, disse ella, erguendo-se, dando um
-geito ao veu. De mais a mais é um gosto vir consultal-o... Não ha aqui o
-menor ar de doença, nem de remedios... E realmente tem isto muito
-bonito...--accrescentou, dando um olhar lento em redor aos velludos do
-gabinete.
-
---Tem justamente esse defeito, exclamou Carlos rindo. Não inspira nenhum
-respeito pela minha sciencia... Eu estou com idêas d'alterar tudo, pôr
-aqui um crocodilho empalhado, corujas, retortas, um esqueleto, pilhas
-d'in-folios...
-
---A cella de Fausto.
-
---Justamente, a cella de Fausto.
-
---Falta-lhe Mephistopheles, disse ella alegremente, com um olhar que
-brilhou sob o véo.
-
---O que me falta é Margarida!
-
-A senhora condessa, com um lindo movimento, encolheu os hombros, como
-duvidando discretamente; depois tomou a mão de Charlie, e deu um passo
-lento para a porta, puxando outra vez o véo.
-
---Como v. ex.^a se interessa pela minha installação, acudiu Carlos
-querendo retel-a, deixe-me mostrar-lhe a outra sala.
-
-Correu o reposteiro. Ella approximou-se, murmurou algumas palavras,
-approvando a frescura dos cretones, a harmonia dos tons claros: depois o
-piano fel-a sorrir.
-
---Os seus doentes dançam quadrilhas?
-
---Os meus doentes, senhora condessa, respondeu Carlos, não são bastante
-numerosos para formar uma quadrilha. Raras vezes mesmo tenho dois para
-uma valsa... O piano está simplesmente alli para dar idêas alegres; é
-como uma promessa tacita de saude, de futuras _soirèes_, de bonitas
-arias do _Trovador_, em familia...
-
---É engenhoso, disse ella dando familiarmente alguns passos na sala, com
-Charlie collado aos vestidos.
-
-E Carlos, caminhando ao lado d'ella:
-
---V. ex.^a não imagina como eu sou engenhoso!
-
---Já n'outro dia me disse... Como foi que disse? Ah! que era muito
-inventivo quando odiava.
-
---Muito mais quando amo, disse elle rindo.
-
-Mas ella não respondeu: parára junto do piano, remexeu um momento as
-musicas espalhadas, feriu duas notas no teclado.
-
---É um chocalho.
-
---Oh, senhora condessa!
-
-Ella seguiu, foi examinar um quadro a oleo, copiado de Landseer--um
-focinho de cão de S. Bernardo, macisso e bonacheirão, adormecido sobre
-as patas. Quasi roçando-lhe o vestido, Carlos sentia o fino perfume de
-verbena que ella usava sempre exageradamente: e, entre aquelles tons
-negros que a cobriam, a sua pelle parecia mais clara, mais doce á vista,
-e attrahindo como um setim.
-
---Este é um horror, murmurou ella, voltando-se; mas disse-me o Ega que
-ha quadros lindos no Ramalhete... Fallou-me sobretudo d'um Greuze e d'um
-Rubens... É pena que se não possam vêr essas maravilhas.
-
-Carlos lamentava tambem que uma existencia de solteirões lhes impedisse,
-a elle e ao avô, de receberem senhoras. O Ramalhete estava tomando uma
-melancolia de mosteiro. Se assim continuassem mais alguns mezes, sem que
-se sentisse alli um calor de vestido, um aroma de mulher, vinha a nascer
-a herva pelos tapetes.
-
---É por isso, accrescentou elle muito serio, que eu vou obrigar o avô a
-casar-se.
-
-A condessa riu, os seus lindos dentes miudinhos alvejaram na sombra do
-véo.
-
---Gosto da sua alegria, disse ella.
-
---É uma questão de regimen. V. ex.^a não é alegre?
-
-Ella encolheu os hombros, sem saber... Depois, batendo com a ponta do
-guarda-sol na sua botina de verniz que brilhava sobre o tapete claro,
-murmurou com os olhos baixos, deixando ir as palavras, n'um tom
-d'intimidade e de confidencia:
-
---Dizem que não, que sou triste, que tenho _spleen_...
-
-O olhar de Carlos seguira o d'ella, pousara-se na botina de verniz que
-calçava delicadamente um pé fino e comprido: Charlie, entretido, mexia
-nas teclas do piano--e elle baixou a voz para lhe dizer:
-
---É que a senhora condessa tem um mau regimen. É necessario tratar-se,
-voltar aqui, consultar-me... Tenho talvez muito que lhe dizer!
-
-Ella interrompeu-o vivamente, erguendo para elle os olhos, d'onde se
-escapou um clarão de ternura e de triumpho:
-
---Venha-m'o antes dizer um d'estes dias, tomar chá comigo, ás cinco
-horas... Charlie!
-
-O pequeno veiu logo dependurar-se-lhe do braço.
-
-Carlos, acompanhando-a abaixo á rua, lamentava a fealdade da sua escada
-de pedra:
-
---Mas vou mandar tapetar tudo para quando a senhora condessa volte a
-dar-me a honra de me vir consultar...
-
-Ella gracejou, toda risonha:
-
---Ah não! O sr. Carlos da Maia prometteu-nos a todos a saude... E
-naturalmente não espera que seja eu que venha cá tomar chá comsigo...
-
---Oh, minha senhora, eu quando começo a esperar, não ponho limites
-nenhuns ás minhas esperanças...
-
-Ella parou, com o pequeno pela mão, olhou para elle, como pasmada,
-encantada com aquella grandiosa certeza de si mesmo.
-
---Então vae por ahi além, por ahi além...?
-
---Vou por ahi além, por ahi além, minha senhora!
-
-Estavam no ultimo degrau, diante da claridade e do rumor da rua.
-
---Mande-me chegar um coupé.
-
-Um cocheiro, ao aceno de Carlos, lançou logo a tipoia.
-
---E agora, disse ella sorrindo, mande-o ir á egreja da Graça.
-
---A senhora condessa vai beijar o pé do Senhor dos Passos?
-
-Ella corou de leve, murmurou:
-
---Ando fazendo as minhas devoções...
-
-Depois saltou ligeiramente para o coupé--deixando Charlie, que Carlos
-ergueu nos braços e lhe collocou ao lado, paternalmente.
-
---Que Deus a leve em sua santa guarda, senhora condessa!
-
-Ella agradeceu com um olhar, um movimento de cabeça--ambos tão doces
-como caricias.
-
-Carlos subio: e, sem tirar o chapéo, ficou ainda enrolando uma
-cigarrette, passeando n'aquella sala sempre deserta, sempre fria, onde
-ella deixara agora alguma cousa do seu calor e do seu aroma...
-
-Realmente gostava d'aquella audacia d'ella--ter vindo assim ao
-consultorio, toda escondida, quasi mascarada n'uma grande toilette
-negra, inventando um caroço no pescocinho são de Charlie, para o vêr,
-para dar um nó brusco e mais apertado n'aquelle leve fio de relações que
-elle tão negligentemente deixara cahir e quebrar...
-
-O Ega d'esta vez não phantasiara: aquelle bonito corpo offerecia-se, tão
-claramente como se se despisse. Ah! se ella fosse de sentimentos
-errantes e faceis--que bella flôr a colher, a respirar, a deitar fóra
-depois! Mas não: como dizia o Baptista, a senhora condessa nunca se
-tinha divertido. E o que elle não queria era achar-se envolvido n'uma
-paixão ciosa, uma d'essas ternuras tumultuosas de mulher de trinta
-annos, de que depois se desembaraçaria difficilmente... Nos braços
-d'ella o seu coração ficaria mudo: e apenas esgotada a primeira
-curiosidade, começaria o tedio dos beijos que se não desejam, a horrivel
-massada do prazer a frio. Depois, teria de ser intimo da casa, receber
-pelo hombro as palmadas do senhor conde, ouvir-lhe a voz morosa
-distillando doutrina... Tudo isto o assustava... E, todavia, gostara
-d'aquella audacia! Havia ali uma pontinha de romantismo, muito
-irregular, e pícante... E devia ser deliciosamente bem feita... A sua
-imaginação despia-a, enrolava-se-lhe no setim das fórmas onde sentia ao
-mesmo tempo alguma cousa de maduro e de virginal... E outra vez, como
-nas primeiras noites que os vira em S. Carlos, aquelles cabellos
-tentavam-n'o, assim avermelhados, tão crespos e quentes...
-
-Sahiu. E dera apenas alguns passos na rua Nova do Almada, quando avistou
-o Damaso, n'um coupé lançado a grande trote, que o chamava, mandava
-parar, com a face á portinhola, vermelho e radiante:
-
---Não tenho podido lá ir, exclamou elle, apoderando-se-lhe da mão,
-apenas Carlos se approximou, e apertando-lh'a com enthusiasmo. Tenho
-andado n'um turbilhão!.. Eu te contarei! Um romance divino... Mas eu te
-contarei!.. Tem cuidado com a roda! Bate lá, ó _Calção_!
-
-A parelha abalou; elle ainda se debruçou da portinhola, agitou a mão,
-gritou no rumor da rua:
-
---Um romance divino, _chic_ a valer!
-
-Justamente, dias depois, no Ramalhete, na sala de bilhar, Craft que
-acabava de «bater» o marquez, perguntou, pousando o taco e accendendo o
-cachimbo:
-
---E noticias do nosso Damaso? Já se esclareceu esse lamentavel
-desapparecimento?...
-
-Carlos então contou como o encontrára, afogueado e triumphante,
-atirando-lhe da portinhola do coupé, em plena rua Nova do Almada, a
-noticia de um _romance divino_!
-
---Bem sei, disse o Taveira.
-
---Como sabes?... exclamou Carlos.
-
-Taveira vira-o na vespera, n'um grande landeau da Companhia, com uma
-esplendida mulher, muito elegante e que parecia estrangeira...
-
---Ora essa! gritou Carlos. E com uma cadelinha escoceza?
-
---Exactamente, uma cadelinha escoceza, um _griffon_ côr de prata... Quem
-são?
-
---E um rapaz magro, de barba muito preta, com um ar inglezado?
-
---Justamente... Muito correcto, um ar _sport_... Que gente é?
-
---Uma gente brazileira, penso eu.
-
-Eram os Castros Gomes, de certo! Isto parecia-lhe espantoso. Havia
-apenas duas semanas que no terraço o Damaso, de punhos fechados, bramara
-contra os Castro Gomes e as suas «desconsiderações»! Ia pedir outros
-pormenores ao Taveira--mas o marquez ergueu a voz do fundo da poltrona
-onde se estirára, e quiz saber a opinião de Carlos sobre o grande
-acontecimento d'essa manhã na _Gazeta Illustrada_.--Na _Gazeta
-Illustrada_?... Carlos não sabia, essa manhã não vira jornal nenhum.
-
---Então não lhe digam nada, gritou o marquez. Venha a surpreza! Cá ha a
-_Gazeta_? Manda buscar a _Gazeta_!
-
-Taveira puxou o cordão da campainha;--e quando o escudeiro trouxe a
-_Gazeta_, elle apoderou-se d'ella, quiz fazer uma leitura solemne.
-
---Deixa-lhe vêr primeiro o retrato, berrou o marquez, erguendo-se.
-
---Primeiro o artigo! exclamava o Taveira, defendendo-se, com o jornal
-atraz das costas.
-
-Mas cedeu, e poz o papel deante dos olhos de Carlos, largamente, como um
-sudario desdobrado. Carlos reconheceu logo o retrato do Cohen... E a
-prosa que se alastrava em redor, encaixilhando a face escura de suissas
-retintas, era um trabalho de seis columnas, em estylo emplumado e
-cantante, celebrando até aos céus as virtudes domesticas do Cohen, o
-genio financeiro do Cohen, os ditos d'espirito do Cohen, a mobilia das
-salas do Cohen; havia ainda um paragrapho alludindo á festa proxima, ao
-grande sarau de mascaras do Cohen. E tudo isto vinha assignado--J. da
-E.--as iniciaes de João da Ega!
-
---Que tolice! exclamou Carlos, com tedio, atirando o jornal para cima do
-bilhar.
-
---É mais que tolice, observou Craft; é uma falta de senso moral.
-
-O marquez protestou. Gostava do artigo. Achava-o brilhante, e de
-velhaco!... E de resto em Lisboa quem dava por uma falta de senso
-moral?...
-
---Você, Craft, não conhece Lisboa! Todo o mundo acha isto muito natural.
-É intimo da casa, celebra os donos. É admirador da mulher, lisongea o
-marido. Está na logica cá da terra... Você verá que successo isto vae
-ter... E lá que o artigo está lindo, isso está!
-
-Tomou-o de cima do bilhar, leu alto o trecho sobre o boudoir côr de rosa
-de madame Cohen: «respira-se alli (dizia o Ega) alguma cousa de
-perfumado, intimo e casto, como se todo aquelle côr de rosa exhalasse de
-si o aroma que a rosa tem»!
-
---Isto, caramba, é lindo em toda a parte! exclamou o marquez. Tem muito
-talento, aquelle diabo! Tomara eu ter o talento que elle tem!...
-
---Nada d'isso impede, repetiu Craft, cachimbando tranquillamente, que
-seja uma extraordinaria falta de senso moral.
-
---Pura e simplesmente insensato! disse Cruges, desenroscando-se do canto
-d'um sophá, para deixar cahir ás syilabas esta pesada opinião.
-
-O marquez investiu com elle.
-
---Que entende você d'isso, seu maestro? O artigo é sublime! E saiba
-mais: é de finorio!
-
-O maestro, com preguiça de argumentar, foi-se enroscar em silencio ao
-outro canto do sophá.
-
-E então o marquez, de pé e bracejando, appellou para Carlos, e quiz
-saber o que é que Craft em principio entendia por _senso moral_.
-
-Carlos, que dava pela sala passos impacientes, não respondeu, tomou o
-braço do Taveira, levou-o para o corredor.
-
---Dize-me uma cousa: onde viste tu o Damaso, com essa gente? Para que
-lado iam?
-
---Iam pelo Chiado abaixo; ante-hontem, ás duas horas... Estou convencido
-que iam para Cintra. Levavam uma maleta no landau, e atraz ia uma criada
-n'um coupé com uma mala maior... Aquillo cheirava a ida a Cintra. E a
-mulher é divina! Que toilette, que ar, que chic!.. É uma Venus,
-menino!... Como conheceria elle aquillo?...
-
---Em Bordeus, n'um paquete, não sei onde!
-
---Eu do que gostei foi dos ares que elle se ia dando por aquelle Chiado!
-Cumprimento para a direita, cumprimento para a esquerda... A
-debruçar-se, a fallar muito baixo para a mulher, com olho terno,
-alardeando conquista...
-
---Que besta! exclamou Carlos, batendo com o pé no tapete.
-
---Chama-lhe besta, disse o Taveira. Vem a Lisboa, por acaso, uma mulher
-civilisada e decente, e é elle que a conhece, e é elle que vae com ella
-para Cintra! Chama-lhe besta!... Anda d'ahi, vamos á partidinha de
-dominó.
-
-Taveira ultimamente introduzira o dominó no Ramalhete--e havia agora
-alli, ás vezes, partidas ardentes, sobretudo quando apparecia o marquez.
-Porque a paixão do Taveira era bater o marquez.
-
-Mas foi necessario que o marquez acabasse de bracejar, de desenrolar o
-arrazoado com que estava acabrunhando o Craft--que do fundo da poltrona,
-de cachimbo na mão e com um ar de somno, respondia por monossyllabos.
-Era ainda a proposito do artigo do Ega, da definição de _senso moral_.
-Já tinha fallado de Deus, de Garibaldi, até do seu famoso perdigueiro
-_Finorio_; e agora definia a Consciencia... Segundo elle, era o medo da
-policia. Tinha o amigo Craft visto já alguem com remorsos? Não, a não
-ser no theatro da Rua dos Condes, em dramalhões...
-
---Acredite você uma cousa, Craft--terminou elle por dizer, cedendo ao
-Taveira que o puchava para a meza--isto de consciencia é uma questão de
-educação. Adquire-se como as boas maneiras; soffrer em silencio por ter
-trahido um amigo, aprende-se exactamente como se aprende a não metter os
-dedos no nariz. Questão d'educação... No resto da gente é apenas medo da
-cadeia, ou da bengala... Ah! vocês querem levar outra sova ao dominó
-como a de sabbado passado? Perfeitamente, sou todo vosso...
-
-Carlos, que estivera passando de novo os olhos pelo artigo do Ega,
-approximou-se tambem da meza. E estavam sentados, remexiam as
-pedras--quando á porta da sala appareceu o conde de Steinbroken, de
-casaca e crachá, gran-cruz sobre o colete branco, loiro como uma espiga,
-esticado e resplandecente. Tinha jantado no Paço, e vinha acabar no
-Ramalhete a sua soirée, em familia...
-
-Então o marquez que o não via desde o famoso ataque de intestinos,
-abandonou o dominó, correu a abraçal-o ruidosamente--e sem o deixar
-sequer sentar, nem estender a mão aos outros, implorou-lhe logo uma das
-suas bellas canções filandezas, uma só, d'aquellas que lhe faziam tão
-bem á alma!...
-
---Só a _Ballada_, Steinbroken... Eu tambem não me posso demorar, que
-tenho aqui a partida á espera. Só a _Ballada_!... Vá, salta lá para
-dentro para o piano, Cruges...
-
-O diplomata sorria, dizia-se cançado, tendo já feito musica deliciosa no
-Paço com Sua Magestade. Mas nunca sabia resistir áquelle modo folgazão
-do marquez--e lá foram para a sala do piano, de braço dado, seguidos
-pelo Cruges, que levara uma eternidade a desenroscar-se do canto do
-sophá. E d'ahi a um momento, atravez dos resposteiros meio corridos, a
-bella voz de barytono do diplomata espalhava pelas salas, entre os
-suspiros do piano, a emballadora melancolia da _Ballada_, com a sua
-lettra traduzida em francez, que o marquez adorava, e em que se fallava
-das nevoas tristes do Norte, de lagos frios e de fadas loiras...
-
-Taveira e Carlos, no entanto, tinham começado uma grande partida de
-dominó, a tostão o ponto. Mas Carlos n'essa noite não se interessava,
-jogando distrahido, a cantarolar tambem baixo bocados tristes da
-_Ballada_: depois, quando já Taveira tinha só uma pedra diante de si, e
-elle estava comprando interminavelmente as que restavam, voltou-se para
-o lado, para o Craft, a perguntar se o hotel da Lawrence, em Cintra,
-estava aberto todo o anno...
-
---A ida do Damaso para Cintra deu-te no goto, rosnou Taveira impaciente.
-Anda, joga!
-
-Carlos, sem responder, pousou mollemente uma pedra.
-
---Dominó! gritou Taveira.
-
-E em triumpho, aos pulos, contou elle mesmo os sessenta e oito pontos
-que Carlos perdia.
-
-Justamente o marquez entrava, e a victoria do Taveira indignou-o.
-
---Agora nós, exclamou elle, puxando vivamente uma cadeira. Oh Carlos,
-deixe-me você dar aqui uma sova n'este ladrão. Depois jogamos de tres...
-Como queres tu isto, Taveirete? A dous tostões o ponto? Ah, queres só a
-tostão... Muito bem, eu te ensinarei. Anda, desembaraça-te já d'esse
-dôble-seis, miseravel...
-
-Carlos ficou ainda um momento olhando o jogo, com uma cigarette apagada
-nos dedos, o mesmo ar distrahido: de repente, pareceu tomar uma decisão,
-atravessou o corredor, entrou na sala de musica. Steinbroken fôra ao
-escriptorio vêr Affonso da Maia, e a partida de whist; e Cruges só,
-entre as duas vélas do piano, com os olhos errantes pelo tecto,
-improvisava para si, melancolicamente.
-
---Dize cá, Cruges, perguntou-lhe Carlos, queres vir ámanhã a Cintra?
-
-O teclado callou-se, o maestro ergueu um olhar espantado! Carlos nem o
-deixou fallar.
-
---Está claro que queres, não te faz senão bem vir a Cintra... Ámanhã lá
-estou á porta, com o break. Mette sempre uma camisa n'uma maleta, que
-talvez passemos lá a noite... Ás oito em ponto, hein?... E não digas
-nada lá dentro.
-
-Carlos voltou para a sala, ficou a olhar a partida de dominó. Agora
-havia um largo silencio. O marquez e Taveira moviam lentamente as
-pedras, sem uma palavra, com um ar de rancor surdo. Em cima do pano
-verde do bilhar as bolas brancas dormiam juntas, sob a luz que cahia dos
-abat-jours de porcelana. Um som de piano, dolente e vago, passava por
-vezes. E Craft, com o braço descahido ao longo da poltrona, dormitava,
-beatificamente.
-
-
-
-
-VIII
-
-
-Na manhã seguinte, ás oito horas pontualmente, Carlos parava o break na
-rua das Flores, diante do conhecido portão da casa do Cruges. Mas o
-trintanario, que elle mandara acima bater á campainha do terceiro andar,
-desceu com a estranha nova de que o sr. Cruges já não morava ali. Onde
-diabo morava então o sr. Cruges? A criada dissera que o sr. Cruges vivia
-agora na rua de S. Francisco, quatro portas adiante do Gremio. Durante
-um momento, Carlos, desesperado, pensou em partir só para Cintra. Depois
-lá largou para a rua de S. Francisco, amaldiçoando o maestro, que mudara
-de casa sem avisar, sempre vago, sempre tenebroso!... E era em tudo
-assim. Carlos nada sabia do seu passado, do seu interior, das suas
-affeições, dos seus habitos. O marquez uma noite levara-o ao Ramalhete,
-dizendo ao ouvido de Carlos que estava alli um genio. Elle encantara
-logo todo o mundo pela modestia das suas maneiras e a sua arte
-maravilhosa ao piano: e todo o mundo no Ramalhete começou a tratar
-Cruges por _maestro_, a fallar tambem do Cruges como de um genio, a
-declarar que Choppin nunca fizera obra egual á _Meditação de Outono_ do
-Cruges. E ninguem sabia mais nada. Fôra pelo Damaso que Carlos conhecera
-a casa do Cruges e soubera que elle vivia lá com a mãe, uma senhora
-viuva, ainda fresca, e dona de predios na Baixa.
-
-Ao portão da rua de S. Francisco, Carlos teve de esperar um quarto de
-hora. Primeiro appareceu furtivamente ao fundo da escada uma criada em
-cabello, que espreitou o break, os criados de farda, e fugiu pelos
-degraus acima. Depois veiu um creado em mangas de camisa trazer a maleta
-do senhor e um chaile manta. Emfim, o maestro desceu, a correr, quasi
-aos trambulhões, com um cache-nez de seda na mão o guarda-chuva debaixo
-do braço, abotoando atarantadamente o paletot.
-
-Quando vinha pulando os ultimos degraus, uma voz esganiçada de mulher
-gritou-lhe de cima:
-
---Olha não te esqueçam as queijadas!
-
-E Cruges subiu precipitadamente para a almofada, para o lado de Carlos,
-rosnando que, com a preoccupação de se levantar tão cedo, tivera uma
-insomnia abominavel...
-
---Mas que diabo de idéa é essa de mudar de casa, sem avisar a gente,
-homem?--exclamou Carlos, atirando-lhe para cima dos joelhos um bocado do
-_plaid_ que o agasalhava, porque o maestro parecia arrepiado.
-
---É que esta casa tambem é nossa, disse simplesmente Cruges.
-
---Está claro, ahi está uma razão! murmurou Carlos rindo e encolhendo os
-hombros.
-
-Partiram.
-
-Era uma manhã muito fresca, toda azul e branca, sem uma nuvem, com um
-lindo sol que não aquecia, e punha nas ruas, nas fachadas das casas,
-barras alegres de claridade dourada. Lisboa acordava lentamente: as
-saloias ainda andavam pelas portas com os seus ceirões d'hortaliças:
-varria-se de vagar a testada das lojas: no ar macio morria a distancia
-um toque fino de missa.
-
-Cruges, tendo acabado de arranjar o cache-nez e de abotoar as luvas,
-estendeu um olhar á esplendida parelha baia reluzindo como um setim sob
-o faiscar de prata dos arreios, aos criados com os seus ramos nas
-librés, a todo aquelle luxo correcto e rolando em cadencia--onde fazia
-mancha o seu paletot: mas o que o impressionou foi o aspecto
-resplandecente de Carlos, o olhar acceso, as bellas côres, o bello riso,
-o quer que fosse de vibrante e de luminoso, que, sob o seu simples
-veston de xadrezinho castanho, n'aquella almofada burgueza de break, lhe
-dava um arranque de heroe jovial, lançando o seu carro de guerra...
-Cruges farejou uma aventura, soltou logo a pergunta que desde a vespera
-lhe ficara nos labios.
-
---Com franqueza, aqui para nós, que idéa foi esta de ir a Cintra?
-
-Carlos gracejou. O maestro jurava o segredo pela alma melodiosa de
-Mozart, e pelas _fugas_ de Bach? Pois bem, a idéa era vir a Cintra,
-respirar o ar de Cintra, passar o dia em Cintra... Mas, pelo amor de
-Deus, que o não revelasse a ninguem!
-
-E accrescentou, rindo:
-
---Deixa-te levar, que não te has de arrepender...
-
-Não, Cruges não se arrependia. Até achava delicioso o passeio, gostara
-sempre muito de Cintra... Todavia não se lembrava bem, tinha apenas uma
-vaga idéa de grandes rochas e de nascentes d'aguas vivas... E terminou
-por confessar que desde os nove annos não voltara a Cintra.
-
-O que! o maestro não conhecia Cintra?... Então era necessario ficarem
-lá, fazer as peregrinações classicas, subir á Pena, ir beber agua á
-Fonte dos Amores, barquejar na varzea...
-
---A mim o que me está a appetecer muito é Sitiaes; e a manteiga fresca.
-
---Sim, muita manteiga, disse Carlos. E burros, muitos burros... Emfim,
-uma ecloga!
-
-O break rodava na estrada de Bemfica: iam passando muros enramados de
-quintas, casarões tristonhos de vidraças quebradas, vendas com o seu
-masso de cigarros á porta dependurado de uma guita: e a menor arvore,
-qualquer bocado de relva com papoulas, um fugitivo longe de collina
-verde, encantavam Cruges. Ha que tempos elle não via o campo!
-
-Pouco a pouco o sol elevara-se. O maestro desembaraçou-se do seu grande
-cache-nez. Depois, encalmado, despiu o paletot--e declarou-se morto de
-fome.
-
-Felizmente estavam chegando á Porcalhota.
-
-O seu vivo desejo seria comer o famoso coelho guisado,--mas, como era
-cedo para esse acepipe, decidiu-se, depois de pensar muito, por uma
-bella pratada de ovos com chouriço. Era uma cousa que não provava havia
-annos, e que lhe daria a sensação de estar na aldêa... Quando o patrão,
-com um ar importante e como fazendo um favor, pousou sobre a meza sem
-toalha a enorme travessa com o petisco, Cruges esfregou as mãos, achando
-aquillo deliciosamente campestre.
-
---A gente em Lisboa estraga a saude! disse elle. puxando para o prato
-uma montanha de ovo e chouriço. Tu não tomas nada?...
-
-Carlos, para lhe fazer companhia, acceitou uma chavena de café.
-
-D'ahi a pouco Cruges, que devorava, exclamou com a bocca cheia:
-
---O Rheno tambem deve ser magnifico!
-
-Carlos olhou-o espantado e rindo. A que vinha agora alli o Rheno?... É
-que o maestro, desde que sahira as portas, estava cheio de idéas de
-viagens e de paisagens; queria vêr as grandes montanhas onde ha neve, os
-rios de que se falla na Historia. O seu ideal seria ir á Allemanha,
-percorrer a pé, com uma mochilla, aquella patria sagrada dos seus
-deuses, de Beethoven, de Mozart, de Wagner...
-
---Não te appetecia mais ir á Italia? perguntou Carlos accendendo o
-charuto.
-
-O maestro esboçou um gesto de desdem, teve uma das suas phrases
-sybillinas:
-
---Tudo contradanças!...
-
-Carlos então fallou de um certo plano de ir á Italia, com o Ega, no
-inverno. Ir á Italia, para o Ega, era uma hygiene intellectual:
-precisava calmar aquella imaginação tumultuosa de nervoso peninsular
-entre a placida magestade dos marmores...
-
---O que elle precisava antes de tudo era chicote, rosnou o Cruges.
-
-E voltou a fallar do caso da vespera, do famoso artigo da _Gazeta_.
-Achava aquillo, como elle dissera, pura e simplesmente insensato, e de
-uma sabujice indecorosa. E o que o affligia é que o Ega, com aquelle
-talento, aquella verve fumegante, não fizesse nada...
-
---Ninguem faz nada, disse Carlos espreguiçando-se. Tu, por exemplo, que
-fazes?
-
-Cruges, depois de um silencio, rosnou encolhendo os hombros:
-
---Se eu fizesse uma boa opera, quem é que m'a representava?
-
---E se o Ega fizesse um bello livro, quem é que lh'o lia?
-
-O maestro terminou por dizer:
-
---Isto é um paiz impossivel... Parece-me que tambem vou tomar café.
-
-Os cavallos tinham descançado, Cruges pagou a conta, partiram. D'ahi a
-pouco entravam na charneca que lhes pareceu infindavel. D'ambos os
-lados, a perder de vista, era um chão escuro e triste; e por cima um
-azul sem fim, que n'aquella solidão parecia triste tambem. O trote
-compassado dos cavallos batia monotonamente a estrada. Não havia um
-rumor: por vezes um passaro cortava o ar, n'um vôo brusco, fugindo do
-ermo agreste. Dentro do break um dos criados dormia; Cruges, pesado dos
-ovos com chouriço, olhava, vaga e melancolicamente, as ancas lustrosas
-dos cavallos.
-
-Carlos, no entanto, pensava no motivo que o trazia a Cintra. E realmente
-não sabia bem porque vinha: mas havia duas semanas que elle não avistava
-certa figura que tinha um passo de deusa pisando a terra, e que não
-encontrava o negro profundo de dois olhos que se tinham fixado nos seus:
-agora suppunha que ella estava em Cintra, corria a Cintra. Não esperava
-nada, não desejava nada. Não sabia se a veria, talvez ella tivesse já
-partido. Mas vinha: e era já delicioso o pensar n'ella assim por aquella
-estrada fóra, penetrar, com essa doçura no coração, sob as bellas
-arvores de Cintra... Depois, era possivel que d'ahi a pouco, na velha
-Lawrence, elle a cruzasse de repente no corredor, roçasse talvez o seu
-vestido, ouvisse talvez a sua voz. Se ella lá estivesse, decerto viria
-jantar á sala, aquella sala que elle conhecia tão bem, que já lhe estava
-appetecendo tanto, com as suas pobres cortininhas de cassa, os ramos
-toscos sobre a meza, e os dois grandes candieiros de latão antigo...
-Ella entraria alli, com o seu bello ar claro de Diana loira; o bom
-Damaso, apresentaria o seu amigo Maia; aquelles olhos negros que elle
-vira passar de longe como duas estrellas, pousariam mais de vagar nos
-seus; e, muito simplesmente, á ingleza, ella estender-lhe-hia a mão...
-
---Ora até que finalmente! exclamou Cruges, com um suspiro de allivio e
-respirando melhor.
-
-Chegavam ás primeiras casas de Cintra, havia já verduras na estrada, e
-batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra.
-
-E a passo, o break foi penetrando sob as arvores do Ramalhão. Com a paz
-das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e emballadora
-sussurração de ramagens, e como o diffuso e vago murmurio de agoas
-correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos: atravez da
-folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e avelludado
-circulava, rescendendo ás verduras novas; aqui e além, nos ramos mais
-sombrios, passaros chilreavam de leve; e n'aquelle simples bocado de
-estrada, todo salpicado de manchas do sol, sentia-se já, sem se vêr, a
-religiosa solemnidade dos espessos arvoredos, a frescura distante das
-nascentes vivas, a tristeza que cae das penedias e o repouso fidalgo das
-quintas de verão... Cruges respirava largamente, voluptuosamente.
-
---A Lawrence onde é? Na serra?--perguntou elle com a idéa repentina de
-ficar alli um mez n'aquelle paraiso.
-
---Nós não vamos para a Lawrence, disse Carlos sahindo bruscamente do seu
-silencio, e espertando os cavallos. Vamos para o Nunes, estamos lá muito
-melhor!
-
-Era uma idéa que lhe viera de repente, apenas passara as primeiras casas
-de S. Pedro, e o break começara a rolar n'aquellas estradas onde a cada
-momento elle a poderia encontrar. Tomara-o uma timidez, a que se
-misturava um laivo de orgulho, o receio melindrado de ser indiscreto,
-seguindo-a assim a Cintra, ainda que ella o não reconhecesse, indo
-installar-se sob as mesmas telhas, apoderando-se de um logar á mesma
-meza... E ao mesmo tempo repugnou-lhe a idéa de lhe ser apresentado pelo
-Damaso: via-o já, bochechudo e vestido de campo, a esboçar um gesto de
-ceremonia, a mostrar o _seu amigo Maia_, a tratal-o por tu, affectando
-intimidades com ella, cocando-a com um olho terno... Isto seria
-intoleravel.
-
---Vamos para o Nunes, que se come melhor!
-
-Cruges não respondeu, mudo, enlevado, recebendo como uma impressão
-religiosa de todo aquelle esplendor sombrio de arvoredo, dos altos
-fragosos da serra entrevistos um instante lá em cima nas nuvens, d'esse
-aroma que elle sorvia deliciosamente, e do sussurro doce de aguas
-descendo para os valles...
-
-Só ao avistar o Paço descerrou os labios:
-
---Sim senhor, tem _cachet_!
-
-E foi o que mais lhe agradou--este macisso e silencioso palacio, sem
-florões e sem torres, patriarchalmente assentado entre o casario da
-villa, com as suas bellas janellas manuelinas que lhe fazem um nobre
-semblante real, o valle aos pés, frondoso e fresco, e no alto as duas
-chaminés collossaes, disformes, resumindo tudo, como se essa residencia
-fosse toda ella uma cosinha talhada ás proporções de uma gula de Rei que
-cada dia come todo um Reino...
-
-E apenas o break parou á porta do Nunes, foi-lhe ainda dar um olhar,
-timido e de longe--receiando alguma palavra rude da sentinella.
-
-Carlos no entanto, saltando logo da almofada, tomou á parte o criado do
-hotel, que descera a recolher as maletas.
-
---Vossê conhece o sr. Damaso Salcede? Sabe se elle está em Cintra?
-
-O creado conhecia muito bem o sr. Damaso Salcede. Ainda na vespera pela
-manhã o vira entrar defronte, no bilhar, com um sujeito de barbas
-pretas... Devia estar na Lawrence, porque só com raparigas e em pandiga
-é que o sr. Damaso vinha para o Nunes.
-
---Então, depressa, dous quartos! exclamou Carlos, com uma alegria de
-creança, certo agora que _ella_ estava em Cintra. E uma sala particular,
-só para nós, para almoçarmos!
-
-Cruges, que se approximava, protestou contra esta sala solitaria.
-Preferia a meza redonda. Ordinariamente na meza redonda encontram-se
-typos...
-
---Bem, exclamou Carlos, rindo e esfregando as mãos, põe o almoço na sala
-de jantar, põe-n'o até na Praça... E muita manteiga fresca para o sr.
-Cruges!
-
-O cocheiro levou o break, o creado sobraçou as maletas. Cruges,
-enthusiasmado com Cintra, rompeu pela escada acima, a
-assobiar--conservando aos hombros o chaile-manta, de que se não queria
-separar, porque lh'o emprestara a mamã. E apenas chegou á porta da sala
-do jantar, estacou, ergueu os braços, teve um grito.
-
---Oh Euzebiosinho!
-
-Carlos correu, olhou... Era elle, o viuvo, acabando de almoçar, com duas
-raparigas hespanholas.
-
-Estava no topo da meza, como presidindo, diante de uns restos de pudim e
-de pratos de fructa, amarellado, despenteado, carregado de luto, com a
-larga fita das lunetas pretas passada por traz da orelha, e uma rodela
-de taffetá negro sobre o pescoço tapando alguma espinha rebentada.
-
-Uma das hespanholas era um mulherão trigueiro, com signaes de bexigas na
-cara; a outra muito franzina, de olhos meigos, tinha uma roseta de
-febre, que o pó de arroz não desfarçava. Ambas vestiam de setim preto, e
-fumavam cigarro. E na luz e na frescura que entrava pela janella,
-pareciam mais gastas, mais molles, ainda pegajosas da lentura morna dos
-colxões, e cheirando a bafio de alcova. Pertencendo á sucia havia um
-outro sujeito, gordo, baixo, sem pescoço, com as costas para a porta e a
-cabeça sobre o prato, babujando uma metade de laranja.
-
-Durante um momento, Euzebiosinho ficou interdito com o garfo no ar;
-depois lá se ergueu, de guardanapo na mão, veiu apertar os dedos aos
-amigos, balbuciando logo uma justificação embrulhada, a ordem do medico
-para mudar de ares, aquelle rapaz que o acompanhara, e que quizera
-trazer raparigas... E nunca parecera tão funebre, tão relles, como
-resmungando estas cousas hypocritas, encolhido á sombra de Carlos.
-
---Fizeste muito bem, Eusebiosinho, disse Carlos por fim, batendo-lhe no
-hombro. Lisboa está um horror, e o amor é cousa doce.
-
-O outro continuava a justificar-se. Então a hespanhola magrita, que
-fumava, afastada da meza e com a perna traçada, elevou a voz, perguntou
-ao Cruges se elle não lhe fallava. O maestro affirmou-se um momento, e
-partiu de braços abertos para a sua amiga Lolla. E foi, n'esse canto da
-meza, uma grulhada em hespanhol, grandes apertos de mão, e _hombre, que
-no se le ha visto! e mira, que me he accordado de ti!_ e _caramba, que
-reguapa estas_... Depois a Lolla, tomando um arsinho espremido,
-apresentou o outro mulherão, la señorita Concha...
-
-Vendo isto, impressionado com tanta familiaridade--o sujeito obeso, que
-apenas levantara um instante a cabeça do prato, decidiu-se a examinar
-mais attentamente os amigos do Euzebio: crusou o talher, limpou com o
-guardanapo a bocca, a testa e o pescoço, encavallou laboriosamente no
-nariz uma grande luneta de vidros grossos, e erguendo a face larga,
-balofa e côr de cidra, examinou detidamente Cruges, e depois Carlos, com
-uma impudencia tranquilla.
-
-Eusebiosinho apresentou o seu amigo Palma: e o seu amigo Palma, ouvindo
-o nome conhecido de Carlos da Maia, quiz logo mostrar diante de um
-gentleman, que era um gentleman tambem. Arrojou para longe o guardanapo,
-arredou para fóra a cadeira; e de pé, estendendo a Carlos os dedos
-molles e de unhas roidas, exclamou, com um gesto para os restos da
-sobremeza:
-
---Se. v. ex.^a é servido, é sem ceremonia... Que isto quando a gente vem
-a Cintra, é para abrir o appetite e fazer bem á barriga...
-
-Carlos agradeceu, e ia retirar-se. Mas Cruges, que se animava e
-gracejava com a Lolla, fez tambem do outro lado da meza a sua
-apresentação:
-
---Carlos, quero que conheças aqui a lindissima Lolla, relações antigas,
-e a señorita Concha, que eu tive agora o prazer...
-
-Carlos saudou respeitosamente as damas.
-
-O mulherão da Concha rosnou seccamente os _buenos dias_: parecia de mau
-humor, pesada do almoço, amodorrada para alli, sem dizer uma palavra,
-com os cotovellos fincados na meza, os olhos pestanudos meio cerrados,
-ora fumando, ora palitando os dentes. Mas a Lolla foi amavel, fez de
-senhora, ergueu-se, offereceu a Carlos a mãosita suada. Depois retomando
-o cigarro, dando um geito ás pulseiras de ouro, declarou com um requebro
-d'olhos, que conhecia de ha muito Carlos...
-
---No ha estado ustêd con Encarnacion?
-
-Sim, Carlos tivera essa honra... E que era feito d'ella, d'essa bella
-Encarnacion?
-
-A Lolla sorriu com finura, tocou no cotovello do maestro. Não acreditava
-que Carlos ignorasse o que era feito da Encarnacion... Emfim, terminou
-por dizer que a Encarnacion estava agora com o Saldanha.
-
---Mas olhe que não é com o duque de Saldanha! exclamou Palma, que se
-conservara de pé, com a bolsa do tabaco aberta sobre a meza, fazendo um
-grande cigarro.
-
-A Lolita, com um modo secco, replicou que o Saldanha não seria duque,
-mas era um _chico muy decente_...
-
---Olha, disse o Palma lentamente, de cigarro na bocca e tirando a isca
-da algibeira, duas boas bofetadas na cara lhe dei eu ainda não ha tres
-semanas... Pergunta ao Gaspar, o Gaspar assistiu... Foi até no
-Montanha... Duas bofetadas que lhe foi logo o chapéo parar ao meio da
-rua... O sr. Maia ha de conhecer o Saldanha... Ha de conhecer, que elle
-tambem tem um carrito e um cavallo.
-
-Carlos fez um gesto indicando que não; e despedia-se de novo, saudando
-as damas, quando Cruges o chamou ainda, retendo-o mais um instante, em
-quanto satisfazia uma curiosidade: queria saber qual d'aquellas meninas
-era a _esposa do amigo Eusebio_.
-
-Assim interpellado, o viuvo encordoou, rosnou com uma voz morosa, sem
-erguer as lunetas da laranja que descascava, que estava alli de passeio,
-não tinha esposa, e ambas aquellas meninas pertenciam ao amigo Palma...
-
-E ainda elle mascava as ultimas palavras, quando Concha, que digeria de
-perna estendida, se endireitou bruscamente como se fosse saltar, atirou
-um murro á borda da meza, e com os olhos chammejantes, desafiou o
-Eusebio a que repetisse aquillo! Queria que elle repetisse! Queria que
-dissesse se tinha vergonha d'ella, e de dizer que a tinha trazido a
-Cintra!... E como o Eusebio, já enfiado, tentava gracejar, fazer-lhe uma
-festa--ella despropositou, atirou-lhe os peiores nomes, dando sempre
-punhadas na meza, com uma furia que lhe torcia a bocca, lhe punha duas
-manchas de sangue no carão trigueiro. A Lolita, vexada, puchava-lhe pelo
-braço: a outra deu-lhe um repellão; e, mais excitada com a estridencia
-da propria voz, esvasiou-se de toda a bilis, chamou-lhe porco, accusou-o
-de forreta, usou-o como um trapo vil.
-
-Palma afflicto, debruçado sobre a meza, exclamava n'um tom ancioso:
-
---Ó Concha, escuta lá!... Ouve lá!... Concha, eu te explico...
-
-De repente, ella ergueu-se, a cadeira tombou para o lado: e o mulherão
-abalou pela sala fóra, a grande cauda de setim varreu desabridamente o
-soalho, ouviu-se dentro estalar uma porta. No chão ficara caindo um
-pedaço da mantilha de renda.
-
-O creado que entrava do outro lado com a cafeteira estacou, afiando o
-olho curioso, farejando o escandalo; depois, calado e seccamente, foi
-servindo em roda o café.
-
-Durante um momento houve um silencio. Apenas porém o criado sahiu--a
-Lolita e o Palma, agitados mas abafando a voz, atacaram o Eusebiosinho.
-Elle portara-se muito mal! Aquillo não fôra de cavalheiro! Tinha trazido
-a rapariga a Cintra, devia-a respeitar, não a ter renegado assim, á
-bruta, diante de todos...
-
---_Esto no se hace_, dizia a Lolita, de pé, gesticulando, com os olhos
-brilhantes, voltada para Carlos, _ha sido una cosa muy fêa!_..
-
-E como o Cruges lamentava, sorrindo, ter sido a causa involuntaria da
-catastrophe--ella baixou a voz, contou que a Concha era uma furia, viera
-a Cintra com pouca vontade, e desde manhã estava de _muy malo humor_...
-Pero lo de Silbeira habia sido una gran pulhice...
-
-Elle, coitado, com a cabeça cahida e as orelhas em braza, remexia
-desoladamente o seu café; não se lhe viam os olhos escondidos pelas
-lunetas pretas, mas percebia-se-lhe o grosso soluço que lhe affogava a
-garganta. Então Palma pouzou a chavena, lambeu os beiços, e de pé no
-meio da sala, com a face luzidia, o collete desabotoado, fez n'um tom
-entendido o resumo d'aquelle desgosto.
-
---Tudo provém d'isto, e desculpe-me você dizel-o, Silveira: é que você
-não sabe tratar com hespanholas!
-
-A esta cruel palavra o viuvo succumbiu. A colher cahiu-lhe dos dedos.
-Ergueu-se, acercou-se de Carlos e de Cruges, como refugiando-se n'elles,
-vindo reconfortar-se ao calor da sua amizade,--e desabafou, estas
-palavras angustiosas escaparam-se-lhe dos labios:
-
---Vejam vocês! vem a gente a um sitio d'estes para gosar um bocado de
-poesia, e no fim é uma d'estas!...
-
-Carlos bateu-lhe melancolicamente no hombro:
-
---A vida é assim, Eusebiosinho.
-
-Cruges fez-lhe uma festa nas costas:
-
---Não se póde contar com prazeres, Silveirinha.
-
-Mas Palma, mais pratico, declarou que era forçoso arranjarem-se as
-cousas. Virem a Cintra, para questões e amuos, isso não! N'aquellas
-pandegas queria-se harmonia, chalaça, e gosar. Couces, não. Então
-ficava-se em Lisboa, que era mais barato.
-
-Chegou-se a Lolla, passou-lhe os dedos pela face, com amor:
-
---Anda Lolita, vae tu lá dentro á Concha, dize-lhe que se não faça tola,
-que venha tomar café... Anda, que tu sabe-l'a levar... Dize-lhe que peço
-eu!
-
-Lolita esteve um momento escolhendo duas boas laranjas, foi dar um geito
-ao cabello diante do espelho, apanhou a cauda--e sahiu, atirando a
-Carlos, ao passar, um olhar e um sorrisinho.
-
-Apenas ficaram sós, Palma voltou-se para o Eusebio, e deu-lhe conselhos
-muito serios sobre o systema de tratar hespanholas. Era necessario
-leval-as por bons modos; por isso é que ellas se pellavam por
-portuguezes, porque lá em Hespanha era á bordoada... Emfim, elle não
-dizia que em certos casos, duas boas bolachas, mesmo um bom par de
-bengaladas, não fossem uteis... Sabiam, por exemplo, os amigos, quando
-se devia bater? Quando ellas não gostavam da gente, e se faziam ariscas.
-Então, sim. Então zás, tapona, que ellas ficavam logo pelo beiço... Mas
-depois bons modos, delicadeza, tal qual como com francezas...
-
---Acredite você isto, Silveira. Olhe que eu tenho experiencia. E o sr.
-Maia que lhe diga se isto não é verdade, elle que tem tambem experiencia
-e sabe viver com hespanholas!
-
-E isto foi dito com tanto calor, tanto respeito--que Cruges desatou a
-rir, fez rir Carlos tambem.
-
-O sr. Palma, um pouco chocado, compoz mais as lunetas, e olhou para
-elles:
-
---Os senhores riem-se? Imaginam que eu que estou a mangar? Olhem que eu
-comecei a lidar com hespanholas aos quinze annos! Não, escusam de rir,
-que n'isso ninguem me ganha! Lá o que se chama ter geito para
-hespanholas, cá o meco! E, vamos lá, que não é facil! É necessario ter
-um certo talento!... Olhem, o Herculano é capaz de fazer bellos artigos
-e estylo catita... Agora tragam-n'o cá para lidar com hespanholas e
-veremos! Não dá meia...
-
-Eusebiosinho no entanto fôra duas vezes escutar á porta. Todo o hotel
-cahira n'um grande silencio, a Lolita não voltava. Então Palma
-aconselhou um grande passo:
-
---Vá você lá dentro, Silveira, entre pelo quarto, e assim sem mais nem
-menos, chegue-se ao pé d'ella...
-
---E tapona? perguntou Cruges, muito seriamente, gosando o Palma.
-
---Qual tapona! Ajoelhe e peça perdão... N'este caso é pedir perdão... E
-como pretexto, Silveira, leve-lhe você mesmo o café.
-
-Eusebiosinho, com um olhar ancioso e mudo, consultou os seus amigos. Mas
-o seu coração já decidira: e d'ahi a um momento, com o pedaço de
-mantilha n'uma das mãos, a chavena de café na outra, enfiado e
-commovido, lá partia a passos lentos pelo corredor a pedir perdão á
-Concha.
-
-E, logo atraz d'elle, Carlos e Cruges deixaram a sala, sem se despedirem
-do sr. Palma--que de resto, indifferente tambem, já se accommodara à
-meza a preparar regaladamente o seu grog.
-
-
-Eram duas horas quando os dous amigos sahiram emfim do hotel, a fazer
-esse passeio a Sitiaes--que desde Lisboa tentava tanto o maestro. Na
-praça, por defronte das lojas vasias e silenciosas, cães vadios dormiam
-ao sol: atravez das grades da cadêa os presos pediam esmola. Creanças,
-enxovalhadas e em farrapos, garotavam pelos cantos; e as melhores casas
-tinham ainda as janellas fechadas, continuando o seu somno de inverno,
-entre as arvores já verdes. De vez em quando apparecia um bocado da
-serra, com a sua muralha de ameias correndo sobre as penedias, ou via-se
-o castello da Pena, solitario, lá no alto. E por toda a parte o luminoso
-ar de abril punha a doçura do seu velludo.
-
-Defronte do hotel da Lawrence, Carlos retardou o passo, mostrou-o ao
-Cruges.
-
---Tem o ar mais sympathico, disse o maestro. Mas valeu muito a pena ir
-para o Nunes, só para vêr aquella scena... E então com quê o sr. Carlos
-da Maia tem experiencia de hespanholas?
-
-Carlos não respondeu, os seus olhos não se despegavam d'aquella fachada
-banal, onde só uma janella estava aberta com um par de botinas de
-duraque seccando ao ar. Á porta, dous rapazes inglezes, ambos de
-knicker-bokers, cachimbavam em silencio; e defronte, sentados sobre um
-banco de pedra, dous burriqueiros ao lado dos burros, não lhes tiravam o
-olho de cima, sorrindo-lhes, cocando-os como uma presa.
-
-Carlos ia seguir, mas pareceu-lhe ouvir, distante e melancolico, sahindo
-do silencio do hotel, um vago som de flauta; e parou ainda, remexendo as
-suas recordações, quasi certo de Damaso lhe ter dito que a bordo Castro
-Gomes tocava flauta...
-
---Isto é sublime! exclamou do lado o Cruges, commovido.
-
-Parara diante da grade d'onde se domina o valle. E d'ali olhava,
-enlevadamente, a rica vastidão de arvoredo cerrado, a que só se veem os
-cimos redondos, vestindo um declive da serra como o musgo veste um muro,
-e tendo aquella distancia, no brilho da luz, a suavidade macia de um
-grande musgo escuro. E n'esta espessura verde-negra havia uma frontaria
-de casa que o interessava, branquejando, affogada entre a folhagem, com
-um ar de nobre repouso, debaixo de sombras seculares... Um momento teve
-uma idéa de artista: desejou habital-a com uma mulher, um piano e um cão
-da Terra-nova.
-
-Mas o que o encantava era o ar. Abria os braços, respirava a tragos
-deliciosos:
-
---Que ar! Isto dá saude, menino! Isto faz reviver!...
-
-Para o gosar mais docemente, sentou-se adiante, n'um bocado de muro
-baixo, defronte de um alto terraço gradeado, onde velhas arvores
-assombreiam bancos de jardim, e estendem sobre a estrada a frescura das
-suas ramagens, cheias do piar das aves. E como Carlos lhe mostrava o
-relogio, as horas que fugiam para ir vêr o palacio, a Pena, as outras
-bellezas de Cintra--o maestro declarou que preferia estar ali, ouvindo
-correr a agua, a vêr monumentos caturras...
-
---Cintra não são pedras velhas, nem cousas gothicas... Cintra é isto,
-uma pouca de agua, um bocado de musgo... Isto é um paraiso!...
-
-E, n'aquella satisfação que o tornava loquaz, acrescentou, repetindo a
-sua chalaça:
-
---E v. ex.^a deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experiencia de
-hespanholas!...
-
---Poupa-me, respeita a natureza, murmurou Carlos, que riscava
-pensativamente o chão com a bengala.
-
-Ficaram callados. Cruges agora admirava o jardim, por baixo do muro em
-que estavam sentados. Era um espesso ninho de verdura, arbustos, flores
-e arvores, suffocando-se n'uma prodigalidade de bosque silvestre,
-deixando apenas espaço para um tanquesinho redondo, onde uma pouca de
-agua, immovel e gelada, com dous ou tres nenufares, se esverdinhava sob
-a sombra d'aquella ramaria profusa. Aqui e alem, entre a bella desordem
-da folhagem, distinguiam-se arranjos de gosto burguez, uma volta de
-ruasita estreita como uma fita, faiscando ao sol, ou a banal palidez de
-um gesso. N'outros recantos, aquelle jardim de gente rica, exposto ás
-vistas, tinha retoques pretenciosos de estufa rara, aloes e cactos,
-braços aguardasolados de auraucarias erguendo-se d'entre as agulhas
-negras dos pinheiros bravos, laminas de palmeira, com o seu ar triste de
-planta exilada, roçando a rama leve e perfumada das olaias floridas de
-côr de rosa. A espaços, com uma graça discreta, branquejava um grande pé
-de margaridas; ou em torno de uma rosa, solitaria na sua haste,
-palpitavam borboletas aos pares.
-
---Que pena que isto não pertença a um artista! murmurou o maestro. Só um
-artista saberia amar estas flores, estas arvores, estes rumores...
-
-Carlos sorriu. Os artistas, dizia elle, só amam na natureza os effeitos
-de linha e côr; para se interessar pelo bem-estar de uma tulipa, para
-cuidar de que um craveiro não soffra sede, para sentir magoa de que a
-geada tenha queimado os primeiros rebentões das acacias--para isso só o
-burguez, o burguez que todas as manhãs desce ao seu quintal com um
-chapéo velho e um regador, e vê nas arvores e nas plantas uma outra
-familia muda, por que elle é tambem responsavel...
-
-Cruges, que escutara distrahidamente, exclamou:
-
---Diabo! É necessario que não me esqueçam as queijadas!
-
-Um som de rodas interrompeu-os, uma caleche descoberta desembocou a
-trote do lado de Sitiaes. Carlos ergueu-se logo, certo de que era
-_ella_, e que elle ia vêr os seus bellos olhos brilhar e fugir como duas
-estrellas. A caleche passou, levando um ancião de barbas de patriarcha,
-e uma velha ingleza com o regaço cheio de flores, e o véo azul
-fluctuando ao ar. E logo atraz, quasi no pó que as rodas tinham erguido,
-appareceu, caminhando pensativamente, de mãos atraz das costas, um homem
-alto, todo de preto, com um grande chapéo Panamá sobre os olhos. Foi
-Cruges que reconheceu os longos bigodes romanticos, que gritou:
-
---Olha o Alencar! Oh! grande Alencar!...
-
-Durante um momento, o poeta ficou assombrado, com os braços abertos, no
-meio da estrada. Depois, com a mesma effusão ruidosa, apertou Carlos
-contra o coração, beijou o Cruges na face--porque conhecia Cruges desde
-pequeno, Cruges era para elle como um filho. Caramba! Eis ahi uma
-surpreza que elle não trocava pelo titulo de duque! Ora o alegrão de os
-vêr ali! Como diabo tinham elles vindo ali parar?
-
-E não esperou a resposta, contou elle logo a sua historia. Tivera um dos
-seus ataques de garganta, com uma ponta de febre, e o Mello, o bom
-Mello, recommendara-lhe mudança d'ares. Ora elle, bons ares, só
-comprehendia os de Cintra: porque alli não eram só os pulmões que lhe
-respiravam bem, era tambem o coração, rapazes!... De sorte que viera na
-vespera, no omnibus.
-
---E onde estás tu, Alencar? perguntou logo Carlos.
-
---Pois onde queres tu que eu esteja, filho? Lá estou com a minha velha
-Lawrence. Coitada! está bem velha! mas para mim é sempre uma amiga, é
-quasi uma irmã!... E vocês, que diabo? Para onde vão vocês, com essas
-flores nas lapellas?
-
---A Sitiaes. Vou mostrar Sitiaes ao maestro.
-
-Então tambem elle voltava a Sitiaes! Não tinha nada que fazer senão
-sorver bom ar, e scismar... Toda a manhã andara alli, vagamente,
-pendurando sonhos dos ramos das arvores. Mas agora já os não largava;
-era mesmo um dever ir elle proprio fazer ao maestro as honras de
-Sitiaes...
-
---Que aquillo é sitio muito meu, filhos! Não ha alli arvore que me não
-conheça... Eu não vos quero começar já a impingir versos; mas emfim,
-vocês lembram-se de uma cousa que eu fiz a Sitiaes, e de que por ahi se
-gostou...
-
-
- Quantos luares eu lá vi!
- Que doces manhãs d'abril!
- E os ais que soltei alli
- Não foram sete, mas mil!
-
-
-Pois então já vocês vêem, rapazes, que tenho razão para conhecer
-Sitiaes...
-
-O poeta lançou ao ar um vago suspiro, e durante um instante caminharam
-todos tres callados.
-
---Dize-me uma cousa, Alencar, perguntou Carlos baixo, parando, e tocando
-no braço do poeta. O Damaso está na Lawrence?
-
-Não, que elle o tivesse visto. Verdade seja que na vespera, apenas
-chegara, fôra-se deitar, fatigado; e n'essa manhã almoçara só com dois
-rapazes inglezes. O unico animal que avistara fôra um lindo cãosinho de
-luxo, ladrando no corredor...
-
---E vocês onde estão?
-
---No Nunes.
-
-Então o poeta parando de novo, contemplando Carlos com sympathia:
-
---Que bem que fizeste em arrastar cá o maestro, filho!... Quantas vezes
-eu tenho dito áquelle diabo, que se mettesse no omnibus, viesse passar
-dous dias a Cintra. Mas ninguem o tira de martelar o piano. E olha tu
-que mesmo para a musica, para compor, para entender um Mozart, um
-Choppin, é necessario ter visto isto, escutado este rumor, esta melodia
-da ramagem...
-
-Baixou a voz, apontando para o maestro, que caminhava adiante, enlevado:
-
---Tem muito talento, tem muita idéa melodica!... Olha que andei com
-aquillo ás cabritas... E a mãe, menino, foi muitissimo boa mulher.
-
---Vejam vocês isto! gritou Cruges que parara, esperando-os. Isto é
-sublime.
-
-Era apenas um bocadito d'estrada, apertada entre dous velhos muros
-cobertos d'hera, assombreada por grandes arvores entrelaçadas, que lhe
-faziam um toldo de folhagem aberto á luz como uma renda: no chão tremiam
-manchas de sol: e, na frescura e no silencio, uma agoa que se não via ia
-fugindo e cantando.
-
---Se tu queres sublime, Cruges, exclamou Alencar, então tens de subir á
-serra. Ahi tens o espaço, tens a nuvem, tens a arte...
-
---Não sei, talvez goste mais d'isto, murmurou o maestro.
-
-A sua natureza de timido preferiria, de certo, estes humildes recantos,
-feitos de uma pouca de folhagem fresca e de um pedaço de muro musgoso,
-logares de quietação e de sombra, onde se aninha com um conforto maior o
-scismar dos indolentes...
-
---De resto, filho, continuou Alencar, tudo em Cintra é divino. Não ha
-cantinho que não seja um poema... Olha, alli tens tu, por exemplo,
-aquella linda florinha azul...--e, ternamente, apanhou-a.
-
---Vamos andando, vamos andando, murmurou Carlos impaciente, e agora,
-desde que o poeta fallara do cãosinho de luxo, mais certo de que ella
-estava na Lawrence, e que a ia brevemente encontrar.
-
-Mas, ao chegar a Sitiaes, Cruges teve uma desillusão diante d'aquelle
-vasto terreiro coberto de herva, com o palacete ao fundo, enxovalhado,
-de vidraças partidas, e erguendo pomposamente sobre o arco, em pleno
-ceu, o seu grande escudo de armas. Ficara-lhe a idéa, de pequeno, que
-Sitiaes era um montão pittoresco de rochedos, dominando a profundidade
-de um valle; e a isto misturava-se vagamente uma recordação de luar e de
-guitarras... Mas aquillo que elle alli via era um desapontamento.
-
---A vida é feita de desapontamentos, disse Carlos, Anda para diante!
-
-E apressou o passo atravez do terreiro, em quanto o maestro, cada vez
-mais animado, lhe gritava a chalaça do dia:
-
---E v. ex.^a deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experiência de
-hespanholas!...
-
-Alencar, que se demorara atraz a accender o cigarro, estendeu o ouvido,
-curioso, quiz saber o que era isso de hespanholas? O maestro contou-lhe
-o encontro no Nunes e os furores da Concha.
-
-Iam ambos caminhando por uma das alamedas lateraes, verde e fresca, de
-uma paz religiosa, como um claustro feito de folhagem. O terreiro estava
-deserto; a herva que o cobria, crescia ao abandono, toda estrellada de
-botões de ouro brilhando ao sol, e de malmequersinhos brancos. Nenhuma
-folha se movia: atravez da ramaria ligeira o sol atirava mólhos de raios
-de ouro. O azul parecia recuado a uma distancia infinita, repassado de
-silencio luminoso; e só se ouvia, ás vezes, monotona e dormente, a voz
-de um cuco nos castanheiros.
-
-Toda aquella vivenda, com a sua grade enferrujada sobre a estrada, os
-seus florões de pedra roídos da chuva, o pesado brazão rococó, as
-janellas cheias de teias de aranha, as telhas todas quebradas, parecia
-estar-se deixando morrer voluntariamente n'aquella verde
-solidão,--amuada com a vida, desde que d'alli tinham desapparecido as
-ultimas graças do tricorne e do espadim, e os derradeiros vestidos de
-anquinhas tinham roçado essas relvas... Agora Cruges ía descrevendo ao
-Alencar a figura do Eusebiosinho, com a chavena de café na mão, a ir
-pedir perdão á Concha; e a cada momento o poeta, com o seu grande chapéo
-panamá, se agachava a colher florinhas silvestres.
-
-Quando passaram o Arco, encontraram Carlos sentado n'um dos bancos de
-pedra, fumando pensativamente a sua cigarette. O palacete deitava sobre
-aquelle bocado de terraço a sombra dos seus muros tristes; do valle
-subia uma frescura e um grande ar; e algures, em baixo, sentia-se o
-prantear de um repuxo. Então o poeta, sentando-se ao lado do seu amigo,
-fallou com nojo do Eusebiosinho.--Ahi está uma torpeza que elle nunca
-commettera, trazer meretrizes a Cintra! Nem a Cintra, nem a parte
-nenhuma... Mas muito menos a Cintra! Sempre tivera, todo o mundo devia
-ter, a religião d'aquellas arvores e o amor d'aquellas sombras...
-
---E esse Palma, accrescentou elle, é um traste! Eu conheço-o; elle teve
-uma especie de jornal, e já lhe dei muita bofetada na rua do Alecrim.
-Foi uma historia curiosa... Ora eu t'a conto Carlos... Aquelle canalha!
-quando me lembro!... Aquella vil bolinha de materia putrida!... Aquelle
-chouricinho de pus!
-
-Levantou-se, passando a mão nervosa sobre os bigodes, já excitado pela
-lembrança d'aquella velha desordem, vergastando o Palma com nomes
-ferozes, todo n'uma d'essas fervuras de sangue que eram a sua desgraça.
-
-Cruges, no entanto, encostado ao parapeito, olhava a grande planicie de
-lavoura que se estendia em baixo, rica e bem trabalhada, repartida em
-quadrados verde-claros e verde-escuros, que lhe faziam lembrar um panno
-feito de remendos assim que elle tinha na meza do seu quarto. Tiras
-brancas de estradas serpeavam pelo meio: aqui e além, n'uma massa de
-arvoredo, branquejava um casal: e a cada passo, n'aquelle solo onde as
-aguas abundam, uma fila de pequenos olmos revelava algum fresco ribeiro,
-correndo e reluzindo entre as hervas. O mar ficava ao fundo, n'uma linha
-unida, esbatida na tenuidade diffusa da bruma azulada: e por cima
-arredondava-se um grande azul lustroso como um bello esmalte, tendo
-apenas, lá no alto, um farraposinho de nevoa, que ficara alli esquecido,
-e que dormia enovellado e suspenso na luz...
-
---Tive nojo! exclamava o Alencar, rematando fogosamente a sua historia.
-Palavra que tive nojo! Atirei-lhe a bengala aos pés, crusei os braços e
-disse-lhe: ahi tem você a bengala, seu covarde, a mim bastam-me as mãos!
-
---Que diabo, não me hão de esquecer as queijadas! murmurou Cruges, para
-si mesmo, affastando-se do parapeito.
-
-Carlos erguera-se tambem, olhava o relogio. Mas antes de deixar Sitiaes,
-Cruges quiz explorar o outro terraço ao lado: e, apenas subira os dous
-velhos degraus de pedra, soltou de lá um grito alegre:
-
---Bem dizia eu! cá estão elles... E vocês a dizer que não!
-
-Foram-n'o encontrar triumphante, diante de um montão de penedos, polidos
-pelo uso, já com um vago feitio de assentos, deixados ali outr'ora,
-poeticamente, para dar ao terraço uma graça agreste de selva brava.
-Então, não dizia elle? Bem dizia elle que em Sitiaes havia penedos!
-
---Se eu me lembrava perfeitamente! _Penedo da Saudade_, não é que se
-chama, Alencar?
-
-Mas o poeta não respondeu. Diante d'aquellas pedras crusara os braços,
-sorria dolorosamente; e immovel, sombrio no seu fato negro, com o panamá
-carregado para a testa, envolveu todo aquelle recanto n'um olhar lento e
-triste.
-
-Depois, no silencio, a sua voz ergueu-se, saudosa e dolente:
-
---Vocês lembram-se, rapazes, nas _Flôres e Martyrios_, de uma das cousas
-melhores que lá tenho, em rimas livres, chamada _6 de Agosto_? Não se
-lembram talvez... Pois eu vol-a digo, rapazes!
-
-Machinalmente tirara do bolso o lenço branco. E com elle fluctuante na
-mão, puxando Carlos para junto de si, chamando do outro lado o Cruges,
-baixou a voz como n'uma confidencia sagrada, recitou, com um ardor
-surdo, mordendo as syllabas, tremulo, n'uma paixão ephemera de nervoso:
-
-
- Vieste! Cingi-te ao peito.
- Em redor que noite escura!
- Não tinha rendas o leito,
- Nem tinha lavores na barra
- Que era só a rocha dura...
- Muito ao longe uma guitarra
- Gemia vagos harpejos...
- (Vê tu que não me esqueceu)...
- E a rocha dura aqueceu
- Ao calor dos nossos beijos!
-
-
-Esteve um momento embebendo o olhar nas pedras brancas batidas do sol,
-atirou para lá um gesto triste, e murmurou:
-
---Foi alli.
-
-E affastou-se, alquebrado sob o seu grande chapéo panamá, com o lenço
-branco na mão. Cruges, que aquelles romantismos impressionavam, ficou a
-olhar para os penedos como para um sitio historico. Carlos sorria. E
-quando ambos deixaram esse recanto do terraço--o poeta, agachado junto
-do arco, estava apertando o atilho da ceroula.
-
-Endireitou-se logo, já toda a emoção o deixara, mostrava os maus dentes
-n'um sorriso amigo, e exclamou, apontando para o arco:
-
---Agora, Cruges, filho, repara tu n'aquella tela sublime.
-
-O maestro embasbacou. No vão do arco, como dentro de uma pesada moldura
-de pedra, brilhava, á luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma
-composição quasi phantastica, como a illustração de uma bella lenda de
-cavallaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e
-verdejando, todo salpicado de botões amarellos; ao fundo, o renque
-cerrado de antigas arvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da
-grade uma muralha de folhagem reluzente; e emergindo abruptamente d'essa
-copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia,
-destacando vigorosamente n'um relevo nitido sobre o fundo de céu azul
-claro, o cume airoso da serra, toda côr de violeta escura, coroada pelo
-castello da Pena, romantico e solitario no alto, com o seu parque
-sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar, e as cupulas brilhando
-ao sol como se fossem feitas de ouro...
-
-Cruges achou aquelle quadro digno de Gustavo Doré. Alencar teve uma
-bella phrase sobre a imaginação dos arabes. Carlos, impaciente, foi-os
-apressando para diante.
-
-Mas agora Cruges, impressionado, estava com desejo de subir á Pena.
-Alencar, por si, ía tambem com prazer. A Pena para elle era outro ninho
-de recordações. Ninho? Devia antes dizer cemiterio... Carlos hesitava,
-parado junto da grade. Estaria ella na Pena? E olhava a estrada, olhava
-as arvores, como se podesse adivinhar pelas pegadas no pó, ou pelo mover
-das folhas, que direcção tinham tomado os passos que elle seguia... Por
-fim teve uma idéa.
-
---Vamos indo primeiro á Lawrence. E depois se quizermos ir á Pena,
-arranjam-se lá os burros...
-
-E nem mesmo quiz escutar o Alencar, que tivera, tambem uma idéa, fallava
-de Collares, de uma visita ao seu velho Carvalhosa; accelerou o passo
-para a Lawrence, emquanto o poeta tornava a arranjar o atilho da
-ceroula, e o maestro, n'um enthusiasmo bucolico, ornava o chapéo de
-folhas de hera.
-
-Defronte da Lawrence, os dois burriqueiros, de cigarro na bocca, não
-tendo podido apoderar-se dos inglezes, preguiçavam ao sol.
-
---Vocês sabem, perguntou-lhes Carlos, se uma familia, que está aqui no
-hotel, foi para a Pena?...
-
-Um dos homens pareceu adivinhar, exclamou logo, desbarretando-se.
-
---Sim, senhor, foram para lá ha bocado, e aqui está o burrinho tambem
-para v. ex.^a, meu amo!
-
-Mas o outro, mais honesto, negou. Não senhor, a gente que fôra para a
-Pena estava no Nunes...
-
---A familia que o senhor diz foi agora ali para baixo, para o palacio...
-
---Uma senhora alta?
-
---Sim senhor.
-
---Com um sujeito de barba preta?
-
---Sim senhor.
-
---E uma cadellinha?
-
---Sim senhor.
-
---Tu conheces o sr. Damaso Salcede?
-
---Não senhor... É o que tira retratos?
-
---Não, não tira retratos... Tomae lá.
-
-Deu-lhes uma placa de cinco tostões; e voltou ao encontro dos outros,
-declarando que realmente era tarde para subirem á Pena.
-
---Agora o que tu deves vêr, Cruges, é o palacio. Isso é que tem
-originalidade e cachet! Não é verdade, Alencar?...
-
---Eu vos digo, filhos, começou o auctor de _Elvira_, historicamente
-fallando...
-
---E eu tenho de comprar as queijadas, murmurou Cruges.
-
---Justamente! exclamou Carlos. Tens ainda as queijadas; é necessario não
-perder tempo; a caminho!
-
-Deixou os outros ainda indecisos, abalou para o palacio, em quatro
-largas passadas estava lá. E logo da praça avistou, saindo já o portão,
-passando rente da sentinella, a famosa familia hospedada na Lawrence e a
-sua cadellinha de luxo. Era, com effeito, um sujeito de barba preta, e
-de sapatos de lona branca; e, ao lado d'elle, uma matrona enorme, com um
-mantelete de seda, cousas de ouro pelo pescoço e pelo peito, e o
-cãosinho felpudo ao collo. Vinham ambos rosnando o quer que fosse, com
-mau modo um para o outro, e em hespanhol.
-
-Carlos ficou a olhar para aquelle par com a melancolia de quem contempla
-os pedaços d'um bello marmore quebrado. Não esperou mais pelos outros,
-nem os quiz encontrar. Correu á Lawrence por um caminho differente,
-avido de uma certeza:--e ahi, o criado que lhe appareceu, disse-lhe que
-o sr. Salcede e os srs. Castro Gomes tinham partido na vespera para
-Mafra...
-
---E de lá?...
-
-O criado ouvira dizer ao sr. Damaso que de lá voltavam a Lisboa.
-
---Bem, disse Carlos atirando o chapéo para cima da meza, traga-me você
-um calice de cognac, e uma pouca d'agua fresca.
-
-Cintra, de repente, pareceu-lhe intoleravelmente deserta e triste. Não
-teve animo de voltar ao palacio, nem quiz sahir mais d'ali; e arrancando
-as luvas passeiando em volta da meza de jantar, onde murchavam os ramos
-da vespera, sentia um desejo desesperado de galopar para Lisboa, correr
-ao Hotel Central, invadir-lhe o quarto, vêl-a, saciar os seus olhos
-n'ella!... Porque, o que o irritava agora era não poder encontrar, na
-pequenez de Lisboa, onde toda a gente se acotovella, aquella mulher que
-elle procurava anciosamente! Duas semanas farejara o Aterro como um cão
-perdido: fizera perigrinações ridiculas de theatro em theatro: n'uma
-manhã de domingo percorrera as missas! E não a tornara a vêr. Agora
-sabia-a em Cintra, voava a Cintra, e não a via tambem. Ella cruzava-o
-uma tarde, bella como uma deusa transviada no Aterro, deixava-lhe cahir
-n'alma por accaso um dos seus olhares negros, e desapparecia,
-evaporava-se, como se tivesse realmente remontado ao céo, d'ora em
-diante invisivel e sobrenatural: e elle ali ficava, com aquelle olhar no
-coração, perturbando todo o seu ser, orientando surdamente os seus
-pensamentos, desejos, curiosidades, toda a sua vida interior, para uma
-adoravel desconhecida, de quem elle nada sabia senão que era alta e
-loira, e que tinha uma cadellinha escosseza... Assim acontece com as
-estrellas d'acaso! Ellas não são d'uma essencia diferente, nem contéem
-mais luz que as outras: mas, por isso mesmo que passam fugitivamente e
-se esvaem, parecem despedir um fulgor mais divino, e o deslumbramento
-que deixam nos olhos é mais perturbador e mais longo... Elle não a
-tornara a vêr. Outros viam-n'a. O Taveira vira-a. No Gremio, ouvira um
-alferes de lanceiros fallar d'ella, perguntar quem era, porque a
-encontrava todos os dias. O alferes encontrava-a todos os dias. Elle não
-a via, e não socegava...
-
-O criado trouxe o cognac. Então Carlos, preparando vagarosamente o seu
-refresco, conversou com elle, fallou um momento dos dois rapazes
-inglezes, depois da hespanhola obesa... Emfim, dominando uma timidez,
-quasi córando, fez, atravez de grandes silencios, perguntas sobre os
-Castro Gomes. E cada resposta lhe parecia uma acquisição preciosa. A
-senhora era muito madrugadora, dizia o criado: ás sete horas tinha
-tomado banho, estava vestida, e sahia só. O sr. Castro Gomes, que dormia
-n'um quarto separado, nunca se mexia antes do meio dia; e, á noite,
-ficava uma eternidade á meza, fumando cigarettes e molhando os beiços em
-copinhos de cognac e agua. Elle e o sr. Damaso jogavam o dominó. A
-senhora tinha montões de flôres no quarto; e tencionavam ficar até
-domingo, mas fôra ella que apressára a partida...
-
---Ah, disse Carlos depois de um silencio, foi a senhora que apressou a
-partida?...
-
---Sim, senhor, com cuidado na menina que tinha ficado em Lisboa... V.
-ex.^a toma mais cognac?
-
-Com um gesto Carlos recusou, e veiu sentar-se no terraço. A tarde
-descia, calma, radiosa, sem um estremecer de folhagem, cheia de
-claridade dourada, n'uma larga serenidade que penetrava a alma. Elle
-tel-a-hia pois encontrado, ali mesmo n'aquelle terraço, vendo tambem
-cahir a tarde--se ella não estivesse impaciente por tornar a vêr a
-filha, algum bébésinho loiro que ficára só com a ama. Assim, a brilhante
-deusa era tambem uma boa mamã; e isto dava-lhe um encanto mais profundo,
-era assim que elle gostava mais d'ella, com este terno estremecimento
-humano nas suas bellas fórmas de marmore. Agora, já ella estava em
-Lisboa; e imaginava-a nas rendas do seu _peignoir_, com o cabello
-enrolado à pressa, grande e branca, erguendo ao ar o bébé nos seus
-explendidos braços de Juno, e fallando-lhe com um riso d'ouro. Achava-a
-assim adoravel, todo o seu coração fugia para ella... Ah! poder ter o
-direito de estar junto d'ella, n'essas horas d'intimidade, bem junto,
-sentindo o aroma da sua pelle, e sorrindo tambem a um bébé. E, pouco a
-pouco, foi-lhe surgindo na alma um romance, radiante e absurdo: um sopro
-de paixão, mais forte que as leis humanas, enrolava violentamente,
-levava juntos o seu destino e o d'ella; depois, que divina existencia,
-escondida n'um ninho de flôres e de sol, longe, n'algum canto da
-Italia... E, toda a sorte de idéas d'amor, de devoção absoluta, de
-sacrificio, invadiam-n'o deliciosamente--emquanto os seus olhos se
-esqueciam, se perdiam, enlevados na religiosa solemnidade d'aquelle
-bello fim da tarde. Do lado do mar subia uma maravilhosa côr d'ouro
-pallido, que ia no alto diluir o azul, dava-lhe um branco indeciso e
-opalino, um tom de desmaio doce; e o arvoredo cobria-se todo de uma
-tinta loura, delicada e dormente. Todos os rumores tomavam uma suavidade
-de suspiro perdido. Nenhum contorno se movia como na immobilidade de um
-extase. E as casas, voltadas para o poente, com uma ou outra janella
-accesa em braza, os cimos redondos das arvores apinhadas, descendo a
-serra n'uma espessa debandada para o valle, tudo parecera ficar de
-repente parado n'um recolhimento melancolico e grave, olhando a partida
-do sol, que mergulhava lentamente no mar...
-
---Oh Carlos, tu estás ahi?
-
-Era em baixo, na estrada, a voz grossa do Alencar gritando por elle.
-Carlos appareceu á varanda do terraço.
-
---Que diabo estás tu ahi a fazer, rapaz? exclamou Alencar, agitando
-alegremente o seu panamá. Nós lá estivemos à espera, no covil real...
-Fomos ao Nunes... Iamos agora procurar-te á cadeia!
-
-E o poeta riu largamente da sua pilheria--emquanto Cruges, ao lado, de
-mãos atraz das costas, e a face erguida para o terraço, bocejava
-desconsoladamente.
-
---Vim _refrescar_, como tu dizes, tomar um pouco de cognac, que estava
-com sêde.
-
-Cognac? eis ahi o mimo por que o pobre Alencar estivera anciando toda a
-tarde, desde Sitiaes. E galgou logo as escadas do terraço--depois de ter
-gritado para dentro, para a sua velha Lawrence, que lhe mandasse acima
-_meia da fina_.
-
---Viste o Paço, hein, Cruges? perguntou Carlos ao maestro, quando elle
-appareceu, arrastando os passos. Então, parece-me que o que nos resta a
-fazer é jantar, e abalar...
-
-Cruges concordou. Voltava do palacio com um ar murcho, fatigado
-d'aquelle vasto casarão historico, da voz monotona do cicerone mostrando
-a cama de S. M. El-Rei, as cortinas do quarto de S. M. a Rainha,
-«melhores que as de Mafra,» o tira-botas de S. A.; e trazia de lá uma
-pouca d'essa melancolia que erra, como uma atmosphera propria, nas
-residencias reaes.
-
-E aquella natureza de Cintra, ao escurecer, dizia elle, começava a
-entristecel-o.
-
-Então concordaram em jantar ali, na Lawrence, para evitar o espectaculo
-torpe do Palma e das damas, mandar vir á porta o break, e partir depois
-ao nascer do luar. Alencar, aproveitando a carruagem, recolhia tambem a
-Lisboa.
-
---E, para ser festa completa, exclamou elle, limpando os bigodes do
-cognac, emquanto vocês vão ao Nunes pagar a conta, e dar ordens para o
-break, eu vou-me entender lá abaixo á cosinha com a velha Lawrence, e
-preparar-vos um _bacalhau á Alencar_, recipe meu... E vocês verão o que
-é um bacalhau! Porque, lá isso, rapazes, versos os farão outros melhor;
-bacalhau, não!
-
-Atravessando a praça, Cruges pedia a Deus que não encontrassem mais o
-Eusebiosinho. Mas, apenas pozeram os pés nos primeiros degraus do Nunes,
-ouviram em cima o chalrar da sucia. Estavam na ante-sala, já todos
-reconciliados, a Concha contente--e installados aos dois cantos de uma
-meza, com cartas. O Palma, munido d'uma garrafa de genebra, fazia uma
-_batotinha_ para o Eusebio; e as duas hespanholas, de cigarro na bocca,
-jogavam languidamente a bisca.
-
-O viuvo, enfiado, perdia. No monte, que começára miseravelmente com duas
-corôas, já luzia ouro; e Palma triumphava, chalaceiando, dando beijocas
-na sua moça. Mas, ao mesmo tempo, fazia de cavalheiro, fallava de dar a
-desforra, ficar ali, sendo necessario, até de madrugada.
-
---Então vv. ex.^{as} não se tentam? Isto é para passar o tempo... Em
-Cintra tudo serve... Valete! Perdeu você outro mico no rei. Deve a libra
-mais quinze tostões, sô Silveira!
-
-Carlos passára, sem responder, seguido pelo criado--no momento em que
-Euzebiosinho, furioso, já desconfiado, quiz verificar, com as lunetas
-negras sobre o baralho, se lá estavam todos os reis.
-
-Palma alastrou as cartas largamente, sem se zangar. Entre amigos, que
-diabo, tudo se admittia! A sua hespanhola, essa sim, escandalisou-se,
-defendendo a honra do seu homem: então Palmita havia de ter empalmado o
-rei? Mas, a Concha, zelava o dinheiro do seu viuvo, exclamava que o rei
-podia estar perdido... Os reis estavam lá.
-
-Palma atirou um calice de genebra ás goelas, e recomeçou a baralhar
-magestosamente.
-
---Então v. ex.^a não se tenta? repetia elle para o maestro.
-
-Cruges, com effeito, parára, roçando-se pela meza, com o olho nas cartas
-e no ouro do monte, já sem força, remexendo o dinheiro nas algibeiras.
-Subitamente um az decidiu-o. Com a mão nervosa, escorregou-lhe uma libra
-por baixo, jogando cinco tostões, e de porta. Perdeu logo. Quando Carlos
-voltou do quarto com o criado que descia as malas, o maestro estava em
-pleno vicio, com a libra entalada, os olhos accezos, o ar esguedelhado.
-
---Então tu?...--exclamou Carlos com severidade.
-
---Já desço, rosnou o maestro.
-
-E, á pressa, foi á paz da libra, n'um terno contra o rei. Cartada de
-colicas! como disse o Palma: e foi com emoção que elle começou a puxar
-as cartas, espremendo-as uma a uma, n'um vagar mortal. A apparição de um
-bico arrancou-lhe uma praga. Era apenas um duque, Eusebiosinho perdia
-mais uma placa. Palma teve um suspirinho de alivio; e, escondendo com
-ambas as mãos o baralho, erguendo as lunetas faiscantes para o maestro:
-
---Então, sempre continúa toda a libra?
-
---Toda.
-
-Palma teve outro suspiro, d'anciedade; e, mais pallido, voltou
-bruscamente as cartas.
-
---Rei! gritou elle, empolgando o ouro.
-
-Era o rei de paus, a sua hespanhola bateu as palmas, o maestro abalou
-furioso.
-
-Na Lawrence o jantar prolongou-se até ás oito horas, com luzes;--e o
-Alencar fallou sempre. Tinha esquecido n'esse dia as desillusões da
-vida, todos os rancores litterarios, estava n'uma veia excellente; e
-foram historias dos velhos tempos de Cintra, recordações da sua famosa
-ida a Paris, cousas picantes de mulheres, bocados da chronica intima da
-Regeneração... Tudo isto com estridencias de voz, e _filhos isto!_ e
-_rapazes aquillo!_ e gestos que faziam oscillar as chammas das vellas, e
-grandes copos de Collares emborcados de um trago. Do outro lado da meza,
-os dois inglezes, correctos nos seus fraques negros, de cravos brancos
-na botoeira, pasmavam, com um ar embaraçado a que se misturava desdem,
-para esta desordenada exhuberancia de meridional.
-
-A apparição do bacalhau foi um triumpho:--e a satisfação do poeta tão
-grande, que desejou mesmo, caramba, rapazes, que ali estivesse o Ega!
-
---Sempre queria que elle provasse este bacalhau! Já que me não aprecia
-os versos, havia de me apreciar o cozinhado, que isto é um bacalhau de
-artista em toda a parte!... N'outro dia fil-o lá em casa dos meus
-Cohens; e a Rachel, coitadinha, veiu para mim e abraçou-me... Isto,
-filhos, a poesia e a cozinha são irmãs! Vejam vocês Alexandre Dumas...
-Dirão vocês que o pae Dumas não é um poeta... E então d'Artagnan?
-D'Artagnan é um poema... É a faisca é a phantasia, é a inspiração, é o
-sonho, é o arrobo! Então, pôço, já vêem vocês, que é poeta!... Pois
-vocês hão-de vir um dia d'estes jantar commigo, e ha-de vir o Ega, e
-hei-de-vos arranjar umas perdizes á hespanhola, que vos hão-de nascer
-castanholas nos dedos!... Eu, palavra, gosto do Ega! Lá essas cousas de
-realismo e romantismo, historias... Um lyrio é tão natural como um
-persevejo... Uns preferem fedôr de sargeta; perfeitamente, destape-se o
-cano publico... Eu prefiro pós de marechala n'um seio branco; a mim o
-seio, e, lá vae á vossa. O que se quer, é coração. E o Ega tem-n'o. E
-tem faisca, tem rasgo, tem estylo... Pois, assim é que elles se querem,
-e, lá vae á saude do Ega!
-
-Pousou o copo, passou a mão pelos bigodes, e rosnou mais baixo:
-
---E, se aquelles inglezes continuam a embasbacar para mim, vae-lhes um
-copo na cara, e é aqui um vendaval, que ha-de a Gran-Bretanha ficar
-sabendo o que é um poeta portuguez!...
-
-Mas não houve vendaval, a Gran-Bretanha ficou sem saber o que é um poeta
-portuguez, e o jantar terminou n'um café tranquillo. Eram nove horas,
-fazia luar, quando Carlos subiu para a almofada do break.
-
-Alencar, embuçado n'um capote, um verdadeiro capote de padre de aldêa,
-levava na mão um ramo de rosas: e agora, guardara o seu panamá na
-maleta, trazia um bonet de lontra. O maestro, pesado do jantar, com um
-começo de _spleen_, encolheu-se a um canto do break, mudo, enterrado na
-gola do paletot, com a manta da mamã sobre os joelhos. Partiram. Cintra
-ficava dormindo ao luar.
-
-Algum tempo o break rodou em silencio, na belleza da noite. A espaços, a
-estrada apparecia banhada d'uma claridade quente que faiscava. Fachadas
-de casas, caladas e pallidas, surgiam, d'entre as arvores com um ar de
-melancolia romantica. Murmurios de agoas perdiam-se na sombra; e, junto
-dos muros enramados, o ar estava cheio d'aroma. Alencar accendera o
-cachimbo, e olhava a lua.
-
-Mas, quando passaram as casas de S. Pedro, e entraram na estrada,
-silenciosa e triste, Cruges mexeu-se, tossiu, olhou tambem para a lua, e
-murmurou d'entre os seus agasalhos:
-
---Oh Alencar, recita para ahi alguma cousa...
-
-O poeta condescendeu logo--apesar de um dos criados ir ali ao lado
-d'elles, dentro do break. Mas, que havia elle de recitar, sob o encanto
-da noite clara? Todo o verso parece frouxo, escutado diante da lua!
-Emfim, ía dizer-lhe uma historia bem verdadeira e bem triste... Veiu
-sentar-se ao pé do Cruges, dentro do seu grande capotão, esvaziou os
-restos do cachimbo, e, depois de acariciar algum tempo os bigodes,
-começou, n'um tom familiar e simples:
-
-
- Era o jardim d'uma vivenda antiga,
- Sem arrebiques d'arte ou flôres de luxo;
- Ruas singellas d'alfazema e buxo,
- Cravos, roseiras...
-
-
---Com mil raios! exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da
-manta, com um berro que emmudeceu o poeta, fez voltar Carlos na
-almofada, assustou o trintanario.
-
-O break parára, todos o olhavam suspensos; e, no vasto silencio da
-charneca, sob a paz do luar, Cruges, succumbido, exclamou:
-
---Esqueceram-me as queijadas!
-
-
-
-
-IX
-
-
-O dia famoso da soirée dos Cohens, ao fim d'essa semana tão luminosa e
-tão doce, amanheceu enevoado e triste. Carlos, abrindo cedo a janella
-sobre o jardim, vira um céu baixo que pesava como se fosse feito de
-algodão em rama enxovalhado: o arvoredo tinha um tom arripiado e humido;
-ao longe o rio estava turvo, e no ar molle errava um halito morno de
-sudoeste. Decidira não sahir--e desde as nove horas, sentado á banca,
-embrulhado no seu vasto robe-de-chambre de velludo azul, que lhe dava o
-bello ar de um principe artista da Renascença, tentava trabalhar: mas,
-apesar de duas chavenas de café, de cigarettes sem fim, o cerebro, como
-o céu fóra, conservava-se-lhe n'essa manhã afogado em nevoas. Tinha
-d'estes dias terriveis; julgava-se então «uma besta»; e a quantidade de
-folhas de papel, dilaceradas, amarfanhadas, que lhe juncavam o tapete
-aos pés, davam-lhe a sensação de ser todo elle uma ruina.
-
-Foi realmente um allivio, uma tregoa n'aquella lucta com as idéas
-rebeldes, quando Baptista annunciou Villaça, que lhe vinha fallar de uma
-venda de montados no Alemtejo, pertencentes á sua legitima.
-
---Negociosinho, disse o administrador, pousando o chapéo a um canto da
-mesa e dentro um rolo de papeis, que lhe mette na algibeira para cima de
-dois contos de réis... E não é mau presente, logo assim pela manhã...
-
-Carlos espreguiçou-se, crusando fortemente as mãos por trás da cabeça:
-
---Pois olhe, Villaça, preciso bem de dous contos de réis, mas preferia
-que me trouxesse ahi alguma lucidez de espirito... Estou hoje d'uma
-estupidez!
-
-Villaça considerou-o um momento, com malicia.
-
---Quer v. ex.^a dizer que antes queria escrever uma bonita pagina do que
-receber assim perto de quinhentas libras? São gostos, meu senhor, são
-gostos... Elle é bom sahir-se a gente um Herculano ou um Garrett, mas
-dous contos de réis, são dous contos de réis... Olhe que sempre valem um
-folhetim. Emfim, o negocio é este.
-
-Explicou-lh'o, sem se sentar, apressado, emquanto Carlos, de braços
-cruzados, considerava quanto era medonho o alfinete de peito que Villaça
-trazia (um macacão de coral comendo uma pera de ouro) e distinguia
-vagamente, atravez da sua neblina mental, que se tratava de um visconde
-de Torral e de porcos... Quando Villaça lhe apresentou os papeis,
-assignou-os com um ar moribundo.
-
---Então não fica para almoçar, Villaça? disse elle, vendo o procurador
-metter o seu rolo de papeis debaixo do braço.
-
---Muito agradecido a v. ex.^a Tenho de me encontrar com o nosso amigo
-Eusebio... Vamos ao ministerio do reino, elle tem lá uma pertenção...
-Quer a commenda da Conceição... Mas este governo está desgostoso com
-elle.
-
---Ah, murmurou Carlos com respeito e atravez d'um bocejo, o governo não
-está contente com o Eusebiosinho?
-
---Não se portou bem nas eleições. Ainda ha dias, o ministro do reino me
-dizia, em confidencia: «O Eusebio é rapaz de merecimento, mas
-atravessado...» V. Ex.^a n'outro dia, disse-me o Cruges, encontrou-o em
-Cintra.
-
---Sim, lá estava a fazer jus á commenda da Conceição.
-
-Quando Villaça saiu Carlos retomou lentamente a penna, e ficou um
-momento, com os olhos na pagina meio-escripta, coçando a barba,
-desanimado e esteril. Mas quasi em seguida appareçeu Affonso da Maia,
-ainda de chapéo, á volta do seu passeio matinal no bairro, e com uma
-carta na mão, que era para Carlos, e que elle achara no escriptorio
-misturada ao seu correio. Além d'isso, esperava encontrar ali o Villaça.
-
---Esteve ahi, mas deitou a correr, para ir arranjar uma commenda para o
-Eusebiosinho--disse Carlos, abrindo a carta.
-
-E teve uma surpreza, vendo no papel--que cheirava a verbena como a
-condessa de Gouvarinho--um convite do conde para jantar no sabbado
-seguinte, feito em termos de sympathia tão escolhidos que eram quasi
-poeticos; tinha mesmo uma phrase sobre a amisade, fallava dos _atomos em
-gancho_ de Descartes. Carlos desatou a rir, contou ao avô que era um par
-do reino que o convidava a jantar, citando Descartes...
-
---São capazes de tudo, murmurou o velho.
-
-E dando um olhar risonho, aos manuscriptos espalhados sobre a banca:
-
---Então, aqui, trabalha-se, hein?
-
-Carlos encolheu os hombros:
-
---Se é que se póde chamar a isto trabalhar... Olhe ahi para o chão. Veja
-esses destroços... Em quanto se trata de tomar notas, colligir
-documentos, reunir materiaes, bem, lá vou indo. Mas quando se trata de
-pôr as idéas, a observação, n'uma fórma de gosto e de symetria, dar-lhe
-côr, dar-lhe relevo, então... Então foi-se!
-
---Preoccupação peninsular, filho, disse Affonso sentando-se ao pé da
-mesa, com o seu chapéo desabado na mão. Desembaraça-te d'ella. É o que
-eu dizia n'outro dia ao Craft, e elle concordava... O portuguez nunca
-póde ser homem de idéas, por causa da paixão da fórma. A sua mania é
-fazer bellas phrases vêr-lhes o brilho, sentir-lhes a musica. Se fôr
-necessario falsear a idéa, deixal-a incompleta, exageral-a, para a
-phrase ganhar em belleza, o desgraçado não hesita... Vá-se pela agoa
-abaixo o pensamento, mas salve-se a bella phrase.
-
---Questão de temperamento, disse Carlos. Ha sêres inferiores, para quem
-a sonoridade de um adjectivo é mais importante que a exactidão de um
-systema... Eu sou d'esses monstros.
-
---Diabo! então és um rhetorico...
-
---Quem o não é? E resta saber por fim se o estylo não é uma disciplina
-do pensamento. Em verso, o avô sabe, é muitas vezes a necessidade de uma
-rima que produz a originalidade de uma imagem... E quantas vezes o
-esforço para completar bem a cadencia de uma phrase, não poderá trazer
-desenvolvimentos novos e inesperados de uma idéa... Viva a bella phrase!
-
---O sr. Ega annunciou o Baptista, erguendo o reposteiro, quando começava
-justamente a tocar a sineta do almoço.
-
---Fallae na phrase...--disse Affonso, rindo.
-
---Hein? Que phrase? O que?..--exclamou Ega, que rompeu pelo quarto, com
-o ar estonteado, a barba por fazer, a gola do paletot levantada. Oh! por
-aqui a esta hora sr. Affonso da Maia! Como está v. ex.^a? Dize-me cá,
-Carlos, tu é que me podes tirar d'uma atrapalhação... Tu terás por acaso
-uma espada que me sirva?
-
-E, como Carlos o olhava assombrado, acrescentou, já impaciente:
-
---Sim, homem, uma espada! Não é para me batter, estou em paz com toda a
-humanidade... É para esta noute, para o fato de mascara.
-
-O Mattos, aquelle animal, só na vespera lhe dera o costume para o baile:
-e, qual é o seu horror, ao vêr que lhe arranjara, em logar de uma espada
-artistica, um sabre da guarda municipal! Tivera vontade de lh'o passar
-atravez das entranhas. Correu ao tio Abrahão, que só tinha espadins de
-côrte, reles e pelintras como a propria côrte! Lembrara-se do Craft e da
-sua collecção; vinha de lá; mas ahi eram uns espadões de ferro, catanas
-pesando arrobas, as durindanas tremendas dos brutos que conquistaram a
-India... Nada que lhe servisse. Fôra então que lhe tinham vindo á idéa
-as panoplias antigas do Ramalhete.
-
---Tu é que deves ter... Eu preciso uma espada longa e fina, com os copos
-em concha, d'aço rendilhado, forrados de velludo escarlate. E sem cruz,
-sobretudo sem cruz!
-
-Affonso, tomando logo um interesse paternal por aquella difficuldade do
-John, lembrou que havia no corredor, em cima, umas espadas
-hespanholas...
-
---Em cima, no corredor? exclamou Ega, já com a mão no reposteiro.
-
-Inutil precipitar-se, o bom John não as poderia encontrar. Não estavam á
-vista, arranjadas em panoplia, conservavam-se ainda nos caixões em que
-tinham vindo de Bemfica.
-
---Eu lá vou, homem fatal, eu lá vou, disse Carlos, erguendo-se com
-resignação. Mas olha que ellas não têem bainhas.
-
-Ega ficou succumbido. E foi ainda Affonso que achou uma idéa, o salvou.
-
---Manda fazer uma simples bainha de velludo negro; isso faz-se n'uma
-hora. E manda-lhe cozer ao comprido rodellas de velludo escarlate...
-
---Explendido, gritou Ega: o que é ter gosto!
-
-E apenas Carlos sahiu, trovejou contra o Mattos.
-
---Veja v. ex.^a isto, um sabre da guarda municipal! E é quem faz ahi os
-fatos para todos os theatros! Que idiota!.. E é tudo assim, isto é um
-paiz insensato!...
-
---Meu bom Ega, tu não queres tornar de certo Portugal inteiro, o Estado,
-sete milhões d'almas, responsaveis por esse comportamento do Mattos?
-
---Sim senhor, exclamava o Ega passeiando pelo gabinete, com as mãos
-enterradas nos bolsos do paletot; sim senhor, tudo isso se prende. O
-_costumier_ com um fato do seculo XIV manda um sabre da guarda
-municipal; por seu lado o ministro, a proposito de impostos, cita as
-_Meditações_ de Lamartine; e o litterato, essa besta suprema...
-
-Mas calou-se, vendo a espada que Carlos trazia na mão, uma folha do
-seculo XVI, de grande tempera, fina e vibrante, com copos trabalhado
-como uma renda--e tendo gravado no aço o nome illustre do espadeiro,
-Francisco Ruy de Toledo.
-
-Embrulhou-a logo n'um jornal, recusou á pressa o almoço, que lhe
-offereciam, deu dous vivos _shake-hands_, atirou o chapéu para a nuca,
-ia abalar, quando a voz de Affonso o deteve:
-
---Ouve la, John, dizia o velho alegremente, isso é uma espada cá da
-casa, que nunca brilhou sem gloria, creio eu... Vê como te serves
-d'ella!
-
-Ao pé do resposteiro, Ega voltou-se, exclamou, apertando contra o peito
-do paletot o ferro, enrolado, no _Jornal do Commercio_:
-
---Não a sacarei sem justiça, nem a embainharei sem honra. _Au revoir!_
-
---Que vida, que mocidade! murmurou Affonso. Muito feliz é este John!...
-Pois vae-te arranjando filho, que já tocou a primeira vez para o almoço.
-
-Carlos ainda se demorou um instante a reler, com um sorriso, a
-apparatosa carta do Gouvarinho; e ia emfim chamar o Baptista para se
-vestir, quando em baixo, á entrada particular, o timbre electrico
-começou a vibrar violentamente. Um passo ancioso ressoou na ante-camara,
-o Damaso appareceu esbaforido, d'olho esgazeado, com a face em braza. E,
-sem dar tempo a que Carlos exprimisse a surpreza de o ver emfim no
-Ramalhete, exclamou, lançando os braços ao ar:
-
---Ainda bem que te encontro, caramba! Quero que venhas d'ahi, que me
-venhas ver um doente... Eu te explicarei... É aquella gente brazileira.
-Mas pelo amor de Deus, vem depressa, menino!
-
-Carlos erguera-se, pallido:
-
---É ella?
-
---Não, é a pequena, esteve a morrer... Mas veste-te, Carlinhos,
-veste-te, que a responsabilidade é minha!
-
---É um bébé, não é?
-
---Qual bébé!... É uma pequena crescida, de seis annos... Anda d'ahi!
-
-Carlos, já em mangas de camisa, estendia o pé ao Baptista, que, com um
-joelho em terra, apressado tambem, quasi fez saltar os botões da bota. E
-Damaso, de chapéu na cabeça, agitava-se, exagerando a sua impaciencia, a
-estalar de importancia.
-
---Sempre a gente se vê em coisas!.. Olha que responsabilidade a minha!
-Vou visital-os, como costumo ás vezes, de manhã... E vae, tinham partido
-para Queluz.
-
-Carlos voltou-se, com a sobrecasaca meia vestida:
-
---Mas então?..
-
---Escuta, homem! Foram para Queluz, mas a pequena ficou com a
-governanta... Depois do almoço deu-lhe uma dôr. A governante queria um
-medico inglez, porque não falla senão inglez... Do hotel foram procurar
-o Smith, que não appareceu... E a pequena a morrer!... Felizmente,
-cheguei eu, e lembrei-me logo de ti... Foi sorte encontrar-te, caramba!
-
-E acrescentou, dando um olhar ao jardim:
-
---Tambem, irem a Queluz com um dia d'estes! Hão-de-se divertir... Estás
-prompto, hein? Eu tenho lá em baixo o coupé... Deixa as luvas, vaes
-muito bem sem luvas!
-
---O avô que não me espere para almoçar, gritou Carlos ao Baptista, já do
-fundo da escada.
-
-Dentro do coupé, um ramo enorme enchia quasi o assento.
-
---Era para ella, disse o Damaso, pondo-o sobre os joelhos. Pela-se por
-flores.
-
-Apenas o coupé partiu, Carlos cerrando a vidraça, fez a pergunta que
-desde a apparição do Damaso lhe faiscava nos labios.
-
---Mas então tu, que querias quebrar a cara a esse Castro Gomes?..
-
-O Damaso contou logo tudo, triumphante. Fôra tudo um equivoco! Ah, as
-explicações do Castro Gomes tinham sido d'um gentleman. Senão
-quebrava-lhe a cara. Isso não, desconsiderações, a ninguem! a ninguem!
-Mas fôra assim: os bilhetes de visita que elle lhe deixara conservavam o
-seu adresse do _Grand Hotel_ em Paris. E o Castro Gomes, suppondo que
-elle vivia lá, obdecendo á indicação, mandara para lá os seus cartões!
-Curioso, hein? E de estupído... E a falta de resposta aos telegrammas
-fôra culpa de Madame, descuido, n'aquelle momento de afflicção, vendo o
-marido com o braço escavacado... Ah, tinham-lhe dado satisfações
-humildes. E agora eram intimos, estava lá quasi sempre...
-
---Emfim, menino, um romance... Mas isso é para mais tarde!
-
-O coupé parara á porta do Hotel Central. Damaso saltou, correu ao guarda
-portão.
-
---Mandou o telegramma, Antonio?
-
---Já lá vae...
-
---Tu comprehendes, dizia elle a Carlos, galgando as escadas, mandei-lhes
-logo um telegramma para o hotel em Queluz. Não estou para ter mais
-responsabilidades!...
-
-No corredor, defronte do escriptorio, um criado passava, com um
-guardanapo debaixo do braço:
-
---Como está a menina? gritou-lhe o Damaso.
-
-O criado encolheu os hombros, sem comprehender.
-
-Mas Damaso já trepava o outro lanço de escada, soprando, gritando:
-
---Por aqui Carlos, eu conheço isto a palmos! Numero 26!
-
-Abriu com estrondo a porta do numero 26. Uma criada, que estava á
-janella, voltou-se.
-
-Ah _bonjour_, Melanie! exclamava Damaso, no seu extraordinario francez.
-A creança estava melhor? _l'enfant etait meilleur?_ Ali lhe trazia o
-doutor, _monsieur le docteur Maia_.
-
-Melanie, uma rapariga magra e sardenta, disse que Mademoiselle estava
-mais socegada, e ella ia avisar miss Sarah, a governanta. Passou o
-espanador pelo marmore d'uma console, ageitou os livros sobre a meza, e
-sahiu, dardejando a Carlos um olhar vivo como uma faisca.
-
-A sala era espaçosa, com uma mobilia de réps azul, e um grande espelho
-sobre a console dourada, entre as duas janellas: a meza estava coberta
-de jornaes, de caixas de charutos, e de romances de Cappendu; sobre uma
-cadeira, ao lado, ficára enrolado um bordado.
-
---Esta Melanie, esta desleixada, murmurava o Damaso, fechando a janella
-com um esforço sobre o feixo perro. Deixar assim tudo aberto! Jesus, que
-gente!
-
---Este cavalheiro é bonapartista, disse Carlos vendo sobre a meza os
-numeros do _Pays_.
-
---Isso, temos questões terriveis! exclamou o Damaso. E eu enterro-o
-sempre... É bom rapaz, mas tem pouco fundo.
-
-Melanie voltou pedindo a _Monsieur le Docteur_ para entrar um instante
-no gabinete de toilette. E ahi, depois de apanhar uma toalha cahida, de
-dardejar a Carlos outro olharsinho petulante, disse que Miss Sarah vinha
-immediatamente, e retirou-se na ponta dos sapatos. Fóra, na sala,
-ergueu-se logo a voz do Damaso, fallando a Melanie de _sa
-responsabilité, et que il etait très affligé_.
-
-Carlos ficou só, na intimidade d'aquelle gabinete de toilette, que
-n'essa manhã ainda não fôra arrumado. Duas malas, pertencentes de certo
-a Madame, enormes, magnificas, com fecharias e cantos de aço polido,
-estavam abertas: d'uma trasbordava uma cauda rica, de seda forte côr de
-vinho: e na outra era um delicado alvejar de roupa branca, todo um luxo
-secreto e raro de rendas e _baptistes_, d'um brilho de neve, macio pelo
-uso e cheirando bem. Sobre uma cadeira alastrava-se um monte de meias de
-seda, de todos os tons, unidas, bordadas, abertas em renda e tão leves,
-que uma aragem as faria voar; e, no chão corria uma fila de sapatinhos
-de verniz, todos do mesmo estylo, longos, com o tacão baixo e grandes
-fitas de laçar. A um canto estava um cesto acolchoado de seda côr de
-rosa, onde de certo viajara a cadellinha.
-
-Mas o olhar de Carlos prendia-se sobre tudo a um sophá onde ficará
-estendido, com as duas mangas abertas, á maneira de dous braços que se
-offerecem, o casaco branco de velludo lavrado de Genova com que elle a
-vira, a primeira vez, apear-se á porta do hotel. O forro, de setim
-branco, não tinha o menor acolxoado, tão perfeito devia ser o corpo que
-vestia: e assim, deitado sobre o sophá, n'essa attitude viva, n'um
-desabotoado de semi-nudez, adiantando em vago relevo o cheio de dois
-seios, com os braços alargando-se, dando-se todos, aquelle estofo
-parecia exhalar um calor humano, e punha ali a fórma d'um corpo amoroso,
-desfallecendo n'um silencio d'alcova. Carlos sentiu bater o coração. Um
-perfume indefinido e forte de jasmim, de marechala, de tanglewood,
-elevava-se de todas aquellas cousas intimas, passava-lhe pela face com
-um bafo suave de caricia...
-
-Então desviou os olhos, approximou-se da janella, que tinha por
-perspectiva a fachada enxovalhada do hotel _Shneid_. Quando se voltou,
-miss Sarah estava diante d'elle, vestida de preto e muito córada: era
-uma pessoa sympathica, redondinha e pequena, com um ar de rola farta, os
-olhos sentimentaes, e uma testa de virgem sob bandós lisos e louros.
-Balbuciava umas palavras em francez, em que Carlos só percebeu
-_docteur_.
-
---_Yes, I am the doctor_, disse elle.
-
-A face da boa ingleza illuminou-se. Oh! era tão bom, ter emfim com quem
-se entender! A menina estava muito melhor! Oh, o doutor vinha livral-a
-d'uma responsabilidade!...
-
-Abriu o reposteiro, fêl-o penetrar n'um quarto com as janellas todas
-cerradas, onde elle apenas distinguiu a fórma d'um grande leito e o
-brilho de cristaes n'um toucador. Perguntou para que eram aquellas
-trevas?
-
-Miss Sarah pensara que a escuridão faria bem à menina, e a adormeceria.
-E trouxera-a ali para o quarto da mamã, por ser mais largo e mais
-arejado.
-
-Carlos fez abrir as janellas: e, quando a grande luz entrou, ao avistar
-a pequena no leito, sob os cortinados abertos, não conteve a sua
-admiração.
-
---Que linda creança!
-
-E ficou um instante a contemplal-a, n'um enlevo d'artista, pensando que
-os brancos mais mimosos, mais ricos, sob a mais sabia combinação de luz,
-não egualariam a pallidez eburnea d'aquella pelle maravilhosa: e esta
-adoravel brancura era ainda realçada por um cabello negro, tenebroso,
-forte, que reluzia sob a rede. Os seus por dois olhos grandes, d'um azul
-profundo e liquido, pareciam n'esse instante maiores, muito serios, e
-muito abertos para elle.
-
-Estava encostada a um grande travesseiro, toda quieta, com o susto ainda
-da dôr, perdida n'aquelle vasto leito, e apertando nos braços uma enorme
-boneca paramentada, de pello riçado, d'olhos tambem azues e arregalados
-tambem.
-
-Carlos tomou-lhe a mãosinha e beijou-lh'a,--perguntando se a boneca
-tambem estava doente.
-
---Cri-cri tambem teve dôr, respondeu ella muito séria, sem tirar d'elle
-os seus magnificos olhos. Eu já não tenho...
-
-Estava com effeito fresca como uma flor, com a lingoasinha muito rosada,
-e a sua vontade já de lunchar.
-
-Carlos tranquillisou miss Sarah. Oh, ella via bem que mademoiselle
-estava boa. O que a assustara fôra achar-se ali só, sem a mamã, com
-aquella responsabilidade. Por isso a tinha deitado... Oh se fosse uma
-creança ingleza saía com ella para o ar... Mas estas meninas
-estrangeiras, tão debeis, tão delicadas... E o labiosinho gordo da
-ingleza trahia um desdem compassivo por estas raças inferiores e
-deterioradas.
-
---Mas a mamã não é doente?
-
-Oh, não! Madame era muito forte. O senhor, esse sim, parecia mais
-fraco...
-
---E, como se chama a minha querida amiga? perguntou Carlos, sentado à
-cabeceira do leito.
-
---Esta é Cri-cri, disse a pequena, apresentando outra vez a boneca. Eu
-chamo-me Rosa, mas o papá diz que eu que sou Rosicler.
-
---Rosicler? realmente? disse Carlos sorrindo d'aquelle nome de livro de
-cavallaria, rescendente a torneios, e a bosques de fadas.
-
-Então, como colhendo simplesmente informações de medico, perguntou a
-miss Sarah se a menina sentira a mudança de clima. Habitavam
-ordinariamente Paris, não é verdade?
-
-Sim, viviam em Paris no inverno, no parque Monceaux; de verão iam para
-uma quinta da Touraine ao pé mesmo de Tours, onde ficavam até ao começo
-da caça; e iam sempre passar um mez a Dieppe. Pelo menos fora assim, nos
-ultimos tres annos, desde que ella estava com Madame.
-
-Emquanto a ingleza fallava, Rosa, com a sua boneca nos braços, não
-cessava de olhar Carlos gravemente e como maravilhada. Elle, de vez em
-quando sorria-lhe, ou acariciava-lhe a mãosinha. Os olhos da mãe eram
-negros: os do pae d'azeviche e pequeninos: de quem herdara ella aquellas
-maravilhosas pupillas d'um azul tão rico, liquido e doce.
-
-Mas a sua visita de medico findara, ergueu-se para receitar um calmante.
-Emquanto a ingleza preparava muito cuidadosamente o papel, e
-experimentava a pena, elle examinou um momento o quarto. N'aquella
-installação banal d'hotel, certos retoques d'uma elegancia delicada
-revelavam a mulher de gosto e de luxo: sobre a commoda e sobre a meza
-havia grandes ramos de flores: os travesseiros e os lençoes não eram do
-hotel, mas proprios, de bretanha fina, com rendas e largos monogrammas
-bordados a duas côres. Na poltrona que ella usava uma cachemira de
-Tarnah disfarçava o medonho reps desbotado.
-
-Depois, ao escrever a receita, Carlos notou ainda sobre a meza alguns
-livros de encadernações ricas, romances e poetas inglezes: mas destoava
-ali, estranhamente, uma brochura singular--o _Manual de interpretação
-dos sonhos_. E ao lado, em cima do toucador, entre os marfins das
-escovas, os cristaes dos frascos, as tartarugas finas, havia outro
-objecto estravagante, uma enorme caixa de pó de arroz, toda de prata
-dourada, com uma magnifica safira engastada na tampa dentro d'um circulo
-de brilhantes miudos, uma joia exagerada de cocotte, pondo ali uma
-dissonancia audaz de explendor brutal.
-
-Carlos voltou junto do leito, e pediu um beijo a Rosicler: ella
-estendeu-lhe logo a boquinha fresca como um botão de rosa; elle não
-ousou beijal-a assim n'aquelle grande leito da mãe, e tocou-lhe apenas
-na testa.
-
---Quando vens tu outra vez? perguntou ella agarrando-o pela manga do
-casaco.
-
---Não é necessario vir outra vez, minha querida. Tu estás boa, e Cri-cri
-tambem.
-
---Mas eu quero o meu lunch... Dize a Sarah que eu posso tomar o meu
-lunch... E Cri-cri tambem.
-
---Sim já podeis ambas petiscar alguma cousa... Fez as suas
-recommendações á mestra, e depois, apertando a mãosinha da pequena:
-
---E agora adeus, minha linda Rosicler, uma vez que és Rosicler...
-
-E não quiz ser menos amavel com a boneca, deu-lhe tambem um
-_shake-hands_.
-
-Isto pareceu captivar Rosa ainda mais. A ingleza, ao lado, sorria, com
-duas covinhas na face.
-
-Não era necessario, lembrou Carlos, conservar a creança na cama, nem
-tortural-a com cautellas exageradas...
-
---Oh, nò, sir!
-
-E se a dôr reapparecesse, ainda que ligeira, mandal-o logo chamar...
-
---Oh yes, sir!
-
-E ali deixava o seu bilhete, com a sua adresse.
-
---Oh thank you, sir!
-
-Ao voltar á sala, o Damaso saltou do sophá, onde percorria um jornal,
-como uma féra a quem se abre a jaula.
-
---Credo, imaginei que ias lá ficar toda a vida! Que estivestes tu a
-fazer? Irra, que estopada!
-
-Carlos, calçando as luvas, sorria, sem responder.
-
---Então, é cousa de cuidado?
-
---Não tem nada. Tem uns lindos olhos... E um nome extraordinario.
-
---Ah, Rosicler, murmurou Damaso, agarrando o chapéo com mau modo; muito
-ridiculo, não é verdade?
-
-A creada franceza appareceu outra vez a abrir a porta da
-sala,--dardejando para Carlos o mesmo olhar quente e vivo. Damaso
-recommendou-lhe muito que dissesse aos senhores, que elle tinha vindo
-logo com o medico; e que havia de voltar á noite para lhes fazer uma
-surpreza, e para saber se tinham gostado de Queluz--_si ils avaient aimè
-Queluz_.
-
-Depois, ao passar diante do escriptorio, metteu a cabeça, para dizer ao
-guarda-livros, que a menina estava boa, tudo ficava em socego.
-
-O guarda livros sorrio, e cortejou.
-
---Queres que te vá levar a casa? perguntou elle a Carlos, em baixo,
-abrindo a porta do coupé, ainda com um resto de mau humor.
-
-Carlos preferia ir a pé.
-
---E acompanha-me tu um bocado, Damaso, tu agora não tens que fazer.
-
-Damaso hesitou, olhando o céu aspero, as nuvens pesadas de chuva. Mas
-Carlos tomara-lhe o braço, arrastava-o, amavel e gracejando.
-
---Agora que te tenho aqui, velhaco, homem fatal, quero o _romance_... Tu
-disseste que tinhas um _romance_. Não te largo. És meu. Venha o
-_romance_. Eu sei que os tens sempre bons. Quero o _romance_!
-
-Pouco a pouco Damaso sorria, as bochechas esbrazeavam-se-lhe de
-satisfação.
-
---Vae-se fazendo pela vida, disse elle a estoirar de jactancia.
-
---Vocês estiveram em Cintra?...
-
---Estivemos, mas isso não foi divertido... O romance é outro!
-
-Desprendeu-se do braço de Carlos, fez um signal ao cocheiro para que os
-seguisse, e regalou-se pelo Aterro fóra de contar o seu _romance_.
-
---A coisa é esta... O marido d'aqui a dias vai para o Brazil, tem lá
-negocios. E ella fica! Fica com as criadas e com a pequena, á espera,
-dois ou tres mezes. Diz que já andaram até a vêr casas mobiladas, que
-ella não quer estar no hotel... E eu, intimo, a unica pessoa que ella
-conhece, mettido de dentro... Hein, percebes agora?
-
---Perfeitamente, disse Carlos, arrojando para longe o charuto, com um
-gesto nervoso. E de certo, a pobre creatura já está fascinada! Já lhe
-déste, como costumas, um beijo ardente entre duas portas! Já a
-desgraçada se surtiu da caixa de phosphoros, para mais tarde quando a
-abandonares!
-
-Damaso enfiava.
-
---Não venhas já tu com o espirito e com a chufasinha... Não lhe dei
-beijos que ainda não houve occasião... Mas, o que te posso dizer, é que
-tenho mulher!
-
---Pois já era tempo, exclamou Carlos, sem conter um gesto brusco, e
-atirando-lhe as palavras como chicotadas. Já era tempo! Andavas ahi
-mettido com umas creaturas ignobeis, uma ralé de lupanar. Emfim, agora
-ha progresso. E eu gosto que os meus amigos vivam n'uma ordem de
-sentimentos decentes... Mas vê lá... Não sejas o costumado Damaso! Não
-te vás pôr a alardear isso pelo Gremio e pela casa Havaneza!
-
-D'esta vez Damaso estacou, suffocado, sem comprehender aquelle modo,
-semelhante azedume. E terminou por balbuciar, livido:
-
---Tu podes entender muito de medicina e de bric-a-brac, mas lá a
-respeito de mulheres, e da maneira de fazer as cousas, não me dás
-licções...
-
-Carlos olhou-o, com um desejo brutal de o espancar. E de repente,
-sentio-o tão innofensivo, tão insignificante, com o seu ar bochechudo, e
-molle, que se envergonhou do surdo despeito que o atravessara, tomou-lhe
-o braço, teve duas palavras amaveis.
-
---Damaso, tu não me comprehendeste. Eu não te quiz fazer zangar... É
-para teu bem... O que eu receava é que tu, imprudente, arrebatado,
-apaixonado, fosses perder essa bella aventura por uma indiscrição...
-
-E o outro ficou logo contente, sorrindo já, abandonando-se ao braço do
-seu amigo, certo que o desejo do Maia era que elle tivesse uma amante
-_chic_. Não, elle não se tinha zangado, nunca se zangava com os
-intimos... Comprehendia bem que o que Carlos dizia era por amisade...
-
---Mas tu, ás vezes, tens essa cousa que te pegou o Ega, gostas do teu
-bocadinho de espirito...
-
-E então tranquillisou-o. Não, por imprudencia não havia elle de «perder
-a cousa». Aquillo ia com todas as regras. Lá n'isso sobrava-lhe
-experiencia. A Melanie já a tinha na mão; já lhe dera duas libras.
-
---Isto de mais a mais é uma cousa muito seria... Ella conhece meu tio, é
-intima d'elle desde pequena, tratam-se até por _tu_...
-
---Que tio?
-
---Meu tio Joaquim... Meu tio Joaquim Guimarães. Mr. de Guimaran, o que
-vive em Paris, o amigo de Gambetta...
-
---Ah sim, o communista...
-
---Qual communista, até tem carruagem!
-
-Subitamente lembrou-lhe outra cousa, um ponto de toilette em que queria
-consultar Carlos.
-
---Ámanhã vou jantar com elles, e vão tambem dois brazileiros, amigos
-d'elle, que chegaram ahi ha dias, e que partem pelo mesmo paquete... Um
-é _chic_, é da Legação do Brazil em Londres. De maneira que é jantar de
-ceremonia. O Castro Gomes não me disse nada; mas que te parece, achas
-que vá de casaca?...
-
---Sim, atira-lhe casaca, e uma boa rosa na lapella.
-
-O Damaso olhou-o, pensativo.
-
---A mim tinha-me lembrado o habito de Christo.
-
---O habito de Christo... Sim, põe o habito de Christo ao pescoço, e põe
-a rosa na botoeira.
-
---Será talvez de mais, Carlos!
-
---Não, fica bem ao teu typo.
-
-Damaso fizera parar o coupé que os tinha seguido a passo. E no ultimo
-aperto de mão a Carlos:
-
---Tu sempre vaes á noite, aos Cohens, de dominó? O meu fato de selvagem
-ficou divino. Eu venho mostral-o á noite á brazileira... Entro no Hotel
-embrulhado n'um capote, e appareço-lhes de repente na sala, de selvagem,
-de Nelusko, a cantar:
-
-
- Alerta, marinari,
- Il vento cangia...
-
-
-_Chic_ a valer!... _Good bye!_
-
-
-Ás dez horas Carlos vestia-se para o baile dos Cohens. Fóra, a noite
-fizera-se tenebrosa, com lufadas de vento, pancadas d'agoa, que a cada
-instante batiam agrestemente o jardim. Ali, no gabinete de toilette,
-errava no ar tepido um vago aroma de sabonete e de bom charuto. Sobre
-duas commodas de pau preto, marchetadas a marfim, duas serpentinas de
-velho bronze erguiam os seus molhos de vellas accezas, pondo largos
-reflexos doces sobre a seda castanha das paredes. Ao lado do alto
-espelho-psyché alastrava-se, em cima d'uma poltrona, o dominó de já
-setim negro com um grande laço azul-claro.
-
-Baptista, com a casaca na mão, esperava que Carlos acabasse a chavena de
-chá preto que elle estava bebendo aos golos, de pé, em mangas de camisa,
-e de gravata branca.
-
-De repente, o timbre electrico da porta particular reteniu, apressado e
-violento.
-
---Talvez outra surpreza, murmurou Carlos, hoje é o dia das surprezas...
-
-Baptista sorriu, ia pousar a casaca para abrir--quando em baixo vibrou
-outro repique brutal, d'uma impaciencia phrenetica.
-
-Então Carlos, curioso, sahiu á ante-camara: e ahi, á meia luz das
-lampadas Carcel, ainda quebrantada pelo tom dos velludos côr de cereja,
-viu, ao abrir-se a porta por onde entrou um sopro aspero da noite,
-apparecer vivamente uma fórma esguia e vermelha, com um confuso tinir de
-ferro. Depois, pela escada acima, duas pennas negras de gallo ondearam,
-um manto escarlate esvoaçou--e o Ega estava diante d'elle,
-caracterisado, vestido de Mephistopheles!
-
-Carlos apenas poude dizer _bravo_--o aspecto do Ega emmudeceu-o. Apezar
-dos toques de caracterisação que quasi o mascaravam, sobrancelhas de
-diabo, guias de bigode ferozmente exageradas--sentia-se bem a afflicção
-em que vinha, com os olhos injectados, perdido, n'uma terrivel pallidez.
-Fez um gesto a Carlos, arremessou-se pelo gabinete dentro. Baptista,
-logo, discretamente, retirou-se cerrando o reposteiro.
-
-Estavam sós. Então Ega, apertando desesperadamente as mãos, n'uma voz
-rouca e d'agonia:
-
---Tu sabes o que me succedeu, Carlos?
-
-Mas não poude dizer mais, suffocado, tremendo todo; e diante d'elle,
-devorando-o com os olhos, Carlos tremia tambem, enfiado.
-
---Cheguei a casa dos Cohens, continuou Ega por fim com esforço e quasi
-balbuciando, mais cedo, como tinhamos combinado. Ao entrar na sala, já
-estavam duas ou tres pessoas... Elle vem direito a mim, e diz-me: «Você,
-seu infame, ponha-se já no meio da rua... Já no meio da rua senão,
-diante d'esta gente, corro-o a pontapés!» E eu, Carlos...
-
-Mas a colera outra vez abafou-lhe a voz. E esteve um momento mordendo os
-beiços, recalcando os soluços, com os olhos reluzentes de lagrimas.
-
-Quando as palavras voltaram, foi uma explosão selvagem:
-
---Quero-me batter em duello com aquelle malvado, a cinco passos,
-metter-lhe uma bala no coração!
-
-Outros sons estrangulados escaparam-se-lhe da garganta; e, batendo
-furiosamente o pé, esmurrando o ar, berrava, sem cessar, como cevando-se
-na estridencia da propria voz.
-
---Quero matal-o! Quero matal-o! Quero matal-o!
-
-Depois, allucinado, sem ver Carlos, rompeu a passear desabridamente pelo
-quarto, ás patadas, com o manto deitado para traz, a espada mal
-afivelada batendo-lhe as canellas escarlates.
-
---Então descobriu tudo, murmurou Carlos.
-
---Está claro que descobriu tudo! exclamou o Ega, no seu passear
-arrebatado, atirando os braços ao ar. Como descobriu, não sei. Sei isto,
-já não é pouco. Poz-me fóra!... Hei-de-lhe metter uma bala no corpo!
-Pela alma de meu pae, hei-de-lhe varar o coração!... Quero que vás lá
-logo pela manhã com o Craft... E as condições são estas: á pistolla, a
-quinze passos!
-
-Carlos, agora outra vez sereno, acabava a sua chavena de chá. Depois
-disse muito simplesmente:
-
---Meu querido Ega, tu não podes mandar desafiar o Cohen.
-
-O outro estacou de repellão, atirando pelos olhos dois relampagos
-d'ira--a que as medonhas sobrancelhas de crepe, as duas pennas de gallo
-ondeando na gorra, davam uma ferocidade theatral e comica.
-
---Não o posso mandar desafiar?
-
---Não.
-
---Então põe-me fóra de casa...
-
---Estava no seu direito.
-
---No seu direito!... Diante de toda a gente?...
-
---E tu, não eras amante da mulher diante de toda a gente?...
-
-O Ega ficou a olhar um momento para Carlos, como atordoado. Depois fez
-um grande gesto:
-
---Não se trata da mulher!... não se fallou da mulher!... É uma questão
-d'honra para mim, quero mandal-o desafiar, quero matal-o...
-
-Carlos encolheu os hombros.
-
---Tu não estás em ti. Tens só uma coisa a fazer; é ficar ámanhã em casa,
-a vêr se elle te manda desafiar a ti...
-
---O que, o Cohen! exclamou Ega. É um covarde, é um canalha!... Ou o
-mato, ou lhe rasgo a cara com um chicote. Desafiar-me! Olha quem... Tu
-estás doido...
-
-E recomeçou o seu passear desabalado do espelho para a janella,
-soprando, rilhando os dentes, com repellões para traz ao manto que
-faziam oscillar, nas serpentinas, as chammas altas das vellas.
-
-Carlos não dizia nada, de pé junto da meza, enchendo lentamente de novo
-a sua chavena. Tudo aquillo começava a parecer-lhe pouco serio, pouco
-digno, as ameaças de pontapés do marido, os furores melodramaticos do
-Ega:--e mesmo não podia deixar de sorrir diante d'aquelle Mephistopheles
-esgouroviado, espalhando pelo quarto o brilho escarlate do seu manto de
-velludo, e a fallar furiosamente d'honra e de morte, com sobrancelhas
-postiças, e escarcella de coiro á cinta.
-
---Vamos fallar ao Craft! exclamou de repente Ega, parando, com esta
-brusca resolução. Quero vêr o que diz o Craft. Tenho lá em baixo uma
-tipoia; estamos lá n'um instante!
-
---Ir agora á quinta, aos Olivaes? disse Carlos, olhando o relogio.
-
---Se és meu amigo, Carlos!...
-
-Carlos immediatamente, sem chamar o Baptista, acabou de se vestir.
-
-Ega, no entanto, ia preparando uma chavena de chá, deitando-lhe rhum,
-ainda tão nervoso, que mal podia segurar a garrafa. Depois, com um
-grande suspiro, accendeu uma cigarrete. Carlos entrára na alcova de
-banho, ao lado, allumiada por um forte jacto de gaz que assobiava. Fóra,
-a chuva continuava seguida e monotona, as goteiras escoavam-se no chão
-molle do jardim.
-
---Achas que a tipoia aguentará? perguntou Carlos de dentro.
-
---Aguenta, é o _Canhôto_, disse Ega.
-
-Agora reparara no dominó, fôra erguel-o, examinava-lhe o setim rico, o
-bello laço azul claro. Depois, tendo encontrado diante de si o grande
-espelho-psyché, entalou o monoculo no olho, recuou um passo,
-contemplou-se d'alto a baixo;--e terminou por pousar uma das mãos na
-cinta, appoiar a outra, galhardamente, sobre os copos da espada.
-
---Eu não estava mal, oh Carlos, hein?
-
---Estavas explendido, respondeu o outro de dentro da alcova. Foi pena
-estragar-se tudo... Como estava ella?
-
---Devia estar de Margarida.
-
---E elle?
-
---A besta? De beduino.
-
-E continuou ao espelho, gosando a sua figura esguia, as pennas da gorra,
-os sapatos bicudos de velludo, e a ponta flamante da espada erguendo o
-manto por traz, n'uma prega fidalga.
-
---Mas então, disse Carlos, apparecendo a enxugar as mãos, tu não fazes
-idéa do que se passou, o que elle diria á mulher, o escandalo...
-
---Não faço idéa nenhuma, disse o Ega, agora mais sereno. Quando entrei
-na primeira sala estava elle, de beduino; estava um outro sujeito
-d'urso, e uma senhora não sei de que, de Tyrollesa creio eu... Elle veiu
-para mim, e disse-me aquillo: ponha-se fóra! Não sei mais nada... Nem
-posso perceber... O canalha, se descobriu, naturalmente, para não
-estragar a festa, não disse nada a Rachel... Depois é que ellas são!
-
-Ergueu as mãos para o ceu, murmurou:
-
---É horroroso!
-
-Deu ainda uma volta pelo quarto, e depois n'uma outra voz, franzindo a
-face:
-
---Não sei que diabo aquelle Godefroy me deu para collar as sobrancelhas,
-que me picam que tem diabo!
-
---Tira-as...
-
-Deante do espelho, Ega hesitava em desmanchar o seu semblante feroz de
-Santanaz. Mas arrancou-as por fim--e a gorra emplumada, muito justa, que
-lhe escaldava a cabeça. Então Carlos lembrou-lhe que, para ir a casa do
-Craft, se desembaraçasse do manto e da espada, se agasalhasse n'um
-paletot d'elle. Ega deu ainda um longo e mudo olhar ao seu flamejante
-traje infernal, e com um profundo suspiro começou a desafivelar o talim.
-Mas o paletot era muito largo, muito comprido; teve de lhe dar uma dobra
-nas mangas. Depois Carlos metteu-lhe um bonet escossez na cabeça.--E
-assim arranjado, com as canellas vermelhas de diabo apparecendo sob o
-paletot, a gargantilha escarlate á Carlos IX emergindo da gola, a velha
-casqueta de viagem na nuca, o pobre Ega tinha o ar lamentavel d'um
-Satanaz pelintra, agasalhado pela caridade d'um gentleman, e usando-lhe
-o fato velho.
-
-Baptista allumiou, grave e discreto. Ega ao passar por elle, murmurou:
-
---Isto vae mal, Baptista, isto vae mal...
-
-O velho creado teve um movimento triste d'hombros, como significando que
-nada no mundo ia bem.
-
-Na rua negra, a parelha quieta dobrava a cabeça sob a chuva. O
-_Canhoto_, ao ouvir fallar d'uma gorgeta de libra, fez um grande
-espalhafato, rompeu ás chicotadas; e a velha traquitana lá partiu a
-galope, a escorrer d'agua, atroando a calçada.
-
-Por vezes um coupé particular crusava-os, os casacos de gutta-perche dos
-criados branquejavam á luz das lanternas. Então a idéa da festa que
-devia agora resplandecer; Margarida ignorando tudo, walsando nos braços
-d'outros, anciosa, á espera d'elle; a ceia depois, o champagne, as
-cousas brilhantes que elle teria dito--todas estas delicias perdidas se
-vinham cravar no coração do pobre Ega, arrancavam-lhe pragas surdas,
-Carlos fumava silenciosamente, com o pensamento no Hotel Central.
-
-Depois de Santa Apolonia a estrada começou, infindavel, desabrigada,
-batida pelo ar agreste do rio. Nenhum dizia uma palavra, cada um para o
-seu canto, arripiados na friagem que entrava pelas gretas da tipoia.
-Carlos não cessava de vêr o casaco branco de velludo, com as duas mangas
-abertas, como dois braços que se offereciam...
-
-Passava da uma hora quando chegaram á quinta, a sineta do portão, aos
-puxões do cocheiro encharcado, retumbou lugubre n'aquelle silencio
-escuro de aldeia. Um cão ladrou furiosamente: outros latidos ao longe
-responderam; e ainda esperaram muito, antes que um creado, somnolento e
-resmungão, apparecesse com uma lanterna. Uma rua d'acacias conduzia á
-casa: o Ega praguejava, enterrando os seus bellos sapatos de velludo no
-chão lamacento.
-
-Craft, surprehendido com aquelle tumulto, veiu-lhes ao encontro no
-corredor, de robe-de-chambre, e a _Revista dos Dois Mundos_ debaixo do
-braço. Percebeu logo que havia desastre. Levou-os em silencio para o seu
-gabinete onde um bom lume de carvão na chaminé aquecia, alegrava o
-aposento todo estofado de cretones claros. Ambos foram direitos ao lume.
-
-Ega rompera logo a contar o seu caso--emquanto Craft, sem espanto nem
-exclamações, ia preparando methodicamente sobre a meza tres grogs de
-cognac e limão. Carlos, sentado ao pé do fogão, aquecia os pés: e Craft
-veiu acabar de ouvir o Ega, accommodando-se tambem na sua poltrona, do
-outro lado da chaminé, com o seu cachimbo na bocca.
-
---Emfim, exclamou Ega, de pé, cruzando os braços, que me aconselhas tu
-agora?
-
---Tens a fazer só isto, disse Craft: esperar ámanhã em casa que elle te
-mande os seus padrinhos... Que tenho a certeza que não manda... E
-depois, se vos baterdes, deixar-te ferir ou matar.
-
---Perfeitamente o que eu disse, murmurou Carlos, provando o seu grog.
-
-Ega olhou-os a ambos, successivamente, petrificado. E logo, n'um fluxo
-de palavras desordenadas, queixou-se de não ter amigos. Ali estava,
-n'aquella crise, a maior da sua vida: e em logar de encontrar, nos seus
-camaradas de infancia e de Coimbra, apoio, solidariedade, lealdade _à
-tort et à travers_, abandonavam-n'o, pareciam querer enterral-o, e
-expol-o a irrisões maiores... Ia-se commovendo; os olhos
-vermelhejavam-lhe sob as lagrimas. E quando algum d'elles ia
-interrompel-o, n'uma palavra de senso, batia o pé, persistia na sua
-teima--um desafio, matar o Cohen, vingar-se! Tinha sido insultado. Não
-existia outra cousa. Não se tinha fallado na mulher. Era elle que devia
-primeiro mandar padrinhos, lavar a sua honra. Havia pessoas na sala,
-quando o outro o insultou. Havia um urso, e uma tyrolesa... E emquanto a
-deixar-se varar por uma bala, não! Tinha mais direito a viver que o
-Cohen, que era um burguez, e um agiota... E elle era um homem de estudo
-e de arte! Tinha na cabeça livros, idéas, cousas grandes. Devia-se ao
-paiz, á civilisação!... Se fosse ao campo, era para fazer a sua
-pontaria, e abater o Cohen, ali, como uma besta immunda...
-
---Mas o que é, é que não tenho amigos! gritou elle exhausto por fim,
-cahindo para o canto d'um sophá.
-
-Craft bebia em silencio, e aos golos, o seu cognac.
-
-Foi Carlos que se ergueu, serio e aspero. Elle não tinha direito de
-duvidar da sua amisade. Quando lhe tinha ella faltado? Mas era
-necessario não ser pueril; nem theatral... A questão estava simplesmente
-em que o Cohen o surprehendera, amando-lhe a mulher. Logo, podia
-matal-o, podia entregal-o aos tribunaes, podia escavacal-o na sala a
-pontapés...
-
---Ou peor, interrompeu Craft. Mandar-te a senhora, com este bilhetinho:
-«Guarde-a».
-
---Ou isso! continuava Carlos. Não, senhor: limita-se a prohibir-te a
-entrada em casa, um pouco asperamente, sim, mas indicando que, depois de
-ter feito isto, não quer nada mais violento, nem mais dramatico. Teve
-portanto um acto de moderação. E tu queres mandal-o desafiar por
-isso?...
-
-Mas Ega revoltou-se outra vez, deu um pulo, disparatou pela sala, sem
-paletot agora, esguedelhado, parecendo mais phantastico n'aquelle
-simples gibão escarlate, com os sapatos de velludo enlameados, as longas
-pernas de cegonha cobertas de malha de seda vermelha. E teimava que se
-não tratava d'isso! Não, não se tratava da mulher! A questão era
-outra...
-
-Carlos então zangou-se.
-
---Para que diabo te expulsou elle de casa então? Não disparates, homem!
-Nós estamos-te a dizer o que faz um homem de senso. E é triste, que te
-custe tanto a perceber o que manda o senso. Trahiste um amigo teu...
-Nada de equivocos! tu declaravas bem alto a tua amisade pelo Cohen.
-Trahistel-o, tens de acceitar a lei: se elle te quizer matar tens de
-morrer. Se elle não quizer fazer nada, tens de ficar de braços cruzados.
-Se elle te quizer chamar ahi por essas ruas um infame, tens de baixar a
-cabeça, e reconhecer-te infame...
-
---Então tenho de engolir a affronta?
-
-Os dois amigos explicaram-lhe que aquelle fato de Satanaz lhe perturbava
-a lucidez do criterio mundano--e que chegava a ser torpe fallar elle,
-Ega, de _affronta_.
-
-Ega, outra vez acabrunhado sobre o sophá, conservou um momento a cabeça
-enterrada nas mãos.
-
---Eu já nem sei, disse elle por fim. Vocês devem ter rasão... Eu
-estou-me a sentir idiota ... Então, vamos, que hei de eu fazer?
-
---Vocês teem a tipoia á espera? perguntou tranquillamente Craft.
-
-Carlos mandara desapparelhar, recolher o gado esfalfado.
-
---Excellente! Então, meu caro Ega, tens outra cousa a fazer, antes de
-morrer ámanhã talvez, é cear esta noite. Eu ia ceiar, e por motivos
-longos d'explicar, ha n'esta casa um peru frio. E ha-de haver uma
-garrafa de Bourgonhe...
-
-D'ahi a pouco estavam á mesa--n'aquella bella sala de jantar do Craft,
-que encantava sempre Carlos, com as suas tapeçarias ovaes representando
-bocados solitarios d'arvoredo, as severas faenças da Persia, e a sua
-original chaminé flanqueada por duas figuras negras de Nubios com olhos
-rutilantes de crystal. Carlos, que se declarara esfomeado, trinchava já
-o perú, emquanto Craft, desarrolhava, com veneração, duas garrafas do
-seu velho Chambertin, para reconfortar Mephistopheles.
-
-Mas Mephistopheles, sombrio e com os olhos avermelhados, repelliu o
-prato, desviou o copo. Depois, sempre condescendeu em provar o
-Chambertin.
-
---Pois eu, dizia Craft empunhando o talher, quando vocês chegaram,
-estava a lêr um artigo interessante sobre a decadencia do protestantismo
-em Inglaterra...
-
---Que é aquillo, além, n'aquella lata? perguntou Ega, com uma voz
-moribunda.
-
-Um _pâtê de foie-gras_. Mephistopheles escolheu com tedio uma trufa.
-
---Bem bom, este teu Chambertin, suspirou elle.
-
---Anda come e bebe com franqueza, gritou-lhe Craft. Não te romantises.
-Tu o que tens é fome. Todas as tuas idéas esta noite se ressentem da
-debilidade!
-
-Então Ega confessou que devia estar fraco. Com aquella excitação do seu
-trage de Satanaz nem jantára, contando ceiar bem em casa do outro...
-Sim, com effeito, tinha appetite! Excellente _foie-gras_...
-
-E d'ahi a pouco devorava: foram talhadas de perú, uma porção immensa de
-lingua d'Oxford, duas vezes presunto d'York, todas aquellas boas cousas
-inglezas que havia sempre em casa do Craft. E elle só bebeu quasi toda
-uma garrafa de Chambertin.
-
-O escudeiro fôra preparar o café: e, no entanto, ia-se discutindo, em
-todas as hypotheses, a attitude provavel do Cohen com a mulher. Que
-faria elle? Talvez lhe perdoasse. Ega affirmava que não: era vaidoso, e
-de rancores longos! N'um convento tambem não a fechava, sendo judia...
-
---Talvez a mate, disse Craft, com toda a seriedade.
-
-Ega, já com os olhos brilhantes do Bourgogne, declarou tragicamente que
-elle então entrava n'um mosteiro. Os dois gracejaram, sem piedade. Em
-que mosteiro queria elle entrar? Nenhum era congenere com o Ega! Para
-dominicano era muito magro, para trapista muito lascivo, muito palrador
-para jesuita, e para benedictino muito ignorante... Era necessario crear
-uma ordem para elle! Craft lembrou a _Santa Blague_!
-
---Vocês não teem coração, exclamou Ega, enchendo outro grande copo.
-Vocês não sabem, eu adorava aquella mulher!
-
-Então largou a fallar de Rachel. E teve alli, de certo, os momentos
-melhores de toda aquella paixão,--porque poude, sem escrupulo, fazer
-reluzir a sua aureola de amante, banhar-se no mar de leite das
-confidencias vaidosas. Começou por contar o encontro com ella na
-Foz--emquanto Craft, sem perder uma palavra, como quem se instrue, se
-erguera a abrir uma garrafa de Champagne. Disse depois os passeios na
-Cantareira; as cartinhas ainda hesitantes e platonicas, trocadas entre
-folhas de livros emprestados, em que ella se assignava _Violetta de
-Parma_; o primeiro beijo, o melhor, surripiado entre duas portas,
-emquanto o marido correra acima a buscar-lhe charutos especiaes; os
-rendez-vous no Porto, no Cemiterio do Repouso, as pressões ardentes de
-mãos á sombra dos cyprestes, e os planos de voluptuosidade combinados
-entre as lapides funebres...
-
---Muito curioso! dizia o Craft.
-
-Mas Ega teve de se calar, o criado entrava com o café. Emquanto se
-enchiam as chavenas, e Craft fôra buscar uma caixa de charutos, elle
-acabou a garrafa de Champagne, já pallido, com o nariz afilado.
-
-O criado sahiu, correndo o reposteiro de tapeçaria: e logo Ega, com o
-calice de cognac ao lado, recomeçou as confidencias, contou a volta a
-Lisboa, a Villa Balzac, as manhãs deliciosas passadas lá com ella no
-calor d'um ninho d'amor...
-
-Mas agora interrompia-se, vago e com os olhos turvos, enterrando um
-momento a cabeça entre os punhos. Depois lá vinha outro detalhe, os
-nomes lubricos que ella lhe dava, uma certa coberta de seda preta onde
-ella brilhava como um jaspe... Duas lagrimas embaciaram-lhe os olhos,
-jurou que queria morrer!
-
---Se vocês soubessem que corpo de mulher! gritou elle de repente. Oh
-meninos, que corpo de mulher... Imaginem vocês um peito...
-
---Não queremos saber, disse Carlos. Cala-te, tu estás bebado, miseravel!
-
-Ega ergueu-se, retezando a perna, arrimado de lado á meza.
-
-Bebado! Elle? Ora essa!... Era cousa que não podia, era empiteirar-se.
-Tinha feito o possivel, bebido tudo, até agua raz. Nunca! Não podia...
-
---Olha, vou pôr aquella garrafa á boca, tu verás. E fico frio, fico
-impassivel. A discutir philosophia... Queres que te diga o que penso de
-Darwin? É uma besta... Ora ahi tens. Dá cá a garrafa.
-
-Mas Craft recusou-lh'a; e, um momento Ega ficou oscillando, a olhar para
-elle, com a face livida.
-
---Ou me dás a garrafa... ou me dás a garrafa, ou te metto uma bala no
-coração... Não, nem vales a bala... Vou-te dar uma bolacha!
-
-De repente os olhos cerraram-se-lhe, abatteu-se sobre a cadeira, d'ahi
-sobre o chão, como um fardo.
-
---Terra! disse tranquillamente Craft.
-
-Tocou a campainha, o escudeiro entrou, apanharam João da Ega. E emquanto
-o levavam para o quarto dos hospedes e lhe despiam o fato de Satanaz,
-não cessou de choramingar, dando beijos babosos pelas mãos de Carlos,
-balbuciando:
-
---Rachelsinha!... Racaqué, minha Raquesinha! gostas do teu
-bibichinho?...
-
-Quando Carlos partiu na tipoia para Lisboa, não chovia, um vento frio ia
-varrendo o ceu, já clareava a alvorada.
-
-Ao outro dia, ás dez horas, Carlos voltou aos Olivaes. Achou Craft
-dormindo, e subiu ao quarto do Ega. As janellas tinham ficado abertas,
-um largo raio de sol dourava o leito; e elle ressonava ainda, no meio
-d'aquella aureola, deitado de lado, com os joelhos contra o estomago, o
-nariz dentro dos lençoes.
-
-Quando Carlos o sacudio, o pobre John abriu um olho triste, e
-bruscamente ergueu-se sobre o cotovello, espantado para o quarto, para
-os cortinados de damasco verde, para um retrato de dama empoada que lhe
-sorria de dentro da sua moldura dourada. De certo as memorias da vespera
-o assaltaram, porque se enterrou para baixo, com os lençoes até ao
-queixo; e a sua face esverdeada, envelhecida, exprimiu a desconsolação
-de deixar aquelles fofos colxões, a paz confortavel da quinta--para ir
-affrontar a Lisboa toda a sorte de cousas amargas.
-
---Está frio lá fóra? perguntou elle melancholicamente.
-
---Não, está um dia adoravel. Mas levanta-te, depressa! Se lá fôr alguem
-da parte do Cohen, podem imaginar que fugiste...
-
-Ega deu immediatamente um pulo da cama, e atordoado, esguedelhado,
-procurava a roupa, com as canellas nuas, tropeçando contra os moveis. Só
-achou o gibão de Satanaz. Chamaram o criado, que trouxe umas calças de
-Craft. Ega enfiou-as á pressa: e sem se lavar, com a barba por fazer, a
-gola do paletot erguida, enterrou emfim na cabeça o bonet escossez,
-voltou-se para Carlos, disse com um ar tragico:
-
---Vamos a isso!
-
-Craft, que se erguera, foi acompanhal-os ao portão, onde esperava o
-coupé de Carlos. Na alameda de acacias, tão tenebrosa na vespera sob a
-chuva, cantavam agora os passaros. A quinta, fresca e lavada, verdejava
-ao sol. O grande Terra-nova do Craft pulava em roda d'elles.
-
---Doe-te a cabeça, Ega? perguntou Craft.
-
---Não, respondeu o outro, acabando de abotoar o paletot. Eu hontem não
-estava bebado... O que estava era fraco.
-
-Mas, ao entrar para o coupé, fez, com um ar profundo e philosophico,
-esta reflexão:
-
---O que é a gente beber bons vinhos... Estou como se não fosse nada!
-
-Craft recommendou que se houvesse novidade, lhe mandassem um telegramma;
-fechou a portinhola, o coupé partiu.
-
-Durante a manhã não veiu telegramma á quinta; e quando Craft appareceu
-na Villa Balzac, onde uma carruagem de Carlos esperava á porta, já
-escurecera, duas vélas ardiam na triste sala verde. Carlos, estirado no
-sophá, dormitava, com um livro aberto sobre o estomago: e Ega passeiava
-d'um lado para outro, todo vestido de preto, pallido, com uma rosa na
-botoeira. Tinham estado alli na sala, n'aquella sécca, esperando todo o
-dia as testemunhas do Cohen.
-
---Que te dizia eu? Não ha nada, nem podia haver, murmurou Craft.
-
-Mas Ega, agora agitado de idéas negras, temia que elle tivesse
-assassinado a mulher! O sorriso sceptico de Craft indignou-o. Quem
-conhecia melhor o Cohen do que elle? Sob a apparencia burgueza, era um
-monstro! Tinha-lhe visto matar um gato, só por capricho de derramar
-sangue...
-
---Tenho um presentimento de desgraça, balbuciou elle aterrado.
-
-E logo n'esse momento a campainha retiniu. Ega acordou precipitadamente
-Carlos, empurrou os dois amigos para o quarto de cama. Craft ainda lhe
-disse que, áquella hora, não podiam ser os amigos do Cohen. Mas elle
-queria estar só na sala: e lá ficou, mais pallido, rigido, muito
-abotoado na sobrecasaca, com os olhos cravados na porta.
-
---Que massada! dizia Carlos dentro, tenteando a escuridão do quarto.
-
-Craft accendeu no toucador um resto de vella. Uma luz triste
-espalhou-se, tudo appareceu n'um desarranjo: no meio do chão estava
-cahida uma camisa de dormir; a um canto ficara a bacia de banho com agoa
-de sabão; e, no centro, o enorme leito, envolto nas suas cortinas de
-seda vermelha, conservava uma magestade de tabernaculo.
-
-Um momento estiveram callados. Craft methodico, e como quem se instrue,
-examinava o toucador, onde havia um maço de ganchos de cabello, uma liga
-com o fecho quebrado, um ramo de violetas murchas. Depois foi olhar o
-marmore da commoda; ahi ficara um prato com ossos de frango, e ao lado
-uma meia folha de papel escripta a lapis, toda emendada, de certo
-trabalho litterario do Ega. Elle achava tudo isto muito curioso.
-
-Da sala, no entanto, vinha um ciciar de vozes subtil e intimo. Carlos
-escutando, julgou sentir uma falla abafada de mulher... Impaciente, foi
-á cozinha. A criada estava sentada á meza, com a mão mettida pelos
-cabellos, sem fazer nada, a olhar para a luz: o pagem, espaparrado n'uma
-cadeira, chupava o seu cigarro.
-
---Quem foi que entrou? perguntou Carlos.
-
---Foi a criada do sr. Cohen, disse o garoto, escondendo o cigarro atraz
-das costas.
-
-Carlos voltou ao quarto, annunciando:
-
---É a confidente. As cousas terminam amavelmente.
-
---E como queria você que terminassem? disse Craft. O Cohen tem o seu
-Banco, os seus negocios, as suas letras a vencer, o seu credito, a sua
-respeitabilidade, todo um arranjo de cousas a que não convém um
-escandalo... É isto que calma os maridos. Além d'isso, já se satisfez,
-já lhe offereceu pontapés...
-
-N'esse instante houve um rumor na sala, Ega abriu violentamente a porta.
-
---Não ha nada, exclamou elle, deu-lhe uma coça, e vão ámanhã para
-Inglaterra!
-
-Carlos olhou para o Craft--que movia a cabeça, como vendo todas as suas
-previsões realisadas, e approvando plenamente.
-
---Uma coça, dizia o Ega, com os olhos chammejantes e n'uma voz que
-sibillava. E depois fizeram as pazes... Vem ainda a ser um _menage_
-modelo! A bengala purifica tudo... Que canalha!
-
-Estava furioso. N'esse momento odiava Rachel--não perdoando ao seu idolo
-ter-se deixado desfazer á paulada. Lembrava-se justamente da bengala do
-Cohen, um junco da India, com uma cabeça de galgo por castão. E aquillo
-zurzira as carnes que elle tinha apertado com paixão! Aquillo pozera
-vergões roxos onde os seus labios tinham avivado signaes côr de rosa! E
-tinham _feito as pazes_. E assim terminava, relles e chinfrim, o romance
-melhor da sua vida! Preferiria sabel-a morta, a sabel-a espancada. Mas
-não! levava a sova, deitava-se depois com o marido, e elle mesmo,
-decerto arrependido, chamando-lhe nomes doces, a ajudava, em ceroulas, a
-fazer as applicações de arnica! Aquillo acabava em arnica!
-
---Entre vocemecê para aqui, sr.^a Adelia, gritou elle para a sala, entre
-para aqui! Aqui só ha amigos. O segredo acabou, o pudor acabou! Isto são
-amigos! Somos tres, mas somos um! Tem vocemecê diante de si o grande
-mysterio da Santissima Trindade. Sente-se, sr.^a Adelia, sente-se... Não
-faça ceremonia... E póde contar... Aqui a sr.^a Adelia, meninos, viu
-tudo, viu a coça!
-
-A sr.^a Adelia, uma moça gordinha e baixa, de bonitos olhos, com um
-chapéo de flôres vermelhas, veiu logo da sala rectificando. Não, ella
-não vira... Então o sr. Ega não tinha percebido bem... Ella só _ouvira_.
-
---Aqui está como foi, meus senhores... Eu tinha ficado a pé,
-naturalmente, até ao fim do baile, que estava que nem me tinha nas
-pernas. Era já dia claro, quando o senhor, ainda vestido de moiro, se
-fechou no quarto com a senhora. Eu fiquei na cozinha com o Domingos á
-espera que elles tocassem a campainha. De repente ouvimos gritos!... Eu
-fiquei estarrecida, pensei até que eram ladrões. Corremos, eu e o
-Domingos, mas a porta do quarto estava fechada, e os dois estavam por
-dentro, lá para o fundo da alcova. Eu ainda puz o olho á fechadura, mas
-não pude vêr nada... Lá o estalar de bofetadas, e trambulhões, e sons de
-bengalada, isso sim, isso ouvia-se perfeitamente; e os gritos. Eu disse
-logo ao Domingos «ai que é uma questão, ai que lá se foi tudo.» Mas de
-repente, silencio geral! Nós voltámos para a cozinha; d'ahi a pouco o
-sr. Cohen appareceu, todo esguedelhado, em mangas de camisa, a dizer que
-nos podiamos deitar, que elles não precisavam nada, e que amanhã
-fallariamos!... Depois lá ficaram toda a noite, e pela manhã parece que
-estavam muito amiguinhos... Que eu não puz os olhos na senhora. O sr.
-Cohen, apenas se levantou, veiu á cozinha, fez-me elle as contas, e
-pôz-me fóra; muito mal creado, até me ameaçou com a policia... Foi pelo
-Domingos, que eu soube agora, quando fui buscar o bahú com um gallego,
-que o sr. Cohen ía com a senhora para Inglaterra. Emfim, um chinfrim...
-Eu até tenho estado todo o dia com o estomago embrulhado.
-
-A sr.^a Adelia com um suspiro, pondo os olhos no chão, calou-se. Ega,
-com os braços cruzados, olhava amargamente para os seus amigos. Que lhes
-parecia aquillo? Uma coça!.. Se um covarde d'aquelles não merecia uma
-bala no coração! Mas ella tambem, deixar-se tocar, não ter fugido,
-consentir ainda depois em dormir com elle!.. Tudo uma corja!
-
---E a sr.^a Adelia, perguntava Craft, não tem idéa de como elle
-descobriu?..
-
---Isso é que é prodigioso! gritou Ega, apertando as mãos na cabeça.
-
-Sim, prodigioso! Não fôra carta apanhada: elles não se escreviam. Não
-podia ter surprehendido as visitas á Villa Balzac: as cousas estavam
-combinadas com uma arte muito subtil, perfeitamente impenetraveis. Para
-vir ali, nunca ella commettera a indiscripção de se servir da sua
-carruagem. Nunca ella claramente entrara pela porta. Os criados d'elle
-nunca a tinham visto, não sabiam quem era a senhora que o visitava...
-Tantos cuidados, e tudo estragado!
-
---Estranho, estranho! murmurava Craft.
-
-Houve um silencio. A sr.^a Adelia terminara por descançar familiarmente
-n'uma cadeira, com a sua trouxasinha no regaço.
-
---Pois olhe, sr. Ega, disse ella, depois de reflectir creia então uma
-cousa, é que foi em sonhos. Já tem acontecido... Foi a senhora que
-sonhou alto com v. ex.^a, disse tudo, o sr. Cohen ouviu, ficou de pedra
-no sapato, espreitou-a, e descobriu a marosca... E eu sei que ella sonha
-alto.
-
-Ega, diante da sr.^a Adelia, percorria-a desde as flôres do chapéo até á
-roda das saias, com os olhos faiscantes.
-
---Como é possivel que elle ouvisse? Se elles tinham quartos
-separados!... Eu sei que tinham.
-
-A sr.^a Adelia baixou as palpebras, acariciou com os dedos calçados de
-luvas pretas a sua trouxasinha redonda, e disse mais baixo estas
-palavras:
-
---Não tinham, não senhor. Nem a senhora consentia em tal arranjo... A
-senhora gosta muito do marido, e tem muitos ciumes d'elle.
-
-Houve um silencio embaraçado e desagradavel. Sobre o toucador o resto da
-vella acabava, com uma luz lugubre. E Ega, que affectara sorrir,
-encolher os hombros, dava pelo quarto passos lentos e murchos,
-triturando o bigode com a mão tremula.
-
-Então Carlos enojado, cançado d'aquelle episodio que durava desde a
-vespera, e onde constantemente se remexera em lodo, declarou que era
-necessario findar! Eram oito horas, e elle queria jantar...
-
---Sim, vamos todos jantar, murmurou o Ega, com o ar confuso e embaçado.
-
-De repente fez um signal á sr.^a Adelia, arrastou-a para a sala,
-fechou-se lá outra vez.
-
---Você não está farto d'isto, Craft? exclamou Carlos, desesperado.
-
---Não. Acho um estudo curioso.
-
-Esperaram ainda dez minutos. Subitamente a vella extinguiu-se. Carlos,
-furioso, gritou pelo pagem. E o garoto entrava com um immundo candieiro
-de petroleo--quando Ega, mais composto, voltou da sala. Tudo acabara, a
-sr.^a Adelia partira.
-
---Vamos lá jantar, disse elle. Mas aonde, a esta hora?
-
-E elle mesmo lembrou o André, ao Chiado. Em baixo, alem do coupé de
-Carlos, esperava a tipoia do Craft. As duas carruagens partiram. A Villa
-Balzac ficava apagada, muda, d'ora em diante inutil.
-
-No André tiveram de esperar muito tempo, n'um gabinete triste, com um
-papel de estrellinhas douradas, cortininhas de cassa barata sob sanefas
-de reps azul, e dois bicos de gaz que silvavam. Ega, enterrado no sophá
-de mollas gastas e lassas, cerrara os olhos, parecia exhausto. Carlos ía
-contemplando as gravuras pela parede, todas relativas a hespanholas: uma
-saíndo da egreja; outra saltando uma pocinha de agua; outra, de olhos
-baixos, escutando os conselhos de um canonico. Craft, já á meza, com a
-cabeça entre os punhos, percorria um _Diario da Manhã_, que o criado
-offerecera para os senhores se entreterem.
-
-De repente o Ega deu um murro no sophá, que rangeu lamentavelmente.
-
---Eu o que não percebo, gritou elle, é como aquelle malvado descobriu!..
-
---A hypothese da sr.^a Adelia, disse Craft erguendo os olhos do jornal,
-parece provavel. Ou em sonhos, ou acordada, a pobre senhora descahiu-se.
-Ou talvez uma denuncia anonyma. Ou talvez apenas um acaso... O facto é
-que o homem desconfiou, espreitou-a, e apanhou-a.
-
-Ega erguera-se:
-
---Eu não vos quiz dizer diante da Adelia, que não estava no segredo
-todo. Mas vocês sabem a casa defronte da minha, do outro lado da viella,
-uma casa com um grande quintal? Ahi mora uma tia do Gouvarinho, a D.
-Maria Lima, uma pessoa respeitavel. A Rachel ía vêl-a de vez em quando.
-São intimas, a D. Maria Lima é intima de todo o mundo. Depois sahia por
-uma portinha do quintal, atravessava a viella, e estava á porta da minha
-casa, á porta escusa, á porta da escada que vae ter ao cacifro de banho.
-Já vocês vêem... Os criados nem a avistavam. Quando ella lá lunchava, o
-lunch estava já posto no meu quarto, as portas fechadas. Mesmo se alguem
-visse, era uma senhora com um véo preto, que vinha de casa da Lima...
-Como podia o homem apanhal-a?.. Além d'isso, em casa da Lima, ella
-mudava de chapéo, e punha um waterproof...
-
-Craft cumprimentou.
-
---É brilhante! Parece de Scribe.
-
---Então, disse Carlos sorrindo, essa respeitavel fidalga...
-
---A D. Maria, coitada... Eu te digo, é uma excellente velha, recebida em
-toda a parte, mas pobre, e faz d'estes favores... Ás vezes mesmo em casa
-d'ella.
-
---Leva caro por esses serviços? perguntou tranquillamente Craft, que em
-todo aquelle caso procurava instruir-se.
-
---Não, coitada, disse o Ega. Dão-se-lhe de vez em quando cinco libras.
-
-O criado entrava com uma travessa de camarões, os tres em silencio
-accommodaram-se á meza.
-
-Depois do jantar recolheram ao Ramalhete. Ega ía lá dormir, receiando,
-com os nervos tão excitados, a solidão da villa Balzac. Partiram, de
-charutos accesos, n'uma caleche descoberta, sob a noite estrellada e
-doce.
-
-Felizmente não estava ninguem no Ramalhete; Ega, cançado, poude
-retirar-se logo para o seu quarto, um aposento d'hospedes no segundo
-andar, onde havia um bello leito antigo de pau preto. Ahi, apenas o
-criado o deixou, Ega approximou-se do tremó onde ardiam as luzes, e
-tirou do pescoço, de sob a camiza, um medalhão de ouro. Tinha dentro uma
-photographia de Rachel:--e a sua intenção agora era queimal-a, deitar ao
-balde das agoas sujas as cinzas d'aquella paixão. Mas, ao abrir o
-medalhão, a face bonita, banhada n'um sorriso, sob o vidro oval, pareceu
-olhar para elle com uma tristeza no velludo das pupillas languidas... A
-photographia mostrava apenas a cabeça, com uma abertura de decote no
-começo do vestido: e as recordações de Ega alargaram aquelle decote uma
-vez mais, revendo o collo, o extraordinario setim da pelle, o
-signalsinho sobre o seio esquerdo... O sabor dos seus beijos passou-lhe
-de novo nos labios, sentiu n'alma outra vez como o ecco dos suspiros
-cançados que ella soltara nos seus braços. E ella ia-se embora, _nunca
-mais_ a veria! Esta desolada amargura do _nunca mais_ revolveu-o todo--e
-com a face enterrada no travesseiro, o pobre demagogo, o grande
-phraseador soluçou muito tempo no segredo da noite.
-
-Toda essa semana foi dolorosa para o Ega. Logo ao outro dia Damaso
-apparecera no Ramalhete, e por elle ouviram os rumores de Lisboa. Já se
-sabia no Gremio, no Chiado, por toda a parte, que elle fôra expulso da
-casa dos Cohens. O urso, a pastora do Tyrol, testemunhas do episodio,
-tinham-n'o badallado com enthusiasmo. Dizia-se mesmo que o Cohen lhe
-dera um pontapé. Os amigos da casa, esses, sobretudo o Alencar, prégavam
-com fervor a innocencia da sr.^a D. Rachel. O Alencar contava
-publicamente que o Ega, provinciano inexperiente e leão de Celorico,
-tendo tomado por evidencias de paixão os sorrisos de amabilidade de uma
-senhora que recebe,--escrevera á sr.^a D. Rachel uma carta quasi
-obscena, que ella, coitadinha, toda em lagrimas, viera mostrar ao
-marido.
-
---Então dão-me para baixo, hein, Damaso? murmurou Ega que, no gabinete
-de Carlos, embrulhado n'uma velha ulster, e encolhido n'uma poltrona,
-escutava estas cousas com um ar cançado e doente.
-
-Damaso confessou que na sociedade lhe davam para baixo.
-
-Ah, elle sabia-o bem! tinha antipathias em Lisboa. Ninguem lhe perdoara
-ainda a pelissa. A sua verve, toda em sarcasmos, offendia. E era
-desagradavel para muita gente que um homem, com esse espirito tão
-perigoso de ferro em braza, tivesse uma mãe rica, e fosse independente.
-
-Depois, no sabbado seguinte, Carlos, ao voltar do jantar dos
-Gouvarinhos--que fôra excellente--contou-lhe a conversa que tivera com a
-sr.^a condessa. A condessa fallara-lhe muito livremente, como um homem,
-d'aquelle desastre do Ega. Tinha-se affligido muito, não só pela Rachel,
-coitada, de quem era amiga, mas pelo Ega, que ella apreciava tanto, tão
-interessante, tão brilhante, e que sahia de tudo aquillo enxovalhado! O
-Cohen dizia a todos (dissera-o ao Gouvarinho) que ameaçára o Ega de
-pontapés, por elle ter escripto a sua mulher uma carta immunda. Os que
-não sabiam nada, como o Gouvarinho, acreditavam, apertavam as mãos na
-cabeça; e os que sabiam, os que havia seis mezes sorriam da intimidade
-do Ega com os Cohens, affectavam tambem acreditar, cerravam os punhos de
-indignação. O Ega era odiado. E a pequena Lisboa, que vive entre o
-Gremio e a casa Havaneza, folgava em «enterrar» o Ega.
-
-Ega, com effeito, sentia-se «enterrado». E n'essa noite declarou a
-Carlos que decidira recolher-se á quinta da mãe, passar lá um anno a
-acabar as _Memorias d'um Atomo_, e reapparecer em Lisboa com o seu livro
-publicado, triumphando sobre a cidade, esmagando os mediocres. Carlos
-não perturbou esta radiante illusão.
-
-Mas quando Ega, antes de partir, foí a recapitular os seus negocios de
-casa, de dinheiro, encontrou-se diante de cousas abominaveis. Devia a
-todo o mundo, desde o estofador até ao padeiro; tinha tres letras a
-vencer; aquellas dividas, se as deixasse, soltas e ladrando,
-juntar-se-iam, na tagarallice publica, ao caso dos Cohens--e elle seria,
-além do amante ameaçado de pontapés, o pelintra perseguido pelos
-credores! Que havia de fazer, senão valer-se de Carlos? Carlos, para
-regular tudo, emprestou-lhe dois contos de réis.
-
-Depois, tendo despedido os criados da Villa Balzac, surgiram-lhe outras
-complicações. A mãe do pagem veiu d'ahi a dias ao Ramalhete, muito
-insolente, gritando que o filho lhe desapparecera! E era exacto: o
-famoso pagem, pervertido pela cozinheira, sumira-se com ella para as
-viellas da Mouraria, a começar ahi uma divertida carreira de _faia_.
-
-Ega recusou-se a attender ás reclamações da matrona. Que diabo tinha
-elle com essas torpezas?
-
-Então o amante da creatura interveiu, ameaçadoramente, Era um policia,
-um esteio da ordem: e deu a entender que lhe seria facil provar como na
-Villa Balzac se passavam «cousas contra a natureza», e que o pagem não
-era só para servir á meza... Nauseado até á morte, Ega pacteou com a
-intrugice, largou cinco libras ao policia. Quando n'essa noite, uma
-noite triste d'agoa, Carlos e Craft o acompanharam a Santa Apolonia,
-elle disse-lhes na carruagem estas palavras, triste resumo d'um amor
-romantico:
-
---Sinto-me como se a alma me tivesse cahido a uma latrina! Preciso um
-banho por dentro!
-
-
-Affonso da Maia ao saber este desastre do Ega, tinha dito a Carlos, com
-tristeza:
-
---Má estreia, filho, pessima estreia!
-
-E n'essa noite, depois de voltar de Santa Apolonia, Carlos pensava
-n'estas palavras, dizia tambem comsigo:--Pessima estreia!... E nem só a
-estreia do Ega era pessima; tambem a sua. E talvez, por pensar n'isso,
-as palavras do avô tinham tido aquella tristeza. Pessimas estreias!
-Havia seis mezes que o Ega chegara de Celorico, embrulhado na sua grande
-pellissa, preparado a deslumbrar Lisboa com as _Memorias d'um Atomo_, a
-dominal-a com a influencia de uma Revista, a ser uma luz, uma força, mil
-outras cousas... E agora, cheio de dividas e cheio de ridiculo, lá
-voltava para Celorico, escorraçado. Pessima estreia! Elle, por seu lado,
-desembarcara em Lisboa, com idéas collossaes de trabalho, armado como um
-luctador: era o consultorio, o laboratorio, um livro iniciador, mil
-cousas fortes... E, que tinha feito? Dois artigos de jornal, uma duzia
-de receitas, e esse melancolico capitulo da _Medicina entre os Gregos_.
-Pessima estreia!
-
-Não, a vida não lhe parecia promettedora, n'esse instante, passeiando na
-sala de bilhar com as mãos nos bolsos, emquanto ao lado os amigos
-conversavam, e fóra uivava o sudoeste. Pobre Ega, que infeliz elle iria,
-encolhido ao canto do seu wagon!.. Mas os outros, ali, não estavam mais
-alegres. Craft e o Marquez tinham começado uma conversa sobre a vida,
-soturna e desconsoladora. De que servia viver, dizia Craft, não se sendo
-um Livingstone ou um Bismark? E o Marquez, com um ar philosophico,
-achava que o mundo se ia tornando estupido. Depois chegou o Taveira com
-a historia horrivel d'um collega d'elle, cujo filho cahira pela escada,
-se despedaçara, no momento em que a mulher estava a morrer d'uma
-pleurisia. Cruges resmungou o quer que fosse sobre suicidio. As palavras
-arrastavam-se, melancolicas. Instinctivamente, Carlos, de vez em quando,
-ia despertar as lampadas.
-
-Mas tudo lhe pareceu resplandecer, quando d'ahi a instantes Damaso
-chegou, e lhe disse que o Castro Gomes estava incommodado, e de cama.
-
---Naturalmente, accrescentou o Damaso, mandam-te chamar, por teres já
-visto a pequena...
-
-Carlos ao outro dia não sahiu de casa, esperando um recado, faiscando
-d'impaciencia. Nenhum recado veiu. E, duas tardes depois, ao descer para
-o Aterro--o primeiro encontro que teve, ás Janellas Verdes, foi o Castro
-Gomes, de caleche descoberta, com a mulher ao lado, e a cadellinha no
-collo.
-
-Ella passou, sem o vêr. E logo ali Carlos decidiu findar aquella
-tortura, pedir muito simplesmente ao Damaso que o apresentasse ao Castro
-Gomes, antes d'elle partir para o Brazil... Não podia mais, precisava
-ouvir a voz d'ella, vêr o que os seus olhos diziam quando eram
-interrogados de perto.
-
-Mas toda essa semana achou-se, constantemente, sem saber como, na
-companhia dos Gouvarinhos. Começou por encontrar o conde, que lhe travou
-do braço, arrastou-o á rua de S. Marçal, installou-o n'uma poltrona, no
-seu escriptorio, e leu-lhe um artigo que destinava ao _Jornal do
-Commercio_ sobre a situação dos partidos em Portugal: depois convidou-o
-a jantar. Na tarde seguinte elles tinham uma partida de _croquet_.
-Carlos foi. E, a uma janella, aberta sobre o jardim, teve um momento de
-intimidade com a condessa, contou-lhe, rindo, como os cabellos d'ella o
-tinham encantado, a primeira vez que a vira. N'essa noite, ella fallou
-d'um livro de Tennyson, que não lera; Carlos offereceu-lh'o, foi-lh'o
-levar ao outro dia, de manhã. Encontrou-a só, toda vestida de branco: e
-riam, baixavam já a voz, as duas cadeias estavam mais juntas--quando o
-escudeiro annunciou a sr.^a D. Maria da Cunha. Era uma cousa tão
-extraordinaria, a D. Maria da Cunha áquella hora! Carlos, de resto,
-gostava muito da D. Maria da Cunha, uma velha engraçada, toda bondade,
-cheia de sympathia por todos os peccados--e ella mesma muito peccadora
-quando era a linda Cunha. D. Maria era muito falladora, parecia ter que
-dizer em particular á condessa; e Carlos deixou-as, promettendo voltar
-uma d'essas tardes tomar chá, e fallar de Tennyson.
-
-Na tarde em que elle se vestia para lá ir, Damaso appareceu-lhe no
-quarto, a dar-lhe uma novidade que o enchia de desgosto e de «ferro». O
-telhudo do Castro Gomes mudára de idéa, já não ia ao Brazil! Ficava ali,
-no Central, até ao meiado do verão! De sorte que estava tudo
-estragado...
-
-Carlos pensou logo em fallar da sua apresentação ao Castro Gomes. Mas,
-como em Cintra, sem saber porquê, veiu-lhe uma repugnancia de a conhecer
-por meio do Damaso. E foi-se vestindo em silencio.
-
-Damaso no entanto maldizia a sua _chance_:
-
---E eu que tinha mulher, eu que a tinha, se houvesse occasião. Mas que
-diabo queres tu, assim?...
-
-Queixou-se então do Castro Gomes. Em resumo, era um telhudo. E a vida
-d'aquelle homem era mysteriosa... Que diabo estava elle a fazer em
-Lisboa? Ali havia difficuldades de dinheiro... E elles não se davam bem.
-Na vespera houvera de certo questão. Quando elle entrara, ella estava
-com os olhos vermelhos, e enfiada; e elle, nervoso, a passeiar pela
-sala, a retorcer a barba... Ambos contrafeitos, uma palavra cada quarto
-d'hora...
-
---Sabes tu? exclamou elle. Tenho minha vontade de os mandar á fava.
-
-Queixou-se tambem d'ella. Era sobretudo muito desegual. Ora bom modo,
-ora regelada; e, ás vezes, elle dizia qualquer cousa muito natural,
-d'estas cousas de conversa de sociedade, e ella punha-se a rir. Era de
-encavacar, hein? Emfim, gente muito exquisita.
-
---Onde vaes tu? disse elle, com um suspiro de aborrecimento, vendo
-Carlos pôr o chapeu.
-
-Ia tomar chá com a Gouvarinho.
-
---Pois olha, vou comtigo... Estou d'uma secca!
-
-Carlos hesitou um instante, terminou por dizer:
-
---Vem, fazes-me até favor...
-
-A tarde estava lindissima, Carlos ia no dog-cart.
-
---Ha que tempos que não damos assim um passeio juntos, disse Damaso.
-
---Tu andas lá mettido com estrangeiros!...
-
-Damaso deu outro suspiro, e não tornou a dizer mais nada. Depois, á
-porta dos Gouvarinhos, quando soube que a sr.^a condessa recebia,
-resolveu subitamente não entrar. Não, não entrava. Estava muito
-estupido, incapaz de achar uma palavra...
-
---Ah, e outra cousa que me lembrou agora, exclamou elle, demorando ainda
-Carlos diante do portão. O Castro Gomes, hontem, perguntou-me o que te
-havia de mandar pela visita á pequena... Eu disse que tu tinhas ido lá
-por favor, como meu amigo. E elle disse que te havia de vir deixar um
-bilhete... Naturalmente vens a conhecel-os.
-
-Não era, pois, necessario que Damaso o apresentasse!
-
---Apparece á noite, Damasosinho, vai lá jantar ámanhã! exclamou Carlos,
-subitamente radiante, dando um ardente aperto de mão ao seu amigo.
-
-Quando entrou na sala, um escudeiro acabava de servir chá. A sala,
-forrada d'um papel severo, verde e ouro, com retratos de familia em
-caixilhos pesados, abria por duas varandas sobre a folhagem do jardim.
-Em cima das mezas havia cestos de flôres. No sophá, duas senhoras de
-chapeu, ambas de preto, conversavam, com a chavena na mão. A condessa,
-ao estender os dedos a Carlos, ficara tão côr de rosa--como a seda
-acolchoada da cadeira em que estava recostada, ao pé d'um velador de pau
-santo. Notou logo, sorrindo, o ar radiante de Carlos. Que lhe tinha
-acontecido de bom? Carlos sorriu tambem, disse que não era possivel
-entrar ali com outro ar. Depois perguntou pelo conde...
-
-O conde ainda não apparecera, detido de certo na camara dos pares, onde
-se discutia o projecto sobre a Reforma da Instrucção Publica.
-
-Uma das senhoras de preto fazia votos para que se alliviassem os
-estudos. As pobres creanças succumbiam verdadeiramente á quantidade
-exaggerada de materias, de cousas a decorar: o d'ella, o Joãosinho,
-andava tão pallido e tão desfigurado, que ella ás vezes tinha vontade de
-o deixar ficar ignorante de todo. A outra senhora pousou a chavena sobre
-um console ao lado, e passando sobre os labios a renda do lenço,
-queixou-se sobretudo dos examinadores. Era um escandalo as exigencias,
-as difficuldades que punham, só para poder deitar RR... Ao pequeno
-d'ella tinham feito as perguntas mais estupidas, as mais reles; assim,
-por exemplo, o que era o sabão, porque lavava o sabão?...
-
-A outra senhora e a condessa apertaram as mãos contra o peito,
-consternadas. E Carlos, muito amavel, concordou que era uma abominação.
-O marido d'ella--continuava a dama de preto--ficara tão desesperado que,
-encontrando o examinador no Chiado, o ameaçou de lhe dar bengaladas. Uma
-imprudencia, de certo; mas, emfim, o homem fôra malvado!... Não havia
-verdadeiramente senão uma cousa digna de se estudar, eram as linguas.
-Parecia insensato que se torturasse uma creança com botanica,
-astronomia, physica... Para que? Cousas inuteis na sociedade. Assim, o
-pequeno d'ella, agora, tinha lições de chimica... Que absurdo! Era o que
-o pae dizia--para que, se elle o não queria para boticario?
-
-Depois d'um silencio, as duas senhoras ergueram-se ao mesmo tempo; e
-houve um murmurio de beijos, um frou-frou de sedas.
-
-Carlos ficou só com a sr.^a condessa, que reoccupara a sua cadeira côr
-de rosa.
-
-Immediatamente ella perguntou pelo Ega.
-
---Coitado, lá está para Celorico.
-
-Ella protestou, com um lindo riso, contra aquella phrase tão feia «lá
-está para Celorico» Não, não queria... Coitado do Ega! Merecia uma
-melhor oração funebre. Celorico era horrível para um fim de romance...
-
---De certo, exclamou Carlos, rindo tambem, era mais bello dizer-se: _lá
-está para Jerusalem!_
-
-N'esse momento o criado annunciou um nome, e appareceu o amigo Telles da
-Gama, um intimo da casa. Quando soube que o conde devia estar ainda
-batalhando sobre a Reforma da Instrucção, levou as mãos á cabeça como
-lamentando um tão feio desperdicio de tempo, e não se quiz demorar. Não,
-nem mesmo o excellente chá da sr.^a condessa o tentava. A verdade era
-que estava tão abandonado da graça de Deus, perdera de tal modo o
-sentimento das cousas bellas, que entrara, não para vêr a sr.^a
-condessa--mas simplesmente fallar ao conde. Então ella teve um bonito ar
-de princeza offendida, perguntou a Carlos se uma tão rude sinceridade de
-montanhez não fazia saudades das maneiras polidas do antigo regimen. E
-Telles da Gama, gingando de leve, declarava-se democrata, homem da
-natureza, com um riso que lhe mostrava dentes magnificos. Depois, ao
-sair, dando um _shake-hands_ ao amigo Maia, quiz saber quando o principe
-de S.^t Olavia lhe dava emfim a honra de vir jantar com elle. A sr.^a
-condessa indignou-se. Não, era realmente de mais! Fazer convites, na sua
-sala, diante d'ella,--um homem que fallava tanto da sua cozinheira
-allemã, e nem sequer lhe offerecera jámais um prato de chou-crôute!
-
-Telles da Gama, rindo sempre e gingando, jurou que andava a arranjar a
-sua sala de jantar para dar á sr.^a condessa uma festa, que havia de
-ficar nos annaes do reino! Agora com o Maia era differente: jantavam
-ambos na cozinha, com os pratos sobre os joelhos. E abalou, gingando
-sempre, rindo ainda da porta, mostrando os dentes magnificos.
-
---Muito alegre, este Gama, não é verdade? disse a condessa.
-
---Muito alegre, disse Carlos.
-
-Então a condessa olhou o relogio. Eram cinco e meia, áquella hora ella
-já não recebia: podiam, emfim, conversar um momento, em boa camaradagem.
-E, o que houve, foi um silencio lento, em que os olhos de ambos se
-encontraram. Depois Carlos perguntou por Charlie, o seu lindo doente.
-Não estava bem, com uma ligeira tosse apanhada no passeio da Estrella.
-Ah, aquella creança nunca deixava de lhe dar o cuidado! Ficou callada,
-com o olhar esquecido no tapete, movendo languidamente o leque: tinha
-n'essa tarde uma toilette exaggerada, d'um tom de folha de outono
-amarellada, d'uma seda grossa, que ao menor movimento fazia um ruge-ruge
-de folhas seccas.
-
---Que lindo tempo tem feito! exclamou ella de repente, como acordando.
-
---Lindo! disse Carlos. Eu estive ha dias em Cintra, e não imagina... Era
-d'uma belleza de idyllio.
-
-E immediatamente arrependeu-se, quiz-se mal por ter fallado da sua ida a
-Cintra, n'aquella sala.
-
-Mas a condessa mal o escutára. Tinha-se erguido, fallando de algumas
-canções que essa manhã recebera de Inglaterra, as novidades frescas da
-_season_. Depois, sentou-se ao piano, correu os dedos no teclado,
-perguntou a Carlos se conhecia aquella melodia--_The pale star_. Não,
-Carlos não conhecia. Mas todas essas canções inglezas se parecem, sempre
-do mesmo tom dolente, romanesco, e muito _miss_. E trata-se sempre d'um
-parque melancolico, um regato lento, um beijo sob os castanheiros...
-
-Então a condessa leu alto a letra da _Pale star_. E era a mesma cousa,
-uma estrellinha de amor palpitando no crepusculo, um lago pallido, um
-timido beijo sob as arvores...
-
---É sempre o mesmo, disse Carlos, e é sempre delicioso.
-
-Mas a condessa atirou o papel para o lado, achando aquillo estupido.
-Começou a remexer entre os papeis de musica, nervosa, e com um olhar que
-escurecia. Para quebrar o silencio, Carlos gabou-lhe as suas lindas
-flores.
-
---Ah, vou-lhe dar uma rosa! exclamou ella logo, deixando as musicas.
-
-Mas, a flôr que ella lhe queria dar estava no _boudoir_, ao lado. Carlos
-seguiu a sua grande cauda, onde corria um reflexo dourado de folhagem de
-outono batida do sol. Era um gabinete forrado de azul, com um bonito
-tremó do seculo XVIII, e sobre um forte pedestal de carvalho, o busto em
-barro do conde, na sua expressão de orador, a fronte erguida, a gravata
-desmanchada, o labio fremente...
-
-A condessa escolheu um botão com duas folhas, e ella mesmo lhe veiu
-florir a sobrecasaca. Carlos sentia o seu aroma de verbena, o calor que
-subia do seu seio arfando com força. E ella não acabava de prender a
-flôr, com os dedos tremulos, lentos, que pareciam collar-se, deixar-se
-adormecer sobre o panno...
-
---_Voila!_ murmurou emfim, muito baixo. Ahi está o meu bello cavalleiro
-da Rosa Vermelha... E agora, não me agradeça!
-
-Insensivelmente, irresistivelmente, Carlos achou-se com os labios nos
-labios d'ella. A seda do vestido roçava-lhe, com um fino ruge-ruge entre
-os braços;--e ella pendia para traz a cabeça, branca como uma cera, com
-as palpebras docemente cerradas. Elle deu um passo, tendo-a assim
-enlaçada, e como morta; o seu joelho encontrou um sophá baixo, que rolou
-e fugiu. Com a cauda de seda enrolada nos pés, Carlos seguiu,
-tropeçando, o largo sophá, que rolou, fugiu ainda, até que esbarrou
-contra o pedestal onde o sr. conde erguia a fronte inspirada. E um longo
-suspiro morreu, n'um rumor de saias amarrotadas.
-
-D'ahi a um momento estavam ambos de pé: Carlos, junto do busto, coçando
-a barba, com o ar embaraçado, e já vagamente arrependido: ella, diante
-do tremó Luiz XV, compondo, com os dedos tremulos, o frisado do cabello.
-De repente, na antecamara, ouviu-se a voz do conde. Ella, bruscamente,
-voltou-se, correu a Carlos, e, com os longos dedos cobertos de
-pedrarias, agarrou-lhe o rosto, atirou-lhe dois beijos faiscantes ao
-cabello e aos olhos. Depois, sentou-se largamente no sophá--e estava
-fallando de Cintra, rindo alto, quando o conde entrou, seguido de um
-velho calvo, que se vinha a assoar a um enorme lenço de seda da India.
-
-Ao vêr Carlos no _boudoir_, o conde teve uma bella surpreza, esteve-lhe
-apertando as mãos muito tempo, com calor, assegurando-lhe que ainda
-n'essa manhã, na camara, se lembrara d'elle...
-
---Então, por que vieram tão tarde? exclamou a condessa, que se apoderara
-logo do velho, rindo, mexendo-se, animada, amavel.
-
---O nosso conde fallou! disse o velho, ainda com o olho brilhante de
-enthusiasmo.
-
---Fallaste? exclamou ela, voltando-se com um interesse encantador.
-
-É verdade, fallara; e desprevenido! Quando ouvira porém o Torres Valente
-(homem de litteratura, mas um doido, sem senso pratico) quando o ouvira
-defender a gymnastica obrigatoria nos collegios--erguera-se. Mas não
-imaginasse o amigo Maia, que elle tinha feito um discurso.
-
---Ora essa! exclamou o velho, agitando o lenço. E um dos melhores que eu
-tenho ouvido na camara! Dos de arromba!
-
-O Conde modestamente protestou. Não: tinha simplesmente lançado uma
-palavra de bom senso, e de bom principio. Perguntara apenas ao seu
-illustre amigo, o sr. Torres Valente, se na sua idéa, os nossos filhos,
-os herdeiros das nossas casas, estavam destinados para palhaços!...
-
---Ah, esta piada, sr.^a condessa! exclamou o velho. Eu só queria que v.
-ex.^a ouvisse esta piada... E como elle a disse! com um _chic!_
-
-O conde sorriu, agradeceu para o lado, ao velho. Sim, dissera-lhe
-aquillo. E, respondendo a outras reflexões do Torres Valente, que não
-queria nos lyceus, nem nos collegios, um ensino «todo impregnado de
-cathecismo», elle lançara-lhe uma palavra cruel.
-
---Terrivel, exclamou o velho n'um tom cavo, preparando o lenço para se
-assoar outra vez.
-
---Sim, terrivel... Voltei-me para elle, e disse-lhe isto... «Creia o
-digno par, que nunca este paiz retomará o seu logar à testa da
-civilisação, se, nos lyceus, nos collegios, nos estabelecimentos de
-instrucção, nós outros os legisladores formos, com mão impia, substituir
-a cruz pelo trapezio...
-
---Sublime, rosnou o velho, dando um ronco medonho dentro do lenço.
-
-Carlos, erguendo-se, declarou aquillo d'uma ironia adoravel.
-
-E o conde, quando elle se despediu, não se contentou com um simples
-aperto de mão, passou-lhe o braço pela cinta, chamou-lhe o seu querido
-Maia. A condessa sorria, com o olhar ainda humido, um resto de pallidez,
-movendo o leque languidamente, recostada em duas almofadas do
-sophá--debaixo do busto do marido que erguia a fronte inspirada.
-
-
-
-
-X
-
-
-Tres semanas depois, por uma tarde quente, com um ceu triste de
-trovoada, e no momento em que estavam cahindo algumas gotas grossas de
-chuva,--Carlos apeava-se d'um coupé de praça, que viera parar, de vagar,
-á esquina da Patriarchal, com os stores verdes mysteriosamente corridos.
-Dous sujeitos que passavam sorriram-se, como se o vissem escoar-se
-desgeitosamente d'uma portinha suspeita. E com effeito a velha
-traquitana de rodas amarellas acabava de ser uma alcova d'amor,
-perfumada de verbena, durante as duas horas que Carlos rolara dentro
-d'ella, pela estrada de Queluz, com a sr.^a condessa de Gouvarinho.
-
-A condessa tinha descido no largo das Amoreiras. E Carlos aproveitara a
-solidão da Patriarchal para se desembaraçar do calhambeque d'assento
-duro, onde durante a ultima hora suffocára, sem ousar descer as
-vidraças, com as pernas adormecidas, enfastiado de tantas sedas
-amarrotadas e dos beijos interminaveis que ella lhe dava na barba...
-
-Até ahi, durante essas tres semanas, tinham-se encontrado n'uma casa da
-rua de Santa Izabel, pertencente a uma tia da condessa que fôra para o
-Porto com a criada, deixando-lhe a chave da casa e o cuidado do gato. A
-boa titi, uma velha pequenina, chamada miss Jones, era uma santa, uma
-apostola militante da Egreja Anglicana, missionaria da Obra da
-Propaganda; e todos os mezes fazia assim uma viagem de cathechisação á
-provincia, distribuindo Biblias, arrancando almas á treva catholica,
-purificando (como ella dizia) o tremedal papista... Já na escada havia
-um cheirinho adocicado e triste a devoção e a virgem velha: e no patamar
-pendia um largo cartão, com um distico em letras de ouro entrelaçadas de
-lyrios roxos, rogando aos que entravam que preserverassem nas vias do
-Senhor! Carlos entrou, tropeçando logo n'um montão de Biblias. O quarto
-todo era um ninho de Biblias; havia-as ás pilhas por cima dos moveis,
-transbordando de velhas chapelleiras, misturadas a pares de galochas,
-cahidas para o fundo da bacia d'assento, todas do mesmo formato,
-entaladas n'uma encadernação negra como n'uma armadura de combate,
-carrancudas e aggressivas! As paredes resplandeciam, forradas de
-cartonagens impressas em lettras de côr, irradiando versiculos duros da
-Biblia, asperos conselhos de moral, gritos dos psalmos, ameaças
-insolentes do inferno... E no meio d'esta religiosidade anglicana, á
-cabeceira d'um leitosinho de ferro, rigido e virginal, duas garrafas
-quasi vasias de cognac e de gin, Carlos bebeu o gin da santa; e o leito
-rigido ficou revolto como um campo de batalha.
-
-Depois a condessa começou a ter medo d'uma visinha, uma Borges, que
-visitava a titi, e era viuva de um antigo procurador dos Gouvarinhos.
-Uma occasião em que, no casto leito de miss Jones, elles fumavam
-languidamente cigarrilhas, tres enormes argoladas á porta atroaram a
-casa. A pobre condessa quasi desmaiou; Carlos, correndo á janella, viu
-um homem que se affastava, com uma estatueta de gesso na mão, outras
-dentro d'um cesto. Mas a condessa jurava que fôra a Borges quem mandára
-o italiano das imagens atirar-lhes para dentro aquellas aldrabadas, como
-tres avisos, tres rebates da Moral... Não quizera voltar mais ao
-beatifico cuté da titi. E n'essa tarde, como não havia ainda outro
-escondrijo, tinham abrigado os seus amores dentro d'aquella tipoia de
-praça.
-
-Mas Carlos vinha de lá enervado, amollecido, sentindo já na alma os
-primeiros bocejos da saciedade. Havia tres semanas apenas que aquelles
-braços perfumados de verbena se tinham atirado ao seu pescoço,--e agora,
-pelo passeio de S. Pedro d'Alcantara, sob o ligeiro chuvisco que batia
-as folhagens da alameda, elle ía pensando como se poderia desembaraçar
-da sua tenacidade, do seu ardor, do seu peso... É que a condessa ía-se
-tornando absurda com aquella determinação anciosa e audaz de invadir
-toda a sua vida, tomar n'ella o logar mais largo e mais profundo--como
-se o primeiro beijo trocado tivesse unido não só os labios de ambos um
-momento, mas os seus destinos tambem e para sempre. N'essa tarde lá
-tinham voltado as palavras que ella balbuciava, cahida sobre o seu
-peito, com os olhos affogados n'uma ternura supplicante: _Se tu
-quizesses! que felizes que seriamos! que vida adoravel! ambos sós!_... E
-isto era claro--a condessa concebera a idéa extravagante de fugir com
-elle, ir viver n'um sonho eterno de amor lyrico, n'algum canto do mundo,
-o mais longe possivel da rua de S. Marçal! _Se tu quizesses!_ Não, com
-mil demonios, não queria fugir com a sr.^a condessa de Gouvarinho!...
-
-E não era só isto--mas ainda exigencias, egoismos, explosões tumultuosas
-d'um temperamento cioso: já mais de uma vez, n'essas duas curtas
-semanas, por pieguices, ella despropositára, fallara de morrer,
-debulhada em lagrimas... Ah! nas lagrimas havia ainda uma
-voluptuosidade, faziam parecer mais tenro o setim do seu collo! O que o
-inquietava eram certos clarões que lhe sulcavam o rosto, um dardejar
-nervoso dos olhos seccos, revelando a paixão que se accendera n'aquelles
-nervos de mulher de trinta e tres annos, e a queimava até ás
-profundidades do seu ser... Certamente este amor punha na sua vida um
-luxo mais, e um perfume. Mas o seu encanto estava em conservar-se facil,
-sereno, sem penetrar mais fundo que a epiderme. Se ella, por qualquer
-cousa, tinha os olhos turvos d'agua, e fallava em morrer, e torcia os
-braços, e queria fugir com elle--então adeus! Tudo estava estragado; e a
-sr.^a condessa com a sua verbena, os seus cabellos côr de braza, e o seu
-pranto, era apenas um trambolho!
-
-O chuveiro parara, um bocado d'azul lavado appareceu entre nuvens. E
-Carlos descia a rua de S. Roque--quando encontrou o marquez, sahindo
-d'uma confeitaria, tristonho, com um embrulho na mão, e o pescoço
-abafado n'um enorme cache-nez de seda branca.
-
---Que é isso? Constipação? perguntou Carlos.
-
---Tudo, disse o marquez, pondo-se a caminhar ao lado d'elle com uma
-lentidão de moribundo. Deitei-me tarde. Cançasso. Oppressão no peito.
-Pigarreira. Dôres no lado. Um horror... Levo já aqui rebuçados.
-
---Não seja piegas, homem! Você o que precisa é roast-beef e uma garrafa
-de Borgonha... Não é hoje que você janta lá no Ramalhete?... É, até tem
-lá o Craft e o Damaso... Então descemos por essa rua do Alecrim, que já
-não chove, depois pelo Aterro fóra, a passo gymnastico, e em chegando lá
-você está curado.
-
-O pobre marquez encolheu os hombros. Apenas sentia o menor encommodo,
-uma dôr, um arrepio, considerava-se logo, como elle dizia, _liquidado_.
-O mundo começava a findar para elle: tomavam-no terrores catholicos, uma
-preoccupação angustiosa da Eternidade. N'esses dias fechava-se no quarto
-com o padre capellão--com quem ás vezes, todavia, terminava por jogar as
-damas.
-
---Em todo o caso, disse elle, tirando cautelosamente o chapeu ao passar
-pela porta aberta da egreja dos Martyres, deixe-me você ir primeiro ao
-Gremio... Quero escrever á Manoeleta que não conte comigo esta noite...
-
-Depois, distrahida e melancolicamente, perguntou noticias d'esse devasso
-do Ega. Esse devasso do Ega lá estava em Celorico, na quinta materna,
-ouvindo arrotar o padre Seraphim, e refugiando-se, segundo dizia, na
-grande arte: andava a compor uma comedia em cinco actos, que se devia
-chamar o _Lodaçal_--escripta para se vingar de Lisboa.
-
---O peor, murmurou o marquez, depois de um silencio, e abafando-se mais
-no cache-nez, é se eu estou assim no domingo para as corridas!
-
---O quê! exclamou Carlos, então as corridas são já no domingo?
-
-O marquez foi-lhe explicando, em quanto desciam o Chiado, que as
-corridas se tinham apressado a pedido do Clifford, o grande _sportman_
-de Cordova, que devia trazer dois cavallos inglezes... Era um bocado
-humilhante depender do Clifford. Mas emfim o Clifford era um _gentleman_
-e com os seus cavallos de raça, os seus jockeys inglezes, constituia a
-unica feição séria do Hyppodromo de Belem. Sem o Clifford aquillo era
-uma brincadeira de pilecas e d'_abas_...
-
---Você não conhece o Clifford?.. Bello rapaz! Um pouco _poseur_, mas
-oiro de lei.
-
-Tinham entrado no pateo do Gremio, o marquez estendeu o braço a Carlos.
-
---Veja esse pulso!
-
---O pulso está excellente... Vá você dar lá esse golpe á Manoela, que eu
-fico aqui á espera.
-
-No domingo pois, d'ahi a cinco dias, eram as corridas... E _ella_
-estaria lá, elle ia conhecel-a, emfim! Durante essas tres ultimas
-semanas vira-a duas vezes: uma occasião, estando a conversar com o
-Taveira á porta do hotel Central, ella chegara a uma das varandas, de
-chapeu, calçando uma grande luva preta; d'outra vez, havia dias, por uma
-tarde de chuva, ella viera parar á porta do Mourão, ao Chiado, n'um
-coupé da Companhia, e ficara esperando emquanto o trintanario levava
-dentro á loja um embrulho que tinha a fórma d'um cofre, apertado com uma
-fita vermelha. D'ambas as vezes ella vira-o, demorara os olhos n'elle um
-momento: e parecera a Carlos que o ultimo olhar se prolongara mais, como
-abandonando-se, humedecendo-se, n'uma leve doçura, ao pousar no seu...
-Era talvez uma illusão; mas isto decidiu-o, na sua impaciencia, a
-realisar a antiga idéa (ainda que desagradavel) de ser apresentado pelo
-Damaso ao Castro Gomes. O pobre Damaso, ao principio, diante d'esta
-exigencia, ficou perturbado; e com um ar de cão que defende o seu osso,
-lembrou logo a Carlos o deploravel comportamento do Castro Gomes, que
-não viera como lh'o annunciara, havia tres semanas, deixar o seu cartão
-ao Ramalhete... Mas Carlos desdenhava essas formalidades estreitas entre
-rapazes: o Castro Gomes parecia-lhe um homem de gosto e de _sport_; nem
-todos os dias apparecia em Lisboa quem soubesse dar com correcção o nó
-da gravata; e seria agradavel, mesmo para elle Damaso, reunirem-se todos
-de vez em quando, com o Craft, com o marquez, a fumar um charuto e a
-fallar de cavallos. Isto decidiu Damaso, que terminou por propôr a
-Carlos o leval-o uma tarde ao hotel Central. Carlos porém não queria
-entrar pelo hotel dentro, de chapeu na mão, atraz do Damaso. Resolveram
-então esperar pelas corridas, onde os Castro Gomes tencionavam ir. «Ahi,
-no recinto da pesagem, disse o Damaso, a apresentação é mais _chic_... É
-mesmo pôdre de _chic_.»
-
---Deus queira com effeito que não chova no domingo, murmurou Carlos
-quando o marquez desceu, mais tristonho, mais abafado no seu cache-nez.
-
-Foram seguindo pelo meio da rua, em direcção ao Ferregial. Adiante do
-Gremio, encostado ao passeio, estava um coupé da Companhia, com um
-trintanario de luvas brancas esperando junto ao portal. Carlos olhou,
-casualmente; e viu, debruçado á portinhola, um rosto de creança, d'uma
-brancura adoravel sorrindo-lhe, com um bello sorriso que lhe punha duas
-covinhas na face. Reconheceu-a logo. Era Rosa, era Rosicler: e ella não
-se contentou em sorrír, com o seu doce olhar azul fugindo todo para
-elle,--deitou a mãosinha de fóra, atirou-lhe um grande adeus. No fundo
-do coupé, forrado de negro, destacava um perfil claro d'estatua, um tom
-ondeado de cabello louro. Carlos tirou profundamente o chapeu, tão
-perturbado, que os seus passos hesitaram. _Ella_ abaixou a cabeça, de
-leve; alguma cousa de luminoso, um confuso rubor d'emoção,
-espalhou-se-lhe no rosto. E fugitivamente foi como se, da mãe e da
-filha, ao mesmo tempo, viesse para elle uma suave e quente emanação de
-sympathia.
-
---Caramba, aquillo pertence-lhe? perguntou o marquez, que notara a
-impressão de Madame Gomes.
-
-Carlos córou.
-
---Não, é uma senhora brazileira a quem eu curei aquella pequerrucha...
-
---Irra! que gratidão! rosnou o outro de dentro das dobras do seu
-cachenez.
-
-Caminhando em silencio pelo Ferregial, Carlos revolvia uma idéa que lhe
-viera de repente, ao receber aquelle doce olhar. Por que é que Damaso
-não levaria uma manhã o Castro Gomes aos Olivaes, a vêr as collecções do
-Craft?... Elle estaria lá, abria-se uma garrafa de Champagne, discutiam
-_bric-à-brac_. Depois, muito naturalmente, elle convidava Castro Gomes a
-almoçar no Ramalhete, para lhe mostrar o grande Rubens, e as suas velhas
-colxas da India. E assim, já antes das corridas existiria entre elles
-uma camaradagem, talvez um tratamento de _você_.
-
-No Aterro, temendo o ar do rio, o marquez quiz tomar uma tipoia; e, até
-ao Ramalhete, continuaram callados. O marquez, outra vez inquieto,
-apalpava a garganta. Carlos discutia complicadamente comsigo aquella
-lenta inclinação de cabeça, o olhar d'ella, o vivo rubor fugitivo...
-Ella até ahi não o conhecia talvez. Mas, depois de atirar o seu grande
-_adeus_, Rosa, ainda sorrindo, voltara-se para a mãe, a dizer-lhe
-decerto que aquelle era o medico que a curara, a ella e á boneca... E
-então a linda côr que lhe enternecera o rosto tomava uma significação
-mais profunda--era como a surpreza feliz, o enleio casto, ao saber que o
-homem que ella notára já de algum modo tinha penetrado na sua
-intimidade, beijara a sua filha, se tinha mesmo sentado á beira do seu
-leito...
-
-Depois ia refazendo o plano da visita aos Olivaes, mais largo agora,
-mais brilhante. Porque não iria ella tambem vêr as curiosidades do
-Craft? Que tarde encantadora, que festa, que lindo idyllio! O Craft
-arranjava um _lunch_ delicado no seu velho serviço de Wedgewood. Elle
-ficava á meza junto d'ella. Depois iam vêr o jardim já em flôr; ou
-tomavam chá no pavilhão japonez, forrado de esteiras. Mas, o que mais
-lhe appetecia era percorrer com ella as duas salas de Craft, parando
-ambos diante d'uma bella faiença ou d'um movel raro, e sentindo, atravez
-da concordancia dos seus gostos, subir, como um perfume, a sympathia dos
-seus corações... Nunca a vira tão formosa como n'essa tarde, dentro do
-coupé forrado de escuro, onde brilhava mais puramente a brancura do seu
-perfil. Sobre o regaço do vestido negro pousava o tom claro das suas
-luvas; e no chapéo frisava-se a ponta de uma penna cor de neve.
-
-A tipoia parara ao portão do Ramalhete, estavam agora entre as
-silenciosas tapessarias da ante-camara.
-
---Como é que ella conhece os Cruges? perguntou de repente o marquez, com
-um tom desconfiado, desembaraçando-se do cache-nez.
-
-Carlos olhou para elle, como mal acordado.
-
---Ella quem? Aquella senhora? Como conhece o Cruges?... Homem, sim, tem
-você razão!.. Aquella era a casa do Cruges! a carruagem estava parada à
-porta do Cruges!.. Talvez alguem que móre n'outro andar.
-
---Não móra ninguem, disse o marquez, dando um passo para o corredor. Em
-todo o caso, é um mulherão.
-
-Carlos achou a palavra odíosa.
-
-Do corredor ouvia-se já no escriptorio de Affonso, atravez da porta
-aberta, a voz petulante do Damaso fallando alto d'_handicap_ e de
-_dead-beat_... E foram-n'o encontrar discursando sobre as corridas, com
-convicção, com auctoridade, como membro do Jockey-Club. Affonso, na sua
-velha poltrona, escutava-o, cortez e risonho, com o reverendo Bonifacio
-no collo. Ao canto do sophá, Craft folheava um livro.
-
-E o Damaso appellou logo para o marquez. Não era verdade, como elle
-estivera dizendo ao sr. Affonso da Maia, que iam ser as melhores
-corridas que se tinham feito em Lisboa? Só para o grande premio nacional
-de seiscentos mil réis havia oito cavallos inscriptos! E além d'isso, o
-Clifford trazia a _Mist_.
-
---Ah, é verdade, oh marquez, é necessario que você appareça sexta-feira
-á noite no Jockey-Club, para acabarmos o _handicap_!
-
-O marquez arrastara uma cadeira para o pé de Affonso, para lhe fazer a
-confidencia dos seus achaques; mas como Damaso se mettia entre elles,
-fallando ainda da _Mist_, decidindo que a _Mist_ era chic, querendo
-apostar cinco libras pela _Mist_ contra o campo--o marquez terminou por
-se voltar, enfastiado, dizendo que o sr. Damazosinho se estava a dar
-ares patuscos... Apostar pela _Mist_! Todo o patriota devia apostar
-pelos cavallos do visconde de Darque, que era o unico criador
-portuguez!...
-
---Pois não é verdade, sr. Affonso da Maia?
-
-O velho sorrio, amaciando o seu gato.
-
---O verdadeiro patriotismo talvez, disse elle, seria, em logar de
-corridas, fazer uma boa tourada.
-
-Damazo levou as mãos á cabeça. Uma tourada! Então o sr. Affonso da Maia
-preferia touros a corridas de cavallos? O sr. Affonso da Maia, um
-inglez!...
-
---Um simples beirão, sr. Salcede, um simples beirão, e que faz gosto
-n'isso; se habitei a Inglaterra é que o meu rei, que era então, me pôz
-fóra do meu paiz... Pois é verdade, tenho esse fraco portuguez, prefiro
-touros. Cada raça possue o seu _sport_ proprio, e o nosso é o toiro: o
-toiro com muito sol, ar de dia santo, agua fresca, e foguetes... Mas
-sabe o sr. Salcede qual é a vantagem da toirada? É ser uma grande escola
-de força, de coragem e de destreza... Em Portugal não ha instituição que
-tenha uma importancia egual á tourada de curiosos. E acredite uma cousa:
-é que se n'esta triste geração moderna ainda ha em Lisboa uns rapazes
-com certo musculo, a espinha direita, e capazes de dar um bom socco,
-deve-se isso ao touro e á tourada de curiosos...
-
-O marquez enthusiasmado bateu as palmas. Aquillo é que era fallar!
-Aquillo é que era dar a philosophia do toiro! Está claro que a tourada
-era uma grande educação phisica! E havia imbecis que fallavam em acabar
-com os touros! Oh, estupidos, acabaes então com a coragem portugueza!...
-
---Nós não temos os jogos de destresa das outras nações, exclamava elle,
-bracejando pela sala e esquecido dos seus males. Não temos o _cricket_,
-nem o _foot-ball_, nem o _running_, como os inglezes: não temos a
-gymnastica como ella se faz em França; não temos o serviço militar
-obrigatorio que é o que torna o allemão solido... Não temos nada capaz
-de dar a um rapaz um bocado de fibra. Temos só a tourada... Tirem a
-tourada, e não ficam senão badamecos derreados da espinha, a mellarem-se
-pelo Chiado! Pois você não acha, Craft?
-
-Craft, do canto do sophá, onde Carlos se fôra sentar e lhe fallava
-baixo, respondeu, convencido:
-
---O que, o touro? Está claro! o touro devia ser n'este paiz como o
-ensino é lá fóra: gratuito e obrigatorio.
-
-Damazo no entanto jurava a Affonso compenetradamente que gostava tambem
-muito de touros. Ah lá n'essas cousas de patriotismo ninguem lhe levava
-a palma... Mas as corridas tinham outro _chic_! Aquelles _Bois de
-Boulogne_, n'um dia de _Grand-Prix_, hein!... Era de embatucar!
-
---Sabes o que é pena? exclamou elle voltando-se de repente para Carlos.
-É que tu não tenhas um _four-in-hand_, um _mail coach_. Iamos todos
-d'aqui, cahia tudo de chic!
-
-Carlos pensou tambem comsigo que era uma pena não ter um _four-in-hand_.
-Mas gracejou, achando mais em harmonia com o Jockey Club da travessa da
-Conceição irem todos dentro d'um omnibus.
-
-Damazo voltou-se para o velho, deixando cahir os braços, descorçoado:
-
---Ahi está, sr. Affonso da Maia! Ahi está por que em Portugal nunca se
-faz nada em termos! É por que ninguem quer concorrer para que as cousas
-saiam bem... Assim não é possivel! Eu cá entendo isto: que n'um paiz,
-cada pessoa deve contribuir, quanto possa, para a civilisação.
-
---Muito bem, sr. Salcede! disse Affonso da Maia. Eis ahi uma nobre, uma
-grande palavra!
-
---Pois não é verdade? gritou Damazo, triumphante, a estoirar de goso.
-Assim eu, por exemplo...
-
---Tu, o quê? exclamaram dos lados. Que fizeste, tu pela civilisação?...
-
---Mandei fazer para o dia das corridas uma sobrecasaca branca... E vou
-de véo azul no chapéo!
-
-Um escudeiro entrou com uma carta para Affonso, n'uma salva. O velho,
-sorrindo ainda das idéas de Damaso sobre a civilisação, puxou a luneta,
-leu as primeiras linhas; toda a alegria lhe morreu no rosto, ergueu-se
-logo, tendo depositado cuidadosamente sobre a sua almofada o pesado
-Bonifacio.
-
---Isto é que é ter gosto, isto é que é comprehender as cousas! exclamava
-o Damaso, agitando os braços para Carlos, quando o velho desappareceu
-atravez do reposteiro de damasco. Este teu avô, menino, é podre de
-chic!..
-
---Deixa lá o chic do avô... Anda cá, que te quero dizer uma cousa.
-
-Abriu uma das janellas do terraço, levou para lá o Damaso, e disse-lhe
-ahi, á pressa, o seu plano da visita aos Olivaes, e a linda tarde que
-poderiam passar na quinta com os Castro Gomes... Elle já fallara ao
-Craft, que estava de accordo, achava delicioso, ia encher tudo de
-flores. E agora só restava que Damaso amigo, como amabilidade sua,
-convidasse os Castro Gomes...
-
---Caramba! murmurou Damaso desconfiado, estás com furor de a conhecer!
-
-Mas emfim concordou que era chic a valer! E via ahi uma bella occasião
-para elle!... Em quanto Carlos e Craft andassem mostrando as
-curiosidades ao Castro Gomes e lhe fallassem de cavallos, elle, zás, ia
-para a quinta passear com ella... A calhar!
-
---Pois vou ámanhã já fallar-lhes... Estou convencido que aceitam logo.
-Ella pela-se por bric-a-brac!
-
---E vens dizer-me se acceitaram ou não...
-
---Venho dizer-te... Tu vaes gostar d'ella; tem lido muito, entende
-tambem de litteratura; e olha que ás vezes a conversar atrapalha...
-
-O marquez veiu chamal-os para dentro, impaciente, querendo fechar a
-porta envidraçada, outra vez preoccupado com a garganta. E desejava
-antes de jantar ir ao quarto de Carlos gargarejar com agua e sal...
-
---E é isto um portuguez forte! exclamou Carlos, travando-lhe alegremente
-do braço.
-
---Eu sou piegas na garganta, replicou logo o marquez, desprendendo-se
-d'elle e olhando-o com ferocidade. E você é-o no sentimento. E o Craft
-é-o na respeitabilidade. E o Damasosinho é-o na tolice. Em Portugal é
-tudo Pieguice e Companhia!
-
-Carlos rindo, arrastou-o pelo corredor. E de repente, ao entrarem na
-ante-camara, deram com Affonso fallando a uma mulher, carregada de luto,
-que lhe beijava a mão, meia de joelhos, suffocada de lagrimas: e ao lado
-outra mulher, com os olhos turvos d'agua tambem, embalava dentro do
-chaile uma criancinha que parecia doente e gemia. Carlos parara
-embaraçado; o marquez instinctivamente levou a mão á algibeira. Mas o
-velho, assim surprehendido na sua caridade, foi logo empurrando as duas
-mulheres para a escada: ellas desciam, encolhidas, abençoando-o, n'um
-murmurio de soluços; e elle voltando-se para Carlos, quasi se desculpou
-n'uma voz que ainda tremia:
-
---Sempre estes peditorios... Caso bem triste todavia... E o que é peior
-é que por mais que se dê nunca se dá bastante. Mundo muito mal feito,
-marquez.
-
---Mundo muito mal feito, sr. Affonso da Maia, respondeu o marquez
-commovido.
-
-No domingo seguinte, pelas duas horas, Carlos no seu phaeton de oito
-molas, levando ao lado Craft que durante os dois dias de corridas se
-installara no Ramalhete, parou ao fim do largo de Belem, no momento em
-que para o lado do Hyppodromo estavam já estalando foguetes. Um dos
-criados desceu a comprar o bilhete de pesagem para o Craft, n'uma tosca
-guarita de madeira, armada alli de vespera, onde se mexia um homemsinho
-de grandes barbas grisalhas.
-
-Era um dia já quente, azul ferrete, com um d'esses rutilantes soes de
-festa que enflammam as pedras da rua, doiram a poeirada baça do ar, poem
-fulgores d'espelho pelas vidraças, dão a toda a cidade essa branca
-faiscação de cal, d'um vivo monotono e implacavel, que na lentidão das
-horas de verão cança a alma, e vagamente entristece. No largo dos
-Jeronymos silencioso, e a escaldar na luz, um omnibus esperava,
-desatrelado, junto ao portal da Egreja. Um trabalhador com o filho ao
-collo, e a mulher ao lado no seu chaile de ramagens, andava alli,
-pasmando para a estrada, pasmando para o rio, a gosar ociosamente o seu
-domingo. Um garoto ia apregoando desconsoladamente programmas das
-corridas que ninguem comprava. A mulher da agua fresca, sem freguezes,
-sentara-se com a sua bilha á sombra, a catar um pequeno. Quatro pesados
-municipaes a cavallo patrulhavam a passo aquella solidão. E a distancia,
-sem cessar, o estalar alegre de foguetes morria no ar quente.
-
-No entanto o tritanario continuava debruçado na guarita, sem poder
-arranjar lá dentro o troco d'uma libra. Foi necessario Craft saltar da
-almofada, ir lá parlamentar--emquanto Carlos, impaciente, raspando com o
-chicote as ancas das egoas, luzidias como um setim castanho, riscava no
-largo uma volta brusca e nervosa. Desde o Ramalhete viera assim
-governando, irritadamente, sem descerrar os labios. É que toda aquella
-semana, desde a tarde em que combinara com o Damaso a visita aos
-Olivaes, fôra desconsoladora. O Damaso tinha desapparecido, sem mandar a
-resposta dos Castro Gomes. Elle, por orgulho, não procurara o Damaso. Os
-dias tinham passado, vazios; não se realisara o alegre idyllio dos
-Olivaes; ainda não conhecia Madame Gomes; não a tornara a ver; não a
-esperava nas corridas. E aquelle domingo de festa, o grande sol, a gente
-pelas ruas, vestida de casimiras e de sedas de missa, enchiam-n'o de
-melancolia e de malestar.
-
-Uma caleche de praça passou, com dous sujeitos de flores ao peito,
-acabando de calçar as luvas; depois um dog-cart, governado por um homem
-gordo, de lunetas pretas, quasi foi esbarrar contra o Arco. Emfim, Craft
-voltou com o seu bilhete, tendo sido descomposto pelo homem de barbas
-propheticas.
-
-Para além do arco, a poeira suffocava. Pelas janellas havia senhoras
-debruçadas, olhando por debaixo de sombrinhas. Outros municipaes, a
-cavallo, atravancavam a rua.
-
-Á entrada para o hyppodromo, abertura escalavrada n'um muro de
-quintarola, o phaeton teve de parar atráz do dog-cart do homem
-gordo--que não podia tambem avançar porque a porta estava tomada pela
-caleche de praça, onde um dos sujeitos de flor ao peito berrava
-furiosamente com um policia. Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O
-sr. Savedra, que era do Jockey-Club, tinha-lhe dito que elle podia
-entrar sem pagar a carruagem! Ainda lh'o disséra na vespera, na botica
-do Azevedo! Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O policia
-bracejava, enfiado. E o cavalleiro, tirando as luvas, ia abrir a
-portinhola, esmurrar o homem--quando, trotando na sua grande horsa, um
-municipal de punho alçado correu, gritou, injuriou o cavalleiro gordo,
-fez rodar para óra a caleche. Outro municipal entrometteu-se,
-brutalmente. Duas senhoras, agarrando os vestidos, fugiram para um
-portal, espavoridas. E atravez do reboliço, da poeira, sentia-se
-adiante, melancolicamente, um realejo tocando a _Traviata_.
-
-O phaeton entrou--atraz do dog-cart, onde o homem gordo, a estoirar de
-furia, voltava ainda para traz a face escarlate, jurando dar parte do
-municipal:
-
---Tudo isto está arranjado com decencia, murmurou Craft.
-
-Diante d'elles, o hyppodromo elevava-se suavemente em colina, parecendo,
-depois da poeirada quente da calçada e das cruas reverberações da cal,
-mais fresco, mais vasto, com a sua relva já um pouco crestada pelo sol
-de junho, e uma ou outra papoula vermelhejando aqui e além. Uma aragem
-larga e repousante chegava vagarosamente do rio.
-
-No centro, como perdido no largo espaço verde, negrejava, no brilho do
-sol, um magote apertado de gente, com algumas carruagens pelo meio,
-d'onde sobresahiam tons claros de sombrinhas, o faiscar d'um vidro de
-lanterna, ou um casaco branco de cocheiro. Para além, dos dois lados da
-tribuna real forrada de um baetão vermelho de mesa de Repartição,
-erguiam-se as duas tribunas publicas, com o feitio de traves mal
-pregadas, como palanques d'arraial. A da esquerda vasia, por pintar,
-mostrava á luz as fendas do taboado. Na da direita, bezuntada por fóra
-d'azul claro, havia uma fila de senhoras quasi todas de escuro
-encostadas ao rebordo, outras espalhadas pelos primeiros degraus; e o
-resto das bancadas permanecia deserto e desconsolado, d'um tom alvadio
-de madeira, que abafava as côres alegres dos raros vestidos de verão.
-Por vezes a briza lenta agitava no alto dos dois mastros o azul das
-bandeirolas. Um grande silencio caía do ceu faiscante.
-
-Em volta do recinto da tribuna, fechado por um tapume de madeira, havia
-mais soldados de infanteria, com as bayonetas lampejando ao sol. E no
-homem triste que estava á entrada, recebendo os bilhetes, mettido dentro
-d'um enorme collete branco, reteso de gomma, e que lhe chegava até aos
-joelhos--Carlos reconheceu o servente do seu laboratorio.
-
-Apenas tinham dado alguns passos encontraram Taveira á porta do buffete
-onde se estivera reconfortando com uma cerveja. Tinha um molho de cravos
-amarellos ao peito, polainas brancas,--e queria animar as corridas. Já
-vira a _Mist_, a egoa de Clifford, e decidira apostar pela _Mist_. Que
-cabeça d'animal, meninos, que finura de pernas!...
-
---Palavra que me enthusiasmou! E está decidido, um dia não são dias, é
-necessario animar isto! Aposto trez mil réis. Quer você Craft?
-
---Pois sim, talvez, depois... Vamos primeiro vêr o aspecto geral.
-
-No recinto em declive, entre a tribuna e a pista, havia só homens, a
-gente do Gremio, das Secretarias e da Casa Havaneza; a maior parte á
-vontade, com jaquetões claros, e de chapéo côco; outros mais em estylo,
-de sobrecasaca e binoculo a tiracollo, pareciam embaraçados e quasi
-arrependidos do seu chic. Fallava-se baixo, com passos lentos pela
-relva, entre leves fumaraças de cigarro. Aqui e além um cavalheiro,
-parado, de mãos atraz das costas, pasmava languidamente para as
-senhoras. Ao lado de Carlos dois brazileiros queixavam-se do preço dos
-bilhetes, achando aquillo «uma semsaboria de rachar.»
-
-Defronte a pista estava deserta, com a relva pisada, guardada por
-soldados: e junto á corda, do outro lado, apinhava-se o magote de gente,
-com as carruagens pelo meio, sem um rumor, n'uma pasmaceira tristonha,
-sob o peso do sol de junho. Um rapazote, com uma voz dolente, apregoava
-agua fresca. Lá ao fundo o largo Tejo faiscava, todo azul, tão azul como
-o ceu, n'uma pulverisação fina de luz.
-
-O visconde de Darque, com o seu ar placido de gentleman louro que começa
-a engordar, veio apertar a mão a Carlos e a Craft. E mal elles lhe
-fallaram dos seus cavallos (_Rabbino_, o favorito, e o outro potro)
-encolheu os hombros, cerrou os olhos, como um homem que se sacrifica.
-Então, que diabo, os rapazes tinham querido!... Mas elle, realmente, não
-podia apresentar um cavallo decente, com as suas côres, senão d'ahi a
-quatro annos. De resto não apurava cavallos para aquella melancolia de
-Belem, não imaginassem os amigos que elle era tão patriota: o seu fim
-era ir a Hespanha, bater os cavallos de Caldillo...
-
---Emfim, vamos a vêr... Dê você cá lume. Isto está um horror. E depois,
-que diabo, para corridas é necessario cocottes e Champagne. Com esta
-gente seria, e agua fresca, não vae!
-
-N'esse momento um dos commissarios das corridas, um rapagão sem barba,
-vermelho como uma papoula, a pingar de suor sob o chapéo branco deitado
-para a nuca, veio arrebatar o Darque, «que era muito preciso, lá na
-pesagem, para uma duvidasinha.»
-
---Eu sou o diccionario, dizia o Darque, tornando a encolher os hombros
-resignadamente. De vez em quando vem um d'estes senhores do Jockey-Club,
-e folheia-me... Veja você, Maia, em que estado eu fico depois das
-corridas! Ha-de ser necessario encadernar-me de novo...
-
-E lá foi, rindo da sua pilheria--empurrado para diante pelo commissario,
-que lhe dava palmadas familiares nas costas, e lhe chamava _catita_.
-
---Vamos nós vêr as mulheres, disse Carlos.
-
-Seguiram devagar ao comprido da tribuna. Debruçadas no rebordo, n'uma
-fila muda, olhando vagamente, como d'uma janella em dia de procissão,
-estavam ali todas as senhoras que vêem no high-life dos jornaes, as dos
-camarotes de S. Carlos, as das terças-feiras dos Gouvarinhos. A maior
-parte tinha vestidos serios de missa. Aqui e além um d'esses grandes
-chapéos emplumados á Gainsborough, que então se começavam a usar,
-carregava d'uma sombra maior o tom trigueiro d'uma carinha miuda. E na
-luz franca da tarde, no grande ar da collina descoberta, as pelles
-appareciam murchas, gastas, molles, com um baço de pó de arroz.
-
-Carlos cumprimentou as duas irmãs do Taveira, magrinhas, loirinhas,
-ambas correctamente vestidas de xadrezinho: depois a viscondessa
-d'Alvim, nedia e branca, com o corpete negro reluzente de vidrilhos,
-tendo ao lado a sua terna inseparavel, a Joaninha Villar, cada vez mais
-cheia, com um quebranto cada vez mais doce nos olhos pestanudos. Adiante
-eram as Pedrosos, as banqueiras, de côres claras, interessando-se pelas
-corridas, uma de programma na mão, a outra de pé e de binoculo estudando
-a pista. Ao lado, conversando com Steinbroken, a condessa de Soutal,
-desarranjada, com um ar de ter lama nas saias. N'uma bancada isolada, em
-silencio, Villaça com duas damas de preto.
-
-A condessa de Gouvarinho ainda não viera. E não estava tambem aquella
-que os olhos de Carlos procuravam, inquietamente e sem esperança.
-
---É um canteirinho de camelias meladas, disse o Taveira, repetindo um
-dito do Ega.
-
-Carlos, no entanto, fôra fallar á sua velha amiga D. Maria da Cunha que,
-havia momentos, o chamava com o olhar, com o leque, com o seu sorriso de
-bôa mamã. Era a unica senhora que ousara descer do retiro ajanellado da
-tribuna, e vir sentar-se em baixo, entre os homens: mas, como ella
-disse, não aturara a séca de estar lá em cima perfilada, á espera da
-passagem do Senhor dos Passos. E, bella ainda sob os seus cabellos já
-grisalhos, só ella parecia divertir-se alli, muito á vontade, com os pés
-pousados na travessa d'uma cadeira, o binoculo no regaço, cumprimentada
-a cada instante, tratando os rapazes por _meninos_... Tinha comsigo uma
-parenta que apresentou a Carlos, uma senhora hespanhola, que seria
-bonita se não fossem as olheiras negras, cavadas até ao meio da face.
-Apenas Carlos se sentou ao pé d'ella, D. Maria perguntou-lhe logo por
-esse aventureiro do Ega. Esse aventureiro, disse Carlos, estava em
-Celorico compondo uma comedia para se vingar de Lisboa, chamada o
-_Lodaçal_...
-
---Entra o Cohen? perguntou ella, rindo.
-
---Entramos todos, sr.^a D. Maria. Todos nós somos lodaçal...
-
-N'esse momento, por traz do recinto, rompia, com um taran-tan-tan
-mollengão de tambores e pratos, o hymno da Carta, a que se misturou uma
-voz de official e o bater de coronhas. E, entre dourados de dragonas,
-El-rei appareceu na tribuna, sorrindo, de quinzena de velludo, e chapéo
-branco. Aqui e além, raros sujeitos cumprimentaram, muito de leve: a
-senhora hespanhola, essa, tomou o oculo do regaço de D. Maria, e de pé,
-muito descançadamente, poz-se a examinar o rei. D. Maria achava ridicula
-a musica, dando ás corridas um ar de arraial... Além d'isso, que tolice,
-o hymno, como n'um dia de parada!
-
---E este hymno, então, que é medonho, dizia Carlos. A sr.^a D. Maria não
-sabe a definição do Ega, e a sua theoria dos hymnos? Maravilhosa!
-
---Aquelle Ega! dizia ella sorrindo, já encantada.
-
---O Ega diz que o hymno é a definição pela musica do caracter d'um povo.
-Tal é o compasso do hymno nacional, diz elle, tal é o movimento moral da
-nação. Agora veja a sr.^a D. Maria os differentes hymnos, segundo o Ega.
-A _Marselheza_ avança com uma espada núa. O _God save the queen_
-adianta-se, arrastando um manto real...
-
---E o hymno da Carta?
-
---O hymno da Carta ginga, de rabona.
-
-E D. Maria ria ainda, quando a hespanhola, sentando-se e repousando-lhe
-tranquillamente o binoculo no regaço, murmurou:
-
---Tiene cara de buena persona.
-
---Quem, o rei? exclamaram a um tempo D. Maria e Carlos. Excellente!
-
-No entanto uma sineta tocava, perdida no ar. E no quadro indicador
-subiram os numeros dos dois cavallos que corriam o primeiro premio dos
-_Productos_. Eram o n.^o 1 e o n.^o 4. D. Maria Telles quiz-lhe saber os
-nomes, com o appetite de apostar e ganhar cinco tostões a Carlos. E como
-Carlos se erguia para arranjar um programma:
-
---Deixe estar o menino, disse ella, tocando-lhe no braço. Ahi vem o
-nosso Alencar, com o programma... Olhe para aquillo! Veja se ainda hoje
-os ha por ahi com aquelle ar de sentimento e de poesia...
-
-Com um fato novo de cheviote claro que o remoçava, de luvas gris-perle,
-o seu bilhete de pezagem na botoeira, o poeta vinha-se abanando com o
-programma, e já de longe sorrindo á sua boa amiga D. Maria. Quando
-chegou junto d'ella, descoberto, bem penteado n'esse dia, com um lustre
-d'oleo na grenha, levou-lhe a mão aos labios, fidalgamente.
-
-D. Maria fôra uma das suas lindas contemporaneas. Tinham dançado muita
-ardente mazurka nos salões de Arroios. Ella tratava-o por _tu_. Elle
-dizia sempre _boa amiga_, e _querida Maria_.
-
---Deixa vêr os nomes d'esses cavallos, Alencar... Senta-t'ahi, anda,
-faze companhia.
-
-Elle puchou uma cadeira, rindo do interesse que ella tomava pelas
-corridas. E elle que a conhecera sempre uma enthusiasta de toiros!...
-Pois os nomes dos cavallos eram _Jupiter_ e _Escossez_...
-
---Nenhum d'esses nomes me agrada, não aposto. E então que te parece tudo
-isto, Alencar?... A nossa Lisboa vae-se sahindo da concha...
-
-Alencar, pousando o chapéo sobre uma cadeira, e passando a mão pela sua
-vasta fronte de bardo, confessou que aquillo tinha realmente um certo ar
-de elegancia, um perfume de côrte... Depois, lá em baixo, aquelle
-maravilhoso Tejo... Sem fallar na importancia do apuramento das raças
-cavallares...
-
---Pois não é verdade, meu Carlos? Tu que entendes superiormente d'isso,
-que és um mestre em todos os _sports_, sabes bem que o apuramento...
-
---Sim, com effeito, o apuramento, muito importante...--disse Carlos,
-vagamente, erguendo-se a olhar outra vez á tribuna.
-
-Eram quasi tres horas, e agora, de certo, _ella_ já não vinha: e a
-condessa de Gouvarinho não apparecia tambem... Começava a invadil-o uma
-grande lassitude. Respondendo, com um leve movimento de cabeça, ao
-sorriso doce que lhe dava da tribuna a Joaninha Villar, pensava em
-voltar para o Ramalhete, acabar tranquillamente a tarde dentro do seu
-robe-de-chambre, com um livro, longe de todo aquelle tédio.
-
-No entanto, ainda entravam senhoras. A menina Sá Videira, filha do rico
-negociante de sapatos d'ourello, passou pelo braço do irmão, abonecada,
-com o arsinho petulante e enojado de tudo, fallando alto inglez. Depois
-foi a ministra da Baviera, a baroneza de Craben, enorme, empavoada, com
-uma face macissa de matrona romana, a pelle cheia de manchas côr de
-tomate, a estalar dentro d'um vestido de gorgorão azul com riscas
-brancas: e atraz o barão, pequenino, amavel, aos pulinhos, com um grande
-chapéo de palha.
-
-D. Maria da Cunha erguera-se para lhes fallar: e durante um momento
-ouviu-se, como um glou-glou grosso de perú, a voz da baroneza achando
-_que c'était charmant, c'était très beau_. O barão, aos pulinhos, aos
-risinhos, _trouvait ça ravissant_. E o Alencar, diante d'aquelles
-estrangeiros que o não tinham saudado, apurava a sua attitude de grande
-homem nacional, retorcendo a ponta dos bigodes, alçando mais a fronte
-núa.
-
-Quando elles seguiram para a tribuna, e a boa D. Maria se tornou a
-sentar, o poeta, indignado, declarou que abominava allemães! O ar de
-sobranceria com que aquella ministra, com feitio de barrica deixando
-sahir o cebo por todas as costuras do vestido, o olhára, a elle! Ora, a
-insolente baleia!
-
-D. Maria sorria, olhando com sympathia o poeta. E voltando-se de repente
-para a senhora hespanhola:
-
---Concha, deja-me presentar-te D. Thomaz de Alencar, nuestro gran poeta
-lyrico...
-
-N'esse momento, algum dos rapazes mais amadores, dos que traziam
-binoculos a tiracollo, apressaram o passo para a corda da pista. Dois
-cavallos passavam n'um galope sereno, quasi juntos, sob as vergastadas
-estonteadas de dois jockeys de grande bigode. Uma voz erguendo-se disse
-que tinha ganhado _Escossez_. Outros affirmavam que fôra _Jupiter_. E no
-silencio que se fez, de lassidão e de desapontamento, ondeou mais viva
-no ar, lançada pelos flautins da banda, a valsa de _madame Angot_.
-Alguns sujeitos tinham-se conservado de costas para a pista, fumando,
-olhando a tribuna--onde as senhoras continuavam debruçadas no parapeito,
-á espera do Senhor dos Passos. Ao lado de Carlos, um cavalheiro resumiu
-as impressões, dizendo que tudo _aquillo era uma intrujice_.
-
-E quando Carlos se ergueu para ir procurar o Damaso, Alencar, muito
-animado com a hespanhola, fallava de Sevilha, de malagueñas e do coração
-d'Espronceda.
-
-O desejo de Carlos agora era achar Damazo, saber porque falhara a visita
-aos Olivaes--e depois ir-se embora para o Ramalhete, esconder aquella
-melancolia que o enevoava, estranha e pueril, misturada de
-irritabilidade, fazendo-lhe detestar as vozes que lhe fallavam, os
-rantatans da musica, até a belleza calma da tarde... Mas ao dobrar a
-esquina da tribuna, topou com Craft, que o deteve, o apresentou a um
-rapaz loiro e forte com quem estava fallando alegremente. Era o famoso
-Clifford, o grande sportman de Cordova. Em redor sujeitos tinham parado,
-embasbacados para aquelle inglez legendario em Lisboa, dono de cavallos
-de corridas, amigo do rei d'Hespanha, homem de todos os _chics_. Elle,
-muito á vontade, um pouco _poseur_, com um simples veston de flanella
-azul como no campo, ria alto com o Craft do tempo em que tinham estado
-no collegio de Rugby. Depois pareceu-lhe reconhecer Carlos, amavelmente.
-Não se tinham encontrado havia quasi um anno, em Madrid, n'um jantar, em
-casa de Pancho Calderon? E assim era. O aperto de mão que repetiram foi
-mais intimo--e Craft quiz que fossem regar aquella flor d'amisade com
-uma garrafa de mau Champagne. Em roda crescera a pasmaceira.
-
-O buffete estava installado debaixo da tribuna, sob o taboado nú, sem
-sobrado, sem um ornato, sem uma flor. Ao fundo corria uma prateleira de
-taberna com garrafas e pratos de bolos. E, no balcão tosco, dois
-criados, estonteados e sujos, achatavam á pressa as fatias de sandwiches
-com as mãos humidas da espuma da cerveja.
-
-Quando Carlos e os seus amigos entraram, havia junto d'um dos barrotes
-que especavam os degraus da tribuna, n'um grupo animado, com copos de
-champagne na mão, o marquez, o visconde de Darque, o Taveira, um rapaz
-pallido de barba preta, que tinha debaixo do braço enrolada a bandeira
-vermelha de _Starter_, e o commissario imberbe, com o chapéo branco cada
-vez mais atirado para a nuca, a face mais esbrazeada, o collarinho já
-molle de suor. Era elle que offerecia o champagne; e apenas viu entrar
-Clifford, rompeu para elle, de taça no ar, fez tremer as vigas, soltando
-o seu vozeirão:
-
---Á saude do amigo Clifford! o primeiro sportman da península, e rapaz
-cá dos nossos!... Hip hip, hurrah!
-
-Os copos ergueram-se, n'um clamor d'hurrahs, onde destacou, vibrante e
-enthusiasta, a voz do _starter_. Clifford agradecia, risonho, tirando
-lentamente as luvas--em quanto o marquez, puxando Carlos pelo braço para
-o lado, lhe apresentava rapidamente o commissario, seu primo D. Pedro
-Vargas.
-
---Muito gosto em conhecer...
-
---Qual historias! Eu é que fazia furor! exclamou o commissario. Cá a
-rapaziada do sport deve-se conhecer toda... Porque isto cá é a
-confraria, e todo o resto é chinfrinada!
-
-E immediatamente arrebatou o copo ao ar, berrou com um impeto que lhe
-trazia mais sangue á face:
-
---Á saude de Carlos da Maia, o primeiro elegante cá da patria! a melhor
-mão de redea... Hip, hip, hurrah...
-
---Hip, hip, hip... Hurrah!
-
-E foi ainda a voz do starter que deu o _hurrah_ mais vibrante e mais
-enthusiasta.
-
-Um empregado assomou á porta do buffete, e chamou o sr. commissario. O
-Vargas atirou uma libra para o balcão, abalou, gritando já de fóra, com
-o olho acceso:
-
---Isto vae-se animando, rapazes! Caramba! É carregar no liquido! E você,
-oh lá de baixo, o patrão, sô Manuel, mande vir esse gelo... Está a gente
-aqui a tomar a bebida quente... Despache um proprio, vá você, rebente!
-Irra!
-
-No entanto em quanto se desarrolhava o champagne de Craft, Carlos tinha
-convidado Clifford a jantar n'essa noite no Ramalhete. O outro acceitou,
-molhando os labios no copo, achando excellente que se continuasse a
-tradição de jantarem juntos, sempre que se encontravam.
-
---Olá! o general por aqui! exclamou Craft.
-
-Os outros voltaram-se. Era o Sequeira, com a face como um pimentão,
-entalado n'uma sobrecasaca curta que o fazia mais atarracado, de chapeu
-branco sobre o olho, e grande chicote debaixo do braço.
-
-Acceitou um copo de Champagne, e teve muito prazer em conhecer o sr.
-Clifford...
-
---E que me diz você a esta semsaboria? exclamou elle logo, voltando-se
-para Carlos.
-
-Em quanto a si estava contente, pulava... Aquella corrida insipida, sem
-cavallos, sem jockeys, com meia duzia de pessoas a bocejar em roda,
-dava-lhe a certeza que eram talvez as ultimas, e que o _Jockey-Club_
-rebentava... E ainda bem! Via-se a gente livre d'um divertimento que não
-estava nos habitos do paiz. Corridas era para se apostar. Tinha-se
-apostado? Não, então historias!... Em Inglaterra e em França, sim! Ahi
-eram um jogo como a roletta, ou como o monte... Até havia banqueiros,
-que eram os _bookmakers_... Então já viam!
-
-E como o marquez, pousando o copo, e querendo calmar o general, fallava
-do apuramento das raças, e da remonta,--o outro ergueu os hombros, com
-indignação:
-
---Que me está você a cantar! Quer você dizer que se apura a raça para a
-remonta da cavallaria?... Ora vá lá montar o exercito com cavallos de
-corridas!... Em serviço o que se quer não é o cavallo que corra mais, é
-o cavallo que aguente mais... O resto é uma historia... Cavallos de
-corridas são phenomenos! São como o boi com duas cabeças... Então
-historias!... Em França até lhe dão Champagne, homem!... Então veja lá!
-
-E a cada phrase, sacudia os hombros, furiosamente. Depois, d'um trago,
-esvasiou o seu copo de Champagne, repetiu que tinha muito prazer em
-conhecer o sr. Clifford, rodou sobre os tacões, sahiu, bufando,
-entalando mais debaixo do braço o chicote--que tremia na ponta como
-avido de vergastar alguem.
-
-Craft sorria, batia no hombro de Clifford.
-
---Veja você! cá nós, velhos portuguezes, não gostamos de novidades, e de
-_sports_... Somos pelo toiro...
-
---Com razão, dizia o outro, serio e aprumando-se sobre o collarinho.
-Ainda ha dias me contava na Granja, o Rei de Hespanha...
-
-De repente, fóra, houve um reboliço, e vozes sobresaltadas gritando
-_ordem_! Uma senhora, que atravessava com um pequenito, fugiu para
-dentro do buffete, enfiada. Um policia passou, correndo.
-
-Era uma desordem!
-
-Carlos e os outros, sahindo á pressa, viram ao pé da tribuna real um
-magote de homens--onde bracejava o Vargas. Do largo da pesagem, os
-rapazes corriam com curiosidade, já excitados, apinhando-se, alçando-se
-em bicos de pés; do recinto das carruagens acudiam outros, saltando as
-cordas da pista, apesar dos repellões dos policias:--e agora era uma
-massa tumultuosa de chapéos altos, de fatos claros, empurrando-se contra
-as escadas da tribuna real, onde um ajudante d'el-rei, reluzente de
-agulhetas e em cabello, olhava tranquillamente.
-
-E Carlos, furando, poude emfim avistar no meio do montão um dos sujeitos
-que correra no premio dos Productos, o que montava _Jupiter_, ainda de
-botas, com um paletot alvadio por cima da jaqueta de jockey, furioso,
-perdido, injuriando o juiz das corridas, o Mendonça, que arregalava os
-olhos, aturdido e sem uma palavra. Os amigos do jockey puxavam-n'o,
-queriam que elle fizesse um protesto. Mas elle batia o pé, tremulo,
-livido, gritando que não se importava nada com protestos! Perdera a
-corrida por uma pouca vergonha! O protesto alli era um arrocho! Porque o
-que havia n'aquelle hyppodromo era compadrice e ladroeira!
-
-Individuos, mais serios, indignaram-se com esta brutalidade.
-
---Fóra! Fóra!
-
-Alguns tomavam o partido do jockey; já aos lados outras questões
-surgiam, desabridas. Um sujeito vestido de cinzento berrava que o
-Mendonça decidira pelo Pinheiro, que montava _Escossez_, por ser intimo
-d'elle; outro cavalheiro, de binoculo a tiracollo, achava aquella
-insinuação infame; e os dois, frente a frente, com os punhos fechados,
-tratavam-se furiosamente de _pulhas_.
-
-E, todo este tempo, um homem baixote, de grandes collarinhos de
-pintinhas, procurava romper, erguia os braços, exclamava, n'uma voz
-supplicante e rouca:
-
---Por quem são, meus senhores... Um momento... Eu tenho experiencia...
-Eu tenho experiencia!
-
-De repente o vozeirão do Vargas dominou tudo, como um urro de toiro.
-Diante do jockey, sem chapéo, com a face a estoirar de sangue,
-gritava-lhe que era indigno de estar alli, entre gente decente! Quando
-um gentleman duvida do juiz da corrida, faz um protesto! Mas vir dizer
-que ha ladrões, era só d'um canalha e d'um fadista, como elle, que nunca
-devia ter pertencido ao Jockey-Club!--O outro, agarrado pelos amigos,
-esticando o pescoço magro como para lhe morder, atirou-lhe um nome sujo.
-Então o Vargas, com um encontrão para os lados, abriu espaço, repuxou as
-mangas, berrou:
-
---Repita lá isso! repita lá isso!
-
-E immediatamente aquella massa de gente oscillou, embateu contra o
-taboado da tribuna real, remoinhou em tumulto, com vozes de _ordem_ e
-_morra_, chapéos pelo ar, baques surdos de murros.
-
-Por entre o alarido vibravam, furiosamente, os apitos da policia;
-senhoras, com as saias apanhadas, fugiam atravez da pista, procurando
-espavoridamente as carruagens;--e um sopro grosseiro de desordem relles
-passava sobre o hyppodromo, desmanchando a linha postiça de civilisação
-e a attitude forçada de decoro...
-
-Carlos achou-se ao pé do marquez, que exclamava, pallido:
-
---Isto é incrivel, isto é incrivel!...
-
-Carlos, pelo contrario, achava pittoresco.
-
---Qual pittoresco, homem! É uma vergonha, com todos esses estrangeiros!
-
-No entanto a massa de gente dispersava, lentamente, obedecendo ao
-official de guarda, um moço pequenino mas decidido, que, em bicos de
-pés, aconselhava para os lados, n'uma voz de orador, «cavalheirismo» e
-«prudencia...» O jockey de paletot alvadio affastou-se, apoiado ao braço
-d'um amigo, cocheando, com o nariz a pingar sangue: e o commissario
-desceu para a pista, com um cortejo atraz, triumphante, sem collarinho,
-arranjando o chapéo achatado n'uma pasta. A musica tocava a marcha do
-_Propheta_; em quanto o desgraçado juiz das corridas, o Mendonça,
-encostado á tribuna real, com os braços cahidos, aparvalhado, balbuciava
-n'um resto d'assombro:
-
---Isto só a mim! Isto só a mim!
-
-O marquez, n'um grupo a que se juntára o Clifford, Craft, e Taveira,
-continuava a vociferar:
-
---Então, estão convencidos? Que lhes tenho eu sempre dito? Isto é um
-paiz que só supporta hortas e arraiaes... Corridas, como muitas outras
-coisas civilisadas lá de fóra, necessitam primeiro gente educada. No
-fundo todos nós somos fadistas! Do que gostamos é de vinhaça, e viola, e
-bordoada, e viva lá seu compadre! Ahi está o que é!
-
-Ao lado d'elle Clifford, que no meio d'aquelle desmancho todo esticava
-mais correctamente a sua linha de gentleman, mordia um sorriso,
-assegurando, com um ar de consolação, que conflictos eguaes succedem em
-toda a parte... Mas no fundo parecia achar tudo aquillo ignobil.
-Dizia-se mesmo que elle ia retirar a _Mist_. E alguns davam-lhe razão.
-Que diabo! Era aviltante para um bello animal de raça correr n'um
-hyppodromo sem ordem e sem decencia, onde a todo o momento podiam
-reluzir navalhas.
-
---Ouve cá, tu viste por acaso esse animal do Damaso? perguntou Carlos,
-chamando para o lado o Taveira. Ha uma hora que ando a farejal-o...
-
---Estava ainda ha pouco do outro lado, no recinto das carruagens, com a
-Josephina do Salazar... Anda extraordinario, de sobrecasaca branca, e de
-véo no chapéo!
-
-Mas, quando d'ahi a pouco, Carlos quiz atravessar, a pista estava
-fechada. Ia-se correr o _Grande premio nacional_. Os numeros já tinham
-subido ao indicador, um tom de sineta morria no ar. Um cavallo do
-Darque, o _Rabbino_, com o seu jockey de encarnado e branco, descia,
-trazido á redea por um groom e acompanhado pelo Darque: alguns sujeitos
-paravam a examinar-lhe as pernas, com o olho serio, affectando entender.
-Carlos demorou-se um momento tambem, admirando-o: era d'um bonito
-castanho escuro, nervoso e ligeiro, mas com o peito estreito.
-
-Depois, ao voltar-se, viu de repente a Gouvarinho, que acabava de certo
-de chegar, e conversava de pé com D. Maria da Cunha. Estava com uma
-toilette ingleza, justa e simples, toda de cazimira branca, d'um branco
-de creme, onde as grandes luvas negras á mosqueteira punham um contraste
-audaz: e o chapéo preto tambem desapparecia sob as pregas finas d'um véo
-branco, enrolado em volta da cabeça, cobrindo-lhe metade do rosto, com
-um ar oriental que não ía bem ao seu narizinho curto, ao seu cabello côr
-de braza. Mas em redor os homens olhavam para ella como para um quadro.
-
-Ao avistar Carlos, a condessa não conteve um sorriso, um brilho de olhos
-que a illuminou. Instinctivamente deu um passo para elle: e ficaram um
-instante isolados, fallando baixo, em quanto D. Maria os observava,
-sorrindo, cheia já de benevolencia, prompta já a abençoal-os
-maternalmente.
-
---Estive para não vir, dizia a condessa, que parecia nervosa. O Gastão
-fez-se tão desagradavel hoje! E naturalmente tenho d'ir ámanhã para o
-Porto.
-
---Para o Porto?...
-
---O papá quer que eu lá vá, são os annos d'elle... Coitado, vae-se
-fazendo velho, escreveu-me uma carta tão triste... Ha dois annos que me
-não vê...
-
---O conde vae?
-
---Não.
-
-E a condessa, depois de dar um sorriso ao ministro da Baviera, que a
-cumprimentava de passagem, aos pulinhos, acrescentou, mergulhando o
-olhar nos olhos de Carlos:
-
---E quero uma coisa.
-
---O que?
-
---Que venhas tambem.
-
-Justamente n'esse instante, Telles da Gama, de programma e lapis na mão,
-parou junto d'elles:
-
---Você quer entrar n'uma _poule_ monstro, Maia? Quinze bilhetes, dez
-tostões cada um... Lá em cima ao canto da tribuna está-se apostando
-ferozmente... A desordem fez bem, sacudiu os nervos, todo o mundo
-acordou... Quer v. ex.^a tambem, sr.^a condessa?
-
-Sim, a condessa tambem entrava na _poule_. Telles da Gama inscreveu-a, e
-abalou atarefado. Depois foi Steinbroken que se acercou, todo florído,
-de chapéo branco, ferradura de rubis na gravata, mais esticado, mais
-loiro, mais inglez, n'este dia solemne de _sport_ official.
-
---Ah, comme vous êtes belle, comtesse!... Voilá une toilette
-merveilleuse, n'est ce pas, Maia?... Est ce que nous n'allons pas parier
-quelque chose?
-
-A condessa contrariada, querendo fallar a Carlos, risonha todavia,
-lamentou-se de ter já uma fortuna compromettida... Emfim sempre apostava
-cinco tostões com a Filandia. Que cavallo tomava elle?
-
---Ah, je ne sais pas, je ne connais pas les chevaux... D'abord, quand on
-parie...
-
-Ella, impaciente, offereceu-lhe _Vladimiro_. E teve de estender a mão a
-outro filandez, o secretario de Steinbroken, um moço loiro, lento,
-languido, que se curvara em silencio diante d'ella, deixando escorregar
-do olho claro e vago o seu monoculo d'ouro. Quasi immediatamente Taveira
-excitado veiu dizer que Clifford retirara a _Mist_.
-
-Vendo-a, assim cercada, Carlos affastou-se. Justamente o olhar de D.
-Maria, que o não deixara, chamava-o agora, mais carinhoso e vivo. Quando
-elle se chegou, ella puxou-lhe pela manga, fel-o debruçar, para lhe
-murmurar ao ouvido, deliciada:
-
---Está hoje tão galante!
-
---Quem?
-
-D. Maria encolheu os hombros, impaciente.
-
---Ora quem! Quem ha-de ser? O menino sabe perfeitamente. A condessa...
-Está de appetite.
-
---Muito galante, com effeito, disse Carlos friamente.
-
-De pé, junto de D. Maria, tirando de vagar uma cigarrette, elle
-ruminava, quasi com indignação, as palavras da condessa. Ir com ella
-para o Porto!... E via alli outra exigencia audaz, a mesma tendencia
-impertinente a dispôr do seu tempo, dos seus passos, da sua vida! Tinha
-um desejo de voltar junto d'ella, dizer-lhe que _não_, seccamente,
-desabridamente, sem motivos, sem explicações, como um brutal.
-
-Acompanhada em silencio pelo esguio secretario de Steinbroken, ella
-vinha agora caminhando lentamente para elle: e o olhar alegre com que o
-envolvia irritou-o mais, sentindo no seu brilho sereno, no sorrir calmo,
-quanto ella estava certa da sua submissão.
-
-E estava. Apenas o filandez se affastou languidamente--ella, muito
-tranquilla, alli mesmo junto de D. Maria, fallando em inglez, e
-apontando para a pista como se commentasse os cavallos do Darque,
-explicou-lhe um plano que imaginara, encantador. Em logar de partir na
-terça feira para o Porto--ia na segunda á noite, só com a criada
-escocessa, sua confidente, n'um compartimento reservado. Carlos tomava o
-mesmo comboio. Em Santarem, desciam ambos, muito simplesmente, e iam
-passar a noite ao hotel. No dia seguinte ella seguia para o Porto, elle
-recolhia a Lisboa...
-
-Carlos abria os olhos para ella, assombrado, emmudecido. Não esperava
-aquella extravagancia. Suppozera que ella o queria no Porto, escondido
-no _Francfort_, para passeios romanticos á Foz, ou visitas furtivas a
-algum casebre da Aguardente... Mas a idéa d'uma noite, n'um hotel, em
-Santarem!
-
-Terminou por encolher os hombros, indignado. Como queria ella, n'uma
-linha de caminho de ferro em que se encontra constantemente gente
-conhecida, apear-se com elle na estação de Santarem, dar-lhe o braço,
-maritalmente, e enfiarem para uma estalagem? Ella, porém, pensára em
-todos os detalhes. Ninguem a conheceria, disfarçada n'um grande
-_water-proof_, e com uma cabelleira postiça.
-
---Com uma cabelleira!?
-
---O Gastão! murmurou ella de repente.
-
-Era o conde, por traz d'elle, abraçando-o ternamente pela cintura. E
-quiz logo saber a opinião do amigo Maia sobre as corridas. Bastante
-animação, não é verdade? E bonitas _toilettes_, certo ar de luxo...
-Emfim, não envergonhavam. E ahi estava provado o que elle sempre
-dissera, que todos os requintes da civilisação se aclimatavam bem em
-Portugal...
-
---O nosso solo moral, Maia, como o nosso solo physico, é um solo
-abençoado!
-
-A condessa voltara para o pé de D. Maria. E Telles da Gama, passando de
-novo, n'aquella faina ruidosa em que o trazia a formação da sua _poule_,
-chamou Carlos para a tribuna, para elle tirar o seu bilhete, e apostar
-com as senhoras...
-
---Oh Gouvarinho! venha tambem d'ahi, homem! exclamou elle. Que diabo! É
-necessario animar isto, é até patriotico.
-
-E o conde condescendeu, por patriotismo.
-
---É bom, dizia elle, travando do braço de Carlos, fomentar os
-divertimentos elegantes. Já uma vez o disse na camara: o luxo é
-conservador.
-
-Em cima, a um canto, n'um grupo de senhoras, foram com effeito encontrar
-uma animação--que quasi fazia escandalo n'aquella tribuna silenciosa e á
-espera do Senhor dos Passos. A viscondessa de Alvim dobrava
-atarefadamente os bilhetes da _poule_: uma secretariasinha da Russia, de
-bonitos olhos garços, apostava desesperadamente placas de cinco tostões,
-estonteada, já embrulhada, rabiscando com phrenesi o seu programma. A
-Pinheiro, a mais magra, com um vestido leve de raminhos Pompadour que
-lhe fazia covas nas claviculas, dava opiniões pretenciosas sobre os
-cavallos, em inglez: emquanto o Taveira, de olhos humidos no meio de
-todas aquellas saias, fallava de arruinar as senhoras, de viver á custa
-das senhoras... E todos os homens, acotovelando-se, queriam fazer uma
-aposta com a Joanninha Villar, que, de costas contra o rebordo da
-tribuna, gordinha e languida, sorrindo, com a cabeça deitada para traz,
-as pestanas mortas, parecia offerecer a todas aquellas mãos, que se
-estendiam gulosamente para ella, o seu appetitoso peito de rola.
-
-Telles da Gama, no entanto, ia organisando a confusão alegre. Os
-bilhetes estavam dobrados, era necessario um chapéo... Então os
-cavalheiros affectaram um amor desordenado pelos seus chapéos, não os
-querendo confiar ás mãos nervosas das senhoras; um rapaz, todo de luto,
-excedeu-se mesmo, agarrando as abas do seu, com ambas as mãos, aos
-gritos.
-
-A secretariasinha da Russia, impaciente, terminou por offerecer o
-barrete de marujo do seu pequeno--uma creança obesa, pousada alli para
-um lado como uma trouxa. Foi a Joanninha Villar que levou em roda os
-bilhetes, rindo e chocalhando-os preguiçosamente; emquanto o secretario
-de Steinbroken, grave, como exercendo uma funcção, recolhia no seu
-grande chapéo as placas cahindo uma a uma com um som argentino. E a
-tiragem foi o lindo divertimento da _poule_. Como estavam só quatro
-cavallos inscriptos, e as entradas eram quinze, havia onze bilhetes
-brancos que aterravam. Todos ambicionavam tirar o numero tres, o de
-_Rabbino_, o cavallo de Darque, favorito do _Premio Nacional_. Assim
-cada mãosinha soffrega que se demorava no fundo do barrete, remexendo,
-tenteando os papeis, causava uma indignação folgasã, n'um exagero de
-risos.
-
---A sr.^a viscondessa procura de mais!... E dobrou os numeros,
-conhece-os... É necessario probidade, sr.^a viscondessa!
-
---Oh, mon Dieu, j'ai _Minhoto_, cette rosse!
-
---Je vous l'achette, madame!
-
---Ó sr.^a D. Maria Pinheiro, v. ex.^a leva dous numeros!...
-
---Ah! je suis perdue... Blanc!
-
---E eu! É necessario fazer outra _poule_! Vamos fazer outra _poule_!
-
---Isso! Outra _poule_, outra _poule_!
-
-No entanto a enorme baroneza de Craben, n'um degrau mais elevado, que
-ella occupava só, como um throno, erguera-se, com o seu bilhete na mão.
-Tinha tirado _Rabbino_: e affectava superiormente não comprehender esta
-fortuna, perguntava o que era _Rabbino_. Quando o conde de Gouvarinho
-lhe explicou muito serio a importancia de _Rabbino_, e que _Rabbino_ era
-quasi uma gloria publica, ella mostrou a dentuça, condescendeu em rosnar
-do fundo do papo que _c'etait charmant_. Todo o mundo a invejava; e a
-vasta baleia alastrou-se de novo sobre o seu throno, abanando-se, com
-magestade.
-
-E subitamente houve uma surpreza: em quanto elles tiravam os bilhetes,
-os cavallos tinham partido, passavam juntos diante da tribuna. Todos se
-ergueram, de binoculos na mão. O _starter_ ainda estava na pista, com a
-bandeira vermelha inclinada ao chão: e as ancas de cavallos fugiam na
-curva, lustrosos á luz, sob as jaquetas enfunadas dos jockeys.
-
-Então todo o rumor de vozes caiu; e no silencio a bella tarde pareceu
-alargar-se em redor, mais suave e mais calma. Atravez do ar sem poeira,
-sem a vibração dos raios fortes, tudo tomava uma nitidez delicada:
-defronte da tribuna, na collina, a relva era d'um louro quente; no grupo
-de carruagens scintillava por vezes o vidro de uma lanterna, o metal de
-um arreio, ou de pé, sobre uma almofada, destacava em escuro alguma
-figura de chapeo alto; e pela pista verde, os cavallos corriam, mais
-pequenos, finamente recortados na luz. Ao fundo, a cal das casas
-cobria-se de uma leve agoada côr de rosa: e o distante horisonte
-resplandecia, com dourados de sol, brilhos de rio vidrado, fundindo-se
-n'uma nevoa luminosa, onde as collinas, nos seus tons azulados, tinham
-quasi transparencia, como feitas d'uma substancia preciosa...
-
---É _Rabbino_! exclamou por traz de Carlos, um sugeito, de pé n'um
-degrau.
-
-As côres encarnadas e brancas do Darque corriam com effeito na frente.
-Os dous outros cavallos iam juntos; e, o ultimo, n'um galope que
-adormecia, era _Vladimiro_, outro potro do Darque, baio-claro, quasi
-louro á luz.
-
-Então, a secretaria da Russia bateu as palmas, interpellou Carlos, que
-justamente tirara na poule o numero de _Vladimiro_. A ella coubera
-_Minhoto_, uma pileca melancolica do Manoel Godinho; e tinham feito
-sobre os dous cavallos uma aposta complicada de luvas e de amendoas. Já
-umas poucas de vezes os seus lindos olhos garços tinham procurado os de
-Carlos; e agora tocava-lhe no braço com o leque, gracejava,
-triumphava...
-
---Ah, vous avez perdu, vous avez perdu! Mais c'est un vieux cheval de
-fiacre, vôtre _Vladimir_.
-
-Como um cavallo de fiacre? _Vladimiro_ era o melhor potro do Darque!
-Talvez ainda viesse a ser a unica gloria de Portugal, como outr'ora o
-_Gladiador_ fôra a unica gloria da França! Talvez ainda substituisse
-Camões...
-
---Ah, vous plaisantez...
-
-Não, Carlos não gracejava. Estava até prompto a apostar tudo por
-_Vladimiro_.
-
---Você aposta por _Vladimiro_? gritou Telles da Gama, voltando-se
-vivamente.
-
-Carlos, por divertimento, sem mesmo saber por quê, declarou que tomava
-_Vladimiro_. Então, em roda, foi uma surpreza; e todo o mundo quiz
-apostar, aproveitar-se d'aquella phantasia de homem rico, que sustentava
-um potro verde, de tres quartos de sangue, a que o proprio Darque
-chamava _pileca_. Elle sorria, aceitava; terminou ate por erguer a voz,
-proclamar _Vladimiro contra o campo_. E de todos os lados o chamavam,
-n'uma sofreguidão de saque.
-
---Mr. de Maia, dix tostons.
-
---Parfaitement, madame.
-
---Oh Maia, você quer meia libra?
-
---Ás ordens.
-
---Maia, tambem eu! Ouça lá... Tambem eu!... Dous mil réis.
-
---Ó sr. Maia, eu vou dez tostões...
-
---Com o maior prazer, minha senhora...
-
-Ao longe os cavallos davam a volta, na subida do terreno. _Rabbino_ já
-desapparecera,--e _Vladimiro_ n'um galope a que se sentia o cançasso,
-corria só na pista. Uma voz elevou-se, dizendo que elle manquejava.
-Então Carlos, que continuava a tomar _Vladimiro_ contra o campo, sentiu
-que lhe puxavam de vagar pela manga; voltou-se; era o secretario de
-Steinbroken, chegando subtilmente a tomar tambem parte no saque á bolsa
-do Maia, propondo dous soberanos, em seu nome e em nome do seu chefe,
-como uma aposta collectiva da legação, a aposta do reino da Filandia.
-
---C'est fait, monsieur! exclamou Carlos, rindo.
-
-Agora começava a divertir-se. Apenas vira de relance _Vladimiro_, e
-gostara da cabeça ligeira do potro, do seu peito largo e fundo; mas
-apostava sobre tudo para animar mais aquelle recanto da tribuna, ver
-brilhar gulosamente os olhos interesseiros das mulheres. Telles da Gama
-ao lado approvava-o, achava aquillo patriotico e _chic_.
-
---É _Minhoto_! gritou de repente Taveira.
-
-Na volta, com effeito, fizera-se uma mudança. Subitamente _Rabbino_
-perdera terreno, resistindo á subida, com o folego curto. E agora era
-_Minhoto_, o cavallicoque obscuro de Manuel Godinho, que se arremessava
-para a frente, vinha devorando a pista, n'um esforço continuo,
-admiravelmente montado por um jockey hespanhol. E logo atraz vinham as
-côres escarlates e brancas de Darque: ao principio ainda pareceu que era
-_Rabbino_: mas, apanhado de repente n'um raio oblíquo de sol, o cavallo
-cobriu-se de tons lustrosos de baio claro, e foi uma surpreza ao
-reconhecer-se que era _Vladimiro_! A corrida travava-se entre elle e
-_Minhoto_.
-
-Os amigos de Godinho, precipitando-se para a pista, bradavam, de chapéos
-no ar:
-
---_Minhoto, Minhoto!_
-
-E, em redor de Carlos, os que tinham apostado pelo campo contra
-_Vladimiro_ faziam tambem votos por _Minhoto_, em bicos de pés, junto do
-parapeito da tribuna, estendendo o braço para elle, animando-o:
-
---Anda _Minhoto_!... Isso, assim!... Aguenta, rapaz!... Bravo!...
-_Minhoto! Minhoto!_
-
-A russa, toda nervosa, na esperança de ganhar a _poule_, batia as
-palmas. Até a enorme Craben se erguera, dominando a tribuna, enchendo-a
-com os seus gorgorões azues e brancos:--em quanto que, ao lado d'ella, o
-conde de Gouvarinho, tambem de pé, sorria, contente no seu peito de
-patriota, vendo n'aquelles jockeys á desfilada, nos chapéos que se
-agitavam, brilhar civilisação...
-
-De repente, de baixo, d'ao pé da tribuna, d'entre os rapazes que
-cercavam o Darque, uma exclamação partiu.
-
---_Vladimiro! Vladimiro!_
-
-Com um arranque desesperado o potro viera juntar-se a _Minhoto_: e agora
-chegavam furiosamente, com brilhos vivos de côres claras, os focinhos
-juntos, os olhos esbogalhados, sob uma chuva de vergastadas.
-
-Telles da Gama, esquecido da sua aposta, todo pelo Darque, seu intimo,
-berrava por _Vladimiro_. A russa, de pé n'um degrau, apoiada sobre o
-hombro de Carlos, pallida, excitada, animava _Minhoto_ com gritinhos,
-com pancadas de leque. A agitação d'aquelle canto da tribuna
-estendera-se em baixo ao recinto--onde se via uma linha de homens,
-contra a corda da pista, bracejando. Do outro lado, era uma fila de
-rostos pallidos, fixos n'uma curta anciedade. Algumas senhoras tinham-se
-posto de pé nas carruagens. E atravez da collina, para ver a chegada,
-dous cavalleiros, segurando com as mãos os chapéos baixos, corriam á
-desfilada.
-
---_Vladimiro! Vladimiro!_ foram de novo os gritos isolados, aqui, além.
-
-Os dous cavallos approximavam-se, com um som surdo das patas, trazendo
-um ar de rajada.
-
---_Minhoto! Minhoto!_
-
---_Vladimiro! Vladimiro!_
-
-Chegavam... De repente o jockey inglez de _Vladimiro_, todo em fogo,
-levantando o potro que lhe parecia fugir d'entre as pernas, esticado e
-lustroso, fez silvar triumphantemente o chicote, e d'um arremesso
-directo lançou-o além da meta, duas cabeças adiante de _Minhoto_, todo
-coberto d'espuma.
-
-Então em volta de Carlos foi uma desconsolação, um longo murmurio de
-lassidão. Todos perdiam; elle apanhava a _poule_, ganhava as apostas,
-empolgava tudo. Que sorte! Que chance! Um addido italiano, thesoureiro
-da _poule_, empallideceu ao separar-se do lenço cheio de prata: e de
-todos os lados mãosinhas calçadas de gris-perle, ou de castanho,
-atiravam-lhe com um ar amuado as apostas perdidas, chuva de placas que
-elle recolhia, rindo, no chapéo.
-
---Ah, monsieur, exclamou a vasta ministra da Baviera, furiosa,
-mefiez-vous... Vous connaissez le proverbe: heureux au jeu...
-
---Helas! madame! disse Carlos, resignado, estendendo-lhe o chapéo.
-
-E outra vez um dedo subtil tocou-lhe no braço. Era o secretario de
-Steinbroken, lento e silencioso, que lhe trazia o seu dinheiro e o
-dinheiro do seu chefe, a aposta do reino da Filandia.
-
---Quanto ganha você? exclamou Telles da Gama, assombrado.
-
-Carlos não sabia. No fundo do chapéo já reluzia ouro. Telles contou, com
-o olho brilhante.
-
---Você ganha doze libras! disse elle maravilhado, e olhando Carlos com
-respeito.
-
-Doze libras! Esta somma espalhou-se em redor, n'um rumor de espanto.
-Doze libras! Em baixo os amigos de Darque, agitando os chapéos, davam
-ainda _hurrahs_. Mas uma indifferença, um tedio lento, ia pesando outra
-vez, desconsoladoramente. Os rapazes vinham-se deixar cahir nas
-cadeiras, bocejando, com um ar exhausto. A musica, desanimada tambem,
-tocava cousas plangentes da _Norma_.
-
-Carlos, no entanto, n'um degrau da tribuna, com a idéa de descobrir o
-Damaso, sondava de binoculo o recinto das carruagens. A gente, agora, ia
-dispersando pela collina. As senhoras tinham retomado a immobilidade
-melancolica, no fundo das caleches, de mãos no regaço. Aqui e além um
-dog-cart, mal arranjado, dava um trote curto pela relva. N'uma vittoria
-estavam as duas hespanholas do Eusebiosinho, a Concha e a Carmen, de
-sombrinhas escarlates. E sujeitos, de mãos atrás das costas, pasmavam
-para um char-à-bancs a quatro attrelado á Daumont onde, entre uma
-familia triste, uma ama de lenço de lavradeira dava de mamar a uma
-creança cheia de rendas. Dous garotos esganiçados passeavam bilhas
-d'agua fresca.
-
-Carlos descia da tribuna, sem ter descoberto o Damaso--quando deu
-justamente de frente com elle, dirigindo-se para a escada, affogueado,
-flamante, na sua famosa sobrecasaca branca.
-
---Onde diabo tens tu estado, creatura?
-
-O Damaso agarrou-o pelo braço, alçou-se em bicos de pés, para lhe contar
-ao ouvido que tinha estado do outro lado com uma gaja divina, a
-Josephina do Zalazar... Chic a valer! lindamente vestida! parecia-lhe
-que tinha mulher!
-
---Ah, Sardanapalo!...
-
---Faz-se pela vida... Volta cá acima á tribuna, anda. Eu ainda hoje não
-pude cavaquear com o _high-life_!... Mas estou furioso, sabes?
-Implicaram com o meu veo azul. Isto é um paiz de bestas! Logo troça, e
-_olhe não creste a pelle_, e _onde mora, ó catitinha?_ e chalaça... Uma
-canalha! Tive de tirar o veo ... Mas já resolvi. Para as outras corridas
-venho nú. Palavra, venho nú! Isto é a vergonha da civilisação, esta
-terra! Não vens d'ahi? Então até já.
-
-Carlos deteve-o.
-
---Escuta lá homem, tenho que te dizer... Então, essa visita aos
-Olivaes?... Nunca mais appareceste... Tinhamos combinado que fosses
-convidar o Castro Gomes, que viesses dar a resposta... Não vens, não
-mandas... O Craft á espera... Emfim um procedimento de selvagem.
-
-Damaso atirou os braços ao ar. Então Carlos não sabia? Havia grandes
-novidades! Elle não voltara ao Ramalhete, como estava combinado, porque
-o Carlos Gomes não podia ir aos Olivaes. Ia partir para o Brazil. Já
-partirá mesmo, na quarta feira. A coisa mais extraordinaria... Elle
-chega lá, para fazer o convite, e s. ex.^a declara-lhe que sente muito,
-mas que parte no dia seguinte para o Rio... E já de mala feita, já
-alugada uma casa para a mulher ficar aqui á espera tres mezes, já a
-passagem no bolso. Tudo de repente, feito de sabbado para segunda
-feira... Telhudo, aquelle Castro Gomes.
-
---E lá partiu, exclamou elle, voltando-se a cumprimentar a viscondessa
-d'Alvim e Joanninha Villar que desciam das tribunas. Lá partiu, e ella
-já está installada. Até já antes de hontem a fui visitar, mas não estava
-em casa... Sabes do que tenho medo? É que ella, n'estes primeiros
-tempos, por causa da visinhança, como está só, não queira que eu lá vá
-muito... Que te parece?
-
---Talvez... E onde mora ella?
-
-Em quatro palavras, Damaso explicou a installação de madame. Era muito
-engraçado, morava no predio do Cruges! A mamã Cruges, havia já annos,
-alugava aquelle primeiro andar mobilado: o inverno passado estivera lá o
-Bertonni, o tenor, com a familia. Casa bem arranjada, o Castro Gomes
-tinha tido dedo...
-
---E para mim, muito commodo, ali ao pé do Gremio... Então não voltas cá
-acima, a cavaquear com o femeaço? Até logo... Está hoje chic a valer a
-Gouvarinho! E está a pedir homem! _Good-bye_.
-
-Defronte de Carlos a condessa de Gouvarinho, no grupo de D. Maria a que
-se viera juntar a Alvim e Joanninha Villar, não cessava de o chamar com
-o olhar inquieto, torturando o seu grande leque negro. Mas elle não
-obedeceu logo, parado ao pé dos degraus da tribuna, accendendo vagamente
-uma cigarrette, perturbado por todas aquellas palavras do Damaso que lhe
-deixavam n'alma um sulco luminoso. Agora que a sabia só em Lisboa,
-vivendo na mesma casa do Cruges, parecia-lhe que já a conhecia,
-sentia-se muito perto d'ella--podendo assim a todo o momento entrar os
-hombraes da sua porta, pisar os degraus que ella pisava. Na sua
-imaginação transluziam já possibilidades d'um encontro, alguma palavra
-trocada, cousas pequeninas, subtis como fios, mas por onde os seus
-destinos se começariam a prender... E immediatamente veio-lhe a tentação
-pueril de ir lá, logo n'essa mesma tarde, n'esse instante, gosar como
-amigo do Cruges o direito de subir a escada d'ella, parar diante da
-porta d'ella--e surprehender uma voz, um som de piano, um rumor qualquer
-da sua vida.
-
-O olhar da condessa não o deixava. Elle approximou-se, emfim,
-contrariado: ella ergueu-se logo, deixou o seu grupo, e dando alguns
-passos com elle pela relva, recomeçou a fallar na ida a Santarem.
-Carlos, então, muito seccamente, declarou toda essa invenção insensata.
-
---Porque?...
-
-Ora porque! Por tudo. Pelo perigo, pelos desconfortos, pelo ridiculo...
-Emfim, a ella como mulher ficava-lhe bem ter phantasias pittorescas de
-romance; mas a elle competia-lhe ter bom senso.
-
-Ella mordia o beiço, com todo o sangue na face. E não via alli bom
-senso. Via só frieza. Quando ella arriscava tanto, elle podia bem, por
-uma noite, affrontar os desconfortos da estalagem...
-
---Mas não é isso!...
-
-Então que era? Tinha medo? Não havia mais perigo do que nas idas a casa
-da titi. Ninguem a podia conhecer, com outra côr de cabello, toda a
-sorte de véos, disfarçada n'um grande water-proof. Chegavam de noite,
-entravam para o quarto, d'onde não sahiam mais, servidos apenas pela
-escosseza. No dia seguinte, no comboio da noite, ella seguia para o
-Porto, todo acabava... E n'aquella insistencia ella era o homem, o
-seductor, com a sua vehemencia de paixão activa, tentando-o,
-soprando-lhe o desejo; emquanto elle parecia a mulher, hesitante e
-assustada. E Carlos sentia isto. A sua resistencia a uma noite de amor,
-prolongando-se assim, ameaçava ser grotesca: ao mesmo tempo o calor de
-voluptuosidade que emanava d'aquelle seio, arfando junto d'elle e por
-elle, ia-o amollecendo lentamente. Terminou por a olhar de certo modo;
-e, como se o desejo se lhe accendesse emfim de repente á curta chamma
-que faiscava nas pupillas d'ella, negras, humidas, avidas, promettendo
-mil cousas, disse, um pouco pallido:
-
---Pois bem, perfeitamente... Ámanhã á noite, na estação.
-
-N'esse momento, em redor, romperam exclamações de troça: era um cavallo
-solitario que chegava, n'um galope pacato, passara a meta sem se
-apressar, como se descesse uma avenida do Campo Grande n'uma tarde de
-domingo. E em redor perguntava-se que corrida era aquella d'um cavallo
-só--quando ao longe, como sahindo da claridade loura do sol que descia
-sobre o rio, appareceu uma pobre pileca branca, empurrando-se,
-arquejando, n'um esforço doloroso, sob as chicotadas atarantadas d'um
-jockey de roxo e preto. Quando ella chegou, emfim, já o outro
-_gentleman-rider_ voltara da meta, a passo, pachorrentamente,--e estava
-conversando com os amigos, encostado á corda da pista.
-
-Todo o mundo ria. E a corrida do Premio d'El-rei terminou assim,
-grotescamente.
-
-Ainda havia o Premio de Consolação--mas agora desapparecera todo o
-interesse ficticio pelos cavallos. Perante a calma e radiante belleza da
-tarde, algumas senhoras, imitando a Alvim, tinham descido para a
-pesagem, cançadas da immobilidade da tribuna. Arranjaram-se mais
-cadeiras: aqui e além, sobre a relva pisada, formavam-se grupos
-alegrados por algum vestido claro ou por uma pluma viva de chapéo: e
-palrava-se, como n'uma sala de inverno, fumando-se familiarmente. Em
-redor de D. Maria e da Alvim projectava-se um grande pic-nic a Queluz.
-Alencar e o Gouvarinho discutiam a reforma de instrucção. A horrivel
-Craben, entre outros diplomatas e moços de binoculo a tiracolo, dava do
-fundo grosso do papo, opiniões sobre Daudet, que elle achava _très
-agreable_. E, quando Carlos emfim abalou, o recinto, esquecidas as
-corridas, tomava um tom de _soirée_, no ar claro e fresco da collina,
-com o murmurio de vozes, um mover de leques, e ao fundo a musica tocando
-uma valsa de Strauss.
-
-Carlos, depois de procurar muito Craft, encontrou-o no buffete com o
-Darque, com outros, bebendo mais champagne.
-
---Eu tenho de ir ainda a Lisboa, disse-lhe elle, e vou no phaeton.
-Abandono torpemente. Você vá para o Ramalhete como poder...
-
---Eu o levo! gritou logo o Vargas, que tinha já a gravata toda
-desmanchada. Levo-o no dog-cart. Eu me encarrego d'elle... O Craft fica
-por minha conta... É necessario recibo? Á saude do Craft, inglez cá dos
-meus... Hurrah!
-
---Hurrah! Hip, hip, hurrah!
-
-D'ahi a pouco, a trote largo no phaeton, Carlos descia o Chiado, dava a
-volta para a rua de S. Francisco. Ia n'uma perturbação deliciosa e
-singular, com aquella certeza de que ella estava só na casa do Cruges: o
-ultimo olhar que ella lhe déra parecia ir adiante d'elle, chamando-o: e
-um despertar tumultuoso de esperanças sem nome atirava-lhe a alma para o
-azul.
-
-Quando parou diante do portão--alguem, por dentro das janellas d'ella,
-ía correndo lentamente os stores. Na rua silenciosa cahia já uma sombra
-de crepusculo. Atirou as redeas ao cocheiro, atravessou o pateo. Nunca
-viera visitar o Cruges, nunca subira esta escada; e pareceu-lhe
-horrorosa, com os seus frios degraus de pedra, sem tapete, as paredes
-nuas e enxovalhadas alvejando tristemente no começo de escuridão. No
-patamar do primeiro andar parou. Era alli que ella vivia. E ficou
-olhando, com uma devoção ingenua, para as tres portas pintadas d'azul: a
-do centro estava inutilisada por um banco comprido de palhinha, e na do
-lado direito pendia, com uma enorme bola, o cordão da campainha. De
-dentro não vinha um rumor:--e este pesado silencio, juntando-se ao
-movimento de stores que elle vira fechar-se, parecia cercar as pessoas
-que alli viviam de solidão e de impenetrabilidade. Uma desconsolação
-passou-lhe na alma. Se ella agora, só, sem o marido, começasse uma vida
-reclusa e solitaria? Se elle não tornasse mais a encontrar os seus
-olhos?
-
-Foi subindo de vagar até ao andar do Cruges. E mal sabia o que havia de
-dizer ao maestro para explicar aquella visita extranha, deslocada... Foi
-um allivio quando a criadita lhe veiu dizer que o menino Victorino tinha
-sahido.
-
-Em baixo, Carlos tomou as redeas, e foi levando lentamente o phaeton até
-ao largo da Bibliotheca. Depois retrocedeu, a passo. Agora, por traz do
-store branco, havia uma vaga claridade de luz. Elle olhou-a como se olha
-uma estrella.
-
-Voltou ao Ramalhete. Craft, coberto de pó, estava-se justamente apeando
-de uma calecha de praça. Um momento ficaram alli á porta, em quanto
-Craft, procurando troco para o cocheiro, contava o final das corridas.
-No _Premio de Consolação_, um dos cavalleiros tinha cahido, quasi ao pé
-da meta, sem se magoar: e, por ultimo, já á partida, o Vargas, que ia na
-sua terceira garrafa de champagne, esmurrara um criado do buffete, com
-ferocidade.
-
---Assim, disse Craft completando o seu troco, estas corridas foram boas
-pelo velho principe Shakespereano de que _tudo é bom quanto acaba bem_.
-
---Um murro, disse Carlos rindo, é com effeito um bello ponto final.
-
-No peristillo, o velho guarda-portão esperava, descoberto, com uma carta
-na mão para Carlos. Um criado tinha-a trazido, instantes antes de s.
-ex.^a chegar.
-
-Era uma letra ingleza de mulher, n'um envelope largo, lacrado com um
-sinete d'armas. Carlos alli mesmo abriu-a: e, logo á primeira linha,
-teve um movimento tão vivo, de tão bella surpreza, illuminando-se-lhe
-tanto o rosto, que Craft do lado perguntou sorrindo:
-
---Aventura? Herança?...
-
-Carlos, vermelho, metteu a carta no bolso, e murmurou:
-
---Um bilhete apenas, um doente...
-
-Era apenas um doente, era apenas um bilhete, mas começava
-assim:--«Madame Castro Gomes apresenta os seus respeitos ao sr. Carlos
-da Maia, e roga-lhe o obsequio...»--depois, em duas breves palavras,
-pedia-lhe para ir ver na manhã seguinte, o mais cedo possivel, uma
-pessoa de familia, que se achava incommodada.
-
---Bem, eu vou-me vestir, disse Craft... Jantar ás sete e meia, hein?
-
---Sim, o jantar...--respondeu Carlos, sem saber o quê, banhado todo n'um
-sorriso, como em extase.
-
-Correu aos seus aposentos: e junto da janella, sem mesmo tirar o chapéo,
-leu uma vez mais o bilhete, outra vez ainda, contemplando enlevadamente
-a forma da letra, procurando voluptuosamente o perfume do papel.
-
-Era datada d'esse mesmo dia á tarde. Assim, quando elle passara defronte
-da sua porta, já ella a escrevera, já o seu pensamento se demorara
-n'elle--quando mais não fosse senão ao traçar as lettras simples do seu
-nome. Não era ella que estava doente. Se fosse Rosa, ella não diria tão
-friamente «uma pessoa de familia.» Era talvez o esplendido preto de
-carapinha grisalha. Talvez miss Sarah, abençoada fosse ella para sempre,
-que queria um medico que entendesse inglez... Emfim havia lá uma pessoa
-n'uma cama, junto da qual ella mesma o conduziria, atravez dos
-corredores interiores d'aquella casa--que havia apenas instantes sentira
-tão fechada, e como impenetravel para sempre!... E depois este adorado
-bilhete, este delicioso pedido para ir a sua casa, agora que ella o
-conhecia, que vira Rosa atirar-lhe um grande adeus--tomava uma
-significação profunda, perturbadora...
-
-Se ella não quizesse comprehender, nem acceitar o distante amor que os
-seus olhos lhe tinham offerecido claramente, o mais luminosamente que
-tinham podido, n'esses fugitivos instantes que se tinham cruzado com os
-d'ella--então poderia ter mandado chamar outro medico, um clinico
-qualquer, um estranho. Mas não: o seu olhar respondera ao d'elle, e ella
-abria-lhe a sua porta...--E o que sentia a esta idéa era uma gratidão
-ineffavel, um impulso tumultuoso de todo o seu ser a cahir-lhe aos pés,
-ficar-lhe beijando a orla do vestido, devotamente, eternamente, sem
-querer mais nada, sem pedir mais nada...
-
-Quando Craft d'alli a pouco desceu, de casaca, fresco, alvo, engommado,
-correcto--achou Carlos, ainda com toda a poeira da estrada, de chapéo na
-cabeça passeando o quarto, n'esta agitação radiante.
-
---Você está a faiscar, homem! disse Craft, parando deante d'elle, com as
-mãos nos bolsos, e contemplando-o um instante do alto do seu
-resplandecente collarinho. Você flameja!... Você parece que tem uma
-auréola na nuca!... Você succedeu-lhe o quer que seja de muito bom!
-
-Carlos espreguiçou-se, sorrindo. Depois olhou para Craft um momento, em
-silencio, encolheu os hombros, e murmurou:
-
---A gente, Craft, nunca sabe se o que lhe succede é, em definitivo, bom
-ou mau.
-
---Ordinariamente é mau, disse o outro friamente, aproximando-se do
-espelho a retocar com mais correcção o nó da gravata branca.
-
-FIM DO PRIMEIRO VOLUME
-
-
-
-
-EÇA DE QUEIROZ
-
-OS MAIAS
-
-EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA
-
-VOLUME II
-
-PORTO
-
-
-Livraria Internacional de Ernesto Chardron
-CASA EDITORA
-LUGAN & GENELIOUX, Successores
-
-
-1888
-
-Todos os direitos reservados
-
-
-
-
-OS MAIAS
-
-VOLUME I
-
-
-
-
-OS MAIAS
-
-
-
-
-I
-
-
-Na manhã seguinte, Carlos, que se erguera cedo, veio a pé do Ramalhete
-até á rua de S. Francisco, a casa de Madame Gomes. No patamar, onde
-morria em penumbra a luz distante da claraboia, uma velha de lenço na
-cabeça, encolhida n'um chalesinho preto, esperava, sentada
-melancolicamente ao canto do banco de palhinha. A porta aberta mostrava
-uma parede feia de corredor, forrada de papel amarello. Dentro um
-relogio ronceiro estava batendo dez horas.
-
---A senhora já tocou? perguntou Carlos, erguendo o chapéo.
-
-A velha murmurou, d'entre a sombra do lenço que lhe cahia para os olhos,
-n'um tom cançado e doente:
-
---Já, sim, meu senhor. Já fizeram o favor de me fallar. O criado, o snr.
-Domingos, não tarda...
-
-Carlos esperou, passeando lentamente no patamar. Do segundo andar vinha
-um barulho alegre de crianças brincando; por cima, o moço do Cruges
-esfregava a escada com estrondo, assobiando desesperadamente o fado. Um
-longo minuto arrastou-se, depois outro, infindavel. A velha, d'entre a
-negrura do lenço, deu um suspirosinho abatido. Lá ao fundo um canario
-rompera a cantar; e então Carlos, impaciente, puxou o cordão da
-campainha.
-
-Um criado de suissas ruivas, correctamente abotoado n'um jaquetão de
-flanella, appareceu correndo, com uma travessa na mão, abafada n'um
-guardanapo; e ao vêr Carlos ficou tão atarantado, bambaleando á porta,
-que um pouco de molho de assado escorregou, cahiu sobre o soalho.
-
---Oh snr. D. Carlos Eduardo, faz favor d'entrar!... Ora esta! Tem a
-bondade d'esperar um instantinho, que eu abro já a sala... Tome lá,
-snr.^a Augusta, tome lá, olhe não entorne mais! A senhora diz que lá
-manda logo o vinho do Porto... Desculpe v. exc.^a, snr. D. Carlos... Por
-aqui, meu senhor...
-
-Correu um reposteiro de reps vermelho, introduziu Carlos n'uma sala
-alta, espaçosa, com um papel de ramagens azues, e duas varandas para a
-rua de S. Francisco; e erguendo á pressa os dois transparentes de
-paninho branco, perguntava a Carlos se s. exc.^a não se lembrava já do
-Domingos. Quando elle se voltou, risonho, descendo precipitadamente os
-canhões das mangas, Carlos reconheceu-o pelas suissas ruivas. Era com
-effeito o Domingos, escudeiro excellente, que no começo do inverno
-estivera no Ramalhete, e se despedira por birras patrioticas, birras
-ciumentas, com o cozinheiro francez.
-
---Não o tinha visto bem, Domingos, disse Carlos. O patamar é um pouco
-escuro... Lembro-me perfeitamente... E então vossê agora aqui, hein? E
-está contente?
-
---Eu parece-me que estou muito contente, meu senhor... O snr. Cruges
-tambem mora cá por cima...
-
---Bem sei, bem sei...
-
---Tenha v. exc.^a a paciencia de esperar um instantinho que eu vou dar
-parte á snr.^a D. Maria Eduarda...
-
-Maria Eduarda! Era a primeira vez que Carlos ouvia o nome d'ella; e
-pareceu-lhe perfeito, condizendo bem com a sua belleza serena. Maria
-Eduarda, Carlos Eduardo... Havia uma similitude nos seus nomes. Quem
-sabe se não presagiava a concordancia dos seus destinos!
-
-Domingos, no entanto, já á porta da sala, com a mão no reposteiro, parou
-ainda, para dizer n'um tom de confidencia e sorrindo:
-
---É a governante ingleza que está doente...
-
---Ah! é a governante?
-
---Sim, meu senhor, tem uma febresita desde hontem, peso no peito...
-
---Ah!...
-
-O Domingos deu outro movimento lento ao reposteiro, sem se apressar,
-contemplando Carlos com admiração:
-
---E o avôsinho de v. exc.^a passa bem?
-
---Obrigado, Domingos, passa bem.
-
---Aquillo é que é um grande senhor!... Não ha, não ha outro assim em
-Lisboa!
-
---Obrigado, Domingos, obrigado...
-
-Quando elle finalmente sahiu, Carlos, tirando as luvas, deu uma volta
-curiosa e lenta pela sala. O soalho fôra esteirado de novo. Ao pé da
-porta havia um piano antigo de cauda, coberto com um pano alvadio; sobre
-uma estante ao lado, cheia de partituras, de musicas, de jornaes
-illustrados, pousava um vaso do Japão onde murchavam tres bellos lirios
-brancos; todas as cadeiras eram forradas de reps vermelho; e aos pés do
-sofá estirava-se uma velha pelle de tigre. Como no Hotel Central, esta
-intallação summaria de casa alugada recebera retoques de conforto e de
-gosto: cortinas novas de cretone, combinando com o papel azul da parede,
-tinham substituido as classicas bambinellas de cassa: um pequeno
-contador arabe, que Carlos se lembrava de ter visto havia dias no tio
-Abrahão, viera encher um lado mais desguarnecido da parede: o tapete de
-pellucia d'uma mesa oval, collocada ao centro, desapparecia sob lindas
-encadernações de livros, albuns, duas taças japonezas de bronze, um
-cesto para flôres de porcelana de Dresde, objectos delicados d'arte que
-não pertenciam decerto á mãi Cruges. E parecia errar alli, acariciando a
-ordem das coisas e marcando-as com um encanto particular, aquelle
-indefinido perfume que Carlos já sentira nos quartos do Hotel Central, e
-em que dominava o jasmim.
-
-Mas o que attrahiu Carlos foi um bonito biombo de linho crú, com
-ramalhetes bordados, desdobrado ao pé da janella, fazendo um recanto
-mais resguardado e mais intimo. Havia lá uma cadeirinha baixa de setim
-escarlate, uma grande almofada para os pés, uma mesa de costura com todo
-um trabalho de mulher interrompido, numeros de jornaes de modas, um
-bordado enrolado, mólhos de lã de côres transbordando de um açafate. E,
-confortavelmente enroscada no macio da cadeira, achava-se ahi, n'esse
-momento, a famosa cadellinha escosseza, que tantas vezes passára nos
-sonhos de Carlos, trotando ligeiramente atraz de uma radiante figura
-pelo Aterro fóra, ou aninhada e adormecida n'um doce regaço...
-
---Bonjour, Mademoiselle, disse-lhe elle, baixinho, querendo captar-lhe
-as sympathias.
-
-A cadellinha erguera-se logo bruscamente na cadeira, d'orelhas fitas,
-dardejando para aquelle estranho, por entre as repas esguedelhadas, dois
-bellos olhos de azeviche, desconfiados, d'uma penetração quasi humana.
-Um instante Carlos receou que ella rompesse a ladrar. Mas a cadellinha
-de repente namorára-se d'elle, deitada já na cadeira, de patas ao ar,
-descomposta, abandonando o ventresinho ás suas caricias. Carlos ia
-coçal-a e amimal-a, quando um passo leve pizou a esteira. Voltou-se, viu
-Maria Eduarda diante de si.
-
-Foi como uma inesperada apparição--e vergou profundamente os hombros,
-menos a saudal-a, que a esconder a tumultuosa onda de sangue que sentia
-abrazar-lhe o rosto. Ella, com um vestido simples e justo de sarja
-preta, um collarinho direito de homem, um botão de rosa e duas folhas
-verdes no peito, alta e branca, sentou-se logo junto da mesa oval,
-acabando de desdobrar um pequeno lenço de renda. Obedecendo ao seu gesto
-risonho, Carlos pousou-se embaraçadamente á borda do sofá de reps. E
-depois d'um instante de silencio, que lhe pareceu profundo, quasi
-solemne, a voz de Maria Eduarda ergueu-se, uma voz rica e lenta, d'um
-tom d'ouro que acariciava.
-
-Através do seu enleio, Carlos percebia vagamente que ella lhe agradecia
-os cuidados que elle tivera com Rosa: e, de cada vez que o seu olhar se
-demorava n'ella um instante mais, descobria logo um encanto novo e outra
-fórma da sua perfeição. Os cabellos não eram louros, como julgára de
-longe á claridade do sol, mas de dois tons, castanho-claro e
-castanho-escuro, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa. Na
-grande luz escura dos seus olhos havia ao mesmo tempo alguma coisa de
-muito grave e de muito dôce. Por um geito familiar cruzava ás vezes, ao
-fallar, as mãos sobre os joelhos. E através da manga justa de sarja,
-terminando n'um punho branco, elle sentia a belleza, a brancura, o
-macio, quasi o calor dos seus braços.
-
-Ella calára-se. Carlos, ao levantar a voz, sentiu outra vez o sangue
-abrazar-lhe o rosto. E, apesar de saber já pelo Domingos que a doente
-era a governante, só achou, na sua perturbação, esta pergunta timida:
-
---Não é sua filha que está doente, minha senhora?
-
---Oh não! graças a Deus!
-
-E Maria Eduarda contou-lhe, justamente como o Domingos, que a governante
-ingleza havia dois dias se achava incommodada, com difficuldade de
-respirar, tosse, uma ponta de febre...
-
---Imaginámos ao principio que era uma constipação passageira; mas hontem
-á tarde estava peor, e estou agora impaciente que a veja...
-
-Ergueu-se, foi puxar um enorme cordão de campainha que pendia ao lado do
-piano. O seu cabello por traz, repuxado para o alto da cabeça, deixava
-uma pennugem d'ouro frisar-se delicadamente sobre a brancura lactea do
-pescoço. Entre aquelles moveis de reps, sob o tecto banal d'estuque
-enxovalhado, toda a sua pessoa parecia a Carlos mais radiante, d'uma
-belleza mais nobre, e quasi inaccessivel; e pensava que nunca alli
-ousaria olhal-a tão francamente, com uma tão clara adoração, como quando
-a encontrava na rua.
-
---Que linda cadellinha v. exc.^a tem, minha senhora! disse elle, quando
-Maria Eduarda se tornou a sentar, e pondo já n'estas palavras simples,
-ditas a sorrir, um accento de ternura.
-
-Ella sorriu tambem com um lindo sorriso, que lhe fazia uma covinha no
-queixo, dava uma doçura mais mimosa ás suas feições sérias. E
-alegremente, batendo as palmas, chamando para dentro do biombo:
-
---_Niniche!_ estão-te a fazer elogios, vem agradecer!
-
-_Niniche_ appareceu a bocejar. Carlos achava lindo este nome de
-_Niniche_. E era curioso, tinha tido tambem uma galguinha italiana que
-se chamava _Niniche_...
-
-N'esse instante a criada entrou--a rapariga magra e sardenta, d'olhar
-petulante, que Carlos vira já no Hotel Central.
-
---Melanie vai-lhe ensinar o quarto de miss Sarah, disse Maria Eduarda.
-Eu não o acompanho, porque ella é tão timida, tem tanto escrupulo em
-incommodar, que diante de mim é capaz de negar tudo, dizer que não tem
-nada...
-
---Perfeitamente, perfeitamente, murmurava Carlos, sorrindo, n'um encanto
-de tudo.
-
-E pareceu-lhe então que no olhar d'ella alguma coisa brilhára, fugira
-para elle, de mais vivo, de mais dôce.
-
-Com o seu chapéo na mão, pisando familiarmente aquelle corredor intimo,
-surprehendendo detalhes de vida domestica, Carlos sentia como a alegria
-d'uma posse. Por uma porta meio aberta pôde entrevêr uma banheira, e ao
-lado dependurados grandes roupões turcos de banho. Adiante, sobre uma
-mesa, estavam alinhadas, e como desencaixotadas recentemente, garrafas
-d'aguas mineraes de Saint-Galmier e de Vals. Elle deduzia logo d'estas
-coisas tão simples, tão banaes, evidencias de vida delicada.
-
-Melanie correu um reposteiro de linho crú, fêl-o entrar n'um quarto
-claro e fresco: e ahi foi encontrar a pobre miss Sarah n'um leitosinho
-de ferro, sentada, com um laço de sêda azul ao pescoço, e os bandós tão
-lisos, tão acamados pela escova, como se fosse sahir n'um domingo para a
-capella presbyteriana. Na mesinha de cabeceira os seus jornaes inglezes
-estavam escrupulosamente dobrados, junto d'um copo com duas bellas
-rosas; e tudo no quarto resplandecia de severo arranjo, desde os
-retratos da familia real d'Inglaterra, expostos sobre a toalha de renda
-que cobria a commoda, até ás suas botinas bem engraxadas, classificadas,
-perfiladas n'uma prateleira de pinho.
-
-Apenas Carlos se sentou, ella immediatamente, com duas rosetas de
-vergonha na face, entre frouxos de tosse, declarou que não tinha nada.
-Era a senhora, tão boa, tão cautelosa, que a forçára a metter-se na
-cama... E para ella era um desgosto vêr-se alli ociosa, inutil, agora
-que Madame estava tão só, n'uma casa sem jardim. Onde havia a menina de
-brincar? Quem havia de sahir com ella? Ah! Era uma prisão para
-Madame!...
-
-Carlos consolava-a, tomando-lhe o pulso. Depois, quando elle se ergueu
-para a auscultar, a pobre miss cobriu-se toda d'um rubor afflicto,
-apertando mais a roupa contra o peito, querendo saber se era
-_absolutamente_ necessario... Sim, decerto, era necessario... Achou-lhe
-o pulmão direito um pouco tomado; e, em quanto a agasalhava, fez-lhe
-algumas perguntas sobre a sua familia. Ella contou que era de York,
-filha de um _clergyman_, e tinha quatorze irmãos: os rapazes estavam na
-Nova Zelandia, e todos eram d'uma robustez de athletas. Ella sahira a
-mais fraca; tanto que o pai, vendo que ella aos dezesete annos pesava só
-oito arrobas, ensinou-lhe logo latim, destinando-a para governante.
-
-Em todo o caso, dizia Carlos, nunca houvera na sua familia doenças de
-peito? Ella sorriu. Oh! nunca! A mamã ainda vivia. O papá, já muito
-velho, morrera do couce de uma egua.
-
-Carlos, no entanto, já de pé, com o chapéo na mão, continuava a
-observal-a, reflectindo. Então, de repente, sem motivo, ella
-enterneceu-se, os seus olhos pequeninos ennevoaram-se de agua. E quando
-ouviu que eram precisos tantos agasalhos, que teria de estar alli no
-quarto ainda quinze dias, perturbou-se mais, duas lagrimasinhas timidas
-quasi lhe fugiram das pestanas. Carlos terminou por lhe afagar
-paternalmente a mão.
-
---_Oh! Thank you sir!_ murmurou ella, commovida de todo.
-
-Na sala, Carlos veio encontrar Maria Eduarda sentada junto da mesa,
-arranjando ramos, com uma grande cesta de flôres pousada ao lado d'uma
-cadeira, e o regaço cheio de cravos. Uma bella restea de sol, estendida
-na esteira, vinha morrer-lhe aos pés; e _Niniche_, deitada alli, reluzia
-como se fosse feita de fios de prata. Na rua, sob as janellas, um
-realejo ia tocando, na alegria da linda manhã de sol, a walsa da _Madame
-Angot_. Pelo andar de cima tinham recomeçado as correrias de crianças
-brincando.
-
---Então? exclamou ella, voltando-se logo, com um mólho de cravos na mão.
-
-Carlos tranquillisou-a. A pobre miss Sarah tinha uma bronchite ligeira,
-com pouca febre. Em todo o caso necessitava resguardo, toda a cautela...
-
---Certamente! E ha de tomar algum remedio, não é verdade?
-
-Atirou logo o resto dos cravos do regaço para o cesto, foi abrir uma
-secretariasinha de pau preto collocada entre as janellas. Ella mesmo
-arranjou o papel para elle receitar, metteu um bico novo na penna. E
-estes cuidados perturbavam Carlos como caricias.
-
---Oh minha senhora... murmurava elle, um lapis basta...
-
-Quando se sentou, os seus olhos demoraram-se com uma curiosidade
-enternecida n'esses objectos familiares onde pousava a doçura das mãos
-d'ella--um sinete d'agatha sobre um velho livro de contas, uma faca de
-marfim com monogramma de prata ao lado d'uma taçasinha de Saxe cheia
-d'estampilhas; e em tudo havia a ordem clara que tão bem condizia com o
-seu puro perfil. Na rua o realejo calára-se, por cima do tecto já não
-cavallavam as crianças. E, em quanto escrevia devagar, Carlos sentia-a
-abafar sobre a esteira o som dos seus passos, mover os seus vasos mais
-de leve.
-
---Que bonitas flôres v. exc.^a tem, minha senhora! disse elle, voltando
-a cabeça, em quanto ia seccando distrahida e lentamente a receita.
-
-De pé, junto do contador arabe, onde pousava um vaso amarello da India,
-ella arranjava folhas em volta de duas rosas.
-
---Dão frescura, disse ella. Mas imaginei que em Lisboa havia mais
-bonitas flôres. Não ha nada que se compare ás flôres de França... Pois
-não é verdade?
-
-Elle não respondeu logo, esquecido a olhar para ella, pensando na doçura
-de ficar alli eternamente n'aquella sala de reps vermelho, cheia de
-claridade e cheia de silencio, a vêl-a pôr folhas verdes em torno de pés
-de rosa!
-
---Em Cintra ha lindas flôres, murmurou por fim.
-
---Oh, Cintra é um encanto! disse ella, sem erguer os olhos do seu ramo.
-Vale a pena vir a Portugal só por causa de Cintra.
-
-N'esse momento, o reposteiro de reps esvoaçou, e Rosa entrou de dentro,
-correndo, vestida de branco, com meiasinhas de sêda preta, uma onda
-negra de cabello a bater-lhe as costas, e trazendo ao collo a sua grande
-boneca. Ao vêr Carlos parou bruscamente, com os bellos olhos muito
-abertos para elle, toda encantada, e apertando mais nos braços Cri-cri
-que vinha em camisa.
-
---Não conheces? perguntou-lhe a mãi, indo sentar-se outra vez diante do
-seu cesto de flôres.
-
-Rosa começava já a sorrir, o seu rostosinho cobria-se d'uma linda côr. E
-assim, toda d'alvo e negro como uma andorinha, tinha um encanto raro,
-com o seu dôce mimo de fórma, a sua graça ligeira, os seus grandes olhos
-cheios d'azul, e um ruborzinho de mulher na face. Quando Carlos se
-adiantou com a mão estendida para renovar o antigo conhecimento--ella
-ergueu-se na ponta dos pés, estendeu-lhe vivamente a boquinha, fresca
-como um botão de rosa. Carlos ousou apenas tocar-lhe de leve na testa.
-
-Depois quiz apertar a mão á sua velha amiga Cri-cri. E então, de
-repente, Rosa recordou-se do que a trouxera alli a correr.
-
---É o robe-de-chambre, mamã! Não posso achar o robe-de-chambre de
-Cri-cri... Ainda a não pude vestir... Dize, sabes onde é que está o
-robe-de-chambre?
-
---Vejam esta desarranjada! murmurava a mãi olhando-a com um sorriso
-lento e terno. Se Cri-cri tem uma commoda particular, o seu
-guarda-vestidos, não se lhe deviam perder as coisas... Pois não é
-verdade, snr. Carlos da Maia?
-
-Elle, ainda com a sua receita na mão, sorria tambem, sem dizer nada,
-todo no enternecimento d'aquella intimidade em que se sentia penetrar
-dôcemente.
-
-A pequena então veio encostar-se á mãi, roçando-se pelo seu braço, com
-uma vozinha languida, lenta, e de mimo:
-
---Anda, dize... Não sejas má... Anda... Onde está o robe-de-chambre?
-Dize...
-
-Levemente, com a ponta dos dedos, Maria Eduarda arranjou-lhe o pequenino
-laço de sêda branca que lhe prendia no alto o cabello. Depois ficou mais
-séria:
-
---Está bem, está quieta... Tu sabes que não sou eu que trato dos
-arranjos da Cri-cri. Devias ter mais ordem... Vai perguntar a Melanie.
-
-E Rosa obedeceu logo, séria tambem, comprimentando agora Carlos ao
-passar, com um arzinho senhoril:
-
---Bonjour, Monsieur...
-
---É encantadora! murmurou elle.
-
-A mãi sorriu. Tinha acabado de compôr o seu ramo de cravos;--e
-immediatamente attendeu a Carlos, que pousára a receita sobre a mesa, e
-sem se apressar, installando-se n'uma poltrona, lhe foi fallando da
-dieta que devia ter miss Sarah, das colheres de xarope de codeina que se
-lhe deviam dar de tres em tres horas...
-
---Pobre Sarah! dizia ella. E é curioso, não é verdade? Veio com o
-presentimento, quasi com a certeza, que havia de adoecer em Portugal...
-
---Então vem a detestar Portugal!
-
---Oh! tem-lhe já horror! Acha muito calor, por toda a parte maus
-cheiros, a gente hedionda... Tem medo de ser insultada na rua... Emfim é
-infelicissima, está ardendo por se ir embora...
-
-Carlos ria d'aquellas antipathias saxonias. De resto em muitas coisas a
-boa miss Sarah tinha talvez razão...
-
---E v. exc.^a tem-se dado bem em Portugal, minha senhora?
-
-Ella encolheu os hombros, indecisa.
-
---Sim... Devo dar-me bem... É o meu paiz
-
-O _seu_ paiz!... E elle que a julgava brazileira!
-
---Não, sou portugueza.
-
-E, durante um momento, houve um silencio. Ella tomára de sobre a mesa,
-abria lentamente um grande leque negro pintado de flôres vermelhas. E
-Carlos sentia, sem saber porque, uma doçura nova penetrar-lhe no
-coração. Depois ella fallou da sua viagem que fôra muito agradavel;
-adorava andar no mar; tinha sido um encanto a manhã da chegada a Lisboa,
-com um céo azul-ferrete, o mar todo azul tambem, e já um calorzinho do
-clima dôce... Mas depois, apenas desembarcados, tudo correra
-desagradavelmente. Tinham ficado mal alojados no Central. _Niniche_, uma
-noite, assustára-os muito com uma indigestão. Em seguida no Porto viera
-aquelle desastre...
-
---Sim, disse Carlos, o marido de v. exc.^a, na Praça Nova...
-
-Ella pareceu surprehendida. Como sabia elle? Ah! sim, sabia de certo
-pelo Damaso...
-
---São muito amigos, creio eu.
-
-Depois d'uma leve hesitação, que ella comprehendeu, Carlos murmurou:
-
---Sim... O Damaso vai bastante ao Ramalhete... É de resto um rapaz que
-eu conheço apenas ha mezes...
-
-Ella abriu os olhos, pasmada.
-
---O Damaso? Mas elle disse-me que se conheciam desde pequeninos, que
-eram até parentes...
-
-Carlos encolheu simplesmente os hombros, sorrindo.
-
---É uma bella illusão... E se isso o faz feliz!...
-
-Ella sorriu tambem, encolhendo tambem ligeiramente os hombros.
-
---E v. exc.^a, minha senhora, continuou logo Carlos não querendo fallar
-mais do Damaso, como acha Lisboa?
-
-Gostava bastante, achava muito bonito este tom azul e branco de cidade
-meridional... Mas, havia tão poucos confortos!... A vida tinha aqui um
-ar que ella não pudera perceber ainda--se era de simplicidade ou de
-pobreza.
-
---Simplicidade, minha senhora. Temos a simplicidade dos selvagens...
-
-Ella riu.
-
---Não direi isso. Mas supponho que são como os gregos: contentam-se em
-comer uma azeitona, olhando o céo que é bonito...
-
-Isto pareceu adoravel a Carlos, todo o seu coração fugiu para ella.
-
-Maria Eduarda queixava-se sobretudo das casas, tão faltas de
-commodidade, tão despidas de gosto, tão desleixadas. Aquella em que
-vivia fazia a sua desgraça. A cozinha era atroz, as portas não fechavam.
-Na sala de jantar havia sobre a parede umas pinturas de barquinhos e
-collinas que lhe tiravam o appetite...
-
---Além d'isso, acrescentou, é um horror não ter um quintal, um jardim,
-onde a pequena possa correr, ir brincar...
-
---Não é facil encontrar assim uma casa nas condições d'esta e com
-jardim, disse Carlos.
-
-Deu um olhar ás paredes, ao estuque enxovalhado do tecto--e lembrou-lhe
-de repente a quinta do Craft, com a sua vista de rio, o ar largo, as
-frescas ruas de acacias.
-
-Felizmente, Maria Eduarda tomára a casa apenas ao mez, e estava pensando
-em ir passar á beira-mar o tempo que tivesse de ficar ainda em Portugal.
-
---De resto, disse ella, foi o que me aconselhou o meu medico em Paris, o
-dr. Chaplain.
-
-O dr. Chaplain? Justamente, Carlos conhecia muito o dr. Chaplain.
-Ouvira-lhe as lições, visitára-o até intimamente na sua propriedade de
-Maisonnettes, ao pé de Saint-Germain. Era um grande mestre, era um
-espirito bem superior!
-
---E tão bom coração! disse ella com um claro sorriso, um olhar que
-brilhou.
-
-E este sentimento commum pareceu de repente aproximal-os mais dôcemente:
-cada um n'esse instante adorou o dr. Chaplain: e continuaram ainda
-fallando d'elle prolongadamente, gozando, através d'essa trivial
-sympathia por um velho clinico, a nascente concordancia dos seus
-corações.
-
-O bom dr. Chaplain! Que physionomia tão amavel, tão fina!... Sempre com
-o seu barretinho de sêda... E sempre com a sua grande flôr na casaca...
-De resto, o pratico maior que sahira da geração de Trousseau.
-
---E Madame Chaplain, acrescentou Carlos, é uma pessoa encantadora... Não
-é verdade?
-
-Mas Maria Eduarda não conhecia Madame Chaplain.
-
-Dentro o relogio ronceiro começára a bater onze horas. E Carlos então
-ergueu-se, findando a sua fugitiva, inolvidavel, deliciosa visita...
-
-Quando ella lhe estendeu a mão, um pouco de sangue subiu-lhe de novo á
-face ao tocar aquella palma tão macia e tão fresca. Pediu os seus
-comprimentos para Mademoiselle Rosa. Depois, á porta, já com o
-reposteiro na mão, voltou-se ainda, uma vez mais, n'uma ultima saudação,
-a receber o olhar suave com que ella o seguia...
-
---Até ámanhã, está claro! exclamou ella de repente, com o seu lindo
-sorriso.
-
---Até ámanhã, decerto!
-
-O Domingos estava já no patamar, de casaca, risonho e bem penteado.
-
---É coisa de cuidado, meu senhor?
-
---Não é nada, Domingos... Estimei vêl-o por aqui.
-
---E eu muito a v. exc.^a. Até ámanhã, meu senhor.
-
---Até ámanhã.
-
-_Niniche_ appareceu tambem no patamar. Elle abaixou-se ternamente a
-afagal-a, e disse-lhe tambem, radiante:
-
---Até ámanhã, _Niniche_!
-
-
-Até ámanhã! Voltando para o Ramalhete, era esta a unica idéa que elle
-sentia distinctamente através da nevoa luminosa que lhe afogava a alma.
-Agora o seu dia estava findo:--mas, passadas as longas horas, terminada
-a longa noite, elle penetraria outra vez n'aquella sala de reps
-vermelho, onde ella o esperava, com o mesmo vestido de sarja, enrolando
-ainda folhas verdes em torno de pés de rosa...
-
-Pelo Aterro, por entre a poeira de verão e o ruido das carroças, o que
-elle via era essa sala, esteirada de novo, fresca, silenciosa e clara:
-por vezes uma phrase que ella dissera cantava-lhe na memoria, com o tom
-d'ouro da sua voz; ou luziam-lhe diante dos olhos as pedras dos seus
-anneis entremettidos pelos pêllos de _Niniche_. Parecia-lhe mais linda,
-agora que conhecia o seu sorriso d'uma graça tão delicada; era cheia de
-inteligencia, era cheia de gosto; e a pobre velha á porta, esse doente a
-quem ella mandava vinho do Porto, revelavam a sua bondade... E o que o
-encantava é que não tornaria mais a farejar a cidade como um rafeiro
-perdido, á busca dos seus olhos negros; agora bastava-lhe subir alguns
-degraus, abria-se diante d'elle a porta da sua casa; e tudo de repente
-na vida parecia tornar-se facil, equilibrado, sem duvidas e sem
-impaciencias.
-
-No seu quarto, no Ramalhete, Baptista entregou-lhe uma carta.
-
---Trouxe-a a escosseza, já v. exc.^a tinha sahido.
-
-Era da Gouvarinho! Meia folha de papel, tendo simplesmente escripto a
-lapis--_all rigth_. Carlos amarrotou-a, furioso. A Gouvarinho!... Não se
-tornára quasi a lembrar d'ella, desde a vespera, no radiante tumulto em
-que andára o seu coração. E era no comboio d'essa noite, d'ahi a horas,
-que deviam ambos partir para Santarem, a amarem-se, escondidos n'uma
-estalagem! Elle promettera-lh'o, a sério; já ella se preparára decerto,
-com a atroz cabelleira postiça, com o _water-proof_ de grande roda; tudo
-estava _all rigth_... Achou-a n'esse instante ridicula, reles,
-estupida... Oh, era claro como a luz que não ia, que nunca iria, jámais!
-Mas tinha d'apparecer na estação de Santa Apolonia, balbuciar uma
-desculpa tosca, assistir á sua desconsolação, vêr-lhe os olhos marejados
-de lagrimas. Que massada!... Teve-lhe odio.
-
-Quando chegou á mesa do almoço Craft e Affonso, já sentados, fallavam
-justamente do Gouvarinho, e dos artigos que elle continuava gravemente a
-publicar no _Jornal do Commercio_.
-
---Que besta essa! exclamou Carlos n'uma voz que sibilava, desabafando
-sobre a litteratura politica do marido a colera que lhe davam as
-importunidades amorosas da mulher.
-
-Affonso e Craft olharam-n'o, pasmados de tanta violencia. E Craft
-censurou-lhe a ingratidão. Porque, realmente, não havia em toda a terra
-um enthusiasmo como o que aquelle desventuroso homem d'estado tinha por
-Carlos...
-
---V. exc.^a não faz idéa, snr. Affonso da Maia. É um culto. É uma
-idolatria!
-
-Carlos encolhia os hombros, impaciente. E Affonso, já bem disposto para
-com o homem que assim admirava tão prodigamente o seu neto, murmurou com
-bondade:
-
---Coitado, supponho que é inoffensivo...
-
-Craft fez uma ovação ao velho:
-
---_Inoffensivo!_ Admiravel, snr. Affonso da Maia! _Inoffensivo_,
-applicado a um homem d'estado, a um par, a um ministro, a um legislador,
-é um achado! E é com effeito o que elle é, _inoffensivo_... E é o que
-elles são...
-
---Chablis? murmurou o escudeiro.
-
---Não, tomo chá.
-
-E acrescentou:
-
---Aquelle champagne que hontem bebemos nas corridas, por patriotismo,
-arrasou-me... Tenho de me pôr uma semana a regimen de leite.
-
-Então fallou-se ainda das corridas, dos ganhos de Carlos, do Clifford, e
-do véo azul do Damaso.
-
---Ora quem estava hontem muito bem vestida era a Gouvarinho, disse Craft
-remexendo o seu chá. Ficava-lhe admiravelmente aquelle branco creme,
-tocado de tons negros. Uma verdadeira toilette de corridas... _C'était
-un [oe]illet blanc panaché de noir_... Vossê não achou, Carlos?
-
---Sim, rosnou Carlos, estava bem.
-
-Outra vez a Gouvarinho! Parecia-lhe agora que não haveria na sua vida
-conversa em que não surgisse a Gouvarinho, e que não haveria caminho na
-sua vida que o não atravancasse a Gouvarinho! E alli mesmo, á mesa,
-decidiu comsigo não a tornar a vêr, escrever-lhe um bilhete curto,
-polido, recusando-se a ir a Santarem, sem razões...
-
-Mas no seu quarto, diante da folha de papel, fumou uma longa cigarrette,
-sem achar phrase que não fosse pueril ou brutal. Nem tinha a sympathia
-precisa para lhe dar o banal tratamento de _querida_. Vinha-lhe até por
-ella uma indefinida repulsão physica: devia ser intoleravel toda uma
-noite o seu cheiro exagerado de verbena;--e lembrava-se que aquella
-pelle do seu pescoço, que se lhe afigurava outr'ora um setim, tinha um
-tom pegajoso, um tom amarellado, para além da linha de pós d'arroz.
-Decidiu não lhe escrever. Iria á noite a Santa Apolonia, e no momento do
-comboio partir correria á portinhola, a balbuciar fugitivamente uma
-desculpa; não lhe daria tempo de choramigar, nem de recriminar; um
-rapido aperto de mão, e adeus, para nunca mais...
-
-Á noite, porém, á hora de ir á estação, que sacrificio em se arrancar
-aos confortos da sua poltrona, e do seu charuto!... Atirou-se para o
-coupé desesperado, maldizendo essa tarde no boudoir azul em que, por
-causa d'uma rosa e d'um certo vestido côr de folha morta que lhe ficava
-bem, elle se'achára cahido com ella n'um sofá...
-
-Ao chegar a Santa Apolonia faltavam, para a partida do expresso, dois
-minutos. Precipitou-se para a extremidade da sala, já quasi vazia
-áquella hora, a comprar uma _admissão_; e ainda ahi esperou uma
-eternidade, vendo dentro do postigo duas mãos lentas e molles arranjar
-laboriosamente os patacos d'um troco.
-
-Penetrava emfim na sala d'espera--quando esbarrou com o Damaso, de
-chapéo desabado e saccola de viagem a tiracollo. Damaso agarrou-lhe as
-mãos, enternecido:
-
---Ó menino! pois tiveste o incommodo?... E como soubeste tu que eu
-partia?
-
-Carlos não o desilludiu, balbuciando que lh'o dissera o Taveira, que
-encontrára o Taveira...
-
---Pois eu estava mais longe d'uma d'estas! exclamou o Damaso. Esta
-manhã, muito regalado na cama, quando me vem o telegramma... Fiquei
-furioso! Isto é, imagina tu como eu fiquei, um desgosto assim!...
-
-Foi então que Carlos reparou que elle estava carregado de luto, com fumo
-no chapéo, luvas pretas, polainas pretas, barra preta no lenço...
-Murmurou, embaraçado:
-
---O Taveira disse-me que ias, mas não me disse mais nada... Morreu-te
-alguem?
-
---Meu tio Guimarães.
-
---O communista? o de Paris?
-
---Não, o irmão d'elle, o mais velho, o de Penafiel... Espera ahi que eu
-volto já, vou alli ao café encher o frasco de cognac. Com a afflicção
-esquecia-me o cognac...
-
-Ainda estavam chegando passageiros, esbaforidos, de guarda-pó, com
-chapeleiras na mão. Os guardas rolavam pachorrentamente as bagagens.
-D'uma portinhola, onde se exhibia um cavalheiro barrigudo, com um bonet
-bordado a retroz, pendia todo um cacho d'amigos politicos,
-respeitosamente e em silencio. A um canto uma senhora soluçava por baixo
-do véo.
-
-Carlos, vendo um wagon com a papeleta de _reservado_, imaginou lá a
-condessa. Um guarda precipitou-se, furioso, como se visse a profanação
-d'um santuario. Que queria elle, que queria elle d'alli? Não sabia que
-era o _reservado_ do snr. Carneiro?
-
---Não sabia.
-
---Perguntasse, devia saber! ficou o outro a resmungar, ainda tremulo.
-
-Carlos correu ainda outros wagons, onde a gente se apinhava,
-atabafadamente, na amontoação dos embrulhos; n'um, dois sujeitos, a
-proposito de lugares, tratavam-se de _malcriados_; adiante, uma criança
-esperneava no collo da ama, aos gritos.
-
---Ó menino, quem diabo andas tu a procurar? exclamou Damaso alegremente,
-surgindo por traz d'elle, e passando-lhe o braço pela cinta.
-
---Ninguem... Imaginei que tinha visto o marquez.
-
-Immediatamente Damaso queixou-se d'aquella lúgubre massada de ter d'ir a
-Penafiel!
-
---E então agora que eu precisava tanto estar em Lisboa! Que tenho andado
-com uma sorte para mulheres, menino!... Uma sorte damnada!
-
-Uma sineta badalou. Damaso deu logo um abraço terno a Carlos, saltou
-para o seu wagon, enterrou na cabeça um barretinho de sêda--e depois
-debruçado da portinhola continuou ainda as confidencias. O que mais o
-contrariava era deixar aquelle arranjinho da rua de S. Francisco. Que
-ferro! agora que aquillo ia tão bem, o gajo no Brazil, e ella alli, á
-mão, a dois passos do Gremio!...
-
-Carlos mal o escutava, distrahido, olhando o grande relogio
-transparente. De repente Damaso, á portinhola, deu um salto de surpreza:
-
---Olha os Gouvarinhos!
-
-Carlos deu um salto tambem. O conde, de côco de viagem, de paletot
-alvadio, sem se apressar, como competia a um director da Companhia,
-vinha conversando com um empregado superior da estação, agaloado de
-ouro, que se encarregára da chapeleira de papelão de s. exc.^a E a
-condessa, com um rico guarda-pó de foulard côr de castanho, um véo
-cinzento que lhe cobria a face e o chapéo, seguia atraz, com a criada
-escosseza, trazendo na mão um ramo de rosas.
-
-Carlos correu para elles, foi todo um assombro.
-
---Por aqui, Maia?
-
---De viagem, conde?
-
-É verdade. Decidira acompanhar a condessa ao Porto, aos annos do papá...
-Resolução da ultima hora, quasi iam perdendo o comboio.
-
---Então temol-o por companheiro, Maia? Teremos esse grande prazer, Maia?
-
-Carlos contou rapidamente que viera apenas apertar a mão ao pobre
-Damaso, de jornada para Penafiel, por causa da morte do tio.
-
-Debruçado da portinhola, com as mãos de fóra calçadas de negro, o pobre
-Damaso estava saudando a senhora condessa, gravemente, funebremente. E o
-bom Gouvarinho não quiz deixar de lhe ir dar logo o seu _shake-hands_ e
-o seu pezame.
-
-Sósinho n'esse curto instante com a condessa, Carlos murmurou apenas:
-
---Que ferro!
-
---Este maldito homem! exclamou ella, entre dentes, com um olhar que
-fuzilou através do véo. Tudo tão bem arranjado, e á ultima hora teima em
-vir!...
-
-Carlos acompanhou-os até ao _reservado_, n'um outro wagon que se
-estivera mettendo de novo para s. exc.^a A condessa tomou o lugar do
-canto junto da portinhola. E como o conde, n'um tom de polidez acida, a
-aconselhava a que se sentasse antes com o rosto para a machina, ella
-teve um gesto de aborrecimento, atirou o ramo para o lado
-desabridamente, enterrou-se com mais força na almofada; e um duro olhar
-de colera passou entre ambos. Carlos, embaraçado, perguntava:
-
---Então vão com demora?
-
-O conde respondeu, sorrindo, disfarçando o seu mau humor:
-
---Sim, talvez duas semanas, umas pequeninas ferias.
-
---Tres dias, o mais, replicou ella n'uma voz fria e afiada como uma
-navalha.
-
-O conde não respondeu, livido.
-
-Todas as portinholas agora estavam fechadas, um silencio cahira sobre a
-plataforma. O apito da machina varou o ar; e o comprido trem, n'um ruido
-secco de freios retesados, começou a rolar, com gente ás portinholas,
-que ainda se debruçava, estendendo a mão para um ultimo aperto. Aqui e
-além esvoaçava um lenço branco. O olhar da condessa para o lado de
-Carlos teve a doçura de um beijo, o Damaso gritou saudades para o
-Ramalhete. O compartimento do correio resvalou, alumiado; e com outro
-dilacerante silvo o comboio mergulhou na noite...
-
-Carlos, só, dentro do coupé, voltando á Baixa, sentia uma alegria
-triumphante com aquella partida da condessa, e a inesperada jornada do
-Damaso. Era como uma dispersão providencial de todos os importunos: e
-assim se fazia em torno da rua de S. Francisco uma solidão--com todos os
-seus encantos, e todas as suas cumplicidades.
-
-No caes do Sodré deixou a carruagem, subiu a pé pelo Ferregial, veio
-passar diante das janellas na rua de S. Francisco. Só pôde vêr uma vaga
-tira de claridade entre as portadas meio cerradas. Mas isto bastava-lhe.
-Podia agora imaginar com precisão o serão calmo que ella estava passando
-na larga sala de reps vermelho. Sabia o nome dos livros que ella lia, e
-as partituras que tinha sobre o piano; e as flôres que espalhavam alli o
-seu aroma vira-as elle arranjar n'essa manhã. Poria ella um instante o
-seu pensamento n'elle? Decerto; a doença em casa forçava-a a lembrar as
-horas do remedio, as explicações que elle dera, e o som da sua voz; e
-fallando com miss Sarah pronunciaria decerto o seu nome. Duas vezes
-percorreu a rua de S. Francisco; e recolheu para casa, sob a noite
-estrellada, devagar, ruminando a doçura d'aquelle grande amor.
-
-
-Então todos os dias, durante semanas, teve essa hora deliciosa,
-esplendida, perfeita, «a visita á ingleza».
-
-Saltava do leito, cantando como um canario, e penetrava no seu dia como
-n'uma acção triumphal. O correio chegava; e invariavelmente lhe trazia
-uma carta da Gouvarinho, tres folhas de papel d'onde cahia sempre alguma
-pequena flôr meio murcha. Elle deixava ficar a flôr no tapete: e mal
-podia dizer o que havia n'aquellas longas linhas cruzadas. Sabia apenas
-vagamente que, tres dias depois d'ella chegar ao Porto, o pai, o velho
-Thompson, tivera uma apoplexia. Ella lá estava, d'enfermeira. Depois,
-levando duas ou tres bellas flôres do jardim embrulhadas n'um papel de
-sêda, partia para a rua de S. Francisco, sempre no seu coupé--porque o
-tempo mudára, e os dias seguiam-se, tristonhos, cheios de sudoeste e de
-chuva.
-
-Á porta o Domingos acolhia-o com um sorriso cada vez mais enternecido.
-_Niniche_ corria de dentro, a pular d'amizade; elle erguia-a nos braços
-para a beijar. Esperava um instante na sala, de pé, saudando com o olhar
-os moveis, os ramos, a clara ordem das coisas; ia examinar no piano a
-musica que ella tocára essa manhã, ou o livro que deixára interrompido,
-com a faca de marfim entre as folhas.
-
-Ella entrava. O seu sorriso ao dar-lhe os bons dias, a sua voz d'ouro
-tinham cada dia para Carlos um encanto novo e mais penetrante. Trazia
-ordinariamente um vestido escuro e simples: apenas ás vezes uma gravata
-de rica renda antiga, ou um cinto cuja fivella era cravejada de pedras,
-avivavam este traje sobrio, quasi severo, que parecia a Carlos o mais
-bello, e como uma expressão do seu espirito.
-
-Começavam por fallar de miss Sarah, d'aquelle tempo agreste e humido que
-lhe era tão desfavoravel. Conversando, ainda de pé, ella dava aqui e
-além um arranjo melhor a um livro, ou ia mover uma cadeira que não
-estava no seu alinho; tinha o habito inquieto de recompôr constantemente
-a symetria das coisas;--e, machinalmente, ao passar, sacudia a
-superficie de moveis já perfeitamente espanejados com as magnificas
-rendas do seu lenço.
-
-Agora acompanhava-o sempre ao quarto de miss Sarah. Pelo corredor
-amarello, caminhando ao seu lado, Carlos perturbava-se sentindo a
-caricia d'esse intimo perfume em que havia jasmim, e que parecia sahir
-do movimento das suas saias. Ella ás vezes abria familiarmente a porta
-de um quarto, apenas mobilado com um velho sofá: era alli que Rosa
-brincava, e que tinha os arranjos de Cri-cri, as carruagens de Cri-cri,
-a cozinha de Cri-cri. Encontravam-na vestindo e conversando
-profundamente com a boneca; ou então, ao canto do sofá, com os pésinhos
-cruzados, immovel, perdida na admiração d'algum livro d'estampas aberto
-sobre os joelhos. Ella corria, estendia a boquinha a Carlos; e toda a
-sua pessoa tinha a frescura de uma linda flôr.
-
-No quarto da governante, Maria Eduarda sentava-se aos pés do leito
-branco; e logo a pobre miss Sarah, ainda cheia de tosse, confusa,
-verificando a cada instante se o lenço de sêda lhe cobria correctamente
-o pescoço, affirmava que estava boa. Carlos gracejava com ella,
-provando-lhe que n'esse feio tempo d'inverno, a felicidade era estar
-alli na cama, com bons cuidados em redor, alguns romances patheticos, e
-appetitosa dieta portugueza. Ella voltava os olhos gratos para Madame,
-com um suspiro. Depois murmurava:
-
---_Oh yes, I am very comfortable!_
-
-E enternecia-se.
-
-Logo nos primeiros dias, ao voltar á sala, Maria Eduarda tinha-se
-sentado na sua cadeira escarlate, e, conversando com Carlos, retomára
-muito naturalmente o seu bordado como na presença familiar de um velho
-amigo. Com que felicidade profunda elle viu desdobrar-se essa talagarça!
-Devia ser um faisão de plumagens rutilantes: mas por ora só estava
-bordado o galho de macieira em que elle pousava, galho fresco de
-primavera, coberto de florzinhas brancas, como n'um pomar da Normandia.
-
-Carlos, junto da linda secretariasinha de pau preto, occupava a mais
-velha, a mais commoda das poltronas de reps vermelho, cujas molas
-rangiam de leve. Entre elles ficava a mesa de costura com as
-_Illustrações_ ou algum jornal de modas; ás vezes, um instante calado,
-elle folheava as gravuras, em quanto as lindas mãos de Maria, com
-brilhos de joias, iam puxando os fios de lã. Aos pés d'ella _Niniche_
-dormitava, espreitando-os a espaços, através das repas do focinho, com o
-seu bello olho grave e negro. E n'esses escuros dias de chuva, cheios de
-friagem lá fóra e do rumor das goteiras, aquelle canto da janella, com a
-paz do vagaroso trabalho na talagarça, as vozes lentas e amigas, e ás
-vezes um dôce silencio, tinha um ar intimo e carinhoso...
-
-Mas no que diziam não havia intimidades. Fallavam de Paris e do seu
-encanto, de Londres onde ella estivera durante quatro lugubres mezes de
-inverno, da Italia que era o seu sonho vêr, de livros, de coisas d'arte.
-Os romances que preferia eram os de Dickens; e agradava-lhe menos
-Feuillet, por cobrir tudo de pó d'arroz, mesmo as feridas do coração.
-Apesar de educada n'um convento severo d'Orleans, lêra Michelet e lêra
-Renan. De resto não era catholica praticante; as igrejas apenas a
-attrahiam pelos lados graciosos e artisticos do culto, a musica, as
-luzes, ou os lindos mezes de Maria, em França, na doçura das flôres de
-maio. Tinha um pensar muito recto e muito são--com um fundo de ternura
-que a inclinava para tudo o que soffre e é fraco. Assim gostava da
-Republica por lhe parecer o regimen em que ha mais solicitude pelos
-humildes. Carlos provava-lhe rindo que ella era socialista.
-
---Socialista, legitimista, orleanista, dizia ella, qualquer coisa,
-comtanto que não haja gente que tenha fome!
-
-Mas era isso possivel? Já Jesus, mesmo, que tinha tão dôces illusões,
-declarára que pobres sempre os haveria...
-
---Jesus viveu ha muito tempo, Jesus não sabia tudo... Hoje sabe-se mais,
-os senhores sabem muito mais... É necessario arranjar-se outra
-sociedade, e depressa, em que não haja miseria. Em Londres, ás vezes,
-por aquellas grandes neves, ha criancinhas pelos portaes a tiritar, a
-gemer de fome... É um horror! E em Paris então! É que se não vê senão o
-boulevard; mas quanta pobreza, quanta necessidade...
-
-Os seus bellos olhos quasi se enchiam de lagrimas. E cada uma d'estas
-palavras trazia todas as complexas bondades da sua alma--como n'um só
-sopro podem vir todos os aromas esparsos de um jardim.
-
-Foi um encanto para Carlos quando Maria o associou ás suas caridades,
-pedindo-lhe para ir vêr a irmã da sua engommadeira que tinha
-rheumatismo, e o filho da snr.^a Augusta, a velha do patamar, que estava
-tisico. Carlos cumpria esses encargos com o fervor de acções religiosas.
-E n'estas piedades achava-lhe semelhanças com o avô. Como Affonso, todo
-o soffrimento dos animaes a consternava. Um dia viera indignada da Praça
-da Figueira, quasi com idéas de vingança, por ter visto nas tendas dos
-gallinheiros aves e coelhos apinhados em cestos, soffrendo durante dias
-as torturas da immobilidade e a anciedade da fome. Carlos levava estes
-bellas coleras para o Ramalhete, increpava violentamente o marquez, que
-era membro da _Sociedade protectora dos animaes_. O marquez, indignado
-tambem, jurava justiça, fallava em cadêas, em costa d'Africa... E
-Carlos, commovido, ficava a pensar quanta larga e distante influencia
-póde ter, mesmo isolado de tudo, um coração que é justo.
-
-Uma tarde fallaram do Damaso. Ella achava-o insupportavel, com a sua
-petulancia, os olhos bugalhudos, as perguntas nescias. V. exc.^a acha
-Nice elegante? V. exc.^a prefere a capella de S. João Baptista a
-_Notre-Dame_?...
-
---E então a insistencia de fallar de pessoas que eu não conheço! A
-snr.^a condessa de Gouvarinho, e os chás da snr.^a condessa de
-Gouvarinho, e a frisa da snr.^a condessa de Gouvarinho, e a preferencia
-que a snr.^a condessa de Gouvarinho tem por elle... E isto horas! Eu ás
-vezes tinha medo de adormecer...
-
-Carlos fez-se escarlate. Porque trouxera ella, entre todos, o nome da
-Gouvarinho? Tranquillisou-se, vendo-a rir simples e limpidamente.
-Decerto não sabia quem era Gouvarinho. Mas, para sacudir logo d'entre
-elles esse nome, começou a fallar de Mr. Guimarães, o famoso tio do
-Damaso, o amigo de Gambetta, o influente da Republica...
-
---O Damaso tem-me dito que v. exc.^a o conhece muito...
-
-Ella erguera os olhos, com um fugitivo rubor no rosto.
-
---Mr. Guimarães?... Sim, conheço muito... Ultimamente viamo-nos menos,
-mas elle era muito amigo da mamã.
-
-E depois d'um silencio, d'um curto sorriso, recomeçando a puxar o seu
-longo fio de lã:
-
---Pobre Guimarães, coitado! A sua influencia na Republica é traduzir
-noticias dos jornaes hespanhoes e italianos para o _Rappel_, que d'isso
-é que vive... Se é amigo de Gambetta, não sei, Gambetta tem amigos tão
-extraordinarios... Mas o Guimarães, aliás bom homem e homem honrado, é
-um grutesco, uma especie de Calino republicano. E tão pobre, coitado! O
-Damaso, que é rico, se tivesse decencia, ou o menor sentimento, não o
-deixava viver assim tão miseravelmente.
-
---Mas então essas carruagens do tio, esse luxo do tio, de que falla o
-Damaso...?
-
-Ella encolheu mudamente os hombros; e Carlos sentiu pelo Damaso um asco
-intoleravel.
-
-Pouco a pouco nas suas conversas foi havendo uma intimidade mais
-penetrante. Ella quiz saber a idade de Carlos, elle fallou-lhe do avô. E
-durante essas horas suaves em que ella, silenciosa, ia picando a
-talagarça, elle contou-lhe a sua vida passada, os planos de carreira, os
-amigos, e as viagens... Agora ella conhecia a paizagem de Santa Olavia,
-o reverendo Bonifacio, as excentricidades do Ega. Um dia quiz que Carlos
-lhe explicasse longamente a idéa do seu livro _A medicina antiga e
-moderna_. Approvou, com sympathia, que elle pintasse as figuras dos
-grandes medicos, bemfeitores da humanidade. Porque se glorificariam só
-guerreiros e fortes? A vida salva a uma criança parecia-lhe coisa bem
-mais bella que a batalha de Austerlitz. E estas palavras que dizia com
-simplicidade, sem mesmo erguer os olhos do seu bordado, cahiam no
-coração de Carlos e ficavam lá muito tempo, palpitando e brilhando...
-
-Elle tinha-lhe feito assim largamente todas as confissões;--e ainda não
-sabia nada do seu passado, nem mesmo a terra em que nascera, nem sequer
-a rua que habitava em Paris. Não lhe ouvira murmurar jámais o nome do
-marido, nem fallar d'um amigo ou d'uma alegria da sua casa. Parecia não
-ter em França, onde vivia, nem interesses, nem lar;--e era realmente
-como a deusa que elle ideára, sem contactos anteriores com a terra,
-descida da sua nuvem d'oiro para vir ter alli, n'aquelle andar alugado
-da rua de S. Francisco, o seu primeiro estremecimento humano.
-
-Logo na primeira semana das visitas de Carlos tinham faltado
-d'affeições. Ella acreditava candidamente que podesse haver, entre uma
-mulher e um homem, uma amizade pura, immaterial, feita da concordancia
-amavel de dois espiritos delicados. Carlos jurou que tambem tinha fé
-n'essas bellas uniões, todas d'estima, todas de razão--comtanto que se
-lhes misturasse, ao de leve que fosse, uma ponta de ternura... Isso
-perfumava-as d'um grande encanto--e não lhes diminuia a sinceridade. E,
-sob estas palavras um pouco diffusas, murmuradas por entre as malhas do
-bordado e com lentos sorrisos, ficára subtilmente estabelecido que entre
-elles só deveria haver um sentimento assim, casto, legitimo, cheio de
-suavidade e sem tormentos.
-
-Que importava a Carlos? Comtanto que podesse passar aquella hora na
-poltrona de cretone, contemplando-a a bordar, e conversando em coisas
-interessantes, ou tornadas interessantes pela graça da sua pessoa;
-comtanto que visse o seu rosto, ligeiramente córado, baixar-se, com a
-lenta attracção d'uma caricia, sobre as flôres que lhe trazia; comtanto
-que lhe afagasse a alma a certeza de que o pensamento d'ella o ficava
-seguindo sympathicamente através do seu dia, mal elle deixava aquella
-adorada sala de reps vermelho--o seu coração estava satisfeito,
-esplendidamente.
-
-Não pensava mesmo que aquella ideal amizade, d'intenção casta, era o
-caminho mais seguro para a trazer, brandamente enganada, aos seus braços
-ardentes d'homem. No deslumbramento que o tomára ao vêr-se de repente
-admittido a uma intimidade que julgára impenetravel,--os seus desejos
-desappareciam: longe d'ella, ás vezes, ainda ousavam ir temerariamente
-até á esperança d'um beijo, ou d'uma fugitiva caricia com a ponta dos
-dedos; mas apenas transpunha a sua porta, e recebia o calmo raio do seu
-olhar negro, cahia em devoção, e julgaria um ultraje bestial roçar
-sequer as prégas do seu vestido.
-
-Foi aquelle decerto o periodo mais delicado da sua vida. Sentia em si
-mil coisas finas, novas, d'uma tocante frescura. Nunca imaginára que
-houvesse tanta felicidade em olhar para as estrellas quando o céo está
-limpo; ou em descer de manhã ao jardim para escolher uma rosa mais
-aberta. Tinha na alma um constante sorriso--que os seus labios repetiam.
-O marquez achava-lhe o ar baboso e abençoador...
-
-Ás vezes, passeando só no seu quarto, perguntava a si mesmo onde o
-levaria aquelle grande amor. Não sabia. Tinha diante de si os tres mezes
-em que ella estaria em Lisboa, e em que ninguem mais senão elle
-occuparia a velha cadeira ao lado do seu bordado. O marido andava longe,
-separado por legoas de mar incerto. Depois elle era rico, e o mundo era
-largo...
-
-Conservava sempre as suas grandes idéas do trabalho, querendo que no seu
-dia só houvesse horas nobres,--e que aquellas que não pertenciam ás
-puras felicidades do amor, pertencessem ás alegrias fortes do estudo. Ia
-ao laboratorio, ajuntava algumas linhas ao seu manuscripto. Mas antes da
-visita á rua de S. Francisco não podia disciplinar o espirito, inquieto,
-n'um tumulto d'esperanças; e depois de voltar de lá, passava o dia a
-recapitular o que ella dissera, o que elle respondera, os seus gestos, a
-graça de certo sorriso... Fumava então cigarrettes, lia os poetas.
-
-Todas as noites no escriptorio d'Affonso se formava a partida de
-_whist_. O marquez batia-se ao dominó com o Taveira, enfronhados ambos
-n'aquelle vicio, com um rancor crescente que os levava a injurias.
-Depois das corridas, o secretario de Steinbroken começára a vir ao
-Ramalhete; mas era um inutil, nem cantava sequer como o seu chefe as
-balladas da Filandia; cahido no fundo d'uma poltrona, de casaca, de
-vidro no olho, bamboleando a perna, cofiava silenciosamente os seus
-longos bigodes tristes.
-
-O amigo que Carlos gostava de vêr entrar era o Cruges--que vinha da rua
-de S. Francisco, trazia alguma coisa do ar que Maria Eduarda respirava.
-O maestro sabia que Carlos ia todas as manhãs ao predio vêr a «miss
-ingleza»; e muitas vezes, innocentemente, ignorando o interesse de
-coração com que Carlos o escutava, dava-lhe as ultimas noticias da
-visinha...
-
---A visinha lá ficou agora a tocar Mendelhson... Tem execução, tem
-expressão, a visinha... Ha alli estofo... E entende o seu Choppin.
-
-Se elle não apparecia no Ramalhete, Carlos ia a casa buscal-o: entravam
-no Gremio, fumavam um charuto n'alguma sala isolada, fallando da
-visinha; Cruges achava-lhe «um verdadeiro typo de _grande dame_».
-
-Quasi sempre encontravam o conde de Gouvarinho, que vinha ver (como elle
-dizia a faiscar d'ironia) o que se passava «no paiz do snr. Gambetta».
-Parecera remoçar ultimamente, mais ligeiro nos modos, com uma claridade
-d'esperança nas lunetas, na fronte erguida. Carlos perguntava-lhe pela
-condessa. Lá estava no Porto, nos seus deveres de filha...
-
---E seu sogro?
-
-O conde baixava a face radiante, para murmurar cava e resignadamente:
-
---Mal.
-
-
-Uma tarde, Carlos conversava com Maria Eduarda, acariciando _Niniche_
-que se lhe viera sentar nos joelhos, quando Romão entreabriu
-discretamente o reposteiro, e baixando a voz, com um ar embaraçado, um
-ar de cumplicidade, murmurou:
-
---É o snr. Damaso!...
-
-Ella olhou o Romão, surprehendida d'aquelles modos, e quasi
-escandalisada.
-
---Pois bem, mande entrar!
-
-E Damaso rompeu pela sala, carregado de luto, de flôr ao peito,
-gorducho, risonho, familiar, com o chapeu na mão, trazendo dependurado
-por um barbante um grande embrulho de papel pardo... Mas ao vêr Carlos
-alli, intimamente, de cadellinha no collo, estacou assombrado, com o
-olho esbugalhado, como tonto. Emfim desembaraçou as mãos, veio
-comprimentar Maria Eduarda quasi de leve,--e voltando-se logo para
-Carlos, de braços abertos, todo o seu espanto trasbordou ruidosamente:
-
---Então tu aqui, homem? Isto é que é uma surpreza! Ora quem me diria!...
-Eu estava mais longe...
-
-Maria Eduarda, incommodada com aquelle alarido, indicou-lhe vivamente
-uma cadeira, interrompeu um instante o bordado, quiz saber como elle
-tinha chegado.
-
---Perfeitamente, minha senhora... Um bocado cançado, como é natural...
-Venho direitinho de Penafiel... Como v. exc.^a vê--e mostrou o seu luto
-pesado--acabo de passar por um grande desgosto.
-
-Maria Eduarda murmurou uma palavra de sentimento, vaga e fria. Damaso
-pousára os olhos no tapete. Vinha da provincia cheio de côr, cheio de
-sangue; e como cortára a barba (que havia mezes deixára crescer para
-imitar Carlos) parecia agora mais bochechudo e mais nedio. As côxas
-roliças estalavam-lhe de gordura dentro da calça de casimira preta.
-
---E então, perguntou Maria Eduarda, temol-o por cá algum tempo?
-
-Elle deu um puxãosinho á cadeira, mais para junto d'ella, e outra vez
-risonho:
-
---Agora, minha senhora, ninguem me arranca de Lisboa! Podem-me morrer...
-Isto é, credo! teria grande ferro se me morresse alguem. O que quero
-dizer é que ha de custar a arrancar-me d'aqui!
-
-Carlos continuava muito socegadamente a acariciar os pêllos da
-_Niniche_. E houve então um pequeno silencio. Maria Eduarda retomára o
-bordado. E Damaso, depois de sorrir, de tossir, de dar um geito ao
-bigode, estendeu a mão para acariciar tambem _Niniche_ sobre os joelhos
-de Carlos. Mas a cadellinha, que havia momentos o espreitava com o olho
-desconfiado, ergueu-se, rompeu a ladrar furiosa.
-
---_C'est moi, Niniche!_ dizia Damaso, recuando a cadeira. _C'est moi,
-ami... Alors, Niniche_...
-
-Foi necessario que Maria Eduarda reprehendesse severamente _Niniche_. E,
-aninhada de novo no collo de Carlos, ella continuou a espreitar Damaso,
-rosnando, e com rancor.
-
---Já me não conhece, dizia elle embaçado, é curioso...
-
---Conhece-o perfeitamente, acudiu Maria Eduarda muito séria. Mas não sei
-o que o snr. Damaso lhe fez, que ella tem-lhe odio. É sempre este
-escandalo.
-
-Damaso balbuciava, escarlate:
-
---Ora essa, minha senhora! O que lhe fiz?... Caricias, sempre
-caricias...
-
-E então não se conteve, fallou com ironia, amargamente, das amizades
-novas de Mademoiselle _Niniche_. Alli estava nos braços d'outro,
-emquanto que elle, o amigo velho, era deitado ao canto...
-
-Carlos ria.
-
---Ó Damaso, não a accuses de ingratidão... Pois se a snr.^a D. Maria
-Eduarda está a dizer que ella sempre te teve odio...
-
---Sempre! exclamou Maria.
-
-Damaso sorria tambem, lividamente. Depois, tirando um lenço de barra
-negra, limpando os beiços e mesmo o suor do pescoço, lembrou a Maria
-Eduarda como ella o tinha desapontado no dia das corridas... Elle toda a
-tarde á espera...
-
---Eram vesperas de partida, disse ella.
-
---Sim, bem sei, o marido de v. exc.^a... E como vai o snr. Castro Gomes?
-V. exc.^a já recebeu noticias?
-
---Não, respondeu ella com o rosto sobre o bordado.
-
-Damaso cumpriu ainda outros deveres. Perguntou por Mademoiselle Rosa.
-Depois por Cri-cri. Era necessario não esquecer Cri-cri...
-
---Pois v. exc.^a--continuou elle, cheio subitamente de
-loquacidade--perdeu, que as corridas estiveram esplendidas... Nós ainda
-não nos vimos depois das corridas, Carlos. Ah, sim, vimo-nos na
-estação... Pois não é verdade que estiveram muito _chics_? Olhe, minha
-senhora, d'uma coisa póde v. exc.^a estar certa, é que hippodromo mais
-bonito não ha lá fóra. Uma vista até á barra, que é d'appetite... Até se
-vêem entrar os navios... Pois não é assim, Carlos?
-
---Sim, disse Carlos, sorrindo. Não é propriamente um campo de
-corridas... É verdade que não ha tambem propriamente cavallos de
-corridas... Verdade seja que não ha jockeys... Ora é verdade que não ha
-apostas... Mas é verdade tambem que não ha publico...
-
-Maria Eduarda ria, alegremente.
-
---Mas então?
-
---Vêem-se entrar os navios, minha senhora...
-
-Damaso protestava, com as orelhas vermelhas. Era realmente querer dizer
-mal á força... Não senhor, não senhor!... Eram muito boas corridas. Tal
-qual como lá fóra, as mesmas regras, tudo...
-
---Até na pesagem, acrescentou elle muito sério, fallamos sempre inglez!
-
-Repetiu ainda que as corridas eram _chics_. Depois não achou mais
-nada:--e fallou de Penafiel, onde chovera sempre tanto que elle vira-se
-forçado a ficar em casa, estupidamente, a lêr...
-
---Uma massada! Ainda se houvesse alli umas mulheres para ir dar um
-bocado de cavaco... Mas qual! Uns monstros. E eu, lavradeiras, raparigas
-de pé descalço, não tolero... Ha gente que gosta... Mas eu, acredite v.
-exc.^a, não tolero...
-
-Carlos corára: mas Maria Eduarda parecia não ter ouvido, occupada a
-contar attentamente as malhas do seu bordado.
-
-De repente Damaso recordou-se que tinha alli um presentinho para a
-snr.^a D. Maria Eduarda. Mas não imaginasse que era alguma
-preciosidade... Verdadeiramente até o presente era para Mademoiselle
-Rosa.
-
---Olhe, para não estar com mysterios, sabe o que é? Tenho-o alli no
-embrulhosinho de papel pardo... São seis barrilinhos d'ovos molles
-d'Aveiro. É um dôce muito célebre, mesmo lá fóra. Só o de Aveiro é que
-tem _chic_... Pergunte v. exc.^a ao Carlos. Pois não é verdade, Carlos,
-que é uma delicia, até conhecido lá fóra?
-
---Ah, certamente, murmurou Carlos, certamente...
-
-Pousára _Niniche_ no chão, erguera-se, fôra buscar o seu chapéo.
-
---Já?... perguntou-lhe Maria Eduarda, com um sorriso que era só para
-elle. Até ámanhã, então!
-
-E voltou-se logo para o Damaso, esperando vêl-o erguer-se tambem. Elle
-conservou-se installado, com um ar de demora, familiar, e bamboleando a
-perna. Carlos estendeu-lhe dois dedos.
-
---_Au revoir_, disse o outro. Recados lá no Ramalhete; hei de
-apparecer!...
-
-Carlos desceu as escadas, furioso.
-
-Alli ficava pois aquelle imbecil impondo a sua pessoa, grosseiramente,
-tão obtuso que não percebia o enfado d'ella, a sua regelada seccura! E
-para que ficava? Que outras crassas banalidades tinha ainda a soltar, em
-calão, e de perna traçada? E de repente lembrou-lhe o que elle lhe
-dissera na noite do jantar do Ega, á porta do Hotel Central, a respeito
-da propria Maria Eduarda, e do seu systema com mulheres «que era o
-_atracão_». Se aquelle idiota, de repente, abrazado e bestial, ousasse
-um ultraje? A supposição era insensata, talvez--mas reteve-o no pateo,
-applicando o ouvido para cima, com idéas ferozes de esperar alli o
-Damaso, prohibir-lhe de tornar a subir aquella escada, e, á menor
-reflexão d'elle, esmagar-lhe o craneo nas lages...
-
-Mas sentiu em cima a porta abrir-se, e sahiu vivamente, no receio de ser
-assim surprehendido á escuta. O coupé do Damaso estacionava na rua.
-Então veio-lhe uma curiosidade mordente de saber quanto tempo elle
-ficaria alli com Maria Eduarda. Correu ao Gremio; e apenas abrira uma
-vidraça--viu logo o Damaso sahir do portão, saltar para o coupé, bater
-com força a portinhola. Pareceu-lhe que trazia o ar escorraçado, e
-subitamente teve dó d'aquelle grutesco...
-
-N'essa noite, depois de jantar, Carlos só no seu quarto fumava,
-enterrado n'uma poltrona, relendo uma carta do Ega recebida n'essa
-manhã,--quando appareceu o Damaso. E, sem pousar mesmo o chapéo, logo da
-porta, exclamou, com o mesmo espanto da manhã:
-
---Então dize-me cá! Como diabo te vou eu encontrar hoje com a
-brazileira?... Como a conheceste tu? Como foi isso?
-
-Sem mover a cabeça do espaldar da poltrona, cruzando as mãos sobre os
-joelhos em cima da carta do Ega, Carlos, agora cheio de bom humor,
-disse, com uma dôce reprehensão paternal:
-
---Pois então tu vaes expôr a uma senhora as tuas opiniões lubricas sobre
-as lavradeiras de Penafiel!
-
---Não se trata d'isso, sei muito bem o que hei de expôr! exclamou o
-outro, vermelho. Conta lá, anda... Que diabo! Parece-me que tenho
-direito a saber... Como a conheceste tu?
-
-Carlos, imperturbavel, cerrando os olhos como para se recordar, começou,
-n'um tom lento e solemne de recitativo:
-
---Por uma tepida tarde de primavera, quando o sol se afundava em nuvens
-d'oiro, um mensageiro esfalfado pendurava-se da campainha do Ramalhete.
-Via-se-lhe na mão uma carta, lacrada com sello heraldico; e a expressão
-do seu semblante...
-
-Damaso, já zangado, atirou com o chapéo para cima da mesa.
-
---Parece-me que era mais decente deixar-te d'esses mysterios!
-
---Mysterios? Tu vens obtuso, Damaso. Pois tu entras n'uma casa onde
-existe ha quasi um mez uma pessoa gravemente doente, e ficas assombrado,
-petrificado, ao encontrar lá o medico! Quem esperavas tu vêr lá? Um
-photographo?
-
---Então quem está doente?
-
-Carlos, em poucas palavras, disse-lhe a bronchite da ingleza--emquanto o
-Damaso, sentado á beira do sofá, mordendo o charuto sem lume, olhava
-para elle desconfiado.
-
---E como soube ella onde tu moravas?
-
---Como se sabe onde mora o rei; onde é a alfandega; de que lado luz a
-estrella da tarde; os campos onde foi Troia... Estas coisas que se
-aprendem nas aulas de instrucção primaria...
-
-O pobre Damaso deu alguns passos pela sala, embezerrado, com as mãos nos
-bolsos.
-
---Ella tem agora lá o Romão, o que foi meu criado, murmurou depois d'um
-silencio. Eu tinha-lh'o recommendado... Ella leva-se muito pelo que eu
-lhe digo...
-
---Sim, tem, por uns dias, emquanto o Domingos foi á terra. Vai mandal-o
-embora, é um imbecil, e tu tinhas-lhe ensinado más maneiras...
-
-Então Damaso atirou-se para o canto do sofá e confessou que ao entrar na
-sala, quando dera com os olhos em Carlos, de cadellinha no collo, ficára
-furioso... Emfim, agora que sabia que era por doença, bem, tudo se
-explicava... Mas primeiro parecera-lhe que andava alli tramoia... Só com
-ella, ainda pensou em lhe perguntar: depois receou que não fosse
-delicado; e além d'isso ella estava de mau humor...
-
-E acrescentou logo, accendendo o charuto:
-
---Que apenas tu sahiste, pôz-se melhor, mais á vontade... Rimos muito...
-Eu fiquei ainda até tarde, quasi duas horas mais; era perto das cinco
-quando sahi. Outra coisa, ella fallou-te alguma vez de mim?
-
---Não. É uma pessoa de bom gosto; e sabendo que nos conhecemos, não se
-atreveria a dizer-me mal de ti.
-
-Damaso olhou-o, esgazeado:
-
---Ora essa!... Mas podia ter dito bem!
-
---Não; é uma pessoa de bom senso, não se atreveria tambem.
-
-E erguendo-se vivamente, Carlos abraçou Damaso pela cinta,
-acariciando-o, perguntando-lhe pela herança do titi, e em que amores, em
-que viagens, em que cavallos de luxo ia gastar os milhões...
-
-Damaso, sob aquellas festas alegres, permanecia frio, amuado, olhando-o
-de revez.
-
---Olha que tu, disse elle, parece-me que me vaes sahindo tambem um
-traste... Não ha a gente fiar-se em ninguem!
-
---Tudo na terra, meu Damaso, é apparencia e engano!
-
-Seguiram d'alli á sala do bilhar fazer «a partida de reconciliação». E
-pouco a pouco, sob a influencia que exercia sempre sobre elle o
-Ramalhete, Damaso foi socegando, risonho já, gozando de novo a sua
-intimidade com Carlos no meio d'aquelle luxo sério, e tratando-o outra
-vez por «menino». Perguntou pelo snr. Affonso da Maia. Quiz saber se o
-bello marquez tinha apparecido. E o Ega, o grande Ega?...
-
---Recebi carta d'elle, disse Carlos. Vem ahi, temol-o talvez cá no
-sabbado.
-
-Foi um espanto para o Damaso.
-
---Homem! essa é curiosa! E eu encontrei os Cohens, hoje!... Vieram ha
-dois dias de Southampton... Jógo eu?
-
-Jogou, falhou a carambola.
-
---Pois é verdade, encontrei-os hoje, fallei-lhes um instante... E a
-Rachel vem melhor, vem mais gorda... Trazia uma _toilette_ ingleza com
-coisas brancas, coisas côr de rosa... _Chic_ a valer, parecia um
-moranguinho! E então o Ega de volta?... Pois, menino, ainda temos
-escandalo!
-
-
-
-
-II
-
-
-No sabbado, com effeito, Carlos, recolhendo ao Ramalhete de volta da rua
-de S. Francisco, encontrou o Ega no seu quarto, mettido n'um fato de
-cheviotte claro, e com o cabello muito crescido.
-
---Não faças espalhafato, gritou-lhe elle, que eu estou em Lisboa
-_incognito_!
-
-E em seguida aos primeiros abraços declarou que vinha a Lisboa, só por
-alguns dias, unicamente para comer bem e para conversar bem. E contava
-com Carlos para lhe fornecer esses requintes, alli, no Ramalhete...
-
---Ha cá um quarto para mim? Eu por ora estou no _Hotel Hespanhol_, mas
-ainda nem mesmo abri a mala... Basta-me uma alcova, com uma mesa de
-pinho, larga bastante para se escrever uma obra sublime.
-
-Decerto! Havia o quarto em cima, onde elle estivera depois de deixar a
-Villa Balzac. E mais sumptuoso agora, com um bello leito da Renascença,
-e uma cópia dos _Borrachos_ de Velasquez.
-
---Optimo covil para a arte! Velasquez é um dos Santos Padres do
-naturalismo... A proposito, sabes com quem eu vim? Com a Gouvarinho. O
-pai Tompson esteve á morte, arribou, depois o conde foi buscal-a.
-Achei-a magra; mas com um ar ardente; e fallou-me constantemente de ti.
-
---Ah! murmurou Carlos.
-
-Ega, de monoculo no olho e mãos nos bolsos, contemplava Carlos.
-
---É verdade. Fallou de ti constantemente, irresistivelmente,
-immoderadamente! Não me tinhas mandado contar isso... Sempre seguiste o
-meu conselho, hein? Muito bem feita de corpo, não é verdade? E que tal,
-no acto d'amor?
-
-Carlos córou, chamou-lhe grosseiro, jurou que nunca tivera com a
-Gouvarinho senão relações superficiaes. Ia lá ás vezes tomar uma chavena
-de chá; e á hora do Chiado acontecia-lhe, como a todo o mundo, conversar
-com o conde sobre as miserias publicas, á esquina do Loreto. Nada mais.
-
---Tu estás-me a mentir, devasso! dizia o Ega. Mas não importa. Eu hei de
-descobrir tudo isso com o meu olho de Balzac, na segunda-feira....
-Porque nós vamos lá jantar na segunda-feira.
-
---Nós... Nós, quem?
-
---Nós. Eu e tu, tu e eu. A condessa convidou-me no comboio. E o
-Gouvarinho, como compete ao individuo d'aquella especie, acrescentou
-logo que haviamos de ter tambem «o nosso Maia». O Maia d'elle, e o Maia
-d'ella... Santo accordo! Suavissimo arranjo!
-
-Carlos olhou-o com severidade.
-
---Tu vens obsceno de Celorico, Ega.
-
---É o que se aprende no seio da Santa Madre Igreja.
-
-Mas tambem Carlos tinha uma novidade que o devia fazer estremecer. O Ega
-porém já sabia. A chegada dos Cohens, não é verdade? Lêra-o logo n'essa
-manhã, na _Gazeta Illustrada_, no _high-life_. Lá se dizia
-respeitosamente que s. exc.^{as} tinham regressado do seu passeio pelo
-estrangeiro.
-
---E que impressão te fez? perguntou Carlos rindo.
-
-O outro encolheu brutalmente os hombros:
-
---Fez-me o effeito de haver um cabrão mais na cidade.
-
-E, como Carlos o accusava outra vez de trazer de Celorico uma lingua
-immunda, o Ega, um pouco córado, arrependido talvez, lançou-se em
-considerações criticas, clamando pela necessidade social de dar ás
-coisas o nome exacto. Para que servia então o grande movimento
-naturalista do seculo? Se o vicio se perpetuava, é porque a sociedade,
-indulgente e romanesca, lhe dava nomes que o embellezavam, que o
-idealisavam... Que escrupulo póde ter uma mulher em beijocar um terceiro
-entre os lençoes conjugaes, se o mundo chama a isso sentimentalmente um
-romance, e os poetas o cantam em estrophes d'ouro?
-
---E a proposito, a tua comedia, o _Lodaçal_? perguntou Carlos, que
-entrára um instante para a alcova de banho.
-
---Abandonei-a, disse o Ega. Era feroz de mais... E além d'isso fazia-me
-remexer na podridão lisboeta, mergulhar outra vez na sargeta humana...
-Affligia-me...
-
-Parou diante do grande espelho, deu um olhar descontente ao seu jaquetão
-claro e ás botas com mau verniz.
-
---Preciso enfardelar-me de novo, Carlinhos... O Poole naturalmente
-mandou-te fato de verão, hei de querer examinar esses córtes da alta
-civilisação... Não ha negal-o, diabo, esta minha linha está chinfrim!
-
-Passou uma escova pelo bigode, e continuou fallando para dentro, para a
-alcova de banho:
-
---Pois, menino, eu agora o que necessito é o regimen da Chimera. Vou-me
-atirar outra vez ás _Memorias_. Ha de se fazer ahi uma quantidade d'arte
-colossal n'esse quarto que me destinas, diante de Velasquez... E a
-proposito, é necessario ir comprimentar o velho Affonso, uma vez que
-elle me vai dar o pão, o tecto, e a enxerga...
-
-Foram encontrar Affonso da Maia no escriptorio, na sua velha poltrona,
-com um antigo volume da _Illustração franceza_ aberto sobre os joelhos,
-mostrando as estampas a um pequeno bonito, muito moreno, d'olho vivo, e
-cabello encarapinhado. O velho ficou contentissimo ao saber que o Ega
-vinha por algum tempo alegrar o Ramalhete com a sua bella phantasia.
-
---Já não tenho phantasia, snr. Affonso da Maia!
-
---Então esclarecêl-o com a tua clara razão, disse o velho rindo. Estamos
-cá precisando d'ambas as coisas, John.
-
-Depois apresentou-lhe aquelle pequeno cavalheiro, o snr. Manoelinho,
-rapazinho amavel da visinhança, filho do Vicente, mestre d'obras; o
-Manoelinho vinha ás vezes animar a solidão d'Affonso--e alli folheavam
-ambos livros d'estampas e tinham conversas philosophicas. Agora,
-justamente, estava elle muito embaraçado por não lhe saber explicar como
-é que o general Canrobert (de quem estavam admirando o garbo sobre o seu
-cavallo empinado) tendo mandado matar gente, muita gente, em batalhas,
-não era mettido na cadêa...
-
---Está visto! exclamou o pequeno, esperto e desembaraçado, com as mãos
-cruzadas atraz das costas. Se mandou matar gente deviam-no ferrar na
-cadêa!
-
---Hein, amigo Ega! dizia Affonso rindo. Que se ha de responder a esta
-bella logica? Olha, filho, agora que estão aqui estes dois senhores que
-são formados em Coimbra, eu vou estudar esse caso... Vai tu vêr os
-bonecos alli para cima da mesa... E depois vão sendo horas d'ires lá
-dentro á Joanna, para merendares.
-
-Carlos, ajudando o pequeno a accommodar-se á mesa com o seu grande
-volume d'estampas, pensava quanto o avô, com aquelle seu amor por
-crianças, gostaria de conhecer Rosa!
-
-Affonso no emtanto perguntava tambem ao Ega pela comedia. O quê! Já
-abandonada? Quando acabaria então o bravo John de fazer bocados
-incompletos d'obras-primas?...--Ega queixou-se do paiz, da sua
-indifferença pela arte. Que espirito original não esmoreceria, vendo em
-torno de si esta espessa massa de burguezes, amodorrada e crassa,
-desdenhando a intelligencia, incapaz de se interessar por uma idéa
-nobre, por uma phrase bem feita?
-
---Não vale a pena, snr. Affonso da Maia. N'este paiz, no meio d'esta
-prodigiosa imbecilidade nacional, o homem de senso e de gosto deve
-limitar-se a plantar com cuidado os seus legumes. Olhe o Herculano...
-
---Pois então, acudiu o velho, planta os teus legumes. É um serviço á
-alimentação publica. Mas tu nem isso fazes!
-
-Carlos, muito sério, apoiava o Ega.
-
---A unica coisa a fazer em Portugal, dizia elle, é plantar legumes,
-emquanto não ha uma revolução que faça subir á superficie alguns dos
-elementos originaes, fortes, vivos, que isto ainda encerre lá no fundo.
-E se se vir então que não encerra nada, demittamo-nos logo
-voluntariamente da nossa posição de paiz para que não temos elementos,
-passemos a ser uma fertil e estupida provincia hespanhola, e plantemos
-mais legumes!
-
-O velho escutava com melancolia estas palavras do neto em que sentia
-como uma decomposição da vontade, e que lhe pareciam ser apenas a
-glorificação da sua inercia. Terminou por dizer:
-
---Pois então façam vocês essa revolução. Mas pelo amor de Deus, façam
-alguma coisa!
-
---O Carlos já não faz pouco, exclamou Ega, rindo. Passeia a sua pessoa,
-a sua toilette e o seu phaeton, e por esse facto educa o gosto!
-
-O relogio Luiz XV interrompeu-os--lembrando ao Ega que devia ainda,
-antes de jantar, ir buscar a sua mala ao Hotel Hespanhol. Depois no
-corredor confessou a Carlos que, antes d'ir ao Hespanhol, queria correr
-ao Fillon, ao photographo, vêr se podia tirar um bonito retrato.
-
---Um retrato?
-
---Uma surpreza que tem d'ir d'aqui a tres dias para Celorico, para o dia
-d'annos d'uma creaturinha que me adoçou o exilio.
-
---Oh Ega!
-
---É horroroso, mas então? É a filha do padre Corrêa, filha conhecida
-como tal; além d'isso casada com um proprietario rico da visinhança,
-reaccionario odioso... De modo que, bem vês, esta dupla peça a pregar á
-Religião e á Propriedade...
-
---Ah! n'esse caso...
-
---Ninguem se deve eximir, amigo, aos seus grandes deveres democraticos!
-
-
-Na segunda-feira seguinte choviscava quando Carlos e Ega, no coupé
-fechado, partiram para o jantar dos Gouvarinhos. Desde a chegada da
-condessa Carlos vira-a só uma vez, em casa d'ella; e fôra uma meia hora
-desagradavel, cheia de malestar, com um ou outro beijo frio, e
-recriminações infindaveis. Ella queixára-se das cartas d'elle, tão
-raras, tão seccas. Não se puderam entender sobre os planos d'esse verão,
-ella devendo ir para Cintra onde já alugára casa, Carlos fallando no
-dever de acompanhar o avô a Santa Olavia. A condessa achava-o
-distrahido: elle achou-a exigente. Depois ella sentou-se um instante
-sobre os seus joelhos e aquelle leve e delicado corpo pareceu a Carlos
-de um fastidioso peso de bronze.
-
-Por fim a condessa arrancára-lhe a promessa de a ir encontrar,
-justamente n'essa segunda-feira de manhã, a casa da titi, que estava em
-Santarem;--porque tinha sempre o appetite perverso e requintado de o
-apertar nos braços nús, em dias que o devesse receber na sua sala, mais
-tarde, e com ceremonia. Mas Carlos faltára,--e agora, rodando para casa
-d'ella, impacientavam-n'o já as queixas que teria de ouvir nos vãos de
-janella, e as mentiras chôchas que teria de balbuciar...
-
-De repente o Ega, que fumava em silencio, abotoado no seu paletot de
-verão, bateu no joelho de Carlos, e entre risonho e sério:
-
---Dize-me uma coisa, se não é um segredo sacrosanto... Quem é essa
-brazileira com quem tu agora passas todas as tuas manhãs?
-
-Carlos ficou um instante aturdido, com os olhos no Ega.
-
---Quem te fallou n'isso?
-
---Foi o Damaso que m'o disse. Isto é, o Damaso que m'o rugiu... Porque
-foi de dentes rilhados, a dar murros surdos n'um sofá do Gremio, e com
-uma côr d'apoplexia, que elle me contou tudo...
-
---Tudo o quê?
-
---Tudo. Que te apresentára a uma brazileira a quem se atirava, e que tu,
-aproveitando a sua ausencia, te metteras lá, não sahias de lá...
-
---Tudo isso é mentira! exclamou o outro, já impaciente.
-
-E Ega, sempre risonho:
-
---Então «que é a verdade», como perguntava o velho Pilatus ao chamado
-Jesus Christo?
-
---É que ha uma senhora a quem o Damaso suppunha ter inspirado uma
-paixão, como suppõe sempre, e que, tendo-lhe adoecido a governante
-ingleza com uma bronchite, me mandou chamar para eu a tratar. Ainda não
-está melhor, eu vou vêl-a todos os dias. E Madame Gomes, que é o nome da
-senhora, que nem brazileira é, não podendo tolerar o Damaso, como
-ninguem o tolera, tem-lhe fechado a sua porta. Esta é a verdade; mas
-talvez eu arranque as orelhas ao Damaso!
-
-Ega contentou-se em murmurar:
-
---E ahi está como se escreve a historia... vá-se lá a gente fiar em
-Guizot!
-
-Em silencio, até casa da Gouvarinho, Carlos foi ruminando a sua cólera
-contra o Damaso. Ahi estava pois rasgada por aquelle imbecil a penumbra
-suave e favoravel em que se abrigára o seu amor! Agora já se pronunciava
-o nome de Maria Eduarda no Gremio: o que o Damaso dissera ao Ega,
-repetil-o-hia a outros, na Casa Havaneza, no restaurante Silva, talvez
-nos lupanares: e assim o interesse supremo da sua vida seria d'ahi por
-diante constantemente perturbado, estragado, sujo pela tagarellice reles
-do Damaso!
-
---Parece-me que temos cá mais gente, disse o Ega, ao penetrarem na
-ante-camara dos Gouvarinhos, vendo sobre o canapé um paletot cinzento e
-capas de sonhem.
-
-A condessa esperava-os na salinha ao fundo, chamada «do busto», vestida
-de preto, com uma tira de velludo em volta do pescoço picada de tres
-estrellas de diamantes. Uma cesta de esplendidas flôres quasi enchia a
-mesa, onde se accumulavam tambem romances inglezes, e uma Revista dos
-Dois Mundos em evidencia, com a faca de marfim entre as folhas. Além da
-boa D. Maria da Cunha e da baroneza d'Alvim, havia uma outra senhora,
-que nem Carlos nem Ega conheciam, gorda e vestida d'escarlate; e de pé,
-conversando baixo com o conde, de mãos atraz das costas, um cavalheiro
-alto, escaveirado, grave, com uma barba rala, e a commenda da Conceição.
-
-A condessa, um pouco córada, estendeu a Carlos a mão amuada e frouxa:
-todos os seus sorrisos foram para o Ega. E o conde apoderou-se logo do
-querido Maia, para o apresentar ao seu amigo o snr. Sousa Netto. O snr.
-Sousa Netto já tinha o prazer de conhecer muito Carlos da Maia, como um
-medico distincto, uma honra da Universidade... E era esta a vantagem de
-Lisboa, disse logo o conde, o conhecerem-se todos de reputação, o
-poder-se ter assim uma apreciação mais justa dos caracteres. Em Paris,
-por exemplo, era impossivel; por isso havia tanta immoralidade, tanta
-relaxação...
-
---Nunca sabe a gente quem mette em casa.
-
-O Ega, entre a condessa e D. Maria, enterrado no divan, mostrando as
-estrellinhas bordadas das meias, fazia-as rir com a historia do seu
-exilio em Celorico, onde se distrahia compondo sermões para o abbade: o
-abbade recitava-os; e os sermões, sob uma fórma mystica, eram de facto
-affirmações revolucionarias que o santo varão lançava com fervor,
-esmurrando o pulpito... A senhora de vermelho, sentada defronte, de mãos
-no regaço, escutava o Ega, com o olhar espantado.
-
---Imaginei que v. exc.^a tinha ido já para Cintra, veio dizer Carlos á
-senhora baroneza, sentando-se junto d'ella. V. exc.^a é sempre a
-primeira...
-
---Como quer o senhor que se vá para Cintra com um tempo d'estes?
-
---Com effeito, está infernal...
-
---E que conta de novo? perguntou ella, abrindo lentamente o seu grande
-leque preto.
-
---Creio que não ha nada de novo em Lisboa, minha senhora, desde a morte
-do snr. D. João VI.
-
---Agora ha o seu amigo Ega, por exemplo.
-
---É verdade, ha o Ega... Como o acha v. exc.^a, senhora baroneza?
-
-Ella nem baixou a voz para dizer:
-
---Olhe, eu como o achei sempre um grande presumido e não gosto d'elle,
-não posso dizer nada...
-
---Oh senhora baroneza, que falta de caridade!
-
-O escudeiro annunciára o jantar. A condessa tomou o braço de Carlos,--e,
-ao atravessar o salão, entre o frouxo murmurio de vozes e o rumor lento
-das caudas de sêda, pôde dizer-lhe asperamente:
-
---Esperei meia hora; mas comprehendi logo que estaria entretido com a
-brazileira...
-
-Na sala de jantar, um pouco sombria, forrada de papel côr de vinho,
-escurecida ainda por dois antigos paineis de paizagem tristonha, a mesa
-oval, cercada de cadeiras de carvalho lavrado, resaltava alva e fresca,
-com um esplendido cesto de rosas entre duas serpentinas douradas. Carlos
-ficou á direita da condessa, tendo ao lado D. Maria da Cunha, que n'esse
-dia parecia um pouco mais velha, e sorria com um ar cansado.
-
---Que tem feito todo este tempo, que ninguem o tem visto? perguntou-lhe
-ella, desdobrando o guardanapo.
-
---Por esse mundo, minha senhora, vagamente...
-
-Defronte de Carlos, o snr. Sousa Netto, que tinha tres enormes coraes no
-peitilho da camisa, estava já observando, emquanto remexia a sopa, que a
-senhora condessa, na sua viagem ao Porto, devia ter encontrado nas ruas
-e nos edificios grandes mudanças... A condessa, infelizmente, mal tinha
-sahido durante o tempo que estivera no Porto. O conde, esse, é que
-admirara os progressos da cidade. E especificou-os: elogiou a vista do
-Palacio de Crystal; lembrou o fecundo antagonismo que existe entre
-Lisboa e Porto; mais uma vez o comparou ao dualismo da Austria e da
-Hungria. E através d'estas coisas graves, lançadas d'alto, com
-superioridade e com peso, a baroneza e a senhora d'escarlate, aos dois
-lados d'elle, fallavam do convento das Selesias.
-
-Carlos, no emtanto, comendo em silencio a sua sopa, ruminava as palavras
-da condessa. Tambem ella conhecia já a sua intimidade com a
-«brazileira». Era evidente pois que já andava alli, diffamante e torpe,
-a tagarellice do Damaso. E quando o criado lhe offereceu Sauterne,
-estava decidido a bater no Damaso.
-
-De repente ouviu o seu nome. Do fim da mesa uma voz dizia, pachorrenta e
-cantada:
-
---O snr. Maia é que deve saber... O snr. Maia já lá esteve.
-
-Carlos pousou vivamente o copo. Era a senhora d'escarlate que lhe
-fallava, sorrindo, mostrando uns bonitos dentes sob o buço forte de
-quarentona pallida. Ninguem lh'a apresentára, elle não sabia quem era.
-Sorriu tambem, perguntou:
-
---Onde, minha senhora?
-
---Na Russia.
-
---Na Russia?... Não, minha senhora, nunca estive na Russia.
-
-Ella pareceu um pouco desapontada.
-
---Ah, é que me tinham dito... Não sei já quem me disse, mas era pessoa
-que sabia...
-
-O conde ao fundo explicava-lhe amavelmente que o amigo Maia estivera
-apenas na Hollanda.
-
---Paiz de grande prosperidade, a Hollanda!... Em nada inferior ao
-nosso... Já conheci mesmo um hollandez que era excessivamente
-instruido...
-
-A condessa baixára os olhos, partindo vagamente um bocadinho de pão,
-mais séria de repente, mais secca, como se a voz de Carlos, erguendo-se
-tão tranquilla ao seu lado, tivesse avivado os seus despeitos. Elle,
-então, depois de provar devagar o seu Sauterne, voltou-se para ella,
-muito naturalmente e risonho:
-
---Veja a senhora condessa! Eu nem tive mesmo idéa d'ir á Russia. Ha
-assim uma infinidade de coisas que se dizem e que não são exactas... E
-se se faz uma allusão ironica a ellas, ninguem comprehende a allusão nem
-a ironia...
-
-A condessa não respondeu logo, dando com o olhar uma ordem muda ao
-escudeiro. Depois, com um sorriso pallido:
-
---No fundo de tudo que se diz ha sempre um facto, ou um bocado de facto
-que é verdadeiro. E isso basta... Pelo menos a mim basta-me...
-
---A senhora condessa tem então uma credulidade infantil. Estou vendo que
-acredita que era uma vez uma filha d'um rei que tinha uma estrella na
-testa...
-
-Mas o conde interpellava-o, o conde queria a opinião do seu amigo Maia.
-Tratava-se do livro de um inglez, o major Bratt, que atravessára a
-Africa, e dizia coisas perfidamente desagradaveis para Portugal. O conde
-via alli só inveja--a inveja que nos têm todas as nações por causa da
-importancia das nossas colonias, e da nossa vasta influencia na
-Africa...
-
---Está claro, dizia o conde, que não temos nem os milhões, nem a marinha
-dos inglezes. Mas temos grandes glorias; o infante D. Henrique é de
-primeira ordem; e a tomada d'Ormuz é um primor... E eu que conheço
-alguma coisa de systemas coloniaes, posso affirmar que não ha hoje
-colonias nem mais susceptiveis de riqueza, nem mais crentes no
-progresso, nem mais liberaes que as nossas! Não lhe parece, Maia?
-
---Sim, talvez, é possivel... Ha muita verdade n'isso...
-
-Mas Ega, que estivera um pouco silencioso, entalando de vez em quando o
-monoculo no olho e sorrindo para a baroneza, pronunciou-se alegremente
-contra todas essas explorações da Africa, e essas longas missões
-geographicas... Porque não se deixaria o preto socegado, na calma posse
-dos seus manipansos? Que mal fazia á ordem das coisas que houvesse
-selvagens? Pelo contrario, davam ao Universo uma deliciosa quantidade de
-pittoresco! Com a mania franceza e burgueza de reduzir todas as regiões
-e todas as raças ao mesmo typo de civilisação, o mundo ia tornar-se
-d'uma monotonia abominavel. Dentro em breve um touriste faria enormes
-sacrificios, despezas sem fim, para ir a Tombuctu--para quê? Para
-encontrar lá pretos de chapéo alto, a lêr o _Jornal dos Debates_!
-
-O conde sorria com superioridade. E a boa D. Maria, sahindo do seu vago
-abatimento, movia o leque, dizia a Carlos, deleitada:
-
---Este Ega! Este Ega! Que graça! Que _chic_!
-
-Então Sousa Netto, pousando gravemente o talher, fez ao Ega esta
-pergunta grave:
-
---V. exc.^a pois é em favor da escravatura?
-
-Ega declarou muito decididamente ao snr. Sousa Netto que era pela
-escravatura. Os desconfortos da vida, segundo elle, tinham começado com
-a libertação dos negros. Só podia ser sériamente obedecido, quem era
-sériamente temido... Por isso ninguem agora lograva ter os seus sapatos
-bem envernizados, o seu arroz bem cozido, a sua escada bem lavada, desde
-que não tinha criados pretos em quem fosse licito dar vergastadas... Só
-houvera duas civilisações em que o homem conseguira viver com razoavel
-commodidade: a civilisação romana, e a civilisação especial dos
-plantadores da Nova Orleans. Porque? porque n'uma e n'outra existira a
-escravatura absoluta, a sério, com o direito de morte!...
-
-Durante um momento o snr. Sousa Netto ficou como desorganisado. Depois
-passou o guardanapo sobre os beiços, preparou-se, encarou o Ega:
-
---Então v. exc.^a n'essa idade, com a sua intelligencia, não acredita no
-Progresso?
-
---Eu não senhor.
-
-O conde interveio, affavel e risonho:
-
---O nosso Ega quer fazer simplesmente um paradoxo. E tem razão, tem
-realmente razão, porque os faz brilhantes...
-
-Estava-se servindo _Jambon aux épinards_. Durante um momento fallou-se
-de paradoxos. Segundo o conde, quem os fazia tambem brilhantes e
-difficeis de sustentar, excessivamente difficeis, era o Barros, o
-ministro do reino...
-
---Talento robusto, murmurou respeitosamente Sousa Netto.
-
---Sim, pujante, disse o conde.
-
-Mas elle agora não fallava tanto do talento do Barros como parlamentar,
-como homem d'estado. Fallava do seu espirito de sociedade, do seu
-_esprit_...
-
---Ainda este inverno nós lhe ouvimos um paradoxo brilhante! Até foi em
-casa da snr.^a D. Maria da Cunha... V. exc.^a não se lembra, snr.^a D.
-Maria? Esta minha desgraçada memoria! Ó Thereza, lembras-te d'aquelle
-paradoxo do Barros? Ora sobre que era, meu Deus?... Emfim, um paradoxo
-muito difficil de sustentar... Esta minha memoria!... Pois não te
-lembras, Thereza?
-
-A condessa não se lembrava. E emquanto o conde ficava remexendo
-anciosamente, com a mão na testa, as suas recordações,--a senhora
-d'escarlate voltou a fallar de pretos, e de escudeiros pretos, e d'uma
-cozinheira preta que tivera uma tia d'ella, a tia Villar... Depois
-queixou-se amargamente dos criados modernos: desde que lhe morrera a
-Joanna, que estava em casa havia quinze annos, não sabia que fazer,
-andava como tonta, tinha só desgostos. Em seis mezes já vira quatro
-caras novas. E umas desleixadas, umas pretenciosas, uma immoralidade!...
-Quasi lhe fugiu um suspiro do peito, e trincando desconsoladamente uma
-migalhinha de pão:
-
---Ó baroneza, ainda tens a Vicenta?
-
---Pois então não havia de ter a Vicenta?... Sempre a Vicenta... A snr.^a
-D. Vicenta, se faz favor.
-
-A outra contemplou-a um instante, com inveja d'aquella felicidade.
-
---E é a Vicenta que te penteia?
-
-Sim, era a Vicenta que a penteava. Ia-se fazendo velha, coitada... Mas
-sempre caturra. Agora andava com a mania de aprender francez. Já sabia
-verbos. Era de morrer, a Vicenta a dizer _j'aime_, _tu aimes_...
-
---E a senhora baroneza, acudiu o Ega, começou por lhe mandar ensinar os
-verbos mais necessarios.
-
-Está claro, dizia a baroneza, que aquelle era o mais necessario. Mas na
-idade da Vicenta já de pouco lhe poderia servir!
-
---Ah! gritou de repente o conde, deixando quasi cahir o talher. Agora me
-lembro!
-
-Tinha-se lembrado emfim do soberbo paradoxo do Barros. Dizia o Barros
-que os cães, quanto mais ensinados... Pois, não, não era isto!
-
---Esta minha desgraçada memoria!... E era sobre cães. Uma coisa
-brilhante, philosophica até!
-
-E, por se fallar de cães, a baroneza lembrou-se do _Tommy_, o galgo da
-condessa; perguntou por _Tommy_. Já o não via ha que tempos, esse bravo
-_Tommy_! A condessa nem queria que se fallasse no _Tommy_, coitado!
-Tinham-lhe nascido umas coisas nos ouvidos, um horror... Mandára-o para
-o Instituto, lá morrera.
-
---Está deliciosa esta galantine, disse D. Maria da Cunha, inclinando-se
-para Carlos.
-
---Deliciosa.
-
-E a baroneza, do lado, declarou tambem a galantine uma perfeição. Com um
-olhar ao escudeiro, a condessa fez servir de novo a galantine: e
-apressou-se a responder ao snr. Sousa Netto, que, a proposito de cães,
-lhe estava fallando da _Sociedade protectora dos animaes_. O snr. Sousa
-Netto approvava-a, considerava-a como um progresso... E, segundo elle,
-não seria mesmo de mais que o governo lhe désse um subsidio.
-
---Que eu creio que ella vai prosperando... E merece-o, acredite a
-senhora condessa que o merece... Estudei essa questão, e de todas as
-sociedades que ultimamente se têm fundado entre nós, á imitação do que
-se faz lá fóra, como a _Sociedade de Geographia_ e outras, a _Protectora
-dos animaes_ parece-me decerto uma das mais uteis.
-
-Voltou-se para o lado, para o Ega:
-
---V. exc.^a pertence?
-
---Á _Sociedade protectora dos animaes_?... Não senhor, pertenço a outra,
-á de _Geographia_. Sou dos protegidos.
-
-A baroneza teve uma das suas alegres risadas. E o conde fez-se
-extremamente sério: pertencia á _Sociedade de Geographia_, considerava-a
-um pilar do Estado, acreditava na sua missão civilisadora, detestava
-aquellas irreverencias. Mas a condessa e Carlos tinham rido tambem:--e
-de repente a frialdade que até ahi os conservára ao lado um do outro
-reservados, n'uma ceremonia affectada, pareceu dissipar-se ao calor
-d'esse riso trocado, no brilho dos dois olhares encontrando-se
-irresistivelmente. Servira-se o Champagne, ella tinha uma côrzinha no
-rosto. O seu pé, sem ella saber como, roçou pelo pé de Carlos; sorriram
-ainda outra vez;--e, como no resto da mesa se conversava sobre uns
-concertos classicos que ia haver no Price, Carlos perguntou-lhe, baixo,
-com uma reprehensão amavel:
-
---Que tolice foi essa da _brazileira_?... Quem lhe disse isso?
-
-Ella confessou-lhe logo que fôra o Damaso... O Damaso viera contar-lhe o
-enthusiasmo de Carlos por essa senhora, e as manhãs inteiras que lá
-passava, todos os dias, á mesma hora... Emfim o Damaso fizera-lhe
-claramente entrevêr uma _liaison_.
-
-Carlos encolheu os hombros. Como podia ella acreditar no Damaso? Devia
-conhecer-lhe bem a tagarellice, a imbecilidade...
-
---É perfeitamente verdade que eu vou a casa d'essa senhora, que nem
-brazileira é, que é tão portugueza como eu; mas é porque ella tem a
-governante muito doente com uma bronchite, e eu sou o medico da casa.
-Foi até o Damaso, elle proprio, que lá me levou como medico!
-
-No rosto da condessa espalhava-se um riso, uma claridade vinda do dôce
-allivio que se fazia no seu coração.
-
---Mas o Damaso disse-me que era tão linda!...
-
-Sim, era muito linda. E então? Um medico, por fidelidade ás suas
-affeições, e para as não inquietar, não podia realmente, antes de
-penetrar na casa d'uma doente, exigir-lhe um certificado de hediondez!
-
---Mas que está ella cá a fazer?...
-
---Está á espera do marido que foi a negocios ao Brazil, e vem ahi... É
-uma gente muito distincta, e creio que muito rica... Vão-se brevemente
-embora, de resto, e eu pouco sei d'elles. As minhas visitas são de
-medico; tenho apenas conversado com ella sobre Paris, sobre Londres,
-sobre as suas impressões de Portugal...
-
-A condessa bebia estas palavras, deliciosamente, dominada pelo bello
-olhar com que elle lh'as murmurava: e o seu pé apertava o de Carlos
-n'uma reconciliação apaixonada, com a força que desejaria pôr n'um
-abraço--se alli lh'o podesse dar.
-
-A senhora d'escarlate, no emtanto, recomeçára a fallar da Russia. O que
-a assustava é que o paiz era tão caro, corriam-se tantos perigos por
-causa da dynamite, e uma constituição fraca devia soffrer muito com a
-neve nas ruas. E foi então que Carlos percebeu que ella era a esposa de
-Sousa Netto, e que se tratava d'um filho d'elles, filho unico,
-despachado segundo secretario para a legação de S. Petersburgo.
-
---O menino conhece-o? perguntou D. Maria ao ouvido de Carlos, por traz
-do leque. É um horror d'estupidez... Nem francez sabe! De resto não é
-peor que os outros... Que a quantidade de mônos, de semsaborões e de
-tolos que nos representam lá fóra até faz chorar... Pois o menino não
-acha? Isto é um paiz desgraçado.
-
---Peor, minha cara senhora, muito peor. Isto é um paiz _cursi_.
-
-Tinha findado a sobremesa. D. Maria olhou para a condessa com o seu
-sorriso cansado; a senhora de escarlate calára-se, já preparada, tendo
-mesmo afastado um pouco a cadeira; e as senhoras ergueram-se, no momento
-em que o Ega, ainda ácerca da Russia, acabava de contar uma historia
-ouvida a um polaco, e em que se provava que o Czar era um estupido...
-
---Liberal todavia, gostando bastante do progresso! murmurou ainda o
-conde, já de pé.
-
-Os homens, sós, accenderam os seus charutos; o escudeiro serviu o café.
-Então o snr. Sousa Netto, com a sua chavena na mão, aproximou-se de
-Carlos para lhe exprimir de novo o prazer que tivera em fazer o seu
-conhecimento...
-
---Eu tive tambem em tempos o prazer de conhecer o pai de v. exc.^a...
-Pedro, creio que era justamente o snr. Pedro da Maia. Começava eu então
-a minha carreira publica... E o avô de v. exc.^a, bom?
-
---Muito agradecido a v. exc.^a
-
---Pessoa muito respeitavel... O pai de v. exc.^a era... Emfim, era o que
-se chama «um elegante». Tive tambem o prazer de conhecer a mãi de v.
-exc.^a...
-
-E de repente calou-se, embaraçado, levando a chavena aos labios. Depois,
-lentamente, voltou-se para escutar melhor o Ega, que ao lado discutia
-com o Gouvarinho sobre mulheres. Era a proposito da secretária da
-legação da Russia, com quem elle encontrára n'essa manhã o conde
-conversando ao Calhariz. O Ega achava-a deliciosa, com o seu corpinho
-nervoso e ondeado, os seus grandes olhos garços... E o conde, que a
-admirava tambem, gabava-lhe sobretudo o espirito, a instrucção. Isso,
-segundo o Ega, prejudicava-a: porque o dever da mulher era primeiro ser
-bella, e depois ser estupida... O conde affirmou logo com exuberancia
-que não gostava tambem de litteratas: sim, decerto o lugar da mulher era
-junto do berço, não na bibliotheca...
-
---No emtanto é agradavel que uma senhora possa conversar sobre coisas
-amenas, sobre o artigo d'uma Revista, sobre... Por exemplo, quando se
-publica um livro... Emfim, não direi quando se trata d'um Guizot, ou
-d'um Jules Simon... Mas, por exemplo, quando se trata d'um Feuillet,
-d'um... Emfim, uma senhora deve ser prendada. Não lhe parece, Netto?
-
-Netto, grave, murmurou:
-
---Uma senhora, sobretudo quando ainda é nova, deve ter algumas
-prendas...
-
-Ega protestou, com calor. Uma mulher com prendas, sobretudo com prendas
-litterarias, sabendo dizer coisas sobre o snr. Thiers, ou sobre o snr.
-Zola, é um monstro, um phenomeno que cumpria recolher a uma companhia de
-cavallinhos, como se soubesse trabalhar nas argolas. A mulher só devia
-ter duas prendas: cozinhar bem e amar bem.
-
---V. exc.^a decerto, snr. Sousa Netto, sabe o que diz Proudhon?
-
---Não me recordo textualmente, mas...
-
---Em todo o caso v. exc.^a conhece perfeitamente o seu Proudhon?
-
-O outro, muito seccamente, não gostando decerto d'aquelle
-interrogatorio, murmurou que Proudhon era um author de muita nomeada.
-
-Mas o Ega insistia, com uma impertinencia perfida:
-
---V. exc.^a leu evidentemente, como nós todos, as grandes paginas de
-Proudhon sobre o amor?
-
-O snr. Netto, já vermelho, pousou a chavena sobre a mesa. E quiz ser
-sarcastico, esmagar aquelle moço, tão litterario, tão audaz.
-
---Não sabia, disse elle com um sorriso infinitamente superior, que esse
-philosopho tivesse escripto sobre assumptos escabrosos!
-
-Ega atirou os braços ao ar, consternado:
-
---Oh snr. Sousa Netto! Então v. exc.^a, um chefe de familia, acha o amor
-um assumpto escabroso?!
-
-O snr. Netto encordoou. E muito direito, muito digno, fallando do alto
-da sua consideravel posição burocratica:
-
---É meu costume, snr. Ega, não entrar nunca em discussões, e acatar
-todas as opiniões alheias, mesmo quando ellas sejam absurdas...
-
-E quasi voltou as costas ao Ega, dirigindo-se outra vez a Carlos,
-desejando saber, n'uma voz ainda um pouco alterada, se elle agora se
-fixava algum tempo mais em Portugal. Então, durante um momento, acabando
-os charutos, os dois fallaram de viagens. O snr. Netto lamentava que os
-seus muitos deveres não lhe permitissem percorrer a Europa. Em pequeno
-fôra esse o seu ideal; mas agora, com tantas occupações publicas, via-se
-forçado a não deixar a carteira. E alli estava, sem ter visto sequer
-Badajoz...
-
---E v. exc.^a de que gostou mais, de Paris ou de Londres?
-
-Carlos realmente não sabia, nem se podia comparar... Duas cidades tão
-differentes, duas civilisações tão originaes...
-
---Em Londres, observou o conselheiro, tudo carvão...
-
-Sim, dizia Carlos sorrindo, bastante carvão, sobretudo nos fogões,
-quando havia frio...
-
-O snr. Sousa Netto murmurou:
-
---E o frio alli deve ser sempre consideravel... Clima tão ao norte!...
-
-Esteve um momento mamando o charuto, de palpebra cerrada. Depois, fez
-esta observação sagaz e profunda:
-
---Povo pratico, povo essencialmente pratico.
-
---Sim, bastante pratico, disse vagamente Carlos, dando um passo para a
-sala, onde se sentiam as risadas cantantes da baroneza.
-
---E diga-me outra coisa, proseguiu o snr. Sousa Netto, com interesse,
-cheio de curiosidade intelligente. Encontra-se por lá, em Inglaterra,
-d'esta litteratura amena, como entre nós, folhetinistas, poetas de
-pulso?...
-
-Carlos deitou a ponta do charuto para o cinzeiro, e respondeu, com
-descaro:
-
---Não, não ha d'isso.
-
---Logo vi, murmurou Sousa Netto. Tudo gente de negocio.
-
-E penetraram na sala. Era o Ega que assim fazia rir a baroneza, sentado
-defronte d'ella, fallando outra vez de Celorico, contando-lhe uma soirée
-de Celorico, com detalhes picarescos sobre as authoridades, e sobre um
-abbade que tinha morto um homem e cantava fados sentimentaes ao piano. A
-senhora d'escarlate, no sofá ao lado, com os braços cahidos no regaço,
-pasmava para aquella veia do Ega como para as destrezas d'um palhaço. D.
-Maria, junto da mesa, folheava com o seu ar cansado uma _Illustração_; e
-vendo que Carlos ao entrar procurára com o olhar a condessa, chamou-o,
-disse-lhe baixo que ella fôra dentro vêr Charlie, o pequeno...
-
---É verdade, perguntou Carlos, sentando-se ao lado d'ella, que é feito
-d'elle, d'esse lindo Charlie?
-
---Diz que tem estado hoje constipado, e um pouco murcho...
-
---A snr.^a D. Maria tambem me parece hoje um pouco murcha.
-
---É do tempo. Eu já estou na idade em que o bom humor ou o aborrecimento
-vêm só das influencias do tempo... Na sua idade vem d'outras coisas. E a
-proposito d'outras coisas: então a Cohen tambem chegou?
-
---Chegou, disse Carlos, mas não _tambem_. O _tambem_ implica
-combinação... E a Cohen e o Ega chegaram realmente ambos por acaso... De
-resto isso é historia antiga, é como os amores de Helena e de Páris.
-
-N'esse instante a condessa voltava de dentro, um pouco afogueada, e
-trazendo aberto um grande leque negro. Sem se sentar, fallando sobretudo
-para a mulher do snr. Sousa Netto, queixou-se logo de não ter achado
-Charlie bem... Estava tão quente, tão inquieto... Tinha quasi medo que
-fosse sarampo.--E voltando-se vivamente para Carlos, com um sorriso:
-
---Eu estou com vergonha... Mas se o snr. Carlos da Maia quizesse ter o
-incommodo de o vir vêr um instante... É odioso, realmente, pedir-lhe
-logo depois de jantar para examinar um doente...
-
---Oh senhora condessa! exclamou elle, já de pé.
-
-Seguiu-a. N'uma saleta, ao lado, o conde e o snr. Sousa Netto,
-enterrados n'um sofá, conversavam fumando.
-
---Levo o snr. Carlos da Maia para vêr o pequeno...
-
-O conde erguera-se um pouco do sofá, sem comprehender bem. Já ella
-passára. Carlos seguiu em silencio a sua longa cauda de sêda preta
-através do bilhar, deserto, com o gaz acceso, ornado de quatro retratos
-de damas, da familia dos Gouvarinhos, empoadas e sorumbaticas. Ao lado,
-por traz de um pesado reposteiro de fazenda verde, era um gabinete, com
-uma velha poltrona, alguns livros n'uma estante envidraçada, e uma
-escrevaninha onde pousava um candieiro sob o abat-jour de renda côr de
-rosa. E ahi, bruscamente, ella parou, atirou os braços ao pescoço de
-Carlos, os seus labios prenderam-se aos d'elle n'um beijo sôfrego,
-penetrante, completo, findando n'um soluço de desmaio... Elle sentia
-aquelle lindo corpo estremecer, escorregar-lhe entre os braços, sobre os
-joelhos sem força.
-
---Ámanhã, em casa da titi, ás onze, murmurou ella quando pôde fallar.
-
---Pois sim.
-
-Desprendida d'elle, a condessa ficou um momento com as mãos sobre os
-olhos, deixando desvanecer aquella languida vertigem, que a fizera côr
-de cêra. Depois, cansada e sorrindo:
-
---Que doida que eu sou... Vamos vêr Charlie.
-
-O quarto do pequeno era ao fundo do corredor. E ahi, n'uma caminha de
-ferro, junto do leito maior da criada, Charlie dormia, sereno, fresco,
-com um bracinho cahido para o lado, os seus lindos caracoes loiros
-espalhados no travesseiro como uma aureola d'anjo. Carlos tocou-lhe
-apenas no pulso; e a criada escosseza, que trouxera uma luz de sobre a
-commoda, disse, sorrindo tranquillamente:
-
---O menino n'estes ultimos dias tem andado muitissimo bem...
-
-Voltaram. No gabinete, antes de penetrar no bilhar, a condessa, já com a
-mão no reposteiro, estendeu ainda a Carlos os seus labios insaciaveis.
-Elle colheu um rapido beijo. E, ao passar na antecamara, onde Sousa
-Netto e o conde continuavam enfronhados n'uma conversa grave, ella disse
-ao marido:
-
---O pequeno está a dormir... O snr. Carlos da Maia achou-o bem.
-
-O conde de Gouvarinho bateu no hombro de Carlos, carinhosamente. E
-durante um momento a condessa ficou alli conversando, de pé, a deixar-se
-serenar, pouco a pouco, n'aquella penumbra favoravel, antes de affrontar
-a luz forte da sala. Depois, por se fallar em hygiene, convidou o snr.
-Sousa Netto para uma partida de bilhar; mas o snr. Netto, desde Coimbra,
-desde a Universidade, não pegára n'um taco. E ia-se chamar o Ega quando
-appareceu Telles da Gama, que chegava do Price. Logo atraz d'elle entrou
-o conde de Steinbroken. Então o resto da noite passou-se no salão, em
-redor do piano. O ministro cantou melodias da Filandia. Telles da Gama
-tocou _fados_.
-
-Carlos e Ega foram os derradeiros a sahir, depois de um _brandy and
-soda_, de que a condessa partilhou, como ingleza forte. E em baixo, no
-pateo, acabando de abotoar o paletot, Carlos pôde emfim soltar a
-pergunta que lhe faiscára nos labios toda a noite:
-
---Ó Ega, quem é aquelle homem, aquelle Sousa Netto, que quiz saber se em
-Inglaterra havia tambem litteratura?
-
-Ega olhou-o com espanto:
-
---Pois não adivinhaste? Não deduziste logo? Não viste immediatamente
-quem n'este paiz é capaz de fazer essa pergunta?
-
---Não sei... Ha tanta gente capaz...
-
-E o Ega radiante:
-
---Official superior d'uma grande repartição do Estado!
-
---De qual?
-
---Ora de qual! De qual ha de ser?... Da Instrucção publica!
-
-
-Na tarde seguinte, ás cinco horas, Carlos, que se demorára de mais em
-casa da titi com a condessa, retido pelos seus beijos interminaveis, fez
-voar o coupé até á rua de S. Francisco, olhando a cada momento o
-relogio, n'um receio de que Maria Eduarda tivesse sahido por aquelle
-lindo dia de verão, luminoso e sem calor. Com effeito á porta d'ella
-estava a carruagem da Companhia; e Carlos galgou as escadas, desesperado
-com a condessa, sobretudo comsigo mesmo, tão fraco, tão passivo, que
-assim se deixára retomar por aquelles braços exigentes, cada vez mais
-pesados, e já incapazes de o commover...
-
---A senhora chegou agora mesmo, disse-lhe o Domingos, que voltára da
-terra havia tres dias, e ainda não cessára de lhe sorrir.
-
-Sentada no sofá, de chapéo, tirando as luvas, ella acolheu-o com uma
-dôce côr no rosto, e uma carinhosa reprehensão:
-
---Estive á espera mais de meia hora antes de sahir... É uma ingratidão!
-Imaginei que nos tinha abandonado!
-
---Porquê? Está peor, miss Sarah?
-
-Ella olhou-o, risonhamente escandalisada. Ora, miss Sarah! Miss Sarah ia
-seguindo perfeitamente na sua convalescença... Mas agora já não eram as
-visitas de medico que se esperavam, eram as de amigo; e essa tinha-lhe
-faltado.
-
-Carlos, sem responder, perturbado, voltou-se para Rosa, que folheava
-junto da mesa um livro novo d'estampas; e a ternura, a gratidão infinita
-do seu coração, que não ousava mostrar á mãe, pôl-a toda na longa
-caricia em que envolveu a filha.
-
---São historias que a mamã agora comprou, dizia Rosa, séria e presa ao
-seu livro. Hei de t'as contar depois... São historias de bichos.
-
-Maria Eduarda erguera-se, desapertando lentamente as fitas do chapéo.
-
---Quer tomar uma chavena de chá comnosco, snr. Carlos da Maia? Eu vinha
-morrendo por uma chavena de chá... Que lindo dia, não é verdade? Rosa,
-fica tu a contar o nosso passeio emquanto eu vou tirar o chapéo...
-
-Carlos, só com Rosa, sentou-se junto d'ella, desviando-a do livro,
-tomando-lhe ambas as mãos.
-
---Fomos ao Passeio da Estrella, dizia a pequena. Mas a mamã não se
-queria demorar, porque tu podias ter vindo!
-
-Carlos beijou, uma depois da outra, as duas mãosinhas de Rosa.
-
---E então que fizeste no Passeio? perguntou elle, depois d'um leve
-suspiro de felicidade que lhe fugira do peito.
-
---Andei a correr, havia uns patinhos novos...
-
---Bonitos?...
-
-A pequena encolheu os hombros:
-
---Chinfrinzitos.
-
-Chinfrinzitos! Quem lhe tinha ensinado a dizer uma coisa tão feia?
-
-Rosa sorriu. Fôra o Domingos. E o Domingos dizia ainda outras coisas
-assim, engraçadas... Dizia que a Melanie era uma _gaja_... O Domingos
-tinha muita graça.
-
-Então Carlos advertiu-a que uma menina bonita, com tão bonitos vestidos,
-não devia dizer aquellas palavras... Assim fallava a gente rôta.
-
---O Domingos não anda rôto, disse Rosa muito séria.
-
-E subitamente, com outra idéa, bateu as palmas, pulou-lhe entre os
-joelhos, radiante:
-
---E trouxe-me uns grillos da Praça! O Domingos trouxe-me uns grillos...
-Se tu soubesses! _Niniche_ tem medo dos grillos! Parece incrivel, hein?
-Eu nunca vi ninguem mais medrosa...
-
-Esteve um momento a olhar Carlos, e acrescentou, com um ar grave:
-
---É a mamã que lhe dá tanto mimo. É uma pena!
-
-Maria Eduarda entrava, ageitando ainda de leve o ondeado do cabello: e,
-ouvindo assim fallar de mimo, quiz saber quem é que ella estragava com
-mimo... _Niniche_? Pobre _Niniche_, coitada, ainda essa manhã fôra
-castigada!
-
-Então Rosa rompeu a rir, batendo outra vez as mãos:
-
---Sabes como a mamã a castiga? exclamava ella, puxando a manga de
-Carlos. Sabes?... Faz-lhe voz grossa... Diz-lhe em inglez: _Bad dog!
-dreadful dog!_
-
-Era encantadora assim, imitando a voz severa da mamã, com o dedinho
-erguido, a ameaçar _Niniche_. A pobre _Niniche_, imaginando com effeito
-que a estavam a reprehender, arrastou-se, vexada, para debaixo do sofá.
-E foi necessario que Rosa a tranquillisasse, de joelhos sobre a pelle de
-tigre, jurando-lhe, por entre abraços, que ella nem era mau cão, nem
-feio cão; fôra só para contar como fazia a mamã...
-
---Vai-lhe dar agua, que ella deve estar com sêde, disse então Maria
-Eduarda, indo sentar-se na sua cadeira escarlate. E dize ao Domingos que
-nos traga o chá.
-
-Rosa e _Niniche_ partiram correndo. Carlos veio occupar, junto da
-janella, a costumada poltrona de reps. Mas pela primeira vez, desde a
-sua intimidade, houve entre elles um silencio difficil. Depois ella
-queixou-se de calor, desenrolando distrahidamente o bordado; e Carlos
-permanecia mudo, como se para elle, n'esse dia, apenas houvesse encanto,
-apenas houvesse significação n'uma certa palavra de que os seus labios
-estavam cheios e que não ousavam murmurar, que quasi receava que fosse
-adivinhada apesar d'ella suffocar o seu coração.
-
---Parece que nunca se acaba, esse bordado! disse elle por fim,
-impaciente de a vêr, tão serena, a occupar-se das suas lãs.
-
-Com a talagarça desdobrada sobre os joelhos, ella respondeu, sem erguer
-os olhos:
-
---E para que se ha de acabar? O grande prazer é andal-o a fazer, pois
-não acha? Uma malha hoje, outra malha ámanhã, torna-se assim uma
-companhia... Para que se ha de querer chegar logo ao fim das coisas?
-
-Uma sombra passou no rosto de Carlos. N'estas palavras, ditas de leve
-ácerca do bordado, elle sentia uma desanimadora allusão ao seu
-amor,--esse amor que lhe fôra enchendo o coração á maneira que a lã
-cobria aquella talagarça, e que era obra simultanea das mesmas brancas
-mãos. Queria ella pois conserval-o alli, arrastado como o bordado,
-sempre acrescentado e sempre incompleto, guardado tambem no cesto da
-costura, para ser o desafogo da sua solidão?
-
-Disse-lhe então, commovido:
-
---Não é assim. Ha coisas que só existem quando se completam, e que só
-então dão a felicidade que se procurava n'ellas.
-
---É muito complicado isso, murmurou ella, córando. É muito subtil...
-
---Quer que lh'o diga mais claramente?
-
-N'esse instante Domingos, erguendo o reposteiro, annunciou que estava
-alli o snr. Damaso...
-
-Maria Eduarda teve um movimento brusco de impaciencia:
-
---Diga que não recebo!
-
-Fóra, no silencio, sentiram bater a porta. E Carlos ficou inquieto,
-lembrando-se que o Damaso devia ter visto em baixo, passeando na rua, o
-seu coupé. Santo Deus! O que elle iria tagarellar agora, com os seus
-pequeninos rancores, assim humilhado! Quasi lhe pareceu n'esse instante
-a existencia do Damaso incompativel com a tranquillidade do seu amor.
-
---Ahi está outro inconveniente d'esta casa, dizia no emtanto Maria
-Eduarda. Aqui ao lado d'esse Gremio, a dois passos do Chiado, é
-demasiadamente accessivel aos importunos. Tenho agora de repellir quasi
-todos os dias este assalto á minha porta! É intoleravel.
-
-E com uma subita idéa, atirando o bordado para o açafate, cruzando as
-mãos sobre os joelhos:
-
---Diga-me uma coisa que lhe tenho querido perguntar... Não me seria
-possivel arranjar por ahi uma casinhola, um cottage, onde eu fosse
-passar os mezes de verão?... Era tão bom para a pequena! Mas não conheço
-ninguem, não sei a quem me hei de dirigir...
-
-Carlos lembrou-se logo da bonita casa do Craft, nos Olivaes--como já
-n'outra occasião em que ella mostrára desejos d'ir para o campo.
-Justamente, n'esses ultimos tempos, Craft voltára a fallar, e mais
-decidido, no antigo plano de vender a quinta, e desfazer-se das suas
-collecções. Que deliciosa vivenda para ella, artistica e campestre,
-condizendo tão bem com os seus gostos! Uma tentação atravessou-o,
-irresistivel.
-
---Eu sei com effeito d'uma casa... E tão bem situada, que lhe convinha
-tanto!...
-
---Que se aluga?
-
-Carlos não hesitou:
-
---Sim, é possivel arranjar-se...
-
---Isso era um encanto!
-
-Ella tinha dito--«era um encanto». E isto decidiu-o logo, parecendo-lhe
-desamoravel e mesquinho o ter-lhe suggerido uma esperança, e não lh'a
-realisar com fervor.
-
-O Domingos entrára com o taboleiro do chá. E emquanto o collocava sobre
-uma pequena mesa, defronte de Maria Eduarda, ao pé da janella, Carlos,
-erguendo-se, dando alguns passos pela sala, pensava em começar
-immediatamente negociações com o Craft, comprar-lhe as collecções,
-alugar-lhe a casa por um anno, e offerecel-a a Maria Eduarda para os
-mezes de verão. E não considerava, n'esse instante, nem as
-difficuldades, nem o dinheiro. Via só a alegria d'ella passeando com a
-pequena, entre as bellas arvores do jardim. E como Maria Eduarda deveria
-ser mais grandemente formosa no meio d'esses moveis da Renascença,
-severos e nobres!
-
---Muito assucar? perguntou ella.
-
---Não... Perfeitamente, basta.
-
-Viera sentar-se na sua velha poltrona; e, recebendo a chavena de
-porcelana ordinaria com um filetesinho azul, recordava o magnifico
-serviço que tinha o Craft, de velho Wedgewood, oiro e côr de fogo. Pobre
-senhora! tão delicada, e alli enterrada entre aquelles reps, maculando a
-graça das suas mãos nas coisas reles da mãi Cruges!
-
---E onde é essa casa? perguntou Maria Eduarda.
-
---Nos Olivaes, muito perto d'aqui, vai-se lá n'uma hora de carruagem...
-
-Explicou-lhe detalhadamente o sitio,--acrescentando, com os olhos
-n'ella, e com um sorriso inquieto:
-
---Estou aqui a preparar lenha para me queimar!... Porque se fôr para lá
-installar-se, e depois vier o calor, quem é que a torna a vêr?
-
-Ella pareceu surprehendida:
-
---Mas que lhe custa, a si, que tem cavallos, que tem carruagens, que não
-tem quasi nada que fazer?...
-
-Assim ella achava natural que elle continuasse nos Olivaes as suas
-visitas de Lisboa! E pareceu-lhe logo impossivel renunciar ao encanto
-d'esta intimidade, tão largamente offerecida, e decerto mais dôce na
-solidão d'aldêa. Quando acabou a sua chavena de chá--era como se a casa,
-os moveis, as arvores fossem já seus, fossem já d'ella. E teve alli um
-momento delicioso, descrevendo-lhe a quietação da quinta, a entrada por
-uma rua d'acacias, e a belleza da sala de jantar com duas janellas
-abrindo sobre o rio...
-
-Ella escutava-o, encantada:
-
---Oh! isso era o meu sonho! Vou ficar agora toda alterada, cheia
-d'esperanças... Quando poderei ter uma resposta?
-
-Carlos olhou o relogio. Era já tarde para ir aos Olivaes. Mas logo na
-manhã seguinte cedo, ia fallar com o dono da casa, seu amigo...
-
---Quanto incommodo por minha causa! disse ella. Realmente! como lhe hei
-de eu agradecer?...
-
-Calou-se; mas os seus bellos olhos ficaram um instante pousados nos de
-Carlos, como esquecidos, e deixando fugir irresistivelmente um pouco do
-segredo que ella retinha no seu coração.
-
-Elle murmurou:
-
---Por mais que eu fizesse, ficaria bem pago de tudo se me olhasse outra
-vez assim.
-
-Uma onda de sangue cobriu toda a face de Maria Eduarda.
-
---Não diga isso...
-
---E que necessidade ha que eu lh'o diga? Pois não sabe perfeitamente que
-a adoro, que a adoro, que a adoro!
-
-Ella ergueu-se bruscamente, elle tambem:--e assim ficaram, mudos, cheios
-d'anciedade, trespassando-se com os olhos, como se se tivesse feito uma
-grande alteração no Universo, e elles esperassem, suspensos, o desfecho
-supremo dos seus destinos... E foi ella que fallou, a custo, quasi
-desfallecida, estendendo para elle, como se o quizesse afastar, as mãos
-inquietas e tremulas:
-
---Escute! Sabe bem o que eu sinto por si, mas escute... Antes que seja
-tarde ha uma coisa que lhe quero dizer...
-
-Carlos via-a assim tremer, via-a toda pallida... E nem a escutára, nem a
-comprehendera. Sentia apenas, n'um deslumbramento, que o amor comprimido
-até ahi no seu coração irrompera por fim, triumphante, e embatendo no
-coração d'ella, através do apparente marmore do seu peito, fizera de lá
-resaltar uma chamma igual... Só via que ella tremia, só via que ella o
-amava... E, com a gravidade forte d'um acto de posse, tomou-lhe
-lentamente as mãos, que ella lhe abandonou, submissa de repente, já sem
-força, e vencida. E beijava-lh'as ora uma ora outra, e as palmas, e os
-dedos, devagar, murmurando apenas:
-
---Meu amor! meu amor! meu amor!
-
-Maria Eduarda cahira pouco a pouco sobre a cadeira; e, sem retirar as
-mãos, erguendo para elle os olhos cheios de paixão, ennevoados de
-lagrimas, balbuciou ainda, debilmente, n'uma derradeira supplicação:
-
---Ha uma coisa que eu lhe queria dizer!...
-
-Carlos estava já ajoelhado aos seus pés.
-
---Eu sei o que é! exclamou, ardentemente, junto do rosto d'ella, sem a
-deixar fallar mais, certo de que adivinhára o seu pensamento. Escusa de
-dizer, sei perfeitamente. É o que eu tenho pensado tantas vezes! É que
-um amor como o nosso não póde viver nas condições em que vivem outros
-amores vulgares... É que desde que eu lhe digo que a amo, é como se lhe
-pedisse para ser minha esposa diante de Deus...
-
-Ella recuava o rosto, olhando-o angustiosamente, e como se não
-comprehendesse. E Carlos continuava mais baixo, com as mãos d'ella
-presas, penetrando-a toda da emoção que o fazia tremer:
-
---Sempre que pensava em si, era já com esta esperança d'uma existencia
-toda nossa, longe d'aqui, longe de todos, tendo quebrado todos os laços
-presentes, pondo a nossa paixão acima de todas as ficções humanas, indo
-ser felizes para algum canto do mundo, solitariamente e para sempre...
-Levamos Rosa, está claro, sei que não se póde separar d'ella... E assim
-viveriamos sós, todos tres, n'um encanto!
-
---Meu Deus! Fugirmos? murmurou ella, assombrada.
-
-Carlos erguera-se.
-
---E que podemos fazer? Que outra coisa podemos nós fazer, digna do nosso
-amor?
-
-Maria não respondeu, immovel, a face erguida para elle, branca de cera.
-E pouco a pouco uma idéa parecia surgir n'ella, inesperada e
-perturbadora, revolvendo todo o seu sêr. Os seus olhos alargavam-se,
-anciosos e refulgentes.
-
-Carlos ia fallar-lhe... Um leve rumor de passos na esteira da sala
-deteve-o. Era o Domingos que vinha recolher a bandeja do chá: e durante
-um momento, quasi interminavel, houve entre aquelles dois sêres,
-sacudidos por um ardente vendaval de paixão, a caseira passagem d'um
-criado arrumando chavenas vazias. Maria Eduarda, bruscamente,
-refugiou-se detraz das bambinellas de cretone com o rosto contra a
-vidraça. Carlos foi sentar-se no sofá, a folhear ao acaso uma
-_Illustração_, que lhe tremia nas mãos. E não pensava em nada, nem sabia
-onde estava... Ainda na vespera, havia ainda instantes, conversando com
-ella, dizia ceremoniosamente «minha cara senhora»: depois houvera um
-olhar; e agora deviam fugir ambos, e ella tornára-se o cuidado supremo
-da sua vida, e a esposa secreta do seu coração.
-
---V. exc.^a quer mais alguma coisa? perguntou o Domingos.
-
-Maria Eduarda respondeu sem se voltar:
-
---Não.
-
-O Domingos sahiu, a porta ficou cerrada. Ella então atravessou a sala,
-veio para Carlos, que a esperava no sofá, com os braços estendidos. E
-era como se obedecesse só ao impulso da sua ternura, calmadas já todas
-as incertezas. Mas hesitou de novo diante d'aquella paixão, tão prompta
-a apoderar-se de todo o seu sêr, e murmurou, quasi triste:
-
---Mas conhece-me tão pouco!... Conhece-me tão pouco, para irmos assim
-ambos, quebrando por tudo, crear um destino que é irreparavel...
-
-Carlos tomou-lhe as mãos, fazendo-a sentar ao seu lado, brandamente:
-
---O bastante para a adorar acima de tudo, e sem querer mais nada na
-vida!
-
-Um instante Maria Eduarda ficou pensativa, como recolhida no fundo do
-seu coração, escutando-lhe as derradeiras agitações. Depois soltou um
-longo suspiro.
-
---Pois seja assim! Seja assim... Havia uma coisa que eu lhe queria
-dizer, mas não importa... É melhor assim!...
-
-E que outra coisa podiam fazer? perguntava Carlos radiante. Era a unica
-solução digna, séria... E nada os podia embaraçar; amavam-se, confiavam
-absolutamente um no outro; elle era rico, o mundo era largo...
-
-E ella repetia, mais firme agora, já decidida, e como se aquella
-resolução a cada momento se cravasse mais fundo na sua alma,
-penetrando-a toda e para sempre:
-
---Pois seja assim! É melhor assim!
-
-Um momento ficaram calados, olhando-se arrebatadamente.
-
---Dize-me ao menos que és feliz, murmurou Carlos.
-
-Ella lançou-lhe os braços ao pescoço: e os seus labios uniram-se n'um
-beijo profundo, infinito, quasi immaterial pelo seu extasi. Depois Maria
-Eduarda descerrou lentamente as palpebras, e disse-lhe, muito baixo:
-
---Adeus, deixa-me só, vai.
-
-Elle tomou o chapéo, e sahiu.
-
-
-No dia seguinte Craft, que havia uma semana não ia ao Ramalhete,
-passeava na quinta antes d'almoço--quando appareceu Carlos. Apertaram as
-mãos, fallaram um instante do Ega, da chegada dos Cohens. Depois,
-Carlos, fazendo um gesto largo que abrangia a quinta, a casa, todo o
-horisonte, perguntou rindo:
-
---Você quer-me vender tudo isto, Craft?
-
-O outro respondeu, sem pestanejar, e com as mãos nas algibeiras:
-
---A la disposicion de ustêd...
-
-E alli mesmo concluiram a negociação, passeando n'uma ruasinha de buxo
-por entre os geranios em flôr.
-
-Craft cedia a Carlos todos os seus moveis antigos e modernos por duas
-mil e quinhentas libras, pagas em prestações: só reservava algumas raras
-peças do tempo de Luiz XV, que deviam fazer parte d'essa nova collecção
-que planeava, homogenea, e toda do seculo XVIII. E como Carlos não tinha
-no Ramalhete lugar para este vasto _bric-à-brac_, Craft alugava-lhe por
-um anno a casa dos Olivaes, com a quinta.
-
-Depois foram almoçar. Carlos nem por um momento pensou na larga despeza
-que fazia, só para offerecer uma residencia de verão, por dois curtos
-mezes--a quem se contentaria com um simples cottage, entre arvores de
-quintal. Pelo contrario! quando repercorreu as salas do Craft, já com
-olhos de dono, achou tudo mesquinho, pensou em obras, em retoques de
-gosto.
-
-Com que alegria, ao deixar os Olivaes, correu á rua de S. Francisco, a
-annunciar a Maria Eduarda que lhe arranjára emfim definitivamente uma
-linda casa no campo! Rosa, que da varanda o vira apear-se, veio ao seu
-encontro ao patamar: elle ergueu-a nos braços, entrou assim na sala, com
-ella ao collo, em triumpho. E não se conteve; foi á pequena que deu logo
-«a grande novidade», annunciando-lhe que ia ter duas vaccas, e uma
-cabra, e flôres, e arvores para se balouçar...
-
---Onde é? Dize, onde é? exclamava Rosa, com os lindos olhos
-resplandecentes, e a facesinha cheia de riso.
-
---D'aqui muito longe... Vai-se n'uma carruagem... Vêem-se passar os
-barcos no rio... E entra-se por um grande portão onde ha um cão de fila.
-
-Maria Eduarda appareceu, com _Niniche_ ao collo.
-
---Mamã, mamã! gritou Rosa correndo para ella, dependurando-se-lhe do
-vestido. Diz que vou ter duas cabrinhas, e um balouço... É verdade?
-Dize, deixa vêr, onde é? Dize... E vamos já para lá?
-
-Maria e Carlos apertaram a mão, com um longo olhar, sem uma palavra. E
-logo junto da mesa, com Rosa encostada aos seus joelhos, Carlos contou a
-sua ida aos Olivaes... O dono da casa estava prompto a alugar, já, n'uma
-semana... E assim se achava ella de repente com uma vivenda pittoresca,
-mobilada n'um bello estylo, deliciosamente saudavel...
-
-Maria Eduarda parecia surprehendida, quasi desconfiada.
-
---Ha de ser necessario levar roupas de cama, roupas de mesa...
-
---Mas ha tudo! exclamou Carlos alegremente, ha quasi tudo! É tal qual
-como n'um conto de fadas... As luzes estão accêsas, as jarras estão
-cheias de flôres... É só tomar uma carruagem e chegar.
-
---Sómente, é necessario saber o que esse paraiso me vae custar...
-
-Carlos fez-se vermelho. Não previra que se fallasse em dinheiro--e que
-ella quereria decerto pagar a casa que habitasse... Então preferiu
-confessar-lhe tudo. Disse-lhe como o Craft, havia quasi um anno, andava
-desejando desfazer-se das suas collecções, e alugar a quinta: o avô e
-elle tinham repetidamente pensado em adquirir grande parte dos moveis e
-das faienças, para acabar de mobilar o Ramalhete, e ornamentar mais
-Santa Olavia; e elle emfim decidira-se a fazer essa compra desde que
-entrevira a felicidade de lhe poder offerecer, por alguns mezes de
-verão, uma residencia tão graciosa, e tão confortavel...
-
---Rosa, vai lá para dentro, disse Maria Eduarda, depois de um momento de
-silencio... Miss Sarah está á tua espera.
-
-Depois, olhando para Carlos, muito séria:
-
---De sorte que, se eu não mostrasse desejos de ir para o campo, não
-tinha feito essa despeza...
-
---Tinha feito a mesma despeza... Tinha tambem alugado a casa por seis
-mezes ou por um anno... Onde possuia eu agora de repente um sitio para
-metter as coisas do Craft? O que não fazia talvez era comprar
-conjuntamente roupas de cama, roupas de mesa, mobilias dos quartos dos
-criados, etc....
-
-E acrescentou, rindo:
-
---Ora se me quizer indemnisar d'isso podemos debater esse negocio...
-
-Ella baixou os olhos, reflectindo, lentamente.
-
---Em todo o caso seu avô e os seus amigos devem saber d'aqui a dias que
-me vou installar n'essa casa... E devem comprehender que a comprou para
-que eu lá me installasse...
-
-Carlos procurou o seu olhar que permanecia pensativo, desviado d'elle. E
-isto inquietou-o--o vêl-a assim retrahir-se áquella absoluta communhão
-d'interesses em que a queria envolver, como esposa do seu coração.
-
---Não approva então o que fiz? Seja franca...
-
---Decerto... Como não hei de eu approvar tudo quanto faz, tudo quanto
-vem de si? Mas...
-
-Elle acudiu, apoderando-se das suas mãos, sentindo-se triumphar:
-
---Não ha _mas_! O avô e os meus amigos sabem que eu tenho uma casa no
-campo, inutil por algum tempo, e que a aluguei a uma senhora. De resto,
-se quizer, metteremos n'isto tudo o meu procurador... Minha cara amiga,
-se fosse possivel que a nossa affeição se passasse fóra do mundo,
-distante de todos os olhares, ao abrigo de todas as suspeitas, seria
-delicioso... Mas não póde ser!... Alguem tem de saber sempre alguma
-coisa; quando não seja senão o cocheiro que me leva todos os dias a sua
-casa, quando não seja senão o criado que me abre todos os dias a sua
-porta... Ha sempre alguem que surprehende o encontro de dois olhares; ha
-sempre alguem que adivinha d'onde se vem a certas horas... Os deuses
-antigamente arranjavam essas coisas melhor, tinham uma nuvem que os
-tornava invisiveis. Nós não somos deuses, felizmente...
-
-Ella sorriu.
-
---Quantas palavras para converter uma convertida!
-
-E tudo ficou harmonisado n'um grande beijo.
-
-
-Affonso da Maia approvou plenamente a compra das collecções do Craft. «É
-um valor, disse elle ao Villaça, e acabamos d'encher com boa arte
-Santa-Olavia e o Ramalhete.»
-
-Mas o Ega indignou-se, chegou a fallar em «desvario»,--despeitado por
-essa transacção secreta para que não fôra consultado. O que o irritava
-sobretudo era vêr, n'esta acquisição inesperada de uma casa de campo,
-outro symptoma do grave e do fundo segredo que presentia na vida de
-Carlos: e havia já duas semanas que elle habitava o Ramalhete e Carlos
-ainda não lhe fizera uma confidencia!... Desde a sua ligação de rapazes
-em Coimbra, nos Paços de Cella, fôra elle o confessor secular de Carlos:
-mesmo em viagem, Carlos não tinha uma aventura banal d'hotel, de que não
-mandasse ao Ega «um relatorio». O romance com a Gouvarinho, de que
-Carlos ao principio tentára, frouxamente, guardar um mysterio delicado,
-já o conhecia todo, já lêra as cartas da Gouvarinho, já passára pela
-casa da titi...
-
-Mas do outro segredo não sabia nada--e considerava-se ultrajado. Via
-todas as manhãs Carlos partir para a rua de S. Francisco, levando
-flôres; via-o chegar de lá, como elle dizia, «besuntado d'extasi»;
-via-lhe os silencios repassados de felicidade, e esse indefinido ar, ao
-mesmo tempo sério e ligeiro, risonho e superior, do homem profundamente
-amado... E não sabia nada.
-
-Justamente alguns dias depois, estando ambos sós, a fallar de planos de
-verão, Carlos alludiu aos Olivaes, com enthusiasmo, relembrando algumas
-das preciosidades do Craft, o dôce socego da casa, a clara vista do
-Tejo... Aquillo realmente fôra obter por uma mão cheia de libras um
-pedaço do paraiso...
-
-Era á noite, no quarto de Carlos, já tarde. E o Ega, que passeava com as
-mãos nas algibeiras do robe-de-chambre, encolheu os hombros, impaciente,
-farto d'aquelles louvores eternos á casinhola do Craft.
-
---Essa concepção do paraiso, exclamou elle, parece-me d'um estofador da
-rua Augusta! Como natureza, couves gallegas; como decoração, os velhos
-cretones do gabinete, desbotados já por tres barrelas... Um quarto de
-dormir lugubre como uma capella de santuario... Um salão confuso como o
-armazem d'um cara-de-pau, e onde não é possivel conversar... A não ser o
-armario hollandez, e um ou outro prato, tudo aquillo é um lixo
-archeologico... Jesus! o que eu odeio _bric-à-brac_!
-
-Carlos, no fundo da sua poltrona, disse tranquillamente, e como
-reflectindo:
-
---Com effeito esses cretones são medonhos... Mas eu vou mandar
-remobilar, tornar aquillo mais habitavel.
-
-Ega estacou no meio do quarto, com o monoculo a faiscar sobre Carlos.
-
---Habitavel? Vaes ter hospedes?
-
---Vou alugar.
-
---Vaes alugar! A quem?
-
-E o silencio de Carlos, que soprava o fumo da cigarrette com os olhos no
-tecto, enfureceu Ega. Comprimentou quasi até ao chão, disse
-sarcasticamente:
-
---Peço perdão. A pergunta foi brutal. Tive agora o ar de querer arrombar
-uma gaveta fechada... O aluguel d'um predio é sempre um d'esses
-delicados segredos de sentimento e de honra em que não deve roçar nem a
-aza da imaginação... Fui rude... Irra! Fui bestialmente rude!
-
-Carlos continuava calado. Comprehendia bem o Ega--e quasi sentia um
-remorso d'aquella sua rigida reserva. Mas era como um pudor que o
-enleava, lhe impedia de pronunciar sequer o nome de Maria Eduarda. Todas
-as suas outras aventuras as contára ao Ega; e essas confidencias
-constituiam talvez mesmo o prazer mais solido que ellas lhe davam. Isto,
-porém, não era «uma aventura». Ao seu amor misturava-se alguma coisa de
-religioso; e, como os verdadeiros devotos, repugnava-lhe conversar sobre
-a sua fé... Todavia, ao mesmo tempo, sentia uma tentação de fallar
-d'_ella_ ao Ega, e de tornar vivas, e como visiveis aos seus proprios
-olhos, dando-lhes o contorno das palavras e o seu relevo, as coisas
-divinas e confusas que lhe enchiam o coração. Além d'isso, Ega não
-saberia tudo, mais tarde ou mais cedo, pela tagarellice alheia? Antes
-lh'o dissesse elle, fraternalmente. Mas hesitou ainda, accendeu outra
-cigarrette. Justamente o Ega tomára o seu castiçal, e começava a
-accendel-o a uma serpentina, devagar e com um ar amuado.
-
---Não sejas tolo, não te vás deitar, senta-te ahi, disse Carlos.
-
-E contou-lhe tudo miudamente, diffusamente, desde o primeiro encontro, á
-entrada do Hotel Central, no dia do jantar ao Cohen.
-
-Ega escutava-o, sem uma palavra, enterrado no fundo do sofá. Suppuzera
-um romancesinho, d'esses que nascem e morrem entre um beijo e um bocejo:
-e agora, só pelo modo como Carlos fallava d'aquelle grande amor, elle
-sentia-o profundo, absorvente, eterno, e para bem ou para mal
-tornando-se d'ahi por diante, e para sempre, o seu irreparavel destino.
-Imaginára uma brazileira polida por Paris, bonita e futil, que tendo o
-marido longe, no Brazil, e um formoso rapaz ao lado, no sofá, obedecia
-simplesmente e alegremente á disposição das coisas: e sahia-lhe uma
-creatura cheia de caracter, cheia de paixão, capaz de sacrificios, capaz
-de heroismos. Como sempre, diante d'estas coisas patheticas,
-murchava-lhe a veia, faltava-lhe a phrase; e quando Carlos se calou, o
-bom Ega teve esta pergunta chôcha:
-
---Então estás decidido a safar-te com ella?
-
---A _safar-me_, não; a ir viver com ella longe d'aqui, decididissimo!
-
-Ega ficou um momento a olhar para Carlos como para um phenomeno
-prodigioso, e murmurou:
-
---É d'arromba!
-
-Mas que outra coisa podiam elles fazer? D'ahi a tres mezes talvez,
-Castro Gomes chegava do Brazil. Ora nem Carlos, nem ella, aceitariam
-nunca uma d'essas situações atrozes e reles em que a mulher é do amante
-e do marido, a horas diversas... Só lhes restava uma solução digna,
-decente, séria--fugir.
-
-Ega, depois de um silencio, disse pensativamente:
-
---Para o marido é que não é talvez divertido perder assim, de uma vez, a
-mulher, a filha, e a cadellinha...
-
-Carlos ergueu-se, deu alguns passos pelo quarto. Sim, tambem elle já
-pensára n'isso... E não sentia remorsos--mesmo quando os podesse haver
-no absoluto egoismo da paixão... Elle não conhecia intimamente Castro
-Gomes: mas tinha podido adivinhar o typo, reconstruil-o, pelo que lhe
-dissera o Damaso, e por algumas conversas com miss Sarah. Castro Gomes
-não era um esposo a sério: era um dandy, um futil, um _gommeux_, um
-homem de sport e de cocottes... Casára com uma mulher bella, saciára a
-paixão, e recomeçára a sua vida de club e de bastidores... Bastava olhar
-para elle, para a sua toilette, para os seus modos--e comprehendia-se
-logo a trivialidade d'aquelle caracter...
-
---Que tal é, como homem? perguntou Ega.
-
---Um brazileirito trigueiro, com um ar espartilhado... Um
-_rastaquouère_, o verdadeiro typosinho do _Café de la Paix_... É
-possivel que sinta, quando isto vier a succeder, um certo ardor na
-vaidade ferida... Mas é um coração que se ha de consolar facilmente nas
-_Folies Bergères_.
-
-Ega não dizia nada. Mas pensava que um homem de club, e mesmo consolavel
-nas _Folies Bergères_, póde não se importar muito com sua mulher, mas
-póde todavia amar muito sua filha... Depois, atravessado por uma outra
-idéa, acrescentou:
-
---E teu avô?
-
-Carlos encolheu os hombros:
-
---O avô tem de se affligir um pouco para eu poder ser profundamente
-feliz; como eu teria de ser desgraçado toda a minha vida se quizesse
-poupar ao avô essa contrariedade... O mundo é assim, Ega... E eu, n'esse
-ponto, não estou decidido a fazer sacrificios.
-
-Ega esfregou lentamente as mãos, com os olhos no chão, repetindo a mesma
-palavra, a unica que lhe suggeria todo o seu espirito perante aquellas
-coisas vehementes:
-
---É d'arromba!
-
-
-
-
-III
-
-
-Carlos, que almoçára cedo, estava para sahir no coupé, e já de
-chapéo--quando Baptista veio dizer que o snr. Ega, desejando fallar-lhe
-n'uma coisa grave, lhe pedia para esperar um instante. O snr. Ega ficára
-a fazer a barba.
-
-Carlos pensou logo que se tratava da Cohen. Havia duas semanas que ella
-chegára a Lisboa, Ega ainda a não vira, e fallava d'ella raramente. Mas
-Carlos sentia-o nervoso e desassocegado. Todas as manhãs o pobre Ega
-mostrava um desapontamento ao receber o correio, que só lhe trazia algum
-jornal cintado, ou cartas de Celorico. Á noite percorria dois, tres
-theatros, já quasi vazios n'aquelle começo de verão; e ao recolher era
-outra desconsolação, quando os criados lhe affirmavam, com certeza, que
-não viera carta alguma para s. exc.^a Decerto Ega não se resignava a
-perder Rachel, anciava por a encontrar; e roía-o o despeito de que ella,
-de qualquer modo, lhe não tivesse mostrado que no seu coração permanecia
-ao menos a saudade das antigas felicidades... Justamente na vespera Ega
-apparecera á hora do jantar, transtornado: cruzára-se com o Cohen na rua
-do Ouro, e parecera-lhe que «esse canalha» lhe atirára de lado um olhar
-atrevido, sacudindo a bengala; o Ega jurava que se «esse canalha»
-ousasse outra vez fital-o, espedaçava-o, sem piedade, publicamente, a
-uma esquina da Baixa.
-
-Na ante-camara o relogio bateu dez horas, Carlos impaciente ia a subir
-ao quarto do Ega. Mas n'esse instante o correio chegava, com a _Revista
-dos Dois Mundos_, e uma carta para Carlos. Era da Gouvarinho. Carlos
-acabava de a lêr--quando o Ega appareceu, de jaquetão, e em chinelas.
-
---Tenho a fallar-te n'uma coisa grave, menino.
-
---Lê isto primeiro, disse o outro, passando-lhe a carta da Gouvarinho.
-
-A Gouvarinho, n'um tom amargo, queixava-se que, já por duas vezes,
-Carlos faltára ao _rendez-vous_ em casa da titi, sem lhe ter sequer
-escripto uma palavra; ella vira n'isto uma offensa, uma brutalidade; e
-vinha agora intimal-o, «em nome de todos os sacrificios que por elle
-fizera», a que apparecesse na rua de S. Marçal, domingo ao meio dia,
-para terem uma explicação definitiva antes d'ella partir para Cintra.
-
---Excellente occasião d'acabar! exclamou Ega, entregando a carta a
-Carlos, depois de respirar o perfume do papel. Não vás, nem respondas...
-Ella parte para Cintra, tu para Santa Olavia, não vos vêdes mais, e
-assim finda o romance. Finda como todas as coisas grandes, como o
-Imperio Romano, e como o Rheno, por dispersão, insensivelmente...
-
---É o que eu vou fazer, disse Carlos, começando a calçar as luvas.
-Jesus! Que mulher massadora!
-
---E que desavergonhada! Chamar a essas coisas «sacrificios!...»
-Arrasta-te duas vezes por semana a casa da titi, regala-se lá de
-extravagancias, bebe champagne, fuma cigarrettes, sobe ao setimo céo,
-delira, e depois põe dolorosamente os olhos no chão, e chama a isso
-«sacrificios...» Só com um chicote!...
-
-Carlos encolheu os hombros, com resignação, como se nas condessas de
-Gouvarinho, e no mundo, só houvesse incoherencia e dólo.
-
---E que é isso que tu me tinhas a dizer?
-
-Ega então tomou um ar grave. Escolheu lentamente na caixa uma
-cigarrette, abotoou devagar o jaquetão.
-
---Tu não tens visto o Damaso?
-
---Nunca mais me appareceu, disse Carlos. Creio que está amuado... Eu
-sempre que o encontro, aceno-lhe de longe amigavelmente com dois
-dedos...
-
---Devia ser antes com a bengala. O Damaso anda ahi, por toda a parte,
-fallando de ti e d'essa senhora, tua amiga... A ti chama-te _pulha_, a
-ella peor ainda. É a velha historia; diz que te apresentou, que te
-metteste de dentro, e como para essa senhora é uma questão de dinheiro,
-e tu és o mais rico, ella lhe passou o pé... Vês d'ahi a infamiasinha. E
-isto tagarellado pelo Gremio, pela Casa Havaneza, com detalhes torpes,
-envolvendo sempre a questão de dinheiro. Tudo isto é atroz. Trata de lhe
-pôr cobro.
-
-Carlos, muito pallido, disse simplesmente:
-
---Ha de se fazer justiça.
-
-Desceu, indignado. Aquella torpe insinuação sobre «dinheiro» parecia-lhe
-poder ser castigada só com a morte. E um instante mesmo, com a mão no
-fecho da portinhola do coupé, pensou em correr a casa do Damaso, tomar
-um desforço brutal.
-
-Mas eram quasi onze horas, e elle tinha d'ir aos Olivaes. No dia
-seguinte, sabbado, dia bello entre todos e solemne para o seu coração,
-Maria Eduarda devia emfim visitar a quinta do Craft: e ficára combinado,
-na vespera, que passariam lá as horas do calor, até tarde, sós,
-n'aquella casa solitaria e sem criados, escondida entre as arvores. Elle
-pedira-lh'o assim, hesitante e a tremer: ella consentira logo, sorrindo
-e naturalmente. N'essa manhã elle mandára aos Olivaes dois criados para
-arejar as salas, espanejar, encher tudo de flôres. Agora ia lá, como um
-devoto, vêr se estava bem enfeitado o sacrario da sua deusa... E era
-através d'estes deliciosos cuidados, em plena ventura, que lhe apparecia
-outra vez, suja e empanando o brilho do seu amor, a tagarellice do
-Damaso!
-
-Até aos Olivaes, não cessou de ruminar coisas vagas e violentas que
-faria para aniquilar o Damaso. No seu amor não haveria paz, emquanto
-aquelle villão o andasse commentando sordidamente pelas esquinas das
-ruas. Era necessario enxovalhal-o de tal modo, com tal publicidade, que
-elle não ousasse mais mostrar em Lisboa a face bochechuda, a face vil...
-Quando o coupé parou á porta da quinta, Carlos decidira dar bengaladas
-no Damaso, uma tarde, no Chiado, com apparato...
-
-Mas depois, ao regressar da quinta, vinha já mais calmo. Pisára a linda
-rua d'acacias que os pés d'ella pisariam na manhã seguinte: dera um
-longo olhar ao leito que seria o leito d'ella, rico, alçado sobre um
-estrado, envolto em cortinados de brocatel côr d'ouro, com um esplendor
-sério d'altar profano... D'ahi a poucas horas, encontrar-se-hiam sós
-n'aquella casa muda e ignorada do mundo; depois, todo o verão os seus
-amores viveriam escondidos n'esse fresco retiro d'aldêa; e d'ahi a tres
-mezes estariam longe, na Italia, á beira d'um claro lago, entre as
-flôres d'Isola Bella... No meio d'estas voluptuosidades magnificas, que
-lhe podia importar o Damaso, gorducho e reles, palrando em calão nos
-bilhares do Gremio! Quando chegou á rua de S. Francisco resolvera, se
-visse o Damaso, continuar a acenar-lhe, de leve, com a ponta dos dedos.
-
-Maria Eduarda fôra passear a Belem com Rosa deixando-lhe um bilhete, em
-que lhe pedia para vir á noite _faire un bout de causerie_. Carlos
-desceu as escadas, devagar, guardando esse bocadinho de papel na
-carteira como uma dôce reliquia; e sahia o portão, no momento em que o
-Alencar desembocava defronte, da travessa da Parreirinha, todo de preto,
-moroso e pensativo. Ao avistar Carlos, parou de braços abertos; depois
-vivamente, como recordando-se, ergueu os olhos para o primeiro andar.
-
-Não se tinham visto desde as corridas, o poeta abraçou com effusão o seu
-Carlos. E fallou logo de si, copiosamente. Estivera outra vez em Cintra,
-em Collares com o seu velho Carvalhosa: e o que se lembrára do rico dia
-passado com Carlos e com o maestro em Sitiaes!... Cintra uma belleza.
-Elle, um pouco constipado. E apesar da companhia do Carvalhosa, tão
-erudito e tão profundo, apesar da excellente musica da mulher, da
-Julinha (que para elle era como uma irmã), tinha-se aborrecido. Questão
-de velhice...
-
---Com effeito, disse Carlos, pareces-me um pouco murcho... Falta-te o
-teu ar aureolado.
-
-O poeta encolheu os hombros.
-
---O Evangelho lá o diz bem claro... Ou é a Biblia que o diz...? Não; é
-S. Paulo... S. Paulo ou Santo Agostinho?... Emfim a authoridade não faz
-ao caso. N'um d'esses santos livros se affirma que este mundo é um valle
-de lagrimas...
-
---Em que a gente se ri bastante, disse Carlos alegremente.
-
-O poeta tornou a encolher os hombros. Lagrimas ou risos, que
-importava?... Tudo era sentir, tudo era viver! Ainda na vespera elle
-dissera isso mesmo em casa dos Cohens...
-
-E de repente, estacando no meio da rua, tocando no braço de Carlos:
-
---E agora por fallar nos Cohens, dize-me uma coisa com franqueza, meu
-rapaz. Eu sei que tu és intimo do Ega, e, que diabo, ninguem lhe admira
-mais o talento do que eu!... Mas, realmente, tu approvas que elle,
-apenas soube da chegada dos Cohens, se viesse metter em Lisboa? Depois
-do que houve!...
-
-Carlos afiançou ao poeta que o Ega só no dia mesmo da chegada, horas
-depois, soubera pela _Gazeta Illustrada_ a vinda dos Cohens... E de
-resto se não podessem habitar, conjuntas na mesma cidade, as pessoas
-entre as quaes tivesse havido attritos desagradaveis, as sociedades
-humanas tinham de se desfazer...
-
-Alencar não respondeu, caminhando ao lado de Carlos, com a cabeça baixa.
-Depois parou de novo, franzindo a testa:
-
---Outra coisa em que te quero fallar. Houve entre ti e o Damaso alguma
-péga? Eu pergunto-te isto porque n'outro dia, lá em casa dos Cohens,
-elle veio com uns ditos, umas insinuações... Eu declarei-lhe logo:
-«Damaso, Carlos da Maia, filho de Pedro da Maia, é como se fosse meu
-irmão.» E o Damaso calou-se... Calou-se, porque me conhece, e sabe que
-eu n'estas coisas de lealdade e de coração sou uma fera!
-
-Carlos disse simplesmente:
-
---Não, não ha nada, não sei nada... Nem sequer tenho visto o Damaso.
-
---Pois é verdade, continuou Alencar tomando o braço de Carlos,
-lembrei-me muito de ti em Cintra. Até fiz lá um coisita que me não sahiu
-má, e que te dediquei... Um simples soneto, uma paizagem, um quadrosinho
-de Cintra ao pôr do sol. Quiz provar ahi a esses da Idéa Nova, que,
-sendo necessario, tambem por cá se sabe cinzelar o verso moderno e dar o
-traço realista. Ora espera ahi, eu te digo, se me lembrar. A coisa
-chama-se--_Na estrada dos Capuchos_...
-
-Tinham parado á esquina do Seixas; e o poeta tossira já de leve, antes
-de recitar,--quando justamente lhes appareceu o Ega, vindo de baixo,
-vestido de campo, com uma bella rosa branca no jaquetão de flanella
-azul.
-
-Alencar e elle não se encontravam desde a fatal soirée dos Cohens. E ao
-passo que o Ega conservava um resentimento feroz contra o poeta vendo
-n'elle o inventor d'essa perfida lenda da «carta obscena»--Alencar
-odiava-o pela certeza secreta de que elle fôra o amante amado da sua
-divina Rachel. Ambos se fizeram pallidos; o aperto de mão que deram foi
-incerto e regelado; e ficaram calados, todos tres, emquanto Ega nervoso
-levava uma eternidade a accender o charuto no lume de Carlos. Mas foi
-elle que fallou, por entre uma fumaça, affectando uma superioridade
-amavel:
-
---Acho-te com boa côr, Alencar!
-
-O poeta foi amavel tambem, um pouco d'alto, passando os dedos no bigode:
-
---Vai-se andando. E tu que fazes? Quando nos dás essas _Memorias_,
-homem?
-
---Estou á espera que o paiz aprenda a lêr.
-
---Tens que esperar! Pede ao teu amigo Gouvarinho que apresse isso, elle
-occupa-se da Instrucção publica... Olha, alli o tens tu, grave e ôco
-como uma columna do _Diario do Governo_...
-
-O poeta apontava com a bengala para o outro lado da rua, por onde o
-Gouvarinho descia, muito devagar, a conversar com o Cohen; e ao lado
-d'elles, de chapéo branco, de collete branco, o Damaso deitava olhares
-pelo Chiado, risonho, ovante, barrigudo, como um conquistador nos seus
-dominios. Já aquelle arzinho gordo de tranquillo triumpho irritou
-Carlos. Mas quando o Damaso parou defronte, no outro passeio, todo de
-costas para elle, ostentando rir alto com o Gouvarinho, não se conteve,
-atravessou a rua.
-
-Foi breve, e foi cruel: sacudiu a mão do Gouvarinho, saudou de leve o
-Cohen: e sem baixar a voz, disse ao Damaso friamente:
-
---Ouve lá. Se continúas a fallar de mim e de pessoas das minhas
-relações, do modo como tens fallado, e que não me convém, arranco-te as
-orelhas.
-
-O conde acudiu, mettendo-se entre elles:
-
---Maia, por quem é! Aqui no Chiado...
-
---Não é nada, Gouvarinho, disse Carlos detendo-o, muito sério e muito
-sereno. É apenas um aviso a este imbecil.
-
---Eu não quero questões, eu não quero questões!... balbuciou o Damaso,
-livido, enfiando para dentro d'uma tabacaria.
-
-E Carlos voltou, com socego, para junto dos seus amigos, depois de ter
-saudado o Cohen e sacudir a mão ao Gouvarinho.
-
-Vinha apenas um pouco pallido: mais perturbado estava o Ega, que julgára
-vêr de novo, n'um olhar do Cohen, uma provocação intoleravel. Só o
-Alencar não reparára em nada: continuava a discursar sobre coisas
-litterarias, explicando ao Ega as concessões que se podiam fazer ao
-naturalismo...
-
---Fiquei aqui a dizer ao Ega... É evidente que quando se trata de
-paizagem é necessario copiar a realidade... Não se pode descrever um
-castanheiro _a priori_, como se descreveria uma alma... E lá isso faço
-eu... Ahi está esse soneto de Cintra que eu te dediquei, Carlos. É
-realista, está claro que é realista... Pudéra, se é paizagem! Ora eu
-vol-o digo... Ia justamente dizel-o, quando tu appareceste, Ega... Mas
-vejam lá vocês se isto os massa...
-
-Qual massava! E até, para o escutarem melhor, penetraram na rua de S.
-Francisco, mais silenciosa. Ahi, dando um passo lento, depois outro, o
-poeta murmurou a sua ecloga. Era em Cintra, ao pôr do sol: uma ingleza,
-de cabellos soltos, toda de branco, desce n'um burrinho por uma vereda
-que domina um valle; as aves cantam de leve, ha borboletas em torno das
-madresilvas; então a ingleza pára, deixa o burrinho, olha enlevada o
-céo, os arvoredos, a paz das casas;--e ahi, no ultimo terceto, vinha «a
-nota realista» de que se ufanava o Alencar:
-
-
- Ella olha a flôr dormente, a nuvem casta,
- Emquanto o fumo dos casaes se eleva
- E ao lado o burro, pensativo, pasta.
-
-
---Ahi têm vocês o traço, a nota naturalista... _Ao lado o burro,
-pensativo, pasta_... Eis ahi a realidade, está-se a vêr o burro
-pensativo... Não ha nada mais pensativo que um burro... E são estas
-pequeninas coisas da natureza que é necessario observar... Já vêem vocês
-que se póde fazer realismo, e do bom, sem vir logo com obscenidades...
-Vocês que lhes parece o sonetito?
-
-Ambos o elogiaram profundamente--Carlos arrependido de não ter
-completado a humilhação do Damaso, dando-lhe bengaladas; Ega pensando
-que decerto, n'uma d'essas tardes, no Chiado, teria de esbofetear o
-Cohen. Como elles recolhiam ao Ramalhete, Alencar, já desanuviado, foi
-acompanhal-os pelo Aterro. E fallou sempre, contando o plano de um
-romance historico, em que elle queria pintar a grande figura d'Affonso
-d'Albuquerque, mas por um lado mais humano, mais intimo: Affonso
-d'Albuquerque namorado: Affonso d'Albuquerque, só, de noite, na pôpa do
-seu galeão, diante d'Ormuz incendiada, beijando uma flôr secca, entre
-soluços. Alencar achava isto sublime.
-
-Depois de jantar, Carlos vestia-se para ir á rua de S. Francisco--quando
-o Baptista veio dizer que o snr. Telles da Gama lhe desejava fallar com
-urgencia. Não o querendo receber, alli, em mangas de camisa, mandou-o
-entrar para o gabinete escarlate e preto. E veio d'ahi a um instante
-encontrar Telles da Gama admirando as bellas faianças hollandezas.
-
---Você, Maia, tem isto lindissimo, exclamou elle logo. Eu pello-me por
-porcelanas... Hei de voltar um dia d'estes, com mais vagar, vêr tudo
-isto, de dia... Mas hoje venho com pressa, venho com uma missão... Você
-não adivinha?
-
-Carlos não adivinhava.
-
-E o outro, recuando um passo, com uma gravidade em que transparecia um
-sorriso:
-
---Eu venho aqui perguntar-lhe da parte do Damaso, se você hoje,
-n'aquillo que lhe disse, tinha tenção de o offender. É só isto... A
-minha missão é apenas esta: perguntar-lhe se você tinha intenção de o
-offender.
-
-Carlos olhou-o, muito sério:
-
---O quê!? Se tinha intenção de offender o Damaso quando o ameacei de lhe
-arrancar as orelhas? De modo nenhum: tinha só intenção de lhe arrancar
-as orelhas!
-
-Telles da Gama saudou, rasgadamente:
-
---Foi isso mesmo o que eu respondi ao Damaso: que você não tinha senão
-essa intenção. Em todo o caso, desde este momento, a minha missão está
-finda... Como você tem isto bonito!... O que é aquelle prato grande,
-majolica?
-
---Não, um velho Nevers. Veja você ao pé... É Thetis conduzindo as armas
-d'Achilles... É esplendido; e é muito raro... Veja você esse Deft, com
-as duas tulipas amarellas... É um encanto!
-
-Telles da Gama dava um olhar lento a todas estas preciosidades, tomando
-o chapéo de sobre o sofá.
-
---Lindissimo tudo isto!... Então só intenção de lhe arrancar as orelhas?
-nenhuma de o offender?...
-
---Nenhuma de o offender, toda de lhe arrancar as orelhas... Fume você um
-charuto.
-
---Não, obrigado...
-
---Calice de cognac?
-
---Não! abstenção total de bebidas e aguas ardentes... Pois adeus, meu
-bom Maia!
-
---Adeus, meu bom Telles...
-
-
-Ao outro dia, por uma radiante manhã de julho, Carlos saltava do coupé,
-com um mólho de chaves, diante do portão da quinta do Craft. Maria
-Eduarda devia chegar ás dez horas, só, na sua carruagem da Companhia. O
-hortelão, dispensado por dois dias, fôra a Villa Franca; não havia ainda
-criados na casa; as janellas estavam fechadas. E pesava alli, envolvendo
-a estrada e a vivenda, um d'esses altos e graves silencios d'aldêa, em
-que se sente, dormente no ar, o zumbir dos moscardos.
-
-Logo depois do portão, penetrava-se n'uma fresca rua d'acacias, onde
-cheirava bem. A um lado, por entre a ramagem, apparecia o kiosque, com
-tecto de madeira, pintado de vermelho, que fôra o capricho de Craft, e
-que elle mobilára á japoneza. E ao fundo era a casa, caiada de novo, com
-janellas de peitoril, persianas verdes, e a portinha ao centro sobre
-tres degraus, flanqueados por vasos de louça azul cheios de cravos.
-
-Só o metter a chave devagar e com uma inutil cautela na fechadura
-d'aquella morada discreta foi para Carlos um prazer. Abriu as janellas:
-e a larga luz que entrava pareceu-lhe trazer uma doçura rara, e uma
-alegria maior que a dos outros dias, como preparada especialmente pelo
-bom Deus para alumiar a festa do seu coração. Correu logo á sala de
-jantar, a verificar se, na mesa posta para o _lunch_, se conservavam
-ainda viçosas as flôres que lá deixára na vespera. Depois voltou ao
-coupé a tirar o caixote de gelo, que trouxera de Lisboa, embrulhado em
-flanella, entre serradura. Na estrada, silenciosa por ora, ia só
-passando uma saloia montada na sua egua.
-
-Mas apenas accommodára o gelo--sentiu fóra o ruido lento da carruagem.
-Veio para o gabinete forrado de cretones, que abria sobre o corredor; e
-ficou alli, espreitando da porta, mas escondido, por causa do cocheiro
-da Companhia. D'ahi a um instante viu-a emfim chegar, pela rua de
-acacias, alta e bella, vestida de preto, e com um meio-véo espesso como
-uma mascara. Os seus pésinhos subiram os tres degraus de pedra. Elle
-sentiu a sua voz inquieta perguntar de leve:
-
---_Êtes-vous là?_
-
-Appareceu--e ficaram um instante, á porta do gabinete, apertando
-sofregamente as mãos, sem fallar, commovidos, deslumbrados.
-
---Que linda manhã! disse ella por fim, rindo e toda vermelha.
-
---Linda manhã, linda! repetia Carlos, contemplando-a, enlevado.
-
-Maria Eduarda resvalára sobre uma cadeira, junto da porta, n'um cansaço
-delicioso, deixando calmar o alvoroço do seu coração.
-
---É muito confortavel, é encantador tudo isto, dizia ella olhando
-lentamente em redor os cretones do gabinete, o divan turco coberto com
-um tapete de Brousse, a estante envidraçada cheia de livros. Vou ficar
-aqui adoravelmente...
-
---Mas ainda nem lhe agradeci o ter vindo, murmurou Carlos, esquecido, a
-olhar para ella. Ainda nem lhe beijei a mão...
-
-Maria Eduarda começou a tirar o véo, depois as luvas, fallando da
-estrada. Achára-a longa, fatigante. Mas que lhe importava? Apenas se
-accommodasse n'aquelle fresco ninho nunca mais voltava a Lisboa!
-
-Atirou o chapéo para cima do divan--ergueu-se, toda alegre e luminosa.
-
---Vamos vêr a casa, estou morta por vêr essas maravilhas do seu amigo
-Craft!... É Craft que se chama? _Craft_ quer dizer industria!
-
---Mas ainda nem sequer lhe beijei a mão! tornou Carlos, sorrindo e
-supplicante.
-
-Ella estendeu-lhe os labios, e ficou presa nos seus braços.
-
-E Carlos, beijando-lhe devagar os olhos, o cabello, dizia-lhe quanto era
-feliz e quanto a sentia agora mais sua entre estes velhos muros de
-quinta que a separavam do resto do mundo...
-
-Ella deixava-se beijar, séria e grave:
-
---E é verdade isso? É realmente verdade?...
-
-Se era verdade! Carlos teve um suspiro quasi triste:
-
---Que lhe hei de eu responder? Tenho de lhe repetir essa coisa antiga
-que já Hamlet disse: que duvide de tudo, que duvide do sol, mas que não
-duvide de mim...
-
-Maria Eduarda desprendeu-se, lentamente e perturbada.
-
---Vamos vêr a casa, disse ella.
-
-Começaram pelo segundo andar. A escada era escura e feia: mas os quartos
-em cima, alegres, esteirados de novo, forrados de papeis claros, abriam
-sobre o rio e sobre os campos.
-
---Os seus aposentos, disse Carlos, hão de ser em baixo, está visto,
-entre as coisas ricas... Mas Rosa e miss Sarah ficam aqui
-esplendidamente. Não lhe parece?
-
-E ella percorria os quartos, devagar, examinando a accommodação dos
-armarios, palpando a elasticidade dos colxões, attenta, cuidadosa, toda
-no desvelo de alojar bem a sua gente. Por vezes mesmo exigia uma
-alteração. E era realmente como se aquelle homem que a seguia,
-enternecido e radiante, fosse apenas um velho senhorio.
-
---O quarto com as duas janellas, ao fundo do corredor, seria o melhor
-para Rosa. Mas a pequena não póde dormir n'aquelle enorme leito de pau
-preto...
-
---Muda-se!
-
---Sim, póde mudar-se... E falta uma sala larga para ella brincar, ás
-horas do calor... Se não houvesse o tabique entre os dois quartos
-pequenos...
-
---Deita-se abaixo!
-
-Elle esfregava as mãos, encantado, prompto a refundir toda a casa; e
-ella não recusava nada, para conforto mais perfeito dos seus.
-
-Desceram á sala de jantar. E ahi, diante da famosa chaminé de carvalho
-lavrado, flanqueada á maneira de cariatides pelas duas negras figuras de
-Nubios, com olhos rutilantes de crystal, Maria Eduarda começou a achar o
-gosto do Craft excentrico, quasi exotico... Tambem Carlos não lhe dizia
-que Craft tivesse o gosto correcto d'um atheniense. Era um saxonio
-batido d'um raio de sol meridional: mas havia muito talento na sua
-excentricidade...
-
---Oh, a vista é que é deliciosa! exclamou ella chegando-se á janella.
-
-Junto do peitoril crescia um pé de margaridas, e ao lado outro de
-baunilha que perfumava o ar. Adiante estendia-se um tapete de relva, mal
-aparada, um pouco amarellada já pelo calor de julho; e entre duas
-grandes arvores que lhe faziam sombra, havia alli, para os vagares da
-sésta, um largo banco de cortiça. Um renque de arbustos cerrados parecia
-fechar a quinta d'aquelle lado como uma sebe. Depois a collina descia,
-com outras quintarolas, casas que se não viam, e uma chaminé de fabrica;
-e lá no fundo o rio rebrilhava, vidrado de azul, mudo e cheio de sol,
-até ás montanhas d'além-Tejo, azuladas tambem na faiscação clara do céo
-de verão.
-
---Isto é encantador! repetia ella.
-
---É um paraiso! Pois não lhe dizia eu? É necessario pôr um nome a esta
-casa... Como se ha de chamar? _Villa-Marie?_ Não. _Château-Rose_...
-Tambem não, crédo! Parece o nome d'um vinho. O melhor é baptisal-a
-definitivamente com o nome que nós lhe davamos. Nós chamavamos-lhe a
-_Tóca_.
-
-Maria Eduarda achou originalissimo o nome de _Tóca_. Devia-se até pintar
-em letras vermelhas sobre o portão.
-
---Justamente, e com uma divisa de bicho, disse Carlos rindo. Uma divisa
-de bicho egoista na sua felicidade e no seu buraco: _Não me mexam!_
-
-Mas ella parára, com um lindo riso de surpreza, diante da mesa posta,
-cheia de fruta, com as duas cadeiras já chegadas, e os crystaes
-brilhando entre as flôres.
-
---São as bodas de Canná!
-
-Os olhos de Carlos resplandeceram.
-
---São as nossas!
-
-Maria Eduarda fez-se muito vermelha; e baixou o rosto a escolher um
-morango, depois a escolher uma rosa.
-
---Quer uma gota de champagne? exclamou Carlos. Com um pouco de gelo? Nós
-temos gelo, temos tudo! Não nos falta nada, nem a benção de Deus... Uma
-gotinha de champagne, vá!
-
-Ella aceitou: beberam pelo mesmo copo; outra vez os seus labios se
-encontraram, apaixonadamente.
-
-Carlos accendeu uma cigarrette, continuaram a percorrer a casa. A
-cozinha agradou-lhe muito, arranjada á ingleza, toda em azulejos. No
-corredor Maria Eduarda demorou-se diante de uma panoplia de tourada, com
-uma cabeça negra de touro, espadas e garrochas, mantos de sêda vermelha,
-conservando nas suas pregas uma graça ligeira, e ao lado o cartaz
-amarello _de la corrida_, com o nome de Lagartijo. Isto encantou-a como
-um quente lampejo de festa e de sol peninsular...
-
-Mas depois o quarto que devia ser o seu, quando Carlos lh'o foi mostrar,
-desagradou-lhe com o seu luxo estridente e sensual. Era uma alcova,
-recebendo a claridade d'uma sala forrada de tapeçarias, onde desmaiavam
-na trama de lã os amores de Venus e Marte: da porta de communicação,
-arredondada em arco de capella, pendia uma pesada lampada da Renascença,
-de ferro forjado: e, áquella hora, batida por uma larga facha de sol, a
-alcova resplandecia como o interior de um tabernaculo profanado,
-convertido em retiro lascivo de serralho... Era toda forrada, paredes e
-tectos, de um brocado amarello, côr de botão d'ouro; um tapete de
-velludo do mesmo tom rico fazia um pavimento d'ouro vivo sobre que
-poderiam correr nús os pés ardentes d'uma deusa amorosa--e o leito de
-docel, alçado sobre um estrado, coberto com uma colcha de setim amarello
-bordada a flôres d'ouro, envolto em solemnes cortinas tambem amarellas
-de velho brocatel,--enchia a alcova, esplendido e severo, e como erguido
-para as voluptuosidades grandiosas de uma paixão tragica do tempo de
-Lucrecia ou de Romeu. E era alli que o bom Craft, com um lenço de sêda
-da India amarrado na cabeça, resonava as suas sete horas, pacata e
-solitariamente.
-
-Mas Maria Eduarda não gostou d'estes amarellos excessivos. Depois
-impressionou-se, ao reparar n'um painel antigo, defumado, resaltando em
-negro do fundo de todo aquelle ouro--onde apenas se distinguia uma
-cabeça degolada, livida, gelada no seu sangue, dentro d'um prato de
-cobre. E para maior excentricidade, a um canto, de cima de uma columna
-de carvalho, uma enorme coruja empalhada fixava no leito d'amor, com um
-ar de meditação sinistra, os seus dois olhos redondos e agourentos...
-Maria Eduarda achava impossivel ter alli sonhos suaves.
-
-Carlos agarrou logo na columna e no mocho, atirou-os para um canto do
-corredor; e propoz-lhe mudar aquelles brocados, forrar a alcova de um
-setim côr de rosa e risonho.
-
---Não, venho-me a acostumar a todos esses ouros... Sómente aquelle
-quadro, com a cabeça, e com o sangue... Jesus, que horror!
-
---Reparando bem, disse Carlos, creio que é o nosso velho amigo S. João
-Baptista.
-
-Para desfazer essa impressão desconsolada levou-a ao salão nobre, onde
-Craft concentrára as suas preciosidades. Maria Eduarda, porém, ainda
-descontente, achou-lhe um ar atulhado e frio de museu.
-
---É para vêr de pé, e de passagem... Não se póde ficar aqui sentado, a
-conversar.
-
---Mas esta é materia-prima! exclamou Carlos. Com isto depois faz-se uma
-sala adoravel... Para que serve o nosso genio decorativo?... Olhe o
-armario, veja que centro! Que belleza!
-
-Enchendo quasi a parede do fundo, o famoso armario, o «movel divino» do
-Craft, obra de talha do tempo da Liga Hanseatica, luxuoso e sombrio,
-tinha uma magestade architectural: na base quatro guerreiros, armados
-como Marte, flanqueavam as portas, mostrando cada uma em baixo-relevo o
-assalto de uma cidade ou as tendas de um acampamento; a peça superior
-era guardada aos quatro cantos pelos quatro evangelistas, João, Marcos,
-Lucas e Matheus, imagens rigidas, envolvidas n'essas roupagens violentas
-que um vento de prophecia parece agitar: depois na cornija erguia-se um
-trophéo agricola com mólhos d'espigas, fouces, cachos d'uvas e rabiças
-d'arados; e, á sombra d'estas coisas de labor e fartura, dois Faunos,
-recostados em symetria, indifferentes aos heroes e aos santos, tocavam
-n'um desafio bucolico a frauta de quatro tubos.
-
---Então, hein? dizia Carlos. Que movel! É todo um poema da Renascença,
-Faunos e Apostolos, guerras e georgicas... Que se póde metter dentro
-d'este armario? Eu se tivesse cartas suas era aqui que as depositava,
-como n'um altar-mór.
-
-Ella não respondeu, sorrindo, caminhando devagar entre essas coisas do
-passado, d'uma belleza fria, e exhalando a indefinida tristeza de um
-luxo morto: finos moveis da Renascença italiana, exilados dos seus
-palacios de marmore, com embutidos de cornalina e agatha que punham um
-brilho suave de joia sobre a negrura dos ebanos ou setim das madeiras
-côr de rosa; cofres nupciaes, longos como bahús, onde se guardavam os
-presentes dos Papas e dos Principes, pintados a purpura e ouro, com
-graças de miniatura; contadores hespanhoes impertigados, revestidos de
-ferro brunido e de velludo vermelho, e com interiores mysteriosos, em
-fórma de capella, cheios de nichos, de claustros de tartaruga... Aqui e
-além, sobre a pintura verde-escura das paredes, resplandecia uma colcha
-de setim toda recamada de flôres e d'aves d'ouro; ou sobre um bocado de
-tapete do Oriente de tons severos, com versiculos do Alcorão,
-desdobrava-se a pastoral gentil d'um minuete em Cythera sobre a sêda de
-um leque aberto...
-
-Maria Eduarda terminou por se sentar, cansada, n'uma poltrona Luiz XV,
-ampla e nobre, feita para a magestade das anquinhas, recoberta de
-tapeçaria de Beauvais, d'onde parecia exhalar-se ainda um vago aroma
-d'empoado.
-
-Carlos triumphava, vendo a admiração de Maria. Então, ainda considerava
-uma extravagancia aquella compra, feita n'um rasgo de enthusiasmo?
-
---Não, ha aqui coisas adoraveis... Nem eu sei se me atreverei a viver
-uma vida pacata de aldêa no meio de todas estas raridades...
-
---Não diga isso, exclamava Carlos rindo, que eu pégo fogo a tudo!
-
-Mas o que lhe agradou mais foram as bellas faianças, toda uma arte
-immortal e fragil espalhada por sobre o marmore das consolas. Uma
-sobretudo attrahiu-a, uma esplendida taça persa, d'um desenho raro, com
-um renque de negros cyprestes, cada um abrigando uma flôr de côr viva: e
-aquillo fazia lembrar breves sorrisos reapparecendo entre longas
-tristezas. Depois eram as apparatosas majolicas, de tons estridentes e
-desencontrados, cheias de grandes personagens, Carlos V passando o Elba,
-Alexandre coroando Roxane; os lindos Nevers, ingenuos e sérios; os
-Marselhas, onde se abre voluptuosamente, como uma nudez que se mostra,
-uma grossa rosa vermelha; os Derby, com as suas rendas de ouro sobre o
-azul-ferrete de céo tropical; os Wedgewood, côr de leite e côr de rosa,
-com transparencias fugitivas de concha na agua...
-
---Só um instante mais, exclamou Carlos vendo-a outra vez sentar-se, é
-necessario saudar o genio tutelar da casa!
-
-Era ao centro, sobre uma larga peanha, um idolo japonez de bronze, um
-deus bestial, nú, pelado, obeso, de papeira, faceto e banhado de riso,
-com o ventre óvante, distendido na indigestão de todo um universo--e as
-duas perninhas bambas, molles e flaccidas como as pelles mortas d'um
-feto. E este monstro triumphava, encanchado sobre um animal fabuloso, de
-pés humanos, que dobrava para a terra o pescoço submisso, mostrando no
-focinho e no olho obliquo todo o surdo resentimento da sua humilhação...
-
---E pensarmos, dizia Carlos, que gerações inteiras vieram ajoelhar-se
-diante d'este ratão, rezar-lhe, beijar-lhe o embigo, offerecer-lhe
-riquezas, morrer por elle...
-
---O amor que se tem por um monstro, disse Maria, é mais meritorio, não é
-verdade?
-
---Por isso não acha talvez meritorio o amor que se tem por si...
-
-Sentaram-se ao pé da janella, n'um divan baixo e largo, cheio de
-almofadas, cercado por um biombo de sêda branca, que fazia entre aquelle
-luxo do passado um fôfo recanto de conforto moderno: e como ella se
-queixava um pouco de calor, Carlos abriu a janella. Junto do peitoril
-crescia tambem um grande pé de margaridas; adiante, n'um velho vaso de
-pedra, pousado sobre a relva, vermelhejava a flôr d'um cacto; e dos
-ramos de uma nogueira cahia uma fina frescura.
-
-Maria Eduarda veio encostar-se á janella, Carlos seguiu-a; e ficaram
-alli juntos, calados, profundamente felizes, penetrados pela doçura
-d'aquella solidão. Um passaro cantou de leve no ramo da arvore; depois
-calou-se. Ella quiz saber o nome de uma povoação que branquejava ao
-longe ao sol na collina azulada. Carlos não se lembrava. Depois
-brincando, colheu uma margarida, para a interrogar: _Elle m'aime, un
-peu, beaucoup_... Ella arrancou-lh'a das mãos.
-
---Para que precisa perguntar ás flôres?
-
---Porque ainda m'o não disse claramente, absolutamente, como eu quero
-que m'o diga...
-
-Abraçou-a pela cinta, sorriam um ao outro. Então Carlos, com os olhos
-mergulhados nos d'ella, disse-lhe baixínho e implorando:
-
---Ainda não vimos a saleta de banho...
-
-Maria Eduarda deixou-se levar assim enlaçada pelo salão, depois através
-da sala de tapeçarias onde Marte e Venus se amavam entre os bosques. Os
-banhos eram ao lado, com um pavimento de azulejo, avivado por um velho
-tapete vermelho da Caramania. Elle, tendo-a sempre abraçada, pousou-lhe
-no pescoço um beijo longo e lento. Ella abandonou-se mais, os seus olhos
-cerraram-se, pesados e vencidos. Penetraram na alcova quente e côr
-d'ouro: Carlos ao passar desprendeu as cortinas do arco de capella,
-feitas de uma sêda leve que coava para dentro uma claridade loura: e um
-instante ficaram immoveis, sós emfim, desatado o abraço, sem se tocarem,
-como suspensos e suffocados pela abundancia da sua felicidade.
-
---Aquella horrivel cabeça! murmurou ella.
-
-Carlos arrancou a coberta do leito, escondeu a tela sinistra. E então
-todo o rumor se extinguiu, a solitaria casa ficou adormecida entre as
-arvores, n'uma demorada sésta, sob a calma de julho...
-
-
-Os annos de Affonso da Maia foram justamente no dia seguinte, domingo.
-Quasi todos os amigos da casa tinham jantado no Ramalhete; e tomára-se o
-café no escriptorio d'Affonso, onde as janellas se conservavam abertas.
-A noite estava tepida, estrellada e serenissima. Craft, Sequeira e o
-Taveira passeavam fumando no terraço. Ao canto d'um sofá Cruges escutava
-religiosamente Steinbroken que lhe contava, com gravidade, os progressos
-da musica na Filandia. E em redor de Affonso, estendido na sua velha
-poltrona, de cachimbo na mão, fallava-se do campo.
-
-Ao jantar Affonso annunciára a intenção de ir visitar, para o meado do
-mez, as velhas arvores de Santa Olavia; e combinára-se logo uma grande
-romaria de amizade ás margens do Douro. Craft e Sequeira acompanhavam
-Affonso. O marquez promettera uma visita para agosto «na companhia
-melodiosa», dizia elle, do amigo Steinbroken. D. Diogo hesitava, com
-receio da longa jornada, da humidade da aldêa. E agora tratava-se de
-persuadir Ega a ir tambem, com Carlos--quando Carlos acabasse emfim de
-reunir esses materiaes do seu livro que o retinham em Lisboa «á banca do
-labor...» Mas o Ega resistia. O campo, dizia elle, era bom para os
-selvagens. O homem, á maneira que se civilisa, afasta-se da natureza; e
-a realisação do progresso, o paraiso na Terra, que presagiam os
-Idealistas, concebia-o elle como uma vasta cidade occupando totalmente o
-Globo, toda de casas, toda de pedra, e tendo apenas aqui e além um
-bosquesinho sagrado de roseiras, onde se fossem colher os ramalhetes
-para perfumar o altar da Justiça...
-
---E o milho? A bella fruta? A hortaliçasinha? perguntava Villaça, rindo
-com malicia.
-
-Imaginava então Villaça, replicava o outro, que d'aqui a seculos ainda
-se comeriam hortaliças? O habito dos vegetaes era um resto da rude
-animalidade do homem. Com os tempos o sêr civilisado e completo vinha a
-alimentar-se unicamente de productos artificiaes, em frasquinhos e em
-pilulas, feitos nos laboratorios do Estado...
-
---O campo, disse então D. Diogo, passando gravemente os dedos pelos
-bigodes, tem certa vantagem para a sociedade, para se fazer um bonito
-_pic-nic_, para uma burricada, para uma partida de croquet... Sem campo
-não ha sociedade.
-
---Sim, rosnou o Ega, como uma sala em que tambem ha arvores ainda se
-admitte...
-
-Enterrado n'uma poltrona, fumando languidamente, Carlos sorria em
-silencio. Todo o jantar estivera assim calado, sorrindo esparsamente a
-tudo, com um ar luminoso e de deliciosa lassidão. E então o marquez, que
-já duas vezes, dirigindo-se a elle, encontrára a mesma abstracção
-radiosa, impacientou-se:
-
---Homem, falle, diga alguma coisa!... Você está hoje com um ar
-extraordinario, um arzinho de beato que se regalou de papar o
-Santissimo!
-
-Todos em redor, com sympathia, se affirmaram em Carlos: Villaça
-achava-lhe agora melhor cara, côr d'alegria: D. Diogo, com um ar
-entendido, sentindo mulher, invejou-lhe os annos, invejou-lhe o vigor. E
-Affonso reenchendo o cachimbo olhava o neto, enternecido.
-
-Carlos ergueu-se immediatamente, fugindo áquelle exame affectuoso.
-
---Com effeito, disse elle, espreguiçando-se de leve, tenho estado hoje
-languido e mono... É o começo do verão... Mas é necessario sacudir-me...
-Quer você fazer uma partida de bilhar, ó marquez?
-
---Vá lá, homem. Se isso o resuscita...
-
-Foram, Ega seguiu-os. E apenas no corredor o marquez parando, e como
-recordando-se, perguntou sem rebuço ao Ega noticias dos Cohens.
-Tinham-se encontrado? Estava tudo acabado? Para o marquez, uma flôr de
-lealdade, não havia segredos: Ega contou-lhe que o romance findára, e
-agora o Cohen, quando o cruzava, baixava prudentemente os olhos...
-
---Eu perguntei isto, disse o marquez, porque já vi a Cohen duas vezes...
-
---Onde? foi a exclamação sôfrega do Ega.
-
---No Price, e sempre com o Damaso. A ultima vez foi já esta semana. E lá
-estava o Damaso, muito chegadinho, palrando muito... Depois veio
-sentar-se um bocado ao pé de mim, e sempre d'olho n'ella... E ella de
-lá, com aquelle ar de lambisgoia, de luneta n'elle... Não havia que
-duvidar, era um namoro... Aquelle Cohen é um predestinado.
-
-Ega fez-se livido, torceu nervosamente o bigode, terminou por dizer:
-
---O Damaso é muito intimo d'elles... Mas talvez se atire, não duvido...
-São dignos um do outro.
-
-No bilhar, emquanto os dois carambolavam preguiçosamente, elle não
-cessou de passear, n'uma agitação, trincando o charuto apagado. De
-repente estacou em frente do marquez, com os olhos chammejantes:
-
---Quando é que você a viu ultimamente no Price, essa torpe filha
-d'Israel?
-
---Terça-feira, creio eu.
-
-O Ega recomeçou a passear, sombrio.
-
-N'esse instante Baptista, apparecendo á porta do bilhar, chamou Carlos
-em silencio, com um leve olhar. Carlos veio, surprehendido.
-
---É um cocheiro de praça, murmurou Baptista. Diz que está alli uma
-senhora dentro d'uma carruagem que lhe quer fallar.
-
---Que senhora?
-
-Baptista encolheu os hombros. Carlos, de taco na mão, olhava para elle,
-aterrado. Uma senhora! Era decerto Maria... Que teria succedido, santo
-Deus, para ella vir n'uma tipoia, ás nove da noite, ao Ramalhete!
-
-Mandou Baptista, a correr, buscar-lhe um chapéo baixo; e assim mesmo, de
-casaca, sem paletot, desceu n'uma grande anciedade. No peristyllo topou
-com Eusebiosinho que chegava, e sacudia cuidadosamente com o lenço a
-poeira dos botins. Nem fallou ao Eusebiosinho. Correu ao coupé, parado á
-porta particular dos seus quartos, mudo, fechado, mysterioso,
-aterrador...
-
-Abriu a portinhola. Do canto da velha traquitana, um vulto negro,
-abafado n'uma mantilha de renda, debruçou-se, perturbado, balbuciou:
-
---É só um instante! Quero-lhe fallar!
-
-Que allivio! Era a Gouvarinho! Então, na sua indignação, Carlos foi
-brutal.
-
---Que diabo de tolice é esta? Que quer?
-
-Ia bater com a portinhola; ella empurrou-a para fóra, desesperada; e não
-se conteve, desabafou logo alli, diante do cocheiro, que mexia
-tranquillamente na fivela d'um tirante.
-
---De quem é a culpa? Para que me trata d'este modo?... É só um instante,
-entre, tenho de lhe fallar!...
-
-Carlos saltou para dentro, furioso:
-
---Dá uma volta pelo Aterro, gritou ao cocheiro. Devagar!
-
-O velho calhambeque desceu a calçada; e durante um momento, na
-escuridão, recuando um do outro no assento estreito, tiveram as mesmas
-palavras, bruscas e colericas, através do barulho das vidraças.
-
---Que imprudencia! que tolice!...
-
---E de quem é a culpa? De quem é a culpa?
-
-Depois, na rampa de Santos, o coupé rolou mais silenciosamente no
-macadam. Carlos então, arrependido da sua dureza, voltou-se para ella, e
-com brandura, quasi no tom carinhoso d'outr'ora, reprehendeu-a por
-aquella imprudencia... Pois não era melhor ter-lhe escripto?
-
---Para quê? exclamou ella. Para não me responder? Para não fazer caso
-das minhas cartas, como se fossem as de um importuno a pedir-lhe uma
-esmola!...
-
-Suffocava, arrancou a mantilha da cabeça. No vagaroso rolar do coupé,
-sem ruido, ao longo do rio, Carlos sentia a respiração d'ella,
-tumultuosa e cheia d'angustia. E não dizia nada, immovel, n'um infinito
-mal-estar, entrevendo confusamente, através do vidro embaciado, na
-sombra triste do rio adormecido, as mastreações vagas de falúas. A
-parelha parecia ir adormecendo; e as queixas d'ella desenrolavam-se,
-profundas, mordentes, repassadas d'amargura.
-
---Peço-lhe que venha a Santa Isabel, não vem... Escrevo-lhe, não me
-responde... Quero ter uma explicação franca comsigo, não apparece...
-Nada, nem um bilhete, nem uma palavra, nem um aceno... Um desprezo
-brutal, um desprezo grosseiro... Eu nem devia ter vindo... Mas não pude,
-não pude!... Quiz saber o que lhe tinha feito. O que é isto? Que lhe fiz
-eu?
-
-Carlos percebia os olhos d'ella, faiscantes sob a nevoa de lagrimas
-retidas, supplicando e procurando os seus. E sem coragem sequer de a
-fitar, murmurou, torturado:
-
---Realmente, minha amiga... As coisas fallam bem por si, não são
-necessarias explicações.
-
---São! É necessario saber se isto é uma coisa passageira, um amuo, ou se
-é uma coisa definitiva, um rompimento!
-
-Elle agitava-se no seu canto, sem achar uma maneira suave, affectuosa
-ainda, de lhe dizer que todo o seu desejo d'ella findára. Terminou por
-affirmar que não era um amuo. Os seus sentimentos tinham sido sempre
-elevados, não cahiria agora na pieguice de ter um amuo...
-
---Então é um rompimento?...
-
---Não, tambem não... Um rompimento absoluto, para sempre, não...
-
---Então é um amuo? Porquê?
-
-Carlos não respondeu. Ella, perdida, sacudiu-o pelo braço.
-
---Mas falle! Diga alguma coisa, santo Deus! Não seja cobarde, tenha a
-coragem de dizer o que é!
-
-Sim, ella tinha razão... Era uma cobardia, era uma indignidade,
-continuar alli, gôchemente, dissimulado na sombra, a balbuciar coisas
-mesquinhas. Quiz ser claro, quiz ser forte.
-
---Pois bem, ahi está. Eu entendi que as nossas relações deviam ser
-alteradas...
-
-E outra vez hesitou, a verdade amolleceu-lhe nos labios, sentindo
-aquella mulher ao seu lado a tremer d'agonia.
-
---Alteradas, quero dizer... Podiamos transformar um capricho apaixonado,
-que não podia durar, n'uma amizade agradavel, e mais nobre...
-
-E pouco a pouco as palavras voltavam-lhe faceis, habeis, persuasivas,
-através do rumor lento das rodas. Onde os podia levar aquella ligação?
-Ao resultado costumado. A que a um dia se descobrisse tudo, e o seu
-bello romance acabasse no escandalo e na vergonha; ou a que,
-envolvendo-os por muito tempo o segredo, elle viesse a descahir na
-banalidade d'uma união quasi conjugal, sem interesse e sem requinte. De
-resto era certo que, continuando a encontrarem-se, aqui, em Cintra,
-n'outros sitios, a sociedadesinha curiosa e mexeriqueira viria a
-perceber a sua affeição. E havia por acaso nada mais horroroso, para
-quem tem orgulho e delicadeza d'alma, do que uns amores que todo o
-publico conhece, até os cocheiros de praça? Não... O bom senso, o bom
-gosto mesmo, tudo indicava a necessidade d'uma separação. Ella mesmo
-mais tarde lhe seria grata... Decerto, esta primeira interrupção d'um
-habito dôce era desagradavel, e elle estava bem longe de se sentir
-feliz. Fôra por isso que não tivera a coragem de lhe escrever... Emfim
-deviam ser fortes, e não se vêrem pelo menos durante alguns mezes...
-Depois, pouco a pouco, o que era capricho fragil, cheio de inquietação,
-tornar-se-hia uma boa amizade, bem segura e bem duradoura.
-
-Calou-se; e então, no silencio, sentiu que ella, cahida para o canto do
-coupé, como uma coisa miseravel e meio morta, encolhida no seu véo,
-estava chorando baixo.
-
-Foi um momento intoleravel. Ella chorava sem violencia, mansamente, com
-um chôro lento, que parecia não dever findar. E Carlos só achava esta
-palavra banal e desenxabida:
-
---Que tolice, que tolice!
-
-Vinham rodando ao comprido das casas, por diante da fabrica do gaz. Um
-americano passou alumiado, com senhoras vestidas de claro. N'aquella
-noite de verão e d'estrellas, havia gente vagueando tranquillamente
-entre as arvores. Ella continuava a chorar.
-
-Aquelle pranto triste, lento, correndo a seu lado, começou a commovel-o;
-e ao mesmo tempo quasi lhe queria mal por ella não reter essas lagrimas
-infindaveis que laceravam o seu coração... E elle que estava tão
-tranquillo, no Ramalhete, na sua poltrona, sorrindo a tudo, n'uma
-deliciosa lassidão!
-
-Tomou-lhe a mão, querendo calmal-a, apiedado, e já impaciente.
-
---Realmente não tem razão. É absurdo... Tudo isto é para seu bem...
-
-Ella teve emfim um movimento, enxugou os olhos, assoou-se doloridamente
-por entre os seus longos soluços... E de repente, n'um arranque de
-paixão, atirou-lhe os braços ao pescoço, prendendo-se a elle com
-desespero, esmagando-o contra o seu seio.
-
---Oh meu amor, não me deixes, não me deixes! Se tu soubesses! És a unica
-felicidade que eu tenho na vida... Eu morro, eu mato-me!... Que te fiz
-eu? Ninguem sabe do nosso amor... E que soubesse! Por ti sacrifico tudo,
-vida, honra, tudo! tudo!...
-
-Molhava-lhe a face com o resto das suas lagrimas; e elle abandonava-se,
-sentindo aquelle corpo sem collete, quente e como nú, subir-lhe para os
-joelhos, collar-se ao seu, n'um furor de o repossuir, com beijos
-sôfregos, furiosos, que o suffocavam... Subitamente a tipoia parou. E um
-momento ficaram assim--Carlos immovel, ella cahida sobre elle e
-arquejando.
-
-Mas a tipoia não continuava. Então Carlos desprendeu um braço, desceu o
-vidro; e viu que estavam defronte do Ramalhete. O homem, obedecendo á
-ordem, dera a volta pelo Aterro, devagar, subira a rampa, retrocedera á
-porta da casa. Durante um instante Carlos teve a tentação de descer,
-acabar alli bruscamente aquelle longo tormento. Mas pareceu-lhe uma
-brutalidade. E desesperado, detestando-a, berrou ao cocheiro:
-
---Outra vez ao Aterro, anda sempre!...
-
-A tipoia deu na rua estreita uma volta resignada, tornou a rolar; de
-novo as pedras da calçada fizeram tilintir os vidros; de novo, mais
-suavemente, desceram a rampa de Santos.
-
-Ella recomeçára os seus beijos. Mas tinham perdido a chamma que um
-instante os fizera quasi irresistiveis. Agora Carlos sentia só uma
-fadiga, um desejo infinito de voltar ao seu quarto, ao repouso de que
-ella o arrancára para o torturar com estas recriminações, estes ardores
-entre lagrimas... E de repente, emquanto a condessa balbuciava, como
-tonta, pendurada do seu pescoço,--elle viu surgir n'alma, viva e
-resplandecente, a imagem de Maria Eduarda, tranquilla áquella hora na
-sua sala de reps vermelho, fazendo serão, confiando n'elle, pensando
-n'elle, relembrando as felicidades da vespera, quando a _Toca_, cheia de
-seus amores, dormia, branca entre as arvores... Teve então horror á
-Gouvarinho; brutalmente, sem piedade, repelliu-a para o canto do coupé.
-
---Basta! Tudo isto é absurdo... As nossas relações estão acabadas, não
-temos mais nada que nos dizer!
-
-Ella ficou um instante como atordoada. Depois estremeceu, teve um riso
-nervoso, reppelliu-o tambem, phreneticamente, pisando-lhe o braço.
-
---Pois bem! Vai, deixa-me! Vai para a outra, para a brazileira! Eu
-conheço-a, é uma aventureira que tem o marido arruinado, e precisa quem
-lhe pague as modistas!...
-
-Elle voltou-se, com os punhos fechados, como para a espancar; e na
-tipoia escura, onde já havia um vago cheiro de verbena, os olhos
-d'ambos, sem se vêrem, dardejavam o odio que os enchia... Carlos bateu
-raivosamente no vidro. A tipoia não parou. E a Gouvarinho, do outro
-lado, furiosa, magoando os dedos, procurava descer a vidraça.
-
---É melhor que sáia! dizia ella suffocada. Tenho horror de me achar
-aqui, ao seu lado! Tenho horror! Cocheiro! cocheiro!
-
-O calhambeque parou. Carlos pulou para fóra, fechou d'estalo a
-portinhola; e sem uma palavra, sem erguer o chapéo, virou costas, abalou
-a grandes passadas para o Ramalhete, tremulo ainda, cheio d'idéas de
-rancor, sob a paz da noite estrellada.
-
-
-
-
-IV
-
-
-Foi n'um sabbado que Affonso da Maia partiu para Santa Olavia. Cedo
-n'esse mesmo dia, Maria Eduarda, que o escolhera por ser de boa estreia,
-installára-se nos Olivaes. E Carlos, voltando de Santa Apolonia, onde
-fôra acompanhar o avô, com o Ega, dizia-lhe alegremente:
-
---Então aqui ficamos nós sós a torrar, _na cidade de marmore_ e de
-lixo...
-
---Antes isso, respondeu o Ega, que andar de sapatos brancos, a scismar,
-por entre a poeirada de Cintra!
-
-Mas no domingo, quando Carlos recolheu ao Ramalhete ao
-anoitecer--Baptista annunciou que o snr. Ega tinha partido n'esse
-momento para Cintra, levando apenas livros e umas escovas embrulhadas
-n'um jornal... O snr. Ega tinha deixado uma carta. E tinha dito:
-«Baptista, vou pastar.»
-
-A carta, a lapis, n'uma larga folha d'almasso, dizia: «Assaltou-me de
-repente, amigo, juntamente com um horror á caliça de Lisboa, uma saudade
-infinita da natureza e do verde. A porção d'animalidade que ainda resta
-no meu sêr civilisado e recivilisado precisa urgentemente
-d'espolinhar-se na relva, beber no fio dos regatos, e dormir balançada
-n'um ramo de castanheiro. O solícito Baptista que me remetta ámanhã pelo
-omnibus a mala com que eu não quiz sobrecarregar a tipoia do _Mulato_.
-Eu demoro-me apenas tres ou quatro dias. O tempo de cavaquear um bocado
-com o Absoluto no alto dos _Capuchos_, e vêr o que estão fazendo os
-myosotis junto á meiga _fonte dos Amores_...»
-
---Pedante! rosnou Carlos, indignado com o abandono ingrato em que o
-deixava o Ega.
-
-E atirando a carta:
-
---Baptista! O snr. Ega diz ahi que lhe mandem uma caixa de charutos, dos
-_Imperiales_. Manda-lhe antes dos _Flôr de Cuba_. Os _Imperiales_ são um
-veneno. Esse animal nem fumar sabe!
-
-Depois de jantar Carlos percorreu o _Figaro_, folheou um volume de
-Byron, bateu carambolas solitarias no bilhar, assobiou _malagueñas_ no
-terrasso--e terminou por sahir, sem destino, para os lados do Aterro. O
-Ramalhete entristecia-o, assim mudo, apagado, todo aberto ao calor da
-noite. Mas insensivelmente, fumando, achou-se na rua de S. Francisco. As
-janellas de Maria Eduarda estavam tambem abertas e negras. Subiu ao
-andar do Cruges. O menino Victorino não estava em casa...
-
-Amaldiçoando o Ega, entrou no Gremio. Encontrou o Taveira, de paletot ao
-hombro, lendo os telegrammas. Não havia nada novo por essa velha Europa;
-apenas mais uns Nihilistas enforcados; e elle Taveira ia ao Price...
-
---Vem tu tambem d'ahi, Carlinhos! Tens lá uma mulher bonita que se mette
-na agua com cobras e crocodilos... Eu pello-me por estas mulheres de
-bichos!... Que esta é difficil, traz um _chulo_... Mas eu já lhe
-escrevi: e ella faz-me um bocado d'olho de dentro da tina.
-
-Arrastou Carlos: e pelo Chiado abaixo fallou-lhe logo do Damaso. Não
-tornára a ver essa flôr? Pois essa flôr andava apregoando por toda a
-parte que o Maia, depois do caso do Chiado, lhe dera por um amigo
-explicações humildes, covardes... Terrivel, aquelle Damaso! Tinha
-figura, interior, e natureza de pélla! Com quanto mais força se atirava
-ao chão, mais elle resaltava para o ar, triumphante!...
-
---Em todo o caso é uma rez traiçoeira, e deves ter cautela com elle...
-
-Carlos encolheu os hombros, rindo.
-
-Não, não, dizia o Taveira muito sério, eu conheço o meu Damaso. Quando
-foi da nossa péga, em casa da Lola Gorda, elle portou-se como um
-poltrão, mas depois ia-me atrapalhando a vida... É capaz de tudo...
-Antes d'hontem estava eu a cear no Silva, elle veio sentar-se um bocado
-ao pé de mim, e começou logo com umas coisas a teu respeito, umas
-ameaças...
-
---Ameaças! Que disse elle?
-
---Diz que te dás ares de espadachim e de valentão, mas has de encontrar
-dentro em pouco quem te ensine... Que se está ahi preparando um
-escandalo monumental... Que se não admirará de te vêr brevemente com uma
-boa bala na cabeça...
-
---Uma bala?
-
---Assim o disse. Tu ris, mas eu é que sei... Eu, se fosse a ti, ia-me ao
-Damaso e dizia-lhe: «Damasosinho, flôr, fique avisado que, d'ora em
-diante, cada vez que me succeder uma coisa desagradavel, venho aqui e
-parto-lhe uma costella; tome as suas medidas...»
-
-Tinham chegado ao Price. Uma multidão de domingo, alegre e pasmada,
-apinhava-se até ás ultimas bancadas onde havia rapazes, em mangas de
-camisa, com litros de vinho; e eram grossas, fartas risadas, com os
-requebros do palhaço, rebocado de cáio e vermelhão, que tocava nos
-pésinhos d'uma _voltigeuse_ e lambia os dedos, d'olhos em alvo, n'um
-gosto de mel... Descançando na sella larga de xairel dourado, a
-creatura, magrinha e séria, com flôres nas tranças, dava a volta
-devagar, ao passo d'um cavallo branco, que mordia o freio, levado á mão
-por um estribeiro; e pela arena o palhaço lambão e nescio acompanhava-a,
-com as mãos ambas apertadas ao coração, n'uma supplica babosa, rebolando
-languidamente os quadris dentro das vastas pantalonas, picadas de
-lantejoulas. Um dos escudeiros, de calça listrada d'ouro, empurrava-o,
-n'um arremedo de ciumes; e o palhaço cahia, estatelado, com um estoiro
-de nadegas, entre os risos das crianças e os rantantans da charanga. O
-calor suffocava; e as fumaraças de charuto, subindo sem cessar, faziam
-uma neva onde tremiam as chammas largas do gaz. Carlos, incommodado,
-abalou.
-
---Espera ao menos para vêr a mulher dos crocodilos! gritou ainda o
-Taveira.
-
---Não posso, cheira mal, morro!
-
-Mas á porta, de repente, foi detido pelos braços abertos do Alencar, que
-chegava--com outro sujeito, velho e alto, de barbas brancas, todo
-vestido de luto. O poeta ficou pasmado de vêr alli o de seu Carlos.
-Fazia-o no seu solar Santa de Olavia! Vira até nos papeis publicos...
-
---Não, disse Carlos, o avô é que foi hontem... Eu não me sinto ainda em
-disposição do ir communicar com a natureza...
-
-Alencar riu, levemente afogueado, com um brilho de genebra no olho cavo.
-Ao lado, grave, o ancião de barbas calçava as suas luvas pretas.
-
---Pois eu é o contrario! exclamava o poeta.
-
-Estou precisado d'um banho de pantheismo! A bella natureza! O prado! O
-bosque!... De modo que talvez me mimoseie com Cintra, para a semana.
-Estão lá os Cohens, alugaram uma casita muito bonita, logo adiante do
-Victor...
-
-Os Cohens! Carlos comprehendeu então a fuga do Ega e a «sua saudade do
-verde.»
-
---Ouve lá, dizia-lhe o poeta baixo, e puxando-o pela manga, para o lado.
-Tu não conheces este meu amigo? Pois foi muito de teu pai, fizemos muita
-troça juntos... Não era nenhum personagem, era apenas um alquilador de
-cavallos... Mas tu sabes, cá em Portugal, sobretudo n'esses tempos,
-havia muita bonhomia, o fidalgo dava-se com o arrieiro... Mas, que
-diabo, tu deves conhecel-o! É o tio do Damaso!
-
-Carlos não se recordava.
-
---O Guimarães, o que está em Paris!
-
---Ah, o communista!
-
---Sim, muito republicano, homem de idéas humanitarias, amigo do
-Gambetta, escreve no _Rappel_... Homem interessante!... Veio ahi por
-causa d'umas terras que herdou do irmão, d'esse outro tio do Damaso que
-morreu ha mezes... E demora-se, creio eu... Pois jantamos hoje juntos,
-beberam-se uns liquidos, e até estivemos a fallar de teu pai... Queres
-tu que eu t'o apresente?
-
-Carlos hesitou. Seria melhor n'outra occasião mais intima, quando
-podessem fumar um charuto tranquillo, e conversar do passado...
-
---Valeu! Has de gostar d'elle. Conhece muito Victor Hugo, detesta a
-padraria... Espirito largo, espirito muito largo!
-
-O poeta sacudiu ardentemente as duas mãos de Carlos. O snr. Guimarães
-ergueu de leve o seu chapéo, carregado de crepe.
-
-Todo o caminho, até ao Ramalhete, Carlos foi pensando em seu pai e
-n'esse passado, assim rememorado e estranhamente resurgido pela presença
-d'aquelle patriarcha, antigo alquilador, que fizera com elle tantas
-troças! E isto trazia conjuntamente outra idéa, que n'esses ultimos dias
-já o atravessára, pertinaz e torturante, dando-lhe, no meio da sua
-radiante felicidade, um sombrio arripio de dôr... Carlos pensava no avô.
-
-Estava agora decidido que Maria Eduarda e elle partiriam para Italia,
-nos fins de outubro. Castro Gomes, na sua ultima carta do Brazil, sêcca
-e pretenciosa, fallava «em apparecer por Lisboa, com as elegancias do
-frio, lá para meado de novembro»; e era necessario antes d'isso que
-estivessem já longe, entre as verduras d'Isola Bella, escondidos no seu
-amor e separados por elle do mundo como pelos muros d'um claustro. Tudo
-isto era facil, considerado quasi legítimo pelo seu coração, e enchia a
-sua vida d'esplendor... Sómente havia n'isto um espinho--o avô!
-
-Sim, o avô! Elle partia com Maria, elle entrava na ventura absoluta; mas
-ia destruir de uma vez e para sempre a alegria d'Affonso, e a nobre paz
-que lhe tornava tão bella a velhice. Homem de outras eras, austero e
-puro, como uma d'essas fortes almas que nunca desfalleceram--o avô,
-n'esta franca, viril, rasgada solução d'um amor indominavel, só veria
-libertinagem! Para elle nada significava o esponsal natural das almas,
-acima e fóra das ficções civis; e nunca comprehenderia essa subtil
-ideologia sentimental, com que elles, como todos os transviados,
-procuravam azular o seu erro. Para Affonso haveria apenas um homem que
-leva a mulher d'outro, leva a filha d'outro, dispersa uma familia, apaga
-um lar, e se atola para sempre na concubinagem: todas as subtilezas da
-paixão, por mais finas, por mais fortes, quebrar-se-hiam, como bolas de
-sabão, contra as tres ou quatro idéas fundamentaes de Dever, de Justiça,
-de Sociedade, de Familia, duras como blocos de marmore, sobre que
-assentára a sua vida quasi durante um seculo... E seria para elle como o
-horror d'uma fatalidade! Já a mulher de seu filho fugira com um homem,
-deixando atraz de si um cadaver; seu neto agora fugia tambem,
-arrebatando a familia d'outro:--e a historia da sua casa tornava-se
-assim uma repetição d'adulterios, de fugas, de dispersões, sob o bruto
-aguilhão da carne!... Depois as esperanças que Affonso fundára
-n'elle--consideral-as-hia tombadas, mortas no lodo! Elle passava a ser
-para sempre, na imaginação angustiada do avô, um foragido, um
-inutilisado, tendo partido todas as raizes que o prendiam ao seu sólo,
-tendo abdicado toda a acção que o elevaria no seu paiz, vivendo por
-hoteis de refugio, fallando linguas estranhas, entre uma familia
-equivoca crescida em torno d'elle como as plantas de uma ruina...
-Sombrio tormento, implacavel e sempre presente, que consumiria os
-derradeiros annos do pobre avô!... Mas, que podia elle fazer? Já o
-dissera ao Ega. A vida é assim! Elle não tinha o heroismo nem a
-santidade que tornam facil o sacrificio... E depois os dissabores do
-avô, de que provinham? De preconceitos. E a sua felicidade, justo Deus,
-tinha direitos mais largos, fundados na natureza!...
-
-Chegára ao fim do Aterro. O rio silencioso fundia-se na escuridão. Por
-alli entraria em breve do Brazil, o _outro_--que nas suas cartas se
-esquecia de mandar um beijo a sua filha! Ah, se elle não voltasse! Uma
-onda providencial podia leval-o... Tudo se tornaria tão facil, perfeito
-e limpido! De que servia na vida esse resequido? Era como um sacco vazio
-que cahisse ao mar! Ah, se _elle_ morresse!... E esquecia-se, enlevado
-n'uma visão em que a imagem de Maria o chamava, o esperava, livre,
-serena, sorrindo e coberta de luto...
-
-No seu quarto, Baptista, vendo-o atirar-se para uma poltrona com um
-suspiro de fadiga, de desconsolação,--disse, depois de tossir
-risonhamente, e dando mais luz ao candieiro:
-
---Isto agora, sem o snr. Ega, parece um bocadinho mais só...
-
---Está só, está triste, murmurou Carlos. É necessario sacudirmo-nos...
-Eu já te disse que talvez fossemos viajar este inverno...
-
-O menino não lhe tinha dito nada.
-
---Pois talvez vamos a Italia... Appetece-te voltar a Italia?
-
-Baptista reflectiu.
-
---Eu, da outra vez não vi o Papa... E antes de morrer não se me dava de
-vêr o Papa...
-
---Pois sim, ha de se arranjar isso, has de vêr o Papa.
-
-Baptista, depois d'um silencio, perguntou, lançando um olhar ao espelho:
-
---Para vêr o Papa vai-se de casaca, creio eu?
-
---Sim, recommendo-te a casaca... O que tu devias ter, para esses casos,
-era um habito de Christo... Hei de vêr se te arranjo um habito de
-Christo.
-
-Baptista ficou um instante assombrado. Depois fez-se escarlate,
-d'emoção:
-
---Muito agradecido a v. exc.^a Ha por ahi gente que o tem, ainda talvez
-com menos merecimentos que eu... Dizem que até ha barbeiros...
-
---Tens razão, replicou Carlos muito sério. Era uma vergonha. O que hei
-de vêr se te arranjo com effeito é a commenda da Conceição.
-
-
-Todas as manhãs, agora, Carlos percorria o poeirento caminho dos
-Olivaes. Para poupar aos seus cavallos a soalheira ia na tipoia do
-_Mulato_, o batedor favorito do Ega--que recolhia a parelha na velha
-cavalhariça da _Toca_, e, até á hora em que Carlos voltava ao Ramalhete,
-vadiava pelas tabernas.
-
-Ordinariamente ao meio dia, ao acabar de almoçar, Maria Eduarda, ouvindo
-rodar o trem na estrada silenciosa, vinha esperar Carlos á porta da
-casa, no topo dos degraus ornados de vasos e resguardados por um fresco
-toldo de fazenda côr de rosa. Na quinta usava sempre vestidos claros; ás
-vezes trazia, á antiga moda hespanhola, uma flôr entre os cabellos; o
-forte e fresco ar do campo avivava com um brilho mais quente o mate
-eburneo do seu rosto;--e assim, simples e radiante, entre sol e verdura,
-ella deslumbrava Carlos cada dia com um encanto inesperado e maior.
-Cerrando o portão d'entrada, que rangia nos gonzos, Carlos sentia-se
-logo envolvido n'um «extraordinario conforto moral», como elle dizia, em
-que todo o seu sêr se movia mais facilmente, fluidamente, n'uma
-permanente impressão de harmonia e doçura... Mas o seu primeiro beijo
-era para Rosa, que corria pela rua de acacias ao seu encontro, com uma
-onda de cabello negro a bater-lhe os hombros, e _Niniche_ ao lado,
-pulando e ladrando de alegria. Elle erguia Rosa ao collo. Maria de longe
-sorria-lhes, sob o toldo côr de rosa. Em redor tudo era luminoso,
-familiar e cheio de paz.
-
-A casa dentro resplandecia com um arranjo mais delicado. Já se podia
-usar o salão nobre, que perdera o seu ar rigido de museu, exhalando a
-tristeza d'um luxo morto: as flôres que Maria punha nos vasos, um jornal
-esquecido, as lãs de um bordado, o simples roçar dos seus frescos
-vestidos, tinham communicado já um subtil calor de vida e de conchego
-aos mais impertigados contadores do tempo de Carlos V, revestidos de
-ferro brunido:--e era alli que elles ficavam conversando emquanto não
-chegava a hora das lições de Rosa.
-
-A essa hora apparecia miss Sarah, séria e recolhida--sempre de preto,
-com uma ferradura de prata em broche sobre o collarinho direito de
-homem. Recuperára as suas côres fortes de boneca, e as pestanas baixas
-tinham uma timidez mais virginal sob o liso dos bandós puritanos.
-Gordinha, com o peito de pomba farta estalando dentro do corpete severo,
-mostrava-se toda contente da vida calma e lenta de aldêa. Mas aquellas
-terras trigueiras d'olivedo não lhe pareciam campo: «é muito sêcco, é
-muito duro,» dizia ella, com uma indefinida saudade dos verdes molhados
-da sua Inglaterra, e dos céos de nevoa, cinzentos e vagos.
-
-Davam duas horas; e começavam logo nos quartos de cima as longas lições
-de Rosa. Carlos e Maria iam então refugiar-se n'uma intimidade mais
-livre, no kiosque japonez, que uma phantasia de Craft, o seu amor do
-Japão, construira ao pé da rua d'acacias, aproveitando a sombra e o
-retiro bucolico de dois velhos castanheiros. Maria affeiçoara-se áquelle
-recanto, chamava-lhe o seu _pensadoiro_. Era todo de madeira, com uma só
-janellinha redonda, e um telhado agudo á japoneza, onde roçavam os
-ramos--tão leve que através d'elle nos momentos de silencio se sentiam
-piar as aves. Craft forrára-o todo de esteiras finas da India; uma mesa
-de xarão, algumas faianças do Japão, ornavam-no sobriamente; o tecto não
-se via, occulto por uma colcha de sêda amarella, suspensa pelos quatro
-cantos, em laços, como o rico docel de uma tenda;--e todo o ligeiro
-kiosque parceia ter sido armado só com o fim d'abrigar um divan baixo e
-fôfo, d'uma languidez de serralho, profundo para todos os sonhos, amplo
-para todas as preguiças...
-
-Elles entravam, Carlos com algum livro que escolhera na presença de miss
-Sarah, Maria Eduarda com um bordado ou uma costura. Mas bordado e livro
-cahiam logo no chão--e os seus labios, os seus braços uniam-se
-arrebatadamente. Ella escorregava sobre o divan: Carlos ajoelhava n'uma
-almofada, tremulo, impaciente depois da forçada reserva diante de Rosa e
-diante de Sarah--e alli ficava, abraçado á sua cintura, balbuciando mil
-coisas pueris e ardentes, por entre longos beijos que os deixavam
-frouxos, com os olhos cerrados, n'uma doçura de desmaio. Ella queria
-saber o que elle tinha feito durante a longa, longa noite de separação.
-E Carlos nada tinha a contar senão que pensára n'ella, que sonhára com
-ella... Depois era um silencio: os pardaes piaram, as pombas arrulhavam
-por cima do leve telhado: e _Niniche_, que os acompanhava sempre, seguia
-os seus murmurios, os seus silencios, enroscada a um canto, com um olho
-negro, reluzindo desconfiadamente por entre as repas prateadas.
-
-Fóra, por aquelles dias de calma, sem aragem, a quinta sêcca, d'um verde
-empoeirado, dormia com as folhagens immoveis, sob o peso do sol. Da casa
-branca, através das persianas fechadas, vinha apenas o som amodorrado
-das escalas que Rosa fazia no piano. E no kiosque havía tambem um
-silencio satisfeito e pleno--sómente quebrado por algum dôce suspiro de
-lassidão que sahia do divan, d'entre as almofadas de sêda, ou algum
-beijo mais longo e d'um remate mais profundo... Era _Niniche_ que os
-tirava d'aquelle suave entorpecimento, farta de estar alli quieta,
-encerrada entre as madeiras quentes, n'um ar molle já repassado d'esse
-aroma indefinido em que havia jasmim.
-
-Lenta, e passando as mãos no rosto Maria erguia-se--mas para cahir logo
-aos pés de Carlos, no seu reconhecimento infinito... Meu Deus, o que lhe
-custava então esse momento de separação! Para que havia de ser assim?
-Parecia tão pouco natural, esposos como eram, que ella ficasse alli toda
-a noite, sósinha, com o seu desejo d'elle, e elle fosse, sem as suas
-carícias, dormir solitariamente ao Ramalhete!... E ainda se demoravam
-muito tempo, n'uma mudez d'extasi, em que os olhos humidos,
-trespassando-se, continuavam o beijo insaciado que morrera nos seus
-labios cançados. Era _Niniche_ que os fazia sahir por fim trotando
-impacientemente da porta para o divan, rosnando, ameaçando ladrar.
-
-Muitas vezes ao recolherem Maria tinha uma inquietação. Que pensaria
-miss Sarah d'esta sésta assim enclausurada, sem um rumor, com a janella
-do pavilhão cerrada? Melanie, desde pequena ao serviço de Maria, era uma
-confidente: o bom Domingos, um imbecil, não contava: mas miss Sarah?...
-Maria confessava sorrindo que se sentia um pouco humilhada, ao encontrar
-depois á mesa os candidos olhos da ingleza sob os seus bandós
-virginaes... Está claro! se a boa miss tivesse a ousadia de resmungar ou
-franzir de leve a testa, recebia logo seccamente a sua passagem no
-_Royal Mail_ para Southampton! Rosa não a lamentaria, Rosa não lhe tinha
-affeição. Mas, emfim, era tão séria, admirava tanto a senhora! Ella não
-gostava de perder a admiração d'uma rapariga tão séria. E assim
-decidiram despedir miss Sarah, régiamente paga, e substituil-a, mais
-tarde, em Italia, por uma governante allemã, para quem elles fossem como
-casados, «Monsieur et Madame...»
-
-Mas pouco a pouco o desejo d'uma felicidade mais intima, mais completa,
-foi crescendo n'elles. Não lhes bastava já essa curta manhã no divan com
-os passaros cantando por cima, a quinta cheia de sol, tudo acordado em
-redor: appeteciam o longo contentamento d'uma longa noite, quando os
-seus braços se podessem enlaçar sem encontrar o estofo dos vestidos, e
-tudo dormisse em torno, os campos, a gente e a luz... De resto era bem
-facil! A sala de tapeçarias, communicando com a alcova de Maria, abria
-sobre o jardim por uma porta envidraçada; a governante, os criados,
-subiam ás dez horas para os seus quartos no andar alto; a casa adormecia
-profundamente; Carlos tinha uma chave do portão; e o unico cão,
-_Niniche_, era o confidente fiel dos seus beijos...
-
-Maria desejava essa noite tão ardentemente como elle. Uma tarde ao
-escurecer, voltando d'um fresco passeio nos campos, experimentaram ambos
-essa dupla chave--que Carlos já promettia mandar dourar: e elle ficou
-surprehendido ao vêr que o velho portão, que ouvira sempre ranger
-abominavelmente, rolava agora nos gonzos com um silencio oleoso.
-
-Veio n'essa mesma noite--tendo deixado na villa para o levar ao
-amanhecer a caleche do _Mulato_, um batedor discreto, que elle cevava de
-gorgetas. O céo, molle e abafado, não tinha uma estrella; e sobre o mar
-lampejava a espaços, mudamente, a lividez d'um relampago. Caminhando com
-inuteis cautelas rente do muro Carlos sentia, n'esta proximidade d'uma
-posse tão desejada, uma melancolia, cortada de anciedade, que vagamente
-o acobardava. Abriu quasi a tremer o portão: e mal déra alguns passos
-estacou, ouvindo ao fundo _Niniche_ ladrar furiosamente. Mas tudo
-emmudeceu; e da janella do canto, sobre o jardim, surgiu uma claridade
-que o socegou. Foi encontrar Maria, com um roupão de rendas, junto da
-porta envidraçada, suffocando quasi entre os braços _Niniche_ que ainda
-rosnava. Estava toda medrosa, n'uma impaciencia de o sentir ao seu lado:
-e não quiz recolher logo: um momento ficaram alli, sentados nos degraus,
-com _Niniche_ que aquietára e lambia Carlos. Tudo em redor era como uma
-infinita mancha de tinta; só lá em baixo, perdida e mortiça, surdia da
-treva alguma luzinha vacillando no alto d'um mastro. Maria, conchegada a
-Carlos, refugiada n'elle, deu um longo suspiro: e os seus olhos
-mergulhavam inquietos n'aquella mudez negra, onde os arbustos familiares
-do jardim, toda a quinta, parecia perder a realidade, sumida, diluida na
-sombra.
-
---Porque não havemos de partir já para a Italia? perguntou ella de
-repente, procurando a mão de Carlos. Se tem de ser, porque não ha de ser
-já?... Escusavamos de ter estes segredos, estes sustos!
-
---Sustos de que, meu amor? Estamos aqui tão seguros como na Italia, como
-na China... De resto podemos partir mais depressa, se quizeres... Dize
-tu um dia, marca um dia!
-
-Ella não respondeu, deixando cahir dôcemente a cabeça sobre o hombro de
-Carlos. Elle acrescentou, devagar:
-
---Em todo o caso, comprehendes bem, preciso primeiro ir a Santa Olavia,
-vêr o avô...
-
-Os olhos de Maria perdiam-se outra vez na escuridão--como recebendo
-d'ella o presagio d'um futuro, onde tudo seria confuso e escuro tambem.
-
---Tu tens Santa Olavia, tens teu avô, tens os teus amigos... Eu não
-tenho ninguem!
-
-Carlos estreitou-a a si, enternecido.
-
---Não tens ninguem! Isso dito a mim! Nem chega a ser injustiça, nem
-chega a ser ingratidão! É nervoso; e é tambem o que os inglezes chamam a
-«impudente adulteração d'um facto.»
-
-Ella ficára aninhada no peito de Carlos, como desfallecida.
-
---Não sei porque, queria morrer...
-
-Um largo brilho de relampago alumiou o rio. Maria teve medo, entraram na
-alcova. Os mólhos de velas de duas serpentinas, batendo os damascos e os
-setins amarellos, embebiam o ar tepido, onde errava um perfume, n'uma
-refulgencia ardente de sacrario: e as bretanhas, as rendas do leito já
-aberto punham uma casta alvura de neve fresca n'esse luxo amoroso e côr
-de chamma. Fóra, para os lados do mar, um trovão rolou lento e surdo.
-Mas Maria já o não ouviu, cahida nos braços de Carlos. Nunca o desejára,
-nunca o adorára tanto! Os seus beijos anciosos pareciam tender mais
-longe que a carne, trespassal-o, querer sorver-lhe a vontade e a
-alma:--e toda a noite, entre esses brocados radiantes, com os cabellos
-soltos, divina na sua nudez, ella lhe appareceu realmente como a Deusa
-que elle sempre imaginára, que o arrebatava emfim, apertado ao seu seio
-immortal, e com elle pairava n'uma celebração d'amor, muito alto, sobre
-nuvens de ouro...
-
-Quando sahiu, ao amanhecer, chovia. Foi encontrar o _Mulato_ a dormir
-n'uma taberna, bebedo. Teve de o metter dentro do carro; e foi elle que
-governou até ao Ramalhete, embrulhado n'uma manta do taberneiro,
-encharcado, cantarolando, esplendidamente feliz.
-
-Passados dias, passeando com Maria nos arredores da _Toca_, Carlos
-reparou n'uma casita, á beira da estrada, com escriptos: e veio-lhe logo
-a idéa de a alugar, para evitar aquella desagradavel partida de
-madrugada com o _Mulato_ estremunhado, borracho, despedaçando o trem
-pelas calçadas. Visitaram-na: havia um quarto largo, que com tapete e
-cortinas podia dar um refugio confortavel. Tomou-a logo--e Baptista veio
-ao outro dia, com moveis n'uma carroça, arranjar este novo ninho. Maria
-disse, quasi triste:
-
---Mais outra casa!
-
---Esta, exclamou Carlos rindo, é a ultima! Não, é a penultima... Temos
-ainda a outra, a nossa, a verdadeira, lá longe, não sei onde...
-
-Começaram a encontrar-se todas as noites. Ás nove e meia, pontualmente,
-Carlos deixava a _Toca_, com o seu charuto accêso: e Domingos, adiante,
-de lanterna, vinha fechar o portão, tirar a chave. Elle recolhia devagar
-á sua «choupana» onde o servia um criadito, filho do jardineiro do
-Ramalhete. Sobre um tapete solto, deitado no velho soalho, havia apenas,
-além do leito, uma mesa, um sofá de riscadinho, duas cadeiras de palha;
-e Carlos entretinha as horas que o separavam ainda de Maria, escrevendo
-para Santa Olavia e sobretudo ao Ega, que se eternisava em Cintra.
-
-Recebera duas cartas d'elle, fallando quasi sómente do Damaso. O Damaso
-apparecia em toda a parte com a Cohen; o Damaso tornára-se grutesco em
-Cintra, n'uma corrida de burros; o Damaso arvorára capacete e véo em
-Sitiaes; o Damaso era uma besta immunda; o Damaso, no pateo do Victor,
-de perna traçada, dizia familiarmente «a Rachel»; era um dever de
-moralidade publica dar bengaladas no Damaso!... Carlos encolhia os
-hombros, achando estes ciumes indignos do coração do Ega. E então por
-quem! Por aquella lambisgoia d'Israel, melada e mollenga, sovada a
-bengala! «Se com effeito, escrevera elle ao Ega, ella desceu de ti até
-ao Damaso, tens só a fazer como se fosse um charuto que te cahisse á
-lama: não o pódes naturalmente levantar: deves deixar fumal-o em paz ao
-garoto que o apanhou: enfurecer-te com o garoto ou com o charuto, é
-d'imbecil.» Mas ordinariamente, quando respondia, fallava só ao Ega dos
-Olivaes, dos seus passeios com Maria, das conversas d'ella, do encanto
-d'ella, da superioridade d'ella... Ao avô não achava que dizer; nas dez
-linhas que lhe destinava, descrevia o calor, recommendava-lhe que não se
-fatigasse, mandava saudades para os hospedes, e dava-lhe recados do
-Manoelzinho--que elle nunca via.
-
-Quando não tinha que escrever, estirava-se no sofá, com um livro aberto,
-os olhos no ponteiro do relogio. Á meia noite sahia, encafuado n'um
-gabão d'Aveiro, e de varapau. Os seus passos resoavam, solitarios na
-mudez dos campos, com uma indefinida melancolia de segredo e de culpa...
-
-N'uma d'essas noites, de grande calor, Carlos cançado adormeceu no sofá:
-e só despertou, em sobresalto, quando o relogio na parede dava
-tristemente duas horas. Que desespero! Ahi ficava perdida a sua noite de
-amor! E Maria decerto á espera, angustiada, imaginando desastres!...
-Agarrou o cajado, abalou, correndo pela estrada. Depois, ao abrir
-subtilmente o portão da quinta, pensou que Maria teria adormecido:
-_Niniche_ podia ladrar: os seus passos, entre as acacias, abafaram-se,
-mais cautelosos. E de repente sentiu ao lado, sob as ramagens, vindo do
-chão, d'entre a herva, um resfolgar ardente d'homem, a que se misturavam
-beijos. Parou, varado: e o seu impeto logo foi esmagar a cacete aquelles
-dois animaes, enroscados na relva, sujando brutamente o poetico retiro
-dos seus amores. Uma alvura de saia moveu-se no escuro: uma voz
-soluçava, desfalecida--_oh yes, oh yes_... Era a ingleza!
-
-Oh santo Deus, era a ingleza, era miss Sarah! Apagando os passos,
-atordoado, Carlos escoou-se pelo portão, cerrou-o mansamente, foi
-esperar adiante, n'um recanto do muro, sob as ramarias d'uma faia,
-sumido na sombra. E tremia de indignação. Era preciso contar
-immediatamente a Maria aquelle grande _horror_! Não queria que ella
-consentisse um momento mais essa impura fêmea, junto de Rosa, roçando a
-candidez do seu anjo... Oh, era pavorosa uma tal hypocrisia, assim
-astuta e methodica, sem se desconcertar jámais! Havia dias apenas, vira
-a creatura desviar os olhos d'uma gravura d'_Illustração_, onde dois
-castos pastores se beijavam n'um arvoredo bucolico! E agora rugia,
-estirada na herva!
-
-Na estrada escura, do lado do portão, brilhou um lume de cigarro. Um
-homem passou, forte e pesado, com uma manta aos hombros. Parecia um
-jornaleiro. A boa miss Sarah não escolhera! Bem lavada, toda correcta,
-com os seus bandós puritanos, aceitava _um qualquer_, rude e sujo, desde
-que era um macho! E assim os embaíra, mezes, com aquellas suas duas
-existencias, tão separadas, tão completas! De dia virginal, severa,
-córando sempre, com a Biblia no cesto da costura: á noite a pequena
-adormecia, todos os seus deveres sérios acabavam, a santa
-transformava-se em cabra, chale aos hombros, e lá ia para a relva, com
-qualquer!... Que bello romance para o Ega!
-
-Voltou; tornou a abrir devagarinho o portão: de novo subiu, amollecendo
-os passos, a sombria rua d'acacias. Mas agora ia sentindo uma hesitação
-em contar a Maria _aquelle horror_. A seu pezar pensava que tambem Maria
-o esperava, com o leito aberto, no silencio da casa adormecida; e que
-tambem elle penetrava alli, ás escondidas, como o homem da manta... De
-certo era bem differente! Toda a immensuravel differença que vai do
-divino ao bestial... E todavia receava despertar os melindrosos
-escrupulos de Maria, mostrando-lhe, parallelo ao seu amor cheio de
-requintes e passado entre brocados côr d'ouro, aquelle outro rude amor,
-secreto e illegitimo como o d'ella, e arrastado brutamente na relva...
-Era como mostrar-lhe um reflexo da sua propria culpa, um pouco esfumada,
-mais grosseira, mas parecida nos seus contornos, lamentavelmente
-parecida... Não, não diria nada. E a pequena?... Oh, nas suas relações
-com Rosa a creatura continuaria a ser, como sempre, a puritana
-laboriosa, grave e cheia d'ordem.
-
-A porta envidraçada sobre o jardim tinha ainda luz: elle atirou aos
-vidros uma pouca de terra solta, depois bateu de leve. Maria appareceu,
-mal embrulhada n'um roupão, juntando os cabellos que se tinham
-desenrolado, e meia adormecida.
-
---Porque vieste tão tarde?
-
-Carlos beijou longamente os seus bellos olhos pesados, quasi cerrados.
-
---Adormeci estupidamente, a lêr... Depois, quando entrei pareceu-me
-ouvir passos na quinta, andei a rebuscar... Era imaginação, tudo
-deserto.
-
---Precisavamos ter um cão de fila, murmurou ella, espreguiçando-se.
-
-Sentada á beira do leito, com os braços cahidos e adormentados, sorria
-da sua preguiça.
-
---Estás tão fatigada, filha! queres tu que me vá embora ?...
-
-Ella puxou-o para o seu seio perfumado e quente.
-
---Je veux que tu m'aimes beaucoup, beaucoup, et longtemps...
-
-Ao outro dia Carlos não fôra a Lisboa, e appareceu cedo na _Toca_.
-Melanie, que andava espanejando o kiosque, disse-lhe que Madame, um
-pouco cançada, tinha justamente tomado o seu chocolate na cama. Elle
-entrou no salão: defronte da janella aberta, sentada no banco de
-cortiça, miss Sarah costurava, á sombra das arvores.
-
---_Good morning_, disse-lhe Carlos, chegando-se ao peitoril, todo
-curioso de a observar.
-
---_Good morning, sir_, respondeu ella com o seu ar modesto e tímido.
-
-Carlos fallou do calor. Miss Sarah já áquella hora o achava intoleravel.
-Felizmente a vista do rio, lá em baixo, refrescava...
-
-Sobretudo a noite passada, insistiu Carlos accendendo a cigarrette, fôra
-tão abafada! Elle mal pudera dormir. E ella?
-
-Oh, ella dormira d'um somno só. Carlos quiz saber se tivera bonitos
-sonhos.
-
---_Oh yes, sir_.
-
-_Oh yes!_ mas agora um yes pudico, sem gemidos, com os olhos baixos. E
-tão correcta, tão pregada, fresca como se nunca tivesse servido!...
-Positivamente era extraordinaria! E Carlos, torcendo o bigode, pensava
-que ella devia ter um seiosinho bem alvo e bem redondinho!
-
-
-
-Assim ia passando o verão nos Olivaes. No começo de setembro, Carlos
-soube por uma carta do avô que Craft devia chegar a Lisboa, n'um
-sabbado, ao Hotel Central: e correu lá cedo, logo n'essa manhã, a ouvir
-as novidades de Santa Olavia. Achou Craft já a pé, diante do espelho,
-fazendo a barba. A um canto do sofá, Eusebiosinho, que viera na vespera
-á noite de Cintra e estava tambem no Hotel, limpava as unhas com um
-canivete, em silencio, coberto de negro.
-
-Craft vinha encantado com Santa Olavia. Nem comprehendia como Affonso,
-beirão forte, tolerava a rua de S. Francisco, e o quintalejo abafado do
-Ramalhete. Tinha-se passado régiamente! O avô, cheio de saude, d'uma
-hospitalidade que lembrava Abrahão e a Biblia. O Sequeira optimo comendo
-tanto que ficava inutil depois de jantar, a estoirar e a gemer no fundo
-d'uma poltrona. Lá conhecera o velho Travassos, que fallava sempre com
-os olhos cheios de lagrimas do «talento do seu caro collega Carlos.» E o
-marquez esplendido, com abraços de primo a todos os fidalgotes de
-Lamego, e apaixonado por uma barqueira... De resto soberbos jantares,
-alguns tiros aos coelhos, uma romaria, danças de raparigas no adro,
-guitarradas, esfolhadas, todo o dôce idyllio portuguez...
-
---Mas a respeito de Santa Olavia temos a fallar mais sériamente, disse
-por fim Craft, entrando na alcova, a ensaboar a cabeça.
-
---E tu, perguntou então Carlos, voltando-se para o Eusebiosinho. Tens
-estado em Cintra, hein? Que se faz lá?... O Ega?
-
-O outro ergueu-se guardando o canivete, ageitando as lunetas.
-
---Lá está no Victor, muito engraçado, comprou um burro... Lá está o
-Damaso tambem... Mas esse pouco se vê, não larga os Cohens... Emfim
-tem-se passado menos mal, com bastante calor...
-
---Tu estavas outra vez com a mesma prostituta, a Lola?
-
-Eusebiosinho fez-se escarlate. Credo! estava no Victor, muito sério! O
-Palma é que lá tinha apparecido com uma rapariga portugueza... Tinha
-agora um jornal, _A Corneta do Diabo_.
-
---_A Corneta...?_
-
---Sim, _do Diabo_, disse o Eusebiosinho. É um jornal de pilherias, de
-picuinhas... Elle já existia, chamava-se o _Apito_; mas agora passou
-para o Palma; elle vae-lhe augmentar o formato, e metter-lhe mais
-chalaça...
-
---Emfim, disse Carlos, qualquer coisa sebacea e immunda como elle...
-
-Craft reappareceu, enxugando a cabeça. E emquanto se vestia, fallou de
-uma viagem que agora o tentava, que estivera planeando em Santa Olavia.
-Como já não tinha a _Toca_, e a sua casa ao pé do Porto necessitava
-longas obras, ia passar o inverno ao Egypto, subindo o Nilo, em
-communicação espiritual com a antiguidade Pharaonica. Depois talvez se
-adiantasse até Bagdad, a vêr o Euphrates, e os sitios de Babylonia...
-
---Por isso eu lhe vi alli, na mesa, exclamou Carlos, um livro, _Ninive e
-Babylonia_... Que diabo, você gosta d'isso? Eu tenho horror a raças e a
-civilisações defuntas... Não me interessa senão a Vida.
-
---É que você é um sensual, disse Craft. E a proposito de sensualidade e
-de Babylonia, quer vir você almoçar ao Bragança? Eu tenho de lá
-encontrar um inglez, o meu homem das minas... Mas havemos d'ir pela rua
-do Ouro, que quero trepar um instante á caverna do meu procurador... E a
-caminho, que é meio dia!
-
-Deixaram o Eusebiosinho, em baixo na sala, ageitando as suas lugubres
-lunetas negras diante dos telegrammas. E apenas sahira o pateo, Craft
-travou do braço de Carlos, e disse-lhe que as coisas sérias a respeito
-de Santa Olavia--era o visivel, profundo desgosto do avô por elle não
-ter lá apparecido.
-
---Seu avô não me disse nada, mas eu sei que elle está muitissimo magoado
-com você. Não ha desculpa, são umas horas de viagem... Você sabe como
-elle o adora... Que diabo! _Est modus in rebus_.
-
---Com effeito, murmurou Carlos. Eu devia ter lá ido... Que quer você,
-amigo?... Emfim acabou-se, é necessario fazer um esforço!... Talvez
-parta para a semana com o Ega.
-
---Sim, homem, dê-lhe esse alegrão... Esteja lá umas semanas...
-
---_Est modus in rebus_. Hei de vêr se lá estou uns dias.
-
-A caverna do procurador era defronte do Monte-Pio. Carlos esperava,
-havia momentos, dando por diante das lojas uma volta lenta--quando de
-repente avistou Melanie, a sahir o portão do Monte-Pio, com uma matrona
-gorda, de chapéo rôxo. Surprehendido, atravessou a rua. Ella estacou
-como apanhada, fazendo-se toda vermelha; e nem deixou vir a pergunta;
-balbuciou logo que Madame lhe déra licença para vir a Lisboa, e ella
-andava acompanhando aquella amiga... Uma velha caleche, de parelha
-branca, estava encalhada alli, contra o passeio. Melanie saltou para
-dentro, á pressa. A traquitana rodou aos solavancos para o Terreiro do
-Paço.
-
-Carlos via-a desapparecer, pasmado. E Craft, que voltára, olhando
-tambem, reconheceu no lamentavel calhambeque a caleche do _Torto_, dos
-Olivaes, onde elle ás vezes costumava vir «janotar a Lisboa».
-
---Era alguem lá da _Toca_? perguntou.
-
-Uma criada, disse Carlos, ainda espantado d'aquelle estranho embaraço de
-Melanie.
-
-E mal tinham dado alguns passos, Carlos, parando, baixando a voz no
-rumor da rua:
-
---Ouça lá! O Eusebiosinho disse-lhe alguma coisa a meu respeito, Craft?
-
-O outro confessou que Eusebiosinho, apenas lhe apparecera no quarto,
-rompera logo, mascando as palavras, a informal-o da mysteriosa vida de
-Carlos nos Olivaes...
-
---Mas eu fil-o calar, acrescentou Craft, declarando-lhe que era tão
-pouco curioso que nem mesmo quizera lêr nunca a _Historia Romana_... Em
-todo o caso você deve ir a Santa Olavia.
-
-Carlos, com effeito, logo n'essa noite fallou a Maria da visita que
-devia ao avô. Ella, muito séria, aconselhou-lh'a tambem, arrependida de
-o ter retido assim, egoisticamente e tanto tempo, longe dos outros que o
-amavam.
-
---Mas ouve, querido, não é por muito tempo, não?
-
---Por dois ou tres dias, quando muito. E naturalmente, trago até o avô.
-Não está lá a fazer nada, e eu não estou para a massada de voltar lá...
-
-Maria então lançou-lhe os braços ao pescoço, e baixo, timidamente,
-confessou-lhe um grande desejo que tinha... Era vêr o Ramalhete! Queria
-visitar os quartos d'elle, o jardim, todos esses recantos, onde tantas
-vezes elle pensara n'ella, e se desesperára, sentindo-a distante e
-inaccessivel...
-
---Dize, queres? Mas é necessario que seja antes de vir teu avô. Queres?
-
---Acho um encanto! Ha só um perigo. É eu não te deixar sahir mais e
-ficar a devorar-te na minha caverna.
-
---Prouvera a Deus!
-
-Combinaram então que ella fosse jantar ao Ramalhete, no dia da partida
-de Carlos para Santa Olavia. Á noitinha levava-o no coupé a Santa
-Apolonia; depois seguia para os Olivaes.
-
-Foi no sabbado. Carlos veio muito cedo para o Ramalhete: e o seu coração
-batia com a deliciosa perturbação d'um primeiro encontro, quando sentiu
-parar a carruagem de Maria e os seus vestidos escuros roçarem o velludo
-côr de cereja que forrava a escada discreta dos seus quartos. O beijo
-que trocaram, na ante-camara, teve a profunda doçura d'um primeiro
-beijo!
-
-Ella foi logo ao toucador tirar o chapéo, dar um geito ao cabello. Elle
-não cessava de a beijar; abraçava-a pela cinta; e com os rostos juntos
-sorriam para o espelho, enlevados no brilho da sua mocidade. Depois,
-impaciente, curiosa, ella percorreu os quartos, miudamente, até á alcova
-de banho; leu os titulos dos livros, respirou o perfume dos frascos,
-abriu os cortinados de sêda do leito... Sobre uma commoda Luiz XV havia
-uma salva de prata, transbordando de retratos que Carlos se esquecera de
-esconder, a coronella d'hussards d'amazona, madame Rughel decotada,
-outras ainda. Ella mergulhou as mãos, com um sorriso triste, na profusão
-d'aquellas recordações... Carlos, rindo, pediu-lhe que não olhasse
-«esses enganos do seu coração».
-
-Porque não? dizia Maria, séria. Sabia bem que elle não descera das
-nuvens, puro como um seraphim. Havia sempre photographias no passado
-d'um homem. De resto tinha a certeza que nunca amára as outras como a
-sabia amar a ella.
-
---Até é uma profanação fallar em _amor_ quando se trata d'essas coisas
-d'acaso, murmurou Carlos. São quartos de estalagem onde se dorme uma
-vez...
-
-No emtanto Maria considerava longamente a photographia da coronella
-d'hussards. Parecia-lhe bem linda! Quem era? Uma franceza?
-
---Não, de Vienna. Mulher d'um correspondente meu, homem de negocios...
-Gente tranquilla, que vivia no campo...
-
---Ah, Viennense... Dizem que tem um grande encanto as mulheres de
-Vienna!
-
-Carlos tirou-lhe a photographia da mão. Para que haviam de fallar
-d'outras mulheres? Existia em todo o vasto mundo uma mulher unica, e
-elle tinha-a alli abraçada sobre o seu coração.
-
-Foram então percorrer todo o Ramalhete, até ao terraço. Ella gostou
-sobretudo do escriptorio d'Affonso, com os seus damascos de camara de
-prelado, a sua feição severa de paz estudiosa.
-
---Não sei porque, murmurou dando um olhar lento ás estantes pesadas e ao
-Christo na cruz, não sei porque, mas teu avô faz-me medo!
-
-Carlos riu. Que tonteria! O avô se a conhecesse, fazia-lhe logo a côrte
-rasgadamente... O avô era um santo! E um lindo velho!
-
---Teve paixões?
-
---Não sei, talvez... Mas creio que o avô foi sempre um puritano.
-
-Desceram ao jardim, que lhe agradou tambem, quieto e burguez, com a sua
-cascatasinha chorando n'um rythmo dôce. Sentaram-se um instante sob o
-velho cedro, junto a uma mesa rustica de pedra, onde estavam entalhadas
-letras mal distinctas e uma data antiga; o chalrar das aves nos ramos
-pareceu a Maria mais dôce que o de todas as outras aves que ouvira;
-depois arranjou um ramo para levar como reliquia.
-
-Mesmo em cabello foram vêr defronte as cocheiras: o guarda-portão ficou
-de boné na mão, embasbacado para aquella senhora tão linda, tão loira, a
-primeira que via entrar no Ramalhete! Maria acariciou os cavallos, e fez
-uma festa grata e mais longa á _Tunante_, que tantas vezes levára Carlos
-á rua de S. Francisco. Elle via n'estas simples coisas as graças
-incomparaveis d'uma esposa perfeita.
-
-Recolheram pela escada particular de Carlos--que Maria achava
-«mysteriosa» com aquelles velludos grossos côr de cereja, forrando-a
-como um cofre, e abafando todo o rumor de saias. Carlos jurou que nunca
-alli passára outro vestido--a não ser o do Ega, uma vez, mascarado de
-varina.
-
-Depois deixou-a no quarto, um momento para ir dar ordens ao Baptista:
-mas quando voltou encontrou-a a um canto do sofá, tão descahida, tão
-desanimada, que lhe arrebatou as mãos, cheio d'inquietação.
-
---Que tens, amor? Estás doente?
-
-Ella ergueu lentamente os olhos que brilhavam n'uma nevoa de lagrimas.
-
-Pensar que tu vaes deixar por mim esta linda casa, o teu conforto, a tua
-paz, os teus amigos... É uma tristeza, tenho remorsos!
-
-Carlos ajoelhára ao seu lado, sorrindo dos seus escrupulos, chamando-lhe
-tonta, seccando-lhe n'um beijo as lagrimas que rolavam... Considerava-se
-ella então valendo menos que a cascata do jardim e alguns tapetes
-usados?...
-
---O que eu tenho pena é de te sacrificar tão pouco, minha querida Maria,
-quando tu sacrificas tanto!
-
-Ella encolheu os hombros, amargamente.
-
---Eu!
-
-Passou-lhe as mãos entre os cabellos, puxou-o brandamente para o seu
-seio--e dizia, baixo, como fallando ao seu proprio coração, calmando-lhe
-as incertezas e as duvidas:
-
---Não, com effeito, nada vale no mundo senão o nosso amor! Nada mais
-vale! Se elle é verdadeiro, se é profundo, tudo mais é vão, nada mais
-importa...
-
-A sua voz morreu entre os beijos de Carlos, que a levava abraçada para o
-leito--onde tentas vezes desesperava d'ella como d'uma deusa intangivel.
-
-Ás cinco horas pensaram em jantar. A mesa fôra posta n'uma saleta que
-Carlos quizera em tempo revestir de colxas de setim côr de perola e
-botão d'ouro. Mas não estava ainda arranjada; as paredes conservavam o
-seu papel verde-escuro; e Carlos puzera alli ultimamente o retrato de
-seu pai--uma teia banal, representando um moço pallido, de grandes
-olhos, com luvas de camurça amarella e um chicote na mão.
-
-Era Baptista que os servia, já com um fato claro de viagem. A mesa,
-redonda e pequena, parecia uma cesta de flôres; o champagne gelava
-dentro dos baldes de prata; no aparador a travessa d'arroz dôce tinha as
-iniciaes de Maria.
-
-Aquelles lindos cuidados fizeram-na sorrir, enternecida. Depois reparou
-no retrato de Pedro da Maia: e interressou-se, ficou a contemplar
-aquella face descórada, que o tempo fizera livida, e onde pareciam mais
-tristes os grandes olhos d'arabe, negros e languidos.
-
---Quem é? perguntou.
-
---É meu pai.
-
-Ella examinou-o mais de perto, erguendo uma vela. Não achava que Carlos
-se parecesse com elle. E voltando-se muito séria, emquanto Carlos
-desarrolhava com veneração uma garrafa de velho Chambertin:
-
---Sabes tu com quem te pareces ás vezes?... É extraordinario, mas é
-verdade. Pareces-te com minha mãi!
-
-Carlos riu, encantado d'uma parecença que os aproximava mais, e que o
-lisonjeava.
-
---Tens razão, disse ella, que a mamã era formosa... Pois é verdade, ha
-um não sei quê na testa, no nariz... Mas sobretudo certos geitos, uma
-maneira de sorrir... Outra maneira que tu tens de ficar assim um pouco
-vago, esquecido... Tenho pensado n'isto muitas vezes...
-
-Baptista entrava com uma terrina de louça do Japão. E Carlos,
-alegremente, annunciou um jantar á portugueza. Mr. Antoine, o _chef
-francez_, fôra com o avô. Ficára a Michaela, outra cozinheira de casa,
-que elle achava magnifica, e que conservava a tradição da antiga cozinha
-freiratica do tempo do snr. D. João V.
-
---Assim, para começar, minha querida Maria, ahi tens tu um caldo de
-gallinha, como só se comia em Odivellas, na cella da madre Paula, em
-noites de noivado mystico...
-
-E o jantar foi encantador. Quando Baptista se retirava, elles
-apertavam-se rapidamente a mão por cima das flôres. Nunca Carlos a
-achára tão linda, tão perfeita: os seus olhos pareciam- lhe irradiar uma
-ternura maior: na singela rosa que lhe ornava o peito via a
-superioridade do seu gosto. E o mesmo desejo invadiu-os a ambos, de
-ficarem alli eternamente, n'aquelle quarto de rapaz, com jantarinhos
-portuguezes á moda de D. João V, servidos pelo Baptista de jaquetão.
-
---Estou com uma vontade de perder o comboio! disse Carlos como
-implorando a sua approvação.
-
---Não, deves ir... é necessario não sermos egoistas... Sómente não te
-descuides, manda-me todos os dias um grande telegramma... Que os
-telegraphos foram unicamente inventados para quem se ama e está longe,
-como dizia a mamã.
-
-Então Carlos gracejou de novo sobre a sua parecença com a mãi d'ella. E
-baixando-se a remexer a garrafa de champagne dentro do gelo:
-
---É curioso não m'o teres dito antes... Tambem tu nunca me fallaste de
-tua mãi...
-
-Um pouco de sangue roseou a face de Maria Eduarda. Oh, nunca fallára da
-mamã, porque nunca viera a proposito...
-
---De resto não havia coisas muito interessantes a contar, acrescentou. A
-mamã era uma senhora da ilha da Madeira, não tinha fortuna, casou...
-
---Casou em Paris?
-
---Não, casou na Madeira com um austriaco que fôra lá acompanhar um irmão
-tisico... Era um homem muito distincto, viu a mamã, que era lindíssima,
-gostaram um do outro, _et voilà_...
-
-Dissera isto sem erguer os olhos do prato, lentamente, cortando uma aza
-de frango.
-
---Mas então, exclamou Carlos, se teu pai era austriaco, meu amor, tu és
-tambem austriaca... És talvez uma d'essas viennenses que tu dizes que
-tem um tão grande encanto...
-
-Sim, talvez, segundo essas coisas dos codigos, era austriaca. Mas nunca
-conhecera o pai, vivera sempre com a mamã, fallára sempre portuguez,
-considerava-se portugueza. Nunca estivera na Austria, nem sabia mesmo
-allemão...
-
---Não tiveste irmãos?
-
---Sim, tive, uma irmãsinha que morreu em pequena... Mas não me lembra.
-Tenho em Paris o retrato d'ella... Bem linda!
-
-N'esse momento em baixo, na calçada, uma carruagem, a trote largo,
-estacou. Carlos, surprehendido, correu á janella com o guardanapo na
-mão.
-
---É o Ega! exclamou. É aquelle velhaco que chega de Cintra!
-
-Maria erguera-se, inquieta. E um momento, de pé, ambos se olharam,
-hesitando... Mas o Ega era como um irmão de Carlos. Elle esperava só que
-o Ega recolhesse de Cintra para o levar á _Toca_. Melhor seria que o
-encontro se désse alli, natural, franco e simples...
-
---Baptista! gritou Carlos, sem vacillar mais. Dize ao snr. Ega que estou
-a jantar, que entre para aqui.
-
-Maria sentára-se, vermelha, dando um geito rapido aos ganchos do
-cabello, arranjado á pressa, um pouco desmanchado.
-
-A porta abriu-se,--e o Ega parou, assombrado, intimidado, de chapéo
-branco, de guarda-sol branco, e com um embrulho de papel pardo na mão.
-
---Maria, disse Carlos, aqui tens emfim o meu grande amigo Ega.
-
-E ao Ega disse simplesmente:
-
---Maria Eduarda.
-
-Ega ia largar atarantadamente o embrulho para apertar a mão que Maria
-Eduarda lhe estendia, córada e sorrindo. Mas o papel pardo, mal atado,
-desfez-se; e uma provisão fresca de queijadas de Cintra rolou,
-esmagando-se, sobre as flôres do tapete. Então todo o embaraço findou
-através d'uma risada alegre--emquanto o Ega, desolado, abria os braços
-sobre as ruinas do seu dôce.
-
---Tu já jantaste? perguntou Carlos.
-
-Não, não tinha jantado. E via já alli uns ovos molles nacionaes, que o
-encantavam, enfastiado como vinha da horrivel cozinha do Victor. Oh, que
-cozinha! Pratos lugubres, traduzidos do francez em calão, como as
-comedias do Gymnasio!
-
---Então avança! exclamou Carlos. Depressa, Baptista!... Traze o caldo de
-gallinha! Oh, ainda temos tempo!... Tu sabes que vou hoje para Santa
-Olavia?
-
-Está claro que sabia, recebera a carta d'elle, e por isso viera... Mas
-não podia jantar ainda, assim coberto do pó da estrada, e com um
-jaquetão de bucolica...
-
---Dize que me guardem o caldo, Baptista! Olha, dize que me guardem tudo,
-que eu trago uma fome de pastor da Arcadia!...
-
-O Baptista servira o café. E a carruagem da senhora, que os devia levar
-a Santa Apolonia, esperava já á porta com a maleta. Mas Ega agora queria
-conversar, affirmou que tinham tempo, tirou o relogio. Estava parado. E
-elle declarou logo que no campo se regulava pelo sol, como as flôres e
-como as aves...
-
---Fica agora em Lisboa? perguntou-lhe Maria Eduarda.
-
---Não, minha senhora, só o tempo de cumprir o meu dever de cidadão,
-subindo duas ou tres vezes o Chiado... Depois volto para a relva. Cintra
-começa a ser interessante para mim, agora que não está ninguem...
-Cintra, de verão, com burguezes, parece-me um idyllio com nodoas de
-sebo.
-
-Mas Baptista offerecia a Carlos a _chartreuse_--dizendo que s. exc.^a
-não se devia demorar se não tencionava perder o comboio, de proposito.
-Maria ergueu-se logo para ir dentro pôr o chapéo. E os dois amigos, sós,
-ficaram um momento calados, emquanto Carlos accendia devagar o charuto.
-
---Tu quanto tempo te demoras? perguntou por fim o Ega.
-
---Tres ou quatro dias. E tu não voltes para Cintra antes que eu chegue,
-precisamos communicar... Que diabo tens tu feito lá?
-
-O outro encolheu os hombros.
-
---Tenho sorvido ar puro, colhido florinhas, murmurado de vez em quando
-«que lindo que isto é!» etc.
-
-Depois, debruçado sobre a mesa, picando com um palito uma azeitona:
-
---De resto, nada... O Damaso lá está! Sempre com a Cohen, como te mandei
-dizer... Está claro que não ha nada entre elles, aquillo é só para mim,
-para me irritar... É um canalha aquelle Damaso! Eu só quero um pretexto.
-Esgano-o!
-
-Deu um puxão forte aos punhos, com uma côr de cólera no rosto queimado:
-
---Eu, está claro, fallo-lhe, aperto-lhe a mão, chamo-lhe «amigo Damaso»,
-etc. Mas só quero um pretexto! É necessario aniquilar aquelle animal. É
-um dever de moralidade, d'aceio publico, de gosto varrer aquella bola de
-lama humana!
-
---Quem esteve por lá mais? perguntou Carlos.
-
---Que te interesse?... A Gouvarinho. Mas vi-a uma só vez. Apparecia
-pouco, coitada, agora que andava de luto.
-
---De luto?
-
---Por ti.
-
-Calou-se. Maria entrava, com o véu descido, acabando de apertar as
-luvas. Então Carlos, suspirando, resignado, estendeu os braços ao
-Baptista para elle lhe vestir um casaco leve de jornada. Ega ajudava,
-pedindo um abraço filial para Affonso, e recados para o gordo Sequeira.
-
-Foi acompanhal-os a baixo, em cabello: e fechou elle a portinhola,
-promettendo a Maria Eduarda uma visita á _Toca_, apenas Carlos voltasse
-d'esses penhascos do Douro...
-
---Não vás para Cintra antes de eu voltar! gritou-lhe ainda Carlos. E a
-Michaela que tome conta em ti!
-
---_All right, all right_, dizia o Ega. Boa jornada! Criado de v. exc.^a,
-minha senhora... Até á _Toca_!
-
-O coupé partiu. Ega subiu ao seu quarto, onde outro criado lhe estava
-preparando o banho. Na saleta deserta, entre as flôres e os restos do
-jantar, as velas continuavam a arder solitarias, fazendo resaltar no
-painel escuro a pallidez de Pedro da Maia, e a melancolia dos seus
-olhos.
-
-
-
-No sabbado seguinte, perto das duas horas, Carlos e Ega, ainda á mesa do
-almoço, acabavam os seus charutos, fallando de Santa Olavia. Carlos
-chegára de lá essa madrugada, só. O avô decidira ficar entre as suas
-velhas arvores até ao fim do outono que ia tão luminoso e tão macio...
-
-Carlos fôra-o encontrar muito alegre, muito forte--apesar de ter sido
-obrigado, por causa d'um toque de rheumatismo, a abandonar emfim o seu
-culto da agua fria. E esta macissa, resplandecente saude do velho fôra
-um allivio para o coração de Carlos: parecia-lhe assim mais facil, menos
-ingrata, a sua partida com Maria para Italia, em outubro. Além d'isso
-achára um _truc_, como elle dizia ao Ega, para realisar o supremo desejo
-da sua vida sem magoar o avô, sem lhe turbar a paz da velhice. Era um
-_truc_, simples. Consistia em partir elle só para Madrid, no começo
-d'uma certa «viagem d'estudo», para que já preparára o avô em Santa
-Olavia. Maria ficava na _Toca_, durante um mez. Depois tomava o paquete
-para Bordeus: e era ahi que Carlos se reunia com ella, a começarem essa
-existencia de felicidade e romance que as flôres da Italia deviam
-perfumar... Na primavera elle voltava a Lisboa, deixando Maria
-installada no seu ninho: e então, pouco a pouco, ia revelando ao avô
-aquella ligação, a que o prendia a honra, e que o forçaria agora a viver
-regularmente longos mezes n'uma outra terra que se tornára a patria do
-seu coração. E que havia de dizer o avô? Aceitar esse romance, a que não
-veria os lados desagradaveis, esbatido assim pela distancia e pela nevoa
-da paixão. Seria para Affonso uma vaga e mal sabida coisa d'amor que se
-passava em Italia... Poderia lamental-a apenas por lhe levar
-pontualmente todos os annos o neto para longe; e cada anno se consolaria
-pensando na curta duração dos idyllios humanos. De resto Carlos contava
-com essa larga benevolencia que amollece as almas mais rigidas quando
-apenas alguns passos as separam do tumulo... Emfim o seu _truc_
-parecia-lhe bom. Ega, em resumo, approvou o _truc_.
-
-Depois, mais alegremente, fallaram da installação d'esse amor. Carlos
-permanecia na sua idéa romantica--um cottage á beira d'um lago. Mas Ega
-não approvava o lago. Ter todos os dias diante dos olhos uma agua sempre
-mansa e sempre azul, parecia-lhe perigoso para a durabilidade da paixão.
-Na quietação continua d'uma paizagem igual, dois amantes solitarios,
-dizia elle, não sendo botanicos nem pescando á linha, vêem-se forçados a
-viver exclusivamente do desejo um do outro, e a tirar d'ahi todas as
-suas idéas, sensações, occupações, gracejos e silencios... E, que diabo,
-o mais forte sentimento não póde dar para tanto! Dois amantes, cuja
-unica profissão é amarem-se, deviam procurar uma cidade, uma vasta
-cidade, tumultuosa e creadora, onde o homem tenha durante o dia os
-clubs, o cavaco, os museus, as idéas, o sorriso d'outras mulheres--e a
-mulher tenha as ruas, as compras, os theatros, a attenção d'outros
-homens; de sorte que á noite, quando se reunam, não tendo passado o
-infindavel dia a observarem-se um no outro e a si proprios, trazendo
-cada um a vibração da vida forte que atravessaram--achem um encanto novo
-e verdadeiro no conchego da sua solidão, e um sabor sempre renovado na
-repetição dos seus beijos...
-
---Eu, continuava Ega, erguendo-se, se levasse para longe uma mulher, não
-era para um lago, nem para a Suissa, nem para os montes da Sicilia; era
-para Paris, para o boulevard dos Italianos, alli á esquina do
-Vaudeville, com janellas deitando para a grande vida, a um passo do
-_Figaro_, do Louvre, da Philosophia e da _blague_... Aqui tens tu a
-minha doutrina!... E ahi temos nós o amigo Baptista com o correio.
-
-Não era o correio. Era apenas um bilhete que o Baptista trazia n'uma
-salva: e vinha tão perturbado que annunciou «um sujeito, alli fóra, na
-antecamara, n'uma carruagem, á espera...»
-
-Carlos olhou o bilhete, empallideceu terrivelmente. E ficou a reviral-o,
-lento e como atordoado, entre os dedos que tremiam... Depois, em
-silencio, atirou-o ao Ega por cima da mesa.
-
---Caramba! murmurou Ega, assombrado.
-
-Era Castro Gomes!
-
-Bruscamente Carlos erguera-se, decidido.
-
---Manda entrar... Para o salão grande!
-
-Baptista apontou para o jaquetão de flanella com que Carlos tinha
-almoçado, e perguntou baixo se s. exc.^a queria uma sobrecasaca.
-
---Traze.
-
-Sós, Ega e Carlos olharam-se um instante, anciosamente.
-
---Não é um desafio, está claro, balbuciou Ega.
-
-Carlos não respondeu. Examinava outra vez o bilhete: o homem chamava-se
-Joaquim Alvares de Castro Gomes: por baixo tinha escripto a lapis «Hotel
-Bragança»... Baptista voltára com a sobrecasaca: e Carlos, abotoando-a
-devagar, sahiu sem outra mais palavra ao Ega, que ficára de pé junto da
-mesa, limpando estupidamente as mãos ao guardanapo.
-
-No salão nobre, forrado de brocados côr de musgo d'outono, Castro Gomes
-examinava curiosamente, com um joelho apoiado á borda do sofá, a
-esplendida tela de Constable, o retrato da condessa de Runa, bella e
-forte no seu vestido de velludo escarlate de caçadora ingleza. Ao rumor
-dos passos de Carlos sobre o tapete, voltou-se, de chapéo branco na mão,
-sorrindo, pedindo perdão de estar assim a pasmar familiarmente para
-aquelle soberbo Constable... Com um gesto rigido, Carlos, muito pallido,
-indicou-lhe o sofá. Saudando e risonho Castro Gomes sentou-se
-vagarosamente. No peito da sobrecasaca muito justa trazia um botão de
-rosas, os seus sapatos de verniz resplandeciam sob as polainas de linho;
-no rosto chupado, queimado, a barba negra, terminava em bico; os
-cabellos rareavam-lhe na risca; e mesmo a sorrir tinha um ar de seccura,
-de fadiga.
-
---Eu possuo tambem em Paris um Constable muito _chic_, disse elle, sem
-embaraço, n'um tom arrastado, cheio de _rr_, que o _sutaque_ brazileiro
-adocicava. Mas é apenas uma pequena paizagem, com duas figurinhas. É um
-pintor que não me diverte, a dizer a verdade... Todavia dá muito tom a
-uma galeria. É necessario tel-o.
-
-Carlos, defronte n'uma cadeira, com os punhos fortemente fechados sobre
-os joelhos, conservava a immobilidade d'um marmore. E, perante aquelle
-modo affavel, uma idéa ia-o atravessando, lacerante, angustiosa,
-pondo-lhe já nos olhos largos que não tirava de sobre o outro, uma
-irreprimivel chamma de cólera. Carlos Gomes decerto _não sabia nada_!
-Chegára, desembarcára, correra aos Olivaes, dormira nos Olivaes! Era o
-marido, era novo, tivera-a já nos braços--a ella! E agora alli estava,
-tranquillo, de flôr ao peito, fallando de Constable! O unico desejo de
-Carlos, n'esse instante, era que aquelle homem o insultasse.
-
-No emtanto Castro Gomes, amavelmente, desculpava-se de se apresentar
-assim, sem o conhecer, sem ao menos ter pedido por um bilhete uma
-entrevista...
-
---O motivo porém que me traz é tão urgente, que cheguei esta manhã ás
-dez horas do Rio de Janeiro, ou antes do Lazareto, e estou aqui!... E
-esta mesma noite, se puder, parto para Madrid.
-
-Fez-se um allivio infinito no coração de Carlos. Ainda não vira então
-Maria Eduarda, aquelles seccos labios não a tinham tocado! E sahiu emfim
-da sua rigidez de marmore, teve um movimento attento, aproximando de
-leve a cadeira.
-
-Castro Gomes no emtanto, tendo pousado o chapéo, tirára do bolso
-interior da sobrecasaca uma carteira com um largo monogramma de ouro; e,
-vagaroso, procurava entre os papeis uma carta... Depois, com ella na
-mão, muito tranquillamente:
-
---Eu recebi no Rio de Janeiro, antes de partir, este escripto anonymo...
-Mas não creia v. exc.^a que foi elle que me levou a atravessar á pressa
-o Atlantico. Seria o maior dos ridiculos... E desejo tambem affirmar-lhe
-que todo o conteudo d'elle me deixou perfeitamente indifferente... Aqui
-o tem. Quer v. exc.^a lêl-o, ou quer que eu leia?
-
-Carlos murmurou com um esforço:
-
---Leia v. exc.^a
-
-Castro Gomes desdobrou o papel, e revirou-o um instante entre os dedos.
-
---Como v. exc.^a vê, é a carta anonyma em todo o seu horror: papel de
-mercearia, pautadinho de azul; calligraphia reles; tinta reles; cheiro
-reles. Um documento odioso. E aqui está como elle se exprime: «Um homem
-«que teve a honra de apertar a mão de v. exc.^a» Eu dispensava a
-honra... «que teve a hora de apertar a mão de v. exc.^a e d'apreciar o
-seu cavalheirismo, julga dever prevenil-o que sua mulher é, á vista de
-toda a Lisboa, a amante d'um rapaz muito conhecido aqui, Carlos Eduardo
-da Maia, que vive n'uma casa ás Janelas Verdes, chamada o Ramalhete.
-Este heroe, que é muito rico, comprou expressamente uma quinta nos
-Olivaes, «onde installou a mulher de v. exc.^a e onde a vai vêr todos os
-dias, ficando ás vezes, com escandalo da visinhança, até de madrugada.
-Assim o nome honrado de v. exc.^a anda pelas lamas da capital.» É tudo o
-que diz a carta; e eu só devo acrescentar, porque o sei, que tudo quanto
-ella diz é incontestavelmente exacto... O snr. Carlos da Maia é pois
-publicamente, com conhecimento de toda a Lisboa, o amante d'essa
-senhora.
-
-Carlos ergueu-se, muito sereno. E abrindo de leve os braços, n'uma
-aceitação inteira de todas as responsabilidades:
-
---Não tenho então nada a dizer a v. exc.^a senão que estou ás suas
-ordens!...
-
-Uma fugitiva onda de sangue avivou a pallidez morena de Castro Gomes.
-Dobrou a carta, guardou-a com todo o vagar na carteira. Depois, sorrindo
-friamente:
-
---Perdão... O snr. Carlos da Maia sabe, tão bem como eu, que se isto
-tivesse de ter uma solução, violenta, eu não viria aqui pessoalmente, a
-sua casa, lêr-lhe este papel... A coisa é inteiramente outra.
-
-Carlos recahira na cadeira, assombrado. E agora a lentidão adocicada
-d'aquella voz ia-se-lhe tornando intoleravel. Um confuso terror do que
-viria d'esses labios, que sorriam com uma pallidez impertinente, quasi
-fazia estalar o seu pobre coração. E era um desejo brutal de lhe gritar
-que acabasse, que o matasse, ou que sahisse d'aquella sala, onde a sua
-presença era uma inutilidade ou uma torpeza!...
-
-O outro passou os dedos no bigode, e proseguiu, devagar, arranjando as
-suas palavras com cuidado e com precisão:
-
---O meu caso é este, snr. Carlos da Maia. Ha pessoas em Lisboa que me
-não conhecem decerto, mas que sabem a esta hora que existe algures, em
-Paris, no Brazil ou no inferno, um certo Castro Gomes, que tem uma
-mulher bonita, e que a mulher d'esse Castro Gomes tem em Lisboa um
-amante. Isto é desagradavel, sobretudo por ser falso. E v. exc.^a
-comprehende que eu não devo continuar a arrastar por mais tempo a fama
-de _marido infeliz_, visto que a não mereço, e que a não posso
-_legalmente_ ter... É por isso que aqui venho, muito francamente, de
-_gentleman_ para _gentleman_, dizer-lhe, como tenho tenção de dizer a
-outros, que aquella senhora não é minha mulher.
-
-Durante um momento Castro Gomes esperou a voz de Carlos da Maia. Mas
-elle conservava uma face muda, impenetravel, onde apenas os olhos
-brilhavam angustiosamente na lividez que a cobrira. Por fim, com um
-esforço, baixou de leve a cabeça, como acolhendo placidamente aquella
-revelação, que tornava outra qualquer palavra entre elles desnecessaria
-e vã.
-
-Mas Castro Gomes encolhera de leve os hombros, com uma languida
-resignação, como quem attribue tudo á malicia dos Destinos.
-
---São as ridiculas scenas da vida... O snr. Carlos da Maia está d'ahi a
-vêr as coisas. É a velha, a classica historia... Ha tres annos que eu
-vivo com essa senhora; quando tive o inverno passado d'ir ao Brazil,
-trouxe-a a Lisboa para não vir sósinho. Fômos para o hotel Central. V.
-exc.^a comprehende perfeitamente que eu não fui fazer confidencias ao
-gerente do estabelecimento. Aquella senhora vinha commigo, dormia
-commigo, portanto, para todos os effeitos do hotel, era minha mulher.
-Como mulher de Castro Gomes ficou no Central; como mulher de Castro
-Gomes alugou depois uma casa na rua de S. Francisco; como mulher de
-Castro Gomes tomou emfim um amante... Deu-se sempre como mulher de
-Castro Gomes, mesmo nas circumstancias mais particularmente
-desagradaveis para Castro Gomes... E, meu Deus! não podemos realmente
-condemnal-a muito... Achava-se por acaso revestida d'uma excellente
-posição social e d'um nome puro, seria mais que humano que o seu amor da
-verdade a levasse, apenas conhecia alguem, a declarar que posição e nome
-eram de emprestimo e ella era apenas «Fulana de tal, amigada...» De
-resto, sejamos justos, ella não era moralmente obrigada a dar
-semelhantes explicações ao tendeiro que lhe vendia a manteiga, ou á
-matrona que lhe alugava a casa: nem mesmo, penso eu, a ninguem, a não
-ser a um pai que lhe quizesse apresentar sua filha, sahida do
-convento... Demais a mais sou eu que tenho um pouco a culpa; muitas
-vezes, em coisas relativamente delicadas lhe deixei usar o meu nome.
-Foi, por exemplo, com o nome de Castro Gomes que ella tomou a governante
-ingleza. As inglezas são tão exigentes!... Aquella, sobretudo, uma
-rapariga tão séria... Emfim tudo isso passou... O que importa agora é
-que eu lhe retiro solemnemente o nome que lhe emprestára; e ella fica
-apenas com o seu, que é Madame Mac-Gren.
-
-Carlos ergueu-se, livido. E com as mãos fincadas nas costas da cadeira
-tão fortemente, que quasi lhe esgaçava o estofo:
-
---Mais nada, creio eu?
-
-Castro Gomes mordeu de leve os beiços perante este remate brutal que o
-despediu.
-
---Mais nada, disse elle tomando o chapéo e levantando-se muito
-vagarosamente. Devo apenas acrescentar, para evitar a v. exc.^a
-suspeitas injustas, que aquella senhora não é uma menina que eu tivesse
-seduzido, e a quem recuse uma reparação. A pequerruchinha que alli anda
-não é minha filha... Eu conheço a mãi sómente ha tres annos... Vinha dos
-braços d'um qualquer, passou para os meus... Posso pois dizer, sem
-injuria, que era uma mulher que eu pagava.
-
-Completára com esta palavra a humilhação do outro. Estava deliciosamente
-desforrado. Carlos, mudo, abrira o reposteiro da sala, n'uma sacudidella
-brusca. E, diante d'esta nova rudeza que revelava só mortificação,
-Castro Gomes foi perfeito: saudou, sorriu, murmurou:
-
---Parto esta noite mesmo para Madrid, e levo o pezar de ter feito o
-conhecimento de v. exc.^a por um motivo tão desagradavel... Tão
-desagradavel para mim.
-
-Os seus passos desafogados e leves perderam-se na ante-camara, entre as
-tapeçarias. Depois em baixo uma portinhola bateu, uma carruagem rodou na
-calçada...
-
-Carlos ficára cahido n'uma cadeira, junto da porta, com a cabeça entre
-as mãos. E de todas aquellas palavras de Castro Gomes, que ainda lhe
-resoavam em redor, adocicadas e lentas, só lhe restava o sentimento
-atordoado de uma coisa muito bella, resplandecendo muito alto, e que
-cahia de repente, se fazia em pedaços na lama, salpicando-o todo de
-nodoas intoleraveis... Não soffria: era simplesmente um assombro de todo
-o seu sêr perante este fim immundo d'um sonho divino... Unira a sua alma
-arrebatadamente a outra alma nobre e perfeita, longe nas alturas, entre
-nuvens d'ouro; de repente uma voz passava, cheia de _rr_; as duas almas
-rolavam, batiam n'um charco; e elle achava-se tendo nos braços uma
-mulher que não conhecia, e que se chamava Mac-Gren!
-
-Mac-Gren! era a Mac-Gren!
-
-Ergueu-se, com os punhos fechados; e veio-lhe uma revolta furiosa de
-todo o seu orgulho contra essa ingenuidade que o trouxera mezes timido,
-tremulo, ancioso, seguindo á maneira d'uma estrella aquella mulher, que
-qualquer em Paris, com mil francos no bolso, poderia ter sobre um sofá,
-facil e núa! Era horrivel! E recordava agora, afogueado de vergonha, a
-emoção religiosa com que entrava na sala de reps vermelho da rua de S.
-Francisco: o encanto enternecido com que via aquellas mãos, que elle
-julgava as mais castas da terra, puxarem os fios de lã no bordado, n'um
-constante trabalho de mãi laboriosa e recolhida; a veneração espiritual
-com que se afastava da orla do seu vestido, igual para elle á tunica
-d'uma Virgem cujas pregas rigidas nem a mais rude bestialidade ousaria
-desmanchar de leve! Oh imbecil, imbecil!... E todo esse tempo ella
-sorria comsigo d'aquella simpleza de provinciano do Douro! Oh! tinha
-vergonha agora das flôres apaixonadas que lhe trouxera! Tinha vergonha
-das «excellencias» que lhe déra!
-
-E seria tão facil, desde o primeiro dia no Aterro, ter percebido que
-aquella deusa, descida das nuvens, estava amigada com um brazileiro! Mas
-quê! a sua paixão absurda de romantico puzera-lhe logo, entre os olhos e
-as coisas flagrantes e reveladoras, uma d'essas nevoas douradas que dão
-ás montanhas mais rugosas e negras um brilho polido de pedra preciosa!
-Porque escolhera ella precisamente para seu medico, na sua casa e na sua
-intimidade, o homem que na rua a fitára com um fulgor de desejo na face?
-Porque é que nas suas longas conversas, nas manhãs da rua de S.
-Francisco, não fallára jámais de Paris, dos seus amigos e das coisas da
-sua casa? Porque é que ao fim de dois mezes, sem preparação, sem todas
-essas progressivas evidencias do amor que cresce e desabrocha como uma
-flôr, se lhe abandonára de chofre, toda prompta, apenas elle lhe disse o
-primeiro «amo-te»?... Porque lhe aceitára uma casa já mobilada, com a
-facilidade com que lhe aceitava os ramos? E outras coisas ainda,
-pequeninas, mas que não teriam escapado ao mais simples: joias brutaes,
-d'um luxo grosseiro de _cocotte_: o livro da _Explicação de sonhos_, á
-cabeceira da cama; a sua familiaridade com Melanie... E agora até o
-ardor dos seus beijos lhe parecia vir menos da sinceridade da
-paixão--que da sciencia da voluptuosidade!... Mas tudo acabára,
-providencialmente! A mulher que elle amára e as suas seducções
-esvaíam-se de repente no ar como um sonho, radiante e impuro, de que
-aquelle brazileiro o viera acordar por caridade! Esta mulher era apenas
-a Mac-Gren... O seu amor fôra, desde que a vira, como o proprio sangue
-das suas veias; e escoava-se agora todo através da ferida incuravel e
-que nunca mais fecharia, feita no seu orgulho!
-
-Ega appareceu á porta do salão, ainda pallido:
-
---Então?
-
-Toda a cólera de Carlos fez explosão:
-
---Extraordinario, Ega, extraordinario! A coisa mais abjecta, a coisa
-mais immunda!
-
---O homem pediu-te dinheiro?
-
---Peor!
-
-E, passeando arrebatadamente, Carlos desabafou, contou tudo, sem
-reticencias, com as mesmas palavras cruas do outro,--que assim repetidas
-e avivadas pelos seus labios, lhe descobriam motivos novos de humilhação
-e de nojo.
-
---Já por acaso sucedeu a alguem coisa mais horrivel? exclamou por fim,
-cruzando violentamente os braços diante do Ega, que se abatera no sofá,
-assombrado. Pódes tu conceber um caso mais sordido? E tambem mais
-burlesco? É para estalar o coração. E é para rebentar a rir. Estupendo!
-Ahi, n'esse sofá, ahi onde tu estás, o homemzinho, muito amavel, de flôr
-ao peito, a dizer: «Olhe que aquella creatura não é minha mulher, é uma
-creatura que eu pago...» Comprehendes isto bem! Aquelle sujeito
-paga-a... Quanto é o beijo? Cem francos. Ahi estão cem francos... É de
-morrer!
-
-E recomeçou no seu passeio, desvairado, desabafando mais, recontando
-tudo, sempre com as palavras do Castro Gomes, que elle deformava ainda
-n'uma brutalidade maior...
-
---Que te parece, Ega? Dize lá. Que fazias tu? É horrivel, heim?
-
-Ega, que limpava pensativamente o vidro do monoculo, hesitou, terminou
-por dizer que, considerando as coisas com superioridade, como homens do
-seu tempo e «do seu mundo», ellas não offereciam nem motivos de cólera,
-nem motivos de dôr...
-
---Então não comprehendes nada! gritou Carlos, não percebes o meu caso!
-
-Sim, sim, Ega comprehendia claramente que era horrivel para um homem, no
-momento em que ia ligar com adoração o seu destino ao d'uma mulher,
-saber que outros a tinham tido a tanto por noite... Mas isso mesmo
-simplificava e amenisava as coisas. O que fôra um drama complicado
-tornava-se uma distracção bonançosa. Ficava Carlos, desde logo,
-alliviado do remorso de ter desorganisado uma familia: já não tinha de
-se exilar, a esconder o seu erro, n'um buraco florido da Italia; já o
-não prendia a honra para sempre a uma mulher a quem talvez não o
-prenderia para sempre o amor. Tudo isto, que diabo! eram vantagens.
-
---E a dignidade d'ella! exclamou Carlos.
-
-Sim, mas a diminuição de dignidade e pureza não era na verdade grande,
-porque antes da visita de Castro Gomes já ella era uma mulher que foge
-do seu marido--o que, sem mesmo usar termos austeros, nem é muito puro
-nem muito digno... Decerto, tudo isso era uma humilhação irritante--não
-superior todavia á d'um homem que tem uma _Madona_ que contempla com
-religião, suppondo-a de Raphael, e que descobre um dia que a tela divina
-foi fabricada na Bahia por um sujeito chamado Castro Gomes! Mas o
-resultado intimo e social parecia-lhe ser este: Carlos até ahi tivera
-uma bella amante com inconvenientes, e agora tinha sem inconvenientes
-uma bella amante...
-
---O que tu deves fazer, meu caro Carlos...
-
---O que eu vou fazer é escrever-lhe uma carta, remettendo-lhe o preço de
-dois mezes que dormi com ella...
-
---Brutalidade romantica!... Isso já vem na _Dama das Camelias_...
-Sobretudo é não vêr com boa philosophia as _nuances_.
-
-O outro atalhou, impaciente:
-
---Bem, Ega, não fallemos mais n'isso... Eu estou horrivelmente
-nervoso!... Até logo. Tu jantas em casa, não é verdade? Bem, até logo.
-
-Sahia atirando a porta, quando Ega, agora tranquillo, disse, erguendo-se
-muito lentamente do sofá:
-
---O homemzinho foi para lá.
-
-Carlos voltou-se, com os olhos chammejantes:
-
---Foi para os Olivaes? Foi ter com ella?
-
-Sim, pelo menos mandára a tipoia á quinta do Craft. Ega, para conhecer
-esse snr. Castro Gomes, fôra metter-se no cubiculo do guarda-portão. E
-vira-o descer, accender um charuto... Era com effeito um d'esses
-_rastaquouèros_ que, n'esse infeliz Paris que tudo tolera, veem ao _Café
-de la Paix_ ás duas horas para tomar a sua groseille, tesos e
-embrutecidos... E fôra o guarda-portão que lhe dissera que o sujeito
-parecia muito alegre e mandára o cocheiro bater para os Olivaes...
-
-Carlos parecia aniquilado:
-
---Tudo isso é nojento!... No fim talvez até se entendam ambos... Estou
-como tu dizias aqui há tempos: «Cahiu-me a alma a uma latrina, preciso
-um banho por dentro!»
-
-Ega murmurou melancolicamente:
-
---Essa necessidade de banhos moraes está-se tornando com effeito tão
-frequente!... Devia haver na cidade um estabelecimento para elles.
-
-
-
-Carlos, no seu quarto, passeava diante da mesa onde a folha branca de
-papel, em que ia escrever a Maria Eduarda, já tinha a data d'esse dia,
-depois--_Minha senhora_, n'uma letra que elle se esforçára por traçar
-firme e serena:--e não achava outra palavra. Estava bem decidido a
-mandar-lhe um cheque de duzentas libras, paga esplendidamente ultrajante
-das semanas que passára no seu leito. Mas queria juntar duas linhas
-regeladas, impassiveis, que a ferissem mais que o dinheiro: não
-encontrava senão phrases de grande cólera, revelando um grande amor.
-
-Olhava a folha branca: e a banal expressão _Minha senhora_ dava-lhe uma
-saudade dilacerante por aquella a quem na vespera ainda dizia «_minha
-adorada_», pela mulher que se não chamava ainda Mac-Gren, que era
-perfeita, e que uma paixão indomavel, superior á razão, entontecera e
-vencera. E o seu amor por essa Maria Eduarda, nobre e amante, que se
-transformára na Mac-Gren, amigada e falsa, era agora maior
-infinitamente, desesperado por ser irrealisavel--como o que se tem por
-uma morta e que palpita mais ardente junto da frialdade da cova. Oh! se
-ella pudesse resurgir outra vez, limpa, clara, do lodo em que afundára,
-outra vez Maria Eduarda, com o seu casto bordado!... De que amor mais
-delicado a cercaria, para a compensar das affeições domesticas que ella
-deixasse de merecer! Que veneração maior lhe consagraria--para supprir o
-respeito que o mundo superficial e affectado lhe retirasse! E ella tinha
-tudo para reter amor e respeito--tinha a belleza, a graça, a
-intelligencia, a alegria, a maternidade, a bondade, um incomparavel
-gosto... E com todas estas qualidades dôces e fortes--era apenas uma
-intrujona!
-
-Mas porque? porque? Porque entrára ella n'esta longa fraude, tramada dia
-a dia, mentindo em tudo, desde o pudor que fingia até ao nome que usava!
-
-Apertava a cabeça entre as mãos, achava a vida intoleravel. Se ella
-mentia--onde havia então a verdade? Se ella o trahia assim, com aquelles
-olhos claros, o universo podia bem ser todo uma immensa traição muda.
-Punha-se um mólho de rosas n'um vaso, exhalava-se d'elle a peste!
-Caminhava-se para uma relva fresca, ella escondia um lamaçal! E para
-que, para que mentira ella? Se, desde o primeiro dia em que o vira,
-tremulo e rendido, a contemplar o seu bordado como se contempla uma
-acção de santidade--lhe tivesse dito que não era esposa do snr. Castro
-Gomes, mas só amante do snr. Castro Gomes--teria a sua paixão sido menos
-viva, menos profunda? Não era a estola do padre que dava belleza ao seu
-corpo e valor ás suas caricias... Para que fôra então essa mentira
-tenebrosa e descarada--que lhe fazia suppôr agora que eram imposturas os
-seus mesmos beijos, imposturas os seus mesmos suspiros!... E com este
-longo embuste o levava a expatriar-se, dando a sua vida inteira por um
-corpo por que outros davam apenas um punhado de libras! E por esta
-mulher, tarifada ás horas como as caleches da Companhia, elle ia
-amarguarar a velhice do avô, estragar irreparavelmente o seu destino,
-cortar a sua livre acção de homem!
-
-Mas porque? Porque fôra esta farça banal, arrastada por todos os palcos
-de opera comica, da _cocotte que se finge senhora_? Porque o fizera
-ella, com aquelle fallar honesto, o puro perfil e a doçura de mãi? Por
-interesse? Não. Castro Gomes era mais rico do que elle, mais largamente
-lhe podia satisfazer o appetite mundano de toilettes, de carruagens...
-Sentia ella que Castro Gomes a ia abandonar, e queria ter ao lado aberta
-e prompta outra bolsa rica? Então mais simples teria sido dizer-lhe: «eu
-sou livre, gósto de ti, toma-me livremente, como eu me dou.» Não! Havia
-alli alguma coisa secreta, tortuosa, impenetravel... O que daria por a
-conhecer!
-
-E então pouco a pouco foi surgindo n'elle o desejo de ir aos Olivaes...
-Sim, não lhe bastaria desforrar-se arrogantemente, atirando-lhe ao
-regaço um cheque embrulhado n'uma insolencia! O que precisava, para sua
-plena tranquillidade, era arrancar do fundo d'aquella turva alma o
-segredo d'aquella torpe farça... Só isso amansaria o seu incomparavel
-tormento. Queria entrar outra vez na _Tóca_, vêr como era aquella outra
-mulher que se chamava Mac-Gren, e ouvir as suas palavras. Oh! iria sem
-violencia, sem recriminações, muito calmo, sorrindo! Só para que ella
-lhe dissesse qual fôra a razão d'aquella mentira tão laboriosa, tão
-vã... Só para lhe perguntar serenamente: «Minha rica senhora para quer
-foi toda esta intrujice?» E depois vêl-a chorar... Sim, tinha esta
-anciedade cheia d'amor de a vêr chorar. A agonia que elle sentira no
-salão côr de musgo do outono, emquanto o outro arrastava os _rr_, queria
-vêl-a repetida n'esse seio, onde elle até ahi dormira tão dôcemente,
-esquecido de tudo, e que era bello, tão divinamente bello!...
-
-Bruscamente, decidido, deu um puxão á campainha. Baptista appareceu todo
-abotoado na sua sobrecasaca, com um ar resoluto, como armado e prompto a
-ser util n'aquella crise que adivinhava...
-
---Baptista, corre ao hotel Central e pergunta se já entrou o snr. Castro
-Gomes!... Não, escuta... Põe-te á porta do Central, e espera até que
-entre aquelle sujeito que aqui esteve... Não, é melhor perguntar!...
-Emfim, certifica-te de que o sujeito ou voltou ou está no hotel. E
-apenas estejas bem certo d'isso, volta aqui, á desfilada, n'uma
-tipoia... Um batedor seguro, que é para me levar depois aos Olivaes!...
-
-Immediatamente, dada esta ordem, serenou. Era já um allivio immenso não
-ter de escrever a carta, e achar palavras acerbas que a deviam
-dilacerar. Rasgou o papel devagar. Depois fez o cheque de duzentas
-libras, ao _portador_. Elle mesmo lh'o levaria... Oh, decerto, não lh'o
-atirava romanticamente ao regaço... Deixal-o-hia sobre uma mesa,
-sobrescriptado a Madame Mac-Gren... E de repente sentiu uma compaixão
-por ella. Via-a já, abrindo o enveloppe com duas grandes lagrimas,
-lentas, caladas, a rolarem-lhe na face... E os seus proprios olhos se
-humedeceram.
-
-N'esse momento Ega, de fóra, perguntou se era importuno.
-
---Entra! gritou.
-
-E continuou passeando, calado, com as mãos nos bolsos: o outro, em
-silencio tambem, foi encostar-se á janella sobre o jardim.
-
---Preciso escrever ao avô a dizer-lhe que cheguei, murmurou Carlos por
-fim, parando junto da mesa.
-
---Dá-lhe recados meus.
-
-Carlos sentára-se, tomára languidamente a penna: mas bem depressa a
-arremessou: cruzou as mãos por detraz da cabeça no espaldar da cadeira,
-cerrou os olhos, como exhausto.
-
---Sabes uma coisa que me parece certa? disse de repente o Ega da
-janella. Quem escreveu a carta anonyma ao Castro Gomes foi o Damaso!
-
-Carlos olhou para elle:
-
---Achas?... Sim, talvez... Com effeito quem havia de ser?
-
---Não foi mais ninguem, menino. foi o Damaso!
-
-Carlos então recordou o que lhe contára o Taveira--as allusões
-mysteriosas do Damaso a um escandalo que se estava armando, uma bala que
-elle devia receber na cabeça... O Damaso, portanto, tinha como certa a
-vinda do brazileiro, depois um duello...
-
---É necessario esmagar esse infame! exclamou Ega, subitamente furioso.
-Não ha segurança, não ha paz na nossa vida emquanto esse bandido
-viver!...
-
-Carlos não respondeu. E o outro proseguia, transtornado, já todo
-pallido, deixando transbordar odios cada dia accumulados:
-
---Eu não o mato porque não tenho um pretexto!... Se tivesse um pretexto,
-uma insolencia d'elle, um olhar atrevido, era meu, esborrachava-o!...
-Mas tu precisas fazer alguma coisa, isto não póde ficar assim! Não póde!
-É necessario sangue... Vê tu que infamia, uma carta anonyma!... Temos a
-nossa paz, a nossa felicidade, tudo exposto constantemente aos ataques
-do snr. Damaso. Não póde ser. Eu o que tenho pena é de não ter um
-pretexto! Mas tenl-o tu, aproveita, e esmaga-o!
-
-Carlos encolheu vagamente os hombros:
-
---Merecia chicotadas, com effeito... Mas elle realmente só tem sido
-velhaco commigo por causa das minhas relações com essa senhora; e como
-isso é um caso acabado, tudo o que se prende com elle finda tambem.
-_Parce sepultis_... E no fim era elle que tinha razão, quando dizia que
-ella era uma intrujona...
-
-Atirou uma punhada á mesa, ergueu-se, e com um sorriso amargo, n'um
-tedio infinito de tudo:
-
---Era elle, era o snr. Damaso Salcede que tinha razão!...
-
-Toda a sua cólera revivera, mais aspera, a esta idéa. Olhou o relogio.
-Tinha pressa de a vêr, tinha pressa de a injuriar!...
-
---Escreveste-lhe? perguntou o Ega.
-
---Não, vou lá eu mesmo.
-
-Ega pareceu espantado. Depois recomeçou a passear, calado, com os olhos
-no tapete.
-
-Ia escurecendo quando Baptista voltou. Vira o snr. Castro Gomes apear-se
-no hotel e mandar descer as suas bagagens:--e a tipoia, para levar o
-menino aos Olivaes, esperava em baixo.
-
---Bem, adeus! disse Carlos procurando atarantadamente um par de luvas.
-
---Não jantas?
-
---Não.
-
-D'ahi a pouco rodava pela estrada dos Olivaes. Já se accendera o gaz. E
-inquieto, no estreito assento, accendendo nervosamente _cigarettes_ que
-não fumava, soffria já a perturbação d'aquelle encontro difficil e
-doloroso... Nem sabia mesmo como a havia de tratar, se por «minha
-senhora», se por «minha boa amiga», com uma superior indifferença. E ao
-mesmo tempo sentia por ella uma compaixão indefinida, que o amollecia.
-Diante d'estes seus modos regelados, via-a já toda pallida, a tremer,
-com os olhos cheios d'agua. E estas lagrimas que appetecera, agora que
-estava tão perto de as vêr correr, enchiam-no só de commoção e de dó...
-Durante um momento mesmo pensou em retroceder. Por fim seria muito mais
-digno escrever-lhe duas linhas altivas, sacudindo-a de si para sempre e
-seccamente! Poderia não lhe mandar o cheque,--affronta brutal d'homem
-rico. Apesar d'embusteira era mulher, cheia de nervos, cheia de
-phantasia, e amára-o talvez com desinteresse... Mas uma carta era mais
-digno. E agora acudiam-lhe as palavras que lhe deveria ter dirigido,
-incisivas e precisas. Sim, devia-lhe ter dito--que se estava prompto a
-dar a sua vida a uma mulher que se lhe abandonára _por paixão_, estava
-decidido a não sacrificar nem os seus vagares a uma mulher que lhe
-cedera _por profissão_. Era mais simples, era terminante... E depois não
-a via, não teria de supportar a tortura das explicações e das lagrimas.
-
-Então veio-lhe uma fraqueza. Bateu nos vidros para fazer parar,
-reflectir um instante, mais calmamente, no silencio das rodas. O
-cocheiro não ouviu: o trote largo da parelha continuou batendo a estrada
-escura. E Carlos deixou seguir, outra vez hesitante. Depois, á maneira
-que reconhecia, esbatidos na sombra, aquelles sitios onde tantas vezes
-passára com o coração em festa, quando a sua paixão estava em flôr, uma
-cólera nova voltava--menos contra a pessoa de Maria Eduarda, que contra
-essa _mentira_ que fôra obra d'ella, e que vinha estragar
-irremediavelmente o encanto divino da sua vida. Era essa _mentira_ que
-agora odiava--vendo-a como uma coisa material e tangivel, de um peso
-enorme, feia e côr de ferro, esmagando-lhe o coração. Oh! Se não fosse
-_essa coisa_ pequenina e inolvidavel que estava entre elles, como um
-indestructivel bloco de granito, poderia abrir-lhe novamente os seus
-braços, senão com a mesma crença pelo menos com o mesmo ardor! Esposa do
-outro ou amante do outro--no fim que importava? Não era por faltar aos
-beijos que lhe dera esse a consagração d'um padre, rosnada em latim--que
-a sua pelle estava mais polluida por elles, ou tinha a menos frescura?
-Mas havia a _mentira_, a _mentira_ inicial, dita no primeiro dia em que
-fôra á rua de S. Francisco, e que como um fermento podre ficava
-estragando tudo d'ahi por diante, dôces conversas, silencios, passeios,
-sestas no calor da quinta, murmurios de beijos morrendo entre os
-cortinados côr d'ouro... Tudo manchado, tudo contaminado por aquella
-_mentira_ primeira que ella dissera sorrindo, com os seus tranquillos
-olhos limpidos...
-
-Abafava. Ia a descer a vidraça que faltava a correia--quando a tipoia
-parou de repente, na estrada solitaria... Abriu a portinhola. Uma mulher
-com um chale pela cabeça fallava ao cocheiro.
-
---Melanie!
-
---Ah, monsieur!
-
-Carlos saltou precipitadamente. Era já proximo da quinta, na volta
-d'estrada, onde o muro fazia um recanto sob uma faia, defronte de sebes
-de piteiras resguardando campos d'olivedo. Carlos gritou ao cocheiro que
-seguisse e esperasse no portão da quinta. E ficou alli, no escuro, com
-Melanie encolhida no seu chale.
-
-Que estava ella alli a fazer? Melanie parecia transtornada: contou que
-vinha procurar á villa uma carruagem, porque a senhora queria ir a
-Lisboa, ao Ramalhete... Ella julgára a tipoia vazia.
-
-E apertava as mãos, dando as graças, com um immenso allivio. Ah! que
-felicidade, que felicidade ter elle vindo!... A senhora estava afflicta,
-nem jantára, perdida de chôro. O snr. Castro Gomes apparecera lá
-inesperadamente... A senhora, coitadinha, queria morrer!
-
-Então Carlos, caminhando rente ao muro, interrogou Melanie. Como viera o
-outro? que dissera? como se despedira?... Melanie não ouvira nada. O
-Snr. Castro Gomes e a senhora tinham conversado sós no pavilhão japonez.
-Á sahida é que vira o snr. Castro Gomes dizer adeus a madame, muito
-socegado, muito amavel, rindo, fallando de _Niniche_... A senhora, essa,
-parecia como morta, tão pallida! Quando o outro partiu, ia tendo um
-desmaio.
-
-Estavam proximo do portão da _Toca_. Carlos retrocedeu, respirando
-fortemente, com o chapéo na mão. E agora todo o seu orgulho se ia
-sumindo sob a violencia da sua anciedade. Queria saber! E perguntava,
-deixava Melanie nas coisas dolorosas da sua paixão... Dites toujours,
-Melanie, dites! Sabia a senhora que Castro Gomes estivera com elle no
-Ramalhete, lhe confessára tudo?...
-
-Claramente que sabia, por isso chorava--dizia Melanie. Ah, ella bem
-repetira á senhora que era melhor contar a verdade! Era muito amiga
-d'ella, servia-a desde pequena, vira nascer a menina... E tinha-lh'o
-dito, até já nos Olivaes!
-
-Carlos curvava a cabeça na escuridão do muro. Melanie _tinha-lh'o dito_!
-Assim ella e a criada discutiam ambas, acamaradadas, o embuste em que
-andava presa a sua vida! E aquellas revelações de Melanie, que suspirava
-com o chale sobre o rosto, abatiam os ultimos pedaços d'esse sonho, que
-elle erguera tão alto, entre nuvens d'ouro. Nada restava. Tudo jazia em
-estilhaços, no lodo immundo.
-
-Um momento, com o coração cheio de fadiga, pensou em voltar a Lisboa.
-Mas para além d'aquelle negro muro estava _ella_, perdida de chôro,
-querendo morrer... E lentamente recomeçou a caminhar para o portão.
-
-E agora, sem resistencia nenhuma do orgulho, fazia perguntas mais
-intimas a Melanie. Porque é que Maria Eduarda não lhe dissera a verdade?
-
-Melanie encolheu os hombros. Não sabia: nem a senhora sabia! Estivera no
-Central como madame Gomes; alugára a casa da rua de S. Francisco como
-madame Gomes; recebera-o como madame Gomes... E assim se deixára ir,
-insensivelmente, conversando com elle, gostando d'elle, vindo para os
-Olivaes... E depois era tarde, já não se atrevera a confessar, toda
-enterrada assim na _mentira_, com medo do desgosto...
-
-Mas, exclamava Carlos, nunca imaginára ella que fatalmente tudo se
-descobriria um dia?
-
---Je ne sais pas, monsieur, je ne sais pas, murmurou Melanie quasi a
-chorar.
-
-Depois eram outras curiosidades. Ella não esperava Castro Gomes? não
-suppunha que elle voltasse? não costumava fallar d'elle?...
-
---Oh non, monsieur, oh non!
-
-Madame, desde que o senhor começára a ir todos os dias á rua de S.
-Francisco, considerára-se para sempre desligada do snr. Castro Gomes,
-nem fallava n'elle, nem queria que se fallasse... Antes d'isso a menina
-chamava sempre ao snr. Castro Gomes _petit ami_. Agora não lhe chamava
-nada. Tinham-lhe dito que já não havia _petit ami_...
-
---Ella escrevia-lhe ainda, dizia Carlos, eu sei que ella lhe escrevia...
-
-Sim, Melanie julgava que sim... Mas cartas indifferentes. A senhora
-levára o seu escrupulo a ponto de que, desde que viera para os Olivaes,
-nunca mais gastára um ceitil das quantias que lhe mandava o snr. Castro
-Gomes. As letras para receber dinheiro conservava-as intactas,
-entregara-lh'as n'essa tarde... Não se lembrava elle de a ter encontrado
-uma manhã á porta do Monte-Pio? Pois bem! Fôra lá, com uma amiga
-franceza, empenhar uma pulseira de brilhantes da senhora. A senhora
-vivia agora das suas joias; tinha já outras no prégo.
-
-Carlos parára, commovido. Mas então para que tinha ella mentido?
-
---Je ne sais pas, dizia Melanie, je ne sais pas... Mais elle vous aime
-bien, allez!
-
-Estavam defronte do portão. A tipoia esperava. E, ao fundo da rua
-d'acacias, a porta da casa aberta deixava passar a luz do corredor,
-frouxa e triste. Carlos julgou vêr mesmo a figura de Maria Eduarda,
-embrulhada n'uma capa escura, de chapéo, atravessar n'essa claridade...
-Ouvira decerto rodar a carruagem. Que afflicta paciencia seria a sua!
-
---Vai-lhe dizer que vim, Melanie, vai! murmurou Carlos.
-
-A rapariga correu. E elle, caminhando devagar sob as acacias, sentia no
-sombrio silencio as pancadas desordenandas do seu coração. Subiu os tres
-degraus de pedra--que lhe pareciam já d'uma casa estranha. Dentro, o
-corredor estava deserto, com a sua lampada mourisca alumiando as
-panoplias de touros... Alli ficou. Melanie, com o chale na mão, veio
-dizer-lhe que a senhora estava na sala das tapeçarias...
-
-Carlos entrou.
-
-Lá estava, ainda de capa, esperando de pé, palida, com toda a alma
-concentrada nos olhos que refulgiam entre as lagrimas. E correu para
-elle, arrebatou-lhe as mãos, sem poder fallar, soluçando, tremendo toda.
-
-Na sua terrivel perturbação, Carlos achava só esta palavra,
-melancolicamente estupida:
-
---Não sei porque chora, não sei, não há razão para chorar...
-
-Ella pôde emfim balbuciar:
-
---Escuta-me, pelo amor de Deus! não digas nada, deixa contar-te... Eu ia
-lá, tinha mandado Melanie por uma carruagem. Ia vêr-te... Nunca tive a
-coragem de te dizer! Fiz mal, foi horrivel... Mas escuta, não digas nada
-ainda, perdôa, que eu não tenho culpa!
-
-De novo os soluços a suffocaram. E cahiu ao canto do sofá, n'um chôro
-brusco e nervoso, que a sacudiu toda, lhe fazia rolar sobre os hombros
-os cabellos mal atados.
-
-Carlos ficára diante d'ella, immovel. O seu coração parecia parado de
-surpreza e de duvida, sem força para desafogar. Apenas agora sentia
-quanto baixo e brutal deixar-lhe o cheque--que tinha alli na carteira e
-que o enchia de vergonha... Ella ergueu o rosto, todo molhado, murmurou
-com um grande esforço:
-
---Escuta-me!... Nem sei como hei de dizer... Oh, são tantas coisas, são
-tantas coisas!... Tu não te vaes já embora, senta-te, escuta...
-
-Carlos puxou uma cadeira, lentamente.
-
---Não, aqui ao pé de mim... Para eu ter mais coragem... Por quem és, tem
-pena, faze-me isso!
-
-Elle cedeu á supplicação humilde e enternecedora dos seus olhos
-arrazados d'agua: e sentou-se ao outro canto do sofá, afastado d'ella,
-n'uma desconsolação infinita. Então, muito baixo, enrouquecida pelo
-chôro, sem o olhar, e como n'um confessionario--Maria começou a fallar
-do seu passado, desmanchadamente, hesitando, balbuciando, entre grandes
-soluços que a afogavam, e pudores amargos que lhe faziam enterrar nas
-mãos a face afflicta.
-
-A culpa não fôra d'ella! não fôra d'ella! Elle devia ter perguntado
-áquelle homem que sabia toda a sua vida... Fôra sua mãi... Era horroroso
-dizel-o, mas fôra por causa d'ella que conhecera e que fugira com o
-primeiro homem, o outro, um irlandez... E tinha vivido com elle quatro
-annos, como sua esposa, tão fiel, tão retirada de tudo e só occupada da
-sua casa, que elle ia casar com ella! Mas morrera na guerra com os
-allemães, na batalha de Saint-Privat. E ella ficára com Rosa, com a mãi
-já doente, sem recursos, depois de vender tudo... Ao principio
-trabalhára... Em Londres tinha procurado dar lições de piano... Tudo
-falhára, dois dias vivera sem lume, de peixe salgado, vendo Rosa com
-fome! com fome! Ah, elle não podia perceber o que isto era!... Quasi
-fôra por caridade que as tinha repatriado para Paris... E ahi conhecera
-Castro Gomes. Era horrivel, mas que havia d'ella fazer! Estava
-perdida...
-
-Lentamente escorregára do sofá, cahira aos pés de Carlos. E elle
-permanecia immovel, mudo, com o coração rasgado por angustias
-differentes: era uma compaixão tremula por todas aquellas miserias
-soffridas, dôr de mãi, trabalho procurado, fome, que lh'a tornavam
-confusamente mais querida; e era o horror d'esse outro homem, o
-irlandez, que surgia agora, e que lh'a tornava de repente mais
-maculada...
-
-Ella continuava fallando de Castro Gomes. Vivera tres annos com elle,
-honestamente, sem um desvio, sem um pensamento mau. O seu desejo era
-estar quieta em casa. Elle é que a forçava a andar em ceias, em
-noitadas...
-
-E Carlos não podia ouvir mais, torturado. Repeliu-lhe as mãos, que
-procuravam as suas. Queria fugir, queria findar!...
-
---Oh não, não me mandes embora! gritou ella prendendo-se a elle
-anciosamente. Eu sei que não mereço nada! Sou uma desgraçada... Mas não
-tive coragem, meu amor! Tu és homem, não comprehendes estas coisas...
-Olha para mim! porque não olhas para mim? Um instante só, não voltes o
-rosto, tem pena de mim...
-
-Não! elle não queria olhar. Temia aquellas lagrimas, o rosto cheio
-d'agonia. Ao calor do seio que arquejava sobre os seus joelhos, já tudo
-n'elle começava a oscillar, orgulhos, despeitos, dignidade, ciume... E
-então, sem saber, a seu pezar, as suas mãos apertaram as d'ella. Ella
-cobriu-lhe logo de beijos os dedos, as mangas, arrebatadamente: e
-anciosa implorava do fundo da sua miseria um instante de misericordia.
-
---Oh, dize que me perdôas! Tu és tão bom! Uma palavra só... Dize só que
-não me odeias, e depois deixo-te ir... Mas dize primeiro... Olha ao
-menos para mim como d'antes, uma só vez!...
-
-E eram agora os seus labios que procuravam os d'elle. Então a fraqueza
-em que sentia afundar-se todo o seu sêr encheu Carlos de cólera, contra
-si e contra ella. Sacudiu-a brutalmente, gritou:
-
---Mas porque não me disseste, porque não me disseste? Para que foi essa
-longa mentira? Eu tinha-te amado do mesmo modo! Para que mentiste, tu?
-
-Largára-a, prostrada no chão. E de pé, deixava cahir sobre ella a sua
-queixa desesperada:
-
---É a tua mentira que nos separa, a tua horrivel mentira, a tua mentira
-sómente!
-
-Ella ergueu-se pouco a pouco, mal se sustendo, e com uma pallidez de
-desmaio.
-
---Mas eu queria dizer-t'o, murmurou muito baixo, muito quebrado diante
-d'elle, deixando cahir os braços. Eu queria dizer-t'o... Não te lembras,
-n'aquelle dia em que vieste tarde, quando eu fallei da casa de campo, e
-que tu pela primeira vez declaraste que gostavas de mim? Eu disse-te
-logo: «ha uma coisa que te quero contar...» Tu nem me deixaste acabar.
-Imaginavas o que era, que eu queria ser só tua, longe de tudo... E
-disseste então que haviamos d'ir, com Rosa, ser felizes para algum canto
-do mundo... Não te lembras?... Foi então que me veio uma tentação! Era
-não dizer nada, deixar-me levar, e depois, mais tarde, annos depois,
-quando te tivesse provado bem que boa mulher eu era, digna da tua
-estima, confessar-te tudo e dizer-te: «agora, se queres, manda-me
-embora.» Oh! foi mal feito, bem sei... Mas foi uma tentação, não
-resisti... Se tu não fallasses em fugirmos, tinha-te dito tudo... Mas
-mal fallaste em fugirmos, vi uma outra vida, uma grande esperança, nem
-sei que! E além d'isso adiava aquella horrivel confissão! Emfim, nem
-posso explicar, era como o céo que se abria, via-me comtigo n'uma casa
-nossa... Foi uma tentação!... E depois era horrivel, no momento em que
-tu me querias tanto, ir dizer-te «não faças tudo isso por mim, olha que
-eu sou uma desgraçada, nem marido tenho...» Que te hei de explicar mais?
-Não me resignava a perder o teu respeito. Era tão bom ser assim
-estimada... Emfim foi um mal, foi um grande mal... E agora ahi está,
-vejo-me perdida, tudo acabou!
-
-Atirou-se para o chão, como uma creatura vencida e finda, escondendo a
-face no sofá. E Carlos, indo lentamente ao fundo da sala, voltando
-bruscamente até junto d'ella, tinha só a mesma recriminação, a
-_mentira_, a _mentira_, pertinaz e de cada dia... Só os soluços d'ella
-lhe respondiam.
-
---Porque não me disseste ao menos depois, aqui nos Olivaes, quando
-sabias que tu eras tudo para mim?...
-
-Ella ergueu a cabeça fatigada:
-
---Que queres tu? Tive medo que o teu amor mudasse, que fosse d'outro
-modo... Via-te já a tratar-me sem respeito. Via-te a entrar por ahi
-dentro de chapéo na cabeça, a perder a affeição á pequena, a querer
-pagar as despezas da casa... Depois tinha remorsos, ia adiando. Dizia
-«hoje não, um dia só mais de felicidade, ámanhã será...» E assim ia
-indo! Emfim, nem eu sei, um horror!
-
-Houve um silencio. E então Carlos sentiu á porta _Niniche_ que queria
-entrar e que gania baixinho e doloridamente. Abriu. A cadellinha correu,
-pulou para o sofá, onde Maria permanecia soluçando, enrodilhando a um
-canto: procurava lamber-lhe as mãos, inquieta: depois ficou plantada
-junto d'ella, como a guarda-l'a, desconfiada, seguindo, com os seus
-vivos olhos d'azeviche, Carlos que recomeçára a passear sombriamente.
-
-Um ai mais longo e mais triste de Maria fel-o parar. Esteve um momento
-olhando para aquella dôr humilhada... Todo abalado, com os labios a
-tremer, murmurou:
-
---Mesmo que te pudesse perdoar, como te poderia acreditar agora nunca
-mais? Ha esta mentira horrivel sempre entre nós a separar-nos! Não teria
-um unico dia de confiança e de paz...
-
---Nunca te menti senão n'uma coisa, e por amor de ti! disse ella
-gravemente do fundo da sua prostração.
-
---Não, mentiste em tudo! Tudo era falso, falso o teu casamento, falso o
-teu nome, falsa a tua vida toda... Nunca mais te poderia acreditar...
-Como havia de ser, se agora mesmo quasi que nem acredito no motivo das
-tuas lagrimas?
-
-Uma indignação ergueu-a, direita e soberba. Os seus olhos de repente
-seccos rebrilharam, revoltados e largos, no marmore da sua pallidez.
-
---Que queres tu dizer? Que estas lagrimas tem outro motivo, estas
-supplicas são fingidas? Que finjo tudo para te reter, para não te
-perder, ter outro homem, agora que estou abandonada?...
-
-Elle balbuciou:
-
---Não, não! Não é isso!
-
---E eu? exclamou ella, caminhando para elle, dominando-o, magnifica e
-com um esplendor de verdade na face. E eu? porque hei de eu acreditar
-n'essa grande paixão que me juravas? O que é que tu amavas então em mim?
-Dize lá! Era a mulher d'outro, o nome, o requinte do adulterio, as
-_toilletes_?... Ou era eu propria, o meu corpo, a minha alma e o meu
-amor por ti?... Eu sou a mesma, olha bem para mim!... Estes braços são
-os mesmos, este peito é o mesmo... Só uma coisa é differente: a minha
-paixão! Essa é maior, desgraçadamente, infinitamente maior.
-
---Oh! se isso fosse verdade! gritou Carlos, apertando as mãos.
-
-N'um instante Maria estava cahida a seus pés, com os braços abertos para
-elle.
-
---Juro-t'o por alma de minha filha, por alma de Rosa! Amo-te, adoro-te
-doidamente, absurdamente, até á morte!
-
-Carlos tremia. Todo o seu sêr pendia para ella; e era um impulso
-irresistivel de se deixar cahir sobre aquelle seio que arfava a seus
-pés, ainda que elle fosse o abysmo da sua vida inteira... Mas outra vez
-a idéia da _mentira_ passou, regeladora. E afastou-se d'ella, levando os
-punhos á cabeça, n'um desespero, revoltado contra aquella coisa
-pequenina e indestructivel que não queria sumir-se, e que se interpunha
-como uma barra de ferro entre elle e a sua felicidade divina!
-
-Ella ficára ajoelhada, immovel, com os olhos esgazeados para o tapete.
-Depois, no silencio estofado da sala, a sua voz ergueu-se dolente e
-tremula:
-
---Tens razão, acabou-se! Tu não me acreditas, tudo se acabou!... É
-melhor que te vás embora... Ninguem me torna a acreditar... Acabou tudo
-para mim, não tenho ninguem mais no mundo... Ámanhã sáio d'aqui,
-deixo-te tudo... Has de me dar tempo para arranjar... Depois, que hei de
-fazer, vou-me embora!
-
-E não pôde mais, tombou para o chão, com os braços estirados, perdida de
-chôro.
-
-Carlos voltou-se, ferido no coração. Com o seu vestido escuro, para alli
-cahida e abandonada, parecia já uma pobre creatura, arremessada para
-fóra de todo o lar, sósinha a um canto, entre a inclemencia do mundo...
-Então respeitos humanos, orgulho, dignidade humana, tudo n'elle foi
-levado como por um grande vento de piedade. Viu só, offuscando todas as
-fragilidades, a sua belleza, a sua dôr, a sua alma sublimemente amante.
-Um delirio generoso, de grandiosa bondade, misturou-se á sua paixão. E,
-debruçando-se, disse-lhe baixo, com os braços abertos:
-
---Maria, queres casar commigo?
-
-Ella ergueu a cabeça, sem comprehender, com os olhos desvairados. Mas
-Carlos tinha os braços abertos; e estava esperando para a fechar dentro
-d'elles outra vez, como sua e para sempre... Então levantou-se,
-tropeçando nos vestidos, veio cahir sobre o peito d'elle, cobrindo-o de
-beijos, entre soluços e risos, tonta, n'um deslumbramento:
-
---Casar comtigo, comtigo? Oh Carlos... E viver sempre, sempre
-comtigo?... Oh meu amor, meu amor! E tratar de ti, e servir-te, e
-adorar-te, e ser só tua? E a pobre Rosa tambem... Não, não cases
-commigo, não é possivel, não valho nada! Mas se tu queres, porque
-não?... Vamos para longe, juntos, e Rosa e eu sobre o teu coração! E has
-de ser nosso amigo, meu e d'ella, que não temos ninguem no mundo... Oh!
-meu Deus, meu Deus!...
-
-Empallideceu, escorregando pesadamente entre os braços d'elle,
-desmaiada: e os seus longos cabellos desprendido rojavam o chão, tocados
-pela luz de tons d'ouro.
-
-
-
-
-V
-
-
-Maria Eduarda e Carlos, que ficára essa noite nos Olivaes na sua
-casinhola, acabavam de almoçar. O Domingos servira o café, e antes de
-sahir deixára ao lado de Carlos a caixa de cigarettes e o _Figaro_. As
-duas janellas estavam abertas. Nem uma folha se movia no ar pesado da
-manhã encoberta, entristecida ainda por um dobre lento de sinos que
-morria ao longe nos campos. No banco de cortiça, sob as arvores, miss
-Sarah costurava preguiçosamente; Rosa ao lado brincava na relva. E
-Carlos, que viera n'uma intimidade conjugal, com uma simples camisa de
-sêda e um jaquetão de flanella, chegou então a cadeira para junto de
-Maria, tomou-lhe a mão, brincando-lhe com os anneis, n'uma lenta
-caricia:
-
---Vamos a saber, meu amor... Decidiste, por fim? Quando queres partir?
-
-N'essa noite, entre os seus primeiros beijos de noiva, ella mostrára o
-desejo enternecido de não alterar o plano da Italia e d'um ninho
-romantico entre as flôres d'Isola-bella: sómente agora não iam esconder
-a inquietação d'uma felicidade culpada, mas gozar o repouso d'uma
-felicidade legitima. E, depois de todas as incertezas e tormentos que o
-tinham agitado desde o dia em que cruzára Maria Eduarda no Aterro,
-Carlos anhelava tambem pelo momento de se installar emfim no conforto
-d'um amor sem duvidas e sem sobresaltos:
-
---Eu por mim abalava ámanhã. Estou sôfrego de paz. Estou até sôfrego de
-preguiça... Mas tu, dize, quando queres?
-
-Maria não respondeu; apenas o seu olhar sorriu, reconhecido e
-apaixonado. Depois, sem retirar a mão que a longa caricia de Carlos
-ainda prendia, chamou Rosa através da janella.
-
---Mamã, espera, já vou! Passa-me umas migalhas... Andam aqui uns pardaes
-que ainda não almoçaram...
-
---Não, vem cá.
-
-Quando ella appareceu á porta, toda de branco, córada, com uma das
-ultimas rosas de verão mettida no cinto--Maria quil-a mais perto, entre
-elles, encostada aos seus joelhos. E, arranjando-lhe a fita solta do
-cabello, perguntou, muito séria, muito commovida, se ella gostaria que
-Carlos viesse viver com ellas de todo e ficar alli na _Toca_... Os olhos
-da pequena encheram-se de surpreza e de riso:
-
---O quê! estar sempre, sempre aqui, mesmo de noite, toda a noite?... E
-ter aqui as suas malas, as suas coisas?...
-
-Ambos murmuraram--«sim».
-
-Rosa então pulou, bateu as palmas, radiante, querendo que Carlos fosse
-já, já, buscar as suas malas e as suas coisas...
-
---Escuta, disse-lhe ainda Maria gravemente, retendo-a sobre os joelhos.
-E gostavas que elle fosse como o papá, e que andasse sempre comnosco, e
-que lhe obedecessemos ambas, e que gostassemos muito d'elle ?
-
-Rosa ergueu para a mãe uma facesinha compenetrada, onde todo o sorriso
-se apagára.
-
---Mas eu não posso gostar mais d'elle do que gósto!...
-
-Ambos a beijaram, n'um enternecimento que lhes humedecia os olhos. E
-Maria Eduarda, pela primeira vez diante de Rosa debruçando-se sobre
-ella, beijou de leve a testa de Carlos. A pequena ficou pasmada para o
-seu amigo, depois para a mãi. E pareceu comprehender tudo; escorregou
-dos joelhos de Maria, veio encostar-se a Carlos com uma meiguice
-humilde:
-
---Queres que te chame papá, só a ti?
-
---Só a mim, disse elle, fechando-a toda nos braços.
-
-E assim obtiveram o consentimento de Rosa--que fugiu, atirando a porta,
-com as mãos cheias de bolos para os pardaes.
-
-Carlos levantou-se, tomou a cabeça de Maria entre as mãos, e
-contemplando-a profundamente, até á alma, murmurou n'um enlevo:
-
---És perfeita!
-
-Ella desprendeu-se, com melancolia, d'aquella adoração que a perturbava.
-
---Escuta... Tenho ainda muito, muito que te dizer, infelizmente. Vamos
-para o nosso kiosque... Tu não tens nada que fazer, não? E que tenhas,
-hoje és meu... Vou já ter comtigo. Leva as tuas cigarettes.
-
-Nos degraus do jardim, Carlos parou a olhar, a sentir a doçura velada do
-céo cinzento... E a vida pareceu-lhe adoravel, d'uma poesia fina e
-triste,assim envolta n'aquella nevoa macia onde nada resplandecia e nada
-cantava, e que tão favoravel era para que dois corações, desinteressados
-do mundo e em desharmonia com elle, se abandonassem juntos ao contínuo
-encanto de estremecerem juntos na mudez e na sombra.
-
---Vamos ter chuva, tio André, disse elle, passando junto do velho
-jardineiro que aparava o buxo.
-
-O tio André, atarantado, arrancou o chapéo. Ah! uma gota d'agua era bem
-necessaria, depois da estiagem! O torrãosinho já estava com sêde! E em
-casa todos bons? A senhora? A menina?
-
---Tudo bom, tio André, obrigado.
-
-E no seu desejo de vêr todos em torno de si felizes como elle e como a
-terra sequiosa que ia ser consolada--Carlos metteu uma libra na mão do
-tio André, que ficou deslumbrado, sem ousar fechar os dedos sobre aquelle
-ouro extraordinario que reluziu.
-
-Quando Maria entrou no kiosque trazia um cofre de sandalo. Atirou-o para
-o divan: fez sentar Carlos ao lado, bem confortavel, entre almofadas:
-accendeu-lhe uma cigarrete. Depois agachou-se aos seus pés, sobre o
-tapete, como na humildade de uma confissão.
-
---Estás bem assim? Queres que o Domingos te traga agua e cognac?... Não?
-Então ouve agora, quero-te contar tudo...
-
-Era toda a sua existencia que ella desejava contar. Pensára mesmo em
-lh'a escrever n'uma carta interminavel, como nos romances. Mas decidira
-antes tagarellar alli uma manhã inteira, aninhada aos seus pés.
-
---Estás bem, não estás?
-
-Carlos esperava, commovido. Sabia que aquelles labios amados iam fazer
-revelações pungentes para o seu coração--e amargas para o seu orgulho.
-Mas a confidencia da sua vida completava a posse da sua pessoa: quando a
-conhecesse toda no seu passado sentil-a-hia mais sua inteiramente. E no
-fundo tinha uma curiosidade insaciavel d'essas coisas que o deviam
-pungir e que o deviam humilhar.
-
---Sim, conta... Depois esquecemos tudo e para sempre. Mas agora dize,
-conta... Onde nasceste tu por fim?
-
-Nascera em Vienna: mas pouco se recordava dos tempos de criança, quasi
-nada sabia do papá, a não ser a sua grande nobreza e a sua grande
-belleza. Tivera uma irmãsinha que morrera de dois annos e que se chamava
-Heloisa. A mamã, mais tarde, quando ella era já rapariga, não tolerava
-que lhe perguntassem pelo passado; e dizia sempre que remexer a memoria
-das coisas antigas prejudicava tanto como sacudir uma garrafa de vinho
-velho... De Vienna apenas recordava confusamente largos passeios
-d'arvores, militares vestidos de branco, e uma casa espelhada e dourada
-onde se dançava: ás vezes durante tempos ella ficava lá só com o avô, um
-velhinho triste e timido, mettido pelos cantos, que lhe contara
-historias de navios. Depois tinham ido a Inglaterra: mas lembrava-se
-sómente de ter atravessado um grande rumor de ruas, n'um dia de chuva,
-embrulhada em pelles, sobre os joelhos d'um escudeiro. As suas primeiras
-memorias mais nitidas datavam de Paris; a mamã, já viuva, andava de luto
-pelo avô; e ella tinha uma aia italiana que a levava todas as manhãs,
-com um arco e com uma pélla, brincar aos Campos Elyseos. A noite
-costumava vêr a mamã decotada, n'um quarto cheio de setins e de luzes; e
-um homem louro, um pouco brusco, que fumava sempre estirado pelos sofás,
-trazia-lhe de vez em quando uma boneca, e chamava-lhe mademoiselle
-_Triste-c[oe]ur_ por causa do seu arzinho sisudo. Emfim a mamã mettera-a
-n'um convento ao pé de Tours--porque n'essa idade, apesar de cantar já
-ao piano as walsas da _Belle Helène_, ainda não sabia soletrar. Fôra nos
-jardins do convento, onde havia lindos lilazes, que a mamã se separára
-d'ella n'uma paixão de lagrimas; e ao lado esperava, para a consolar
-decerto, um sujeito muito grave, de bigodes encerados, a quem a Madre
-Superiora fallara com veneração.
-
-A mamã ao principio vinha vêl-a todos os mezes, demorando-se em Tours
-dois, tres dias; trazia-lhe uma profusão de presentes, bonecas, bonbons,
-lenços bordados, vestidos ricos, que lhe não permittia usar a regra
-severa do convento. Davam então passeios de carruagem pelos arredores de
-Tours: e havia sempre officiaes a cavallo, que escoltavam a caleche--e
-tratavam a mamã por _tu_. No convento as mestras, a Madre Superiora não
-gostavam d'estas sahidas--nem mesmo que a mamã viesse acordar os
-corredores devotos com as suas risadas e o ruido das suas sêdas; ao
-mesmo tempo pareciam temel-a; chamavam-lhe _Madame la Comtesse_. A mamã
-era muito amiga do general que commandava em Tours, e visitava o bispo.
-Monsenhor, quando vinha ao convento, fazia-lhe uma festinha especial na
-face e alludia risonhamente a _son excellente mère_. Depois a mamã
-começou a apparecer menos em Tours. Esteve um anno longe, quasi sem
-escrever, viajando na Allemanha; voltou um dia, magra e coberta de luto,
-e ficou toda a manhã abraçada a ella a chorar.
-
-Mas na visita seguinte vinha mais moça, mais brilhante, mais ligeira,
-com dois grandes galgos brancos, annunciando uma romagem poetica á Terra
-Santa e a todo o remoto Oriente. Ella tinha então quasi dezeseis annos:
-pela sua applicação, os seus modos dôces e graves, ganhára a affeição da
-Madre Superiora--que ás vezes, olhando-a com tristeza, acariciando-lhe o
-cabello cahido em duas tranças segundo a regra, lhe mostrava o desejo de
-a conservar sempre ao seu lado. _Le monde_, dizia ella, _ne vous sera
-bon à rien, mon enfant!_... Um dia, porém, appareceu para a levar para
-Paris, para a mamã, uma Madame de Chavigny, fidalga pobre, de caracoes
-brancos, que era como uma estampa de severidade e de virtude.
-
-O que ella chorára ao deixar o convento! Mais choraria se soubesse o que
-ia encontrar em Paris!
-
-A casa da mamã, no Parc Monceaux, era na realidade uma casa de jogo--mas
-recoberta de um luxo sério e fino. Os escudeiros tinham meias de sêda;
-os convidados, com grandes nomes no Nobiliario de França, conversavam de
-corridas, das Tulherias, dos discursos do Senado; e as mesas de jogo
-armavam-se depois como uma distracção mais picante. Ella recolhia sempre
-ao seu quarto ás dez horas: Madame de Chavigny, que ficára como sua dama
-de companhia, ia com ella cedo ao Bois n'um coupé estufo de
-_douairière_. Pouco a pouco, porém, este grande verniz começou a
-estalar. A pobre mamã cahira sob o jugo d'um Mr. de Trevernnes, homem
-perigoso pela sua seducção pessoal e por uma desoladora falta de honra e
-de senso. A casa descahiu rapidamente n'uma bohemia mal dourada e
-ruidosa. Quando ella madrugava, com os seus habitos saudaveis do
-convento, encontrava paletots d'homens por cima dos sofás: no marmore
-das consoles restavam pontas de charuto entre nodoas de champagne; e
-n'algum quarto mais retirado ainda tinia o dinheiro d'um _baccarat_
-talhado á claridade do sol. Depois uma noite, estando deitada, sentira
-de repente gritos, uma debandada brusca na escada; veio encontrar a mamã
-estirada no tapete, desmaiada; ella dissera-lhe apenas mais tarde,
-alagada em lagrimas, «que tinha havido uma desgraça»...
-
-Mudaram então para um terceiro andar da Chaussée-d'Antin. Ahi começou a
-apparecer uma gente desconhecida e suspeita. Eram Valachos de grandes
-bigodes, Peruanos com diamantes falsos, e condes romanos que escondiam
-para dentro das mangas os punhos enxovalhados... Por vezes entre esta
-malta vinha algum _gentleman_--que não tirava o paletot, como n'um
-café-concerto. Um d'esses foi um irlandez, muito moço, Mac-Gren...
-Madame de Champigny deixára-as desde que faltára o coupé severo,
-acolchoado de setim; e ella, só com a mãi, insensivelmente, fatalmente,
-fôra-se misturando a essa vida tresnoitada de grogs e de _baccarat_.
-
-A mamã chamava a Mac-Gren o «bébé». Era com effeito uma criança
-estouvada e feliz. Namorára-se d'ella logo com o ardor, a effusão, o
-impeto d'um irlandez; e prometteu-lhe fazel-a sua esposa apenas se
-emancipasse--porque Mac-Gren, menor ainda, vivia sobretudo das
-liberalidades de uma avó excentrica e rica que o adorava, e que habitava
-a Provença n'uma vasta quinta onde tinha feras em jaulas... E no entanto
-induzia-a sem cessar a fugir com elle, desesperado de a vêr entre
-aquelles Valachos que cheiravam a genebra. O seu desejo era leval-a para
-Fontainebleau, para um _cottage_ com trepadeiras de que fallava sempre,
-e esperar ahi tranquillamente a maioridade que lhe traria duas mil
-libras de renda. Decerto, era uma situação falsa: mas preferivel a
-permanecer n'aquelle meio depravado e brutal onde ella a cada instante
-córava... A esse tempo a mamã parcela ir perdendo todo o senso,
-desarranjada de nervos, quasi irresponsavel. As difficuldades crescentes
-estonteavam-n'a; brigava com as criadas; bebia champagne «_pour
-s'étourdir_». Para satisfazer as exigencias de Mr. de Trevernnes
-empenhára as suas joias, e quasi todos os dias chorava com ciumes
-d'elle. Por fim houve uma penhora: uma noite tiveram d'enfardelar á
-pressa roupa n'um sacco, e ir dormir a um hotel. E, peor, peor que tudo!
-Mr. de Trevernnes começava a olhar para ella d'um modo que a
-assustava...
-
---Minha pobre Maria! murmurou Carlos, pallido, agarrando-lhe as mãos.
-
-Ella permaneceu um momento suffocada, com o rosto cahido nos joelhos
-d'elle. Depois limpando as lagrimas que a ennevoavam:
-
---Ahi estão as cartas de Mac-Gren, n'esse cofre... Tenho-as guardado
-sempre para me justificar a mim mesma, se me é possivel... Pede-me em
-todas que vá para Fontainebleau; chama-me sua esposa; jura que apenas
-juntos iremos ajoelhar-nos diante da avó, obter a sua indulgencia... Mil
-promessas! E era sincero... Que queres que te diga? A mamã uma manhã
-partiu com uma sucia para Baden. Fiquei em Paris só, n'um hotel... Tinha
-um palpite, um terror que Trevernnes apparecia... E eu só! Estava tão
-transtornada que pensei em comprar um rewolver... Mas quem veio foi
-Mac-Gren.
-
-E partira com elle, sem precipitação, como sua esposa, levando todas as
-suas malas. A mamã de volta de Baden correu a Fontainebleau, desvairada
-e tragica, amaldiçoando Mac-Gren, ameaçando-o com a prisão de Mazas,
-querendo esbofeteal-o; depois rompeu a chorar. Mac-Gren, como um bébé,
-agarrou-se a ella aos beijos, chorando tambem. A mamã terminou por os
-apertar a ambos contra o coração, já rendida, perdoando tudo,
-chamando-lhes «filhos da sua alma». Passou o dia em Fontainebleau,
-radiante, contando «a patuscada de Baden», já com o plano de vir
-installar-se no _cottage_, viver junto d'elles n'uma felicidade calma e
-nobre de avósinha... Era em maio; Mac-Gren, á noite, deitou um «fogo
-preso» no jardim.
-
-Começou um anno quieto e facil. O seu unico desejo era que a mamã
-vivesse com elles socegadamente. Diante das suas supplicas ella ficava
-pensativa, dizia: «Tens razão, veremos!» Depois remergulhava no
-torvelinho de Paris, d'onde resurgia uma manhã, n'um _fiacre_,
-estremunhada e afflicta, com uma rica pelliça sobre uma velha saia, a
-pedir-lhe cem francos... Por fim nascera Rosa. Toda a sua anciedade
-desde então fôra legitimar a sua união. Mas Mac-Gren adiava,
-levianamente, com um medo pueril da avó. Era um perfeito bébé!
-Entretinha as manhãs a caçar passaros com visco! E ao mesmo tempo
-terrivelmente teimoso: ella pouco a pouco perdera-lhe todo o respeito.
-No começo da primavera a mamã um dia appareceu em Fontainebleau com as
-suas malas, succumbida, enojada da vida. Rompera emfim com Trevernnes.
-Mas quasi immediatamente se consolou: e começou d'ahi a adorar Mac-Gren
-com uma tão larga effusão de caricias, e achando-o tão lindo, que era ás
-vezes embaraçadora. Os dois passavam o dia, com copinhos de cognac,
-jogando o _bezigue_.
-
-De repente rebentou a guerra com a Prussia. Mac-Gren enthusiasmado, e
-apesar das supplicas d'ellas, corrêra a alistar-se no batalhão de Zuavos
-de Charette; a avó de resto approvára este rasgo d'amor pela França, e
-fizera-lhe n'uma carta em verso, em que celebrava Jeanne d'Arc, uma
-larga remessa de dinheiro. Por esse tempo Rosa teve o garrotilho. Ella,
-sem lhe largar o leito, mal attendia ás noticias da guerra. Sabia apenas
-confusamente das primeiras batalhas perdidas na fronteira. Uma manhã a
-mamã rompeu-lhe no quarto, estonteada, em camisa: o exercito capitulára
-em Sédan, o imperador estava prisioneiro! «É o fim de tudo, é o fim de
-tudo!» dizia a mamã espavorida. Ella veio a Paris procurar noticias de
-Mac-Gren: na rua Royale teve de se refugiar n'um portão, diante do
-tumulto d'um povo em delirio, acclamando, cantando a Marselheza, em
-torno de uma caleche onde ia um homem, pallido como cera, com um
-cache-nez escarlate ao pescoço. E um sujeito ao lado, aterrado,
-disse-lhe que o povo fôra buscar Rochefort á prisão e que estava,
-proclamada a Republica.
-
-Nada soubera de Mac-Gren. Começaram então dias d'infinito sobresalto.
-Felizmente Rosa convalescia. Mas a pobre mamã causava dó, envelhecida de
-repente, sombria, prostrada n'uma cadeira, murmurando apenas: «É o fim
-de tudo, é o fim de tudo!» E parecia na verdade o fim da França. Cada
-dia uma batalha perdida; regimentos presos, apinhados em wagons de gado,
-internados a todo o vapor para os presidios d'Allemanha; os prussianos
-marchando sobre Paris... Não podiam permanecer em Fontainebleau; o duro
-inverno começava; e com o que venderam á pressa, com o dinheiro que
-Mac-Gren deixára, partiram para Londres.
-
-Fôra uma exigencia da mamã. E em Londres ella, desorientada na enorme e
-estranha cidade, doente tambem, deixára-se levar pelas tontas idéas da
-mãe. Tomaram uma casa mobilada, muito cara, nos bairros de luxo, ao pé
-de Mayfair. A mamã fallava em organisar alli o centro de resistencia dos
-bonapartistas refugiados; no fundo, a desgraçada pensava em crear uma
-casa de jogo em Londres. Mas ai! eram outros tempos... Os imperialistas,
-sem imperio, não jogavam já o _baccarat_. E ellas em breve, sem
-rendimentos, gastando sempre, tinham-se achado com aquella dispendiosa
-casa, tres criados, contas colossaes e uma nota de cinco libras no fundo
-d'uma gaveta. E Mac-Gren mettido dentro de Paris, com meio milhão de
-prussianos em redor. Foi necessario vender todas as joias, vestidos, até
-as pelliças. Alugaram então, no bairro pobre de Soho, tres quartos mal
-mobilados. Era o _lodging_ de Londres em toda a sua suja, solitaria
-tristeza; uma criadita unica, enfarruscada como um trapo; alguns carvões
-humidos fumegando mal na chaminé; e para jantar um pouco de carneiro
-frio e cerveja da esquina. Por fim faltára mesmo o escasso shilling para
-pagar o _lodging_. A mamã não sahia do catre, doente, succumbida,
-chorando. Ella ás vezes ao anoitecer, escondida n'um water-proof, levava
-ao _prégo_ embrulhos de roupa (até roupa branca, até camisas!) para que
-ao menos não faltasse a Rosa a sua chicara de leite. As cartas que a
-mamã escrevia a alguns antigos companheiros de ceias na _Maison d'Or_
-ficavam sem resposta: outras traziam, embrulhada n'um bocado de papel,
-alguma meia-libra que tinha o pavoroso sabor d'uma esmola. Uma noite, um
-sabbado de grande nevoeiro, indo empenhar um chambre de rendas da mamã,
-perdera-se, errára na vasta Londres n'uma treva amarellada, a tiritar de
-frio, quasi com fome, perseguida por dois brutos que empestavam a
-alcool. Para lhes fugir atirou-se para dentro d'um _cab_ que a levou a
-casa. Mas não tinha um penny para pagar ao cocheiro; e a patrôa roncava
-no seu cacifro, bebeda. O homem resmungou; ella, succumbida, alli mesmo
-na porta rompeu a chorar. Então o cocheiro desceu da almofada,
-commovido, offereceu-se para a levar de graça ao _prégo_, onde
-ajustariam as suas contas. Foi; o pobre homem só aceitou um _schilling_;
-até mesmo suppondo-a franceza grunhiu blasphemias contra os prussianos,
-e teimou em lhe offerecer uma bebida.
-
-Ella no emtanto procurava uma occupação qualquer costura, bordados,
-traducções, cópias de manuscriptos... Não achava nada. N'aquelle duro
-inverno o trabalho escasseava em Londres; surgira uma multidão de
-francezes, pobres como ella, luctando pelo pão... A mamã não cessava de
-chorar; e havia alguma coisa mais terrivel que as suas lagrimas--eram as
-suas allusões constantes á facilidade de se ter em Londres dinheiro,
-conforto e luxo, quando se é nova e se é bonita...
-
---Que te parece esta vida, meu amor? exclamou ella, apertando as mãos
-amargamente.
-
-Carlos beijou-a em silencio, com os olhos humedecidos.
-
---Emfim tudo passou, continuou Maria Eduarda. Fez-se a paz, o cêrco
-acabou. Paris estava de novo aberto... Sómente a difficuldade era
-voltar.
-
---Como voltaste?
-
-Um dia por acaso, em Regent-Street, encontrára um amigo de Mac-Gren,
-outro irlandez, que muitas vezes jantára com elles em Fontainebleau.
-Veio vêl-as a Soho; diante d'aquella miseria, do bule de chá aguado, dos
-ossos de carneiro requentando sobre tres brazas mortas, começou, como
-bom irlandez, por accusar o governo d'Inglaterra e jurar uma desforra de
-sangue. Depois offereceu, com os beiços já a tremer, toda a sua
-dedicação. O pobre rapaz batia tambem o lagedo n'uma lucta tormentosa
-pela vida. Mas era irlandez; e partiu logo generosamente, armado de
-todos os seus ardis, a conquistar através de Londres o pouco que ellas
-necessitavam para recolher a França. Com effeito appareceu n'essa mesma
-noite, derreado e triumphante, brandindo tres notas de banco e uma
-garrafa de _champagne_. A mamã ao vêr, depois de tantos mezes de chá
-preto, a garrafa de _Clicquot_ encarapuçada de ouro--quasi desmaiou, de
-enternecimento. Enfardelaram os trapos. Ao partirem, na estação de
-_Charing-Cross_, o irlandez levou-a para um canto, e engasgado, torcendo
-os bigodes, disse-lhe que Mac-Gren tinha morrido na batalha de
-Saint-Privat...
-
---Para que te hei de eu contar o resto? Em Paris recomecei a procurar
-trabalho. Mas tudo estava ainda em confusão... Quasi immediatamente veio
-a Communa... Pódes acreditar que muitas vezes tivemos fome. Mas emfim já
-não era Londres, nem o inverno, nem o exilio. Estavamos em Paris,
-soffriamos de companhia com amigos d'outros tempos. Já não parecia tão
-terrivel... Com todas estas privações a pobre Rosa começava a
-definhar... Era um supplicio vêl-a perder as côres, tristinha, mal
-vestida, mettida n'uma trapeira... A mamã já se queixava da doença de
-coração que a matou... O trabalho que eu encontrava, mal pago, dava-nos
-apenas para a renda da casa, e para não morrer absolutamente de
-necessidade... Principiei a adoecer de anciedade, de desespero. Luctei
-ainda. A mamã fazia dó. E Rosa morria se não tivesse outro regimen, bom
-ar, algum conforto... Conheci então Castro Gomes em casa d'uma antiga
-amiga da mamã, que não perdera nada com a guerra, nem com os prussianos,
-e que me dava trabalhos de costura... E o resto sábel-o... Nem eu me
-lembro... Fui levada... Via ás vezes Rosa, coitadinha, embrulhada n'um
-chale, muito quietinha ao seu canto, depois de rapada a sua magra tigela
-de sopas, e ainda com fome...
-
-Não pôde continuar; rompeu a chorar, cahida sobre os joelhos de Carlos.
-E elle na sua emoção só lhe podia dizer, passando-lhe as mãos tremulas
-pelos cabellos, que a havia de desforrar bem de todas as miserias
-passadas...
-
---Escuta ainda, murmurou ella, limpando as lagrimas. Ha só uma coisa
-mais que te quero dizer. E é a santa verdade, juro-te pela alma de Rosa!
-É que n'estas duas relações que tive o meu coração conservou-se
-adormecido... Dormiu sempre, sempre, sem sentir nada, sem desejar nada,
-até que te vi... E ainda te quero dizer outra coisa...
-
-Um momento hesitou, coberta de rubor. Passára os braços em torno de
-Carlos, pendurada toda d'elle, com os olhos mergulhados nos seus. E foi
-mais baixo que balbuciou na derradeira, na absoluta confissão de todo o
-seu sêr:
-
---Além de ter o coração adormecido, o meu corpo permaneceu sempre frio,
-frio como um marmore...
-
-Elle estreitou-a a si arrebatadamente: e os seus labios ficaram collados
-muito tempo, em silencio, completando, n'uma emoção nova e quasi
-virginal, a communhão perfeita das suas almas.
-
-
-
-D'ahi a dias Carlos e Ega vinham n'uma victoria, pela estrada dos
-Olivaes, em caminho da _Toca_.
-
-Toda essa manhã, no Ramalhete, Carlos estivera emfim contando ao Ega o
-impulso de paixão que o lançára de novo e para sempre, como esposo, nos
-braços de Maria; e, na confiança absoluta que o prendia ao Ega,
-revelára-lhe mesmo miudamente a historia d'ella, dolorosa e
-justificadora. Depois, ao acalmar o calor, propoz que fossem comer as
-sopas á _Toca_. Ega deu uma volta pelo quarto, hesitando. Por fim
-começou a passar devagar a escova pelo paletot, murmurando, como durante
-as longas confidencias de Carlos: «É prodigioso!... Que estranha coisa,
-a vida!»
-
-E agora pela estrada, na aragem dôce do rio, Carlos fallava ainda de
-Maria, da vida na _Toca_, deixando escapar do coração muito cheio o
-interminavel cantico da sua felicidade.
-
---É facto, Egasinho, conheço quasi a felicidade perfeita!
-
---E cá na _Toca_ ainda ninguem sabe nada?
-
-Ninguem--a não ser Melanie, a confidente--suspeitava a profunda
-alteração que se fizera nas suas relações: e tinham assentado que miss
-Sarah e o Domingos, primeiras testemunhas da sua amizade, seriam
-régiamente recompensados e despedidos quando em fins de outubro elles
-partissem para Italia.
-
---E ides então casar a Roma?...
-
---Sim... Em qualquer logar onde haja um altar e uma estola. Isso não
-falta em Italia... E é então, Ega, que reapparece o espinho de toda esta
-felicidade. É por isso que eu disse «quasi.» O terrivel espinho, o avô!
-
---É verdade, o velho Affonso. Tu não tens idéa como lhe has de fazer
-conhecer esse caso?...
-
-Carlos não tinha idéa nenhuma. Sentia só que lhe faltava absolutamente a
-coragem de dizer ao avô: «esta mulher, com quem vou casar, teve na sua
-vida estes erros»... E além d'isso, já reflectira, era inutil. O avô
-nunca comprehenderia os motivos complicados, fataes, inilludiveis que
-tinham arrastado Maria. Se lh'os contasse miudamente--o avô veria alli
-um romance confuso e fragil, antipathico á sua natureza forte e candida.
-A fealdade das culpas feril-o-hia, exclusivamente; e não lhe deixaria
-apreciar, com serenidade, a irresistibilidade das causas. Para perceber
-este caso d'um caracter nobre apanhado dentro d'uma implacavel rede de
-fatalidades, seria necessario um espirito mais ductil, mais mundano que
-o do avô... O velho Affonso era um bloco de granito: não se podiam
-esperar d'elle as subtis discriminações d'um casuista moderno. Da
-existencia de Maria só veria o facto tangivel:--cahira successivamente
-nos braços de dois homens. E d'ahi decorreria toda a sua attitude de
-chefe de familia. Para que havia elle pois de fazer ao velho uma
-confissão, que necessariamente originaria um conflicto de sentimentos e
-uma irreparavel separação domestica?...
-
---Pois não te parece, Ega?
-
---Falla mais baixo, olha o cocheiro.
-
---Não percebe bem o portuguez, sobretudo o nosso estylo... Pois não te
-parece?
-
-Ega raspava phosphoros na sola para accender o charuto. E resmungava:
-
---Sim, o velho Affonso é granitico...
-
-Por isso Carlos concebera outro plano, mais sagaz: consistia em esconder
-ao avô o passado de Maria--e fazer-lhe conhecer a pessoa de Maria.
-Casavam secretamente em Italia. Regressavam: ella para a rua de S.
-Francisco, elle filialmente para o Ramalhete. Depois Carlos levava o avô
-a casa da sua boa amiga, que conhecera em Italia, M.^{me} de Mac-Gren.
-Para o prender logo lá estavam os encantos de Maria, todas as graças
-d'um interior delicado e sério, jantarinhos perfeitos, idéas justas,
-Chopin, Beethoven, etc. E, para completar a conquista de quem tão
-enternecidamente adorava crianças, lá estava Rosa... Emfim, quando o avô
-estivesse namorado de Maria, da pequena, de tudo--elle, uma manhã,
-dizia-lhe francamente: «Esta creatura superior e adoravel teve uma quéda
-no seu passado; mas eu casei com ella; e, sendo tal como é, não fiz bem,
-apesar de tudo, em a escolher para minha esposa?» E o avô, perante esta
-terrivel irremediabilidade do facto consummado, com toda a sua
-indulgencia de velho enternecido a defender Maria--seria o primeiro a
-pensar que, se esse casamento não era o melhor segundo as regras do
-mundo, era decerto o melhor segundo os interesses do coração...
-
---Pois não te parece, Ega?
-
-Ega, absorvido, sacudia a cinza do charuto. E pensava que Carlos, em
-resumo, adoptára para com o avô a complicada combinação que Maria
-Eduarda tentára para com elle--e imitava sem o sentir os subtis
-raciocinios d'ella.
-
---E acabou-se, continuava Carlos. Se elle na sua indulgencia aceitar
-tudo, bravo! dá-se uma grande festa no Ramalhete... Senão, foi-se!
-passaremos a viver cada um para seu lado, fazendo ambos prevalecer a
-superioridade de duas coisas excellentes: o avô as tradições do sangue,
-eu os direitos do coração.
-
-E, vendo o Ega ainda silencioso:
-
---Que te parece? Dize lá. Tu andas tão falto de idéas, homem!
-
-O outro sacudiu a cabeça, como despertando.
-
---Queres que te diga o que me parece, com franqueza? Que diabo, nós
-somos dois homens fallando como homens!... Então aqui está: teu avô tem
-quasi oitenta annos, tu tens vinte e sete ou o quer que seja... É
-doloroso dizel-o, ninguem o diz com mais dôr que eu, mas teu avô ha de
-morrer... Pois bem, espera até lá. Não cases. Suppõe que ella tem um pae
-muito velho, teimoso e caturra, que detesta o snr. Carlos da Maia e a
-sua barba em bico. Espera; continúa a vir á _Toca_, na tipoia do Mulato;
-e deixa teu avô acabar a sua velhice calma, sem desillusões e sem
-desgostos...
-
-Carlos torcia o bigode, mudo, enterrado no fundo da victoria. Nunca,
-n'esses dias de inquietação, lhe acudira idéa tão sensata, tão facil!
-Sim, era isso, esperar! Que melhor dever do que poupar ao pobre avô toda
-a dôr?... Maria de certo, como mulher, estava desejando anciosamente a
-conversão do amante no marido pelo laço d'estola que tudo purifica e
-nenhuma força desata. Mas ella mesma preferiria uma consagração
-legal--que não fosse assim precipitada, dissimulada... Depois, tão recta
-e generosa, comprehenderia bem a obrigação suprema de não mortificar
-aquelle santo velho. De resto, não conhecia ella a sua lealdade solida e
-pura como um diamante? Recebera a sua palavra: desde esse momento
-estavam casados, não diante do sacrario e nos registos da sacristia--mas
-diante da honra e na inabalavel communhão dos seus corações...
-
---Tens razão! gritou por fim, batendo no joelho do Ega. Tens
-immensamente razão! Essa idéa é genial! Devo esperar... E emquanto
-espero?...
-
---Como, emquanto esperas? acudiu Ega, rindo. Que diabo! Isso não é
-commigo!
-
-E mais sério:
-
---Emquanto esperas tens esse metal vil que faz a existencia nobre.
-Installas tua mulher, porque desde hoje é tua mulher, aqui nos Olivaes
-ou n'outro sitio, com o gosto, o conforto e a dignidade que competem a
-tua mulher... E deixas-te ir! Nada impede que façaes essa viagem nupcial
-á Italia... Voltas, continúas a fumar a tua _cigarette_ e a deixar-te
-ir. Este é o bom senso: é assim que pensaria o grande Sancho Pansa...
-Que diabo tens tu n'aquelle embrulho que cheira tão bem?
-
---Um ananaz... Pois é isso, querido: esperar, deixar-me ir. É uma idéa!
-
-Uma idéa! e a mais grata ao temperamento de Carlos. Para que iria com
-effeito enredar-se n'uma meada de amarguras domesticas, por um excesso
-de cavalheirismo romantico? Maria confiava n'elle; era rico, era moço; o
-mundo abria-se ante elles facil e cheio de indulgencias. Não tinha senão
-a deixar-se ir.
-
---Tens razão, Ega! E Maria é a primeira a achar isto cheio de senso e
-d'_opportunismo_. Eu tenho uma certa pena em adiar a installação da
-minha vida e do meu _home_. Mas, acabou-se! Antes de tudo que o avô seja
-feliz... E para celebrar o advento d'esta idéa, Deus queira que Maria
-nos tenha um bom jantar!
-
-Agora, ao aproximar-se da _Toca_, Ega ia receando o primeiro encontro
-com Maria Eduarda. Incommodava-o esse enleio, esse rubor que ella não
-poderia occultar--certa que, como confidente de Carlos, elle conhecia a
-sua vida, as suas miserias, as suas relações com Castro Gomes. Por isso
-hesitára em vir á _Toca_. Mas tambem, não apparecer mais a Maria Eduarda
-seria marcar com um relevo quasi offensivo o desejo caridoso de não
-molestar o seu pudor... Por isso decidira «dar o mergulho d'uma vez».
-Quem, senão elle, deveria ser o mais apressado em estender a mão á noiva
-de Carlos?... Além d'isso tinha uma infinita curiosidade de vêr no seu
-interior, á sua mesa, essa creatura tão bella, com a sua graça nobre de
-Deusa moderna! Mas saltou da victoria muito embaraçado.
-
-Por fim tudo se passou com uma facilidade risonha. Maria bordava,
-sentada nos degraus do jardim. Teve um sobresalto, córou toda, com
-effeito, ao avistar o Ega que procurava atarantadamente o monoculo: o
-aperto de mão que trocaram foi mudo e timido: mas Carlos, alegremente,
-desembrulhára o ananaz--e na admiração d'elle todo o constrangimento se
-dissipou.
-
---Oh! é magnifico!
-
---Que côr, que luxo de tons!
-
---E que aroma! Veio perfumando toda a estrada.
-
-Ega não voltára á _Toca_ desde a noite fatal da _soirée_ dos Cohens em
-que elle alli tanto bebera e delirára tanto. E lembrou logo a Carlos a
-jornada na velha traquitana, debaixo d'um temporal, o _grog_ do Craft, a
-ceia de perú...
-
---Já aqui soffri muito, minha senhora, vestido de Mephistopheles!...
-
---Por causa de Margarida?
-
---Por quem se ha de soffrer n'este apaixonado mundo, minha senhora,
-senão por Margarida ou por Fausto?
-
-Mas Carlos quiz que elle admirasse os esplendores novos da _Toca_. E foi
-já com familiaridade que Maria o levou pelas salas, lamentando que só
-viesse assim á _Toca_ no fim do verão e no fim das flôres. Ega
-extasiou-se ruidosamente. Emfim, perdera a _Toca_ o seu ar regelado e
-triste de museu! Já alli se podia palrar livremente!
-
---Isto é um barbaro, Maria! exclamava Carlos radiante. Tem horror á
-arte! É um Ibero, é um Semita...
-
-Semita? Ega prezava-se de ser um luminoso Aryano! E por isso mesmo não
-podia viver n'uma casa, em que cada cadeira tinha a solemnidade
-sorumbatica de antepassados com cabelleira...
-
---Mas, dizia Maria rindo, rodas estas lindas coisas do seculo dezoito
-lembram antes a ligeireza, o espirito, a graça de maneiras...
-
---V. exc.^a acha? acudiu Ega. A mim todos esses dourados, esses
-enramalhetados, esses rococós lembram-me uma vivacidade estouvada e
-sirigaita... Nada! nós vivemos n'uma Democracia! E não ha para exprimir
-a alegria simples, sólida e bonacheirona da Democracia, como largas
-poltronas de marroquim, e o mogno envernizado!...
-
-Assim n'uma risonha, ligeira discussão sobre bric-à-brac, desceram ao
-jardim.
-
-Miss Sarah passeava entre o buxo, de olhos baixos, com um livro fechado
-na mão. Ega, que conhecia já os seus ardores nocturnos, cravou-lhe
-sôfregamente o monoculo; e emquanto Maria se abaixára a cortar um
-geranio, exprimiu a Carlos n'um gesto mudo a sua admiração por aquelle
-beicinho escarlate, aquelle seiosinho redondo de rola farta... Depois,
-ao fundo, junto do caramanchão, encontraram Rosa que se balouçava. Ega
-pareceu deslumbrado com a sua belleza, a sua frescura mate de camelia
-branca. Pediu-lhe um beijo. Ella exigiu primeiro, muito séria, que elle
-tirasse o vidro do olho.
-
---Mas é para te vêr melhor! é para te vêr melhor!...
-
---Então porque não trazes um em cada olho? Assim só me vês metade...
-
-Encantadora! encantadora! murmurava Ega. No fundo achava a pequena
-espevitada e impudente. Maria resplandecia.
-
-E o jantar alargou mais esta intimidade risonha. Carlos, logo á sopa,
-fallando-se de campo e d'um _chalet_ que elle desejava construir em
-Cintra, nos Capuchos, dissera--«quando nos casarmos». E Ega alludiu a
-esse futuro do modo mais grato ao coração de Maria. Agora que Carlos se
-installava para sempre n'uma felicidade estavel (dizia elle) era
-necessario trabalhar! E relembrou então a sua velha idéa do Cenaculo,
-representado por uma _Revista_ que dirigisse a litteratura, educasse o
-gosto, elevasse a politica, fizesse a civilisação, remoçasse o
-carunchoso Portugal... Carlos, pelo seu espirito, pela sua fortuna (até
-pela sua figura, ajuntava o Ega rindo) devia tomar a direcção d'este
-movimento. E que profunda alegria para o velho Affonso da Maia!
-
-Maria escutava, presa e séria. Sentia bem quanto Carlos, com uma vida
-toda de intelligencia e de actividade, rehabilitaria supremamente
-aquella união mostrando-lhe a influencia fecunda e purificadora.
-
---Tem razão, tem bem razão! exclamava ella com ardor.
-
---Sem contar, acrescentava o Ega, que o paiz precisa de nós! Como muito
-bem diz o nosso querido e imbecilissimo Gouvarinho, o paiz não tem
-pessoal... Como ha de tel-o, se nós, que possuimos as aptidões, nos
-contentamos em governar os nossos dog-carts e escrever a vida intima dos
-atomos? Sou eu, minha senhora, sou eu que ando a escrever essa
-biographia d'um atomo!... No fim, este dilettantismo é absurdo. Clamamos
-por ahi, em botequins e livros, «que o paiz é uma choldra». Mas que
-diabo! Porque é que não trabalhamos para o refundir, o refazer ao nosso
-gosto e pelo molde perfeito das nossas idéas?... V. exc.^a não conhece
-este paiz, minha senhora. É admiravel! É uma pouca de cera inerte de
-primeira qualidade. A questão toda está em quem a trabalha. Até aqui a
-cera tem estado em mãos brutas, banaes, toscas, reles, rotineiras... É
-necessario pôl-a em mãos d'artistas, nas nossas. Vamos fazer d'isto um
-_bijou_!...
-
-Carlos ria, preparando n'uma travessa o ananaz com sumo de laranja e
-vinho da Madeira. Mas Maria não queria que elle risse. A idéa do Ega
-parecia-lhe superior, inspirada n'um alto dever. Quasi tinha remorsos,
-dizia ella, d'aquella preguiça de Carlos. E agora, que ia ser cercado de
-affeição serena, queria-o vêr trabalhar, mostrar-se, dominar...
-
---Com effeito, disse o Ega recostado e sorrindo, a era do romance
-findou. E agora...
-
-Mas o Domingos servia o ananaz. E o Ega provou e rompeu em clamores de
-enthusiasmo. Oh que maravilha! Oh que delicia!
-
---Como fazes tu isto? Com Madeira...
-
---E genio! exclamou Carlos. Delicioso, não é verdade? Ora digam-me se
-tudo o que eu pudesse fazer pela civilisação valeria este prato de
-ananaz! É para estas coisas que eu vivo! Eu não nasci para fazer
-civilisação...
-
---Nasceste, acudiu o Ega, para colher as flôres d'essa planta da
-civilisação que a multidão rega com o seu suor! No fundo tambem eu,
-menino!
-
-Não, não! Maria não queria que fallassem assim!
-
---Esses ditos estragam tudo. E o snr. Ega, em logar de corromper Carlos,
-devia inspiral-o...
-
-Ega protestou requebrando o olho, já languido. Se Carlos necessitava uma
-musa inspiradora e benefica--não podia ser elle, bicho com barbas e
-bacharel em leis... A musa estava _toute trouvée_!
-
---Ah, com effeito!... Quantas paginas bellas, quantas nobres idéas se
-não podem produzir n'um paraiso d'estes!...
-
-E o seu gesto molle e acariciador indicava a _Toca_, a quietação dos
-arvoredos, a belleza de Maria. Depois na sala, emquanto Maria tocava um
-nocturno de Chopin e Carlos e elle acabavam os charutos á porta do
-jardim vendo nascer a lua--Ega declarou que, desde o começo do jantar,
-estava com idéas de casar!... Realmente não havia nada como o casamento,
-o interior, o ninho...
-
---Quando penso, menino, murmurou elle mordendo sombriamente o charuto,
-que quasi todo um anno da minha vida foi dado áquella israelita devassa
-que gosta de levar bordoada...
-
---Que faz ella em Cintra? perguntou Carlos.
-
---Ensopa-se na crapula. Não ha a menor duvida que dá todo o seu coração
-ao Damaso... Tu sabes o que n'estes casos significa o termo _coração_...
-Viste já immundicie igual? É simplesmente obscena!
-
---E tu adóral-a, disse Carlos.
-
-O outro não respondeu. Depois, dentro, n'um odio repentino da bohemia e
-do romantismo, entoou louvores sonoros á familia, ao trabalho, aos altos
-deveres humanos--bebendo copinhos de cognac. Á meia noite, ao sahir,
-tropeçou duas vezes na rua d'acacias, já vago, citando Proudhon. E
-quando Carlos o ajudou a subir para a victoria, que elle quiz descoberta
-para ir communicando com a lua, Ega ainda lhe agarrou o braço para lhe
-fallar da _Revista_, d'um forte vento de espiritualidade e de virtude
-viril que se devia fazer soprar sobre o paiz... Por fim, já estirado no
-assento, tirando o chapéo á aragem da noite:
-
---E outra coisa, Carlinhos. Vê se me arranjas a ingleza... Ha vicios
-deliciosos n'aquellas pestanas baixas... Vê se m'a arranjas... Vá lá,
-bate lá, cocheiro! Caramba, que belleza de noite!
-
-
-
-Carlos ficára encantado com este primeiro jantar d'amizade na _Toca_.
-Elle tencionava não apresentar Maria aos seus intimos senão depois de
-casado e á volta de Italia. Mas agora a «união legal» estava já no seu
-pensamento adiada, remota, quasi dispersa no vago. Como dizia o Ega,
-devia esperar, deixar-se ir... E no emtanto, Maria e elle não poderiam
-isolar-se alli todo um longo inverno, sem o calor sociavel d'alguns
-amigos em redor. Por isso uma manhã, encontrando o Cruges, que fôra o
-visinho de Maria e outr'ora lhe dava noticias da «lady ingleza»,
-pediu-lhe para vir jantar á _Toca_ no domingo.
-
-O maestro appareceu n'uma tipoia, á tardinha, de laço branco e de
-casaca: e os fatos claros de campo com que encontrou Carlos e Ega
-começaram logo a enchel-o de mal-estar. Toda a mulher, além das Lolas e
-Conchas, o atarantava, o emmudecia: Maria, «com o seu porte de
-_grande-dame_», como elle dizia, intimidou-o a tal ponto que ficou
-diante d'ella, sem uma palavra, escarlate, torcendo o forro das
-algibeiras. Antes de jantar, por lembrança de Carlos, foram-lhe mostrar
-a quinta. O pobre maestro, roçando a casaca mal feita pela folhagem dos
-arbustos, fazia esforços anciosos por murmurar algum elogio «á belleza
-do sitio»; mas escapavam-lhe então inexplicavelmente coisas reles, em
-calão: «vista catita»! «é pitada»! Depois ficava furioso, coberto de
-suor, sem comprehender como se lhe babavam dos labios esses ditos
-abominaveis, tão contrarios ao seu gosto fino d'artista. Quando se
-sentou á mesa soffria um negrissimo accesso de _spleen_ e mudez! Nem uma
-controversia que Maria arranjára caridosamente para elle sobre Wagner e
-Verdi pôde descerrar-lhe os labios empedernidos. Carlos ainda tentou
-envolvel-o na alegria da mesa--contando a ida a Cintra, quando elle
-procurava Maria na Lawrence, e em vez d'ella achára uma matrona obesa,
-de bigode, de cãosinho ao collo, ralhando com o homem em hespanhol. Mas
-a cada exclamação de Carlos--«Lembras-te, Cruges?», «Não é verdade,
-Cruges?»--o maestro, rubro, grunhia apenas um _sim_ avaro. Terminou por
-estar alli, ao lado de Maria, como um trambolho funebre. Estragou o
-jantar.
-
-Combinára-se para depois do café um passeio pelos arredores, n'um break.
-E Carlos já tomára as guias, Maria na almofada acabava de abotoar as
-luvas--quando Ega, que receava a friagem da tarde, saltou do break,
-correu a buscar o paletot. N'esse mesmo momento sentiram um trote de
-cavallo na estrada--e appareceu o marquez.
-
-Foi uma surpreza para Carlos, que o não vira durante esse verão. O
-marquez parou logo, tirando profundamente, ao vêr Maria, o seu largo
-chapéo desabado.
-
---Imaginava-o pela Gollegã! exclamou Carlos. Foi até o Cruges que me
-disse... Quando chegou vossê?
-
-Chegára na vespera. Lá fôra ao Ramalhete; tudo deserto. Agora vinha aos
-Olivaes vêr um dos Vargas que tinha casado, se installára alli perto, a
-passar o noivado...
-
---Quem, o gordo, o das corridas?
-
---Não, o magro, o das regatas.
-
-Carlos, debruçado da almofada, examinava a egoasita do marquez, pequena,
-bem estampada, d'um baio escuro e bonito.
-
---Isso é novo?
-
---Uma facasita do Darque... Quer-m'a vossê comprar? Sou já um pouco
-pesado para ella, e isto mette-se a um dog-cart...
-
---Dê lá uma volta.
-
-O marquez deu a volta, bem posto na sella, avantajando a egoa. Carlos
-achou-lhe «boas acções». Maria murmurou--«Muito bonita, uma cabeça
-fina...» Então Carlos apresentou o marquez de Souzella a madame
-Mac-Gren. Elle chegou a egoa á roda, descoberto, para apertar a mão a
-Maria: e á espera do Ega que se eternisava lá dentro, ficaram fallando
-do verão, de Santa Olavia, dos Olivaes, da _Toca_... Ha que tempos o
-marquez alli não passava! A ultima vez fôra victima da excentricidade do
-Craft...
-
---Imagine v. exc.^a, disse elle a Maria Eduarda, que esse Craft me
-convida a almoçar. Venho, e o hortelão diz-me que o snr. Craft, criado e
-cozinheiro, tudo partira para o Porto; mas que o snr. Craft deixára um
-cartaz na sala... Vou á sala, e vejo dependurado ao pescoço d'um idolo
-japonez uma folha de papel com estas palavras pouco mais ou menos: «O
-deus Tchi tem a honra de convidar o snr. marquez, em nome de seu amo
-ausente, a passar á sala de jantar onde encontrará, n'um aparador,
-queijo e vinho, que é o almoço que basta ao homem forte.» E foi com
-effeito o meu almoço... Para não estar só, partilhei-o com o hortelão.
-
---Espero que se tivesse vingado! exclamou Maria rindo.
-
---Póde crêr, minha senhora... Convidei-o a jantar, e quando elle
-appareceu, vindo d'aqui da _Toca_, o meu guarda-portão disse-lhe que o
-snr. marquez fôra para longe, e que não havia nem pão nem queijo...
-Resultado: o Craft mandou-me uma duzia de magnificas garrafas de
-Chambertin. Esse deus Tchi nunca mais o tornei a vêr...
-
-O deus Tchi lá estava, obeso e medonho. E, muito naturalmente, Carlos
-convidou o marquez a revisitar n'essa noite, á volta da casa do Vargas,
-o seu velho amigo Tchi.
-
-O marquez veio, ás dez horas--e foi um serão encantador. Conseguiu
-sacudir logo a melancolia do Cruges, arrastando-o com mão de ferro para
-o piano; Maria cantou; palrou-se com graça; e aquelle escondrijo d'amor
-ficou alumiado até tarde, na sua primeira festa de amizade.
-
-Estas reuniões alegres foram ao principio, como dizia o Ega,
-_dominicaes_: mas o outono arrefecia, bem depressa se despiriam as
-arvores da _Toca_, e Carlos accumulou-as duas vezes por semana, nos
-velhos dias feriados da Universidade, domingos e quintas. Tinha
-descoberto uma admiravel cozinheira alsaciana, educada nas grandes
-tradições, que servira o bispo de Strasburgo, e a quem as extravagancias
-d'um filho e outras desgraças tinham arrojado a Lisboa. Maria, de resto,
-punha na composição dos seus jantares uma sciencia delicada: o dia de
-vir á _Toca_ era considerado pelo marquez «dia de civilisação».
-
-A mesa resplandecia; e as tapeçarias representando massas d'arvoredos
-punham em redor como a sombra escura d'um retiro silvestre onde por um
-capricho se tivessem accendido candelabros de prata. Os vinhos sahiam da
-frasqueira preciosa do Ramalhete. De todas as coisas da terra e do céo
-se grulhava com phantasia--menos de «politica portugueza», considerada
-conversa indecorosa entre pessoas de gosto.
-
-Rosa apparecia ao café, exhalando do seu sorriso, dos bracinhos nús, dos
-vestidos brancos tufados sobre as meias de sêda preta, um bom aroma de
-flôr. O marquez adorava-a, disputando-a ao Ega, que a pedira a Maria em
-casamento e lhe andava compondo havia tempo um soneto. Ella preferia o
-marquez: achava o Ega «muito...»--e completava o seu pensamento com um
-gestosinho do dedo ondeado no ar, como a exprimir que o Ega «era muito
-retorcido».
-
---Ahi está! exclamava elle. Porque eu sou mais civilisado que o outro! É
-a simplicidade não comprehendendo o requinte.
-
---Não, desgraçado! exclamavam do lado. É porque és impresso!... É a
-natureza repellindo a convenção!...
-
-Bebia-se á saude de Maria: ella sorria, feliz entre os seus novos
-amigos, divinamente bella, quasi sempre de escuro, com um curto decote
-onde resplandecia o incomparavel esplendor do seu collo.
-
-Depois organisaram-se solemnidades. N'um domingo, em que os sinos
-repicavam e a distancia foguetes esfuziavam no ar--Ega lamentou que os
-seus austeros principios philosophicos o impedissem de festejar tambem
-aquelle santo d'aldeia, que fôra decerto em vida um caturra encantador,
-cheio d'illusões e doçura... Mas de resto, acrescentou, não teria sido
-n'um dia assim, fino e secco, sob um grande céo cheio de sol, que se
-feriu a batalha das Thermopylas? Porque não se atiraria uma girandola de
-foguetes em honra de Leonidas e dos trezentos? E atirou-se a girandola
-pela eterna gloria de Sparta.
-
-Depois celebraram-se outras datas historicas. O anniversario da
-descoberta da Venus de Milo foi commemorado com um balão que ardeu.
-N'outra occasião o marquez trouxe de Lisboa, apinhados n'uma tipoia,
-fadistas famosos, o _Pintado_, o _Vira-vira_ e o _Gago_: e depois de
-jantar, até tarde, com o luar sobre o rio, cinco guitarras choraram os
-ais mais tristes dos fados de Portugal.
-
-Quando estavam sós, Carlos e Maria passavam as suas manhãs no kiosque
-japonez--affeiçoados áquelle primeiro retiro dos seus amores, pequeno e
-apertado, onde os seus corações batiam mais perto um do outro. Em logar
-das esteiras de palha Carlos revestira-o com as suas formosas colchas da
-India, côr de palha e côr de perola. Um dos maiores cuidados d'elle,
-agora, era embellezar a _Toca_: nunca voltava de Lisboa sem trazer
-alguma figurinha de Saxe, um marfim, uma faiança, como noivo feliz que
-aperfeiçôa o seu ninho.
-
-Maria no emtanto não cessava de lembrar os planos intellectuaes do Ega:
-queria que elle trabalhasse, ganhasse um nome: seria isso o orgulho
-intimo d'ella, e sobretudo a alegria suprema do avô. Para a contentar
-(mais que para satisfazer as suas necessidades de espirito) Carlos
-recomeçára a compôr alguns dos seus artigos de medicina litteraria para
-a _Gazeta Medica_. Trabalhava no kiosque, de manhã. Trouxera para lá
-rascunhos, livros, o seu famoso manuscripto da _Medicina antiga e
-moderna_. E por fim achára um grande encanto em estar alli, com um leve
-casaco de sêda, as suas cigarettes ao lado, um fresco murmurio de
-arvoredo em redor--cinzelando as suas phrases, emquanto ella ao lado
-bordava silenciosa. As suas idéas surgiam com mais originalidade, a sua
-fórma ganhava em colorido, n'aquelle estreito kiosque assetinado que
-ella perfumava com a sua presença. Maria respeitava este trabalho como
-coisa nobre e sagrada. De manhã, ella mesma espanejava os livros do leve
-pó que a aragem soprava pela janella; dispunha o papel branco, punha
-cuidadosamente pennas novas; e andava bordando uma almofada de pennas e
-setim para que o trabalhador estivesse mais confortavel na sua vasta
-cadeira de couro lavrado.
-
-Um dia offerecera-se a passar a limpo um artigo. Carlos, enthusiasmado
-com a letra d'ella, quasi comparavel á lendaria letra do Damaso,
-occupava-a agora incessantemente como copista, sentindo mais amor por um
-trabalho a que ella se associava. Quantos cuidados se dava a dôce
-creatura! Tinha para isso um papel especial, d'um tom macio de marfim:
-e, com o dedinho no ar, ia desenrolando as pesadas considerações de
-Carlos sobre o Vitalismo e o Transformismo na graça delicada d'uma
-renda... Um beijo pagava-a de tudo.
-
-Ás vezes Carlos dava lições a Rosa--ora de historia, contando-lh'a
-familiarmente como um conto de fadas; ora de geographia, interessando-a
-pelas terras onde vivem gentes negras, e pelos velhos rios que correm
-entre as ruinas dos santuarios. Isto era o prazer mais alto de Maria.
-Séria, muda, cheia de religião, escutava aquelle sêr bem-amado ensinando
-sua filha. Deixava escapar das mãos o trabalho--e o interesse de Carlos,
-a enlevada attenção de Rosa sentada aos pés d'elle, bebendo aquellas
-bellas historias de Joanna d'Arc ou das caravellas que foram á India,
-fazia resplandecer nos seus olhos uma nevoa de lagrimas felizes...
-
-
-
-Desde o meado d'outubro Affonso da Maia fallava da sua partida de Santa
-Olavia, retardada apenas por algumas obras que começára na parte velha
-da casa e nas cocheiras: porque ultimamente invadira-o a paixão de
-edificar--sentindo-se remoçar, como elle dizia, no contacto das madeiras
-novas e no cheiro vivo das tintas. Carlos e Maria pensavam tambem em
-abandonar os Olivaes. Carlos não poderia por dever domestico permanecer
-alli installado desde que o avô recolhesse ao Ramalhete. Além d'isso
-aquelle fim d'outono ia escuro e agreste; e a _Toca_ era agora pouco
-bucolica, com a quinta desfolhada e alagada, uma nevoa sobre o rio, e um
-fogão unico no gabinete de cretones--além da sumptuosa chaminé da sala
-de jantar, que, por entre os seus Nubios d'olhos de crystal, soltava uma
-fumaraça odiosa quando o Domingos a tentava accender.
-
-N'uma d'essas manhãs, Carlos, que ficára até tarde com Maria, e depois
-no seu delgado casebre mal pudera dormir com um temporal de vento e agua
-desencadeado de madrugada--ergueu-se ás nove horas, veio á _Toca_. As
-janellas do quarto de Maria conservavam-se ainda cerradas; a manhã
-clareára; a quinta lavada, meio despida, no ar fino e azul, tinha uma
-linda e silenciosa graça d'inverno. Carlos passeava, olhando os vasos
-onde os chrysanthemos floriam, quando retiniu a sineta do portão. Era o
-toque do carteiro. Justamente elle escrevera dias antes ao Cruges,
-perguntando se estaria desoccupado para os primeiros frios de dezembro o
-andar da rua de S. Francisco: e, esperando carta do maestro, foi abrir,
-acompanhado por _Niniche_. Mas o correio, n'essa manhã, consistia apenas
-n'uma carta do Ega e dois numeros de jornal cintados--um para elle,
-outro para «Madame Castro Gomes, na quinta do snr. Craft, aos Olivaes».
-
-Caminhando sob as acacias, Carlos abriu a carta do Ega. Era da vespera,
-com a data «á noite, á pressa». E dizia: «--Lê, n'esse trapo que te
-mando, esse superior pedaço de prosa que lembra Tacito. Mas não te
-assustes; eu supprimi, mediante pecunia, toda a tiragem, com excepção de
-dois numeros mais que foram, um para a _Toca_, outro (oh logica suprema
-dos habitos constitucionaes!) para o Paço, para o chefe do Estado!...
-Mas esse mesmo não chegará ao seu destino. Em todo o caso desconfio de
-que esgôto sahiu esse enxurro e precisamos providenciar! Vem já!
-Espero-te até ás duas. E, como Iago dizia a Cassio--_mette dinheiro na
-bolsa_.»
-
-Inquieto, Carlos descintou o jornal. Chamava-se a _Corneta do Diabo_: e
-na impressão, no papel, na abundancia dos _italicos_, no typo gasto,
-todo elle revelava immundicie e malandrice. Logo na primeira pagina duas
-cruzes a lapis marcavam um artigo que Carlos, n'um relance, viu
-salpicado com o seu nome. E leu isto: «--Ora viva, _sô_ Maia! Então já
-se não vai ao consultorio, nem se vêem os doentes do bairro, _sô_
-janota?--Esta piada era botada no Chiado, á porta da Havaneza, ao Maia,
-ao Maia dos cavallos inglezes, um tal Maia do Ramalhete, que abarrota
-por ahi de _catita_; e o pai Paulino _que tem olho_ e que passava n'essa
-occasião ouviu a seguinte _cornetada_:--É que o _sô_ Maia acha _que é
-mais quente_ viver nas fraldas d'uma _brazileira casada_, que nem é
-brazileira nem é casada, e a quem o papalvo poz casa, ahi para o lado
-dos Olivaes, para _estar ao fresco_! Sempre os ha n'este mundo!... Pensa
-o homem que botou conquista; e cá a rapaziada de gosto ri-se, porque o
-que a gaja lhe quer não são os lindos olhos, são as lindas _louras_... O
-simplorio, que bate ahi pilecas _bifes_, que nem que fosse o _marquez_,
-o verdadeiro Marquez, imaginava que se estava abiscoitando com uma
-senhora do _chic_, e do boulevard de Paris, e casada, e titular!... E no
-fim (não, esta é para a gente deixar estoirar o bandulho a rir!) no fim
-descobre-se que a typa era uma _cocotte_ safada, que trouxe para ahi um
-brazileiro _já farto d'ella_ para a passar cá aos bellos lusitanos... E
-cahiu a espiga ao Maia! Pobre palerma! Ainda assim o _sô_ Maia só
-apanhou os restos d'outro, porque a _typa_, já antes d'elle se enfeitar,
-tinha _pandegado á larga_, ahi para a rua de S. Francisco, com um rapaz
-da fina, que se safou tambem, porque cá como nós só _aprecia a bella
-hespanhola_. Mas não obsta a que o _sô_ Maia seja traste!--Pois se assim
-é, dissemos nós, cautelinha, porque o diabo cá tem a sua _Corneta_
-preparada para cornetear por esse mundo as façanhas do _Maia das
-conquistas_. Ora viva, _sô_ Maia!»
-
-Carlos ficou immovel entre as acacias, com o jornal na mão, no espanto
-furioso e mudo d'um homem que subitamente recebe na face uma grossa
-chapada de lôdo! Não era a cólera de vêr o seu amor assim aviltado na
-publicidade chula d'um jornal sordido: era o horror de sentir aquellas
-phrases em calão, pandilhas, afadistadas, como só Lisboa as póde crear,
-pingando fetidamente, á maneira de sebo, sobre si, sobre Maria, sobre o
-esplendor da sua paixão... Sentia-se todo emporcalhado. E uma unica idéa
-surgia através da sua confusão--matar o bruto que escrevera aquillo.
-
-Matal-o! Ega sustára a tiragem da folha, Ega pois conhecia o
-folliculario. Nada importava que aquelles numeros, que tinha na mão,
-fossem os unicos impressos. Recebera lama na face. Que a injuria fosse
-espalhada nas praças n'uma profusa publicidade ou lhe fosse atirada só a
-elle escondidamente n'um papel unico, era igual... Quem tanto ousára
-tinha de cahir, esmagado!
-
-Decidiu ir logo ao Ramalhete. O Domingos á janella da cozinha areava
-pratas, assobiando. Mas quando Carlos lhe fallou de ir buscar um
-calhambeque aos Olivaes, o bom Domingos consultou o relogio:
-
---V. exc.^a tem ás onze horas a caleche do _Torto_ que a senhora mandou
-cá estar para ir a Lisboa...
-
-Carlos, com effeito, recordou-se que Maria na vespera planeára ir á
-Aline e aos livreiros. Uma contrariedade, justamente n'esse dia em que
-elle precisava ficar livre--elle e a sua bengala! Mas Melanie, passando
-então com um jarro d'agua quente, disse que a senhora ainda se não
-vestira, que talvez nem fosse a Lisboa... E Carlos recomeçou a passear,
-no tapete de relva, entre as nogueiras.
-
-Sentou-se por fim no banco de cortiça, descintou a _Corneta_
-sobrescriptada para Maria, releu lentamente a prosa immunda: e, n'esse
-numero que lhe fôra destinado a ella, todo aquelle calão lhe pareceu
-mais ultrajante, intoleravel, punivel só com sangue. Era monstruoso, na
-verdade, que sobre uma mulher, quieta, innoffensiva no silencio da sua
-casa, alguem ousasse tão brutalmente arremessar esse lôdo ás mãos
-cheias! E a sua indignação alargava-se do folliculario que babára
-aquillo--até á sociedade que, na sua decomposição, produzira o
-folliculario. Decerto toda a cidade soffria a sua vermina... Mas só
-Lisboa, só a horrivel Lisboa, com o seu apodrecimento moral, o seu
-rebaixamento social, a perda inteira do bom-senso, o desvio profundo do
-bom gosto, a sua pulhice e o seu calão, podia produzir uma _Corneta do
-Diabo_.
-
-E, no meio d'esta alta cólera de moralista, uma dôr perpassava, precisa
-e dilacerante. Sim, toda a sociedade de Lisboa fazia um monturo sordido
-n'este canto do mundo--mas, em summa, havia no artigo da _Corneta_ uma
-calumnia? Não. Era o passado de Maria, que ella arrancára de si como um
-vestido rôto e sujo, que elle mesmo enterrára muito fundo, deitando-lhe
-por cima o seu amor e o seu nome--e que alguem desenterrava para o
-mostrar bem alto ao sol, com as suas manchas e os seus rasgões... E isto
-agora ameaçava para sempre a sua vida como um terror sobre ella
-suspenso. Debalde elle perdoára, debalde elle esquecera. O mundo em
-redor sabia. E a todo o tempo o interesse ou a perversidade poderiam
-refazer o artigo da _Corneta_.
-
-Ergueu-se, abalado. E então alli, sob essas arvores desfolhadas, onde
-durante o verão, quando ellas se enchiam de sombra e de murmurio, elle
-passeára com Maria, esposa eleita da sua vida--Carlos perguntou pela vez
-primeira a si mesmo se a honra domestica, a honra social, a pureza dos
-homens de quem descendia, a dignidade dos homens que d'elle descendessem
-lhe permittiam em verdade casar com ella...
-
-Dedicar-lhe toda a sua affeição, toda a sua fortuna, certamente! Mas
-casar... E se tivesse um filho? O seu filho, já homem, altivo e puro,
-poderia um dia lêr n'uma _Corneta do Diabo_ que sua mãi fôra amante d'um
-brazileiro, depois de ser amante d'um irlandez. E se seu filho lhe
-viesse gritar, n'uma bella indignação, «é uma calumnia?»--elle teria de
-baixar a cabeça, murmurar--«é uma verdade!» E seu filho veria para
-sempre collada a si aquella mãi de quem o mundo ignorava os martyrios e
-os encantos--mas de quem conhecia cruelmente os erros.
-
-E ella mesma! Se elle appellasse para a sua razão, alta e tão recta,
-mostrando-lhe as zombarias e as affrontas de que uma vil _Corneta do
-Diabo_ poderia um dia trespassar o filho que d'elles nascesse--ella
-mesma o desligaria alegremente do seu voto, contente em entrar no
-Ramalhete pela escadinha secreta forrada de velludo côr de cereja,
-comtanto que em cima a esperasse um amor constante e forte... Nunca ella
-tornára, em todo o verão, a alludir a uma união differente d'essa em que
-os seus corações viviam tão lealmente, tão confortavelmente. Não, Maria
-não era uma devota, preoccupada «do peccado mortal»! Que lhe podia
-importar a estola banal do padre?...
-
-Sim; mas elle que lhe pedira essa consagração na hora mais commovida do
-seu longo amor, iria dizer-lhe agora--«foi uma criancice, não pensemos
-mais n'isso, desculpa?» Não; nem o seu coração o desejava! Antes pendia
-todo para ella... Pendia todo para ella, n'um enternecimento mais
-generoso e mais quente--emquanto a sua razão assim arengava, cautelosa e
-austera. Elle tinha n'aquella alma o seu culto perfeito, n'aquelles
-braços a sua voluptuosidade magnifica; fóra d'alli não havia felicidade;
-a unica sabedoria era prender-se a ella pelo derradeiro elo, o mais
-forte, o seu nome, embora as _Cornetas do Diabo_ atroassem todo o ar. E
-assim affrontaria o mundo n'uma soberba revolta, affirmando a
-omnipotencia, o reino unico da Paixão... Mas primeiro mataria o
-folliculario!--Passeava, esmagava a relva. E todos os seus pensamentos
-se resolviam por fim em furia contra o infame que babára sobre o seu
-amor, e durante um instante introduzia na sua vida tanta incerteza e
-tanto tormento!
-
-Maria ao lado abriu a janella. Estava vestida d'escuro para sahir; e
-bastou o brilho terno do seu sorriso, aquelles hombros a que o estofo
-justo modelava a belleza cheia e quente--para que Carlos detestasse logo
-as duvidas desleaes e covardes, a que se abandonára um momento sob as
-arvores desfolhadas... Correu para ella. O beijo que lhe deu, lento e
-mudo, teve a humildade d'um perdão que se implora.
-
---Que tens tu, que estás tão sério?
-
-Elle sorriu. Sério, no sentido de solemne, não estava. Talvez seccado.
-Recebera uma carta do Ega, uma das eternas complicações do Ega. E
-precisava ir a Lisboa, ficar lá naturalmente toda a noite...
-
---Toda a noite? exclamou ella com um desapontamento, pousando-lhe as
-mãos sobre os hombros.
-
---Sim, é bem possivel, um horror! Nos negocios do Ega ha fatalmente o
-inesperado... Tu com effeito vaes a Lisboa?
-
---Agora, com mais razão... Se me queres.
-
---O dia está bonito... Mas ha de fazer frio na estrada.
-
-Maria justamente gostava d'esses dias d'inverno, cheios de sol, com um
-arzinho vivo e arripiado. Tornavam-n'a mais leve, mais esperta.
-
---Bem, bem, disse Carlos atirando o cigarro. Vamos ao almoço, minha
-filha... O pobre Ega deve estar a uivar de impaciencia.
-
-Emquanto Maria correra a apressar o Domingos--Carlos, através da relva
-humida, foi ainda lentamente até ao renque baixo d'arbustos que
-d'aquelle lado fechava a _Toca_ como uma sebe. Ahi a collina descia, com
-quintarolas, muros brancos, olivedos, uma grande chaminé de fabrica que
-fumegava: para além era o azul fino e frio do rio: depois os montes,
-d'um azul mais carregado, com a casaria branca da povoação aninhada á
-beira da agua, nitida e suave na transparencia do ar macio. Parou um
-momento, olhando. E aquella aldeia de que nunca soubera o nome, tão
-quieta e feliz na luz, deu a Carlos um desejo repentino de socego e de
-obscuridade, n'um canto assim do mundo, á beira d'agua, onde ninguem o
-conhecesse nem houvesse _Cornetas do Diabo_, e elle pudesse ter a paz
-d'um simples e d'um pobre debaixo de quatro telhas, no seio de quem
-amava...
-
-Maria gritou por elle da janella da sala de jantar, onde se debruçára a
-apanhar uma das ultimas rosas trepadeiras que ainda floriam.
-
---Que lindo tempo para viajar, Maria!--disse Carlos chegando, através da
-relva.
-
---Lisboa é tambem muito linda, agora, havendo sol...
-
---Pois sim, mas o Chiado, a coscovilhice, os politiquetes, as gazetas,
-todos os horrores... A mim está-me positivamente a appetecer uma cubata
-na Africa!
-
-O almoço, por fim, foi demorado. Ia bater uma hora quando a caleche do
-_Torto_ começou a rolar na estrada, ainda encharcada da chuva da noite.
-Logo adiante da villa, na descida, cruzaram um coupé que trepava n'um
-trote esfalfado. Maria julgou avistar n'elle de relance o chapéo branco
-e o monoculo do Ega... Pararam. E era com effeito o Ega, que reconhecera
-tambem a caleche da _Toca_, vinha já saltitando as lamas com longas
-pernadas de cegonha, chamando por Carlos.
-
-Ao vêr Maria ficou atrapalhado:
-
---Que bella surpreza! Eu ia para lá... Vi o dia tão bonito, disse
-commigo...
-
---Bem, paga a tua tipoia, vem comnosco! atalhou Carlos que trespassava o
-Ega, com os olhos inquietos, querendo adivinhar o motivo d'aquella
-brusca chegada aos Olivaes.
-
-Quando entrou para a caleche, tendo pago o batedor, Ega, embaraçado, sem
-poder desabafar diante de Maria sobre o caso da _Corneta_, começou, sob
-os olhos de Carlos que o não deixavam, a fallar do inverno, das
-inundações do Riba-Tejo... Maria lêra. Uma desgraça, duas crianças
-afogadas nos berços, gados perdidos, uma grande miseria! Por fim Carlos
-não se conteve:
-
---Eu lá recebi a tua carta...
-
-Ega acudiu:
-
---Arranja-se tudo! Está tudo combinado! E com effeito eu não vim senão
-por um sentimento bucolico...
-
-Muito discretamente Maria olhára para o rio. Ega fez então um gesto
-rapido com os dedos significando «dinheiro, só questão de dinheiro».
-Carlos socegou: e Ega voltou a fallar dos inundados do Riba-Tejo e do
-sarau litterario e artistico que em beneficio d'elles se «ia commetter»
-no salão da Trindade... Era uma vasta solemnidade official. Tenores do
-parlamento, rouxinoes da litteratura, pianistas ornados com o habito de
-S. Thiago, todo o pessoal canoro e sentimental do constitucionalismo _ia
-entrar em fogo_. Os reis assistiam, já se teciam grinaldas de camelias
-para pendurar na sala. Elle, apesar de demagogo, fôra convidado para lêr
-um episodio das _Memorias d'um Atomo_: recusára-se, por modestia, por
-não encontrar nas _Memorias_ nada tão sufficientemente palerma que
-agradasse á capital. Mas lembrára o Cruges; e o _maestro_ ia ribombar ou
-arrulhar uma das suas _Meditações_. Além d'isso havia uma poesia social
-pelo Alencar. Emfim, tudo prenunciava uma immensa orgia...
-
---E a snr.^a D. Maria, acrescentou elle, devia ir!... É summamente
-pittoresco. Tinha v. exc.^a occasião de vêr todo o Portugal romantico e
-liberal, _à la besogne_, engravatado de branco, dando tudo que tem
-n'alma!
-
---Com effeito devias ir, disse Carlos, rindo. Demais a mais se o Cruges
-toca, se o Alencar recita, é uma festa nossa...
-
---Pois está claro! gritou Ega, procurando o monoculo, já excitado. Ha
-duas coisas que é necessario vêr em Lisboa... Uma procissão do Senhor
-dos Passos e um sarau poetico!
-
-Rolavam então pelo largo do Pelourinho. Carlos gritou ao cocheiro que
-parasse no começo da rua do Alecrim: elles apeavam-se e tomavam de lá o
-americano para o Ramalhete.
-
-Mas a tipoia estacou antes da calçada, rente ao passeio, em frente d'uma
-loja de alfaiate. E n'esse instante achava-se ahi parado, calçando as
-suas luvas pretas, um velho alto, de longas barbas d'apostolo, todo
-vestido de luto. Ao vêr Maria, que se inclinára á portinhola, o homem
-pareceu assombrado; depois, com uma leve côr na face larga e pallida,
-tirou gravemente o chapéo, um immenso chapéo de abas recurvas, á moda de
-1830, carregado de crepe.
-
---Quem é? perguntou Carlos.
-
---É o tio do Damaso, o Guimarães, disse Maria, que córára tambem. É
-curioso, elle aqui!
-
-Ah, sim! o famoso Mr. Guimarães, o do _Rappel_, o intimo de Gambetta!
-Carlos recordava-se de ter já encontrado aquelle patriarcha no Price com
-o Alencar. Comprimentou-o tambem; o outro ergueu de novo com uma
-gravidade maior o seu sombrio chapéo de carbonario. Ega entalára
-vivamente o monoculo para examinar esse lendario tio do Damaso, que
-ajudava a governar a França: e depois de se despedirem de Maria, quando
-a caleche já subia a rua do Alecrim e elles atravessavam para o Hotel
-Central, ainda se voltou seduzido por aquelles modos, aquellas barbas
-austeras de revolucionario...
-
---Bom typo! E que magnifico chapéo, hein! D'onde diabo o conhece a
-snr.^a D. Maria?
-
---De Paris... Este Mr. Guimarães era muito da mãi d'ella. A Maria já me
-tinha fallado n'elle. É um pobre diabo. Nem amigo de Gambetta, nem coisa
-nenhuma... Traduz noticias dos jornaes hespanhoes para o _Rappel_, e
-morre de fome...
-
---Mas então, o Damaso?
-
---O Damaso é um trapalhão. Vamos nós ao nosso caso... Essa immundicie
-que me mandaste, a _Corneta_? Dize lá.
-
-Seguindo devagar pelo Aterro, Ega contou a historia da immundicie. Fôra
-na vespera á tarde que recebera no Ramalhete a _Corneta_. Elle já
-conhecia o papelucho, já privára mesmo com o proprietario e redactor--o
-Palma, chamado Palma _Cavallão_ para se distinguir d'outro benemerito
-chamado Palma _Cavallinho_. Comprehendeu logo que se a prosa era do
-Palma a inspiração era alheia. O Palma nada sabia de Carlos, nem de
-Maria, nem da casa da rua de S. Francisco, nem da _Toca_... Não era
-natural que escrevesse por deleite intellectual um documento que só lhe
-podia render desgostos e bengaladas. O artigo, pois, fôra-lhe
-simplesmente encommendado e pago. No terreno do dinheiro vence sempre
-quem tem mais dinheiro. Por este solido principio correra a procurar o
-Palma _Cavallão_ no seu antro.
-
---Tambem lhe conheces o antro? perguntou Carlos, com horror.
-
---Tanto não... Fui perguntar á secretaria da Justiça a um sujeito que
-esteve associado com elle n'um negocio de _Almanachs religiosos_...
-
-Fôra pois ao antro. E encontrára as coisas dispostas pelas mãos habeis
-d'uma Providencia amiga. Primeiramente, depois de imprimir cinco ou seis
-numeros, a machina, esfalfada na pratica d'aquellas maroteiras,
-desmanchára-se. Além d'isso o bom Palma estava furioso com o cavalheiro
-que lhe encommendára o artigo, por divergencia na seriissima questão de
-pecunia. De sorte que apenas elle propôz comprar a tiragem do jornal--o
-jornalista estendeu logo a mão larga, d'unhas roídas, tremendo de
-reconhecimento e de esperança. Dera-lhe cinco libras que tinha, e a
-promessa de mais dez...
-
---É caro, mas que queres? continuou o Ega. Deixei-me atarantar, não
-regateei bastante... E emquanto a dizer quem é o cavalheiro que
-encommendou o artigo, o Palma, coitado, affirma que tem uma rapariga
-hespanhola a sustentar, que o senhorio lhe levantou o aluguer da casa,
-que Lisboa está carissima, que a litteratura n'este desgraçado paiz...
-
---Quanto quer elle?
-
---Cem mil reis. Mas, ameaçando-o com a policia, talvez desça a quarenta.
-
---Promette os cem, promette tudo, comtanto que eu tenha o nome... Quem
-te parece que seja?
-
-Ega encolheu os hombros, deu um risco lento no chão com a bengala. E
-mais lentamente ainda foi considerando que o inspirador da _Corneta_
-devia ser alguem familiar com Castro Gomes; alguem frequentador da rua
-de S. Francisco; alguem conhecedor da _Toca_; alguem que tinha, por
-ciume ou vingança, um desejo ferrenho de magoar Carlos; alguem que sabia
-a historia de Maria; e emfim alguem que era um covarde...
-
---Estás a descrever o Damaso! exclamou Carlos, pallido e parando.
-
-Ega encolheu de novo os hombros, tornou a riscar o chão:
-
---Talvez não... Quem sabe! Emfim, nós vamos averigual-o com certeza,
-porque, para terminar a negociação, fiquei de me ir encontrar com o
-Palma ás tres horas no _Lisbonense_... E o melhor é vires tambem. Trazes
-tu dinheiro?
-
---Se fôr o Damaso, mato-o! murmurou Carlos.
-
-E não trazia sufficiente dinheiro. Tomaram uma tipoia para correr ao
-escriptorio do Villaça. O procurador fôra a Mafra, a um baptisado.
-Carlos teve de ir pedir cem mil reis ao velho Cortez, alfaiate do avô.
-Quando perto das quatro horas se apearam á entrada do _Lisbonense_, no
-largo de Santa Justa, o Palma no portal, com um jaquetão de velludo
-coçado e calça de casimira clara collada á côxa, accendia um cigarro.
-Estendeu logo rasgadamente a mão a Carlos--que lhe não tocou. E Palma
-_Cavallão_, sem se offender, com a mão abandonada no ar, declarou que ia
-justamente sahir, cançado já de esperar em cima diante d'um _grog_ frio.
-De resto sentia que o snr. Maia se incommodasse em vir alli...
-
---Eu arranjava cá o negociosinho com o amigo Ega... Em todo o caso, se
-os senhores querem, vamos lá p'ra cima para um gabinete, que se está
-mais á vontade, e toma-se outra bebida.
-
-Subindo a escada lobrega, Carlos recordava-se de ter já visto aquella
-luneta de vidros grossos, aquella cara balofa côr de cidra... Sim, fôra
-em Cintra, com o Eusebiosinho e duas hespanholas, n'esse dia em que elle
-farejára pelas estradas silenciosas, como um cão abandonado, procurando
-Maria!... Isto tornou-lhe mais odioso o snr. Palma. Em cima entraram
-n'um cubiculo, com uma janella gradeada por onde resvalava uma luz suja
-de saguão. Na toalha da mesa, salpicada de gordura e vinho, alguns
-pratos rodeavam um galheteiro que tinha moscas no azeite. O snr. Palma
-bateu as palmas, mandou vir genebra. Depois dando um grande puxão ás
-calças:
-
---Pois eu espero que me acho aqui entre cavalheiros. Como eu já disse cá
-ao amigo Ega, em todo este negocio...
-
-Carlos atalhou-o, tocando muito significativamente com a ponteira da
-bengala na borda da mesa.
-
---Vamos ao ponto essencial... Quanto quer o snr. Palma por me dizer quem
-lhe encommendou o artigo da _Corneta_?
-
---Dizer quem o encommendou, e proval-o! acudiu o Ega, que examinava na
-parede uma gravura onde havia mulheres núas á beira d'agua. Não nos
-basta o nome... O amigo Palma, está claro, é de toda a confiança... Mas
-emfim, que diabo, não é natural que nós acreditassemos se o amigo nos
-dissesse que tinha sido o snr. D. Luiz de Bragança!
-
-Palma encolheu os hombros. Está visto que havia de dar provas. Elle
-podia ter outros defeitos, trapalhão não! Em negocios era todo franqueza
-e lisura... E, se se entendessem, alli as entregava logo, essas provas
-que lhe estavam enchendo o bolsinho, pimponas e d'escachar! Tinha a
-carta do amigo que lhe encommendára a piada: a lista das pessoas a quem
-se devia mandar a _Corneta_: o rascunho do artigo a lapis...
-
---Quer cem mil reis por tudo isso? perguntou Carlos.
-
-O Palma ficou um momento indeciso, ageitando as lunetas com os dedos
-molles. Mas o criado veio trazer a garrafa da genebra: e então o
-redactor da _Corneta_ offereceu a «bebida» rasgadamente, puxou mesmo
-cadeiras para aquelles cavalheiros abancarem. Ambos recusaram--Carlos de
-pé junto da mesa onde terminára por pousar a bengala, Ega passando a
-outra gravura onde dois frades se emborrachavam. Depois, quando o criado
-sahiu, Ega acercou-se, tocou com bonhomia no hombro do jornalista:
-
---Cem mil reis são uma linda somma, Palma amigo! E olhe que se lhe
-offerecem por delicadeza comsigo. Porque artiguinhos como este da
-_Corneta_, apresentados na Boa-Hora, levam á grilheta!... Está claro,
-este caso é outro, vossê não teve intenção d'offender; mas levam á
-grilheta!... Foi assim que o Severino marchou para a Africa. Alli no
-porãosinho d'um navio, com ração de marujo e chibatadas. Desagradavel,
-muito desagradavel. Por isso eu quiz que tratassemos isto aqui, entre
-cavalheiros, e em amizade.
-
-Palma, com a cabeça baixa, desfazia torrões de assucar dentro do copo de
-genebra. E suspirou, findou por dizer, um pouco murcho, que era por ser
-entre cavalheiros, e com amizade, que aceitava os cem mil reis...
-
-Immediatamente Carlos tirou da algibeira das calças um punhado de
-libras, que começou a deixar cahir em silencio uma a uma dentro d'um
-prato. E Palma _Cavallão_, agitado com o tinir do ouro, desabotoou logo
-o jaquetão, sacou uma carteira onde reluzia um pesado monogramma de
-prata sob uma enorme corôa de visconde. Os dedos tremiam-lhe; por fim
-desdobrou, estendeu tres papeis sobre a mesa. Ega, que esperava, com o
-monoculo sôfrego, teve um brado de triumpho. Reconhecera a letra do
-Damaso!
-
-Carlos examinou os papeis lentamente. Era uma carta do Damaso ao Palma,
-curta e em calão, remettendo o artigo, recommendando-lhe «que o
-apimentasse». Era o rascunho do artigo, laboriosamente trabalhado pelo
-Damaso, com entrelinhas. Era a lista, escripta pelo Damaso, das pessoas
-que deviam receber a _Corneta_: vinha lá a Gouvarinho, o ministro do
-Brazil, D. Maria da Cunha, El-Rei, todos os amigos do Ramalhete, o
-Cohen, varias authoridades, e a Fancelli prima-donna...
-
-Palma no emtanto, nervoso, rufava com os dedos sobre a toalha, junto ao
-prato onde reluziam as libras. E foi o Ega que o animou, depois de
-relancear os olhos aos documentos por cima do hombro de Carlos:
-
---Recolha o bago, amigo Palma! Negocios são negocios, e o baguinho está
-ahi a arrefecer!
-
-Então, ao palpar o ouro, Palma _Cavallão_ commoveu-se. Palavra, caramba,
-se soubesse que se tratava d'um cavalheiro como o snr. Maia não tinha
-aceitado o artigo! Mas então!... Fôra o Eusebio Silveira, rapaz amigo,
-que lhe viera fallar. Depois o Salcede. E ambos com muitas lérias, e que
-era uma brincadeira, e que o Maia não se importava, e isto e aquillo, e
-muita promessa... Emfim deixára-se tentar. E tanto o Salcede como o
-Silveira se tinham portado pulhamente.
-
---Foi uma sorte que se escangalhasse a machina! Senão estava agora
-entalado, irra! E tinha desgosto, palavra, caramba, tinha desgosto! Mas
-acabou-se! O mal não foi grande, e sempre se fez alguma coisa pela porca
-da vida.
-
-Vivamente, com um olhar, recontára o dinheiro na palma da mão: depois
-esvaziou a genebra, d'um trago consolado e ruidoso. Carlos guardára as
-cartas do Damaso, levantava já o fecho da porta. Mas voltou-se ainda,
-n'uma derradeira averiguação:
-
---Então esse meu amigo Eusebio Silveira tambem se metteu no negocio?...
-
-O snr. Palma, muito lealmente, afiançou que o Eusebio lhe fallára apenas
-em nome do Damaso!
-
---O Eusebio, coitado, veio só como embaixador... Que o Damaso e eu não
-vamos muito na mesma bola. Ficámos exquisitos, desde uma péga em casa da
-Biscainha. Aqui p'ra nós, eu prometti-lhe dois estalos na cara, e elle
-embuchou. Passados tempos tornámos a fallar, quando eu fazia o
-_High-life_ na _Verdade_. Elle veio-me pedir com bons modos, em nome do
-conde de Landim, para eu dar umas piadas catitas sobre um baile
-d'annos... Depois, quando o Damaso fez tambem annos, eu dei outra
-piadita. Elle pagou a ceia, ficámos mais calhados... Mas é traste... E
-lá o Eusebiosinho, coitado, veio só d'embaixador.
-
-Sem uma palavra, sem um aceno ao Palma, Carlos virou as costas, deixou o
-cubiculo. O redactor da _Corneta_ ainda baixou a cabeça para a porta;
-depois, sem se offender, voltou alegremente á genebra, dando outro puxão
-ás calças. Ega no emtanto accendia devagar o charuto.
-
---Vossê agora é que redige o jornal todo, Palma?
-
---O Silvestre, tambem...
-
---Que Silvestre?
-
---O que está com a _Pingada_. Vossê não conhece, creio eu. Um rapazola
-magro, que não é feio... Semsaborão, escreve uma palhada... Mas sabe
-coisas da sociedade. Esteve um tempo com a viscondessa de Cabellas, que
-elle chama a sua _cabelluda_... Que o Silvestre ás vezes tem graça! E
-sabe, sabe coisas da sociedade, assim maroteiras de fidalgos, amigações,
-pulhices... Vossê nunca leu nada d'elle? Chôcho. Tenho sempre de lhe
-arranjar o estylo... N'este numero é que havia um folhetimzito meu,
-catita, cá á moderna, como eu gósto, alli com a piadinha realista a
-bater... Emfim fica para outra vez. E outra coisa, Ega, olhe que lhe
-agradeço. Quando quizer, eu e a _Corneta_ ás ordens!
-
-Ega estendeu-lhe a mão:
-
---Obrigado, digno Palma! E _adiós_!
-
---Pues vaya usted con Dios, Don Juanito! exclamou logo o benemerito
-homem com infinito _salero_.
-
-Em baixo Carlos esperava, dentro do coupé.
-
---E agora? perguntou Ega, á portinhola.
-
---Agora salta para dentro e vamos liquidar com o Damaso...
-
-Carlos já esboçára summariamente o plano d'essa liquidação. Queria
-mandar desafiar o Damaso como author comprovado d'um artigo de jornal
-que o injuriava. O duello devia ser á espada ou ao florete, um d'esses
-ferros cujo lampejo, na sala d'armas do Ramalhete, fazia empallidecer o
-Damaso. Se contra toda a verosimilhança elle se batesse, Carlos
-fazia-lhe algures, entre a bochecha e o ventre, um furo que o cravasse
-mezes na cama. Senão a unica explicação que Carlos aceitaria do snr.
-Salcede seria um documento em que elle escrevesse esta coisa simples:
-«Eu abaixo assignado declaro que sou um infame.» E para estes serviços
-Carlos contava com o Ega.
-
---Agradeço! agradeço! Vamos a isso! exclamava o Ega esfregando as mãos,
-faiscando de jubilo.
-
-No emtanto, dizia elle, a etiqueta funebre reclamava outro padrinho; e
-lembrou o Cruges, moço passivo e malleavel. Mas era impossivel encontrar
-o _maestro_, porque invariavelmente a criada affirmava que o menino
-Victorino não estava em casa... Decidiram ir ao Gremio, mandar de lá um
-bilhete chamando o Cruges--«para um caso urgente d'amizade e d'arte».
-
---Com quê, dizia o Ega continuando a esfregar as mãos emquanto a tipoia
-trotava para a rua de S. Francisco, com quê, demolir o nosso Damaso?
-
---Sim, é necessario acabar com esta perseguição. Chega a ser ridiculo...
-E com uma estocada, ou com a carta, temos esse biltre aniquilado por
-algum tempo. Eu preferia a estocada. Senão deixo-te a ti arranjar os
-termos d'uma carta forte...
-
---Has de ter uma boa carta! disse o Ega com um sorriso de ferocidade.
-
-No Gremio, depois de redigirem o bilhete ao Cruges, vieram esperar por
-elle na sala das _Illustrações_. O conde de Gouvarinho e Steinbroken
-conversavam de pé, no vão d'uma janella. E foi uma surpreza. O ministro
-da Filandia abriu os braços para o _cher Maia_, que elle não vira desde
-a partida d'Affonso para Santa Olavia. Gouvarinho acolheu o Ega
-risonhamente, reatando uma certa camaradagem que entre elles se formára
-n'esse verão, em Cintra: mas o aperto de mão a Carlos foi sêcco e curto.
-Já dias antes, tendo-se encontrado no Loreto, o Gouvarinho murmurára de
-leve e de passagem «um como está, Maia?» em que se sentia arrefecimento.
-Ah! já não eram essas effusões, essas palmadas enternecidas pelos
-hombros, dos tempos em que Carlos e a condessa fumavam cigarettes na
-cama da titi em Santa Isabel. Agora que Carlos abandonára a snr.^a
-condessa de Gouvarinho, a rua de S. Marçal e o commodo sofá em que ella
-cahia com um rumor de saias amarrotadas--o marido amuava, como
-abandonado tambem.
-
---Tenho tido saudade das nossas bellas discussões em Cintra! disse elle,
-dando ao Ega a palmada carinhosa nas costas que outr'ora pertencia ao
-Maia. Tivemol-as de primeira ordem!
-
-Eram realmente «pégas tremendas» no pateo do Victor sobre litteratura,
-sobre religião, sobre moral... Uma noite mesmo tinham-se zangado por
-causa da divindade de Jesus.
-
---É verdade! acudiu o Ega. Vossê n'essa noite parecia ter ás costas uma
-opa de irmão do Senhor dos Passos!
-
-O conde sorriu. Irmão do Senhor dos Passos não, graças a Deus! Ninguem
-melhor do que elle sabia que n'esses sublimes episodios do Evangelho
-reinava bastante lenda... Mas emfim eram lendas que serviam para
-consolar a alma humana. É o que elle objectára n'essa noite ao amigo
-Ega... Sentiam-se a philosophia e o racionalismo capazes de consolar a
-mãi que chora? Não. Então...
-
---Em todo o caso, tivemol-as brilhantes! concluiu elle olhando o
-relogio. E, eu confesso, uma discussão elevada sobre religião, sobre
-metaphysica, encanta-me... Se a politica me deixasse vagares dedicava-me
-á philosophia... Nasci para isso, para aprofundar problemas.
-
-Steinbroken no emtanto, esticado na sua sobrecasaca azul, com um raminho
-d'alecrim ao peito, tomára as mãos de Carlos:
-
---Mais vous êtes encore devenu plus fort!... Et Affonso da Maia,
-toujours dans ses terres?... Est-ce qu'on ne va pas le voir un peu cet
-hiver?
-
-E immediatamente lamentou não ter visitado Santa Olavia. Mas quê! a
-familia real installára-se em Cintra; elle fôra forçado a acompanhal-a,
-fazer a sua côrte... Depois necessitára ir de fugida a Inglaterra d'onde
-acabava de chegar, havia dias.
-
-Sim, Carlos sabia, vira na _Gazeta Illustrada_...
-
---Vous avez lu ça? Oh oui, on a été très aimable, très aimable pour moi
-à la _Gazette_...
-
-Tinham-lhe annunciado a partida, depois a chegada, com palavras de
-amizade particularmente bem escolhidas. Nem podia deixar de ser, dada
-esta affeição sincera que liga Portugal e a Filandia... «Mais enfin on
-avait été charmant, charmant!...»
-
---Seulement--ajuntou elle, sorrindo com finura e voltando-se tambem para
-o Gouvarinho--on a fait une petite erreur... On a dit que j'étais venu
-de Southampton par le _Royal Mail_... Ce n'est pas vrai, non! Je me suis
-embarqué à Bordeaux dans les _Messageries_. J'ai même pensé à écrire à
-Mr. Pinto, redacteur de la _Gazette_, qui est un charmant garçon...
-Puis, j'ai reflechi, je me suis dit: «Mon Dieu, on va croire que je veux
-donner une leçon d'exactitude à la _Gazette_, c'est très grave...»
-Alors, voilà, très prudemment, j'ai gardé le silence... Mais enfin c'est
-une erreur: je me suis embarqué à Bordeaux.
-
-Ega murmurou que a Historia se encarregaria um dia de rectificar esse
-facto. O ministro sorria modestamente, fazendo um gesto em que parecia
-desejar, por polidez, que a Historia se não incommodasse. E então o
-Gouvarinho, que accendêra o charuto, espreitára outra vez o relogio,
-perguntou se os amigos tinham ouvido alguma coisa do ministerio e da
-crise.
-
-Foi uma surpreza para ambos, que não tinham lido os jornaes... Mas,
-exclamou logo o Ega, crise porquê, assim em pleno remanso, com as
-camaras fechadas, tudo contente, um tão lindo tempo d'outono?
-
-O Gouvarinho encolheu os hombros com reserva. Houvera na vespera, á
-noitinha, uma reunião de ministros; n'essa manhã o presidente do
-conselho fôra ao paço, fardado, determinado a «largar o poder»... Não
-sabia mais. Não conferenciára com os seus amigos, nem mesmo fôra ao seu
-Centro. Como n'outras occasiões de crise, conservára-se retirado,
-calado, esperando... Alli estivera toda a manhã, com o seu charuto, e a
-_Revista dos Dois Mundos_.
-
-Isto parecia a Carlos uma abstenção pouco patriotica...
-
---Porque emfim, Gouvarinho, se os seus amigos subirem...
-
---Exactamente por isso, acudiu o conde com uma côr viva na face, não
-desejo pôr-me em evidencia... Tenho o meu orgulho, talvez motivos para o
-ter... Se a minha experiencia, a minha palavra, o meu nome são
-necessarios, os meus correligionarios sabem onde eu estou, venham
-pedir-m'os...
-
-Calou-se, trincando nervosamente o charuto. E Steinbroken, perante estas
-coisas politicas, começou logo a retrahir-se para o fundo da janella,
-limpando os vidros da luneta, recolhido, já impenetravel, no grande
-recato neutral que competia á Filandia. Ega no emtanto não sahia do seu
-espanto. Mas porque cahia, porque cahia assim um governo com maioria nas
-camaras, socego no paiz, o apoio do exercito, a benção da Igreja, a
-protecção do _Comptoir d'Escompte_?...
-
-O Gouvarinho correu devagar os dedos pela pera, e murmurou esta razão:
-
---O ministerio estava gasto.
-
---Como uma vela de sebo? exclamou Ega, rindo.
-
-O conde hesitou. Como uma vela de sebo não diria... Sebo subentendia
-obtusidade... Ora n'este ministerio sobrava o talento.
-Incontestavelmente havia lá talentos pujantes...
-
---Essa é outra! gritou Ega atirando os braços ao ar. É extraordinario!
-N'este abençoado paiz todos os politicos têm _immenso talento_. A
-opposição confessa sempre que os ministros, que ella cobre d'injurias,
-têm, á parte os disparates que fazem, um _talento de primeira ordem_!
-Por outro lado a maioria admitte que a opposição, a quem ella
-constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de
-_robustissimos talentos_! De resto todo o mundo concorda que o paiz é
-uma choldra. E resulta portanto este facto supra-comico: um paiz
-governado _com immenso talento_, que é de todos na Europa, segundo o
-consenso unanime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a
-vêr: que como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os
-imbecis!
-
-O conde sorria com bonhomia e superioridade a estes exageros de
-phantasista. E Carlos, ancioso por ser amavel, atalhou, accendendo o
-charuto no d'elle:
-
---Que pasta preferiria você, Gouvarinho, se os seus amigos subissem? A
-dos Estrangeiros, está claro...
-
-O conde fez um largo gesto d'abnegação. Era pouco natural que os seus
-amigos necessitassem da sua experiencia politica. Elle tornára-se
-sobretudo um homem d'estudo e de theoria. Além d'isso não sabia bem se
-as occupações da sua casa, a sua saude, os seus habitos lhe permittiriam
-tomar o fardo do governo. Em todo o caso, decerto, a pasta dos
-Estrangeiros não o tentava...
-
---Essa, nunca! proseguiu elle, muito compenetrado. Para se poder fallar
-d'alto na Europa, como ministro dos Estrangeiros, é necessario ter por
-traz um exercito de duzentos mil homens e uma esquadra com torpedos.
-Nós, infelizmente, somos fracos... E eu, para papeis subalternos, para
-que venha um Bismarck, um Gladstone, dizer-me «ha de ser assim», não
-estou!... Pois não acha, Steinbroken?
-
-O ministro tossiu, balbuciou:
-
---Certainement... C'est très grave... C'est excessivement grave...
-
-Ega então affirmou que o amigo Gouvarinho, com o seu interresse
-geographico pela Africa, faria um ministro da Marinha iniciador,
-original, rasgado...
-
-Toda a face do conde reluzia, escarlate de prazer.
-
---Sim, talvez... Mas eu lhe digo, meu querido Ega, nas colonias todas as
-coisas bellas, todas as coisas grandes estão feitas. Libertaram-se já os
-escravos; deu-se-lhes já uma sufficiente noção da moral christã;
-organisaram-se já os serviços aduaneiros... Emfim o melhor está feito.
-Em todo o caso ha ainda detalhes interessantes a terminar... Por
-exemplo, em Loanda... Menciono isto apenas como um pormenor, um retoque
-mais de progresso a dar. Em Loanda precisava-se bem um theatro normal
-como elemento civilisador!
-
-N'esse momento um criado veio annunciar a Carlos--que o snr. Cruges
-estava em baixo, no portal, á espera. Immediatamente os dois amigos
-desceram.
-
---Extraordinario, este Gouvarinho! dizia o Ega na escada.
-
---E este, observou Carlos com um immenso desdem de mundano, é um dos
-melhores que ha na politica. Pensando mesmo bem, e mettendo a roupa
-branca em linha de conta, este é talvez o melhor!
-
-Acharam o Cruges á porta, de jaquetão claro, embrulhando um cigarro. E
-Carlos pediu-lhe logo que voltasse a casa vestir uma sobrecasaca preta.
-O maestro arregalava os olhos.
-
---É jantar?
-
---É enterro.
-
-E rapidamente, sem alludir a Maria, contaram ao maestro que o Damaso
-publicára n'um jornal, a _Corneta do Diabo_ (cuja tiragem elles tinham
-supprimido, não sendo possivel por isso mostrar o numero immundo) um
-artigo em que a coisa mais dôce que se chamava a Carlos era _pulha_.
-Portanto Ega e elle Cruges iam a casa do Damaso pedir-lhe a honra ou a
-vida.
-
---Bem, rosnou o maestro. Que tenho eu a fazer?... Que eu d'essas coisas
-não entendo.
-
---Tens, explicou Ega, d'ir vestir uma sobrecasaca preta e franzir o
-sobr'olho. Depois vir commigo; não dizer nada; tratar o Damaso por «v.
-exc.^a»; assentar em tudo o que eu propuzer; e nunca desfranzir o
-sobr'olho nem despir a sobrecasaca...
-
-Sem outra observação, Cruges partiu a cobrir-se de ceremonia e de negro.
-Mas no meio da rua retrocedeu:
-
---Ó Carlos, olha que eu fallei lá em casa. Os quartos do primeiro andar
-estão livres, e forrados de papel novo...
-
---Obrigado. Vai-te fazer sombrio, depressa!...
-
-O maestro abalára, quando diante do Gremio estacou a todo o trote uma
-caleche. De dentro saltou o Telles da Gama que, ainda com a mão no fecho
-da portinhola, gritou aos dois amigos:
-
---O Gouvarinho? está lá em cima?
-
---Está... Novidade fresca?
-
---Os homens cahiram. Foi chamado o Sá Nunes!
-
-E enfiou pelo pateo, correndo. Carlos e Ega continuaram devagar até ao
-portão do Cruges. As janellas do primeiro andar estavam abertas, sem
-cortinas. Carlos, erguendo para lá os olhos, pensava n'essa tarde das
-corridas em que elle viera no phaeton, de Belem, para vêr aquellas
-janellas: ia então escurecendo, por traz dos _stores_ fechados surgira
-uma luz, elle contemplára-a como uma estrella inaccessivel... Como tudo
-passa!
-
-Retrocederam para o Gremio. Justamente o Gouvarinho e Telles atiravam-se
-á pressa para dentro da caleche que esperára. Ega parou, deixou cahir os
-braços:
-
---Lá vae o Gouvarinho batendo para o Poder, a mandar representar a _Dama
-das Camelias_ no sertão! Deus se amerceie de nós!
-
-Mas o Cruges appareceu emfim de chapéo alto, entalado n'uma sobrecasaca
-solemne, com botins novos de verniz. Apilharam-se logo na tipoia
-estreita e dura. Carlos ia leval-os a casa do Damaso. E como queria
-ainda jantar nos Olivaes, esperaria por elles, para saber o resultado
-«do chinfrin», no jardim da Estrella, junto ao coreto.
-
---Sêde rapidos e medonhos!
-
-
-
-A casa do Damaso, velha e d'um andar só, tinha um enorme portão verde,
-com um arame pendente que fez resoar dentro uma sineta triste de
-convento: e os dois amigos esperaram muito antes que apparecesse,
-arrastando as chinelas, o gallego achavascado que o Damaso (agora livre
-de Carlos e das suas pompas) já não trazia torturado em botins crueis de
-verniz. A um canto do pateo uma portinha abria sobre a luz d'um quintal,
-que parecia ser um deposito de caixotes, de garrafas vazias e de lixo.
-
-O gallego, que reconhecera o snr. Ega, conduziu-os logo, por uma
-escadinha esteirada, a um corredor largo, escuro, com cheiro a môfo.
-Depois, batendo o chinelo, correu ao fundo, onde alvejava a claridade
-d'uma porta entreaberta. Quasi immediatamente Damaso gritou de lá:
-
---Ó Ega, é você? Entre para aqui, homem! Que diabo!... Eu estou-me a
-vestir...
-
-Embaraçado com estes brados de intimidade e tanta effusão, Ega ergueu a
-voz da sombra do corredor, gravemente:
-
---Não tem duvida, nós esperamos...
-
-O Damaso insistia, á porta, em mangas de camisa, cruzando os
-suspensorios:
-
---Venha você, homem! Que diabo, eu não tenho vergonha, já estou de
-calças!
-
---Ha aqui uma pessoa de ceremonia, gritou o Ega para findar.
-
-A porta ao fundo cerrou-se, o gallego veio abrir a sala. O tapete era
-exactamente igual aos dos quartos de Carlos no Ramalhete. E em redor
-abundavam os vestigios da antiga amizade com o Maia: o retrato de Carlos
-a cavallo, n'um vistoso caixilho de flôres em faiança: uma das colchas
-da India das senhoras Medeiros, branca e verde, enroupando o piano,
-arranjada por Carlos com alfinetes: e sobre um contador hespanhol,
-debaixo de redoma, um sapatinho de setim de mulher, novo, que o Damaso
-comprára no Serra, por ter ouvido um dia a Carlos que «em todo o quarto
-de rapaz deve apparecer, discretamente disposta, alguma reliquia
-d'amor...»
-
-Sob estes retoques de _chic_, dados á pressa sob a influencia do Maia,
-impertigava-se a sólida mobilia do pai Salcede, de mogno e velludo azul;
-a console de marmore, com um relogio de bronze dourado, onde Diana
-acariciava um galgo; o grande e dispendioso espelho, tendo entalado no
-caixilho uma fila de bilhetes de visita, de retratos de cantoras, de
-convites para _soirées_. E Cruges ia examinar estes documentos, quando
-os passos alegres do Damaso soaram no corredor. O maestro correu logo a
-perfilar-se ao lado do Ega, diante do canapé de velludo, teso, commodo,
-com o seu chapéo alto na mão.
-
-Ao vêl-o, o bom Damaso, que se abotoára todo n'uma sobrecasaca azul,
-florida por um botão de camelia, atirou risonhamente os braços ao ar:
-
---Então esta é que é a pessoa de ceremonia? Sempre vocês têm coisas! E
-eu a pôr sobrecasaca... Por pouco que não lhe afinfo com o habito de
-Christo!...
-
-Ega atalhou, muito sério:
-
---O Cruges não é de ceremonia, mas o motivo que aqui nos traz é delicado
-e grave, Damaso.
-
-Damaso arregalou os olhos, reparando emfim n'aquelle estranho modo dos
-seus amigos, ambos de negro, seccos, tão solemnes. E recuou, todo o
-sorriso se lhe apagou na face.
-
---Que diabo é isso? Sentem-se, sentem-se vocês...
-
-A voz apagava-se-lhe tambem. Pousado á borda d'uma poltrona baixa, junto
-d'uma mesa coberta d'encadernações ricas, com as mãos nos joelhos, ficou
-esperando, n'uma anciedade.
-
---Nós vimos aqui, começou Ega, em nome do nosso amigo Carlos da Maia...
-
-Uma brusca onda de sangue cobriu a face rechonchuda do Damaso até á
-risca do cabello encaracolado a ferro. E não achou uma palavra,
-attonito, suffocado, esfregando estupidamente os joelhos.
-
-Ega proseguiu, lento, direito no canapé:
-
---O nosso amigo Carlos da Maia queixa-se de que o Damaso publicou, ou
-fez publicar, um artigo extremamente injurioso para elle e para uma
-senhora das relações d'elle na _Corneta do Diabo_...
-
---Na _Corneta_, eu? acudiu o Damaso, balbuciando. Que _Corneta_? Nunca
-escrevi em jornaes, graças a Deus! Ora essa, a _Corneta_!...
-
-Ega, muito friamente, tirou do bolso um masso de papeis. E veio
-collocal-os um por um, ao lado do Damaso, na mesa, sobre um magnifico
-volume da _Biblia_ de Doré.
-
---Aqui está a sua carta remettendo ao Palma Cavallão o rascunho do
-artigo... Aqui está, pela sua letra igualmente, a lista das pessoas a
-quem se devia mandar a _Corneta_, desde o Rei até á Fancelli... Além
-d'isso nós temos as declarações do Palma. O Damaso é não só o
-inspirador, mas materialmente o auctor do artigo... O nosso amigo Carlos
-da Maia exige, pois, como injuriado, uma reparação pelas armas...
-
-Damaso deu um salto da poltrona, tão arrebatado--que involuntariamente
-Ega recuou, no receio d'uma brutalidade. Mas já o Damaso estava no meio
-da sala, esgazeado, com os braços tremulos no ar:
-
---Então o Carlos manda-me desafiar? A mim?... Que lhe fiz eu? Elle a mim
-é que me pregou uma partida!... Foi elle, vocês sabem perfeitamente que
-foi elle!...
-
-E desabafou, n'um prodigioso fluxo de loquacidade, atirando palmadas ao
-peito, com os olhos marejados de lagrimas. Fôra Carlos, Carlos, que o
-desfeitiára a elle, mortalmente! Durante todo o inverno tinha-o
-perseguido para que elle o apresentasse a uma senhora brazileira muito
-_chic_, que vivia em Paris, e que lhe fazia olho... E elle, bondoso como
-era, promettia, dizia: «Deixa estar, eu te apresento!» Pois, senhores,
-que faz Carlos? Aproveita uma occasião sagrada, um momento de luto,
-quando elle Damaso fôra ao Norte por causa da morte do tio, e mette-se
-dentro da casa da brazileira... E tanto intriga, que leva a pobre
-senhora a fechar-lhe a sua porta, a elle, Damaso, que era intimo do
-marido, intimo de _tu_! Caramba, elle é que devia mandar desafiar
-Carlos! Mas não! fôra prudente, evitára o escandalo por causa do snr.
-Affonso da Maia... Queixára-se de Carlos, é verdade... Mas no Gremio, na
-Casa Havaneza, entre rapaziada amiga... E no fim Carlos préga-lhe uma
-d'estas!
-
---Mandar-me desafiar, a mim! A mim, que todo o mundo conhece!...
-
-Calou-se, engasgado. E Ega, estendendo a mão, observou placidamente que
-se desviavam do ponto vivo da questão. O Damaso concebera, rascunhára,
-pagára o artigo da _Corneta_. Isso não o negava, nem o podia negar: as
-provas estavam alli, abertas sobre a mesa: elles tinham além d'isso a
-declaração do Palma...
-
---Esse desavergonhado! gritou o Damaso, levado n'outra rajada
-d'indignação que o fez redemoinhar, estonteado, tropeçando nos moveis.
-Esse descarado do Palma! Com esse é que eu me quero vêr!... Lá a questão
-com o Carlos não vale nada, arranja-se, somos todos rapazes finos... Com
-o Palma é que é! Esse traidor é que eu quero rachar! Um homem a quem eu
-tenho dado ás meias libras, aos sete mil reis! E ceias, e tipoias! Um
-ladrão que pediu o relogio ao Zeferino para figurar n'um baptisado, e
-pôl-o no prégo!... E faz-me uma d'estas!... Mas hei de escavacal-o! Onde
-é que você o viu, Ega? Diga lá, homem! Que quero ir procural-o, hoje
-mesmo, correl-o a chicotadas... Traições não, não admitto a ninguem!
-
-Ega, com a tranquillidade paciente de quem sente a prêsa certa, lembrou
-de novo a inutilidade d'aquellas divagações:
-
---Assim nunca acabamos, Damaso... O nosso ponto é este: o Damaso
-injuriou Carlos da Maia: ou se retracta publicamente d'essa injuria, ou
-dá uma reparação pelas armas...
-
-Mas o Damaso, sem escutar, appellava desesperadamente para o Cruges, que
-se não movera do sofá de velludo, esfregando, um contra o outro, com um
-ar arripiado e de dôr, os dois sapatos novos de verniz.
-
---Aquelle Carlos! Um homem que se dizia meu amigo intimo! Um homem que
-fazia de mim tudo! Até lhe copiava coisas... Você bem viu, Cruges. Diga!
-Falle, homem! Não sejam vocês todos contra mim!... Até ás vezes ia á
-alfandega despachar-lhe caixotes...
-
-O maestro baixava os olhos, vermelho, n'um infinito mal-estar. E Ega,
-por fim, já farto, lançou uma intimação derradeira:
-
---Em resumo, Damaso, desdiz-se ou bate-se?
-
---Desdizer-me? tartamudeou o outro, impertigando-se, n'um penoso esforço
-de dignidade, a tremer todo. E de quê? Ora essa! É boa! Eu sou lá homem
-que me desdiga!
-
---Perfeitamente, então bate-se...
-
-Damaso cambaleou para traz, desvairado:
-
---Qual bater-me! Eu sou lá homem que me bata! Eu cá é a sôcco. Que venha
-para cá, não tenho medo d'elle, arrombo-o...
-
-Dava pulinhos curtos de gordo, através do tapete, com os punhos fechados
-e em riste. E queria Carlos alli para o escavacar! Não lhe faltava mais
-senão bater-se... E então duellos em Portugal, que acabavam sempre por
-troça!
-
-Ega no emtanto, como se a sua missão estivesse finda, abotoára a
-sobrecasaca e recolhia os papeis espalhados sobre a _Biblia_. Depois,
-serenamente, fez a ultima declaração de que fôra incumbido. Como o snr.
-Damaso Salcede recusava retractar-se e rejeitava tambem uma reparação
-pelas armas, Carlos da Maia prevenia-o de que em qualquer parte que o
-encontrasse d'ahi por diante, fosse uma rua, fosse um theatro, lhe
-escarraria na face...
-
---Escarrar-me! berrou o outro, livido, recuando, como se o escarro já
-viesse no ar.
-
-E de repente, espavorido, coberto de bagas de suor, precipitou-se sobre
-o Ega, agarrando-lhe as mãos, n'uma agonia:
-
---Ó João, ó João, tu, que és meu amigo, por quem és, livra-me d'esta
-entaladella!
-
-Ega foi generoso. Desprendeu-se d'elle, empurrou-o brandamente para a
-poltrona, calmando-o com palmadinhas fraternaes pelo hombro. E declarou
-que, desde que Damaso appellava para a sua amizade, desapparecia o
-enviado de Carlos necessariamente exigente, ficava só o camarada, como
-no tempo dos Cohens e da _villa_ Balzac. Queria pois o amigo Damaso um
-conselho? Era assignar uma carta affirmando que tudo o que fizera
-publicar na _Corneta_ sobre o snr. Carlos da Maia e certa senhora fôra
-invenção falsa e gratuita. Só isto o salvava. D'outro modo, Carlos um
-dia, no Chiado, em S. Carlos, escarrava-lhe na cara. E, dado esse
-desastre, Damasosinho, a não querer ser apontado em Lisboa como um
-incomparavel cobarde, tinha de se bater á espada ou á pistola...
-
---Ora, em qualquer d'esses casos, você era um homem morto.
-
-O outro escutava, esbarrondado no fundo do assento de velludo, com a
-face emparvecida para o Ega. Alargou mollemente os braços, murmurou da
-profundidade do seu terror:
-
---Pois sim, eu assigno, João, eu assigno...
-
---É o que lhe convém... Arranje então papel. Você está perturbado, eu
-mesmo redijo.
-
-Damaso ergueu-se, com as pernas frouxas, atirando um olhar tonto e vago
-por sobre os moveis:
-
---Papel de carta? É para carta?
-
---Sim, está claro, uma carta ao Carlos!
-
-Os passos do desgraçado perderam-se emfim no corredor, pesados e
-succumbidos.
-
---Coitado! suspirou o Cruges levando de novo, com um ar de arripio, a
-mão aos sapatos.
-
-Ega lançou-lhe um _chut_ severo. Damaso voltava com o seu sumptuoso
-papel de monogramma e corôa. Para envolver em silencio e segredo aquelle
-transe amargo, cerrou o reposteiro; e o vasto pano de velludo,
-desdobrando-se, mostrou o brazão de Salcede, onde havia um leão, uma
-torre, um braço armado, e por baixo, a letras d'ouro, a sua formidavel
-divisa: Sou forte! Immediatamente Ega afastou os livros na mesa,
-abancou, atirou largamente ao papel a data e a adresse do Damaso...
-
---Eu faço o rascunho, você depois copía...
-
---Pois sim! gemeu o outro, de novo, aluido na poltrona, passando o lenço
-pelo pescoço e pela face.
-
-Ega no emtanto escrevia muito lentamente, com amor. E n'aquelle
-silencio, que o embaraçava, Cruges terminou por se erguer, foi coxeando
-até ao espelho onde se desenrolavam, entalados na frincha do caixilho,
-bilhetes e photographias. Eram as glorias sociaes do Damaso, os
-documentos do _chic a valer_ que era a paixão da sua vida: bilhetes com
-titulos, retratos de cantoras, convites para bailes, cartas de entrada
-no Hippodromo, diplomas de membro do Club Naval, de membro do Jockey
-Club, de membro do Tiro aos Pombos:--até pedaços cortados de jornaes
-annunciando os annos, as partidas, as chegadas do snr. Salcede, «um dos
-nossos mais distinctos _sportmen_».
-
-Desventuroso _sportman_! Aquella folha de papel, onde o Ega rascunhava,
-ia-o enchendo pouco a pouco d'um terror angustioso. Santo Deus! Para que
-eram tantos apuros n'uma carta ao Carlos, um rapaz intimo? Uma linha
-bastaria:--«Meu querido Carlos, não te zangues, desculpa, foi
-brincadeira.» Mas não! Toda uma pagina de letra miuda com entrelinhas!
-Já mesmo Ega voltava a folha, molhava a penna, como se d'ella devessem
-escorrer sem cessar coisas humilhadoras! Não se conteve, estendeu a face
-por sobre a mesa, até o papel:
-
---Ó Ega, isso não é para publicar, pois não é verdade?
-
-Ega reflectiu, com a penna no ar:
-
---Talvez não... Estou certo que não. Naturalmente Carlos, vendo o seu
-arrependimento, deixa isto esquecido no fundo d'uma gaveta.
-
-Damaso respirou com allivio. Ah, bem! Isso parecia-lhe mais decente
-entre amigos! Que lá isso, mostrar o seu arrependimento, até elle
-desejava! Com effeito o artigo fôra uma tolice... Mas então! Em questões
-de mulheres era assim, assomado, um leão...
-
-Abanou-se com o lenço, desanuviado, recomeçando a achar sabôr á vida.
-Findou mesmo por accender um charuto, levantar-se sem rumor, acercar-se
-do Cruges--que, coxeando através das curiosidades da sala, encalhára
-sobre o piano e sobre os livros de musica, com o pé dorido no ar.
-
---Então tem-se feito alguma coisa de novo, Cruges?
-
-Cruges, muito vermelho, resmungou que não tinha feito nada.
-
-Damaso ficou alli um momento, a mascar o charuto. Depois, atirando um
-olhar inquieto á mesa onde o Ega rascunhava interminavelmente, murmurou,
-sobre o hombro do maestro:
-
---Uma entaladella assim! Eu é por causa da gente conhecida... Senão não
-me importava! Mas veja você tambem se arranja as coisas e se o Carlos
-deixa aquillo na gaveta...
-
-Justamente Ega erguera-se com o papel na mão e caminhava para o piano,
-devagar, relendo baixo.
-
---Ficou optimo, salva tudo! exclamou por fim. Vai em fórma de carta ao
-Carlos, é mais correcto. Você depois copía e assigna. Ouça lá:
-«Exc.^{mo} snr....» Está claro, você dá-lhe excellencia, porque é um
-documento d'honra... «Exc.^{mo} snr.--Tendo-me v. exc.^a, por intermédio
-dos seus amigos João da Ega e Victorino Cruges, manifestado a indignação
-que lhe causára um certo artigo da _Corneta do Diabo_ de que eu escrevi
-o rascunho e de que promovi a publicação, venho declarar francamente a
-v. exc.^a que esse artigo, como agora reconheço, não continha senão
-falsidades e incoherencias: e a minha desculpa unica está em que o
-compuz e enviei á redacção da _Corneta_ no momento de me achar no mais
-completo estado d'embriaguez...»
-
-Parou. E nem se voltou para o Damaso, que deixára pender os braços,
-rolar o charuto no tapete, varado. Foi ao Cruges que se dirigiu,
-entalando o monoculo:
-
---Achas talvez forte?... Pois eu redigi assim por ser justamente a unica
-maneira de resalvar a dignidade do nosso Damaso.
-
-E desenvolveu a sua idéa, mostrando quanto era generosa e
-habil--emquanto o Damaso, aparvalhado, apanhava o charuto. Nem Carlos
-nem elle queriam que o Damaso n'uma carta (que se podia tornar publica)
-declarasse «que calumniára por ser calumniador». Era necessario, pois,
-dar á calumnia uma d'essas causas fortuitas e ingovernaveis que tiram a
-responsabilidade ás acções. E que melhor, tratando-se d'um rapaz mundano
-e femeeiro, do que estar bebedo?... Não era vergonha para ninguem
-embebedar-se... O proprio Carlos, todos elles alli, homens de gosto e de
-honra, se tinham embebedado. Sem remontar aos romanos, onde isso era uma
-hygiene e um luxo, muitos grandes homens na Historia bebiam de mais. Em
-Inglaterra era tão _chic_, que Pitt, Fox e outros nunca fallavam na
-Camara dos communs senão aos bordos. Musset, por exemplo, que bebedo!
-Emfim a Historia, a Litteratura, a Politica, tudo fervilhava de
-piteiras... Ora, desde que o Damaso se declarava borracho, a sua honra
-ficava salva. Era um homem de bem que apanhára uma carraspana e que
-commettera uma indiscrição... Nada mais!
-
---Pois não te parece, Cruges?
-
---Sim, talvez, que estava bebedo, murmurou o maestro timidamente.
-
---Pois não lhe parece a você, francamente, Damaso?
-
---Sim, que estava bebedo, balbuciou o desgraçado.
-
-Immediatamente Ega retomou a leitura: «Agora que voltei a mim reconheço,
-como sempre reconheci e proclamei, que é v. exc.^a um caracter
-absolutamente nobre; e as outras pessoas, que n'esse momento
-d'embriaguez ousei salpicar de lama, são-me só merecedoras de veneração
-e louvor. Mais declaro que se por acaso tornasse a succeder soltar eu
-alguma palavra offensiva para v. exc.^a, não lhe devia dar v. exc.^a, ou
-aquelles que a escutassem, mais importancia do que a que se dá a uma
-involuntaria baforada d'alcool--pois que, por um habito hereditario que
-reapparece frequentemente na minha familia, me acho repetidas vezes em
-estado de embriaguez... De v. exc.^a, com toda a estima etc....» Rodou
-sobre os tacões, pousou o rascunho na mesa--e accendendo o charuto ao
-lume do Damaso, explicou com amizade, com bonhomia, o que o determinára
-áquella confissão de bebedeira incorrigivel e palreira. Fôra ainda o
-desejo de garantir a tranquillidade do «nosso Damaso». Attribuindo todas
-as imprudencias em que pudesse cahir a um habito d'intemperança
-hereditaria, de que tinha tão pouca culpa como de ser baixo e gordo, o
-Damaso punha-se _para sempre_ ao abrigo das provocações de Carlos...
-
---Você, Damaso, tem genio, tem lingua... Um dia esquece-se, e no Gremio,
-sem querer, na cavaqueira depois do theatro, lá lhe escapa uma palavra
-contra Carlos... Sem esta precaução, ahi recomeça a questão, o escarro,
-o duello... Assim já Carlos não se póde queixar. Lá tem a explicação que
-tudo cobre, uma gotta de mais, a gotta tomada por impulso de borrachice
-hereditaria... Você alcança d'este modo a coisa que mais se appetece
-n'este nosso seculo XIX--a irresponsabilidade!... E depois para a sua
-familia não é vergonha, porque você não tem familia. Em resumo,
-convem-lhe?
-
-O pobre Damaso escutava-o, esmagado, enervado, sem comprehender aquellas
-roncantes phrases sobre «a hereditariedade», sobre «o seculo XIX». E um
-unico sentimento vivo o dominava, acabar, reentrar na sua paz
-pachorrenta, livre de floretes e de escarros. Encolheu os hombros, sem
-força:
-
---Que lhe hei de eu fazer?... Para evitar fallatorios.
-
-E abancou, metteu um bico novo na penna, escolheu uma folha de papel em
-que o monogramma luzia mais largo, começou a copiar a carta na sua
-maravilhosa letra, com finos e grossos, d'uma nitidez de gravura em aço.
-
-Ega no emtanto, de sobrecasaca desabotoada e charuto fumegante, rondava
-em torno da mesa, seguindo sôfregamente as linhas que traçava a mão
-applicada do Damaso, ornada d'um grosso annel d'armas. E durante um
-momento atravessou-o um susto... Damaso parára, com a penna indecisa.
-Diabo! Acordaria emfim, no fundo de toda aquella gordura balofa, um
-resto escondido de dignidade, de revolta?... Damaso alçou para elle os
-olhos embaciados:
-
---Embriaguez é com _n_ ou com _m_?
-
---Com um _m_, um _m_ só, Damaso! acudiu Ega affectuosamente. Vai muito
-bem... Que linda letra você tem, caramba!
-
-E o infeliz sorriu á sua propria letra--pondo a cabeça de lado, no
-orgulho sincero d'aquella soberba prenda.
-
-Quando findou a cópia foi Ega que conferiu, pôz a pontuação. Era
-necessario que o documento fosse _chic_ e perfeito.
-
---Quem é o seu tabellião, Damaso?
-
---O Nunes, na rua do Ouro... Porque?
-
---Oh! nada. É um detalhe que n'estes casos se pergunta sempre. Mera
-ceremonia... Pois amigos, como papel, como letra, como estylo, está
-d'appetite a cartinha!
-
-Metteu-a logo n'um enveloppe onde rebrilhava a divisa «Sou Forte»,
-sepultou-a preciosamente no interior da sobrecasaca. Depois, agarrando o
-chapéo, batendo no hombro do Damaso com uma familiaridade folgazã e
-leve:
-
---Pois, Damaso, felicitemo-nos todos! Isto podia acabar fóra de portas,
-n'uma poça de sangue! Assim é uma delicia. E adeus... Não se incommode
-você. Então o grande sarau sempre é na segunda-feira? Vai lá tudo, hein!
-Não venha cá, homem... Adeus!
-
-Mas o Damaso acompanhou-os pelo corredor, mudo, murcho, cabisbaixo. E no
-patamar reteve o Ega, desafogou outra inquietação que o assaltára:
-
---Isso não se mostra a ninguem, não é verdade, Ega?
-
-Ega encolheu os hombros. O documento pertencia a Carlos... Mas emfim
-Carlos era tão bom rapaz, tão generoso!
-
-Esta incerteza, que o ficava minando, arrancou um suspiro ao Damaso:
-
---E chamei eu áquelle homem _meu amigo_!
-
---Tudo na vida são desapontamentos, meu Damaso! foi a observação do Ega,
-saltando alegremente os degraus.
-
-Quando o calhambeque parou no Jardim da Estrella, Carlos já esperava ao
-portão de ferro, n'uma impaciencia, por causa do jantar na _Toca_.
-Enfiou logo para dentro atropellando o maestro, bradou ao cocheiro que
-voasse ao Loreto.
-
---E então, meus senhores, temos sangue?
-
---Temos melhor! exclamou Ega no barulho das rodas, floreando o
-enveloppe.
-
-Carlos leu a carta do Damaso. E foi um immenso assombro:
-
---Isto é incrivel!... Chega a ser humilhante para a natureza humana!
-
---O Damaso não é o genero humano, acudiu Ega. Que diabo esperavas tu?
-Que elle se batesse?
-
---Não sei, corta o coração... Que se ha de fazer a isto?
-
-Segundo o Ega não se devia publicar; seria crear curiosidade e escandalo
-em torno do artigo da _Corneta_ que custára trinta libras a suffocar.
-Mas convinha conservar aquillo como uma ameaça pairando sobre o Damaso,
-tornando-o para longos annos nullo e inoffensivo.
-
---Eu estou mais que vingado, concluiu Carlos. Guarda o papel: é obra
-tua, usa-o como quizeres...
-
-Ega guardou-o com prazer, emquanto Carlos, batendo no joelho do maestro,
-queria saber como elle se portára n'aquelle lance d'honra...
-
---Pessimamente! gritou Ega. Com expressões de compaixão; sem linha
-nenhuma; estendido por cima do piano; agarrando com a mão no sapato...
-
---Pudera! exclamou Cruges desafogando emfim. Vocês dizem-me que me ponha
-de ceremonia, calço uns sapatos novos de verniz, estive toda a tarde
-n'um tormento!
-
-E não se conteve mais, arrancou o sapato, pallido, com um medonho
-suspiro de consolação.
-
-
-No dia seguinte, depois do almoço, emquanto uma chuva grossa alagava os
-vidros sob as lufadas de sudoeste, Ega, no _fumoir_, enterrado n'uma
-poltrona, com os pés para o lume, relia a carta do Damaso: e pouco a
-pouco subia n'elle a mágoa de que esse colossal documento de cobardia
-humana, tão interessante para a physiologia e para a arte, ficasse para
-sempre inaproveitado no escuro d'uma gaveta!... Que effeito, que soberbo
-effeito se aquella confissão do «nosso distincto _sportman_» surgisse um
-dia na _Gazeta Illustrada_ ou no novo jornal _A Tarde_, nas columnas do
-_High-life_, sob este titulo--Pendencia d'honra! E que lição, que
-meritorio acto de justiça social!
-
-Todo esse verão, Ega detestára o Damaso, certo, desde Cintra, de que
-elle era o amante da Cohen--e de que, por esse imbecil de grossas
-nadegas, esquecera ella para sempre a _villa_ Balzac, as manhãs na
-colcha de setim preto, os seus beijos delicados, os versos de Musset que
-lhe lia, os lunchesinhos de perdiz, tantos encantos poeticos. Mas o que
-lhe tornára o Damaso intoleravel--fôra a sua farofia radiante de homem
-preferido; o ar de posse com que passeava ao lado de Rachel pelas
-estradas de Cintra, vestido de flanella branca; os segredinhos que tinha
-sempre a cochichar-lhe sobre o hombro; e o acênosinho desdenhoso, com um
-dedo, que lhe atirava de lado, ao passar, a elle proprio, Ega... Era
-odioso! Odiava-o: e através d'esse odio ruminára sempre o desejo d'uma
-vingança--pancada, deshonra ou ridiculo que tornasse o snr. Salcede, aos
-olhos de Rachel, desprezivel, grutesco, chato como um balão furado...
-
-E agora alli tinha essa carta providencial, em que o homem solemnemente
-se declarava bebedo. «Sou um bebedo, estou sempre bebedo»! Assim o
-dizia, no seu papel de monogramma d'ouro, o snr. Salcede, n'um medo vil
-de cão gôso, rastejando com o rabo entre as pernas diante de qualquer
-pau!... Nenhuma mulher resistiria a isto... E havia d'encafuar tão
-decisivo documento no fundo d'um gavetão?
-
-Publical-o na _Gazeta Illustrada_ ou na _Tarde_ não podia, infelizmente,
-por interesse de Carlos. Mas porque o não mostraria «em segredo», como
-uma curiosidade psychologica, ao Craft, ao marquez, ao Telles, ao
-Gouvarinho, ao primo do Cohen? Podia mesmo confiar uma cópia ao Taveira
-que, resentido eternamente da questão com o Damaso em casa da Lola
-Gorda, correria a lêl-a _em segredo_ na Casa Havaneza, no bilhar do
-Gremio, no Silva, nos camarins de cantoras... E ao fim de uma semana a
-snr.^a D. Rachel saberia inevitavelmente que o escolhido do seu coração
-era por confissão propria um calumniador e um bebedo!... Delicioso!
-
-Tão delicioso que não hesitou mais, subiu ao quarto para copiar a carta
-do Damaso. Mas quasi immediatamente um criado trouxe-lhe um telegramma
-de Affonso da Maia annunciando que chegava no dia seguinte ao Ramalhete.
-Ega teve de sahir, telegraphar para os Olivaes, avisar Carlos.
-
-Carlos appareceu n'essa noite, já tarde, transido de frio, com um monte
-de bagagens--porque abandonára definitivamente os Olivaes. Maria Eduarda
-regressava tambem a Lisboa, para o primeiro andar da rua de S.
-Francisco, tomado agora por seis mezes, tapetado de novo pela mãi
-Cruges. E Carlos vinha muito impressionado, com profundas saudades da
-_Toca_. Depois de cear, ao fogão, acabando o charuto, relembrou
-infindavelmente esses dias alegres, a sua casinhola, o banho da manhã
-tomado dentro d'uma dorna, a festa do deus Tchi, as guitarradas do
-marquez, as longas cavaqueiras ao café com as janellas abertas e as
-borboletas voando em torno aos candieiros... Fóra as cordas d'agua, sob
-o vento d'inverno, batiam os vidros na mudez da noite negra. Ambos
-terminaram por ficar calados, pensativos, com os olhos no lume.
-
---Quando esta tarde dei pela ultima vez uma volta na quinta, disse por
-fim Carlos, já não havia uma unica folha nas arvores... Tu não sentes
-sempre uma grande melancolia n'estes fins de outono?...
-
---Immensa! murmurou Ega lugubremente.
-
-Ao outro dia a manhã clareava, limpa e branca, quando Ega e Carlos,
-ainda estremunhados e tiritando, se apearam em Santa Apolonia. O comboio
-acabava justamente de chegar; e viram logo, entre o rumor de gente que
-se escoava das portinholas abertas, Affonso, com o seu velho capote de
-gola de velludo, apegado a uma bengala, debatendo-se entre homens de
-boné agaloado que lhe offereciam o _Hotel Terreirense_ e a _Pomba
-d'Ouro_. Atraz Mr. Antoine, o chefe francez, grave, de chapéo alto,
-trazia o cesto em que viajára o reverendo Bonifacio.
-
-Carlos e Ega acharam Affonso mais acabado, mais pesado. Todavia
-gabaram-lhe muito, entre os primeiros abraços, a sua robustez de
-patriarcha. Elle encolheu os hombros, queixando-se de ter sentido desde
-o fim do verão vertigens, um cansaço vago...
-
---Vocês é que estão excellentes, acrescentou abraçando outra vez Carlos
-e sorrindo ao Ega. E que ingratidão foi essa tua, John, mettido aqui
-todo um verão sem me ir visitar?... Que tens tu feito? Que têm vocês
-feito?
-
---Mil coisas! acudiu Ega alegremente. Planos, ideias, titulos... Temos
-sobretudo o projecto d'uma _Revista_, um apparelho d'educação superior
-que vamos montar com uma força de mil cavallos!... Emfim logo se lhe
-conta tudo ao almoço.
-
-E ao almoço, com effeito, para justificarem as suas occupações em
-Lisboa, fallaram da _Revista_ como se ella já estivesse organisada e os
-artigos a imprimir na officina--tanta foi a precisão com que lhe
-descreveram as tendencias, a feição critica, as linhas de pensamento
-sobre que ella devia rolar... Ega já preparára um trabalho para o
-primeiro numero--_A capital dos portuguezes_. Carlos meditava uma série
-d'_ensaios_ á ingleza, sob este titulo--_Porque falhou entre nós o
-systema constitucional_. E Affonso escutava, encantado com aquellas
-bellas ambições de lucta, querendo partilhar da grande obra como socio
-capitalista... Mas Ega entendia que o snr. Affonso da Maia devia descer
-á arena, lançar tambem a palavra do seu saber e da sua experiencia.
-Então o velho riu. O quê! compôr prosa, elle, que hesitava para traçar
-uma carta ao feitor? De resto o que teria a dizer ao seu paiz, como
-fructo da sua experiencia, reduzia-se pobremente a tres conselhos em
-tres phrases: aos politicos--«menos liberalismo e mais caracter»; aos
-homens de letras--«menos eloquencia e mais ideia»; aos cidadãos em
-geral--«menos progresso e mais moral».
-
-Isto enthusiasmou o Ega! Justamente, ahi estavam as verdadeiras feições
-da reforma espiritual que a _Revista_ devia prégar! Era necessario
-tomal-as como moto symbolico, inscrevel-as em letras gothicas no
-frontispicio--porque Ega queria que a _Revista_ fosse original logo na
-capa. E então a conversação desviou para o exterior da _Revista_--Carlos
-pretendendo que fosse azul-claro com typo Renascença, Ega exigindo uma
-cópia exacta da _Revista dos Dois Mundos_, n'uma nuance mais côr de
-canario. E, levados pela sua imaginação de meridionaes, já não era só
-para agradar a Affonso da Maia que iam levantando e dando fórma áquelle
-confuso plano.
-
-Carlos exclamava para o Ega, com os olhos já apaixonados:
-
---Isto agora é sério. Precisamos arranjar immediatamente a casa para a
-redacção!
-
-Ega bracejava:
-
---Pudera! E moveis! E machinas!
-
-Toda a manhã, no escriptorio d'Affonso, azafamados, com papel e lapis,
-se occuparam em fixar uma lista de collaboradores. Mas já as
-difficuldades surgiam. Quasi todos os escriptores suggeridos
-desagradavam ao Ega, por lhes faltar no estylo aquelle requinte plastico
-e parnasiano de que elle desejava que a _Revista_ fosse o impeccavel
-modelo. E a Carlos alguns homens de letras pareciam _impossiveis_--sem
-querer confessar que n'elles lhe repugnava exclusivamente a falta de
-linha e o fato mal feito...
-
-Uma coisa porém ficou decidida: a casa da redacção. Devia ser mobilada
-luxuosamente, com sofás do consultorio de Carlos e algum _bric-à-brac_
-da _Toca_: e sobre a porta (ornada d'um guarda-portão de libré) a
-taboleta de verniz preto, com _Revista de Portugal_ em altas letras a
-ouro. Carlos sorria, esfregava as mãos, pensando na alegria de Maria ao
-saber esta decisão que o lançava, como era o desejo d'ella, na
-actividade, n'uma lucta interessante d'ideias. Ega, esse, via já a
-brochura côr de canario aos montões nas vitrines dos livreiros,
-discutida nas _soirées_ do Gouvarinho, folheada na camara com espanto
-pelos politicos...
-
---Vai-se remexer Lisboa este inverno, snr. Affonso da Maia! gritou elle
-atirando um gesto immenso até ao tecto.
-
-E o mais contente era o velho.
-
-Depois de jantar, Carlos pediu ao Ega para ir com elle á rua de S.
-Francisco (onde Maria se installára n'essa manhã) levarem a nova da
-grande obra. Mas encontraram á porta uma carroça descarregando malas; e
-a senhora, contou o Domingos que ajudava os carroceiros, estava ainda
-jantando a um canto da mesa e sem toalha. Com tanta confusão na casa,
-Ega não quiz subir.
-
---Até logo, disse elle. Vou talvez procurar o Simão Craveiro e
-fallar-lhe da _Revista_.
-
-Subiu lentamente o Chiado, leu os telegrammas na Casa Havaneza. Depois á
-esquina da rua Nova da Trindade, um homem rouco, sumido n'um paletot,
-offereceu-lhe uma «senhasinha». Outros, em volta, gritavam na sombra do
-_Hotel Alliança_:
-
---Bilhete para o Gymnasio! Mais barato... Bilhete para o Gymnasio! Quem
-vende?...
-
-Havia um cruzar animado de carruagens com librés. Os bicos de gaz do
-Gymnasio tinham um fulgor de festa. E Ega deu de rosto com o Craft que
-atravessava do lado do Loreto, de gravata branca e flôr no paletot.
-
---Que é isto?
-
---Festa de beneficencia, não sei, disse o Craft. Uma coisa promovida por
-senhoras, a baroneza d'Alvim mandou-me um bilhete... Venha você d'ahi
-ajudar-me a levar esta caridade ao Calvario.
-
-E na esperança de flirtar com a Alvim, Ega comprou logo uma senha. No
-perystilo do Gymnasio encontraram Taveira passeando e fumando
-solitariamente, á espera que findasse a primeira comedia, o _Fructo
-prohibido_. Então Craft propôz «botequim e genebra».
-
---E que ha do ministerio? perguntou elle, apenas abancaram a um canto.
-
-O Taveira não sabia. Todos esses dois longos dias se intrigára
-desesperadamente. O Gouvarinho queria as Obras Publicas: o Videira
-tambem. E fallava-se d'uma scena terrivel por causa de syndicatos, em
-casa do presidente do conselho, o Sá Nunes, que terminára por dar um
-murro na mesa, gritar: «Irra! que isto não é o pinhal d'Azambuja!»
-
---Canalha! rosnou Ega com odio.
-
-Depois fallaram do Ramalhete, da volta d'Affonso, da reapparição de
-Carlos. Craft louvou Deus por haver outra vez n'esse inverno uma casa
-com fogões, onde se passasse uma hora civilisada e intelligente.
-
-Taveira acudiu com o olho brilhante:
-
---Diz que vamos ter um centrosinho muito mais interessante ainda, na rua
-de S. Francisco! Foi o marquez que me disse. Madame Mac-Gren vai
-receber.
-
-Craft não sabia mesmo que ella já tivesse recolhido da _Toca_.
-
---Voltou hoje, disse o Ega. Você ainda não a conhece?... Encantadora.
-
---Creio que sim.
-
-O Taveira vira-a de relance no Chiado. Parecera-lhe uma belleza. E um ar
-tão sympathico!
-
---Encantadora! repetiu Ega.
-
-Mas o _Fructo prohibido_ findára, os homens enchiam o peristylo, n'um
-rumor lento, accendendo os cigarros. E Ega, deixando o Craft e Taveira
-com a genebra, correu á plateia para descobrir o camarote da Alvim.
-
-Mal erguera porém a cortina e assestára o monoculo--avistou defronte, na
-primeira ordem, a Cohen, toda de preto, com um grande leque de rendas
-brancas; por traz negrejavam as suissas fortes do marido; e em face
-d'ella, recostado no velludo da grade, de casaca, com a bochecha
-risonha, uma grossa perola no peitilho da camisa, o Damaso, o bebedo!
-
-Ega cahiu mollemente, ao acaso, na borda d'uma cadeira: e perturbado, já
-esquecido da Alvim, alli ficou a olhar o panno coberto d'annuncios,
-correndo os dedos tremulos pelo bigode.
-
-No emtanto a campainha retinia, a gente vagarosamente reentrava na
-plateia. Um cavalheiro gordo e carrancudo tropeçou no joelho do Ega:
-outro, de luvas claras, com uma polidez adocicada, pediu permissão a s.
-exc.^a Elle não escutava, não percebia: os seus olhos, um momento
-errantes, tinham-se emfim cravado no camarote da Cohen e não se
-desviaram de lá, n'uma emoção que o empallidecia.
-
-Não a tornára a encontrar desde Cintra, onde só a via de longe, com
-vestidos claros sob o verde das arvores; e agora alli, toda de preto, em
-cabello, com um decote curto onde brilhava a perfeita brancura do seu
-collo, ella era outra vez a _sua_ Rachel, dos tempos divinos da _villa_
-Balzac. Era assim que elle, todas as noites em S. Carlos, a contemplava
-do fundo da frisa de Carlos, com a cabeça encostada ao tabique, saturado
-de felicidade. Lá tinha a sua luneta d'ouro, presa por um fio d'ouro.
-Parecia mais pallida, mais delicada, com o longo quebranto dos olhos
-pisados, o seu ar de romance e de lirio meio murcho: e como então os
-seus cabellos magnificos e pesados cahiam habilmente n'uma massa meia
-solta sobre as costas, n'um desalinho de nudez. Pouco a pouco, entre o
-afinar de rebecas e o rumor das cadeiras Ega revia, n'uma onda de
-recordações que o suffocava, o grande leito da _villa_ Balzac, certos
-beijos e certos risos, as perdizes comidas em camisa á borda do sofá, e
-a melancolia deliciosa das tardes, quando ella sahia furtivamente,
-coberta de véos, e elle ficava, cansado, no crepusculo poetico do
-quarto, cantarolando a _Traviata_...
-
---V. exc.^a dá licença, snr. Ega?
-
-Era um sujeito escaveirado, de barba rala, que reclamava a sua cadeira.
-Ega ergueu-se, confusamente, sem reconhecer o snr. Sousa Netto. O panno
-subira. Á borda da rampa um lacaio, piscando o olho á Plateia, fazia
-confidencias sobre a patrôa, de espanejador debaixo do braço. E Cohen,
-agora de pé, enchia o meio do camarote, cofiando as suissas com um
-correr lento da mão bem tratada, onde reluzia um diamante.
-
-Ega então, n'um soberbo alarde d'indifferença, cravou o monoculo no
-palco. O lacaio abalára espavorido, a um repique furioso de sineta; e
-uma megera azeda, de roupão verde e touca á banda, rompera de dentro,
-meneando desesperadamente o leque, ralhando com uma mocinha delambida
-que batia o tacão, se esganiçava: «Pois hei de amal-o sempre! hei de
-amal-o sempre!»
-
-Irresistivelmente Ega revirou o canto do olho para o camarote: Rachel e
-o Damaso, com as cabeças chegadas como em Cintra, cochichavam n'um
-sorriso. E tudo logo dentro do Ega se resumiu n'um immenso odio ao
-Damaso! Collado á umbreira da porta, rilhava os dentes, n'um desejo de
-subir, escarrar-lhe na bochecha gorda.
-
-E não desviava d'elle os olhos, que dardejavam. Na scena, um velho
-general, gottoso e resmungão, sacudia um jornal, gritava pela sua
-tapioca. A Plateia ria, o Cohen ria. E n'esse momento Damaso, que se
-debruçára no camarote com as mãos de fóra, calçadas de _gris-perle_,
-descobriu o Ega, sorriu, atirou-lhe como em Cintra um acenosinho
-petulante, muito d'alto, na ponta dos dedos. Isto feriu o Ega como um
-insulto. E ainda na vespera aquelle covarde se lhe agarrára ás mãos,
-tremendo todo, a gritar «que o salvasse!...»
-
-Subitamente, com uma idéa, palpou por sobre o bolso a carteira onde na
-vespera guardára a carta do Damaso... «Eu t'arranjo!» murmurou elle. E
-abalou, desceu a rua da Trindade, cortou pelo Loreto como uma pedra que
-rola, enfiou, ao fundo da praça de Camões, n'um grande portão que uma
-lanterna alumiava. Era a redacção da _Tarde_.
-
-Dentro do pateo d'esse jornal elegante fedia. Na escadaria de pedra, sem
-luz, cruzou um sujeito encatarrhoado que lhe disse que o Neves estava em
-cima ao cavaco. O Neves, deputado, politico, director da _Tarde_, fôra,
-havia annos, n'umas ferias, seu companheiro de casa no largo do Carmo; e
-desde esse verão alegre em que o Neves lhe ficára sempre devendo tres
-moedas, os dois tratavam-se por _tu_.
-
-Foi encontral-o n'uma vasta sala alumiada por bicos de gaz sem globo,
-sentado na borda d'uma mesa atulhada de jornaes, com o chapéo para a
-nuca, discursando a alguns cavalheiros de provincia que o escutavam de
-pé, n'um respeito de crentes. N'um vão de janella, com dois homens
-d'idade, um rapaz esgalgado, de jaquetão de cheviote claro e uma
-cabelleira crespa que parecia erguida n'uma rajada de vento, bracejava
-como um moinho na crista d'um monte. E, abancado, outro sujeito já calvo
-rascunhava laboriosamente uma tira de papel.
-
-Ao vêr o Ega (um intimo do Gouvarinho) alli na redacção, n'aquella noite
-de intriga e de crise, Neves cravou n'elle os olhos tão curiosos, tão
-inquietos, que o Ega apressou-se a dizer:
-
---Nada de politica, negocio particular... Não te interrompas. Depois
-fallaremos.
-
-O outro findou a injuria que estava lançando ao José Bento, «essa grande
-besta que fôra metter tudo no bico da amiga do Sousa e Sá, o par do
-reino»--e na sua impaciencia saltou da mesa, travou do braço do Ega
-arrastando-o para um canto:
-
---Então que é?
-
---É isto, em quatro palavras. O Carlos da Maia foi offendido ahi por um
-sujeito muito conhecido. Nada d'interessante. Um paragrapho immundo na
-_Corneta do Diabo_, por uma questão de cavallos... O Maia pediu-lhe
-explicações. O outro deu-as, chatas, medonhas, n'uma carta que quero que
-vocês publiquem.
-
-A curiosidade do Neves flammejou:
-
---Quem é?
-
---O Damaso.
-
-O Neves recuou d'assombro:
-
---O Damaso!? Ora essa! Isso é extraordinario! Ainda esta tarde jantei
-com elle! Que diz a carta?
-
---Tudo. Pede perdão, declara que estava bebedo, que é de profissão um
-bebedo...
-
-O Neves agitou as mãos com indignação:
-
---E tu querias que eu publicasse isso, homem? O Damaso, nosso amigo
-politico!... E que não fosse, não é questão de partido, é de decencia!
-Eu faço lá isso!... Se fosse uma acta de duello, uma coisa honrosa,
-explicações dignas... Mas uma carta em que um homem se declara bebedo!
-Tu estás a mangar!
-
-Ega, já furioso, franzia a testa. Mas o Neves, com todo o sangue na
-face, teve ainda uma revolta áquella idéa do Damaso se declarar bebedo!
-
---Isso não póde ser! É absurdo! Ahi ha historia... Deixa vêr a carta.
-
-E, mal relanceára os olhos ao papel, á larga assignatura floreada,
-rompeu n'um alarido:
-
---Isto não é o Damaso nem é letra do Damaso!... «Salcede»! Quem diabo é
-«Salcede»? Nunca foi o _meu_ Damaso!
-
---É o _meu_ Damaso, disse o Ega. O Damaso Salcede, um gordo...
-
-O outro atirou os braços ao ar:
-
---O meu é o Guedes, homem, o Damaso Guedes! Não ha outro! Que diabo,
-quando se diz o Damaso é o Guedes!...
-
-Respirou com grande allivio:
-
---Irra, que me assustaste! Olha agora n'este momento, com estas coisas
-de ministerio, uma carta d'essas escripta pelo Guedes... Se é o Salcede,
-bem, acabou-se! Espera lá... Não é um gordalhufo, um janota que tem uma
-propriedade em Cintra? Isso! Um maganão que nos entalou na eleição
-passada, fez gastar ao Silverio mais de trezentos mil reis...
-Perfeitamente, ás ordens... Ó Pereirinha, olhe aqui o snr. Ega. Tem ahi
-uma carta para sahir ámanhã, na primeira pagina, typo largo...
-
-O snr. Pereirinha lembrou o artigo do snr. Vieira da Costa sobre a
-«Reforma das Pautas».
-
---Vai depois! gritou o Neves. As questões de honra antes de tudo!
-
-E voltou ao seu grupo onde agora se fallava do conde de Gouvarinho,
-saltou para a borda da mesa, lançou logo o seu vozeirão de chefe,
-affirmando no Gouvarinho enormes dotes de parlamentar!
-
-Ega accendeu o charuto, ficou um momento considerando aquelles sujeitos
-que pasmavam para o verbo do Neves. Eram decerto deputados que a crise
-arrastára a Lisboa, arrancára á quietação das villas e das quintas. O
-mais novo parecia um pote, vestido de casimira fina, com uma enorme face
-a estourar de sangue, jocundo, crasso, lembrando ares sadios e lombo de
-porco. Outro, esguio, com o paletot solto sobre as costas em arco, tinha
-um queixo duro e macisso de cavallo: e dois padres muito rapados, muito
-morenos, fumavam pontas de cigarro. Em todos havia esse ar,
-conjunctamente apagado e desconfiado, que marca os homens de provincia,
-perdidos entre as tipoias e as intrigas da Capital. Vinham alli ás
-noites, áquelle jornal do partido, saber as novas, _beber do fino_, uns
-com esperanças de empregos, outros por interesses de terriola, alguns
-por ociosidade. Para todos o Neves era um «robusto talento»;
-admiravam-lhe a verbosidade e a tactica; decerto gostavam de citar nas
-lojas das suas villas o amigo Neves, o jornalista, o da _Tarde_... Mas,
-através d'essa admiração e do prazer de roçar por elle, percebia-se-lhes
-um vago medo que aquelle «robusto talento» lhes pedisse, n'um vão de
-janella, duas ou tres moedas. O Neves no emtanto celebrava o Gouvarinho
-como orador. Não que tivesse os rasgos, a pureza, as bellas syntheses
-historicas do José Clemente! Nem a poesia do Rufino! Mas não havia outro
-para as piadas que ferem e que ficam cravadas, alli a arder, na pelle do
-touro! E era a grande coisa na Camara--ter a farpa, sabêl-a ferrar!
-
---Ó Gonçalo, tu lembras-te da piada do Gouvarinho, a do trapezio? gritou
-elle virando-se para a janella, para o rapaz de jaquetão claro.
-
-O Gonçalo, cujos olhos pretos refulgiram de agudeza e malicia, estendeu
-o pescoço magro n'um collarinho muito decotado, lançou de lá:
-
---A do trapezio? Divina! Conta á rapaziada!
-
-A rapaziada arregalou os olhos para o Neves, á espera da «do trapezio».
-Fôra na Camara dos Pares, na reforma da instrucção. Estava fallando o
-Torres Valente, esse maluco que defendia a gymnastica dos collegios e
-queria as meninas a fazerem a prancha. Gouvarinho ergue-se e atira-lhe
-esta:
-
-«Snr. presidente, direi uma palavra só. Portugal sahirá para sempre da
-senda do progresso, em que tanto se tem illustrado, no dia em que nós
-fôrmos ao ensino, com mão impia, substituir a cruz pelo trapezio!»
-
---Muito bem! rosnou um dos padres profundamente satisfeito.
-
-E no murmurio de admiração que se ergueu destacou um ganido--o do rapaz
-mais grosso que um pote, que mexia os hombros, chasqueava com uma risota
-na bochecha côr de tomate:
-
---Pois, senhores, o que esse conde de Gouvarinho me sae é um grandissimo
-carola!
-
-E em redor correram sorrisos entre os cavalheiros de provincia, liberaes
-e finorios, que achavam aquelle fidalgo excessivamente apegado á cruz.
-Mas já o Neves, de pé, bravejava:
-
---Carola! Vem-nos agora o menino gordo com carola!... O Gouvarinho
-carola! Está claro que tem toda a orientação mental do seculo, é um
-racionalista, um positivista... Mas a questão aqui é a réplica, a
-tactica parlamentar! Desde que o typo da maioria vem de lá com a
-descoberta do trapezio, Gouvarinho amigo, ainda que fosse tão atheu como
-Renan, zás! atira-lhe logo para cima com a cruz!... Isto é que é a
-estrategia parlamentar! Pois não é assim, Ega?
-
-Ega murmurou, através do fumo do charuto:
-
---Sim, com effeito a cruz para isso ainda serve...
-
-Mas n'esse momento o sujeito calvo, que repellira a tira de papel e se
-espreguiçava, cahido para as costas da cadeira, exhausto, pediu ao snr.
-João da Ega--que fallasse á gente e guardasse o seu dinheiro...
-
-Ega acercou-se logo d'aquelle sympathico homem, tão engraçado, tão
-querido de todos:
-
---Então, na grande faina, Melchior?
-
---Estou aqui a vêr se faço uma coisa sobre o livro do Craveiro, os
-_Cantos da Serra_, e não me sae nada em termos... Não sei o que hei de
-dizer!
-
-Ega gracejou, de mãos nos bolsos, muito risonho, muito camarada com o
-Melchior:
-
---Nada! Vocês aqui são simples localistas, noticiaristas, annunciadores.
-D'um livro como o do Craveiro têm só respeitosamente a dizer onde se
-vende e quanto custa.
-
-O outro considerou o Ega ironicamente, com os dedos cruzados por traz da
-nuca:
-
---Então onde queria você que se fallasse dos livros?... Nos reportorios?
-
-Não, nas Revistas Criticas: ou então nos jornaes--que fossem jornaes,
-não papeluchos volantes, tendo em cima uma cataplasma de politica em
-estylo mazorro ou em estylo fadista, um romance mal traduzido do francez
-por baixo e o resto cheio com «annos», despachos, parte de policia e
-loteria da Misericordia. E como em Portugal não havia nem jornaes sérios
-nem Revistas Criticas--que se não fallasse em parte nenhuma.
-
---Com effeito, murmurou Melchior, ninguem falla de nada, ninguem parece
-pensar em nada...
-
-E com toda a razão, affirmou Ega. Certamente muito d'esse silencio
-provinha do natural desejo que têm os que são mediocres de que se não
-alluda muito aos que são grandes. É a invejasinha reles e rastejante!
-Mas em geral o silencio dos jornaes para com os livros provém sobretudo
-d'elles terem abdicado todas as funcções elevadas d'estudo e de critica,
-de se terem tornado folhas rasteiras d'informação caseira, e de sentirem
-por isso a sua incompetencia...
-
---Está claro, não fallo por você, Melchior, que é dos nossos e de
-primeira ordem! Mas os seus collegas, menino, calam-se por se saberem
-incompetentes...
-
-O Melchior ergueu os hombros com um ar cançado e descrente:
-
---Calam-se tambem porque o publico não se importa, ninguem se importa...
-
-Ega protestou, já excitado. O Publico não se importava!? Essa era
-curiosa! O Publico então não se importa que lhe fallem de livros que
-elle compra aos tres mil, aos seis mil exemplares? E isto, dada a
-população de Portugal, caramba, é igual aos grandes successos de Paris e
-de Londres... Não, Melchiorzinho amigo, não! Esse silencio diz ainda
-mais claramente e retumbantemente que as palavras: «Nós somos
-incompetentes. Nós estamos bestialisados pela noticia do snr.
-conselheiro que chegou ou do snr. conselheiro que partiu, pelos
-_High-lifes_, pela amabilidade dos donos da casa, pelo artigo de fundo
-em descompostura e calão, por toda esta prosa chula em que nos
-atolamos... Nós não sabemos, não podemos já fallar d'uma obra d'arte ou
-d'uma obra de historia, d'este bello livro de versos ou d'este bello
-livro de viagens. Não temos nem phrases nem idéas. Não somos talvez
-cretinos--mas estamos cretinisados. A obra de litteratura passa muito
-alto--nós chafurdamos aqui muito em baixo...»
-
---E aqui tem você, Melchior, o que diz, através do silencio dos jornaes,
-o côro dos jornalistas!
-
-Melchior sorria, enlevado, com a cabeça deitada para traz, como quem
-goza uma bella ária. Depois com uma palmada na mesa:
-
---Caramba, ó Ega, muito bem falla você!... Você nunca pensou em ser
-deputado? Eu ainda outro dia dizia ao Neves: «O Ega! O Ega é que era,
-para atirar alli na camara a piadinha á Rochefort. Ardia Troia!»
-
-E immediatamente, emquanto Ega ria, contente, tornando a accender o
-charuto--Melchior arrebatou a penna:
-
---Você está em veia! Diga lá, dicte lá... Que hei de eu aqui pôr sobre o
-livro do Craveiro?
-
-Ega quiz saber o que escrevera já o amigo Melchior. Apenas tres linhas:
-«Recebemos o novo livro do nosso glorioso poeta Simão Craveiro. O
-precioso volume, onde scintillam em caprichosos relevos todas as joias
-d'este prestigioso escriptor, é publicado pelos activos editores...» E
-aqui o Melchior emperrára. Melchior não gostava d'aquelle frouxo
-termo--_activos_. Ega então suggeriu--_emprehendedores_. Melchior
-emendou, leu:
-
---«...publicado pelos emprehendedores editores...» Ora sêbo, rima!
-
-Arrojou a penna, descorçoado. Acabou-se! Não estava em _verve_. E além
-d'isso era tarde, tinha a rapariga á espera...
-
---Fica para ámanhã... O peor é que já ando n'isto ha cinco dias! Irra!
-Você tem razão, a gente bestialisa-se. E faz-me raiva! Não é lá pelo
-livro, não me importa o livro... É pelo Craveiro, que é bom rapaz, e
-demais a mais pertence cá ao partido!
-
-Abriu um gavetão, sacou uma escova, rompeu a escovar-se com desespero. E
-Ega ia ajudal-o, limpar-lhe as costas cheias de cal--quando entre elles
-surgiu a face chupada e nervosa do Gonçalo, com a sua gaforinha
-perpetuamente erguida como por uma rajada de vento.
-
---Que está o Egasinho a fazer n'este covil da noticia?
-
---Aqui a escovar o Sampaio... Estive tambem a ouvir o Neves, a grande
-phrase do Gouvarinho...
-
-O Gonçalo pulou, com uma faisca de malicia nos olhos negros de algarvio
-esperto.
-
---A da cruz? Espantosa! Mas ha melhor, ha melhor!
-
-Travou do braço do Ega, puxou-o para um canto da janella:
-
---É necessario fallar baixo por causa da rapaziada de provincia... Ha
-outra deliciosa. Eu não me lembro bem, o Neves é que sabe! É uma coisa
-da Liberdade conduzindo á mão o corcel do Progresso... O quer que seja
-assim, uma imagem equestre! A Liberdade com calções de jockey, o
-Progresso com um grande freio... Espantoso! Que besta, aquelle
-Gouvarinho! E os outros, menino, os outros! Você não foi á camara quando
-se discutiu a questão de Tondella? Extraordinario! O que se disse! Foi
-de morrer! E eu morro! Esta politica, este S. Bento, esta eloquencia,
-estes bachareis matam-me. Querem dizer agora ahi que isto por fim não é
-peor que a Bulgaria. Historias! Nunca houve uma choldra assim no
-universo!
-
---Choldra em que você chafurda! observou o Ega rindo.
-
-O outro recuou com um grande gesto:
-
---Distingamos! Chafurdo por necessidade, como politico: e tróço por
-gosto, como artista!
-
-Mas Ega justamente achava uma desgraça incomparavel para o paiz--esse
-immoral desaccordo entre a intelligencia e o caracter. Assim, alli
-estava o amigo Gonçalo, como homem de intelligencia, considerando o
-Gouvarinho um imbecil...
-
---Uma cavalgadura, corrigiu o outro.
-
---Perfeitamente! E todavia, como politico, você quer essa cavalgadura
-para ministro, e vai apoial-a com votos e com discursos sempre que ella
-rinche ou escoucinhe.
-
-Gonçalo correu lentamente a mão pela gaforinha, com a face franzida:
-
---É necessario, homem! Razões de disciplina e de solidariedade
-partidaria... Ha uns compromissos... O paço quer, gosta d'elle...
-
-Espreitou em roda, murmurou, collado ao Ega:
-
---Ha ahi umas questões de syndicatos, de banqueiros, de concessões em
-Moçambique... Dinheiro, menino, o omnipotente dinheiro!
-
-E como Ega se curvava, vencido, cheio só de respeito--o outro, faiscando
-todo de finura e cynismo, atirou-lhe uma palmada ao hombro:
-
---Meu caro, a politica hoje é uma coisa muito differente! Nós fizemos
-como vocês os litteratos. Antigamente a litteratura era a imaginação, a
-phantasia, o ideal... Hoje é a realidade, a experiencia, o facto
-positivo, o documento. Pois cá a politica em Portugal tambem se lançou
-na corrente realista. No tempo da Regeneração e dos Historicos a
-politica era o progresso, a viação, a liberdade, o palavrorio... Nós
-mudamos tudo isso. Hoje é o facto positivo,--o dinheiro, o dinheiro! o
-bago! a _massa_! A rica _massinha_ da nossa alma, menino! O divino
-dinheiro!
-
-E de repente emmudeceu, sentindo na sala um silencio--onde o seu grito
-de «dinheiro! dinheiro!» parecera ficar vibrando, no ar quente do gaz,
-com a prolongação de um toque de rebate acordando as cubiças, chamando
-ao longe e ao largo todos os habeis para o saque da Patria inerte!...
-
-O Neves desapparecera. Os cavalheiros de provincia dispersavam, uns
-enfiando o paletot, outros sem pressa dando um olhar amortecido aos
-jornaes sobre a mesa. E o Gonçalo bruscamente disse adeus ao Ega, rodou
-nos tacões, desappareceu tambem, abraçando ao passar um dos padres a
-quem tratou de «malandro!»
-
-Era meia noite, Ega sahiu. E na tipoia que o levava ao Ramalhete, já
-mais calmo, começou logo a reflectir que o resultado da publicação da
-carta seria despertar em toda Lisboa uma curiosidade voraz. A «questão
-de cavallos» com que o Neves se contentára promptamente, distrahido e
-absorvido n'essa noite pela crise,--ninguem mais a acreditaria... O
-Damaso decerto, interrogado, para se desculpar, contaria horrores de
-Maria e de Carlos: e uma intoleravel luz d'escandalo ia bater coisas que
-deviam permanecer na sombra. Eram talvez apoquentações, desesperos que
-elle assim estivera preparando a Carlos--por causa d'um odiosinho ao
-Damaso. Nada mais egoista e pequeno!... E subindo para o quarto Ega
-decidia correr depois d'almoço á redacção da _Tarde_, suster a
-publicação da carta.
-
-Mas toda essa noite sonhou com Rachel e com Damaso. Via-os rolando por
-uma estrada sem fim, entre pomares e vinhedos, deitados n'uma carroça de
-bois, sobre um enxergão onde se desdobrava, lasciva e rica, a sua colcha
-de setim preto da _villa_ Balzac: os dois beijavam-se, enroscados, sem
-pudor, sob a fresca sombra que cahia dos ramos, ao chiar lento das
-rodas. E por um requinte do sonho cruel, elle Ega, sem perder a
-consciencia e o orgulho d'homem, era um dos bois que puxava ao carro! Os
-moscardos picavam-no, a canga pesava-lhe; e, a cada beijo mais cantado
-que atraz soava no carro, elle erguia o focinho a escorrer de baba,
-sacudia os cornos, mugia lamentavelmente para os céos!
-
-Acordou n'estes urros d'agonia: e a sua cólera contra o Damaso resurgiu,
-mais nutrida pelas incoherencias do sonho. Além d'isso chovia. E decidiu
-não voltar á _Tarde_, deixar imprimir a carta. Que importava, de resto,
-o que dissesse o Damaso? O artigo da _Corneta_ estava extincto, o Palma
-bem pago.--E quem jámais acreditaria n'um homem que nos jornaes se
-declara calumniador e bebedo?
-
-E Carlos assim pensou tambem--quando, depois d'almoço, Ega lhe contou a
-sua resolução da vespera ao vêr o Damaso no camarote, d'olho trocista
-posto n'elle, a segredar com os Cohens...
-
---Percebi claramente, sem erro possivel, que estava a fallar de ti, da
-snr.^a D. Maria, de nós todos, contando horrores... E então acabou-se,
-não hesitei mais. Era necessario deixar passar a justiça de Deus! Não
-tinhamos paz emquanto o não aniquilassemos!
-
-Sim, concordou Carlos, talvez. Sómente receava que o avô, sabendo o
-escandalo, se desgostasse de vêr o seu nome misturado a toda aquella
-sordidez de _Corneta_ e de bebedeira...
-
---Elle não lê a _Tarde_, acudiu Ega. O rumor, se lhe chegar, é já vago e
-desfigurado.
-
-Com effeito Affonso soube apenas confusamente que o Damaso soltára no
-Gremio algumas palavras desagradaveis para Carlos, e declarára depois
-n'um jornal que, n'esse momento, estava bebedo. E a opinião do velho
-foi--que se o Damaso estava embriagado (e d'outro modo como teria
-injuriado Carlos, seu antigo amigo?) a sua declaração revelava extrema
-lealdade e um amor quasi heroico da verdade!
-
---Por esta não esperavamos nós! exclamou depois Ega no quarto de Carlos.
-O Damaso torna-se um justo!
-
-De resto os amigos da casa, sem conhecer o artigo da _Corneta_,
-approvavam a aniquilação do Damaso. Só o Craft sustentou que Carlos lhe
-devia ter antes dado «bengaladas secretas»; e o Taveira achou cruel que
-se dissesse ao desgraçado, com um florete ao peito--«ou a dignidade ou a
-vida!»
-
-Mas dias depois não se fallava mais n'esse escandalo. Outras coisas
-interessavam o Chiado e a Casa Havaneza. O ministerio fôra formado,
-finalmente! Gouvarinho entrava na Marinha--Neves no Tribunal de Contas.
-Já os jornaes do governo cahido começavam, segundo a pratica
-constitucional, a achar o paiz irremediavelmente perdido, e a alludir ao
-rei com azedume... E o derradeiro, esvaído echo da carta do Damaso foi,
-na vespera do sarau da Trindade, um paragrapho da propria _Tarde_ onde
-ella fôra publicada, n'estas amaveis palavras:
-
---«O nosso amigo e distincto _sportman_ Damaso Salcede parte brevemente
-para uma viagem de recreio a Italia. Desejamos ao elegante _touriste_
-todas as prosperidades na sua bella excursão ao paiz do canto e das
-artes.»
-
-
-
-
-VI
-
-
-Ao fim do jantar, na rua de S. Francisco, Ega que se demorára no
-corredor a procurar a charuteira pelos bolsos do paletot, entrou na
-sala, perguntando a Maria, já sentada ao piano:
-
---Então, definitivamente, v. exc.^a não vem ao sarau da Trindade?...
-
-Ella voltou-se para dizer, preguiçosamente, por entre a walsa lenta que
-lhe cantava entre os dedos:
-
---Não me interessa, estou muito cançada...
-
---É uma sécca, murmurou Carlos do lado, da vasta poltrona onde se
-estirára consoladamente, fumando, d'olhos cerrados.
-
-Ega protestou. Tambem era uma massada subir ás Pyramides no Egypto. E no
-emtanto soffria-se invariavelmente, porque nem todos os dias póde um
-christão trepar a um monumento que tem cinco mil annos de existencia...
-Ora a snr.^a D. Maria, n'este sarau, ia vêr por dez tostões uma coisa
-tambem rara,--a alma sentimental d'um povo exhibindo-se n'um palco, ao
-mesmo tempo nua e de casaca.
-
---Vá, coragem! um chapéo, um par de luvas, e a caminho!
-
-Ella sorria, queixando-se de fadiga e preguiça.
-
---Bem, exclamou Ega, eu é que não quero perder o Rufino... Vamos lá,
-Carlos, mexe-te!
-
-Mas Carlos implorou clemencia:
-
---Mais um bocadinho, homem! Deixa a Maria tocar umas notas do _Hamlet_.
-Temos tempo... Esse Rufino, e o Alencar, e os bons, só gorgeiam mais
-tarde...
-
-Então Ega, cedendo tambem a todo aquelle conchego tepido e amavel,
-enterrou-se no sofá com o charuto, para escutar a canção d'_Ophelia_, de
-que Maria já murmurava baixo as palavras scismadoras e tristes:
-
-
- Pâle et blonde,
- Dort sous l'eau profonde...
-
-
-Ega adorava esta velha ballada escandinavia. Mais porém o encantava
-Maria que nunca lhe parecera tão bella: o vestido claro que tinha n'essa
-noite modelava-a com a perfeição d'um marmore: e entre as velas do
-piano, que lhe punham um traço de luz no perfil puro e tons d'ouro
-esfiado no cabello--o incomparavel eburneo da sua pelle ganhava em
-esplendor e mimo... Tudo n'ella era harmonioso, são, perfeito... E
-quanto aquella serenidade da sua fórma devia tornar delicioso o ardor da
-sua paixão! Carlos era positivamente o homem mais feliz d'estes reinos!
-Em torno d'elle só havia facilidades, doçuras. Era rico, intelligente,
-d'uma saude de pinheiro novo; passava a vida adorando e adorado; só
-tinha o numero d'inimigos que é necessario para confirmar uma
-superioridade; nunca soffrera de dyspepsia; jogava as armas bastante
-para ser temido; e na sua complacencia de forte nem a tolice publica o
-irritava. Sêr verdadeiramente ditoso!
-
---Quem é por fim esse Rufino? perguntou Carlos, alongando mais os pés
-pelo tapete, quando Maria findou a canção d'_Ophelia_.
-
-Ega não sabia. Ouvira que era um deputado, um bacharel, um inspirado...
-
-Maria, que procurava os nocturnos de Chopin, voltou-se:
-
---É esse grande orador de que fallavam na _Toca_?
-
-Não, não! Esse era outro, a sério, um amigo de Coimbra, o José Clemente,
-homem d'eloquencia e de pensamento... Este Rufino era um ratão de pera
-grande, deputado por Monção, e sublime n'essa arte, antigamente nacional
-e hoje mais particularmente provinciana, de arranjar, n'uma voz de
-theatro e de papo, combinações sonoras de palavras...
-
---Detesto isso! rosnou Carlos.
-
-Maria tambem achava intoleravel um sujeito a chilrear, sem idéas, como
-um passaro n'um galho d'arvore...
-
---É conforme a occasião, observou Ega, olhando o relogio. Uma walsa de
-Strauss tambem não tem idéas, e á noite, com mulheres n'uma sala, é
-deliciosa...
-
-Não, não! Maria entendia que essa rhetorica amesquinhava sempre a
-palavra humana, que, pela sua natureza mesma, só póde servir para dar
-fórma ás idéas. A musica, essa, falla aos nervos. Se se cantar uma
-marcha a uma criança, ella ri-se e salta no collo...
-
---E se lhe lêres uma pagina de Michelet, concluiu Carlos, o anjinho
-secca-se e berra!
-
---Sim, talvez, considerou o Ega. Tudo isso depende da latitude e dos
-costumes que ella cria. Não ha inglez, por mais culto e espiritualista,
-que não tenha um fraco pela força, pelos athletas, pelo _sport_, pelos
-musculos de ferro. E nós, os meridionaes, por mais criticos, gostamos do
-palavriadinho mavioso. Eu cá pelo menos, á noite, com mulheres, luzes,
-um piano e gente de casaca, pello-me por um bocado de rhetorica.
-
-E, com o appetite assim desperto, ergueu-se logo para enfiar o paletot,
-voar á _Trindade_, n'um receio de perder o Rufino.
-
-Carlos deteve-o ainda, com uma grande idéa:
-
---Espera. Descobri melhor, fazemos o sarau aqui! Maria toca Beethoven;
-nós declamamos Mussuet, Hugo, os parnasianos; temos padre Lacordaire se
-te appetece a eloquencia; e passa-se a noite n'uma medonha orgia
-d'ideal!...
-
---E ha melhores cadeiras, acudiu Maria.
-
---Melhores poetas, affirmou Carlos.
-
---Bons charutos!
-
---Bom cognac!
-
-Ega alçou os braços ao ar, desolado. Ahi está como se pervertia um
-cidadão, impedindo-o de proteger as letras patrias--com promessas
-perfidas de tabaco e de bebidas!... Mas de resto elle não tinha só uma
-razão litteraria para ir ao sarau. O Cruges tocava uma das suas
-_Meditações d'Outono_, e era necessario dar palmas ao Cruges.
-
---Não digas mais! gritou Carlos, dando um pulo da poltrona. Esquecia-me
-o Cruges!... É um dever d'honra! Abalemos.
-
-E d'ahi a pouco, tendo beijado a mão de Maria que ficava ao piano, os
-dois, surprehendidos com a belleza d'essa noite d'inverno, tão clara e
-dôce, seguiam devagar pela rua--onde Carlos ainda duas vezes se voltou
-para olhar as janellas alumiadas.
-
---Estou bem contente, exclamou elle travando do braço do Ega, em ter
-deixado os Olivaes!... Aqui ao menos podemos reunir-nos para um bocado
-de cavaco e de litteratura...
-
-Tencionava arranjar a sala com mais gosto e conforto, converter o quarto
-ao lado n'um _fumoir_ forrado com as suas colchas da India, depois ter
-um dia certo em que viessem os amigos cear... Assim se realisava o velho
-sonho, o cenaculo de dilettantismo e d'arte... Além d'isso havia a
-lançar a _Revista_, que era a suprema pandega intellectual. Tudo isto
-annunciava um inverno _chic a valer_, como dizia o defunto Damaso.
-
---E tudo isto, resumiu o Ega, é dar civilisação ao paiz. Positivamente,
-menino, vamo-nos tornar grandes cidadãos!...
-
---Se me quizerem erguer uma estatua, disse Carlos alegremente, que seja
-aqui na rua de S. Francisco... Que belleza de noite!
-
-
-
-Pararam á porta do theatro da Trindade no momento em que, d'uma tipoia
-de praça, se apeava um sujeito de barbas de apostolo, todo de luto, com
-um chapéo de largas abas recurvas á moda de 1830. Passou junto dos dois
-amigos sem os vêr, recolhendo um troco á bolsa. Mas Ega reconheceu-o.
-
---É o tio do Damaso, o demagogo! Bello typo!
-
---E segundo o Damaso, um dos bebedos da familia, lembrou Carlos rindo.
-
-Por cima, de repente, no salão, estalaram grandes palmas. Carlos, que
-dava o paletot ao porteiro, receou que já fosse o Cruges...
-
---Qual! disse o Ega. Aquillo é applaudir de rhetorica!
-
-E com effeito, quando pela escada ornada de plantas chegaram ao
-ante-salão, onde dois sujeitos de casaca passeavam em bicos de pés,
-segredando--sentiram logo um vozeirão tumido, garganteado, provinciano,
-de vogaes arrastadas em canto, invocando lá do fundo, do estrado, «a
-alma religiosa de Lamartine!...»
-
---É o Rufino, tem estado soberbo! murmurou o Telles da Gama que não
-passára da porta, com o charuto escondido atraz das costas.
-
-Carlos, sem curiosidade, ficou junto do Telles. Mas Ega, esguio e magro,
-foi rompendo pela coxia tapetada de vermelho. D'ambos os lados se
-cerravam filas de cabeças, embebidas, enlevadas, atulhando os bancos de
-palhinha até junto ao tablado, onde dominavam os chapéos de senhoras
-picados por manchas claras de plumas ou flôres. Em volta, de pé,
-encostados aos pilares ligeiros que sustêm a galeria, reflectidos pelos
-espelhos, estavam os homens, a gente do Gremio, da Casa Havaneza, das
-Secretarias, uns de gravata branca, outros de jaquetões. Ega avistou o
-snr. Sousa Netto, pensativo, sustentando entre dois dedos a face
-escaveirada, de barba rala; adiante o Gonçalo, com a sua gaforinha ao
-vento; depois o marquez atabafado n'um cache-nez de sêda branca; e, n'um
-grupo, mais longe, rapazes do Jockey Club, os dois Vargas, o Mendonça, o
-Pinheiro, assistindo áquelle _sport_ da eloquencia com uma mistura
-d'assombro e tedio. Por cima, no parapeito de velludo da galeria, corria
-outra linha de senhoras com vestidos claros, abanando-se mollemente; por
-traz alçava-se ainda uma fila de cavalheiros onde destacava o Neves, o
-novo Conselheiro, grave, de braços cruzados, com um botão de camelia na
-casaca mal feita.
-
-O gaz suffocava, vibrando cruamente n'aquella sala clara, d'um tom
-desmaiado de canario, raiada de reflexos de espelhos. Aqui e além uma
-tosse timida de catarrho desmanchava o silencio, logo abafada no lenço.
-E na extremidade da galeria, n'um camarote feito de tabiques, com
-sanefas de velludo côr de cereja, duas cadeiras de espaldar dourado
-permaneciam vazias, na solemnidade real do seu damasco escarlate.
-
-No emtanto, no estrado, o Rufino, um bacharel transmontano, muito
-trigueiro, de pera, alargava os braços, celebrava um anjo, «o _Anjo da
-Esmola_ que elle entrevira, além no azul, batendo as azas de setim...»
-Ega não comprehendia bem--entalado entre um padre muito gordo que
-pingava de suor, e um alferes de lunetas escuras. Por fim não se
-conteve:--«Sobre que está elle a fallar?» E foi o padre que o informou,
-com a face luzidia, inflammada de enthusiasmo:
-
---Tudo sobre a caridade, sobre o progresso! Tem estado sublime...
-Infelizmente está a acabar!
-
-Parecia ser, com effeito, a peroração. O Rufino arrebatára o lenço,
-limpava a testa lentamente; depois arremetteu para a borda do tablado,
-voltando-se para as cadeiras reaes com um tão ardente gesto
-d'inspiração--que o collete repuxado descobriu o começo da ceroula. Foi
-então que Ega comprehendeu. Rufino estava exaltando uma princeza que
-dera seiscentos mil reis para os inundados do Ribatejo, e ia a beneficio
-d'elles organisar um bazar na Tapada. Mas não era só essa soberba esmola
-que deslumbrava o Rufino--porque elle, «como todos os homens educados
-pela philosophia e que têm a verdadeira orientação mental do seu tempo,
-via nos grandes factos da historia não só a sua belleza poetica, mas a
-sua influencia social. A multidão, essa, sorria simplesmente, enlevada,
-para a incomparavel poesia da mão calçada de fina luva que se estende
-para o pobre. Elle porém, philosopho, antevia já, sahindo d'esses
-delicados dedos de princeza, um resultado bem profundo e formoso... O
-quê, meus senhores? O renascimento da Fé!»
-
-De repente, um leque que escorregára da galeria, arrancando em baixo um
-berro a uma senhora gorda, creou um susurro, uma curta emoção. Um
-commissario do sarau, D. José Sequeira, ergueu-se logo nos degraus do
-tablado, com o seu laçarote de sêda vermelha na casaca, dardejando
-severamente os olhos vesgos para o recanto indisciplinado onde curtos
-risos esfusiavam. Outros cavalheiros, indignados, gritavam «_chut,
-silencio,_ _fóra!_» E das cadeiras da frente surgiu a face ministerial
-do Gouvarinho, inquieta pela Ordem, com as lunetas brilhando
-duramente... Então Ega procurou ao lado a condessa: e avistou-a emfim
-mais longe, com um chapéo azul, entre a Alvim toda de preto e umas
-vastas espádoas cobertas de setim malva que eram as da baroneza de
-Craben. Todo o rumor findava--e o Rufino, que molhára lentamente os
-labios no copo, avançou um passo, sorrindo, com o lenço branco na mão:
-
---Dizia eu, meus senhores, que dada a orientação mental d'este seculo...
-
-Mas o Ega suffocava, esmagado, farto do Rufino, com a impressão de que o
-padre ao lado cheirava mal. E não aturou mais, furou para traz, para
-desabafar com Carlos.
-
---Tu imaginavas uma besta assim?
-
---Horroroso! murmurou Carlos. Quando tocará o Cruges?
-
-Ega não sabia, todo o programma fôra alterado.
-
---E tens cá a Gouvarinho! Está lá adiante, d'azul... Hei de querer vêr
-logo esse encontro!
-
-Mas ambos se voltaram sentindo por traz alguem ciciar discretamente
-«_bonsoir, messieurs_...» Era Steinbroken e o seu secretario, graves, de
-casaca, em pontas de pés, com as claques fechadas. E immediatamente
-Steinbroken queixou-se da ausencia da familia real...
-
---Mr. de Cantanhede, qui est de service, m'avait cependant assuré que la
-reine viendrait... C'est bien sous sa protection, n'est-ce pas, toute
-cette musique, ces vers?... Voilà pourquoi je suis venu. C'est très
-ennuyeux... Et Alphonse de Maia, toujours en santé?
-
---Merci...
-
-Na sala o silencio impressionava. Rufino, com gestos de quem traça n'uma
-tela linhas lentas e nobres, descrevia a doçura d'uma aldeia, a aldeia
-em que elle nascera, ao pôr do sol. E o seu vozeirão velava-se,
-enternecido, morrendo n'um rumor de crepusculo. Então Steinbroken,
-subtilmente, tocou no hombro do Ega. Queria saber se era esse o grande
-orador de que lhe tinham fallado...
-
-Ega affirmou com patriotismo que era um dos maiores oradores da Europa!
-
---Em qual génerro?...
-
---Genero sublime, genero de Demosthenes!
-
-Steinbroken alçou as sobrancelhas com admiração, fallou em filandez ao
-seu secretario que entalou languidamente o monoculo: e com as claques
-debaixo do braço, cerrados os olhos, recolhidos como n'um templo, os
-dois enviados da Filandia ficaram escutando, á espera do sublime.
-
-Ruffino, no entanto, com as mãos descahidas, confessava uma fragilidade
-de sua alma! Apesar da poesia ambiente d'essa sua aldeia natal, onde a
-violeta em cada prado, o rouxinol em cada balseira provavam Deus
-irrefutavelmente,--elle fôra dilacerado pelo espinho da descrença! Sim,
-quantas vezes, ao cahir da tarde, quando os sinos da velha torre
-choravam no ar a Ave-Maria e no valle cantavam as ceifeiras, elle
-passára junto da cruz do adro e da cruz do cemiterio, atirando-lhes de
-lado, cruelmente, o sorriso frio de Voltaire!...
-
-Um largo fremito d'emoção passou. Vozes suffocadas de gozo mal podiam
-murmurar «_muito bem, muito bem_...»
-
-Pois fôra n'esse estado, devorado pela duvida, que Rufino ouvira um
-grito d'horror resoar por sobre o nosso Portugal... Que succedera? Era a
-Natureza que atacava seus filhos!--E lançando os braços, como quem se
-debate n'uma catastrophe, Rufino pintou a inundação... Aqui aluia um
-casal, ninho florido d'amores; além, na quebrada, passava o balar
-choroso dos gados; mais longe as negras aguas iam juntamente arrastando
-um botão de rosa e um berço!...
-
-Os _bravos_ partiram profundos e roucos de peitos que arfavam. E em
-torno de Carlos e do Ega sujeitos voltavam-se apaixonadamente uns para
-os outros, com um brilho na face, commungando no mesmo enthusiasmo: «Que
-rajadas!... Caramba!... Sublime!...»
-
-Rufino sorria, bebendo esta commoção, que era a obra do seu verbo.
-Depois, respeitosamente, voltou-se para as cadeiras reaes, solemnes e
-vazias...
-
-Vendo que a cólera da Natureza rugia implacavel, elle erguera os olhos
-para o natural abrigo, para o exaltado logar d'onde desce a salvação,
-para o Throno de Portugal! E de repente, deslumbrado, vira por sobre
-elle estenderem-se as azas brancas d'um anjo! Era o anjo da esmola, meus
-senhores! E d'onde vinha? d'onde recebera a inspiração da caridade?
-d'onde sahia assim, com os seus cabellos d'ouro? Dos livros da sciencia?
-dos laboratorios chimicos? d'esses amphitheatros d'anatomia onde se nega
-covardemente a alma? das sêccas escólas de philosophia que fazem de
-Jesus um precursor de Robespierre? Não! Elle ousára interrogar o anjo,
-submisso, com o joelho em terra. E o anjo da esmola, apontando o espaço
-divino, murmurára: «Venho d'além!»
-
-Então pelos bancos apinhados correu um susurro d'enlevo. Era como se os
-estuques do tecto se abrissem, os anjos cantassem no alto. Um
-estremecimento devoto e poetico arrepiava as cuias das senhoras.
-
-E Rufino findava, com uma altiva certeza na alma! Sim, meus senhores!
-Desde esse momento, a duvida fôra n'elle como a nevoa que o sol, este
-radiante sol portuguez, desfaz nos ares... E agora, apesar de todas as
-ironias da sciencia, apesar dos escarneos orgulhosos d'um Renan, d'um
-Littré e d'um Spencer, elle, que recebera a confidencia divina, podia
-alli, com a mão sobre o coração, affirmar a todos bem alto--havia um
-céo!
-
---Apoiado! mugiu na coxia o padre sebento.
-
-E por todo o salão, no aperto e no calor do gaz, os cavalheiros das
-Secretarias, da Arcada, da Casa Havaneza, berrando, batendo as mãos,
-affirmaram soberbamente o céo!
-
-O Ega que ria, divertido, sentiu ao lado um som rouco de cólera. Era o
-Alencar, de paletot, de gravata branca, cofiando sombriamente os
-bigodes.
-
---Que te parece, Thomaz?
-
---Faz nojo! rugiu surdamente o poeta.
-
-Tremia, revoltado! N'uma noite d'aquellas, toda de poesia, quando os
-homens de letras se deviam mostrar como são, filhos da democracia e da
-liberdade, vir aquelle pulha pôr-se alli a lamber os pés á familia
-real... Era simplesmente ascoroso!
-
-Lá ao fundo, junto aos degraus do tablado, ia um tumulto d'abraços, de
-comprimentos, em torno do Rufino, que reluzia todo de orgulho e suor. E
-pela porta os homens escoavam-se, afogueados, commovidos ainda, puxando
-das charuteiras. Então o poeta travou do braço do Ega:
-
---Ouve lá, eu vinha justamente procurar-te. É o Guimarães, o tio do
-Damaso, que me pediu para te ser apresentado... Diz que é uma coisa
-séria, muito séria... Está lá em baixo no botequim, com um _grog_.
-
-Ega pareceu surprehendido... Coisa séria!?
-
---Bem, vamos nós lá baixo tomar tambem um _grog_! E que recitas tu logo,
-Alencar?
-
---_A Democracia_, foi dizendo o poeta pela escada, com certa reserva.
-Uma coisita nova, tu verás... São algumas verdades duras a toda essa
-burguezia...
-
-Estavam á porta do botequim--e precisamente o snr. Guimarães sahia, com
-o chapéo sobre o olho, de charuto accêso, abotoando a sobrecasaca.
-Alencar lançou a apresentação, com immensa gravidade:
-
---O meu amigo João da Ega... O meu velho amigo Guimarães, um bravo cá
-dos nossos, um veterano da Democracia.
-
-Ega acercou-se d'uma mesa, puxou cortezmente um banco para o veterano da
-Democracia, quiz saber se elle preferia cognac ou cerveja.
-
---Tomei agora o meu _grog_ de guerra, disse o snr. Guimarães com
-seccura, tenho para toda a noite.
-
-Um criado dava uma limpadella lenta sobre o marmore da mesa. Ega ordenou
-cerveja. E directamente, largando o charuto, passando a mão pelas barbas
-a retocar a magestade da face, o snr. Guimarães começou com lentidão e
-solemnidade:
-
---Eu sou tio do Damaso Salcede, e pedi aqui ao meu velho amigo Alencar
-para me apresentar a v. exc.^a, com o fim de o intimar a que olhe bem
-para mim e que diga se me acha cara de bebedo...
-
-Ega comprehendeu, atalhou logo, cheio de franqueza e bonhomia:
-
---V. exc.^a refere-se a uma carta que seu sobrinho me escreveu...
-
---Carta que v. exc.^a dictou! Carta que v. exc.^a o forçou a assignar!
-
---Eu?...
-
---Affirmou-m'o elle, senhor!
-
-Alencar interveio:
-
---Fallem vocês baixo, que diabo!... Isto é terra de curiosos...
-
-O snr. Guimarães tossiu, chegou a cadeira mais para a mesa. Tinha
-estado, contou elle, havia semanas fóra de Lisboa por negocios da
-herança de seu irmão. Não vira o sobrinho, porque só por necessidade se
-encontrava com esse imbecil. Na vespera, em casa d'um antigo amigo, o
-Vaz Forte, deitára por acaso os olhos ao _Futuro_, um jornal
-republicano, bem escripto, mas frouxo de idéas. E avistára logo na
-primeira pagina, em typo enorme, sob esta rubrica aliás justa _Coisas do
-high-life_, a carta do sobrinho... Imagine o snr. Ega o seu furor! Alli
-mesmo, em casa do Forte, escrevera ao Damaso pouco mais ou menos n'estes
-termos: «Li a tua infame declaração. Se ámanhã não fazes outra, em todos
-os jornaes, dizendo que não tinhas intenção de me incluir entre os
-bebedos da tua familia, vou ahi e quebro-te os ossos um por um. Treme!»
-Assim lhe escrevera. E sabia o snr. João da Ega qual fôra a resposta do
-snr. Damaso?
-
---Tenho-a aqui, é um _documento humano_, como diz o amigo Zola! Aqui
-está... Grande papel, monogramma d'ouro, corôa de conde. Aquelle asno!
-Quer v. exc.^a que eu leia?
-
-A um gesto risonho do Ega, elle mesmo leu, lentamente, e sublinhando:
-
---«Meu caro tio! A carta de que falla foi escripta pelo snr. João da
-Ega. Eu era incapaz de tal desacato á nossa querida familia. Foi elle
-que me agarrou na mão, á força, para eu assignar: e eu, n'aquella
-atrapalhação, sem saber o que fazia, assignei para evitar fallatorios.
-Foi um laço que me armaram os meus inimigos. O meu querido tio, que sabe
-como eu gósto de si, que até estava o anno passado com tenção, se
-soubesse a sua morada em Paris, de lhe mandar meia pipa de vinho de
-Collares, não fique pois zangado commigo. Bem infeliz já eu sou! E se
-quizer procure esse João da Ega que me perdeu! Mas acredite que hei de
-tirar uma vingança que ha de ser fallada! Ainda não decidi qual, n'esta
-atarantação; mas em todo o caso a nossa familia ha de ficar
-desenxovalhada, porque eu nunca admitti que ninguem brincasse com a
-minha dignidade... E se o não fiz já antes de partir para Italia, se
-ainda não pugnei pela minha honra, é porque ha dias, com todos estes
-abalos, veio-me uma tremenda dysenteria, que estou que me não tenho nas
-pernas. Isto por cima dos meus males moraes!...» V. exc.^a ri-se, snr.
-Ega?
-
---Pois que quer v. exc.^a que eu faça? balbuciou o Ega por fim,
-suffocado, com os olhos em lagrimas. Rio-me eu, ri-se o Alencar, ri-se
-v. exc.^a Isso é extraordinario! Essa dignidade, essa dysenteria...
-
-O snr. Guimarães, embaçado, olhou o Ega, olhou o poeta que fungava sob
-os longos bigodes, e terminou por dizer:
-
---Com effeito, a carta é d'uma cavalgadura... Mas o facto permanece...
-
-Então Ega appellou para o bom senso do snr. Guimarães, para a sua
-experiencia das coisas d'honra. Comprehendia elle que dois cavalheiros,
-indo desafiar um homem a sua casa, lhe agarrem no pulso, o forcem
-violentamente a assignar uma carta em que elle se declara bebedo?...
-
-O snr. Guimarães, agradado com aquella deferencia pelo seu tacto e pela
-sua experiencia, confessou que o caso, pelo menos em Paris, seria pouco
-natural.
-
---E em Lisboa, senhor! Que diabo, isto não é a Cafraria! E diga-me o
-snr. Guimarães outra coisa, de gentleman para gentleman: como considera
-seu sobrinho? um homem irreprehensivelmente veridico?
-
-O snr. Guimarães cofiou as barbas, declarou lealmente:
-
---Um refinado mentiroso.
-
---Então! gritou Ega em triumpho, atirando os braços ao ar.
-
-De novo Alencar interveio. A questão parecia-lhe satisfactoriamente
-finda. E não restava senão os dois apertarem-se a mão fraternalmente,
-como bons democratas...
-
-Já de pé, atirou a genebra ás guelas. Ega sorria, estendia a mão ao snr.
-Guimarães. Mas o velho demagogo, ainda com uma sombra na face enrugada,
-desejou que o snr. João da Ega (se n'isso não tinha duvida) declarasse,
-alli diante do amigo Alencar, que não lhe achava a elle, Guimarães, cara
-de bebedo...
-
---Oh meu caro senhor! exclamou Ega, batendo com o dinheiro na mesa para
-chamar o criado. Pelo contrario! O maior prazer em proclamar diante do
-Alencar, e aos quatro ventos, que lhe acho a cara d'um perfeito
-cavalheiro e d'um patriota!
-
-Então trocaram um rasgado aperto de mãos--emquanto o snr. Guimarães
-affirmava a sua satisfação por conhecer o snr. João da Ega, moço de
-tantos dotes e tão liberal. E quando s. exc.^a quizesse qualquer coisa,
-politica ou litteraria, era escrever este endereço bem conhecido no
-mundo:--_Redaction du_ Rappel, _Paris!_
-
-Alencar abalára. E os dois deixaram o botequim, trocando impressões do
-sarau. O snr. Guimarães estava enojado com a carolice, a sabujice d'esse
-Rufino. Quando o ouvira palrar das azas da princeza e da cruz do adro,
-quasi lhe gritára cá do fundo: «Quanto te pagam para isso, miseravel?»
-
-Mas de repente Ega estacou na escada, tirando o chapéo:
-
---Oh snr.^a baroneza, então já nos abandona?
-
-Era a Alvim que descia devagar, com a Joanninha Villar, atando as largas
-fitas d'uma capa de pellucia verde. Queixou-se d'uma dôr de cabeça que a
-torturava, apesar de ter gostado loucamente do Rufino... Mas uma noite
-toda de litteratura, que estafa! E agora, para mais, ficára lá um
-homemzinho a fazer musica classica...
-
---É o meu amigo Cruges!
-
---Ah! é seu amigo? Pois olhe, devia-lhe ter dito que tocasse antes o
-_Pirolito_.
-
---V. exc.^a afflige-me com esse desdem pelos grandes mestres... Não quer
-que a vá acompanhar á carruagem? Paciencia... Muito boa noite, snr.^a D.
-Joanna!... Um servo seu, snr.^a baroneza! E Deus lhe tire a sua dôr de
-cabeça!
-
-Ella voltou-se ainda no degrau, para o ameaçar risonhamente com o leque:
-
---Não seja impostor! O snr. Ega não acredita em Deus.
-
---Perdão... Que o Diabo lhe tire a sua dôr de cabeça, snr.^a baroneza!
-
-O velho democrata desapparecera discretamente. E da ante-sala Ega
-avistou logo ao fundo, no tablado, sobre um môcho muito baixo que lhe
-fazia roçar pelo chão as longas abas da casaca--o Cruges, com o nariz
-bicudo contra o caderno da Sonata, martellando sabiamente o teclado. Foi
-então subindo em pontas de pés pela coxia tapetada de vermelho, agora
-desafogada, quasi vazia: um ar mais fresco circulava: as senhoras,
-cançadas, bocejavam por traz dos leques.
-
-Parou junto de D. Maria da Cunha, apertada na mesma fila com todo um
-rancho intimo, a marqueza de Soutal, as duas Pedrosos, a Thereza Darque.
-E a boa D. Maria tocou-lhe logo no braço para saber quem era aquelle
-musico de cabelleira.
-
---Um amigo meu, murmurou Ega. Um grande maestro, o Cruges.
-
-O Cruges... O nome correu entre as senhoras, que o não conheciam. E era
-composição d'elle, aquella coisa triste?
-
---É de Beethoven, snr.^a D. Maria da Cunha, a _Sonata pathetica_.
-
-Uma das Pedrosos não percebera bem o nome da Sonata. E a marqueza de
-Soutal, muito séria, muito bella, cheirando devagar um frasquinho de
-saes, disse que era a _Sonata pateta_. Por toda a bancada foi um
-rastilho de risos suffocados. A _Sonata pateta_! Aquillo parecia divino!
-Da extremidade o Vargas gordo, o das corridas, estendeu a face enorme,
-imberbe e côr de papoula:
-
---Muito bem, snr.^a marqueza, muito catita!
-
-E passou o gracejo a outras senhoras, que se voltavam, sorriam á
-marqueza, entre o _frou-frou_ dos leques. Ella triumphava, bella e
-séria, com um velho vestido de velludo preto, respirando os
-saes--emquanto adiante um amador de barba grisalha cravava n'aquelle
-rancho ruidoso dois grandes oculos d'ouro que faiscavam de cólera.
-
-No emtanto, por toda a sala, o susurro crescia. Os encatarrhoados
-tossiam livremente. Dois cavalheiros tinham aberto a _Tarde_. E cahido
-sobre o teclado, com a gola da casaca fugida para a nuca, o pobre
-Cruges, suando, estonteado por aquella desattenção rumorosa, atabalhoava
-as notas, n'uma debandada.
-
---Fiasco completo, declarou Carlos que se aproximára do Ega e do rancho.
-
-Foi para D. Maria da Cunha uma alegria, uma surpreza! Até que emfim se
-via o snr. Carlos da Maia, o Principe Tenebroso! Que fizera elle durante
-esse verão? Todo o mundo a esperal-o em Cintra, alguem mesmo com
-anciedade... Um _chut_ furioso do amador de barbas grisalhas
-emmudeceu-a. E justamente Cruges, depois de bater dois accordes bruscos,
-arredára o môcho, esgueirava-se do estrado, enxugando as mãos ao lenço.
-Aqui e além algumas palmas resoaram, molles e de cortezia, entre um
-grande murmurio d'allivio. E o Ega e Carlos correram á porta, onde já
-esperavam o marquez, o Craft, o Taveira--para abraçar, consolar o pobre
-Cruges que tremia todo, com os olhos esgazeados.
-
-E immediatamente, no silencio attento que redominava, um sujeito muito
-magro, muito alto, surgiu no tablado, com um manuscripto na mão. Alguem
-ao lado do Ega disse que era o Prata, que ia fallar sobre o _Estado
-agricola da provincia do Minho_. Atraz, um criado veio collocar sobre a
-mesa um candelabro de duas velas: o Prata, d'ilharga para a luz,
-mergulhou no caderno: e d'entre o perfil triste e as folhas largas um
-rumor lento foi escorrendo, rumor de reza n'uma somnolencia de novena,
-onde por vezes destacavam como gemidos--«riqueza dos gados...,
-esphacelamento da propriedade..., fertil e desprotegida região...»
-
-Começou então uma debandada sorrateira e formigueira, que nem os _chuts_
-do commissario do sarau, vigilante e de pé sobre um degrau do estrado,
-podiam conter. Só as senhoras ficavam; e um ou outro burocrata idoso,
-que se inclinava zelosamente para o murmurio de reza, com a mão em
-concha sobre a orelha.
-
-Ega, que fugia tambem «ao vecejante paraiso do Minho», achou-se em
-frente do snr. Guimarães.
-
---Que massada, hein?
-
-O democrata concordou que aquelle preopinante não lhe parecia
-divertido... Depois, mais sério, com outra idéa, segurando um botão da
-casaca do Ega:
-
----Eu espero que v. exc.^a ha pouco não ficasse com a impressão de que
-eu sou solidario ou me importo com meu sobrinho...
-
-Oh! decerto que não! Ega vira bem que o snr. Guimarães não tinha pelo
-Damaso nenhum enthusiasmo de familia.
-
---Asco, senhor, só asco! Quando elle foi a primeira vez a Paris, e soube
-que eu morava n'uma trapeira, nunca me procurou! Porque aquelle imbecil
-dá-se ares d'aristocrata... E como v. exc.^a sabe, é filho d'um agiota!
-
-Puxou a charuteira, ajuntou gravemente:
-
---A mãi, sim! Minha irmã era d'uma boa familia. Fez aquelle desgraçado
-casamento, mas era d'uma boa familia! Que, com os meus principios, já v.
-exc.^a vê que tudo isso de fidalguia, pergaminhos, brazões, são para mim
-_blague_ e mais _blague_! Mas emfim os factos são os factos, a historia
-de Portugal ahi está... Os Guimarães da Bairrada eram de sangue azul.
-
-Ega sorriu, n'um assentimento cortez:
-
---E v. exc.^a então parte brevemente para Paris?
-
---Ámanhã mesmo, por Bordeus... Agora que toda essa cambada do marechal
-de Mac-Mahon, e do duque de Broglie, e do Descazes foi pelos ares, já se
-póde lá respirar...
-
-N'esse instante Telles e o Taveira, passando de braço dado, voltaram-se,
-a observar curiosamente aquelle velho austero, todo de preto, que
-fallava alto com o Ega de marechaes e de duques. Ega reparou: o
-democrata, de resto, tinha uma sobrecasaca de casimira nova; o seu
-altivo chapéo reluzia; e Ega ficou de bom grado a conversar com aquelle
-gentleman correcto e venerando que impressionava os seus amigos.
-
---A republica com effeito, observou elle, dando alguns passos ao lado do
-snr. Guimarães, esteve alli um momento compromettida!
-
---Perdida! E eu, meu caro senhor, aqui onde me vê, para ser expulso por
-causa d'umas verdadesinhas que soltei n'uma reunião anarchista. Até me
-affirmaram que n'um conselho de ministros o marechal de Mac-Mahon, que é
-um tarimbeiro, batera um murro na mesa e dissera: _Ce sacré Guimaran, il
-nous embête, faut lui donner du pied dans le derrière!_ Eu não estava
-lá, não sei, mas affirmaram-me... Em Paris, como os francezes não sabem
-pronunciar Guimarães, e eu embirro que me estropiem o nome, assigno _Mr.
-Guimaran_. Ha dois annos, quando fui á Italia, era _Mr. Guimarini_. E se
-fôr agora á Russia, cá por coisas, hei de ser _Mr. Guimaroff_... Embirro
-que me estropiem o nome!
-
-Tinham voltado á porta do salão. Longas bancadas vazias punham dentro,
-no brilho pesado do gaz, uma tristeza de abandono e tedio; e no estrado
-o Prata continuava, de mão no bolso, com o nariz sobre o manuscripto,
-sem que se sentisse agora surdir um som d'aquelle espantalho esguio. Mas
-o marquez, que descia do fundo, atabafando-se no seu cache-nez de sêda,
-disse ao Ega ao passar que o homemzinho era muito pratico, sabia da
-póda, e lá tinha ficado ás voltas com Proudhon.
-
-Ega e o democrata recomeçaram então os seus passos lentos na ante-sala
-onde o susurro de conversas mal abafadas crescia, como n'um pateo, entre
-fumaças furtivas de cigarro. E o snr. Guimarães chasqueava, achando uma
-boa _bêtise_ que se citasse Proudhon, alli n'aquelle theatreco, a
-proposito d'estrumes do Minho...
-
---Oh, Proudhon entre nós, acudiu Ega rindo, cita-se muito, é já um
-monstro classico. Até os conselheiros d'Estado já sabem que para elle a
-propriedade era um roubo, e Deus era o mal...
-
-O democrata encolheu os hombros:
-
---Grande homem, senhor! Homem immenso! São os tres grandes pimpões
-d'este seculo: Proudhon, Garibaldi, e o compadre!
-
---O compadre! exclamou Ega, attonito.
-
-Era o nome d'amizade que o snr. Guimarães dava em Paris a Gambetta.
-Gambetta nunca o via, que não lhe gritasse de longe, em hespanhol:
-_«Hombre, compadre!_» E elle tambem, logo: «_Compadre, caramba!_» D'ahi
-ficára a alcunha, e Gambetta ria. Porque lá isso, bom rapaz, e amigo
-d'esta franqueza do sul, e patriota, até alli!
-
---Immenso, meu caro senhor! O maior de todos!
-
-Pois Ega imaginaria que o snr. Guimarães, com as suas relações do
-_Rappel_, devia ter sobretudo o culto de Victor Hugo...
-
---Esse, meu caro senhor, não é um homem, é um mundo!
-
-E o snr. Guimarães ergueu mais a face, ajuntou infinitamente grave:
-
---É um mundo! .. E aqui onde me vê, ainda não ha tres mezes que elle me
-disse uma coisa que me foi direita ao coração!
-
-Vendo com deleite o interesse e a curiosidade do Ega, o democrata contou
-largamente esse glorioso lance que ainda o commovia:
-
---Foi uma noite no _Rappel_. Eu estava a escrever, elle appareceu, já um
-pouco trôpego, mas com o olho a luzir, e aquella bondade, aquella
-magestade!... Eu ergui-me, como se entrasse um rei... Isto é, não! que
-se fosse um rei tinha-lhe dado com a bota no rabiosque. Levantei-me como
-se elle fosse um Deus! Qual Deus! não ha Deus que me fizesse
-levantar!... Emfim, acabou-se, levantei-me! Elle olhou para mim, fez
-assim um gesto com a mão, e disse, a sorrir, com aquelle ar de genio que
-tinha sempre: _Bonsoir, mon ami!_
-
-E o snr. Guimarães deu alguns passos dignos, em silencio, como se
-aquelle _bonsoir_, aquelle _mon ami_, assim recordados, lhe fizessem
-mais vivamente sentir a sua importancia no mundo.
-
-De repente Alencar, que bracejava n'um grupo, rompeu para elles,
-pallido, d'olhos chammejantes:
-
---Que me dizem vocês a esta pouca vergonha? Aquelle infame alli ha meia
-hora, com o in-folio, a rosnar, a rosnar... E toda a gente a sahir, não
-fica ninguem! Tenho de recitar aos bancos de palhinha!...
-
-E abalou, rilhando os dentes, a exhalar mais longe o seu furor.
-
-Mas algumas palmas cançadas, dentro, fizeram voltar o Ega. O estrado
-ficára novamente vazio, com as duas velas ardendo no candelabro. Um
-cartão em grossas letras, que um criado collocára no piano, annunciava
-um «intervallo de dez minutos» como n'um circo. E n'esse instante a
-snr.^a condessa de Gouvarinho sahira pelo braço do marido, deixando
-atraz um sulco largo de comprimentos, d'espinhas que se vergavam, de
-chapéos de burocratas rasgadamente erguidos. O commissario do sarau
-azafamava-se procurando duas cadeiras para ss. exc.^{as} A condessa
-porém foi reunir-se a D. Maria da Cunha, que ella vira, com as Pedrosos
-e a marqueza de Soutal, refugiada n'um vão de janella. Ega
-immediatamente acercou-se do rancho intimo, esperando que as senhoras se
-beijocassem.
-
---Então, snr.^a condessa, ainda muito commovida com a eloquencia do
-Rufino?
-
---Muito cançada... E que calor, hein?
-
---Horrivel. A snr.^a baroneza d'Alvim sahiu ha pouco, com uma dor de
-cabeça...
-
-A condessa, que tinha os olhos pisados e uma prega de velhice aos cantos
-da boca, murmurou:
-
---Não admira, isto não é divertido... Emfim, já agora é necessario levar
-a cruz ao Calvario.
-
---Se fosse uma cruz, minha senhora! exclamou o Ega. Infelizmente é uma
-lyra!
-
-Ella riu. E D. Maria da Cunha, n'essa noite mais remoçada e viva, ficou
-logo toda banhada n'um sorriso, com aquella carinhosa admiração pelo
-Ega, que era um dos seus sentimentos.
-
---Este Ega!... Não ha mal que lhe chegue!... E diga-me outra coisa, que
-é feito do seu amigo Maia?
-
-Ega vira-a momentos antes, no salão, puxar pela manga de Carlos,
-cochichar com Carlos. Mas conservou um ar innocente:
-
---Está ahi, anda por ahi, assistindo a toda essa litteratura.
-
-De repente os olhos sempre bonitos e languidos de D. Maria da Cunha
-rebrilharam com uma faisca de malicia:
-
---Fallai no mau... N'este caso seria fallar do bom. Emfim ahi nos vem o
-Principe Tenebroso!
-
-E era com effeito Carlos que passava, se encontrára diante dos braços do
-conde de Gouvarinho, estendidos para elle com uma effusão em que parecia
-renascer o antigo affecto. Pela primeira vez Carlos via a condessa,
-desde a noite em que no Aterro, abandonando-a para sempre, fechára com
-odio a portinhola da tipoia onde ella ficava chorando. Ambos baixaram os
-olhos, ao adiantar a mão um para o outro, lentamente. E foi ella que
-findou o embaraço, abrindo o seu grande leque de pennas de avestruz:
-
---Que calor, não é verdade?
-
---Atroz! disse Carlos. Não vá v. exc.^a apanhar ar d'essa janella.
-
-Ella forçou os labios brancos a um sorriso:
-
---É conselho de medico?
-
---Oh, minha senhora, não são as horas da minha consulta! É apenas
-caridade de christão.
-
-Mas de repente a condessa chamou o Taveira, que ria, derretido, com a
-marqueza de Soutal, para o reprehender por elle não ter apparecido
-terça-feira na rua de S. Marçal. Surprehendido com tanto interesse,
-tanta familiaridade, o Taveira, muito vermelho, balbuciou que nem sabia,
-fôra o seu infortunio, tinham-se mettido umas coisas...
-
---Além d'isso não imaginei que v. exc.^a começasse a receber tão cedo...
-V. exc.^a antigamente era só depois da Cerração da Velha. Até me lembro
-que o anno passado...
-
-Mas emmudeceu. O conde de Gouvarinho voltára-se, pousando a mão
-carinhosa no hombro de Carlos, desejando a sua impressão sobre o «nosso
-Rufino». Elle conde estava encantado! Encantado sobretudo com a
-_variedade d'escala_, aquella arte tão difficil de passar do solemne
-para o ameno, de descer das grandes rajadas para os brincados de
-linguagem. Extraordinario!
-
---Tenho ouvido grandes parlamentares, o Rouher, o Gladstone, o Canovas,
-outros muitos. Mas não são estes vôos, esta opulencia... É tudo muito
-sêcco, idéas e factos. Não entra n'alma! Vejam os amigos aquella imagem
-tão pujante, tão respeitosa, do Anjo da Esmola, descendo devagar, com as
-azas de setim... É de primeira ordem.
-
-Ega não se conteve:
-
---Eu acho esse genio um imbecil.
-
-O conde sorriu, como á tonteria d'uma criança:
-
---São opiniões...
-
-E estendeu em redor as mãos ao Sousa Netto, ao Darque, ao Telles da
-Gama, a outros que se juntavam ao rancho intimo--emquanto os seus
-correligionarios, os seus collegas do Centro e da Camara, o Gonçalo, o
-Neves, o Vieira da Costa rondavam de longe, sem poder roçar pelo
-ministro que tinham creado, agora que elle conversava e ria com rapazes
-e senhoras da «sociedade». O Darque, que era parente do Gouvarinho, quiz
-saber como o amigo Gastão se ia dando com os encargos do Poder... O
-conde declarou para os lados que não fizera mais por ora do que passar
-em revista os elementos com que contava para atacar os problemas... De
-resto, em questões de trabalho, o ministerio fôra infelicissimo! O
-presidente do conselho de cama com uma catarrheira, inutil para uma
-semana. Agora o collega da fazenda com as febres do Aterro...
-
---Está melhor? Já sae? foi em torno a pergunta cheia de cuidado.
-
---Está na mesma, vai ámanhã para o Dáfundo. Mas realmente esse não se
-acha de todo inutilisado. Ainda hontem eu lhe dizia: «Você parte para o
-Dáfundo, leva os seus papeis, os seus documentos... Pela manhã dá os
-seus passeios, respira o bom ar... E á noite, depois de jantar, á luz do
-candieiro, entretem-se a resolver a questão de fazenda!»
-
-Uma campainha retiniu. D. José Sequeira, escarlate d'azafama, veio,
-furando, annunciar a s. exc.^a o fim do intervallo--offerecer o braço á
-snr.^a condessa. Ao passar, ella lembrou a Carlos as suas
-«terças-feiras», com a delicada simplicidade d'um dever. Elle curvou-se
-em silencio. Era como se todo o passado, o sofá que rolava, a casa da
-titi em Santa Isabel, as tipoias em que ella deixava o seu cheiro de
-verbena--fossem coisas lidas por ambos n'um livro e por ambos
-esquecidas. Atraz, o marido seguia, erguendo alto a cabeça e as lunetas,
-como representante do Poder n'aquella festa da Intelligencia.
-
---Pois senhores, disse o Ega afastando-se com Carlos, a mulherzinha tem
-topete!
-
---Que diabo queres tu? Atravessou a sua hora de tolice e de paixão, e
-agora continúa tranquillamente na rotina da vida.
-
---E na rotina da vida, concluiu Ega, encontra-se a cada passo comtigo,
-que a viste em camisa!... Bonito mundo!
-
-Mas o Alencar appareceu no alto da escada, voltando do botequim e da
-genebra, com um brilho maior no olho cavo, de paletot no braço, já
-preparado para gorgear. E o marquez juntou-se a elles, abafado no
-cache-nez de sêda branca, mais rouco, queixando-se de que a cada minuto
-a garganta se lhe punha peor... Aquella canalha d'aquella garganta ainda
-lhe vinha a pregar uma!...
-
-Depois, muito sério, considerando o Alencar:
-
---Ouve lá, isso que tu vaes recitar, a _Democracia_, é politica ou
-sentimento? Se é politica, raspo-me. Mas se é sentimento, e a
-humanidade, e o santo operario, e a fraternidade, então fico, que d'isso
-gósto e até talvez me faça bem.
-
-Os outros affirmaram que era sentimento. O poeta tirou o chapéo, passou
-os dedos pelos anneis fôfos da grenha inspirada:
-
---Eu vos digo, rapazes... Uma coisa não vai sem a outra, vejam vocês
-Danton!... Mas já não fallo emfim d'esses leões da Revolução. Vejam
-vocês o Passos Manoel! Está claro, é necessario logica... Mas, tambem,
-caramba, sêbo para uma politica sem entranhas e sem um bocado de
-infinito!
-
-Subitamente, por sobre o novo silencio da sala, um vozeirão mais forte
-que o do Rufino fez retumbar os grandes nomes de D. João de Castro e de
-Affonso d'Albuquerque... Todos se acercaram da porta, curiosamente. Era
-um maganão gordo, de barba em bico e camelia na casaca, que, de mão
-fechada no ar como se agitasse o pendão das Quinas, lamentava aos berros
-que nós portuguezes, possuindo este nobre estuario do Tejo e tão
-formosas tradições de gloria, deixassemos esbanjar, ao vento do
-indifferentismo, a sublime herança dos avós!...
-
---É patriotismo, disse o Ega. Fujamos!
-
-Mas o marquez reteve-os, gostando tambem de um bocado de Quinas. E foi o
-pobre marquez que o patriota pareceu interpellar, alçando na ponta dos
-botins o corpanzil rotundo, aos urros. Quem havia agora ahi, que,
-agarrando n'uma das mãos a espada e na outra a cruz, saltasse para o
-convés d'uma caravella a ir levar o nome portuguez através dos mares
-desconhecidos? Quem havia ahi, heroico bastante, para imitar o grande
-João de Castro, que na sua quinta de Cintra arrancára todas as arvores
-de fructo, tal a era a isenção da sua alma de poeta?...
-
---Aquelle miseravel quer-nos privar da sobremesa! exclamou Ega.
-
-Em torno correram risos alegres. O marquez virou costas, enojado com
-aquella patriotice reles. Outros bocejavam por traz da mão, n'um tedio
-completo de «todas as nossas glorias». E Carlos, enervado, preso alli
-pelo dever de applaudir o Alencar, chamava o Ega para irem abaixo ao
-botequim espairecer a impaciencia--quando viu o Eusebiosinho que descia
-a escada, enfiando á pressa um paletot alvadio. Não o encontrára mais
-desde a infamia da _Corneta_, em que elle fôra «embaixador». E a cólera
-que tivera contra elle n'esse dia reviveu logo n'um desejo irresistivel
-de o espancar. Disse ao Ega:
-
---Vou aproveitar o tempo, emquanto esperamos pelo Alencar, a arrancar as
-orelhas áquelle maroto!
-
---Deixa lá, acudiu Ega, é um irresponsavel!
-
-Mas já Carlos corria pelas escadas: Ega seguiu atraz, inquieto, temendo
-uma violencia. Quando chegaram á porta, Eusebio mettera para os lados do
-Carmo. E alcançaram-no no largo da Abegoaria, áquella hora deserto,
-mudo, com dois bicos de gaz mortiços. Ao vêr Carlos fender assim sobre
-elle, sem paletot, de peitilho claro na noite escura, o Eusebio,
-encolhido, balbuciou atarantadamente: «Olá, por aqui...»
-
---Ouve cá, estupôr! rugiu Carlos, baixo. Então tambem andaste mettido
-n'essa maroteira da _Corneta_? Eu devia rachar-te os ossos um a um!
-
-Agarrára-lhe o braço, ainda sem odio. Mas, apenas sentiu na sua mão de
-forte aquella carne mollenga e tremula, resurgiu n'elle essa aversão
-nunca apagada--que já em pequeno o fazia saltar sobre o Eusebiosinho,
-esfrangalhal-o, sempre que as Silveiras o traziam á quinta. E então
-abanou-o, como outr'ora, furiosamente, gozando o seu furor. O pobre
-viuvo, no meio das lunetas negras que lhe voavam, do chapéo coberto de
-luto que lhe rolára nas lages, dançava, escanifrado e desengonçado. Por
-fim Carlos atirou-o contra a porta d'uma cocheira.
-
---Acudam! Aqui d'el-rei, policia! rouquejou o desgraçado.
-
-Já a mão de Carlos lhe empolgára as guelas. Mas Ega interveio:
-
---Alto! Basta! O nosso querido amigo já recebeu a sua dóse...
-
-Elle mesmo lhe apanhou o chapéo. Tremendo, arquejando, de bruços,
-Eusebiosinho procurava ainda o guarda-chuva. E, para findar, a bota de
-Carlos, atirada com nojo, estatelou-o nas pedras, para cima d'uma
-sargeta onde restavam immundicies e humidade de cavallo.
-
-O largo permanecia deserto, com o gaz adormecendo nos candieiros baços.
-Tranquillamente os dois recolheram ao sarau. No peristylo, cheio de luz
-e plantas, cruzaram-se com o patriota de barbas em bico, rodeado
-d'amigos, em caminho para o botequim, limpando ao lenço o pescoço e a
-face, exclamando com o cansaço radiante d'um triumphador:
-
---Irra! custou, mas sempre lhes fiz vibrar a corda!
-
-Já o Alencar estaria gorgeando! Os dois amigos galgaram a escada. E com
-effeito Alencar apparecera no estrado, onde ardia ainda o candelabro de
-duas velas.
-
-Esguio, mais sombrio n'aquelle fundo côr de canario, o poeta derramou
-pensativamente pelas cadeiras, pela galeria, um olhar encovado e lento:
-e um silencio pesou, mais enlevado, diante de tanta melancolia e de
-tanta solemnidade.
-
---_A Democracia!_ annunciou o auctor d'_Elvira_, com a pompa d'uma
-revelação.
-
-Duas vezes passou pelos bigodes o lenço branco, que depois atirou para a
-mesa. E levantando a mão n'um gesto demorado e largo:
-
-
- Era n'um parque. O luar
- Sobre os vastos arvoredos,
- Cheios de amor e segredos...
-
-
---Que lhe disse eu? exclamou o Ega, tocando no cotovêlo do marquez. É
-sentimento... Aposto que é o festim!
-
-E era com effeito o festim, já cantado na _Flôr de Martyrio_, festim
-romantico, n'um vago jardim onde vinhos de Chypre circulam, caudas de
-brocado rojam entre macissos de magnolias, e das aguas do lago sobem
-cantos ao gemer dos violoncellos... Mas bem depressa transpareceu a
-severa idéa social da Poesia. Emquanto, sob as arvores radiantes de
-luar, tudo são «risos, brindes, lascivos murmurios»--fóra, junto ás
-grades douradas do parque, assustada com o latir dos molossos, uma
-mulher macilenta, em farrapos, chora, aconchegando ao seio magro o filho
-que pede pão... E o poeta, sacudindo os cabellos para traz, perguntava
-porque havia ainda esfomeados n'este orgulhoso seculo XIX? De que
-servira então, desde Spartacus, o esforço desesperado dos homens para a
-Justiça e para a Igualdade? De que servira então a cruz do grande
-Martyr, erguida além na collina, onde, por entre os abetos
-
-
- Os raios do sol se somem,
- O vento triste se cala...
- E as aguias revolteando
- D'entre as nuvens estão olhando
- Morrer o filho do Homem!
-
-
-A sala permanecia muda e desconfiada. E o Alencar, com as mãos tremendo
-no ar, desolava-se de que todo o Genio das gerações fosse impotente para
-esta coisa simples--dar pão á criança que chora!
-
-
- Martyrio do coração!
- Espanto da consciencia!
- Que toda a humana sciencia
- Não solva a negra questão!
- Que os tempos passem e rolem
- E nenhuma luz assome,
- E eu veja d'um lado a fome
- E do outro a indigestão!
-
-
-Ega torcia-se, fungando dentro do lenço, jurando que rebentava. «_E do
-outro a indigestão!_» Nunca, nas alturas lyricas, se gritára nada tão
-extraordinario! E sujeitos graves, em redor, sorriam d'aquelle
-_realismo_ sujo. Um jocoso lembrou que para indigestões já havia o
-bi-carbonato de potassa.
-
---Quando não são das minhas! rosnou um cavalheiro esverdinhado, que
-alargava a fivela do collete.
-
-Mas tudo emmudeceu ante um _chut_ terrivel do marquez, que desapertára o
-cache-nez, já excitado, no enternecimento que sempre lhe davam estes
-humanitarismos poeticos. E entretanto, no estrado, o Alencar achára a
-solução do soffrimento humano! Fôra uma Voz que lh'a ensinára! Uma Voz
-sahida do fundo dos seculos, e que através d'elles, sempre suffocada,
-viera crescendo todavia irresistivelmente desde o Golgotha até á
-Bastilha! E então, mais solemne por traz da mesa, com um arranque de
-Precursor e uma firmeza de Soldado, como se aquelle honesto movel de
-mogno fosse um pulpito e uma barricada--o Alencar, alçando a fronte
-n'uma grande audacia á Danton, soltou o brado temeroso. Alencar queria a
-Republica!
-
-Sim, a Republica! Não a do Terror e a do odio, mas a da mansidão e do
-Amor. Aquella em que o Millionario sorrindo abre os braços ao Operario!
-Aquella que é Aurora, Consolação, Refugio, Estrella mystica e Pomba...
-
-
- Pomba da Fraternidade,
- Que estendendo as brancas azas
- Por sobre os humanos lodos,
- Envolve os seus filhos todos
- Na mesma santa Igualdade!...
-
-
-Em cima, na galeria, resoou um _bravo_ ardente. E immediatamente, para o
-suffocar, sujeitos sérios lançaram, aqui e além: «Chut, silencio!» Então
-Ega ergueu as mãos magras, bem alto, berrou com um destaque atrevido:
-
---Bravo! Muito bem! Bravo!
-
-E todo pallido da sua audacia, entalando o monoculo, declarou para os
-lados:
-
---Aquella democracia é absurda... Mas que os burguezes se dêem ares
-intolerantes, isso não! Então applaudo eu!
-
-E as suas mãos magras de novo se ergueram, bem alto, junto das do
-marquez que retumbavam como malhos. Outros em volta, immediatamente, não
-se querendo mostrar menos democratas que o Ega e aquelle fidalgo de tão
-grande linhagem, reforçaram os _bravos_ com calor. Já pela sala se
-voltavam olhares inquietos para aquelle grupo cheio de revolução. Mas um
-silencio cahiu, mais commovido e grave, quando o Alencar (que
-inspiradamente previra a intolerancia burgueza) perguntou em estrophes
-iradas o que detestavam, o que receavam elles, no advento sublime da
-Republica? Era o pão carinhoso dado á criança? Era a mão justa estendida
-ao proletario? Era a esperança? Era a aurora?
-
-
- Receaes a grande luz?
- Tendes medo do Abecê?...
- Então castigai quem lê,
- Voltai á plebe soez!
- Recuai sempre na Historia,
- Apagai o gaz nas ruas,
- Deixai as crianças nuas,
- E venha a forca outra vez!
-
-
-Palmas, mais numerosas, já sinceras, estalaram pela sala, que cedia
-emfim ao repetido encanto d'aquelle lyrismo humanitario e sonoro. Já não
-importava a Republica, os seus perigos. Os versos rolavam, cantantes e
-claros; e a sua onda larga arrastava os espiritos mais positivos. Sob
-aquelle bafo de sympathia Alencar sorria, com os braços abertos,
-annunciando uma a uma, como perolas que se desfiam, todas as dadivas que
-traria a Republica. Debaixo da sua bandeira, não vermelha mas branca,
-elle via a terra coberta de searas, todas as fomes satisfeitas, as
-nações cantando nos valles sob o olhar risonho de Deus. Sim, porque
-Alencar não queria uma Republica sem Deus! A Democracia e o
-Christianismo, como um lirio que se abraça a uma espiga, completavam-se,
-estreitando os seios! A rocha do Golgotha tornava-se a tribuna da
-Convenção! E para tão dôce ideal não se necessitavam cardeaes, nem
-missaes, nem novenas, nem igrejas. A Republica, feita só de pureza e de
-fé, reza nos campos; a lua cheia é hostia; os rouxinoes entoam o _tantum
-ergo_ nos ramos dos loureiraes. E tudo prospéra, tudo refulge--ao mundo
-do Conflicto substitue-se o mundo do Amor...
-
-
- Á espada succede o arado,
- A Justiça ri da Morte,
- A escóla está livre e forte,
- E a Bastilha derrocada.
- Róla a tiára no lodo,
- Brota o lirio da Igualdade,
- E uma nova Humanidade
- Planta a cruz na barricada!
-
-
-Uma rajada farta e franca de _bravos_ fez oscillar as chammas do gaz!
-Era a paixão meridional do verso, da sonoridade, do Liberalismo
-romantico, da imagem que esfuzia no ar com um brilho crepitante de
-foguete, conquistando emfim tudo, pondo uma palpitação em cada peito,
-levando chefes de repartição a berrarem, estirados por cima das damas,
-no enthusiasmo d'aquella republica onde havia rouxinoes! E quando
-Alencar, alçando os braços ao tecto, com modulações de _preghiera_ na
-voz roufenha, chamou para a terra essa pomba da Democracia, que erguera
-o vôo do Calvario, e vinha com largos sulcos de luz--foi um
-enternecimento banhando as almas, um fundo arrepio d'extasi. As senhoras
-amolleciam nas cadeiras, com a face meia voltada ao céo. No salão
-abrazado perpassavam frescuras de capella. As rimas fundiam-se n'um
-murmurio de ladainha, como evoladas para uma Imagem que pregas de setim
-cobrissem, estrellas d'ouro coroassem. E mal se sabia já se Essa, que se
-invocava e se esperava, era a deusa da Liberdade--ou Nossa Senhora das
-Dôres.
-
-Alencar no emtanto via-a descer, espalhando um perfume. Já Ella tocava
-com os seus pés divinos os valles humanos. Já do seu seio fecundo
-trasbordava a universal abundancia. Tudo reflorescia, tudo rejuvenescia:
-
-
- As rosas têm mais aroma!
- Os fructos têm mais doçura!
- Brilha a alma clara e pura,
- Solta de sombras e véos...
- Foge a dôr espavorida,
- Foi-se a fome, foi-se a guerra,
- O homem canta na terra,
- E Christo sorri nos céos!...
-
-
-Uma acclamação rompeu, immensa e rouca, abalando os muros côr de
-canario. Moços exaltados treparam ás cadeiras, dois lenços brancos
-fluctuavam. E o poeta, tremulo, exhausto, rolou pela escada até aos
-braços que se lhe estendiam frementes. Elle suffocava, murmurava:
-«filhos! rapazes!...» Quando Ega correu do fundo, com Carlos,
-gritando--«Fôste extraordinario, Thomaz!»--as lagrimas saltaram dos
-olhos do Alencar, quebrado todo d'emoção.
-
-E ao longo da coxia a ovação continuou, feita de palmadinhas pelo
-hombro, de _shake-hands_ da gente séria, de «muitos parabens a v.
-exc.^a!» Pouco a pouco elle erguia a cabeça, n'um altivo sorriso que lhe
-mostrava os dentes maus, sentindo-se o poeta da Democracia, consagrado,
-ungido pelo triumpho, com a inesperada missão de libertar almas! D.
-Maria da Cunha puxou-lhe pela manga quando elle passou, para murmurar,
-encantada, que achára--«lindissimo, lindissimo». E o poeta, estonteado,
-exclamou: «Maria, é necessario luz!» Telles da Gama veio bater-lhe nas
-costas affirmando-lhe que «piára esplendidamente». E Alencar,
-inteiramente perdido, balbuciou: «_Sursum corda_, meu Telles, _sursum
-corda_!»
-
-Ega no emtanto, através do tumulto, farejava buscando Carlos que
-desapparecera depois dos abraços ao Alencar. Taveira assegurou-lhe que
-Carlos passára para o botequim. Depois em baixo um garoto jurou que o
-snr. D. Carlos tomára uma tipoia e ia já virando o Chiado...
-
-Ega ficou á porta hesitando se aturaria o resto do sarau. N'esse momento
-o Gouvarinho, trazendo a condessa pelo braço, descia rapidamente, com a
-face toda contrariada e sombria. O trintanario de ss. exc.^{as} correu a
-chamar o coupé. E quando o Ega se acercou, sorrindo, para saber que
-impressão lhes deixára o grande triumpho democratico do Alencar--a
-profunda cólera do Gouvarinho escapou-se-lhe, mal contida, por entre os
-dentes cerrados:
-
---Versos admiraveis, mas indecentes!
-
-O coupé avançou. Elle teve apenas tempo de rosnar ainda, surdamente,
-apertando a mão ao Ega:
-
---N'uma festa de sociedade, sob a protecção da rainha, diante d'um
-ministro da corôa, fallar de barricadas, prometter mundos e fundos ás
-classes proletarias... É perfeitamente indecente!
-
-Já a condessa enfiára a portinhola, apanhando a larga cauda de sêda. O
-ministro mergulhou tambem furiosamente na sombra do coupé. Junto ás
-rodas passou choutando, n'uma pileca branca, o correio agaloado.
-
-Ega ia subir. Mas o marquez appareceu, abafado n'um gabão d'Aveiro,
-fugindo a um poeta de grandes bigodes que ficára em cima a recitar
-quadrinhas miudinhas a uns olhinhos galantinhos: e o marquez detestava
-versos feitos a partes do corpo humano. Depois foi o Cruges que surgiu
-do botequim, abotoando o paletot. Então, perante essa debandada de todos
-os amigos, Ega decidiu abalar tambem, ir tomar o seu _grog_ ao Gremio
-com o maestro.
-
-Metteram o marquez n'uma tipoia--e elle e Cruges desceram a rua Nova da
-Trindade, devagar, no encanto estranho d'aquella noite d'inverno, sem
-estrellas, mas tão macia que n'ella parecia andar perdido um bafo de
-maio.
-
-Passavam á porta do _Hotel Alliança_ quando Ega sentiu alguem, que se
-apressava, chamar atraz: «Ó snr. Ega! V. exc.^a faz favor, snr.
-Ega?...»--Parou, reconheceu o chapéo recurvo, as barbas brancas do snr.
-Guimarães.
-
---V. exc.^a desculpe! exclamou o demagogo esbaforido. Mas vi-o descer,
-queria-lhe dar duas palavras, e como me vou embora ámanhã...
-
---Perfeitamente... Ó Cruges, vai andando, já te apanho!
-
-O maestro estacionou á esquina do Chiado. O snr. Guimarães pedia de novo
-desculpa. De resto eram duas curtas palavras...
-
---V. exc.^a, segundo me disseram, é o grande amigo do snr. Carlos da
-Maia... São como irmãos...
-
---Sim, muito amigos...
-
-A rua estava deserta, com alguns garotos apenas á porta alumiada da
-Trindade. Na noite escura a alta fachada do _Alliança_ lançava sobre
-elles uma sombra maior. Todavia o snr. Guimarães baixou a voz cautelosa:
-
---Aqui está o que é... V. exc.^a sabe, ou talvez não saiba, que eu fui
-em Paris intimo da mãi do snr. Carlos da Maia... V. exc.^a tem pressa, e
-não vem agora a proposito essa historia. Basta dizer que aqui ha annos
-ella entregou-me, para eu guardar, um cofre que, segundo dizia, continha
-papeis importantes... Depois naturalmente, ambos tivemos muitas outras
-coisas em que pensar, os annos correram, ella morreu. N'uma palavra,
-porque v. exc.^a está com pressa: eu conservo ainda em meu poder esse
-deposito, e trouxe-o por acaso quando vim agora a Portugal por negocios
-da herança de meu irmão... Ora hoje justamente, alli no theatro, comecei
-a reflectir que o melhor era entregal-o á familia...
-
-O Cruges mexeu-se impaciente:
-
---Ainda te demoras?
-
---Um instante! gritou Ega, já interessado por aquelles papeis e pelo
-cofre. Vai andando.
-
-Então o snr. Guimarães, á pressa, resumiu o pedido. Como sabia a
-intimidade do snr. João da Ega e de Carlos da Maia, lembrára-se de lhe
-entregar o cofresinho para que elle o restituisse á familia...
-
---Perfeitamente! acudiu Ega. Eu estou mesmo em casa dos Maias, no
-Ramalhete.
-
---Ah, muito bem! Então v. exc.^a manda um criado de confiança ámanhã
-buscal-o... Eu estou no _Hotel de Paris_, no Pelourinho. Ou melhor
-ainda: levo-lh'o eu, não me dá incommodo nenhum, apesar de ser dia de
-partida...
-
---Não, não, eu mando um criado! insistiu o Ega estendendo a mão ao
-democrata.
-
-Elle estreitou-lh'a com calor.
-
---Muito agradecido a v. exc.^a! Eu junto-lhe então um bilhete e v.
-exc.^a entrega-o da minha parte ao Carlos da Maia, ou á irmã.
-
-Ega teve um movimento d'espanto:
-
---Á irmã!... A que irmã?
-
-O snr. Guimarães considerou Ega tambem com assombro. E abandonando-lhe
-lentamente a mão:
-
---A que irmã!? Á irmã d'elle, á unica que tem, á Maria!
-
-Cruges, que batia as solas no lagedo, enfastiado gritou da esquina:
-
---Bem, eu vou andando para o Gremio.
-
---Até logo!
-
-O snr. Guimarães, no emtanto, passava os dedos calçados de pellica preta
-pelos longos fios da barba, fitando o Ega, n'um esforço de penetração. E
-quando Ega lhe travou do braço, pedindo-lhe para conversarem um pouco
-até ao Loreto, o democrata deu os primeiros passos com uma lentidão
-desconfiada.
-
---Eu parece-me, dizia o Ega sorrindo, mas nervoso, que nós estamos aqui
-a enrodilhar-nos n'um equivoco... Eu conheço o Maia desde pequeno, vivo
-até agora em casa d'elle, posso afiançar-lhe que não tem irmã nenhuma...
-
-Então o snr. Guimarães começou a rosnar umas desculpas embrulhadas que
-mais enervavam, torturavam o Ega. O snr. Guimarães imaginava que não era
-segredo, que todas essas coisas da irmã estavam esquecidas, desde que
-houvera reconciliação...
-
---Como vi, ainda não ha muitos dias, o snr. Carlos da Maia com a irmã e
-com v. exc.^a, na mesma carruagem, no caes do Sodré...
-
---O quê! Aquella senhora! A que ia na carruagem?
-
---Sim! exclamou o snr. Guimarães irritado, farto emfim d'essa confusão
-em que se debatiam. Aquella mesma, a Maria Eduarda Monforte, ou a Maria
-Eduarda Maia, como quizer, que eu conheci de pequena, com quem andei
-muitas vezes ao collo, que fugiu com o Mac-Gren, que esteve depois com a
-besta do Castro Gomes... Essa mesma!
-
-Era ao meio do Loreto sob o lampeão de gaz. E o snr. Guimarães de
-repente estacou, vendo os olhos do Ega esgazearem-se de horror, uma
-terrivel pallidez cobrir-lhe a face.
-
---V. exc.^a não sabia nada d'isto?
-
-Ega respirou fortemente, arredando o chapéo da testa sem responder.
-Então o outro, embaçado, terminou por encolher os hombros. Bem, via que
-tinha feito uma tolice! A gente nunca se devia intrometter nos negocios
-alheios! Mas acabou-se! Imaginasse o snr. Ega que aquillo fôra um
-pesadêlo, depois da versalhada do sarau! Pedia desculpa sinceramente--e
-desejava ao snr. João da Ega muitissimo boas noites.
-
-Ega, como a um clarão de relampago, entrevira toda a catastrophe: e
-agarrou avidamente o braço do snr. Guimarães, n'um terror que elle
-abalasse, desapparecesse, levando para sempre o seu testemunho, esses
-papeis, o cofre da Monforte, e com elles a certeza--a certeza por que
-agora anciava. E através do Loreto, vagamente, foi balbuciando,
-justificando a sua emoção, para tranquillisar o homem, poder lentamente
-arrancar-lhe as coisas que soubesse, as provas, a verdade inteira.
-
---O snr. Guimarães comprehende... Isto são coisas muito delicadas, que
-eu suppunha absolutamente ignoradas de todos... De modo que fiquei
-embatucado, fiquei tonto, quando o ouvi assim de repente fallar d'ellas
-com essa simplicidade... Porque emfim, aqui para nós, essa senhora não
-passa em Lisboa por irmã de Carlos.
-
-O snr. Guimarães atirou logo a mão n'um grande gesto. Ah, bem! Então era
-jogo com elle? Pois tinha feito o snr. Ega perfeitamente... Com certeza
-eram coisas muito sérias, que necessitavam toda a sorte de véos... Elle
-comprehendia, comprehendia muito bem!... E realmente, dada a posição dos
-Maias em Lisboa, na sociedade, aquella senhora não era irmã que se
-apresentasse.
-
---Mas a culpa não a teve ella, meu caro senhor! Foi a mãi, foi aquella
-extraordinaria mãi que o Diabo lhe deu!...
-
-Desciam o Chiado. Ega parou um momento, devorando o velho com olhos de
-febre:
-
---O snr. Guimarães conheceu muito essa senhora, a Monforte?
-
-Intimamente! Já a conhecera em Lisboa--mas de longe, como mulher de
-Pedro da Maia. Depois viera essa tragedia, ella fugira com o italiano.
-Elle abalára tambem para Paris n'esse anno, com uma Clemence, uma
-costureira da Levaillant: e, umas coisas enfiando n'outras, negocios e
-desgraças, por lá ficára para sempre! Emfim, não era a sua vida que lhe
-ia contar... Só mais tarde encontrára a Monforte, uma noite, no baile
-Laborde: e d'ahi datavam as suas relações. A esse tempo já o italiano
-morrera n'um duello, e o velho Monforte espichára da bexiga. Ella estava
-então com um rapaz chamado Trevernnes--n'uma casa bonita, no Parc
-Monceaux, em grande chic... Mulher extraordinaria! E não se envergonhava
-de confessar que lhe devia obrigações! Quando essa rapariga, a Clemence,
-que era um encanto, adoecera do peito, a Monforte trazia-lhe flôres,
-frutas, vinhos, fazia-lhe companhia, velava-a como um anjo... Porque lá
-isso coração largo e generoso até alli! Esta, a filha, a D. Maria, tinha
-então sete ou oito annos, linda como os amores... E houvera uma outra
-pequena do italiano, muito galantinha tambem. Oh! muito galantinha
-tambem! Mas morrera em Londres, essa...
-
---E com esta Maria andei muitas vezes ao collo, meu caro senhor... Não
-sei se ella ainda se lembra d'uma boneca que eu lhe dei, que fallava,
-dizia _Napoléon_... Era no bello tempo do Imperio, até as
-desavergonhadas das bonecas eram imperialistas! Depois, quando ella
-estava em Tours, no convento, fui lá duas vezes com a mãi. Já então os
-meus principios me não permittiam entrar n'esses covis religiosos: mas
-emfim fui acompanhar a mãi... E quando ella fugiu com o irlandez, o
-Mac-Gren, foi commigo que a mãi veio ter, furiosa, a querer que eu
-chamasse o commissario de policia para se prender o irlandez. Por fim
-metteu-se n'um _fiacre_, foi para Fontainebleau, lá fez as pazes, viviam
-até juntos... Emfim uma série de trapalhadas.
-
-Um suspiro cansado escapou-se do peito do Ega, que arrastava os passos,
-succumbido:
-
---E esta senhora, está claro, não sabia então de quem era filha...
-
-O snr. Guimarães encolheu os hombros:
-
---Nem suspeitava que existissem Maias sobre a face da terra! A Monforte
-dissera-lhe sempre que o pai era um fidalgo austriaco com quem ella
-casára na Madeira... Uma mixordia, meu caro senhor, uma mixordia!
-
---É horrivel! murmurou Ega.
-
-Mas, dizia o snr. Guimarães, que podia tambem fazer a Monforte? Que
-diabo, era duro confessar á filha: «Olha que eu fugi a teu pai, e elle
-por causa d'isso matou-se!» Não tanto pela questão de pudor; a rapariga
-devia perceber que a mãi tinha amantes, ella mesma aos dezoito annos,
-coitadinha, já tinha um; mas por causa do tiro, do cadaver, do sangue...
-
---A mim mesmo! exclamou o snr. Guimarães, parando, alargando os braços
-na rua deserta. A mim mesmo nunca ella fallou do marido, nem de Lisboa,
-nem de Portugal. Lembra-me até uma occasião em casa da Clemence, que eu
-alludi a um cavallo lazão, um cavallo de Pedro da Maia, em que ella
-costumava montar. Animal soberbo! Mas nem mencionei o marido, fallei só
-do cavallo. Pois senhores, bate com o leque em cima da mesa, grita como
-uma bicha:--_Dites donc, mon cher, vous m'embêtez avec ces histoires de
-l'autre monde_!... Com effeito, bem o podia dizer, eram historias do
-outro mundo! Para encurtar: estou convencido que nos ultimos tempos ella
-mesmo julgava que Pedro da Maia nunca existira. Uma insensata! Por fim
-até bebia... Mas acabou-se! Tinha grande coração, e portou-se muito bem
-com a Clemence. _Parce sepultis!_
-
---É horrivel! murmurou outra vez o Ega, tirando o chapéo, correndo a mão
-tremula pela testa.
-
-E agora o seu unico desejo era a accumulação incessante de provas, de
-detalhes. Fallou então d'esses papeis, d'esse cofre da Monforte. O snr.
-Guimarães não sabia o que elles continham; e não se admiraria se fossem
-apenas contas de modista, ou pedaços velhos do _Figaro_ em que se
-fallava d'ella...
-
---É uma caixita pequena que a Monforte me deu, na vespera de partir para
-Londres com a filha. Era no tempo da guerra... Já a Maria vivia com o
-irlandez, tinha mesmo uma pequena, a Rosa. Depois veio a Communa, todos
-aquelles desastres. Quando a Monforte voltou de Londres eu estava em
-Marselha. Foi então que a pobre Maria se metteu com o Castro Gomes,
-creio que para não morrer de fome... Eu recolhi a Paris, mas não vi mais
-a Monforte, que já estava muito doente... Á Maria, collada então a essa
-besta do Castro Gomes, um pedante, um _rastaquouère_ mesmo a calhar para
-a guilhotina, não tornei tambem a fallar. Se a encontrava era um
-comprimento de longe, como n'outro dia, quando a vi na carruagem com v.
-exc.^a e com o irmão... De sorte que fui ficando com os papeis. Nem a
-fallar a verdade, com estas coisas todas de politica, me lembrei mais
-d'elles. E agora ahi estão, ás ordens da familia.
-
---Se isso não fosse incommodo para v. exc.^a, acudiu Ega, eu passava
-agora pelo seu hotel e levava-os logo commigo...
-
---Incommodo nenhum! Estamos em caminho, é negocio que fica feito!
-
-Algum tempo seguiram calados. O sarau decerto acabára. Um bater de
-carruagens atroava as descidas do Chiado. Junto d'elles passaram duas
-senhoras, com um rapaz que bracejava, fallando alto do Alencar. O snr.
-Guimarães tirára lentamente do bolso a charuteira: depois parando, para
-raspar um phosphoro:
-
---Então a D. Maria passa simplesmente por parenta?... E como soube ella?
-Como foi isso?
-
-Ega, que caminhava com a cabeça cahida, estremeceu como se acordasse. E
-começou a tartamudear uma historia confusa, de que elle mesmo córava na
-sombra. Sim, Maria Eduarda passava por parenta. Fôra o procurador que
-descobrira. Ella rompera com o Castro Gomes, com todo o passado. Os
-Maias davam-lhe uma mezada; e vivia nos Olivaes, muito retirada, como
-filha d'um Maia que morrera na Italia. Todos gostavam muito d'ella,
-Affonso da Maia tinha grande ternura pela pequena...
-
-E de repente indignou-se com estas invenções por onde arrastava já o
-nome do nobre velho, exclamou como se abafasse:
-
---Emfim, nem eu sei, um horror!
-
---Um drama! resumiu gravemente o snr. Guimarães.
-
-E como estavam no Pelourinho rogou ao Ega que esperasse um momento
-emquanto elle corria acima buscar os papeis da Monforte.
-
-Só, no largo, Ega ergueu as mãos ao céo n'um desabafo mudo d'aquella
-angustia em que caminhava, como um somnambulo, desde o Loreto. E a sua
-unica sensação, bem clara--era a indestructivel certeza da historia do
-Guimarães, tão compacta, sem uma lacuna, sem uma falha por onde rachasse
-e se fizesse cahir aos pedaços. O homem conhecera Maria Monforte em
-Lisboa, ainda mulher de Pedro da Maia, brilhando no seu cavallo lazão;
-encontrára-a em Paris já fugida, depois da morte do primeiro amante,
-vivendo com outros; andára então ao collo com Maria Eduarda a quem se
-davam bonecas... E desde então não deixára mais de vêr Maria Eduarda, de
-a seguir: em Paris; no convento de Tours; em Fontainebleau com o
-irlandez; nos braços de Castro Gomes; n'uma tipoia de praça emfim com
-elle e com Carlos da Maia, havia dias, no caes do Sodré! Tudo isto se
-encadeava, concordando com a historia contada por Maria Eduarda. E de
-tudo resaltava esta certeza monstruosa:--Carlos amante da irmã!
-
-Guimarães não descia. No segundo andar surgira uma luz viva, n'uma
-janella aberta. Ega recomeçou a passear lentamente pelo meio do largo. E
-agora, pouco a pouco, subia n'elle uma incredulidade contra esta
-catastrophe de dramalhão. Era acaso verosimil que tal se passasse, com
-um amigo seu, n'uma rua de Lisboa, n'uma casa alugada á mãi Cruges?...
-Não podia ser! Esses horrores só se produziam na confusão social, no
-tumulto da Meia-Idade! Mas n'uma sociedade burgueza, bem policiada, bem
-escripturada, garantida por tantas leis, documentada por tantos papeis,
-com tanto registro de baptismo, com tanta certidão de casamento, não
-podia ser! Não! Não estava no feitio da vida contemporanea que duas
-crianças separadas por uma loucura da mãi, depois de dormirem um
-instante no mesmo berço, cresçam em terras distantes, se eduquem,
-descrevam as parabolas remotas dos seus destinos--para quê? Para virem
-tornar a dormir juntas no mesmo ponto, n'um leito de concubinagem! Não
-era possivel. Taes coisas pertencem só aos livros, onde vêm, como
-invenções subtis da arte, para dar á alma humana um terror novo...
-Depois levantava os olhos para a janella alumiada--onde o snr. Guimarães
-decerto rebuscava os papeis na mala. Alli estava porém esse homem com a
-sua historia--em que não havia uma discordancia por onde ella pudesse
-ser abalada!... E pouco a pouco aquella luz viva, sahida do alto,
-parecia ao Ega penetrar n'essa intrincada desgraça, aclaral-a toda,
-mostrar-lhe bem a lenta evolução. Sim, tudo isso era provavel no fundo!
-Essa criança, filha d'uma senhora que a levára comsigo, cresce, é amante
-d'um brazileiro, vem a Lisboa, habita Lisboa. N'um bairro visinho vive
-outro filho d'essa mulher, por ella deixado, que cresceu, é um homem.
-Pela sua figura, o seu luxo, elle destaca n'esta cidade provinciana e
-pelintra. Ella por seu lado, loura, alta, esplendida, vestida pela
-Laferrière, flôr d'uma civilisação superior, faz relêvo n'esta multidão
-de mulheres miudinhas e morenas. Na pequenez da Baixa e do Aterro, onde
-todos se acotovelavam, os dois fatalmente se cruzam: e com o seu brilho
-pessoal, muito fatalmente se attrahem! Ha nada mais natural? Se ella
-fosse feia e trouxesse aos hombros uma confecção barata da loja da
-America, se elle fosse um mocinho encolhido de chapéo côco, nunca se
-notariam e seguiriam diversamente nos seus destinos diversos. Assim, o
-conhecerem-se era certo, o amarem-se era provavel... E um dia o snr.
-Guimarães passa, a verdade terrivel estala!
-
-A porta do hotel rangeu no escuro, o snr. Guimarães adiantou-se, de boné
-de sêda na cabeça, com o embrulho na mão.
-
---Não podia dar com a chave da mala, desculpe v. exc.^a É sempre assim
-quando ha pressa... E aqui temos o famoso cofre!
-
---Perfeitamente, perfeitamente...
-
-Era uma caixa que parecia de charutos e que o democrata embrulhára n'um
-velho numero do _Rappel_. Ega metteu-a no bolso largo do seu paletot: e
-immediatamente, como se qualquer outra palavra entre elles fosse vã,
-estendeu a mão ao snr. Guimarães. Mas o outro insistiu em o acompanhar
-até á esquina da rua do Arsenal, apesar de estar de boné. A noite, para
-quem vinha de Paris, tinha uma doçura oriental--e elle, com os seus
-habitos de jornalista, nunca se deitava senão tarde, ás duas, tres horas
-da madrugada...
-
-E então, caminhando devagar, com as mãos nos bolsos e o charuto entre os
-dentes, o snr. Guimarães voltou á politica e ao sarau. A poesia do
-Alencar (de que esperára muito por causa do titulo, _A Democracia_)
-sahira-lhe consideravelmente chôcha.
-
---Muita flôr, muita farofia, muita liberdade, mas não havia alli um
-ataque em fórma, duas ou tres boas estocadas n'esta choldra da monarchia
-e da côrte... Pois não é verdade?
-
---Sim, com effeito...--murmurou Ega, olhando ao longe, na esperança
-d'uma tipoia.
-
---É como os jornaes republicanos que por ahi ha... Tudo uma palhada,
-senhores, tudo uma balofice!... É o que eu lhes digo a elles:--«Ó almas
-do diabo, atacai as questões sociaes!»
-
-Felizmente um trem avançava, rolando devagar, do lado do Terreiro do
-Paço. Ega, precipitadamente, deu um aperto de mão ao democrata,
-desejou-lhe uma «boa viagem», atirou ao cocheiro a adresse do Ramalhete.
-Mas o snr. Guimarães ainda se apoderou da portinhola--para aconselhar ao
-Ega que fosse a Paris. Agora, que tinham feito amizade, havia de o
-apresentar a toda aquella gente... E o snr. Ega veria! Não era cá a
-grande _pose_ portugueza, d'estes imbecis, d'estes pelintras a darem-se
-ares, torcendo os bigodes. Lá, na primeira nação do mundo, tudo era
-alegria e fraternidade e espirito a rodos...
-
---E a minha adresse, na redacção do _Rappel_! Bem conhecida no mundo!
-Emquanto ao embrulhosinho fico descançado...
-
---Póde v. exc.^a ficar descançado!
-
---Criado de v. exc.^a... Os meus comprimentos á snr.^a D. Maria!
-
-Na carruagem, através do Aterro, a anciosa interrogação do Ega a si
-mesmo foi--«que hei de fazer?» Que faria, santo Deus, com aquelle
-segredo terrivel que possuia, de que só elle era senhor, agora que o
-Guimarães partia, desapparecia para sempre? E antevendo com terror todas
-as angustias em que essa revelação ia lançar o homem que mais estimava
-no mundo--a sua instinctiva idéa foi guardar para sempre o segredo,
-deixal-o morrer dentro em si. Não diria nada; o Guimarães sumia-se em
-Paris; e quem se amava continuava a amar-se!... Não crearia assim uma
-crise atroz na vida de Carlos--nem soffreria elle, como companheiro, a
-sua parte d'essas afflicções. Que coisa mais impiedosa, de resto, que
-estragar a vida de duas innocentes e adoraveis creaturas, atirando-lhes
-á face uma prova de incesto!...
-
-Mas, a esta idéa de _incesto_, todas as consequencias d'esse silencio
-lhe appareceram, como coisas vivas e pavorosas, flammejando no escuro
-diante dos seus olhos. Poderia elle tranquillamente testemunhar a vida
-dos dois--desde que a sabia _incestuosa_? Ir á rua de S. Francisco,
-sentar-se-lhes alegremente á mesa, entrevêr através do reposteiro a cama
-em que ambos dormiam--e saber que esta sordidez de peccado era obra do
-seu silencio? Não podia ser... Mas teria tambem coragem de entrar ao
-outro dia no quarto de Carlos, e dizer-lhe em face--«Olha que tu és
-amante de tua irmã?»
-
-A carruagem parára no Ramalhete. Ega subiu, como costumava, pela escada
-particular de Carlos. Tudo estava apagado e mudo. Accendeu a sua
-palmatoria; entreabriu o reposteiro dos aposentos de Carlos; deu alguns
-passos timidos no tapete, que pareceram já soar tristemente. Um reflexo
-d'espelho alvejou ao fundo na sombra da alcova. E a luz cahiu sobre o
-leito intacto, com a sua longa colcha lisa, entre os cortinados de sêda.
-Então a idéa que Carlos estava áquella hora na rua de S. Francisco,
-dormindo com uma mulher que era sua irmã, atravessou-o com uma cruel
-nitidez, n'uma imagem material, tão viva e real, que elle viu-os
-claramente, de braços enlaçados, e em camisa... Toda a belleza de Maria,
-todo o requinte de Carlos desappareciam. Ficavam só dois animaes,
-nascidos do mesmo ventre, juntando-se a um canto como cães, sob o
-impulso bruto do cio!
-
-Correu para o seu quarto, fugindo áquella visão a que o escuro do
-corredor, mal dissipado pela luz tremula, accentuava mais o relêvo.
-Aferrolhou a porta; accendeu á pressa sobre o toucador, uma depois da
-outra, com a mão agitada, as seis velas dos candelabros. E agora
-apparecia-lhe mais urgente, inevitavel, a necessidade de contar _tudo_ a
-Carlos. Mas ao mesmo tempo sentia em si, a cada instante, menos animo
-para chegar, encarar Carlos, e destruir-lhe a felicidade e a vida com
-uma revelação d'incesto. Não podia! Outro que lh'o dissesse! Elle lá
-estava depois para o consolar, tomar metade da sua dôr, carinhoso e
-fiel. Mas o desgosto supremo da vida de Carlos não viria de palavras
-cahidas da sua boca!... Outro que lh'o dissesse! Mas quem? Mil idéas
-passavam na sua pobre cabeça, incoherentes e tontas. Pedir a Maria que
-fugisse, desapparecesse... Escrever uma carta anonyma a Carlos, com a
-detalhada historia do Guimarães... E esta confusão, esta anciedade ia-se
-resolvendo lentamente em odio ao snr. Guimarães. Para que fallára
-áquelle imbecil? Para que insistira em lhe confiar papeis alheios? Para
-que lh'o apresentára o Alencar? Ah! se não fosse a carta do Damaso...
-Tudo provinha do maldito Damaso!
-
-Agitando-se pelo quarto, ainda de chapéo, os seus olhos cahiram n'um
-sobrescripto pousado sobre a mesa de cabeceira. Reconheceu a letra do
-Villaça. E nem a abriu... Uma idéa sulcára-o de repente. Contar tudo ao
-Villaça!... Porque não? Era o procurador dos Maias. Nunca para elle
-houvera segredos n'aquella casa. E esta complicação singular d'uma
-senhora da familia, considerada morta e que surge inesperadamente--a
-quem a pertencia aclarar senão ao fiel procurador, ao velho confidente,
-ao homem que, por herança e por destino, recebera sempre todos os
-segredos e partilhára todos os interesses domesticos?... E sem pensar,
-sem aprofundar mais, fixou-se logo n'esta decisão salvadora,--que ao
-menos o socegava, lhe tirava já do coração um peso de ferro, suffocante
-e intoleravel...
-
-Devia acordar cedo, procurar Villaça em casa. Escreveu n'uma folha de
-papel--«Acorda-me ás sete». E desceu abaixo, ao longo corredor de pedra
-onde dormiam os criados, dependurou este recado na chave do quarto do
-escudeiro.
-
-Quando subiu, mais calmo,--abriu então a carta do Villaça. Era uma curta
-linha lembrando ao amigo Ega que a letrinha de duzentos mil reis, no
-Banco Popular, se vencia d'ahi a dois dias...
-
---Sêbo, tudo se junta! exclamou Ega furioso, atirando a carta amarrotada
-para o chão.
-
-
-
-
-VII
-
-
-Pontual, ás sete horas, o escudeiro acordou Ega. Ao rumor da porta elle
-sentou-se na cama com um salto--e logo todos os negros cuidados da
-vespera, Carlos, a irmã, a felicidade d'aquella casa acabada para
-sempre, se lhe ergueram n'alma em sobresalto, como despertando tambem. A
-portada da varanda ficára aberta; um ar silencioso e livido de madrugada
-clareava através do transparente de fazenda branca. Durante um momento
-Ega ficou olhando em redor, arrepiado; depois, sem coragem, remergulhou
-nos lençoes, gozando aquelle bocado de calor e de conchêgo antes d'ir
-affrontar fóra as amarguras do dia.
-
-E pouco a pouco, sob o tepido conchêgo dos cobertores em que se
-atabafára, começou a afigurar-se-lhe menos urgente, e menos util, essa
-correria estremunhada a casa do Villaça... De que servia procurar o
-Villaça? Não se tratava alli de dinheiro, nem de demandas, nem de
-legalidade--de nada que reclamasse a experiencia d'um procurador. Era
-apenas introduzir um burguez mais n'um segredo tão terrivelmente
-delicado que elle mesmo se assustava de o saber. E acochado mais sob a
-roupa, apenas com o nariz ao frio, murmurava comsigo: «É uma tolice ir
-ao Villaça!»
-
-De resto não poderia elle ajuntar em si bastante coragem para contar
-tudo a Carlos, logo, n'essa manhã, claramente, virilmente? Era por fim
-aquelle caso tão pavoroso como lhe parecera na vespera--um irreparavel
-desabamento d'uma vida de homem?... Ao pé da quinta da mãe, em Celorico,
-no logar de Vouzeias, houvera um successo parecido, dois irmãos que
-innocentemente iam casar. Tudo se aclarou ao reunirem-se os papeis para
-os _banhos_. Os noivos ficaram uns dias «embatucados», como dizia o
-padre Seraphim; mas por fim já riam, muito amigos, muito divertidos,
-quando se tratavam de «manos». O noivo, um rapagão bonito, contava
-depois «que ia havendo uma mixordia na familia». Aqui o engano seguira
-mais longe, as sensibilidades eram mais requintadas; mas os seus
-corações permaneciam livres de toda a culpa, innocentes absolutamente.
-Porque ficaria pois a existencia de Carlos para sempre estragada? A
-inconsciencia impedia-lhe o remorso: e passado o primeiro horror, de que
-lhe podia, na realidade, vir a definitiva dôr? Sómente do prazer ter
-findado. Era então como outro qualquer desgosto d'amor. Bem menos atroz
-do que se Maria o tivesse trahido com o Damaso!
-
-De repente a porta abriu-se, Carlos appareceu exclamando:
-
---Então que madrugada foi esta? Disse-me agora lá em baixo o Baptista...
-É aventura? duello?
-
-Trazia o paletot todo abotoado, com a gola erguida, escondendo ainda a
-gravata branca da vespera; e decerto chegára da rua de S. Francisco na
-tipoia que havia instantes Ega sentira parar na calçada.
-
-Elle sentára-se bruscamente na cama; e estendendo a mão para os
-cigarros, sobre a mesa ao lado, murmurou, bocejando, que na véspera
-combinára uma ida a Cintra com o Taveira... Por precaução mandára-se
-chamar... Mas não sabia, acordára cansado...
-
---Que tal está o dia?
-
-Justamente Carlos fôra correr o transparente da janella. Ahi, na mesa de
-trabalho, collocada em plena luz, ficára a caixa da Monforte embrulhada
-no _Rappel_. E Ega pensou n'um relance:--«Se elle repara, se pergunta,
-digo tudo!»--O seu pobre coração pôz-se a bater anciosamente no terror
-d'aquella decisão. Mas o transparente um pouco pêrro subiu, uma facha de
-sol banhou a mesa--e Carlos voltou sem reparar no cofre. Foi um immenso
-allivio para o Ega.
-
---Então, Cintra? disse Carlos, sentando-se aos pés da cama. Com effeito
-não é má idéa... A Maria ainda hontem esteve tambem a fallar d'ir a
-Cintra... Espera! Podiamos fazer a patuscada juntos... Iamos no break, a
-quatro!
-
-E olhava já o relogio, calculando o tempo para atrellar, avisar Maria.
-
---O peor, acudiu o Ega atrapalhado, tomando de sobre a mesa o monoculo,
-é que o Taveira fallou em irmos com umas raparigas...
-
-Carlos encolheu os hombros com horror. Que sordidez, ir com mulheres
-para Cintra, de dia!... De noite, nas trevas, por bebedeira, vá... Mas á
-luz do Senhor! Talvez com a Lola gorda, hein?...
-
-Ega embrulhou-se n'uma complicada historia, limpando o monoculo á ponta
-do lençol. Não eram hespanholas... Pelo contrario, umas costureiras,
-raparigas sérias... Elle tinha um compromisso antigo d'ir a Cintra com
-uma d'ellas, filha d'um Simões, um estofador que fallira... Gente muito
-séria!...
-
-Perante estes compromissos, tanta seriedade, Carlos desistiu logo da
-idéa de Cintra.
-
---Bem, acabou-se!... Vou então tomar banho e depois a negocios... E tu,
-se fôres, traze-me umas queijadas para a Rosa, que ella gosta!...
-
-Apenas Carlos sahiu, Ega cruzou os braços desanimado, descorçoado,
-sentindo bem que não teria coragem nunca de «dizer tudo». Que havia de
-fazer?... E de novo, insensivelmente, se refugiou na idéa de procurar o
-Villaça, entregar-lhe o cofre da Monforte. Não havia homem mais honesto,
-nem mais pratico; e, pela mesma mediocridade do seu espirito burguez,
-quem melhor para encarar aquella catastrophe sem paixão e sem nervos?...
-E esta _falta de nervos_ do Villaça fixou-o definitivamente.
-
-Saltou então da cama, n'uma impaciencia, repicou a campainha. E emquanto
-o criado não entrava, foi, com o robe-de-chambre aos hombros, examinar o
-cofre da Monforte. Parecia com effeito uma velha caixa de charutos,
-embrulhada n'um papel de dobras já sujas e gastas, com marcas de lacre
-onde se distinguia uma divisa que seria decerto a da Monforte--_Pro
-amore_. Na tampa tinha escripto n'uma letra de mulher
-mal-ensinada--_Monsieur Guimaran, à Paris_. Ao sentir os passos do
-criado deitou-lhe por cima uma toalha, que pendia ao lado, n'uma
-cadeira. E d'ahi a meia hora rolava pelo Aterro n'uma tipoia descoberta,
-mais animado, respirando largamente aquelle bello ar da manhã, fino e
-fresco, que elle tão raras vezes gozava.
-
-Começou por uma contrariedade. Villaça já sahira: e a criada não sabia
-bem se elle fôra para o escriptorio, se a uma vistoria ao Alfeite... Ega
-largou para o escriptorio, na rua da Prata. O snr. Villaça ainda não
-viera...
-
---E a que horas virá?
-
-O escrevente, um rapaz macilento que torcia nervosamente sobre o collete
-uma corrente de coral, balbuciou que o snr. Villaça não devia tardar, se
-não tivesse atravessado, no vapor das nove, para o Alfeite... Ega desceu
-desesperado.
-
---Bem, gritou ao cocheiro, vai ao café Tavares...
-
-No Tavares, ainda solitario áquella hora, um moço areava o sobrado. E
-emquanto esperava o almoço Ega percorreu os jornaes. Todos fallavam do
-sarau, em linhas curtas, promettendo detalhes criticos, mais tarde,
-sobre esse brilhante torneio artistico. Só a _Gazeta Illustrada_ se
-alargava, com phrases sérias, tratando o Rufino de _grandioso_ o Cruges
-de _esperançoso:_ no Alencar a _Gazeta_ separava o philosopho do poeta;
-ao philosopho a _Gazeta_ lembrava com respeito que nem todas as
-aspirações ideaes da philosophia, bellas como miragens de deserto, são
-realisaveis na pratica social; mas ao poeta, ao creador de tão formosas
-imagens, de tão inspiradas estancias, a _Gazeta_ desafogadamente
-bradava--«bravo! bravo!» Havia ainda outras abominaveis sandices. Depois
-seguia-se a lista das pessoas que a _Gazeta_ se recordava de ter visto,
-entre as quaes «destacava com o seu monoculo o fino perfil de João da
-Ega, sempre brilhante de _verve_.» Ega sorriu, cofiando o bigode.
-Justamente o bife chegava, fumegante, chiando na frigideirinha de barro.
-Ega pousou a _Gazeta_ ao lado, dizendo comsigo: «Não é nada mal feito,
-este jornal!»
-
-O bife era excellente:--e depois d'uma perdiz fria, d'um pouco de dôce
-de ananaz, d'um café forte, Ega sentiu adelgaçar-se emfim aquelle
-negrume que desde a vespera lhe pesava n'alma. No fim, pensava elle,
-accendendo o charuto e lançando os olhos ao relogio, n'aquelle desastre
-praticamente encarado só havia para Carlos a perda d'uma bella amante. E
-essa perda, que agora o angustiava, não traria depois compensações? O
-futuro de Carlos até ahi tinha uma sombra--aquella promessa de casamento
-que irreparavelmente o collava pela honra a uma mulher muito
-interessante, mas com um passado cheio de brazileiros e de irlandezes...
-A sua belleza poetisava tudo: mas quanto tempo mais duraria esse
-encanto, o seu brilho de deusa pisando a terra?... Não seria por fim
-aquella descoberta do Guimarães uma libertação providencial? D'ahi a
-annos Carlos estaria consolado, sereno como se nunca tivesse sofrido--e
-livre, e rico, com o largo mundo diante de si!
-
-O relogio do café deu dez horas. «Bem, vamos a isto», pensou Ega.
-
-De novo a tipoia bateu para a rua da Prata. O snr. Villaça ainda não
-viera, o escrevente estava realmente pensando que o snr. Villaça fôra ao
-Alfeite. E diante d'esta incerteza, de repente, Ega ficou de novo
-descorçoado, sem coragem. Despediu a tipoia: com o embrulho do cofre na
-mão foi andando pela rua do Ouro, depois até ao Rocio, parando
-distrahidamente diante d'um ourives, lendo aqui e além a capa d'um livro
-na vitrine dos livreiros. Pouco a pouco o negrume da vespera, um momento
-adelgaçado, recahia-lhe n'alma mais denso. Já não via as «libertações»
-nem as «compensações». Só sentia em torno de si, como fluctuando no ar,
-aquelle horror--Carlos a dormir com a irmã.
-
-Voltou pela rua da Prata, de novo subiu a suja escadaria de pedra; e
-logo no patamar, diante da porta de baeta verde, deu com o Villaça que
-sahia, atarefado, calçando as luvas.
-
---Homem, até que emfim!
-
---Ah! Era o amigo que me tinha procurado?... Pois tenha paciencia, que
-está o visconde do Torral á minha espera...
-
-Ega quasi o empurrou. Qual visconde!... Tratava-se d'uma coisa muito
-urgente, muito séria! Mas o outro não se arredava da porta, acabando de
-calçar a luva, com o mesmo ar vivo de negocio e de pressa.
-
---O amigo bem vê... Está o homem á espera! É um _rendez-vous_ para as
-onze!
-
-Ega, já furioso, agarrou-lhe a manga, murmurou-lhe junto á face,
-tragicamente, que se tratava de Carlos, d'um caso de vida ou de morte!
-Então o Villaça, n'um grande espanto, atravessou bruscamente o
-escriptorio, fez entrar Ega n'um cubiculo ao lado, estreito como um
-corredor, com um canapé de palhinha, uma mesa onde os livros tinham pó,
-e um armario ao fundo. Fechou a porta, atirou o chapéo para a nuca:
-
---Então que é?
-
-Ega, com um gesto, indicou fóra o escrevente que podia escutar. O
-procurador abriu a porta, gritou ao rapazola que voasse ao Hotel
-Pelicano pedir ao snr. visconde do Torral a fineza de esperar meia
-hora... Depois, fechada a porta no ferrolho, foi a mesma exclamação
-anciosa:
-
---Então que é?
-
---É um horror, Villaça, um grande horror... Nem eu sei por onde hei de
-começar.
-
-Villaça, já muito pallido, pousou lentamente o guardachuva sobre a mesa.
-
---É duello?
-
---Não... É isto... Você sabia que o Carlos tinha relações com uma snr.^a
-Mac-Gren que veio o inverno passado a Portugal, ficou ahi?...
-
-Uma senhora brazileira, mulher d'um brazileiro, que passára o verão nos
-Olivaes?... Sim, Villaça sabia. Fallára até n'isso com o Eusebiosinho.
-
---Ah, com o Eusebio?... Pois não é brazileira! É portugueza, e é irmã
-d'elle!
-
-Villaça cahiu para o canapé, batendo as mãos n'um assombro.
-
---Irmã do Eusebio!
-
---Qual do Eusebio, homem!... Irmã de Carlos!
-
-Villaça ficára mudo, sem comprehender, com os olhos terrivelmente
-arregalados para o outro, que se movia pelo cubiculo, repetindo: «irmã!
-irmã legítima!» Ega por fim sentou-se no canapé de palhinha; e baixo,
-muito baixo, apesar da solidão do escriptorio, contou o seu encontro com
-o Guimarães no sarau, e como a verdade terrivel estalára casualmente,
-n'uma palavra, á esquina do _Alliança_... Mas quando fallou dos papeis,
-entregues pela Monforte ao Guimarães, ha tantos annos guardados, nunca
-reclamados, e que o democrata agora, tão de repente, tão urgentemente,
-queria restituir á familia--Villaça, até ahi esmagado e como
-emparvecido, despertou, teve uma explosão:
-
---Ahi ha marosca! Tudo isso é para apanhar dinheiro!...
-
---Apanhar dinheiro! Quem?
-
---Quem!? exclamou Villaça de pé, arrebatadamente. Essa senhora, esse
-Guimarães, essa tropa!... É que o amigo não percebe! Se apparecer uma
-irmã do Maia, legitima e authentica, são quatrocentos contos e pico que
-cabem á irmã do Maia!...
-
-Então os dois ficaram-se devorando com os olhos, na forte impressão
-d'aquella idéa inesperada que a seu pezar abalava o Ega. Mas como o
-procurador, tremulo, voltava á grande somma de quatrocentos contos,
-lembrava a _Companhia do Olho Vivo_, Ega terminou por encolher os
-hombros:
-
---Isso não tem verosimilhança nenhuma! Ella é incapaz, absolutamente
-incapaz, de semelhante intriga. Além d'isso, se é uma questão de
-dinheiro, que necessidade tinha de se fazer passar como irmã desde que
-Carlos lhe promettera casar com ella?
-
-Casar com ella! Villaça erguia as mãos, não queria acreditar. O quê! o
-snr. Carlos da Maia dar a sua mão, o seu nome, a essa creatura amigada
-com um brazileiro!?... Santissimo nome de Deus! E através do assombro
-recrescia-lhe a desconfiança, via ahi um novo feito do _Olho Vivo_.
-
---Não senhor, Villaça, não senhor! insistiu Ega, já impaciente. Se a
-questão é de documentos e se ella os tinha, verdadeiros ou falsificados,
-apresentava-os logo, não ia primeiro dormir com o irmão!
-
-Villaça baixou lentamente os olhos para o sobrado. Um terror invadia-o
-diante d'aquella grande casa, que era o seu orgulho, partida em metade,
-empolgada por uma aventureira... Mas como o Ega, muito nervoso, lembrava
-que de resto a questão não era de documentos, nem de legalidade, nem de
-fortuna--o procurador teve outro grito, com a face de novo alumiada:
-
---Espere, homem, ha outra coisa!... Talvez ella seja filha do italiano!
-
---E então?... Vem a dar na mesma.
-
---Alto lá! berrou o procurador, batendo com o punho na mesa. Não tem
-direito á legitima do pai, e não apanha um real d'esta casa!... Irra,
-ahi é que está o ponto!
-
-Ega teve um gesto desolado. Não, nem isso, desgraçadamente! Esta era a
-filha do Pedro da Maia. O Guimarães conhecia-a de a trazer ao collo, de
-lhe dar bonecas quando ella tinha sete annos, e quando apenas havia
-quatro ou cinco annos que o italiano estivera em Arroios, de cama, com
-uma chumbada... A filha d'esse morrera em Londres, pequenina.
-
-Villaça recahiu no canapé, succumbido.
-
---Quatrocentos contos, que bolada!
-
-Então Ega resumiu. Se não existia ainda uma certeza legal, havia já uma
-forte suspeita. E desde logo não se podia deixar o pobre Carlos,
-innocentemente, a chafurdar n'aquella sordidez. Era pois indispensavel
-revelar tudo a Carlos n'essa noite...
-
---E você, Villaça, é que tem de lh'o dizer.
-
-Villaça deu um salto que fez bater o canapé contra a parede.
-
---Eu!?
-
---Você, que é o procurador da casa!
-
-Que havia alli, senão uma questão de filiação, portanto de legitima? A
-quem pertenciam esses detalhes legaes senão ao procurador?
-
-Villaça murmurou com todo o sangue na face:
-
---Homem, o amigo mette-me n'uma!...
-
-Não. Ega mettia-o apenas n'aquillo em que o Villaça, como procurador,
-logicamente e profissionalmente devia estar.
-
-O outro protestou, tão perturbado que gaguejava. Que diabo! Não era
-esquivar-se aos seus deveres! Mas é que elle não sabia nada! Que podia
-dizer ao snr. Carlos da Maia? «O amigo Ega veio-me contar isto, que lhe
-contou um tal Guimarães hontem á noite no Loreto...» Não tinha a dizer
-mais nada...
-
---Pois diga isso.
-
-O outro encarou Ega com olhos que chammejavam:
-
---Diga isso, diga isso... Que diabo, senhor, é necessario ter topete!
-
-Deu um puxão desesperado ao collete, foi bufando até ao fundo do
-cubiculo, onde esbarrou com o armario. Voltou, tornou a encarar o Ega:
-
---Não se vai a um homem com uma coisa d'essas sem provas... Onde estão
-as provas?...
-
---Ó Villaça, desculpe, você está obtuso!... A que vim eu aqui senão
-trazer-lhe as provas, as que ha, boas ou más, a historia do Guimarães,
-essa caixa com os papeis da Monforte?...
-
-Villaça, que resmungava, foi examinar a caixa, virando-a nas mãos,
-decifrando o mote do sinete _Pro amore_.
-
---Então, abrimol-a?
-
-Já Ega puxára uma cadeira para a mesa. Villaça cortou o papel, gasto nos
-cantos, que envolvia o cofre. E appareceu effectivamente uma velha caixa
-de charutos pregada com duas taxas, cheia de papeis, alguns em maços
-apertados por fitas, outros soltos dentro de sobrescriptos abertos que
-tinham o monogramma da Monforte sob uma corôa de marquez. Ega
-desembrulhou o primeiro maço. Eram cartas em allemão, que elle não
-percebia, datadas de Buda-Pesth e de Carlsruhe.
-
---Bem, isto não nos diz nada... Adiante!
-
-Outro embrulho, a que Villaça cuidadosamente desapertou o nó côr de
-rosa, resguardava uma caixa oval com a miniatura d'um homem de bigodes e
-suissas ruivas, entalado na alta gola dourada d'uma farda branca.
-Villaça achou a pintura «linda».
-
---Algum official austriaco, rosnou Ega. Outro amante... _Ça marche_.
-
-Iam tirando os papeis por ordem, com a ponta dos dedos, como tocando em
-reliquias. Um largo enveloppe atulhado de contas de modistas, algumas
-pagas, outras sem recibo, interessou profundamente o Villaça--que
-percorria os _items_, espantado dos preços, das infinitas invenções do
-luxo. Contas de seis mil francos! Um só vestido, dois mil francos!...
-Outro maço trouxe uma surpreza. Eram cartas de Maria Eduarda á mãi,
-escriptas do convento, n'uma letra redonda e trabalhada como um desenho,
-com phrasesinhas cheias de gravidade devota, dictadas decerto pelas boas
-Irmãs; e n'estas composições, virtuosas e frias como themas, o sincero
-coração da rapariga só transparecia n'alguma florzinha, agora sêcca,
-pregada no alto do papel com um alfinete.
-
---Isto põe-se de parte, murmurou Villaça.
-
-Então Ega, já impaciente, esvaziou toda a caixa sobre a mesa, alastrou
-os papeis. E entre cartas, outras contas, bilhetes de visita, um grande
-sobrescripto destacou com esta linha a tinta azul:--_Pertence a minha
-filha Maria Eduarda_. Foi Villaça que lançou os olhos rapidamente á
-enorme folha de papel que elle continha, luxuosa e documental, com o
-monogramma d'ouro sob a corôa de marquez. Quando o passou em silencio
-para a mão do Ega parecia suffocado, com todo o sangue nas orelhas.
-
-Ega leu-o alto, devagar. Dizia:--«Como a Maria teve a pequena e anda
-muito fraca, e eu tambem me não sinto nada boa com umas pontadas,
-parece-me prudente, para o que possa vir a succeder, fazer aqui uma
-declaração que te pertence a ti, minha querida filha, e que só sabe o
-padre Talloux (_Mr. l'abbé Talloux, coadjuteur à Saint-Roch_) porque
-lh'o disse ha dois annos quando tive a pneumonia. E é o seguinte:
-Declaro que minha filha Maria Eduarda, que costuma assignar Maria
-Calzaski, por suppôr ser esse o nome de seu pai, é portugueza e filha de
-meu marido Pedro da Maia, de quem me separei voluntariamente, trazendo-a
-commigo para Vienna, depois para Paris, e que agora vive em companhia de
-Patrick Mac-Gren, em Fontainebleau, com quem vai casar. E o pai de meu
-marido era meu sogro Affonso da Maia, viuvo, que vivia em Bemfica e
-tambem em Santa Olavia ao pé do rio Douro. O que tudo se póde verificar
-em Lisboa pois devem lá estar os papeis; e os meus erros de que vejo
-agora as consequencias não devem impedir que tu, minha querida filha,
-tenhas a posição e fortuna que te pertencem. E por isso aqui declaro
-tudo isto que assigno, no caso que o não possa fazer diante d'um
-tabellião, o que tenciono logo que esteja melhor. E de tudo, se eu vier
-a morrer, o que Deus não permitta, peço perdão a minha filha. E assigno
-com o meu nome de casada--_Maria Monforte da Maia_.»
-
-Ega ficou a olhar para o Villaça. O procurador só pôde murmurar, com as
-mãos cruzadas sobre a mesa:
-
---Que bolada! Que bolada!
-
-Então Ega ergueu-se. Bem! Agora tudo se simplificava. Havia unicamente a
-entregar aquelle documento a Carlos, sem commentarios. Mas o Villaça
-coçava a cabeça, retomado por uma duvida:
-
---Eu não sei se este papelinho faria fé em juizo...
-
---Qual fé, qual juizo! exclamou Ega violentamente. É o bastante para que
-elle não torne a dormir com ella!...
-
-Uma pancada timida na porta do cubiculo fêl-o estacar, inquieto.
-Desandou a chave. Era o escrevente, que segredou através da frincha:
-
---O snr. Carlos da Maia ficou agora lá em baixo no carrinho quando eu
-entrei, perguntou pelo snr. Villaça.
-
-Houve um pânico! Ega, atarantado, agarrára o chapéo do Villaça. O
-procurador atirava ás mãos ambas, para dentro d'uma gaveta, os papeis da
-Monforte.
-
---É talvez melhor dizer que não está, lembrou o escrevente.
-
---Sim, que não está! foi o grito abafado de ambos.
-
-Ficaram á escuta, ainda pallidos. O dog-cart de Carlos rolou na calçada;
-os dois amigos respiraram. Mas agora Ega arrependia-se de não terem
-mandado subir Carlos--e alli mesmo, sem outras vacillações nem
-pieguices, corajosamente, contarem-lhe tudo, diante d'aquelles papeis
-bem abertos. E estava saltado o barranco!
-
---Homem, dizia o Villaça passando o lenço pela testa, as coisas
-querem-se devagar, com methodo. É necessario preparar-se a gente,
-respirar para dar bem o mergulho...
-
-Em todo o caso, concluiu o Ega, eram ociosas mais conversas. Os outros
-papeis da caixa perdiam o interesse depois d'aquella confissão da
-Monforte. Só restava que Villaça apparecesse á noite no Ramalhete ás
-oito e meia, ou nove horas, antes de Carlos sahir para a rua de S.
-Francisco.
-
---Mas o amigo ha de lá estar! exclamou o procurador, já aterrado.
-
-Ega prometteu. Villaça teve um pequeno suspiro. Depois, no patamar, onde
-viera acompanhar o outro:
-
---Uma d'estas, uma d'estas!... E eu ainda, tão contente, a jantar no
-Ramalhete...
-
---E eu, com elles, na rua de S. Francisco!...
-
---Emfim, até á noite!
-
---Até á noite.
-
-Ega não se atreveu n'esse dia a voltar ao Ramalhete, a jantar diante de
-Carlos, a vêr-lhe a alegria e a paz--sentindo aquella negra desgraça que
-descia sobre elle á maneira que a noite descia. Foi pedir as sopas ao
-marquez, que desde o sarau se conservava em casa, de garganta entrapada.
-Depois, ás oito e meia, quando calculou que Villaça devia estar já no
-Ramalhete, deixou o marquez que se enfronhára com o capellão n'uma
-partida de damas.
-
-Aquelle lindo dia, toldado de tarde, findára n'uma chuvinha miuda que
-transia as ruas. Ega tomou uma tipoia. E parava no Ramalhete, já
-terrivelmente nervoso, quando avistou Villaça no portal, de guardachuva
-sob o braço, arregaçando as calças para sahir.
-
---Então? gritou-lhe o Ega.
-
-Villaça abriu o guardachuva, para murmurar debaixo, mas em segredo:
-
---Não foi possivel... Disse que tinha muita pressa, que não me podia
-ouvir.
-
-Ega bateu o pé, desesperado:
-
---Oh homem!
-
---Que quer o amigo? Havia de o agarrar á força? Ficou para ámanhã...
-Tenho de cá estar ámanhã ás onze horas.
-
-Ega galgou as escadas, rosnando entre dentes: «Irra! não sahimos
-d'esta!» Foi até ao escriptorio de Affonso. Mas não entrou. Através
-d'uma fenda larga do reposteiro meio franzido, um canto da sala
-apparecia, quente e cheio de conchêgo, no dôce tom côr de rosa da luz
-cahindo sobre os damascos: as cartas esperavam na mesa do whist: no sofá
-bordado a matiz D. Diogo, murcho e molle, olhava o lume, cofiando os
-bigodes. E, travadas n'alguma questão, a voz do Craft, que perpassou de
-cachimbo na mão, e a voz mais lenta de Affonso, tranquillo na sua
-poltrona, misturavam-se, abafadas pela do Sequeira, que berrava
-furiosamente:--«Mas se ámanhã houvesse uma bernarda, esse exercito com
-que os senhores querem acabar por ser uma escóla de vadiagem é que lhes
-havia de guardar as costas... É bom fallar, ter muita philosophia! Mas
-quando ellas chegam, se não ha meia duzia de baionetas promptas, então
-são as cólicas!...»
-
-Ega foi d'alli aos quartos de Carlos. As velas ardiam ainda nas
-serpentinas: um aroma errava de agua de Lubin e charuto: e o Baptista
-disse-lhe que o snr. D. Carlos «sahira havia dez minutos». Fôra para a
-rua de S. Francisco! Ia lá dormir! Então enervado, com a longa e triste
-noite diante de si, Ega teve um appetite de se atordoar, dissipar n'uma
-excitação forte as idéas que o torturavam. Não despedira a tipoia,
-abalou para S. Carlos. E findou por ir cear ao Augusto com o Taveira e
-duas raparigas, a Paca e a Carmen Philosopha, prodigalisando o
-champagne. Ás quatro da manhã estava bebedo, estatelado sobre o sofá,
-gemendo sentimentalmente, só para si, as estrophes de Musset á
-Malibran... O Taveira e a Paca, juntinhos na mesma cadeira, elle com o
-seu ar terno de chulo, ella _muy caliente_ tambem, debicavam copinhos de
-gelatina. E a Carmen Philosopha, empanturrada, desapertada, com o
-collete embrulhado já n'um _Diario de Noticias_, repicava a faca na
-borda do prato, cantarolando d'olhos perdidos nos bicos de gaz:
-
-
- Señor Alcalde mayor,
- No prenda usted los ladrones...
-
-
-
-
-Acordou ao outro dia ás nove horas, ao lado da Carmen Philosopha, n'um
-quarto de grandes janellas rasgadas por onde entrava toda a melancolia
-da escura manhã de chuva. E, emquanto não vinha a tipoia fechada que a
-servente correra a chamar, o pobre Ega enojado, vexado, com a lingua
-pastosa, os pés nús sobre o tapete, reunindo o fato espalhado, tinha só
-uma idéa clara--fugir d'alli para um grande banho, bem perfumado e bem
-fresco, onde se purificasse d'uma sensação viscosa de Carmen e d'orgia
-que o arrepiava.
-
-Esse banho lustral foi tomal-o ao _Hotel Braganza_, para se encontrar
-com Carlos e com Villaça ás onze horas já lavado e preparado. Mas
-precisou esperar pela roupa branca que o cocheiro, com um bilhete para o
-Baptista, voára a buscar ao Ramalhete: depois almoçou: e já batera meio
-dia quando se apeou á porta particular dos quartos de Carlos, com a
-roupa suja n'uma trouxa.
-
-Justamente Baptista atravessava o patamar com camelias n'um açafate.
-
---O Villaça já veio? perguntou-lhe Ega baixo, andando em pontas de pés.
-
---O snr. Villaça já lá está dentro ha bocado. V. exc.^a recebeu a roupa
-branca?... Eu tambem mandei um fato, porque n'esses casos sempre dá mais
-frescura...
-
---Obrigado, Baptista, obrigado!
-
-E Ega pensava:--«Bem, Carlos já sabe tudo, o barranco está passado!» Mas
-demorou-se ainda, tirando as luvas e o paletot com uma lentidão cobarde.
-Por fim, sentindo bater alto o coração, puxou o reposteiro de velludo.
-Na ante-camara pesava um silencio; a chuva grossa fustigava a porta
-envidraçada, por onde se viam as arvores do jardim esfumadas na nevoa.
-Ega levantou o outro reposteiro que tinha bordadas as armas dos Maias.
-
---Ah! és tu? exclamou Carlos, erguendo-se da mesa de trabalho com uns
-papeis na mão.
-
-Parecia ter conservado um animo viril e firme: apenas os olhos lhe
-rebrilhavam, com um fulgor sêcco, anciosos e mais largos na pallidez que
-o cobria. Villaça, sentado defronte, passava vagarosamente pela testa,
-n'um movimento cansado, o lenço de sêda da India. Sobre a mesa
-alastravam-se os papeis da Monforte.
-
---Que diabo de embrulhada é esta que me vem contar o Villaça? rompeu
-Carlos, cruzando os braços diante do Ega, n'uma voz que apenas de leve
-tremia.
-
-Ega balbuciou:
-
---Eu não tive coragem de te dizer...
-
---Mas tenho eu para ouvir!... Que diabo te contou esse homem?
-
-Villaça ergueu-se immediatamente. Ergueu-se com a pressa d'um galucho
-timido que é rendido n'um posto arriscado, pediu licença, se não
-precisavam d'elle, para voltar ao escriptorio. Os amigos decerto
-preferiam conversar mais livremente. De resto, alli ficavam os papeis da
-snr.^a D. Maria Monforte. E se elle fosse necessario um recado
-encontrava-o na rua da Prata ou em casa...
-
---E v. exc.^a comprehende, acrescentou elle enrolando nas mãos o lenço
-de sêda, eu tomei a iniciativa de vir fallar, por ser o meu dever, como
-amigo confidencial da casa... Foi essa tambem a opinião do nosso Ega...
-
---Perfeitamente, Villaça, obrigado! acudiu Carlos. Se fôr necessario lá
-mando...
-
-O procurador, com o lenço na mão, lançou em redor um olhar lento. Depois
-espreitou debaixo da mesa. Parecia muito surprehendido. E Carlos seguia
-com impaciencia os passos timidos que elle dava pelo quarto,
-procurando...
-
---Que é, homem?
-
---O meu chapéo. Imaginei que o tinha posto aqui... Naturalmente ficou lá
-fóra... Bem, se fôr necessario alguma coisa...
-
-Mal elle sahiu, atirando ainda os olhos inquietos pelos cantos, Carlos
-fechou violentamente o reposteiro. E voltando para o Ega, cahindo
-pesadamente n'uma cadeira:
-
---Dize lá!
-
-Ega, sentado no sofá, começou por contar o encontro com o snr.
-Guimarães, em baixo no botequim da Trindade, depois de ter fallado o
-Rufino. O homem queria explicações sobre a carta do Damaso, sobre a
-bebedeira hereditaria... Tudo se aclarára, ficando d'ahi entre elles um
-começo de familiaridade...
-
-Mas o reposteiro mexeu de leve--e surdiu de novo a face do Villaça:
-
---Peço desculpa, mas é o meu chapéo... Não o acho, havia de jurar que o
-deixei aqui...
-
-Carlos conteve uma praga. Então Ega procurou tambem, por traz do sofá,
-no vão da janella. Carlos, desesperado, para findar, foi vêr entre os
-cortinados da cama. E Villaça, escarlate, afflicto, esquadrinhava até a
-alcova do banho...
-
---Um sumiço assim! Emfim, talvez me esquecesse na ante-camara!... Vou
-vêr outra vez... O que peço é desculpa.
-
-Os dois ficaram sós. E Ega recomeçou, detalhando como Guimarães, duas ou
-tres vezes nos intervallos, lhe viera fallar de coisas indifferentes, do
-sarau, de politica, do papá Hugo, etc. Depois elle procurára Carlos para
-irem um bocado ao Gremio. Terminára por sahir com o Cruges. E passavam
-defronte do Alliança...
-
-Novamente o reposteiro franziu, Baptista pediu perdão a suas
-excellencias:
-
---É o snr. Villaça que não acha o chapéo, diz que o deixou aqui...
-
-Carlos ergueu-se furioso, agarrando a cadeira pelas costas como para
-despedaçar o Baptista.
-
---Vai para o diabo tu e o snr. Villaça!... Que sáia sem chapéo! Dá-lhe
-um chapéo meu! Irra!
-
-Baptista recuou, muito grave.
-
---Vá, acaba lá! exclamou Carlos, recahindo no assento, mais pallido.
-
-E Ega, miudamente, contou a sua longa, terrivel conversa com o
-Guimarães, desde o momento em que o homem por acaso, já ao despedir-se,
-já ao estender-lhe a mão, fallára da «irmã do Maia». Depois
-entregára-lhe os papeis da Monforte á porta do _Hotel de Paris_, no
-Pelourinho...
-
---E aqui está, não sei mais nada. Imagina tu que noite eu passei! Mas
-não tive coragem de te dizer. Fui ao Villaça... Fui ao Villaça com a
-esperança sobretudo de elle saber algum facto, ter algum documento que
-atirasse por terra toda esta historia do Guimarães... Não tinha nada,
-não sabia nada. Ficou tão aniquilado como eu!
-
-No curto silencio que cahiu, um chuveiro mais largo, alagando o arvoredo
-do jardim, cantou nas vidraças. Carlos ergueu-se arrebatadamente, n'uma
-revolta de todo o sêr:
-
---E tu acreditas que isso seja possivel? Acreditas que succeda a um
-homem como eu, como tu, n'uma rua de Lisboa? Encontro uma mulher, ólho
-para ella, conheço-a, durmo com ella e, entre todas as mulheres do
-mundo, essa justamente ha de ser minha irmã! É impossivel... Não ha
-Guimarães, não ha papeis, não ha documentos que me convençam!
-
-E como Ega permanecia mudo, a um canto do sofá, com os olhos no chão:
-
---Dize alguma coisa, gritou-lhe Carlos. Duvída tambem, homem, duvída
-commigo!... É extraordinario! Todos vocês acreditam, como se isto fosse
-a coisa mais natural do mundo, e não houvesse por essa cidade fóra senão
-irmãos a dormir juntos!
-
-Ega murmurou:
-
---Já ia succedendo um caso assim, lá ao pé da quinta, em Celorico...
-
-E n'esse momento, sem que um rumor os prevenisse, Affonso da Maia
-appareceu n'uma abertura do reposteiro, encostado á bengala, sorrindo
-todo com alguma idéa que decerto o divertia. Era ainda o chapéo do
-Villaça.
-
---Que diabo fizeram vocês ao chapéo do Villaça? O pobre homem andou por
-ahi afflicto... Teve de levar um chapéo meu. Cahia-lhe pela cabeça
-abaixo, enchumaçaram-lh'o com lenços...
-
-Mas subitamente reparou na face transtornada do neto. Reparou na
-atarantação do Ega cujos olhos mal se fixavam, fugindo anciosamente
-d'elle para Carlos. Todo o sorriso se lhe apagou, deu no quarto um passo
-lento:
-
---Que é isso, que têm vocês?... Ha alguma coisa?
-
-Então Carlos, no ardente egoismo da sua paixão, sem pensar no abalo
-cruel que ia dar ao pobre velho, cheio só de esperança que elle, seu
-avô, testemunha do passado, soubesse algum facto, possuisse alguma
-certeza contraria a toda essa historia do Guimarães, a todos esses
-papeis da Monforte--veio para elle, desabafou:
-
---Ha uma coisa extraordinaria, avô! O avô talvez saiba... O avô deve
-saber alguma coisa que nos tire d'esta afflicção!... Aqui está, em duas
-palavras. Eu conheço ahi uma senhora que chegou ha tempos a Lisboa, mora
-na rua de S. Francisco. Agora de repente descobre-se que é minha irmã
-legitima!... Passou ahi um homem que a conhecia, que tinha uns papeis...
-Os papeis ahi estão. São cartas, uma declaração de minha mãe... Emfim
-uma trapalhada, um montão de provas... Que significa tudo isto? Essa
-minha irmã, a que foi levada em pequena, não morreu?... O avô deve
-saber!
-
-Affonso da Maia, que um tremor tomára, agarrou-se um momento com força á
-bengala, cahiu por fim pesadamente n'uma poltrona, junto do reposteiro.
-E ficou devorando o neto, o Ega, com um olhar esgazeado e mudo.
-
---Esse homem, exclamou Carlos, é um Guimarães, um tio do Damaso...
-Fallou com o Ega, foi ao Ega que entregou os papeis... Conta tu ao avô,
-Ega, conta tu do começo!
-
-Ega, com um suspiro, resumiu a sua longa historia. E findou por dizer
-que o importante, o decisivo alli era este homem, o Guimarães, que não
-tinha interesse em mentir e só por acaso, puramente por acaso, fallára
-em taes coisas--conhecia essa senhora, desde pequenina, como filha de
-Pedro da Maia e de Maria Monforte. E nunca a perdera de vista. Vira-a
-crescer em Paris, andára com ella ao collo, dera-lhe bonecas. Visitára-a
-com a mãi no convento. Frequentára a casa que ella habitava em
-Fontainebleau, como casada...
-
---Emfim, interrompeu Carlos, viu-a ainda ha dias, n'uma carruagem,
-commigo e com o Ega... Que lhe parece, avô?
-
-O velho murmurou, n'um grande esforço, como se as palavras sahindo lhe
-rasgassem o coração:
-
---Essa senhora, está claro, não sabe nada...
-
-Ega e Carlos, a um tempo, gritaram:--«Não sabe nada!» Segundo affirmava
-o Guimarães, a mãi escondera-lhe sempre a verdade. Ella julgava-se filha
-d'um austriaco. Assignava-se ao principio Calzaski...
-
-Carlos, que remexera sobre a mesa, adiantou-se com um papel na mão:
-
---Aqui tem o avô a declaração de minha mãi.
-
-O velho levou muito tempo a procurar, a tirar a luneta d'entre o collete
-com os seus pobres dedos que tremiam; leu o papel devagar,
-empallidecendo mais a cada linha, respirando penosamente; ao findar
-deixou cahir sobre os joelhos as mãos, que ainda agarravam o papel,
-ficou como esmagado e sem força. As palavras por fim vieram-lhe
-apagadas, morosas. Elle nada sabia... O que a Monforte alli assegurava,
-elle não o podia destruir... Essa senhora da rua de S. Francisco era
-talvez na verdade sua neta... Não sabia mais...
-
-E Carlos diante d'elle vergava os hombros, esmagado tambem sob a certeza
-da sua desgraça. O avô, testemunha do passado, nada sabia! Aquella
-declaração, toda a historia do Guimarães ahi permaneciam inteiras,
-irrefutaveis. Nada havia, nem memoria de homem, nem documento escripto,
-que as pudesse abalar. Maria Eduarda era, pois, sua irmã!... E um
-defronte do outro, o velho e o neto pareciam dobrados por uma mesma
-dôr--nascida da mesma idéa.
-
-Por fim Affonso ergueu-se, fortemente encostado á bengala, foi pousar
-sobre a mesa o papel da Monforte. Deu um olhar, sem lhes tocar, ás
-cartas espalhadas em volta da caixa de charutos. Depois, lentamente,
-passando a mão pela testa:
-
---Nada mais sei... Sempre pensamos que essa criança tinha morrido...
-Fizeram-se todas as pesquizas... Ella mesma disse que lhe tinha morrido
-a filha, mostrou já não sei a quem um retrato...
-
---Era outra mais nova, a filha do italiano, disse o Ega. O Guimarães
-fallou-me n'isso... Foi esta que viveu. Esta, que tinha já sete a oito
-annos, quando havia apenas quatro ou cinco que esse sujeito italiano
-apparecera em Lisboa... Foi esta.
-
---Foi esta, murmurou o velho.
-
-Teve um gesto vago de resignação, acrescentou, depois de respirar
-fortemente:
-
---Bem! Tudo isto tem de ser mais pensado... Parece-me bom tornar a
-chamar o Villaça... Talvez seja necessario que elle vá a Paris... E
-antes de tudo precisamos socegar... De resto não ha aqui morte
-d'homem... Não ha aqui morte d'homem!
-
-A voz sumia-se-lhe, toda tremula. Estendeu a mão a Carlos que lh'a
-beijou, suffocado; e o velho, puxando o neto para si, pousou-lhe os
-labios na testa. Depois deu dois passos para a porta, tão lentos e
-incertos que Ega correu para elle:
-
---Tome v. exc.^a o meu braço...
-
-Affonso apoiou-se n'elle, pesadamente. Atravessaram a ante-camara
-silenciosa onde a chuva contínua batia os vidros. Por traz d'elles cahiu
-o grande reposteiro com as armas dos Maias. E então Affonso, de repente,
-soltando o braço do Ega, murmurou-lhe, junto á face, no desabafo de toda
-a sua dôr:
-
---Eu sabia d'essa mulher!... Vive na rua de S. Francisco, passou todo o
-verão nos Olivaes... É a amante d'elle!
-
-Ega ainda balbuciou: «Não, não, snr. Affonso da Maia!» Mas o velho pôz o
-dedo nos labios, indicou Carlos dentro que podia ouvir... E afastou-se,
-todo dobrado sobre a bengala, vencido emfim por aquelle implacavel
-destino que depois de o ter ferido na idade de força com a desgraça do
-filho--o esmagava ao fim da velhice com a desgraça do neto.
-
-Ega enervado, exhausto, voltou para o quarto--onde Carlos recomeçára
-n'aquelle agitado passeio que abalava o soalho, fazia tilintar finamente
-os frascos de crystal sobre o marmore da console. Calado, junto da mesa,
-Ega ficou percorrendo outros papeis da Monforte--cartas, um livrinho de
-marroquim com adresses, bilhetes de visita de membros do Jockey Club e
-de senadores do imperio. Subitamente Carlos parou diante d'elle,
-apertando desesperadamente as mãos:
-
---Estarem duas creaturas em pleno céo, passar um quidam, um idiota, um
-Guimarães, dizer duas palavras, entregar uns papeis e quebrar para
-sempre duas existencias!... Olha que isto é horrivel, Ega!
-
-Ega arriscou uma consolação banal:
-
---Era peor se ella morresse...
-
---Peor porque? exclamou Carlos. Se ella morresse, ou eu, acabava o
-motivo d'esta paixão, restava a dôr e a saudade, era outra coisa...
-Assim estamos vivos, mas mortos um para o outro, e viva a paixão que nos
-unia!... Pois tu imaginas que por me virem provar que ella é minha irmã,
-eu gósto menos d'ella do que gostava hontem, ou gósto d'um modo
-differente? Está claro que não! O meu amor não se vai d'uma hora para a
-outra accommodar a novas circumstancias, e transformar-se em amizade...
-Nunca! Nem eu quero!
-
-Era uma brutal revolta--o seu amor defendendo-se, não querendo morrer,
-só porque as revelações d'um Guimarães e uma caixa de charutos cheia de
-papeis velhos o declaravam impossivel, e lhe ordenavam que morresse!
-
-Houve outro melancolico silencio. Ega accendeu uma cigarette, foi-se
-enterrar ao canto do sofá. Uma fadiga ia-o vencendo, feita de toda
-aquella emoção, da noitada no Augusto, da estremunhada manhã na alcova
-da Carmen. Todo o quarto ia entristecendo, á luz mais triste da tarde
-d'inverno que descia. Ega terminou por cerrar os olhos. Mas bem depressa
-o sacudiu outra exclamação de Carlos, que de novo, diante d'elle,
-apertava as mãos com desespero:
-
---E o peor ainda não é isto, Ega! O peor é que temos de lhe dizer tudo,
-de lhe contar tudo, a ella!...
-
-Ega já pensára n'isso... E era necessario que se lhe dissesse
-immediatamente, sem hesitações.
-
---Vou-lhe eu mesmo contar tudo, murmurou Carlos.
-
---Tu!?
-
---Pois quem, então? Querias que fosse o Villaça?...
-
-Ega franzia a testa:
-
---O que tu devias fazer era metter-te esta noite no comboio, e partir
-para Santa Olavia. De lá contavas-lhe tudo. Estavas assim mais seguro.
-
-Carlos atirou-se para uma poltrona, com um grande suspiro de fadiga:
-
---Sim, talvez, ámanhã, no comboio da noite... Já pensei n'isso, era o
-melhor... Agora o que estou é muito cansado!
-
---Tambem eu, disse o Ega espreguiçando-se. E já não adiantamos nada,
-atolamo-nos mais na confusão. O melhor é serenar... Eu vou-me estirar um
-bocado na cama.
-
---Até logo!
-
-Ega subiu ao quarto, deitou-se por cima da roupa; e no seu immenso
-cansaço bem depressa adormeceu. Acordou tarde a um rumor da porta. Era
-Carlos que entrava, raspando um phosphoro. Anoitecera, em baixo tocava a
-campainha para o jantar.
-
---Demais a mais esta massada do jantar! dizia Carlos accendendo as velas
-no toucador. Não termos um pretexto para irmos fóra, a uma taverna,
-conversar em socego! Ainda por cima convidei hontem o Steinbroken.
-
-Depois voltando-se:
-
---Ó Ega, tu achas que o avô sabe tudo?
-
-O outro saltára da cama, e diante do lavatorio arregaçava as mangas:
-
---Eu te digo... Parece-me que teu avô desconfia... O caso fez-lhe a
-impressão d'uma catastrophe... E, se não suspeitasse o que ha, devia-lhe
-causar simplesmente a surpreza de quem descobre uma neta perdida.
-
-Carlos teve um lento suspiro. D'ahi a um instante desciam para o jantar.
-
-Em baixo encontraram, além de Steinbroken e de D. Diogo--o Craft, que
-viera «pedir as sopas». E em tôrno áquella mesa, sempre alegre, coberta
-de flôres e de luzes, uma melancolia fluctuava n'essa tarde através
-d'uma conversa dormente sobre doenças,--o Sequeira que tinha
-rheumatismo, o pobre marquez peorára.
-
-De resto Affonso, no escriptorio, queixára-se d'uma forte dôr de cabeça,
-que justificava o seu ar consumido e _pallido_. Carlos, a quem
-Steinbroken achára «má cara», explicou tambem que passára uma noite
-abominavel. Então Ega, para desanuviar o jantar, pediu ao amigo
-Steinbroken as suas impressões sobre o grande orador do sarau da
-Trindade, o Rufino. O diplomata hesitou. Surprehendera-o bastante saber
-que o Rufino era um politico, um parlamentar... Aquelles gestos, o
-bocado da camisa a vêr-se-lhe no estomago, a pera, a grenha, as botas,
-não lhe pareciam realmente d'um Homem d'Estado:
-
---Mais cependant, cependant... Dans ce genre là, dans le genre sublime,
-dans le genre de Demosthènes, il m'a paru très fort... Oh, il m'a paru
-excessivement fort!
-
---E você, Craft?
-
-Craft, no sarau, só gostára do Alencar. Ega encolheu violentamente os
-hombros. Ora historias! Nada podia haver mais comico que a Democracia
-romantica do Alencar, aquella Republica meiga e loura, vestida de branco
-como Ophelia, orando no prado, sob o olhar de Deus... Mas Craft
-justamente achava tudo isso excellente por ser sincero. O que feria
-sempre nas exhibições da litteratura portugueza? A escandalosa falta de
-sinceridade. Ninguem, em verso ou prosa, parecia jámais acreditar
-n'aquillo que declamava com ardor, esmurrando o peito. E assim fôra na
-vespera. Nem o Rufino parecia acreditar na influencia da religião; nem o
-homem da barba bicuda no heroismo dos Castros e dos Albuquerques; nem
-mesmo o poeta dos olhinhos bonitos na bonitice dos olhinhos... Tudo
-contrafeito e postiço! Com o Alencar, que differença! Esse tinha uma fé
-real no que cantava, na Fraternidade dos povos, no Christo republicano,
-na Democracia devota e coroada d'estrellas...
-
---Já deve ser bem velho esse Alencar, observou D. Diogo que rolava
-bolinhas de pão entre os longos dedos pallidos.
-
-Carlos, ao lado, emergiu emfim do seu silencio:
-
---O Alencar deve ter bons cincoenta annos.
-
-Ega jurou pelo menos sessenta. Já em 1836 o Alencar publicava coisas
-delirantes, e chamava pela morte, no remorso de tantas virgens que
-seduzira...
-
---Ha que annos, com effeito, murmurou lentamente Affonso, eu ouvi fallar
-d'esse homem!
-
-D. Diogo, que levára os labios ao copo, voltou-se para Carlos:
-
---O Alencar tem a idade que havia de ter teu pai... Eram intimos, d'essa
-roda _distinguée_ d'então. O Alencar ia muito a Arroios com o pobre D.
-João da Cunha, que Deus haja, e com os outros. Era tudo uma fina flôr, e
-regulavam pela mesma idade... Já nada resta, já nada resta!
-
-Carlos baixára os olhos: todos por acaso emmudeceram: um ar de tristeza
-passou entre as flôres e as luzes como vinda do fundo d'esse passado,
-cheio de sepulturas e dôres.
-
---E o pobre Cruges, coitado, que fiasco! exclamou Ega, para sacudir
-aquella nevoa.
-
-Craft achava o fiasco justo. Para que fôra elle dar Beethoven a uma
-gente educada pela chulice de Offenbach? Mas Ega não admittia esse
-desdem por Offenbach, uma das mais finas manifestações modernas do
-scepticismo e da ironia! Steinbroken accusou Offenbach de não saber
-contra-ponto. Durante um momento discutiu-se musica. Ega acabou por
-sustentar que nada havia em arte tão bello como o _fado_. E appellou
-para Affonso, para o despertar.
-
---Pois não é verdade, snr. Affonso da Maia? V. exc.^a tambem é como eu,
-um dos fieis ao fado, á nossa grande creação nacional.
-
---Sim, com effeito, murmurou o velho, levando a mão á testa, como a
-justificar o seu modo desinteressado e murcho. Ha muita poesia no
-fado...
-
-Craft porém atacava o fado, as _malagueñas_, as _peteneras_--toda essa
-musica meridional, que lhe parecia apenas um garganteado gemebundo,
-prolongado infinitamente, em _ais_ de esterilidade e de preguiça. Elle,
-por exemplo, ouvira uma noite uma _malagueña_, uma d'essas famosas
-_malagueñas_, cantada em perfeito estylo por uma senhora de Malaga. Era
-em Madrid, em casa dos Villa-Rubia. A senhora põe-se ao piano, rosna uma
-coisa sobre _piedra_ e _sepultura_, e rompe a gemer n'um gemido que não
-findava--_ã-ã-ã-ã-ã-ah_... Pois senhores, elle aborrece-se, passa para
-outra sala, vê jogar todo um robber de whist, folheia um immenso album,
-discute a guerra carlista com o general Jovellos, e quando volta, lá
-estava ainda a senhora, de cravos na trança e olhos no tecto, a gemer o
-mesmo--_ã-ã-ã-ã-ã-ah!_...
-
-Todos riram. Ega protestou com impeto, já excitado. O Craft era um sêcco
-inglez, educado sobre o chato seio da Economia Politica, incapaz de
-comprehender todo o mundo de poesia que podia conter um ai! Mas elle não
-fallava das _malagueñas_. Não estava encarregado de defender a Hespanha.
-Ella possuia, para convencer o Craft e outros britannicos, bastante
-pilheria e bastante navalha... A questão era o _fado_!
-
---Onde é que você tem ouvido o fado? Ahi pelas salas, ao piano... Com
-effeito assim, concordo, é chôcho. Mas ouça-o você por tres ou quatro
-guitarristas, uma noite, no campo, com uma bella lua no céo... Como nos
-Olivaes este verão, quando o marquez lá levou o _Vira-vira_! Lembras-te,
-Carlos?...
-
-E estacou, como entalado, no arrependimento d'aquella memoria da _Toca_
-que levianamente evocára. Carlos permanecera silencioso, com uma sombra
-na face. Craft ainda rosnou que, n'uma linda noite de luar, todos os
-sons no campo eram bonitos, mesmo o chiar dos sapos. E de novo uma
-estranha desanimação amolleceu a sala; os escudeiros serviam os dôces.
-
-Então, no silencio, D. Diogo disse pensativamente, com a sua magestade
-de leão saudoso que relembra um grande passado:
-
---Uma musica tambem muito _distinguée_ antigamente eram os _Sinos do
-mosteiro_. Parecia mesmo que se estavam ouvindo os sinos... Já não ha
-d'isso!
-
-O jantar terminava friamente. Steinbroken voltára áquella falta da
-familia real no sarau, que desde a vespera o inquietava. Ninguem alli se
-interessava pelo Paço. Depois D. Diogo surdiu com uma velha e fastidiosa
-historia sobre a infanta D. Isabel. Foi um allivio quando o escudeiro
-trouxe em volta a larga bacia de prata e o jarro d'agua perfumada.
-
-Ao fim do café, servido no bilhar, Steinbroken e Craft começaram uma
-partida «ás cincoenta» e a quinze tostões para interessar. Affonso e D.
-Diogo tinham recolhido ao escriptorio. Ega enterrára-se no fundo d'uma
-poltrona, com o _Figaro_. Mas bem depressa deixou escorregar a folha no
-tapete, cerrou os olhos. Então Carlos, que passeava pensativamente
-fumando, olhou um momento o Ega adormecido, e sumiu-se por traz do
-reposteiro.
-
-
-
-Ia á rua de S. Francisco.
-
-Mas não se apressava, a pé pelo Aterro, abafado n'um paletot de pelles,
-acabando o charuto. A noite clareára, com um crescente de lua entre
-farrapos de nuvens brancas, que fugiam sob um norte fino.
-
-Fôra n'essa tarde, só no seu quarto, que Carlos decidira ir fallar a
-Maria Eduarda--por um motivo supremo de dignidade e de razão, que elle
-descobrira e que repetia a si mesmo incessantemente para se justificar.
-Nem ella nem elle eram duas crianças frouxas, necessitando que a crise
-mais temerosa da sua vida lhes fosse resolvida e arranjada pelo Ega ou
-pelo Villaça: mas duas pessoas fortes, com o animo bastante resoluto, e
-o juizo bastante seguro, para elles mesmos acharem o caminho da
-dignidade e da razão n'aquella catastrophe que lhes desmantelava a
-existencia. Por isso elle, só elle, devia ir á rua de S. Francisco.
-
-Decerto era terrivel tornar a vêl-a n'aquella sala, quente ainda do seu
-amor, agora que a sabia sua irmã... Mas porque não? Havia acaso alli
-dois devotos, possuidos da preoccupação do demonio, espavoridos pelo
-peccado em que se tinham atolado ainda que inconscientemente, anciosos
-por irem esconder no fundo de mosteiros distantes o horror carnal um do
-outro? Não! Necessitavam elles acaso pôr immediatamente entre si as
-compridas legoas que vão de Lisboa a Santa Olavia, com receio de cahir
-na antiga fragilidade, se de novo os seus olhos se encontrassem
-brilhando com a antiga chamma? Não! Ambos tinham em si bastante força
-para enterrar o coração sob a razão, como sob uma fria e dura pedra, tão
-completamente que não lhe sentissem mais nem a revolta nem o chôro. E
-elle podia desafogadamente voltar áquella sala, toda quente ainda do seu
-amor...
-
-De resto, que precisavam appellar para a razão, para a sua coragem de
-fortes?... Elle não ia revelar bruscamente _toda_ a verdade a Maria
-Eduarda, dizer-lhe um «adeus!» pathetico, um adeus de theatro, affrontar
-uma crise de paixão e dôr. Pelo contrario! Toda essa tarde, através do
-seu proprio tormento, procurára anciosamente um meio de adoçar e graduar
-áquella pobre creatura o horror da revelação que lhe devia. E achára um
-por fim, bem complicado, bem cobarde! Mas que! Era o unico, o unico que
-por uma preparação lenta, caridosa, lhe pouparia uma dôr fulminante e
-brutal. E esse meio justamente só era praticavel indo elle, com toda a
-frieza, com todo o animo, á rua de S. Francisco.
-
-Por isso ia--e ao longo do Aterro, retardando os passos, resumia,
-retocava esse plano, ensaiando mesmo comsigo, baixo, palavras que lhe
-diria. Entraria na sala, com um grande ar de pressa--e contava-lhe que
-um negocio de casa, uma complicação de feitores o obrigava a partir para
-Santa Olavia d'ahi a dias. E immediatamente sahia, com o pretexto de
-correr a casa do procurador. Podia mesmo ajuntar--«é um momento, não
-tardo, até já.» Uma coisa o inquietava. Se ella lhe désse um beijo?...
-Decidia então exagerar a sua pressa, conservando o charuto na bôca, sem
-mesmo pousar o chapéo... E sahia. Não voltava. Pobre d'ella, coitada,
-que ia esperar até tarde, escutando cada rumor de carruagem na rua!...
-Na noite seguinte abalava para Santa Olavia com o Ega, deixando-lhe a
-ella uma carta a annunciar que infelizmente, por causa d'um telegramma,
-se vira forçado a partir n'esse comboio. Podia mesmo ajuntar--«volto
-d'aqui a dois ou tres dias...» E ahi estava longe d'ella para sempre. De
-Santa Olavia escrevia-lhe logo, d'um modo incerto e confuso, fallando de
-documentos de familia, inesperadamente descobertos, provando entre elles
-um parentesco chegado. Tudo isto atrapalhado, curto, «á pressa». Por fim
-n'outra carta deixava escapar _toda_ a verdade, mandava-lhe a declaração
-da mãe; e mostrando a necessidade d'uma separação, emquanto se não
-esclarecessem todas as duvidas, pedia-lhe que partisse para Paris.
-Villaça ficava encarregado da questão de dinheiro, entregando-lhe logo
-para a viagem trezentas ou quatrocentas libras... Ah! tudo isto era bem
-complicado, bem covarde! Mas só havia esse meio. E quem, senão elle, o
-podia tentar com caridade e com tacto?
-
-E, entre o tumulto d'estes pensamentos, de repente achou-se na travessa
-da Parreirinha, defronte da casa de Maria. Na sala, através das
-cortinas, transparecia uma luz dormente. Todo o resto estava apagado--a
-janella do gabinete estreito onde ella se vestia, a varanda do quarto
-d'ella com os vasos de chrysantemos.
-
-E pouco a pouco aquella fachada muda d'onde apenas sahia, a um canto,
-uma claridade languida d'alcova adormecida, foi-o estranhamente
-penetrando da inquietação e desconfiança. Era um medo d'essa penumbra
-molle que sentia lá dentro, toda cheia de calor e do perfume em que
-havia jasmim. Não entrou; seguiu devagar pelo passeio fronteiro,
-pensando em certos detalhes da casa--o sofá largo e profundo com
-almofadas de sêda, as rendas do toucador, o cortinado branco da cama
-d'ella... Depois parou diante da larga barra de claridade que sahia do
-portão do Gremio; e foi para lá, machinalmente attrahido pela
-simplicidade e segurança d'aquella entrada, lageada de pedra, com
-grossos bicos de gaz, sem penumbras e sem perfumes.
-
-Na sala, em baixo, ficou percorrendo, sem os comprehender, os
-telegrammas soltos sobre a mesa. Um criado passou, elle pediu cognac.
-Telles da Gama, que vinha de dentro assobiando, com as mãos nos bolsos
-do paletot, deteve-se um momento para lhe perguntar se ia na terça-feira
-aos Gouvarinhos.
-
---Talvez, murmurou Carlos.
-
---Então venha!... Eu ando a arrebanhar gente... São os annos do Charlie,
-de mais a mais. Cae lá o peso do mundo, e ha ceia!...
-
-O criado entrou com a bandeja--e Carlos, de pé junto da mesa, remexendo
-o assucar no copo, recordava, sem saber porque, aquella tarde em que a
-condessa, pondo-lhe uma rosa no casaco, lhe dera o primeiro beijo; revia
-o sofá onde ella cahira com um rumor de sêdas amarrotadas... Como tudo
-isto era já vago e remoto!
-
-Apenas acabou o cognac sahiu. Agora, caminhando rente das casas, não via
-aquella fachada que o perturbava com a sua claridade d'alcova morrendo
-nos vidros. O portão ficára cerrado, o gaz ardia no patamar. E subiu,
-sentindo mais pela escada de pedra as pancadas do coração que o pousar
-dos seus passos. Melanie, que veio abrir, disse-lhe que a senhora, um
-pouco cansada, se fôra encostar sobre a roupa;--e a sala, com effeito,
-parecia abandonada por essa noite, com as serpentinas apagadas, o
-bordado ocioso e enrolado no seu cesto, os livros n'um frio arranjo
-orlando a mesa onde o candieiro espalhava uma luz tenue sob o abat-jour
-de renda amarella.
-
-Carlos tirava as luvas, lentamente, retomado de novo por uma inquietação
-ante aquelle recolhimento adormecido. E de repente Rosa correu de
-dentro, rindo, pulando, com os cabellos soltos nos hombros, os braços
-abertos para elle. Carlos levantou-a ao ar, dizendo como costumava: «Lá
-vem a cabrita!...»
-
-Mas então, quando a tinha assim suspensa, batendo os
-pésinhos--atravessou-o a idéa de que aquella criança era sua sobrinha e
-tinha o seu nome!... Largou-a, quasi a deixou cahir--assombrado para
-ella, como se pela vez primeira visse essa facesinha eburnea e fina onde
-corria o seu sangue...
-
---Que estás tu a olhar para mim? murmurou ella, recuando e sorrindo, com
-as mãosinhas cruzadas atraz das saias que tufavam.
-
-Elle não sabia, parecia-lhe outra Rosa: e á sua perturbação misturava-se
-uma saudade pela antiga Rosa, a outra, a que era filha de Madame
-Mac-Gren, a quem elle contava historias de Joanna d'Arc, a quem
-balouçava na _Toca_ sob as acacias em flôr. Ella no emtanto sorria mais,
-com um brilho nos dentinhos miudos, uma ternura nos bellos olhos azues,
-vendo-o assim tão grave e tão mudo, pensando que elle ia brincar, fazer
-«voz de Carlos Magno». Tinha o mesmo sorriso da mãi, com a mesma covinha
-no queixo. Carlos viu n'ella de repente toda a graça de Maria, todo o
-encanto de Maria. E arrebatou-a de novo nos braços, tão violentamente,
-com beijos tão bruscos no cabello e nas faces, que Rosa estrebuchou,
-assustada e com um grito. Soltou-a logo, n'um receio de não ter sido
-casto... Depois, muito sério:
-
---Onde está a mamã?
-
-Rosa coçava o braço, com a testasinha franzida:
-
---Apre!... Magoaste-me.
-
-Carlos passou-lhe pelos cabellos a mão que ainda tremia.
-
---Vá, não sejas piegas, a mamã não gosta. Onde está ella?
-
-A pequena, aplacada, já contente, pulava em redor, agarrando nos pulsos
-de Carlos para que elle saltasse tambem...
-
---A mamã foi deitar-se... Diz que está muito cansada, depois chama-me a
-mim preguiçosa... Vá, salta tambem. Não sejas mono!...
-
-N'esse instante, do corredor, miss Sarah chamou:
-
---Mademoiselle!...
-
-Rosa pôz o dedinho na bôca cheia de riso:
-
---Dize-lhe que não estou aqui! A vêr... Para a fazer zangar!... Dize!
-
-Miss Sarah erguera o reposteiro; e descobriu-a logo escondida, sumida
-por traz de Carlos, na pontinha dos pés, fazendo-se pequenina. Teve um
-sorriso benevolo, murmurou «good night, sir». Depois lembrou que eram
-quasi nove e meia, mademoiselle tinha estado um pouco constipada e devia
-recolher-se. Então Carlos puxou brandamente pelo braço de Rosa,
-acariciou-a ainda para que ella obedecesse a miss Sarah.
-
-Mas Rosa sacudia-o, indignada d'aquella traição.
-
---Tambem nunca fazes nada!... Semsaborão! Pois olha, nem te digo adeus!
-
-Atravessou a sala, amuada, esquivou-se com um repellão á governante que
-sorria e lhe estendia a mão--e pelo corredor rompeu n'um chôro
-despeitado e pêrro. Miss Sarah risonhamente desculpou mademoiselle. Era
-a constipação que a tornava impertinente. Mas se fosse diante da mamã
-não fazia aquillo, não!
-
---Good night, sir.
-
---Good night, miss Sarah...
-
-Só, Carlos errou alguns momentos pela sala. Por fim ergueu o pedaço de
-tapeçaria que cerrava o estreito gabinete onde Maria se vestia. Ahi, na
-escuridão, um brilho pallido d'espelho tremia, batido por um longo raio
-do candieiro da rua. Muito de leve empurrou a porta do quarto.
-
---Maria!... Estás a dormir?
-
-Não havia luz; mas o mesmo candieiro da rua, através do transparente
-erguido, tirava das trevas a brancura vaga do cortinado que envolvia o
-leito. E foi d'ahi que ella murmurou, mal acordada:
-
---Entra! Vim-me deitar, estava muito cansada... Que horas são?
-
-Carlos não se movera, ainda com a mão na porta:
-
---É tarde, e eu preciso sahir já a procurar o Villaça ... Vinha dizer-te
-que tenho talvez de ir a Santa Olavia, além d'ámanhã, por dois ou tres
-dias...
-
-Um movimento, entre os cortinados, fez ranger o leito.
-
---Para Santa Olavia?... Ora essa, porque? E assim de repente...
-Entra!... Vem cá!
-
-Então Carlos deu um passo no tapete, sem rumor. Ainda sentia o ranger
-molle do leito. E já todo aquelle aroma d'ella que tão bem conhecia,
-esparso na sombra tepida, o envolvia, lhe entrava n'alma com uma
-seducção inesperada de caricia nova, que o perturbava estranhamente. Mas
-ia balbuciando, insistindo na sua pressa de encontrar essa noite o
-Villaça.
-
---É uma massada, por causa d'uns feitores, d'umas aguas...
-
-Tocou no leito; e sentou-se muito á beira, n'uma fadiga que de repente o
-enleára, lhe tirava a força para continuar essas invenções d'aguas e de
-feitores, como se ellas fossem montanhas de ferro a mover.
-
-O grande e bello corpo de Maria, embrulhado n'um roupão branco de sêda,
-movia-se, espreguiçava-se languidamente sobre o leito brando.
-
---Achei-me tão cansada, depois de jantar, veio-me uma preguiça... Mas
-então partires assim de repente!... Que sécca! Dá cá a mão!
-
-Elle tenteava, procurando na brancura da roupa: encontrou um joelho a
-que percebia a fórma e o calor suave, através da sêda leve: e alli
-esqueceu a mão, aberta e frouxa, como morta, n'um entorpecimento onde
-toda a vontade e toda a consciencia se lhe fundiam, deixando-lhe apenas
-a sensação d'aquella pelle quente e macia onde a sua palma pousava. Um
-suspiro, um pequenino suspiro de criança, fugiu dos labios de Maria,
-morreu na sombra. Carlos sentiu a quentura de desejo que vinha d'ella,
-que o entontecia, terrivel como o bafo ardente d'um abysmo, escancarado
-na terra a seus pés. Ainda balbuciou: «não, não...» Mas ella estendeu os
-braços, envolveu-lhe o pescoço, puxando-o para si, n'um murmurio que era
-como a continuação do suspiro, e em que o nome de _querido_ susurrava e
-tremia. Sem resistencia, como um corpo morto que um sopro impelle, elle
-cahiu-lhe sobre o seio. Os seus labios seccos acharam-se collados n'um
-beijo aberto que os humedecia. E de repente, Carlos enlaçou-a
-furiosamente, esmagando-a e sugando-a, n'uma paixão e n'um desespero que
-fez tremer todo o leito.
-
-
-
-A essa hora Ega acordava no bilhar, ainda estirado na poltrona onde o
-cansaço o prostrára. Bocejando, estremunhado, arrastou os passos até ao
-escriptorio de Affonso.
-
-Ahi ardia um lume alegre, a que o reverendo Bonifacio se deixava torrar,
-enrolado sobre a pelle d'urso. Affonso fazia a partida de whist com
-Steinbroken e com o Villaça: mas tão distrahido, tão confuso, que já
-duas vezes D. Diogo, infeliz e irritado, rosnára que se a dôr de cabeça
-assim o estonteava melhor seria findarem! Quando Ega appareceu, o velho
-levantou os olhos inquietos:
-
---O Carlos? Sahiu?...
-
---Sim, creio que sahiu com o Craft, disse o Ega. Tinham fallado em ir
-vêr o marquez.
-
-Villaça, que baralhava com a sua lentidão meticulosa, deitou tambem para
-o Ega um olhar curioso e vivo. Mas já D. Diogo batia com os dedos no
-pano da mesa, resmungando:--«Vamos lá, vamos lá... Não se ganha nada em
-saber dos outros!» Então Ega ficou alli um momento, com bocejos vagos,
-seguindo o cahir lento das cartas. Por fim, molle e seccado, decidiu ir
-lêr para a cama, hesitou por diante das estantes, sahiu com um velho
-numero do _Panorama_.
-
-Ao outro dia, á hora do almoço, entrou no quarto de Carlos. E ficou
-pasmado quando o Baptista--tristonho desde a vespera, farejando
-desgosto--lhe disse que Carlos fôra para a Tapada, muito cedo, a
-cavallo...
-
---Ora essa!... E não deixou ordens nenhumas, não fallou em ir para Santa
-Olavia?...
-
-Baptista olhou Ega, espantado:
-
---Para Santa Olavia!... Não senhor, não fallou em semelhante coisa. Mas
-deixou uma carta para v. exc.^a vêr. Creio que é do snr. marquez. E diz
-que lá apparecia depois, ás seis... Acho que é jantar.
-
-N'um bilhete de visita, o marquez, com effeito, lembrava que esse dia
-era «o seu fausto natalicio», e esperava Carlos e o Ega ás seis, para
-lhe ajudarem a comer a gallinha de dieta.
-
---Bem, lá nos encontraremos, murmurou Ega, descendo para o jardim.
-
-Aquillo parecia-lhe extraordinario! Carlos passeando a cavallo, Carlos
-jantando com o marquez, como se nada houvesse perturbado a sua vida
-facil de rapaz feliz!... Estava agora certo de que elle na vespera fôra
-á rua de S. Francisco. Justos céos! Que se teria lá passado? Subiu,
-ouvindo a sineta do almoço. O escudeiro annunciou-lhe que o snr. Affonso
-da Maia tomára uma chavena de chá no quarto e ainda estava recolhido.
-Todos sumidos! Pela primeira vez no Ramalhete Ega almoçou solitariamente
-na larga mesa, lendo a _Gazeta Illustrada_.
-
-De tarde, ás seis, no quarto do marquez (que tinha o pescoço enrolado
-n'uma _boa_ de senhora de pelle de marta), encontrou Carlos, o Darque, o
-Craft, em torno d'um rapaz gordo que tocava guitarra--emquanto ao lado o
-procurador do marquez, um bello homem de barba preta, se batia com o
-Telles n'uma partida de damas.
-
---Viste o avô? perguntou Carlos, quando o Ega lhe estendeu a mão.
-
---Não, almocei só.
-
-O jantar, d'ahi a pouco, foi muito divertido, largamente regado com os
-soberbos vinhos da casa. E ninguem decerto bebeu mais, ninguem riu mais
-do que Carlos, resurgido quasi de repente d'uma desanimação sombria a
-uma alegria nervosa--que incommodava o Ega, sentindo n'ella um timbre
-falso e como um som de crystal rachado. O proprio Ega por fim á
-sobremesa se excitou consideravelmente com um esplendido Porto de 1815.
-Depois houve um _baccarat_ em que Carlos, outra vez sombrio, deitando a
-cada instante os olhos ao relogio, teve uma sorte triumphante, uma
-«sorte de cabrão», como a classificou o Darque, indignado, ao trocar a
-sua ultima nota de vinte mil reis. Á meia noite porém, inexoravelmente,
-o procurador do marquez lembrou as ordens do medico que marcára esse
-limite «ao natalicio». Foi então um enfiar de paletots, em debandada,
-por entre os queixumes do Darque e do Craft, que sahiam escorridos, sem
-sequer um troco para o «americano». Fez-se-lhes uma subscripção de
-caridade, que elles recolheram nos chapéos, rosnando bênçãos aos
-bemfeitores.
-
-Na tipoia que os levava ao Ramalhete, Carlos e Ega permaneceram muito
-tempo em silencio, cada um enterrado ao seu canto, fumando. Foi já ao
-meio do Aterro que Ega pareceu despertar:
-
---E então por fim?... Sempre vaes para Santa Olavia, ou que fazes?
-
-Carlos mexeu-se no escuro da tipoia. Depois, lentamente, como cheio de
-cansaço:
-
---Talvez vá ámanhã... Ainda não disse nada, ainda não fiz nada... Decidi
-dar-me quarenta e oito horas para acalmar, para reflectir... Não se póde
-agora fallar com este barulho das rodas.
-
-De novo cada um recahiu na sua mudez, ao seu canto.
-
-Em casa, subindo a escadinha forrada de velludo, Carlos declarou-se
-exhausto e com uma intoleravel dôr de cabeça:
-
---Ámanhã fallamos, Ega... Boa noite, sim?
-
---Até ámanhã.
-
-Alta noite Ega acordou com uma grande sêde. Saltára da cama, esvaziára a
-garrafa no toucador, quando julgou sentir por baixo, no quarto de
-Carlos, uma porta bater. Escutou. Depois, arrepiado, remergulhou nos
-lençoes. Mas espertára inteiramente, com uma idéa estranha, insensata,
-que o assaltára sem motivo, o agitava, lhe fazia palpitar o coração no
-grande silencio da noite. Ouviu assim dar tres horas. A porta de novo
-batera, depois uma janella: era decerto vento que se erguera. Não podia
-porém readormecer, ás voltas, n'um terrivel mal-estar, com aquella idéa
-cravada na imaginação que o torturava. Então, desesperado, pulou da
-cama, enfiou um paletot, e em pontas de chinelas, com a mão diante da
-luz, desceu surdamente ao quarto de Carlos. Na ante-sala parou,
-tremendo, com o ouvido contra o reposteiro, na esperança de perceber
-algum calmo rumor de respiração. O silencio era pesado e pleno. Ousou
-entrar... A cama estava feita e vazia, Carlos sahira.
-
-Elle ficou a olhar estupidamente para aquella colcha lisa, com a dobra
-do lençol de renda cuidadosamente entreaberta pelo Baptista. E agora não
-duvidava. Carlos fôra findar a noite á rua de S. Francisco!... Estava
-lá, dormia lá! E só uma idéa surgia através do seu horror--fugir,
-safar-se para Celorico, não ser testemunha d'aquella incomparavel
-infamia!...
-
-E o dia seguinte, terça-feira, foi desolador para o pobre Ega. Vexado,
-n'um terror de encontrar Carlos ou Affonso, levantou-se cedo,
-esgueirou-se pelas escadas com cautelas de ladrão, foi almoçar ao
-Tavares. De tarde, na rua do Ouro, viu passar Carlos, que levava no
-break o Cruges e o Taveira--arrebanhados certamente para elle se não
-encontrar só á mesa com o avô. Ega jantou melancolicamente no Universal.
-Só entrou no Ramalhete ás nove horas, vestir-se para a _soirée_ da
-Gouvarinho, que pela manhã no Loreto parára a carruagem para lhe lembrar
-«que era a festa do Charlie». E foi já de paletot, de _claque_ na mão,
-que appareceu emfim na salinha Luiz xv onde Cruges tocava Chopin, e
-Carlos se installára n'uma partida de bezigue com o Craft. Vinha saber
-se os amigos queriam alguma coisa para os nobres condes de Gouvarinho...
-
---Diverte-te!
-
---Sê faiscante!
-
---Eu lá appareço para a ceia! prometteu Taveira, estirado n'uma poltrona
-com o _Figaro_.
-
-Eram duas horas da manhã quando Ega recolheu da _soirée_--onde por fim
-se divertira n'uma desesperada flirtação com a baroneza d'Alvim, que á
-ceia, depois do champagne, vencida por tanta graça e tanta audacia, lhe
-tinha dado duas rosas. Diante do quarto de Carlos, accendendo a vela,
-Ega hesitou, mordido por uma curiosidade... Estaria lá? Mas teve
-vergonha d'aquella espionagem, e subiu, bem decidido como na vespera a
-fugir para Celorico. No seu quarto, diante do espelho, pôz
-cuidadosamente n'um copo as rosas da Alvim. E começava a despir-se,
-quando ouviu passos no negro corredor, passos muito lentos, muito
-pesados, que se adiantavam, findaram á sua porta em suspensão e
-silencio. Assustado, gritou: «Que é lá?» A porta rangeu. E appareceu
-Afonso da Maia, pallido, com um jaquetão sobre a camisa de dormir, e um
-castiçal onde a vela ia morrendo. Não entrou. N'uma voz enrouquecida,
-que tremia:
-
---O Carlos? esteve lá?
-
-Ega balbuciou, atarantado, em mangas de camisa. Não sabia... Estivera
-apenas um momento nos Gouvarinhos... Era provavel que Carlos tivesse ido
-mais tarde com o Taveira, para a ceia.
-
-O velho cerrára os olhos, como se desfallecesse, estendendo a mão para
-se apoiar. Ega correu para elle:
-
---Não se afflija, snr. Affonso da Maia!
-
---Que queres então que faça? Onde está elle? Lá mettido, com essa
-mulher... Escusas de dizer, eu sei, mandei espreitar... Desci a isso,
-mas quiz acabar esta angustia... E esteve lá hontem até de manhã, está
-lá a dormir n'este instante... E foi para este horror que Deus me deixou
-viver até agora!
-
-Teve um grande gesto de revolta e de dôr. De novo os seus passos, mais
-pesados, mais lentos, se sumiram no corredor.
-
-Ega ficou junto da porta, um momento, estarrecido. Depois foi-se
-despindo devagar, decidido a dizer a Carlos muito simplesmente, ao outro
-dia, antes de partir para Celorico, que a sua infamia estava matando o
-avô, e o forçava a elle, seu melhor amigo, a fugir para a não
-testemunhar por mais tempo.
-
-Mal acordou, puxou a mala para o meio do quarto, atirou para cima da
-cama, ás braçadas, a roupa que ia emmalar. E durante meia hora, em
-mangas de camisa, lidou n'esta tarefa, misturando aos seus pensamentos
-de cólera lembranças da _sóirée_ da vespera, certos olhares da Alvim,
-certas esperanças que lhe tornavam saudosa a partida. Um alegre sol
-dourava a varanda. Terminou por abrir a vidraça, respirar, olhar o bello
-azul d'inverno. Lisboa ganhava tanto com aquelle tempo! E já Celorico, a
-quinta, o padre Seraphim, lhe estendiam de longe a sua sombra n'alma. Ao
-baixar os olhos viu o dog-cart de Carlos atrellado com a _Tunante_, que
-escarvava a calçada animada pelo ar vivo. Era Carlos decerto que ia
-sahir cedo--para não se encontrar com elle e com o avô!
-
-N'um receio de o não apanhar n'esse dia, desceu correndo. Carlos
-aferrolhára-se na alcova de banho. Ega chamou, o outro não tugiu. Por
-fim Ega bateu, gritou através da porta, sem esconder a sua irritação:
-
---Tem a bondade d'escutar!... Então partes para Santa Olavia, ou quê?
-
-Depois d'um instante, Carlos lançou de lá, entre um rumor d'agua que
-cahia:
-
---Não sei... Talvez... Logo te digo...
-
-O outro não se conteve mais:
-
---É que se não pôde ficar assim eternamente... Recebi uma carta de minha
-mãi... E se não partes para Santa Olavia, eu vou para Celorico... É
-absurdo! Já estamos n'isto ha tres dias!
-
-E quasi se arrependia já da sua violencia, quando a voz de Carlos se
-arrastou de dentro, humilde e cansada, n'uma supplica:
-
---Por quem és, Ega! Tem um bocado de paciencia commigo. Eu logo te
-digo...
-
-N'uma d'aquellas subitas emoções de nervoso, que o sacudiam--os olhos do
-Ega humedeceram. Balbuciou logo:
-
---Bem, bem! Eu fallei alto por ser através da porta... Não ha pressa!
-
-E fugiu para o quarto, cheio só de compaixão e ternura, com uma grossa
-lagrima nas pestanas. Sentia agora bem a tortura em que o pobre Carlos
-se debatera, sob o despotismo d'uma paixão até ahi legitima, e que n'uma
-hora amarga se tornava de repente monstruosa, sem nada perder de seu
-encanto e da sua intensidade... Humano e fragil, elle não pudera estacar
-n'aquelle violento impulso de amor e de desejo que o levava como n'um
-vendaval! Cedera, cedera, continuára a rolar áquelles braços, que
-innocentemente o continuavam a chamar. E ahi andava agora, aterrado,
-escorraçado, fugindo occultamente de casa, passando o dia longe dos
-seus, n'uma vadiagem tragica, como um excommungado que receia encontrar
-olhos puros onde sinta o horror do seu peccado... E ao lado, o pobre
-Affonso, sabendo tudo, morrendo d'aquella dôr! Podia elle, hospede
-querido dos tempos alegres, partir, agora que uma onda de desgraça
-quebrára sobre essa casa, onde o acolhiam affeições mais largas que na
-sua propria? Seria ignobil! Tornou logo a desfazer a mala; e, furioso no
-seu egoismo com todas aquellas amarguras que o abalavam, arranjava outra
-vez a roupa dentro da commoda, com a mesma cólera com que a desmanchára,
-rosnando:
-
---Diabo levem as mulheres, e a vida, e tudo!...
-
-Quando desceu, já vestido, Carlos desapparecera! Mas Baptista,
-tristonho, carrancudo, certo agora de que havia um grande desgosto,
-deteve-o para lhe murmurar:
-
---Tinha v. exc.^a razão... Partimos ámanhã para Santa Olavia e levamos
-roupa para muito tempo... Este inverno começa mal!
-
-
-
-N'essa madrugada, ás quatro horas, em plena escuridão, Carlos cerrára de
-manso o portão da rua de S. Francisco. E, mais pungente, apoderava-se
-d'elle, na frialdade da rua, o medo que já o roçára, ao vestir-se na
-penumbra do quarto, ao lado de Maria adormecida--o medo de voltar ao
-Ramalhete! Era esse medo que já na vespera o trouxera todo o dia por
-fóra no dog-cart, findando por jantar lugubremente com o Cruges,
-escondido n'um gabinete do Augusto. Era medo do avô, medo do Ega, medo
-do Villaça; medo d'aquella sineta do jantar que os chamava, os juntava;
-medo do seu quarto, onde a cada momento qualquer d'elles podia erguer o
-reposteiro, entrar, cravar os olhos na sua alma e no seu segredo...
-Tinha agora a certeza _que elles sabiam tudo_. E mesmo que n'essa noite
-fugisse para Santa Olavia, pondo entre si e Maria uma separação tão alta
-como o muro d'um claustro, nunca mais do espirito d'aquelles homens, que
-eram os seus amigos melhores, sahiria a memoria e a dôr da infamia em
-que elle se despenhára. A sua vida moral estava estragada... Então, para
-que partiria--abandonando a paixão, sem que por isso encontrasse a paz?
-Não seria mais logico calcar desesperadamente todas as leis humanas e
-divinas, arrebatar para longe Maria na sua innocencia, e para todo o
-sempre abysmar-se n'esse crime que se tornára a sua sombria partilha na
-terra?
-
-Já assim pensára na vespera. Já assim pensára... Mas antevira então um
-outro horror, um supremo castigo, a esperal-o na solidão onde se
-sepultasse. Já lhe percebera mesmo a aproximação; já n'outra noite
-recebera d'elle um arrepio; já n'essa noite, deitado junto de Maria, que
-adormecera cansada, o presentira, apoderando-se d'elle, com um primeiro
-frio d'agonia.
-
-Era, surgindo do fundo do seu sêr, ainda tenue mas já perceptivel, uma
-saciedade, uma repugnancia por ella desde que a sabia do seu sangue!...
-Uma repugnancia material, carnal, á flôr da pelle, que passava como um
-arrepio. Fôra primeiramente aquelle aroma que a envolvia, fluctuava
-entre os cortinados, lhe ficava a elle na pelle e no fato, o excitava
-tanto outr'ora, o impacientava tanto agora--que ainda na vespera se
-encharcára em agua de Colonia para o dissipar. Fôra depois aquelle corpo
-d'ella, adorado sempre como um marmore ideal, que de repente lhe
-apparecera, como era na sua realidade, forte de mais, musculoso, de
-grossos membros de Amazona barbara, com todas as bellezas copiosas do
-animal de prazer. Nos seus cabellos d'um lustre tão macio, sentia agora
-inesperadamente uma rudeza de juba. Os seus movimentos na cama, ainda
-n'essa noite, o tinham assustado como se fossem os de uma fera, lenta e
-ciosa, que se estirava para o devorar... Quando os seus braços o
-enlaçavam, o esmagavam contra os seus rijos peitos tumidos de seiva,
-ainda decerto lhe punham nas veias uma chamma que era toda bestial. Mas,
-apenas o ultimo suspiro lhe morria nos labios, ahi começava
-insensivelmente a recuar para a borda do colchão, com um susto estranho:
-e immovel, encolhido na roupa, perdido no fundo d'uma infinita tristeza,
-esquecia-se pensando n'uma outra vida que podia ter, longe d'alli, n'uma
-casa simples, toda aberta ao sol, com sua mulher, legitimamente sua,
-flôr de graça domestica, pequenina, timida, pudica, que não soltasse
-aquelles gritos lascivos, e não usasse esse aroma tão quente! E
-desgraçadamente agora já não duvidava... Se partisse com ella, seria
-para bem cedo se debater no indizivel horror de um nojo physico. E que
-lhe restaria então, morta a paixão que fôra a desculpa do crime, ligado
-para sempre a uma mulher que o enojava--e que era... Só lhe restava
-matar-se!
-
-Mas, tendo por um só dia dormido com ella, na plena consciencia da
-consanguinidade que os separava, poderia recomeçar a vida
-tranquillamente? Ainda que possuisse frieza e força para apagar dentro
-em si essa memoria--ella não morreria no coração do avô, e do seu amigo.
-Aquelle ascoroso segredo ficaria entre elles, estragando, maculando
-tudo. A existencia d'ora ávante só lhe offerecia intoleravel amargôr...
-Que fazer, santo Deus, que fazer! Ah, se alguem o podesse aconselhar, o
-podesse consolar! Quando chegou á porta de casa o seu desejo unico era
-atirar-se aos pés d'um padre, aos pés d'um santo, abrir-lhe as miserias
-do seu coração, implorar-lhe a doçura da sua misericordia! Mas ai! onde
-havia um santo?
-
-Defronte do Ramalhete os candieiros ainda ardiam. Abriu de leve a porta.
-Pé ante pé, subiu as escadas ensurdecidas pelo velludo côr de cereja. No
-patamar tacteava, procurava a vela--quando, através do reposteiro
-entreaberto, avistou uma claridade que se movia no fundo do quarto.
-Nervoso, recuou, parou no recanto. O clarão chegava, crescendo: passos
-lentos, pesados, pisavam surdamente o tapete: a luz surgiu--e com ella o
-avô em mangas de camisa, livido, mudo, grande, espectral. Carlos não se
-moveu, suffocado; e os dois olhos do velho, vermelhos, esgazeados,
-cheios de horror, cahiram sobre elle, ficaram sobre elle, varando-o até
-ás profundidades d'alma, lendo lá o seu segredo. Depois, sem uma
-palavra, com a cabeça branca a tremer, Affonso atravessou o patamar,
-onde a luz sobre o velludo espalhava um tom de sangue:--e os seus passos
-perderam-se no interior da casa, lentos, abafados, cada vez mais
-sumidos, como se fossem os derradeiros que devesse dar na vida!
-
-Carlos entrou no quarto ás escuras, tropeçou n'um sofá. E alli se deixou
-cahir, com a cabeça enterrada nos braços, sem pensar, sem sentir, vendo
-o velho livido passar, repassar diante d'elle como um longo phantasma,
-com a luz avermelhada na mão. Pouco a pouco foi-o tomando um cansaço,
-uma inercia, uma infinita lassidão da vontade, onde um desejo apenas
-transparecia, se alongava--o desejo de interminavelmente repousar
-algures n'uma grande mudez e n'uma grande treva... Assim escorregou ao
-pensamento da morte. Ella seria a perfeita cura, o asylo seguro. Porque
-não iria ao seu encontro? Alguns grãos de laudano n'essa noite e
-penetrava na absoluta paz...
-
-Ficou muito tempo, embebendo-se n'esta idéa que lhe dava allivio e
-consolo, como se, escorraçado por uma tormenta ruidosa, visse diante dos
-seus passos abrir-se uma porta d'onde sahisse calor e silencio. Um
-rumor, o chilrear d'um passaro na janella, fez-lhe sentir o sol e o dia.
-Ergueu-se, despiu-se muito devagar, n'uma immensa molleza. E mergulhou
-na cama, enterrou a cabeça no travesseiro para recahir na doçura
-d'aquella inercia, que era um antegosto da morte, e não sentir mais nas
-horas que lhe restavam nenhuma luz, nenhuma coisa da terra.
-
-
-
-O sol ia alto, um barulho passou, o Baptista rompeu pelo quarto:
-
---Ó snr. D. Carlos, ó meu menino! O avô achou-se mal no jardim, não dá
-accordo!...
-
-Carlos pulou do leito, enfiando um paletot que agarrára. Na ante-camara
-a governante, debruçada no corrimão, gritava, afflicta:--«Adiante, homem
-de Deus, ao pé da padaria, o snr. dr. Azevedo!» E um moço que corria,
-com que esbarrou no corredor, atirou, sem parar:
-
---Ao fundo, ao pé da cascata, snr. D. Carlos, na mesa de pedra!...
-
-Affonso da Maia lá estava, n'esse recanto do quintal, sob os ramos do
-cedro, sentado no banco de cortiça, tombado por sobre a tosca mesa, com
-a face cahida entre os braços. O chapéo desabado rolára para o chão; nas
-costas, com a gola erguida, conservava o seu velho capote azul. Em
-volta, nas folhas das camelias, nas aleas areadas, refulgia, côr d'ouro,
-o sol fino d'inverno. Por entre as conchas da cascata o fio d'agua punha
-o seu choro lento.
-
-Arrebatadamente, Carlos levantára-lhe a face, já rigida, côr de cera,
-com os olhos cerrados, e um fio de sangue aos cantos da longa barba de
-neve. Depois cahiu de joelhos no chão humido, sacudia-lhe as mãos,
-murmurando:--«Ó avô! ó avô!»--Correu ao tanque, borrifou-o d'agua:
-
---Chamem alguem! chamem alguem!
-
-Outra vez lhe palpava o coração... Mas estava morto. Estava morto, já
-frio, aquelle corpo que, mais velho que o seculo, resistira tão
-formidavelmente, como um grande roble, aos annos e aos vendavaes. Alli
-morrera solitariamente, já o sol ia alto, n'aquella tosca mesa de pedra
-onde deixára pender a cabeça cansada.
-
-Quando Carlos se ergueu, Ega apparecia, esguedelhado, embrulhado no
-robe-de-chambre. Carlos abraçou-se n'elle, tremendo todo, n'um chôro
-despedaçado. Os criados em redor olhavam, aterrados. E a governante,
-como tonta, entre as ruas de roseiras, gemia com as mãos na cabeça:--«Ai
-o meu rico senhor, ai o meu rico senhor!»
-
-Mas o porteiro, esbaforido, chegava com o medico, o dr. Azevedo, que
-felizmente encontrára na rua. Era um rapaz, apenas sahido da Escóla,
-magrinho e nervoso, com as pontas do bigode muito frisadas. Deu em
-redor, atarantadamente, um comprimento aos criados, ao Ega, e a Carlos,
-que procurava serenar com a face lavada de lagrimas. Depois, tendo
-descalçado a luva, estudou todo o corpo de Affonso com uma lentidão, uma
-minuciosidade que exagerava, á medida que sentia em volta, mais anciosos
-e attentos n'elle, todos aquelles olhos humedecidos. Por fim, diante de
-Carlos, passando nervosamente os dedos no bigode, murmurou termos
-technicos... De resto, dizia, já o collega se teria compenetrado de que
-tudo infelizmente findára. Elle sentia das véras da alma o desgosto...
-Se para alguma coisa fosse necessario, com o maximo prazer...
-
---Muito agradecido a v. exc.^a, balbuciou Carlos.
-
-Ega, em chinelas, deu alguns passos com o snr. dr. Azevedo, para lhe
-indicar a porta do jardim.
-
-Carlos no emtanto ficára defronte do velho, sem chorar, perdido apenas
-no espanto d'aquelle brusco fim! Imagens do avô, do avô vivo e forte,
-cachimbando ao canto do fogão, regando de manhã as roseiras,
-passavam-lhe n'alma, em tropel, deixando-lh'a cada vez mais dorida e
-negra... E era então um desejo de findar tambem, encostar-se como elle
-áquella mesa de pedra, e sem outro esforço, nenhuma outra dôr da vida,
-cahir como elle na sempiterna paz. Uma restea de sol, entre os ramos
-grossos do cedro, batia a face morta de Affonso. No silencio os
-passaros, um momento espantados, tinham recomeçado a chalrar. Ega veio a
-Carlos, tocou-lhe no braço:
-
---É necessario leval-o para cima.
-
-Carlos beijou a mão fria que pendia. E, devagar, com os beiços a tremer,
-levantou o avô pelos hombros carinhosamente. Baptista correra a ajudar;
-Ega, embaraçado no seu largo roupão, segurava os pés do velho. Através
-do jardim, do terraço cheio de sol, do escriptorio onde a sua poltrona
-esperava diante do lume accêso, foram-o transportando n'um silencio só
-quebrado pelos passos dos criados, que corriam a abrir as portas,
-acudiam quando Carlos, na sua perturbação, ou o Ega fraquejavam sob o
-peso do grande corpo. A governante já estava no quarto d'Affonso com uma
-colcha de sêda para estender na singela cama de ferro, sem cortinado. E
-alli o depuzeram emfim sobre as ramagens claras bordadas na sêda azul.
-
-Ega accendera dois castiçaes de prata: a governante, de joelhos á beira
-do leito, esfiava o rosario: e Mr. Antoine, com o seu barrete branco de
-cozinheiro na mão, ficára á porta, junto d'um cesto que trouxera, cheio
-de camelias e palmas de estufa. Carlos, no emtanto, movendo-se pelo
-quarto, com longos soluços que o sacudiam, voltava a cada instante,
-n'uma derradeira e absurda esperança, palpar as mãos ou o coração do
-velho. Com o jaquetão de velludilho, os seus grossos sapatos brancos,
-Affonso parecia mais forte e maior, na sua rigidez, sobre o leito
-estreito: entre o cabello de neve cortado á escovinha e a longa barba
-desleixada, a pelle ganhára um tom de marfim velho, onde as rugas
-tomavam a dureza d'entalhaduras a cinzel: as palpebras engelhadas, de
-pestanas brancas, pousavam com a consolada serenidade de quem emfim
-descança; e ao deitarem-no uma das mãos ficára-lhe aberta e posta sobre
-o coração, na simples e natural attitude de quem tanto pelo coração
-vivêra!
-
-Carlos perdia-se n'esta contemplação dolorosa. E o seu desespero era que
-o avô assim tivesse partido para sempre, sem que entre elles houvesse um
-adeus, uma dôce palavra trocada. Nada! Apenas aquelle olhar angustiado,
-quando passára com a vela accêsa na mão. Já então elle ia andando para a
-morte. O avô sabia tudo, d'isso morrera! E esta certeza sem cessar lhe
-batia n'alma, com uma longa pancada repetida e lugubre. O avô sabia
-tudo, d'isso morrera!
-
-Ega veio com um gesto indicar-lhe o estado em que estavam--elle de
-robe-de-chambre, Carlos com o paletot sobre a camisa de dormir:
-
---É necessario descer, é necessario vestir-nos.
-
-Carlos balbuciou:
-
---Sim, vamo-nos vestir...
-
-Mas não se arredava. Ega levou-o brandamente pelo braço. Elle caminhava
-como um somnambulo, passando o lenço devagar pela testa e pela barba. E
-de repente no corredor, apertando desesperadamente as mãos, outra vez
-coberto de lagrimas, n'um agoniado desabafo de toda a sua culpa:
-
---Ega, meu querido Ega! O avô viu-me esta manhã quando entrei! E passou,
-não me disse nada... Sabia tudo, foi isso que o matou!...
-
-Ega arrastou-o, consolou-o, repellindo tal idéa. Que tolice! O avô tinha
-quasi oitenta annos, e uma doença de coração... Desde a volta de Santa
-Olavia, quantas vezes elles tinham fallado n'isso, aterrados! Era
-absurdo ir agora fazer-se mais desgraçado com semelhante imaginação!
-
-Carlos murmurou, devagar, como para si mesmo, com os olhos postos no
-chão:
-
---Não! É estranho, não me faço mais desgraçado! Aceito isto como um
-castigo... Quero que seja um castigo... E sinto-me só muito pequeno,
-muito humilde diante de quem assim me castiga. Esta manhã pensava em
-matar-me. E agora não! É o meu castigo viver, esmagado para sempre... O
-que me custa é que elle não me tivesse dito _adeus_!!
-
-De novo as lagrimas lhe correram, mas lentas, mansamente, sem desespero.
-Ega levou-o para o quarto, como uma criança. E assim o deixou a um canto
-do sofá, com o lenço sobre a face, n'um chôro contínuo e quieto, que lhe
-ia lavando, alliviando o coração de todas as angustias confusas e sem
-nome que n'esses dias derradeiros o traziam suffocado.
-
-Ao meio dia, em cima, Ega acabava de vestir-se quando Villaça lhe rompeu
-pelo quarto de braços abertos.
-
---Então como foi isto, como foi isto?
-
-Baptista mandára-o chamar pelo trintanario, mas o rapazola pouco lhe
-soubera contar. Agora em baixo o pobre Carlos abraçára-o, coitadinho,
-lavado em lagrimas, sem poder dizer nada, pedindo-lhe só para se
-entender em tudo com o Ega... E alli estava.
-
---Mas como foi, como foi, assim de repente?...
-
-Ega contou, brevemente, como tinham encontrado Affonso de manhã no
-jardim, tombado para cima da mesa de pedra. Viera o dr. Azevedo, mas
-tudo acabára!
-
-Villaça levou as mãos á cabeça:
-
---Uma coisa assim! Creia o amigo! Foi essa mulher, essa mulher que ahi
-appareceu, que o matou! Nunca foi o mesmo depois d'aquelle abalo! Não
-foi mais nada! Foi isso!
-
-Ega murmurava, deitando machinalmente agua de Colonia no lenço:
-
---Sim, talvez, esse abalo, e oitenta annos, e poucas cautelas, e uma
-doença de coração.
-
-Fallaram então do enterro, que devia ser simples como convinha áquelle
-homem simples. Para depositar o corpo, emquanto não fosse trasladado
-para Santa Olavia, Ega lembrára-se do jazigo do marquez.
-
-Villaça coçava o queixo, hesitando:
-
---Eu tambem tenho um jazigo. Foi o proprio snr. Affonso da Maia que o
-mandou erguer para meu pai, que Deus haja... Ora parece-me que por uns
-dias ficava lá perfeitamente. Assim não se pedia a ninguem, e eu tinha
-n'isso muita honra...
-
-Ega concordou. Depois fixaram outros detalhes de convite, de hora, de
-chave do caixão. Por fim Villaça, olhando o relogio, ergueu-se com um
-grande suspiro:
-
---Bem, vou dar esses tristes passos! E cá appareço logo, que o quero vêr
-pela ultima vez, quando o tiverem vestido. Quem me havia de dizer! Ainda
-antes de hontem a jogar com elle... Até lhe ganhei tres mil reis,
-coitadinho!
-
-Uma onda de saudade suffocou-o, fugiu com o lenço nos olhos.
-
-Quando Ega desceu, Carlos, todo de luto, estava sentado á escrivaninha,
-diante d'uma folha de papel. Immediatamente ergueu-se, arrojou a penna.
-
---Não posso!... Escreve-lhe tu ahi, a ella, duas palavras.
-
-Em silencio, Ega tomou a penna, redigiu um bilhete muito curto. Dizia:
-«Minha senhora. O snr. Affonso da Maia morreu esta madrugada, de
-repente, com uma apoplexia. V. exc.^a comprehende que, n'este momento,
-Carlos nada mais póde do que pedir-me para eu transmittir a v. exc.^a
-esta desgraçada noticia. Creia-me, etc.» Não o leu a Carlos. E como
-Baptista entrava n'esse momento, todo de preto, com o almoço n'uma
-bandeja, Ega pediu-lhe para mandar o trintanario com aquelle bilhete á
-rua de S. Francisco. Baptista segredou sobre o hombro do Ega:
-
---É bom não esquecer as fardas de luto para os criados...
-
---O snr. Villaça já sabe.
-
-Tomaram chá á pressa em cima do taboleiro. Depois Ega escreveu bilhetes
-a D. Diogo e ao Sequeira, os mais velhos amigos d'Affonso: e davam duas
-horas quando chegaram os homens com o caixão para amortalhar o corpo.
-Mas Carlos não permittiu que mãos mercenarias tocassem no avô. Foi elle
-e o Ega, ajudados pelo Baptista, que, corajosamente, recalcando a emoção
-sob o dever, o lavaram, o vestiram, o depuzeram dentro do grande cofre
-de carvalho, forrado de setim claro, onde Carlos collocou uma miniatura
-de sua avó Runa. Á tarde, com auxilio de Villaça, que voltára «para dar
-o ultimo olhar ao patrão», desceram-no ao escriptorio, que Ega não
-quizera alterar nem ornar, e que, com os damascos escarlates, as
-estantes lavradas, os livros juncando a carteira de pau preto,
-conservava a sua feição austera de paz estudiosa. Sómente, para depôr o
-caixão, tinham juntado duas largas mesas, recobertas por um panno de
-velludo negro que havia na casa, com as armas bordadas a ouro. Por cima
-o Christo de Rubens abria os braços sobre a vermelhidão do poente. Aos
-lados ardiam doze castiçaes de prata. Largas palmas d'estufa cruzavam-se
-á cabeceira do esquife, entre ramos de camelias. E Ega accendeu um pouco
-de incenso em dois perfumadores de bronze.
-
-Á noite o primeiro dos velhos amigos a apparecer foi D. Diogo, solemne,
-de casaca. Encostado ao Ega, aterrado diante do caixão, só pôde
-murmurar:--«E tinha menos sete mezes que eu!» O marquez veio já tarde,
-abafado em mantas, trazendo um grande cesto de flôres. Craft e o Cruges
-nada sabiam, tinham-se encontrado na rampa de Santos;--e receberam a
-primeira surpreza ao vêr fechado o portão do Ramalhete. O ultimo a
-chegar foi o Sequeira, que passára o dia na quinta, e se abraçou em
-Carlos, depois no Craft ao acaso, entontecido, com uma lagrima nos olhos
-injectados, balbuciando:--«Foi-se o companheiro de muitos annos. Tambem
-não tardo!...»
-
-E a noite de vigilia e pezames começou, lenta e silenciosa. As doze
-chammas das velas ardiam, muito altas, n'uma solemnidade funeraria. Os
-amigos trocavam algum murmurio abafado, com as cadeiras chegadas. Pouco
-a pouco, o calor, o aroma do incenso, a exhalação das flôres forçaram o
-Baptista a abrir uma das janellas do terraço. O céo estava cheio
-d'estrellas. Um vento fino susurrava nas ramagens do jardim.
-
-Já tarde Sequeira, que não se movera d'uma poltrona, com os braços
-cruzados, teve uma tontura. Ega levou-o á sala de jantar, a
-reconfortal-o com um calice de cognac. Havia lá uma ceia fria, com
-vinhos e dôces. E Craft veio tambem--com o Taveira, que soubera a
-desgraça na redacção da _Tarde_, e correra quasi sem jantar. Tomando um
-pouco de Bordeus, uma _sandwich_, Sequeira reanimava-se, lembrava o
-passado, os tempos brilhantes, quando Affonso e elle eram novos. Mas
-emmudeceu vendo apparecer Carlos, pallido e vagaroso como um somnambulo,
-que balbuciou: «Tomem alguma coisa, sim, tomem alguma coisa...»
-
-Mexeu n'um prato, deu uma volta á mesa, sahiu. Assim vagamente foi até á
-ante-camara, onde todos os candelabros ardiam. Uma figura esguia e negra
-surgiu da escada. Dois braços enlaçaram-no. Era o Alencar.
-
---Nunca vim cá nos dias felizes, aqui estou na hora triste!
-
-E o poeta seguiu pelo corredor, em pontas de pés, como pela nave d'um
-templo.
-
-Carlos no emtanto deu ainda alguns passos pela ante-camara. Ao canto
-d'um divan ficára um grande cesto com uma corôa de flôres, sobre que
-pousava uma carta. Reconheceu a letra de Maria. Não lhe tocou, recolheu
-ao escriptorio. Alencar, diante do caixão, com a mão pousada no hombro
-do Ega, murmurava: «Foi-se uma alma de heroe!»
-
-As velas iam-se consumindo. Um cansaço pesava. Baptista fez servir café
-no bilhar. E ahi, apenas recebeu a sua chavena, Alencar, cercado do
-Cruges, do Taveira, do Villaça, rompeu a fallar tambem do passado, dos
-tempos brilhantes d'Arroios, dos rapazes ardentes d'então:
-
---Vejam vocês, filhos, se se encontra ainda uma gente como estes Maias,
-almas de leões, generosos, valentes!... Tudo parece ir morrendo n'este
-desgraçado paiz!... Foi-se a faisca, foi-se a paixão... Affonso da Maia!
-Parece que o estou a vêr, á janella do palacio em Bemfica, com a sua
-grande gravata de setim, aquella cara nobre de portuguez d'outr'ora... E
-lá vai! E o meu pobre Pedro tambem... Caramba, até se me faz a alma
-negra!
-
-Os olhos ennevoavam-se-lhe, deu um immenso sorvo ao cognac.
-
-Ega, depois de beber um gole de café, voltára ao escriptorio, onde o
-cheiro d'incenso espalhava uma melancolia de capella. D. Diogo, estirado
-no sofá, resonava; Sequeira defronte dormitava tambem, descahido sobre
-os braços cruzados, com todo o sangue na face. Ega despertou-os de leve.
-Os dois velhos amigos, depois d'um abraço a Carlos, partiram na mesma
-carruagem, com os charutos accêsos. Os outros, pouco a pouco, iam tambem
-abraçar Carlos, enfiavam os paletots. O ultimo a sahir foi Alencar, que,
-no pateo, beijou o Ega, n'um impulso d'emoção, lamentando ainda o
-passado, os companheiros desapparecidos:
-
---O que me vale agora são vocês, rapazes, a gente nova. Não me deitem á
-margem! Senão, caramba, quando quizer fazer uma visita tenho d'ir ao
-cemiterio. Adeus, não apanhes frio!
-
-O enterro foi ao outro dia, á uma hora. O Ega, o marquez, o Craft, o
-Sequeira levaram o caixão até á porta, seguidos pelo grupo d'amigos,
-onde destacava o conde de Gouvarinho, solemnissimo, de gran-cruz. O
-conde de Steinbroken, com o seu secretario, trazia na mão uma corôa de
-violetas. Na calçada estreita os trens apertavam-se, n'uma longa fila
-que subia, se perdia pelas outras ruas, pelas travessas: em todas as
-janellas do bairro se apinhava gente: os policias berravam com os
-cocheiros. Por fim o carro, muito simples, rodou, seguido por duas
-carruagens da casa, vazias, com as lanternas recobertas de longos véos
-de crepe que pendiam. Atraz, um a um, desfilaram os trens da Companhia
-com os convidados, que abotoavam os casacos, corriam os vidros contra a
-friagem do dia ennevoado. O Darque e o Vargas iam no mesmo coupé. O
-correio do Gouvarinho passou choutando na sua pileca branca. E, sobre a
-rua deserta, cerrou-se finalmente para um grande luto o portão do
-Ramalhete.
-
-Quando Ega voltou do cemiterio encontrou Carlos no quarto, rasgando
-papeis, emquanto o Baptista, atarefado, de joelhos no tapete, fechava
-uma mala de couro. E como Ega, pallido e arrepiado de frio, esfregava as
-mãos, Carlos fechou a gaveta cheia de cartas, lembrou que fossem para o
-_fumoir_ onde havia lume.
-
-Apenas lá entraram, Carlos correu o reposteiro, olhou para o Ega:
-
---Tens duvida em lhe ir fallar, a ella?
-
---Não. Para que?... Para lhe dizer o que?
-
---Tudo.
-
-Ega rolou uma poltrona para junto da chaminé, despertou as brazas. E
-Carlos, ao lado, proseguiu devagar, olhando o lume:
-
---Além d'isso, desejo que ella parta, que parta já para Paris... Seria
-absurdo ficar em Lisboa... Emquanto se não liquidar o que lhe pertence,
-ha-de-se-lhe estabelecer uma mezada, uma larga mezada... Villaça vem
-d'aqui a bocado para fallar d'esses detalhes... Em todo o caso, ámanhã,
-para ella partir, levas-lhe quinhentas libras.
-
-Ega murmurou:
-
---Talvez para essas questões de dinheiro fosse melhor ir lá o Villaça...
-
---Não, pelo amor de Deus! Para que se ha de fazer córar a pobre creatura
-diante do Villaça?...
-
-Houve um silencio. Ambos olhavam a chamma clara que bailava.
-
---Custa-te muito, não é verdade, meu pobre Ega?...
-
---Não... Começo a estar embotado. É fechar os olhos, tragar mais essa má
-hora, e depois descansar. Quando voltas tu de Santa Olavia?
-
-Carlos não sabia. Contava que Ega, terminada essa missão á rua de S.
-Francisco, fosse aborrecer-se uns dias com elle a Santa Olavia. Mais
-tarde era necessario trasladar para lá o corpo do avô...
-
---E passado isso, vou viajar... Vou á America, vou ao Japão, vou fazer
-esta coisa estupida e sempre efficaz que se chama _distrahir_...
-
-Encolheu os hombros, foi devagar até á janella, onde morria pallidamente
-um raio de sol na tarde que clareára. Depois voltando para o Ega, que de
-novo remexia os carvões:
-
---Eu, está claro, não me atrevo a dizer-te que venhas, Ega... Desejava
-bem, mas não me atrevo!
-
-Ega pousou devagar as tenazes, ergueu-se, abriu os braços para Carlos,
-commovido:
-
---Atreve, que diabo... Porque não?
-
---Então vem!
-
-Carlos puzera n'isto toda a sua alma. E ao abraçar o Ega corriam-lhe na
-face duas grandes lagrimas.
-
-Então Ega reflectiu. Antes de ir a Santa Olavia precisava fazer uma
-romagem á quinta de Celorico. O Oriente era caro. Urgia pois arrancar á
-mãi algumas letras de credito... E como Carlos pretendia ter «bastante
-para o luxo d'ambos», Ega atalhou muito sério:
-
---Não, não! Minha mãi tambem é rica. Uma viagem á America e ao Japão são
-fórmas de educação. E a mamã tem o dever de completar a minha educação.
-O que acceito, sim, é uma das tuas malas de couro...
-
-Quando n'essa noite, acompanhados pelo Villaça, Carlos e Ega chegaram á
-estação de Santa Apolonia, o comboio ia partir. Carlos mal teve tempo de
-saltar para o seu compartimento reservado--emquanto o Baptista, abraçado
-ás mantas de viagem, empurrado pelo guarda, se içava desesperadamente
-para outra carruagem, entre os protestos dos sujeitos que a atulhavam. O
-trem immediatamente rolou. Carlos debruçou-se á portinhola, gritando ao
-Ega:--«Manda um telegramma ámanhã a dizer o que houve!»
-
-Recolhendo ao Ramalhete com o Villaça, que ia n'essa noite colligir e
-sellar os papeis de Affonso da Maia, Ega fallou logo nas quinhentas
-libras que elle devia entregar na manhã seguinte a Maria Eduarda.
-Villaça recebera com effeito essa ordem de Carlos. Mas francamente,
-entre amigos, não lhe parecia excessiva a somma, para uma jornada? Além
-d'isso Carlos fallára em estabelecer a essa senhora uma mezada de quatro
-mil francos, cento e sessenta libras! Não achava tambem exagerado? Para
-uma mulher, uma simples mulher...
-
-Ega lembrou que essa simples mulher tinha direito legal a muito mais...
-
---Sim, sim, resmungou o procurador. Mas tudo isso de legalidade tem
-ainda de ser muito estudado. Não fallemos n'isso. Eu nem gósto de fallar
-d'isso!...
-
-Depois como Ega alludia á fortuna que deixava Affonso da Maia--Villaça
-deu detalhes. Era decerto uma das boas casas de Portugal. Só o que viera
-da herança de Sebastião da Maia, representava bem quinze contos de
-renda. As propriedades do Alemtejo, com os trabalhos que lá fizera o pai
-d'elle Villaça, tinham triplicado de valor. Santa Olavia era uma
-despeza. Mas as quintas ao pé de Lamego, um condado.
-
---Ha muito dinheiro! exclamou elle com satisfação, batendo no joelho do
-Ega. E isto, amigo, digam lá o que disserem, sempre consola de tudo.
-
---Consola de muito, com effeito.
-
-Ao entrar no Ramalhete, Ega sentia uma longa saudade pensando no lar
-feliz e amavel que alli houvera e que para sempre se apagára. Na
-ante-camara, os seus passos já lhe pareceram soar tristemente como os
-que se dão n'uma casa abandonada. Ainda errava um vago cheiro de incenso
-e de phenol. No lustre do corredor havia uma luz só e dormente.
-
---Já anda aqui um ar de ruina, Villaça.
-
---Ruinasinha bem confortavel, todavia! murmurou o procurador dando um
-olhar ás tapeçarias e aos divans, e esfregando as mãos, arrepiado da
-friagem da noite.
-
-Entraram no escriptorio de Affonso, onde durante um momento se ficaram
-aquecendo ao lume. O relogio Luiz XV bateu finalmente as nove
-horas--depois a toada argentina do seu minuete vibrou um instante e
-morreu. Villaça preparou-se para começar a sua tarefa. Ega declarou que
-ia para o quarto arranjar tambem a sua papelada, fazer a limpeza final
-de dois annos de mocidade...
-
-Subiu. E pousára apenas a luz sobre a commoda, quando sentiu ao fundo,
-no silencio do corredor, um gemido longo, desolado, d'uma tristeza
-infinita. Um terror arrepiou-lhe os cabellos. Aquillo arrastava-se,
-gemia no escuro, para o lado dos aposentos d'Affonso da Maia. Por fim,
-reflectindo que toda a casa estava acordada, cheia de criados e de
-luzes, Ega ousou dar alguns passos no corredor, com o castiçal na mão
-tremula.
-
-Era o gato! Era o reverendo Bonifacio, que, diante do quarto d'Affonso,
-arranhando a porta fechada, miava doloridamente. Ega escorraçou-o,
-furioso. O pobre Bonifacio fugiu, obeso e lento, com a cauda fôfa a
-roçar o chão: mas voltou logo, e esgatanhando a porta, roçando-se pelas
-pernas do Ega, recomeçou a miar, n'um lamento agudo, saudoso como o
-d'uma dôr humana, chorando o dono perdido que o acariciava no collo e
-que não tornára a apparecer.
-
-Ega correu ao escriptorio a pedir ao Villaça que dormisse essa noite no
-Ramalhete. O procurador accedeu, impressionado com aquelle horror do
-gato a chorar. Deixára o montão de papeis sobre a mesa, voltára a
-aquecer os pés ao lume dormente. E voltando-se para o Ega, que se
-sentára, ainda todo pallido, no sofá bordado a matiz, antigo logar de D.
-Diogo, murmurou devagar, gravemente:
-
---Ha tres annos, quando o snr. Affonso me encommendou aqui as primeiras
-obras, lembrei-lhe eu que, segundo uma antiga lenda, eram sempre fataes
-aos Maias as paredes do Ramalhete. O snr. Affonso da Maia riu d'agouros
-e lendas... Pois fataes foram!
-
-
-
-No dia seguinte, levando os papeis da Monforte e o dinheiro em letras e
-libras que Villaça lhe entregára á porta do Banco de Portugal, Ega, com
-o coração aos pulos, mas decidido a ser forte, a affrontar a crise
-serenamente, subia ao primeiro andar da rua de S. Francisco. O Domingos,
-de gravata preta, movendo-se em pontas de pés, abriu o reposteiro da
-sala. E Ega pousára apenas sobre o sofá a velha caixa de charutos da
-Monforte--quando Maria Eduarda entrou, pallida, toda coberta de negro,
-estendendo-lhe as mãos ambas.
-
---Então Carlos?
-
-Ega balbuciou:
-
---Como v. exc.^a póde imaginar, n'um momento d'estes... Foi horrivel,
-assim de surpreza...
-
-Uma lagrima tremeu nos olhos pisados de Maria. Ella não conhecia o snr.
-Affonso da Maia, nem sequer o vira nunca. Mas soffria realmente por
-sentir bem o soffrimento de Carlos... O que aquelle rapaz estremecia o
-avô!
-
---Foi de repente, não?
-
-Ega retardou-se em longos detalhes. Agradeceu a corôa que ella mandára.
-Contou os gemidos, a afflicção do pobre Bonifacio...
-
---E Carlos? repetiu ella.
-
---Carlos foi para Santa Olavia, minha senhora.
-
-Ella apertou as mãos, n'uma surpreza que a acabrunhava. Para Santa
-Olavia! E sem um bilhete, sem uma palavra?... Um terror empallidecia-a
-mais, diante d'aquella partida tão arrebatada, quasi parecida com um
-abandono. Terminou por murmurar, com um ar de resignação e de confiança
-que não sentia:
-
---Sim, com effeito, n'este momento não se pensa nos outros...
-
-Duas lagrimas corriam-lhe devagar pela face. E diante d'esta dôr, tão
-humilde e tão muda, Ega ficou desconcertado. Durante um instante, com os
-dedos tremulos no bigode, viu Maria chorar em silencio. Por fim
-ergueu-se, foi á janella, voltou, abriu os braços diante d'ella n'uma
-afflicção:
-
---Não, não é isso, minha querida senhora! Ha outra coisa, ha ainda outra
-coisa! Tem sido para nós dias terriveis! Tem sido dias d'angustia...
-
-Outra coisa!?... Ella esperava, com os olhos largos sobre o Ega, a alma
-toda suspensa.
-
-Ega respirou fortemente:
-
---V. exc.^a lembra-se d'um Guimarães, que vive em Paris, um tio do
-Damaso?
-
-Maria, espantada, moveu lentamente a cabeça.
-
---Esse Guimarães era muito conhecido da mãi de v. exc.^a, não é verdade?
-
-Ella teve o mesmo movimento breve e mudo. Mas o pobre Ega hesitava
-ainda, com a face arrepanhada e branca, n'um embaraço que o dilacerava:
-
---Eu fallo em tudo isto, minha senhora, porque Carlos assim me pediu...
-Deus sabe o que me custa!... E é horrivel, nem sei por onde hei de
-começar...
-
-Ella juntou as mãos, n'uma supplica, n'uma angustia:
-
---Pelo amor de Deus!
-
-E n'esse instante, muito socegadamente, Rosa erguia uma ponta do
-reposteiro, com _Niniche_ ao lado e a sua boneca nos braços. A mãi teve
-um grito impaciente:
-
---Vai lá p'ra dentro! deixa-me!
-
-Assustada, a pequena não se moveu mais, com os lindos olhos de repente
-cheios de agua. O reposteiro cahiu, do fundo do corredor veio um grande
-chôro magoado.
-
-Então Ega teve só um desejo, o desesperado desejo de findar.
-
---V. exc.^a conhece a letra de sua mãi, não é verdade?... Pois bem! Eu
-trago aqui uma declaração d'ella a seu respeito... Esse Guimarães é que
-tinha este documento, com outros papeis que ella lhe entregou em 71, nas
-vesperas da guerra... Elle conservou-os até agora, e queria
-restituir-lh'os, mas não sabia onde v. exc.^a vivia. Viu-a ha dias n'uma
-carruagem, commigo, e com o Carlos... Foi ao pé do Aterro, v. exc.^a
-deve lembrar-se, defronte do alfaiate, quando vinhamos da _Toca_... Pois
-bem! o Guimarães veio immediatamente ao procurador dos Maias, deu-lhe
-esses papeis, para que os entregasse a v. exc.^a... E nas primeiras
-palavras que disse, imagine o assombro de todos, quando se entreviu que
-v. exc.^a era parenta de Carlos, e parenta muito chegada...
-
-Atabalhoára esta historia de pé, quasi d'um fôlego, com bruscos gestos
-de nervoso. Ella mal comprehendia, livida, n'um indefinido terror. Só
-pôde murmurar muito debilmente: «Mas...» E de novo emmudeceu,
-assombrada, devorando os movimentos do Ega que, debruçado sobre o sofá,
-desembrulhava a tremer a caixa de charutos da Monforte. Por fim voltou
-para ella com um papel na mão, atropellando as palavras n'uma debandada:
-
---A mãi de v. exc.^a nunca lh'o disse... Havia um motivo muito grave...
-Ella tinha fugido de Lisboa, fugido ao marido... Digo isto assim
-brutalmente, perdôe-me v. exc.^a, mas não é o momento de attenuar as
-coisas... Aqui está! V. exc.^a conhece a letra de sua mãi. É d'ella esta
-letra, não é verdade?
-
---É! exclamou Maria, indo arrebatar o papel.
-
---Perdão! gritou Ega, retirando-lh'o violentamente. Eu sou um estranho!
-E v. exc.^a não se póde inteirar de tudo isto emquanto eu não sahir
-d'aqui.
-
-Fôra uma inspiração providencial, que o salvava de testemunhar o choque
-terrivel, o horror das coisas que ella ia saber. E insistiu. Deixava-lhe
-alli todos os papeis que eram de sua mãi. Ella lería, quando elle
-sahisse, comprehenderia a realidade atroz... Depois, tirando do bolso os
-dois pesados rôlos de libras, o sobrescripto que continha a letra sobre
-Paris, pôz tudo em cima da mesa, com a declaração da Monforte.
-
---Agora só mais duas palavras. Carlos pensa que o que v. exc.^a deve
-fazer já é partir para Paris. V. exc.^a tem direito, como sua filha ha
-de ter, a uma parte da fortuna d'esta familia dos Maias, que agora é a
-sua... N'este masso que lhe deixo está uma letra sobre Paris para as
-despezas immediatas... O procurador de Carlos tomou já um wagon-salão.
-Quando v. exc.^a decidir partir, peço-lhe que mande um recado ao
-Ramalhete para eu estar na _gare_... Creio que é tudo. E agora devo
-deixal-a...
-
-Agarrára rapidamente o chapéo, veio tomar-lhe a mão inerte e fria:
-
---Tudo é uma fatalidade! V. exc.^a é nova, ainda lhe resta muita coisa
-na vida, tem a sua filha a consolal-a de tudo... Nem lhe sei dizer mais
-nada!
-
-Suffocado, beijou-lhe a mão que ella lhe abandonou, sem consciencia e
-sem voz, de pé, direita no seu negro luto, com a lividez parada d'um
-marmore. E fugiu.
-
---Ao telegrapho! gritou em baixo ao cocheiro.
-
-Foi só na rua do Ouro que começou a serenar, tirando o chapéo,
-respirando largamente. E ia então repetindo a si mesmo todas as
-consolações que se poderiam dar a Maria Eduarda: era nova e formosa; o
-seu peccado fôra inconsciente; o tempo acalma toda a dôr; e em breve, já
-resignada, encontrar-se-hia com uma familia séria, uma larga fortuna,
-n'esse amavel Paris, onde uns lindos olhos, com algumas notas de mil
-francos, têm sempre um reinado seguro...
-
---É uma situação de viuva bonita e rica, terminou elle por dizer alto no
-coupé. Ha peor na vida.
-
-Ao sahir do telegrapho despediu a tipoia. Por aquella luz consoladora do
-dia de inverno, recolheu a pé para o Ramalhete, a escrever a longa carta
-que promettera a Carlos. Villaça já lá estava installado, com um boné de
-velludilho na cabeça, emmassando ainda os papeis de Affonso, liquidando
-as contas dos criados. Jantaram tarde. E fumavam junto do lume, na sala
-Luiz XV, quando o escudeiro veio dizer que uma senhora, em baixo, n'uma
-carruagem, procurava o snr. Ega. Foi um terror. Imaginaram logo Maria,
-alguma resolução desesperada. Villaça ainda teve a esperança d'ella
-trazer alguma nova revelação, que tudo mudasse, salvasse da «bolada»...
-Ega desceu a tremer. Era Melanie n'uma tipoia de praça, abafada n'uma
-grande _ulster_, com uma carta de Madame.
-
-Á luz da lanterna Ega abriu o enveloppe, que trazia apenas um cartão
-branco, com estas palavras a lapis: «Decidi partir ámanhã para Paris.»
-
-Ega recalcou a curiosidade de saber como estava a senhora. Galgou logo
-as escadas: e seguido de Villaça, que ficára na ante-camara á espreita,
-correu ao escriptorio d'Affonso, a escrever a Maria. N'um papel tarjado
-de luto dizia-lhe (além de detalhes sobre bagagens)--que o wagon-salão
-estava tomado até Paris, e que elle teria a honra de a vêr em Santa
-Apolonia. Depois, ao fazer o sobrescripto, ficou com a penna no ar, n'um
-embaraço. Devia pôr «Madame Mac-Gren» ou «D. Maria Eduarda da Maia?»
-Villaça achava preferivel o antigo nome, porque ella legalmente ainda
-não era Maia. Mas, dizia o Ega atrapalhado, tambem já não era
-Mac-Gren...
-
---Acabou-se! Vae sem nome. Imagina-se que foi esquecimento...
-
-Levou assim a carta, dentro do sobrescripto em branco. Melanie guardou-a
-no regalo. E, debruçada á portinhola, entristecendo a voz, desejou
-saber, da parte de Madame, onde estava enterrado o avô do senhor...
-
-Ega ficou com o monoculo sobre ella, sem sentir bem se aquella
-curiosidade de Maria era indiscreta ou tocante. Por fim deu uma
-indicação. Era nos Prazeres, á direita, ao fundo, onde havia um anjo com
-uma tocha. O melhor seria perguntar ao guarda pelo jazigo dos snrs.
-Villaças.
-
---Merci, monsieur, bien le bonsoir.
-
---Bonsoir, Melanie!
-
-No dia seguinte, na estação de Santa Apolonia, Ega, que viera cedo com o
-Villaça, acabava de despachar a sua bagagem para o Douro, quando avistou
-Maria que entrava trazendo Rosa pela mão. Vinha toda envolta n'uma
-grande pelliça escura, com um véo dobrado, espesso como uma mascara: e a
-mesma gaze de luto escondia o rostosinho da pequena, fazendo-lhe um laço
-sobre a touca. Miss Sarah, n'uma _ulster_ clara de quadrados, sobraçava
-um masso de livros. Atraz o Domingos, com os olhos muito vermelhos,
-segurava um rôlo de mantas, ao lado de Melanie carregada de preto que
-levava _Niniche_ ao collo. Ega correu para Maria Eduarda, conduziu-a
-pelo braço, em silencio, ao wagon-salão que tinha todas as cortinas
-cerradas. Junto do estribo ella tirou devagar a luva. E muda,
-estendeu-lhe a mão.
-
---Ainda nos vemos no Entroncamento, murmurou Ega. Eu sigo tambem para o
-Norte.
-
-Alguns sujeitos pararam, com curiosidade, ao vêr sumir-se n'aquella
-carruagem de luxo, fechada, mysteriosa, uma senhora que parecia tão
-bella, d'ar tão triste, coberta de negro. E apenas Ega fechou a
-portinhola, o Neves, o da _Tarde_ e do Tribunal de Contas, rompeu
-d'entre um rancho, arrebatou-lhe o braço com sofreguidão:
-
---Quem é?
-
-Ega arrastou-o pela plataforma, para lhe deixar cahir no ouvido, já
-muito adiante, tragicamente:
-
---Cleopatra!
-
-O politico, furioso, ficou rosnando: «Que asno!...» Ega abalára. Junto
-do seu compartimento Villaça esperava, ainda deslumbrado com aquella
-figura de Maria Eduarda, tão melancolica e nobre. Nunca a vira antes. E
-parecia-lhe uma rainha de romance.
-
---Acredite o amigo, fez-me impressão! Caramba, bella mulher! Dá-nos uma
-bolada, mas é uma soberba praça!
-
-O comboio partiu. O Domingos ficava choramingando com um lenço de côres
-sobre a face. E o Neves, o conselheiro do Tribunal de Contas, ainda
-furioso, vendo o Ega á portinhola, atirou-lhe de lado, disfarçadamente,
-um gesto obsceno.
-
-No Entroncamento Ega veio bater nos vidros do salão que se conservava
-fechado e mudo. Foi Maria que abriu. Rosa dormia. Miss Sarah lia a um
-canto, com a cabeça n'uma almofada. E _Niniche_ assustada ladrou.
-
---Quer tomar alguma coisa, minha senhora?
-
---Não, obrigada...
-
-Ficaram calados, emquanto Ega com o pé no estribo tirava lentamente a
-charuteira. Na estação mal alumiada passavam saloios, devagar, abafados
-em mantas. Um guarda rolava uma carreta de fardos. Adiante a machina
-resfolegava na sombra. E dois sujeitos rondavam em frente do salão, com
-olhares curiosos e já languidos para aquella magnifica mulher, tão grave
-e sombria, envolta na sua pelliça negra.
-
---Vai para o Porto? murmurou ella.
-
---Para Santa Olavia...
-
---Ah!
-
-Então Ega balbuciou com os beiços a tremer:
-
---Adeus!
-
-Ella apertou-lhe a mão com muita força, em silencio, suffocada.
-
-Ega atravessou, devagar, por entre soldados de capote enrolado a
-tiracollo que corriam a beber á cantina. Á porta do buffete voltou-se
-ainda, ergueu o chapéo. Ella, de pé, moveu de leve o braço n'um lento
-adeus. E foi assim que elle pela derradeira vez na vida viu Maria
-Eduarda, grande, muda, toda negra na claridade, á portinhola d'aquelle
-wagon que para sempre a levava.
-
-
-
-
-VIII
-
-
-Semanas depois, nos primeiros dias d'anno novo, a _Gazeta Illustrada_
-trazia na sua columna do _High-life_ esta noticia: « O distincto e
-brilhante _sportman_, o snr. Carlos da Maia, e o nosso amigo e
-collaborador João da Ega, partiram hontem para Londres, d'onde seguirão
-em breve para a America do Norte, devendo d'ahi prolongar a sua
-interessante viagem até ao Japão. Numerosos amigos foram a bordo do
-_Tamar_ despedir-se dos sympathicos _touristes_. Vimos entre outros os
-snrs, ministro da Filandia e seu secretario, o marquez de Souzella,
-conde de Gouvarinho, visconde de Darque, Guilherme Craft, Telles da
-Gama, Cruges, Taveira, Villaça, general Sequeira, o glorioso poeta
-Thomaz d'Alencar, etc. etc. O nosso amigo e collaborador João da Ega
-fez-nos, no ultimo _shake-hands_, a promessa de nos mandar algumas
-cartas com as suas impressões do Japão, esse delicioso paiz d'onde nos
-vem o sol e a moda! É uma boa nova para todos os que prezam a observação
-e o espirito. _Au revoir!_»
-
-Depois d'estas linhas affectuosas (em que o Alencar collaborára) as
-primeiras noticias dos «viajantes» vieram, n'uma carta do Ega para o
-Villaça, de New-York. Era curta, toda de negocios. Mas elle ajuntava um
-_post-scriptum_ com o titulo de _Informações geraes para os amigos_.
-Contava ahi a medonha travessia desde Liverpool, a persistente tristeza
-de Carlos, e New-York coberta de neve sob um sol rutilante. E
-acrescentava ainda: «Está-se apossando de nós a embriaguez das viagens,
-decididos a trilhar este estreito Universo até que _cancem as nossas
-tristezas_. Planeamos ir a Pekin, passar a Grande Muralha, atravessar a
-Asia Central, o oasis de Merv, Khiva, e penetrar na Russia; d'ahi, pela
-Armenia e pela Syria, descer ao Egypto a retemperar-nos no sagrado Nilo;
-subir depois a Athenas, lançar sobre a Acropole uma saudação a Minerva;
-passar a Napoles; dar um olhar a Argelia e a Marrocos; e cahir emfim ao
-comprido em Santa Olavia lá para os meados de 79 a descançar os membros
-fatigados. Não escrevinho mais porque é tarde, e vamos á Opera vêr a
-Patti no _Barbeiro_. Larga distribuição d'abraços a todos os amigos
-queridos»
-
-Villaça copiou este paragrapho, e trazia-o na carteira para mostrar aos
-fieis amigos do Ramalhete. Todos approvaram, com admiração, tão bellas,
-aventurosas jornadas. Só Cruges, aterrado com aquella vastidão do
-Universo, murmurou tristemente: «Não voltam cá!»
-
-Mas, passado anno e meio, n'um lindo dia de março, Ega reappareceu no
-Chiado. E foi uma sensação! Vinha esplendido, mais forte, mais
-trigueiro, soberbo de _verve_, n'um alto apuro de toilette, cheio de
-historias e de aventuras do Oriente, não tolerando nada em arte ou
-poesia que não fosse do Japão ou da China, e annunciando um grande
-livro, o «seu livro», sob este titulo grave de chronica
-heroica--_Jornadas da Asia_.
-
---E Carlos?...
-
---Magnifico! Installado em Paris, n'um delicioso appartamento dos
-Campos-Elyseos, fazendo a vida larga d'um principe artista da
-Renascença...
-
-Ao Villaça porém, que sabia os segredos, Ega confessou que Carlos ficára
-ainda _abalado_. Vivia, ria, governava o seu phaeton no Bois--mas lá no
-fundo do seu coração permanecia, pesada e negra, a memoria da «semana
-terrivel».
-
---Todavia os annos vão passando, Villaça, acrescentou elle. E com os
-annos, a não ser a China, tudo na terra passa...
-
-E esse anno passou. Gente nasceu, gente morreu. Searas amadureceram,
-arvoredos murcharam. Outros annos passaram.
-
-
-
-Nos fins de 1886, Carlos veio fazer o Natal perto de Sevilha, a casa
-d'um amigo seu de Paris, o marquez de Villa-Medina. E d'essa propriedade
-dos Villa-Medina, chamada _La Soledad_, escreveu para Lisboa ao Ega
-annunciando que--depois d'um exilio de quasi dez annos, resolvera vir ao
-velho Portugal vêr as arvores de Santa Olavia e as maravilhas da
-Avenida. De resto tinha uma formidavel nova, que assombraria o bom Ega:
-e se elle já ardia em curiosidade, que viesse ao seu encontro com o
-Villaça, comer o porco a Santa Olavia.
-
---Vae casar! pensou Ega.
-
-Havia tres annos (desde a sua ultima estada em Paris) que elle não via
-Carlos. Infelizmente não pôde correr a Santa Olavia, retido n'um quarto
-do _Braganza_ com uma angina, desde uma ceia prodigiosamente divertida
-com que celebrára no Silva a noite de Reis. Villaça, porém, levou a
-Carlos para Santa Olavia uma carta em que o Ega, contando a sua angina,
-lhe supplicava que se não retardasse com o porco n'esses penhascos do
-Douro, e que voasse á grande Capital a trazer a grande nova.
-
-Com effeito, Carlos pouco se demorou em Rezende. E n'uma luminosa e
-macia manhã de janeiro de 1887, os dois amigos emfim juntos almoçavam
-n'um salão do _Hotel Braganza_, com as duas janellas abertas para o rio.
-
-Ega, já curado, radiante, n'uma excitação que não se calmava,
-alagando-se de café, entalava a cada instante o monoculo para admirar
-Carlos e a sua «immutabilidade».
-
---Nem uma branca, nem uma ruga, nem uma sombra de fadiga!... Tudo isso é
-Paris, menino!... Lisboa arraza. Olha para mim, olha para isto!
-
-Com o dedo magro apontava os dois vincos fundos ao lado do nariz, na
-face chupada. E o que o aterrava sobretudo era a calva, uma calva que
-começára havia dois annos, alastrára, já reluzia no alto.
-
---Olha este horror! A sciencia para tudo acha um remedio, menos para a
-calva! Transformam-se as civilisações, a calva fica!... Já tem tons de
-bola de bilhar, não é verdade?... De que será?
-
---É a ociosidade, lembrou Carlos rindo.
-
---A ociosidade!... E tu, então?
-
-De resto, que podia elle fazer n'este paiz?... Quando voltára de França,
-ultimamente, pensára em entrar na diplomacia. Para isso sempre tivera a
-_blague_: e agora que a mamã, coitada, lá estava no seu grande jazigo em
-Celorico, tinha a _massa_. Mas depois reflectira. Por fim, em que
-consistia a diplomacia portugueza? N'uma outra fórma da ociosidade,
-passada no estrangeiro, com o sentimento constante da propria
-insignificancia. Antes o Chiado!
-
-E como Carlos lembrava a Politica, occupação dos inuteis, Ega trovejou.
-A politica! Isso tornára-se moralmente e physicamente nojento, desde que
-o negocio atacára o constitucionalismo como uma phylloxera! Os politicos
-hoje eram bonecos de engonços, que faziam gestos e tomavam attitudes
-porque dois ou tres financeiros por traz lhes puxavam pelos cordeis...
-Ainda assim podiam ser bonecos bem recortados, bem envernizados. Mas
-qual! Ahi é que estava o horror. Não tinham feitio, não tinham maneiras,
-não se lavavam, não limpavam as unhas... Coisa extraordinaria, que em
-paiz algum succedia, nem na Romelia, nem na Bulgaria! Os tres ou quatro
-salões que em Lisboa recebem todo o mundo, seja quem fôr, largamente,
-excluem a maioria dos politicos. E porque? Porque as _senhoras têm
-nôjo_!
-
---Olha o Gouvarinho! Vê lá se elle recebe ás terças-feiras os seus
-correligionarios...
-
-Carlos que sorria, encantado com aquella veia acerba do Ega, saltou na
-cadeira:
-
---É verdade, e a Gouvarinho, a nossa boa Gouvarinho?
-
-Ega, passeando pela sala, deu as novas dos Gouvarinhos. A condessa
-herdára uns sessenta contos de uma tia excentrica que vivia a Santa
-Isabel, tinha agora melhores carruagens, recebia sempre ás
-terças-feiras. Mas soffria uma doença qualquer, grave, no figado ou no
-pulmão. Ainda elegante todavia, muito séria, uma terrivel flôr de
-_pruderie_... Elle, o Gouvarinho, ahi continuava, palrador,
-escrevinhador, politicote, impertigadote, já grisalho, duas vezes
-ministro, e coberto de gran-cruzes...
-
---Tu não os viste em Paris, ultimamente?
-
---Não. Quando soube fui-lhes deixar bilhetes, mas tinham partido na
-vespera para Vichy...
-
-A porta abriu-se, um brado cavo resoou:
-
---Até que emfim, meu rapaz!
-
---Oh Alencar! gritou Carlos, atirando o charuto.
-
-E foi um infinito abraço, com palmadas arrebatadas pelos hombros, e um
-beijo ruidoso--o beijo paternal do Alencar, que tremia, commovido. Ega
-arrastára uma cadeira, berrava pelo escudeiro:
-
---Que tomas tu, Thomaz? Cognac? Curaçáo? Em todo o caso café! Mais café!
-Muito forte, para o snr. Alencar!
-
-O poeta, no emtanto, abysmado na contemplação de Carlos, agarrára-o
-pelas mãos, com um sorriso largo, que lhe descobria os dentes mais
-estragados. Achava-o magnifico, varão soberbo, honra da raça... Ah!
-Paris, com o seu espirito, a sua vida ardente, conserva...
-
---E Lisboa arraza! acudiu Ega. Já cá tive essa phrase. Vá, abanca, ahi
-tens o cafésinho e a bebida!
-
-Mas Carlos agora tambem contemplava o Alencar. E parecia-lhe mais
-bonito, mais poetico, com a sua grenha inspirada e toda branca, e
-aquellas rugas fundas na face morena, cavadas como sulcos de carros pela
-tumultuosa passagem das emoções...
-
---Estás typico, Alencar! Estás a preceito para a gravura e para a
-estatua!...
-
-O poeta sorria, passando os dedos com complacencia pelos longos bigodes
-romanticos, que a idade embranquecera e o cigarro amarellára. Que diabo,
-algumas compensações havia de ter a velhice!... Em todo o caso o
-estomago não era mau, e conservava-se, caramba, filhos, um bocado de
-coração.
-
---O que não impede, meu Carlos, que isto por cá esteja cada vez peor!
-Mas acabou-se... A gente queixa-se sempre do seu paiz, é habito humano.
-Já Horacio se queixava. E vocês, intelligencias superiores, sabeis bem,
-filhos, que no tempo de Augusto... Sem fallar, é claro, na quéda da
-republica, n'aquelle desabamento das velhas instituições... Emfim
-deixemos lá os Romanos! Que está alli n'aquella garrafa? Chablis... Não
-desgosto, no outono, com as ostras. Pois vá lá o Chablis. E á tua
-chegada, meu Carlos! e á tua, meu João, e que Deus vos dê as glorias que
-mereceis, meus rapazes!...
-
-Bebeu. Rosnou: «bom Chablis, _bouquet_ fino». E acabou por abancar,
-ruidosamente, sacudindo para traz a juba branca.
-
---Este Thomaz! exclamava Ega, pousando-lhe a mão no hombro com carinho.
-Não ha outro, é unico! O bom Deus fel-o n'um dia de grande _verve_, e
-depois quebrou a fôrma.
-
-Ora, historias! murmurava o poeta radiante. Havia-os tão bons como elle.
-A humanidade viera toda do mesmo barro como pretendia a Biblia--ou do
-mesmo macaco como affirmava o Darwin...
-
---Que, lá essas coisas d'evolução, origem das especies, desenvolvimento
-da cellula, cá para mim... Está claro, o Darwin, o Lamarck, o Spencer, o
-Claudio Bernard, o Littré, tudo isso, é gente de primeira ordem. Mas
-acabou-se, irra! Ha uns poucos de mil annos que o homem prova
-sublimemente que tem alma!
-
---Toma o cafésinho, Thomaz! aconselhou o Ega, empurrando-lhe a chavena.
-Toma o cafésinho!
-
---Obrigado!... E é verdade, João, lá dei a tua boneca á pequena. Começou
-logo a beijal-a, a embalal-a, com aquelle profundo instincto de mãi,
-aquelle _quid_ divino... É uma sobrinhita minha, meu Carlos. Ficou sem
-mãi, coitadinha, lá a tenho, lá vou tratando de fazer d'ella uma
-mulher... Has de vêl-a. Quero que vocês lá vão jantar um dia, para vos
-dar umas perdizes á hespanhola... Tu demoras-te, Carlos?
-
---Sim, uma ou duas semanas, para tomar um bom sorvo de ar da patria.
-
---Tens razão, meu rapaz! exclamou o poeta, puxando a garrafa do cognac.
-Isto ainda não é tão mau como se diz... Olha tu para isso, para esse
-céo, para esse rio, homem!
-
---Com effeito é encantador!
-
-Todos tres, durante um momento, pasmaram para a incomparavel belleza do
-rio, vasto, lustroso, sereno, tão azul como o céo, esplendidamente
-coberto de sol.
-
---E versos? exclamou de repente Carlos, voltando-se para o poeta.
-Abandonaste a lingua divina?
-
-Alencar fez um gesto de desalento. Quem entendia já a lingua divina? O
-novo Portugal só comprehendia a lingua da libra, da «massa». Agora,
-filho, tudo eram syndicatos!
-
---Mas ainda ás vezes me passa uma coisa cá por dentro, o velho homem
-estremece... Tu não viste nos jornaes?... Está claro, não lês cá esses
-trapos que por ahi chamam gazetas... Pois veio ahi uma coisita, dedicada
-aqui ao João. Ora eu t'a digo se me lembrar...
-
-Correu a mão aberta pela face escaveirada, lançou a estrophe n'um tom de
-lamento:
-
-
- Luz d'esperança, luz d'amor,
- Que vento vos desfolhou?
- Que a alma que vos seguia
- Nunca mais vos encontrou!
-
-
-Carlos murmurou: «Lindo!» Ega murmurou: «Muito fino!» E o poeta,
-aquecendo, já commovido, esboçou um movimento d'aza que foge:
-
-
- Minh'alma em tempos d'outr'ora,
- Quando nascia o luar,
- Como um rouxinol que acorda
- Punha-se logo a cantar.
-
- Pensamentos eram flôres,
- Que a aragem lenta de Maio...
-
-
---O snr. Cruges! annunciou o criado, entreabrindo a porta.
-
-Carlos ergueu os braços. E o maestro, todo abotoado n'um paletot claro,
-abandonou-se á effusão de Carlos, balbuciando:
-
---Eu só hontem é que soube. Queria-te ir esperar, mas não me
-acordaram...
-
---Então continúa o mesmo desleixo? exclamava Carlos, alegremente. Nunca
-te acordam?
-
-Cruges encolhia os hombros, muito vermelho, acanhado, depois d'aquella
-longa separação. E foi Carlos que o obrigou a sentar-se ao lado,
-enternecido com o seu velho maestro, sempre esguio, com o nariz mais
-agudo, a grenha cahindo mais crespa sobre a gola do paletot.
-
---E deixa-me dar-te os parabens! Lá soube pelos jornaes, o triumpho, a
-linda opera-comica, a _Flôr de Sevilha_...
-
---_De Granada_! acudiu o maestro. Sim, uma coisita para ahi, não
-desgostaram.
-
---Uma belleza! gritou Alencar, enchendo outro copo de cognac. Uma musica
-toda do sul, cheia de luz, cheirando a laranjeira... Mas já lhe tenho
-dito: «Deixa lá a opereta, rapaz, vôa mais alto, faze uma grande
-symphonia historica!» Ainda ha dias lhe dei uma idéa. A partida de D.
-Sebastião para a Africa. Cantos de marinheiros, atabales, o chôro do
-povo, as ondas batendo... Sublime! Qual, põe-se-me lá com castanholas...
-Emfim, acabou-se, tem muito talento, e é como se fosse meu filho porque
-me sujou muita calça!...
-
-Mas o maestro, inquieto, passava os dedos pela grenha. Por fim confessou
-a Carlos que não se podia demorar, tinha um _rendez-vous_...
-
---D'amor?
-
---Não... É o Barradas que me anda a tirar o retrato a oleo.
-
---Com a lyra na mão?
-
---Não, respondeu o maestro, muito sério. Com a batuta... E estou de
-casaca.
-
-E desabotoou o paletot, mostrou-se em todo o seu esplendor, com dois
-coraes no peitilho da camisa, e a batuta de marfim mettida na abertura
-do collete.
-
---Estás magnifico! affirmou Carlos. Então outra coisa, vem cá jantar
-logo. Alencar, tu tambem, hein? Quero ouvir esses bellos versos com
-socego... Ás seis, em ponto, sem falhar. Tenho um jantarinho á
-portugueza que encommendei de manhã, com cozido, arroz de forno, grão de
-bico, etc., para matar saudades...
-
-Alencar lançou um gesto immenso de desdem. Nunca o cozinheiro do
-_Braganza_, francelhote miseravel, estaria á altura d'esses nobres
-petiscos do velho Portugal. Emfim acabou-se. Seria pontual ás seis para
-uma grande saude ao seu Carlos!
-
---Vocês vão sahir, rapazes?
-
-Carlos e Ega iam ao Ramalhete visitar o casarão.
-
-O poeta declarou logo que isso era romagem sagrada. Então elle partia
-com o maestro. O seu caminho ficava tambem para o lado do Barradas...
-Moço de talento, esse Barradas!... Um pouco pardo de côr, tudo por
-acabar, esborratado, mas uma bella ponta de faisca.
-
---E teve uma tia, filhos, a Leonor Barradas! Que olhos, que corpo! E não
-era só o corpo! Era a alma, a poesia, o sacrificio!... Já não ha d'isso,
-já lá vai tudo. Emfim, acabou-se, ás seis!
-
---Ás seis, em ponto, sem falhar!
-
-Alencar e o maestro partiram, depois de se munirem de charutos. E d'ahi
-a pouco Carlos e Ega seguiam tambem pela rua do Thesouro Velho, de braço
-dado, muito lentamente.
-
-Iam conversando de Paris, de rapazes e de mulheres que o Ega conhecêra,
-havia quatro annos, quando lá passára um tão alegre inverno nos
-appartamentos de Carlos. E a surpreza do Ega, a cada nome evocado, era o
-curto brilho, o fim brusco de toda essa mocidade estouvada. A Lucy Gray,
-morta. A Conrad, morta... E a Maria Blond? Gorda, emburguezada, casada
-com um fabricante de velas de estearina. O polaco, o louro? Fugido,
-desapparecido. Mr. de Menant, esse D. Juan? Sub-prefeito no departamento
-do Doubs. E o rapaz que morava ao lado, o belga? Arruinado na Bolsa... E
-outros ainda, mortos, sumidos, afundados no lodo de Paris!
-
---Pois tudo sommado, menino, observou Ega, esta nossa vidinha de Lisboa,
-simples, pacata, corredia, é infinitamente preferivel.
-
-Estavam no Loreto; e Carlos parára, olhando, reentrando na intimidade
-d'aquelle velho coração da capital. Nada mudára. A mesma sentinella
-somnolenta rondava em torno á estatua triste de Camões. Os mesmos
-reposteiros vermelhos, com brazões ecclesiasticos, pendiam nas portas
-das duas igrejas. O _Hotel Alliance_ conservava o mesmo ar mudo e
-deserto. Um lindo sol dourava o lagedo; batedores de chapéo á faia
-fustigavam as pilecas; tres varinas, de canastra á cabeça, meneavam os
-quadris, fortes e ageis na plena luz. A uma esquina, vadios em farrapos
-fumavam; e na esquina defronte na Havaneza, fumavam tambem outros
-vadios, de sobrecasaca, politicando.
-
---Isto é horrivel quando se vem de fóra! exclamou Carlos. Não é a
-cidade, é a gente. Uma gente feiissima, encardida, mollenga, reles,
-amarellada, acabrunhada!...
-
---Todavia Lisboa faz differença, affirmou Ega, muito sério. Oh, faz
-muita differença! Has de vêr a Avenida... Antes do Ramalhete vamos dar
-uma volta á Avenida.
-
-Foram descendo o Chiado. Do outro lado os toldos das lojas estendiam no
-chão uma sombra forte e dentada. E Carlos reconhecia, encostados ás
-mesmas portas, sujeitos que lá deixára havia dez annos, já assim
-encostados, já assim melancolicos. Tinham rugas, tinham brancas. Mas lá
-estacionavam ainda, apagados e murchos, rente das mesmas humbreiras, com
-collarinhos á moda. Depois, diante da livraria Bertrand, Ega, rindo,
-tocou no braço de Carlos:
-
---Olha quem alli está, á porta do Baltresqui!
-
-Era o Damaso. O Damaso, barrigudo, nedio, mais pesado, de flôr ao peito,
-mamando um grande charuto, e pasmaceando, com o ar regaladamente
-embrutecido d'um ruminante farto e feliz. Ao avistar tambem os seus dois
-velhos amigos que desciam, teve um movimento para se esquivar,
-refugiar-se na confeitaria. Mas, insensivelmente, irresistivelmente,
-achou-se em frente de Carlos, com a mão aberta e um sorriso na bochecha,
-que se lhe esbrazeára.
-
---Olá, por cá!... Que grande surpreza!
-
-Carlos abandonou-lhe dois dedos, sorrindo tambem, indifferente e
-esquecido.
-
---É verdade, Damaso... Como vai isso?
-
---Por aqui, n'esta semsaboria... E então com demora?
-
---Umas semanas.
-
---Estás no Ramalhete?
-
---No _Braganza_. Mas não te incommodes, eu ando sempre por fóra.
-
---Pois sim senhor!... Eu tambem estive em Paris, ha tres mezes, no
-_Continental_...
-
---Ah!... Bem, estimei vêr-te, até sempre!
-
---Adeus, rapazes. Tu estás bom, Carlos, estás com boa cara!
-
---É dos teus olhos, Damaso.
-
-E nos olhos do Damaso, com effeito, parecia reviver a antiga admiração,
-arregalados, acompanhando Carlos, estudando-lhe por traz a sobrecasaca,
-o chapéo, o andar, como no tempo em que o Maia era para elle o typo
-supremo do seu querido _chic_, «uma d'essas coisas que só se vêem lá
-fóra...»
-
---Sabes que o nosso Damaso casou? disse o Ega um pouco adiante, travando
-outra vez do braço de Carlos.
-
-E foi um espanto para Carlos. O quê! O nosso Damaso! Casado!?... Sim,
-casado com uma filha dos condes d'Agueda, uma gente arruinada, com um
-rancho de raparigas. Tinham-lhe impingido a mais nova. E o optimo
-Damaso, verdadeira sorte grande para aquella distincta familia, pagava
-agora os vestidos, das mais velhas.
-
---É bonita?
-
---Sim, bonitinha... Faz ahi a felicidade d'um rapazote sympathico,
-chamado Barroso.
-
---O quê, o Damaso, coitado!...
-
---Sim, coitado, coitadinho, coitadissimo... Mas como vês, immensamente
-ditoso, até tem engordado com a perfidia!
-
-Carlos parára. Olhava, pasmado para as varandas extraordinarias d'um
-primeiro andar, recobertas, como em dia de procissão, de sanefas de pano
-vermelho onde se entrelaçavam monogrammas. E ia indagar--quando, d'entre
-um grupo que estacionava ao portal d'esse predio festivo, um rapaz d'ar
-estouvado, com a face imberbe cheia d'espinhas carnaes, atravessou
-rapidamente a rua para gritar ao Ega, suffocado de riso:
-
---Se você for depressa ainda a encontra ahi abaixo! Corra!
-
---Quem?
-
---A Adosinda!... De vestido azul, com plumas brancas no chapéo... Vá
-depressa... O João Elyseu metteu-lhe a bengala entre as pernas, ia-a
-fazendo estatelar no chão, foi uma scena... Vá depressa, homem!
-
-Com duas pernadas esguias o rapaz recolheu ao seu rancho--onde todos, já
-calados, com uma curiosidade de provincia, examinavam aquelle homem de
-tão alta elegancia que acompanhava o Ega, e que nenhum conhecia. E Ega,
-no emtanto, explicava a Carlos as varandas e o grupo:
-
---São rapazes do _Turf_. É um club novo, o antigo Jockey da travessa da
-Palha. Faz-se lá uma batotinha barata, tudo gente muito sympathica... E
-como vês estão sempre assim preparados, com sanefas e tudo, para se
-acaso passar por ahi o Senhor dos Passos.
-
-Depois, descendo para a rua Nova do Almada, contou o caso da Adosinda.
-Fôra no Silva, havia duas semanas, estando elle a cear com rapazes
-depois de S. Carlos, que lhes apparecera essa mulher inverosimil,
-vestida de vermelho, carregando insensatamente nos _rr_, mettendo _rr_
-em todas as palavras, e perguntando pelo snr. _virrsconde_... Qual
-_virrsconde_? Ella não sabia bem. _Erra um virrsconde que encontrrárra
-no Crrolyseu_. Senta-se, offerecem-lhe champagne, e D. Adosinda começa a
-revelar-se um sêr prodigioso. Fallavam de politica, do ministerio e do
-_deficit_. D. Adosinda declara logo que conhece muito bem o _deficit_, e
-que é um bello rapaz... O _deficit_ bello rapaz--immensa gargalhada! D.
-Adosinda zanga-se, exclama que já fôra com elle a Cintra, que é um
-perfeito cavalheiro, e empregado no Banco Inglez... O _deficit_
-empregado no Banco Inglez--gritos, uivos, urros! E não cessou esta
-gargalhada contínua, estrondosa, phrenetica, até ás cinco da manhã em
-que D. Adosinda fôra rifada e sahira ao Telles!... Noite soberba!
-
---Com effeito, disse Carlos rindo, é uma orgia grandiosa, lembra
-Heliogabalo e o Conde d'Orsay...
-
-Então Ega defendeu calorosamente a sua orgia. Onde havia melhor, na
-Europa, em qualquer civilisação? Sempre queria vêr que se passasse uma
-noite mais alegre em Paris, na desoladora banalidade do _Grand-Treize_,
-ou em Londres, n'aquella correcta e massuda semsaboria do _Bristol_! O
-que ainda tornava a vida toleravel era de vez em quando uma boa risada.
-Ora na Europa o homem requintado já não ri,--sorri regeladamente,
-lividamente. Só nós aqui, n'este canto do mundo barbaro, conservamos
-ainda esse dom supremo, essa coisa bemdita e consoladora--a barrigada de
-riso!...
-
---Que diabo estás tu a olhar?
-
-Era o consultorio, o antigo consultorio de Carlos--onde agora, pela
-taboleta, parecia existir um pequeno _atelier_ de modista. Então
-bruscamente os dois amigos recahiram nas recordações do passado. Que
-estupidas horas Carlos alli arrastára, com a _Revista dos Dois Mundos_,
-na espera vã dos doentes, cheio ainda de fé nas alegrias do trabalho!...
-E a manhã em que o Ega lá apparecera com a sua esplendida pelliça,
-preparando-se para transformar, n'um só inverno, todo o velho e
-rotineiro Portugal!
-
---Em que tudo ficou!
-
---Em que tudo ficou! Mas rimos bastante! Lembras-te d'aquella noite em
-que o pobre marquez queria levar ao consultorio a Paca, para utilisar
-emfim o divan, movel de serralho?...
-
-Carlos teve uma exclamação de saudade. Pobre marquez! Fôra uma das suas
-fortes impressões, n'esses ultimos annos--aquella morte do marquez,
-sabida de repente ao almoço, n'uma banal noticia de jornal!... E através
-do Rocio, andando mais devagar, recordavam outros desapparecimentos: a
-D. Maria da Cunha, coitada, que acabara hydropica; o D. Diogo, casado
-por fim com a cozinheira; o bom Sequeira, morto uma noite n'uma tipoia
-ao sahir dos cavallinhos...
-
---E outra coisa, perguntou Ega. Tens visto o Craft em Londres?
-
---Tenho, disse Carlos. Arranjou uma casa muito bonita ao pé de
-Richmond... Mas está muito avelhado, queixa-se muito do figado. E,
-desgraçadamente, carrega de mais nos alcools. É uma pena!
-
-Depois perguntou pelo Taveira. Esse lindo moço, contou o Ega, tinha
-agora por cima mais dez annos de Secretaria e de Chiado. Mas sempre
-apurado, já um bocado grisalho, mettido continuamente com alguma
-hespanhola, dando bastante a lei em S. Carlos, e murmurando todas as
-tardes na Havaneza, com um ar dôce e contente--«isto é um paiz perdido»!
-Enfim um bom typosinho de lisboeta fino.
-
---E a besta do Steinbroken?
-
---Ministro em Athenas, exclamou Carlos, entre as ruinas classicas!
-
-E esta idéa do Steinbroken, na velha Grecia, divertiu-os infinitamente.
-Ega imaginava já o bom Steinbroken, têso nos seus altos collarinhos,
-affirmando a respeito de Socrates, com prudencia: «Oh, il est très fort,
-il est excessivement fort!» Ou ainda, a proposito da batalha das
-Thermopylas, rosnando, com medo de se comprometter: «C'est très grave,
-c'est excessivement grave!» Valia a pena ir á Grecia para vêr!
-
-Subitamente Ega parou:
-
---Ora ahi tens tu essa Avenida! Hein?... Já não é mau!
-
-N'um claro espaço rasgado, onde Carlos deixára o Passeio Publico pacato
-e frondoso--um obelisco, com borrões de bronze no pedestal, erguia um
-traço côr d'assucar na vibração fina da luz de inverno: e os largos
-globos dos candieiros que o cercavam, batidos do sol, brilhavam,
-transparentes e rutilantes, como grandes bolas de sabão suspensas no ar.
-Dos dois lados seguiam, em alturas desiguaes, os pesados predios, lisos
-e aprumados, repintados de fresco, com vasos nas cornijas onde
-negrejavam piteiras de zinco, e pateos de pedra, quadrilhados a branco e
-preto, onde guarda-portões chupavam o cigarro: e aquelles dois hirtos
-renques de casas ajanotadas lembravam a Carlos as familias que outr'ora
-se immobilisavam em filas, dos dois lados do Passeio, depois da missa
-«da uma», ouvindo a Banda, com casimiras e sêdas, no catitismo
-domingueiro. Todo o lagedo reluzia como cal nova. Aqui e além um arbusto
-encolhia na aragem a sua folhagem pallida e rara. E ao fundo a collina
-verde, salpicada d'arvores, os terrenos de Valle de Pereiro, punham um
-brusco remate campestre áquelle curto rompante de luxo barato--que
-partira para transformar a velha cidade, e estacára logo, com o fôlego
-curto, entre montões de cascalho.
-
-Mas um ar lavado e largo circulava; o sol dourava a caliça; a divina
-serenidade do azul sem igual tudo cobria e adoçava. E os dois amigos
-sentaram-se n'um banco, junto de uma verdura que orlava a agua d'um
-tanque esverdinhada e molle.
-
-Pela sombra passeavam rapazes, aos pares, devagar, com flôres na
-lapella, a calça apurada, luvas claras fortemente pespontadas de negro.
-Era toda uma geração nova e miuda que Carlos não conhecia. Por vezes Ega
-murmurava um _ólá!_, acenava com a bengala. E elles iam, repassavam, com
-um arzinho timido e contrafeito, como mal acostumados áquelle vasto
-espaço, a tanta luz, ao seu proprio _chic_. Carlos pasmava. Que faziam
-alli, ás horas de trabalho, aquelles moços tristes, de calça esguia? Não
-havia mulheres. Apenas n'um banco adiante uma creatura adoentada, de
-lenço e chale, tomava o sol; e duas matronas, com vidrilhos no
-mantelete, donas de casa de hospedes, arejavam um cãosinho felpudo. O
-que attrahia pois alli aquella mocidade pallida? E o que sobretudo o
-espantava eram as botas d'esses cavalheiros, botas despropositadamente
-compridas, rompendo para fóra da calça collante com pontas aguçadas e
-reviradas como prôas de barcos varinos...
-
---Isto é phantastico, Ega!
-
-Ega esfregava as mãos. Sim, mas precioso! Porque essa simples fôrma de
-botas explicava todo o Portugal contemporaneo. Via-se por alli como a
-coisa era. Tendo abandonado o seu feitio antigo, á D. João VI, que tão
-bem lhe ficava, este desgraçado Portugal decidira arranjar-se á moderna:
-mas sem originalidade, sem força, sem caracter para crear um feitio seu,
-um feitio proprio, manda vir modelos do estrangeiro--modelos d'idéas, de
-calças, de costumes, de leis, d'arte, de cozinha... Sómente, como lhe
-falta o sentimento da proporção, e ao mesmo tempo o domina a impaciencia
-de parecer muito moderno e muito civilisado--exagera o modelo,
-deforma-o, estraga-o até á caricatura. O figurino da bota que veio de
-fóra era levemente estreito na ponta;--immediatamente o janota estica-o
-e aguça-o até ao bico d'alfinete. Por seu lado o escriptor lê uma pagina
-de Goncourt ou de Verlaine em estylo precioso e
-cinzelado;--immediatamente retorce, emmaranha, desengonça a sua pobre
-phrase até descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez o
-legislador ouve dizer que lá fóra se levanta o nivel da
-instrucção;--immediatamente põe no programma dos exames de primeiras
-letras a metaphysica, a astronomia, a philologia, a egyptologia, a
-chresmatica, a critica das religiões comparadas, e outros infinitos
-terrores. E tudo por ahi adiante assim, em todas as classes e
-profissões, desde o orador até ao photographo, desde o jurisconsulto até
-ao _sportman_... É o que succede com os pretos já corrompidos de S.
-Thomé, que vêem os europeus de lunetas--e imaginam que n'isso consiste
-ser civilisado e ser branco. Que fazem então? Na sua sofreguidão de
-progresso e de brancura acavallam no nariz tres ou quatro lunetas,
-claras, defumadas, até de côr. E assim andam pela cidade, de tanga, de
-nariz no ar, aos tropeções, no desesperado e angustioso esforço de
-equilibrarem todos estes vidros--para serem immensamente civilisados e
-immensamente brancos...
-
-Carlos ria:
-
---De modo que isto está cada vez peor...
-
---Medonho! É d'um reles, d'um postiço! Sobretudo postiço! Já não ha nada
-genuino n'este miseravel paiz, nem mesmo o pão que comemos!
-
-Carlos, recostado no banco, apontou com a bengala, n'um gesto lento:
-
---Resta aquillo, que é genuino...
-
-E mostrava os altos da cidade, os velhos outeiros da Graça e da Penha,
-com o seu casario escorregando pelas encostas resequidas e tisnadas do
-sol. No cimo assentavam pesadamente os conventos, as igrejas, as
-atarracadas vivendas ecclesiasticas, lembrando o frade pingue e
-pachorrento, beatas de mantilha, tardes de procissão, irmandades d'opa
-atulhando os adros, herva dôce juncando as ruas, tremoço e fava-rica
-apregoada ás esquinas, e foguetes no ar em louvor de Jesus. Mais alto
-ainda, recortando no radiante azul a miseria da sua muralha, era o
-castello, sordido e tarimbeiro, d'onde outr'ora, ao som do hymno tocado
-em fagotes, descia a tropa de calça branca a fazer a _bernarda_! E
-abrigados por elle, no escuro bairro de S. Vicente e da Sé, os palacetes
-decrepitos, com vistas saudosas para a barra, enormes brazões nas
-paredes rachadas, onde entre a maledicencia, a devoção e a bisca,
-arrasta os seus derradeiros dias, cachetica e caturra, a velha Lisboa
-fidalga!
-
-Ega olhou um momento, pensativo:
-
---Sim, com effeito, é talvez mais genuino. Mas tão estupido, tão
-sebento! Não sabe a gente para onde se ha de voltar... E se nos voltamos
-para nós mesmos, ainda peor!
-
-E de repente bateu no joelho de Carlos, com um brilho na face:
-
---Espera... Olha quem ahi vem!
-
-Era uma vittoria, bem posta e correcta, avançando com lentidão e estylo,
-ao trote esteppado de duas egoas inglezas. Mas foi um desapontamento.
-Vinha lá sómente um rapaz muito louro, d'uma brancura de camelia, com
-uma pennugem no beiço, languidamente recostado. Fez um aceno ao Ega, com
-um lindo sorriso de virgem. A vittoria passou.
-
---Não conheces?
-
-Carlos procurava, com uma recordação.
-
---O teu antigo doente! O Charlie!
-
-O outro bateu as mãos. O Charlie! O seu Charlie! Como aquillo o fazia
-velho!... E era bonitinho!
-
---Sim, muito bonitinho. Tem ahi uma amizade com um velho, anda sempre
-com um velho... Mas elle vinha decerto com a mãi, estou convencido que
-ella ficou por ahi a passear a pé. Vamos nós vêr?
-
-Subiram ao comprido da Avenida, procurando. E quem avistaram logo foi o
-Eusebiosinho. Parecia mais funebre, mais tisico, dando o braço a uma
-senhora muito forte, muito córada, que estalava n'um vestido de sêda cor
-de pinhão. Iam devagar, tomando o sol. E o Eusebio nem os viu, descahido
-e mollengo, seguindo com as grossas lunetas pretas o marchar lento da
-sua sombra.
-
---Aquella aventesma é a mulher, contou Ega. Depois de varias paixões em
-lupanares, o nosso Eusebio teve este namoro. O pai da creatura, que é
-dono d'um prego, apanhou-o uma noite na escada com ella a surripiar-lhe
-uns prazeres... Foi o diabo, obrigaram-no a casar. E desappareceu, não o
-tornei a vêr... Diz que a mulher que o derreia á pancada.
-
---Deus a conserve!
-
---Amen!
-
-E então Carlos, que recordava a coça no Eusebio, o caso da _Corneta_,
-quiz saber do Palma Cavallão. Ainda deshonrava o Universo com a sua
-presença, esse benemerito? Ainda o deshonrava, disse o Ega. Sómente
-deixára a litteratura, e tornára-se _factotum_ do Carneiro, o que fôra
-ministro; levava-lhe a hespanhola ao theatro pelo braço; e era um bom
-empenho em politica.
-
---Ainda ha de ser deputado, acrescentou Ega. E, da fórma que as coisas
-vão, ainda ha de ser ministro... E isto está-se fazendo tarde,
-Carlinhos. Vamos nós tomar esta tipoia e abalar para o Ramalhete?
-
-Eram quatro horas, o sol curto de inverno tinha já um tom pallido.
-
-Tomaram a tipoia. No Rocio, Alencar que passava, que os viu--parou,
-sacudiu ardentemente a mão no ar. E então Carlos exclamou, com uma
-surpreza que já o assaltára essa manhã no _Braganza_:
-
---Ouve cá, Ega! Tu agora pareces intimo do Alencar! Que transformação
-foi essa?
-
-Ega confessou que realmente agora apreciava immensamente o Alencar. Em
-primeiro logar no meio d'esta Lisboa toda postiça, Alencar permanecia o
-unico portuguez genuino. Depois, através da contagiosa intrujice,
-conservava uma honestidade resistente. Além d'isso havia n'elle
-lealdade, bondade, generosidade. O seu comportamento com a sobrinhita
-era tocante. Tinha mais cortezia, melhores maneiras que os novos. Um
-bocado de piteirice não lhe ia mal ao seu feitio lyrico. E por fim, no
-estado a que descambára a litteratura, a versalhada do Alencar tomava
-relevo pela correcção, pela simplicidade, por um resto de sincera
-emoção. Em resumo, um bardo infinitamente estimavel.
-
---E aqui tens tu, Carlinhos, a que nós chegamos! Não ha nada com efeito
-que caracterise melhor a pavorosa decadencia de Portugal, nos ultimos
-trinta annos, do que este simples facto: tão profundamente tem baixado o
-caracter e o talento, que de repente o nosso velho Thomaz, o homem da
-_Flôr de Martyrio_, o Alencar d'Alemquer, apparece com as proporções
-d'um Genio e d'um Justo!
-
-Ainda fallavam de Portugal e dos seus males quando a tipoia parou. Com
-que commoção Carlos avistou a fachada severa do Ramalhete, as
-janellinhas abrigadas á beira do telhado, o grande ramo de girasoes
-fazendo painel no logar do escudo d'armas! Ao ruido da carruagem,
-Villaça appareceu á porta, calçando luvas amarellas. Estava mais gordo o
-Villaça--e tudo na sua pessoa, desde o chapéo novo até ao castão de
-prata da bengala, revelava a sua importancia como administrador, quasi
-directo senhor durante o longo desterro de Carlos, d'aquella vasta casa
-dos Maias. Apresentou logo o jardineiro, um velho, que alli vivia com a
-mulher e o filho, guardando o casarão deserto. Depois felicitou-se de
-vêr emfim os dois amigos juntos. E ajuntou, batendo com carinho familiar
-no hombro de Carlos:
-
---Pois eu, depois de nos separarmos em Santa Apolonia, fui tomar um
-banho ao Central e não me deitei. Olhe que é uma grande commodidade o
-tal _sleeping-car_! Ah lá isso, em progresso, o nosso Portugal já não
-está atraz de ninguem!... E v. exc.^a agora precisa de mim?
-
---Não, obrigado, Villaça. Vamos dar uma volta pelas salas... Vá jantar
-comnosco. Ás seis! Mas ás seis em ponto, que ha petiscos especiaes.
-
-E os dois amigos atravessaram o perystillo. Ainda lá se conservavam os
-bancos feudaes de carvalho lavrado, solemnes como coros de cathedral. Em
-cima porém a ante-camara entristecia, toda despida, sem um movel, sem um
-estofo, mostrando a cal lascada dos muros. Tapeçarias orientaes que
-pendiam como n'uma tenda, pratos mouriscos de reflexos de cobre, a
-estatua da _Friorenta_ rindo e arrepiando-se, na sua nudez de marmore,
-ao metter o pésinho na agua--tudo ornava agora os aposentos de Carlos em
-Paris: e outros caixões apilhavam-se a um canto, promptos a embarcar,
-levando as melhores faianças da _Toca_. Depois no amplo corredor, sem
-tapete, os seus passos soaram como n'um claustro abandonado. Nos quadros
-devotos, d'um tom mais negro, destacava aqui e além, sob a luz escassa,
-um hombro descarnado de eremita, a mancha livida d'uma caveira. Uma
-friagem regelava. Ega levantára a gola do paletot.
-
-No salão nobre os moveis de brocado côr de musgo estavam embrulhados em
-lençoes d'algodão, como amortalhados, exhalando um cheiro de mumia a
-terebinthina e camphora. E no chão, na tela de Constable, encostada á
-parede, a condessa de Runa, erguendo o seu vestido escarlate de caçadora
-ingleza, parecia ir dar um passo, sahir do caixilho dourado, para partir
-tambem, consummar a dispersão da sua raça...
-
---Vamos embora, exclamou Ega. Isto está lugubre!...
-
-Mas Carlos, pallido e calado, abriu adiante a porta do bilhar. Ahi, que
-era a maior sala do Ramalhete, tinham sido recentemente accumulados na
-confusão das artes e dos seculos, como n'um armazem de _bric-à-brac_,
-todos os moveis ricos da _Toca_. Ao fundo, tapando o fogão, dominando
-tudo na sua magestade architectural, erguia-se o famoso armario do tempo
-da Liga Hanseatica, com os seus Martes armados, as portas lavradas, os
-quatro Evangelistas prégando aos cantos, envoltos n'essas roupagens
-violentas que um vento de prophecia parece agitar. E Carlos
-immediatamente descobriu um desastre na cornija, nos dois faunos que
-entre trophéos agricolas tocavam ao desafio. Um partira o seu pé de
-cabra, outro perdera a sua frauta bucolica...
-
---Que brutos! exclamou elle furioso, ferido no seu amor da coisa d'arte.
-Um movel d'estes!...
-
-Trepou a uma cadeira para examinar os estragos. E Ega, no emtanto,
-errava entre os outros moveis, cofres nupciaes, contadores hespanhoes,
-bufetes da Renascença italiana, recordando a alegre casa dos Olivaes que
-tinham ornado, as bellas noites de cavaco, os jantares, os foguetes
-atirados em honra de Leonidas... Como tudo passára! De repente deu com o
-pé n'uma caixa de chapéo sem tampa, atulhada de coisas velhas--um véo,
-luvas desirmanadas, uma meia de sêda, fitas, flôres artificiaes. Eram
-objectos de Maria, achados n'algum canto da _Toca_, para alli atirados,
-no momento de se esvaziar a casa! E, coisa lamentavel, entre estes
-restos d'ella, misturados como na promiscuidade d'um lixo, apparecia uma
-chinela de velludo bordada a matiz, uma velha chinela de Affonso da
-Maia! Ega escondeu a caixa rapidamente debaixo d'um pedaço solto de
-tapeçaria. Depois, como Carlos saltava da cadeira, sacudindo as mãos,
-ainda indignado, Ega apressou aquella peregrinação, que lhe estragava a
-alegria do dia.
-
---Vamos ao terraço! Dá-se um olhar ao jardim, e abalamos!
-
-Mas deviam atravessar ainda a memoria mais triste, o escriptorio de
-Affonso da Maia. A fechadura estava pêrra. No esforço de abrir a mão de
-Carlos tremia. E Ega, commovido tambem, revia toda a sala tal como
-outr'ora, com os seus candieiros Carcel dando um tom côr de rosa, o lume
-crepitando, o reverendo Bonifacio sobre a pelle d'urso, e Affonso na sua
-velha poltrona, de casaco de velludo, sacudindo a cinza do cachimbo
-contra a palma da mão. A porta cedeu: e toda a emoção de repente findou,
-na grutesca, absurda surpreza de romperem ambos a espirrar,
-desesperadamente, suffocados pelo cheiro acre d'um pó vago que lhes
-picava os olhos, os estonteava. Fôra o Villaça, que, seguindo uma
-receita d'almanach, fizera espalhar ás mãos cheias, sobre os moveis,
-sobre os lençoes que os resguardavam, camadas espessas de pimenta
-branca! E estrangulados, sem vêr, sob uma nevoa de lagrimas, os dois
-continuavam, um defronte do outro, em espirros afflictivos que os
-desengonçavam.
-
-Carlos por fim conseguiu abrir largamente as duas portadas d'uma
-janella. No terraço morria um resto de sol. E, revivendo um pouco ao ar
-puro, alli ficaram de pé, calados, limpando os olhos, sacudidos ainda
-por um ou outro espirro retardado.
-
---Que infernal invenção! exclamou Carlos, indignado.
-
-Ega, ao fugir com o lenço na face, tropeçára, batera contra um sofá,
-coçava a canella:
-
---Estupida coisa! E que bordoada que eu dei!...
-
-Voltou a olhar para a sala, onde todos os moveis desappareciam sob os
-largos sudarios brancos. E reconheceu que tropeçára na antiga almofada
-de velludo do velho Bonifacio. Pobre Bonifacio! Que fôra feito d'elle?
-
-Carlos, que se sentára no parapeito baixo do terraço, entre os vasos sem
-flôr, contou o fim do reverendo Bonifacio. Morrera em Santa Olavia,
-resignado, e tão obeso que se não movia. E o Villaça, com uma idéa
-poetica, a unica da sua vida de procurador, mandára-lhe fazer um
-mausoléo, uma simples pedra de marmore branco, sob uma roseira, debaixo
-das janellas do quarto do avô.
-
-Ega sentára-se tambem no parapeito, ambos se esqueceram n'um silencio.
-Em baixo o jardim, bem areado, limpo e frio na sua nudez d'inverno,
-tinha a melancolia de um retiro esquecido que já ninguem ama: uma
-ferrugem verde de humidade cobria os grossos membros da Venus Citherea;
-o cypreste e o cedro envelheciam juntos como dois amigos n'um ermo; e
-mais lento corria o prantosinho da cascata, esfiado saudosamente gotta a
-gotta na bacia de marmore. Depois ao fundo, encaixilhada como uma tela
-marinha nas cantarias dos dois altos predios, a curta paizagem do
-Ramalhete, um pedaço de Tejo e monte, tomava n'aquelle fim de tarde um
-tom mais pensativo e triste: na tira de rio um paquete fechado,
-preparado para a vaga, ia descendo, desapparecendo logo, como já
-devorado pelo mar incerto; no alto da collina o moinho parára, transido
-na larga friagem do ar; e nas janellas das casas á beira d'agua um raio
-de sol morria, lentamente sumido, esvaído na primeira cinza do
-crepusculo, como um resto d'esperança n'uma face que se anuvia.
-
-Então, n'aquella mudez de soledade e d'abandono, Ega, com os olhos para
-o longe, murmurou devagar:
-
---Mas tu d'esse casamento não tinhas a menor indicação, a menor
-suspeita?
-
---Nenhuma... Soube-o de repente pela carta d'ella em Sevilha.
-
-E era esta a formidavel nova annunciada por Carlos, a nova que elle logo
-contára de madrugada ao Ega, depois dos primeiros abraços, em Santa
-Apolonia. Maria Eduarda ia casar.
-
-Assim o annunciára ella a Carlos n'uma carta muito simples, que elle
-recebera na quinta dos Villa-Medina. Ia casar. E não parecia ser uma
-resolução tomada arrebatadamente sob um impulso do coração; mas antes um
-proposito lento, longamente amadurecido. Ella alludia n'essa carta a ter
-«pensado muito, reflectido muito...» De resto o noivo devia ir perto dos
-cincoenta annos. E Carlos portanto via alli a união de dois sêres
-desilludidos da vida, maltratados por ella, cansados ou assustados do
-seu isolamento, que, sentindo um no outro qualidades sérias de coração e
-de espirito, punham em commum o seu resto de calor, d'alegria e de
-coragem para affrontar juntos a velhice...
-
---Que idade tem ella?
-
-Carlos pensava que ella devia ter quarenta e um ou quarenta e dois
-annos. Ella dizia na carta «sou apenas mais nova que o meu noivo seis
-annos e tres mezes». Elle chamava-se Mr. de Trelain. E era evidentemente
-um homem d'espirito largo, desembaraçado de prejuizos, d'uma
-benevolencia quasi misericordiosa, porque quizera Maria, conhecendo bem
-os seus erros.
-
---Sabe tudo? exclamou Ega, que saltára do parapeito.
-
---Tudo não. Ella diz que Mr. de Trelain conhecia do seu passado «todos
-aquelles erros em que ella cahira inconscientemente». Isto dá a entender
-que não sabe tudo... Vamos andando, que se faz tarde, e quero ainda vêr
-os meus quartos.
-
-Desceram ao jardim. Um momento seguiram calados pela alea onde cresciam
-outr'ora as roseiras de Affonso. Sob as duas olaias ainda existia o
-banco de cortiça; Maria sentára-se alli, na sua visita ao Ramalhete, a
-atar n'um ramo flôres que ia levar como reliquia. Ao passar Ega cortou
-uma pequenina margarida que ainda floria solitariamente.
-
---Ella continúa a viver em Orléans, não é verdade?
-
-Sim, disse Carlos, vivia ao pé d'Orléans, n'uma quinta que lá comprára,
-chamada _Les Rosières_. O noivo devia habitar nos arredores algum
-pequeno _château_. Ella chamava-lhe «visinho». E era naturalmente um
-_gentilhomme campagnard_, de familia séria, com fortuna...
-
---Ella só tem o que tu lhe dás, está claro.
-
---Creio que te mandei contar tudo isso, murmurou Carlos. Emfim ella
-recusou-se a receber parte alguma da sua herança... E o Villaça arranjou
-as coisas por meio d'uma doação que lhe fiz, correspondente a doze
-contos de reis de renda...
-
---É bonito. Ella fallava de Rosa na carta?
-
---Sim, de passagem, que ia bem... Deve estar uma mulher.
-
---E bem linda!
-
-Iam subindo a escadinha de ferro torneada que levava do jardim aos
-quartos de Carlos. Com a mão na porta da vidraça, Ega parou ainda, n'uma
-derradeira curiosidade:
-
---E que effeito te fez isso?
-
-Carlos accendia o charuto. Depois atirando o phosphoro por cima da
-varandinha de ferro onde uma trepadeira se enlaçava:
-
---Um effeito de conclusão, de absoluto remate. É como se ella morresse,
-morrendo com ella todo o passado, e agora renascesse sob outra fórma. Já
-não é Maria Eduarda. É Madame de Trelain, uma senhora franceza. Sob este
-nome, tudo o que houve fica sumido, enterrado a mil braças, findo para
-sempre, sem mesmo deixar memoria... Foi o effeito que me fez.
-
---Tu nunca encontraste em Paris o snr. Guimarães?
-
---Nunca. Naturalmente morreu.
-
-Entraram no quarto. Villaça, na supposição de Carlos vir para o
-Ramalhete, mandára-o preparar; e todo elle regelava--com o marmore das
-commodas espanejado e vazio, uma vela intacta n'um castiçal solitario, a
-colcha de fustão vincada de dobras sobre o leito sem cortinados. Carlos
-pousou o chapéo e a bengala em cima da sua antiga mesa de trabalho.
-Depois, como dando um resumo:
-
---E aqui tens tu a vida, meu Ega! N'este quarto, durante noites, soffri
-a certeza de que tudo no mundo acabára para mim... Pensei em me matar.
-Pensei em ir para a Trappa. E tudo isto friamente, com uma conclusão
-logica. Por fim dez annos passaram, e aqui estou outra vez...
-
-Parou diante do alto espelho suspenso entre as duas columnas de carvalho
-lavrado, deu um geito ao bigode, concluiu, sorrindo melancolicamente:
-
---E mais gordo!
-
-Ega espalhava tambem pelo quarto um olhar pensativo:
-
---Lembras-te quando appareci aqui uma noite, n'uma agonia, vestido de
-Mephistopheles?
-
-Então Carlos teve um grito. E a Rachel, é verdade! A Rachel? Que era
-feito da Rachel, esse lirio d'Israel?
-
-Ega encolheu os hombros:
-
---Para ahi anda, estuporada...
-
-Carlos murmurou--«coitada!» E foi tudo o que disseram sobre a grande
-paixão romantica do Ega.
-
-Carlos no emtanto fôra examinar, junto da janella, um quadro que pousava
-no chão, para alli esquecido e voltado para a parede. Era o retrato do
-pai, de Pedro da Maia, com as suas luvas de camurça na mão, os grandes
-olhos arabes na face triste e pallida que o tempo amarellára mais.
-Collocou-o em cima d'uma commoda. E atirando-lhe uma leve sacudidella
-com o lenço:
-
---Não ha nada que me faça mais pena do que não ter um retrato do avô!...
-Em todo o caso este sempre o vou levar para Paris.
-
-Então Ega perguntou, do fundo do sofá onde se enterrára, se, n'esses
-ultimos annos, elle não tivera a idéa, o vago desejo de voltar para
-Portugal...
-
-Carlos considerou Ega com espanto. Para que? Para arrastar os passos
-tristes desde o Gremio até á Casa Havaneza? Não! Paris era o unico logar
-da terra congenere com o typo definitivo em que elle se fixára:--«o
-homem rico que vive bem». Passeio a cavallo no Bois; almóço no Bignon;
-uma volta pelo _boulevard_; uma hora no club com os jornaes; um bocado
-de florete na sala d'armas; á noite a _Comédie Française_ ou uma
-_soirée_; Trouville no verão, alguns tiros ás lebres no inverno; e
-através do anno as mulheres, as corridas, certo interesse pela sciencia,
-o _bric-à-brac_, e uma pouca de _blague_. Nada mais inoffensivo, mais
-nullo, e mais agradavel.
-
---E aqui tens tu uma existencia d'homem! Em dez annos não me tem
-succedido nada, a não ser quando se me quebrou o phaeton na estrada de
-Saint-Cloud... Vim no _Figaro_.
-
-Ega ergueu-se, atirou um gesto desolado:
-
---Falhámos a vida, menino!
-
---Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é,
-falha-se sempre na realidade aquella vida que se planeou com a
-imaginação. Diz-se: «vou ser assim, porque a belleza está em ser assim».
-E nunca se é assim, é-se invariavelmente _assado_, como dizia o pobre
-marquez. Ás vezes melhor, mas sempre differente.
-
-Ega concordou, com um suspiro mudo, começando a calçar as luvas.
-
-O quarto escurecia no crepusculo frio e melancolico d'inverno. Carlos
-pôz tambem o chapéo: e desceram pelas escadas forradas de velludo côr de
-cereja, onde ainda pendia, com um ar baço de ferrugem, a panoplia de
-velhas armas. Depois na rua Carlos parou, deu um longo olhar ao sombrio
-casarão, que n'aquella primeira penumbra tomava um aspecto mais
-carregado de residencia ecclesiastica, com as suas paredes severas, a
-sua fila de janellinhas fechadas, as grades dos postigos terreos cheias
-de treva, mudo, para sempre deshabitado, cobrindo-se já de tons de
-ruina.
-
-Uma commoção passou-lhe n'alma, murmurou, travando do braço do Ega:
-
---É curioso! Só vivi dois annos n'esta casa, e é n'ella que me parece
-estar mettida a minha vida inteira!
-
-Ega não se admirava. Só alli no Ramalhete elle vivera realmente
-d'aquillo que dá sabôr e relevo á vida--a paixão.
-
---Muitas outras coisas dão valor á vida... Isso é uma velha idéa de
-romantico, meu Ega!
-
---E que somos nós? exclamou Ega. Que temos nós sido desde o collegio,
-desde o exame de latim? Romanticos: isto é, individuos inferiores que se
-governam na vida pelo sentimento e não pela razão...
-
-Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses
-que se dirigiam só pela razão, não se desviando nunca d'ella,
-torturando-se para se manter na sua linha inflexivel, sêccos, hirtos,
-logicos, sem emoção até ao fim...
-
---Creio que não, disse o Ega. Por fóra, á vista, são desconsoladores. E
-por dentro, para elles mesmos, são talvez desconsolados. O que prova que
-n'este lindo mundo ou tem de se ser insensato ou semsabor...
-
---Resumo: não vale a pena viver...
-
---Depende inteiramente do estomago! atalhou Ega.
-
-Riram ambos. Depois Carlos, outra vez sério, deu a sua theoria da vida,
-a theoria definitiva que elle deduzira da experiencia e que agora o
-governava. Era o fatalismo musulmano. Nada desejar e nada recear... Não
-se abandonar a uma esperança--nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o
-que vem e o que foge, com a tranquillidade com que se acolhem as
-naturaes mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, n'esta placidez,
-deixar esse pedaço de materia organisada, que se chama o Eu, ir-se
-deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito
-Universo... Sobretudo não ter appetites. E, mais que tudo, não ter
-contrariedades.
-
-Ega, em summa, concordava. Do que elle principalmente se convencera,
-n'esses estreitos annos de vida, era da inutilidade de todo o esforço.
-Não valia a pena dar um passo para alcançar coisa alguma na
-terra--porque tudo se resolve, como já ensinára o sabio do
-_Ecclesiastes_, em desillusão e poeira.
-
---Se me dissessem que alli em baixo estava uma fortuna como a dos
-Rothschilds ou a corôa imperial de Carlos V, á minha espera, para serem
-minhas se eu para lá corresse, eu não apressava o passo... Não! Não
-sahia d'este passinho lento, prudente, correcto, seguro, que é o unico
-que se deve ter na vida.
-
---Nem eu! acudiu Carlos com uma convicção decisiva.
-
-E ambos retardaram o passo, descendo para a rampa de Santos, como se
-aquelle fosse em verdade o caminho da vida, onde elles, certos de só
-encontrar ao fim desillusão e poeira, não devessem jámais avançar senão
-com lentidão e desdem. Já avistavam o Aterro, a sua longa fila de luzes.
-De repente Carlos teve um largo gesto de contrariedade:
-
---Que ferro! E eu que vinha desde Paris com este appetite! Esqueci-me de
-mandar fazer hoje para o jantar um grande prato de paio com ervilhas.
-
-E agora já era tarde, lembrou Ega. Então Carlos, até ahi esquecido em
-memorias do passado e syntheses da existencia, pareceu ter
-inesperadamente consciencia da noite que cahira, dos candieiros accêsos.
-A um bico de gaz tirou o relogio. Eram seis e um quarto!
-
---Oh, diabo!... E eu que disse ao Villaça e aos rapazes para estarem no
-_Braganza_ pontualmente ás seis! Não apparecer por ahi uma tipoia!...
-
---Espera! exclamou Ega. Lá vem um «americano», ainda o apanhamos.
-
---Ainda o apanhamos!
-
-Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojára o
-charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:
-
---Que raiva ter esquecido o paiosinho! Emfim, acabou-se. Ao menos
-assentamos a theoria definitiva da existencia. Com effeito, não vale a
-pena fazer um esforço, correr com ancia para coisa alguma...
-
-Ega, ao lado, ajuntava, offegante, atirando as pernas magras:
-
---Nem para o amor, nem para a gloria, nem para o dinheiro, nem para o
-poder...
-
-A lanterna vermelha do «americano», ao longe, no escuro, parára. E foi
-em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:
-
---Ainda o apanhamos!
-
---Ainda o apanhamos!
-
-De novo a lanterna deslisou e fugiu. Então, para apanhar o «americano»,
-os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e
-pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.
-
-FIM DO SEGUNDO VOLUME
-
-
-
-
-Lista de erros corrigidos
-
-
-Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
-
-+-----------+-------------------------+---------------------------+
-| | Original | Correcção |
-+-----------+-------------------------+---------------------------+
-| Vol I. | | |
-| | | |
-| #pág. 11 | d'um planta | d'uma planta |
-| #pág. 25 | n'eses | n'esse |
-| #pág. 64 | dehruçando-se | debruçando-se |
-| #pág. 71 | mesmo olhos | mesmos olhos |
-| #pág. 82 | o o que | o que |
-| #pág. 151 | appproximava | approximava |
-| #pág. 220 | ningnem | ninguem |
-| #pág. 222 | pararello | paralello |
-| #pág. 290 | quas? | quasi |
-| #pág. 326 | pohre | pobre |
-| #pág. 345 | extraordinrio | extraordinario |
-| #pág. 416 | luvar | luvas |
-| #pág. 423 | hespanhla | hespanhola |
-| #pág. 428 | o os deus | e os seus |
-| | | |
-| Vol II. | | |
-| | | |
-| #pág. 84 | ?uvas | luvas |
-| #pág. 276 | o o monoculo | o monoculo |
-| #pág. 324 | a? suissas | as suissas |
-| #pág. 343 | n'um voz | n'uma voz |
-| #pág. 432 | moresse | morresse |
-| #pág. 456 | Celerico | Celorico |
-| #pág. 475 | n'um longa | n'uma longa |
-+-----------+-------------------------+---------------------------+
-
-As variações de vôvô (vôvo ou vovô) foram mantidas de acordo com o
-original. As variações de nomes próprios foram mantidas de acordo
-com o original.
-
-No original estão presentes dois capítulos VII (no volume I),
-rectificados nesta versão.
-
-No volume II verificamos que se passa do capítulo IV para o VII e
-a numeração dos capítulos fica alterada a partir desse momento.
-Uma vez que não há páginas em falta, rectificámos nesta versão.
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Os Maias, by José Maria Eça de Queirós
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MAIAS ***
-
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