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You may copy it, give it away or -re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included -with this eBook or online at www.gutenberg.org - - -Title: Os Maias - episodios da vida romantica - -Author: José Maria Eça de Queirós - -Release Date: October 16, 2012 [EBook #40409] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: ISO-8859-1 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MAIAS *** - - - - -Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões, -Graça Horta and the Online Distributed Proofreading Team -at http://www.pgdp.net (This file was produced from images -generously made available by National Library of Portugal -(Biblioteca Nacional de Portugal) and Biblioteca Dulce -Ferrão -- Biblioteca-Museu República e Resistência.) - - - - - - *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste - texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso - de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final - deste livro encontrará a lista de erros corrigidos. - - Na versão original, esta obra é uma compilação de dois volumes, com - capítulos e paginação independentes, publicadas numa só obra. - Respeitando o original, compilámos num só ficheiro ambas as partes: - - Primeiro Volume - - Segundo Volume - - - Rita Farinha (Agosto 2012) - - - - -Porto: Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 70 - - - - - -EÇA DE QUEIROZ - -OS MAIAS - -EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA - -VOLUME I - -PORTO - - -Livraria Internacional de Ernesto Chardron -CASA EDITORA -LUGAN & GENELIOUX, Successores - - -1888 - -Todos os direitos reservados - - - - -OBRAS DO MESMO AUCTOR - - - O Crime do Padre Amaro, edição inteiramente refundida, recomposta, - e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso vol. - 1$200 - - O Primo Bazilio. 3.^a edição. 1 grosso vol. 1$000 - - O Mandarim. 2.^a edição. 1 vol. 500 - - A Reliquia. 1 grosso vol. 1$000 - - - - -OS MAIAS - -VOLUME I - - - - -OS MAIAS - - - - -I - - -A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era -conhecida na visinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o -bairro das Janellas Verdes, pela _casa do Ramalhete_ ou simplesmente o -_Ramalhete_. Apesar d'este fresco nome de vivenda campestre, o -_Ramalhete_, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de -estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma timida -fila de janellinhas abrigadas á beira do telhado, tinha o aspecto -tristonho de Residencia Ecclesiastica que competia a uma edificação do -reinado da sr.^a D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo -assimilhar-se-hia a um Collegio de Jesuitas. O nome de Ramalhete -provinha de certo d'um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel -no logar heraldico do Escudo d'Armas, que nunca chegara a ser collocado, -e representando um grande ramo de girasoes atado por uma fita onde se -distinguiam letras e numeros d'uma data. - -Longos annos o Ramalhete permanecera deshabitado, com teias d'aranha -pelas grades dos postigos terreos, e cobrindo-se de tons de ruina. Em -1858 Monsenhor Buccarini, Nuncio de S. Santidade, visitara-o com idéa -d'installar lá a Nunciatura, seduzido pela gravidade clerical do -edificio e pela paz dormente do bairro: e o interior do casarão -agradara-lhe tambem, com a sua disposição apalaçada, os tectos -apainelados, as paredes cobertas de _frescos_ onde já desmaiavam as -rosas das grinaldas e as faces dos Cupidinhos. Mas Monsenhor, com os -seus habitos de rico prelado romano, necessitava na sua vivenda os -arvoredos e as agoas d'um jardim de luxo: e o Ramalhete possuia apenas, -ao fundo d'um terraço de tijolo, um pobre quintal inculto, abandonado ás -hervas bravas, com um cypreste, um cedro, uma cascatasinha secca, um -tanque entulhado, e uma estatua de marmore (onde Monsenhor reconheceu -logo Venus Citherêa) ennegrecendo a um canto na lenta humidade das -ramagens silvestres. Além d'isso, a renda que pedio o velho Villaça, -procurador dos Maias, pareceu tão exagerada a Monsenhor, que lhe -perguntou sorrindo se ainda julgava a Egreja nos tempos de Leão X. -Villaça respondeu--que tambem a nobreza não estava nos tempos do sr. D. -João V. E o Ramalhete continuou deshabitado. - -Este inutil pardieiro (como lhe chamava Villaça Junior, agora por morte -de seu pae administrador dos Maias) só veio a servir, nos fins de 1870, -para lá se arrecadaram as mobilias e as louças provenientes do palacete -de familia em Bemfica, morada quasi historica, que, depois de andar -annos em praça, fôra então comprada por um commendador brazileiro. -N'essa occasião vendera-se outra propriedade dos Maias, a _Tojeira_; e -algumas raras pessoas que em Lisboa ainda se lembravam dos Maias, e -sabiam que desde a Regeneração elles viviam retirados na sua quinta de -Santa Olavia, nas margens do Douro, tinham perguntado a Villaça se essa -gente estava atrapalhada. - ---Ainda teem um pedaço de pão, disse Villaça sorrindo, e a manteiga para -lhe barrar por cima. - -Os Maias eram uma antiga familia da Beira, sempre pouco numerosa, sem -linhas collateraes, sem parentellas--e agora reduzida a dois varões, o -senhor da casa, Affonso da Maia, um velho já, quasi um antepassado, mais -edoso que o seculo, e seu neto Carlos que estudava medicina em Coimbra. -Quando Affonso se retirara definitivamente para Santa Olavia, o -rendimento da casa excedia já cincoenta mil cruzados: mas desde então -tinham-se accumulado as economias de vinte annos de aldêa; viera tambem -a herança d'um ultimo parente, Sebastião da Maia, que desde 1830 vivia -em Napoles, só, occupando-se de numismatica;--e o procurador podia -certamente sorrir com segurança quando fallava dos Maias e da sua fatia -de pão. - -A venda da _Tojeira_ fôra realmente aconselhada por Villaça: mas nunca -elle approvara que Affonso se desfizesse de Bemfica--só pela rasão -d'aquelles muros terem visto tantos desgostos domesticos. Isso, como -dizia Villaça, acontecia a todos os muros. O resultado era que os Maias, -com o Ramalhete inhabitavel, não possuiam agora uma casa em Lisboa; e se -Affonso n'aquella edade amava o socego de Santa Olavia, seu neto, rapaz -de gosto e de luxo que passava as ferias em Paris e Londres, não -quereria, depois de formado, ir sepultar-se nos penhascos do Douro. E -com effeito, mezes antes de elle deixar Coimbra, Affonso assombrou -Villaça annunciando-lhe que decidira vir habitar o Ramalhete! O -procurador compoz logo um relatorio a enumerar os inconvenientes do -casarão: o maior era necessitar tantas obras e tantas despezas; depois, -a falta d'um jardim devia ser muito sensivel a quem sahia dos arvoredos -de Santa Olavia; e por fim alludia mesmo a uma lenda, segundo a qual -eram sempre fataes aos Maias as paredes do Ramalhete, «ainda que -(acrescentava elle n'uma phrase meditada) até me envergonho de mencionar -taes frioleiras n'este seculo de Voltaire, Guisot e outros philosophos -liberaes...» - -Affonso riu muito da phrase, e respondeu que aquellas razões eram -excellentes--mas elle desejava habitar sob tectos tradiccionalmente -seus; se eram necessarias obras, que se fizessem e largamente; e -emquanto a lendas e agoiros, bastaria abrir de par em par as janellas e -deixar entrar o sol. - -S. ex.^a mandava:--e, como esse inverno ia secco, as obras começaram -logo, sob a direcção d'um Esteves, architecto, politico, e compadre de -Villaça. Este artista enthusiasmára o procurador com um projecto de -escada apparatosa, flanqueada por duas figuras symbolisando as -conquistas da Guiné e da India. E estava ideando tambem uma cascata de -louça na sala de jantar--quando, inesperadamente, Carlos appareceu em -Lisboa com um architecto-decorador de Londres, e, depois de estudar com -elle á pressa algumas ornamentações e alguns tons de estofos, -entregou-lhe as quatro paredes do Ramalhete, para elle ali crear, -exercendo o seu gosto, um interior confortavel, de luxo intelligente e -sobrio. - -Villaça resentiu amargamente esta desconsideração pelo artista nacional; -Esteves foi berrar ao seu Centro politico que isto era um paiz perdido. -E Affonso lamentou tambem que se tivesse despedido o Esteves, exigiu -mesmo que o encarregassem da construcção das cocheiras. O artista ia -acceitar--quando foi nomeado governador civil. - -Ao fim d'um anno, durante o qual Carlos viera frequentemente a Lisboa -collaborar nos trabalhos, «dar os seus retoques estheticos»--do antigo -Ramalhete só restava a fachada tristonha, que Affonso não quizera -alterada por constituir a phisionomia da casa. E Villaça não duvidou -declarar que Jones Bule (como elle chamava ao inglez) sem despender -despropositadamente, aproveitando até as antigualhas de Bemfica, fizera -do Ramalhete «um museu.» - -O que surprehendia logo era o pateo, outr'ora tão lobrego, nú, lageado -de pedregulho--agora resplandecente, com um pavimento quadrilhado de -marmores brancos e vermelhos, plantas decorativas, vazos de Quimper, e -dois longos bancos feudaes que Carlos trouxera de Hespanha, trabalhados -em talha, solemnes como córos de cathedral. Em cima, na antecamara, -revestida como uma tenda de estofos do Oriente, todo o rumor de passos -morria: e ornavam-n'a divans cobertos de tapetes persas, largos pratos -mouriscos com reflexos metalicos de cobre, uma harmonia de tons severos, -onde destacava, na brancura immaculada do marmore, uma figura de -rapariga friorenta, arripiando-se, rindo, ao metter o pésinho n'agoa. -D'ahi partia um amplo corredor, ornado com as peças ricas de Bemfica, -arcas gothicas, jarrões da India, e antigos quadros devotos. As melhores -salas do Ramalhete abriam para essa galeria. No salão nobre, raramente -usado, todo em brocados de velludo côr de musgo d'outono, havia uma -bella téla de Constable, o retrato da sogra de Affonso, a condessa de -Runa, de tricorne de plumas e vestido escarlate de caçadora ingleza, -sobre um fundo de paisagem enevoada. Uma sala mais pequena, ao lado, -onde se fazia musica, tinha um ar de seculo XVIII com seus moveis -enramelhetados d'ouro, as suas sedas de ramagens brilhantes: duas -tapeçarias de Gobelins, desmaiadas, em tons cinzentos, cobriam as -paredes de pastores e d'arvoredos. - -Defronte era o bilhar, forrado d'um couro moderno trazido por Jones -Bule, onde, por entre a desordem de ramagens verde-garrafa, esvoaçavam -cegonhas prateadas. E, ao lado, achava-se o _fumoir_, a sala mais -commoda do Ramalhete: as ottomanas tinham a fôfa vastidão de leitos; e o -conchego quente, e um pouco sombrio dos estofos escarlates e pretos era -alegrado pelas cores cantantes de velhas faienças hollandezas. - -Ao fundo do corredor ficava o escriptorio de Affonso, revestido de -damascos vermelhos como uma velha camara de prelado. A macissa meza de -pau preto, as estantes baixas de carvalho lavrado, o solemne luxo das -encadernações, tudo tinha ali uma feição austera de paz -estudiosa--realçada ainda por um quadro attribuido a Rubens, antiga -reliquia da casa, um Christo na Cruz, destacando a sua nudez de athleta -sobre um ceu de poente revolto e rubro. Ao lado do fogão Carlos -arranjara um canto para o avô com um biombo japonez bordado a ouro, uma -pelle d'urso branco, e uma veneravel cadeira de braços, cuja tapeçaria -mostrava ainda as armas dos Maias no desmaio da trama de sêda. - -No corredor do segundo andar, guarnecido com retratos de familia, -estavam os quartos de Affonso. Carlos despozera os seus, n'um angulo da -casa, com uma entrada particular, e janellas sobre o jardim: eram tres -gabinetes a seguir, sem portas, unidos pelo mesmo tapete: e, os recostos -acolchoados, a sêda que forrava as paredes, faziam dizer ao Villaça que -aquillo não eram aposentos de medico--mas de dançarina! - -A casa, depois de arranjada, ficou vazia emquanto Carlos, já formado, -fazia uma longa viagem pela Europa;--e foi só nas vesperas da sua -chegada, n'esse lindo outono de 1875, que Affonso se resolveu emfim a -deixar Santa Olavia e vir installar-se no Ramalhete. Havia vinte e cinco -annos que elle não via Lisboa; e, ao fim de alguns curtos dias, -confessou ao Villaça que estava suspirando outra vez pelas suas sombras -de Santa Olavia. Mas, que remedio! Não queria viver muito separado do -neto; e Carlos agora, com idéas sérias de carreira activa, devia -necessariamente habitar Lisboa... De resto, não desgostava do Ramalhete, -apezar de Carlos, com o seu fervor pelo luxo dos climas frios, ter -prodigalisado de mais as tapeçarias, os pesados reposteiros, e os -velludos. Agradava-lhe tambem muito a visinhança, aquella dôce quietação -de suburbio adormecido ao sol. E gostava até do seu quintalejo. Não era -de certo o jardim de Santa Olavia: mas tinha o ar sympathico, com os -seus girasoes perfilados ao pé dos degraus do terraço, o cypreste e o -cedro envelhecendo juntos como dois amigos tristes, e a Venus Cytherêa -parecendo agora, no seu tom claro de estatua de parque, ter chegado de -Versalhes, do fundo do grande seculo... E desde que a agoa abundava, a -cascatasinha era deliciosa, dentro do nicho de conchas, com os seus tres -pedregulhos arranjados em despenhadeiro bucolico, melancolisando aquelle -fundo de quintal soalheiro com um pranto de nayade domestica, esfiado -gota a gota na bacia de marmore. - -O que desconsolara Affonso, ao principio, fôra a vista do -terraço--d'onde outr'ora, de certo, se abrangia até ao mar. Mas as casas -edificadas em redor, nos ultimos annos, tinham tapado esse horizonte -explendido. Agora, uma estreita tira de agoa e monte que se avistava -entre dois predios de cinco andares, separados por um córte de rua, -formava toda a paizagem defronte do Ramalhete. E, todavia, Affonso -terminou por lhe descobrir um encanto intimo. Era como uma téla marinha, -encaixilhada em cantarias brancas, suspensa do céu azul em face do -terraço, mostrando, nas variedades infinitas de côr e luz, os episodios -fugitivos d'uma pacata vida de rio: ás vezes uma véla de barco da -Trafaria fugindo airosamente á bolina; outras vezes uma galera toda em -panno, entrando n'um favor da aragem, vagarosa, no vermelho da tarde; ou -então a melancolia d'um grande paquete, descendo, fechado e preparado -para a vaga, entrevisto um momento, desapparecendo logo, como já -devorado pelo mar incerto; ou ainda durante dias, no pó d'ouro das -sestas silenciosas, o vulto negro de um couraçado inglez... E sempre ao -fundo o pedaço de monte verde-negro, com um moinho parado no alto, e -duas casas brancas ao rez d'agoa, cheias de expressão--ora faiscantes e -despedindo raios das vidraças accezas em braza; ora tomando aos fins de -tarde um ar pensativo, cobertas dos rosados tenros de poente, quasi -similhantes a um rubor humano; e d'uma tristeza arripiada nos dias de -chuva, tão sós, tão brancas, como nuas, sob o tempo agreste. - -O terraço communicava por tres portas envidraçadas com o escriptorio--e -foi n'essa bella camara de prelado que Affonso se acostumou logo a -passar os seus dias, no recanto aconchegado que o neto lhe preparara -ternamente, ao lado do fogão. A sua longa residencia em Inglaterra -dera-lhe o amor dos suaves vagares junto do lume. Em Santa Olavia as -chaminés ficavam accezas até Abril; depois ornavam-se de braçadas de -flôres, como um altar domestico; e era ainda ahi, n'esse aroma e n'essa -frescura, que elle gozava melhor o seu cachimbo, o seu Tacito, ou o seu -querido Rabelais. - -Todavia, Affonso ainda ia longe, como elle dizia, de ser um velho -borralheiro. N'aquella edade, de verão ou de inverno, ao romper do sol, -estava a pé, sahindo logo para a quinta, depois da sua boa oração da -manhã que era um grande mergulho na agoa fria. Sempre tivera o amor -supersticioso da agoa; e costumava dizer que nada havia melhor para o -homem--que sabor d'agoa, som d'agoa, e vista d'agoa. O que o prendera -mais a Santa Olavia fôra a sua grande riqueza d'agoas vivas, nascentes, -repuxos, tranquillo espelhar d'agoas paradas, fresco murmurio de agoas -regantes... E a esta viva tonificação da agoa attribuia elle o ter vindo -assim, desde o começo do seculo, sem uma dôr e sem uma doença, mantendo -a rica tradição de saude da sua familia, duro, resistente aos desgostos -e annos--que passavam por elle, tão em vão, como passavam em vão, pelos -seus robles de Santa Olavia, annos e vendavaes. - -Affonso era um pouco baixo, macisso, de hombros quadrados e fortes: e -com a sua face larga de nariz aquilino, a pelle córada, quasi vermelha, -o cabello branco todo cortado á escovinha, e a barba de neve aguda e -longa--lembrava, como dizia Carlos, um varão esforçado das edades -heroicas, um D. Duarte de Menezes ou um Affonso d'Albuquerque. E isto -fazia sorrir o velho, recordar ao neto, gracejando, quanto as -apparencias illudem! - -Não, não era Menezes, nem Albuquerque; apenas um antepassado bonacheirão -que amava os seus livros, o conchego da sua poltrona, o seu _whist_ ao -canto do fogão. Elle mesmo costumava dizer, que era simplesmente um -egoista:--mas nunca, como agora na velhice, as generosidades do seu -coração tinham sido tão profundas e largas. Parte do seu rendimento -ia-se-lhe por entre os dedos, esparsamente, n'uma caridade enternecida. -Cada vez amava mais o que é pobre e o que é fraco. Em Santa Olavia, as -creanças corriam para elle, dos portaes, sentindo-o acariciador e -paciente. Tudo o que vive lhe merecia amor:--e era dos que não pisam um -formigueiro, e se compadece da sêde d'uma planta. - -Villaça costumava dizer que lhe lembrava sempre o que se conta dos -patriarchas, quando o vinha encontrar ao canto da chaminé, na sua coçada -quinzena de velludilho, sereno, risonho, com um livro na mão, o seu -velho gato aos pés. Este pesado e enorme angorá, branco com malhas -louras, era agora (desde a morte de _Tobias_, o soberbo cão de S. -Bernardo) o fiel companheiro de Affonso. Tinha nascido em Santa Olavia, -e recebera então o nome de Bonifacio: depois, ao chegar á edade do amor -e da caça, fora-lhe dado o appellido mais cavalheiresco de D. Bonifacio -de Calatrava: agora, dorminhoco e obeso, entrara definitivamente no -remanso das dignidades ecclesiasticas, e era o Reverendo Bonifacio... - - -Esta existencia nem sempre assim correra com a tranquillidade larga e -clara d'um bello rio de verão. O antepassado, cujos olhos se enchiam -agora d'uma luz de ternura diante das suas rosas, e que ao canto do lume -relia com gosto o seu Guisot, fôra, na opinião de seu pae, algum tempo, -o mais feroz Jacobino de Portugal! E todavia, o furor revolucionario do -pobre moço consistira em lêr Rousseau, Volney, Helvetius, e a -Encyclopedia; em atirar foguetes de lagrimas á Constituição; e ir, de -chapeu á liberal e alta gravata azul, recitando pelas lojas maçonicas -Odes abominaveis ao Supremo Architecto do Universo. Isto, porém, bastára -para indignar o pae. Caetano da Maia era um portuguez antigo e fiel que -se benzia ao nome de Robespierre, e que, na sua apathia de fidalgo beato -e doente, tinha só um sentimento vivo--o horror, o odio ao Jacobino, -aquem attribuia todos os males, os da patria e os seus, desde a perda -das colonias até ás crises da sua gota. Para extirpar da nação o -Jacobino, déra elle o seu amor ao sr. infante D. Miguel, Messias forte e -Restaurador providencial... E ter justamente por filho um Jacobino, -parecia-lhe uma provação comparavel só ás de Job! - -Ao principio, na esperança que o menino se emendasse, contentou-se em -lhe mostrar um carão severo e chamar-lhe com sarcasmo--_cidadão_! Mas -quando soube que seu filho, o seu herdeiro, se misturara á turba que, -n'uma noite de festa civica e de luminarias, tinha apedrejado as -vidraças apagadas do sr. Legado d'Áustria, enviado da Santa -Alliança--considerou o rapaz um Marat e toda a sua colera rompeu. A gota -cruel, cravando-o na poltrona, não lhe deixou espancar o mação, com a -sua bengala da India, á lei de bom pae portuguez: mas decidiu expulsal-o -de sua casa, sem mezada e sem benção, renegado como um bastardo! Que -aquelle pedreiro livre não podia ser do seu sangue! - -As lagrimas da mamã amolleceram-n'o; sobretudo as razões d'uma cunhada -de sua mulher, que vivia com elles em Bemfica, senhora irlandeza de alta -instrucção, Minerva respeitada e tutelar, que ensinara inglez ao menino -e o adorava como um bébé. Caetano da Maia limitou-se a desterrar o filho -para a quinta de Santa Olavia; mas não cessou de chorar no seio dos -padres, que vinham a Bemfica, a desgraça da sua casa. E esses santos lá -o consolavam, affirmando-lhe que Deus, o velho Deus d'Ourique, não -permittiria jámais que um Maia pactuasse com Belzebut e com a Revolução! -E, á falta de Deus Padre, lá estava Nossa Senhora da Soledade, padroeira -da casa e madrinha do menino, para fazer o bom milagre. - -E o milagre fez-se. Mezes depois, o Jacobino, o Marat, voltava de Santa -Olavia um pouco contricto, enfastiado sobretudo d'aquella solidão, onde -os chás do brigadeiro Senna eram ainda mais tristes que o terço das -primas Cunhas. Vinha pedir ao pae a benção, e alguns mil cruzados, para -ir a Inglaterra, esse paiz de vivos prados e de cabellos d'ouro de que -lhe fallara tanto a tia Fanny. O pae beijou-o, todo em lagrimas, accedeu -a tudo fervorosamente, vendo ali a evidente, a gloriosa intercessão de -Nossa Senhora da Soledade! E o mesmo Frei Jeronymo da Conceição seu -confessor, declarou este milagre--não inferior ao de Carnaxide. - -Affonso partiu. Era na primavera--e a Inglaterra toda verde, os seus -parques de luxo, os copiosos confortos, a harmonia penetrante dos seus -nobres costumes, aquella raça tão séria e tão forte--encantaram-n'o. Bem -depressa esqueceu o seu odio aos sorumbaticos padres da Congregação, as -horas ardentes passadas no café dos Romulares a recitar Mirabeau, e a -Republica que quizera fundar, classica e voltarianna, com um triumvirato -de Scipiões e festas ao Ente Supremo. Durante os dias da _Abrilada_ -estava elle nas corridas d'Epsom, no alto d'uma sege de posta, com um -grande nariz postiço, dando _hurrahs_ medonhos--bem indifferente aos -seus irmãos de Maçonaria, que a essas horas o sr. infante espicaçava a -chuço, pelas viellas do Bairro Alto, no seu rijo cavallo d'Alter. - -Seu pae morreu de subito, elle teve de regressar a Lisboa. Foi então que -conheceu D. Maria Eduarda Runa, filha do conde de Runa, uma linda -morena, mimosa e um pouco adoentada. Ao fim do luto casou com ella. Teve -um filho, desejou outros; e começou logo, com bellas idéas de patriarcha -moço, a fazer obras no palacete de Bemfica, a plantar em redor -arvoredos, preparando tectos e sombras á descendencia amada que lhe -encantaria a velhice. - -Mas não esquecia a Inglaterra:--e tornava-lh'a mais appetecida essa -Lisboa miguelista que elle via, desordenada como uma Tunis barbaresca; -essa rude conjuração apostolica de frades e bolieiros, atroando tavernas -e capellas; essa plebe beata, suja e feroz, rolando do _lausperenne_ -para o curro, e anciando tumultuosamente pelo principe que lhe encarnava -tão bem os vicios e as paixões... - -Este espectaculo indignava Affonso da Maia; e muitas vezes, na paz do -serão, entre amigos, com o pequeno nos joelhos, exprimiu a indignação da -sua alma honesta. Já não exigia de certo, como em rapaz, uma Lisboa de -Catões e de Mucios-Scevolas. Já admittia mesmo o esforço d'uma nobreza -para manter o seu privilegio historico; mas então queria uma nobreza -intelligente e digna, como a Aristocracia tory (que o seu amor pela -Inglaterra lhe fazia idealisar), dando em tudo a direcção moral, -formando os costumes e inspirando a litteratura, vivendo com fausto e -fallando com gosto, exemplo de idéas altas e espelho de maneiras -patricias... O que não tolerava era o mundo de Queluz, bestial e -sordido. - -Taes palavras, apenas soltas, voavam a Queluz. E quando se reuniram as -côrtes geraes, a policia invadiu Bemfica, «a procurar papeis e armas -escondidas.» - -Affonso da Maia, com o seu filho nos braços e a mulher tremendo ao -lado--viu, impassivelmente e sem uma palavra, a busca, as gavetas -arrombadas pela coronha das escopetas, as mãos sujas do malsim -rebuscando os colxões do seu leito. O sr. juiz de fóra não descobriu -nada: acceitou mesmo na copa um calice de vinho, e confessou ao mordomo -«que os tempos iam bem duros...» Desde essa manhã as janellas do -palacete conservaram-se cerradas; não se abriu mais o portão nobre para -sahir o coche da senhora; e d'ahi a semanas, com a mulher e com o filho, -Affonso da Maia partia para Inglaterra e para o exilio. - -Ahi installou-se, com luxo, para uma longa demora, nos arredores de -Londres, junto a Richmond, ao fundo d'um parque, entre as suaves e -calmas paisagens de Surrey. - -Os seus bens, graças ao credito do conde de Runa, antigo mimoso de D. -Carlota Joaquina, hoje conselheiro rispido do sr. D. Miguel, não tinham -sido confiscados; e Affonso da Maia podia viver largamente. - -Ao principio os emigrados liberaes, Palmella e a gente do _Belfast_, -ainda o vieram desassocegar e consumir. A sua alma recta não tardou a -protestar vendo a separação de castas, de gerarchias, mantidas ali na -terra estranha entre os vencidos da mesma idéa--os fidalgos e os -desembargadores vivendo no luxo de Londres á forra, e a plebe, o -exercito, depois dos padecimentos da Galliza, succumbindo agora á fome, -á vermina, á febre nos barracões de Plymouth. Teve logo conflictos com -os chefes liberaes; foi accusado de vintista e demagogo; descreu por fim -do liberalismo. Isolou-se então--sem fechar todavia a sua bolsa, d'onde -sahiam ás cincoenta, ás cem moedas... Mas quando a primeira expedição -partiu, e pouco a pouco se foram vasando os depositos de emigrados, -respirou emfim--e, como elle disse, pela primeira vez lhe soube bem o ar -d'Inglaterra! - -Mezes depois sua mãe, que ficara em Bemfica, morria d'uma apoplexia: e a -tia Fanny veiu para Richmond completar a felicidade d'Affonso, com o seu -claro juizo, os seus caracóes brancos, os seus modos de discreta -Minerva. Alli estava elle pois no seu sonho, n'uma digna residencia -ingleza, entre arvores seculares, vendo em redor nas vastas relvas -dormirem ou pastarem os gados de luxo, e sentindo em torno de si tudo -são, forte, livre e solido,--como o amava o seu coração. - -Teve relações; estudou a nobre e rica litteratura ingleza; -interessou-se, como convinha a um fidalgo em Inglaterra, pela cultura, -pela cria dos cavallos, pela pratica da caridade;--e pensava com prazer -em ficar ali para sempre n'aquella paz e n'aquella ordem. - -Sómente Affonso sentia que sua mulher não era feliz. Pensativa e triste, -tossia sempre pelas salas. Á noite sentava-se ao fogão, suspirava e -ficava calada... - -Pobre senhora! a nostalgia do paiz, da parentella, das egrejas, ia-a -minando. Verdadeira lisboeta, pequenina e trigueira, sem se queixar e -sorrindo pallidamente, tinha vivido desde que chegara n'um odio surdo -áquella terra d'herejes e ao seu idioma barbaro: sempre arripiada, -abafada em pelles, olhando com pavor os ceus fuscos ou a neve nas -arvores, o seu coração não estivera nunca alli, mas longe, em Lisboa, -nos adros, nos bairros batidos do sol. A sua devoção (a devoção dos -Runas!) sempre grande, exaltara-se, exacerbara-se áquella hostilidade -ambiente que ella sentia em redor contra os «papistas». E só se -satisfazia á noite, indo refugiar-se no sotão com as creadas -portuguezas, para resar o _terço_ agachada n'uma esteira--gosando ali, -n'esse murmurio _d'ave-marias_ em paiz protestante, o encanto de uma -conjuração catholica! - -Odiando tudo o que era inglez, não consentira que seu filho, o Pedrinho, -fosse estudar ao collegio de Richmond. Debalde Affonso lhe provou que -era um collegio catholico. Não queria: aquelle catholicismo sem -romarias, sem fogueiras pelo S. João, sem imagens do Senhor dos Passos, -sem frades nas ruas--não lhe parecia a religião. A alma do seu Pedrinho -não abandonaria ella á heresia;--e para o educar mandou vir de Lisboa o -padre Vasques, capellão do Conde de Runa. - -O Vasques ensinava-lhe as declinações latinas, sobretudo a cartilha: e a -face d'Affonso da Maia cobria-se de tristeza, quando ao voltar d'alguma -caçada ou das ruas de Londres, d'entre o forte rumor da vida -livre--ouvia no quarto dos estudos a voz dormente do reverendo, -perguntando como do fundo d'uma treva: - ---Quantos são os inimigos da alma? - -E o pequeno, mais dormente, lá ia murmurando: - ---Tres. Mundo, Diabo e Carne... - -Pobre Pedrinho! Inimigo da sua alma só havia alli o reverendo Vasques, -obeso e sordido, arrotando do fundo da sua poltrona, com o lenço do rapé -sobre o joelho... - -Ás vezes Affonso, indignado, vinha ao quarto, interrompia a doutrina, -agarrava a mão do Pedrinho--para o levar, correr com elle sob as arvores -do Tamisa, dissipar-lhe na grande luz do rio o pesadume crasso da -cartilha. Mas a mamã accudia de dentro, em terror, a abafal-o n'uma -grande manta: depois lá fóra o menino, acostumado ao collo das creadas e -aos recantos estofados, tinha medo do vento e das arvores: e pouco a -pouco, n'um passo desconsolado, os dois iam pisando em silencio as -folhas seccas--o filho todo acobardado das sombras do bosque vivo, o pae -vergando os hombros pensativo, triste d'aquella fraqueza do filho... - -Mas o menor esforço d'elle para arrancar o rapaz áquelles braços de mãe -que o amolleciam, áquella cartilha mortal do padre Vasques--trazia logo -á delicada senhora accessos de febre. E Affonso não se atrevia já a -contrariar a pobre doente, tão virtuosa, e que o amava tanto! Ia então -lamentar-se para o pé da tia Fanny: a sabia irlandeza mettia os oculos -entre as folhas do seu livro, tratado d'Addisson ou poema de Pope, e -encolhia melancolicamente os hombros. Que podia ella fazer!... - -Por fim a tosse de Maria Eduarda foi augmentando--como a tristeza das -suas palavras. Já fallava da «sua ambição derradeira», que era ver o sol -uma vez mais! Por que não voltariam a Bemfica, ao seu lar, agora que o -sr. Infante estava tambem desterrado e que havia uma grande paz? Mas a -isso Affonso não cedeu: não queria ver outra vez as suas gavetas -arrombadas a coronhadas--e os soldados do sr. D. Pedro não lhe davam -mais garantias que os malsins do sr. D. Miguel. - -Por esse tempo veio um grave desgosto á casa: a tia Fanny morreu, d'uma -pneumonia, nos frios de março; e isto ennegreceu mais a melancolia de -Maria Eduarda, que a amava muito tambem--por ser irlandeza e catholica. - -Para a distrahir, Affonso levou-a para a Italia, para uma deliciosa -_villa_ ao pé de Roma. Ahi não lhe faltava o sol: tinha-o ponctual e -generoso todas as manhãs, banhando largamente os terraços, dourando -loureiraes e myrtos. E depois, lá em baixo, entre marmores, estava a -coisa preciosa e santa, o Papa! - -Mas a triste senhora continuava a choramigar. O que realmente appetecia -era Lisboa, as suas novenas, os santos devotos do seu bairro, as -procissões passando n'um rumor de pachorrenta penitencia por tardes de -sol e de poeira... - -Foi necessario calmal-a, voltar a Bemfica. - -Ahi começou uma vida desconsolada. Maria Eduarda definhava lentamente, -todos os dias mais pallida, levando semanas immovel sobre um canapé, com -as mãos transparentes cruzadas sobre as suas grossas pelles -d'Inglaterra. O padre Vasques, apoderando-se d'aquella alma aterrada -para quem Deus era um amo feroz, tornára-se o grande homem da casa. De -resto Affonso encontrava a cada momento pelos corredores outras figuras -canonicas, de capote e solideo, em que reconhecia antigos franciscanos, -ou algum magro capuchinho parasitando no bairro; a casa tinha um bafio -de sachristia; e dos quartos da senhora vinha constantemente, dolente e -vago, um rumor de ladainha. - -Todos aquelles santos varões comiam, bebiam o seu vinho do Porto na -copa. As contas do administrador appareciam sobrecarregadas com as -mesadas piedosas que dava a senhora: um Frei Patricio surripiára-lhe -duzentas missas de cruzado por alma do Sr. D. José I... - -Esta carolice que o cercava ia lançando Affonso n'um atheismo rancoroso: -quereria as egrejas fechadas como os mosteiros, as imagens escavacadas a -machado, uma matança de reverendos... Quando sentia na casa a voz de -resas, fugia, ia para o fundo da quinta, sob as trepadeiras do mirante, -ler o seu Voltaire: ou então partia a desabafar com o seu velho amigo, o -coronel Sequeira, que vivia n'uma quinta a Queluz. - -O Pedrinho no entanto estava quasi um homem. Ficara pequenino e nervoso -como Maria Eduarda, tendo pouco da raça, da força dos Maias; a sua linda -face oval d'um trigueiro calido, dois olhos maravilhosos e -irresistiveis; promptos sempre a humedecer-se, faziam-n'o assemelhar a -um bello arabe. Desenvolvera-se lentamente, sem curiosidades, -indifferente a brinquedos, a animaes, a flores, a livros. Nenhum desejo -forte parecera jámais vibrar n'aquella alma meia adormecida e passiva: -só ás vezes dizia que gostaria muito de voltar para a Italia. Tomára -birra ao Padre Vasques, mas não ousava desobedecer-lhe. Era em tudo um -fraco; e esse abatimento continuo de todo o seu ser resolvia-se a -espaços em crises de melancolia negra, que o traziam dias e dias mudo, -murcho, amarello, com as olheiras fundas e já velho. O seu unico -sentimento vivo, intenso, até ahi, fôra a paixão pela mãe. - -Affonso quizera-o mandar para Coimbra. Mas, á idéa de se separar do seu -Pedro, a pobre senhora cahira de joelhos deante d'Affonso, balbuciando e -tremendo: e elle, naturalmente, lá cedeu perante essas mãos -supplicantes, essas lagrimas que cahiam quatro a quatro pela pobre face -de cera. O menino continuou em Bemfica dando os seus lentos passeios a -cavallo, de creado de farda atraz, começando já a ir beber a sua genebra -aos botequins de Lisboa... Depois foi despontando n'aquella organisação -uma grande tendencia amorosa: aos dezenove annos teve o seu -bastardosinho. - -Affonso da Maia consolava-se pensando que, apesar de tão desgraçados -mimos, não faltavam ao rapaz qualidades: era muito esperto, são, e, como -todos os Maias, valente: não havia muito que elle só, com um chicote, -dispersara na estrada tres saloios de varapau que lhe tinham chamado -_palmito_. - -Quando a mãe morreu, n'uma agonia terrivel de devota, debatendo-se dias -nos pavores do inferno, Pedro teve na sua dôr os arrebatamentos d'uma -loucura. Fizera a promessa hysterica, se ella escapasse, de dormir -durante um anno sobre as lageas do pateo: e levado o caixão, sahidos os -padres, cahio n'uma angustia soturna, obtusa, sem lagrimas, de que não -queria emergir, estirado de bruços sobre a cama n'uma obstinação de -penitente. Muitos mezes ainda não o deixou uma tristeza vaga: e Affonso -da Maia já se desesperava de ver aquelle rapaz, seu filho e seu -herdeiro, sahir todos os dias a passos de monge, lugubre no seu luto -pesado, para ir visitar a sepultura da mamã... - -Esta dôr exagerada e morbida cessou por fim; e succedeu-lhe, quasi sem -transição, um periodo de vida dissipada e turbulenta, estroinice banal, -em que Pedro, levado por um romantismo torpe, procurava affogar em -lupanares e botequins as saudades da mamã. Mas essa exhuberancia anciosa -que se desencadeara tão subitamente, tão tumultuosamente, na sua -natureza desequilibrada, gastou-se depressa tambem. - -Ao fim d'um anno de disturbios no Marrare, de façanhas nas esperas de -toiros, de cavallos esfalfados, de pateadas em S. Carlos, começaram a -reapparecer as antigas crises de melancolia nervosa; voltavam esses dias -taciturnos, longos como desertos, passados em casa a bocejar pelas -salas, ou sob alguma arvore da quinta todo estirado de bruços, como -despenhado n'um fundo de amargura. N'esses periodos tornava-se tambem -devoto: lia Vidas de Santos, visitava o Lausperenne: eram d'esses -bruscos abatimentos d'alma que outr'ora levavam os fracos aos mosteiros. - -Isto penalisava Affonso da Maia: preferia saber que elle recolhera de -Lisboa, de madrugada, exhausto e bebedo,--do que vel-o, de ripanço -debaixo do braço, com um ar velho, marchando para a Egreja de Bemfica. - -E havia agora uma idéa que, a seu pesar, às vezes o torturava: -descobrira a grande parecença de Pedro com um avô de sua mulher, um -Runa, de quem existia um retrato em Bemfica: este homem extraordinario, -com que na casa se mettia medo ás creanças, enlouquecera--e julgando-se -Judas enforcara-se n'uma figueira... - -Mas um dia, excessos e crises findaram. Pedro da Maia amava! Era um amor -á Romeu, vindo de repente n'uma troca de olhares fatal e deslumbradora, -uma d'essas paixões que assaltam uma existencia, a assolam como um -furacão, arrancando a vontade, a rasão, os respeitos humanos e -empurrando-os de roldão aos abysmos. - -N'uma tarde, estando no Marrare, vira parar defronte, á porta de M.^{me} -Levaillant, uma caleche azul onde vinha um velho de chapéo branco, e uma -senhora loira, embrulhada n'um chale de Cashmira. - -O velho, baixote e reforçado, de barba muito grisalha talhada por baixo -do queixo, uma face tisnada d'antigo embarcadiço e o ar gôche, desceu -todo encostado ao trintanario como se um rheumatismo o tolhesse, entrou -arrastando a perna o portal da modista; e ella voltando de vagar a -cabeça olhou um momento o Marrare. - -Sob as rosinhas que ornavam o seu chapeu preto os cabellos loiros, d'um -oiro fulvo, ondeavam de leve sobre a testa curta e classica: os olhos -maravilhosos illuminavam-n'a toda; a friagem fazia-lhe mais pallida a -carnação de marmore: e com o seu perfil grave de estatua, o modelado -nobre dos hombros e dos braços que o chale cingia--pareceu a Pedro -n'esse instante alguma cousa d'immortal e superior á terra. - -Não a conhecia. Mas um rapaz alto, macilento, de bigodes negros, vestido -de negro, que fumava encostado á outra hombreira, n'uma _pose_ de -tedio--vendo o violento interesse de Pedro, o olhar acceso e perturbado -com que seguia a caleche trotando Chiado acima, veiu tomar-lhe o braço, -murmurou-lhe junto á face na sua voz grossa e lenta: - ---Queres que te diga o nome, meu Pedro? O nome, as origens, as datas e -os feitos principaes? E pagas ao teu amigo Alencar, ao teu sequioso -Alencar, uma garrafa de Champagne? - -Veiu o Champagne. E o Alencar, depois de passar os dedos magros pelos -anneis da cabelleira e pelas pontas do bigode, começou, todo recostado e -dando um puchão aos punhos: - ---Por uma dourada tarde d'outomno... - ---André, gritou Pedro ao creado, martellando o marmore da mesa, retira o -Champagne! - -O Alencar bradou, imitando o actor Epiphanio: - ---O quê! Sem saciar a avidez de meu labio?... - -Pois bem, o Champagne ficaria: mas o amigo Alencar, esquecendo que era o -poeta das _Vozes d'Aurora_, explicaria aquella gente da caleche azul -n'uma linguagem christã e pratica!... - ---Ahi vae, meu Pedro, ahi vae! - -Havia dois annos, justamente quando Pedro perdera a mamã, aquelle velho, -o papá Monforte, uma manhã rompera subitamente pelas ruas e pela -sociedade de Lisboa n'aquella mesma caleche com essa bella filha ao seu -lado. Ninguem os conhecia. Tinham alugado a Arroios um primeiro andar no -palacete dos Vargas; e a rapariga principiou a apparecer em S. Carlos, -fazendo uma impressão--uma impressão de causar aneurismas, dizia o -Alencar! Quando ella atravessava o salão os hombros vergavam-se no -deslumbramento de auréola que vinha d'aquella magnifica creatura, -arrastando com um passo de Deusa a sua cauda de côrte, sempre decotada -como em noites de gala, e apesar de solteira resplandecente de joias. O -papá nunca lhe dava o braço: seguia atraz, entalado n'uma grande gravata -branca de mordomo, parecendo mais tisnado e mais embarcadiço na -claridade loira que sahia da filha, encolhido e quasi apavorado, -trazendo nas mãos o oculo, o _libretto_, um saco de _bonbons_, o leque e -o seu proprio guardachuva. Mas era no camarote, quando a luz cahia sobre -o seu collo eburneo e as suas tranças de oiro, que ella offerecia -verdadeiramente a encarnação d'um ideal da Renascença, um modelo de -Ticiano... Elle, Alencar, na primeira noite em que a vira, exclamara, -mostrando-a a ella e ás outras, ás trigueirotas da assignatura: - ---Rapazes! é como um ducado de ouro novo entre velhos patacos do tempo -do Sr. D. João VI! - -O Magalhães, esse torpe pirata, pozera o dito n'um folhetim do -_Portuguez_. Mas o dito era d'elle, Alencar! - -Os rapazes, naturalmente, começaram logo a rondar o palacete de Arroios. -Mas nunca n'aquella casa se abria uma janella. Os criados interrogados -disseram apenas que a menina se chamava Maria, e que o senhor se chamava -Manoel. Emfim uma creada, amaciada com seis pintos, soltou mais: o homem -era taciturno, tremia deante da filha, e dormia n'uma rêde; a senhora, -essa, vivia n'um ninho de sedas todo azul-ferrête, e passava o seu dia a -ler novellas. Isto não podia satisfazer a sofreguidão de Lisboa. Fez-se -uma devassa methodica, habil, paciente... Elle, Alencar, pertencera á -devassa. - -E souberam-se horrores. O papá Monforte era dos Açores; muito moço, uma -facada n'uma rixa, um cadaver a uma esquina tinham-n'o forçado a fugir a -bordo d'um brigue americano. Tempos depois um certo Silva, procurador da -casa de Taveira, que o conhecera nos Açores, estando na Havana a estudar -a cultura do tabaco que os Taveiras queriam implantar nas Ilhas -encontrára lá o Monforte (que verdadeiramente se chamava Forte) rondando -pelo caes, de chinellas de esparto, á procura de embarque para a -Nova-Orleans. Aqui havia uma treva na historia do Monforte. Parece que -servira algum tempo de feitor n'uma plantação da Virginia... Emfim, -quando reappareceu á face dos céos commandava o brigue _Nova Linda_, e -levava cargas de pretos para o Brazil, para a Havana e para a Nova -Orleans. - -Escapara aos cruzeiros inglezes, arrancára uma fortuna da pelle do -africano, e agora rico, homem de bem, proprietario, ia ouvir a Corelli a -S. Carlos. Todavia esta terrivel chronica, como dizia o Alencar, obscura -e mal provada, claudicava aqui e além... - ---E a filha? perguntou Pedro, que o escutara, serio e pallido. - -Mas isso não o sabia o amigo Alencar. Onde a arranjara assim tão loira e -bella? Quem fôra a mamã? Onde estava? Quem a ensinara a embrulhar-se com -aquelle gesto real no seu chale de Cashmira?... - ---Isso, meu Pedro, são - - - mysterios que jámais poude Lisboa - astuta devassar e só Deus sabe! - - -Em todo o caso quando Lisboa descobriu aquella legenda de sangue e -negros, o enthusiasmo pela Monforte calmou. Que diabo! Juno tinha sangue -de assassino, a _beltà_ do Ticiano era filha de negreiro! As senhoras, -deliciando-se em villipendiar uma mulher tão loira, tão linda e com -tantas joias, chamaram-lhe logo a _negreira_! Quando ella apparecia -agora no theatro, D. Maria da Gama affectava esconder a face detraz do -leque, porque lhe parecia ver na rapariga (sobretudo quando ella usava -os seus bellos rubis) o sangue das facadas que dera o papázinho! E -tinham-n'a calumniado abominavelmente. Assim, depois de passarem em -Lisboa o primeiro inverno, os Monfortes sumiram-se: pois disse-se logo, -com furor, que estavam arruinados, que a policia perseguia o velho, mil -perversidades... O excellente Monforte, que soffre de rheumatismos -articulares, achava-se tranquillamente, ricamente, tomando as aguas dos -Piryneus... Fora lá que o Mello os conhecera... - ---Ah! o Mello conhece-os? exclamou Pedro. - ---Sim, meu Pedro, o Mello os conhece. - -Pedro d'ahi a um momento deixou o Marrare; e n'essa noite, antes de -recolher, apesar da chuva fria e miuda, andou rondando uma hora, com a -imaginação toda accesa, o palacete dos Vargas apagado e mudo. Depois, -d'ahi a duas semanas o Alencar, entrando em S. Carlos ao fim do primeiro -acto do _Barbeiro_, ficou assombrado ao ver Pedro da Maia installado na -frisa da Monforte, á frente, ao lado de Maria, com uma camelia escarlate -na casaca--egual ás d'um ramo pousado no rebordo de velludo. - -Nunca Maria Monforte apparecera mais bella: tinha uma d'essas -_toilettes_ excessivas e theatraes que offendiam Lisboa, e faziam dizer -ás senhoras que ella se vestia «como uma comica». Estava de seda côr de -trigo, com duas rosas amarellas e uma espiga nas tranças, opalas sobre o -collo e nos braços; e estes tons de ceara madura batida do sol, -fundindo-se com o ouro dos cabellos, illuminando-lhe a carnação eburnea, -banhando as suas fórmas de estatua, davam-lhe o esplendor d'uma Ceres. -Ao fundo entreviam-se os grandes bigodes loiros do Mello, que conversava -de pé com o papá Monforte--escondido como sempre no canto negro da -frisa. - -O Alencar foi observar «o caso» do camarote dos Gamas. Pedro voltára á -sua cadeira, e de braços cruzados contemplava Maria. Ella conservou -algum tempo a sua attitude de Deusa insensivel; mas, depois, no duetto -de Rosina e Lindor, duas vezes os seus olhos azues e profundos se -fixaram n'elle, gravemente e muito tempo. O Alencar, correu ao Marrare, -de braços ao ar, a berrar a novidade. - -Não tardou de resto a fallar-se em toda a Lisboa da paixão de Pedro da -Maia pela _negreira_. Elle tambem namorou-a publicamente, á antiga, -plantado a uma esquina, defronte do palacete dos Vargas, com os olhos -cravados na janella d'ella, immovel e pallido d'extasi. - -Escrevia-lhe todos os dias duas cartas em seis folhas de papel--poemas -desordenados que ia compôr para o Marrare: e ninguem lá ignorava o -destino d'aquellas paginas de linhas encruzadas que se accumulavam -deante d'elle sobre o taboleiro da genebra. Se algum amigo vinha á porta -do café perguntar por Pedro da Maia, os criados já respondiam muito -naturalmente: - ---O sr. D. Pedro? Está a escrever á menina. - -E elle mesmo, se o amigo se acercava, estendia-lhe a mão, exclamava -radiante, com o seu bello e franco sorriso: - ---Espera ahi um bocado, rapaz, estou a escrever á Maria! - -Os velhos amigos de Affonso da Maia que vinham fazer o seu _whist_ a -Bemfica, sobretudo o Villaça, o administrador dos Maias, muito zeloso da -dignidade da casa, não tardaram em lhe trazer a nova d'aquelles amores -do Pedrinho. Affonso já os suspeitava: via todos os dias um criado da -quinta partir com um grande ramo das melhores camelias do jardim; todas -as manhãs cedo encontrava no corredor o escudeiro, dirigindo-se ao -quarto do menino, a cheirar regaladamente o perfume d'um enveloppe com -sinete de lacre dourado;--e não lhe desagradava que um sentimento -qualquer, humano e forte, lhe fosse arrancando o filho á estroinice -bulhenta, ao jogo, ás melancolias sem rasão em que reapparecia o negro -ripanço... - -Mas ignorava o nome, a existencia sequer dos Monfortes; e as -particularidades que os amigos lhe revelaram, aquella facada nos Açores, -o chicote de feitor na Virginia, o brigue _Nova Linda_, toda a sinistra -legenda do velho contrariou muito Affonso da Maia. - -Uma noite que o coronel Sequeira, á mesa do _whist_, contava que vira -Maria Monforte e Pedro passeando a cavallo, «ambos muito bem e muito -_distingués_», Affonso, depois d'um silencio, disse com um ar -enfastiado: - ---Emfim, todos os rapazes teem as suas amantes... Os costumes são assim, -a vida é assim, e seria absurdo querer reprimir taes cousas. Mas essa -mulher, com um pae d'esses, mesmo para amante acho má. - -O Villaça suspendeu o baralhar das cartas, e ageitando os oculos d'ouro -exclamou com espanto: - ---Amante! Mas a rapariga é solteira, meu senhor, é uma menina -honesta!... - -Affonso da Maia enchia o seu cachimbo; as mãos começaram a tremer-lhe; e -voltando-se para o administrador, n'uma voz que tremia um pouco tambem: - ---O Villaça de certo não suppõe que meu filho queira casar com essa -creatura... - -O outro emmudeceu. E foi o Sequeira que murmurou: - ---Isso não, está claro que não... - -E o jogo continuou algum tempo em silencio. - -Mas Affonso da Maia principiou a andar descontente. Passavam-se semanas -que Pedro não jantava em Bemfica. De manhã, se o via, era um momento, -quando elle descia ao almoço, já com uma luva calçada, apressado e -radiante, gritando para dentro se estava sellado o cavallo; depois, -mesmo de pé, bebia um gole de chá, perguntava a correr «se o papá queria -alguma cousa», dava um geito ao bigode deante do grande espelho de -Veneza sobre o fogão, e lá partia, enlevado. Outras vezes todo o dia não -sahia do quarto: a tarde descia, accendiam-se as luzes; até que o pae, -inquieto, subia, ia encontral-o estirado sobre o leito, com a cabeça -enterrada nos braços. - ---Que tens tu?--perguntava-lhe. - ---Enchaqueca,--respondia n'um tom surdo e rouco. - -E Affonso descia indignado, vendo em toda aquella angustia covarde -alguma carta que não viera, ou talvez uma rosa offerecida que não fôra -posta nos cabellos... - -Depois, por vezes, entre dois _robbers_ ou conversando em volta da -bandeja do chá, os seus amigos tinham observações que o inquietavam, -partindo d'aquelles homens que habitavam Lisboa, lhe conheciam os -rumores--emquanto elle passava alli, inverno e verão, entre os seus -livros e as suas rosas. Era o excellente Sequeira que perguntava porque -não faria Pedro uma viagem longa, para se instruir, á Allemanha, ao -Oriente? Ou o velho Luiz Runa, o primo d'Affonso, que, a proposito de -cousas indifferentes, rompia lamentando os tempos em que o Intendente da -policia podia livremente expulsar de Lisboa as pessoas importunas... -Evidentemente alludiam á Monforte, evidentemente julgavam-n'a perigosa. - -No verão, Pedro partiu para Cintra; Affonso soube que os Monfortes -tinham lá alugado uma casa. Dias depois o Villaça appareceu em Bemfica, -muito preoccupado: na vespera Pedro visitara-o no cartorio, pedira-lhe -informações sobre as suas propriedades, sobre o meio de levantar -dinheiro. Elle lá lhe dissera que em setembro, chegando á sua -maioridade, tinha a legitima da mamã... - ---Mas não gostei d'isto, meu senhor, não gostei d'isto... - ---E porque, Villaça? O rapaz quererá dinheiro, quererá dar presentes á -creatura... O amor é um luxo caro, Villaça. - ---Deus queira que seja isso, meu senhor, Deus o ouça! - -E aquella confiança tão nobre de Affonso da Maia no orgulho patricio, -nos brios de raça de seu filho, chegava a tranquillisar Villaça. - -D'ahi a dias, Affonso da Maia viu emfim Maria Monforte. Tinha jantado na -quinta do Sequeira ao pé de Queluz, e tomavam ambos o seu café no -mirante, quando entrou pelo caminho estreito que seguia o muro a caleche -azul com os cavallos cobertos de redes. Maria, abrigada sob uma -sombrinha escarlate, trazia um vestido côr de rosa cuja roda, toda em -folhos, quasi cobria os joelhos de Pedro sentado ao seu lado: as fitas -do seu chapéo, apertadas n'um grande laço que lhe enchia o peito, eram -tambem côr de rosa: e a sua face, grave e pura como um marmore grego, -apparecia realmente adoravel, illuminada pelos olhos d'um azul sombrio, -entre aquelles tons rosados. No assento defronte, quasi todo tomado por -cartões de modista, encolhia-se o Monforte, de grande chapéo panamá, -calça de ganga, o mantelete da filha no braço, o guarda sol entre os -joelhos. Iam callados, não viram o mirante; e, no caminho verde e -fresco, a caleche passou com balanços lentos, sob os ramos que roçavam a -sombrinha de Maria. O Sequeira ficara com a chavena de café junto aos -labios, de olho esgazeado, murmurando: - ---Caramba! É bonita! - -Affonso não respondeu: olhava cabisbaixo aquella sombrinha escarlate, -que agora se inclinava sobre Pedro, quasi o escondia, parecia envolvel-o -todo--como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sob o verde -triste das ramas. - -O outono passou, chegou o inverno, frigidissimo. Uma manhã, Pedro entrou -na livraria onde o pae estava lendo junto ao fogão; recebeu-lhe a -benção, passou um momento os olhos por um jornal aberto, e voltando-se -bruscamente para elle: - ---Meu pae,--disse, esforçando-se por ser claro e decidido--venho -pedir-lhe licença para casar com uma senhora que se chama Maria -Monforte. - -Affonso pousou o livro aberto sobre os joelhos, e n'uma voz grave e -lenta: - ---Não me tinhas fallado d'isso... Creio que é a filha d'um assassino, -d'um negreiro, a quem chamam tambem a _negreira_... - ---Meu pae!... - -Affonso ergueu-se diante d'elle, rigido e inexoravel como a encarnação -mesma da honra domestica. - ---Que tens a dizer-me mais? Fazes-me corar de vergonha. - -Pedro, mais branco que o lenço que tinha na mão, exclamou todo a tremer, -quasi em soluços: - ---Pois póde estar certo, meu pae, que hei de casar! - -Sahiu, atirando furiosamente com a porta. No corredor gritou pelo -escudeiro, muito alto para que o pae ouvisse, e deu-lhe ordem para levar -as suas malas ao hotel da Europa. - -Dois dias depois Villaça entrou em Bemfica, com as lagrimas nos olhos, -contando que o menino casára n'essa madrugada--e segundo lhe dissera o -Sergio, procurador do Monforte, ia partir com a noiva para a Italia. - -Affonso da Maia sentára-se n'esse instante á mesa do almoço, posta ao pé -do fogão: ao centro, um ramo esfolhava-se n'um vaso do Japão, á chamma -forte da lenha: e junto ao talher de Pedro estava o numero da -_Grinalda_, jornal de versos que elle costumava receber... Affonso ouviu -o procurador, grave e mudo, continuando a desdobrar lentamente o seu -guardanapo. - ---Já almoçou, Villaça? - -O procurador, assombrado d'aquella serenidade, balbuciou: - ---Já almocei, meu senhor... - -Então Affonso, apontando para o talher de Pedro, disse ao escudeiro: - ---Póde tirar d'alli esse talher, Teixeira. D'aqui por diante ha só um -talher á mesa... Sente-se, Villaça, sente-se. - -O Teixeira, ainda novo na casa, levantou com indifferença o talher do -menino. Villaça sentára-se. Tudo em redor era correto e calmo como nas -outras manhãs em que almoçara em Bemfica. Os passos do escudeiro não -faziam ruido no tapete fofo; o lume estalava alegremente, pondo retoques -d'ouro nas pratas polidas; o sol discreto que brilhava fóra no azul -d'inverno fazia scintillar crystaes de geada nas ramas seccas; e á -janella o papagaio, muito patulêa e educado por Pedro, rosnava injurias -aos Cabraes. - -Por fim Affonso ergueu-se; esteve olhando abstrahidamente a quinta, os -pavões no terrasso; depois ao sahir da sala tomou o braço de Villaça, -apoiou-se n'elle com força, como se lhe tivesse chegado a primeira -tremura da velhice, e no seu abandono sentisse alli uma amizade segura. -Seguiram o corredor, callados. Na livraria Affonso foi occupar a sua -poltrona ao pé da janella, começou a encher de vagar o seu cachimbo. -Villaça, de cabeça baixa, passeava ao comprido das altas estantes, nas -pontas dos pés, como no quarto d'um doente. Um bando de pardaes veiu -gralhar um momento nos ramos d'uma alta arvore que roçava a varanda. -Depois houve um silencio, e Affonso da Maia disse: - ---Então, Villaça, o Saldanha lá foi demittido do Paço?... - -O outro respondeu, vaga e machinalmente: - ---É verdade, meu senhor, é verdade... - -E não se fallou mais de Pedro da Maia. - - - - -II - - -Pedro e Maria, no entanto, n'uma felicidade de novella, iam descendo a -Italia, a pequenas jornadas, de cidade em cidade, n'essa via sagrada que -vae desde as flores e das messes da planicie lombarda até ao molle paiz -de romanza, Napoles, branca sob o azul. Era lá que tencionavam passar o -inverno, n'esse ar sempre tepido junto a um mar sempre manso, onde as -preguiças de noivado teem uma suavidade mais longa... Mas um dia, em -Roma, Maria sentiu o appetite de Paris. Parecia-lhe fatigante o viajar -assim, aos balouços das caleças, só para ir ver _lazzaroni_ engolir fios -de macarrão. Quanto melhor seria habitar um ninho acolchoado nos Campos -Elyseos, e gozarem alli um lindo inverno de amor! Paris estava seguro, -agora, com o principe Luiz Napoleão... Além d'isso, aquella velha Italia -classica enfastiava-a já: tantos marmores eternos, tantas _madonas_ -começavam (como ella dizia pendurada languidamente do pescoço de Pedro) -a dar tonturas á sua pobre cabeça! Suspirava por uma boa loja de modas, -sob as chammas do gaz, ao rumor do boulevard... Depois tinha medo da -Italia onde todo mundo conspirava. - -Foram para França. - -Mas por fim aquelle Paris ainda agitado, onde parecia restar um vago -cheiro de polvora pelas ruas, onde cada face conservava um calor de -batalha, desagradou a Maria. De noite accordava com a _Marselheza_; -achava um ar feroz á policia; tudo permanecia triste; e as duquezas, -pobres anjos, ainda não ousavam vir ao _Bois_, com medo dos operarios, -corja insaciavel! Emfim demoraram-se lá até a primavera, no ninho que -ella sonhára, todo de velludo azul, abrindo sobre os Campos Elyseos. - -Depois principiou a fallar-se de novo em revolução, em golpe d'estado. A -admiração absurda de Maria pelos novos uniformes da _garde-mobile_ fazia -Pedro nervoso. E quando ella appareceu gravida, anciou por a tirar -d'aquelle Paris batalhador e fascinante, vir abrigal-a na pacata Lisboa -adormecida ao sol. - -Antes de partir porém escreveu ao pae. - -Fôra um conselho, quasi uma exigencia de Maria. A recusa de Affonso da -Maia ao principio desesperara-a. Não a affligia a desunião domestica: -mas aquelle _não_ affrontoso de fidalgo puritano marcara muito -publicamente, muito brutalmente, a sua origem suspeita! Odiou o velho: e -tinha apressado o casamento, aquella partida triumphante para Italia, -para lhe mostrar bem que nada valiam genealogias, avós godos, brios de -familia--deante dos seus braços nus... Agora porém que ia voltar a -Lisboa, dar _soirées_, crear côrte, a reconciliação tornava-se -indispensavel; aquelle pae retirado em Bemfica, com o rigido orgulho de -outras edades, faria lembrar constantemente, mesmo entre os seus -espelhos e os seus estofos, o brigue _Nova Linda_ carregado de negros... -E queria mostrar-se a Lisboa pelo braço d'esse sogro tão nobre e tão -ornamental, com as suas barbas de Viso-rei. - ---Dize-lhe que já o adoro, murmurava ella curvada sobre a escrivaninha -acariciando os cabellos de Pedro. Dize-lhe que se tiver um pequeno lhe -hei de pôr o nome d'elle... Escreve-lhe uma carta bonita, hein! - -E foi bonita, foi terna a carta de Pedro ao papá. O pobre rapaz amava-o. -Fallou-lhe commovido da esperança de ter um filho varão; as -desintelligencias deviam findar em torno do berço d'aquelle pequeno Maia -que alli vinha, morgado e herdeiro do nome... Contava-lhe a sua -felicidade, com uma effusão de namorado indiscreto: a historia da -bondade de Maria, das suas graças, da sua instrucção, enchia duas -paginas: e jurava-lhe que apenas chegasse não tardaria uma hora em ir -atirar-se aos seus pés... - -Com effeito, apenas desembarcou, correu n'um trem a Bemfica. Dois dias -antes o pae partira para S.^{ta} Olavia: isto pareceu-lhe uma -desfeita--e feriu-o acerbamente. - -Fez-se então entre o pae e o filho uma grande separação. Quando lhe -nasceu uma filha Pedro não lh'o participou--dizendo dramaticamente ao -Villaça «que já não tinha pae!» Era uma linda bébé, muito gorda, loira e -côr de rosa, com os bellos olhos negros dos Maias. Apesar do desejo de -Pedro, Maria não a quiz crear; mas adorava-a com phrenesi; passava dias -de joelhos ao pé do berço, em extasi, correndo as suas mãos cheias de -pedrarias pelas carninhas tenras; pondo-lhe beijos de devota nos -pésinhos, na rosquinha das côxas, balbuciando-lhe n'um enlevo nomes de -grande amor, e perfumando-a já, enchendo-a já de laçarotes. - -E n'estes delirios pela filha, brotava, mais amarga, a sua colera contra -Affonso da Maia. Considerava-se então insultada em si mesma e n'aquelle -cherubim que lhe nascera. Injuriava o velho grosseiramente, chamava-lhe -o _D. Fuas_, o _Barbatanas_... - -Pedro um dia ouviu isto, e escandalisou-se: ella replicou -desabridamente: e deante d'aquella face abrazada, onde entre lagrimas os -olhos azues pareciam negros de colera, elle só poude balbuciar -timidamente: - ---É meu pae, Maria... - -Seu pae! E á face de toda a Lisboa tratava-a então como uma concubina! -Podia ser um fidalgo, as maneiras eram de villão. Um _D. Fuas_, um -_Barbatanas_, nada mais!... - -Arrebatou a filha, e abraçada n'ella, romperam as queixas por entre os -prantos: - ---Ninguem nos ama, meu anjo! Ninguem te quer! Tens só a tua mãe! -Tratam-te como se fosses bastarda! - -A bebé, sacudida nos braços da mãe, desatou a gritar. Pedro correu, -envolveu-as ambas no mesmo abraço, já enternecido, já humilde; e tudo -terminou n'um longo beijo. - -E elle, por fim, no seu coração, justificava aquella colera de mãe que -vê desprezado o seu anjo. De resto, mesmo alguns amigos de Pedro, o -Alencar, o D. João da Cunha, que começavam agora a frequentar Arroios, -riam d'aquella obstinação de pae gothico, amuado na provincia, porque -sua nora não tivera avós mortos em Aljubarrota! E onde havia outra em -Lisboa, com aquellas _toilettes_, aquella graça, recebendo tão bem? Que -diabo, o mundo marchara, sahira-se já das attitudes empertigadas do -seculo XVI! - -E o proprio Villaça, um dia que Pedro lhe fôra mostrar a pequerruchinha -adormecida entre as rendas do seu berço, sensibilisou-se, veio-lhe uma -das suas faceis lagrimas, declarou, com a mão no coração, que aquillo -era uma caturrice do sr. Affonso da Maia! - ---Pois peior para elle! não querer ver um anjo d'estes! disse Maria, -dando deante do espelho um lindo geito ás flores do cabello. Tambem não -faz cá falta... - -E não fazia falta. N'esse outubro, quando a pequena completou o seu -primeiro anno, houve um grande baile na casa de Arroios, que elles agora -occupavam toda, e que fôra ricamente remobilada. E as senhoras que -outr'ora tinham horror á _negreira_, a D. Maria da Gama que escondia a -face por traz do leque, lá vieram todas, amaveis e decotadas, com o -beijinho prompto, chamando-lhe «querida», admirando as grinaldas de -camelias que emmolduravam os espelhos de quatrocentos mil réis, e -gozando muito os gelados. - -Começara então uma existencia festiva e luxuosa, que, segundo dizia o -Alencar, o intimo da casa, o cortesão de Madame, «tinham um saborsinho -d'orgia _distinguée_ como os poemas de Byron.» Eram realmente as -_soirées_ mais alegres de Lisboa: ceiava-se á uma hora com Champagne; -talhava-se até tarde um _monte_ forte; inventavam-se quadros vivos, em -que Maria se mostrara soberanamente bella sob as roupagens classicas de -Helena ou no luxo sombrio do luto oriental de Judith. Nas noites mais -intimas, ella costumava vir fumar com os homens uma cigarrilha -perfumada. Muitas vezes, na sala de bilhar, as palmas estalaram, vendo-a -bater á carambola franceza D. João da Cunha, o grande taco da epoca. - -E no meio d'esta festança, atravessada pelo sopro romantico da -Regeneração, lá se via sempre, taciturno e encolhido, o papá Monforte, -d'alta gravata branca, com as mãos atraz das costas, rondando pelos -cantos, refugiado pelos vãos das janellas, mostrando-se só para salvar -alguma bobèche que ía estalar--e não desprendendo nunca da filha o olho -embevecido e senil. - -Nunca Maria fôra tão formosa. A maternidade dera-lhe um esplendor mais -copioso; e enchia verdadeiramente, dava luz áquellas altas salas de -Arroios, com a sua radiante figura de Juno loira, os diamantes das -tranças, o eburneo e o lacteo do collo nu, e o rumor das grandes sedas. -Com rasão, querendo ter, á maneira das damas da Renascença, uma flôr que -a symbolisasse, escolhera a tulipa real opulenta e ardente. - -Citavam-se os requintes do seu luxo, roupas brancas, rendas do valor de -propriedades!... Podia fazel-o! o marido era rico, e ella sem escrupulo -arruinal-o-hia, a elle e ao papá Monforte... - -Todos os amigos de Pedro, naturalmente, a amavam. O Alencar esse -proclamava-se com alarido seu «cavalleiro e seu poeta». Estava sempre em -Arroios, tinha lá o seu talher: por aquellas salas soltava as suas -phrases ressoantes, por esses sophás arrastava as suas _poses_ de -melancolia. Ia dedicar a Maria (e nada havia mais extraordinario que o -tom langoroso e plangente, o olho turvo, fatal, com que elle pronunciava -este nome--Maria!) ia dedicar-lhe o seu poema, tão annunciado, tão -esperado--Flor de Martyrio! E citavam-se as estrophes que lhe fizera ao -gosto cantante do tempo: - - - Vi-te essa noite no explendor das sallas - Com as loiras tranças volteando louca... - - -A paixão do Alencar era innocente: mas, dos outros intimos da casa, mais -d'um de certo balbuciara já a sua declaração no _boudoir_ azul em que -ella recebia ás tres horas, entre os seus vasos de tulipas; as suas -amigas porém, mesmo as peiores, affirmavam que os seus favores nunca -teriam passado de alguma rosa dada n'um vão de janella, ou de algum -longo e suave olhar por traz do leque. Pedro todavia começava a ter -horas sombrias. Sem sentir ciumes, vinha-lhe ás vezes, de repente, um -tedio d'aquella existencia de luxo e de festa, um desejo violento de -sacudir da sala esses homens, os seus intimos, que se atropellavam assim -tão ardentemente em volta dos hombros decotados de Maria. - -Refugiava-se então n'algum canto, trincando com furor o charuto: e ahi, -era em toda a sua alma um tropel de cousas dolorosas e sem nome... - -Maria sabia perceber bem na face do marido «estas nuvens», como ella -dizia. Corria para elle, tomava-lhe ambas as mãos, com força, com -dominio: - ---Que tens tu, amor? Estás amuado! - ---Não, não estou amuado... - ---Olha então para mim!... - -Collava o seu bello seio contra o peito d'elle; as suas mãos corriam-lhe -os braços n'uma caricia lenta e quente, dos pulsos aos hombros; depois, -com um lindo olhar, estendia-lhe os labios. Pedro colhia n'elles um -longo beijo, e ficava consolado de tudo. - -Durante esse tempo Affonso da Maia não sahia das sombras de St.^a -Olavia, tão esquecido para lá como se estivesse no seu jazigo. Já se não -fallava d'élle; em Arroios, _D. Fuas_ estava roendo a teima. Só Pedro ás -vezes perguntava a Villaça «como ia o papá.» E as noticias do -administrador enfureciam sempre Maria: o papá estava optimo; tinha agora -um cosinheiro francez explendido; St.^a Olavia enchera-se de hospedes, o -Sequeira, André da Ega, D. Diogo Coutinho... - ---O _Barbatanas_ trata-se! ia elle dizer ao pae com rancor. - -E o velho negreiro esfregava as mãos, satisfeito de o saber assim feliz -em St.^a Olavia; porque nunca cessara de tremer á idéa de ver em -Arroios, deante de si, aquelle fidalgo tão severo e de vida tão pura. - -Quando porém Maria teve outro filho, um pequeno, o socego que então se -fez em Arroios trouxe de novo muito vivamente ao coração de Pedro a -imagem do pae abandonado n'aquella tristeza do Douro. Fallou a Maria de -reconciliação, a medo, aproveitando a fraqueza da convalescença. E a sua -alegria foi grande, quando Maria, depois de ficar um momento pensativa, -respondeu: - ---Creio que me havia de fazer feliz tel-o aqui... - -Pedro, enthusiasmado com um assentimento tão inesperado, pensou em -abalar para St.^a Olavia. Mas ella tinha um plano melhor: Affonso, -segundo dizia o Villaça, devia recolher em breve a Bemfica; pois bem, -ella iria lá com o pequeno, toda vestida de preto, e de repente, -atirando-se-lhe aos pés, pedir-lhe-hia a benção para seu neto! Não podia -falhar! Não podia, realmente; e Pedro viu alli uma alta inspiração de -maternidade... - -Para abrandar desde jà o papá, Pedro quiz dar ao pequeno o nome de -Affonso. Mas n'isso Maria não consentiu. Andava lendo uma novella de que -era heroe o ultimo Stuart, o romanesco principe Carlos Eduardo; e, -namorada d'elle, das suas aventuras e desgraças, queria dar esse nome a -seu filho... Carlos Eduardo da Maia! Um tal nome parecia-lhe conter todo -um destino de amores e façanhas. - -O baptisado teve de ser retardado; Maria adoecera com uma angina. Foi -muito benigna porém; e d'ahi a duas semanas Pedro podia já sahir para -uma caçada na sua quinta da _Tojeira_, adiante d'Almada. Devia -demorar-se dois dias. A partida arranjara-se unicamente para obsequiar -um italiano, chegado por então a Lisboa, distincto rapaz que lhe fôra -apresentado pelo secretario da Legação Ingleza, e com quem Pedro -sympathisara vivamente; dizia-se sobrinho dos Principes de Soria; e -vinha fugido de Napoles, onde conspirára contra os Bourbons e fôra -condemnado á morte. O Alencar e D. João Coutinho iam tambem á caçada--e -a partida foi de madrugada. - -N'essa tarde, Maria jantava só no seu quarto, quando sentiu carruagens -parando á porta, um grande rumor encher a escada; quasi immediatamente -Pedro apparecia-lhe tremulo e enfiado: - ---Uma grande desgraça, Maria! - ---Jesus! - ---Feri o rapaz, feri o napolitano!... - ---Como? - -Um desastre estupido!... Ao saltar um barranco, a espingarda -dispara-se-lhe, e a carga, zás, vae cravar-se no napolitano! Não era -possivel fazer curativos na _Tojeira_, e voltaram logo a Lisboa. Elle -naturalmènte não consentira que o homem que tinha ferido recolhesse ao -hotel: trouxera-o para Arroios, para o quarto verde por cima, mandara -chamar o medico, duas enfermeiras para o velar, e elle mesmo lá ia -passar a noite... - ---E elle? - ---Um heroe!... Sorri, diz que não é nada, mas eu vejo-o pallido como um -morto. Um rapaz adoravel! Isto só a mim, Senhor! E então o Alencar que -ia mesmo ao pé d'elle... Podia antes ter ferido o Alencar, um rapaz -intimo, de confiança! até a gente se ria. Mas não, zás, logo o outro, o -de cerimonia... - -Uma sege, n'esse instante, entrava o pateo. - ---É o medico! - -E Pedro abalou. - -Voltou, d'ahi a pouco mais tranquillo. O Dr. Guedes quasi rira d'aquella -bagatella, uma chumbada no braço, e alguns grãos perdidos nas costas. -Promettera-lhe que d'ahi a duas semanas podia caçar outra vez na -_Tojeira_; e o principe estava já fumando o seu charuto. Bello rapaz! -Parecia sympathisar com o papá Monforte... - -Toda essa noite Maria dormiu mal, na excitação vaga que lhe dava aquella -idéa d'um principe enthusiasta, conspirador, condemnado á morte, ferido -agora por cima do seu quarto. - -Logo de manhã cedo--apenas Pedro sahira a fazer transportar, elle mesmo, -do hotel, as bagagens do napolitano--Maria mandou a sua criada franceza -de quarto, uma bella moça d'Arles, acima, saber da parte d'ella como S. -Alteza passara, e «ver que figura tinha». A arlesiana appareceu, com os -olhos brilhantes, a dizer á senhora, nos seus grandes gestos de -Provençal, que nunca vira um homem tão formoso! Era uma pintura de Nosso -Senhor Jesus Christo! Que pescoço, que brancura de marmore! Estava muito -pallido ainda; agradecia enternecido os cuidados de Madame Maia; e -ficara a ler o jornal encostado aos travesseiros... - -Maria, desde então, não pareceu interessar-se mais pelo ferido. Era -Pedro que vinha, a cada instante, fallar-lhe d'elle, enthusiasmado por -aquella existencia pathetica de principe conspirador, partilhando já o -seu odio aos Bourbons, encantado com a similitude de gostos que -encontrava n'elle, o mesmo amor da caça, dos cavallos, das armas. Agora -logo de manhã, subia para o quarto do Principe, de _robe-de-chambre_, e -cachimbo na boca, e passava lá horas n'uma camaradagem, fazendo _grogs_ -quentes--permittidos pelo Dr. Guedes. Levava mesmo para lá os seus -amigos, o Alencar, o D. João da Cunha. Maria sentia-lhes por cima as -risadas. Ás vezes tocava-se viola. E o velho Monforte, pasmado para o -heroe, não cessava de lhe rondar o leito. - -A Arlesiana, essa, tambem a cada momento apparecia lá a levar toalhas de -rendas, um assucareiro que ninguem reclamara, ou algum vaso com flores -para alegrar a alcova... Maria, por fim, perguntou a Pedro, muito seria, -se além de todos os amigos da casa, duas enfermeiras, dois escudeiros, o -papá e elle Pedro--era necessaria tambem constantemente a sua propria -criada no quarto de Sua Alteza! - -Não era. Mas Pedro riu muito á idea de que a Arlesiana se tivesse -namorado do principe. N'esse caso Venus era-lhe propicia! O napolitano -tambem a achava picante: _un très joli brin de femme_, tinha elle dito. - -A bella face de Maria impallideceu de colera. Julgava tudo isso de mau -gosto, grosseiro, impudente! Pedro fôra realmente um doido em trazer -assim para a intimidade de Arroios um estrangeiro, um fugido, um -aventureiro! Demais, aquella troça em cima, entre grogs quentes, com -guitarra, sem respeito por ella ainda toda nervosa, toda fraca da -convalescença, indignava-a! Apenas Sua Alteza podesse accommodar-se com -almofadas n'uma sege, queria-o fóra, na estalagem... - ---O que ahi vae! Jesus! o que ahi vae!... disse Pedro. - ---É assim. - -E de certo foi muito severa tambem com a Arlesianna, por que n'essa -tarde Pedro encontrou a moça aos ais no corredor, limpando ao avental os -olhos affogueados. - -D'ahi a dias, porém, o napolitano, já convalescente, quiz recolher ao -seu hotel. Não vira Maria: mas em agradecimento da sua hospitalidade -mandou-lhe um admiravel ramo, e, com uma galanteria de principe artista -da Renascença, um soneto em italiano enrolado entre as flores e tão -perfumado como ellas: comparava-a a uma nobre dama da Syria dando a gota -de agua da sua bilha ao cavalleiro arabe, ferido na estrada ardente; -comparava-a á Beatriz do Dante. - -Isto affigurou-se a todos de uma rara distincção, e, como disse o -Alencar, um rasgo á Byron. - -Depois, na _soirée_ do baptisado de Carlos Eduardo, dada d'ahi a uma -semana, o napolitano mostrou-se, e impressionou tudo. Era um homem -esplendido, feito como um Apollo, de uma pallidez de marmore rico: a sua -barba curta e frisada, os seus longos cabellos castanhos, cabellos de -mulher, ondeados e com reflexos de ouro, apartados á nazarena--davam-lhe -realmente, como dizia a Arlesianna, uma physionomia de bello Christo. - -Dançou apenas uma contradança com Maria, e pareceu, na verdade, um pouco -taciturno e orgulhoso: mas tudo n'elle fascinava, a sua figura, o seu -mysterio, até o seu nome de Tancredo. Muitos corações de mulher -palpitavam quando elle, encostado a uma hombreira, de claque na mão, uma -melancolia na face, exhalando o encanto pathetico de um condemnado á -morte, derramava lentamente pela sala o langor sombrio do seu olhar de -velludo. A marqueza d'Alvenga, para o examinar de perto, pediu o braço a -Pedro, e foi applicar-lhe, como a um marmore de museo, a sua luneta de -ouro. - ---É de appetite! exclamou ella. É uma imagem!... E são amigos, são -amigos, Pedro? - ---Somos como dois irmãos d'armas, minha senhora. - -N'essa mesma soirée, o Villaça informára Pedro que o pae era esperado no -dia seguinte em Bemfica. E Pedro, logo que se recolheram, fallou a Maria -em «irem fazer a grande scena ao papá.» Ella, porém, recusou, e com as -razões mais imprevistas, as mais sensatas. Tinha cogitado muito! -Reconhecia agora que um dos motivos d'aquella teima do papá--ultimamente -chamava-lhe sempre o papá--era essa extraordinaria existencia de -Arroios... - ---Mas filha, disse Pedro, escuta, nós não vivemos tambem em plena -orgia... Alguns amigos que veem. - -Pois sim, pois sim... Mas, realmente, estava decidida a ter um interior -mais calmo e mais domestico. Era mesmo melhor p'ra os bébés. Pois bem, -queria que o papá estivesse convencido d'essa transformação, para que as -pazes fossem mais faceis e eternas. - ---Deixa passar dois ou tres mezes... Quando elle souber como nós vivemos -quietinhos, eu o trarei, socega... É bom tambem que seja quando meu pae -partir para as aguas, para os Pyrineos. Que o pobre papá, coitado, tem -medo do teu... Filho, não achas assim melhor? - ---És um anjo, foi a resposta de Pedro, beijando-lhe ambas as mãos. - -Toda a antiga maneira de Maria pareceu com effeito ir mudando. -Suspendera as _soirées_. Começou a passar as noites muito recolhidas, -com alguns intimos, no seu _boudoir_ azul. Já não fumava; abandonara o -bilhar; e vestida de preto, com uma flôr nos cabellos, fazia _crochet_ -ao pé do candieiro. Estudava-se musica classica quando vinha o velho -Cazoti. O Alencar, que, imitando a sua dama, entrara tambem na -gravidade, recitava traducções de Klopstock. Fallava-se com sisudez de -politica; Maria era muito regeneradora. - -E todas essas noites, Tancredo lá estava, indolente e bello, desenhando -alguma flôr para ella bordar, ou tangendo à guitarra canções populares -de Napoles. Todos alli o adoravam; mas ninguem mais que o velho -Monforte, que passava horas, enterrado na sua alta gravata, contemplando -o Principe com enternecimento. Depois, de repente, erguia-se, -atravessava a sala, ia-se debruçar sobre elle, palpal-o, sentil-o, -respiral-o, murmurando no seu francez de embarcadiço: - ---_Ça aller bien... Hein? Beaucoup bien..._ Ora estimo... - -E estas correntes bruscas de affecto communicavam-se decerto, porque -n'esse momento Maria tinha sempre um dos seus lindos sorrisos para o -papá ou vinha beijal-o na testa. - -De dia occupava-se de cousas serias. Organisara uma util associação de -caridade, a _Obra pia dos cobertores_, com o fim de fazer no inverno ás -familias necessitadas distribuições de agasalhos; e presidia no salão de -Arroios, com uma campainha, as reuniões em que se elaboravam os -estatutos. Visitava os pobres. Ia tambem amiudadas vezes a uma devoção -ás Egrejas, toda vestida de preto, a pé, com um véo muito espesso no -rosto. - -O esplendor da sua belleza apparecia agora velado por uma sombra tocante -de ternura grave: a Deusa idealisava-se em Madona; e não era raro -ouvil-a de repente suspirar sem razão. - -Ao mesmo tempo a sua paixão pela filha crescia. Tinha então dois annos e -estava realmente adoravel; vinha todas as noites um momento á sala, -vestida com um luxo de princeza; e as exclamações, os extasis de -Tancredo não findavam! Fizera-lhe o retrato a carvão, a esfuminho, a -aguarella; ajoelhava-se para lhe beijar a mãosinha côr de rosa, como ao -_bambino_ sagrado. E Maria, agora, apesar dos protestos de Pedro, dormia -sempre com ella entre os braços. - -Ao começo d'esse setembro o velho Monforte partiu para os Pyrineos. -Maria chorou, dependurada do pescoço do velho, como se elle largasse de -novo para as travessias de Africa. - -Ao jantar, porém, chegou já consolada e radiante; e Pedro voltou a -fallar da reconciliação, parecendo-lhe bom o momento de ir a Bemfica -recuperar para sempre aquelle papá tão teimoso... - ---Ainda não, disse ella reflectindo, olhando o seu calice de Bordeus. -Teu pae é uma especie de santo, ainda o não merecemos... Mais para o -inverno. - - -Uma sombria tarde de dezembro, de grande chuva, Affonso da Maia estava -no seu escriptorio lendo, quando a porta se abriu violentamente, e, -alçando os olhos do livro, viu Pedro deante de si. Vinha todo enlameado, -desalinhado, e na sua face livida, sob os cabellos revoltos, luzia um -olhar de loucura. O velho ergueu-se aterrado. E Pedro sem uma palavra -atirou-se aos braços do pae, rompeu a chorar perdidamente. - ---Pedro! que succedeu, filho? - -Maria morrera, talvez! Uma alegria cruel invadiu-o, á idéa do filho -livre para sempre dos Monfortes, voltando-lhe, trazendo á sua solidão os -dois netos, toda uma descendencia para amar! E repetia, tremulo tambem, -desprendendo-o de si com grande amor: - ---Socega, filho, que foi? - -Pedro então cahiu para o canapé, como cae um corpo morto; e levantando -para o pae um rosto devastado, envelhecido, disse, palavra a palavra, -n'uma voz surda: - ---Estive fóra de Lisboa dois dias... Voltei esta manhã... A Maria tinha -fugido de casa com a pequena... Partiu com um homem, um italiano... E -aqui estou! - -Affonso da Maia ficou deante do filho, quedo, mudo, como uma figura de -pedra; e a sua bella face, onde todo o sangue subira enchia-se pouco a -pouco, de uma grande colera. Viu, n'um relance, o escandalo, a cidade -galhofando, as compaixões, o seu nome pela lama. E era aquelle filho -que, despresando a sua auctoridade, ligando-se a essa creatura, -estragara o sangue da raça, cobria agora a sua casa de vexame. E alli -estava! alli jazia sem um grito, sem um furor, um arranque brutal de -homem trahido! Vinha atirar-se para um sophá, chorando miseravelmente! -Isto indignou-o, e rompeu a passeiar pela sala, rigido e aspero, -cerrando os labios para que não lhe escapassem as palavras de ira e de -injuria que lhe enchiam o peito em tumulto...--Mas era pae: ouvia, alli -ao seu lado, aquelle soluçar de funda dôr; via tremer aquelle pobre -corpo desgraçado que elle outr'ora emballara nos braços;--parou junto de -Pedro, tomou-lhe gravemente a cabeça entre as mãos, e beijou-o na testa, -uma vez, outra vez, como se elle fosse ainda creança, restituindo-lhe -alli e para sempre a sua ternura inteira. - ---Tinha razão, meu pae, tinha razão, murmurava Pedro entre lagrimas. - -Depois ficaram callados. Fóra, as pancadas successivas da chuva batiam a -casa, a quinta, n'um clamor prolongado; e as arvores, sob as janellas, -ramalhavam n'um vasto vento de inverno. - -Foi Affonso que quebrou o silencio: - ---Mas para onde fugiram, Pedro? Que sabes tu, filho? Não é só chorar... - ---Não sei nada, respondeu Pedro n'um longo esforço. Sei que fugiu. Eu -sahi de Lisboa na segunda feira. N'essa mesma noite, ella partiu de casa -n'uma carruagem, com uma maleta, o cofre de joias, uma creada italiana -que tinha agora, e a pequena. Disse á governante e á ama do pequeno que -ia ter comigo. Ellas estranharam, mas que haviam de dizer?... Quando -voltei, achei esta carta. - -Era um papel já sujo, e desde essa manhã de certo muitas vezes relido, -amarrotado com furia. Continha estas palavras: - -«É uma fatalidade, parto para sempre com Tancredo, esquece-me que não -sou digna de ti, e levo a Maria que me não posso separar d'ella.» - ---E o pequeno, onde está o pequeno? exclamou Affonso. - -Pedro pareceu recordar-se: - ---Está lá dentro com a ama, trouxe-o na sege. - -O velho correu, logo; e d'ahi a pouco apparecia, erguendo nos braços o -pequeno, na sua longa capa branca de franjas e a sua touca de rendas. -Era gordo, de olhos muito negros, com uma adoravel bochecha fresca e côr -de rosa. Todo elle ria, grulhando, agitando o seu guiso de prata. A ama -não passou da porta, tristonha, com os olhos no tapete e uma trouxasinha -na mão. - -Affonso sentou-se lentamente na sua poltrona, e accommodou o neto no -collo. Os olhos enchiam-se-lhe de uma bella luz de ternura; parecia -esquecer a agonia do filho, a vergonha domestica; agora só havia ali -aquella facesinha tenra, que se lhe babava nos braços... - ---Como se chama elle? - ---Carlos Eduardo, murmurou a ama. - ---Carlos Eduardo, hein? - -Ficou a olhal-o muito tempo, como procurando n'elle os signaes da sua -raça: depois tomou-lhe na sua as duas mãosinhas vermelhas que não -largavam o guiso, e muito grave, como se a creança o percebesse, -disse-lhe: - ---Olha bem para mim. Eu sou o avô. É necessario amar o avô! - -E áquella forte voz, o pequeno, com effeito, abriu os seus lindos olhos -para elle, serios de repente, muito fixos, sem medo das barbas -grisalhas: depois rompeu a pular-lhe nos braços, desprendeu a mãosinha, -e martellou-lhe furiosamente a cabeça com o guiso. - -Toda a face do velho sorria áquella viçosa alegria; apertou-o ao seu -largo peito muito tempo, poz-lhe na face um beijo longo, consolado, -enternecido, o seu primeiro beijo d'avô; depois, com todo o cuidado, foi -collocal-o nos braços da ama. - ---Vá, ama, vá... A Gertrudes já lá anda a arranjar-lhe o quarto, vá vêr -o que é necessario. - -Fechou a porta, e veiu sentar-se junto do filho que se não movera do -canto do sophá, nem despregára os olhos do chão. - ---Agora desabafa, Pedro, conta-me tudo... Olha que nos não vemos ha tres -annos, filho... - ---Ha mais de tres annos, murmurou Pedro. - -Ergueu-se, allongou a vista á quinta, tão triste sob a chuva; depois, -derramando-a morosamente pela livraria, considerou um momento o seu -proprio retrato, feito em Roma aos doze annos, todo de velludo azul, com -uma rosa na mão. E repetia ainda amargamente: - ---Tinha razão, meu pae, tinha razão... - -E pouco a pouco, passeiando e suspirando, começou a fallar d'aquelles -ultimos annos, o inverno passado em Paris, a vida em Arroios, a -intimidade do italiano na casa, os planos de reconciliação, por fim -aquella carta infame, sem pudor, invocando a fatalidade, -arremessando-lhe o nome do outro!... No primeiro momento tivera só idéas -de sangue e quizera perseguil-os. Mas conservava um clarão de razão. -Seria ridiculo, não é verdade? De certo a fuga fora d'antemão preparada, -e não havia de ir correndo as estalagens da Europa á busca de sua -mulher... Ir lamentar-se á policia, fazel-os prender? Uma imbecillidade; -nem impedia que ella fosse já por esses caminhos fóra dormindo com -outro... Restava-lhe sómente o desprezo. Era uma bonita amante que -tivera alguns annos, e fugira com um homem. Adeus! Ficava-lhe um filho, -sem mãe, com um mau nome. Paciencia! Necessitava esquecer, partir para -uma longa viagem, para a America talvez; e o pae veria, havia de voltar -consolado e forte. - -Dizia estas cousas sensatas, passeiando devagar, com o charuto apagado -nos dedos, n'uma voz que se calmava. Mas de repente parou deante do pae, -com um riso secco, um brilho-feroz nos olhos. - ---Sempre desejei ver a America, e é boa occasião agora... É uma occasião -famosa, hein? Posso até naturalisar-me, chegar a presidente, ou -rebentar... Ah! Ah! - ---Sim, mais tarde, depois pensarás n'isso, filho, accudiu o velho -assustado. - -N'esse momento a sineta do jantar começou a tocar lentamente, ao fundo -do corredor. - ---Ainda janta cedo, hein? disse Pedro. - -Teve um suspiro cançado e lento, murmurou: - ---Nós jantavamos ás sete... - -Quiz então que o pae fosse para a mesa. Não havia motivo para que se não -jantasse. Elle ia um bocado acima, ao seu antigo quarto de solteiro... -Ainda lá tinha a cama, não é verdade? Não, não queria tomar nada... - ---O Teixeira que me leve um calice de genebra... Ainda cá está o -Teixeira, coitado! - -E vendo Affonso sentado, repetiu, já impaciente: - ---Vá jantar meu pae, vá jantar, pelo amor de Deus... - -Saiu. O pae ouviu-lhe os passos por cima, e o ruido de janellas -desabridamente abertas. Foi então andando para a sala de jantar, onde os -criados que pela ama sabiam de certo o desgosto se moviam em pontas de -pés, com a lentidão contristada d'uma casa onde ha morte. Affonso -sentou-se á mesa só; mas já lá estava outra vez o talher de Pedro; rosas -de inverno esfolhavam-se n'um vaso do Japão; e o velho papagaio agitado -com a chuva mexia-se furiosamente no poleiro. ' - -Affonso tomou uma colher de sopa, depois rolou a sua poltrona para junto -do fogão; e ali ficou envolvido pouco a pouco n'aquelle melancolico -crepusculo de dezembro, com os olhos no lume, escutando o sudoeste -contra as vidraças, pensando em todas as cousas terriveis que assim -invadiam n'um tropel pathetico á sua paz de velho. Mas no meio da sua -dôr, funda como era, elle percebia um ponto, um recanto do seu coração -onde alguma cousa de muito doce, de muito novo, palpitava com uma -frescura de renascimento, como se algures, no seu ser, estivesse -rompendo, burbulhando uma nascente rica de alegrias futuras; e toda a -sua face sorria á chama alegre, revendo a bochechinha rosada, sob as -rendas brancas da touca... - -Pela casa no entanto tinham-se accendido as luzes. Já inquieto subiu ao -quarto do filho; estava tudo escuro, tão humido e frio, como se a chuva -caisse dentro. Um arrepio confrangeu o velho, e quando chamou, a voz de -Pedro veiu do negro da janella; estava lá, com a vidraça aberta, sentado -fóra na varanda, voltado para a noite brava, para o sombrio rumor das -ramagens, recebendo na face o vento, a agua, toda a invernia agreste. - ---Pois estás aqui filho! exclamou Affonso. Os criados hão de querer -arranjar o quarto, desce um momento... Estás todo molhado, Pedro! - -Apalpava-lhe os joelhos, as mãos regeladas. Pedro ergueu-se com um -estremeção, desprendeu-se, impaciente d'aquella ternura do velho. - ---Querem arranjar o quarto, hein? Faz-me bem o ar, faz-me tão bem! - -O Teixeira trouxe luzes, e atraz d'elle appareceu o criado de Pedro, que -chegára n'esse momento de Arroios, com um largo estojo de viagem -recoberto de oleado. As malas tinha-as deixado em baixo; e o cocheiro -viera tambem, como nenhum dos senhores estava em casa... - ---Bem, bem, interrompeu Affonso. O sr. Villaça lá irá amanhã, e elle -dará as ordens. - -O criado então, em bicos de pés, foi depôr o estojo sobre o marmore da -commoda: ainda lá restavam antigos frascos de toilette de Pedro: e os -castiçaes sobre a meza allumiavam o grande leito triste de solteiro com -os colxões dobrados ao meio. - -A Gertrudes toda atarefada entrara com os braços carregados de roupa de -cama; o Teixeira bateu vivamente os travesseiros; o criado d'Arroios -pousando o chapéo a um canto, e sempre em ponta de pés, veiu ajudal-os -tambem. Pedro no entanto, como somnambulo, voltara para a varanda, com a -cabeça á chuva, attraido por aquella treva da quinta que se cavava em -baixo com um rumor de mar bravo. - -Affonso, então, puxou-lhe o braço quasi com aspereza. - ---Pedro! Deixa arranjar o quarto! Desce um momento. - -Elle seguiu maquinalmente o pae á livraria, mordendo o charuto apagado -que desde tarde conservava na mão. Sentou-se longe da luz, ao canto do -sophá, ali ficou mudo e entorpecido. Muito tempo só os passos lentos do -velho, ao comprido das altas estantes, quebraram o silencio em que toda -a sala ia adormecendo. Uma braza morria no fogão. A noite parecia mais -aspera. Eram de repente vergastadas d'agua contra as vidraças, trazidas -n'uma rajada, que longamente, n'um clamor teimoso, faziam escoar um -diluvio dos telhados; depois havia uma calma tenebroza, com uma -susurração distante de vento fugindo entre ramagens: n'esse silencio as -goteiras punham um pranto lento; e logo uma corda de vendaval corria -mais furioso, envolvia a casa n'um bater de janellas, redomoinhava, -partia com silvos desolados. - ---Está uma noite de Inglaterra, disse Affonso, debruçando-se a espertar -o lume. - -Mas a esta palavra Pedro erguera-se, impetuosamente. De certo o ferira a -idéa de Maria, longe, n'um quarto alheio, agazalhando-se-lhe no leito do -adulterio entre os braços do outro. Apertou um instante a cabeça nas -mãos, depois veiu junto do pae, com o passo mal firme, mas a voz muito -calma. - ---Estou realmente cançado, meu pae, vou-me deitar. Boa noite... Amanhã -conversaremos mais. - -Beijou-lhe a mão e saiu de vagar. - -Affonso demorou-se ainda ali, com um livro na mão, sem ler, attento só a -algum rumor que viesse de cima; mas tudo jazia em silencio. - -Deram dez horas. Antes de se recolher foi ao quarto onde se fizera a -cama da ama. A Gertrudes o criado de Arroios, o Teixeira, estavam lá -cochichando ao pé da commoda, na penumbra que dava um folio posto deante -do candieiro; todos se esquivaram em pontas de pés quando lhe sentiram -os passos, e a ama continuou a arrumar em silencio os gavetões. No vasto -leito, o pequeno dormia como um Menino Jesus cançado, com o seu guiso -apertado na mão. Affonso não ousou beijal-o, para o não acordar com as -barbas asperas; mas tocou-lhe na rendinha da camisa, entalou a roupa -contra a parede, deu um geito ao cortinado, enternecido, sentindo toda a -sua dôr calmar-se n'aquella sombra de alcova onde o seu neto dormia. - ---É necessario alguma cousa, ama? perguntou, abafando a voz. - ---Não, meu senhor... - -Então, sem ruido, subiu ao quarto de Pedro. Havia uma fenda clara, -entreabriu a porta. O filho escrevia, á luz de duas vellas, com o estojo -aberto ao lado. Pareceu espantado de ver o pae: e na face que ergueu, -envelhecida e livida, dois sulcos negros faziam-lhe os olhos mais -refulgentes e duros. - ---Estou a escrever, disse elle. - -Esfregou as mãos, como arripiado da friagem do quarto, e accrescentou: - ---Amanhã cedo é necessario que o Villaça vá a Arroios... Estão lá os -criados, tenho lá dois cavalos meus, emfim uma porção de arranjos. Eu -estou-lhe a escrever. É numero 32 a casa d'elle, não é? O Teixeira ha de -saber... Boas noites, papá, boas noites. - -No seu quarto, ao lado da livraria, Affonso não poude socegar, n'uma -oppressão, uma inquietação que a cada momento o faziam erguer sobre o -travesseiro escutar: agora, no silencio da casa e do vento que calmara, -ressoavam por cima lentos e continuos os passos de Pedro. - -A madrugada clareava, Affonso ia adormecendo--quando de repente um tiro -atroou a casa. Precipitou-se do leito, despido e gritando: um creado -acudia tambem com uma lanterna. Do quarto de Pedro ainda entreaberto -vinha um cheiro de polvora; e aos pés da cama, caido de bruços, n'uma -poça de sangue que se ensopava no tapete, Affonso encontrou seu filho -morto, apertando uma pistola na mão. - -Entre as duas vélas que se extinguiam, com fogachos lividos, deixára-lhe -uma carta lacrada com estas palavras sobre o enveloppe, n'uma letra -firme: _Para o papá_. - -D'ahi a dias fechou-se a casa de Bemfica. Affonso da Maia partia com o -neto e com todos os criados para a quinta de S.^{ta} Olavia. - - -Quando Villaça, em fevereiro, foi lá acompanhar o corpo de Pedro, que ia -ser depositado no jazigo de familia, não pôde conter as lagrimas ao -avistar aquella vivenda onde passára tão alegres nataes. Um baetão preto -recobria o brazão d'armas, e esse panno de esquife parecia ter -distingido todo o seu negrume sobre a fachada muda, sobre os -castanheiros que ornavam o pateo; dentro os criados abafavam a voz, -carregados de luto; não havia uma flor nas jarras; o proprio encanto de -S.^{ta} Olavia, o fresco cantar das aguas vivas por tanques e repuchos, -vinha agora com a cadencia saudosa de um choro. E Villaça foi encontrar -Affonso na livraria, com as janellas cerradas ao lindo sol de inverno, -caido para uma poltrona, a face cavada sob os cabellos crescidos e -brancos, as mãos magras e ociosas sobre os joelhos. - -O procurador veiu dizer para Lisboa que o velho não durava um anno. - - - - -III - - -Mas esse anno passou, outros annos passaram. - -Por uma manhã de abril, nas vesperas de Paschoa, Villaça chegava de novo -a S.^{ta} Olavia. - -Não o esperavam tão cedo; e como era o primeiro dia bonito d'essa -primavera chuvosa os senhores andavam para a quinta. O mordomo, o -Teixeira, que ia já embranquecendo, mostrou-se todo satisfeito de ver o -sr. administrador com quem ás vezes se correspondia, e conduziu-o á sala -de jantar onde a velha governante, a Gertrudes, tomada de surpreza, -deixou cair uma pilha de guardanapos e para lhe saltar ao pescoço. - -As tres portas envidraçadas estavam abertas para o terraço, que se -estendia ao sol, com a sua balustrada de marmore coberta de trepadeiras: -e Villaça, adiantando-se para os degraus que desciam ao jardim, mal -poude reconhecer Affonso da Maia n'aquelle velho de barba de neve, mas -tão robusto e corado, que vinha subindo a rua de romanzeiras com o seu -neto pela mão. - -Carlos, ao avistar no terraço um desconhecido, de chapéo alto, abafado -n'um cache-nez de pelucia, correu a miral-o, curioso--e achou-se -arrebatado nos braços do bom Villaça, que largara o guarda sol, o -beijava pelo cabello, pela face, balbuciando: - ---Oh meu menino, meu querido menino! Que lindo que está! que crescido -que está... - ---Então, sem avisar, Villaça? exclamava Affonso da Maia, chegando de -braços abertos. Nós só o esperavamos para a semana, creatura! - -Os dois velhos abraçaram-se; depois um momento os seus olhos -encontraram-se, vivos e humidos, e tornaram a apertar-se commovidos. - -Carlos ao lado, muito serio, todo esbelto, com as mãos enterradas nos -bolsos das suas largas bragas de flanella branca, o casquete da mesma -flanella posta de lado sobre os bellos anneis do cabello -negro--continuava a mirar o Villaça, que com o beiço tremulo, tendo -tirado a luva, limpava os olhos por baixo dos oculos. - ---E ninguem a esperal-o, nem um criado lá em baixo no rio! dizia -Affonso. Emfim, cá o temos, é o essencial... E como você está rijo, -Villaça! - ---E v. ex.^a meu senhor! balbuciou o administrador, engulindo um soluço. -Nem uma ruga! Branco sim, mas uma cara de moço... Eu nem o conhecia!... -Quando me lembro, a ultima vez que o vi... E cá isto! cá esta linda -flor!... - -Ia abraçar Carlos outra vez enthusiasmado, mas o rapaz fugiu-lhe com uma -bella risada, saltou do terraço, foi pendurar-se d'um trapesio armado -entre as arvores, e ficou lá, balançando-se em cadencia, forte e airoso, -gritando: «tu és o Villaça!» - -O Villaça, de guarda sol debaixo do braço, contemplava-o embevecido. - ---Está uma linda creança! Faz gosto! E parece-se com o pae. Os mesmos -olhos, olhos dos Maias, o cabello encaracolado... Mas ha de ser muito -mais homem! - ---É são, é rijo, dizia o velho risonho, anediando as barbas. E como -ficou o seu rapaz, o Manuel? Quando é esse casamento? Venha você cá para -dentro, Villaça, que ha muito que conversar... - -Tinham entrado na sala de jantar, onde um lume de lenha na chaminé de -azulejo esmorecia na fina e larga luz de abril; porcelanas e pratas -resplandeciam nos aparadores de pau santo; os canarios pareciam doudos -de alegria. - -A Gertrudes, que ficára a observar, acercou-se, com as mãos cruzadas sob -o avental branco, familiar, terna. - ---Então, meu senhor, aqui está um regalo, vêr outra vez este ingrato em -S.^{ta} Olavia! - -E, com um clarão de sympathia na face, alva e redonda como uma velha -lua, ornada já de um buço branco: - ---Ah! sr. Villaça, isto agora é outra cousa! Até os canarios cantam! E -tambem eu cantava, se ainda podesse... - -E foi saindo, subitamente commovida, já com vontade de chorar. - -O Teixeira esperava, com um riso superior e mudo que lhe ia d'uma á -outra ponta dos seus altos collarinhos de mordomo. - ---Eu creio que prepararam o quarto azul ao sr. Villaça, hein? disse -Affonso. No quarto em que você costumava ficar dorme agora a -viscondessa... - -Então o Villaça apressou-se a perguntar pela sr.^a viscondessa. Era uma -Runa, uma prima da mulher de Affonso, que, no tempo em que os poetas de -Caminha a cantavam, casára com um fidalgote gallego, o sr. visconde de -Urigo-de-la-Sierra, um borracho, um brutal que lhe batia: depois, viuva -e pobre, Affonso recolhera-a por dever de parentella, e para haver uma -senhora em S.^{ta} Olavia. - -Ultimamente passara mal... Mas, olhando o relogio, Affonso interrompeu a -relação d'esses achaques. - ---Villaça, vá-se arranjar, depressa, que d'aqui a pouco é o jantar. - -O administrador surprehendido olhou tambem o relogio, depois a mesa já -posta, os seis talheres, o cesto de flores, as garrafas de Porto. - ---Então v. ex.^a agora janta de manhã? Eu pensei que era o almoço... - ---Eu lhe digo, o Carlos necessita ter um regimen. De madrugada está já -na quinta; almoça ás sete; e janta á uma hora. E eu, emfim, para vigiar -as maneiras do rapaz... - ---E o sr. Affonso da Maia, exclamou Villaça, a mudar de habitos, n'essa -edade! O que é ser avô, meu senhor! - ---Tolice! não é isso... É que me faz bem. Olhe que me faz bem!... Mas -avie-se Villaça, avie-se que Carlos não gosta de esperar... Talvez -tenhamos o abbade. - ---O Custodio? Rica cousa! Então, se v. ex.^a me dá licença... - -Apenas no corredor, o mordomo, ancioso por conversar com o sr. -administrador, perguntou-lhe, desembaraçando-o do guarda sol e do -chale-manta: - ---Com franqueza, como nos acha por cá, pela quinta sr. Villaça? - ---Estou contente, Teixeira, estou contente. Pode-se vir por gosto a -S.^{ta} Olavia. - -E, pousando familiarmente a mão no hombro do escudeiro, piscando o olho -ainda humido: - ---Tudo isto é o menino. Fez reviver o patrão! - -O Teixeira riu respeitosamente. O menino realmente era a alegria da -casa... - ---Olá! Quem toca por cá? exclamou Villaça, parando nos degraus da -escada, ao ouvir em cima um afinar gemente de rebeca. - ---É o sr. Brown, o inglez, o preceptor do menino... Muito habilidoso, é -um regalo ouvil-o; toca ás vezes á noite na sala, o sr. juiz de direito -acompanha-o na concertina... Aqui, sr. Villaça, o quarto de v. s.^a... - ---Muito bonito, sim senhor! - -O verniz dos moveis novos brilhava na luz das duas janellas, sobre o -tapete alvadio semeado de florsinhas azues: e as bambinellas, os -reposteiros de cretóne, repetiam as mesmas folhagens azuladas sobre -fundo claro. Este conforto fresco e campestre deleitou o bom Villaça. - -Foi logo apalpar os cretónes, esfregou o marmore da commoda, provou a -solidez das cadeiras. Eram as mobilias compradas no Porto, hein? Pois, -elegantes. E, realmente, não tinham sido caras. Nem elle fazia idéa! -Ficou ainda em bicos de pés a examinar duas aguarellas inglezas -representando vaccas de luxo, deitadas na relva, á sombra de ruinas -romanticas. O Teixeira, observou-lhe, com o relogio na mão: - ---Olhe que v. s.^a tem só dez minutos... O menino não gosta de esperar. - -Então o Villaça decidiu-se a desenrolar o cache-nez; depois tirou o seu -pesado collete de malha de lã; e pela camisa entreaberta via-se ainda -uma flanella escarlate por causa dos rheumatismos, e os bentinhos de -seda bordada. O Teixeira desapertava as correias da maleta; ao fundo do -corredor, a rebeca atacara o _Carnaval de Veneza_; e atravez das -janellas fechadas sentia-se o grande ar, a frescura, a paz dos campos, -todo o verde d'abril. - -Villaça, sem oculos, um pouco arripiado, passava a ponta da toalha -molhada pelo pescoço, por traz da orelha, e ia dizendo: - ---Então, o nosso Carlinhos não gosta de esperar, hein? Já se sabe, é -elle quem governa... Mimos e mais mimos, naturalmente... - -Mas o Teixeira muito grave, muito serio, desilludiu o sr. administrador. -Mimos e mais mimos, dizia s. s.^a? Coitadinho d'elle, que tinha sido -educado com uma vara de ferro! Se elle fosse a contar ao sr. Villaça! -Não tinha a creança cinco annos já dormia n'um quarto só, sem lamparina; -e todas as manhãs, zás, para dentro d'uma tina d'agua fria, ás vezes a -gear lá fóra... E outras barbaridades. Se não se soubesse a grande -paixão do avô pela creança, havia de se dizer que a queria morta. Deus -lhe perdoe, elle, Teixeira, chegara a pensal-o... Mas não, parece que -era systema inglez! Deixava-o correr, cair, trepar ás arvores, -molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho de caseiro. E depois o -rigor com as comidas! Só a certas horas e de certas cousas... E ás vezes -a creancinha, com os olhos abertos, a aguar! Muita, muita dureza. - -E o Teixeira accrescentou: - ---Emfim era a vontade de Deus, saiu forte. Mas que nós approvassemos a -educação que tem levado, isso nunca approvámos, nem eu, nem a Gertrudes. - -Olhou outra vez o relogio, preso por uma fita negra sobre o collete -branco, deu alguns passos lentos pelo quarto: depois, tomando de sobre a -cama a sobrecasaca do procurador, foi-lhe passando a escova pela gola, -de leve e por amabilidade, em quanto dizia, junto ao toucador onde o -Villaça acamava as duas longas repas sobre a calva: - ---Sabe v. s.^a, apenas veiu o mestre inglez, o que lhe ensinou? A remar! -A remar, sr. Villaça, como um barqueiro! Sem contar o trapesio, e as -habilidades de palhaço; eu n'isso nem gosto de fallar... Que eu sou o -primeiro a dizel-o: o Brown é boa pessoa, calado, asseado, excellente -musico. Mas é o que eu tenho repetido á Gertrudes: póde ser muito bom -para inglez, não é para ensinar um fidalgo portuguez... Não é. Vá v. -s.^a fallar a esse respeito com a sr.^a D. Anna Silveira... - -Bateram de manso á porta, o Teixeira emmudeceu. Um escudeiro entrou, fez -um signal ao mordomo, tirou-lhe do braço respeitosamente a sobrecasaca, -e ficou com ella junto do toucador, onde o Villaça, vermelho e -apressado, luctava ainda com as repas rebeldes. - -O Teixeira, da porta, disse com o relogio na mão: - ---É o jantar. Tem v. s.^a dois minutos, sr. Villaça. - -E o administrador d'ahi a um momento abalava tambem, abotoando ainda o -casaco pelas escadas. - -Os senhores já estavam todos na sala. Junto do fogão, onde as achas -consumidas morriam na cinza branca, o Brown percorria o _Times_. Carlos, -a cavallo nos joelhos do avô, contava-lhe uma grande historia de rapazes -e de bulhas; e ao pé o bom abbade Custodio, com o lenço de rapé -esquecido nas mãos, escutava, de bocca aberta, n'um riso paternal e -terno. - ---Olhe quem alli vem, abbade, disse-lhe Affonso. - -O abbade voltou-se, e deu uma grande palmada na côxa: - ---Esta é nova! Então é o nosso Villaça? E não me tinham dito nada! -Venham de lá esses ossos, homem!... - -Carlos pulava nos joelhos do avô, muito divertido com aquelles longos -abraços que juntavam as duas cabeças dos velhos--uma com as repas -achatadas sobre a calva, outra com uma grande corôa aberta n'uma matta -de cabello branco. E como elles, de mãos dadas, continuavam a -admirar-se, a estudarem um no outro as rugas dos annos, Affonso disse: - ---Villaça! a sr.^a viscondessa... - -O administrador porém procurou-a debalde, com os olhos abertos pela -sala. Carlos ria, batendo as mãos:--e Villaça descobriu-a emfim a um -canto, entre o aparador e a janella, sentada n'uma cadeirinha baixa, -vestida de preto, timida e queda, com os braços rechonchudos pousados -sobre a obesidade da cinta. O rosto anafado e molle, branco como papel, -as roscas do pescoço, cobriram-se-lhe subitamente de rubor; não achou -uma palavra para dizer ao Villaça, e estendeu-lhe a mão papuda e -pallida, com um dedo embrulhado n'um pedaço de seda negra. Depois ficou -a abanar-se com um grande leque de lentejoulas, o seio a arfar, os olhos -no regaço, como exhausta d'aquelle esforço. - -Dois escudeiros tinham começado a servir a sopa, o Teixeira esperava, -perfilado por traz do alto espaldar da cadeira de Affonso. - -Mas Carlos cavalgava ainda o avô, querendo acabar outra historia. Era o -Manuel, trazia uma pedra na mão... Elle primeiro pensára ir ás boas; mas -os dois rapazes começaram a rir... De maneira que os correu a todos... - ---E maiores que tu? - ---Tres rapagões, vôvô, póde perguntar á tia Pedra... Ella viu, que -estava na eira. Um d'elles trazia uma foice... - ---Está bom, senhor, está bom, ficamos inteirados... Vá, desmonte, que -está a sopa a esfriar. Upa! upa! - -E o velho, com o seu aspecto resplandecente de patriarcha feliz, veiu -sentar-se ao alto da meza, sorrindo e dizendo: - ---Já se vae fazendo pesado, já não está para collo... - -Mas reparou então no Brown, e tornando a erguer-se fez a apresentação do -procurador. - ---O sr. Brown, o amigo Villaça... Peço perdão, descuidei-me, foi culpa -d'aquelle cavalheiro lá ao fundo da meza, o sr. D. Carlos de mata-sete! - -O perceptor, solidamente abotoado na sua longa sobrecasaca militar, deu -toda a volta á meza, rigido e teso, para vir sacudir o Villaça n'um -tremendo _shake-hands_; depois, sem uma palavra, reoccupou o seu logar, -desdobrou o guardanapo, cofiou os formidaveis bigodes, e foi então que -disse ao Villaça, com o seu forte accento inglez: - ---_Muito bello dia... glorioso!_ - ---Tempo de rosas, respondeu o Villaça, comprimentando, intimidado diante -d'aquelle athleta. - -Naturalmente, n'esse dia, fallou-se da jornada de Lisboa, do bom serviço -da malla-posta, do caminho de ferro que se ia abrir... O Villaça já -viera no comboyo até ao Carregado. - ---De causar horror, hein? perguntou o abbade, suspendendo a colher que -ia levar á bocca. - -O excellente homem nunca saira de Resende; e todo o largo mundo, que -ficava para além da penumbra da sua sachristia e das arvores do seu -passal, lhe dava o terror d'uma Babel. Sobre tudo essa estrada de ferro, -de que tanto se fallava... - ---Faz arripiar um bocado, affirmou com experiencia Villaça. Digam o que -disserem, faz arripiar! - -Mas o abbade assustava-se sobre tudo com as inevitaveis desgraças -d'essas machinas! - -O Villaça então lembrou os desastres da mala-posta. No de Alcobaça, -quando tudo se virou, ficaram esmagadas duas irmãs de caridade! Emfim de -todos os modos havia perigos. Podia-se quebrar uma perna a passear no -quarto... - -O abbade gostava do progresso... Achava até necessario o progresso. Mas -parecia-lhe que se queria fazer tudo á lufa-lufa... O paiz não estava -para essas invenções; o que precisava eram boas estradinhas... - ---E economia! disse o Villaça, puxando para si os pimentões. - ---Bucellas? murmurou-lhe sobre o hombro o escudeiro. - -O administrador ergueu o copo, depois de cheio, admirou-lhe á luz a côr -rica, provou-o com a ponta do labio, e piscando o olho para Affonso: - ---É do nosso! - ---Do velho, disse Affonso. Pergunte ao Brown... Hein, Brown, um bom -nectar? - ---_Magnificente!_ exclamou o perceptor com uma energia fogosa. - -Então Carlos, estendendo o braço por cima da meza, reclamou tambem -Bucellas. E a sua razão era haver festa por ter chegado o Villaça. O avô -não consentiu; o menino teria o seu calice de Collares, como de costume, -e um só. Carlos crusou os braços sobre o guardanapo que lhe pendia do -pescoço, espantado de tanta injustiça! Então nem para festejar o Villaça -poderia apanhar uma gotinha de Bucellas? Ahi estava uma linda maneira de -receber os hospedes na quinta... A Gertrudes dissera-lhe que como viera -o sr. administrador, havia de pôr á noite para o chá o fato novo de -velludo. Agora observavam-lhe que não era festa, nem caso para -Bucellas... Então não entendia. - -O avô, que lhe bebia as palavras, enlevado, fez subitamente um carão -severo. - ---Parece-me que o senhor está palrando de mais. As pessoas grandes é que -palram à meza. - -Carlos recolheu-se logo ao seu prato, murmurando muito mansamente: - ---Está bom, vovô, não te zangues. Esperarei para quando for grande... - -Houve um sorriso em volta da meza. A propria viscondessa, deleitada, -agitou preguiçosamente o leque: o abbade, com a sua boa face banhada em -extasi para o menino, apertava as mãos cabelludas contra o peito, tanto -aquillo lhe parecia engraçado: e Affonso tossia por traz do guardanapo, -como limpando as barbas--a esconder o riso, a admiração que lhe brilhava -nos olhos. - -Tanta vivacidade surprehendeu tambem Villaça. Quiz ouvir mais o menino, -e pousando o seu talher: - ---E diga-me, Carlinhos, já vae adiantado nos seus estudos? - -O rapaz, sem o olhar, repoltreou-se, mergulhou as mãos pelo cós das -flanellas, e respondeu com um tom superior: - ---Já faço ladear a _Brigida_. - -Então o avô, sem se conter, largou a rir, cahido para o espaldar da -cadeira: - ---Essa é boa! Eh! Eh! Já faz ladear a _Brigida_! E é verdade, Villaça, -já a faz ladear... Pergunte ao Brown; não é verdade, Brown? E a eguasita -é uma piorrita, mas fina... - ---Oh vovô, gritou Carlos já excitado, dize ao Villaça, anda. Não é -verdade que eu era capaz de governar o _dog-cart_? - -Affonso reassumio um ar severo. - ---Não o nego... Talvez o governasse, se lh'o consentissem. Mas faça-me -favor de se não gabar das suas façanhas, porque um bom cavalleiro deve -ser modesto... E sobre tudo não enterrar assim as mãos pela barriga -abaixo... - -O bom Villaça, no entanto, dando estalinhos aos dedos, preparava uma -observação. Não se podia de certo ter melhor prenda que montar a cavallo -com as regras... Mas elle queria dizer se o Carlinhos já entrava com o -seu Phedro, o seu Tito Liviosinho... - ---Villaça, Villaça, advertiu o abbade, de garfo no ar e um sorriso de -santa malicia, não se deve fallar em latim aqui ao nosso nobre amigo... -Não admitte, acha que é antigo... Elle, antigo é... - ---Ora sirva-se d'esse fricassé, ande abbade, disse Affonso, que eu sei -que é o seu fraco, e deixe lá o latim... - -O abbade obedeceu com deleite; e escolhendo no molho rico os bons -pedaços de ave, ia murmurando: - ---Deve-se começar pelo latimsinho, deve-se começar por lá... É a base; é -a basesinha! - ---Não! latim mais tarde! exclamou o Brown, com um gesto possante. -Prrimeiro forrça! Forrça! Musculo... - -E repetio, duas vezes, agitando os formidaveis punhos: - ---Prrimeiro musculo, musculo!... - -Affonso appoiava-o, gravemente. O Brown estava na verdade. O latim era -um luxo d'erudito... Nada mais absurdo que começar a ensinar a uma -creança n'uma lingua morta quem foi Fabio, rei dos Sabinos, o caso dos -Grachos, e outros negocios d'uma nação extincta, deixando-o ao mesmo -tempo sem saber o que é a chuva que o molha, como se faz o pão que come, -e todas as outras cousas do Universo em que vive... - ---Mas emfim os classicos, arriscou timidamente o abbade. - ---Qual classicos! O primeiro dever do homem é viver. E para isso é -necessario ser são, e ser forte. Toda a educação sensata consiste -n'isto: crear a saude, a força e os seus habitos, desenvolver -exclusivamente o animal, armal-o d'uma grande superioridade physica. Tal -qual como se não tivesse alma. A alma vem depois... A alma é outro luxo. -É um luxo de gente grande... - -O abbade coçava a cabeça, com o ar arripiado. - ---A instrucçãosinha é necessaria, disse elle. Você não acha, Villaça? -Que v. ex^a, sr. Affonso da Maia, tem visto mais mundo do que eu... Mas -emfim a instrucçãosinha... - ---A instrucção para uma creança não é recitar _Tityre, tu patulae -recubans_... É saber factos, noções, cousas uteis, cousas praticas... - -Mas suspendeu-se: e, com o olho brilhante, n'um signal ao Villaça, -mostrou-lhe o neto que palrava inglez com o Brown. Eram de certo feitos -de força, uma historia de briga com rapazes que elle lhe estava a -contar, animado e jogando com os punhos. O perceptor approvava, -retorcendo os bigodes. E á mesa os senhores com os garfos suspensos, por -traz os escudeiros de pé e guardanapo no braço, todos, n'um silencio -reverente, admiravam o menino a fallar inglez. - ---Grande prenda, grande prenda, murmurou Villaça, inclinando-se para a -Viscondessa. - -A excellente senhora córou, atravez d'um sorriso. Parecia assim mais -gorda, toda acaçapada na cadeira, silenciosa, comendo sempre; e, a cada -gole de Bucellas, refrescava-se languidamente com o seu grande leque -negro e lentejoulado. - -Quando o Teixeira serviu o vinho do Porto, Affonso fez uma _saude_ ao -Villaça. Todos os copos se ergueram n'um rumor de amizade. Carlos quiz -gritar _Hurrah!_ O avô, com um gesto reprehensivo, immobilisou-o; e na -pausa satisfeita que se fez, o pequeno disse com uma grande convicção: - ---Oh avô, eu gosto do Villaça. O Villaça é nosso amigo. - ---Muito, e ha muitos annos, meu senhor! exclamou o velho procurador, tão -commovido que mal podia erguer o calice na mão. - -O jantar findava. Fóra, o sol deixára o terrasso e a quinta verdejava na -grande doçura do ar tranquillo, sob o azul ferrete. Na chaminé só -restava uma cinza branca: os lilazes das jarras exhalavam um aroma vivo, -a que se misturava o do creme queimado, tocado de um fio de limão: os -creados, de colletes brancos, moviam o serviço d'onde se escapava algum -som argentino: e toda a alva toalha adamascada desapparecia sob a -confusão da sobremesa onde os tons dourados do vinho do Porto brilhavam -entre as compoteiras de crystal. A Viscondessa affogueada abanava-se. -Padre Custodio enrolava devagar o guardanapo, a sua batina coçada luzia -nas pregas das mangas. - -Então Affonso, sorrindo ternamente, fez a ultima saude. - ---Viva v. s.^a, snr. Carlos de Matta-sete! - ---Sr. Vôvô! dizia o pequeno escorropichando o copo. - -A cabeçinha de cabellos negros, a velha face de barbas de neve, -saudavam-se das extremidades da mesa--em quanto todos sorriam, no -enternecimento d'aquella cerimonia. Depois o abbade, de palito na bocca, -murmurou as _graças_. A Viscondessa, cerrando os olhos, juntou tambem as -mãos. E Villaça que tinha crenças religiosas não gostou de vêr Carlos, -sem se importar com as graças, saltar da cadeira, vir atirar-se ao -pescoço do avô, fallar-lhe ao ouvido. - ---Não senhor! não senhor! dizia o velho. - -Mas o rapaz, abraçando-o mais forte, dava-lhe grandes razões, n'um -murmurio de mimo dôce como um beijo, que ia pondo na face do velho uma -fraqueza indulgente. - ---É por ser festa, disse elle emfim vencido. Mas veja lá, veja lá... - -O rapaz pulou, bateu as palmas, agarrou Villaça pelos braços, fêl-o -redemoinhar, e foi cantando n'um rythmo seu: - ---Fizeste bem em vir, bem, bem, bem!... Vou buscar a Therezinha, inha, -inha, inha! - ---É a noiva, disse o avô, erguendo-se da mesa. Já tem amores, é a -pequena das Silveiras... O café para o terraço, Teixeira. - -O dia fóra convidava, adoravel, d'um azul suave, muito puro e muito -alto, sem uma nuvem. Defronte do terraço os geranios vermelhos estavam -já abertos; as verduras dos arbustos, muito tenras ainda, d'uma -delicadeza de renda, pareciam tremer ao menor sopro; vinha por vezes um -vago cheiro de violetas, misturado ao perfume adocicado das flôres do -campo; o alto repuxo cantava; e nas ruas do jardim, bordadas de buxos -baixos, a areia fina faiscava de leve áquelle sol timido de primavera -tardia, que ao longe envolvia os verdes da quinta, adormecida a essa -hora de sesta n'uma luz fresca e loura. - -Os tres homens sentaram-se á mesa do café. Defronte do terraço, o Brown, -de bonet escossez posto ao lado e grande cachimbo na bocca, puchava ao -alto a barra do trapezio para Carlos se balouçar. Então o bom Villaça -pedio para voltar as costas. Não gostava de vêr gymnasticas; bem sabia -que não havia perigo; mas mesmo nos cavallinhos, as cabriolas, os arcos, -atordoavam-n'o; sahia sempre com o estomago embrulhado... - ---E parece-me imprudente, sobre o jantar... - ---Qual! é só balouçar-se... Olhe para aquillo! - -Mas Villaça não se moveu, com a face sobre a chavena. - -O abbade, esse, admirava, de labios entreabertos, e o pires cheio de -café esquecido na mão. - ---Olhe para aquillo Villaça, repetio Affonso. Não lhe faz mal, homem! - -O bom Villaça voltou-se, com esforço. O pequeno muito alto no ar, com as -pernas retesadas contra a barra do trapezio, as mãos ás cordas, descia -sobre o terraço, cavando o espaço largamente, com os cabellos ao vento; -depois elevava-se, serenamente, crescendo em pleno sol; todo elle -sorria; a sua blusa, os calções enfunavam-se á aragem; e via-se passar, -fugir, o brilho dos seus olhos muito negros e muito abertos. - ---Não está mais na minha mão, não gosto, disse o Villaça. Acho -imprudente! - -Então Affonso bateu as palmas, o abbade gritou _bravo, bravo_. Villaça -voltou-se para applaudir, mas Carlos tinha já desapparecido; o trapezio -parava, em oscillações lentas; e o Brown, retomando o _Times_ que pozera -ao lado sobre o pedestal d'um busto, foi descendo para a quinta -envolvido n'uma nuvem de fumo do cachimbo. - ---Bella cousa, a gymnastica! exclamou Affonso da Maia, accendendo com -satisfação outro charuto. - -Villaça já ouvira que enfraquecia muito o peito. E o abbade, depois de -dar um sorvo ao café, de lamber os beiços, soltou a sua bella phrase, -arranjada em maxima: - ---Esta educação faz athletas mas não faz christãos. Já o tenho dito... - ---Já o tem dito abbade, já! exclamou Affonso alegremente. Diz-m'o todas -as semanas... Quer você saber, Villaça? O nosso Custodio matta-me o -bicho do ouvido para que eu ensine a cartilha ao rapaz. A cartilha!... - -Custodio ficou um momento a olhar Affonso, com uma face desconsolada e a -caixa de rapé aberta na mão; a irreligião d'aquelle velho fidalgo, -senhor de quasi toda a freguezia, era uma das suas dôres: - ---A cartilha, sim meu senhor, ainda que v. ex.^a o diga assim com esse -modo escarnica... A cartilha. Mas já não quero fallar na cartilha... Ha -outras cousas. E se o digo tantas vezes, sr. Affonso da Maia, é pelo -amor que tenho ao menino. - -E recomeçou a discussão, que voltava sempre ao café, quando Custodio -jantava na quinta. - -O bom homem achava horroroso que n'aquella edade um tão lindo moço, -herdeiro d'uma casa tão grande, com futuras responsabilidades na -sociedade, não soubesse a sua doutrina. E narrou logo ao Villaça a -historia da D. Cecilia Macedo: esta virtuosa senhora, mulher do -escrivão, tendo passado deante do portão da quinta, avistara o -Carlinhos, chamara-o, carinhosa e amiga de creanças como era, e -pedira-lhe que lhe dissesse o _acto de contricção_. E que respondeu o -menino? _Que nunca em tal ouvira fallar!_ Estas cousas entristeciam. E o -sr. Affonso da Maia achava-lhe graça, ria-se! Ora alli estava o amigo -Villaça que podia dizer se era caso para jubilar. Não, o sr. Affonso da -Maia tinha muito saber, e correra muito mundo; mas d'uma cousa não o -podia convencer, a elle pobre padre que nem mesmo o Porto vira ainda, é -que houvesse felicidade e bom comportamento na vida sem a moral do -cathecismo. - -E Affonso da Maia respondia com bom humor: - ---Então que lhe ensinava você, abbade, se eu lhe entregasse o rapaz? Que -se não deve roubar o dinheiro das algibeiras, nem mentir, nem maltratar -os inferiores, por que isso é contra os mandamentos da lei de Deus, e -leva ao inferno, hein? É isso?... - ---Ha mais alguma cousa... - ---Bem sei. Mas tudo isso que você lhe ensinaria que se não deve fazer, -por ser um peccado que offende a Deus, já elle sabe que se não deve -praticar, por que é indigno d'um cavalheiro e d'um homem de bem... - ---Mas, meu senhor... - ---Ouça abbade. Toda a differença é essa. Eu quero que o rapaz seja -virtuoso por amor da virtude e honrado por amor da honra; mas não por -medo ás caldeiras de Pero Botelho, nem com o engodo de ir para o reino -do céu... - -E accrescentou, erguendo-se e sorrindo: - ---Mas o verdadeiro dever de homens de bem, abbade, é quando vem, depois -de semanas de chuva, um dia d'estes, ir respirar pelos campos e não -estar aqui a discutir moral. Portanto arriba! e se o Villaça não está -muito cançado, vamos dar ahi um giro pelas fazendas... - -O abbade suspirou como um santo que vê a negra impiedade dos tempos e -Belzebut arrebatando as melhores rezes do rebanho; depois olhou a -chavena e sorveu com delicias o resto do seu café. - -Quando Affonso da Maia, Villaça e o abbade recolheram do seu passeio -pela freguezia, escurecera, havia luzes pelas salas, e tinham chegado já -as Silveiras, senhoras ricas da quinta da _Lagoaça_. - -D. Anna Silveira, a solteira e mais velha, passava pela talentosa da -familia, e era em pontos de doutrina e de etiqueta uma grande -auctoridade em Resende. A viuva, D. Eugenia, limitava-se a ser uma -excellente e pachorrenta senhora, de agradavel nutrição, trigueirota e -pestanuda; tinha dois filhos, a Theresinha, a _noiva_ de Carlos, uma -rapariguinha magra e viva com cabellos negros como tinta, e o -morgadinho, o Eusebiosinho, uma maravilha muito fallada n'aquelles -sitios. - -Quasi desde o berço este notavel menino revelara um edificante amor por -alfarrabios e por todas as coisas do saber. Ainda gatinhava e já a sua -alegria era estar a um canto, sobre uma esteira, embrulhado n'um -cobertor, folheando _in-folios_, com o craneosinho calvo de sabio -curvado sobre as lettras garrafaes de boa doutrina: depois de -crescidinho tinha tal proposito que permanecia horas immovel n'uma -cadeira, de perninhas bambas, esfuracando o nariz: nunca appetecera um -tambor ou uma arma: mas cosiam-lhe cadernos de papel, onde o precoce -letrado, entre o pasmo da mamã e da titi, passava dias a traçar -algarismos, com a lingoasinha de fora. - -Assim na familia tinha a sua carreira destinada: era rico, havia de ser -primeiro bacharel, e depois desembargador. Quando vinha a Santa Olavia, -a tia Annica installava-o logo á mesa, ao pé do candieiro, a admirar as -pinturas d'um enorme e rico volume, os _Costumes de todos os Povos do -Universo_. Já lá estava essa noite, vestido como sempre de escossez, com -o _plaid_ de flamejante xadrez vermelho e negro posto a tiracollo e -preso ao hombro por uma dragona; para que conservasse o ar nobre d'um -Stuart, d'um valoroso cavalleiro de Walter Scott, nunca lhe tiravam o -bonet onde se arqueava com heroismo uma rutilante penna de gallo; e nada -havia mais melancolico que a sua facesinha trombuda, a que o excesso de -lombrigas dava uma molleza e uma amarellidão de manteiga, os seus -olhinhos vagos e azulados, sem pestanas como se a sciencia lh'as tivesse -já consummido, pasmando com sisudez para as camponesas da Sicilia, e -para os guerreiros ferozes do Montenegro appoiados a escupetas, em -pincaros de serranias. - -Deante do canapé das senhoras lá se achava tambem o fiel amigo, o dr. -delegado, grave e digno homem, que havia cinco annos andava ponderando e -meditando o casamento com a Silveira viuva, sem se -decidir--contentando-se em comprar todos os annos mais meia duzia de -lençoes, ou uma peça mais de bretanha, para arredondar o bragal. Estas -compras eram discutidas em casa das Silveiras, á brazeira: e as allusões -recatadas, mas inevitaveis, ás duas fronhasinhas, ao tamanho dos -lençoes, aos cobertores de papa para os conchegos de janeiro--em logar -de inflammar o magistrado, inquietavam-n'o. Nos dias seguintes apparecia -preoccupado--como se a perspectiva da santa consummação do matrimonio -lhe désse o arrepio de uma façanha a emprehender, o ter de agarrar um -toiro, ou nadar nos cachões do Douro. Então, por qualquer rasão -especiosa, adiava-se o casamento até ao S. Miguel seguinte. E alliviado, -tranquillo, o respeitavel Dr. continuava a acompanhar as Silveiras a -chás, festas de egreja ou pezames, vestido de preto, affavel, serviçal, -sorrindo a D. Eugenia, não desejando mais prazeres que os d'essa -convivencia paternal. - -Apenas Affonso entrou na sala deram-lhe logo noticia do contratempo: o -dr. juiz de direito e a senhora não podiam vir, por que o magistrado -tivera a dôr; e as Brancos tinham mandado recado a desculpar-se, -coitadas, que era dia de tristeza em casa, por fazer desesete annos que -morrera o mano Manuel... - ---Bem, disse Affonso, bem. A dôr, a tristeza, o mano Manuel... Fazemos -nós um voltaretesinho de quatro. Que diz o nosso dr. delegado? - -O excellente homem dobrou a sua fronte calva, murmurando que «estava ás -ordens.» - ---Então ao dever, ao dever! exclamou logo o abbade, esfregando as mãos, -no ardor já da partida. - -Os parceiros dirigiram-se á saleta do jogo--que um reposteiro de damasco -separava da sala, franzido agora, deixando ver a mesa verde, e nos -circulos de luz que cahiam dos _abat-jour_ os baralhos abertos em leque. -D'ahi a um momento o dr. delegado voltou, risonho, dizendo que «os -deixara para um roquesinho de tres»; e retomou o seu logar ao lado de D. -Eugenia, cruzando os pés debaixo da cadeira e as mãos em cima do ventre. -As senhoras estavam fallando da dôr do dr. juiz de direito. Costumava -dar-lhe todos os tres mezes: e era condemnavel a sua teima em não querer -consultar medicos. Quanto mais que elle andava acabado, ressequindo, -amarellando--e a D. Augusta, a mulher, a nutrir á larga, a ganhar -côres!... A Viscondessa, enterrada em toda a sua gordura ao canto do -canapé, com o leque aberto sobre o peito, contou que em Hespanha vira um -caso egual: o homem chegara a parecer um esqueleto, e a mulher uma pipa; -e ao principio fôra o contrario; até sobre isso se tinham feito uns -versos... - ---Humores, disse com melancolia o dr. delegado. - -Depois fallou-se nas Brancos; recordou-se a morte de Manuel Branco, -coitadinho, na flor de idade! E que perfeição de rapaz! E que rapaz de -juizo! D. Anna Silveira não se esquecera, como todos os annos, de lhe -accender uma lamparina por alma, e de lhe resar tres padre-nossos. A -viscondessa pareceu toda afflicta por se não ter lembrado... E ella que -tinha o proposito feito! - ---Pois estive para t'o mandar dizer! exclamou D. Anna. E as Brancos que -tanto o agradecem, filha! - ---Ainda está a tempo, observou o magistrado. - -D. Eugenia deu uma malha indolente no _crochet_ de que nunca se -separava, e murmurou com um suspiro: - ---Cada um tem os seus mortos. - -E no silencio que se fez, saiu do canto do canapé outro suspiro, o da -viscondessa, que de certo se recordára do fidalgo d'Urigo de la Sierra, -e murmurava: - ---Cada um tem os seus mortos... - -E o digno dr. delegado terminou por dizer egualmente, depois de passar -reflectidamente a mão pela calva: - ---Cada um tem os seus mortos! - -Uma somnolencia ia pesando. Nas serpentinas douradas, sobre as consoles, -as chammas das velas erguiam-se altas e tristes. Eusebiosinho voltava -com cautella e arte as estampas dos _Costumes de todos os Povos_. E na -saleta de jogo, atravez do reposteiro aberto, sentia-se a voz já -arrenegada do abbade, rosnando com um rancor tranquillo, «passo, que é o -que tenho feito toda a santa noite!» - -N'esse momento Carlos arremettia pela sala dentro arrastando a sua -noiva, a Theresinha, toda no ar e vermelha de brincar; e logo a grulhada -das suas vozes reanimou o canapé dormente. - -Os noivos tinham chegado d'uma pittoresca e perigosa viagem, e Carlos -parecia descontente de sua mulher; comportara-se d'uma maneira atroz; -quando elle ia governando a mala-posta, ella quizera empoleirar-se ao pé -d'elle na almofada... Ora senhoras não viajam na almofada. - ---E elle atirou-me ao chão, titi! - ---Não é verdade! De mais a mais é mentirosa! Foi como quando chegámos á -estalagem... Ella quiz-se deitar, e eu não quiz... A gente, quando se -apeia de viagem, a primeira cousa que faz é tratar do gado... E os -cavallos vinham a escorrer... - -A voz de D. Anna interrompeu, muito severa: - ---Está bom, está bom, basta de tolices! Já cavallaram bastante. Senta-te -ahi ao pé da sr.^a Viscondessa, Thereza... Olhe essa travessa do -cabello... Que desproposito! - -Sempre detestára ver a sobrinha, uma menina delicada de dez annos, -brincar assim com o Carlinhos. Aquelle bello e impetuoso rapaz, sem -doutrina e sem proposito, aterrava-a; e pela sua imaginação de -solteirona passavam sem cessar idéas, suspeitas de ultrages que elle -poderia fazer á menina. Em casa, ao agasalhal-a antes de vir para S.^ta -Olavia, recommendava-lhe com força que não fosse com o Carlos para os -recantos escuros! que o não deixasse mecher-lhe nos vestidos!... A -menina, que tinha os olhos muito langorosos, dizia: «Sim, titi.» Mas, -apenas na quinta, gostava de abraçar o seu maridinho. Se eram casados, -por que não haviam de fazer néné, ou ter uma loja e ganharem a sua vida -aos beijinhos? Mas o violento rapaz só queria guerras, quatro cadeiras -lançadas a galope, viagens a terras de nomes barbaros que o Brown lhe -ensinava. Ella, despeitada, vendo o seu coração mal comprehendido, -chamava-lhe _arrieiro_; elle ameaçava boxal-a, á ingleza;--e -separavam-se sempre arrenegados. - -Mas quando ella se accomodou ao lado da Viscondessa, gravesinha e com as -mãos no regaço--Carlos veiu logo estirar-se ao pé d'ella, meio deitado -para as costas do canapé, bamboleando as pernas. - ---Vamos, filho, tem maneiras, rosnou-lhe muito secca D. Anna. - ---Estou cançado, governei quatro cavallos, replicou elle, insolente e -sem a olhar. - -De repente porém, d'um salto, precipitou-se sobre o Eusebiosinho. -Queria-o levar á Africa, a combatter os selvagens: e puchava-o já pelo -seu bello _plaid_ de cavalleiro d'Escossia, quando a mamã accudiu -atterrada. - ---Não, com o Eusebiosinho não, filho! Não tem saude para essas -cavalladas... Carlinhos, olhe que eu chamo o avô! - -Mas o Eusebiosinho, a um repellão mais forte, rolara no chão, soltando -gritos medonhos. Foi um alvoroço, um levantamento. A mãe, tremula, -agachada junto d'elle, punha-o de pé sobre as perninhas molles, -limpando-lhe as grossas lagrimas, já com o lenço, já com beijos, quasi a -chorar tambem. O delegado, consternado, apanhara o bonet escossez, e -cofiava melancolicamente a bella pena de gallo. E a Viscondessa apertava -ás mãos ambas o enorme seio, como se as palpitações a suffocassem. - -O Eusebiosinho foi então preciosamente collocado ao lado da titi; e a -severa senhora, com um fulgôr de colera na face magra, apertando o leque -fechado como uma arma, preparava-se a repellir o Carlinhos que, de mãos -atraz das costas e aos pulos em roda do canapé, ria, arreganhando para o -Eusebiosinho um labio feroz. Mas n'esse momento davam nove horas, e a -desempenada figura do Brown appareceu á porta. - -Apenas o avistou, Carlos correu a refugiar-se por detraz da Viscondessa, -gritando: - ---Ainda é muito cedo, Brown, hoje é festa, não me vou deitar! - -Então Affonso da Maia, que se não movera aos uivos lacinantes do -Silveirinha, disse de dentro, da mesa do voltarete, com severidade: - ---Carlos, tenha a bondade de marchar já para a cama. - ---Oh vôvô, é festa, que está cá o Villaça! - -Affonso da Maia pousou as cartas, atravessou a sala sem uma palavra, -agarrou o rapaz pelo braço, e arrastou-o pelo corredor--em quanto elle, -de calcanhares fincados no soalho, resistia, protestando com desespero: - ---É festa, vôvô... É uma maldade!... O Villaça póde-se escandalisar... -Oh vôvô, eu não tenho somno! - -Uma porta fechando-se abafou-lhe o clamor. As senhoras censuraram logo -aquella rigidez: ahi estava uma cousa incomprehensivel; o avô -deixava-lhe fazer todos os horrores, e recusava-lhe então o bocadinho da -soirée... - ---Oh sr. Affonso da Maia, por que não deixou estar a creança? - ---É necessario methodo, é necessario methodo, balbuciou elle, entrando, -todo pallido do seu rigor. - -E á mesa do voltarete, apanhando as cartas com as mãos tremulas, repetia -ainda: - ---É necessario methodo. Creanças á noite dormem. - -D. Anna Silveira voltando-se para o Villaça--que cedera o seu lugar ao -dr. delegado e vinha palestrar com as senhoras--teve aquelle sorriso -mudo que lhe franzia os labios, sempre que Affonso da Maia fallava em -«methodos.» - -Depois, reclinando-se para as costas da cadeira e abrindo o leque, -declarou, a transbordar d'ironia, que, talvez por ter a intelligencia -curta, nunca comprehendera a vantagem dos «methodos»... Era á ingleza, -segundo diziam: talvez provassem bem em Inglaterra; mas ou ella estava -enganada, ou S.^ta Olavia era no reino de Portugal... - -E como Villaça inclinava timidamente a cabeça, com a sua pitada nos -dedos, a esperta senhora, baixo para que Affonso dentro não ouvisse, -desabafou. O sr. Villaça naturalmente não sabia, mas aquella educação do -Carlinhos nunca fôra approvada pelos amigos da casa. Já a presença do -Brown, um heretico, um protestante, como perceptor na familia dos Maias, -causara desgosto em Resende. Sobretudo quando o sr. Affonso tinha -aquelle santo do abbade Custodio, tão estimado, homem de tanto saber... -Não ensinaria á creança habilidades de acrobata; mas havia de lhe dar -uma educação de fidalgo, preparal-o para fazer boa figura em Coimbra. - -N'esse momento, o abbade, suspeitando uma corrente d'ar, erguera-se da -mesa de jogo a fechar o reposteiro: então, como Affonso já não podia -ouvir, D. Anna ergueu a voz: - ---E olhe que o Custodio teve desgosto, sr. Villaça. Que o Carlinhos, -coitadinho, nem uma palavra sabe de doutrina... Sempre lhe quero contar -o que succedeu com a Macedo. - -Villaça já sabia. - ---Ah já sabe? Lembras-te viscondessa? Com a Macedo, do acto de -contricção... - -A viscondessa suspirou, erguendo um olhar mudo ao ceu atravez do tecto. - ---Horroroso! continuou D. Anna. A pobre mulher chegou lá a nossa casa -embuchada... E eu fez-me impressão. Até sonhei com aquillo tres noites a -fio... - -Calou-se um momento. Villaça, embaraçado, acanhado, fazia girar a caixa -de rapé nos dedos, com os olhos postos no tapete. Outro langor de -somnolencia passou na sala; D. Eugenia, com as palpebras pesadas, fazia -de vez em quando uma malha molle no _crochet_; e a noiva de Carlos, -estirada para o canto do sophá, já dormia, com a boquinha aberta, os -seus lindos cabellos negros caindo-lhe pelo pescoço. - -D. Anna, depois de bocejar de leve, retomou a sua idéa: - ---Sem contar que o pequeno está muito atrazado. A não ser um bocado de -inglez, não sabe nada... Nem tem prenda nenhuma! - ---Mas é muito esperto, minha rica senhora! accudiu Villaça. - ---É possivel, respondeu seccamente a intelligente Silveira. - -E, voltando-se para Euzebiosinho, que se conservava ao lado d'ella, -quieto como se fosse de gesso: - ---Oh filho, dize tu aqui ao sr. Villaça aquelles lindos versos que -sabes... Não sejas atado, anda!... Vá, Euzebio, filho, sê bonito... - -Mas o menino, mollengão e tristonho, não se descollava das saias da -titi: teve ella de o pôr de pé, amparal-o, para que o tenro prodigio não -alluisse sobre as perninhas flacidas; e a mamã prometteu-lhe que, se -dissesse os versinhos, dormia essa noite com ella... - -Isto decidio-o: abrio a bocca, e como d'uma torneira lassa veio de lá -escorrendo, n'um fio de voz, um recitativo lento e babujado: - - - É noite, o astro saudoso - Rompe a custo um plumbeo céu, - Tolda-lhe o rosto formoso - Alvacento, humido véo... - - -Disse-a toda--sem se mexer, com as mãosinhas pendentes, os olhos -mortiços pregados na titi. A mamã fazia o compasso com a agulha do -_crochet_; e a viscondessa, pouco a pouco, com um sorriso de quebranto, -banhada no langor da melopea, ia cerrando as palpebras. - ---Muito bem, muito bem! exclamou o Villaça, impressionado, quando o -Euzebiosinho findou coberto de suor. Que memoria! Que memoria! É um -prodigio!... - -Os creados entravam com o chá. Os parceiros tinham findado a partida; e -o bom Custodio, de pé, com a sua chavena na mão, queixava-se amargamente -da maneira porque aquelles senhores o tinham esfollado. - -Como ao outro dia era domingo, e havia missa cedo, as senhoras -retiraram-se ás nove e meia. O serviçal dr. delegado dava o braço a D. -Eugenia; um creado da quinta allumiava adiante com o lampeão; e o moço -das Silveiras levava ao collo o Eusebiosinho que parecia um fardo -escuro, abafado em mantas, com um chale amarrado na cabeça. - - -Depois da ceia Villaça acompanhou ainda um momento Affonso da Maia á -livraria, onde, antes de recolher, elle tomava sempre á ingleza o seu -cognac e soda. - -O aposento, a que as velhas estantes de pau preto davam um ar severo, -estava adormecido tepidamente, na penumbra suave, com as cortinas bem -fechadas, um resto de lume na chaminé, e o globo do candieiro pondo a -sua claridade serena na mesa coberta de livros. Em baixo, os repuchos -cantavam alto no silencio da noite. - -Emquanto o escudeiro rolava para o pé da poltrona de Affonso, n'uma mesa -baixa, os crystaes e as garrafas de soda, Villaça, com as mãos nos -bolsos, de pé e pensativo, olhava a braza da acha que morria na cinza -branca. Depois ergueu a cabeça, para murmurar, como ao acaso: - ---Aquelle rapazito é esperto... - ---Quem? O Euzebiosinho? disse Affonso, que se accomodava junto ao fogão, -enchendo alegremente o cachimbo. Eu tremo de o ver cá, Villaça! O Carlos -não gosta d'elle, e tivemos ahi um desgosto horroroso... Foi já ha -mezes. Havia uma procissão e o Eusebiosinho ia de anjo... As Silveiras, -excellentes mulheres, coitadas, mandaram-n'o cá para o mostrar á -viscondessa, já vestido de anjo. Pois senhores, distrahimo-nos, e o -Carlos que o andava a rondar apodera-se d'elle, leva-o para o sotão, e, -meu caro Villaça... Em primeiro logar ia-o matando porque embirra com -anjos... Mas o peior não foi isso. Imagine você o nosso terror, quando -nos apparece o Eusebiosinho aos berros pela titi, todo desfrizado, sem -uma aza, com a outra a bater-lhe os calcanhares dependurada de um -barbante, a corôa de rosas enterrada até ao pescoço, e os galões de -ouro, os tulles, as lentejoulas, toda a vestimenta celeste em -frangalhos!... Emfim, um anjo depennado e sovado... Eu ia dando cabo do -Carlos. - -Bebeu metade da sua soda, e passando a mão pelas barbas, accrescentou, -com uma satisfação profunda: - ---É levado do diabo, Villaça! - -O administrador, sentado agora á borda de uma cadeira, esboçou uma -risadinha muda; depois ficou calado, olhando Affonso, com as mãos nos -joelhos, como esquecido e vago. Ia abrir os labios, hesitou ainda, -tossio de leve; e continuou a seguir pensativamente as faiscas que -erravam sobre as achas. - -Affonso da Maia, no entanto, com as pernas estiradas para o lume, -recomeçara a fallar do Silveirinha. Tinha tres ou quatro mezes mais que -Carlos, mas estava enfesado, estiolado, por uma educação á portugueza: -d'aquella edade ainda dormia no chôco com as criadas, nunca o lavavam -para o não constiparem, andava couraçado de rolos de flanellas! Passava -os dias nas saias da titi a decorar versos, paginas inteiras do -_Cathecismo de Perseverança_. Elle por curiosidade um dia abrira este -livreco e vira lá, «que o sol é que anda em volta da terra (como antes -de Galileu), e que Nosso Senhor todas as manhãs dá as ordens ao sol, -para onde ha d'ir e onde ha de parar, etc., etc.» E assim lhe estavam -arranjando uma almasinha de bacharel... - -Villaça teve outra risadinha silenciosa. Depois, como subitamente -decidido, ergueu-se, fez estalar os dedos, disse estas palavras: - ---V. Ex.^a sabe que appareceu a Monforte? - -Affonso, sem mover a cabeça, reclinado para as costas da poltrona, -perguntou tranquillamente, envolvido no fumo do cachimbo: - ---Em Lisboa? - ---Não senhor, em Paris. Viu-a lá o Alencar, esse rapaz que escreve, e -que era muito de Arroios... Esteve até em casa d'ella. - -E ficaram calados. Havia annos que entre elles se não pronunciara o nome -de Maria Monforte. Ao principio, quando se retirara para Santa Olavia, a -preoccupação ardente de Affonso da Maia fôra tirar-lhe a filha que ella -levara. Mas a esse tempo ninguem sabia onde Maria se refugiara com o seu -principe: nem pela influencia das legações, nem pagando regiamente a -policia secreta de Paris, de Londres, de Madrid, se poude descobrir a -«toca da fera» como disia então o Villaça. Ambos decerto tinham mudado -de nome; e, dadas essas naturezas bohemias, quem sabe se não errariam -agora pela America, pela India, em regiões mais exoticas? Depois, pouco -a pouco, Affonso da Maia descorçoado com aquelles esforços vãos, todo -occupado do neto que crescia bello e forte ao seu lado, no -enternecimento continuo que elle lhe dava foi esquecendo a Monforte e a -sua outra neta, tão distante, tão vaga, a quem ignorava as feições, de -quem mal sabia o nome. E agora de repente a Monforte apparecia outra vez -em Paris! e o seu pobre Pedro estava morto! e aquella creança que dormia -ao fundo do corredor nunca vira sua mãe... - -Erguera-se, passeiava na livraria, pesado e lento, com a cabeça baixa. -Junto á mesa, ao pé do candieiro, o Villaça ia percorrendo um a um os -papeis da sua carteira. - ---E está em Paris com o italiano? perguntou Affonso do fundo sombrio do -aposento. - -O Villaça ergueu a cabeça de sobre a carteira, e disse: - ---Não senhor, está com quem lhe paga. - -E como Affonso se aproximava da mesa, sem uma palavra, Villaça, -dando-lhe um papel dobrado, accrescentou: - ---Todas estas cousas são muito graves, sr. Affonso da Maia, e eu não -quiz fiar-me só na minha memoria. Por isso pedi ao Alencar, que é um -excellente rapaz, que me escrevesse n'uma carta tudo o que me contou. -Assim temos um documento. Eu não sei mais do que ahi está escripto. Póde -V. Ex.^a ler... - -Affonso desdobrou as duas folhas de papel. Era uma historia simples, que -o Alencar, o poeta das _Vozes d'Aurora_, o estylista de _Elvira_, ornára -de flores e de galões dourados como uma capella em dia de festa. - -Uma noite, ao sahir da _Maison d'Or_, elle vira a Monforte saltar d'um -_coupé_ com dois homens de gravata branca; tinham-se logo reconhecido; e -um momento ficaram hesitando, um defronte do outro, debaixo do candieiro -de gaz, no _trottoir_. Foi ella que, muito decidida, rindo, estendeu a -mão ao Alencar, pediu-lhe que a visitasse, deu-lhe a _adresse_, o nome -por que devia perguntar: M.^{me} de l'Estorade. E no seu _boudoir_, na -manhã seguinte a Monforte fallou largamente de si: vivera tres annos em -Vienna d'Austria com Tancredo, e com o papá que se lhes fôra reunir--e -que lá continuava de certo, como em Arroios, refugiando-se pelos cantos -das salas, pagando as _toilettes_ da filha, e dando palmadinhas ternas -no hombro do amante como outr'ora no hombro do marido. Depois tinham -estado em Monaco; e ahi, dizia o Alencar, «n'um drama sombrio de paixão -que ella me fez entrever» o napolitano fora morto em duello. O papá -morrera tambem n'esse anno, deixando apenas da sua fortuna uns magros -contos de réis, e a mobilia da casa em Vienna: o velho arruinara-se com -o luxo da filha, com as viagens, com as perdas de Tancredo ao -_baccarat_. Passára então um tempo em Londres: e d'ahi viera habitar -Paris, com Mr. de l'Estorade, um jogador, um espadachim, que acabou de a -arrasar, e que a abandonou legando-lhe esse nome de l'Estorade, que lhe -era a elle d'ora em diante inutil porque passava a adoptar outro mais -sonoro de _Vicomte de Manderville_. Emfim, pobre, formosa, doida, -excessiva, lançara-se na existencia d'aquellas mulheres de quem, dizia o -Alencar, «a pallida Margarida Gautier, a gentil _Dama das Camelias_ é o -typo sublime, o symbolo poetico, a quem muito será perdoado porque muito -amaram.» E o poeta terminava: «ella está ainda no esplendor da belleza, -mas as rugas virão, e então que avistará em redor de si? As rosas seccas -e ensanguentadas da sua coroa de esposa. Sahi d'aquelle _boudoir_ -perfumado, com a alma dilacerada, meu Villaça! Pensava no meu pobre -Pedro, que lá jaz sob o raio de luar, entre as raizes dos cyprestes. E, -desilludido d'esta cruel vida, vim pedir ao absintho, no _boulevard_, -uma hora de esquecimento.» - -Affonso da Maia deu um repellão á carta, menos enojado das torpezas da -historia, que d'aquelles lyrismos relambidos. - -E recomeçou a passear, emquanto o Villaça recolhia religiosamente o -documento que tinha relido muitas vezes, na admiração do sentimento, do -estylo, do ideal d'aquella pagina. - ---E a pequena? perguntou Affonso. - ---Isso não sei. O Alencar não lhe fallaría na filha, nem elle mesmo sabe -que ella a levou. Ninguem o sabe em Lisboa. Foi um detalhe que passou -desapercebido no grande escandalo. Mas emquanto a mim, a pequena morreu. -Senão, siga V. Ex.^a o meu raciocinio... Se a menina fosse viva, a mãe -podia reclamar a legitima que cabe á creança... Ella sabe a casa que V. -Ex.^a tem; ha de haver dias, e são frequentes na vida d'essas mulheres, -em que lhe falte uma libra... Com o pretexto da educação da menina, ou -de alimentos, já nos tinha importunado... Escrupulos não tem ella. Se o -não faz é que a filha morreu. Não lhe parece a V. Ex.^a? - ---Talvez, disse Affonso. - -E accrescentou, parando deante de Villaça--que olhava outra vez a braza -morta tirando estalinhos dos dedos: - ---Talvez... Sopônhamos que morreram ambas, e não se falle mais n'isso. - -Estava dando meia noite, os dois homens recolheram-se. E durante os dias -que Villaça passou em S.^{ta} Olavia não se proferiu mais o nome de -Maria Monforte. - -Mas, na vespera da partida do administrador para Lisboa, Affonso subio -ao quarto d'elle, a entregar-lha as amendoas da Paschoa que Carlos -mandava a Villaça Junior, um alfinete de peito com uma magnifica -saphira--e disse-lhe em quanto o outro, sensibilisado, balbuciava os -agradecimentos: - ---Agora outra cousa, Villaça. Tenho estado a pensar. Vou escrever a meu -primo Noronha, ao André que vive em Paris como você sabe, pedir-lhe que -procure essa creatura, e que lhe offereça dez ou quinze contos de réis, -se ella me quizer entregar a filha... No caso, está claro, que esteja -viva... E quero que você saiba d'esse Alencar a morada da mulher em -Paris. - -O Villaça não respondeu, occupado a metter entre as camisas, bem no -fundo da maleta, a caixinha com o alfinete. Depois, erguendo-se, ficou -deante d'Affonso, a coçar reflectidamente o queixo. - ---Então que lhe parece, Villaça? - ---Parece-me arriscado. - -E deu as suas razões. A menina devia ir nos seus treze annos. Estava uma -mulher, com o seu temperamento formado, o caracter feito, talvez os seus -habitos... Nem fallaria o portuguez. As saudades da mãe haviam de ser -terriveis... Emfim, o sr. Affonso de Maia trazia uma extranha para -casa... - ---Você tem rasão, Villaça. Mas a mulher é uma prostituta, e a pequena é -do meu sangue. - -N'esse momento Carlos, cuja voz gritava no corredor pelo vovô, -precipitou-se no quarto, esguedelhado, escarlate como uma romã.--O Brown -tinha achado uma corujasinha pequena! Queria que o vovô viesse, ver, -andara a buscal-o por toda a casa... Era de morrer a rir... Muito -pequena, muito feia, toda pellada, e com dois olhos de gente grande! E -sabiam onde havia o ninho... - ---Vem depressa, ó vovô! Depressa, que é necessario ir pol-a no ninho, -por causa da coruja velha que se póde affligir... O Brown está-lhe a dar -azeite. Oh Villaça vem ver! O vovô, pelo amor de Deus! Tem uma cara tão -engraçada! Mas depressa, depressa, que a coruja velha póde dar pela -falta!... - -E impaciente com a lentidão risonha do vôvo, tanta indifferença pela -inquietação da coruja velha, abalou atirando com a porta. - ---Que bom coração! exclamou o Villaça commovido. A pensar nas saudades -da coruja... A mãe d'elle é que não tem saudades! Sempre o disse, é uma -fera! - -Afonso encolheu tristemente os hombros. Iam já no corredor quando elle, -parando um momento, baixando a voz: - ---Tem-me esquecido de lhe contar, Villaça, o Carlos sabe que o pae que -se matou... - -Villaça arredondou os olhos d'espanto. Era verdade. Uma manhã -entrara-lhe pela livraria, e dissera-lhe:--ó vovô, o papá matou-se com -uma pistola!--Naturalmente algum creado que lh'o contara... - ---E vossa excellencia? - ---Eu... Que havia de fazer? Disse-lhe que sim. Em tudo tenho obedecido -ao que Pedro me pediu, n'essas quatro ou cinco linhas da carta que me -deixou. Quiz ser enterrado em S.{ta} Olavia, ahi está. Não queria que o -filho jámais soubesse da fuga da mãe; e por mim, de certo, nunca o -saberá. Quiz que dois retratos que havia d'ella em Arroios fossem -destruidos; como você sabe, obtiveram-se e destruiram-se. Mas não me -pedio que occultasse ao rapaz o seu fim. E por isso, disse ao pequeno a -verdade: disse-lhe que n'um momento de loucura, o papá tinha dado um -tiro em si... - ---E elle? - ---E elle, replicou Affonso sorrindo, perguntou-me quem lhe tinha dado a -pistola, e torturou-me toda uma manhã para lhe dar tambem uma pistola... -E ahi está o resultado d'essa revelação: é que tive de mandar vir do -Porto uma pistóla de vento... - -Mas, sentindo Carlos em baixo, aos berros ainda pelo avó, os dois -apressaram-se a ir admirar a corujazinha. - -Villaça ao outro dia partiu para Lisboa. - -Passadas duas semanas, Affonso recebia uma carta do administrador, -trasendo-lhe, com a _adresse_ da Monforte, uma revelação imprevista. -Tinha voltado a casa do Alencar; e o poeta, recordando outros incidentes -da sua visita a M.^{me} de l'Estorade, contara-lhe que no _boudoir_ -d'ella havia um adoravel retrato de creança, de olhos negros, cabello -d'azeviche, e uma pallidez de nacar. Esta pintura ferira-o, não só por -ser d'um grande pintor inglez, mas por ter, pendente sob o caixilho como -um voto funerario, uma linda coroa de flores de cera brancas e roxas. -Não havia outro quadro no _boudoir_: e elle perguntara á Monforte se era -um retrato ou uma phantasia. Ella respondera que era o retrato da filha -que lhe morrera em Londres. «Estão assim dissipadas todas as duvidas, -accrescentava o Villaça. O pobre anjinho está n'uma patria. melhor. E -para ella, _bem melhor_!» - -Affonso, todavia, escreveu a André de Noronha. A resposta tardou. Quando -o primo André procurara M.^{me} de l'Estorade, havia semanas que ella -partira para Allemanha, depois de vender mobilia e cavallos. E no _Club -Imperial_, a que elle pertencia, um amigo que conhecia bem M.^{me} de -l'Estorade e a vida galante de Paris, contara-lhe que a doida fugira com -um certo Catanni, acrobata do Circo d'Inverno nos Campos Elyseos, homem -de fórmas magnificas, um Appolo de feira, que todas as cocottes se -disputavam e que a Monforte empolgára. Naturalmente corria agora a -Allemanha com a companhia de cavallinhos. - -Affonso da Maia, enojado, remetteu esta carta ao Villaça sem um -commentario. E o honrado homem respondeu: «Tem V. Ex.^a rasão, é atroz: -e mais vale suppor que todos morreram, e não gastar mais cera com tão -ruins defuntos...» E depois n'um post-scriptum accrescentava: «Parece -certo abrir-se em breve o caminho de ferro até ao Porto: em tal caso, -com permissão de V. Ex.^a, ahi irei e o meu rapaz a pedirmos-lhe alguns -dias d'hospitalidade.» - -Esta carta foi recebida em S.^{ta} Olavia um domingo, ao jantar. Affonso -lera alto o P. S. Todos se alegraram, na esperança de ver o bom Villaça -em breve na quinta; e fallou-se mesmo em arranjar um grande pic-nic, rio -acima. - -Mas, terça feira á noite, chegava um telegramma de Manuel Villaça -annunciando que o pae morrera, n'essa manhã, d'uma apoplexia: dois dias -depois vinham mais longos e tristes pormenores. Fora depois do almoço -que, de repente, Villaça se sentira muito suffocado, e com tonturas: -ainda tivera forças d'ir ao quarto respirar um pouco d'ether: mas ao -voltar á sala cambaleava, queixava-se de vêr tudo amarello, e caiu de -bruços, como um fardo, sobre o canapé. O seu pensamento, que se -extinguia para sempre, ainda n'esse momento se occupou da casa que ha -trinta annos administrava: balbuciou, a respeito d'uma venda de cortiça, -recomendações que o filho já não poude perceber: depois deu um grande -ai; e só tornou a abrir os olhos, para murmurar no derradeiro sopro -estas derradeiras palavras: _Saudades ao patrão!_ - -Affonso da Maia ficou profundamente afectado, e em S.^{ta} Olavia, mesmo -entre os creados, a morte de Villaça foi como um lucto domestico. Uma -d'essas tardes, o velho, muito melancolico, estava na livraria com um -jornal esquecido nas mãos, os olhos cerrados--quando Carlos, que ao lado -rabiscava carantonhas n'um papel, veio passar-lhe um braço pelo pescoço, -e como comprehendendo os seus pensamentos perguntou-lhe se o Villaça não -voltaria a vel-os à quinta. - ---Não filho, nunca mais. Nunca mais o tornamos a vêr. - -O pequeno, entre os joelhos e os braços do velho, olhava o tapete, e, -como recordando-se, murmurou tristemente: - ---O Villaça, coitado... Dava estalinhos com os dedos... Oh vovô, para -onde o levaram? - ---Para o cemiterio, filho, para debaixo da terra. - -Então Carlos desprendeu-se devagar do abraço do avô, e muito sério, com -os olhos n'elle: - ---Ó vovô! porque não lhe mandas fazer uma capellinha bonita, toda de -pedra, com uma figura, como tem o papá? - -O velho achegou-o ao peito, beijou-o, commovido: - ---Tens razão, filho. Tens mais coração que eu! - -Assim o bom Villaça teve no cemiterio dos Prazeres o seu jazigo--que -fôra a alta ambição da sua existência modesta. - - -Outros annos tranquillos passaram sobre Santa Olavia. - -Depois uma manhã de julho, em Coimbra, Manuel Villaça (agora -administrador da casa) trepava as escadas do Hotel Mondego, onde Affonso -se hospedára com o neto, e entrava-lhe pela sala, vermelho, suando, -berrando: - ---_Neminè! Neminè!_ - -Fizera Carlos o seu primeiro exame! E que exame! Teixeira que tinha -acompanhado os senhores de Santa Olavia correu á porta, abraçou-se quasi -chorando no menino, agora mais alto que elle, e muito formoso na sua -batina nova. - -Em cima no quarto, Manuel Villaça, soprando ainda, limpando as bagas de -suor, exclamava: - ---Ficou tudo espantado, snr. Affonso da Maia! Os lentes até estavam -commovidos. Ih Jesus! que talento! Vem a ser um grande homem, é o que -todo o mundo disse... E que faculdade vai elle seguir, meu senhor? - -Affonso, que passeava, todo tremulo, respondeu com um sorriso: - ---Não sei, Villaça... Talvez nos formemos ambos em Direito. - -Carlos assomou á porta, radiante, seguido do Teixeira e do outro -escudeiro--que trazia _champagne_ n'uma salva. - ---Então venha cá, seu maroto, disse Affonso muito branco, com os braços -abertos. Bom exame, hein?... Eu... - -Mas não pôde proseguir: as lagrimas, duas a duas, corriam-lhe pela barba -branca. - - - - -IV - - -Carlos ia formar-se em Medicina. E como dizia o dr. Trigueiros houvera -sempre n'aquelle menino realmente uma «vocação para Esculapio». - -A «vocação» revelára-se bruscamente um dia que elle descobriu no sotão, -entre rumas de velhos alfarrabios, um rolo manchado e antiquado de -estampas anatomicas; tinha passado dias a recortal-as, pregando pelas -paredes do quarto figados, liaças de intestinos, cabeças de perfil «com -o recheio á mostra». Uma noite mesmo rompera pela sala em triumpho, a -mostrar ás Silveiras, ao Euzebio, a pavorosa lithographia de um feto de -seis mezes no utero materno. D. Anna recuou, com um grito, collando o -leque á face: e o dr. delegado, escarlate tambem, arrebatou -prudentemente Euzebiosinho para entre os joelhos, tapou-lhe a face com a -mão. Mas o que escandalisou mais as senhoras foi a indulgencia de -Affonso. - ---Então que tem, então que tem? dizia elle sorrindo. - ---Que tem, snr. Affonso da Maia!? exclamou D. Anna. São indecencias! - ---Não ha nada indecente na natureza, minha rica senhora. Indecente é a -ignorancia... Deixar lá o rapaz. Tem curiosidade de saber como é esta -pobre machina por dentro, não ha nada mais louvavel... - -D. Anna abanava-se, suffocada. Consentir taes horrores nas mãos da -criança!... Carlos começou a apparecer-lhe como um libertino «que já -sabia coisas»; e não consentiu mais que a Therezinha brincasse só com -elle pelos corredores de Santa Olavia. - -As pessoas sérias porém, o dr. juiz de direito, o proprio abbade, -lamentando, sim, que não houvesse mais recato, concordavam que aquillo -mostrava no pequeno uma grande queda para a medicina. - ---Se péga, dizia então com um gesto prophetico o dr. Trigueiros, temos -d'alli coisa grande! - -E parecia pegar. - -Em Coimbra, estudante do Lyceu, Carlos deixava os seus compendios de -logica e rhetorica para se occupar de anatomia: n'umas ferias, ao abrir -das malas, a Gertrudes fugiu espavorida vendo alvejar entre as dobras -d'um casaco o riso d'uma caveira: e se algum criado da quinta adoecia, -lá estava Carlos logo revolvendo o caso em velhos livros de medicina da -livraria, sem lhe largar a beira do catre, fazendo diagnosticos que o -bom dr. Trigueiros escutava respeitoso e pensativo. Diante do avô já -chamava mesmo ao menino «o seu talentoso collega». - -Esta inesperada carreira de Carlos (pensára-se sempre que elle tomaria -capello em Direito) era pouco approvada entre os fieis amigos de Santa -Olavia. As senhoras sobretudo lamentavam que um rapaz que ia crescendo -tão formoso, tão bom cavalleiro, viesse a estragar a vida receitando -emplastros, e sujando as mãos no jorro das sangrias. O dr. juiz de -direito confessou mesmo um dia a sua descrença de que o snr. Carlos da -Maia quizesse «ser medico a sério». - ---Ora essa! exclamou Affonso. E porque não ha de ser medico a sério? Se -escolhe uma profissão é para a exercer com sinceridade e com ambição, -como os outros. Eu não o educo para vadio, muito menos para amador; -educo-o para ser util ao seu paiz... - ---Todavia, arriscou o dr. juiz de direito com um sorriso fino, não lhe -parece a v. exc.^a que ha outras coisas, importantes tambem, e mais -proprias talvez, em que seu neto se poderia tornar util?... - ---Não vejo, replicou Affonso da Maia. N'um paiz em que a occupação geral -é estar doente, o maior serviço patriotico é incontestavelmente saber -curar. - ---V. exc.^a tem resposta para tudo, murmurou respeitosamente o -magistrado. - -E o que justamente seduzia Carlos na medicina era essa vida «a sério», -pratica e util, as escadas de doentes galgadas á pressa no fogo de uma -vasta clinica, as existencias que se salvam com um golpe de bisturí, as -noites veladas á beira de um leito, entre o terror de uma familia, dando -grandes batalhas á morte. Como em pequeno o tinham encantado as fórmas -pittorescas das vísceras--attrahiam-no agora estes lados militantes e -heroicos da sciencia. - -Matriculou-se realmente com enthusiasmo. Para esses longos annos de -quieto estudo o avô preparára-lhe uma linda casa em Cellas, isolada, com -graças de cottage inglez, ornada de persianas verdes, toda fresca entre -as arvores. Um amigo de Carlos (um certo João da Ega) poz-lhe o nome de -«Paços de Cellas», por causa de luxos então raros na Academia, um tapete -na sala, poltronas de marroquim, panoplias d'armas, e um escudeiro de -libré. - -Ao principio este esplendor tornou Carlos venerado dos fidalgotes, mas -suspeito aos democratas; quando se soube porém que o dono d'estes -confortos lia Proudhon, Augusto Comte, Herbert Spencer, e considerava -tambem o paiz uma _choldra ignobil_--os mais rigidos revolucionarios -começaram a vir aos Paços de Cellas tão familiarmente como ao quarto do -Trovão, o poeta bohemio, o duro socialista, que tinha apenas por mobilia -uma enxerga e uma Biblia. - -Ao fim d'alguns mezes, Carlos, sympathico a todos, conciliára Dandys e -Philosophos: e trazia muitas vezes no seu _break_, lado a lado, o Serra -Torres, um monstro que já era addido honorario em Berlim e todas as -noites punha casaca, e o famoso Craveiro que meditava a _Morte de -Satanaz_, encolhido no seu gabão d'Aveiro, com o seu grande barrete de -lontra. - -Os Paços de Cellas, sob a sua apparencia preguiçosa e campestre, -tornaram-se uma fornalha de actividades. No quintal fazia-se uma -gymnastica scientifica. Uma velha cozinha fôra convertida em sala -d'armas--porque n'aquelle grupo a esgrima passava como uma necessidade -social. Á noite, na sala de jantar, moços sérios faziam um _whist_ -sério: e no salão, sob o lustre de crystal, com o _Figaro_, o _Times_ e -as _Revistas_ de Paris e de Londres espalhadas pelas mesas, o Gamacho ao -piano tocando Chopin ou Mozart, os litteratos estirados pelas -poltronas--havia ruidosos e ardentes cavacos, em que a Democracia, a -Arte, o Positivismo, o Realismo, o Papado, Bismark, o Amor, Hugo e a -Evolução, tudo por seu turno flammejava no fumo do tabaco, tudo tão -ligeiro e vago como o fumo. E as discussões metaphysicas, as proprias -certezas revolucionarias adquiriam um sabor mais requintado com a -presença do criado de farda desarrolhando a cerveja, ou servindo -croquettes. - -Carlos, naturalmente, não tardou a deixar pelas mesas, com as folhas -intactas, os seus expositores de medicina. A Litteratura e a Arte, sob -todas as fórmas, absorveram-no deliciosamente. Publicou sonetos no -_Instituto_--e um artigo sobre o Parthenon: tentou, n'um _atelier_ -improvisado, a pintura a oleo: e compoz contos archeologicos, sob a -influencia da _Salammbô_. Além d'isso todas as tardes passeava os seus -dois cavallos. No segundo anno levaria um _R_ se não fosse tão conhecido -e rico. Tremeu, pensando no desgosto do avô: moderou a dissipação -intellectual, acantoou-se mais na sciencia que escolhera: immediatamente -lhe deram um _accessit_. Mas tinha nas veias o veneno do dilettantismo: -e estava destinado, como dizia João da Ega, a ser um d'esses medicos -litterarios que inventam doenças de que a humanidade papalva se presta -logo a morrer! - -O avô, ás vezes, vinha passar uma, duas semanas a Cellas. Nos primeiros -tempos a sua presença, agradavel aos cavalheiros da partilha de _whist_, -desorganisou o cavaco litterario. Os rapazes mal ousavam estender o -braço para o copo da cerveja; e os _vossa excellencia_ isto, _vossa -excellencia_ aquillo, regelavam a sala. Pouco a pouco, porém, vendo-o -apparecer em chinelas e de cachimbo na boca, estirar-se na poltrona com -ares sympathicos de patriarcha bohemio, discutir arte e litteratura, -contar anecdotas do seu tempo d'Inglaterra e d'Italia, começaram a -consideral-o como um camarada de barbas brancas. Diante d'elle já se -fallava de mulheres e de estroinices. Aquelle velho fidalgo, tão rico, -que lêra Michelet e o admirava--chegou mesmo a enthusiasmar os -democratas. E Affonso gozava alli tambem horas felizes, vendo o seu -Carlos centro d'aquelles moços de estudo, de ideal e de veia. - -Carlos passava as ferias grandes em Lisboa, ás vezes em Paris ou -Londres; mas por Nataes e Pascoas vinha sempre a Santa Olavia, que o avô -mais só se entretinha a embellezar com amor. As salas tinham agora -soberbos pannos d'Arraz, paizagens de Rousseau e Daubigny, alguns moveis -de luxo e d'arte. Das janellas a quinta offerecia aspectos nobres de -parque inglez: através dos macios taboleiros de relva, davam curvas -airosas as ruas areadas: havia marmores entre as verduras; e gordos -carneiros de luxo dormiam sob os castanheiros. Mas a existencia n'este -meio rico não era agora tão alegre: a viscondessa, cada dia mais -nutrida, cahia em somnos congestivos logo depois do jantar; o Teixeira -primeiro, a Gertrudes depois, tinham morrido, ambos de pleurizes, ambos -no entrudo: e já se não via tambem á mesa a bondosa face do abbade, que -lá jazia sob uma cruz de pedra, entre os goivos e as rosas de todo o -anno. O dr. juiz de direito com a sua concertina passára para a Relação -do Porto; D. Anna Silveira, muito doente, nunca sahia; a Therezinha -fizera-se uma rapariguinha feia, amarella como uma cidra; o -Euzebiosinho, mollengão e tristonho, já sem vestigios sequer do seu -primeiro amor aos alfarrabios e ás letras, ia casar na Regoa. Só o dr. -delegado, esquecido n'aquella comarca, estava o mesmo, mais calvo -talvez, sempre affavel, amando sempre a pachorrenta Eugenia. E quasi -todas as tardes, o velho Trigueiros se apeava da sua egoa branca ao -portão para vir cavaquear com o collega. - -As ferias, realmente, só eram divertidas para Carlos quando trazia para -a quinta o seu intimo, o grande João da Ega, a quem Affonso da Maia se -affeiçoára muito, por elle e pela sua originalidade, e por ser sobrinho -d'André da Ega, velho amigo da sua mocidade e, muitas vezes outr'ora, -hospede tambem em Santa Olavia. - -Ega andava-se formando em Direito, mas devagar, muito pausadamente--ora -reprovado, ora perdendo o anno. Sua mãi, rica, viuva e beata, retirada -n'uma quinta ao pé de Celorico de Basto com uma filha, beata, viuva e -rica tambem, tinha apenas uma noção vaga do que o Joãozinho fizera, todo -esse tempo, em Coimbra. O capellão affirmava-lhe que tudo havia de -acabar a contento, e que o menino seria um dia doutor como o papá e como -o titi: e esta promessa bastava á boa senhora, que se occupava sobretudo -da sua doença de entranhas e dos confortos d'esse padre Seraphim. -Estimava mesmo que o filho estivesse em Coimbra, ou algures, longe da -quinta, que elle escandalisava com a sua irreligião e as suas facecias -hereticas. - -João da Ega, com effeito, era considerado não só em Celorico, mas tambem -na Academia que elle espantava pela audacia e pelos ditos, como o maior -atheu, o maior demagogo, que jámais apparecera nas sociedades humanas. -Isto lisonjeava-o: por systema exagerou o seu odio á Divindade, e a toda -a Ordem social: queria o massacre das classes-médias, o amor livre das -ficções do matrimonio, a repartição das terras, o culto de Satanaz. O -esforço da intelligencia n'este sentido terminou por lhe influenciar as -maneiras e a physionomia; e, com a sua figura esgrouviada e sêcca, os -pêllos do bigode arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro -entalado no olho direito--tinha realmente alguma coisa de rebelde e de -satanico. Desde a sua entrada na Universidade renovára as tradições da -antiga Bohemia: trazia os rasgões da batina cozidos a linha branca; -embebedava-se com carrascão; á noite, na Ponte, com o braço erguido, -atirava injurias a Deus. E no fundo muito sentimental, enleado sempre em -amores por meninas de quinze annos, filhas de empregados, com quem ás -vezes ia passar a soirée, levando-lhes cartuchinhos de dôce. A sua fama -de fidalgote rico tornava-o appetecido nas familias. - -Carlos escarnecia estes idyllios futricas; mas tambem elle terminou por -se enredar n'um episodio romantico com a mulher d'um empregado do -governo civil, uma lisboetasinha, que o seduziu pela graça d'um corpo de -boneca e por uns lindos olhos verdes. A ella o que a fanatisára fôra o -luxo, o _groom_, a egoa ingleza de Carlos. Trocaram-se cartas; e elle -viveu semanas banhado na poesia aspera e tumultuosa do primeiro amor -adultero. Infelizmente a rapariga tinha o nome barbaro de Hermengarda; e -os amigos de Carlos, descoberto o segredo, chamavam-lhe já _Eurico o -presbytero_, dirigiam para Cellas missivas pelo correio com este nome -odioso. - -Um dia Carlos, andava tomando o sol na Feira, quando o empregado do -governo civil passou junto d'elle com o filhinho pela mão. Pela primeira -vez via tão de perto o marido de Hermengarda. Achou-o enxovalhado e -macilento. Mas o pequerrucho era adoravel, muito gordo, parecendo mais -roliço por aquelle dia de janeiro sob os agasalhos de lã azul, -tremelicando nas pobres perninhas rôxas de frio, e rindo na clara -luz--rindo todo elle, pelos olhos, pelas covinhas do queixo, pelas duas -rosas das faces. O pae amparava-o; e o encanto, o cuidado com que o -rapaz ia assim guiando os passos do seu filho, impressionou Carlos. Era -no momento em que elle lia Michelet--e enchia-lhe a alma a veneração -litteraria da santidade domestica. Sentiu-se canalha em andar alli de -cima do seu _dog-cart_, a preparar friamente a vergonha, e as lagrimas -d'aquelle pobre pae tão inoffensivo no seu paletot coçado! Nunca mais -respondeu ás cartas em que Hermengarda lhe chamava _seu ideal_. Decerto -a rapariga se vingou, intrigando-o; porque o empregado do governo civil, -d'ahi por diante, dardejava sobre elle olhares sangrentos. - -Mas a grande «topada sentimental de Carlos», como disse o Ega, foi -quando elle, ao fim d'umas ferias, trouxe de Lisboa uma soberba rapariga -hespanhola, e a installou n'uma casa ao pé de Cellas. Chamava-se -Encarnacion. Carlos alugou-lhe ao mez uma vittoria com um cavallo branco -e Encarnacion fanatisou Coimbra como a apparição d'uma _Dama das -Camelias_, uma flôr de luxo das civilisações superiores. Pela Calçada, -pela estrada da Beira, os rapazes paravam, pallidos de emoção, quando -ella passava, reclinada na vittoria, mostrando o sapato de setim, um -pouco da meia de sêda, languida e desdenhosa, com um cãosinho branco no -regaço. - -Os poetas da Academia fizeram-lhe versos em que Encarnacion foi chamada -_Lirio d'Israel_, _Pomba da Arca_, e _Nuvem da Manhã_. Um estudante de -theologia, rude e sebento transmontano, quiz casar com ella. Apesar das -instancias de Carlos, Encarnacion recusou; e o theologo começou a rondar -Cellas, com um navalhão, para «beber o sangue» ao Maia. Carlos teve de -lhe dar bengaladas. - -Mas a creatura, desvanecida, tornou-se intoleravel, fallando sem cessar -d'outras paixões que inspirára em Madrid e em Lisboa, do muito que lhe -dera o conde de tal, o marquez sicrano, da grande posição da sua familia -ainda aparentada com os Medina-C[oe]li: os seus sapatos de setim verde -eram tão antipathicos como a sua voz estridula: e quando tentava -elevar-se ás conversações que ouvia, rompia a chamar ladrões aos -republicanos, a celebrar os tempos de D. Isabel, a sua _gracia_, o seu -_salero_--sendo muito conservadora como todas as prostitutas. João da -Ega odiava-a. E Craveiro declarou que não voltava aos Paços de Cellas -emquanto por lá apparecesse aquelle montão de carne, pago ao arratel, -como a de vacca. - -Emfim, uma tarde Baptista, o famoso criado de quarto de Carlos -surprehendeu-a com um Juca que fazia de dama no Theatro Academico. Ahi -estava, emfim, um pretexto! E, convenientemente paga, a parenta dos -Medina-C[oe]li, o _Lirio d'Israel_, a admiradora dos Bourbons, foi -recambiada a Lisboa e á rua de S. Roque, seu elemento natural. - -Em agosto, no acto da formatura de Carlos, houve uma alegre festa em -Cellas. Affonso viera de Santa Olavia, Villaça de Lisboa; toda a tarde -no quintal, d'entre as acacias e as bella-sombras, subiram ao ar mólhos -de foguetes; e João da Ega, que levára o seu ultimo _R_ no seu ultimo -anno, não descansou, em mangas de camisa, pendurando lanternas -venezianas pelos ramos, no trapesio e em roda do poço, para a -illuminação da noite. Ao jantar, a que assistiam lentes, Villaça, -enfiado e tremulo, fez um _speech_; ia citar o nosso _immortal Castilho_ -quando sob as janellas rompeu, a grande ruido de tambor e pratos, o -_Hymno Academico_. Era uma serenata.--Ega, vermelho, de batina -desabotoada, a luneta para traz das costas, correu á sacada, a perorar: - ---Ahi temos o nosso Maia, Carolus Eduardus ab Maia, começando a sua -gloriosa carreira, preparado para salvar a humanidade enferma--ou acabar -de a matar, segundo as circumstancias! A que parte remota d'estes reinos -não chegou já a fama do seu genio, do seu _dog-cart_, do sebaceo -_accessit_ que lhe ennodôa o passado, e d'este vinho do Porto, -contemporaneo dos heroes de 20, que eu, homem de revolução e homem de -carraspana, eu, João da Ega, Johanes ab Ega... - -O grupo escuro em baixo desatou aos _vivas_. A philarmonica, outros -estudantes, invadiram os Paços. Até tarde, sob as arvores do quintal, na -sala atulhada de pilhas de pratos, os criados correram com salvas de -dôce, não cessou d'estalar o _champagne_. E Villaça, limpando a testa, o -pescoço, abafado de calor, ia dizendo a um, a outro, a si mesmo tambem: - ---Grande coisa, ter um curso! - - -E então Carlos Eduardo partira para a sua longa viagem pela Europa. Um -anno passou. Chegára esse outono de 1875: e o avô installado emfim no -Ramalhete esperava por elle anciosamente. A ultima carta de Carlos viera -de Inglaterra, onde andava, dizia elle, a estudar a admiravel -organisação dos hospitaes de crianças. Assim era: mas passeava tambem -por Brighton, apostava nas corridas de Goodwood, fazia um idyllio -errante pelos lagos da Escocia, com uma senhora hollandeza, separada de -seu marido, veneravel magistrado da Haya, uma M.^{me} Rughel, soberba -creatura de cabellos d'ouro fulvo, grande e branca como uma nympha de -Rubens. - -Depois começaram a chegar, dirigidas ao Ramalhete, caixas successivas de -livros, outras de instrumentos e apparelhos, toda uma bibliotheca e todo -um laboratorio--que trazia o Villaça, manhãs inteiras, aturdido pelos -armazens da alfandega. - ---O meu rapaz vem com grandes idéas de trabalho, dizia Affonso aos -amigos. - -Havia quatorze mezes que elle o não via, o «seu rapaz», a não ser n'uma -photographia mandada de Milão, em que todos o acharam magro e triste. E -o coração batia-lhe forte, na linda manhã de outono, quando do terraço -do Ramalhete, de binoculo na mão, viu assomar vagarosamente, por traz do -alto predio fronteiro, um grande paquete do _Royal Mail_ que, lhe trazia -o seu neto. - -Á noite os amigos da casa, o velho Sequeira, D. Diogo Coutinho, o -Villaça--não se fartavam d'admirar «o bem que a viagem fizera a Carlos». -Que differença da photographia! Que forte, que saudavel! - -Era decerto um formoso e magnifico moço, alto, bem feito, de hombros -largos, com uma testa de marmore sob os anneis dos cabellos pretos, e os -olhos dos Maias, aquelles irresistiveis olhos do pai, de um negro -liquido, ternos como os d'elle e mais graves. Trazia a barba toda, muito -fina, castanho-escura, rente na face, aguçada no queixo--o que lhe dava, -com o bonito bigode arqueado aos cantos da boca, uma physionomia de -bello cavalleiro da Renascença. E o avô, cujo olhar risonho e humido -transbordava d'emoção, todo se orgulhava de o vêr, de o ouvir, n'uma -larga veia, fallando da viagem, dos bellos dias de Roma, do seu mau -humor na Prussia, da originalidade de Moscow, das paizagens da -Hollanda... - ---E agora? perguntou-lhe o Sequeira, depois de um momento de silencio em -que Carlos estivera bebendo o seu cognac e soda. Agora que tencionas tu -fazer? - ---Agora, general? respondeu Carlos, sorrindo e pousando o copo. -Descançar primeiro e depois passar a ser uma gloria nacional! - -Ao outro dia, com effeito, Affonso veiu encontral-o na sala de -bilhar--onde tinham sido collocados os caixotes--a despregar, a -desempacotar, em mangas de camisa e assobiando com enthusiasmo. Pelo -chão, pelos sophás, alastrava-se toda uma litteratura em rumas de -volumes graves; e aqui e além, por entre a palha, através das lonas -descozidas, a luz faiscava n'um crystal, ou reluziam os vernizes, os -metaes polidos de apparelhos. Affonso pasmava em silencio para aquelle -pomposo apparato do saber. - ---E onde vaes tu accommodar este museo? - -Carlos pensara em arranjar um vasto laboratorio alli perto no bairro, -com fornos para trabalhos chimicos, uma sala disposta para estudos -anatomicos e physiologicos, a sua bibliotheca, os seus apparelhos, uma -concentração methodica de todos os instrumentos de estudo... - -Os olhos do avô illuminavam-se ouvindo este plano grandioso. - ---E que não te prendam questões de dinheiro, Carlos! Nós fizemos n'estes -ultimos annos de Santa Olavia algumas economias... - ---Boas e grandes palavras, avô! Repita-as ao Villaça. - -As semanas foram passando n'estes planos de installação. Carlos trazia -realmente resoluções sinceras de trabalho: a sciencia como mera -ornamentação interior do espirito, mais inutil para os outros que as -proprias tapessarias do seu quarto, parecia-lhe apenas um luxo de -solitario: desejava ser util. Mas as suas ambições fluctuavam, intensas -e vagas; ora pensava n'uma larga clinica; ora na composição macissa de -um livro iniciador; algumas vezes em experiencias physiologicas, -pacientes e reveladoras... Sentia em si, ou suppunha sentir, o tumulto -de uma força, sem lhe discernir a linha d'applicação. «Alguma cousa de -brilhante,» como elle dizia: e isto para elle, homem de luxo e homem -d'estudo, significava um conjuncto de representação social e de -actividade scientifica; o remecher profundo de idéas entre as -influencias delicadas da riqueza; os elevados vagares da philosophia -entremeados com requintes de _sport_ e de gosto; um Claude Bernard que -fosse tambem um Morny... No fundo era um _dilletante_. - -Villaça fôra consultado sobre a localidade propria para o laboratorio; e -o procurador, muito lisongeado, jurou uma diligencia incançavel. -Primeira cousa a saber, o nosso doutor tencionava fazer clinica?... - -Carlos não decidira fazer _exclusivamente_ clinica: mas desejava de -certo dar consultas, mesmo gratuitas, como caridade e como pratica. -Então Villaça suggeriu que o consultorio estivesse separado do -laboratorio. - ---E a minha razão é esta: a vista de apparelhos, machinas, cousas, faz -esmorecer os doentes... - ---Tem você razão, Villaça! exclamou Affonso. Já meu pae dizia: poupe-se -ao boi a vista do malho. - ---Separados, separados, meu senhor, affirmou o procurador n'um tom -profundo. - -Carlos concordou. E Villaça bem depressa descobriu, para o laboratorio, -um antigo armazem, vasto e retirado, ao fundo de um pateo, junto ao -largo das Necessidades. - ---E o consultorio, meu senhor, não é aqui, nem acolá; é no Rocio, alli -em pleno Rocio! - -Esta idéa do Villaça não era desinteressada. Grande enthusiasta da -_Fusão_, membro do Centro progressista, Villaça Junior aspirava a ser -vereador da camara, e mesmo em dias de satisfação superior (como quando -o seu anniversario natalicio vinha annunciado no _Illustrado_, ou quando -no Centro citava com applauso a Belgica) parecia-lhe que tantas aptidões -mereciam do seu partido uma cadeira em S. Bento. Um consultorio -gratuito, no Rocio, o consultorio do dr. Maia, «do seu Maia» reluziu-lhe -logo vagamente como um elemento de influencia. E tanto se agitou, que -d'ahi a dois dias tinha lá alugado um primeiro andar d'esquina. - -Carlos mobilou-o com luxo. N'uma antecamara, guarnecida de banquetas de -marroquim, devia estacionar, á franceza, um creado de libré. A sala de -espera dos doentes alegrava com o seu papel verde de ramagens prateadas, -as plantas em vasos de Rouen, quadros de muita côr, e ricas poltronas -cercando a jardineira coberta de collecções do _Charivari_, de vistas -estereoscopicas, d'albuns de actrizes semi-nuas; para tirar inteiramente -o ar triste de consultorio até um piano mostrava o seu teclado branco. - -O gabinete de Carlos ao lado era mais simples, quasi austero, todo em -velludo verde-negro, com estantes de pau preto. Alguns amigos que -começavam a cercar Carlos, Taveira, seu contemporaneo e agora visinho do -Ramalhete, o Cruges, o marquez de Souzellas, com quem percorrera a -Italia--vieram vêr estas maravilhas. O Cruges correu uma escala no piano -e achou-o abominavel; Taveira absorveu-se nas photographias d'actrizes; -e a unica approvação franca veiu do marquez, que depois de contemplar o -divan do gabinete, verdadeiro movel de serralho, vasto, voluptuoso, -fôfo, experimentou-lhe a doçura das molas e disse, piscando o olho a -Carlos: - ---A calhar. - -Não pareciam acreditar n'estes preparativos. E todavia eram sinceros. -Carlos até fizera annunciar o consultorio nos jornaes; quando viu porem -o seu nome em letras grossas, entre o de uma engommadeira á Boa Hora e -um reclamo de casa de hospedes,--encarregou Villaça de retirar o -annuncio. - -Occupava-se então mais do laboratorio, que decidira installar no -armazem, ás Necessidades. Todas as manhãs, antes de almoço, ía visitar -as obras. Entrava-se por um grande pateo, onde uma bella sombra cobria -um poço, e uma trepadeira se mirrava nos ganchos de ferro que a prendiam -ao muro. Carlos já decidira transformar aquelle espaço em fresco -jardinete inglez; e a porta do casarão encantava-o, ogival e nobre, -resto de fachada d'ermida, fazendo um accesso veneravel para o seu -sanctuario de sciencia. Mas dentro os trabalhos arrastavam-se sem fim; -sempre um vago martellar preguiçoso n'uma poeira alvadia; sempre as -mesmas coifas de ferramentas jazendo nas mesmas camadas de aparas! Um -carpinteiro esgouroviado e triste parecia estar alli, desde seculos, -aplainando uma taboa eterna com uma fadiga langorosa; e no telhado os -trabalhadores que andavam alargando a claraboia, não cessavam de -assobiar, no sol d'inverno, alguma lamuria de fado. - -Carlos queixava-se ao sr. Vicente, o mestre d'obras, que lhe asseverava -invariavelmente «como d'ahi a dois dias havia de s. ex.^a vêr a -differença.» Era um homem de meia edade, risonho, de fallar doce, muito -barbeado, muito lavado, que morava ao pé do Ramalhete, e tinha no bairro -fama de republicano. Carlos, por sympathia, como visinho, apertava-lhe -sempre a mão: e o sr. Vicente, considerando-o por isso um «avançado», um -democrata, confiava-lhe as suas esperanças. O que elle desejava primeiro -que tudo era um 93, como em França... - ---O que, sangue? dizia Carlos, olhando a fresca, honrada, e roliça face -do demagogo. - ---Não, senhor, um navio, um simples navio... - ---Um navio? - ---Sim, senhor, um navio fretado á custa da nação, em que se mandasse -pela barra fóra o rei, a familia real, a _cambada_ dos ministros, dos -politicos, dos deputados, dos intrigantes, etc. e etc. - -Carlos sorria, ás vezes argumentava com elle. - ---Mas está o sr. Vicente bem certo, que apenas a _cambada_, como tão -exactamente diz, desapparecesse pela barra fóra, ficavam resolvidas -todas as cousas e tudo atolado em felicidade? - -Não, o sr. Vicente não era tão «burro» que assim pensasse. Mas, -supprimida a cambada, não via s. ex.^a? Ficava o paiz desatravancado; e -podiam então começar a governar os homens de saber e de progresso... - ---Sabe v. ex.^a qual é o nosso mal? Não é má vontade d'essa gente; é -muita somma de ignorancia. Não sabem. Não sabem nada. Elles não são -maus, mas são umas cavalgaduras! - ---Bem, então essas obras, amigo Vicente, dizia-lhe Carlos, tirando o -relogio e despedindo-se d'elle com um valente _shakehands_, veja se me -andam. Não lh'o peço como proprietario, é como correligionario. - ---D'aqui a dois dias ha de v. ex.^a vêr a differença, respondia o mestre -d'obras, desbarretando-se. - -No Ramalhete, pontualmente ao meio dia, tocava a sineta do almoço. -Carlos encontrava quasi sempre o avô já na sala de jantar, acabando de -percorrer algum jornal junto ao fogão, onde a tepida suavidade d'aquelle -fim de outono não permittia accender lume, mas verdejando todo de -plantas d'estufa. - -Em redor, nos aparadores de carvalho lavrado, rebrilhavam suavemente, no -seu luxo macisso e sobrio, as baixellas antigas; pelas tapeçarias ovaes -dos muros apainelados corriam scenas de ballada, caçadores medivaes -soltando o falcão, uma dama entre pagens alimentando os cysnes de um -lago, um cavalleiro de viseira callada seguindo ao longo d'um rio; e -contrastando com o tecto escuro de castanho entalhado a meza -resplandecia com as flôres entre os crystaes. - -O reverendo Bonifacio, que desde que se tornara dignatario da Egreja -comia com os senhores, lá estava já, magestosamente sentado sobre a -alvura nevada da toalha, á sombra de algum grande ramo. Era alli, no -aroma das rosas, que o veneravel gato gostava de lamber, com o seu vagar -estupido, as sopas de leite servidas n'um covilhete de Strasburgo, -depois agachava-se, traçava por diante do peito a fofa pluma da sua -cauda, e, de olhos cerrados, os bigodes tesos, todo elle uma bola -entufada de pello branco malhado de ouro, gosava de leve uma sesta -macia. - -Affonso,--como confessava, sorrindo e humilhado--ía-se tornando com a -velhice um _gourmet_ exigente; e acolhia, com uma concentração de -critico, as obras d'arte do _chef_ francez que tinham agora, um -cavalheiro de mau genio, todo bonapartista, muito parecido com o -imperador, e que se chamava Mr. Theodore. Os almoços no Ramalhete eram -sempre delicados e longos; depois, ao café, ficavam ainda conversando; e -passava da uma hora, da hora e meia, quando Carlos, com uma exclamação, -precipitando-se sobre relogio, se lembrava do seu consultorio. Bebia um -calice de Chartreuse, accendia á pressa um charuto: - ---Ao trabalho, ao trabalho! exclamava. - -E o avô, enchendo de vagar o seu cachimbo, invejava-lhe aquella -occupação, emquanto elle ficava alli a vadiar toda a manhã... - ---Quando esse eterno laboratorio estiver acabado, talvez vá para lá -passar um bocado, occupar-me de chimica. - ---E ser talvez um grande chimico. O avô tem já a feitio. - -O velho sorria. - ---Esta carcassa já não dá nada, filho. Está pedindo eternidade! - ---Quer alguma cousa da Baixa, de Babylonia? perguntava Carlos, abotoando -á pressa as suas luvas de governar. - ---Bom dia de trabalho. - ---Pouco provavel... - -E no _dog-cart_, com aquella linda egoa, a _Tunante_, ou no _phaeton_ -com que maravilhava Lisboa, Carlos lá partia em grande estylo para a -Baixa, para «o trabalho.» - -O seu gabinete, no consultorio, dormia n'uma paz tepida entre os -espessos velludos escuros, na penumbra que faziam as stores de seda -verde corridas. Na sala, porém, as tres janellas abertas bebiam á farta -a luz; tudo alli parecia festivo; as poltronas em torno da jardineira -estendiam os seus braços, amaveis e convidativas; o teclado branco do -piano ria e esperava, tendo abertas por cima as _Canções de Gounod_; mas -não apparecia jámais um doente. E Carlos,--exactamente como o creado -que, na ociosidade da antecamara, dormitava sobre o _Diario de -Noticias_, acaçapado na banqueta--accendia um cigarro Laferme, tomava -uma Revista, e estendia-se no divan. A prosa porém dos artigos estava -como embebida do tedio moroso do gabinete: bem depressa bocejava, -deixava caír o volume. - -Do Rocio, o ruido das carroças, os gritos errantes de pregões, o rolar -dos americanos, subiam, n'uma vibração mais clara, por aquelle ar fino -de novembro: uma luz macia, escorregando docemente do azul ferrete, -vinha doirar as fachadas enxovalhadas, as cópas mesquinhas das arvores -de municipio, a gente vadiando pelos bancos: e essa sussurração lenta de -cidade preguiçosa, esse ar avelludado de clima rico, pareciam ir -penetrando pouco a pouco n'aquelle abafado gabinete e resvelando pelos -velludos pesados, pelo verniz dos moveis, envolver Carlos n'uma -indolencia e n'uma dormencia... Com a cabeça na almofada, fumando, alli -ficava, n'essa quietação de sesta, n'um scismar que se ía desprendendo, -vago e tenue, como o tenuo e leve fumo que se eleva d'uma brazeira meia -apagada; até que com um esforço sacudia este torpor, passeiava na sala, -abria aqui e além pelas estantes um livro, tocava no piano dois -compassos de walsa, espriguiçava-se--e, com os olhos nas flores do -tapete, terminava por decidir que aquellas duas horas de consultorio -eram estupidas! - ---Está ahi o carro? ía perguntar ao creado. - -Accendia bem depressa outro charuto, calçava as luvas, descia, bebia um -largo sorvo de luz e ar, tomava as guias e largava, murmurando comsigo: - ---Dia perdido! - - -Foi uma d'essas manhãs que preguiçando assim no sophá com a _Revista dos -Dois Mundos_ na mão, elle ouviu um rumor na antecamara, e logo uma voz -bem conhecida, bem querida, que dizia por trás do reposteiro: - ---Sua Alteza Real está visivel? - ---Oh Ega! gritou Carlos, dando um salto do sophá. - -E cahiram nos braços um do outro, beijando-se na face, enternecidos. - ---Quando chegaste tu? - ---Esta manhã. Caramba! exclamava Ega, procurando pelo peito, pelos -hombros, o seu quadrado de vidro, e entalando-o emfim no olho. Caramba! -Tu vens esplendido d'esses Londres, d'essas civilisações superiores. -Estás com um ar Renascença, um ar Valois... Não ha nada como a barba -toda! - -Carlos ria, abraçando-o outra vez. - ---E d'onde vens tu, de Celorico? - ---Qual Celorico! Da Foz. Mas doente, menino, doente... O figado, o baço, -uma infinidade de visceras compromettidas. Emfim, doze annos de vinhos e -aguas ardentes... - -Depois fallaram das viagens de Carlos, do Ramalhete, da demora do Ega em -Lisboa... Ega vinha para sempre. Tinha dito do alto da diligencia, ás -varzeas de Celorico, o adeus de eternidade. - ---Imagina tu, Carlos, amigo, a historia deliciosa que me succede com -minha mãe... Depois de Coimbra, naturalmente, sondei-a a respeito de vir -viver para Lisboa, confortavelmente, com uns dinheiros largos. Qual, não -caíu! Fiquei na quinta, fazendo epigrammas ao padre Seraphim e a toda a -côrte do céu. Chega julho, e apparece nos arredores uma epidemia de -anginas. Um horror, creio que vocês lhe chamam diphtericas... A mamã -salta immediatamente à conclusão que é a minha presença, a presença do -atheo, do demagogo, sem jejuns e sem missa, que offendeu Nosso Senhor e -attrahiu o flagello. Minha irmã concorda. Consultam o padre Seraphim. O -homem, que não gosta de me vêr na quinta, diz que é possivel que haja -indignação do Senhor--e minha mãe vem pedir-me quasi de joelhos, com a -bolsa aberta, que venha para Lisboa, que a arruine, mas que não esteja -alli chamando a ira divina. No dia seguinte bati para a Foz... - ---E a epidemia... - ---Desappareceu logo, disse o Ega, começando a puxar devagar dos dedos -magros uma longa luva côr de canario. - -Carlos mirava aquellas luvas do Ega; e as polainas de casemira; e o -cabello que elle trazia crescido com uma mecha frisada na testa; e na -gravata de setim uma ferradura de opalas! Era outro Ega, um Ega dandy, -vistoso, paramentado, artificial e com pó d'arroz--e Carlos deixou emfim -escapar a exclamação impaciente que lhe bailava nos labios: - ---Ega, que extraordinario casaco! - -Por aquelle sol macio e morno de um fim de outono portuguez, o Ega, o -antigo bohemio de batina esfarrapada, trazia uma pelliça, uma sumptuosa -pelliça de principe russo, agasalho de trenò e de neve, ampla, longa, -com alamares trespassados á Brandeburgo, e pondo-lhe em torno do pescoço -esganiçado e dos pulsos de thisico uma rica e fôfa espessura de pelles -de marta. - ---É uma boa pelliça, hein? disse elle logo, erguendo-se, abrindo-a, -exhibindo a opulencia do forro. Mandei-a vir pelo Strauss... Beneficios -da epidemia. - ---Como podes tu supportar isso? - ---É um bocado pesada, mas tenho andado constipado. - -Tornou a recostar-se no sophá, adiantando o sapato de verniz muito -bicudo, e, de monocolo no olho, examinou o gabinete. - ---E tu que fazes? conta-me lá... Tens isto explendido! - -Carlos fallou dos seus planos, de altas idéas de trabalho, das obras do -laboratorio... - ---Um momento, quanto te custou tudo isto? exclamou o Ega -interrompendo-o, erguendo-se para ir apalpar o velludo dos reposteiros, -mirar os torneados da secretária de pau preto. - ---Não sei. O Villaça é que deve saber... - -E Ega, com as mãos enterradas nos vastos bolsos da pelliça, -inventariando o gabinete, fazia considerações: - ---O velludo dá seriedade... E o verde escuro é a côr suprema, é a côr -esthetica... Tem a sua expressão propria, enternece e faz pensar... -Gosto d'este divan. Movel de amor... - -Foi entrando para a sala dos doentes, de vagar, de luneta no olho, -estudando os ornatos. - ---Tu és o grandioso Salomão, Carlos! O papel é bonito... E o -cretonesinho agrada-me. - -Apalpou-o tambem. Uma begonia, manchada da sua ferrugem de prata, n'um -vaso de Rouen, interessou-o. Queria saber o preço de tudo; e diante do -piano, olhando o livro de musica aberto, as _Canções de Gounod_, teve -uma surpreza enternecida: - ---Homem, é curioso... Cá me apparece! A _Barcarolla_! É deliciosa, -hein?... - - - Dites, la jeune belle, - Ou voulez-vous aller? - La voile... - - -Estou um bocado rouco... Era a nossa canção na Foz! - -Carlos teve outra exclamação, e crusando os braços diante d'elle: - ---Tu estás extraordinario, Ega! Tu és outro Ega!... A proposito da -Foz... Quem é essa Madame Cohen, que estava tambem na Foz, de quem tu, -em cartas successivas, verdadeiros poemas, que recebi em Berlin, na -Haia, em Londres, me fallavas como os arrobos do _Cantico dos Canticos_? - -Um leve rubor subiu ás faces do Ega. E limpando negligentemente o -monocolo ao lenço de seda branca: - ---Uma judia. Por isso usei o lyrismo biblico. É a mulher do Cohen, has -de conhecer, um que é director do _Banco Nacional_... Démos-nos -bastante. É sympathica... Mas o marido é uma besta... Foi uma -_flitartion_ de praia. _Voila tout_. - -Isto era dito aos bocados, passeiando, puchando o lume ao charuto, e -ainda córado. - ---Mas conta-me tu, que diabo, que fazem vocês no Ramalhete? O avô -Affonso? Quem vae por lá?... - -No Ramalhete, o avô fazia o seu _whist_ com os velhos parceiros. Ia o D. -Diogo, o decrepito leão, sempre de rosa ao peito, e frisando ainda os -bigodes... Ia o Sequeira, cada vez mais atarracado, a estoirar de -sangue, á espera da sua apoplexia... Ia o conde de Steinbroken... - ---Não conheço. Refugiado?... Polaco?... - ---Não, ministro da Filandia... Queria-nos alugar umas cocheiras e -complicou esta simples transacção com tantas finuras diplomaticas, -tantos documentos, tantas cousas com o sello real da Filandia, que o -pobre Villaça aturdido, para se desembaraçar, remetteu-o ao avô. O avô, -desnorteado tambem, offereceu-lhe as cocheiras de graça. Steinbroken -considera isto um serviço feito ao rei da Filandia, á Filandia, vae -visitar o avô, em grande estado, com o secretario da legação, o consul, -o vice-consul... - ---Isso é sublime! - ---O avô convida-o a jantar... E como o homem é muito fino, um gentleman, -enthusiasta da Inglaterra, grande entendedor de vinhos, uma auctoridade -no wisth, o avô adopta-o. Não sae do Ramalhete. - ---E de rapazes? - -De rapazes, apparecia Taveira, sempre muito correcto, empregado agora no -Tribunal de Contas: um Cruges, que o Ega não conhecia, um diabo -adoidado, maestro, pianista, com uma pontinha de genio; o marquez de -Souzellas... - ---Não ha mulheres? - ---Não ha quem as receba. É um covil de solteirões. A viscondessa, -coitada... - ---Bem sei. Um apopleté... - ---Sim, uma hemorragia cerebral. Ah, temos tambem o Silveirinha, -chegou-nos ultimamente o Silveirinha... - ---O de Resende, o cretino? - ---O cretino. Enviuvou, vem da Madeira, ainda um bocado thisico, todo -carregado de luto... Um funebre. - -O Ega, repoltreado, com aquelle ar de tranquilla e solida felicidade que -Carlos já notara, disse puchando lentamente os punhos: - ---É necessario reorganisar essa vida. Precisamos arranjar um cenaculo, -uma bohemiasinha dourada, umas _soirées_ de inverno, com arte, com -litteratura... Tu conheces o Craft? - ---Sim, creio que tenho ouvido fallar... - -Ega teve um grande gesto. Era indispensavel conhecer o Craft! O Craft -era simplesmente a melhor cousa que havia em Portugal... - ---É um inglez, uma especie de doido?... - -Ega encolheu os hombros. Um doido!... Sim, era essa a opinião da rua dos -Fanqueiros; o indigena, vendo uma originalidade tão forte como a de -Craft, não podia explical-a senão pela doidice. O Craft era um rapaz -extraordinario!... Agora tinha elle chegado da Suecia, de passar tres -mezes com os estudantes de Upsala. Estava tambem na Foz... Uma -individualidade de primeira ordem! - ---É um negociante do Porto, não é? - ---Qual negociante do Porto! exclamou o Ega erguendo-se, franzindo a -face, enojado de tanta ignorancia. O Craft é filho d'um _clergiman_ da -egreja ingleza do Porto. Foi um tio, um negociante de Calcutá ou -d'Australia, um Nababo, que lhe deixou a fortuna. Uma grande fortuna. -Mas não negoceia, nem sabe o que isso é. Dá largas ao seu temperamento -byroneano, é o que faz. Tem viajado por todo o universo, collecciona -obras d'arte, bateu-se como voluntario na Abyssinia e em Marrocos, emfim -vive, _vive_ na grande, na forte, na heroica accepção da palavra. É -necessario conhecer o Craft. Vaes-te babar por elle... Tens razão, -caramba, está calor. - -Desembaraçou-se da opulenta pelliça, e appareceu em peitilho de camisa. - ---O que! tu não trazias nada por baixo? exclamou Carlos. Nem collete? - ---Não; então não a podia aguentar... Isto é para o effeito moral, para -impressionar o indigena... Mas, não ha negal-o, é pesada! - -E immediatamente voltou á sua idéa: apenas Craft chegasse do Porto -relacionavam-se, organisava-se um Cenaculo, um Decameron d'arte e -dilletantismo, rapazes e mulheres--tres ou quatro mulheres para -cortarem, com a graça dos decotes, a severidade das philosophias... - -Carlos ria-se d'esta idéa do Ega. Tres mulheres de gosto e de luxo, em -Lisboa, para adornar um cenaculo! Lamentavel illusão de um homem de -Celorico! O marquez de Souzella tinha tentado, e para uma vez só, uma -cousa bem mais simples--um jantar no campo com actrizes. Pois fôra o -escandalo mais engraçado e mais caracteristico: uma não tinha creada e -queria levar comsigo para a festa uma tia e cinco filhos; outra temia -que, acceitando, o brazileiro lhe tirasse a mezada; uma consentiu, mas o -amante, quando soube, deu-lhe uma cóça. Esta não tinha vestido para ir; -aquella pretendia que lhe garantissem uma libra; houve uma que se -escandalisou com o convite como com um insulto. Depois, os chulos, os -queridos, os pôlhos, complicaram medonhamente a questão; uns exigiam ser -convidados, outros tentavam desmanchar a festa; houve partidos, -fizeram-se intrigas,--emfim esta cousa banal, um jantar com actrizes, -resultou em o Tarquinio do Gymnasio levar uma facada... - ---E aqui tens tu Lisboa. - ---Emfim, exclamou o Ega, se não apparecerem mulheres, importam-se, que é -em Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, -idéas, philosophias, theorias, assumptos, estheticas, sciencias, estylo, -industrias, modas, maneiras, pilherias, tudo nos vem em caixotes pelo -paquete. A civilisação custa-nos carissima com os direitos da alfandega: -e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas... -Nós julgamo-nos civilisados como os negros de S. Thomé se suppõem -cavalheiros, se suppõem mesmo _brancos_, por usarem com a tanga uma -casaca velha do patrão... Isto é uma choldra torpe. Onde puz eu a -charuteira? - -Desembaraçado da magestade que lhe dava a pelissa o antigo Ega -reapparecia, perorando com os seus gestos aduncos de Mephistopheles em -verve, lançando-se pela sala como se fosse voar ao vibrar as suas -grandes phrases, n'uma lucta constante com o monocolo, que lhe caía do -olho, que elle procurava pelo peito, pelos hombros, pelos rins, -retorcendo-se, deslocando-se, como mordido por bichos. Carlos animava-se -tambem, a fria sala aquecia; discutiam o Naturalismo, Gambetta, o -Nihilismo; depois, com ferocidade e á uma, malharam sobre o paiz... - -Mas o relogio ao lado bateu quatro horas; immediatamente Ega saltou -sobre a pelissa, sepultou-se n'ella, aguçou o bigode ao espelho, -verificou a _pose_, e, encouraçado nos seus alamares, sahio com um -arsinho de luxo e d'aventura. - ---John, disse Carlos que o achava esplendido e o ia seguindo ao patamar, -onde estás tu? - ---No _Universal_, esse sanctuario! - -Carlos abominava o _Universal_, queria que elle viesse para o Ramalhete. - ---Não me convém... - ---Em todo o caso vaes hoje lá jantar, vêr o avô. - ---Não posso. Estou compromettido com a besta do Cohen... Mas vou lá -ámanhã almoçar. - -Já nos degraus da escada, voltou-se, entalou o monocolo, gritou para -cima: - ---Tinha-me esquecido dizer-te, vou publicar o meu livro! - ---O quê! está prompto? exclamou Carlos, espantado. - ---Está esboçado, á brocha larga... - -O _Livro do Ega_! Fôra em Coimbra, nos dois ultimos annos, que elle -começára a fallar do seu livro, contando o plano, soltando titulos de -capitulos, citando pelos cafés phrases de grande sonoridade. E entre os -amigos do Ega discutia-se já o livro do Ega como devendo iniciar, pela -fórma e pela idéa, uma evolução litteraria. Em Lisboa (onde elle vinha -passar as ferias e dava ceias no Silva) o livro fôra annunciado como um -acontecimento. Bachareis, contemporaneos ou seus condiscipulos, tinham -levado de Coimbra, espalhado pelas provincias e pelas ilhas a fama do -livro do Ega. Já de qualquer modo essa noticia chegára ao Brazil... E -sentindo esta anciosa espectativa em torno do seu livro--o Ega -decidira-se emfim a escrevel-o. - -Devia ser uma epopêa em prosa, como elle dizia, dando, sob episodios -symbolicos, a historia das grandes phases do Universo e da Humanidade. -Intitulava-se _Memorias d'um Atomo_, e tinha a fórma d'uma -autobiographia. Este atomo (o atomo do Ega, como se lhe chamava a serio -em Coimbra) apparecia no primeiro capitulo, rolando ainda no vago das -Nebuloses primitivas: depois vinha embrulhado, faisca candente, na massa -de fogo que devia ser mais tarde a Terra: emfim, fazia parte da primeira -folha de planta que surgiu da crosta ainda molle do globo. Desde então, -viajando nas incessantes transformações da substancia, o atomo do Ega -entrava na rude structura do Orango, pae da humanidade--e mais tarde -vivia nos labios de Platão. Negrejava no burel dos santos, refulgia na -espada dos heroes, palpitava no coração dos poetas. Gota de agua nos -lagos de Galiléa, ouvira o fallar de Jesus, aos fins da tarde, quando os -apostolos recolhiam as redes; nó de madeira na tribuna da Convenção, -sentira o frio da mão de Robespierre. Errara nos vastos anneis de -Saturno; e as madrugadas da terra tinham-n'o orvalhado, petala -resplandecente de um dormente e languido lyrio. Fôra omnipresente, era -omnisciente. Achando-se finalmente no bico da penna do Ega, e cançado -d'esta jornada atravez do Ser, repousava--escrevendo as suas -_Memorias_... Tal era este formidavel trabalho--de que os admiradores do -Ega, em Coimbra, diziam, pensativos e como esmagados de respeito: - ---É uma Biblia! - - - - -V - - -No escriptorio de Affonso da Maia ainda durava, apesar de ser tarde, a -partida de whist. A mesa estava ao lado da chaminé, onde a chamma morria -nos carvões escarlates, no seu recanto costumado, abrigada pelo biombo -japonez, por causa da bronchite de D. Diogo e do seu horror ao ar. - -Esse velho dandy,--a quem as damas de outras eras chamavam o «Lindo -Diogo», gentil toureiro que dormira n'um leito real--acabava justamente -de ter um dos seus accessos de tosse, cavernosa, aspera, dolorosa, que o -sacudiam como uma ruina, que elle abafava no lenço, com as veias -inchadas, rôxo até á raiz dos cabellos. - -Mas passára. Com a mão ainda tremula, o decrepito leão limpou as -lagrimas que lhe embaciavam os olhos avermelhados, compoz a rosa de -musgo na botoeira da sobrecasaca, tomou um golo da sua agua chasada, e -perguntou a Affonso, seu parceiro, n'uma voz rouca e surda: - ---Paus, hein? - -E de novo, sobre o panno verde, as cartas foram cahindo n'um d'aquelles -silencios que se seguiam ás tosses de D. Diogo. Sentia-se só a -respiração assobiada, quasi silvante, do general Sequeira, muito infeliz -essa noite, desesperado com o Villaça seu parceiro, resingão, e com todo -o sangue na face. - -Um tom fino retiniu, o relogio Luiz XV foi ferindo. alegremente, -vivamente, a meia noite;--depois a toada argentina do seu minuete vibrou -um momento e morreu. Houve de novo um silencio. Uma renda vermelha -recobria os globos de dois grandes candieiros Carcel; e a luz assim -coada, cahindo sobre os damascos vermelhos das paredes, dos assentos, -fazia como uma doce refracção côr de rosa, um vaporoso de nuvem em que a -sala se banhava e dormia: só, aqui e além, sobre os carvalhos sombrios -das estantes, rebrilhava em silencio o ouro d'um Sèvres, uma pallidez de -marfim, ou algum tom esmaltado de velha majolica. - ---O que! ainda encarniçados! exclamou Carlos que abrira o reposteiro, -entrava, e com elle o rumor distante de bolas de bilhar. - -Affonso, que recolhia a sua vasa, voltou logo a cabeça, a perguntar com -interesse: - ---Como vae ella? Está socegada? - ---Está muito melhor! - -Era a primeira doente grave de Carlos, uma rapariga de origem -alsacianna, casada com o Marcellino padeiro, muito conhecida no bairro -pelos seus bellos cabellos, loiros, e penteados sempre em tranças -soltas. Tinha estado á morte com uma pneumonia; e apesar de melhor, como -a padaria ficava defronte, Carlos ainda ás vezes á noite atravessava a -rua para a ir vêr, tranquillisar o Marcellino, que, defronte do leito e -de gabão pelos hombros, suffocava soluços d'amante, escrevinhando no -livro de contas. - -Affonso interessara-se anciosamente por aquella pneumonia; e agora -estava realmente agradecido á Marcellina por ter sido salva por Carlos. -Fallava d'ella commovido; gabava-lhe a linda figura, o aceio alsacianno, -a prosperidade que trouxera á padaria... Para a convalescença, que se -approximava, já lhe mandára até seis garrafas de Chateau-Margaux. - ---Então fóra de perigo, inteiramente fóra de perigo?--perguntou Villaça, -com os dedos na caixa do rapé, sublinhando muito a sua sollicitude. - ---Sim, quasi rija--disse Carlos, que se approximara da chaminé, -esfregando as mãos, arrepiado. - -É que a noite, fóra, estava regelada! Desde o anoitecer geava, d'um céu -fino e duro, transbordando de estrellas que rebrilhavam como pontas -afiadas d'aço; e nenhum d'aquelles cavalheiros, desde que se entendia, -conhecera jámais o thermometro tão baixo. Sim, Villaça lembrava-se d'um -janeiro peor no inverno de 64... - ---É necessario carregar no _punch_, hein, general!--exclamou Carlos, -batendo galhofeiramente nos hombros macissos do Sequeira. - ---Não me opponho, rosnou o outro, que fixava com concentração e rancor -um valete de copas sobre a meza. - -Carlos, ainda com frio, remexeu, esfuracou os carvões: uma chuva d'oiro -cahiu por baixo, uma chamma mais forte ressaltou, rugiu, alegrando tudo, -avermelhando em redor as pelles de urso onde o Reverendo Bonifacio, -espapado, torrava ao calor, ronronava de gôso. - ---O Ega deve estar radiante, dizia Carlos com os pés á chamma. Tem, -emfim, justificada a pellissa. A proposito, algum dos senhores tem visto -o Ega estes ultimos dias? - -Ninguem respondeu, no interesse subito que causava a cartada. A longa -mão de D. Diogo recolhia de vagar a vasa--e languidamente, no mesmo -silencio, soltou uma carta de paus. - ---Ó Diogo! ó Diogo! gritou Affonso, estorcendo-se, como se o -trespassasse um ferro. - -Mas conteve-se. O general, cujos olhos despediam faiscas, collocou o seu -valete; Affonso, profundamente infeliz, separou-se do rei de paus; -Villaça bateu de estalo com o az. E immediatamente foi em redor uma -discussão tremenda sobre a puchada de D. Diogo--em quanto Carlos, a quem -as cartas sempre enfastiavam, se debruçava a coçar o ventre fofo do -veneravel Reverendo. - ---Que perguntavas tu, filho? disse emfim Affonso erguendo-se, ainda -irritado, a buscar tabaco para o cachimbo, sua consolação nas derrotas. -O Ega? Não, ninguem o viu, não tornou a apparecer! Está tambem um bom -ingrato, esse John... - -Ao nome do Ega, Villaça, parando de baralhar as cartas, erguera a face -curiosa: - ---Então sempre é certo que elle vae montar casa? - -Foi Affonso que respondeu, sorrindo e accendendo o cachimbo: - ---Montar casa, comprar _coupé_, deitar libré, dar _soirées_ litterarias, -publicar um poema, o diabo! - ---Elle esteve lá no escriptorio, dizia Villaça recomeçando a baralhar. -Esteve lá a indagar o que tinha custado o consultorio, a mobilia de -velludo, etc. O velludo verde deu-lhe no gôto... Eu, como é um amigo da -casa, lá lhe prestei informações, até lhe mostrei as contas.--E -respondendo a uma pergunta do Sequeira:--Sim, a mãe tem dinheiro, e -creio que lhe dá o bastante. Que em quanto a mim, elle vem-se metter na -politica. Tem talento, falla bem, o pae já era muito regenerador... Alli -ha ambição. - ---Alli ha mulher, disse D. Diogo, collocando com peso esta decisão e -accentuando-a com uma caricia languida á ponta frisada dos bigodes -brancos. Lê-se-lhe na cara, basta vêr-lhe a cara... Alli ha mulher. - -Carlos sorria, gabando a penetração de D. Diogo, o seu fino olho á -Balzac; e Sequeira, logo, franco como velho soldado, quiz saber quem era -a Dulcinea. Mas o velho dandy declarou, da profundidade da sua -experiencia, que essas cousas nunca se sabiam, e era preferivel não se -saberem. Depois passando os dedos magros e lentos pela face, deixou -cahir d'alto e com condescendencia este juizo: - ---Eu gosto do Ega, tem apresentação; sobretudo tem _degagè_... - -Tinham recebido as cartas, fez-se um silencio na meza. O general, vendo -o seu jogo, soltou um grunhido surdo, arrebatou o cigarro do cinzeiro, e -puxou-lhe uma fumaça furiosa. - ---Os senhores são muito viciosos, vou vêr a gente do bilhar, disse -Carlos. Deixei o Steinbroken engalfinhado com o marquez, a perder já -quatro mil réis. Querem o _punch_ aqui? - -Nenhum dos parceiros respondeu. - -E em torno do bilhar Carlos encontrou o mesmo silencio de solemnidade. O -marquez, estirado sobre a tabella, com a perna meia no ar, o começo de -calva alvejando á luz crua que cahia dos _abat-jours_, de porcelana, -preparava a carambola decisiva. Cruges, que apostára por elle, deixára o -divan, o cachimbo turco, e, coçando com um gesto nervoso a grenha crespa -que lhe ondeava até á gola do jaquetão, vigiava a bola inquieto, com os -olhinhos piscos, o nariz espetado. Do fundo da sala, destacando em -preto, o Silveirinha, o Eusebiosinho de S.^{ta} Olavia, estendia tambem -o pescoço, affogado n'uma gravata de viuvo de merino negro e sem -collarinho, sempre macambuzio, mais mollengo que outr'ora, com as mãos -enterradas nos bolsos--tão funebre que tudo n'elle parecia complemento -do luto pesado, até o preto do cabello chato, até o preto das lunetas de -fumo. Junto ao bilhar, o parceiro do marquez, o conde Steinbroken, -esperava: e apesar do susto, da emoção d'homem do norte aferrado ao -dinheiro, conservava-se correcto, encostado ao taco, sorrindo, sem -desmanchar a sua linha britanica,--vestido como um inglez, inglez -tradicional d'estampa, com uma sobrecasaca justa de manga um pouco -curta, e largas calças de xadrez sobre sapatões de tacão raso. - ---Hurrah! gritou de repente Cruges. Os dez tostõesinhos para cá, -Silveirinha! - -O marquez carambolára, ganhando a partida, e triumphava tambem: - ---Você trouxe-me a sorte, Carlos! - -Steinbroken depozera logo o taco, e alinhava já sobre a tabella, -lentamente, uma a uma, as quatro placas perdidas. - -Mas o marquez, de giz na mão, reclamava-o para outras refregas, -esfaimado d'ouro filandez. - ---Nada mach!... Vôcê hoje 'stá têrivêl! dizia o diplomata, no seu -portuguez fluente, mas de accento barbaro. - -O marquez insistia, plantado diante d'elle, de taco ao hombro como uma -vara de campino, dominando-o com a sua macissa, desempenada estatura. E -ameaçava-o de destinos medonhos n'uma voz possante habituada a ressoar -nas lezirias; queria-o arruinar ao bilhar, forçal-o a empenhar aquelles -bellos anneis, leval-o elle, ministro da Filandia e representante d'uma -raça de reis fortes, a vender senhas á porta da Rua dos Condes! - -Todos riam; e Steinbroken tambem, mas com um riso franzido e difficil, -fixando no marquez o olhar azul-claro, claro e frio, que tinha no fundo -da sua myopia a dureza d'um metal. Apesar da sua sympathia pela illustre -casa de Souzella, achava estas familiaridades, estas tremendas chalaças, -incompativeis com a sua dignidade e com a dignidade da Filandia. O -marquez, porém, coração d'ouro, abraçava-o já pela cinta, com expansão: - ---Então se não quereis mais bilhar, um bocadinho de canto, Steinbroken -amigo! - -A isto o ministro accedeu, affavel, preparando-se logo, dando caricias -ligeiras ás suissas, e aos anneis do cabello d'um loiro de espiga -desbotada. - -Todos os Steinbrokens, de paes a filhos (como elle dissera a Affonso) -eram bons barytonos: e isso trouxera á familia não poucos proventos -sociaes. Pela voz captivara seu pae o velho rei Rudolpho III, que o -fizera chefe das caudelarias, e o tinha noites inteiras nos seus -quartos, ao piano, cantando psalmos lutheranos, coraes escolares, sagas -da Dallecarlia--em quanto o taciturno monarcha cachimbava e bebia, até -que saturado de emoção religiosa, saturado de cerveja preta, tombava do -sophá, soluçando e babando-se. Elle mesmo, Steinbroken, levara parte da -sua carreira ao piano, já como addido, já como segundo secretario. Feito -chefe de missão, absteve-se: foi só quando vio o _Figaro_ celebrar -repetidamente as walsas do principe Artoff, embaixador da Russia em -Paris, e a voz de _basso_ do conde de Baspt, embaixador d'Austria em -Londres, que elle, seguindo tão altos exemplos, arriscou, aqui e alem, -em _soirées_ mais intimas, algumas melodias filandezas. Emfim cantou no -Paço. E desde então exerceu com zelo, com formalidades, com praxes, o -seu cargo de «barytono plenipotenciario,» como dizia o Ega. Entre -homens, e com os reposteiros corridos, Steinbroken não duvidava todavia -cantarolar o que elle chamava «cançonetas brejêras»--o _Amant d'Amanda_, -ou uma certa ballada ingleza: - - - On the Serpentine, - Oh my Caroline... - Oh! - - -Este _oh_! como elle o expellia, gemido, bem puxado, n'um movimento de -batuque, expressivo e todavia digno... Isto entre rapazes e com os -reposteiros fechados. - -N'essa noite, porém, o marquez, que o conduzia pelo braço á sala do -piano, exigia uma d'aquellas canções da Filandia, de tanto sentimento e -que lhe faziam tão bem á alma... - ---Uma que tem umas palavrinhas de que eu gosto, _frisk_, _gluzk_... La -ra lá, lá, lá! - ---A Primavera, disse o diplomata sorrindo. - -Mas antes de entrar na sala, o marquez soltou o braço de Steinbroken, -fez um signal ao Silveirinha para o fundo do corredor--e ahi, sob um -sombrio painel de _Santa Magdalena no deserto_ penitenciando-se e -mostrando nudezas ricas de nympha lubrica, interpellou-o quasi com -aspereza: - ---Vamos nós a saber. Então, decide-se ou não? - -Era uma negociação que havia semanas se arrastava entre elles, a -respeito d'uma parelha d'egoas. Silveirinha nutria o desejo de montar -carruagem; e o marquez procurava vender-lhe umas egoas brancas, a que -elle dizia «ter tomado enguiço, apesar de serem dois nobres animaes». -Pedia por ellas um conto e quinhentos mil réis. Silveirinha fôra avisado -pelo Sequeira, por Travassos, por outros entendedores, que era _uma -espiga_: o marquez tinha a sua moral propria para negocios de gado, e -exultaria em _intrujar um pichote_. Apesar de advertido, Eusebio cedendo -á influencia da grossa voz do marquez, da robustez do seu phisico, da -antiguidade do seu titulo, não ousava recusar. Mas hesitava; e n'essa -noite deu a resposta usual de forreta, coçando o queixo, cosido ao muro: - ---Eu verei, marquez... Um conto e quinhentos é dinheiro... - -O marquez ergueu dois braços ameaçadores como duas trancas: - ---Homem, sim ou não! Que diabo... Dois animaes que são duas estampas... -Irra! Sim ou não! - -Eusebio ageitou as lunetas, rosnou: - ---Eu verei... Elle é dinheiro. Sempre é dinheiro... - ---Queria você, talvez, pagal-as com feijões? Você leva-me a commetter um -excesso! - -O piano resoou, em dois accordes cheios, sob os dedos do Cruges; e o -marquez, baboso por musica, immediatamente largou a questão das egoas, -recolheu em pontas de pés. Eusebiosinho ainda ficou a remoer, a coçar o -queixo; emfim, ás primeiras notas de Steinbroken, veiu pousar como uma -sombra silenciosa entre a hombreira e o reposteiro. - -Afastado do piano segundo o seu costume, curvado, com a cabelleira como -pousada ás costas, Cruges feria o acompanhamento, d'olhos cravados no -livro de _Melodias Filandezas_. Ao lado, empertigado, quasi official, -com o lenço de seda na mão, a mão fincada contra o peito, Steinbroken -soltava um canto festivo, n'um movimento de tarantella triumphante, em -que passavam, como um entrechocar de seixos, esses bocados de palavras -de que o marquez gostava, _frisk_, _slécht_, _clikst_, _glukst_. Era a -_Primavera_--fresca e silvestre, primavera do norte em paiz de -montanhas, quando toda uma aldêa dança em córos sob os fuscos abetos, a -neve se derrete em cascatas, um sol pallido avelluda os musgos, e a -brisa traz o aroma das resinas... Nos graves e cheios, as cantoneiras de -Steinbroken ruborisavam-se, inchavam. Nos tons agudos todo elle se ía -alçando sobre a ponta dos pés, como levado no compasso vivo; despegava -então a mão do peito, alargava um gesto, as bellas joias dos seus anneis -faiscavam. - -O marquez, com as mãos esquecidas nos joelhos, parecia beber o canto. Na -face de Carlos passava um sorriso enternecido pensando em Madame Rughel, -que viajara na Filandia, e cantava ás vezes aquella _Primavera_ nas suas -horas de sentimentalismo flamengo... - -Steinbroken soltou um _stacato_ agudo, isolado como uma voz n'um -alto,--e immediatamente, afastando-se do piano, passou o lenço sobre as -fontes, sobre o pescoço, rectificou com um puchão a linha da -sobrecasaca, e agradeceu o acompanhamento ao Cruges n'um silencioso -_shake-hands_. - ---Bravo! bravo! berrava o marquez, batendo as mãos como malhos. - -E outros applausos resoaram á porta, dos parceiros do whist, que tinham -findado a partida. Quasi immediatamente os escudeiros entravam com um -serviço frio de croquettes e sandwiches, offerecendo St. Emilion ou -Porto; e sobre uma meza, entre os renques de calices, a puncheira -fumegou n'um aroma doce e quente de cognac e limão. - ---Então, meu pobre Steinbroken, exclamou Affonso, vindo-lhe bater -amavelmente no hombro, ainda dá d'esses bellos cantos a estes bandidos, -que o maltratam assim ao bilhar? - ---Fui essfôladito, si, essfôladito. Agradecido, nô, prefiro um copita -Porto... - ---Hoje fomos nós as victimas, disse-lhe o general respirando com delicia -o seu punch. - ---Você tãbem, meu genêral? - ---Sim, senhor, tambem me cascaram... - -E que dizia o amigo Steinbroken ás noticias da manhã? perguntava -Affonso. A queda de Mac-Mahon, a eleição de Grevy... O que o alegrava -n'isto, era o desapparecimento definitivo do antipathico senhor de -Broglie e da sua _clique_. A impertinencia d'aquelle academico estreito, -querendo impôr a opinião de dois ou tres salões doutrinarios á França -inteira, a toda uma Democracia! Ah, o _Times_ cantava-lh'as! - ---E o _Punch_? Não viu o _Punch_? Oh, delicioso!... - -O ministro pousara o calice, e esfregando cautelosamente as mãos disse -n'uma meia voz grave a sua phrase, a phrase definitiva com que julgava -todos os acontecimentos que apparecem em telegrammas: - ---É gràve... É eqsessivemente gràve... - -Depois fallou-se de Gambetta; e como Affonso lhe attribuia uma dictadura -proxima, o diplomata tomou mysteriosamente o braço de Sequeira, murmurou -a palavra suprema com que definia todas as personalidades superiores, -homens d'estado, poetas, viajantes ou tenores. - ---É um hom[~e] mûto forte. É um hom[~e] eqsessivemente forte! - ---O que elle é, é um ronha! exclamou o general, escorropichando o seu -calice. - -E todos tres deixaram a sala, discutindo ainda a republica--em quanto -Cruges continuava ao piano, vagueando por Mendelsshon e por Choppin, -depois de ter devorado um prato de croquettes. - -O marquez e D. Diogo, sentados no mesmo sophà, um com a sua chasada -d'invalido, outro com um copo de S.^t Emilion, a que aspirava o -_bouquet_, fallavam tambem de Gambetta. O marquez gostava de Gambetta: -fôra o unico que durante a guerra mostrara ventas de homem; lá que -tivesse «comido» ou que «quizesse comer» como diziam,--não sabia nem lhe -importava. Mas era teso! E o sr. Grevy tambem lhe parecia um cidadão -serio, optimo para chefe do Estado... - ---Homem de sala? perguntou languidamente o velho leão. - -O marquez só o vira na Assembléa, presidindo e muito digno... - -D. Diogo murmurou, com um melancolico desdem na voz, no gesto, no olhar: - ---O que eu queria a toda essa canalha era a saude, marquez! - -O marquez consolou-o, galhofeiro e amavel. Toda essa gente, parecendo -forte por se occupar de cousas fortes, no fundo tinha asthma, tinha -pedra, tinha gota... E o Dioguinho era um Hercules... - ---Um Hercules! O que é, é que você apaparica-se muito... A doença é um -mau habito em que a gente se põe. É necessario reagir... Você devia -fazer gymnastica, e muita agua fria por essa espinha. Você, na -realidade, é de ferro! - ---Enferrujadote, enferrujadote...--replicou o outro, sorrindo e -desvanecido. - ---Qual enferrujadote! Se eu fosse cavallo ou mulher, antes o queria a -você que a esses badamecos que por ahi andam meio podres... Já não ha -homens da sua tempera, Dioguinho! - ---Já não ha nada, disse o outro grave e convencido, e como o derradeiro -homem nas ruinas d'um mundo. - -Mas era tarde, ía-se agasalhar, recolher, depois de acabar a sua -chasada. O marquez ainda se demorou, preguiçando no sophá, enchendo -lentamente o cachimbo, dando um olhar áquella sala que o encantava com o -seu luxo Luiz XV, os seus florídos e os seus dourados, as cerimoniosas -poltronas de Beauvais feitas para a amplidão das anquinhas, as -tapeçarias de Gobelins de tons desmaiados, cheias de galantes pastoras, -longes de parques, laços e lãs de cordeiros, sombras d'idyllios mortos, -transparecendo n'uma trama de seda... Áquella hora, no adormecimento que -ía pesando, sob a luz suave e quente das velas que findavam, havia ali a -harmonia e o ar de um outro seculo: e o marquez reclamou do Cruges um -minuete, uma gavotta, alguma cousa que evocasse Versalhes, Maria -Antonietta, o rythmo das bellas maneiras e o aroma dos empoados. Cruges -deixou morrer sob os dedos a melodia vaga que estava diluindo em -suspiros, preparou-se, alargou os braços--e atacou, com um pedal -solemne, o _Hymno da Carta_. O marquez fugiu. - -Villaça e Euzebiozinho conversavam no corredor, sentados n'uma das arcas -baixas de carvalho lavrado. - ---A fazer politica? perguntou-lhes o marquez ao passar. - -Ambos sorriram; Villaça respondeu jocosamente: - ---É necessario salvar a patria! - -Eusebio pertencia tambem ao centro progressista, aspirava a influencia -eleitoral no circulo de Resende, e alli ás noites no Ramalhete faziam -conciliabulos. N'esse momento porém fallavam dos Maias: Villaça não -duvidava confiar ao Silveirinha, homem de propriedade, visinho de -S.^{ta} Olavia, quasi creado com Carlos, certas cousas que lhe -desagradavam na casa, onde a auctoridade da sua palavra parecia -diminuir; assim, por exemplo, não podia approvar o ter Carlos tomado uma -frisa de assignatura. - ---Para que, exclamava o digno procurador, para que, meu caro senhor? -Para lá não pôr os pés, para passar aqui as noites... Hoje diz que ha -enthusiasmo, e elle ahi esteve. Tem ido lá, eu sei? duas ou três -vezes... E para isto dá cá uns poucos de centos de mil réis. Podia fazer -o mesmo com meia duzia de libras! Não, não é governo. No fim a frisa é -para o Ega, para o Taveira, para o Cruges... Olhe, eu não me utiliso -d'ella; nem o amigo. É verdade, que o amigo está de luto. - -Eusebio pensou, com despeito, que se podia metter para o fundo da -frisa--se tivesse sido convidado. E murmurou, sem conter um sorriso -molle: - ---Indo assim, até se podem encalacrar... - -Uma tal palavra, tão humilhante, applicada aos Maias, á casa que elle -administrava, escandalisou Villaça. Encalacrar! Ora essa! - ---O amigo não me comprehendeu... Ha despezas inuteis, sim, mas, louvado -Deus, a casa póde bem com ellas! É verdade que o rendimento gasta-se -todo, até o ultimo ceitil; os cheques voam, voam, como folhas seccas; e -até aqui o costume da casa foi pôr de lado, fazer bolo, fazer reserva. -Agora o dinheiro derrete-se... - -Eusebio rosnou algumas palavras sobre os trens de Carlos, os nove -cavallos, o cocheiro inglez, os grooms... O procurador acudiu: - ---Isso, amigo, é de razão. Uma gente d'estas deve ter a sua -representação, as suas cousas bem montadas. Ha deveres na sociedade... É -como o sr. Affonso... Gasta muito, sim, come dinheiro. Não é com elle, -que lhe conheço aquelle casaco ha vinte annos... Mas são esmolas, são -pensões, são emprestimos que nunca mais vê... - ---Desperdicios... - ---Não lh'o censuro... É o costume da casa; nunca da porta dos Maias, já -meu pae dizia, sahiu ninguem descontente... Mas uma frisa, de que -ninguem usa! só para o Cruges, só para o Taveira!... - -Teve de se callar. Justamente ao fundo do corredor assomava o Taveira, -abafado até aos olhos na gola d'uma ulster, d'onde sahiam as pontas d'um -_cachenez_ de seda clara. O escudeiro desembaraçou-o dos agasalhos; e -elle, de casaca e collete branco, limpando o bonito bigode humido da -geada, veiu apertar a mão ao caro Villaça, ao amigo Eusebio, arrepiado, -mas achando o frio elegante, desejando a neve e o seu _chic_... - ---Nada, nada, dizia Villaça todo amavel, cá o nosso solzinho portuguez -sempre é melhor... - -E foram entrando no _fumoir_, onde se ouviam as vozes do marquez, de -Carlos, n'uma das suas sabias e prolixas cavaqueiras sobre cavallos e -sport. - ---Então? que tal? A mulher? foi a interrogação que acolheu o Taveira. - -Mas antes de dar noticia da estreia da Morelli, a dama nova, Taveira -reclamou alguma cousa quente. E enterrado n'uma poltrona junto do fogão, -com os sapatos de verniz estendidos para as brazas, respirando o aroma -do punch, saboreando uma cigarette, declarou emfim que não tinha sido um -_fiasco_. - ---Que ella, a meu vêr, é uma insignificancia, não tem nada, nem voz, nem -escola. Mas, coitada, estava tão atrapalhada, que nos fez pena. Houve -indulgencia, deram-se-lhe umas palmas... Quando fui ao palco, ella -estava contente... - ---Vamos a saber, Taveira, que tal é ella? inquiria o marquez. - ---Cheia, dizia o Taveira collocando as palavras como pinceladas; alta; -muito branca; bons olhos; bons dentes... - ---E o pésinho?--E o marquez, já com os olhos accesos, passava de vagar a -mão pela calva. - -Taveira não reparara no pé. Não era amador de pés... - ---Quem estava? perguntou Carlos, indolente e bocejando. - ---A gente do costume... É verdade, sabes quem tomou a frisa ao lado da -tua? Os Gouvarinhos. Lá appareceram hoje... - -Carlos não conhecia os Gouvarinhos. Em redor explicaram-lhe: o conde de -Gouvarinho, o par do reino, um homem alto, de lunetas, _poseur_... E a -condessa, uma senhora inglesada, de cabello côr de cenoura, muito bem -feita... Emfim, Carlos não conhecia. - -Villaça encontrava o conde no centro progressista, onde elle era uma -columna do partido. Rapaz de talento, segundo o Villaça. O que o -espantava é que elle podesse ter assim frisa de assignatura, atrapalhado -como estava: ainda não havia tres mezes lhe tinham protestado uma letra -de oitocentos mil réis, no tribunal do commercio... - ---Um asno, um caloteiro! disse o marquez com nojo. - ---Passa-se lá bem, ás terças feiras...--disse Taveira, mirando a sua -meia de seda. - -Depois fallou-se do duello do Azevedo da _Opinião_ com o Sá Nunes, -auctor d'_El-Rei Bolacha_, a grande magica da Rua dos Condes, e -ultimamente ministro da marinha: tinham-se tratado furiosamente nos -jornaes de _pulhas_ e de _ladrões_: e havia dez interminaveis dias que -estavam desafiados e que Lisboa, em pasmaceira, esperava o sangue. -Cruges ouvira que Sá Nunes não se queria bater, por estar de luto por -uma tia; dizia-se tambem que o Azevedo partira precipitadamente para o -Algarve. Mas a verdade, segundo Villaça, era que o ministro do reino, -primo do Azevedo, para evitar o recontro, conservava a casa dos dois -cavalheiros bloqueada pela policia... - ---Uma canalha! exclamou o marquez com um dos seus resumos brutaes que -varriam tudo. - ---O ministro não deixa de ter razão, observou Villaça. Isto ás vezes, em -duellos, póde bem succeder uma desgraça... - -Houve um curto silencio. Carlos, que caía de somno, perguntou ao -Taveira, atravez d'outro bocejo, se vira o Ega no theatro. - ---Podera! La estava de serviço, no seu posto, na frisa dos Cohens, todo -puxado... - ---Então essa cousa do Ega com a mulher do Cohen, disse o marquez, parece -clara... - ---Transparente, diaphana! um crystal!... - -Carlos, que se erguera a accender uma cigarette para despertar, lembrou -logo a grande maxima de D. Diogo: essas cousas nunca se sabiam, e era -preferivel não se saberem! Mas o marquez, a isto, lançou-se em -considerações pesadas. Estimava que o Ega _se atirasse_; e via ahi um -facto de represalia social, por o Cohen ser judeu e banqueiro. Em geral -não gostava de judeus; mas nada lhe offendia tanto o gosto e a razão -como a especie _banqueiro_. Comprehendia o salteador de clavina, n'um -pinheiral; admittia o communista, arriscando a pelle sobre uma -barricada. Mas os argentarios, os _Fulanos e C.^{as}_ faziam-n'o -encavacar... E achava que destruir-lhes a paz domestica era acto -meritorio! - ---Duas horas e um quarto! exclamou Taveira, que olhara o relogio. E eu -aqui, empregado publico, tendo deveres para com o Estado, logo ás dez -horas da manhã. - ---Que diabo, se faz no tribunal de contas? perguntou Carlos. Joga-se? -Cavaquea-se? - ---Faz-se um bocado de tudo, para matar tempo... Até contas! - -Affonso da Maia já estava recolhido. Sequeira e Steinbroken tinham -partido; e D. Diogo, no fundo da sua velha traquitana, lá fôra tambem a -tomar ainda gemada, a pôr ainda o emplastro, sob o olho solicito da -Margarida, sua cozinheira e seu derradeiro amor. E os outros não -tardaram a deixar o Ramalhete. Taveira, de novo sepultado na _ulster_, -trotou até casa, uma vivendasinha perto com um bonito jardim. O marquez -conseguiu levar Cruges no _coupé_, para lhe ir fazer musica a casa, no -orgão, até ás tres ou quatro horas, musica religiosa e triste, que o -fazia chorar, pensando nos seus amores e comendo frango frio com fatias -de salame. E o viuvo, o Eusebiosinho, esse, batendo o queixo, tão morosa -e soturnamente como se caminhasse para a sua propria sepultura, lá se -dirigiu ao lupanar onde tinha uma _paixão_. - - -O laboratorio de Carlos estava prompto--e muito convidativo, com o seu -soalho novo, fornos de tijolo fresco, uma vasta meza de marmore, um -amplo divan de clina para o repouso depois das grandes descobertas, e em -redor, por sobre peanhas e prateleiras, um rico brilho de metaes e -crystaes; mas as semanas passavam, e todo esse bello material de -experimentação, sob a luz branca da claraboia, jazia virgem e ocioso. Só -pela manhã um servente ía ganhar o seu tostão diario, dando lá uma volta -preguiçosa com um espanador na mão. - -Carlos realmente não tinha tempo de se occupar do laboratorio; e -deixaria a Deus mais algumas semanas o privilegio exclusivo de saber o -segredo das cousas--como elle dizia rindo ao avô. Logo pela manhã cedo -ía fazer as suas duas horas d'armas com o velho Randon; depois via -alguns doentes no bairro onde se espalhara, com um brilho de legenda, a -cura da Marcellina--e as garrafas de Bordeus que lhe mandara Affonso. -Começava a ser conhecido como medico. Tinha visitas no -consultorio--ordinariamente bachareis, seus contemporaneos, que -sabendo-o rico o consideravam gratuito, e lá entravam, murchos e com má -cara, a contar a velha e mal disfarçada historia de ternuras funestas. -Salvara d'um garrotilho a filha d'um brazileiro, ao Aterro--e ganhara -ahi a sua primeira libra, a primeira que pelo seu trabalho ganhava um -homem da sua familia. O dr. Barbedo convidara-o a assistir a uma -operação ovariotomica. E emfim (mas esta consagração não a esperava -realmente Carlos tão cedo) alguns dos seus bons collegas, que até ahi, -vendo-o só a governar os seus cavallos inglezes, fallavam do «talento do -Maia»--agora percebendo-lhe estas migalhas de clientella, começavam a -dizer «que o Maia era um asno.» Carlos já fallava a serio da sua -carreira. Escrevera, com laboriosos requintes d'estylista, dois artigos -para a _Gazeta Medica_; e pensava em fazer um livro d'idéas geraes, que -se devia chamar _Medicina Antiga e Moderna_. De resto occupava-se sempre -dos seus cavallos, do seu luxo, do seu bric-a-brac. E atravez de tudo -isto, em virtude d'essa fatal dispersão de curiosidade que, no meio do -caso mais interessante de pathologia, lhe fazia voltar a cabeça, se -ouvia fallar d'uma estatua ou d'um poeta, attrahia-o singularmente a -antiga idéa do Ega, a creação d'uma Revista, que dirigisse o gosto, -pezasse na politica, regulasse a sociedade, fosse a força pensante de -Lisboa... - -Era porém inutil lembrar ao Ega este bello plano. Abria um olho vago, -respondia: - ---Ah, a Revista... Sim, está claro, pensar n'isso! Havemos de fallar, eu -apparecerei... - -Mas não apparecia no Ramalhete, nem no consultorio; apenas se avistavam, -ás vezes, em S. Carlos, onde o Ega, todo o tempo que não passava no -camarote dos Cohens, vinha invariavelmente refugiar-se no fundo da frisa -de Carlos, por trás de Taveira ou do Cruges; d'onde podesse olhar de vez -em quando Rachel Cohen--e ali ficava, silencioso, com a cabeça appoiada -ao tabique, repousando e como saturado de felicidade... - -O dia (dizia elle) tinha-o todo tomado: andava procurando casa, andava -estudando mobilias... Mas era facil encontral-o pelo Chiado e pelo -Loreto, a rondar e a farejar--ou então no fundo de tipoias de praça, -batendo a meio galope, n'um espalhafato de aventura. - -O seu dandysmo requintava; arvorara, com o desplante soberbo d'um -Brummel, casaca de botões amarellos sobre collete de setim branco; e -Carlos entrando uma manhã cedo no _Universal_, deu com elle pallido de -colera, a despropositar com um creado, por causa d'uns sapatos mal -envernisados. Os seus companheiros constantes, agora, eram um Damaso -Salcede, amigo do Cohen, e um primo da Rachel Cohen, mocinho imberbe, -d'olho esperto e duro, já com ares de emprestar a trinta por cento. - -Entre os amigos, no Ramalhete, sobretudo na frisa, discutia-se ás vezes -Rachel, e as opiniões discordavam. Taveira achava-a «deliciosa!»--e -dizia-o rilhando o dente: ao marquez não deixava de parecer appetitosa, -para uma vez, aquella carnezinha _faisandée_ de mulher de trinta annos: -Cruges chamava-lhe uma «lambisgoia relamboria». Nos jornaes, na secção -do _High-life_, ella era «uma das nossas primeiras elegantes»: e toda a -Lisboa a conhecia, e a sua luneta d'ouro presa por um fio d'ouro, e a -sua caleche azul com cavallos pretos. Era alta, muito pallida, sobre -tudo ás luzes, delicada de saude, com um quebranto nos olhos pisados, -uma infinita languidez em toda a sua pessoa, um ar de romance e de lyrio -meio murcho: a sua maior belleza estava nos cabellos, magnificamente -negros, ondeados, muito pesados, rebeldes aos ganchos, e que ella -deixava habilmente cahir n'uma massa meia solta sobre as costas, como -n'um desalinho de nudez. Dizia-se que tinha litteratura, e fazia -phrases. O seu sorriso lasso, pallido, constante, dava-lhe um ar de -insignificancia. O pobre Ega adorava-a. - -Conhecera-a na Foz, na Assembléa; n'essa noite, cervejando com os -rapazes, ainda lhe chamou _camelia melada_; dias depois já adulava o -marido; e agora esse demagogo, que queria o massacre em massa das -classes medias, soluçava muita vez por causa d'ella, horas inteiras, -cahido para cima da cama. - -Em Lisboa, entre o Gremio e a Casa Havaneza, já se começava a fallar «do -arranjinho do Ega». Elle todavia procurava pôr a sua felicidade ao -abrigo de todas as suspeitas humanas. Havia nas suas complicadas -precauções tanta sinceridade como prazer romantico do mysterio: e era -nos sitios mais desageitados, fóra de portas, para os lados do -Matadouro, que ía furtivamente encontrar a creada que lhe trazia as -cartas d'ella... Mas em todos os seus modos (mesmo no disfarce affectado -com que espreitava as horas) transbordava a immensa vaidade d'aquelle -adulterio elegante. De resto sentia bem que os seus amigos conheciam a -gloriosa aventura, o sabiam em pleno drama: era mesmo talvez por isso, -que, diante de Carlos e dos outros, nunca até ahi mencionara o nome -d'ella, nem deixara jámais escapar um lampejo de exaltação. - -Uma noite, porém, acompanhando Carlos até ao Ramalhete, noite de lua -calma e branca, em que caminhavam ambos callados, Ega, invadido decerto -por uma onda interior de paixão, soltou desabafadamente um suspiro, -alargou os braços, declamou com os olhos no astro, um tremor na voz: - - - Oh! laisse-toi donc aimer, oh! l'amour c'est la vie! - - -Isto fugira-lhe dos labios como um começo de confissão; Carlos ao lado -não disse nada, soprou ao ar o fumo do charuto. - -Mas Ega sentiu-se decerto ridiculo, porque se calmou, refugiou-se -immediatamente no puro interesse litterario: - ---No fim de contas, menino, digam lá o que disserem, não ha senão o -velho Hugo... - -Carlos, comsigo, lembrava furores naturalistas do Ega, rugindo contra -Hugo, chamando-lhe «saco-roto de espiritualismo», «boca-aberta de -sombra», «avôsinho lyrico», injurias peiores. - -Mas n'essa noite o grande phraseador continuou: - ---Ah o velho Hugo! o velho Hugo é o campeão heroico de verdades -eternas... É necessario um bocado d'ideal, que diabo!... De resto o -ideal póde ser real... - -E foi, com esta palinodia, acordando os silencios do Aterro. - -Dias depois Carlos, no consultorio, acabava de despedir um doente, um -Viegas, que todas as semanas vinha alli fazer a fastidiosa chronica da -sua dyspepsia--quando do reposteiro da sala d'espera lhe surgiu o Ega, -de sobrecasaca azul, luva _gris-perle_ e um rolo de papel na mão. - ---Tens que fazer, doutor? - ---Não, ía a sahir, janota! - ---Bem. Venho-te impingir prosa... Um bocado do _Atomo_... Senta-te ahi. -Ouve lá. - -Immediatamente abancou, afastou papeis e livros, desenrolou o -manuscripto, espalmou-o, deu um puxão ao collarinho--e Carlos, que se -pousara á borda do divan, com a face espantada e as mãos nos joelhos, -achou-se quasi sem transição transportado dos rugidos do ventre do -Viegas para um rumor de populaça, n'um bairro de judeus, na velha cidade -de Heidelberg. - ---Mas espera lá! exclamou elle. Deixa-me respirar. Isso não é o começo -do livro! Isso não é o cahos... - -Ega então recostou-se, desabotoou a sobrecasaca, respirou tambem. - ---Não, não é o primeiro episodio... Não é o cahos. É já no seculo XV... -Mas n'um livro d'estes póde-se começar pelo fim... Conveiu-me fazer este -episodio: chama-se a _Hebrea_. - -A Cohen! pensou Carlos. - -Ega tornou a alargar o collarinho--e foi lendo, animando-se, ferindo as -palavras para as fazer viver, soltando grandes cheios de voz nas -sonoridades finaes dos periodos. Depois da sombria pintura d'um bairro -medival de Heidelberg, o famoso Atomo, o _Atomo do Ega_, apparecia -alojado no coração do esplendido principe Franck, poeta, cavalleiro, e -bastardo do imperador Maximiliano. E todo esse coração de heroe -palpitava pela judia Esther, perola maravilhosa do Oriente, filha do -velho rabbino Salomão, um grande doutor da Lei, perseguido pelo odio -theologico do Geral dos Dominicanos. - -Isto contava-o o Atomo n'um monologo, tão recamado d'imagens como um -manto da Virgem está recamado d'estrellas--e que era uma declaração -d'elle, Ega, á mulher do Cohen. Depois abria-se um intermedio -pantheista: rompiam coros de flores, coros de astros, cantando na -linguagem da luz, ou na eloquencia dos perfumes, a belleza, a graça, a -pureza, a alma celeste de Esther--e de Rachel... Emfim, chegava o negro -drama da perseguição: a fuga da familia hebraica, atravéz de bosques de -bruxas e brutas aldêas feudaes; a apparição, n'uma encrusilhada, do -principe Franck que vem proteger Esther, de lança alta, no seu grande -corcel; o tropel da turba fanatica, correndo a queimar o rabbino e os -seus livros herejes; a batalha, e o principe atravessado pelo chuço d'um -_reitre_, indo morrer no peito d'Esther, que morre com elle n'um beijo. -Tudo isto se precipitava como um sonoro e tumultuoso soluço; e era -tratado com as maneiras modernas d'estylo, o esforço atormentado -inchando a expressão, as camadas de côr atiradas á larga para fazer -ressaltar o tom de vida... - -Ao findar o _Atomo_ exclamava, com a vasta solemnidade d'um cheio -d'orgão:--«assim arrefeceu, parou, aquelle coração de heroe que eu -habitava; e evaporado o principio de vida, eu, agora livre, remontei aos -astros, levando comigo a essencia pura d'esse amor immortal.» - ---Então?...--disse Ega, esfalfado, quasi tremulo. - -Carlos só poude responder: - ---Está ardente. - -Depois elogiou a serio alguns lances, o coro das florestas, a leitura do -_Ecclesiastes_, de noite, entre as ruinas da torre d'Othon, certas -imagens d'um grande vôo lyrico. - -Ega, que tinha pressa, como sempre, enrolou o manuscripto, reabotoou a -sobrecasaca, e já de chapéu na mão: - ---Então, parece-te apresentavel?... - ---Vaes publicar? - ---Não, mas emfim...--e ficou n'esta reticencia, fazendo-se corado. - -Carlos comprehendeu tudo dias depois, encontrando na _Gazeta do Chiado_ -uma descripção «da leitura feita em casa do ex.^{mo} sr. Jacob Cohen, -pelo nosso amigo João da Ega, de um dos mais brilhantes episodios do seu -livro--_As memorias d'um atomo_.» E o jornalista accrescentava, dando a -sua impressão pessoal: «é uma pintura dos sofrimentos porque passaram, -nos tempos da intolerancia religiosa, aquelles que seguem a Lei -d'Israel. Que poder de imaginação! Que fluencia d'estylo! O effeito foi -extraordinario, e quando o nosso amigo fechou o manuscripto ao succumbir -da protagonista--vimos lagrimas em todos os olhos da numerosa e -estimavel colonia hebraica!» - -Oh, furor do Ega! Rompeu n'essa tarde pelo consultorio, pallido, -desorientado... - ---Estas bestas! Estas bestas d'estes jornalistas! Leste? _Lagrimas em -todos os olhos da numerosa e estimavel colonia hebraica!_ Faz cahir a -cousa em ridiculo... E depois a _fluencia d'estylo_. Que burros! Que -idiotas! - -Carlos, que cortava as folhas d'um livro, consolou-o. Aquella era a -maneira nacional de fallar d'obras d'arte... Não valia a pena bramar... - ---Não, palavra, tinha vontade de quebrar a cara áquelle folliculario! - ---E porque lh'a não quebras? - ---É um amigo dos Cohens. - -E foi grunhindo improperios contra a imprensa, a passos de tigre pelo -gabinete. Por fim irritado com a indifferença de Carlos: - ---Que diabo estás tu ahi a ler? _Nature parasitaire des accidents de -l'impaludisme_... Que blague, a medicina! Dize-me uma cousa. Que diabo -serão umas picadas que me veem aos braços, sempre que vou a -adormecer?... - ---Pulgas, bichos, vermina...--murmurou Carlos com os olhos no livro. - ---Animal! rosnou Ega, arrebatando o chapéu. - ---Vaes-te, John? - ---Vou, tenho que fazer!--E junto do reposteiro, ameaçando o céu com o -guarda-chuva, chorando quasi de raiva:--Estes burros d'estes -jornalistas! São a escoria da sociedade! - -D'ahi a dez minutos reappareceu, bruscamente: e já com outra voz, n'um -tom de caso serio: - ---Ouve cá. Tinha-me esquecido. Tu queres ser apresentado aos -Gouvarinhos? - ---Não tenho um interesse especíal, respondeu Carlos, erguendo os olhos -do livro, depois de um silencio. Mas não tenho tambem uma repugnancia -especial. - ---Bem, disse Ega. Elles desejam conhecer-te, sobretudo a condessa faz -empenho... Gente intelligente, passa-se lá bem... Então, decidido! Terça -feira vou-te buscar ao Ramalhete, e vamo-nos _gouvarinhar_. - -Carlos ficou pensando n'aquella proposta do Ega, na maneira como elle -sublinhára o _empenho_ da condessa. Lembrava-se agora que ella era muito -intima da Cohen: e ultimamente, em S. Carlos, n'aquella facil visinhança -de frisa, surprehendera certos olhares d'ella... Mesmo, segundo o -Taveira, ella realmente _fazia-lhe um olhão_. E Carlos achava-a picante, -com os seus cabellos crespos e ruivos, o narizinho petulante, e os olhos -escuros, d'um grande brilho, dizendo mil cousas. Era deliciosamente bem -feita--e tinha uma pelle muito clara, fina e doce á vista, a que se -sentia mesmo de longe o setim. - -Depois d'aquelle dia tristônho de aguaceiros, elle resolvera passar um -bom serão de trabalho, ao canto do fogão, no conforto do seu -robe-de-chambre. Mas ao café, os olhos da Gouvarinho começaram a -faiscar-lhe por entre o fumo do charuto, a fazer-lhe _um olhão_, -collocando-se tentadoramente entre elle e a sua noite d'estudo, -pondo-lhe nas veias um vivo calor de mocidade... Tudo culpa do Ega, esse -Mephistopheles de Celorico! - -Vestiu-se, foi a S. Carlos. Ao sentar-se porém á boca da frisa, -preparado, de collete branco e perola negra na camisa,--em logar dos -cabellos crespos e ruivos, avistou a carapinha retinta de um preto, um -preto de doze annos, trombudo e lusidio, de grande collarinho á mamã -sobre uma jaqueta de botões amarellos; ao lado outro preto, mais -pequeno, com o mesmo uniforme de collegio, enterrava pela venta aberta o -dedo calçado de pellica branca. Ambos elles lhe relancearam os olhos -bogalhudos, côr de prata embaciada. A pessoa que os acompanhava, -escondida para o fundo, parecia ter um catharro ascoroso. - -Dava-se a _Lucia_ em beneficio, com a segunda dama. Os Cohens não tinham -vindo--nem o Ega. Muitos camarotes estavam desertos, em toda a tristeza -do seu velho papel vermelho. A noite chuviscosa, com um bafo de -sudoeste, parecia penetrar alli, derramando o seu pesadume, a morna -sensação da sua humidade. Nas cadeiras, vasias, havia uma mulher -solitaria, vestida de setim claro; Edgardo e Lucia desafinavam; o gaz -dormia, e os arcos das rebecas, sobre as cordas, pareciam ir adormecendo -tambem. - ---Isto está lugubre, disse Carlos ao amigo Cruges, que occupava o escuro -da frisa. - -Cruges, amodorroado n'um accesso de _spleen_, com o cotovello sobre as -costas da cadeira, os dedos por entre a cabelleira, todo elle embrulhado -em crepes, sobrepostos de melancolia, respondeu, como do fundo d'um -sepulchro: - ---Pesadote. - -Por indolencia, Carlos ficou. E pouco a pouco, aquelle preto de que os -seus olhos se não podiam despegar, alli enthronisado na poltrona de reps -verde da Gouvarinho, com a manga da jaqueta plantada no rebordo onde -costumava alvejar um lindo braço,--foi-lhe arrastando, a seu pesar, a -imaginação para a pessoa d'ella; relembrou _toilettes_ com que ella alli -estivera; e nunca lhe pareceram tão picantes, como agora que os não via, -os seus cabellos ruivos, côr de braza ás luzes, d'um encrespado forte, -como crestados da chamma interna. A carapinha do preto, essa, em logar -de risca tinha um sulco cavado á thesoura na massa de lã espessa. Quem -seriam, por que estavam alli, aquelles africanos de perfil trombudo? - ---Tu já reparaste n'esta extraordinaria carapinha, Cruges? - -O outro, que se não mexera da sua attitude de estatua tumular, grunhiu -da sombra um monosyllabo surdo. - -Carlos respeitou-lhe os nervos. - -De repente, ao desafinar mais aspero d'um coro, Cruges deu um salto. - ---Isto só a pontapé... Que empreza esta! rugio elle, envergando -furiosamente o paletot. - -Carlos foi leval-o no coupé á rua das Flores, onde elle morava com a mãe -e uma irmã; e até ao Ramalhete não cessou de lamentar comsigo o seu -serão d'estudo perdido. - -O creado de Carlos, o Baptista, (familiarmente, o _Tista_) esperava-o, -lendo o jornal, na confortavel antecamara dos «quartos do menino», -forrada de velludo côr de cereja, ornada de retratos de cavallos e -panoplias de velhas armas, com divans do mesmo velludo, e muito -allumiada a essa hora por dois candieiros de globo pousados sobre -columnas de carvalho, onde se enrolavam lavores de ramos de vide. - -Carlos tinha desde os onze annos este creado de quarto, que viera com o -Brown para S.^{ta} Olavia, depois de ter servido em Lisboa, na Legação -ingleza, e ter acompanhado o ministro, sir Hercules Morrisson, varias -vezes a Londres. Foi em Coimbra, nos Paços de Cellas, que Baptista -começou a ser um personagem: Affonso correspondia-se com elle de S.^{ta} -Olavia. Depois viajou com Carlos; enjoaram nos mesmos paquetes, -partilharam dos mesmos _sandwiches_ no buffete das gares; Tista -tornou-se um confidente. Era hoje um homem de cincoenta annos, -desempenado, robusto, com um collar de barba grisalha por baixo do -queixo, e o ar excessivamente _gentleman_. Na rua, muito direito na sua -sobrecasaca, com o par de luvas amarellas espetado na mão, a sua bengala -de cana da India, os sapatos bem envernisados, tinha a consideravel -apparencia de um alto funccionario. Mas conservava-se tão fino e tão -desembaraçado, como quando em Londres aprendera a walsar e a _boxar_ na -rude balburdia dos salões-dançantes, ou como quando mais tarde, durante -as ferias de Coimbra, acompanhava Carlos a Lamego e o ajudava a saltar o -muro do quintal do sr. escrivão de fazenda--aquelle que tinha uma mulher -tão garota. - -Carlos foi buscar um livro ao gabinete d'estudo, entrou no quarto, -estendeu-se, cançado, n'uma poltrona. Á luz opalina dos globos, o leito -entre-aberto mostrava, sob a seda dos cortinados, um luxo effeminado de -bretanhas, bordados e rendas. - ---Que ha hoje no _Jornal da Noite_? perguntou elle bocejando, em quanto -Baptista o descalçava. - ---Eu li-o todo, meu senhor, e não me pareceu que houvesse cousa alguma. -Em França continúa socego... Mas a gente nunca póde saber, porque estes -jornaes portuguezes imprimem sempre os nomes estrangeiros errados. - ---São umas bestas. O sr. Ega hoje estava furioso com elles... - -Depois, em quanto Baptista preparava com esmero um _grog_ quente, Carlos -já deitado, aconchegado, abriu preguiçosamente o livro, voltou duas -folhas, fechou-o, tomou uma cigarette, e ficou fumando com as palpebras -cerradas, n'uma immensa beatitude. Atravéz das cortinas pesadas -sentia-se o sudoeste que batia o arvoredo, e os aguaceiros alagando os -vidros. - ---Tu conheces os srs. condes de Gouvarinho, Tista? - ---Conheço o Pimenta, meu senhor, que é creado de quarto do sr. conde... -Creado de quarto e serve a meza. - ---E que diz então esse Tormenta? perguntou Carlos, n'uma voz indolente, -depois d'um silencio. - ---Pimenta, meu senhor! O Manuel é Pimenta. O sr. Gouvarinho chama-lhe -Romão, por que estava acostumado ao outro creado que era Romão. E já -isto não é bonito, porque cada um tem o seu nome. O Manuel é Pimenta. O -Pimenta não está contente... - -E Baptista, depois de collocar junto da cabeceira a salva com o _grog_, -o assucareiro, as cigarettes, transmittiu as revelações do Pimenta. O -conde de Gouvarinho, além de muito massador e muito pequinhento, não -tinha nada de cavalheiro: dera um fato de cheviot claro ao Romão (ao -Pimenta), mas tão coçado e tão cheio de riscas de tinta, de limpar a -penna á perna e ao hombro, que o Pimenta deitou o presente fóra. O conde -e a senhora não se davam bem: já no tempo do Pimenta, uma occasião, á -mesa, tinham-se pegado de tal modo que ella agarrou do copo e do prato, -e esmigalhou-os no chão. E outra qualquer teria feito o mesmo; por que o -sr. conde, quando começava a repisar, a remoer, não se podia aturar. As -questões eram sempre por causa de dinheiro. O Tompson velho estava farto -de abrir os cordões á bolsa... - ---Quem é esse Tompson velho, que nos apparece agora, a esta hora da -noite? perguntou Carlos, a seu pesar interessado. - ---O Tompson velho é o pae da sr.^a condessa. A sr.^a condessa era uma -miss Tompson, dos Tompson do Porto. O sr. Tompson não tem querido -ultimamente emprestar nem mais um real ao genro: de sorte que, uma vez, -já no tempo do Pimenta tambem, o sr. conde, furioso, disse á senhora que -ella e o pae se deviam lembrar que eram gente de commercio e que fora -elle que fizera d'ella uma condessa; e com perdão de v. ex.^a, a senhora -condessa ali mesmo á mesa mandou o condado á tabúa... Estas cousas não -estão no genero do Pimenta. - -Carlos bebeu um gole de grog. Bailava-lhe nos labios uma pergunta, mas -hesitava. Depois reflectiu na puerilidade de tão rigidos escrupulos, a -respeito d'uma gente, que ao jantar, diante do escudeiro, quebrava a -porcelana, mandava á tabua o titulo dos antepassados. E perguntou: - ---Que diz o sr. Pimenta da senhora condessa, Baptista? Ella diverte-se? - ---Creio que não, meu senhor. Mas a creada de confiança d'ella, uma -escosseza, essa é desobstinada. E não fica bem á senhora condessa ser -assim tão intima com ella... - -Houve um silencio no quarto, a chuva cantou mais forte nos vidros. - ---Passando a outro assumpto, Baptista. Vamos a saber, ha quanto tempo, -não escrevo eu a madame Rughel? - -Baptista tirou do bolso interior da sua casaca um livro de apontamentos, -aproximou-se da luz, encavalou a luneta no nariz, e verificou, com -methodo, estas datas:--«Dia 1 de janeiro, telegramma expedido com -felicitações do começo d'anno a madame Rughel, Hotel d'Albe, Champs -Élyseés, Paris. Dia 3, telegramma recebido de madame Rughel, -reciprocando comprimentos, exprimindo amizade, annunciando partida para -Hamburgo. Dia 15, carta lançada ao correio, para madame Rughel, -_William-Strasse, Hamburgo, Allemagne_. Depois--mais nada. De modo que -havia já cinco semanas que o menino não escrevia a madame Rughel... - ---É necessario escrever ámanhã, disse Carlos.. - -Baptista tomou uma nota. - -Depois, entre uma fumaça languida, a voz de Carlos ergueu-se de novo na -paz dormente do quarto: - ---Madame Rughel era muito bonita, não é verdade, Baptista? É a mulher -mais bonita que tu tens visto na tua vida! - -O velho creado metteu o livro no bolso da casaca, e respondeu, sem -hesitar, muito certo de si: - ---Madame Rughel era uma senhora de muita vista. Mas a mulher mais linda -em que tenho posto os olhos, se o menino dá licença, era aquella senhora -do coronel de hussards que vinha ao quarto do hotel em Vienna. - -Carlos atirou a cigarette para a salva--e escorregando pela roupa -abaixo, todo invadido por uma onda de recordações alegres, exclamou da -profundidade do seu conforto, no antigo tom de emphase bohemia dos Paços -de Cellas. - ---O sr. Baptista não tem gosto nenhum! Madame Rughel era uma nympha de -Rubens, senhor! Madame Rughel tinha o explendor d'uma deusa da -Renascença, senhor! Madame Rughel devia ter dormido no leito imperial de -Carlos Quinto...--Retire-se, senhor! - -Baptista entalou mais o _couvre-pieds_, relanceou pelo quarto um olhar -solicito, e, contente, da ordem em que as cousas adormeciam, saíu, -levando o candieiro. Carlos não dormia: e não pensava na coronela de -hussards, nem em madame Rughel. A figura que no escuro dos cortinados -lhe apparecia, n'um vago dourado que provinha do reflexo de seus -cabellos soltos, era a Gouvarinho--a Gouvarinho que não tinha o -explendor d'uma deusa da Renascença como madame Rughel, nem era a mulher -mais linda em que Baptista pozera os seus olhos como a coronela de -hussards: mas, com o seu nariz petulante e a sua boca grande, brilhava -mais e melhor que todas na imaginação de Carlos--porque elle esperara-a -essa noite e ella não tinha apparecido. - -Na terça-feira promettida Ega não veiu buscar Carlos para se irem -_gouvarinhar_. E foi Carlos que d'ahi a dias, entrando como por acaso no -_Universal_, perguntou rindo ao Ega: - ---Então quando nos _gouvarinhamos_? - -N'essa noite, em S. Carlos, n'um entre-acto dos _Huguenotes_, Ega -apresentou-o ao sr. conde de Gouvarinho, no corredor das frizas. O -conde, muito amavel, lembrou logo que já tivera, mais de uma vez, o -prazer de passar pela porta de S.^{ta} Olavia, quando ia vêr os seus -velhos amigos, os Tedins, a Entre-Rios--uma formosa vivenda tambem. -Fallaram então do Douro, da Beira, compararam outras paisagens. Para o -conde, nada havia, no nosso Portugal, como os campos do Mondego: mas a -sua parcialidade era perdoavel, pois n'esses ferteis vales nascera e se -creara: e fallou um momento de Formozelha, onde tinha casa, onde vivia -edosa e doente sua mãe, a sr.^a condessa viuva... - -Ega, que affectara beber as palavras do conde, começou então uma -controversia, sustentando como se se tratasse dos dogmas d'uma fé, a -belleza superior do Minho, «esse paraiso idillico.» O conde sorria: via -ali, como elle observou a Carlos, batendo amavelmente no hombro do Ega, -a rivalidade das duas provincias. Emulação fecunda, de resto, no seu -pensar... - ---Ahi está, por exemplo, dizia elle, o ciume entre Lisboa e Porto. É uma -verdadeira dualidade como a que existe entre a Hungria e a Austria... -Ouço por ali lamental-a. Pois bem, eu, se fosse poder, instigal-a-hia, -acirral-a-hia, se v. ex.^{as} me permittem a expressão. N'esta lucta das -duas grandes cidades do reino, podem outros vêr despeitos mesquinhos, eu -vejo elementos de progresso. Vejo civilisação! - -Proferia estas cousas como do alto d'um pedestal, muito acima dos -homens, deixando-as providamente caír dos thesouros do seu intellecto á -maneira de dons inestimaveis. A voz era lenta e rotunda; os cristaes da -sua luneta d'ouro faiscavam vistosamente; e no bigode encerado, na pera -curta, havia ao mesmo tempo alguma cousa de doutoral e de casquilho. - -Carlos dizia: «Tem v. ex.^a razão, sr. conde.» O Ega dizia: «Você vê -essas cousas d'alto, Gouvarinho». Elle cruzara as mãos por baixo das -abas da casaca--e estavam todos tres muito serios. - -Depois o conde abriu a porta da friza, Ega desappareceu. E d'ahi a um -momento, Carlos, apresentado como «visinho de camarote», recebia da -sr.^a condessa um grande _shake-hand_, em que tilintaram uma infinidade -d'aros de prata e de _blangles_ indios sobre a sua luva preta de doze -botões. - -A sr.^a condessa, um pouco corada, ligeiramente nervosa, lembrou logo a -Carlos que o vira no verão passado em Paris, no salão baixo do Café -Inglez: até por signal estava n'essa noite um velho abominavel com duas -garrafas vazias diante de si, e contando alto, para uma meza defronte, -historias horrorosas do sr. Gambetta: um sujeito ao lado protestou; o -outro não fez caso, era o velho duque de Grammont. O conde passou os -dedos lentos pela testa, com um ar quasi angustioso: não se lembrava de -nada d'isso! Queixou-se logo amargamente da sua falta de memoria. Uma -cousa tão indispensavel em quem segue a vida publica, a memoria! e elle -desgraçadamente, não possuia nem um atomo. Por exemplo, lera (como todo -o homem devia lêr) os vinte volumes da _Historia Universal de Cesar -Cantu_; lêra-os com attenção, fechado no seu gabinete, absorvendo-se na -obra. Pois, senhores, escapara-lhe tudo--e ali estava sem saber -historia! - ---V. ex.^a tem boa memoria, sr. Maia? - ---Tenho uma rasoavel memoria. - ---Inapreciavel bem de que goza! - -A condessa voltara-se para a platéa, coberta com o leque, com o ar -constrangido, como se aquellas palavras pueris do marido a diminuissem, -a desfeiassem... Carlos então fallou da opera. Que bello escudeiro -huguenote fazia o Pandolli! A condessa não aturava o Corcelli, o tenor, -com as suas notas asperas e aquella obesidade que o tornava _buffo_. Mas -tambem (lembrava Carlos) onde havia hoje tenores? Passara essa grande -raça dos Marios, homens de belleza, de inspiração, realisando os grandes -typos lyricos. Nicolini era já uma degeneração... Isto fez lembrar a -Patti. A condessa adorava-a, e a sua graça de fada, e a sua voz -semelhante a uma chuva d'ouro!... - -Os olhos brilhavam-lhe, diziam mil cousas; em certos movimentos, o -cabello crespamente ondeado, tomava tons de oiro vermelho: e em torno -d'ella errava, no calor do gaz e da enchente, um aroma exagerado de -verbena. Estava de preto, com uma gargantilha, de rendas negras, á -Valois, affogando-lhe o pescoço onde pousavam duas rosas escarlates. E -toda a sua pessoa tinha um arsinho de provocação e de ataque. De pé, -callado, grave, o conde batia a coxa com a claque fechada. - -O quarto acto começara, Carlos ergueu-se; e os seus olhos encontraram -defronte, na frisa do Cohen, o Ega, de binoculo, observando-o, mirando a -condessa e fallando a Rachel, que sorria, movia o leque com um ar -dolente e vago. - ---Nós recebemos ás terças feiras, disse a condessa a Carlos--e o resto -da phrase perdeu-se n'um murmurio e n'um sorriso. - -O conde acompanhou-o fóra, ao corredor. - ---É sempre uma honra para mim, dizia elle caminhando ao lado de Carlos, -fazer o conhecimento das pessoas que valem alguma cousa n'este paiz ... -V. ex.^a é d'esse numero, bem raro infelizmente. - -Carlos protestou, risonho. E o outro, na sua voz lenta e rotunda: - ---Não o lisongeio. Eu nunca lisongeio... Mas a v. ex.^a podem-se dizer -estas cousas, porque pertence á _elite_: a desgraça de Portugal é a -falta de gente, Isto é um paiz sem pessoal. Quer-se um bispo? Não ha um -bispo. Quer-se um economista? Não ha um economista. Tudo assim! Veja v. -ex.^a mesmo nas profissões subalternas. Quer-se um bom estofador? Não ha -um bom estofador... - -Um cheio de instrumentos e vozes, d'um tom sublime, passando pela porta -da frisa entreaberta, cortou-lhe umas ultimas palavras sobre a -defficiencia dos photographos... Escutou, com a mão no ar: - ---É o _coro dos punhaes_, não? Ah vamos a ouvir... Ouve-se sempre isto -com proveito. Ha philosophia n'esta musica... É pena que lembre tão -vivamente os tempos da intolerancia religiosa, mas ha alli -incontestavelmente philosophia! - - - - -VI - - -Carlos, n'essa manhã, ia visitar de surpreza a casa do Ega, a famosa -«Villa Balzac», que esse phantasista andára meditando e dispondo desde a -sua chegada a Lisboa, e onde se tinha emfim installado. - -Ega dera-lhe esta denominação litteraria, pelos mesmos motivos porque a -alugára n'um suburbio longiquo, na solidão da Penha de França,--para que -o nome de Balzac, seu padroeiro, o silencio campestre, os ares limpos, -tudo alli fosse favoravel ao estudo, ás horas d'arte e d'ideal. Por que -ia fechar-se lá, como n'um claustro de lettras, a findar as _Memorias -d'um Atomo!_ Sómente, por causa das distancias, tinha tomado ao mez um -coupé da companhia. - -Carlos teve difficuldades em encontrar a «Villa Balzac»: não era, como -tinha dito Ega no Ramalhete, logo adiante do largo da Graça um -_chaletsinho_ retirado, fresco, assombreado, sorrindo entre arvores. -Passava-se primeiro a Cruz dos Quatro Caminhos; depois penetrava-se -n'uma vereda larga, entre quintaes, descendo pelo pendor da collina, mas -accessivel a carruagens; e ahi, n'um recanto, ladeada de muros, -apparecia emfim uma cazota de paredes enxovalhadas, com dois degraus de -pedra á porta, e transparentes novos d'um escarlate estridente. - -N'essa manhã, porém, debalde Carlos deu puxões desesperados á corda da -campainha, martellou a aldrava da porta, gritou a toda a voz por cima do -muro do quintal e das copas das arvores o nome do Ega:--a «Villa Balzac» -permaneceu muda, como deshabitada, no seu retiro rustico. E todavia -pareceu a Carlos que, justamente antes de bater, ouvira o estalar de -rolhas de _Champagne_. - -Quando Ega soube esta tentativa, mostrou-se indignado com os criados, -que assim abandonavam a casa, lhe davam um ar suspeito de Torre de -Nesle... - ---Vae lá ámanhã, se ninguem responder, escala as janellas, pega fogo ao -predio, como se fossem apenas as Tulherias. - -Mas no dia seguinte, quando Carlos chegou, já a «Villa Balzac» o -esperava, toda em festa: á porta «o pagem», um garoto de feições -horrívelmente viciosas, perfilava-se na sua jaqueta azul de botões de -metal, com uma gravata muito branca e muito teza; as duas janellas em -cima, abertas, mostrando o reps verde das bambinellas, bebiam á larga -todo o ar do campo e o sol de inverno: e no topo da estreita escada, -tapetada de vermelho, Ega, n'um prodigioso robe-de-chambre, de um estofo -adamascado do seculo dezoito, vestido de côrte de alguma das suas avós, -exclamou dobrando a fronte ao chão: - ---Bem vindo, meu principe, ao humilde tegurio do philosopho! - -Ergueu, com um gesto rasgado, um reposteiro de reps verde, d'um verde -feio e triste, e introduziu o «principe» na sala onde tudo era verde -tambem: o reps que recobria uma mobilia de nogueira, o tecto de taboado, -as listas verticaes do papel da parede, o pano franjado da mesa, e o -reflexo d'um espelho redondo, inclinado sobre o sophá. - -Não havia um quadro, uma flôr, um ornato, um livro--apenas sobre a -jardineira uma estatueta de Napoleão I, de pé, equilibrado sobre o orbe -terrestre, n'essa conhecida attitude em que o heroe, com um ar pansudo e -fatal, esconde uma das mãos por traz das costas, e enterra a outra nas -profundidades do seu collete. Ao lado uma garrafa de _Champagne_, -encarapuçada de papel dourado, esperava entre dois copos esguios. - ---Para que tens tu aqui Napoleão, John? - ---Como alvo de injurias, disse Ega. Exercito-me sobre elle a fallar dos -tyrannos... - -Esfregou as mãos, radiante. Estava n'essa manhã em alegria e em verve. E -quiz immediatamente mostrar a Carlos o seu quarto de cama: ahi reinava -um cretone de ramagens alvadias sobre fundo vermelho; e o leito enchia, -esmagava tudo. Parecia ser o motivo, o centro da «Villa Balzac»; e -n'elle se esgotara a imaginação artistica do Ega. Era de madeira, baixo -como um divan, com a barra alta, um roda-pé de renda, e d'ambos os lados -um luxo de tapetes de felpo escarlate; um largo cortinado de seda da -India avermelhada envolvia-o n'um apparato de tabernaculo; e dentro, á -cabeceira, como n'um lupanar, reluzia um espelho. - -Carlos, muito seriamente, aconselhou-lhe que tirasse o espelho. Ega deu -a todo o leito um olhar silencioso e dôce, e disse depois de passar uma -pontinha de lingua pelo beiço: - ---Tem seu chic... - -Sobre a mesinha de cabeceira erguia-se um montão de livros: a _Educação_ -de Spencer ao lado de Beaudelaíre, a _Logica_ de Stuart Mill por cima do -_Cavalleiro da Casa Vermelha_. No marmore da commoda havia outra garrafa -de Champagne entre dous copos; o toucador, um pouco em desordem, -mostrava uma enorme caixa de pó d'arroz no meio de plastrons e gravatas -brancas do Ega, e um masso de ganchos do cabello ao lado de ferros de -frisar. - ---E onde trabalhas tu, Ega, onde fazes tu a grande arte? - ---Alli! disse o Ega, alegremente, apontando para o leito. - -Mas foi mostrar logo o seu recantosinho estudioso, formado por um -biombo, ao lado da janella, e tomado todo por uma mesa de pé de gallo, -onde Carlos assombrado descobriu, entre o bello papel de cartas do Ega, -um _Diccionario de Rimas_... - -E a visita á casa continuou. - -Na sala de jantar, quasi nua, caiada de amarello, um armario de pinho -envidraçado abrigava melancolicamente um serviço barato de louça nova; e -do fecho da janella pendia um vestuario vermelho, que parecia roupão de -mulher. - ---É sobrio e simples--exclamou o Ega--como compete áquelle que se -alimenta d'uma codea d'Ideal e duas garfadas de Philosophia. Agora, á -cosinha!... - -Abriu uma porta. Uma frescura de campos entrava pelas janellas abertas; -e entreviam-se arvores de quintal, um verde de terrenos vagos, depois lá -em baixo o branco de casarias rebrilhando ao sol; uma rapariga muito -sardenta e muito forte sacudiu o gato do collo, ergueu-se, com o _Jornal -de Noticias_ na mão. Ega apresentou-a, n'um tom de farça: - ---A sr.^a Josepha, solteira, de temperamento sanguineo, artista -culinaria da «Villa Balzac», e como se póde observar pelo papel que lhe -pende das garras, cultora das boas letras! - -A moça sorria, sem embaraço, habituada de certo a estas familiaridades -bohemias. - ---Eu hoje não janto cá, senhora Josepha, continuava o Ega no mesmo tom. -Este formoso mancebo que me acompanha, duque do Ramalhete, e principe de -Santa Olavia, dá hoje de papar ao seu amigo e philosopho... E, como -quando eu recolher, talvez a senhora Josepha esteja entregue ao somno da -innocencia, ou á vigilia da devassidão, aqui lhe ordeno que me tenha -amanhã para meu _lunch_ duas formosas perdizes. - -E subitamente, n'uma outra voz, com um olhar que ella devia perceber: - ---Duas perdizesinhas bem assadas e bem córadinhas. Frias, está claro... -O costume. - -Travou do braço de Carlos, voltaram á sala. - ---Com franqueza, Carlos, que te parece a «Villa Balzac»? - -Carlos respondeu como a respeito do episodio da _Hebrea_: - ---Está ardente. - -Mas elogiou o aceio, a vista da casa e a frescura dos cretones. De -resto, para um rapaz, para uma cella de trabalho... - ---Eu, dizia o Ega, passeiando pela sala, com as mãos enterradas nos -bolsos do seu prodigioso robe de chambre, eu não tolero o _bibelot_, o -_bric-à-brac_, a cadeira archeologica, essas mobilias d'arte... Que -diabo, o movel deve estar em harmonia com a idéa e o sentir do homem que -o usa! Eu não penso, nem sinto como um cavalleiro do seculo XVI, para -que me hei de cercar de cousas do seculo XVI? Não ha nada que me faça -tanta melancolia, como ver n'uma sala um veneravel contador do tempo de -Francisco I recebendo pela face conversas sobre eleições e altas de -fundos. Faz-me o effeito d'um bello heroe de armadura d'aço, viseira -cahida e crenças profundas no peito, sentado a uma mesa de voltarete a -jogar copas. Cada seculo tem o seu genio proprio e a sua attitude -propria. O seculo XIX concebeu a Democracia e a sua attitude é -esta...--E enterrando-se d'estalo n'uma poltrona, espetou as pernas -magras para o ar.--Ora esta attitude é impossivel n'um escabello do -tempo do Prior do Crato. Menino, toca a beber o _Champagne_. - -E como Carlos olhava a garrafa desconfiado, Ega accudiu: - ---É excellente, que pensas tu? Vem directamente da melhor casa -d'Epernay, arranjou-m'o o Jacob. - ---Que Jacob? - ---O Jacob Cohen, o Jacob. - -Ia cortar as guitas da rolha, quando o atravessou uma subita recordação, -e pousando a garrafa outra vez, entalando o monocolo no olho: - ---É verdade! Então, n'outro dia, que tal, em casa dos Gouvarinhos? Eu -infelizmente não poude ir. - -Carlos contou a _soirée_. Havia dez pessoas, espalhadas pelas duas -salas, n'um zum-zum dormente, á meia luz dos candieiros. O conde -massara-o indiscretamente com a politica, admirações idiotas por um -grande orador, um deputado de Mesão Frio, e explicações sem fim sobre a -reforma da instrucção. A condessa, que estava muito constipada, -horrorisou-o, dando sobre a Inglaterra, apesar de ingleza, as opiniões -da rua de Cedofeita. Imaginava que a Inglaterra é um paiz sem poetas, -sem artistas, sem ideaes, occupando-se só de amontoar libras... Emfim, -seccara-se. - ---Que diabo! murmurou o Ega n'um tom de viva desconsolação. - -A rolha estalou, elle encheu os copos em silencio; e n'uma _saude_ muda -os dois amigos beberam o _Champagne_--que Jacob arranjara ao Ega, para o -Ega se regalar com Rachel. - -Depois, de pé, com os olhos no tapete, agitando de vagar o copo -novamente cheio onde a espuma morria, Ega tornou a murmurar, n'aquella -entoação triste de inesperado desapontamento: - ---Que ferro!... - -E após um momento: - ---Pois menino, pensei que a Gouvarinho te appetecía... - -Carlos confessou que nos primeiros dias, quando Ega lhe fallara d'ella, -tivera um caprichosinho, interessara-se por aquelles cabellos côr de -brasa... - ---Mas agora, mal a conheci, o capricho foi-se... - -Ega sentara-se, com o copo na mão; e depois de contemplar algum tempo as -suas meias de seda, escarlates como as d'um prelado, deixou cair, muito -serio, estas palavras: - ---É uma mulher deliciosa, Carlinhos. - -E, como Carlos encolhia os hombros, Ega insistio: a Gouvarinho era uma -senhora de intelligencia e de gosto; tinha originalidade, tinha audacia, -uma pontinha de romantismo muito picante... - ---E, como corpinho de mulher, não ha melhor que aquillo de Badajoz para -cá! - ---Vae-te d'ahi, Mephistopheles de Celorico! - -E Ega, divertido, cantarolou: - - - Je suis Mephisto... - Je suis Mephisto... - - -Carlos no entanto, fumando preguiçosamente, continuava a fallar na -Gouvarinho e n'essa brusca saciedade que o invadira, mal trocara com -ella tres palavras n'uma sala. E não era a primeira vez que tinha -d'estes falsos arranques de desejo, vindo quasi com as formas do amor, -ameaçando absorver, pelo menos por algum tempo, todo o seu ser, e -resolvendo-se em tedio, em «secca». Eram como os fogachos de polvora -sobre uma pedra; uma fagulha atêa-os, n'um momento tornam-se chamma -vehemente que parece que vae consumir o Universo, e por fim fazem apenas -um rastro negro que suja a pedra. Seria o seu um d'esses corações de -fraco, molles e flaccidos, que não podem conservar um sentimento, o -deixam fugir, escoar-se pelas malhas lassas do tecido relles? - ---Sou um ressequido! disse elle sorrindo. Sou um impotente de -sentimento, como Satanaz... Segundo os padres da Egreja, a grande -tortura de Satanaz é que não póde amar... - ---Que phrases essas, menino! murmurou Ega. - -Como phrases? Era uma atroz realidade! Passava a vida a ver as paixões -falharem-lhe nas mãos como phosphoros. Por exemplo, com a coronela de -hussards em Vienna! Quando ella faltou ao primeiro _rendez-vous_, -chorara lagrimas como punhos, com a cabeça enterrada no travesseiro e -aos coices á roupa. E d'ahi a duas semanas, mandava postar o Baptista á -janella do hotel, para elle se safar, mal a pobre coronela dobrasse a -esquina! E com a hollandeza, com Madame Rughel, peior ainda. Nos -primeiros dias foi uma insensatez: queria-se estabelecer para sempre na -Hollanda, casar com ella (apenas ella se divorciasse), outras loucuras; -depois os braços que ella lhe deitava ao pescoço, e que lindos braços, -pareciam-lhe pesados como chumbo... - ---Passa fóra, pedante! E ainda lhe escreves! gritou Ega. - ---Isso é outra cousa. Ficamos amigos, puras relações de intelligencia. -Madame Rughel é uma mulher de muito espirito. Escreveu um romance, um -d'esses estudos intimos e delicados, como os de Miss Brougthon: chama-se -as _Rosas Murchas_. Eu nunca li, é em hollandez... - ---As _Rosas Murchas_! em hollandez! exclamou Ega apertando as mãos na -cabeça. - -Depois vindo plantar-se diante de Carlos, de monocolo no olho: - ---Tu és extraordinario, menino!... Mas o teu caso é simples, é o caso de -D. Juan. D. Juan tambem tinha essas alternações de chamma e cinza. -Andava á busca do seu ideal, da _sua mulher_, procurando-a -principalmente, como de justiça, entre as mulheres dos outros. E _après -avoir couché_, declarava que se tinha enganado, que não era aquella. -Pedia desculpa e retirava-se. Em Hespanha experimentou assim mil e tres. -Tu és simplesmente, como elle, um devasso; e has de vir a acabar -desgraçadamente como elle, n'uma tragedia infernal! - -Esvasiou outro copo de _Champagne_, e a grandes passadas pela sala: - ---Carlinhos da minha alma, é inutil que ninguem ande á busca da _sua -mulher_. Ella virá. Cada um tem a _sua mulher_, e necessariamente tem de -a encontrar. Tu estás aqui, na Cruz dos Quatro Caminhos, ella está -talvez em Pekin: mas tu, ahi a raspar o meu reps com o verniz dos -sapatos, e ella a orar no templo de Confucio, estaes ambos -insensivelmente, irresistivelmente, fatalmente, marchando um para o -outro!... Estou eloquentissimo hoje, e temos dito cousas idiotas. Toca a -vestir. E, em quanto eu adorno a carcassa, prepara mais phrases sobre -Satanaz! - -Carlos ficou na sala verde, acabando o charuto--em quanto dentro o Ega -batia com as gavetas, lançando, a todo o desafinado da sua voz roufenha, -a _Barcarolla_ de Gounod. Quando appareceu, vinha de casaca, gravata -branca, enfiando o paletot--com o olho brilhante do _Champagne_. - -Desceram. O pagem lá estava á porta perfilado, ao pé do coupé de Carlos, -que esperara. E a sua fardeta azul de botões amarellos, a magnifica -parelha baia reluzindo como um setim vivo, as pratas dos arreios, a -magestade do cocheiro louro com o seu ramo na libré, tudo alli fazia, -junto da «Villa Balzac», um quadro rico que deleitou o Ega. - ---A vida é agradavel, disse elle. - -O coupé partiu, ia entrar no largo da Graça, quando uma caleche de -praça, aberta, o cruzou a largo trote. Dentro um sujeito de chapéo baixo -ía lendo um grande jornal. - ---É o Craft! gritou Ega, debruçando-se pela portinhola. - -O coupé parou. Ega de um pulo estava na calçada, correndo, bradando: - ---Oh Craft! oh Craft! - -Quando, d'ahi a um momento, sentiu duas vozes approximarem-se, Carlos -desceu tambem do coupé, achou-se em face d'um homem baixo, louro, de -pelle rosada e fresca, e apparencia fria. Sob o fraque correcto -percebia-se-lhe uma musculatura de athleta. - ---O Carlos, o Craft, gritou o Ega, lançando esta apresentação com uma -simplicidade classica. - -Os dois homens, sorrindo, tinham-se apertado a mão. E Ega insistia para -que voltassem todos á Villa Balzac, fossem beber a outra garrafa de -_Champagne_, a celebrar o _advento do Justo_! Craft recusou, com o seu -modo calmo e placido; chegara na vespera do Porto, abraçara já o nobre -Ega, e aproveitava agora a viagem áquelle bairro longinquo para ir vêr o -velho Shlegen, um allemão que vivia á Penha de França. - ---Então outra cousa! exclamou Ega. Para conversarmos, para que vocês se -conheçam mais, venham vocês jantar comigo amanhã ao Hotel Central. Dito, -hein? Perfeitamente. Ás seis. - -Apenas o coupé partiu de novo, Ega rompeu nas costumadas admirações pelo -Craft, encantado com aquelle encontro que dava mais um retoque luminoso -á sua alegria. O que o enthusiasmava no Craft era aquelle ar -imperturbavel de gentleman correcto, com que elle egualmente jogaria uma -partida de bilhar, entraria n'uma batalha, arremetteria com uma mulher, -ou partiria para a Patagonia... - ---É das melhores cousas que tem Lisboa. Vaes-te morrer por elle... E que -casa que elle tem nos Olivaes, que sublime bric-a-brac! - -Subitamente estacou, e com um olhar inquieto, uma ruga na testa: - ---Como diabo soube elle da _Villa Balzac_? - ---Tu não fazes segredo d'ella, hein? - ---Não... Mas tambem não a puz nos annuncios! E o Craft chegou hontem, -ainda não esteve com ninguem que eu conheça... É curioso! - ---Em Lisboa sabe-se tudo... - ---Canalha de terra! murmurou Ega. - - -O jantar no Central foi addiado, porque o Ega, alargando pouco a pouco a -idéa, convertera-o agora n'uma festa de ceremonia em honra do Cohen. - ---Janto lá muitas vezes, disse elle a Carlos, estou lá todas as -noites... É necessario repagar a hospitalidade... Um jantar no Central é -o que basta. E para o effeito moral, pespego-lhe á meza o marquez e a -besta do Steinbroken. O Cohen gosta de gente assim... - -Mas o plano teve ainda de ser alterado: o marquez partira para a -Gollegã, e o pobre Steinbroken estava soffrendo d'um incommodo de -entranhas. Ega pensou no Cruges e no Taveira--mas receiou a cabelleira -desleixada do Cruges, e alguns dos seus ataques de amargo _spleen_ que -estragaria o jantar. Terminou por convidar dois intimos do Cohen; mas -teve então de supprimir o Taveira, que estava de mal com um d'esses -cavalheiros por palavras que tinham trocado em casa da «Lola gorda». - -Decididos os convidados, fixado o jantar para uma segunda feira, Ega -teve uma conferencia com o _maitre de hotel_ do Central, em que lhe -recommendou muita flôr, dois ananazes para enfeitar a meza, e exigiu que -um dos pratos do _menu_, qualquer d'elles, fosse _à la Cohen_; e elle -mesmo suggeriu uma idéa: _tomates farcies à la Cohen_... - -N'essa tarde, ás seis horas, Carlos, ao descer a rua do Alecrim para o -Hotel Central, avistou Craft dentro da loja de bric-a-brac do tio -Abrahão. - -Entrou. O velho judeo, que estava mostrando a Craft uma falsa faiença do -Rato, arrancou logo da cabeça o sujo barrete de borla, e ficou curvado -em dois, diante de Carlos, com as duas mãos sobre o coração. - -Depois, n'uma linguagem exotica, misturada d'inglez, pediu ao seu bom -senhor D. Carlos da Maia, ao seu digno senhor, ao seu _beautiful -gentleman_, que se dignasse examinar uma maravilhasinha que lhe tinha -reservada; e o seu muito _generous gentleman_ tinha só a voltar os -olhos, a maravilhasinha estava alli ao lado, n'uma cadeira. Era um -retrato d'hespanhola, apanhado a fortes brochadellas de primeira -impressão, e pondo, sobre um fundo audaz de côr de rosa murcha, uma face -gasta de velha garça, picada das bexigas, caiáda, ressudando vicio, com -um sorriso bestial que promettia tudo. - -Carlos, tranquillamente, offereceu dez tostões. Craft pasmou d'uma tal -prodigalidade; e o bom Abrahão, n'um riso mudo que lhe abria entre a -barba grisalha uma grande boca d'um só dente, saboreou muito a «chalaça -dos seus ricos senhores.» Dez tostõesinhos! Se o quadrinho tivesse por -baixo o nomesinho de Fortuny, valia dez continhos de réis. Mas não tinha -esse nomesinho bemdito... Ainda assim valia dez notasinhas de vinte mil -réis... - ---Dez cordas para te enforcar, hebreu sem alma! exclamou Carlos. - -E sahiram, deixando o velho intrujão á porta, curvado em dois, com as -mãos sobre o coração, desejando mil felicidades aos seus generosos -fidalgos... - ---Não tem uma unica cousa boa, este velho Abrahão, disse Carlos. - ---Tem a filha, disse o Craft. - -Carlos achava-a bonita, mas horrivelmente suja. Então, a proposito do -Abrahão, fallou a Craft d'essas bellas collecções dos Olivaes, que o -Ega, apesar do desdem que affectava pelo _bibelot_ e pelo movel d'arte, -lhe descrevera como sublimes. - -Craft encolheu os hombros. - ---O Ega não entende nada. Mesmo em Lisboa, não se póde chamar ao que eu -tenho uma collecção. É um bric-a-brac d'acaso... De que, de resto, me -vou desfazer! - -Isto surprehendeu Carlos. Comprehendera das palavras do Ega ser essa uma -collecção formada com amor, no laborioso decurso de annos, orgulho e -cuidado d'uma existencia de homem... - -Craft sorrio d'aquella legenda. A verdade era que só em 1872, elle -começara a interessar-se pelo bric-a-brac; chegava então da America do -Sul; e o que fora comprando, descobrindo aqui e além, accumulara-o -n'essa casa dos Olivaes, alugada então por phantasia, uma manhã que -aquelle pardieiro, com o seu bocado de quintal em redor, lhe parecera -pittoresco, sob o sol de abril. Mas agora se podesse desfazer-se do que -tinha, ia dedicar-se então a formar uma collecção homogenea e compacta -d'arte do seculo desoito. - ---Aqui nos Olivaes? - ---Não. N'uma quinta que tenho ao pé do Porto, junto mesmo ao rio. - -Entravam então no peristilo do Hotel Central--e n'esse momento um coupé -da Companhia, chegando a largo trote do lado da rua do Arsenal, veiu -estacar á porta. - -Um esplendido preto, já grisalho, de casaca e calção, correu logo á -portinhola; de dentro um rapaz muito magro, de barba muito negra, -passou-lhe para os braços uma deliciosa cadelinha escosseza, de pellos -esguedelhados, finos como seda e côr de prata; depois apeando-se, -indolente e _poseur_, offereceu a mão a uma senhora alta, loura, com um -meio véo muito apertado e muito escuro que realçava o explendor da sua -carnação eburnea. Craft e Carlos affastaram-se, ella passou diante -d'elles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, -deixando atraz de si como uma claridade, um reflexo de cabellos d'ouro, -e um aroma no ar. Trazia um casaco collante de velludo branco de Genova, -e um momento sobre as lages do peristillo brilhou o verniz das suas -bottinas. O rapaz ao lado, esticado n'um fato de xadresinho inglez, -abria negligentemente um telegramma; o preto seguia com a cadelhinha nos -braços. E no silencio a voz de Craft murmurou: - ---_Trés chic_. - -Em cima, no gabinete que o creado lhes indicou, Ega esperava, sentado no -divan de marroquim, e conversando com um rapaz baixote, gordo, frisado -como um noivo de provincia, de camelia ao peito e plastron azul celeste. -O Craft conhecia-o; Ega apresentou a Carlos o sr. Damaso Salcêde, e -mandou servir vermouth, por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse -requinte litterario e satanico do _absintho_... - -Fôra um dia d'inverno suave e luminoso, as duas janellas estavam ainda -abertas. Sobre o rio, no céu largo, a tarde morria, sem uma aragem, -n'uma paz elysea, com nuvensinhas muito altas, paradas, tocadas de côr -de rosa; as terras, os longes da outra banda já se iam affogando n'um -vapor avelludado, do tom de violeta; a agoa jazia liza e luzidia como -uma bella chapa d'aço novo; e aqui e alem, pelo vasto ancoradouro, -grossos navios de carga, longos paquetes estrangeiros, dois couraçados -inglezes, dormiam, com as mastreações immoveis, como tomados de -preguiça, cedendo ao affago do clima doce... - ---Vimos agora lá em baixo, disse Craft indo sentar-se no divan, uma -esplendida mulher, com uma esplendida cadellinha _griffon_, e servida -por um esplendido preto! - -O sr. Damaso Salcêde, que não despegava os olhos de Carlos, acudiu logo: - ---Bem sei! Os Castro Gomes... Conheço-os muito... Vim com elles de -Bordeus... Uma gente muito chic que vive em Paris. - -Carlos voltou-se, reparou mais n'elle, perguntou-lhe, affavel e -interessando-se: - ---O senhor Salcêde chegou agora de Bordeus? - -Estas palavras pareceram deleitar Damaso como um favor celeste: -ergueu-se immediatamente, approximou-se do Maia, banhado n'um sorriso: - ---Vim aqui ha quinze dias, no _Orenoque_. Vim de Paris... Que eu em -podendo é lá que me pilham! Esta gente conheci-a em Bordeus. Isto é, -verdadeiramente conheci-a a bordo. Mas estavamos todos no _Hotel de -Nantes_... Gente muito chic: creado de quarto, governanta ingleza para a -filhita, femme de chambre, mais de vinte malas... Chic a valer! Parece -incrivel, uns brazileiros... Que ella na voz não tem _sutaque_ nenhum, -falla como nós. Elle sim, elle muito _sutaque_... Mas elegante tambem, -v. ex.^a não lhe pareceu? - ---Vermouth? perguntou-lhe o creado, offerecendo a salva. - ---Sim, uma gotinha para o appetite. V. ex.^a não toma, sr. Maia? Pois -eu, assim que posso, é direitinho para Paris! Aquillo é que é terra! -Isto aqui é um chiqueiro... Eu, em não indo lá todos os annos, acredite -v. ex.^a, até começo a andar doente. Aquelle _boulevarsinho_, hein!... -Ai, eu goso aquillo!... E sei gosar, sei gosar, que eu conheço aquillo a -palmo... Tenho até um tio em Paris. - ---E que tio! exclamou Ega, approximando-se. Intimo do Gambetta, governa -a França... O tio do Damaso governa a França, menino! - -Damaso, escarlate, estourava de gôso. - ---Ah, lá isso influencia tem. Intimo do Gambetta, tratam-se por tu, até -vivem quasi juntos... E não é só com o Gambetta; é com o Mac-Mahon, com -o Rochefort, com o outro de que me esquece agora o nome, com todos os -republicanos, emfim!... É tudo quanto elle queira. V. ex.^a não o -conhece? É um homem de barbas brancas... Era irmão de minha mãe, -chama-se Guimarães. Mas em Paris chamam-lhe Mr. de Guimaran... - -N'esse momento a porta envidraçada abriu-se de golpe, Ega exclamou: -«Saude ao poeta»! - -E appareceu um individuo muito alto, todo abotoado n'uma sobrecasaca -preta, com uma face escaveirada, olhos encovados, e sob o nariz -aquilino, longos, espessos, romanticos bigodes grisalhos: já todo calvo -na frente, os anneis fôfos d'uma grenha muito secca cahiam-lhe -inspiradamente sobre a golla: e em toda a sua pessoa havia alguma cousa -de antiquado, de artificial e de lugubre. - -Estendeu silenciosamente dous dedos ao Damaso, e abrindo os braços -lentos para Craft, disse n'uma voz arrastada, cavernosa, atheatrada: - ---Então és tu, meu Craft! Quando chegaste tu, rapaz? Dá-me cá esses -ossos honrados, honrado inglez! - -Nem um olhar dera a Carlos. Ega adiantou-se, apresentou-os: - ---Não sei se são relações. Carlos da Maia... Thomaz d'Alencar, o nosso -poeta... - -Era elle! o illustre cantor das _Vozes d'Aurora_, o estylista de -_Elvira_, o dramaturgo do _Segredo do Commendador_. Deu dois passos -graves para Carlos, esteve-lhe apertando muito tempo a mão em -silencio--e sensibilisado, mais cavernoso: - ---V. ex.^a, já que as etiquetas sociaes querem que eu lhe dê -excellencia, mal sabe a quem apertou agora a mão... - -Carlos, surprehendido, murmurou: - ---Eu conheço muito de nome... - -E o outro com o olho cavo, o labio tremulo: - ---Ao camarada, ao inseparavel, ao intimo de Pedro da Maia, do meu pobre, -do meu valente Pedro! - ---Então, que diabo, abracem-se! gritou Ega. Abracem-se, com um berro, -segundo as regras... - -Alencar já tinha Carlos estreitado ao peito, e quando o soltou, -retomando-lhe as mãos, sacudindo-lh'as, com uma ternura ruidosa: - ---E deixemo-nos já de excellencias! que eu vi-te nascer, meu rapaz! -trouxe-te muito ao collo! sujaste-me muita calça! Co'os diabos, dá cá -outro abraço! - -Craft olhava estas cousas vehementes, impassivel; Damaso parecia -impressionado; Ega apresentou um copo de _vermouth_ ao poeta: - ---Que grande scena, Alencar! Jesus, Senhor! Bebe, para te recuperares da -emoção... - -Alencar esgotou-o d'um trago: e declarou aos amigos que não era a -primeira vez que via Carlos. Já o admirara no seu phaeton, muitas vezes, -e aos seus bellos cavallos inglezes. Mas não se quizera dar a conhecer. -Elle nunca se atirava aos braços de ninguem, a não ser das mulheres... -Foi encher outro calice de _vermouth_, e com elle na mão, plantado -diante de Carlos, começou, n'um tom pathetico: - ---A primeira vez que te vi, filho, foi no Pote das Almas! Estava eu no -Rodrigues, esquadrinhando alguma d'essa velha litteratura, hoje tão -despresada... Lembro-me até que era um volume das _Eclogas_ do nosso -delicioso Rodrigues Lobo, esse verdadeiro poeta da natureza, esse -rouxinol tão portuguez, hoje, está claro, mettido a um canto, desde que -para ahi appareceu o Satanismo, o Naturalismo e o Bandalhismo, e outros -esterquilinios em _ismo_... N'esse momento passaste, disseram-me quem -eras, e cahiu-me o livro da mão... Fiquei alli uma hora, acredita, a -pensar, a rever o passado... - -E atirou o _vermouth_ ás goellas. Ega, impaciente, olhava o relogio. Um -creado, entrando, accendeu o gaz; a mesa surgiu da penumbra, com um -brilho de cristaes e louças, um luxo de camelias em ramos. - -No entanto Alencar (que á luz viva parecia mais gasto e mais velho) -começara uma grande historia, e como fôra elle o primeiro que vira -Carlos depois de nascer, e como fôra elle que lhe dera o nome. - ---Teu pae, dizia elle, o meu Pedro, queria-te pôr o nome d'Affonso, -d'esse santo, d'esse varão d'outras edades, Affonso da Maia! Mas tua mãe -que tinha lá as suas idéas teimou em que havias de ser Carlos. E -justamente por causa d'um romance que eu lhe emprestára; n'esses tempos -podiam-se emprestar romances a senhoras, ainda não havia a pustula e o -puz... Era um romance sobre o ultimo Stuart, aquelle bello typo do -principe Carlos Eduardo, que vocês, filhos, conhecem todos bem, e que na -Escossia, no tempo de Luiz XIV... Emfim, adiante! Tua mãe, devo dizel-o, -tinha litteratura e da melhor. Consultou-me, consultava-me sempre, -n'esse tempo eu era _alguem_, e lembro-me de lhe ter respondido... -(Lembro-me apesar de já lá irem vinte e cinco annos... Que digo eu? -Vinte e sete! Vejam vocês isto, filhos, vinte e sete annos!) Emfim, -voltei-me para tua mãe, e disse-lhe, palavras textuaes: «Ponha-lhe o -nome de Carlos Eduardo, minha rica senhora, Carlos Eduardo, que é o -verdadeiro nome para o frontespicio d'um poema, para a fama d'um -heroismo ou para o labio d'uma mulher!» - -Damaso, que continuava a admirar Carlos, deu _bravos_ estrondosos; Craft -bateu ligeiramente os dedos; e o Ega, que rondava a porta, nervoso, de -relogio na mão, soltou de lá um _muito bem_ desenxabido. - -Alencar, radiante com o seu effeito, derramava em roda um sorriso que -lhe mostrava os dentes estragados. Abraçou outra vez Carlos, atirou uma -palmada ao coração, exclamou: - ---Caramba, filhos, sinto uma luz cá dentro! - -A porta abriu-se, o Cohen entrou, todo apressado, desculpando-se logo da -sua demora--emquanto Ega, que se precipitara para elle, lhe ajudava a -despir o palletot. Depois apresentou-o a Carlos--a unica pessoa alli de -quem o Cohen não era intimo. E dizia, tocando o botão da campainha -electrica: - ---O marquez não pôde vir, menino, e o pobre Steinbroken, coitado, está -com a sua gôtta, a gôtta de diplomata, de lord e de banqueiro... A gôtta -que tu has de ter, velhaco! - -Cohen, um homem baixo, apurado, de olhos bonitos, e suissas tão pretas e -luzidias que pareciam ensopadas em verniz, sorria, descalçando as luvas, -dizendo, que, segundo os inglezes, havia tambem a gôtta de gente pobre; -e era essa naturalmente a que lhe competia a elle... - -Ega, no entanto, travara-lhe do braço, collocara-o preciosamente á mesa, -á sua direita: depois offereceu-lhe um botão de camelia d'um ramo: o -Alencar florio-se tambem--e os creados serviram as ostras. - -Fallou-se logo do crime da Mouraria, drama fadista que impressionava -Lisboa, uma rapariga com o ventre rasgado á navalha por uma companheira, -vindo morrer na rua em camisa, dois faias esfaqueando-se, toda uma -viella em sangue--uma _sarrabulhada_ como disse o Cohen, sorrindo e -provando o Bucellas. - -Damaso teve a satisfação de poder dar detalhes; conhecera a rapariga, a -que dera as facadas, quando ella era amante do visconde da Ermidinha... -Se era bonita? Muito bonita. Umas mãos de duqueza... E como aquillo -cantava o _fado_! O peior era que mesmo no tempo do visconde, quando -ella era chic, já se empiteirava... E o visconde, honra lhe seja, nunca -lhe perdera a amisade; respeitava-a, mesmo depois de casado ía vel-a, e -tinha-lhe promettido que se ella quizesse deixar o _fado_ lhe punha uma -confeitaria para os lados da Sé. Mas ella não queria. Gostava d'aquillo, -do Bairro Alto, dos cafés de _lepes_, dos chulos... - -Esse mundo de fadistas, de faias, parecia a Carlos merecer um estudo, um -romance... Isto levou logo a fallar-se do _Assommoir_, de Zola e do -realismo:--e o Alencar immediatmente, limpando os bigodes dos pingos de -sôpa, supplicou que se não discutisse, á hora aceada do jantar, essa -litteratura _latrinaria_. Alli todos eram homens d'aceio, de sala, hein? -Então, que se não mencionasse o _excremento_! - -Pobre Alencar! O naturalismo; esses livros poderosos e vivazes, tirados -a milhares de edições; essas rudes analyses, apoderando-se da Egreja, da -Realeza, da Bureocracia, da Finança, de todas as cousas santas, -dissecando-as brutalmente e mostrando-lhes a lesão, como a cadaveres -n'um amphitheatro; esses estylos novos, tão precisos e tão ducteis, -apanhando em flagrante a linha, a côr, a palpitação mesma da vida; tudo -isso (que elle, na sua confusão mental, chamava a _Idéa nova_) caindo -assim de chofre e escangalhando a cathedral romantica, sob a qual tantos -annos elle tivera altar e celebrara missa, tinha desnorteado o pobre -Alencar e tornara-se o desgosto litterario da sua velhice. Ao principio -reagiu. «Para pôr um dique definitivo á torpe maré», como elle disse em -plena Academia, escreveu dois folhetins crueis; ninguem os leu; a «maré -torpe» alastrou-se, mais profunda, mais larga. Então Alencar refugiou-se -na _moralidade_ como n'uma rocha solida. O naturalismo, com as suas -alluviões de obscenidade, ameaçava corromper o pudor social? Pois bem. -Elle, Alencar, seria o paladino da Moral, o gendarme dos bons costumes. -Então o poeta das _Vozes d'Aurora_, que durante vinte annos, em -cançoneta e ode, propozera commercios lubricos a todas as damas da -capital; então o romancista de _Elvira_ que, em novella e drama, fizera -a propaganda do amor illegitimo, representando os deveres conjugaes como -montanhas de tedio, dando a todos os maridos formas gordurosas e -bestiaes, e a todos os amantes a belleza, o esplendor e o genio dos -antigos Apollos; então Thomaz Alencar que (a acreditarem-se as -confissões autobiographicas da _Flôr de Martyrio_) passava elle proprio -uma existencia medonha de adulterios, lubricidades, orgias, entre -velludos e vinhos de Chypre--d'ora em diante austero, incorruptivel, -todo elle uma torre de pudicicia, passou a vigiar attentamente o jornal, -o livro, o theatro. E mal lobrigava symptomas nascentes de realismo n'um -beijo que estalava mais alto, n'uma brancura de saia que se arregaçava -de mais--eis o nosso Alencar que soltava por sobre o paiz um grande -grito de alarme, corria á penna, e as suas imprecações lembravam (a -academicos faceis de contentar) o rugir de Isaias. Um dia porém, Alencar -teve uma d'estas revelações que prostram os mais fortes; quanto mais -elle denunciava um livro como immoral, mais o livro se vendia como -agradavel! O Universo pareceu-lhe cousa torpe, e o auctor de _Elvira_ -encavacou... - -Desde então reduziu a expressão do seu rancor ao minimo, a essa phrase -curta, lançada com nojo: - ---Rapazes, não se mencione o _excremento_! - -Mas n'essa noite teve o regosijo de encontrar alliados. Craft não -admittia tambem o naturalismo, a realidade feia das cousas e da -sociedade estatelada nua n'um livro. A arte era uma idealisação! Bem: -então que mostrasse os typos superiores d'uma humanidade aperfeiçoada, -as fórmas mais bellas do viver e do sentir... Ega horrorisado apertava -as mãos na cabeça--quando do outro lado Carlos declarou que o mais -intoleravel no realismo eram os seus grandes ares scientificos, a sua -pretenciosa esthetica deduzida d'uma philosophia alheia, e a invocação -de Claude Bernard, do experimentalismo, do positivismo, de Stuart Mill e -de Darwin, a proposito d'uma lavadeira que dorme com um carpinteiro! - -Assim atacado, entre dois fogos, Ega trovejou: justamente o fraco do -realismo estava em ser ainda pouco scientifico, inventar enredos, crear -dramas, abandonar-se á phantasia litteraria! a fórma pura da arte -naturalista devia ser a monographia, o estudo secco d'um typo, d'um -vicio, d'uma paixão, tal qual como se se tratasse d'um caso pathologico, -sem pittoresco e sem estylo!... - ---Isso é absurdo, dizia Carlos, os caracteres só se podem manifestar -pela acção... - ---E a obra d'arte, accrescentou Craft, vive apenas pela fórma... - -Alencar interrompeu-os, exclamando que não eram necessarias tantas -philosophias. - ---Vocês estão gastando cêra com ruins defuntos, filhos. O realismo -critica-se d'este modo: mão no nariz! Eu quando vejo um d'esses livros, -enfrasco-me logo em agua de colonia. Não discutamos o _excremento_. - ---_Sole normande_? perguntou-lhe o creado, adiantando a travessa. - -Ega ía fulminal-o. Mas, vendo que o Cohen dava um sorriso enfastiado e -superior a estas controversias de litteraturas, calou-se; occupou-se só -d'elle, quiz saber que tal elle achava aquelle S.^t Emilion; e, quando o -viu confortavelmente servido de _sole normande_, lançou com grande -alarde de interesse esta pergunta: - ---Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... O emprestimo faz-se ou -não se faz? - -E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados, que aquella questão do -emprestimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episodio -historico!... - -O Cohen collocou uma pitada de sal á beira do prato, e respondeu, com -auctoridade, que o emprestimo tinha de se realisar _absolutamente_. Os -emprestimos em Portugal constituiam hoje uma das fontes de receita, tão -regular, tão indispensavel, tão sabida como o imposto. A unica occupação -mesmo dos ministerios era esta--_cobrar o imposto_ e _fazer o -emprestimo_. E assim se havia de continuar... - -Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, d'esse modo, o -paiz ia alegremente e lindamente para a _banca-rota_. - ---N'um galopesinho muito seguro e muito a direito, disse o Cohen, -sorrindo. Ah, sobre isso, ninguem tem illusões, meu caro senhor. Nem os -proprios ministros da fazenda!... A _banca-rota_ é inevitavel: é como -quem faz uma somma... - -Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hein! E todos -escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o calice de novo, fincara -os cotovellos na meza para lhe beber melhor as palavras. - ---A _banca-rota_ é tão certa, as cousas estão tão dispostas para -ella--continuava o Cohen--que seria mesmo facil a qualquer, em dois ou -tres annos, fazer fallir o paiz... - -Ega gritou sofregamente pela _receita_. Simplesmente isto: manter uma -agitação revolucionaria constante; nas vesperas de se lançarem os -emprestimos haver duzentos maganões decididos que cahissem á pancada na -municipal e quebrassem os candieiros com vivas á Republica; telegraphar -isto em letras bem gordas para os jornaes de Paris, Londres e do Rio de -Janeiro; assustar os mercados, assustar o brazileiro, e a _banca-rota_ -estalava. Sómente, como elle disse, isto não convinha a ninguem. - -Então Ega protestou com vehemencia. Como não convinha a ninguem? Ora -essa! Era justamente o que convinha a todos! Á _banca-rota_ seguia-se -uma revolução, evidentemente. Um paiz que vive da _inscripção_, em não -lh'a pagando, agarra no cacete; e procedendo por principio, ou -procedendo apenas por vingança--o primeiro cuidado que tem é varrer a -monarchia que lhe representa o _calote_, e com ella o crasso pessoal do -constitucionalismo. E passada a crise, Portugal livre da velha divida, -da velha gente, d'essa collecção grotesca de bestas... - -A voz do Ega sibillava... Mas, vendo assim tratados de _grotescos_, de -_bestas_, os homens d'ordem que fazem prosperar os Bancos, Cohen pousou -a mão no braço do seu amigo e chamou-o ao bom-senso. Evidentemente, elle -era o primeiro a dizel-o, em toda essa gente que figurava desde 46 havia -mediocres e patetas,--mas tambem homens de grande valor! - ---Ha talento, ha saber, dizia elle com um tom de experiencia. Você deve -reconhecel-o, Ega... Você é muito exagerado! Não senhor, ha talento, ha -saber. - -E, lembrando-se que algumas d'essas _bestas_ eram amigos do Cohen, Ega -reconheceu-lhes talento e saber. O Alencar porém cofiava sombriamente o -bigode. Ultimamente pendia para idéas radicaes, para a democracia -humanitaria de 1848: por instincto, vendo o romantismo desacreditado nas -letras, refugiava-se no romantismo politico, como n'um asylo paralello: -queria uma republica governada por genios, a fraternisação dos povos, os -Estados Unidos da Europa... Além d'isso, tinha longas queixas d'esses -politiquotes, agora gente de Poder, outr'ora seus camaradas de redacção, -de café e de _batota_... - ---Isso, disse elle, lá a respeito de talento e de saber, historias... Eu -conheço-os bem, meu Cohen... - -O Cohen acudiu: - ---Não senhor, Alencar, não senhor! Você tambem é dos taes... Até lhe -fica mal dizer isso... É exageração. Não senhor, ha talento, ha saber. - -E o Alencar, peranta esta intimação do Cohen, o respeitado director do -_Banco Nacional_, o marido da divina Rachel, o dono d'essa hospitaleira -casa da rua do Ferregial onde se jantava tão bem, recalcou o -despeito--admittiu que não deixava de haver talento e saber. - -Então, tendo assim, pela influencia do seu Banco, dos bellos olhos da -sua mulher e da excellencia do seu cosinheiro, chamado estes espiritos -rebeldes ao respeito dos Parlamentares e á veneração da Ordem, Cohen -condescendeu em dizer, no tom mais suave da sua voz, que o paiz -necessitava reformas... - -Ega porém, incorrigivel n'esse dia, soltou outra enormidade: - ---Portugal não necessita refórmas, Cohen, Portugal o que precisa é a -invasão hespanhola. - -Alencar, patriota à antiga, indignou-se. O Cohen, com aquelle sorriso -indulgente de homem superior que lhe mostrava os bonitos dentes, vio -alli apenas «um dos paradoxos do nosso Ega.» Mas o Ega fallava com -seriedade, cheio de razões. Evidentemente, dizia elle, invasão não -significa perda absoluta de independencia. Um receio tão estupido é -digno só de uma sociedade tão estupida como a do _Primeiro de Dezembro_. -Não havia exemplo de seis milhões de habitantes serem engolidos, de um -só trago, por um paiz que tem apenas quinze milhões de homens. Depois -ninguem consentiria em deixar cahir nas mãos de Hespanha, nação militar -e maritima, esta bella linha de costa de Portugal. Sem contar as -allianças que teriamos, a troco das colonias--das colonias que só nos -servem, como a prata de familia aos morgados arruinados, para ir -empenhando em casos de crise... Não havia perigo; o que nos aconteceria, -dada uma invasão, n'um momento de guerra europea, seria levarmos uma -sova tremenda, pagarmos uma grossa indemnisação, perdermos uma ou duas -provincias, ver talvez a Galliza estendida até ao Douro... - ---_Poulet aux champignons_, murmurou o creado, apresentando-lhe a -travessa. - -E em quanto elle se servia, perguntavam-lhe dos lados onde via elle a -_salvação do paiz_, n'essa catastrophe que tornaria povoação hespanhola -Celorico de Basto, a nobre Celorico, berço de heroes, berço dos Egas... - ---N'isto: no ressuscitar do espirito publico e do genio portuguez! -Sovados, humilhados, arrasados, escalavrados, tinhamos de fazer um -esforço desesperado para viver. E em que bella situação nos achavamos! -Sem monarchia, sem essa caterva de politicos, sem esse tortulho da -_inscripção_, porque tudo desapparecia, estavamos novos em folha, -limpos, escarollados, como se nunca tivessemos servido. E recomeçava-se -uma historia nova, um outro Portugal, um Portugal serio e intelligente, -forte e decente, estudando, pensando, fazendo civilisação como -outr'ora... Meninos, nada regenera uma nação como uma medonha tarêa... -Oh Deus d'Ourique, manda-nos o castelhano! E você, Cohen, passe-me o -S.^t Emilion. - -Agora, n'um rumor animado, discutia-se a invasão. Ah, podia-se fazer uma -bella resistencia! Cohen affiançava o dinheiro. Armas, artilheria, iam -comprar-se á America--e Craft offereceu logo a sua collecção de espadas -do seculo XVI. Mas generaes? Alugavam-se. Mac-Mahon, por exemplo, devia -estar barato... - ---O Craft e eu organisamos uma guerrilha, gritou Ega. - ---Ás ordens, meu coronel. - ---O Alencar, continuava Ega, é encarregado de ir despertar pela -provincia o patriotismo, com cantos e com odes! - -Então o poeta, pousando o calice, teve um movimento de leão que sacode a -juba: - ---Isto é uma velha carcassa, meu rapaz, mas não está só para odes! Ainda -se agarra uma espingarda, e como a pontaria é boa, ainda vão a terra um -par de gallegos... Caramba, rapazes, só a idéa d'essas cousas me põe o -coração negro! E como vocés podem fallar n'isso, a rir, quando se trata -do paiz, d'esta terra onde nascemos, que diabo! Talvez seja má, de -accordo, mas, caramba! é a unica que temos, não temos outra! É aqui que -vivemos, é aqui que rebentamos... Irra, fallemos d'outra cousa, fallemos -de mulheres! - -Dera um repellão ao prato, os olhos humedeciam-se-lhe de paixão -patriotica... - -E no silencio que se fez Damaso, que desde as informações sobre a -rapariga do Ermidinha emmudecera, occupado a observar Carlos com -religião, ergueu a voz pausadamente, disse, com um ar de bom senso e de -finura: - ---Se as cousas chegassem a esse ponto, se pozessem assim feias, eu cá, á -cautela, ía-me raspando para Paris... - -Ega triumphou, pulou de gosto na cadeira. Eis alli, no labio synthetico -de Damaso, o grito espontaneo e genuino do brio portuguez! Raspar-se, -pirar-se!... Era assim que d'alto a baixo pensava a sociedade de Lisboa, -a malta constitucional, desde El-Rei nosso Senhor até aos cretinos de -secretaria!... - ---Meninos, ao primeiro soldado hespanhol que appareça á fronteira, o -paiz em massa foge como uma lebre! Vae ser uma debandada unica na -historia! - -Houve uma indignação, Alencar gritou: - ---Abaixo o traidor! - -Cohen interveiu, declarou que o soldado portuguez era valente, á maneira -dos turcos--sem disciplina, mas teso. O proprio Carlos disse, muito -serio: - ---Não senhor... Ninguem ha de fugir, e ha de se morrer bem. - -Ega rugiu. Para quem estavam elles fazendo essa _pose_ heroica? Então -ignoravam que esta raça, depois de cincoenta annos de -constitucionalismo, creada por esses saguões da Baixa, educada na -piolhice dos lyceus, roída de syphlis, apodrecida no bolôr das -secretarias, arejada apenas ao domingo pela poeira do Passeio, perdera o -musculo como perdera o caracter, e era a mais fraca, a mais covarde raça -da Europa?... - ---Isso são os lisboetas, disse Craft. - ---Lisboa é Portugal, gritou o outro. Fóra de Lisboa não ha nada. O paiz -está todo entre a Arcada e S. Bento!... - -A mais miseravel raça da Europa! continuava elle a berrar. E que -exercito! Um regimento, depois de dois dias de marcha, dava entrada em -massa no hospital! Com seus olhos tinha elle visto, no dia da abertura -das Côrtes, um marujo sueco, um rapagão do Norte, fazer debandar, a -soccos, uma companhia de soldados; as praças tinham litteralmente -largado a fugir, com a patrona a batter-lhe os rins; e o official, -enfiado de terror, metteu-se para uma escada, a vomitar!... - -Todos protestaram. Não, não era possivel... Mas se elle tinha visto, que -diabo!... Pois sim, talvez, mas com os olhos fallazes da phantasia... - ---Juro pela saude da mamã! gritou Ega furioso. - -Mas emmudeceu. O Cohen tocara-lhe no braço. O Cohen ía fallar. - -O Cohen queria dizer que o futuro pertence a Deus. Que os hespanhoes -porém pensassem na invasão isso parecia-lhe certo--sobretudo se viessem, -como era natural, a perder Cuba. Em Madrid todo o mundo lh'o dissera. Já -havia mesmo negocios de fornecimentos entabolados... - ---Hespanholadas, gallegadas! rosnou Alencar, por entre dentes, sombrio e -torcendo os bigodes. - ---No _Hotel de Paris_, continuou Cohen, em Madrid, conheci eu um -magistrado, que me disse com um certo ar que não perdia a esperança de -se vir estabelecer de todo em Lisboa; tinha-lhe agradado muito Lisboa, -quando cá estivera a banhos. E em quanto a mim, estou que ha muitos -hespanhoes que estão á espera d'este augmento de territorio para se -empregarem! - -Então Ega cahiu em extasi, apertou as mãos contra o peito. Oh que -delicioso traço! Oh que admiravelmente observado! - ---Este Cohen! exclamava elle para os lados. Que finamente observado! Que -traço adoravel! Hein, Craft? Hein, Carlos? Delicioso! - -Todos cortezmente admiraram a finura do Cohen. Elle agradecia, com o -olho enternecido, passando pelas suissas a mão onde reluzia um diamante. -E n'esse momento os creados serviam um prato de ervilhas n'um molho -branco, murmurando: - ---_Petits pois a la Cohen_. - -_A la Cohen?_ Cada um verificou o seu _menu_ mais attentamente. E lá -estava, era o legume: _petits pois a la Cohen!_ Damaso, enthusiasmado, -declarou isto «chic a valer!» E fez-se, com o Champagne que se abria, a -primeira saude ao Cohen! - -Esquecera-se a banca rota, a invasão, a patria--o jantar terminava -alegremente. Outras _saudes_ crusaram-se, ardentes e loquazes: o proprio -Cohen, com o sorriso de quem cede a um capricho de creança, bebeu á -Revolução e á Anarchia, brinde complicado, que o Ega erguera, já com o -olho muito brilhante. Sobre a toalha, a sobremeza alastrava-se, -destroçada; no prato do Alencar as pontas de cigarros misturavam-se a -bocados de ananaz mastigado. Damaso, todo debruçado sobre Carlos, -fazia-lhe o elogio da parelha ingleza, e d'aquelle _phaeton_ que era a -cousa mais linda que passeiava Lisboa. E logo depois do seu brinde de -demagogo, sem razão, Ega arremettera contra Craft, injuriando a -Inglaterra, querendo excluil-a d'entre as nações pensantes, ameaçando-a -de uma revolução social que a ensoparia em sangue: o outro respondia com -acenos de cabeça, imperturbavel, partindo nozes. - -Os creados serviram o café. E como havia já tres longas horas que -estavam á meza, todos se ergueram, acabando os charutos, conversando, na -animação viva que dera o _Champagne_. A sala, de tecto baixo, com os -cinco bicos de gaz ardendo largamente, enchera-se de um calor pesado, -onde se ia espalhando agora o aroma forte das chartreuses e dos licores -por entre a nevoa alvadia do fumo. - -Carlos e Craft, que abafavam, foram respirar para a varanda; e ahi -recomeçou logo, n'aquella communidade de gostos que os começava a ligar, -a conversa da rua do Alecrim sobre a bella collecção dos Olivaes. Craft -dava detalhes; a cousa rica e rara que tinha era um armario hollandez do -seculo XVI; de resto, alguns bronzes, faianças e boas armas... - -Mas ambos se voltaram ouvindo, no grupo dos outros, junto á meza, -estridencias de voz, e como um conflicto que rompia: Alencar, sacudindo -a grenha, gritava contra a _palhada philosophica_; e do outro lado, com -o calice de cognac na mão, Ega, pallido e affectando uma tranquillidade -superior, declarava toda essa babuge lyrica que por ahi se publica digna -da policia correccional... - ---Pegaram-se outra vez, veiu dizer Damaso a Carlos, approximando-se da -varanda. É por causa do Craveiro. Estão ambos divinos! - -Era com effeito a proposito de poesia moderna, de Simão Craveiro, do seu -poema a _Morte de Satanaz_. Ega estivera citando, com enthusiasmo, -estrophes do episodio da _Morte_, quando o grande esqueleto symbolico -passa em pleno sol no Boulevard, vestido como uma cocotte, arrastando -sedas rumorosas - - - «E entre duas costellas, no decotte, - Tinha um bouquet de rosas!» - - -E o Alencar, que detestava o Craveiro, o homem da _Idéa nova_, o -paladino do Realismo, triumphara, cascalhara, denunciando logo n'essa -simples estrophe dois erros de grammatica, um verso errado, e uma imagem -roubada a Beaudelaire! - -Então Ega, que bebera um sobre outro dois calices de cognac, tornou-se -muito provocante, muito pessoal. - ---Eu bem sei por que tu fallas, Alencar, dizia elle agora. E o motivo -não é nobre. É por causa do epigramma que elle te fez: - - - O Alencar d'Alemquer, - Acceso com a primavera... - - ---Ah, vocês nunca ouviram isto? continuou elle voltando-se, chamando os -outros. É delicioso, é das melhores cousas do Craveiro. Nunca ouviste, -Carlos? É sublime, sobre tudo esta estrophe: - - - O Alencar d'Alemquer - Que quer? Na verde campina - Não colhe a tenra bonina - Nem consulta o malmequer... - Que quer? Na verde campina - O Alencar d'Alemquer - Quer menina! - - -Eu não me lembro do resto, mas termina com um grito de bom senso, que é -a verdadeira critica de todo esse lyrismo pandilha: - - - O Alencar d'Alemquer - Quer cacete! - - -Alencar passou a mão pela testa livida, e com o olho cavo fito no outro, -a voz rouca e lenta: - ---Olha, João da Ega, deixa-me dizer-te uma cousa, meu rapaz... Todos -esses epigrammas, esses dichotes lorpas do rachitico e dos que o -admiram, passam-me pelos pés como um enxurro de cloaca... O que faço é -arregaçar as calças! Arregaço as calças... Mais nada, meu Ega. Arregaço -as calças! - -E arregaçou-as realmente, mostrando a ceroula, n'um gesto brusco e de -delirio. - ---Pois quando encontrares enchurros d'esses, gritou-lhe o Ega, agacha-te -e bebe-os! Dão-te sangue e força ao lyrismo! - -Mas Alencar, sem o ouvir, berrava para os outros, esmurrando o ar: - ---Eu, se esse Craveirete não fosse um rachitico, talvez me entretivesse -a rolal-o aos pontapés por esse Chiado abaixo, a elle e á versalhada, a -essa lambisgonhice excrementicia com que seringou Satanaz! E depois de o -besuntar bem de lama, esborrachava-lhe o craneo! - ---Não se esborracham assim craneos, disse de lá o Ega n'um tom frio de -troça. - -Alencar voltou para elle uma face medonha. A colera e o cognac -incendiavam-lhe o olhar; todo elle tremia: - ---Esborrachava-lh'o, sim, esborrachava, João da Ega! Esborrachava-lh'o -assim, olha, assim mesmo!--Rompeu a atirar patadas ao soalho, abalando a -sala, fazendo tilintar crystaes e louças.--Mas não quero, rapazes! -Dentro d'aquelle craneo só ha excremento, vomito, puz, materia verde, e -se lh'o esborrachasse, por que lh'o esborrachava, rapazes, todo o miollo -podre sahia, empestava a cidade, tinhamos o cholera! Irra! Tinhamos a -peste! - -Carlos, vendo-o tão excitado, tornou-lhe o braço, quiz calmal-o: - ---Então, Alencar! Que tolice... Isso vale lá a pena!... - -O outro desprendeu-se, arquejante, desabotoou a sobrecasaca, soltou o -ultimo desabafo: - ---Com effeito, não vale a pena ninguem zangar-se por causa d'esse -Craveirote da _Idéa nova_, esse caloteiro, que se não lembra que a porca -da irmã é uma meretriz de doze vintens em Marco de Canavezes! - ---Não, isso agora é de mais, pulha! gritou Ega, arremeçando-se, de -punhos fechados. - -Cohen e Damaso, assustados, agarraram-n'o. Carlos puchara logo para o -vão da janella o Alencar que se debatia, com os olhos chammejantes, a -gravata solta. Tinha cahido uma cadeira; a correcta sala, com os seus -divans de marroquim, os seus ramos de camelias, tomava um ar de taverna, -n'uma bulha de faias, entre a fumaraça de cigarros. Damaso, muito -pallido, quasi sem voz, ía d'um a outro: - ---Oh meninos, oh meninos, aqui, no Hotel Central! Jesus!... Aqui no -Hotel Central!... - -E, d'entre os braços do Cohen, Ega berrava, já rouco: - ---Esse pulha, esse covarde... Deixe-me, Cohen! Não, isso hei de -esbofeteal-o!... A D. Anna Craveiro, uma santa!... Esse calumniador... -Não, isso hei de esganal-o!... - -Craft, no entanto, impassivel, bebia aos golos a sua chartreuse. Já -presenceára, mais vezes, duas litteraturas rivaes engalphinhando-se, -rolando no chão, n'um latir de injurias: a torpeza do Alencar sobre a -irmã do outro fazia parte dos costumes de critica em Portugal: tudo isso -o deixava indifferente, com um sorriso de desdem. Além d'isso sabia que -a reconciliação não tardaria, ardente e com abraços. E não tardou. -Alencar sahiu do vão da janella, atraz de Carlos, abotoando a -sobrecasaca, grave e como arrependido. A um canto da sala, Cohen fallava -ao Ega com auctoridade, severo, á maneira d'um pae: depois voltou-se, -ergueu a mão, ergueu a voz, disse que alli todos eram cavalheiros: e -como homens de talento e de coração fidalgo os dois deviam abraçar-se... - ---Vá, um _shake-hands_, Ega, faça isso por mim!... Alencar, vamos, -peço-lh'o eu! - -O auctor de _Elvira_ deu um passo, o auctor das _Memorias d'um Atomo_ -estendeu a mão: mas o primeiro aperto foi gôche e molle. Então Alencar, -generoso e rasgado, exclamou que entre elle e o Ega não devia _ficar uma -nuvem!_ Tinha-se excedido... Fôra o seu desgraçado genio, esse calor de -sangue, que durante toda a existencia só lhe trouxera lagrimas! E alli -declarava bem alto que Anna Craveiro era uma santa! Tinha-a conhecido em -Marco de Canavezes, em casa dos Peixotos... Como esposa, como mãe, Anna -Craveiro era impeccavel. E reconhecia, do fundo d'alma, que o Craveiro -tinha carradas de talento!... - -Encheu um copo de _Champagne_, ergueu-o alto, diante do Ega, como um -calice de altar: - ---Á tua, João! - -Ega, generoso tambem, respondeu: - ---Á tua, Thomaz! - -Abraçaram-se. Alencar jurou que ainda na vespera, em casa de D. Joanna -Coutinho, elle dissera que não conhecia ninguem mais scintillante que o -Ega! Ega affirmou logo que em poemas nenhuns corria, como nos do -Alencar, uma tão bella veia lyrica. Apertaram-se outra vez, com palmadas -pelos hombros. Trataram-se de _irmãos na arte_, trataram-se de -_genios_!... - ---São extraordinarios, disse Craft baixo a Carlos, procurando o chapéo. -Desorganisam-me, preciso ar!... - -A noite alongava-se, eram onze horas. Ainda se bebeu mais cognac. Depois -Cohen sahiu levando o Ega. Damaso e Alencar desceram com Carlos--que ia -recolher a pé pelo Aterro. - -Á porta, o poeta parou com solemnidade. - ---Filhos, exclamou elle tirando o chapéo e refrescando largamente a -fronte, então? Parece-me que me portei como um gentleman! - -Carlos concordou, gabou-lhe a generosidade... - ---Estimo bem que me digas isso, filho, porque tu sabes o que é ser -gentleman! E agora vamos lá por esse Aterro fóra... Mas deixa-me ir alli -primeiro comprar um pacote de tabaco... - ---Que typo! exclamou Damaso, vendo-o affastar-se. E a cousa ía-se pondo -feia... - -E immediatamente, sem transição, começou a fazer elogios a Carlos. O sr. -Maia não imaginava ha quanto tempo elle desejava conhecel-o! - ---Oh senhor... - ---Creia v. ex.^a... Eu não sou de sabujices... Mas pode v. ex.^a -perguntar ao Ega, quantas vezes o tenho dito: v. ex.^a é a cousa melhor -que ha em Lisboa! - -Carlos, baixava a cabeça, mordendo o riso. Damaso, repetia, do fundo do -peito. - ---Olhe que isto é sincero, sr. Maia! Acredite v. ex.^a que isto é do -coração! - -Era realmente sincero. Desde que Carlos habitava Lisboa, tivera alli, -n'aquelle moço gordo e bochechudo, sem o saber, uma adoração muda e -profunda; o proprio verniz dos seus sapatos, a côr das suas luvas eram -para o Damaso motivo de veneração, e tão importantes como principios. -Considerava Carlos um typo supremo de _chic_, do seu querido _chic_, um -Brummel, um d'Orsay, um Morny,--uma «d'estas cousas que só se vêem lá -fóra», como elle dizia arregalando os olhos. N'essa tarde sabendo que -vinha jantar com o Maia, conhecer o Maia, estivera duas horas ao espelho -experimentando gravatas, perfumara-se como para os braços d'uma -mulher;--e por causa de Carlos mandara estacionar alli o coupé, ás dez -horas, com o cocheiro de ramo ao peito. - ---Então essa senhora brazileira vive aqui? perguntou Carlos, que dera -dous passos, olhava uma janella allumiada no segundo andar. - -Damaso seguiu-lhe o olhar. - ---Vive lá do outro lado. Estão aqui ha quinze dias... Gente _chic_... E -ella é de appetecer, v. ex.^a reparou? Eu a bordo atirei-me... E ella -dava cavaco! Mas tenho andado muito preso desde que cheguei, jantar -aqui, soirée acolá, umas aventurasitas... Não tenho podido cá vir, -deixei-lhes só bilhetes; mas trago-a d'olho, que ella demora-se... -Talvez venha cá ámanhã, estou cá agora a sentir umas cocegas... E se me -pilho só com ella, zás, ferro-lhe logo um beijo! Que eu cá, não sei se -v. ex.^a é a mesma cousa, mas eu cá, com mulheres, a minha theoria é -esta: attracão! Eu cá, é logo: attracão! - -N'esse momento Alencar voltava do estanco, de charuto na boca. Damaso -despediu-se, atirando muito alto ao cocheiro, para que Carlos ouvisse, a -adresse da Morelli, a segunda dama de S. Carlos. - ---Bom rapaz, este Damaso, dizia Alencar, travando de braço de Carlos, ao -seguirem ambos pelo Aterro. É lá muito dos Cohens, muito querido na -sociedade. Rapaz de fortuna, filho do velho Silva, o agiota, que esfolou -muito teu pae; e a mim tambem. Mas elle assigna Salcede; talvez nome da -mãe; ou talvez inventado. Bom rapaz... O pae era um velhaco! Parece que -estou a ouvir o Pedro dizer-lhe com o seu ar de fidalgo, que o tinha e -do grande: «Silva judeu, dinheiro, e a rôdo!»... Outros tempos, meu -Carlos, grandes tempos. Tempos de gente! - -E então por esse longo Aterro, triste no ar escuro, com as luzes do gaz -dormente luzindo em fila d'enterro, Alencar foi fallando d'esses -«grandes tempos» da sua mocidade e da mocidade de Pedro; e, atravéz das -suas phrases de lyrico, Carlos sentia vir como um aroma antiquado d'esse -mundo defunto... Era quando os rapazes ainda tinham um resto de calor -das guerras civis, e o calmavam indo em bando varrer botequins ou -rebentando pilecas de sejes em galopadas para Cintra. Cintra era então -um ninho de amores, e sob as suas romanticas ramagens as fidalgas -abandonavam-se aos braços dos poetas. Ellas eram Elviras, elles eram -Antonys. O dinheiro abundava; a côrte era alegre; a Regeneração -litterata e galante ia engrandecer o paiz, bello jardim da Europa; os -bachareis chegavam de Coimbra, frementes de eloquencia; os ministros da -corôa recitavam ao piano; o mesmo sopro lyrico inchava as odes e os -projectos de lei... - ---Lisboa era bem mais divertida, disse Carlos. - ---Era outra cousa, meu Carlos! Vivia-se! Não existiriam esses ares -scientificos, toda essa palhada philosophica, esses badamecos -positivistas... Mas havia coração, rapaz! Tinha-se faisca! Mesmo n'essas -cousas da politica... Vê esse chiqueiro agora ahi, essa malta de -bandalhos... N'esse tempo ía-se alli á camara e sentia-se a inspiração, -sentia-se o rasgo!... Via-se luz nas cabeças!... E depois, menino, havia -muitissimo boas mulheres. - -Os hombros descahiam-lhe na saudade d'esse mundo perdido. E parecia mais -lugubre, com a sua grenha d'inspirado sahindo-lhe de sob as abas largas -do chapéo velho, a sobrecasaca coçada e mal feita collando-se-lhe -lamentavelmente ás ilhargas. - -Um momento caminharam em silencio. Depois, na rua das Janellas Verdes, o -Alencar _quiz refrescar_. Entraram n'uma pequena venda, onde a mancha -amarella d'um candieiro de petroleo destacava n'uma penumbra de -subterraneo, allumiando o zinco humido do balcão, garrafas nas -prateleiras, e o vulto triste da patroa com um lenço amarrado nos -queixos. Alencar parecia intimo no estabelecimento: apenas soube que a -sr.^a Candida estava com dôr de dentes, aconselhou logo remedios, -familiar, descido das nuvens romanticas, com os cotovellos sobre o -balcão. E quando Carlos quiz pagar a canna branca zangou-se, bateu a sua -placa de dois tostões sobre o zinco polido, exclamou, com nobreza: - ---Eu é que faço a honra da bodega, meu Carlos! Nos palacios os outros -pagarão... Cá na taberna pago eu! - -Á porta tomou o braço de Carlos. Depois d'alguns passos lentos no -silencio da rua, parou de novo, e murmurou n'uma voz vaga, -contemplativa, como repassada da vasta solemnidade da noite: - ---Aquella Rachel Cohen é divinamente bella, menino! Tu conhecel'a? - ---De vista. - ---Não te faz lembrar uma mulher da Biblia? Não digo lá uma d'essas -viragos, uma Judith, uma Dalila... Mas um d'esses lyrios poeticos da -Biblia... É seraphica! - -Era agora a paixão platonica do Alencar, a sua dama, a sua Beatriz... - ---Tu viste ha tempos, no _Diario Nacional_, os versos que eu lhe fiz? - - - «Abril chegou! Sê minha» - Dizia o vento á rosa. - - -Não me sahiu mau! Aqui ha uma maliciasinha: _Abril chegou, sê minha_... -Mas logo: _dizia o vento á rosa_. Comprehendes? Calhou bem este effeito. -Mas não imagines lá outras cousas, ou que lhe faço a côrte... Basta ser -a mulher do Cohen, um amigo, um irmão... E a Rachel, para mim, -coitadinha, é como uma irmã... Mas é divina. Aquelles olhos, filho, um -velludo liquido!... - -Tirou o chapeu, refrescou a fronte vasta. Depois n'outro tom, e como a -custo: - ---Aquelle Ega tem muito talento... Vae lá muito aos Cohens... A Rachel -acha-lhe graça... - -Carlos parára, estavam defronte do Ramalhete. Alencar deu um olhar á -severa frontaria de convento, adormecida, sem um ponto de luz. - ---Tem bom ar esta vossa casa... Pois entra tu, meu rapaz, que eu vou -andando por aqui para a minha toca. E quando quizeres, filho, lá me tens -na rua do Carvalho, 52, 3.^o andar. O predio é meu, mas eu occupo o -terceiro andar. Comecei por habitar no primeiro, mas tenho ido -trepando... A unica cousa mesmo que tenho trepado, meu Carlos, é de -andares... - -Teve um gesto, como desdenhando essas miserias. - ---E has de ir lá jantar um dia. Não te posso dar um banquete, mas has de -ter uma sopa e um assado... O meu Matheus, um preto, (um amigo!) que me -serve ha muito anno, quando ha que cosinhar, sabe cosinhar! Fez muito -jantar a teu pae, ao meu pobre Pedro... Que aquillo foi casa de alegria, -meu rapaz. Dei lá cama e mesa, e dinheiro para a algibeira, a muita -d'essa canalha que hoje por ahi trota em coupé da companhia e de correio -atraz... E agora, quando me avistam, voltam para o lado o focinho... - ---Isso são imaginações, disse Carlos com amisade. - ---Não são, Carlos, respondeu o poeta, muito grave, muito amargo. Não -são. Tu não sabes a minha vida. Tenho soffrido muito repellão, rapaz. E -não o merecia! Palavra, que o não merecia. - -Agarrou o braço de Carlos, e com a voz abalada: - ---Olha que esses homens que por ahi figuram embebedavam-se comigo, -emprestei-lhes muito pinto, dei-lhes muita ceia... E agora são -ministros, são embaixadores, são personagens, são o diabo. Pois -offereceram-te elles um bocado do _bolo_ agora que o teem na mão? Não. -Nem a mim. Isto é duro, Carlos, isto é muito duro, meu Carlos. E que -diabo, eu não queria que me fizessem conde, nem que me dessem uma -embaixada... Mas ahi alguma cousa n'uma secretaria... Nem um chavelho! -Emfim, ainda há para o bocado do pão, e para a meia onça do tabaco... -Mas esta ingratidão tem-me feito cabellos brancos... Pois não te quero -massar mais, e que Deus te faça feliz como tu mereces, meu Carlos! - ---Tu não queres subir um bocado, Alencar? - -Tanta franqueza enterneceu o poeta. - ---Obrigado, rapaz, disse elle, abraçando Carlos. E agradeço-te isso, -porque sei que vem do coração... Todos vocês teem coração... Já teu pae -o tinha, e largo, e grande como o d'um leão! E agora crê uma cousa: é -que tens aqui um amigo. Isto não é palavriado, isto vem de dentro... -Pois adeus, meu rapaz. Queres tu um charuto? - -Carlos acceitou logo, como um presente do ceu. - ---Então ahi tens um charuto, filho! exclamou Alencar com enthusiasmo. - -E aquelle charuto dado a um homem tão rico, ao dono do Ramalhete, -fazia-o por um momento voltar aos tempos em que n'esse Marrare elle -estendia em redor a charuteira cheia, com o seu grande ar de Manfredo -triste. Interessou-se então pelo charuto. Accendeu elle mesmo um -phosphoro. Verificou se ficava bem acceso. E que tal, charuto rasoavel? -Carlos achava um excellente charuto! - ---Pois ainda bem que te dei um bom charuto! - -Abraçou-o outra vez; e estava batendo uma hora, quando elle emfim se -affastou, mais ligeiro, mais contente de si, trauteando um trecho de -_fado_. - - -Carlos no seu quarto, antes de se deitar, acabando o pessimo charuto do -Alencar estirado n'uma chaise-longue, em quanto Baptista lhe fazia uma -chavena de chá, ficou pensando n'esse estranho passado que lhe evocara o -velho lyrico... - -E era sympathico o pobre Alencar! Com que cuidado exagerado, ao fallar -de Pedro, d'Arroios, dos amigos e dos amores d'então, elle evitara -pronunciar sequer o nome de Maria Monforte! Mais de uma vez, pelo Aterro -fóra, estivera para lhe dizer:--pódes fallar da mamã, amigo Alencar, que -eu sei perfeitamente que ella fugiu com um italiano! - -E isto fêl-o insensivelmente recordar da maneira como essa lamentavel -historia lhe fôra revelada, em Coimbra, n'uma noite de troça, quasi -grotescamente. Por que o avô, obdecendo á carta testamentaria de Pedro, -contara-lhe um romance decente: um casamento de paixão, -incompatibilidades de naturezas, uma separação cortez, depois a retirada -da mamã com a filha para a França, onde tinham morrido ambas. Mais nada. -A morte de seu pae fôra-lhe apresentada sempre como o brusco remate -d'uma longa nevrose... - -Mas Ega sabia tudo, pelos tios... Ora uma noite tinham ceiado ambos; Ega -muito bebedo, e n'um accesso de idealismo, lançara-se n'um paradoxo -tremendo, condemnando a honestidade das mulheres como origem da -decadencia das raças: e dava por prova os bastardos, sempre -intelligentes, bravos, gloriosos! Elle, Ega, teria orgulho se sua mãe, -sua propria mãe, em logar de ser a santa burgueza que resava o terço á -lareira, fosse como a mãe de Carlos, uma inspirada, que por amor d'um -exilado abandonara fortuna, respeitos, honra, vida! Carlos, ao ouvir -isto, ficara petrificado, no meio da ponte, sob o calmo luar. Mas não -poude interrogar o Ega, que já taramellava, agoniado, e que não tardou a -vomitar-lhe ignobilmente nos braços. Teve de o arrastar á casa das -Seixas, despil-o, aturar-lhe os beijos e a ternura borracha, até que o -deixou abraçado ao travesseiro, babando-se, balbuciando--«que queria ser -bastardo, que queria que a mamã fosse uma marafona!...» - -E elle mal podera dormir essa noite, com a idéa d'aquella mãe, tão outra -do que lhe haviam contado, fugindo nos braços d'um desterrado--um polaco -talvez! Ao outro dia, cedo, entrava pelo quarto do Ega, a pedir-lhe, -pela sua grande amisade, a verdade toda... - -Pobre Ega! Estava doente: fez-se branco como o lenço que tinha amarrado -na cabeça com pannos de agua sedativa: e não achava uma palavra, -coitado! Carlos, sentado na cama, como nas noites de cavaco, -tranquillisou-o. Não vinha alli offendido, vinha alli curioso! -Tinham-lhe occultado um episodio extraordinario da sua gente, que diabo, -queria sabel-o! Havia romance? Para alli o romance! - -Ega, então, lá ganhou animo, lá balbuciou a sua historia--a que ouvira -ao tio Ega--a paixão de Maria por um principe, a fuga, o longo silencio -d'annos que se fizera sobre ella... - -Justamente as ferias chegavam. Apenas em S.^{ta} Olavia, Carlos contou -ao avô a bebedeira do Ega, os seus discursos doidos, aquella revelação -vinda entre arrotos. Pobre avô! Um momento nem poude fallar--e a voz por -fim veiu-lhe tão debil e dolente como se dentro do peito lhe estivesse -morrendo o coração. Mas narrou-lhe, detalhe a detalhe, o feio romance -todo até áquella tarde em que Pedro lhe apparecera, livido, coberto de -lama, a cahir-lhe nos braços, chorando a sua dôr com a fraqueza d'uma -creança.--E o desfecho d'esse amor culpado, accrescentara o avô, fôra a -morte da mãe em Vienna d'Austria, e a morte da pequenita, da neta que -elle nunca vira, e que a Monforte levara... E eis ahi tudo. E assim, -aquella vergonha domestica estava agora enterrada, alli, no jazigo de -S.^{ta} Olavia, e em duas sepulturas distantes, em paiz estrangeiro... - -Carlos recordava-se bem que n'essa tarde, depois da melancolica conversa -com o avô, devia elle experimentar uma egoa ingleza: e ao jantar não se -fallou senão da egoa que se chamava _Sultana_. E a verdade era que d'ahi -a dias tinha esquecido a mamã. Nem lhe era possivel sentir por esta -tragedia senão um interesse vago e como litterario. Isso passara-se -havia vinte e tantos annos, n'uma sociedade quasi desapparecida. Era -como o episodio historico de uma velha chronica de familia, um -antepassado morto em Alcacer-Kebir, ou uma das suas avós dormindo n'um -leito real. Aquillo não lhe dera uma lagrima, não lhe pozera um rubor na -face. De certo, prefiriria poder orgulhar-se de sua mãe, como d'uma rara -e nobre flôr de honra: mas não podia ficar toda a vida a amargurar-se -com os seus erros. E porque? A sua honra d'elle não dependia dos -impulsos falsos ou torpes que tivera o coração d'ella. Peccara, morrera, -acabou-se. Restava, sim, aquella idéa do pae, findando n'uma poça de -sangue, no desespero d'essa traição. Mas não conhecera seu pae: tudo o -que possuia d'elle e da sua memoria, para amar, era uma fria tela mal -pintada, pendurada no quarto de vestir, representando um moço moreno, de -grandes olhos, com luvas de camurça amarellas e um chicote na mão... De -sua mãe não ficara nem um daguerreotypo, nem sequer um contorno a lapis. -O avô tinha-lhe dito que era loura. Não sabia mais nada. Não os -conhecera; não lhes dormira nos braços; nunca recebera o calor da sua -ternura. Pae, mãe, eram para elle como symbolos d'um culto convencional. -O papá, a mamã, os seres amados, estavam alli todos--no avô. - -Baptista trouxera o chá, o charuto do Alencar acabara;--e elle -continuava na chaise-longue, como amollecido n'estas recordações, e -cedendo já, n'um meio adormecimento, á fadiga do longo jantar... E -então, pouco a pouco, diante das suas palpebras cerradas, uma visão -surgiu, tomou côr, encheu todo o aposento. Sobre o rio, a tarde morria -n'uma paz elysia. O peristillo do Hotel Central alargava-se, claro -ainda. Um preto grisalho vinha, com uma cadelinha no collo. Uma mulher -passava, alta, com uma carnação eburnea, bella como uma Deusa, n'um -casaco de velludo branco de Genova. O Craft dizia ao seu lado -_très-chic_. E elle sorria, no encanto que lhe davam estas imagens, -tomando o relevo, a linha ondeante, e a coloração de cousas vivas. - -Eram tres horas quando se deitou. E apenas adormecera, na escuridão dos -cortinados de seda, outra vez um bello dia de inverno morria sem uma -aragem, banhado de côr de rosa: o banal peristillo de Hotel alargava-se, -claro ainda na tarde; o escudeiro preto voltava, com a cadellinha nos -braços; uma mulher passava, com um casaco de velludo branco de Genova, -mais alta que uma creatura humana, caminhando sobre nuvens, com um -grande ar de Juno que remonta ao Olympo: a ponta dos seus sapatos de -verniz enterrava-se na luz do azul, por trás as saias batiam-lhe como -bandeiras ao vento. E passava sempre... O Craft dizia _très-chic_. -Depois tudo se confundia, e era só o Alencar, um Alencar colossal, -enchendo todo o céu, tapando o brilho das estrellas com a sua -sobrecasaca negra e mal feita, os bigodes esvoaçando ao vendaval das -paixões, alçando os braços, clamando no espaço: - - - Abril chegou, sê minha! - - - - -VII - - -No Ramalhete, depois do almoço, com as tres janellas do escriptoro -abertas bebendo a tepida luz do bello dia de março, Affonso da Maia e -Craft jogavam uma partida de xadrez ao pé da chaminé já sem lume, agora -cheia de plantas, fresca e festiva como um altar domestico. N'uma facha -obliqua de sol, sobre o tapete, o Reverendo Bonifacio, enorme e fôfo, -dormia de leve a sua sesta. - -Craft tornara-se, em poucas semanas, intimo no Ramalhete. Carlos e elle, -tendo muitas similitudes de gosto e de idéas, o mesmo fervor pelo -_bric-a-brac_ e pelo _bibelot_, o uso apaixonado da esgrima, egual -dilettantismo d'espirito, uniram-se immediatamente em relações de -superficie, faceis e amaveis. Affonso, por seu lado começara logo a -sentir uma estima elevada por aquelle gentleman de boa raça ingleza, -como elle os admirava, cultivado e forte, de maneiras graves, de habitos -rijos, sentindo finamente e pensando com rectidão. Tinham-se encontrado -ambos enthusiastas de Tacito, de Macaulay, de Burke, e até dos poetas -lakistas; Craft era grande no xadrez; o seu carater ganhara nas longas e -trabalhadas viagens a rica solidez d'um bronze; para Affonso da Maia -«aquillo era deveras um homem». Craft, madrugador, sahia cedo dos -Olivaes a cavallo, e vinha assim ás vezes almoçar de surpreza com os -Maias; por vontade de Affonso jantaria lá sempre;--mas ao menos as -noites passava-as invariavelmente no Ramalhete, tendo emfim, como elle -dizia, encontrado em Lisboa um recanto onde se podia conversar bem -sentado, no meio de idéas, e com boa educação. - -Carlos sahia pouco de casa. Trabalhava no seu livro. Aquella revoada de -clientella que lhe dera esperanças d'uma carreira cheia, activa, tinha -passado miseravelmente, sem se fixar; restavam-lhe tres doentes no -bairro; e sentia agora que as suas carruagens, os cavallos, o Ramalhete, -os habitos de luxo, o condemnavam irremediavelmente ao _dillettantismo_. -Já o fino dr. Theodosio lhe dissera um dia, francamente: «você é muito -elegante p'ra medico! As suas doentes, fatalmente, fazem-lhe olho! Quem -é o burguez que lhe vae confiar a esposa dentro d'uma alcova?... Você -aterra o pater-familias!» O laboratorio mesmo prejudicara-o. Os collegas -diziam que o Maia, rico, intelligente, avido de innovações, de -modernismos, fazia sobre os doentes experiencias fataes. Tinha-se -troçado muito a sua idéa, apresentada na _Gazeta Medica_, a prevenção -das epidemias pela inoculação dos virus. Consideravam-no um phantasista. -E elle, então, refugiava-se todo n'esse livro sobre a medicina antiga e -moderna, o _seu livro_, trabalhado com vagares d'artista rico, -tornando-se o interesse intellectual de um ou dous annos. - -N'essa manhã, em quanto dentro proseguia grave e silenciosa a partida de -xadrez, Carlos no terrasso, estendido n'uma vasta cadeira india de -bambu, á sombra do toldo, acabava o seu charuto, lendo uma _Revista_ -ingleza, banhado pela caricia tepida d'aquelle bafo de primavera que -avelludava o ar, fazia já desejar arvores e relvas... - -Ao lado d'elle, n'uma outra cadeira de bambu, tambem de charuto na boca, -o sr. Damaso Salcede percorria o _Figaro_. De perna estirada, n'uma -indolencia familiar, tendo o amigo Carlos ao seu lado, vendo junto ao -terrasso as rosas das roseiras de Affonso, sentindo por trás, atravez -das janellas abertas, o rico e nobre interior do Ramalhete--o filho do -agiota saboreava alli uma d'essas horas deliciosas que ultimamente -encontrava na intimidade dos Maias. - -Logo na manhã seguinte ao jantar do Central, o sr. Salcede fôra ao -Ramalhete deixar os seus bilhetes, objectos complicados e vistosos, -tendo ao angulo, n'uma dobra simulada, o seu retratosinho em -photographia, um capacete com plumas por cima do nome--DAMASO CANDIDO DE -SALCEDE, por baixo as suas honras--Commendador de Christo, ao fundo a -sua adresse--_Rua de S. Domingos, á Lapa_; mas esta indicação estava -riscada, e ao lado, a tinta azul, esta outra mais apparatosa--Grand -Hotel, Boulevard des Capucines, Chambre N.^o 103. Em seguida procurou -Carlos no consultorio, confiou ao creado outro cartão. Emfim, uma tarde, -no Aterro, vendo passar Carlos a pé, correu para elle, pendurou-se -d'elle, conseguiu acompanhal-o ao Ramalhete. - -Ahi, logo desde o pateo, rompeu em admirações extaticas, como dentro -d'um museu, lançando, diante dos tapetes, das faienças e dos quadros, a -sua grande phrase--«_chic_ a valer!» Carlos levou-o para o _fumoir_, -elle aceitou um charuto; e começou a explicar, de perna traçada, algumas -das suas opiniões e alguns dos seus gostos. Considerava Lisboa chinfrin, -e só estava bem em Paris--sobre tudo por causa do genero «femea» de que -em Lisboa se passavam fomes: ainda que n'esse ponto a Providencia não o -tratava mal. Gostava tambem do _bric-a-brac_; mas apanhava-se muita -espiga, e as cadeiras antigas, por exemplo, não lhe pareciam commodas -para a gente se sentar. A leitura entretinha-o, e ninguem o pilhava sem -livros á cabeceira da cama; ultimamente andava ás voltas com Daudet, que -lhe diziam ser muito _chic_, mas elle achava-o confusote. Em rapaz -perdia sempre as noites, até ás quatro ou cinco da madrugada, no -delirio! Agora não, estava mudado e pacato; emfim, não dizia que de vez -em quando não se abandonasse a um excessozinho; mas só em dias duples... -E as suas perguntas foram terriveis. O sr. Maia achava _chic_ ter um -_cab_ inglez? Qual era mais elegante, assim para um rapaz de sociedade -que quizesse ir passar o verão lá fóra, Nice ou Trouville?... Depois ao -sahir, muito serio, quasi commovido, perguntou ao sr. Maia (se o sr. -Maia não fazia segredo) quem era o seu alfaiate. - -E desde esse dia, não o deixou mais. Se Carlos apparecia no theatro, -Damaso immediatamente arrancava-se da sua cadeira, ás vezes na -solemnidade d'uma bella aria, e pisando os botins dos cavalheiros, -amarrotando a compostura das damas, abalava, abria d'estalo a _claque_, -vinha-se installar na frisa, ao lado de Carlos, com a bochecha corada, -camelia na casaca, exhibindo os botões de punho que eram duas enormes -bolas. Uma ou duas vezes que Carlos entrara casualmente no Gremio, -Damaso abandonou logo a partida, indifferente á indignação dos -parceiros, para se vir collar á ilharga do Maia, offerecer-lhe -marrasquino ou charutos, seguil-o de sala em sala como um rafeiro. N'uma -d'essas occasiões, tendo Carlos soltado um trivial gracejo, eis o Damaso -rompendo em risadas soluçantes, rebolando-se pelos sophás, com as mãos -nas ilhargas, a gritar que rebentava! Juntaram-se socios; elle, -suffocado, repetia a pilheria; Carlos fugiu vexado. Chegou a odial-o; -respondia-lhe só com monossyllabos; dava voltas perigosas com o -_dog-cart_ se lhe avistava de longe a bochecha, a coxa roliça. Debalde: -Damaso Candido Salcede filara-o, e para sempre. - -Depois, um dia, Taveira appareceu no Ramalhete com uma extraordinaria -historia. Na vespera, no Gremio (tinham-lhe contado, elle não -presenceara) um sujeito, um Gomes, n'um grupo onde se commentavam os -Maias, erguera a voz, exclamara que Carlos era um asno! Damaso, que -estava ao lado mergulhado na _Ilustração_, levantou-se, muito pallido, -declarou que, tendo a honra de ser amigo do sr. Carlos da Maia, quebrava -a cara com a bengala ao sr. Gomes se elle ousasse babujar outra vez esse -cavalheiro; e o sr. Gomes tragou, com os olhos no chão, a affronta, por -ser rachitico de nascença--e porque era inquilino de Damaso e andava -muito atrasado na renda. Affonso da Maia achou este feito brilhante: e -foi por desejo seu que Carlos trouxe o sr. Salcede uma tarde a jantar ao -Ramalhete. - -Este dia pareceu bello a Damaso como se fosse feito de azul e oiro. Mas -melhor ainda foi a manhã em que Carlos, um pouco incommodado e ainda -deitado, o recebeu no quarto, como entre rapazes... D'ahi datava a sua -intimidade: começou a tratar Carlos por _você_. Depois, n'essa semana, -revelou aptidões uteis. Foi despachar á alfandega (Villaça achava-se no -Alemtejo) um caixote de roupa para Carlos. Tendo apparecido n'um momento -em que Carlos copiava um artigo para a _Gazeta Medica_ offereceu a sua -boa letra, letra prodigiosa, de uma belleza lithographica; e d'ahi por -diante passava horas á banca de Carlos, applicado e vermelho, com a -ponta da lingua de fóra, o olho redondo, copiando apontamentos, -transcripções de Revistas, materiaes para o livro... Tanta dedicação -merecia um _tu_ de familiaridade. Carlos deu-lh'o. - -Damaso, no entanto, imitava o Maia com uma minuciosidade inquieta, desde -a barba que começava agora a deixar crescer até á forma dos sapatos. -Lançara-se no _bric-a-brac_. Trazia sempre o _coupé_ cheio de lixos -archeologicos, ferragens velhas, um bocado de tijolo, a aza rachada de -um bule... E se avistava um conhecido, fazia parar, entreabria a -portinhola como um addito de sacrario, exhibia a preciosidade: - ---Que te parece? _Chic_ a valer!... Vou mostral-a ao Maia. Olha-me isto, -hein! Pura meia edade, do reinado de Luiz XIV. O Carlos vae-se roer de -inveja! - -N'esta intimidade de rosas havia todavia para Damaso horas pesadas. Não -era divertido assistir em silencio, do fundo d'uma poltrona, ás -infindaveis discussões de Carlos e de Craft sobre arte e sobre sciencia. -E, como elle confessou depois, chegara a encavacar um pouco quando o -levaram ao laboratorio para fazer no seu corpo experiencias de -electricidade...--«Pareciam dois demonios engalphinhados em mim, disse -elle á sr.^a condessa de Gouvarinho; e eu então que embirro com o -spiritismo!...» - -Mas tudo isto ficava regiamente compensado, quando á noite, n'um sophá, -do Gremio, ou ao chá n'uma casa amiga, elle podia dizer, correndo a mão -pelo cabello: - ---Passei hoje um dia divino com o Maia. Fizemos armas, _bric-a-brac_, -discutimos... Um dia, _chic_! Ámanhã tenho uma manhã de trabalho com o -Maia... Vamos ás colxas. - -N'esse domingo, justamente, deviam ir ás colxas, ao Lumiar. Carlos -concebera um _boudoir_, todo revestido de colxas antigas de setim, -bordadas a dous tons especiaes, perola e botão d'ouro. O tio Abrahão -esquadrinhava-as por toda a Lisboa e pelos suburbios; e n'essa manhã -viera annunciar a Carlos a existencia de duas preciosidades, _so -beautiful! oh! so lovely!_ em casa de umas senhoras Medeiros que -esperavam o sr. Maia ás duas horas... - -Já tres vezes Damaso tossira, olhara o relogio,--mas, vendo Carlos -confortavelmente mergulhado na _Revista_, recahia tambem na sua -indolencia de homem _chic_, investigando o _Figaro_. Emfim, dentro, o -relogio Luiz XV cantou argentinamente as duas... - ---Esta é boa, exclamou Damaso ao mesmo tempo, com uma palmada na coxa. -Olha quem aqui me apparece! A Suzanna! A minha Suzanna! - -Carlos não despegara os olhos da pagina. - ---Oh Carlos, accrescentou elle, fazes favor? Ouve. Ouve esta que é boa. -Esta Suzanna é uma pequena que eu tive em Paris... Um romance! -Apaixonou-se por mim, quiz-se envenenar, o diabo!... Pois diz aqui o -_Figaro_ que debutou nas _Folies-Bergeres_. Falla n'ella... É boa, hein? -E era rapariguita _chic_... E o _Figaro_ diz que ella teve aventuras, -naturalmente sabia o que se passou comigo... Todo o mundo sabia em -Paris. Ora a Suzanna!... Tinha bonitas pernas. E custou-me a vêr livre -d'ella! - ---Mulheres! murmurou Carlos, refugiando-se mais no fundo da _Revista_. - -Damaso era interminavel, torrencial, inundante a fallar das «suas -conquistas», n'aquella solida satisfação em que vivia de que todas as -mulheres, desgraçadas d'ellas, soffriam a fascinação da sua pessoa e da -sua toilette. E em Lisboa, realmente, era exacto. Rico, estimado na -sociedade, com _coupè_ e parelha, todas as meninas tinham para elle um -olhar doce. E no _démi-monde_, como elle dizia, «tinha prestigio a -valer.» Desde moço fôra celebre, na capital, por pôr casas a -hespanholas; a uma mesmo dera carruagem ao mez; e este fausto -excepcional tornara-o bem depressa o D. João V dos prostibulos. -Conhecia-se tambem a sua ligação com a viscondessa da Gafanha, uma -carcassa esgalgada, caiada, rebocada, gasta por todos os homens validos -do paiz: ía nos cincoenta annos, quando chegou a vez do Damaso--e não -era decerto uma delicia ter nos braços aquelle esqueleto rangente e -lubrico; mas dizia-se que em nova dormira n'um leito real, e que -augustos bigodes a tinham lambuzado; tanta honra fascinou Damaso, e -collou-se-lhe ás saias com uma fidelidade tão sabuja, que a decrepita -creatura, farta, enojada já, teve de o enxotar á força e com desfeitas. -Depois gozou uma tragedia: uma actriz do _Principe Real_, uma montanha -de carne, apaixonada por elle, n'uma noite de ciume e de genebra, -engoliu uma caixa de phosphoros; naturalmente d'ahi a horas estava boa, -tendo vomitado abominavelmente sobre o collete do Damaso que chorava ao -lado--mas desde então este homem de amor julgou-se fatal! Como elle -dizia a Carlos, depois de tanto drama na sua vida quasi tremia, tremia -verdadeiramente de fitar uma mulher... - ---Passaram-se scenas com esta Suzanna! murmurou elle depois de um -silencio em que estivera catando pelliculas nos beiços. - -E, com um suspiro, retomou o _Figaro_. Houve outra vez um silencio no -terrasso. Dentro, a partida continuava. Para lá da sombra do toldo, -agora, o sol ía aquecendo, batendo a pedra, os vasos de louça branca, -n'uma refracção d'ouro claro em que palpitavam as azas das primeiras -borboletas voando em redor dos craveiros sem flor: em baixo, o jardim -verdejava, immovel na luz, sem um bolir de ramo, refrescado pelo cantar -do repuxo, pelo brilho liquido da agoa do tanque, avivado, aqui e além, -pelo vermelho ou o amarello das rosas, pela carnação das ultimas -camelias... O bocado de rio que se avistava entre os predios era azul -ferrete como o céu: e entre rio e céu o monte punha uma grossa barra -verde-escura, quasi negra no resplendor do dia, com os dois moinhos -parados no alto, as duas casinhas alvejando em baixo, tão luminosas e -cantantes que pareciam viver. Um repouso dormente de domingo envolvia o -bairro: e, muito alto, no ar, passava o claro repique d'um sino. - ---O duque de Norfolk chegou a Paris, disse Damaso n'um tom entendido e -traçando a perna. O duque de Norfolk é _chic_, não é verdade, ó Carlos? - -Carlos, sem erguer os olhos, lançou para os céus um gesto, como -exprimindo o infinito do _chic_! - -Damaso largara o _Figaro_ para metter um charuto na boquilha; depois -desapertou os ultimos botões do collete, deu um puchão á camisa para -mostrar melhor a marca que era um S enorme sob uma corôa de conde, e de -palpebra cerrada, com o beiço trombudo, ficou mamando gravemente a -boquilha... - ---Tu estás hoje em belleza, Damaso, disse-lhe Carlos que deixara tambem -a _Revista_ e o contemplava com melancolia. - -Salcede corou de gozo. Escorregou um olhar ao verniz dos sapatos, á meia -côr de carne, e revirando para Carlos o bogalho azulado da orbita: - ---Eu agora ando bem... Mas, muito _blazè_. - -E foi realmente com um ar _blazè_ que se ergueu a ir buscar a uma mesa -de jardim, ao lado, onde estavam jornaes e charutos, a _Gazeta -Illustrada_, «para vêr o que ia pela patria.» Apenas lhe deitou os olhos -soltou uma exclamação. - ---Outro debute? perguntou Carlos. - ---Não, é a besta do Castro Gomes! - -A _Gazeta Illustrada_ annunciava que «o sr. Castro Gomes, o cavalheiro -brasileiro que no Porto fôra victima da sua dedicação por occasião da -desgraça occorrida na Praça Nova, e de que o nosso correspondente J. T. -nos deu uma descripção tão opulenta de colorido realista, acha-se -restabelecido e é hoje esperado no Hotel Central. Os nossos parabens ao -arrojado gentleman.» - ---Ora está s. ex.^a restabelecida! exclamou Damaso, atirando para o lado -o jornal. Pois deixa estar, que agora é a occasião de lhe dizer na cara -o que penso... Aquelle pulha! - ---Tu exageras, murmurou Carlos, que se apoderara vivamente do jornal, e -relia a noticia. - ---Ora essa! exclamou Damaso, erguendo-se. Ora essa! Queria vêr, se fosse -comtigo... É uma besta! É um selvagem! - -E repetiu mais uma vez a Carlos essa historia que o magoava. Desde a sua -chegada de Bordeus, logo que o Castro Gomes se installara no Hotel -Central elle fôra deixar-lhe bilhetes duas vezes--a ultima na manhã -seguinte ao jantar do Ega. Pois bem, s. ex.^a não se dignara agradecer a -visita! Depois elles tinham partido para o Porto; fôra ahi que, -passeiando só na Praça Nova, vendo a parelha de uma caleche desbocada, -duas senhoras em gritos, Castro Gomes se lançára ao freio dos -cavallos--e, cuspido contra as grades, tinha deslocado um braço. Teve de -ficar no Porto, no Hotel, cinco semanas. E elle immediatamente (sempre -com o olho na mulher) mandara-lhe dois telegrammas: um de sentimento, -lamentando; outro de interesse, pedindo noticias. Nem a um, nem a outro, -o animal respondeu! - ---Não, isso--exclamava Salcede, passeiando pelo terraço, e recordando -estas injurias--hei de lhe fazer uma desfeita!... Não pensei ainda o -quê, mas ha de amargar-lhe... Lá isso, desconsiderações não admitto a -ninguem! a ninguem! - -Arredondava o olho, ameaçador. Desde o seu feito no Gremio, quando o -rachitico apavorado emmudecera diante d'elle, Damaso ia-se tornando -feroz. Pela menor cousa fallava em «quebrar caras.» - ---A ninguem! repetia elle, com puxões ao collete. Desconsiderações, a -ninguem! - -N'esse momento ouviu-se dentro, no escriptorio, a voz rapida do Ega--e -quasi immediatamente elle appareceu, com um ar de pressa, e atarantado. - ---Olá, Damasosinho!... Carlos, dás-me aqui em baixo uma palavra? - -Desceram do terraço, penetraram no jardim, até junto de duas olaias em -flôr. - ---Tu tens dinheiro?--foi ahi logo a exclamação anciosa do Ega. - -E contou a sua terrivel atrapalhação. Tinha uma letra de noventa libras -que se vencia no dia seguinte. Além d'isso, vinte e cinco libras que -devia ao Eusebiosinho, e que elle lhe reclamara n'uma carta indecente: e -era isto que desesperava o Ega... - ---Quero pagar a esse canalha, e quando o vir collar-lhe a carta á cara -com um escarro. Além d'isso a letra! E tenho para tudo isto quinze -tostões... - ---O Eusebiosinho é homem de ordem... Emfim, queres cento e quinze -libras, disse Carlos. - -Ega hesitou, com uma côr no rosto. Já devia dinheiro a Carlos. Estava-se -sempre dirigindo áquella amisade, como a um cofre inexgotavel... - ---Não, bastam-me oitenta. Ponho o relogio no prego, e a pelissa, que já -não faz frio... - -Carlos sorriu, subiu logo ao quarto a escrever um cheque--em quanto Ega -procurava cuidadosamente um bonito botão de rosa para florir a -sobrecasaca. Carlos não tardou, trazendo na mão o cheque, que alargara -até cento e vinte libras, para o Ega ficar _armado_... - ---Seja pelo amor de Deus, menino! disse o outro, embolsando o papel, com -um bello suspiro de allivio. - -Immediatamente trovejou contra o Eusebiosinho, esse villão! Mas tinha já -uma vingança. Ia remetter-lhe a somma toda em cobre, n'um sacco de -carvão, com um rato morto dentro, e um bilhete, começando -assim:--_ascorosa lombriga e immunda osga, ahi te atiro ao focinho_, -etc... - ---Como tu podes consentir aqui, usando as tuas cadeiras, respirando o -teu ar, aquelle ser repulsivo!... - -Mas era até sujo mencionar o Eusebiosinho!... Quiz saber dos trabalhos -de Carlos, do grande livro. Fallou tambem do seu _Atomo_:--e, por fim, -n'uma voz differente, applicando o monocolo a Carlos: - ---Dize-me outra cousa. Porque não tens tu voltado aos Gouvarinhos? - -Carlos tinha só esta rasão: não se divertia lá. - -Ega encolheu os hombros. Parecia-lhe aquillo uma puerilidade... - ---Tu não percebeste nada, exclamou elle. Aquella mulher tem uma paixão -por ti... Basta que se pronuncie o teu nome, sobe-lhe todo o sangue á -cara. - -E como Carlos ria, incredulo, Ega, muito grave, deu a sua palavra de -honra. Ainda na vespera, estava-se fallando de Carlos, e elle -espreitara-a. Sem ser um Balzac, nem uma broca de observação, tinha a -visão correcta: pois bem, lá lhe vira na face, nos olhos, toda a -expressão de um sentimento sincero... - ---Não estou a fazer romance, menino... Gosta de ti, palavra! Tenl-a -quando quiseres. - -Carlos achava deliciosa aquella naturalidade mephistophelica com que Ega -o induzia a quebrar uma infinidade de leis religiosas, moraes, sociaes, -domesticas... - ---Ah bem, exclamou Ega, se tu me vens com essa _blague_ da cartilha e do -codigo, então não fallemos mais n'isso! Se apanhaste a sarna da virtude, -com comichões por qualquer cousa, então era uma vez um homem, vae para a -Trappa commentar o _Ecclesiastes_... - ---Não--disse Carlos, sentando-se n'um banco sob as arvores, ainda com -uns restos da preguiça do terraço--o meu motivo não é tão nobre. Não vou -lá, porque acho o Gouvarinho um massador. - -Ega teve um sorriso mudo. - ---Se a gente fosse a fugir das mulheres que tem maridos massadores... - -Sentou-se ao lado de Carlos, começou a riscar em silencio o chão areado; -e sem erguer os olhos, deixando cahir as palavras, uma a uma, com -melancolia: - ---Antes de hontem, toda a noite, a pé firme, das dez á uma, estive a -ouvir a historia da demanda do Banco Nacional! - -Era quasi uma confidencia, e como o desabafo dos tedios secretos em que -se debatia, n'aquelle mundo dos Cohens, o seu temperamento de artista. -Carlos enterneceu-se. - ---Meu pobre Ega, então toda a demanda? - ---Toda! E a leitura do relatorio da assembléa geral! E interessei-me! E -tive opiniões!... A vida é um inferno. - -Subiram ao terraço. Damaso reoccupara a sua cadeira de vime, e, com um -canivetesinho de madreperola, estava tratando das unhas. - ---Então decidiu-se? perguntou elle logo ao Ega. - ---Decidiu-se hontem! Não ha _cotillon_. - -Tratava-se de uma grande soirée mascarada que íam dar os Cohens, no dia -dos annos de Rachel. A idéa d'esta festa sugerira-a o Ega, ao principio -com grandes proporções de gala artistica, a ressurreição historica de um -sarau no tempo de D. Manuel. Depois viu-se que uma tal festa era -irrealisavel em Lisboa--e desceu-se a um plano mais sobrio, um simples -baile _costumé_, a capricho... - ---Tu, Carlos, já decidiste como vaes? - ---De dominó, um severo dominó preto, como convém a um homem de -sciencia... - ---Então, exclamou Ega se se trata de sciencia, vae de rabona e chinellas -de ourello!... A sciencia faz-se em casa e de chinellas... Nunca ninguem -descobriu uma lei do Universo mettido dentro de um dominó... Que -sensaboria, um dominó!... - -Justamente a sr.^a D. Rachel desejava evitar, no seu baile, essa -monotonia dos dominós. E em Carlos não havia desculpa. Não o prendiam -vinte ou trinta libras; e, com aquelle esplendido physico de cavalleiro -da Renascença, devia ornar a sala pelo menos com um soberbo Francisco I. - ---É n'isto, ajuntava elle com fogo, que está a belleza de uma soirée de -mascaras! Não lhe parece, você, Damaso? Cada um deve aproveitar a sua -figura... Por exemplo, a Gouvarinho vae muito bem. Teve uma inspiração: -com aquelle cabello ruivo, o nariz curto, as maçãs do rosto salientes, é -Margarida de Navarra... - ---Quem é Margarida de Navarra? perguntou Affonso da Maia, apparecendo no -terraço com Craft. - ---Margarida, a duqueza d'Angouleme, a irmã de Francisco I, a Margarida -das Margaridas, a perola dos Valois, a padroeira da Renascença, a sr.^a -condessa de Gouvarinho!... - -Rio muito, foi abraçar Affonso, explicou-lhe que se discutia o baile dos -Cohens. E appellou logo para elle, para o Craft tambem, acerca do -nefando dominó de Carlos. Não estava aquelle mocetão, com os seus ares -de homem d'armas, talhado para um soberbo Francisco I, em toda a gloria -de Marignan? - -O velho deu um olhar enternecido á belleza do neto. - ---Eu te digo, John, talvez tenhas razão; mas Francisco I, rei de França, -não se póde apear de uma tipoia e entrar n'uma sala, só. Precisa côrte, -arautos, cavalleiros, damas, bobos, poetas... Tudo isso é difficil. - -Ega curvou-se. Sim senhor, d'accordo! Alli estava uma maneira -intelligente de comprehender o baile dos Cohens! - ---E tu, de que vaes? perguntou-lhe Affonso. - -Era um segredo. Tinha a theoria de que, n'aquellas festas, um dos -encantos consistia na surpreza: dois sujeitos por exemplo que tendo -jantado juntos, de jaquetão, no Bragança, se encontram á noite, um na -purpura imperial de Carlos V, outro com a escopeta de bandido da -Calabria... - ---Eu cá não faço segredo, disse ruidosamente Damaso. Eu cá vou de -selvagem. - ---Nú? - ---Não. De Nelusko na _Africana_. Oh sr. Affonso da Maia, que lhe parece? -Acha _chic_? - ---_Chic_ não exprime bem, disse Affonso sorrindo. Mas _grandioso_, é, -decerto. - -Quizeram então saber como ía Craft. Craft não ía de cousa nenhuma; Craft -ficava nos Olivaes, de robe de chambre. - -Ega encolheu os hombros com tedio, quasi com colera. Aquellas -indifferenças pelo baile dos Cohens feriam-n'o como injurias pessoaes. -Elle estava dando a essa festa o seu tempo, estudos na bibliotheca, um -trabalho fumegante de imaginação; e pouco a pouco ella tomava aos seus -olhos a importancia de uma celebração d'arte, provando o genio de uma -cidade. Os «dominós», as abstenções, pareciam-lhe evidencias de -inferioridade de espirito. Citou então o exemplo do Gouvarinho: alli -estava um homem de occupações, de posição politica, nas vesperas de ser -ministro, que não só ía ao baile, mas estudara o seu _costume_: -estudara, e ía muito bem, ía de _marquez de Pombal_! - ---Reclame para ser ministro, disse Carlos. - ---Não o precisa, exclamou Ega. Tem todas as condições para ser ministro: -tem voz sonora, leu Mauricio Block, está encalacrado, e é um asno!... - -E no meio das risadas dos outros, elle, arrependido de demolir assim um -cavalheiro que se interessava pelo baile dos Cohens, acudiu logo: - ---Mas é muito bom rapaz, e não se dá ares nenhuns! É um anjo! - -Affonso reprehendia-o, risonho e paternal: - ---Ora tu, John, que não respeitas nada... - ---O desacato é a condição do progresso, sr. Affonso da Maia. Quem -respeita decahe. Começa-se por admirar o Gouvarinho, vae-se a gente -esquecendo, chega a reverenciar o monarcha, e quando mal se precata tem -descido a venerar o Todo-Poderoso!... É necessario cautela! - ---Vae-te embora, John, vae-te embora! Tu és o proprio Anti-Christo... - -Ega ía responder, exhuberante e em veia--mas dentro o tinir argentino do -relogio Luiz XV, com o seu gentil minuete, emmudeceu-o. - ---O que? quatro horas! - -Ficou aterrado, verificou no seu proprio relogio, deu em redor rapidos, -silenciosos apertos de mão, desappareceu como um sopro. - -Todos de resto estavam pasmados de ser tão tarde! E assim passara a hora -de ir ao Lumiar vêr as colxas antigas das senhoras Medeiros... - ---Quer você então meia hora de florete, Craft? perguntou Carlos. - ---Seja: e é necessario dar a lição ao Damaso... - ---É verdade, a lição...--murmurou Damaso, sem enthusiasmo, com um -sorriso murcho. - -A sala de esgrima era uma casa terrea, debaixo dos quartos de Carlos, -com janellas gradeadas para o jardim, por onde resvalava, atravez das -arvores, uma luz esverdinhada. Em dias enevoados era necessario accender -os quatro bicos de gaz. Damaso seguiu, atraz dos dois, com uma lentidão -de rez desconfiada. - -Aquellas lições, que elle sollicitara por amor do _chic_, íam-se-lhe -tornando odiosas. E n'essa tarde, como sempre, apenas se enchumaçou com -o plastrão d'anta, se cobriu com a caraça de arame, começou a -transpirar, a fazer-se branco. Diante d'elle Craft, de florete na mão, -parecia-lhe cruel e bestial, com aquelles seus hombros de Hercules -sereno, o olhar claro e frio. Os dois ferros rasparam. Damaso estremeceu -todo. - ---Firme, gritou-lhe Carlos. - -O desgraçado equilibrava-se sobre a perna roliça; o florete de Craft -vibrou, rebrilhou, voou sobre elle; Damaso recuou, suffocado, -cambaleando e com o braço frouxo... - ---Firme! berrava-lhe Carlos. - -Damaso, exhausto, abaixou a arma. - ---Então que querem vocês, é nervoso! É por ser a brincar... Se fosse a -valer, vocês veriam. - -Assim acabava sempre a lição; e ficava depois abatido sobre uma banqueta -de marroquim, arejando-se com o lenço, pallido como a cal dos muros. - ---Vou-me até casa, disse elle d'ahi a pouco, fatigado de tanto crusar de -ferro. Queres alguma cousa, Carlinhos? - ---Quero que venhas cá jantar ámanhã... Tens o marquez. - ---_Chic_ a valer... Não faltarei. - -Mas faltou. E, como toda essa semana aquelle moço ponctual não appareceu -no Ramalhete, Carlos sinceramente inquieto, julgando-o moribundo, foi -uma manhã a casa d'elle, á Lapa. Mas ahi, o creado (um gallego -achavascado e triste, que, desde as suas relações com os Maias, Damaso -trazia entalado n'uma casaca e mortalmente aperreado em sapatos de -verniz) affirmou-lhe que o sr. Damasosinho estava de boa saude, e até -sahira a cavallo. Carlos veiu então ao tio Abrahão; o tio Abrahão tambem -não avistara, havia dias, aquelle bom senhor Salcede, _that beautiful -gentleman!_ A curiosidade de Carlos levou-o ao Gremio: no Gremio nenhum -creado vira ultimamente o sr. Salcede. «Está por ahi de lua de mel com -alguma bella andaluza» pensou Carlos. - -Chegara ao fim da rua do Alecrim quando viu o conde de Steinbroken que -se dirigia ao Aterro, a pé, seguido da sua vittoria a passo. Era a -segunda vez que o diplomata fazia exercicio depois do seu desgraçado -ataque de entranhas. Mas não tinha já vestigios da doença: vinha todo -rosado e loiro, muito solido na sua sobrecasaca, e com uma bella rosa de -chá na botoeira. Declarou mesmo a Carlos que estava «más forrte». E não -lamentava os soffrimentos, porque elles lhe tinham dado o meio de -apreciar as sympathias que gosava em Lisboa. Estava enternecido. Sobre -tudo o cuidado de S. M.--o augusto cuidado de S. M.--fizera-lhe melhor -que «todos os drogues de botique»! Realmente nunca as relações entre -esses dois paizes, tão estreitamente alliados, Portugal e a Filandia, -tinham sido «màs firmes, pur assi dizerre, màs intimes, que durrante seu -ataque de intestinaes»! - -Depois, travando do braço a Carlos, alludiu commovido ao offerecimento -de Affonso da Maia, que pozera á sua disposição S.^ta Olavia, para elle -se restabelecer n'esses ares fortes e limpos do Douro. Oh, esse convite -tocara-o _au plus profond de son c[oe]ur_. Mas, infelizmente, S.^{ta} -Olavia era longe, tão longe!... Tinha de se contentar com Cintra, d'onde -podia vir todas as semanas, uma, duas vezes, vigiar a Legação. _C'était -ennuyeux, mais_... A Europa estava n'um d'esses momentos de crise, em -que homens d'estado, diplomatas, não podiam affastar-se, gosar as -menores ferias. Precisavam estar alli, na brecha, observando, -informando... - ---C'est très grave, murmurou elle, parando, com um pavor vago no olhar -azulado... C'est excessivement grave! - -Pediu a Carlos que olhasse em torno de si para a Europa. Por toda a -parte uma confusão, um _gachis_. Aqui a questão do Oriente; alem o -socialismo; por cima o Papa, a complicar tudo... Oh, très grave! - ---Tenez, la France, par exemple... D'abord Gambetta. Oh, je ne dis pas -non, il est très fort, il est excessivement fort... Mais... Voilà! C'est -très grave... - -Por outro lado os radicaes, _les nouvelles couches_... Era -excessivamente grave... - ---Tenez, je vais vous dire une chose, entre nous! - -Mas Carlos não escutava, nem sorria já. Do fim do Aterro approximava-se, -caminhando depressa, uma senhora--que elle reconheceu logo, por esse -andar que lhe parecia de uma deusa pisando a terra, pela cadellinha côr -de prata que lhe trotava junto ás saias, e por aquelle corpo -maravilhoso, onde vibrava, sob linhas ricas de marmore antigo, uma graça -quente, ondeante e nervosa. Vinha toda vestida de escuro, n'uma toilette -de _serge_ muito simples que era como o complemento natural da sua -pessoa, collando-se bem sobre ella, dando-lhe, na sua correcção, um ar -casto e forte; trazia na mão um guarda-sol inglez, apertado e fino como -uma cana; e toda ella, adiantando-se assim no luminoso da tarde, tinha, -n'aquelle caes triste de cidade antiquada, um destaque estrangeiro, como -o requinte raro de civilisações superiores. Nenhum véo, n'essa tarde, -lhe assombreava o rosto. Mas Carlos não poude detalhar-lhe as feições; -apenas d'entre o esplendor eburneo da carnação sentiu o negro profundo -de dois olhos que se fixaram nos seus. Insensivelmente deu um passo para -a seguir. Ao seu lado Steinbroken, sem vêr nada, estava achando Bismarch -assustador. Á maneira que ella se affastava, parecia-lhe maior, mais -bella: e aquella imagem falsa e litteraria de uma deusa marchando pela -terra prendia-se-lhe á imaginação. Steinbroken ficara aterrado com o -discurso do Chanceller no Reichstag... Sim, era bem uma deusa. Sob o -chapéo, n'uma fórma de trança enrolada, apparecia o tom do seu cabello -castanho, quasi louro á luz; a cadelinha trotava ao lado, com as orelhas -direitas. - ---Evidentemente, disse Carlos, Bismarck é inquietador... - -Steinbroken porém já deixara Bismarck. Steinbroken agora atacava lord -Beaconsfield. - ---Il est très fort... Oui, je vous l'accorde, il est excessivement -fort... Mais voilà... Ou va-t-il? - -Carlos olhava para o caes de Sodré. Mas tudo lhe parecia deserto. -Steinbroken antes de adoecer, justamente, tinha dito ao ministro dos -negocios estrangeiros aquillo mesmo: lord Beaconsfield é muito forte, -mas para onde vae elle? O que queria elle?... E s. ex.^a tinha encolhido -os hombros... S. ex.^a não sabia... - ---Eh, oui! Beaconsfield est très fort... Vous avez lu son speech chez le -Lord-Maire? Epatant, mon cher, epatant!... Mais voilà... Où va-t-il? - ---Steinbroken, não me parece que seja prudente deixar-se estar aqui a -arrefecer no Aterro... - ---Devérras? exclamou o diplomata, passando logo a mão rapidamente pelo -estomago e pelo ventre. - -E não se quiz demorar um instante mais! Como Carlos ía recolher tambem, -offereceu-lhe um logar na vittoria até ao Ramalhete. - ---Venha então jantar comnosco, Steinbroken. - ---Charmé, mon cher, charmé... - -A vittoria partiu. E o diplomata agazalhando as pernas e o estomago n'um -grande plaid escossez: - ---Pôs, Maia, fezemos um bello passêo... Mas este Atêrro no é deverrtido. - -Não era divertido o Aterro!... Carlos achara-o n'essa tarde o mais -delicioso logar da terra! - -Ao outro dia, voltou mais cedo; e, apenas dera alguns passos entre as -arvores, viu-a logo. Mas não vinha só; ao seu lado o marido, esticado, -apurado n'uma jaqueta de casimira quasi branca, com uma ferradura de -diamantes no setim negro da gravata, fumava, indolente e languido, e -trazia a cadellinha debaixo do braço. Ao passar, deu um olhar -surprehendido a Carlos--como descobrindo emfim entre os barbaros um ser -de linha civilisada, e disse-lhe algumas palavras baixo, a ella. - -Carlos encontrara outra vez os seus olhos, profundos e serios: mas não -lhe parecera tão bella; trazia uma outra toilette menos simples, de dois -tons, côr de chumbo e côr de creme, e no chapéo, d'abas grandes á -ingleza, vermelhava alguma cousa, flôr ou penna. N'essa tarde não era a -deusa descendo das nuvens d'ouro que se enrolavam alem sobre o mar; era -uma bonita senhora estrangeira que recolhia ao seu hotel. - -Voltou ainda tres vezes ao Aterro, não a tornou a vêr; e então -envergonhou-se, sentiu-se humilhado com este interesse romanesco que o -trazia assim, n'uma inquietação de rafeiro perdido, farejando o Aterro, -da rampa de Santos ao caes de Sodré, á espera de uns olhos negros e de -uns cabellos louros de passagem em Lisboa, e que um paquete da _Royal -Mail_ levaria uma d'essas manhãs... - -E pensar que toda essa semana deixara o seu trabalho abandonado sobre a -meza! E que todas as tardes, antes de sahir, se demorava ao espelho, -estudando a gravata! Ah, miseravel, miseravel natureza... - - -Ao fim d'essa semana, Carlos estava no consultorio, já para sahir, -calçando as luvas, quando o creado entreabriu o reposteiro, e murmurou -com alvoroço: - ---Uma senhora! - -Appareceu um menino muito pallido, de caracoes louros, vestido de -velludo preto--e atraz uma mulher, toda de negro, com um véo justo e -espesso como uma mascara. - ---Creio que vim tarde, disse ella, hesitando, junto da porta. O sr. -Carlos da Maia ía sahir... - -Carlos reconheceu a Gouvarinho. - ---Oh senhora condessa! - -Desembaraçou logo o divan dos jornaes e das brochuras; ella olhou um -momento, como indecisa, aquelle amplo e molle assento de serralho; -depois sentou-se á borda e de leve, com o pequeno junto de si. - ---Venho trazer-lhe um doente, disse ella sem erguer o véu, como fallando -do fundo d'aquella toilette negra que a dissimulava. Não o mandei -chamar, por que realmente pouco é, e tinha hoje de passar por aqui... -Além d'isso, o meu pequeno é muito nervoso; se vê entrar o medico, -parece-lhe que vae morrer. Assim é como uma visita que se faz... E não -tens medo, não é verdade, Charlie? - -O pequeno não respondeu; de pé, quedo ao lado da mamã; mimoso e debil -sob os caracoes d'anjo que lhe cahiam até aos hombros, devorava Carlos -com uns grandes olhos tristes. - -Carlos poz um interesse quasi terno na sua pergunta: - ---Que tem elle? - -Havia dias, apparecera-lhe uma empigem no pescoço. Além disso, por traz -da orelha, tinha como uma dureza de caroço. Aquillo inquietava-a. Ella -era forte, de uma boa raça, que dera athletas e velhos de grande edade. -Mas na familia do marido, em todos os Gouvarinhos, havia uma anemia -hereditaria. O conde mesmo, com aquella solida apparencia, era um -achacado. E ella, receiando que a influencia debilitante de Lisboa não -conviesse a Charlie, estava com o vago projecto de lhe fazer ir passar -algum tempo ao campo, em Formoselha, a casa da avó. - -Carlos, approximando ligeiramente a cadeira, estendeu os braços a -Charlie: - ---Ora venha cá o meu lindo amigo, para vermos isso. Que magnifico -cabello elle tem, senhora condessa!... - -Ella sorrio. E Charlie, seriosinho, bem ensinado, sem aquelle terror do -medico de que fallara a mamã, veio logo, desapertou delicadamente o seu -grande collarinho, e, quasi entre os joelhos de Carlos, dobrou o pescoço -macio e alvo como um lyrio. - -Carlos vio apenas uma pequena mancha côr de rosa desvanecendo-se; do -«caroço» não havia vestigio; e então uma ligeira vermelhidão subiu-lhe -ao rosto, procurou vivamente os olhos da condessa, como comprehendendo -tudo, querendo vêr n'elles a confissão do sentimento que a trouxera alli -com um pretexto pueril, sob aquella toilette negra, aquelles véos que a -mascaravam... - -Mas ella permaneceu impenetravel, sentada á borda do divan, com as mãos -crusadas, attenta, como esperando as suas palavras, n'um vago susto de -mãe. - -Carlos abotoou o collarinho do pequeno, e disse: - ---Não é absolutamente nada, minha senhora. - -No entanto, fez perguntas de medico sobre o regimen e a natureza de -Charlie. A condessa, n'um tom pesaroso, queixou-se de que a educação da -creança não fosse, como ella desejava, mais forte e mais viril; mas o -pae oppunha-se ao que elle chamava «a aberração ingleza», a agua fria, -os exercicios a todo o ar, a gymnastica... - ---A agoa fria e a gymnastica, disse Carlos sorrindo, teem melhor -reputação do que merecem... É o seu unico filho, senhora condessa? - ---É, tem os mimos de morgado, disse ella passando a mão pelos cabellos -louros do pequeno. - -Carlos assegurou-lhe que, apezar do seu aspecto nervoso e delicado, -Charlie não devia dar-lhe cuidado; nem havia necessidade de o exilar -para os ares de Formoselha... Depois ficaram um momento callados. - ---Não imagina como me tranquillisou, disse ella, erguendo-se, dando um -geito ao veu. De mais a mais é um gosto vir consultal-o... Não ha aqui o -menor ar de doença, nem de remedios... E realmente tem isto muito -bonito...--accrescentou, dando um olhar lento em redor aos velludos do -gabinete. - ---Tem justamente esse defeito, exclamou Carlos rindo. Não inspira nenhum -respeito pela minha sciencia... Eu estou com idêas d'alterar tudo, pôr -aqui um crocodilho empalhado, corujas, retortas, um esqueleto, pilhas -d'in-folios... - ---A cella de Fausto. - ---Justamente, a cella de Fausto. - ---Falta-lhe Mephistopheles, disse ella alegremente, com um olhar que -brilhou sob o véo. - ---O que me falta é Margarida! - -A senhora condessa, com um lindo movimento, encolheu os hombros, como -duvidando discretamente; depois tomou a mão de Charlie, e deu um passo -lento para a porta, puxando outra vez o véo. - ---Como v. ex.^a se interessa pela minha installação, acudiu Carlos -querendo retel-a, deixe-me mostrar-lhe a outra sala. - -Correu o reposteiro. Ella approximou-se, murmurou algumas palavras, -approvando a frescura dos cretones, a harmonia dos tons claros: depois o -piano fel-a sorrir. - ---Os seus doentes dançam quadrilhas? - ---Os meus doentes, senhora condessa, respondeu Carlos, não são bastante -numerosos para formar uma quadrilha. Raras vezes mesmo tenho dois para -uma valsa... O piano está simplesmente alli para dar idêas alegres; é -como uma promessa tacita de saude, de futuras _soirèes_, de bonitas -arias do _Trovador_, em familia... - ---É engenhoso, disse ella dando familiarmente alguns passos na sala, com -Charlie collado aos vestidos. - -E Carlos, caminhando ao lado d'ella: - ---V. ex.^a não imagina como eu sou engenhoso! - ---Já n'outro dia me disse... Como foi que disse? Ah! que era muito -inventivo quando odiava. - ---Muito mais quando amo, disse elle rindo. - -Mas ella não respondeu: parára junto do piano, remexeu um momento as -musicas espalhadas, feriu duas notas no teclado. - ---É um chocalho. - ---Oh, senhora condessa! - -Ella seguiu, foi examinar um quadro a oleo, copiado de Landseer--um -focinho de cão de S. Bernardo, macisso e bonacheirão, adormecido sobre -as patas. Quasi roçando-lhe o vestido, Carlos sentia o fino perfume de -verbena que ella usava sempre exageradamente: e, entre aquelles tons -negros que a cobriam, a sua pelle parecia mais clara, mais doce á vista, -e attrahindo como um setim. - ---Este é um horror, murmurou ella, voltando-se; mas disse-me o Ega que -ha quadros lindos no Ramalhete... Fallou-me sobretudo d'um Greuze e d'um -Rubens... É pena que se não possam vêr essas maravilhas. - -Carlos lamentava tambem que uma existencia de solteirões lhes impedisse, -a elle e ao avô, de receberem senhoras. O Ramalhete estava tomando uma -melancolia de mosteiro. Se assim continuassem mais alguns mezes, sem que -se sentisse alli um calor de vestido, um aroma de mulher, vinha a nascer -a herva pelos tapetes. - ---É por isso, accrescentou elle muito serio, que eu vou obrigar o avô a -casar-se. - -A condessa riu, os seus lindos dentes miudinhos alvejaram na sombra do -véo. - ---Gosto da sua alegria, disse ella. - ---É uma questão de regimen. V. ex.^a não é alegre? - -Ella encolheu os hombros, sem saber... Depois, batendo com a ponta do -guarda-sol na sua botina de verniz que brilhava sobre o tapete claro, -murmurou com os olhos baixos, deixando ir as palavras, n'um tom -d'intimidade e de confidencia: - ---Dizem que não, que sou triste, que tenho _spleen_... - -O olhar de Carlos seguira o d'ella, pousara-se na botina de verniz que -calçava delicadamente um pé fino e comprido: Charlie, entretido, mexia -nas teclas do piano--e elle baixou a voz para lhe dizer: - ---É que a senhora condessa tem um mau regimen. É necessario tratar-se, -voltar aqui, consultar-me... Tenho talvez muito que lhe dizer! - -Ella interrompeu-o vivamente, erguendo para elle os olhos, d'onde se -escapou um clarão de ternura e de triumpho: - ---Venha-m'o antes dizer um d'estes dias, tomar chá comigo, ás cinco -horas... Charlie! - -O pequeno veiu logo dependurar-se-lhe do braço. - -Carlos, acompanhando-a abaixo á rua, lamentava a fealdade da sua escada -de pedra: - ---Mas vou mandar tapetar tudo para quando a senhora condessa volte a -dar-me a honra de me vir consultar... - -Ella gracejou, toda risonha: - ---Ah não! O sr. Carlos da Maia prometteu-nos a todos a saude... E -naturalmente não espera que seja eu que venha cá tomar chá comsigo... - ---Oh, minha senhora, eu quando começo a esperar, não ponho limites -nenhuns ás minhas esperanças... - -Ella parou, com o pequeno pela mão, olhou para elle, como pasmada, -encantada com aquella grandiosa certeza de si mesmo. - ---Então vae por ahi além, por ahi além...? - ---Vou por ahi além, por ahi além, minha senhora! - -Estavam no ultimo degrau, diante da claridade e do rumor da rua. - ---Mande-me chegar um coupé. - -Um cocheiro, ao aceno de Carlos, lançou logo a tipoia. - ---E agora, disse ella sorrindo, mande-o ir á egreja da Graça. - ---A senhora condessa vai beijar o pé do Senhor dos Passos? - -Ella corou de leve, murmurou: - ---Ando fazendo as minhas devoções... - -Depois saltou ligeiramente para o coupé--deixando Charlie, que Carlos -ergueu nos braços e lhe collocou ao lado, paternalmente. - ---Que Deus a leve em sua santa guarda, senhora condessa! - -Ella agradeceu com um olhar, um movimento de cabeça--ambos tão doces -como caricias. - -Carlos subio: e, sem tirar o chapéo, ficou ainda enrolando uma -cigarrette, passeando n'aquella sala sempre deserta, sempre fria, onde -ella deixara agora alguma cousa do seu calor e do seu aroma... - -Realmente gostava d'aquella audacia d'ella--ter vindo assim ao -consultorio, toda escondida, quasi mascarada n'uma grande toilette -negra, inventando um caroço no pescocinho são de Charlie, para o vêr, -para dar um nó brusco e mais apertado n'aquelle leve fio de relações que -elle tão negligentemente deixara cahir e quebrar... - -O Ega d'esta vez não phantasiara: aquelle bonito corpo offerecia-se, tão -claramente como se se despisse. Ah! se ella fosse de sentimentos -errantes e faceis--que bella flôr a colher, a respirar, a deitar fóra -depois! Mas não: como dizia o Baptista, a senhora condessa nunca se -tinha divertido. E o que elle não queria era achar-se envolvido n'uma -paixão ciosa, uma d'essas ternuras tumultuosas de mulher de trinta -annos, de que depois se desembaraçaria difficilmente... Nos braços -d'ella o seu coração ficaria mudo: e apenas esgotada a primeira -curiosidade, começaria o tedio dos beijos que se não desejam, a horrivel -massada do prazer a frio. Depois, teria de ser intimo da casa, receber -pelo hombro as palmadas do senhor conde, ouvir-lhe a voz morosa -distillando doutrina... Tudo isto o assustava... E, todavia, gostara -d'aquella audacia! Havia ali uma pontinha de romantismo, muito -irregular, e pícante... E devia ser deliciosamente bem feita... A sua -imaginação despia-a, enrolava-se-lhe no setim das fórmas onde sentia ao -mesmo tempo alguma cousa de maduro e de virginal... E outra vez, como -nas primeiras noites que os vira em S. Carlos, aquelles cabellos -tentavam-n'o, assim avermelhados, tão crespos e quentes... - -Sahiu. E dera apenas alguns passos na rua Nova do Almada, quando avistou -o Damaso, n'um coupé lançado a grande trote, que o chamava, mandava -parar, com a face á portinhola, vermelho e radiante: - ---Não tenho podido lá ir, exclamou elle, apoderando-se-lhe da mão, -apenas Carlos se approximou, e apertando-lh'a com enthusiasmo. Tenho -andado n'um turbilhão!.. Eu te contarei! Um romance divino... Mas eu te -contarei!.. Tem cuidado com a roda! Bate lá, ó _Calção_! - -A parelha abalou; elle ainda se debruçou da portinhola, agitou a mão, -gritou no rumor da rua: - ---Um romance divino, _chic_ a valer! - -Justamente, dias depois, no Ramalhete, na sala de bilhar, Craft que -acabava de «bater» o marquez, perguntou, pousando o taco e accendendo o -cachimbo: - ---E noticias do nosso Damaso? Já se esclareceu esse lamentavel -desapparecimento?... - -Carlos então contou como o encontrára, afogueado e triumphante, -atirando-lhe da portinhola do coupé, em plena rua Nova do Almada, a -noticia de um _romance divino_! - ---Bem sei, disse o Taveira. - ---Como sabes?... exclamou Carlos. - -Taveira vira-o na vespera, n'um grande landeau da Companhia, com uma -esplendida mulher, muito elegante e que parecia estrangeira... - ---Ora essa! gritou Carlos. E com uma cadelinha escoceza? - ---Exactamente, uma cadelinha escoceza, um _griffon_ côr de prata... Quem -são? - ---E um rapaz magro, de barba muito preta, com um ar inglezado? - ---Justamente... Muito correcto, um ar _sport_... Que gente é? - ---Uma gente brazileira, penso eu. - -Eram os Castros Gomes, de certo! Isto parecia-lhe espantoso. Havia -apenas duas semanas que no terraço o Damaso, de punhos fechados, bramara -contra os Castro Gomes e as suas «desconsiderações»! Ia pedir outros -pormenores ao Taveira--mas o marquez ergueu a voz do fundo da poltrona -onde se estirára, e quiz saber a opinião de Carlos sobre o grande -acontecimento d'essa manhã na _Gazeta Illustrada_.--Na _Gazeta -Illustrada_?... Carlos não sabia, essa manhã não vira jornal nenhum. - ---Então não lhe digam nada, gritou o marquez. Venha a surpreza! Cá ha a -_Gazeta_? Manda buscar a _Gazeta_! - -Taveira puxou o cordão da campainha;--e quando o escudeiro trouxe a -_Gazeta_, elle apoderou-se d'ella, quiz fazer uma leitura solemne. - ---Deixa-lhe vêr primeiro o retrato, berrou o marquez, erguendo-se. - ---Primeiro o artigo! exclamava o Taveira, defendendo-se, com o jornal -atraz das costas. - -Mas cedeu, e poz o papel deante dos olhos de Carlos, largamente, como um -sudario desdobrado. Carlos reconheceu logo o retrato do Cohen... E a -prosa que se alastrava em redor, encaixilhando a face escura de suissas -retintas, era um trabalho de seis columnas, em estylo emplumado e -cantante, celebrando até aos céus as virtudes domesticas do Cohen, o -genio financeiro do Cohen, os ditos d'espirito do Cohen, a mobilia das -salas do Cohen; havia ainda um paragrapho alludindo á festa proxima, ao -grande sarau de mascaras do Cohen. E tudo isto vinha assignado--J. da -E.--as iniciaes de João da Ega! - ---Que tolice! exclamou Carlos, com tedio, atirando o jornal para cima do -bilhar. - ---É mais que tolice, observou Craft; é uma falta de senso moral. - -O marquez protestou. Gostava do artigo. Achava-o brilhante, e de -velhaco!... E de resto em Lisboa quem dava por uma falta de senso -moral?... - ---Você, Craft, não conhece Lisboa! Todo o mundo acha isto muito natural. -É intimo da casa, celebra os donos. É admirador da mulher, lisongea o -marido. Está na logica cá da terra... Você verá que successo isto vae -ter... E lá que o artigo está lindo, isso está! - -Tomou-o de cima do bilhar, leu alto o trecho sobre o boudoir côr de rosa -de madame Cohen: «respira-se alli (dizia o Ega) alguma cousa de -perfumado, intimo e casto, como se todo aquelle côr de rosa exhalasse de -si o aroma que a rosa tem»! - ---Isto, caramba, é lindo em toda a parte! exclamou o marquez. Tem muito -talento, aquelle diabo! Tomara eu ter o talento que elle tem!... - ---Nada d'isso impede, repetiu Craft, cachimbando tranquillamente, que -seja uma extraordinaria falta de senso moral. - ---Pura e simplesmente insensato! disse Cruges, desenroscando-se do canto -d'um sophá, para deixar cahir ás syilabas esta pesada opinião. - -O marquez investiu com elle. - ---Que entende você d'isso, seu maestro? O artigo é sublime! E saiba -mais: é de finorio! - -O maestro, com preguiça de argumentar, foi-se enroscar em silencio ao -outro canto do sophá. - -E então o marquez, de pé e bracejando, appellou para Carlos, e quiz -saber o que é que Craft em principio entendia por _senso moral_. - -Carlos, que dava pela sala passos impacientes, não respondeu, tomou o -braço do Taveira, levou-o para o corredor. - ---Dize-me uma cousa: onde viste tu o Damaso, com essa gente? Para que -lado iam? - ---Iam pelo Chiado abaixo; ante-hontem, ás duas horas... Estou convencido -que iam para Cintra. Levavam uma maleta no landau, e atraz ia uma criada -n'um coupé com uma mala maior... Aquillo cheirava a ida a Cintra. E a -mulher é divina! Que toilette, que ar, que chic!.. É uma Venus, -menino!... Como conheceria elle aquillo?... - ---Em Bordeus, n'um paquete, não sei onde! - ---Eu do que gostei foi dos ares que elle se ia dando por aquelle Chiado! -Cumprimento para a direita, cumprimento para a esquerda... A -debruçar-se, a fallar muito baixo para a mulher, com olho terno, -alardeando conquista... - ---Que besta! exclamou Carlos, batendo com o pé no tapete. - ---Chama-lhe besta, disse o Taveira. Vem a Lisboa, por acaso, uma mulher -civilisada e decente, e é elle que a conhece, e é elle que vae com ella -para Cintra! Chama-lhe besta!... Anda d'ahi, vamos á partidinha de -dominó. - -Taveira ultimamente introduzira o dominó no Ramalhete--e havia agora -alli, ás vezes, partidas ardentes, sobretudo quando apparecia o marquez. -Porque a paixão do Taveira era bater o marquez. - -Mas foi necessario que o marquez acabasse de bracejar, de desenrolar o -arrazoado com que estava acabrunhando o Craft--que do fundo da poltrona, -de cachimbo na mão e com um ar de somno, respondia por monossyllabos. -Era ainda a proposito do artigo do Ega, da definição de _senso moral_. -Já tinha fallado de Deus, de Garibaldi, até do seu famoso perdigueiro -_Finorio_; e agora definia a Consciencia... Segundo elle, era o medo da -policia. Tinha o amigo Craft visto já alguem com remorsos? Não, a não -ser no theatro da Rua dos Condes, em dramalhões... - ---Acredite você uma cousa, Craft--terminou elle por dizer, cedendo ao -Taveira que o puchava para a meza--isto de consciencia é uma questão de -educação. Adquire-se como as boas maneiras; soffrer em silencio por ter -trahido um amigo, aprende-se exactamente como se aprende a não metter os -dedos no nariz. Questão d'educação... No resto da gente é apenas medo da -cadeia, ou da bengala... Ah! vocês querem levar outra sova ao dominó -como a de sabbado passado? Perfeitamente, sou todo vosso... - -Carlos, que estivera passando de novo os olhos pelo artigo do Ega, -approximou-se tambem da meza. E estavam sentados, remexiam as -pedras--quando á porta da sala appareceu o conde de Steinbroken, de -casaca e crachá, gran-cruz sobre o colete branco, loiro como uma espiga, -esticado e resplandecente. Tinha jantado no Paço, e vinha acabar no -Ramalhete a sua soirée, em familia... - -Então o marquez que o não via desde o famoso ataque de intestinos, -abandonou o dominó, correu a abraçal-o ruidosamente--e sem o deixar -sequer sentar, nem estender a mão aos outros, implorou-lhe logo uma das -suas bellas canções filandezas, uma só, d'aquellas que lhe faziam tão -bem á alma!... - ---Só a _Ballada_, Steinbroken... Eu tambem não me posso demorar, que -tenho aqui a partida á espera. Só a _Ballada_!... Vá, salta lá para -dentro para o piano, Cruges... - -O diplomata sorria, dizia-se cançado, tendo já feito musica deliciosa no -Paço com Sua Magestade. Mas nunca sabia resistir áquelle modo folgazão -do marquez--e lá foram para a sala do piano, de braço dado, seguidos -pelo Cruges, que levara uma eternidade a desenroscar-se do canto do -sophá. E d'ahi a um momento, atravez dos resposteiros meio corridos, a -bella voz de barytono do diplomata espalhava pelas salas, entre os -suspiros do piano, a emballadora melancolia da _Ballada_, com a sua -lettra traduzida em francez, que o marquez adorava, e em que se fallava -das nevoas tristes do Norte, de lagos frios e de fadas loiras... - -Taveira e Carlos, no entanto, tinham começado uma grande partida de -dominó, a tostão o ponto. Mas Carlos n'essa noite não se interessava, -jogando distrahido, a cantarolar tambem baixo bocados tristes da -_Ballada_: depois, quando já Taveira tinha só uma pedra diante de si, e -elle estava comprando interminavelmente as que restavam, voltou-se para -o lado, para o Craft, a perguntar se o hotel da Lawrence, em Cintra, -estava aberto todo o anno... - ---A ida do Damaso para Cintra deu-te no goto, rosnou Taveira impaciente. -Anda, joga! - -Carlos, sem responder, pousou mollemente uma pedra. - ---Dominó! gritou Taveira. - -E em triumpho, aos pulos, contou elle mesmo os sessenta e oito pontos -que Carlos perdia. - -Justamente o marquez entrava, e a victoria do Taveira indignou-o. - ---Agora nós, exclamou elle, puxando vivamente uma cadeira. Oh Carlos, -deixe-me você dar aqui uma sova n'este ladrão. Depois jogamos de tres... -Como queres tu isto, Taveirete? A dous tostões o ponto? Ah, queres só a -tostão... Muito bem, eu te ensinarei. Anda, desembaraça-te já d'esse -dôble-seis, miseravel... - -Carlos ficou ainda um momento olhando o jogo, com uma cigarette apagada -nos dedos, o mesmo ar distrahido: de repente, pareceu tomar uma decisão, -atravessou o corredor, entrou na sala de musica. Steinbroken fôra ao -escriptorio vêr Affonso da Maia, e a partida de whist; e Cruges só, -entre as duas vélas do piano, com os olhos errantes pelo tecto, -improvisava para si, melancolicamente. - ---Dize cá, Cruges, perguntou-lhe Carlos, queres vir ámanhã a Cintra? - -O teclado callou-se, o maestro ergueu um olhar espantado! Carlos nem o -deixou fallar. - ---Está claro que queres, não te faz senão bem vir a Cintra... Ámanhã lá -estou á porta, com o break. Mette sempre uma camisa n'uma maleta, que -talvez passemos lá a noite... Ás oito em ponto, hein?... E não digas -nada lá dentro. - -Carlos voltou para a sala, ficou a olhar a partida de dominó. Agora -havia um largo silencio. O marquez e Taveira moviam lentamente as -pedras, sem uma palavra, com um ar de rancor surdo. Em cima do pano -verde do bilhar as bolas brancas dormiam juntas, sob a luz que cahia dos -abat-jours de porcelana. Um som de piano, dolente e vago, passava por -vezes. E Craft, com o braço descahido ao longo da poltrona, dormitava, -beatificamente. - - - - -VIII - - -Na manhã seguinte, ás oito horas pontualmente, Carlos parava o break na -rua das Flores, diante do conhecido portão da casa do Cruges. Mas o -trintanario, que elle mandara acima bater á campainha do terceiro andar, -desceu com a estranha nova de que o sr. Cruges já não morava ali. Onde -diabo morava então o sr. Cruges? A criada dissera que o sr. Cruges vivia -agora na rua de S. Francisco, quatro portas adiante do Gremio. Durante -um momento, Carlos, desesperado, pensou em partir só para Cintra. Depois -lá largou para a rua de S. Francisco, amaldiçoando o maestro, que mudara -de casa sem avisar, sempre vago, sempre tenebroso!... E era em tudo -assim. Carlos nada sabia do seu passado, do seu interior, das suas -affeições, dos seus habitos. O marquez uma noite levara-o ao Ramalhete, -dizendo ao ouvido de Carlos que estava alli um genio. Elle encantara -logo todo o mundo pela modestia das suas maneiras e a sua arte -maravilhosa ao piano: e todo o mundo no Ramalhete começou a tratar -Cruges por _maestro_, a fallar tambem do Cruges como de um genio, a -declarar que Choppin nunca fizera obra egual á _Meditação de Outono_ do -Cruges. E ninguem sabia mais nada. Fôra pelo Damaso que Carlos conhecera -a casa do Cruges e soubera que elle vivia lá com a mãe, uma senhora -viuva, ainda fresca, e dona de predios na Baixa. - -Ao portão da rua de S. Francisco, Carlos teve de esperar um quarto de -hora. Primeiro appareceu furtivamente ao fundo da escada uma criada em -cabello, que espreitou o break, os criados de farda, e fugiu pelos -degraus acima. Depois veiu um creado em mangas de camisa trazer a maleta -do senhor e um chaile manta. Emfim, o maestro desceu, a correr, quasi -aos trambulhões, com um cache-nez de seda na mão o guarda-chuva debaixo -do braço, abotoando atarantadamente o paletot. - -Quando vinha pulando os ultimos degraus, uma voz esganiçada de mulher -gritou-lhe de cima: - ---Olha não te esqueçam as queijadas! - -E Cruges subiu precipitadamente para a almofada, para o lado de Carlos, -rosnando que, com a preoccupação de se levantar tão cedo, tivera uma -insomnia abominavel... - ---Mas que diabo de idéa é essa de mudar de casa, sem avisar a gente, -homem?--exclamou Carlos, atirando-lhe para cima dos joelhos um bocado do -_plaid_ que o agasalhava, porque o maestro parecia arrepiado. - ---É que esta casa tambem é nossa, disse simplesmente Cruges. - ---Está claro, ahi está uma razão! murmurou Carlos rindo e encolhendo os -hombros. - -Partiram. - -Era uma manhã muito fresca, toda azul e branca, sem uma nuvem, com um -lindo sol que não aquecia, e punha nas ruas, nas fachadas das casas, -barras alegres de claridade dourada. Lisboa acordava lentamente: as -saloias ainda andavam pelas portas com os seus ceirões d'hortaliças: -varria-se de vagar a testada das lojas: no ar macio morria a distancia -um toque fino de missa. - -Cruges, tendo acabado de arranjar o cache-nez e de abotoar as luvas, -estendeu um olhar á esplendida parelha baia reluzindo como um setim sob -o faiscar de prata dos arreios, aos criados com os seus ramos nas -librés, a todo aquelle luxo correcto e rolando em cadencia--onde fazia -mancha o seu paletot: mas o que o impressionou foi o aspecto -resplandecente de Carlos, o olhar acceso, as bellas côres, o bello riso, -o quer que fosse de vibrante e de luminoso, que, sob o seu simples -veston de xadrezinho castanho, n'aquella almofada burgueza de break, lhe -dava um arranque de heroe jovial, lançando o seu carro de guerra... -Cruges farejou uma aventura, soltou logo a pergunta que desde a vespera -lhe ficara nos labios. - ---Com franqueza, aqui para nós, que idéa foi esta de ir a Cintra? - -Carlos gracejou. O maestro jurava o segredo pela alma melodiosa de -Mozart, e pelas _fugas_ de Bach? Pois bem, a idéa era vir a Cintra, -respirar o ar de Cintra, passar o dia em Cintra... Mas, pelo amor de -Deus, que o não revelasse a ninguem! - -E accrescentou, rindo: - ---Deixa-te levar, que não te has de arrepender... - -Não, Cruges não se arrependia. Até achava delicioso o passeio, gostara -sempre muito de Cintra... Todavia não se lembrava bem, tinha apenas uma -vaga idéa de grandes rochas e de nascentes d'aguas vivas... E terminou -por confessar que desde os nove annos não voltara a Cintra. - -O que! o maestro não conhecia Cintra?... Então era necessario ficarem -lá, fazer as peregrinações classicas, subir á Pena, ir beber agua á -Fonte dos Amores, barquejar na varzea... - ---A mim o que me está a appetecer muito é Sitiaes; e a manteiga fresca. - ---Sim, muita manteiga, disse Carlos. E burros, muitos burros... Emfim, -uma ecloga! - -O break rodava na estrada de Bemfica: iam passando muros enramados de -quintas, casarões tristonhos de vidraças quebradas, vendas com o seu -masso de cigarros á porta dependurado de uma guita: e a menor arvore, -qualquer bocado de relva com papoulas, um fugitivo longe de collina -verde, encantavam Cruges. Ha que tempos elle não via o campo! - -Pouco a pouco o sol elevara-se. O maestro desembaraçou-se do seu grande -cache-nez. Depois, encalmado, despiu o paletot--e declarou-se morto de -fome. - -Felizmente estavam chegando á Porcalhota. - -O seu vivo desejo seria comer o famoso coelho guisado,--mas, como era -cedo para esse acepipe, decidiu-se, depois de pensar muito, por uma -bella pratada de ovos com chouriço. Era uma cousa que não provava havia -annos, e que lhe daria a sensação de estar na aldêa... Quando o patrão, -com um ar importante e como fazendo um favor, pousou sobre a meza sem -toalha a enorme travessa com o petisco, Cruges esfregou as mãos, achando -aquillo deliciosamente campestre. - ---A gente em Lisboa estraga a saude! disse elle. puxando para o prato -uma montanha de ovo e chouriço. Tu não tomas nada?... - -Carlos, para lhe fazer companhia, acceitou uma chavena de café. - -D'ahi a pouco Cruges, que devorava, exclamou com a bocca cheia: - ---O Rheno tambem deve ser magnifico! - -Carlos olhou-o espantado e rindo. A que vinha agora alli o Rheno?... É -que o maestro, desde que sahira as portas, estava cheio de idéas de -viagens e de paisagens; queria vêr as grandes montanhas onde ha neve, os -rios de que se falla na Historia. O seu ideal seria ir á Allemanha, -percorrer a pé, com uma mochilla, aquella patria sagrada dos seus -deuses, de Beethoven, de Mozart, de Wagner... - ---Não te appetecia mais ir á Italia? perguntou Carlos accendendo o -charuto. - -O maestro esboçou um gesto de desdem, teve uma das suas phrases -sybillinas: - ---Tudo contradanças!... - -Carlos então fallou de um certo plano de ir á Italia, com o Ega, no -inverno. Ir á Italia, para o Ega, era uma hygiene intellectual: -precisava calmar aquella imaginação tumultuosa de nervoso peninsular -entre a placida magestade dos marmores... - ---O que elle precisava antes de tudo era chicote, rosnou o Cruges. - -E voltou a fallar do caso da vespera, do famoso artigo da _Gazeta_. -Achava aquillo, como elle dissera, pura e simplesmente insensato, e de -uma sabujice indecorosa. E o que o affligia é que o Ega, com aquelle -talento, aquella verve fumegante, não fizesse nada... - ---Ninguem faz nada, disse Carlos espreguiçando-se. Tu, por exemplo, que -fazes? - -Cruges, depois de um silencio, rosnou encolhendo os hombros: - ---Se eu fizesse uma boa opera, quem é que m'a representava? - ---E se o Ega fizesse um bello livro, quem é que lh'o lia? - -O maestro terminou por dizer: - ---Isto é um paiz impossivel... Parece-me que tambem vou tomar café. - -Os cavallos tinham descançado, Cruges pagou a conta, partiram. D'ahi a -pouco entravam na charneca que lhes pareceu infindavel. D'ambos os -lados, a perder de vista, era um chão escuro e triste; e por cima um -azul sem fim, que n'aquella solidão parecia triste tambem. O trote -compassado dos cavallos batia monotonamente a estrada. Não havia um -rumor: por vezes um passaro cortava o ar, n'um vôo brusco, fugindo do -ermo agreste. Dentro do break um dos criados dormia; Cruges, pesado dos -ovos com chouriço, olhava, vaga e melancolicamente, as ancas lustrosas -dos cavallos. - -Carlos, no entanto, pensava no motivo que o trazia a Cintra. E realmente -não sabia bem porque vinha: mas havia duas semanas que elle não avistava -certa figura que tinha um passo de deusa pisando a terra, e que não -encontrava o negro profundo de dois olhos que se tinham fixado nos seus: -agora suppunha que ella estava em Cintra, corria a Cintra. Não esperava -nada, não desejava nada. Não sabia se a veria, talvez ella tivesse já -partido. Mas vinha: e era já delicioso o pensar n'ella assim por aquella -estrada fóra, penetrar, com essa doçura no coração, sob as bellas -arvores de Cintra... Depois, era possivel que d'ahi a pouco, na velha -Lawrence, elle a cruzasse de repente no corredor, roçasse talvez o seu -vestido, ouvisse talvez a sua voz. Se ella lá estivesse, decerto viria -jantar á sala, aquella sala que elle conhecia tão bem, que já lhe estava -appetecendo tanto, com as suas pobres cortininhas de cassa, os ramos -toscos sobre a meza, e os dois grandes candieiros de latão antigo... -Ella entraria alli, com o seu bello ar claro de Diana loira; o bom -Damaso, apresentaria o seu amigo Maia; aquelles olhos negros que elle -vira passar de longe como duas estrellas, pousariam mais de vagar nos -seus; e, muito simplesmente, á ingleza, ella estender-lhe-hia a mão... - ---Ora até que finalmente! exclamou Cruges, com um suspiro de allivio e -respirando melhor. - -Chegavam ás primeiras casas de Cintra, havia já verduras na estrada, e -batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra. - -E a passo, o break foi penetrando sob as arvores do Ramalhão. Com a paz -das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e emballadora -sussurração de ramagens, e como o diffuso e vago murmurio de agoas -correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos: atravez da -folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e avelludado -circulava, rescendendo ás verduras novas; aqui e além, nos ramos mais -sombrios, passaros chilreavam de leve; e n'aquelle simples bocado de -estrada, todo salpicado de manchas do sol, sentia-se já, sem se vêr, a -religiosa solemnidade dos espessos arvoredos, a frescura distante das -nascentes vivas, a tristeza que cae das penedias e o repouso fidalgo das -quintas de verão... Cruges respirava largamente, voluptuosamente. - ---A Lawrence onde é? Na serra?--perguntou elle com a idéa repentina de -ficar alli um mez n'aquelle paraiso. - ---Nós não vamos para a Lawrence, disse Carlos sahindo bruscamente do seu -silencio, e espertando os cavallos. Vamos para o Nunes, estamos lá muito -melhor! - -Era uma idéa que lhe viera de repente, apenas passara as primeiras casas -de S. Pedro, e o break começara a rolar n'aquellas estradas onde a cada -momento elle a poderia encontrar. Tomara-o uma timidez, a que se -misturava um laivo de orgulho, o receio melindrado de ser indiscreto, -seguindo-a assim a Cintra, ainda que ella o não reconhecesse, indo -installar-se sob as mesmas telhas, apoderando-se de um logar á mesma -meza... E ao mesmo tempo repugnou-lhe a idéa de lhe ser apresentado pelo -Damaso: via-o já, bochechudo e vestido de campo, a esboçar um gesto de -ceremonia, a mostrar o _seu amigo Maia_, a tratal-o por tu, affectando -intimidades com ella, cocando-a com um olho terno... Isto seria -intoleravel. - ---Vamos para o Nunes, que se come melhor! - -Cruges não respondeu, mudo, enlevado, recebendo como uma impressão -religiosa de todo aquelle esplendor sombrio de arvoredo, dos altos -fragosos da serra entrevistos um instante lá em cima nas nuvens, d'esse -aroma que elle sorvia deliciosamente, e do sussurro doce de aguas -descendo para os valles... - -Só ao avistar o Paço descerrou os labios: - ---Sim senhor, tem _cachet_! - -E foi o que mais lhe agradou--este macisso e silencioso palacio, sem -florões e sem torres, patriarchalmente assentado entre o casario da -villa, com as suas bellas janellas manuelinas que lhe fazem um nobre -semblante real, o valle aos pés, frondoso e fresco, e no alto as duas -chaminés collossaes, disformes, resumindo tudo, como se essa residencia -fosse toda ella uma cosinha talhada ás proporções de uma gula de Rei que -cada dia come todo um Reino... - -E apenas o break parou á porta do Nunes, foi-lhe ainda dar um olhar, -timido e de longe--receiando alguma palavra rude da sentinella. - -Carlos no entanto, saltando logo da almofada, tomou á parte o criado do -hotel, que descera a recolher as maletas. - ---Vossê conhece o sr. Damaso Salcede? Sabe se elle está em Cintra? - -O creado conhecia muito bem o sr. Damaso Salcede. Ainda na vespera pela -manhã o vira entrar defronte, no bilhar, com um sujeito de barbas -pretas... Devia estar na Lawrence, porque só com raparigas e em pandiga -é que o sr. Damaso vinha para o Nunes. - ---Então, depressa, dous quartos! exclamou Carlos, com uma alegria de -creança, certo agora que _ella_ estava em Cintra. E uma sala particular, -só para nós, para almoçarmos! - -Cruges, que se approximava, protestou contra esta sala solitaria. -Preferia a meza redonda. Ordinariamente na meza redonda encontram-se -typos... - ---Bem, exclamou Carlos, rindo e esfregando as mãos, põe o almoço na sala -de jantar, põe-n'o até na Praça... E muita manteiga fresca para o sr. -Cruges! - -O cocheiro levou o break, o creado sobraçou as maletas. Cruges, -enthusiasmado com Cintra, rompeu pela escada acima, a -assobiar--conservando aos hombros o chaile-manta, de que se não queria -separar, porque lh'o emprestara a mamã. E apenas chegou á porta da sala -do jantar, estacou, ergueu os braços, teve um grito. - ---Oh Euzebiosinho! - -Carlos correu, olhou... Era elle, o viuvo, acabando de almoçar, com duas -raparigas hespanholas. - -Estava no topo da meza, como presidindo, diante de uns restos de pudim e -de pratos de fructa, amarellado, despenteado, carregado de luto, com a -larga fita das lunetas pretas passada por traz da orelha, e uma rodela -de taffetá negro sobre o pescoço tapando alguma espinha rebentada. - -Uma das hespanholas era um mulherão trigueiro, com signaes de bexigas na -cara; a outra muito franzina, de olhos meigos, tinha uma roseta de -febre, que o pó de arroz não desfarçava. Ambas vestiam de setim preto, e -fumavam cigarro. E na luz e na frescura que entrava pela janella, -pareciam mais gastas, mais molles, ainda pegajosas da lentura morna dos -colxões, e cheirando a bafio de alcova. Pertencendo á sucia havia um -outro sujeito, gordo, baixo, sem pescoço, com as costas para a porta e a -cabeça sobre o prato, babujando uma metade de laranja. - -Durante um momento, Euzebiosinho ficou interdito com o garfo no ar; -depois lá se ergueu, de guardanapo na mão, veiu apertar os dedos aos -amigos, balbuciando logo uma justificação embrulhada, a ordem do medico -para mudar de ares, aquelle rapaz que o acompanhara, e que quizera -trazer raparigas... E nunca parecera tão funebre, tão relles, como -resmungando estas cousas hypocritas, encolhido á sombra de Carlos. - ---Fizeste muito bem, Eusebiosinho, disse Carlos por fim, batendo-lhe no -hombro. Lisboa está um horror, e o amor é cousa doce. - -O outro continuava a justificar-se. Então a hespanhola magrita, que -fumava, afastada da meza e com a perna traçada, elevou a voz, perguntou -ao Cruges se elle não lhe fallava. O maestro affirmou-se um momento, e -partiu de braços abertos para a sua amiga Lolla. E foi, n'esse canto da -meza, uma grulhada em hespanhol, grandes apertos de mão, e _hombre, que -no se le ha visto! e mira, que me he accordado de ti!_ e _caramba, que -reguapa estas_... Depois a Lolla, tomando um arsinho espremido, -apresentou o outro mulherão, la señorita Concha... - -Vendo isto, impressionado com tanta familiaridade--o sujeito obeso, que -apenas levantara um instante a cabeça do prato, decidiu-se a examinar -mais attentamente os amigos do Euzebio: crusou o talher, limpou com o -guardanapo a bocca, a testa e o pescoço, encavallou laboriosamente no -nariz uma grande luneta de vidros grossos, e erguendo a face larga, -balofa e côr de cidra, examinou detidamente Cruges, e depois Carlos, com -uma impudencia tranquilla. - -Eusebiosinho apresentou o seu amigo Palma: e o seu amigo Palma, ouvindo -o nome conhecido de Carlos da Maia, quiz logo mostrar diante de um -gentleman, que era um gentleman tambem. Arrojou para longe o guardanapo, -arredou para fóra a cadeira; e de pé, estendendo a Carlos os dedos -molles e de unhas roidas, exclamou, com um gesto para os restos da -sobremeza: - ---Se. v. ex.^a é servido, é sem ceremonia... Que isto quando a gente vem -a Cintra, é para abrir o appetite e fazer bem á barriga... - -Carlos agradeceu, e ia retirar-se. Mas Cruges, que se animava e -gracejava com a Lolla, fez tambem do outro lado da meza a sua -apresentação: - ---Carlos, quero que conheças aqui a lindissima Lolla, relações antigas, -e a señorita Concha, que eu tive agora o prazer... - -Carlos saudou respeitosamente as damas. - -O mulherão da Concha rosnou seccamente os _buenos dias_: parecia de mau -humor, pesada do almoço, amodorrada para alli, sem dizer uma palavra, -com os cotovellos fincados na meza, os olhos pestanudos meio cerrados, -ora fumando, ora palitando os dentes. Mas a Lolla foi amavel, fez de -senhora, ergueu-se, offereceu a Carlos a mãosita suada. Depois retomando -o cigarro, dando um geito ás pulseiras de ouro, declarou com um requebro -d'olhos, que conhecia de ha muito Carlos... - ---No ha estado ustêd con Encarnacion? - -Sim, Carlos tivera essa honra... E que era feito d'ella, d'essa bella -Encarnacion? - -A Lolla sorriu com finura, tocou no cotovello do maestro. Não acreditava -que Carlos ignorasse o que era feito da Encarnacion... Emfim, terminou -por dizer que a Encarnacion estava agora com o Saldanha. - ---Mas olhe que não é com o duque de Saldanha! exclamou Palma, que se -conservara de pé, com a bolsa do tabaco aberta sobre a meza, fazendo um -grande cigarro. - -A Lolita, com um modo secco, replicou que o Saldanha não seria duque, -mas era um _chico muy decente_... - ---Olha, disse o Palma lentamente, de cigarro na bocca e tirando a isca -da algibeira, duas boas bofetadas na cara lhe dei eu ainda não ha tres -semanas... Pergunta ao Gaspar, o Gaspar assistiu... Foi até no -Montanha... Duas bofetadas que lhe foi logo o chapéo parar ao meio da -rua... O sr. Maia ha de conhecer o Saldanha... Ha de conhecer, que elle -tambem tem um carrito e um cavallo. - -Carlos fez um gesto indicando que não; e despedia-se de novo, saudando -as damas, quando Cruges o chamou ainda, retendo-o mais um instante, em -quanto satisfazia uma curiosidade: queria saber qual d'aquellas meninas -era a _esposa do amigo Eusebio_. - -Assim interpellado, o viuvo encordoou, rosnou com uma voz morosa, sem -erguer as lunetas da laranja que descascava, que estava alli de passeio, -não tinha esposa, e ambas aquellas meninas pertenciam ao amigo Palma... - -E ainda elle mascava as ultimas palavras, quando Concha, que digeria de -perna estendida, se endireitou bruscamente como se fosse saltar, atirou -um murro á borda da meza, e com os olhos chammejantes, desafiou o -Eusebio a que repetisse aquillo! Queria que elle repetisse! Queria que -dissesse se tinha vergonha d'ella, e de dizer que a tinha trazido a -Cintra!... E como o Eusebio, já enfiado, tentava gracejar, fazer-lhe uma -festa--ella despropositou, atirou-lhe os peiores nomes, dando sempre -punhadas na meza, com uma furia que lhe torcia a bocca, lhe punha duas -manchas de sangue no carão trigueiro. A Lolita, vexada, puchava-lhe pelo -braço: a outra deu-lhe um repellão; e, mais excitada com a estridencia -da propria voz, esvasiou-se de toda a bilis, chamou-lhe porco, accusou-o -de forreta, usou-o como um trapo vil. - -Palma afflicto, debruçado sobre a meza, exclamava n'um tom ancioso: - ---Ó Concha, escuta lá!... Ouve lá!... Concha, eu te explico... - -De repente, ella ergueu-se, a cadeira tombou para o lado: e o mulherão -abalou pela sala fóra, a grande cauda de setim varreu desabridamente o -soalho, ouviu-se dentro estalar uma porta. No chão ficara caindo um -pedaço da mantilha de renda. - -O creado que entrava do outro lado com a cafeteira estacou, afiando o -olho curioso, farejando o escandalo; depois, calado e seccamente, foi -servindo em roda o café. - -Durante um momento houve um silencio. Apenas porém o criado sahiu--a -Lolita e o Palma, agitados mas abafando a voz, atacaram o Eusebiosinho. -Elle portara-se muito mal! Aquillo não fôra de cavalheiro! Tinha trazido -a rapariga a Cintra, devia-a respeitar, não a ter renegado assim, á -bruta, diante de todos... - ---_Esto no se hace_, dizia a Lolita, de pé, gesticulando, com os olhos -brilhantes, voltada para Carlos, _ha sido una cosa muy fêa!_.. - -E como o Cruges lamentava, sorrindo, ter sido a causa involuntaria da -catastrophe--ella baixou a voz, contou que a Concha era uma furia, viera -a Cintra com pouca vontade, e desde manhã estava de _muy malo humor_... -Pero lo de Silbeira habia sido una gran pulhice... - -Elle, coitado, com a cabeça cahida e as orelhas em braza, remexia -desoladamente o seu café; não se lhe viam os olhos escondidos pelas -lunetas pretas, mas percebia-se-lhe o grosso soluço que lhe affogava a -garganta. Então Palma pouzou a chavena, lambeu os beiços, e de pé no -meio da sala, com a face luzidia, o collete desabotoado, fez n'um tom -entendido o resumo d'aquelle desgosto. - ---Tudo provém d'isto, e desculpe-me você dizel-o, Silveira: é que você -não sabe tratar com hespanholas! - -A esta cruel palavra o viuvo succumbiu. A colher cahiu-lhe dos dedos. -Ergueu-se, acercou-se de Carlos e de Cruges, como refugiando-se n'elles, -vindo reconfortar-se ao calor da sua amizade,--e desabafou, estas -palavras angustiosas escaparam-se-lhe dos labios: - ---Vejam vocês! vem a gente a um sitio d'estes para gosar um bocado de -poesia, e no fim é uma d'estas!... - -Carlos bateu-lhe melancolicamente no hombro: - ---A vida é assim, Eusebiosinho. - -Cruges fez-lhe uma festa nas costas: - ---Não se póde contar com prazeres, Silveirinha. - -Mas Palma, mais pratico, declarou que era forçoso arranjarem-se as -cousas. Virem a Cintra, para questões e amuos, isso não! N'aquellas -pandegas queria-se harmonia, chalaça, e gosar. Couces, não. Então -ficava-se em Lisboa, que era mais barato. - -Chegou-se a Lolla, passou-lhe os dedos pela face, com amor: - ---Anda Lolita, vae tu lá dentro á Concha, dize-lhe que se não faça tola, -que venha tomar café... Anda, que tu sabe-l'a levar... Dize-lhe que peço -eu! - -Lolita esteve um momento escolhendo duas boas laranjas, foi dar um geito -ao cabello diante do espelho, apanhou a cauda--e sahiu, atirando a -Carlos, ao passar, um olhar e um sorrisinho. - -Apenas ficaram sós, Palma voltou-se para o Eusebio, e deu-lhe conselhos -muito serios sobre o systema de tratar hespanholas. Era necessario -leval-as por bons modos; por isso é que ellas se pellavam por -portuguezes, porque lá em Hespanha era á bordoada... Emfim, elle não -dizia que em certos casos, duas boas bolachas, mesmo um bom par de -bengaladas, não fossem uteis... Sabiam, por exemplo, os amigos, quando -se devia bater? Quando ellas não gostavam da gente, e se faziam ariscas. -Então, sim. Então zás, tapona, que ellas ficavam logo pelo beiço... Mas -depois bons modos, delicadeza, tal qual como com francezas... - ---Acredite você isto, Silveira. Olhe que eu tenho experiencia. E o sr. -Maia que lhe diga se isto não é verdade, elle que tem tambem experiencia -e sabe viver com hespanholas! - -E isto foi dito com tanto calor, tanto respeito--que Cruges desatou a -rir, fez rir Carlos tambem. - -O sr. Palma, um pouco chocado, compoz mais as lunetas, e olhou para -elles: - ---Os senhores riem-se? Imaginam que eu que estou a mangar? Olhem que eu -comecei a lidar com hespanholas aos quinze annos! Não, escusam de rir, -que n'isso ninguem me ganha! Lá o que se chama ter geito para -hespanholas, cá o meco! E, vamos lá, que não é facil! É necessario ter -um certo talento!... Olhem, o Herculano é capaz de fazer bellos artigos -e estylo catita... Agora tragam-n'o cá para lidar com hespanholas e -veremos! Não dá meia... - -Eusebiosinho no entanto fôra duas vezes escutar á porta. Todo o hotel -cahira n'um grande silencio, a Lolita não voltava. Então Palma -aconselhou um grande passo: - ---Vá você lá dentro, Silveira, entre pelo quarto, e assim sem mais nem -menos, chegue-se ao pé d'ella... - ---E tapona? perguntou Cruges, muito seriamente, gosando o Palma. - ---Qual tapona! Ajoelhe e peça perdão... N'este caso é pedir perdão... E -como pretexto, Silveira, leve-lhe você mesmo o café. - -Eusebiosinho, com um olhar ancioso e mudo, consultou os seus amigos. Mas -o seu coração já decidira: e d'ahi a um momento, com o pedaço de -mantilha n'uma das mãos, a chavena de café na outra, enfiado e -commovido, lá partia a passos lentos pelo corredor a pedir perdão á -Concha. - -E, logo atraz d'elle, Carlos e Cruges deixaram a sala, sem se despedirem -do sr. Palma--que de resto, indifferente tambem, já se accommodara à -meza a preparar regaladamente o seu grog. - - -Eram duas horas quando os dous amigos sahiram emfim do hotel, a fazer -esse passeio a Sitiaes--que desde Lisboa tentava tanto o maestro. Na -praça, por defronte das lojas vasias e silenciosas, cães vadios dormiam -ao sol: atravez das grades da cadêa os presos pediam esmola. Creanças, -enxovalhadas e em farrapos, garotavam pelos cantos; e as melhores casas -tinham ainda as janellas fechadas, continuando o seu somno de inverno, -entre as arvores já verdes. De vez em quando apparecia um bocado da -serra, com a sua muralha de ameias correndo sobre as penedias, ou via-se -o castello da Pena, solitario, lá no alto. E por toda a parte o luminoso -ar de abril punha a doçura do seu velludo. - -Defronte do hotel da Lawrence, Carlos retardou o passo, mostrou-o ao -Cruges. - ---Tem o ar mais sympathico, disse o maestro. Mas valeu muito a pena ir -para o Nunes, só para vêr aquella scena... E então com quê o sr. Carlos -da Maia tem experiencia de hespanholas? - -Carlos não respondeu, os seus olhos não se despegavam d'aquella fachada -banal, onde só uma janella estava aberta com um par de botinas de -duraque seccando ao ar. Á porta, dous rapazes inglezes, ambos de -knicker-bokers, cachimbavam em silencio; e defronte, sentados sobre um -banco de pedra, dous burriqueiros ao lado dos burros, não lhes tiravam o -olho de cima, sorrindo-lhes, cocando-os como uma presa. - -Carlos ia seguir, mas pareceu-lhe ouvir, distante e melancolico, sahindo -do silencio do hotel, um vago som de flauta; e parou ainda, remexendo as -suas recordações, quasi certo de Damaso lhe ter dito que a bordo Castro -Gomes tocava flauta... - ---Isto é sublime! exclamou do lado o Cruges, commovido. - -Parara diante da grade d'onde se domina o valle. E d'ali olhava, -enlevadamente, a rica vastidão de arvoredo cerrado, a que só se veem os -cimos redondos, vestindo um declive da serra como o musgo veste um muro, -e tendo aquella distancia, no brilho da luz, a suavidade macia de um -grande musgo escuro. E n'esta espessura verde-negra havia uma frontaria -de casa que o interessava, branquejando, affogada entre a folhagem, com -um ar de nobre repouso, debaixo de sombras seculares... Um momento teve -uma idéa de artista: desejou habital-a com uma mulher, um piano e um cão -da Terra-nova. - -Mas o que o encantava era o ar. Abria os braços, respirava a tragos -deliciosos: - ---Que ar! Isto dá saude, menino! Isto faz reviver!... - -Para o gosar mais docemente, sentou-se adiante, n'um bocado de muro -baixo, defronte de um alto terraço gradeado, onde velhas arvores -assombreiam bancos de jardim, e estendem sobre a estrada a frescura das -suas ramagens, cheias do piar das aves. E como Carlos lhe mostrava o -relogio, as horas que fugiam para ir vêr o palacio, a Pena, as outras -bellezas de Cintra--o maestro declarou que preferia estar ali, ouvindo -correr a agua, a vêr monumentos caturras... - ---Cintra não são pedras velhas, nem cousas gothicas... Cintra é isto, -uma pouca de agua, um bocado de musgo... Isto é um paraiso!... - -E, n'aquella satisfação que o tornava loquaz, acrescentou, repetindo a -sua chalaça: - ---E v. ex.^a deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experiencia de -hespanholas!... - ---Poupa-me, respeita a natureza, murmurou Carlos, que riscava -pensativamente o chão com a bengala. - -Ficaram callados. Cruges agora admirava o jardim, por baixo do muro em -que estavam sentados. Era um espesso ninho de verdura, arbustos, flores -e arvores, suffocando-se n'uma prodigalidade de bosque silvestre, -deixando apenas espaço para um tanquesinho redondo, onde uma pouca de -agua, immovel e gelada, com dous ou tres nenufares, se esverdinhava sob -a sombra d'aquella ramaria profusa. Aqui e alem, entre a bella desordem -da folhagem, distinguiam-se arranjos de gosto burguez, uma volta de -ruasita estreita como uma fita, faiscando ao sol, ou a banal palidez de -um gesso. N'outros recantos, aquelle jardim de gente rica, exposto ás -vistas, tinha retoques pretenciosos de estufa rara, aloes e cactos, -braços aguardasolados de auraucarias erguendo-se d'entre as agulhas -negras dos pinheiros bravos, laminas de palmeira, com o seu ar triste de -planta exilada, roçando a rama leve e perfumada das olaias floridas de -côr de rosa. A espaços, com uma graça discreta, branquejava um grande pé -de margaridas; ou em torno de uma rosa, solitaria na sua haste, -palpitavam borboletas aos pares. - ---Que pena que isto não pertença a um artista! murmurou o maestro. Só um -artista saberia amar estas flores, estas arvores, estes rumores... - -Carlos sorriu. Os artistas, dizia elle, só amam na natureza os effeitos -de linha e côr; para se interessar pelo bem-estar de uma tulipa, para -cuidar de que um craveiro não soffra sede, para sentir magoa de que a -geada tenha queimado os primeiros rebentões das acacias--para isso só o -burguez, o burguez que todas as manhãs desce ao seu quintal com um -chapéo velho e um regador, e vê nas arvores e nas plantas uma outra -familia muda, por que elle é tambem responsavel... - -Cruges, que escutara distrahidamente, exclamou: - ---Diabo! É necessario que não me esqueçam as queijadas! - -Um som de rodas interrompeu-os, uma caleche descoberta desembocou a -trote do lado de Sitiaes. Carlos ergueu-se logo, certo de que era -_ella_, e que elle ia vêr os seus bellos olhos brilhar e fugir como duas -estrellas. A caleche passou, levando um ancião de barbas de patriarcha, -e uma velha ingleza com o regaço cheio de flores, e o véo azul -fluctuando ao ar. E logo atraz, quasi no pó que as rodas tinham erguido, -appareceu, caminhando pensativamente, de mãos atraz das costas, um homem -alto, todo de preto, com um grande chapéo Panamá sobre os olhos. Foi -Cruges que reconheceu os longos bigodes romanticos, que gritou: - ---Olha o Alencar! Oh! grande Alencar!... - -Durante um momento, o poeta ficou assombrado, com os braços abertos, no -meio da estrada. Depois, com a mesma effusão ruidosa, apertou Carlos -contra o coração, beijou o Cruges na face--porque conhecia Cruges desde -pequeno, Cruges era para elle como um filho. Caramba! Eis ahi uma -surpreza que elle não trocava pelo titulo de duque! Ora o alegrão de os -vêr ali! Como diabo tinham elles vindo ali parar? - -E não esperou a resposta, contou elle logo a sua historia. Tivera um dos -seus ataques de garganta, com uma ponta de febre, e o Mello, o bom -Mello, recommendara-lhe mudança d'ares. Ora elle, bons ares, só -comprehendia os de Cintra: porque alli não eram só os pulmões que lhe -respiravam bem, era tambem o coração, rapazes!... De sorte que viera na -vespera, no omnibus. - ---E onde estás tu, Alencar? perguntou logo Carlos. - ---Pois onde queres tu que eu esteja, filho? Lá estou com a minha velha -Lawrence. Coitada! está bem velha! mas para mim é sempre uma amiga, é -quasi uma irmã!... E vocês, que diabo? Para onde vão vocês, com essas -flores nas lapellas? - ---A Sitiaes. Vou mostrar Sitiaes ao maestro. - -Então tambem elle voltava a Sitiaes! Não tinha nada que fazer senão -sorver bom ar, e scismar... Toda a manhã andara alli, vagamente, -pendurando sonhos dos ramos das arvores. Mas agora já os não largava; -era mesmo um dever ir elle proprio fazer ao maestro as honras de -Sitiaes... - ---Que aquillo é sitio muito meu, filhos! Não ha alli arvore que me não -conheça... Eu não vos quero começar já a impingir versos; mas emfim, -vocês lembram-se de uma cousa que eu fiz a Sitiaes, e de que por ahi se -gostou... - - - Quantos luares eu lá vi! - Que doces manhãs d'abril! - E os ais que soltei alli - Não foram sete, mas mil! - - -Pois então já vocês vêem, rapazes, que tenho razão para conhecer -Sitiaes... - -O poeta lançou ao ar um vago suspiro, e durante um instante caminharam -todos tres callados. - ---Dize-me uma cousa, Alencar, perguntou Carlos baixo, parando, e tocando -no braço do poeta. O Damaso está na Lawrence? - -Não, que elle o tivesse visto. Verdade seja que na vespera, apenas -chegara, fôra-se deitar, fatigado; e n'essa manhã almoçara só com dois -rapazes inglezes. O unico animal que avistara fôra um lindo cãosinho de -luxo, ladrando no corredor... - ---E vocês onde estão? - ---No Nunes. - -Então o poeta parando de novo, contemplando Carlos com sympathia: - ---Que bem que fizeste em arrastar cá o maestro, filho!... Quantas vezes -eu tenho dito áquelle diabo, que se mettesse no omnibus, viesse passar -dous dias a Cintra. Mas ninguem o tira de martelar o piano. E olha tu -que mesmo para a musica, para compor, para entender um Mozart, um -Choppin, é necessario ter visto isto, escutado este rumor, esta melodia -da ramagem... - -Baixou a voz, apontando para o maestro, que caminhava adiante, enlevado: - ---Tem muito talento, tem muita idéa melodica!... Olha que andei com -aquillo ás cabritas... E a mãe, menino, foi muitissimo boa mulher. - ---Vejam vocês isto! gritou Cruges que parara, esperando-os. Isto é -sublime. - -Era apenas um bocadito d'estrada, apertada entre dous velhos muros -cobertos d'hera, assombreada por grandes arvores entrelaçadas, que lhe -faziam um toldo de folhagem aberto á luz como uma renda: no chão tremiam -manchas de sol: e, na frescura e no silencio, uma agoa que se não via ia -fugindo e cantando. - ---Se tu queres sublime, Cruges, exclamou Alencar, então tens de subir á -serra. Ahi tens o espaço, tens a nuvem, tens a arte... - ---Não sei, talvez goste mais d'isto, murmurou o maestro. - -A sua natureza de timido preferiria, de certo, estes humildes recantos, -feitos de uma pouca de folhagem fresca e de um pedaço de muro musgoso, -logares de quietação e de sombra, onde se aninha com um conforto maior o -scismar dos indolentes... - ---De resto, filho, continuou Alencar, tudo em Cintra é divino. Não ha -cantinho que não seja um poema... Olha, alli tens tu, por exemplo, -aquella linda florinha azul...--e, ternamente, apanhou-a. - ---Vamos andando, vamos andando, murmurou Carlos impaciente, e agora, -desde que o poeta fallara do cãosinho de luxo, mais certo de que ella -estava na Lawrence, e que a ia brevemente encontrar. - -Mas, ao chegar a Sitiaes, Cruges teve uma desillusão diante d'aquelle -vasto terreiro coberto de herva, com o palacete ao fundo, enxovalhado, -de vidraças partidas, e erguendo pomposamente sobre o arco, em pleno -ceu, o seu grande escudo de armas. Ficara-lhe a idéa, de pequeno, que -Sitiaes era um montão pittoresco de rochedos, dominando a profundidade -de um valle; e a isto misturava-se vagamente uma recordação de luar e de -guitarras... Mas aquillo que elle alli via era um desapontamento. - ---A vida é feita de desapontamentos, disse Carlos, Anda para diante! - -E apressou o passo atravez do terreiro, em quanto o maestro, cada vez -mais animado, lhe gritava a chalaça do dia: - ---E v. ex.^a deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experiência de -hespanholas!... - -Alencar, que se demorara atraz a accender o cigarro, estendeu o ouvido, -curioso, quiz saber o que era isso de hespanholas? O maestro contou-lhe -o encontro no Nunes e os furores da Concha. - -Iam ambos caminhando por uma das alamedas lateraes, verde e fresca, de -uma paz religiosa, como um claustro feito de folhagem. O terreiro estava -deserto; a herva que o cobria, crescia ao abandono, toda estrellada de -botões de ouro brilhando ao sol, e de malmequersinhos brancos. Nenhuma -folha se movia: atravez da ramaria ligeira o sol atirava mólhos de raios -de ouro. O azul parecia recuado a uma distancia infinita, repassado de -silencio luminoso; e só se ouvia, ás vezes, monotona e dormente, a voz -de um cuco nos castanheiros. - -Toda aquella vivenda, com a sua grade enferrujada sobre a estrada, os -seus florões de pedra roídos da chuva, o pesado brazão rococó, as -janellas cheias de teias de aranha, as telhas todas quebradas, parecia -estar-se deixando morrer voluntariamente n'aquella verde -solidão,--amuada com a vida, desde que d'alli tinham desapparecido as -ultimas graças do tricorne e do espadim, e os derradeiros vestidos de -anquinhas tinham roçado essas relvas... Agora Cruges ía descrevendo ao -Alencar a figura do Eusebiosinho, com a chavena de café na mão, a ir -pedir perdão á Concha; e a cada momento o poeta, com o seu grande chapéo -panamá, se agachava a colher florinhas silvestres. - -Quando passaram o Arco, encontraram Carlos sentado n'um dos bancos de -pedra, fumando pensativamente a sua cigarette. O palacete deitava sobre -aquelle bocado de terraço a sombra dos seus muros tristes; do valle -subia uma frescura e um grande ar; e algures, em baixo, sentia-se o -prantear de um repuxo. Então o poeta, sentando-se ao lado do seu amigo, -fallou com nojo do Eusebiosinho.--Ahi está uma torpeza que elle nunca -commettera, trazer meretrizes a Cintra! Nem a Cintra, nem a parte -nenhuma... Mas muito menos a Cintra! Sempre tivera, todo o mundo devia -ter, a religião d'aquellas arvores e o amor d'aquellas sombras... - ---E esse Palma, accrescentou elle, é um traste! Eu conheço-o; elle teve -uma especie de jornal, e já lhe dei muita bofetada na rua do Alecrim. -Foi uma historia curiosa... Ora eu t'a conto Carlos... Aquelle canalha! -quando me lembro!... Aquella vil bolinha de materia putrida!... Aquelle -chouricinho de pus! - -Levantou-se, passando a mão nervosa sobre os bigodes, já excitado pela -lembrança d'aquella velha desordem, vergastando o Palma com nomes -ferozes, todo n'uma d'essas fervuras de sangue que eram a sua desgraça. - -Cruges, no entanto, encostado ao parapeito, olhava a grande planicie de -lavoura que se estendia em baixo, rica e bem trabalhada, repartida em -quadrados verde-claros e verde-escuros, que lhe faziam lembrar um panno -feito de remendos assim que elle tinha na meza do seu quarto. Tiras -brancas de estradas serpeavam pelo meio: aqui e além, n'uma massa de -arvoredo, branquejava um casal: e a cada passo, n'aquelle solo onde as -aguas abundam, uma fila de pequenos olmos revelava algum fresco ribeiro, -correndo e reluzindo entre as hervas. O mar ficava ao fundo, n'uma linha -unida, esbatida na tenuidade diffusa da bruma azulada: e por cima -arredondava-se um grande azul lustroso como um bello esmalte, tendo -apenas, lá no alto, um farraposinho de nevoa, que ficara alli esquecido, -e que dormia enovellado e suspenso na luz... - ---Tive nojo! exclamava o Alencar, rematando fogosamente a sua historia. -Palavra que tive nojo! Atirei-lhe a bengala aos pés, crusei os braços e -disse-lhe: ahi tem você a bengala, seu covarde, a mim bastam-me as mãos! - ---Que diabo, não me hão de esquecer as queijadas! murmurou Cruges, para -si mesmo, affastando-se do parapeito. - -Carlos erguera-se tambem, olhava o relogio. Mas antes de deixar Sitiaes, -Cruges quiz explorar o outro terraço ao lado: e, apenas subira os dous -velhos degraus de pedra, soltou de lá um grito alegre: - ---Bem dizia eu! cá estão elles... E vocês a dizer que não! - -Foram-n'o encontrar triumphante, diante de um montão de penedos, polidos -pelo uso, já com um vago feitio de assentos, deixados ali outr'ora, -poeticamente, para dar ao terraço uma graça agreste de selva brava. -Então, não dizia elle? Bem dizia elle que em Sitiaes havia penedos! - ---Se eu me lembrava perfeitamente! _Penedo da Saudade_, não é que se -chama, Alencar? - -Mas o poeta não respondeu. Diante d'aquellas pedras crusara os braços, -sorria dolorosamente; e immovel, sombrio no seu fato negro, com o panamá -carregado para a testa, envolveu todo aquelle recanto n'um olhar lento e -triste. - -Depois, no silencio, a sua voz ergueu-se, saudosa e dolente: - ---Vocês lembram-se, rapazes, nas _Flôres e Martyrios_, de uma das cousas -melhores que lá tenho, em rimas livres, chamada _6 de Agosto_? Não se -lembram talvez... Pois eu vol-a digo, rapazes! - -Machinalmente tirara do bolso o lenço branco. E com elle fluctuante na -mão, puxando Carlos para junto de si, chamando do outro lado o Cruges, -baixou a voz como n'uma confidencia sagrada, recitou, com um ardor -surdo, mordendo as syllabas, tremulo, n'uma paixão ephemera de nervoso: - - - Vieste! Cingi-te ao peito. - Em redor que noite escura! - Não tinha rendas o leito, - Nem tinha lavores na barra - Que era só a rocha dura... - Muito ao longe uma guitarra - Gemia vagos harpejos... - (Vê tu que não me esqueceu)... - E a rocha dura aqueceu - Ao calor dos nossos beijos! - - -Esteve um momento embebendo o olhar nas pedras brancas batidas do sol, -atirou para lá um gesto triste, e murmurou: - ---Foi alli. - -E affastou-se, alquebrado sob o seu grande chapéo panamá, com o lenço -branco na mão. Cruges, que aquelles romantismos impressionavam, ficou a -olhar para os penedos como para um sitio historico. Carlos sorria. E -quando ambos deixaram esse recanto do terraço--o poeta, agachado junto -do arco, estava apertando o atilho da ceroula. - -Endireitou-se logo, já toda a emoção o deixara, mostrava os maus dentes -n'um sorriso amigo, e exclamou, apontando para o arco: - ---Agora, Cruges, filho, repara tu n'aquella tela sublime. - -O maestro embasbacou. No vão do arco, como dentro de uma pesada moldura -de pedra, brilhava, á luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma -composição quasi phantastica, como a illustração de uma bella lenda de -cavallaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e -verdejando, todo salpicado de botões amarellos; ao fundo, o renque -cerrado de antigas arvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da -grade uma muralha de folhagem reluzente; e emergindo abruptamente d'essa -copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, -destacando vigorosamente n'um relevo nitido sobre o fundo de céu azul -claro, o cume airoso da serra, toda côr de violeta escura, coroada pelo -castello da Pena, romantico e solitario no alto, com o seu parque -sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar, e as cupulas brilhando -ao sol como se fossem feitas de ouro... - -Cruges achou aquelle quadro digno de Gustavo Doré. Alencar teve uma -bella phrase sobre a imaginação dos arabes. Carlos, impaciente, foi-os -apressando para diante. - -Mas agora Cruges, impressionado, estava com desejo de subir á Pena. -Alencar, por si, ía tambem com prazer. A Pena para elle era outro ninho -de recordações. Ninho? Devia antes dizer cemiterio... Carlos hesitava, -parado junto da grade. Estaria ella na Pena? E olhava a estrada, olhava -as arvores, como se podesse adivinhar pelas pegadas no pó, ou pelo mover -das folhas, que direcção tinham tomado os passos que elle seguia... Por -fim teve uma idéa. - ---Vamos indo primeiro á Lawrence. E depois se quizermos ir á Pena, -arranjam-se lá os burros... - -E nem mesmo quiz escutar o Alencar, que tivera, tambem uma idéa, fallava -de Collares, de uma visita ao seu velho Carvalhosa; accelerou o passo -para a Lawrence, emquanto o poeta tornava a arranjar o atilho da -ceroula, e o maestro, n'um enthusiasmo bucolico, ornava o chapéo de -folhas de hera. - -Defronte da Lawrence, os dois burriqueiros, de cigarro na bocca, não -tendo podido apoderar-se dos inglezes, preguiçavam ao sol. - ---Vocês sabem, perguntou-lhes Carlos, se uma familia, que está aqui no -hotel, foi para a Pena?... - -Um dos homens pareceu adivinhar, exclamou logo, desbarretando-se. - ---Sim, senhor, foram para lá ha bocado, e aqui está o burrinho tambem -para v. ex.^a, meu amo! - -Mas o outro, mais honesto, negou. Não senhor, a gente que fôra para a -Pena estava no Nunes... - ---A familia que o senhor diz foi agora ali para baixo, para o palacio... - ---Uma senhora alta? - ---Sim senhor. - ---Com um sujeito de barba preta? - ---Sim senhor. - ---E uma cadellinha? - ---Sim senhor. - ---Tu conheces o sr. Damaso Salcede? - ---Não senhor... É o que tira retratos? - ---Não, não tira retratos... Tomae lá. - -Deu-lhes uma placa de cinco tostões; e voltou ao encontro dos outros, -declarando que realmente era tarde para subirem á Pena. - ---Agora o que tu deves vêr, Cruges, é o palacio. Isso é que tem -originalidade e cachet! Não é verdade, Alencar?... - ---Eu vos digo, filhos, começou o auctor de _Elvira_, historicamente -fallando... - ---E eu tenho de comprar as queijadas, murmurou Cruges. - ---Justamente! exclamou Carlos. Tens ainda as queijadas; é necessario não -perder tempo; a caminho! - -Deixou os outros ainda indecisos, abalou para o palacio, em quatro -largas passadas estava lá. E logo da praça avistou, saindo já o portão, -passando rente da sentinella, a famosa familia hospedada na Lawrence e a -sua cadellinha de luxo. Era, com effeito, um sujeito de barba preta, e -de sapatos de lona branca; e, ao lado d'elle, uma matrona enorme, com um -mantelete de seda, cousas de ouro pelo pescoço e pelo peito, e o -cãosinho felpudo ao collo. Vinham ambos rosnando o quer que fosse, com -mau modo um para o outro, e em hespanhol. - -Carlos ficou a olhar para aquelle par com a melancolia de quem contempla -os pedaços d'um bello marmore quebrado. Não esperou mais pelos outros, -nem os quiz encontrar. Correu á Lawrence por um caminho differente, -avido de uma certeza:--e ahi, o criado que lhe appareceu, disse-lhe que -o sr. Salcede e os srs. Castro Gomes tinham partido na vespera para -Mafra... - ---E de lá?... - -O criado ouvira dizer ao sr. Damaso que de lá voltavam a Lisboa. - ---Bem, disse Carlos atirando o chapéo para cima da meza, traga-me você -um calice de cognac, e uma pouca d'agua fresca. - -Cintra, de repente, pareceu-lhe intoleravelmente deserta e triste. Não -teve animo de voltar ao palacio, nem quiz sahir mais d'ali; e arrancando -as luvas passeiando em volta da meza de jantar, onde murchavam os ramos -da vespera, sentia um desejo desesperado de galopar para Lisboa, correr -ao Hotel Central, invadir-lhe o quarto, vêl-a, saciar os seus olhos -n'ella!... Porque, o que o irritava agora era não poder encontrar, na -pequenez de Lisboa, onde toda a gente se acotovella, aquella mulher que -elle procurava anciosamente! Duas semanas farejara o Aterro como um cão -perdido: fizera perigrinações ridiculas de theatro em theatro: n'uma -manhã de domingo percorrera as missas! E não a tornara a vêr. Agora -sabia-a em Cintra, voava a Cintra, e não a via tambem. Ella cruzava-o -uma tarde, bella como uma deusa transviada no Aterro, deixava-lhe cahir -n'alma por accaso um dos seus olhares negros, e desapparecia, -evaporava-se, como se tivesse realmente remontado ao céo, d'ora em -diante invisivel e sobrenatural: e elle ali ficava, com aquelle olhar no -coração, perturbando todo o seu ser, orientando surdamente os seus -pensamentos, desejos, curiosidades, toda a sua vida interior, para uma -adoravel desconhecida, de quem elle nada sabia senão que era alta e -loira, e que tinha uma cadellinha escosseza... Assim acontece com as -estrellas d'acaso! Ellas não são d'uma essencia diferente, nem contéem -mais luz que as outras: mas, por isso mesmo que passam fugitivamente e -se esvaem, parecem despedir um fulgor mais divino, e o deslumbramento -que deixam nos olhos é mais perturbador e mais longo... Elle não a -tornara a vêr. Outros viam-n'a. O Taveira vira-a. No Gremio, ouvira um -alferes de lanceiros fallar d'ella, perguntar quem era, porque a -encontrava todos os dias. O alferes encontrava-a todos os dias. Elle não -a via, e não socegava... - -O criado trouxe o cognac. Então Carlos, preparando vagarosamente o seu -refresco, conversou com elle, fallou um momento dos dois rapazes -inglezes, depois da hespanhola obesa... Emfim, dominando uma timidez, -quasi córando, fez, atravez de grandes silencios, perguntas sobre os -Castro Gomes. E cada resposta lhe parecia uma acquisição preciosa. A -senhora era muito madrugadora, dizia o criado: ás sete horas tinha -tomado banho, estava vestida, e sahia só. O sr. Castro Gomes, que dormia -n'um quarto separado, nunca se mexia antes do meio dia; e, á noite, -ficava uma eternidade á meza, fumando cigarettes e molhando os beiços em -copinhos de cognac e agua. Elle e o sr. Damaso jogavam o dominó. A -senhora tinha montões de flôres no quarto; e tencionavam ficar até -domingo, mas fôra ella que apressára a partida... - ---Ah, disse Carlos depois de um silencio, foi a senhora que apressou a -partida?... - ---Sim, senhor, com cuidado na menina que tinha ficado em Lisboa... V. -ex.^a toma mais cognac? - -Com um gesto Carlos recusou, e veiu sentar-se no terraço. A tarde -descia, calma, radiosa, sem um estremecer de folhagem, cheia de -claridade dourada, n'uma larga serenidade que penetrava a alma. Elle -tel-a-hia pois encontrado, ali mesmo n'aquelle terraço, vendo tambem -cahir a tarde--se ella não estivesse impaciente por tornar a vêr a -filha, algum bébésinho loiro que ficára só com a ama. Assim, a brilhante -deusa era tambem uma boa mamã; e isto dava-lhe um encanto mais profundo, -era assim que elle gostava mais d'ella, com este terno estremecimento -humano nas suas bellas fórmas de marmore. Agora, já ella estava em -Lisboa; e imaginava-a nas rendas do seu _peignoir_, com o cabello -enrolado à pressa, grande e branca, erguendo ao ar o bébé nos seus -explendidos braços de Juno, e fallando-lhe com um riso d'ouro. Achava-a -assim adoravel, todo o seu coração fugia para ella... Ah! poder ter o -direito de estar junto d'ella, n'essas horas d'intimidade, bem junto, -sentindo o aroma da sua pelle, e sorrindo tambem a um bébé. E, pouco a -pouco, foi-lhe surgindo na alma um romance, radiante e absurdo: um sopro -de paixão, mais forte que as leis humanas, enrolava violentamente, -levava juntos o seu destino e o d'ella; depois, que divina existencia, -escondida n'um ninho de flôres e de sol, longe, n'algum canto da -Italia... E, toda a sorte de idéas d'amor, de devoção absoluta, de -sacrificio, invadiam-n'o deliciosamente--emquanto os seus olhos se -esqueciam, se perdiam, enlevados na religiosa solemnidade d'aquelle -bello fim da tarde. Do lado do mar subia uma maravilhosa côr d'ouro -pallido, que ia no alto diluir o azul, dava-lhe um branco indeciso e -opalino, um tom de desmaio doce; e o arvoredo cobria-se todo de uma -tinta loura, delicada e dormente. Todos os rumores tomavam uma suavidade -de suspiro perdido. Nenhum contorno se movia como na immobilidade de um -extase. E as casas, voltadas para o poente, com uma ou outra janella -accesa em braza, os cimos redondos das arvores apinhadas, descendo a -serra n'uma espessa debandada para o valle, tudo parecera ficar de -repente parado n'um recolhimento melancolico e grave, olhando a partida -do sol, que mergulhava lentamente no mar... - ---Oh Carlos, tu estás ahi? - -Era em baixo, na estrada, a voz grossa do Alencar gritando por elle. -Carlos appareceu á varanda do terraço. - ---Que diabo estás tu ahi a fazer, rapaz? exclamou Alencar, agitando -alegremente o seu panamá. Nós lá estivemos à espera, no covil real... -Fomos ao Nunes... Iamos agora procurar-te á cadeia! - -E o poeta riu largamente da sua pilheria--emquanto Cruges, ao lado, de -mãos atraz das costas, e a face erguida para o terraço, bocejava -desconsoladamente. - ---Vim _refrescar_, como tu dizes, tomar um pouco de cognac, que estava -com sêde. - -Cognac? eis ahi o mimo por que o pobre Alencar estivera anciando toda a -tarde, desde Sitiaes. E galgou logo as escadas do terraço--depois de ter -gritado para dentro, para a sua velha Lawrence, que lhe mandasse acima -_meia da fina_. - ---Viste o Paço, hein, Cruges? perguntou Carlos ao maestro, quando elle -appareceu, arrastando os passos. Então, parece-me que o que nos resta a -fazer é jantar, e abalar... - -Cruges concordou. Voltava do palacio com um ar murcho, fatigado -d'aquelle vasto casarão historico, da voz monotona do cicerone mostrando -a cama de S. M. El-Rei, as cortinas do quarto de S. M. a Rainha, -«melhores que as de Mafra,» o tira-botas de S. A.; e trazia de lá uma -pouca d'essa melancolia que erra, como uma atmosphera propria, nas -residencias reaes. - -E aquella natureza de Cintra, ao escurecer, dizia elle, começava a -entristecel-o. - -Então concordaram em jantar ali, na Lawrence, para evitar o espectaculo -torpe do Palma e das damas, mandar vir á porta o break, e partir depois -ao nascer do luar. Alencar, aproveitando a carruagem, recolhia tambem a -Lisboa. - ---E, para ser festa completa, exclamou elle, limpando os bigodes do -cognac, emquanto vocês vão ao Nunes pagar a conta, e dar ordens para o -break, eu vou-me entender lá abaixo á cosinha com a velha Lawrence, e -preparar-vos um _bacalhau á Alencar_, recipe meu... E vocês verão o que -é um bacalhau! Porque, lá isso, rapazes, versos os farão outros melhor; -bacalhau, não! - -Atravessando a praça, Cruges pedia a Deus que não encontrassem mais o -Eusebiosinho. Mas, apenas pozeram os pés nos primeiros degraus do Nunes, -ouviram em cima o chalrar da sucia. Estavam na ante-sala, já todos -reconciliados, a Concha contente--e installados aos dois cantos de uma -meza, com cartas. O Palma, munido d'uma garrafa de genebra, fazia uma -_batotinha_ para o Eusebio; e as duas hespanholas, de cigarro na bocca, -jogavam languidamente a bisca. - -O viuvo, enfiado, perdia. No monte, que começára miseravelmente com duas -corôas, já luzia ouro; e Palma triumphava, chalaceiando, dando beijocas -na sua moça. Mas, ao mesmo tempo, fazia de cavalheiro, fallava de dar a -desforra, ficar ali, sendo necessario, até de madrugada. - ---Então vv. ex.^{as} não se tentam? Isto é para passar o tempo... Em -Cintra tudo serve... Valete! Perdeu você outro mico no rei. Deve a libra -mais quinze tostões, sô Silveira! - -Carlos passára, sem responder, seguido pelo criado--no momento em que -Euzebiosinho, furioso, já desconfiado, quiz verificar, com as lunetas -negras sobre o baralho, se lá estavam todos os reis. - -Palma alastrou as cartas largamente, sem se zangar. Entre amigos, que -diabo, tudo se admittia! A sua hespanhola, essa sim, escandalisou-se, -defendendo a honra do seu homem: então Palmita havia de ter empalmado o -rei? Mas, a Concha, zelava o dinheiro do seu viuvo, exclamava que o rei -podia estar perdido... Os reis estavam lá. - -Palma atirou um calice de genebra ás goelas, e recomeçou a baralhar -magestosamente. - ---Então v. ex.^a não se tenta? repetia elle para o maestro. - -Cruges, com effeito, parára, roçando-se pela meza, com o olho nas cartas -e no ouro do monte, já sem força, remexendo o dinheiro nas algibeiras. -Subitamente um az decidiu-o. Com a mão nervosa, escorregou-lhe uma libra -por baixo, jogando cinco tostões, e de porta. Perdeu logo. Quando Carlos -voltou do quarto com o criado que descia as malas, o maestro estava em -pleno vicio, com a libra entalada, os olhos accezos, o ar esguedelhado. - ---Então tu?...--exclamou Carlos com severidade. - ---Já desço, rosnou o maestro. - -E, á pressa, foi á paz da libra, n'um terno contra o rei. Cartada de -colicas! como disse o Palma: e foi com emoção que elle começou a puxar -as cartas, espremendo-as uma a uma, n'um vagar mortal. A apparição de um -bico arrancou-lhe uma praga. Era apenas um duque, Eusebiosinho perdia -mais uma placa. Palma teve um suspirinho de alivio; e, escondendo com -ambas as mãos o baralho, erguendo as lunetas faiscantes para o maestro: - ---Então, sempre continúa toda a libra? - ---Toda. - -Palma teve outro suspiro, d'anciedade; e, mais pallido, voltou -bruscamente as cartas. - ---Rei! gritou elle, empolgando o ouro. - -Era o rei de paus, a sua hespanhola bateu as palmas, o maestro abalou -furioso. - -Na Lawrence o jantar prolongou-se até ás oito horas, com luzes;--e o -Alencar fallou sempre. Tinha esquecido n'esse dia as desillusões da -vida, todos os rancores litterarios, estava n'uma veia excellente; e -foram historias dos velhos tempos de Cintra, recordações da sua famosa -ida a Paris, cousas picantes de mulheres, bocados da chronica intima da -Regeneração... Tudo isto com estridencias de voz, e _filhos isto!_ e -_rapazes aquillo!_ e gestos que faziam oscillar as chammas das vellas, e -grandes copos de Collares emborcados de um trago. Do outro lado da meza, -os dois inglezes, correctos nos seus fraques negros, de cravos brancos -na botoeira, pasmavam, com um ar embaraçado a que se misturava desdem, -para esta desordenada exhuberancia de meridional. - -A apparição do bacalhau foi um triumpho:--e a satisfação do poeta tão -grande, que desejou mesmo, caramba, rapazes, que ali estivesse o Ega! - ---Sempre queria que elle provasse este bacalhau! Já que me não aprecia -os versos, havia de me apreciar o cozinhado, que isto é um bacalhau de -artista em toda a parte!... N'outro dia fil-o lá em casa dos meus -Cohens; e a Rachel, coitadinha, veiu para mim e abraçou-me... Isto, -filhos, a poesia e a cozinha são irmãs! Vejam vocês Alexandre Dumas... -Dirão vocês que o pae Dumas não é um poeta... E então d'Artagnan? -D'Artagnan é um poema... É a faisca é a phantasia, é a inspiração, é o -sonho, é o arrobo! Então, pôço, já vêem vocês, que é poeta!... Pois -vocês hão-de vir um dia d'estes jantar commigo, e ha-de vir o Ega, e -hei-de-vos arranjar umas perdizes á hespanhola, que vos hão-de nascer -castanholas nos dedos!... Eu, palavra, gosto do Ega! Lá essas cousas de -realismo e romantismo, historias... Um lyrio é tão natural como um -persevejo... Uns preferem fedôr de sargeta; perfeitamente, destape-se o -cano publico... Eu prefiro pós de marechala n'um seio branco; a mim o -seio, e, lá vae á vossa. O que se quer, é coração. E o Ega tem-n'o. E -tem faisca, tem rasgo, tem estylo... Pois, assim é que elles se querem, -e, lá vae á saude do Ega! - -Pousou o copo, passou a mão pelos bigodes, e rosnou mais baixo: - ---E, se aquelles inglezes continuam a embasbacar para mim, vae-lhes um -copo na cara, e é aqui um vendaval, que ha-de a Gran-Bretanha ficar -sabendo o que é um poeta portuguez!... - -Mas não houve vendaval, a Gran-Bretanha ficou sem saber o que é um poeta -portuguez, e o jantar terminou n'um café tranquillo. Eram nove horas, -fazia luar, quando Carlos subiu para a almofada do break. - -Alencar, embuçado n'um capote, um verdadeiro capote de padre de aldêa, -levava na mão um ramo de rosas: e agora, guardara o seu panamá na -maleta, trazia um bonet de lontra. O maestro, pesado do jantar, com um -começo de _spleen_, encolheu-se a um canto do break, mudo, enterrado na -gola do paletot, com a manta da mamã sobre os joelhos. Partiram. Cintra -ficava dormindo ao luar. - -Algum tempo o break rodou em silencio, na belleza da noite. A espaços, a -estrada apparecia banhada d'uma claridade quente que faiscava. Fachadas -de casas, caladas e pallidas, surgiam, d'entre as arvores com um ar de -melancolia romantica. Murmurios de agoas perdiam-se na sombra; e, junto -dos muros enramados, o ar estava cheio d'aroma. Alencar accendera o -cachimbo, e olhava a lua. - -Mas, quando passaram as casas de S. Pedro, e entraram na estrada, -silenciosa e triste, Cruges mexeu-se, tossiu, olhou tambem para a lua, e -murmurou d'entre os seus agasalhos: - ---Oh Alencar, recita para ahi alguma cousa... - -O poeta condescendeu logo--apesar de um dos criados ir ali ao lado -d'elles, dentro do break. Mas, que havia elle de recitar, sob o encanto -da noite clara? Todo o verso parece frouxo, escutado diante da lua! -Emfim, ía dizer-lhe uma historia bem verdadeira e bem triste... Veiu -sentar-se ao pé do Cruges, dentro do seu grande capotão, esvaziou os -restos do cachimbo, e, depois de acariciar algum tempo os bigodes, -começou, n'um tom familiar e simples: - - - Era o jardim d'uma vivenda antiga, - Sem arrebiques d'arte ou flôres de luxo; - Ruas singellas d'alfazema e buxo, - Cravos, roseiras... - - ---Com mil raios! exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da -manta, com um berro que emmudeceu o poeta, fez voltar Carlos na -almofada, assustou o trintanario. - -O break parára, todos o olhavam suspensos; e, no vasto silencio da -charneca, sob a paz do luar, Cruges, succumbido, exclamou: - ---Esqueceram-me as queijadas! - - - - -IX - - -O dia famoso da soirée dos Cohens, ao fim d'essa semana tão luminosa e -tão doce, amanheceu enevoado e triste. Carlos, abrindo cedo a janella -sobre o jardim, vira um céu baixo que pesava como se fosse feito de -algodão em rama enxovalhado: o arvoredo tinha um tom arripiado e humido; -ao longe o rio estava turvo, e no ar molle errava um halito morno de -sudoeste. Decidira não sahir--e desde as nove horas, sentado á banca, -embrulhado no seu vasto robe-de-chambre de velludo azul, que lhe dava o -bello ar de um principe artista da Renascença, tentava trabalhar: mas, -apesar de duas chavenas de café, de cigarettes sem fim, o cerebro, como -o céu fóra, conservava-se-lhe n'essa manhã afogado em nevoas. Tinha -d'estes dias terriveis; julgava-se então «uma besta»; e a quantidade de -folhas de papel, dilaceradas, amarfanhadas, que lhe juncavam o tapete -aos pés, davam-lhe a sensação de ser todo elle uma ruina. - -Foi realmente um allivio, uma tregoa n'aquella lucta com as idéas -rebeldes, quando Baptista annunciou Villaça, que lhe vinha fallar de uma -venda de montados no Alemtejo, pertencentes á sua legitima. - ---Negociosinho, disse o administrador, pousando o chapéo a um canto da -mesa e dentro um rolo de papeis, que lhe mette na algibeira para cima de -dois contos de réis... E não é mau presente, logo assim pela manhã... - -Carlos espreguiçou-se, crusando fortemente as mãos por trás da cabeça: - ---Pois olhe, Villaça, preciso bem de dous contos de réis, mas preferia -que me trouxesse ahi alguma lucidez de espirito... Estou hoje d'uma -estupidez! - -Villaça considerou-o um momento, com malicia. - ---Quer v. ex.^a dizer que antes queria escrever uma bonita pagina do que -receber assim perto de quinhentas libras? São gostos, meu senhor, são -gostos... Elle é bom sahir-se a gente um Herculano ou um Garrett, mas -dous contos de réis, são dous contos de réis... Olhe que sempre valem um -folhetim. Emfim, o negocio é este. - -Explicou-lh'o, sem se sentar, apressado, emquanto Carlos, de braços -cruzados, considerava quanto era medonho o alfinete de peito que Villaça -trazia (um macacão de coral comendo uma pera de ouro) e distinguia -vagamente, atravez da sua neblina mental, que se tratava de um visconde -de Torral e de porcos... Quando Villaça lhe apresentou os papeis, -assignou-os com um ar moribundo. - ---Então não fica para almoçar, Villaça? disse elle, vendo o procurador -metter o seu rolo de papeis debaixo do braço. - ---Muito agradecido a v. ex.^a Tenho de me encontrar com o nosso amigo -Eusebio... Vamos ao ministerio do reino, elle tem lá uma pertenção... -Quer a commenda da Conceição... Mas este governo está desgostoso com -elle. - ---Ah, murmurou Carlos com respeito e atravez d'um bocejo, o governo não -está contente com o Eusebiosinho? - ---Não se portou bem nas eleições. Ainda ha dias, o ministro do reino me -dizia, em confidencia: «O Eusebio é rapaz de merecimento, mas -atravessado...» V. Ex.^a n'outro dia, disse-me o Cruges, encontrou-o em -Cintra. - ---Sim, lá estava a fazer jus á commenda da Conceição. - -Quando Villaça saiu Carlos retomou lentamente a penna, e ficou um -momento, com os olhos na pagina meio-escripta, coçando a barba, -desanimado e esteril. Mas quasi em seguida appareçeu Affonso da Maia, -ainda de chapéo, á volta do seu passeio matinal no bairro, e com uma -carta na mão, que era para Carlos, e que elle achara no escriptorio -misturada ao seu correio. Além d'isso, esperava encontrar ali o Villaça. - ---Esteve ahi, mas deitou a correr, para ir arranjar uma commenda para o -Eusebiosinho--disse Carlos, abrindo a carta. - -E teve uma surpreza, vendo no papel--que cheirava a verbena como a -condessa de Gouvarinho--um convite do conde para jantar no sabbado -seguinte, feito em termos de sympathia tão escolhidos que eram quasi -poeticos; tinha mesmo uma phrase sobre a amisade, fallava dos _atomos em -gancho_ de Descartes. Carlos desatou a rir, contou ao avô que era um par -do reino que o convidava a jantar, citando Descartes... - ---São capazes de tudo, murmurou o velho. - -E dando um olhar risonho, aos manuscriptos espalhados sobre a banca: - ---Então, aqui, trabalha-se, hein? - -Carlos encolheu os hombros: - ---Se é que se póde chamar a isto trabalhar... Olhe ahi para o chão. Veja -esses destroços... Em quanto se trata de tomar notas, colligir -documentos, reunir materiaes, bem, lá vou indo. Mas quando se trata de -pôr as idéas, a observação, n'uma fórma de gosto e de symetria, dar-lhe -côr, dar-lhe relevo, então... Então foi-se! - ---Preoccupação peninsular, filho, disse Affonso sentando-se ao pé da -mesa, com o seu chapéo desabado na mão. Desembaraça-te d'ella. É o que -eu dizia n'outro dia ao Craft, e elle concordava... O portuguez nunca -póde ser homem de idéas, por causa da paixão da fórma. A sua mania é -fazer bellas phrases vêr-lhes o brilho, sentir-lhes a musica. Se fôr -necessario falsear a idéa, deixal-a incompleta, exageral-a, para a -phrase ganhar em belleza, o desgraçado não hesita... Vá-se pela agoa -abaixo o pensamento, mas salve-se a bella phrase. - ---Questão de temperamento, disse Carlos. Ha sêres inferiores, para quem -a sonoridade de um adjectivo é mais importante que a exactidão de um -systema... Eu sou d'esses monstros. - ---Diabo! então és um rhetorico... - ---Quem o não é? E resta saber por fim se o estylo não é uma disciplina -do pensamento. Em verso, o avô sabe, é muitas vezes a necessidade de uma -rima que produz a originalidade de uma imagem... E quantas vezes o -esforço para completar bem a cadencia de uma phrase, não poderá trazer -desenvolvimentos novos e inesperados de uma idéa... Viva a bella phrase! - ---O sr. Ega annunciou o Baptista, erguendo o reposteiro, quando começava -justamente a tocar a sineta do almoço. - ---Fallae na phrase...--disse Affonso, rindo. - ---Hein? Que phrase? O que?..--exclamou Ega, que rompeu pelo quarto, com -o ar estonteado, a barba por fazer, a gola do paletot levantada. Oh! por -aqui a esta hora sr. Affonso da Maia! Como está v. ex.^a? Dize-me cá, -Carlos, tu é que me podes tirar d'uma atrapalhação... Tu terás por acaso -uma espada que me sirva? - -E, como Carlos o olhava assombrado, acrescentou, já impaciente: - ---Sim, homem, uma espada! Não é para me batter, estou em paz com toda a -humanidade... É para esta noute, para o fato de mascara. - -O Mattos, aquelle animal, só na vespera lhe dera o costume para o baile: -e, qual é o seu horror, ao vêr que lhe arranjara, em logar de uma espada -artistica, um sabre da guarda municipal! Tivera vontade de lh'o passar -atravez das entranhas. Correu ao tio Abrahão, que só tinha espadins de -côrte, reles e pelintras como a propria côrte! Lembrara-se do Craft e da -sua collecção; vinha de lá; mas ahi eram uns espadões de ferro, catanas -pesando arrobas, as durindanas tremendas dos brutos que conquistaram a -India... Nada que lhe servisse. Fôra então que lhe tinham vindo á idéa -as panoplias antigas do Ramalhete. - ---Tu é que deves ter... Eu preciso uma espada longa e fina, com os copos -em concha, d'aço rendilhado, forrados de velludo escarlate. E sem cruz, -sobretudo sem cruz! - -Affonso, tomando logo um interesse paternal por aquella difficuldade do -John, lembrou que havia no corredor, em cima, umas espadas -hespanholas... - ---Em cima, no corredor? exclamou Ega, já com a mão no reposteiro. - -Inutil precipitar-se, o bom John não as poderia encontrar. Não estavam á -vista, arranjadas em panoplia, conservavam-se ainda nos caixões em que -tinham vindo de Bemfica. - ---Eu lá vou, homem fatal, eu lá vou, disse Carlos, erguendo-se com -resignação. Mas olha que ellas não têem bainhas. - -Ega ficou succumbido. E foi ainda Affonso que achou uma idéa, o salvou. - ---Manda fazer uma simples bainha de velludo negro; isso faz-se n'uma -hora. E manda-lhe cozer ao comprido rodellas de velludo escarlate... - ---Explendido, gritou Ega: o que é ter gosto! - -E apenas Carlos sahiu, trovejou contra o Mattos. - ---Veja v. ex.^a isto, um sabre da guarda municipal! E é quem faz ahi os -fatos para todos os theatros! Que idiota!.. E é tudo assim, isto é um -paiz insensato!... - ---Meu bom Ega, tu não queres tornar de certo Portugal inteiro, o Estado, -sete milhões d'almas, responsaveis por esse comportamento do Mattos? - ---Sim senhor, exclamava o Ega passeiando pelo gabinete, com as mãos -enterradas nos bolsos do paletot; sim senhor, tudo isso se prende. O -_costumier_ com um fato do seculo XIV manda um sabre da guarda -municipal; por seu lado o ministro, a proposito de impostos, cita as -_Meditações_ de Lamartine; e o litterato, essa besta suprema... - -Mas calou-se, vendo a espada que Carlos trazia na mão, uma folha do -seculo XVI, de grande tempera, fina e vibrante, com copos trabalhado -como uma renda--e tendo gravado no aço o nome illustre do espadeiro, -Francisco Ruy de Toledo. - -Embrulhou-a logo n'um jornal, recusou á pressa o almoço, que lhe -offereciam, deu dous vivos _shake-hands_, atirou o chapéu para a nuca, -ia abalar, quando a voz de Affonso o deteve: - ---Ouve la, John, dizia o velho alegremente, isso é uma espada cá da -casa, que nunca brilhou sem gloria, creio eu... Vê como te serves -d'ella! - -Ao pé do resposteiro, Ega voltou-se, exclamou, apertando contra o peito -do paletot o ferro, enrolado, no _Jornal do Commercio_: - ---Não a sacarei sem justiça, nem a embainharei sem honra. _Au revoir!_ - ---Que vida, que mocidade! murmurou Affonso. Muito feliz é este John!... -Pois vae-te arranjando filho, que já tocou a primeira vez para o almoço. - -Carlos ainda se demorou um instante a reler, com um sorriso, a -apparatosa carta do Gouvarinho; e ia emfim chamar o Baptista para se -vestir, quando em baixo, á entrada particular, o timbre electrico -começou a vibrar violentamente. Um passo ancioso ressoou na ante-camara, -o Damaso appareceu esbaforido, d'olho esgazeado, com a face em braza. E, -sem dar tempo a que Carlos exprimisse a surpreza de o ver emfim no -Ramalhete, exclamou, lançando os braços ao ar: - ---Ainda bem que te encontro, caramba! Quero que venhas d'ahi, que me -venhas ver um doente... Eu te explicarei... É aquella gente brazileira. -Mas pelo amor de Deus, vem depressa, menino! - -Carlos erguera-se, pallido: - ---É ella? - ---Não, é a pequena, esteve a morrer... Mas veste-te, Carlinhos, -veste-te, que a responsabilidade é minha! - ---É um bébé, não é? - ---Qual bébé!... É uma pequena crescida, de seis annos... Anda d'ahi! - -Carlos, já em mangas de camisa, estendia o pé ao Baptista, que, com um -joelho em terra, apressado tambem, quasi fez saltar os botões da bota. E -Damaso, de chapéu na cabeça, agitava-se, exagerando a sua impaciencia, a -estalar de importancia. - ---Sempre a gente se vê em coisas!.. Olha que responsabilidade a minha! -Vou visital-os, como costumo ás vezes, de manhã... E vae, tinham partido -para Queluz. - -Carlos voltou-se, com a sobrecasaca meia vestida: - ---Mas então?.. - ---Escuta, homem! Foram para Queluz, mas a pequena ficou com a -governanta... Depois do almoço deu-lhe uma dôr. A governante queria um -medico inglez, porque não falla senão inglez... Do hotel foram procurar -o Smith, que não appareceu... E a pequena a morrer!... Felizmente, -cheguei eu, e lembrei-me logo de ti... Foi sorte encontrar-te, caramba! - -E acrescentou, dando um olhar ao jardim: - ---Tambem, irem a Queluz com um dia d'estes! Hão-de-se divertir... Estás -prompto, hein? Eu tenho lá em baixo o coupé... Deixa as luvas, vaes -muito bem sem luvas! - ---O avô que não me espere para almoçar, gritou Carlos ao Baptista, já do -fundo da escada. - -Dentro do coupé, um ramo enorme enchia quasi o assento. - ---Era para ella, disse o Damaso, pondo-o sobre os joelhos. Pela-se por -flores. - -Apenas o coupé partiu, Carlos cerrando a vidraça, fez a pergunta que -desde a apparição do Damaso lhe faiscava nos labios. - ---Mas então tu, que querias quebrar a cara a esse Castro Gomes?.. - -O Damaso contou logo tudo, triumphante. Fôra tudo um equivoco! Ah, as -explicações do Castro Gomes tinham sido d'um gentleman. Senão -quebrava-lhe a cara. Isso não, desconsiderações, a ninguem! a ninguem! -Mas fôra assim: os bilhetes de visita que elle lhe deixara conservavam o -seu adresse do _Grand Hotel_ em Paris. E o Castro Gomes, suppondo que -elle vivia lá, obdecendo á indicação, mandara para lá os seus cartões! -Curioso, hein? E de estupído... E a falta de resposta aos telegrammas -fôra culpa de Madame, descuido, n'aquelle momento de afflicção, vendo o -marido com o braço escavacado... Ah, tinham-lhe dado satisfações -humildes. E agora eram intimos, estava lá quasi sempre... - ---Emfim, menino, um romance... Mas isso é para mais tarde! - -O coupé parara á porta do Hotel Central. Damaso saltou, correu ao guarda -portão. - ---Mandou o telegramma, Antonio? - ---Já lá vae... - ---Tu comprehendes, dizia elle a Carlos, galgando as escadas, mandei-lhes -logo um telegramma para o hotel em Queluz. Não estou para ter mais -responsabilidades!... - -No corredor, defronte do escriptorio, um criado passava, com um -guardanapo debaixo do braço: - ---Como está a menina? gritou-lhe o Damaso. - -O criado encolheu os hombros, sem comprehender. - -Mas Damaso já trepava o outro lanço de escada, soprando, gritando: - ---Por aqui Carlos, eu conheço isto a palmos! Numero 26! - -Abriu com estrondo a porta do numero 26. Uma criada, que estava á -janella, voltou-se. - -Ah _bonjour_, Melanie! exclamava Damaso, no seu extraordinario francez. -A creança estava melhor? _l'enfant etait meilleur?_ Ali lhe trazia o -doutor, _monsieur le docteur Maia_. - -Melanie, uma rapariga magra e sardenta, disse que Mademoiselle estava -mais socegada, e ella ia avisar miss Sarah, a governanta. Passou o -espanador pelo marmore d'uma console, ageitou os livros sobre a meza, e -sahiu, dardejando a Carlos um olhar vivo como uma faisca. - -A sala era espaçosa, com uma mobilia de réps azul, e um grande espelho -sobre a console dourada, entre as duas janellas: a meza estava coberta -de jornaes, de caixas de charutos, e de romances de Cappendu; sobre uma -cadeira, ao lado, ficára enrolado um bordado. - ---Esta Melanie, esta desleixada, murmurava o Damaso, fechando a janella -com um esforço sobre o feixo perro. Deixar assim tudo aberto! Jesus, que -gente! - ---Este cavalheiro é bonapartista, disse Carlos vendo sobre a meza os -numeros do _Pays_. - ---Isso, temos questões terriveis! exclamou o Damaso. E eu enterro-o -sempre... É bom rapaz, mas tem pouco fundo. - -Melanie voltou pedindo a _Monsieur le Docteur_ para entrar um instante -no gabinete de toilette. E ahi, depois de apanhar uma toalha cahida, de -dardejar a Carlos outro olharsinho petulante, disse que Miss Sarah vinha -immediatamente, e retirou-se na ponta dos sapatos. Fóra, na sala, -ergueu-se logo a voz do Damaso, fallando a Melanie de _sa -responsabilité, et que il etait très affligé_. - -Carlos ficou só, na intimidade d'aquelle gabinete de toilette, que -n'essa manhã ainda não fôra arrumado. Duas malas, pertencentes de certo -a Madame, enormes, magnificas, com fecharias e cantos de aço polido, -estavam abertas: d'uma trasbordava uma cauda rica, de seda forte côr de -vinho: e na outra era um delicado alvejar de roupa branca, todo um luxo -secreto e raro de rendas e _baptistes_, d'um brilho de neve, macio pelo -uso e cheirando bem. Sobre uma cadeira alastrava-se um monte de meias de -seda, de todos os tons, unidas, bordadas, abertas em renda e tão leves, -que uma aragem as faria voar; e, no chão corria uma fila de sapatinhos -de verniz, todos do mesmo estylo, longos, com o tacão baixo e grandes -fitas de laçar. A um canto estava um cesto acolchoado de seda côr de -rosa, onde de certo viajara a cadellinha. - -Mas o olhar de Carlos prendia-se sobre tudo a um sophá onde ficará -estendido, com as duas mangas abertas, á maneira de dous braços que se -offerecem, o casaco branco de velludo lavrado de Genova com que elle a -vira, a primeira vez, apear-se á porta do hotel. O forro, de setim -branco, não tinha o menor acolxoado, tão perfeito devia ser o corpo que -vestia: e assim, deitado sobre o sophá, n'essa attitude viva, n'um -desabotoado de semi-nudez, adiantando em vago relevo o cheio de dois -seios, com os braços alargando-se, dando-se todos, aquelle estofo -parecia exhalar um calor humano, e punha ali a fórma d'um corpo amoroso, -desfallecendo n'um silencio d'alcova. Carlos sentiu bater o coração. Um -perfume indefinido e forte de jasmim, de marechala, de tanglewood, -elevava-se de todas aquellas cousas intimas, passava-lhe pela face com -um bafo suave de caricia... - -Então desviou os olhos, approximou-se da janella, que tinha por -perspectiva a fachada enxovalhada do hotel _Shneid_. Quando se voltou, -miss Sarah estava diante d'elle, vestida de preto e muito córada: era -uma pessoa sympathica, redondinha e pequena, com um ar de rola farta, os -olhos sentimentaes, e uma testa de virgem sob bandós lisos e louros. -Balbuciava umas palavras em francez, em que Carlos só percebeu -_docteur_. - ---_Yes, I am the doctor_, disse elle. - -A face da boa ingleza illuminou-se. Oh! era tão bom, ter emfim com quem -se entender! A menina estava muito melhor! Oh, o doutor vinha livral-a -d'uma responsabilidade!... - -Abriu o reposteiro, fêl-o penetrar n'um quarto com as janellas todas -cerradas, onde elle apenas distinguiu a fórma d'um grande leito e o -brilho de cristaes n'um toucador. Perguntou para que eram aquellas -trevas? - -Miss Sarah pensara que a escuridão faria bem à menina, e a adormeceria. -E trouxera-a ali para o quarto da mamã, por ser mais largo e mais -arejado. - -Carlos fez abrir as janellas: e, quando a grande luz entrou, ao avistar -a pequena no leito, sob os cortinados abertos, não conteve a sua -admiração. - ---Que linda creança! - -E ficou um instante a contemplal-a, n'um enlevo d'artista, pensando que -os brancos mais mimosos, mais ricos, sob a mais sabia combinação de luz, -não egualariam a pallidez eburnea d'aquella pelle maravilhosa: e esta -adoravel brancura era ainda realçada por um cabello negro, tenebroso, -forte, que reluzia sob a rede. Os seus por dois olhos grandes, d'um azul -profundo e liquido, pareciam n'esse instante maiores, muito serios, e -muito abertos para elle. - -Estava encostada a um grande travesseiro, toda quieta, com o susto ainda -da dôr, perdida n'aquelle vasto leito, e apertando nos braços uma enorme -boneca paramentada, de pello riçado, d'olhos tambem azues e arregalados -tambem. - -Carlos tomou-lhe a mãosinha e beijou-lh'a,--perguntando se a boneca -tambem estava doente. - ---Cri-cri tambem teve dôr, respondeu ella muito séria, sem tirar d'elle -os seus magnificos olhos. Eu já não tenho... - -Estava com effeito fresca como uma flor, com a lingoasinha muito rosada, -e a sua vontade já de lunchar. - -Carlos tranquillisou miss Sarah. Oh, ella via bem que mademoiselle -estava boa. O que a assustara fôra achar-se ali só, sem a mamã, com -aquella responsabilidade. Por isso a tinha deitado... Oh se fosse uma -creança ingleza saía com ella para o ar... Mas estas meninas -estrangeiras, tão debeis, tão delicadas... E o labiosinho gordo da -ingleza trahia um desdem compassivo por estas raças inferiores e -deterioradas. - ---Mas a mamã não é doente? - -Oh, não! Madame era muito forte. O senhor, esse sim, parecia mais -fraco... - ---E, como se chama a minha querida amiga? perguntou Carlos, sentado à -cabeceira do leito. - ---Esta é Cri-cri, disse a pequena, apresentando outra vez a boneca. Eu -chamo-me Rosa, mas o papá diz que eu que sou Rosicler. - ---Rosicler? realmente? disse Carlos sorrindo d'aquelle nome de livro de -cavallaria, rescendente a torneios, e a bosques de fadas. - -Então, como colhendo simplesmente informações de medico, perguntou a -miss Sarah se a menina sentira a mudança de clima. Habitavam -ordinariamente Paris, não é verdade? - -Sim, viviam em Paris no inverno, no parque Monceaux; de verão iam para -uma quinta da Touraine ao pé mesmo de Tours, onde ficavam até ao começo -da caça; e iam sempre passar um mez a Dieppe. Pelo menos fora assim, nos -ultimos tres annos, desde que ella estava com Madame. - -Emquanto a ingleza fallava, Rosa, com a sua boneca nos braços, não -cessava de olhar Carlos gravemente e como maravilhada. Elle, de vez em -quando sorria-lhe, ou acariciava-lhe a mãosinha. Os olhos da mãe eram -negros: os do pae d'azeviche e pequeninos: de quem herdara ella aquellas -maravilhosas pupillas d'um azul tão rico, liquido e doce. - -Mas a sua visita de medico findara, ergueu-se para receitar um calmante. -Emquanto a ingleza preparava muito cuidadosamente o papel, e -experimentava a pena, elle examinou um momento o quarto. N'aquella -installação banal d'hotel, certos retoques d'uma elegancia delicada -revelavam a mulher de gosto e de luxo: sobre a commoda e sobre a meza -havia grandes ramos de flores: os travesseiros e os lençoes não eram do -hotel, mas proprios, de bretanha fina, com rendas e largos monogrammas -bordados a duas côres. Na poltrona que ella usava uma cachemira de -Tarnah disfarçava o medonho reps desbotado. - -Depois, ao escrever a receita, Carlos notou ainda sobre a meza alguns -livros de encadernações ricas, romances e poetas inglezes: mas destoava -ali, estranhamente, uma brochura singular--o _Manual de interpretação -dos sonhos_. E ao lado, em cima do toucador, entre os marfins das -escovas, os cristaes dos frascos, as tartarugas finas, havia outro -objecto estravagante, uma enorme caixa de pó de arroz, toda de prata -dourada, com uma magnifica safira engastada na tampa dentro d'um circulo -de brilhantes miudos, uma joia exagerada de cocotte, pondo ali uma -dissonancia audaz de explendor brutal. - -Carlos voltou junto do leito, e pediu um beijo a Rosicler: ella -estendeu-lhe logo a boquinha fresca como um botão de rosa; elle não -ousou beijal-a assim n'aquelle grande leito da mãe, e tocou-lhe apenas -na testa. - ---Quando vens tu outra vez? perguntou ella agarrando-o pela manga do -casaco. - ---Não é necessario vir outra vez, minha querida. Tu estás boa, e Cri-cri -tambem. - ---Mas eu quero o meu lunch... Dize a Sarah que eu posso tomar o meu -lunch... E Cri-cri tambem. - ---Sim já podeis ambas petiscar alguma cousa... Fez as suas -recommendações á mestra, e depois, apertando a mãosinha da pequena: - ---E agora adeus, minha linda Rosicler, uma vez que és Rosicler... - -E não quiz ser menos amavel com a boneca, deu-lhe tambem um -_shake-hands_. - -Isto pareceu captivar Rosa ainda mais. A ingleza, ao lado, sorria, com -duas covinhas na face. - -Não era necessario, lembrou Carlos, conservar a creança na cama, nem -tortural-a com cautellas exageradas... - ---Oh, nò, sir! - -E se a dôr reapparecesse, ainda que ligeira, mandal-o logo chamar... - ---Oh yes, sir! - -E ali deixava o seu bilhete, com a sua adresse. - ---Oh thank you, sir! - -Ao voltar á sala, o Damaso saltou do sophá, onde percorria um jornal, -como uma féra a quem se abre a jaula. - ---Credo, imaginei que ias lá ficar toda a vida! Que estivestes tu a -fazer? Irra, que estopada! - -Carlos, calçando as luvas, sorria, sem responder. - ---Então, é cousa de cuidado? - ---Não tem nada. Tem uns lindos olhos... E um nome extraordinario. - ---Ah, Rosicler, murmurou Damaso, agarrando o chapéo com mau modo; muito -ridiculo, não é verdade? - -A creada franceza appareceu outra vez a abrir a porta da -sala,--dardejando para Carlos o mesmo olhar quente e vivo. Damaso -recommendou-lhe muito que dissesse aos senhores, que elle tinha vindo -logo com o medico; e que havia de voltar á noite para lhes fazer uma -surpreza, e para saber se tinham gostado de Queluz--_si ils avaient aimè -Queluz_. - -Depois, ao passar diante do escriptorio, metteu a cabeça, para dizer ao -guarda-livros, que a menina estava boa, tudo ficava em socego. - -O guarda livros sorrio, e cortejou. - ---Queres que te vá levar a casa? perguntou elle a Carlos, em baixo, -abrindo a porta do coupé, ainda com um resto de mau humor. - -Carlos preferia ir a pé. - ---E acompanha-me tu um bocado, Damaso, tu agora não tens que fazer. - -Damaso hesitou, olhando o céu aspero, as nuvens pesadas de chuva. Mas -Carlos tomara-lhe o braço, arrastava-o, amavel e gracejando. - ---Agora que te tenho aqui, velhaco, homem fatal, quero o _romance_... Tu -disseste que tinhas um _romance_. Não te largo. És meu. Venha o -_romance_. Eu sei que os tens sempre bons. Quero o _romance_! - -Pouco a pouco Damaso sorria, as bochechas esbrazeavam-se-lhe de -satisfação. - ---Vae-se fazendo pela vida, disse elle a estoirar de jactancia. - ---Vocês estiveram em Cintra?... - ---Estivemos, mas isso não foi divertido... O romance é outro! - -Desprendeu-se do braço de Carlos, fez um signal ao cocheiro para que os -seguisse, e regalou-se pelo Aterro fóra de contar o seu _romance_. - ---A coisa é esta... O marido d'aqui a dias vai para o Brazil, tem lá -negocios. E ella fica! Fica com as criadas e com a pequena, á espera, -dois ou tres mezes. Diz que já andaram até a vêr casas mobiladas, que -ella não quer estar no hotel... E eu, intimo, a unica pessoa que ella -conhece, mettido de dentro... Hein, percebes agora? - ---Perfeitamente, disse Carlos, arrojando para longe o charuto, com um -gesto nervoso. E de certo, a pobre creatura já está fascinada! Já lhe -déste, como costumas, um beijo ardente entre duas portas! Já a -desgraçada se surtiu da caixa de phosphoros, para mais tarde quando a -abandonares! - -Damaso enfiava. - ---Não venhas já tu com o espirito e com a chufasinha... Não lhe dei -beijos que ainda não houve occasião... Mas, o que te posso dizer, é que -tenho mulher! - ---Pois já era tempo, exclamou Carlos, sem conter um gesto brusco, e -atirando-lhe as palavras como chicotadas. Já era tempo! Andavas ahi -mettido com umas creaturas ignobeis, uma ralé de lupanar. Emfim, agora -ha progresso. E eu gosto que os meus amigos vivam n'uma ordem de -sentimentos decentes... Mas vê lá... Não sejas o costumado Damaso! Não -te vás pôr a alardear isso pelo Gremio e pela casa Havaneza! - -D'esta vez Damaso estacou, suffocado, sem comprehender aquelle modo, -semelhante azedume. E terminou por balbuciar, livido: - ---Tu podes entender muito de medicina e de bric-a-brac, mas lá a -respeito de mulheres, e da maneira de fazer as cousas, não me dás -licções... - -Carlos olhou-o, com um desejo brutal de o espancar. E de repente, -sentio-o tão innofensivo, tão insignificante, com o seu ar bochechudo, e -molle, que se envergonhou do surdo despeito que o atravessara, tomou-lhe -o braço, teve duas palavras amaveis. - ---Damaso, tu não me comprehendeste. Eu não te quiz fazer zangar... É -para teu bem... O que eu receava é que tu, imprudente, arrebatado, -apaixonado, fosses perder essa bella aventura por uma indiscrição... - -E o outro ficou logo contente, sorrindo já, abandonando-se ao braço do -seu amigo, certo que o desejo do Maia era que elle tivesse uma amante -_chic_. Não, elle não se tinha zangado, nunca se zangava com os -intimos... Comprehendia bem que o que Carlos dizia era por amisade... - ---Mas tu, ás vezes, tens essa cousa que te pegou o Ega, gostas do teu -bocadinho de espirito... - -E então tranquillisou-o. Não, por imprudencia não havia elle de «perder -a cousa». Aquillo ia com todas as regras. Lá n'isso sobrava-lhe -experiencia. A Melanie já a tinha na mão; já lhe dera duas libras. - ---Isto de mais a mais é uma cousa muito seria... Ella conhece meu tio, é -intima d'elle desde pequena, tratam-se até por _tu_... - ---Que tio? - ---Meu tio Joaquim... Meu tio Joaquim Guimarães. Mr. de Guimaran, o que -vive em Paris, o amigo de Gambetta... - ---Ah sim, o communista... - ---Qual communista, até tem carruagem! - -Subitamente lembrou-lhe outra cousa, um ponto de toilette em que queria -consultar Carlos. - ---Ámanhã vou jantar com elles, e vão tambem dois brazileiros, amigos -d'elle, que chegaram ahi ha dias, e que partem pelo mesmo paquete... Um -é _chic_, é da Legação do Brazil em Londres. De maneira que é jantar de -ceremonia. O Castro Gomes não me disse nada; mas que te parece, achas -que vá de casaca?... - ---Sim, atira-lhe casaca, e uma boa rosa na lapella. - -O Damaso olhou-o, pensativo. - ---A mim tinha-me lembrado o habito de Christo. - ---O habito de Christo... Sim, põe o habito de Christo ao pescoço, e põe -a rosa na botoeira. - ---Será talvez de mais, Carlos! - ---Não, fica bem ao teu typo. - -Damaso fizera parar o coupé que os tinha seguido a passo. E no ultimo -aperto de mão a Carlos: - ---Tu sempre vaes á noite, aos Cohens, de dominó? O meu fato de selvagem -ficou divino. Eu venho mostral-o á noite á brazileira... Entro no Hotel -embrulhado n'um capote, e appareço-lhes de repente na sala, de selvagem, -de Nelusko, a cantar: - - - Alerta, marinari, - Il vento cangia... - - -_Chic_ a valer!... _Good bye!_ - - -Ás dez horas Carlos vestia-se para o baile dos Cohens. Fóra, a noite -fizera-se tenebrosa, com lufadas de vento, pancadas d'agoa, que a cada -instante batiam agrestemente o jardim. Ali, no gabinete de toilette, -errava no ar tepido um vago aroma de sabonete e de bom charuto. Sobre -duas commodas de pau preto, marchetadas a marfim, duas serpentinas de -velho bronze erguiam os seus molhos de vellas accezas, pondo largos -reflexos doces sobre a seda castanha das paredes. Ao lado do alto -espelho-psyché alastrava-se, em cima d'uma poltrona, o dominó de já -setim negro com um grande laço azul-claro. - -Baptista, com a casaca na mão, esperava que Carlos acabasse a chavena de -chá preto que elle estava bebendo aos golos, de pé, em mangas de camisa, -e de gravata branca. - -De repente, o timbre electrico da porta particular reteniu, apressado e -violento. - ---Talvez outra surpreza, murmurou Carlos, hoje é o dia das surprezas... - -Baptista sorriu, ia pousar a casaca para abrir--quando em baixo vibrou -outro repique brutal, d'uma impaciencia phrenetica. - -Então Carlos, curioso, sahiu á ante-camara: e ahi, á meia luz das -lampadas Carcel, ainda quebrantada pelo tom dos velludos côr de cereja, -viu, ao abrir-se a porta por onde entrou um sopro aspero da noite, -apparecer vivamente uma fórma esguia e vermelha, com um confuso tinir de -ferro. Depois, pela escada acima, duas pennas negras de gallo ondearam, -um manto escarlate esvoaçou--e o Ega estava diante d'elle, -caracterisado, vestido de Mephistopheles! - -Carlos apenas poude dizer _bravo_--o aspecto do Ega emmudeceu-o. Apezar -dos toques de caracterisação que quasi o mascaravam, sobrancelhas de -diabo, guias de bigode ferozmente exageradas--sentia-se bem a afflicção -em que vinha, com os olhos injectados, perdido, n'uma terrivel pallidez. -Fez um gesto a Carlos, arremessou-se pelo gabinete dentro. Baptista, -logo, discretamente, retirou-se cerrando o reposteiro. - -Estavam sós. Então Ega, apertando desesperadamente as mãos, n'uma voz -rouca e d'agonia: - ---Tu sabes o que me succedeu, Carlos? - -Mas não poude dizer mais, suffocado, tremendo todo; e diante d'elle, -devorando-o com os olhos, Carlos tremia tambem, enfiado. - ---Cheguei a casa dos Cohens, continuou Ega por fim com esforço e quasi -balbuciando, mais cedo, como tinhamos combinado. Ao entrar na sala, já -estavam duas ou tres pessoas... Elle vem direito a mim, e diz-me: «Você, -seu infame, ponha-se já no meio da rua... Já no meio da rua senão, -diante d'esta gente, corro-o a pontapés!» E eu, Carlos... - -Mas a colera outra vez abafou-lhe a voz. E esteve um momento mordendo os -beiços, recalcando os soluços, com os olhos reluzentes de lagrimas. - -Quando as palavras voltaram, foi uma explosão selvagem: - ---Quero-me batter em duello com aquelle malvado, a cinco passos, -metter-lhe uma bala no coração! - -Outros sons estrangulados escaparam-se-lhe da garganta; e, batendo -furiosamente o pé, esmurrando o ar, berrava, sem cessar, como cevando-se -na estridencia da propria voz. - ---Quero matal-o! Quero matal-o! Quero matal-o! - -Depois, allucinado, sem ver Carlos, rompeu a passear desabridamente pelo -quarto, ás patadas, com o manto deitado para traz, a espada mal -afivelada batendo-lhe as canellas escarlates. - ---Então descobriu tudo, murmurou Carlos. - ---Está claro que descobriu tudo! exclamou o Ega, no seu passear -arrebatado, atirando os braços ao ar. Como descobriu, não sei. Sei isto, -já não é pouco. Poz-me fóra!... Hei-de-lhe metter uma bala no corpo! -Pela alma de meu pae, hei-de-lhe varar o coração!... Quero que vás lá -logo pela manhã com o Craft... E as condições são estas: á pistolla, a -quinze passos! - -Carlos, agora outra vez sereno, acabava a sua chavena de chá. Depois -disse muito simplesmente: - ---Meu querido Ega, tu não podes mandar desafiar o Cohen. - -O outro estacou de repellão, atirando pelos olhos dois relampagos -d'ira--a que as medonhas sobrancelhas de crepe, as duas pennas de gallo -ondeando na gorra, davam uma ferocidade theatral e comica. - ---Não o posso mandar desafiar? - ---Não. - ---Então põe-me fóra de casa... - ---Estava no seu direito. - ---No seu direito!... Diante de toda a gente?... - ---E tu, não eras amante da mulher diante de toda a gente?... - -O Ega ficou a olhar um momento para Carlos, como atordoado. Depois fez -um grande gesto: - ---Não se trata da mulher!... não se fallou da mulher!... É uma questão -d'honra para mim, quero mandal-o desafiar, quero matal-o... - -Carlos encolheu os hombros. - ---Tu não estás em ti. Tens só uma coisa a fazer; é ficar ámanhã em casa, -a vêr se elle te manda desafiar a ti... - ---O que, o Cohen! exclamou Ega. É um covarde, é um canalha!... Ou o -mato, ou lhe rasgo a cara com um chicote. Desafiar-me! Olha quem... Tu -estás doido... - -E recomeçou o seu passear desabalado do espelho para a janella, -soprando, rilhando os dentes, com repellões para traz ao manto que -faziam oscillar, nas serpentinas, as chammas altas das vellas. - -Carlos não dizia nada, de pé junto da meza, enchendo lentamente de novo -a sua chavena. Tudo aquillo começava a parecer-lhe pouco serio, pouco -digno, as ameaças de pontapés do marido, os furores melodramaticos do -Ega:--e mesmo não podia deixar de sorrir diante d'aquelle Mephistopheles -esgouroviado, espalhando pelo quarto o brilho escarlate do seu manto de -velludo, e a fallar furiosamente d'honra e de morte, com sobrancelhas -postiças, e escarcella de coiro á cinta. - ---Vamos fallar ao Craft! exclamou de repente Ega, parando, com esta -brusca resolução. Quero vêr o que diz o Craft. Tenho lá em baixo uma -tipoia; estamos lá n'um instante! - ---Ir agora á quinta, aos Olivaes? disse Carlos, olhando o relogio. - ---Se és meu amigo, Carlos!... - -Carlos immediatamente, sem chamar o Baptista, acabou de se vestir. - -Ega, no entanto, ia preparando uma chavena de chá, deitando-lhe rhum, -ainda tão nervoso, que mal podia segurar a garrafa. Depois, com um -grande suspiro, accendeu uma cigarrete. Carlos entrára na alcova de -banho, ao lado, allumiada por um forte jacto de gaz que assobiava. Fóra, -a chuva continuava seguida e monotona, as goteiras escoavam-se no chão -molle do jardim. - ---Achas que a tipoia aguentará? perguntou Carlos de dentro. - ---Aguenta, é o _Canhôto_, disse Ega. - -Agora reparara no dominó, fôra erguel-o, examinava-lhe o setim rico, o -bello laço azul claro. Depois, tendo encontrado diante de si o grande -espelho-psyché, entalou o monoculo no olho, recuou um passo, -contemplou-se d'alto a baixo;--e terminou por pousar uma das mãos na -cinta, appoiar a outra, galhardamente, sobre os copos da espada. - ---Eu não estava mal, oh Carlos, hein? - ---Estavas explendido, respondeu o outro de dentro da alcova. Foi pena -estragar-se tudo... Como estava ella? - ---Devia estar de Margarida. - ---E elle? - ---A besta? De beduino. - -E continuou ao espelho, gosando a sua figura esguia, as pennas da gorra, -os sapatos bicudos de velludo, e a ponta flamante da espada erguendo o -manto por traz, n'uma prega fidalga. - ---Mas então, disse Carlos, apparecendo a enxugar as mãos, tu não fazes -idéa do que se passou, o que elle diria á mulher, o escandalo... - ---Não faço idéa nenhuma, disse o Ega, agora mais sereno. Quando entrei -na primeira sala estava elle, de beduino; estava um outro sujeito -d'urso, e uma senhora não sei de que, de Tyrollesa creio eu... Elle veiu -para mim, e disse-me aquillo: ponha-se fóra! Não sei mais nada... Nem -posso perceber... O canalha, se descobriu, naturalmente, para não -estragar a festa, não disse nada a Rachel... Depois é que ellas são! - -Ergueu as mãos para o ceu, murmurou: - ---É horroroso! - -Deu ainda uma volta pelo quarto, e depois n'uma outra voz, franzindo a -face: - ---Não sei que diabo aquelle Godefroy me deu para collar as sobrancelhas, -que me picam que tem diabo! - ---Tira-as... - -Deante do espelho, Ega hesitava em desmanchar o seu semblante feroz de -Santanaz. Mas arrancou-as por fim--e a gorra emplumada, muito justa, que -lhe escaldava a cabeça. Então Carlos lembrou-lhe que, para ir a casa do -Craft, se desembaraçasse do manto e da espada, se agasalhasse n'um -paletot d'elle. Ega deu ainda um longo e mudo olhar ao seu flamejante -traje infernal, e com um profundo suspiro começou a desafivelar o talim. -Mas o paletot era muito largo, muito comprido; teve de lhe dar uma dobra -nas mangas. Depois Carlos metteu-lhe um bonet escossez na cabeça.--E -assim arranjado, com as canellas vermelhas de diabo apparecendo sob o -paletot, a gargantilha escarlate á Carlos IX emergindo da gola, a velha -casqueta de viagem na nuca, o pobre Ega tinha o ar lamentavel d'um -Satanaz pelintra, agasalhado pela caridade d'um gentleman, e usando-lhe -o fato velho. - -Baptista allumiou, grave e discreto. Ega ao passar por elle, murmurou: - ---Isto vae mal, Baptista, isto vae mal... - -O velho creado teve um movimento triste d'hombros, como significando que -nada no mundo ia bem. - -Na rua negra, a parelha quieta dobrava a cabeça sob a chuva. O -_Canhoto_, ao ouvir fallar d'uma gorgeta de libra, fez um grande -espalhafato, rompeu ás chicotadas; e a velha traquitana lá partiu a -galope, a escorrer d'agua, atroando a calçada. - -Por vezes um coupé particular crusava-os, os casacos de gutta-perche dos -criados branquejavam á luz das lanternas. Então a idéa da festa que -devia agora resplandecer; Margarida ignorando tudo, walsando nos braços -d'outros, anciosa, á espera d'elle; a ceia depois, o champagne, as -cousas brilhantes que elle teria dito--todas estas delicias perdidas se -vinham cravar no coração do pobre Ega, arrancavam-lhe pragas surdas, -Carlos fumava silenciosamente, com o pensamento no Hotel Central. - -Depois de Santa Apolonia a estrada começou, infindavel, desabrigada, -batida pelo ar agreste do rio. Nenhum dizia uma palavra, cada um para o -seu canto, arripiados na friagem que entrava pelas gretas da tipoia. -Carlos não cessava de vêr o casaco branco de velludo, com as duas mangas -abertas, como dois braços que se offereciam... - -Passava da uma hora quando chegaram á quinta, a sineta do portão, aos -puxões do cocheiro encharcado, retumbou lugubre n'aquelle silencio -escuro de aldeia. Um cão ladrou furiosamente: outros latidos ao longe -responderam; e ainda esperaram muito, antes que um creado, somnolento e -resmungão, apparecesse com uma lanterna. Uma rua d'acacias conduzia á -casa: o Ega praguejava, enterrando os seus bellos sapatos de velludo no -chão lamacento. - -Craft, surprehendido com aquelle tumulto, veiu-lhes ao encontro no -corredor, de robe-de-chambre, e a _Revista dos Dois Mundos_ debaixo do -braço. Percebeu logo que havia desastre. Levou-os em silencio para o seu -gabinete onde um bom lume de carvão na chaminé aquecia, alegrava o -aposento todo estofado de cretones claros. Ambos foram direitos ao lume. - -Ega rompera logo a contar o seu caso--emquanto Craft, sem espanto nem -exclamações, ia preparando methodicamente sobre a meza tres grogs de -cognac e limão. Carlos, sentado ao pé do fogão, aquecia os pés: e Craft -veiu acabar de ouvir o Ega, accommodando-se tambem na sua poltrona, do -outro lado da chaminé, com o seu cachimbo na bocca. - ---Emfim, exclamou Ega, de pé, cruzando os braços, que me aconselhas tu -agora? - ---Tens a fazer só isto, disse Craft: esperar ámanhã em casa que elle te -mande os seus padrinhos... Que tenho a certeza que não manda... E -depois, se vos baterdes, deixar-te ferir ou matar. - ---Perfeitamente o que eu disse, murmurou Carlos, provando o seu grog. - -Ega olhou-os a ambos, successivamente, petrificado. E logo, n'um fluxo -de palavras desordenadas, queixou-se de não ter amigos. Ali estava, -n'aquella crise, a maior da sua vida: e em logar de encontrar, nos seus -camaradas de infancia e de Coimbra, apoio, solidariedade, lealdade _à -tort et à travers_, abandonavam-n'o, pareciam querer enterral-o, e -expol-o a irrisões maiores... Ia-se commovendo; os olhos -vermelhejavam-lhe sob as lagrimas. E quando algum d'elles ia -interrompel-o, n'uma palavra de senso, batia o pé, persistia na sua -teima--um desafio, matar o Cohen, vingar-se! Tinha sido insultado. Não -existia outra cousa. Não se tinha fallado na mulher. Era elle que devia -primeiro mandar padrinhos, lavar a sua honra. Havia pessoas na sala, -quando o outro o insultou. Havia um urso, e uma tyrolesa... E emquanto a -deixar-se varar por uma bala, não! Tinha mais direito a viver que o -Cohen, que era um burguez, e um agiota... E elle era um homem de estudo -e de arte! Tinha na cabeça livros, idéas, cousas grandes. Devia-se ao -paiz, á civilisação!... Se fosse ao campo, era para fazer a sua -pontaria, e abater o Cohen, ali, como uma besta immunda... - ---Mas o que é, é que não tenho amigos! gritou elle exhausto por fim, -cahindo para o canto d'um sophá. - -Craft bebia em silencio, e aos golos, o seu cognac. - -Foi Carlos que se ergueu, serio e aspero. Elle não tinha direito de -duvidar da sua amisade. Quando lhe tinha ella faltado? Mas era -necessario não ser pueril; nem theatral... A questão estava simplesmente -em que o Cohen o surprehendera, amando-lhe a mulher. Logo, podia -matal-o, podia entregal-o aos tribunaes, podia escavacal-o na sala a -pontapés... - ---Ou peor, interrompeu Craft. Mandar-te a senhora, com este bilhetinho: -«Guarde-a». - ---Ou isso! continuava Carlos. Não, senhor: limita-se a prohibir-te a -entrada em casa, um pouco asperamente, sim, mas indicando que, depois de -ter feito isto, não quer nada mais violento, nem mais dramatico. Teve -portanto um acto de moderação. E tu queres mandal-o desafiar por -isso?... - -Mas Ega revoltou-se outra vez, deu um pulo, disparatou pela sala, sem -paletot agora, esguedelhado, parecendo mais phantastico n'aquelle -simples gibão escarlate, com os sapatos de velludo enlameados, as longas -pernas de cegonha cobertas de malha de seda vermelha. E teimava que se -não tratava d'isso! Não, não se tratava da mulher! A questão era -outra... - -Carlos então zangou-se. - ---Para que diabo te expulsou elle de casa então? Não disparates, homem! -Nós estamos-te a dizer o que faz um homem de senso. E é triste, que te -custe tanto a perceber o que manda o senso. Trahiste um amigo teu... -Nada de equivocos! tu declaravas bem alto a tua amisade pelo Cohen. -Trahistel-o, tens de acceitar a lei: se elle te quizer matar tens de -morrer. Se elle não quizer fazer nada, tens de ficar de braços cruzados. -Se elle te quizer chamar ahi por essas ruas um infame, tens de baixar a -cabeça, e reconhecer-te infame... - ---Então tenho de engolir a affronta? - -Os dois amigos explicaram-lhe que aquelle fato de Satanaz lhe perturbava -a lucidez do criterio mundano--e que chegava a ser torpe fallar elle, -Ega, de _affronta_. - -Ega, outra vez acabrunhado sobre o sophá, conservou um momento a cabeça -enterrada nas mãos. - ---Eu já nem sei, disse elle por fim. Vocês devem ter rasão... Eu -estou-me a sentir idiota ... Então, vamos, que hei de eu fazer? - ---Vocês teem a tipoia á espera? perguntou tranquillamente Craft. - -Carlos mandara desapparelhar, recolher o gado esfalfado. - ---Excellente! Então, meu caro Ega, tens outra cousa a fazer, antes de -morrer ámanhã talvez, é cear esta noite. Eu ia ceiar, e por motivos -longos d'explicar, ha n'esta casa um peru frio. E ha-de haver uma -garrafa de Bourgonhe... - -D'ahi a pouco estavam á mesa--n'aquella bella sala de jantar do Craft, -que encantava sempre Carlos, com as suas tapeçarias ovaes representando -bocados solitarios d'arvoredo, as severas faenças da Persia, e a sua -original chaminé flanqueada por duas figuras negras de Nubios com olhos -rutilantes de crystal. Carlos, que se declarara esfomeado, trinchava já -o perú, emquanto Craft, desarrolhava, com veneração, duas garrafas do -seu velho Chambertin, para reconfortar Mephistopheles. - -Mas Mephistopheles, sombrio e com os olhos avermelhados, repelliu o -prato, desviou o copo. Depois, sempre condescendeu em provar o -Chambertin. - ---Pois eu, dizia Craft empunhando o talher, quando vocês chegaram, -estava a lêr um artigo interessante sobre a decadencia do protestantismo -em Inglaterra... - ---Que é aquillo, além, n'aquella lata? perguntou Ega, com uma voz -moribunda. - -Um _pâtê de foie-gras_. Mephistopheles escolheu com tedio uma trufa. - ---Bem bom, este teu Chambertin, suspirou elle. - ---Anda come e bebe com franqueza, gritou-lhe Craft. Não te romantises. -Tu o que tens é fome. Todas as tuas idéas esta noite se ressentem da -debilidade! - -Então Ega confessou que devia estar fraco. Com aquella excitação do seu -trage de Satanaz nem jantára, contando ceiar bem em casa do outro... -Sim, com effeito, tinha appetite! Excellente _foie-gras_... - -E d'ahi a pouco devorava: foram talhadas de perú, uma porção immensa de -lingua d'Oxford, duas vezes presunto d'York, todas aquellas boas cousas -inglezas que havia sempre em casa do Craft. E elle só bebeu quasi toda -uma garrafa de Chambertin. - -O escudeiro fôra preparar o café: e, no entanto, ia-se discutindo, em -todas as hypotheses, a attitude provavel do Cohen com a mulher. Que -faria elle? Talvez lhe perdoasse. Ega affirmava que não: era vaidoso, e -de rancores longos! N'um convento tambem não a fechava, sendo judia... - ---Talvez a mate, disse Craft, com toda a seriedade. - -Ega, já com os olhos brilhantes do Bourgogne, declarou tragicamente que -elle então entrava n'um mosteiro. Os dois gracejaram, sem piedade. Em -que mosteiro queria elle entrar? Nenhum era congenere com o Ega! Para -dominicano era muito magro, para trapista muito lascivo, muito palrador -para jesuita, e para benedictino muito ignorante... Era necessario crear -uma ordem para elle! Craft lembrou a _Santa Blague_! - ---Vocês não teem coração, exclamou Ega, enchendo outro grande copo. -Vocês não sabem, eu adorava aquella mulher! - -Então largou a fallar de Rachel. E teve alli, de certo, os momentos -melhores de toda aquella paixão,--porque poude, sem escrupulo, fazer -reluzir a sua aureola de amante, banhar-se no mar de leite das -confidencias vaidosas. Começou por contar o encontro com ella na -Foz--emquanto Craft, sem perder uma palavra, como quem se instrue, se -erguera a abrir uma garrafa de Champagne. Disse depois os passeios na -Cantareira; as cartinhas ainda hesitantes e platonicas, trocadas entre -folhas de livros emprestados, em que ella se assignava _Violetta de -Parma_; o primeiro beijo, o melhor, surripiado entre duas portas, -emquanto o marido correra acima a buscar-lhe charutos especiaes; os -rendez-vous no Porto, no Cemiterio do Repouso, as pressões ardentes de -mãos á sombra dos cyprestes, e os planos de voluptuosidade combinados -entre as lapides funebres... - ---Muito curioso! dizia o Craft. - -Mas Ega teve de se calar, o criado entrava com o café. Emquanto se -enchiam as chavenas, e Craft fôra buscar uma caixa de charutos, elle -acabou a garrafa de Champagne, já pallido, com o nariz afilado. - -O criado sahiu, correndo o reposteiro de tapeçaria: e logo Ega, com o -calice de cognac ao lado, recomeçou as confidencias, contou a volta a -Lisboa, a Villa Balzac, as manhãs deliciosas passadas lá com ella no -calor d'um ninho d'amor... - -Mas agora interrompia-se, vago e com os olhos turvos, enterrando um -momento a cabeça entre os punhos. Depois lá vinha outro detalhe, os -nomes lubricos que ella lhe dava, uma certa coberta de seda preta onde -ella brilhava como um jaspe... Duas lagrimas embaciaram-lhe os olhos, -jurou que queria morrer! - ---Se vocês soubessem que corpo de mulher! gritou elle de repente. Oh -meninos, que corpo de mulher... Imaginem vocês um peito... - ---Não queremos saber, disse Carlos. Cala-te, tu estás bebado, miseravel! - -Ega ergueu-se, retezando a perna, arrimado de lado á meza. - -Bebado! Elle? Ora essa!... Era cousa que não podia, era empiteirar-se. -Tinha feito o possivel, bebido tudo, até agua raz. Nunca! Não podia... - ---Olha, vou pôr aquella garrafa á boca, tu verás. E fico frio, fico -impassivel. A discutir philosophia... Queres que te diga o que penso de -Darwin? É uma besta... Ora ahi tens. Dá cá a garrafa. - -Mas Craft recusou-lh'a; e, um momento Ega ficou oscillando, a olhar para -elle, com a face livida. - ---Ou me dás a garrafa... ou me dás a garrafa, ou te metto uma bala no -coração... Não, nem vales a bala... Vou-te dar uma bolacha! - -De repente os olhos cerraram-se-lhe, abatteu-se sobre a cadeira, d'ahi -sobre o chão, como um fardo. - ---Terra! disse tranquillamente Craft. - -Tocou a campainha, o escudeiro entrou, apanharam João da Ega. E emquanto -o levavam para o quarto dos hospedes e lhe despiam o fato de Satanaz, -não cessou de choramingar, dando beijos babosos pelas mãos de Carlos, -balbuciando: - ---Rachelsinha!... Racaqué, minha Raquesinha! gostas do teu -bibichinho?... - -Quando Carlos partiu na tipoia para Lisboa, não chovia, um vento frio ia -varrendo o ceu, já clareava a alvorada. - -Ao outro dia, ás dez horas, Carlos voltou aos Olivaes. Achou Craft -dormindo, e subiu ao quarto do Ega. As janellas tinham ficado abertas, -um largo raio de sol dourava o leito; e elle ressonava ainda, no meio -d'aquella aureola, deitado de lado, com os joelhos contra o estomago, o -nariz dentro dos lençoes. - -Quando Carlos o sacudio, o pobre John abriu um olho triste, e -bruscamente ergueu-se sobre o cotovello, espantado para o quarto, para -os cortinados de damasco verde, para um retrato de dama empoada que lhe -sorria de dentro da sua moldura dourada. De certo as memorias da vespera -o assaltaram, porque se enterrou para baixo, com os lençoes até ao -queixo; e a sua face esverdeada, envelhecida, exprimiu a desconsolação -de deixar aquelles fofos colxões, a paz confortavel da quinta--para ir -affrontar a Lisboa toda a sorte de cousas amargas. - ---Está frio lá fóra? perguntou elle melancholicamente. - ---Não, está um dia adoravel. Mas levanta-te, depressa! Se lá fôr alguem -da parte do Cohen, podem imaginar que fugiste... - -Ega deu immediatamente um pulo da cama, e atordoado, esguedelhado, -procurava a roupa, com as canellas nuas, tropeçando contra os moveis. Só -achou o gibão de Satanaz. Chamaram o criado, que trouxe umas calças de -Craft. Ega enfiou-as á pressa: e sem se lavar, com a barba por fazer, a -gola do paletot erguida, enterrou emfim na cabeça o bonet escossez, -voltou-se para Carlos, disse com um ar tragico: - ---Vamos a isso! - -Craft, que se erguera, foi acompanhal-os ao portão, onde esperava o -coupé de Carlos. Na alameda de acacias, tão tenebrosa na vespera sob a -chuva, cantavam agora os passaros. A quinta, fresca e lavada, verdejava -ao sol. O grande Terra-nova do Craft pulava em roda d'elles. - ---Doe-te a cabeça, Ega? perguntou Craft. - ---Não, respondeu o outro, acabando de abotoar o paletot. Eu hontem não -estava bebado... O que estava era fraco. - -Mas, ao entrar para o coupé, fez, com um ar profundo e philosophico, -esta reflexão: - ---O que é a gente beber bons vinhos... Estou como se não fosse nada! - -Craft recommendou que se houvesse novidade, lhe mandassem um telegramma; -fechou a portinhola, o coupé partiu. - -Durante a manhã não veiu telegramma á quinta; e quando Craft appareceu -na Villa Balzac, onde uma carruagem de Carlos esperava á porta, já -escurecera, duas vélas ardiam na triste sala verde. Carlos, estirado no -sophá, dormitava, com um livro aberto sobre o estomago: e Ega passeiava -d'um lado para outro, todo vestido de preto, pallido, com uma rosa na -botoeira. Tinham estado alli na sala, n'aquella sécca, esperando todo o -dia as testemunhas do Cohen. - ---Que te dizia eu? Não ha nada, nem podia haver, murmurou Craft. - -Mas Ega, agora agitado de idéas negras, temia que elle tivesse -assassinado a mulher! O sorriso sceptico de Craft indignou-o. Quem -conhecia melhor o Cohen do que elle? Sob a apparencia burgueza, era um -monstro! Tinha-lhe visto matar um gato, só por capricho de derramar -sangue... - ---Tenho um presentimento de desgraça, balbuciou elle aterrado. - -E logo n'esse momento a campainha retiniu. Ega acordou precipitadamente -Carlos, empurrou os dois amigos para o quarto de cama. Craft ainda lhe -disse que, áquella hora, não podiam ser os amigos do Cohen. Mas elle -queria estar só na sala: e lá ficou, mais pallido, rigido, muito -abotoado na sobrecasaca, com os olhos cravados na porta. - ---Que massada! dizia Carlos dentro, tenteando a escuridão do quarto. - -Craft accendeu no toucador um resto de vella. Uma luz triste -espalhou-se, tudo appareceu n'um desarranjo: no meio do chão estava -cahida uma camisa de dormir; a um canto ficara a bacia de banho com agoa -de sabão; e, no centro, o enorme leito, envolto nas suas cortinas de -seda vermelha, conservava uma magestade de tabernaculo. - -Um momento estiveram callados. Craft methodico, e como quem se instrue, -examinava o toucador, onde havia um maço de ganchos de cabello, uma liga -com o fecho quebrado, um ramo de violetas murchas. Depois foi olhar o -marmore da commoda; ahi ficara um prato com ossos de frango, e ao lado -uma meia folha de papel escripta a lapis, toda emendada, de certo -trabalho litterario do Ega. Elle achava tudo isto muito curioso. - -Da sala, no entanto, vinha um ciciar de vozes subtil e intimo. Carlos -escutando, julgou sentir uma falla abafada de mulher... Impaciente, foi -á cozinha. A criada estava sentada á meza, com a mão mettida pelos -cabellos, sem fazer nada, a olhar para a luz: o pagem, espaparrado n'uma -cadeira, chupava o seu cigarro. - ---Quem foi que entrou? perguntou Carlos. - ---Foi a criada do sr. Cohen, disse o garoto, escondendo o cigarro atraz -das costas. - -Carlos voltou ao quarto, annunciando: - ---É a confidente. As cousas terminam amavelmente. - ---E como queria você que terminassem? disse Craft. O Cohen tem o seu -Banco, os seus negocios, as suas letras a vencer, o seu credito, a sua -respeitabilidade, todo um arranjo de cousas a que não convém um -escandalo... É isto que calma os maridos. Além d'isso, já se satisfez, -já lhe offereceu pontapés... - -N'esse instante houve um rumor na sala, Ega abriu violentamente a porta. - ---Não ha nada, exclamou elle, deu-lhe uma coça, e vão ámanhã para -Inglaterra! - -Carlos olhou para o Craft--que movia a cabeça, como vendo todas as suas -previsões realisadas, e approvando plenamente. - ---Uma coça, dizia o Ega, com os olhos chammejantes e n'uma voz que -sibillava. E depois fizeram as pazes... Vem ainda a ser um _menage_ -modelo! A bengala purifica tudo... Que canalha! - -Estava furioso. N'esse momento odiava Rachel--não perdoando ao seu idolo -ter-se deixado desfazer á paulada. Lembrava-se justamente da bengala do -Cohen, um junco da India, com uma cabeça de galgo por castão. E aquillo -zurzira as carnes que elle tinha apertado com paixão! Aquillo pozera -vergões roxos onde os seus labios tinham avivado signaes côr de rosa! E -tinham _feito as pazes_. E assim terminava, relles e chinfrim, o romance -melhor da sua vida! Preferiria sabel-a morta, a sabel-a espancada. Mas -não! levava a sova, deitava-se depois com o marido, e elle mesmo, -decerto arrependido, chamando-lhe nomes doces, a ajudava, em ceroulas, a -fazer as applicações de arnica! Aquillo acabava em arnica! - ---Entre vocemecê para aqui, sr.^a Adelia, gritou elle para a sala, entre -para aqui! Aqui só ha amigos. O segredo acabou, o pudor acabou! Isto são -amigos! Somos tres, mas somos um! Tem vocemecê diante de si o grande -mysterio da Santissima Trindade. Sente-se, sr.^a Adelia, sente-se... Não -faça ceremonia... E póde contar... Aqui a sr.^a Adelia, meninos, viu -tudo, viu a coça! - -A sr.^a Adelia, uma moça gordinha e baixa, de bonitos olhos, com um -chapéo de flôres vermelhas, veiu logo da sala rectificando. Não, ella -não vira... Então o sr. Ega não tinha percebido bem... Ella só _ouvira_. - ---Aqui está como foi, meus senhores... Eu tinha ficado a pé, -naturalmente, até ao fim do baile, que estava que nem me tinha nas -pernas. Era já dia claro, quando o senhor, ainda vestido de moiro, se -fechou no quarto com a senhora. Eu fiquei na cozinha com o Domingos á -espera que elles tocassem a campainha. De repente ouvimos gritos!... Eu -fiquei estarrecida, pensei até que eram ladrões. Corremos, eu e o -Domingos, mas a porta do quarto estava fechada, e os dois estavam por -dentro, lá para o fundo da alcova. Eu ainda puz o olho á fechadura, mas -não pude vêr nada... Lá o estalar de bofetadas, e trambulhões, e sons de -bengalada, isso sim, isso ouvia-se perfeitamente; e os gritos. Eu disse -logo ao Domingos «ai que é uma questão, ai que lá se foi tudo.» Mas de -repente, silencio geral! Nós voltámos para a cozinha; d'ahi a pouco o -sr. Cohen appareceu, todo esguedelhado, em mangas de camisa, a dizer que -nos podiamos deitar, que elles não precisavam nada, e que amanhã -fallariamos!... Depois lá ficaram toda a noite, e pela manhã parece que -estavam muito amiguinhos... Que eu não puz os olhos na senhora. O sr. -Cohen, apenas se levantou, veiu á cozinha, fez-me elle as contas, e -pôz-me fóra; muito mal creado, até me ameaçou com a policia... Foi pelo -Domingos, que eu soube agora, quando fui buscar o bahú com um gallego, -que o sr. Cohen ía com a senhora para Inglaterra. Emfim, um chinfrim... -Eu até tenho estado todo o dia com o estomago embrulhado. - -A sr.^a Adelia com um suspiro, pondo os olhos no chão, calou-se. Ega, -com os braços cruzados, olhava amargamente para os seus amigos. Que lhes -parecia aquillo? Uma coça!.. Se um covarde d'aquelles não merecia uma -bala no coração! Mas ella tambem, deixar-se tocar, não ter fugido, -consentir ainda depois em dormir com elle!.. Tudo uma corja! - ---E a sr.^a Adelia, perguntava Craft, não tem idéa de como elle -descobriu?.. - ---Isso é que é prodigioso! gritou Ega, apertando as mãos na cabeça. - -Sim, prodigioso! Não fôra carta apanhada: elles não se escreviam. Não -podia ter surprehendido as visitas á Villa Balzac: as cousas estavam -combinadas com uma arte muito subtil, perfeitamente impenetraveis. Para -vir ali, nunca ella commettera a indiscripção de se servir da sua -carruagem. Nunca ella claramente entrara pela porta. Os criados d'elle -nunca a tinham visto, não sabiam quem era a senhora que o visitava... -Tantos cuidados, e tudo estragado! - ---Estranho, estranho! murmurava Craft. - -Houve um silencio. A sr.^a Adelia terminara por descançar familiarmente -n'uma cadeira, com a sua trouxasinha no regaço. - ---Pois olhe, sr. Ega, disse ella, depois de reflectir creia então uma -cousa, é que foi em sonhos. Já tem acontecido... Foi a senhora que -sonhou alto com v. ex.^a, disse tudo, o sr. Cohen ouviu, ficou de pedra -no sapato, espreitou-a, e descobriu a marosca... E eu sei que ella sonha -alto. - -Ega, diante da sr.^a Adelia, percorria-a desde as flôres do chapéo até á -roda das saias, com os olhos faiscantes. - ---Como é possivel que elle ouvisse? Se elles tinham quartos -separados!... Eu sei que tinham. - -A sr.^a Adelia baixou as palpebras, acariciou com os dedos calçados de -luvas pretas a sua trouxasinha redonda, e disse mais baixo estas -palavras: - ---Não tinham, não senhor. Nem a senhora consentia em tal arranjo... A -senhora gosta muito do marido, e tem muitos ciumes d'elle. - -Houve um silencio embaraçado e desagradavel. Sobre o toucador o resto da -vella acabava, com uma luz lugubre. E Ega, que affectara sorrir, -encolher os hombros, dava pelo quarto passos lentos e murchos, -triturando o bigode com a mão tremula. - -Então Carlos enojado, cançado d'aquelle episodio que durava desde a -vespera, e onde constantemente se remexera em lodo, declarou que era -necessario findar! Eram oito horas, e elle queria jantar... - ---Sim, vamos todos jantar, murmurou o Ega, com o ar confuso e embaçado. - -De repente fez um signal á sr.^a Adelia, arrastou-a para a sala, -fechou-se lá outra vez. - ---Você não está farto d'isto, Craft? exclamou Carlos, desesperado. - ---Não. Acho um estudo curioso. - -Esperaram ainda dez minutos. Subitamente a vella extinguiu-se. Carlos, -furioso, gritou pelo pagem. E o garoto entrava com um immundo candieiro -de petroleo--quando Ega, mais composto, voltou da sala. Tudo acabara, a -sr.^a Adelia partira. - ---Vamos lá jantar, disse elle. Mas aonde, a esta hora? - -E elle mesmo lembrou o André, ao Chiado. Em baixo, alem do coupé de -Carlos, esperava a tipoia do Craft. As duas carruagens partiram. A Villa -Balzac ficava apagada, muda, d'ora em diante inutil. - -No André tiveram de esperar muito tempo, n'um gabinete triste, com um -papel de estrellinhas douradas, cortininhas de cassa barata sob sanefas -de reps azul, e dois bicos de gaz que silvavam. Ega, enterrado no sophá -de mollas gastas e lassas, cerrara os olhos, parecia exhausto. Carlos ía -contemplando as gravuras pela parede, todas relativas a hespanholas: uma -saíndo da egreja; outra saltando uma pocinha de agua; outra, de olhos -baixos, escutando os conselhos de um canonico. Craft, já á meza, com a -cabeça entre os punhos, percorria um _Diario da Manhã_, que o criado -offerecera para os senhores se entreterem. - -De repente o Ega deu um murro no sophá, que rangeu lamentavelmente. - ---Eu o que não percebo, gritou elle, é como aquelle malvado descobriu!.. - ---A hypothese da sr.^a Adelia, disse Craft erguendo os olhos do jornal, -parece provavel. Ou em sonhos, ou acordada, a pobre senhora descahiu-se. -Ou talvez uma denuncia anonyma. Ou talvez apenas um acaso... O facto é -que o homem desconfiou, espreitou-a, e apanhou-a. - -Ega erguera-se: - ---Eu não vos quiz dizer diante da Adelia, que não estava no segredo -todo. Mas vocês sabem a casa defronte da minha, do outro lado da viella, -uma casa com um grande quintal? Ahi mora uma tia do Gouvarinho, a D. -Maria Lima, uma pessoa respeitavel. A Rachel ía vêl-a de vez em quando. -São intimas, a D. Maria Lima é intima de todo o mundo. Depois sahia por -uma portinha do quintal, atravessava a viella, e estava á porta da minha -casa, á porta escusa, á porta da escada que vae ter ao cacifro de banho. -Já vocês vêem... Os criados nem a avistavam. Quando ella lá lunchava, o -lunch estava já posto no meu quarto, as portas fechadas. Mesmo se alguem -visse, era uma senhora com um véo preto, que vinha de casa da Lima... -Como podia o homem apanhal-a?.. Além d'isso, em casa da Lima, ella -mudava de chapéo, e punha um waterproof... - -Craft cumprimentou. - ---É brilhante! Parece de Scribe. - ---Então, disse Carlos sorrindo, essa respeitavel fidalga... - ---A D. Maria, coitada... Eu te digo, é uma excellente velha, recebida em -toda a parte, mas pobre, e faz d'estes favores... Ás vezes mesmo em casa -d'ella. - ---Leva caro por esses serviços? perguntou tranquillamente Craft, que em -todo aquelle caso procurava instruir-se. - ---Não, coitada, disse o Ega. Dão-se-lhe de vez em quando cinco libras. - -O criado entrava com uma travessa de camarões, os tres em silencio -accommodaram-se á meza. - -Depois do jantar recolheram ao Ramalhete. Ega ía lá dormir, receiando, -com os nervos tão excitados, a solidão da villa Balzac. Partiram, de -charutos accesos, n'uma caleche descoberta, sob a noite estrellada e -doce. - -Felizmente não estava ninguem no Ramalhete; Ega, cançado, poude -retirar-se logo para o seu quarto, um aposento d'hospedes no segundo -andar, onde havia um bello leito antigo de pau preto. Ahi, apenas o -criado o deixou, Ega approximou-se do tremó onde ardiam as luzes, e -tirou do pescoço, de sob a camiza, um medalhão de ouro. Tinha dentro uma -photographia de Rachel:--e a sua intenção agora era queimal-a, deitar ao -balde das agoas sujas as cinzas d'aquella paixão. Mas, ao abrir o -medalhão, a face bonita, banhada n'um sorriso, sob o vidro oval, pareceu -olhar para elle com uma tristeza no velludo das pupillas languidas... A -photographia mostrava apenas a cabeça, com uma abertura de decote no -começo do vestido: e as recordações de Ega alargaram aquelle decote uma -vez mais, revendo o collo, o extraordinario setim da pelle, o -signalsinho sobre o seio esquerdo... O sabor dos seus beijos passou-lhe -de novo nos labios, sentiu n'alma outra vez como o ecco dos suspiros -cançados que ella soltara nos seus braços. E ella ia-se embora, _nunca -mais_ a veria! Esta desolada amargura do _nunca mais_ revolveu-o todo--e -com a face enterrada no travesseiro, o pobre demagogo, o grande -phraseador soluçou muito tempo no segredo da noite. - -Toda essa semana foi dolorosa para o Ega. Logo ao outro dia Damaso -apparecera no Ramalhete, e por elle ouviram os rumores de Lisboa. Já se -sabia no Gremio, no Chiado, por toda a parte, que elle fôra expulso da -casa dos Cohens. O urso, a pastora do Tyrol, testemunhas do episodio, -tinham-n'o badallado com enthusiasmo. Dizia-se mesmo que o Cohen lhe -dera um pontapé. Os amigos da casa, esses, sobretudo o Alencar, prégavam -com fervor a innocencia da sr.^a D. Rachel. O Alencar contava -publicamente que o Ega, provinciano inexperiente e leão de Celorico, -tendo tomado por evidencias de paixão os sorrisos de amabilidade de uma -senhora que recebe,--escrevera á sr.^a D. Rachel uma carta quasi -obscena, que ella, coitadinha, toda em lagrimas, viera mostrar ao -marido. - ---Então dão-me para baixo, hein, Damaso? murmurou Ega que, no gabinete -de Carlos, embrulhado n'uma velha ulster, e encolhido n'uma poltrona, -escutava estas cousas com um ar cançado e doente. - -Damaso confessou que na sociedade lhe davam para baixo. - -Ah, elle sabia-o bem! tinha antipathias em Lisboa. Ninguem lhe perdoara -ainda a pelissa. A sua verve, toda em sarcasmos, offendia. E era -desagradavel para muita gente que um homem, com esse espirito tão -perigoso de ferro em braza, tivesse uma mãe rica, e fosse independente. - -Depois, no sabbado seguinte, Carlos, ao voltar do jantar dos -Gouvarinhos--que fôra excellente--contou-lhe a conversa que tivera com a -sr.^a condessa. A condessa fallara-lhe muito livremente, como um homem, -d'aquelle desastre do Ega. Tinha-se affligido muito, não só pela Rachel, -coitada, de quem era amiga, mas pelo Ega, que ella apreciava tanto, tão -interessante, tão brilhante, e que sahia de tudo aquillo enxovalhado! O -Cohen dizia a todos (dissera-o ao Gouvarinho) que ameaçára o Ega de -pontapés, por elle ter escripto a sua mulher uma carta immunda. Os que -não sabiam nada, como o Gouvarinho, acreditavam, apertavam as mãos na -cabeça; e os que sabiam, os que havia seis mezes sorriam da intimidade -do Ega com os Cohens, affectavam tambem acreditar, cerravam os punhos de -indignação. O Ega era odiado. E a pequena Lisboa, que vive entre o -Gremio e a casa Havaneza, folgava em «enterrar» o Ega. - -Ega, com effeito, sentia-se «enterrado». E n'essa noite declarou a -Carlos que decidira recolher-se á quinta da mãe, passar lá um anno a -acabar as _Memorias d'um Atomo_, e reapparecer em Lisboa com o seu livro -publicado, triumphando sobre a cidade, esmagando os mediocres. Carlos -não perturbou esta radiante illusão. - -Mas quando Ega, antes de partir, foí a recapitular os seus negocios de -casa, de dinheiro, encontrou-se diante de cousas abominaveis. Devia a -todo o mundo, desde o estofador até ao padeiro; tinha tres letras a -vencer; aquellas dividas, se as deixasse, soltas e ladrando, -juntar-se-iam, na tagarallice publica, ao caso dos Cohens--e elle seria, -além do amante ameaçado de pontapés, o pelintra perseguido pelos -credores! Que havia de fazer, senão valer-se de Carlos? Carlos, para -regular tudo, emprestou-lhe dois contos de réis. - -Depois, tendo despedido os criados da Villa Balzac, surgiram-lhe outras -complicações. A mãe do pagem veiu d'ahi a dias ao Ramalhete, muito -insolente, gritando que o filho lhe desapparecera! E era exacto: o -famoso pagem, pervertido pela cozinheira, sumira-se com ella para as -viellas da Mouraria, a começar ahi uma divertida carreira de _faia_. - -Ega recusou-se a attender ás reclamações da matrona. Que diabo tinha -elle com essas torpezas? - -Então o amante da creatura interveiu, ameaçadoramente, Era um policia, -um esteio da ordem: e deu a entender que lhe seria facil provar como na -Villa Balzac se passavam «cousas contra a natureza», e que o pagem não -era só para servir á meza... Nauseado até á morte, Ega pacteou com a -intrugice, largou cinco libras ao policia. Quando n'essa noite, uma -noite triste d'agoa, Carlos e Craft o acompanharam a Santa Apolonia, -elle disse-lhes na carruagem estas palavras, triste resumo d'um amor -romantico: - ---Sinto-me como se a alma me tivesse cahido a uma latrina! Preciso um -banho por dentro! - - -Affonso da Maia ao saber este desastre do Ega, tinha dito a Carlos, com -tristeza: - ---Má estreia, filho, pessima estreia! - -E n'essa noite, depois de voltar de Santa Apolonia, Carlos pensava -n'estas palavras, dizia tambem comsigo:--Pessima estreia!... E nem só a -estreia do Ega era pessima; tambem a sua. E talvez, por pensar n'isso, -as palavras do avô tinham tido aquella tristeza. Pessimas estreias! -Havia seis mezes que o Ega chegara de Celorico, embrulhado na sua grande -pellissa, preparado a deslumbrar Lisboa com as _Memorias d'um Atomo_, a -dominal-a com a influencia de uma Revista, a ser uma luz, uma força, mil -outras cousas... E agora, cheio de dividas e cheio de ridiculo, lá -voltava para Celorico, escorraçado. Pessima estreia! Elle, por seu lado, -desembarcara em Lisboa, com idéas collossaes de trabalho, armado como um -luctador: era o consultorio, o laboratorio, um livro iniciador, mil -cousas fortes... E, que tinha feito? Dois artigos de jornal, uma duzia -de receitas, e esse melancolico capitulo da _Medicina entre os Gregos_. -Pessima estreia! - -Não, a vida não lhe parecia promettedora, n'esse instante, passeiando na -sala de bilhar com as mãos nos bolsos, emquanto ao lado os amigos -conversavam, e fóra uivava o sudoeste. Pobre Ega, que infeliz elle iria, -encolhido ao canto do seu wagon!.. Mas os outros, ali, não estavam mais -alegres. Craft e o Marquez tinham começado uma conversa sobre a vida, -soturna e desconsoladora. De que servia viver, dizia Craft, não se sendo -um Livingstone ou um Bismark? E o Marquez, com um ar philosophico, -achava que o mundo se ia tornando estupido. Depois chegou o Taveira com -a historia horrivel d'um collega d'elle, cujo filho cahira pela escada, -se despedaçara, no momento em que a mulher estava a morrer d'uma -pleurisia. Cruges resmungou o quer que fosse sobre suicidio. As palavras -arrastavam-se, melancolicas. Instinctivamente, Carlos, de vez em quando, -ia despertar as lampadas. - -Mas tudo lhe pareceu resplandecer, quando d'ahi a instantes Damaso -chegou, e lhe disse que o Castro Gomes estava incommodado, e de cama. - ---Naturalmente, accrescentou o Damaso, mandam-te chamar, por teres já -visto a pequena... - -Carlos ao outro dia não sahiu de casa, esperando um recado, faiscando -d'impaciencia. Nenhum recado veiu. E, duas tardes depois, ao descer para -o Aterro--o primeiro encontro que teve, ás Janellas Verdes, foi o Castro -Gomes, de caleche descoberta, com a mulher ao lado, e a cadellinha no -collo. - -Ella passou, sem o vêr. E logo ali Carlos decidiu findar aquella -tortura, pedir muito simplesmente ao Damaso que o apresentasse ao Castro -Gomes, antes d'elle partir para o Brazil... Não podia mais, precisava -ouvir a voz d'ella, vêr o que os seus olhos diziam quando eram -interrogados de perto. - -Mas toda essa semana achou-se, constantemente, sem saber como, na -companhia dos Gouvarinhos. Começou por encontrar o conde, que lhe travou -do braço, arrastou-o á rua de S. Marçal, installou-o n'uma poltrona, no -seu escriptorio, e leu-lhe um artigo que destinava ao _Jornal do -Commercio_ sobre a situação dos partidos em Portugal: depois convidou-o -a jantar. Na tarde seguinte elles tinham uma partida de _croquet_. -Carlos foi. E, a uma janella, aberta sobre o jardim, teve um momento de -intimidade com a condessa, contou-lhe, rindo, como os cabellos d'ella o -tinham encantado, a primeira vez que a vira. N'essa noite, ella fallou -d'um livro de Tennyson, que não lera; Carlos offereceu-lh'o, foi-lh'o -levar ao outro dia, de manhã. Encontrou-a só, toda vestida de branco: e -riam, baixavam já a voz, as duas cadeias estavam mais juntas--quando o -escudeiro annunciou a sr.^a D. Maria da Cunha. Era uma cousa tão -extraordinaria, a D. Maria da Cunha áquella hora! Carlos, de resto, -gostava muito da D. Maria da Cunha, uma velha engraçada, toda bondade, -cheia de sympathia por todos os peccados--e ella mesma muito peccadora -quando era a linda Cunha. D. Maria era muito falladora, parecia ter que -dizer em particular á condessa; e Carlos deixou-as, promettendo voltar -uma d'essas tardes tomar chá, e fallar de Tennyson. - -Na tarde em que elle se vestia para lá ir, Damaso appareceu-lhe no -quarto, a dar-lhe uma novidade que o enchia de desgosto e de «ferro». O -telhudo do Castro Gomes mudára de idéa, já não ia ao Brazil! Ficava ali, -no Central, até ao meiado do verão! De sorte que estava tudo -estragado... - -Carlos pensou logo em fallar da sua apresentação ao Castro Gomes. Mas, -como em Cintra, sem saber porquê, veiu-lhe uma repugnancia de a conhecer -por meio do Damaso. E foi-se vestindo em silencio. - -Damaso no entanto maldizia a sua _chance_: - ---E eu que tinha mulher, eu que a tinha, se houvesse occasião. Mas que -diabo queres tu, assim?... - -Queixou-se então do Castro Gomes. Em resumo, era um telhudo. E a vida -d'aquelle homem era mysteriosa... Que diabo estava elle a fazer em -Lisboa? Ali havia difficuldades de dinheiro... E elles não se davam bem. -Na vespera houvera de certo questão. Quando elle entrara, ella estava -com os olhos vermelhos, e enfiada; e elle, nervoso, a passeiar pela -sala, a retorcer a barba... Ambos contrafeitos, uma palavra cada quarto -d'hora... - ---Sabes tu? exclamou elle. Tenho minha vontade de os mandar á fava. - -Queixou-se tambem d'ella. Era sobretudo muito desegual. Ora bom modo, -ora regelada; e, ás vezes, elle dizia qualquer cousa muito natural, -d'estas cousas de conversa de sociedade, e ella punha-se a rir. Era de -encavacar, hein? Emfim, gente muito exquisita. - ---Onde vaes tu? disse elle, com um suspiro de aborrecimento, vendo -Carlos pôr o chapeu. - -Ia tomar chá com a Gouvarinho. - ---Pois olha, vou comtigo... Estou d'uma secca! - -Carlos hesitou um instante, terminou por dizer: - ---Vem, fazes-me até favor... - -A tarde estava lindissima, Carlos ia no dog-cart. - ---Ha que tempos que não damos assim um passeio juntos, disse Damaso. - ---Tu andas lá mettido com estrangeiros!... - -Damaso deu outro suspiro, e não tornou a dizer mais nada. Depois, á -porta dos Gouvarinhos, quando soube que a sr.^a condessa recebia, -resolveu subitamente não entrar. Não, não entrava. Estava muito -estupido, incapaz de achar uma palavra... - ---Ah, e outra cousa que me lembrou agora, exclamou elle, demorando ainda -Carlos diante do portão. O Castro Gomes, hontem, perguntou-me o que te -havia de mandar pela visita á pequena... Eu disse que tu tinhas ido lá -por favor, como meu amigo. E elle disse que te havia de vir deixar um -bilhete... Naturalmente vens a conhecel-os. - -Não era, pois, necessario que Damaso o apresentasse! - ---Apparece á noite, Damasosinho, vai lá jantar ámanhã! exclamou Carlos, -subitamente radiante, dando um ardente aperto de mão ao seu amigo. - -Quando entrou na sala, um escudeiro acabava de servir chá. A sala, -forrada d'um papel severo, verde e ouro, com retratos de familia em -caixilhos pesados, abria por duas varandas sobre a folhagem do jardim. -Em cima das mezas havia cestos de flôres. No sophá, duas senhoras de -chapeu, ambas de preto, conversavam, com a chavena na mão. A condessa, -ao estender os dedos a Carlos, ficara tão côr de rosa--como a seda -acolchoada da cadeira em que estava recostada, ao pé d'um velador de pau -santo. Notou logo, sorrindo, o ar radiante de Carlos. Que lhe tinha -acontecido de bom? Carlos sorriu tambem, disse que não era possivel -entrar ali com outro ar. Depois perguntou pelo conde... - -O conde ainda não apparecera, detido de certo na camara dos pares, onde -se discutia o projecto sobre a Reforma da Instrucção Publica. - -Uma das senhoras de preto fazia votos para que se alliviassem os -estudos. As pobres creanças succumbiam verdadeiramente á quantidade -exaggerada de materias, de cousas a decorar: o d'ella, o Joãosinho, -andava tão pallido e tão desfigurado, que ella ás vezes tinha vontade de -o deixar ficar ignorante de todo. A outra senhora pousou a chavena sobre -um console ao lado, e passando sobre os labios a renda do lenço, -queixou-se sobretudo dos examinadores. Era um escandalo as exigencias, -as difficuldades que punham, só para poder deitar RR... Ao pequeno -d'ella tinham feito as perguntas mais estupidas, as mais reles; assim, -por exemplo, o que era o sabão, porque lavava o sabão?... - -A outra senhora e a condessa apertaram as mãos contra o peito, -consternadas. E Carlos, muito amavel, concordou que era uma abominação. -O marido d'ella--continuava a dama de preto--ficara tão desesperado que, -encontrando o examinador no Chiado, o ameaçou de lhe dar bengaladas. Uma -imprudencia, de certo; mas, emfim, o homem fôra malvado!... Não havia -verdadeiramente senão uma cousa digna de se estudar, eram as linguas. -Parecia insensato que se torturasse uma creança com botanica, -astronomia, physica... Para que? Cousas inuteis na sociedade. Assim, o -pequeno d'ella, agora, tinha lições de chimica... Que absurdo! Era o que -o pae dizia--para que, se elle o não queria para boticario? - -Depois d'um silencio, as duas senhoras ergueram-se ao mesmo tempo; e -houve um murmurio de beijos, um frou-frou de sedas. - -Carlos ficou só com a sr.^a condessa, que reoccupara a sua cadeira côr -de rosa. - -Immediatamente ella perguntou pelo Ega. - ---Coitado, lá está para Celorico. - -Ella protestou, com um lindo riso, contra aquella phrase tão feia «lá -está para Celorico» Não, não queria... Coitado do Ega! Merecia uma -melhor oração funebre. Celorico era horrível para um fim de romance... - ---De certo, exclamou Carlos, rindo tambem, era mais bello dizer-se: _lá -está para Jerusalem!_ - -N'esse momento o criado annunciou um nome, e appareceu o amigo Telles da -Gama, um intimo da casa. Quando soube que o conde devia estar ainda -batalhando sobre a Reforma da Instrucção, levou as mãos á cabeça como -lamentando um tão feio desperdicio de tempo, e não se quiz demorar. Não, -nem mesmo o excellente chá da sr.^a condessa o tentava. A verdade era -que estava tão abandonado da graça de Deus, perdera de tal modo o -sentimento das cousas bellas, que entrara, não para vêr a sr.^a -condessa--mas simplesmente fallar ao conde. Então ella teve um bonito ar -de princeza offendida, perguntou a Carlos se uma tão rude sinceridade de -montanhez não fazia saudades das maneiras polidas do antigo regimen. E -Telles da Gama, gingando de leve, declarava-se democrata, homem da -natureza, com um riso que lhe mostrava dentes magnificos. Depois, ao -sair, dando um _shake-hands_ ao amigo Maia, quiz saber quando o principe -de S.^t Olavia lhe dava emfim a honra de vir jantar com elle. A sr.^a -condessa indignou-se. Não, era realmente de mais! Fazer convites, na sua -sala, diante d'ella,--um homem que fallava tanto da sua cozinheira -allemã, e nem sequer lhe offerecera jámais um prato de chou-crôute! - -Telles da Gama, rindo sempre e gingando, jurou que andava a arranjar a -sua sala de jantar para dar á sr.^a condessa uma festa, que havia de -ficar nos annaes do reino! Agora com o Maia era differente: jantavam -ambos na cozinha, com os pratos sobre os joelhos. E abalou, gingando -sempre, rindo ainda da porta, mostrando os dentes magnificos. - ---Muito alegre, este Gama, não é verdade? disse a condessa. - ---Muito alegre, disse Carlos. - -Então a condessa olhou o relogio. Eram cinco e meia, áquella hora ella -já não recebia: podiam, emfim, conversar um momento, em boa camaradagem. -E, o que houve, foi um silencio lento, em que os olhos de ambos se -encontraram. Depois Carlos perguntou por Charlie, o seu lindo doente. -Não estava bem, com uma ligeira tosse apanhada no passeio da Estrella. -Ah, aquella creança nunca deixava de lhe dar o cuidado! Ficou callada, -com o olhar esquecido no tapete, movendo languidamente o leque: tinha -n'essa tarde uma toilette exaggerada, d'um tom de folha de outono -amarellada, d'uma seda grossa, que ao menor movimento fazia um ruge-ruge -de folhas seccas. - ---Que lindo tempo tem feito! exclamou ella de repente, como acordando. - ---Lindo! disse Carlos. Eu estive ha dias em Cintra, e não imagina... Era -d'uma belleza de idyllio. - -E immediatamente arrependeu-se, quiz-se mal por ter fallado da sua ida a -Cintra, n'aquella sala. - -Mas a condessa mal o escutára. Tinha-se erguido, fallando de algumas -canções que essa manhã recebera de Inglaterra, as novidades frescas da -_season_. Depois, sentou-se ao piano, correu os dedos no teclado, -perguntou a Carlos se conhecia aquella melodia--_The pale star_. Não, -Carlos não conhecia. Mas todas essas canções inglezas se parecem, sempre -do mesmo tom dolente, romanesco, e muito _miss_. E trata-se sempre d'um -parque melancolico, um regato lento, um beijo sob os castanheiros... - -Então a condessa leu alto a letra da _Pale star_. E era a mesma cousa, -uma estrellinha de amor palpitando no crepusculo, um lago pallido, um -timido beijo sob as arvores... - ---É sempre o mesmo, disse Carlos, e é sempre delicioso. - -Mas a condessa atirou o papel para o lado, achando aquillo estupido. -Começou a remexer entre os papeis de musica, nervosa, e com um olhar que -escurecia. Para quebrar o silencio, Carlos gabou-lhe as suas lindas -flores. - ---Ah, vou-lhe dar uma rosa! exclamou ella logo, deixando as musicas. - -Mas, a flôr que ella lhe queria dar estava no _boudoir_, ao lado. Carlos -seguiu a sua grande cauda, onde corria um reflexo dourado de folhagem de -outono batida do sol. Era um gabinete forrado de azul, com um bonito -tremó do seculo XVIII, e sobre um forte pedestal de carvalho, o busto em -barro do conde, na sua expressão de orador, a fronte erguida, a gravata -desmanchada, o labio fremente... - -A condessa escolheu um botão com duas folhas, e ella mesmo lhe veiu -florir a sobrecasaca. Carlos sentia o seu aroma de verbena, o calor que -subia do seu seio arfando com força. E ella não acabava de prender a -flôr, com os dedos tremulos, lentos, que pareciam collar-se, deixar-se -adormecer sobre o panno... - ---_Voila!_ murmurou emfim, muito baixo. Ahi está o meu bello cavalleiro -da Rosa Vermelha... E agora, não me agradeça! - -Insensivelmente, irresistivelmente, Carlos achou-se com os labios nos -labios d'ella. A seda do vestido roçava-lhe, com um fino ruge-ruge entre -os braços;--e ella pendia para traz a cabeça, branca como uma cera, com -as palpebras docemente cerradas. Elle deu um passo, tendo-a assim -enlaçada, e como morta; o seu joelho encontrou um sophá baixo, que rolou -e fugiu. Com a cauda de seda enrolada nos pés, Carlos seguiu, -tropeçando, o largo sophá, que rolou, fugiu ainda, até que esbarrou -contra o pedestal onde o sr. conde erguia a fronte inspirada. E um longo -suspiro morreu, n'um rumor de saias amarrotadas. - -D'ahi a um momento estavam ambos de pé: Carlos, junto do busto, coçando -a barba, com o ar embaraçado, e já vagamente arrependido: ella, diante -do tremó Luiz XV, compondo, com os dedos tremulos, o frisado do cabello. -De repente, na antecamara, ouviu-se a voz do conde. Ella, bruscamente, -voltou-se, correu a Carlos, e, com os longos dedos cobertos de -pedrarias, agarrou-lhe o rosto, atirou-lhe dois beijos faiscantes ao -cabello e aos olhos. Depois, sentou-se largamente no sophá--e estava -fallando de Cintra, rindo alto, quando o conde entrou, seguido de um -velho calvo, que se vinha a assoar a um enorme lenço de seda da India. - -Ao vêr Carlos no _boudoir_, o conde teve uma bella surpreza, esteve-lhe -apertando as mãos muito tempo, com calor, assegurando-lhe que ainda -n'essa manhã, na camara, se lembrara d'elle... - ---Então, por que vieram tão tarde? exclamou a condessa, que se apoderara -logo do velho, rindo, mexendo-se, animada, amavel. - ---O nosso conde fallou! disse o velho, ainda com o olho brilhante de -enthusiasmo. - ---Fallaste? exclamou ela, voltando-se com um interesse encantador. - -É verdade, fallara; e desprevenido! Quando ouvira porém o Torres Valente -(homem de litteratura, mas um doido, sem senso pratico) quando o ouvira -defender a gymnastica obrigatoria nos collegios--erguera-se. Mas não -imaginasse o amigo Maia, que elle tinha feito um discurso. - ---Ora essa! exclamou o velho, agitando o lenço. E um dos melhores que eu -tenho ouvido na camara! Dos de arromba! - -O Conde modestamente protestou. Não: tinha simplesmente lançado uma -palavra de bom senso, e de bom principio. Perguntara apenas ao seu -illustre amigo, o sr. Torres Valente, se na sua idéa, os nossos filhos, -os herdeiros das nossas casas, estavam destinados para palhaços!... - ---Ah, esta piada, sr.^a condessa! exclamou o velho. Eu só queria que v. -ex.^a ouvisse esta piada... E como elle a disse! com um _chic!_ - -O conde sorriu, agradeceu para o lado, ao velho. Sim, dissera-lhe -aquillo. E, respondendo a outras reflexões do Torres Valente, que não -queria nos lyceus, nem nos collegios, um ensino «todo impregnado de -cathecismo», elle lançara-lhe uma palavra cruel. - ---Terrivel, exclamou o velho n'um tom cavo, preparando o lenço para se -assoar outra vez. - ---Sim, terrivel... Voltei-me para elle, e disse-lhe isto... «Creia o -digno par, que nunca este paiz retomará o seu logar à testa da -civilisação, se, nos lyceus, nos collegios, nos estabelecimentos de -instrucção, nós outros os legisladores formos, com mão impia, substituir -a cruz pelo trapezio... - ---Sublime, rosnou o velho, dando um ronco medonho dentro do lenço. - -Carlos, erguendo-se, declarou aquillo d'uma ironia adoravel. - -E o conde, quando elle se despediu, não se contentou com um simples -aperto de mão, passou-lhe o braço pela cinta, chamou-lhe o seu querido -Maia. A condessa sorria, com o olhar ainda humido, um resto de pallidez, -movendo o leque languidamente, recostada em duas almofadas do -sophá--debaixo do busto do marido que erguia a fronte inspirada. - - - - -X - - -Tres semanas depois, por uma tarde quente, com um ceu triste de -trovoada, e no momento em que estavam cahindo algumas gotas grossas de -chuva,--Carlos apeava-se d'um coupé de praça, que viera parar, de vagar, -á esquina da Patriarchal, com os stores verdes mysteriosamente corridos. -Dous sujeitos que passavam sorriram-se, como se o vissem escoar-se -desgeitosamente d'uma portinha suspeita. E com effeito a velha -traquitana de rodas amarellas acabava de ser uma alcova d'amor, -perfumada de verbena, durante as duas horas que Carlos rolara dentro -d'ella, pela estrada de Queluz, com a sr.^a condessa de Gouvarinho. - -A condessa tinha descido no largo das Amoreiras. E Carlos aproveitara a -solidão da Patriarchal para se desembaraçar do calhambeque d'assento -duro, onde durante a ultima hora suffocára, sem ousar descer as -vidraças, com as pernas adormecidas, enfastiado de tantas sedas -amarrotadas e dos beijos interminaveis que ella lhe dava na barba... - -Até ahi, durante essas tres semanas, tinham-se encontrado n'uma casa da -rua de Santa Izabel, pertencente a uma tia da condessa que fôra para o -Porto com a criada, deixando-lhe a chave da casa e o cuidado do gato. A -boa titi, uma velha pequenina, chamada miss Jones, era uma santa, uma -apostola militante da Egreja Anglicana, missionaria da Obra da -Propaganda; e todos os mezes fazia assim uma viagem de cathechisação á -provincia, distribuindo Biblias, arrancando almas á treva catholica, -purificando (como ella dizia) o tremedal papista... Já na escada havia -um cheirinho adocicado e triste a devoção e a virgem velha: e no patamar -pendia um largo cartão, com um distico em letras de ouro entrelaçadas de -lyrios roxos, rogando aos que entravam que preserverassem nas vias do -Senhor! Carlos entrou, tropeçando logo n'um montão de Biblias. O quarto -todo era um ninho de Biblias; havia-as ás pilhas por cima dos moveis, -transbordando de velhas chapelleiras, misturadas a pares de galochas, -cahidas para o fundo da bacia d'assento, todas do mesmo formato, -entaladas n'uma encadernação negra como n'uma armadura de combate, -carrancudas e aggressivas! As paredes resplandeciam, forradas de -cartonagens impressas em lettras de côr, irradiando versiculos duros da -Biblia, asperos conselhos de moral, gritos dos psalmos, ameaças -insolentes do inferno... E no meio d'esta religiosidade anglicana, á -cabeceira d'um leitosinho de ferro, rigido e virginal, duas garrafas -quasi vasias de cognac e de gin, Carlos bebeu o gin da santa; e o leito -rigido ficou revolto como um campo de batalha. - -Depois a condessa começou a ter medo d'uma visinha, uma Borges, que -visitava a titi, e era viuva de um antigo procurador dos Gouvarinhos. -Uma occasião em que, no casto leito de miss Jones, elles fumavam -languidamente cigarrilhas, tres enormes argoladas á porta atroaram a -casa. A pobre condessa quasi desmaiou; Carlos, correndo á janella, viu -um homem que se affastava, com uma estatueta de gesso na mão, outras -dentro d'um cesto. Mas a condessa jurava que fôra a Borges quem mandára -o italiano das imagens atirar-lhes para dentro aquellas aldrabadas, como -tres avisos, tres rebates da Moral... Não quizera voltar mais ao -beatifico cuté da titi. E n'essa tarde, como não havia ainda outro -escondrijo, tinham abrigado os seus amores dentro d'aquella tipoia de -praça. - -Mas Carlos vinha de lá enervado, amollecido, sentindo já na alma os -primeiros bocejos da saciedade. Havia tres semanas apenas que aquelles -braços perfumados de verbena se tinham atirado ao seu pescoço,--e agora, -pelo passeio de S. Pedro d'Alcantara, sob o ligeiro chuvisco que batia -as folhagens da alameda, elle ía pensando como se poderia desembaraçar -da sua tenacidade, do seu ardor, do seu peso... É que a condessa ía-se -tornando absurda com aquella determinação anciosa e audaz de invadir -toda a sua vida, tomar n'ella o logar mais largo e mais profundo--como -se o primeiro beijo trocado tivesse unido não só os labios de ambos um -momento, mas os seus destinos tambem e para sempre. N'essa tarde lá -tinham voltado as palavras que ella balbuciava, cahida sobre o seu -peito, com os olhos affogados n'uma ternura supplicante: _Se tu -quizesses! que felizes que seriamos! que vida adoravel! ambos sós!_... E -isto era claro--a condessa concebera a idéa extravagante de fugir com -elle, ir viver n'um sonho eterno de amor lyrico, n'algum canto do mundo, -o mais longe possivel da rua de S. Marçal! _Se tu quizesses!_ Não, com -mil demonios, não queria fugir com a sr.^a condessa de Gouvarinho!... - -E não era só isto--mas ainda exigencias, egoismos, explosões tumultuosas -d'um temperamento cioso: já mais de uma vez, n'essas duas curtas -semanas, por pieguices, ella despropositára, fallara de morrer, -debulhada em lagrimas... Ah! nas lagrimas havia ainda uma -voluptuosidade, faziam parecer mais tenro o setim do seu collo! O que o -inquietava eram certos clarões que lhe sulcavam o rosto, um dardejar -nervoso dos olhos seccos, revelando a paixão que se accendera n'aquelles -nervos de mulher de trinta e tres annos, e a queimava até ás -profundidades do seu ser... Certamente este amor punha na sua vida um -luxo mais, e um perfume. Mas o seu encanto estava em conservar-se facil, -sereno, sem penetrar mais fundo que a epiderme. Se ella, por qualquer -cousa, tinha os olhos turvos d'agua, e fallava em morrer, e torcia os -braços, e queria fugir com elle--então adeus! Tudo estava estragado; e a -sr.^a condessa com a sua verbena, os seus cabellos côr de braza, e o seu -pranto, era apenas um trambolho! - -O chuveiro parara, um bocado d'azul lavado appareceu entre nuvens. E -Carlos descia a rua de S. Roque--quando encontrou o marquez, sahindo -d'uma confeitaria, tristonho, com um embrulho na mão, e o pescoço -abafado n'um enorme cache-nez de seda branca. - ---Que é isso? Constipação? perguntou Carlos. - ---Tudo, disse o marquez, pondo-se a caminhar ao lado d'elle com uma -lentidão de moribundo. Deitei-me tarde. Cançasso. Oppressão no peito. -Pigarreira. Dôres no lado. Um horror... Levo já aqui rebuçados. - ---Não seja piegas, homem! Você o que precisa é roast-beef e uma garrafa -de Borgonha... Não é hoje que você janta lá no Ramalhete?... É, até tem -lá o Craft e o Damaso... Então descemos por essa rua do Alecrim, que já -não chove, depois pelo Aterro fóra, a passo gymnastico, e em chegando lá -você está curado. - -O pobre marquez encolheu os hombros. Apenas sentia o menor encommodo, -uma dôr, um arrepio, considerava-se logo, como elle dizia, _liquidado_. -O mundo começava a findar para elle: tomavam-no terrores catholicos, uma -preoccupação angustiosa da Eternidade. N'esses dias fechava-se no quarto -com o padre capellão--com quem ás vezes, todavia, terminava por jogar as -damas. - ---Em todo o caso, disse elle, tirando cautelosamente o chapeu ao passar -pela porta aberta da egreja dos Martyres, deixe-me você ir primeiro ao -Gremio... Quero escrever á Manoeleta que não conte comigo esta noite... - -Depois, distrahida e melancolicamente, perguntou noticias d'esse devasso -do Ega. Esse devasso do Ega lá estava em Celorico, na quinta materna, -ouvindo arrotar o padre Seraphim, e refugiando-se, segundo dizia, na -grande arte: andava a compor uma comedia em cinco actos, que se devia -chamar o _Lodaçal_--escripta para se vingar de Lisboa. - ---O peor, murmurou o marquez, depois de um silencio, e abafando-se mais -no cache-nez, é se eu estou assim no domingo para as corridas! - ---O quê! exclamou Carlos, então as corridas são já no domingo? - -O marquez foi-lhe explicando, em quanto desciam o Chiado, que as -corridas se tinham apressado a pedido do Clifford, o grande _sportman_ -de Cordova, que devia trazer dois cavallos inglezes... Era um bocado -humilhante depender do Clifford. Mas emfim o Clifford era um _gentleman_ -e com os seus cavallos de raça, os seus jockeys inglezes, constituia a -unica feição séria do Hyppodromo de Belem. Sem o Clifford aquillo era -uma brincadeira de pilecas e d'_abas_... - ---Você não conhece o Clifford?.. Bello rapaz! Um pouco _poseur_, mas -oiro de lei. - -Tinham entrado no pateo do Gremio, o marquez estendeu o braço a Carlos. - ---Veja esse pulso! - ---O pulso está excellente... Vá você dar lá esse golpe á Manoela, que eu -fico aqui á espera. - -No domingo pois, d'ahi a cinco dias, eram as corridas... E _ella_ -estaria lá, elle ia conhecel-a, emfim! Durante essas tres ultimas -semanas vira-a duas vezes: uma occasião, estando a conversar com o -Taveira á porta do hotel Central, ella chegara a uma das varandas, de -chapeu, calçando uma grande luva preta; d'outra vez, havia dias, por uma -tarde de chuva, ella viera parar á porta do Mourão, ao Chiado, n'um -coupé da Companhia, e ficara esperando emquanto o trintanario levava -dentro á loja um embrulho que tinha a fórma d'um cofre, apertado com uma -fita vermelha. D'ambas as vezes ella vira-o, demorara os olhos n'elle um -momento: e parecera a Carlos que o ultimo olhar se prolongara mais, como -abandonando-se, humedecendo-se, n'uma leve doçura, ao pousar no seu... -Era talvez uma illusão; mas isto decidiu-o, na sua impaciencia, a -realisar a antiga idéa (ainda que desagradavel) de ser apresentado pelo -Damaso ao Castro Gomes. O pobre Damaso, ao principio, diante d'esta -exigencia, ficou perturbado; e com um ar de cão que defende o seu osso, -lembrou logo a Carlos o deploravel comportamento do Castro Gomes, que -não viera como lh'o annunciara, havia tres semanas, deixar o seu cartão -ao Ramalhete... Mas Carlos desdenhava essas formalidades estreitas entre -rapazes: o Castro Gomes parecia-lhe um homem de gosto e de _sport_; nem -todos os dias apparecia em Lisboa quem soubesse dar com correcção o nó -da gravata; e seria agradavel, mesmo para elle Damaso, reunirem-se todos -de vez em quando, com o Craft, com o marquez, a fumar um charuto e a -fallar de cavallos. Isto decidiu Damaso, que terminou por propôr a -Carlos o leval-o uma tarde ao hotel Central. Carlos porém não queria -entrar pelo hotel dentro, de chapeu na mão, atraz do Damaso. Resolveram -então esperar pelas corridas, onde os Castro Gomes tencionavam ir. «Ahi, -no recinto da pesagem, disse o Damaso, a apresentação é mais _chic_... É -mesmo pôdre de _chic_.» - ---Deus queira com effeito que não chova no domingo, murmurou Carlos -quando o marquez desceu, mais tristonho, mais abafado no seu cache-nez. - -Foram seguindo pelo meio da rua, em direcção ao Ferregial. Adiante do -Gremio, encostado ao passeio, estava um coupé da Companhia, com um -trintanario de luvas brancas esperando junto ao portal. Carlos olhou, -casualmente; e viu, debruçado á portinhola, um rosto de creança, d'uma -brancura adoravel sorrindo-lhe, com um bello sorriso que lhe punha duas -covinhas na face. Reconheceu-a logo. Era Rosa, era Rosicler: e ella não -se contentou em sorrír, com o seu doce olhar azul fugindo todo para -elle,--deitou a mãosinha de fóra, atirou-lhe um grande adeus. No fundo -do coupé, forrado de negro, destacava um perfil claro d'estatua, um tom -ondeado de cabello louro. Carlos tirou profundamente o chapeu, tão -perturbado, que os seus passos hesitaram. _Ella_ abaixou a cabeça, de -leve; alguma cousa de luminoso, um confuso rubor d'emoção, -espalhou-se-lhe no rosto. E fugitivamente foi como se, da mãe e da -filha, ao mesmo tempo, viesse para elle uma suave e quente emanação de -sympathia. - ---Caramba, aquillo pertence-lhe? perguntou o marquez, que notara a -impressão de Madame Gomes. - -Carlos córou. - ---Não, é uma senhora brazileira a quem eu curei aquella pequerrucha... - ---Irra! que gratidão! rosnou o outro de dentro das dobras do seu -cachenez. - -Caminhando em silencio pelo Ferregial, Carlos revolvia uma idéa que lhe -viera de repente, ao receber aquelle doce olhar. Por que é que Damaso -não levaria uma manhã o Castro Gomes aos Olivaes, a vêr as collecções do -Craft?... Elle estaria lá, abria-se uma garrafa de Champagne, discutiam -_bric-à-brac_. Depois, muito naturalmente, elle convidava Castro Gomes a -almoçar no Ramalhete, para lhe mostrar o grande Rubens, e as suas velhas -colxas da India. E assim, já antes das corridas existiria entre elles -uma camaradagem, talvez um tratamento de _você_. - -No Aterro, temendo o ar do rio, o marquez quiz tomar uma tipoia; e, até -ao Ramalhete, continuaram callados. O marquez, outra vez inquieto, -apalpava a garganta. Carlos discutia complicadamente comsigo aquella -lenta inclinação de cabeça, o olhar d'ella, o vivo rubor fugitivo... -Ella até ahi não o conhecia talvez. Mas, depois de atirar o seu grande -_adeus_, Rosa, ainda sorrindo, voltara-se para a mãe, a dizer-lhe -decerto que aquelle era o medico que a curara, a ella e á boneca... E -então a linda côr que lhe enternecera o rosto tomava uma significação -mais profunda--era como a surpreza feliz, o enleio casto, ao saber que o -homem que ella notára já de algum modo tinha penetrado na sua -intimidade, beijara a sua filha, se tinha mesmo sentado á beira do seu -leito... - -Depois ia refazendo o plano da visita aos Olivaes, mais largo agora, -mais brilhante. Porque não iria ella tambem vêr as curiosidades do -Craft? Que tarde encantadora, que festa, que lindo idyllio! O Craft -arranjava um _lunch_ delicado no seu velho serviço de Wedgewood. Elle -ficava á meza junto d'ella. Depois iam vêr o jardim já em flôr; ou -tomavam chá no pavilhão japonez, forrado de esteiras. Mas, o que mais -lhe appetecia era percorrer com ella as duas salas de Craft, parando -ambos diante d'uma bella faiença ou d'um movel raro, e sentindo, atravez -da concordancia dos seus gostos, subir, como um perfume, a sympathia dos -seus corações... Nunca a vira tão formosa como n'essa tarde, dentro do -coupé forrado de escuro, onde brilhava mais puramente a brancura do seu -perfil. Sobre o regaço do vestido negro pousava o tom claro das suas -luvas; e no chapéo frisava-se a ponta de uma penna cor de neve. - -A tipoia parara ao portão do Ramalhete, estavam agora entre as -silenciosas tapessarias da ante-camara. - ---Como é que ella conhece os Cruges? perguntou de repente o marquez, com -um tom desconfiado, desembaraçando-se do cache-nez. - -Carlos olhou para elle, como mal acordado. - ---Ella quem? Aquella senhora? Como conhece o Cruges?... Homem, sim, tem -você razão!.. Aquella era a casa do Cruges! a carruagem estava parada à -porta do Cruges!.. Talvez alguem que móre n'outro andar. - ---Não móra ninguem, disse o marquez, dando um passo para o corredor. Em -todo o caso, é um mulherão. - -Carlos achou a palavra odíosa. - -Do corredor ouvia-se já no escriptorio de Affonso, atravez da porta -aberta, a voz petulante do Damaso fallando alto d'_handicap_ e de -_dead-beat_... E foram-n'o encontrar discursando sobre as corridas, com -convicção, com auctoridade, como membro do Jockey-Club. Affonso, na sua -velha poltrona, escutava-o, cortez e risonho, com o reverendo Bonifacio -no collo. Ao canto do sophá, Craft folheava um livro. - -E o Damaso appellou logo para o marquez. Não era verdade, como elle -estivera dizendo ao sr. Affonso da Maia, que iam ser as melhores -corridas que se tinham feito em Lisboa? Só para o grande premio nacional -de seiscentos mil réis havia oito cavallos inscriptos! E além d'isso, o -Clifford trazia a _Mist_. - ---Ah, é verdade, oh marquez, é necessario que você appareça sexta-feira -á noite no Jockey-Club, para acabarmos o _handicap_! - -O marquez arrastara uma cadeira para o pé de Affonso, para lhe fazer a -confidencia dos seus achaques; mas como Damaso se mettia entre elles, -fallando ainda da _Mist_, decidindo que a _Mist_ era chic, querendo -apostar cinco libras pela _Mist_ contra o campo--o marquez terminou por -se voltar, enfastiado, dizendo que o sr. Damazosinho se estava a dar -ares patuscos... Apostar pela _Mist_! Todo o patriota devia apostar -pelos cavallos do visconde de Darque, que era o unico criador -portuguez!... - ---Pois não é verdade, sr. Affonso da Maia? - -O velho sorrio, amaciando o seu gato. - ---O verdadeiro patriotismo talvez, disse elle, seria, em logar de -corridas, fazer uma boa tourada. - -Damazo levou as mãos á cabeça. Uma tourada! Então o sr. Affonso da Maia -preferia touros a corridas de cavallos? O sr. Affonso da Maia, um -inglez!... - ---Um simples beirão, sr. Salcede, um simples beirão, e que faz gosto -n'isso; se habitei a Inglaterra é que o meu rei, que era então, me pôz -fóra do meu paiz... Pois é verdade, tenho esse fraco portuguez, prefiro -touros. Cada raça possue o seu _sport_ proprio, e o nosso é o toiro: o -toiro com muito sol, ar de dia santo, agua fresca, e foguetes... Mas -sabe o sr. Salcede qual é a vantagem da toirada? É ser uma grande escola -de força, de coragem e de destreza... Em Portugal não ha instituição que -tenha uma importancia egual á tourada de curiosos. E acredite uma cousa: -é que se n'esta triste geração moderna ainda ha em Lisboa uns rapazes -com certo musculo, a espinha direita, e capazes de dar um bom socco, -deve-se isso ao touro e á tourada de curiosos... - -O marquez enthusiasmado bateu as palmas. Aquillo é que era fallar! -Aquillo é que era dar a philosophia do toiro! Está claro que a tourada -era uma grande educação phisica! E havia imbecis que fallavam em acabar -com os touros! Oh, estupidos, acabaes então com a coragem portugueza!... - ---Nós não temos os jogos de destresa das outras nações, exclamava elle, -bracejando pela sala e esquecido dos seus males. Não temos o _cricket_, -nem o _foot-ball_, nem o _running_, como os inglezes: não temos a -gymnastica como ella se faz em França; não temos o serviço militar -obrigatorio que é o que torna o allemão solido... Não temos nada capaz -de dar a um rapaz um bocado de fibra. Temos só a tourada... Tirem a -tourada, e não ficam senão badamecos derreados da espinha, a mellarem-se -pelo Chiado! Pois você não acha, Craft? - -Craft, do canto do sophá, onde Carlos se fôra sentar e lhe fallava -baixo, respondeu, convencido: - ---O que, o touro? Está claro! o touro devia ser n'este paiz como o -ensino é lá fóra: gratuito e obrigatorio. - -Damazo no entanto jurava a Affonso compenetradamente que gostava tambem -muito de touros. Ah lá n'essas cousas de patriotismo ninguem lhe levava -a palma... Mas as corridas tinham outro _chic_! Aquelles _Bois de -Boulogne_, n'um dia de _Grand-Prix_, hein!... Era de embatucar! - ---Sabes o que é pena? exclamou elle voltando-se de repente para Carlos. -É que tu não tenhas um _four-in-hand_, um _mail coach_. Iamos todos -d'aqui, cahia tudo de chic! - -Carlos pensou tambem comsigo que era uma pena não ter um _four-in-hand_. -Mas gracejou, achando mais em harmonia com o Jockey Club da travessa da -Conceição irem todos dentro d'um omnibus. - -Damazo voltou-se para o velho, deixando cahir os braços, descorçoado: - ---Ahi está, sr. Affonso da Maia! Ahi está por que em Portugal nunca se -faz nada em termos! É por que ninguem quer concorrer para que as cousas -saiam bem... Assim não é possivel! Eu cá entendo isto: que n'um paiz, -cada pessoa deve contribuir, quanto possa, para a civilisação. - ---Muito bem, sr. Salcede! disse Affonso da Maia. Eis ahi uma nobre, uma -grande palavra! - ---Pois não é verdade? gritou Damazo, triumphante, a estoirar de goso. -Assim eu, por exemplo... - ---Tu, o quê? exclamaram dos lados. Que fizeste, tu pela civilisação?... - ---Mandei fazer para o dia das corridas uma sobrecasaca branca... E vou -de véo azul no chapéo! - -Um escudeiro entrou com uma carta para Affonso, n'uma salva. O velho, -sorrindo ainda das idéas de Damaso sobre a civilisação, puxou a luneta, -leu as primeiras linhas; toda a alegria lhe morreu no rosto, ergueu-se -logo, tendo depositado cuidadosamente sobre a sua almofada o pesado -Bonifacio. - ---Isto é que é ter gosto, isto é que é comprehender as cousas! exclamava -o Damaso, agitando os braços para Carlos, quando o velho desappareceu -atravez do reposteiro de damasco. Este teu avô, menino, é podre de -chic!.. - ---Deixa lá o chic do avô... Anda cá, que te quero dizer uma cousa. - -Abriu uma das janellas do terraço, levou para lá o Damaso, e disse-lhe -ahi, á pressa, o seu plano da visita aos Olivaes, e a linda tarde que -poderiam passar na quinta com os Castro Gomes... Elle já fallara ao -Craft, que estava de accordo, achava delicioso, ia encher tudo de -flores. E agora só restava que Damaso amigo, como amabilidade sua, -convidasse os Castro Gomes... - ---Caramba! murmurou Damaso desconfiado, estás com furor de a conhecer! - -Mas emfim concordou que era chic a valer! E via ahi uma bella occasião -para elle!... Em quanto Carlos e Craft andassem mostrando as -curiosidades ao Castro Gomes e lhe fallassem de cavallos, elle, zás, ia -para a quinta passear com ella... A calhar! - ---Pois vou ámanhã já fallar-lhes... Estou convencido que aceitam logo. -Ella pela-se por bric-a-brac! - ---E vens dizer-me se acceitaram ou não... - ---Venho dizer-te... Tu vaes gostar d'ella; tem lido muito, entende -tambem de litteratura; e olha que ás vezes a conversar atrapalha... - -O marquez veiu chamal-os para dentro, impaciente, querendo fechar a -porta envidraçada, outra vez preoccupado com a garganta. E desejava -antes de jantar ir ao quarto de Carlos gargarejar com agua e sal... - ---E é isto um portuguez forte! exclamou Carlos, travando-lhe alegremente -do braço. - ---Eu sou piegas na garganta, replicou logo o marquez, desprendendo-se -d'elle e olhando-o com ferocidade. E você é-o no sentimento. E o Craft -é-o na respeitabilidade. E o Damasosinho é-o na tolice. Em Portugal é -tudo Pieguice e Companhia! - -Carlos rindo, arrastou-o pelo corredor. E de repente, ao entrarem na -ante-camara, deram com Affonso fallando a uma mulher, carregada de luto, -que lhe beijava a mão, meia de joelhos, suffocada de lagrimas: e ao lado -outra mulher, com os olhos turvos d'agua tambem, embalava dentro do -chaile uma criancinha que parecia doente e gemia. Carlos parara -embaraçado; o marquez instinctivamente levou a mão á algibeira. Mas o -velho, assim surprehendido na sua caridade, foi logo empurrando as duas -mulheres para a escada: ellas desciam, encolhidas, abençoando-o, n'um -murmurio de soluços; e elle voltando-se para Carlos, quasi se desculpou -n'uma voz que ainda tremia: - ---Sempre estes peditorios... Caso bem triste todavia... E o que é peior -é que por mais que se dê nunca se dá bastante. Mundo muito mal feito, -marquez. - ---Mundo muito mal feito, sr. Affonso da Maia, respondeu o marquez -commovido. - -No domingo seguinte, pelas duas horas, Carlos no seu phaeton de oito -molas, levando ao lado Craft que durante os dois dias de corridas se -installara no Ramalhete, parou ao fim do largo de Belem, no momento em -que para o lado do Hyppodromo estavam já estalando foguetes. Um dos -criados desceu a comprar o bilhete de pesagem para o Craft, n'uma tosca -guarita de madeira, armada alli de vespera, onde se mexia um homemsinho -de grandes barbas grisalhas. - -Era um dia já quente, azul ferrete, com um d'esses rutilantes soes de -festa que enflammam as pedras da rua, doiram a poeirada baça do ar, poem -fulgores d'espelho pelas vidraças, dão a toda a cidade essa branca -faiscação de cal, d'um vivo monotono e implacavel, que na lentidão das -horas de verão cança a alma, e vagamente entristece. No largo dos -Jeronymos silencioso, e a escaldar na luz, um omnibus esperava, -desatrelado, junto ao portal da Egreja. Um trabalhador com o filho ao -collo, e a mulher ao lado no seu chaile de ramagens, andava alli, -pasmando para a estrada, pasmando para o rio, a gosar ociosamente o seu -domingo. Um garoto ia apregoando desconsoladamente programmas das -corridas que ninguem comprava. A mulher da agua fresca, sem freguezes, -sentara-se com a sua bilha á sombra, a catar um pequeno. Quatro pesados -municipaes a cavallo patrulhavam a passo aquella solidão. E a distancia, -sem cessar, o estalar alegre de foguetes morria no ar quente. - -No entanto o tritanario continuava debruçado na guarita, sem poder -arranjar lá dentro o troco d'uma libra. Foi necessario Craft saltar da -almofada, ir lá parlamentar--emquanto Carlos, impaciente, raspando com o -chicote as ancas das egoas, luzidias como um setim castanho, riscava no -largo uma volta brusca e nervosa. Desde o Ramalhete viera assim -governando, irritadamente, sem descerrar os labios. É que toda aquella -semana, desde a tarde em que combinara com o Damaso a visita aos -Olivaes, fôra desconsoladora. O Damaso tinha desapparecido, sem mandar a -resposta dos Castro Gomes. Elle, por orgulho, não procurara o Damaso. Os -dias tinham passado, vazios; não se realisara o alegre idyllio dos -Olivaes; ainda não conhecia Madame Gomes; não a tornara a ver; não a -esperava nas corridas. E aquelle domingo de festa, o grande sol, a gente -pelas ruas, vestida de casimiras e de sedas de missa, enchiam-n'o de -melancolia e de malestar. - -Uma caleche de praça passou, com dous sujeitos de flores ao peito, -acabando de calçar as luvas; depois um dog-cart, governado por um homem -gordo, de lunetas pretas, quasi foi esbarrar contra o Arco. Emfim, Craft -voltou com o seu bilhete, tendo sido descomposto pelo homem de barbas -propheticas. - -Para além do arco, a poeira suffocava. Pelas janellas havia senhoras -debruçadas, olhando por debaixo de sombrinhas. Outros municipaes, a -cavallo, atravancavam a rua. - -Á entrada para o hyppodromo, abertura escalavrada n'um muro de -quintarola, o phaeton teve de parar atráz do dog-cart do homem -gordo--que não podia tambem avançar porque a porta estava tomada pela -caleche de praça, onde um dos sujeitos de flor ao peito berrava -furiosamente com um policia. Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O -sr. Savedra, que era do Jockey-Club, tinha-lhe dito que elle podia -entrar sem pagar a carruagem! Ainda lh'o disséra na vespera, na botica -do Azevedo! Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O policia -bracejava, enfiado. E o cavalleiro, tirando as luvas, ia abrir a -portinhola, esmurrar o homem--quando, trotando na sua grande horsa, um -municipal de punho alçado correu, gritou, injuriou o cavalleiro gordo, -fez rodar para óra a caleche. Outro municipal entrometteu-se, -brutalmente. Duas senhoras, agarrando os vestidos, fugiram para um -portal, espavoridas. E atravez do reboliço, da poeira, sentia-se -adiante, melancolicamente, um realejo tocando a _Traviata_. - -O phaeton entrou--atraz do dog-cart, onde o homem gordo, a estoirar de -furia, voltava ainda para traz a face escarlate, jurando dar parte do -municipal: - ---Tudo isto está arranjado com decencia, murmurou Craft. - -Diante d'elles, o hyppodromo elevava-se suavemente em colina, parecendo, -depois da poeirada quente da calçada e das cruas reverberações da cal, -mais fresco, mais vasto, com a sua relva já um pouco crestada pelo sol -de junho, e uma ou outra papoula vermelhejando aqui e além. Uma aragem -larga e repousante chegava vagarosamente do rio. - -No centro, como perdido no largo espaço verde, negrejava, no brilho do -sol, um magote apertado de gente, com algumas carruagens pelo meio, -d'onde sobresahiam tons claros de sombrinhas, o faiscar d'um vidro de -lanterna, ou um casaco branco de cocheiro. Para além, dos dois lados da -tribuna real forrada de um baetão vermelho de mesa de Repartição, -erguiam-se as duas tribunas publicas, com o feitio de traves mal -pregadas, como palanques d'arraial. A da esquerda vasia, por pintar, -mostrava á luz as fendas do taboado. Na da direita, bezuntada por fóra -d'azul claro, havia uma fila de senhoras quasi todas de escuro -encostadas ao rebordo, outras espalhadas pelos primeiros degraus; e o -resto das bancadas permanecia deserto e desconsolado, d'um tom alvadio -de madeira, que abafava as côres alegres dos raros vestidos de verão. -Por vezes a briza lenta agitava no alto dos dois mastros o azul das -bandeirolas. Um grande silencio caía do ceu faiscante. - -Em volta do recinto da tribuna, fechado por um tapume de madeira, havia -mais soldados de infanteria, com as bayonetas lampejando ao sol. E no -homem triste que estava á entrada, recebendo os bilhetes, mettido dentro -d'um enorme collete branco, reteso de gomma, e que lhe chegava até aos -joelhos--Carlos reconheceu o servente do seu laboratorio. - -Apenas tinham dado alguns passos encontraram Taveira á porta do buffete -onde se estivera reconfortando com uma cerveja. Tinha um molho de cravos -amarellos ao peito, polainas brancas,--e queria animar as corridas. Já -vira a _Mist_, a egoa de Clifford, e decidira apostar pela _Mist_. Que -cabeça d'animal, meninos, que finura de pernas!... - ---Palavra que me enthusiasmou! E está decidido, um dia não são dias, é -necessario animar isto! Aposto trez mil réis. Quer você Craft? - ---Pois sim, talvez, depois... Vamos primeiro vêr o aspecto geral. - -No recinto em declive, entre a tribuna e a pista, havia só homens, a -gente do Gremio, das Secretarias e da Casa Havaneza; a maior parte á -vontade, com jaquetões claros, e de chapéo côco; outros mais em estylo, -de sobrecasaca e binoculo a tiracollo, pareciam embaraçados e quasi -arrependidos do seu chic. Fallava-se baixo, com passos lentos pela -relva, entre leves fumaraças de cigarro. Aqui e além um cavalheiro, -parado, de mãos atraz das costas, pasmava languidamente para as -senhoras. Ao lado de Carlos dois brazileiros queixavam-se do preço dos -bilhetes, achando aquillo «uma semsaboria de rachar.» - -Defronte a pista estava deserta, com a relva pisada, guardada por -soldados: e junto á corda, do outro lado, apinhava-se o magote de gente, -com as carruagens pelo meio, sem um rumor, n'uma pasmaceira tristonha, -sob o peso do sol de junho. Um rapazote, com uma voz dolente, apregoava -agua fresca. Lá ao fundo o largo Tejo faiscava, todo azul, tão azul como -o ceu, n'uma pulverisação fina de luz. - -O visconde de Darque, com o seu ar placido de gentleman louro que começa -a engordar, veio apertar a mão a Carlos e a Craft. E mal elles lhe -fallaram dos seus cavallos (_Rabbino_, o favorito, e o outro potro) -encolheu os hombros, cerrou os olhos, como um homem que se sacrifica. -Então, que diabo, os rapazes tinham querido!... Mas elle, realmente, não -podia apresentar um cavallo decente, com as suas côres, senão d'ahi a -quatro annos. De resto não apurava cavallos para aquella melancolia de -Belem, não imaginassem os amigos que elle era tão patriota: o seu fim -era ir a Hespanha, bater os cavallos de Caldillo... - ---Emfim, vamos a vêr... Dê você cá lume. Isto está um horror. E depois, -que diabo, para corridas é necessario cocottes e Champagne. Com esta -gente seria, e agua fresca, não vae! - -N'esse momento um dos commissarios das corridas, um rapagão sem barba, -vermelho como uma papoula, a pingar de suor sob o chapéo branco deitado -para a nuca, veio arrebatar o Darque, «que era muito preciso, lá na -pesagem, para uma duvidasinha.» - ---Eu sou o diccionario, dizia o Darque, tornando a encolher os hombros -resignadamente. De vez em quando vem um d'estes senhores do Jockey-Club, -e folheia-me... Veja você, Maia, em que estado eu fico depois das -corridas! Ha-de ser necessario encadernar-me de novo... - -E lá foi, rindo da sua pilheria--empurrado para diante pelo commissario, -que lhe dava palmadas familiares nas costas, e lhe chamava _catita_. - ---Vamos nós vêr as mulheres, disse Carlos. - -Seguiram devagar ao comprido da tribuna. Debruçadas no rebordo, n'uma -fila muda, olhando vagamente, como d'uma janella em dia de procissão, -estavam ali todas as senhoras que vêem no high-life dos jornaes, as dos -camarotes de S. Carlos, as das terças-feiras dos Gouvarinhos. A maior -parte tinha vestidos serios de missa. Aqui e além um d'esses grandes -chapéos emplumados á Gainsborough, que então se começavam a usar, -carregava d'uma sombra maior o tom trigueiro d'uma carinha miuda. E na -luz franca da tarde, no grande ar da collina descoberta, as pelles -appareciam murchas, gastas, molles, com um baço de pó de arroz. - -Carlos cumprimentou as duas irmãs do Taveira, magrinhas, loirinhas, -ambas correctamente vestidas de xadrezinho: depois a viscondessa -d'Alvim, nedia e branca, com o corpete negro reluzente de vidrilhos, -tendo ao lado a sua terna inseparavel, a Joaninha Villar, cada vez mais -cheia, com um quebranto cada vez mais doce nos olhos pestanudos. Adiante -eram as Pedrosos, as banqueiras, de côres claras, interessando-se pelas -corridas, uma de programma na mão, a outra de pé e de binoculo estudando -a pista. Ao lado, conversando com Steinbroken, a condessa de Soutal, -desarranjada, com um ar de ter lama nas saias. N'uma bancada isolada, em -silencio, Villaça com duas damas de preto. - -A condessa de Gouvarinho ainda não viera. E não estava tambem aquella -que os olhos de Carlos procuravam, inquietamente e sem esperança. - ---É um canteirinho de camelias meladas, disse o Taveira, repetindo um -dito do Ega. - -Carlos, no entanto, fôra fallar á sua velha amiga D. Maria da Cunha que, -havia momentos, o chamava com o olhar, com o leque, com o seu sorriso de -bôa mamã. Era a unica senhora que ousara descer do retiro ajanellado da -tribuna, e vir sentar-se em baixo, entre os homens: mas, como ella -disse, não aturara a séca de estar lá em cima perfilada, á espera da -passagem do Senhor dos Passos. E, bella ainda sob os seus cabellos já -grisalhos, só ella parecia divertir-se alli, muito á vontade, com os pés -pousados na travessa d'uma cadeira, o binoculo no regaço, cumprimentada -a cada instante, tratando os rapazes por _meninos_... Tinha comsigo uma -parenta que apresentou a Carlos, uma senhora hespanhola, que seria -bonita se não fossem as olheiras negras, cavadas até ao meio da face. -Apenas Carlos se sentou ao pé d'ella, D. Maria perguntou-lhe logo por -esse aventureiro do Ega. Esse aventureiro, disse Carlos, estava em -Celorico compondo uma comedia para se vingar de Lisboa, chamada o -_Lodaçal_... - ---Entra o Cohen? perguntou ella, rindo. - ---Entramos todos, sr.^a D. Maria. Todos nós somos lodaçal... - -N'esse momento, por traz do recinto, rompia, com um taran-tan-tan -mollengão de tambores e pratos, o hymno da Carta, a que se misturou uma -voz de official e o bater de coronhas. E, entre dourados de dragonas, -El-rei appareceu na tribuna, sorrindo, de quinzena de velludo, e chapéo -branco. Aqui e além, raros sujeitos cumprimentaram, muito de leve: a -senhora hespanhola, essa, tomou o oculo do regaço de D. Maria, e de pé, -muito descançadamente, poz-se a examinar o rei. D. Maria achava ridicula -a musica, dando ás corridas um ar de arraial... Além d'isso, que tolice, -o hymno, como n'um dia de parada! - ---E este hymno, então, que é medonho, dizia Carlos. A sr.^a D. Maria não -sabe a definição do Ega, e a sua theoria dos hymnos? Maravilhosa! - ---Aquelle Ega! dizia ella sorrindo, já encantada. - ---O Ega diz que o hymno é a definição pela musica do caracter d'um povo. -Tal é o compasso do hymno nacional, diz elle, tal é o movimento moral da -nação. Agora veja a sr.^a D. Maria os differentes hymnos, segundo o Ega. -A _Marselheza_ avança com uma espada núa. O _God save the queen_ -adianta-se, arrastando um manto real... - ---E o hymno da Carta? - ---O hymno da Carta ginga, de rabona. - -E D. Maria ria ainda, quando a hespanhola, sentando-se e repousando-lhe -tranquillamente o binoculo no regaço, murmurou: - ---Tiene cara de buena persona. - ---Quem, o rei? exclamaram a um tempo D. Maria e Carlos. Excellente! - -No entanto uma sineta tocava, perdida no ar. E no quadro indicador -subiram os numeros dos dois cavallos que corriam o primeiro premio dos -_Productos_. Eram o n.^o 1 e o n.^o 4. D. Maria Telles quiz-lhe saber os -nomes, com o appetite de apostar e ganhar cinco tostões a Carlos. E como -Carlos se erguia para arranjar um programma: - ---Deixe estar o menino, disse ella, tocando-lhe no braço. Ahi vem o -nosso Alencar, com o programma... Olhe para aquillo! Veja se ainda hoje -os ha por ahi com aquelle ar de sentimento e de poesia... - -Com um fato novo de cheviote claro que o remoçava, de luvas gris-perle, -o seu bilhete de pezagem na botoeira, o poeta vinha-se abanando com o -programma, e já de longe sorrindo á sua boa amiga D. Maria. Quando -chegou junto d'ella, descoberto, bem penteado n'esse dia, com um lustre -d'oleo na grenha, levou-lhe a mão aos labios, fidalgamente. - -D. Maria fôra uma das suas lindas contemporaneas. Tinham dançado muita -ardente mazurka nos salões de Arroios. Ella tratava-o por _tu_. Elle -dizia sempre _boa amiga_, e _querida Maria_. - ---Deixa vêr os nomes d'esses cavallos, Alencar... Senta-t'ahi, anda, -faze companhia. - -Elle puchou uma cadeira, rindo do interesse que ella tomava pelas -corridas. E elle que a conhecera sempre uma enthusiasta de toiros!... -Pois os nomes dos cavallos eram _Jupiter_ e _Escossez_... - ---Nenhum d'esses nomes me agrada, não aposto. E então que te parece tudo -isto, Alencar?... A nossa Lisboa vae-se sahindo da concha... - -Alencar, pousando o chapéo sobre uma cadeira, e passando a mão pela sua -vasta fronte de bardo, confessou que aquillo tinha realmente um certo ar -de elegancia, um perfume de côrte... Depois, lá em baixo, aquelle -maravilhoso Tejo... Sem fallar na importancia do apuramento das raças -cavallares... - ---Pois não é verdade, meu Carlos? Tu que entendes superiormente d'isso, -que és um mestre em todos os _sports_, sabes bem que o apuramento... - ---Sim, com effeito, o apuramento, muito importante...--disse Carlos, -vagamente, erguendo-se a olhar outra vez á tribuna. - -Eram quasi tres horas, e agora, de certo, _ella_ já não vinha: e a -condessa de Gouvarinho não apparecia tambem... Começava a invadil-o uma -grande lassitude. Respondendo, com um leve movimento de cabeça, ao -sorriso doce que lhe dava da tribuna a Joaninha Villar, pensava em -voltar para o Ramalhete, acabar tranquillamente a tarde dentro do seu -robe-de-chambre, com um livro, longe de todo aquelle tédio. - -No entanto, ainda entravam senhoras. A menina Sá Videira, filha do rico -negociante de sapatos d'ourello, passou pelo braço do irmão, abonecada, -com o arsinho petulante e enojado de tudo, fallando alto inglez. Depois -foi a ministra da Baviera, a baroneza de Craben, enorme, empavoada, com -uma face macissa de matrona romana, a pelle cheia de manchas côr de -tomate, a estalar dentro d'um vestido de gorgorão azul com riscas -brancas: e atraz o barão, pequenino, amavel, aos pulinhos, com um grande -chapéo de palha. - -D. Maria da Cunha erguera-se para lhes fallar: e durante um momento -ouviu-se, como um glou-glou grosso de perú, a voz da baroneza achando -_que c'était charmant, c'était très beau_. O barão, aos pulinhos, aos -risinhos, _trouvait ça ravissant_. E o Alencar, diante d'aquelles -estrangeiros que o não tinham saudado, apurava a sua attitude de grande -homem nacional, retorcendo a ponta dos bigodes, alçando mais a fronte -núa. - -Quando elles seguiram para a tribuna, e a boa D. Maria se tornou a -sentar, o poeta, indignado, declarou que abominava allemães! O ar de -sobranceria com que aquella ministra, com feitio de barrica deixando -sahir o cebo por todas as costuras do vestido, o olhára, a elle! Ora, a -insolente baleia! - -D. Maria sorria, olhando com sympathia o poeta. E voltando-se de repente -para a senhora hespanhola: - ---Concha, deja-me presentar-te D. Thomaz de Alencar, nuestro gran poeta -lyrico... - -N'esse momento, algum dos rapazes mais amadores, dos que traziam -binoculos a tiracollo, apressaram o passo para a corda da pista. Dois -cavallos passavam n'um galope sereno, quasi juntos, sob as vergastadas -estonteadas de dois jockeys de grande bigode. Uma voz erguendo-se disse -que tinha ganhado _Escossez_. Outros affirmavam que fôra _Jupiter_. E no -silencio que se fez, de lassidão e de desapontamento, ondeou mais viva -no ar, lançada pelos flautins da banda, a valsa de _madame Angot_. -Alguns sujeitos tinham-se conservado de costas para a pista, fumando, -olhando a tribuna--onde as senhoras continuavam debruçadas no parapeito, -á espera do Senhor dos Passos. Ao lado de Carlos, um cavalheiro resumiu -as impressões, dizendo que tudo _aquillo era uma intrujice_. - -E quando Carlos se ergueu para ir procurar o Damaso, Alencar, muito -animado com a hespanhola, fallava de Sevilha, de malagueñas e do coração -d'Espronceda. - -O desejo de Carlos agora era achar Damazo, saber porque falhara a visita -aos Olivaes--e depois ir-se embora para o Ramalhete, esconder aquella -melancolia que o enevoava, estranha e pueril, misturada de -irritabilidade, fazendo-lhe detestar as vozes que lhe fallavam, os -rantatans da musica, até a belleza calma da tarde... Mas ao dobrar a -esquina da tribuna, topou com Craft, que o deteve, o apresentou a um -rapaz loiro e forte com quem estava fallando alegremente. Era o famoso -Clifford, o grande sportman de Cordova. Em redor sujeitos tinham parado, -embasbacados para aquelle inglez legendario em Lisboa, dono de cavallos -de corridas, amigo do rei d'Hespanha, homem de todos os _chics_. Elle, -muito á vontade, um pouco _poseur_, com um simples veston de flanella -azul como no campo, ria alto com o Craft do tempo em que tinham estado -no collegio de Rugby. Depois pareceu-lhe reconhecer Carlos, amavelmente. -Não se tinham encontrado havia quasi um anno, em Madrid, n'um jantar, em -casa de Pancho Calderon? E assim era. O aperto de mão que repetiram foi -mais intimo--e Craft quiz que fossem regar aquella flor d'amisade com -uma garrafa de mau Champagne. Em roda crescera a pasmaceira. - -O buffete estava installado debaixo da tribuna, sob o taboado nú, sem -sobrado, sem um ornato, sem uma flor. Ao fundo corria uma prateleira de -taberna com garrafas e pratos de bolos. E, no balcão tosco, dois -criados, estonteados e sujos, achatavam á pressa as fatias de sandwiches -com as mãos humidas da espuma da cerveja. - -Quando Carlos e os seus amigos entraram, havia junto d'um dos barrotes -que especavam os degraus da tribuna, n'um grupo animado, com copos de -champagne na mão, o marquez, o visconde de Darque, o Taveira, um rapaz -pallido de barba preta, que tinha debaixo do braço enrolada a bandeira -vermelha de _Starter_, e o commissario imberbe, com o chapéo branco cada -vez mais atirado para a nuca, a face mais esbrazeada, o collarinho já -molle de suor. Era elle que offerecia o champagne; e apenas viu entrar -Clifford, rompeu para elle, de taça no ar, fez tremer as vigas, soltando -o seu vozeirão: - ---Á saude do amigo Clifford! o primeiro sportman da península, e rapaz -cá dos nossos!... Hip hip, hurrah! - -Os copos ergueram-se, n'um clamor d'hurrahs, onde destacou, vibrante e -enthusiasta, a voz do _starter_. Clifford agradecia, risonho, tirando -lentamente as luvas--em quanto o marquez, puxando Carlos pelo braço para -o lado, lhe apresentava rapidamente o commissario, seu primo D. Pedro -Vargas. - ---Muito gosto em conhecer... - ---Qual historias! Eu é que fazia furor! exclamou o commissario. Cá a -rapaziada do sport deve-se conhecer toda... Porque isto cá é a -confraria, e todo o resto é chinfrinada! - -E immediatamente arrebatou o copo ao ar, berrou com um impeto que lhe -trazia mais sangue á face: - ---Á saude de Carlos da Maia, o primeiro elegante cá da patria! a melhor -mão de redea... Hip, hip, hurrah... - ---Hip, hip, hip... Hurrah! - -E foi ainda a voz do starter que deu o _hurrah_ mais vibrante e mais -enthusiasta. - -Um empregado assomou á porta do buffete, e chamou o sr. commissario. O -Vargas atirou uma libra para o balcão, abalou, gritando já de fóra, com -o olho acceso: - ---Isto vae-se animando, rapazes! Caramba! É carregar no liquido! E você, -oh lá de baixo, o patrão, sô Manuel, mande vir esse gelo... Está a gente -aqui a tomar a bebida quente... Despache um proprio, vá você, rebente! -Irra! - -No entanto em quanto se desarrolhava o champagne de Craft, Carlos tinha -convidado Clifford a jantar n'essa noite no Ramalhete. O outro acceitou, -molhando os labios no copo, achando excellente que se continuasse a -tradição de jantarem juntos, sempre que se encontravam. - ---Olá! o general por aqui! exclamou Craft. - -Os outros voltaram-se. Era o Sequeira, com a face como um pimentão, -entalado n'uma sobrecasaca curta que o fazia mais atarracado, de chapeu -branco sobre o olho, e grande chicote debaixo do braço. - -Acceitou um copo de Champagne, e teve muito prazer em conhecer o sr. -Clifford... - ---E que me diz você a esta semsaboria? exclamou elle logo, voltando-se -para Carlos. - -Em quanto a si estava contente, pulava... Aquella corrida insipida, sem -cavallos, sem jockeys, com meia duzia de pessoas a bocejar em roda, -dava-lhe a certeza que eram talvez as ultimas, e que o _Jockey-Club_ -rebentava... E ainda bem! Via-se a gente livre d'um divertimento que não -estava nos habitos do paiz. Corridas era para se apostar. Tinha-se -apostado? Não, então historias!... Em Inglaterra e em França, sim! Ahi -eram um jogo como a roletta, ou como o monte... Até havia banqueiros, -que eram os _bookmakers_... Então já viam! - -E como o marquez, pousando o copo, e querendo calmar o general, fallava -do apuramento das raças, e da remonta,--o outro ergueu os hombros, com -indignação: - ---Que me está você a cantar! Quer você dizer que se apura a raça para a -remonta da cavallaria?... Ora vá lá montar o exercito com cavallos de -corridas!... Em serviço o que se quer não é o cavallo que corra mais, é -o cavallo que aguente mais... O resto é uma historia... Cavallos de -corridas são phenomenos! São como o boi com duas cabeças... Então -historias!... Em França até lhe dão Champagne, homem!... Então veja lá! - -E a cada phrase, sacudia os hombros, furiosamente. Depois, d'um trago, -esvasiou o seu copo de Champagne, repetiu que tinha muito prazer em -conhecer o sr. Clifford, rodou sobre os tacões, sahiu, bufando, -entalando mais debaixo do braço o chicote--que tremia na ponta como -avido de vergastar alguem. - -Craft sorria, batia no hombro de Clifford. - ---Veja você! cá nós, velhos portuguezes, não gostamos de novidades, e de -_sports_... Somos pelo toiro... - ---Com razão, dizia o outro, serio e aprumando-se sobre o collarinho. -Ainda ha dias me contava na Granja, o Rei de Hespanha... - -De repente, fóra, houve um reboliço, e vozes sobresaltadas gritando -_ordem_! Uma senhora, que atravessava com um pequenito, fugiu para -dentro do buffete, enfiada. Um policia passou, correndo. - -Era uma desordem! - -Carlos e os outros, sahindo á pressa, viram ao pé da tribuna real um -magote de homens--onde bracejava o Vargas. Do largo da pesagem, os -rapazes corriam com curiosidade, já excitados, apinhando-se, alçando-se -em bicos de pés; do recinto das carruagens acudiam outros, saltando as -cordas da pista, apesar dos repellões dos policias:--e agora era uma -massa tumultuosa de chapéos altos, de fatos claros, empurrando-se contra -as escadas da tribuna real, onde um ajudante d'el-rei, reluzente de -agulhetas e em cabello, olhava tranquillamente. - -E Carlos, furando, poude emfim avistar no meio do montão um dos sujeitos -que correra no premio dos Productos, o que montava _Jupiter_, ainda de -botas, com um paletot alvadio por cima da jaqueta de jockey, furioso, -perdido, injuriando o juiz das corridas, o Mendonça, que arregalava os -olhos, aturdido e sem uma palavra. Os amigos do jockey puxavam-n'o, -queriam que elle fizesse um protesto. Mas elle batia o pé, tremulo, -livido, gritando que não se importava nada com protestos! Perdera a -corrida por uma pouca vergonha! O protesto alli era um arrocho! Porque o -que havia n'aquelle hyppodromo era compadrice e ladroeira! - -Individuos, mais serios, indignaram-se com esta brutalidade. - ---Fóra! Fóra! - -Alguns tomavam o partido do jockey; já aos lados outras questões -surgiam, desabridas. Um sujeito vestido de cinzento berrava que o -Mendonça decidira pelo Pinheiro, que montava _Escossez_, por ser intimo -d'elle; outro cavalheiro, de binoculo a tiracollo, achava aquella -insinuação infame; e os dois, frente a frente, com os punhos fechados, -tratavam-se furiosamente de _pulhas_. - -E, todo este tempo, um homem baixote, de grandes collarinhos de -pintinhas, procurava romper, erguia os braços, exclamava, n'uma voz -supplicante e rouca: - ---Por quem são, meus senhores... Um momento... Eu tenho experiencia... -Eu tenho experiencia! - -De repente o vozeirão do Vargas dominou tudo, como um urro de toiro. -Diante do jockey, sem chapéo, com a face a estoirar de sangue, -gritava-lhe que era indigno de estar alli, entre gente decente! Quando -um gentleman duvida do juiz da corrida, faz um protesto! Mas vir dizer -que ha ladrões, era só d'um canalha e d'um fadista, como elle, que nunca -devia ter pertencido ao Jockey-Club!--O outro, agarrado pelos amigos, -esticando o pescoço magro como para lhe morder, atirou-lhe um nome sujo. -Então o Vargas, com um encontrão para os lados, abriu espaço, repuxou as -mangas, berrou: - ---Repita lá isso! repita lá isso! - -E immediatamente aquella massa de gente oscillou, embateu contra o -taboado da tribuna real, remoinhou em tumulto, com vozes de _ordem_ e -_morra_, chapéos pelo ar, baques surdos de murros. - -Por entre o alarido vibravam, furiosamente, os apitos da policia; -senhoras, com as saias apanhadas, fugiam atravez da pista, procurando -espavoridamente as carruagens;--e um sopro grosseiro de desordem relles -passava sobre o hyppodromo, desmanchando a linha postiça de civilisação -e a attitude forçada de decoro... - -Carlos achou-se ao pé do marquez, que exclamava, pallido: - ---Isto é incrivel, isto é incrivel!... - -Carlos, pelo contrario, achava pittoresco. - ---Qual pittoresco, homem! É uma vergonha, com todos esses estrangeiros! - -No entanto a massa de gente dispersava, lentamente, obedecendo ao -official de guarda, um moço pequenino mas decidido, que, em bicos de -pés, aconselhava para os lados, n'uma voz de orador, «cavalheirismo» e -«prudencia...» O jockey de paletot alvadio affastou-se, apoiado ao braço -d'um amigo, cocheando, com o nariz a pingar sangue: e o commissario -desceu para a pista, com um cortejo atraz, triumphante, sem collarinho, -arranjando o chapéo achatado n'uma pasta. A musica tocava a marcha do -_Propheta_; em quanto o desgraçado juiz das corridas, o Mendonça, -encostado á tribuna real, com os braços cahidos, aparvalhado, balbuciava -n'um resto d'assombro: - ---Isto só a mim! Isto só a mim! - -O marquez, n'um grupo a que se juntára o Clifford, Craft, e Taveira, -continuava a vociferar: - ---Então, estão convencidos? Que lhes tenho eu sempre dito? Isto é um -paiz que só supporta hortas e arraiaes... Corridas, como muitas outras -coisas civilisadas lá de fóra, necessitam primeiro gente educada. No -fundo todos nós somos fadistas! Do que gostamos é de vinhaça, e viola, e -bordoada, e viva lá seu compadre! Ahi está o que é! - -Ao lado d'elle Clifford, que no meio d'aquelle desmancho todo esticava -mais correctamente a sua linha de gentleman, mordia um sorriso, -assegurando, com um ar de consolação, que conflictos eguaes succedem em -toda a parte... Mas no fundo parecia achar tudo aquillo ignobil. -Dizia-se mesmo que elle ia retirar a _Mist_. E alguns davam-lhe razão. -Que diabo! Era aviltante para um bello animal de raça correr n'um -hyppodromo sem ordem e sem decencia, onde a todo o momento podiam -reluzir navalhas. - ---Ouve cá, tu viste por acaso esse animal do Damaso? perguntou Carlos, -chamando para o lado o Taveira. Ha uma hora que ando a farejal-o... - ---Estava ainda ha pouco do outro lado, no recinto das carruagens, com a -Josephina do Salazar... Anda extraordinario, de sobrecasaca branca, e de -véo no chapéo! - -Mas, quando d'ahi a pouco, Carlos quiz atravessar, a pista estava -fechada. Ia-se correr o _Grande premio nacional_. Os numeros já tinham -subido ao indicador, um tom de sineta morria no ar. Um cavallo do -Darque, o _Rabbino_, com o seu jockey de encarnado e branco, descia, -trazido á redea por um groom e acompanhado pelo Darque: alguns sujeitos -paravam a examinar-lhe as pernas, com o olho serio, affectando entender. -Carlos demorou-se um momento tambem, admirando-o: era d'um bonito -castanho escuro, nervoso e ligeiro, mas com o peito estreito. - -Depois, ao voltar-se, viu de repente a Gouvarinho, que acabava de certo -de chegar, e conversava de pé com D. Maria da Cunha. Estava com uma -toilette ingleza, justa e simples, toda de cazimira branca, d'um branco -de creme, onde as grandes luvas negras á mosqueteira punham um contraste -audaz: e o chapéo preto tambem desapparecia sob as pregas finas d'um véo -branco, enrolado em volta da cabeça, cobrindo-lhe metade do rosto, com -um ar oriental que não ía bem ao seu narizinho curto, ao seu cabello côr -de braza. Mas em redor os homens olhavam para ella como para um quadro. - -Ao avistar Carlos, a condessa não conteve um sorriso, um brilho de olhos -que a illuminou. Instinctivamente deu um passo para elle: e ficaram um -instante isolados, fallando baixo, em quanto D. Maria os observava, -sorrindo, cheia já de benevolencia, prompta já a abençoal-os -maternalmente. - ---Estive para não vir, dizia a condessa, que parecia nervosa. O Gastão -fez-se tão desagradavel hoje! E naturalmente tenho d'ir ámanhã para o -Porto. - ---Para o Porto?... - ---O papá quer que eu lá vá, são os annos d'elle... Coitado, vae-se -fazendo velho, escreveu-me uma carta tão triste... Ha dois annos que me -não vê... - ---O conde vae? - ---Não. - -E a condessa, depois de dar um sorriso ao ministro da Baviera, que a -cumprimentava de passagem, aos pulinhos, acrescentou, mergulhando o -olhar nos olhos de Carlos: - ---E quero uma coisa. - ---O que? - ---Que venhas tambem. - -Justamente n'esse instante, Telles da Gama, de programma e lapis na mão, -parou junto d'elles: - ---Você quer entrar n'uma _poule_ monstro, Maia? Quinze bilhetes, dez -tostões cada um... Lá em cima ao canto da tribuna está-se apostando -ferozmente... A desordem fez bem, sacudiu os nervos, todo o mundo -acordou... Quer v. ex.^a tambem, sr.^a condessa? - -Sim, a condessa tambem entrava na _poule_. Telles da Gama inscreveu-a, e -abalou atarefado. Depois foi Steinbroken que se acercou, todo florído, -de chapéo branco, ferradura de rubis na gravata, mais esticado, mais -loiro, mais inglez, n'este dia solemne de _sport_ official. - ---Ah, comme vous êtes belle, comtesse!... Voilá une toilette -merveilleuse, n'est ce pas, Maia?... Est ce que nous n'allons pas parier -quelque chose? - -A condessa contrariada, querendo fallar a Carlos, risonha todavia, -lamentou-se de ter já uma fortuna compromettida... Emfim sempre apostava -cinco tostões com a Filandia. Que cavallo tomava elle? - ---Ah, je ne sais pas, je ne connais pas les chevaux... D'abord, quand on -parie... - -Ella, impaciente, offereceu-lhe _Vladimiro_. E teve de estender a mão a -outro filandez, o secretario de Steinbroken, um moço loiro, lento, -languido, que se curvara em silencio diante d'ella, deixando escorregar -do olho claro e vago o seu monoculo d'ouro. Quasi immediatamente Taveira -excitado veiu dizer que Clifford retirara a _Mist_. - -Vendo-a, assim cercada, Carlos affastou-se. Justamente o olhar de D. -Maria, que o não deixara, chamava-o agora, mais carinhoso e vivo. Quando -elle se chegou, ella puxou-lhe pela manga, fel-o debruçar, para lhe -murmurar ao ouvido, deliciada: - ---Está hoje tão galante! - ---Quem? - -D. Maria encolheu os hombros, impaciente. - ---Ora quem! Quem ha-de ser? O menino sabe perfeitamente. A condessa... -Está de appetite. - ---Muito galante, com effeito, disse Carlos friamente. - -De pé, junto de D. Maria, tirando de vagar uma cigarrette, elle -ruminava, quasi com indignação, as palavras da condessa. Ir com ella -para o Porto!... E via alli outra exigencia audaz, a mesma tendencia -impertinente a dispôr do seu tempo, dos seus passos, da sua vida! Tinha -um desejo de voltar junto d'ella, dizer-lhe que _não_, seccamente, -desabridamente, sem motivos, sem explicações, como um brutal. - -Acompanhada em silencio pelo esguio secretario de Steinbroken, ella -vinha agora caminhando lentamente para elle: e o olhar alegre com que o -envolvia irritou-o mais, sentindo no seu brilho sereno, no sorrir calmo, -quanto ella estava certa da sua submissão. - -E estava. Apenas o filandez se affastou languidamente--ella, muito -tranquilla, alli mesmo junto de D. Maria, fallando em inglez, e -apontando para a pista como se commentasse os cavallos do Darque, -explicou-lhe um plano que imaginara, encantador. Em logar de partir na -terça feira para o Porto--ia na segunda á noite, só com a criada -escocessa, sua confidente, n'um compartimento reservado. Carlos tomava o -mesmo comboio. Em Santarem, desciam ambos, muito simplesmente, e iam -passar a noite ao hotel. No dia seguinte ella seguia para o Porto, elle -recolhia a Lisboa... - -Carlos abria os olhos para ella, assombrado, emmudecido. Não esperava -aquella extravagancia. Suppozera que ella o queria no Porto, escondido -no _Francfort_, para passeios romanticos á Foz, ou visitas furtivas a -algum casebre da Aguardente... Mas a idéa d'uma noite, n'um hotel, em -Santarem! - -Terminou por encolher os hombros, indignado. Como queria ella, n'uma -linha de caminho de ferro em que se encontra constantemente gente -conhecida, apear-se com elle na estação de Santarem, dar-lhe o braço, -maritalmente, e enfiarem para uma estalagem? Ella, porém, pensára em -todos os detalhes. Ninguem a conheceria, disfarçada n'um grande -_water-proof_, e com uma cabelleira postiça. - ---Com uma cabelleira!? - ---O Gastão! murmurou ella de repente. - -Era o conde, por traz d'elle, abraçando-o ternamente pela cintura. E -quiz logo saber a opinião do amigo Maia sobre as corridas. Bastante -animação, não é verdade? E bonitas _toilettes_, certo ar de luxo... -Emfim, não envergonhavam. E ahi estava provado o que elle sempre -dissera, que todos os requintes da civilisação se aclimatavam bem em -Portugal... - ---O nosso solo moral, Maia, como o nosso solo physico, é um solo -abençoado! - -A condessa voltara para o pé de D. Maria. E Telles da Gama, passando de -novo, n'aquella faina ruidosa em que o trazia a formação da sua _poule_, -chamou Carlos para a tribuna, para elle tirar o seu bilhete, e apostar -com as senhoras... - ---Oh Gouvarinho! venha tambem d'ahi, homem! exclamou elle. Que diabo! É -necessario animar isto, é até patriotico. - -E o conde condescendeu, por patriotismo. - ---É bom, dizia elle, travando do braço de Carlos, fomentar os -divertimentos elegantes. Já uma vez o disse na camara: o luxo é -conservador. - -Em cima, a um canto, n'um grupo de senhoras, foram com effeito encontrar -uma animação--que quasi fazia escandalo n'aquella tribuna silenciosa e á -espera do Senhor dos Passos. A viscondessa de Alvim dobrava -atarefadamente os bilhetes da _poule_: uma secretariasinha da Russia, de -bonitos olhos garços, apostava desesperadamente placas de cinco tostões, -estonteada, já embrulhada, rabiscando com phrenesi o seu programma. A -Pinheiro, a mais magra, com um vestido leve de raminhos Pompadour que -lhe fazia covas nas claviculas, dava opiniões pretenciosas sobre os -cavallos, em inglez: emquanto o Taveira, de olhos humidos no meio de -todas aquellas saias, fallava de arruinar as senhoras, de viver á custa -das senhoras... E todos os homens, acotovelando-se, queriam fazer uma -aposta com a Joanninha Villar, que, de costas contra o rebordo da -tribuna, gordinha e languida, sorrindo, com a cabeça deitada para traz, -as pestanas mortas, parecia offerecer a todas aquellas mãos, que se -estendiam gulosamente para ella, o seu appetitoso peito de rola. - -Telles da Gama, no entanto, ia organisando a confusão alegre. Os -bilhetes estavam dobrados, era necessario um chapéo... Então os -cavalheiros affectaram um amor desordenado pelos seus chapéos, não os -querendo confiar ás mãos nervosas das senhoras; um rapaz, todo de luto, -excedeu-se mesmo, agarrando as abas do seu, com ambas as mãos, aos -gritos. - -A secretariasinha da Russia, impaciente, terminou por offerecer o -barrete de marujo do seu pequeno--uma creança obesa, pousada alli para -um lado como uma trouxa. Foi a Joanninha Villar que levou em roda os -bilhetes, rindo e chocalhando-os preguiçosamente; emquanto o secretario -de Steinbroken, grave, como exercendo uma funcção, recolhia no seu -grande chapéo as placas cahindo uma a uma com um som argentino. E a -tiragem foi o lindo divertimento da _poule_. Como estavam só quatro -cavallos inscriptos, e as entradas eram quinze, havia onze bilhetes -brancos que aterravam. Todos ambicionavam tirar o numero tres, o de -_Rabbino_, o cavallo de Darque, favorito do _Premio Nacional_. Assim -cada mãosinha soffrega que se demorava no fundo do barrete, remexendo, -tenteando os papeis, causava uma indignação folgasã, n'um exagero de -risos. - ---A sr.^a viscondessa procura de mais!... E dobrou os numeros, -conhece-os... É necessario probidade, sr.^a viscondessa! - ---Oh, mon Dieu, j'ai _Minhoto_, cette rosse! - ---Je vous l'achette, madame! - ---Ó sr.^a D. Maria Pinheiro, v. ex.^a leva dous numeros!... - ---Ah! je suis perdue... Blanc! - ---E eu! É necessario fazer outra _poule_! Vamos fazer outra _poule_! - ---Isso! Outra _poule_, outra _poule_! - -No entanto a enorme baroneza de Craben, n'um degrau mais elevado, que -ella occupava só, como um throno, erguera-se, com o seu bilhete na mão. -Tinha tirado _Rabbino_: e affectava superiormente não comprehender esta -fortuna, perguntava o que era _Rabbino_. Quando o conde de Gouvarinho -lhe explicou muito serio a importancia de _Rabbino_, e que _Rabbino_ era -quasi uma gloria publica, ella mostrou a dentuça, condescendeu em rosnar -do fundo do papo que _c'etait charmant_. Todo o mundo a invejava; e a -vasta baleia alastrou-se de novo sobre o seu throno, abanando-se, com -magestade. - -E subitamente houve uma surpreza: em quanto elles tiravam os bilhetes, -os cavallos tinham partido, passavam juntos diante da tribuna. Todos se -ergueram, de binoculos na mão. O _starter_ ainda estava na pista, com a -bandeira vermelha inclinada ao chão: e as ancas de cavallos fugiam na -curva, lustrosos á luz, sob as jaquetas enfunadas dos jockeys. - -Então todo o rumor de vozes caiu; e no silencio a bella tarde pareceu -alargar-se em redor, mais suave e mais calma. Atravez do ar sem poeira, -sem a vibração dos raios fortes, tudo tomava uma nitidez delicada: -defronte da tribuna, na collina, a relva era d'um louro quente; no grupo -de carruagens scintillava por vezes o vidro de uma lanterna, o metal de -um arreio, ou de pé, sobre uma almofada, destacava em escuro alguma -figura de chapeo alto; e pela pista verde, os cavallos corriam, mais -pequenos, finamente recortados na luz. Ao fundo, a cal das casas -cobria-se de uma leve agoada côr de rosa: e o distante horisonte -resplandecia, com dourados de sol, brilhos de rio vidrado, fundindo-se -n'uma nevoa luminosa, onde as collinas, nos seus tons azulados, tinham -quasi transparencia, como feitas d'uma substancia preciosa... - ---É _Rabbino_! exclamou por traz de Carlos, um sugeito, de pé n'um -degrau. - -As côres encarnadas e brancas do Darque corriam com effeito na frente. -Os dous outros cavallos iam juntos; e, o ultimo, n'um galope que -adormecia, era _Vladimiro_, outro potro do Darque, baio-claro, quasi -louro á luz. - -Então, a secretaria da Russia bateu as palmas, interpellou Carlos, que -justamente tirara na poule o numero de _Vladimiro_. A ella coubera -_Minhoto_, uma pileca melancolica do Manoel Godinho; e tinham feito -sobre os dous cavallos uma aposta complicada de luvas e de amendoas. Já -umas poucas de vezes os seus lindos olhos garços tinham procurado os de -Carlos; e agora tocava-lhe no braço com o leque, gracejava, -triumphava... - ---Ah, vous avez perdu, vous avez perdu! Mais c'est un vieux cheval de -fiacre, vôtre _Vladimir_. - -Como um cavallo de fiacre? _Vladimiro_ era o melhor potro do Darque! -Talvez ainda viesse a ser a unica gloria de Portugal, como outr'ora o -_Gladiador_ fôra a unica gloria da França! Talvez ainda substituisse -Camões... - ---Ah, vous plaisantez... - -Não, Carlos não gracejava. Estava até prompto a apostar tudo por -_Vladimiro_. - ---Você aposta por _Vladimiro_? gritou Telles da Gama, voltando-se -vivamente. - -Carlos, por divertimento, sem mesmo saber por quê, declarou que tomava -_Vladimiro_. Então, em roda, foi uma surpreza; e todo o mundo quiz -apostar, aproveitar-se d'aquella phantasia de homem rico, que sustentava -um potro verde, de tres quartos de sangue, a que o proprio Darque -chamava _pileca_. Elle sorria, aceitava; terminou ate por erguer a voz, -proclamar _Vladimiro contra o campo_. E de todos os lados o chamavam, -n'uma sofreguidão de saque. - ---Mr. de Maia, dix tostons. - ---Parfaitement, madame. - ---Oh Maia, você quer meia libra? - ---Ás ordens. - ---Maia, tambem eu! Ouça lá... Tambem eu!... Dous mil réis. - ---Ó sr. Maia, eu vou dez tostões... - ---Com o maior prazer, minha senhora... - -Ao longe os cavallos davam a volta, na subida do terreno. _Rabbino_ já -desapparecera,--e _Vladimiro_ n'um galope a que se sentia o cançasso, -corria só na pista. Uma voz elevou-se, dizendo que elle manquejava. -Então Carlos, que continuava a tomar _Vladimiro_ contra o campo, sentiu -que lhe puxavam de vagar pela manga; voltou-se; era o secretario de -Steinbroken, chegando subtilmente a tomar tambem parte no saque á bolsa -do Maia, propondo dous soberanos, em seu nome e em nome do seu chefe, -como uma aposta collectiva da legação, a aposta do reino da Filandia. - ---C'est fait, monsieur! exclamou Carlos, rindo. - -Agora começava a divertir-se. Apenas vira de relance _Vladimiro_, e -gostara da cabeça ligeira do potro, do seu peito largo e fundo; mas -apostava sobre tudo para animar mais aquelle recanto da tribuna, ver -brilhar gulosamente os olhos interesseiros das mulheres. Telles da Gama -ao lado approvava-o, achava aquillo patriotico e _chic_. - ---É _Minhoto_! gritou de repente Taveira. - -Na volta, com effeito, fizera-se uma mudança. Subitamente _Rabbino_ -perdera terreno, resistindo á subida, com o folego curto. E agora era -_Minhoto_, o cavallicoque obscuro de Manuel Godinho, que se arremessava -para a frente, vinha devorando a pista, n'um esforço continuo, -admiravelmente montado por um jockey hespanhol. E logo atraz vinham as -côres escarlates e brancas de Darque: ao principio ainda pareceu que era -_Rabbino_: mas, apanhado de repente n'um raio oblíquo de sol, o cavallo -cobriu-se de tons lustrosos de baio claro, e foi uma surpreza ao -reconhecer-se que era _Vladimiro_! A corrida travava-se entre elle e -_Minhoto_. - -Os amigos de Godinho, precipitando-se para a pista, bradavam, de chapéos -no ar: - ---_Minhoto, Minhoto!_ - -E, em redor de Carlos, os que tinham apostado pelo campo contra -_Vladimiro_ faziam tambem votos por _Minhoto_, em bicos de pés, junto do -parapeito da tribuna, estendendo o braço para elle, animando-o: - ---Anda _Minhoto_!... Isso, assim!... Aguenta, rapaz!... Bravo!... -_Minhoto! Minhoto!_ - -A russa, toda nervosa, na esperança de ganhar a _poule_, batia as -palmas. Até a enorme Craben se erguera, dominando a tribuna, enchendo-a -com os seus gorgorões azues e brancos:--em quanto que, ao lado d'ella, o -conde de Gouvarinho, tambem de pé, sorria, contente no seu peito de -patriota, vendo n'aquelles jockeys á desfilada, nos chapéos que se -agitavam, brilhar civilisação... - -De repente, de baixo, d'ao pé da tribuna, d'entre os rapazes que -cercavam o Darque, uma exclamação partiu. - ---_Vladimiro! Vladimiro!_ - -Com um arranque desesperado o potro viera juntar-se a _Minhoto_: e agora -chegavam furiosamente, com brilhos vivos de côres claras, os focinhos -juntos, os olhos esbogalhados, sob uma chuva de vergastadas. - -Telles da Gama, esquecido da sua aposta, todo pelo Darque, seu intimo, -berrava por _Vladimiro_. A russa, de pé n'um degrau, apoiada sobre o -hombro de Carlos, pallida, excitada, animava _Minhoto_ com gritinhos, -com pancadas de leque. A agitação d'aquelle canto da tribuna -estendera-se em baixo ao recinto--onde se via uma linha de homens, -contra a corda da pista, bracejando. Do outro lado, era uma fila de -rostos pallidos, fixos n'uma curta anciedade. Algumas senhoras tinham-se -posto de pé nas carruagens. E atravez da collina, para ver a chegada, -dous cavalleiros, segurando com as mãos os chapéos baixos, corriam á -desfilada. - ---_Vladimiro! Vladimiro!_ foram de novo os gritos isolados, aqui, além. - -Os dous cavallos approximavam-se, com um som surdo das patas, trazendo -um ar de rajada. - ---_Minhoto! Minhoto!_ - ---_Vladimiro! Vladimiro!_ - -Chegavam... De repente o jockey inglez de _Vladimiro_, todo em fogo, -levantando o potro que lhe parecia fugir d'entre as pernas, esticado e -lustroso, fez silvar triumphantemente o chicote, e d'um arremesso -directo lançou-o além da meta, duas cabeças adiante de _Minhoto_, todo -coberto d'espuma. - -Então em volta de Carlos foi uma desconsolação, um longo murmurio de -lassidão. Todos perdiam; elle apanhava a _poule_, ganhava as apostas, -empolgava tudo. Que sorte! Que chance! Um addido italiano, thesoureiro -da _poule_, empallideceu ao separar-se do lenço cheio de prata: e de -todos os lados mãosinhas calçadas de gris-perle, ou de castanho, -atiravam-lhe com um ar amuado as apostas perdidas, chuva de placas que -elle recolhia, rindo, no chapéo. - ---Ah, monsieur, exclamou a vasta ministra da Baviera, furiosa, -mefiez-vous... Vous connaissez le proverbe: heureux au jeu... - ---Helas! madame! disse Carlos, resignado, estendendo-lhe o chapéo. - -E outra vez um dedo subtil tocou-lhe no braço. Era o secretario de -Steinbroken, lento e silencioso, que lhe trazia o seu dinheiro e o -dinheiro do seu chefe, a aposta do reino da Filandia. - ---Quanto ganha você? exclamou Telles da Gama, assombrado. - -Carlos não sabia. No fundo do chapéo já reluzia ouro. Telles contou, com -o olho brilhante. - ---Você ganha doze libras! disse elle maravilhado, e olhando Carlos com -respeito. - -Doze libras! Esta somma espalhou-se em redor, n'um rumor de espanto. -Doze libras! Em baixo os amigos de Darque, agitando os chapéos, davam -ainda _hurrahs_. Mas uma indifferença, um tedio lento, ia pesando outra -vez, desconsoladoramente. Os rapazes vinham-se deixar cahir nas -cadeiras, bocejando, com um ar exhausto. A musica, desanimada tambem, -tocava cousas plangentes da _Norma_. - -Carlos, no entanto, n'um degrau da tribuna, com a idéa de descobrir o -Damaso, sondava de binoculo o recinto das carruagens. A gente, agora, ia -dispersando pela collina. As senhoras tinham retomado a immobilidade -melancolica, no fundo das caleches, de mãos no regaço. Aqui e além um -dog-cart, mal arranjado, dava um trote curto pela relva. N'uma vittoria -estavam as duas hespanholas do Eusebiosinho, a Concha e a Carmen, de -sombrinhas escarlates. E sujeitos, de mãos atrás das costas, pasmavam -para um char-à-bancs a quatro attrelado á Daumont onde, entre uma -familia triste, uma ama de lenço de lavradeira dava de mamar a uma -creança cheia de rendas. Dous garotos esganiçados passeavam bilhas -d'agua fresca. - -Carlos descia da tribuna, sem ter descoberto o Damaso--quando deu -justamente de frente com elle, dirigindo-se para a escada, affogueado, -flamante, na sua famosa sobrecasaca branca. - ---Onde diabo tens tu estado, creatura? - -O Damaso agarrou-o pelo braço, alçou-se em bicos de pés, para lhe contar -ao ouvido que tinha estado do outro lado com uma gaja divina, a -Josephina do Zalazar... Chic a valer! lindamente vestida! parecia-lhe -que tinha mulher! - ---Ah, Sardanapalo!... - ---Faz-se pela vida... Volta cá acima á tribuna, anda. Eu ainda hoje não -pude cavaquear com o _high-life_!... Mas estou furioso, sabes? -Implicaram com o meu veo azul. Isto é um paiz de bestas! Logo troça, e -_olhe não creste a pelle_, e _onde mora, ó catitinha?_ e chalaça... Uma -canalha! Tive de tirar o veo ... Mas já resolvi. Para as outras corridas -venho nú. Palavra, venho nú! Isto é a vergonha da civilisação, esta -terra! Não vens d'ahi? Então até já. - -Carlos deteve-o. - ---Escuta lá homem, tenho que te dizer... Então, essa visita aos -Olivaes?... Nunca mais appareceste... Tinhamos combinado que fosses -convidar o Castro Gomes, que viesses dar a resposta... Não vens, não -mandas... O Craft á espera... Emfim um procedimento de selvagem. - -Damaso atirou os braços ao ar. Então Carlos não sabia? Havia grandes -novidades! Elle não voltara ao Ramalhete, como estava combinado, porque -o Carlos Gomes não podia ir aos Olivaes. Ia partir para o Brazil. Já -partirá mesmo, na quarta feira. A coisa mais extraordinaria... Elle -chega lá, para fazer o convite, e s. ex.^a declara-lhe que sente muito, -mas que parte no dia seguinte para o Rio... E já de mala feita, já -alugada uma casa para a mulher ficar aqui á espera tres mezes, já a -passagem no bolso. Tudo de repente, feito de sabbado para segunda -feira... Telhudo, aquelle Castro Gomes. - ---E lá partiu, exclamou elle, voltando-se a cumprimentar a viscondessa -d'Alvim e Joanninha Villar que desciam das tribunas. Lá partiu, e ella -já está installada. Até já antes de hontem a fui visitar, mas não estava -em casa... Sabes do que tenho medo? É que ella, n'estes primeiros -tempos, por causa da visinhança, como está só, não queira que eu lá vá -muito... Que te parece? - ---Talvez... E onde mora ella? - -Em quatro palavras, Damaso explicou a installação de madame. Era muito -engraçado, morava no predio do Cruges! A mamã Cruges, havia já annos, -alugava aquelle primeiro andar mobilado: o inverno passado estivera lá o -Bertonni, o tenor, com a familia. Casa bem arranjada, o Castro Gomes -tinha tido dedo... - ---E para mim, muito commodo, ali ao pé do Gremio... Então não voltas cá -acima, a cavaquear com o femeaço? Até logo... Está hoje chic a valer a -Gouvarinho! E está a pedir homem! _Good-bye_. - -Defronte de Carlos a condessa de Gouvarinho, no grupo de D. Maria a que -se viera juntar a Alvim e Joanninha Villar, não cessava de o chamar com -o olhar inquieto, torturando o seu grande leque negro. Mas elle não -obedeceu logo, parado ao pé dos degraus da tribuna, accendendo vagamente -uma cigarrette, perturbado por todas aquellas palavras do Damaso que lhe -deixavam n'alma um sulco luminoso. Agora que a sabia só em Lisboa, -vivendo na mesma casa do Cruges, parecia-lhe que já a conhecia, -sentia-se muito perto d'ella--podendo assim a todo o momento entrar os -hombraes da sua porta, pisar os degraus que ella pisava. Na sua -imaginação transluziam já possibilidades d'um encontro, alguma palavra -trocada, cousas pequeninas, subtis como fios, mas por onde os seus -destinos se começariam a prender... E immediatamente veio-lhe a tentação -pueril de ir lá, logo n'essa mesma tarde, n'esse instante, gosar como -amigo do Cruges o direito de subir a escada d'ella, parar diante da -porta d'ella--e surprehender uma voz, um som de piano, um rumor qualquer -da sua vida. - -O olhar da condessa não o deixava. Elle approximou-se, emfim, -contrariado: ella ergueu-se logo, deixou o seu grupo, e dando alguns -passos com elle pela relva, recomeçou a fallar na ida a Santarem. -Carlos, então, muito seccamente, declarou toda essa invenção insensata. - ---Porque?... - -Ora porque! Por tudo. Pelo perigo, pelos desconfortos, pelo ridiculo... -Emfim, a ella como mulher ficava-lhe bem ter phantasias pittorescas de -romance; mas a elle competia-lhe ter bom senso. - -Ella mordia o beiço, com todo o sangue na face. E não via alli bom -senso. Via só frieza. Quando ella arriscava tanto, elle podia bem, por -uma noite, affrontar os desconfortos da estalagem... - ---Mas não é isso!... - -Então que era? Tinha medo? Não havia mais perigo do que nas idas a casa -da titi. Ninguem a podia conhecer, com outra côr de cabello, toda a -sorte de véos, disfarçada n'um grande water-proof. Chegavam de noite, -entravam para o quarto, d'onde não sahiam mais, servidos apenas pela -escosseza. No dia seguinte, no comboio da noite, ella seguia para o -Porto, todo acabava... E n'aquella insistencia ella era o homem, o -seductor, com a sua vehemencia de paixão activa, tentando-o, -soprando-lhe o desejo; emquanto elle parecia a mulher, hesitante e -assustada. E Carlos sentia isto. A sua resistencia a uma noite de amor, -prolongando-se assim, ameaçava ser grotesca: ao mesmo tempo o calor de -voluptuosidade que emanava d'aquelle seio, arfando junto d'elle e por -elle, ia-o amollecendo lentamente. Terminou por a olhar de certo modo; -e, como se o desejo se lhe accendesse emfim de repente á curta chamma -que faiscava nas pupillas d'ella, negras, humidas, avidas, promettendo -mil cousas, disse, um pouco pallido: - ---Pois bem, perfeitamente... Ámanhã á noite, na estação. - -N'esse momento, em redor, romperam exclamações de troça: era um cavallo -solitario que chegava, n'um galope pacato, passara a meta sem se -apressar, como se descesse uma avenida do Campo Grande n'uma tarde de -domingo. E em redor perguntava-se que corrida era aquella d'um cavallo -só--quando ao longe, como sahindo da claridade loura do sol que descia -sobre o rio, appareceu uma pobre pileca branca, empurrando-se, -arquejando, n'um esforço doloroso, sob as chicotadas atarantadas d'um -jockey de roxo e preto. Quando ella chegou, emfim, já o outro -_gentleman-rider_ voltara da meta, a passo, pachorrentamente,--e estava -conversando com os amigos, encostado á corda da pista. - -Todo o mundo ria. E a corrida do Premio d'El-rei terminou assim, -grotescamente. - -Ainda havia o Premio de Consolação--mas agora desapparecera todo o -interesse ficticio pelos cavallos. Perante a calma e radiante belleza da -tarde, algumas senhoras, imitando a Alvim, tinham descido para a -pesagem, cançadas da immobilidade da tribuna. Arranjaram-se mais -cadeiras: aqui e além, sobre a relva pisada, formavam-se grupos -alegrados por algum vestido claro ou por uma pluma viva de chapéo: e -palrava-se, como n'uma sala de inverno, fumando-se familiarmente. Em -redor de D. Maria e da Alvim projectava-se um grande pic-nic a Queluz. -Alencar e o Gouvarinho discutiam a reforma de instrucção. A horrivel -Craben, entre outros diplomatas e moços de binoculo a tiracolo, dava do -fundo grosso do papo, opiniões sobre Daudet, que elle achava _très -agreable_. E, quando Carlos emfim abalou, o recinto, esquecidas as -corridas, tomava um tom de _soirée_, no ar claro e fresco da collina, -com o murmurio de vozes, um mover de leques, e ao fundo a musica tocando -uma valsa de Strauss. - -Carlos, depois de procurar muito Craft, encontrou-o no buffete com o -Darque, com outros, bebendo mais champagne. - ---Eu tenho de ir ainda a Lisboa, disse-lhe elle, e vou no phaeton. -Abandono torpemente. Você vá para o Ramalhete como poder... - ---Eu o levo! gritou logo o Vargas, que tinha já a gravata toda -desmanchada. Levo-o no dog-cart. Eu me encarrego d'elle... O Craft fica -por minha conta... É necessario recibo? Á saude do Craft, inglez cá dos -meus... Hurrah! - ---Hurrah! Hip, hip, hurrah! - -D'ahi a pouco, a trote largo no phaeton, Carlos descia o Chiado, dava a -volta para a rua de S. Francisco. Ia n'uma perturbação deliciosa e -singular, com aquella certeza de que ella estava só na casa do Cruges: o -ultimo olhar que ella lhe déra parecia ir adiante d'elle, chamando-o: e -um despertar tumultuoso de esperanças sem nome atirava-lhe a alma para o -azul. - -Quando parou diante do portão--alguem, por dentro das janellas d'ella, -ía correndo lentamente os stores. Na rua silenciosa cahia já uma sombra -de crepusculo. Atirou as redeas ao cocheiro, atravessou o pateo. Nunca -viera visitar o Cruges, nunca subira esta escada; e pareceu-lhe -horrorosa, com os seus frios degraus de pedra, sem tapete, as paredes -nuas e enxovalhadas alvejando tristemente no começo de escuridão. No -patamar do primeiro andar parou. Era alli que ella vivia. E ficou -olhando, com uma devoção ingenua, para as tres portas pintadas d'azul: a -do centro estava inutilisada por um banco comprido de palhinha, e na do -lado direito pendia, com uma enorme bola, o cordão da campainha. De -dentro não vinha um rumor:--e este pesado silencio, juntando-se ao -movimento de stores que elle vira fechar-se, parecia cercar as pessoas -que alli viviam de solidão e de impenetrabilidade. Uma desconsolação -passou-lhe na alma. Se ella agora, só, sem o marido, começasse uma vida -reclusa e solitaria? Se elle não tornasse mais a encontrar os seus -olhos? - -Foi subindo de vagar até ao andar do Cruges. E mal sabia o que havia de -dizer ao maestro para explicar aquella visita extranha, deslocada... Foi -um allivio quando a criadita lhe veiu dizer que o menino Victorino tinha -sahido. - -Em baixo, Carlos tomou as redeas, e foi levando lentamente o phaeton até -ao largo da Bibliotheca. Depois retrocedeu, a passo. Agora, por traz do -store branco, havia uma vaga claridade de luz. Elle olhou-a como se olha -uma estrella. - -Voltou ao Ramalhete. Craft, coberto de pó, estava-se justamente apeando -de uma calecha de praça. Um momento ficaram alli á porta, em quanto -Craft, procurando troco para o cocheiro, contava o final das corridas. -No _Premio de Consolação_, um dos cavalleiros tinha cahido, quasi ao pé -da meta, sem se magoar: e, por ultimo, já á partida, o Vargas, que ia na -sua terceira garrafa de champagne, esmurrara um criado do buffete, com -ferocidade. - ---Assim, disse Craft completando o seu troco, estas corridas foram boas -pelo velho principe Shakespereano de que _tudo é bom quanto acaba bem_. - ---Um murro, disse Carlos rindo, é com effeito um bello ponto final. - -No peristillo, o velho guarda-portão esperava, descoberto, com uma carta -na mão para Carlos. Um criado tinha-a trazido, instantes antes de s. -ex.^a chegar. - -Era uma letra ingleza de mulher, n'um envelope largo, lacrado com um -sinete d'armas. Carlos alli mesmo abriu-a: e, logo á primeira linha, -teve um movimento tão vivo, de tão bella surpreza, illuminando-se-lhe -tanto o rosto, que Craft do lado perguntou sorrindo: - ---Aventura? Herança?... - -Carlos, vermelho, metteu a carta no bolso, e murmurou: - ---Um bilhete apenas, um doente... - -Era apenas um doente, era apenas um bilhete, mas começava -assim:--«Madame Castro Gomes apresenta os seus respeitos ao sr. Carlos -da Maia, e roga-lhe o obsequio...»--depois, em duas breves palavras, -pedia-lhe para ir ver na manhã seguinte, o mais cedo possivel, uma -pessoa de familia, que se achava incommodada. - ---Bem, eu vou-me vestir, disse Craft... Jantar ás sete e meia, hein? - ---Sim, o jantar...--respondeu Carlos, sem saber o quê, banhado todo n'um -sorriso, como em extase. - -Correu aos seus aposentos: e junto da janella, sem mesmo tirar o chapéo, -leu uma vez mais o bilhete, outra vez ainda, contemplando enlevadamente -a forma da letra, procurando voluptuosamente o perfume do papel. - -Era datada d'esse mesmo dia á tarde. Assim, quando elle passara defronte -da sua porta, já ella a escrevera, já o seu pensamento se demorara -n'elle--quando mais não fosse senão ao traçar as lettras simples do seu -nome. Não era ella que estava doente. Se fosse Rosa, ella não diria tão -friamente «uma pessoa de familia.» Era talvez o esplendido preto de -carapinha grisalha. Talvez miss Sarah, abençoada fosse ella para sempre, -que queria um medico que entendesse inglez... Emfim havia lá uma pessoa -n'uma cama, junto da qual ella mesma o conduziria, atravez dos -corredores interiores d'aquella casa--que havia apenas instantes sentira -tão fechada, e como impenetravel para sempre!... E depois este adorado -bilhete, este delicioso pedido para ir a sua casa, agora que ella o -conhecia, que vira Rosa atirar-lhe um grande adeus--tomava uma -significação profunda, perturbadora... - -Se ella não quizesse comprehender, nem acceitar o distante amor que os -seus olhos lhe tinham offerecido claramente, o mais luminosamente que -tinham podido, n'esses fugitivos instantes que se tinham cruzado com os -d'ella--então poderia ter mandado chamar outro medico, um clinico -qualquer, um estranho. Mas não: o seu olhar respondera ao d'elle, e ella -abria-lhe a sua porta...--E o que sentia a esta idéa era uma gratidão -ineffavel, um impulso tumultuoso de todo o seu ser a cahir-lhe aos pés, -ficar-lhe beijando a orla do vestido, devotamente, eternamente, sem -querer mais nada, sem pedir mais nada... - -Quando Craft d'alli a pouco desceu, de casaca, fresco, alvo, engommado, -correcto--achou Carlos, ainda com toda a poeira da estrada, de chapéo na -cabeça passeando o quarto, n'esta agitação radiante. - ---Você está a faiscar, homem! disse Craft, parando deante d'elle, com as -mãos nos bolsos, e contemplando-o um instante do alto do seu -resplandecente collarinho. Você flameja!... Você parece que tem uma -auréola na nuca!... Você succedeu-lhe o quer que seja de muito bom! - -Carlos espreguiçou-se, sorrindo. Depois olhou para Craft um momento, em -silencio, encolheu os hombros, e murmurou: - ---A gente, Craft, nunca sabe se o que lhe succede é, em definitivo, bom -ou mau. - ---Ordinariamente é mau, disse o outro friamente, aproximando-se do -espelho a retocar com mais correcção o nó da gravata branca. - -FIM DO PRIMEIRO VOLUME - - - - -EÇA DE QUEIROZ - -OS MAIAS - -EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA - -VOLUME II - -PORTO - - -Livraria Internacional de Ernesto Chardron -CASA EDITORA -LUGAN & GENELIOUX, Successores - - -1888 - -Todos os direitos reservados - - - - -OS MAIAS - -VOLUME I - - - - -OS MAIAS - - - - -I - - -Na manhã seguinte, Carlos, que se erguera cedo, veio a pé do Ramalhete -até á rua de S. Francisco, a casa de Madame Gomes. No patamar, onde -morria em penumbra a luz distante da claraboia, uma velha de lenço na -cabeça, encolhida n'um chalesinho preto, esperava, sentada -melancolicamente ao canto do banco de palhinha. A porta aberta mostrava -uma parede feia de corredor, forrada de papel amarello. Dentro um -relogio ronceiro estava batendo dez horas. - ---A senhora já tocou? perguntou Carlos, erguendo o chapéo. - -A velha murmurou, d'entre a sombra do lenço que lhe cahia para os olhos, -n'um tom cançado e doente: - ---Já, sim, meu senhor. Já fizeram o favor de me fallar. O criado, o snr. -Domingos, não tarda... - -Carlos esperou, passeando lentamente no patamar. Do segundo andar vinha -um barulho alegre de crianças brincando; por cima, o moço do Cruges -esfregava a escada com estrondo, assobiando desesperadamente o fado. Um -longo minuto arrastou-se, depois outro, infindavel. A velha, d'entre a -negrura do lenço, deu um suspirosinho abatido. Lá ao fundo um canario -rompera a cantar; e então Carlos, impaciente, puxou o cordão da -campainha. - -Um criado de suissas ruivas, correctamente abotoado n'um jaquetão de -flanella, appareceu correndo, com uma travessa na mão, abafada n'um -guardanapo; e ao vêr Carlos ficou tão atarantado, bambaleando á porta, -que um pouco de molho de assado escorregou, cahiu sobre o soalho. - ---Oh snr. D. Carlos Eduardo, faz favor d'entrar!... Ora esta! Tem a -bondade d'esperar um instantinho, que eu abro já a sala... Tome lá, -snr.^a Augusta, tome lá, olhe não entorne mais! A senhora diz que lá -manda logo o vinho do Porto... Desculpe v. exc.^a, snr. D. Carlos... Por -aqui, meu senhor... - -Correu um reposteiro de reps vermelho, introduziu Carlos n'uma sala -alta, espaçosa, com um papel de ramagens azues, e duas varandas para a -rua de S. Francisco; e erguendo á pressa os dois transparentes de -paninho branco, perguntava a Carlos se s. exc.^a não se lembrava já do -Domingos. Quando elle se voltou, risonho, descendo precipitadamente os -canhões das mangas, Carlos reconheceu-o pelas suissas ruivas. Era com -effeito o Domingos, escudeiro excellente, que no começo do inverno -estivera no Ramalhete, e se despedira por birras patrioticas, birras -ciumentas, com o cozinheiro francez. - ---Não o tinha visto bem, Domingos, disse Carlos. O patamar é um pouco -escuro... Lembro-me perfeitamente... E então vossê agora aqui, hein? E -está contente? - ---Eu parece-me que estou muito contente, meu senhor... O snr. Cruges -tambem mora cá por cima... - ---Bem sei, bem sei... - ---Tenha v. exc.^a a paciencia de esperar um instantinho que eu vou dar -parte á snr.^a D. Maria Eduarda... - -Maria Eduarda! Era a primeira vez que Carlos ouvia o nome d'ella; e -pareceu-lhe perfeito, condizendo bem com a sua belleza serena. Maria -Eduarda, Carlos Eduardo... Havia uma similitude nos seus nomes. Quem -sabe se não presagiava a concordancia dos seus destinos! - -Domingos, no entanto, já á porta da sala, com a mão no reposteiro, parou -ainda, para dizer n'um tom de confidencia e sorrindo: - ---É a governante ingleza que está doente... - ---Ah! é a governante? - ---Sim, meu senhor, tem uma febresita desde hontem, peso no peito... - ---Ah!... - -O Domingos deu outro movimento lento ao reposteiro, sem se apressar, -contemplando Carlos com admiração: - ---E o avôsinho de v. exc.^a passa bem? - ---Obrigado, Domingos, passa bem. - ---Aquillo é que é um grande senhor!... Não ha, não ha outro assim em -Lisboa! - ---Obrigado, Domingos, obrigado... - -Quando elle finalmente sahiu, Carlos, tirando as luvas, deu uma volta -curiosa e lenta pela sala. O soalho fôra esteirado de novo. Ao pé da -porta havia um piano antigo de cauda, coberto com um pano alvadio; sobre -uma estante ao lado, cheia de partituras, de musicas, de jornaes -illustrados, pousava um vaso do Japão onde murchavam tres bellos lirios -brancos; todas as cadeiras eram forradas de reps vermelho; e aos pés do -sofá estirava-se uma velha pelle de tigre. Como no Hotel Central, esta -intallação summaria de casa alugada recebera retoques de conforto e de -gosto: cortinas novas de cretone, combinando com o papel azul da parede, -tinham substituido as classicas bambinellas de cassa: um pequeno -contador arabe, que Carlos se lembrava de ter visto havia dias no tio -Abrahão, viera encher um lado mais desguarnecido da parede: o tapete de -pellucia d'uma mesa oval, collocada ao centro, desapparecia sob lindas -encadernações de livros, albuns, duas taças japonezas de bronze, um -cesto para flôres de porcelana de Dresde, objectos delicados d'arte que -não pertenciam decerto á mãi Cruges. E parecia errar alli, acariciando a -ordem das coisas e marcando-as com um encanto particular, aquelle -indefinido perfume que Carlos já sentira nos quartos do Hotel Central, e -em que dominava o jasmim. - -Mas o que attrahiu Carlos foi um bonito biombo de linho crú, com -ramalhetes bordados, desdobrado ao pé da janella, fazendo um recanto -mais resguardado e mais intimo. Havia lá uma cadeirinha baixa de setim -escarlate, uma grande almofada para os pés, uma mesa de costura com todo -um trabalho de mulher interrompido, numeros de jornaes de modas, um -bordado enrolado, mólhos de lã de côres transbordando de um açafate. E, -confortavelmente enroscada no macio da cadeira, achava-se ahi, n'esse -momento, a famosa cadellinha escosseza, que tantas vezes passára nos -sonhos de Carlos, trotando ligeiramente atraz de uma radiante figura -pelo Aterro fóra, ou aninhada e adormecida n'um doce regaço... - ---Bonjour, Mademoiselle, disse-lhe elle, baixinho, querendo captar-lhe -as sympathias. - -A cadellinha erguera-se logo bruscamente na cadeira, d'orelhas fitas, -dardejando para aquelle estranho, por entre as repas esguedelhadas, dois -bellos olhos de azeviche, desconfiados, d'uma penetração quasi humana. -Um instante Carlos receou que ella rompesse a ladrar. Mas a cadellinha -de repente namorára-se d'elle, deitada já na cadeira, de patas ao ar, -descomposta, abandonando o ventresinho ás suas caricias. Carlos ia -coçal-a e amimal-a, quando um passo leve pizou a esteira. Voltou-se, viu -Maria Eduarda diante de si. - -Foi como uma inesperada apparição--e vergou profundamente os hombros, -menos a saudal-a, que a esconder a tumultuosa onda de sangue que sentia -abrazar-lhe o rosto. Ella, com um vestido simples e justo de sarja -preta, um collarinho direito de homem, um botão de rosa e duas folhas -verdes no peito, alta e branca, sentou-se logo junto da mesa oval, -acabando de desdobrar um pequeno lenço de renda. Obedecendo ao seu gesto -risonho, Carlos pousou-se embaraçadamente á borda do sofá de reps. E -depois d'um instante de silencio, que lhe pareceu profundo, quasi -solemne, a voz de Maria Eduarda ergueu-se, uma voz rica e lenta, d'um -tom d'ouro que acariciava. - -Através do seu enleio, Carlos percebia vagamente que ella lhe agradecia -os cuidados que elle tivera com Rosa: e, de cada vez que o seu olhar se -demorava n'ella um instante mais, descobria logo um encanto novo e outra -fórma da sua perfeição. Os cabellos não eram louros, como julgára de -longe á claridade do sol, mas de dois tons, castanho-claro e -castanho-escuro, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa. Na -grande luz escura dos seus olhos havia ao mesmo tempo alguma coisa de -muito grave e de muito dôce. Por um geito familiar cruzava ás vezes, ao -fallar, as mãos sobre os joelhos. E através da manga justa de sarja, -terminando n'um punho branco, elle sentia a belleza, a brancura, o -macio, quasi o calor dos seus braços. - -Ella calára-se. Carlos, ao levantar a voz, sentiu outra vez o sangue -abrazar-lhe o rosto. E, apesar de saber já pelo Domingos que a doente -era a governante, só achou, na sua perturbação, esta pergunta timida: - ---Não é sua filha que está doente, minha senhora? - ---Oh não! graças a Deus! - -E Maria Eduarda contou-lhe, justamente como o Domingos, que a governante -ingleza havia dois dias se achava incommodada, com difficuldade de -respirar, tosse, uma ponta de febre... - ---Imaginámos ao principio que era uma constipação passageira; mas hontem -á tarde estava peor, e estou agora impaciente que a veja... - -Ergueu-se, foi puxar um enorme cordão de campainha que pendia ao lado do -piano. O seu cabello por traz, repuxado para o alto da cabeça, deixava -uma pennugem d'ouro frisar-se delicadamente sobre a brancura lactea do -pescoço. Entre aquelles moveis de reps, sob o tecto banal d'estuque -enxovalhado, toda a sua pessoa parecia a Carlos mais radiante, d'uma -belleza mais nobre, e quasi inaccessivel; e pensava que nunca alli -ousaria olhal-a tão francamente, com uma tão clara adoração, como quando -a encontrava na rua. - ---Que linda cadellinha v. exc.^a tem, minha senhora! disse elle, quando -Maria Eduarda se tornou a sentar, e pondo já n'estas palavras simples, -ditas a sorrir, um accento de ternura. - -Ella sorriu tambem com um lindo sorriso, que lhe fazia uma covinha no -queixo, dava uma doçura mais mimosa ás suas feições sérias. E -alegremente, batendo as palmas, chamando para dentro do biombo: - ---_Niniche!_ estão-te a fazer elogios, vem agradecer! - -_Niniche_ appareceu a bocejar. Carlos achava lindo este nome de -_Niniche_. E era curioso, tinha tido tambem uma galguinha italiana que -se chamava _Niniche_... - -N'esse instante a criada entrou--a rapariga magra e sardenta, d'olhar -petulante, que Carlos vira já no Hotel Central. - ---Melanie vai-lhe ensinar o quarto de miss Sarah, disse Maria Eduarda. -Eu não o acompanho, porque ella é tão timida, tem tanto escrupulo em -incommodar, que diante de mim é capaz de negar tudo, dizer que não tem -nada... - ---Perfeitamente, perfeitamente, murmurava Carlos, sorrindo, n'um encanto -de tudo. - -E pareceu-lhe então que no olhar d'ella alguma coisa brilhára, fugira -para elle, de mais vivo, de mais dôce. - -Com o seu chapéo na mão, pisando familiarmente aquelle corredor intimo, -surprehendendo detalhes de vida domestica, Carlos sentia como a alegria -d'uma posse. Por uma porta meio aberta pôde entrevêr uma banheira, e ao -lado dependurados grandes roupões turcos de banho. Adiante, sobre uma -mesa, estavam alinhadas, e como desencaixotadas recentemente, garrafas -d'aguas mineraes de Saint-Galmier e de Vals. Elle deduzia logo d'estas -coisas tão simples, tão banaes, evidencias de vida delicada. - -Melanie correu um reposteiro de linho crú, fêl-o entrar n'um quarto -claro e fresco: e ahi foi encontrar a pobre miss Sarah n'um leitosinho -de ferro, sentada, com um laço de sêda azul ao pescoço, e os bandós tão -lisos, tão acamados pela escova, como se fosse sahir n'um domingo para a -capella presbyteriana. Na mesinha de cabeceira os seus jornaes inglezes -estavam escrupulosamente dobrados, junto d'um copo com duas bellas -rosas; e tudo no quarto resplandecia de severo arranjo, desde os -retratos da familia real d'Inglaterra, expostos sobre a toalha de renda -que cobria a commoda, até ás suas botinas bem engraxadas, classificadas, -perfiladas n'uma prateleira de pinho. - -Apenas Carlos se sentou, ella immediatamente, com duas rosetas de -vergonha na face, entre frouxos de tosse, declarou que não tinha nada. -Era a senhora, tão boa, tão cautelosa, que a forçára a metter-se na -cama... E para ella era um desgosto vêr-se alli ociosa, inutil, agora -que Madame estava tão só, n'uma casa sem jardim. Onde havia a menina de -brincar? Quem havia de sahir com ella? Ah! Era uma prisão para -Madame!... - -Carlos consolava-a, tomando-lhe o pulso. Depois, quando elle se ergueu -para a auscultar, a pobre miss cobriu-se toda d'um rubor afflicto, -apertando mais a roupa contra o peito, querendo saber se era -_absolutamente_ necessario... Sim, decerto, era necessario... Achou-lhe -o pulmão direito um pouco tomado; e, em quanto a agasalhava, fez-lhe -algumas perguntas sobre a sua familia. Ella contou que era de York, -filha de um _clergyman_, e tinha quatorze irmãos: os rapazes estavam na -Nova Zelandia, e todos eram d'uma robustez de athletas. Ella sahira a -mais fraca; tanto que o pai, vendo que ella aos dezesete annos pesava só -oito arrobas, ensinou-lhe logo latim, destinando-a para governante. - -Em todo o caso, dizia Carlos, nunca houvera na sua familia doenças de -peito? Ella sorriu. Oh! nunca! A mamã ainda vivia. O papá, já muito -velho, morrera do couce de uma egua. - -Carlos, no entanto, já de pé, com o chapéo na mão, continuava a -observal-a, reflectindo. Então, de repente, sem motivo, ella -enterneceu-se, os seus olhos pequeninos ennevoaram-se de agua. E quando -ouviu que eram precisos tantos agasalhos, que teria de estar alli no -quarto ainda quinze dias, perturbou-se mais, duas lagrimasinhas timidas -quasi lhe fugiram das pestanas. Carlos terminou por lhe afagar -paternalmente a mão. - ---_Oh! Thank you sir!_ murmurou ella, commovida de todo. - -Na sala, Carlos veio encontrar Maria Eduarda sentada junto da mesa, -arranjando ramos, com uma grande cesta de flôres pousada ao lado d'uma -cadeira, e o regaço cheio de cravos. Uma bella restea de sol, estendida -na esteira, vinha morrer-lhe aos pés; e _Niniche_, deitada alli, reluzia -como se fosse feita de fios de prata. Na rua, sob as janellas, um -realejo ia tocando, na alegria da linda manhã de sol, a walsa da _Madame -Angot_. Pelo andar de cima tinham recomeçado as correrias de crianças -brincando. - ---Então? exclamou ella, voltando-se logo, com um mólho de cravos na mão. - -Carlos tranquillisou-a. A pobre miss Sarah tinha uma bronchite ligeira, -com pouca febre. Em todo o caso necessitava resguardo, toda a cautela... - ---Certamente! E ha de tomar algum remedio, não é verdade? - -Atirou logo o resto dos cravos do regaço para o cesto, foi abrir uma -secretariasinha de pau preto collocada entre as janellas. Ella mesmo -arranjou o papel para elle receitar, metteu um bico novo na penna. E -estes cuidados perturbavam Carlos como caricias. - ---Oh minha senhora... murmurava elle, um lapis basta... - -Quando se sentou, os seus olhos demoraram-se com uma curiosidade -enternecida n'esses objectos familiares onde pousava a doçura das mãos -d'ella--um sinete d'agatha sobre um velho livro de contas, uma faca de -marfim com monogramma de prata ao lado d'uma taçasinha de Saxe cheia -d'estampilhas; e em tudo havia a ordem clara que tão bem condizia com o -seu puro perfil. Na rua o realejo calára-se, por cima do tecto já não -cavallavam as crianças. E, em quanto escrevia devagar, Carlos sentia-a -abafar sobre a esteira o som dos seus passos, mover os seus vasos mais -de leve. - ---Que bonitas flôres v. exc.^a tem, minha senhora! disse elle, voltando -a cabeça, em quanto ia seccando distrahida e lentamente a receita. - -De pé, junto do contador arabe, onde pousava um vaso amarello da India, -ella arranjava folhas em volta de duas rosas. - ---Dão frescura, disse ella. Mas imaginei que em Lisboa havia mais -bonitas flôres. Não ha nada que se compare ás flôres de França... Pois -não é verdade? - -Elle não respondeu logo, esquecido a olhar para ella, pensando na doçura -de ficar alli eternamente n'aquella sala de reps vermelho, cheia de -claridade e cheia de silencio, a vêl-a pôr folhas verdes em torno de pés -de rosa! - ---Em Cintra ha lindas flôres, murmurou por fim. - ---Oh, Cintra é um encanto! disse ella, sem erguer os olhos do seu ramo. -Vale a pena vir a Portugal só por causa de Cintra. - -N'esse momento, o reposteiro de reps esvoaçou, e Rosa entrou de dentro, -correndo, vestida de branco, com meiasinhas de sêda preta, uma onda -negra de cabello a bater-lhe as costas, e trazendo ao collo a sua grande -boneca. Ao vêr Carlos parou bruscamente, com os bellos olhos muito -abertos para elle, toda encantada, e apertando mais nos braços Cri-cri -que vinha em camisa. - ---Não conheces? perguntou-lhe a mãi, indo sentar-se outra vez diante do -seu cesto de flôres. - -Rosa começava já a sorrir, o seu rostosinho cobria-se d'uma linda côr. E -assim, toda d'alvo e negro como uma andorinha, tinha um encanto raro, -com o seu dôce mimo de fórma, a sua graça ligeira, os seus grandes olhos -cheios d'azul, e um ruborzinho de mulher na face. Quando Carlos se -adiantou com a mão estendida para renovar o antigo conhecimento--ella -ergueu-se na ponta dos pés, estendeu-lhe vivamente a boquinha, fresca -como um botão de rosa. Carlos ousou apenas tocar-lhe de leve na testa. - -Depois quiz apertar a mão á sua velha amiga Cri-cri. E então, de -repente, Rosa recordou-se do que a trouxera alli a correr. - ---É o robe-de-chambre, mamã! Não posso achar o robe-de-chambre de -Cri-cri... Ainda a não pude vestir... Dize, sabes onde é que está o -robe-de-chambre? - ---Vejam esta desarranjada! murmurava a mãi olhando-a com um sorriso -lento e terno. Se Cri-cri tem uma commoda particular, o seu -guarda-vestidos, não se lhe deviam perder as coisas... Pois não é -verdade, snr. Carlos da Maia? - -Elle, ainda com a sua receita na mão, sorria tambem, sem dizer nada, -todo no enternecimento d'aquella intimidade em que se sentia penetrar -dôcemente. - -A pequena então veio encostar-se á mãi, roçando-se pelo seu braço, com -uma vozinha languida, lenta, e de mimo: - ---Anda, dize... Não sejas má... Anda... Onde está o robe-de-chambre? -Dize... - -Levemente, com a ponta dos dedos, Maria Eduarda arranjou-lhe o pequenino -laço de sêda branca que lhe prendia no alto o cabello. Depois ficou mais -séria: - ---Está bem, está quieta... Tu sabes que não sou eu que trato dos -arranjos da Cri-cri. Devias ter mais ordem... Vai perguntar a Melanie. - -E Rosa obedeceu logo, séria tambem, comprimentando agora Carlos ao -passar, com um arzinho senhoril: - ---Bonjour, Monsieur... - ---É encantadora! murmurou elle. - -A mãi sorriu. Tinha acabado de compôr o seu ramo de cravos;--e -immediatamente attendeu a Carlos, que pousára a receita sobre a mesa, e -sem se apressar, installando-se n'uma poltrona, lhe foi fallando da -dieta que devia ter miss Sarah, das colheres de xarope de codeina que se -lhe deviam dar de tres em tres horas... - ---Pobre Sarah! dizia ella. E é curioso, não é verdade? Veio com o -presentimento, quasi com a certeza, que havia de adoecer em Portugal... - ---Então vem a detestar Portugal! - ---Oh! tem-lhe já horror! Acha muito calor, por toda a parte maus -cheiros, a gente hedionda... Tem medo de ser insultada na rua... Emfim é -infelicissima, está ardendo por se ir embora... - -Carlos ria d'aquellas antipathias saxonias. De resto em muitas coisas a -boa miss Sarah tinha talvez razão... - ---E v. exc.^a tem-se dado bem em Portugal, minha senhora? - -Ella encolheu os hombros, indecisa. - ---Sim... Devo dar-me bem... É o meu paiz - -O _seu_ paiz!... E elle que a julgava brazileira! - ---Não, sou portugueza. - -E, durante um momento, houve um silencio. Ella tomára de sobre a mesa, -abria lentamente um grande leque negro pintado de flôres vermelhas. E -Carlos sentia, sem saber porque, uma doçura nova penetrar-lhe no -coração. Depois ella fallou da sua viagem que fôra muito agradavel; -adorava andar no mar; tinha sido um encanto a manhã da chegada a Lisboa, -com um céo azul-ferrete, o mar todo azul tambem, e já um calorzinho do -clima dôce... Mas depois, apenas desembarcados, tudo correra -desagradavelmente. Tinham ficado mal alojados no Central. _Niniche_, uma -noite, assustára-os muito com uma indigestão. Em seguida no Porto viera -aquelle desastre... - ---Sim, disse Carlos, o marido de v. exc.^a, na Praça Nova... - -Ella pareceu surprehendida. Como sabia elle? Ah! sim, sabia de certo -pelo Damaso... - ---São muito amigos, creio eu. - -Depois d'uma leve hesitação, que ella comprehendeu, Carlos murmurou: - ---Sim... O Damaso vai bastante ao Ramalhete... É de resto um rapaz que -eu conheço apenas ha mezes... - -Ella abriu os olhos, pasmada. - ---O Damaso? Mas elle disse-me que se conheciam desde pequeninos, que -eram até parentes... - -Carlos encolheu simplesmente os hombros, sorrindo. - ---É uma bella illusão... E se isso o faz feliz!... - -Ella sorriu tambem, encolhendo tambem ligeiramente os hombros. - ---E v. exc.^a, minha senhora, continuou logo Carlos não querendo fallar -mais do Damaso, como acha Lisboa? - -Gostava bastante, achava muito bonito este tom azul e branco de cidade -meridional... Mas, havia tão poucos confortos!... A vida tinha aqui um -ar que ella não pudera perceber ainda--se era de simplicidade ou de -pobreza. - ---Simplicidade, minha senhora. Temos a simplicidade dos selvagens... - -Ella riu. - ---Não direi isso. Mas supponho que são como os gregos: contentam-se em -comer uma azeitona, olhando o céo que é bonito... - -Isto pareceu adoravel a Carlos, todo o seu coração fugiu para ella. - -Maria Eduarda queixava-se sobretudo das casas, tão faltas de -commodidade, tão despidas de gosto, tão desleixadas. Aquella em que -vivia fazia a sua desgraça. A cozinha era atroz, as portas não fechavam. -Na sala de jantar havia sobre a parede umas pinturas de barquinhos e -collinas que lhe tiravam o appetite... - ---Além d'isso, acrescentou, é um horror não ter um quintal, um jardim, -onde a pequena possa correr, ir brincar... - ---Não é facil encontrar assim uma casa nas condições d'esta e com -jardim, disse Carlos. - -Deu um olhar ás paredes, ao estuque enxovalhado do tecto--e lembrou-lhe -de repente a quinta do Craft, com a sua vista de rio, o ar largo, as -frescas ruas de acacias. - -Felizmente, Maria Eduarda tomára a casa apenas ao mez, e estava pensando -em ir passar á beira-mar o tempo que tivesse de ficar ainda em Portugal. - ---De resto, disse ella, foi o que me aconselhou o meu medico em Paris, o -dr. Chaplain. - -O dr. Chaplain? Justamente, Carlos conhecia muito o dr. Chaplain. -Ouvira-lhe as lições, visitára-o até intimamente na sua propriedade de -Maisonnettes, ao pé de Saint-Germain. Era um grande mestre, era um -espirito bem superior! - ---E tão bom coração! disse ella com um claro sorriso, um olhar que -brilhou. - -E este sentimento commum pareceu de repente aproximal-os mais dôcemente: -cada um n'esse instante adorou o dr. Chaplain: e continuaram ainda -fallando d'elle prolongadamente, gozando, através d'essa trivial -sympathia por um velho clinico, a nascente concordancia dos seus -corações. - -O bom dr. Chaplain! Que physionomia tão amavel, tão fina!... Sempre com -o seu barretinho de sêda... E sempre com a sua grande flôr na casaca... -De resto, o pratico maior que sahira da geração de Trousseau. - ---E Madame Chaplain, acrescentou Carlos, é uma pessoa encantadora... Não -é verdade? - -Mas Maria Eduarda não conhecia Madame Chaplain. - -Dentro o relogio ronceiro começára a bater onze horas. E Carlos então -ergueu-se, findando a sua fugitiva, inolvidavel, deliciosa visita... - -Quando ella lhe estendeu a mão, um pouco de sangue subiu-lhe de novo á -face ao tocar aquella palma tão macia e tão fresca. Pediu os seus -comprimentos para Mademoiselle Rosa. Depois, á porta, já com o -reposteiro na mão, voltou-se ainda, uma vez mais, n'uma ultima saudação, -a receber o olhar suave com que ella o seguia... - ---Até ámanhã, está claro! exclamou ella de repente, com o seu lindo -sorriso. - ---Até ámanhã, decerto! - -O Domingos estava já no patamar, de casaca, risonho e bem penteado. - ---É coisa de cuidado, meu senhor? - ---Não é nada, Domingos... Estimei vêl-o por aqui. - ---E eu muito a v. exc.^a. Até ámanhã, meu senhor. - ---Até ámanhã. - -_Niniche_ appareceu tambem no patamar. Elle abaixou-se ternamente a -afagal-a, e disse-lhe tambem, radiante: - ---Até ámanhã, _Niniche_! - - -Até ámanhã! Voltando para o Ramalhete, era esta a unica idéa que elle -sentia distinctamente através da nevoa luminosa que lhe afogava a alma. -Agora o seu dia estava findo:--mas, passadas as longas horas, terminada -a longa noite, elle penetraria outra vez n'aquella sala de reps -vermelho, onde ella o esperava, com o mesmo vestido de sarja, enrolando -ainda folhas verdes em torno de pés de rosa... - -Pelo Aterro, por entre a poeira de verão e o ruido das carroças, o que -elle via era essa sala, esteirada de novo, fresca, silenciosa e clara: -por vezes uma phrase que ella dissera cantava-lhe na memoria, com o tom -d'ouro da sua voz; ou luziam-lhe diante dos olhos as pedras dos seus -anneis entremettidos pelos pêllos de _Niniche_. Parecia-lhe mais linda, -agora que conhecia o seu sorriso d'uma graça tão delicada; era cheia de -inteligencia, era cheia de gosto; e a pobre velha á porta, esse doente a -quem ella mandava vinho do Porto, revelavam a sua bondade... E o que o -encantava é que não tornaria mais a farejar a cidade como um rafeiro -perdido, á busca dos seus olhos negros; agora bastava-lhe subir alguns -degraus, abria-se diante d'elle a porta da sua casa; e tudo de repente -na vida parecia tornar-se facil, equilibrado, sem duvidas e sem -impaciencias. - -No seu quarto, no Ramalhete, Baptista entregou-lhe uma carta. - ---Trouxe-a a escosseza, já v. exc.^a tinha sahido. - -Era da Gouvarinho! Meia folha de papel, tendo simplesmente escripto a -lapis--_all rigth_. Carlos amarrotou-a, furioso. A Gouvarinho!... Não se -tornára quasi a lembrar d'ella, desde a vespera, no radiante tumulto em -que andára o seu coração. E era no comboio d'essa noite, d'ahi a horas, -que deviam ambos partir para Santarem, a amarem-se, escondidos n'uma -estalagem! Elle promettera-lh'o, a sério; já ella se preparára decerto, -com a atroz cabelleira postiça, com o _water-proof_ de grande roda; tudo -estava _all rigth_... Achou-a n'esse instante ridicula, reles, -estupida... Oh, era claro como a luz que não ia, que nunca iria, jámais! -Mas tinha d'apparecer na estação de Santa Apolonia, balbuciar uma -desculpa tosca, assistir á sua desconsolação, vêr-lhe os olhos marejados -de lagrimas. Que massada!... Teve-lhe odio. - -Quando chegou á mesa do almoço Craft e Affonso, já sentados, fallavam -justamente do Gouvarinho, e dos artigos que elle continuava gravemente a -publicar no _Jornal do Commercio_. - ---Que besta essa! exclamou Carlos n'uma voz que sibilava, desabafando -sobre a litteratura politica do marido a colera que lhe davam as -importunidades amorosas da mulher. - -Affonso e Craft olharam-n'o, pasmados de tanta violencia. E Craft -censurou-lhe a ingratidão. Porque, realmente, não havia em toda a terra -um enthusiasmo como o que aquelle desventuroso homem d'estado tinha por -Carlos... - ---V. exc.^a não faz idéa, snr. Affonso da Maia. É um culto. É uma -idolatria! - -Carlos encolhia os hombros, impaciente. E Affonso, já bem disposto para -com o homem que assim admirava tão prodigamente o seu neto, murmurou com -bondade: - ---Coitado, supponho que é inoffensivo... - -Craft fez uma ovação ao velho: - ---_Inoffensivo!_ Admiravel, snr. Affonso da Maia! _Inoffensivo_, -applicado a um homem d'estado, a um par, a um ministro, a um legislador, -é um achado! E é com effeito o que elle é, _inoffensivo_... E é o que -elles são... - ---Chablis? murmurou o escudeiro. - ---Não, tomo chá. - -E acrescentou: - ---Aquelle champagne que hontem bebemos nas corridas, por patriotismo, -arrasou-me... Tenho de me pôr uma semana a regimen de leite. - -Então fallou-se ainda das corridas, dos ganhos de Carlos, do Clifford, e -do véo azul do Damaso. - ---Ora quem estava hontem muito bem vestida era a Gouvarinho, disse Craft -remexendo o seu chá. Ficava-lhe admiravelmente aquelle branco creme, -tocado de tons negros. Uma verdadeira toilette de corridas... _C'était -un [oe]illet blanc panaché de noir_... Vossê não achou, Carlos? - ---Sim, rosnou Carlos, estava bem. - -Outra vez a Gouvarinho! Parecia-lhe agora que não haveria na sua vida -conversa em que não surgisse a Gouvarinho, e que não haveria caminho na -sua vida que o não atravancasse a Gouvarinho! E alli mesmo, á mesa, -decidiu comsigo não a tornar a vêr, escrever-lhe um bilhete curto, -polido, recusando-se a ir a Santarem, sem razões... - -Mas no seu quarto, diante da folha de papel, fumou uma longa cigarrette, -sem achar phrase que não fosse pueril ou brutal. Nem tinha a sympathia -precisa para lhe dar o banal tratamento de _querida_. Vinha-lhe até por -ella uma indefinida repulsão physica: devia ser intoleravel toda uma -noite o seu cheiro exagerado de verbena;--e lembrava-se que aquella -pelle do seu pescoço, que se lhe afigurava outr'ora um setim, tinha um -tom pegajoso, um tom amarellado, para além da linha de pós d'arroz. -Decidiu não lhe escrever. Iria á noite a Santa Apolonia, e no momento do -comboio partir correria á portinhola, a balbuciar fugitivamente uma -desculpa; não lhe daria tempo de choramigar, nem de recriminar; um -rapido aperto de mão, e adeus, para nunca mais... - -Á noite, porém, á hora de ir á estação, que sacrificio em se arrancar -aos confortos da sua poltrona, e do seu charuto!... Atirou-se para o -coupé desesperado, maldizendo essa tarde no boudoir azul em que, por -causa d'uma rosa e d'um certo vestido côr de folha morta que lhe ficava -bem, elle se'achára cahido com ella n'um sofá... - -Ao chegar a Santa Apolonia faltavam, para a partida do expresso, dois -minutos. Precipitou-se para a extremidade da sala, já quasi vazia -áquella hora, a comprar uma _admissão_; e ainda ahi esperou uma -eternidade, vendo dentro do postigo duas mãos lentas e molles arranjar -laboriosamente os patacos d'um troco. - -Penetrava emfim na sala d'espera--quando esbarrou com o Damaso, de -chapéo desabado e saccola de viagem a tiracollo. Damaso agarrou-lhe as -mãos, enternecido: - ---Ó menino! pois tiveste o incommodo?... E como soubeste tu que eu -partia? - -Carlos não o desilludiu, balbuciando que lh'o dissera o Taveira, que -encontrára o Taveira... - ---Pois eu estava mais longe d'uma d'estas! exclamou o Damaso. Esta -manhã, muito regalado na cama, quando me vem o telegramma... Fiquei -furioso! Isto é, imagina tu como eu fiquei, um desgosto assim!... - -Foi então que Carlos reparou que elle estava carregado de luto, com fumo -no chapéo, luvas pretas, polainas pretas, barra preta no lenço... -Murmurou, embaraçado: - ---O Taveira disse-me que ias, mas não me disse mais nada... Morreu-te -alguem? - ---Meu tio Guimarães. - ---O communista? o de Paris? - ---Não, o irmão d'elle, o mais velho, o de Penafiel... Espera ahi que eu -volto já, vou alli ao café encher o frasco de cognac. Com a afflicção -esquecia-me o cognac... - -Ainda estavam chegando passageiros, esbaforidos, de guarda-pó, com -chapeleiras na mão. Os guardas rolavam pachorrentamente as bagagens. -D'uma portinhola, onde se exhibia um cavalheiro barrigudo, com um bonet -bordado a retroz, pendia todo um cacho d'amigos politicos, -respeitosamente e em silencio. A um canto uma senhora soluçava por baixo -do véo. - -Carlos, vendo um wagon com a papeleta de _reservado_, imaginou lá a -condessa. Um guarda precipitou-se, furioso, como se visse a profanação -d'um santuario. Que queria elle, que queria elle d'alli? Não sabia que -era o _reservado_ do snr. Carneiro? - ---Não sabia. - ---Perguntasse, devia saber! ficou o outro a resmungar, ainda tremulo. - -Carlos correu ainda outros wagons, onde a gente se apinhava, -atabafadamente, na amontoação dos embrulhos; n'um, dois sujeitos, a -proposito de lugares, tratavam-se de _malcriados_; adiante, uma criança -esperneava no collo da ama, aos gritos. - ---Ó menino, quem diabo andas tu a procurar? exclamou Damaso alegremente, -surgindo por traz d'elle, e passando-lhe o braço pela cinta. - ---Ninguem... Imaginei que tinha visto o marquez. - -Immediatamente Damaso queixou-se d'aquella lúgubre massada de ter d'ir a -Penafiel! - ---E então agora que eu precisava tanto estar em Lisboa! Que tenho andado -com uma sorte para mulheres, menino!... Uma sorte damnada! - -Uma sineta badalou. Damaso deu logo um abraço terno a Carlos, saltou -para o seu wagon, enterrou na cabeça um barretinho de sêda--e depois -debruçado da portinhola continuou ainda as confidencias. O que mais o -contrariava era deixar aquelle arranjinho da rua de S. Francisco. Que -ferro! agora que aquillo ia tão bem, o gajo no Brazil, e ella alli, á -mão, a dois passos do Gremio!... - -Carlos mal o escutava, distrahido, olhando o grande relogio -transparente. De repente Damaso, á portinhola, deu um salto de surpreza: - ---Olha os Gouvarinhos! - -Carlos deu um salto tambem. O conde, de côco de viagem, de paletot -alvadio, sem se apressar, como competia a um director da Companhia, -vinha conversando com um empregado superior da estação, agaloado de -ouro, que se encarregára da chapeleira de papelão de s. exc.^a E a -condessa, com um rico guarda-pó de foulard côr de castanho, um véo -cinzento que lhe cobria a face e o chapéo, seguia atraz, com a criada -escosseza, trazendo na mão um ramo de rosas. - -Carlos correu para elles, foi todo um assombro. - ---Por aqui, Maia? - ---De viagem, conde? - -É verdade. Decidira acompanhar a condessa ao Porto, aos annos do papá... -Resolução da ultima hora, quasi iam perdendo o comboio. - ---Então temol-o por companheiro, Maia? Teremos esse grande prazer, Maia? - -Carlos contou rapidamente que viera apenas apertar a mão ao pobre -Damaso, de jornada para Penafiel, por causa da morte do tio. - -Debruçado da portinhola, com as mãos de fóra calçadas de negro, o pobre -Damaso estava saudando a senhora condessa, gravemente, funebremente. E o -bom Gouvarinho não quiz deixar de lhe ir dar logo o seu _shake-hands_ e -o seu pezame. - -Sósinho n'esse curto instante com a condessa, Carlos murmurou apenas: - ---Que ferro! - ---Este maldito homem! exclamou ella, entre dentes, com um olhar que -fuzilou através do véo. Tudo tão bem arranjado, e á ultima hora teima em -vir!... - -Carlos acompanhou-os até ao _reservado_, n'um outro wagon que se -estivera mettendo de novo para s. exc.^a A condessa tomou o lugar do -canto junto da portinhola. E como o conde, n'um tom de polidez acida, a -aconselhava a que se sentasse antes com o rosto para a machina, ella -teve um gesto de aborrecimento, atirou o ramo para o lado -desabridamente, enterrou-se com mais força na almofada; e um duro olhar -de colera passou entre ambos. Carlos, embaraçado, perguntava: - ---Então vão com demora? - -O conde respondeu, sorrindo, disfarçando o seu mau humor: - ---Sim, talvez duas semanas, umas pequeninas ferias. - ---Tres dias, o mais, replicou ella n'uma voz fria e afiada como uma -navalha. - -O conde não respondeu, livido. - -Todas as portinholas agora estavam fechadas, um silencio cahira sobre a -plataforma. O apito da machina varou o ar; e o comprido trem, n'um ruido -secco de freios retesados, começou a rolar, com gente ás portinholas, -que ainda se debruçava, estendendo a mão para um ultimo aperto. Aqui e -além esvoaçava um lenço branco. O olhar da condessa para o lado de -Carlos teve a doçura de um beijo, o Damaso gritou saudades para o -Ramalhete. O compartimento do correio resvalou, alumiado; e com outro -dilacerante silvo o comboio mergulhou na noite... - -Carlos, só, dentro do coupé, voltando á Baixa, sentia uma alegria -triumphante com aquella partida da condessa, e a inesperada jornada do -Damaso. Era como uma dispersão providencial de todos os importunos: e -assim se fazia em torno da rua de S. Francisco uma solidão--com todos os -seus encantos, e todas as suas cumplicidades. - -No caes do Sodré deixou a carruagem, subiu a pé pelo Ferregial, veio -passar diante das janellas na rua de S. Francisco. Só pôde vêr uma vaga -tira de claridade entre as portadas meio cerradas. Mas isto bastava-lhe. -Podia agora imaginar com precisão o serão calmo que ella estava passando -na larga sala de reps vermelho. Sabia o nome dos livros que ella lia, e -as partituras que tinha sobre o piano; e as flôres que espalhavam alli o -seu aroma vira-as elle arranjar n'essa manhã. Poria ella um instante o -seu pensamento n'elle? Decerto; a doença em casa forçava-a a lembrar as -horas do remedio, as explicações que elle dera, e o som da sua voz; e -fallando com miss Sarah pronunciaria decerto o seu nome. Duas vezes -percorreu a rua de S. Francisco; e recolheu para casa, sob a noite -estrellada, devagar, ruminando a doçura d'aquelle grande amor. - - -Então todos os dias, durante semanas, teve essa hora deliciosa, -esplendida, perfeita, «a visita á ingleza». - -Saltava do leito, cantando como um canario, e penetrava no seu dia como -n'uma acção triumphal. O correio chegava; e invariavelmente lhe trazia -uma carta da Gouvarinho, tres folhas de papel d'onde cahia sempre alguma -pequena flôr meio murcha. Elle deixava ficar a flôr no tapete: e mal -podia dizer o que havia n'aquellas longas linhas cruzadas. Sabia apenas -vagamente que, tres dias depois d'ella chegar ao Porto, o pai, o velho -Thompson, tivera uma apoplexia. Ella lá estava, d'enfermeira. Depois, -levando duas ou tres bellas flôres do jardim embrulhadas n'um papel de -sêda, partia para a rua de S. Francisco, sempre no seu coupé--porque o -tempo mudára, e os dias seguiam-se, tristonhos, cheios de sudoeste e de -chuva. - -Á porta o Domingos acolhia-o com um sorriso cada vez mais enternecido. -_Niniche_ corria de dentro, a pular d'amizade; elle erguia-a nos braços -para a beijar. Esperava um instante na sala, de pé, saudando com o olhar -os moveis, os ramos, a clara ordem das coisas; ia examinar no piano a -musica que ella tocára essa manhã, ou o livro que deixára interrompido, -com a faca de marfim entre as folhas. - -Ella entrava. O seu sorriso ao dar-lhe os bons dias, a sua voz d'ouro -tinham cada dia para Carlos um encanto novo e mais penetrante. Trazia -ordinariamente um vestido escuro e simples: apenas ás vezes uma gravata -de rica renda antiga, ou um cinto cuja fivella era cravejada de pedras, -avivavam este traje sobrio, quasi severo, que parecia a Carlos o mais -bello, e como uma expressão do seu espirito. - -Começavam por fallar de miss Sarah, d'aquelle tempo agreste e humido que -lhe era tão desfavoravel. Conversando, ainda de pé, ella dava aqui e -além um arranjo melhor a um livro, ou ia mover uma cadeira que não -estava no seu alinho; tinha o habito inquieto de recompôr constantemente -a symetria das coisas;--e, machinalmente, ao passar, sacudia a -superficie de moveis já perfeitamente espanejados com as magnificas -rendas do seu lenço. - -Agora acompanhava-o sempre ao quarto de miss Sarah. Pelo corredor -amarello, caminhando ao seu lado, Carlos perturbava-se sentindo a -caricia d'esse intimo perfume em que havia jasmim, e que parecia sahir -do movimento das suas saias. Ella ás vezes abria familiarmente a porta -de um quarto, apenas mobilado com um velho sofá: era alli que Rosa -brincava, e que tinha os arranjos de Cri-cri, as carruagens de Cri-cri, -a cozinha de Cri-cri. Encontravam-na vestindo e conversando -profundamente com a boneca; ou então, ao canto do sofá, com os pésinhos -cruzados, immovel, perdida na admiração d'algum livro d'estampas aberto -sobre os joelhos. Ella corria, estendia a boquinha a Carlos; e toda a -sua pessoa tinha a frescura de uma linda flôr. - -No quarto da governante, Maria Eduarda sentava-se aos pés do leito -branco; e logo a pobre miss Sarah, ainda cheia de tosse, confusa, -verificando a cada instante se o lenço de sêda lhe cobria correctamente -o pescoço, affirmava que estava boa. Carlos gracejava com ella, -provando-lhe que n'esse feio tempo d'inverno, a felicidade era estar -alli na cama, com bons cuidados em redor, alguns romances patheticos, e -appetitosa dieta portugueza. Ella voltava os olhos gratos para Madame, -com um suspiro. Depois murmurava: - ---_Oh yes, I am very comfortable!_ - -E enternecia-se. - -Logo nos primeiros dias, ao voltar á sala, Maria Eduarda tinha-se -sentado na sua cadeira escarlate, e, conversando com Carlos, retomára -muito naturalmente o seu bordado como na presença familiar de um velho -amigo. Com que felicidade profunda elle viu desdobrar-se essa talagarça! -Devia ser um faisão de plumagens rutilantes: mas por ora só estava -bordado o galho de macieira em que elle pousava, galho fresco de -primavera, coberto de florzinhas brancas, como n'um pomar da Normandia. - -Carlos, junto da linda secretariasinha de pau preto, occupava a mais -velha, a mais commoda das poltronas de reps vermelho, cujas molas -rangiam de leve. Entre elles ficava a mesa de costura com as -_Illustrações_ ou algum jornal de modas; ás vezes, um instante calado, -elle folheava as gravuras, em quanto as lindas mãos de Maria, com -brilhos de joias, iam puxando os fios de lã. Aos pés d'ella _Niniche_ -dormitava, espreitando-os a espaços, através das repas do focinho, com o -seu bello olho grave e negro. E n'esses escuros dias de chuva, cheios de -friagem lá fóra e do rumor das goteiras, aquelle canto da janella, com a -paz do vagaroso trabalho na talagarça, as vozes lentas e amigas, e ás -vezes um dôce silencio, tinha um ar intimo e carinhoso... - -Mas no que diziam não havia intimidades. Fallavam de Paris e do seu -encanto, de Londres onde ella estivera durante quatro lugubres mezes de -inverno, da Italia que era o seu sonho vêr, de livros, de coisas d'arte. -Os romances que preferia eram os de Dickens; e agradava-lhe menos -Feuillet, por cobrir tudo de pó d'arroz, mesmo as feridas do coração. -Apesar de educada n'um convento severo d'Orleans, lêra Michelet e lêra -Renan. De resto não era catholica praticante; as igrejas apenas a -attrahiam pelos lados graciosos e artisticos do culto, a musica, as -luzes, ou os lindos mezes de Maria, em França, na doçura das flôres de -maio. Tinha um pensar muito recto e muito são--com um fundo de ternura -que a inclinava para tudo o que soffre e é fraco. Assim gostava da -Republica por lhe parecer o regimen em que ha mais solicitude pelos -humildes. Carlos provava-lhe rindo que ella era socialista. - ---Socialista, legitimista, orleanista, dizia ella, qualquer coisa, -comtanto que não haja gente que tenha fome! - -Mas era isso possivel? Já Jesus, mesmo, que tinha tão dôces illusões, -declarára que pobres sempre os haveria... - ---Jesus viveu ha muito tempo, Jesus não sabia tudo... Hoje sabe-se mais, -os senhores sabem muito mais... É necessario arranjar-se outra -sociedade, e depressa, em que não haja miseria. Em Londres, ás vezes, -por aquellas grandes neves, ha criancinhas pelos portaes a tiritar, a -gemer de fome... É um horror! E em Paris então! É que se não vê senão o -boulevard; mas quanta pobreza, quanta necessidade... - -Os seus bellos olhos quasi se enchiam de lagrimas. E cada uma d'estas -palavras trazia todas as complexas bondades da sua alma--como n'um só -sopro podem vir todos os aromas esparsos de um jardim. - -Foi um encanto para Carlos quando Maria o associou ás suas caridades, -pedindo-lhe para ir vêr a irmã da sua engommadeira que tinha -rheumatismo, e o filho da snr.^a Augusta, a velha do patamar, que estava -tisico. Carlos cumpria esses encargos com o fervor de acções religiosas. -E n'estas piedades achava-lhe semelhanças com o avô. Como Affonso, todo -o soffrimento dos animaes a consternava. Um dia viera indignada da Praça -da Figueira, quasi com idéas de vingança, por ter visto nas tendas dos -gallinheiros aves e coelhos apinhados em cestos, soffrendo durante dias -as torturas da immobilidade e a anciedade da fome. Carlos levava estes -bellas coleras para o Ramalhete, increpava violentamente o marquez, que -era membro da _Sociedade protectora dos animaes_. O marquez, indignado -tambem, jurava justiça, fallava em cadêas, em costa d'Africa... E -Carlos, commovido, ficava a pensar quanta larga e distante influencia -póde ter, mesmo isolado de tudo, um coração que é justo. - -Uma tarde fallaram do Damaso. Ella achava-o insupportavel, com a sua -petulancia, os olhos bugalhudos, as perguntas nescias. V. exc.^a acha -Nice elegante? V. exc.^a prefere a capella de S. João Baptista a -_Notre-Dame_?... - ---E então a insistencia de fallar de pessoas que eu não conheço! A -snr.^a condessa de Gouvarinho, e os chás da snr.^a condessa de -Gouvarinho, e a frisa da snr.^a condessa de Gouvarinho, e a preferencia -que a snr.^a condessa de Gouvarinho tem por elle... E isto horas! Eu ás -vezes tinha medo de adormecer... - -Carlos fez-se escarlate. Porque trouxera ella, entre todos, o nome da -Gouvarinho? Tranquillisou-se, vendo-a rir simples e limpidamente. -Decerto não sabia quem era Gouvarinho. Mas, para sacudir logo d'entre -elles esse nome, começou a fallar de Mr. Guimarães, o famoso tio do -Damaso, o amigo de Gambetta, o influente da Republica... - ---O Damaso tem-me dito que v. exc.^a o conhece muito... - -Ella erguera os olhos, com um fugitivo rubor no rosto. - ---Mr. Guimarães?... Sim, conheço muito... Ultimamente viamo-nos menos, -mas elle era muito amigo da mamã. - -E depois d'um silencio, d'um curto sorriso, recomeçando a puxar o seu -longo fio de lã: - ---Pobre Guimarães, coitado! A sua influencia na Republica é traduzir -noticias dos jornaes hespanhoes e italianos para o _Rappel_, que d'isso -é que vive... Se é amigo de Gambetta, não sei, Gambetta tem amigos tão -extraordinarios... Mas o Guimarães, aliás bom homem e homem honrado, é -um grutesco, uma especie de Calino republicano. E tão pobre, coitado! O -Damaso, que é rico, se tivesse decencia, ou o menor sentimento, não o -deixava viver assim tão miseravelmente. - ---Mas então essas carruagens do tio, esse luxo do tio, de que falla o -Damaso...? - -Ella encolheu mudamente os hombros; e Carlos sentiu pelo Damaso um asco -intoleravel. - -Pouco a pouco nas suas conversas foi havendo uma intimidade mais -penetrante. Ella quiz saber a idade de Carlos, elle fallou-lhe do avô. E -durante essas horas suaves em que ella, silenciosa, ia picando a -talagarça, elle contou-lhe a sua vida passada, os planos de carreira, os -amigos, e as viagens... Agora ella conhecia a paizagem de Santa Olavia, -o reverendo Bonifacio, as excentricidades do Ega. Um dia quiz que Carlos -lhe explicasse longamente a idéa do seu livro _A medicina antiga e -moderna_. Approvou, com sympathia, que elle pintasse as figuras dos -grandes medicos, bemfeitores da humanidade. Porque se glorificariam só -guerreiros e fortes? A vida salva a uma criança parecia-lhe coisa bem -mais bella que a batalha de Austerlitz. E estas palavras que dizia com -simplicidade, sem mesmo erguer os olhos do seu bordado, cahiam no -coração de Carlos e ficavam lá muito tempo, palpitando e brilhando... - -Elle tinha-lhe feito assim largamente todas as confissões;--e ainda não -sabia nada do seu passado, nem mesmo a terra em que nascera, nem sequer -a rua que habitava em Paris. Não lhe ouvira murmurar jámais o nome do -marido, nem fallar d'um amigo ou d'uma alegria da sua casa. Parecia não -ter em França, onde vivia, nem interesses, nem lar;--e era realmente -como a deusa que elle ideára, sem contactos anteriores com a terra, -descida da sua nuvem d'oiro para vir ter alli, n'aquelle andar alugado -da rua de S. Francisco, o seu primeiro estremecimento humano. - -Logo na primeira semana das visitas de Carlos tinham faltado -d'affeições. Ella acreditava candidamente que podesse haver, entre uma -mulher e um homem, uma amizade pura, immaterial, feita da concordancia -amavel de dois espiritos delicados. Carlos jurou que tambem tinha fé -n'essas bellas uniões, todas d'estima, todas de razão--comtanto que se -lhes misturasse, ao de leve que fosse, uma ponta de ternura... Isso -perfumava-as d'um grande encanto--e não lhes diminuia a sinceridade. E, -sob estas palavras um pouco diffusas, murmuradas por entre as malhas do -bordado e com lentos sorrisos, ficára subtilmente estabelecido que entre -elles só deveria haver um sentimento assim, casto, legitimo, cheio de -suavidade e sem tormentos. - -Que importava a Carlos? Comtanto que podesse passar aquella hora na -poltrona de cretone, contemplando-a a bordar, e conversando em coisas -interessantes, ou tornadas interessantes pela graça da sua pessoa; -comtanto que visse o seu rosto, ligeiramente córado, baixar-se, com a -lenta attracção d'uma caricia, sobre as flôres que lhe trazia; comtanto -que lhe afagasse a alma a certeza de que o pensamento d'ella o ficava -seguindo sympathicamente através do seu dia, mal elle deixava aquella -adorada sala de reps vermelho--o seu coração estava satisfeito, -esplendidamente. - -Não pensava mesmo que aquella ideal amizade, d'intenção casta, era o -caminho mais seguro para a trazer, brandamente enganada, aos seus braços -ardentes d'homem. No deslumbramento que o tomára ao vêr-se de repente -admittido a uma intimidade que julgára impenetravel,--os seus desejos -desappareciam: longe d'ella, ás vezes, ainda ousavam ir temerariamente -até á esperança d'um beijo, ou d'uma fugitiva caricia com a ponta dos -dedos; mas apenas transpunha a sua porta, e recebia o calmo raio do seu -olhar negro, cahia em devoção, e julgaria um ultraje bestial roçar -sequer as prégas do seu vestido. - -Foi aquelle decerto o periodo mais delicado da sua vida. Sentia em si -mil coisas finas, novas, d'uma tocante frescura. Nunca imaginára que -houvesse tanta felicidade em olhar para as estrellas quando o céo está -limpo; ou em descer de manhã ao jardim para escolher uma rosa mais -aberta. Tinha na alma um constante sorriso--que os seus labios repetiam. -O marquez achava-lhe o ar baboso e abençoador... - -Ás vezes, passeando só no seu quarto, perguntava a si mesmo onde o -levaria aquelle grande amor. Não sabia. Tinha diante de si os tres mezes -em que ella estaria em Lisboa, e em que ninguem mais senão elle -occuparia a velha cadeira ao lado do seu bordado. O marido andava longe, -separado por legoas de mar incerto. Depois elle era rico, e o mundo era -largo... - -Conservava sempre as suas grandes idéas do trabalho, querendo que no seu -dia só houvesse horas nobres,--e que aquellas que não pertenciam ás -puras felicidades do amor, pertencessem ás alegrias fortes do estudo. Ia -ao laboratorio, ajuntava algumas linhas ao seu manuscripto. Mas antes da -visita á rua de S. Francisco não podia disciplinar o espirito, inquieto, -n'um tumulto d'esperanças; e depois de voltar de lá, passava o dia a -recapitular o que ella dissera, o que elle respondera, os seus gestos, a -graça de certo sorriso... Fumava então cigarrettes, lia os poetas. - -Todas as noites no escriptorio d'Affonso se formava a partida de -_whist_. O marquez batia-se ao dominó com o Taveira, enfronhados ambos -n'aquelle vicio, com um rancor crescente que os levava a injurias. -Depois das corridas, o secretario de Steinbroken começára a vir ao -Ramalhete; mas era um inutil, nem cantava sequer como o seu chefe as -balladas da Filandia; cahido no fundo d'uma poltrona, de casaca, de -vidro no olho, bamboleando a perna, cofiava silenciosamente os seus -longos bigodes tristes. - -O amigo que Carlos gostava de vêr entrar era o Cruges--que vinha da rua -de S. Francisco, trazia alguma coisa do ar que Maria Eduarda respirava. -O maestro sabia que Carlos ia todas as manhãs ao predio vêr a «miss -ingleza»; e muitas vezes, innocentemente, ignorando o interesse de -coração com que Carlos o escutava, dava-lhe as ultimas noticias da -visinha... - ---A visinha lá ficou agora a tocar Mendelhson... Tem execução, tem -expressão, a visinha... Ha alli estofo... E entende o seu Choppin. - -Se elle não apparecia no Ramalhete, Carlos ia a casa buscal-o: entravam -no Gremio, fumavam um charuto n'alguma sala isolada, fallando da -visinha; Cruges achava-lhe «um verdadeiro typo de _grande dame_». - -Quasi sempre encontravam o conde de Gouvarinho, que vinha ver (como elle -dizia a faiscar d'ironia) o que se passava «no paiz do snr. Gambetta». -Parecera remoçar ultimamente, mais ligeiro nos modos, com uma claridade -d'esperança nas lunetas, na fronte erguida. Carlos perguntava-lhe pela -condessa. Lá estava no Porto, nos seus deveres de filha... - ---E seu sogro? - -O conde baixava a face radiante, para murmurar cava e resignadamente: - ---Mal. - - -Uma tarde, Carlos conversava com Maria Eduarda, acariciando _Niniche_ -que se lhe viera sentar nos joelhos, quando Romão entreabriu -discretamente o reposteiro, e baixando a voz, com um ar embaraçado, um -ar de cumplicidade, murmurou: - ---É o snr. Damaso!... - -Ella olhou o Romão, surprehendida d'aquelles modos, e quasi -escandalisada. - ---Pois bem, mande entrar! - -E Damaso rompeu pela sala, carregado de luto, de flôr ao peito, -gorducho, risonho, familiar, com o chapeu na mão, trazendo dependurado -por um barbante um grande embrulho de papel pardo... Mas ao vêr Carlos -alli, intimamente, de cadellinha no collo, estacou assombrado, com o -olho esbugalhado, como tonto. Emfim desembaraçou as mãos, veio -comprimentar Maria Eduarda quasi de leve,--e voltando-se logo para -Carlos, de braços abertos, todo o seu espanto trasbordou ruidosamente: - ---Então tu aqui, homem? Isto é que é uma surpreza! Ora quem me diria!... -Eu estava mais longe... - -Maria Eduarda, incommodada com aquelle alarido, indicou-lhe vivamente -uma cadeira, interrompeu um instante o bordado, quiz saber como elle -tinha chegado. - ---Perfeitamente, minha senhora... Um bocado cançado, como é natural... -Venho direitinho de Penafiel... Como v. exc.^a vê--e mostrou o seu luto -pesado--acabo de passar por um grande desgosto. - -Maria Eduarda murmurou uma palavra de sentimento, vaga e fria. Damaso -pousára os olhos no tapete. Vinha da provincia cheio de côr, cheio de -sangue; e como cortára a barba (que havia mezes deixára crescer para -imitar Carlos) parecia agora mais bochechudo e mais nedio. As côxas -roliças estalavam-lhe de gordura dentro da calça de casimira preta. - ---E então, perguntou Maria Eduarda, temol-o por cá algum tempo? - -Elle deu um puxãosinho á cadeira, mais para junto d'ella, e outra vez -risonho: - ---Agora, minha senhora, ninguem me arranca de Lisboa! Podem-me morrer... -Isto é, credo! teria grande ferro se me morresse alguem. O que quero -dizer é que ha de custar a arrancar-me d'aqui! - -Carlos continuava muito socegadamente a acariciar os pêllos da -_Niniche_. E houve então um pequeno silencio. Maria Eduarda retomára o -bordado. E Damaso, depois de sorrir, de tossir, de dar um geito ao -bigode, estendeu a mão para acariciar tambem _Niniche_ sobre os joelhos -de Carlos. Mas a cadellinha, que havia momentos o espreitava com o olho -desconfiado, ergueu-se, rompeu a ladrar furiosa. - ---_C'est moi, Niniche!_ dizia Damaso, recuando a cadeira. _C'est moi, -ami... Alors, Niniche_... - -Foi necessario que Maria Eduarda reprehendesse severamente _Niniche_. E, -aninhada de novo no collo de Carlos, ella continuou a espreitar Damaso, -rosnando, e com rancor. - ---Já me não conhece, dizia elle embaçado, é curioso... - ---Conhece-o perfeitamente, acudiu Maria Eduarda muito séria. Mas não sei -o que o snr. Damaso lhe fez, que ella tem-lhe odio. É sempre este -escandalo. - -Damaso balbuciava, escarlate: - ---Ora essa, minha senhora! O que lhe fiz?... Caricias, sempre -caricias... - -E então não se conteve, fallou com ironia, amargamente, das amizades -novas de Mademoiselle _Niniche_. Alli estava nos braços d'outro, -emquanto que elle, o amigo velho, era deitado ao canto... - -Carlos ria. - ---Ó Damaso, não a accuses de ingratidão... Pois se a snr.^a D. Maria -Eduarda está a dizer que ella sempre te teve odio... - ---Sempre! exclamou Maria. - -Damaso sorria tambem, lividamente. Depois, tirando um lenço de barra -negra, limpando os beiços e mesmo o suor do pescoço, lembrou a Maria -Eduarda como ella o tinha desapontado no dia das corridas... Elle toda a -tarde á espera... - ---Eram vesperas de partida, disse ella. - ---Sim, bem sei, o marido de v. exc.^a... E como vai o snr. Castro Gomes? -V. exc.^a já recebeu noticias? - ---Não, respondeu ella com o rosto sobre o bordado. - -Damaso cumpriu ainda outros deveres. Perguntou por Mademoiselle Rosa. -Depois por Cri-cri. Era necessario não esquecer Cri-cri... - ---Pois v. exc.^a--continuou elle, cheio subitamente de -loquacidade--perdeu, que as corridas estiveram esplendidas... Nós ainda -não nos vimos depois das corridas, Carlos. Ah, sim, vimo-nos na -estação... Pois não é verdade que estiveram muito _chics_? Olhe, minha -senhora, d'uma coisa póde v. exc.^a estar certa, é que hippodromo mais -bonito não ha lá fóra. Uma vista até á barra, que é d'appetite... Até se -vêem entrar os navios... Pois não é assim, Carlos? - ---Sim, disse Carlos, sorrindo. Não é propriamente um campo de -corridas... É verdade que não ha tambem propriamente cavallos de -corridas... Verdade seja que não ha jockeys... Ora é verdade que não ha -apostas... Mas é verdade tambem que não ha publico... - -Maria Eduarda ria, alegremente. - ---Mas então? - ---Vêem-se entrar os navios, minha senhora... - -Damaso protestava, com as orelhas vermelhas. Era realmente querer dizer -mal á força... Não senhor, não senhor!... Eram muito boas corridas. Tal -qual como lá fóra, as mesmas regras, tudo... - ---Até na pesagem, acrescentou elle muito sério, fallamos sempre inglez! - -Repetiu ainda que as corridas eram _chics_. Depois não achou mais -nada:--e fallou de Penafiel, onde chovera sempre tanto que elle vira-se -forçado a ficar em casa, estupidamente, a lêr... - ---Uma massada! Ainda se houvesse alli umas mulheres para ir dar um -bocado de cavaco... Mas qual! Uns monstros. E eu, lavradeiras, raparigas -de pé descalço, não tolero... Ha gente que gosta... Mas eu, acredite v. -exc.^a, não tolero... - -Carlos corára: mas Maria Eduarda parecia não ter ouvido, occupada a -contar attentamente as malhas do seu bordado. - -De repente Damaso recordou-se que tinha alli um presentinho para a -snr.^a D. Maria Eduarda. Mas não imaginasse que era alguma -preciosidade... Verdadeiramente até o presente era para Mademoiselle -Rosa. - ---Olhe, para não estar com mysterios, sabe o que é? Tenho-o alli no -embrulhosinho de papel pardo... São seis barrilinhos d'ovos molles -d'Aveiro. É um dôce muito célebre, mesmo lá fóra. Só o de Aveiro é que -tem _chic_... Pergunte v. exc.^a ao Carlos. Pois não é verdade, Carlos, -que é uma delicia, até conhecido lá fóra? - ---Ah, certamente, murmurou Carlos, certamente... - -Pousára _Niniche_ no chão, erguera-se, fôra buscar o seu chapéo. - ---Já?... perguntou-lhe Maria Eduarda, com um sorriso que era só para -elle. Até ámanhã, então! - -E voltou-se logo para o Damaso, esperando vêl-o erguer-se tambem. Elle -conservou-se installado, com um ar de demora, familiar, e bamboleando a -perna. Carlos estendeu-lhe dois dedos. - ---_Au revoir_, disse o outro. Recados lá no Ramalhete; hei de -apparecer!... - -Carlos desceu as escadas, furioso. - -Alli ficava pois aquelle imbecil impondo a sua pessoa, grosseiramente, -tão obtuso que não percebia o enfado d'ella, a sua regelada seccura! E -para que ficava? Que outras crassas banalidades tinha ainda a soltar, em -calão, e de perna traçada? E de repente lembrou-lhe o que elle lhe -dissera na noite do jantar do Ega, á porta do Hotel Central, a respeito -da propria Maria Eduarda, e do seu systema com mulheres «que era o -_atracão_». Se aquelle idiota, de repente, abrazado e bestial, ousasse -um ultraje? A supposição era insensata, talvez--mas reteve-o no pateo, -applicando o ouvido para cima, com idéas ferozes de esperar alli o -Damaso, prohibir-lhe de tornar a subir aquella escada, e, á menor -reflexão d'elle, esmagar-lhe o craneo nas lages... - -Mas sentiu em cima a porta abrir-se, e sahiu vivamente, no receio de ser -assim surprehendido á escuta. O coupé do Damaso estacionava na rua. -Então veio-lhe uma curiosidade mordente de saber quanto tempo elle -ficaria alli com Maria Eduarda. Correu ao Gremio; e apenas abrira uma -vidraça--viu logo o Damaso sahir do portão, saltar para o coupé, bater -com força a portinhola. Pareceu-lhe que trazia o ar escorraçado, e -subitamente teve dó d'aquelle grutesco... - -N'essa noite, depois de jantar, Carlos só no seu quarto fumava, -enterrado n'uma poltrona, relendo uma carta do Ega recebida n'essa -manhã,--quando appareceu o Damaso. E, sem pousar mesmo o chapéo, logo da -porta, exclamou, com o mesmo espanto da manhã: - ---Então dize-me cá! Como diabo te vou eu encontrar hoje com a -brazileira?... Como a conheceste tu? Como foi isso? - -Sem mover a cabeça do espaldar da poltrona, cruzando as mãos sobre os -joelhos em cima da carta do Ega, Carlos, agora cheio de bom humor, -disse, com uma dôce reprehensão paternal: - ---Pois então tu vaes expôr a uma senhora as tuas opiniões lubricas sobre -as lavradeiras de Penafiel! - ---Não se trata d'isso, sei muito bem o que hei de expôr! exclamou o -outro, vermelho. Conta lá, anda... Que diabo! Parece-me que tenho -direito a saber... Como a conheceste tu? - -Carlos, imperturbavel, cerrando os olhos como para se recordar, começou, -n'um tom lento e solemne de recitativo: - ---Por uma tepida tarde de primavera, quando o sol se afundava em nuvens -d'oiro, um mensageiro esfalfado pendurava-se da campainha do Ramalhete. -Via-se-lhe na mão uma carta, lacrada com sello heraldico; e a expressão -do seu semblante... - -Damaso, já zangado, atirou com o chapéo para cima da mesa. - ---Parece-me que era mais decente deixar-te d'esses mysterios! - ---Mysterios? Tu vens obtuso, Damaso. Pois tu entras n'uma casa onde -existe ha quasi um mez uma pessoa gravemente doente, e ficas assombrado, -petrificado, ao encontrar lá o medico! Quem esperavas tu vêr lá? Um -photographo? - ---Então quem está doente? - -Carlos, em poucas palavras, disse-lhe a bronchite da ingleza--emquanto o -Damaso, sentado á beira do sofá, mordendo o charuto sem lume, olhava -para elle desconfiado. - ---E como soube ella onde tu moravas? - ---Como se sabe onde mora o rei; onde é a alfandega; de que lado luz a -estrella da tarde; os campos onde foi Troia... Estas coisas que se -aprendem nas aulas de instrucção primaria... - -O pobre Damaso deu alguns passos pela sala, embezerrado, com as mãos nos -bolsos. - ---Ella tem agora lá o Romão, o que foi meu criado, murmurou depois d'um -silencio. Eu tinha-lh'o recommendado... Ella leva-se muito pelo que eu -lhe digo... - ---Sim, tem, por uns dias, emquanto o Domingos foi á terra. Vai mandal-o -embora, é um imbecil, e tu tinhas-lhe ensinado más maneiras... - -Então Damaso atirou-se para o canto do sofá e confessou que ao entrar na -sala, quando dera com os olhos em Carlos, de cadellinha no collo, ficára -furioso... Emfim, agora que sabia que era por doença, bem, tudo se -explicava... Mas primeiro parecera-lhe que andava alli tramoia... Só com -ella, ainda pensou em lhe perguntar: depois receou que não fosse -delicado; e além d'isso ella estava de mau humor... - -E acrescentou logo, accendendo o charuto: - ---Que apenas tu sahiste, pôz-se melhor, mais á vontade... Rimos muito... -Eu fiquei ainda até tarde, quasi duas horas mais; era perto das cinco -quando sahi. Outra coisa, ella fallou-te alguma vez de mim? - ---Não. É uma pessoa de bom gosto; e sabendo que nos conhecemos, não se -atreveria a dizer-me mal de ti. - -Damaso olhou-o, esgazeado: - ---Ora essa!... Mas podia ter dito bem! - ---Não; é uma pessoa de bom senso, não se atreveria tambem. - -E erguendo-se vivamente, Carlos abraçou Damaso pela cinta, -acariciando-o, perguntando-lhe pela herança do titi, e em que amores, em -que viagens, em que cavallos de luxo ia gastar os milhões... - -Damaso, sob aquellas festas alegres, permanecia frio, amuado, olhando-o -de revez. - ---Olha que tu, disse elle, parece-me que me vaes sahindo tambem um -traste... Não ha a gente fiar-se em ninguem! - ---Tudo na terra, meu Damaso, é apparencia e engano! - -Seguiram d'alli á sala do bilhar fazer «a partida de reconciliação». E -pouco a pouco, sob a influencia que exercia sempre sobre elle o -Ramalhete, Damaso foi socegando, risonho já, gozando de novo a sua -intimidade com Carlos no meio d'aquelle luxo sério, e tratando-o outra -vez por «menino». Perguntou pelo snr. Affonso da Maia. Quiz saber se o -bello marquez tinha apparecido. E o Ega, o grande Ega?... - ---Recebi carta d'elle, disse Carlos. Vem ahi, temol-o talvez cá no -sabbado. - -Foi um espanto para o Damaso. - ---Homem! essa é curiosa! E eu encontrei os Cohens, hoje!... Vieram ha -dois dias de Southampton... Jógo eu? - -Jogou, falhou a carambola. - ---Pois é verdade, encontrei-os hoje, fallei-lhes um instante... E a -Rachel vem melhor, vem mais gorda... Trazia uma _toilette_ ingleza com -coisas brancas, coisas côr de rosa... _Chic_ a valer, parecia um -moranguinho! E então o Ega de volta?... Pois, menino, ainda temos -escandalo! - - - - -II - - -No sabbado, com effeito, Carlos, recolhendo ao Ramalhete de volta da rua -de S. Francisco, encontrou o Ega no seu quarto, mettido n'um fato de -cheviotte claro, e com o cabello muito crescido. - ---Não faças espalhafato, gritou-lhe elle, que eu estou em Lisboa -_incognito_! - -E em seguida aos primeiros abraços declarou que vinha a Lisboa, só por -alguns dias, unicamente para comer bem e para conversar bem. E contava -com Carlos para lhe fornecer esses requintes, alli, no Ramalhete... - ---Ha cá um quarto para mim? Eu por ora estou no _Hotel Hespanhol_, mas -ainda nem mesmo abri a mala... Basta-me uma alcova, com uma mesa de -pinho, larga bastante para se escrever uma obra sublime. - -Decerto! Havia o quarto em cima, onde elle estivera depois de deixar a -Villa Balzac. E mais sumptuoso agora, com um bello leito da Renascença, -e uma cópia dos _Borrachos_ de Velasquez. - ---Optimo covil para a arte! Velasquez é um dos Santos Padres do -naturalismo... A proposito, sabes com quem eu vim? Com a Gouvarinho. O -pai Tompson esteve á morte, arribou, depois o conde foi buscal-a. -Achei-a magra; mas com um ar ardente; e fallou-me constantemente de ti. - ---Ah! murmurou Carlos. - -Ega, de monoculo no olho e mãos nos bolsos, contemplava Carlos. - ---É verdade. Fallou de ti constantemente, irresistivelmente, -immoderadamente! Não me tinhas mandado contar isso... Sempre seguiste o -meu conselho, hein? Muito bem feita de corpo, não é verdade? E que tal, -no acto d'amor? - -Carlos córou, chamou-lhe grosseiro, jurou que nunca tivera com a -Gouvarinho senão relações superficiaes. Ia lá ás vezes tomar uma chavena -de chá; e á hora do Chiado acontecia-lhe, como a todo o mundo, conversar -com o conde sobre as miserias publicas, á esquina do Loreto. Nada mais. - ---Tu estás-me a mentir, devasso! dizia o Ega. Mas não importa. Eu hei de -descobrir tudo isso com o meu olho de Balzac, na segunda-feira.... -Porque nós vamos lá jantar na segunda-feira. - ---Nós... Nós, quem? - ---Nós. Eu e tu, tu e eu. A condessa convidou-me no comboio. E o -Gouvarinho, como compete ao individuo d'aquella especie, acrescentou -logo que haviamos de ter tambem «o nosso Maia». O Maia d'elle, e o Maia -d'ella... Santo accordo! Suavissimo arranjo! - -Carlos olhou-o com severidade. - ---Tu vens obsceno de Celorico, Ega. - ---É o que se aprende no seio da Santa Madre Igreja. - -Mas tambem Carlos tinha uma novidade que o devia fazer estremecer. O Ega -porém já sabia. A chegada dos Cohens, não é verdade? Lêra-o logo n'essa -manhã, na _Gazeta Illustrada_, no _high-life_. Lá se dizia -respeitosamente que s. exc.^{as} tinham regressado do seu passeio pelo -estrangeiro. - ---E que impressão te fez? perguntou Carlos rindo. - -O outro encolheu brutalmente os hombros: - ---Fez-me o effeito de haver um cabrão mais na cidade. - -E, como Carlos o accusava outra vez de trazer de Celorico uma lingua -immunda, o Ega, um pouco córado, arrependido talvez, lançou-se em -considerações criticas, clamando pela necessidade social de dar ás -coisas o nome exacto. Para que servia então o grande movimento -naturalista do seculo? Se o vicio se perpetuava, é porque a sociedade, -indulgente e romanesca, lhe dava nomes que o embellezavam, que o -idealisavam... Que escrupulo póde ter uma mulher em beijocar um terceiro -entre os lençoes conjugaes, se o mundo chama a isso sentimentalmente um -romance, e os poetas o cantam em estrophes d'ouro? - ---E a proposito, a tua comedia, o _Lodaçal_? perguntou Carlos, que -entrára um instante para a alcova de banho. - ---Abandonei-a, disse o Ega. Era feroz de mais... E além d'isso fazia-me -remexer na podridão lisboeta, mergulhar outra vez na sargeta humana... -Affligia-me... - -Parou diante do grande espelho, deu um olhar descontente ao seu jaquetão -claro e ás botas com mau verniz. - ---Preciso enfardelar-me de novo, Carlinhos... O Poole naturalmente -mandou-te fato de verão, hei de querer examinar esses córtes da alta -civilisação... Não ha negal-o, diabo, esta minha linha está chinfrim! - -Passou uma escova pelo bigode, e continuou fallando para dentro, para a -alcova de banho: - ---Pois, menino, eu agora o que necessito é o regimen da Chimera. Vou-me -atirar outra vez ás _Memorias_. Ha de se fazer ahi uma quantidade d'arte -colossal n'esse quarto que me destinas, diante de Velasquez... E a -proposito, é necessario ir comprimentar o velho Affonso, uma vez que -elle me vai dar o pão, o tecto, e a enxerga... - -Foram encontrar Affonso da Maia no escriptorio, na sua velha poltrona, -com um antigo volume da _Illustração franceza_ aberto sobre os joelhos, -mostrando as estampas a um pequeno bonito, muito moreno, d'olho vivo, e -cabello encarapinhado. O velho ficou contentissimo ao saber que o Ega -vinha por algum tempo alegrar o Ramalhete com a sua bella phantasia. - ---Já não tenho phantasia, snr. Affonso da Maia! - ---Então esclarecêl-o com a tua clara razão, disse o velho rindo. Estamos -cá precisando d'ambas as coisas, John. - -Depois apresentou-lhe aquelle pequeno cavalheiro, o snr. Manoelinho, -rapazinho amavel da visinhança, filho do Vicente, mestre d'obras; o -Manoelinho vinha ás vezes animar a solidão d'Affonso--e alli folheavam -ambos livros d'estampas e tinham conversas philosophicas. Agora, -justamente, estava elle muito embaraçado por não lhe saber explicar como -é que o general Canrobert (de quem estavam admirando o garbo sobre o seu -cavallo empinado) tendo mandado matar gente, muita gente, em batalhas, -não era mettido na cadêa... - ---Está visto! exclamou o pequeno, esperto e desembaraçado, com as mãos -cruzadas atraz das costas. Se mandou matar gente deviam-no ferrar na -cadêa! - ---Hein, amigo Ega! dizia Affonso rindo. Que se ha de responder a esta -bella logica? Olha, filho, agora que estão aqui estes dois senhores que -são formados em Coimbra, eu vou estudar esse caso... Vai tu vêr os -bonecos alli para cima da mesa... E depois vão sendo horas d'ires lá -dentro á Joanna, para merendares. - -Carlos, ajudando o pequeno a accommodar-se á mesa com o seu grande -volume d'estampas, pensava quanto o avô, com aquelle seu amor por -crianças, gostaria de conhecer Rosa! - -Affonso no emtanto perguntava tambem ao Ega pela comedia. O quê! Já -abandonada? Quando acabaria então o bravo John de fazer bocados -incompletos d'obras-primas?...--Ega queixou-se do paiz, da sua -indifferença pela arte. Que espirito original não esmoreceria, vendo em -torno de si esta espessa massa de burguezes, amodorrada e crassa, -desdenhando a intelligencia, incapaz de se interessar por uma idéa -nobre, por uma phrase bem feita? - ---Não vale a pena, snr. Affonso da Maia. N'este paiz, no meio d'esta -prodigiosa imbecilidade nacional, o homem de senso e de gosto deve -limitar-se a plantar com cuidado os seus legumes. Olhe o Herculano... - ---Pois então, acudiu o velho, planta os teus legumes. É um serviço á -alimentação publica. Mas tu nem isso fazes! - -Carlos, muito sério, apoiava o Ega. - ---A unica coisa a fazer em Portugal, dizia elle, é plantar legumes, -emquanto não ha uma revolução que faça subir á superficie alguns dos -elementos originaes, fortes, vivos, que isto ainda encerre lá no fundo. -E se se vir então que não encerra nada, demittamo-nos logo -voluntariamente da nossa posição de paiz para que não temos elementos, -passemos a ser uma fertil e estupida provincia hespanhola, e plantemos -mais legumes! - -O velho escutava com melancolia estas palavras do neto em que sentia -como uma decomposição da vontade, e que lhe pareciam ser apenas a -glorificação da sua inercia. Terminou por dizer: - ---Pois então façam vocês essa revolução. Mas pelo amor de Deus, façam -alguma coisa! - ---O Carlos já não faz pouco, exclamou Ega, rindo. Passeia a sua pessoa, -a sua toilette e o seu phaeton, e por esse facto educa o gosto! - -O relogio Luiz XV interrompeu-os--lembrando ao Ega que devia ainda, -antes de jantar, ir buscar a sua mala ao Hotel Hespanhol. Depois no -corredor confessou a Carlos que, antes d'ir ao Hespanhol, queria correr -ao Fillon, ao photographo, vêr se podia tirar um bonito retrato. - ---Um retrato? - ---Uma surpreza que tem d'ir d'aqui a tres dias para Celorico, para o dia -d'annos d'uma creaturinha que me adoçou o exilio. - ---Oh Ega! - ---É horroroso, mas então? É a filha do padre Corrêa, filha conhecida -como tal; além d'isso casada com um proprietario rico da visinhança, -reaccionario odioso... De modo que, bem vês, esta dupla peça a pregar á -Religião e á Propriedade... - ---Ah! n'esse caso... - ---Ninguem se deve eximir, amigo, aos seus grandes deveres democraticos! - - -Na segunda-feira seguinte choviscava quando Carlos e Ega, no coupé -fechado, partiram para o jantar dos Gouvarinhos. Desde a chegada da -condessa Carlos vira-a só uma vez, em casa d'ella; e fôra uma meia hora -desagradavel, cheia de malestar, com um ou outro beijo frio, e -recriminações infindaveis. Ella queixára-se das cartas d'elle, tão -raras, tão seccas. Não se puderam entender sobre os planos d'esse verão, -ella devendo ir para Cintra onde já alugára casa, Carlos fallando no -dever de acompanhar o avô a Santa Olavia. A condessa achava-o -distrahido: elle achou-a exigente. Depois ella sentou-se um instante -sobre os seus joelhos e aquelle leve e delicado corpo pareceu a Carlos -de um fastidioso peso de bronze. - -Por fim a condessa arrancára-lhe a promessa de a ir encontrar, -justamente n'essa segunda-feira de manhã, a casa da titi, que estava em -Santarem;--porque tinha sempre o appetite perverso e requintado de o -apertar nos braços nús, em dias que o devesse receber na sua sala, mais -tarde, e com ceremonia. Mas Carlos faltára,--e agora, rodando para casa -d'ella, impacientavam-n'o já as queixas que teria de ouvir nos vãos de -janella, e as mentiras chôchas que teria de balbuciar... - -De repente o Ega, que fumava em silencio, abotoado no seu paletot de -verão, bateu no joelho de Carlos, e entre risonho e sério: - ---Dize-me uma coisa, se não é um segredo sacrosanto... Quem é essa -brazileira com quem tu agora passas todas as tuas manhãs? - -Carlos ficou um instante aturdido, com os olhos no Ega. - ---Quem te fallou n'isso? - ---Foi o Damaso que m'o disse. Isto é, o Damaso que m'o rugiu... Porque -foi de dentes rilhados, a dar murros surdos n'um sofá do Gremio, e com -uma côr d'apoplexia, que elle me contou tudo... - ---Tudo o quê? - ---Tudo. Que te apresentára a uma brazileira a quem se atirava, e que tu, -aproveitando a sua ausencia, te metteras lá, não sahias de lá... - ---Tudo isso é mentira! exclamou o outro, já impaciente. - -E Ega, sempre risonho: - ---Então «que é a verdade», como perguntava o velho Pilatus ao chamado -Jesus Christo? - ---É que ha uma senhora a quem o Damaso suppunha ter inspirado uma -paixão, como suppõe sempre, e que, tendo-lhe adoecido a governante -ingleza com uma bronchite, me mandou chamar para eu a tratar. Ainda não -está melhor, eu vou vêl-a todos os dias. E Madame Gomes, que é o nome da -senhora, que nem brazileira é, não podendo tolerar o Damaso, como -ninguem o tolera, tem-lhe fechado a sua porta. Esta é a verdade; mas -talvez eu arranque as orelhas ao Damaso! - -Ega contentou-se em murmurar: - ---E ahi está como se escreve a historia... vá-se lá a gente fiar em -Guizot! - -Em silencio, até casa da Gouvarinho, Carlos foi ruminando a sua cólera -contra o Damaso. Ahi estava pois rasgada por aquelle imbecil a penumbra -suave e favoravel em que se abrigára o seu amor! Agora já se pronunciava -o nome de Maria Eduarda no Gremio: o que o Damaso dissera ao Ega, -repetil-o-hia a outros, na Casa Havaneza, no restaurante Silva, talvez -nos lupanares: e assim o interesse supremo da sua vida seria d'ahi por -diante constantemente perturbado, estragado, sujo pela tagarellice reles -do Damaso! - ---Parece-me que temos cá mais gente, disse o Ega, ao penetrarem na -ante-camara dos Gouvarinhos, vendo sobre o canapé um paletot cinzento e -capas de sonhem. - -A condessa esperava-os na salinha ao fundo, chamada «do busto», vestida -de preto, com uma tira de velludo em volta do pescoço picada de tres -estrellas de diamantes. Uma cesta de esplendidas flôres quasi enchia a -mesa, onde se accumulavam tambem romances inglezes, e uma Revista dos -Dois Mundos em evidencia, com a faca de marfim entre as folhas. Além da -boa D. Maria da Cunha e da baroneza d'Alvim, havia uma outra senhora, -que nem Carlos nem Ega conheciam, gorda e vestida d'escarlate; e de pé, -conversando baixo com o conde, de mãos atraz das costas, um cavalheiro -alto, escaveirado, grave, com uma barba rala, e a commenda da Conceição. - -A condessa, um pouco córada, estendeu a Carlos a mão amuada e frouxa: -todos os seus sorrisos foram para o Ega. E o conde apoderou-se logo do -querido Maia, para o apresentar ao seu amigo o snr. Sousa Netto. O snr. -Sousa Netto já tinha o prazer de conhecer muito Carlos da Maia, como um -medico distincto, uma honra da Universidade... E era esta a vantagem de -Lisboa, disse logo o conde, o conhecerem-se todos de reputação, o -poder-se ter assim uma apreciação mais justa dos caracteres. Em Paris, -por exemplo, era impossivel; por isso havia tanta immoralidade, tanta -relaxação... - ---Nunca sabe a gente quem mette em casa. - -O Ega, entre a condessa e D. Maria, enterrado no divan, mostrando as -estrellinhas bordadas das meias, fazia-as rir com a historia do seu -exilio em Celorico, onde se distrahia compondo sermões para o abbade: o -abbade recitava-os; e os sermões, sob uma fórma mystica, eram de facto -affirmações revolucionarias que o santo varão lançava com fervor, -esmurrando o pulpito... A senhora de vermelho, sentada defronte, de mãos -no regaço, escutava o Ega, com o olhar espantado. - ---Imaginei que v. exc.^a tinha ido já para Cintra, veio dizer Carlos á -senhora baroneza, sentando-se junto d'ella. V. exc.^a é sempre a -primeira... - ---Como quer o senhor que se vá para Cintra com um tempo d'estes? - ---Com effeito, está infernal... - ---E que conta de novo? perguntou ella, abrindo lentamente o seu grande -leque preto. - ---Creio que não ha nada de novo em Lisboa, minha senhora, desde a morte -do snr. D. João VI. - ---Agora ha o seu amigo Ega, por exemplo. - ---É verdade, ha o Ega... Como o acha v. exc.^a, senhora baroneza? - -Ella nem baixou a voz para dizer: - ---Olhe, eu como o achei sempre um grande presumido e não gosto d'elle, -não posso dizer nada... - ---Oh senhora baroneza, que falta de caridade! - -O escudeiro annunciára o jantar. A condessa tomou o braço de Carlos,--e, -ao atravessar o salão, entre o frouxo murmurio de vozes e o rumor lento -das caudas de sêda, pôde dizer-lhe asperamente: - ---Esperei meia hora; mas comprehendi logo que estaria entretido com a -brazileira... - -Na sala de jantar, um pouco sombria, forrada de papel côr de vinho, -escurecida ainda por dois antigos paineis de paizagem tristonha, a mesa -oval, cercada de cadeiras de carvalho lavrado, resaltava alva e fresca, -com um esplendido cesto de rosas entre duas serpentinas douradas. Carlos -ficou á direita da condessa, tendo ao lado D. Maria da Cunha, que n'esse -dia parecia um pouco mais velha, e sorria com um ar cansado. - ---Que tem feito todo este tempo, que ninguem o tem visto? perguntou-lhe -ella, desdobrando o guardanapo. - ---Por esse mundo, minha senhora, vagamente... - -Defronte de Carlos, o snr. Sousa Netto, que tinha tres enormes coraes no -peitilho da camisa, estava já observando, emquanto remexia a sopa, que a -senhora condessa, na sua viagem ao Porto, devia ter encontrado nas ruas -e nos edificios grandes mudanças... A condessa, infelizmente, mal tinha -sahido durante o tempo que estivera no Porto. O conde, esse, é que -admirara os progressos da cidade. E especificou-os: elogiou a vista do -Palacio de Crystal; lembrou o fecundo antagonismo que existe entre -Lisboa e Porto; mais uma vez o comparou ao dualismo da Austria e da -Hungria. E através d'estas coisas graves, lançadas d'alto, com -superioridade e com peso, a baroneza e a senhora d'escarlate, aos dois -lados d'elle, fallavam do convento das Selesias. - -Carlos, no emtanto, comendo em silencio a sua sopa, ruminava as palavras -da condessa. Tambem ella conhecia já a sua intimidade com a -«brazileira». Era evidente pois que já andava alli, diffamante e torpe, -a tagarellice do Damaso. E quando o criado lhe offereceu Sauterne, -estava decidido a bater no Damaso. - -De repente ouviu o seu nome. Do fim da mesa uma voz dizia, pachorrenta e -cantada: - ---O snr. Maia é que deve saber... O snr. Maia já lá esteve. - -Carlos pousou vivamente o copo. Era a senhora d'escarlate que lhe -fallava, sorrindo, mostrando uns bonitos dentes sob o buço forte de -quarentona pallida. Ninguem lh'a apresentára, elle não sabia quem era. -Sorriu tambem, perguntou: - ---Onde, minha senhora? - ---Na Russia. - ---Na Russia?... Não, minha senhora, nunca estive na Russia. - -Ella pareceu um pouco desapontada. - ---Ah, é que me tinham dito... Não sei já quem me disse, mas era pessoa -que sabia... - -O conde ao fundo explicava-lhe amavelmente que o amigo Maia estivera -apenas na Hollanda. - ---Paiz de grande prosperidade, a Hollanda!... Em nada inferior ao -nosso... Já conheci mesmo um hollandez que era excessivamente -instruido... - -A condessa baixára os olhos, partindo vagamente um bocadinho de pão, -mais séria de repente, mais secca, como se a voz de Carlos, erguendo-se -tão tranquilla ao seu lado, tivesse avivado os seus despeitos. Elle, -então, depois de provar devagar o seu Sauterne, voltou-se para ella, -muito naturalmente e risonho: - ---Veja a senhora condessa! Eu nem tive mesmo idéa d'ir á Russia. Ha -assim uma infinidade de coisas que se dizem e que não são exactas... E -se se faz uma allusão ironica a ellas, ninguem comprehende a allusão nem -a ironia... - -A condessa não respondeu logo, dando com o olhar uma ordem muda ao -escudeiro. Depois, com um sorriso pallido: - ---No fundo de tudo que se diz ha sempre um facto, ou um bocado de facto -que é verdadeiro. E isso basta... Pelo menos a mim basta-me... - ---A senhora condessa tem então uma credulidade infantil. Estou vendo que -acredita que era uma vez uma filha d'um rei que tinha uma estrella na -testa... - -Mas o conde interpellava-o, o conde queria a opinião do seu amigo Maia. -Tratava-se do livro de um inglez, o major Bratt, que atravessára a -Africa, e dizia coisas perfidamente desagradaveis para Portugal. O conde -via alli só inveja--a inveja que nos têm todas as nações por causa da -importancia das nossas colonias, e da nossa vasta influencia na -Africa... - ---Está claro, dizia o conde, que não temos nem os milhões, nem a marinha -dos inglezes. Mas temos grandes glorias; o infante D. Henrique é de -primeira ordem; e a tomada d'Ormuz é um primor... E eu que conheço -alguma coisa de systemas coloniaes, posso affirmar que não ha hoje -colonias nem mais susceptiveis de riqueza, nem mais crentes no -progresso, nem mais liberaes que as nossas! Não lhe parece, Maia? - ---Sim, talvez, é possivel... Ha muita verdade n'isso... - -Mas Ega, que estivera um pouco silencioso, entalando de vez em quando o -monoculo no olho e sorrindo para a baroneza, pronunciou-se alegremente -contra todas essas explorações da Africa, e essas longas missões -geographicas... Porque não se deixaria o preto socegado, na calma posse -dos seus manipansos? Que mal fazia á ordem das coisas que houvesse -selvagens? Pelo contrario, davam ao Universo uma deliciosa quantidade de -pittoresco! Com a mania franceza e burgueza de reduzir todas as regiões -e todas as raças ao mesmo typo de civilisação, o mundo ia tornar-se -d'uma monotonia abominavel. Dentro em breve um touriste faria enormes -sacrificios, despezas sem fim, para ir a Tombuctu--para quê? Para -encontrar lá pretos de chapéo alto, a lêr o _Jornal dos Debates_! - -O conde sorria com superioridade. E a boa D. Maria, sahindo do seu vago -abatimento, movia o leque, dizia a Carlos, deleitada: - ---Este Ega! Este Ega! Que graça! Que _chic_! - -Então Sousa Netto, pousando gravemente o talher, fez ao Ega esta -pergunta grave: - ---V. exc.^a pois é em favor da escravatura? - -Ega declarou muito decididamente ao snr. Sousa Netto que era pela -escravatura. Os desconfortos da vida, segundo elle, tinham começado com -a libertação dos negros. Só podia ser sériamente obedecido, quem era -sériamente temido... Por isso ninguem agora lograva ter os seus sapatos -bem envernizados, o seu arroz bem cozido, a sua escada bem lavada, desde -que não tinha criados pretos em quem fosse licito dar vergastadas... Só -houvera duas civilisações em que o homem conseguira viver com razoavel -commodidade: a civilisação romana, e a civilisação especial dos -plantadores da Nova Orleans. Porque? porque n'uma e n'outra existira a -escravatura absoluta, a sério, com o direito de morte!... - -Durante um momento o snr. Sousa Netto ficou como desorganisado. Depois -passou o guardanapo sobre os beiços, preparou-se, encarou o Ega: - ---Então v. exc.^a n'essa idade, com a sua intelligencia, não acredita no -Progresso? - ---Eu não senhor. - -O conde interveio, affavel e risonho: - ---O nosso Ega quer fazer simplesmente um paradoxo. E tem razão, tem -realmente razão, porque os faz brilhantes... - -Estava-se servindo _Jambon aux épinards_. Durante um momento fallou-se -de paradoxos. Segundo o conde, quem os fazia tambem brilhantes e -difficeis de sustentar, excessivamente difficeis, era o Barros, o -ministro do reino... - ---Talento robusto, murmurou respeitosamente Sousa Netto. - ---Sim, pujante, disse o conde. - -Mas elle agora não fallava tanto do talento do Barros como parlamentar, -como homem d'estado. Fallava do seu espirito de sociedade, do seu -_esprit_... - ---Ainda este inverno nós lhe ouvimos um paradoxo brilhante! Até foi em -casa da snr.^a D. Maria da Cunha... V. exc.^a não se lembra, snr.^a D. -Maria? Esta minha desgraçada memoria! Ó Thereza, lembras-te d'aquelle -paradoxo do Barros? Ora sobre que era, meu Deus?... Emfim, um paradoxo -muito difficil de sustentar... Esta minha memoria!... Pois não te -lembras, Thereza? - -A condessa não se lembrava. E emquanto o conde ficava remexendo -anciosamente, com a mão na testa, as suas recordações,--a senhora -d'escarlate voltou a fallar de pretos, e de escudeiros pretos, e d'uma -cozinheira preta que tivera uma tia d'ella, a tia Villar... Depois -queixou-se amargamente dos criados modernos: desde que lhe morrera a -Joanna, que estava em casa havia quinze annos, não sabia que fazer, -andava como tonta, tinha só desgostos. Em seis mezes já vira quatro -caras novas. E umas desleixadas, umas pretenciosas, uma immoralidade!... -Quasi lhe fugiu um suspiro do peito, e trincando desconsoladamente uma -migalhinha de pão: - ---Ó baroneza, ainda tens a Vicenta? - ---Pois então não havia de ter a Vicenta?... Sempre a Vicenta... A snr.^a -D. Vicenta, se faz favor. - -A outra contemplou-a um instante, com inveja d'aquella felicidade. - ---E é a Vicenta que te penteia? - -Sim, era a Vicenta que a penteava. Ia-se fazendo velha, coitada... Mas -sempre caturra. Agora andava com a mania de aprender francez. Já sabia -verbos. Era de morrer, a Vicenta a dizer _j'aime_, _tu aimes_... - ---E a senhora baroneza, acudiu o Ega, começou por lhe mandar ensinar os -verbos mais necessarios. - -Está claro, dizia a baroneza, que aquelle era o mais necessario. Mas na -idade da Vicenta já de pouco lhe poderia servir! - ---Ah! gritou de repente o conde, deixando quasi cahir o talher. Agora me -lembro! - -Tinha-se lembrado emfim do soberbo paradoxo do Barros. Dizia o Barros -que os cães, quanto mais ensinados... Pois, não, não era isto! - ---Esta minha desgraçada memoria!... E era sobre cães. Uma coisa -brilhante, philosophica até! - -E, por se fallar de cães, a baroneza lembrou-se do _Tommy_, o galgo da -condessa; perguntou por _Tommy_. Já o não via ha que tempos, esse bravo -_Tommy_! A condessa nem queria que se fallasse no _Tommy_, coitado! -Tinham-lhe nascido umas coisas nos ouvidos, um horror... Mandára-o para -o Instituto, lá morrera. - ---Está deliciosa esta galantine, disse D. Maria da Cunha, inclinando-se -para Carlos. - ---Deliciosa. - -E a baroneza, do lado, declarou tambem a galantine uma perfeição. Com um -olhar ao escudeiro, a condessa fez servir de novo a galantine: e -apressou-se a responder ao snr. Sousa Netto, que, a proposito de cães, -lhe estava fallando da _Sociedade protectora dos animaes_. O snr. Sousa -Netto approvava-a, considerava-a como um progresso... E, segundo elle, -não seria mesmo de mais que o governo lhe désse um subsidio. - ---Que eu creio que ella vai prosperando... E merece-o, acredite a -senhora condessa que o merece... Estudei essa questão, e de todas as -sociedades que ultimamente se têm fundado entre nós, á imitação do que -se faz lá fóra, como a _Sociedade de Geographia_ e outras, a _Protectora -dos animaes_ parece-me decerto uma das mais uteis. - -Voltou-se para o lado, para o Ega: - ---V. exc.^a pertence? - ---Á _Sociedade protectora dos animaes_?... Não senhor, pertenço a outra, -á de _Geographia_. Sou dos protegidos. - -A baroneza teve uma das suas alegres risadas. E o conde fez-se -extremamente sério: pertencia á _Sociedade de Geographia_, considerava-a -um pilar do Estado, acreditava na sua missão civilisadora, detestava -aquellas irreverencias. Mas a condessa e Carlos tinham rido tambem:--e -de repente a frialdade que até ahi os conservára ao lado um do outro -reservados, n'uma ceremonia affectada, pareceu dissipar-se ao calor -d'esse riso trocado, no brilho dos dois olhares encontrando-se -irresistivelmente. Servira-se o Champagne, ella tinha uma côrzinha no -rosto. O seu pé, sem ella saber como, roçou pelo pé de Carlos; sorriram -ainda outra vez;--e, como no resto da mesa se conversava sobre uns -concertos classicos que ia haver no Price, Carlos perguntou-lhe, baixo, -com uma reprehensão amavel: - ---Que tolice foi essa da _brazileira_?... Quem lhe disse isso? - -Ella confessou-lhe logo que fôra o Damaso... O Damaso viera contar-lhe o -enthusiasmo de Carlos por essa senhora, e as manhãs inteiras que lá -passava, todos os dias, á mesma hora... Emfim o Damaso fizera-lhe -claramente entrevêr uma _liaison_. - -Carlos encolheu os hombros. Como podia ella acreditar no Damaso? Devia -conhecer-lhe bem a tagarellice, a imbecilidade... - ---É perfeitamente verdade que eu vou a casa d'essa senhora, que nem -brazileira é, que é tão portugueza como eu; mas é porque ella tem a -governante muito doente com uma bronchite, e eu sou o medico da casa. -Foi até o Damaso, elle proprio, que lá me levou como medico! - -No rosto da condessa espalhava-se um riso, uma claridade vinda do dôce -allivio que se fazia no seu coração. - ---Mas o Damaso disse-me que era tão linda!... - -Sim, era muito linda. E então? Um medico, por fidelidade ás suas -affeições, e para as não inquietar, não podia realmente, antes de -penetrar na casa d'uma doente, exigir-lhe um certificado de hediondez! - ---Mas que está ella cá a fazer?... - ---Está á espera do marido que foi a negocios ao Brazil, e vem ahi... É -uma gente muito distincta, e creio que muito rica... Vão-se brevemente -embora, de resto, e eu pouco sei d'elles. As minhas visitas são de -medico; tenho apenas conversado com ella sobre Paris, sobre Londres, -sobre as suas impressões de Portugal... - -A condessa bebia estas palavras, deliciosamente, dominada pelo bello -olhar com que elle lh'as murmurava: e o seu pé apertava o de Carlos -n'uma reconciliação apaixonada, com a força que desejaria pôr n'um -abraço--se alli lh'o podesse dar. - -A senhora d'escarlate, no emtanto, recomeçára a fallar da Russia. O que -a assustava é que o paiz era tão caro, corriam-se tantos perigos por -causa da dynamite, e uma constituição fraca devia soffrer muito com a -neve nas ruas. E foi então que Carlos percebeu que ella era a esposa de -Sousa Netto, e que se tratava d'um filho d'elles, filho unico, -despachado segundo secretario para a legação de S. Petersburgo. - ---O menino conhece-o? perguntou D. Maria ao ouvido de Carlos, por traz -do leque. É um horror d'estupidez... Nem francez sabe! De resto não é -peor que os outros... Que a quantidade de mônos, de semsaborões e de -tolos que nos representam lá fóra até faz chorar... Pois o menino não -acha? Isto é um paiz desgraçado. - ---Peor, minha cara senhora, muito peor. Isto é um paiz _cursi_. - -Tinha findado a sobremesa. D. Maria olhou para a condessa com o seu -sorriso cansado; a senhora de escarlate calára-se, já preparada, tendo -mesmo afastado um pouco a cadeira; e as senhoras ergueram-se, no momento -em que o Ega, ainda ácerca da Russia, acabava de contar uma historia -ouvida a um polaco, e em que se provava que o Czar era um estupido... - ---Liberal todavia, gostando bastante do progresso! murmurou ainda o -conde, já de pé. - -Os homens, sós, accenderam os seus charutos; o escudeiro serviu o café. -Então o snr. Sousa Netto, com a sua chavena na mão, aproximou-se de -Carlos para lhe exprimir de novo o prazer que tivera em fazer o seu -conhecimento... - ---Eu tive tambem em tempos o prazer de conhecer o pai de v. exc.^a... -Pedro, creio que era justamente o snr. Pedro da Maia. Começava eu então -a minha carreira publica... E o avô de v. exc.^a, bom? - ---Muito agradecido a v. exc.^a - ---Pessoa muito respeitavel... O pai de v. exc.^a era... Emfim, era o que -se chama «um elegante». Tive tambem o prazer de conhecer a mãi de v. -exc.^a... - -E de repente calou-se, embaraçado, levando a chavena aos labios. Depois, -lentamente, voltou-se para escutar melhor o Ega, que ao lado discutia -com o Gouvarinho sobre mulheres. Era a proposito da secretária da -legação da Russia, com quem elle encontrára n'essa manhã o conde -conversando ao Calhariz. O Ega achava-a deliciosa, com o seu corpinho -nervoso e ondeado, os seus grandes olhos garços... E o conde, que a -admirava tambem, gabava-lhe sobretudo o espirito, a instrucção. Isso, -segundo o Ega, prejudicava-a: porque o dever da mulher era primeiro ser -bella, e depois ser estupida... O conde affirmou logo com exuberancia -que não gostava tambem de litteratas: sim, decerto o lugar da mulher era -junto do berço, não na bibliotheca... - ---No emtanto é agradavel que uma senhora possa conversar sobre coisas -amenas, sobre o artigo d'uma Revista, sobre... Por exemplo, quando se -publica um livro... Emfim, não direi quando se trata d'um Guizot, ou -d'um Jules Simon... Mas, por exemplo, quando se trata d'um Feuillet, -d'um... Emfim, uma senhora deve ser prendada. Não lhe parece, Netto? - -Netto, grave, murmurou: - ---Uma senhora, sobretudo quando ainda é nova, deve ter algumas -prendas... - -Ega protestou, com calor. Uma mulher com prendas, sobretudo com prendas -litterarias, sabendo dizer coisas sobre o snr. Thiers, ou sobre o snr. -Zola, é um monstro, um phenomeno que cumpria recolher a uma companhia de -cavallinhos, como se soubesse trabalhar nas argolas. A mulher só devia -ter duas prendas: cozinhar bem e amar bem. - ---V. exc.^a decerto, snr. Sousa Netto, sabe o que diz Proudhon? - ---Não me recordo textualmente, mas... - ---Em todo o caso v. exc.^a conhece perfeitamente o seu Proudhon? - -O outro, muito seccamente, não gostando decerto d'aquelle -interrogatorio, murmurou que Proudhon era um author de muita nomeada. - -Mas o Ega insistia, com uma impertinencia perfida: - ---V. exc.^a leu evidentemente, como nós todos, as grandes paginas de -Proudhon sobre o amor? - -O snr. Netto, já vermelho, pousou a chavena sobre a mesa. E quiz ser -sarcastico, esmagar aquelle moço, tão litterario, tão audaz. - ---Não sabia, disse elle com um sorriso infinitamente superior, que esse -philosopho tivesse escripto sobre assumptos escabrosos! - -Ega atirou os braços ao ar, consternado: - ---Oh snr. Sousa Netto! Então v. exc.^a, um chefe de familia, acha o amor -um assumpto escabroso?! - -O snr. Netto encordoou. E muito direito, muito digno, fallando do alto -da sua consideravel posição burocratica: - ---É meu costume, snr. Ega, não entrar nunca em discussões, e acatar -todas as opiniões alheias, mesmo quando ellas sejam absurdas... - -E quasi voltou as costas ao Ega, dirigindo-se outra vez a Carlos, -desejando saber, n'uma voz ainda um pouco alterada, se elle agora se -fixava algum tempo mais em Portugal. Então, durante um momento, acabando -os charutos, os dois fallaram de viagens. O snr. Netto lamentava que os -seus muitos deveres não lhe permitissem percorrer a Europa. Em pequeno -fôra esse o seu ideal; mas agora, com tantas occupações publicas, via-se -forçado a não deixar a carteira. E alli estava, sem ter visto sequer -Badajoz... - ---E v. exc.^a de que gostou mais, de Paris ou de Londres? - -Carlos realmente não sabia, nem se podia comparar... Duas cidades tão -differentes, duas civilisações tão originaes... - ---Em Londres, observou o conselheiro, tudo carvão... - -Sim, dizia Carlos sorrindo, bastante carvão, sobretudo nos fogões, -quando havia frio... - -O snr. Sousa Netto murmurou: - ---E o frio alli deve ser sempre consideravel... Clima tão ao norte!... - -Esteve um momento mamando o charuto, de palpebra cerrada. Depois, fez -esta observação sagaz e profunda: - ---Povo pratico, povo essencialmente pratico. - ---Sim, bastante pratico, disse vagamente Carlos, dando um passo para a -sala, onde se sentiam as risadas cantantes da baroneza. - ---E diga-me outra coisa, proseguiu o snr. Sousa Netto, com interesse, -cheio de curiosidade intelligente. Encontra-se por lá, em Inglaterra, -d'esta litteratura amena, como entre nós, folhetinistas, poetas de -pulso?... - -Carlos deitou a ponta do charuto para o cinzeiro, e respondeu, com -descaro: - ---Não, não ha d'isso. - ---Logo vi, murmurou Sousa Netto. Tudo gente de negocio. - -E penetraram na sala. Era o Ega que assim fazia rir a baroneza, sentado -defronte d'ella, fallando outra vez de Celorico, contando-lhe uma soirée -de Celorico, com detalhes picarescos sobre as authoridades, e sobre um -abbade que tinha morto um homem e cantava fados sentimentaes ao piano. A -senhora d'escarlate, no sofá ao lado, com os braços cahidos no regaço, -pasmava para aquella veia do Ega como para as destrezas d'um palhaço. D. -Maria, junto da mesa, folheava com o seu ar cansado uma _Illustração_; e -vendo que Carlos ao entrar procurára com o olhar a condessa, chamou-o, -disse-lhe baixo que ella fôra dentro vêr Charlie, o pequeno... - ---É verdade, perguntou Carlos, sentando-se ao lado d'ella, que é feito -d'elle, d'esse lindo Charlie? - ---Diz que tem estado hoje constipado, e um pouco murcho... - ---A snr.^a D. Maria tambem me parece hoje um pouco murcha. - ---É do tempo. Eu já estou na idade em que o bom humor ou o aborrecimento -vêm só das influencias do tempo... Na sua idade vem d'outras coisas. E a -proposito d'outras coisas: então a Cohen tambem chegou? - ---Chegou, disse Carlos, mas não _tambem_. O _tambem_ implica -combinação... E a Cohen e o Ega chegaram realmente ambos por acaso... De -resto isso é historia antiga, é como os amores de Helena e de Páris. - -N'esse instante a condessa voltava de dentro, um pouco afogueada, e -trazendo aberto um grande leque negro. Sem se sentar, fallando sobretudo -para a mulher do snr. Sousa Netto, queixou-se logo de não ter achado -Charlie bem... Estava tão quente, tão inquieto... Tinha quasi medo que -fosse sarampo.--E voltando-se vivamente para Carlos, com um sorriso: - ---Eu estou com vergonha... Mas se o snr. Carlos da Maia quizesse ter o -incommodo de o vir vêr um instante... É odioso, realmente, pedir-lhe -logo depois de jantar para examinar um doente... - ---Oh senhora condessa! exclamou elle, já de pé. - -Seguiu-a. N'uma saleta, ao lado, o conde e o snr. Sousa Netto, -enterrados n'um sofá, conversavam fumando. - ---Levo o snr. Carlos da Maia para vêr o pequeno... - -O conde erguera-se um pouco do sofá, sem comprehender bem. Já ella -passára. Carlos seguiu em silencio a sua longa cauda de sêda preta -através do bilhar, deserto, com o gaz acceso, ornado de quatro retratos -de damas, da familia dos Gouvarinhos, empoadas e sorumbaticas. Ao lado, -por traz de um pesado reposteiro de fazenda verde, era um gabinete, com -uma velha poltrona, alguns livros n'uma estante envidraçada, e uma -escrevaninha onde pousava um candieiro sob o abat-jour de renda côr de -rosa. E ahi, bruscamente, ella parou, atirou os braços ao pescoço de -Carlos, os seus labios prenderam-se aos d'elle n'um beijo sôfrego, -penetrante, completo, findando n'um soluço de desmaio... Elle sentia -aquelle lindo corpo estremecer, escorregar-lhe entre os braços, sobre os -joelhos sem força. - ---Ámanhã, em casa da titi, ás onze, murmurou ella quando pôde fallar. - ---Pois sim. - -Desprendida d'elle, a condessa ficou um momento com as mãos sobre os -olhos, deixando desvanecer aquella languida vertigem, que a fizera côr -de cêra. Depois, cansada e sorrindo: - ---Que doida que eu sou... Vamos vêr Charlie. - -O quarto do pequeno era ao fundo do corredor. E ahi, n'uma caminha de -ferro, junto do leito maior da criada, Charlie dormia, sereno, fresco, -com um bracinho cahido para o lado, os seus lindos caracoes loiros -espalhados no travesseiro como uma aureola d'anjo. Carlos tocou-lhe -apenas no pulso; e a criada escosseza, que trouxera uma luz de sobre a -commoda, disse, sorrindo tranquillamente: - ---O menino n'estes ultimos dias tem andado muitissimo bem... - -Voltaram. No gabinete, antes de penetrar no bilhar, a condessa, já com a -mão no reposteiro, estendeu ainda a Carlos os seus labios insaciaveis. -Elle colheu um rapido beijo. E, ao passar na antecamara, onde Sousa -Netto e o conde continuavam enfronhados n'uma conversa grave, ella disse -ao marido: - ---O pequeno está a dormir... O snr. Carlos da Maia achou-o bem. - -O conde de Gouvarinho bateu no hombro de Carlos, carinhosamente. E -durante um momento a condessa ficou alli conversando, de pé, a deixar-se -serenar, pouco a pouco, n'aquella penumbra favoravel, antes de affrontar -a luz forte da sala. Depois, por se fallar em hygiene, convidou o snr. -Sousa Netto para uma partida de bilhar; mas o snr. Netto, desde Coimbra, -desde a Universidade, não pegára n'um taco. E ia-se chamar o Ega quando -appareceu Telles da Gama, que chegava do Price. Logo atraz d'elle entrou -o conde de Steinbroken. Então o resto da noite passou-se no salão, em -redor do piano. O ministro cantou melodias da Filandia. Telles da Gama -tocou _fados_. - -Carlos e Ega foram os derradeiros a sahir, depois de um _brandy and -soda_, de que a condessa partilhou, como ingleza forte. E em baixo, no -pateo, acabando de abotoar o paletot, Carlos pôde emfim soltar a -pergunta que lhe faiscára nos labios toda a noite: - ---Ó Ega, quem é aquelle homem, aquelle Sousa Netto, que quiz saber se em -Inglaterra havia tambem litteratura? - -Ega olhou-o com espanto: - ---Pois não adivinhaste? Não deduziste logo? Não viste immediatamente -quem n'este paiz é capaz de fazer essa pergunta? - ---Não sei... Ha tanta gente capaz... - -E o Ega radiante: - ---Official superior d'uma grande repartição do Estado! - ---De qual? - ---Ora de qual! De qual ha de ser?... Da Instrucção publica! - - -Na tarde seguinte, ás cinco horas, Carlos, que se demorára de mais em -casa da titi com a condessa, retido pelos seus beijos interminaveis, fez -voar o coupé até á rua de S. Francisco, olhando a cada momento o -relogio, n'um receio de que Maria Eduarda tivesse sahido por aquelle -lindo dia de verão, luminoso e sem calor. Com effeito á porta d'ella -estava a carruagem da Companhia; e Carlos galgou as escadas, desesperado -com a condessa, sobretudo comsigo mesmo, tão fraco, tão passivo, que -assim se deixára retomar por aquelles braços exigentes, cada vez mais -pesados, e já incapazes de o commover... - ---A senhora chegou agora mesmo, disse-lhe o Domingos, que voltára da -terra havia tres dias, e ainda não cessára de lhe sorrir. - -Sentada no sofá, de chapéo, tirando as luvas, ella acolheu-o com uma -dôce côr no rosto, e uma carinhosa reprehensão: - ---Estive á espera mais de meia hora antes de sahir... É uma ingratidão! -Imaginei que nos tinha abandonado! - ---Porquê? Está peor, miss Sarah? - -Ella olhou-o, risonhamente escandalisada. Ora, miss Sarah! Miss Sarah ia -seguindo perfeitamente na sua convalescença... Mas agora já não eram as -visitas de medico que se esperavam, eram as de amigo; e essa tinha-lhe -faltado. - -Carlos, sem responder, perturbado, voltou-se para Rosa, que folheava -junto da mesa um livro novo d'estampas; e a ternura, a gratidão infinita -do seu coração, que não ousava mostrar á mãe, pôl-a toda na longa -caricia em que envolveu a filha. - ---São historias que a mamã agora comprou, dizia Rosa, séria e presa ao -seu livro. Hei de t'as contar depois... São historias de bichos. - -Maria Eduarda erguera-se, desapertando lentamente as fitas do chapéo. - ---Quer tomar uma chavena de chá comnosco, snr. Carlos da Maia? Eu vinha -morrendo por uma chavena de chá... Que lindo dia, não é verdade? Rosa, -fica tu a contar o nosso passeio emquanto eu vou tirar o chapéo... - -Carlos, só com Rosa, sentou-se junto d'ella, desviando-a do livro, -tomando-lhe ambas as mãos. - ---Fomos ao Passeio da Estrella, dizia a pequena. Mas a mamã não se -queria demorar, porque tu podias ter vindo! - -Carlos beijou, uma depois da outra, as duas mãosinhas de Rosa. - ---E então que fizeste no Passeio? perguntou elle, depois d'um leve -suspiro de felicidade que lhe fugira do peito. - ---Andei a correr, havia uns patinhos novos... - ---Bonitos?... - -A pequena encolheu os hombros: - ---Chinfrinzitos. - -Chinfrinzitos! Quem lhe tinha ensinado a dizer uma coisa tão feia? - -Rosa sorriu. Fôra o Domingos. E o Domingos dizia ainda outras coisas -assim, engraçadas... Dizia que a Melanie era uma _gaja_... O Domingos -tinha muita graça. - -Então Carlos advertiu-a que uma menina bonita, com tão bonitos vestidos, -não devia dizer aquellas palavras... Assim fallava a gente rôta. - ---O Domingos não anda rôto, disse Rosa muito séria. - -E subitamente, com outra idéa, bateu as palmas, pulou-lhe entre os -joelhos, radiante: - ---E trouxe-me uns grillos da Praça! O Domingos trouxe-me uns grillos... -Se tu soubesses! _Niniche_ tem medo dos grillos! Parece incrivel, hein? -Eu nunca vi ninguem mais medrosa... - -Esteve um momento a olhar Carlos, e acrescentou, com um ar grave: - ---É a mamã que lhe dá tanto mimo. É uma pena! - -Maria Eduarda entrava, ageitando ainda de leve o ondeado do cabello: e, -ouvindo assim fallar de mimo, quiz saber quem é que ella estragava com -mimo... _Niniche_? Pobre _Niniche_, coitada, ainda essa manhã fôra -castigada! - -Então Rosa rompeu a rir, batendo outra vez as mãos: - ---Sabes como a mamã a castiga? exclamava ella, puxando a manga de -Carlos. Sabes?... Faz-lhe voz grossa... Diz-lhe em inglez: _Bad dog! -dreadful dog!_ - -Era encantadora assim, imitando a voz severa da mamã, com o dedinho -erguido, a ameaçar _Niniche_. A pobre _Niniche_, imaginando com effeito -que a estavam a reprehender, arrastou-se, vexada, para debaixo do sofá. -E foi necessario que Rosa a tranquillisasse, de joelhos sobre a pelle de -tigre, jurando-lhe, por entre abraços, que ella nem era mau cão, nem -feio cão; fôra só para contar como fazia a mamã... - ---Vai-lhe dar agua, que ella deve estar com sêde, disse então Maria -Eduarda, indo sentar-se na sua cadeira escarlate. E dize ao Domingos que -nos traga o chá. - -Rosa e _Niniche_ partiram correndo. Carlos veio occupar, junto da -janella, a costumada poltrona de reps. Mas pela primeira vez, desde a -sua intimidade, houve entre elles um silencio difficil. Depois ella -queixou-se de calor, desenrolando distrahidamente o bordado; e Carlos -permanecia mudo, como se para elle, n'esse dia, apenas houvesse encanto, -apenas houvesse significação n'uma certa palavra de que os seus labios -estavam cheios e que não ousavam murmurar, que quasi receava que fosse -adivinhada apesar d'ella suffocar o seu coração. - ---Parece que nunca se acaba, esse bordado! disse elle por fim, -impaciente de a vêr, tão serena, a occupar-se das suas lãs. - -Com a talagarça desdobrada sobre os joelhos, ella respondeu, sem erguer -os olhos: - ---E para que se ha de acabar? O grande prazer é andal-o a fazer, pois -não acha? Uma malha hoje, outra malha ámanhã, torna-se assim uma -companhia... Para que se ha de querer chegar logo ao fim das coisas? - -Uma sombra passou no rosto de Carlos. N'estas palavras, ditas de leve -ácerca do bordado, elle sentia uma desanimadora allusão ao seu -amor,--esse amor que lhe fôra enchendo o coração á maneira que a lã -cobria aquella talagarça, e que era obra simultanea das mesmas brancas -mãos. Queria ella pois conserval-o alli, arrastado como o bordado, -sempre acrescentado e sempre incompleto, guardado tambem no cesto da -costura, para ser o desafogo da sua solidão? - -Disse-lhe então, commovido: - ---Não é assim. Ha coisas que só existem quando se completam, e que só -então dão a felicidade que se procurava n'ellas. - ---É muito complicado isso, murmurou ella, córando. É muito subtil... - ---Quer que lh'o diga mais claramente? - -N'esse instante Domingos, erguendo o reposteiro, annunciou que estava -alli o snr. Damaso... - -Maria Eduarda teve um movimento brusco de impaciencia: - ---Diga que não recebo! - -Fóra, no silencio, sentiram bater a porta. E Carlos ficou inquieto, -lembrando-se que o Damaso devia ter visto em baixo, passeando na rua, o -seu coupé. Santo Deus! O que elle iria tagarellar agora, com os seus -pequeninos rancores, assim humilhado! Quasi lhe pareceu n'esse instante -a existencia do Damaso incompativel com a tranquillidade do seu amor. - ---Ahi está outro inconveniente d'esta casa, dizia no emtanto Maria -Eduarda. Aqui ao lado d'esse Gremio, a dois passos do Chiado, é -demasiadamente accessivel aos importunos. Tenho agora de repellir quasi -todos os dias este assalto á minha porta! É intoleravel. - -E com uma subita idéa, atirando o bordado para o açafate, cruzando as -mãos sobre os joelhos: - ---Diga-me uma coisa que lhe tenho querido perguntar... Não me seria -possivel arranjar por ahi uma casinhola, um cottage, onde eu fosse -passar os mezes de verão?... Era tão bom para a pequena! Mas não conheço -ninguem, não sei a quem me hei de dirigir... - -Carlos lembrou-se logo da bonita casa do Craft, nos Olivaes--como já -n'outra occasião em que ella mostrára desejos d'ir para o campo. -Justamente, n'esses ultimos tempos, Craft voltára a fallar, e mais -decidido, no antigo plano de vender a quinta, e desfazer-se das suas -collecções. Que deliciosa vivenda para ella, artistica e campestre, -condizendo tão bem com os seus gostos! Uma tentação atravessou-o, -irresistivel. - ---Eu sei com effeito d'uma casa... E tão bem situada, que lhe convinha -tanto!... - ---Que se aluga? - -Carlos não hesitou: - ---Sim, é possivel arranjar-se... - ---Isso era um encanto! - -Ella tinha dito--«era um encanto». E isto decidiu-o logo, parecendo-lhe -desamoravel e mesquinho o ter-lhe suggerido uma esperança, e não lh'a -realisar com fervor. - -O Domingos entrára com o taboleiro do chá. E emquanto o collocava sobre -uma pequena mesa, defronte de Maria Eduarda, ao pé da janella, Carlos, -erguendo-se, dando alguns passos pela sala, pensava em começar -immediatamente negociações com o Craft, comprar-lhe as collecções, -alugar-lhe a casa por um anno, e offerecel-a a Maria Eduarda para os -mezes de verão. E não considerava, n'esse instante, nem as -difficuldades, nem o dinheiro. Via só a alegria d'ella passeando com a -pequena, entre as bellas arvores do jardim. E como Maria Eduarda deveria -ser mais grandemente formosa no meio d'esses moveis da Renascença, -severos e nobres! - ---Muito assucar? perguntou ella. - ---Não... Perfeitamente, basta. - -Viera sentar-se na sua velha poltrona; e, recebendo a chavena de -porcelana ordinaria com um filetesinho azul, recordava o magnifico -serviço que tinha o Craft, de velho Wedgewood, oiro e côr de fogo. Pobre -senhora! tão delicada, e alli enterrada entre aquelles reps, maculando a -graça das suas mãos nas coisas reles da mãi Cruges! - ---E onde é essa casa? perguntou Maria Eduarda. - ---Nos Olivaes, muito perto d'aqui, vai-se lá n'uma hora de carruagem... - -Explicou-lhe detalhadamente o sitio,--acrescentando, com os olhos -n'ella, e com um sorriso inquieto: - ---Estou aqui a preparar lenha para me queimar!... Porque se fôr para lá -installar-se, e depois vier o calor, quem é que a torna a vêr? - -Ella pareceu surprehendida: - ---Mas que lhe custa, a si, que tem cavallos, que tem carruagens, que não -tem quasi nada que fazer?... - -Assim ella achava natural que elle continuasse nos Olivaes as suas -visitas de Lisboa! E pareceu-lhe logo impossivel renunciar ao encanto -d'esta intimidade, tão largamente offerecida, e decerto mais dôce na -solidão d'aldêa. Quando acabou a sua chavena de chá--era como se a casa, -os moveis, as arvores fossem já seus, fossem já d'ella. E teve alli um -momento delicioso, descrevendo-lhe a quietação da quinta, a entrada por -uma rua d'acacias, e a belleza da sala de jantar com duas janellas -abrindo sobre o rio... - -Ella escutava-o, encantada: - ---Oh! isso era o meu sonho! Vou ficar agora toda alterada, cheia -d'esperanças... Quando poderei ter uma resposta? - -Carlos olhou o relogio. Era já tarde para ir aos Olivaes. Mas logo na -manhã seguinte cedo, ia fallar com o dono da casa, seu amigo... - ---Quanto incommodo por minha causa! disse ella. Realmente! como lhe hei -de eu agradecer?... - -Calou-se; mas os seus bellos olhos ficaram um instante pousados nos de -Carlos, como esquecidos, e deixando fugir irresistivelmente um pouco do -segredo que ella retinha no seu coração. - -Elle murmurou: - ---Por mais que eu fizesse, ficaria bem pago de tudo se me olhasse outra -vez assim. - -Uma onda de sangue cobriu toda a face de Maria Eduarda. - ---Não diga isso... - ---E que necessidade ha que eu lh'o diga? Pois não sabe perfeitamente que -a adoro, que a adoro, que a adoro! - -Ella ergueu-se bruscamente, elle tambem:--e assim ficaram, mudos, cheios -d'anciedade, trespassando-se com os olhos, como se se tivesse feito uma -grande alteração no Universo, e elles esperassem, suspensos, o desfecho -supremo dos seus destinos... E foi ella que fallou, a custo, quasi -desfallecida, estendendo para elle, como se o quizesse afastar, as mãos -inquietas e tremulas: - ---Escute! Sabe bem o que eu sinto por si, mas escute... Antes que seja -tarde ha uma coisa que lhe quero dizer... - -Carlos via-a assim tremer, via-a toda pallida... E nem a escutára, nem a -comprehendera. Sentia apenas, n'um deslumbramento, que o amor comprimido -até ahi no seu coração irrompera por fim, triumphante, e embatendo no -coração d'ella, através do apparente marmore do seu peito, fizera de lá -resaltar uma chamma igual... Só via que ella tremia, só via que ella o -amava... E, com a gravidade forte d'um acto de posse, tomou-lhe -lentamente as mãos, que ella lhe abandonou, submissa de repente, já sem -força, e vencida. E beijava-lh'as ora uma ora outra, e as palmas, e os -dedos, devagar, murmurando apenas: - ---Meu amor! meu amor! meu amor! - -Maria Eduarda cahira pouco a pouco sobre a cadeira; e, sem retirar as -mãos, erguendo para elle os olhos cheios de paixão, ennevoados de -lagrimas, balbuciou ainda, debilmente, n'uma derradeira supplicação: - ---Ha uma coisa que eu lhe queria dizer!... - -Carlos estava já ajoelhado aos seus pés. - ---Eu sei o que é! exclamou, ardentemente, junto do rosto d'ella, sem a -deixar fallar mais, certo de que adivinhára o seu pensamento. Escusa de -dizer, sei perfeitamente. É o que eu tenho pensado tantas vezes! É que -um amor como o nosso não póde viver nas condições em que vivem outros -amores vulgares... É que desde que eu lhe digo que a amo, é como se lhe -pedisse para ser minha esposa diante de Deus... - -Ella recuava o rosto, olhando-o angustiosamente, e como se não -comprehendesse. E Carlos continuava mais baixo, com as mãos d'ella -presas, penetrando-a toda da emoção que o fazia tremer: - ---Sempre que pensava em si, era já com esta esperança d'uma existencia -toda nossa, longe d'aqui, longe de todos, tendo quebrado todos os laços -presentes, pondo a nossa paixão acima de todas as ficções humanas, indo -ser felizes para algum canto do mundo, solitariamente e para sempre... -Levamos Rosa, está claro, sei que não se póde separar d'ella... E assim -viveriamos sós, todos tres, n'um encanto! - ---Meu Deus! Fugirmos? murmurou ella, assombrada. - -Carlos erguera-se. - ---E que podemos fazer? Que outra coisa podemos nós fazer, digna do nosso -amor? - -Maria não respondeu, immovel, a face erguida para elle, branca de cera. -E pouco a pouco uma idéa parecia surgir n'ella, inesperada e -perturbadora, revolvendo todo o seu sêr. Os seus olhos alargavam-se, -anciosos e refulgentes. - -Carlos ia fallar-lhe... Um leve rumor de passos na esteira da sala -deteve-o. Era o Domingos que vinha recolher a bandeja do chá: e durante -um momento, quasi interminavel, houve entre aquelles dois sêres, -sacudidos por um ardente vendaval de paixão, a caseira passagem d'um -criado arrumando chavenas vazias. Maria Eduarda, bruscamente, -refugiou-se detraz das bambinellas de cretone com o rosto contra a -vidraça. Carlos foi sentar-se no sofá, a folhear ao acaso uma -_Illustração_, que lhe tremia nas mãos. E não pensava em nada, nem sabia -onde estava... Ainda na vespera, havia ainda instantes, conversando com -ella, dizia ceremoniosamente «minha cara senhora»: depois houvera um -olhar; e agora deviam fugir ambos, e ella tornára-se o cuidado supremo -da sua vida, e a esposa secreta do seu coração. - ---V. exc.^a quer mais alguma coisa? perguntou o Domingos. - -Maria Eduarda respondeu sem se voltar: - ---Não. - -O Domingos sahiu, a porta ficou cerrada. Ella então atravessou a sala, -veio para Carlos, que a esperava no sofá, com os braços estendidos. E -era como se obedecesse só ao impulso da sua ternura, calmadas já todas -as incertezas. Mas hesitou de novo diante d'aquella paixão, tão prompta -a apoderar-se de todo o seu sêr, e murmurou, quasi triste: - ---Mas conhece-me tão pouco!... Conhece-me tão pouco, para irmos assim -ambos, quebrando por tudo, crear um destino que é irreparavel... - -Carlos tomou-lhe as mãos, fazendo-a sentar ao seu lado, brandamente: - ---O bastante para a adorar acima de tudo, e sem querer mais nada na -vida! - -Um instante Maria Eduarda ficou pensativa, como recolhida no fundo do -seu coração, escutando-lhe as derradeiras agitações. Depois soltou um -longo suspiro. - ---Pois seja assim! Seja assim... Havia uma coisa que eu lhe queria -dizer, mas não importa... É melhor assim!... - -E que outra coisa podiam fazer? perguntava Carlos radiante. Era a unica -solução digna, séria... E nada os podia embaraçar; amavam-se, confiavam -absolutamente um no outro; elle era rico, o mundo era largo... - -E ella repetia, mais firme agora, já decidida, e como se aquella -resolução a cada momento se cravasse mais fundo na sua alma, -penetrando-a toda e para sempre: - ---Pois seja assim! É melhor assim! - -Um momento ficaram calados, olhando-se arrebatadamente. - ---Dize-me ao menos que és feliz, murmurou Carlos. - -Ella lançou-lhe os braços ao pescoço: e os seus labios uniram-se n'um -beijo profundo, infinito, quasi immaterial pelo seu extasi. Depois Maria -Eduarda descerrou lentamente as palpebras, e disse-lhe, muito baixo: - ---Adeus, deixa-me só, vai. - -Elle tomou o chapéo, e sahiu. - - -No dia seguinte Craft, que havia uma semana não ia ao Ramalhete, -passeava na quinta antes d'almoço--quando appareceu Carlos. Apertaram as -mãos, fallaram um instante do Ega, da chegada dos Cohens. Depois, -Carlos, fazendo um gesto largo que abrangia a quinta, a casa, todo o -horisonte, perguntou rindo: - ---Você quer-me vender tudo isto, Craft? - -O outro respondeu, sem pestanejar, e com as mãos nas algibeiras: - ---A la disposicion de ustêd... - -E alli mesmo concluiram a negociação, passeando n'uma ruasinha de buxo -por entre os geranios em flôr. - -Craft cedia a Carlos todos os seus moveis antigos e modernos por duas -mil e quinhentas libras, pagas em prestações: só reservava algumas raras -peças do tempo de Luiz XV, que deviam fazer parte d'essa nova collecção -que planeava, homogenea, e toda do seculo XVIII. E como Carlos não tinha -no Ramalhete lugar para este vasto _bric-à-brac_, Craft alugava-lhe por -um anno a casa dos Olivaes, com a quinta. - -Depois foram almoçar. Carlos nem por um momento pensou na larga despeza -que fazia, só para offerecer uma residencia de verão, por dois curtos -mezes--a quem se contentaria com um simples cottage, entre arvores de -quintal. Pelo contrario! quando repercorreu as salas do Craft, já com -olhos de dono, achou tudo mesquinho, pensou em obras, em retoques de -gosto. - -Com que alegria, ao deixar os Olivaes, correu á rua de S. Francisco, a -annunciar a Maria Eduarda que lhe arranjára emfim definitivamente uma -linda casa no campo! Rosa, que da varanda o vira apear-se, veio ao seu -encontro ao patamar: elle ergueu-a nos braços, entrou assim na sala, com -ella ao collo, em triumpho. E não se conteve; foi á pequena que deu logo -«a grande novidade», annunciando-lhe que ia ter duas vaccas, e uma -cabra, e flôres, e arvores para se balouçar... - ---Onde é? Dize, onde é? exclamava Rosa, com os lindos olhos -resplandecentes, e a facesinha cheia de riso. - ---D'aqui muito longe... Vai-se n'uma carruagem... Vêem-se passar os -barcos no rio... E entra-se por um grande portão onde ha um cão de fila. - -Maria Eduarda appareceu, com _Niniche_ ao collo. - ---Mamã, mamã! gritou Rosa correndo para ella, dependurando-se-lhe do -vestido. Diz que vou ter duas cabrinhas, e um balouço... É verdade? -Dize, deixa vêr, onde é? Dize... E vamos já para lá? - -Maria e Carlos apertaram a mão, com um longo olhar, sem uma palavra. E -logo junto da mesa, com Rosa encostada aos seus joelhos, Carlos contou a -sua ida aos Olivaes... O dono da casa estava prompto a alugar, já, n'uma -semana... E assim se achava ella de repente com uma vivenda pittoresca, -mobilada n'um bello estylo, deliciosamente saudavel... - -Maria Eduarda parecia surprehendida, quasi desconfiada. - ---Ha de ser necessario levar roupas de cama, roupas de mesa... - ---Mas ha tudo! exclamou Carlos alegremente, ha quasi tudo! É tal qual -como n'um conto de fadas... As luzes estão accêsas, as jarras estão -cheias de flôres... É só tomar uma carruagem e chegar. - ---Sómente, é necessario saber o que esse paraiso me vae custar... - -Carlos fez-se vermelho. Não previra que se fallasse em dinheiro--e que -ella quereria decerto pagar a casa que habitasse... Então preferiu -confessar-lhe tudo. Disse-lhe como o Craft, havia quasi um anno, andava -desejando desfazer-se das suas collecções, e alugar a quinta: o avô e -elle tinham repetidamente pensado em adquirir grande parte dos moveis e -das faienças, para acabar de mobilar o Ramalhete, e ornamentar mais -Santa Olavia; e elle emfim decidira-se a fazer essa compra desde que -entrevira a felicidade de lhe poder offerecer, por alguns mezes de -verão, uma residencia tão graciosa, e tão confortavel... - ---Rosa, vai lá para dentro, disse Maria Eduarda, depois de um momento de -silencio... Miss Sarah está á tua espera. - -Depois, olhando para Carlos, muito séria: - ---De sorte que, se eu não mostrasse desejos de ir para o campo, não -tinha feito essa despeza... - ---Tinha feito a mesma despeza... Tinha tambem alugado a casa por seis -mezes ou por um anno... Onde possuia eu agora de repente um sitio para -metter as coisas do Craft? O que não fazia talvez era comprar -conjuntamente roupas de cama, roupas de mesa, mobilias dos quartos dos -criados, etc.... - -E acrescentou, rindo: - ---Ora se me quizer indemnisar d'isso podemos debater esse negocio... - -Ella baixou os olhos, reflectindo, lentamente. - ---Em todo o caso seu avô e os seus amigos devem saber d'aqui a dias que -me vou installar n'essa casa... E devem comprehender que a comprou para -que eu lá me installasse... - -Carlos procurou o seu olhar que permanecia pensativo, desviado d'elle. E -isto inquietou-o--o vêl-a assim retrahir-se áquella absoluta communhão -d'interesses em que a queria envolver, como esposa do seu coração. - ---Não approva então o que fiz? Seja franca... - ---Decerto... Como não hei de eu approvar tudo quanto faz, tudo quanto -vem de si? Mas... - -Elle acudiu, apoderando-se das suas mãos, sentindo-se triumphar: - ---Não ha _mas_! O avô e os meus amigos sabem que eu tenho uma casa no -campo, inutil por algum tempo, e que a aluguei a uma senhora. De resto, -se quizer, metteremos n'isto tudo o meu procurador... Minha cara amiga, -se fosse possivel que a nossa affeição se passasse fóra do mundo, -distante de todos os olhares, ao abrigo de todas as suspeitas, seria -delicioso... Mas não póde ser!... Alguem tem de saber sempre alguma -coisa; quando não seja senão o cocheiro que me leva todos os dias a sua -casa, quando não seja senão o criado que me abre todos os dias a sua -porta... Ha sempre alguem que surprehende o encontro de dois olhares; ha -sempre alguem que adivinha d'onde se vem a certas horas... Os deuses -antigamente arranjavam essas coisas melhor, tinham uma nuvem que os -tornava invisiveis. Nós não somos deuses, felizmente... - -Ella sorriu. - ---Quantas palavras para converter uma convertida! - -E tudo ficou harmonisado n'um grande beijo. - - -Affonso da Maia approvou plenamente a compra das collecções do Craft. «É -um valor, disse elle ao Villaça, e acabamos d'encher com boa arte -Santa-Olavia e o Ramalhete.» - -Mas o Ega indignou-se, chegou a fallar em «desvario»,--despeitado por -essa transacção secreta para que não fôra consultado. O que o irritava -sobretudo era vêr, n'esta acquisição inesperada de uma casa de campo, -outro symptoma do grave e do fundo segredo que presentia na vida de -Carlos: e havia já duas semanas que elle habitava o Ramalhete e Carlos -ainda não lhe fizera uma confidencia!... Desde a sua ligação de rapazes -em Coimbra, nos Paços de Cella, fôra elle o confessor secular de Carlos: -mesmo em viagem, Carlos não tinha uma aventura banal d'hotel, de que não -mandasse ao Ega «um relatorio». O romance com a Gouvarinho, de que -Carlos ao principio tentára, frouxamente, guardar um mysterio delicado, -já o conhecia todo, já lêra as cartas da Gouvarinho, já passára pela -casa da titi... - -Mas do outro segredo não sabia nada--e considerava-se ultrajado. Via -todas as manhãs Carlos partir para a rua de S. Francisco, levando -flôres; via-o chegar de lá, como elle dizia, «besuntado d'extasi»; -via-lhe os silencios repassados de felicidade, e esse indefinido ar, ao -mesmo tempo sério e ligeiro, risonho e superior, do homem profundamente -amado... E não sabia nada. - -Justamente alguns dias depois, estando ambos sós, a fallar de planos de -verão, Carlos alludiu aos Olivaes, com enthusiasmo, relembrando algumas -das preciosidades do Craft, o dôce socego da casa, a clara vista do -Tejo... Aquillo realmente fôra obter por uma mão cheia de libras um -pedaço do paraiso... - -Era á noite, no quarto de Carlos, já tarde. E o Ega, que passeava com as -mãos nas algibeiras do robe-de-chambre, encolheu os hombros, impaciente, -farto d'aquelles louvores eternos á casinhola do Craft. - ---Essa concepção do paraiso, exclamou elle, parece-me d'um estofador da -rua Augusta! Como natureza, couves gallegas; como decoração, os velhos -cretones do gabinete, desbotados já por tres barrelas... Um quarto de -dormir lugubre como uma capella de santuario... Um salão confuso como o -armazem d'um cara-de-pau, e onde não é possivel conversar... A não ser o -armario hollandez, e um ou outro prato, tudo aquillo é um lixo -archeologico... Jesus! o que eu odeio _bric-à-brac_! - -Carlos, no fundo da sua poltrona, disse tranquillamente, e como -reflectindo: - ---Com effeito esses cretones são medonhos... Mas eu vou mandar -remobilar, tornar aquillo mais habitavel. - -Ega estacou no meio do quarto, com o monoculo a faiscar sobre Carlos. - ---Habitavel? Vaes ter hospedes? - ---Vou alugar. - ---Vaes alugar! A quem? - -E o silencio de Carlos, que soprava o fumo da cigarrette com os olhos no -tecto, enfureceu Ega. Comprimentou quasi até ao chão, disse -sarcasticamente: - ---Peço perdão. A pergunta foi brutal. Tive agora o ar de querer arrombar -uma gaveta fechada... O aluguel d'um predio é sempre um d'esses -delicados segredos de sentimento e de honra em que não deve roçar nem a -aza da imaginação... Fui rude... Irra! Fui bestialmente rude! - -Carlos continuava calado. Comprehendia bem o Ega--e quasi sentia um -remorso d'aquella sua rigida reserva. Mas era como um pudor que o -enleava, lhe impedia de pronunciar sequer o nome de Maria Eduarda. Todas -as suas outras aventuras as contára ao Ega; e essas confidencias -constituiam talvez mesmo o prazer mais solido que ellas lhe davam. Isto, -porém, não era «uma aventura». Ao seu amor misturava-se alguma coisa de -religioso; e, como os verdadeiros devotos, repugnava-lhe conversar sobre -a sua fé... Todavia, ao mesmo tempo, sentia uma tentação de fallar -d'_ella_ ao Ega, e de tornar vivas, e como visiveis aos seus proprios -olhos, dando-lhes o contorno das palavras e o seu relevo, as coisas -divinas e confusas que lhe enchiam o coração. Além d'isso, Ega não -saberia tudo, mais tarde ou mais cedo, pela tagarellice alheia? Antes -lh'o dissesse elle, fraternalmente. Mas hesitou ainda, accendeu outra -cigarrette. Justamente o Ega tomára o seu castiçal, e começava a -accendel-o a uma serpentina, devagar e com um ar amuado. - ---Não sejas tolo, não te vás deitar, senta-te ahi, disse Carlos. - -E contou-lhe tudo miudamente, diffusamente, desde o primeiro encontro, á -entrada do Hotel Central, no dia do jantar ao Cohen. - -Ega escutava-o, sem uma palavra, enterrado no fundo do sofá. Suppuzera -um romancesinho, d'esses que nascem e morrem entre um beijo e um bocejo: -e agora, só pelo modo como Carlos fallava d'aquelle grande amor, elle -sentia-o profundo, absorvente, eterno, e para bem ou para mal -tornando-se d'ahi por diante, e para sempre, o seu irreparavel destino. -Imaginára uma brazileira polida por Paris, bonita e futil, que tendo o -marido longe, no Brazil, e um formoso rapaz ao lado, no sofá, obedecia -simplesmente e alegremente á disposição das coisas: e sahia-lhe uma -creatura cheia de caracter, cheia de paixão, capaz de sacrificios, capaz -de heroismos. Como sempre, diante d'estas coisas patheticas, -murchava-lhe a veia, faltava-lhe a phrase; e quando Carlos se calou, o -bom Ega teve esta pergunta chôcha: - ---Então estás decidido a safar-te com ella? - ---A _safar-me_, não; a ir viver com ella longe d'aqui, decididissimo! - -Ega ficou um momento a olhar para Carlos como para um phenomeno -prodigioso, e murmurou: - ---É d'arromba! - -Mas que outra coisa podiam elles fazer? D'ahi a tres mezes talvez, -Castro Gomes chegava do Brazil. Ora nem Carlos, nem ella, aceitariam -nunca uma d'essas situações atrozes e reles em que a mulher é do amante -e do marido, a horas diversas... Só lhes restava uma solução digna, -decente, séria--fugir. - -Ega, depois de um silencio, disse pensativamente: - ---Para o marido é que não é talvez divertido perder assim, de uma vez, a -mulher, a filha, e a cadellinha... - -Carlos ergueu-se, deu alguns passos pelo quarto. Sim, tambem elle já -pensára n'isso... E não sentia remorsos--mesmo quando os podesse haver -no absoluto egoismo da paixão... Elle não conhecia intimamente Castro -Gomes: mas tinha podido adivinhar o typo, reconstruil-o, pelo que lhe -dissera o Damaso, e por algumas conversas com miss Sarah. Castro Gomes -não era um esposo a sério: era um dandy, um futil, um _gommeux_, um -homem de sport e de cocottes... Casára com uma mulher bella, saciára a -paixão, e recomeçára a sua vida de club e de bastidores... Bastava olhar -para elle, para a sua toilette, para os seus modos--e comprehendia-se -logo a trivialidade d'aquelle caracter... - ---Que tal é, como homem? perguntou Ega. - ---Um brazileirito trigueiro, com um ar espartilhado... Um -_rastaquouère_, o verdadeiro typosinho do _Café de la Paix_... É -possivel que sinta, quando isto vier a succeder, um certo ardor na -vaidade ferida... Mas é um coração que se ha de consolar facilmente nas -_Folies Bergères_. - -Ega não dizia nada. Mas pensava que um homem de club, e mesmo consolavel -nas _Folies Bergères_, póde não se importar muito com sua mulher, mas -póde todavia amar muito sua filha... Depois, atravessado por uma outra -idéa, acrescentou: - ---E teu avô? - -Carlos encolheu os hombros: - ---O avô tem de se affligir um pouco para eu poder ser profundamente -feliz; como eu teria de ser desgraçado toda a minha vida se quizesse -poupar ao avô essa contrariedade... O mundo é assim, Ega... E eu, n'esse -ponto, não estou decidido a fazer sacrificios. - -Ega esfregou lentamente as mãos, com os olhos no chão, repetindo a mesma -palavra, a unica que lhe suggeria todo o seu espirito perante aquellas -coisas vehementes: - ---É d'arromba! - - - - -III - - -Carlos, que almoçára cedo, estava para sahir no coupé, e já de -chapéo--quando Baptista veio dizer que o snr. Ega, desejando fallar-lhe -n'uma coisa grave, lhe pedia para esperar um instante. O snr. Ega ficára -a fazer a barba. - -Carlos pensou logo que se tratava da Cohen. Havia duas semanas que ella -chegára a Lisboa, Ega ainda a não vira, e fallava d'ella raramente. Mas -Carlos sentia-o nervoso e desassocegado. Todas as manhãs o pobre Ega -mostrava um desapontamento ao receber o correio, que só lhe trazia algum -jornal cintado, ou cartas de Celorico. Á noite percorria dois, tres -theatros, já quasi vazios n'aquelle começo de verão; e ao recolher era -outra desconsolação, quando os criados lhe affirmavam, com certeza, que -não viera carta alguma para s. exc.^a Decerto Ega não se resignava a -perder Rachel, anciava por a encontrar; e roía-o o despeito de que ella, -de qualquer modo, lhe não tivesse mostrado que no seu coração permanecia -ao menos a saudade das antigas felicidades... Justamente na vespera Ega -apparecera á hora do jantar, transtornado: cruzára-se com o Cohen na rua -do Ouro, e parecera-lhe que «esse canalha» lhe atirára de lado um olhar -atrevido, sacudindo a bengala; o Ega jurava que se «esse canalha» -ousasse outra vez fital-o, espedaçava-o, sem piedade, publicamente, a -uma esquina da Baixa. - -Na ante-camara o relogio bateu dez horas, Carlos impaciente ia a subir -ao quarto do Ega. Mas n'esse instante o correio chegava, com a _Revista -dos Dois Mundos_, e uma carta para Carlos. Era da Gouvarinho. Carlos -acabava de a lêr--quando o Ega appareceu, de jaquetão, e em chinelas. - ---Tenho a fallar-te n'uma coisa grave, menino. - ---Lê isto primeiro, disse o outro, passando-lhe a carta da Gouvarinho. - -A Gouvarinho, n'um tom amargo, queixava-se que, já por duas vezes, -Carlos faltára ao _rendez-vous_ em casa da titi, sem lhe ter sequer -escripto uma palavra; ella vira n'isto uma offensa, uma brutalidade; e -vinha agora intimal-o, «em nome de todos os sacrificios que por elle -fizera», a que apparecesse na rua de S. Marçal, domingo ao meio dia, -para terem uma explicação definitiva antes d'ella partir para Cintra. - ---Excellente occasião d'acabar! exclamou Ega, entregando a carta a -Carlos, depois de respirar o perfume do papel. Não vás, nem respondas... -Ella parte para Cintra, tu para Santa Olavia, não vos vêdes mais, e -assim finda o romance. Finda como todas as coisas grandes, como o -Imperio Romano, e como o Rheno, por dispersão, insensivelmente... - ---É o que eu vou fazer, disse Carlos, começando a calçar as luvas. -Jesus! Que mulher massadora! - ---E que desavergonhada! Chamar a essas coisas «sacrificios!...» -Arrasta-te duas vezes por semana a casa da titi, regala-se lá de -extravagancias, bebe champagne, fuma cigarrettes, sobe ao setimo céo, -delira, e depois põe dolorosamente os olhos no chão, e chama a isso -«sacrificios...» Só com um chicote!... - -Carlos encolheu os hombros, com resignação, como se nas condessas de -Gouvarinho, e no mundo, só houvesse incoherencia e dólo. - ---E que é isso que tu me tinhas a dizer? - -Ega então tomou um ar grave. Escolheu lentamente na caixa uma -cigarrette, abotoou devagar o jaquetão. - ---Tu não tens visto o Damaso? - ---Nunca mais me appareceu, disse Carlos. Creio que está amuado... Eu -sempre que o encontro, aceno-lhe de longe amigavelmente com dois -dedos... - ---Devia ser antes com a bengala. O Damaso anda ahi, por toda a parte, -fallando de ti e d'essa senhora, tua amiga... A ti chama-te _pulha_, a -ella peor ainda. É a velha historia; diz que te apresentou, que te -metteste de dentro, e como para essa senhora é uma questão de dinheiro, -e tu és o mais rico, ella lhe passou o pé... Vês d'ahi a infamiasinha. E -isto tagarellado pelo Gremio, pela Casa Havaneza, com detalhes torpes, -envolvendo sempre a questão de dinheiro. Tudo isto é atroz. Trata de lhe -pôr cobro. - -Carlos, muito pallido, disse simplesmente: - ---Ha de se fazer justiça. - -Desceu, indignado. Aquella torpe insinuação sobre «dinheiro» parecia-lhe -poder ser castigada só com a morte. E um instante mesmo, com a mão no -fecho da portinhola do coupé, pensou em correr a casa do Damaso, tomar -um desforço brutal. - -Mas eram quasi onze horas, e elle tinha d'ir aos Olivaes. No dia -seguinte, sabbado, dia bello entre todos e solemne para o seu coração, -Maria Eduarda devia emfim visitar a quinta do Craft: e ficára combinado, -na vespera, que passariam lá as horas do calor, até tarde, sós, -n'aquella casa solitaria e sem criados, escondida entre as arvores. Elle -pedira-lh'o assim, hesitante e a tremer: ella consentira logo, sorrindo -e naturalmente. N'essa manhã elle mandára aos Olivaes dois criados para -arejar as salas, espanejar, encher tudo de flôres. Agora ia lá, como um -devoto, vêr se estava bem enfeitado o sacrario da sua deusa... E era -através d'estes deliciosos cuidados, em plena ventura, que lhe apparecia -outra vez, suja e empanando o brilho do seu amor, a tagarellice do -Damaso! - -Até aos Olivaes, não cessou de ruminar coisas vagas e violentas que -faria para aniquilar o Damaso. No seu amor não haveria paz, emquanto -aquelle villão o andasse commentando sordidamente pelas esquinas das -ruas. Era necessario enxovalhal-o de tal modo, com tal publicidade, que -elle não ousasse mais mostrar em Lisboa a face bochechuda, a face vil... -Quando o coupé parou á porta da quinta, Carlos decidira dar bengaladas -no Damaso, uma tarde, no Chiado, com apparato... - -Mas depois, ao regressar da quinta, vinha já mais calmo. Pisára a linda -rua d'acacias que os pés d'ella pisariam na manhã seguinte: dera um -longo olhar ao leito que seria o leito d'ella, rico, alçado sobre um -estrado, envolto em cortinados de brocatel côr d'ouro, com um esplendor -sério d'altar profano... D'ahi a poucas horas, encontrar-se-hiam sós -n'aquella casa muda e ignorada do mundo; depois, todo o verão os seus -amores viveriam escondidos n'esse fresco retiro d'aldêa; e d'ahi a tres -mezes estariam longe, na Italia, á beira d'um claro lago, entre as -flôres d'Isola Bella... No meio d'estas voluptuosidades magnificas, que -lhe podia importar o Damaso, gorducho e reles, palrando em calão nos -bilhares do Gremio! Quando chegou á rua de S. Francisco resolvera, se -visse o Damaso, continuar a acenar-lhe, de leve, com a ponta dos dedos. - -Maria Eduarda fôra passear a Belem com Rosa deixando-lhe um bilhete, em -que lhe pedia para vir á noite _faire un bout de causerie_. Carlos -desceu as escadas, devagar, guardando esse bocadinho de papel na -carteira como uma dôce reliquia; e sahia o portão, no momento em que o -Alencar desembocava defronte, da travessa da Parreirinha, todo de preto, -moroso e pensativo. Ao avistar Carlos, parou de braços abertos; depois -vivamente, como recordando-se, ergueu os olhos para o primeiro andar. - -Não se tinham visto desde as corridas, o poeta abraçou com effusão o seu -Carlos. E fallou logo de si, copiosamente. Estivera outra vez em Cintra, -em Collares com o seu velho Carvalhosa: e o que se lembrára do rico dia -passado com Carlos e com o maestro em Sitiaes!... Cintra uma belleza. -Elle, um pouco constipado. E apesar da companhia do Carvalhosa, tão -erudito e tão profundo, apesar da excellente musica da mulher, da -Julinha (que para elle era como uma irmã), tinha-se aborrecido. Questão -de velhice... - ---Com effeito, disse Carlos, pareces-me um pouco murcho... Falta-te o -teu ar aureolado. - -O poeta encolheu os hombros. - ---O Evangelho lá o diz bem claro... Ou é a Biblia que o diz...? Não; é -S. Paulo... S. Paulo ou Santo Agostinho?... Emfim a authoridade não faz -ao caso. N'um d'esses santos livros se affirma que este mundo é um valle -de lagrimas... - ---Em que a gente se ri bastante, disse Carlos alegremente. - -O poeta tornou a encolher os hombros. Lagrimas ou risos, que -importava?... Tudo era sentir, tudo era viver! Ainda na vespera elle -dissera isso mesmo em casa dos Cohens... - -E de repente, estacando no meio da rua, tocando no braço de Carlos: - ---E agora por fallar nos Cohens, dize-me uma coisa com franqueza, meu -rapaz. Eu sei que tu és intimo do Ega, e, que diabo, ninguem lhe admira -mais o talento do que eu!... Mas, realmente, tu approvas que elle, -apenas soube da chegada dos Cohens, se viesse metter em Lisboa? Depois -do que houve!... - -Carlos afiançou ao poeta que o Ega só no dia mesmo da chegada, horas -depois, soubera pela _Gazeta Illustrada_ a vinda dos Cohens... E de -resto se não podessem habitar, conjuntas na mesma cidade, as pessoas -entre as quaes tivesse havido attritos desagradaveis, as sociedades -humanas tinham de se desfazer... - -Alencar não respondeu, caminhando ao lado de Carlos, com a cabeça baixa. -Depois parou de novo, franzindo a testa: - ---Outra coisa em que te quero fallar. Houve entre ti e o Damaso alguma -péga? Eu pergunto-te isto porque n'outro dia, lá em casa dos Cohens, -elle veio com uns ditos, umas insinuações... Eu declarei-lhe logo: -«Damaso, Carlos da Maia, filho de Pedro da Maia, é como se fosse meu -irmão.» E o Damaso calou-se... Calou-se, porque me conhece, e sabe que -eu n'estas coisas de lealdade e de coração sou uma fera! - -Carlos disse simplesmente: - ---Não, não ha nada, não sei nada... Nem sequer tenho visto o Damaso. - ---Pois é verdade, continuou Alencar tomando o braço de Carlos, -lembrei-me muito de ti em Cintra. Até fiz lá um coisita que me não sahiu -má, e que te dediquei... Um simples soneto, uma paizagem, um quadrosinho -de Cintra ao pôr do sol. Quiz provar ahi a esses da Idéa Nova, que, -sendo necessario, tambem por cá se sabe cinzelar o verso moderno e dar o -traço realista. Ora espera ahi, eu te digo, se me lembrar. A coisa -chama-se--_Na estrada dos Capuchos_... - -Tinham parado á esquina do Seixas; e o poeta tossira já de leve, antes -de recitar,--quando justamente lhes appareceu o Ega, vindo de baixo, -vestido de campo, com uma bella rosa branca no jaquetão de flanella -azul. - -Alencar e elle não se encontravam desde a fatal soirée dos Cohens. E ao -passo que o Ega conservava um resentimento feroz contra o poeta vendo -n'elle o inventor d'essa perfida lenda da «carta obscena»--Alencar -odiava-o pela certeza secreta de que elle fôra o amante amado da sua -divina Rachel. Ambos se fizeram pallidos; o aperto de mão que deram foi -incerto e regelado; e ficaram calados, todos tres, emquanto Ega nervoso -levava uma eternidade a accender o charuto no lume de Carlos. Mas foi -elle que fallou, por entre uma fumaça, affectando uma superioridade -amavel: - ---Acho-te com boa côr, Alencar! - -O poeta foi amavel tambem, um pouco d'alto, passando os dedos no bigode: - ---Vai-se andando. E tu que fazes? Quando nos dás essas _Memorias_, -homem? - ---Estou á espera que o paiz aprenda a lêr. - ---Tens que esperar! Pede ao teu amigo Gouvarinho que apresse isso, elle -occupa-se da Instrucção publica... Olha, alli o tens tu, grave e ôco -como uma columna do _Diario do Governo_... - -O poeta apontava com a bengala para o outro lado da rua, por onde o -Gouvarinho descia, muito devagar, a conversar com o Cohen; e ao lado -d'elles, de chapéo branco, de collete branco, o Damaso deitava olhares -pelo Chiado, risonho, ovante, barrigudo, como um conquistador nos seus -dominios. Já aquelle arzinho gordo de tranquillo triumpho irritou -Carlos. Mas quando o Damaso parou defronte, no outro passeio, todo de -costas para elle, ostentando rir alto com o Gouvarinho, não se conteve, -atravessou a rua. - -Foi breve, e foi cruel: sacudiu a mão do Gouvarinho, saudou de leve o -Cohen: e sem baixar a voz, disse ao Damaso friamente: - ---Ouve lá. Se continúas a fallar de mim e de pessoas das minhas -relações, do modo como tens fallado, e que não me convém, arranco-te as -orelhas. - -O conde acudiu, mettendo-se entre elles: - ---Maia, por quem é! Aqui no Chiado... - ---Não é nada, Gouvarinho, disse Carlos detendo-o, muito sério e muito -sereno. É apenas um aviso a este imbecil. - ---Eu não quero questões, eu não quero questões!... balbuciou o Damaso, -livido, enfiando para dentro d'uma tabacaria. - -E Carlos voltou, com socego, para junto dos seus amigos, depois de ter -saudado o Cohen e sacudir a mão ao Gouvarinho. - -Vinha apenas um pouco pallido: mais perturbado estava o Ega, que julgára -vêr de novo, n'um olhar do Cohen, uma provocação intoleravel. Só o -Alencar não reparára em nada: continuava a discursar sobre coisas -litterarias, explicando ao Ega as concessões que se podiam fazer ao -naturalismo... - ---Fiquei aqui a dizer ao Ega... É evidente que quando se trata de -paizagem é necessario copiar a realidade... Não se pode descrever um -castanheiro _a priori_, como se descreveria uma alma... E lá isso faço -eu... Ahi está esse soneto de Cintra que eu te dediquei, Carlos. É -realista, está claro que é realista... Pudéra, se é paizagem! Ora eu -vol-o digo... Ia justamente dizel-o, quando tu appareceste, Ega... Mas -vejam lá vocês se isto os massa... - -Qual massava! E até, para o escutarem melhor, penetraram na rua de S. -Francisco, mais silenciosa. Ahi, dando um passo lento, depois outro, o -poeta murmurou a sua ecloga. Era em Cintra, ao pôr do sol: uma ingleza, -de cabellos soltos, toda de branco, desce n'um burrinho por uma vereda -que domina um valle; as aves cantam de leve, ha borboletas em torno das -madresilvas; então a ingleza pára, deixa o burrinho, olha enlevada o -céo, os arvoredos, a paz das casas;--e ahi, no ultimo terceto, vinha «a -nota realista» de que se ufanava o Alencar: - - - Ella olha a flôr dormente, a nuvem casta, - Emquanto o fumo dos casaes se eleva - E ao lado o burro, pensativo, pasta. - - ---Ahi têm vocês o traço, a nota naturalista... _Ao lado o burro, -pensativo, pasta_... Eis ahi a realidade, está-se a vêr o burro -pensativo... Não ha nada mais pensativo que um burro... E são estas -pequeninas coisas da natureza que é necessario observar... Já vêem vocês -que se póde fazer realismo, e do bom, sem vir logo com obscenidades... -Vocês que lhes parece o sonetito? - -Ambos o elogiaram profundamente--Carlos arrependido de não ter -completado a humilhação do Damaso, dando-lhe bengaladas; Ega pensando -que decerto, n'uma d'essas tardes, no Chiado, teria de esbofetear o -Cohen. Como elles recolhiam ao Ramalhete, Alencar, já desanuviado, foi -acompanhal-os pelo Aterro. E fallou sempre, contando o plano de um -romance historico, em que elle queria pintar a grande figura d'Affonso -d'Albuquerque, mas por um lado mais humano, mais intimo: Affonso -d'Albuquerque namorado: Affonso d'Albuquerque, só, de noite, na pôpa do -seu galeão, diante d'Ormuz incendiada, beijando uma flôr secca, entre -soluços. Alencar achava isto sublime. - -Depois de jantar, Carlos vestia-se para ir á rua de S. Francisco--quando -o Baptista veio dizer que o snr. Telles da Gama lhe desejava fallar com -urgencia. Não o querendo receber, alli, em mangas de camisa, mandou-o -entrar para o gabinete escarlate e preto. E veio d'ahi a um instante -encontrar Telles da Gama admirando as bellas faianças hollandezas. - ---Você, Maia, tem isto lindissimo, exclamou elle logo. Eu pello-me por -porcelanas... Hei de voltar um dia d'estes, com mais vagar, vêr tudo -isto, de dia... Mas hoje venho com pressa, venho com uma missão... Você -não adivinha? - -Carlos não adivinhava. - -E o outro, recuando um passo, com uma gravidade em que transparecia um -sorriso: - ---Eu venho aqui perguntar-lhe da parte do Damaso, se você hoje, -n'aquillo que lhe disse, tinha tenção de o offender. É só isto... A -minha missão é apenas esta: perguntar-lhe se você tinha intenção de o -offender. - -Carlos olhou-o, muito sério: - ---O quê!? Se tinha intenção de offender o Damaso quando o ameacei de lhe -arrancar as orelhas? De modo nenhum: tinha só intenção de lhe arrancar -as orelhas! - -Telles da Gama saudou, rasgadamente: - ---Foi isso mesmo o que eu respondi ao Damaso: que você não tinha senão -essa intenção. Em todo o caso, desde este momento, a minha missão está -finda... Como você tem isto bonito!... O que é aquelle prato grande, -majolica? - ---Não, um velho Nevers. Veja você ao pé... É Thetis conduzindo as armas -d'Achilles... É esplendido; e é muito raro... Veja você esse Deft, com -as duas tulipas amarellas... É um encanto! - -Telles da Gama dava um olhar lento a todas estas preciosidades, tomando -o chapéo de sobre o sofá. - ---Lindissimo tudo isto!... Então só intenção de lhe arrancar as orelhas? -nenhuma de o offender?... - ---Nenhuma de o offender, toda de lhe arrancar as orelhas... Fume você um -charuto. - ---Não, obrigado... - ---Calice de cognac? - ---Não! abstenção total de bebidas e aguas ardentes... Pois adeus, meu -bom Maia! - ---Adeus, meu bom Telles... - - -Ao outro dia, por uma radiante manhã de julho, Carlos saltava do coupé, -com um mólho de chaves, diante do portão da quinta do Craft. Maria -Eduarda devia chegar ás dez horas, só, na sua carruagem da Companhia. O -hortelão, dispensado por dois dias, fôra a Villa Franca; não havia ainda -criados na casa; as janellas estavam fechadas. E pesava alli, envolvendo -a estrada e a vivenda, um d'esses altos e graves silencios d'aldêa, em -que se sente, dormente no ar, o zumbir dos moscardos. - -Logo depois do portão, penetrava-se n'uma fresca rua d'acacias, onde -cheirava bem. A um lado, por entre a ramagem, apparecia o kiosque, com -tecto de madeira, pintado de vermelho, que fôra o capricho de Craft, e -que elle mobilára á japoneza. E ao fundo era a casa, caiada de novo, com -janellas de peitoril, persianas verdes, e a portinha ao centro sobre -tres degraus, flanqueados por vasos de louça azul cheios de cravos. - -Só o metter a chave devagar e com uma inutil cautela na fechadura -d'aquella morada discreta foi para Carlos um prazer. Abriu as janellas: -e a larga luz que entrava pareceu-lhe trazer uma doçura rara, e uma -alegria maior que a dos outros dias, como preparada especialmente pelo -bom Deus para alumiar a festa do seu coração. Correu logo á sala de -jantar, a verificar se, na mesa posta para o _lunch_, se conservavam -ainda viçosas as flôres que lá deixára na vespera. Depois voltou ao -coupé a tirar o caixote de gelo, que trouxera de Lisboa, embrulhado em -flanella, entre serradura. Na estrada, silenciosa por ora, ia só -passando uma saloia montada na sua egua. - -Mas apenas accommodára o gelo--sentiu fóra o ruido lento da carruagem. -Veio para o gabinete forrado de cretones, que abria sobre o corredor; e -ficou alli, espreitando da porta, mas escondido, por causa do cocheiro -da Companhia. D'ahi a um instante viu-a emfim chegar, pela rua de -acacias, alta e bella, vestida de preto, e com um meio-véo espesso como -uma mascara. Os seus pésinhos subiram os tres degraus de pedra. Elle -sentiu a sua voz inquieta perguntar de leve: - ---_Êtes-vous là?_ - -Appareceu--e ficaram um instante, á porta do gabinete, apertando -sofregamente as mãos, sem fallar, commovidos, deslumbrados. - ---Que linda manhã! disse ella por fim, rindo e toda vermelha. - ---Linda manhã, linda! repetia Carlos, contemplando-a, enlevado. - -Maria Eduarda resvalára sobre uma cadeira, junto da porta, n'um cansaço -delicioso, deixando calmar o alvoroço do seu coração. - ---É muito confortavel, é encantador tudo isto, dizia ella olhando -lentamente em redor os cretones do gabinete, o divan turco coberto com -um tapete de Brousse, a estante envidraçada cheia de livros. Vou ficar -aqui adoravelmente... - ---Mas ainda nem lhe agradeci o ter vindo, murmurou Carlos, esquecido, a -olhar para ella. Ainda nem lhe beijei a mão... - -Maria Eduarda começou a tirar o véo, depois as luvas, fallando da -estrada. Achára-a longa, fatigante. Mas que lhe importava? Apenas se -accommodasse n'aquelle fresco ninho nunca mais voltava a Lisboa! - -Atirou o chapéo para cima do divan--ergueu-se, toda alegre e luminosa. - ---Vamos vêr a casa, estou morta por vêr essas maravilhas do seu amigo -Craft!... É Craft que se chama? _Craft_ quer dizer industria! - ---Mas ainda nem sequer lhe beijei a mão! tornou Carlos, sorrindo e -supplicante. - -Ella estendeu-lhe os labios, e ficou presa nos seus braços. - -E Carlos, beijando-lhe devagar os olhos, o cabello, dizia-lhe quanto era -feliz e quanto a sentia agora mais sua entre estes velhos muros de -quinta que a separavam do resto do mundo... - -Ella deixava-se beijar, séria e grave: - ---E é verdade isso? É realmente verdade?... - -Se era verdade! Carlos teve um suspiro quasi triste: - ---Que lhe hei de eu responder? Tenho de lhe repetir essa coisa antiga -que já Hamlet disse: que duvide de tudo, que duvide do sol, mas que não -duvide de mim... - -Maria Eduarda desprendeu-se, lentamente e perturbada. - ---Vamos vêr a casa, disse ella. - -Começaram pelo segundo andar. A escada era escura e feia: mas os quartos -em cima, alegres, esteirados de novo, forrados de papeis claros, abriam -sobre o rio e sobre os campos. - ---Os seus aposentos, disse Carlos, hão de ser em baixo, está visto, -entre as coisas ricas... Mas Rosa e miss Sarah ficam aqui -esplendidamente. Não lhe parece? - -E ella percorria os quartos, devagar, examinando a accommodação dos -armarios, palpando a elasticidade dos colxões, attenta, cuidadosa, toda -no desvelo de alojar bem a sua gente. Por vezes mesmo exigia uma -alteração. E era realmente como se aquelle homem que a seguia, -enternecido e radiante, fosse apenas um velho senhorio. - ---O quarto com as duas janellas, ao fundo do corredor, seria o melhor -para Rosa. Mas a pequena não póde dormir n'aquelle enorme leito de pau -preto... - ---Muda-se! - ---Sim, póde mudar-se... E falta uma sala larga para ella brincar, ás -horas do calor... Se não houvesse o tabique entre os dois quartos -pequenos... - ---Deita-se abaixo! - -Elle esfregava as mãos, encantado, prompto a refundir toda a casa; e -ella não recusava nada, para conforto mais perfeito dos seus. - -Desceram á sala de jantar. E ahi, diante da famosa chaminé de carvalho -lavrado, flanqueada á maneira de cariatides pelas duas negras figuras de -Nubios, com olhos rutilantes de crystal, Maria Eduarda começou a achar o -gosto do Craft excentrico, quasi exotico... Tambem Carlos não lhe dizia -que Craft tivesse o gosto correcto d'um atheniense. Era um saxonio -batido d'um raio de sol meridional: mas havia muito talento na sua -excentricidade... - ---Oh, a vista é que é deliciosa! exclamou ella chegando-se á janella. - -Junto do peitoril crescia um pé de margaridas, e ao lado outro de -baunilha que perfumava o ar. Adiante estendia-se um tapete de relva, mal -aparada, um pouco amarellada já pelo calor de julho; e entre duas -grandes arvores que lhe faziam sombra, havia alli, para os vagares da -sésta, um largo banco de cortiça. Um renque de arbustos cerrados parecia -fechar a quinta d'aquelle lado como uma sebe. Depois a collina descia, -com outras quintarolas, casas que se não viam, e uma chaminé de fabrica; -e lá no fundo o rio rebrilhava, vidrado de azul, mudo e cheio de sol, -até ás montanhas d'além-Tejo, azuladas tambem na faiscação clara do céo -de verão. - ---Isto é encantador! repetia ella. - ---É um paraiso! Pois não lhe dizia eu? É necessario pôr um nome a esta -casa... Como se ha de chamar? _Villa-Marie?_ Não. _Château-Rose_... -Tambem não, crédo! Parece o nome d'um vinho. O melhor é baptisal-a -definitivamente com o nome que nós lhe davamos. Nós chamavamos-lhe a -_Tóca_. - -Maria Eduarda achou originalissimo o nome de _Tóca_. Devia-se até pintar -em letras vermelhas sobre o portão. - ---Justamente, e com uma divisa de bicho, disse Carlos rindo. Uma divisa -de bicho egoista na sua felicidade e no seu buraco: _Não me mexam!_ - -Mas ella parára, com um lindo riso de surpreza, diante da mesa posta, -cheia de fruta, com as duas cadeiras já chegadas, e os crystaes -brilhando entre as flôres. - ---São as bodas de Canná! - -Os olhos de Carlos resplandeceram. - ---São as nossas! - -Maria Eduarda fez-se muito vermelha; e baixou o rosto a escolher um -morango, depois a escolher uma rosa. - ---Quer uma gota de champagne? exclamou Carlos. Com um pouco de gelo? Nós -temos gelo, temos tudo! Não nos falta nada, nem a benção de Deus... Uma -gotinha de champagne, vá! - -Ella aceitou: beberam pelo mesmo copo; outra vez os seus labios se -encontraram, apaixonadamente. - -Carlos accendeu uma cigarrette, continuaram a percorrer a casa. A -cozinha agradou-lhe muito, arranjada á ingleza, toda em azulejos. No -corredor Maria Eduarda demorou-se diante de uma panoplia de tourada, com -uma cabeça negra de touro, espadas e garrochas, mantos de sêda vermelha, -conservando nas suas pregas uma graça ligeira, e ao lado o cartaz -amarello _de la corrida_, com o nome de Lagartijo. Isto encantou-a como -um quente lampejo de festa e de sol peninsular... - -Mas depois o quarto que devia ser o seu, quando Carlos lh'o foi mostrar, -desagradou-lhe com o seu luxo estridente e sensual. Era uma alcova, -recebendo a claridade d'uma sala forrada de tapeçarias, onde desmaiavam -na trama de lã os amores de Venus e Marte: da porta de communicação, -arredondada em arco de capella, pendia uma pesada lampada da Renascença, -de ferro forjado: e, áquella hora, batida por uma larga facha de sol, a -alcova resplandecia como o interior de um tabernaculo profanado, -convertido em retiro lascivo de serralho... Era toda forrada, paredes e -tectos, de um brocado amarello, côr de botão d'ouro; um tapete de -velludo do mesmo tom rico fazia um pavimento d'ouro vivo sobre que -poderiam correr nús os pés ardentes d'uma deusa amorosa--e o leito de -docel, alçado sobre um estrado, coberto com uma colcha de setim amarello -bordada a flôres d'ouro, envolto em solemnes cortinas tambem amarellas -de velho brocatel,--enchia a alcova, esplendido e severo, e como erguido -para as voluptuosidades grandiosas de uma paixão tragica do tempo de -Lucrecia ou de Romeu. E era alli que o bom Craft, com um lenço de sêda -da India amarrado na cabeça, resonava as suas sete horas, pacata e -solitariamente. - -Mas Maria Eduarda não gostou d'estes amarellos excessivos. Depois -impressionou-se, ao reparar n'um painel antigo, defumado, resaltando em -negro do fundo de todo aquelle ouro--onde apenas se distinguia uma -cabeça degolada, livida, gelada no seu sangue, dentro d'um prato de -cobre. E para maior excentricidade, a um canto, de cima de uma columna -de carvalho, uma enorme coruja empalhada fixava no leito d'amor, com um -ar de meditação sinistra, os seus dois olhos redondos e agourentos... -Maria Eduarda achava impossivel ter alli sonhos suaves. - -Carlos agarrou logo na columna e no mocho, atirou-os para um canto do -corredor; e propoz-lhe mudar aquelles brocados, forrar a alcova de um -setim côr de rosa e risonho. - ---Não, venho-me a acostumar a todos esses ouros... Sómente aquelle -quadro, com a cabeça, e com o sangue... Jesus, que horror! - ---Reparando bem, disse Carlos, creio que é o nosso velho amigo S. João -Baptista. - -Para desfazer essa impressão desconsolada levou-a ao salão nobre, onde -Craft concentrára as suas preciosidades. Maria Eduarda, porém, ainda -descontente, achou-lhe um ar atulhado e frio de museu. - ---É para vêr de pé, e de passagem... Não se póde ficar aqui sentado, a -conversar. - ---Mas esta é materia-prima! exclamou Carlos. Com isto depois faz-se uma -sala adoravel... Para que serve o nosso genio decorativo?... Olhe o -armario, veja que centro! Que belleza! - -Enchendo quasi a parede do fundo, o famoso armario, o «movel divino» do -Craft, obra de talha do tempo da Liga Hanseatica, luxuoso e sombrio, -tinha uma magestade architectural: na base quatro guerreiros, armados -como Marte, flanqueavam as portas, mostrando cada uma em baixo-relevo o -assalto de uma cidade ou as tendas de um acampamento; a peça superior -era guardada aos quatro cantos pelos quatro evangelistas, João, Marcos, -Lucas e Matheus, imagens rigidas, envolvidas n'essas roupagens violentas -que um vento de prophecia parece agitar: depois na cornija erguia-se um -trophéo agricola com mólhos d'espigas, fouces, cachos d'uvas e rabiças -d'arados; e, á sombra d'estas coisas de labor e fartura, dois Faunos, -recostados em symetria, indifferentes aos heroes e aos santos, tocavam -n'um desafio bucolico a frauta de quatro tubos. - ---Então, hein? dizia Carlos. Que movel! É todo um poema da Renascença, -Faunos e Apostolos, guerras e georgicas... Que se póde metter dentro -d'este armario? Eu se tivesse cartas suas era aqui que as depositava, -como n'um altar-mór. - -Ella não respondeu, sorrindo, caminhando devagar entre essas coisas do -passado, d'uma belleza fria, e exhalando a indefinida tristeza de um -luxo morto: finos moveis da Renascença italiana, exilados dos seus -palacios de marmore, com embutidos de cornalina e agatha que punham um -brilho suave de joia sobre a negrura dos ebanos ou setim das madeiras -côr de rosa; cofres nupciaes, longos como bahús, onde se guardavam os -presentes dos Papas e dos Principes, pintados a purpura e ouro, com -graças de miniatura; contadores hespanhoes impertigados, revestidos de -ferro brunido e de velludo vermelho, e com interiores mysteriosos, em -fórma de capella, cheios de nichos, de claustros de tartaruga... Aqui e -além, sobre a pintura verde-escura das paredes, resplandecia uma colcha -de setim toda recamada de flôres e d'aves d'ouro; ou sobre um bocado de -tapete do Oriente de tons severos, com versiculos do Alcorão, -desdobrava-se a pastoral gentil d'um minuete em Cythera sobre a sêda de -um leque aberto... - -Maria Eduarda terminou por se sentar, cansada, n'uma poltrona Luiz XV, -ampla e nobre, feita para a magestade das anquinhas, recoberta de -tapeçaria de Beauvais, d'onde parecia exhalar-se ainda um vago aroma -d'empoado. - -Carlos triumphava, vendo a admiração de Maria. Então, ainda considerava -uma extravagancia aquella compra, feita n'um rasgo de enthusiasmo? - ---Não, ha aqui coisas adoraveis... Nem eu sei se me atreverei a viver -uma vida pacata de aldêa no meio de todas estas raridades... - ---Não diga isso, exclamava Carlos rindo, que eu pégo fogo a tudo! - -Mas o que lhe agradou mais foram as bellas faianças, toda uma arte -immortal e fragil espalhada por sobre o marmore das consolas. Uma -sobretudo attrahiu-a, uma esplendida taça persa, d'um desenho raro, com -um renque de negros cyprestes, cada um abrigando uma flôr de côr viva: e -aquillo fazia lembrar breves sorrisos reapparecendo entre longas -tristezas. Depois eram as apparatosas majolicas, de tons estridentes e -desencontrados, cheias de grandes personagens, Carlos V passando o Elba, -Alexandre coroando Roxane; os lindos Nevers, ingenuos e sérios; os -Marselhas, onde se abre voluptuosamente, como uma nudez que se mostra, -uma grossa rosa vermelha; os Derby, com as suas rendas de ouro sobre o -azul-ferrete de céo tropical; os Wedgewood, côr de leite e côr de rosa, -com transparencias fugitivas de concha na agua... - ---Só um instante mais, exclamou Carlos vendo-a outra vez sentar-se, é -necessario saudar o genio tutelar da casa! - -Era ao centro, sobre uma larga peanha, um idolo japonez de bronze, um -deus bestial, nú, pelado, obeso, de papeira, faceto e banhado de riso, -com o ventre óvante, distendido na indigestão de todo um universo--e as -duas perninhas bambas, molles e flaccidas como as pelles mortas d'um -feto. E este monstro triumphava, encanchado sobre um animal fabuloso, de -pés humanos, que dobrava para a terra o pescoço submisso, mostrando no -focinho e no olho obliquo todo o surdo resentimento da sua humilhação... - ---E pensarmos, dizia Carlos, que gerações inteiras vieram ajoelhar-se -diante d'este ratão, rezar-lhe, beijar-lhe o embigo, offerecer-lhe -riquezas, morrer por elle... - ---O amor que se tem por um monstro, disse Maria, é mais meritorio, não é -verdade? - ---Por isso não acha talvez meritorio o amor que se tem por si... - -Sentaram-se ao pé da janella, n'um divan baixo e largo, cheio de -almofadas, cercado por um biombo de sêda branca, que fazia entre aquelle -luxo do passado um fôfo recanto de conforto moderno: e como ella se -queixava um pouco de calor, Carlos abriu a janella. Junto do peitoril -crescia tambem um grande pé de margaridas; adiante, n'um velho vaso de -pedra, pousado sobre a relva, vermelhejava a flôr d'um cacto; e dos -ramos de uma nogueira cahia uma fina frescura. - -Maria Eduarda veio encostar-se á janella, Carlos seguiu-a; e ficaram -alli juntos, calados, profundamente felizes, penetrados pela doçura -d'aquella solidão. Um passaro cantou de leve no ramo da arvore; depois -calou-se. Ella quiz saber o nome de uma povoação que branquejava ao -longe ao sol na collina azulada. Carlos não se lembrava. Depois -brincando, colheu uma margarida, para a interrogar: _Elle m'aime, un -peu, beaucoup_... Ella arrancou-lh'a das mãos. - ---Para que precisa perguntar ás flôres? - ---Porque ainda m'o não disse claramente, absolutamente, como eu quero -que m'o diga... - -Abraçou-a pela cinta, sorriam um ao outro. Então Carlos, com os olhos -mergulhados nos d'ella, disse-lhe baixínho e implorando: - ---Ainda não vimos a saleta de banho... - -Maria Eduarda deixou-se levar assim enlaçada pelo salão, depois através -da sala de tapeçarias onde Marte e Venus se amavam entre os bosques. Os -banhos eram ao lado, com um pavimento de azulejo, avivado por um velho -tapete vermelho da Caramania. Elle, tendo-a sempre abraçada, pousou-lhe -no pescoço um beijo longo e lento. Ella abandonou-se mais, os seus olhos -cerraram-se, pesados e vencidos. Penetraram na alcova quente e côr -d'ouro: Carlos ao passar desprendeu as cortinas do arco de capella, -feitas de uma sêda leve que coava para dentro uma claridade loura: e um -instante ficaram immoveis, sós emfim, desatado o abraço, sem se tocarem, -como suspensos e suffocados pela abundancia da sua felicidade. - ---Aquella horrivel cabeça! murmurou ella. - -Carlos arrancou a coberta do leito, escondeu a tela sinistra. E então -todo o rumor se extinguiu, a solitaria casa ficou adormecida entre as -arvores, n'uma demorada sésta, sob a calma de julho... - - -Os annos de Affonso da Maia foram justamente no dia seguinte, domingo. -Quasi todos os amigos da casa tinham jantado no Ramalhete; e tomára-se o -café no escriptorio d'Affonso, onde as janellas se conservavam abertas. -A noite estava tepida, estrellada e serenissima. Craft, Sequeira e o -Taveira passeavam fumando no terraço. Ao canto d'um sofá Cruges escutava -religiosamente Steinbroken que lhe contava, com gravidade, os progressos -da musica na Filandia. E em redor de Affonso, estendido na sua velha -poltrona, de cachimbo na mão, fallava-se do campo. - -Ao jantar Affonso annunciára a intenção de ir visitar, para o meado do -mez, as velhas arvores de Santa Olavia; e combinára-se logo uma grande -romaria de amizade ás margens do Douro. Craft e Sequeira acompanhavam -Affonso. O marquez promettera uma visita para agosto «na companhia -melodiosa», dizia elle, do amigo Steinbroken. D. Diogo hesitava, com -receio da longa jornada, da humidade da aldêa. E agora tratava-se de -persuadir Ega a ir tambem, com Carlos--quando Carlos acabasse emfim de -reunir esses materiaes do seu livro que o retinham em Lisboa «á banca do -labor...» Mas o Ega resistia. O campo, dizia elle, era bom para os -selvagens. O homem, á maneira que se civilisa, afasta-se da natureza; e -a realisação do progresso, o paraiso na Terra, que presagiam os -Idealistas, concebia-o elle como uma vasta cidade occupando totalmente o -Globo, toda de casas, toda de pedra, e tendo apenas aqui e além um -bosquesinho sagrado de roseiras, onde se fossem colher os ramalhetes -para perfumar o altar da Justiça... - ---E o milho? A bella fruta? A hortaliçasinha? perguntava Villaça, rindo -com malicia. - -Imaginava então Villaça, replicava o outro, que d'aqui a seculos ainda -se comeriam hortaliças? O habito dos vegetaes era um resto da rude -animalidade do homem. Com os tempos o sêr civilisado e completo vinha a -alimentar-se unicamente de productos artificiaes, em frasquinhos e em -pilulas, feitos nos laboratorios do Estado... - ---O campo, disse então D. Diogo, passando gravemente os dedos pelos -bigodes, tem certa vantagem para a sociedade, para se fazer um bonito -_pic-nic_, para uma burricada, para uma partida de croquet... Sem campo -não ha sociedade. - ---Sim, rosnou o Ega, como uma sala em que tambem ha arvores ainda se -admitte... - -Enterrado n'uma poltrona, fumando languidamente, Carlos sorria em -silencio. Todo o jantar estivera assim calado, sorrindo esparsamente a -tudo, com um ar luminoso e de deliciosa lassidão. E então o marquez, que -já duas vezes, dirigindo-se a elle, encontrára a mesma abstracção -radiosa, impacientou-se: - ---Homem, falle, diga alguma coisa!... Você está hoje com um ar -extraordinario, um arzinho de beato que se regalou de papar o -Santissimo! - -Todos em redor, com sympathia, se affirmaram em Carlos: Villaça -achava-lhe agora melhor cara, côr d'alegria: D. Diogo, com um ar -entendido, sentindo mulher, invejou-lhe os annos, invejou-lhe o vigor. E -Affonso reenchendo o cachimbo olhava o neto, enternecido. - -Carlos ergueu-se immediatamente, fugindo áquelle exame affectuoso. - ---Com effeito, disse elle, espreguiçando-se de leve, tenho estado hoje -languido e mono... É o começo do verão... Mas é necessario sacudir-me... -Quer você fazer uma partida de bilhar, ó marquez? - ---Vá lá, homem. Se isso o resuscita... - -Foram, Ega seguiu-os. E apenas no corredor o marquez parando, e como -recordando-se, perguntou sem rebuço ao Ega noticias dos Cohens. -Tinham-se encontrado? Estava tudo acabado? Para o marquez, uma flôr de -lealdade, não havia segredos: Ega contou-lhe que o romance findára, e -agora o Cohen, quando o cruzava, baixava prudentemente os olhos... - ---Eu perguntei isto, disse o marquez, porque já vi a Cohen duas vezes... - ---Onde? foi a exclamação sôfrega do Ega. - ---No Price, e sempre com o Damaso. A ultima vez foi já esta semana. E lá -estava o Damaso, muito chegadinho, palrando muito... Depois veio -sentar-se um bocado ao pé de mim, e sempre d'olho n'ella... E ella de -lá, com aquelle ar de lambisgoia, de luneta n'elle... Não havia que -duvidar, era um namoro... Aquelle Cohen é um predestinado. - -Ega fez-se livido, torceu nervosamente o bigode, terminou por dizer: - ---O Damaso é muito intimo d'elles... Mas talvez se atire, não duvido... -São dignos um do outro. - -No bilhar, emquanto os dois carambolavam preguiçosamente, elle não -cessou de passear, n'uma agitação, trincando o charuto apagado. De -repente estacou em frente do marquez, com os olhos chammejantes: - ---Quando é que você a viu ultimamente no Price, essa torpe filha -d'Israel? - ---Terça-feira, creio eu. - -O Ega recomeçou a passear, sombrio. - -N'esse instante Baptista, apparecendo á porta do bilhar, chamou Carlos -em silencio, com um leve olhar. Carlos veio, surprehendido. - ---É um cocheiro de praça, murmurou Baptista. Diz que está alli uma -senhora dentro d'uma carruagem que lhe quer fallar. - ---Que senhora? - -Baptista encolheu os hombros. Carlos, de taco na mão, olhava para elle, -aterrado. Uma senhora! Era decerto Maria... Que teria succedido, santo -Deus, para ella vir n'uma tipoia, ás nove da noite, ao Ramalhete! - -Mandou Baptista, a correr, buscar-lhe um chapéo baixo; e assim mesmo, de -casaca, sem paletot, desceu n'uma grande anciedade. No peristyllo topou -com Eusebiosinho que chegava, e sacudia cuidadosamente com o lenço a -poeira dos botins. Nem fallou ao Eusebiosinho. Correu ao coupé, parado á -porta particular dos seus quartos, mudo, fechado, mysterioso, -aterrador... - -Abriu a portinhola. Do canto da velha traquitana, um vulto negro, -abafado n'uma mantilha de renda, debruçou-se, perturbado, balbuciou: - ---É só um instante! Quero-lhe fallar! - -Que allivio! Era a Gouvarinho! Então, na sua indignação, Carlos foi -brutal. - ---Que diabo de tolice é esta? Que quer? - -Ia bater com a portinhola; ella empurrou-a para fóra, desesperada; e não -se conteve, desabafou logo alli, diante do cocheiro, que mexia -tranquillamente na fivela d'um tirante. - ---De quem é a culpa? Para que me trata d'este modo?... É só um instante, -entre, tenho de lhe fallar!... - -Carlos saltou para dentro, furioso: - ---Dá uma volta pelo Aterro, gritou ao cocheiro. Devagar! - -O velho calhambeque desceu a calçada; e durante um momento, na -escuridão, recuando um do outro no assento estreito, tiveram as mesmas -palavras, bruscas e colericas, através do barulho das vidraças. - ---Que imprudencia! que tolice!... - ---E de quem é a culpa? De quem é a culpa? - -Depois, na rampa de Santos, o coupé rolou mais silenciosamente no -macadam. Carlos então, arrependido da sua dureza, voltou-se para ella, e -com brandura, quasi no tom carinhoso d'outr'ora, reprehendeu-a por -aquella imprudencia... Pois não era melhor ter-lhe escripto? - ---Para quê? exclamou ella. Para não me responder? Para não fazer caso -das minhas cartas, como se fossem as de um importuno a pedir-lhe uma -esmola!... - -Suffocava, arrancou a mantilha da cabeça. No vagaroso rolar do coupé, -sem ruido, ao longo do rio, Carlos sentia a respiração d'ella, -tumultuosa e cheia d'angustia. E não dizia nada, immovel, n'um infinito -mal-estar, entrevendo confusamente, através do vidro embaciado, na -sombra triste do rio adormecido, as mastreações vagas de falúas. A -parelha parecia ir adormecendo; e as queixas d'ella desenrolavam-se, -profundas, mordentes, repassadas d'amargura. - ---Peço-lhe que venha a Santa Isabel, não vem... Escrevo-lhe, não me -responde... Quero ter uma explicação franca comsigo, não apparece... -Nada, nem um bilhete, nem uma palavra, nem um aceno... Um desprezo -brutal, um desprezo grosseiro... Eu nem devia ter vindo... Mas não pude, -não pude!... Quiz saber o que lhe tinha feito. O que é isto? Que lhe fiz -eu? - -Carlos percebia os olhos d'ella, faiscantes sob a nevoa de lagrimas -retidas, supplicando e procurando os seus. E sem coragem sequer de a -fitar, murmurou, torturado: - ---Realmente, minha amiga... As coisas fallam bem por si, não são -necessarias explicações. - ---São! É necessario saber se isto é uma coisa passageira, um amuo, ou se -é uma coisa definitiva, um rompimento! - -Elle agitava-se no seu canto, sem achar uma maneira suave, affectuosa -ainda, de lhe dizer que todo o seu desejo d'ella findára. Terminou por -affirmar que não era um amuo. Os seus sentimentos tinham sido sempre -elevados, não cahiria agora na pieguice de ter um amuo... - ---Então é um rompimento?... - ---Não, tambem não... Um rompimento absoluto, para sempre, não... - ---Então é um amuo? Porquê? - -Carlos não respondeu. Ella, perdida, sacudiu-o pelo braço. - ---Mas falle! Diga alguma coisa, santo Deus! Não seja cobarde, tenha a -coragem de dizer o que é! - -Sim, ella tinha razão... Era uma cobardia, era uma indignidade, -continuar alli, gôchemente, dissimulado na sombra, a balbuciar coisas -mesquinhas. Quiz ser claro, quiz ser forte. - ---Pois bem, ahi está. Eu entendi que as nossas relações deviam ser -alteradas... - -E outra vez hesitou, a verdade amolleceu-lhe nos labios, sentindo -aquella mulher ao seu lado a tremer d'agonia. - ---Alteradas, quero dizer... Podiamos transformar um capricho apaixonado, -que não podia durar, n'uma amizade agradavel, e mais nobre... - -E pouco a pouco as palavras voltavam-lhe faceis, habeis, persuasivas, -através do rumor lento das rodas. Onde os podia levar aquella ligação? -Ao resultado costumado. A que a um dia se descobrisse tudo, e o seu -bello romance acabasse no escandalo e na vergonha; ou a que, -envolvendo-os por muito tempo o segredo, elle viesse a descahir na -banalidade d'uma união quasi conjugal, sem interesse e sem requinte. De -resto era certo que, continuando a encontrarem-se, aqui, em Cintra, -n'outros sitios, a sociedadesinha curiosa e mexeriqueira viria a -perceber a sua affeição. E havia por acaso nada mais horroroso, para -quem tem orgulho e delicadeza d'alma, do que uns amores que todo o -publico conhece, até os cocheiros de praça? Não... O bom senso, o bom -gosto mesmo, tudo indicava a necessidade d'uma separação. Ella mesmo -mais tarde lhe seria grata... Decerto, esta primeira interrupção d'um -habito dôce era desagradavel, e elle estava bem longe de se sentir -feliz. Fôra por isso que não tivera a coragem de lhe escrever... Emfim -deviam ser fortes, e não se vêrem pelo menos durante alguns mezes... -Depois, pouco a pouco, o que era capricho fragil, cheio de inquietação, -tornar-se-hia uma boa amizade, bem segura e bem duradoura. - -Calou-se; e então, no silencio, sentiu que ella, cahida para o canto do -coupé, como uma coisa miseravel e meio morta, encolhida no seu véo, -estava chorando baixo. - -Foi um momento intoleravel. Ella chorava sem violencia, mansamente, com -um chôro lento, que parecia não dever findar. E Carlos só achava esta -palavra banal e desenxabida: - ---Que tolice, que tolice! - -Vinham rodando ao comprido das casas, por diante da fabrica do gaz. Um -americano passou alumiado, com senhoras vestidas de claro. N'aquella -noite de verão e d'estrellas, havia gente vagueando tranquillamente -entre as arvores. Ella continuava a chorar. - -Aquelle pranto triste, lento, correndo a seu lado, começou a commovel-o; -e ao mesmo tempo quasi lhe queria mal por ella não reter essas lagrimas -infindaveis que laceravam o seu coração... E elle que estava tão -tranquillo, no Ramalhete, na sua poltrona, sorrindo a tudo, n'uma -deliciosa lassidão! - -Tomou-lhe a mão, querendo calmal-a, apiedado, e já impaciente. - ---Realmente não tem razão. É absurdo... Tudo isto é para seu bem... - -Ella teve emfim um movimento, enxugou os olhos, assoou-se doloridamente -por entre os seus longos soluços... E de repente, n'um arranque de -paixão, atirou-lhe os braços ao pescoço, prendendo-se a elle com -desespero, esmagando-o contra o seu seio. - ---Oh meu amor, não me deixes, não me deixes! Se tu soubesses! És a unica -felicidade que eu tenho na vida... Eu morro, eu mato-me!... Que te fiz -eu? Ninguem sabe do nosso amor... E que soubesse! Por ti sacrifico tudo, -vida, honra, tudo! tudo!... - -Molhava-lhe a face com o resto das suas lagrimas; e elle abandonava-se, -sentindo aquelle corpo sem collete, quente e como nú, subir-lhe para os -joelhos, collar-se ao seu, n'um furor de o repossuir, com beijos -sôfregos, furiosos, que o suffocavam... Subitamente a tipoia parou. E um -momento ficaram assim--Carlos immovel, ella cahida sobre elle e -arquejando. - -Mas a tipoia não continuava. Então Carlos desprendeu um braço, desceu o -vidro; e viu que estavam defronte do Ramalhete. O homem, obedecendo á -ordem, dera a volta pelo Aterro, devagar, subira a rampa, retrocedera á -porta da casa. Durante um instante Carlos teve a tentação de descer, -acabar alli bruscamente aquelle longo tormento. Mas pareceu-lhe uma -brutalidade. E desesperado, detestando-a, berrou ao cocheiro: - ---Outra vez ao Aterro, anda sempre!... - -A tipoia deu na rua estreita uma volta resignada, tornou a rolar; de -novo as pedras da calçada fizeram tilintir os vidros; de novo, mais -suavemente, desceram a rampa de Santos. - -Ella recomeçára os seus beijos. Mas tinham perdido a chamma que um -instante os fizera quasi irresistiveis. Agora Carlos sentia só uma -fadiga, um desejo infinito de voltar ao seu quarto, ao repouso de que -ella o arrancára para o torturar com estas recriminações, estes ardores -entre lagrimas... E de repente, emquanto a condessa balbuciava, como -tonta, pendurada do seu pescoço,--elle viu surgir n'alma, viva e -resplandecente, a imagem de Maria Eduarda, tranquilla áquella hora na -sua sala de reps vermelho, fazendo serão, confiando n'elle, pensando -n'elle, relembrando as felicidades da vespera, quando a _Toca_, cheia de -seus amores, dormia, branca entre as arvores... Teve então horror á -Gouvarinho; brutalmente, sem piedade, repelliu-a para o canto do coupé. - ---Basta! Tudo isto é absurdo... As nossas relações estão acabadas, não -temos mais nada que nos dizer! - -Ella ficou um instante como atordoada. Depois estremeceu, teve um riso -nervoso, reppelliu-o tambem, phreneticamente, pisando-lhe o braço. - ---Pois bem! Vai, deixa-me! Vai para a outra, para a brazileira! Eu -conheço-a, é uma aventureira que tem o marido arruinado, e precisa quem -lhe pague as modistas!... - -Elle voltou-se, com os punhos fechados, como para a espancar; e na -tipoia escura, onde já havia um vago cheiro de verbena, os olhos -d'ambos, sem se vêrem, dardejavam o odio que os enchia... Carlos bateu -raivosamente no vidro. A tipoia não parou. E a Gouvarinho, do outro -lado, furiosa, magoando os dedos, procurava descer a vidraça. - ---É melhor que sáia! dizia ella suffocada. Tenho horror de me achar -aqui, ao seu lado! Tenho horror! Cocheiro! cocheiro! - -O calhambeque parou. Carlos pulou para fóra, fechou d'estalo a -portinhola; e sem uma palavra, sem erguer o chapéo, virou costas, abalou -a grandes passadas para o Ramalhete, tremulo ainda, cheio d'idéas de -rancor, sob a paz da noite estrellada. - - - - -IV - - -Foi n'um sabbado que Affonso da Maia partiu para Santa Olavia. Cedo -n'esse mesmo dia, Maria Eduarda, que o escolhera por ser de boa estreia, -installára-se nos Olivaes. E Carlos, voltando de Santa Apolonia, onde -fôra acompanhar o avô, com o Ega, dizia-lhe alegremente: - ---Então aqui ficamos nós sós a torrar, _na cidade de marmore_ e de -lixo... - ---Antes isso, respondeu o Ega, que andar de sapatos brancos, a scismar, -por entre a poeirada de Cintra! - -Mas no domingo, quando Carlos recolheu ao Ramalhete ao -anoitecer--Baptista annunciou que o snr. Ega tinha partido n'esse -momento para Cintra, levando apenas livros e umas escovas embrulhadas -n'um jornal... O snr. Ega tinha deixado uma carta. E tinha dito: -«Baptista, vou pastar.» - -A carta, a lapis, n'uma larga folha d'almasso, dizia: «Assaltou-me de -repente, amigo, juntamente com um horror á caliça de Lisboa, uma saudade -infinita da natureza e do verde. A porção d'animalidade que ainda resta -no meu sêr civilisado e recivilisado precisa urgentemente -d'espolinhar-se na relva, beber no fio dos regatos, e dormir balançada -n'um ramo de castanheiro. O solícito Baptista que me remetta ámanhã pelo -omnibus a mala com que eu não quiz sobrecarregar a tipoia do _Mulato_. -Eu demoro-me apenas tres ou quatro dias. O tempo de cavaquear um bocado -com o Absoluto no alto dos _Capuchos_, e vêr o que estão fazendo os -myosotis junto á meiga _fonte dos Amores_...» - ---Pedante! rosnou Carlos, indignado com o abandono ingrato em que o -deixava o Ega. - -E atirando a carta: - ---Baptista! O snr. Ega diz ahi que lhe mandem uma caixa de charutos, dos -_Imperiales_. Manda-lhe antes dos _Flôr de Cuba_. Os _Imperiales_ são um -veneno. Esse animal nem fumar sabe! - -Depois de jantar Carlos percorreu o _Figaro_, folheou um volume de -Byron, bateu carambolas solitarias no bilhar, assobiou _malagueñas_ no -terrasso--e terminou por sahir, sem destino, para os lados do Aterro. O -Ramalhete entristecia-o, assim mudo, apagado, todo aberto ao calor da -noite. Mas insensivelmente, fumando, achou-se na rua de S. Francisco. As -janellas de Maria Eduarda estavam tambem abertas e negras. Subiu ao -andar do Cruges. O menino Victorino não estava em casa... - -Amaldiçoando o Ega, entrou no Gremio. Encontrou o Taveira, de paletot ao -hombro, lendo os telegrammas. Não havia nada novo por essa velha Europa; -apenas mais uns Nihilistas enforcados; e elle Taveira ia ao Price... - ---Vem tu tambem d'ahi, Carlinhos! Tens lá uma mulher bonita que se mette -na agua com cobras e crocodilos... Eu pello-me por estas mulheres de -bichos!... Que esta é difficil, traz um _chulo_... Mas eu já lhe -escrevi: e ella faz-me um bocado d'olho de dentro da tina. - -Arrastou Carlos: e pelo Chiado abaixo fallou-lhe logo do Damaso. Não -tornára a ver essa flôr? Pois essa flôr andava apregoando por toda a -parte que o Maia, depois do caso do Chiado, lhe dera por um amigo -explicações humildes, covardes... Terrivel, aquelle Damaso! Tinha -figura, interior, e natureza de pélla! Com quanto mais força se atirava -ao chão, mais elle resaltava para o ar, triumphante!... - ---Em todo o caso é uma rez traiçoeira, e deves ter cautela com elle... - -Carlos encolheu os hombros, rindo. - -Não, não, dizia o Taveira muito sério, eu conheço o meu Damaso. Quando -foi da nossa péga, em casa da Lola Gorda, elle portou-se como um -poltrão, mas depois ia-me atrapalhando a vida... É capaz de tudo... -Antes d'hontem estava eu a cear no Silva, elle veio sentar-se um bocado -ao pé de mim, e começou logo com umas coisas a teu respeito, umas -ameaças... - ---Ameaças! Que disse elle? - ---Diz que te dás ares de espadachim e de valentão, mas has de encontrar -dentro em pouco quem te ensine... Que se está ahi preparando um -escandalo monumental... Que se não admirará de te vêr brevemente com uma -boa bala na cabeça... - ---Uma bala? - ---Assim o disse. Tu ris, mas eu é que sei... Eu, se fosse a ti, ia-me ao -Damaso e dizia-lhe: «Damasosinho, flôr, fique avisado que, d'ora em -diante, cada vez que me succeder uma coisa desagradavel, venho aqui e -parto-lhe uma costella; tome as suas medidas...» - -Tinham chegado ao Price. Uma multidão de domingo, alegre e pasmada, -apinhava-se até ás ultimas bancadas onde havia rapazes, em mangas de -camisa, com litros de vinho; e eram grossas, fartas risadas, com os -requebros do palhaço, rebocado de cáio e vermelhão, que tocava nos -pésinhos d'uma _voltigeuse_ e lambia os dedos, d'olhos em alvo, n'um -gosto de mel... Descançando na sella larga de xairel dourado, a -creatura, magrinha e séria, com flôres nas tranças, dava a volta -devagar, ao passo d'um cavallo branco, que mordia o freio, levado á mão -por um estribeiro; e pela arena o palhaço lambão e nescio acompanhava-a, -com as mãos ambas apertadas ao coração, n'uma supplica babosa, rebolando -languidamente os quadris dentro das vastas pantalonas, picadas de -lantejoulas. Um dos escudeiros, de calça listrada d'ouro, empurrava-o, -n'um arremedo de ciumes; e o palhaço cahia, estatelado, com um estoiro -de nadegas, entre os risos das crianças e os rantantans da charanga. O -calor suffocava; e as fumaraças de charuto, subindo sem cessar, faziam -uma neva onde tremiam as chammas largas do gaz. Carlos, incommodado, -abalou. - ---Espera ao menos para vêr a mulher dos crocodilos! gritou ainda o -Taveira. - ---Não posso, cheira mal, morro! - -Mas á porta, de repente, foi detido pelos braços abertos do Alencar, que -chegava--com outro sujeito, velho e alto, de barbas brancas, todo -vestido de luto. O poeta ficou pasmado de vêr alli o de seu Carlos. -Fazia-o no seu solar Santa de Olavia! Vira até nos papeis publicos... - ---Não, disse Carlos, o avô é que foi hontem... Eu não me sinto ainda em -disposição do ir communicar com a natureza... - -Alencar riu, levemente afogueado, com um brilho de genebra no olho cavo. -Ao lado, grave, o ancião de barbas calçava as suas luvas pretas. - ---Pois eu é o contrario! exclamava o poeta. - -Estou precisado d'um banho de pantheismo! A bella natureza! O prado! O -bosque!... De modo que talvez me mimoseie com Cintra, para a semana. -Estão lá os Cohens, alugaram uma casita muito bonita, logo adiante do -Victor... - -Os Cohens! Carlos comprehendeu então a fuga do Ega e a «sua saudade do -verde.» - ---Ouve lá, dizia-lhe o poeta baixo, e puxando-o pela manga, para o lado. -Tu não conheces este meu amigo? Pois foi muito de teu pai, fizemos muita -troça juntos... Não era nenhum personagem, era apenas um alquilador de -cavallos... Mas tu sabes, cá em Portugal, sobretudo n'esses tempos, -havia muita bonhomia, o fidalgo dava-se com o arrieiro... Mas, que -diabo, tu deves conhecel-o! É o tio do Damaso! - -Carlos não se recordava. - ---O Guimarães, o que está em Paris! - ---Ah, o communista! - ---Sim, muito republicano, homem de idéas humanitarias, amigo do -Gambetta, escreve no _Rappel_... Homem interessante!... Veio ahi por -causa d'umas terras que herdou do irmão, d'esse outro tio do Damaso que -morreu ha mezes... E demora-se, creio eu... Pois jantamos hoje juntos, -beberam-se uns liquidos, e até estivemos a fallar de teu pai... Queres -tu que eu t'o apresente? - -Carlos hesitou. Seria melhor n'outra occasião mais intima, quando -podessem fumar um charuto tranquillo, e conversar do passado... - ---Valeu! Has de gostar d'elle. Conhece muito Victor Hugo, detesta a -padraria... Espirito largo, espirito muito largo! - -O poeta sacudiu ardentemente as duas mãos de Carlos. O snr. Guimarães -ergueu de leve o seu chapéo, carregado de crepe. - -Todo o caminho, até ao Ramalhete, Carlos foi pensando em seu pai e -n'esse passado, assim rememorado e estranhamente resurgido pela presença -d'aquelle patriarcha, antigo alquilador, que fizera com elle tantas -troças! E isto trazia conjuntamente outra idéa, que n'esses ultimos dias -já o atravessára, pertinaz e torturante, dando-lhe, no meio da sua -radiante felicidade, um sombrio arripio de dôr... Carlos pensava no avô. - -Estava agora decidido que Maria Eduarda e elle partiriam para Italia, -nos fins de outubro. Castro Gomes, na sua ultima carta do Brazil, sêcca -e pretenciosa, fallava «em apparecer por Lisboa, com as elegancias do -frio, lá para meado de novembro»; e era necessario antes d'isso que -estivessem já longe, entre as verduras d'Isola Bella, escondidos no seu -amor e separados por elle do mundo como pelos muros d'um claustro. Tudo -isto era facil, considerado quasi legítimo pelo seu coração, e enchia a -sua vida d'esplendor... Sómente havia n'isto um espinho--o avô! - -Sim, o avô! Elle partia com Maria, elle entrava na ventura absoluta; mas -ia destruir de uma vez e para sempre a alegria d'Affonso, e a nobre paz -que lhe tornava tão bella a velhice. Homem de outras eras, austero e -puro, como uma d'essas fortes almas que nunca desfalleceram--o avô, -n'esta franca, viril, rasgada solução d'um amor indominavel, só veria -libertinagem! Para elle nada significava o esponsal natural das almas, -acima e fóra das ficções civis; e nunca comprehenderia essa subtil -ideologia sentimental, com que elles, como todos os transviados, -procuravam azular o seu erro. Para Affonso haveria apenas um homem que -leva a mulher d'outro, leva a filha d'outro, dispersa uma familia, apaga -um lar, e se atola para sempre na concubinagem: todas as subtilezas da -paixão, por mais finas, por mais fortes, quebrar-se-hiam, como bolas de -sabão, contra as tres ou quatro idéas fundamentaes de Dever, de Justiça, -de Sociedade, de Familia, duras como blocos de marmore, sobre que -assentára a sua vida quasi durante um seculo... E seria para elle como o -horror d'uma fatalidade! Já a mulher de seu filho fugira com um homem, -deixando atraz de si um cadaver; seu neto agora fugia tambem, -arrebatando a familia d'outro:--e a historia da sua casa tornava-se -assim uma repetição d'adulterios, de fugas, de dispersões, sob o bruto -aguilhão da carne!... Depois as esperanças que Affonso fundára -n'elle--consideral-as-hia tombadas, mortas no lodo! Elle passava a ser -para sempre, na imaginação angustiada do avô, um foragido, um -inutilisado, tendo partido todas as raizes que o prendiam ao seu sólo, -tendo abdicado toda a acção que o elevaria no seu paiz, vivendo por -hoteis de refugio, fallando linguas estranhas, entre uma familia -equivoca crescida em torno d'elle como as plantas de uma ruina... -Sombrio tormento, implacavel e sempre presente, que consumiria os -derradeiros annos do pobre avô!... Mas, que podia elle fazer? Já o -dissera ao Ega. A vida é assim! Elle não tinha o heroismo nem a -santidade que tornam facil o sacrificio... E depois os dissabores do -avô, de que provinham? De preconceitos. E a sua felicidade, justo Deus, -tinha direitos mais largos, fundados na natureza!... - -Chegára ao fim do Aterro. O rio silencioso fundia-se na escuridão. Por -alli entraria em breve do Brazil, o _outro_--que nas suas cartas se -esquecia de mandar um beijo a sua filha! Ah, se elle não voltasse! Uma -onda providencial podia leval-o... Tudo se tornaria tão facil, perfeito -e limpido! De que servia na vida esse resequido? Era como um sacco vazio -que cahisse ao mar! Ah, se _elle_ morresse!... E esquecia-se, enlevado -n'uma visão em que a imagem de Maria o chamava, o esperava, livre, -serena, sorrindo e coberta de luto... - -No seu quarto, Baptista, vendo-o atirar-se para uma poltrona com um -suspiro de fadiga, de desconsolação,--disse, depois de tossir -risonhamente, e dando mais luz ao candieiro: - ---Isto agora, sem o snr. Ega, parece um bocadinho mais só... - ---Está só, está triste, murmurou Carlos. É necessario sacudirmo-nos... -Eu já te disse que talvez fossemos viajar este inverno... - -O menino não lhe tinha dito nada. - ---Pois talvez vamos a Italia... Appetece-te voltar a Italia? - -Baptista reflectiu. - ---Eu, da outra vez não vi o Papa... E antes de morrer não se me dava de -vêr o Papa... - ---Pois sim, ha de se arranjar isso, has de vêr o Papa. - -Baptista, depois d'um silencio, perguntou, lançando um olhar ao espelho: - ---Para vêr o Papa vai-se de casaca, creio eu? - ---Sim, recommendo-te a casaca... O que tu devias ter, para esses casos, -era um habito de Christo... Hei de vêr se te arranjo um habito de -Christo. - -Baptista ficou um instante assombrado. Depois fez-se escarlate, -d'emoção: - ---Muito agradecido a v. exc.^a Ha por ahi gente que o tem, ainda talvez -com menos merecimentos que eu... Dizem que até ha barbeiros... - ---Tens razão, replicou Carlos muito sério. Era uma vergonha. O que hei -de vêr se te arranjo com effeito é a commenda da Conceição. - - -Todas as manhãs, agora, Carlos percorria o poeirento caminho dos -Olivaes. Para poupar aos seus cavallos a soalheira ia na tipoia do -_Mulato_, o batedor favorito do Ega--que recolhia a parelha na velha -cavalhariça da _Toca_, e, até á hora em que Carlos voltava ao Ramalhete, -vadiava pelas tabernas. - -Ordinariamente ao meio dia, ao acabar de almoçar, Maria Eduarda, ouvindo -rodar o trem na estrada silenciosa, vinha esperar Carlos á porta da -casa, no topo dos degraus ornados de vasos e resguardados por um fresco -toldo de fazenda côr de rosa. Na quinta usava sempre vestidos claros; ás -vezes trazia, á antiga moda hespanhola, uma flôr entre os cabellos; o -forte e fresco ar do campo avivava com um brilho mais quente o mate -eburneo do seu rosto;--e assim, simples e radiante, entre sol e verdura, -ella deslumbrava Carlos cada dia com um encanto inesperado e maior. -Cerrando o portão d'entrada, que rangia nos gonzos, Carlos sentia-se -logo envolvido n'um «extraordinario conforto moral», como elle dizia, em -que todo o seu sêr se movia mais facilmente, fluidamente, n'uma -permanente impressão de harmonia e doçura... Mas o seu primeiro beijo -era para Rosa, que corria pela rua de acacias ao seu encontro, com uma -onda de cabello negro a bater-lhe os hombros, e _Niniche_ ao lado, -pulando e ladrando de alegria. Elle erguia Rosa ao collo. Maria de longe -sorria-lhes, sob o toldo côr de rosa. Em redor tudo era luminoso, -familiar e cheio de paz. - -A casa dentro resplandecia com um arranjo mais delicado. Já se podia -usar o salão nobre, que perdera o seu ar rigido de museu, exhalando a -tristeza d'um luxo morto: as flôres que Maria punha nos vasos, um jornal -esquecido, as lãs de um bordado, o simples roçar dos seus frescos -vestidos, tinham communicado já um subtil calor de vida e de conchego -aos mais impertigados contadores do tempo de Carlos V, revestidos de -ferro brunido:--e era alli que elles ficavam conversando emquanto não -chegava a hora das lições de Rosa. - -A essa hora apparecia miss Sarah, séria e recolhida--sempre de preto, -com uma ferradura de prata em broche sobre o collarinho direito de -homem. Recuperára as suas côres fortes de boneca, e as pestanas baixas -tinham uma timidez mais virginal sob o liso dos bandós puritanos. -Gordinha, com o peito de pomba farta estalando dentro do corpete severo, -mostrava-se toda contente da vida calma e lenta de aldêa. Mas aquellas -terras trigueiras d'olivedo não lhe pareciam campo: «é muito sêcco, é -muito duro,» dizia ella, com uma indefinida saudade dos verdes molhados -da sua Inglaterra, e dos céos de nevoa, cinzentos e vagos. - -Davam duas horas; e começavam logo nos quartos de cima as longas lições -de Rosa. Carlos e Maria iam então refugiar-se n'uma intimidade mais -livre, no kiosque japonez, que uma phantasia de Craft, o seu amor do -Japão, construira ao pé da rua d'acacias, aproveitando a sombra e o -retiro bucolico de dois velhos castanheiros. Maria affeiçoara-se áquelle -recanto, chamava-lhe o seu _pensadoiro_. Era todo de madeira, com uma só -janellinha redonda, e um telhado agudo á japoneza, onde roçavam os -ramos--tão leve que através d'elle nos momentos de silencio se sentiam -piar as aves. Craft forrára-o todo de esteiras finas da India; uma mesa -de xarão, algumas faianças do Japão, ornavam-no sobriamente; o tecto não -se via, occulto por uma colcha de sêda amarella, suspensa pelos quatro -cantos, em laços, como o rico docel de uma tenda;--e todo o ligeiro -kiosque parceia ter sido armado só com o fim d'abrigar um divan baixo e -fôfo, d'uma languidez de serralho, profundo para todos os sonhos, amplo -para todas as preguiças... - -Elles entravam, Carlos com algum livro que escolhera na presença de miss -Sarah, Maria Eduarda com um bordado ou uma costura. Mas bordado e livro -cahiam logo no chão--e os seus labios, os seus braços uniam-se -arrebatadamente. Ella escorregava sobre o divan: Carlos ajoelhava n'uma -almofada, tremulo, impaciente depois da forçada reserva diante de Rosa e -diante de Sarah--e alli ficava, abraçado á sua cintura, balbuciando mil -coisas pueris e ardentes, por entre longos beijos que os deixavam -frouxos, com os olhos cerrados, n'uma doçura de desmaio. Ella queria -saber o que elle tinha feito durante a longa, longa noite de separação. -E Carlos nada tinha a contar senão que pensára n'ella, que sonhára com -ella... Depois era um silencio: os pardaes piaram, as pombas arrulhavam -por cima do leve telhado: e _Niniche_, que os acompanhava sempre, seguia -os seus murmurios, os seus silencios, enroscada a um canto, com um olho -negro, reluzindo desconfiadamente por entre as repas prateadas. - -Fóra, por aquelles dias de calma, sem aragem, a quinta sêcca, d'um verde -empoeirado, dormia com as folhagens immoveis, sob o peso do sol. Da casa -branca, através das persianas fechadas, vinha apenas o som amodorrado -das escalas que Rosa fazia no piano. E no kiosque havía tambem um -silencio satisfeito e pleno--sómente quebrado por algum dôce suspiro de -lassidão que sahia do divan, d'entre as almofadas de sêda, ou algum -beijo mais longo e d'um remate mais profundo... Era _Niniche_ que os -tirava d'aquelle suave entorpecimento, farta de estar alli quieta, -encerrada entre as madeiras quentes, n'um ar molle já repassado d'esse -aroma indefinido em que havia jasmim. - -Lenta, e passando as mãos no rosto Maria erguia-se--mas para cahir logo -aos pés de Carlos, no seu reconhecimento infinito... Meu Deus, o que lhe -custava então esse momento de separação! Para que havia de ser assim? -Parecia tão pouco natural, esposos como eram, que ella ficasse alli toda -a noite, sósinha, com o seu desejo d'elle, e elle fosse, sem as suas -carícias, dormir solitariamente ao Ramalhete!... E ainda se demoravam -muito tempo, n'uma mudez d'extasi, em que os olhos humidos, -trespassando-se, continuavam o beijo insaciado que morrera nos seus -labios cançados. Era _Niniche_ que os fazia sahir por fim trotando -impacientemente da porta para o divan, rosnando, ameaçando ladrar. - -Muitas vezes ao recolherem Maria tinha uma inquietação. Que pensaria -miss Sarah d'esta sésta assim enclausurada, sem um rumor, com a janella -do pavilhão cerrada? Melanie, desde pequena ao serviço de Maria, era uma -confidente: o bom Domingos, um imbecil, não contava: mas miss Sarah?... -Maria confessava sorrindo que se sentia um pouco humilhada, ao encontrar -depois á mesa os candidos olhos da ingleza sob os seus bandós -virginaes... Está claro! se a boa miss tivesse a ousadia de resmungar ou -franzir de leve a testa, recebia logo seccamente a sua passagem no -_Royal Mail_ para Southampton! Rosa não a lamentaria, Rosa não lhe tinha -affeição. Mas, emfim, era tão séria, admirava tanto a senhora! Ella não -gostava de perder a admiração d'uma rapariga tão séria. E assim -decidiram despedir miss Sarah, régiamente paga, e substituil-a, mais -tarde, em Italia, por uma governante allemã, para quem elles fossem como -casados, «Monsieur et Madame...» - -Mas pouco a pouco o desejo d'uma felicidade mais intima, mais completa, -foi crescendo n'elles. Não lhes bastava já essa curta manhã no divan com -os passaros cantando por cima, a quinta cheia de sol, tudo acordado em -redor: appeteciam o longo contentamento d'uma longa noite, quando os -seus braços se podessem enlaçar sem encontrar o estofo dos vestidos, e -tudo dormisse em torno, os campos, a gente e a luz... De resto era bem -facil! A sala de tapeçarias, communicando com a alcova de Maria, abria -sobre o jardim por uma porta envidraçada; a governante, os criados, -subiam ás dez horas para os seus quartos no andar alto; a casa adormecia -profundamente; Carlos tinha uma chave do portão; e o unico cão, -_Niniche_, era o confidente fiel dos seus beijos... - -Maria desejava essa noite tão ardentemente como elle. Uma tarde ao -escurecer, voltando d'um fresco passeio nos campos, experimentaram ambos -essa dupla chave--que Carlos já promettia mandar dourar: e elle ficou -surprehendido ao vêr que o velho portão, que ouvira sempre ranger -abominavelmente, rolava agora nos gonzos com um silencio oleoso. - -Veio n'essa mesma noite--tendo deixado na villa para o levar ao -amanhecer a caleche do _Mulato_, um batedor discreto, que elle cevava de -gorgetas. O céo, molle e abafado, não tinha uma estrella; e sobre o mar -lampejava a espaços, mudamente, a lividez d'um relampago. Caminhando com -inuteis cautelas rente do muro Carlos sentia, n'esta proximidade d'uma -posse tão desejada, uma melancolia, cortada de anciedade, que vagamente -o acobardava. Abriu quasi a tremer o portão: e mal déra alguns passos -estacou, ouvindo ao fundo _Niniche_ ladrar furiosamente. Mas tudo -emmudeceu; e da janella do canto, sobre o jardim, surgiu uma claridade -que o socegou. Foi encontrar Maria, com um roupão de rendas, junto da -porta envidraçada, suffocando quasi entre os braços _Niniche_ que ainda -rosnava. Estava toda medrosa, n'uma impaciencia de o sentir ao seu lado: -e não quiz recolher logo: um momento ficaram alli, sentados nos degraus, -com _Niniche_ que aquietára e lambia Carlos. Tudo em redor era como uma -infinita mancha de tinta; só lá em baixo, perdida e mortiça, surdia da -treva alguma luzinha vacillando no alto d'um mastro. Maria, conchegada a -Carlos, refugiada n'elle, deu um longo suspiro: e os seus olhos -mergulhavam inquietos n'aquella mudez negra, onde os arbustos familiares -do jardim, toda a quinta, parecia perder a realidade, sumida, diluida na -sombra. - ---Porque não havemos de partir já para a Italia? perguntou ella de -repente, procurando a mão de Carlos. Se tem de ser, porque não ha de ser -já?... Escusavamos de ter estes segredos, estes sustos! - ---Sustos de que, meu amor? Estamos aqui tão seguros como na Italia, como -na China... De resto podemos partir mais depressa, se quizeres... Dize -tu um dia, marca um dia! - -Ella não respondeu, deixando cahir dôcemente a cabeça sobre o hombro de -Carlos. Elle acrescentou, devagar: - ---Em todo o caso, comprehendes bem, preciso primeiro ir a Santa Olavia, -vêr o avô... - -Os olhos de Maria perdiam-se outra vez na escuridão--como recebendo -d'ella o presagio d'um futuro, onde tudo seria confuso e escuro tambem. - ---Tu tens Santa Olavia, tens teu avô, tens os teus amigos... Eu não -tenho ninguem! - -Carlos estreitou-a a si, enternecido. - ---Não tens ninguem! Isso dito a mim! Nem chega a ser injustiça, nem -chega a ser ingratidão! É nervoso; e é tambem o que os inglezes chamam a -«impudente adulteração d'um facto.» - -Ella ficára aninhada no peito de Carlos, como desfallecida. - ---Não sei porque, queria morrer... - -Um largo brilho de relampago alumiou o rio. Maria teve medo, entraram na -alcova. Os mólhos de velas de duas serpentinas, batendo os damascos e os -setins amarellos, embebiam o ar tepido, onde errava um perfume, n'uma -refulgencia ardente de sacrario: e as bretanhas, as rendas do leito já -aberto punham uma casta alvura de neve fresca n'esse luxo amoroso e côr -de chamma. Fóra, para os lados do mar, um trovão rolou lento e surdo. -Mas Maria já o não ouviu, cahida nos braços de Carlos. Nunca o desejára, -nunca o adorára tanto! Os seus beijos anciosos pareciam tender mais -longe que a carne, trespassal-o, querer sorver-lhe a vontade e a -alma:--e toda a noite, entre esses brocados radiantes, com os cabellos -soltos, divina na sua nudez, ella lhe appareceu realmente como a Deusa -que elle sempre imaginára, que o arrebatava emfim, apertado ao seu seio -immortal, e com elle pairava n'uma celebração d'amor, muito alto, sobre -nuvens de ouro... - -Quando sahiu, ao amanhecer, chovia. Foi encontrar o _Mulato_ a dormir -n'uma taberna, bebedo. Teve de o metter dentro do carro; e foi elle que -governou até ao Ramalhete, embrulhado n'uma manta do taberneiro, -encharcado, cantarolando, esplendidamente feliz. - -Passados dias, passeando com Maria nos arredores da _Toca_, Carlos -reparou n'uma casita, á beira da estrada, com escriptos: e veio-lhe logo -a idéa de a alugar, para evitar aquella desagradavel partida de -madrugada com o _Mulato_ estremunhado, borracho, despedaçando o trem -pelas calçadas. Visitaram-na: havia um quarto largo, que com tapete e -cortinas podia dar um refugio confortavel. Tomou-a logo--e Baptista veio -ao outro dia, com moveis n'uma carroça, arranjar este novo ninho. Maria -disse, quasi triste: - ---Mais outra casa! - ---Esta, exclamou Carlos rindo, é a ultima! Não, é a penultima... Temos -ainda a outra, a nossa, a verdadeira, lá longe, não sei onde... - -Começaram a encontrar-se todas as noites. Ás nove e meia, pontualmente, -Carlos deixava a _Toca_, com o seu charuto accêso: e Domingos, adiante, -de lanterna, vinha fechar o portão, tirar a chave. Elle recolhia devagar -á sua «choupana» onde o servia um criadito, filho do jardineiro do -Ramalhete. Sobre um tapete solto, deitado no velho soalho, havia apenas, -além do leito, uma mesa, um sofá de riscadinho, duas cadeiras de palha; -e Carlos entretinha as horas que o separavam ainda de Maria, escrevendo -para Santa Olavia e sobretudo ao Ega, que se eternisava em Cintra. - -Recebera duas cartas d'elle, fallando quasi sómente do Damaso. O Damaso -apparecia em toda a parte com a Cohen; o Damaso tornára-se grutesco em -Cintra, n'uma corrida de burros; o Damaso arvorára capacete e véo em -Sitiaes; o Damaso era uma besta immunda; o Damaso, no pateo do Victor, -de perna traçada, dizia familiarmente «a Rachel»; era um dever de -moralidade publica dar bengaladas no Damaso!... Carlos encolhia os -hombros, achando estes ciumes indignos do coração do Ega. E então por -quem! Por aquella lambisgoia d'Israel, melada e mollenga, sovada a -bengala! «Se com effeito, escrevera elle ao Ega, ella desceu de ti até -ao Damaso, tens só a fazer como se fosse um charuto que te cahisse á -lama: não o pódes naturalmente levantar: deves deixar fumal-o em paz ao -garoto que o apanhou: enfurecer-te com o garoto ou com o charuto, é -d'imbecil.» Mas ordinariamente, quando respondia, fallava só ao Ega dos -Olivaes, dos seus passeios com Maria, das conversas d'ella, do encanto -d'ella, da superioridade d'ella... Ao avô não achava que dizer; nas dez -linhas que lhe destinava, descrevia o calor, recommendava-lhe que não se -fatigasse, mandava saudades para os hospedes, e dava-lhe recados do -Manoelzinho--que elle nunca via. - -Quando não tinha que escrever, estirava-se no sofá, com um livro aberto, -os olhos no ponteiro do relogio. Á meia noite sahia, encafuado n'um -gabão d'Aveiro, e de varapau. Os seus passos resoavam, solitarios na -mudez dos campos, com uma indefinida melancolia de segredo e de culpa... - -N'uma d'essas noites, de grande calor, Carlos cançado adormeceu no sofá: -e só despertou, em sobresalto, quando o relogio na parede dava -tristemente duas horas. Que desespero! Ahi ficava perdida a sua noite de -amor! E Maria decerto á espera, angustiada, imaginando desastres!... -Agarrou o cajado, abalou, correndo pela estrada. Depois, ao abrir -subtilmente o portão da quinta, pensou que Maria teria adormecido: -_Niniche_ podia ladrar: os seus passos, entre as acacias, abafaram-se, -mais cautelosos. E de repente sentiu ao lado, sob as ramagens, vindo do -chão, d'entre a herva, um resfolgar ardente d'homem, a que se misturavam -beijos. Parou, varado: e o seu impeto logo foi esmagar a cacete aquelles -dois animaes, enroscados na relva, sujando brutamente o poetico retiro -dos seus amores. Uma alvura de saia moveu-se no escuro: uma voz -soluçava, desfalecida--_oh yes, oh yes_... Era a ingleza! - -Oh santo Deus, era a ingleza, era miss Sarah! Apagando os passos, -atordoado, Carlos escoou-se pelo portão, cerrou-o mansamente, foi -esperar adiante, n'um recanto do muro, sob as ramarias d'uma faia, -sumido na sombra. E tremia de indignação. Era preciso contar -immediatamente a Maria aquelle grande _horror_! Não queria que ella -consentisse um momento mais essa impura fêmea, junto de Rosa, roçando a -candidez do seu anjo... Oh, era pavorosa uma tal hypocrisia, assim -astuta e methodica, sem se desconcertar jámais! Havia dias apenas, vira -a creatura desviar os olhos d'uma gravura d'_Illustração_, onde dois -castos pastores se beijavam n'um arvoredo bucolico! E agora rugia, -estirada na herva! - -Na estrada escura, do lado do portão, brilhou um lume de cigarro. Um -homem passou, forte e pesado, com uma manta aos hombros. Parecia um -jornaleiro. A boa miss Sarah não escolhera! Bem lavada, toda correcta, -com os seus bandós puritanos, aceitava _um qualquer_, rude e sujo, desde -que era um macho! E assim os embaíra, mezes, com aquellas suas duas -existencias, tão separadas, tão completas! De dia virginal, severa, -córando sempre, com a Biblia no cesto da costura: á noite a pequena -adormecia, todos os seus deveres sérios acabavam, a santa -transformava-se em cabra, chale aos hombros, e lá ia para a relva, com -qualquer!... Que bello romance para o Ega! - -Voltou; tornou a abrir devagarinho o portão: de novo subiu, amollecendo -os passos, a sombria rua d'acacias. Mas agora ia sentindo uma hesitação -em contar a Maria _aquelle horror_. A seu pezar pensava que tambem Maria -o esperava, com o leito aberto, no silencio da casa adormecida; e que -tambem elle penetrava alli, ás escondidas, como o homem da manta... De -certo era bem differente! Toda a immensuravel differença que vai do -divino ao bestial... E todavia receava despertar os melindrosos -escrupulos de Maria, mostrando-lhe, parallelo ao seu amor cheio de -requintes e passado entre brocados côr d'ouro, aquelle outro rude amor, -secreto e illegitimo como o d'ella, e arrastado brutamente na relva... -Era como mostrar-lhe um reflexo da sua propria culpa, um pouco esfumada, -mais grosseira, mas parecida nos seus contornos, lamentavelmente -parecida... Não, não diria nada. E a pequena?... Oh, nas suas relações -com Rosa a creatura continuaria a ser, como sempre, a puritana -laboriosa, grave e cheia d'ordem. - -A porta envidraçada sobre o jardim tinha ainda luz: elle atirou aos -vidros uma pouca de terra solta, depois bateu de leve. Maria appareceu, -mal embrulhada n'um roupão, juntando os cabellos que se tinham -desenrolado, e meia adormecida. - ---Porque vieste tão tarde? - -Carlos beijou longamente os seus bellos olhos pesados, quasi cerrados. - ---Adormeci estupidamente, a lêr... Depois, quando entrei pareceu-me -ouvir passos na quinta, andei a rebuscar... Era imaginação, tudo -deserto. - ---Precisavamos ter um cão de fila, murmurou ella, espreguiçando-se. - -Sentada á beira do leito, com os braços cahidos e adormentados, sorria -da sua preguiça. - ---Estás tão fatigada, filha! queres tu que me vá embora ?... - -Ella puxou-o para o seu seio perfumado e quente. - ---Je veux que tu m'aimes beaucoup, beaucoup, et longtemps... - -Ao outro dia Carlos não fôra a Lisboa, e appareceu cedo na _Toca_. -Melanie, que andava espanejando o kiosque, disse-lhe que Madame, um -pouco cançada, tinha justamente tomado o seu chocolate na cama. Elle -entrou no salão: defronte da janella aberta, sentada no banco de -cortiça, miss Sarah costurava, á sombra das arvores. - ---_Good morning_, disse-lhe Carlos, chegando-se ao peitoril, todo -curioso de a observar. - ---_Good morning, sir_, respondeu ella com o seu ar modesto e tímido. - -Carlos fallou do calor. Miss Sarah já áquella hora o achava intoleravel. -Felizmente a vista do rio, lá em baixo, refrescava... - -Sobretudo a noite passada, insistiu Carlos accendendo a cigarrette, fôra -tão abafada! Elle mal pudera dormir. E ella? - -Oh, ella dormira d'um somno só. Carlos quiz saber se tivera bonitos -sonhos. - ---_Oh yes, sir_. - -_Oh yes!_ mas agora um yes pudico, sem gemidos, com os olhos baixos. E -tão correcta, tão pregada, fresca como se nunca tivesse servido!... -Positivamente era extraordinaria! E Carlos, torcendo o bigode, pensava -que ella devia ter um seiosinho bem alvo e bem redondinho! - - - -Assim ia passando o verão nos Olivaes. No começo de setembro, Carlos -soube por uma carta do avô que Craft devia chegar a Lisboa, n'um -sabbado, ao Hotel Central: e correu lá cedo, logo n'essa manhã, a ouvir -as novidades de Santa Olavia. Achou Craft já a pé, diante do espelho, -fazendo a barba. A um canto do sofá, Eusebiosinho, que viera na vespera -á noite de Cintra e estava tambem no Hotel, limpava as unhas com um -canivete, em silencio, coberto de negro. - -Craft vinha encantado com Santa Olavia. Nem comprehendia como Affonso, -beirão forte, tolerava a rua de S. Francisco, e o quintalejo abafado do -Ramalhete. Tinha-se passado régiamente! O avô, cheio de saude, d'uma -hospitalidade que lembrava Abrahão e a Biblia. O Sequeira optimo comendo -tanto que ficava inutil depois de jantar, a estoirar e a gemer no fundo -d'uma poltrona. Lá conhecera o velho Travassos, que fallava sempre com -os olhos cheios de lagrimas do «talento do seu caro collega Carlos.» E o -marquez esplendido, com abraços de primo a todos os fidalgotes de -Lamego, e apaixonado por uma barqueira... De resto soberbos jantares, -alguns tiros aos coelhos, uma romaria, danças de raparigas no adro, -guitarradas, esfolhadas, todo o dôce idyllio portuguez... - ---Mas a respeito de Santa Olavia temos a fallar mais sériamente, disse -por fim Craft, entrando na alcova, a ensaboar a cabeça. - ---E tu, perguntou então Carlos, voltando-se para o Eusebiosinho. Tens -estado em Cintra, hein? Que se faz lá?... O Ega? - -O outro ergueu-se guardando o canivete, ageitando as lunetas. - ---Lá está no Victor, muito engraçado, comprou um burro... Lá está o -Damaso tambem... Mas esse pouco se vê, não larga os Cohens... Emfim -tem-se passado menos mal, com bastante calor... - ---Tu estavas outra vez com a mesma prostituta, a Lola? - -Eusebiosinho fez-se escarlate. Credo! estava no Victor, muito sério! O -Palma é que lá tinha apparecido com uma rapariga portugueza... Tinha -agora um jornal, _A Corneta do Diabo_. - ---_A Corneta...?_ - ---Sim, _do Diabo_, disse o Eusebiosinho. É um jornal de pilherias, de -picuinhas... Elle já existia, chamava-se o _Apito_; mas agora passou -para o Palma; elle vae-lhe augmentar o formato, e metter-lhe mais -chalaça... - ---Emfim, disse Carlos, qualquer coisa sebacea e immunda como elle... - -Craft reappareceu, enxugando a cabeça. E emquanto se vestia, fallou de -uma viagem que agora o tentava, que estivera planeando em Santa Olavia. -Como já não tinha a _Toca_, e a sua casa ao pé do Porto necessitava -longas obras, ia passar o inverno ao Egypto, subindo o Nilo, em -communicação espiritual com a antiguidade Pharaonica. Depois talvez se -adiantasse até Bagdad, a vêr o Euphrates, e os sitios de Babylonia... - ---Por isso eu lhe vi alli, na mesa, exclamou Carlos, um livro, _Ninive e -Babylonia_... Que diabo, você gosta d'isso? Eu tenho horror a raças e a -civilisações defuntas... Não me interessa senão a Vida. - ---É que você é um sensual, disse Craft. E a proposito de sensualidade e -de Babylonia, quer vir você almoçar ao Bragança? Eu tenho de lá -encontrar um inglez, o meu homem das minas... Mas havemos d'ir pela rua -do Ouro, que quero trepar um instante á caverna do meu procurador... E a -caminho, que é meio dia! - -Deixaram o Eusebiosinho, em baixo na sala, ageitando as suas lugubres -lunetas negras diante dos telegrammas. E apenas sahira o pateo, Craft -travou do braço de Carlos, e disse-lhe que as coisas sérias a respeito -de Santa Olavia--era o visivel, profundo desgosto do avô por elle não -ter lá apparecido. - ---Seu avô não me disse nada, mas eu sei que elle está muitissimo magoado -com você. Não ha desculpa, são umas horas de viagem... Você sabe como -elle o adora... Que diabo! _Est modus in rebus_. - ---Com effeito, murmurou Carlos. Eu devia ter lá ido... Que quer você, -amigo?... Emfim acabou-se, é necessario fazer um esforço!... Talvez -parta para a semana com o Ega. - ---Sim, homem, dê-lhe esse alegrão... Esteja lá umas semanas... - ---_Est modus in rebus_. Hei de vêr se lá estou uns dias. - -A caverna do procurador era defronte do Monte-Pio. Carlos esperava, -havia momentos, dando por diante das lojas uma volta lenta--quando de -repente avistou Melanie, a sahir o portão do Monte-Pio, com uma matrona -gorda, de chapéo rôxo. Surprehendido, atravessou a rua. Ella estacou -como apanhada, fazendo-se toda vermelha; e nem deixou vir a pergunta; -balbuciou logo que Madame lhe déra licença para vir a Lisboa, e ella -andava acompanhando aquella amiga... Uma velha caleche, de parelha -branca, estava encalhada alli, contra o passeio. Melanie saltou para -dentro, á pressa. A traquitana rodou aos solavancos para o Terreiro do -Paço. - -Carlos via-a desapparecer, pasmado. E Craft, que voltára, olhando -tambem, reconheceu no lamentavel calhambeque a caleche do _Torto_, dos -Olivaes, onde elle ás vezes costumava vir «janotar a Lisboa». - ---Era alguem lá da _Toca_? perguntou. - -Uma criada, disse Carlos, ainda espantado d'aquelle estranho embaraço de -Melanie. - -E mal tinham dado alguns passos, Carlos, parando, baixando a voz no -rumor da rua: - ---Ouça lá! O Eusebiosinho disse-lhe alguma coisa a meu respeito, Craft? - -O outro confessou que Eusebiosinho, apenas lhe apparecera no quarto, -rompera logo, mascando as palavras, a informal-o da mysteriosa vida de -Carlos nos Olivaes... - ---Mas eu fil-o calar, acrescentou Craft, declarando-lhe que era tão -pouco curioso que nem mesmo quizera lêr nunca a _Historia Romana_... Em -todo o caso você deve ir a Santa Olavia. - -Carlos, com effeito, logo n'essa noite fallou a Maria da visita que -devia ao avô. Ella, muito séria, aconselhou-lh'a tambem, arrependida de -o ter retido assim, egoisticamente e tanto tempo, longe dos outros que o -amavam. - ---Mas ouve, querido, não é por muito tempo, não? - ---Por dois ou tres dias, quando muito. E naturalmente, trago até o avô. -Não está lá a fazer nada, e eu não estou para a massada de voltar lá... - -Maria então lançou-lhe os braços ao pescoço, e baixo, timidamente, -confessou-lhe um grande desejo que tinha... Era vêr o Ramalhete! Queria -visitar os quartos d'elle, o jardim, todos esses recantos, onde tantas -vezes elle pensara n'ella, e se desesperára, sentindo-a distante e -inaccessivel... - ---Dize, queres? Mas é necessario que seja antes de vir teu avô. Queres? - ---Acho um encanto! Ha só um perigo. É eu não te deixar sahir mais e -ficar a devorar-te na minha caverna. - ---Prouvera a Deus! - -Combinaram então que ella fosse jantar ao Ramalhete, no dia da partida -de Carlos para Santa Olavia. Á noitinha levava-o no coupé a Santa -Apolonia; depois seguia para os Olivaes. - -Foi no sabbado. Carlos veio muito cedo para o Ramalhete: e o seu coração -batia com a deliciosa perturbação d'um primeiro encontro, quando sentiu -parar a carruagem de Maria e os seus vestidos escuros roçarem o velludo -côr de cereja que forrava a escada discreta dos seus quartos. O beijo -que trocaram, na ante-camara, teve a profunda doçura d'um primeiro -beijo! - -Ella foi logo ao toucador tirar o chapéo, dar um geito ao cabello. Elle -não cessava de a beijar; abraçava-a pela cinta; e com os rostos juntos -sorriam para o espelho, enlevados no brilho da sua mocidade. Depois, -impaciente, curiosa, ella percorreu os quartos, miudamente, até á alcova -de banho; leu os titulos dos livros, respirou o perfume dos frascos, -abriu os cortinados de sêda do leito... Sobre uma commoda Luiz XV havia -uma salva de prata, transbordando de retratos que Carlos se esquecera de -esconder, a coronella d'hussards d'amazona, madame Rughel decotada, -outras ainda. Ella mergulhou as mãos, com um sorriso triste, na profusão -d'aquellas recordações... Carlos, rindo, pediu-lhe que não olhasse -«esses enganos do seu coração». - -Porque não? dizia Maria, séria. Sabia bem que elle não descera das -nuvens, puro como um seraphim. Havia sempre photographias no passado -d'um homem. De resto tinha a certeza que nunca amára as outras como a -sabia amar a ella. - ---Até é uma profanação fallar em _amor_ quando se trata d'essas coisas -d'acaso, murmurou Carlos. São quartos de estalagem onde se dorme uma -vez... - -No emtanto Maria considerava longamente a photographia da coronella -d'hussards. Parecia-lhe bem linda! Quem era? Uma franceza? - ---Não, de Vienna. Mulher d'um correspondente meu, homem de negocios... -Gente tranquilla, que vivia no campo... - ---Ah, Viennense... Dizem que tem um grande encanto as mulheres de -Vienna! - -Carlos tirou-lhe a photographia da mão. Para que haviam de fallar -d'outras mulheres? Existia em todo o vasto mundo uma mulher unica, e -elle tinha-a alli abraçada sobre o seu coração. - -Foram então percorrer todo o Ramalhete, até ao terraço. Ella gostou -sobretudo do escriptorio d'Affonso, com os seus damascos de camara de -prelado, a sua feição severa de paz estudiosa. - ---Não sei porque, murmurou dando um olhar lento ás estantes pesadas e ao -Christo na cruz, não sei porque, mas teu avô faz-me medo! - -Carlos riu. Que tonteria! O avô se a conhecesse, fazia-lhe logo a côrte -rasgadamente... O avô era um santo! E um lindo velho! - ---Teve paixões? - ---Não sei, talvez... Mas creio que o avô foi sempre um puritano. - -Desceram ao jardim, que lhe agradou tambem, quieto e burguez, com a sua -cascatasinha chorando n'um rythmo dôce. Sentaram-se um instante sob o -velho cedro, junto a uma mesa rustica de pedra, onde estavam entalhadas -letras mal distinctas e uma data antiga; o chalrar das aves nos ramos -pareceu a Maria mais dôce que o de todas as outras aves que ouvira; -depois arranjou um ramo para levar como reliquia. - -Mesmo em cabello foram vêr defronte as cocheiras: o guarda-portão ficou -de boné na mão, embasbacado para aquella senhora tão linda, tão loira, a -primeira que via entrar no Ramalhete! Maria acariciou os cavallos, e fez -uma festa grata e mais longa á _Tunante_, que tantas vezes levára Carlos -á rua de S. Francisco. Elle via n'estas simples coisas as graças -incomparaveis d'uma esposa perfeita. - -Recolheram pela escada particular de Carlos--que Maria achava -«mysteriosa» com aquelles velludos grossos côr de cereja, forrando-a -como um cofre, e abafando todo o rumor de saias. Carlos jurou que nunca -alli passára outro vestido--a não ser o do Ega, uma vez, mascarado de -varina. - -Depois deixou-a no quarto, um momento para ir dar ordens ao Baptista: -mas quando voltou encontrou-a a um canto do sofá, tão descahida, tão -desanimada, que lhe arrebatou as mãos, cheio d'inquietação. - ---Que tens, amor? Estás doente? - -Ella ergueu lentamente os olhos que brilhavam n'uma nevoa de lagrimas. - -Pensar que tu vaes deixar por mim esta linda casa, o teu conforto, a tua -paz, os teus amigos... É uma tristeza, tenho remorsos! - -Carlos ajoelhára ao seu lado, sorrindo dos seus escrupulos, chamando-lhe -tonta, seccando-lhe n'um beijo as lagrimas que rolavam... Considerava-se -ella então valendo menos que a cascata do jardim e alguns tapetes -usados?... - ---O que eu tenho pena é de te sacrificar tão pouco, minha querida Maria, -quando tu sacrificas tanto! - -Ella encolheu os hombros, amargamente. - ---Eu! - -Passou-lhe as mãos entre os cabellos, puxou-o brandamente para o seu -seio--e dizia, baixo, como fallando ao seu proprio coração, calmando-lhe -as incertezas e as duvidas: - ---Não, com effeito, nada vale no mundo senão o nosso amor! Nada mais -vale! Se elle é verdadeiro, se é profundo, tudo mais é vão, nada mais -importa... - -A sua voz morreu entre os beijos de Carlos, que a levava abraçada para o -leito--onde tentas vezes desesperava d'ella como d'uma deusa intangivel. - -Ás cinco horas pensaram em jantar. A mesa fôra posta n'uma saleta que -Carlos quizera em tempo revestir de colxas de setim côr de perola e -botão d'ouro. Mas não estava ainda arranjada; as paredes conservavam o -seu papel verde-escuro; e Carlos puzera alli ultimamente o retrato de -seu pai--uma teia banal, representando um moço pallido, de grandes -olhos, com luvas de camurça amarella e um chicote na mão. - -Era Baptista que os servia, já com um fato claro de viagem. A mesa, -redonda e pequena, parecia uma cesta de flôres; o champagne gelava -dentro dos baldes de prata; no aparador a travessa d'arroz dôce tinha as -iniciaes de Maria. - -Aquelles lindos cuidados fizeram-na sorrir, enternecida. Depois reparou -no retrato de Pedro da Maia: e interressou-se, ficou a contemplar -aquella face descórada, que o tempo fizera livida, e onde pareciam mais -tristes os grandes olhos d'arabe, negros e languidos. - ---Quem é? perguntou. - ---É meu pai. - -Ella examinou-o mais de perto, erguendo uma vela. Não achava que Carlos -se parecesse com elle. E voltando-se muito séria, emquanto Carlos -desarrolhava com veneração uma garrafa de velho Chambertin: - ---Sabes tu com quem te pareces ás vezes?... É extraordinario, mas é -verdade. Pareces-te com minha mãi! - -Carlos riu, encantado d'uma parecença que os aproximava mais, e que o -lisonjeava. - ---Tens razão, disse ella, que a mamã era formosa... Pois é verdade, ha -um não sei quê na testa, no nariz... Mas sobretudo certos geitos, uma -maneira de sorrir... Outra maneira que tu tens de ficar assim um pouco -vago, esquecido... Tenho pensado n'isto muitas vezes... - -Baptista entrava com uma terrina de louça do Japão. E Carlos, -alegremente, annunciou um jantar á portugueza. Mr. Antoine, o _chef -francez_, fôra com o avô. Ficára a Michaela, outra cozinheira de casa, -que elle achava magnifica, e que conservava a tradição da antiga cozinha -freiratica do tempo do snr. D. João V. - ---Assim, para começar, minha querida Maria, ahi tens tu um caldo de -gallinha, como só se comia em Odivellas, na cella da madre Paula, em -noites de noivado mystico... - -E o jantar foi encantador. Quando Baptista se retirava, elles -apertavam-se rapidamente a mão por cima das flôres. Nunca Carlos a -achára tão linda, tão perfeita: os seus olhos pareciam- lhe irradiar uma -ternura maior: na singela rosa que lhe ornava o peito via a -superioridade do seu gosto. E o mesmo desejo invadiu-os a ambos, de -ficarem alli eternamente, n'aquelle quarto de rapaz, com jantarinhos -portuguezes á moda de D. João V, servidos pelo Baptista de jaquetão. - ---Estou com uma vontade de perder o comboio! disse Carlos como -implorando a sua approvação. - ---Não, deves ir... é necessario não sermos egoistas... Sómente não te -descuides, manda-me todos os dias um grande telegramma... Que os -telegraphos foram unicamente inventados para quem se ama e está longe, -como dizia a mamã. - -Então Carlos gracejou de novo sobre a sua parecença com a mãi d'ella. E -baixando-se a remexer a garrafa de champagne dentro do gelo: - ---É curioso não m'o teres dito antes... Tambem tu nunca me fallaste de -tua mãi... - -Um pouco de sangue roseou a face de Maria Eduarda. Oh, nunca fallára da -mamã, porque nunca viera a proposito... - ---De resto não havia coisas muito interessantes a contar, acrescentou. A -mamã era uma senhora da ilha da Madeira, não tinha fortuna, casou... - ---Casou em Paris? - ---Não, casou na Madeira com um austriaco que fôra lá acompanhar um irmão -tisico... Era um homem muito distincto, viu a mamã, que era lindíssima, -gostaram um do outro, _et voilà_... - -Dissera isto sem erguer os olhos do prato, lentamente, cortando uma aza -de frango. - ---Mas então, exclamou Carlos, se teu pai era austriaco, meu amor, tu és -tambem austriaca... És talvez uma d'essas viennenses que tu dizes que -tem um tão grande encanto... - -Sim, talvez, segundo essas coisas dos codigos, era austriaca. Mas nunca -conhecera o pai, vivera sempre com a mamã, fallára sempre portuguez, -considerava-se portugueza. Nunca estivera na Austria, nem sabia mesmo -allemão... - ---Não tiveste irmãos? - ---Sim, tive, uma irmãsinha que morreu em pequena... Mas não me lembra. -Tenho em Paris o retrato d'ella... Bem linda! - -N'esse momento em baixo, na calçada, uma carruagem, a trote largo, -estacou. Carlos, surprehendido, correu á janella com o guardanapo na -mão. - ---É o Ega! exclamou. É aquelle velhaco que chega de Cintra! - -Maria erguera-se, inquieta. E um momento, de pé, ambos se olharam, -hesitando... Mas o Ega era como um irmão de Carlos. Elle esperava só que -o Ega recolhesse de Cintra para o levar á _Toca_. Melhor seria que o -encontro se désse alli, natural, franco e simples... - ---Baptista! gritou Carlos, sem vacillar mais. Dize ao snr. Ega que estou -a jantar, que entre para aqui. - -Maria sentára-se, vermelha, dando um geito rapido aos ganchos do -cabello, arranjado á pressa, um pouco desmanchado. - -A porta abriu-se,--e o Ega parou, assombrado, intimidado, de chapéo -branco, de guarda-sol branco, e com um embrulho de papel pardo na mão. - ---Maria, disse Carlos, aqui tens emfim o meu grande amigo Ega. - -E ao Ega disse simplesmente: - ---Maria Eduarda. - -Ega ia largar atarantadamente o embrulho para apertar a mão que Maria -Eduarda lhe estendia, córada e sorrindo. Mas o papel pardo, mal atado, -desfez-se; e uma provisão fresca de queijadas de Cintra rolou, -esmagando-se, sobre as flôres do tapete. Então todo o embaraço findou -através d'uma risada alegre--emquanto o Ega, desolado, abria os braços -sobre as ruinas do seu dôce. - ---Tu já jantaste? perguntou Carlos. - -Não, não tinha jantado. E via já alli uns ovos molles nacionaes, que o -encantavam, enfastiado como vinha da horrivel cozinha do Victor. Oh, que -cozinha! Pratos lugubres, traduzidos do francez em calão, como as -comedias do Gymnasio! - ---Então avança! exclamou Carlos. Depressa, Baptista!... Traze o caldo de -gallinha! Oh, ainda temos tempo!... Tu sabes que vou hoje para Santa -Olavia? - -Está claro que sabia, recebera a carta d'elle, e por isso viera... Mas -não podia jantar ainda, assim coberto do pó da estrada, e com um -jaquetão de bucolica... - ---Dize que me guardem o caldo, Baptista! Olha, dize que me guardem tudo, -que eu trago uma fome de pastor da Arcadia!... - -O Baptista servira o café. E a carruagem da senhora, que os devia levar -a Santa Apolonia, esperava já á porta com a maleta. Mas Ega agora queria -conversar, affirmou que tinham tempo, tirou o relogio. Estava parado. E -elle declarou logo que no campo se regulava pelo sol, como as flôres e -como as aves... - ---Fica agora em Lisboa? perguntou-lhe Maria Eduarda. - ---Não, minha senhora, só o tempo de cumprir o meu dever de cidadão, -subindo duas ou tres vezes o Chiado... Depois volto para a relva. Cintra -começa a ser interessante para mim, agora que não está ninguem... -Cintra, de verão, com burguezes, parece-me um idyllio com nodoas de -sebo. - -Mas Baptista offerecia a Carlos a _chartreuse_--dizendo que s. exc.^a -não se devia demorar se não tencionava perder o comboio, de proposito. -Maria ergueu-se logo para ir dentro pôr o chapéo. E os dois amigos, sós, -ficaram um momento calados, emquanto Carlos accendia devagar o charuto. - ---Tu quanto tempo te demoras? perguntou por fim o Ega. - ---Tres ou quatro dias. E tu não voltes para Cintra antes que eu chegue, -precisamos communicar... Que diabo tens tu feito lá? - -O outro encolheu os hombros. - ---Tenho sorvido ar puro, colhido florinhas, murmurado de vez em quando -«que lindo que isto é!» etc. - -Depois, debruçado sobre a mesa, picando com um palito uma azeitona: - ---De resto, nada... O Damaso lá está! Sempre com a Cohen, como te mandei -dizer... Está claro que não ha nada entre elles, aquillo é só para mim, -para me irritar... É um canalha aquelle Damaso! Eu só quero um pretexto. -Esgano-o! - -Deu um puxão forte aos punhos, com uma côr de cólera no rosto queimado: - ---Eu, está claro, fallo-lhe, aperto-lhe a mão, chamo-lhe «amigo Damaso», -etc. Mas só quero um pretexto! É necessario aniquilar aquelle animal. É -um dever de moralidade, d'aceio publico, de gosto varrer aquella bola de -lama humana! - ---Quem esteve por lá mais? perguntou Carlos. - ---Que te interesse?... A Gouvarinho. Mas vi-a uma só vez. Apparecia -pouco, coitada, agora que andava de luto. - ---De luto? - ---Por ti. - -Calou-se. Maria entrava, com o véu descido, acabando de apertar as -luvas. Então Carlos, suspirando, resignado, estendeu os braços ao -Baptista para elle lhe vestir um casaco leve de jornada. Ega ajudava, -pedindo um abraço filial para Affonso, e recados para o gordo Sequeira. - -Foi acompanhal-os a baixo, em cabello: e fechou elle a portinhola, -promettendo a Maria Eduarda uma visita á _Toca_, apenas Carlos voltasse -d'esses penhascos do Douro... - ---Não vás para Cintra antes de eu voltar! gritou-lhe ainda Carlos. E a -Michaela que tome conta em ti! - ---_All right, all right_, dizia o Ega. Boa jornada! Criado de v. exc.^a, -minha senhora... Até á _Toca_! - -O coupé partiu. Ega subiu ao seu quarto, onde outro criado lhe estava -preparando o banho. Na saleta deserta, entre as flôres e os restos do -jantar, as velas continuavam a arder solitarias, fazendo resaltar no -painel escuro a pallidez de Pedro da Maia, e a melancolia dos seus -olhos. - - - -No sabbado seguinte, perto das duas horas, Carlos e Ega, ainda á mesa do -almoço, acabavam os seus charutos, fallando de Santa Olavia. Carlos -chegára de lá essa madrugada, só. O avô decidira ficar entre as suas -velhas arvores até ao fim do outono que ia tão luminoso e tão macio... - -Carlos fôra-o encontrar muito alegre, muito forte--apesar de ter sido -obrigado, por causa d'um toque de rheumatismo, a abandonar emfim o seu -culto da agua fria. E esta macissa, resplandecente saude do velho fôra -um allivio para o coração de Carlos: parecia-lhe assim mais facil, menos -ingrata, a sua partida com Maria para Italia, em outubro. Além d'isso -achára um _truc_, como elle dizia ao Ega, para realisar o supremo desejo -da sua vida sem magoar o avô, sem lhe turbar a paz da velhice. Era um -_truc_, simples. Consistia em partir elle só para Madrid, no começo -d'uma certa «viagem d'estudo», para que já preparára o avô em Santa -Olavia. Maria ficava na _Toca_, durante um mez. Depois tomava o paquete -para Bordeus: e era ahi que Carlos se reunia com ella, a começarem essa -existencia de felicidade e romance que as flôres da Italia deviam -perfumar... Na primavera elle voltava a Lisboa, deixando Maria -installada no seu ninho: e então, pouco a pouco, ia revelando ao avô -aquella ligação, a que o prendia a honra, e que o forçaria agora a viver -regularmente longos mezes n'uma outra terra que se tornára a patria do -seu coração. E que havia de dizer o avô? Aceitar esse romance, a que não -veria os lados desagradaveis, esbatido assim pela distancia e pela nevoa -da paixão. Seria para Affonso uma vaga e mal sabida coisa d'amor que se -passava em Italia... Poderia lamental-a apenas por lhe levar -pontualmente todos os annos o neto para longe; e cada anno se consolaria -pensando na curta duração dos idyllios humanos. De resto Carlos contava -com essa larga benevolencia que amollece as almas mais rigidas quando -apenas alguns passos as separam do tumulo... Emfim o seu _truc_ -parecia-lhe bom. Ega, em resumo, approvou o _truc_. - -Depois, mais alegremente, fallaram da installação d'esse amor. Carlos -permanecia na sua idéa romantica--um cottage á beira d'um lago. Mas Ega -não approvava o lago. Ter todos os dias diante dos olhos uma agua sempre -mansa e sempre azul, parecia-lhe perigoso para a durabilidade da paixão. -Na quietação continua d'uma paizagem igual, dois amantes solitarios, -dizia elle, não sendo botanicos nem pescando á linha, vêem-se forçados a -viver exclusivamente do desejo um do outro, e a tirar d'ahi todas as -suas idéas, sensações, occupações, gracejos e silencios... E, que diabo, -o mais forte sentimento não póde dar para tanto! Dois amantes, cuja -unica profissão é amarem-se, deviam procurar uma cidade, uma vasta -cidade, tumultuosa e creadora, onde o homem tenha durante o dia os -clubs, o cavaco, os museus, as idéas, o sorriso d'outras mulheres--e a -mulher tenha as ruas, as compras, os theatros, a attenção d'outros -homens; de sorte que á noite, quando se reunam, não tendo passado o -infindavel dia a observarem-se um no outro e a si proprios, trazendo -cada um a vibração da vida forte que atravessaram--achem um encanto novo -e verdadeiro no conchego da sua solidão, e um sabor sempre renovado na -repetição dos seus beijos... - ---Eu, continuava Ega, erguendo-se, se levasse para longe uma mulher, não -era para um lago, nem para a Suissa, nem para os montes da Sicilia; era -para Paris, para o boulevard dos Italianos, alli á esquina do -Vaudeville, com janellas deitando para a grande vida, a um passo do -_Figaro_, do Louvre, da Philosophia e da _blague_... Aqui tens tu a -minha doutrina!... E ahi temos nós o amigo Baptista com o correio. - -Não era o correio. Era apenas um bilhete que o Baptista trazia n'uma -salva: e vinha tão perturbado que annunciou «um sujeito, alli fóra, na -antecamara, n'uma carruagem, á espera...» - -Carlos olhou o bilhete, empallideceu terrivelmente. E ficou a reviral-o, -lento e como atordoado, entre os dedos que tremiam... Depois, em -silencio, atirou-o ao Ega por cima da mesa. - ---Caramba! murmurou Ega, assombrado. - -Era Castro Gomes! - -Bruscamente Carlos erguera-se, decidido. - ---Manda entrar... Para o salão grande! - -Baptista apontou para o jaquetão de flanella com que Carlos tinha -almoçado, e perguntou baixo se s. exc.^a queria uma sobrecasaca. - ---Traze. - -Sós, Ega e Carlos olharam-se um instante, anciosamente. - ---Não é um desafio, está claro, balbuciou Ega. - -Carlos não respondeu. Examinava outra vez o bilhete: o homem chamava-se -Joaquim Alvares de Castro Gomes: por baixo tinha escripto a lapis «Hotel -Bragança»... Baptista voltára com a sobrecasaca: e Carlos, abotoando-a -devagar, sahiu sem outra mais palavra ao Ega, que ficára de pé junto da -mesa, limpando estupidamente as mãos ao guardanapo. - -No salão nobre, forrado de brocados côr de musgo d'outono, Castro Gomes -examinava curiosamente, com um joelho apoiado á borda do sofá, a -esplendida tela de Constable, o retrato da condessa de Runa, bella e -forte no seu vestido de velludo escarlate de caçadora ingleza. Ao rumor -dos passos de Carlos sobre o tapete, voltou-se, de chapéo branco na mão, -sorrindo, pedindo perdão de estar assim a pasmar familiarmente para -aquelle soberbo Constable... Com um gesto rigido, Carlos, muito pallido, -indicou-lhe o sofá. Saudando e risonho Castro Gomes sentou-se -vagarosamente. No peito da sobrecasaca muito justa trazia um botão de -rosas, os seus sapatos de verniz resplandeciam sob as polainas de linho; -no rosto chupado, queimado, a barba negra, terminava em bico; os -cabellos rareavam-lhe na risca; e mesmo a sorrir tinha um ar de seccura, -de fadiga. - ---Eu possuo tambem em Paris um Constable muito _chic_, disse elle, sem -embaraço, n'um tom arrastado, cheio de _rr_, que o _sutaque_ brazileiro -adocicava. Mas é apenas uma pequena paizagem, com duas figurinhas. É um -pintor que não me diverte, a dizer a verdade... Todavia dá muito tom a -uma galeria. É necessario tel-o. - -Carlos, defronte n'uma cadeira, com os punhos fortemente fechados sobre -os joelhos, conservava a immobilidade d'um marmore. E, perante aquelle -modo affavel, uma idéa ia-o atravessando, lacerante, angustiosa, -pondo-lhe já nos olhos largos que não tirava de sobre o outro, uma -irreprimivel chamma de cólera. Carlos Gomes decerto _não sabia nada_! -Chegára, desembarcára, correra aos Olivaes, dormira nos Olivaes! Era o -marido, era novo, tivera-a já nos braços--a ella! E agora alli estava, -tranquillo, de flôr ao peito, fallando de Constable! O unico desejo de -Carlos, n'esse instante, era que aquelle homem o insultasse. - -No emtanto Castro Gomes, amavelmente, desculpava-se de se apresentar -assim, sem o conhecer, sem ao menos ter pedido por um bilhete uma -entrevista... - ---O motivo porém que me traz é tão urgente, que cheguei esta manhã ás -dez horas do Rio de Janeiro, ou antes do Lazareto, e estou aqui!... E -esta mesma noite, se puder, parto para Madrid. - -Fez-se um allivio infinito no coração de Carlos. Ainda não vira então -Maria Eduarda, aquelles seccos labios não a tinham tocado! E sahiu emfim -da sua rigidez de marmore, teve um movimento attento, aproximando de -leve a cadeira. - -Castro Gomes no emtanto, tendo pousado o chapéo, tirára do bolso -interior da sobrecasaca uma carteira com um largo monogramma de ouro; e, -vagaroso, procurava entre os papeis uma carta... Depois, com ella na -mão, muito tranquillamente: - ---Eu recebi no Rio de Janeiro, antes de partir, este escripto anonymo... -Mas não creia v. exc.^a que foi elle que me levou a atravessar á pressa -o Atlantico. Seria o maior dos ridiculos... E desejo tambem affirmar-lhe -que todo o conteudo d'elle me deixou perfeitamente indifferente... Aqui -o tem. Quer v. exc.^a lêl-o, ou quer que eu leia? - -Carlos murmurou com um esforço: - ---Leia v. exc.^a - -Castro Gomes desdobrou o papel, e revirou-o um instante entre os dedos. - ---Como v. exc.^a vê, é a carta anonyma em todo o seu horror: papel de -mercearia, pautadinho de azul; calligraphia reles; tinta reles; cheiro -reles. Um documento odioso. E aqui está como elle se exprime: «Um homem -«que teve a honra de apertar a mão de v. exc.^a» Eu dispensava a -honra... «que teve a hora de apertar a mão de v. exc.^a e d'apreciar o -seu cavalheirismo, julga dever prevenil-o que sua mulher é, á vista de -toda a Lisboa, a amante d'um rapaz muito conhecido aqui, Carlos Eduardo -da Maia, que vive n'uma casa ás Janelas Verdes, chamada o Ramalhete. -Este heroe, que é muito rico, comprou expressamente uma quinta nos -Olivaes, «onde installou a mulher de v. exc.^a e onde a vai vêr todos os -dias, ficando ás vezes, com escandalo da visinhança, até de madrugada. -Assim o nome honrado de v. exc.^a anda pelas lamas da capital.» É tudo o -que diz a carta; e eu só devo acrescentar, porque o sei, que tudo quanto -ella diz é incontestavelmente exacto... O snr. Carlos da Maia é pois -publicamente, com conhecimento de toda a Lisboa, o amante d'essa -senhora. - -Carlos ergueu-se, muito sereno. E abrindo de leve os braços, n'uma -aceitação inteira de todas as responsabilidades: - ---Não tenho então nada a dizer a v. exc.^a senão que estou ás suas -ordens!... - -Uma fugitiva onda de sangue avivou a pallidez morena de Castro Gomes. -Dobrou a carta, guardou-a com todo o vagar na carteira. Depois, sorrindo -friamente: - ---Perdão... O snr. Carlos da Maia sabe, tão bem como eu, que se isto -tivesse de ter uma solução, violenta, eu não viria aqui pessoalmente, a -sua casa, lêr-lhe este papel... A coisa é inteiramente outra. - -Carlos recahira na cadeira, assombrado. E agora a lentidão adocicada -d'aquella voz ia-se-lhe tornando intoleravel. Um confuso terror do que -viria d'esses labios, que sorriam com uma pallidez impertinente, quasi -fazia estalar o seu pobre coração. E era um desejo brutal de lhe gritar -que acabasse, que o matasse, ou que sahisse d'aquella sala, onde a sua -presença era uma inutilidade ou uma torpeza!... - -O outro passou os dedos no bigode, e proseguiu, devagar, arranjando as -suas palavras com cuidado e com precisão: - ---O meu caso é este, snr. Carlos da Maia. Ha pessoas em Lisboa que me -não conhecem decerto, mas que sabem a esta hora que existe algures, em -Paris, no Brazil ou no inferno, um certo Castro Gomes, que tem uma -mulher bonita, e que a mulher d'esse Castro Gomes tem em Lisboa um -amante. Isto é desagradavel, sobretudo por ser falso. E v. exc.^a -comprehende que eu não devo continuar a arrastar por mais tempo a fama -de _marido infeliz_, visto que a não mereço, e que a não posso -_legalmente_ ter... É por isso que aqui venho, muito francamente, de -_gentleman_ para _gentleman_, dizer-lhe, como tenho tenção de dizer a -outros, que aquella senhora não é minha mulher. - -Durante um momento Castro Gomes esperou a voz de Carlos da Maia. Mas -elle conservava uma face muda, impenetravel, onde apenas os olhos -brilhavam angustiosamente na lividez que a cobrira. Por fim, com um -esforço, baixou de leve a cabeça, como acolhendo placidamente aquella -revelação, que tornava outra qualquer palavra entre elles desnecessaria -e vã. - -Mas Castro Gomes encolhera de leve os hombros, com uma languida -resignação, como quem attribue tudo á malicia dos Destinos. - ---São as ridiculas scenas da vida... O snr. Carlos da Maia está d'ahi a -vêr as coisas. É a velha, a classica historia... Ha tres annos que eu -vivo com essa senhora; quando tive o inverno passado d'ir ao Brazil, -trouxe-a a Lisboa para não vir sósinho. Fômos para o hotel Central. V. -exc.^a comprehende perfeitamente que eu não fui fazer confidencias ao -gerente do estabelecimento. Aquella senhora vinha commigo, dormia -commigo, portanto, para todos os effeitos do hotel, era minha mulher. -Como mulher de Castro Gomes ficou no Central; como mulher de Castro -Gomes alugou depois uma casa na rua de S. Francisco; como mulher de -Castro Gomes tomou emfim um amante... Deu-se sempre como mulher de -Castro Gomes, mesmo nas circumstancias mais particularmente -desagradaveis para Castro Gomes... E, meu Deus! não podemos realmente -condemnal-a muito... Achava-se por acaso revestida d'uma excellente -posição social e d'um nome puro, seria mais que humano que o seu amor da -verdade a levasse, apenas conhecia alguem, a declarar que posição e nome -eram de emprestimo e ella era apenas «Fulana de tal, amigada...» De -resto, sejamos justos, ella não era moralmente obrigada a dar -semelhantes explicações ao tendeiro que lhe vendia a manteiga, ou á -matrona que lhe alugava a casa: nem mesmo, penso eu, a ninguem, a não -ser a um pai que lhe quizesse apresentar sua filha, sahida do -convento... Demais a mais sou eu que tenho um pouco a culpa; muitas -vezes, em coisas relativamente delicadas lhe deixei usar o meu nome. -Foi, por exemplo, com o nome de Castro Gomes que ella tomou a governante -ingleza. As inglezas são tão exigentes!... Aquella, sobretudo, uma -rapariga tão séria... Emfim tudo isso passou... O que importa agora é -que eu lhe retiro solemnemente o nome que lhe emprestára; e ella fica -apenas com o seu, que é Madame Mac-Gren. - -Carlos ergueu-se, livido. E com as mãos fincadas nas costas da cadeira -tão fortemente, que quasi lhe esgaçava o estofo: - ---Mais nada, creio eu? - -Castro Gomes mordeu de leve os beiços perante este remate brutal que o -despediu. - ---Mais nada, disse elle tomando o chapéo e levantando-se muito -vagarosamente. Devo apenas acrescentar, para evitar a v. exc.^a -suspeitas injustas, que aquella senhora não é uma menina que eu tivesse -seduzido, e a quem recuse uma reparação. A pequerruchinha que alli anda -não é minha filha... Eu conheço a mãi sómente ha tres annos... Vinha dos -braços d'um qualquer, passou para os meus... Posso pois dizer, sem -injuria, que era uma mulher que eu pagava. - -Completára com esta palavra a humilhação do outro. Estava deliciosamente -desforrado. Carlos, mudo, abrira o reposteiro da sala, n'uma sacudidella -brusca. E, diante d'esta nova rudeza que revelava só mortificação, -Castro Gomes foi perfeito: saudou, sorriu, murmurou: - ---Parto esta noite mesmo para Madrid, e levo o pezar de ter feito o -conhecimento de v. exc.^a por um motivo tão desagradavel... Tão -desagradavel para mim. - -Os seus passos desafogados e leves perderam-se na ante-camara, entre as -tapeçarias. Depois em baixo uma portinhola bateu, uma carruagem rodou na -calçada... - -Carlos ficára cahido n'uma cadeira, junto da porta, com a cabeça entre -as mãos. E de todas aquellas palavras de Castro Gomes, que ainda lhe -resoavam em redor, adocicadas e lentas, só lhe restava o sentimento -atordoado de uma coisa muito bella, resplandecendo muito alto, e que -cahia de repente, se fazia em pedaços na lama, salpicando-o todo de -nodoas intoleraveis... Não soffria: era simplesmente um assombro de todo -o seu sêr perante este fim immundo d'um sonho divino... Unira a sua alma -arrebatadamente a outra alma nobre e perfeita, longe nas alturas, entre -nuvens d'ouro; de repente uma voz passava, cheia de _rr_; as duas almas -rolavam, batiam n'um charco; e elle achava-se tendo nos braços uma -mulher que não conhecia, e que se chamava Mac-Gren! - -Mac-Gren! era a Mac-Gren! - -Ergueu-se, com os punhos fechados; e veio-lhe uma revolta furiosa de -todo o seu orgulho contra essa ingenuidade que o trouxera mezes timido, -tremulo, ancioso, seguindo á maneira d'uma estrella aquella mulher, que -qualquer em Paris, com mil francos no bolso, poderia ter sobre um sofá, -facil e núa! Era horrivel! E recordava agora, afogueado de vergonha, a -emoção religiosa com que entrava na sala de reps vermelho da rua de S. -Francisco: o encanto enternecido com que via aquellas mãos, que elle -julgava as mais castas da terra, puxarem os fios de lã no bordado, n'um -constante trabalho de mãi laboriosa e recolhida; a veneração espiritual -com que se afastava da orla do seu vestido, igual para elle á tunica -d'uma Virgem cujas pregas rigidas nem a mais rude bestialidade ousaria -desmanchar de leve! Oh imbecil, imbecil!... E todo esse tempo ella -sorria comsigo d'aquella simpleza de provinciano do Douro! Oh! tinha -vergonha agora das flôres apaixonadas que lhe trouxera! Tinha vergonha -das «excellencias» que lhe déra! - -E seria tão facil, desde o primeiro dia no Aterro, ter percebido que -aquella deusa, descida das nuvens, estava amigada com um brazileiro! Mas -quê! a sua paixão absurda de romantico puzera-lhe logo, entre os olhos e -as coisas flagrantes e reveladoras, uma d'essas nevoas douradas que dão -ás montanhas mais rugosas e negras um brilho polido de pedra preciosa! -Porque escolhera ella precisamente para seu medico, na sua casa e na sua -intimidade, o homem que na rua a fitára com um fulgor de desejo na face? -Porque é que nas suas longas conversas, nas manhãs da rua de S. -Francisco, não fallára jámais de Paris, dos seus amigos e das coisas da -sua casa? Porque é que ao fim de dois mezes, sem preparação, sem todas -essas progressivas evidencias do amor que cresce e desabrocha como uma -flôr, se lhe abandonára de chofre, toda prompta, apenas elle lhe disse o -primeiro «amo-te»?... Porque lhe aceitára uma casa já mobilada, com a -facilidade com que lhe aceitava os ramos? E outras coisas ainda, -pequeninas, mas que não teriam escapado ao mais simples: joias brutaes, -d'um luxo grosseiro de _cocotte_: o livro da _Explicação de sonhos_, á -cabeceira da cama; a sua familiaridade com Melanie... E agora até o -ardor dos seus beijos lhe parecia vir menos da sinceridade da -paixão--que da sciencia da voluptuosidade!... Mas tudo acabára, -providencialmente! A mulher que elle amára e as suas seducções -esvaíam-se de repente no ar como um sonho, radiante e impuro, de que -aquelle brazileiro o viera acordar por caridade! Esta mulher era apenas -a Mac-Gren... O seu amor fôra, desde que a vira, como o proprio sangue -das suas veias; e escoava-se agora todo através da ferida incuravel e -que nunca mais fecharia, feita no seu orgulho! - -Ega appareceu á porta do salão, ainda pallido: - ---Então? - -Toda a cólera de Carlos fez explosão: - ---Extraordinario, Ega, extraordinario! A coisa mais abjecta, a coisa -mais immunda! - ---O homem pediu-te dinheiro? - ---Peor! - -E, passeando arrebatadamente, Carlos desabafou, contou tudo, sem -reticencias, com as mesmas palavras cruas do outro,--que assim repetidas -e avivadas pelos seus labios, lhe descobriam motivos novos de humilhação -e de nojo. - ---Já por acaso sucedeu a alguem coisa mais horrivel? exclamou por fim, -cruzando violentamente os braços diante do Ega, que se abatera no sofá, -assombrado. Pódes tu conceber um caso mais sordido? E tambem mais -burlesco? É para estalar o coração. E é para rebentar a rir. Estupendo! -Ahi, n'esse sofá, ahi onde tu estás, o homemzinho, muito amavel, de flôr -ao peito, a dizer: «Olhe que aquella creatura não é minha mulher, é uma -creatura que eu pago...» Comprehendes isto bem! Aquelle sujeito -paga-a... Quanto é o beijo? Cem francos. Ahi estão cem francos... É de -morrer! - -E recomeçou no seu passeio, desvairado, desabafando mais, recontando -tudo, sempre com as palavras do Castro Gomes, que elle deformava ainda -n'uma brutalidade maior... - ---Que te parece, Ega? Dize lá. Que fazias tu? É horrivel, heim? - -Ega, que limpava pensativamente o vidro do monoculo, hesitou, terminou -por dizer que, considerando as coisas com superioridade, como homens do -seu tempo e «do seu mundo», ellas não offereciam nem motivos de cólera, -nem motivos de dôr... - ---Então não comprehendes nada! gritou Carlos, não percebes o meu caso! - -Sim, sim, Ega comprehendia claramente que era horrivel para um homem, no -momento em que ia ligar com adoração o seu destino ao d'uma mulher, -saber que outros a tinham tido a tanto por noite... Mas isso mesmo -simplificava e amenisava as coisas. O que fôra um drama complicado -tornava-se uma distracção bonançosa. Ficava Carlos, desde logo, -alliviado do remorso de ter desorganisado uma familia: já não tinha de -se exilar, a esconder o seu erro, n'um buraco florido da Italia; já o -não prendia a honra para sempre a uma mulher a quem talvez não o -prenderia para sempre o amor. Tudo isto, que diabo! eram vantagens. - ---E a dignidade d'ella! exclamou Carlos. - -Sim, mas a diminuição de dignidade e pureza não era na verdade grande, -porque antes da visita de Castro Gomes já ella era uma mulher que foge -do seu marido--o que, sem mesmo usar termos austeros, nem é muito puro -nem muito digno... Decerto, tudo isso era uma humilhação irritante--não -superior todavia á d'um homem que tem uma _Madona_ que contempla com -religião, suppondo-a de Raphael, e que descobre um dia que a tela divina -foi fabricada na Bahia por um sujeito chamado Castro Gomes! Mas o -resultado intimo e social parecia-lhe ser este: Carlos até ahi tivera -uma bella amante com inconvenientes, e agora tinha sem inconvenientes -uma bella amante... - ---O que tu deves fazer, meu caro Carlos... - ---O que eu vou fazer é escrever-lhe uma carta, remettendo-lhe o preço de -dois mezes que dormi com ella... - ---Brutalidade romantica!... Isso já vem na _Dama das Camelias_... -Sobretudo é não vêr com boa philosophia as _nuances_. - -O outro atalhou, impaciente: - ---Bem, Ega, não fallemos mais n'isso... Eu estou horrivelmente -nervoso!... Até logo. Tu jantas em casa, não é verdade? Bem, até logo. - -Sahia atirando a porta, quando Ega, agora tranquillo, disse, erguendo-se -muito lentamente do sofá: - ---O homemzinho foi para lá. - -Carlos voltou-se, com os olhos chammejantes: - ---Foi para os Olivaes? Foi ter com ella? - -Sim, pelo menos mandára a tipoia á quinta do Craft. Ega, para conhecer -esse snr. Castro Gomes, fôra metter-se no cubiculo do guarda-portão. E -vira-o descer, accender um charuto... Era com effeito um d'esses -_rastaquouèros_ que, n'esse infeliz Paris que tudo tolera, veem ao _Café -de la Paix_ ás duas horas para tomar a sua groseille, tesos e -embrutecidos... E fôra o guarda-portão que lhe dissera que o sujeito -parecia muito alegre e mandára o cocheiro bater para os Olivaes... - -Carlos parecia aniquilado: - ---Tudo isso é nojento!... No fim talvez até se entendam ambos... Estou -como tu dizias aqui há tempos: «Cahiu-me a alma a uma latrina, preciso -um banho por dentro!» - -Ega murmurou melancolicamente: - ---Essa necessidade de banhos moraes está-se tornando com effeito tão -frequente!... Devia haver na cidade um estabelecimento para elles. - - - -Carlos, no seu quarto, passeava diante da mesa onde a folha branca de -papel, em que ia escrever a Maria Eduarda, já tinha a data d'esse dia, -depois--_Minha senhora_, n'uma letra que elle se esforçára por traçar -firme e serena:--e não achava outra palavra. Estava bem decidido a -mandar-lhe um cheque de duzentas libras, paga esplendidamente ultrajante -das semanas que passára no seu leito. Mas queria juntar duas linhas -regeladas, impassiveis, que a ferissem mais que o dinheiro: não -encontrava senão phrases de grande cólera, revelando um grande amor. - -Olhava a folha branca: e a banal expressão _Minha senhora_ dava-lhe uma -saudade dilacerante por aquella a quem na vespera ainda dizia «_minha -adorada_», pela mulher que se não chamava ainda Mac-Gren, que era -perfeita, e que uma paixão indomavel, superior á razão, entontecera e -vencera. E o seu amor por essa Maria Eduarda, nobre e amante, que se -transformára na Mac-Gren, amigada e falsa, era agora maior -infinitamente, desesperado por ser irrealisavel--como o que se tem por -uma morta e que palpita mais ardente junto da frialdade da cova. Oh! se -ella pudesse resurgir outra vez, limpa, clara, do lodo em que afundára, -outra vez Maria Eduarda, com o seu casto bordado!... De que amor mais -delicado a cercaria, para a compensar das affeições domesticas que ella -deixasse de merecer! Que veneração maior lhe consagraria--para supprir o -respeito que o mundo superficial e affectado lhe retirasse! E ella tinha -tudo para reter amor e respeito--tinha a belleza, a graça, a -intelligencia, a alegria, a maternidade, a bondade, um incomparavel -gosto... E com todas estas qualidades dôces e fortes--era apenas uma -intrujona! - -Mas porque? porque? Porque entrára ella n'esta longa fraude, tramada dia -a dia, mentindo em tudo, desde o pudor que fingia até ao nome que usava! - -Apertava a cabeça entre as mãos, achava a vida intoleravel. Se ella -mentia--onde havia então a verdade? Se ella o trahia assim, com aquelles -olhos claros, o universo podia bem ser todo uma immensa traição muda. -Punha-se um mólho de rosas n'um vaso, exhalava-se d'elle a peste! -Caminhava-se para uma relva fresca, ella escondia um lamaçal! E para -que, para que mentira ella? Se, desde o primeiro dia em que o vira, -tremulo e rendido, a contemplar o seu bordado como se contempla uma -acção de santidade--lhe tivesse dito que não era esposa do snr. Castro -Gomes, mas só amante do snr. Castro Gomes--teria a sua paixão sido menos -viva, menos profunda? Não era a estola do padre que dava belleza ao seu -corpo e valor ás suas caricias... Para que fôra então essa mentira -tenebrosa e descarada--que lhe fazia suppôr agora que eram imposturas os -seus mesmos beijos, imposturas os seus mesmos suspiros!... E com este -longo embuste o levava a expatriar-se, dando a sua vida inteira por um -corpo por que outros davam apenas um punhado de libras! E por esta -mulher, tarifada ás horas como as caleches da Companhia, elle ia -amarguarar a velhice do avô, estragar irreparavelmente o seu destino, -cortar a sua livre acção de homem! - -Mas porque? Porque fôra esta farça banal, arrastada por todos os palcos -de opera comica, da _cocotte que se finge senhora_? Porque o fizera -ella, com aquelle fallar honesto, o puro perfil e a doçura de mãi? Por -interesse? Não. Castro Gomes era mais rico do que elle, mais largamente -lhe podia satisfazer o appetite mundano de toilettes, de carruagens... -Sentia ella que Castro Gomes a ia abandonar, e queria ter ao lado aberta -e prompta outra bolsa rica? Então mais simples teria sido dizer-lhe: «eu -sou livre, gósto de ti, toma-me livremente, como eu me dou.» Não! Havia -alli alguma coisa secreta, tortuosa, impenetravel... O que daria por a -conhecer! - -E então pouco a pouco foi surgindo n'elle o desejo de ir aos Olivaes... -Sim, não lhe bastaria desforrar-se arrogantemente, atirando-lhe ao -regaço um cheque embrulhado n'uma insolencia! O que precisava, para sua -plena tranquillidade, era arrancar do fundo d'aquella turva alma o -segredo d'aquella torpe farça... Só isso amansaria o seu incomparavel -tormento. Queria entrar outra vez na _Tóca_, vêr como era aquella outra -mulher que se chamava Mac-Gren, e ouvir as suas palavras. Oh! iria sem -violencia, sem recriminações, muito calmo, sorrindo! Só para que ella -lhe dissesse qual fôra a razão d'aquella mentira tão laboriosa, tão -vã... Só para lhe perguntar serenamente: «Minha rica senhora para quer -foi toda esta intrujice?» E depois vêl-a chorar... Sim, tinha esta -anciedade cheia d'amor de a vêr chorar. A agonia que elle sentira no -salão côr de musgo do outono, emquanto o outro arrastava os _rr_, queria -vêl-a repetida n'esse seio, onde elle até ahi dormira tão dôcemente, -esquecido de tudo, e que era bello, tão divinamente bello!... - -Bruscamente, decidido, deu um puxão á campainha. Baptista appareceu todo -abotoado na sua sobrecasaca, com um ar resoluto, como armado e prompto a -ser util n'aquella crise que adivinhava... - ---Baptista, corre ao hotel Central e pergunta se já entrou o snr. Castro -Gomes!... Não, escuta... Põe-te á porta do Central, e espera até que -entre aquelle sujeito que aqui esteve... Não, é melhor perguntar!... -Emfim, certifica-te de que o sujeito ou voltou ou está no hotel. E -apenas estejas bem certo d'isso, volta aqui, á desfilada, n'uma -tipoia... Um batedor seguro, que é para me levar depois aos Olivaes!... - -Immediatamente, dada esta ordem, serenou. Era já um allivio immenso não -ter de escrever a carta, e achar palavras acerbas que a deviam -dilacerar. Rasgou o papel devagar. Depois fez o cheque de duzentas -libras, ao _portador_. Elle mesmo lh'o levaria... Oh, decerto, não lh'o -atirava romanticamente ao regaço... Deixal-o-hia sobre uma mesa, -sobrescriptado a Madame Mac-Gren... E de repente sentiu uma compaixão -por ella. Via-a já, abrindo o enveloppe com duas grandes lagrimas, -lentas, caladas, a rolarem-lhe na face... E os seus proprios olhos se -humedeceram. - -N'esse momento Ega, de fóra, perguntou se era importuno. - ---Entra! gritou. - -E continuou passeando, calado, com as mãos nos bolsos: o outro, em -silencio tambem, foi encostar-se á janella sobre o jardim. - ---Preciso escrever ao avô a dizer-lhe que cheguei, murmurou Carlos por -fim, parando junto da mesa. - ---Dá-lhe recados meus. - -Carlos sentára-se, tomára languidamente a penna: mas bem depressa a -arremessou: cruzou as mãos por detraz da cabeça no espaldar da cadeira, -cerrou os olhos, como exhausto. - ---Sabes uma coisa que me parece certa? disse de repente o Ega da -janella. Quem escreveu a carta anonyma ao Castro Gomes foi o Damaso! - -Carlos olhou para elle: - ---Achas?... Sim, talvez... Com effeito quem havia de ser? - ---Não foi mais ninguem, menino. foi o Damaso! - -Carlos então recordou o que lhe contára o Taveira--as allusões -mysteriosas do Damaso a um escandalo que se estava armando, uma bala que -elle devia receber na cabeça... O Damaso, portanto, tinha como certa a -vinda do brazileiro, depois um duello... - ---É necessario esmagar esse infame! exclamou Ega, subitamente furioso. -Não ha segurança, não ha paz na nossa vida emquanto esse bandido -viver!... - -Carlos não respondeu. E o outro proseguia, transtornado, já todo -pallido, deixando transbordar odios cada dia accumulados: - ---Eu não o mato porque não tenho um pretexto!... Se tivesse um pretexto, -uma insolencia d'elle, um olhar atrevido, era meu, esborrachava-o!... -Mas tu precisas fazer alguma coisa, isto não póde ficar assim! Não póde! -É necessario sangue... Vê tu que infamia, uma carta anonyma!... Temos a -nossa paz, a nossa felicidade, tudo exposto constantemente aos ataques -do snr. Damaso. Não póde ser. Eu o que tenho pena é de não ter um -pretexto! Mas tenl-o tu, aproveita, e esmaga-o! - -Carlos encolheu vagamente os hombros: - ---Merecia chicotadas, com effeito... Mas elle realmente só tem sido -velhaco commigo por causa das minhas relações com essa senhora; e como -isso é um caso acabado, tudo o que se prende com elle finda tambem. -_Parce sepultis_... E no fim era elle que tinha razão, quando dizia que -ella era uma intrujona... - -Atirou uma punhada á mesa, ergueu-se, e com um sorriso amargo, n'um -tedio infinito de tudo: - ---Era elle, era o snr. Damaso Salcede que tinha razão!... - -Toda a sua cólera revivera, mais aspera, a esta idéa. Olhou o relogio. -Tinha pressa de a vêr, tinha pressa de a injuriar!... - ---Escreveste-lhe? perguntou o Ega. - ---Não, vou lá eu mesmo. - -Ega pareceu espantado. Depois recomeçou a passear, calado, com os olhos -no tapete. - -Ia escurecendo quando Baptista voltou. Vira o snr. Castro Gomes apear-se -no hotel e mandar descer as suas bagagens:--e a tipoia, para levar o -menino aos Olivaes, esperava em baixo. - ---Bem, adeus! disse Carlos procurando atarantadamente um par de luvas. - ---Não jantas? - ---Não. - -D'ahi a pouco rodava pela estrada dos Olivaes. Já se accendera o gaz. E -inquieto, no estreito assento, accendendo nervosamente _cigarettes_ que -não fumava, soffria já a perturbação d'aquelle encontro difficil e -doloroso... Nem sabia mesmo como a havia de tratar, se por «minha -senhora», se por «minha boa amiga», com uma superior indifferença. E ao -mesmo tempo sentia por ella uma compaixão indefinida, que o amollecia. -Diante d'estes seus modos regelados, via-a já toda pallida, a tremer, -com os olhos cheios d'agua. E estas lagrimas que appetecera, agora que -estava tão perto de as vêr correr, enchiam-no só de commoção e de dó... -Durante um momento mesmo pensou em retroceder. Por fim seria muito mais -digno escrever-lhe duas linhas altivas, sacudindo-a de si para sempre e -seccamente! Poderia não lhe mandar o cheque,--affronta brutal d'homem -rico. Apesar d'embusteira era mulher, cheia de nervos, cheia de -phantasia, e amára-o talvez com desinteresse... Mas uma carta era mais -digno. E agora acudiam-lhe as palavras que lhe deveria ter dirigido, -incisivas e precisas. Sim, devia-lhe ter dito--que se estava prompto a -dar a sua vida a uma mulher que se lhe abandonára _por paixão_, estava -decidido a não sacrificar nem os seus vagares a uma mulher que lhe -cedera _por profissão_. Era mais simples, era terminante... E depois não -a via, não teria de supportar a tortura das explicações e das lagrimas. - -Então veio-lhe uma fraqueza. Bateu nos vidros para fazer parar, -reflectir um instante, mais calmamente, no silencio das rodas. O -cocheiro não ouviu: o trote largo da parelha continuou batendo a estrada -escura. E Carlos deixou seguir, outra vez hesitante. Depois, á maneira -que reconhecia, esbatidos na sombra, aquelles sitios onde tantas vezes -passára com o coração em festa, quando a sua paixão estava em flôr, uma -cólera nova voltava--menos contra a pessoa de Maria Eduarda, que contra -essa _mentira_ que fôra obra d'ella, e que vinha estragar -irremediavelmente o encanto divino da sua vida. Era essa _mentira_ que -agora odiava--vendo-a como uma coisa material e tangivel, de um peso -enorme, feia e côr de ferro, esmagando-lhe o coração. Oh! Se não fosse -_essa coisa_ pequenina e inolvidavel que estava entre elles, como um -indestructivel bloco de granito, poderia abrir-lhe novamente os seus -braços, senão com a mesma crença pelo menos com o mesmo ardor! Esposa do -outro ou amante do outro--no fim que importava? Não era por faltar aos -beijos que lhe dera esse a consagração d'um padre, rosnada em latim--que -a sua pelle estava mais polluida por elles, ou tinha a menos frescura? -Mas havia a _mentira_, a _mentira_ inicial, dita no primeiro dia em que -fôra á rua de S. Francisco, e que como um fermento podre ficava -estragando tudo d'ahi por diante, dôces conversas, silencios, passeios, -sestas no calor da quinta, murmurios de beijos morrendo entre os -cortinados côr d'ouro... Tudo manchado, tudo contaminado por aquella -_mentira_ primeira que ella dissera sorrindo, com os seus tranquillos -olhos limpidos... - -Abafava. Ia a descer a vidraça que faltava a correia--quando a tipoia -parou de repente, na estrada solitaria... Abriu a portinhola. Uma mulher -com um chale pela cabeça fallava ao cocheiro. - ---Melanie! - ---Ah, monsieur! - -Carlos saltou precipitadamente. Era já proximo da quinta, na volta -d'estrada, onde o muro fazia um recanto sob uma faia, defronte de sebes -de piteiras resguardando campos d'olivedo. Carlos gritou ao cocheiro que -seguisse e esperasse no portão da quinta. E ficou alli, no escuro, com -Melanie encolhida no seu chale. - -Que estava ella alli a fazer? Melanie parecia transtornada: contou que -vinha procurar á villa uma carruagem, porque a senhora queria ir a -Lisboa, ao Ramalhete... Ella julgára a tipoia vazia. - -E apertava as mãos, dando as graças, com um immenso allivio. Ah! que -felicidade, que felicidade ter elle vindo!... A senhora estava afflicta, -nem jantára, perdida de chôro. O snr. Castro Gomes apparecera lá -inesperadamente... A senhora, coitadinha, queria morrer! - -Então Carlos, caminhando rente ao muro, interrogou Melanie. Como viera o -outro? que dissera? como se despedira?... Melanie não ouvira nada. O -Snr. Castro Gomes e a senhora tinham conversado sós no pavilhão japonez. -Á sahida é que vira o snr. Castro Gomes dizer adeus a madame, muito -socegado, muito amavel, rindo, fallando de _Niniche_... A senhora, essa, -parecia como morta, tão pallida! Quando o outro partiu, ia tendo um -desmaio. - -Estavam proximo do portão da _Toca_. Carlos retrocedeu, respirando -fortemente, com o chapéo na mão. E agora todo o seu orgulho se ia -sumindo sob a violencia da sua anciedade. Queria saber! E perguntava, -deixava Melanie nas coisas dolorosas da sua paixão... Dites toujours, -Melanie, dites! Sabia a senhora que Castro Gomes estivera com elle no -Ramalhete, lhe confessára tudo?... - -Claramente que sabia, por isso chorava--dizia Melanie. Ah, ella bem -repetira á senhora que era melhor contar a verdade! Era muito amiga -d'ella, servia-a desde pequena, vira nascer a menina... E tinha-lh'o -dito, até já nos Olivaes! - -Carlos curvava a cabeça na escuridão do muro. Melanie _tinha-lh'o dito_! -Assim ella e a criada discutiam ambas, acamaradadas, o embuste em que -andava presa a sua vida! E aquellas revelações de Melanie, que suspirava -com o chale sobre o rosto, abatiam os ultimos pedaços d'esse sonho, que -elle erguera tão alto, entre nuvens d'ouro. Nada restava. Tudo jazia em -estilhaços, no lodo immundo. - -Um momento, com o coração cheio de fadiga, pensou em voltar a Lisboa. -Mas para além d'aquelle negro muro estava _ella_, perdida de chôro, -querendo morrer... E lentamente recomeçou a caminhar para o portão. - -E agora, sem resistencia nenhuma do orgulho, fazia perguntas mais -intimas a Melanie. Porque é que Maria Eduarda não lhe dissera a verdade? - -Melanie encolheu os hombros. Não sabia: nem a senhora sabia! Estivera no -Central como madame Gomes; alugára a casa da rua de S. Francisco como -madame Gomes; recebera-o como madame Gomes... E assim se deixára ir, -insensivelmente, conversando com elle, gostando d'elle, vindo para os -Olivaes... E depois era tarde, já não se atrevera a confessar, toda -enterrada assim na _mentira_, com medo do desgosto... - -Mas, exclamava Carlos, nunca imaginára ella que fatalmente tudo se -descobriria um dia? - ---Je ne sais pas, monsieur, je ne sais pas, murmurou Melanie quasi a -chorar. - -Depois eram outras curiosidades. Ella não esperava Castro Gomes? não -suppunha que elle voltasse? não costumava fallar d'elle?... - ---Oh non, monsieur, oh non! - -Madame, desde que o senhor começára a ir todos os dias á rua de S. -Francisco, considerára-se para sempre desligada do snr. Castro Gomes, -nem fallava n'elle, nem queria que se fallasse... Antes d'isso a menina -chamava sempre ao snr. Castro Gomes _petit ami_. Agora não lhe chamava -nada. Tinham-lhe dito que já não havia _petit ami_... - ---Ella escrevia-lhe ainda, dizia Carlos, eu sei que ella lhe escrevia... - -Sim, Melanie julgava que sim... Mas cartas indifferentes. A senhora -levára o seu escrupulo a ponto de que, desde que viera para os Olivaes, -nunca mais gastára um ceitil das quantias que lhe mandava o snr. Castro -Gomes. As letras para receber dinheiro conservava-as intactas, -entregara-lh'as n'essa tarde... Não se lembrava elle de a ter encontrado -uma manhã á porta do Monte-Pio? Pois bem! Fôra lá, com uma amiga -franceza, empenhar uma pulseira de brilhantes da senhora. A senhora -vivia agora das suas joias; tinha já outras no prégo. - -Carlos parára, commovido. Mas então para que tinha ella mentido? - ---Je ne sais pas, dizia Melanie, je ne sais pas... Mais elle vous aime -bien, allez! - -Estavam defronte do portão. A tipoia esperava. E, ao fundo da rua -d'acacias, a porta da casa aberta deixava passar a luz do corredor, -frouxa e triste. Carlos julgou vêr mesmo a figura de Maria Eduarda, -embrulhada n'uma capa escura, de chapéo, atravessar n'essa claridade... -Ouvira decerto rodar a carruagem. Que afflicta paciencia seria a sua! - ---Vai-lhe dizer que vim, Melanie, vai! murmurou Carlos. - -A rapariga correu. E elle, caminhando devagar sob as acacias, sentia no -sombrio silencio as pancadas desordenandas do seu coração. Subiu os tres -degraus de pedra--que lhe pareciam já d'uma casa estranha. Dentro, o -corredor estava deserto, com a sua lampada mourisca alumiando as -panoplias de touros... Alli ficou. Melanie, com o chale na mão, veio -dizer-lhe que a senhora estava na sala das tapeçarias... - -Carlos entrou. - -Lá estava, ainda de capa, esperando de pé, palida, com toda a alma -concentrada nos olhos que refulgiam entre as lagrimas. E correu para -elle, arrebatou-lhe as mãos, sem poder fallar, soluçando, tremendo toda. - -Na sua terrivel perturbação, Carlos achava só esta palavra, -melancolicamente estupida: - ---Não sei porque chora, não sei, não há razão para chorar... - -Ella pôde emfim balbuciar: - ---Escuta-me, pelo amor de Deus! não digas nada, deixa contar-te... Eu ia -lá, tinha mandado Melanie por uma carruagem. Ia vêr-te... Nunca tive a -coragem de te dizer! Fiz mal, foi horrivel... Mas escuta, não digas nada -ainda, perdôa, que eu não tenho culpa! - -De novo os soluços a suffocaram. E cahiu ao canto do sofá, n'um chôro -brusco e nervoso, que a sacudiu toda, lhe fazia rolar sobre os hombros -os cabellos mal atados. - -Carlos ficára diante d'ella, immovel. O seu coração parecia parado de -surpreza e de duvida, sem força para desafogar. Apenas agora sentia -quanto baixo e brutal deixar-lhe o cheque--que tinha alli na carteira e -que o enchia de vergonha... Ella ergueu o rosto, todo molhado, murmurou -com um grande esforço: - ---Escuta-me!... Nem sei como hei de dizer... Oh, são tantas coisas, são -tantas coisas!... Tu não te vaes já embora, senta-te, escuta... - -Carlos puxou uma cadeira, lentamente. - ---Não, aqui ao pé de mim... Para eu ter mais coragem... Por quem és, tem -pena, faze-me isso! - -Elle cedeu á supplicação humilde e enternecedora dos seus olhos -arrazados d'agua: e sentou-se ao outro canto do sofá, afastado d'ella, -n'uma desconsolação infinita. Então, muito baixo, enrouquecida pelo -chôro, sem o olhar, e como n'um confessionario--Maria começou a fallar -do seu passado, desmanchadamente, hesitando, balbuciando, entre grandes -soluços que a afogavam, e pudores amargos que lhe faziam enterrar nas -mãos a face afflicta. - -A culpa não fôra d'ella! não fôra d'ella! Elle devia ter perguntado -áquelle homem que sabia toda a sua vida... Fôra sua mãi... Era horroroso -dizel-o, mas fôra por causa d'ella que conhecera e que fugira com o -primeiro homem, o outro, um irlandez... E tinha vivido com elle quatro -annos, como sua esposa, tão fiel, tão retirada de tudo e só occupada da -sua casa, que elle ia casar com ella! Mas morrera na guerra com os -allemães, na batalha de Saint-Privat. E ella ficára com Rosa, com a mãi -já doente, sem recursos, depois de vender tudo... Ao principio -trabalhára... Em Londres tinha procurado dar lições de piano... Tudo -falhára, dois dias vivera sem lume, de peixe salgado, vendo Rosa com -fome! com fome! Ah, elle não podia perceber o que isto era!... Quasi -fôra por caridade que as tinha repatriado para Paris... E ahi conhecera -Castro Gomes. Era horrivel, mas que havia d'ella fazer! Estava -perdida... - -Lentamente escorregára do sofá, cahira aos pés de Carlos. E elle -permanecia immovel, mudo, com o coração rasgado por angustias -differentes: era uma compaixão tremula por todas aquellas miserias -soffridas, dôr de mãi, trabalho procurado, fome, que lh'a tornavam -confusamente mais querida; e era o horror d'esse outro homem, o -irlandez, que surgia agora, e que lh'a tornava de repente mais -maculada... - -Ella continuava fallando de Castro Gomes. Vivera tres annos com elle, -honestamente, sem um desvio, sem um pensamento mau. O seu desejo era -estar quieta em casa. Elle é que a forçava a andar em ceias, em -noitadas... - -E Carlos não podia ouvir mais, torturado. Repeliu-lhe as mãos, que -procuravam as suas. Queria fugir, queria findar!... - ---Oh não, não me mandes embora! gritou ella prendendo-se a elle -anciosamente. Eu sei que não mereço nada! Sou uma desgraçada... Mas não -tive coragem, meu amor! Tu és homem, não comprehendes estas coisas... -Olha para mim! porque não olhas para mim? Um instante só, não voltes o -rosto, tem pena de mim... - -Não! elle não queria olhar. Temia aquellas lagrimas, o rosto cheio -d'agonia. Ao calor do seio que arquejava sobre os seus joelhos, já tudo -n'elle começava a oscillar, orgulhos, despeitos, dignidade, ciume... E -então, sem saber, a seu pezar, as suas mãos apertaram as d'ella. Ella -cobriu-lhe logo de beijos os dedos, as mangas, arrebatadamente: e -anciosa implorava do fundo da sua miseria um instante de misericordia. - ---Oh, dize que me perdôas! Tu és tão bom! Uma palavra só... Dize só que -não me odeias, e depois deixo-te ir... Mas dize primeiro... Olha ao -menos para mim como d'antes, uma só vez!... - -E eram agora os seus labios que procuravam os d'elle. Então a fraqueza -em que sentia afundar-se todo o seu sêr encheu Carlos de cólera, contra -si e contra ella. Sacudiu-a brutalmente, gritou: - ---Mas porque não me disseste, porque não me disseste? Para que foi essa -longa mentira? Eu tinha-te amado do mesmo modo! Para que mentiste, tu? - -Largára-a, prostrada no chão. E de pé, deixava cahir sobre ella a sua -queixa desesperada: - ---É a tua mentira que nos separa, a tua horrivel mentira, a tua mentira -sómente! - -Ella ergueu-se pouco a pouco, mal se sustendo, e com uma pallidez de -desmaio. - ---Mas eu queria dizer-t'o, murmurou muito baixo, muito quebrado diante -d'elle, deixando cahir os braços. Eu queria dizer-t'o... Não te lembras, -n'aquelle dia em que vieste tarde, quando eu fallei da casa de campo, e -que tu pela primeira vez declaraste que gostavas de mim? Eu disse-te -logo: «ha uma coisa que te quero contar...» Tu nem me deixaste acabar. -Imaginavas o que era, que eu queria ser só tua, longe de tudo... E -disseste então que haviamos d'ir, com Rosa, ser felizes para algum canto -do mundo... Não te lembras?... Foi então que me veio uma tentação! Era -não dizer nada, deixar-me levar, e depois, mais tarde, annos depois, -quando te tivesse provado bem que boa mulher eu era, digna da tua -estima, confessar-te tudo e dizer-te: «agora, se queres, manda-me -embora.» Oh! foi mal feito, bem sei... Mas foi uma tentação, não -resisti... Se tu não fallasses em fugirmos, tinha-te dito tudo... Mas -mal fallaste em fugirmos, vi uma outra vida, uma grande esperança, nem -sei que! E além d'isso adiava aquella horrivel confissão! Emfim, nem -posso explicar, era como o céo que se abria, via-me comtigo n'uma casa -nossa... Foi uma tentação!... E depois era horrivel, no momento em que -tu me querias tanto, ir dizer-te «não faças tudo isso por mim, olha que -eu sou uma desgraçada, nem marido tenho...» Que te hei de explicar mais? -Não me resignava a perder o teu respeito. Era tão bom ser assim -estimada... Emfim foi um mal, foi um grande mal... E agora ahi está, -vejo-me perdida, tudo acabou! - -Atirou-se para o chão, como uma creatura vencida e finda, escondendo a -face no sofá. E Carlos, indo lentamente ao fundo da sala, voltando -bruscamente até junto d'ella, tinha só a mesma recriminação, a -_mentira_, a _mentira_, pertinaz e de cada dia... Só os soluços d'ella -lhe respondiam. - ---Porque não me disseste ao menos depois, aqui nos Olivaes, quando -sabias que tu eras tudo para mim?... - -Ella ergueu a cabeça fatigada: - ---Que queres tu? Tive medo que o teu amor mudasse, que fosse d'outro -modo... Via-te já a tratar-me sem respeito. Via-te a entrar por ahi -dentro de chapéo na cabeça, a perder a affeição á pequena, a querer -pagar as despezas da casa... Depois tinha remorsos, ia adiando. Dizia -«hoje não, um dia só mais de felicidade, ámanhã será...» E assim ia -indo! Emfim, nem eu sei, um horror! - -Houve um silencio. E então Carlos sentiu á porta _Niniche_ que queria -entrar e que gania baixinho e doloridamente. Abriu. A cadellinha correu, -pulou para o sofá, onde Maria permanecia soluçando, enrodilhando a um -canto: procurava lamber-lhe as mãos, inquieta: depois ficou plantada -junto d'ella, como a guarda-l'a, desconfiada, seguindo, com os seus -vivos olhos d'azeviche, Carlos que recomeçára a passear sombriamente. - -Um ai mais longo e mais triste de Maria fel-o parar. Esteve um momento -olhando para aquella dôr humilhada... Todo abalado, com os labios a -tremer, murmurou: - ---Mesmo que te pudesse perdoar, como te poderia acreditar agora nunca -mais? Ha esta mentira horrivel sempre entre nós a separar-nos! Não teria -um unico dia de confiança e de paz... - ---Nunca te menti senão n'uma coisa, e por amor de ti! disse ella -gravemente do fundo da sua prostração. - ---Não, mentiste em tudo! Tudo era falso, falso o teu casamento, falso o -teu nome, falsa a tua vida toda... Nunca mais te poderia acreditar... -Como havia de ser, se agora mesmo quasi que nem acredito no motivo das -tuas lagrimas? - -Uma indignação ergueu-a, direita e soberba. Os seus olhos de repente -seccos rebrilharam, revoltados e largos, no marmore da sua pallidez. - ---Que queres tu dizer? Que estas lagrimas tem outro motivo, estas -supplicas são fingidas? Que finjo tudo para te reter, para não te -perder, ter outro homem, agora que estou abandonada?... - -Elle balbuciou: - ---Não, não! Não é isso! - ---E eu? exclamou ella, caminhando para elle, dominando-o, magnifica e -com um esplendor de verdade na face. E eu? porque hei de eu acreditar -n'essa grande paixão que me juravas? O que é que tu amavas então em mim? -Dize lá! Era a mulher d'outro, o nome, o requinte do adulterio, as -_toilletes_?... Ou era eu propria, o meu corpo, a minha alma e o meu -amor por ti?... Eu sou a mesma, olha bem para mim!... Estes braços são -os mesmos, este peito é o mesmo... Só uma coisa é differente: a minha -paixão! Essa é maior, desgraçadamente, infinitamente maior. - ---Oh! se isso fosse verdade! gritou Carlos, apertando as mãos. - -N'um instante Maria estava cahida a seus pés, com os braços abertos para -elle. - ---Juro-t'o por alma de minha filha, por alma de Rosa! Amo-te, adoro-te -doidamente, absurdamente, até á morte! - -Carlos tremia. Todo o seu sêr pendia para ella; e era um impulso -irresistivel de se deixar cahir sobre aquelle seio que arfava a seus -pés, ainda que elle fosse o abysmo da sua vida inteira... Mas outra vez -a idéia da _mentira_ passou, regeladora. E afastou-se d'ella, levando os -punhos á cabeça, n'um desespero, revoltado contra aquella coisa -pequenina e indestructivel que não queria sumir-se, e que se interpunha -como uma barra de ferro entre elle e a sua felicidade divina! - -Ella ficára ajoelhada, immovel, com os olhos esgazeados para o tapete. -Depois, no silencio estofado da sala, a sua voz ergueu-se dolente e -tremula: - ---Tens razão, acabou-se! Tu não me acreditas, tudo se acabou!... É -melhor que te vás embora... Ninguem me torna a acreditar... Acabou tudo -para mim, não tenho ninguem mais no mundo... Ámanhã sáio d'aqui, -deixo-te tudo... Has de me dar tempo para arranjar... Depois, que hei de -fazer, vou-me embora! - -E não pôde mais, tombou para o chão, com os braços estirados, perdida de -chôro. - -Carlos voltou-se, ferido no coração. Com o seu vestido escuro, para alli -cahida e abandonada, parecia já uma pobre creatura, arremessada para -fóra de todo o lar, sósinha a um canto, entre a inclemencia do mundo... -Então respeitos humanos, orgulho, dignidade humana, tudo n'elle foi -levado como por um grande vento de piedade. Viu só, offuscando todas as -fragilidades, a sua belleza, a sua dôr, a sua alma sublimemente amante. -Um delirio generoso, de grandiosa bondade, misturou-se á sua paixão. E, -debruçando-se, disse-lhe baixo, com os braços abertos: - ---Maria, queres casar commigo? - -Ella ergueu a cabeça, sem comprehender, com os olhos desvairados. Mas -Carlos tinha os braços abertos; e estava esperando para a fechar dentro -d'elles outra vez, como sua e para sempre... Então levantou-se, -tropeçando nos vestidos, veio cahir sobre o peito d'elle, cobrindo-o de -beijos, entre soluços e risos, tonta, n'um deslumbramento: - ---Casar comtigo, comtigo? Oh Carlos... E viver sempre, sempre -comtigo?... Oh meu amor, meu amor! E tratar de ti, e servir-te, e -adorar-te, e ser só tua? E a pobre Rosa tambem... Não, não cases -commigo, não é possivel, não valho nada! Mas se tu queres, porque -não?... Vamos para longe, juntos, e Rosa e eu sobre o teu coração! E has -de ser nosso amigo, meu e d'ella, que não temos ninguem no mundo... Oh! -meu Deus, meu Deus!... - -Empallideceu, escorregando pesadamente entre os braços d'elle, -desmaiada: e os seus longos cabellos desprendido rojavam o chão, tocados -pela luz de tons d'ouro. - - - - -V - - -Maria Eduarda e Carlos, que ficára essa noite nos Olivaes na sua -casinhola, acabavam de almoçar. O Domingos servira o café, e antes de -sahir deixára ao lado de Carlos a caixa de cigarettes e o _Figaro_. As -duas janellas estavam abertas. Nem uma folha se movia no ar pesado da -manhã encoberta, entristecida ainda por um dobre lento de sinos que -morria ao longe nos campos. No banco de cortiça, sob as arvores, miss -Sarah costurava preguiçosamente; Rosa ao lado brincava na relva. E -Carlos, que viera n'uma intimidade conjugal, com uma simples camisa de -sêda e um jaquetão de flanella, chegou então a cadeira para junto de -Maria, tomou-lhe a mão, brincando-lhe com os anneis, n'uma lenta -caricia: - ---Vamos a saber, meu amor... Decidiste, por fim? Quando queres partir? - -N'essa noite, entre os seus primeiros beijos de noiva, ella mostrára o -desejo enternecido de não alterar o plano da Italia e d'um ninho -romantico entre as flôres d'Isola-bella: sómente agora não iam esconder -a inquietação d'uma felicidade culpada, mas gozar o repouso d'uma -felicidade legitima. E, depois de todas as incertezas e tormentos que o -tinham agitado desde o dia em que cruzára Maria Eduarda no Aterro, -Carlos anhelava tambem pelo momento de se installar emfim no conforto -d'um amor sem duvidas e sem sobresaltos: - ---Eu por mim abalava ámanhã. Estou sôfrego de paz. Estou até sôfrego de -preguiça... Mas tu, dize, quando queres? - -Maria não respondeu; apenas o seu olhar sorriu, reconhecido e -apaixonado. Depois, sem retirar a mão que a longa caricia de Carlos -ainda prendia, chamou Rosa através da janella. - ---Mamã, espera, já vou! Passa-me umas migalhas... Andam aqui uns pardaes -que ainda não almoçaram... - ---Não, vem cá. - -Quando ella appareceu á porta, toda de branco, córada, com uma das -ultimas rosas de verão mettida no cinto--Maria quil-a mais perto, entre -elles, encostada aos seus joelhos. E, arranjando-lhe a fita solta do -cabello, perguntou, muito séria, muito commovida, se ella gostaria que -Carlos viesse viver com ellas de todo e ficar alli na _Toca_... Os olhos -da pequena encheram-se de surpreza e de riso: - ---O quê! estar sempre, sempre aqui, mesmo de noite, toda a noite?... E -ter aqui as suas malas, as suas coisas?... - -Ambos murmuraram--«sim». - -Rosa então pulou, bateu as palmas, radiante, querendo que Carlos fosse -já, já, buscar as suas malas e as suas coisas... - ---Escuta, disse-lhe ainda Maria gravemente, retendo-a sobre os joelhos. -E gostavas que elle fosse como o papá, e que andasse sempre comnosco, e -que lhe obedecessemos ambas, e que gostassemos muito d'elle ? - -Rosa ergueu para a mãe uma facesinha compenetrada, onde todo o sorriso -se apagára. - ---Mas eu não posso gostar mais d'elle do que gósto!... - -Ambos a beijaram, n'um enternecimento que lhes humedecia os olhos. E -Maria Eduarda, pela primeira vez diante de Rosa debruçando-se sobre -ella, beijou de leve a testa de Carlos. A pequena ficou pasmada para o -seu amigo, depois para a mãi. E pareceu comprehender tudo; escorregou -dos joelhos de Maria, veio encostar-se a Carlos com uma meiguice -humilde: - ---Queres que te chame papá, só a ti? - ---Só a mim, disse elle, fechando-a toda nos braços. - -E assim obtiveram o consentimento de Rosa--que fugiu, atirando a porta, -com as mãos cheias de bolos para os pardaes. - -Carlos levantou-se, tomou a cabeça de Maria entre as mãos, e -contemplando-a profundamente, até á alma, murmurou n'um enlevo: - ---És perfeita! - -Ella desprendeu-se, com melancolia, d'aquella adoração que a perturbava. - ---Escuta... Tenho ainda muito, muito que te dizer, infelizmente. Vamos -para o nosso kiosque... Tu não tens nada que fazer, não? E que tenhas, -hoje és meu... Vou já ter comtigo. Leva as tuas cigarettes. - -Nos degraus do jardim, Carlos parou a olhar, a sentir a doçura velada do -céo cinzento... E a vida pareceu-lhe adoravel, d'uma poesia fina e -triste,assim envolta n'aquella nevoa macia onde nada resplandecia e nada -cantava, e que tão favoravel era para que dois corações, desinteressados -do mundo e em desharmonia com elle, se abandonassem juntos ao contínuo -encanto de estremecerem juntos na mudez e na sombra. - ---Vamos ter chuva, tio André, disse elle, passando junto do velho -jardineiro que aparava o buxo. - -O tio André, atarantado, arrancou o chapéo. Ah! uma gota d'agua era bem -necessaria, depois da estiagem! O torrãosinho já estava com sêde! E em -casa todos bons? A senhora? A menina? - ---Tudo bom, tio André, obrigado. - -E no seu desejo de vêr todos em torno de si felizes como elle e como a -terra sequiosa que ia ser consolada--Carlos metteu uma libra na mão do -tio André, que ficou deslumbrado, sem ousar fechar os dedos sobre aquelle -ouro extraordinario que reluziu. - -Quando Maria entrou no kiosque trazia um cofre de sandalo. Atirou-o para -o divan: fez sentar Carlos ao lado, bem confortavel, entre almofadas: -accendeu-lhe uma cigarrete. Depois agachou-se aos seus pés, sobre o -tapete, como na humildade de uma confissão. - ---Estás bem assim? Queres que o Domingos te traga agua e cognac?... Não? -Então ouve agora, quero-te contar tudo... - -Era toda a sua existencia que ella desejava contar. Pensára mesmo em -lh'a escrever n'uma carta interminavel, como nos romances. Mas decidira -antes tagarellar alli uma manhã inteira, aninhada aos seus pés. - ---Estás bem, não estás? - -Carlos esperava, commovido. Sabia que aquelles labios amados iam fazer -revelações pungentes para o seu coração--e amargas para o seu orgulho. -Mas a confidencia da sua vida completava a posse da sua pessoa: quando a -conhecesse toda no seu passado sentil-a-hia mais sua inteiramente. E no -fundo tinha uma curiosidade insaciavel d'essas coisas que o deviam -pungir e que o deviam humilhar. - ---Sim, conta... Depois esquecemos tudo e para sempre. Mas agora dize, -conta... Onde nasceste tu por fim? - -Nascera em Vienna: mas pouco se recordava dos tempos de criança, quasi -nada sabia do papá, a não ser a sua grande nobreza e a sua grande -belleza. Tivera uma irmãsinha que morrera de dois annos e que se chamava -Heloisa. A mamã, mais tarde, quando ella era já rapariga, não tolerava -que lhe perguntassem pelo passado; e dizia sempre que remexer a memoria -das coisas antigas prejudicava tanto como sacudir uma garrafa de vinho -velho... De Vienna apenas recordava confusamente largos passeios -d'arvores, militares vestidos de branco, e uma casa espelhada e dourada -onde se dançava: ás vezes durante tempos ella ficava lá só com o avô, um -velhinho triste e timido, mettido pelos cantos, que lhe contara -historias de navios. Depois tinham ido a Inglaterra: mas lembrava-se -sómente de ter atravessado um grande rumor de ruas, n'um dia de chuva, -embrulhada em pelles, sobre os joelhos d'um escudeiro. As suas primeiras -memorias mais nitidas datavam de Paris; a mamã, já viuva, andava de luto -pelo avô; e ella tinha uma aia italiana que a levava todas as manhãs, -com um arco e com uma pélla, brincar aos Campos Elyseos. A noite -costumava vêr a mamã decotada, n'um quarto cheio de setins e de luzes; e -um homem louro, um pouco brusco, que fumava sempre estirado pelos sofás, -trazia-lhe de vez em quando uma boneca, e chamava-lhe mademoiselle -_Triste-c[oe]ur_ por causa do seu arzinho sisudo. Emfim a mamã mettera-a -n'um convento ao pé de Tours--porque n'essa idade, apesar de cantar já -ao piano as walsas da _Belle Helène_, ainda não sabia soletrar. Fôra nos -jardins do convento, onde havia lindos lilazes, que a mamã se separára -d'ella n'uma paixão de lagrimas; e ao lado esperava, para a consolar -decerto, um sujeito muito grave, de bigodes encerados, a quem a Madre -Superiora fallara com veneração. - -A mamã ao principio vinha vêl-a todos os mezes, demorando-se em Tours -dois, tres dias; trazia-lhe uma profusão de presentes, bonecas, bonbons, -lenços bordados, vestidos ricos, que lhe não permittia usar a regra -severa do convento. Davam então passeios de carruagem pelos arredores de -Tours: e havia sempre officiaes a cavallo, que escoltavam a caleche--e -tratavam a mamã por _tu_. No convento as mestras, a Madre Superiora não -gostavam d'estas sahidas--nem mesmo que a mamã viesse acordar os -corredores devotos com as suas risadas e o ruido das suas sêdas; ao -mesmo tempo pareciam temel-a; chamavam-lhe _Madame la Comtesse_. A mamã -era muito amiga do general que commandava em Tours, e visitava o bispo. -Monsenhor, quando vinha ao convento, fazia-lhe uma festinha especial na -face e alludia risonhamente a _son excellente mère_. Depois a mamã -começou a apparecer menos em Tours. Esteve um anno longe, quasi sem -escrever, viajando na Allemanha; voltou um dia, magra e coberta de luto, -e ficou toda a manhã abraçada a ella a chorar. - -Mas na visita seguinte vinha mais moça, mais brilhante, mais ligeira, -com dois grandes galgos brancos, annunciando uma romagem poetica á Terra -Santa e a todo o remoto Oriente. Ella tinha então quasi dezeseis annos: -pela sua applicação, os seus modos dôces e graves, ganhára a affeição da -Madre Superiora--que ás vezes, olhando-a com tristeza, acariciando-lhe o -cabello cahido em duas tranças segundo a regra, lhe mostrava o desejo de -a conservar sempre ao seu lado. _Le monde_, dizia ella, _ne vous sera -bon à rien, mon enfant!_... Um dia, porém, appareceu para a levar para -Paris, para a mamã, uma Madame de Chavigny, fidalga pobre, de caracoes -brancos, que era como uma estampa de severidade e de virtude. - -O que ella chorára ao deixar o convento! Mais choraria se soubesse o que -ia encontrar em Paris! - -A casa da mamã, no Parc Monceaux, era na realidade uma casa de jogo--mas -recoberta de um luxo sério e fino. Os escudeiros tinham meias de sêda; -os convidados, com grandes nomes no Nobiliario de França, conversavam de -corridas, das Tulherias, dos discursos do Senado; e as mesas de jogo -armavam-se depois como uma distracção mais picante. Ella recolhia sempre -ao seu quarto ás dez horas: Madame de Chavigny, que ficára como sua dama -de companhia, ia com ella cedo ao Bois n'um coupé estufo de -_douairière_. Pouco a pouco, porém, este grande verniz começou a -estalar. A pobre mamã cahira sob o jugo d'um Mr. de Trevernnes, homem -perigoso pela sua seducção pessoal e por uma desoladora falta de honra e -de senso. A casa descahiu rapidamente n'uma bohemia mal dourada e -ruidosa. Quando ella madrugava, com os seus habitos saudaveis do -convento, encontrava paletots d'homens por cima dos sofás: no marmore -das consoles restavam pontas de charuto entre nodoas de champagne; e -n'algum quarto mais retirado ainda tinia o dinheiro d'um _baccarat_ -talhado á claridade do sol. Depois uma noite, estando deitada, sentira -de repente gritos, uma debandada brusca na escada; veio encontrar a mamã -estirada no tapete, desmaiada; ella dissera-lhe apenas mais tarde, -alagada em lagrimas, «que tinha havido uma desgraça»... - -Mudaram então para um terceiro andar da Chaussée-d'Antin. Ahi começou a -apparecer uma gente desconhecida e suspeita. Eram Valachos de grandes -bigodes, Peruanos com diamantes falsos, e condes romanos que escondiam -para dentro das mangas os punhos enxovalhados... Por vezes entre esta -malta vinha algum _gentleman_--que não tirava o paletot, como n'um -café-concerto. Um d'esses foi um irlandez, muito moço, Mac-Gren... -Madame de Champigny deixára-as desde que faltára o coupé severo, -acolchoado de setim; e ella, só com a mãi, insensivelmente, fatalmente, -fôra-se misturando a essa vida tresnoitada de grogs e de _baccarat_. - -A mamã chamava a Mac-Gren o «bébé». Era com effeito uma criança -estouvada e feliz. Namorára-se d'ella logo com o ardor, a effusão, o -impeto d'um irlandez; e prometteu-lhe fazel-a sua esposa apenas se -emancipasse--porque Mac-Gren, menor ainda, vivia sobretudo das -liberalidades de uma avó excentrica e rica que o adorava, e que habitava -a Provença n'uma vasta quinta onde tinha feras em jaulas... E no entanto -induzia-a sem cessar a fugir com elle, desesperado de a vêr entre -aquelles Valachos que cheiravam a genebra. O seu desejo era leval-a para -Fontainebleau, para um _cottage_ com trepadeiras de que fallava sempre, -e esperar ahi tranquillamente a maioridade que lhe traria duas mil -libras de renda. Decerto, era uma situação falsa: mas preferivel a -permanecer n'aquelle meio depravado e brutal onde ella a cada instante -córava... A esse tempo a mamã parcela ir perdendo todo o senso, -desarranjada de nervos, quasi irresponsavel. As difficuldades crescentes -estonteavam-n'a; brigava com as criadas; bebia champagne «_pour -s'étourdir_». Para satisfazer as exigencias de Mr. de Trevernnes -empenhára as suas joias, e quasi todos os dias chorava com ciumes -d'elle. Por fim houve uma penhora: uma noite tiveram d'enfardelar á -pressa roupa n'um sacco, e ir dormir a um hotel. E, peor, peor que tudo! -Mr. de Trevernnes começava a olhar para ella d'um modo que a -assustava... - ---Minha pobre Maria! murmurou Carlos, pallido, agarrando-lhe as mãos. - -Ella permaneceu um momento suffocada, com o rosto cahido nos joelhos -d'elle. Depois limpando as lagrimas que a ennevoavam: - ---Ahi estão as cartas de Mac-Gren, n'esse cofre... Tenho-as guardado -sempre para me justificar a mim mesma, se me é possivel... Pede-me em -todas que vá para Fontainebleau; chama-me sua esposa; jura que apenas -juntos iremos ajoelhar-nos diante da avó, obter a sua indulgencia... Mil -promessas! E era sincero... Que queres que te diga? A mamã uma manhã -partiu com uma sucia para Baden. Fiquei em Paris só, n'um hotel... Tinha -um palpite, um terror que Trevernnes apparecia... E eu só! Estava tão -transtornada que pensei em comprar um rewolver... Mas quem veio foi -Mac-Gren. - -E partira com elle, sem precipitação, como sua esposa, levando todas as -suas malas. A mamã de volta de Baden correu a Fontainebleau, desvairada -e tragica, amaldiçoando Mac-Gren, ameaçando-o com a prisão de Mazas, -querendo esbofeteal-o; depois rompeu a chorar. Mac-Gren, como um bébé, -agarrou-se a ella aos beijos, chorando tambem. A mamã terminou por os -apertar a ambos contra o coração, já rendida, perdoando tudo, -chamando-lhes «filhos da sua alma». Passou o dia em Fontainebleau, -radiante, contando «a patuscada de Baden», já com o plano de vir -installar-se no _cottage_, viver junto d'elles n'uma felicidade calma e -nobre de avósinha... Era em maio; Mac-Gren, á noite, deitou um «fogo -preso» no jardim. - -Começou um anno quieto e facil. O seu unico desejo era que a mamã -vivesse com elles socegadamente. Diante das suas supplicas ella ficava -pensativa, dizia: «Tens razão, veremos!» Depois remergulhava no -torvelinho de Paris, d'onde resurgia uma manhã, n'um _fiacre_, -estremunhada e afflicta, com uma rica pelliça sobre uma velha saia, a -pedir-lhe cem francos... Por fim nascera Rosa. Toda a sua anciedade -desde então fôra legitimar a sua união. Mas Mac-Gren adiava, -levianamente, com um medo pueril da avó. Era um perfeito bébé! -Entretinha as manhãs a caçar passaros com visco! E ao mesmo tempo -terrivelmente teimoso: ella pouco a pouco perdera-lhe todo o respeito. -No começo da primavera a mamã um dia appareceu em Fontainebleau com as -suas malas, succumbida, enojada da vida. Rompera emfim com Trevernnes. -Mas quasi immediatamente se consolou: e começou d'ahi a adorar Mac-Gren -com uma tão larga effusão de caricias, e achando-o tão lindo, que era ás -vezes embaraçadora. Os dois passavam o dia, com copinhos de cognac, -jogando o _bezigue_. - -De repente rebentou a guerra com a Prussia. Mac-Gren enthusiasmado, e -apesar das supplicas d'ellas, corrêra a alistar-se no batalhão de Zuavos -de Charette; a avó de resto approvára este rasgo d'amor pela França, e -fizera-lhe n'uma carta em verso, em que celebrava Jeanne d'Arc, uma -larga remessa de dinheiro. Por esse tempo Rosa teve o garrotilho. Ella, -sem lhe largar o leito, mal attendia ás noticias da guerra. Sabia apenas -confusamente das primeiras batalhas perdidas na fronteira. Uma manhã a -mamã rompeu-lhe no quarto, estonteada, em camisa: o exercito capitulára -em Sédan, o imperador estava prisioneiro! «É o fim de tudo, é o fim de -tudo!» dizia a mamã espavorida. Ella veio a Paris procurar noticias de -Mac-Gren: na rua Royale teve de se refugiar n'um portão, diante do -tumulto d'um povo em delirio, acclamando, cantando a Marselheza, em -torno de uma caleche onde ia um homem, pallido como cera, com um -cache-nez escarlate ao pescoço. E um sujeito ao lado, aterrado, -disse-lhe que o povo fôra buscar Rochefort á prisão e que estava, -proclamada a Republica. - -Nada soubera de Mac-Gren. Começaram então dias d'infinito sobresalto. -Felizmente Rosa convalescia. Mas a pobre mamã causava dó, envelhecida de -repente, sombria, prostrada n'uma cadeira, murmurando apenas: «É o fim -de tudo, é o fim de tudo!» E parecia na verdade o fim da França. Cada -dia uma batalha perdida; regimentos presos, apinhados em wagons de gado, -internados a todo o vapor para os presidios d'Allemanha; os prussianos -marchando sobre Paris... Não podiam permanecer em Fontainebleau; o duro -inverno começava; e com o que venderam á pressa, com o dinheiro que -Mac-Gren deixára, partiram para Londres. - -Fôra uma exigencia da mamã. E em Londres ella, desorientada na enorme e -estranha cidade, doente tambem, deixára-se levar pelas tontas idéas da -mãe. Tomaram uma casa mobilada, muito cara, nos bairros de luxo, ao pé -de Mayfair. A mamã fallava em organisar alli o centro de resistencia dos -bonapartistas refugiados; no fundo, a desgraçada pensava em crear uma -casa de jogo em Londres. Mas ai! eram outros tempos... Os imperialistas, -sem imperio, não jogavam já o _baccarat_. E ellas em breve, sem -rendimentos, gastando sempre, tinham-se achado com aquella dispendiosa -casa, tres criados, contas colossaes e uma nota de cinco libras no fundo -d'uma gaveta. E Mac-Gren mettido dentro de Paris, com meio milhão de -prussianos em redor. Foi necessario vender todas as joias, vestidos, até -as pelliças. Alugaram então, no bairro pobre de Soho, tres quartos mal -mobilados. Era o _lodging_ de Londres em toda a sua suja, solitaria -tristeza; uma criadita unica, enfarruscada como um trapo; alguns carvões -humidos fumegando mal na chaminé; e para jantar um pouco de carneiro -frio e cerveja da esquina. Por fim faltára mesmo o escasso shilling para -pagar o _lodging_. A mamã não sahia do catre, doente, succumbida, -chorando. Ella ás vezes ao anoitecer, escondida n'um water-proof, levava -ao _prégo_ embrulhos de roupa (até roupa branca, até camisas!) para que -ao menos não faltasse a Rosa a sua chicara de leite. As cartas que a -mamã escrevia a alguns antigos companheiros de ceias na _Maison d'Or_ -ficavam sem resposta: outras traziam, embrulhada n'um bocado de papel, -alguma meia-libra que tinha o pavoroso sabor d'uma esmola. Uma noite, um -sabbado de grande nevoeiro, indo empenhar um chambre de rendas da mamã, -perdera-se, errára na vasta Londres n'uma treva amarellada, a tiritar de -frio, quasi com fome, perseguida por dois brutos que empestavam a -alcool. Para lhes fugir atirou-se para dentro d'um _cab_ que a levou a -casa. Mas não tinha um penny para pagar ao cocheiro; e a patrôa roncava -no seu cacifro, bebeda. O homem resmungou; ella, succumbida, alli mesmo -na porta rompeu a chorar. Então o cocheiro desceu da almofada, -commovido, offereceu-se para a levar de graça ao _prégo_, onde -ajustariam as suas contas. Foi; o pobre homem só aceitou um _schilling_; -até mesmo suppondo-a franceza grunhiu blasphemias contra os prussianos, -e teimou em lhe offerecer uma bebida. - -Ella no emtanto procurava uma occupação qualquer costura, bordados, -traducções, cópias de manuscriptos... Não achava nada. N'aquelle duro -inverno o trabalho escasseava em Londres; surgira uma multidão de -francezes, pobres como ella, luctando pelo pão... A mamã não cessava de -chorar; e havia alguma coisa mais terrivel que as suas lagrimas--eram as -suas allusões constantes á facilidade de se ter em Londres dinheiro, -conforto e luxo, quando se é nova e se é bonita... - ---Que te parece esta vida, meu amor? exclamou ella, apertando as mãos -amargamente. - -Carlos beijou-a em silencio, com os olhos humedecidos. - ---Emfim tudo passou, continuou Maria Eduarda. Fez-se a paz, o cêrco -acabou. Paris estava de novo aberto... Sómente a difficuldade era -voltar. - ---Como voltaste? - -Um dia por acaso, em Regent-Street, encontrára um amigo de Mac-Gren, -outro irlandez, que muitas vezes jantára com elles em Fontainebleau. -Veio vêl-as a Soho; diante d'aquella miseria, do bule de chá aguado, dos -ossos de carneiro requentando sobre tres brazas mortas, começou, como -bom irlandez, por accusar o governo d'Inglaterra e jurar uma desforra de -sangue. Depois offereceu, com os beiços já a tremer, toda a sua -dedicação. O pobre rapaz batia tambem o lagedo n'uma lucta tormentosa -pela vida. Mas era irlandez; e partiu logo generosamente, armado de -todos os seus ardis, a conquistar através de Londres o pouco que ellas -necessitavam para recolher a França. Com effeito appareceu n'essa mesma -noite, derreado e triumphante, brandindo tres notas de banco e uma -garrafa de _champagne_. A mamã ao vêr, depois de tantos mezes de chá -preto, a garrafa de _Clicquot_ encarapuçada de ouro--quasi desmaiou, de -enternecimento. Enfardelaram os trapos. Ao partirem, na estação de -_Charing-Cross_, o irlandez levou-a para um canto, e engasgado, torcendo -os bigodes, disse-lhe que Mac-Gren tinha morrido na batalha de -Saint-Privat... - ---Para que te hei de eu contar o resto? Em Paris recomecei a procurar -trabalho. Mas tudo estava ainda em confusão... Quasi immediatamente veio -a Communa... Pódes acreditar que muitas vezes tivemos fome. Mas emfim já -não era Londres, nem o inverno, nem o exilio. Estavamos em Paris, -soffriamos de companhia com amigos d'outros tempos. Já não parecia tão -terrivel... Com todas estas privações a pobre Rosa começava a -definhar... Era um supplicio vêl-a perder as côres, tristinha, mal -vestida, mettida n'uma trapeira... A mamã já se queixava da doença de -coração que a matou... O trabalho que eu encontrava, mal pago, dava-nos -apenas para a renda da casa, e para não morrer absolutamente de -necessidade... Principiei a adoecer de anciedade, de desespero. Luctei -ainda. A mamã fazia dó. E Rosa morria se não tivesse outro regimen, bom -ar, algum conforto... Conheci então Castro Gomes em casa d'uma antiga -amiga da mamã, que não perdera nada com a guerra, nem com os prussianos, -e que me dava trabalhos de costura... E o resto sábel-o... Nem eu me -lembro... Fui levada... Via ás vezes Rosa, coitadinha, embrulhada n'um -chale, muito quietinha ao seu canto, depois de rapada a sua magra tigela -de sopas, e ainda com fome... - -Não pôde continuar; rompeu a chorar, cahida sobre os joelhos de Carlos. -E elle na sua emoção só lhe podia dizer, passando-lhe as mãos tremulas -pelos cabellos, que a havia de desforrar bem de todas as miserias -passadas... - ---Escuta ainda, murmurou ella, limpando as lagrimas. Ha só uma coisa -mais que te quero dizer. E é a santa verdade, juro-te pela alma de Rosa! -É que n'estas duas relações que tive o meu coração conservou-se -adormecido... Dormiu sempre, sempre, sem sentir nada, sem desejar nada, -até que te vi... E ainda te quero dizer outra coisa... - -Um momento hesitou, coberta de rubor. Passára os braços em torno de -Carlos, pendurada toda d'elle, com os olhos mergulhados nos seus. E foi -mais baixo que balbuciou na derradeira, na absoluta confissão de todo o -seu sêr: - ---Além de ter o coração adormecido, o meu corpo permaneceu sempre frio, -frio como um marmore... - -Elle estreitou-a a si arrebatadamente: e os seus labios ficaram collados -muito tempo, em silencio, completando, n'uma emoção nova e quasi -virginal, a communhão perfeita das suas almas. - - - -D'ahi a dias Carlos e Ega vinham n'uma victoria, pela estrada dos -Olivaes, em caminho da _Toca_. - -Toda essa manhã, no Ramalhete, Carlos estivera emfim contando ao Ega o -impulso de paixão que o lançára de novo e para sempre, como esposo, nos -braços de Maria; e, na confiança absoluta que o prendia ao Ega, -revelára-lhe mesmo miudamente a historia d'ella, dolorosa e -justificadora. Depois, ao acalmar o calor, propoz que fossem comer as -sopas á _Toca_. Ega deu uma volta pelo quarto, hesitando. Por fim -começou a passar devagar a escova pelo paletot, murmurando, como durante -as longas confidencias de Carlos: «É prodigioso!... Que estranha coisa, -a vida!» - -E agora pela estrada, na aragem dôce do rio, Carlos fallava ainda de -Maria, da vida na _Toca_, deixando escapar do coração muito cheio o -interminavel cantico da sua felicidade. - ---É facto, Egasinho, conheço quasi a felicidade perfeita! - ---E cá na _Toca_ ainda ninguem sabe nada? - -Ninguem--a não ser Melanie, a confidente--suspeitava a profunda -alteração que se fizera nas suas relações: e tinham assentado que miss -Sarah e o Domingos, primeiras testemunhas da sua amizade, seriam -régiamente recompensados e despedidos quando em fins de outubro elles -partissem para Italia. - ---E ides então casar a Roma?... - ---Sim... Em qualquer logar onde haja um altar e uma estola. Isso não -falta em Italia... E é então, Ega, que reapparece o espinho de toda esta -felicidade. É por isso que eu disse «quasi.» O terrivel espinho, o avô! - ---É verdade, o velho Affonso. Tu não tens idéa como lhe has de fazer -conhecer esse caso?... - -Carlos não tinha idéa nenhuma. Sentia só que lhe faltava absolutamente a -coragem de dizer ao avô: «esta mulher, com quem vou casar, teve na sua -vida estes erros»... E além d'isso, já reflectira, era inutil. O avô -nunca comprehenderia os motivos complicados, fataes, inilludiveis que -tinham arrastado Maria. Se lh'os contasse miudamente--o avô veria alli -um romance confuso e fragil, antipathico á sua natureza forte e candida. -A fealdade das culpas feril-o-hia, exclusivamente; e não lhe deixaria -apreciar, com serenidade, a irresistibilidade das causas. Para perceber -este caso d'um caracter nobre apanhado dentro d'uma implacavel rede de -fatalidades, seria necessario um espirito mais ductil, mais mundano que -o do avô... O velho Affonso era um bloco de granito: não se podiam -esperar d'elle as subtis discriminações d'um casuista moderno. Da -existencia de Maria só veria o facto tangivel:--cahira successivamente -nos braços de dois homens. E d'ahi decorreria toda a sua attitude de -chefe de familia. Para que havia elle pois de fazer ao velho uma -confissão, que necessariamente originaria um conflicto de sentimentos e -uma irreparavel separação domestica?... - ---Pois não te parece, Ega? - ---Falla mais baixo, olha o cocheiro. - ---Não percebe bem o portuguez, sobretudo o nosso estylo... Pois não te -parece? - -Ega raspava phosphoros na sola para accender o charuto. E resmungava: - ---Sim, o velho Affonso é granitico... - -Por isso Carlos concebera outro plano, mais sagaz: consistia em esconder -ao avô o passado de Maria--e fazer-lhe conhecer a pessoa de Maria. -Casavam secretamente em Italia. Regressavam: ella para a rua de S. -Francisco, elle filialmente para o Ramalhete. Depois Carlos levava o avô -a casa da sua boa amiga, que conhecera em Italia, M.^{me} de Mac-Gren. -Para o prender logo lá estavam os encantos de Maria, todas as graças -d'um interior delicado e sério, jantarinhos perfeitos, idéas justas, -Chopin, Beethoven, etc. E, para completar a conquista de quem tão -enternecidamente adorava crianças, lá estava Rosa... Emfim, quando o avô -estivesse namorado de Maria, da pequena, de tudo--elle, uma manhã, -dizia-lhe francamente: «Esta creatura superior e adoravel teve uma quéda -no seu passado; mas eu casei com ella; e, sendo tal como é, não fiz bem, -apesar de tudo, em a escolher para minha esposa?» E o avô, perante esta -terrivel irremediabilidade do facto consummado, com toda a sua -indulgencia de velho enternecido a defender Maria--seria o primeiro a -pensar que, se esse casamento não era o melhor segundo as regras do -mundo, era decerto o melhor segundo os interesses do coração... - ---Pois não te parece, Ega? - -Ega, absorvido, sacudia a cinza do charuto. E pensava que Carlos, em -resumo, adoptára para com o avô a complicada combinação que Maria -Eduarda tentára para com elle--e imitava sem o sentir os subtis -raciocinios d'ella. - ---E acabou-se, continuava Carlos. Se elle na sua indulgencia aceitar -tudo, bravo! dá-se uma grande festa no Ramalhete... Senão, foi-se! -passaremos a viver cada um para seu lado, fazendo ambos prevalecer a -superioridade de duas coisas excellentes: o avô as tradições do sangue, -eu os direitos do coração. - -E, vendo o Ega ainda silencioso: - ---Que te parece? Dize lá. Tu andas tão falto de idéas, homem! - -O outro sacudiu a cabeça, como despertando. - ---Queres que te diga o que me parece, com franqueza? Que diabo, nós -somos dois homens fallando como homens!... Então aqui está: teu avô tem -quasi oitenta annos, tu tens vinte e sete ou o quer que seja... É -doloroso dizel-o, ninguem o diz com mais dôr que eu, mas teu avô ha de -morrer... Pois bem, espera até lá. Não cases. Suppõe que ella tem um pae -muito velho, teimoso e caturra, que detesta o snr. Carlos da Maia e a -sua barba em bico. Espera; continúa a vir á _Toca_, na tipoia do Mulato; -e deixa teu avô acabar a sua velhice calma, sem desillusões e sem -desgostos... - -Carlos torcia o bigode, mudo, enterrado no fundo da victoria. Nunca, -n'esses dias de inquietação, lhe acudira idéa tão sensata, tão facil! -Sim, era isso, esperar! Que melhor dever do que poupar ao pobre avô toda -a dôr?... Maria de certo, como mulher, estava desejando anciosamente a -conversão do amante no marido pelo laço d'estola que tudo purifica e -nenhuma força desata. Mas ella mesma preferiria uma consagração -legal--que não fosse assim precipitada, dissimulada... Depois, tão recta -e generosa, comprehenderia bem a obrigação suprema de não mortificar -aquelle santo velho. De resto, não conhecia ella a sua lealdade solida e -pura como um diamante? Recebera a sua palavra: desde esse momento -estavam casados, não diante do sacrario e nos registos da sacristia--mas -diante da honra e na inabalavel communhão dos seus corações... - ---Tens razão! gritou por fim, batendo no joelho do Ega. Tens -immensamente razão! Essa idéa é genial! Devo esperar... E emquanto -espero?... - ---Como, emquanto esperas? acudiu Ega, rindo. Que diabo! Isso não é -commigo! - -E mais sério: - ---Emquanto esperas tens esse metal vil que faz a existencia nobre. -Installas tua mulher, porque desde hoje é tua mulher, aqui nos Olivaes -ou n'outro sitio, com o gosto, o conforto e a dignidade que competem a -tua mulher... E deixas-te ir! Nada impede que façaes essa viagem nupcial -á Italia... Voltas, continúas a fumar a tua _cigarette_ e a deixar-te -ir. Este é o bom senso: é assim que pensaria o grande Sancho Pansa... -Que diabo tens tu n'aquelle embrulho que cheira tão bem? - ---Um ananaz... Pois é isso, querido: esperar, deixar-me ir. É uma idéa! - -Uma idéa! e a mais grata ao temperamento de Carlos. Para que iria com -effeito enredar-se n'uma meada de amarguras domesticas, por um excesso -de cavalheirismo romantico? Maria confiava n'elle; era rico, era moço; o -mundo abria-se ante elles facil e cheio de indulgencias. Não tinha senão -a deixar-se ir. - ---Tens razão, Ega! E Maria é a primeira a achar isto cheio de senso e -d'_opportunismo_. Eu tenho uma certa pena em adiar a installação da -minha vida e do meu _home_. Mas, acabou-se! Antes de tudo que o avô seja -feliz... E para celebrar o advento d'esta idéa, Deus queira que Maria -nos tenha um bom jantar! - -Agora, ao aproximar-se da _Toca_, Ega ia receando o primeiro encontro -com Maria Eduarda. Incommodava-o esse enleio, esse rubor que ella não -poderia occultar--certa que, como confidente de Carlos, elle conhecia a -sua vida, as suas miserias, as suas relações com Castro Gomes. Por isso -hesitára em vir á _Toca_. Mas tambem, não apparecer mais a Maria Eduarda -seria marcar com um relevo quasi offensivo o desejo caridoso de não -molestar o seu pudor... Por isso decidira «dar o mergulho d'uma vez». -Quem, senão elle, deveria ser o mais apressado em estender a mão á noiva -de Carlos?... Além d'isso tinha uma infinita curiosidade de vêr no seu -interior, á sua mesa, essa creatura tão bella, com a sua graça nobre de -Deusa moderna! Mas saltou da victoria muito embaraçado. - -Por fim tudo se passou com uma facilidade risonha. Maria bordava, -sentada nos degraus do jardim. Teve um sobresalto, córou toda, com -effeito, ao avistar o Ega que procurava atarantadamente o monoculo: o -aperto de mão que trocaram foi mudo e timido: mas Carlos, alegremente, -desembrulhára o ananaz--e na admiração d'elle todo o constrangimento se -dissipou. - ---Oh! é magnifico! - ---Que côr, que luxo de tons! - ---E que aroma! Veio perfumando toda a estrada. - -Ega não voltára á _Toca_ desde a noite fatal da _soirée_ dos Cohens em -que elle alli tanto bebera e delirára tanto. E lembrou logo a Carlos a -jornada na velha traquitana, debaixo d'um temporal, o _grog_ do Craft, a -ceia de perú... - ---Já aqui soffri muito, minha senhora, vestido de Mephistopheles!... - ---Por causa de Margarida? - ---Por quem se ha de soffrer n'este apaixonado mundo, minha senhora, -senão por Margarida ou por Fausto? - -Mas Carlos quiz que elle admirasse os esplendores novos da _Toca_. E foi -já com familiaridade que Maria o levou pelas salas, lamentando que só -viesse assim á _Toca_ no fim do verão e no fim das flôres. Ega -extasiou-se ruidosamente. Emfim, perdera a _Toca_ o seu ar regelado e -triste de museu! Já alli se podia palrar livremente! - ---Isto é um barbaro, Maria! exclamava Carlos radiante. Tem horror á -arte! É um Ibero, é um Semita... - -Semita? Ega prezava-se de ser um luminoso Aryano! E por isso mesmo não -podia viver n'uma casa, em que cada cadeira tinha a solemnidade -sorumbatica de antepassados com cabelleira... - ---Mas, dizia Maria rindo, rodas estas lindas coisas do seculo dezoito -lembram antes a ligeireza, o espirito, a graça de maneiras... - ---V. exc.^a acha? acudiu Ega. A mim todos esses dourados, esses -enramalhetados, esses rococós lembram-me uma vivacidade estouvada e -sirigaita... Nada! nós vivemos n'uma Democracia! E não ha para exprimir -a alegria simples, sólida e bonacheirona da Democracia, como largas -poltronas de marroquim, e o mogno envernizado!... - -Assim n'uma risonha, ligeira discussão sobre bric-à-brac, desceram ao -jardim. - -Miss Sarah passeava entre o buxo, de olhos baixos, com um livro fechado -na mão. Ega, que conhecia já os seus ardores nocturnos, cravou-lhe -sôfregamente o monoculo; e emquanto Maria se abaixára a cortar um -geranio, exprimiu a Carlos n'um gesto mudo a sua admiração por aquelle -beicinho escarlate, aquelle seiosinho redondo de rola farta... Depois, -ao fundo, junto do caramanchão, encontraram Rosa que se balouçava. Ega -pareceu deslumbrado com a sua belleza, a sua frescura mate de camelia -branca. Pediu-lhe um beijo. Ella exigiu primeiro, muito séria, que elle -tirasse o vidro do olho. - ---Mas é para te vêr melhor! é para te vêr melhor!... - ---Então porque não trazes um em cada olho? Assim só me vês metade... - -Encantadora! encantadora! murmurava Ega. No fundo achava a pequena -espevitada e impudente. Maria resplandecia. - -E o jantar alargou mais esta intimidade risonha. Carlos, logo á sopa, -fallando-se de campo e d'um _chalet_ que elle desejava construir em -Cintra, nos Capuchos, dissera--«quando nos casarmos». E Ega alludiu a -esse futuro do modo mais grato ao coração de Maria. Agora que Carlos se -installava para sempre n'uma felicidade estavel (dizia elle) era -necessario trabalhar! E relembrou então a sua velha idéa do Cenaculo, -representado por uma _Revista_ que dirigisse a litteratura, educasse o -gosto, elevasse a politica, fizesse a civilisação, remoçasse o -carunchoso Portugal... Carlos, pelo seu espirito, pela sua fortuna (até -pela sua figura, ajuntava o Ega rindo) devia tomar a direcção d'este -movimento. E que profunda alegria para o velho Affonso da Maia! - -Maria escutava, presa e séria. Sentia bem quanto Carlos, com uma vida -toda de intelligencia e de actividade, rehabilitaria supremamente -aquella união mostrando-lhe a influencia fecunda e purificadora. - ---Tem razão, tem bem razão! exclamava ella com ardor. - ---Sem contar, acrescentava o Ega, que o paiz precisa de nós! Como muito -bem diz o nosso querido e imbecilissimo Gouvarinho, o paiz não tem -pessoal... Como ha de tel-o, se nós, que possuimos as aptidões, nos -contentamos em governar os nossos dog-carts e escrever a vida intima dos -atomos? Sou eu, minha senhora, sou eu que ando a escrever essa -biographia d'um atomo!... No fim, este dilettantismo é absurdo. Clamamos -por ahi, em botequins e livros, «que o paiz é uma choldra». Mas que -diabo! Porque é que não trabalhamos para o refundir, o refazer ao nosso -gosto e pelo molde perfeito das nossas idéas?... V. exc.^a não conhece -este paiz, minha senhora. É admiravel! É uma pouca de cera inerte de -primeira qualidade. A questão toda está em quem a trabalha. Até aqui a -cera tem estado em mãos brutas, banaes, toscas, reles, rotineiras... É -necessario pôl-a em mãos d'artistas, nas nossas. Vamos fazer d'isto um -_bijou_!... - -Carlos ria, preparando n'uma travessa o ananaz com sumo de laranja e -vinho da Madeira. Mas Maria não queria que elle risse. A idéa do Ega -parecia-lhe superior, inspirada n'um alto dever. Quasi tinha remorsos, -dizia ella, d'aquella preguiça de Carlos. E agora, que ia ser cercado de -affeição serena, queria-o vêr trabalhar, mostrar-se, dominar... - ---Com effeito, disse o Ega recostado e sorrindo, a era do romance -findou. E agora... - -Mas o Domingos servia o ananaz. E o Ega provou e rompeu em clamores de -enthusiasmo. Oh que maravilha! Oh que delicia! - ---Como fazes tu isto? Com Madeira... - ---E genio! exclamou Carlos. Delicioso, não é verdade? Ora digam-me se -tudo o que eu pudesse fazer pela civilisação valeria este prato de -ananaz! É para estas coisas que eu vivo! Eu não nasci para fazer -civilisação... - ---Nasceste, acudiu o Ega, para colher as flôres d'essa planta da -civilisação que a multidão rega com o seu suor! No fundo tambem eu, -menino! - -Não, não! Maria não queria que fallassem assim! - ---Esses ditos estragam tudo. E o snr. Ega, em logar de corromper Carlos, -devia inspiral-o... - -Ega protestou requebrando o olho, já languido. Se Carlos necessitava uma -musa inspiradora e benefica--não podia ser elle, bicho com barbas e -bacharel em leis... A musa estava _toute trouvée_! - ---Ah, com effeito!... Quantas paginas bellas, quantas nobres idéas se -não podem produzir n'um paraiso d'estes!... - -E o seu gesto molle e acariciador indicava a _Toca_, a quietação dos -arvoredos, a belleza de Maria. Depois na sala, emquanto Maria tocava um -nocturno de Chopin e Carlos e elle acabavam os charutos á porta do -jardim vendo nascer a lua--Ega declarou que, desde o começo do jantar, -estava com idéas de casar!... Realmente não havia nada como o casamento, -o interior, o ninho... - ---Quando penso, menino, murmurou elle mordendo sombriamente o charuto, -que quasi todo um anno da minha vida foi dado áquella israelita devassa -que gosta de levar bordoada... - ---Que faz ella em Cintra? perguntou Carlos. - ---Ensopa-se na crapula. Não ha a menor duvida que dá todo o seu coração -ao Damaso... Tu sabes o que n'estes casos significa o termo _coração_... -Viste já immundicie igual? É simplesmente obscena! - ---E tu adóral-a, disse Carlos. - -O outro não respondeu. Depois, dentro, n'um odio repentino da bohemia e -do romantismo, entoou louvores sonoros á familia, ao trabalho, aos altos -deveres humanos--bebendo copinhos de cognac. Á meia noite, ao sahir, -tropeçou duas vezes na rua d'acacias, já vago, citando Proudhon. E -quando Carlos o ajudou a subir para a victoria, que elle quiz descoberta -para ir communicando com a lua, Ega ainda lhe agarrou o braço para lhe -fallar da _Revista_, d'um forte vento de espiritualidade e de virtude -viril que se devia fazer soprar sobre o paiz... Por fim, já estirado no -assento, tirando o chapéo á aragem da noite: - ---E outra coisa, Carlinhos. Vê se me arranjas a ingleza... Ha vicios -deliciosos n'aquellas pestanas baixas... Vê se m'a arranjas... Vá lá, -bate lá, cocheiro! Caramba, que belleza de noite! - - - -Carlos ficára encantado com este primeiro jantar d'amizade na _Toca_. -Elle tencionava não apresentar Maria aos seus intimos senão depois de -casado e á volta de Italia. Mas agora a «união legal» estava já no seu -pensamento adiada, remota, quasi dispersa no vago. Como dizia o Ega, -devia esperar, deixar-se ir... E no emtanto, Maria e elle não poderiam -isolar-se alli todo um longo inverno, sem o calor sociavel d'alguns -amigos em redor. Por isso uma manhã, encontrando o Cruges, que fôra o -visinho de Maria e outr'ora lhe dava noticias da «lady ingleza», -pediu-lhe para vir jantar á _Toca_ no domingo. - -O maestro appareceu n'uma tipoia, á tardinha, de laço branco e de -casaca: e os fatos claros de campo com que encontrou Carlos e Ega -começaram logo a enchel-o de mal-estar. Toda a mulher, além das Lolas e -Conchas, o atarantava, o emmudecia: Maria, «com o seu porte de -_grande-dame_», como elle dizia, intimidou-o a tal ponto que ficou -diante d'ella, sem uma palavra, escarlate, torcendo o forro das -algibeiras. Antes de jantar, por lembrança de Carlos, foram-lhe mostrar -a quinta. O pobre maestro, roçando a casaca mal feita pela folhagem dos -arbustos, fazia esforços anciosos por murmurar algum elogio «á belleza -do sitio»; mas escapavam-lhe então inexplicavelmente coisas reles, em -calão: «vista catita»! «é pitada»! Depois ficava furioso, coberto de -suor, sem comprehender como se lhe babavam dos labios esses ditos -abominaveis, tão contrarios ao seu gosto fino d'artista. Quando se -sentou á mesa soffria um negrissimo accesso de _spleen_ e mudez! Nem uma -controversia que Maria arranjára caridosamente para elle sobre Wagner e -Verdi pôde descerrar-lhe os labios empedernidos. Carlos ainda tentou -envolvel-o na alegria da mesa--contando a ida a Cintra, quando elle -procurava Maria na Lawrence, e em vez d'ella achára uma matrona obesa, -de bigode, de cãosinho ao collo, ralhando com o homem em hespanhol. Mas -a cada exclamação de Carlos--«Lembras-te, Cruges?», «Não é verdade, -Cruges?»--o maestro, rubro, grunhia apenas um _sim_ avaro. Terminou por -estar alli, ao lado de Maria, como um trambolho funebre. Estragou o -jantar. - -Combinára-se para depois do café um passeio pelos arredores, n'um break. -E Carlos já tomára as guias, Maria na almofada acabava de abotoar as -luvas--quando Ega, que receava a friagem da tarde, saltou do break, -correu a buscar o paletot. N'esse mesmo momento sentiram um trote de -cavallo na estrada--e appareceu o marquez. - -Foi uma surpreza para Carlos, que o não vira durante esse verão. O -marquez parou logo, tirando profundamente, ao vêr Maria, o seu largo -chapéo desabado. - ---Imaginava-o pela Gollegã! exclamou Carlos. Foi até o Cruges que me -disse... Quando chegou vossê? - -Chegára na vespera. Lá fôra ao Ramalhete; tudo deserto. Agora vinha aos -Olivaes vêr um dos Vargas que tinha casado, se installára alli perto, a -passar o noivado... - ---Quem, o gordo, o das corridas? - ---Não, o magro, o das regatas. - -Carlos, debruçado da almofada, examinava a egoasita do marquez, pequena, -bem estampada, d'um baio escuro e bonito. - ---Isso é novo? - ---Uma facasita do Darque... Quer-m'a vossê comprar? Sou já um pouco -pesado para ella, e isto mette-se a um dog-cart... - ---Dê lá uma volta. - -O marquez deu a volta, bem posto na sella, avantajando a egoa. Carlos -achou-lhe «boas acções». Maria murmurou--«Muito bonita, uma cabeça -fina...» Então Carlos apresentou o marquez de Souzella a madame -Mac-Gren. Elle chegou a egoa á roda, descoberto, para apertar a mão a -Maria: e á espera do Ega que se eternisava lá dentro, ficaram fallando -do verão, de Santa Olavia, dos Olivaes, da _Toca_... Ha que tempos o -marquez alli não passava! A ultima vez fôra victima da excentricidade do -Craft... - ---Imagine v. exc.^a, disse elle a Maria Eduarda, que esse Craft me -convida a almoçar. Venho, e o hortelão diz-me que o snr. Craft, criado e -cozinheiro, tudo partira para o Porto; mas que o snr. Craft deixára um -cartaz na sala... Vou á sala, e vejo dependurado ao pescoço d'um idolo -japonez uma folha de papel com estas palavras pouco mais ou menos: «O -deus Tchi tem a honra de convidar o snr. marquez, em nome de seu amo -ausente, a passar á sala de jantar onde encontrará, n'um aparador, -queijo e vinho, que é o almoço que basta ao homem forte.» E foi com -effeito o meu almoço... Para não estar só, partilhei-o com o hortelão. - ---Espero que se tivesse vingado! exclamou Maria rindo. - ---Póde crêr, minha senhora... Convidei-o a jantar, e quando elle -appareceu, vindo d'aqui da _Toca_, o meu guarda-portão disse-lhe que o -snr. marquez fôra para longe, e que não havia nem pão nem queijo... -Resultado: o Craft mandou-me uma duzia de magnificas garrafas de -Chambertin. Esse deus Tchi nunca mais o tornei a vêr... - -O deus Tchi lá estava, obeso e medonho. E, muito naturalmente, Carlos -convidou o marquez a revisitar n'essa noite, á volta da casa do Vargas, -o seu velho amigo Tchi. - -O marquez veio, ás dez horas--e foi um serão encantador. Conseguiu -sacudir logo a melancolia do Cruges, arrastando-o com mão de ferro para -o piano; Maria cantou; palrou-se com graça; e aquelle escondrijo d'amor -ficou alumiado até tarde, na sua primeira festa de amizade. - -Estas reuniões alegres foram ao principio, como dizia o Ega, -_dominicaes_: mas o outono arrefecia, bem depressa se despiriam as -arvores da _Toca_, e Carlos accumulou-as duas vezes por semana, nos -velhos dias feriados da Universidade, domingos e quintas. Tinha -descoberto uma admiravel cozinheira alsaciana, educada nas grandes -tradições, que servira o bispo de Strasburgo, e a quem as extravagancias -d'um filho e outras desgraças tinham arrojado a Lisboa. Maria, de resto, -punha na composição dos seus jantares uma sciencia delicada: o dia de -vir á _Toca_ era considerado pelo marquez «dia de civilisação». - -A mesa resplandecia; e as tapeçarias representando massas d'arvoredos -punham em redor como a sombra escura d'um retiro silvestre onde por um -capricho se tivessem accendido candelabros de prata. Os vinhos sahiam da -frasqueira preciosa do Ramalhete. De todas as coisas da terra e do céo -se grulhava com phantasia--menos de «politica portugueza», considerada -conversa indecorosa entre pessoas de gosto. - -Rosa apparecia ao café, exhalando do seu sorriso, dos bracinhos nús, dos -vestidos brancos tufados sobre as meias de sêda preta, um bom aroma de -flôr. O marquez adorava-a, disputando-a ao Ega, que a pedira a Maria em -casamento e lhe andava compondo havia tempo um soneto. Ella preferia o -marquez: achava o Ega «muito...»--e completava o seu pensamento com um -gestosinho do dedo ondeado no ar, como a exprimir que o Ega «era muito -retorcido». - ---Ahi está! exclamava elle. Porque eu sou mais civilisado que o outro! É -a simplicidade não comprehendendo o requinte. - ---Não, desgraçado! exclamavam do lado. É porque és impresso!... É a -natureza repellindo a convenção!... - -Bebia-se á saude de Maria: ella sorria, feliz entre os seus novos -amigos, divinamente bella, quasi sempre de escuro, com um curto decote -onde resplandecia o incomparavel esplendor do seu collo. - -Depois organisaram-se solemnidades. N'um domingo, em que os sinos -repicavam e a distancia foguetes esfuziavam no ar--Ega lamentou que os -seus austeros principios philosophicos o impedissem de festejar tambem -aquelle santo d'aldeia, que fôra decerto em vida um caturra encantador, -cheio d'illusões e doçura... Mas de resto, acrescentou, não teria sido -n'um dia assim, fino e secco, sob um grande céo cheio de sol, que se -feriu a batalha das Thermopylas? Porque não se atiraria uma girandola de -foguetes em honra de Leonidas e dos trezentos? E atirou-se a girandola -pela eterna gloria de Sparta. - -Depois celebraram-se outras datas historicas. O anniversario da -descoberta da Venus de Milo foi commemorado com um balão que ardeu. -N'outra occasião o marquez trouxe de Lisboa, apinhados n'uma tipoia, -fadistas famosos, o _Pintado_, o _Vira-vira_ e o _Gago_: e depois de -jantar, até tarde, com o luar sobre o rio, cinco guitarras choraram os -ais mais tristes dos fados de Portugal. - -Quando estavam sós, Carlos e Maria passavam as suas manhãs no kiosque -japonez--affeiçoados áquelle primeiro retiro dos seus amores, pequeno e -apertado, onde os seus corações batiam mais perto um do outro. Em logar -das esteiras de palha Carlos revestira-o com as suas formosas colchas da -India, côr de palha e côr de perola. Um dos maiores cuidados d'elle, -agora, era embellezar a _Toca_: nunca voltava de Lisboa sem trazer -alguma figurinha de Saxe, um marfim, uma faiança, como noivo feliz que -aperfeiçôa o seu ninho. - -Maria no emtanto não cessava de lembrar os planos intellectuaes do Ega: -queria que elle trabalhasse, ganhasse um nome: seria isso o orgulho -intimo d'ella, e sobretudo a alegria suprema do avô. Para a contentar -(mais que para satisfazer as suas necessidades de espirito) Carlos -recomeçára a compôr alguns dos seus artigos de medicina litteraria para -a _Gazeta Medica_. Trabalhava no kiosque, de manhã. Trouxera para lá -rascunhos, livros, o seu famoso manuscripto da _Medicina antiga e -moderna_. E por fim achára um grande encanto em estar alli, com um leve -casaco de sêda, as suas cigarettes ao lado, um fresco murmurio de -arvoredo em redor--cinzelando as suas phrases, emquanto ella ao lado -bordava silenciosa. As suas idéas surgiam com mais originalidade, a sua -fórma ganhava em colorido, n'aquelle estreito kiosque assetinado que -ella perfumava com a sua presença. Maria respeitava este trabalho como -coisa nobre e sagrada. De manhã, ella mesma espanejava os livros do leve -pó que a aragem soprava pela janella; dispunha o papel branco, punha -cuidadosamente pennas novas; e andava bordando uma almofada de pennas e -setim para que o trabalhador estivesse mais confortavel na sua vasta -cadeira de couro lavrado. - -Um dia offerecera-se a passar a limpo um artigo. Carlos, enthusiasmado -com a letra d'ella, quasi comparavel á lendaria letra do Damaso, -occupava-a agora incessantemente como copista, sentindo mais amor por um -trabalho a que ella se associava. Quantos cuidados se dava a dôce -creatura! Tinha para isso um papel especial, d'um tom macio de marfim: -e, com o dedinho no ar, ia desenrolando as pesadas considerações de -Carlos sobre o Vitalismo e o Transformismo na graça delicada d'uma -renda... Um beijo pagava-a de tudo. - -Ás vezes Carlos dava lições a Rosa--ora de historia, contando-lh'a -familiarmente como um conto de fadas; ora de geographia, interessando-a -pelas terras onde vivem gentes negras, e pelos velhos rios que correm -entre as ruinas dos santuarios. Isto era o prazer mais alto de Maria. -Séria, muda, cheia de religião, escutava aquelle sêr bem-amado ensinando -sua filha. Deixava escapar das mãos o trabalho--e o interesse de Carlos, -a enlevada attenção de Rosa sentada aos pés d'elle, bebendo aquellas -bellas historias de Joanna d'Arc ou das caravellas que foram á India, -fazia resplandecer nos seus olhos uma nevoa de lagrimas felizes... - - - -Desde o meado d'outubro Affonso da Maia fallava da sua partida de Santa -Olavia, retardada apenas por algumas obras que começára na parte velha -da casa e nas cocheiras: porque ultimamente invadira-o a paixão de -edificar--sentindo-se remoçar, como elle dizia, no contacto das madeiras -novas e no cheiro vivo das tintas. Carlos e Maria pensavam tambem em -abandonar os Olivaes. Carlos não poderia por dever domestico permanecer -alli installado desde que o avô recolhesse ao Ramalhete. Além d'isso -aquelle fim d'outono ia escuro e agreste; e a _Toca_ era agora pouco -bucolica, com a quinta desfolhada e alagada, uma nevoa sobre o rio, e um -fogão unico no gabinete de cretones--além da sumptuosa chaminé da sala -de jantar, que, por entre os seus Nubios d'olhos de crystal, soltava uma -fumaraça odiosa quando o Domingos a tentava accender. - -N'uma d'essas manhãs, Carlos, que ficára até tarde com Maria, e depois -no seu delgado casebre mal pudera dormir com um temporal de vento e agua -desencadeado de madrugada--ergueu-se ás nove horas, veio á _Toca_. As -janellas do quarto de Maria conservavam-se ainda cerradas; a manhã -clareára; a quinta lavada, meio despida, no ar fino e azul, tinha uma -linda e silenciosa graça d'inverno. Carlos passeava, olhando os vasos -onde os chrysanthemos floriam, quando retiniu a sineta do portão. Era o -toque do carteiro. Justamente elle escrevera dias antes ao Cruges, -perguntando se estaria desoccupado para os primeiros frios de dezembro o -andar da rua de S. Francisco: e, esperando carta do maestro, foi abrir, -acompanhado por _Niniche_. Mas o correio, n'essa manhã, consistia apenas -n'uma carta do Ega e dois numeros de jornal cintados--um para elle, -outro para «Madame Castro Gomes, na quinta do snr. Craft, aos Olivaes». - -Caminhando sob as acacias, Carlos abriu a carta do Ega. Era da vespera, -com a data «á noite, á pressa». E dizia: «--Lê, n'esse trapo que te -mando, esse superior pedaço de prosa que lembra Tacito. Mas não te -assustes; eu supprimi, mediante pecunia, toda a tiragem, com excepção de -dois numeros mais que foram, um para a _Toca_, outro (oh logica suprema -dos habitos constitucionaes!) para o Paço, para o chefe do Estado!... -Mas esse mesmo não chegará ao seu destino. Em todo o caso desconfio de -que esgôto sahiu esse enxurro e precisamos providenciar! Vem já! -Espero-te até ás duas. E, como Iago dizia a Cassio--_mette dinheiro na -bolsa_.» - -Inquieto, Carlos descintou o jornal. Chamava-se a _Corneta do Diabo_: e -na impressão, no papel, na abundancia dos _italicos_, no typo gasto, -todo elle revelava immundicie e malandrice. Logo na primeira pagina duas -cruzes a lapis marcavam um artigo que Carlos, n'um relance, viu -salpicado com o seu nome. E leu isto: «--Ora viva, _sô_ Maia! Então já -se não vai ao consultorio, nem se vêem os doentes do bairro, _sô_ -janota?--Esta piada era botada no Chiado, á porta da Havaneza, ao Maia, -ao Maia dos cavallos inglezes, um tal Maia do Ramalhete, que abarrota -por ahi de _catita_; e o pai Paulino _que tem olho_ e que passava n'essa -occasião ouviu a seguinte _cornetada_:--É que o _sô_ Maia acha _que é -mais quente_ viver nas fraldas d'uma _brazileira casada_, que nem é -brazileira nem é casada, e a quem o papalvo poz casa, ahi para o lado -dos Olivaes, para _estar ao fresco_! Sempre os ha n'este mundo!... Pensa -o homem que botou conquista; e cá a rapaziada de gosto ri-se, porque o -que a gaja lhe quer não são os lindos olhos, são as lindas _louras_... O -simplorio, que bate ahi pilecas _bifes_, que nem que fosse o _marquez_, -o verdadeiro Marquez, imaginava que se estava abiscoitando com uma -senhora do _chic_, e do boulevard de Paris, e casada, e titular!... E no -fim (não, esta é para a gente deixar estoirar o bandulho a rir!) no fim -descobre-se que a typa era uma _cocotte_ safada, que trouxe para ahi um -brazileiro _já farto d'ella_ para a passar cá aos bellos lusitanos... E -cahiu a espiga ao Maia! Pobre palerma! Ainda assim o _sô_ Maia só -apanhou os restos d'outro, porque a _typa_, já antes d'elle se enfeitar, -tinha _pandegado á larga_, ahi para a rua de S. Francisco, com um rapaz -da fina, que se safou tambem, porque cá como nós só _aprecia a bella -hespanhola_. Mas não obsta a que o _sô_ Maia seja traste!--Pois se assim -é, dissemos nós, cautelinha, porque o diabo cá tem a sua _Corneta_ -preparada para cornetear por esse mundo as façanhas do _Maia das -conquistas_. Ora viva, _sô_ Maia!» - -Carlos ficou immovel entre as acacias, com o jornal na mão, no espanto -furioso e mudo d'um homem que subitamente recebe na face uma grossa -chapada de lôdo! Não era a cólera de vêr o seu amor assim aviltado na -publicidade chula d'um jornal sordido: era o horror de sentir aquellas -phrases em calão, pandilhas, afadistadas, como só Lisboa as póde crear, -pingando fetidamente, á maneira de sebo, sobre si, sobre Maria, sobre o -esplendor da sua paixão... Sentia-se todo emporcalhado. E uma unica idéa -surgia através da sua confusão--matar o bruto que escrevera aquillo. - -Matal-o! Ega sustára a tiragem da folha, Ega pois conhecia o -folliculario. Nada importava que aquelles numeros, que tinha na mão, -fossem os unicos impressos. Recebera lama na face. Que a injuria fosse -espalhada nas praças n'uma profusa publicidade ou lhe fosse atirada só a -elle escondidamente n'um papel unico, era igual... Quem tanto ousára -tinha de cahir, esmagado! - -Decidiu ir logo ao Ramalhete. O Domingos á janella da cozinha areava -pratas, assobiando. Mas quando Carlos lhe fallou de ir buscar um -calhambeque aos Olivaes, o bom Domingos consultou o relogio: - ---V. exc.^a tem ás onze horas a caleche do _Torto_ que a senhora mandou -cá estar para ir a Lisboa... - -Carlos, com effeito, recordou-se que Maria na vespera planeára ir á -Aline e aos livreiros. Uma contrariedade, justamente n'esse dia em que -elle precisava ficar livre--elle e a sua bengala! Mas Melanie, passando -então com um jarro d'agua quente, disse que a senhora ainda se não -vestira, que talvez nem fosse a Lisboa... E Carlos recomeçou a passear, -no tapete de relva, entre as nogueiras. - -Sentou-se por fim no banco de cortiça, descintou a _Corneta_ -sobrescriptada para Maria, releu lentamente a prosa immunda: e, n'esse -numero que lhe fôra destinado a ella, todo aquelle calão lhe pareceu -mais ultrajante, intoleravel, punivel só com sangue. Era monstruoso, na -verdade, que sobre uma mulher, quieta, innoffensiva no silencio da sua -casa, alguem ousasse tão brutalmente arremessar esse lôdo ás mãos -cheias! E a sua indignação alargava-se do folliculario que babára -aquillo--até á sociedade que, na sua decomposição, produzira o -folliculario. Decerto toda a cidade soffria a sua vermina... Mas só -Lisboa, só a horrivel Lisboa, com o seu apodrecimento moral, o seu -rebaixamento social, a perda inteira do bom-senso, o desvio profundo do -bom gosto, a sua pulhice e o seu calão, podia produzir uma _Corneta do -Diabo_. - -E, no meio d'esta alta cólera de moralista, uma dôr perpassava, precisa -e dilacerante. Sim, toda a sociedade de Lisboa fazia um monturo sordido -n'este canto do mundo--mas, em summa, havia no artigo da _Corneta_ uma -calumnia? Não. Era o passado de Maria, que ella arrancára de si como um -vestido rôto e sujo, que elle mesmo enterrára muito fundo, deitando-lhe -por cima o seu amor e o seu nome--e que alguem desenterrava para o -mostrar bem alto ao sol, com as suas manchas e os seus rasgões... E isto -agora ameaçava para sempre a sua vida como um terror sobre ella -suspenso. Debalde elle perdoára, debalde elle esquecera. O mundo em -redor sabia. E a todo o tempo o interesse ou a perversidade poderiam -refazer o artigo da _Corneta_. - -Ergueu-se, abalado. E então alli, sob essas arvores desfolhadas, onde -durante o verão, quando ellas se enchiam de sombra e de murmurio, elle -passeára com Maria, esposa eleita da sua vida--Carlos perguntou pela vez -primeira a si mesmo se a honra domestica, a honra social, a pureza dos -homens de quem descendia, a dignidade dos homens que d'elle descendessem -lhe permittiam em verdade casar com ella... - -Dedicar-lhe toda a sua affeição, toda a sua fortuna, certamente! Mas -casar... E se tivesse um filho? O seu filho, já homem, altivo e puro, -poderia um dia lêr n'uma _Corneta do Diabo_ que sua mãi fôra amante d'um -brazileiro, depois de ser amante d'um irlandez. E se seu filho lhe -viesse gritar, n'uma bella indignação, «é uma calumnia?»--elle teria de -baixar a cabeça, murmurar--«é uma verdade!» E seu filho veria para -sempre collada a si aquella mãi de quem o mundo ignorava os martyrios e -os encantos--mas de quem conhecia cruelmente os erros. - -E ella mesma! Se elle appellasse para a sua razão, alta e tão recta, -mostrando-lhe as zombarias e as affrontas de que uma vil _Corneta do -Diabo_ poderia um dia trespassar o filho que d'elles nascesse--ella -mesma o desligaria alegremente do seu voto, contente em entrar no -Ramalhete pela escadinha secreta forrada de velludo côr de cereja, -comtanto que em cima a esperasse um amor constante e forte... Nunca ella -tornára, em todo o verão, a alludir a uma união differente d'essa em que -os seus corações viviam tão lealmente, tão confortavelmente. Não, Maria -não era uma devota, preoccupada «do peccado mortal»! Que lhe podia -importar a estola banal do padre?... - -Sim; mas elle que lhe pedira essa consagração na hora mais commovida do -seu longo amor, iria dizer-lhe agora--«foi uma criancice, não pensemos -mais n'isso, desculpa?» Não; nem o seu coração o desejava! Antes pendia -todo para ella... Pendia todo para ella, n'um enternecimento mais -generoso e mais quente--emquanto a sua razão assim arengava, cautelosa e -austera. Elle tinha n'aquella alma o seu culto perfeito, n'aquelles -braços a sua voluptuosidade magnifica; fóra d'alli não havia felicidade; -a unica sabedoria era prender-se a ella pelo derradeiro elo, o mais -forte, o seu nome, embora as _Cornetas do Diabo_ atroassem todo o ar. E -assim affrontaria o mundo n'uma soberba revolta, affirmando a -omnipotencia, o reino unico da Paixão... Mas primeiro mataria o -folliculario!--Passeava, esmagava a relva. E todos os seus pensamentos -se resolviam por fim em furia contra o infame que babára sobre o seu -amor, e durante um instante introduzia na sua vida tanta incerteza e -tanto tormento! - -Maria ao lado abriu a janella. Estava vestida d'escuro para sahir; e -bastou o brilho terno do seu sorriso, aquelles hombros a que o estofo -justo modelava a belleza cheia e quente--para que Carlos detestasse logo -as duvidas desleaes e covardes, a que se abandonára um momento sob as -arvores desfolhadas... Correu para ella. O beijo que lhe deu, lento e -mudo, teve a humildade d'um perdão que se implora. - ---Que tens tu, que estás tão sério? - -Elle sorriu. Sério, no sentido de solemne, não estava. Talvez seccado. -Recebera uma carta do Ega, uma das eternas complicações do Ega. E -precisava ir a Lisboa, ficar lá naturalmente toda a noite... - ---Toda a noite? exclamou ella com um desapontamento, pousando-lhe as -mãos sobre os hombros. - ---Sim, é bem possivel, um horror! Nos negocios do Ega ha fatalmente o -inesperado... Tu com effeito vaes a Lisboa? - ---Agora, com mais razão... Se me queres. - ---O dia está bonito... Mas ha de fazer frio na estrada. - -Maria justamente gostava d'esses dias d'inverno, cheios de sol, com um -arzinho vivo e arripiado. Tornavam-n'a mais leve, mais esperta. - ---Bem, bem, disse Carlos atirando o cigarro. Vamos ao almoço, minha -filha... O pobre Ega deve estar a uivar de impaciencia. - -Emquanto Maria correra a apressar o Domingos--Carlos, através da relva -humida, foi ainda lentamente até ao renque baixo d'arbustos que -d'aquelle lado fechava a _Toca_ como uma sebe. Ahi a collina descia, com -quintarolas, muros brancos, olivedos, uma grande chaminé de fabrica que -fumegava: para além era o azul fino e frio do rio: depois os montes, -d'um azul mais carregado, com a casaria branca da povoação aninhada á -beira da agua, nitida e suave na transparencia do ar macio. Parou um -momento, olhando. E aquella aldeia de que nunca soubera o nome, tão -quieta e feliz na luz, deu a Carlos um desejo repentino de socego e de -obscuridade, n'um canto assim do mundo, á beira d'agua, onde ninguem o -conhecesse nem houvesse _Cornetas do Diabo_, e elle pudesse ter a paz -d'um simples e d'um pobre debaixo de quatro telhas, no seio de quem -amava... - -Maria gritou por elle da janella da sala de jantar, onde se debruçára a -apanhar uma das ultimas rosas trepadeiras que ainda floriam. - ---Que lindo tempo para viajar, Maria!--disse Carlos chegando, através da -relva. - ---Lisboa é tambem muito linda, agora, havendo sol... - ---Pois sim, mas o Chiado, a coscovilhice, os politiquetes, as gazetas, -todos os horrores... A mim está-me positivamente a appetecer uma cubata -na Africa! - -O almoço, por fim, foi demorado. Ia bater uma hora quando a caleche do -_Torto_ começou a rolar na estrada, ainda encharcada da chuva da noite. -Logo adiante da villa, na descida, cruzaram um coupé que trepava n'um -trote esfalfado. Maria julgou avistar n'elle de relance o chapéo branco -e o monoculo do Ega... Pararam. E era com effeito o Ega, que reconhecera -tambem a caleche da _Toca_, vinha já saltitando as lamas com longas -pernadas de cegonha, chamando por Carlos. - -Ao vêr Maria ficou atrapalhado: - ---Que bella surpreza! Eu ia para lá... Vi o dia tão bonito, disse -commigo... - ---Bem, paga a tua tipoia, vem comnosco! atalhou Carlos que trespassava o -Ega, com os olhos inquietos, querendo adivinhar o motivo d'aquella -brusca chegada aos Olivaes. - -Quando entrou para a caleche, tendo pago o batedor, Ega, embaraçado, sem -poder desabafar diante de Maria sobre o caso da _Corneta_, começou, sob -os olhos de Carlos que o não deixavam, a fallar do inverno, das -inundações do Riba-Tejo... Maria lêra. Uma desgraça, duas crianças -afogadas nos berços, gados perdidos, uma grande miseria! Por fim Carlos -não se conteve: - ---Eu lá recebi a tua carta... - -Ega acudiu: - ---Arranja-se tudo! Está tudo combinado! E com effeito eu não vim senão -por um sentimento bucolico... - -Muito discretamente Maria olhára para o rio. Ega fez então um gesto -rapido com os dedos significando «dinheiro, só questão de dinheiro». -Carlos socegou: e Ega voltou a fallar dos inundados do Riba-Tejo e do -sarau litterario e artistico que em beneficio d'elles se «ia commetter» -no salão da Trindade... Era uma vasta solemnidade official. Tenores do -parlamento, rouxinoes da litteratura, pianistas ornados com o habito de -S. Thiago, todo o pessoal canoro e sentimental do constitucionalismo _ia -entrar em fogo_. Os reis assistiam, já se teciam grinaldas de camelias -para pendurar na sala. Elle, apesar de demagogo, fôra convidado para lêr -um episodio das _Memorias d'um Atomo_: recusára-se, por modestia, por -não encontrar nas _Memorias_ nada tão sufficientemente palerma que -agradasse á capital. Mas lembrára o Cruges; e o _maestro_ ia ribombar ou -arrulhar uma das suas _Meditações_. Além d'isso havia uma poesia social -pelo Alencar. Emfim, tudo prenunciava uma immensa orgia... - ---E a snr.^a D. Maria, acrescentou elle, devia ir!... É summamente -pittoresco. Tinha v. exc.^a occasião de vêr todo o Portugal romantico e -liberal, _à la besogne_, engravatado de branco, dando tudo que tem -n'alma! - ---Com effeito devias ir, disse Carlos, rindo. Demais a mais se o Cruges -toca, se o Alencar recita, é uma festa nossa... - ---Pois está claro! gritou Ega, procurando o monoculo, já excitado. Ha -duas coisas que é necessario vêr em Lisboa... Uma procissão do Senhor -dos Passos e um sarau poetico! - -Rolavam então pelo largo do Pelourinho. Carlos gritou ao cocheiro que -parasse no começo da rua do Alecrim: elles apeavam-se e tomavam de lá o -americano para o Ramalhete. - -Mas a tipoia estacou antes da calçada, rente ao passeio, em frente d'uma -loja de alfaiate. E n'esse instante achava-se ahi parado, calçando as -suas luvas pretas, um velho alto, de longas barbas d'apostolo, todo -vestido de luto. Ao vêr Maria, que se inclinára á portinhola, o homem -pareceu assombrado; depois, com uma leve côr na face larga e pallida, -tirou gravemente o chapéo, um immenso chapéo de abas recurvas, á moda de -1830, carregado de crepe. - ---Quem é? perguntou Carlos. - ---É o tio do Damaso, o Guimarães, disse Maria, que córára tambem. É -curioso, elle aqui! - -Ah, sim! o famoso Mr. Guimarães, o do _Rappel_, o intimo de Gambetta! -Carlos recordava-se de ter já encontrado aquelle patriarcha no Price com -o Alencar. Comprimentou-o tambem; o outro ergueu de novo com uma -gravidade maior o seu sombrio chapéo de carbonario. Ega entalára -vivamente o monoculo para examinar esse lendario tio do Damaso, que -ajudava a governar a França: e depois de se despedirem de Maria, quando -a caleche já subia a rua do Alecrim e elles atravessavam para o Hotel -Central, ainda se voltou seduzido por aquelles modos, aquellas barbas -austeras de revolucionario... - ---Bom typo! E que magnifico chapéo, hein! D'onde diabo o conhece a -snr.^a D. Maria? - ---De Paris... Este Mr. Guimarães era muito da mãi d'ella. A Maria já me -tinha fallado n'elle. É um pobre diabo. Nem amigo de Gambetta, nem coisa -nenhuma... Traduz noticias dos jornaes hespanhoes para o _Rappel_, e -morre de fome... - ---Mas então, o Damaso? - ---O Damaso é um trapalhão. Vamos nós ao nosso caso... Essa immundicie -que me mandaste, a _Corneta_? Dize lá. - -Seguindo devagar pelo Aterro, Ega contou a historia da immundicie. Fôra -na vespera á tarde que recebera no Ramalhete a _Corneta_. Elle já -conhecia o papelucho, já privára mesmo com o proprietario e redactor--o -Palma, chamado Palma _Cavallão_ para se distinguir d'outro benemerito -chamado Palma _Cavallinho_. Comprehendeu logo que se a prosa era do -Palma a inspiração era alheia. O Palma nada sabia de Carlos, nem de -Maria, nem da casa da rua de S. Francisco, nem da _Toca_... Não era -natural que escrevesse por deleite intellectual um documento que só lhe -podia render desgostos e bengaladas. O artigo, pois, fôra-lhe -simplesmente encommendado e pago. No terreno do dinheiro vence sempre -quem tem mais dinheiro. Por este solido principio correra a procurar o -Palma _Cavallão_ no seu antro. - ---Tambem lhe conheces o antro? perguntou Carlos, com horror. - ---Tanto não... Fui perguntar á secretaria da Justiça a um sujeito que -esteve associado com elle n'um negocio de _Almanachs religiosos_... - -Fôra pois ao antro. E encontrára as coisas dispostas pelas mãos habeis -d'uma Providencia amiga. Primeiramente, depois de imprimir cinco ou seis -numeros, a machina, esfalfada na pratica d'aquellas maroteiras, -desmanchára-se. Além d'isso o bom Palma estava furioso com o cavalheiro -que lhe encommendára o artigo, por divergencia na seriissima questão de -pecunia. De sorte que apenas elle propôz comprar a tiragem do jornal--o -jornalista estendeu logo a mão larga, d'unhas roídas, tremendo de -reconhecimento e de esperança. Dera-lhe cinco libras que tinha, e a -promessa de mais dez... - ---É caro, mas que queres? continuou o Ega. Deixei-me atarantar, não -regateei bastante... E emquanto a dizer quem é o cavalheiro que -encommendou o artigo, o Palma, coitado, affirma que tem uma rapariga -hespanhola a sustentar, que o senhorio lhe levantou o aluguer da casa, -que Lisboa está carissima, que a litteratura n'este desgraçado paiz... - ---Quanto quer elle? - ---Cem mil reis. Mas, ameaçando-o com a policia, talvez desça a quarenta. - ---Promette os cem, promette tudo, comtanto que eu tenha o nome... Quem -te parece que seja? - -Ega encolheu os hombros, deu um risco lento no chão com a bengala. E -mais lentamente ainda foi considerando que o inspirador da _Corneta_ -devia ser alguem familiar com Castro Gomes; alguem frequentador da rua -de S. Francisco; alguem conhecedor da _Toca_; alguem que tinha, por -ciume ou vingança, um desejo ferrenho de magoar Carlos; alguem que sabia -a historia de Maria; e emfim alguem que era um covarde... - ---Estás a descrever o Damaso! exclamou Carlos, pallido e parando. - -Ega encolheu de novo os hombros, tornou a riscar o chão: - ---Talvez não... Quem sabe! Emfim, nós vamos averigual-o com certeza, -porque, para terminar a negociação, fiquei de me ir encontrar com o -Palma ás tres horas no _Lisbonense_... E o melhor é vires tambem. Trazes -tu dinheiro? - ---Se fôr o Damaso, mato-o! murmurou Carlos. - -E não trazia sufficiente dinheiro. Tomaram uma tipoia para correr ao -escriptorio do Villaça. O procurador fôra a Mafra, a um baptisado. -Carlos teve de ir pedir cem mil reis ao velho Cortez, alfaiate do avô. -Quando perto das quatro horas se apearam á entrada do _Lisbonense_, no -largo de Santa Justa, o Palma no portal, com um jaquetão de velludo -coçado e calça de casimira clara collada á côxa, accendia um cigarro. -Estendeu logo rasgadamente a mão a Carlos--que lhe não tocou. E Palma -_Cavallão_, sem se offender, com a mão abandonada no ar, declarou que ia -justamente sahir, cançado já de esperar em cima diante d'um _grog_ frio. -De resto sentia que o snr. Maia se incommodasse em vir alli... - ---Eu arranjava cá o negociosinho com o amigo Ega... Em todo o caso, se -os senhores querem, vamos lá p'ra cima para um gabinete, que se está -mais á vontade, e toma-se outra bebida. - -Subindo a escada lobrega, Carlos recordava-se de ter já visto aquella -luneta de vidros grossos, aquella cara balofa côr de cidra... Sim, fôra -em Cintra, com o Eusebiosinho e duas hespanholas, n'esse dia em que elle -farejára pelas estradas silenciosas, como um cão abandonado, procurando -Maria!... Isto tornou-lhe mais odioso o snr. Palma. Em cima entraram -n'um cubiculo, com uma janella gradeada por onde resvalava uma luz suja -de saguão. Na toalha da mesa, salpicada de gordura e vinho, alguns -pratos rodeavam um galheteiro que tinha moscas no azeite. O snr. Palma -bateu as palmas, mandou vir genebra. Depois dando um grande puxão ás -calças: - ---Pois eu espero que me acho aqui entre cavalheiros. Como eu já disse cá -ao amigo Ega, em todo este negocio... - -Carlos atalhou-o, tocando muito significativamente com a ponteira da -bengala na borda da mesa. - ---Vamos ao ponto essencial... Quanto quer o snr. Palma por me dizer quem -lhe encommendou o artigo da _Corneta_? - ---Dizer quem o encommendou, e proval-o! acudiu o Ega, que examinava na -parede uma gravura onde havia mulheres núas á beira d'agua. Não nos -basta o nome... O amigo Palma, está claro, é de toda a confiança... Mas -emfim, que diabo, não é natural que nós acreditassemos se o amigo nos -dissesse que tinha sido o snr. D. Luiz de Bragança! - -Palma encolheu os hombros. Está visto que havia de dar provas. Elle -podia ter outros defeitos, trapalhão não! Em negocios era todo franqueza -e lisura... E, se se entendessem, alli as entregava logo, essas provas -que lhe estavam enchendo o bolsinho, pimponas e d'escachar! Tinha a -carta do amigo que lhe encommendára a piada: a lista das pessoas a quem -se devia mandar a _Corneta_: o rascunho do artigo a lapis... - ---Quer cem mil reis por tudo isso? perguntou Carlos. - -O Palma ficou um momento indeciso, ageitando as lunetas com os dedos -molles. Mas o criado veio trazer a garrafa da genebra: e então o -redactor da _Corneta_ offereceu a «bebida» rasgadamente, puxou mesmo -cadeiras para aquelles cavalheiros abancarem. Ambos recusaram--Carlos de -pé junto da mesa onde terminára por pousar a bengala, Ega passando a -outra gravura onde dois frades se emborrachavam. Depois, quando o criado -sahiu, Ega acercou-se, tocou com bonhomia no hombro do jornalista: - ---Cem mil reis são uma linda somma, Palma amigo! E olhe que se lhe -offerecem por delicadeza comsigo. Porque artiguinhos como este da -_Corneta_, apresentados na Boa-Hora, levam á grilheta!... Está claro, -este caso é outro, vossê não teve intenção d'offender; mas levam á -grilheta!... Foi assim que o Severino marchou para a Africa. Alli no -porãosinho d'um navio, com ração de marujo e chibatadas. Desagradavel, -muito desagradavel. Por isso eu quiz que tratassemos isto aqui, entre -cavalheiros, e em amizade. - -Palma, com a cabeça baixa, desfazia torrões de assucar dentro do copo de -genebra. E suspirou, findou por dizer, um pouco murcho, que era por ser -entre cavalheiros, e com amizade, que aceitava os cem mil reis... - -Immediatamente Carlos tirou da algibeira das calças um punhado de -libras, que começou a deixar cahir em silencio uma a uma dentro d'um -prato. E Palma _Cavallão_, agitado com o tinir do ouro, desabotoou logo -o jaquetão, sacou uma carteira onde reluzia um pesado monogramma de -prata sob uma enorme corôa de visconde. Os dedos tremiam-lhe; por fim -desdobrou, estendeu tres papeis sobre a mesa. Ega, que esperava, com o -monoculo sôfrego, teve um brado de triumpho. Reconhecera a letra do -Damaso! - -Carlos examinou os papeis lentamente. Era uma carta do Damaso ao Palma, -curta e em calão, remettendo o artigo, recommendando-lhe «que o -apimentasse». Era o rascunho do artigo, laboriosamente trabalhado pelo -Damaso, com entrelinhas. Era a lista, escripta pelo Damaso, das pessoas -que deviam receber a _Corneta_: vinha lá a Gouvarinho, o ministro do -Brazil, D. Maria da Cunha, El-Rei, todos os amigos do Ramalhete, o -Cohen, varias authoridades, e a Fancelli prima-donna... - -Palma no emtanto, nervoso, rufava com os dedos sobre a toalha, junto ao -prato onde reluziam as libras. E foi o Ega que o animou, depois de -relancear os olhos aos documentos por cima do hombro de Carlos: - ---Recolha o bago, amigo Palma! Negocios são negocios, e o baguinho está -ahi a arrefecer! - -Então, ao palpar o ouro, Palma _Cavallão_ commoveu-se. Palavra, caramba, -se soubesse que se tratava d'um cavalheiro como o snr. Maia não tinha -aceitado o artigo! Mas então!... Fôra o Eusebio Silveira, rapaz amigo, -que lhe viera fallar. Depois o Salcede. E ambos com muitas lérias, e que -era uma brincadeira, e que o Maia não se importava, e isto e aquillo, e -muita promessa... Emfim deixára-se tentar. E tanto o Salcede como o -Silveira se tinham portado pulhamente. - ---Foi uma sorte que se escangalhasse a machina! Senão estava agora -entalado, irra! E tinha desgosto, palavra, caramba, tinha desgosto! Mas -acabou-se! O mal não foi grande, e sempre se fez alguma coisa pela porca -da vida. - -Vivamente, com um olhar, recontára o dinheiro na palma da mão: depois -esvaziou a genebra, d'um trago consolado e ruidoso. Carlos guardára as -cartas do Damaso, levantava já o fecho da porta. Mas voltou-se ainda, -n'uma derradeira averiguação: - ---Então esse meu amigo Eusebio Silveira tambem se metteu no negocio?... - -O snr. Palma, muito lealmente, afiançou que o Eusebio lhe fallára apenas -em nome do Damaso! - ---O Eusebio, coitado, veio só como embaixador... Que o Damaso e eu não -vamos muito na mesma bola. Ficámos exquisitos, desde uma péga em casa da -Biscainha. Aqui p'ra nós, eu prometti-lhe dois estalos na cara, e elle -embuchou. Passados tempos tornámos a fallar, quando eu fazia o -_High-life_ na _Verdade_. Elle veio-me pedir com bons modos, em nome do -conde de Landim, para eu dar umas piadas catitas sobre um baile -d'annos... Depois, quando o Damaso fez tambem annos, eu dei outra -piadita. Elle pagou a ceia, ficámos mais calhados... Mas é traste... E -lá o Eusebiosinho, coitado, veio só d'embaixador. - -Sem uma palavra, sem um aceno ao Palma, Carlos virou as costas, deixou o -cubiculo. O redactor da _Corneta_ ainda baixou a cabeça para a porta; -depois, sem se offender, voltou alegremente á genebra, dando outro puxão -ás calças. Ega no emtanto accendia devagar o charuto. - ---Vossê agora é que redige o jornal todo, Palma? - ---O Silvestre, tambem... - ---Que Silvestre? - ---O que está com a _Pingada_. Vossê não conhece, creio eu. Um rapazola -magro, que não é feio... Semsaborão, escreve uma palhada... Mas sabe -coisas da sociedade. Esteve um tempo com a viscondessa de Cabellas, que -elle chama a sua _cabelluda_... Que o Silvestre ás vezes tem graça! E -sabe, sabe coisas da sociedade, assim maroteiras de fidalgos, amigações, -pulhices... Vossê nunca leu nada d'elle? Chôcho. Tenho sempre de lhe -arranjar o estylo... N'este numero é que havia um folhetimzito meu, -catita, cá á moderna, como eu gósto, alli com a piadinha realista a -bater... Emfim fica para outra vez. E outra coisa, Ega, olhe que lhe -agradeço. Quando quizer, eu e a _Corneta_ ás ordens! - -Ega estendeu-lhe a mão: - ---Obrigado, digno Palma! E _adiós_! - ---Pues vaya usted con Dios, Don Juanito! exclamou logo o benemerito -homem com infinito _salero_. - -Em baixo Carlos esperava, dentro do coupé. - ---E agora? perguntou Ega, á portinhola. - ---Agora salta para dentro e vamos liquidar com o Damaso... - -Carlos já esboçára summariamente o plano d'essa liquidação. Queria -mandar desafiar o Damaso como author comprovado d'um artigo de jornal -que o injuriava. O duello devia ser á espada ou ao florete, um d'esses -ferros cujo lampejo, na sala d'armas do Ramalhete, fazia empallidecer o -Damaso. Se contra toda a verosimilhança elle se batesse, Carlos -fazia-lhe algures, entre a bochecha e o ventre, um furo que o cravasse -mezes na cama. Senão a unica explicação que Carlos aceitaria do snr. -Salcede seria um documento em que elle escrevesse esta coisa simples: -«Eu abaixo assignado declaro que sou um infame.» E para estes serviços -Carlos contava com o Ega. - ---Agradeço! agradeço! Vamos a isso! exclamava o Ega esfregando as mãos, -faiscando de jubilo. - -No emtanto, dizia elle, a etiqueta funebre reclamava outro padrinho; e -lembrou o Cruges, moço passivo e malleavel. Mas era impossivel encontrar -o _maestro_, porque invariavelmente a criada affirmava que o menino -Victorino não estava em casa... Decidiram ir ao Gremio, mandar de lá um -bilhete chamando o Cruges--«para um caso urgente d'amizade e d'arte». - ---Com quê, dizia o Ega continuando a esfregar as mãos emquanto a tipoia -trotava para a rua de S. Francisco, com quê, demolir o nosso Damaso? - ---Sim, é necessario acabar com esta perseguição. Chega a ser ridiculo... -E com uma estocada, ou com a carta, temos esse biltre aniquilado por -algum tempo. Eu preferia a estocada. Senão deixo-te a ti arranjar os -termos d'uma carta forte... - ---Has de ter uma boa carta! disse o Ega com um sorriso de ferocidade. - -No Gremio, depois de redigirem o bilhete ao Cruges, vieram esperar por -elle na sala das _Illustrações_. O conde de Gouvarinho e Steinbroken -conversavam de pé, no vão d'uma janella. E foi uma surpreza. O ministro -da Filandia abriu os braços para o _cher Maia_, que elle não vira desde -a partida d'Affonso para Santa Olavia. Gouvarinho acolheu o Ega -risonhamente, reatando uma certa camaradagem que entre elles se formára -n'esse verão, em Cintra: mas o aperto de mão a Carlos foi sêcco e curto. -Já dias antes, tendo-se encontrado no Loreto, o Gouvarinho murmurára de -leve e de passagem «um como está, Maia?» em que se sentia arrefecimento. -Ah! já não eram essas effusões, essas palmadas enternecidas pelos -hombros, dos tempos em que Carlos e a condessa fumavam cigarettes na -cama da titi em Santa Isabel. Agora que Carlos abandonára a snr.^a -condessa de Gouvarinho, a rua de S. Marçal e o commodo sofá em que ella -cahia com um rumor de saias amarrotadas--o marido amuava, como -abandonado tambem. - ---Tenho tido saudade das nossas bellas discussões em Cintra! disse elle, -dando ao Ega a palmada carinhosa nas costas que outr'ora pertencia ao -Maia. Tivemol-as de primeira ordem! - -Eram realmente «pégas tremendas» no pateo do Victor sobre litteratura, -sobre religião, sobre moral... Uma noite mesmo tinham-se zangado por -causa da divindade de Jesus. - ---É verdade! acudiu o Ega. Vossê n'essa noite parecia ter ás costas uma -opa de irmão do Senhor dos Passos! - -O conde sorriu. Irmão do Senhor dos Passos não, graças a Deus! Ninguem -melhor do que elle sabia que n'esses sublimes episodios do Evangelho -reinava bastante lenda... Mas emfim eram lendas que serviam para -consolar a alma humana. É o que elle objectára n'essa noite ao amigo -Ega... Sentiam-se a philosophia e o racionalismo capazes de consolar a -mãi que chora? Não. Então... - ---Em todo o caso, tivemol-as brilhantes! concluiu elle olhando o -relogio. E, eu confesso, uma discussão elevada sobre religião, sobre -metaphysica, encanta-me... Se a politica me deixasse vagares dedicava-me -á philosophia... Nasci para isso, para aprofundar problemas. - -Steinbroken no emtanto, esticado na sua sobrecasaca azul, com um raminho -d'alecrim ao peito, tomára as mãos de Carlos: - ---Mais vous êtes encore devenu plus fort!... Et Affonso da Maia, -toujours dans ses terres?... Est-ce qu'on ne va pas le voir un peu cet -hiver? - -E immediatamente lamentou não ter visitado Santa Olavia. Mas quê! a -familia real installára-se em Cintra; elle fôra forçado a acompanhal-a, -fazer a sua côrte... Depois necessitára ir de fugida a Inglaterra d'onde -acabava de chegar, havia dias. - -Sim, Carlos sabia, vira na _Gazeta Illustrada_... - ---Vous avez lu ça? Oh oui, on a été très aimable, très aimable pour moi -à la _Gazette_... - -Tinham-lhe annunciado a partida, depois a chegada, com palavras de -amizade particularmente bem escolhidas. Nem podia deixar de ser, dada -esta affeição sincera que liga Portugal e a Filandia... «Mais enfin on -avait été charmant, charmant!...» - ---Seulement--ajuntou elle, sorrindo com finura e voltando-se tambem para -o Gouvarinho--on a fait une petite erreur... On a dit que j'étais venu -de Southampton par le _Royal Mail_... Ce n'est pas vrai, non! Je me suis -embarqué à Bordeaux dans les _Messageries_. J'ai même pensé à écrire à -Mr. Pinto, redacteur de la _Gazette_, qui est un charmant garçon... -Puis, j'ai reflechi, je me suis dit: «Mon Dieu, on va croire que je veux -donner une leçon d'exactitude à la _Gazette_, c'est très grave...» -Alors, voilà, très prudemment, j'ai gardé le silence... Mais enfin c'est -une erreur: je me suis embarqué à Bordeaux. - -Ega murmurou que a Historia se encarregaria um dia de rectificar esse -facto. O ministro sorria modestamente, fazendo um gesto em que parecia -desejar, por polidez, que a Historia se não incommodasse. E então o -Gouvarinho, que accendêra o charuto, espreitára outra vez o relogio, -perguntou se os amigos tinham ouvido alguma coisa do ministerio e da -crise. - -Foi uma surpreza para ambos, que não tinham lido os jornaes... Mas, -exclamou logo o Ega, crise porquê, assim em pleno remanso, com as -camaras fechadas, tudo contente, um tão lindo tempo d'outono? - -O Gouvarinho encolheu os hombros com reserva. Houvera na vespera, á -noitinha, uma reunião de ministros; n'essa manhã o presidente do -conselho fôra ao paço, fardado, determinado a «largar o poder»... Não -sabia mais. Não conferenciára com os seus amigos, nem mesmo fôra ao seu -Centro. Como n'outras occasiões de crise, conservára-se retirado, -calado, esperando... Alli estivera toda a manhã, com o seu charuto, e a -_Revista dos Dois Mundos_. - -Isto parecia a Carlos uma abstenção pouco patriotica... - ---Porque emfim, Gouvarinho, se os seus amigos subirem... - ---Exactamente por isso, acudiu o conde com uma côr viva na face, não -desejo pôr-me em evidencia... Tenho o meu orgulho, talvez motivos para o -ter... Se a minha experiencia, a minha palavra, o meu nome são -necessarios, os meus correligionarios sabem onde eu estou, venham -pedir-m'os... - -Calou-se, trincando nervosamente o charuto. E Steinbroken, perante estas -coisas politicas, começou logo a retrahir-se para o fundo da janella, -limpando os vidros da luneta, recolhido, já impenetravel, no grande -recato neutral que competia á Filandia. Ega no emtanto não sahia do seu -espanto. Mas porque cahia, porque cahia assim um governo com maioria nas -camaras, socego no paiz, o apoio do exercito, a benção da Igreja, a -protecção do _Comptoir d'Escompte_?... - -O Gouvarinho correu devagar os dedos pela pera, e murmurou esta razão: - ---O ministerio estava gasto. - ---Como uma vela de sebo? exclamou Ega, rindo. - -O conde hesitou. Como uma vela de sebo não diria... Sebo subentendia -obtusidade... Ora n'este ministerio sobrava o talento. -Incontestavelmente havia lá talentos pujantes... - ---Essa é outra! gritou Ega atirando os braços ao ar. É extraordinario! -N'este abençoado paiz todos os politicos têm _immenso talento_. A -opposição confessa sempre que os ministros, que ella cobre d'injurias, -têm, á parte os disparates que fazem, um _talento de primeira ordem_! -Por outro lado a maioria admitte que a opposição, a quem ella -constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de -_robustissimos talentos_! De resto todo o mundo concorda que o paiz é -uma choldra. E resulta portanto este facto supra-comico: um paiz -governado _com immenso talento_, que é de todos na Europa, segundo o -consenso unanime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a -vêr: que como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os -imbecis! - -O conde sorria com bonhomia e superioridade a estes exageros de -phantasista. E Carlos, ancioso por ser amavel, atalhou, accendendo o -charuto no d'elle: - ---Que pasta preferiria você, Gouvarinho, se os seus amigos subissem? A -dos Estrangeiros, está claro... - -O conde fez um largo gesto d'abnegação. Era pouco natural que os seus -amigos necessitassem da sua experiencia politica. Elle tornára-se -sobretudo um homem d'estudo e de theoria. Além d'isso não sabia bem se -as occupações da sua casa, a sua saude, os seus habitos lhe permittiriam -tomar o fardo do governo. Em todo o caso, decerto, a pasta dos -Estrangeiros não o tentava... - ---Essa, nunca! proseguiu elle, muito compenetrado. Para se poder fallar -d'alto na Europa, como ministro dos Estrangeiros, é necessario ter por -traz um exercito de duzentos mil homens e uma esquadra com torpedos. -Nós, infelizmente, somos fracos... E eu, para papeis subalternos, para -que venha um Bismarck, um Gladstone, dizer-me «ha de ser assim», não -estou!... Pois não acha, Steinbroken? - -O ministro tossiu, balbuciou: - ---Certainement... C'est très grave... C'est excessivement grave... - -Ega então affirmou que o amigo Gouvarinho, com o seu interresse -geographico pela Africa, faria um ministro da Marinha iniciador, -original, rasgado... - -Toda a face do conde reluzia, escarlate de prazer. - ---Sim, talvez... Mas eu lhe digo, meu querido Ega, nas colonias todas as -coisas bellas, todas as coisas grandes estão feitas. Libertaram-se já os -escravos; deu-se-lhes já uma sufficiente noção da moral christã; -organisaram-se já os serviços aduaneiros... Emfim o melhor está feito. -Em todo o caso ha ainda detalhes interessantes a terminar... Por -exemplo, em Loanda... Menciono isto apenas como um pormenor, um retoque -mais de progresso a dar. Em Loanda precisava-se bem um theatro normal -como elemento civilisador! - -N'esse momento um criado veio annunciar a Carlos--que o snr. Cruges -estava em baixo, no portal, á espera. Immediatamente os dois amigos -desceram. - ---Extraordinario, este Gouvarinho! dizia o Ega na escada. - ---E este, observou Carlos com um immenso desdem de mundano, é um dos -melhores que ha na politica. Pensando mesmo bem, e mettendo a roupa -branca em linha de conta, este é talvez o melhor! - -Acharam o Cruges á porta, de jaquetão claro, embrulhando um cigarro. E -Carlos pediu-lhe logo que voltasse a casa vestir uma sobrecasaca preta. -O maestro arregalava os olhos. - ---É jantar? - ---É enterro. - -E rapidamente, sem alludir a Maria, contaram ao maestro que o Damaso -publicára n'um jornal, a _Corneta do Diabo_ (cuja tiragem elles tinham -supprimido, não sendo possivel por isso mostrar o numero immundo) um -artigo em que a coisa mais dôce que se chamava a Carlos era _pulha_. -Portanto Ega e elle Cruges iam a casa do Damaso pedir-lhe a honra ou a -vida. - ---Bem, rosnou o maestro. Que tenho eu a fazer?... Que eu d'essas coisas -não entendo. - ---Tens, explicou Ega, d'ir vestir uma sobrecasaca preta e franzir o -sobr'olho. Depois vir commigo; não dizer nada; tratar o Damaso por «v. -exc.^a»; assentar em tudo o que eu propuzer; e nunca desfranzir o -sobr'olho nem despir a sobrecasaca... - -Sem outra observação, Cruges partiu a cobrir-se de ceremonia e de negro. -Mas no meio da rua retrocedeu: - ---Ó Carlos, olha que eu fallei lá em casa. Os quartos do primeiro andar -estão livres, e forrados de papel novo... - ---Obrigado. Vai-te fazer sombrio, depressa!... - -O maestro abalára, quando diante do Gremio estacou a todo o trote uma -caleche. De dentro saltou o Telles da Gama que, ainda com a mão no fecho -da portinhola, gritou aos dois amigos: - ---O Gouvarinho? está lá em cima? - ---Está... Novidade fresca? - ---Os homens cahiram. Foi chamado o Sá Nunes! - -E enfiou pelo pateo, correndo. Carlos e Ega continuaram devagar até ao -portão do Cruges. As janellas do primeiro andar estavam abertas, sem -cortinas. Carlos, erguendo para lá os olhos, pensava n'essa tarde das -corridas em que elle viera no phaeton, de Belem, para vêr aquellas -janellas: ia então escurecendo, por traz dos _stores_ fechados surgira -uma luz, elle contemplára-a como uma estrella inaccessivel... Como tudo -passa! - -Retrocederam para o Gremio. Justamente o Gouvarinho e Telles atiravam-se -á pressa para dentro da caleche que esperára. Ega parou, deixou cahir os -braços: - ---Lá vae o Gouvarinho batendo para o Poder, a mandar representar a _Dama -das Camelias_ no sertão! Deus se amerceie de nós! - -Mas o Cruges appareceu emfim de chapéo alto, entalado n'uma sobrecasaca -solemne, com botins novos de verniz. Apilharam-se logo na tipoia -estreita e dura. Carlos ia leval-os a casa do Damaso. E como queria -ainda jantar nos Olivaes, esperaria por elles, para saber o resultado -«do chinfrin», no jardim da Estrella, junto ao coreto. - ---Sêde rapidos e medonhos! - - - -A casa do Damaso, velha e d'um andar só, tinha um enorme portão verde, -com um arame pendente que fez resoar dentro uma sineta triste de -convento: e os dois amigos esperaram muito antes que apparecesse, -arrastando as chinelas, o gallego achavascado que o Damaso (agora livre -de Carlos e das suas pompas) já não trazia torturado em botins crueis de -verniz. A um canto do pateo uma portinha abria sobre a luz d'um quintal, -que parecia ser um deposito de caixotes, de garrafas vazias e de lixo. - -O gallego, que reconhecera o snr. Ega, conduziu-os logo, por uma -escadinha esteirada, a um corredor largo, escuro, com cheiro a môfo. -Depois, batendo o chinelo, correu ao fundo, onde alvejava a claridade -d'uma porta entreaberta. Quasi immediatamente Damaso gritou de lá: - ---Ó Ega, é você? Entre para aqui, homem! Que diabo!... Eu estou-me a -vestir... - -Embaraçado com estes brados de intimidade e tanta effusão, Ega ergueu a -voz da sombra do corredor, gravemente: - ---Não tem duvida, nós esperamos... - -O Damaso insistia, á porta, em mangas de camisa, cruzando os -suspensorios: - ---Venha você, homem! Que diabo, eu não tenho vergonha, já estou de -calças! - ---Ha aqui uma pessoa de ceremonia, gritou o Ega para findar. - -A porta ao fundo cerrou-se, o gallego veio abrir a sala. O tapete era -exactamente igual aos dos quartos de Carlos no Ramalhete. E em redor -abundavam os vestigios da antiga amizade com o Maia: o retrato de Carlos -a cavallo, n'um vistoso caixilho de flôres em faiança: uma das colchas -da India das senhoras Medeiros, branca e verde, enroupando o piano, -arranjada por Carlos com alfinetes: e sobre um contador hespanhol, -debaixo de redoma, um sapatinho de setim de mulher, novo, que o Damaso -comprára no Serra, por ter ouvido um dia a Carlos que «em todo o quarto -de rapaz deve apparecer, discretamente disposta, alguma reliquia -d'amor...» - -Sob estes retoques de _chic_, dados á pressa sob a influencia do Maia, -impertigava-se a sólida mobilia do pai Salcede, de mogno e velludo azul; -a console de marmore, com um relogio de bronze dourado, onde Diana -acariciava um galgo; o grande e dispendioso espelho, tendo entalado no -caixilho uma fila de bilhetes de visita, de retratos de cantoras, de -convites para _soirées_. E Cruges ia examinar estes documentos, quando -os passos alegres do Damaso soaram no corredor. O maestro correu logo a -perfilar-se ao lado do Ega, diante do canapé de velludo, teso, commodo, -com o seu chapéo alto na mão. - -Ao vêl-o, o bom Damaso, que se abotoára todo n'uma sobrecasaca azul, -florida por um botão de camelia, atirou risonhamente os braços ao ar: - ---Então esta é que é a pessoa de ceremonia? Sempre vocês têm coisas! E -eu a pôr sobrecasaca... Por pouco que não lhe afinfo com o habito de -Christo!... - -Ega atalhou, muito sério: - ---O Cruges não é de ceremonia, mas o motivo que aqui nos traz é delicado -e grave, Damaso. - -Damaso arregalou os olhos, reparando emfim n'aquelle estranho modo dos -seus amigos, ambos de negro, seccos, tão solemnes. E recuou, todo o -sorriso se lhe apagou na face. - ---Que diabo é isso? Sentem-se, sentem-se vocês... - -A voz apagava-se-lhe tambem. Pousado á borda d'uma poltrona baixa, junto -d'uma mesa coberta d'encadernações ricas, com as mãos nos joelhos, ficou -esperando, n'uma anciedade. - ---Nós vimos aqui, começou Ega, em nome do nosso amigo Carlos da Maia... - -Uma brusca onda de sangue cobriu a face rechonchuda do Damaso até á -risca do cabello encaracolado a ferro. E não achou uma palavra, -attonito, suffocado, esfregando estupidamente os joelhos. - -Ega proseguiu, lento, direito no canapé: - ---O nosso amigo Carlos da Maia queixa-se de que o Damaso publicou, ou -fez publicar, um artigo extremamente injurioso para elle e para uma -senhora das relações d'elle na _Corneta do Diabo_... - ---Na _Corneta_, eu? acudiu o Damaso, balbuciando. Que _Corneta_? Nunca -escrevi em jornaes, graças a Deus! Ora essa, a _Corneta_!... - -Ega, muito friamente, tirou do bolso um masso de papeis. E veio -collocal-os um por um, ao lado do Damaso, na mesa, sobre um magnifico -volume da _Biblia_ de Doré. - ---Aqui está a sua carta remettendo ao Palma Cavallão o rascunho do -artigo... Aqui está, pela sua letra igualmente, a lista das pessoas a -quem se devia mandar a _Corneta_, desde o Rei até á Fancelli... Além -d'isso nós temos as declarações do Palma. O Damaso é não só o -inspirador, mas materialmente o auctor do artigo... O nosso amigo Carlos -da Maia exige, pois, como injuriado, uma reparação pelas armas... - -Damaso deu um salto da poltrona, tão arrebatado--que involuntariamente -Ega recuou, no receio d'uma brutalidade. Mas já o Damaso estava no meio -da sala, esgazeado, com os braços tremulos no ar: - ---Então o Carlos manda-me desafiar? A mim?... Que lhe fiz eu? Elle a mim -é que me pregou uma partida!... Foi elle, vocês sabem perfeitamente que -foi elle!... - -E desabafou, n'um prodigioso fluxo de loquacidade, atirando palmadas ao -peito, com os olhos marejados de lagrimas. Fôra Carlos, Carlos, que o -desfeitiára a elle, mortalmente! Durante todo o inverno tinha-o -perseguido para que elle o apresentasse a uma senhora brazileira muito -_chic_, que vivia em Paris, e que lhe fazia olho... E elle, bondoso como -era, promettia, dizia: «Deixa estar, eu te apresento!» Pois, senhores, -que faz Carlos? Aproveita uma occasião sagrada, um momento de luto, -quando elle Damaso fôra ao Norte por causa da morte do tio, e mette-se -dentro da casa da brazileira... E tanto intriga, que leva a pobre -senhora a fechar-lhe a sua porta, a elle, Damaso, que era intimo do -marido, intimo de _tu_! Caramba, elle é que devia mandar desafiar -Carlos! Mas não! fôra prudente, evitára o escandalo por causa do snr. -Affonso da Maia... Queixára-se de Carlos, é verdade... Mas no Gremio, na -Casa Havaneza, entre rapaziada amiga... E no fim Carlos préga-lhe uma -d'estas! - ---Mandar-me desafiar, a mim! A mim, que todo o mundo conhece!... - -Calou-se, engasgado. E Ega, estendendo a mão, observou placidamente que -se desviavam do ponto vivo da questão. O Damaso concebera, rascunhára, -pagára o artigo da _Corneta_. Isso não o negava, nem o podia negar: as -provas estavam alli, abertas sobre a mesa: elles tinham além d'isso a -declaração do Palma... - ---Esse desavergonhado! gritou o Damaso, levado n'outra rajada -d'indignação que o fez redemoinhar, estonteado, tropeçando nos moveis. -Esse descarado do Palma! Com esse é que eu me quero vêr!... Lá a questão -com o Carlos não vale nada, arranja-se, somos todos rapazes finos... Com -o Palma é que é! Esse traidor é que eu quero rachar! Um homem a quem eu -tenho dado ás meias libras, aos sete mil reis! E ceias, e tipoias! Um -ladrão que pediu o relogio ao Zeferino para figurar n'um baptisado, e -pôl-o no prégo!... E faz-me uma d'estas!... Mas hei de escavacal-o! Onde -é que você o viu, Ega? Diga lá, homem! Que quero ir procural-o, hoje -mesmo, correl-o a chicotadas... Traições não, não admitto a ninguem! - -Ega, com a tranquillidade paciente de quem sente a prêsa certa, lembrou -de novo a inutilidade d'aquellas divagações: - ---Assim nunca acabamos, Damaso... O nosso ponto é este: o Damaso -injuriou Carlos da Maia: ou se retracta publicamente d'essa injuria, ou -dá uma reparação pelas armas... - -Mas o Damaso, sem escutar, appellava desesperadamente para o Cruges, que -se não movera do sofá de velludo, esfregando, um contra o outro, com um -ar arripiado e de dôr, os dois sapatos novos de verniz. - ---Aquelle Carlos! Um homem que se dizia meu amigo intimo! Um homem que -fazia de mim tudo! Até lhe copiava coisas... Você bem viu, Cruges. Diga! -Falle, homem! Não sejam vocês todos contra mim!... Até ás vezes ia á -alfandega despachar-lhe caixotes... - -O maestro baixava os olhos, vermelho, n'um infinito mal-estar. E Ega, -por fim, já farto, lançou uma intimação derradeira: - ---Em resumo, Damaso, desdiz-se ou bate-se? - ---Desdizer-me? tartamudeou o outro, impertigando-se, n'um penoso esforço -de dignidade, a tremer todo. E de quê? Ora essa! É boa! Eu sou lá homem -que me desdiga! - ---Perfeitamente, então bate-se... - -Damaso cambaleou para traz, desvairado: - ---Qual bater-me! Eu sou lá homem que me bata! Eu cá é a sôcco. Que venha -para cá, não tenho medo d'elle, arrombo-o... - -Dava pulinhos curtos de gordo, através do tapete, com os punhos fechados -e em riste. E queria Carlos alli para o escavacar! Não lhe faltava mais -senão bater-se... E então duellos em Portugal, que acabavam sempre por -troça! - -Ega no emtanto, como se a sua missão estivesse finda, abotoára a -sobrecasaca e recolhia os papeis espalhados sobre a _Biblia_. Depois, -serenamente, fez a ultima declaração de que fôra incumbido. Como o snr. -Damaso Salcede recusava retractar-se e rejeitava tambem uma reparação -pelas armas, Carlos da Maia prevenia-o de que em qualquer parte que o -encontrasse d'ahi por diante, fosse uma rua, fosse um theatro, lhe -escarraria na face... - ---Escarrar-me! berrou o outro, livido, recuando, como se o escarro já -viesse no ar. - -E de repente, espavorido, coberto de bagas de suor, precipitou-se sobre -o Ega, agarrando-lhe as mãos, n'uma agonia: - ---Ó João, ó João, tu, que és meu amigo, por quem és, livra-me d'esta -entaladella! - -Ega foi generoso. Desprendeu-se d'elle, empurrou-o brandamente para a -poltrona, calmando-o com palmadinhas fraternaes pelo hombro. E declarou -que, desde que Damaso appellava para a sua amizade, desapparecia o -enviado de Carlos necessariamente exigente, ficava só o camarada, como -no tempo dos Cohens e da _villa_ Balzac. Queria pois o amigo Damaso um -conselho? Era assignar uma carta affirmando que tudo o que fizera -publicar na _Corneta_ sobre o snr. Carlos da Maia e certa senhora fôra -invenção falsa e gratuita. Só isto o salvava. D'outro modo, Carlos um -dia, no Chiado, em S. Carlos, escarrava-lhe na cara. E, dado esse -desastre, Damasosinho, a não querer ser apontado em Lisboa como um -incomparavel cobarde, tinha de se bater á espada ou á pistola... - ---Ora, em qualquer d'esses casos, você era um homem morto. - -O outro escutava, esbarrondado no fundo do assento de velludo, com a -face emparvecida para o Ega. Alargou mollemente os braços, murmurou da -profundidade do seu terror: - ---Pois sim, eu assigno, João, eu assigno... - ---É o que lhe convém... Arranje então papel. Você está perturbado, eu -mesmo redijo. - -Damaso ergueu-se, com as pernas frouxas, atirando um olhar tonto e vago -por sobre os moveis: - ---Papel de carta? É para carta? - ---Sim, está claro, uma carta ao Carlos! - -Os passos do desgraçado perderam-se emfim no corredor, pesados e -succumbidos. - ---Coitado! suspirou o Cruges levando de novo, com um ar de arripio, a -mão aos sapatos. - -Ega lançou-lhe um _chut_ severo. Damaso voltava com o seu sumptuoso -papel de monogramma e corôa. Para envolver em silencio e segredo aquelle -transe amargo, cerrou o reposteiro; e o vasto pano de velludo, -desdobrando-se, mostrou o brazão de Salcede, onde havia um leão, uma -torre, um braço armado, e por baixo, a letras d'ouro, a sua formidavel -divisa: Sou forte! Immediatamente Ega afastou os livros na mesa, -abancou, atirou largamente ao papel a data e a adresse do Damaso... - ---Eu faço o rascunho, você depois copía... - ---Pois sim! gemeu o outro, de novo, aluido na poltrona, passando o lenço -pelo pescoço e pela face. - -Ega no emtanto escrevia muito lentamente, com amor. E n'aquelle -silencio, que o embaraçava, Cruges terminou por se erguer, foi coxeando -até ao espelho onde se desenrolavam, entalados na frincha do caixilho, -bilhetes e photographias. Eram as glorias sociaes do Damaso, os -documentos do _chic a valer_ que era a paixão da sua vida: bilhetes com -titulos, retratos de cantoras, convites para bailes, cartas de entrada -no Hippodromo, diplomas de membro do Club Naval, de membro do Jockey -Club, de membro do Tiro aos Pombos:--até pedaços cortados de jornaes -annunciando os annos, as partidas, as chegadas do snr. Salcede, «um dos -nossos mais distinctos _sportmen_». - -Desventuroso _sportman_! Aquella folha de papel, onde o Ega rascunhava, -ia-o enchendo pouco a pouco d'um terror angustioso. Santo Deus! Para que -eram tantos apuros n'uma carta ao Carlos, um rapaz intimo? Uma linha -bastaria:--«Meu querido Carlos, não te zangues, desculpa, foi -brincadeira.» Mas não! Toda uma pagina de letra miuda com entrelinhas! -Já mesmo Ega voltava a folha, molhava a penna, como se d'ella devessem -escorrer sem cessar coisas humilhadoras! Não se conteve, estendeu a face -por sobre a mesa, até o papel: - ---Ó Ega, isso não é para publicar, pois não é verdade? - -Ega reflectiu, com a penna no ar: - ---Talvez não... Estou certo que não. Naturalmente Carlos, vendo o seu -arrependimento, deixa isto esquecido no fundo d'uma gaveta. - -Damaso respirou com allivio. Ah, bem! Isso parecia-lhe mais decente -entre amigos! Que lá isso, mostrar o seu arrependimento, até elle -desejava! Com effeito o artigo fôra uma tolice... Mas então! Em questões -de mulheres era assim, assomado, um leão... - -Abanou-se com o lenço, desanuviado, recomeçando a achar sabôr á vida. -Findou mesmo por accender um charuto, levantar-se sem rumor, acercar-se -do Cruges--que, coxeando através das curiosidades da sala, encalhára -sobre o piano e sobre os livros de musica, com o pé dorido no ar. - ---Então tem-se feito alguma coisa de novo, Cruges? - -Cruges, muito vermelho, resmungou que não tinha feito nada. - -Damaso ficou alli um momento, a mascar o charuto. Depois, atirando um -olhar inquieto á mesa onde o Ega rascunhava interminavelmente, murmurou, -sobre o hombro do maestro: - ---Uma entaladella assim! Eu é por causa da gente conhecida... Senão não -me importava! Mas veja você tambem se arranja as coisas e se o Carlos -deixa aquillo na gaveta... - -Justamente Ega erguera-se com o papel na mão e caminhava para o piano, -devagar, relendo baixo. - ---Ficou optimo, salva tudo! exclamou por fim. Vai em fórma de carta ao -Carlos, é mais correcto. Você depois copía e assigna. Ouça lá: -«Exc.^{mo} snr....» Está claro, você dá-lhe excellencia, porque é um -documento d'honra... «Exc.^{mo} snr.--Tendo-me v. exc.^a, por intermédio -dos seus amigos João da Ega e Victorino Cruges, manifestado a indignação -que lhe causára um certo artigo da _Corneta do Diabo_ de que eu escrevi -o rascunho e de que promovi a publicação, venho declarar francamente a -v. exc.^a que esse artigo, como agora reconheço, não continha senão -falsidades e incoherencias: e a minha desculpa unica está em que o -compuz e enviei á redacção da _Corneta_ no momento de me achar no mais -completo estado d'embriaguez...» - -Parou. E nem se voltou para o Damaso, que deixára pender os braços, -rolar o charuto no tapete, varado. Foi ao Cruges que se dirigiu, -entalando o monoculo: - ---Achas talvez forte?... Pois eu redigi assim por ser justamente a unica -maneira de resalvar a dignidade do nosso Damaso. - -E desenvolveu a sua idéa, mostrando quanto era generosa e -habil--emquanto o Damaso, aparvalhado, apanhava o charuto. Nem Carlos -nem elle queriam que o Damaso n'uma carta (que se podia tornar publica) -declarasse «que calumniára por ser calumniador». Era necessario, pois, -dar á calumnia uma d'essas causas fortuitas e ingovernaveis que tiram a -responsabilidade ás acções. E que melhor, tratando-se d'um rapaz mundano -e femeeiro, do que estar bebedo?... Não era vergonha para ninguem -embebedar-se... O proprio Carlos, todos elles alli, homens de gosto e de -honra, se tinham embebedado. Sem remontar aos romanos, onde isso era uma -hygiene e um luxo, muitos grandes homens na Historia bebiam de mais. Em -Inglaterra era tão _chic_, que Pitt, Fox e outros nunca fallavam na -Camara dos communs senão aos bordos. Musset, por exemplo, que bebedo! -Emfim a Historia, a Litteratura, a Politica, tudo fervilhava de -piteiras... Ora, desde que o Damaso se declarava borracho, a sua honra -ficava salva. Era um homem de bem que apanhára uma carraspana e que -commettera uma indiscrição... Nada mais! - ---Pois não te parece, Cruges? - ---Sim, talvez, que estava bebedo, murmurou o maestro timidamente. - ---Pois não lhe parece a você, francamente, Damaso? - ---Sim, que estava bebedo, balbuciou o desgraçado. - -Immediatamente Ega retomou a leitura: «Agora que voltei a mim reconheço, -como sempre reconheci e proclamei, que é v. exc.^a um caracter -absolutamente nobre; e as outras pessoas, que n'esse momento -d'embriaguez ousei salpicar de lama, são-me só merecedoras de veneração -e louvor. Mais declaro que se por acaso tornasse a succeder soltar eu -alguma palavra offensiva para v. exc.^a, não lhe devia dar v. exc.^a, ou -aquelles que a escutassem, mais importancia do que a que se dá a uma -involuntaria baforada d'alcool--pois que, por um habito hereditario que -reapparece frequentemente na minha familia, me acho repetidas vezes em -estado de embriaguez... De v. exc.^a, com toda a estima etc....» Rodou -sobre os tacões, pousou o rascunho na mesa--e accendendo o charuto ao -lume do Damaso, explicou com amizade, com bonhomia, o que o determinára -áquella confissão de bebedeira incorrigivel e palreira. Fôra ainda o -desejo de garantir a tranquillidade do «nosso Damaso». Attribuindo todas -as imprudencias em que pudesse cahir a um habito d'intemperança -hereditaria, de que tinha tão pouca culpa como de ser baixo e gordo, o -Damaso punha-se _para sempre_ ao abrigo das provocações de Carlos... - ---Você, Damaso, tem genio, tem lingua... Um dia esquece-se, e no Gremio, -sem querer, na cavaqueira depois do theatro, lá lhe escapa uma palavra -contra Carlos... Sem esta precaução, ahi recomeça a questão, o escarro, -o duello... Assim já Carlos não se póde queixar. Lá tem a explicação que -tudo cobre, uma gotta de mais, a gotta tomada por impulso de borrachice -hereditaria... Você alcança d'este modo a coisa que mais se appetece -n'este nosso seculo XIX--a irresponsabilidade!... E depois para a sua -familia não é vergonha, porque você não tem familia. Em resumo, -convem-lhe? - -O pobre Damaso escutava-o, esmagado, enervado, sem comprehender aquellas -roncantes phrases sobre «a hereditariedade», sobre «o seculo XIX». E um -unico sentimento vivo o dominava, acabar, reentrar na sua paz -pachorrenta, livre de floretes e de escarros. Encolheu os hombros, sem -força: - ---Que lhe hei de eu fazer?... Para evitar fallatorios. - -E abancou, metteu um bico novo na penna, escolheu uma folha de papel em -que o monogramma luzia mais largo, começou a copiar a carta na sua -maravilhosa letra, com finos e grossos, d'uma nitidez de gravura em aço. - -Ega no emtanto, de sobrecasaca desabotoada e charuto fumegante, rondava -em torno da mesa, seguindo sôfregamente as linhas que traçava a mão -applicada do Damaso, ornada d'um grosso annel d'armas. E durante um -momento atravessou-o um susto... Damaso parára, com a penna indecisa. -Diabo! Acordaria emfim, no fundo de toda aquella gordura balofa, um -resto escondido de dignidade, de revolta?... Damaso alçou para elle os -olhos embaciados: - ---Embriaguez é com _n_ ou com _m_? - ---Com um _m_, um _m_ só, Damaso! acudiu Ega affectuosamente. Vai muito -bem... Que linda letra você tem, caramba! - -E o infeliz sorriu á sua propria letra--pondo a cabeça de lado, no -orgulho sincero d'aquella soberba prenda. - -Quando findou a cópia foi Ega que conferiu, pôz a pontuação. Era -necessario que o documento fosse _chic_ e perfeito. - ---Quem é o seu tabellião, Damaso? - ---O Nunes, na rua do Ouro... Porque? - ---Oh! nada. É um detalhe que n'estes casos se pergunta sempre. Mera -ceremonia... Pois amigos, como papel, como letra, como estylo, está -d'appetite a cartinha! - -Metteu-a logo n'um enveloppe onde rebrilhava a divisa «Sou Forte», -sepultou-a preciosamente no interior da sobrecasaca. Depois, agarrando o -chapéo, batendo no hombro do Damaso com uma familiaridade folgazã e -leve: - ---Pois, Damaso, felicitemo-nos todos! Isto podia acabar fóra de portas, -n'uma poça de sangue! Assim é uma delicia. E adeus... Não se incommode -você. Então o grande sarau sempre é na segunda-feira? Vai lá tudo, hein! -Não venha cá, homem... Adeus! - -Mas o Damaso acompanhou-os pelo corredor, mudo, murcho, cabisbaixo. E no -patamar reteve o Ega, desafogou outra inquietação que o assaltára: - ---Isso não se mostra a ninguem, não é verdade, Ega? - -Ega encolheu os hombros. O documento pertencia a Carlos... Mas emfim -Carlos era tão bom rapaz, tão generoso! - -Esta incerteza, que o ficava minando, arrancou um suspiro ao Damaso: - ---E chamei eu áquelle homem _meu amigo_! - ---Tudo na vida são desapontamentos, meu Damaso! foi a observação do Ega, -saltando alegremente os degraus. - -Quando o calhambeque parou no Jardim da Estrella, Carlos já esperava ao -portão de ferro, n'uma impaciencia, por causa do jantar na _Toca_. -Enfiou logo para dentro atropellando o maestro, bradou ao cocheiro que -voasse ao Loreto. - ---E então, meus senhores, temos sangue? - ---Temos melhor! exclamou Ega no barulho das rodas, floreando o -enveloppe. - -Carlos leu a carta do Damaso. E foi um immenso assombro: - ---Isto é incrivel!... Chega a ser humilhante para a natureza humana! - ---O Damaso não é o genero humano, acudiu Ega. Que diabo esperavas tu? -Que elle se batesse? - ---Não sei, corta o coração... Que se ha de fazer a isto? - -Segundo o Ega não se devia publicar; seria crear curiosidade e escandalo -em torno do artigo da _Corneta_ que custára trinta libras a suffocar. -Mas convinha conservar aquillo como uma ameaça pairando sobre o Damaso, -tornando-o para longos annos nullo e inoffensivo. - ---Eu estou mais que vingado, concluiu Carlos. Guarda o papel: é obra -tua, usa-o como quizeres... - -Ega guardou-o com prazer, emquanto Carlos, batendo no joelho do maestro, -queria saber como elle se portára n'aquelle lance d'honra... - ---Pessimamente! gritou Ega. Com expressões de compaixão; sem linha -nenhuma; estendido por cima do piano; agarrando com a mão no sapato... - ---Pudera! exclamou Cruges desafogando emfim. Vocês dizem-me que me ponha -de ceremonia, calço uns sapatos novos de verniz, estive toda a tarde -n'um tormento! - -E não se conteve mais, arrancou o sapato, pallido, com um medonho -suspiro de consolação. - - -No dia seguinte, depois do almoço, emquanto uma chuva grossa alagava os -vidros sob as lufadas de sudoeste, Ega, no _fumoir_, enterrado n'uma -poltrona, com os pés para o lume, relia a carta do Damaso: e pouco a -pouco subia n'elle a mágoa de que esse colossal documento de cobardia -humana, tão interessante para a physiologia e para a arte, ficasse para -sempre inaproveitado no escuro d'uma gaveta!... Que effeito, que soberbo -effeito se aquella confissão do «nosso distincto _sportman_» surgisse um -dia na _Gazeta Illustrada_ ou no novo jornal _A Tarde_, nas columnas do -_High-life_, sob este titulo--Pendencia d'honra! E que lição, que -meritorio acto de justiça social! - -Todo esse verão, Ega detestára o Damaso, certo, desde Cintra, de que -elle era o amante da Cohen--e de que, por esse imbecil de grossas -nadegas, esquecera ella para sempre a _villa_ Balzac, as manhãs na -colcha de setim preto, os seus beijos delicados, os versos de Musset que -lhe lia, os lunchesinhos de perdiz, tantos encantos poeticos. Mas o que -lhe tornára o Damaso intoleravel--fôra a sua farofia radiante de homem -preferido; o ar de posse com que passeava ao lado de Rachel pelas -estradas de Cintra, vestido de flanella branca; os segredinhos que tinha -sempre a cochichar-lhe sobre o hombro; e o acênosinho desdenhoso, com um -dedo, que lhe atirava de lado, ao passar, a elle proprio, Ega... Era -odioso! Odiava-o: e através d'esse odio ruminára sempre o desejo d'uma -vingança--pancada, deshonra ou ridiculo que tornasse o snr. Salcede, aos -olhos de Rachel, desprezivel, grutesco, chato como um balão furado... - -E agora alli tinha essa carta providencial, em que o homem solemnemente -se declarava bebedo. «Sou um bebedo, estou sempre bebedo»! Assim o -dizia, no seu papel de monogramma d'ouro, o snr. Salcede, n'um medo vil -de cão gôso, rastejando com o rabo entre as pernas diante de qualquer -pau!... Nenhuma mulher resistiria a isto... E havia d'encafuar tão -decisivo documento no fundo d'um gavetão? - -Publical-o na _Gazeta Illustrada_ ou na _Tarde_ não podia, infelizmente, -por interesse de Carlos. Mas porque o não mostraria «em segredo», como -uma curiosidade psychologica, ao Craft, ao marquez, ao Telles, ao -Gouvarinho, ao primo do Cohen? Podia mesmo confiar uma cópia ao Taveira -que, resentido eternamente da questão com o Damaso em casa da Lola -Gorda, correria a lêl-a _em segredo_ na Casa Havaneza, no bilhar do -Gremio, no Silva, nos camarins de cantoras... E ao fim de uma semana a -snr.^a D. Rachel saberia inevitavelmente que o escolhido do seu coração -era por confissão propria um calumniador e um bebedo!... Delicioso! - -Tão delicioso que não hesitou mais, subiu ao quarto para copiar a carta -do Damaso. Mas quasi immediatamente um criado trouxe-lhe um telegramma -de Affonso da Maia annunciando que chegava no dia seguinte ao Ramalhete. -Ega teve de sahir, telegraphar para os Olivaes, avisar Carlos. - -Carlos appareceu n'essa noite, já tarde, transido de frio, com um monte -de bagagens--porque abandonára definitivamente os Olivaes. Maria Eduarda -regressava tambem a Lisboa, para o primeiro andar da rua de S. -Francisco, tomado agora por seis mezes, tapetado de novo pela mãi -Cruges. E Carlos vinha muito impressionado, com profundas saudades da -_Toca_. Depois de cear, ao fogão, acabando o charuto, relembrou -infindavelmente esses dias alegres, a sua casinhola, o banho da manhã -tomado dentro d'uma dorna, a festa do deus Tchi, as guitarradas do -marquez, as longas cavaqueiras ao café com as janellas abertas e as -borboletas voando em torno aos candieiros... Fóra as cordas d'agua, sob -o vento d'inverno, batiam os vidros na mudez da noite negra. Ambos -terminaram por ficar calados, pensativos, com os olhos no lume. - ---Quando esta tarde dei pela ultima vez uma volta na quinta, disse por -fim Carlos, já não havia uma unica folha nas arvores... Tu não sentes -sempre uma grande melancolia n'estes fins de outono?... - ---Immensa! murmurou Ega lugubremente. - -Ao outro dia a manhã clareava, limpa e branca, quando Ega e Carlos, -ainda estremunhados e tiritando, se apearam em Santa Apolonia. O comboio -acabava justamente de chegar; e viram logo, entre o rumor de gente que -se escoava das portinholas abertas, Affonso, com o seu velho capote de -gola de velludo, apegado a uma bengala, debatendo-se entre homens de -boné agaloado que lhe offereciam o _Hotel Terreirense_ e a _Pomba -d'Ouro_. Atraz Mr. Antoine, o chefe francez, grave, de chapéo alto, -trazia o cesto em que viajára o reverendo Bonifacio. - -Carlos e Ega acharam Affonso mais acabado, mais pesado. Todavia -gabaram-lhe muito, entre os primeiros abraços, a sua robustez de -patriarcha. Elle encolheu os hombros, queixando-se de ter sentido desde -o fim do verão vertigens, um cansaço vago... - ---Vocês é que estão excellentes, acrescentou abraçando outra vez Carlos -e sorrindo ao Ega. E que ingratidão foi essa tua, John, mettido aqui -todo um verão sem me ir visitar?... Que tens tu feito? Que têm vocês -feito? - ---Mil coisas! acudiu Ega alegremente. Planos, ideias, titulos... Temos -sobretudo o projecto d'uma _Revista_, um apparelho d'educação superior -que vamos montar com uma força de mil cavallos!... Emfim logo se lhe -conta tudo ao almoço. - -E ao almoço, com effeito, para justificarem as suas occupações em -Lisboa, fallaram da _Revista_ como se ella já estivesse organisada e os -artigos a imprimir na officina--tanta foi a precisão com que lhe -descreveram as tendencias, a feição critica, as linhas de pensamento -sobre que ella devia rolar... Ega já preparára um trabalho para o -primeiro numero--_A capital dos portuguezes_. Carlos meditava uma série -d'_ensaios_ á ingleza, sob este titulo--_Porque falhou entre nós o -systema constitucional_. E Affonso escutava, encantado com aquellas -bellas ambições de lucta, querendo partilhar da grande obra como socio -capitalista... Mas Ega entendia que o snr. Affonso da Maia devia descer -á arena, lançar tambem a palavra do seu saber e da sua experiencia. -Então o velho riu. O quê! compôr prosa, elle, que hesitava para traçar -uma carta ao feitor? De resto o que teria a dizer ao seu paiz, como -fructo da sua experiencia, reduzia-se pobremente a tres conselhos em -tres phrases: aos politicos--«menos liberalismo e mais caracter»; aos -homens de letras--«menos eloquencia e mais ideia»; aos cidadãos em -geral--«menos progresso e mais moral». - -Isto enthusiasmou o Ega! Justamente, ahi estavam as verdadeiras feições -da reforma espiritual que a _Revista_ devia prégar! Era necessario -tomal-as como moto symbolico, inscrevel-as em letras gothicas no -frontispicio--porque Ega queria que a _Revista_ fosse original logo na -capa. E então a conversação desviou para o exterior da _Revista_--Carlos -pretendendo que fosse azul-claro com typo Renascença, Ega exigindo uma -cópia exacta da _Revista dos Dois Mundos_, n'uma nuance mais côr de -canario. E, levados pela sua imaginação de meridionaes, já não era só -para agradar a Affonso da Maia que iam levantando e dando fórma áquelle -confuso plano. - -Carlos exclamava para o Ega, com os olhos já apaixonados: - ---Isto agora é sério. Precisamos arranjar immediatamente a casa para a -redacção! - -Ega bracejava: - ---Pudera! E moveis! E machinas! - -Toda a manhã, no escriptorio d'Affonso, azafamados, com papel e lapis, -se occuparam em fixar uma lista de collaboradores. Mas já as -difficuldades surgiam. Quasi todos os escriptores suggeridos -desagradavam ao Ega, por lhes faltar no estylo aquelle requinte plastico -e parnasiano de que elle desejava que a _Revista_ fosse o impeccavel -modelo. E a Carlos alguns homens de letras pareciam _impossiveis_--sem -querer confessar que n'elles lhe repugnava exclusivamente a falta de -linha e o fato mal feito... - -Uma coisa porém ficou decidida: a casa da redacção. Devia ser mobilada -luxuosamente, com sofás do consultorio de Carlos e algum _bric-à-brac_ -da _Toca_: e sobre a porta (ornada d'um guarda-portão de libré) a -taboleta de verniz preto, com _Revista de Portugal_ em altas letras a -ouro. Carlos sorria, esfregava as mãos, pensando na alegria de Maria ao -saber esta decisão que o lançava, como era o desejo d'ella, na -actividade, n'uma lucta interessante d'ideias. Ega, esse, via já a -brochura côr de canario aos montões nas vitrines dos livreiros, -discutida nas _soirées_ do Gouvarinho, folheada na camara com espanto -pelos politicos... - ---Vai-se remexer Lisboa este inverno, snr. Affonso da Maia! gritou elle -atirando um gesto immenso até ao tecto. - -E o mais contente era o velho. - -Depois de jantar, Carlos pediu ao Ega para ir com elle á rua de S. -Francisco (onde Maria se installára n'essa manhã) levarem a nova da -grande obra. Mas encontraram á porta uma carroça descarregando malas; e -a senhora, contou o Domingos que ajudava os carroceiros, estava ainda -jantando a um canto da mesa e sem toalha. Com tanta confusão na casa, -Ega não quiz subir. - ---Até logo, disse elle. Vou talvez procurar o Simão Craveiro e -fallar-lhe da _Revista_. - -Subiu lentamente o Chiado, leu os telegrammas na Casa Havaneza. Depois á -esquina da rua Nova da Trindade, um homem rouco, sumido n'um paletot, -offereceu-lhe uma «senhasinha». Outros, em volta, gritavam na sombra do -_Hotel Alliança_: - ---Bilhete para o Gymnasio! Mais barato... Bilhete para o Gymnasio! Quem -vende?... - -Havia um cruzar animado de carruagens com librés. Os bicos de gaz do -Gymnasio tinham um fulgor de festa. E Ega deu de rosto com o Craft que -atravessava do lado do Loreto, de gravata branca e flôr no paletot. - ---Que é isto? - ---Festa de beneficencia, não sei, disse o Craft. Uma coisa promovida por -senhoras, a baroneza d'Alvim mandou-me um bilhete... Venha você d'ahi -ajudar-me a levar esta caridade ao Calvario. - -E na esperança de flirtar com a Alvim, Ega comprou logo uma senha. No -perystilo do Gymnasio encontraram Taveira passeando e fumando -solitariamente, á espera que findasse a primeira comedia, o _Fructo -prohibido_. Então Craft propôz «botequim e genebra». - ---E que ha do ministerio? perguntou elle, apenas abancaram a um canto. - -O Taveira não sabia. Todos esses dois longos dias se intrigára -desesperadamente. O Gouvarinho queria as Obras Publicas: o Videira -tambem. E fallava-se d'uma scena terrivel por causa de syndicatos, em -casa do presidente do conselho, o Sá Nunes, que terminára por dar um -murro na mesa, gritar: «Irra! que isto não é o pinhal d'Azambuja!» - ---Canalha! rosnou Ega com odio. - -Depois fallaram do Ramalhete, da volta d'Affonso, da reapparição de -Carlos. Craft louvou Deus por haver outra vez n'esse inverno uma casa -com fogões, onde se passasse uma hora civilisada e intelligente. - -Taveira acudiu com o olho brilhante: - ---Diz que vamos ter um centrosinho muito mais interessante ainda, na rua -de S. Francisco! Foi o marquez que me disse. Madame Mac-Gren vai -receber. - -Craft não sabia mesmo que ella já tivesse recolhido da _Toca_. - ---Voltou hoje, disse o Ega. Você ainda não a conhece?... Encantadora. - ---Creio que sim. - -O Taveira vira-a de relance no Chiado. Parecera-lhe uma belleza. E um ar -tão sympathico! - ---Encantadora! repetiu Ega. - -Mas o _Fructo prohibido_ findára, os homens enchiam o peristylo, n'um -rumor lento, accendendo os cigarros. E Ega, deixando o Craft e Taveira -com a genebra, correu á plateia para descobrir o camarote da Alvim. - -Mal erguera porém a cortina e assestára o monoculo--avistou defronte, na -primeira ordem, a Cohen, toda de preto, com um grande leque de rendas -brancas; por traz negrejavam as suissas fortes do marido; e em face -d'ella, recostado no velludo da grade, de casaca, com a bochecha -risonha, uma grossa perola no peitilho da camisa, o Damaso, o bebedo! - -Ega cahiu mollemente, ao acaso, na borda d'uma cadeira: e perturbado, já -esquecido da Alvim, alli ficou a olhar o panno coberto d'annuncios, -correndo os dedos tremulos pelo bigode. - -No emtanto a campainha retinia, a gente vagarosamente reentrava na -plateia. Um cavalheiro gordo e carrancudo tropeçou no joelho do Ega: -outro, de luvas claras, com uma polidez adocicada, pediu permissão a s. -exc.^a Elle não escutava, não percebia: os seus olhos, um momento -errantes, tinham-se emfim cravado no camarote da Cohen e não se -desviaram de lá, n'uma emoção que o empallidecia. - -Não a tornára a encontrar desde Cintra, onde só a via de longe, com -vestidos claros sob o verde das arvores; e agora alli, toda de preto, em -cabello, com um decote curto onde brilhava a perfeita brancura do seu -collo, ella era outra vez a _sua_ Rachel, dos tempos divinos da _villa_ -Balzac. Era assim que elle, todas as noites em S. Carlos, a contemplava -do fundo da frisa de Carlos, com a cabeça encostada ao tabique, saturado -de felicidade. Lá tinha a sua luneta d'ouro, presa por um fio d'ouro. -Parecia mais pallida, mais delicada, com o longo quebranto dos olhos -pisados, o seu ar de romance e de lirio meio murcho: e como então os -seus cabellos magnificos e pesados cahiam habilmente n'uma massa meia -solta sobre as costas, n'um desalinho de nudez. Pouco a pouco, entre o -afinar de rebecas e o rumor das cadeiras Ega revia, n'uma onda de -recordações que o suffocava, o grande leito da _villa_ Balzac, certos -beijos e certos risos, as perdizes comidas em camisa á borda do sofá, e -a melancolia deliciosa das tardes, quando ella sahia furtivamente, -coberta de véos, e elle ficava, cansado, no crepusculo poetico do -quarto, cantarolando a _Traviata_... - ---V. exc.^a dá licença, snr. Ega? - -Era um sujeito escaveirado, de barba rala, que reclamava a sua cadeira. -Ega ergueu-se, confusamente, sem reconhecer o snr. Sousa Netto. O panno -subira. Á borda da rampa um lacaio, piscando o olho á Plateia, fazia -confidencias sobre a patrôa, de espanejador debaixo do braço. E Cohen, -agora de pé, enchia o meio do camarote, cofiando as suissas com um -correr lento da mão bem tratada, onde reluzia um diamante. - -Ega então, n'um soberbo alarde d'indifferença, cravou o monoculo no -palco. O lacaio abalára espavorido, a um repique furioso de sineta; e -uma megera azeda, de roupão verde e touca á banda, rompera de dentro, -meneando desesperadamente o leque, ralhando com uma mocinha delambida -que batia o tacão, se esganiçava: «Pois hei de amal-o sempre! hei de -amal-o sempre!» - -Irresistivelmente Ega revirou o canto do olho para o camarote: Rachel e -o Damaso, com as cabeças chegadas como em Cintra, cochichavam n'um -sorriso. E tudo logo dentro do Ega se resumiu n'um immenso odio ao -Damaso! Collado á umbreira da porta, rilhava os dentes, n'um desejo de -subir, escarrar-lhe na bochecha gorda. - -E não desviava d'elle os olhos, que dardejavam. Na scena, um velho -general, gottoso e resmungão, sacudia um jornal, gritava pela sua -tapioca. A Plateia ria, o Cohen ria. E n'esse momento Damaso, que se -debruçára no camarote com as mãos de fóra, calçadas de _gris-perle_, -descobriu o Ega, sorriu, atirou-lhe como em Cintra um acenosinho -petulante, muito d'alto, na ponta dos dedos. Isto feriu o Ega como um -insulto. E ainda na vespera aquelle covarde se lhe agarrára ás mãos, -tremendo todo, a gritar «que o salvasse!...» - -Subitamente, com uma idéa, palpou por sobre o bolso a carteira onde na -vespera guardára a carta do Damaso... «Eu t'arranjo!» murmurou elle. E -abalou, desceu a rua da Trindade, cortou pelo Loreto como uma pedra que -rola, enfiou, ao fundo da praça de Camões, n'um grande portão que uma -lanterna alumiava. Era a redacção da _Tarde_. - -Dentro do pateo d'esse jornal elegante fedia. Na escadaria de pedra, sem -luz, cruzou um sujeito encatarrhoado que lhe disse que o Neves estava em -cima ao cavaco. O Neves, deputado, politico, director da _Tarde_, fôra, -havia annos, n'umas ferias, seu companheiro de casa no largo do Carmo; e -desde esse verão alegre em que o Neves lhe ficára sempre devendo tres -moedas, os dois tratavam-se por _tu_. - -Foi encontral-o n'uma vasta sala alumiada por bicos de gaz sem globo, -sentado na borda d'uma mesa atulhada de jornaes, com o chapéo para a -nuca, discursando a alguns cavalheiros de provincia que o escutavam de -pé, n'um respeito de crentes. N'um vão de janella, com dois homens -d'idade, um rapaz esgalgado, de jaquetão de cheviote claro e uma -cabelleira crespa que parecia erguida n'uma rajada de vento, bracejava -como um moinho na crista d'um monte. E, abancado, outro sujeito já calvo -rascunhava laboriosamente uma tira de papel. - -Ao vêr o Ega (um intimo do Gouvarinho) alli na redacção, n'aquella noite -de intriga e de crise, Neves cravou n'elle os olhos tão curiosos, tão -inquietos, que o Ega apressou-se a dizer: - ---Nada de politica, negocio particular... Não te interrompas. Depois -fallaremos. - -O outro findou a injuria que estava lançando ao José Bento, «essa grande -besta que fôra metter tudo no bico da amiga do Sousa e Sá, o par do -reino»--e na sua impaciencia saltou da mesa, travou do braço do Ega -arrastando-o para um canto: - ---Então que é? - ---É isto, em quatro palavras. O Carlos da Maia foi offendido ahi por um -sujeito muito conhecido. Nada d'interessante. Um paragrapho immundo na -_Corneta do Diabo_, por uma questão de cavallos... O Maia pediu-lhe -explicações. O outro deu-as, chatas, medonhas, n'uma carta que quero que -vocês publiquem. - -A curiosidade do Neves flammejou: - ---Quem é? - ---O Damaso. - -O Neves recuou d'assombro: - ---O Damaso!? Ora essa! Isso é extraordinario! Ainda esta tarde jantei -com elle! Que diz a carta? - ---Tudo. Pede perdão, declara que estava bebedo, que é de profissão um -bebedo... - -O Neves agitou as mãos com indignação: - ---E tu querias que eu publicasse isso, homem? O Damaso, nosso amigo -politico!... E que não fosse, não é questão de partido, é de decencia! -Eu faço lá isso!... Se fosse uma acta de duello, uma coisa honrosa, -explicações dignas... Mas uma carta em que um homem se declara bebedo! -Tu estás a mangar! - -Ega, já furioso, franzia a testa. Mas o Neves, com todo o sangue na -face, teve ainda uma revolta áquella idéa do Damaso se declarar bebedo! - ---Isso não póde ser! É absurdo! Ahi ha historia... Deixa vêr a carta. - -E, mal relanceára os olhos ao papel, á larga assignatura floreada, -rompeu n'um alarido: - ---Isto não é o Damaso nem é letra do Damaso!... «Salcede»! Quem diabo é -«Salcede»? Nunca foi o _meu_ Damaso! - ---É o _meu_ Damaso, disse o Ega. O Damaso Salcede, um gordo... - -O outro atirou os braços ao ar: - ---O meu é o Guedes, homem, o Damaso Guedes! Não ha outro! Que diabo, -quando se diz o Damaso é o Guedes!... - -Respirou com grande allivio: - ---Irra, que me assustaste! Olha agora n'este momento, com estas coisas -de ministerio, uma carta d'essas escripta pelo Guedes... Se é o Salcede, -bem, acabou-se! Espera lá... Não é um gordalhufo, um janota que tem uma -propriedade em Cintra? Isso! Um maganão que nos entalou na eleição -passada, fez gastar ao Silverio mais de trezentos mil reis... -Perfeitamente, ás ordens... Ó Pereirinha, olhe aqui o snr. Ega. Tem ahi -uma carta para sahir ámanhã, na primeira pagina, typo largo... - -O snr. Pereirinha lembrou o artigo do snr. Vieira da Costa sobre a -«Reforma das Pautas». - ---Vai depois! gritou o Neves. As questões de honra antes de tudo! - -E voltou ao seu grupo onde agora se fallava do conde de Gouvarinho, -saltou para a borda da mesa, lançou logo o seu vozeirão de chefe, -affirmando no Gouvarinho enormes dotes de parlamentar! - -Ega accendeu o charuto, ficou um momento considerando aquelles sujeitos -que pasmavam para o verbo do Neves. Eram decerto deputados que a crise -arrastára a Lisboa, arrancára á quietação das villas e das quintas. O -mais novo parecia um pote, vestido de casimira fina, com uma enorme face -a estourar de sangue, jocundo, crasso, lembrando ares sadios e lombo de -porco. Outro, esguio, com o paletot solto sobre as costas em arco, tinha -um queixo duro e macisso de cavallo: e dois padres muito rapados, muito -morenos, fumavam pontas de cigarro. Em todos havia esse ar, -conjunctamente apagado e desconfiado, que marca os homens de provincia, -perdidos entre as tipoias e as intrigas da Capital. Vinham alli ás -noites, áquelle jornal do partido, saber as novas, _beber do fino_, uns -com esperanças de empregos, outros por interesses de terriola, alguns -por ociosidade. Para todos o Neves era um «robusto talento»; -admiravam-lhe a verbosidade e a tactica; decerto gostavam de citar nas -lojas das suas villas o amigo Neves, o jornalista, o da _Tarde_... Mas, -através d'essa admiração e do prazer de roçar por elle, percebia-se-lhes -um vago medo que aquelle «robusto talento» lhes pedisse, n'um vão de -janella, duas ou tres moedas. O Neves no emtanto celebrava o Gouvarinho -como orador. Não que tivesse os rasgos, a pureza, as bellas syntheses -historicas do José Clemente! Nem a poesia do Rufino! Mas não havia outro -para as piadas que ferem e que ficam cravadas, alli a arder, na pelle do -touro! E era a grande coisa na Camara--ter a farpa, sabêl-a ferrar! - ---Ó Gonçalo, tu lembras-te da piada do Gouvarinho, a do trapezio? gritou -elle virando-se para a janella, para o rapaz de jaquetão claro. - -O Gonçalo, cujos olhos pretos refulgiram de agudeza e malicia, estendeu -o pescoço magro n'um collarinho muito decotado, lançou de lá: - ---A do trapezio? Divina! Conta á rapaziada! - -A rapaziada arregalou os olhos para o Neves, á espera da «do trapezio». -Fôra na Camara dos Pares, na reforma da instrucção. Estava fallando o -Torres Valente, esse maluco que defendia a gymnastica dos collegios e -queria as meninas a fazerem a prancha. Gouvarinho ergue-se e atira-lhe -esta: - -«Snr. presidente, direi uma palavra só. Portugal sahirá para sempre da -senda do progresso, em que tanto se tem illustrado, no dia em que nós -fôrmos ao ensino, com mão impia, substituir a cruz pelo trapezio!» - ---Muito bem! rosnou um dos padres profundamente satisfeito. - -E no murmurio de admiração que se ergueu destacou um ganido--o do rapaz -mais grosso que um pote, que mexia os hombros, chasqueava com uma risota -na bochecha côr de tomate: - ---Pois, senhores, o que esse conde de Gouvarinho me sae é um grandissimo -carola! - -E em redor correram sorrisos entre os cavalheiros de provincia, liberaes -e finorios, que achavam aquelle fidalgo excessivamente apegado á cruz. -Mas já o Neves, de pé, bravejava: - ---Carola! Vem-nos agora o menino gordo com carola!... O Gouvarinho -carola! Está claro que tem toda a orientação mental do seculo, é um -racionalista, um positivista... Mas a questão aqui é a réplica, a -tactica parlamentar! Desde que o typo da maioria vem de lá com a -descoberta do trapezio, Gouvarinho amigo, ainda que fosse tão atheu como -Renan, zás! atira-lhe logo para cima com a cruz!... Isto é que é a -estrategia parlamentar! Pois não é assim, Ega? - -Ega murmurou, através do fumo do charuto: - ---Sim, com effeito a cruz para isso ainda serve... - -Mas n'esse momento o sujeito calvo, que repellira a tira de papel e se -espreguiçava, cahido para as costas da cadeira, exhausto, pediu ao snr. -João da Ega--que fallasse á gente e guardasse o seu dinheiro... - -Ega acercou-se logo d'aquelle sympathico homem, tão engraçado, tão -querido de todos: - ---Então, na grande faina, Melchior? - ---Estou aqui a vêr se faço uma coisa sobre o livro do Craveiro, os -_Cantos da Serra_, e não me sae nada em termos... Não sei o que hei de -dizer! - -Ega gracejou, de mãos nos bolsos, muito risonho, muito camarada com o -Melchior: - ---Nada! Vocês aqui são simples localistas, noticiaristas, annunciadores. -D'um livro como o do Craveiro têm só respeitosamente a dizer onde se -vende e quanto custa. - -O outro considerou o Ega ironicamente, com os dedos cruzados por traz da -nuca: - ---Então onde queria você que se fallasse dos livros?... Nos reportorios? - -Não, nas Revistas Criticas: ou então nos jornaes--que fossem jornaes, -não papeluchos volantes, tendo em cima uma cataplasma de politica em -estylo mazorro ou em estylo fadista, um romance mal traduzido do francez -por baixo e o resto cheio com «annos», despachos, parte de policia e -loteria da Misericordia. E como em Portugal não havia nem jornaes sérios -nem Revistas Criticas--que se não fallasse em parte nenhuma. - ---Com effeito, murmurou Melchior, ninguem falla de nada, ninguem parece -pensar em nada... - -E com toda a razão, affirmou Ega. Certamente muito d'esse silencio -provinha do natural desejo que têm os que são mediocres de que se não -alluda muito aos que são grandes. É a invejasinha reles e rastejante! -Mas em geral o silencio dos jornaes para com os livros provém sobretudo -d'elles terem abdicado todas as funcções elevadas d'estudo e de critica, -de se terem tornado folhas rasteiras d'informação caseira, e de sentirem -por isso a sua incompetencia... - ---Está claro, não fallo por você, Melchior, que é dos nossos e de -primeira ordem! Mas os seus collegas, menino, calam-se por se saberem -incompetentes... - -O Melchior ergueu os hombros com um ar cançado e descrente: - ---Calam-se tambem porque o publico não se importa, ninguem se importa... - -Ega protestou, já excitado. O Publico não se importava!? Essa era -curiosa! O Publico então não se importa que lhe fallem de livros que -elle compra aos tres mil, aos seis mil exemplares? E isto, dada a -população de Portugal, caramba, é igual aos grandes successos de Paris e -de Londres... Não, Melchiorzinho amigo, não! Esse silencio diz ainda -mais claramente e retumbantemente que as palavras: «Nós somos -incompetentes. Nós estamos bestialisados pela noticia do snr. -conselheiro que chegou ou do snr. conselheiro que partiu, pelos -_High-lifes_, pela amabilidade dos donos da casa, pelo artigo de fundo -em descompostura e calão, por toda esta prosa chula em que nos -atolamos... Nós não sabemos, não podemos já fallar d'uma obra d'arte ou -d'uma obra de historia, d'este bello livro de versos ou d'este bello -livro de viagens. Não temos nem phrases nem idéas. Não somos talvez -cretinos--mas estamos cretinisados. A obra de litteratura passa muito -alto--nós chafurdamos aqui muito em baixo...» - ---E aqui tem você, Melchior, o que diz, através do silencio dos jornaes, -o côro dos jornalistas! - -Melchior sorria, enlevado, com a cabeça deitada para traz, como quem -goza uma bella ária. Depois com uma palmada na mesa: - ---Caramba, ó Ega, muito bem falla você!... Você nunca pensou em ser -deputado? Eu ainda outro dia dizia ao Neves: «O Ega! O Ega é que era, -para atirar alli na camara a piadinha á Rochefort. Ardia Troia!» - -E immediatamente, emquanto Ega ria, contente, tornando a accender o -charuto--Melchior arrebatou a penna: - ---Você está em veia! Diga lá, dicte lá... Que hei de eu aqui pôr sobre o -livro do Craveiro? - -Ega quiz saber o que escrevera já o amigo Melchior. Apenas tres linhas: -«Recebemos o novo livro do nosso glorioso poeta Simão Craveiro. O -precioso volume, onde scintillam em caprichosos relevos todas as joias -d'este prestigioso escriptor, é publicado pelos activos editores...» E -aqui o Melchior emperrára. Melchior não gostava d'aquelle frouxo -termo--_activos_. Ega então suggeriu--_emprehendedores_. Melchior -emendou, leu: - ---«...publicado pelos emprehendedores editores...» Ora sêbo, rima! - -Arrojou a penna, descorçoado. Acabou-se! Não estava em _verve_. E além -d'isso era tarde, tinha a rapariga á espera... - ---Fica para ámanhã... O peor é que já ando n'isto ha cinco dias! Irra! -Você tem razão, a gente bestialisa-se. E faz-me raiva! Não é lá pelo -livro, não me importa o livro... É pelo Craveiro, que é bom rapaz, e -demais a mais pertence cá ao partido! - -Abriu um gavetão, sacou uma escova, rompeu a escovar-se com desespero. E -Ega ia ajudal-o, limpar-lhe as costas cheias de cal--quando entre elles -surgiu a face chupada e nervosa do Gonçalo, com a sua gaforinha -perpetuamente erguida como por uma rajada de vento. - ---Que está o Egasinho a fazer n'este covil da noticia? - ---Aqui a escovar o Sampaio... Estive tambem a ouvir o Neves, a grande -phrase do Gouvarinho... - -O Gonçalo pulou, com uma faisca de malicia nos olhos negros de algarvio -esperto. - ---A da cruz? Espantosa! Mas ha melhor, ha melhor! - -Travou do braço do Ega, puxou-o para um canto da janella: - ---É necessario fallar baixo por causa da rapaziada de provincia... Ha -outra deliciosa. Eu não me lembro bem, o Neves é que sabe! É uma coisa -da Liberdade conduzindo á mão o corcel do Progresso... O quer que seja -assim, uma imagem equestre! A Liberdade com calções de jockey, o -Progresso com um grande freio... Espantoso! Que besta, aquelle -Gouvarinho! E os outros, menino, os outros! Você não foi á camara quando -se discutiu a questão de Tondella? Extraordinario! O que se disse! Foi -de morrer! E eu morro! Esta politica, este S. Bento, esta eloquencia, -estes bachareis matam-me. Querem dizer agora ahi que isto por fim não é -peor que a Bulgaria. Historias! Nunca houve uma choldra assim no -universo! - ---Choldra em que você chafurda! observou o Ega rindo. - -O outro recuou com um grande gesto: - ---Distingamos! Chafurdo por necessidade, como politico: e tróço por -gosto, como artista! - -Mas Ega justamente achava uma desgraça incomparavel para o paiz--esse -immoral desaccordo entre a intelligencia e o caracter. Assim, alli -estava o amigo Gonçalo, como homem de intelligencia, considerando o -Gouvarinho um imbecil... - ---Uma cavalgadura, corrigiu o outro. - ---Perfeitamente! E todavia, como politico, você quer essa cavalgadura -para ministro, e vai apoial-a com votos e com discursos sempre que ella -rinche ou escoucinhe. - -Gonçalo correu lentamente a mão pela gaforinha, com a face franzida: - ---É necessario, homem! Razões de disciplina e de solidariedade -partidaria... Ha uns compromissos... O paço quer, gosta d'elle... - -Espreitou em roda, murmurou, collado ao Ega: - ---Ha ahi umas questões de syndicatos, de banqueiros, de concessões em -Moçambique... Dinheiro, menino, o omnipotente dinheiro! - -E como Ega se curvava, vencido, cheio só de respeito--o outro, faiscando -todo de finura e cynismo, atirou-lhe uma palmada ao hombro: - ---Meu caro, a politica hoje é uma coisa muito differente! Nós fizemos -como vocês os litteratos. Antigamente a litteratura era a imaginação, a -phantasia, o ideal... Hoje é a realidade, a experiencia, o facto -positivo, o documento. Pois cá a politica em Portugal tambem se lançou -na corrente realista. No tempo da Regeneração e dos Historicos a -politica era o progresso, a viação, a liberdade, o palavrorio... Nós -mudamos tudo isso. Hoje é o facto positivo,--o dinheiro, o dinheiro! o -bago! a _massa_! A rica _massinha_ da nossa alma, menino! O divino -dinheiro! - -E de repente emmudeceu, sentindo na sala um silencio--onde o seu grito -de «dinheiro! dinheiro!» parecera ficar vibrando, no ar quente do gaz, -com a prolongação de um toque de rebate acordando as cubiças, chamando -ao longe e ao largo todos os habeis para o saque da Patria inerte!... - -O Neves desapparecera. Os cavalheiros de provincia dispersavam, uns -enfiando o paletot, outros sem pressa dando um olhar amortecido aos -jornaes sobre a mesa. E o Gonçalo bruscamente disse adeus ao Ega, rodou -nos tacões, desappareceu tambem, abraçando ao passar um dos padres a -quem tratou de «malandro!» - -Era meia noite, Ega sahiu. E na tipoia que o levava ao Ramalhete, já -mais calmo, começou logo a reflectir que o resultado da publicação da -carta seria despertar em toda Lisboa uma curiosidade voraz. A «questão -de cavallos» com que o Neves se contentára promptamente, distrahido e -absorvido n'essa noite pela crise,--ninguem mais a acreditaria... O -Damaso decerto, interrogado, para se desculpar, contaria horrores de -Maria e de Carlos: e uma intoleravel luz d'escandalo ia bater coisas que -deviam permanecer na sombra. Eram talvez apoquentações, desesperos que -elle assim estivera preparando a Carlos--por causa d'um odiosinho ao -Damaso. Nada mais egoista e pequeno!... E subindo para o quarto Ega -decidia correr depois d'almoço á redacção da _Tarde_, suster a -publicação da carta. - -Mas toda essa noite sonhou com Rachel e com Damaso. Via-os rolando por -uma estrada sem fim, entre pomares e vinhedos, deitados n'uma carroça de -bois, sobre um enxergão onde se desdobrava, lasciva e rica, a sua colcha -de setim preto da _villa_ Balzac: os dois beijavam-se, enroscados, sem -pudor, sob a fresca sombra que cahia dos ramos, ao chiar lento das -rodas. E por um requinte do sonho cruel, elle Ega, sem perder a -consciencia e o orgulho d'homem, era um dos bois que puxava ao carro! Os -moscardos picavam-no, a canga pesava-lhe; e, a cada beijo mais cantado -que atraz soava no carro, elle erguia o focinho a escorrer de baba, -sacudia os cornos, mugia lamentavelmente para os céos! - -Acordou n'estes urros d'agonia: e a sua cólera contra o Damaso resurgiu, -mais nutrida pelas incoherencias do sonho. Além d'isso chovia. E decidiu -não voltar á _Tarde_, deixar imprimir a carta. Que importava, de resto, -o que dissesse o Damaso? O artigo da _Corneta_ estava extincto, o Palma -bem pago.--E quem jámais acreditaria n'um homem que nos jornaes se -declara calumniador e bebedo? - -E Carlos assim pensou tambem--quando, depois d'almoço, Ega lhe contou a -sua resolução da vespera ao vêr o Damaso no camarote, d'olho trocista -posto n'elle, a segredar com os Cohens... - ---Percebi claramente, sem erro possivel, que estava a fallar de ti, da -snr.^a D. Maria, de nós todos, contando horrores... E então acabou-se, -não hesitei mais. Era necessario deixar passar a justiça de Deus! Não -tinhamos paz emquanto o não aniquilassemos! - -Sim, concordou Carlos, talvez. Sómente receava que o avô, sabendo o -escandalo, se desgostasse de vêr o seu nome misturado a toda aquella -sordidez de _Corneta_ e de bebedeira... - ---Elle não lê a _Tarde_, acudiu Ega. O rumor, se lhe chegar, é já vago e -desfigurado. - -Com effeito Affonso soube apenas confusamente que o Damaso soltára no -Gremio algumas palavras desagradaveis para Carlos, e declarára depois -n'um jornal que, n'esse momento, estava bebedo. E a opinião do velho -foi--que se o Damaso estava embriagado (e d'outro modo como teria -injuriado Carlos, seu antigo amigo?) a sua declaração revelava extrema -lealdade e um amor quasi heroico da verdade! - ---Por esta não esperavamos nós! exclamou depois Ega no quarto de Carlos. -O Damaso torna-se um justo! - -De resto os amigos da casa, sem conhecer o artigo da _Corneta_, -approvavam a aniquilação do Damaso. Só o Craft sustentou que Carlos lhe -devia ter antes dado «bengaladas secretas»; e o Taveira achou cruel que -se dissesse ao desgraçado, com um florete ao peito--«ou a dignidade ou a -vida!» - -Mas dias depois não se fallava mais n'esse escandalo. Outras coisas -interessavam o Chiado e a Casa Havaneza. O ministerio fôra formado, -finalmente! Gouvarinho entrava na Marinha--Neves no Tribunal de Contas. -Já os jornaes do governo cahido começavam, segundo a pratica -constitucional, a achar o paiz irremediavelmente perdido, e a alludir ao -rei com azedume... E o derradeiro, esvaído echo da carta do Damaso foi, -na vespera do sarau da Trindade, um paragrapho da propria _Tarde_ onde -ella fôra publicada, n'estas amaveis palavras: - ---«O nosso amigo e distincto _sportman_ Damaso Salcede parte brevemente -para uma viagem de recreio a Italia. Desejamos ao elegante _touriste_ -todas as prosperidades na sua bella excursão ao paiz do canto e das -artes.» - - - - -VI - - -Ao fim do jantar, na rua de S. Francisco, Ega que se demorára no -corredor a procurar a charuteira pelos bolsos do paletot, entrou na -sala, perguntando a Maria, já sentada ao piano: - ---Então, definitivamente, v. exc.^a não vem ao sarau da Trindade?... - -Ella voltou-se para dizer, preguiçosamente, por entre a walsa lenta que -lhe cantava entre os dedos: - ---Não me interessa, estou muito cançada... - ---É uma sécca, murmurou Carlos do lado, da vasta poltrona onde se -estirára consoladamente, fumando, d'olhos cerrados. - -Ega protestou. Tambem era uma massada subir ás Pyramides no Egypto. E no -emtanto soffria-se invariavelmente, porque nem todos os dias póde um -christão trepar a um monumento que tem cinco mil annos de existencia... -Ora a snr.^a D. Maria, n'este sarau, ia vêr por dez tostões uma coisa -tambem rara,--a alma sentimental d'um povo exhibindo-se n'um palco, ao -mesmo tempo nua e de casaca. - ---Vá, coragem! um chapéo, um par de luvas, e a caminho! - -Ella sorria, queixando-se de fadiga e preguiça. - ---Bem, exclamou Ega, eu é que não quero perder o Rufino... Vamos lá, -Carlos, mexe-te! - -Mas Carlos implorou clemencia: - ---Mais um bocadinho, homem! Deixa a Maria tocar umas notas do _Hamlet_. -Temos tempo... Esse Rufino, e o Alencar, e os bons, só gorgeiam mais -tarde... - -Então Ega, cedendo tambem a todo aquelle conchego tepido e amavel, -enterrou-se no sofá com o charuto, para escutar a canção d'_Ophelia_, de -que Maria já murmurava baixo as palavras scismadoras e tristes: - - - Pâle et blonde, - Dort sous l'eau profonde... - - -Ega adorava esta velha ballada escandinavia. Mais porém o encantava -Maria que nunca lhe parecera tão bella: o vestido claro que tinha n'essa -noite modelava-a com a perfeição d'um marmore: e entre as velas do -piano, que lhe punham um traço de luz no perfil puro e tons d'ouro -esfiado no cabello--o incomparavel eburneo da sua pelle ganhava em -esplendor e mimo... Tudo n'ella era harmonioso, são, perfeito... E -quanto aquella serenidade da sua fórma devia tornar delicioso o ardor da -sua paixão! Carlos era positivamente o homem mais feliz d'estes reinos! -Em torno d'elle só havia facilidades, doçuras. Era rico, intelligente, -d'uma saude de pinheiro novo; passava a vida adorando e adorado; só -tinha o numero d'inimigos que é necessario para confirmar uma -superioridade; nunca soffrera de dyspepsia; jogava as armas bastante -para ser temido; e na sua complacencia de forte nem a tolice publica o -irritava. Sêr verdadeiramente ditoso! - ---Quem é por fim esse Rufino? perguntou Carlos, alongando mais os pés -pelo tapete, quando Maria findou a canção d'_Ophelia_. - -Ega não sabia. Ouvira que era um deputado, um bacharel, um inspirado... - -Maria, que procurava os nocturnos de Chopin, voltou-se: - ---É esse grande orador de que fallavam na _Toca_? - -Não, não! Esse era outro, a sério, um amigo de Coimbra, o José Clemente, -homem d'eloquencia e de pensamento... Este Rufino era um ratão de pera -grande, deputado por Monção, e sublime n'essa arte, antigamente nacional -e hoje mais particularmente provinciana, de arranjar, n'uma voz de -theatro e de papo, combinações sonoras de palavras... - ---Detesto isso! rosnou Carlos. - -Maria tambem achava intoleravel um sujeito a chilrear, sem idéas, como -um passaro n'um galho d'arvore... - ---É conforme a occasião, observou Ega, olhando o relogio. Uma walsa de -Strauss tambem não tem idéas, e á noite, com mulheres n'uma sala, é -deliciosa... - -Não, não! Maria entendia que essa rhetorica amesquinhava sempre a -palavra humana, que, pela sua natureza mesma, só póde servir para dar -fórma ás idéas. A musica, essa, falla aos nervos. Se se cantar uma -marcha a uma criança, ella ri-se e salta no collo... - ---E se lhe lêres uma pagina de Michelet, concluiu Carlos, o anjinho -secca-se e berra! - ---Sim, talvez, considerou o Ega. Tudo isso depende da latitude e dos -costumes que ella cria. Não ha inglez, por mais culto e espiritualista, -que não tenha um fraco pela força, pelos athletas, pelo _sport_, pelos -musculos de ferro. E nós, os meridionaes, por mais criticos, gostamos do -palavriadinho mavioso. Eu cá pelo menos, á noite, com mulheres, luzes, -um piano e gente de casaca, pello-me por um bocado de rhetorica. - -E, com o appetite assim desperto, ergueu-se logo para enfiar o paletot, -voar á _Trindade_, n'um receio de perder o Rufino. - -Carlos deteve-o ainda, com uma grande idéa: - ---Espera. Descobri melhor, fazemos o sarau aqui! Maria toca Beethoven; -nós declamamos Mussuet, Hugo, os parnasianos; temos padre Lacordaire se -te appetece a eloquencia; e passa-se a noite n'uma medonha orgia -d'ideal!... - ---E ha melhores cadeiras, acudiu Maria. - ---Melhores poetas, affirmou Carlos. - ---Bons charutos! - ---Bom cognac! - -Ega alçou os braços ao ar, desolado. Ahi está como se pervertia um -cidadão, impedindo-o de proteger as letras patrias--com promessas -perfidas de tabaco e de bebidas!... Mas de resto elle não tinha só uma -razão litteraria para ir ao sarau. O Cruges tocava uma das suas -_Meditações d'Outono_, e era necessario dar palmas ao Cruges. - ---Não digas mais! gritou Carlos, dando um pulo da poltrona. Esquecia-me -o Cruges!... É um dever d'honra! Abalemos. - -E d'ahi a pouco, tendo beijado a mão de Maria que ficava ao piano, os -dois, surprehendidos com a belleza d'essa noite d'inverno, tão clara e -dôce, seguiam devagar pela rua--onde Carlos ainda duas vezes se voltou -para olhar as janellas alumiadas. - ---Estou bem contente, exclamou elle travando do braço do Ega, em ter -deixado os Olivaes!... Aqui ao menos podemos reunir-nos para um bocado -de cavaco e de litteratura... - -Tencionava arranjar a sala com mais gosto e conforto, converter o quarto -ao lado n'um _fumoir_ forrado com as suas colchas da India, depois ter -um dia certo em que viessem os amigos cear... Assim se realisava o velho -sonho, o cenaculo de dilettantismo e d'arte... Além d'isso havia a -lançar a _Revista_, que era a suprema pandega intellectual. Tudo isto -annunciava um inverno _chic a valer_, como dizia o defunto Damaso. - ---E tudo isto, resumiu o Ega, é dar civilisação ao paiz. Positivamente, -menino, vamo-nos tornar grandes cidadãos!... - ---Se me quizerem erguer uma estatua, disse Carlos alegremente, que seja -aqui na rua de S. Francisco... Que belleza de noite! - - - -Pararam á porta do theatro da Trindade no momento em que, d'uma tipoia -de praça, se apeava um sujeito de barbas de apostolo, todo de luto, com -um chapéo de largas abas recurvas á moda de 1830. Passou junto dos dois -amigos sem os vêr, recolhendo um troco á bolsa. Mas Ega reconheceu-o. - ---É o tio do Damaso, o demagogo! Bello typo! - ---E segundo o Damaso, um dos bebedos da familia, lembrou Carlos rindo. - -Por cima, de repente, no salão, estalaram grandes palmas. Carlos, que -dava o paletot ao porteiro, receou que já fosse o Cruges... - ---Qual! disse o Ega. Aquillo é applaudir de rhetorica! - -E com effeito, quando pela escada ornada de plantas chegaram ao -ante-salão, onde dois sujeitos de casaca passeavam em bicos de pés, -segredando--sentiram logo um vozeirão tumido, garganteado, provinciano, -de vogaes arrastadas em canto, invocando lá do fundo, do estrado, «a -alma religiosa de Lamartine!...» - ---É o Rufino, tem estado soberbo! murmurou o Telles da Gama que não -passára da porta, com o charuto escondido atraz das costas. - -Carlos, sem curiosidade, ficou junto do Telles. Mas Ega, esguio e magro, -foi rompendo pela coxia tapetada de vermelho. D'ambos os lados se -cerravam filas de cabeças, embebidas, enlevadas, atulhando os bancos de -palhinha até junto ao tablado, onde dominavam os chapéos de senhoras -picados por manchas claras de plumas ou flôres. Em volta, de pé, -encostados aos pilares ligeiros que sustêm a galeria, reflectidos pelos -espelhos, estavam os homens, a gente do Gremio, da Casa Havaneza, das -Secretarias, uns de gravata branca, outros de jaquetões. Ega avistou o -snr. Sousa Netto, pensativo, sustentando entre dois dedos a face -escaveirada, de barba rala; adiante o Gonçalo, com a sua gaforinha ao -vento; depois o marquez atabafado n'um cache-nez de sêda branca; e, n'um -grupo, mais longe, rapazes do Jockey Club, os dois Vargas, o Mendonça, o -Pinheiro, assistindo áquelle _sport_ da eloquencia com uma mistura -d'assombro e tedio. Por cima, no parapeito de velludo da galeria, corria -outra linha de senhoras com vestidos claros, abanando-se mollemente; por -traz alçava-se ainda uma fila de cavalheiros onde destacava o Neves, o -novo Conselheiro, grave, de braços cruzados, com um botão de camelia na -casaca mal feita. - -O gaz suffocava, vibrando cruamente n'aquella sala clara, d'um tom -desmaiado de canario, raiada de reflexos de espelhos. Aqui e além uma -tosse timida de catarrho desmanchava o silencio, logo abafada no lenço. -E na extremidade da galeria, n'um camarote feito de tabiques, com -sanefas de velludo côr de cereja, duas cadeiras de espaldar dourado -permaneciam vazias, na solemnidade real do seu damasco escarlate. - -No emtanto, no estrado, o Rufino, um bacharel transmontano, muito -trigueiro, de pera, alargava os braços, celebrava um anjo, «o _Anjo da -Esmola_ que elle entrevira, além no azul, batendo as azas de setim...» -Ega não comprehendia bem--entalado entre um padre muito gordo que -pingava de suor, e um alferes de lunetas escuras. Por fim não se -conteve:--«Sobre que está elle a fallar?» E foi o padre que o informou, -com a face luzidia, inflammada de enthusiasmo: - ---Tudo sobre a caridade, sobre o progresso! Tem estado sublime... -Infelizmente está a acabar! - -Parecia ser, com effeito, a peroração. O Rufino arrebatára o lenço, -limpava a testa lentamente; depois arremetteu para a borda do tablado, -voltando-se para as cadeiras reaes com um tão ardente gesto -d'inspiração--que o collete repuxado descobriu o começo da ceroula. Foi -então que Ega comprehendeu. Rufino estava exaltando uma princeza que -dera seiscentos mil reis para os inundados do Ribatejo, e ia a beneficio -d'elles organisar um bazar na Tapada. Mas não era só essa soberba esmola -que deslumbrava o Rufino--porque elle, «como todos os homens educados -pela philosophia e que têm a verdadeira orientação mental do seu tempo, -via nos grandes factos da historia não só a sua belleza poetica, mas a -sua influencia social. A multidão, essa, sorria simplesmente, enlevada, -para a incomparavel poesia da mão calçada de fina luva que se estende -para o pobre. Elle porém, philosopho, antevia já, sahindo d'esses -delicados dedos de princeza, um resultado bem profundo e formoso... O -quê, meus senhores? O renascimento da Fé!» - -De repente, um leque que escorregára da galeria, arrancando em baixo um -berro a uma senhora gorda, creou um susurro, uma curta emoção. Um -commissario do sarau, D. José Sequeira, ergueu-se logo nos degraus do -tablado, com o seu laçarote de sêda vermelha na casaca, dardejando -severamente os olhos vesgos para o recanto indisciplinado onde curtos -risos esfusiavam. Outros cavalheiros, indignados, gritavam «_chut, -silencio,_ _fóra!_» E das cadeiras da frente surgiu a face ministerial -do Gouvarinho, inquieta pela Ordem, com as lunetas brilhando -duramente... Então Ega procurou ao lado a condessa: e avistou-a emfim -mais longe, com um chapéo azul, entre a Alvim toda de preto e umas -vastas espádoas cobertas de setim malva que eram as da baroneza de -Craben. Todo o rumor findava--e o Rufino, que molhára lentamente os -labios no copo, avançou um passo, sorrindo, com o lenço branco na mão: - ---Dizia eu, meus senhores, que dada a orientação mental d'este seculo... - -Mas o Ega suffocava, esmagado, farto do Rufino, com a impressão de que o -padre ao lado cheirava mal. E não aturou mais, furou para traz, para -desabafar com Carlos. - ---Tu imaginavas uma besta assim? - ---Horroroso! murmurou Carlos. Quando tocará o Cruges? - -Ega não sabia, todo o programma fôra alterado. - ---E tens cá a Gouvarinho! Está lá adiante, d'azul... Hei de querer vêr -logo esse encontro! - -Mas ambos se voltaram sentindo por traz alguem ciciar discretamente -«_bonsoir, messieurs_...» Era Steinbroken e o seu secretario, graves, de -casaca, em pontas de pés, com as claques fechadas. E immediatamente -Steinbroken queixou-se da ausencia da familia real... - ---Mr. de Cantanhede, qui est de service, m'avait cependant assuré que la -reine viendrait... C'est bien sous sa protection, n'est-ce pas, toute -cette musique, ces vers?... Voilà pourquoi je suis venu. C'est très -ennuyeux... Et Alphonse de Maia, toujours en santé? - ---Merci... - -Na sala o silencio impressionava. Rufino, com gestos de quem traça n'uma -tela linhas lentas e nobres, descrevia a doçura d'uma aldeia, a aldeia -em que elle nascera, ao pôr do sol. E o seu vozeirão velava-se, -enternecido, morrendo n'um rumor de crepusculo. Então Steinbroken, -subtilmente, tocou no hombro do Ega. Queria saber se era esse o grande -orador de que lhe tinham fallado... - -Ega affirmou com patriotismo que era um dos maiores oradores da Europa! - ---Em qual génerro?... - ---Genero sublime, genero de Demosthenes! - -Steinbroken alçou as sobrancelhas com admiração, fallou em filandez ao -seu secretario que entalou languidamente o monoculo: e com as claques -debaixo do braço, cerrados os olhos, recolhidos como n'um templo, os -dois enviados da Filandia ficaram escutando, á espera do sublime. - -Ruffino, no entanto, com as mãos descahidas, confessava uma fragilidade -de sua alma! Apesar da poesia ambiente d'essa sua aldeia natal, onde a -violeta em cada prado, o rouxinol em cada balseira provavam Deus -irrefutavelmente,--elle fôra dilacerado pelo espinho da descrença! Sim, -quantas vezes, ao cahir da tarde, quando os sinos da velha torre -choravam no ar a Ave-Maria e no valle cantavam as ceifeiras, elle -passára junto da cruz do adro e da cruz do cemiterio, atirando-lhes de -lado, cruelmente, o sorriso frio de Voltaire!... - -Um largo fremito d'emoção passou. Vozes suffocadas de gozo mal podiam -murmurar «_muito bem, muito bem_...» - -Pois fôra n'esse estado, devorado pela duvida, que Rufino ouvira um -grito d'horror resoar por sobre o nosso Portugal... Que succedera? Era a -Natureza que atacava seus filhos!--E lançando os braços, como quem se -debate n'uma catastrophe, Rufino pintou a inundação... Aqui aluia um -casal, ninho florido d'amores; além, na quebrada, passava o balar -choroso dos gados; mais longe as negras aguas iam juntamente arrastando -um botão de rosa e um berço!... - -Os _bravos_ partiram profundos e roucos de peitos que arfavam. E em -torno de Carlos e do Ega sujeitos voltavam-se apaixonadamente uns para -os outros, com um brilho na face, commungando no mesmo enthusiasmo: «Que -rajadas!... Caramba!... Sublime!...» - -Rufino sorria, bebendo esta commoção, que era a obra do seu verbo. -Depois, respeitosamente, voltou-se para as cadeiras reaes, solemnes e -vazias... - -Vendo que a cólera da Natureza rugia implacavel, elle erguera os olhos -para o natural abrigo, para o exaltado logar d'onde desce a salvação, -para o Throno de Portugal! E de repente, deslumbrado, vira por sobre -elle estenderem-se as azas brancas d'um anjo! Era o anjo da esmola, meus -senhores! E d'onde vinha? d'onde recebera a inspiração da caridade? -d'onde sahia assim, com os seus cabellos d'ouro? Dos livros da sciencia? -dos laboratorios chimicos? d'esses amphitheatros d'anatomia onde se nega -covardemente a alma? das sêccas escólas de philosophia que fazem de -Jesus um precursor de Robespierre? Não! Elle ousára interrogar o anjo, -submisso, com o joelho em terra. E o anjo da esmola, apontando o espaço -divino, murmurára: «Venho d'além!» - -Então pelos bancos apinhados correu um susurro d'enlevo. Era como se os -estuques do tecto se abrissem, os anjos cantassem no alto. Um -estremecimento devoto e poetico arrepiava as cuias das senhoras. - -E Rufino findava, com uma altiva certeza na alma! Sim, meus senhores! -Desde esse momento, a duvida fôra n'elle como a nevoa que o sol, este -radiante sol portuguez, desfaz nos ares... E agora, apesar de todas as -ironias da sciencia, apesar dos escarneos orgulhosos d'um Renan, d'um -Littré e d'um Spencer, elle, que recebera a confidencia divina, podia -alli, com a mão sobre o coração, affirmar a todos bem alto--havia um -céo! - ---Apoiado! mugiu na coxia o padre sebento. - -E por todo o salão, no aperto e no calor do gaz, os cavalheiros das -Secretarias, da Arcada, da Casa Havaneza, berrando, batendo as mãos, -affirmaram soberbamente o céo! - -O Ega que ria, divertido, sentiu ao lado um som rouco de cólera. Era o -Alencar, de paletot, de gravata branca, cofiando sombriamente os -bigodes. - ---Que te parece, Thomaz? - ---Faz nojo! rugiu surdamente o poeta. - -Tremia, revoltado! N'uma noite d'aquellas, toda de poesia, quando os -homens de letras se deviam mostrar como são, filhos da democracia e da -liberdade, vir aquelle pulha pôr-se alli a lamber os pés á familia -real... Era simplesmente ascoroso! - -Lá ao fundo, junto aos degraus do tablado, ia um tumulto d'abraços, de -comprimentos, em torno do Rufino, que reluzia todo de orgulho e suor. E -pela porta os homens escoavam-se, afogueados, commovidos ainda, puxando -das charuteiras. Então o poeta travou do braço do Ega: - ---Ouve lá, eu vinha justamente procurar-te. É o Guimarães, o tio do -Damaso, que me pediu para te ser apresentado... Diz que é uma coisa -séria, muito séria... Está lá em baixo no botequim, com um _grog_. - -Ega pareceu surprehendido... Coisa séria!? - ---Bem, vamos nós lá baixo tomar tambem um _grog_! E que recitas tu logo, -Alencar? - ---_A Democracia_, foi dizendo o poeta pela escada, com certa reserva. -Uma coisita nova, tu verás... São algumas verdades duras a toda essa -burguezia... - -Estavam á porta do botequim--e precisamente o snr. Guimarães sahia, com -o chapéo sobre o olho, de charuto accêso, abotoando a sobrecasaca. -Alencar lançou a apresentação, com immensa gravidade: - ---O meu amigo João da Ega... O meu velho amigo Guimarães, um bravo cá -dos nossos, um veterano da Democracia. - -Ega acercou-se d'uma mesa, puxou cortezmente um banco para o veterano da -Democracia, quiz saber se elle preferia cognac ou cerveja. - ---Tomei agora o meu _grog_ de guerra, disse o snr. Guimarães com -seccura, tenho para toda a noite. - -Um criado dava uma limpadella lenta sobre o marmore da mesa. Ega ordenou -cerveja. E directamente, largando o charuto, passando a mão pelas barbas -a retocar a magestade da face, o snr. Guimarães começou com lentidão e -solemnidade: - ---Eu sou tio do Damaso Salcede, e pedi aqui ao meu velho amigo Alencar -para me apresentar a v. exc.^a, com o fim de o intimar a que olhe bem -para mim e que diga se me acha cara de bebedo... - -Ega comprehendeu, atalhou logo, cheio de franqueza e bonhomia: - ---V. exc.^a refere-se a uma carta que seu sobrinho me escreveu... - ---Carta que v. exc.^a dictou! Carta que v. exc.^a o forçou a assignar! - ---Eu?... - ---Affirmou-m'o elle, senhor! - -Alencar interveio: - ---Fallem vocês baixo, que diabo!... Isto é terra de curiosos... - -O snr. Guimarães tossiu, chegou a cadeira mais para a mesa. Tinha -estado, contou elle, havia semanas fóra de Lisboa por negocios da -herança de seu irmão. Não vira o sobrinho, porque só por necessidade se -encontrava com esse imbecil. Na vespera, em casa d'um antigo amigo, o -Vaz Forte, deitára por acaso os olhos ao _Futuro_, um jornal -republicano, bem escripto, mas frouxo de idéas. E avistára logo na -primeira pagina, em typo enorme, sob esta rubrica aliás justa _Coisas do -high-life_, a carta do sobrinho... Imagine o snr. Ega o seu furor! Alli -mesmo, em casa do Forte, escrevera ao Damaso pouco mais ou menos n'estes -termos: «Li a tua infame declaração. Se ámanhã não fazes outra, em todos -os jornaes, dizendo que não tinhas intenção de me incluir entre os -bebedos da tua familia, vou ahi e quebro-te os ossos um por um. Treme!» -Assim lhe escrevera. E sabia o snr. João da Ega qual fôra a resposta do -snr. Damaso? - ---Tenho-a aqui, é um _documento humano_, como diz o amigo Zola! Aqui -está... Grande papel, monogramma d'ouro, corôa de conde. Aquelle asno! -Quer v. exc.^a que eu leia? - -A um gesto risonho do Ega, elle mesmo leu, lentamente, e sublinhando: - ---«Meu caro tio! A carta de que falla foi escripta pelo snr. João da -Ega. Eu era incapaz de tal desacato á nossa querida familia. Foi elle -que me agarrou na mão, á força, para eu assignar: e eu, n'aquella -atrapalhação, sem saber o que fazia, assignei para evitar fallatorios. -Foi um laço que me armaram os meus inimigos. O meu querido tio, que sabe -como eu gósto de si, que até estava o anno passado com tenção, se -soubesse a sua morada em Paris, de lhe mandar meia pipa de vinho de -Collares, não fique pois zangado commigo. Bem infeliz já eu sou! E se -quizer procure esse João da Ega que me perdeu! Mas acredite que hei de -tirar uma vingança que ha de ser fallada! Ainda não decidi qual, n'esta -atarantação; mas em todo o caso a nossa familia ha de ficar -desenxovalhada, porque eu nunca admitti que ninguem brincasse com a -minha dignidade... E se o não fiz já antes de partir para Italia, se -ainda não pugnei pela minha honra, é porque ha dias, com todos estes -abalos, veio-me uma tremenda dysenteria, que estou que me não tenho nas -pernas. Isto por cima dos meus males moraes!...» V. exc.^a ri-se, snr. -Ega? - ---Pois que quer v. exc.^a que eu faça? balbuciou o Ega por fim, -suffocado, com os olhos em lagrimas. Rio-me eu, ri-se o Alencar, ri-se -v. exc.^a Isso é extraordinario! Essa dignidade, essa dysenteria... - -O snr. Guimarães, embaçado, olhou o Ega, olhou o poeta que fungava sob -os longos bigodes, e terminou por dizer: - ---Com effeito, a carta é d'uma cavalgadura... Mas o facto permanece... - -Então Ega appellou para o bom senso do snr. Guimarães, para a sua -experiencia das coisas d'honra. Comprehendia elle que dois cavalheiros, -indo desafiar um homem a sua casa, lhe agarrem no pulso, o forcem -violentamente a assignar uma carta em que elle se declara bebedo?... - -O snr. Guimarães, agradado com aquella deferencia pelo seu tacto e pela -sua experiencia, confessou que o caso, pelo menos em Paris, seria pouco -natural. - ---E em Lisboa, senhor! Que diabo, isto não é a Cafraria! E diga-me o -snr. Guimarães outra coisa, de gentleman para gentleman: como considera -seu sobrinho? um homem irreprehensivelmente veridico? - -O snr. Guimarães cofiou as barbas, declarou lealmente: - ---Um refinado mentiroso. - ---Então! gritou Ega em triumpho, atirando os braços ao ar. - -De novo Alencar interveio. A questão parecia-lhe satisfactoriamente -finda. E não restava senão os dois apertarem-se a mão fraternalmente, -como bons democratas... - -Já de pé, atirou a genebra ás guelas. Ega sorria, estendia a mão ao snr. -Guimarães. Mas o velho demagogo, ainda com uma sombra na face enrugada, -desejou que o snr. João da Ega (se n'isso não tinha duvida) declarasse, -alli diante do amigo Alencar, que não lhe achava a elle, Guimarães, cara -de bebedo... - ---Oh meu caro senhor! exclamou Ega, batendo com o dinheiro na mesa para -chamar o criado. Pelo contrario! O maior prazer em proclamar diante do -Alencar, e aos quatro ventos, que lhe acho a cara d'um perfeito -cavalheiro e d'um patriota! - -Então trocaram um rasgado aperto de mãos--emquanto o snr. Guimarães -affirmava a sua satisfação por conhecer o snr. João da Ega, moço de -tantos dotes e tão liberal. E quando s. exc.^a quizesse qualquer coisa, -politica ou litteraria, era escrever este endereço bem conhecido no -mundo:--_Redaction du_ Rappel, _Paris!_ - -Alencar abalára. E os dois deixaram o botequim, trocando impressões do -sarau. O snr. Guimarães estava enojado com a carolice, a sabujice d'esse -Rufino. Quando o ouvira palrar das azas da princeza e da cruz do adro, -quasi lhe gritára cá do fundo: «Quanto te pagam para isso, miseravel?» - -Mas de repente Ega estacou na escada, tirando o chapéo: - ---Oh snr.^a baroneza, então já nos abandona? - -Era a Alvim que descia devagar, com a Joanninha Villar, atando as largas -fitas d'uma capa de pellucia verde. Queixou-se d'uma dôr de cabeça que a -torturava, apesar de ter gostado loucamente do Rufino... Mas uma noite -toda de litteratura, que estafa! E agora, para mais, ficára lá um -homemzinho a fazer musica classica... - ---É o meu amigo Cruges! - ---Ah! é seu amigo? Pois olhe, devia-lhe ter dito que tocasse antes o -_Pirolito_. - ---V. exc.^a afflige-me com esse desdem pelos grandes mestres... Não quer -que a vá acompanhar á carruagem? Paciencia... Muito boa noite, snr.^a D. -Joanna!... Um servo seu, snr.^a baroneza! E Deus lhe tire a sua dôr de -cabeça! - -Ella voltou-se ainda no degrau, para o ameaçar risonhamente com o leque: - ---Não seja impostor! O snr. Ega não acredita em Deus. - ---Perdão... Que o Diabo lhe tire a sua dôr de cabeça, snr.^a baroneza! - -O velho democrata desapparecera discretamente. E da ante-sala Ega -avistou logo ao fundo, no tablado, sobre um môcho muito baixo que lhe -fazia roçar pelo chão as longas abas da casaca--o Cruges, com o nariz -bicudo contra o caderno da Sonata, martellando sabiamente o teclado. Foi -então subindo em pontas de pés pela coxia tapetada de vermelho, agora -desafogada, quasi vazia: um ar mais fresco circulava: as senhoras, -cançadas, bocejavam por traz dos leques. - -Parou junto de D. Maria da Cunha, apertada na mesma fila com todo um -rancho intimo, a marqueza de Soutal, as duas Pedrosos, a Thereza Darque. -E a boa D. Maria tocou-lhe logo no braço para saber quem era aquelle -musico de cabelleira. - ---Um amigo meu, murmurou Ega. Um grande maestro, o Cruges. - -O Cruges... O nome correu entre as senhoras, que o não conheciam. E era -composição d'elle, aquella coisa triste? - ---É de Beethoven, snr.^a D. Maria da Cunha, a _Sonata pathetica_. - -Uma das Pedrosos não percebera bem o nome da Sonata. E a marqueza de -Soutal, muito séria, muito bella, cheirando devagar um frasquinho de -saes, disse que era a _Sonata pateta_. Por toda a bancada foi um -rastilho de risos suffocados. A _Sonata pateta_! Aquillo parecia divino! -Da extremidade o Vargas gordo, o das corridas, estendeu a face enorme, -imberbe e côr de papoula: - ---Muito bem, snr.^a marqueza, muito catita! - -E passou o gracejo a outras senhoras, que se voltavam, sorriam á -marqueza, entre o _frou-frou_ dos leques. Ella triumphava, bella e -séria, com um velho vestido de velludo preto, respirando os -saes--emquanto adiante um amador de barba grisalha cravava n'aquelle -rancho ruidoso dois grandes oculos d'ouro que faiscavam de cólera. - -No emtanto, por toda a sala, o susurro crescia. Os encatarrhoados -tossiam livremente. Dois cavalheiros tinham aberto a _Tarde_. E cahido -sobre o teclado, com a gola da casaca fugida para a nuca, o pobre -Cruges, suando, estonteado por aquella desattenção rumorosa, atabalhoava -as notas, n'uma debandada. - ---Fiasco completo, declarou Carlos que se aproximára do Ega e do rancho. - -Foi para D. Maria da Cunha uma alegria, uma surpreza! Até que emfim se -via o snr. Carlos da Maia, o Principe Tenebroso! Que fizera elle durante -esse verão? Todo o mundo a esperal-o em Cintra, alguem mesmo com -anciedade... Um _chut_ furioso do amador de barbas grisalhas -emmudeceu-a. E justamente Cruges, depois de bater dois accordes bruscos, -arredára o môcho, esgueirava-se do estrado, enxugando as mãos ao lenço. -Aqui e além algumas palmas resoaram, molles e de cortezia, entre um -grande murmurio d'allivio. E o Ega e Carlos correram á porta, onde já -esperavam o marquez, o Craft, o Taveira--para abraçar, consolar o pobre -Cruges que tremia todo, com os olhos esgazeados. - -E immediatamente, no silencio attento que redominava, um sujeito muito -magro, muito alto, surgiu no tablado, com um manuscripto na mão. Alguem -ao lado do Ega disse que era o Prata, que ia fallar sobre o _Estado -agricola da provincia do Minho_. Atraz, um criado veio collocar sobre a -mesa um candelabro de duas velas: o Prata, d'ilharga para a luz, -mergulhou no caderno: e d'entre o perfil triste e as folhas largas um -rumor lento foi escorrendo, rumor de reza n'uma somnolencia de novena, -onde por vezes destacavam como gemidos--«riqueza dos gados..., -esphacelamento da propriedade..., fertil e desprotegida região...» - -Começou então uma debandada sorrateira e formigueira, que nem os _chuts_ -do commissario do sarau, vigilante e de pé sobre um degrau do estrado, -podiam conter. Só as senhoras ficavam; e um ou outro burocrata idoso, -que se inclinava zelosamente para o murmurio de reza, com a mão em -concha sobre a orelha. - -Ega, que fugia tambem «ao vecejante paraiso do Minho», achou-se em -frente do snr. Guimarães. - ---Que massada, hein? - -O democrata concordou que aquelle preopinante não lhe parecia -divertido... Depois, mais sério, com outra idéa, segurando um botão da -casaca do Ega: - ----Eu espero que v. exc.^a ha pouco não ficasse com a impressão de que -eu sou solidario ou me importo com meu sobrinho... - -Oh! decerto que não! Ega vira bem que o snr. Guimarães não tinha pelo -Damaso nenhum enthusiasmo de familia. - ---Asco, senhor, só asco! Quando elle foi a primeira vez a Paris, e soube -que eu morava n'uma trapeira, nunca me procurou! Porque aquelle imbecil -dá-se ares d'aristocrata... E como v. exc.^a sabe, é filho d'um agiota! - -Puxou a charuteira, ajuntou gravemente: - ---A mãi, sim! Minha irmã era d'uma boa familia. Fez aquelle desgraçado -casamento, mas era d'uma boa familia! Que, com os meus principios, já v. -exc.^a vê que tudo isso de fidalguia, pergaminhos, brazões, são para mim -_blague_ e mais _blague_! Mas emfim os factos são os factos, a historia -de Portugal ahi está... Os Guimarães da Bairrada eram de sangue azul. - -Ega sorriu, n'um assentimento cortez: - ---E v. exc.^a então parte brevemente para Paris? - ---Ámanhã mesmo, por Bordeus... Agora que toda essa cambada do marechal -de Mac-Mahon, e do duque de Broglie, e do Descazes foi pelos ares, já se -póde lá respirar... - -N'esse instante Telles e o Taveira, passando de braço dado, voltaram-se, -a observar curiosamente aquelle velho austero, todo de preto, que -fallava alto com o Ega de marechaes e de duques. Ega reparou: o -democrata, de resto, tinha uma sobrecasaca de casimira nova; o seu -altivo chapéo reluzia; e Ega ficou de bom grado a conversar com aquelle -gentleman correcto e venerando que impressionava os seus amigos. - ---A republica com effeito, observou elle, dando alguns passos ao lado do -snr. Guimarães, esteve alli um momento compromettida! - ---Perdida! E eu, meu caro senhor, aqui onde me vê, para ser expulso por -causa d'umas verdadesinhas que soltei n'uma reunião anarchista. Até me -affirmaram que n'um conselho de ministros o marechal de Mac-Mahon, que é -um tarimbeiro, batera um murro na mesa e dissera: _Ce sacré Guimaran, il -nous embête, faut lui donner du pied dans le derrière!_ Eu não estava -lá, não sei, mas affirmaram-me... Em Paris, como os francezes não sabem -pronunciar Guimarães, e eu embirro que me estropiem o nome, assigno _Mr. -Guimaran_. Ha dois annos, quando fui á Italia, era _Mr. Guimarini_. E se -fôr agora á Russia, cá por coisas, hei de ser _Mr. Guimaroff_... Embirro -que me estropiem o nome! - -Tinham voltado á porta do salão. Longas bancadas vazias punham dentro, -no brilho pesado do gaz, uma tristeza de abandono e tedio; e no estrado -o Prata continuava, de mão no bolso, com o nariz sobre o manuscripto, -sem que se sentisse agora surdir um som d'aquelle espantalho esguio. Mas -o marquez, que descia do fundo, atabafando-se no seu cache-nez de sêda, -disse ao Ega ao passar que o homemzinho era muito pratico, sabia da -póda, e lá tinha ficado ás voltas com Proudhon. - -Ega e o democrata recomeçaram então os seus passos lentos na ante-sala -onde o susurro de conversas mal abafadas crescia, como n'um pateo, entre -fumaças furtivas de cigarro. E o snr. Guimarães chasqueava, achando uma -boa _bêtise_ que se citasse Proudhon, alli n'aquelle theatreco, a -proposito d'estrumes do Minho... - ---Oh, Proudhon entre nós, acudiu Ega rindo, cita-se muito, é já um -monstro classico. Até os conselheiros d'Estado já sabem que para elle a -propriedade era um roubo, e Deus era o mal... - -O democrata encolheu os hombros: - ---Grande homem, senhor! Homem immenso! São os tres grandes pimpões -d'este seculo: Proudhon, Garibaldi, e o compadre! - ---O compadre! exclamou Ega, attonito. - -Era o nome d'amizade que o snr. Guimarães dava em Paris a Gambetta. -Gambetta nunca o via, que não lhe gritasse de longe, em hespanhol: -_«Hombre, compadre!_» E elle tambem, logo: «_Compadre, caramba!_» D'ahi -ficára a alcunha, e Gambetta ria. Porque lá isso, bom rapaz, e amigo -d'esta franqueza do sul, e patriota, até alli! - ---Immenso, meu caro senhor! O maior de todos! - -Pois Ega imaginaria que o snr. Guimarães, com as suas relações do -_Rappel_, devia ter sobretudo o culto de Victor Hugo... - ---Esse, meu caro senhor, não é um homem, é um mundo! - -E o snr. Guimarães ergueu mais a face, ajuntou infinitamente grave: - ---É um mundo! .. E aqui onde me vê, ainda não ha tres mezes que elle me -disse uma coisa que me foi direita ao coração! - -Vendo com deleite o interesse e a curiosidade do Ega, o democrata contou -largamente esse glorioso lance que ainda o commovia: - ---Foi uma noite no _Rappel_. Eu estava a escrever, elle appareceu, já um -pouco trôpego, mas com o olho a luzir, e aquella bondade, aquella -magestade!... Eu ergui-me, como se entrasse um rei... Isto é, não! que -se fosse um rei tinha-lhe dado com a bota no rabiosque. Levantei-me como -se elle fosse um Deus! Qual Deus! não ha Deus que me fizesse -levantar!... Emfim, acabou-se, levantei-me! Elle olhou para mim, fez -assim um gesto com a mão, e disse, a sorrir, com aquelle ar de genio que -tinha sempre: _Bonsoir, mon ami!_ - -E o snr. Guimarães deu alguns passos dignos, em silencio, como se -aquelle _bonsoir_, aquelle _mon ami_, assim recordados, lhe fizessem -mais vivamente sentir a sua importancia no mundo. - -De repente Alencar, que bracejava n'um grupo, rompeu para elles, -pallido, d'olhos chammejantes: - ---Que me dizem vocês a esta pouca vergonha? Aquelle infame alli ha meia -hora, com o in-folio, a rosnar, a rosnar... E toda a gente a sahir, não -fica ninguem! Tenho de recitar aos bancos de palhinha!... - -E abalou, rilhando os dentes, a exhalar mais longe o seu furor. - -Mas algumas palmas cançadas, dentro, fizeram voltar o Ega. O estrado -ficára novamente vazio, com as duas velas ardendo no candelabro. Um -cartão em grossas letras, que um criado collocára no piano, annunciava -um «intervallo de dez minutos» como n'um circo. E n'esse instante a -snr.^a condessa de Gouvarinho sahira pelo braço do marido, deixando -atraz um sulco largo de comprimentos, d'espinhas que se vergavam, de -chapéos de burocratas rasgadamente erguidos. O commissario do sarau -azafamava-se procurando duas cadeiras para ss. exc.^{as} A condessa -porém foi reunir-se a D. Maria da Cunha, que ella vira, com as Pedrosos -e a marqueza de Soutal, refugiada n'um vão de janella. Ega -immediatamente acercou-se do rancho intimo, esperando que as senhoras se -beijocassem. - ---Então, snr.^a condessa, ainda muito commovida com a eloquencia do -Rufino? - ---Muito cançada... E que calor, hein? - ---Horrivel. A snr.^a baroneza d'Alvim sahiu ha pouco, com uma dor de -cabeça... - -A condessa, que tinha os olhos pisados e uma prega de velhice aos cantos -da boca, murmurou: - ---Não admira, isto não é divertido... Emfim, já agora é necessario levar -a cruz ao Calvario. - ---Se fosse uma cruz, minha senhora! exclamou o Ega. Infelizmente é uma -lyra! - -Ella riu. E D. Maria da Cunha, n'essa noite mais remoçada e viva, ficou -logo toda banhada n'um sorriso, com aquella carinhosa admiração pelo -Ega, que era um dos seus sentimentos. - ---Este Ega!... Não ha mal que lhe chegue!... E diga-me outra coisa, que -é feito do seu amigo Maia? - -Ega vira-a momentos antes, no salão, puxar pela manga de Carlos, -cochichar com Carlos. Mas conservou um ar innocente: - ---Está ahi, anda por ahi, assistindo a toda essa litteratura. - -De repente os olhos sempre bonitos e languidos de D. Maria da Cunha -rebrilharam com uma faisca de malicia: - ---Fallai no mau... N'este caso seria fallar do bom. Emfim ahi nos vem o -Principe Tenebroso! - -E era com effeito Carlos que passava, se encontrára diante dos braços do -conde de Gouvarinho, estendidos para elle com uma effusão em que parecia -renascer o antigo affecto. Pela primeira vez Carlos via a condessa, -desde a noite em que no Aterro, abandonando-a para sempre, fechára com -odio a portinhola da tipoia onde ella ficava chorando. Ambos baixaram os -olhos, ao adiantar a mão um para o outro, lentamente. E foi ella que -findou o embaraço, abrindo o seu grande leque de pennas de avestruz: - ---Que calor, não é verdade? - ---Atroz! disse Carlos. Não vá v. exc.^a apanhar ar d'essa janella. - -Ella forçou os labios brancos a um sorriso: - ---É conselho de medico? - ---Oh, minha senhora, não são as horas da minha consulta! É apenas -caridade de christão. - -Mas de repente a condessa chamou o Taveira, que ria, derretido, com a -marqueza de Soutal, para o reprehender por elle não ter apparecido -terça-feira na rua de S. Marçal. Surprehendido com tanto interesse, -tanta familiaridade, o Taveira, muito vermelho, balbuciou que nem sabia, -fôra o seu infortunio, tinham-se mettido umas coisas... - ---Além d'isso não imaginei que v. exc.^a começasse a receber tão cedo... -V. exc.^a antigamente era só depois da Cerração da Velha. Até me lembro -que o anno passado... - -Mas emmudeceu. O conde de Gouvarinho voltára-se, pousando a mão -carinhosa no hombro de Carlos, desejando a sua impressão sobre o «nosso -Rufino». Elle conde estava encantado! Encantado sobretudo com a -_variedade d'escala_, aquella arte tão difficil de passar do solemne -para o ameno, de descer das grandes rajadas para os brincados de -linguagem. Extraordinario! - ---Tenho ouvido grandes parlamentares, o Rouher, o Gladstone, o Canovas, -outros muitos. Mas não são estes vôos, esta opulencia... É tudo muito -sêcco, idéas e factos. Não entra n'alma! Vejam os amigos aquella imagem -tão pujante, tão respeitosa, do Anjo da Esmola, descendo devagar, com as -azas de setim... É de primeira ordem. - -Ega não se conteve: - ---Eu acho esse genio um imbecil. - -O conde sorriu, como á tonteria d'uma criança: - ---São opiniões... - -E estendeu em redor as mãos ao Sousa Netto, ao Darque, ao Telles da -Gama, a outros que se juntavam ao rancho intimo--emquanto os seus -correligionarios, os seus collegas do Centro e da Camara, o Gonçalo, o -Neves, o Vieira da Costa rondavam de longe, sem poder roçar pelo -ministro que tinham creado, agora que elle conversava e ria com rapazes -e senhoras da «sociedade». O Darque, que era parente do Gouvarinho, quiz -saber como o amigo Gastão se ia dando com os encargos do Poder... O -conde declarou para os lados que não fizera mais por ora do que passar -em revista os elementos com que contava para atacar os problemas... De -resto, em questões de trabalho, o ministerio fôra infelicissimo! O -presidente do conselho de cama com uma catarrheira, inutil para uma -semana. Agora o collega da fazenda com as febres do Aterro... - ---Está melhor? Já sae? foi em torno a pergunta cheia de cuidado. - ---Está na mesma, vai ámanhã para o Dáfundo. Mas realmente esse não se -acha de todo inutilisado. Ainda hontem eu lhe dizia: «Você parte para o -Dáfundo, leva os seus papeis, os seus documentos... Pela manhã dá os -seus passeios, respira o bom ar... E á noite, depois de jantar, á luz do -candieiro, entretem-se a resolver a questão de fazenda!» - -Uma campainha retiniu. D. José Sequeira, escarlate d'azafama, veio, -furando, annunciar a s. exc.^a o fim do intervallo--offerecer o braço á -snr.^a condessa. Ao passar, ella lembrou a Carlos as suas -«terças-feiras», com a delicada simplicidade d'um dever. Elle curvou-se -em silencio. Era como se todo o passado, o sofá que rolava, a casa da -titi em Santa Isabel, as tipoias em que ella deixava o seu cheiro de -verbena--fossem coisas lidas por ambos n'um livro e por ambos -esquecidas. Atraz, o marido seguia, erguendo alto a cabeça e as lunetas, -como representante do Poder n'aquella festa da Intelligencia. - ---Pois senhores, disse o Ega afastando-se com Carlos, a mulherzinha tem -topete! - ---Que diabo queres tu? Atravessou a sua hora de tolice e de paixão, e -agora continúa tranquillamente na rotina da vida. - ---E na rotina da vida, concluiu Ega, encontra-se a cada passo comtigo, -que a viste em camisa!... Bonito mundo! - -Mas o Alencar appareceu no alto da escada, voltando do botequim e da -genebra, com um brilho maior no olho cavo, de paletot no braço, já -preparado para gorgear. E o marquez juntou-se a elles, abafado no -cache-nez de sêda branca, mais rouco, queixando-se de que a cada minuto -a garganta se lhe punha peor... Aquella canalha d'aquella garganta ainda -lhe vinha a pregar uma!... - -Depois, muito sério, considerando o Alencar: - ---Ouve lá, isso que tu vaes recitar, a _Democracia_, é politica ou -sentimento? Se é politica, raspo-me. Mas se é sentimento, e a -humanidade, e o santo operario, e a fraternidade, então fico, que d'isso -gósto e até talvez me faça bem. - -Os outros affirmaram que era sentimento. O poeta tirou o chapéo, passou -os dedos pelos anneis fôfos da grenha inspirada: - ---Eu vos digo, rapazes... Uma coisa não vai sem a outra, vejam vocês -Danton!... Mas já não fallo emfim d'esses leões da Revolução. Vejam -vocês o Passos Manoel! Está claro, é necessario logica... Mas, tambem, -caramba, sêbo para uma politica sem entranhas e sem um bocado de -infinito! - -Subitamente, por sobre o novo silencio da sala, um vozeirão mais forte -que o do Rufino fez retumbar os grandes nomes de D. João de Castro e de -Affonso d'Albuquerque... Todos se acercaram da porta, curiosamente. Era -um maganão gordo, de barba em bico e camelia na casaca, que, de mão -fechada no ar como se agitasse o pendão das Quinas, lamentava aos berros -que nós portuguezes, possuindo este nobre estuario do Tejo e tão -formosas tradições de gloria, deixassemos esbanjar, ao vento do -indifferentismo, a sublime herança dos avós!... - ---É patriotismo, disse o Ega. Fujamos! - -Mas o marquez reteve-os, gostando tambem de um bocado de Quinas. E foi o -pobre marquez que o patriota pareceu interpellar, alçando na ponta dos -botins o corpanzil rotundo, aos urros. Quem havia agora ahi, que, -agarrando n'uma das mãos a espada e na outra a cruz, saltasse para o -convés d'uma caravella a ir levar o nome portuguez através dos mares -desconhecidos? Quem havia ahi, heroico bastante, para imitar o grande -João de Castro, que na sua quinta de Cintra arrancára todas as arvores -de fructo, tal a era a isenção da sua alma de poeta?... - ---Aquelle miseravel quer-nos privar da sobremesa! exclamou Ega. - -Em torno correram risos alegres. O marquez virou costas, enojado com -aquella patriotice reles. Outros bocejavam por traz da mão, n'um tedio -completo de «todas as nossas glorias». E Carlos, enervado, preso alli -pelo dever de applaudir o Alencar, chamava o Ega para irem abaixo ao -botequim espairecer a impaciencia--quando viu o Eusebiosinho que descia -a escada, enfiando á pressa um paletot alvadio. Não o encontrára mais -desde a infamia da _Corneta_, em que elle fôra «embaixador». E a cólera -que tivera contra elle n'esse dia reviveu logo n'um desejo irresistivel -de o espancar. Disse ao Ega: - ---Vou aproveitar o tempo, emquanto esperamos pelo Alencar, a arrancar as -orelhas áquelle maroto! - ---Deixa lá, acudiu Ega, é um irresponsavel! - -Mas já Carlos corria pelas escadas: Ega seguiu atraz, inquieto, temendo -uma violencia. Quando chegaram á porta, Eusebio mettera para os lados do -Carmo. E alcançaram-no no largo da Abegoaria, áquella hora deserto, -mudo, com dois bicos de gaz mortiços. Ao vêr Carlos fender assim sobre -elle, sem paletot, de peitilho claro na noite escura, o Eusebio, -encolhido, balbuciou atarantadamente: «Olá, por aqui...» - ---Ouve cá, estupôr! rugiu Carlos, baixo. Então tambem andaste mettido -n'essa maroteira da _Corneta_? Eu devia rachar-te os ossos um a um! - -Agarrára-lhe o braço, ainda sem odio. Mas, apenas sentiu na sua mão de -forte aquella carne mollenga e tremula, resurgiu n'elle essa aversão -nunca apagada--que já em pequeno o fazia saltar sobre o Eusebiosinho, -esfrangalhal-o, sempre que as Silveiras o traziam á quinta. E então -abanou-o, como outr'ora, furiosamente, gozando o seu furor. O pobre -viuvo, no meio das lunetas negras que lhe voavam, do chapéo coberto de -luto que lhe rolára nas lages, dançava, escanifrado e desengonçado. Por -fim Carlos atirou-o contra a porta d'uma cocheira. - ---Acudam! Aqui d'el-rei, policia! rouquejou o desgraçado. - -Já a mão de Carlos lhe empolgára as guelas. Mas Ega interveio: - ---Alto! Basta! O nosso querido amigo já recebeu a sua dóse... - -Elle mesmo lhe apanhou o chapéo. Tremendo, arquejando, de bruços, -Eusebiosinho procurava ainda o guarda-chuva. E, para findar, a bota de -Carlos, atirada com nojo, estatelou-o nas pedras, para cima d'uma -sargeta onde restavam immundicies e humidade de cavallo. - -O largo permanecia deserto, com o gaz adormecendo nos candieiros baços. -Tranquillamente os dois recolheram ao sarau. No peristylo, cheio de luz -e plantas, cruzaram-se com o patriota de barbas em bico, rodeado -d'amigos, em caminho para o botequim, limpando ao lenço o pescoço e a -face, exclamando com o cansaço radiante d'um triumphador: - ---Irra! custou, mas sempre lhes fiz vibrar a corda! - -Já o Alencar estaria gorgeando! Os dois amigos galgaram a escada. E com -effeito Alencar apparecera no estrado, onde ardia ainda o candelabro de -duas velas. - -Esguio, mais sombrio n'aquelle fundo côr de canario, o poeta derramou -pensativamente pelas cadeiras, pela galeria, um olhar encovado e lento: -e um silencio pesou, mais enlevado, diante de tanta melancolia e de -tanta solemnidade. - ---_A Democracia!_ annunciou o auctor d'_Elvira_, com a pompa d'uma -revelação. - -Duas vezes passou pelos bigodes o lenço branco, que depois atirou para a -mesa. E levantando a mão n'um gesto demorado e largo: - - - Era n'um parque. O luar - Sobre os vastos arvoredos, - Cheios de amor e segredos... - - ---Que lhe disse eu? exclamou o Ega, tocando no cotovêlo do marquez. É -sentimento... Aposto que é o festim! - -E era com effeito o festim, já cantado na _Flôr de Martyrio_, festim -romantico, n'um vago jardim onde vinhos de Chypre circulam, caudas de -brocado rojam entre macissos de magnolias, e das aguas do lago sobem -cantos ao gemer dos violoncellos... Mas bem depressa transpareceu a -severa idéa social da Poesia. Emquanto, sob as arvores radiantes de -luar, tudo são «risos, brindes, lascivos murmurios»--fóra, junto ás -grades douradas do parque, assustada com o latir dos molossos, uma -mulher macilenta, em farrapos, chora, aconchegando ao seio magro o filho -que pede pão... E o poeta, sacudindo os cabellos para traz, perguntava -porque havia ainda esfomeados n'este orgulhoso seculo XIX? De que -servira então, desde Spartacus, o esforço desesperado dos homens para a -Justiça e para a Igualdade? De que servira então a cruz do grande -Martyr, erguida além na collina, onde, por entre os abetos - - - Os raios do sol se somem, - O vento triste se cala... - E as aguias revolteando - D'entre as nuvens estão olhando - Morrer o filho do Homem! - - -A sala permanecia muda e desconfiada. E o Alencar, com as mãos tremendo -no ar, desolava-se de que todo o Genio das gerações fosse impotente para -esta coisa simples--dar pão á criança que chora! - - - Martyrio do coração! - Espanto da consciencia! - Que toda a humana sciencia - Não solva a negra questão! - Que os tempos passem e rolem - E nenhuma luz assome, - E eu veja d'um lado a fome - E do outro a indigestão! - - -Ega torcia-se, fungando dentro do lenço, jurando que rebentava. «_E do -outro a indigestão!_» Nunca, nas alturas lyricas, se gritára nada tão -extraordinario! E sujeitos graves, em redor, sorriam d'aquelle -_realismo_ sujo. Um jocoso lembrou que para indigestões já havia o -bi-carbonato de potassa. - ---Quando não são das minhas! rosnou um cavalheiro esverdinhado, que -alargava a fivela do collete. - -Mas tudo emmudeceu ante um _chut_ terrivel do marquez, que desapertára o -cache-nez, já excitado, no enternecimento que sempre lhe davam estes -humanitarismos poeticos. E entretanto, no estrado, o Alencar achára a -solução do soffrimento humano! Fôra uma Voz que lh'a ensinára! Uma Voz -sahida do fundo dos seculos, e que através d'elles, sempre suffocada, -viera crescendo todavia irresistivelmente desde o Golgotha até á -Bastilha! E então, mais solemne por traz da mesa, com um arranque de -Precursor e uma firmeza de Soldado, como se aquelle honesto movel de -mogno fosse um pulpito e uma barricada--o Alencar, alçando a fronte -n'uma grande audacia á Danton, soltou o brado temeroso. Alencar queria a -Republica! - -Sim, a Republica! Não a do Terror e a do odio, mas a da mansidão e do -Amor. Aquella em que o Millionario sorrindo abre os braços ao Operario! -Aquella que é Aurora, Consolação, Refugio, Estrella mystica e Pomba... - - - Pomba da Fraternidade, - Que estendendo as brancas azas - Por sobre os humanos lodos, - Envolve os seus filhos todos - Na mesma santa Igualdade!... - - -Em cima, na galeria, resoou um _bravo_ ardente. E immediatamente, para o -suffocar, sujeitos sérios lançaram, aqui e além: «Chut, silencio!» Então -Ega ergueu as mãos magras, bem alto, berrou com um destaque atrevido: - ---Bravo! Muito bem! Bravo! - -E todo pallido da sua audacia, entalando o monoculo, declarou para os -lados: - ---Aquella democracia é absurda... Mas que os burguezes se dêem ares -intolerantes, isso não! Então applaudo eu! - -E as suas mãos magras de novo se ergueram, bem alto, junto das do -marquez que retumbavam como malhos. Outros em volta, immediatamente, não -se querendo mostrar menos democratas que o Ega e aquelle fidalgo de tão -grande linhagem, reforçaram os _bravos_ com calor. Já pela sala se -voltavam olhares inquietos para aquelle grupo cheio de revolução. Mas um -silencio cahiu, mais commovido e grave, quando o Alencar (que -inspiradamente previra a intolerancia burgueza) perguntou em estrophes -iradas o que detestavam, o que receavam elles, no advento sublime da -Republica? Era o pão carinhoso dado á criança? Era a mão justa estendida -ao proletario? Era a esperança? Era a aurora? - - - Receaes a grande luz? - Tendes medo do Abecê?... - Então castigai quem lê, - Voltai á plebe soez! - Recuai sempre na Historia, - Apagai o gaz nas ruas, - Deixai as crianças nuas, - E venha a forca outra vez! - - -Palmas, mais numerosas, já sinceras, estalaram pela sala, que cedia -emfim ao repetido encanto d'aquelle lyrismo humanitario e sonoro. Já não -importava a Republica, os seus perigos. Os versos rolavam, cantantes e -claros; e a sua onda larga arrastava os espiritos mais positivos. Sob -aquelle bafo de sympathia Alencar sorria, com os braços abertos, -annunciando uma a uma, como perolas que se desfiam, todas as dadivas que -traria a Republica. Debaixo da sua bandeira, não vermelha mas branca, -elle via a terra coberta de searas, todas as fomes satisfeitas, as -nações cantando nos valles sob o olhar risonho de Deus. Sim, porque -Alencar não queria uma Republica sem Deus! A Democracia e o -Christianismo, como um lirio que se abraça a uma espiga, completavam-se, -estreitando os seios! A rocha do Golgotha tornava-se a tribuna da -Convenção! E para tão dôce ideal não se necessitavam cardeaes, nem -missaes, nem novenas, nem igrejas. A Republica, feita só de pureza e de -fé, reza nos campos; a lua cheia é hostia; os rouxinoes entoam o _tantum -ergo_ nos ramos dos loureiraes. E tudo prospéra, tudo refulge--ao mundo -do Conflicto substitue-se o mundo do Amor... - - - Á espada succede o arado, - A Justiça ri da Morte, - A escóla está livre e forte, - E a Bastilha derrocada. - Róla a tiára no lodo, - Brota o lirio da Igualdade, - E uma nova Humanidade - Planta a cruz na barricada! - - -Uma rajada farta e franca de _bravos_ fez oscillar as chammas do gaz! -Era a paixão meridional do verso, da sonoridade, do Liberalismo -romantico, da imagem que esfuzia no ar com um brilho crepitante de -foguete, conquistando emfim tudo, pondo uma palpitação em cada peito, -levando chefes de repartição a berrarem, estirados por cima das damas, -no enthusiasmo d'aquella republica onde havia rouxinoes! E quando -Alencar, alçando os braços ao tecto, com modulações de _preghiera_ na -voz roufenha, chamou para a terra essa pomba da Democracia, que erguera -o vôo do Calvario, e vinha com largos sulcos de luz--foi um -enternecimento banhando as almas, um fundo arrepio d'extasi. As senhoras -amolleciam nas cadeiras, com a face meia voltada ao céo. No salão -abrazado perpassavam frescuras de capella. As rimas fundiam-se n'um -murmurio de ladainha, como evoladas para uma Imagem que pregas de setim -cobrissem, estrellas d'ouro coroassem. E mal se sabia já se Essa, que se -invocava e se esperava, era a deusa da Liberdade--ou Nossa Senhora das -Dôres. - -Alencar no emtanto via-a descer, espalhando um perfume. Já Ella tocava -com os seus pés divinos os valles humanos. Já do seu seio fecundo -trasbordava a universal abundancia. Tudo reflorescia, tudo rejuvenescia: - - - As rosas têm mais aroma! - Os fructos têm mais doçura! - Brilha a alma clara e pura, - Solta de sombras e véos... - Foge a dôr espavorida, - Foi-se a fome, foi-se a guerra, - O homem canta na terra, - E Christo sorri nos céos!... - - -Uma acclamação rompeu, immensa e rouca, abalando os muros côr de -canario. Moços exaltados treparam ás cadeiras, dois lenços brancos -fluctuavam. E o poeta, tremulo, exhausto, rolou pela escada até aos -braços que se lhe estendiam frementes. Elle suffocava, murmurava: -«filhos! rapazes!...» Quando Ega correu do fundo, com Carlos, -gritando--«Fôste extraordinario, Thomaz!»--as lagrimas saltaram dos -olhos do Alencar, quebrado todo d'emoção. - -E ao longo da coxia a ovação continuou, feita de palmadinhas pelo -hombro, de _shake-hands_ da gente séria, de «muitos parabens a v. -exc.^a!» Pouco a pouco elle erguia a cabeça, n'um altivo sorriso que lhe -mostrava os dentes maus, sentindo-se o poeta da Democracia, consagrado, -ungido pelo triumpho, com a inesperada missão de libertar almas! D. -Maria da Cunha puxou-lhe pela manga quando elle passou, para murmurar, -encantada, que achára--«lindissimo, lindissimo». E o poeta, estonteado, -exclamou: «Maria, é necessario luz!» Telles da Gama veio bater-lhe nas -costas affirmando-lhe que «piára esplendidamente». E Alencar, -inteiramente perdido, balbuciou: «_Sursum corda_, meu Telles, _sursum -corda_!» - -Ega no emtanto, através do tumulto, farejava buscando Carlos que -desapparecera depois dos abraços ao Alencar. Taveira assegurou-lhe que -Carlos passára para o botequim. Depois em baixo um garoto jurou que o -snr. D. Carlos tomára uma tipoia e ia já virando o Chiado... - -Ega ficou á porta hesitando se aturaria o resto do sarau. N'esse momento -o Gouvarinho, trazendo a condessa pelo braço, descia rapidamente, com a -face toda contrariada e sombria. O trintanario de ss. exc.^{as} correu a -chamar o coupé. E quando o Ega se acercou, sorrindo, para saber que -impressão lhes deixára o grande triumpho democratico do Alencar--a -profunda cólera do Gouvarinho escapou-se-lhe, mal contida, por entre os -dentes cerrados: - ---Versos admiraveis, mas indecentes! - -O coupé avançou. Elle teve apenas tempo de rosnar ainda, surdamente, -apertando a mão ao Ega: - ---N'uma festa de sociedade, sob a protecção da rainha, diante d'um -ministro da corôa, fallar de barricadas, prometter mundos e fundos ás -classes proletarias... É perfeitamente indecente! - -Já a condessa enfiára a portinhola, apanhando a larga cauda de sêda. O -ministro mergulhou tambem furiosamente na sombra do coupé. Junto ás -rodas passou choutando, n'uma pileca branca, o correio agaloado. - -Ega ia subir. Mas o marquez appareceu, abafado n'um gabão d'Aveiro, -fugindo a um poeta de grandes bigodes que ficára em cima a recitar -quadrinhas miudinhas a uns olhinhos galantinhos: e o marquez detestava -versos feitos a partes do corpo humano. Depois foi o Cruges que surgiu -do botequim, abotoando o paletot. Então, perante essa debandada de todos -os amigos, Ega decidiu abalar tambem, ir tomar o seu _grog_ ao Gremio -com o maestro. - -Metteram o marquez n'uma tipoia--e elle e Cruges desceram a rua Nova da -Trindade, devagar, no encanto estranho d'aquella noite d'inverno, sem -estrellas, mas tão macia que n'ella parecia andar perdido um bafo de -maio. - -Passavam á porta do _Hotel Alliança_ quando Ega sentiu alguem, que se -apressava, chamar atraz: «Ó snr. Ega! V. exc.^a faz favor, snr. -Ega?...»--Parou, reconheceu o chapéo recurvo, as barbas brancas do snr. -Guimarães. - ---V. exc.^a desculpe! exclamou o demagogo esbaforido. Mas vi-o descer, -queria-lhe dar duas palavras, e como me vou embora ámanhã... - ---Perfeitamente... Ó Cruges, vai andando, já te apanho! - -O maestro estacionou á esquina do Chiado. O snr. Guimarães pedia de novo -desculpa. De resto eram duas curtas palavras... - ---V. exc.^a, segundo me disseram, é o grande amigo do snr. Carlos da -Maia... São como irmãos... - ---Sim, muito amigos... - -A rua estava deserta, com alguns garotos apenas á porta alumiada da -Trindade. Na noite escura a alta fachada do _Alliança_ lançava sobre -elles uma sombra maior. Todavia o snr. Guimarães baixou a voz cautelosa: - ---Aqui está o que é... V. exc.^a sabe, ou talvez não saiba, que eu fui -em Paris intimo da mãi do snr. Carlos da Maia... V. exc.^a tem pressa, e -não vem agora a proposito essa historia. Basta dizer que aqui ha annos -ella entregou-me, para eu guardar, um cofre que, segundo dizia, continha -papeis importantes... Depois naturalmente, ambos tivemos muitas outras -coisas em que pensar, os annos correram, ella morreu. N'uma palavra, -porque v. exc.^a está com pressa: eu conservo ainda em meu poder esse -deposito, e trouxe-o por acaso quando vim agora a Portugal por negocios -da herança de meu irmão... Ora hoje justamente, alli no theatro, comecei -a reflectir que o melhor era entregal-o á familia... - -O Cruges mexeu-se impaciente: - ---Ainda te demoras? - ---Um instante! gritou Ega, já interessado por aquelles papeis e pelo -cofre. Vai andando. - -Então o snr. Guimarães, á pressa, resumiu o pedido. Como sabia a -intimidade do snr. João da Ega e de Carlos da Maia, lembrára-se de lhe -entregar o cofresinho para que elle o restituisse á familia... - ---Perfeitamente! acudiu Ega. Eu estou mesmo em casa dos Maias, no -Ramalhete. - ---Ah, muito bem! Então v. exc.^a manda um criado de confiança ámanhã -buscal-o... Eu estou no _Hotel de Paris_, no Pelourinho. Ou melhor -ainda: levo-lh'o eu, não me dá incommodo nenhum, apesar de ser dia de -partida... - ---Não, não, eu mando um criado! insistiu o Ega estendendo a mão ao -democrata. - -Elle estreitou-lh'a com calor. - ---Muito agradecido a v. exc.^a! Eu junto-lhe então um bilhete e v. -exc.^a entrega-o da minha parte ao Carlos da Maia, ou á irmã. - -Ega teve um movimento d'espanto: - ---Á irmã!... A que irmã? - -O snr. Guimarães considerou Ega tambem com assombro. E abandonando-lhe -lentamente a mão: - ---A que irmã!? Á irmã d'elle, á unica que tem, á Maria! - -Cruges, que batia as solas no lagedo, enfastiado gritou da esquina: - ---Bem, eu vou andando para o Gremio. - ---Até logo! - -O snr. Guimarães, no emtanto, passava os dedos calçados de pellica preta -pelos longos fios da barba, fitando o Ega, n'um esforço de penetração. E -quando Ega lhe travou do braço, pedindo-lhe para conversarem um pouco -até ao Loreto, o democrata deu os primeiros passos com uma lentidão -desconfiada. - ---Eu parece-me, dizia o Ega sorrindo, mas nervoso, que nós estamos aqui -a enrodilhar-nos n'um equivoco... Eu conheço o Maia desde pequeno, vivo -até agora em casa d'elle, posso afiançar-lhe que não tem irmã nenhuma... - -Então o snr. Guimarães começou a rosnar umas desculpas embrulhadas que -mais enervavam, torturavam o Ega. O snr. Guimarães imaginava que não era -segredo, que todas essas coisas da irmã estavam esquecidas, desde que -houvera reconciliação... - ---Como vi, ainda não ha muitos dias, o snr. Carlos da Maia com a irmã e -com v. exc.^a, na mesma carruagem, no caes do Sodré... - ---O quê! Aquella senhora! A que ia na carruagem? - ---Sim! exclamou o snr. Guimarães irritado, farto emfim d'essa confusão -em que se debatiam. Aquella mesma, a Maria Eduarda Monforte, ou a Maria -Eduarda Maia, como quizer, que eu conheci de pequena, com quem andei -muitas vezes ao collo, que fugiu com o Mac-Gren, que esteve depois com a -besta do Castro Gomes... Essa mesma! - -Era ao meio do Loreto sob o lampeão de gaz. E o snr. Guimarães de -repente estacou, vendo os olhos do Ega esgazearem-se de horror, uma -terrivel pallidez cobrir-lhe a face. - ---V. exc.^a não sabia nada d'isto? - -Ega respirou fortemente, arredando o chapéo da testa sem responder. -Então o outro, embaçado, terminou por encolher os hombros. Bem, via que -tinha feito uma tolice! A gente nunca se devia intrometter nos negocios -alheios! Mas acabou-se! Imaginasse o snr. Ega que aquillo fôra um -pesadêlo, depois da versalhada do sarau! Pedia desculpa sinceramente--e -desejava ao snr. João da Ega muitissimo boas noites. - -Ega, como a um clarão de relampago, entrevira toda a catastrophe: e -agarrou avidamente o braço do snr. Guimarães, n'um terror que elle -abalasse, desapparecesse, levando para sempre o seu testemunho, esses -papeis, o cofre da Monforte, e com elles a certeza--a certeza por que -agora anciava. E através do Loreto, vagamente, foi balbuciando, -justificando a sua emoção, para tranquillisar o homem, poder lentamente -arrancar-lhe as coisas que soubesse, as provas, a verdade inteira. - ---O snr. Guimarães comprehende... Isto são coisas muito delicadas, que -eu suppunha absolutamente ignoradas de todos... De modo que fiquei -embatucado, fiquei tonto, quando o ouvi assim de repente fallar d'ellas -com essa simplicidade... Porque emfim, aqui para nós, essa senhora não -passa em Lisboa por irmã de Carlos. - -O snr. Guimarães atirou logo a mão n'um grande gesto. Ah, bem! Então era -jogo com elle? Pois tinha feito o snr. Ega perfeitamente... Com certeza -eram coisas muito sérias, que necessitavam toda a sorte de véos... Elle -comprehendia, comprehendia muito bem!... E realmente, dada a posição dos -Maias em Lisboa, na sociedade, aquella senhora não era irmã que se -apresentasse. - ---Mas a culpa não a teve ella, meu caro senhor! Foi a mãi, foi aquella -extraordinaria mãi que o Diabo lhe deu!... - -Desciam o Chiado. Ega parou um momento, devorando o velho com olhos de -febre: - ---O snr. Guimarães conheceu muito essa senhora, a Monforte? - -Intimamente! Já a conhecera em Lisboa--mas de longe, como mulher de -Pedro da Maia. Depois viera essa tragedia, ella fugira com o italiano. -Elle abalára tambem para Paris n'esse anno, com uma Clemence, uma -costureira da Levaillant: e, umas coisas enfiando n'outras, negocios e -desgraças, por lá ficára para sempre! Emfim, não era a sua vida que lhe -ia contar... Só mais tarde encontrára a Monforte, uma noite, no baile -Laborde: e d'ahi datavam as suas relações. A esse tempo já o italiano -morrera n'um duello, e o velho Monforte espichára da bexiga. Ella estava -então com um rapaz chamado Trevernnes--n'uma casa bonita, no Parc -Monceaux, em grande chic... Mulher extraordinaria! E não se envergonhava -de confessar que lhe devia obrigações! Quando essa rapariga, a Clemence, -que era um encanto, adoecera do peito, a Monforte trazia-lhe flôres, -frutas, vinhos, fazia-lhe companhia, velava-a como um anjo... Porque lá -isso coração largo e generoso até alli! Esta, a filha, a D. Maria, tinha -então sete ou oito annos, linda como os amores... E houvera uma outra -pequena do italiano, muito galantinha tambem. Oh! muito galantinha -tambem! Mas morrera em Londres, essa... - ---E com esta Maria andei muitas vezes ao collo, meu caro senhor... Não -sei se ella ainda se lembra d'uma boneca que eu lhe dei, que fallava, -dizia _Napoléon_... Era no bello tempo do Imperio, até as -desavergonhadas das bonecas eram imperialistas! Depois, quando ella -estava em Tours, no convento, fui lá duas vezes com a mãi. Já então os -meus principios me não permittiam entrar n'esses covis religiosos: mas -emfim fui acompanhar a mãi... E quando ella fugiu com o irlandez, o -Mac-Gren, foi commigo que a mãi veio ter, furiosa, a querer que eu -chamasse o commissario de policia para se prender o irlandez. Por fim -metteu-se n'um _fiacre_, foi para Fontainebleau, lá fez as pazes, viviam -até juntos... Emfim uma série de trapalhadas. - -Um suspiro cansado escapou-se do peito do Ega, que arrastava os passos, -succumbido: - ---E esta senhora, está claro, não sabia então de quem era filha... - -O snr. Guimarães encolheu os hombros: - ---Nem suspeitava que existissem Maias sobre a face da terra! A Monforte -dissera-lhe sempre que o pai era um fidalgo austriaco com quem ella -casára na Madeira... Uma mixordia, meu caro senhor, uma mixordia! - ---É horrivel! murmurou Ega. - -Mas, dizia o snr. Guimarães, que podia tambem fazer a Monforte? Que -diabo, era duro confessar á filha: «Olha que eu fugi a teu pai, e elle -por causa d'isso matou-se!» Não tanto pela questão de pudor; a rapariga -devia perceber que a mãi tinha amantes, ella mesma aos dezoito annos, -coitadinha, já tinha um; mas por causa do tiro, do cadaver, do sangue... - ---A mim mesmo! exclamou o snr. Guimarães, parando, alargando os braços -na rua deserta. A mim mesmo nunca ella fallou do marido, nem de Lisboa, -nem de Portugal. Lembra-me até uma occasião em casa da Clemence, que eu -alludi a um cavallo lazão, um cavallo de Pedro da Maia, em que ella -costumava montar. Animal soberbo! Mas nem mencionei o marido, fallei só -do cavallo. Pois senhores, bate com o leque em cima da mesa, grita como -uma bicha:--_Dites donc, mon cher, vous m'embêtez avec ces histoires de -l'autre monde_!... Com effeito, bem o podia dizer, eram historias do -outro mundo! Para encurtar: estou convencido que nos ultimos tempos ella -mesmo julgava que Pedro da Maia nunca existira. Uma insensata! Por fim -até bebia... Mas acabou-se! Tinha grande coração, e portou-se muito bem -com a Clemence. _Parce sepultis!_ - ---É horrivel! murmurou outra vez o Ega, tirando o chapéo, correndo a mão -tremula pela testa. - -E agora o seu unico desejo era a accumulação incessante de provas, de -detalhes. Fallou então d'esses papeis, d'esse cofre da Monforte. O snr. -Guimarães não sabia o que elles continham; e não se admiraria se fossem -apenas contas de modista, ou pedaços velhos do _Figaro_ em que se -fallava d'ella... - ---É uma caixita pequena que a Monforte me deu, na vespera de partir para -Londres com a filha. Era no tempo da guerra... Já a Maria vivia com o -irlandez, tinha mesmo uma pequena, a Rosa. Depois veio a Communa, todos -aquelles desastres. Quando a Monforte voltou de Londres eu estava em -Marselha. Foi então que a pobre Maria se metteu com o Castro Gomes, -creio que para não morrer de fome... Eu recolhi a Paris, mas não vi mais -a Monforte, que já estava muito doente... Á Maria, collada então a essa -besta do Castro Gomes, um pedante, um _rastaquouère_ mesmo a calhar para -a guilhotina, não tornei tambem a fallar. Se a encontrava era um -comprimento de longe, como n'outro dia, quando a vi na carruagem com v. -exc.^a e com o irmão... De sorte que fui ficando com os papeis. Nem a -fallar a verdade, com estas coisas todas de politica, me lembrei mais -d'elles. E agora ahi estão, ás ordens da familia. - ---Se isso não fosse incommodo para v. exc.^a, acudiu Ega, eu passava -agora pelo seu hotel e levava-os logo commigo... - ---Incommodo nenhum! Estamos em caminho, é negocio que fica feito! - -Algum tempo seguiram calados. O sarau decerto acabára. Um bater de -carruagens atroava as descidas do Chiado. Junto d'elles passaram duas -senhoras, com um rapaz que bracejava, fallando alto do Alencar. O snr. -Guimarães tirára lentamente do bolso a charuteira: depois parando, para -raspar um phosphoro: - ---Então a D. Maria passa simplesmente por parenta?... E como soube ella? -Como foi isso? - -Ega, que caminhava com a cabeça cahida, estremeceu como se acordasse. E -começou a tartamudear uma historia confusa, de que elle mesmo córava na -sombra. Sim, Maria Eduarda passava por parenta. Fôra o procurador que -descobrira. Ella rompera com o Castro Gomes, com todo o passado. Os -Maias davam-lhe uma mezada; e vivia nos Olivaes, muito retirada, como -filha d'um Maia que morrera na Italia. Todos gostavam muito d'ella, -Affonso da Maia tinha grande ternura pela pequena... - -E de repente indignou-se com estas invenções por onde arrastava já o -nome do nobre velho, exclamou como se abafasse: - ---Emfim, nem eu sei, um horror! - ---Um drama! resumiu gravemente o snr. Guimarães. - -E como estavam no Pelourinho rogou ao Ega que esperasse um momento -emquanto elle corria acima buscar os papeis da Monforte. - -Só, no largo, Ega ergueu as mãos ao céo n'um desabafo mudo d'aquella -angustia em que caminhava, como um somnambulo, desde o Loreto. E a sua -unica sensação, bem clara--era a indestructivel certeza da historia do -Guimarães, tão compacta, sem uma lacuna, sem uma falha por onde rachasse -e se fizesse cahir aos pedaços. O homem conhecera Maria Monforte em -Lisboa, ainda mulher de Pedro da Maia, brilhando no seu cavallo lazão; -encontrára-a em Paris já fugida, depois da morte do primeiro amante, -vivendo com outros; andára então ao collo com Maria Eduarda a quem se -davam bonecas... E desde então não deixára mais de vêr Maria Eduarda, de -a seguir: em Paris; no convento de Tours; em Fontainebleau com o -irlandez; nos braços de Castro Gomes; n'uma tipoia de praça emfim com -elle e com Carlos da Maia, havia dias, no caes do Sodré! Tudo isto se -encadeava, concordando com a historia contada por Maria Eduarda. E de -tudo resaltava esta certeza monstruosa:--Carlos amante da irmã! - -Guimarães não descia. No segundo andar surgira uma luz viva, n'uma -janella aberta. Ega recomeçou a passear lentamente pelo meio do largo. E -agora, pouco a pouco, subia n'elle uma incredulidade contra esta -catastrophe de dramalhão. Era acaso verosimil que tal se passasse, com -um amigo seu, n'uma rua de Lisboa, n'uma casa alugada á mãi Cruges?... -Não podia ser! Esses horrores só se produziam na confusão social, no -tumulto da Meia-Idade! Mas n'uma sociedade burgueza, bem policiada, bem -escripturada, garantida por tantas leis, documentada por tantos papeis, -com tanto registro de baptismo, com tanta certidão de casamento, não -podia ser! Não! Não estava no feitio da vida contemporanea que duas -crianças separadas por uma loucura da mãi, depois de dormirem um -instante no mesmo berço, cresçam em terras distantes, se eduquem, -descrevam as parabolas remotas dos seus destinos--para quê? Para virem -tornar a dormir juntas no mesmo ponto, n'um leito de concubinagem! Não -era possivel. Taes coisas pertencem só aos livros, onde vêm, como -invenções subtis da arte, para dar á alma humana um terror novo... -Depois levantava os olhos para a janella alumiada--onde o snr. Guimarães -decerto rebuscava os papeis na mala. Alli estava porém esse homem com a -sua historia--em que não havia uma discordancia por onde ella pudesse -ser abalada!... E pouco a pouco aquella luz viva, sahida do alto, -parecia ao Ega penetrar n'essa intrincada desgraça, aclaral-a toda, -mostrar-lhe bem a lenta evolução. Sim, tudo isso era provavel no fundo! -Essa criança, filha d'uma senhora que a levára comsigo, cresce, é amante -d'um brazileiro, vem a Lisboa, habita Lisboa. N'um bairro visinho vive -outro filho d'essa mulher, por ella deixado, que cresceu, é um homem. -Pela sua figura, o seu luxo, elle destaca n'esta cidade provinciana e -pelintra. Ella por seu lado, loura, alta, esplendida, vestida pela -Laferrière, flôr d'uma civilisação superior, faz relêvo n'esta multidão -de mulheres miudinhas e morenas. Na pequenez da Baixa e do Aterro, onde -todos se acotovelavam, os dois fatalmente se cruzam: e com o seu brilho -pessoal, muito fatalmente se attrahem! Ha nada mais natural? Se ella -fosse feia e trouxesse aos hombros uma confecção barata da loja da -America, se elle fosse um mocinho encolhido de chapéo côco, nunca se -notariam e seguiriam diversamente nos seus destinos diversos. Assim, o -conhecerem-se era certo, o amarem-se era provavel... E um dia o snr. -Guimarães passa, a verdade terrivel estala! - -A porta do hotel rangeu no escuro, o snr. Guimarães adiantou-se, de boné -de sêda na cabeça, com o embrulho na mão. - ---Não podia dar com a chave da mala, desculpe v. exc.^a É sempre assim -quando ha pressa... E aqui temos o famoso cofre! - ---Perfeitamente, perfeitamente... - -Era uma caixa que parecia de charutos e que o democrata embrulhára n'um -velho numero do _Rappel_. Ega metteu-a no bolso largo do seu paletot: e -immediatamente, como se qualquer outra palavra entre elles fosse vã, -estendeu a mão ao snr. Guimarães. Mas o outro insistiu em o acompanhar -até á esquina da rua do Arsenal, apesar de estar de boné. A noite, para -quem vinha de Paris, tinha uma doçura oriental--e elle, com os seus -habitos de jornalista, nunca se deitava senão tarde, ás duas, tres horas -da madrugada... - -E então, caminhando devagar, com as mãos nos bolsos e o charuto entre os -dentes, o snr. Guimarães voltou á politica e ao sarau. A poesia do -Alencar (de que esperára muito por causa do titulo, _A Democracia_) -sahira-lhe consideravelmente chôcha. - ---Muita flôr, muita farofia, muita liberdade, mas não havia alli um -ataque em fórma, duas ou tres boas estocadas n'esta choldra da monarchia -e da côrte... Pois não é verdade? - ---Sim, com effeito...--murmurou Ega, olhando ao longe, na esperança -d'uma tipoia. - ---É como os jornaes republicanos que por ahi ha... Tudo uma palhada, -senhores, tudo uma balofice!... É o que eu lhes digo a elles:--«Ó almas -do diabo, atacai as questões sociaes!» - -Felizmente um trem avançava, rolando devagar, do lado do Terreiro do -Paço. Ega, precipitadamente, deu um aperto de mão ao democrata, -desejou-lhe uma «boa viagem», atirou ao cocheiro a adresse do Ramalhete. -Mas o snr. Guimarães ainda se apoderou da portinhola--para aconselhar ao -Ega que fosse a Paris. Agora, que tinham feito amizade, havia de o -apresentar a toda aquella gente... E o snr. Ega veria! Não era cá a -grande _pose_ portugueza, d'estes imbecis, d'estes pelintras a darem-se -ares, torcendo os bigodes. Lá, na primeira nação do mundo, tudo era -alegria e fraternidade e espirito a rodos... - ---E a minha adresse, na redacção do _Rappel_! Bem conhecida no mundo! -Emquanto ao embrulhosinho fico descançado... - ---Póde v. exc.^a ficar descançado! - ---Criado de v. exc.^a... Os meus comprimentos á snr.^a D. Maria! - -Na carruagem, através do Aterro, a anciosa interrogação do Ega a si -mesmo foi--«que hei de fazer?» Que faria, santo Deus, com aquelle -segredo terrivel que possuia, de que só elle era senhor, agora que o -Guimarães partia, desapparecia para sempre? E antevendo com terror todas -as angustias em que essa revelação ia lançar o homem que mais estimava -no mundo--a sua instinctiva idéa foi guardar para sempre o segredo, -deixal-o morrer dentro em si. Não diria nada; o Guimarães sumia-se em -Paris; e quem se amava continuava a amar-se!... Não crearia assim uma -crise atroz na vida de Carlos--nem soffreria elle, como companheiro, a -sua parte d'essas afflicções. Que coisa mais impiedosa, de resto, que -estragar a vida de duas innocentes e adoraveis creaturas, atirando-lhes -á face uma prova de incesto!... - -Mas, a esta idéa de _incesto_, todas as consequencias d'esse silencio -lhe appareceram, como coisas vivas e pavorosas, flammejando no escuro -diante dos seus olhos. Poderia elle tranquillamente testemunhar a vida -dos dois--desde que a sabia _incestuosa_? Ir á rua de S. Francisco, -sentar-se-lhes alegremente á mesa, entrevêr através do reposteiro a cama -em que ambos dormiam--e saber que esta sordidez de peccado era obra do -seu silencio? Não podia ser... Mas teria tambem coragem de entrar ao -outro dia no quarto de Carlos, e dizer-lhe em face--«Olha que tu és -amante de tua irmã?» - -A carruagem parára no Ramalhete. Ega subiu, como costumava, pela escada -particular de Carlos. Tudo estava apagado e mudo. Accendeu a sua -palmatoria; entreabriu o reposteiro dos aposentos de Carlos; deu alguns -passos timidos no tapete, que pareceram já soar tristemente. Um reflexo -d'espelho alvejou ao fundo na sombra da alcova. E a luz cahiu sobre o -leito intacto, com a sua longa colcha lisa, entre os cortinados de sêda. -Então a idéa que Carlos estava áquella hora na rua de S. Francisco, -dormindo com uma mulher que era sua irmã, atravessou-o com uma cruel -nitidez, n'uma imagem material, tão viva e real, que elle viu-os -claramente, de braços enlaçados, e em camisa... Toda a belleza de Maria, -todo o requinte de Carlos desappareciam. Ficavam só dois animaes, -nascidos do mesmo ventre, juntando-se a um canto como cães, sob o -impulso bruto do cio! - -Correu para o seu quarto, fugindo áquella visão a que o escuro do -corredor, mal dissipado pela luz tremula, accentuava mais o relêvo. -Aferrolhou a porta; accendeu á pressa sobre o toucador, uma depois da -outra, com a mão agitada, as seis velas dos candelabros. E agora -apparecia-lhe mais urgente, inevitavel, a necessidade de contar _tudo_ a -Carlos. Mas ao mesmo tempo sentia em si, a cada instante, menos animo -para chegar, encarar Carlos, e destruir-lhe a felicidade e a vida com -uma revelação d'incesto. Não podia! Outro que lh'o dissesse! Elle lá -estava depois para o consolar, tomar metade da sua dôr, carinhoso e -fiel. Mas o desgosto supremo da vida de Carlos não viria de palavras -cahidas da sua boca!... Outro que lh'o dissesse! Mas quem? Mil idéas -passavam na sua pobre cabeça, incoherentes e tontas. Pedir a Maria que -fugisse, desapparecesse... Escrever uma carta anonyma a Carlos, com a -detalhada historia do Guimarães... E esta confusão, esta anciedade ia-se -resolvendo lentamente em odio ao snr. Guimarães. Para que fallára -áquelle imbecil? Para que insistira em lhe confiar papeis alheios? Para -que lh'o apresentára o Alencar? Ah! se não fosse a carta do Damaso... -Tudo provinha do maldito Damaso! - -Agitando-se pelo quarto, ainda de chapéo, os seus olhos cahiram n'um -sobrescripto pousado sobre a mesa de cabeceira. Reconheceu a letra do -Villaça. E nem a abriu... Uma idéa sulcára-o de repente. Contar tudo ao -Villaça!... Porque não? Era o procurador dos Maias. Nunca para elle -houvera segredos n'aquella casa. E esta complicação singular d'uma -senhora da familia, considerada morta e que surge inesperadamente--a -quem a pertencia aclarar senão ao fiel procurador, ao velho confidente, -ao homem que, por herança e por destino, recebera sempre todos os -segredos e partilhára todos os interesses domesticos?... E sem pensar, -sem aprofundar mais, fixou-se logo n'esta decisão salvadora,--que ao -menos o socegava, lhe tirava já do coração um peso de ferro, suffocante -e intoleravel... - -Devia acordar cedo, procurar Villaça em casa. Escreveu n'uma folha de -papel--«Acorda-me ás sete». E desceu abaixo, ao longo corredor de pedra -onde dormiam os criados, dependurou este recado na chave do quarto do -escudeiro. - -Quando subiu, mais calmo,--abriu então a carta do Villaça. Era uma curta -linha lembrando ao amigo Ega que a letrinha de duzentos mil reis, no -Banco Popular, se vencia d'ahi a dois dias... - ---Sêbo, tudo se junta! exclamou Ega furioso, atirando a carta amarrotada -para o chão. - - - - -VII - - -Pontual, ás sete horas, o escudeiro acordou Ega. Ao rumor da porta elle -sentou-se na cama com um salto--e logo todos os negros cuidados da -vespera, Carlos, a irmã, a felicidade d'aquella casa acabada para -sempre, se lhe ergueram n'alma em sobresalto, como despertando tambem. A -portada da varanda ficára aberta; um ar silencioso e livido de madrugada -clareava através do transparente de fazenda branca. Durante um momento -Ega ficou olhando em redor, arrepiado; depois, sem coragem, remergulhou -nos lençoes, gozando aquelle bocado de calor e de conchêgo antes d'ir -affrontar fóra as amarguras do dia. - -E pouco a pouco, sob o tepido conchêgo dos cobertores em que se -atabafára, começou a afigurar-se-lhe menos urgente, e menos util, essa -correria estremunhada a casa do Villaça... De que servia procurar o -Villaça? Não se tratava alli de dinheiro, nem de demandas, nem de -legalidade--de nada que reclamasse a experiencia d'um procurador. Era -apenas introduzir um burguez mais n'um segredo tão terrivelmente -delicado que elle mesmo se assustava de o saber. E acochado mais sob a -roupa, apenas com o nariz ao frio, murmurava comsigo: «É uma tolice ir -ao Villaça!» - -De resto não poderia elle ajuntar em si bastante coragem para contar -tudo a Carlos, logo, n'essa manhã, claramente, virilmente? Era por fim -aquelle caso tão pavoroso como lhe parecera na vespera--um irreparavel -desabamento d'uma vida de homem?... Ao pé da quinta da mãe, em Celorico, -no logar de Vouzeias, houvera um successo parecido, dois irmãos que -innocentemente iam casar. Tudo se aclarou ao reunirem-se os papeis para -os _banhos_. Os noivos ficaram uns dias «embatucados», como dizia o -padre Seraphim; mas por fim já riam, muito amigos, muito divertidos, -quando se tratavam de «manos». O noivo, um rapagão bonito, contava -depois «que ia havendo uma mixordia na familia». Aqui o engano seguira -mais longe, as sensibilidades eram mais requintadas; mas os seus -corações permaneciam livres de toda a culpa, innocentes absolutamente. -Porque ficaria pois a existencia de Carlos para sempre estragada? A -inconsciencia impedia-lhe o remorso: e passado o primeiro horror, de que -lhe podia, na realidade, vir a definitiva dôr? Sómente do prazer ter -findado. Era então como outro qualquer desgosto d'amor. Bem menos atroz -do que se Maria o tivesse trahido com o Damaso! - -De repente a porta abriu-se, Carlos appareceu exclamando: - ---Então que madrugada foi esta? Disse-me agora lá em baixo o Baptista... -É aventura? duello? - -Trazia o paletot todo abotoado, com a gola erguida, escondendo ainda a -gravata branca da vespera; e decerto chegára da rua de S. Francisco na -tipoia que havia instantes Ega sentira parar na calçada. - -Elle sentára-se bruscamente na cama; e estendendo a mão para os -cigarros, sobre a mesa ao lado, murmurou, bocejando, que na véspera -combinára uma ida a Cintra com o Taveira... Por precaução mandára-se -chamar... Mas não sabia, acordára cansado... - ---Que tal está o dia? - -Justamente Carlos fôra correr o transparente da janella. Ahi, na mesa de -trabalho, collocada em plena luz, ficára a caixa da Monforte embrulhada -no _Rappel_. E Ega pensou n'um relance:--«Se elle repara, se pergunta, -digo tudo!»--O seu pobre coração pôz-se a bater anciosamente no terror -d'aquella decisão. Mas o transparente um pouco pêrro subiu, uma facha de -sol banhou a mesa--e Carlos voltou sem reparar no cofre. Foi um immenso -allivio para o Ega. - ---Então, Cintra? disse Carlos, sentando-se aos pés da cama. Com effeito -não é má idéa... A Maria ainda hontem esteve tambem a fallar d'ir a -Cintra... Espera! Podiamos fazer a patuscada juntos... Iamos no break, a -quatro! - -E olhava já o relogio, calculando o tempo para atrellar, avisar Maria. - ---O peor, acudiu o Ega atrapalhado, tomando de sobre a mesa o monoculo, -é que o Taveira fallou em irmos com umas raparigas... - -Carlos encolheu os hombros com horror. Que sordidez, ir com mulheres -para Cintra, de dia!... De noite, nas trevas, por bebedeira, vá... Mas á -luz do Senhor! Talvez com a Lola gorda, hein?... - -Ega embrulhou-se n'uma complicada historia, limpando o monoculo á ponta -do lençol. Não eram hespanholas... Pelo contrario, umas costureiras, -raparigas sérias... Elle tinha um compromisso antigo d'ir a Cintra com -uma d'ellas, filha d'um Simões, um estofador que fallira... Gente muito -séria!... - -Perante estes compromissos, tanta seriedade, Carlos desistiu logo da -idéa de Cintra. - ---Bem, acabou-se!... Vou então tomar banho e depois a negocios... E tu, -se fôres, traze-me umas queijadas para a Rosa, que ella gosta!... - -Apenas Carlos sahiu, Ega cruzou os braços desanimado, descorçoado, -sentindo bem que não teria coragem nunca de «dizer tudo». Que havia de -fazer?... E de novo, insensivelmente, se refugiou na idéa de procurar o -Villaça, entregar-lhe o cofre da Monforte. Não havia homem mais honesto, -nem mais pratico; e, pela mesma mediocridade do seu espirito burguez, -quem melhor para encarar aquella catastrophe sem paixão e sem nervos?... -E esta _falta de nervos_ do Villaça fixou-o definitivamente. - -Saltou então da cama, n'uma impaciencia, repicou a campainha. E emquanto -o criado não entrava, foi, com o robe-de-chambre aos hombros, examinar o -cofre da Monforte. Parecia com effeito uma velha caixa de charutos, -embrulhada n'um papel de dobras já sujas e gastas, com marcas de lacre -onde se distinguia uma divisa que seria decerto a da Monforte--_Pro -amore_. Na tampa tinha escripto n'uma letra de mulher -mal-ensinada--_Monsieur Guimaran, à Paris_. Ao sentir os passos do -criado deitou-lhe por cima uma toalha, que pendia ao lado, n'uma -cadeira. E d'ahi a meia hora rolava pelo Aterro n'uma tipoia descoberta, -mais animado, respirando largamente aquelle bello ar da manhã, fino e -fresco, que elle tão raras vezes gozava. - -Começou por uma contrariedade. Villaça já sahira: e a criada não sabia -bem se elle fôra para o escriptorio, se a uma vistoria ao Alfeite... Ega -largou para o escriptorio, na rua da Prata. O snr. Villaça ainda não -viera... - ---E a que horas virá? - -O escrevente, um rapaz macilento que torcia nervosamente sobre o collete -uma corrente de coral, balbuciou que o snr. Villaça não devia tardar, se -não tivesse atravessado, no vapor das nove, para o Alfeite... Ega desceu -desesperado. - ---Bem, gritou ao cocheiro, vai ao café Tavares... - -No Tavares, ainda solitario áquella hora, um moço areava o sobrado. E -emquanto esperava o almoço Ega percorreu os jornaes. Todos fallavam do -sarau, em linhas curtas, promettendo detalhes criticos, mais tarde, -sobre esse brilhante torneio artistico. Só a _Gazeta Illustrada_ se -alargava, com phrases sérias, tratando o Rufino de _grandioso_ o Cruges -de _esperançoso:_ no Alencar a _Gazeta_ separava o philosopho do poeta; -ao philosopho a _Gazeta_ lembrava com respeito que nem todas as -aspirações ideaes da philosophia, bellas como miragens de deserto, são -realisaveis na pratica social; mas ao poeta, ao creador de tão formosas -imagens, de tão inspiradas estancias, a _Gazeta_ desafogadamente -bradava--«bravo! bravo!» Havia ainda outras abominaveis sandices. Depois -seguia-se a lista das pessoas que a _Gazeta_ se recordava de ter visto, -entre as quaes «destacava com o seu monoculo o fino perfil de João da -Ega, sempre brilhante de _verve_.» Ega sorriu, cofiando o bigode. -Justamente o bife chegava, fumegante, chiando na frigideirinha de barro. -Ega pousou a _Gazeta_ ao lado, dizendo comsigo: «Não é nada mal feito, -este jornal!» - -O bife era excellente:--e depois d'uma perdiz fria, d'um pouco de dôce -de ananaz, d'um café forte, Ega sentiu adelgaçar-se emfim aquelle -negrume que desde a vespera lhe pesava n'alma. No fim, pensava elle, -accendendo o charuto e lançando os olhos ao relogio, n'aquelle desastre -praticamente encarado só havia para Carlos a perda d'uma bella amante. E -essa perda, que agora o angustiava, não traria depois compensações? O -futuro de Carlos até ahi tinha uma sombra--aquella promessa de casamento -que irreparavelmente o collava pela honra a uma mulher muito -interessante, mas com um passado cheio de brazileiros e de irlandezes... -A sua belleza poetisava tudo: mas quanto tempo mais duraria esse -encanto, o seu brilho de deusa pisando a terra?... Não seria por fim -aquella descoberta do Guimarães uma libertação providencial? D'ahi a -annos Carlos estaria consolado, sereno como se nunca tivesse sofrido--e -livre, e rico, com o largo mundo diante de si! - -O relogio do café deu dez horas. «Bem, vamos a isto», pensou Ega. - -De novo a tipoia bateu para a rua da Prata. O snr. Villaça ainda não -viera, o escrevente estava realmente pensando que o snr. Villaça fôra ao -Alfeite. E diante d'esta incerteza, de repente, Ega ficou de novo -descorçoado, sem coragem. Despediu a tipoia: com o embrulho do cofre na -mão foi andando pela rua do Ouro, depois até ao Rocio, parando -distrahidamente diante d'um ourives, lendo aqui e além a capa d'um livro -na vitrine dos livreiros. Pouco a pouco o negrume da vespera, um momento -adelgaçado, recahia-lhe n'alma mais denso. Já não via as «libertações» -nem as «compensações». Só sentia em torno de si, como fluctuando no ar, -aquelle horror--Carlos a dormir com a irmã. - -Voltou pela rua da Prata, de novo subiu a suja escadaria de pedra; e -logo no patamar, diante da porta de baeta verde, deu com o Villaça que -sahia, atarefado, calçando as luvas. - ---Homem, até que emfim! - ---Ah! Era o amigo que me tinha procurado?... Pois tenha paciencia, que -está o visconde do Torral á minha espera... - -Ega quasi o empurrou. Qual visconde!... Tratava-se d'uma coisa muito -urgente, muito séria! Mas o outro não se arredava da porta, acabando de -calçar a luva, com o mesmo ar vivo de negocio e de pressa. - ---O amigo bem vê... Está o homem á espera! É um _rendez-vous_ para as -onze! - -Ega, já furioso, agarrou-lhe a manga, murmurou-lhe junto á face, -tragicamente, que se tratava de Carlos, d'um caso de vida ou de morte! -Então o Villaça, n'um grande espanto, atravessou bruscamente o -escriptorio, fez entrar Ega n'um cubiculo ao lado, estreito como um -corredor, com um canapé de palhinha, uma mesa onde os livros tinham pó, -e um armario ao fundo. Fechou a porta, atirou o chapéo para a nuca: - ---Então que é? - -Ega, com um gesto, indicou fóra o escrevente que podia escutar. O -procurador abriu a porta, gritou ao rapazola que voasse ao Hotel -Pelicano pedir ao snr. visconde do Torral a fineza de esperar meia -hora... Depois, fechada a porta no ferrolho, foi a mesma exclamação -anciosa: - ---Então que é? - ---É um horror, Villaça, um grande horror... Nem eu sei por onde hei de -começar. - -Villaça, já muito pallido, pousou lentamente o guardachuva sobre a mesa. - ---É duello? - ---Não... É isto... Você sabia que o Carlos tinha relações com uma snr.^a -Mac-Gren que veio o inverno passado a Portugal, ficou ahi?... - -Uma senhora brazileira, mulher d'um brazileiro, que passára o verão nos -Olivaes?... Sim, Villaça sabia. Fallára até n'isso com o Eusebiosinho. - ---Ah, com o Eusebio?... Pois não é brazileira! É portugueza, e é irmã -d'elle! - -Villaça cahiu para o canapé, batendo as mãos n'um assombro. - ---Irmã do Eusebio! - ---Qual do Eusebio, homem!... Irmã de Carlos! - -Villaça ficára mudo, sem comprehender, com os olhos terrivelmente -arregalados para o outro, que se movia pelo cubiculo, repetindo: «irmã! -irmã legítima!» Ega por fim sentou-se no canapé de palhinha; e baixo, -muito baixo, apesar da solidão do escriptorio, contou o seu encontro com -o Guimarães no sarau, e como a verdade terrivel estalára casualmente, -n'uma palavra, á esquina do _Alliança_... Mas quando fallou dos papeis, -entregues pela Monforte ao Guimarães, ha tantos annos guardados, nunca -reclamados, e que o democrata agora, tão de repente, tão urgentemente, -queria restituir á familia--Villaça, até ahi esmagado e como -emparvecido, despertou, teve uma explosão: - ---Ahi ha marosca! Tudo isso é para apanhar dinheiro!... - ---Apanhar dinheiro! Quem? - ---Quem!? exclamou Villaça de pé, arrebatadamente. Essa senhora, esse -Guimarães, essa tropa!... É que o amigo não percebe! Se apparecer uma -irmã do Maia, legitima e authentica, são quatrocentos contos e pico que -cabem á irmã do Maia!... - -Então os dois ficaram-se devorando com os olhos, na forte impressão -d'aquella idéa inesperada que a seu pezar abalava o Ega. Mas como o -procurador, tremulo, voltava á grande somma de quatrocentos contos, -lembrava a _Companhia do Olho Vivo_, Ega terminou por encolher os -hombros: - ---Isso não tem verosimilhança nenhuma! Ella é incapaz, absolutamente -incapaz, de semelhante intriga. Além d'isso, se é uma questão de -dinheiro, que necessidade tinha de se fazer passar como irmã desde que -Carlos lhe promettera casar com ella? - -Casar com ella! Villaça erguia as mãos, não queria acreditar. O quê! o -snr. Carlos da Maia dar a sua mão, o seu nome, a essa creatura amigada -com um brazileiro!?... Santissimo nome de Deus! E através do assombro -recrescia-lhe a desconfiança, via ahi um novo feito do _Olho Vivo_. - ---Não senhor, Villaça, não senhor! insistiu Ega, já impaciente. Se a -questão é de documentos e se ella os tinha, verdadeiros ou falsificados, -apresentava-os logo, não ia primeiro dormir com o irmão! - -Villaça baixou lentamente os olhos para o sobrado. Um terror invadia-o -diante d'aquella grande casa, que era o seu orgulho, partida em metade, -empolgada por uma aventureira... Mas como o Ega, muito nervoso, lembrava -que de resto a questão não era de documentos, nem de legalidade, nem de -fortuna--o procurador teve outro grito, com a face de novo alumiada: - ---Espere, homem, ha outra coisa!... Talvez ella seja filha do italiano! - ---E então?... Vem a dar na mesma. - ---Alto lá! berrou o procurador, batendo com o punho na mesa. Não tem -direito á legitima do pai, e não apanha um real d'esta casa!... Irra, -ahi é que está o ponto! - -Ega teve um gesto desolado. Não, nem isso, desgraçadamente! Esta era a -filha do Pedro da Maia. O Guimarães conhecia-a de a trazer ao collo, de -lhe dar bonecas quando ella tinha sete annos, e quando apenas havia -quatro ou cinco annos que o italiano estivera em Arroios, de cama, com -uma chumbada... A filha d'esse morrera em Londres, pequenina. - -Villaça recahiu no canapé, succumbido. - ---Quatrocentos contos, que bolada! - -Então Ega resumiu. Se não existia ainda uma certeza legal, havia já uma -forte suspeita. E desde logo não se podia deixar o pobre Carlos, -innocentemente, a chafurdar n'aquella sordidez. Era pois indispensavel -revelar tudo a Carlos n'essa noite... - ---E você, Villaça, é que tem de lh'o dizer. - -Villaça deu um salto que fez bater o canapé contra a parede. - ---Eu!? - ---Você, que é o procurador da casa! - -Que havia alli, senão uma questão de filiação, portanto de legitima? A -quem pertenciam esses detalhes legaes senão ao procurador? - -Villaça murmurou com todo o sangue na face: - ---Homem, o amigo mette-me n'uma!... - -Não. Ega mettia-o apenas n'aquillo em que o Villaça, como procurador, -logicamente e profissionalmente devia estar. - -O outro protestou, tão perturbado que gaguejava. Que diabo! Não era -esquivar-se aos seus deveres! Mas é que elle não sabia nada! Que podia -dizer ao snr. Carlos da Maia? «O amigo Ega veio-me contar isto, que lhe -contou um tal Guimarães hontem á noite no Loreto...» Não tinha a dizer -mais nada... - ---Pois diga isso. - -O outro encarou Ega com olhos que chammejavam: - ---Diga isso, diga isso... Que diabo, senhor, é necessario ter topete! - -Deu um puxão desesperado ao collete, foi bufando até ao fundo do -cubiculo, onde esbarrou com o armario. Voltou, tornou a encarar o Ega: - ---Não se vai a um homem com uma coisa d'essas sem provas... Onde estão -as provas?... - ---Ó Villaça, desculpe, você está obtuso!... A que vim eu aqui senão -trazer-lhe as provas, as que ha, boas ou más, a historia do Guimarães, -essa caixa com os papeis da Monforte?... - -Villaça, que resmungava, foi examinar a caixa, virando-a nas mãos, -decifrando o mote do sinete _Pro amore_. - ---Então, abrimol-a? - -Já Ega puxára uma cadeira para a mesa. Villaça cortou o papel, gasto nos -cantos, que envolvia o cofre. E appareceu effectivamente uma velha caixa -de charutos pregada com duas taxas, cheia de papeis, alguns em maços -apertados por fitas, outros soltos dentro de sobrescriptos abertos que -tinham o monogramma da Monforte sob uma corôa de marquez. Ega -desembrulhou o primeiro maço. Eram cartas em allemão, que elle não -percebia, datadas de Buda-Pesth e de Carlsruhe. - ---Bem, isto não nos diz nada... Adiante! - -Outro embrulho, a que Villaça cuidadosamente desapertou o nó côr de -rosa, resguardava uma caixa oval com a miniatura d'um homem de bigodes e -suissas ruivas, entalado na alta gola dourada d'uma farda branca. -Villaça achou a pintura «linda». - ---Algum official austriaco, rosnou Ega. Outro amante... _Ça marche_. - -Iam tirando os papeis por ordem, com a ponta dos dedos, como tocando em -reliquias. Um largo enveloppe atulhado de contas de modistas, algumas -pagas, outras sem recibo, interessou profundamente o Villaça--que -percorria os _items_, espantado dos preços, das infinitas invenções do -luxo. Contas de seis mil francos! Um só vestido, dois mil francos!... -Outro maço trouxe uma surpreza. Eram cartas de Maria Eduarda á mãi, -escriptas do convento, n'uma letra redonda e trabalhada como um desenho, -com phrasesinhas cheias de gravidade devota, dictadas decerto pelas boas -Irmãs; e n'estas composições, virtuosas e frias como themas, o sincero -coração da rapariga só transparecia n'alguma florzinha, agora sêcca, -pregada no alto do papel com um alfinete. - ---Isto põe-se de parte, murmurou Villaça. - -Então Ega, já impaciente, esvaziou toda a caixa sobre a mesa, alastrou -os papeis. E entre cartas, outras contas, bilhetes de visita, um grande -sobrescripto destacou com esta linha a tinta azul:--_Pertence a minha -filha Maria Eduarda_. Foi Villaça que lançou os olhos rapidamente á -enorme folha de papel que elle continha, luxuosa e documental, com o -monogramma d'ouro sob a corôa de marquez. Quando o passou em silencio -para a mão do Ega parecia suffocado, com todo o sangue nas orelhas. - -Ega leu-o alto, devagar. Dizia:--«Como a Maria teve a pequena e anda -muito fraca, e eu tambem me não sinto nada boa com umas pontadas, -parece-me prudente, para o que possa vir a succeder, fazer aqui uma -declaração que te pertence a ti, minha querida filha, e que só sabe o -padre Talloux (_Mr. l'abbé Talloux, coadjuteur à Saint-Roch_) porque -lh'o disse ha dois annos quando tive a pneumonia. E é o seguinte: -Declaro que minha filha Maria Eduarda, que costuma assignar Maria -Calzaski, por suppôr ser esse o nome de seu pai, é portugueza e filha de -meu marido Pedro da Maia, de quem me separei voluntariamente, trazendo-a -commigo para Vienna, depois para Paris, e que agora vive em companhia de -Patrick Mac-Gren, em Fontainebleau, com quem vai casar. E o pai de meu -marido era meu sogro Affonso da Maia, viuvo, que vivia em Bemfica e -tambem em Santa Olavia ao pé do rio Douro. O que tudo se póde verificar -em Lisboa pois devem lá estar os papeis; e os meus erros de que vejo -agora as consequencias não devem impedir que tu, minha querida filha, -tenhas a posição e fortuna que te pertencem. E por isso aqui declaro -tudo isto que assigno, no caso que o não possa fazer diante d'um -tabellião, o que tenciono logo que esteja melhor. E de tudo, se eu vier -a morrer, o que Deus não permitta, peço perdão a minha filha. E assigno -com o meu nome de casada--_Maria Monforte da Maia_.» - -Ega ficou a olhar para o Villaça. O procurador só pôde murmurar, com as -mãos cruzadas sobre a mesa: - ---Que bolada! Que bolada! - -Então Ega ergueu-se. Bem! Agora tudo se simplificava. Havia unicamente a -entregar aquelle documento a Carlos, sem commentarios. Mas o Villaça -coçava a cabeça, retomado por uma duvida: - ---Eu não sei se este papelinho faria fé em juizo... - ---Qual fé, qual juizo! exclamou Ega violentamente. É o bastante para que -elle não torne a dormir com ella!... - -Uma pancada timida na porta do cubiculo fêl-o estacar, inquieto. -Desandou a chave. Era o escrevente, que segredou através da frincha: - ---O snr. Carlos da Maia ficou agora lá em baixo no carrinho quando eu -entrei, perguntou pelo snr. Villaça. - -Houve um pânico! Ega, atarantado, agarrára o chapéo do Villaça. O -procurador atirava ás mãos ambas, para dentro d'uma gaveta, os papeis da -Monforte. - ---É talvez melhor dizer que não está, lembrou o escrevente. - ---Sim, que não está! foi o grito abafado de ambos. - -Ficaram á escuta, ainda pallidos. O dog-cart de Carlos rolou na calçada; -os dois amigos respiraram. Mas agora Ega arrependia-se de não terem -mandado subir Carlos--e alli mesmo, sem outras vacillações nem -pieguices, corajosamente, contarem-lhe tudo, diante d'aquelles papeis -bem abertos. E estava saltado o barranco! - ---Homem, dizia o Villaça passando o lenço pela testa, as coisas -querem-se devagar, com methodo. É necessario preparar-se a gente, -respirar para dar bem o mergulho... - -Em todo o caso, concluiu o Ega, eram ociosas mais conversas. Os outros -papeis da caixa perdiam o interesse depois d'aquella confissão da -Monforte. Só restava que Villaça apparecesse á noite no Ramalhete ás -oito e meia, ou nove horas, antes de Carlos sahir para a rua de S. -Francisco. - ---Mas o amigo ha de lá estar! exclamou o procurador, já aterrado. - -Ega prometteu. Villaça teve um pequeno suspiro. Depois, no patamar, onde -viera acompanhar o outro: - ---Uma d'estas, uma d'estas!... E eu ainda, tão contente, a jantar no -Ramalhete... - ---E eu, com elles, na rua de S. Francisco!... - ---Emfim, até á noite! - ---Até á noite. - -Ega não se atreveu n'esse dia a voltar ao Ramalhete, a jantar diante de -Carlos, a vêr-lhe a alegria e a paz--sentindo aquella negra desgraça que -descia sobre elle á maneira que a noite descia. Foi pedir as sopas ao -marquez, que desde o sarau se conservava em casa, de garganta entrapada. -Depois, ás oito e meia, quando calculou que Villaça devia estar já no -Ramalhete, deixou o marquez que se enfronhára com o capellão n'uma -partida de damas. - -Aquelle lindo dia, toldado de tarde, findára n'uma chuvinha miuda que -transia as ruas. Ega tomou uma tipoia. E parava no Ramalhete, já -terrivelmente nervoso, quando avistou Villaça no portal, de guardachuva -sob o braço, arregaçando as calças para sahir. - ---Então? gritou-lhe o Ega. - -Villaça abriu o guardachuva, para murmurar debaixo, mas em segredo: - ---Não foi possivel... Disse que tinha muita pressa, que não me podia -ouvir. - -Ega bateu o pé, desesperado: - ---Oh homem! - ---Que quer o amigo? Havia de o agarrar á força? Ficou para ámanhã... -Tenho de cá estar ámanhã ás onze horas. - -Ega galgou as escadas, rosnando entre dentes: «Irra! não sahimos -d'esta!» Foi até ao escriptorio de Affonso. Mas não entrou. Através -d'uma fenda larga do reposteiro meio franzido, um canto da sala -apparecia, quente e cheio de conchêgo, no dôce tom côr de rosa da luz -cahindo sobre os damascos: as cartas esperavam na mesa do whist: no sofá -bordado a matiz D. Diogo, murcho e molle, olhava o lume, cofiando os -bigodes. E, travadas n'alguma questão, a voz do Craft, que perpassou de -cachimbo na mão, e a voz mais lenta de Affonso, tranquillo na sua -poltrona, misturavam-se, abafadas pela do Sequeira, que berrava -furiosamente:--«Mas se ámanhã houvesse uma bernarda, esse exercito com -que os senhores querem acabar por ser uma escóla de vadiagem é que lhes -havia de guardar as costas... É bom fallar, ter muita philosophia! Mas -quando ellas chegam, se não ha meia duzia de baionetas promptas, então -são as cólicas!...» - -Ega foi d'alli aos quartos de Carlos. As velas ardiam ainda nas -serpentinas: um aroma errava de agua de Lubin e charuto: e o Baptista -disse-lhe que o snr. D. Carlos «sahira havia dez minutos». Fôra para a -rua de S. Francisco! Ia lá dormir! Então enervado, com a longa e triste -noite diante de si, Ega teve um appetite de se atordoar, dissipar n'uma -excitação forte as idéas que o torturavam. Não despedira a tipoia, -abalou para S. Carlos. E findou por ir cear ao Augusto com o Taveira e -duas raparigas, a Paca e a Carmen Philosopha, prodigalisando o -champagne. Ás quatro da manhã estava bebedo, estatelado sobre o sofá, -gemendo sentimentalmente, só para si, as estrophes de Musset á -Malibran... O Taveira e a Paca, juntinhos na mesma cadeira, elle com o -seu ar terno de chulo, ella _muy caliente_ tambem, debicavam copinhos de -gelatina. E a Carmen Philosopha, empanturrada, desapertada, com o -collete embrulhado já n'um _Diario de Noticias_, repicava a faca na -borda do prato, cantarolando d'olhos perdidos nos bicos de gaz: - - - Señor Alcalde mayor, - No prenda usted los ladrones... - - - - -Acordou ao outro dia ás nove horas, ao lado da Carmen Philosopha, n'um -quarto de grandes janellas rasgadas por onde entrava toda a melancolia -da escura manhã de chuva. E, emquanto não vinha a tipoia fechada que a -servente correra a chamar, o pobre Ega enojado, vexado, com a lingua -pastosa, os pés nús sobre o tapete, reunindo o fato espalhado, tinha só -uma idéa clara--fugir d'alli para um grande banho, bem perfumado e bem -fresco, onde se purificasse d'uma sensação viscosa de Carmen e d'orgia -que o arrepiava. - -Esse banho lustral foi tomal-o ao _Hotel Braganza_, para se encontrar -com Carlos e com Villaça ás onze horas já lavado e preparado. Mas -precisou esperar pela roupa branca que o cocheiro, com um bilhete para o -Baptista, voára a buscar ao Ramalhete: depois almoçou: e já batera meio -dia quando se apeou á porta particular dos quartos de Carlos, com a -roupa suja n'uma trouxa. - -Justamente Baptista atravessava o patamar com camelias n'um açafate. - ---O Villaça já veio? perguntou-lhe Ega baixo, andando em pontas de pés. - ---O snr. Villaça já lá está dentro ha bocado. V. exc.^a recebeu a roupa -branca?... Eu tambem mandei um fato, porque n'esses casos sempre dá mais -frescura... - ---Obrigado, Baptista, obrigado! - -E Ega pensava:--«Bem, Carlos já sabe tudo, o barranco está passado!» Mas -demorou-se ainda, tirando as luvas e o paletot com uma lentidão cobarde. -Por fim, sentindo bater alto o coração, puxou o reposteiro de velludo. -Na ante-camara pesava um silencio; a chuva grossa fustigava a porta -envidraçada, por onde se viam as arvores do jardim esfumadas na nevoa. -Ega levantou o outro reposteiro que tinha bordadas as armas dos Maias. - ---Ah! és tu? exclamou Carlos, erguendo-se da mesa de trabalho com uns -papeis na mão. - -Parecia ter conservado um animo viril e firme: apenas os olhos lhe -rebrilhavam, com um fulgor sêcco, anciosos e mais largos na pallidez que -o cobria. Villaça, sentado defronte, passava vagarosamente pela testa, -n'um movimento cansado, o lenço de sêda da India. Sobre a mesa -alastravam-se os papeis da Monforte. - ---Que diabo de embrulhada é esta que me vem contar o Villaça? rompeu -Carlos, cruzando os braços diante do Ega, n'uma voz que apenas de leve -tremia. - -Ega balbuciou: - ---Eu não tive coragem de te dizer... - ---Mas tenho eu para ouvir!... Que diabo te contou esse homem? - -Villaça ergueu-se immediatamente. Ergueu-se com a pressa d'um galucho -timido que é rendido n'um posto arriscado, pediu licença, se não -precisavam d'elle, para voltar ao escriptorio. Os amigos decerto -preferiam conversar mais livremente. De resto, alli ficavam os papeis da -snr.^a D. Maria Monforte. E se elle fosse necessario um recado -encontrava-o na rua da Prata ou em casa... - ---E v. exc.^a comprehende, acrescentou elle enrolando nas mãos o lenço -de sêda, eu tomei a iniciativa de vir fallar, por ser o meu dever, como -amigo confidencial da casa... Foi essa tambem a opinião do nosso Ega... - ---Perfeitamente, Villaça, obrigado! acudiu Carlos. Se fôr necessario lá -mando... - -O procurador, com o lenço na mão, lançou em redor um olhar lento. Depois -espreitou debaixo da mesa. Parecia muito surprehendido. E Carlos seguia -com impaciencia os passos timidos que elle dava pelo quarto, -procurando... - ---Que é, homem? - ---O meu chapéo. Imaginei que o tinha posto aqui... Naturalmente ficou lá -fóra... Bem, se fôr necessario alguma coisa... - -Mal elle sahiu, atirando ainda os olhos inquietos pelos cantos, Carlos -fechou violentamente o reposteiro. E voltando para o Ega, cahindo -pesadamente n'uma cadeira: - ---Dize lá! - -Ega, sentado no sofá, começou por contar o encontro com o snr. -Guimarães, em baixo no botequim da Trindade, depois de ter fallado o -Rufino. O homem queria explicações sobre a carta do Damaso, sobre a -bebedeira hereditaria... Tudo se aclarára, ficando d'ahi entre elles um -começo de familiaridade... - -Mas o reposteiro mexeu de leve--e surdiu de novo a face do Villaça: - ---Peço desculpa, mas é o meu chapéo... Não o acho, havia de jurar que o -deixei aqui... - -Carlos conteve uma praga. Então Ega procurou tambem, por traz do sofá, -no vão da janella. Carlos, desesperado, para findar, foi vêr entre os -cortinados da cama. E Villaça, escarlate, afflicto, esquadrinhava até a -alcova do banho... - ---Um sumiço assim! Emfim, talvez me esquecesse na ante-camara!... Vou -vêr outra vez... O que peço é desculpa. - -Os dois ficaram sós. E Ega recomeçou, detalhando como Guimarães, duas ou -tres vezes nos intervallos, lhe viera fallar de coisas indifferentes, do -sarau, de politica, do papá Hugo, etc. Depois elle procurára Carlos para -irem um bocado ao Gremio. Terminára por sahir com o Cruges. E passavam -defronte do Alliança... - -Novamente o reposteiro franziu, Baptista pediu perdão a suas -excellencias: - ---É o snr. Villaça que não acha o chapéo, diz que o deixou aqui... - -Carlos ergueu-se furioso, agarrando a cadeira pelas costas como para -despedaçar o Baptista. - ---Vai para o diabo tu e o snr. Villaça!... Que sáia sem chapéo! Dá-lhe -um chapéo meu! Irra! - -Baptista recuou, muito grave. - ---Vá, acaba lá! exclamou Carlos, recahindo no assento, mais pallido. - -E Ega, miudamente, contou a sua longa, terrivel conversa com o -Guimarães, desde o momento em que o homem por acaso, já ao despedir-se, -já ao estender-lhe a mão, fallára da «irmã do Maia». Depois -entregára-lhe os papeis da Monforte á porta do _Hotel de Paris_, no -Pelourinho... - ---E aqui está, não sei mais nada. Imagina tu que noite eu passei! Mas -não tive coragem de te dizer. Fui ao Villaça... Fui ao Villaça com a -esperança sobretudo de elle saber algum facto, ter algum documento que -atirasse por terra toda esta historia do Guimarães... Não tinha nada, -não sabia nada. Ficou tão aniquilado como eu! - -No curto silencio que cahiu, um chuveiro mais largo, alagando o arvoredo -do jardim, cantou nas vidraças. Carlos ergueu-se arrebatadamente, n'uma -revolta de todo o sêr: - ---E tu acreditas que isso seja possivel? Acreditas que succeda a um -homem como eu, como tu, n'uma rua de Lisboa? Encontro uma mulher, ólho -para ella, conheço-a, durmo com ella e, entre todas as mulheres do -mundo, essa justamente ha de ser minha irmã! É impossivel... Não ha -Guimarães, não ha papeis, não ha documentos que me convençam! - -E como Ega permanecia mudo, a um canto do sofá, com os olhos no chão: - ---Dize alguma coisa, gritou-lhe Carlos. Duvída tambem, homem, duvída -commigo!... É extraordinario! Todos vocês acreditam, como se isto fosse -a coisa mais natural do mundo, e não houvesse por essa cidade fóra senão -irmãos a dormir juntos! - -Ega murmurou: - ---Já ia succedendo um caso assim, lá ao pé da quinta, em Celorico... - -E n'esse momento, sem que um rumor os prevenisse, Affonso da Maia -appareceu n'uma abertura do reposteiro, encostado á bengala, sorrindo -todo com alguma idéa que decerto o divertia. Era ainda o chapéo do -Villaça. - ---Que diabo fizeram vocês ao chapéo do Villaça? O pobre homem andou por -ahi afflicto... Teve de levar um chapéo meu. Cahia-lhe pela cabeça -abaixo, enchumaçaram-lh'o com lenços... - -Mas subitamente reparou na face transtornada do neto. Reparou na -atarantação do Ega cujos olhos mal se fixavam, fugindo anciosamente -d'elle para Carlos. Todo o sorriso se lhe apagou, deu no quarto um passo -lento: - ---Que é isso, que têm vocês?... Ha alguma coisa? - -Então Carlos, no ardente egoismo da sua paixão, sem pensar no abalo -cruel que ia dar ao pobre velho, cheio só de esperança que elle, seu -avô, testemunha do passado, soubesse algum facto, possuisse alguma -certeza contraria a toda essa historia do Guimarães, a todos esses -papeis da Monforte--veio para elle, desabafou: - ---Ha uma coisa extraordinaria, avô! O avô talvez saiba... O avô deve -saber alguma coisa que nos tire d'esta afflicção!... Aqui está, em duas -palavras. Eu conheço ahi uma senhora que chegou ha tempos a Lisboa, mora -na rua de S. Francisco. Agora de repente descobre-se que é minha irmã -legitima!... Passou ahi um homem que a conhecia, que tinha uns papeis... -Os papeis ahi estão. São cartas, uma declaração de minha mãe... Emfim -uma trapalhada, um montão de provas... Que significa tudo isto? Essa -minha irmã, a que foi levada em pequena, não morreu?... O avô deve -saber! - -Affonso da Maia, que um tremor tomára, agarrou-se um momento com força á -bengala, cahiu por fim pesadamente n'uma poltrona, junto do reposteiro. -E ficou devorando o neto, o Ega, com um olhar esgazeado e mudo. - ---Esse homem, exclamou Carlos, é um Guimarães, um tio do Damaso... -Fallou com o Ega, foi ao Ega que entregou os papeis... Conta tu ao avô, -Ega, conta tu do começo! - -Ega, com um suspiro, resumiu a sua longa historia. E findou por dizer -que o importante, o decisivo alli era este homem, o Guimarães, que não -tinha interesse em mentir e só por acaso, puramente por acaso, fallára -em taes coisas--conhecia essa senhora, desde pequenina, como filha de -Pedro da Maia e de Maria Monforte. E nunca a perdera de vista. Vira-a -crescer em Paris, andára com ella ao collo, dera-lhe bonecas. Visitára-a -com a mãi no convento. Frequentára a casa que ella habitava em -Fontainebleau, como casada... - ---Emfim, interrompeu Carlos, viu-a ainda ha dias, n'uma carruagem, -commigo e com o Ega... Que lhe parece, avô? - -O velho murmurou, n'um grande esforço, como se as palavras sahindo lhe -rasgassem o coração: - ---Essa senhora, está claro, não sabe nada... - -Ega e Carlos, a um tempo, gritaram:--«Não sabe nada!» Segundo affirmava -o Guimarães, a mãi escondera-lhe sempre a verdade. Ella julgava-se filha -d'um austriaco. Assignava-se ao principio Calzaski... - -Carlos, que remexera sobre a mesa, adiantou-se com um papel na mão: - ---Aqui tem o avô a declaração de minha mãi. - -O velho levou muito tempo a procurar, a tirar a luneta d'entre o collete -com os seus pobres dedos que tremiam; leu o papel devagar, -empallidecendo mais a cada linha, respirando penosamente; ao findar -deixou cahir sobre os joelhos as mãos, que ainda agarravam o papel, -ficou como esmagado e sem força. As palavras por fim vieram-lhe -apagadas, morosas. Elle nada sabia... O que a Monforte alli assegurava, -elle não o podia destruir... Essa senhora da rua de S. Francisco era -talvez na verdade sua neta... Não sabia mais... - -E Carlos diante d'elle vergava os hombros, esmagado tambem sob a certeza -da sua desgraça. O avô, testemunha do passado, nada sabia! Aquella -declaração, toda a historia do Guimarães ahi permaneciam inteiras, -irrefutaveis. Nada havia, nem memoria de homem, nem documento escripto, -que as pudesse abalar. Maria Eduarda era, pois, sua irmã!... E um -defronte do outro, o velho e o neto pareciam dobrados por uma mesma -dôr--nascida da mesma idéa. - -Por fim Affonso ergueu-se, fortemente encostado á bengala, foi pousar -sobre a mesa o papel da Monforte. Deu um olhar, sem lhes tocar, ás -cartas espalhadas em volta da caixa de charutos. Depois, lentamente, -passando a mão pela testa: - ---Nada mais sei... Sempre pensamos que essa criança tinha morrido... -Fizeram-se todas as pesquizas... Ella mesma disse que lhe tinha morrido -a filha, mostrou já não sei a quem um retrato... - ---Era outra mais nova, a filha do italiano, disse o Ega. O Guimarães -fallou-me n'isso... Foi esta que viveu. Esta, que tinha já sete a oito -annos, quando havia apenas quatro ou cinco que esse sujeito italiano -apparecera em Lisboa... Foi esta. - ---Foi esta, murmurou o velho. - -Teve um gesto vago de resignação, acrescentou, depois de respirar -fortemente: - ---Bem! Tudo isto tem de ser mais pensado... Parece-me bom tornar a -chamar o Villaça... Talvez seja necessario que elle vá a Paris... E -antes de tudo precisamos socegar... De resto não ha aqui morte -d'homem... Não ha aqui morte d'homem! - -A voz sumia-se-lhe, toda tremula. Estendeu a mão a Carlos que lh'a -beijou, suffocado; e o velho, puxando o neto para si, pousou-lhe os -labios na testa. Depois deu dois passos para a porta, tão lentos e -incertos que Ega correu para elle: - ---Tome v. exc.^a o meu braço... - -Affonso apoiou-se n'elle, pesadamente. Atravessaram a ante-camara -silenciosa onde a chuva contínua batia os vidros. Por traz d'elles cahiu -o grande reposteiro com as armas dos Maias. E então Affonso, de repente, -soltando o braço do Ega, murmurou-lhe, junto á face, no desabafo de toda -a sua dôr: - ---Eu sabia d'essa mulher!... Vive na rua de S. Francisco, passou todo o -verão nos Olivaes... É a amante d'elle! - -Ega ainda balbuciou: «Não, não, snr. Affonso da Maia!» Mas o velho pôz o -dedo nos labios, indicou Carlos dentro que podia ouvir... E afastou-se, -todo dobrado sobre a bengala, vencido emfim por aquelle implacavel -destino que depois de o ter ferido na idade de força com a desgraça do -filho--o esmagava ao fim da velhice com a desgraça do neto. - -Ega enervado, exhausto, voltou para o quarto--onde Carlos recomeçára -n'aquelle agitado passeio que abalava o soalho, fazia tilintar finamente -os frascos de crystal sobre o marmore da console. Calado, junto da mesa, -Ega ficou percorrendo outros papeis da Monforte--cartas, um livrinho de -marroquim com adresses, bilhetes de visita de membros do Jockey Club e -de senadores do imperio. Subitamente Carlos parou diante d'elle, -apertando desesperadamente as mãos: - ---Estarem duas creaturas em pleno céo, passar um quidam, um idiota, um -Guimarães, dizer duas palavras, entregar uns papeis e quebrar para -sempre duas existencias!... Olha que isto é horrivel, Ega! - -Ega arriscou uma consolação banal: - ---Era peor se ella morresse... - ---Peor porque? exclamou Carlos. Se ella morresse, ou eu, acabava o -motivo d'esta paixão, restava a dôr e a saudade, era outra coisa... -Assim estamos vivos, mas mortos um para o outro, e viva a paixão que nos -unia!... Pois tu imaginas que por me virem provar que ella é minha irmã, -eu gósto menos d'ella do que gostava hontem, ou gósto d'um modo -differente? Está claro que não! O meu amor não se vai d'uma hora para a -outra accommodar a novas circumstancias, e transformar-se em amizade... -Nunca! Nem eu quero! - -Era uma brutal revolta--o seu amor defendendo-se, não querendo morrer, -só porque as revelações d'um Guimarães e uma caixa de charutos cheia de -papeis velhos o declaravam impossivel, e lhe ordenavam que morresse! - -Houve outro melancolico silencio. Ega accendeu uma cigarette, foi-se -enterrar ao canto do sofá. Uma fadiga ia-o vencendo, feita de toda -aquella emoção, da noitada no Augusto, da estremunhada manhã na alcova -da Carmen. Todo o quarto ia entristecendo, á luz mais triste da tarde -d'inverno que descia. Ega terminou por cerrar os olhos. Mas bem depressa -o sacudiu outra exclamação de Carlos, que de novo, diante d'elle, -apertava as mãos com desespero: - ---E o peor ainda não é isto, Ega! O peor é que temos de lhe dizer tudo, -de lhe contar tudo, a ella!... - -Ega já pensára n'isso... E era necessario que se lhe dissesse -immediatamente, sem hesitações. - ---Vou-lhe eu mesmo contar tudo, murmurou Carlos. - ---Tu!? - ---Pois quem, então? Querias que fosse o Villaça?... - -Ega franzia a testa: - ---O que tu devias fazer era metter-te esta noite no comboio, e partir -para Santa Olavia. De lá contavas-lhe tudo. Estavas assim mais seguro. - -Carlos atirou-se para uma poltrona, com um grande suspiro de fadiga: - ---Sim, talvez, ámanhã, no comboio da noite... Já pensei n'isso, era o -melhor... Agora o que estou é muito cansado! - ---Tambem eu, disse o Ega espreguiçando-se. E já não adiantamos nada, -atolamo-nos mais na confusão. O melhor é serenar... Eu vou-me estirar um -bocado na cama. - ---Até logo! - -Ega subiu ao quarto, deitou-se por cima da roupa; e no seu immenso -cansaço bem depressa adormeceu. Acordou tarde a um rumor da porta. Era -Carlos que entrava, raspando um phosphoro. Anoitecera, em baixo tocava a -campainha para o jantar. - ---Demais a mais esta massada do jantar! dizia Carlos accendendo as velas -no toucador. Não termos um pretexto para irmos fóra, a uma taverna, -conversar em socego! Ainda por cima convidei hontem o Steinbroken. - -Depois voltando-se: - ---Ó Ega, tu achas que o avô sabe tudo? - -O outro saltára da cama, e diante do lavatorio arregaçava as mangas: - ---Eu te digo... Parece-me que teu avô desconfia... O caso fez-lhe a -impressão d'uma catastrophe... E, se não suspeitasse o que ha, devia-lhe -causar simplesmente a surpreza de quem descobre uma neta perdida. - -Carlos teve um lento suspiro. D'ahi a um instante desciam para o jantar. - -Em baixo encontraram, além de Steinbroken e de D. Diogo--o Craft, que -viera «pedir as sopas». E em tôrno áquella mesa, sempre alegre, coberta -de flôres e de luzes, uma melancolia fluctuava n'essa tarde através -d'uma conversa dormente sobre doenças,--o Sequeira que tinha -rheumatismo, o pobre marquez peorára. - -De resto Affonso, no escriptorio, queixára-se d'uma forte dôr de cabeça, -que justificava o seu ar consumido e _pallido_. Carlos, a quem -Steinbroken achára «má cara», explicou tambem que passára uma noite -abominavel. Então Ega, para desanuviar o jantar, pediu ao amigo -Steinbroken as suas impressões sobre o grande orador do sarau da -Trindade, o Rufino. O diplomata hesitou. Surprehendera-o bastante saber -que o Rufino era um politico, um parlamentar... Aquelles gestos, o -bocado da camisa a vêr-se-lhe no estomago, a pera, a grenha, as botas, -não lhe pareciam realmente d'um Homem d'Estado: - ---Mais cependant, cependant... Dans ce genre là, dans le genre sublime, -dans le genre de Demosthènes, il m'a paru très fort... Oh, il m'a paru -excessivement fort! - ---E você, Craft? - -Craft, no sarau, só gostára do Alencar. Ega encolheu violentamente os -hombros. Ora historias! Nada podia haver mais comico que a Democracia -romantica do Alencar, aquella Republica meiga e loura, vestida de branco -como Ophelia, orando no prado, sob o olhar de Deus... Mas Craft -justamente achava tudo isso excellente por ser sincero. O que feria -sempre nas exhibições da litteratura portugueza? A escandalosa falta de -sinceridade. Ninguem, em verso ou prosa, parecia jámais acreditar -n'aquillo que declamava com ardor, esmurrando o peito. E assim fôra na -vespera. Nem o Rufino parecia acreditar na influencia da religião; nem o -homem da barba bicuda no heroismo dos Castros e dos Albuquerques; nem -mesmo o poeta dos olhinhos bonitos na bonitice dos olhinhos... Tudo -contrafeito e postiço! Com o Alencar, que differença! Esse tinha uma fé -real no que cantava, na Fraternidade dos povos, no Christo republicano, -na Democracia devota e coroada d'estrellas... - ---Já deve ser bem velho esse Alencar, observou D. Diogo que rolava -bolinhas de pão entre os longos dedos pallidos. - -Carlos, ao lado, emergiu emfim do seu silencio: - ---O Alencar deve ter bons cincoenta annos. - -Ega jurou pelo menos sessenta. Já em 1836 o Alencar publicava coisas -delirantes, e chamava pela morte, no remorso de tantas virgens que -seduzira... - ---Ha que annos, com effeito, murmurou lentamente Affonso, eu ouvi fallar -d'esse homem! - -D. Diogo, que levára os labios ao copo, voltou-se para Carlos: - ---O Alencar tem a idade que havia de ter teu pai... Eram intimos, d'essa -roda _distinguée_ d'então. O Alencar ia muito a Arroios com o pobre D. -João da Cunha, que Deus haja, e com os outros. Era tudo uma fina flôr, e -regulavam pela mesma idade... Já nada resta, já nada resta! - -Carlos baixára os olhos: todos por acaso emmudeceram: um ar de tristeza -passou entre as flôres e as luzes como vinda do fundo d'esse passado, -cheio de sepulturas e dôres. - ---E o pobre Cruges, coitado, que fiasco! exclamou Ega, para sacudir -aquella nevoa. - -Craft achava o fiasco justo. Para que fôra elle dar Beethoven a uma -gente educada pela chulice de Offenbach? Mas Ega não admittia esse -desdem por Offenbach, uma das mais finas manifestações modernas do -scepticismo e da ironia! Steinbroken accusou Offenbach de não saber -contra-ponto. Durante um momento discutiu-se musica. Ega acabou por -sustentar que nada havia em arte tão bello como o _fado_. E appellou -para Affonso, para o despertar. - ---Pois não é verdade, snr. Affonso da Maia? V. exc.^a tambem é como eu, -um dos fieis ao fado, á nossa grande creação nacional. - ---Sim, com effeito, murmurou o velho, levando a mão á testa, como a -justificar o seu modo desinteressado e murcho. Ha muita poesia no -fado... - -Craft porém atacava o fado, as _malagueñas_, as _peteneras_--toda essa -musica meridional, que lhe parecia apenas um garganteado gemebundo, -prolongado infinitamente, em _ais_ de esterilidade e de preguiça. Elle, -por exemplo, ouvira uma noite uma _malagueña_, uma d'essas famosas -_malagueñas_, cantada em perfeito estylo por uma senhora de Malaga. Era -em Madrid, em casa dos Villa-Rubia. A senhora põe-se ao piano, rosna uma -coisa sobre _piedra_ e _sepultura_, e rompe a gemer n'um gemido que não -findava--_ã-ã-ã-ã-ã-ah_... Pois senhores, elle aborrece-se, passa para -outra sala, vê jogar todo um robber de whist, folheia um immenso album, -discute a guerra carlista com o general Jovellos, e quando volta, lá -estava ainda a senhora, de cravos na trança e olhos no tecto, a gemer o -mesmo--_ã-ã-ã-ã-ã-ah!_... - -Todos riram. Ega protestou com impeto, já excitado. O Craft era um sêcco -inglez, educado sobre o chato seio da Economia Politica, incapaz de -comprehender todo o mundo de poesia que podia conter um ai! Mas elle não -fallava das _malagueñas_. Não estava encarregado de defender a Hespanha. -Ella possuia, para convencer o Craft e outros britannicos, bastante -pilheria e bastante navalha... A questão era o _fado_! - ---Onde é que você tem ouvido o fado? Ahi pelas salas, ao piano... Com -effeito assim, concordo, é chôcho. Mas ouça-o você por tres ou quatro -guitarristas, uma noite, no campo, com uma bella lua no céo... Como nos -Olivaes este verão, quando o marquez lá levou o _Vira-vira_! Lembras-te, -Carlos?... - -E estacou, como entalado, no arrependimento d'aquella memoria da _Toca_ -que levianamente evocára. Carlos permanecera silencioso, com uma sombra -na face. Craft ainda rosnou que, n'uma linda noite de luar, todos os -sons no campo eram bonitos, mesmo o chiar dos sapos. E de novo uma -estranha desanimação amolleceu a sala; os escudeiros serviam os dôces. - -Então, no silencio, D. Diogo disse pensativamente, com a sua magestade -de leão saudoso que relembra um grande passado: - ---Uma musica tambem muito _distinguée_ antigamente eram os _Sinos do -mosteiro_. Parecia mesmo que se estavam ouvindo os sinos... Já não ha -d'isso! - -O jantar terminava friamente. Steinbroken voltára áquella falta da -familia real no sarau, que desde a vespera o inquietava. Ninguem alli se -interessava pelo Paço. Depois D. Diogo surdiu com uma velha e fastidiosa -historia sobre a infanta D. Isabel. Foi um allivio quando o escudeiro -trouxe em volta a larga bacia de prata e o jarro d'agua perfumada. - -Ao fim do café, servido no bilhar, Steinbroken e Craft começaram uma -partida «ás cincoenta» e a quinze tostões para interessar. Affonso e D. -Diogo tinham recolhido ao escriptorio. Ega enterrára-se no fundo d'uma -poltrona, com o _Figaro_. Mas bem depressa deixou escorregar a folha no -tapete, cerrou os olhos. Então Carlos, que passeava pensativamente -fumando, olhou um momento o Ega adormecido, e sumiu-se por traz do -reposteiro. - - - -Ia á rua de S. Francisco. - -Mas não se apressava, a pé pelo Aterro, abafado n'um paletot de pelles, -acabando o charuto. A noite clareára, com um crescente de lua entre -farrapos de nuvens brancas, que fugiam sob um norte fino. - -Fôra n'essa tarde, só no seu quarto, que Carlos decidira ir fallar a -Maria Eduarda--por um motivo supremo de dignidade e de razão, que elle -descobrira e que repetia a si mesmo incessantemente para se justificar. -Nem ella nem elle eram duas crianças frouxas, necessitando que a crise -mais temerosa da sua vida lhes fosse resolvida e arranjada pelo Ega ou -pelo Villaça: mas duas pessoas fortes, com o animo bastante resoluto, e -o juizo bastante seguro, para elles mesmos acharem o caminho da -dignidade e da razão n'aquella catastrophe que lhes desmantelava a -existencia. Por isso elle, só elle, devia ir á rua de S. Francisco. - -Decerto era terrivel tornar a vêl-a n'aquella sala, quente ainda do seu -amor, agora que a sabia sua irmã... Mas porque não? Havia acaso alli -dois devotos, possuidos da preoccupação do demonio, espavoridos pelo -peccado em que se tinham atolado ainda que inconscientemente, anciosos -por irem esconder no fundo de mosteiros distantes o horror carnal um do -outro? Não! Necessitavam elles acaso pôr immediatamente entre si as -compridas legoas que vão de Lisboa a Santa Olavia, com receio de cahir -na antiga fragilidade, se de novo os seus olhos se encontrassem -brilhando com a antiga chamma? Não! Ambos tinham em si bastante força -para enterrar o coração sob a razão, como sob uma fria e dura pedra, tão -completamente que não lhe sentissem mais nem a revolta nem o chôro. E -elle podia desafogadamente voltar áquella sala, toda quente ainda do seu -amor... - -De resto, que precisavam appellar para a razão, para a sua coragem de -fortes?... Elle não ia revelar bruscamente _toda_ a verdade a Maria -Eduarda, dizer-lhe um «adeus!» pathetico, um adeus de theatro, affrontar -uma crise de paixão e dôr. Pelo contrario! Toda essa tarde, através do -seu proprio tormento, procurára anciosamente um meio de adoçar e graduar -áquella pobre creatura o horror da revelação que lhe devia. E achára um -por fim, bem complicado, bem cobarde! Mas que! Era o unico, o unico que -por uma preparação lenta, caridosa, lhe pouparia uma dôr fulminante e -brutal. E esse meio justamente só era praticavel indo elle, com toda a -frieza, com todo o animo, á rua de S. Francisco. - -Por isso ia--e ao longo do Aterro, retardando os passos, resumia, -retocava esse plano, ensaiando mesmo comsigo, baixo, palavras que lhe -diria. Entraria na sala, com um grande ar de pressa--e contava-lhe que -um negocio de casa, uma complicação de feitores o obrigava a partir para -Santa Olavia d'ahi a dias. E immediatamente sahia, com o pretexto de -correr a casa do procurador. Podia mesmo ajuntar--«é um momento, não -tardo, até já.» Uma coisa o inquietava. Se ella lhe désse um beijo?... -Decidia então exagerar a sua pressa, conservando o charuto na bôca, sem -mesmo pousar o chapéo... E sahia. Não voltava. Pobre d'ella, coitada, -que ia esperar até tarde, escutando cada rumor de carruagem na rua!... -Na noite seguinte abalava para Santa Olavia com o Ega, deixando-lhe a -ella uma carta a annunciar que infelizmente, por causa d'um telegramma, -se vira forçado a partir n'esse comboio. Podia mesmo ajuntar--«volto -d'aqui a dois ou tres dias...» E ahi estava longe d'ella para sempre. De -Santa Olavia escrevia-lhe logo, d'um modo incerto e confuso, fallando de -documentos de familia, inesperadamente descobertos, provando entre elles -um parentesco chegado. Tudo isto atrapalhado, curto, «á pressa». Por fim -n'outra carta deixava escapar _toda_ a verdade, mandava-lhe a declaração -da mãe; e mostrando a necessidade d'uma separação, emquanto se não -esclarecessem todas as duvidas, pedia-lhe que partisse para Paris. -Villaça ficava encarregado da questão de dinheiro, entregando-lhe logo -para a viagem trezentas ou quatrocentas libras... Ah! tudo isto era bem -complicado, bem covarde! Mas só havia esse meio. E quem, senão elle, o -podia tentar com caridade e com tacto? - -E, entre o tumulto d'estes pensamentos, de repente achou-se na travessa -da Parreirinha, defronte da casa de Maria. Na sala, através das -cortinas, transparecia uma luz dormente. Todo o resto estava apagado--a -janella do gabinete estreito onde ella se vestia, a varanda do quarto -d'ella com os vasos de chrysantemos. - -E pouco a pouco aquella fachada muda d'onde apenas sahia, a um canto, -uma claridade languida d'alcova adormecida, foi-o estranhamente -penetrando da inquietação e desconfiança. Era um medo d'essa penumbra -molle que sentia lá dentro, toda cheia de calor e do perfume em que -havia jasmim. Não entrou; seguiu devagar pelo passeio fronteiro, -pensando em certos detalhes da casa--o sofá largo e profundo com -almofadas de sêda, as rendas do toucador, o cortinado branco da cama -d'ella... Depois parou diante da larga barra de claridade que sahia do -portão do Gremio; e foi para lá, machinalmente attrahido pela -simplicidade e segurança d'aquella entrada, lageada de pedra, com -grossos bicos de gaz, sem penumbras e sem perfumes. - -Na sala, em baixo, ficou percorrendo, sem os comprehender, os -telegrammas soltos sobre a mesa. Um criado passou, elle pediu cognac. -Telles da Gama, que vinha de dentro assobiando, com as mãos nos bolsos -do paletot, deteve-se um momento para lhe perguntar se ia na terça-feira -aos Gouvarinhos. - ---Talvez, murmurou Carlos. - ---Então venha!... Eu ando a arrebanhar gente... São os annos do Charlie, -de mais a mais. Cae lá o peso do mundo, e ha ceia!... - -O criado entrou com a bandeja--e Carlos, de pé junto da mesa, remexendo -o assucar no copo, recordava, sem saber porque, aquella tarde em que a -condessa, pondo-lhe uma rosa no casaco, lhe dera o primeiro beijo; revia -o sofá onde ella cahira com um rumor de sêdas amarrotadas... Como tudo -isto era já vago e remoto! - -Apenas acabou o cognac sahiu. Agora, caminhando rente das casas, não via -aquella fachada que o perturbava com a sua claridade d'alcova morrendo -nos vidros. O portão ficára cerrado, o gaz ardia no patamar. E subiu, -sentindo mais pela escada de pedra as pancadas do coração que o pousar -dos seus passos. Melanie, que veio abrir, disse-lhe que a senhora, um -pouco cansada, se fôra encostar sobre a roupa;--e a sala, com effeito, -parecia abandonada por essa noite, com as serpentinas apagadas, o -bordado ocioso e enrolado no seu cesto, os livros n'um frio arranjo -orlando a mesa onde o candieiro espalhava uma luz tenue sob o abat-jour -de renda amarella. - -Carlos tirava as luvas, lentamente, retomado de novo por uma inquietação -ante aquelle recolhimento adormecido. E de repente Rosa correu de -dentro, rindo, pulando, com os cabellos soltos nos hombros, os braços -abertos para elle. Carlos levantou-a ao ar, dizendo como costumava: «Lá -vem a cabrita!...» - -Mas então, quando a tinha assim suspensa, batendo os -pésinhos--atravessou-o a idéa de que aquella criança era sua sobrinha e -tinha o seu nome!... Largou-a, quasi a deixou cahir--assombrado para -ella, como se pela vez primeira visse essa facesinha eburnea e fina onde -corria o seu sangue... - ---Que estás tu a olhar para mim? murmurou ella, recuando e sorrindo, com -as mãosinhas cruzadas atraz das saias que tufavam. - -Elle não sabia, parecia-lhe outra Rosa: e á sua perturbação misturava-se -uma saudade pela antiga Rosa, a outra, a que era filha de Madame -Mac-Gren, a quem elle contava historias de Joanna d'Arc, a quem -balouçava na _Toca_ sob as acacias em flôr. Ella no emtanto sorria mais, -com um brilho nos dentinhos miudos, uma ternura nos bellos olhos azues, -vendo-o assim tão grave e tão mudo, pensando que elle ia brincar, fazer -«voz de Carlos Magno». Tinha o mesmo sorriso da mãi, com a mesma covinha -no queixo. Carlos viu n'ella de repente toda a graça de Maria, todo o -encanto de Maria. E arrebatou-a de novo nos braços, tão violentamente, -com beijos tão bruscos no cabello e nas faces, que Rosa estrebuchou, -assustada e com um grito. Soltou-a logo, n'um receio de não ter sido -casto... Depois, muito sério: - ---Onde está a mamã? - -Rosa coçava o braço, com a testasinha franzida: - ---Apre!... Magoaste-me. - -Carlos passou-lhe pelos cabellos a mão que ainda tremia. - ---Vá, não sejas piegas, a mamã não gosta. Onde está ella? - -A pequena, aplacada, já contente, pulava em redor, agarrando nos pulsos -de Carlos para que elle saltasse tambem... - ---A mamã foi deitar-se... Diz que está muito cansada, depois chama-me a -mim preguiçosa... Vá, salta tambem. Não sejas mono!... - -N'esse instante, do corredor, miss Sarah chamou: - ---Mademoiselle!... - -Rosa pôz o dedinho na bôca cheia de riso: - ---Dize-lhe que não estou aqui! A vêr... Para a fazer zangar!... Dize! - -Miss Sarah erguera o reposteiro; e descobriu-a logo escondida, sumida -por traz de Carlos, na pontinha dos pés, fazendo-se pequenina. Teve um -sorriso benevolo, murmurou «good night, sir». Depois lembrou que eram -quasi nove e meia, mademoiselle tinha estado um pouco constipada e devia -recolher-se. Então Carlos puxou brandamente pelo braço de Rosa, -acariciou-a ainda para que ella obedecesse a miss Sarah. - -Mas Rosa sacudia-o, indignada d'aquella traição. - ---Tambem nunca fazes nada!... Semsaborão! Pois olha, nem te digo adeus! - -Atravessou a sala, amuada, esquivou-se com um repellão á governante que -sorria e lhe estendia a mão--e pelo corredor rompeu n'um chôro -despeitado e pêrro. Miss Sarah risonhamente desculpou mademoiselle. Era -a constipação que a tornava impertinente. Mas se fosse diante da mamã -não fazia aquillo, não! - ---Good night, sir. - ---Good night, miss Sarah... - -Só, Carlos errou alguns momentos pela sala. Por fim ergueu o pedaço de -tapeçaria que cerrava o estreito gabinete onde Maria se vestia. Ahi, na -escuridão, um brilho pallido d'espelho tremia, batido por um longo raio -do candieiro da rua. Muito de leve empurrou a porta do quarto. - ---Maria!... Estás a dormir? - -Não havia luz; mas o mesmo candieiro da rua, através do transparente -erguido, tirava das trevas a brancura vaga do cortinado que envolvia o -leito. E foi d'ahi que ella murmurou, mal acordada: - ---Entra! Vim-me deitar, estava muito cansada... Que horas são? - -Carlos não se movera, ainda com a mão na porta: - ---É tarde, e eu preciso sahir já a procurar o Villaça ... Vinha dizer-te -que tenho talvez de ir a Santa Olavia, além d'ámanhã, por dois ou tres -dias... - -Um movimento, entre os cortinados, fez ranger o leito. - ---Para Santa Olavia?... Ora essa, porque? E assim de repente... -Entra!... Vem cá! - -Então Carlos deu um passo no tapete, sem rumor. Ainda sentia o ranger -molle do leito. E já todo aquelle aroma d'ella que tão bem conhecia, -esparso na sombra tepida, o envolvia, lhe entrava n'alma com uma -seducção inesperada de caricia nova, que o perturbava estranhamente. Mas -ia balbuciando, insistindo na sua pressa de encontrar essa noite o -Villaça. - ---É uma massada, por causa d'uns feitores, d'umas aguas... - -Tocou no leito; e sentou-se muito á beira, n'uma fadiga que de repente o -enleára, lhe tirava a força para continuar essas invenções d'aguas e de -feitores, como se ellas fossem montanhas de ferro a mover. - -O grande e bello corpo de Maria, embrulhado n'um roupão branco de sêda, -movia-se, espreguiçava-se languidamente sobre o leito brando. - ---Achei-me tão cansada, depois de jantar, veio-me uma preguiça... Mas -então partires assim de repente!... Que sécca! Dá cá a mão! - -Elle tenteava, procurando na brancura da roupa: encontrou um joelho a -que percebia a fórma e o calor suave, através da sêda leve: e alli -esqueceu a mão, aberta e frouxa, como morta, n'um entorpecimento onde -toda a vontade e toda a consciencia se lhe fundiam, deixando-lhe apenas -a sensação d'aquella pelle quente e macia onde a sua palma pousava. Um -suspiro, um pequenino suspiro de criança, fugiu dos labios de Maria, -morreu na sombra. Carlos sentiu a quentura de desejo que vinha d'ella, -que o entontecia, terrivel como o bafo ardente d'um abysmo, escancarado -na terra a seus pés. Ainda balbuciou: «não, não...» Mas ella estendeu os -braços, envolveu-lhe o pescoço, puxando-o para si, n'um murmurio que era -como a continuação do suspiro, e em que o nome de _querido_ susurrava e -tremia. Sem resistencia, como um corpo morto que um sopro impelle, elle -cahiu-lhe sobre o seio. Os seus labios seccos acharam-se collados n'um -beijo aberto que os humedecia. E de repente, Carlos enlaçou-a -furiosamente, esmagando-a e sugando-a, n'uma paixão e n'um desespero que -fez tremer todo o leito. - - - -A essa hora Ega acordava no bilhar, ainda estirado na poltrona onde o -cansaço o prostrára. Bocejando, estremunhado, arrastou os passos até ao -escriptorio de Affonso. - -Ahi ardia um lume alegre, a que o reverendo Bonifacio se deixava torrar, -enrolado sobre a pelle d'urso. Affonso fazia a partida de whist com -Steinbroken e com o Villaça: mas tão distrahido, tão confuso, que já -duas vezes D. Diogo, infeliz e irritado, rosnára que se a dôr de cabeça -assim o estonteava melhor seria findarem! Quando Ega appareceu, o velho -levantou os olhos inquietos: - ---O Carlos? Sahiu?... - ---Sim, creio que sahiu com o Craft, disse o Ega. Tinham fallado em ir -vêr o marquez. - -Villaça, que baralhava com a sua lentidão meticulosa, deitou tambem para -o Ega um olhar curioso e vivo. Mas já D. Diogo batia com os dedos no -pano da mesa, resmungando:--«Vamos lá, vamos lá... Não se ganha nada em -saber dos outros!» Então Ega ficou alli um momento, com bocejos vagos, -seguindo o cahir lento das cartas. Por fim, molle e seccado, decidiu ir -lêr para a cama, hesitou por diante das estantes, sahiu com um velho -numero do _Panorama_. - -Ao outro dia, á hora do almoço, entrou no quarto de Carlos. E ficou -pasmado quando o Baptista--tristonho desde a vespera, farejando -desgosto--lhe disse que Carlos fôra para a Tapada, muito cedo, a -cavallo... - ---Ora essa!... E não deixou ordens nenhumas, não fallou em ir para Santa -Olavia?... - -Baptista olhou Ega, espantado: - ---Para Santa Olavia!... Não senhor, não fallou em semelhante coisa. Mas -deixou uma carta para v. exc.^a vêr. Creio que é do snr. marquez. E diz -que lá apparecia depois, ás seis... Acho que é jantar. - -N'um bilhete de visita, o marquez, com effeito, lembrava que esse dia -era «o seu fausto natalicio», e esperava Carlos e o Ega ás seis, para -lhe ajudarem a comer a gallinha de dieta. - ---Bem, lá nos encontraremos, murmurou Ega, descendo para o jardim. - -Aquillo parecia-lhe extraordinario! Carlos passeando a cavallo, Carlos -jantando com o marquez, como se nada houvesse perturbado a sua vida -facil de rapaz feliz!... Estava agora certo de que elle na vespera fôra -á rua de S. Francisco. Justos céos! Que se teria lá passado? Subiu, -ouvindo a sineta do almoço. O escudeiro annunciou-lhe que o snr. Affonso -da Maia tomára uma chavena de chá no quarto e ainda estava recolhido. -Todos sumidos! Pela primeira vez no Ramalhete Ega almoçou solitariamente -na larga mesa, lendo a _Gazeta Illustrada_. - -De tarde, ás seis, no quarto do marquez (que tinha o pescoço enrolado -n'uma _boa_ de senhora de pelle de marta), encontrou Carlos, o Darque, o -Craft, em torno d'um rapaz gordo que tocava guitarra--emquanto ao lado o -procurador do marquez, um bello homem de barba preta, se batia com o -Telles n'uma partida de damas. - ---Viste o avô? perguntou Carlos, quando o Ega lhe estendeu a mão. - ---Não, almocei só. - -O jantar, d'ahi a pouco, foi muito divertido, largamente regado com os -soberbos vinhos da casa. E ninguem decerto bebeu mais, ninguem riu mais -do que Carlos, resurgido quasi de repente d'uma desanimação sombria a -uma alegria nervosa--que incommodava o Ega, sentindo n'ella um timbre -falso e como um som de crystal rachado. O proprio Ega por fim á -sobremesa se excitou consideravelmente com um esplendido Porto de 1815. -Depois houve um _baccarat_ em que Carlos, outra vez sombrio, deitando a -cada instante os olhos ao relogio, teve uma sorte triumphante, uma -«sorte de cabrão», como a classificou o Darque, indignado, ao trocar a -sua ultima nota de vinte mil reis. Á meia noite porém, inexoravelmente, -o procurador do marquez lembrou as ordens do medico que marcára esse -limite «ao natalicio». Foi então um enfiar de paletots, em debandada, -por entre os queixumes do Darque e do Craft, que sahiam escorridos, sem -sequer um troco para o «americano». Fez-se-lhes uma subscripção de -caridade, que elles recolheram nos chapéos, rosnando bênçãos aos -bemfeitores. - -Na tipoia que os levava ao Ramalhete, Carlos e Ega permaneceram muito -tempo em silencio, cada um enterrado ao seu canto, fumando. Foi já ao -meio do Aterro que Ega pareceu despertar: - ---E então por fim?... Sempre vaes para Santa Olavia, ou que fazes? - -Carlos mexeu-se no escuro da tipoia. Depois, lentamente, como cheio de -cansaço: - ---Talvez vá ámanhã... Ainda não disse nada, ainda não fiz nada... Decidi -dar-me quarenta e oito horas para acalmar, para reflectir... Não se póde -agora fallar com este barulho das rodas. - -De novo cada um recahiu na sua mudez, ao seu canto. - -Em casa, subindo a escadinha forrada de velludo, Carlos declarou-se -exhausto e com uma intoleravel dôr de cabeça: - ---Ámanhã fallamos, Ega... Boa noite, sim? - ---Até ámanhã. - -Alta noite Ega acordou com uma grande sêde. Saltára da cama, esvaziára a -garrafa no toucador, quando julgou sentir por baixo, no quarto de -Carlos, uma porta bater. Escutou. Depois, arrepiado, remergulhou nos -lençoes. Mas espertára inteiramente, com uma idéa estranha, insensata, -que o assaltára sem motivo, o agitava, lhe fazia palpitar o coração no -grande silencio da noite. Ouviu assim dar tres horas. A porta de novo -batera, depois uma janella: era decerto vento que se erguera. Não podia -porém readormecer, ás voltas, n'um terrivel mal-estar, com aquella idéa -cravada na imaginação que o torturava. Então, desesperado, pulou da -cama, enfiou um paletot, e em pontas de chinelas, com a mão diante da -luz, desceu surdamente ao quarto de Carlos. Na ante-sala parou, -tremendo, com o ouvido contra o reposteiro, na esperança de perceber -algum calmo rumor de respiração. O silencio era pesado e pleno. Ousou -entrar... A cama estava feita e vazia, Carlos sahira. - -Elle ficou a olhar estupidamente para aquella colcha lisa, com a dobra -do lençol de renda cuidadosamente entreaberta pelo Baptista. E agora não -duvidava. Carlos fôra findar a noite á rua de S. Francisco!... Estava -lá, dormia lá! E só uma idéa surgia através do seu horror--fugir, -safar-se para Celorico, não ser testemunha d'aquella incomparavel -infamia!... - -E o dia seguinte, terça-feira, foi desolador para o pobre Ega. Vexado, -n'um terror de encontrar Carlos ou Affonso, levantou-se cedo, -esgueirou-se pelas escadas com cautelas de ladrão, foi almoçar ao -Tavares. De tarde, na rua do Ouro, viu passar Carlos, que levava no -break o Cruges e o Taveira--arrebanhados certamente para elle se não -encontrar só á mesa com o avô. Ega jantou melancolicamente no Universal. -Só entrou no Ramalhete ás nove horas, vestir-se para a _soirée_ da -Gouvarinho, que pela manhã no Loreto parára a carruagem para lhe lembrar -«que era a festa do Charlie». E foi já de paletot, de _claque_ na mão, -que appareceu emfim na salinha Luiz xv onde Cruges tocava Chopin, e -Carlos se installára n'uma partida de bezigue com o Craft. Vinha saber -se os amigos queriam alguma coisa para os nobres condes de Gouvarinho... - ---Diverte-te! - ---Sê faiscante! - ---Eu lá appareço para a ceia! prometteu Taveira, estirado n'uma poltrona -com o _Figaro_. - -Eram duas horas da manhã quando Ega recolheu da _soirée_--onde por fim -se divertira n'uma desesperada flirtação com a baroneza d'Alvim, que á -ceia, depois do champagne, vencida por tanta graça e tanta audacia, lhe -tinha dado duas rosas. Diante do quarto de Carlos, accendendo a vela, -Ega hesitou, mordido por uma curiosidade... Estaria lá? Mas teve -vergonha d'aquella espionagem, e subiu, bem decidido como na vespera a -fugir para Celorico. No seu quarto, diante do espelho, pôz -cuidadosamente n'um copo as rosas da Alvim. E começava a despir-se, -quando ouviu passos no negro corredor, passos muito lentos, muito -pesados, que se adiantavam, findaram á sua porta em suspensão e -silencio. Assustado, gritou: «Que é lá?» A porta rangeu. E appareceu -Afonso da Maia, pallido, com um jaquetão sobre a camisa de dormir, e um -castiçal onde a vela ia morrendo. Não entrou. N'uma voz enrouquecida, -que tremia: - ---O Carlos? esteve lá? - -Ega balbuciou, atarantado, em mangas de camisa. Não sabia... Estivera -apenas um momento nos Gouvarinhos... Era provavel que Carlos tivesse ido -mais tarde com o Taveira, para a ceia. - -O velho cerrára os olhos, como se desfallecesse, estendendo a mão para -se apoiar. Ega correu para elle: - ---Não se afflija, snr. Affonso da Maia! - ---Que queres então que faça? Onde está elle? Lá mettido, com essa -mulher... Escusas de dizer, eu sei, mandei espreitar... Desci a isso, -mas quiz acabar esta angustia... E esteve lá hontem até de manhã, está -lá a dormir n'este instante... E foi para este horror que Deus me deixou -viver até agora! - -Teve um grande gesto de revolta e de dôr. De novo os seus passos, mais -pesados, mais lentos, se sumiram no corredor. - -Ega ficou junto da porta, um momento, estarrecido. Depois foi-se -despindo devagar, decidido a dizer a Carlos muito simplesmente, ao outro -dia, antes de partir para Celorico, que a sua infamia estava matando o -avô, e o forçava a elle, seu melhor amigo, a fugir para a não -testemunhar por mais tempo. - -Mal acordou, puxou a mala para o meio do quarto, atirou para cima da -cama, ás braçadas, a roupa que ia emmalar. E durante meia hora, em -mangas de camisa, lidou n'esta tarefa, misturando aos seus pensamentos -de cólera lembranças da _sóirée_ da vespera, certos olhares da Alvim, -certas esperanças que lhe tornavam saudosa a partida. Um alegre sol -dourava a varanda. Terminou por abrir a vidraça, respirar, olhar o bello -azul d'inverno. Lisboa ganhava tanto com aquelle tempo! E já Celorico, a -quinta, o padre Seraphim, lhe estendiam de longe a sua sombra n'alma. Ao -baixar os olhos viu o dog-cart de Carlos atrellado com a _Tunante_, que -escarvava a calçada animada pelo ar vivo. Era Carlos decerto que ia -sahir cedo--para não se encontrar com elle e com o avô! - -N'um receio de o não apanhar n'esse dia, desceu correndo. Carlos -aferrolhára-se na alcova de banho. Ega chamou, o outro não tugiu. Por -fim Ega bateu, gritou através da porta, sem esconder a sua irritação: - ---Tem a bondade d'escutar!... Então partes para Santa Olavia, ou quê? - -Depois d'um instante, Carlos lançou de lá, entre um rumor d'agua que -cahia: - ---Não sei... Talvez... Logo te digo... - -O outro não se conteve mais: - ---É que se não pôde ficar assim eternamente... Recebi uma carta de minha -mãi... E se não partes para Santa Olavia, eu vou para Celorico... É -absurdo! Já estamos n'isto ha tres dias! - -E quasi se arrependia já da sua violencia, quando a voz de Carlos se -arrastou de dentro, humilde e cansada, n'uma supplica: - ---Por quem és, Ega! Tem um bocado de paciencia commigo. Eu logo te -digo... - -N'uma d'aquellas subitas emoções de nervoso, que o sacudiam--os olhos do -Ega humedeceram. Balbuciou logo: - ---Bem, bem! Eu fallei alto por ser através da porta... Não ha pressa! - -E fugiu para o quarto, cheio só de compaixão e ternura, com uma grossa -lagrima nas pestanas. Sentia agora bem a tortura em que o pobre Carlos -se debatera, sob o despotismo d'uma paixão até ahi legitima, e que n'uma -hora amarga se tornava de repente monstruosa, sem nada perder de seu -encanto e da sua intensidade... Humano e fragil, elle não pudera estacar -n'aquelle violento impulso de amor e de desejo que o levava como n'um -vendaval! Cedera, cedera, continuára a rolar áquelles braços, que -innocentemente o continuavam a chamar. E ahi andava agora, aterrado, -escorraçado, fugindo occultamente de casa, passando o dia longe dos -seus, n'uma vadiagem tragica, como um excommungado que receia encontrar -olhos puros onde sinta o horror do seu peccado... E ao lado, o pobre -Affonso, sabendo tudo, morrendo d'aquella dôr! Podia elle, hospede -querido dos tempos alegres, partir, agora que uma onda de desgraça -quebrára sobre essa casa, onde o acolhiam affeições mais largas que na -sua propria? Seria ignobil! Tornou logo a desfazer a mala; e, furioso no -seu egoismo com todas aquellas amarguras que o abalavam, arranjava outra -vez a roupa dentro da commoda, com a mesma cólera com que a desmanchára, -rosnando: - ---Diabo levem as mulheres, e a vida, e tudo!... - -Quando desceu, já vestido, Carlos desapparecera! Mas Baptista, -tristonho, carrancudo, certo agora de que havia um grande desgosto, -deteve-o para lhe murmurar: - ---Tinha v. exc.^a razão... Partimos ámanhã para Santa Olavia e levamos -roupa para muito tempo... Este inverno começa mal! - - - -N'essa madrugada, ás quatro horas, em plena escuridão, Carlos cerrára de -manso o portão da rua de S. Francisco. E, mais pungente, apoderava-se -d'elle, na frialdade da rua, o medo que já o roçára, ao vestir-se na -penumbra do quarto, ao lado de Maria adormecida--o medo de voltar ao -Ramalhete! Era esse medo que já na vespera o trouxera todo o dia por -fóra no dog-cart, findando por jantar lugubremente com o Cruges, -escondido n'um gabinete do Augusto. Era medo do avô, medo do Ega, medo -do Villaça; medo d'aquella sineta do jantar que os chamava, os juntava; -medo do seu quarto, onde a cada momento qualquer d'elles podia erguer o -reposteiro, entrar, cravar os olhos na sua alma e no seu segredo... -Tinha agora a certeza _que elles sabiam tudo_. E mesmo que n'essa noite -fugisse para Santa Olavia, pondo entre si e Maria uma separação tão alta -como o muro d'um claustro, nunca mais do espirito d'aquelles homens, que -eram os seus amigos melhores, sahiria a memoria e a dôr da infamia em -que elle se despenhára. A sua vida moral estava estragada... Então, para -que partiria--abandonando a paixão, sem que por isso encontrasse a paz? -Não seria mais logico calcar desesperadamente todas as leis humanas e -divinas, arrebatar para longe Maria na sua innocencia, e para todo o -sempre abysmar-se n'esse crime que se tornára a sua sombria partilha na -terra? - -Já assim pensára na vespera. Já assim pensára... Mas antevira então um -outro horror, um supremo castigo, a esperal-o na solidão onde se -sepultasse. Já lhe percebera mesmo a aproximação; já n'outra noite -recebera d'elle um arrepio; já n'essa noite, deitado junto de Maria, que -adormecera cansada, o presentira, apoderando-se d'elle, com um primeiro -frio d'agonia. - -Era, surgindo do fundo do seu sêr, ainda tenue mas já perceptivel, uma -saciedade, uma repugnancia por ella desde que a sabia do seu sangue!... -Uma repugnancia material, carnal, á flôr da pelle, que passava como um -arrepio. Fôra primeiramente aquelle aroma que a envolvia, fluctuava -entre os cortinados, lhe ficava a elle na pelle e no fato, o excitava -tanto outr'ora, o impacientava tanto agora--que ainda na vespera se -encharcára em agua de Colonia para o dissipar. Fôra depois aquelle corpo -d'ella, adorado sempre como um marmore ideal, que de repente lhe -apparecera, como era na sua realidade, forte de mais, musculoso, de -grossos membros de Amazona barbara, com todas as bellezas copiosas do -animal de prazer. Nos seus cabellos d'um lustre tão macio, sentia agora -inesperadamente uma rudeza de juba. Os seus movimentos na cama, ainda -n'essa noite, o tinham assustado como se fossem os de uma fera, lenta e -ciosa, que se estirava para o devorar... Quando os seus braços o -enlaçavam, o esmagavam contra os seus rijos peitos tumidos de seiva, -ainda decerto lhe punham nas veias uma chamma que era toda bestial. Mas, -apenas o ultimo suspiro lhe morria nos labios, ahi começava -insensivelmente a recuar para a borda do colchão, com um susto estranho: -e immovel, encolhido na roupa, perdido no fundo d'uma infinita tristeza, -esquecia-se pensando n'uma outra vida que podia ter, longe d'alli, n'uma -casa simples, toda aberta ao sol, com sua mulher, legitimamente sua, -flôr de graça domestica, pequenina, timida, pudica, que não soltasse -aquelles gritos lascivos, e não usasse esse aroma tão quente! E -desgraçadamente agora já não duvidava... Se partisse com ella, seria -para bem cedo se debater no indizivel horror de um nojo physico. E que -lhe restaria então, morta a paixão que fôra a desculpa do crime, ligado -para sempre a uma mulher que o enojava--e que era... Só lhe restava -matar-se! - -Mas, tendo por um só dia dormido com ella, na plena consciencia da -consanguinidade que os separava, poderia recomeçar a vida -tranquillamente? Ainda que possuisse frieza e força para apagar dentro -em si essa memoria--ella não morreria no coração do avô, e do seu amigo. -Aquelle ascoroso segredo ficaria entre elles, estragando, maculando -tudo. A existencia d'ora ávante só lhe offerecia intoleravel amargôr... -Que fazer, santo Deus, que fazer! Ah, se alguem o podesse aconselhar, o -podesse consolar! Quando chegou á porta de casa o seu desejo unico era -atirar-se aos pés d'um padre, aos pés d'um santo, abrir-lhe as miserias -do seu coração, implorar-lhe a doçura da sua misericordia! Mas ai! onde -havia um santo? - -Defronte do Ramalhete os candieiros ainda ardiam. Abriu de leve a porta. -Pé ante pé, subiu as escadas ensurdecidas pelo velludo côr de cereja. No -patamar tacteava, procurava a vela--quando, através do reposteiro -entreaberto, avistou uma claridade que se movia no fundo do quarto. -Nervoso, recuou, parou no recanto. O clarão chegava, crescendo: passos -lentos, pesados, pisavam surdamente o tapete: a luz surgiu--e com ella o -avô em mangas de camisa, livido, mudo, grande, espectral. Carlos não se -moveu, suffocado; e os dois olhos do velho, vermelhos, esgazeados, -cheios de horror, cahiram sobre elle, ficaram sobre elle, varando-o até -ás profundidades d'alma, lendo lá o seu segredo. Depois, sem uma -palavra, com a cabeça branca a tremer, Affonso atravessou o patamar, -onde a luz sobre o velludo espalhava um tom de sangue:--e os seus passos -perderam-se no interior da casa, lentos, abafados, cada vez mais -sumidos, como se fossem os derradeiros que devesse dar na vida! - -Carlos entrou no quarto ás escuras, tropeçou n'um sofá. E alli se deixou -cahir, com a cabeça enterrada nos braços, sem pensar, sem sentir, vendo -o velho livido passar, repassar diante d'elle como um longo phantasma, -com a luz avermelhada na mão. Pouco a pouco foi-o tomando um cansaço, -uma inercia, uma infinita lassidão da vontade, onde um desejo apenas -transparecia, se alongava--o desejo de interminavelmente repousar -algures n'uma grande mudez e n'uma grande treva... Assim escorregou ao -pensamento da morte. Ella seria a perfeita cura, o asylo seguro. Porque -não iria ao seu encontro? Alguns grãos de laudano n'essa noite e -penetrava na absoluta paz... - -Ficou muito tempo, embebendo-se n'esta idéa que lhe dava allivio e -consolo, como se, escorraçado por uma tormenta ruidosa, visse diante dos -seus passos abrir-se uma porta d'onde sahisse calor e silencio. Um -rumor, o chilrear d'um passaro na janella, fez-lhe sentir o sol e o dia. -Ergueu-se, despiu-se muito devagar, n'uma immensa molleza. E mergulhou -na cama, enterrou a cabeça no travesseiro para recahir na doçura -d'aquella inercia, que era um antegosto da morte, e não sentir mais nas -horas que lhe restavam nenhuma luz, nenhuma coisa da terra. - - - -O sol ia alto, um barulho passou, o Baptista rompeu pelo quarto: - ---Ó snr. D. Carlos, ó meu menino! O avô achou-se mal no jardim, não dá -accordo!... - -Carlos pulou do leito, enfiando um paletot que agarrára. Na ante-camara -a governante, debruçada no corrimão, gritava, afflicta:--«Adiante, homem -de Deus, ao pé da padaria, o snr. dr. Azevedo!» E um moço que corria, -com que esbarrou no corredor, atirou, sem parar: - ---Ao fundo, ao pé da cascata, snr. D. Carlos, na mesa de pedra!... - -Affonso da Maia lá estava, n'esse recanto do quintal, sob os ramos do -cedro, sentado no banco de cortiça, tombado por sobre a tosca mesa, com -a face cahida entre os braços. O chapéo desabado rolára para o chão; nas -costas, com a gola erguida, conservava o seu velho capote azul. Em -volta, nas folhas das camelias, nas aleas areadas, refulgia, côr d'ouro, -o sol fino d'inverno. Por entre as conchas da cascata o fio d'agua punha -o seu choro lento. - -Arrebatadamente, Carlos levantára-lhe a face, já rigida, côr de cera, -com os olhos cerrados, e um fio de sangue aos cantos da longa barba de -neve. Depois cahiu de joelhos no chão humido, sacudia-lhe as mãos, -murmurando:--«Ó avô! ó avô!»--Correu ao tanque, borrifou-o d'agua: - ---Chamem alguem! chamem alguem! - -Outra vez lhe palpava o coração... Mas estava morto. Estava morto, já -frio, aquelle corpo que, mais velho que o seculo, resistira tão -formidavelmente, como um grande roble, aos annos e aos vendavaes. Alli -morrera solitariamente, já o sol ia alto, n'aquella tosca mesa de pedra -onde deixára pender a cabeça cansada. - -Quando Carlos se ergueu, Ega apparecia, esguedelhado, embrulhado no -robe-de-chambre. Carlos abraçou-se n'elle, tremendo todo, n'um chôro -despedaçado. Os criados em redor olhavam, aterrados. E a governante, -como tonta, entre as ruas de roseiras, gemia com as mãos na cabeça:--«Ai -o meu rico senhor, ai o meu rico senhor!» - -Mas o porteiro, esbaforido, chegava com o medico, o dr. Azevedo, que -felizmente encontrára na rua. Era um rapaz, apenas sahido da Escóla, -magrinho e nervoso, com as pontas do bigode muito frisadas. Deu em -redor, atarantadamente, um comprimento aos criados, ao Ega, e a Carlos, -que procurava serenar com a face lavada de lagrimas. Depois, tendo -descalçado a luva, estudou todo o corpo de Affonso com uma lentidão, uma -minuciosidade que exagerava, á medida que sentia em volta, mais anciosos -e attentos n'elle, todos aquelles olhos humedecidos. Por fim, diante de -Carlos, passando nervosamente os dedos no bigode, murmurou termos -technicos... De resto, dizia, já o collega se teria compenetrado de que -tudo infelizmente findára. Elle sentia das véras da alma o desgosto... -Se para alguma coisa fosse necessario, com o maximo prazer... - ---Muito agradecido a v. exc.^a, balbuciou Carlos. - -Ega, em chinelas, deu alguns passos com o snr. dr. Azevedo, para lhe -indicar a porta do jardim. - -Carlos no emtanto ficára defronte do velho, sem chorar, perdido apenas -no espanto d'aquelle brusco fim! Imagens do avô, do avô vivo e forte, -cachimbando ao canto do fogão, regando de manhã as roseiras, -passavam-lhe n'alma, em tropel, deixando-lh'a cada vez mais dorida e -negra... E era então um desejo de findar tambem, encostar-se como elle -áquella mesa de pedra, e sem outro esforço, nenhuma outra dôr da vida, -cahir como elle na sempiterna paz. Uma restea de sol, entre os ramos -grossos do cedro, batia a face morta de Affonso. No silencio os -passaros, um momento espantados, tinham recomeçado a chalrar. Ega veio a -Carlos, tocou-lhe no braço: - ---É necessario leval-o para cima. - -Carlos beijou a mão fria que pendia. E, devagar, com os beiços a tremer, -levantou o avô pelos hombros carinhosamente. Baptista correra a ajudar; -Ega, embaraçado no seu largo roupão, segurava os pés do velho. Através -do jardim, do terraço cheio de sol, do escriptorio onde a sua poltrona -esperava diante do lume accêso, foram-o transportando n'um silencio só -quebrado pelos passos dos criados, que corriam a abrir as portas, -acudiam quando Carlos, na sua perturbação, ou o Ega fraquejavam sob o -peso do grande corpo. A governante já estava no quarto d'Affonso com uma -colcha de sêda para estender na singela cama de ferro, sem cortinado. E -alli o depuzeram emfim sobre as ramagens claras bordadas na sêda azul. - -Ega accendera dois castiçaes de prata: a governante, de joelhos á beira -do leito, esfiava o rosario: e Mr. Antoine, com o seu barrete branco de -cozinheiro na mão, ficára á porta, junto d'um cesto que trouxera, cheio -de camelias e palmas de estufa. Carlos, no emtanto, movendo-se pelo -quarto, com longos soluços que o sacudiam, voltava a cada instante, -n'uma derradeira e absurda esperança, palpar as mãos ou o coração do -velho. Com o jaquetão de velludilho, os seus grossos sapatos brancos, -Affonso parecia mais forte e maior, na sua rigidez, sobre o leito -estreito: entre o cabello de neve cortado á escovinha e a longa barba -desleixada, a pelle ganhára um tom de marfim velho, onde as rugas -tomavam a dureza d'entalhaduras a cinzel: as palpebras engelhadas, de -pestanas brancas, pousavam com a consolada serenidade de quem emfim -descança; e ao deitarem-no uma das mãos ficára-lhe aberta e posta sobre -o coração, na simples e natural attitude de quem tanto pelo coração -vivêra! - -Carlos perdia-se n'esta contemplação dolorosa. E o seu desespero era que -o avô assim tivesse partido para sempre, sem que entre elles houvesse um -adeus, uma dôce palavra trocada. Nada! Apenas aquelle olhar angustiado, -quando passára com a vela accêsa na mão. Já então elle ia andando para a -morte. O avô sabia tudo, d'isso morrera! E esta certeza sem cessar lhe -batia n'alma, com uma longa pancada repetida e lugubre. O avô sabia -tudo, d'isso morrera! - -Ega veio com um gesto indicar-lhe o estado em que estavam--elle de -robe-de-chambre, Carlos com o paletot sobre a camisa de dormir: - ---É necessario descer, é necessario vestir-nos. - -Carlos balbuciou: - ---Sim, vamo-nos vestir... - -Mas não se arredava. Ega levou-o brandamente pelo braço. Elle caminhava -como um somnambulo, passando o lenço devagar pela testa e pela barba. E -de repente no corredor, apertando desesperadamente as mãos, outra vez -coberto de lagrimas, n'um agoniado desabafo de toda a sua culpa: - ---Ega, meu querido Ega! O avô viu-me esta manhã quando entrei! E passou, -não me disse nada... Sabia tudo, foi isso que o matou!... - -Ega arrastou-o, consolou-o, repellindo tal idéa. Que tolice! O avô tinha -quasi oitenta annos, e uma doença de coração... Desde a volta de Santa -Olavia, quantas vezes elles tinham fallado n'isso, aterrados! Era -absurdo ir agora fazer-se mais desgraçado com semelhante imaginação! - -Carlos murmurou, devagar, como para si mesmo, com os olhos postos no -chão: - ---Não! É estranho, não me faço mais desgraçado! Aceito isto como um -castigo... Quero que seja um castigo... E sinto-me só muito pequeno, -muito humilde diante de quem assim me castiga. Esta manhã pensava em -matar-me. E agora não! É o meu castigo viver, esmagado para sempre... O -que me custa é que elle não me tivesse dito _adeus_!! - -De novo as lagrimas lhe correram, mas lentas, mansamente, sem desespero. -Ega levou-o para o quarto, como uma criança. E assim o deixou a um canto -do sofá, com o lenço sobre a face, n'um chôro contínuo e quieto, que lhe -ia lavando, alliviando o coração de todas as angustias confusas e sem -nome que n'esses dias derradeiros o traziam suffocado. - -Ao meio dia, em cima, Ega acabava de vestir-se quando Villaça lhe rompeu -pelo quarto de braços abertos. - ---Então como foi isto, como foi isto? - -Baptista mandára-o chamar pelo trintanario, mas o rapazola pouco lhe -soubera contar. Agora em baixo o pobre Carlos abraçára-o, coitadinho, -lavado em lagrimas, sem poder dizer nada, pedindo-lhe só para se -entender em tudo com o Ega... E alli estava. - ---Mas como foi, como foi, assim de repente?... - -Ega contou, brevemente, como tinham encontrado Affonso de manhã no -jardim, tombado para cima da mesa de pedra. Viera o dr. Azevedo, mas -tudo acabára! - -Villaça levou as mãos á cabeça: - ---Uma coisa assim! Creia o amigo! Foi essa mulher, essa mulher que ahi -appareceu, que o matou! Nunca foi o mesmo depois d'aquelle abalo! Não -foi mais nada! Foi isso! - -Ega murmurava, deitando machinalmente agua de Colonia no lenço: - ---Sim, talvez, esse abalo, e oitenta annos, e poucas cautelas, e uma -doença de coração. - -Fallaram então do enterro, que devia ser simples como convinha áquelle -homem simples. Para depositar o corpo, emquanto não fosse trasladado -para Santa Olavia, Ega lembrára-se do jazigo do marquez. - -Villaça coçava o queixo, hesitando: - ---Eu tambem tenho um jazigo. Foi o proprio snr. Affonso da Maia que o -mandou erguer para meu pai, que Deus haja... Ora parece-me que por uns -dias ficava lá perfeitamente. Assim não se pedia a ninguem, e eu tinha -n'isso muita honra... - -Ega concordou. Depois fixaram outros detalhes de convite, de hora, de -chave do caixão. Por fim Villaça, olhando o relogio, ergueu-se com um -grande suspiro: - ---Bem, vou dar esses tristes passos! E cá appareço logo, que o quero vêr -pela ultima vez, quando o tiverem vestido. Quem me havia de dizer! Ainda -antes de hontem a jogar com elle... Até lhe ganhei tres mil reis, -coitadinho! - -Uma onda de saudade suffocou-o, fugiu com o lenço nos olhos. - -Quando Ega desceu, Carlos, todo de luto, estava sentado á escrivaninha, -diante d'uma folha de papel. Immediatamente ergueu-se, arrojou a penna. - ---Não posso!... Escreve-lhe tu ahi, a ella, duas palavras. - -Em silencio, Ega tomou a penna, redigiu um bilhete muito curto. Dizia: -«Minha senhora. O snr. Affonso da Maia morreu esta madrugada, de -repente, com uma apoplexia. V. exc.^a comprehende que, n'este momento, -Carlos nada mais póde do que pedir-me para eu transmittir a v. exc.^a -esta desgraçada noticia. Creia-me, etc.» Não o leu a Carlos. E como -Baptista entrava n'esse momento, todo de preto, com o almoço n'uma -bandeja, Ega pediu-lhe para mandar o trintanario com aquelle bilhete á -rua de S. Francisco. Baptista segredou sobre o hombro do Ega: - ---É bom não esquecer as fardas de luto para os criados... - ---O snr. Villaça já sabe. - -Tomaram chá á pressa em cima do taboleiro. Depois Ega escreveu bilhetes -a D. Diogo e ao Sequeira, os mais velhos amigos d'Affonso: e davam duas -horas quando chegaram os homens com o caixão para amortalhar o corpo. -Mas Carlos não permittiu que mãos mercenarias tocassem no avô. Foi elle -e o Ega, ajudados pelo Baptista, que, corajosamente, recalcando a emoção -sob o dever, o lavaram, o vestiram, o depuzeram dentro do grande cofre -de carvalho, forrado de setim claro, onde Carlos collocou uma miniatura -de sua avó Runa. Á tarde, com auxilio de Villaça, que voltára «para dar -o ultimo olhar ao patrão», desceram-no ao escriptorio, que Ega não -quizera alterar nem ornar, e que, com os damascos escarlates, as -estantes lavradas, os livros juncando a carteira de pau preto, -conservava a sua feição austera de paz estudiosa. Sómente, para depôr o -caixão, tinham juntado duas largas mesas, recobertas por um panno de -velludo negro que havia na casa, com as armas bordadas a ouro. Por cima -o Christo de Rubens abria os braços sobre a vermelhidão do poente. Aos -lados ardiam doze castiçaes de prata. Largas palmas d'estufa cruzavam-se -á cabeceira do esquife, entre ramos de camelias. E Ega accendeu um pouco -de incenso em dois perfumadores de bronze. - -Á noite o primeiro dos velhos amigos a apparecer foi D. Diogo, solemne, -de casaca. Encostado ao Ega, aterrado diante do caixão, só pôde -murmurar:--«E tinha menos sete mezes que eu!» O marquez veio já tarde, -abafado em mantas, trazendo um grande cesto de flôres. Craft e o Cruges -nada sabiam, tinham-se encontrado na rampa de Santos;--e receberam a -primeira surpreza ao vêr fechado o portão do Ramalhete. O ultimo a -chegar foi o Sequeira, que passára o dia na quinta, e se abraçou em -Carlos, depois no Craft ao acaso, entontecido, com uma lagrima nos olhos -injectados, balbuciando:--«Foi-se o companheiro de muitos annos. Tambem -não tardo!...» - -E a noite de vigilia e pezames começou, lenta e silenciosa. As doze -chammas das velas ardiam, muito altas, n'uma solemnidade funeraria. Os -amigos trocavam algum murmurio abafado, com as cadeiras chegadas. Pouco -a pouco, o calor, o aroma do incenso, a exhalação das flôres forçaram o -Baptista a abrir uma das janellas do terraço. O céo estava cheio -d'estrellas. Um vento fino susurrava nas ramagens do jardim. - -Já tarde Sequeira, que não se movera d'uma poltrona, com os braços -cruzados, teve uma tontura. Ega levou-o á sala de jantar, a -reconfortal-o com um calice de cognac. Havia lá uma ceia fria, com -vinhos e dôces. E Craft veio tambem--com o Taveira, que soubera a -desgraça na redacção da _Tarde_, e correra quasi sem jantar. Tomando um -pouco de Bordeus, uma _sandwich_, Sequeira reanimava-se, lembrava o -passado, os tempos brilhantes, quando Affonso e elle eram novos. Mas -emmudeceu vendo apparecer Carlos, pallido e vagaroso como um somnambulo, -que balbuciou: «Tomem alguma coisa, sim, tomem alguma coisa...» - -Mexeu n'um prato, deu uma volta á mesa, sahiu. Assim vagamente foi até á -ante-camara, onde todos os candelabros ardiam. Uma figura esguia e negra -surgiu da escada. Dois braços enlaçaram-no. Era o Alencar. - ---Nunca vim cá nos dias felizes, aqui estou na hora triste! - -E o poeta seguiu pelo corredor, em pontas de pés, como pela nave d'um -templo. - -Carlos no emtanto deu ainda alguns passos pela ante-camara. Ao canto -d'um divan ficára um grande cesto com uma corôa de flôres, sobre que -pousava uma carta. Reconheceu a letra de Maria. Não lhe tocou, recolheu -ao escriptorio. Alencar, diante do caixão, com a mão pousada no hombro -do Ega, murmurava: «Foi-se uma alma de heroe!» - -As velas iam-se consumindo. Um cansaço pesava. Baptista fez servir café -no bilhar. E ahi, apenas recebeu a sua chavena, Alencar, cercado do -Cruges, do Taveira, do Villaça, rompeu a fallar tambem do passado, dos -tempos brilhantes d'Arroios, dos rapazes ardentes d'então: - ---Vejam vocês, filhos, se se encontra ainda uma gente como estes Maias, -almas de leões, generosos, valentes!... Tudo parece ir morrendo n'este -desgraçado paiz!... Foi-se a faisca, foi-se a paixão... Affonso da Maia! -Parece que o estou a vêr, á janella do palacio em Bemfica, com a sua -grande gravata de setim, aquella cara nobre de portuguez d'outr'ora... E -lá vai! E o meu pobre Pedro tambem... Caramba, até se me faz a alma -negra! - -Os olhos ennevoavam-se-lhe, deu um immenso sorvo ao cognac. - -Ega, depois de beber um gole de café, voltára ao escriptorio, onde o -cheiro d'incenso espalhava uma melancolia de capella. D. Diogo, estirado -no sofá, resonava; Sequeira defronte dormitava tambem, descahido sobre -os braços cruzados, com todo o sangue na face. Ega despertou-os de leve. -Os dois velhos amigos, depois d'um abraço a Carlos, partiram na mesma -carruagem, com os charutos accêsos. Os outros, pouco a pouco, iam tambem -abraçar Carlos, enfiavam os paletots. O ultimo a sahir foi Alencar, que, -no pateo, beijou o Ega, n'um impulso d'emoção, lamentando ainda o -passado, os companheiros desapparecidos: - ---O que me vale agora são vocês, rapazes, a gente nova. Não me deitem á -margem! Senão, caramba, quando quizer fazer uma visita tenho d'ir ao -cemiterio. Adeus, não apanhes frio! - -O enterro foi ao outro dia, á uma hora. O Ega, o marquez, o Craft, o -Sequeira levaram o caixão até á porta, seguidos pelo grupo d'amigos, -onde destacava o conde de Gouvarinho, solemnissimo, de gran-cruz. O -conde de Steinbroken, com o seu secretario, trazia na mão uma corôa de -violetas. Na calçada estreita os trens apertavam-se, n'uma longa fila -que subia, se perdia pelas outras ruas, pelas travessas: em todas as -janellas do bairro se apinhava gente: os policias berravam com os -cocheiros. Por fim o carro, muito simples, rodou, seguido por duas -carruagens da casa, vazias, com as lanternas recobertas de longos véos -de crepe que pendiam. Atraz, um a um, desfilaram os trens da Companhia -com os convidados, que abotoavam os casacos, corriam os vidros contra a -friagem do dia ennevoado. O Darque e o Vargas iam no mesmo coupé. O -correio do Gouvarinho passou choutando na sua pileca branca. E, sobre a -rua deserta, cerrou-se finalmente para um grande luto o portão do -Ramalhete. - -Quando Ega voltou do cemiterio encontrou Carlos no quarto, rasgando -papeis, emquanto o Baptista, atarefado, de joelhos no tapete, fechava -uma mala de couro. E como Ega, pallido e arrepiado de frio, esfregava as -mãos, Carlos fechou a gaveta cheia de cartas, lembrou que fossem para o -_fumoir_ onde havia lume. - -Apenas lá entraram, Carlos correu o reposteiro, olhou para o Ega: - ---Tens duvida em lhe ir fallar, a ella? - ---Não. Para que?... Para lhe dizer o que? - ---Tudo. - -Ega rolou uma poltrona para junto da chaminé, despertou as brazas. E -Carlos, ao lado, proseguiu devagar, olhando o lume: - ---Além d'isso, desejo que ella parta, que parta já para Paris... Seria -absurdo ficar em Lisboa... Emquanto se não liquidar o que lhe pertence, -ha-de-se-lhe estabelecer uma mezada, uma larga mezada... Villaça vem -d'aqui a bocado para fallar d'esses detalhes... Em todo o caso, ámanhã, -para ella partir, levas-lhe quinhentas libras. - -Ega murmurou: - ---Talvez para essas questões de dinheiro fosse melhor ir lá o Villaça... - ---Não, pelo amor de Deus! Para que se ha de fazer córar a pobre creatura -diante do Villaça?... - -Houve um silencio. Ambos olhavam a chamma clara que bailava. - ---Custa-te muito, não é verdade, meu pobre Ega?... - ---Não... Começo a estar embotado. É fechar os olhos, tragar mais essa má -hora, e depois descansar. Quando voltas tu de Santa Olavia? - -Carlos não sabia. Contava que Ega, terminada essa missão á rua de S. -Francisco, fosse aborrecer-se uns dias com elle a Santa Olavia. Mais -tarde era necessario trasladar para lá o corpo do avô... - ---E passado isso, vou viajar... Vou á America, vou ao Japão, vou fazer -esta coisa estupida e sempre efficaz que se chama _distrahir_... - -Encolheu os hombros, foi devagar até á janella, onde morria pallidamente -um raio de sol na tarde que clareára. Depois voltando para o Ega, que de -novo remexia os carvões: - ---Eu, está claro, não me atrevo a dizer-te que venhas, Ega... Desejava -bem, mas não me atrevo! - -Ega pousou devagar as tenazes, ergueu-se, abriu os braços para Carlos, -commovido: - ---Atreve, que diabo... Porque não? - ---Então vem! - -Carlos puzera n'isto toda a sua alma. E ao abraçar o Ega corriam-lhe na -face duas grandes lagrimas. - -Então Ega reflectiu. Antes de ir a Santa Olavia precisava fazer uma -romagem á quinta de Celorico. O Oriente era caro. Urgia pois arrancar á -mãi algumas letras de credito... E como Carlos pretendia ter «bastante -para o luxo d'ambos», Ega atalhou muito sério: - ---Não, não! Minha mãi tambem é rica. Uma viagem á America e ao Japão são -fórmas de educação. E a mamã tem o dever de completar a minha educação. -O que acceito, sim, é uma das tuas malas de couro... - -Quando n'essa noite, acompanhados pelo Villaça, Carlos e Ega chegaram á -estação de Santa Apolonia, o comboio ia partir. Carlos mal teve tempo de -saltar para o seu compartimento reservado--emquanto o Baptista, abraçado -ás mantas de viagem, empurrado pelo guarda, se içava desesperadamente -para outra carruagem, entre os protestos dos sujeitos que a atulhavam. O -trem immediatamente rolou. Carlos debruçou-se á portinhola, gritando ao -Ega:--«Manda um telegramma ámanhã a dizer o que houve!» - -Recolhendo ao Ramalhete com o Villaça, que ia n'essa noite colligir e -sellar os papeis de Affonso da Maia, Ega fallou logo nas quinhentas -libras que elle devia entregar na manhã seguinte a Maria Eduarda. -Villaça recebera com effeito essa ordem de Carlos. Mas francamente, -entre amigos, não lhe parecia excessiva a somma, para uma jornada? Além -d'isso Carlos fallára em estabelecer a essa senhora uma mezada de quatro -mil francos, cento e sessenta libras! Não achava tambem exagerado? Para -uma mulher, uma simples mulher... - -Ega lembrou que essa simples mulher tinha direito legal a muito mais... - ---Sim, sim, resmungou o procurador. Mas tudo isso de legalidade tem -ainda de ser muito estudado. Não fallemos n'isso. Eu nem gósto de fallar -d'isso!... - -Depois como Ega alludia á fortuna que deixava Affonso da Maia--Villaça -deu detalhes. Era decerto uma das boas casas de Portugal. Só o que viera -da herança de Sebastião da Maia, representava bem quinze contos de -renda. As propriedades do Alemtejo, com os trabalhos que lá fizera o pai -d'elle Villaça, tinham triplicado de valor. Santa Olavia era uma -despeza. Mas as quintas ao pé de Lamego, um condado. - ---Ha muito dinheiro! exclamou elle com satisfação, batendo no joelho do -Ega. E isto, amigo, digam lá o que disserem, sempre consola de tudo. - ---Consola de muito, com effeito. - -Ao entrar no Ramalhete, Ega sentia uma longa saudade pensando no lar -feliz e amavel que alli houvera e que para sempre se apagára. Na -ante-camara, os seus passos já lhe pareceram soar tristemente como os -que se dão n'uma casa abandonada. Ainda errava um vago cheiro de incenso -e de phenol. No lustre do corredor havia uma luz só e dormente. - ---Já anda aqui um ar de ruina, Villaça. - ---Ruinasinha bem confortavel, todavia! murmurou o procurador dando um -olhar ás tapeçarias e aos divans, e esfregando as mãos, arrepiado da -friagem da noite. - -Entraram no escriptorio de Affonso, onde durante um momento se ficaram -aquecendo ao lume. O relogio Luiz XV bateu finalmente as nove -horas--depois a toada argentina do seu minuete vibrou um instante e -morreu. Villaça preparou-se para começar a sua tarefa. Ega declarou que -ia para o quarto arranjar tambem a sua papelada, fazer a limpeza final -de dois annos de mocidade... - -Subiu. E pousára apenas a luz sobre a commoda, quando sentiu ao fundo, -no silencio do corredor, um gemido longo, desolado, d'uma tristeza -infinita. Um terror arrepiou-lhe os cabellos. Aquillo arrastava-se, -gemia no escuro, para o lado dos aposentos d'Affonso da Maia. Por fim, -reflectindo que toda a casa estava acordada, cheia de criados e de -luzes, Ega ousou dar alguns passos no corredor, com o castiçal na mão -tremula. - -Era o gato! Era o reverendo Bonifacio, que, diante do quarto d'Affonso, -arranhando a porta fechada, miava doloridamente. Ega escorraçou-o, -furioso. O pobre Bonifacio fugiu, obeso e lento, com a cauda fôfa a -roçar o chão: mas voltou logo, e esgatanhando a porta, roçando-se pelas -pernas do Ega, recomeçou a miar, n'um lamento agudo, saudoso como o -d'uma dôr humana, chorando o dono perdido que o acariciava no collo e -que não tornára a apparecer. - -Ega correu ao escriptorio a pedir ao Villaça que dormisse essa noite no -Ramalhete. O procurador accedeu, impressionado com aquelle horror do -gato a chorar. Deixára o montão de papeis sobre a mesa, voltára a -aquecer os pés ao lume dormente. E voltando-se para o Ega, que se -sentára, ainda todo pallido, no sofá bordado a matiz, antigo logar de D. -Diogo, murmurou devagar, gravemente: - ---Ha tres annos, quando o snr. Affonso me encommendou aqui as primeiras -obras, lembrei-lhe eu que, segundo uma antiga lenda, eram sempre fataes -aos Maias as paredes do Ramalhete. O snr. Affonso da Maia riu d'agouros -e lendas... Pois fataes foram! - - - -No dia seguinte, levando os papeis da Monforte e o dinheiro em letras e -libras que Villaça lhe entregára á porta do Banco de Portugal, Ega, com -o coração aos pulos, mas decidido a ser forte, a affrontar a crise -serenamente, subia ao primeiro andar da rua de S. Francisco. O Domingos, -de gravata preta, movendo-se em pontas de pés, abriu o reposteiro da -sala. E Ega pousára apenas sobre o sofá a velha caixa de charutos da -Monforte--quando Maria Eduarda entrou, pallida, toda coberta de negro, -estendendo-lhe as mãos ambas. - ---Então Carlos? - -Ega balbuciou: - ---Como v. exc.^a póde imaginar, n'um momento d'estes... Foi horrivel, -assim de surpreza... - -Uma lagrima tremeu nos olhos pisados de Maria. Ella não conhecia o snr. -Affonso da Maia, nem sequer o vira nunca. Mas soffria realmente por -sentir bem o soffrimento de Carlos... O que aquelle rapaz estremecia o -avô! - ---Foi de repente, não? - -Ega retardou-se em longos detalhes. Agradeceu a corôa que ella mandára. -Contou os gemidos, a afflicção do pobre Bonifacio... - ---E Carlos? repetiu ella. - ---Carlos foi para Santa Olavia, minha senhora. - -Ella apertou as mãos, n'uma surpreza que a acabrunhava. Para Santa -Olavia! E sem um bilhete, sem uma palavra?... Um terror empallidecia-a -mais, diante d'aquella partida tão arrebatada, quasi parecida com um -abandono. Terminou por murmurar, com um ar de resignação e de confiança -que não sentia: - ---Sim, com effeito, n'este momento não se pensa nos outros... - -Duas lagrimas corriam-lhe devagar pela face. E diante d'esta dôr, tão -humilde e tão muda, Ega ficou desconcertado. Durante um instante, com os -dedos tremulos no bigode, viu Maria chorar em silencio. Por fim -ergueu-se, foi á janella, voltou, abriu os braços diante d'ella n'uma -afflicção: - ---Não, não é isso, minha querida senhora! Ha outra coisa, ha ainda outra -coisa! Tem sido para nós dias terriveis! Tem sido dias d'angustia... - -Outra coisa!?... Ella esperava, com os olhos largos sobre o Ega, a alma -toda suspensa. - -Ega respirou fortemente: - ---V. exc.^a lembra-se d'um Guimarães, que vive em Paris, um tio do -Damaso? - -Maria, espantada, moveu lentamente a cabeça. - ---Esse Guimarães era muito conhecido da mãi de v. exc.^a, não é verdade? - -Ella teve o mesmo movimento breve e mudo. Mas o pobre Ega hesitava -ainda, com a face arrepanhada e branca, n'um embaraço que o dilacerava: - ---Eu fallo em tudo isto, minha senhora, porque Carlos assim me pediu... -Deus sabe o que me custa!... E é horrivel, nem sei por onde hei de -começar... - -Ella juntou as mãos, n'uma supplica, n'uma angustia: - ---Pelo amor de Deus! - -E n'esse instante, muito socegadamente, Rosa erguia uma ponta do -reposteiro, com _Niniche_ ao lado e a sua boneca nos braços. A mãi teve -um grito impaciente: - ---Vai lá p'ra dentro! deixa-me! - -Assustada, a pequena não se moveu mais, com os lindos olhos de repente -cheios de agua. O reposteiro cahiu, do fundo do corredor veio um grande -chôro magoado. - -Então Ega teve só um desejo, o desesperado desejo de findar. - ---V. exc.^a conhece a letra de sua mãi, não é verdade?... Pois bem! Eu -trago aqui uma declaração d'ella a seu respeito... Esse Guimarães é que -tinha este documento, com outros papeis que ella lhe entregou em 71, nas -vesperas da guerra... Elle conservou-os até agora, e queria -restituir-lh'os, mas não sabia onde v. exc.^a vivia. Viu-a ha dias n'uma -carruagem, commigo, e com o Carlos... Foi ao pé do Aterro, v. exc.^a -deve lembrar-se, defronte do alfaiate, quando vinhamos da _Toca_... Pois -bem! o Guimarães veio immediatamente ao procurador dos Maias, deu-lhe -esses papeis, para que os entregasse a v. exc.^a... E nas primeiras -palavras que disse, imagine o assombro de todos, quando se entreviu que -v. exc.^a era parenta de Carlos, e parenta muito chegada... - -Atabalhoára esta historia de pé, quasi d'um fôlego, com bruscos gestos -de nervoso. Ella mal comprehendia, livida, n'um indefinido terror. Só -pôde murmurar muito debilmente: «Mas...» E de novo emmudeceu, -assombrada, devorando os movimentos do Ega que, debruçado sobre o sofá, -desembrulhava a tremer a caixa de charutos da Monforte. Por fim voltou -para ella com um papel na mão, atropellando as palavras n'uma debandada: - ---A mãi de v. exc.^a nunca lh'o disse... Havia um motivo muito grave... -Ella tinha fugido de Lisboa, fugido ao marido... Digo isto assim -brutalmente, perdôe-me v. exc.^a, mas não é o momento de attenuar as -coisas... Aqui está! V. exc.^a conhece a letra de sua mãi. É d'ella esta -letra, não é verdade? - ---É! exclamou Maria, indo arrebatar o papel. - ---Perdão! gritou Ega, retirando-lh'o violentamente. Eu sou um estranho! -E v. exc.^a não se póde inteirar de tudo isto emquanto eu não sahir -d'aqui. - -Fôra uma inspiração providencial, que o salvava de testemunhar o choque -terrivel, o horror das coisas que ella ia saber. E insistiu. Deixava-lhe -alli todos os papeis que eram de sua mãi. Ella lería, quando elle -sahisse, comprehenderia a realidade atroz... Depois, tirando do bolso os -dois pesados rôlos de libras, o sobrescripto que continha a letra sobre -Paris, pôz tudo em cima da mesa, com a declaração da Monforte. - ---Agora só mais duas palavras. Carlos pensa que o que v. exc.^a deve -fazer já é partir para Paris. V. exc.^a tem direito, como sua filha ha -de ter, a uma parte da fortuna d'esta familia dos Maias, que agora é a -sua... N'este masso que lhe deixo está uma letra sobre Paris para as -despezas immediatas... O procurador de Carlos tomou já um wagon-salão. -Quando v. exc.^a decidir partir, peço-lhe que mande um recado ao -Ramalhete para eu estar na _gare_... Creio que é tudo. E agora devo -deixal-a... - -Agarrára rapidamente o chapéo, veio tomar-lhe a mão inerte e fria: - ---Tudo é uma fatalidade! V. exc.^a é nova, ainda lhe resta muita coisa -na vida, tem a sua filha a consolal-a de tudo... Nem lhe sei dizer mais -nada! - -Suffocado, beijou-lhe a mão que ella lhe abandonou, sem consciencia e -sem voz, de pé, direita no seu negro luto, com a lividez parada d'um -marmore. E fugiu. - ---Ao telegrapho! gritou em baixo ao cocheiro. - -Foi só na rua do Ouro que começou a serenar, tirando o chapéo, -respirando largamente. E ia então repetindo a si mesmo todas as -consolações que se poderiam dar a Maria Eduarda: era nova e formosa; o -seu peccado fôra inconsciente; o tempo acalma toda a dôr; e em breve, já -resignada, encontrar-se-hia com uma familia séria, uma larga fortuna, -n'esse amavel Paris, onde uns lindos olhos, com algumas notas de mil -francos, têm sempre um reinado seguro... - ---É uma situação de viuva bonita e rica, terminou elle por dizer alto no -coupé. Ha peor na vida. - -Ao sahir do telegrapho despediu a tipoia. Por aquella luz consoladora do -dia de inverno, recolheu a pé para o Ramalhete, a escrever a longa carta -que promettera a Carlos. Villaça já lá estava installado, com um boné de -velludilho na cabeça, emmassando ainda os papeis de Affonso, liquidando -as contas dos criados. Jantaram tarde. E fumavam junto do lume, na sala -Luiz XV, quando o escudeiro veio dizer que uma senhora, em baixo, n'uma -carruagem, procurava o snr. Ega. Foi um terror. Imaginaram logo Maria, -alguma resolução desesperada. Villaça ainda teve a esperança d'ella -trazer alguma nova revelação, que tudo mudasse, salvasse da «bolada»... -Ega desceu a tremer. Era Melanie n'uma tipoia de praça, abafada n'uma -grande _ulster_, com uma carta de Madame. - -Á luz da lanterna Ega abriu o enveloppe, que trazia apenas um cartão -branco, com estas palavras a lapis: «Decidi partir ámanhã para Paris.» - -Ega recalcou a curiosidade de saber como estava a senhora. Galgou logo -as escadas: e seguido de Villaça, que ficára na ante-camara á espreita, -correu ao escriptorio d'Affonso, a escrever a Maria. N'um papel tarjado -de luto dizia-lhe (além de detalhes sobre bagagens)--que o wagon-salão -estava tomado até Paris, e que elle teria a honra de a vêr em Santa -Apolonia. Depois, ao fazer o sobrescripto, ficou com a penna no ar, n'um -embaraço. Devia pôr «Madame Mac-Gren» ou «D. Maria Eduarda da Maia?» -Villaça achava preferivel o antigo nome, porque ella legalmente ainda -não era Maia. Mas, dizia o Ega atrapalhado, tambem já não era -Mac-Gren... - ---Acabou-se! Vae sem nome. Imagina-se que foi esquecimento... - -Levou assim a carta, dentro do sobrescripto em branco. Melanie guardou-a -no regalo. E, debruçada á portinhola, entristecendo a voz, desejou -saber, da parte de Madame, onde estava enterrado o avô do senhor... - -Ega ficou com o monoculo sobre ella, sem sentir bem se aquella -curiosidade de Maria era indiscreta ou tocante. Por fim deu uma -indicação. Era nos Prazeres, á direita, ao fundo, onde havia um anjo com -uma tocha. O melhor seria perguntar ao guarda pelo jazigo dos snrs. -Villaças. - ---Merci, monsieur, bien le bonsoir. - ---Bonsoir, Melanie! - -No dia seguinte, na estação de Santa Apolonia, Ega, que viera cedo com o -Villaça, acabava de despachar a sua bagagem para o Douro, quando avistou -Maria que entrava trazendo Rosa pela mão. Vinha toda envolta n'uma -grande pelliça escura, com um véo dobrado, espesso como uma mascara: e a -mesma gaze de luto escondia o rostosinho da pequena, fazendo-lhe um laço -sobre a touca. Miss Sarah, n'uma _ulster_ clara de quadrados, sobraçava -um masso de livros. Atraz o Domingos, com os olhos muito vermelhos, -segurava um rôlo de mantas, ao lado de Melanie carregada de preto que -levava _Niniche_ ao collo. Ega correu para Maria Eduarda, conduziu-a -pelo braço, em silencio, ao wagon-salão que tinha todas as cortinas -cerradas. Junto do estribo ella tirou devagar a luva. E muda, -estendeu-lhe a mão. - ---Ainda nos vemos no Entroncamento, murmurou Ega. Eu sigo tambem para o -Norte. - -Alguns sujeitos pararam, com curiosidade, ao vêr sumir-se n'aquella -carruagem de luxo, fechada, mysteriosa, uma senhora que parecia tão -bella, d'ar tão triste, coberta de negro. E apenas Ega fechou a -portinhola, o Neves, o da _Tarde_ e do Tribunal de Contas, rompeu -d'entre um rancho, arrebatou-lhe o braço com sofreguidão: - ---Quem é? - -Ega arrastou-o pela plataforma, para lhe deixar cahir no ouvido, já -muito adiante, tragicamente: - ---Cleopatra! - -O politico, furioso, ficou rosnando: «Que asno!...» Ega abalára. Junto -do seu compartimento Villaça esperava, ainda deslumbrado com aquella -figura de Maria Eduarda, tão melancolica e nobre. Nunca a vira antes. E -parecia-lhe uma rainha de romance. - ---Acredite o amigo, fez-me impressão! Caramba, bella mulher! Dá-nos uma -bolada, mas é uma soberba praça! - -O comboio partiu. O Domingos ficava choramingando com um lenço de côres -sobre a face. E o Neves, o conselheiro do Tribunal de Contas, ainda -furioso, vendo o Ega á portinhola, atirou-lhe de lado, disfarçadamente, -um gesto obsceno. - -No Entroncamento Ega veio bater nos vidros do salão que se conservava -fechado e mudo. Foi Maria que abriu. Rosa dormia. Miss Sarah lia a um -canto, com a cabeça n'uma almofada. E _Niniche_ assustada ladrou. - ---Quer tomar alguma coisa, minha senhora? - ---Não, obrigada... - -Ficaram calados, emquanto Ega com o pé no estribo tirava lentamente a -charuteira. Na estação mal alumiada passavam saloios, devagar, abafados -em mantas. Um guarda rolava uma carreta de fardos. Adiante a machina -resfolegava na sombra. E dois sujeitos rondavam em frente do salão, com -olhares curiosos e já languidos para aquella magnifica mulher, tão grave -e sombria, envolta na sua pelliça negra. - ---Vai para o Porto? murmurou ella. - ---Para Santa Olavia... - ---Ah! - -Então Ega balbuciou com os beiços a tremer: - ---Adeus! - -Ella apertou-lhe a mão com muita força, em silencio, suffocada. - -Ega atravessou, devagar, por entre soldados de capote enrolado a -tiracollo que corriam a beber á cantina. Á porta do buffete voltou-se -ainda, ergueu o chapéo. Ella, de pé, moveu de leve o braço n'um lento -adeus. E foi assim que elle pela derradeira vez na vida viu Maria -Eduarda, grande, muda, toda negra na claridade, á portinhola d'aquelle -wagon que para sempre a levava. - - - - -VIII - - -Semanas depois, nos primeiros dias d'anno novo, a _Gazeta Illustrada_ -trazia na sua columna do _High-life_ esta noticia: « O distincto e -brilhante _sportman_, o snr. Carlos da Maia, e o nosso amigo e -collaborador João da Ega, partiram hontem para Londres, d'onde seguirão -em breve para a America do Norte, devendo d'ahi prolongar a sua -interessante viagem até ao Japão. Numerosos amigos foram a bordo do -_Tamar_ despedir-se dos sympathicos _touristes_. Vimos entre outros os -snrs, ministro da Filandia e seu secretario, o marquez de Souzella, -conde de Gouvarinho, visconde de Darque, Guilherme Craft, Telles da -Gama, Cruges, Taveira, Villaça, general Sequeira, o glorioso poeta -Thomaz d'Alencar, etc. etc. O nosso amigo e collaborador João da Ega -fez-nos, no ultimo _shake-hands_, a promessa de nos mandar algumas -cartas com as suas impressões do Japão, esse delicioso paiz d'onde nos -vem o sol e a moda! É uma boa nova para todos os que prezam a observação -e o espirito. _Au revoir!_» - -Depois d'estas linhas affectuosas (em que o Alencar collaborára) as -primeiras noticias dos «viajantes» vieram, n'uma carta do Ega para o -Villaça, de New-York. Era curta, toda de negocios. Mas elle ajuntava um -_post-scriptum_ com o titulo de _Informações geraes para os amigos_. -Contava ahi a medonha travessia desde Liverpool, a persistente tristeza -de Carlos, e New-York coberta de neve sob um sol rutilante. E -acrescentava ainda: «Está-se apossando de nós a embriaguez das viagens, -decididos a trilhar este estreito Universo até que _cancem as nossas -tristezas_. Planeamos ir a Pekin, passar a Grande Muralha, atravessar a -Asia Central, o oasis de Merv, Khiva, e penetrar na Russia; d'ahi, pela -Armenia e pela Syria, descer ao Egypto a retemperar-nos no sagrado Nilo; -subir depois a Athenas, lançar sobre a Acropole uma saudação a Minerva; -passar a Napoles; dar um olhar a Argelia e a Marrocos; e cahir emfim ao -comprido em Santa Olavia lá para os meados de 79 a descançar os membros -fatigados. Não escrevinho mais porque é tarde, e vamos á Opera vêr a -Patti no _Barbeiro_. Larga distribuição d'abraços a todos os amigos -queridos» - -Villaça copiou este paragrapho, e trazia-o na carteira para mostrar aos -fieis amigos do Ramalhete. Todos approvaram, com admiração, tão bellas, -aventurosas jornadas. Só Cruges, aterrado com aquella vastidão do -Universo, murmurou tristemente: «Não voltam cá!» - -Mas, passado anno e meio, n'um lindo dia de março, Ega reappareceu no -Chiado. E foi uma sensação! Vinha esplendido, mais forte, mais -trigueiro, soberbo de _verve_, n'um alto apuro de toilette, cheio de -historias e de aventuras do Oriente, não tolerando nada em arte ou -poesia que não fosse do Japão ou da China, e annunciando um grande -livro, o «seu livro», sob este titulo grave de chronica -heroica--_Jornadas da Asia_. - ---E Carlos?... - ---Magnifico! Installado em Paris, n'um delicioso appartamento dos -Campos-Elyseos, fazendo a vida larga d'um principe artista da -Renascença... - -Ao Villaça porém, que sabia os segredos, Ega confessou que Carlos ficára -ainda _abalado_. Vivia, ria, governava o seu phaeton no Bois--mas lá no -fundo do seu coração permanecia, pesada e negra, a memoria da «semana -terrivel». - ---Todavia os annos vão passando, Villaça, acrescentou elle. E com os -annos, a não ser a China, tudo na terra passa... - -E esse anno passou. Gente nasceu, gente morreu. Searas amadureceram, -arvoredos murcharam. Outros annos passaram. - - - -Nos fins de 1886, Carlos veio fazer o Natal perto de Sevilha, a casa -d'um amigo seu de Paris, o marquez de Villa-Medina. E d'essa propriedade -dos Villa-Medina, chamada _La Soledad_, escreveu para Lisboa ao Ega -annunciando que--depois d'um exilio de quasi dez annos, resolvera vir ao -velho Portugal vêr as arvores de Santa Olavia e as maravilhas da -Avenida. De resto tinha uma formidavel nova, que assombraria o bom Ega: -e se elle já ardia em curiosidade, que viesse ao seu encontro com o -Villaça, comer o porco a Santa Olavia. - ---Vae casar! pensou Ega. - -Havia tres annos (desde a sua ultima estada em Paris) que elle não via -Carlos. Infelizmente não pôde correr a Santa Olavia, retido n'um quarto -do _Braganza_ com uma angina, desde uma ceia prodigiosamente divertida -com que celebrára no Silva a noite de Reis. Villaça, porém, levou a -Carlos para Santa Olavia uma carta em que o Ega, contando a sua angina, -lhe supplicava que se não retardasse com o porco n'esses penhascos do -Douro, e que voasse á grande Capital a trazer a grande nova. - -Com effeito, Carlos pouco se demorou em Rezende. E n'uma luminosa e -macia manhã de janeiro de 1887, os dois amigos emfim juntos almoçavam -n'um salão do _Hotel Braganza_, com as duas janellas abertas para o rio. - -Ega, já curado, radiante, n'uma excitação que não se calmava, -alagando-se de café, entalava a cada instante o monoculo para admirar -Carlos e a sua «immutabilidade». - ---Nem uma branca, nem uma ruga, nem uma sombra de fadiga!... Tudo isso é -Paris, menino!... Lisboa arraza. Olha para mim, olha para isto! - -Com o dedo magro apontava os dois vincos fundos ao lado do nariz, na -face chupada. E o que o aterrava sobretudo era a calva, uma calva que -começára havia dois annos, alastrára, já reluzia no alto. - ---Olha este horror! A sciencia para tudo acha um remedio, menos para a -calva! Transformam-se as civilisações, a calva fica!... Já tem tons de -bola de bilhar, não é verdade?... De que será? - ---É a ociosidade, lembrou Carlos rindo. - ---A ociosidade!... E tu, então? - -De resto, que podia elle fazer n'este paiz?... Quando voltára de França, -ultimamente, pensára em entrar na diplomacia. Para isso sempre tivera a -_blague_: e agora que a mamã, coitada, lá estava no seu grande jazigo em -Celorico, tinha a _massa_. Mas depois reflectira. Por fim, em que -consistia a diplomacia portugueza? N'uma outra fórma da ociosidade, -passada no estrangeiro, com o sentimento constante da propria -insignificancia. Antes o Chiado! - -E como Carlos lembrava a Politica, occupação dos inuteis, Ega trovejou. -A politica! Isso tornára-se moralmente e physicamente nojento, desde que -o negocio atacára o constitucionalismo como uma phylloxera! Os politicos -hoje eram bonecos de engonços, que faziam gestos e tomavam attitudes -porque dois ou tres financeiros por traz lhes puxavam pelos cordeis... -Ainda assim podiam ser bonecos bem recortados, bem envernizados. Mas -qual! Ahi é que estava o horror. Não tinham feitio, não tinham maneiras, -não se lavavam, não limpavam as unhas... Coisa extraordinaria, que em -paiz algum succedia, nem na Romelia, nem na Bulgaria! Os tres ou quatro -salões que em Lisboa recebem todo o mundo, seja quem fôr, largamente, -excluem a maioria dos politicos. E porque? Porque as _senhoras têm -nôjo_! - ---Olha o Gouvarinho! Vê lá se elle recebe ás terças-feiras os seus -correligionarios... - -Carlos que sorria, encantado com aquella veia acerba do Ega, saltou na -cadeira: - ---É verdade, e a Gouvarinho, a nossa boa Gouvarinho? - -Ega, passeando pela sala, deu as novas dos Gouvarinhos. A condessa -herdára uns sessenta contos de uma tia excentrica que vivia a Santa -Isabel, tinha agora melhores carruagens, recebia sempre ás -terças-feiras. Mas soffria uma doença qualquer, grave, no figado ou no -pulmão. Ainda elegante todavia, muito séria, uma terrivel flôr de -_pruderie_... Elle, o Gouvarinho, ahi continuava, palrador, -escrevinhador, politicote, impertigadote, já grisalho, duas vezes -ministro, e coberto de gran-cruzes... - ---Tu não os viste em Paris, ultimamente? - ---Não. Quando soube fui-lhes deixar bilhetes, mas tinham partido na -vespera para Vichy... - -A porta abriu-se, um brado cavo resoou: - ---Até que emfim, meu rapaz! - ---Oh Alencar! gritou Carlos, atirando o charuto. - -E foi um infinito abraço, com palmadas arrebatadas pelos hombros, e um -beijo ruidoso--o beijo paternal do Alencar, que tremia, commovido. Ega -arrastára uma cadeira, berrava pelo escudeiro: - ---Que tomas tu, Thomaz? Cognac? Curaçáo? Em todo o caso café! Mais café! -Muito forte, para o snr. Alencar! - -O poeta, no emtanto, abysmado na contemplação de Carlos, agarrára-o -pelas mãos, com um sorriso largo, que lhe descobria os dentes mais -estragados. Achava-o magnifico, varão soberbo, honra da raça... Ah! -Paris, com o seu espirito, a sua vida ardente, conserva... - ---E Lisboa arraza! acudiu Ega. Já cá tive essa phrase. Vá, abanca, ahi -tens o cafésinho e a bebida! - -Mas Carlos agora tambem contemplava o Alencar. E parecia-lhe mais -bonito, mais poetico, com a sua grenha inspirada e toda branca, e -aquellas rugas fundas na face morena, cavadas como sulcos de carros pela -tumultuosa passagem das emoções... - ---Estás typico, Alencar! Estás a preceito para a gravura e para a -estatua!... - -O poeta sorria, passando os dedos com complacencia pelos longos bigodes -romanticos, que a idade embranquecera e o cigarro amarellára. Que diabo, -algumas compensações havia de ter a velhice!... Em todo o caso o -estomago não era mau, e conservava-se, caramba, filhos, um bocado de -coração. - ---O que não impede, meu Carlos, que isto por cá esteja cada vez peor! -Mas acabou-se... A gente queixa-se sempre do seu paiz, é habito humano. -Já Horacio se queixava. E vocês, intelligencias superiores, sabeis bem, -filhos, que no tempo de Augusto... Sem fallar, é claro, na quéda da -republica, n'aquelle desabamento das velhas instituições... Emfim -deixemos lá os Romanos! Que está alli n'aquella garrafa? Chablis... Não -desgosto, no outono, com as ostras. Pois vá lá o Chablis. E á tua -chegada, meu Carlos! e á tua, meu João, e que Deus vos dê as glorias que -mereceis, meus rapazes!... - -Bebeu. Rosnou: «bom Chablis, _bouquet_ fino». E acabou por abancar, -ruidosamente, sacudindo para traz a juba branca. - ---Este Thomaz! exclamava Ega, pousando-lhe a mão no hombro com carinho. -Não ha outro, é unico! O bom Deus fel-o n'um dia de grande _verve_, e -depois quebrou a fôrma. - -Ora, historias! murmurava o poeta radiante. Havia-os tão bons como elle. -A humanidade viera toda do mesmo barro como pretendia a Biblia--ou do -mesmo macaco como affirmava o Darwin... - ---Que, lá essas coisas d'evolução, origem das especies, desenvolvimento -da cellula, cá para mim... Está claro, o Darwin, o Lamarck, o Spencer, o -Claudio Bernard, o Littré, tudo isso, é gente de primeira ordem. Mas -acabou-se, irra! Ha uns poucos de mil annos que o homem prova -sublimemente que tem alma! - ---Toma o cafésinho, Thomaz! aconselhou o Ega, empurrando-lhe a chavena. -Toma o cafésinho! - ---Obrigado!... E é verdade, João, lá dei a tua boneca á pequena. Começou -logo a beijal-a, a embalal-a, com aquelle profundo instincto de mãi, -aquelle _quid_ divino... É uma sobrinhita minha, meu Carlos. Ficou sem -mãi, coitadinha, lá a tenho, lá vou tratando de fazer d'ella uma -mulher... Has de vêl-a. Quero que vocês lá vão jantar um dia, para vos -dar umas perdizes á hespanhola... Tu demoras-te, Carlos? - ---Sim, uma ou duas semanas, para tomar um bom sorvo de ar da patria. - ---Tens razão, meu rapaz! exclamou o poeta, puxando a garrafa do cognac. -Isto ainda não é tão mau como se diz... Olha tu para isso, para esse -céo, para esse rio, homem! - ---Com effeito é encantador! - -Todos tres, durante um momento, pasmaram para a incomparavel belleza do -rio, vasto, lustroso, sereno, tão azul como o céo, esplendidamente -coberto de sol. - ---E versos? exclamou de repente Carlos, voltando-se para o poeta. -Abandonaste a lingua divina? - -Alencar fez um gesto de desalento. Quem entendia já a lingua divina? O -novo Portugal só comprehendia a lingua da libra, da «massa». Agora, -filho, tudo eram syndicatos! - ---Mas ainda ás vezes me passa uma coisa cá por dentro, o velho homem -estremece... Tu não viste nos jornaes?... Está claro, não lês cá esses -trapos que por ahi chamam gazetas... Pois veio ahi uma coisita, dedicada -aqui ao João. Ora eu t'a digo se me lembrar... - -Correu a mão aberta pela face escaveirada, lançou a estrophe n'um tom de -lamento: - - - Luz d'esperança, luz d'amor, - Que vento vos desfolhou? - Que a alma que vos seguia - Nunca mais vos encontrou! - - -Carlos murmurou: «Lindo!» Ega murmurou: «Muito fino!» E o poeta, -aquecendo, já commovido, esboçou um movimento d'aza que foge: - - - Minh'alma em tempos d'outr'ora, - Quando nascia o luar, - Como um rouxinol que acorda - Punha-se logo a cantar. - - Pensamentos eram flôres, - Que a aragem lenta de Maio... - - ---O snr. Cruges! annunciou o criado, entreabrindo a porta. - -Carlos ergueu os braços. E o maestro, todo abotoado n'um paletot claro, -abandonou-se á effusão de Carlos, balbuciando: - ---Eu só hontem é que soube. Queria-te ir esperar, mas não me -acordaram... - ---Então continúa o mesmo desleixo? exclamava Carlos, alegremente. Nunca -te acordam? - -Cruges encolhia os hombros, muito vermelho, acanhado, depois d'aquella -longa separação. E foi Carlos que o obrigou a sentar-se ao lado, -enternecido com o seu velho maestro, sempre esguio, com o nariz mais -agudo, a grenha cahindo mais crespa sobre a gola do paletot. - ---E deixa-me dar-te os parabens! Lá soube pelos jornaes, o triumpho, a -linda opera-comica, a _Flôr de Sevilha_... - ---_De Granada_! acudiu o maestro. Sim, uma coisita para ahi, não -desgostaram. - ---Uma belleza! gritou Alencar, enchendo outro copo de cognac. Uma musica -toda do sul, cheia de luz, cheirando a laranjeira... Mas já lhe tenho -dito: «Deixa lá a opereta, rapaz, vôa mais alto, faze uma grande -symphonia historica!» Ainda ha dias lhe dei uma idéa. A partida de D. -Sebastião para a Africa. Cantos de marinheiros, atabales, o chôro do -povo, as ondas batendo... Sublime! Qual, põe-se-me lá com castanholas... -Emfim, acabou-se, tem muito talento, e é como se fosse meu filho porque -me sujou muita calça!... - -Mas o maestro, inquieto, passava os dedos pela grenha. Por fim confessou -a Carlos que não se podia demorar, tinha um _rendez-vous_... - ---D'amor? - ---Não... É o Barradas que me anda a tirar o retrato a oleo. - ---Com a lyra na mão? - ---Não, respondeu o maestro, muito sério. Com a batuta... E estou de -casaca. - -E desabotoou o paletot, mostrou-se em todo o seu esplendor, com dois -coraes no peitilho da camisa, e a batuta de marfim mettida na abertura -do collete. - ---Estás magnifico! affirmou Carlos. Então outra coisa, vem cá jantar -logo. Alencar, tu tambem, hein? Quero ouvir esses bellos versos com -socego... Ás seis, em ponto, sem falhar. Tenho um jantarinho á -portugueza que encommendei de manhã, com cozido, arroz de forno, grão de -bico, etc., para matar saudades... - -Alencar lançou um gesto immenso de desdem. Nunca o cozinheiro do -_Braganza_, francelhote miseravel, estaria á altura d'esses nobres -petiscos do velho Portugal. Emfim acabou-se. Seria pontual ás seis para -uma grande saude ao seu Carlos! - ---Vocês vão sahir, rapazes? - -Carlos e Ega iam ao Ramalhete visitar o casarão. - -O poeta declarou logo que isso era romagem sagrada. Então elle partia -com o maestro. O seu caminho ficava tambem para o lado do Barradas... -Moço de talento, esse Barradas!... Um pouco pardo de côr, tudo por -acabar, esborratado, mas uma bella ponta de faisca. - ---E teve uma tia, filhos, a Leonor Barradas! Que olhos, que corpo! E não -era só o corpo! Era a alma, a poesia, o sacrificio!... Já não ha d'isso, -já lá vai tudo. Emfim, acabou-se, ás seis! - ---Ás seis, em ponto, sem falhar! - -Alencar e o maestro partiram, depois de se munirem de charutos. E d'ahi -a pouco Carlos e Ega seguiam tambem pela rua do Thesouro Velho, de braço -dado, muito lentamente. - -Iam conversando de Paris, de rapazes e de mulheres que o Ega conhecêra, -havia quatro annos, quando lá passára um tão alegre inverno nos -appartamentos de Carlos. E a surpreza do Ega, a cada nome evocado, era o -curto brilho, o fim brusco de toda essa mocidade estouvada. A Lucy Gray, -morta. A Conrad, morta... E a Maria Blond? Gorda, emburguezada, casada -com um fabricante de velas de estearina. O polaco, o louro? Fugido, -desapparecido. Mr. de Menant, esse D. Juan? Sub-prefeito no departamento -do Doubs. E o rapaz que morava ao lado, o belga? Arruinado na Bolsa... E -outros ainda, mortos, sumidos, afundados no lodo de Paris! - ---Pois tudo sommado, menino, observou Ega, esta nossa vidinha de Lisboa, -simples, pacata, corredia, é infinitamente preferivel. - -Estavam no Loreto; e Carlos parára, olhando, reentrando na intimidade -d'aquelle velho coração da capital. Nada mudára. A mesma sentinella -somnolenta rondava em torno á estatua triste de Camões. Os mesmos -reposteiros vermelhos, com brazões ecclesiasticos, pendiam nas portas -das duas igrejas. O _Hotel Alliance_ conservava o mesmo ar mudo e -deserto. Um lindo sol dourava o lagedo; batedores de chapéo á faia -fustigavam as pilecas; tres varinas, de canastra á cabeça, meneavam os -quadris, fortes e ageis na plena luz. A uma esquina, vadios em farrapos -fumavam; e na esquina defronte na Havaneza, fumavam tambem outros -vadios, de sobrecasaca, politicando. - ---Isto é horrivel quando se vem de fóra! exclamou Carlos. Não é a -cidade, é a gente. Uma gente feiissima, encardida, mollenga, reles, -amarellada, acabrunhada!... - ---Todavia Lisboa faz differença, affirmou Ega, muito sério. Oh, faz -muita differença! Has de vêr a Avenida... Antes do Ramalhete vamos dar -uma volta á Avenida. - -Foram descendo o Chiado. Do outro lado os toldos das lojas estendiam no -chão uma sombra forte e dentada. E Carlos reconhecia, encostados ás -mesmas portas, sujeitos que lá deixára havia dez annos, já assim -encostados, já assim melancolicos. Tinham rugas, tinham brancas. Mas lá -estacionavam ainda, apagados e murchos, rente das mesmas humbreiras, com -collarinhos á moda. Depois, diante da livraria Bertrand, Ega, rindo, -tocou no braço de Carlos: - ---Olha quem alli está, á porta do Baltresqui! - -Era o Damaso. O Damaso, barrigudo, nedio, mais pesado, de flôr ao peito, -mamando um grande charuto, e pasmaceando, com o ar regaladamente -embrutecido d'um ruminante farto e feliz. Ao avistar tambem os seus dois -velhos amigos que desciam, teve um movimento para se esquivar, -refugiar-se na confeitaria. Mas, insensivelmente, irresistivelmente, -achou-se em frente de Carlos, com a mão aberta e um sorriso na bochecha, -que se lhe esbrazeára. - ---Olá, por cá!... Que grande surpreza! - -Carlos abandonou-lhe dois dedos, sorrindo tambem, indifferente e -esquecido. - ---É verdade, Damaso... Como vai isso? - ---Por aqui, n'esta semsaboria... E então com demora? - ---Umas semanas. - ---Estás no Ramalhete? - ---No _Braganza_. Mas não te incommodes, eu ando sempre por fóra. - ---Pois sim senhor!... Eu tambem estive em Paris, ha tres mezes, no -_Continental_... - ---Ah!... Bem, estimei vêr-te, até sempre! - ---Adeus, rapazes. Tu estás bom, Carlos, estás com boa cara! - ---É dos teus olhos, Damaso. - -E nos olhos do Damaso, com effeito, parecia reviver a antiga admiração, -arregalados, acompanhando Carlos, estudando-lhe por traz a sobrecasaca, -o chapéo, o andar, como no tempo em que o Maia era para elle o typo -supremo do seu querido _chic_, «uma d'essas coisas que só se vêem lá -fóra...» - ---Sabes que o nosso Damaso casou? disse o Ega um pouco adiante, travando -outra vez do braço de Carlos. - -E foi um espanto para Carlos. O quê! O nosso Damaso! Casado!?... Sim, -casado com uma filha dos condes d'Agueda, uma gente arruinada, com um -rancho de raparigas. Tinham-lhe impingido a mais nova. E o optimo -Damaso, verdadeira sorte grande para aquella distincta familia, pagava -agora os vestidos, das mais velhas. - ---É bonita? - ---Sim, bonitinha... Faz ahi a felicidade d'um rapazote sympathico, -chamado Barroso. - ---O quê, o Damaso, coitado!... - ---Sim, coitado, coitadinho, coitadissimo... Mas como vês, immensamente -ditoso, até tem engordado com a perfidia! - -Carlos parára. Olhava, pasmado para as varandas extraordinarias d'um -primeiro andar, recobertas, como em dia de procissão, de sanefas de pano -vermelho onde se entrelaçavam monogrammas. E ia indagar--quando, d'entre -um grupo que estacionava ao portal d'esse predio festivo, um rapaz d'ar -estouvado, com a face imberbe cheia d'espinhas carnaes, atravessou -rapidamente a rua para gritar ao Ega, suffocado de riso: - ---Se você for depressa ainda a encontra ahi abaixo! Corra! - ---Quem? - ---A Adosinda!... De vestido azul, com plumas brancas no chapéo... Vá -depressa... O João Elyseu metteu-lhe a bengala entre as pernas, ia-a -fazendo estatelar no chão, foi uma scena... Vá depressa, homem! - -Com duas pernadas esguias o rapaz recolheu ao seu rancho--onde todos, já -calados, com uma curiosidade de provincia, examinavam aquelle homem de -tão alta elegancia que acompanhava o Ega, e que nenhum conhecia. E Ega, -no emtanto, explicava a Carlos as varandas e o grupo: - ---São rapazes do _Turf_. É um club novo, o antigo Jockey da travessa da -Palha. Faz-se lá uma batotinha barata, tudo gente muito sympathica... E -como vês estão sempre assim preparados, com sanefas e tudo, para se -acaso passar por ahi o Senhor dos Passos. - -Depois, descendo para a rua Nova do Almada, contou o caso da Adosinda. -Fôra no Silva, havia duas semanas, estando elle a cear com rapazes -depois de S. Carlos, que lhes apparecera essa mulher inverosimil, -vestida de vermelho, carregando insensatamente nos _rr_, mettendo _rr_ -em todas as palavras, e perguntando pelo snr. _virrsconde_... Qual -_virrsconde_? Ella não sabia bem. _Erra um virrsconde que encontrrárra -no Crrolyseu_. Senta-se, offerecem-lhe champagne, e D. Adosinda começa a -revelar-se um sêr prodigioso. Fallavam de politica, do ministerio e do -_deficit_. D. Adosinda declara logo que conhece muito bem o _deficit_, e -que é um bello rapaz... O _deficit_ bello rapaz--immensa gargalhada! D. -Adosinda zanga-se, exclama que já fôra com elle a Cintra, que é um -perfeito cavalheiro, e empregado no Banco Inglez... O _deficit_ -empregado no Banco Inglez--gritos, uivos, urros! E não cessou esta -gargalhada contínua, estrondosa, phrenetica, até ás cinco da manhã em -que D. Adosinda fôra rifada e sahira ao Telles!... Noite soberba! - ---Com effeito, disse Carlos rindo, é uma orgia grandiosa, lembra -Heliogabalo e o Conde d'Orsay... - -Então Ega defendeu calorosamente a sua orgia. Onde havia melhor, na -Europa, em qualquer civilisação? Sempre queria vêr que se passasse uma -noite mais alegre em Paris, na desoladora banalidade do _Grand-Treize_, -ou em Londres, n'aquella correcta e massuda semsaboria do _Bristol_! O -que ainda tornava a vida toleravel era de vez em quando uma boa risada. -Ora na Europa o homem requintado já não ri,--sorri regeladamente, -lividamente. Só nós aqui, n'este canto do mundo barbaro, conservamos -ainda esse dom supremo, essa coisa bemdita e consoladora--a barrigada de -riso!... - ---Que diabo estás tu a olhar? - -Era o consultorio, o antigo consultorio de Carlos--onde agora, pela -taboleta, parecia existir um pequeno _atelier_ de modista. Então -bruscamente os dois amigos recahiram nas recordações do passado. Que -estupidas horas Carlos alli arrastára, com a _Revista dos Dois Mundos_, -na espera vã dos doentes, cheio ainda de fé nas alegrias do trabalho!... -E a manhã em que o Ega lá apparecera com a sua esplendida pelliça, -preparando-se para transformar, n'um só inverno, todo o velho e -rotineiro Portugal! - ---Em que tudo ficou! - ---Em que tudo ficou! Mas rimos bastante! Lembras-te d'aquella noite em -que o pobre marquez queria levar ao consultorio a Paca, para utilisar -emfim o divan, movel de serralho?... - -Carlos teve uma exclamação de saudade. Pobre marquez! Fôra uma das suas -fortes impressões, n'esses ultimos annos--aquella morte do marquez, -sabida de repente ao almoço, n'uma banal noticia de jornal!... E através -do Rocio, andando mais devagar, recordavam outros desapparecimentos: a -D. Maria da Cunha, coitada, que acabara hydropica; o D. Diogo, casado -por fim com a cozinheira; o bom Sequeira, morto uma noite n'uma tipoia -ao sahir dos cavallinhos... - ---E outra coisa, perguntou Ega. Tens visto o Craft em Londres? - ---Tenho, disse Carlos. Arranjou uma casa muito bonita ao pé de -Richmond... Mas está muito avelhado, queixa-se muito do figado. E, -desgraçadamente, carrega de mais nos alcools. É uma pena! - -Depois perguntou pelo Taveira. Esse lindo moço, contou o Ega, tinha -agora por cima mais dez annos de Secretaria e de Chiado. Mas sempre -apurado, já um bocado grisalho, mettido continuamente com alguma -hespanhola, dando bastante a lei em S. Carlos, e murmurando todas as -tardes na Havaneza, com um ar dôce e contente--«isto é um paiz perdido»! -Enfim um bom typosinho de lisboeta fino. - ---E a besta do Steinbroken? - ---Ministro em Athenas, exclamou Carlos, entre as ruinas classicas! - -E esta idéa do Steinbroken, na velha Grecia, divertiu-os infinitamente. -Ega imaginava já o bom Steinbroken, têso nos seus altos collarinhos, -affirmando a respeito de Socrates, com prudencia: «Oh, il est très fort, -il est excessivement fort!» Ou ainda, a proposito da batalha das -Thermopylas, rosnando, com medo de se comprometter: «C'est très grave, -c'est excessivement grave!» Valia a pena ir á Grecia para vêr! - -Subitamente Ega parou: - ---Ora ahi tens tu essa Avenida! Hein?... Já não é mau! - -N'um claro espaço rasgado, onde Carlos deixára o Passeio Publico pacato -e frondoso--um obelisco, com borrões de bronze no pedestal, erguia um -traço côr d'assucar na vibração fina da luz de inverno: e os largos -globos dos candieiros que o cercavam, batidos do sol, brilhavam, -transparentes e rutilantes, como grandes bolas de sabão suspensas no ar. -Dos dois lados seguiam, em alturas desiguaes, os pesados predios, lisos -e aprumados, repintados de fresco, com vasos nas cornijas onde -negrejavam piteiras de zinco, e pateos de pedra, quadrilhados a branco e -preto, onde guarda-portões chupavam o cigarro: e aquelles dois hirtos -renques de casas ajanotadas lembravam a Carlos as familias que outr'ora -se immobilisavam em filas, dos dois lados do Passeio, depois da missa -«da uma», ouvindo a Banda, com casimiras e sêdas, no catitismo -domingueiro. Todo o lagedo reluzia como cal nova. Aqui e além um arbusto -encolhia na aragem a sua folhagem pallida e rara. E ao fundo a collina -verde, salpicada d'arvores, os terrenos de Valle de Pereiro, punham um -brusco remate campestre áquelle curto rompante de luxo barato--que -partira para transformar a velha cidade, e estacára logo, com o fôlego -curto, entre montões de cascalho. - -Mas um ar lavado e largo circulava; o sol dourava a caliça; a divina -serenidade do azul sem igual tudo cobria e adoçava. E os dois amigos -sentaram-se n'um banco, junto de uma verdura que orlava a agua d'um -tanque esverdinhada e molle. - -Pela sombra passeavam rapazes, aos pares, devagar, com flôres na -lapella, a calça apurada, luvas claras fortemente pespontadas de negro. -Era toda uma geração nova e miuda que Carlos não conhecia. Por vezes Ega -murmurava um _ólá!_, acenava com a bengala. E elles iam, repassavam, com -um arzinho timido e contrafeito, como mal acostumados áquelle vasto -espaço, a tanta luz, ao seu proprio _chic_. Carlos pasmava. Que faziam -alli, ás horas de trabalho, aquelles moços tristes, de calça esguia? Não -havia mulheres. Apenas n'um banco adiante uma creatura adoentada, de -lenço e chale, tomava o sol; e duas matronas, com vidrilhos no -mantelete, donas de casa de hospedes, arejavam um cãosinho felpudo. O -que attrahia pois alli aquella mocidade pallida? E o que sobretudo o -espantava eram as botas d'esses cavalheiros, botas despropositadamente -compridas, rompendo para fóra da calça collante com pontas aguçadas e -reviradas como prôas de barcos varinos... - ---Isto é phantastico, Ega! - -Ega esfregava as mãos. Sim, mas precioso! Porque essa simples fôrma de -botas explicava todo o Portugal contemporaneo. Via-se por alli como a -coisa era. Tendo abandonado o seu feitio antigo, á D. João VI, que tão -bem lhe ficava, este desgraçado Portugal decidira arranjar-se á moderna: -mas sem originalidade, sem força, sem caracter para crear um feitio seu, -um feitio proprio, manda vir modelos do estrangeiro--modelos d'idéas, de -calças, de costumes, de leis, d'arte, de cozinha... Sómente, como lhe -falta o sentimento da proporção, e ao mesmo tempo o domina a impaciencia -de parecer muito moderno e muito civilisado--exagera o modelo, -deforma-o, estraga-o até á caricatura. O figurino da bota que veio de -fóra era levemente estreito na ponta;--immediatamente o janota estica-o -e aguça-o até ao bico d'alfinete. Por seu lado o escriptor lê uma pagina -de Goncourt ou de Verlaine em estylo precioso e -cinzelado;--immediatamente retorce, emmaranha, desengonça a sua pobre -phrase até descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez o -legislador ouve dizer que lá fóra se levanta o nivel da -instrucção;--immediatamente põe no programma dos exames de primeiras -letras a metaphysica, a astronomia, a philologia, a egyptologia, a -chresmatica, a critica das religiões comparadas, e outros infinitos -terrores. E tudo por ahi adiante assim, em todas as classes e -profissões, desde o orador até ao photographo, desde o jurisconsulto até -ao _sportman_... É o que succede com os pretos já corrompidos de S. -Thomé, que vêem os europeus de lunetas--e imaginam que n'isso consiste -ser civilisado e ser branco. Que fazem então? Na sua sofreguidão de -progresso e de brancura acavallam no nariz tres ou quatro lunetas, -claras, defumadas, até de côr. E assim andam pela cidade, de tanga, de -nariz no ar, aos tropeções, no desesperado e angustioso esforço de -equilibrarem todos estes vidros--para serem immensamente civilisados e -immensamente brancos... - -Carlos ria: - ---De modo que isto está cada vez peor... - ---Medonho! É d'um reles, d'um postiço! Sobretudo postiço! Já não ha nada -genuino n'este miseravel paiz, nem mesmo o pão que comemos! - -Carlos, recostado no banco, apontou com a bengala, n'um gesto lento: - ---Resta aquillo, que é genuino... - -E mostrava os altos da cidade, os velhos outeiros da Graça e da Penha, -com o seu casario escorregando pelas encostas resequidas e tisnadas do -sol. No cimo assentavam pesadamente os conventos, as igrejas, as -atarracadas vivendas ecclesiasticas, lembrando o frade pingue e -pachorrento, beatas de mantilha, tardes de procissão, irmandades d'opa -atulhando os adros, herva dôce juncando as ruas, tremoço e fava-rica -apregoada ás esquinas, e foguetes no ar em louvor de Jesus. Mais alto -ainda, recortando no radiante azul a miseria da sua muralha, era o -castello, sordido e tarimbeiro, d'onde outr'ora, ao som do hymno tocado -em fagotes, descia a tropa de calça branca a fazer a _bernarda_! E -abrigados por elle, no escuro bairro de S. Vicente e da Sé, os palacetes -decrepitos, com vistas saudosas para a barra, enormes brazões nas -paredes rachadas, onde entre a maledicencia, a devoção e a bisca, -arrasta os seus derradeiros dias, cachetica e caturra, a velha Lisboa -fidalga! - -Ega olhou um momento, pensativo: - ---Sim, com effeito, é talvez mais genuino. Mas tão estupido, tão -sebento! Não sabe a gente para onde se ha de voltar... E se nos voltamos -para nós mesmos, ainda peor! - -E de repente bateu no joelho de Carlos, com um brilho na face: - ---Espera... Olha quem ahi vem! - -Era uma vittoria, bem posta e correcta, avançando com lentidão e estylo, -ao trote esteppado de duas egoas inglezas. Mas foi um desapontamento. -Vinha lá sómente um rapaz muito louro, d'uma brancura de camelia, com -uma pennugem no beiço, languidamente recostado. Fez um aceno ao Ega, com -um lindo sorriso de virgem. A vittoria passou. - ---Não conheces? - -Carlos procurava, com uma recordação. - ---O teu antigo doente! O Charlie! - -O outro bateu as mãos. O Charlie! O seu Charlie! Como aquillo o fazia -velho!... E era bonitinho! - ---Sim, muito bonitinho. Tem ahi uma amizade com um velho, anda sempre -com um velho... Mas elle vinha decerto com a mãi, estou convencido que -ella ficou por ahi a passear a pé. Vamos nós vêr? - -Subiram ao comprido da Avenida, procurando. E quem avistaram logo foi o -Eusebiosinho. Parecia mais funebre, mais tisico, dando o braço a uma -senhora muito forte, muito córada, que estalava n'um vestido de sêda cor -de pinhão. Iam devagar, tomando o sol. E o Eusebio nem os viu, descahido -e mollengo, seguindo com as grossas lunetas pretas o marchar lento da -sua sombra. - ---Aquella aventesma é a mulher, contou Ega. Depois de varias paixões em -lupanares, o nosso Eusebio teve este namoro. O pai da creatura, que é -dono d'um prego, apanhou-o uma noite na escada com ella a surripiar-lhe -uns prazeres... Foi o diabo, obrigaram-no a casar. E desappareceu, não o -tornei a vêr... Diz que a mulher que o derreia á pancada. - ---Deus a conserve! - ---Amen! - -E então Carlos, que recordava a coça no Eusebio, o caso da _Corneta_, -quiz saber do Palma Cavallão. Ainda deshonrava o Universo com a sua -presença, esse benemerito? Ainda o deshonrava, disse o Ega. Sómente -deixára a litteratura, e tornára-se _factotum_ do Carneiro, o que fôra -ministro; levava-lhe a hespanhola ao theatro pelo braço; e era um bom -empenho em politica. - ---Ainda ha de ser deputado, acrescentou Ega. E, da fórma que as coisas -vão, ainda ha de ser ministro... E isto está-se fazendo tarde, -Carlinhos. Vamos nós tomar esta tipoia e abalar para o Ramalhete? - -Eram quatro horas, o sol curto de inverno tinha já um tom pallido. - -Tomaram a tipoia. No Rocio, Alencar que passava, que os viu--parou, -sacudiu ardentemente a mão no ar. E então Carlos exclamou, com uma -surpreza que já o assaltára essa manhã no _Braganza_: - ---Ouve cá, Ega! Tu agora pareces intimo do Alencar! Que transformação -foi essa? - -Ega confessou que realmente agora apreciava immensamente o Alencar. Em -primeiro logar no meio d'esta Lisboa toda postiça, Alencar permanecia o -unico portuguez genuino. Depois, através da contagiosa intrujice, -conservava uma honestidade resistente. Além d'isso havia n'elle -lealdade, bondade, generosidade. O seu comportamento com a sobrinhita -era tocante. Tinha mais cortezia, melhores maneiras que os novos. Um -bocado de piteirice não lhe ia mal ao seu feitio lyrico. E por fim, no -estado a que descambára a litteratura, a versalhada do Alencar tomava -relevo pela correcção, pela simplicidade, por um resto de sincera -emoção. Em resumo, um bardo infinitamente estimavel. - ---E aqui tens tu, Carlinhos, a que nós chegamos! Não ha nada com efeito -que caracterise melhor a pavorosa decadencia de Portugal, nos ultimos -trinta annos, do que este simples facto: tão profundamente tem baixado o -caracter e o talento, que de repente o nosso velho Thomaz, o homem da -_Flôr de Martyrio_, o Alencar d'Alemquer, apparece com as proporções -d'um Genio e d'um Justo! - -Ainda fallavam de Portugal e dos seus males quando a tipoia parou. Com -que commoção Carlos avistou a fachada severa do Ramalhete, as -janellinhas abrigadas á beira do telhado, o grande ramo de girasoes -fazendo painel no logar do escudo d'armas! Ao ruido da carruagem, -Villaça appareceu á porta, calçando luvas amarellas. Estava mais gordo o -Villaça--e tudo na sua pessoa, desde o chapéo novo até ao castão de -prata da bengala, revelava a sua importancia como administrador, quasi -directo senhor durante o longo desterro de Carlos, d'aquella vasta casa -dos Maias. Apresentou logo o jardineiro, um velho, que alli vivia com a -mulher e o filho, guardando o casarão deserto. Depois felicitou-se de -vêr emfim os dois amigos juntos. E ajuntou, batendo com carinho familiar -no hombro de Carlos: - ---Pois eu, depois de nos separarmos em Santa Apolonia, fui tomar um -banho ao Central e não me deitei. Olhe que é uma grande commodidade o -tal _sleeping-car_! Ah lá isso, em progresso, o nosso Portugal já não -está atraz de ninguem!... E v. exc.^a agora precisa de mim? - ---Não, obrigado, Villaça. Vamos dar uma volta pelas salas... Vá jantar -comnosco. Ás seis! Mas ás seis em ponto, que ha petiscos especiaes. - -E os dois amigos atravessaram o perystillo. Ainda lá se conservavam os -bancos feudaes de carvalho lavrado, solemnes como coros de cathedral. Em -cima porém a ante-camara entristecia, toda despida, sem um movel, sem um -estofo, mostrando a cal lascada dos muros. Tapeçarias orientaes que -pendiam como n'uma tenda, pratos mouriscos de reflexos de cobre, a -estatua da _Friorenta_ rindo e arrepiando-se, na sua nudez de marmore, -ao metter o pésinho na agua--tudo ornava agora os aposentos de Carlos em -Paris: e outros caixões apilhavam-se a um canto, promptos a embarcar, -levando as melhores faianças da _Toca_. Depois no amplo corredor, sem -tapete, os seus passos soaram como n'um claustro abandonado. Nos quadros -devotos, d'um tom mais negro, destacava aqui e além, sob a luz escassa, -um hombro descarnado de eremita, a mancha livida d'uma caveira. Uma -friagem regelava. Ega levantára a gola do paletot. - -No salão nobre os moveis de brocado côr de musgo estavam embrulhados em -lençoes d'algodão, como amortalhados, exhalando um cheiro de mumia a -terebinthina e camphora. E no chão, na tela de Constable, encostada á -parede, a condessa de Runa, erguendo o seu vestido escarlate de caçadora -ingleza, parecia ir dar um passo, sahir do caixilho dourado, para partir -tambem, consummar a dispersão da sua raça... - ---Vamos embora, exclamou Ega. Isto está lugubre!... - -Mas Carlos, pallido e calado, abriu adiante a porta do bilhar. Ahi, que -era a maior sala do Ramalhete, tinham sido recentemente accumulados na -confusão das artes e dos seculos, como n'um armazem de _bric-à-brac_, -todos os moveis ricos da _Toca_. Ao fundo, tapando o fogão, dominando -tudo na sua magestade architectural, erguia-se o famoso armario do tempo -da Liga Hanseatica, com os seus Martes armados, as portas lavradas, os -quatro Evangelistas prégando aos cantos, envoltos n'essas roupagens -violentas que um vento de prophecia parece agitar. E Carlos -immediatamente descobriu um desastre na cornija, nos dois faunos que -entre trophéos agricolas tocavam ao desafio. Um partira o seu pé de -cabra, outro perdera a sua frauta bucolica... - ---Que brutos! exclamou elle furioso, ferido no seu amor da coisa d'arte. -Um movel d'estes!... - -Trepou a uma cadeira para examinar os estragos. E Ega, no emtanto, -errava entre os outros moveis, cofres nupciaes, contadores hespanhoes, -bufetes da Renascença italiana, recordando a alegre casa dos Olivaes que -tinham ornado, as bellas noites de cavaco, os jantares, os foguetes -atirados em honra de Leonidas... Como tudo passára! De repente deu com o -pé n'uma caixa de chapéo sem tampa, atulhada de coisas velhas--um véo, -luvas desirmanadas, uma meia de sêda, fitas, flôres artificiaes. Eram -objectos de Maria, achados n'algum canto da _Toca_, para alli atirados, -no momento de se esvaziar a casa! E, coisa lamentavel, entre estes -restos d'ella, misturados como na promiscuidade d'um lixo, apparecia uma -chinela de velludo bordada a matiz, uma velha chinela de Affonso da -Maia! Ega escondeu a caixa rapidamente debaixo d'um pedaço solto de -tapeçaria. Depois, como Carlos saltava da cadeira, sacudindo as mãos, -ainda indignado, Ega apressou aquella peregrinação, que lhe estragava a -alegria do dia. - ---Vamos ao terraço! Dá-se um olhar ao jardim, e abalamos! - -Mas deviam atravessar ainda a memoria mais triste, o escriptorio de -Affonso da Maia. A fechadura estava pêrra. No esforço de abrir a mão de -Carlos tremia. E Ega, commovido tambem, revia toda a sala tal como -outr'ora, com os seus candieiros Carcel dando um tom côr de rosa, o lume -crepitando, o reverendo Bonifacio sobre a pelle d'urso, e Affonso na sua -velha poltrona, de casaco de velludo, sacudindo a cinza do cachimbo -contra a palma da mão. A porta cedeu: e toda a emoção de repente findou, -na grutesca, absurda surpreza de romperem ambos a espirrar, -desesperadamente, suffocados pelo cheiro acre d'um pó vago que lhes -picava os olhos, os estonteava. Fôra o Villaça, que, seguindo uma -receita d'almanach, fizera espalhar ás mãos cheias, sobre os moveis, -sobre os lençoes que os resguardavam, camadas espessas de pimenta -branca! E estrangulados, sem vêr, sob uma nevoa de lagrimas, os dois -continuavam, um defronte do outro, em espirros afflictivos que os -desengonçavam. - -Carlos por fim conseguiu abrir largamente as duas portadas d'uma -janella. No terraço morria um resto de sol. E, revivendo um pouco ao ar -puro, alli ficaram de pé, calados, limpando os olhos, sacudidos ainda -por um ou outro espirro retardado. - ---Que infernal invenção! exclamou Carlos, indignado. - -Ega, ao fugir com o lenço na face, tropeçára, batera contra um sofá, -coçava a canella: - ---Estupida coisa! E que bordoada que eu dei!... - -Voltou a olhar para a sala, onde todos os moveis desappareciam sob os -largos sudarios brancos. E reconheceu que tropeçára na antiga almofada -de velludo do velho Bonifacio. Pobre Bonifacio! Que fôra feito d'elle? - -Carlos, que se sentára no parapeito baixo do terraço, entre os vasos sem -flôr, contou o fim do reverendo Bonifacio. Morrera em Santa Olavia, -resignado, e tão obeso que se não movia. E o Villaça, com uma idéa -poetica, a unica da sua vida de procurador, mandára-lhe fazer um -mausoléo, uma simples pedra de marmore branco, sob uma roseira, debaixo -das janellas do quarto do avô. - -Ega sentára-se tambem no parapeito, ambos se esqueceram n'um silencio. -Em baixo o jardim, bem areado, limpo e frio na sua nudez d'inverno, -tinha a melancolia de um retiro esquecido que já ninguem ama: uma -ferrugem verde de humidade cobria os grossos membros da Venus Citherea; -o cypreste e o cedro envelheciam juntos como dois amigos n'um ermo; e -mais lento corria o prantosinho da cascata, esfiado saudosamente gotta a -gotta na bacia de marmore. Depois ao fundo, encaixilhada como uma tela -marinha nas cantarias dos dois altos predios, a curta paizagem do -Ramalhete, um pedaço de Tejo e monte, tomava n'aquelle fim de tarde um -tom mais pensativo e triste: na tira de rio um paquete fechado, -preparado para a vaga, ia descendo, desapparecendo logo, como já -devorado pelo mar incerto; no alto da collina o moinho parára, transido -na larga friagem do ar; e nas janellas das casas á beira d'agua um raio -de sol morria, lentamente sumido, esvaído na primeira cinza do -crepusculo, como um resto d'esperança n'uma face que se anuvia. - -Então, n'aquella mudez de soledade e d'abandono, Ega, com os olhos para -o longe, murmurou devagar: - ---Mas tu d'esse casamento não tinhas a menor indicação, a menor -suspeita? - ---Nenhuma... Soube-o de repente pela carta d'ella em Sevilha. - -E era esta a formidavel nova annunciada por Carlos, a nova que elle logo -contára de madrugada ao Ega, depois dos primeiros abraços, em Santa -Apolonia. Maria Eduarda ia casar. - -Assim o annunciára ella a Carlos n'uma carta muito simples, que elle -recebera na quinta dos Villa-Medina. Ia casar. E não parecia ser uma -resolução tomada arrebatadamente sob um impulso do coração; mas antes um -proposito lento, longamente amadurecido. Ella alludia n'essa carta a ter -«pensado muito, reflectido muito...» De resto o noivo devia ir perto dos -cincoenta annos. E Carlos portanto via alli a união de dois sêres -desilludidos da vida, maltratados por ella, cansados ou assustados do -seu isolamento, que, sentindo um no outro qualidades sérias de coração e -de espirito, punham em commum o seu resto de calor, d'alegria e de -coragem para affrontar juntos a velhice... - ---Que idade tem ella? - -Carlos pensava que ella devia ter quarenta e um ou quarenta e dois -annos. Ella dizia na carta «sou apenas mais nova que o meu noivo seis -annos e tres mezes». Elle chamava-se Mr. de Trelain. E era evidentemente -um homem d'espirito largo, desembaraçado de prejuizos, d'uma -benevolencia quasi misericordiosa, porque quizera Maria, conhecendo bem -os seus erros. - ---Sabe tudo? exclamou Ega, que saltára do parapeito. - ---Tudo não. Ella diz que Mr. de Trelain conhecia do seu passado «todos -aquelles erros em que ella cahira inconscientemente». Isto dá a entender -que não sabe tudo... Vamos andando, que se faz tarde, e quero ainda vêr -os meus quartos. - -Desceram ao jardim. Um momento seguiram calados pela alea onde cresciam -outr'ora as roseiras de Affonso. Sob as duas olaias ainda existia o -banco de cortiça; Maria sentára-se alli, na sua visita ao Ramalhete, a -atar n'um ramo flôres que ia levar como reliquia. Ao passar Ega cortou -uma pequenina margarida que ainda floria solitariamente. - ---Ella continúa a viver em Orléans, não é verdade? - -Sim, disse Carlos, vivia ao pé d'Orléans, n'uma quinta que lá comprára, -chamada _Les Rosières_. O noivo devia habitar nos arredores algum -pequeno _château_. Ella chamava-lhe «visinho». E era naturalmente um -_gentilhomme campagnard_, de familia séria, com fortuna... - ---Ella só tem o que tu lhe dás, está claro. - ---Creio que te mandei contar tudo isso, murmurou Carlos. Emfim ella -recusou-se a receber parte alguma da sua herança... E o Villaça arranjou -as coisas por meio d'uma doação que lhe fiz, correspondente a doze -contos de reis de renda... - ---É bonito. Ella fallava de Rosa na carta? - ---Sim, de passagem, que ia bem... Deve estar uma mulher. - ---E bem linda! - -Iam subindo a escadinha de ferro torneada que levava do jardim aos -quartos de Carlos. Com a mão na porta da vidraça, Ega parou ainda, n'uma -derradeira curiosidade: - ---E que effeito te fez isso? - -Carlos accendia o charuto. Depois atirando o phosphoro por cima da -varandinha de ferro onde uma trepadeira se enlaçava: - ---Um effeito de conclusão, de absoluto remate. É como se ella morresse, -morrendo com ella todo o passado, e agora renascesse sob outra fórma. Já -não é Maria Eduarda. É Madame de Trelain, uma senhora franceza. Sob este -nome, tudo o que houve fica sumido, enterrado a mil braças, findo para -sempre, sem mesmo deixar memoria... Foi o effeito que me fez. - ---Tu nunca encontraste em Paris o snr. Guimarães? - ---Nunca. Naturalmente morreu. - -Entraram no quarto. Villaça, na supposição de Carlos vir para o -Ramalhete, mandára-o preparar; e todo elle regelava--com o marmore das -commodas espanejado e vazio, uma vela intacta n'um castiçal solitario, a -colcha de fustão vincada de dobras sobre o leito sem cortinados. Carlos -pousou o chapéo e a bengala em cima da sua antiga mesa de trabalho. -Depois, como dando um resumo: - ---E aqui tens tu a vida, meu Ega! N'este quarto, durante noites, soffri -a certeza de que tudo no mundo acabára para mim... Pensei em me matar. -Pensei em ir para a Trappa. E tudo isto friamente, com uma conclusão -logica. Por fim dez annos passaram, e aqui estou outra vez... - -Parou diante do alto espelho suspenso entre as duas columnas de carvalho -lavrado, deu um geito ao bigode, concluiu, sorrindo melancolicamente: - ---E mais gordo! - -Ega espalhava tambem pelo quarto um olhar pensativo: - ---Lembras-te quando appareci aqui uma noite, n'uma agonia, vestido de -Mephistopheles? - -Então Carlos teve um grito. E a Rachel, é verdade! A Rachel? Que era -feito da Rachel, esse lirio d'Israel? - -Ega encolheu os hombros: - ---Para ahi anda, estuporada... - -Carlos murmurou--«coitada!» E foi tudo o que disseram sobre a grande -paixão romantica do Ega. - -Carlos no emtanto fôra examinar, junto da janella, um quadro que pousava -no chão, para alli esquecido e voltado para a parede. Era o retrato do -pai, de Pedro da Maia, com as suas luvas de camurça na mão, os grandes -olhos arabes na face triste e pallida que o tempo amarellára mais. -Collocou-o em cima d'uma commoda. E atirando-lhe uma leve sacudidella -com o lenço: - ---Não ha nada que me faça mais pena do que não ter um retrato do avô!... -Em todo o caso este sempre o vou levar para Paris. - -Então Ega perguntou, do fundo do sofá onde se enterrára, se, n'esses -ultimos annos, elle não tivera a idéa, o vago desejo de voltar para -Portugal... - -Carlos considerou Ega com espanto. Para que? Para arrastar os passos -tristes desde o Gremio até á Casa Havaneza? Não! Paris era o unico logar -da terra congenere com o typo definitivo em que elle se fixára:--«o -homem rico que vive bem». Passeio a cavallo no Bois; almóço no Bignon; -uma volta pelo _boulevard_; uma hora no club com os jornaes; um bocado -de florete na sala d'armas; á noite a _Comédie Française_ ou uma -_soirée_; Trouville no verão, alguns tiros ás lebres no inverno; e -através do anno as mulheres, as corridas, certo interesse pela sciencia, -o _bric-à-brac_, e uma pouca de _blague_. Nada mais inoffensivo, mais -nullo, e mais agradavel. - ---E aqui tens tu uma existencia d'homem! Em dez annos não me tem -succedido nada, a não ser quando se me quebrou o phaeton na estrada de -Saint-Cloud... Vim no _Figaro_. - -Ega ergueu-se, atirou um gesto desolado: - ---Falhámos a vida, menino! - ---Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, -falha-se sempre na realidade aquella vida que se planeou com a -imaginação. Diz-se: «vou ser assim, porque a belleza está em ser assim». -E nunca se é assim, é-se invariavelmente _assado_, como dizia o pobre -marquez. Ás vezes melhor, mas sempre differente. - -Ega concordou, com um suspiro mudo, começando a calçar as luvas. - -O quarto escurecia no crepusculo frio e melancolico d'inverno. Carlos -pôz tambem o chapéo: e desceram pelas escadas forradas de velludo côr de -cereja, onde ainda pendia, com um ar baço de ferrugem, a panoplia de -velhas armas. Depois na rua Carlos parou, deu um longo olhar ao sombrio -casarão, que n'aquella primeira penumbra tomava um aspecto mais -carregado de residencia ecclesiastica, com as suas paredes severas, a -sua fila de janellinhas fechadas, as grades dos postigos terreos cheias -de treva, mudo, para sempre deshabitado, cobrindo-se já de tons de -ruina. - -Uma commoção passou-lhe n'alma, murmurou, travando do braço do Ega: - ---É curioso! Só vivi dois annos n'esta casa, e é n'ella que me parece -estar mettida a minha vida inteira! - -Ega não se admirava. Só alli no Ramalhete elle vivera realmente -d'aquillo que dá sabôr e relevo á vida--a paixão. - ---Muitas outras coisas dão valor á vida... Isso é uma velha idéa de -romantico, meu Ega! - ---E que somos nós? exclamou Ega. Que temos nós sido desde o collegio, -desde o exame de latim? Romanticos: isto é, individuos inferiores que se -governam na vida pelo sentimento e não pela razão... - -Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses -que se dirigiam só pela razão, não se desviando nunca d'ella, -torturando-se para se manter na sua linha inflexivel, sêccos, hirtos, -logicos, sem emoção até ao fim... - ---Creio que não, disse o Ega. Por fóra, á vista, são desconsoladores. E -por dentro, para elles mesmos, são talvez desconsolados. O que prova que -n'este lindo mundo ou tem de se ser insensato ou semsabor... - ---Resumo: não vale a pena viver... - ---Depende inteiramente do estomago! atalhou Ega. - -Riram ambos. Depois Carlos, outra vez sério, deu a sua theoria da vida, -a theoria definitiva que elle deduzira da experiencia e que agora o -governava. Era o fatalismo musulmano. Nada desejar e nada recear... Não -se abandonar a uma esperança--nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o -que vem e o que foge, com a tranquillidade com que se acolhem as -naturaes mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, n'esta placidez, -deixar esse pedaço de materia organisada, que se chama o Eu, ir-se -deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito -Universo... Sobretudo não ter appetites. E, mais que tudo, não ter -contrariedades. - -Ega, em summa, concordava. Do que elle principalmente se convencera, -n'esses estreitos annos de vida, era da inutilidade de todo o esforço. -Não valia a pena dar um passo para alcançar coisa alguma na -terra--porque tudo se resolve, como já ensinára o sabio do -_Ecclesiastes_, em desillusão e poeira. - ---Se me dissessem que alli em baixo estava uma fortuna como a dos -Rothschilds ou a corôa imperial de Carlos V, á minha espera, para serem -minhas se eu para lá corresse, eu não apressava o passo... Não! Não -sahia d'este passinho lento, prudente, correcto, seguro, que é o unico -que se deve ter na vida. - ---Nem eu! acudiu Carlos com uma convicção decisiva. - -E ambos retardaram o passo, descendo para a rampa de Santos, como se -aquelle fosse em verdade o caminho da vida, onde elles, certos de só -encontrar ao fim desillusão e poeira, não devessem jámais avançar senão -com lentidão e desdem. Já avistavam o Aterro, a sua longa fila de luzes. -De repente Carlos teve um largo gesto de contrariedade: - ---Que ferro! E eu que vinha desde Paris com este appetite! Esqueci-me de -mandar fazer hoje para o jantar um grande prato de paio com ervilhas. - -E agora já era tarde, lembrou Ega. Então Carlos, até ahi esquecido em -memorias do passado e syntheses da existencia, pareceu ter -inesperadamente consciencia da noite que cahira, dos candieiros accêsos. -A um bico de gaz tirou o relogio. Eram seis e um quarto! - ---Oh, diabo!... E eu que disse ao Villaça e aos rapazes para estarem no -_Braganza_ pontualmente ás seis! Não apparecer por ahi uma tipoia!... - ---Espera! exclamou Ega. Lá vem um «americano», ainda o apanhamos. - ---Ainda o apanhamos! - -Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojára o -charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face: - ---Que raiva ter esquecido o paiosinho! Emfim, acabou-se. Ao menos -assentamos a theoria definitiva da existencia. Com effeito, não vale a -pena fazer um esforço, correr com ancia para coisa alguma... - -Ega, ao lado, ajuntava, offegante, atirando as pernas magras: - ---Nem para o amor, nem para a gloria, nem para o dinheiro, nem para o -poder... - -A lanterna vermelha do «americano», ao longe, no escuro, parára. E foi -em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço: - ---Ainda o apanhamos! - ---Ainda o apanhamos! - -De novo a lanterna deslisou e fugiu. Então, para apanhar o «americano», -os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e -pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia. - -FIM DO SEGUNDO VOLUME - - - - -Lista de erros corrigidos - - -Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: - -+-----------+-------------------------+---------------------------+ -| | Original | Correcção | -+-----------+-------------------------+---------------------------+ -| Vol I. | | | -| | | | -| #pág. 11 | d'um planta | d'uma planta | -| #pág. 25 | n'eses | n'esse | -| #pág. 64 | dehruçando-se | debruçando-se | -| #pág. 71 | mesmo olhos | mesmos olhos | -| #pág. 82 | o o que | o que | -| #pág. 151 | appproximava | approximava | -| #pág. 220 | ningnem | ninguem | -| #pág. 222 | pararello | paralello | -| #pág. 290 | quas? | quasi | -| #pág. 326 | pohre | pobre | -| #pág. 345 | extraordinrio | extraordinario | -| #pág. 416 | luvar | luvas | -| #pág. 423 | hespanhla | hespanhola | -| #pág. 428 | o os deus | e os seus | -| | | | -| Vol II. | | | -| | | | -| #pág. 84 | ?uvas | luvas | -| #pág. 276 | o o monoculo | o monoculo | -| #pág. 324 | a? suissas | as suissas | -| #pág. 343 | n'um voz | n'uma voz | -| #pág. 432 | moresse | morresse | -| #pág. 456 | Celerico | Celorico | -| #pág. 475 | n'um longa | n'uma longa | -+-----------+-------------------------+---------------------------+ - -As variações de vôvô (vôvo ou vovô) foram mantidas de acordo com o -original. As variações de nomes próprios foram mantidas de acordo -com o original. - -No original estão presentes dois capítulos VII (no volume I), -rectificados nesta versão. - -No volume II verificamos que se passa do capítulo IV para o VII e -a numeração dos capítulos fica alterada a partir desse momento. -Uma vez que não há páginas em falta, rectificámos nesta versão. - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Os Maias, by José Maria Eça de Queirós - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MAIAS *** - -***** This file should be named 40409-8.txt or 40409-8.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/4/0/4/0/40409/ - -Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões, -Graça Horta and the Online Distributed Proofreading Team -at http://www.pgdp.net (This file was produced from images -generously made available by National Library of Portugal -(Biblioteca Nacional de Portugal) and Biblioteca Dulce -Ferrão -- Biblioteca-Museu República e Resistência.) - - -Updated editions will replace the previous one--the old editions -will be renamed. - -Creating the works from public domain print editions means that no -one owns a United States copyright in these works, so the Foundation -(and you!) can copy and distribute it in the United States without -permission and without paying copyright royalties. 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Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. 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