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Bento, 65 + + BELO HORIZONTE + 1055, Rua da Baía, 1055 + + + AILLAUD, ALVES & C.a + + PARIS + 96, Boulevard Montparnasse + (Livraria Aillaud) + + AILLAUD, ALVES, BASTOS & C.a + + LISBOA + 73, Rua Garrett, 75 + (Livraria Bertrand) + + 1911 + + + + + UBIRAJARA + + + Composto e impresso na Tipografia JOSÉ BASTOS Rua da Alegria, + 100--Lisboa + + + + + J. DE ALENCAR + + + + + UBIRAJARA + + + LENDA TUPI + + [Illustration] + + + FRANCISCO ALVES & C.a + + RIO DE JANEIRO + 166, Rua do Ouvidor, 166 + + S. PAULO + 65, Rua de S. Bento, 65 + + BELO HORIZONTE + 1055, Rua da Baía, 1055 + + + AILLAUD, ALVES & C.a + + PARIS + 96, Boulevard Montparnasse + (Livraria Aillaud) + + AILLAUD, ALVES, BASTOS & C.a + + LISBOA + 73, Rua Garrett, 75 + (Livraria Bertrand) + + 1911 + + +[Illustration] + + + + +UBIRAJARA + + + + +I + +O CAÇADOR + + +Pela marjem do grande rio caminha Jaguarê, o joven caçador. + +O arco pende-lhe ao hombro, esquecido e inutil. As flechas dormem no +coldre da uiraçaba. + +Os veados saltam das moitas de ubaia e vêm retouçar na grama, zombando +do caçador. + +Jaguarê não vê o timido campeiro; seus olhos buscam um inimigo capaz de +rezistir-lhe ao braço robusto. + +O rujido do jaguar abala a floresta; mas o caçador tambem despreza o +jaguar, que já cançou de vencer. + +Elle chama-se Jaguarê, o mais feroz jaguar da floresta; os outros fojem +espavoridos quando de lonje o presentem. + +Não é esse o inimigo que procura, porém outro mais terrivel, para +vencel-o em combate de morte e ganhar nome de guerra. + +Jaguarê chegou á idade em que o mancebo troca a fama do caçador pela +gloria do guerreiro. + +Para ser aclamado guerreiro por sua nação é precizo que o joven caçador +conquiste esse titulo por uma grande façanha. + +Por isso deixou a taba dos seus e a prezença de Jandira, a virjem +formoza que lhe guarda o seio de espoza. + +Mas o sol tres vezes guiou o passo rapido do caçador através das +campinas, e tres vezes como agora deitou-se além nas montanhas da +Aratuba, sem mostrar-lhe um inimigo digno de seu valor. + +A sombra vai decendo da serra pelo vale e a tristeza cae da fronte sobre +a face de Jaguarê. + +O joven caçador empunha a lança de duas pontas, feita da roxa craúba, +mais rija que o ferro. + +Nenhum guerreiro brandiu jámais essa arma terrivel, que sua mão primeiro +fabricou. + +Lá estaca o joven caçador no meio da campina. Volvendo ao céu o olhar +torvo e iracundo, solta ainda uma vez seu grito de guerra. + +O bramido rolou pela amplidão da mata e foi morrer lonje nas cavernas da +montanha. + +Respondeu o ronco da sucurí na madre do rio e o urro do tigre escondido +na furna; mas outro grito de guerra não acudiu ao dezafio do caçador. + +Jaguarê arremessou a lança, que vibrou nos ares e foi cravar-se além no +grosso tronco da emburana. + +A copa frondoza ramalhou, como as palmas do coqueiro ao sopro do vento, +e o tronco gemeu até á raiz. + +O caçador repouza á sombra de sua lança. + + * * * * * + +Salta uma corça da mata e veloz atravessa a campina. + +Mais veloz a persegue gentil caçadora com a seta embebida no arco +flexivel. + +Ergue-se Jaguarê. + +Seu olhar ardente voou, sofrego de encontrar o inimigo que lhe tardava. + +Avistando uma mulher, a alegria do mancebo apagou-se no rosto sombrio. + +Pela faxa côr de ouro, tecida das penas do tucano, Jaguarê conheceu que +era uma filha da valente nação dos Tocantins, senhora do grande rio, +cujas marjens elle pizava. + +A liga vermelha que cinjia a perna esbelta da estranjeira dizia que +nenhum guerreiro jámais possuira a virjem formoza. + +A corça veiu cair aos pés de Jaguarê, atravessada pela flecha certeira +da joven caçadora que a seguia de perto. + +A virjem reconheceu o cocar da nação que na ultima lua chegára aos +campos do Taari e da qual os pajés tinham dado noticia. + +--Guerreiro araguaia, pois vejo pela pena vermelha de teu cocar que +pertences a essa nação valente; se pizas os campos dos Tocantins como +hospede, bem vindo sejas; mas se vens como inimigo, foje, para que tua +mãi não chore a morte de seu filho e tenha quem a proteja na velhice. + +--Virjem dos Tocantins, Jaguarê já soltou seu grito de guerra. Elle piza +os campos de teus pais como senhor. Tu és sua prizioneira. Não que +vencer a corça timida seja gloria para o caçador; mas tu chamarás o +inimigo que elle espera. + +--Se o veado te der a sua lijeireza, joven guerreiro, elle não te +servirá senão para ver o rasto de meu pé antes que o vento o apague. + +A linda caçadora desferiu a corrida pela imensa campina. Após ella se +arremessou Jaguarê, que muitas vezes vencera o tapir. + +Mas a virjem dos Tocantins corria como a nandú no dezerto, e o caçador +conheceu que seu braço nunca a poderia alcançar. + +Travou do arco e o brandiu. A seta obedeceu-lhe, pregando no tronco do +assaí a faxa que flutuava ao sopro do vento. + +--A filha dos Tocantins tem no pé as azas do beija-flôr; mas a seta de +Jaguarê vôa como o gavião. Não te assustes, virjem das florestas; tua +formozura venceu o impeto de meu braço e apagou a cólera no coração +feroz do caçador. Feliz o guerreiro que te possuir. + +--Eu sou Arací, a estrela do dia, filha de Itaquê, pai da grande nação +Tocantim. Cem dos melhores guerreiros o servem em sua cabana para +merecer que elle o escolha por filho. O mais forte e valente me terá por +espoza. Vem comigo, guerreiro araguaia; excede aos outros no trabalho e +na constancia, e tu romperás a liga de Arací na proxima lua do amor. + +--Não, filha do sol; Jaguarê não deixou a taba de seus pais, onde +Jandira lhe guarda o seio de espoza, para ser escravo da virjem. Elle +vem combater e ganhar um nome de guerra que encha de orgulho a sua +nação. Torna á taba dos Tocantins e dize aos cem guerreiros cativos de +teu amor, que Jaguarê, o mais destemido dos caçadores araguaias, os +dezafia ao combate. + +--Arací vai, pois assim o queres. Se fores vencido, ella guardará tua +lembrança, pois nunca seus olhos viram mais belo caçador. Se fores +vencedor, será uma alegria para a virjem do sol pertencer ao mais +valente dos guerreiros. + +A virjem disse e dezapareceu na selva. Os olhos de Jaguarê seguiram o +passo lijeiro da formoza caçadora, como o guachimim que rasteja a +zabelê. + +Quando ella dezapareceu, o joven caçador recostou-se ao tronco da +emburana e esperou. + + * * * * * + +Do outro lado da campina assoma um guerreiro. + +Tem na cabeça o canitar das plumas de tucano, e no punho do tacape uma +franja das mesmas penas. + +É um guerreiro tocantim. De lonje avistou Jaguarê e reconheceu o penacho +vermelho dos araguaias. + +As duas nações não estão em guerra; mas sem quebra da fé póde um +guerreiro cansado do longo repouzo oferecer a outro guerreiro combate +leal. + +Quando o tocantim armou o arco, Jaguarê já tinha brandido o seu e +disparado no ar uma seta, mensajeira do dezafio. + +Respondeu o guerreiro disparando tambem uma flecha no ar, para dizer que +aceitava o combate. + +Então os dois campeões caminharam um para o outro com o passo grave e +pararam frente a frente. + +--Eu sou Jaguarê, filho de Camacan, chefe da valente nação dos +araguaias, que vem de lonje em busca da terra de seus pais. Minha fama +corre as tabas e tu já deves conhecer o maior caçador das florestas. Mas +Jaguarê despreza a fama de caçador; elle quer um nome de guerra, que +diga ás nações a força de seu braço e faça tremer aos mais bravos. Se +tua nação te aclamou forte entre os fortes, prepara-te para morrer; se +não, passa teu caminho, guerreiro vil, para que o sangue do fraco não +manche o tacape virjem de Jaguarê. + +--O caraiba guiou teu passo ao encontro de Pojucan, o matador de gente, +guerreiro chefe da terrivel nação tocantim, que enche de terror as +outras nações. Ha tres luas, desde que fujiram espavoridos os barbaros +Tapuias, que Pojucan não combate; e seu tacape tem fome do inimigo. Tu +não és digno dos golpes de um guerreiro chefe; mas Pojucan se compadece +de tua mocidade e consente em combater comtigo. Terás a gloria de ser +morto pelo mais valente guerreiro tocantim. Os cantores de meus feitos +lembrarão teu nome; e todos os mancebos de tua nação invejarão tua +sorte. + +--Jaguarê agradece a Tupan que te fez um grande guerreiro e o chefe mais +feroz da terrivel nação tocantim, Pojucan, matador de gente. A tua morte +será a primeira façanha do caçador araguaia e lhe dará um nome de guerra +que se torne o espanto dos seus e o terror das outras nações. + +Os dois campeões recuaram passo a passo até que se acharam a um tiro de +arco. + +Então soltaram o grito de guerra e se arremessaram um contra outro +brandindo o tacape. + + * * * * * + +Os tacapes toparam no ar e os dois guerreiros rodaram como as torrentes +impetuozas no remoinho da Itaoca. + +Dez vezes as clavas bateram, e dez vezes volveram para bater de novo. + +Os animais que passavam na floresta fujiram espavoridos, como se a +borrasca ribombasse no céu. + +Ainda uma vez encontraram-se os dois tacapes e voaram em lascas pelos +ares. + +--O ubiratan é forte; mas ha outro ubiratan que lhe reziste. Como o +braço de Pojucan é que não ha outro braço. Já viste, joven caçador, o +veado nas garras da giboia? Assim vais morrer. + +--Se tu fosses a cascavel que sómente sabe morder, Jaguarê te esmagaria +a cabeça com o pé e seguiria o seu caminho. Mas tu és a giboia feroz; e +Jaguarê gosta de estrangular a giboia. Não morrerás pelo pé, mas pela +mão do caçador. Lança teu bote, guerreiro tocantim. + +Pojucan estendeu os braços e estreitou os rins de Jaguarê, que por sua +vez cinjiu os lombos do guerreiro. + +Cada um dos campeões pôz na luta todas as suas forças, bastantes para +arrancar o tronco mais robusto da mata. + +Ambos, porém, ficaram imoveis. Eram dois jatobás que naceram juntos e +entrelaçaram os galhos ligando-se no mesmo tronco. + +Nada os desprende; nada os abala. O tufão passa bramindo sem ajital-os; +e elles permanecem quedos pelo volver dos tempos. + +Um pajé que passou na orla da mata viu os lutadores e esconjurou-os, +pensando que eram as almas de dois guerreiros prezos no abraço da morte. + +Já a sombra se desdobrava pelo vale fóra e o sol despedia-se dos cimos +dos montes, sem que os campeões se movessem. + +Por fim afrouxaram os braços e cada lutador recuou para contemplar seu +adversario. Nenhum mostrava no rosto sombra de fadiga. + +Conheceram que podiam lutar corpo a corpo, a noite inteira, sem que um +prostrasse o outro. + +--Tu és igual na valentia e na força ao guerreiro chefe da nação +tocantim. Mas Pojucan não consente que haja na terra quem rezista a seu +braço. É precizo que tu morras, Jaguarê, para que elle seja o primeiro +dos guerreiros que o sol alumia. + +--Pojucan, matador de gente, guerreiro feroz da nação tocantim, Jaguarê +deixou-te viver até este momento para saber se tu eras digno de dar-lhe +um nome de guerra. Agora que te conhece como o primeiro dos guerreiros +que existiram até este momento, elle quer que tua derrota seja a sua +primeira façanha. + +Disse, e, arrancando do tronco da emburana a lança de duas pontas, +caminhou outra vez para Pojucan. + +--Esta arma que tu vês é a lança de duas pontas. Jaguarê fabricou-a do +rijo galho da craúba, endurecido pelo fogo. Sua mão foi a primeira que a +arremessou e teu corpo é o primeiro cujo sangue ella vai beber. Empunha +a lança de duas pontas, guerreiro chefe, e ataca Jaguarê para receberes +a morte dos valentes. + + * * * * * + +Pojucan repeliu a lança que o joven caçador lhe aprezentára. + +--Jámais no combate um guerreiro tocantim atacará seu adversario +dezarmado; nem Pojucan preciza da lança. Ataca tu, Jaguarê, que não tens +confiança em teu braço; o de Pojucan basta para te prostrar. + +--O orgulho te cega, guerreiro chefe. A lança conhece Jaguarê que a +inventou e lhe obedece como o arpão á corda do pescador. Aperta-a bem em +tua mão robusta e Jaguarê estará duas vezes mais armado do que tu, que +não sabes manejal-a. + +O chefe tocantim cruzou os braços. + +--Toma a lança, Pojucan, se não queres que te chame covarde; pois tu +sabes que Jaguarê não te matará dezarmado, mas te abandonará como +indigno de combater com o filho do maior guerreiro araguaia, o grande +Camacan. + +O chefe tocantim arrojou-se contra Jaguarê que lhe travou dos pulsos e +outra vez os dois campeões ficaram imoveis. + +A noite veiu achal-os na mesma pozição. Tres vezes cessaram a luta, e de +novo a travaram. Mas afinal se convenceram que nenhum derrubaria o +outro. + +Então Pojucan disse: + +--Guerreiro araguaia, é precizo acabar o combate. A terra não chega +para dois guerreiros como nós. Finca no chão a lança e caminhemos até á +marjem do rio. Aquelle que primeiro chegar, será o senhor da lança e da +vida do outro. + +Assim fizeram os dois campeões. Chegados á marjem do rio, dispararam a +corrida. Ao mesmo tempo a mão de ambos tocou a haste da lança; mas +Jaguarê, arremessado pelo impeto da desfilada, não pôde arrancar a arma +que ficou na mão de Pojucan. + + * * * * * + +O guerreiro chefe enrista desdenhozamente a lança e caminha para +Jaguarê. Não vai como o guerreiro que marcha ao combate, mas como o +matador que se prepara para imolar a vitima. + +--Guerreiro chefe, Jaguarê não te quer matar como a serpente que ataca o +descuidado caçador. Dez vezes já, se quizesse, elle te houvera ferido +com tua propria mão. + +--Abandona a gloria do guerreiro, que não é para ti, nhengaíba. Pojucan +te concederá a vida, e te levará cativo á taba dos tocantins para que tu +cantes as suas façanhas na festa dos guerreiros. + +--Cativo serás tu, mas não para cantar os feitos dos guerreiros. Tu +servirás na taba dos araguaias para ajudar as velhas a varrer a oca. + +Arremessou-se Pojucan avante e desfechou o golpe; mas a lança rodára e +foi o chefe tocantim quem recebeu no peito a ponta farpada. + +Quando o corpo robusto de Pojucan tombava, cravado pelo dardo, Jaguarê +de um salto calcou a mão direita sobre o hombro esquerdo do vencido e +brandindo a arma sangrenta, soltou o grito do triunfo: + +--Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro invencivel que tem +por arma a serpente. Reconhece o teu vencedor, Pojucan, e proclama o +primeiro dos guerreiros, pois te venceu a ti, o maior guerreiro que +existiu antes delle. + +--Se meu valor, que serviu para aumentar a tua fama, merece de ti uma +graça, não deixes que Pojucan sofra mais um instante a vergonha de sua +derrota. + +--Não, chefe tocantim. Tu me acompanharás á taba dos araguaias para +narrar meu valor. A fama de Jaguarê preciza de um prizioneiro como o +grande Pojucan na festa da vitoria. + +--Tu és cruel, guerreiro da lança; mas fica certo que, se tua arma +traiçoeira me feriu o peito, o suplicio não vencerá a constancia do +varão tocantim que sabe afrontar as iras de Tupan e desprezar a vingança +dos araguaias. + + + + +II + +O GUERREIRO + + +Retumba a festa na taba dos araguaias. + +As fogueiras circulam a vasta ocara e derramam no seio da noite escura +as chamas da alegria. + +Toda a tarde o trocano reboou chamando os guerreiros das outras tabas á +grande taba do chefe. + +Era a festa guerreira de Jaguarê, filho de Camacan, o maior chefe dos +araguaias. + +No fundo da ocara prezide o conselho dos anciãos, que decide da paz ou +da guerra, e governa a valente nação. + +Os anciãos, sentados no longo giráu, contemplam taciturnos a geração de +guerreiros que elles ensinaram a combater, e têm saudades da passada +gloria. + +Suspenso em frente delles está o grande arco da nação araguaia, ornado +nas pontas das penas vermelhas da arara. + +É a insignia do chefe dos guerreiros, a qual Camacan, pai de Jaguarê, +conquistou na mocidade e ainda a conserva, pois ninguem ouza disputal-a. + +Eil-o, o velho chefe, embaixo do arco, que sua mão tantas vezes brandiu +na guerra. Em pé, arrimado ao invencivel tacape, elle dirije a festa. + +De um e outro lado da vasta ocara, está a multidão dos guerreiros, +colocados por sua ordem; primeiro os chefes das tabas; depois os varões; +por ultimo os moços guerreiros. + +Vêm depois os jovens caçadores que já deixaram a oca materna e estão +impacientes de ganhar por suas proezas a honra de serem admitidos entre +os guerreiros. + +Mas para isso têm de passar pelas provas, e sua juventude não lhes +consente ainda a robustez, que tamanho esforço demanda. + +Todos invejam a gloria de Jaguarê que hontem era o primeiro entre elles, +e hoje ali está disputando a fama aos mais valentes guerreiros. + +Por detraz da estacada apinham-se as mulheres, que segundo o rito +patrio não podem ser admitidas nas festas guerreiras. + +De lonje acompanham silenciozas com os olhos, as velhas aos filhos, as +espozas aos seus guerreiros, e as virjens aos noivos. + +Exultam quando ouvem celebrar as façanhas dos seus; mas não ouzam +murmurar uma palavra. + +Entre ellas está Jandira, a doce virjem, cujos negros olhos não se +cansam de admirar Jaguarê, seu futuro senhor. + +Já lhe tarda o momento de ver aclamar guerreiro ao joven caçador, para +ter a felicidade de servil-o como escrava na paz, e acompanhal-o como +espoza ao combate. + + * * * * * + +No centro da ocara ergueu-se Jaguarê. + +Defronte delle, Pojucan, no corpo que a ferida não abateu, mostra a +grande alma, serena em face dos inimigos. + +Camacan troou a inubia para ordenar silencio e o filho começou: + +--Guerreiros araguaias, ouvi a minha historia de guerra. + +«Depois que Jaguarê sofreu as provas do valor, partiu para conquistar um +nome famozo. + +«Deixando a taba, viu o falcão negro que despedia o vôo para as aguas +sem fim, e Jaguarê disse: + +«O falcão negro é o valente guerreiro dos ares; elle será a fama do +guerreiro araguaia que atravessará as nuvens e subirá ao céu. + +«Então Jaguarê marcou o vôo do falcão negro e seguiu por elle. + +«O sol despediu-se e voltou; uma, duas, tres vezes. No ultimo sol +Jaguarê encontrou um guerreiro da nação tocantim, senhora do grande rio. + +«Guerreiros araguaias, quereis saber qual foi o campeão que Tupan enviou +a Jaguarê para dar-lhe o nome de guerra? + +«Elle aí está diante de vós. + +«É o grande Pojucan, o feroz matador de gente, chefe da tribu mais +valente da poderoza nação dos tocantins, senhores do grande rio. + +«Vós que o tendes aqui prezente, vêde como é terrivel o seu aspeto, mas +só eu que o pelejei conheço o seu valor no combate. + +«O tacape em sua mão possante é como o tronco do ubiratan que brotou no +rochedo e creceu. + +«Jaguarê, que arranca da terra o cedro gigante, não o pôde arrancar de +sua mão; e foi obrigado a despedaçal-o. + +«Os braços de Pojucan, quando elle os estende na luta, não ha quem os +vergue; são dois penedos que saem da terra. + +«Seu corpo é a serra que se levanta no vale. Nenhum homem, nem mesmo +Camacan, o póde abalar. + +«Pojucan era o varão mais forte e o mais valente guerreiro que o sol +tinha visto até áquelle momento. + +«Foi este, guerreiros araguaias, o heróe que ofereceu combate ao filho +de Camacan; e Jaguarê aceitou, porque logo conheceu que havia encontrado +um inimigo digno de seu valor. + +«Elle vos contempla, guerreiros araguaias. Se alguem duvida da palavra +de Jaguarê e da força do guerreiro tocantim, chame-o a combate e saberá +quem é Pojucan.» + +O chefe tocantim lançou um olhar ameaçador á multidão dos guerreiros; +mas nenhum ouzou aceitar o dezafio. + + * * * * * + +Pojucan alçou a mão em sinal de que dezejava falar; todos escutaram com +respeito o heróe, ainda maior na desgraça. + +--Guerreiros araguaias, ouvi a voz de Pojucan, vosso inimigo, que +afronta as iras dos fortes e despreza a vingança dos fracos. + +«Pojucan, guerreiro chefe da grande nação tocantim, jámais encontrou +guerreiro que rezistisse á força de seu braço invencivel. + +«Mas Tupan, cansado de ouvir celebrar em todas as festas o nome de +Pojucan, como vencedor, emprestou sua força a Jaguarê, o maior guerreiro +que já pizou a terra. + +«Eu que senti o impeto de sua corajem, posso dizer-vos que só o sangue +tocantim é capaz de gerar um guerreiro tão poderozo. + +«Foi alguma virjem araguaia que vagando pela floresta encontrou Pojucan, +e trouxe no seio fecundo a alma do grande guerreiro. + +«Seu braço é como o corisco do céu; e a sua força como a tempestade que +dece das nuvens.» + +Calou-se Pojucan; e Jaguarê continuou o seu canto de guerra: + +«Quando a sombra começava a decer da crista da montanha, Pojucan e +Jaguarê caminharam um contra o outro. + +«Toda a noite combateram. O sol nacendo veiu achal-os ainda na peleja, +como os deixára; nem vencidos, nem vencedores. + +«Conheceram que eram os dois maiores guerreiros, na fortaleza do corpo, +e na destreza das armas. + +«Mas nenhum consentia que houvesse na terra outro guerreiro igual; pois +ambos queriam ser o primeiro. + +«Foi então que o chefe tocantim ganhou na corrida a lança de duas +pontas, que Jaguarê havia fabricado. + +«Tres vezes seu punho robusto a brandiu, e tres vezes ella escapou-lhe +da mão, como a serpente das garras do gavião. + +«Mais uma vez o grande guerreiro investiu com o bote armado; e a lança, +escrava de Jaguarê, cravou o peito do inimigo. + +«Elle caiu, o guerreiro chefe, o grande varão dos tocantins, o valente +dos valentes, Pojucan, o feroz matador de gente. + +«E Jaguarê brandindo a arma da vitoria bradou: + +«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, que venceu o primeiro guerreiro +dos guerreiros de Tupan. + +«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro terrivel que tem por +arma uma serpente.» + + * * * * * + +O trocano ribombou, derramando lonje pela amplidão dos vales e pelos +écos das montanhas a pocema do triunfo. + +Os tacapes, vibrados pela mão pujante dos guerreiros, bateram nos largos +escudos retinindo. + +Mas a voz possante da multidão dos guerreiros cobriu o imenso rumor +clamando: + +--Tu és Ubirajara, o senhor da lança, o vencedor de Pojucan, o maior +guerreiro da nação tocantim. + +«Os guerreiros araguaias te recebem por seu irmão nas armas e te aclamam +forte entre os fortes. + +«Os cantores celebrarão teu nome como os mais famozos da nação araguaia +e Camacan terá a gloria de chamar-se pai de Ubirajara, como foi gloria +para Jaguarê ser filho de Camacan.» + +Quando parou o estrondo da festa e cessou o canto dos guerreiros, +avançou Camacan, o grande chefe dos araguaias. + +De um salto o ancião alcançou o arco da nação, insignia do chefe na +guerra, e caminhou para Ubirajara. + +O arco era de ubiratan, grosso como o braço do mais robusto guerreiro; a +corda trançada de crautá tinha o corpo do dedo que a brandia. + +Os mais possantes varões da nação araguaia a custo empunhavam o grande +arco; mas só um tinha força para disparar a seta. + +Era Camacan, o chefe dos chefes, que dirijia na guerra os guerreiros +araguaias. + +Assim falou o ancião: + +--Ubirajara, senhor da lança, é tempo de empunhares o grande arco da +nação araguaia, que deve estar na mão do mais possante. Camacan o +conquistou no dia em que escolheu por espoza Jaçanan, a virjem dos olhos +de fogo, em cujo seio te gerou seu primeiro sangue. Ainda hoje, apezar +da velhice que lhe mirrou o corpo, nenhum guerreiro ouzaria disputar o +grande arco ao velho chefe, que não sofresse logo o castigo de sua +audacia. Mas Tupan ordena que o ancião se curve para a terra até +dezabar como o tronco carcomido, e que o mancebo se eleve para o céu +como a arvore altaneira. Camacan revive em ti; a gloria de ser o maior +guerreiro crece com a gloria de ter gerado um guerreiro ainda maior do +que elle. + + * * * * * + +Ubirajara tomou o arco que lhe aprezentava o pai e disse: + +--Camacan, tu és o primeiro guerreiro e o maior chefe da nação araguaia. +Para a gloria de Jaguarê bastava que elle se mostrasse teu filho no +valor como é teu filho no sangue. Mas o grande arco da nação araguaia, +Ubirajara não o recebe de ti e de nenhum outro guerreiro, pois o ha de +conquistar pela sua pujança. + +Disse, e arremessando no meio da ocara o grande arco, bradou: + +--O guerreiro que ouze empunhar o grande arco da nação araguaia, venha +disputal-o a Ubirajara. + +Nenhuma voz se ergueu; nenhum campeão avançou o passo. + +O trocano reboou de novo, e no meio da pocema de triunfo, a multidão dos +guerreiros proclamou: + +--Ubirajara, senhor da lança, tu és o mais forte dos guerreiros +araguaias; empunha o arco chefe. + +Então Ubirajara levantou o grande arco, e a corda zuniu como o vento na +floresta. + +Era a primeira seta, mensajeira do chefe, que levava ás nuvens a fama de +Ubirajara. + +Os cantores exaltaram a gloria dos dois chefes: a do velho Camacan, que +trocára a arma do guerreiro pelo bordão do conselho; e a do joven +Ubirajara, que na sua mocidade já se mostrava tão grande, como fôra o +pai na robustez dos anos. + +Pojucan teve o consolo de ouvir seu nome, repetido muitas vezes e +louvado a par com o de seu vencedor. + +Os cantores celebraram depois os grandes feitos da nação araguaia, desde +os tempos remotos em que os projenitores deixaram a grande taba dos +Tamoios, seus avós. + +Quando os nhengaçáras entoaram o canto do triunfo, vieram as mulheres +com vazos cheios do generozo cauim e aprezentaram as taças aos +guerreiros. + +Jandira suspirou; ella era virjem, e como suas companheiras, não podia +aparecer na festa dos guerreiros. + +Sentiu não ser já espoza, para ter o orgulho de encher de vinho +espumante, por ella fabricado, a taça de seu heróe e senhor. + +O guincho agoureiro da inhúma resoava na mata, quando começou a dansa +guerreira que durou até perto da alvorada. + + + + +III + +A NOIVA + + +Ao raiar da luz no céu, Jandira abriu os lindos olhos negros. + +Seu canto foi o primeiro que saudou o nacer do dia e acordou em seu +ninho a viuvinha. + +A doce filha de Majé saltou da rêde que embalára os sonhos castos da +virjem, e despediu-se della como a jaçanan que deixa a moita para +habitar o ninho do amor. + +A virjem tocantim acreditava ter dormido a ultima noite na cabana +paterna, que essa manhã ia trocar pela cabana do espozo. + +O joven caçador que a amava, Jaguarê, fôra aclamado guerreiro, e entre +todos os guerreiros o chefe da nação. + +Como guerreiro elle póde tomar uma espoza; e como chefe pertence-lhe a +virjem de sua escolha, entre as mais formozas da taba. + +Ainda que a virjem tenha um noivo, ou que o pai a destine a outro, se o +chefe a dezeja, a vontade de Tupan é que lhe pertença. + +Tupan assim ordena para que os grandes chefes possam gerar de seu sangue +os mais belos e valentes guerreiros. + +Jaguarê antes de ser aclamado chefe já a tinha escolhido, e Jandira não +aceitaria outro noivo senão o joven caçador a quem amava. + +Ella o espera. Logo que o sol alumie a terra, Ubirajara, o grande chefe, +ha de vir buscal-a. + +Então a virjem se despedirá de Majé; e irá armar na cabana de seu +guerreiro e senhor a rêde da espoza. + +Lijeira e contente corre a banhar-se no rio antes que chegue Ubirajara, +para quem purifica seu corpo e se unje com o oleo fragrante do +sassafraz. + +Ella quer que o destemido guerreiro ache seu amor saborozo como o vinho +que espumá na taça, e ferve nas veias. + +Tornando á cabana, perfumou de beijoim a larga rêde que tecera dos fios +do algodão entrelaçados com as penas do guará. + +Essa rêde tinha duas vezes o tamanho de sua rêde de virjem, porque era a +rêde do cazamento em que devia receber o espozo. + +Depois arrumou no urú a louça que havia fabricado para o serviço do +guerreiro, e que devia transportar á sua nova cabana. + +Quando terminou todos os preparativos, encostou-se á porta da cabana; +seus olhos impacientes chamavam Ubirajara. + +Mas o guerreiro não vinha, e o sol já tinha subido além da crista da +serra. + +A luz do dia derramava a alegria pelos campos; e a alegria que lhe +afagára os sonhos da noite fujia agora da alma de Jandira. + +Então a filha de Majé partiu em busca do noivo que a esquecera. + + * * * * * + +No mais escuro da mata vaga o chefe dos araguaias. + +Seus olhos fojem á luz do dia e buscam a sombra, onde encontram a imajem +que traz na lembrança. + +Á noite quando o guerreiro dormia em sua rêde solitaria, Arací, a linda +virjem, lhe apareceu em sonho e lhe falou: + +--Jaguarê, joven caçador, tu dormes descansado emquanto os guerreiros +tocantins se preparam para roubar a virjem de teus amores. Ergue-te e +parte, se não queres chegar tarde. + +Elle erguera-se para seguil-a; mas a virjem formoza desferiu a corrida +veloz através da campina e dezapareceu na floresta. + +Neste ponto do sonho o guerreiro acordára. + +Uma estrela brilhante listrava o céu, como uma lagrima de fogo, e +Ubirajara pensou que era o rasto de Arací, a filha da luz. + +A jurití arrolhou docemente na mata e Ubirajara lembrou-se da voz +mavioza da virjem do sol. + +O guerreiro tornou á rêde, esperando achar ali outra vez o sonho que +vizitára sua alma; porém o sono fujira de seus olhos. + +Quando raiou a primeira alvorada, Ubirajara saiu da cabana e buscou no +mais espesso da mata a sombra propicia á saudade. + +Seu passo o guiava sem querer para as bandas do grande rio, onde devia +ficar a taba dos tocantins. + +É assim que os coqueiros, imoveis na praia, inclinam para o nacente seu +verde cocar. + +Ubirajara ouviu o rumor de um passo lijeiro através da mata; de lonje +conheceu Jandira que o procurava. + +A doce virjem achára á porta da cabana o rasto do guerreiro e o seguira +através da floresta. + +--Que máu sonho aflige Ubirajara, o senhor da lança e o maior dos +guerreiros, chefe da grande nação araguaia, para que elle se afaste de +sua taba e esqueça a noiva que o espera. + +--A tristeza entrou no coração de Ubirajara, que não sabe mais dizer-te +palavras de alegria, linda virjem. + +--A tristeza é amarga; quando entra no coração do guerreiro, o enche de +fel. Mas Jandira fará como sua irmã, a abelha, ella fabricará em seus +labios os favos mais doces para seu guerreiro; suas palavras serão os +fios de mel que ella derramará na alma do espozo. + +--Filha de Majé, doce virjem, ainda não chegou o dia em que Ubirajara +escolha uma espoza; nem elle sabe ainda qual o seio que Tupan destinou +para gerar o primeiro filho do grande chefe dos araguaias. + + * * * * * + +O labio de Jandira emudeceu; mas o peito soluçou. + +A virjem conheceu que o amor de Ubirajara retirava-se della, e que de +todo o perderia se o não defendesse. + +Então escondeu a dôr no fundo da alma e chamou o rizo a seus labios, a +alegria a seus olhos. + +Ella sabia que os guerreiros amam a flôr da formozura, como a folhajem +da arvore; e que a tristeza murcha a graça da mais linda virjem. + +--Chefe dos araguaias, Ubirajara, não desprezes Jandira que outr'ora +escolheste para tua noiva. Se então ella era formoza a teus olhos, mais +formoza se fará para merecer teu amor. Tu gostavas de seus cabelos +negros que arrastam no chão; ella os entrançará com as plumas vermelhas +do guará para que te pareçam mais bonitos. Seus olhos negros que te +falavam, ella os cercará de uma listra amarela como os olhos da jaçanan. +Sua boca, que ainda não provaste, Jandira a encherá de amor para que +bebas nella o contentamento. + +Jandira esperou a palavra de Ubirajara; mas os labios mudos do guerreiro +não se abriram. + +--Teu amor, Ubirajara, ficará em meu seio como a flôr no vale. Jandira +te dará muitos filhos e todos dignos de teu valor. Nestes peitos, que te +pertencem, ella os nutrirá com seu sangue, não menos guerreiro do que o +teu; porque é o sangue de Majé, o maior dos anciãos, depois de Camacan. +Seus braços que outr'ora querias para tua cintura, não servirão +unicamente para te abraçarem, mas tambem para te servirem. Tua espoza te +acompanhará por toda a parte, na taba, como no campo do combate; ella +cuidará de tua cabana; aprontará as mais saborozas iguarias para seu +guerreiro, e fabricará para elle o vinho, que é a alma da festa. + +--Jandira é a mais bela das virjens araguaias. Seu amor fará a ventura +de um guerreiro valente. Ubirajara não podia achar para si uma espoza +mais fiel, nem para seus filhos outra mãi tão fecunda. Mas a noite deceu +em sua alma. Só a estrela do dia póde restituir-lhe a alegria que o +abandonou. A filha de Majé merece um guerreiro que tenha olhos para a +sua formozura. + + * * * * * + +Pojucan sentou-se pensativo á porta da cabana. + +O semblante, sempre grave, como convém a um chefe, cobre-se de tristeza. + +A noite que foje da terra, vencida pelo sol, parece recolher-se na alma +do chefe tocantim. + +Não é sua ferida que o faz sofrer. O balsamo suave da embaiba sára +rapidamente os golpes mais profundos; e os varões tocantins aprendem +desde o berço a desprezar a dôr. + +É em seu coração de guerreiro, que Pojucan sente as garras do Anhanga. + +O revez de ser vencido e cair prizioneiro, elle o suporta como o varão +forte que viu prostrados por Aresqui no campo da batalha os mais +terriveis guerreiros. + +A grandeza do vencedor o consola; resta-lhe ainda a gloria de ter +rezistido a um braço, como o de Ubirajara, grande chefe dos araguaias. + +Mas elle esperava que depois de haver ornado com sua prezença a festa do +triunfo, o vencedor fosse generozo, e lhe concedesse a honra do +sacrificio. + +É o temor de que Ubirajara lhe recuze uma morte glorioza e o retenha +cativo, que nesse momento acabrunha o chefe dos tocantins. + +Elle, um guerreiro livre que pizára outr'ora como senhor aquelles +campos, reduzido á condição de escravo? + +Elle, um varão chefe que tinha na obediencia de seu arco mais de mil +guerreiros valentes, obrigado a reconhecer um dono? + +Elle, que afrontava a cólera de Tupan, quando o deus irado rujia do céu, +curvar-se ao aceno de um homem, fosse embora o mais pujante dos filhos +da terra? + +Pojucan estremecia quando se lembrava que podia ser condenado a tão +grande humilhação. + +Em seu terror promovia o passo, com o impeto de fujir para sempre da +taba dos araguaias, onde o ameaçava aquella vergonha. + +Mas uma força invencivel atava-lhe a vontade. Elle não se pertencia +desde o momento em que Ubirajara lhe calcou a mão direita no hombro. + +Esse era o sinal da conquista, que prendia o vencido ao vencedor; +aquelle que violasse a lei da guerra, perderia para sempre o nobre +titulo de guerreiro. + +O desprezo do inimigo o acompanharia aos seus campos nativos; e a taba +de seus irmãos não se abriria para o fujitivo que houvesse dezhonrado o +nome de sua nação. + +Por isso na cabana solitaria, Pojucan está mais guardado do que se o +cercasse a multidão dos guerreiros araguaias. + +Véla elle proprio em si, porque véla em sua fama. + +Póde Ubirajara esquecel-o, que na volta o encontrará ali onde o deixou. + +Nada o arrancará da cabana; nem a necessidade de buscar o alimento para +o corpo. + +Bem vinda será a fome, se durar tanto que prostre seu corpo robusto, e o +entregue ao seio da terra, onde o guerreiro dorme o sono da gloria. + +Além rompe da selva Ubirajara, que se encaminha para a cabana com o +passo rapido. + +Segue-o de perto Jandira, como a gentil corça acompanha o caçador, que +lhe roubou o companheiro. + +Descobrindo o chefe dos araguaias, Pojucan encerrou a tristeza dentro de +sua alma; e chamou ao rosto a altivez dos grandes guerreiros. + +O chefe tocantim não queria que seu vencedor se regozijasse de ter-lhe +abatido o animo inflexivel. + + * * * * * + +Quando Ubirajara se aproximou da cabana, Pojucan tomou-lhe o passo. + +--Ubirajara, senhor da lança, grande chefe da nação araguaia, não +confessaste tu diante dos anciãos das tabas e de todos os teus +guerreiros, que Pojucan era o varão mais forte e o mais terrivel no +combate, que o sol tinha visto até o momento de ser vencido por ti? + +--Ubirajara o disse. É a voz da nação araguaia. + +--Desde que tu cruzaste comigo a seta do dezafio até este momento, +Pojucan, guerreiro varão, e chefe de uma taba, na valente nação dos +tocantins, mostrou-se pela sua constancia e valor digno do sangue de +seus avós? + +--Pojucan o disse; e a fama o repete. + +--Então porque Ubirajara, o grande chefe dos araguaias, não concede a +Pojucan a morte glorioza, que os tocantins jámais recuzaram a um +guerreiro valente, e que sómente se nega aos fracos? Já não serviu +Pojucan á tua gloria na festa do triunfo? Esperas delle que te obedeça +como um escravo? Se aviltas o varão, a quem venceste, humilhas o teu +valor que elle exaltava. + +O grande chefe araguaia ouviu sem interromper o prizioneiro, e respondeu +com gravidade: + +--Ubirajara não recuza ao bravo chefe tocantim, seu terrivel inimigo, o +suplicio, que não negaria a qualquer guerreiro valente. Elle esperava +que tua ferida se fechasse de todo, para que o grande Pojucan possa no +dia do ultimo combate sustentar a fama de seu nome, e a gloria de um +varão que só foi vencido por Ubirajara. + +O grande chefe dos araguaias levou aos labios a inubia de Camacan; a voz +do mando reboou pelo vasto ambito da taba. + +Apareceram vinte jovens guerreiros, a quem elle ordenou que chamassem a +conselho os anciãos. + +Depois tornou ao chefe tocantim: + +--Os araguaias receberam de seus avós o costume das nações que Tupan +creou. Elles destinam ao prizioneiro a mais bela e a mais ilustre de +todas as virjens da taba, para que ella conserve o sangue generozo do +heróe inimigo e aumente a nobreza e o valor de sua nação. + +--É esta tambem a lei, que os guerreiros tocantins observam em suas +tabas. + +--A mais bela e a mais nobre de todas as virjens araguaias, aquella que +se ergue como a palmeira no meio da campina coberta de flôres, é +Jandira, a filha de Majé, que tem no seio os doces favos da abelha. + +Travando então do pulso de Jandira, que ali ficára preza de sua vista, +levou-a ao prizioneiro. + +--Recebe-a como espoza do tumulo. + +Jandira que ouviu espavorida aquellas palavras, quiz fujir; porém a mão +do chefe araguaia a reteve. + +--Ubirajara parte, mas elle voltará para assistir a teu suplicio e +vibrar-te o ultimo golpe. Pojucan terá a gloria de morrer pela mão do +mais valente guerreiro. + + * * * * * + +Ficaram Jandira e Pojucan em face um do outro. + +--Virjem dos araguaias, Tupan te rezervou para espoza do mais terrivel +dos inimigos de tua nação. O filho de seu sangue será o mais valente dos +guerreiros; tu sentirás orgulho por havel-o gerado em teu seio. + +--Pojucan, chefe tocantim, Jandira nunca será tua espoza. + +--Não é Ubirajara o chefe de tua nação, e não te destinou elle para +servir de noiva do tumulo ao guerreiro que vai morrer no suplicio? + +--Ubirajara é o grande chefe da nação araguaia; á sua voz cala-se a +palavra dos anciãos; a seu gesto curva-se a fronte dos guerreiros; á sua +vontade obedecem as tabas. Mas no amor de Jandira, ninguem manda, nem +Tupan. Jandira é noiva de Ubirajara, e se elle não quizer aceital-a, o +guanumbí a levará para os campos alegres onde repouzam as virjens que +morreram. + +--Pojucan não carece do amor de Jandira. Nas tabas dos tocantins a mais +bela das virjens se regozijaria de pertencer ao mais valente dos chefes, +e de habitar sua rêde. Nas tabas dos araguaias, onde nacem guerreiros +como Ubirajara, não faltarão virjens formozas, que dezejem a gloria de +ser mãi de um filho de Pojucan. + +--Jandira seria a primeira, se não conhecesse Jaguarê, o mais belo dos +jovens caçadores, que é hoje Ubirajara, o senhor da lança e chefe dos +chefes. Pojucan merece uma espoza que nunca tenha ouvido o canto de +outro guerreiro, para dar-lhe um filho digno delle. + +--Os ritos de tua nação não punem a noiva que rejeita o prizioneiro? + +--Jandira sabe que se sujeita á morte; mas a morte é menos cruel do que +o abandono. + +--Então foje, virjem dos araguaias, e esconde-te á cólera dos anciãos. +Talvez mais tarde Ubirajara se arrependa e te perdôe. + +--Jandira parte. Ella te dezeja uma espoza terna e a morte glorioza. + +A filha de Majé penetrou na floresta, e afastou-se rapidamente da taba. + +Quando já estava muito lonje, sentou-se á sombra de um manacá coberto de +flôres e cantou: + +--Eu fui Jandira, a linda abelha, que fabricava os favos de cêra para +enchel-os de mel saborozo. + +«Agora arrancaram-me as minhas azas com que eu voava pela campina +colhendo o pó das flôres; e secou a doçura de meu sorrizo. + +«O canto que saía de meu seio era como o da patativa ao pôr do sol, +quando se recolhe em seu ninho de paina macia. + +«Agora eu queria ter no coração uma serpente para morder aquella que me +roubou o amor de meu guerreiro. + +«Guardei a minha formozura para orgulho do espozo, e inveja dos outros +guerreiros. + +«Agora eu trocaria a flôr do meu rosto por um aspeto terrivel que +infundisse pavor. + +«Meus seios mais lindos que os botões do cardo por um peito feroz, e as +mãos lijeiras que tecem os fios do algodão pelas garras do jaguar. + +«Eu fui Jandira, o manacá viçozo que se vestia de flôres azues e +brancas. + +«Agora sou como a jussara que perdeu a folha, e só tem espinhos para +ferir aquelles que se chegam.» + + * * * * * + +Os anciãos já estavam reunidos na oca do conselho, quando Ubirajara +entrou. + +Falou Camacan: + +--Ubirajara, senhor da lança, chefe dos chefes, os pais da grande nação +araguaia escutam a tua voz. + +O grande chefe tres vezes bateu no chão com a ponta do arco e disse: + +--Pojucan, o chefe tocantim, pede a morte do combate; elle a merece, +porque é um grande guerreiro e um varão ilustre. Ubirajara concedeu-lhe +essa honra, como seu vencedor. + +--Ubirajara é um inimigo generozo; respondeu Camacan. + +Todos os anciãos inclinaram gravemente a cabeça encanecida para +exprimirem sua aprovação ás palavras de Camacan. + +Proseguiu Ubirajara: + +--É tempo de escolher para o prizioneiro uma espoza digna de acompanhar +em seus ultimos dias ao heróe inimigo, e de ser mãi do marabá, o filho +da guerra. + +Todos os abarés dezejavam para si a gloria de oferecer uma filha ao +prizioneiro. + +--Ubirajara destinou-lhe Jandira, filha de Majé. Ella o merece por sua +formozura, e pelo sangue do grande guerreiro que gira em suas veias. + +--Ubirajara é um grande chefe, disse Camacan. + +Os anciãos aprovaram outra vez com a cabeça; Majé acrecentou: + +--O sangue do velho Majé não desmentirá em Jandira a fama da nação +araguaia. + +--Não! disse Ubirajara e todos os anciãos repetiram: Não! + +O grande chefe tornou com a voz pauzada: + +--Celebrai a ceremonia da entrega da espoza ao prizioneiro. Ubirajara +parte; só estará de volta na proxima lua para assistir ao suplicio de +Pojucan. Se na auzencia de Ubirajara cair na taba a flecha, nuncia da +guerra, conduzi o trocano ao sitio onde se abraçam os grandes rios, e +soltai a voz da nação araguaia. Nesse dia Ubirajara será comvosco. + +Os prudentes anciãos, com a cabeça inclinada para melhor ouvir, recebiam +as palavras do grande chefe e as guardavam na memoria. + +Quando Ubirajara se calou, Camacan repetiu, ainda mais pauzado, as +recomendações do filho: + +--É esta a vontade de Ubirajara? + +--Tu o disseste. + +--Os anciãos guardaram a palavra do chefe dos chefes? perguntou ainda +Camacan. + +--Ella entrou no espirito dos abarés, como a raiz no seio da terra, +observou Majé. + +--Bem dito, repetiram todos. + +Ubirajara saiu do carbeto; após elle os anciãos se retiraram +lentamente. + + + + +IV + +A HOSPITALIDADE + + +Na entrada do vale ergue-se a grande taba dos tocantins. + +É a hora em que as sombras abraçam os troncos das arvores e o sol +descansa em meio da carreira. + +A floresta emudece, e todos os viventes se abrigam da calma que abraza. + +Ubirajara deixa o escuro da mata e caminha para a grande taba dos +tocantins. + +Quando chegou á distancia do tiro de uma flecha despedida pelo mais +robusto guerreiro, tocou a inubia. + +O guerreiro de vijia respondeu; e o chefe araguaia, quebrando a seta, +alçou a mão direita para mostrar a senha da paz. + +Então avançou para a taba; na entrada da caissara que cercava o campo +dos tocantins, atirou ao chão a seta partida. + +Os guerreiros que tinham acudido ao som da inubia, deixaram passar o +estranjeiro sem inquirir donde vinha, nem o que o trouxera. + +Era este o costume herdado de seus maiores, que o hospede mandava na +taba aonde Tupan o conduzia. + +Ubirajara passou entre os guerreiros, e dirijiu-se á cabana mais alta +que ficava no centro da ocara. + +A figura do tucano, feita de barro pintado, e colocada em cima da porta, +dizia que era ali a cabana do grande chefe. + +Mas Ubirajara já o sabia; pois antes de penetrar na taba, subira á +grimpa do mais alto cedro da floresta para conhecer o sitio onde +habitava Arací, a estrela do dia. + +A cabana estava dezerta naquelle instante, mas ouvia-se a fala das +mulheres que trabalhavam no terreiro. + +Ubirajara transpôz o limiar, e levantando a voz disse: + +--O estranjeiro chegou. + +Acudiram as mulheres, e conduziram Ubirajara á prezença do grande chefe +dos tocantins. + +Itaquê passava as horas da ardente calma á sombra da frondoza gameleira, +que podia abrigar cem guerreiros em baixo de sua rama. + +Repouzando dos combates, o formidavel guerreiro não desdenhava as artes +da paz em que era tão consumado como nas batalhas. + +Assim honrava as fadigas da taba, dando o exemplo do trabalho á familia +de que era pai, e a nação de que era chefe. + +Nesse momento as mulheres colocadas em duas filas, com as mãos erguidas, +urdiam os fios de algodão, passados pelos dedos abertos em fórma de +pente. + +Itaquê manejava a lançadeira, tão destro como na peleja vibrava o +tacape. Sua mão lijeira tramava a teia de uma rêde, que entretecia das +penas douradas do galo da serra. + +Quando chegou Ubirajara, o grande chefe dos tocantins, depois de ter +rematado a urdidura, entregou a lançadeira ao guerreiro Pirajá que +estava a seu lado, e veiu ao encontro do hospede. + +--O estranjeiro veiu á cabana de Itaquê, grande chefe da nação tocantim, +disse Ubirajara. + +--Bem vindo é o estranjeiro á cabana de Itaquê, grande chefe da nação +tocantim. + +Então o tuxava voltou-se para Jacamim, a mãi de seus filhos: + +--Jacamim, prepara o cachimbo do grande chefe, para que elle e o +estranjeiro troquem a fumaça da hospitalidade. + +Os mensajeiros já corriam pela taba, avizando os guerreiros moacaras da +vinda do hospede á cabana de Itaquê. + +Os moacaras, revestidos de seus ornatos de festa, se encaminharam com o +passo grave á oca principal afim de honrar o hospede do grande chefe da +nação tocantim. + +Ali chegados, cada um dirijiu ao estranjeiro a pergunta da hospitalidade +e deu-lhe a boa vinda. + + * * * * * + +Depois que Itaquê ofereceu a Ubirajara o cachimbo da paz, e com elle +trocou a fumaça da hospitalidade, os cantores entoaram a saudação da +chegada: + +«O hospede é mensajeiro de Tupan. Elle traz a alegria á cabana; e quando +parte leva comsigo a fama do guerreiro que teve a fortuna de o acolher. + +«Nas tabas por onde passa, e na terra de seus pais, elle conta aos +velhos, que depois ensinam aos moços, as proezas dos heróes que viu em +seu caminho, e de quem recebeu o abraço da paz. + +«O hospede é mensajeiro de Tupan. Elle traz comsigo a sabedoria; na +cabana do guerreiro que tem a fortuna de o acolher, todos o escutam com +respeito. + +«Em suas palavras prudentes, os anciãos da taba aprendem, para ensinar +aos moços, os costumes dos outros povos, as façanhas de guerra +desconhecidas por elles, e as artes da paz, que o estranjeiro viu em +suas viajens. + +«O hospede é mensajeiro de Tupan. O primeiro que apareceu na taba dos +avós da nação tocantim, foi Sumê, que veiu de onde a terra começa e +caminhou para onde a terra acaba. + +«Delle aprenderam as nações a plantar a mandioca para fazer a farinha, e +a tirar do cajú e do ananaz o generozo cauim, que alegra o coração do +guerreiro. + +«O hospede é mensajeiro de Tupan. Quando o estranjeiro entra na cabana, +o guerreiro que tem a fortuna de o acolher, não sabe se elle é um chefe +ilustre ou o grande Sumê que volta de sua viajem. + +«O sabio ensina por onde passa os segredos da paz, e o heróe as façanhas +da guerra; mas ambos deixam na cabana da hospitalidade a gloria de ter +abrigado um grande varão. + +«O hospede é mensajeiro de Tupan. Por seu caminho vai deixando a +abundancia e a festa; depois do banquete da boa vinda as arvores vergam +com os frutos, e a caça não cabe na floresta. + +«A cabana que fecha a porta ao hospede, o vento a arranca, o fogo do céu +a abraza. O guerreiro que não se alegra com a chegada do hospede, vê +murchar ao redor de si a espoza, os filhos, as mulheres e as roças que +elle plantou. + +«Bem vindo seja o estranjeiro na cabana de Itaquê, o grande chefe da +nação tocantim, que teve a gloria de ser escolhido pelo hospede. + +«Os guerreiros exultam com a honra de seu chefe, e os cantores te +saudam, mensajeiro de Tupan.» + +Emquanto na cabana resôa o canto da boa vinda, Jacamim, a espoza de +Itaquê, chamou as amantes do marido, suas servas, para ajudal-a a +preparar o banquete da hospitalidade. + +As servas pressurosas estenderam á sombra da gameleira as alvas esteiras +de palmas entrançadas de airis e colocaram sobre ellas os urús cheios de +farinha d'agua. + +Trouxeram tambem os camocins razos, onde se apinhavam as moquecas +envoltas em folha de banana, e peças de carne, assada no biaribí, que +ainda fumegava nos pratos feitos de concha de tartaruga. + +Depois suspenderam a caça mais volumoza, veados e antas, assim como as +igaçabas de cauim, nos ramos inclinados da arvore, em altura que o braço +do guerreiro podesse alcançar. + +Frutas de varias especies, pencas douradas de banana, cachos rôxos de +assaí, os rubros croás, e os fragrantes abacaxis, enchiam o giráu +levantado no meio do terreiro. + + * * * * * + +Jacamim conduzira o hospede á sombra da gameleira, onde o esperava o +banquete da chegada. + +Ao lado de Ubirajara sentou-se Itaquê e depois os moacaras que tinham +vindo para a festa da hospitalidade. + +Os guerreiros comeram em silencio. As mulheres dilijentes os serviam, +enchendo de vinho de cajú e ananaz as largas combucas, tintas com a +pasta do crajurú que dá o mais brilhante carmim. + +Quando o hospede, depois de satisfeito o apetite, lavou o rosto e as +mãos, Jacamim ordenou ás servas que recolhessem os restos das provizões, +e retirou-se com ellas. + +Tambem se afastaram os jovens guerreiros que ainda não tinham voz no +conselho. Só ficaram sentados com o hospede, Itaquê, e os moacaras +senhores das cabanas. + +O cachimbo do grande chefe passou de mão em mão e cada ancião bebeu a +fumaça da herva de Tupan, que inspira a prudencia no carbeto. + +Então disse o chefe: + +--Itaquê dezeja dar a seu hospede um nome que lhe agrade, e preciza que +o ajude a sabedoria dos anciãos. + +A lei da hospitalidade não consentia que se perguntasse o nome ao +estranjeiro que chegava, nem que se indagasse de sua nação. + +Talvez fosse um inimigo, e o hospede não devia encontrar, na cabana onde +se acolhia, senão a paz e a amizade. + +O chefe, que tinha a fortuna de receber o viajante, escolhia o nome de +que elle devia uzar emquanto permanecia na cabana hospedeira. + +Foi Ipê quem primeiro falou: + +--Tu chamarás ao hospede Jutaí, porque sua cabeça domina o cocar dos +mais fortes guerreiros, como a copa do grande pinheiro aparece por cima +da mata. + +Disse Tapir: + +--Chama ao hospede Boitatá, porque elle tem os olhos da grande serpente +de fogo, que vôa como o raio de Tupan. + +Os moacaras, cada um por sua vez, falaram; e como a voz começava do mais +moço para acabar no mais velho, as ultimas falas eram menos guerreiras e +traziam a prudencia da idade. + +Assim Caraúba, que era o segundo antes do chefe, disse: + +--Itaquê, o hospede é o nuncio da paz. Tu deves chamal-o Jutorib, porque +elle trouxe a alegria á tua cabana. + +Guaribú, cujos anos enchiam a corda de sua existencia de mais nós, do +que tem o velho cipó da floresta, falou por ultimo: + +--O viajante é senhor na terra que elle piza como hospede e amigo; e o +nome é a honra do varão ilustre, porque narra sua sabedoria. Pergunta ao +estranjeiro como elle quer ser chamado na taba dos tocantins. + +--Bem dito! + +Itaquê, aprovando as palavras prudentes do ancião, perguntou a Ubirajara +que nome escolhia; este lhe respondeu: + +--Eu sou aquelle que veiu trazido pela luz do céu. Chama-me Jurandir. + +Nesse momento, Arací, a estrela do dia, apareceu por entre as palmeiras, +e caminhou para a cabana. + +Os mais valentes entre os jovens guerreiros tocantins acompanhavam a +formoza caçadora. Eram os servos do amor, que disputavam a beleza da +virjem. + +Os cantores saudaram de novo o hospede pelo nome que elle escolhera: + +--Tu és aquelle que veiu trazido pela luz do céu. Nós te chamaremos +Jurandir; para que te alegres ouvindo o nome de tua escolha. + +«Tu és aquelle que veiu trazido pela luz do céu. Nós te chamaremos +Jurandir; e o nome de tua escolha alegrará o ouvido dos guerreiros.» + + * * * * * + +De longe Arací viu o estrangeiro, sentado entre os anciãos, como o +frondoso jacarandá no meio dos velhos troncos das aroeiras. + +A virgem reconheceu logo o caçador araguaia e adivinhou que ele viera á +cabana de Itaquê para disputar sua beleza aos guerreiros tocantins. + +O coração de Arací encheu-se de alegria. Seus negros cabelos +estremeceram de contentamento, como as penas da jaçanan quando presente +o formoso inverno. + +O estrangeiro não queria ser conhecido; pois deixára o cocar das plumas +da arara, que era o ornato guerreiro da sua nação. Mas a imagem do jovem +caçador ficára na lembrança da virgem, como fica na terra a verde +folhajem, depois da lua das aguas. + +A lei da hospitalidade proíbia á virgem revelar o segredo do +estranjeiro, só della sabido. Nesse momento foi á sua alma que obedeceu +e não ao costume da nação. + +Quando Arací chegou ao terreiro, os anciãos se preparavam para ouvir a +maranduba do hospede. Os guerreiros e as mulheres escutavam em silencio. + +O estrangeiro começou: + +--Jurandir é moço; ainda conta os anos pelos dedos e não viveu bastante +para saber o que os anciãos da grande nação tocantim aprenderam nas +guerras e nas florestas. + +«O moço é o tapir que rompe a mata, e vôa como a seta. O velho é o +jabotí prudente que não se apressa. + +«O tapir erra o caminho e não vê por onde passa. O jabotí observa tudo, +e sempre chega primeiro. + +«Jurandir é moço; mas conhece as grandes florestas, e atravessou mais +rios do que as veias por onde corre o sangue valente de seu pai. + +«A primeira agua em que Jaçanan, sua mãi, o lavou, quando elle lhe +rasgou o seio, foi a do grande lago onde Tupan guardou as aguas do +diluvio, depois que as retirou da terra. + +«Ainda Jurandir não era um caçador, quando elle se banhou no pará sem +fim, onde os rios despejam a sua corrente e cujas aguas quando dormem se +mudam em sal. + +«Duas vezes Jurandir seguiu o pai dos rios desde a grande montanha onde +nace, até á varzea sem fim que elle enche com suas aguas. + +«Elle viu o grande rio combater com o mar, no tempo da pororoca. Os dois +chefes tocam as inubias antes da peleja, para chamar seus guerreiros. + +«Vem de um lado as aguas do mar, são os guerreiros azues, com penachos +de araruna; vem do outro as aguas do rio, são os guerreiros vermelhos +com penachos de nambú. + +«Começa a batalha. Os guerreiros se enrolam, como a corrente da +cachoeira, batendo no rochedo; a terra estremece com o trovão das aguas. + +«Mas o grande rio agarra o mar pela cintura. Arranca do chão o inimigo; +carrega-o nos hombros; solta o grito de triunfo. + +«Por muito tempo os Tetivas, que habitam sobre as arvores, vêem passar +correndo as aguas do mar; são os guerreiros azues que fojem espavoridos +e vão esconder-se na sombra das florestas. + +«Jurandir tambem viu a terra onde habitam as mulheres guerreiras, +senhoras de seu corpo, que vivem em baixo das aguas do grande rio. + +«Só ellas sabem o segredo das pedras verdes, que tornam os guerreiros +cativos de seu amor, sem prival-as da liberdade. + +«Por isso todas as luas, grande numero de guerreiros as vizitam em sua +taba; e ellas guardam para os mais valentes a flôr de sua beleza. + +«Quando chega o tempo de vir o fruto do amor, guardam sómente as filhas; +e enviam aos guerreiros os filhos, de onde saem os maiores chefes. + +«Feliz o guerreiro que acha uma terra valente e fecunda para a flôr de +seu sangue. O filho será maior do que elle; e o neto maior do que o +filho. + +«Sua geração vai assim crecendo de tronco em tronco; e fórma uma +floresta de guerreiros, onde o ultimo cedro se ergue mais frondozo e +robusto, porque recebe a seiva de seus avós.» + + * * * * * + +Quando Jurandir proferiu as ultimas palavras, seus olhos que tinham +muitas vezes buscado Arací, repouzaram nella. + +A virjem tocantim compreendeu que o estranjeiro se referia a si; e não +escondeu sua alegria, como não esconde sua flôr a juquerí que o rio +beija. + +A formoza caçadora cantou. Sua voz era limpida e sonora como o gorjeio +do sabiá, quando se deleita com o calor do sol. + +--Feliz a terra que recebe a semente do cedro frondozo e robusto; ella +se cobrirá de sombra e frescura. Os guerreiros gostarão de reunir-se aí +para falar da paz e da guerra. + +«Ella é como a virjem que um chefe ilustre escolheu para sua espoza, e +que se povôa de uma prole numeroza. As nações a respeitam porque é a mãi +de valentes guerreiros; os anciãos escutam seu conselho na paz e na +guerra. + +«As mulheres guerreiras, senhoras de seu corpo, são como a palmeira do +murití, que rejeita o fruto antes que elle amadureça e o abandona á +correnteza do rio. + +«A espoza não desprende de si o filho, senão quando elle não chupa mais +seu peito. Ella é como a mangabeira; nutre o fruto com seu leite, que é +a flôr de seu sangue. + +«Não é na terra das mulheres guerreiras que o estranjeiro deve buscar a +espoza; mas na taba de sua nação, onde Tupan guarda para seu valor a +mais bela das virjens, aquella que tem o sorrizo de mel.» + +O hospede respondeu: + +--Jurandir sabe onde encontrará a virjem que dezeja para espoza. A luz +do céu o guia, e nada reziste á força de seu braço. + +Depois de responder ao canto de Arací, o estranjeiro continuou sua +maranduba, que todos ouviram silenciozos. + +Elle contou o que havia aprendido nas praias do mar habitadas pela +valente nação dos Tupinambás, decendentes da mais antiga geração de +Tupi. + +Os pajés dos Tupinambás lhe disseram que nas aguas do pará sem fim vivia +uma nação de guerreiros ferozes, filhos da grande serpente do mar. + +Um dia esses guerreiros saíriam das aguas para tomar a terra ás nações +que a habitam; por isso os Tupinambás tinham decido ás praias do mar, +para defendel-as contra o inimigo. + +Os guerreiros do mar tambem tinham suas guerras entre si, como os +guerreiros da terra. Então as aguas pulavam mais altas do que os montes; +seu estrondo era como o trovão. + +Jurandir contou mais que nas praias do mar se encontrava uma rezina +amarela, muito cheiroza, a qual a grande serpente creava no bucho. + +Os Tupinambás faziam dessa goma contas para seus colares; Jurandir +mostrou a pulseira que lhe cinjia o artelho, prezente de um guerreiro +daquella nação. + +Essas contas tornavam o pé do guerreiro ajil na corrida, e protejiam o +viajante contra os caiporas da floresta, que se apartavam de seu +caminho. + +Muitas outras coizas referiu Jurandir; e os anciãos admiravam-se de ver +o juizo prudente de um abaré no corpo joven de tão forte guerreiro. + +Os mais velhos dos moacaras acreditaram que o hospede era o filho de +Sumê, mandado por seu pai correr as terras que o sabio tinha visto em +sua mocidade. + +Calaram, porém, seu pensamento, para o comunicarem aos anciãos quando se +reunisse o carbeto da nação. + +O sol já decia para as montanhas quando terminou a festa da +hospitalidade na cabana de Itaquê. + +Os moacaras partiram. Itaquê voltando á sua ocupação, deixou o hospede +senhor de sua vontade para fazer o que lhe agradasse. + +Vieram os jovens pescadores da taba com os anzóes e gequis saber do +hospede que peixe elle preferia. + +Depois delles chegaram os jovens caçadores que antes de partir para a +floresta vinham receber os dezejos do hospede. + +Por fim aproximaram-se as mulheres que já tinham rompido o fio da +virjindade, mas não eram nem espozas, nem amantes de guerreiros. + +Essas eram as mulheres livres, que davam seu amor e o retiravam quando +queriam, mas não recebiam a proteção de um guerreiro nem podiam jámais +ser mãis da prole. + +Os filhos concebidos no proprio seio só tinham por mãi a espoza, que o +guerreiro tomou por companheira de sua existencia e raiz de sua geração. + +O rito da hospitalidade entre os filhos da floresta manda que se dê ao +estranjeiro amigo tudo que deleita ao guerreiro. + +Por isso vinham as moças oferecer a Jurandir sua beleza, para que elle +escolhesse entre ellas uma companheira, que partilhasse sua rêde na +cabana hospedeira. + +Todas se tinham enfeitado com seus mais belos ornatos, para agradar aos +olhos de Jurandir; pois não havia para ellas maior gloria do que a de +merecer o amor do estranjeiro. + +Umas traziam as tranças urdidas com penas vistozas dos passaros de sua +predileção; outras haviam perfumado da essencia do sassafraz os cabelos +soltos, que derramavam sua fragancia ao sopro da briza. + +Chegando diante do estranjeiro, começaram uma dansa amoroza para mostrar +a graça de seu corpo. Aquellas que tinham a voz doce cantavam em louvor +de Jurandir. + +Arací fôra buscar seu balaio de palha vermelha, e sentára-se no +terreiro, junto á porta da cabana. Seus dedos ajeis enfiavam as sementes +de jequerití, de que fazia um ramal para seu colo gentil. + +Emquanto compunha o colar, a virjem percebia que os olhos de Jurandir +abandonavam os encantos das mulheres, e buscavam seu rosto. + +Mas ella voltava-se para a floresta; com o trinado de seus labios +chamava o crajuá, que voava no olho da palmeira. O passarinho iludido +vinha, cuidando ouvir o canto da companheira. + +Jurandir apartou as mulheres e disse: + +--As moças tocantins são formozas, qualquer dellas alegraria o sono do +estranjeiro. Mas Jurandir não veiu á cabana de Itaquê para gozar do amor +de uma noite; elle veiu buscar a espoza que ha de acompanhal-o até á +morte, e a virjem que escolheu para mãi de seus filhos. + +Quando Arací ouviu estas palavras cobriu-se de sorrizos, como o guajerú +se cobre de suas flôres alvas e perfumadas com os orvalhos da manhã. + +Jurandir voltou-se então para a virjem caçadora: + +--Estrela do dia, Arací, conduze-me á prezença de Itaquê. É tempo que +elle saiba o segredo do estranjeiro. + +--Os sonhos disseram a Arací duas noites seguidas, que o joven caçador +chegaria á cabana de Itaquê; ella te esperou. Quando meus olhos te viram +sentado entre os moacaras, logo conheceram que tu vinhas buscar a +espoza. + +O estranjeiro respondeu: + +--Jurandir chegou á taba dos seus, e recebeu um nome de guerra e o +grande arco de sua nação. Mas a cabana do chefe estava dezerta; e sua +rêde não lhe guardou o sono tranquilo do guerreiro. Elle ouviu tua voz +que o chamava, virjem tocantim, e ergueu-se; tua luz o guiou, filha do +sol, e o trouxe á tua prezença. + + + + +V + +SERVO DO AMOR + + +Jurandir, conduzido pela virjem, caminhou ao encontro de Itaquê e disse: + +--Grande chefe dos tocantins, Jurandir não veiu á tua cabana para +receber a hospitalidade; veiu para servir ao pai de Arací, á formoza +virjem, a quem escolheu para espoza. Permite que elle a mereça por sua +constancia no trabalho, e que a dispute aos outros guerreiros pela força +de seu braço. + +Itaquê respondeu: + +--Arací é a filha de minha velhice. A velhice é a idade da prudencia e +da sabedoria. O guerreiro que conquistar uma espoza como Arací terá a +gloria de gerar seu valor no seio da virtude. Itaquê não póde dezejar +para seu hospede maior alegria. + +Desde esse momento, Jurandir não foi mais estranjeiro na taba dos +tocantins. Pertencia á oca de Itaquê, e devia, como servo do amor, +trabalhar para o pai de sua noiva. + +Os guerreiros, cativos da beleza de Arací, conheceram que tinham de +combater um adversario formidavel; mas seu amor creceu com o receio de +perder a filha de Itaquê. + +Jurandir tomou suas armas e deceu ao rio. Era a hora em que o jacaré +boia em cima das aguas como o tronco morto, e a jaçanan se balança no +seio do nenufar. + +O manatí erguia a tromba para pastar a relva na marjem do rio. Ouvindo o +rumor das folhas, mergulhou na corrente; mas já levava o arpéu do +pescador cravado no lombo. + +Jurandir não esperou que o peixe ferido dezenrolasse toda a linha. +Puxou-o para terra; e levou-o ainda vivo á cabana de Itaquê, onde tres +guerreiros custaram a deital-o no giráu. + +As mulheres cortaram as postas de carne, e os guerreiros cavaram a terra +para fazer as grelhas do biaribí. + +Jurandir partiu de novo, e entrou na floresta. Ao lonje reboavam os +gritos dos caçadores, que perseguiam a féra. + +Pelo assobio o guerreiro conheceu que era um tapir. O animal zombára dos +caçadores e vinha rompendo a mata como a torrente do Xingú. + +As arvores que seu peito encontrava caíam lascadas. + +Jurandir estendeu o braço. O velho tapir, agarrado pelo pé, ficou +suspenso na carreira, como o passarinho prezo no laço. Nunca até aquelle +momento encontrára força maior que a sua. + +Uma vez decera á lagôa para beber. A sucurí, que espreitava a caça, +mordeu-o na tromba. Elle fujia, esticando a serpente; e a serpente +encolhendo-se o arrastava até á beira d'agua. + +Assim tornou, uma, duas, tres vezes. Mas o tigre urrou de fome. O velho +tapir disparou pela floresta; e a sucurí com a cauda preza á raiz da +arvore arrebentou pelo meio. + +O velho tapir rompeu a serpente como se rompe uma corda de piassaba; mas +não pôde abalar o braço de Jurandir, mais firme do que o tronco do +guaribú. + +O estranjeiro tornou á cabana com a caça. Nenhum dos guerreiros da taba, +nem mesmo o velho Itaquê, pôde aguentar com as duas mãos a féra bravia. + +Então Jurandir obrigou o animal a agachar-se aos pés de Arací e disse: + +--O braço de Jurandir fará cair assim a teus pés o guerreiro que ouze +disputar ao seu amor a tua formozura, estrela do dia. + + * * * * * + +Nunca a abundancia reinára na cabana sempre farta do chefe dos +tocantins, como depois que a ella chegára o estranjeiro. + +Jurandir era o maior caçador das florestas, e o primeiro pescador dos +rios. Seu olhar seguro penetrava na espessura das brenhas, como na +profundeza das aguas. + +Nada escapava á destreza de sua mão. Onde ella não chegava, iam as unhas +de suas flechas certeiras, que rasgavam o seio da vitima, como as garras +do jaguar. + +O estranjeiro soubera de Arací qual era a caça que Itaquê preferia, e +qual o peixe que elle achava mais saborozo. Desde então nunca o velho +chefe sentiu a falta do manjar predileto. + +Se não era a lua propria do peixe dezejado, Jurandir sabia onde o podia +encontrar. Não tornava á cabana sem a provizão necessaria para a +refeição do dia. + +Depois da caça e da pesca, Jurandir trabalhava nas roças de Itaquê. +Fazia no taboleiro os matumbos, para que Jacamim enterrasse as estacas +da maniva e semeasse o feijão, o milho e o fumo. + +Entre os filhos das florestas a plantação devia ser feita pela mão da +mulher, que era mãi de muitos filhos; porque ella transmitia á terra sua +fecundidade. + +A semente que a mão da virjem depozitava no seio da terra dava flôr; mas +da flôr não saía fruto. E se era um guerreiro que plantava, o aipim +endurecia como o páu de arco. + +Nas vazantes do rio, Jurandir capinava a terra coberta de relva e outras +plantas, e só deixava crecer o arroz, o inhame e as bananeiras. + +Quando o estranjeiro partia pela manhã, Arací o acompanhava de lonje +pela floresta. + +Sua vontade a levava após elle. + +O costume da taba não consentia que a virjem dezejada pelos servos de +seu amor, preferisse um guerreiro antes de saber se elle a obteria por +espoza. + +A filha de Itaquê não queria pertencer a outro guerreiro; mas +lembrava-se que a virjem deve merecer o espozo por sua paciencia, assim +como o guerreiro merece a espoza por sua constancia e fortaleza. + +Então voltava ao terreiro: emquanto os outros guerreiros espreitavam sua +vontade, ella tecia as franjas para a rêde do cazamento. + +Sua mão sutil urdia com o alvo fio do crauatá a fina penujem escarlate. +Os noivos cuidavam que era a do peito do tucano; mas ella sabia que era +do peito da arára e que tinha as côres de seu guerreiro. + +Quando o sol chegava ao cimo dos montes, ouvia-se o canto de Jurandir +que voltava da caça. A virjem seguida pelos guerreiros ia ao encontro do +estranjeiro. + +Então deciam ao rio. Era a hora do banho. Arací cortava as ondas mais +linda que a garça côr de roza; e os guerreiros a seguiam de perto, como +um bando de galeirões. + +Mas nenhum, nem mesmo Jurandir, que nadava como um bôto, podia alcançar +a formoza virjem. Ella parecia a flôr do mururê que se desprendeu da +haste, e passa levada pela corrente. + +Uma vez a filha das aguas soltou um grito, e dezapareceu no seio das +ondas. Jacamim cuidou que o jacaré tinha arrebatado a filha de seu seio. +Os guerreiros mergulharam para salval-a; mas não a encontraram. + +Todos a julgavam perdida, quando apareceu Jurandir que trazia nos braços +o corpo da virjem formoza. Pizando em terra, ella correu para a cabana, +onde foi esconder sua alegria. + +Desde então era no banho que Arací recebia o abraço de Jurandir, sem que +os outros guerreiros suspeitassem da preferencia dada ao estranjeiro. + +No seio das ondas ninguem a adivinhava, a não ser o ouvido sutil de +Jurandir, a quem ella chamava com o doce murmurio do irerê. + +Encontravam-se no fundo do rio emquanto durava a respiração. Depois +desprendiam-se do abraço e surjiam lonje um do outro. + + * * * * * + +Á tarde, voltando da caça, Jurandir viu na floresta um rasto, que elle +conhecia. + +Chegado á cabana, entregou a Jacamim o veado que matára, e saiu para +vizitar os arredores. Nada encontrou de suspeito; o rasto, que o +inquietava, não chegára até ali. + +No outro dia, ao romper da alvorada, logo depois do banho os guerreiros +partiram para a caça e para a pesca. Só ficaram na cabana Jacamim e as +mulheres de Itaquê. + +Arací tomou o arco e entrou na floresta. A imajem do guerreiro amado +fujia naquelle instante de seus olhos; elles buscaram entre as folhas o +sinal de seus passos e não o descobriram. + +Lembrou-se a virjem, que Jurandir gostava da polpa do guaranan adoçada +com o mel da abelha, e colheu os frutos encarnados que pendiam dos ramos +da trepadeira. + +Nesse momento a arára cantou no olho do pirijá. Arací precizava de suas +plumas vermelhas para o cocar que ella tecia em segredo. + +Era o cocar do amor, com que dezejava ornar a cabeça de seu guerreiro +senhor, no dia em que elle a conquistasse por espoza. + +A virjem armou o arco e seguiu a arára rompendo a folhajem. Quando ia +disparar a seta, ouviu ao lado um rumor dezuzado. + +Jurandir estava perto della, e segurava o braço de uma mulher, que ainda +tinha na mão a macana afiada. + +Arací conheceu a virjem araguaia, pela faxa de algodão entretecida de +penas que lhe apertava a curva da perna; e adivinhou que era Jandira, a +noiva do guerreiro. + +--Filha de Majé, tua mão quiz matar a virjem que Jurandir escolheu para +espoza. Tu vais morrer. + +--Desde que Ubirajara abandonou Jandira, ella começou a morrer, como a +baunilha que o vento arranca da arvore. Acaba de matal-a, para que sua +alma te acompanhe de dia na sombra das florestas e te fale de noite na +voz dos sonhos. + +--A virjem araguaia ameaçou a vida de Arací; ella lhe pertence, disse a +filha de Itaquê. + +Jurandir cortou na floresta uma comprida rama de imbê, e atou as mãos de +Jandira. + +--Jandira é tua escrava. Não lhe dês a liberdade. Ella tem a astucia da +serpente e seu veneno. + +--Eu era a cobra d'agua, amiga do guerreiro, que habita sua cabana e a +guarda contra o inimigo. Quem foi que me fez a cascavel venenoza, que +traz nos labios o sorrizo da morte? + +Jurandir não respondeu. Nesse momento elle teve saudade de sua cabana; e +lembrou-se do tempo em que, joven caçador, seguia na floresta a formoza +virjem araguaia. + + * * * * * + +As duas virjens ficaram sós no claro da floresta. + +Já o rumor dos passos de Jurandir se apagára ao lonje, e ainda tinham +ambas os olhos cativos uma da outra. + +Jandira pensou que ella não podia dar a Ubirajara a formozura da filha +de Itaquê. Arací receiou que o amor do guerreiro se voltasse outra vez +para a linda virjem araguaia. + +A filha de Majé preparou-se para morrer á mão de sua rival, mas ella +preferia a morte ao suplicio de contemplar sua beleza. + +Arací, a estrela do dia, cantou: + +--O amor do guerreiro é a alegria da virjem; quando elle foje, a virjem +fica triste como a varzea que perdeu sua relva. + +«Por isso Jandira está triste; o amor do guerreiro fujiu della; e a +deixou solitaria como a nambú, a quem o companheiro abandonou. + +«Mas o amor do guerreiro é como o orvalho da noite. Quando o sol queima +a varzea, elle dece do céu para cobril-a de verdura e de flôres. + +«Arací está alegre, porque o amor do guerreiro voltou-se para ella; e +Jurandir vai fazel-a companheira de sua gloria e mãi de seus filhos. + +«Quando a espoza de Jurandir não tiver mais beleza para dar a seu +guerreiro, ella consentirá que Jandira durma em sua rêde. + +«E o orvalho da noite decerá do céu para cobrir a varzea de verdura e de +flôres. E Jandira achará outra vez seu sorrizo de mel.» + +Assim cantou Arací, a estrela do dia; e a virjem araguaia respondeu: + +--A arvore que morreu não sofre quando o fogo a queima. Jandira prefere +a morte á vergonha de ser tua serva, e á tristeza de ver a cada instante +a formozura da estranjeira que roubou seu amor. + +«Arací, a estrela do dia, é mais bela do que Jandira, mas não sabe amar +o guerreiro que a escolheu para mãi de seus filhos. + +«Nunca Jandira ofereceria sua rêde de espoza a outra mulher; e aquella +que recebesse o amor de seu guerreiro, morreria por sua mão. + +«Ella amaria seu espozo tanto que sua graça nunca se retirasse della; +pois saberia morrer quando não tivesse mais beleza para dar-lhe. + +«A nação araguaia nunca levanta a taba do vale onde acampou, senão +quando a terra já não póde dar-lhe mais frutos. + +«Assim é o guerreiro. Elle não retira seu amor da espoza que habita, +senão quando ella já não sabe alegrar sua alma.» + +Tornou a virjem tocantim: + +--A cajazeira, depois que dá seu fruto, perde a folha; o guerreiro busca +a sombra de outra arvore para repouzar. + +«Mas vem a lua das aguas e a cajazeira outra vez se cobre de folhas; sua +sombra é doce ao guerreiro. + +«A espoza é como a cajazeira. Quando o guerreiro não acha alegria em +seus braços, ella sofre que busque outra sombra, e espera que lhe volte +a flôr para chamal-o de novo ao seio. + +«Arací ama seu guerreiro, como Jacamim ama Itaquê. A cabana do grande +chefe dos tocantins está cheia de servas; mas seu amor nunca abandonou a +espoza. + +«As servas deram a Itaquê muitos filhos; mas os filhos da velhice, foi +só Jacamim quem os deu ao grande chefe; porque o primeiro amor do +guerreiro não morre nunca. + +«Elle é como a grama que nunca mais deixa a terra onde naceu: podem +arrancal-a que brota sempre. + +«Arací quer apagar a tristeza de tua alma; e beber o teu sorrizo de mel, +para que o espozo ache mais doces seus labios, quando os provar. + +«Tu serás irmã de Arací, e lhe darás um filho de Jurandir, tão valente, +como os que seu amor ha de gerar no seio da espoza.» + +Jandira afastou os olhos da virjem dos tocantins, para desviar della sua +ira. + +--Tua palavra dóe como o espinho da jussara, que tem o côco mais doce +que o mel. + +«As flechas de teu arco não matam mais do que os sorrizos que o amor do +guerreiro derrama em teu rosto, estrela do dia. + +«Ubirajara deixou-me por ti; mas foi a Jandira que elle primeiro +escolheu para espoza, quando ainda era joven caçador. + +«Nos campos alegres, onde vão os guerreiros quando morrem, elle me +chamará; e o guanumbí virá buscar a minha alma no seio da flôr do manacá +para leval-a a seu amor. + +«Mata-me, ou deixa que eu morra para não ver mais tua beleza, e não +ouvir o canto de tua alegria.» + +Arací caminhou para Jandira e dezatou-lhe os pulsos. + +--O amor do guerreiro não pertence á mulher que seus olhos primeiro +viram; mas áquella que elle escolheu. Apanha teu arco; e morra aquella +que não souber defender seu amor, e merecer o espozo. + +Arací disse, e tirou da uiraçaba uma seta. Jandira ficou imovel, com os +pulsos cruzados, como se ainda estivessem prezos: + +--A vontade de Ubirajara atou os braços de Jandira; ella rejeita a +liberdade dada por ti. Arací póde ser preferida, porém não será mais +generoza do que a filha de Majé. + + + + +VI + +O COMBATE NUPCIAL + + +Chegou o dia em que os noivos de Arací deviam disputar a posse da +formoza virjem. + +Era a hora em que o sol transpondo a crista da montanha estende pelo +vale sua arassoia de ouro. + +A grande nação tocantim cerca a vasta campina. No centro estão os +anciãos, que formam o grande carbeto. + +Em frente aparece Arací, a estrela do dia, que ha de ser o premio da +constancia e fortaleza do mais destro guerreiro. + +Jacamim acompanha a filha; nesse momento remoça com a lembrança do dia +em que Itaquê a conquistou, lutando com os mais feros mancebos +tocantins. + +De um e outro lado seguem pela ordem da idade os moacaras. Cada um +cerca-se da espoza, das servas e das filhas, que vieram para assistir ao +combate. + +É a unica das festas guerreiras, em que o rito de Tupan consente a +prezença das mulheres, porque se trata da sua gloria. + +Contemplando o esforço heroico dos mais nobres guerreiros para +conquistar a formozura de uma virjem, as outras virjens aprendem a +prezar a castidade, e as espozas se ufanam de guardar a fé ao primeiro +amor. + +Itaquê, o grande chefe dos tocantins, prezide ao combate, orgulhozo pela +valente nação que dirije, como pela formoza virjem de que é pai. + +Quando seus olhos admiram a multidão de guerreiros, servos do amor de +Arací, que se preparam a disputar a espoza, o grande chefe ergue a +fronte soberba como o velho ipê da floresta coroado de flôres. + +Os noivos distinguem-se dos outros guerreiros pelo bracelete de contas +verdes, que o guerreiro cinje ao pulso da espoza, quando rompe a liga da +virjindade. + +Lá caminha Pirajá, o grande pescador, senhor dos peixes do rio, a quem +obedece o manatí e o golfinho. + +Junto delle ergue-se Uirassú, que tomou este nome do valente guerreiro +dos ares, pelo ímpeto do assalto. + +Vem depois Arariboia, a grande serpente das lagôas; Cauatá, o corredor +das florestas; Corí, o altivo pinheiro; e tantos outros, ainda mancebos, +e já guerreiros de fama. + +Entre todos, porém, assoma Jurandir. Sua fronte passa por cima da cabeça +dos outros guerreiros, como o sol quando se ergue entre as cristas da +serrania. + +Os muzicos fizeram retroar os borés, anunciando o começo da festa; e os +servos do amor se estenderam em linha pelo meio da campina. + +Então os nhengaçáras levantaram o canto nupcial. + +«A espoza é a alegria e a força do guerreiro. Ella acende em suas veias +um fogo mais generozo que o do cauim, e prepara para seu corpo o repouzo +da cabana. + +«Por isso o primeiro dezejo do mancebo, quando ganha nome de guerra é +conquistar uma espoza. + +«Não basta ser valente guerreiro para merecer a virjem formoza, filha de +um grande chefe; é precizo a paciencia para sofrer, e a perseverança no +trabalho. + +«Arací, a estrela do dia, filha de Itaquê, será a alegria e a gloria do +mais forte e do mais valente. + +«Os filhos que ella gerar em seu seio, onde corre o sangue do grande +chefe, serão os maiores guerreiros das nações.» + + * * * * * + +Itaquê deu sinal; o combate começou. + +Pirajá foi o primeiro que saiu a campo, e clamou esgrimindo o tacape: + +--Arací, estrela do dia, tu serás espoza do guerreiro Pirajá, que te vai +conquistar pela força de seu braço. + +Avançou Uirassú, e disse: + +--A virjem formoza ama ao guerreiro Uirassú e ha de pertencer-lhe. + +A noiva cantou: + +«Arací ama o mais forte e mais valente. Ella pertencerá ao vencedor, que +vencer a bravura dos outros guerreiros, como venceu a vontade da +espoza.» + +A voz mavioza da virjem afagou a esperança de todos os campeões; mas +seus olhos ternos só viam o nobre semblante de Jurandir, o escolhido de +sua alma. + +Os dois guerreiros travaram a pugna; os tacapes girando nos ares +encontravam-se como dois madeiros arrojados pelo remoinho da cachoeira. + +Afinal Pirajá, ameaçado pelo bote do adversario, recuou um passo do +logar em que se postára. Pela lei do combate estava vencido, e teve de +deixar o campo. + +Arariboia tomou seu logar; e o combate proseguiu com varia fortuna até +Corí que, expelindo o vencedor, manteve-se firme contra todos que vieram +disputal-o. + +Faltava Jurandir. O estranjeiro avançou gravemente, como convinha a um +grande guerreiro da nação araguaia. + +Elle queria dar ao vencedor de tantos combates o tempo precizo para +descansar. + +A mão do guerreiro arrastava pelo chão o tacape, que desdenhava erguer +para um combate sem gloria. + +Quando Jurandir se achou em face do vencedor, levantou a voz e disse: + +--Para merecer Arací, a estrela do dia, Jurandir queria vencer a cem +guerreiros, e não combater um guerreiro fatigado. + +«Tu empunhas um tacape; toma outro habituado a vencer; elle restituirá a +teu braço a força que perdeu. Basta a Jurandir esta mão, para te +arrebatar todas as tuas vitorias.» + +Disse e arremessou a arma aos pés do adversario. + +Corí, pensando que seu rival o atacava, desfechou-lhe o golpe. Mas +Jurandir aparou-o na mão firme e arrebatando o tacape que o ameaçava +arrancou o guerreiro do chão. + +Assim o pinheiro que o tufão arrebata, antes de partir o tronco, +desprende a raiz da terra, onde nada o abalava. + +Jurandir ficou só no campo. Mas todos os noivos se haviam mostrado +valentes guerreiros; talvez nas outras provas saíssem vencedores. + + * * * * * + +Os muzicos tocaram os borés; e os jovens caçadores trouxeram para o meio +do campo a figura da noiva. + +Era um grosso tóro de madeira, no qual a mão destra de um pajé entalhára +com o dente da cotia a cabeça de uma mulher. + +Tres caçadores vergavam com o pezo da carga; e foram precizos dez para +trazel-o desde a cabana do pajé até o campo, onde ficou semelhante á uma +mulher sentada. + +Na vespera o pajé burnira de novo com a folha da sambaiba o tóro de +madeira, e o esfregára com a banha do teú, para que elle escorregasse da +mão do caçador. + +Depois os mancebos guerreiros espalharam pelo campo troncos de arvores +cortadas com as ramas e as folhas, e fincaram cercas de estacas entre os +barrancos da varzea que ia morrer á marjem do rio. + +Itaquê deu sinal, e os guerreiros começaram a nova prova, mais dificil +que a primeira. + +Era precizo que o guerreiro á disparada levantasse do chão, sem parar, o +tóro de madeira; e se defendesse dos rivais que o assaltavam para +tomal-o. + +Esse jogo era o emblema da ajilidade e robustez que o marido devia +possuir para disputar a espoza e protejel-a contra os que ouzassem +dezejal-a. + +Na primeira corrida foi Jurandir quem mais rapido chegou. Como o condor +que rebatendo o vôo leva nas garras a tartaruga adormecida, assim o +veloz guerreiro suspendeu a figura da espoza e com ella arremessou-se +pela campina. + +Os outros o seguiam ardendo em ímpetos de roubar-lhe a preza. Na +planicie aberta seria vão intento, porque nenhum corria como o +estranjeiro. + +Mas Jurandir achava diante de si, para tolher-lhe o passo, as arvores +derrubadas, os barrancos profundos e outros obstaculos de propozito +acumulados. + +Não hezitou, porém, o destemido mancebo. Salvou as corcovas, galgou as +caiçaras, e subiu pelos galhos que estrepavam o chão. + +Uma vez os guerreiros se aproximaram tanto, que Jurandir sentiu nos +cabelos o sopro da respiração ofegante. Em frente erguia-se a alta +estacada. + +Se tentasse subir carregado como estava, os guerreiros com certeza o +alcançariam a tempo de arrancar-lhe a preza. + +Então arremessou pelos ares o tóro de madeira, como se fosse o tacape de +um joven caçador; e seguiu após. + +Sempre vencedor dos assaltos dos rivais, Jurandir percorreu a vasta +campina, e foi colocar a figura da espoza no meio do carbeto dos +anciãos. + +Ali era o termo da correria. O guerreiro que chegava a esse ponto com a +sua carga, saía triunfante da prova. + +Elle mostrava como arrebataria a espoza do meio dos inimigos, e a +defenderia contra seus ataques até recolhel-a em um azilo seguro. + +De todos os guerreiros só Corí e Uirassú conseguiram ganhar a prova; mas +nenhum com a galhardia de Jurandir. + +Corí por vezes foi alcançado, e só á confuzão dos outros deveu +escapar-se. Uirassú recuperou a preza já perdida, porque Pirajá, que a +havia empolgado, falseou na corrida e tombou. + +Os tres vencedores entraram de novo em campo para decidir entre si. O +triunfo não se demorou. Jurandir o arrebatou, como o gavião arrebata a +preza que disputam duas serpes. + +Soaram os borés; e ao som do canto de triunfo entoado pelos nhengaçáras, +os chefes e os guerreiros saudaram o vencedor dos vencedores. + + * * * * * + +Quando voltou o silencio, Ogib, o grande pajé dos tocantins, estava em +pé no meio do campo. + +Junto delle uma das velhas mãis dos guerreiros segurava o camucim da +constancia, que tinha o bojo pintado de vermelho. + +O pajé disse: + +--Não basta que o guerreiro seja forte e valente, para merecer a espoza. + +«É precizo que tenha a constancia do varão, e não se perturbe com o +sofrimento. + +«É precizo que elle tenha a paciencia do tatú, e suporte sereno as +mortificações das mulheres e as importunações das crianças. + +«O guerreiro que não tem constancia e paciencia, depressa gasta suas +forças. + +«O rio que se derrama pela varzea, nunca verá suas marjens cobertas de +grandes florestas. + +«Assim é o guerreiro que não sabe sofrer, e derrama sua alma em +lamentações. + +«Nunca elle será pai de uma geração forte e glorioza, nem verá sua +cabana povoar-se dos guerreiros de seu sangue. + +«Se queres merecer a filha de Itaquê, mostra, Jurandir, que és varão +ainda maior do que o famozo guerreiro que todos admiram.» + +O grande pajé levantou o tampo do camucim, e descobriu uma abertura, +bastante para caber o punho do mais robusto guerreiro. + +Jurandir meteu a mão no vazo. O semblante sempre grave do guerreiro +cobriu-se de um sorrizo doce como a luz da alvorada; e seus olhos, mais +contentes que dois saís, pouzaram no rosto de Arací. + +O camucim da constancia continha um formigueiro de saúvas, que o pajé +havia fechado ali na ultima lua. + +Açuladas pela fome de tantos dias, as formigas vorazes se prepararam +para dilacerar a primeira vitima que lhes caísse nas garras. + +A dentada da saúva, que anda solta no campo, dóe como uma braza; quando +são muitas e com fome, queimam como a fogueira. + +Todas as vistas se fitaram no semblante do guerreiro, para espreitar-lhe +o minimo gesto de sofrimento. + +Mas Jurandir sorria; e seus labios ternos soltaram o canto do amor. De +propozito o guerreiro adoçou a voz, para não parecer que disfarçava o +gemido com o rumor do grito guerreiro. + +Assim cantou elle: + +«A dôr é que fortalece o varão, assim como o fogo é que enrija o tronco +da crauba, da qual o guerreiro fabríca o arco e o tacape. + +«A jussara tem setas agudas: mas Arací, quando atravessa a floresta, +colhe o côco de mel, embora a palmeira lhe espinhe a mão. + +«O ferrão da saúva dóe mais do que o espinho da jussara; mas Jurandir +acha o mel dos labios de Arací mais doce do que o côco da palmeira. + +«Quando Jurandir era joven caçador, gostava de tirar a cotia da toca, +embora o seu dente agudo lhe sarjasse a carne. + +«O ferrão da saúva não dóe como o dente afiado; e Jurandir sabe que o +pelo dourado da cotia, não é tão macio como o colo de Arací. + +«Jurandir despreza a dôr. Seus olhos estão bebendo o sorrizo da virjem, +mais suave que o leite do sapotí. Sua mão está sentindo o roçar dos +cabelos da virjem formoza.» + +Os anciãos deram sinal para concluir a prova da constancia; mas o +guerreiro continuou seu canto de amor. + +«A cumarí arde no labio do guerreiro; mas torna mais gostoza a carne do +veado assada no moquem. + +«O cauim queima a boca do guerreiro; mas derrama a alegria dentro da +alma. + +«A saúva arde como a cumarí e queima como o cauim; porém torna os beijos +de Arací mais saborozos: e o amor de Jurandir espuma como o vinho +generozo. + +«Arací ha de sorrir de felicidade, quando o filho de seu guerreiro lhe +rasgar o seio. + +«Jurandir não tem corpo para sofrer, quando o sorrizo de Arací lhe enche +a alma de amor.» + +Foi precizo quebrar o camucim para que o guerreiro podesse retirar a +mão, de inflamada que ficára. + +O grande pajé esfregou na pele vermelha, o suco de uma herva delle +conhecida; e logo dezapareceu a inchação. + + * * * * * + +Faltava a ultima prova, chamada a prova da virjem. + +As outras serviam para conhecer o valor, a destreza e robustez do +guerreiro, assim como a força de seu amor. + +Nesta era que a virjem podia mostrar seu agrado pelo vencedor ou +livrar-se de um espozo, que não soubera ganhar-lhe o afeto. + +Os cantores disseram: + +«Tupan deu azas á nambú para que ella escape ás garras do carcará. + +«Tupan deu lijeireza á virjem, para que ella fuja do guerreiro que não +quer por espozo. + +«Mas a nambú, quando ouve o canto do companheiro, espera que elle chegue +para fabricar seu ninho. + +«A virjem, quando a segue o guerreiro que ella prefere, pensa na cabana +do espozo, e corre de vagar para chegar depressa.» + +Arací deixou a mãi, e avançou até o meio do campo. + +O grande pajé colocou Jurandir na distancia de uma mussurana, que cinje +dez vezes a cintura do guerreiro. + +Estrela do dia lançou para as espaduas as longas tranças negras que +voaram ao sopro da briza. + +Arqueou os braços mimozos, vestidos com franjas de penas, como as azas +brilhantes do arirama; e quando soou o sinal, desferiu a corrida. + +Jurandir seguiu-a. Elle conhecia a velocidade do pé gentil de Arací, que +zombava do salto do jaguar. + +Nem que podesse alcançal-a, o guerreiro o tentaria; depois de vencedor, +queria dever a espoza ao amor della e não a seu esforço. + +Disputaria Arací não só a todos os guerreiros das nações, como a todas +as nações das florestas; só á vontade da propria virjem não a +disputaria, pois a queria rendida, e não vencida. + +Mas sua gloria mandava que elle, o chefe de uma grande nação, se +mostrasse digno da formoza virjem, que o aceitasse por espozo. + +Arací voava pela campina. Ás vezes trançava a corrida como o colibri que +adeja de flôr em flôr, outras vezes fujia mais rapida do que a seta +emplumada de seu arco. + +Quando mostrou a todos que Jurandir não a alcançaria nunca, se ella +quizesse fujir-lhe, reclinou a cabeça para esconder o rubor. + +Jurandir abriu os braços e recebeu a espoza que se entregava a seu amor. + +O guerreiro suspendeu a virjem formoza ao colo; e levou-a á cabana do +amor que elle construira á marjem do rio. + + * * * * * + +As ramas de jasmineiro e do craviri vestiam a cabana, e matizavam o chão +de flôres. + +Arací foi buscar a rêde nupcial, que ella tecera de penas de tucano e +arara; e Jurandir conduziu os utensilios da cabana. + +Então o estranjeiro sentou-se com a virjem no terreiro, e antes de +passar a soleira da porta, revelou a Arací quem era o guerreiro que ella +aceitára por espozo. + +--Arací pertence ao grande chefe da nação araguaia. Ella teve a gloria +de vencer ao maior guerreiro das florestas. Ella será mãi dos filhos de +Ubirajara; e terá por servas as virjens mais belas, filhas dos chefes +poderozos. + +«A palmeira é formoza quando se cobre de flôres e o vento ajita as suas +folhas verdes, que murmuram; mais formoza, porém, é quando as flôres se +mudam em frutos, e ella se enfeita com seus cachos vermelhos. + +«Arací tambem ficará mais formoza quando de seu sorrizo saírem os frutos +do amor, e quando o leite encher seus peitos mimozos, para que ella +suspenda ao colo os filhos de Ubirajara.» + +Arací ouviu as palavras do guerreiro, palpitante como a corça; e ornou a +fronte do espozo com o cocar de plumas vermelhas, que tecera em segredo. + +Depois, sentindo os olhos de Ubirajara que bebiam a sua formozura, ella +vestiu o aimará mais alvo do que a pena da garça. + +A tunica de algodão entretecida de penas de beija-flôr dece das espaduas +até á curva da perna, cinjida pela liga da virjindade. + +Quando Arací passava entre os guerreiros que admiravam sua beleza, ella +não córava, porque sua castidade a vestia, como a flôr á sapucaia. + +Mas agora em prezença do guerreiro a quem ama e para quem guardou a sua +virjindade, tem pejo, e esconde sua formozura ás vistas de Ubirajara. + +--Os olhos do espozo são como o sol, disse o guerreiro: elles queimam a +flôr do corpo de Arací. + +--Arací tem medo que os olhos do espozo não a achem digna de seu amor; e +vestiu seus enfeites. + +«Arací queria ser como a jurití, e ter no corpo uma penugem macia, que +só a deixasse ver em sua formozura. + +«Foi por isso que tua espoza se cobriu com o seu aimará. Os olhos de +Ubirajara não lhe queimarão mais a flôr de seu corpo. + +O guerreiro respondeu: + +--A flôr do igapê é mais formoza quando abre e se tinje de vermelho aos +beijos do sol, do que fechada em botão e coberta de folhas verdes. + +Ubirajara tomou nos braços a espoza, e pôz o pé na soleira da porta. + +Nesse momento soou um clamor; chegaram os guerreiros que vinham chamar o +vencedor á prezença de Itaquê. + +O carbeto dos anciãos tinha decidido que o vencedor antes de receber a +espoza, devia declarar quem era; pois fôra recebido como estranjeiro, e +ninguem na taba o conhecia. + + + + +VII + +A GUERRA + + +Itaquê esperava sentado na cabana, e cercado do carbeto dos anciãos. + +Jurandir entrou; Arací ficou na porta, orgulhoza do espozo que a +conquistára e da admiração que elle ia inspirar aos guerreiros da sua +nação. + +Itaquê falou: + +--Quando o estranjeiro chegou á cabana de Itaquê, ninguem lhe perguntou +quem era e donde vinha. O hospede é senhor. + +«Mas agora o estranjeiro saiu vencedor do combate do cazamento e +conquistou uma espoza na taba dos tocantins. + +«É precizo que elle se faça conhecer; porque a filha de Itaquê, o pai da +nação dos tocantins, jámais entrará como espoza na taba onde habite quem +tenha ofendido a um só de seus guerreiros.» + +O estranjeiro disse: + +--Morubixaba, abarés, moacaras e guerreiros da valente nação tocantim, +vós tendes prezente o chefe dos chefes da grande nação araguaia. + +«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança; e o maior guerreiro depois do +grande Camacan, cujo sangue me gerou. Se quereis saber porque tomei este +nome, ouvi a minha maranduba de guerra.» + +Ubirajara contou o seu encontro com Pojucan; o combate em que o venceu, +e a festa do triunfo, até o momento em que deixou a taba dos araguaias. + +Terminou dizendo que no seguinte sol partiria, para assistir ao combate +da morte, como prometera ao prizioneiro. + +Ninguem interrompeu a maranduba de guerra. Ubirajara ouviu um gemido; +mas não soube que rompera do seio de Arací. + +Itaquê arquejou como o rio ao pezo da borrasca. + +--Tu és Ubirajara, senhor da lança. Eu sou Itaquê, pai de Pojucan. Tenho +em face o matador de meu filho; mas elle é meu hospede! + +«Chefe dos araguaias, tu és um joven guerreiro; pergunta a Camacan que +te gerou, qual deve ser a dôr do pai, que não póde vingar a morte do +filho.» + +O grande chefe vergou a cabeça ao peito, como o cedro altaneiro batido +pelo tufão. + +Pojucan tinha sua taba mais lonje, na outra marjem do rio. Elle partira +na ultima lua para rastejar a marcha dos tapuias; e voltava senhor do +caminho da guerra quando encontrou Ubirajara. + +Seu pai e os guerreiros de sua taba pensavam que elle buscava na +floresta o caminho da guerra. Mal sabiam que a essa hora esperava +prizioneiro na taba dos araguaias o combate da morte. + +Anciãos e guerreiros emudeceram. Todos respeitavam a dôr do pai, e não +ouzavam perturbal-a. + +Jacamim, a mãi de Pojucan, aproximára-se. O grande chefe ouviu seu +gemido. + +--A espoza de Itaquê não chora na prezença do matador de seu filho. + +Á voz do espozo, a mãi teve força para esconder no seio sua tristeza, e +mostrar-se digna do grande chefe dos tocantins. + +Ubirajara falou: + +--A vingança é a gloria do guerreiro; Tupan a deu aos valentes. +Ubirajara venceu Pojucan em combate leal, e aceita o dezafio de Itaquê e +de todos os chefes tocantins. + +--Tu és meu hospede; emquanto Itaquê brandir o grande arco da nação +tocantim, ninguem ofenderá o amigo de Tupan na taba de seus guerreiros. + +Dizendo assim, o grande chefe ergueu-se e trocou com o estranjeiro a +fumaça da despedida. + +--Parte. O sol que viu o estranjeiro na cabana hospedeira o acompanhará +amigo; mas com a sombra da noite, mil guerreiros, mais velozes que o +nandú, partirão para levar-te a morte. + +Ubirajara tomou suas armas e disse: + +--O hospede vai deixar tua cabana, chefe dos tocantins; tu verás chegar +o guerreiro inimigo. + + * * * * * + +Itaquê seguiu o estranjeiro até o terreiro; em torno delle se reuniram +os abarés, os moacaras e os guerreiros para assistirem á partida. + +Ubirajara caminhou com o passo lento e grave até o fim da taba. + +Chegado ali, tornou rapido á entrada da cabana, e retrocedeu apagando no +chão o vestijio de seus passos. + +A nação tocantim o observava imovel. + +Por fim o estranjeiro postou-se no centro da ocara e com o formidavel +tacape vibrou no largo escudo um golpe que repercutiu pela taba como o +estrondo da montanha. + +--O hospede passou o lumiar da cabana que o tinha acolhido, e apagou seu +rasto na taba dos tocantins. + +«Quem está aqui é um guerreiro armado, que piza senhor a taba de seus +inimigos. + +«Itaquê, morubixaba dos tocantins, Ubirajara, o senhor da lança, grande +chefe dos araguaias, te envia a guerra na ponta de sua seta.» + +Quando o guerreiro acabou de proferir estas palavras, Itaquê levantou os +olhos e viu cravada na figura do tucano, que era o simbolo da nação, a +seta de Ubirajara. + +Mil arcos se ergueram, mil tacapes brandiram. A voz possante de Itaquê +abateu as armas de seus guerreiros. + +Disse o morubixaba: + +--A lei de hospitalidade é sagrada. A cólera do estranjeiro não deve +perturbar a serenidade do varão tocantim. + +Depois voltou-se para o inimigo: + +--Ubirajara, grande chefe dos araguaias: Itaquê, o pai da poderoza nação +tocantim aceita a guerra que tu lhe enviaste. Recebe em teu escudo o +penhor do combate. + +A corda do grande arco da nação tocantim brandiu, e a seta de Itaquê +mordeu o escudo de Ubirajara. + +--Vai buscar teus guerreiros e nós combateremos á frente das nações. + +--Ubirajara combaterá até que lhe restituas a espoza; assim como elle a +conquistou a seus rivais, saberá conquistal-a a ti e á tua nação. + +O chefe araguaia partiu. No seio da floresta encontrou Arací que o +esperava. + +A formoza virjem fôra á cabana do cazamento buscar a rêde nupcial e +preparar-se para acompanhar o espozo. + +--Ubirajara parte; mas antes de cinco sóes elle estará aqui para te +conquistar á tua nação. + +--A espoza te acompanha. Teu braço valente já a conquistou; e ella +entregou-se a seu senhor. Arací te pertence; deves leval-a. + +A virjem tocantim dezejava seguir Ubirajara á taba dos araguaias. Falava +em sua alma a ternura da espoza e da irmã. + +Partindo, ella unia-se para sempre a seu guerreiro, e esperava que o +amor o moveria a salvar Pojucan. + +Ubirajara pensou e disse: + +--Se Ubirajara tivesse rompido a liga de Arací, ella era sua espoza, e +ninguem a arrebataria de seus braços. Mas a virjem tocantim não póde +abandonar a cabana onde naceu sem a vontade de seu pai. + +Arací suspirou: + +--Ubirajara vai deixar a lembrança de Arací nos campos dos tocantins. +Jandira o espera na taba dos araguaias, e lhe guarda o seu sorrizo de +mel. + +--A luz de teus olhos, Arací, estrela do dia, foi buscar Ubirajara na +taba dos seus, onde resoavam os cantos de seu triunfo, e o trouxe á tua +cabana. + +«Quando elle partiu encontrou Jandira, e para que a filha de Majé não o +acompanhasse a deu a Pojucan, como espoza do tumulo.» + +--O goaná do lago vôa lonje, para banhar-se nas aguas da chuva que +alagaram a varzea; mas logo volta ao seu ninho, e não se lembra mais da +moita onde dormiu. + +--Ubirajara é um guerreiro; elle não aprende com o goaná do lago, que +foje do perigo, mas com o gavião, grande chefe dos guerreiros do ar, que +nunca mais abandona o rochedo onde assentou a sua oca. + +--Se Ubirajara amasse a espoza, tambem não a abandonaria. Os braços de +Arací já cinjiram o colo de seu guerreiro. O tronco não desprende de si +a baunilha que se entrelaçou em seus galhos. + +Ubirajara calcou a mão sobre a cabeça de Arací: + +--Itaquê respeitou a lei de hospitalidade no corpo de Ubirajara, +Ubirajara não deixará a traição na terra hospedeira. + +«Arací não deve querer para espozo um guerreiro menos generozo do que +seu pai.» + +A virjem emudeceu. Ella sabia que a honra é a primeira lei do guerreiro. + +Antes de partir, o chefe consolou a espoza: + +--Ubirajara vai pedir ao gavião suas azas para voltar ao seio de Arací. +Elle virá á frente de sua nação, conduzido pela luz de teus olhos. + +«As outras mulheres são o premio de um combate entre os servos de seu +amor. Arací terá essa gloria, que ella será o premio da maior guerra que +já viram as florestas.» + +O chefe araguaia pôz as mãos nos hombros de Arací; duas vezes uniu o seu +ao rosto della, por uma e outra face, para exprimir que nada os podia +separar. + +Quando o guerreiro dezapareceu na floresta, Arací caminhou para a cabana +do espozo, que ficára triste e solitaria. + +A virjem fechou a porta; sentou-se na soleira, e cantou sua tristeza. + +Dois sóes tinham passado, e viera a noite. + +A ultima estrela se apagava no céu, quando Ubirajara pizou os campos dos +araguaias. + +Sua mão robusta, vibrando a clava, feriu o trocano. A voz da nação +araguaia derramou-se ao lonje pelo vale, como o estrondo da montanha que +arrebenta. + +Com o primeiro raio do sol que subia o pincaro da serra, chegaram á +grande taba os chefes das cem tabas araguaias, com todos seus +guerreiros, convocados á ocara da nação. + +Ubirajara mandou que Pojucan, o prizioneiro, viesse á sua prezença: + +--Vê o mar dos meus guerreiros que enche a terra, como as aguas do +grande rio quando alaga a varzea. Elles esperam o aceno de Ubirajara +para inundarem teus campos. + +«A nação tocantim carece neste momento do braço de seus maiores +guerreiros; vai levar-lhe o socorro de teu valor, para que se aumente a +gloria de Ubirajara, seu vencedor. + +«Tu és livre, Pojucan; parte e vôa, que a guerra dos araguaias te segue +os passos.» + +O semblante do filho de Itaquê ficou sombrio: + +--Pojucan é um chefe ilustre; não merece esta dezhonra. Tu lhe +prometeste a morte dos bravos. Elle exije o combate. + +O chefe araguaia contou a maranduba da hospitalidade: + +--Ubirajara não sabia que Pojucan era filho de Itaquê; pois elle nunca +pizaria como hospede a cabana de um guerreiro, a quem tivesse decepado +um filho. É precizo que recuperes a liberdade para que não se diga que +Ubirajara surpreendeu a hospitalidade do grande chefe dos tocantins. + +Pojucan não respondeu. Elle reconhecera que a honra de seu vencedor +exijia sua volta á taba dos seus. + +--Parte. Nós combateremos á frente das nações. Ubirajara pertence a +Itaquê; mas depois delle terás a gloria de ser vencido outra vez por +este braço. + +--Ubirajara é um grande chefe e maior guerreiro. Se Tupan não consente +que Pojucan seja vencedor, elle não quer maior gloria do que a de morrer +combatendo Ubirajara. + +Pojucan foi á cabana de seu vencedor buscar as armas. Ubirajara +arrimou-se ao tacape, como o rochedo que se apoia ao tronco do ipê, e +meditou. + +Quando passou o chefe tocantim que voltava á sua taba, Ubirajara +levantou a cabeça e disse: + +--Os olhos de Ubirajara te acompanham; tu és irmão de Arací, e vais para +junto della. Dize á estrela do dia, que seu espozo está com ella. + +O conselho dos abarés se reunira para meditar sobre a guerra. O velho +Majé, a quem irritava o dezaparecimento da filha, reparou que sem o voto +do carbeto se convocasse a nação. + +Veiu um mensajeiro chamar o grande chefe para o carbeto. Ubirajara +chegou. Antes que falasse a voz dos anciãos, o guerreiro levantou o arco +e disse: + +--O conselho dos anciãos governa a taba, e medita nella coizas da paz. +Toda a nação respeita sua prudencia e sabedoria. + +«Mas emquanto Ubirajara brandir o grande arco dos araguaias, tem a +guerra fechada em sua mão. + +«Quando elle soltar o grito de combate, a voz que falar da paz emudecerá +para sempre, ainda que venha da cabeça do abaré que a lua já +embranqueceu. + +«Quem não quizer assim, venha arrancar da mão de Ubirajara este arco +que elle conquistou por seu valor.» + +Os abarés estremeceram. Mas o carbeto meditou, e decidiu que a maior +gloria e sabedoria da nação era ter o seu grande arco de guerra na mão +de um chefe como Ubirajara. + +Camacan tratou com os anciãos ácerca da defeza das tabas; e o grande +chefe abriu o caminho da guerra. + + * * * * * + +Quando Ubirajara desdobrou sua guerra pela marjem do grande rio, elle +viu que uma nação tapuia se preparava para assaltar a taba dos +tocantins. + +O grande chefe tocou a inubia, cuja voz chamava o joven Murinhem, +primeiro dos cantores araguaias. + +Correu o nhengaçára á prezença do grande chefe, e delle recebeu a +mensajem que devia levar ao campo inimigo. + +Os cantores eram respeitados por todas as nações das florestas, como os +filhos da alegria; pelo que serviam de mensajeiros entre as nações em +guerra. + +Elles penetravam no campo inimigo, entoando o seu canto de paz; e nenhum +guerreiro ouzava ofender aquelle a quem Tupan concedera a fonte da +alegria. + +Murinhem atravessou rapido a campina e aprezentou-se em frente de +Canicran, chefe dos tapuias. + +--Ubirajara, o senhor da lança, que empunha o arco da poderoza nação +araguaia, te manda, a ti quem quer que sejas, e a todos quantos te +obedecem, a sua vontade. + +O tapuia rujiu; mas seus olhos viam o mar dos guerreiros araguaias que o +cercava, e na frente o grande vulto de Ubirajara, semelhante ao rochedo +sombrio e imovel no meio dos borbotões da cachoeira. + +Os guerreiros de Canicran só conhecem a vontade do seu chefe; e Canicran +afronta a cólera de Tupan e das nações que elle gerou. Dize, mensajeiro, +o que pede Ubirajara, ao grande chefe dos tapuias. + +--Ubirajara te manda que encostes o tacape da guerra. A nação tocantim +aceitou a sua flecha de dezafio, e elle não consente que ninguem combata +seu inimigo, antes de o ter vencido. + +--Torna e dize ao grande chefe araguaia, que Canicran veiu trazido pela +vingança. Pojucan, um dos chefes tocantins penetrou em sua taba e +incendiou a cabana do pajé, que foi devorado pelas chamas. + +«Ubirajara é um grande chefe araguaia; elle que diga se o pai da nação +póde sofrer tão dura afronta. Canicran escuta a voz de sua amizade.» + +O chefe tapuia tomou uma de suas flechas; arrancou o farpão e deu ao +mensajeiro a haste emplumada com azas negras do anun, que era o emblema +guerreiro de sua nação. + +--Toma; entrega ao grande chefe araguaia o penhor da aliança. + +Murinhem partiu e foi á taba dos tocantins levar igual mensajem. Itaquê +escutou o que lhe mandava Ubirajara e respondeu: + +--Antes que Itaquê trocasse com Ubirajara a seta do dezafio, Pojucan +tinha levado a guerra á taba dos tapuias. + +«Canicran veiu trazido pela vingança; e a nação tocantim não póde +recuzar o combate. Mas Itaquê sabe honrar seu nome; se Ubirajara quer, +elle combaterá juntamente os dois inimigos.» + +O mensajeiro tornou ao campo dos araguaias com as respostas dos dois +chefes. Ubirajara ouviu e meditou. + +--Escuta a vontade de Ubirajara para leval-a aos inimigos. O grande +chefe araguaia não roubará a Canicran a gloria da vingança; elle +respeita a honra da nação tapuia, mas rejeita sua aliança. Restitue o +penhor que recebeste. + +«Itaquê póde aceitar o combate que Pojucan foi buscar; Ubirajara não +ofende o nome de um guerreiro, ainda mais de um morubixaba, e do pai de +Arací. + +«O chefe dos araguaias não carece de auxilio para triunfar de seus +inimigos: dezeja que a nação tocantim derrote aos tapuias, para ter elle +a gloria de vencer ao vencedor. + +«Se Itaquê não póde repelir os tapuias, Ubirajara toma a si castigar os +barbaros; e depois de varrel-os das florestas, combaterão as duas +nações. + +«Se os tocantins necessitam de aliados para rezistir ao ímpeto dos +araguaias, Ubirajara espera que Itaquê os chame e que elles venham. + +«Murinhem falará assim a um e outro chefe; a ambos dirá que a cabana +onde estiver Arací fica sob a guarda de Ubirajara; quem nella penetrar +como inimigo, sofrerá a morte vil do cobarde.» + +O guerreiro deixou a voz do chefe e falou com a voz de espozo: + +--A Arací levarás o canto de amor de Ubirajara. Tu lhe dirás que arme a +rêde nupcial, e não deixe nossa cabana, emquanto Ubirajara não a fôr +buscar. + +«Conta-lhe tambem que o canitar que ella teceu, ainda não deixou a +cabeça de seu guerreiro e ha de acompanhal-o sempre.» + + + + +VIII + +A BATALHA + + +A um lado da imensa campina move-se a multidão dos guerreiros tocantins, +do outro lado a multidão dos guerreiros tapuias. + +As duas nações se estendem como dois lagos formados pelas grandes +chuvas, que se transformam em rios e atravessam o vale. + +De um e outro campo levantou-se a pocema guerreira; e os dois povos +arremetendo travaram a batalha. + +Itaquê achou-se em frente de Canicran. Ambos se buscavam; dez vezes +tinham combatido; vencedores ambos, nenhum fôra vencido. + +Emquanto viverem os formidaveis guerreiros, não é possivel quebrar a +flecha da paz entre as duas nações. + +Era precizo que um delles morresse, para que o vencedor encostasse o +tacape do combate, e désse repouzo á sua nação para reparar os estragos +da guerra. + +Quando os dois chefes se encontraram, os guerreiros de um e outro campo +ficaram imoveis, contemplando o pavorozo combate. + +Ubirajara, de lonje, apoiado em seu grande arco, admirava os dois +guerreiros, e pensava qual não seria o seu orgulho em vencel-os a ambos. + +Durára a peleja o espaço de uma sombra. Em torno dos chefes lastravam o +chão os tacapes e escudos que se tinham espedaçado aos golpes de cada +um. + +Imoveis no mesmo logar, só ajitavam a cabeça e os braços, semelhantes a +dois condores que, de garras prezas aos pincaros do rochedo, se +dilaceram com o bico adunco. + +Um rujido espantoso atroou pela campina, que estremeceu a batalha e +rolou pelas profundezas da floresta. + +Paan, a seta, era o ultimo filho de Canicran. Ainda corumim, pelejava ao +lado do irmão, o guerreiro Creban, cujo hombro mal alcançava com o +braço. + +Elle tinha nos olhos a vista da gaivota, e nas setas de seu arco, feitas +de espinhos de ouriço, a velocidade e a certeza do vôo do guanumbí. + +Quando caçava na floresta, divertia-se em matar as motuças +traspassando-as com suas flechas, que voavam mais rapidas e certeiras +que as vespas venenozas. + +Paan saltára sobre os hombros do guerreiro Creban para assistir ao +combate. Admirando o valor de Canicran, teve orgulho e inveja do pai. + +Itaquê desfechára tão formidavel golpe, que o tacape e escudo de +Canicran se espedaçaram em suas mãos, deixando-o á mercê do inimigo. + +O chefe tocantim arrojou-se, e já sua mão decia sobre a espadua do +tapuia para fazel-o prizioneiro. + +O arco de Paan sibilou duas vezes. Os olhos de Itaquê, os olhos do varão +forte que nunca humedecera uma lagrima, choraram sangue. + +As setas do corumim tinham vazado as pupilas do fero guerreiro cuja +vista era raio. Assim a jandaia rôe o grelo do procero coqueiro. + +Foi então que Itaquê soltou o rujido pavorozo que fez tremer a terra. +Mas o grito de espanto sossobrou no peito dos guerreiros, e rompeu em +um grito de horror. + +Itaquê estendera os braços, hirtos como duas garras de condor. + +A mão direita abarcou o penacho e a cabeleira de Canicran, a esquerda +entrou pela boca do tapuia e travou-lhe o queixo. + +Separaram-se os braços do guerreiro cégo, e a cabeça de Canicran +abriu-se como um côco que se fende pelo meio. + +Ajitando no ar o craneo sangrento como um maracá de guerra, Itaquê +arrojou-se contra os inimigos, buscando a morte que lhe fujia. + +Quando o sol entrou, não havia na campina a sombra de um tapuia. + +O velho heróe voltou á cabana conduzido por Pojucan: + +--Tupan viu que Itaquê não podia ser vencido pela mão dos homens, e quiz +vencel-o elle mesmo pela mão de um menino. + +Quando Ubirajara viu o exito do combate, lamentou que dos dois grandes +guerreiros não restasse nenhum, para que elle o vencesse. + +Seus olhos descobriram Paan que fujia no meio dos destroços de sua +nação. Ergueu a mão, mas não chegou a retezar a seta. + +A aguia não persegue a andorinha. Era indigno de um guerreiro, quanto +mais de um chefe, empregar seu valor contra um menino. + +O chefe chamou á sua prezença Tubim, um dos jovens caçadores que tinham +acompanhado a guerra para prover o alimento. + +--Tubim tem as azas da abelha; se elle alcançar o corumim tapuia que eu +estou olhando, Ubirajara lhe dará o nome de Abeguar. + +O joven caçador seguiu o olhar do chefe, e sumiu-se num turbilhão de +poeira. Quando os vagalumes começaram a luzir no escuro da mata, elle +estava de volta no campo dos araguaias e trazia o corumim fechado nos +braços. + +Nessa mesma noite Tubim recebeu o nome de Abeguar, senhor do vôo, em +honra da façanha que tinha realizado. + +Os cantores entoaram seu louvor; e o joven caçador teve a gloria de +receber os aplauzos dos moacaras de sua nação, e de um chefe como +Ubirajara. + +Ao raiar da manhã, Murinhem foi á taba dos tocantins, acompanhado por +vinte guerreiros que conduziam o corumim. + +Quando chegou em frente á cabana do grande chefe, o cantor viu Itaquê no +terreiro sentado em uma sapopema. + +O guerreiro fitava os olhos no céu, onde o calor lhe dizia que estava o +sol. Mas não encontrava a luz que para sempre o abandonára. + +Então o velho guerreiro abaixava os olhos para terra, como se buscasse o +logar do repouzo. + +Quando soaram lonje os passos dos estranjeiros, o chefe alongou a fronte +para ver pelo ouvido o que os olhos lhe recuzavam. + +Murinhem chegou e disse: + +--Ubirajara envia a Itaquê o resto da vingança. Este é Paan, o filho de +Canicran. Elle te roubou a vista; mas não salvou o pai de tua mão +terrivel. Faze do corumim tapuia um mancebo tocantim; e elle será a luz +de teus olhos e caminhará na frente do grande chefe para abrir-lhe o +caminho da guerra. + +Paan avançou: + +--O filho de Canicran jámais será escravo; naceu tapuia e tapuia +morrerá, como o grande chefe que o gerou. Emquanto o ouriço viver nas +florestas, elle roubará seus espinhos para furar os olhos dos tucanos. + +Itaquê pouzou a palma da mão na cabeça do menino: + +--O corumim que ama seu pai é filho de Itaquê. Tu és livre, Paan; vai +caçar o ouriço. Quando fôres um guerreiro, acharás cem mancebos do +sangue de Itaquê para castigarem tua audacia. + +O chefe voltou-se para o cantor: + +--Tupan tirou a luz dos olhos de Itaquê; mas aumentou a força de seu +braço. Ubirajara terá para combatel-o um inimigo digno de seu valor. + +Murinhem tornou ao chefe araguaia com esta resposta. + + * * * * * + +Quando partia o cantor, chegaram á cabana de Itaquê os abarés da nação +tocantim. + +Os anciãos sentaram-se em torno do guerreiro cégo; e bebendo a fumaça da +sabedoria, formaram o carbeto. + +Falou Guaribú: + +--O grande arco da nação carece de uma mão robusta para brandir sua +corda, e de um olho seguro para dirijir sua seta. Itaquê é o maior +guerreiro das florestas; seu nome faz tremer aos mais valentes dos +inimigos; seu braço fere como o raio. Mas a luz fujiu de seus olhos e +elle não póde mais abrir o caminho da guerra. + +O velho chefe ergueu-se com o passo trôpego. Alcançando o grande arco +dos tocantins abraçou-se com elle e falou-lhe. + +--Quando Itaquê te recebeu da mão do grande Javarí elle pensava que só a +morte o separaria de ti, para transmitir-te a um guerreiro de seu +sangue. Mas Itaquê ficou na terra, como um tronco levado pela corrente, +que não sabe onde vai. + +Um esguicho de sangue saltou dos buracos, onde o velho tivera os olhos. +Era a lagrima que a desgraça lhe deixára. + +Os abarés meditaram. Guaribú falou de novo: + +--O grande arco da nação que tu recebeste do grande Javarí, teu pai, não +te abandonará. Elle fica em tua mão invencivel; haverá outro arco na mão +do mais valente guerreiro, que abrirá o caminho da guerra. Mas emquanto +Itaquê viver, sua voz governará a nação que elle defendeu com seu braço. + +O semblante do velho chefe cobriu-se de um sorrizo como o negro rochedo +sobre o qual desliza um raio do luar. + +--Pais da sabedoria, abarés, olhai aquelle jatobá que se levanta no meio +da campina, e que eu só posso ver agora na sombra de minha alma. + +«Elle tem muitas raizes que o sustentam nos ares; tem muitos galhos que +o cercam e estendem ao lonje a sua rama. Mas o tronco é um só. + +«As grossas raizes são os abarés que sustentam o chefe com o seu +conselho. Os galhos fortes são os moacaras que cercam o chefe e geram a +multidão de guerreiros mais numeroza que as folhas das arvores. O tronco +é o chefe da nação; se elle se dividir, o jatobá não subirá ás nuvens +nem terá forças para rezistir ao tufão. + +«O logar de Itaquê é no conselho. O ultimo dente de seu colar de guerra +foi o que elle arrancou da boca de Canicran. Convocai os guerreiros, e o +que fôr mais forte e mais valente empunhe o grande arco da nação. + +O trocano chamou a nação ao carbeto. Vieram os moacaras, conduzindo suas +tribus. + +O velho Itaquê contava pelos passos os guerreiros que chegavam. O grande +arco da nação, que elle segurava direito, parecia um dos esteios da +cabana, e tinha a corda tão grossa como a da rêde do chefe. + +Os mais famozos guerreiros tocantins se aprezentaram para disputar o +grande arco; muitos conseguiram vergal-o; mas a seta não partiu. + +Itaquê escutava com o ouvido atento: o som delle conhecido não feriu os +ares. + +--Onde está Pojucan? perguntou o velho chefe. + +O valente guerreiro do sangue de Itaquê estava de parte, grave e +taciturno. Algum motivo o separava do arco chefe, que elle devia ser o +primeiro a disputar. + +--Teu filho te escuta, respondeu. + +--Empunha o arco chefe; se ha um guerreiro tocantim que possa +conquistal-o esse deve ser do sangue de Itaquê. + +Pojucan recebeu o arco. Fincando nelle os pés, o guerreiro arrojou-se +para traz como a giboia quando se enrista para armar o bote. + +A seta partiu, e foi cravar a cabeça de um chefe tapuia, fincada na +estaca, á entrada da taba. + +Itaquê curvára a cabeça. Elle ouviu brandir a arma; não era, porém, +aquelle o zunido da corda do arco, quando o vergava sua mão possante. + +Pojucan depôz o arco chefe aos pés de Itaquê e disse: + +--Pojucan mostrou que em suas veias corre o sangue generozo de Itaquê. +Mas o grande arco peza em sua mão. Só ha um guerreiro na terra que o +possa brandir como Itaquê: e esse não cinje a fronte com o cocar das +penas de tucano. + +--Pojucan negou a Itaquê esta ultima consolação. O arco invencivel do +grande Tocantim que foi o pai da nação, vai sair de sua geração. +Tocantim o transmitiu a seu filho Javarí, que me gerou; mas eu não sube +gerar com seu sangue um guerreiro digno delles. + + + + +IX + +UNIÃO DOS ARCOS + + +Os tapuias voltaram; e com elles vinha Agniná á frente de sua nação, +para vingar a morte de Canicran, seu irmão. + +Era grande a multidão dos guerreiros; e maior a tornavam a sanha da +vingança e a fama do chefe que a conduzia. + +Não eram tantos os tocantins; mas bastaria seu valor para igualal-os, se +não lhes faltasse a cabeça, que reje o corpo. + +A poderoza nação estava como o bando de caitetús que perdeu o pai, e +desgarra-se pela floresta, correndo sem rumo. + +Os mais valentes moacaras, chefes das tribus, esperavam pelo grande +chefe da nação para abrir-lhes o caminho da guerra. + +Os abarés meditaram. Elles não podiam inventar um guerreiro capaz de +suceder a Itaquê; mas não se rezignavam a abater a gloria da nação, +trocando o arco invencivel do grande Tocantim por outro arco mais leve, +que Pojucan manejasse. + +Tambem Pojucan anunciára, que não podendo brandir o arco de Itaquê, +jámais empunharia outro arco chefe, menos gloriozo do que o do grande +Tocantim. + +Abarés, chefes, moacaras, guerreiros, toda a nação se reuniu em torno do +heróe cégo. + +Daquelle que durante tantas luas defendera a nação com a força de seu +braço, e a protejera com o terror de seu nome, esperavam ainda a +salvação. + +O velho ouviu a voz dos abarés, a voz dos chefes, a voz dos moacaras, a +voz dos guerreiros, e disse: + +--Itaquê ainda póde combater e morrer por sua nação; mas sem a luz do +céu, elle não póde mais abrir a seus filhos o caminho da vitoria. + +«O braço de Itaquê defendeu sempre a nação tocantim; quer ella ser +defendida agora pela palavra daquelle, que não tem mais para dar-lhe +senão a experiencia de sua velhice? + +«Pensem os abarés, os chefes, os moacaras e os guerreiros.» + +Guaribú respondeu: + +--A nação pensou. Fala e todos obedecerão á tua palavra, como obedeciam +ao braço de Itaquê. + +--A voz do coração diz ao neto de Tocantim, que a gloria da nação que +elle gerou, não se póde extinguir. O sangue de Itaquê, passando pelo +seio de Arací, se unirá a outro sangue generozo para brotar maior e mais +ilustre. + +«Assim a terra onde naceu uma floresta de acajás recebe o limo do rio e +gera nova floresta mais frondoza que a outra. + +«Jacamim, chama Arací, a filha de nossa velhice. E vós, abarés, chefes, +moacaras e guerreiros, seguí-me.» + +O velho heróe atravessou a taba guiado por Arací. + +A nação o seguia em silencio. + +Quando o guerreiro cégo passava com a mão no hombro da virjem formoza +que dirijia o seu passo incerto, os guerreiros lembravam-se do tronco já +morto que a rama do maracujá ainda sustenta de pé junto ao penedo. + +Os cantores iam adiante, e entoavam um canto de paz. + + * * * * * + +Um mensajeiro de Itaquê o precedera no campo dos araguaias. + +Ubirajara, cercado de seus abarés, chefes, moacaras e guerreiros, veiu +ao encontro do morubixaba dos tocantins. + +A alma do grande chefe araguaia encheu-se da alegria de ver Arací; mas +elle retirou os olhos da espoza, para que o amor não perturbasse a +serenidade do varão. + +--Ubirajara está em face de Itaquê; para combatel-o se trouxe a guerra, +para abraçal-o se trouxe a paz. + +--Nunca Itaquê pediu a paz ao inimigo que lhe trouxe a guerra, antes de +o vencer; nem teria vivido tanto para cometer essa fraqueza. Elle vem +trazer-te a vitoria para que tu a repartas com seu povo. + +O velho heróe avançou o passo: + +--Chefe dos araguaias, tu levaste a guerra á taba dos tocantins para +conquistar Arací, a filha de minha velhice. + +«Por teu heroismo, e ainda mais pela nobreza com que restituiste a +liberdade a Pojucan, tu merecias uma espoza do sangue tocantim. + +«Mas desde que tu ameaçaste tomal-a pela força de teu braço, Itaquê não +podia mais conceder-te a filha de sua velhice, senão depois que abatesse +teu orgulho. + +«Elle preparava-se para te combater, e á tua nação; mas fujiu-lhe dos +olhos a luz que dirije a seta da guerra; e não ha entre seus guerreiros +um que possa brandir o arco do grande Tocantim.» + +Quando pronunciou estas palavras, a voz do velho guerreiro sossobrou-lhe +no peito: + +--O arco de Itaquê é como o gavião que perdeu as azas e não póde mais +levar a morte ao inimigo. As andorinhas zombam de suas garras. + +«Empunha o arco de Itaquê, chefe dos araguaias, e tu conquistarás por +teu heroismo uma espoza e uma nação. + +«Á espoza farás mãi de cem guerreiros como Itaquê; e á nação conservarás +a gloria que ella conquistou quando o filho de Javarí a conduzia á +guerra. + +«Tupan dará a teu braço esta força para que o sangue de Itaquê brote +mais vigorozo e os netos de Tocantim dominem as florestas.» + +Ubirajara sorriu: + +--Chefe dos tocantins, teus olhos não podem ver o grande arco da nação +araguaia; mas pergunta á tua mão, se o arco que Camacan brandia +invencivel e agora empunha Ubirajara, cede ao arco de Itaquê. + +O velho heróe palpou o arco chefe dos araguaias e vergou-lhe a ponta ao +hombro, como se a haste fosse de taquarí. + +Ubirajara travou do arco de Itaquê e desdenhando fincal-o no chão, +elevou-o acima da fronte. A flecha ornada de penas de tucano partiu. + +O semblante de Itaquê remoçou, ouvindo o zunido que lhe recordava o +tempo de seu vigor. Era assim que elle brandia o arco outr'ora, quando +as luas creciam aumentando a força de seu braço. + +O velho inclinou a fronte para escutar o sibilo de sua flecha que +talhava o azul do céu. Os cantores não tinham para elle mais doce +harmonia do que essa. + +Ubirajara largou o arco de Itaquê para tomar o arco de Camacan. A flecha +araguaia tambem partiu e foi atravessar nos ares a outra que tornava á +terra. + +As duas setas deceram trespassadas uma pela outra como os braços do +guerreiro quando se cruzam ao peito para exprimir a amizade. + +Ubirajara apanhou-as no ar: + +--Este é o emblema da união. Ubirajara fará a nação tocantim tão +poderoza como a nação araguaia. Ambas serão irmãs na gloria e formarão +uma só, que ha de ser a grande nação de Ubirajara, senhora dos rios, +montes e florestas. + +O chefe dos chefes ordenou que tres guerreiros araguaias e tres +guerreiros tocantins, ligassem com o fio do crautá as hastes dos dois +arcos. + +Quando o arco de Camacan e o arco de Itaquê não fizeram mais que um, +Ubirajara o empunhou na mão possante e mostrou-o ás nações: + +--Abarés, chefes, moacaras e guerreiros de minhas nações, aqui está o +arco de Ubirajara, o chefe dos grandes chefes. Suas flechas são gemeas, +como as duas nações, e voam juntas. + +Ambas as cordas brandiram a um tempo. A seta araguaia e a seta tocantim +partiram de novo como duas aguias que par a par remontam ás nuvens. + +Quando se calou a pocema do triunfo, Ubirajara caminhou para a filha de +Itaquê: + +--Arací, estrela do dia, tu pertences a Ubirajara que te conquistou pela +força de seu braço. Agora que é senhor, elle espera tua vontade. + +A formoza virjem rompeu a liga vermelha que lhe cinjia a perna, e atou-a +ao pulso de seu guerreiro. + +Ubirajara tomou a espoza aos hombros e levou-a á cabana do cazamento. + +O jasmineiro semeava de flôres perfumadas a rêde do amor. + + * * * * * + +O outro sol rompia, quando os tapuias estenderam pela campina a multidão +de seus guerreiros. + +Na frente assomava Agniná, a montanha dos guerreiros, ainda mais feroz +do que o irmão, o terrivel Canicran. + +De um lado e do outro seguiam-se os chefes, cada um á frente de seus +guerreiros. + +Ubirajara escolheu mil guerreiros araguaias e mil guerreiros tocantins, +com que saiu ao encontro dos tapuias. + +Depois que desdobrou sua batalha pela campina, o chefe dos chefes +caminhou só para o inimigo. + +Quando chegava a meio do campo, os tapuias levantaram a pocema de +guerra, que atroou os ares, como o estrépito da cachoeira. + +Um turbilhão de setas crivou o longo escudo do heróe, que ficou +semelhante ao grosso tronco da jussára, erriçado de espinhos. + +Ubirajara embraçou o escudo na altura do hombro, e com o pé brandiu sete +vezes a corda do grande arco gemeo. + +As setas vermelhas e amarelas subiram direitas ao céu e se perderam nas +nuvens. + +Quando voltaram, Agniná e os chefes que obedeciam a seu arco, tinham +cada um fincado na cabeça o dezafio do formidavel guerreiro. + +Enfurecidos mais pelo insulto, do que pela dôr, arremessaram-se contra o +inimigo que os esperava coberto com seu vasto escudo. + +Agniná era o primeiro na corrida, e o primeiro na sanha. Após elle +vinham os outros, a dois e dois, lutando na rapidez. + +Quando o espozo de Arací viu que elles se estendiam pela campina, como +dois ribeiros que se aproximam para confundir suas aguas, o heróe +empunhou a lança de duas pontas e soltou seu grito de guerra que era +como o bramir do jaguar, senhor da floresta. + +Seu pé devorou o espaço; e a lança de duas pontas girou em sua mão, como +a serpente que se enrosca nos ares silvando. + +Caiu Agniná do primeiro bote; após elle caíram aos dois os chefes +tapuias, como caem os juncos talhados pelo dente afiado da capivara. + +Então o heróe soltou seu grito de triunfo, que era como o rujido do +vento no dezerto: + +--Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro invencivel que tem +por arma uma serpente. + +«Eu sou Ubirajara, o senhor das nações, o chefe dos chefes, que varre a +terra, como o vento do dezerto.» + +O heróe estendeu a vista pela campina, e não descobriu mais o inimigo, +que se sumia na poeira. + +Ubirajara lançou-lhe seus guerreiros, que tinham fome de vingança; porém +o terror de sua lança dava azas aos fujitivos. + +Desde esse dia nunca mais um tapuia pizou as marjens do grande rio. + + * * * * * + +Ubirajara voltou á cabana, onde o esperava Arací. + +A espoza despiu as armas de seu guerreiro, enxugou-lhe o corpo com o +macio cotão da monguba, e cobriu-o do balsamo fragrante da embaiba. + +Encheu depois de generozo cauim a taça vermelha feita do côco da +sapucaia; e aplacou a sêde do combate. + +Emquanto nas grandes tabas se preparava a festa do triunfo e o heróe +repouzava na rêde, Arací foi ao terreiro, e voltou conduzindo Jandira +pela mão. + +--Arací, tua espoza, é irmã de Jandira. Ubirajara é o chefe dos chefes, +senhor do arco das duas nações. Elle deve repartir seu amor por ellas, +como repartiu sua força. + +A virjem araguaia pôz no guerreiro seus olhos de corça. + +--Jandira é serva de tua espoza; seu amor a obrigou a querer o que tu +queres. Ella ficará em tua cabana para ensinar a tuas filhas como uma +virjem araguaia ama seu guerreiro. + +Ubirajara cinjiu ao peito com um e outro braço, a espoza e a virjem. + +--Arací é a espoza do chefe tocantim; Jandira será a espoza do chefe +araguaia; ambas serão as mãis dos filhos de Ubirajara, o chefe dos +chefes, e o senhor das florestas. + + * * * * * + +As duas nações, dos araguaias e dos tocantins, formaram a grande nação +dos Ubirajaras, que tomou o nome do heróe. + +Foi esta poderoza nação que dominou o dezerto. + +Mais tarde, quando vieram os caramurús, guerreiros do mar, ella campeava +ainda nas marjens do grande rio. + + + + + FIM + + + + +NOTAS + +ADVERTENCIA + + +Este livro é irmão de Iracema. + +Chamei-lhe de lenda como ao outro. Nenhum titulo responde melhor pela +propriedade, como pela modestia, ás tradições da patria indijena. + +Quem por desfastio percorrer estas pajinas, se não tiver estudado com +alma brazileira o berço de nossa nacionalidade, ha de estranhar entre +outras coizas a magnanimidade que resumbra no drama selvajem e lhe fórma +o vigorozo relevo. + +Como admitir que barbaros, quais nos pintaram os indijenas, brutos e +canibais, antes féras que homens, fossem sucetiveis desses brios nativos +que realçam a dignidade do rei da creação? + +Os historiadores, cronistas e viajantes da primeira época, se não de +todo o periodo colonial, devem ser lidos á luz de uma critica severa. É +indispensavel sobretudo escoimar os fatos comprovados das fabulas a que +serviam de mote, e das apreciações a que os sujeitavam espiritos +acanhados, por demais embuidos de uma intolerancia rispida. + +Homens cultos, filhos de uma sociedade velha e curtida por longo trato +de seculos, queriam esses forasteiros achar nos indijenas de um mundo +novo e segregado da civilização universal uma perfeita conformidade de +idéas e costumes. Não se lembravam, ou não sabiam, que elles mesmos +provinham de barbaros ainda mais ferozes e grosseiros do que os +selvajens americanos. + +Desta prevenção não escaparam muitas vezes espiritos graves e bastante +ilustrados para escreverem a historia sob um ponto de vista mais largo e +filozofico. + +Entre muitos citarei um exemplo. Barloeus referindo as justas que se +faziam entre os selvajens para obterem em premio de seu valor a virjem +mais formoza, não se esqueceu de acrecentar este comento--_finis +spectantium est voluptas_. + +Narrados com este pessimismo, as cenas da cavalaria, os torneios e +justas não passariam de manejos inspirados pela sensualidade. Nada +rezistiria á censura ou ao ridiculo. + +Por igual teor, senão mais grosseiras, são as apreciações de outros +escritores ácerca dos costumes indijenas. As coizas mais poeticas, os +traços mais generozos e cavalheirescos do carater dos selvajens, os +sentimentos mais nobres desses filhos da natureza, são deturpados por +uma linguajem impropria, quando não acontece lançarem á conta dos +indijenas as extravagancias de uma imajinação desbragada. + +Releva ainda notar, que duas classes de homens forneciam informações +ácerca dos indijenas: a dos missionarios e a dos aventureiros. Em luta +uma com outra, ambas se achavam de acôrdo nesse ponto, de figurarem os +selvajens como féras humanas. Os missionarios encareciam assim a +importancia de sua catequese; os aventureiros buscavam justificar-se da +crueldade com que tratavam os indios. + +Faço estas advertencias para que, ao lerem as palavras textuais dos +cronistas citados nas notas seguintes, não se deixem impressionar por +suas apreciações muitas vezes ridiculas. É indispensavel escoimar o fato +dos comentos de que vem acompanhado, para fazer uma idéa exata dos +costumes e indole dos selvajens. + + * * * * * + + +Paj. 5 + +_Grande rio_.--Os tupís chamavam assim ao maior rio que existia na +rejião por elles habitada: e daí rezultou ficarem tantos rios com essa +dezignação na lingua orijinal ou traduzida. + +O rio grande de que se trata nesta lenda é o Tocantins, em cujas marjens +se passa a ação dramatica. + + +Paj. 5 + +_Jaguarê_.--Nome composto de _Jaguar_, a onça e o sufixo _ê_ que na +lingua tupí reforça emfaticamente a palavra a que se liga. _Jaguarê_, +significa, pois, a onça, verdadeiramente onça, digna do nome, por sua +força, corajem e ferocidade. + + +Paj. 5 + +_Uiraçaba_.--Nome que davam os tupís á aljava, de _uira_--seta e +_aba_--dezinencia exprimindo o logar, modo e instrumento; literalmente +«o que tem a seta.» + +Os selvajens a faziam, ou do tubo de taquarussú, ou da casca de certas +arvores, guarnecida de fios embebidos de rezina, o que as tornava muito +rezistentes. + + +Paj. 6 + +_Nome de guerra_.--«Mal nacia a criança logo se lhe punha nome. Hans +Stade achou-se prezente numa dessas ocaziões. Convocou o pai aos mais +proximos vizinhos de dormitorio, pedindo-lhes para o filho um nome viril +e terrivel; não lhe agradando nenhum dos propostos, declarou que ia +escolher o de um de seus quatro antepassados, o que daria fortuna ao +rapaz, e repetindo-o em voz alta, fixou a escolha. Ao chegar á idade de +ir á guerra, dava-se outro nome ao mancebo que aos seus titulos ia +acrecentando um por inimigo que trazia para caza a ser imolado. Tambem a +mulher tomava adicional apelido quando o marido dava uma festa +antropofaga. De objetos viziveis se tirava o cognome, determinando o +orgulho ou a ferocidade a escolha. O epiteto _grande_ frequentemente se +compunha com o nome. Southey, _H. do Brazil_, tom. 1o, cap. 8o, paj. +336. + +Póde-se ler tambem a este respeito o que diz Gabriel Soares, cit. no +cap. 160, ácerca do nome que tomava o tupinambá quando matava o +contrario, e no cap. 164 onde acrecenta: «Acontece muitas vezes cativar +um tupinambá a um contrario na guerra, onde o não quiz matar para o +trazer cativo para sua aldêa, onde o faz engordar com as ceremonias já +declaradas para o deixar matar a seu filho quando é moço e não tem idade +para ir á guerra, o qual o mata em terreiro, como fica dito, com as +mesmas ceremonias; mas atam as mãos ao que ha de padecer, _para com isso +o filho tomar nome novo e ficar_ armado cavaleiro e mui estimado de +todos.» + +A este trecho de Gabriel Soares é precizo dar o devido desconto ácerca +da engorda do cativo, e do papel insignificante que reprezenta o +mancebo. Devemos crer que entre gente, cuja alma era a guerra, o titulo +de guerreiro não se conferia ao mancebo que não fizesse prova real de +seu esforço e corajem. + +Ives d'Evreux, cap. XXI, trata minuciozamente da graduação que a idade +estabelecia entre os tupís. Havia para os guerreiros seis classes: 1o +das crianças até dois anos, _mitanga_, que significa chupador ou +mamador; 2o _curumim mirim_, isto é o pequeno que balbucia; compreendia +os meninos até sete anos; 3o _curumim_ simplesmente, correspondia á +segunda infancia de 7 a 15 anos; 4o _curumim-guassú_, era a +adolecencia, em que os rapazes se empregavam na caça e na pesca; 5o +_aba_--o homem, indicava o principio da virilidade, o qual logo que se +cazava tornava-se apiaba, o varão, ou como diz d'Evreux, _mendarama_, o +cazado; 6o _tijubaê_, o ancião ou veterano, o homem de experiencia, +guerreiro consumado. + + +Paj. 6 + +_Jandira_.--O nome é _jandaíra_, de uma abelha que fabrica excelente +mel; Jandira é uma contração mais eufonica daquelle nome, que tambem por +sua vez é contração de _Jemonhaíra_, que fabrica mel. + + +Paj. 6 + +_Aratuba_.--Palavra que se compõe de _ara_--o sol e _tuba_--infinito do +verbo _ajub_--estar deitado. Vem a ser a significação _leito do sol_, +aplicada pelos indios á montanha do poente, onde o sol se esconde no seu +ocazo. + + +Paj. 6 + +_Lança_.--O uzo da lança não era comum aos selvajens, que empregavam de +preferencia o arco, o tacape, a macana, e a igarapema, especie de remo, +que fazia as vezes de partazana. Outros escrevem _iverapema_; mas o nome +é aquelle de _igara-pema_, espada da canôa; basta ver-lhe a fórma para +compreender seu duplo destino. + + +Paj. 6 + +_Craúba_.-É a mesma _carabiuba_ dos indios, assim contraída pelo uzo dos +nossos sertanejos. Madeira roxa, excessivamente rija, que não cede ao +páu-ferro no pezo e na dureza. + + +Paj. 7 + +_A liga vermelha_.--Era este um dos mais curiozos e interessantes ritos +dos tupís. + +Quando a menina atinjia a puberdade, depois de sua purificação, da qual +tratam os autores, especialmente Orbigny e Thevet, a mãi punha-lhe nas +pernas, abaixo do joelho, uma liga de fio de algodão tinta de vermelho, +de tres dedos de largura, e tecida no proprio logar de modo que uma vez +fechada, não era mais possivel tiral-a. Vide Gabriel Soares, cap. 153. + +A essa liga chamavam _tapacora_, e não a podia trazer senão a virjem, de +modo que se acontecesse quebrar a castidade havia de rompel-a, para que +todos conhecessem sua falta. Eis como Gabriel Soares se exprime a este +respeito no cap. 152: «E como o marido lhe leva a flôr, é obrigada a +noiva a quebrar estes fios para que seja notorio que é feita dona; e +ainda que uma moça destas seja deflorada por quem não seja seu marido, +ainda que seja em segredo, ha de romper os fios de sua virjindade, que +de outra maneira cuidará que a leva o diabo, os quais dezastres lhes +acontecem muitas vezes, etc.» + +Este simples traço é bastante para dar uma idéa da moralidade dos tupís, +e vingal-a contra os embustes dos cronistas, que por não compreenderem +seus costumes, foram-lhes emprestando gratuitamente, quanto inventavam +exploradores mal informados e prevenidos. + +Em que sociedade civilizada se observa tão profundo respeito pela união +conjugal, a ponto de não consentir-se que a mulher decaída conserve o +segredo de sua falta, e iluda o homem que a busque para espoza? + +A rezignação com que a moça culpada rompia a liga da virjindade, e fazia +confissão publica de seu erro, é um exemplo da lealdade do carater tupí +e da veneração que inspiravam os ritos de sua relijião. + +Nega Southey, cap. VIII, que a liga vermelha e o respeito que ella +inspirava indicassem guarda da castidade, porquanto a castidade como a +caridade é virtude da civilização; do mesmo modo considera o amor uma +delicadeza da vida civilizada. São paradoxos de escritor. Sentimentos +naturais á creatura humana, dezenvolvem-se nella em qualquer estado e +condições. + +Não é possivel negar a castidade da mulher tupí; além desse recato da +virjindade, prova-a de modo cabal a continencia que homens e mulheres +guardavam em certas circumstancias. Assim, nenhum homem tinha relações +com a mulher inubil, nem ella o consentia; o proprio marido não violava +essa lei, embora tivesse a espoza em seu poder. Gabriel Soares cit. +Durante a gravidez e a amamentação interrompia-se absolutamente o +ajuntamento conjugal. (Barloeus 2a edic.) + +Onde está a sociedade civilizada, que observe leis tão rigorozas, e +refreie os instintos sensuais com a severidade uzada pelos tupís? + +Poderiamos fazer muitas outras observações que rezervamos para um estudo +especial ácerca dos selvajens brazileiros. + + +Paj. 7 + +_Tocantim_.--Compõe-se de _tocano_ e _tim_; literalmente o nariz, o +rostro do tucano. Nome que tomou um guerreiro por trazer na cabeça o +despojo de um tucano com o grande bico da ave; e que transmitido a uma +nação selvajem, ficou dezignando o rio a cujas marjens vivia. + + +Paj. 7 + +_Taarí_.--Rio que despeja no Tocantins, pouco depois da confluencia do +Araguaia. Indica o logar da cena. + + +Paj. 7 + +_Araguaia_.--O nome é araguara, de _ara_ e _guara_, literalmente, os +guerreiros das araras, porque uzavam nos seus ornatos das penas +encarnadas daquellas aves. Conservei a versão que ficou no nome do rio. + + +Paj. 8 + +_Arací_.--Esta palavra tupí compõe-se de _ara_, dia, e _ceí_ ou _cejí_, +grande estrela. Este ultimo nome davam os indijenas ás pleiades, que +lhes serviam para contar os anos. + + +Paj. 8 + +_Cem dos melhores guerreiros_.--Nesta e outras frazes identicas, os +numerais cem ou mil não reprezentam algarismo exato, que não os tinham +os tupís para exprimir numero tão elevado. Traduzem apenas esses termos +a dezinencia _tiba_, com que os tupís dezignavam cópia e multidão. + + +Paj. 9 + +_Canitar_.--Enfeite de cabeça. Adotei esta dezignação empregada pelos +autores sob a autoridade de Hans Stade por me parecer mais eufonica. A +exata lição pede _acanga atara_. + + +Paj. 9 + +_As duas nações não estão em guerra_.--As nações tupís não viviam em um +estado perene de guerra, como propalaram alguns escritores. A guerra era +frequente; mas não constante. As nações faziam a paz e nella se +mantinham até que sobrevinha alguma cauza de rompimento. Então não +começavam as hostilidades senão depois de anunciada a guerra ao inimigo, +o que se fazia lançando-lhe uma flecha na taba, ou levando-lhe um +guerreiro o dezafio. + +É uma prova do carater leal dos selvajens. Foi depois da colonização, +que os portuguezes, assaltando-os como a feras, e caçando-os a dente de +cão, ensinaram-lhes a traição que elles não conheciam. + + +Paj. 10 + +_Pojucan_.--Contração de uma fraze tupica._I-pojuca_;--significa: eu +mato gente. Essas contrações não são arbitrarias; ellas eram da indole +da lingua e conformes ao seu sistema de aglutinação. Todas as vezes que +os indijenas compunham uma palavra, cerceavam as sílabas dos vocabulos +que entravam na compozição, para ligal-as mais eufonicamente. + +Lemos em Alfred Maury _La Terre et l'homme_, cap. VIII, o seguinte +trecho: + +«Nas linguas americanas, não é sómente uma sinteze que concentra em uma +palavra todos os elementos da idéa mais complexa; ha ainda engrazamento +(enchevêtrement) das palavras umas nas outras; é o que M. F. Lieber +chama _incapsulação_, comparando a maneira por que as palavras entram na +fraze a uma caixa na qual se conteria outra que a seu turno conteria +terceira, esta uma quarta, e assim por diante. A incorporação das +palavras é por vezes levada á extrema exajeração nesses idiomas, o que +produz a mutilação dos vocabulos incorporados.» + +Esta observação é da maior justeza e conforma-se de todo o ponto com a +indole da lingua, como se vê nas seguintes palavras--_A-por-u_--como +gente--_A-poro-tim_--enterro gente--_A-po-çub_--vizito a gente. (Vide +Figueira, _Gramatica da lingua do Brazil_, paj. 51.) + + +Paj. 10 + +_Tapuia_.--de _taba_ e _puir_, o que foje das tabas. Davam os indijenas +esse nome a povos mais barbaros e de lingua diversa. Segundo as ultimas +investigações etnolojicas, pertenciam esses povos a uma raça diversa da +tupí, e muito aproximada, senão conjenere do tipo mongolico. Entretanto +Orbigny, _L'Homme Américain_, sustenta a identidade das duas raças, +tapuia e tupí. + + +Paj. 10 + +_Tacape_.--Davam os tupís o nome de _apem_, a um corpo alongado de fórma +analoga á espada, e como ella cortante. Daí vinha chamarem a +unha--_po-apem_, espada do dedo; e á raiz que surje da terra e se eleva +como um galho--_sapopema_--raiz espada. + +Á sua principal arma de guerra chamavam _ita-ca-apem_, espada de +páu-pedra; ou _ita-qui-apem_, machado comprido de pedra, por ter sido +dessa materia que primeiro o fabricaram, antes de aprenderem a lavrar a +madeira. + +Ácerca da força dessa arma e da destreza com que a manejavam, diz Lery +que um tupinambá com ella armado daria que fazer a dois soldados de +espada. + + +Paj. 10 + +_Guerreiro chefe_.--Para compreender-se bem a força dessa dezignação, +diremos alguma coiza ácerca da hierarquia selvajem. + +Como a relijião, era simples o governo dos tupís; mas não careciam +delle, segundo inculcam os cronistas: antes o tinham, e bem regulado +para o seu estado de civilização. + +Podemos distinguir na taba selvajem uma sociedade civil e uma sociedade +politica; a primeira reduzida á familia, e a segunda excluziva á +subzistencia, defeza e guerra. + +A sociedade civil era constituida pela _oca_, a caza, onde o varão, +_aba_, morava com suas mulheres, sua prole, os servos que trabalhavam +para granjear as filhas em cazamento, os cativos que fazia na guerra, e +os parentes que agregava a si. + +O dono da caza, ou literalmente o que fazia a caza, _moacara_, era a +perfeita imajem do patriarca. Elle governava a sua gente; e formava uma +sociedade independente, no seio da grande sociedade politica, de que era +membro e para cuja defeza concorria não só por interesse proprio, mas +pela honra da nação. + +_Moacara_ nos dicionarios significa fidalgo. A tradução resente-se da +preocupação do homem civilizado; mas havia realmente uma distinção entre +o _moacara_, chefe da oca, pai de muitos guerreiros, e o simples +individuo que ainda não possuia uma familia. + +A sociedade politica, _taba_, era a reunião das ocas. Essa denominação +vem de _tama_, a patria, o berço, a terra natal, e _aba_ dezinencia que +indica o logar, modo, instrumento da coiza. Assim, _taba_ significa +literalmente onde ou o que faz a patria, isto é, aldeia natal. + +O governo da _taba_, essencialmente democratico, rezidia no conselho dos +_moacaras_, entre os quais predominava a experiencia dos anciãos, que se +chamavam _abarés_ ou _abaetês_; isto é, varões egrejios. + +Nações essencialmente guerreiras, tinham um chefe para governal-as nas +jornadas e batalhas. A estes davam o nome de _tuxava_, ou _tauxaba_, o +dono da taba, _morubixaba_, o que governa o povo; de _moro_, gente, e +_aba_, dezinencia. + +Quando as nações eram grandes e não cabiam numa taba, destacavam-se +alguns _moacaras_ com suas familias e formavam novas tabas, sujeitas á +taba mãi. Daí se orijinaria a diferença das duas dezignações, vindo +então _tauxaba_ a dezignar o simples chefe de uma taba; e _morubixaba_ o +chefe da taba primitiva, ou da nação, _moro_. + +Tambem acontecia que muitas vezes um _moacara_ poderozo separava-se de +sua nação por cauza de alguma dissenção intestina, e constituia-se +independente com seus decendentes, e os guerreiros a elle sujeitos pelo +parentesco. Essa _oca_ independente, chamava-se _moroca_, isto é, oca de +gente, de tribu e não mais de familia. O termo _moloca_ tão frequente +nos cronistas não é senão corruptela daquelle, e póde corresponder ao de +tribu ou horda. + +A nomeação do chefe participava da natureza dessa sociedade democratica +e guerreira. O mais audaz e o mais forte impunha-se: a permanencia de +sua autoridade, bem como sua extensão, dependia do respeito que elle +conseguia infundir a seus guerreiros. + +No momento em que surjia outro ambiciozo a disputar o poder, este +tornava-se o premio do mais valente. Acontecia então que o vencido com +seus sectarios revoltava-se; e daí as frequentes guerras intestinas, que +aniquilaram a raça indijena, ainda mais talvez do que a crueldade dos +europeus. + +Na morte do _morubixaba_ ocorria igual pleito. O filho apossava-se do +poder pelo direito de herança; e o conservava se não aparecia algum +emulo mais poderozo que lh'o arrebatasse. + +Falando com as nossas teorias da civilização, podemos dizer que a baze +desse poder executivo era, como nas republicas, o sufragio universal. +Mas era o sufragio sempre ativo e vijilante, pronto a inclinar-se ao +merecimento superior, onde elle se revelasse. + +Entre o chefe guerreiro (poder executivo), e o conselho dos _moacaras_ +(poder lejislativo) os conflitos eram inevitaveis. Morubixaba haveria, +como o celebre Cunhanbebe, que era um verdadeiro despota. O tacape de +muito heróe tupí ha de ter governado tão absolutamente como a espada de +Cezar ou de Napoleão. + +Outros conflitos tambem se deviam dar frequentemente entre a influencia +dos _pajés_ e o poder do chefe ou dos anciãos. Aquelles sacerdotes, +cercados do respeito dos guerreiros, fortes pelo prestijio de seus +augurios e sortilejios, tentariam insuflados pela ambição governar a +taba, ou pelo menos fomentar a rezistencia ao chefe. + +Eis em escorço as paixões que deviam ajitar aquella sociedade politica, +depois da guerra que era a maior preocupação. + +Além das ocas, ou familias, havia na taba uma especie de oca mais vasta +e comum. Nessa parece que moravam aquellas pessoas, que já não tinham +oca, e estavam a cargo da nação; tais eram as _velhas_, e por este nome +devem-se entender as mulheres sem companhia de marido, nem parentes; os +orfãos, aos cuidados daquellas mãis emprestadas; e finalmente as moças +que não faziam vida conjugal. + +Vejamos agora a sociedade civil, tal como a podemos induzir dos +acanhados esclarecimentos que nos deixaram os cronistas. + +O cazamento, baze da familia, devia ter alguma ceremonia simbolica, +ainda que não passasse da simples entrega da noiva ao varão. Essa minha +supozição funda-se no fato de haver entre esses povos um cazamento bem +caracterizado, e não simples coito. + +A mulher lejitima distinguia-se pelo nome. O marido a chamava +_temireco_, isto é, a verdadeira mãi de meus filhos; emquanto que ás +outras mulheres, suas amantes, chamava _aguaçaba_. O marido tinha tambem +um nome especial _menda_, que o distinguia do simples amante. + +Acrece que para obter a noiva o varão sujeitava-se a certas condições, e +até mesmo a provas de corajem; donde devemos inferir com boa razão, que +não era esse um ato insignificante para os selvajens, a ponto de não o +distinguirem com uma fórmula qualquer, elles que em outros pontos eram +tão ceremoniozos, como na recepção do hospede, na declaração da paz ou +da guerra. + +Os cronistas, porém, não se ocuparam disso e todo seu tempo foi pouco +para lamentarem a poligamia dos tupís, tirando logo dalí argumento para +pintarem os selvajens vivendo a modo de cães. + +É uma falsidade. Os tupís tinham moralidade conjugal, e até muito +severa. O adulterio era punido de morte; e tambem por isso permitia-se o +divorcio por mutuo consentimento. + +A poligamia dos tupís foi da mesma natureza da que existiu entre os +hebreus; era uma poligamia patriarcal, filha das condições da vida +selvajem, e não a poligamia sensual dos turcos e outros povos do +oriente, produzida unicamente pelo requinte da libidinajem. + +Compreende-se que no estado selvajem ou primitivo, a mulher, fraca para +rezistir aos perigos que a rodeavam, tinha necessidade de acolher-se ao +amparo e proteção do homem. Por outro lado cada varão, no interesse não +sómente de sua gloria, como de seu poder, carecia rodear-se de uma +familia numeroza, e de gerar do seu proprio sangue, os seus guerreiros. + +Entretanto, e é isto que distingue a poligamia patriarcal, a posse de +muitas mulheres não destruia a instituição da familia, bem caracterizada +pela preeminencia da primeira mulher ou a verdadeira espoza; e pela +adoção dos filhos nacidos das outras mulheres, que se tornavam todos +filhos da espoza, ou da verdadeira mãi, _temireco_. + +Muita coiza poderia dizer ácerca da educação dos filhos e da condição da +mulher, mas não cabe esse estudo em uma nota. Mais tarde e a propozito é +possivel que o faça. + +Para a intelijencia do texto basta saber-se que além da espoza, +_temireco_, mãi da familia, das amantes, _aguaçabas_, que faziam parte +da familia na condição de servas, havia--1.o as virjens, _cunhantem_, +mulheres debalde, que pertenciam á familia, e se destinavam para espozas +dos guerreiros que as obtivessem pelas provas de esforço e denodo; 2.o +as velhas, ou mulheres já privadas de seus maridos, e que ficavam sob a +proteção da comunhão, incumbidas da educação dos orfãos, e dos filhos +anonimos; 3.o as _moças_ ou mulheres que desprezavam o cazamento e +viviam livremente aceitando o amor do guerreiro que lhes agradava, e do +qual tinham filhos, que não pertenciam á familia, mas á tribu; eram +estas as mulheres que ofereciam seu amor como penhor de hospitalidade ao +estranjeiro que chegava á taba; 4.o finalmente, a classe infeliz, +abandonada de todo o sentimento e de todo o pudor, á qual davam o nome +de _morixaba_, literalmente coiza de todos; ou, segundo o testemunho de +Ives d'Evreux, _menondere_, que equivalia a ladra; porquanto entendiam +os selvajens que a mulher roubava seu primeiro amante dando ou vendendo +a outro o amor que lhe pertencia. + +Ainda nesta ultima escala, se estão manifestando as leis severas do +recato e fidelidade da união sexual entre os selvajens. Além do +cazamento lejitimo, havia o concubinato, como existiu entre os romanos, +produzindo direito e obrigação reciproca. A mulher que traía a fé +conjugal, ou o concubinato, era uma adultera, isto é, uma ladra e decia +á ultima infamia. O marido tinha o direito de matal-a; o amante +entregava-a ao desprezo da tribu. + + +Paj. 10 + +_Jaguarê agradece a Tupan_.--Não achando entre os aborijenes templos e +idolos, ainda que alguns cronistas atestam a existencia dos ultimos, +foram os colonizadores peremptoriamente declarando ateus a esses povos. +Mas logo, com incoerencia flagrante, reconheciam a existencia de uma +superstição, que outra coiza não é a relijião na infancia da humanidade. + +Os tupís adoravam uma excelencia superior, Tupan, que se manifestava +pelo raio e pelo trovão; donde se induz o grande poder que atribuiam a +essa divindade. Seu nome de raça aprezenta uma afinidade que faz +prezumir a crença de uma decendencia celeste. + +Tambem temiam os tupís o espirito do mal, personificado em Anhanga, o +fantasma, que habitava as trévas, e a quem referiam um poder funesto. +Para conjurar essa divindade malefica, tinham sacerdotes, os pajés, que +buscavam sua força e virtude no fumo da planta sagrada, o tabaco. + +Além disso contava a mitologia tupica genios bons e máus, que habitavam +as florestas e os rios, e percorriam as solidões montados em caitetús, +ou transformados em certos animais. Entre estes mencionarei o caipora e +a mãi d'agua, cuja abuzão transmitiu-se á raça conquistadora, e de que +ainda se encontram vestijios entre as populações do norte. + +Não ha contestar que aí está uma relijião bem caracterizada. Mas como +faltassem templos e idolos, os decendentes dos barbaros gaulezes, godos, +francos e celtas não podiam admitir na America uma relijião sem culto +regular, qual a tiveram aquelles selvajens europeus. + +Entre os viajantes que mais tarde percorreram a America havia espiritos +superiores, dedicados ao estudo da humanidade, que investigavam sem +prevenções a orijem e indole das raças indijenas do novo mundo. Na +primeira plaina destes sabios figura Alexandre de Humboldt. + +O eminente naturalista assinalou a cauza dessa auzencia de culto dos +aborijenes do Brazil, quando observou que o antropomorfismo da divindade +se manifesta por dois modos: da terra ao céu, como na Grecia, ou do céu +á terra, como na America. _Voyage au Nouveau Continent_--8.o volume, +paj. 243. + +Quando a imajinação do homem personificando a divindade á sua imajem a +faz subir ao céu, como os numes pagãos da Grecia, ella é levada +naturalmente a oferecer-lhe uma constante adoração com que mantêm o +vinculo da creatura ao creador. Daí a necessidade de idolos, que +simbolizem esses numes, e a tenham prezente aos olhos mortais. + +Diverso, porém, é quando, concebendo a divindade á sua imajem, o mortal +a humana inteiramente, transportando-a do céu á terra. Então o homem +figura-se não a creatura, mas o decendente, o filho de seu deus. + +Dezaparece a necessidade dos idolos, pois a verdadeira reprezentação da +divindade na terra é o mesmo homem que a continúa. Cada um tem o seu +nume em si. A adoração transforma-se naturalmente no culto da propria +individualidade, nessa exajeração prodijioza do estalão humano, que +distingue as idades heroicas. + +É pela ostentação da corajem, da força, da grandeza de animo, que o +selvajem se elevava até o deus, seu projenitor; e não pela adoração, +pelas preces e oferendas uzadas no paganismo grego, o qual estava bem +lonje da humildade evanjelica do cristianismo. Os tupís não careciam, +pois, de orações e sacrificios; as façanhas com que se mostravam dignos +de sua orijem celeste eram as melhores oblações do seu culto. + +Tal era o respeito que o selvajem professava pela dignidade humana, que +matava as pessoas mais caras quando não se podiam curar da enfermidade. +Essa implacavel sujeição ao mal, abatia e humilhava uma raça forte e +guerreira. + +Muitos outros exemplos podia aprezentar dessa elevada conciencia da +individualidade, que distinguia no mais alto ponto o selvajem +brazileiro. + +Eis o que não souberam ver os cronistas, quando taxaram de ateus aos +indijenas americanos. + +Abstraindo da moral absoluta em que só ha uma verdade, a do +cristianismo, e tomada a questão no ponto de vista da arte, não se póde +recuzar a essa relijião tupí, que nivela o homem á divindade, certo +cunho de grandeza selvajem e um vigorozo sentimento da individualidade. + +O paganismo grego lhe fica inferior nesse ponto da dignidade humana; ao +passo que elle tornava a raça de Japeto escrava submissa dos deuzes, e +vitima de seus caprichos e vinganças, na mitolojia americana o homem é o +filho e o emulo da divindade. + +Á parte as ficções graciozas do espirito helenico, a mitolojía grega só +tem uma creação que reveste a majestade da relijião tupí; é a creação +dos semi-deuzes, em que se operava o antropomorfismo terrestre da +divindade, qual se deu na America. + +Considerando-se divino, o selvajem americano acreditava-se combatido por +um ente malefico, antagonista do deus de quem decendia. Nos achaques e +mizeria que aflijem a humanidade via as manifestações desse poder +funesto. Os sacerdotes o esconjuravam por sortilejios; os heróes, porém, +rezistiam-lhe pela constancia e o afrontavam. + +Á essa relijião simples e sem aparato, como devia ser uma relijião das +florestas, professada por povos caçadores e guerreiros, coroava a crença +profunda e inalteravel da imortalidade da alma, revelada pela veneração +ás cinzas dos mortos, e pelas ceremonias da inhumação. + +Os indijenas encerravam suas mumias em tumulos especiais, a que davam o +nome de _Camucins_; e as acompanhavam não só das armas e objetos de uzo +proprio, como de alimentos para a viajem aos campos alegres, onde iam +reviver os guerreiros e suas mulheres. + +Basta este rapido esboço para dar idéa da relijião dos tupís, e avaliar +o criterio daquelles que os consideravam estranhos a qualquer noção da +divindade. + +Um povo que mantinha as tradições a que aludimos, não era certamente um +acervo de brutos, dignos do desprezo com que foram tratados pelos +conquistadores. E quando, através de suas falsas apreciações, a verdade +pôde chegar até nossos tempos, o que não seria, se espiritos +despreocupados e de vistas menos estreitas, vivendo entre essas nações +primitivas, se aplicassem ao estudo de suas crenças, tradições e +costumes? + +Os jezuitas, que podiam melhor realizar esse estudo, eram induzidos a +exajerar a ferocidade e ignorancia dos selvajens, no interesse de tornar +indispensavel sua catequeze. Já imbuidos da intolerancia relijioza, a +politica exajerava ainda mais sua suspeição. + + +Paj. 11 + +_Ubiratan_.--Páu-ferro; literalmente _ubira_--madeira, e _atan_--duro. +_Atan_ não é senão a palavra _ita_ com a terminação _ana_, que na lingua +tupí servia para a formação dos adjetivos. _Itana_, o que tem a natureza +de pedra. Assim, de pedra fizemos nós pedregozo. Rigorozamente +_ubiratan_ é _páu-pedra_; pois que os indijenas não conheciam o ferro. +Era dessa madeira que faziam os tacapes. + + +Paj. 13 + +_O chefe tocantim_.--Os autores empregam em geral os termos maioral, +principal, para dezignar o cabeça de uma tribu ou nação indijena. +Alguns, como Southey, serviram-se do termo cacique adotado dos +Araucanos; Barloeus chamou-os classicamente de reis. + +Neste livro, como em _Iracema_, preferi traduzir o termo indijena +_tuxaba_, por _chefe_; e fui levado pela razão de ser, além de muito +apropriado e vulgar, um termo nobre e sucetivel de entrar no estílo o +mais elevado, sem laivos de afetação. Ao _morubixaba_ pela mesma razão +chamei chefe dos chefes. + + +Paj. 14 + +_Calcou a mão sobre o hombro esquerdo_.--Ácerca desse modo simbolico de +assegurar o vencedor seu imperio sobre o cativo, é curiozo o que referiu +e notou _Ives d'Evreux_, cap. XIV. + +«Então eu soube que era uma ceremonia de guerra praticada entre essas +nações, que quando um prizioneiro cae na mão de algum, aquelle que o +toma, bate-lhe com a mão na espadua dizendo-lhe: «Eu te faço meu +escravo»; e desde então esse pobre cativo, por maior que seja entre os +seus, se reconhece escravo e vencido, segue o vitoriozo, o serve +fielmente, sem que seu senhor se importe com elle; tem liberdade de +andar por onde lhe pareça, não faz senão o que quer e ordinariamente +espóza a filha ou irmã de seu senhor, até o dia em que deve ser, morto e +comido.» + +Depois o missionario lembra as palavras de Isaías cap. 9--_Factus est +principatus super humerum ejus_--e cap. XXII--_Dabo clavem dominis David +super humerum ejus_; e mostra a conformidade desse rito dos tupís com as +tradições dos hebreus e outros povos primitivos. + + +Paj. 15 + +_Ubirajara_--senhor da lança, de _ubira_--vara e _jara_--senhor; +aportuguezando o sentido, vem a ser lanceíro. + +Com este nome existia ao tempo do descobrimento, nas cabeceiras do rio +S. Francisco uma nação de que fala Gabriel Soares--Roteiro do Brazil, +cap. 182. + +«A peleja dos Ubirajaras, diz esse escritor, é a mais notavel do mundo, +como fica dito, porque a fazem com uns páus tostados muito agudos, de +comprimento de tres palmos pouco mais ou menos cada um, e tão agudos, de +ambas as pontas, com os quais atiram a seus contrarios como com punhais, +e são tão certos com elles que não erram tiro, com o que têm grande +chegada; e desta maneira matam tambem a caça que, se lhe espera o tiro, +não lhe escapa; os quais com estas armas se defendem de seus contrarios +tão valorozamente como seus vizinhos com arcos e flexas, etc.» + +Desta arma e da destreza com que a manejavam proveiu o nome de +_bilreiros_ que lhe deram os sertanistas, significando assim que tanjiam +suas lanças com ajilidade e sutileza igual á da rendeira ao trocar os +bilros. + + +Paj. 15 + +_Preciza de um prizioneiro_.--Era entre os selvajens maior honra +conduzir da guerra um prizioneiro, para ornar o seu triunfo e a festa de +vitoria, do que matal-o em combate. Veja Gabriel Soares--cit. na nota +4a. + + +Paj. 15 + +_Chamas de alegria_.--Metafora tupí. Chamavam a alegria e a festa +_toríba_, literalmente, grande quantidade de fogueiras. + + +Paj. 17 + +_Historia de guerra_.--Os tupís para exprimirem historia, ou narrativa, +diziam _maranduba_, conto de guerra, de _mara_--guerra--_nheng_--falar e +_tuba_--muito; falar muito de guerra. + +Depois aplicaram os indijenas essa palavra a toda narrativa, se é que +não crearam para as outras historias o termo analogo de _poranduba_, +composto de _poro_, _nheng_, e _tuba_--falar muito da gente. + +Os indios eram muito apaixonados dessas narrações, em que mostravam sua +natural eloquencia. Informa-me o Dr. Coutinho, incansavel explorador do +vale do Amazonas, que ainda hoje nenhum indio chega de viajem, que não +diga a sua maranduba, que é o recito circumstanciado de quanto viu e lhe +aconteceu em caminho. + +Ás vezes traduzo o termo; outras o emprego orijinal para mais incutir no +livro o espirito indijena. Do mesmo modo procedi ácerca de outros termos +eufonicos tais como _tuxaba_, _moribixaba_, _moacara_, _nhengaçara_, +_etc_. + + +Paj. 21 + +_Os cantores_.--Os tupís eram muito dados á muzica e á dansa. + +Lery fala com entuziasmo da doçura de seus cantos; e Ferdinand Denis, +paj. 21, afirma, não sei com que fundamento, que a imitação dos Chataws +da America do Norte, certas nações do Brazil gozavam do privilejio de +fornecer poetas e musicos aos outros povos, como sucedia com os tamoios +entre os tupís. + +Gabriel Soares--cap. 162--descreve os cantos, improvizos e dansas dos +tupinambás, concluindo com estas palavras: + +«Entre este gentio, os muzicos são muito estimados e por onde quer que +vão, são bem agazalhados e muitos atravessaram já o sertão por entre +seus contrarios, sem lhes fazerem mal.» + + +Paj. 24 + +_Como chefe pertence-lhe a virjem_, etc, Barloeus--2.a edic. paj. +483.--Quotquot luta, hastarum concursu ac venatu proecellunt, +eminentiores habentur et ut hoeroum numero, qui ob virtutis +fortitudinisque excellentiam ab ipsis virginibus ambire moerentur, cum +meliores ex melioribus nasci opinentur, nec vanum esse nobilitatis +nomen, sed cum sanguine transfundi.»--Quantos disputam em jogos de lança +e caça; os eminentes são tidos no numero dos heróes; os quais pela +excelencia da virtude e fortaleza merecem possuir as mesmas virjens; por +quanto pensam que os melhores nacem dos melhores; nem é vão nome a +nobreza, pois se comunica pela transfuzão do sangue. + + +Paj. 25 + +_Purifica o corpo_.--Os selvajens distinguiam-se pelo apurado asseio. +Ives d'Evreux diz a este respeito: «Ils sont fort soigneux de tenir leur +corps net de toute ordure: ils se lavent fort souvent tout le corps et +ne se passe jour qu'ils ne jettent sur eux force eau et se frottent avec +les mains de tous côtés et en toutes les parts, pour oster la poudre et +autres ordures. Les femmes ne manquent de se peigner souvent.» + + +Pag. 25 + +_Urú_.--Tinham os indijenas varias especies de moveis para guardar +objetos. O _urú_ era um cesto aberto. _Panacum_ era um cesto maior com +tampa. _Samburá_ era cesto com orelha, corrupção de _nambi_ e _urú_, +literalmente cesto de orelha. Tinham ainda os selvajens o _patiguá_ ou +_patuâ_, que era uma caixa de palha ou couro; e o _mocô_, pequeno surrão +da pele felpuda do coelho. Todos estes nomes ainda são uzados no norte +para dezignar os mesmos objetos, produtos da industria indijena, +aproveitada pelos colonizadores. + + +Paj. 26 + +_Coqueiros_.--Ao que disse em nota de Iracema ácerca do indijenismo +desta planta acrecentarei a noticia que della nos deixou Guilherme +Piso--_Historiæ Rerum Naturalium Brasiliæ_, Liv. 8o, p. 138. + +«_Inaiá Guacuiba_ cujus fructus _inaiaguacu_ brasiliensibus; in congo +vocatus _Ejaquiambutu_ et fructus _Quetiniga quiambutu_: Palma nucifera, +lusitanis _coqueiro_ et fructus illius _coco_; qui tribus suis +foraminulis lavam representat. Arbor caudice raro recto, sed plerumque +incurvato, quatuor, quinque sex aut etiam septem pedes crasso, triginta, +quadraginta et interdum quinquaginta pedes alto.» + +É esta mesma palmeira que os Mexicanos chamavam _Cogolli_. Piso viu em +1640 na cidade Mauricéa (Recife) transplantarem-se pés que tinham mais +de 24 anos. + + +Paj. 28 + +_Cabelos_.--Pelos cabelos costumavam distinguirem-se as diversas nações +indijenas. Southey--I, cap. 8o. Das mulheres diz Barloeus:--_Foeminis +coma promissa nisi per luctus tempora aut absens marito_.--paj. 36. +Traziam as mulheres a madeixa longa, salvo no tempo do luto ou auzencia +do marido. + +Mais um traço do carater e costumes indijenas. Durante a auzencia do +marido, a mulher trazia uma especie de luto, ou mostra de tristeza e +saudade, que era simbolizada pelo sacrificio das longas tranças dos +cabelos. + + +Paj. 28 + +_Braços que tu querias para tua cintura_.--Metafora da lingua tupí, que +exprime o amor; _aguaçaba_, a amante, literalmente, o que se tem á +cintura. + + +Paj. 31 + +_Escravo_.--Acerca das leis do cativeiro entre os indios leiam-se os +dois capitulos XV e XVI, que a este assunto consagrou Ives d'Evreux, +citado. + +Os cativos viviam em plena liberdade na taba de seus senhores, e era +muito raro que fujissem, porque se consideravam ligados por um vinculo +desde o momento em que o vencedor lhes calcava a mão sobre a espadua. +Quebrar esse vinculo, era por elles considerado uma dezhonra. + +Até os prizioneiros destinados ao suplicio, preferiam a morte glorioza +a se rebaixarem pela fuga no conceito de seus inimigos. «Muitas vezes as +mulheres tomavam substancias que provocavam o aborto, não querendo +passar pela mizeria de verem trucidada a prole; não raro favoreciam a +fuga dos tristes maridos de alguns dias pondo-lhes comida nos bosques e +até escapulindo-se com elles. Frequentemente sucedeu isto a prizioneiros +portuguezes; os indios brazileiros, porém, julgavam dezhonroza a fuga, +nem era facil persuadil-os a tomal-a.» Southey--cap. VII onde +cita--Noticias do Brazil, II, 69 e Herrera 4, 3, 13. + +Abbeville ainda é mais explicito:--Et bien que estant desliez et libres +comme ils sont, ils puissent fuir et se sauver, si est ce que ils ne +font jamais encore qu'ils soient assurez de estre tuez et mangez au bout +de quelques temps. Car si quelqu'un des prisionniers s'etait eschapé +pour retourner em son pays, non seulement il serai tenu pour un _couaen +eum_, c'est a dire poltron et lasche de courage; mais aussi ceux de sa +nation mesme ne manqueroient de le tuer avec mille reproches de ce qu'il +n'aurait pas eu le courage d'endurer la mort parmi ses ennemis, comme si +ses parents et tous ses semblables n'etaient assez puissants por venger +sa mort, etc. pag. 290. + +As leis da cavalaria no tempo em que ella floreceu em Europa não +excediam por certo em pundonor e brios a bizarria dos selvajens +brazileiros. Jámais o ponto de honra foi respeitado como entre estes +barbaros, que não eram menos galhardos e nobres do que esses outros +barbaros, godos e arabes, que fundaram a cavalaria. + +Alí está uma pedra de toque para aferir-se o carater do selvajem +brazileiro, tão deprimido por cronistas e noveleiros, avidos de +inventarem monstruozidades para impinjil-as ao leitor. Nem isso lhes +custava; pois a raça invazora buscava justificar suas cruezas rebaixando +os aborijenes á condição de féras, que era forçozo montear. + + +Paj. 32 + +_O suplicio_.--Outro ponto em que se assopra a ridicula indignação dos +cronistas é ácerca da antropofagia dos selvajens americanos. + +Ninguem póde seguramente abster-se de um sentimento de horror ante essa +idéa do homem devorado pelo homem. Ao nosso espirito civilizado, ella +repugna não só á moral, como ao decoro que deve revestir os costumes de +uma sociedade cristã. + +Mas antes de tudo cumpre investigar a causa que produziu entre algumas, +não entre todas as nações indijenas, o costume da antropofagia. + +Disso é que não curaram os cronistas. Alguns atribuem o costume á +ferocidade, que transformava os selvajens em verdadeiros carniceiros, e +tornava-os como a tigres sedentos de sangue. A ser assim não faziam mais +do que reproduzir os costumes citas, que sugavam o sangue do inimigo +ferido,--quem primum interemerunt, ipsis é vulneribus ebibere. Pomponius +Moela. Descrip. da Terra.--Liv. 2o cap. 1o. + +Outros lançam a antropofajia dos americanos á conta da gula, pintando-os +igual á horda bretã das Gallias, os Aticotes, dos quais diz S. Jeronimo +que se nutriam de carne humana, regalando-se com o ubere das mulheres e +a fevera dos pastores. (_S. Hieronimo IV.--paj. 201, adv. Jovin.--Liv. +2o_.) + +O canibalismo americano não era produzido, nem por uma nem por outra +dessas cauzas. + +É ponto averiguado, pela geral conformidade dos autores mais dignos de +credito, que o selvajem americano só devorava o inimigo, vencido e +cativo na guerra. Era esse ato um perfeito sacrificio, celebrado com +pompa, e precedido por um combate real ou simulado que punha termo á +existencia do prizioneiro. + +Simão de Vasconcelos, Cronica da companhia, 1 § 49, alude a uma velha +que sentia entojos por não ter a mãozinha de um rapaz tapuia para +chupar-lhe os ossinhos: e Hans Stade, paj. 4, cap. 43 e seg., conta a +historia de dois individuos moqueados pelos tupinambás, e guardados para +um banquete. + +Não exajeremos, porém, esses fatos izolados, alguns dos quais podem não +passar de caraminholas, impinjidas ao pio leitor. Os costumes de um povo +não se aferem por acidentes, mas pela pratica uniforme que elle observa +em seus atos. + +Se os tupís fossem excitados pelo apetite da carne humana, elles +aproveitariam os corpos dos inimigos mortos no combate, e que ficavam no +campo da batalha. A guerra se tornaria em caçada; e em vez de montear as +antas e os veados, os selvajens se devorariam entre si. + +Não ha, porém, escritor sério que deixasse noticia de fatos daquella +natureza; e não me recordo de nenhum que referisse exemplos de serem +devoradas mulheres e meninos; salvo quanto aos ultimos, o filho do +prizioneiro de guerra (Not. do Brazil.--II, 69), do que tenho razão para +duvidar. + +Parece-nos, pois, que a idéa da gula deve ser repelida sem hezitação. Se +em algumas tribus ou malocas se propagou o apetite depravado, essa +dejeneração foi por ventura devida ao contajio dos Aimorés, cuja invazão +é posterior ao descobrimento. Em todo o cazo é uma exceção que não póde +preterir o rito da relijião tupica. + +Tambem pela contraprova, havemos de excluir a ferocidade, como razão do +canibalismo americano. + +Se o instinto carniceiro dominasse o tupí, elle se lançaria sobre o +inimigo como o cita, ou o sarraceno de que fala Am. Marcellinus, para +sugar-lhe o sangue da ferida, e trincar-lhe as carnes ainda vivas e +palpitantes. + +Mas, ao contrario, vemos que o guerreiro tupí tinha por maior bizarria +cativar seu inimigo no combate, e trazel-o prizioneiro, do que matal-o. +Chegado á taba, em vez de o torturar dava-lhe por espoza uma das virjens +mais formozas, a qual tinha a seu cargo nutril-o e tornar-lhe agradavel +o cativeiro. + +Releva notar que a idéa da antropofajia já era comum na Europa, antes do +descobrimento da America; não só pelas tradições dos barbaros, como +pelas crendices da média idade, nas quais figuravam gigantes e bruxas, +papões de meninos. Que tema inexgotavel para a imajinação popular não +veiu a ser a primeira noticia, senão conjetura, sobre o canibalismo do +selvajem brazileiro? + +Cronista ha que nesse costume, onde se está revelando a força +tradicional de um rito, não enxergou senão o zelo do glotão, que engorda +a preza para saboreal-a. Mas essa ridicula supozição nem ao menos se +conforma com o teor da vida selvajem, a qual desconhecia a industria da +criação. + +O selvajem comia a caça como a encontrava no mato, gorda logo depois do +inverno, e magra na força da seca. Não se dava ao trabalho de a +engordar. Porque motivo se havia de afastar desse uzo ácerca do homem, +se o homem fosse para elle uma especie de caça? + +E por ventura faria parte do processo da engorda do bipede, o acessorio +de uma companheira formoza e na flôr da idade, qual invariavelmente a +davam ao prizioneiro? + +É obvio que esse uzo tinha outra razão mui diversa. Não se tratava de +engordar o prizioneiro, mas de fortalecel-o, para que elle morresse com +honra no dia do sacrificio, que devia ser o seu ultimo combate. + +Ainda nessa ocazião, os vencedores ostentavam sua gravidade, deixando +que o prizioneiro exaltasse o proprio valor e os afrontasse com seu +desprezo. Só chegado o momento depois de celebrada a ceremonia, o +abatiam com um golpe de tacape. + +A ferocidade não se coaduna com a calma e comedimento desse proceder. +Póde-se explicar o sacrificio humano dos tupís por um intenso e profundo +sentimento de vingança; mas não por sanha brutal. + +Ferdinand Saint-Denis (_Univers_, _Brésil_, pag. 30) diz com muito +criterio:--_En accomplissant ces sacrifices, les tupinambás +n'obéissaient pas, comme pourraient le croire quelques personnes, à un +goût depravé qui leur aurait fait préférer la chair humaine à toutes les +autres; ils étaient mus avant tout par un esprit de vengeance que se +transmettait de génération en génération, et dont notre civilisation +nous empêche de comprendre la violence_. + +Não era, porém, a vingança a verdadeira razão da antropofajia. O +selvajem não comia o corpo do matador de seu pai ou filho, se acontecia +matal-o em combate. Abandonava o cadaver no campo, e apenas cortava-lhe +a cabeça para espetal-a em um poste á entrada da taba, e arrancava-lhe o +dente para troféu. + +A vingança, pois, esgotava-se com a morte. O sacrificio humano +significava uma gloria insigne rezervada aos guerreiros ilustres ou +varões egrejios quando caíam prizioneiros. Para honral-os, os matavam no +meio da festa guerreira; e comiam sua carne que devia transmitir-lhes a +pujança e valor do heróe inimigo. + +Este pensamento resalta dos mesmos pormenores com que os cronistas +exajeraram o cruento sacrificio. + +Morto o inimigo, não era devorado; antes as mulheres tratavam o corpo e +o curavam, moqueando as carnes. Essas eram guardadas; e distribuidas por +todas as tribus, incumbindo-se os que tinham vindo assistir á ceremonia, +de leval-as ás tabas remotas. + +Os restos do inimigo tornavam-se, pois, como uma hostia sagrada que +fortalecia os guerreiros; pois ás mulheres e aos mancebos cabia apenas +uma tenue porção. Não era a vingança; mas uma especie de comunhão da +carne, pela qual se operava a transfuzão do heroismo. + +Por isso dizia o prizioneiro:--«Esta carne que vêdes não é minha; porém +vossa; ella é feita da carne dos guerreiros que eu sacrifiquei, vossos +pais, filhos e parentes. Comei-a; pois comereis vossa propria carne.» +Deste modo retribuia o vencido a gloria de que os vencedores o cercavam. +O heroismo que lhe reconheciam, elle o referia á sua raça de quem o +recebera por igual comunhão. + +Algumas nações tinham outra comunhão, inspirada no mesmo pensamento. +Era a dos ossos dos projenitores que reduziam a pó, e que bebiam +dissolvidos no cauim em festas de comemoração. Este fato, assim como o +sacrificio tremendo da mãi, que devia absorver em si o filho que lhe +nacera morto, bem mostram que por modo algum naceu do espirito de +vingança o chamado canibalismo. + +Transportemo-nos agora, não como homens e cristãos, mas como artistas, +ao seio das florestas seculares, ás tabas dos povos guerreiros que +dominavam a patria selvajem; e quem haverá tão severo que negue a fera +nobreza desse barbaro e tremendo sacrificio? + +A idéa repugna; mas o banquete selvajem, tem uma grandeza que não se +encontra no festim dos Atridas; e está bem lonje de inspirar o horror +dessa atrocidade que entretanto não foi desdenhada pela muza classica. + +No Brazil é que se tem dezenvolvido da parte de certa gente uma aversão +para o elemento indijena de nossa literatura, a ponto de o eliminarem +absolutamente. Contra essa extravagante pretenção lavra mais um protesto +o presente livro. + +Para concluir com este ponto, observaremos que nem todas as nações +selvajens eram antropofagas; e que em minha opinião esse costume, bem +lonje de ser introduzido pela raça tupí, foi por ella recebido dos +Aimorés e outros povos da mesma orijem, que ao tempo do descobrimento +apareceram no Brazil. + + +Paj. 32 + +_Espoza do tumulo_.-Este rito selvajem é muito conhecido e dispensa-me +de transcrever o que ácerca delle escreveram os cronistas. + +Mais uma prova do carater generozo e bizarro do selvajem brazileiro. +Lonje de torturarem seu prizioneiro, ao contrario se esforçavam em +alegrar-lhes os ultimos dias pelo amor; davam-lhe uma espoza; e tão +grande honra era esta que o vencedor a rezervava para sua filha ou irmã +virjem; e se não a tinha, para a filha de algum dos principais da taba. + +Falam alguns autores da _cunhãmembira_, como de uma ceremonia em que se +devorava o filho que por ventura a espoza do tumulo concebia do +prizioneiro morto. Duvido da generalidade desse fato, que me parece +adulterado, e seria especial aos tamoios. + +_Cunhãmembira_, dizem esses autores, significa _filho da mulher_; e daí +diz Southey, copiando Lery, tiravam elles uma horrivel consequencia, que +era devorarem a criança. + +Ora, _cunhãmembira_ significa saído do ventre da mulher. A lingua tupí +não tinha outro modo de dezignar a maternidade: taíra--isto é, saído do +sangue, diziam do filho ácerca do pai; e _membira_, diziam do filho +ácerca da mãi. Na expressão _cunhãmembira_ não ha senão a antepozição do +substantivo _cunham_ (mulher) que os indios suprimiam por superfluo; +assim como suprimiam na outra palavra dizendo simplesmente _taíra_ e não +_aba-taíra_ saído do sangue do varão. + +Se o nome de _cunhãmembira_ indicasse estar a criança destinada ao +suplicio, então todos os nacidos da taba se achariam no mesmo cazo, pois +todos eram em relação ás mais, _membiras_ ou _cunhã membiras_. + +Ainda mais, se a criança era condenada ao suplicio pela razão de ser do +sangue inimigo, parece que o nome a ella dado devia exprimir esse fato +importante e derivar-se antes desta fraze: _miauçubtaíra_--o gerado do +sangue do cativo. + +A estes filhos dos prizioneiros chamavam os indijenas _marabá_, gerado +da guerra, nome honrozo, que revelava o apreço em que tinham essa prole, +saída de um sangue heroico. E tanto assim era que destinavam para +conceber essa prole o seio da virjem mais ilustre da taba. + +Se os selvajens, que nada praticavam sem uma razão justificativa, só +tinham em mira devorar os filhos do cativo, para que dar-lhe uma espoza +ilustre? Mais sagazmente procederiam adjudicando-lhe diversas mulheres +para terem maior criação a matar. + +Está-se conhecendo que o tal banquete não passa de um invento de +cronistas, que entenderam as outras palavras dos indios tão bem como a +de _cunhãmembira_ que elles diziam significar filho do inimigo. + +_Cunhãmembira_ creio eu ser a festa que se fazia pelo parto da mulher; e +talvez acontecendo nacer morta a criança, se orijinasse a fabula do +sacrificio que então se praticava entre algumas nações de ser a mãi +obrigada a absorver em si esse fruto goro de sua fecundidade. + + +Paj. 33 + +_Guainumbí_.--«Persuadem-se os brazilienses haver uma ave, que chamam +colibri, a qual leva e traz noticia do outro mundo.» Santa Rita +Durão--Notas ao Caramurú. + +Tambem chamavam os indios esse passaro, _Guaraciaba_--cabelos do sol; e +Arati, ou Arataguaçú segundo Marcgraff, 197. Quanto ao nome de +Guainumbí, ou mais corretamente Guinambí, penso eu que significa o +brinco das flôres. Os selvajens tiraram naturalmente essa dezignação do +modo por que o colibri tremula, como suspenso á flôr para chupar-lhe o +mel, semelhante ao movimento das arrecadas suspensas ás orelhas, e que +elles chamavam _nambípora_. + + +Paj. 35 + +_Jussara_.--«Nas povoações feitas em terra têm muitas nações guerreiras +a providencia de as segurarem e munirem com fortes muralhas, não de +pedra, mas de estacas do páu duro como pedra. Outros as fabricam de +palmeira, que chamam jussara, cujos espinhos são tão grandes e duros, +que servem a muitos de agulhas de fazer meias; e as trincheiras feitas +de _jussara_ são mais seguras que as mais bem reguladas fortalezas; +porque de modo nenhum se podem penetrar e romper senão com fogo por +crecerem não só cheias de grandes estrepes ou agudos espinhos, mas tão +enlaçadas e enleadas umas com outras que se fazem impenetraveis. +(Tezouro descoberto no rio Amazonas, Part. 2a, cap. 1o, no 2o vol. da +Rev. do Instituto, paj. 350.) + +O nome da palmeira é em tupí _jussara_, de _ju_--espinho e _ara_ +dezinencia. + + +Paj. 36 + +_Carbeto_.--Assim chamam Ives d'Evreux e Abbeville ao conselho dos +velhos entre os selvajens. Este nome deriva-se naturalmente de +_caraiba_, varão ilustre e _ipê_, logar onde. + + +Paj. 37 + +_Hospede_.--A virtude da hospitalidade era uma das mais veneradas entre +os indijenas. Todos os cronistas dão della testemunho; e alguns, como +Lery e Ives d'Evreux, descrevem com particularidade o modo liberal e +generozo por que os selvajens brazileiros a exerciam. + +É certo que não escapou tambem á malevolencia dos cronistas, essa +excelencia e nobreza do carater indijena. Gabriel Soares cit. cap. 168 +depois de falar do como os tupinambás agazalhavam os hospedes, +acrecenta: «e lançam suas contas se vem de bom titulo ou, não; e se é +seu contrario, de maravilha escapa que o não matem, etc.» Southey cit. +cap. 8o faz coro com essa versão que nos parece suspeita. + +É possivel que depois da colonização, os selvajens vitimas das +perfidias dos aventureiros relaxassem suas tradições; mas a +hospitalidade foi sempre entre elles uma coiza sagrada, como atestam em +geral os escritores, que não referem aquella exceção. + +Basta refletir sobre o modo por que exerciam os selvajens a +hospitalidade para reconhecer que não é admissivel a suspeita de Gabriel +Soares. Em verdade, aquelles cuja porta estava aberta sempre ao +viajante; que franqueavam o ingresso de sua cabana por tal modo que o +estranjeiro nella entrava como senhor, ainda mesmo na auzencia do dono; +que sem perguntar o nome de quem chegava nem de onde vinha o agazalhavam +com a maior liberalidade; esses que assim acolhiam o hospede, não podiam +ocultar a intenção perfida de o matar, no cazo de ser contrario. Ha uma +tal contradição entre esse desfecho e as circumstancias precedentes, que +não se póde acreditar nelle pelo simples dizer de um cronista, que em +muitas outras inexatidões caiu. + +Se ha traço nobre do carater selvajem é essa hospitalidade, que o +estranjeiro não pedia e sim exijia como um direito sagrado, com esta +simples formula--_Vim_; ao que o dono da cabana respondia--_Bem vindo_. + +O epizodio da deliberação do conselho sobre o nome do estranjeiro está +justificado pelo trecho seguinte de Ives d'Evreux, cap. 50. + +«Aprés ces paroles il vous dit--_Marapé derere_? comment t'appelles-tu? +quel est ton nom? comme veux-tu que nous t'appellions? Quel nom veux-tu +qu'on t'impose? Où faut-il noter que si vous ne vous estes donné et +choisi um nom, lequel vous leur dites alors et desormais estes appellé +par tout le pays de ce nom, les sauvages du village ou vous demeurez +vous en choisiront um pris des choses naturelles, qui sont en leurs pays +et ce le plus convenablement qu'il leur sera possible, selon la +phisionomie qu'ils verront en votre visage, ou selon les humeurs et +façons qu'ils reconnaitront en vous..... Eh bien quel nom donnerons nous +a un tel ton compére? Je ne sais, il faut voir; lors chacun dit son +opinion et le nom qui rencontre le mieux et est reçu de l'assemblée, est +imposé avec son consentement si c'est quelque homme d'honneur.» + +Ainda nessa circumstancia se revela a delicadeza da hospitalidade do +selvajem. + + +Paj. 38 + +_Artes da paz_.--É ainda de Ives d'Evreux, cap. 18, esta curioza +informação. «Je raconterai ici une jolie histoire. Un jour je m'allois +visiter le grand Theon, principal des Pierres Vertes Tabaiares: comme je +fus en sa loge et que je l'eus demandé, une des ses femmes me conduit +soubs une belle arbre qui estoit au bout de sa loge, qui la couvrait du +soleil; lá-dessous il avait dressé son mestier pour testre des licts de +coton et travaillait après forte soigneusement; je m'étonnai beaucoup de +voir ce grand capitaine, vieil colonel de sa nation, ennobli de +plusieurs coups de mousquets, s'amuser à faire ce mestier et je ne peus +me taire que je ne sçusse la raison espérant apprendre quelque chose de +nouveau en ce spectacle si particulier. Je luy fist demander par le +truchement qui estoit avec moy, à quelle fin il s'amusait à cela? il me +fit response: «Les jeunes gens considérent mes actions et selon que je +fais ils font; si je demeurais sur mon lit à me branler et humer le +petim, ils ne voudraient faire autre chose; mais quand ils me voient +aller au bois, la hache sur l'épaule et la serpe en main, ou qu'ils me +voient travailler à faire des licts, ils sont honteux de rien faire, +etc.» + + +Paj. 38 + +_Lançadeira_.--Os indijenas tinham um tear que é descrito por Lery, cap. +18. Uzavam tambem de um fuzo comprido e grosso, que as mulheres faziam +girar entre os dedos, atirando ao ar, como ainda agora fazem as velhas +fiandeiras do sertão. + + +Paj. 43 + +_Jurandir_.--Contração da fraze _Ajur-rendipira_--o que veiu trazido +pela luz. + + +Paj. 45 + +_Jabotí_.--Contou-me o Dr. Coutinho que o jabotí para os indios do +Amazonas é o simbolo da gravidade, prudencia e sabedoria, e prometeu-me +dar um apologo, em que elles celebram essas virtudes, contando a +historia de um jabotí, que venceu na lijeireza ao veado, na força á onça +e assim aos mais animais. + + +Paj. 45 + +_Tetivas_.--Os Tetivas habitam nos olhos das palmeiras e de outras +arvores: põem-lhes terra e acendem fogo. Humboldt cit., paj. 283. + + +Paj. 46 + +_Mulheres guerreiras_.--Aluzão ás Amazonas cuja existencia é tão +controvertida. Eu acredito na sua existencia, embora reconheça que houve +exajeração de Orellana. + +Não é este o momento de elucidar este ponto da historia, ou antes +mitolojia do Brazil selvajem. Proponho-me a fazel-o quando publicar uma +lenda que tenho esboçada ácerca do assunto. Nessa ocazião direi o que +entendo ácerca da memoria do Dr. Gonçalves Dias, publicada na _Revista +do Instituto_. + + +Paj. 46 + +_Senhoras de seu corpo_.--Metafora tupí. No varão a parte nobre era o +sangue; pelo que elle dizia do filho--_taíra_, o filho do meu sangue; e +para indicar a independencia diziam _taíguara_, que os dicionarios +traduzem _livre_, mas que literalmente significa, _senhor do seu +sangue_. + +A mulher que dizia do filho _membira_--o gerado de meu ventre, devia +pela mesma razão uzar de expressão analoga para exprimir sua liberdade, +e dizer _membijara_--senhora de seu ventre, que eu por elegancia traduzo +menos literalmente, _senhora de seu corpo_. + + +Paj. 47 + +_Pará sem fim_.--Par, diz Humboldt cit. paj. 285, é uma radical guaraní +e exprime agua. Pará creio eu que significou a grande abundancia de +agua, e foi primitivamente empregado para dezignar os lagos e por +ventura as vastas inundações do vale do Amazonas. Mais tarde os +selvajens acrecentaram-lhe o verbo _nhane_ correr, e disseram +_pará-nhanhe_--donde _paranãn_ para dezignar as grandes massas de agua +corrente, isto é, os rios caudalozos. + +Os dois maiores rios da America do Sul, o Amazonas e o Prata, ambos se +chamavam _Paranãn_, assim como outros muitos do Brazil. O mesmo radical +se encontra já composto em Paraíba, Parnaíba, Paranapanema, etc. + +Foi a substituição do _p_ pela analoga _m_ que produziu o nome de +_Maranhão_, ácerca de cuja etimolojia se inventaram tantas +extravagancias. + + +Paj. 48 + +_Guerreiros do mar_.--Tradução da palavra tupí _caramurú_ com que os +tupinambás da Baía dezignaram Diogo Alvares Correia. + +Caramurú é composto de _cara_, alteração de Pará--mar e _moro_, gente; +homem do mar. Os selvajens acreditavam que as aguas eram habitadas, e +daí naceu a lenda da mãi d'agua, que se transmitiu á raça invazora. Nada +mais natural do que chamarem ao primeiro homem branco, que lhe apareceu +surjindo do oceano, Caramurú--o guerreiro do mar. + + +Paj. 48 + +_Rezina cheiroza_.--É o ambar, que os tupís chamavam _Piraoçurepoti_, e +de que ao tempo do descobrimento abundavam as ribeiras do mar, nas +provincias do norte. + + +Paj. 49 + +_Moças_.--É dificil, senão impossivel, determinar atualmente, e pelas +informações tão falhas quão malignas dos cronistas, a condição da mulher +entre os selvajens. + +Do que tenho lido coliji as idéas, a que no texto se alude mui +lijeiramente, e a que em outro logar démos maior dezenvolvimento. + + +Paj. 51 + +_Para servir a Itaquê_.--«E quando o principal não é o maior da aldeia +dos indios das outras cazas, o que tem mais filhas é o mais rico e +estimado e mais honrado de todos, porque são as filhas mui requestadas +dos mancebos que as namoram; os quais servem os pais das damas dois e +tres anos primeiro que lh'as deem por mulheres e não as dão senão aos +que melhor os servem, a quem os namoradores fazem a roça e vão pescar e +caçar para os sogros que dezejam de ter, e lhes trazem a lenha do mato, +etc.» G. Soares, cit. cap. 152. + +Aí está a lenda biblica de Jacob servindo a Labam 7 anos para obter por +espoza a Sara. Não consta, porém, que os selvajens uzassem da esperteza +do pai de Lia, para descartar-se de uma filha defeituoza; se tal +acontecesse entre os tupís, de que ridiculas indignações não se +encheriam os cronistas? + + +Paj. 52 + +_Manatí_.--È o peixe-boi, de cujo couro mais forte que o do touro os +indios fazem escudos. Anunciam a chuva, saltando acima d'agua. +Gumilha--Orenoco ilustrado, paj. 276. + + +Paj. 52 + +_Biaribí_.--Um dos modos porque os indios assavam a caça, e consistia em +enterral-a envolta em folhas de banana, e acender em cima o fogo, cujo +calor penetrando no chão cozia a carne, concentrando-lhe o sabor. + +_Moquem_ era simplesmente o assado envolto em folha e feito sobre a +braza; daí vem _moqueca_ de que tirámos os verbos moquear e amoquecar. + +_Bucan_, supõem alguns que seja alteração de _moquem_; mas eu o +considero termo distinto que exprimia apenas a operação de secar a carne +ao fumeiro para conserval-a. Neste sentido é que Lery e Ives de Evreux +empregam constantemente o termo francez _boucaner_, derivado da palavra +tupí. + + +Paj. 54 + +_Pela mão da mulher_. Refere Gumilla, cap. 45, que estranhando aos +indios sobrecarregarem as mulheres com os trabalhos agricolas, elles +retorquiram que as mulheres sabem dar fruto, o que não sabem os homens, +e por isso na mão dellas as sementes naciam e se multiplicavam. + + +Paj. 56 + +_Pirijá_.--Uma especie de palmeira chamada palmeira real; é espinhoza e +tem frutos semelhantes ao pecego. Humboldt cit., paj. 257 e 262. + + +Paj. 58 + +_Nunca Jandira ofereceria sua rêde de espoza_, etc.--Arací reprezenta o +amor da virjem tupí, segundo o costume tradicional de sua nação, que +admitia a comunidade e partilha do amor, como um privilejio do guerreiro +ilustre. Ser amada excluzivamente, significava para a mulher selvajem, +ser amada por um guerreiro obscuro. + +Jandira reprezenta o excluzivismo do amor, que muitas vezes devia lutar +com a lei tradicional; porque é um impulso da natureza, a qual não é +dado ao homem aniquilar embora muitas vezes a sopite. + + +Paj. 61 + +_O combate nupcial_.--Este rito, de ser a virjem requestada o premio do +valor e da corajem, é atestado por grande numero de escritores. + +Barloeus, paj. 420:--«Lucta et hastarum concursu decertare gloriosum, +finis spectanctium voluptas est, presertim amantium foemina de cujusque +fortitudine et victoria pronuntiat, sic in proximo pignora, pugnandi +irritamenta sunt fortitudinis præcones, ciborum administræ.» + + +Paj. 65 + +_A figura da noiva_.--Esta prova de destreza era muito uzada pelos +selvajens. Marcgraff descreve a especie de torneio que elles faziam +divididos em duas turmas, a ver qual levava mais depressa o seu tóro ao +logar destinado para acampamento. Naturalis Historia Brazilia, liv. 8o, +cap. 12. + +Conclue com estas palavras:-«qui deinceps tempus terunt hastilibus +certando, luctando, currendo; quibus certaminibus duæ fæminæ ad id +selectoe proesident et judicant de singulorum virtute et victoribus. + +Estes certamens guerreiros, esses jogos de luta, combate e carreira, +prezididos por mulheres que julgavam do valor dos campeões e conferiam +premio aos vencedores, não cedem em galanteria aos torneios da +cavalaria. + +Ácerca da prova a que acima nos referimos, escreveu o Dr. Gonçalves +Dias--_Brazil_ e _Oceania_, cap. 10, _Revista do Instituto_, tom. 30, +parte 2a, paj. 153:--Um tóro de barrigudo em um cabo delgado e de facil +preensão, semelhante aos soquetes ou massetes de que ainda entre nós se +uza em muitas partes para bater a terra das sepulturas, posto que mais +poderozo que este, ou um grande pedaço de tronco de palmeira, era +colocado no meio do terreiro. Vinha o guerreiro correndo, tomava o +tronco, continuava a carreira, saltava fossos, subia elevações, +arrojava-se ás vezes ao rio com elle e quem chegava primeiro e levava +mais lonje a carga, esse ganhava a palma e a mulher que tinha de ser +espozada. Explicou-se esse costume, de que trata Barloeus, Marcgraff e +outros, e que ainda conservam algumas tribus do Piauí, pela necessidade +que tinha o guerreiro de defender a mulher, e para que em ocazião de +perigo a podesse salvar fujindo.» + + +Paj. 67 + +_O camucim da constancia_.--Lê-se no _Tezouro do Amazonas_, cit. tom. 3 +da _Revista do Instituto_, paj. 169. «O 5o predicado que tambem, como +muitas outras nações conservam os Arapiuns, é a prova da valentia quando +cazam; é um exame prévio ou o primeiro principio, como se diz nas +Universidades, a suas bodas, e uma experiencia ou tentativa de seu valor +para mostrarem que posto cazem não é por afeminados, mas por valentes. +Ha diversos generos dessa prova de valentia; mas uma mui ordinaria nos +indios Arapiuns é encherem uns grandes e compridos cabaços das formigas +que chamam saugas (_saúvas_) grandes e mui bravas; ferram na carne com +tanta ou mais valentia que os cães de fila, com proporção á grandeza +destes e pequenez daquellas; porque os cães assim vêm a largar; mas as +saugas não largam ainda que as matem e antes perderão a cabeça ficando +com as troquezes cravadas na carne do que soltarem ellas preza; por isso +uzam dellas alguns cirurjiões quando querem cozer alguma cicatriz com +segurança, sem uzarem pontos, como adiante dizemos. Cheios, pois, os +cabaços de saugas, não só famintas, mas quando estão com fome talvez de +dias ... e sobre isso bem enraivadas com sacudidelas, prezentes todos os +velhos e graves da missão, sae a terreiro o noivo examinando, +destapam-se os cabaços nos quais intrepido mete os braços, a que logo +acodem as filas, já para saciar a fome, já para dezabafar a ira, e já +para provar e castigar o bacharel, o qual posto que as dôres o façam +mudar de côres, torcer a boca, tremer o corpo, levantar as sobrancelhas +e arrebentar as lagrimas, tenha paciencia, que se quer, ha de aturar a +bucha, emquanto os examinadores já bebendo-lhe á saude e já dando voltas +em bailes se vão regalando á sua custa, etc. + + +Paj. 73 + +_Igapê_.--É o nenufar na lingua tupí, de _Ig_, _ipe_ e _potira_--flôr +d'agua. Os portuguezes corromperam essa palavra transformando-a em +_aguapé_, nome por que é vulgarmente conhecida. Penso eu, porém, que +devemos restaurar o nome indijena, até mesmo porque _aguapé_ tem diversa +significação em portuguez. + +Uma dessas nímféas, a rainha das flôres, a que os indios chamavam milho +d'agua, ou a flôr jaçanan, por servir de ninho a essas aves paludais, +nace branca e com a luz do sol vai rozeando até se tornar escarlate. + +Em uma noticia publicada pelos jornais li que o nome dessa flôr _napê +jaçanan_ significa, forno das jaçanans, do que duvido. O genitivo +exprimiam os indios com antepozição do nome rejido por esse cazo; assim +_napê jaçanan_ significaria jaçanan do forno. Demais nem _napê_ quer +dizer forno; nem forno indica a idéa que se pretende de pouzo ou ninho. + +_Uapê_ aí é o mesmo _igapê_ com a simples diferença de figurar-se a +vogal indijena por _u_ em vez de _ig_ adotada pelo geral dos autores. + + +Paj. 82 + +_Murinhem_.--Palavra composta de _morib_ afavel e _nheng_ +falar.--Veja-se a respeito dos cantores, _nhengara_, o que se disse na +nota a paj. 117. + + +Paj. 86 + +_Paan_.--Palavra da lingua Macaulí que significa seta--_Creban_ +significa homem alvo; e _Agniná_, monte. + + +Paj. 97 + +_Tomou a espoza aos hombros_.--Era entre as mulheres selvajens prova de +amor, suspenderem-se ás costas daquelles que preferiam, quando as +requestavam com cantos e dansas. Assim o atesta Marcgraff cit. «Ubi +vespera advenit, coeunt adolescentes in varias cohortes et castra +perambulantes cantillant ante tuguria adolescentula autem quæ juvenibus +delectantur, produnt et cantillantes atque tripudiantes sequuntur +adolescentes _et á tergo consistunt eorum quos amant, id enim ipsis +amoris testimonium est_. _Paj. 280_.» + +Escaparam-me algumas notas que a intelijencia do leitor suprirá. Todavia +rezumirei as de que me recordo neste momento. + +Á paj. 44, quando diz Jurandir que conta os anos pelos dedos, quer +dizer que não tem mais de vinte, pois tantos são os dedos das mãos e +pés. + +Á paj. 45, o grande lago que recolheu as aguas do diluvio é o _Manoa_, +em cujas marjens se fabulou o _El-Dorado_. _Manoa_ em achagua é diluvio, +segundo Gumilha, 2.o vol., 7; palavra homologa ao vocabulo tupí +_amana_, que significa chuva. + +Á paj. 45, o combate que Jurandir figura entre o mar e o Amazonas é a +descrição da pororoca. Elle chama as aguas do mar-guerreiros azues-por +causa da côr das vagas, e as aguas do rio-guerreiros vermelhos-porque a +corrente do rio é então barrenta. + +Á paj. 45, onde se diz que os anos de Guaribú enchiam a corda de sua +existencia alude-se ao costume que tinham os selvajens de contar os anos +pelos nós que davam em um cordel, outros pelos frutos do colar. + +Á paj. 40 faz-se referencia á lenda de Sumê, já muito conhecida. Foi +Sumê que ensinou aos tupís a agricultura e os primeiros rudimentos das +artes. + +Á paj. 54 fala-se de _matumbos_. São as leivas que se fazem no norte +para a plantação da mandioca. + + + + +INDICE + + + I--O caçador 5 + + II--O guerreiro 15 + + III--A noiva 24 + + IV--A hospitalidade 37 + + V--Servo do amor 51 + + VI--O combate nupcial 61 + + VII--A guerra 74 + + VIII--A batalha 85 + + IX--União dos arcos 92 + + Notas 101 + + +LIVRARIA ALVES + +EXTRACTO DO CATALOGO + +COLEÇÃO ALVES + +Nesta coleção serão publicadas obras celebres de autores nacionais e +estranjeiros ao modico preço de 1$000 réis cada volume, formato 16 +francez. + + 1-2--=O GUARANY=, por _José de Alencar_. 2$000 + 2 volumes br. 4$000 + A mesma obra, 2 vols. enc. + + 3--=A DAMA DAS CAMELIAS=, por _Alexandre Dumas, + Filho_.--(NO PRÉLO). + + 4-5--=HISTORIA DE UM CORAÇÃO=, por _Emilio Castellar_. + --(EM PREPARAÇÃO). + + 6--=IRACEMA=, (Lejenda do Ceará), por José de Alencar, + novissima edição. 1 vol. br. 1$000 + + 7--=LUCIOLA= (Um perfil de Mulher), por _José de Alencar_. + 1 vol. br. 1$000 + + 8--=CINCO MINUTOS--A VIUVINHA=, por _José de Alencar_. + 1 vol br. A mesma obra enc. em percalina 2$000 + + 9--=A MORENINHA=, por _J. M. de Macedo_. + 1 vol. br. 1$000 + A mesma obra enc. em percalina 2$000 + + 10--=ROMANCE DE UM MOÇO POBRE=, por _Octavio Feuillet_. + 1 vol. br. 1$000 + + 11--=TRONCO DE IPÈ=, por _José de Alencar_ 1$000 + A mesma obra enc. 2$000 + + 12--=A ESCRAVA IZAURA=, por _Bernardo Guimarães_. + 1 vol. br. 1$000 + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Ubirajara, by José Alencar + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK UBIRAJARA *** + +***** This file should be named 38496-8.txt or 38496-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/8/4/9/38496/ + +Produced by Júlio Reis, Fernanda Brojo, Manuela Alves, +Rory OConor and the Online Distributed Proofreading Team +at https://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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