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+The Project Gutenberg EBook of Ubirajara, by José Alencar
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Ubirajara
+ Lenda tupi
+
+Author: José Alencar
+
+Release Date: January 5, 2012 [EBook #38496]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK UBIRAJARA ***
+
+
+
+
+Produced by Júlio Reis, Fernanda Brojo, Manuela Alves,
+Rory OConor and the Online Distributed Proofreading Team
+at https://www.pgdp.net
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+
+ JOSÉ DE ALENCAR
+
+
+
+
+ UBIRAJARA
+
+ [Illustration]
+
+
+ FRANCISCO ALVES & C.a
+
+ RIO DE JANEIRO
+ 166, Rua do Ouvidor, 166
+
+ S. PAULO
+ 65, Rua de S. Bento, 65
+
+ BELO HORIZONTE
+ 1055, Rua da Baía, 1055
+
+
+ AILLAUD, ALVES & C.a
+
+ PARIS
+ 96, Boulevard Montparnasse
+ (Livraria Aillaud)
+
+ AILLAUD, ALVES, BASTOS & C.a
+
+ LISBOA
+ 73, Rua Garrett, 75
+ (Livraria Bertrand)
+
+ 1911
+
+
+
+
+ UBIRAJARA
+
+
+ Composto e impresso na Tipografia JOSÉ BASTOS Rua da Alegria,
+ 100--Lisboa
+
+
+
+
+ J. DE ALENCAR
+
+
+
+
+ UBIRAJARA
+
+
+ LENDA TUPI
+
+ [Illustration]
+
+
+ FRANCISCO ALVES & C.a
+
+ RIO DE JANEIRO
+ 166, Rua do Ouvidor, 166
+
+ S. PAULO
+ 65, Rua de S. Bento, 65
+
+ BELO HORIZONTE
+ 1055, Rua da Baía, 1055
+
+
+ AILLAUD, ALVES & C.a
+
+ PARIS
+ 96, Boulevard Montparnasse
+ (Livraria Aillaud)
+
+ AILLAUD, ALVES, BASTOS & C.a
+
+ LISBOA
+ 73, Rua Garrett, 75
+ (Livraria Bertrand)
+
+ 1911
+
+
+[Illustration]
+
+
+
+
+UBIRAJARA
+
+
+
+
+I
+
+O CAÇADOR
+
+
+Pela marjem do grande rio caminha Jaguarê, o joven caçador.
+
+O arco pende-lhe ao hombro, esquecido e inutil. As flechas dormem no
+coldre da uiraçaba.
+
+Os veados saltam das moitas de ubaia e vêm retouçar na grama, zombando
+do caçador.
+
+Jaguarê não vê o timido campeiro; seus olhos buscam um inimigo capaz de
+rezistir-lhe ao braço robusto.
+
+O rujido do jaguar abala a floresta; mas o caçador tambem despreza o
+jaguar, que já cançou de vencer.
+
+Elle chama-se Jaguarê, o mais feroz jaguar da floresta; os outros fojem
+espavoridos quando de lonje o presentem.
+
+Não é esse o inimigo que procura, porém outro mais terrivel, para
+vencel-o em combate de morte e ganhar nome de guerra.
+
+Jaguarê chegou á idade em que o mancebo troca a fama do caçador pela
+gloria do guerreiro.
+
+Para ser aclamado guerreiro por sua nação é precizo que o joven caçador
+conquiste esse titulo por uma grande façanha.
+
+Por isso deixou a taba dos seus e a prezença de Jandira, a virjem
+formoza que lhe guarda o seio de espoza.
+
+Mas o sol tres vezes guiou o passo rapido do caçador através das
+campinas, e tres vezes como agora deitou-se além nas montanhas da
+Aratuba, sem mostrar-lhe um inimigo digno de seu valor.
+
+A sombra vai decendo da serra pelo vale e a tristeza cae da fronte sobre
+a face de Jaguarê.
+
+O joven caçador empunha a lança de duas pontas, feita da roxa craúba,
+mais rija que o ferro.
+
+Nenhum guerreiro brandiu jámais essa arma terrivel, que sua mão primeiro
+fabricou.
+
+Lá estaca o joven caçador no meio da campina. Volvendo ao céu o olhar
+torvo e iracundo, solta ainda uma vez seu grito de guerra.
+
+O bramido rolou pela amplidão da mata e foi morrer lonje nas cavernas da
+montanha.
+
+Respondeu o ronco da sucurí na madre do rio e o urro do tigre escondido
+na furna; mas outro grito de guerra não acudiu ao dezafio do caçador.
+
+Jaguarê arremessou a lança, que vibrou nos ares e foi cravar-se além no
+grosso tronco da emburana.
+
+A copa frondoza ramalhou, como as palmas do coqueiro ao sopro do vento,
+e o tronco gemeu até á raiz.
+
+O caçador repouza á sombra de sua lança.
+
+ * * * * *
+
+Salta uma corça da mata e veloz atravessa a campina.
+
+Mais veloz a persegue gentil caçadora com a seta embebida no arco
+flexivel.
+
+Ergue-se Jaguarê.
+
+Seu olhar ardente voou, sofrego de encontrar o inimigo que lhe tardava.
+
+Avistando uma mulher, a alegria do mancebo apagou-se no rosto sombrio.
+
+Pela faxa côr de ouro, tecida das penas do tucano, Jaguarê conheceu que
+era uma filha da valente nação dos Tocantins, senhora do grande rio,
+cujas marjens elle pizava.
+
+A liga vermelha que cinjia a perna esbelta da estranjeira dizia que
+nenhum guerreiro jámais possuira a virjem formoza.
+
+A corça veiu cair aos pés de Jaguarê, atravessada pela flecha certeira
+da joven caçadora que a seguia de perto.
+
+A virjem reconheceu o cocar da nação que na ultima lua chegára aos
+campos do Taari e da qual os pajés tinham dado noticia.
+
+--Guerreiro araguaia, pois vejo pela pena vermelha de teu cocar que
+pertences a essa nação valente; se pizas os campos dos Tocantins como
+hospede, bem vindo sejas; mas se vens como inimigo, foje, para que tua
+mãi não chore a morte de seu filho e tenha quem a proteja na velhice.
+
+--Virjem dos Tocantins, Jaguarê já soltou seu grito de guerra. Elle piza
+os campos de teus pais como senhor. Tu és sua prizioneira. Não que
+vencer a corça timida seja gloria para o caçador; mas tu chamarás o
+inimigo que elle espera.
+
+--Se o veado te der a sua lijeireza, joven guerreiro, elle não te
+servirá senão para ver o rasto de meu pé antes que o vento o apague.
+
+A linda caçadora desferiu a corrida pela imensa campina. Após ella se
+arremessou Jaguarê, que muitas vezes vencera o tapir.
+
+Mas a virjem dos Tocantins corria como a nandú no dezerto, e o caçador
+conheceu que seu braço nunca a poderia alcançar.
+
+Travou do arco e o brandiu. A seta obedeceu-lhe, pregando no tronco do
+assaí a faxa que flutuava ao sopro do vento.
+
+--A filha dos Tocantins tem no pé as azas do beija-flôr; mas a seta de
+Jaguarê vôa como o gavião. Não te assustes, virjem das florestas; tua
+formozura venceu o impeto de meu braço e apagou a cólera no coração
+feroz do caçador. Feliz o guerreiro que te possuir.
+
+--Eu sou Arací, a estrela do dia, filha de Itaquê, pai da grande nação
+Tocantim. Cem dos melhores guerreiros o servem em sua cabana para
+merecer que elle o escolha por filho. O mais forte e valente me terá por
+espoza. Vem comigo, guerreiro araguaia; excede aos outros no trabalho e
+na constancia, e tu romperás a liga de Arací na proxima lua do amor.
+
+--Não, filha do sol; Jaguarê não deixou a taba de seus pais, onde
+Jandira lhe guarda o seio de espoza, para ser escravo da virjem. Elle
+vem combater e ganhar um nome de guerra que encha de orgulho a sua
+nação. Torna á taba dos Tocantins e dize aos cem guerreiros cativos de
+teu amor, que Jaguarê, o mais destemido dos caçadores araguaias, os
+dezafia ao combate.
+
+--Arací vai, pois assim o queres. Se fores vencido, ella guardará tua
+lembrança, pois nunca seus olhos viram mais belo caçador. Se fores
+vencedor, será uma alegria para a virjem do sol pertencer ao mais
+valente dos guerreiros.
+
+A virjem disse e dezapareceu na selva. Os olhos de Jaguarê seguiram o
+passo lijeiro da formoza caçadora, como o guachimim que rasteja a
+zabelê.
+
+Quando ella dezapareceu, o joven caçador recostou-se ao tronco da
+emburana e esperou.
+
+ * * * * *
+
+Do outro lado da campina assoma um guerreiro.
+
+Tem na cabeça o canitar das plumas de tucano, e no punho do tacape uma
+franja das mesmas penas.
+
+É um guerreiro tocantim. De lonje avistou Jaguarê e reconheceu o penacho
+vermelho dos araguaias.
+
+As duas nações não estão em guerra; mas sem quebra da fé póde um
+guerreiro cansado do longo repouzo oferecer a outro guerreiro combate
+leal.
+
+Quando o tocantim armou o arco, Jaguarê já tinha brandido o seu e
+disparado no ar uma seta, mensajeira do dezafio.
+
+Respondeu o guerreiro disparando tambem uma flecha no ar, para dizer que
+aceitava o combate.
+
+Então os dois campeões caminharam um para o outro com o passo grave e
+pararam frente a frente.
+
+--Eu sou Jaguarê, filho de Camacan, chefe da valente nação dos
+araguaias, que vem de lonje em busca da terra de seus pais. Minha fama
+corre as tabas e tu já deves conhecer o maior caçador das florestas. Mas
+Jaguarê despreza a fama de caçador; elle quer um nome de guerra, que
+diga ás nações a força de seu braço e faça tremer aos mais bravos. Se
+tua nação te aclamou forte entre os fortes, prepara-te para morrer; se
+não, passa teu caminho, guerreiro vil, para que o sangue do fraco não
+manche o tacape virjem de Jaguarê.
+
+--O caraiba guiou teu passo ao encontro de Pojucan, o matador de gente,
+guerreiro chefe da terrivel nação tocantim, que enche de terror as
+outras nações. Ha tres luas, desde que fujiram espavoridos os barbaros
+Tapuias, que Pojucan não combate; e seu tacape tem fome do inimigo. Tu
+não és digno dos golpes de um guerreiro chefe; mas Pojucan se compadece
+de tua mocidade e consente em combater comtigo. Terás a gloria de ser
+morto pelo mais valente guerreiro tocantim. Os cantores de meus feitos
+lembrarão teu nome; e todos os mancebos de tua nação invejarão tua
+sorte.
+
+--Jaguarê agradece a Tupan que te fez um grande guerreiro e o chefe mais
+feroz da terrivel nação tocantim, Pojucan, matador de gente. A tua morte
+será a primeira façanha do caçador araguaia e lhe dará um nome de guerra
+que se torne o espanto dos seus e o terror das outras nações.
+
+Os dois campeões recuaram passo a passo até que se acharam a um tiro de
+arco.
+
+Então soltaram o grito de guerra e se arremessaram um contra outro
+brandindo o tacape.
+
+ * * * * *
+
+Os tacapes toparam no ar e os dois guerreiros rodaram como as torrentes
+impetuozas no remoinho da Itaoca.
+
+Dez vezes as clavas bateram, e dez vezes volveram para bater de novo.
+
+Os animais que passavam na floresta fujiram espavoridos, como se a
+borrasca ribombasse no céu.
+
+Ainda uma vez encontraram-se os dois tacapes e voaram em lascas pelos
+ares.
+
+--O ubiratan é forte; mas ha outro ubiratan que lhe reziste. Como o
+braço de Pojucan é que não ha outro braço. Já viste, joven caçador, o
+veado nas garras da giboia? Assim vais morrer.
+
+--Se tu fosses a cascavel que sómente sabe morder, Jaguarê te esmagaria
+a cabeça com o pé e seguiria o seu caminho. Mas tu és a giboia feroz; e
+Jaguarê gosta de estrangular a giboia. Não morrerás pelo pé, mas pela
+mão do caçador. Lança teu bote, guerreiro tocantim.
+
+Pojucan estendeu os braços e estreitou os rins de Jaguarê, que por sua
+vez cinjiu os lombos do guerreiro.
+
+Cada um dos campeões pôz na luta todas as suas forças, bastantes para
+arrancar o tronco mais robusto da mata.
+
+Ambos, porém, ficaram imoveis. Eram dois jatobás que naceram juntos e
+entrelaçaram os galhos ligando-se no mesmo tronco.
+
+Nada os desprende; nada os abala. O tufão passa bramindo sem ajital-os;
+e elles permanecem quedos pelo volver dos tempos.
+
+Um pajé que passou na orla da mata viu os lutadores e esconjurou-os,
+pensando que eram as almas de dois guerreiros prezos no abraço da morte.
+
+Já a sombra se desdobrava pelo vale fóra e o sol despedia-se dos cimos
+dos montes, sem que os campeões se movessem.
+
+Por fim afrouxaram os braços e cada lutador recuou para contemplar seu
+adversario. Nenhum mostrava no rosto sombra de fadiga.
+
+Conheceram que podiam lutar corpo a corpo, a noite inteira, sem que um
+prostrasse o outro.
+
+--Tu és igual na valentia e na força ao guerreiro chefe da nação
+tocantim. Mas Pojucan não consente que haja na terra quem rezista a seu
+braço. É precizo que tu morras, Jaguarê, para que elle seja o primeiro
+dos guerreiros que o sol alumia.
+
+--Pojucan, matador de gente, guerreiro feroz da nação tocantim, Jaguarê
+deixou-te viver até este momento para saber se tu eras digno de dar-lhe
+um nome de guerra. Agora que te conhece como o primeiro dos guerreiros
+que existiram até este momento, elle quer que tua derrota seja a sua
+primeira façanha.
+
+Disse, e, arrancando do tronco da emburana a lança de duas pontas,
+caminhou outra vez para Pojucan.
+
+--Esta arma que tu vês é a lança de duas pontas. Jaguarê fabricou-a do
+rijo galho da craúba, endurecido pelo fogo. Sua mão foi a primeira que a
+arremessou e teu corpo é o primeiro cujo sangue ella vai beber. Empunha
+a lança de duas pontas, guerreiro chefe, e ataca Jaguarê para receberes
+a morte dos valentes.
+
+ * * * * *
+
+Pojucan repeliu a lança que o joven caçador lhe aprezentára.
+
+--Jámais no combate um guerreiro tocantim atacará seu adversario
+dezarmado; nem Pojucan preciza da lança. Ataca tu, Jaguarê, que não tens
+confiança em teu braço; o de Pojucan basta para te prostrar.
+
+--O orgulho te cega, guerreiro chefe. A lança conhece Jaguarê que a
+inventou e lhe obedece como o arpão á corda do pescador. Aperta-a bem em
+tua mão robusta e Jaguarê estará duas vezes mais armado do que tu, que
+não sabes manejal-a.
+
+O chefe tocantim cruzou os braços.
+
+--Toma a lança, Pojucan, se não queres que te chame covarde; pois tu
+sabes que Jaguarê não te matará dezarmado, mas te abandonará como
+indigno de combater com o filho do maior guerreiro araguaia, o grande
+Camacan.
+
+O chefe tocantim arrojou-se contra Jaguarê que lhe travou dos pulsos e
+outra vez os dois campeões ficaram imoveis.
+
+A noite veiu achal-os na mesma pozição. Tres vezes cessaram a luta, e de
+novo a travaram. Mas afinal se convenceram que nenhum derrubaria o
+outro.
+
+Então Pojucan disse:
+
+--Guerreiro araguaia, é precizo acabar o combate. A terra não chega
+para dois guerreiros como nós. Finca no chão a lança e caminhemos até á
+marjem do rio. Aquelle que primeiro chegar, será o senhor da lança e da
+vida do outro.
+
+Assim fizeram os dois campeões. Chegados á marjem do rio, dispararam a
+corrida. Ao mesmo tempo a mão de ambos tocou a haste da lança; mas
+Jaguarê, arremessado pelo impeto da desfilada, não pôde arrancar a arma
+que ficou na mão de Pojucan.
+
+ * * * * *
+
+O guerreiro chefe enrista desdenhozamente a lança e caminha para
+Jaguarê. Não vai como o guerreiro que marcha ao combate, mas como o
+matador que se prepara para imolar a vitima.
+
+--Guerreiro chefe, Jaguarê não te quer matar como a serpente que ataca o
+descuidado caçador. Dez vezes já, se quizesse, elle te houvera ferido
+com tua propria mão.
+
+--Abandona a gloria do guerreiro, que não é para ti, nhengaíba. Pojucan
+te concederá a vida, e te levará cativo á taba dos tocantins para que tu
+cantes as suas façanhas na festa dos guerreiros.
+
+--Cativo serás tu, mas não para cantar os feitos dos guerreiros. Tu
+servirás na taba dos araguaias para ajudar as velhas a varrer a oca.
+
+Arremessou-se Pojucan avante e desfechou o golpe; mas a lança rodára e
+foi o chefe tocantim quem recebeu no peito a ponta farpada.
+
+Quando o corpo robusto de Pojucan tombava, cravado pelo dardo, Jaguarê
+de um salto calcou a mão direita sobre o hombro esquerdo do vencido e
+brandindo a arma sangrenta, soltou o grito do triunfo:
+
+--Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro invencivel que tem
+por arma a serpente. Reconhece o teu vencedor, Pojucan, e proclama o
+primeiro dos guerreiros, pois te venceu a ti, o maior guerreiro que
+existiu antes delle.
+
+--Se meu valor, que serviu para aumentar a tua fama, merece de ti uma
+graça, não deixes que Pojucan sofra mais um instante a vergonha de sua
+derrota.
+
+--Não, chefe tocantim. Tu me acompanharás á taba dos araguaias para
+narrar meu valor. A fama de Jaguarê preciza de um prizioneiro como o
+grande Pojucan na festa da vitoria.
+
+--Tu és cruel, guerreiro da lança; mas fica certo que, se tua arma
+traiçoeira me feriu o peito, o suplicio não vencerá a constancia do
+varão tocantim que sabe afrontar as iras de Tupan e desprezar a vingança
+dos araguaias.
+
+
+
+
+II
+
+O GUERREIRO
+
+
+Retumba a festa na taba dos araguaias.
+
+As fogueiras circulam a vasta ocara e derramam no seio da noite escura
+as chamas da alegria.
+
+Toda a tarde o trocano reboou chamando os guerreiros das outras tabas á
+grande taba do chefe.
+
+Era a festa guerreira de Jaguarê, filho de Camacan, o maior chefe dos
+araguaias.
+
+No fundo da ocara prezide o conselho dos anciãos, que decide da paz ou
+da guerra, e governa a valente nação.
+
+Os anciãos, sentados no longo giráu, contemplam taciturnos a geração de
+guerreiros que elles ensinaram a combater, e têm saudades da passada
+gloria.
+
+Suspenso em frente delles está o grande arco da nação araguaia, ornado
+nas pontas das penas vermelhas da arara.
+
+É a insignia do chefe dos guerreiros, a qual Camacan, pai de Jaguarê,
+conquistou na mocidade e ainda a conserva, pois ninguem ouza disputal-a.
+
+Eil-o, o velho chefe, embaixo do arco, que sua mão tantas vezes brandiu
+na guerra. Em pé, arrimado ao invencivel tacape, elle dirije a festa.
+
+De um e outro lado da vasta ocara, está a multidão dos guerreiros,
+colocados por sua ordem; primeiro os chefes das tabas; depois os varões;
+por ultimo os moços guerreiros.
+
+Vêm depois os jovens caçadores que já deixaram a oca materna e estão
+impacientes de ganhar por suas proezas a honra de serem admitidos entre
+os guerreiros.
+
+Mas para isso têm de passar pelas provas, e sua juventude não lhes
+consente ainda a robustez, que tamanho esforço demanda.
+
+Todos invejam a gloria de Jaguarê que hontem era o primeiro entre elles,
+e hoje ali está disputando a fama aos mais valentes guerreiros.
+
+Por detraz da estacada apinham-se as mulheres, que segundo o rito
+patrio não podem ser admitidas nas festas guerreiras.
+
+De lonje acompanham silenciozas com os olhos, as velhas aos filhos, as
+espozas aos seus guerreiros, e as virjens aos noivos.
+
+Exultam quando ouvem celebrar as façanhas dos seus; mas não ouzam
+murmurar uma palavra.
+
+Entre ellas está Jandira, a doce virjem, cujos negros olhos não se
+cansam de admirar Jaguarê, seu futuro senhor.
+
+Já lhe tarda o momento de ver aclamar guerreiro ao joven caçador, para
+ter a felicidade de servil-o como escrava na paz, e acompanhal-o como
+espoza ao combate.
+
+ * * * * *
+
+No centro da ocara ergueu-se Jaguarê.
+
+Defronte delle, Pojucan, no corpo que a ferida não abateu, mostra a
+grande alma, serena em face dos inimigos.
+
+Camacan troou a inubia para ordenar silencio e o filho começou:
+
+--Guerreiros araguaias, ouvi a minha historia de guerra.
+
+«Depois que Jaguarê sofreu as provas do valor, partiu para conquistar um
+nome famozo.
+
+«Deixando a taba, viu o falcão negro que despedia o vôo para as aguas
+sem fim, e Jaguarê disse:
+
+«O falcão negro é o valente guerreiro dos ares; elle será a fama do
+guerreiro araguaia que atravessará as nuvens e subirá ao céu.
+
+«Então Jaguarê marcou o vôo do falcão negro e seguiu por elle.
+
+«O sol despediu-se e voltou; uma, duas, tres vezes. No ultimo sol
+Jaguarê encontrou um guerreiro da nação tocantim, senhora do grande rio.
+
+«Guerreiros araguaias, quereis saber qual foi o campeão que Tupan enviou
+a Jaguarê para dar-lhe o nome de guerra?
+
+«Elle aí está diante de vós.
+
+«É o grande Pojucan, o feroz matador de gente, chefe da tribu mais
+valente da poderoza nação dos tocantins, senhores do grande rio.
+
+«Vós que o tendes aqui prezente, vêde como é terrivel o seu aspeto, mas
+só eu que o pelejei conheço o seu valor no combate.
+
+«O tacape em sua mão possante é como o tronco do ubiratan que brotou no
+rochedo e creceu.
+
+«Jaguarê, que arranca da terra o cedro gigante, não o pôde arrancar de
+sua mão; e foi obrigado a despedaçal-o.
+
+«Os braços de Pojucan, quando elle os estende na luta, não ha quem os
+vergue; são dois penedos que saem da terra.
+
+«Seu corpo é a serra que se levanta no vale. Nenhum homem, nem mesmo
+Camacan, o póde abalar.
+
+«Pojucan era o varão mais forte e o mais valente guerreiro que o sol
+tinha visto até áquelle momento.
+
+«Foi este, guerreiros araguaias, o heróe que ofereceu combate ao filho
+de Camacan; e Jaguarê aceitou, porque logo conheceu que havia encontrado
+um inimigo digno de seu valor.
+
+«Elle vos contempla, guerreiros araguaias. Se alguem duvida da palavra
+de Jaguarê e da força do guerreiro tocantim, chame-o a combate e saberá
+quem é Pojucan.»
+
+O chefe tocantim lançou um olhar ameaçador á multidão dos guerreiros;
+mas nenhum ouzou aceitar o dezafio.
+
+ * * * * *
+
+Pojucan alçou a mão em sinal de que dezejava falar; todos escutaram com
+respeito o heróe, ainda maior na desgraça.
+
+--Guerreiros araguaias, ouvi a voz de Pojucan, vosso inimigo, que
+afronta as iras dos fortes e despreza a vingança dos fracos.
+
+«Pojucan, guerreiro chefe da grande nação tocantim, jámais encontrou
+guerreiro que rezistisse á força de seu braço invencivel.
+
+«Mas Tupan, cansado de ouvir celebrar em todas as festas o nome de
+Pojucan, como vencedor, emprestou sua força a Jaguarê, o maior guerreiro
+que já pizou a terra.
+
+«Eu que senti o impeto de sua corajem, posso dizer-vos que só o sangue
+tocantim é capaz de gerar um guerreiro tão poderozo.
+
+«Foi alguma virjem araguaia que vagando pela floresta encontrou Pojucan,
+e trouxe no seio fecundo a alma do grande guerreiro.
+
+«Seu braço é como o corisco do céu; e a sua força como a tempestade que
+dece das nuvens.»
+
+Calou-se Pojucan; e Jaguarê continuou o seu canto de guerra:
+
+«Quando a sombra começava a decer da crista da montanha, Pojucan e
+Jaguarê caminharam um contra o outro.
+
+«Toda a noite combateram. O sol nacendo veiu achal-os ainda na peleja,
+como os deixára; nem vencidos, nem vencedores.
+
+«Conheceram que eram os dois maiores guerreiros, na fortaleza do corpo,
+e na destreza das armas.
+
+«Mas nenhum consentia que houvesse na terra outro guerreiro igual; pois
+ambos queriam ser o primeiro.
+
+«Foi então que o chefe tocantim ganhou na corrida a lança de duas
+pontas, que Jaguarê havia fabricado.
+
+«Tres vezes seu punho robusto a brandiu, e tres vezes ella escapou-lhe
+da mão, como a serpente das garras do gavião.
+
+«Mais uma vez o grande guerreiro investiu com o bote armado; e a lança,
+escrava de Jaguarê, cravou o peito do inimigo.
+
+«Elle caiu, o guerreiro chefe, o grande varão dos tocantins, o valente
+dos valentes, Pojucan, o feroz matador de gente.
+
+«E Jaguarê brandindo a arma da vitoria bradou:
+
+«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, que venceu o primeiro guerreiro
+dos guerreiros de Tupan.
+
+«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro terrivel que tem por
+arma uma serpente.»
+
+ * * * * *
+
+O trocano ribombou, derramando lonje pela amplidão dos vales e pelos
+écos das montanhas a pocema do triunfo.
+
+Os tacapes, vibrados pela mão pujante dos guerreiros, bateram nos largos
+escudos retinindo.
+
+Mas a voz possante da multidão dos guerreiros cobriu o imenso rumor
+clamando:
+
+--Tu és Ubirajara, o senhor da lança, o vencedor de Pojucan, o maior
+guerreiro da nação tocantim.
+
+«Os guerreiros araguaias te recebem por seu irmão nas armas e te aclamam
+forte entre os fortes.
+
+«Os cantores celebrarão teu nome como os mais famozos da nação araguaia
+e Camacan terá a gloria de chamar-se pai de Ubirajara, como foi gloria
+para Jaguarê ser filho de Camacan.»
+
+Quando parou o estrondo da festa e cessou o canto dos guerreiros,
+avançou Camacan, o grande chefe dos araguaias.
+
+De um salto o ancião alcançou o arco da nação, insignia do chefe na
+guerra, e caminhou para Ubirajara.
+
+O arco era de ubiratan, grosso como o braço do mais robusto guerreiro; a
+corda trançada de crautá tinha o corpo do dedo que a brandia.
+
+Os mais possantes varões da nação araguaia a custo empunhavam o grande
+arco; mas só um tinha força para disparar a seta.
+
+Era Camacan, o chefe dos chefes, que dirijia na guerra os guerreiros
+araguaias.
+
+Assim falou o ancião:
+
+--Ubirajara, senhor da lança, é tempo de empunhares o grande arco da
+nação araguaia, que deve estar na mão do mais possante. Camacan o
+conquistou no dia em que escolheu por espoza Jaçanan, a virjem dos olhos
+de fogo, em cujo seio te gerou seu primeiro sangue. Ainda hoje, apezar
+da velhice que lhe mirrou o corpo, nenhum guerreiro ouzaria disputar o
+grande arco ao velho chefe, que não sofresse logo o castigo de sua
+audacia. Mas Tupan ordena que o ancião se curve para a terra até
+dezabar como o tronco carcomido, e que o mancebo se eleve para o céu
+como a arvore altaneira. Camacan revive em ti; a gloria de ser o maior
+guerreiro crece com a gloria de ter gerado um guerreiro ainda maior do
+que elle.
+
+ * * * * *
+
+Ubirajara tomou o arco que lhe aprezentava o pai e disse:
+
+--Camacan, tu és o primeiro guerreiro e o maior chefe da nação araguaia.
+Para a gloria de Jaguarê bastava que elle se mostrasse teu filho no
+valor como é teu filho no sangue. Mas o grande arco da nação araguaia,
+Ubirajara não o recebe de ti e de nenhum outro guerreiro, pois o ha de
+conquistar pela sua pujança.
+
+Disse, e arremessando no meio da ocara o grande arco, bradou:
+
+--O guerreiro que ouze empunhar o grande arco da nação araguaia, venha
+disputal-o a Ubirajara.
+
+Nenhuma voz se ergueu; nenhum campeão avançou o passo.
+
+O trocano reboou de novo, e no meio da pocema de triunfo, a multidão dos
+guerreiros proclamou:
+
+--Ubirajara, senhor da lança, tu és o mais forte dos guerreiros
+araguaias; empunha o arco chefe.
+
+Então Ubirajara levantou o grande arco, e a corda zuniu como o vento na
+floresta.
+
+Era a primeira seta, mensajeira do chefe, que levava ás nuvens a fama de
+Ubirajara.
+
+Os cantores exaltaram a gloria dos dois chefes: a do velho Camacan, que
+trocára a arma do guerreiro pelo bordão do conselho; e a do joven
+Ubirajara, que na sua mocidade já se mostrava tão grande, como fôra o
+pai na robustez dos anos.
+
+Pojucan teve o consolo de ouvir seu nome, repetido muitas vezes e
+louvado a par com o de seu vencedor.
+
+Os cantores celebraram depois os grandes feitos da nação araguaia, desde
+os tempos remotos em que os projenitores deixaram a grande taba dos
+Tamoios, seus avós.
+
+Quando os nhengaçáras entoaram o canto do triunfo, vieram as mulheres
+com vazos cheios do generozo cauim e aprezentaram as taças aos
+guerreiros.
+
+Jandira suspirou; ella era virjem, e como suas companheiras, não podia
+aparecer na festa dos guerreiros.
+
+Sentiu não ser já espoza, para ter o orgulho de encher de vinho
+espumante, por ella fabricado, a taça de seu heróe e senhor.
+
+O guincho agoureiro da inhúma resoava na mata, quando começou a dansa
+guerreira que durou até perto da alvorada.
+
+
+
+
+III
+
+A NOIVA
+
+
+Ao raiar da luz no céu, Jandira abriu os lindos olhos negros.
+
+Seu canto foi o primeiro que saudou o nacer do dia e acordou em seu
+ninho a viuvinha.
+
+A doce filha de Majé saltou da rêde que embalára os sonhos castos da
+virjem, e despediu-se della como a jaçanan que deixa a moita para
+habitar o ninho do amor.
+
+A virjem tocantim acreditava ter dormido a ultima noite na cabana
+paterna, que essa manhã ia trocar pela cabana do espozo.
+
+O joven caçador que a amava, Jaguarê, fôra aclamado guerreiro, e entre
+todos os guerreiros o chefe da nação.
+
+Como guerreiro elle póde tomar uma espoza; e como chefe pertence-lhe a
+virjem de sua escolha, entre as mais formozas da taba.
+
+Ainda que a virjem tenha um noivo, ou que o pai a destine a outro, se o
+chefe a dezeja, a vontade de Tupan é que lhe pertença.
+
+Tupan assim ordena para que os grandes chefes possam gerar de seu sangue
+os mais belos e valentes guerreiros.
+
+Jaguarê antes de ser aclamado chefe já a tinha escolhido, e Jandira não
+aceitaria outro noivo senão o joven caçador a quem amava.
+
+Ella o espera. Logo que o sol alumie a terra, Ubirajara, o grande chefe,
+ha de vir buscal-a.
+
+Então a virjem se despedirá de Majé; e irá armar na cabana de seu
+guerreiro e senhor a rêde da espoza.
+
+Lijeira e contente corre a banhar-se no rio antes que chegue Ubirajara,
+para quem purifica seu corpo e se unje com o oleo fragrante do
+sassafraz.
+
+Ella quer que o destemido guerreiro ache seu amor saborozo como o vinho
+que espumá na taça, e ferve nas veias.
+
+Tornando á cabana, perfumou de beijoim a larga rêde que tecera dos fios
+do algodão entrelaçados com as penas do guará.
+
+Essa rêde tinha duas vezes o tamanho de sua rêde de virjem, porque era a
+rêde do cazamento em que devia receber o espozo.
+
+Depois arrumou no urú a louça que havia fabricado para o serviço do
+guerreiro, e que devia transportar á sua nova cabana.
+
+Quando terminou todos os preparativos, encostou-se á porta da cabana;
+seus olhos impacientes chamavam Ubirajara.
+
+Mas o guerreiro não vinha, e o sol já tinha subido além da crista da
+serra.
+
+A luz do dia derramava a alegria pelos campos; e a alegria que lhe
+afagára os sonhos da noite fujia agora da alma de Jandira.
+
+Então a filha de Majé partiu em busca do noivo que a esquecera.
+
+ * * * * *
+
+No mais escuro da mata vaga o chefe dos araguaias.
+
+Seus olhos fojem á luz do dia e buscam a sombra, onde encontram a imajem
+que traz na lembrança.
+
+Á noite quando o guerreiro dormia em sua rêde solitaria, Arací, a linda
+virjem, lhe apareceu em sonho e lhe falou:
+
+--Jaguarê, joven caçador, tu dormes descansado emquanto os guerreiros
+tocantins se preparam para roubar a virjem de teus amores. Ergue-te e
+parte, se não queres chegar tarde.
+
+Elle erguera-se para seguil-a; mas a virjem formoza desferiu a corrida
+veloz através da campina e dezapareceu na floresta.
+
+Neste ponto do sonho o guerreiro acordára.
+
+Uma estrela brilhante listrava o céu, como uma lagrima de fogo, e
+Ubirajara pensou que era o rasto de Arací, a filha da luz.
+
+A jurití arrolhou docemente na mata e Ubirajara lembrou-se da voz
+mavioza da virjem do sol.
+
+O guerreiro tornou á rêde, esperando achar ali outra vez o sonho que
+vizitára sua alma; porém o sono fujira de seus olhos.
+
+Quando raiou a primeira alvorada, Ubirajara saiu da cabana e buscou no
+mais espesso da mata a sombra propicia á saudade.
+
+Seu passo o guiava sem querer para as bandas do grande rio, onde devia
+ficar a taba dos tocantins.
+
+É assim que os coqueiros, imoveis na praia, inclinam para o nacente seu
+verde cocar.
+
+Ubirajara ouviu o rumor de um passo lijeiro através da mata; de lonje
+conheceu Jandira que o procurava.
+
+A doce virjem achára á porta da cabana o rasto do guerreiro e o seguira
+através da floresta.
+
+--Que máu sonho aflige Ubirajara, o senhor da lança e o maior dos
+guerreiros, chefe da grande nação araguaia, para que elle se afaste de
+sua taba e esqueça a noiva que o espera.
+
+--A tristeza entrou no coração de Ubirajara, que não sabe mais dizer-te
+palavras de alegria, linda virjem.
+
+--A tristeza é amarga; quando entra no coração do guerreiro, o enche de
+fel. Mas Jandira fará como sua irmã, a abelha, ella fabricará em seus
+labios os favos mais doces para seu guerreiro; suas palavras serão os
+fios de mel que ella derramará na alma do espozo.
+
+--Filha de Majé, doce virjem, ainda não chegou o dia em que Ubirajara
+escolha uma espoza; nem elle sabe ainda qual o seio que Tupan destinou
+para gerar o primeiro filho do grande chefe dos araguaias.
+
+ * * * * *
+
+O labio de Jandira emudeceu; mas o peito soluçou.
+
+A virjem conheceu que o amor de Ubirajara retirava-se della, e que de
+todo o perderia se o não defendesse.
+
+Então escondeu a dôr no fundo da alma e chamou o rizo a seus labios, a
+alegria a seus olhos.
+
+Ella sabia que os guerreiros amam a flôr da formozura, como a folhajem
+da arvore; e que a tristeza murcha a graça da mais linda virjem.
+
+--Chefe dos araguaias, Ubirajara, não desprezes Jandira que outr'ora
+escolheste para tua noiva. Se então ella era formoza a teus olhos, mais
+formoza se fará para merecer teu amor. Tu gostavas de seus cabelos
+negros que arrastam no chão; ella os entrançará com as plumas vermelhas
+do guará para que te pareçam mais bonitos. Seus olhos negros que te
+falavam, ella os cercará de uma listra amarela como os olhos da jaçanan.
+Sua boca, que ainda não provaste, Jandira a encherá de amor para que
+bebas nella o contentamento.
+
+Jandira esperou a palavra de Ubirajara; mas os labios mudos do guerreiro
+não se abriram.
+
+--Teu amor, Ubirajara, ficará em meu seio como a flôr no vale. Jandira
+te dará muitos filhos e todos dignos de teu valor. Nestes peitos, que te
+pertencem, ella os nutrirá com seu sangue, não menos guerreiro do que o
+teu; porque é o sangue de Majé, o maior dos anciãos, depois de Camacan.
+Seus braços que outr'ora querias para tua cintura, não servirão
+unicamente para te abraçarem, mas tambem para te servirem. Tua espoza te
+acompanhará por toda a parte, na taba, como no campo do combate; ella
+cuidará de tua cabana; aprontará as mais saborozas iguarias para seu
+guerreiro, e fabricará para elle o vinho, que é a alma da festa.
+
+--Jandira é a mais bela das virjens araguaias. Seu amor fará a ventura
+de um guerreiro valente. Ubirajara não podia achar para si uma espoza
+mais fiel, nem para seus filhos outra mãi tão fecunda. Mas a noite deceu
+em sua alma. Só a estrela do dia póde restituir-lhe a alegria que o
+abandonou. A filha de Majé merece um guerreiro que tenha olhos para a
+sua formozura.
+
+ * * * * *
+
+Pojucan sentou-se pensativo á porta da cabana.
+
+O semblante, sempre grave, como convém a um chefe, cobre-se de tristeza.
+
+A noite que foje da terra, vencida pelo sol, parece recolher-se na alma
+do chefe tocantim.
+
+Não é sua ferida que o faz sofrer. O balsamo suave da embaiba sára
+rapidamente os golpes mais profundos; e os varões tocantins aprendem
+desde o berço a desprezar a dôr.
+
+É em seu coração de guerreiro, que Pojucan sente as garras do Anhanga.
+
+O revez de ser vencido e cair prizioneiro, elle o suporta como o varão
+forte que viu prostrados por Aresqui no campo da batalha os mais
+terriveis guerreiros.
+
+A grandeza do vencedor o consola; resta-lhe ainda a gloria de ter
+rezistido a um braço, como o de Ubirajara, grande chefe dos araguaias.
+
+Mas elle esperava que depois de haver ornado com sua prezença a festa do
+triunfo, o vencedor fosse generozo, e lhe concedesse a honra do
+sacrificio.
+
+É o temor de que Ubirajara lhe recuze uma morte glorioza e o retenha
+cativo, que nesse momento acabrunha o chefe dos tocantins.
+
+Elle, um guerreiro livre que pizára outr'ora como senhor aquelles
+campos, reduzido á condição de escravo?
+
+Elle, um varão chefe que tinha na obediencia de seu arco mais de mil
+guerreiros valentes, obrigado a reconhecer um dono?
+
+Elle, que afrontava a cólera de Tupan, quando o deus irado rujia do céu,
+curvar-se ao aceno de um homem, fosse embora o mais pujante dos filhos
+da terra?
+
+Pojucan estremecia quando se lembrava que podia ser condenado a tão
+grande humilhação.
+
+Em seu terror promovia o passo, com o impeto de fujir para sempre da
+taba dos araguaias, onde o ameaçava aquella vergonha.
+
+Mas uma força invencivel atava-lhe a vontade. Elle não se pertencia
+desde o momento em que Ubirajara lhe calcou a mão direita no hombro.
+
+Esse era o sinal da conquista, que prendia o vencido ao vencedor;
+aquelle que violasse a lei da guerra, perderia para sempre o nobre
+titulo de guerreiro.
+
+O desprezo do inimigo o acompanharia aos seus campos nativos; e a taba
+de seus irmãos não se abriria para o fujitivo que houvesse dezhonrado o
+nome de sua nação.
+
+Por isso na cabana solitaria, Pojucan está mais guardado do que se o
+cercasse a multidão dos guerreiros araguaias.
+
+Véla elle proprio em si, porque véla em sua fama.
+
+Póde Ubirajara esquecel-o, que na volta o encontrará ali onde o deixou.
+
+Nada o arrancará da cabana; nem a necessidade de buscar o alimento para
+o corpo.
+
+Bem vinda será a fome, se durar tanto que prostre seu corpo robusto, e o
+entregue ao seio da terra, onde o guerreiro dorme o sono da gloria.
+
+Além rompe da selva Ubirajara, que se encaminha para a cabana com o
+passo rapido.
+
+Segue-o de perto Jandira, como a gentil corça acompanha o caçador, que
+lhe roubou o companheiro.
+
+Descobrindo o chefe dos araguaias, Pojucan encerrou a tristeza dentro de
+sua alma; e chamou ao rosto a altivez dos grandes guerreiros.
+
+O chefe tocantim não queria que seu vencedor se regozijasse de ter-lhe
+abatido o animo inflexivel.
+
+ * * * * *
+
+Quando Ubirajara se aproximou da cabana, Pojucan tomou-lhe o passo.
+
+--Ubirajara, senhor da lança, grande chefe da nação araguaia, não
+confessaste tu diante dos anciãos das tabas e de todos os teus
+guerreiros, que Pojucan era o varão mais forte e o mais terrivel no
+combate, que o sol tinha visto até o momento de ser vencido por ti?
+
+--Ubirajara o disse. É a voz da nação araguaia.
+
+--Desde que tu cruzaste comigo a seta do dezafio até este momento,
+Pojucan, guerreiro varão, e chefe de uma taba, na valente nação dos
+tocantins, mostrou-se pela sua constancia e valor digno do sangue de
+seus avós?
+
+--Pojucan o disse; e a fama o repete.
+
+--Então porque Ubirajara, o grande chefe dos araguaias, não concede a
+Pojucan a morte glorioza, que os tocantins jámais recuzaram a um
+guerreiro valente, e que sómente se nega aos fracos? Já não serviu
+Pojucan á tua gloria na festa do triunfo? Esperas delle que te obedeça
+como um escravo? Se aviltas o varão, a quem venceste, humilhas o teu
+valor que elle exaltava.
+
+O grande chefe araguaia ouviu sem interromper o prizioneiro, e respondeu
+com gravidade:
+
+--Ubirajara não recuza ao bravo chefe tocantim, seu terrivel inimigo, o
+suplicio, que não negaria a qualquer guerreiro valente. Elle esperava
+que tua ferida se fechasse de todo, para que o grande Pojucan possa no
+dia do ultimo combate sustentar a fama de seu nome, e a gloria de um
+varão que só foi vencido por Ubirajara.
+
+O grande chefe dos araguaias levou aos labios a inubia de Camacan; a voz
+do mando reboou pelo vasto ambito da taba.
+
+Apareceram vinte jovens guerreiros, a quem elle ordenou que chamassem a
+conselho os anciãos.
+
+Depois tornou ao chefe tocantim:
+
+--Os araguaias receberam de seus avós o costume das nações que Tupan
+creou. Elles destinam ao prizioneiro a mais bela e a mais ilustre de
+todas as virjens da taba, para que ella conserve o sangue generozo do
+heróe inimigo e aumente a nobreza e o valor de sua nação.
+
+--É esta tambem a lei, que os guerreiros tocantins observam em suas
+tabas.
+
+--A mais bela e a mais nobre de todas as virjens araguaias, aquella que
+se ergue como a palmeira no meio da campina coberta de flôres, é
+Jandira, a filha de Majé, que tem no seio os doces favos da abelha.
+
+Travando então do pulso de Jandira, que ali ficára preza de sua vista,
+levou-a ao prizioneiro.
+
+--Recebe-a como espoza do tumulo.
+
+Jandira que ouviu espavorida aquellas palavras, quiz fujir; porém a mão
+do chefe araguaia a reteve.
+
+--Ubirajara parte, mas elle voltará para assistir a teu suplicio e
+vibrar-te o ultimo golpe. Pojucan terá a gloria de morrer pela mão do
+mais valente guerreiro.
+
+ * * * * *
+
+Ficaram Jandira e Pojucan em face um do outro.
+
+--Virjem dos araguaias, Tupan te rezervou para espoza do mais terrivel
+dos inimigos de tua nação. O filho de seu sangue será o mais valente dos
+guerreiros; tu sentirás orgulho por havel-o gerado em teu seio.
+
+--Pojucan, chefe tocantim, Jandira nunca será tua espoza.
+
+--Não é Ubirajara o chefe de tua nação, e não te destinou elle para
+servir de noiva do tumulo ao guerreiro que vai morrer no suplicio?
+
+--Ubirajara é o grande chefe da nação araguaia; á sua voz cala-se a
+palavra dos anciãos; a seu gesto curva-se a fronte dos guerreiros; á sua
+vontade obedecem as tabas. Mas no amor de Jandira, ninguem manda, nem
+Tupan. Jandira é noiva de Ubirajara, e se elle não quizer aceital-a, o
+guanumbí a levará para os campos alegres onde repouzam as virjens que
+morreram.
+
+--Pojucan não carece do amor de Jandira. Nas tabas dos tocantins a mais
+bela das virjens se regozijaria de pertencer ao mais valente dos chefes,
+e de habitar sua rêde. Nas tabas dos araguaias, onde nacem guerreiros
+como Ubirajara, não faltarão virjens formozas, que dezejem a gloria de
+ser mãi de um filho de Pojucan.
+
+--Jandira seria a primeira, se não conhecesse Jaguarê, o mais belo dos
+jovens caçadores, que é hoje Ubirajara, o senhor da lança e chefe dos
+chefes. Pojucan merece uma espoza que nunca tenha ouvido o canto de
+outro guerreiro, para dar-lhe um filho digno delle.
+
+--Os ritos de tua nação não punem a noiva que rejeita o prizioneiro?
+
+--Jandira sabe que se sujeita á morte; mas a morte é menos cruel do que
+o abandono.
+
+--Então foje, virjem dos araguaias, e esconde-te á cólera dos anciãos.
+Talvez mais tarde Ubirajara se arrependa e te perdôe.
+
+--Jandira parte. Ella te dezeja uma espoza terna e a morte glorioza.
+
+A filha de Majé penetrou na floresta, e afastou-se rapidamente da taba.
+
+Quando já estava muito lonje, sentou-se á sombra de um manacá coberto de
+flôres e cantou:
+
+--Eu fui Jandira, a linda abelha, que fabricava os favos de cêra para
+enchel-os de mel saborozo.
+
+«Agora arrancaram-me as minhas azas com que eu voava pela campina
+colhendo o pó das flôres; e secou a doçura de meu sorrizo.
+
+«O canto que saía de meu seio era como o da patativa ao pôr do sol,
+quando se recolhe em seu ninho de paina macia.
+
+«Agora eu queria ter no coração uma serpente para morder aquella que me
+roubou o amor de meu guerreiro.
+
+«Guardei a minha formozura para orgulho do espozo, e inveja dos outros
+guerreiros.
+
+«Agora eu trocaria a flôr do meu rosto por um aspeto terrivel que
+infundisse pavor.
+
+«Meus seios mais lindos que os botões do cardo por um peito feroz, e as
+mãos lijeiras que tecem os fios do algodão pelas garras do jaguar.
+
+«Eu fui Jandira, o manacá viçozo que se vestia de flôres azues e
+brancas.
+
+«Agora sou como a jussara que perdeu a folha, e só tem espinhos para
+ferir aquelles que se chegam.»
+
+ * * * * *
+
+Os anciãos já estavam reunidos na oca do conselho, quando Ubirajara
+entrou.
+
+Falou Camacan:
+
+--Ubirajara, senhor da lança, chefe dos chefes, os pais da grande nação
+araguaia escutam a tua voz.
+
+O grande chefe tres vezes bateu no chão com a ponta do arco e disse:
+
+--Pojucan, o chefe tocantim, pede a morte do combate; elle a merece,
+porque é um grande guerreiro e um varão ilustre. Ubirajara concedeu-lhe
+essa honra, como seu vencedor.
+
+--Ubirajara é um inimigo generozo; respondeu Camacan.
+
+Todos os anciãos inclinaram gravemente a cabeça encanecida para
+exprimirem sua aprovação ás palavras de Camacan.
+
+Proseguiu Ubirajara:
+
+--É tempo de escolher para o prizioneiro uma espoza digna de acompanhar
+em seus ultimos dias ao heróe inimigo, e de ser mãi do marabá, o filho
+da guerra.
+
+Todos os abarés dezejavam para si a gloria de oferecer uma filha ao
+prizioneiro.
+
+--Ubirajara destinou-lhe Jandira, filha de Majé. Ella o merece por sua
+formozura, e pelo sangue do grande guerreiro que gira em suas veias.
+
+--Ubirajara é um grande chefe, disse Camacan.
+
+Os anciãos aprovaram outra vez com a cabeça; Majé acrecentou:
+
+--O sangue do velho Majé não desmentirá em Jandira a fama da nação
+araguaia.
+
+--Não! disse Ubirajara e todos os anciãos repetiram: Não!
+
+O grande chefe tornou com a voz pauzada:
+
+--Celebrai a ceremonia da entrega da espoza ao prizioneiro. Ubirajara
+parte; só estará de volta na proxima lua para assistir ao suplicio de
+Pojucan. Se na auzencia de Ubirajara cair na taba a flecha, nuncia da
+guerra, conduzi o trocano ao sitio onde se abraçam os grandes rios, e
+soltai a voz da nação araguaia. Nesse dia Ubirajara será comvosco.
+
+Os prudentes anciãos, com a cabeça inclinada para melhor ouvir, recebiam
+as palavras do grande chefe e as guardavam na memoria.
+
+Quando Ubirajara se calou, Camacan repetiu, ainda mais pauzado, as
+recomendações do filho:
+
+--É esta a vontade de Ubirajara?
+
+--Tu o disseste.
+
+--Os anciãos guardaram a palavra do chefe dos chefes? perguntou ainda
+Camacan.
+
+--Ella entrou no espirito dos abarés, como a raiz no seio da terra,
+observou Majé.
+
+--Bem dito, repetiram todos.
+
+Ubirajara saiu do carbeto; após elle os anciãos se retiraram
+lentamente.
+
+
+
+
+IV
+
+A HOSPITALIDADE
+
+
+Na entrada do vale ergue-se a grande taba dos tocantins.
+
+É a hora em que as sombras abraçam os troncos das arvores e o sol
+descansa em meio da carreira.
+
+A floresta emudece, e todos os viventes se abrigam da calma que abraza.
+
+Ubirajara deixa o escuro da mata e caminha para a grande taba dos
+tocantins.
+
+Quando chegou á distancia do tiro de uma flecha despedida pelo mais
+robusto guerreiro, tocou a inubia.
+
+O guerreiro de vijia respondeu; e o chefe araguaia, quebrando a seta,
+alçou a mão direita para mostrar a senha da paz.
+
+Então avançou para a taba; na entrada da caissara que cercava o campo
+dos tocantins, atirou ao chão a seta partida.
+
+Os guerreiros que tinham acudido ao som da inubia, deixaram passar o
+estranjeiro sem inquirir donde vinha, nem o que o trouxera.
+
+Era este o costume herdado de seus maiores, que o hospede mandava na
+taba aonde Tupan o conduzia.
+
+Ubirajara passou entre os guerreiros, e dirijiu-se á cabana mais alta
+que ficava no centro da ocara.
+
+A figura do tucano, feita de barro pintado, e colocada em cima da porta,
+dizia que era ali a cabana do grande chefe.
+
+Mas Ubirajara já o sabia; pois antes de penetrar na taba, subira á
+grimpa do mais alto cedro da floresta para conhecer o sitio onde
+habitava Arací, a estrela do dia.
+
+A cabana estava dezerta naquelle instante, mas ouvia-se a fala das
+mulheres que trabalhavam no terreiro.
+
+Ubirajara transpôz o limiar, e levantando a voz disse:
+
+--O estranjeiro chegou.
+
+Acudiram as mulheres, e conduziram Ubirajara á prezença do grande chefe
+dos tocantins.
+
+Itaquê passava as horas da ardente calma á sombra da frondoza gameleira,
+que podia abrigar cem guerreiros em baixo de sua rama.
+
+Repouzando dos combates, o formidavel guerreiro não desdenhava as artes
+da paz em que era tão consumado como nas batalhas.
+
+Assim honrava as fadigas da taba, dando o exemplo do trabalho á familia
+de que era pai, e a nação de que era chefe.
+
+Nesse momento as mulheres colocadas em duas filas, com as mãos erguidas,
+urdiam os fios de algodão, passados pelos dedos abertos em fórma de
+pente.
+
+Itaquê manejava a lançadeira, tão destro como na peleja vibrava o
+tacape. Sua mão lijeira tramava a teia de uma rêde, que entretecia das
+penas douradas do galo da serra.
+
+Quando chegou Ubirajara, o grande chefe dos tocantins, depois de ter
+rematado a urdidura, entregou a lançadeira ao guerreiro Pirajá que
+estava a seu lado, e veiu ao encontro do hospede.
+
+--O estranjeiro veiu á cabana de Itaquê, grande chefe da nação tocantim,
+disse Ubirajara.
+
+--Bem vindo é o estranjeiro á cabana de Itaquê, grande chefe da nação
+tocantim.
+
+Então o tuxava voltou-se para Jacamim, a mãi de seus filhos:
+
+--Jacamim, prepara o cachimbo do grande chefe, para que elle e o
+estranjeiro troquem a fumaça da hospitalidade.
+
+Os mensajeiros já corriam pela taba, avizando os guerreiros moacaras da
+vinda do hospede á cabana de Itaquê.
+
+Os moacaras, revestidos de seus ornatos de festa, se encaminharam com o
+passo grave á oca principal afim de honrar o hospede do grande chefe da
+nação tocantim.
+
+Ali chegados, cada um dirijiu ao estranjeiro a pergunta da hospitalidade
+e deu-lhe a boa vinda.
+
+ * * * * *
+
+Depois que Itaquê ofereceu a Ubirajara o cachimbo da paz, e com elle
+trocou a fumaça da hospitalidade, os cantores entoaram a saudação da
+chegada:
+
+«O hospede é mensajeiro de Tupan. Elle traz a alegria á cabana; e quando
+parte leva comsigo a fama do guerreiro que teve a fortuna de o acolher.
+
+«Nas tabas por onde passa, e na terra de seus pais, elle conta aos
+velhos, que depois ensinam aos moços, as proezas dos heróes que viu em
+seu caminho, e de quem recebeu o abraço da paz.
+
+«O hospede é mensajeiro de Tupan. Elle traz comsigo a sabedoria; na
+cabana do guerreiro que tem a fortuna de o acolher, todos o escutam com
+respeito.
+
+«Em suas palavras prudentes, os anciãos da taba aprendem, para ensinar
+aos moços, os costumes dos outros povos, as façanhas de guerra
+desconhecidas por elles, e as artes da paz, que o estranjeiro viu em
+suas viajens.
+
+«O hospede é mensajeiro de Tupan. O primeiro que apareceu na taba dos
+avós da nação tocantim, foi Sumê, que veiu de onde a terra começa e
+caminhou para onde a terra acaba.
+
+«Delle aprenderam as nações a plantar a mandioca para fazer a farinha, e
+a tirar do cajú e do ananaz o generozo cauim, que alegra o coração do
+guerreiro.
+
+«O hospede é mensajeiro de Tupan. Quando o estranjeiro entra na cabana,
+o guerreiro que tem a fortuna de o acolher, não sabe se elle é um chefe
+ilustre ou o grande Sumê que volta de sua viajem.
+
+«O sabio ensina por onde passa os segredos da paz, e o heróe as façanhas
+da guerra; mas ambos deixam na cabana da hospitalidade a gloria de ter
+abrigado um grande varão.
+
+«O hospede é mensajeiro de Tupan. Por seu caminho vai deixando a
+abundancia e a festa; depois do banquete da boa vinda as arvores vergam
+com os frutos, e a caça não cabe na floresta.
+
+«A cabana que fecha a porta ao hospede, o vento a arranca, o fogo do céu
+a abraza. O guerreiro que não se alegra com a chegada do hospede, vê
+murchar ao redor de si a espoza, os filhos, as mulheres e as roças que
+elle plantou.
+
+«Bem vindo seja o estranjeiro na cabana de Itaquê, o grande chefe da
+nação tocantim, que teve a gloria de ser escolhido pelo hospede.
+
+«Os guerreiros exultam com a honra de seu chefe, e os cantores te
+saudam, mensajeiro de Tupan.»
+
+Emquanto na cabana resôa o canto da boa vinda, Jacamim, a espoza de
+Itaquê, chamou as amantes do marido, suas servas, para ajudal-a a
+preparar o banquete da hospitalidade.
+
+As servas pressurosas estenderam á sombra da gameleira as alvas esteiras
+de palmas entrançadas de airis e colocaram sobre ellas os urús cheios de
+farinha d'agua.
+
+Trouxeram tambem os camocins razos, onde se apinhavam as moquecas
+envoltas em folha de banana, e peças de carne, assada no biaribí, que
+ainda fumegava nos pratos feitos de concha de tartaruga.
+
+Depois suspenderam a caça mais volumoza, veados e antas, assim como as
+igaçabas de cauim, nos ramos inclinados da arvore, em altura que o braço
+do guerreiro podesse alcançar.
+
+Frutas de varias especies, pencas douradas de banana, cachos rôxos de
+assaí, os rubros croás, e os fragrantes abacaxis, enchiam o giráu
+levantado no meio do terreiro.
+
+ * * * * *
+
+Jacamim conduzira o hospede á sombra da gameleira, onde o esperava o
+banquete da chegada.
+
+Ao lado de Ubirajara sentou-se Itaquê e depois os moacaras que tinham
+vindo para a festa da hospitalidade.
+
+Os guerreiros comeram em silencio. As mulheres dilijentes os serviam,
+enchendo de vinho de cajú e ananaz as largas combucas, tintas com a
+pasta do crajurú que dá o mais brilhante carmim.
+
+Quando o hospede, depois de satisfeito o apetite, lavou o rosto e as
+mãos, Jacamim ordenou ás servas que recolhessem os restos das provizões,
+e retirou-se com ellas.
+
+Tambem se afastaram os jovens guerreiros que ainda não tinham voz no
+conselho. Só ficaram sentados com o hospede, Itaquê, e os moacaras
+senhores das cabanas.
+
+O cachimbo do grande chefe passou de mão em mão e cada ancião bebeu a
+fumaça da herva de Tupan, que inspira a prudencia no carbeto.
+
+Então disse o chefe:
+
+--Itaquê dezeja dar a seu hospede um nome que lhe agrade, e preciza que
+o ajude a sabedoria dos anciãos.
+
+A lei da hospitalidade não consentia que se perguntasse o nome ao
+estranjeiro que chegava, nem que se indagasse de sua nação.
+
+Talvez fosse um inimigo, e o hospede não devia encontrar, na cabana onde
+se acolhia, senão a paz e a amizade.
+
+O chefe, que tinha a fortuna de receber o viajante, escolhia o nome de
+que elle devia uzar emquanto permanecia na cabana hospedeira.
+
+Foi Ipê quem primeiro falou:
+
+--Tu chamarás ao hospede Jutaí, porque sua cabeça domina o cocar dos
+mais fortes guerreiros, como a copa do grande pinheiro aparece por cima
+da mata.
+
+Disse Tapir:
+
+--Chama ao hospede Boitatá, porque elle tem os olhos da grande serpente
+de fogo, que vôa como o raio de Tupan.
+
+Os moacaras, cada um por sua vez, falaram; e como a voz começava do mais
+moço para acabar no mais velho, as ultimas falas eram menos guerreiras e
+traziam a prudencia da idade.
+
+Assim Caraúba, que era o segundo antes do chefe, disse:
+
+--Itaquê, o hospede é o nuncio da paz. Tu deves chamal-o Jutorib, porque
+elle trouxe a alegria á tua cabana.
+
+Guaribú, cujos anos enchiam a corda de sua existencia de mais nós, do
+que tem o velho cipó da floresta, falou por ultimo:
+
+--O viajante é senhor na terra que elle piza como hospede e amigo; e o
+nome é a honra do varão ilustre, porque narra sua sabedoria. Pergunta ao
+estranjeiro como elle quer ser chamado na taba dos tocantins.
+
+--Bem dito!
+
+Itaquê, aprovando as palavras prudentes do ancião, perguntou a Ubirajara
+que nome escolhia; este lhe respondeu:
+
+--Eu sou aquelle que veiu trazido pela luz do céu. Chama-me Jurandir.
+
+Nesse momento, Arací, a estrela do dia, apareceu por entre as palmeiras,
+e caminhou para a cabana.
+
+Os mais valentes entre os jovens guerreiros tocantins acompanhavam a
+formoza caçadora. Eram os servos do amor, que disputavam a beleza da
+virjem.
+
+Os cantores saudaram de novo o hospede pelo nome que elle escolhera:
+
+--Tu és aquelle que veiu trazido pela luz do céu. Nós te chamaremos
+Jurandir; para que te alegres ouvindo o nome de tua escolha.
+
+«Tu és aquelle que veiu trazido pela luz do céu. Nós te chamaremos
+Jurandir; e o nome de tua escolha alegrará o ouvido dos guerreiros.»
+
+ * * * * *
+
+De longe Arací viu o estrangeiro, sentado entre os anciãos, como o
+frondoso jacarandá no meio dos velhos troncos das aroeiras.
+
+A virgem reconheceu logo o caçador araguaia e adivinhou que ele viera á
+cabana de Itaquê para disputar sua beleza aos guerreiros tocantins.
+
+O coração de Arací encheu-se de alegria. Seus negros cabelos
+estremeceram de contentamento, como as penas da jaçanan quando presente
+o formoso inverno.
+
+O estrangeiro não queria ser conhecido; pois deixára o cocar das plumas
+da arara, que era o ornato guerreiro da sua nação. Mas a imagem do jovem
+caçador ficára na lembrança da virgem, como fica na terra a verde
+folhajem, depois da lua das aguas.
+
+A lei da hospitalidade proíbia á virgem revelar o segredo do
+estranjeiro, só della sabido. Nesse momento foi á sua alma que obedeceu
+e não ao costume da nação.
+
+Quando Arací chegou ao terreiro, os anciãos se preparavam para ouvir a
+maranduba do hospede. Os guerreiros e as mulheres escutavam em silencio.
+
+O estrangeiro começou:
+
+--Jurandir é moço; ainda conta os anos pelos dedos e não viveu bastante
+para saber o que os anciãos da grande nação tocantim aprenderam nas
+guerras e nas florestas.
+
+«O moço é o tapir que rompe a mata, e vôa como a seta. O velho é o
+jabotí prudente que não se apressa.
+
+«O tapir erra o caminho e não vê por onde passa. O jabotí observa tudo,
+e sempre chega primeiro.
+
+«Jurandir é moço; mas conhece as grandes florestas, e atravessou mais
+rios do que as veias por onde corre o sangue valente de seu pai.
+
+«A primeira agua em que Jaçanan, sua mãi, o lavou, quando elle lhe
+rasgou o seio, foi a do grande lago onde Tupan guardou as aguas do
+diluvio, depois que as retirou da terra.
+
+«Ainda Jurandir não era um caçador, quando elle se banhou no pará sem
+fim, onde os rios despejam a sua corrente e cujas aguas quando dormem se
+mudam em sal.
+
+«Duas vezes Jurandir seguiu o pai dos rios desde a grande montanha onde
+nace, até á varzea sem fim que elle enche com suas aguas.
+
+«Elle viu o grande rio combater com o mar, no tempo da pororoca. Os dois
+chefes tocam as inubias antes da peleja, para chamar seus guerreiros.
+
+«Vem de um lado as aguas do mar, são os guerreiros azues, com penachos
+de araruna; vem do outro as aguas do rio, são os guerreiros vermelhos
+com penachos de nambú.
+
+«Começa a batalha. Os guerreiros se enrolam, como a corrente da
+cachoeira, batendo no rochedo; a terra estremece com o trovão das aguas.
+
+«Mas o grande rio agarra o mar pela cintura. Arranca do chão o inimigo;
+carrega-o nos hombros; solta o grito de triunfo.
+
+«Por muito tempo os Tetivas, que habitam sobre as arvores, vêem passar
+correndo as aguas do mar; são os guerreiros azues que fojem espavoridos
+e vão esconder-se na sombra das florestas.
+
+«Jurandir tambem viu a terra onde habitam as mulheres guerreiras,
+senhoras de seu corpo, que vivem em baixo das aguas do grande rio.
+
+«Só ellas sabem o segredo das pedras verdes, que tornam os guerreiros
+cativos de seu amor, sem prival-as da liberdade.
+
+«Por isso todas as luas, grande numero de guerreiros as vizitam em sua
+taba; e ellas guardam para os mais valentes a flôr de sua beleza.
+
+«Quando chega o tempo de vir o fruto do amor, guardam sómente as filhas;
+e enviam aos guerreiros os filhos, de onde saem os maiores chefes.
+
+«Feliz o guerreiro que acha uma terra valente e fecunda para a flôr de
+seu sangue. O filho será maior do que elle; e o neto maior do que o
+filho.
+
+«Sua geração vai assim crecendo de tronco em tronco; e fórma uma
+floresta de guerreiros, onde o ultimo cedro se ergue mais frondozo e
+robusto, porque recebe a seiva de seus avós.»
+
+ * * * * *
+
+Quando Jurandir proferiu as ultimas palavras, seus olhos que tinham
+muitas vezes buscado Arací, repouzaram nella.
+
+A virjem tocantim compreendeu que o estranjeiro se referia a si; e não
+escondeu sua alegria, como não esconde sua flôr a juquerí que o rio
+beija.
+
+A formoza caçadora cantou. Sua voz era limpida e sonora como o gorjeio
+do sabiá, quando se deleita com o calor do sol.
+
+--Feliz a terra que recebe a semente do cedro frondozo e robusto; ella
+se cobrirá de sombra e frescura. Os guerreiros gostarão de reunir-se aí
+para falar da paz e da guerra.
+
+«Ella é como a virjem que um chefe ilustre escolheu para sua espoza, e
+que se povôa de uma prole numeroza. As nações a respeitam porque é a mãi
+de valentes guerreiros; os anciãos escutam seu conselho na paz e na
+guerra.
+
+«As mulheres guerreiras, senhoras de seu corpo, são como a palmeira do
+murití, que rejeita o fruto antes que elle amadureça e o abandona á
+correnteza do rio.
+
+«A espoza não desprende de si o filho, senão quando elle não chupa mais
+seu peito. Ella é como a mangabeira; nutre o fruto com seu leite, que é
+a flôr de seu sangue.
+
+«Não é na terra das mulheres guerreiras que o estranjeiro deve buscar a
+espoza; mas na taba de sua nação, onde Tupan guarda para seu valor a
+mais bela das virjens, aquella que tem o sorrizo de mel.»
+
+O hospede respondeu:
+
+--Jurandir sabe onde encontrará a virjem que dezeja para espoza. A luz
+do céu o guia, e nada reziste á força de seu braço.
+
+Depois de responder ao canto de Arací, o estranjeiro continuou sua
+maranduba, que todos ouviram silenciozos.
+
+Elle contou o que havia aprendido nas praias do mar habitadas pela
+valente nação dos Tupinambás, decendentes da mais antiga geração de
+Tupi.
+
+Os pajés dos Tupinambás lhe disseram que nas aguas do pará sem fim vivia
+uma nação de guerreiros ferozes, filhos da grande serpente do mar.
+
+Um dia esses guerreiros saíriam das aguas para tomar a terra ás nações
+que a habitam; por isso os Tupinambás tinham decido ás praias do mar,
+para defendel-as contra o inimigo.
+
+Os guerreiros do mar tambem tinham suas guerras entre si, como os
+guerreiros da terra. Então as aguas pulavam mais altas do que os montes;
+seu estrondo era como o trovão.
+
+Jurandir contou mais que nas praias do mar se encontrava uma rezina
+amarela, muito cheiroza, a qual a grande serpente creava no bucho.
+
+Os Tupinambás faziam dessa goma contas para seus colares; Jurandir
+mostrou a pulseira que lhe cinjia o artelho, prezente de um guerreiro
+daquella nação.
+
+Essas contas tornavam o pé do guerreiro ajil na corrida, e protejiam o
+viajante contra os caiporas da floresta, que se apartavam de seu
+caminho.
+
+Muitas outras coizas referiu Jurandir; e os anciãos admiravam-se de ver
+o juizo prudente de um abaré no corpo joven de tão forte guerreiro.
+
+Os mais velhos dos moacaras acreditaram que o hospede era o filho de
+Sumê, mandado por seu pai correr as terras que o sabio tinha visto em
+sua mocidade.
+
+Calaram, porém, seu pensamento, para o comunicarem aos anciãos quando se
+reunisse o carbeto da nação.
+
+O sol já decia para as montanhas quando terminou a festa da
+hospitalidade na cabana de Itaquê.
+
+Os moacaras partiram. Itaquê voltando á sua ocupação, deixou o hospede
+senhor de sua vontade para fazer o que lhe agradasse.
+
+Vieram os jovens pescadores da taba com os anzóes e gequis saber do
+hospede que peixe elle preferia.
+
+Depois delles chegaram os jovens caçadores que antes de partir para a
+floresta vinham receber os dezejos do hospede.
+
+Por fim aproximaram-se as mulheres que já tinham rompido o fio da
+virjindade, mas não eram nem espozas, nem amantes de guerreiros.
+
+Essas eram as mulheres livres, que davam seu amor e o retiravam quando
+queriam, mas não recebiam a proteção de um guerreiro nem podiam jámais
+ser mãis da prole.
+
+Os filhos concebidos no proprio seio só tinham por mãi a espoza, que o
+guerreiro tomou por companheira de sua existencia e raiz de sua geração.
+
+O rito da hospitalidade entre os filhos da floresta manda que se dê ao
+estranjeiro amigo tudo que deleita ao guerreiro.
+
+Por isso vinham as moças oferecer a Jurandir sua beleza, para que elle
+escolhesse entre ellas uma companheira, que partilhasse sua rêde na
+cabana hospedeira.
+
+Todas se tinham enfeitado com seus mais belos ornatos, para agradar aos
+olhos de Jurandir; pois não havia para ellas maior gloria do que a de
+merecer o amor do estranjeiro.
+
+Umas traziam as tranças urdidas com penas vistozas dos passaros de sua
+predileção; outras haviam perfumado da essencia do sassafraz os cabelos
+soltos, que derramavam sua fragancia ao sopro da briza.
+
+Chegando diante do estranjeiro, começaram uma dansa amoroza para mostrar
+a graça de seu corpo. Aquellas que tinham a voz doce cantavam em louvor
+de Jurandir.
+
+Arací fôra buscar seu balaio de palha vermelha, e sentára-se no
+terreiro, junto á porta da cabana. Seus dedos ajeis enfiavam as sementes
+de jequerití, de que fazia um ramal para seu colo gentil.
+
+Emquanto compunha o colar, a virjem percebia que os olhos de Jurandir
+abandonavam os encantos das mulheres, e buscavam seu rosto.
+
+Mas ella voltava-se para a floresta; com o trinado de seus labios
+chamava o crajuá, que voava no olho da palmeira. O passarinho iludido
+vinha, cuidando ouvir o canto da companheira.
+
+Jurandir apartou as mulheres e disse:
+
+--As moças tocantins são formozas, qualquer dellas alegraria o sono do
+estranjeiro. Mas Jurandir não veiu á cabana de Itaquê para gozar do amor
+de uma noite; elle veiu buscar a espoza que ha de acompanhal-o até á
+morte, e a virjem que escolheu para mãi de seus filhos.
+
+Quando Arací ouviu estas palavras cobriu-se de sorrizos, como o guajerú
+se cobre de suas flôres alvas e perfumadas com os orvalhos da manhã.
+
+Jurandir voltou-se então para a virjem caçadora:
+
+--Estrela do dia, Arací, conduze-me á prezença de Itaquê. É tempo que
+elle saiba o segredo do estranjeiro.
+
+--Os sonhos disseram a Arací duas noites seguidas, que o joven caçador
+chegaria á cabana de Itaquê; ella te esperou. Quando meus olhos te viram
+sentado entre os moacaras, logo conheceram que tu vinhas buscar a
+espoza.
+
+O estranjeiro respondeu:
+
+--Jurandir chegou á taba dos seus, e recebeu um nome de guerra e o
+grande arco de sua nação. Mas a cabana do chefe estava dezerta; e sua
+rêde não lhe guardou o sono tranquilo do guerreiro. Elle ouviu tua voz
+que o chamava, virjem tocantim, e ergueu-se; tua luz o guiou, filha do
+sol, e o trouxe á tua prezença.
+
+
+
+
+V
+
+SERVO DO AMOR
+
+
+Jurandir, conduzido pela virjem, caminhou ao encontro de Itaquê e disse:
+
+--Grande chefe dos tocantins, Jurandir não veiu á tua cabana para
+receber a hospitalidade; veiu para servir ao pai de Arací, á formoza
+virjem, a quem escolheu para espoza. Permite que elle a mereça por sua
+constancia no trabalho, e que a dispute aos outros guerreiros pela força
+de seu braço.
+
+Itaquê respondeu:
+
+--Arací é a filha de minha velhice. A velhice é a idade da prudencia e
+da sabedoria. O guerreiro que conquistar uma espoza como Arací terá a
+gloria de gerar seu valor no seio da virtude. Itaquê não póde dezejar
+para seu hospede maior alegria.
+
+Desde esse momento, Jurandir não foi mais estranjeiro na taba dos
+tocantins. Pertencia á oca de Itaquê, e devia, como servo do amor,
+trabalhar para o pai de sua noiva.
+
+Os guerreiros, cativos da beleza de Arací, conheceram que tinham de
+combater um adversario formidavel; mas seu amor creceu com o receio de
+perder a filha de Itaquê.
+
+Jurandir tomou suas armas e deceu ao rio. Era a hora em que o jacaré
+boia em cima das aguas como o tronco morto, e a jaçanan se balança no
+seio do nenufar.
+
+O manatí erguia a tromba para pastar a relva na marjem do rio. Ouvindo o
+rumor das folhas, mergulhou na corrente; mas já levava o arpéu do
+pescador cravado no lombo.
+
+Jurandir não esperou que o peixe ferido dezenrolasse toda a linha.
+Puxou-o para terra; e levou-o ainda vivo á cabana de Itaquê, onde tres
+guerreiros custaram a deital-o no giráu.
+
+As mulheres cortaram as postas de carne, e os guerreiros cavaram a terra
+para fazer as grelhas do biaribí.
+
+Jurandir partiu de novo, e entrou na floresta. Ao lonje reboavam os
+gritos dos caçadores, que perseguiam a féra.
+
+Pelo assobio o guerreiro conheceu que era um tapir. O animal zombára dos
+caçadores e vinha rompendo a mata como a torrente do Xingú.
+
+As arvores que seu peito encontrava caíam lascadas.
+
+Jurandir estendeu o braço. O velho tapir, agarrado pelo pé, ficou
+suspenso na carreira, como o passarinho prezo no laço. Nunca até aquelle
+momento encontrára força maior que a sua.
+
+Uma vez decera á lagôa para beber. A sucurí, que espreitava a caça,
+mordeu-o na tromba. Elle fujia, esticando a serpente; e a serpente
+encolhendo-se o arrastava até á beira d'agua.
+
+Assim tornou, uma, duas, tres vezes. Mas o tigre urrou de fome. O velho
+tapir disparou pela floresta; e a sucurí com a cauda preza á raiz da
+arvore arrebentou pelo meio.
+
+O velho tapir rompeu a serpente como se rompe uma corda de piassaba; mas
+não pôde abalar o braço de Jurandir, mais firme do que o tronco do
+guaribú.
+
+O estranjeiro tornou á cabana com a caça. Nenhum dos guerreiros da taba,
+nem mesmo o velho Itaquê, pôde aguentar com as duas mãos a féra bravia.
+
+Então Jurandir obrigou o animal a agachar-se aos pés de Arací e disse:
+
+--O braço de Jurandir fará cair assim a teus pés o guerreiro que ouze
+disputar ao seu amor a tua formozura, estrela do dia.
+
+ * * * * *
+
+Nunca a abundancia reinára na cabana sempre farta do chefe dos
+tocantins, como depois que a ella chegára o estranjeiro.
+
+Jurandir era o maior caçador das florestas, e o primeiro pescador dos
+rios. Seu olhar seguro penetrava na espessura das brenhas, como na
+profundeza das aguas.
+
+Nada escapava á destreza de sua mão. Onde ella não chegava, iam as unhas
+de suas flechas certeiras, que rasgavam o seio da vitima, como as garras
+do jaguar.
+
+O estranjeiro soubera de Arací qual era a caça que Itaquê preferia, e
+qual o peixe que elle achava mais saborozo. Desde então nunca o velho
+chefe sentiu a falta do manjar predileto.
+
+Se não era a lua propria do peixe dezejado, Jurandir sabia onde o podia
+encontrar. Não tornava á cabana sem a provizão necessaria para a
+refeição do dia.
+
+Depois da caça e da pesca, Jurandir trabalhava nas roças de Itaquê.
+Fazia no taboleiro os matumbos, para que Jacamim enterrasse as estacas
+da maniva e semeasse o feijão, o milho e o fumo.
+
+Entre os filhos das florestas a plantação devia ser feita pela mão da
+mulher, que era mãi de muitos filhos; porque ella transmitia á terra sua
+fecundidade.
+
+A semente que a mão da virjem depozitava no seio da terra dava flôr; mas
+da flôr não saía fruto. E se era um guerreiro que plantava, o aipim
+endurecia como o páu de arco.
+
+Nas vazantes do rio, Jurandir capinava a terra coberta de relva e outras
+plantas, e só deixava crecer o arroz, o inhame e as bananeiras.
+
+Quando o estranjeiro partia pela manhã, Arací o acompanhava de lonje
+pela floresta.
+
+Sua vontade a levava após elle.
+
+O costume da taba não consentia que a virjem dezejada pelos servos de
+seu amor, preferisse um guerreiro antes de saber se elle a obteria por
+espoza.
+
+A filha de Itaquê não queria pertencer a outro guerreiro; mas
+lembrava-se que a virjem deve merecer o espozo por sua paciencia, assim
+como o guerreiro merece a espoza por sua constancia e fortaleza.
+
+Então voltava ao terreiro: emquanto os outros guerreiros espreitavam sua
+vontade, ella tecia as franjas para a rêde do cazamento.
+
+Sua mão sutil urdia com o alvo fio do crauatá a fina penujem escarlate.
+Os noivos cuidavam que era a do peito do tucano; mas ella sabia que era
+do peito da arára e que tinha as côres de seu guerreiro.
+
+Quando o sol chegava ao cimo dos montes, ouvia-se o canto de Jurandir
+que voltava da caça. A virjem seguida pelos guerreiros ia ao encontro do
+estranjeiro.
+
+Então deciam ao rio. Era a hora do banho. Arací cortava as ondas mais
+linda que a garça côr de roza; e os guerreiros a seguiam de perto, como
+um bando de galeirões.
+
+Mas nenhum, nem mesmo Jurandir, que nadava como um bôto, podia alcançar
+a formoza virjem. Ella parecia a flôr do mururê que se desprendeu da
+haste, e passa levada pela corrente.
+
+Uma vez a filha das aguas soltou um grito, e dezapareceu no seio das
+ondas. Jacamim cuidou que o jacaré tinha arrebatado a filha de seu seio.
+Os guerreiros mergulharam para salval-a; mas não a encontraram.
+
+Todos a julgavam perdida, quando apareceu Jurandir que trazia nos braços
+o corpo da virjem formoza. Pizando em terra, ella correu para a cabana,
+onde foi esconder sua alegria.
+
+Desde então era no banho que Arací recebia o abraço de Jurandir, sem que
+os outros guerreiros suspeitassem da preferencia dada ao estranjeiro.
+
+No seio das ondas ninguem a adivinhava, a não ser o ouvido sutil de
+Jurandir, a quem ella chamava com o doce murmurio do irerê.
+
+Encontravam-se no fundo do rio emquanto durava a respiração. Depois
+desprendiam-se do abraço e surjiam lonje um do outro.
+
+ * * * * *
+
+Á tarde, voltando da caça, Jurandir viu na floresta um rasto, que elle
+conhecia.
+
+Chegado á cabana, entregou a Jacamim o veado que matára, e saiu para
+vizitar os arredores. Nada encontrou de suspeito; o rasto, que o
+inquietava, não chegára até ali.
+
+No outro dia, ao romper da alvorada, logo depois do banho os guerreiros
+partiram para a caça e para a pesca. Só ficaram na cabana Jacamim e as
+mulheres de Itaquê.
+
+Arací tomou o arco e entrou na floresta. A imajem do guerreiro amado
+fujia naquelle instante de seus olhos; elles buscaram entre as folhas o
+sinal de seus passos e não o descobriram.
+
+Lembrou-se a virjem, que Jurandir gostava da polpa do guaranan adoçada
+com o mel da abelha, e colheu os frutos encarnados que pendiam dos ramos
+da trepadeira.
+
+Nesse momento a arára cantou no olho do pirijá. Arací precizava de suas
+plumas vermelhas para o cocar que ella tecia em segredo.
+
+Era o cocar do amor, com que dezejava ornar a cabeça de seu guerreiro
+senhor, no dia em que elle a conquistasse por espoza.
+
+A virjem armou o arco e seguiu a arára rompendo a folhajem. Quando ia
+disparar a seta, ouviu ao lado um rumor dezuzado.
+
+Jurandir estava perto della, e segurava o braço de uma mulher, que ainda
+tinha na mão a macana afiada.
+
+Arací conheceu a virjem araguaia, pela faxa de algodão entretecida de
+penas que lhe apertava a curva da perna; e adivinhou que era Jandira, a
+noiva do guerreiro.
+
+--Filha de Majé, tua mão quiz matar a virjem que Jurandir escolheu para
+espoza. Tu vais morrer.
+
+--Desde que Ubirajara abandonou Jandira, ella começou a morrer, como a
+baunilha que o vento arranca da arvore. Acaba de matal-a, para que sua
+alma te acompanhe de dia na sombra das florestas e te fale de noite na
+voz dos sonhos.
+
+--A virjem araguaia ameaçou a vida de Arací; ella lhe pertence, disse a
+filha de Itaquê.
+
+Jurandir cortou na floresta uma comprida rama de imbê, e atou as mãos de
+Jandira.
+
+--Jandira é tua escrava. Não lhe dês a liberdade. Ella tem a astucia da
+serpente e seu veneno.
+
+--Eu era a cobra d'agua, amiga do guerreiro, que habita sua cabana e a
+guarda contra o inimigo. Quem foi que me fez a cascavel venenoza, que
+traz nos labios o sorrizo da morte?
+
+Jurandir não respondeu. Nesse momento elle teve saudade de sua cabana; e
+lembrou-se do tempo em que, joven caçador, seguia na floresta a formoza
+virjem araguaia.
+
+ * * * * *
+
+As duas virjens ficaram sós no claro da floresta.
+
+Já o rumor dos passos de Jurandir se apagára ao lonje, e ainda tinham
+ambas os olhos cativos uma da outra.
+
+Jandira pensou que ella não podia dar a Ubirajara a formozura da filha
+de Itaquê. Arací receiou que o amor do guerreiro se voltasse outra vez
+para a linda virjem araguaia.
+
+A filha de Majé preparou-se para morrer á mão de sua rival, mas ella
+preferia a morte ao suplicio de contemplar sua beleza.
+
+Arací, a estrela do dia, cantou:
+
+--O amor do guerreiro é a alegria da virjem; quando elle foje, a virjem
+fica triste como a varzea que perdeu sua relva.
+
+«Por isso Jandira está triste; o amor do guerreiro fujiu della; e a
+deixou solitaria como a nambú, a quem o companheiro abandonou.
+
+«Mas o amor do guerreiro é como o orvalho da noite. Quando o sol queima
+a varzea, elle dece do céu para cobril-a de verdura e de flôres.
+
+«Arací está alegre, porque o amor do guerreiro voltou-se para ella; e
+Jurandir vai fazel-a companheira de sua gloria e mãi de seus filhos.
+
+«Quando a espoza de Jurandir não tiver mais beleza para dar a seu
+guerreiro, ella consentirá que Jandira durma em sua rêde.
+
+«E o orvalho da noite decerá do céu para cobrir a varzea de verdura e de
+flôres. E Jandira achará outra vez seu sorrizo de mel.»
+
+Assim cantou Arací, a estrela do dia; e a virjem araguaia respondeu:
+
+--A arvore que morreu não sofre quando o fogo a queima. Jandira prefere
+a morte á vergonha de ser tua serva, e á tristeza de ver a cada instante
+a formozura da estranjeira que roubou seu amor.
+
+«Arací, a estrela do dia, é mais bela do que Jandira, mas não sabe amar
+o guerreiro que a escolheu para mãi de seus filhos.
+
+«Nunca Jandira ofereceria sua rêde de espoza a outra mulher; e aquella
+que recebesse o amor de seu guerreiro, morreria por sua mão.
+
+«Ella amaria seu espozo tanto que sua graça nunca se retirasse della;
+pois saberia morrer quando não tivesse mais beleza para dar-lhe.
+
+«A nação araguaia nunca levanta a taba do vale onde acampou, senão
+quando a terra já não póde dar-lhe mais frutos.
+
+«Assim é o guerreiro. Elle não retira seu amor da espoza que habita,
+senão quando ella já não sabe alegrar sua alma.»
+
+Tornou a virjem tocantim:
+
+--A cajazeira, depois que dá seu fruto, perde a folha; o guerreiro busca
+a sombra de outra arvore para repouzar.
+
+«Mas vem a lua das aguas e a cajazeira outra vez se cobre de folhas; sua
+sombra é doce ao guerreiro.
+
+«A espoza é como a cajazeira. Quando o guerreiro não acha alegria em
+seus braços, ella sofre que busque outra sombra, e espera que lhe volte
+a flôr para chamal-o de novo ao seio.
+
+«Arací ama seu guerreiro, como Jacamim ama Itaquê. A cabana do grande
+chefe dos tocantins está cheia de servas; mas seu amor nunca abandonou a
+espoza.
+
+«As servas deram a Itaquê muitos filhos; mas os filhos da velhice, foi
+só Jacamim quem os deu ao grande chefe; porque o primeiro amor do
+guerreiro não morre nunca.
+
+«Elle é como a grama que nunca mais deixa a terra onde naceu: podem
+arrancal-a que brota sempre.
+
+«Arací quer apagar a tristeza de tua alma; e beber o teu sorrizo de mel,
+para que o espozo ache mais doces seus labios, quando os provar.
+
+«Tu serás irmã de Arací, e lhe darás um filho de Jurandir, tão valente,
+como os que seu amor ha de gerar no seio da espoza.»
+
+Jandira afastou os olhos da virjem dos tocantins, para desviar della sua
+ira.
+
+--Tua palavra dóe como o espinho da jussara, que tem o côco mais doce
+que o mel.
+
+«As flechas de teu arco não matam mais do que os sorrizos que o amor do
+guerreiro derrama em teu rosto, estrela do dia.
+
+«Ubirajara deixou-me por ti; mas foi a Jandira que elle primeiro
+escolheu para espoza, quando ainda era joven caçador.
+
+«Nos campos alegres, onde vão os guerreiros quando morrem, elle me
+chamará; e o guanumbí virá buscar a minha alma no seio da flôr do manacá
+para leval-a a seu amor.
+
+«Mata-me, ou deixa que eu morra para não ver mais tua beleza, e não
+ouvir o canto de tua alegria.»
+
+Arací caminhou para Jandira e dezatou-lhe os pulsos.
+
+--O amor do guerreiro não pertence á mulher que seus olhos primeiro
+viram; mas áquella que elle escolheu. Apanha teu arco; e morra aquella
+que não souber defender seu amor, e merecer o espozo.
+
+Arací disse, e tirou da uiraçaba uma seta. Jandira ficou imovel, com os
+pulsos cruzados, como se ainda estivessem prezos:
+
+--A vontade de Ubirajara atou os braços de Jandira; ella rejeita a
+liberdade dada por ti. Arací póde ser preferida, porém não será mais
+generoza do que a filha de Majé.
+
+
+
+
+VI
+
+O COMBATE NUPCIAL
+
+
+Chegou o dia em que os noivos de Arací deviam disputar a posse da
+formoza virjem.
+
+Era a hora em que o sol transpondo a crista da montanha estende pelo
+vale sua arassoia de ouro.
+
+A grande nação tocantim cerca a vasta campina. No centro estão os
+anciãos, que formam o grande carbeto.
+
+Em frente aparece Arací, a estrela do dia, que ha de ser o premio da
+constancia e fortaleza do mais destro guerreiro.
+
+Jacamim acompanha a filha; nesse momento remoça com a lembrança do dia
+em que Itaquê a conquistou, lutando com os mais feros mancebos
+tocantins.
+
+De um e outro lado seguem pela ordem da idade os moacaras. Cada um
+cerca-se da espoza, das servas e das filhas, que vieram para assistir ao
+combate.
+
+É a unica das festas guerreiras, em que o rito de Tupan consente a
+prezença das mulheres, porque se trata da sua gloria.
+
+Contemplando o esforço heroico dos mais nobres guerreiros para
+conquistar a formozura de uma virjem, as outras virjens aprendem a
+prezar a castidade, e as espozas se ufanam de guardar a fé ao primeiro
+amor.
+
+Itaquê, o grande chefe dos tocantins, prezide ao combate, orgulhozo pela
+valente nação que dirije, como pela formoza virjem de que é pai.
+
+Quando seus olhos admiram a multidão de guerreiros, servos do amor de
+Arací, que se preparam a disputar a espoza, o grande chefe ergue a
+fronte soberba como o velho ipê da floresta coroado de flôres.
+
+Os noivos distinguem-se dos outros guerreiros pelo bracelete de contas
+verdes, que o guerreiro cinje ao pulso da espoza, quando rompe a liga da
+virjindade.
+
+Lá caminha Pirajá, o grande pescador, senhor dos peixes do rio, a quem
+obedece o manatí e o golfinho.
+
+Junto delle ergue-se Uirassú, que tomou este nome do valente guerreiro
+dos ares, pelo ímpeto do assalto.
+
+Vem depois Arariboia, a grande serpente das lagôas; Cauatá, o corredor
+das florestas; Corí, o altivo pinheiro; e tantos outros, ainda mancebos,
+e já guerreiros de fama.
+
+Entre todos, porém, assoma Jurandir. Sua fronte passa por cima da cabeça
+dos outros guerreiros, como o sol quando se ergue entre as cristas da
+serrania.
+
+Os muzicos fizeram retroar os borés, anunciando o começo da festa; e os
+servos do amor se estenderam em linha pelo meio da campina.
+
+Então os nhengaçáras levantaram o canto nupcial.
+
+«A espoza é a alegria e a força do guerreiro. Ella acende em suas veias
+um fogo mais generozo que o do cauim, e prepara para seu corpo o repouzo
+da cabana.
+
+«Por isso o primeiro dezejo do mancebo, quando ganha nome de guerra é
+conquistar uma espoza.
+
+«Não basta ser valente guerreiro para merecer a virjem formoza, filha de
+um grande chefe; é precizo a paciencia para sofrer, e a perseverança no
+trabalho.
+
+«Arací, a estrela do dia, filha de Itaquê, será a alegria e a gloria do
+mais forte e do mais valente.
+
+«Os filhos que ella gerar em seu seio, onde corre o sangue do grande
+chefe, serão os maiores guerreiros das nações.»
+
+ * * * * *
+
+Itaquê deu sinal; o combate começou.
+
+Pirajá foi o primeiro que saiu a campo, e clamou esgrimindo o tacape:
+
+--Arací, estrela do dia, tu serás espoza do guerreiro Pirajá, que te vai
+conquistar pela força de seu braço.
+
+Avançou Uirassú, e disse:
+
+--A virjem formoza ama ao guerreiro Uirassú e ha de pertencer-lhe.
+
+A noiva cantou:
+
+«Arací ama o mais forte e mais valente. Ella pertencerá ao vencedor, que
+vencer a bravura dos outros guerreiros, como venceu a vontade da
+espoza.»
+
+A voz mavioza da virjem afagou a esperança de todos os campeões; mas
+seus olhos ternos só viam o nobre semblante de Jurandir, o escolhido de
+sua alma.
+
+Os dois guerreiros travaram a pugna; os tacapes girando nos ares
+encontravam-se como dois madeiros arrojados pelo remoinho da cachoeira.
+
+Afinal Pirajá, ameaçado pelo bote do adversario, recuou um passo do
+logar em que se postára. Pela lei do combate estava vencido, e teve de
+deixar o campo.
+
+Arariboia tomou seu logar; e o combate proseguiu com varia fortuna até
+Corí que, expelindo o vencedor, manteve-se firme contra todos que vieram
+disputal-o.
+
+Faltava Jurandir. O estranjeiro avançou gravemente, como convinha a um
+grande guerreiro da nação araguaia.
+
+Elle queria dar ao vencedor de tantos combates o tempo precizo para
+descansar.
+
+A mão do guerreiro arrastava pelo chão o tacape, que desdenhava erguer
+para um combate sem gloria.
+
+Quando Jurandir se achou em face do vencedor, levantou a voz e disse:
+
+--Para merecer Arací, a estrela do dia, Jurandir queria vencer a cem
+guerreiros, e não combater um guerreiro fatigado.
+
+«Tu empunhas um tacape; toma outro habituado a vencer; elle restituirá a
+teu braço a força que perdeu. Basta a Jurandir esta mão, para te
+arrebatar todas as tuas vitorias.»
+
+Disse e arremessou a arma aos pés do adversario.
+
+Corí, pensando que seu rival o atacava, desfechou-lhe o golpe. Mas
+Jurandir aparou-o na mão firme e arrebatando o tacape que o ameaçava
+arrancou o guerreiro do chão.
+
+Assim o pinheiro que o tufão arrebata, antes de partir o tronco,
+desprende a raiz da terra, onde nada o abalava.
+
+Jurandir ficou só no campo. Mas todos os noivos se haviam mostrado
+valentes guerreiros; talvez nas outras provas saíssem vencedores.
+
+ * * * * *
+
+Os muzicos tocaram os borés; e os jovens caçadores trouxeram para o meio
+do campo a figura da noiva.
+
+Era um grosso tóro de madeira, no qual a mão destra de um pajé entalhára
+com o dente da cotia a cabeça de uma mulher.
+
+Tres caçadores vergavam com o pezo da carga; e foram precizos dez para
+trazel-o desde a cabana do pajé até o campo, onde ficou semelhante á uma
+mulher sentada.
+
+Na vespera o pajé burnira de novo com a folha da sambaiba o tóro de
+madeira, e o esfregára com a banha do teú, para que elle escorregasse da
+mão do caçador.
+
+Depois os mancebos guerreiros espalharam pelo campo troncos de arvores
+cortadas com as ramas e as folhas, e fincaram cercas de estacas entre os
+barrancos da varzea que ia morrer á marjem do rio.
+
+Itaquê deu sinal, e os guerreiros começaram a nova prova, mais dificil
+que a primeira.
+
+Era precizo que o guerreiro á disparada levantasse do chão, sem parar, o
+tóro de madeira; e se defendesse dos rivais que o assaltavam para
+tomal-o.
+
+Esse jogo era o emblema da ajilidade e robustez que o marido devia
+possuir para disputar a espoza e protejel-a contra os que ouzassem
+dezejal-a.
+
+Na primeira corrida foi Jurandir quem mais rapido chegou. Como o condor
+que rebatendo o vôo leva nas garras a tartaruga adormecida, assim o
+veloz guerreiro suspendeu a figura da espoza e com ella arremessou-se
+pela campina.
+
+Os outros o seguiam ardendo em ímpetos de roubar-lhe a preza. Na
+planicie aberta seria vão intento, porque nenhum corria como o
+estranjeiro.
+
+Mas Jurandir achava diante de si, para tolher-lhe o passo, as arvores
+derrubadas, os barrancos profundos e outros obstaculos de propozito
+acumulados.
+
+Não hezitou, porém, o destemido mancebo. Salvou as corcovas, galgou as
+caiçaras, e subiu pelos galhos que estrepavam o chão.
+
+Uma vez os guerreiros se aproximaram tanto, que Jurandir sentiu nos
+cabelos o sopro da respiração ofegante. Em frente erguia-se a alta
+estacada.
+
+Se tentasse subir carregado como estava, os guerreiros com certeza o
+alcançariam a tempo de arrancar-lhe a preza.
+
+Então arremessou pelos ares o tóro de madeira, como se fosse o tacape de
+um joven caçador; e seguiu após.
+
+Sempre vencedor dos assaltos dos rivais, Jurandir percorreu a vasta
+campina, e foi colocar a figura da espoza no meio do carbeto dos
+anciãos.
+
+Ali era o termo da correria. O guerreiro que chegava a esse ponto com a
+sua carga, saía triunfante da prova.
+
+Elle mostrava como arrebataria a espoza do meio dos inimigos, e a
+defenderia contra seus ataques até recolhel-a em um azilo seguro.
+
+De todos os guerreiros só Corí e Uirassú conseguiram ganhar a prova; mas
+nenhum com a galhardia de Jurandir.
+
+Corí por vezes foi alcançado, e só á confuzão dos outros deveu
+escapar-se. Uirassú recuperou a preza já perdida, porque Pirajá, que a
+havia empolgado, falseou na corrida e tombou.
+
+Os tres vencedores entraram de novo em campo para decidir entre si. O
+triunfo não se demorou. Jurandir o arrebatou, como o gavião arrebata a
+preza que disputam duas serpes.
+
+Soaram os borés; e ao som do canto de triunfo entoado pelos nhengaçáras,
+os chefes e os guerreiros saudaram o vencedor dos vencedores.
+
+ * * * * *
+
+Quando voltou o silencio, Ogib, o grande pajé dos tocantins, estava em
+pé no meio do campo.
+
+Junto delle uma das velhas mãis dos guerreiros segurava o camucim da
+constancia, que tinha o bojo pintado de vermelho.
+
+O pajé disse:
+
+--Não basta que o guerreiro seja forte e valente, para merecer a espoza.
+
+«É precizo que tenha a constancia do varão, e não se perturbe com o
+sofrimento.
+
+«É precizo que elle tenha a paciencia do tatú, e suporte sereno as
+mortificações das mulheres e as importunações das crianças.
+
+«O guerreiro que não tem constancia e paciencia, depressa gasta suas
+forças.
+
+«O rio que se derrama pela varzea, nunca verá suas marjens cobertas de
+grandes florestas.
+
+«Assim é o guerreiro que não sabe sofrer, e derrama sua alma em
+lamentações.
+
+«Nunca elle será pai de uma geração forte e glorioza, nem verá sua
+cabana povoar-se dos guerreiros de seu sangue.
+
+«Se queres merecer a filha de Itaquê, mostra, Jurandir, que és varão
+ainda maior do que o famozo guerreiro que todos admiram.»
+
+O grande pajé levantou o tampo do camucim, e descobriu uma abertura,
+bastante para caber o punho do mais robusto guerreiro.
+
+Jurandir meteu a mão no vazo. O semblante sempre grave do guerreiro
+cobriu-se de um sorrizo doce como a luz da alvorada; e seus olhos, mais
+contentes que dois saís, pouzaram no rosto de Arací.
+
+O camucim da constancia continha um formigueiro de saúvas, que o pajé
+havia fechado ali na ultima lua.
+
+Açuladas pela fome de tantos dias, as formigas vorazes se prepararam
+para dilacerar a primeira vitima que lhes caísse nas garras.
+
+A dentada da saúva, que anda solta no campo, dóe como uma braza; quando
+são muitas e com fome, queimam como a fogueira.
+
+Todas as vistas se fitaram no semblante do guerreiro, para espreitar-lhe
+o minimo gesto de sofrimento.
+
+Mas Jurandir sorria; e seus labios ternos soltaram o canto do amor. De
+propozito o guerreiro adoçou a voz, para não parecer que disfarçava o
+gemido com o rumor do grito guerreiro.
+
+Assim cantou elle:
+
+«A dôr é que fortalece o varão, assim como o fogo é que enrija o tronco
+da crauba, da qual o guerreiro fabríca o arco e o tacape.
+
+«A jussara tem setas agudas: mas Arací, quando atravessa a floresta,
+colhe o côco de mel, embora a palmeira lhe espinhe a mão.
+
+«O ferrão da saúva dóe mais do que o espinho da jussara; mas Jurandir
+acha o mel dos labios de Arací mais doce do que o côco da palmeira.
+
+«Quando Jurandir era joven caçador, gostava de tirar a cotia da toca,
+embora o seu dente agudo lhe sarjasse a carne.
+
+«O ferrão da saúva não dóe como o dente afiado; e Jurandir sabe que o
+pelo dourado da cotia, não é tão macio como o colo de Arací.
+
+«Jurandir despreza a dôr. Seus olhos estão bebendo o sorrizo da virjem,
+mais suave que o leite do sapotí. Sua mão está sentindo o roçar dos
+cabelos da virjem formoza.»
+
+Os anciãos deram sinal para concluir a prova da constancia; mas o
+guerreiro continuou seu canto de amor.
+
+«A cumarí arde no labio do guerreiro; mas torna mais gostoza a carne do
+veado assada no moquem.
+
+«O cauim queima a boca do guerreiro; mas derrama a alegria dentro da
+alma.
+
+«A saúva arde como a cumarí e queima como o cauim; porém torna os beijos
+de Arací mais saborozos: e o amor de Jurandir espuma como o vinho
+generozo.
+
+«Arací ha de sorrir de felicidade, quando o filho de seu guerreiro lhe
+rasgar o seio.
+
+«Jurandir não tem corpo para sofrer, quando o sorrizo de Arací lhe enche
+a alma de amor.»
+
+Foi precizo quebrar o camucim para que o guerreiro podesse retirar a
+mão, de inflamada que ficára.
+
+O grande pajé esfregou na pele vermelha, o suco de uma herva delle
+conhecida; e logo dezapareceu a inchação.
+
+ * * * * *
+
+Faltava a ultima prova, chamada a prova da virjem.
+
+As outras serviam para conhecer o valor, a destreza e robustez do
+guerreiro, assim como a força de seu amor.
+
+Nesta era que a virjem podia mostrar seu agrado pelo vencedor ou
+livrar-se de um espozo, que não soubera ganhar-lhe o afeto.
+
+Os cantores disseram:
+
+«Tupan deu azas á nambú para que ella escape ás garras do carcará.
+
+«Tupan deu lijeireza á virjem, para que ella fuja do guerreiro que não
+quer por espozo.
+
+«Mas a nambú, quando ouve o canto do companheiro, espera que elle chegue
+para fabricar seu ninho.
+
+«A virjem, quando a segue o guerreiro que ella prefere, pensa na cabana
+do espozo, e corre de vagar para chegar depressa.»
+
+Arací deixou a mãi, e avançou até o meio do campo.
+
+O grande pajé colocou Jurandir na distancia de uma mussurana, que cinje
+dez vezes a cintura do guerreiro.
+
+Estrela do dia lançou para as espaduas as longas tranças negras que
+voaram ao sopro da briza.
+
+Arqueou os braços mimozos, vestidos com franjas de penas, como as azas
+brilhantes do arirama; e quando soou o sinal, desferiu a corrida.
+
+Jurandir seguiu-a. Elle conhecia a velocidade do pé gentil de Arací, que
+zombava do salto do jaguar.
+
+Nem que podesse alcançal-a, o guerreiro o tentaria; depois de vencedor,
+queria dever a espoza ao amor della e não a seu esforço.
+
+Disputaria Arací não só a todos os guerreiros das nações, como a todas
+as nações das florestas; só á vontade da propria virjem não a
+disputaria, pois a queria rendida, e não vencida.
+
+Mas sua gloria mandava que elle, o chefe de uma grande nação, se
+mostrasse digno da formoza virjem, que o aceitasse por espozo.
+
+Arací voava pela campina. Ás vezes trançava a corrida como o colibri que
+adeja de flôr em flôr, outras vezes fujia mais rapida do que a seta
+emplumada de seu arco.
+
+Quando mostrou a todos que Jurandir não a alcançaria nunca, se ella
+quizesse fujir-lhe, reclinou a cabeça para esconder o rubor.
+
+Jurandir abriu os braços e recebeu a espoza que se entregava a seu amor.
+
+O guerreiro suspendeu a virjem formoza ao colo; e levou-a á cabana do
+amor que elle construira á marjem do rio.
+
+ * * * * *
+
+As ramas de jasmineiro e do craviri vestiam a cabana, e matizavam o chão
+de flôres.
+
+Arací foi buscar a rêde nupcial, que ella tecera de penas de tucano e
+arara; e Jurandir conduziu os utensilios da cabana.
+
+Então o estranjeiro sentou-se com a virjem no terreiro, e antes de
+passar a soleira da porta, revelou a Arací quem era o guerreiro que ella
+aceitára por espozo.
+
+--Arací pertence ao grande chefe da nação araguaia. Ella teve a gloria
+de vencer ao maior guerreiro das florestas. Ella será mãi dos filhos de
+Ubirajara; e terá por servas as virjens mais belas, filhas dos chefes
+poderozos.
+
+«A palmeira é formoza quando se cobre de flôres e o vento ajita as suas
+folhas verdes, que murmuram; mais formoza, porém, é quando as flôres se
+mudam em frutos, e ella se enfeita com seus cachos vermelhos.
+
+«Arací tambem ficará mais formoza quando de seu sorrizo saírem os frutos
+do amor, e quando o leite encher seus peitos mimozos, para que ella
+suspenda ao colo os filhos de Ubirajara.»
+
+Arací ouviu as palavras do guerreiro, palpitante como a corça; e ornou a
+fronte do espozo com o cocar de plumas vermelhas, que tecera em segredo.
+
+Depois, sentindo os olhos de Ubirajara que bebiam a sua formozura, ella
+vestiu o aimará mais alvo do que a pena da garça.
+
+A tunica de algodão entretecida de penas de beija-flôr dece das espaduas
+até á curva da perna, cinjida pela liga da virjindade.
+
+Quando Arací passava entre os guerreiros que admiravam sua beleza, ella
+não córava, porque sua castidade a vestia, como a flôr á sapucaia.
+
+Mas agora em prezença do guerreiro a quem ama e para quem guardou a sua
+virjindade, tem pejo, e esconde sua formozura ás vistas de Ubirajara.
+
+--Os olhos do espozo são como o sol, disse o guerreiro: elles queimam a
+flôr do corpo de Arací.
+
+--Arací tem medo que os olhos do espozo não a achem digna de seu amor; e
+vestiu seus enfeites.
+
+«Arací queria ser como a jurití, e ter no corpo uma penugem macia, que
+só a deixasse ver em sua formozura.
+
+«Foi por isso que tua espoza se cobriu com o seu aimará. Os olhos de
+Ubirajara não lhe queimarão mais a flôr de seu corpo.
+
+O guerreiro respondeu:
+
+--A flôr do igapê é mais formoza quando abre e se tinje de vermelho aos
+beijos do sol, do que fechada em botão e coberta de folhas verdes.
+
+Ubirajara tomou nos braços a espoza, e pôz o pé na soleira da porta.
+
+Nesse momento soou um clamor; chegaram os guerreiros que vinham chamar o
+vencedor á prezença de Itaquê.
+
+O carbeto dos anciãos tinha decidido que o vencedor antes de receber a
+espoza, devia declarar quem era; pois fôra recebido como estranjeiro, e
+ninguem na taba o conhecia.
+
+
+
+
+VII
+
+A GUERRA
+
+
+Itaquê esperava sentado na cabana, e cercado do carbeto dos anciãos.
+
+Jurandir entrou; Arací ficou na porta, orgulhoza do espozo que a
+conquistára e da admiração que elle ia inspirar aos guerreiros da sua
+nação.
+
+Itaquê falou:
+
+--Quando o estranjeiro chegou á cabana de Itaquê, ninguem lhe perguntou
+quem era e donde vinha. O hospede é senhor.
+
+«Mas agora o estranjeiro saiu vencedor do combate do cazamento e
+conquistou uma espoza na taba dos tocantins.
+
+«É precizo que elle se faça conhecer; porque a filha de Itaquê, o pai da
+nação dos tocantins, jámais entrará como espoza na taba onde habite quem
+tenha ofendido a um só de seus guerreiros.»
+
+O estranjeiro disse:
+
+--Morubixaba, abarés, moacaras e guerreiros da valente nação tocantim,
+vós tendes prezente o chefe dos chefes da grande nação araguaia.
+
+«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança; e o maior guerreiro depois do
+grande Camacan, cujo sangue me gerou. Se quereis saber porque tomei este
+nome, ouvi a minha maranduba de guerra.»
+
+Ubirajara contou o seu encontro com Pojucan; o combate em que o venceu,
+e a festa do triunfo, até o momento em que deixou a taba dos araguaias.
+
+Terminou dizendo que no seguinte sol partiria, para assistir ao combate
+da morte, como prometera ao prizioneiro.
+
+Ninguem interrompeu a maranduba de guerra. Ubirajara ouviu um gemido;
+mas não soube que rompera do seio de Arací.
+
+Itaquê arquejou como o rio ao pezo da borrasca.
+
+--Tu és Ubirajara, senhor da lança. Eu sou Itaquê, pai de Pojucan. Tenho
+em face o matador de meu filho; mas elle é meu hospede!
+
+«Chefe dos araguaias, tu és um joven guerreiro; pergunta a Camacan que
+te gerou, qual deve ser a dôr do pai, que não póde vingar a morte do
+filho.»
+
+O grande chefe vergou a cabeça ao peito, como o cedro altaneiro batido
+pelo tufão.
+
+Pojucan tinha sua taba mais lonje, na outra marjem do rio. Elle partira
+na ultima lua para rastejar a marcha dos tapuias; e voltava senhor do
+caminho da guerra quando encontrou Ubirajara.
+
+Seu pai e os guerreiros de sua taba pensavam que elle buscava na
+floresta o caminho da guerra. Mal sabiam que a essa hora esperava
+prizioneiro na taba dos araguaias o combate da morte.
+
+Anciãos e guerreiros emudeceram. Todos respeitavam a dôr do pai, e não
+ouzavam perturbal-a.
+
+Jacamim, a mãi de Pojucan, aproximára-se. O grande chefe ouviu seu
+gemido.
+
+--A espoza de Itaquê não chora na prezença do matador de seu filho.
+
+Á voz do espozo, a mãi teve força para esconder no seio sua tristeza, e
+mostrar-se digna do grande chefe dos tocantins.
+
+Ubirajara falou:
+
+--A vingança é a gloria do guerreiro; Tupan a deu aos valentes.
+Ubirajara venceu Pojucan em combate leal, e aceita o dezafio de Itaquê e
+de todos os chefes tocantins.
+
+--Tu és meu hospede; emquanto Itaquê brandir o grande arco da nação
+tocantim, ninguem ofenderá o amigo de Tupan na taba de seus guerreiros.
+
+Dizendo assim, o grande chefe ergueu-se e trocou com o estranjeiro a
+fumaça da despedida.
+
+--Parte. O sol que viu o estranjeiro na cabana hospedeira o acompanhará
+amigo; mas com a sombra da noite, mil guerreiros, mais velozes que o
+nandú, partirão para levar-te a morte.
+
+Ubirajara tomou suas armas e disse:
+
+--O hospede vai deixar tua cabana, chefe dos tocantins; tu verás chegar
+o guerreiro inimigo.
+
+ * * * * *
+
+Itaquê seguiu o estranjeiro até o terreiro; em torno delle se reuniram
+os abarés, os moacaras e os guerreiros para assistirem á partida.
+
+Ubirajara caminhou com o passo lento e grave até o fim da taba.
+
+Chegado ali, tornou rapido á entrada da cabana, e retrocedeu apagando no
+chão o vestijio de seus passos.
+
+A nação tocantim o observava imovel.
+
+Por fim o estranjeiro postou-se no centro da ocara e com o formidavel
+tacape vibrou no largo escudo um golpe que repercutiu pela taba como o
+estrondo da montanha.
+
+--O hospede passou o lumiar da cabana que o tinha acolhido, e apagou seu
+rasto na taba dos tocantins.
+
+«Quem está aqui é um guerreiro armado, que piza senhor a taba de seus
+inimigos.
+
+«Itaquê, morubixaba dos tocantins, Ubirajara, o senhor da lança, grande
+chefe dos araguaias, te envia a guerra na ponta de sua seta.»
+
+Quando o guerreiro acabou de proferir estas palavras, Itaquê levantou os
+olhos e viu cravada na figura do tucano, que era o simbolo da nação, a
+seta de Ubirajara.
+
+Mil arcos se ergueram, mil tacapes brandiram. A voz possante de Itaquê
+abateu as armas de seus guerreiros.
+
+Disse o morubixaba:
+
+--A lei de hospitalidade é sagrada. A cólera do estranjeiro não deve
+perturbar a serenidade do varão tocantim.
+
+Depois voltou-se para o inimigo:
+
+--Ubirajara, grande chefe dos araguaias: Itaquê, o pai da poderoza nação
+tocantim aceita a guerra que tu lhe enviaste. Recebe em teu escudo o
+penhor do combate.
+
+A corda do grande arco da nação tocantim brandiu, e a seta de Itaquê
+mordeu o escudo de Ubirajara.
+
+--Vai buscar teus guerreiros e nós combateremos á frente das nações.
+
+--Ubirajara combaterá até que lhe restituas a espoza; assim como elle a
+conquistou a seus rivais, saberá conquistal-a a ti e á tua nação.
+
+O chefe araguaia partiu. No seio da floresta encontrou Arací que o
+esperava.
+
+A formoza virjem fôra á cabana do cazamento buscar a rêde nupcial e
+preparar-se para acompanhar o espozo.
+
+--Ubirajara parte; mas antes de cinco sóes elle estará aqui para te
+conquistar á tua nação.
+
+--A espoza te acompanha. Teu braço valente já a conquistou; e ella
+entregou-se a seu senhor. Arací te pertence; deves leval-a.
+
+A virjem tocantim dezejava seguir Ubirajara á taba dos araguaias. Falava
+em sua alma a ternura da espoza e da irmã.
+
+Partindo, ella unia-se para sempre a seu guerreiro, e esperava que o
+amor o moveria a salvar Pojucan.
+
+Ubirajara pensou e disse:
+
+--Se Ubirajara tivesse rompido a liga de Arací, ella era sua espoza, e
+ninguem a arrebataria de seus braços. Mas a virjem tocantim não póde
+abandonar a cabana onde naceu sem a vontade de seu pai.
+
+Arací suspirou:
+
+--Ubirajara vai deixar a lembrança de Arací nos campos dos tocantins.
+Jandira o espera na taba dos araguaias, e lhe guarda o seu sorrizo de
+mel.
+
+--A luz de teus olhos, Arací, estrela do dia, foi buscar Ubirajara na
+taba dos seus, onde resoavam os cantos de seu triunfo, e o trouxe á tua
+cabana.
+
+«Quando elle partiu encontrou Jandira, e para que a filha de Majé não o
+acompanhasse a deu a Pojucan, como espoza do tumulo.»
+
+--O goaná do lago vôa lonje, para banhar-se nas aguas da chuva que
+alagaram a varzea; mas logo volta ao seu ninho, e não se lembra mais da
+moita onde dormiu.
+
+--Ubirajara é um guerreiro; elle não aprende com o goaná do lago, que
+foje do perigo, mas com o gavião, grande chefe dos guerreiros do ar, que
+nunca mais abandona o rochedo onde assentou a sua oca.
+
+--Se Ubirajara amasse a espoza, tambem não a abandonaria. Os braços de
+Arací já cinjiram o colo de seu guerreiro. O tronco não desprende de si
+a baunilha que se entrelaçou em seus galhos.
+
+Ubirajara calcou a mão sobre a cabeça de Arací:
+
+--Itaquê respeitou a lei de hospitalidade no corpo de Ubirajara,
+Ubirajara não deixará a traição na terra hospedeira.
+
+«Arací não deve querer para espozo um guerreiro menos generozo do que
+seu pai.»
+
+A virjem emudeceu. Ella sabia que a honra é a primeira lei do guerreiro.
+
+Antes de partir, o chefe consolou a espoza:
+
+--Ubirajara vai pedir ao gavião suas azas para voltar ao seio de Arací.
+Elle virá á frente de sua nação, conduzido pela luz de teus olhos.
+
+«As outras mulheres são o premio de um combate entre os servos de seu
+amor. Arací terá essa gloria, que ella será o premio da maior guerra que
+já viram as florestas.»
+
+O chefe araguaia pôz as mãos nos hombros de Arací; duas vezes uniu o seu
+ao rosto della, por uma e outra face, para exprimir que nada os podia
+separar.
+
+Quando o guerreiro dezapareceu na floresta, Arací caminhou para a cabana
+do espozo, que ficára triste e solitaria.
+
+A virjem fechou a porta; sentou-se na soleira, e cantou sua tristeza.
+
+Dois sóes tinham passado, e viera a noite.
+
+A ultima estrela se apagava no céu, quando Ubirajara pizou os campos dos
+araguaias.
+
+Sua mão robusta, vibrando a clava, feriu o trocano. A voz da nação
+araguaia derramou-se ao lonje pelo vale, como o estrondo da montanha que
+arrebenta.
+
+Com o primeiro raio do sol que subia o pincaro da serra, chegaram á
+grande taba os chefes das cem tabas araguaias, com todos seus
+guerreiros, convocados á ocara da nação.
+
+Ubirajara mandou que Pojucan, o prizioneiro, viesse á sua prezença:
+
+--Vê o mar dos meus guerreiros que enche a terra, como as aguas do
+grande rio quando alaga a varzea. Elles esperam o aceno de Ubirajara
+para inundarem teus campos.
+
+«A nação tocantim carece neste momento do braço de seus maiores
+guerreiros; vai levar-lhe o socorro de teu valor, para que se aumente a
+gloria de Ubirajara, seu vencedor.
+
+«Tu és livre, Pojucan; parte e vôa, que a guerra dos araguaias te segue
+os passos.»
+
+O semblante do filho de Itaquê ficou sombrio:
+
+--Pojucan é um chefe ilustre; não merece esta dezhonra. Tu lhe
+prometeste a morte dos bravos. Elle exije o combate.
+
+O chefe araguaia contou a maranduba da hospitalidade:
+
+--Ubirajara não sabia que Pojucan era filho de Itaquê; pois elle nunca
+pizaria como hospede a cabana de um guerreiro, a quem tivesse decepado
+um filho. É precizo que recuperes a liberdade para que não se diga que
+Ubirajara surpreendeu a hospitalidade do grande chefe dos tocantins.
+
+Pojucan não respondeu. Elle reconhecera que a honra de seu vencedor
+exijia sua volta á taba dos seus.
+
+--Parte. Nós combateremos á frente das nações. Ubirajara pertence a
+Itaquê; mas depois delle terás a gloria de ser vencido outra vez por
+este braço.
+
+--Ubirajara é um grande chefe e maior guerreiro. Se Tupan não consente
+que Pojucan seja vencedor, elle não quer maior gloria do que a de morrer
+combatendo Ubirajara.
+
+Pojucan foi á cabana de seu vencedor buscar as armas. Ubirajara
+arrimou-se ao tacape, como o rochedo que se apoia ao tronco do ipê, e
+meditou.
+
+Quando passou o chefe tocantim que voltava á sua taba, Ubirajara
+levantou a cabeça e disse:
+
+--Os olhos de Ubirajara te acompanham; tu és irmão de Arací, e vais para
+junto della. Dize á estrela do dia, que seu espozo está com ella.
+
+O conselho dos abarés se reunira para meditar sobre a guerra. O velho
+Majé, a quem irritava o dezaparecimento da filha, reparou que sem o voto
+do carbeto se convocasse a nação.
+
+Veiu um mensajeiro chamar o grande chefe para o carbeto. Ubirajara
+chegou. Antes que falasse a voz dos anciãos, o guerreiro levantou o arco
+e disse:
+
+--O conselho dos anciãos governa a taba, e medita nella coizas da paz.
+Toda a nação respeita sua prudencia e sabedoria.
+
+«Mas emquanto Ubirajara brandir o grande arco dos araguaias, tem a
+guerra fechada em sua mão.
+
+«Quando elle soltar o grito de combate, a voz que falar da paz emudecerá
+para sempre, ainda que venha da cabeça do abaré que a lua já
+embranqueceu.
+
+«Quem não quizer assim, venha arrancar da mão de Ubirajara este arco
+que elle conquistou por seu valor.»
+
+Os abarés estremeceram. Mas o carbeto meditou, e decidiu que a maior
+gloria e sabedoria da nação era ter o seu grande arco de guerra na mão
+de um chefe como Ubirajara.
+
+Camacan tratou com os anciãos ácerca da defeza das tabas; e o grande
+chefe abriu o caminho da guerra.
+
+ * * * * *
+
+Quando Ubirajara desdobrou sua guerra pela marjem do grande rio, elle
+viu que uma nação tapuia se preparava para assaltar a taba dos
+tocantins.
+
+O grande chefe tocou a inubia, cuja voz chamava o joven Murinhem,
+primeiro dos cantores araguaias.
+
+Correu o nhengaçára á prezença do grande chefe, e delle recebeu a
+mensajem que devia levar ao campo inimigo.
+
+Os cantores eram respeitados por todas as nações das florestas, como os
+filhos da alegria; pelo que serviam de mensajeiros entre as nações em
+guerra.
+
+Elles penetravam no campo inimigo, entoando o seu canto de paz; e nenhum
+guerreiro ouzava ofender aquelle a quem Tupan concedera a fonte da
+alegria.
+
+Murinhem atravessou rapido a campina e aprezentou-se em frente de
+Canicran, chefe dos tapuias.
+
+--Ubirajara, o senhor da lança, que empunha o arco da poderoza nação
+araguaia, te manda, a ti quem quer que sejas, e a todos quantos te
+obedecem, a sua vontade.
+
+O tapuia rujiu; mas seus olhos viam o mar dos guerreiros araguaias que o
+cercava, e na frente o grande vulto de Ubirajara, semelhante ao rochedo
+sombrio e imovel no meio dos borbotões da cachoeira.
+
+Os guerreiros de Canicran só conhecem a vontade do seu chefe; e Canicran
+afronta a cólera de Tupan e das nações que elle gerou. Dize, mensajeiro,
+o que pede Ubirajara, ao grande chefe dos tapuias.
+
+--Ubirajara te manda que encostes o tacape da guerra. A nação tocantim
+aceitou a sua flecha de dezafio, e elle não consente que ninguem combata
+seu inimigo, antes de o ter vencido.
+
+--Torna e dize ao grande chefe araguaia, que Canicran veiu trazido pela
+vingança. Pojucan, um dos chefes tocantins penetrou em sua taba e
+incendiou a cabana do pajé, que foi devorado pelas chamas.
+
+«Ubirajara é um grande chefe araguaia; elle que diga se o pai da nação
+póde sofrer tão dura afronta. Canicran escuta a voz de sua amizade.»
+
+O chefe tapuia tomou uma de suas flechas; arrancou o farpão e deu ao
+mensajeiro a haste emplumada com azas negras do anun, que era o emblema
+guerreiro de sua nação.
+
+--Toma; entrega ao grande chefe araguaia o penhor da aliança.
+
+Murinhem partiu e foi á taba dos tocantins levar igual mensajem. Itaquê
+escutou o que lhe mandava Ubirajara e respondeu:
+
+--Antes que Itaquê trocasse com Ubirajara a seta do dezafio, Pojucan
+tinha levado a guerra á taba dos tapuias.
+
+«Canicran veiu trazido pela vingança; e a nação tocantim não póde
+recuzar o combate. Mas Itaquê sabe honrar seu nome; se Ubirajara quer,
+elle combaterá juntamente os dois inimigos.»
+
+O mensajeiro tornou ao campo dos araguaias com as respostas dos dois
+chefes. Ubirajara ouviu e meditou.
+
+--Escuta a vontade de Ubirajara para leval-a aos inimigos. O grande
+chefe araguaia não roubará a Canicran a gloria da vingança; elle
+respeita a honra da nação tapuia, mas rejeita sua aliança. Restitue o
+penhor que recebeste.
+
+«Itaquê póde aceitar o combate que Pojucan foi buscar; Ubirajara não
+ofende o nome de um guerreiro, ainda mais de um morubixaba, e do pai de
+Arací.
+
+«O chefe dos araguaias não carece de auxilio para triunfar de seus
+inimigos: dezeja que a nação tocantim derrote aos tapuias, para ter elle
+a gloria de vencer ao vencedor.
+
+«Se Itaquê não póde repelir os tapuias, Ubirajara toma a si castigar os
+barbaros; e depois de varrel-os das florestas, combaterão as duas
+nações.
+
+«Se os tocantins necessitam de aliados para rezistir ao ímpeto dos
+araguaias, Ubirajara espera que Itaquê os chame e que elles venham.
+
+«Murinhem falará assim a um e outro chefe; a ambos dirá que a cabana
+onde estiver Arací fica sob a guarda de Ubirajara; quem nella penetrar
+como inimigo, sofrerá a morte vil do cobarde.»
+
+O guerreiro deixou a voz do chefe e falou com a voz de espozo:
+
+--A Arací levarás o canto de amor de Ubirajara. Tu lhe dirás que arme a
+rêde nupcial, e não deixe nossa cabana, emquanto Ubirajara não a fôr
+buscar.
+
+«Conta-lhe tambem que o canitar que ella teceu, ainda não deixou a
+cabeça de seu guerreiro e ha de acompanhal-o sempre.»
+
+
+
+
+VIII
+
+A BATALHA
+
+
+A um lado da imensa campina move-se a multidão dos guerreiros tocantins,
+do outro lado a multidão dos guerreiros tapuias.
+
+As duas nações se estendem como dois lagos formados pelas grandes
+chuvas, que se transformam em rios e atravessam o vale.
+
+De um e outro campo levantou-se a pocema guerreira; e os dois povos
+arremetendo travaram a batalha.
+
+Itaquê achou-se em frente de Canicran. Ambos se buscavam; dez vezes
+tinham combatido; vencedores ambos, nenhum fôra vencido.
+
+Emquanto viverem os formidaveis guerreiros, não é possivel quebrar a
+flecha da paz entre as duas nações.
+
+Era precizo que um delles morresse, para que o vencedor encostasse o
+tacape do combate, e désse repouzo á sua nação para reparar os estragos
+da guerra.
+
+Quando os dois chefes se encontraram, os guerreiros de um e outro campo
+ficaram imoveis, contemplando o pavorozo combate.
+
+Ubirajara, de lonje, apoiado em seu grande arco, admirava os dois
+guerreiros, e pensava qual não seria o seu orgulho em vencel-os a ambos.
+
+Durára a peleja o espaço de uma sombra. Em torno dos chefes lastravam o
+chão os tacapes e escudos que se tinham espedaçado aos golpes de cada
+um.
+
+Imoveis no mesmo logar, só ajitavam a cabeça e os braços, semelhantes a
+dois condores que, de garras prezas aos pincaros do rochedo, se
+dilaceram com o bico adunco.
+
+Um rujido espantoso atroou pela campina, que estremeceu a batalha e
+rolou pelas profundezas da floresta.
+
+Paan, a seta, era o ultimo filho de Canicran. Ainda corumim, pelejava ao
+lado do irmão, o guerreiro Creban, cujo hombro mal alcançava com o
+braço.
+
+Elle tinha nos olhos a vista da gaivota, e nas setas de seu arco, feitas
+de espinhos de ouriço, a velocidade e a certeza do vôo do guanumbí.
+
+Quando caçava na floresta, divertia-se em matar as motuças
+traspassando-as com suas flechas, que voavam mais rapidas e certeiras
+que as vespas venenozas.
+
+Paan saltára sobre os hombros do guerreiro Creban para assistir ao
+combate. Admirando o valor de Canicran, teve orgulho e inveja do pai.
+
+Itaquê desfechára tão formidavel golpe, que o tacape e escudo de
+Canicran se espedaçaram em suas mãos, deixando-o á mercê do inimigo.
+
+O chefe tocantim arrojou-se, e já sua mão decia sobre a espadua do
+tapuia para fazel-o prizioneiro.
+
+O arco de Paan sibilou duas vezes. Os olhos de Itaquê, os olhos do varão
+forte que nunca humedecera uma lagrima, choraram sangue.
+
+As setas do corumim tinham vazado as pupilas do fero guerreiro cuja
+vista era raio. Assim a jandaia rôe o grelo do procero coqueiro.
+
+Foi então que Itaquê soltou o rujido pavorozo que fez tremer a terra.
+Mas o grito de espanto sossobrou no peito dos guerreiros, e rompeu em
+um grito de horror.
+
+Itaquê estendera os braços, hirtos como duas garras de condor.
+
+A mão direita abarcou o penacho e a cabeleira de Canicran, a esquerda
+entrou pela boca do tapuia e travou-lhe o queixo.
+
+Separaram-se os braços do guerreiro cégo, e a cabeça de Canicran
+abriu-se como um côco que se fende pelo meio.
+
+Ajitando no ar o craneo sangrento como um maracá de guerra, Itaquê
+arrojou-se contra os inimigos, buscando a morte que lhe fujia.
+
+Quando o sol entrou, não havia na campina a sombra de um tapuia.
+
+O velho heróe voltou á cabana conduzido por Pojucan:
+
+--Tupan viu que Itaquê não podia ser vencido pela mão dos homens, e quiz
+vencel-o elle mesmo pela mão de um menino.
+
+Quando Ubirajara viu o exito do combate, lamentou que dos dois grandes
+guerreiros não restasse nenhum, para que elle o vencesse.
+
+Seus olhos descobriram Paan que fujia no meio dos destroços de sua
+nação. Ergueu a mão, mas não chegou a retezar a seta.
+
+A aguia não persegue a andorinha. Era indigno de um guerreiro, quanto
+mais de um chefe, empregar seu valor contra um menino.
+
+O chefe chamou á sua prezença Tubim, um dos jovens caçadores que tinham
+acompanhado a guerra para prover o alimento.
+
+--Tubim tem as azas da abelha; se elle alcançar o corumim tapuia que eu
+estou olhando, Ubirajara lhe dará o nome de Abeguar.
+
+O joven caçador seguiu o olhar do chefe, e sumiu-se num turbilhão de
+poeira. Quando os vagalumes começaram a luzir no escuro da mata, elle
+estava de volta no campo dos araguaias e trazia o corumim fechado nos
+braços.
+
+Nessa mesma noite Tubim recebeu o nome de Abeguar, senhor do vôo, em
+honra da façanha que tinha realizado.
+
+Os cantores entoaram seu louvor; e o joven caçador teve a gloria de
+receber os aplauzos dos moacaras de sua nação, e de um chefe como
+Ubirajara.
+
+Ao raiar da manhã, Murinhem foi á taba dos tocantins, acompanhado por
+vinte guerreiros que conduziam o corumim.
+
+Quando chegou em frente á cabana do grande chefe, o cantor viu Itaquê no
+terreiro sentado em uma sapopema.
+
+O guerreiro fitava os olhos no céu, onde o calor lhe dizia que estava o
+sol. Mas não encontrava a luz que para sempre o abandonára.
+
+Então o velho guerreiro abaixava os olhos para terra, como se buscasse o
+logar do repouzo.
+
+Quando soaram lonje os passos dos estranjeiros, o chefe alongou a fronte
+para ver pelo ouvido o que os olhos lhe recuzavam.
+
+Murinhem chegou e disse:
+
+--Ubirajara envia a Itaquê o resto da vingança. Este é Paan, o filho de
+Canicran. Elle te roubou a vista; mas não salvou o pai de tua mão
+terrivel. Faze do corumim tapuia um mancebo tocantim; e elle será a luz
+de teus olhos e caminhará na frente do grande chefe para abrir-lhe o
+caminho da guerra.
+
+Paan avançou:
+
+--O filho de Canicran jámais será escravo; naceu tapuia e tapuia
+morrerá, como o grande chefe que o gerou. Emquanto o ouriço viver nas
+florestas, elle roubará seus espinhos para furar os olhos dos tucanos.
+
+Itaquê pouzou a palma da mão na cabeça do menino:
+
+--O corumim que ama seu pai é filho de Itaquê. Tu és livre, Paan; vai
+caçar o ouriço. Quando fôres um guerreiro, acharás cem mancebos do
+sangue de Itaquê para castigarem tua audacia.
+
+O chefe voltou-se para o cantor:
+
+--Tupan tirou a luz dos olhos de Itaquê; mas aumentou a força de seu
+braço. Ubirajara terá para combatel-o um inimigo digno de seu valor.
+
+Murinhem tornou ao chefe araguaia com esta resposta.
+
+ * * * * *
+
+Quando partia o cantor, chegaram á cabana de Itaquê os abarés da nação
+tocantim.
+
+Os anciãos sentaram-se em torno do guerreiro cégo; e bebendo a fumaça da
+sabedoria, formaram o carbeto.
+
+Falou Guaribú:
+
+--O grande arco da nação carece de uma mão robusta para brandir sua
+corda, e de um olho seguro para dirijir sua seta. Itaquê é o maior
+guerreiro das florestas; seu nome faz tremer aos mais valentes dos
+inimigos; seu braço fere como o raio. Mas a luz fujiu de seus olhos e
+elle não póde mais abrir o caminho da guerra.
+
+O velho chefe ergueu-se com o passo trôpego. Alcançando o grande arco
+dos tocantins abraçou-se com elle e falou-lhe.
+
+--Quando Itaquê te recebeu da mão do grande Javarí elle pensava que só a
+morte o separaria de ti, para transmitir-te a um guerreiro de seu
+sangue. Mas Itaquê ficou na terra, como um tronco levado pela corrente,
+que não sabe onde vai.
+
+Um esguicho de sangue saltou dos buracos, onde o velho tivera os olhos.
+Era a lagrima que a desgraça lhe deixára.
+
+Os abarés meditaram. Guaribú falou de novo:
+
+--O grande arco da nação que tu recebeste do grande Javarí, teu pai, não
+te abandonará. Elle fica em tua mão invencivel; haverá outro arco na mão
+do mais valente guerreiro, que abrirá o caminho da guerra. Mas emquanto
+Itaquê viver, sua voz governará a nação que elle defendeu com seu braço.
+
+O semblante do velho chefe cobriu-se de um sorrizo como o negro rochedo
+sobre o qual desliza um raio do luar.
+
+--Pais da sabedoria, abarés, olhai aquelle jatobá que se levanta no meio
+da campina, e que eu só posso ver agora na sombra de minha alma.
+
+«Elle tem muitas raizes que o sustentam nos ares; tem muitos galhos que
+o cercam e estendem ao lonje a sua rama. Mas o tronco é um só.
+
+«As grossas raizes são os abarés que sustentam o chefe com o seu
+conselho. Os galhos fortes são os moacaras que cercam o chefe e geram a
+multidão de guerreiros mais numeroza que as folhas das arvores. O tronco
+é o chefe da nação; se elle se dividir, o jatobá não subirá ás nuvens
+nem terá forças para rezistir ao tufão.
+
+«O logar de Itaquê é no conselho. O ultimo dente de seu colar de guerra
+foi o que elle arrancou da boca de Canicran. Convocai os guerreiros, e o
+que fôr mais forte e mais valente empunhe o grande arco da nação.
+
+O trocano chamou a nação ao carbeto. Vieram os moacaras, conduzindo suas
+tribus.
+
+O velho Itaquê contava pelos passos os guerreiros que chegavam. O grande
+arco da nação, que elle segurava direito, parecia um dos esteios da
+cabana, e tinha a corda tão grossa como a da rêde do chefe.
+
+Os mais famozos guerreiros tocantins se aprezentaram para disputar o
+grande arco; muitos conseguiram vergal-o; mas a seta não partiu.
+
+Itaquê escutava com o ouvido atento: o som delle conhecido não feriu os
+ares.
+
+--Onde está Pojucan? perguntou o velho chefe.
+
+O valente guerreiro do sangue de Itaquê estava de parte, grave e
+taciturno. Algum motivo o separava do arco chefe, que elle devia ser o
+primeiro a disputar.
+
+--Teu filho te escuta, respondeu.
+
+--Empunha o arco chefe; se ha um guerreiro tocantim que possa
+conquistal-o esse deve ser do sangue de Itaquê.
+
+Pojucan recebeu o arco. Fincando nelle os pés, o guerreiro arrojou-se
+para traz como a giboia quando se enrista para armar o bote.
+
+A seta partiu, e foi cravar a cabeça de um chefe tapuia, fincada na
+estaca, á entrada da taba.
+
+Itaquê curvára a cabeça. Elle ouviu brandir a arma; não era, porém,
+aquelle o zunido da corda do arco, quando o vergava sua mão possante.
+
+Pojucan depôz o arco chefe aos pés de Itaquê e disse:
+
+--Pojucan mostrou que em suas veias corre o sangue generozo de Itaquê.
+Mas o grande arco peza em sua mão. Só ha um guerreiro na terra que o
+possa brandir como Itaquê: e esse não cinje a fronte com o cocar das
+penas de tucano.
+
+--Pojucan negou a Itaquê esta ultima consolação. O arco invencivel do
+grande Tocantim que foi o pai da nação, vai sair de sua geração.
+Tocantim o transmitiu a seu filho Javarí, que me gerou; mas eu não sube
+gerar com seu sangue um guerreiro digno delles.
+
+
+
+
+IX
+
+UNIÃO DOS ARCOS
+
+
+Os tapuias voltaram; e com elles vinha Agniná á frente de sua nação,
+para vingar a morte de Canicran, seu irmão.
+
+Era grande a multidão dos guerreiros; e maior a tornavam a sanha da
+vingança e a fama do chefe que a conduzia.
+
+Não eram tantos os tocantins; mas bastaria seu valor para igualal-os, se
+não lhes faltasse a cabeça, que reje o corpo.
+
+A poderoza nação estava como o bando de caitetús que perdeu o pai, e
+desgarra-se pela floresta, correndo sem rumo.
+
+Os mais valentes moacaras, chefes das tribus, esperavam pelo grande
+chefe da nação para abrir-lhes o caminho da guerra.
+
+Os abarés meditaram. Elles não podiam inventar um guerreiro capaz de
+suceder a Itaquê; mas não se rezignavam a abater a gloria da nação,
+trocando o arco invencivel do grande Tocantim por outro arco mais leve,
+que Pojucan manejasse.
+
+Tambem Pojucan anunciára, que não podendo brandir o arco de Itaquê,
+jámais empunharia outro arco chefe, menos gloriozo do que o do grande
+Tocantim.
+
+Abarés, chefes, moacaras, guerreiros, toda a nação se reuniu em torno do
+heróe cégo.
+
+Daquelle que durante tantas luas defendera a nação com a força de seu
+braço, e a protejera com o terror de seu nome, esperavam ainda a
+salvação.
+
+O velho ouviu a voz dos abarés, a voz dos chefes, a voz dos moacaras, a
+voz dos guerreiros, e disse:
+
+--Itaquê ainda póde combater e morrer por sua nação; mas sem a luz do
+céu, elle não póde mais abrir a seus filhos o caminho da vitoria.
+
+«O braço de Itaquê defendeu sempre a nação tocantim; quer ella ser
+defendida agora pela palavra daquelle, que não tem mais para dar-lhe
+senão a experiencia de sua velhice?
+
+«Pensem os abarés, os chefes, os moacaras e os guerreiros.»
+
+Guaribú respondeu:
+
+--A nação pensou. Fala e todos obedecerão á tua palavra, como obedeciam
+ao braço de Itaquê.
+
+--A voz do coração diz ao neto de Tocantim, que a gloria da nação que
+elle gerou, não se póde extinguir. O sangue de Itaquê, passando pelo
+seio de Arací, se unirá a outro sangue generozo para brotar maior e mais
+ilustre.
+
+«Assim a terra onde naceu uma floresta de acajás recebe o limo do rio e
+gera nova floresta mais frondoza que a outra.
+
+«Jacamim, chama Arací, a filha de nossa velhice. E vós, abarés, chefes,
+moacaras e guerreiros, seguí-me.»
+
+O velho heróe atravessou a taba guiado por Arací.
+
+A nação o seguia em silencio.
+
+Quando o guerreiro cégo passava com a mão no hombro da virjem formoza
+que dirijia o seu passo incerto, os guerreiros lembravam-se do tronco já
+morto que a rama do maracujá ainda sustenta de pé junto ao penedo.
+
+Os cantores iam adiante, e entoavam um canto de paz.
+
+ * * * * *
+
+Um mensajeiro de Itaquê o precedera no campo dos araguaias.
+
+Ubirajara, cercado de seus abarés, chefes, moacaras e guerreiros, veiu
+ao encontro do morubixaba dos tocantins.
+
+A alma do grande chefe araguaia encheu-se da alegria de ver Arací; mas
+elle retirou os olhos da espoza, para que o amor não perturbasse a
+serenidade do varão.
+
+--Ubirajara está em face de Itaquê; para combatel-o se trouxe a guerra,
+para abraçal-o se trouxe a paz.
+
+--Nunca Itaquê pediu a paz ao inimigo que lhe trouxe a guerra, antes de
+o vencer; nem teria vivido tanto para cometer essa fraqueza. Elle vem
+trazer-te a vitoria para que tu a repartas com seu povo.
+
+O velho heróe avançou o passo:
+
+--Chefe dos araguaias, tu levaste a guerra á taba dos tocantins para
+conquistar Arací, a filha de minha velhice.
+
+«Por teu heroismo, e ainda mais pela nobreza com que restituiste a
+liberdade a Pojucan, tu merecias uma espoza do sangue tocantim.
+
+«Mas desde que tu ameaçaste tomal-a pela força de teu braço, Itaquê não
+podia mais conceder-te a filha de sua velhice, senão depois que abatesse
+teu orgulho.
+
+«Elle preparava-se para te combater, e á tua nação; mas fujiu-lhe dos
+olhos a luz que dirije a seta da guerra; e não ha entre seus guerreiros
+um que possa brandir o arco do grande Tocantim.»
+
+Quando pronunciou estas palavras, a voz do velho guerreiro sossobrou-lhe
+no peito:
+
+--O arco de Itaquê é como o gavião que perdeu as azas e não póde mais
+levar a morte ao inimigo. As andorinhas zombam de suas garras.
+
+«Empunha o arco de Itaquê, chefe dos araguaias, e tu conquistarás por
+teu heroismo uma espoza e uma nação.
+
+«Á espoza farás mãi de cem guerreiros como Itaquê; e á nação conservarás
+a gloria que ella conquistou quando o filho de Javarí a conduzia á
+guerra.
+
+«Tupan dará a teu braço esta força para que o sangue de Itaquê brote
+mais vigorozo e os netos de Tocantim dominem as florestas.»
+
+Ubirajara sorriu:
+
+--Chefe dos tocantins, teus olhos não podem ver o grande arco da nação
+araguaia; mas pergunta á tua mão, se o arco que Camacan brandia
+invencivel e agora empunha Ubirajara, cede ao arco de Itaquê.
+
+O velho heróe palpou o arco chefe dos araguaias e vergou-lhe a ponta ao
+hombro, como se a haste fosse de taquarí.
+
+Ubirajara travou do arco de Itaquê e desdenhando fincal-o no chão,
+elevou-o acima da fronte. A flecha ornada de penas de tucano partiu.
+
+O semblante de Itaquê remoçou, ouvindo o zunido que lhe recordava o
+tempo de seu vigor. Era assim que elle brandia o arco outr'ora, quando
+as luas creciam aumentando a força de seu braço.
+
+O velho inclinou a fronte para escutar o sibilo de sua flecha que
+talhava o azul do céu. Os cantores não tinham para elle mais doce
+harmonia do que essa.
+
+Ubirajara largou o arco de Itaquê para tomar o arco de Camacan. A flecha
+araguaia tambem partiu e foi atravessar nos ares a outra que tornava á
+terra.
+
+As duas setas deceram trespassadas uma pela outra como os braços do
+guerreiro quando se cruzam ao peito para exprimir a amizade.
+
+Ubirajara apanhou-as no ar:
+
+--Este é o emblema da união. Ubirajara fará a nação tocantim tão
+poderoza como a nação araguaia. Ambas serão irmãs na gloria e formarão
+uma só, que ha de ser a grande nação de Ubirajara, senhora dos rios,
+montes e florestas.
+
+O chefe dos chefes ordenou que tres guerreiros araguaias e tres
+guerreiros tocantins, ligassem com o fio do crautá as hastes dos dois
+arcos.
+
+Quando o arco de Camacan e o arco de Itaquê não fizeram mais que um,
+Ubirajara o empunhou na mão possante e mostrou-o ás nações:
+
+--Abarés, chefes, moacaras e guerreiros de minhas nações, aqui está o
+arco de Ubirajara, o chefe dos grandes chefes. Suas flechas são gemeas,
+como as duas nações, e voam juntas.
+
+Ambas as cordas brandiram a um tempo. A seta araguaia e a seta tocantim
+partiram de novo como duas aguias que par a par remontam ás nuvens.
+
+Quando se calou a pocema do triunfo, Ubirajara caminhou para a filha de
+Itaquê:
+
+--Arací, estrela do dia, tu pertences a Ubirajara que te conquistou pela
+força de seu braço. Agora que é senhor, elle espera tua vontade.
+
+A formoza virjem rompeu a liga vermelha que lhe cinjia a perna, e atou-a
+ao pulso de seu guerreiro.
+
+Ubirajara tomou a espoza aos hombros e levou-a á cabana do cazamento.
+
+O jasmineiro semeava de flôres perfumadas a rêde do amor.
+
+ * * * * *
+
+O outro sol rompia, quando os tapuias estenderam pela campina a multidão
+de seus guerreiros.
+
+Na frente assomava Agniná, a montanha dos guerreiros, ainda mais feroz
+do que o irmão, o terrivel Canicran.
+
+De um lado e do outro seguiam-se os chefes, cada um á frente de seus
+guerreiros.
+
+Ubirajara escolheu mil guerreiros araguaias e mil guerreiros tocantins,
+com que saiu ao encontro dos tapuias.
+
+Depois que desdobrou sua batalha pela campina, o chefe dos chefes
+caminhou só para o inimigo.
+
+Quando chegava a meio do campo, os tapuias levantaram a pocema de
+guerra, que atroou os ares, como o estrépito da cachoeira.
+
+Um turbilhão de setas crivou o longo escudo do heróe, que ficou
+semelhante ao grosso tronco da jussára, erriçado de espinhos.
+
+Ubirajara embraçou o escudo na altura do hombro, e com o pé brandiu sete
+vezes a corda do grande arco gemeo.
+
+As setas vermelhas e amarelas subiram direitas ao céu e se perderam nas
+nuvens.
+
+Quando voltaram, Agniná e os chefes que obedeciam a seu arco, tinham
+cada um fincado na cabeça o dezafio do formidavel guerreiro.
+
+Enfurecidos mais pelo insulto, do que pela dôr, arremessaram-se contra o
+inimigo que os esperava coberto com seu vasto escudo.
+
+Agniná era o primeiro na corrida, e o primeiro na sanha. Após elle
+vinham os outros, a dois e dois, lutando na rapidez.
+
+Quando o espozo de Arací viu que elles se estendiam pela campina, como
+dois ribeiros que se aproximam para confundir suas aguas, o heróe
+empunhou a lança de duas pontas e soltou seu grito de guerra que era
+como o bramir do jaguar, senhor da floresta.
+
+Seu pé devorou o espaço; e a lança de duas pontas girou em sua mão, como
+a serpente que se enrosca nos ares silvando.
+
+Caiu Agniná do primeiro bote; após elle caíram aos dois os chefes
+tapuias, como caem os juncos talhados pelo dente afiado da capivara.
+
+Então o heróe soltou seu grito de triunfo, que era como o rujido do
+vento no dezerto:
+
+--Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro invencivel que tem
+por arma uma serpente.
+
+«Eu sou Ubirajara, o senhor das nações, o chefe dos chefes, que varre a
+terra, como o vento do dezerto.»
+
+O heróe estendeu a vista pela campina, e não descobriu mais o inimigo,
+que se sumia na poeira.
+
+Ubirajara lançou-lhe seus guerreiros, que tinham fome de vingança; porém
+o terror de sua lança dava azas aos fujitivos.
+
+Desde esse dia nunca mais um tapuia pizou as marjens do grande rio.
+
+ * * * * *
+
+Ubirajara voltou á cabana, onde o esperava Arací.
+
+A espoza despiu as armas de seu guerreiro, enxugou-lhe o corpo com o
+macio cotão da monguba, e cobriu-o do balsamo fragrante da embaiba.
+
+Encheu depois de generozo cauim a taça vermelha feita do côco da
+sapucaia; e aplacou a sêde do combate.
+
+Emquanto nas grandes tabas se preparava a festa do triunfo e o heróe
+repouzava na rêde, Arací foi ao terreiro, e voltou conduzindo Jandira
+pela mão.
+
+--Arací, tua espoza, é irmã de Jandira. Ubirajara é o chefe dos chefes,
+senhor do arco das duas nações. Elle deve repartir seu amor por ellas,
+como repartiu sua força.
+
+A virjem araguaia pôz no guerreiro seus olhos de corça.
+
+--Jandira é serva de tua espoza; seu amor a obrigou a querer o que tu
+queres. Ella ficará em tua cabana para ensinar a tuas filhas como uma
+virjem araguaia ama seu guerreiro.
+
+Ubirajara cinjiu ao peito com um e outro braço, a espoza e a virjem.
+
+--Arací é a espoza do chefe tocantim; Jandira será a espoza do chefe
+araguaia; ambas serão as mãis dos filhos de Ubirajara, o chefe dos
+chefes, e o senhor das florestas.
+
+ * * * * *
+
+As duas nações, dos araguaias e dos tocantins, formaram a grande nação
+dos Ubirajaras, que tomou o nome do heróe.
+
+Foi esta poderoza nação que dominou o dezerto.
+
+Mais tarde, quando vieram os caramurús, guerreiros do mar, ella campeava
+ainda nas marjens do grande rio.
+
+
+
+
+ FIM
+
+
+
+
+NOTAS
+
+ADVERTENCIA
+
+
+Este livro é irmão de Iracema.
+
+Chamei-lhe de lenda como ao outro. Nenhum titulo responde melhor pela
+propriedade, como pela modestia, ás tradições da patria indijena.
+
+Quem por desfastio percorrer estas pajinas, se não tiver estudado com
+alma brazileira o berço de nossa nacionalidade, ha de estranhar entre
+outras coizas a magnanimidade que resumbra no drama selvajem e lhe fórma
+o vigorozo relevo.
+
+Como admitir que barbaros, quais nos pintaram os indijenas, brutos e
+canibais, antes féras que homens, fossem sucetiveis desses brios nativos
+que realçam a dignidade do rei da creação?
+
+Os historiadores, cronistas e viajantes da primeira época, se não de
+todo o periodo colonial, devem ser lidos á luz de uma critica severa. É
+indispensavel sobretudo escoimar os fatos comprovados das fabulas a que
+serviam de mote, e das apreciações a que os sujeitavam espiritos
+acanhados, por demais embuidos de uma intolerancia rispida.
+
+Homens cultos, filhos de uma sociedade velha e curtida por longo trato
+de seculos, queriam esses forasteiros achar nos indijenas de um mundo
+novo e segregado da civilização universal uma perfeita conformidade de
+idéas e costumes. Não se lembravam, ou não sabiam, que elles mesmos
+provinham de barbaros ainda mais ferozes e grosseiros do que os
+selvajens americanos.
+
+Desta prevenção não escaparam muitas vezes espiritos graves e bastante
+ilustrados para escreverem a historia sob um ponto de vista mais largo e
+filozofico.
+
+Entre muitos citarei um exemplo. Barloeus referindo as justas que se
+faziam entre os selvajens para obterem em premio de seu valor a virjem
+mais formoza, não se esqueceu de acrecentar este comento--_finis
+spectantium est voluptas_.
+
+Narrados com este pessimismo, as cenas da cavalaria, os torneios e
+justas não passariam de manejos inspirados pela sensualidade. Nada
+rezistiria á censura ou ao ridiculo.
+
+Por igual teor, senão mais grosseiras, são as apreciações de outros
+escritores ácerca dos costumes indijenas. As coizas mais poeticas, os
+traços mais generozos e cavalheirescos do carater dos selvajens, os
+sentimentos mais nobres desses filhos da natureza, são deturpados por
+uma linguajem impropria, quando não acontece lançarem á conta dos
+indijenas as extravagancias de uma imajinação desbragada.
+
+Releva ainda notar, que duas classes de homens forneciam informações
+ácerca dos indijenas: a dos missionarios e a dos aventureiros. Em luta
+uma com outra, ambas se achavam de acôrdo nesse ponto, de figurarem os
+selvajens como féras humanas. Os missionarios encareciam assim a
+importancia de sua catequese; os aventureiros buscavam justificar-se da
+crueldade com que tratavam os indios.
+
+Faço estas advertencias para que, ao lerem as palavras textuais dos
+cronistas citados nas notas seguintes, não se deixem impressionar por
+suas apreciações muitas vezes ridiculas. É indispensavel escoimar o fato
+dos comentos de que vem acompanhado, para fazer uma idéa exata dos
+costumes e indole dos selvajens.
+
+ * * * * *
+
+
+Paj. 5
+
+_Grande rio_.--Os tupís chamavam assim ao maior rio que existia na
+rejião por elles habitada: e daí rezultou ficarem tantos rios com essa
+dezignação na lingua orijinal ou traduzida.
+
+O rio grande de que se trata nesta lenda é o Tocantins, em cujas marjens
+se passa a ação dramatica.
+
+
+Paj. 5
+
+_Jaguarê_.--Nome composto de _Jaguar_, a onça e o sufixo _ê_ que na
+lingua tupí reforça emfaticamente a palavra a que se liga. _Jaguarê_,
+significa, pois, a onça, verdadeiramente onça, digna do nome, por sua
+força, corajem e ferocidade.
+
+
+Paj. 5
+
+_Uiraçaba_.--Nome que davam os tupís á aljava, de _uira_--seta e
+_aba_--dezinencia exprimindo o logar, modo e instrumento; literalmente
+«o que tem a seta.»
+
+Os selvajens a faziam, ou do tubo de taquarussú, ou da casca de certas
+arvores, guarnecida de fios embebidos de rezina, o que as tornava muito
+rezistentes.
+
+
+Paj. 6
+
+_Nome de guerra_.--«Mal nacia a criança logo se lhe punha nome. Hans
+Stade achou-se prezente numa dessas ocaziões. Convocou o pai aos mais
+proximos vizinhos de dormitorio, pedindo-lhes para o filho um nome viril
+e terrivel; não lhe agradando nenhum dos propostos, declarou que ia
+escolher o de um de seus quatro antepassados, o que daria fortuna ao
+rapaz, e repetindo-o em voz alta, fixou a escolha. Ao chegar á idade de
+ir á guerra, dava-se outro nome ao mancebo que aos seus titulos ia
+acrecentando um por inimigo que trazia para caza a ser imolado. Tambem a
+mulher tomava adicional apelido quando o marido dava uma festa
+antropofaga. De objetos viziveis se tirava o cognome, determinando o
+orgulho ou a ferocidade a escolha. O epiteto _grande_ frequentemente se
+compunha com o nome. Southey, _H. do Brazil_, tom. 1o, cap. 8o, paj.
+336.
+
+Póde-se ler tambem a este respeito o que diz Gabriel Soares, cit. no
+cap. 160, ácerca do nome que tomava o tupinambá quando matava o
+contrario, e no cap. 164 onde acrecenta: «Acontece muitas vezes cativar
+um tupinambá a um contrario na guerra, onde o não quiz matar para o
+trazer cativo para sua aldêa, onde o faz engordar com as ceremonias já
+declaradas para o deixar matar a seu filho quando é moço e não tem idade
+para ir á guerra, o qual o mata em terreiro, como fica dito, com as
+mesmas ceremonias; mas atam as mãos ao que ha de padecer, _para com isso
+o filho tomar nome novo e ficar_ armado cavaleiro e mui estimado de
+todos.»
+
+A este trecho de Gabriel Soares é precizo dar o devido desconto ácerca
+da engorda do cativo, e do papel insignificante que reprezenta o
+mancebo. Devemos crer que entre gente, cuja alma era a guerra, o titulo
+de guerreiro não se conferia ao mancebo que não fizesse prova real de
+seu esforço e corajem.
+
+Ives d'Evreux, cap. XXI, trata minuciozamente da graduação que a idade
+estabelecia entre os tupís. Havia para os guerreiros seis classes: 1o
+das crianças até dois anos, _mitanga_, que significa chupador ou
+mamador; 2o _curumim mirim_, isto é o pequeno que balbucia; compreendia
+os meninos até sete anos; 3o _curumim_ simplesmente, correspondia á
+segunda infancia de 7 a 15 anos; 4o _curumim-guassú_, era a
+adolecencia, em que os rapazes se empregavam na caça e na pesca; 5o
+_aba_--o homem, indicava o principio da virilidade, o qual logo que se
+cazava tornava-se apiaba, o varão, ou como diz d'Evreux, _mendarama_, o
+cazado; 6o _tijubaê_, o ancião ou veterano, o homem de experiencia,
+guerreiro consumado.
+
+
+Paj. 6
+
+_Jandira_.--O nome é _jandaíra_, de uma abelha que fabrica excelente
+mel; Jandira é uma contração mais eufonica daquelle nome, que tambem por
+sua vez é contração de _Jemonhaíra_, que fabrica mel.
+
+
+Paj. 6
+
+_Aratuba_.--Palavra que se compõe de _ara_--o sol e _tuba_--infinito do
+verbo _ajub_--estar deitado. Vem a ser a significação _leito do sol_,
+aplicada pelos indios á montanha do poente, onde o sol se esconde no seu
+ocazo.
+
+
+Paj. 6
+
+_Lança_.--O uzo da lança não era comum aos selvajens, que empregavam de
+preferencia o arco, o tacape, a macana, e a igarapema, especie de remo,
+que fazia as vezes de partazana. Outros escrevem _iverapema_; mas o nome
+é aquelle de _igara-pema_, espada da canôa; basta ver-lhe a fórma para
+compreender seu duplo destino.
+
+
+Paj. 6
+
+_Craúba_.-É a mesma _carabiuba_ dos indios, assim contraída pelo uzo dos
+nossos sertanejos. Madeira roxa, excessivamente rija, que não cede ao
+páu-ferro no pezo e na dureza.
+
+
+Paj. 7
+
+_A liga vermelha_.--Era este um dos mais curiozos e interessantes ritos
+dos tupís.
+
+Quando a menina atinjia a puberdade, depois de sua purificação, da qual
+tratam os autores, especialmente Orbigny e Thevet, a mãi punha-lhe nas
+pernas, abaixo do joelho, uma liga de fio de algodão tinta de vermelho,
+de tres dedos de largura, e tecida no proprio logar de modo que uma vez
+fechada, não era mais possivel tiral-a. Vide Gabriel Soares, cap. 153.
+
+A essa liga chamavam _tapacora_, e não a podia trazer senão a virjem, de
+modo que se acontecesse quebrar a castidade havia de rompel-a, para que
+todos conhecessem sua falta. Eis como Gabriel Soares se exprime a este
+respeito no cap. 152: «E como o marido lhe leva a flôr, é obrigada a
+noiva a quebrar estes fios para que seja notorio que é feita dona; e
+ainda que uma moça destas seja deflorada por quem não seja seu marido,
+ainda que seja em segredo, ha de romper os fios de sua virjindade, que
+de outra maneira cuidará que a leva o diabo, os quais dezastres lhes
+acontecem muitas vezes, etc.»
+
+Este simples traço é bastante para dar uma idéa da moralidade dos tupís,
+e vingal-a contra os embustes dos cronistas, que por não compreenderem
+seus costumes, foram-lhes emprestando gratuitamente, quanto inventavam
+exploradores mal informados e prevenidos.
+
+Em que sociedade civilizada se observa tão profundo respeito pela união
+conjugal, a ponto de não consentir-se que a mulher decaída conserve o
+segredo de sua falta, e iluda o homem que a busque para espoza?
+
+A rezignação com que a moça culpada rompia a liga da virjindade, e fazia
+confissão publica de seu erro, é um exemplo da lealdade do carater tupí
+e da veneração que inspiravam os ritos de sua relijião.
+
+Nega Southey, cap. VIII, que a liga vermelha e o respeito que ella
+inspirava indicassem guarda da castidade, porquanto a castidade como a
+caridade é virtude da civilização; do mesmo modo considera o amor uma
+delicadeza da vida civilizada. São paradoxos de escritor. Sentimentos
+naturais á creatura humana, dezenvolvem-se nella em qualquer estado e
+condições.
+
+Não é possivel negar a castidade da mulher tupí; além desse recato da
+virjindade, prova-a de modo cabal a continencia que homens e mulheres
+guardavam em certas circumstancias. Assim, nenhum homem tinha relações
+com a mulher inubil, nem ella o consentia; o proprio marido não violava
+essa lei, embora tivesse a espoza em seu poder. Gabriel Soares cit.
+Durante a gravidez e a amamentação interrompia-se absolutamente o
+ajuntamento conjugal. (Barloeus 2a edic.)
+
+Onde está a sociedade civilizada, que observe leis tão rigorozas, e
+refreie os instintos sensuais com a severidade uzada pelos tupís?
+
+Poderiamos fazer muitas outras observações que rezervamos para um estudo
+especial ácerca dos selvajens brazileiros.
+
+
+Paj. 7
+
+_Tocantim_.--Compõe-se de _tocano_ e _tim_; literalmente o nariz, o
+rostro do tucano. Nome que tomou um guerreiro por trazer na cabeça o
+despojo de um tucano com o grande bico da ave; e que transmitido a uma
+nação selvajem, ficou dezignando o rio a cujas marjens vivia.
+
+
+Paj. 7
+
+_Taarí_.--Rio que despeja no Tocantins, pouco depois da confluencia do
+Araguaia. Indica o logar da cena.
+
+
+Paj. 7
+
+_Araguaia_.--O nome é araguara, de _ara_ e _guara_, literalmente, os
+guerreiros das araras, porque uzavam nos seus ornatos das penas
+encarnadas daquellas aves. Conservei a versão que ficou no nome do rio.
+
+
+Paj. 8
+
+_Arací_.--Esta palavra tupí compõe-se de _ara_, dia, e _ceí_ ou _cejí_,
+grande estrela. Este ultimo nome davam os indijenas ás pleiades, que
+lhes serviam para contar os anos.
+
+
+Paj. 8
+
+_Cem dos melhores guerreiros_.--Nesta e outras frazes identicas, os
+numerais cem ou mil não reprezentam algarismo exato, que não os tinham
+os tupís para exprimir numero tão elevado. Traduzem apenas esses termos
+a dezinencia _tiba_, com que os tupís dezignavam cópia e multidão.
+
+
+Paj. 9
+
+_Canitar_.--Enfeite de cabeça. Adotei esta dezignação empregada pelos
+autores sob a autoridade de Hans Stade por me parecer mais eufonica. A
+exata lição pede _acanga atara_.
+
+
+Paj. 9
+
+_As duas nações não estão em guerra_.--As nações tupís não viviam em um
+estado perene de guerra, como propalaram alguns escritores. A guerra era
+frequente; mas não constante. As nações faziam a paz e nella se
+mantinham até que sobrevinha alguma cauza de rompimento. Então não
+começavam as hostilidades senão depois de anunciada a guerra ao inimigo,
+o que se fazia lançando-lhe uma flecha na taba, ou levando-lhe um
+guerreiro o dezafio.
+
+É uma prova do carater leal dos selvajens. Foi depois da colonização,
+que os portuguezes, assaltando-os como a feras, e caçando-os a dente de
+cão, ensinaram-lhes a traição que elles não conheciam.
+
+
+Paj. 10
+
+_Pojucan_.--Contração de uma fraze tupica._I-pojuca_;--significa: eu
+mato gente. Essas contrações não são arbitrarias; ellas eram da indole
+da lingua e conformes ao seu sistema de aglutinação. Todas as vezes que
+os indijenas compunham uma palavra, cerceavam as sílabas dos vocabulos
+que entravam na compozição, para ligal-as mais eufonicamente.
+
+Lemos em Alfred Maury _La Terre et l'homme_, cap. VIII, o seguinte
+trecho:
+
+«Nas linguas americanas, não é sómente uma sinteze que concentra em uma
+palavra todos os elementos da idéa mais complexa; ha ainda engrazamento
+(enchevêtrement) das palavras umas nas outras; é o que M. F. Lieber
+chama _incapsulação_, comparando a maneira por que as palavras entram na
+fraze a uma caixa na qual se conteria outra que a seu turno conteria
+terceira, esta uma quarta, e assim por diante. A incorporação das
+palavras é por vezes levada á extrema exajeração nesses idiomas, o que
+produz a mutilação dos vocabulos incorporados.»
+
+Esta observação é da maior justeza e conforma-se de todo o ponto com a
+indole da lingua, como se vê nas seguintes palavras--_A-por-u_--como
+gente--_A-poro-tim_--enterro gente--_A-po-çub_--vizito a gente. (Vide
+Figueira, _Gramatica da lingua do Brazil_, paj. 51.)
+
+
+Paj. 10
+
+_Tapuia_.--de _taba_ e _puir_, o que foje das tabas. Davam os indijenas
+esse nome a povos mais barbaros e de lingua diversa. Segundo as ultimas
+investigações etnolojicas, pertenciam esses povos a uma raça diversa da
+tupí, e muito aproximada, senão conjenere do tipo mongolico. Entretanto
+Orbigny, _L'Homme Américain_, sustenta a identidade das duas raças,
+tapuia e tupí.
+
+
+Paj. 10
+
+_Tacape_.--Davam os tupís o nome de _apem_, a um corpo alongado de fórma
+analoga á espada, e como ella cortante. Daí vinha chamarem a
+unha--_po-apem_, espada do dedo; e á raiz que surje da terra e se eleva
+como um galho--_sapopema_--raiz espada.
+
+Á sua principal arma de guerra chamavam _ita-ca-apem_, espada de
+páu-pedra; ou _ita-qui-apem_, machado comprido de pedra, por ter sido
+dessa materia que primeiro o fabricaram, antes de aprenderem a lavrar a
+madeira.
+
+Ácerca da força dessa arma e da destreza com que a manejavam, diz Lery
+que um tupinambá com ella armado daria que fazer a dois soldados de
+espada.
+
+
+Paj. 10
+
+_Guerreiro chefe_.--Para compreender-se bem a força dessa dezignação,
+diremos alguma coiza ácerca da hierarquia selvajem.
+
+Como a relijião, era simples o governo dos tupís; mas não careciam
+delle, segundo inculcam os cronistas: antes o tinham, e bem regulado
+para o seu estado de civilização.
+
+Podemos distinguir na taba selvajem uma sociedade civil e uma sociedade
+politica; a primeira reduzida á familia, e a segunda excluziva á
+subzistencia, defeza e guerra.
+
+A sociedade civil era constituida pela _oca_, a caza, onde o varão,
+_aba_, morava com suas mulheres, sua prole, os servos que trabalhavam
+para granjear as filhas em cazamento, os cativos que fazia na guerra, e
+os parentes que agregava a si.
+
+O dono da caza, ou literalmente o que fazia a caza, _moacara_, era a
+perfeita imajem do patriarca. Elle governava a sua gente; e formava uma
+sociedade independente, no seio da grande sociedade politica, de que era
+membro e para cuja defeza concorria não só por interesse proprio, mas
+pela honra da nação.
+
+_Moacara_ nos dicionarios significa fidalgo. A tradução resente-se da
+preocupação do homem civilizado; mas havia realmente uma distinção entre
+o _moacara_, chefe da oca, pai de muitos guerreiros, e o simples
+individuo que ainda não possuia uma familia.
+
+A sociedade politica, _taba_, era a reunião das ocas. Essa denominação
+vem de _tama_, a patria, o berço, a terra natal, e _aba_ dezinencia que
+indica o logar, modo, instrumento da coiza. Assim, _taba_ significa
+literalmente onde ou o que faz a patria, isto é, aldeia natal.
+
+O governo da _taba_, essencialmente democratico, rezidia no conselho dos
+_moacaras_, entre os quais predominava a experiencia dos anciãos, que se
+chamavam _abarés_ ou _abaetês_; isto é, varões egrejios.
+
+Nações essencialmente guerreiras, tinham um chefe para governal-as nas
+jornadas e batalhas. A estes davam o nome de _tuxava_, ou _tauxaba_, o
+dono da taba, _morubixaba_, o que governa o povo; de _moro_, gente, e
+_aba_, dezinencia.
+
+Quando as nações eram grandes e não cabiam numa taba, destacavam-se
+alguns _moacaras_ com suas familias e formavam novas tabas, sujeitas á
+taba mãi. Daí se orijinaria a diferença das duas dezignações, vindo
+então _tauxaba_ a dezignar o simples chefe de uma taba; e _morubixaba_ o
+chefe da taba primitiva, ou da nação, _moro_.
+
+Tambem acontecia que muitas vezes um _moacara_ poderozo separava-se de
+sua nação por cauza de alguma dissenção intestina, e constituia-se
+independente com seus decendentes, e os guerreiros a elle sujeitos pelo
+parentesco. Essa _oca_ independente, chamava-se _moroca_, isto é, oca de
+gente, de tribu e não mais de familia. O termo _moloca_ tão frequente
+nos cronistas não é senão corruptela daquelle, e póde corresponder ao de
+tribu ou horda.
+
+A nomeação do chefe participava da natureza dessa sociedade democratica
+e guerreira. O mais audaz e o mais forte impunha-se: a permanencia de
+sua autoridade, bem como sua extensão, dependia do respeito que elle
+conseguia infundir a seus guerreiros.
+
+No momento em que surjia outro ambiciozo a disputar o poder, este
+tornava-se o premio do mais valente. Acontecia então que o vencido com
+seus sectarios revoltava-se; e daí as frequentes guerras intestinas, que
+aniquilaram a raça indijena, ainda mais talvez do que a crueldade dos
+europeus.
+
+Na morte do _morubixaba_ ocorria igual pleito. O filho apossava-se do
+poder pelo direito de herança; e o conservava se não aparecia algum
+emulo mais poderozo que lh'o arrebatasse.
+
+Falando com as nossas teorias da civilização, podemos dizer que a baze
+desse poder executivo era, como nas republicas, o sufragio universal.
+Mas era o sufragio sempre ativo e vijilante, pronto a inclinar-se ao
+merecimento superior, onde elle se revelasse.
+
+Entre o chefe guerreiro (poder executivo), e o conselho dos _moacaras_
+(poder lejislativo) os conflitos eram inevitaveis. Morubixaba haveria,
+como o celebre Cunhanbebe, que era um verdadeiro despota. O tacape de
+muito heróe tupí ha de ter governado tão absolutamente como a espada de
+Cezar ou de Napoleão.
+
+Outros conflitos tambem se deviam dar frequentemente entre a influencia
+dos _pajés_ e o poder do chefe ou dos anciãos. Aquelles sacerdotes,
+cercados do respeito dos guerreiros, fortes pelo prestijio de seus
+augurios e sortilejios, tentariam insuflados pela ambição governar a
+taba, ou pelo menos fomentar a rezistencia ao chefe.
+
+Eis em escorço as paixões que deviam ajitar aquella sociedade politica,
+depois da guerra que era a maior preocupação.
+
+Além das ocas, ou familias, havia na taba uma especie de oca mais vasta
+e comum. Nessa parece que moravam aquellas pessoas, que já não tinham
+oca, e estavam a cargo da nação; tais eram as _velhas_, e por este nome
+devem-se entender as mulheres sem companhia de marido, nem parentes; os
+orfãos, aos cuidados daquellas mãis emprestadas; e finalmente as moças
+que não faziam vida conjugal.
+
+Vejamos agora a sociedade civil, tal como a podemos induzir dos
+acanhados esclarecimentos que nos deixaram os cronistas.
+
+O cazamento, baze da familia, devia ter alguma ceremonia simbolica,
+ainda que não passasse da simples entrega da noiva ao varão. Essa minha
+supozição funda-se no fato de haver entre esses povos um cazamento bem
+caracterizado, e não simples coito.
+
+A mulher lejitima distinguia-se pelo nome. O marido a chamava
+_temireco_, isto é, a verdadeira mãi de meus filhos; emquanto que ás
+outras mulheres, suas amantes, chamava _aguaçaba_. O marido tinha tambem
+um nome especial _menda_, que o distinguia do simples amante.
+
+Acrece que para obter a noiva o varão sujeitava-se a certas condições, e
+até mesmo a provas de corajem; donde devemos inferir com boa razão, que
+não era esse um ato insignificante para os selvajens, a ponto de não o
+distinguirem com uma fórmula qualquer, elles que em outros pontos eram
+tão ceremoniozos, como na recepção do hospede, na declaração da paz ou
+da guerra.
+
+Os cronistas, porém, não se ocuparam disso e todo seu tempo foi pouco
+para lamentarem a poligamia dos tupís, tirando logo dalí argumento para
+pintarem os selvajens vivendo a modo de cães.
+
+É uma falsidade. Os tupís tinham moralidade conjugal, e até muito
+severa. O adulterio era punido de morte; e tambem por isso permitia-se o
+divorcio por mutuo consentimento.
+
+A poligamia dos tupís foi da mesma natureza da que existiu entre os
+hebreus; era uma poligamia patriarcal, filha das condições da vida
+selvajem, e não a poligamia sensual dos turcos e outros povos do
+oriente, produzida unicamente pelo requinte da libidinajem.
+
+Compreende-se que no estado selvajem ou primitivo, a mulher, fraca para
+rezistir aos perigos que a rodeavam, tinha necessidade de acolher-se ao
+amparo e proteção do homem. Por outro lado cada varão, no interesse não
+sómente de sua gloria, como de seu poder, carecia rodear-se de uma
+familia numeroza, e de gerar do seu proprio sangue, os seus guerreiros.
+
+Entretanto, e é isto que distingue a poligamia patriarcal, a posse de
+muitas mulheres não destruia a instituição da familia, bem caracterizada
+pela preeminencia da primeira mulher ou a verdadeira espoza; e pela
+adoção dos filhos nacidos das outras mulheres, que se tornavam todos
+filhos da espoza, ou da verdadeira mãi, _temireco_.
+
+Muita coiza poderia dizer ácerca da educação dos filhos e da condição da
+mulher, mas não cabe esse estudo em uma nota. Mais tarde e a propozito é
+possivel que o faça.
+
+Para a intelijencia do texto basta saber-se que além da espoza,
+_temireco_, mãi da familia, das amantes, _aguaçabas_, que faziam parte
+da familia na condição de servas, havia--1.o as virjens, _cunhantem_,
+mulheres debalde, que pertenciam á familia, e se destinavam para espozas
+dos guerreiros que as obtivessem pelas provas de esforço e denodo; 2.o
+as velhas, ou mulheres já privadas de seus maridos, e que ficavam sob a
+proteção da comunhão, incumbidas da educação dos orfãos, e dos filhos
+anonimos; 3.o as _moças_ ou mulheres que desprezavam o cazamento e
+viviam livremente aceitando o amor do guerreiro que lhes agradava, e do
+qual tinham filhos, que não pertenciam á familia, mas á tribu; eram
+estas as mulheres que ofereciam seu amor como penhor de hospitalidade ao
+estranjeiro que chegava á taba; 4.o finalmente, a classe infeliz,
+abandonada de todo o sentimento e de todo o pudor, á qual davam o nome
+de _morixaba_, literalmente coiza de todos; ou, segundo o testemunho de
+Ives d'Evreux, _menondere_, que equivalia a ladra; porquanto entendiam
+os selvajens que a mulher roubava seu primeiro amante dando ou vendendo
+a outro o amor que lhe pertencia.
+
+Ainda nesta ultima escala, se estão manifestando as leis severas do
+recato e fidelidade da união sexual entre os selvajens. Além do
+cazamento lejitimo, havia o concubinato, como existiu entre os romanos,
+produzindo direito e obrigação reciproca. A mulher que traía a fé
+conjugal, ou o concubinato, era uma adultera, isto é, uma ladra e decia
+á ultima infamia. O marido tinha o direito de matal-a; o amante
+entregava-a ao desprezo da tribu.
+
+
+Paj. 10
+
+_Jaguarê agradece a Tupan_.--Não achando entre os aborijenes templos e
+idolos, ainda que alguns cronistas atestam a existencia dos ultimos,
+foram os colonizadores peremptoriamente declarando ateus a esses povos.
+Mas logo, com incoerencia flagrante, reconheciam a existencia de uma
+superstição, que outra coiza não é a relijião na infancia da humanidade.
+
+Os tupís adoravam uma excelencia superior, Tupan, que se manifestava
+pelo raio e pelo trovão; donde se induz o grande poder que atribuiam a
+essa divindade. Seu nome de raça aprezenta uma afinidade que faz
+prezumir a crença de uma decendencia celeste.
+
+Tambem temiam os tupís o espirito do mal, personificado em Anhanga, o
+fantasma, que habitava as trévas, e a quem referiam um poder funesto.
+Para conjurar essa divindade malefica, tinham sacerdotes, os pajés, que
+buscavam sua força e virtude no fumo da planta sagrada, o tabaco.
+
+Além disso contava a mitologia tupica genios bons e máus, que habitavam
+as florestas e os rios, e percorriam as solidões montados em caitetús,
+ou transformados em certos animais. Entre estes mencionarei o caipora e
+a mãi d'agua, cuja abuzão transmitiu-se á raça conquistadora, e de que
+ainda se encontram vestijios entre as populações do norte.
+
+Não ha contestar que aí está uma relijião bem caracterizada. Mas como
+faltassem templos e idolos, os decendentes dos barbaros gaulezes, godos,
+francos e celtas não podiam admitir na America uma relijião sem culto
+regular, qual a tiveram aquelles selvajens europeus.
+
+Entre os viajantes que mais tarde percorreram a America havia espiritos
+superiores, dedicados ao estudo da humanidade, que investigavam sem
+prevenções a orijem e indole das raças indijenas do novo mundo. Na
+primeira plaina destes sabios figura Alexandre de Humboldt.
+
+O eminente naturalista assinalou a cauza dessa auzencia de culto dos
+aborijenes do Brazil, quando observou que o antropomorfismo da divindade
+se manifesta por dois modos: da terra ao céu, como na Grecia, ou do céu
+á terra, como na America. _Voyage au Nouveau Continent_--8.o volume,
+paj. 243.
+
+Quando a imajinação do homem personificando a divindade á sua imajem a
+faz subir ao céu, como os numes pagãos da Grecia, ella é levada
+naturalmente a oferecer-lhe uma constante adoração com que mantêm o
+vinculo da creatura ao creador. Daí a necessidade de idolos, que
+simbolizem esses numes, e a tenham prezente aos olhos mortais.
+
+Diverso, porém, é quando, concebendo a divindade á sua imajem, o mortal
+a humana inteiramente, transportando-a do céu á terra. Então o homem
+figura-se não a creatura, mas o decendente, o filho de seu deus.
+
+Dezaparece a necessidade dos idolos, pois a verdadeira reprezentação da
+divindade na terra é o mesmo homem que a continúa. Cada um tem o seu
+nume em si. A adoração transforma-se naturalmente no culto da propria
+individualidade, nessa exajeração prodijioza do estalão humano, que
+distingue as idades heroicas.
+
+É pela ostentação da corajem, da força, da grandeza de animo, que o
+selvajem se elevava até o deus, seu projenitor; e não pela adoração,
+pelas preces e oferendas uzadas no paganismo grego, o qual estava bem
+lonje da humildade evanjelica do cristianismo. Os tupís não careciam,
+pois, de orações e sacrificios; as façanhas com que se mostravam dignos
+de sua orijem celeste eram as melhores oblações do seu culto.
+
+Tal era o respeito que o selvajem professava pela dignidade humana, que
+matava as pessoas mais caras quando não se podiam curar da enfermidade.
+Essa implacavel sujeição ao mal, abatia e humilhava uma raça forte e
+guerreira.
+
+Muitos outros exemplos podia aprezentar dessa elevada conciencia da
+individualidade, que distinguia no mais alto ponto o selvajem
+brazileiro.
+
+Eis o que não souberam ver os cronistas, quando taxaram de ateus aos
+indijenas americanos.
+
+Abstraindo da moral absoluta em que só ha uma verdade, a do
+cristianismo, e tomada a questão no ponto de vista da arte, não se póde
+recuzar a essa relijião tupí, que nivela o homem á divindade, certo
+cunho de grandeza selvajem e um vigorozo sentimento da individualidade.
+
+O paganismo grego lhe fica inferior nesse ponto da dignidade humana; ao
+passo que elle tornava a raça de Japeto escrava submissa dos deuzes, e
+vitima de seus caprichos e vinganças, na mitolojia americana o homem é o
+filho e o emulo da divindade.
+
+Á parte as ficções graciozas do espirito helenico, a mitolojía grega só
+tem uma creação que reveste a majestade da relijião tupí; é a creação
+dos semi-deuzes, em que se operava o antropomorfismo terrestre da
+divindade, qual se deu na America.
+
+Considerando-se divino, o selvajem americano acreditava-se combatido por
+um ente malefico, antagonista do deus de quem decendia. Nos achaques e
+mizeria que aflijem a humanidade via as manifestações desse poder
+funesto. Os sacerdotes o esconjuravam por sortilejios; os heróes, porém,
+rezistiam-lhe pela constancia e o afrontavam.
+
+Á essa relijião simples e sem aparato, como devia ser uma relijião das
+florestas, professada por povos caçadores e guerreiros, coroava a crença
+profunda e inalteravel da imortalidade da alma, revelada pela veneração
+ás cinzas dos mortos, e pelas ceremonias da inhumação.
+
+Os indijenas encerravam suas mumias em tumulos especiais, a que davam o
+nome de _Camucins_; e as acompanhavam não só das armas e objetos de uzo
+proprio, como de alimentos para a viajem aos campos alegres, onde iam
+reviver os guerreiros e suas mulheres.
+
+Basta este rapido esboço para dar idéa da relijião dos tupís, e avaliar
+o criterio daquelles que os consideravam estranhos a qualquer noção da
+divindade.
+
+Um povo que mantinha as tradições a que aludimos, não era certamente um
+acervo de brutos, dignos do desprezo com que foram tratados pelos
+conquistadores. E quando, através de suas falsas apreciações, a verdade
+pôde chegar até nossos tempos, o que não seria, se espiritos
+despreocupados e de vistas menos estreitas, vivendo entre essas nações
+primitivas, se aplicassem ao estudo de suas crenças, tradições e
+costumes?
+
+Os jezuitas, que podiam melhor realizar esse estudo, eram induzidos a
+exajerar a ferocidade e ignorancia dos selvajens, no interesse de tornar
+indispensavel sua catequeze. Já imbuidos da intolerancia relijioza, a
+politica exajerava ainda mais sua suspeição.
+
+
+Paj. 11
+
+_Ubiratan_.--Páu-ferro; literalmente _ubira_--madeira, e _atan_--duro.
+_Atan_ não é senão a palavra _ita_ com a terminação _ana_, que na lingua
+tupí servia para a formação dos adjetivos. _Itana_, o que tem a natureza
+de pedra. Assim, de pedra fizemos nós pedregozo. Rigorozamente
+_ubiratan_ é _páu-pedra_; pois que os indijenas não conheciam o ferro.
+Era dessa madeira que faziam os tacapes.
+
+
+Paj. 13
+
+_O chefe tocantim_.--Os autores empregam em geral os termos maioral,
+principal, para dezignar o cabeça de uma tribu ou nação indijena.
+Alguns, como Southey, serviram-se do termo cacique adotado dos
+Araucanos; Barloeus chamou-os classicamente de reis.
+
+Neste livro, como em _Iracema_, preferi traduzir o termo indijena
+_tuxaba_, por _chefe_; e fui levado pela razão de ser, além de muito
+apropriado e vulgar, um termo nobre e sucetivel de entrar no estílo o
+mais elevado, sem laivos de afetação. Ao _morubixaba_ pela mesma razão
+chamei chefe dos chefes.
+
+
+Paj. 14
+
+_Calcou a mão sobre o hombro esquerdo_.--Ácerca desse modo simbolico de
+assegurar o vencedor seu imperio sobre o cativo, é curiozo o que referiu
+e notou _Ives d'Evreux_, cap. XIV.
+
+«Então eu soube que era uma ceremonia de guerra praticada entre essas
+nações, que quando um prizioneiro cae na mão de algum, aquelle que o
+toma, bate-lhe com a mão na espadua dizendo-lhe: «Eu te faço meu
+escravo»; e desde então esse pobre cativo, por maior que seja entre os
+seus, se reconhece escravo e vencido, segue o vitoriozo, o serve
+fielmente, sem que seu senhor se importe com elle; tem liberdade de
+andar por onde lhe pareça, não faz senão o que quer e ordinariamente
+espóza a filha ou irmã de seu senhor, até o dia em que deve ser, morto e
+comido.»
+
+Depois o missionario lembra as palavras de Isaías cap. 9--_Factus est
+principatus super humerum ejus_--e cap. XXII--_Dabo clavem dominis David
+super humerum ejus_; e mostra a conformidade desse rito dos tupís com as
+tradições dos hebreus e outros povos primitivos.
+
+
+Paj. 15
+
+_Ubirajara_--senhor da lança, de _ubira_--vara e _jara_--senhor;
+aportuguezando o sentido, vem a ser lanceíro.
+
+Com este nome existia ao tempo do descobrimento, nas cabeceiras do rio
+S. Francisco uma nação de que fala Gabriel Soares--Roteiro do Brazil,
+cap. 182.
+
+«A peleja dos Ubirajaras, diz esse escritor, é a mais notavel do mundo,
+como fica dito, porque a fazem com uns páus tostados muito agudos, de
+comprimento de tres palmos pouco mais ou menos cada um, e tão agudos, de
+ambas as pontas, com os quais atiram a seus contrarios como com punhais,
+e são tão certos com elles que não erram tiro, com o que têm grande
+chegada; e desta maneira matam tambem a caça que, se lhe espera o tiro,
+não lhe escapa; os quais com estas armas se defendem de seus contrarios
+tão valorozamente como seus vizinhos com arcos e flexas, etc.»
+
+Desta arma e da destreza com que a manejavam proveiu o nome de
+_bilreiros_ que lhe deram os sertanistas, significando assim que tanjiam
+suas lanças com ajilidade e sutileza igual á da rendeira ao trocar os
+bilros.
+
+
+Paj. 15
+
+_Preciza de um prizioneiro_.--Era entre os selvajens maior honra
+conduzir da guerra um prizioneiro, para ornar o seu triunfo e a festa de
+vitoria, do que matal-o em combate. Veja Gabriel Soares--cit. na nota
+4a.
+
+
+Paj. 15
+
+_Chamas de alegria_.--Metafora tupí. Chamavam a alegria e a festa
+_toríba_, literalmente, grande quantidade de fogueiras.
+
+
+Paj. 17
+
+_Historia de guerra_.--Os tupís para exprimirem historia, ou narrativa,
+diziam _maranduba_, conto de guerra, de _mara_--guerra--_nheng_--falar e
+_tuba_--muito; falar muito de guerra.
+
+Depois aplicaram os indijenas essa palavra a toda narrativa, se é que
+não crearam para as outras historias o termo analogo de _poranduba_,
+composto de _poro_, _nheng_, e _tuba_--falar muito da gente.
+
+Os indios eram muito apaixonados dessas narrações, em que mostravam sua
+natural eloquencia. Informa-me o Dr. Coutinho, incansavel explorador do
+vale do Amazonas, que ainda hoje nenhum indio chega de viajem, que não
+diga a sua maranduba, que é o recito circumstanciado de quanto viu e lhe
+aconteceu em caminho.
+
+Ás vezes traduzo o termo; outras o emprego orijinal para mais incutir no
+livro o espirito indijena. Do mesmo modo procedi ácerca de outros termos
+eufonicos tais como _tuxaba_, _moribixaba_, _moacara_, _nhengaçara_,
+_etc_.
+
+
+Paj. 21
+
+_Os cantores_.--Os tupís eram muito dados á muzica e á dansa.
+
+Lery fala com entuziasmo da doçura de seus cantos; e Ferdinand Denis,
+paj. 21, afirma, não sei com que fundamento, que a imitação dos Chataws
+da America do Norte, certas nações do Brazil gozavam do privilejio de
+fornecer poetas e musicos aos outros povos, como sucedia com os tamoios
+entre os tupís.
+
+Gabriel Soares--cap. 162--descreve os cantos, improvizos e dansas dos
+tupinambás, concluindo com estas palavras:
+
+«Entre este gentio, os muzicos são muito estimados e por onde quer que
+vão, são bem agazalhados e muitos atravessaram já o sertão por entre
+seus contrarios, sem lhes fazerem mal.»
+
+
+Paj. 24
+
+_Como chefe pertence-lhe a virjem_, etc, Barloeus--2.a edic. paj.
+483.--Quotquot luta, hastarum concursu ac venatu proecellunt,
+eminentiores habentur et ut hoeroum numero, qui ob virtutis
+fortitudinisque excellentiam ab ipsis virginibus ambire moerentur, cum
+meliores ex melioribus nasci opinentur, nec vanum esse nobilitatis
+nomen, sed cum sanguine transfundi.»--Quantos disputam em jogos de lança
+e caça; os eminentes são tidos no numero dos heróes; os quais pela
+excelencia da virtude e fortaleza merecem possuir as mesmas virjens; por
+quanto pensam que os melhores nacem dos melhores; nem é vão nome a
+nobreza, pois se comunica pela transfuzão do sangue.
+
+
+Paj. 25
+
+_Purifica o corpo_.--Os selvajens distinguiam-se pelo apurado asseio.
+Ives d'Evreux diz a este respeito: «Ils sont fort soigneux de tenir leur
+corps net de toute ordure: ils se lavent fort souvent tout le corps et
+ne se passe jour qu'ils ne jettent sur eux force eau et se frottent avec
+les mains de tous côtés et en toutes les parts, pour oster la poudre et
+autres ordures. Les femmes ne manquent de se peigner souvent.»
+
+
+Pag. 25
+
+_Urú_.--Tinham os indijenas varias especies de moveis para guardar
+objetos. O _urú_ era um cesto aberto. _Panacum_ era um cesto maior com
+tampa. _Samburá_ era cesto com orelha, corrupção de _nambi_ e _urú_,
+literalmente cesto de orelha. Tinham ainda os selvajens o _patiguá_ ou
+_patuâ_, que era uma caixa de palha ou couro; e o _mocô_, pequeno surrão
+da pele felpuda do coelho. Todos estes nomes ainda são uzados no norte
+para dezignar os mesmos objetos, produtos da industria indijena,
+aproveitada pelos colonizadores.
+
+
+Paj. 26
+
+_Coqueiros_.--Ao que disse em nota de Iracema ácerca do indijenismo
+desta planta acrecentarei a noticia que della nos deixou Guilherme
+Piso--_Historiæ Rerum Naturalium Brasiliæ_, Liv. 8o, p. 138.
+
+«_Inaiá Guacuiba_ cujus fructus _inaiaguacu_ brasiliensibus; in congo
+vocatus _Ejaquiambutu_ et fructus _Quetiniga quiambutu_: Palma nucifera,
+lusitanis _coqueiro_ et fructus illius _coco_; qui tribus suis
+foraminulis lavam representat. Arbor caudice raro recto, sed plerumque
+incurvato, quatuor, quinque sex aut etiam septem pedes crasso, triginta,
+quadraginta et interdum quinquaginta pedes alto.»
+
+É esta mesma palmeira que os Mexicanos chamavam _Cogolli_. Piso viu em
+1640 na cidade Mauricéa (Recife) transplantarem-se pés que tinham mais
+de 24 anos.
+
+
+Paj. 28
+
+_Cabelos_.--Pelos cabelos costumavam distinguirem-se as diversas nações
+indijenas. Southey--I, cap. 8o. Das mulheres diz Barloeus:--_Foeminis
+coma promissa nisi per luctus tempora aut absens marito_.--paj. 36.
+Traziam as mulheres a madeixa longa, salvo no tempo do luto ou auzencia
+do marido.
+
+Mais um traço do carater e costumes indijenas. Durante a auzencia do
+marido, a mulher trazia uma especie de luto, ou mostra de tristeza e
+saudade, que era simbolizada pelo sacrificio das longas tranças dos
+cabelos.
+
+
+Paj. 28
+
+_Braços que tu querias para tua cintura_.--Metafora da lingua tupí, que
+exprime o amor; _aguaçaba_, a amante, literalmente, o que se tem á
+cintura.
+
+
+Paj. 31
+
+_Escravo_.--Acerca das leis do cativeiro entre os indios leiam-se os
+dois capitulos XV e XVI, que a este assunto consagrou Ives d'Evreux,
+citado.
+
+Os cativos viviam em plena liberdade na taba de seus senhores, e era
+muito raro que fujissem, porque se consideravam ligados por um vinculo
+desde o momento em que o vencedor lhes calcava a mão sobre a espadua.
+Quebrar esse vinculo, era por elles considerado uma dezhonra.
+
+Até os prizioneiros destinados ao suplicio, preferiam a morte glorioza
+a se rebaixarem pela fuga no conceito de seus inimigos. «Muitas vezes as
+mulheres tomavam substancias que provocavam o aborto, não querendo
+passar pela mizeria de verem trucidada a prole; não raro favoreciam a
+fuga dos tristes maridos de alguns dias pondo-lhes comida nos bosques e
+até escapulindo-se com elles. Frequentemente sucedeu isto a prizioneiros
+portuguezes; os indios brazileiros, porém, julgavam dezhonroza a fuga,
+nem era facil persuadil-os a tomal-a.» Southey--cap. VII onde
+cita--Noticias do Brazil, II, 69 e Herrera 4, 3, 13.
+
+Abbeville ainda é mais explicito:--Et bien que estant desliez et libres
+comme ils sont, ils puissent fuir et se sauver, si est ce que ils ne
+font jamais encore qu'ils soient assurez de estre tuez et mangez au bout
+de quelques temps. Car si quelqu'un des prisionniers s'etait eschapé
+pour retourner em son pays, non seulement il serai tenu pour un _couaen
+eum_, c'est a dire poltron et lasche de courage; mais aussi ceux de sa
+nation mesme ne manqueroient de le tuer avec mille reproches de ce qu'il
+n'aurait pas eu le courage d'endurer la mort parmi ses ennemis, comme si
+ses parents et tous ses semblables n'etaient assez puissants por venger
+sa mort, etc. pag. 290.
+
+As leis da cavalaria no tempo em que ella floreceu em Europa não
+excediam por certo em pundonor e brios a bizarria dos selvajens
+brazileiros. Jámais o ponto de honra foi respeitado como entre estes
+barbaros, que não eram menos galhardos e nobres do que esses outros
+barbaros, godos e arabes, que fundaram a cavalaria.
+
+Alí está uma pedra de toque para aferir-se o carater do selvajem
+brazileiro, tão deprimido por cronistas e noveleiros, avidos de
+inventarem monstruozidades para impinjil-as ao leitor. Nem isso lhes
+custava; pois a raça invazora buscava justificar suas cruezas rebaixando
+os aborijenes á condição de féras, que era forçozo montear.
+
+
+Paj. 32
+
+_O suplicio_.--Outro ponto em que se assopra a ridicula indignação dos
+cronistas é ácerca da antropofagia dos selvajens americanos.
+
+Ninguem póde seguramente abster-se de um sentimento de horror ante essa
+idéa do homem devorado pelo homem. Ao nosso espirito civilizado, ella
+repugna não só á moral, como ao decoro que deve revestir os costumes de
+uma sociedade cristã.
+
+Mas antes de tudo cumpre investigar a causa que produziu entre algumas,
+não entre todas as nações indijenas, o costume da antropofagia.
+
+Disso é que não curaram os cronistas. Alguns atribuem o costume á
+ferocidade, que transformava os selvajens em verdadeiros carniceiros, e
+tornava-os como a tigres sedentos de sangue. A ser assim não faziam mais
+do que reproduzir os costumes citas, que sugavam o sangue do inimigo
+ferido,--quem primum interemerunt, ipsis é vulneribus ebibere. Pomponius
+Moela. Descrip. da Terra.--Liv. 2o cap. 1o.
+
+Outros lançam a antropofajia dos americanos á conta da gula, pintando-os
+igual á horda bretã das Gallias, os Aticotes, dos quais diz S. Jeronimo
+que se nutriam de carne humana, regalando-se com o ubere das mulheres e
+a fevera dos pastores. (_S. Hieronimo IV.--paj. 201, adv. Jovin.--Liv.
+2o_.)
+
+O canibalismo americano não era produzido, nem por uma nem por outra
+dessas cauzas.
+
+É ponto averiguado, pela geral conformidade dos autores mais dignos de
+credito, que o selvajem americano só devorava o inimigo, vencido e
+cativo na guerra. Era esse ato um perfeito sacrificio, celebrado com
+pompa, e precedido por um combate real ou simulado que punha termo á
+existencia do prizioneiro.
+
+Simão de Vasconcelos, Cronica da companhia, 1 § 49, alude a uma velha
+que sentia entojos por não ter a mãozinha de um rapaz tapuia para
+chupar-lhe os ossinhos: e Hans Stade, paj. 4, cap. 43 e seg., conta a
+historia de dois individuos moqueados pelos tupinambás, e guardados para
+um banquete.
+
+Não exajeremos, porém, esses fatos izolados, alguns dos quais podem não
+passar de caraminholas, impinjidas ao pio leitor. Os costumes de um povo
+não se aferem por acidentes, mas pela pratica uniforme que elle observa
+em seus atos.
+
+Se os tupís fossem excitados pelo apetite da carne humana, elles
+aproveitariam os corpos dos inimigos mortos no combate, e que ficavam no
+campo da batalha. A guerra se tornaria em caçada; e em vez de montear as
+antas e os veados, os selvajens se devorariam entre si.
+
+Não ha, porém, escritor sério que deixasse noticia de fatos daquella
+natureza; e não me recordo de nenhum que referisse exemplos de serem
+devoradas mulheres e meninos; salvo quanto aos ultimos, o filho do
+prizioneiro de guerra (Not. do Brazil.--II, 69), do que tenho razão para
+duvidar.
+
+Parece-nos, pois, que a idéa da gula deve ser repelida sem hezitação. Se
+em algumas tribus ou malocas se propagou o apetite depravado, essa
+dejeneração foi por ventura devida ao contajio dos Aimorés, cuja invazão
+é posterior ao descobrimento. Em todo o cazo é uma exceção que não póde
+preterir o rito da relijião tupica.
+
+Tambem pela contraprova, havemos de excluir a ferocidade, como razão do
+canibalismo americano.
+
+Se o instinto carniceiro dominasse o tupí, elle se lançaria sobre o
+inimigo como o cita, ou o sarraceno de que fala Am. Marcellinus, para
+sugar-lhe o sangue da ferida, e trincar-lhe as carnes ainda vivas e
+palpitantes.
+
+Mas, ao contrario, vemos que o guerreiro tupí tinha por maior bizarria
+cativar seu inimigo no combate, e trazel-o prizioneiro, do que matal-o.
+Chegado á taba, em vez de o torturar dava-lhe por espoza uma das virjens
+mais formozas, a qual tinha a seu cargo nutril-o e tornar-lhe agradavel
+o cativeiro.
+
+Releva notar que a idéa da antropofajia já era comum na Europa, antes do
+descobrimento da America; não só pelas tradições dos barbaros, como
+pelas crendices da média idade, nas quais figuravam gigantes e bruxas,
+papões de meninos. Que tema inexgotavel para a imajinação popular não
+veiu a ser a primeira noticia, senão conjetura, sobre o canibalismo do
+selvajem brazileiro?
+
+Cronista ha que nesse costume, onde se está revelando a força
+tradicional de um rito, não enxergou senão o zelo do glotão, que engorda
+a preza para saboreal-a. Mas essa ridicula supozição nem ao menos se
+conforma com o teor da vida selvajem, a qual desconhecia a industria da
+criação.
+
+O selvajem comia a caça como a encontrava no mato, gorda logo depois do
+inverno, e magra na força da seca. Não se dava ao trabalho de a
+engordar. Porque motivo se havia de afastar desse uzo ácerca do homem,
+se o homem fosse para elle uma especie de caça?
+
+E por ventura faria parte do processo da engorda do bipede, o acessorio
+de uma companheira formoza e na flôr da idade, qual invariavelmente a
+davam ao prizioneiro?
+
+É obvio que esse uzo tinha outra razão mui diversa. Não se tratava de
+engordar o prizioneiro, mas de fortalecel-o, para que elle morresse com
+honra no dia do sacrificio, que devia ser o seu ultimo combate.
+
+Ainda nessa ocazião, os vencedores ostentavam sua gravidade, deixando
+que o prizioneiro exaltasse o proprio valor e os afrontasse com seu
+desprezo. Só chegado o momento depois de celebrada a ceremonia, o
+abatiam com um golpe de tacape.
+
+A ferocidade não se coaduna com a calma e comedimento desse proceder.
+Póde-se explicar o sacrificio humano dos tupís por um intenso e profundo
+sentimento de vingança; mas não por sanha brutal.
+
+Ferdinand Saint-Denis (_Univers_, _Brésil_, pag. 30) diz com muito
+criterio:--_En accomplissant ces sacrifices, les tupinambás
+n'obéissaient pas, comme pourraient le croire quelques personnes, à un
+goût depravé qui leur aurait fait préférer la chair humaine à toutes les
+autres; ils étaient mus avant tout par un esprit de vengeance que se
+transmettait de génération en génération, et dont notre civilisation
+nous empêche de comprendre la violence_.
+
+Não era, porém, a vingança a verdadeira razão da antropofajia. O
+selvajem não comia o corpo do matador de seu pai ou filho, se acontecia
+matal-o em combate. Abandonava o cadaver no campo, e apenas cortava-lhe
+a cabeça para espetal-a em um poste á entrada da taba, e arrancava-lhe o
+dente para troféu.
+
+A vingança, pois, esgotava-se com a morte. O sacrificio humano
+significava uma gloria insigne rezervada aos guerreiros ilustres ou
+varões egrejios quando caíam prizioneiros. Para honral-os, os matavam no
+meio da festa guerreira; e comiam sua carne que devia transmitir-lhes a
+pujança e valor do heróe inimigo.
+
+Este pensamento resalta dos mesmos pormenores com que os cronistas
+exajeraram o cruento sacrificio.
+
+Morto o inimigo, não era devorado; antes as mulheres tratavam o corpo e
+o curavam, moqueando as carnes. Essas eram guardadas; e distribuidas por
+todas as tribus, incumbindo-se os que tinham vindo assistir á ceremonia,
+de leval-as ás tabas remotas.
+
+Os restos do inimigo tornavam-se, pois, como uma hostia sagrada que
+fortalecia os guerreiros; pois ás mulheres e aos mancebos cabia apenas
+uma tenue porção. Não era a vingança; mas uma especie de comunhão da
+carne, pela qual se operava a transfuzão do heroismo.
+
+Por isso dizia o prizioneiro:--«Esta carne que vêdes não é minha; porém
+vossa; ella é feita da carne dos guerreiros que eu sacrifiquei, vossos
+pais, filhos e parentes. Comei-a; pois comereis vossa propria carne.»
+Deste modo retribuia o vencido a gloria de que os vencedores o cercavam.
+O heroismo que lhe reconheciam, elle o referia á sua raça de quem o
+recebera por igual comunhão.
+
+Algumas nações tinham outra comunhão, inspirada no mesmo pensamento.
+Era a dos ossos dos projenitores que reduziam a pó, e que bebiam
+dissolvidos no cauim em festas de comemoração. Este fato, assim como o
+sacrificio tremendo da mãi, que devia absorver em si o filho que lhe
+nacera morto, bem mostram que por modo algum naceu do espirito de
+vingança o chamado canibalismo.
+
+Transportemo-nos agora, não como homens e cristãos, mas como artistas,
+ao seio das florestas seculares, ás tabas dos povos guerreiros que
+dominavam a patria selvajem; e quem haverá tão severo que negue a fera
+nobreza desse barbaro e tremendo sacrificio?
+
+A idéa repugna; mas o banquete selvajem, tem uma grandeza que não se
+encontra no festim dos Atridas; e está bem lonje de inspirar o horror
+dessa atrocidade que entretanto não foi desdenhada pela muza classica.
+
+No Brazil é que se tem dezenvolvido da parte de certa gente uma aversão
+para o elemento indijena de nossa literatura, a ponto de o eliminarem
+absolutamente. Contra essa extravagante pretenção lavra mais um protesto
+o presente livro.
+
+Para concluir com este ponto, observaremos que nem todas as nações
+selvajens eram antropofagas; e que em minha opinião esse costume, bem
+lonje de ser introduzido pela raça tupí, foi por ella recebido dos
+Aimorés e outros povos da mesma orijem, que ao tempo do descobrimento
+apareceram no Brazil.
+
+
+Paj. 32
+
+_Espoza do tumulo_.-Este rito selvajem é muito conhecido e dispensa-me
+de transcrever o que ácerca delle escreveram os cronistas.
+
+Mais uma prova do carater generozo e bizarro do selvajem brazileiro.
+Lonje de torturarem seu prizioneiro, ao contrario se esforçavam em
+alegrar-lhes os ultimos dias pelo amor; davam-lhe uma espoza; e tão
+grande honra era esta que o vencedor a rezervava para sua filha ou irmã
+virjem; e se não a tinha, para a filha de algum dos principais da taba.
+
+Falam alguns autores da _cunhãmembira_, como de uma ceremonia em que se
+devorava o filho que por ventura a espoza do tumulo concebia do
+prizioneiro morto. Duvido da generalidade desse fato, que me parece
+adulterado, e seria especial aos tamoios.
+
+_Cunhãmembira_, dizem esses autores, significa _filho da mulher_; e daí
+diz Southey, copiando Lery, tiravam elles uma horrivel consequencia, que
+era devorarem a criança.
+
+Ora, _cunhãmembira_ significa saído do ventre da mulher. A lingua tupí
+não tinha outro modo de dezignar a maternidade: taíra--isto é, saído do
+sangue, diziam do filho ácerca do pai; e _membira_, diziam do filho
+ácerca da mãi. Na expressão _cunhãmembira_ não ha senão a antepozição do
+substantivo _cunham_ (mulher) que os indios suprimiam por superfluo;
+assim como suprimiam na outra palavra dizendo simplesmente _taíra_ e não
+_aba-taíra_ saído do sangue do varão.
+
+Se o nome de _cunhãmembira_ indicasse estar a criança destinada ao
+suplicio, então todos os nacidos da taba se achariam no mesmo cazo, pois
+todos eram em relação ás mais, _membiras_ ou _cunhã membiras_.
+
+Ainda mais, se a criança era condenada ao suplicio pela razão de ser do
+sangue inimigo, parece que o nome a ella dado devia exprimir esse fato
+importante e derivar-se antes desta fraze: _miauçubtaíra_--o gerado do
+sangue do cativo.
+
+A estes filhos dos prizioneiros chamavam os indijenas _marabá_, gerado
+da guerra, nome honrozo, que revelava o apreço em que tinham essa prole,
+saída de um sangue heroico. E tanto assim era que destinavam para
+conceber essa prole o seio da virjem mais ilustre da taba.
+
+Se os selvajens, que nada praticavam sem uma razão justificativa, só
+tinham em mira devorar os filhos do cativo, para que dar-lhe uma espoza
+ilustre? Mais sagazmente procederiam adjudicando-lhe diversas mulheres
+para terem maior criação a matar.
+
+Está-se conhecendo que o tal banquete não passa de um invento de
+cronistas, que entenderam as outras palavras dos indios tão bem como a
+de _cunhãmembira_ que elles diziam significar filho do inimigo.
+
+_Cunhãmembira_ creio eu ser a festa que se fazia pelo parto da mulher; e
+talvez acontecendo nacer morta a criança, se orijinasse a fabula do
+sacrificio que então se praticava entre algumas nações de ser a mãi
+obrigada a absorver em si esse fruto goro de sua fecundidade.
+
+
+Paj. 33
+
+_Guainumbí_.--«Persuadem-se os brazilienses haver uma ave, que chamam
+colibri, a qual leva e traz noticia do outro mundo.» Santa Rita
+Durão--Notas ao Caramurú.
+
+Tambem chamavam os indios esse passaro, _Guaraciaba_--cabelos do sol; e
+Arati, ou Arataguaçú segundo Marcgraff, 197. Quanto ao nome de
+Guainumbí, ou mais corretamente Guinambí, penso eu que significa o
+brinco das flôres. Os selvajens tiraram naturalmente essa dezignação do
+modo por que o colibri tremula, como suspenso á flôr para chupar-lhe o
+mel, semelhante ao movimento das arrecadas suspensas ás orelhas, e que
+elles chamavam _nambípora_.
+
+
+Paj. 35
+
+_Jussara_.--«Nas povoações feitas em terra têm muitas nações guerreiras
+a providencia de as segurarem e munirem com fortes muralhas, não de
+pedra, mas de estacas do páu duro como pedra. Outros as fabricam de
+palmeira, que chamam jussara, cujos espinhos são tão grandes e duros,
+que servem a muitos de agulhas de fazer meias; e as trincheiras feitas
+de _jussara_ são mais seguras que as mais bem reguladas fortalezas;
+porque de modo nenhum se podem penetrar e romper senão com fogo por
+crecerem não só cheias de grandes estrepes ou agudos espinhos, mas tão
+enlaçadas e enleadas umas com outras que se fazem impenetraveis.
+(Tezouro descoberto no rio Amazonas, Part. 2a, cap. 1o, no 2o vol. da
+Rev. do Instituto, paj. 350.)
+
+O nome da palmeira é em tupí _jussara_, de _ju_--espinho e _ara_
+dezinencia.
+
+
+Paj. 36
+
+_Carbeto_.--Assim chamam Ives d'Evreux e Abbeville ao conselho dos
+velhos entre os selvajens. Este nome deriva-se naturalmente de
+_caraiba_, varão ilustre e _ipê_, logar onde.
+
+
+Paj. 37
+
+_Hospede_.--A virtude da hospitalidade era uma das mais veneradas entre
+os indijenas. Todos os cronistas dão della testemunho; e alguns, como
+Lery e Ives d'Evreux, descrevem com particularidade o modo liberal e
+generozo por que os selvajens brazileiros a exerciam.
+
+É certo que não escapou tambem á malevolencia dos cronistas, essa
+excelencia e nobreza do carater indijena. Gabriel Soares cit. cap. 168
+depois de falar do como os tupinambás agazalhavam os hospedes,
+acrecenta: «e lançam suas contas se vem de bom titulo ou, não; e se é
+seu contrario, de maravilha escapa que o não matem, etc.» Southey cit.
+cap. 8o faz coro com essa versão que nos parece suspeita.
+
+É possivel que depois da colonização, os selvajens vitimas das
+perfidias dos aventureiros relaxassem suas tradições; mas a
+hospitalidade foi sempre entre elles uma coiza sagrada, como atestam em
+geral os escritores, que não referem aquella exceção.
+
+Basta refletir sobre o modo por que exerciam os selvajens a
+hospitalidade para reconhecer que não é admissivel a suspeita de Gabriel
+Soares. Em verdade, aquelles cuja porta estava aberta sempre ao
+viajante; que franqueavam o ingresso de sua cabana por tal modo que o
+estranjeiro nella entrava como senhor, ainda mesmo na auzencia do dono;
+que sem perguntar o nome de quem chegava nem de onde vinha o agazalhavam
+com a maior liberalidade; esses que assim acolhiam o hospede, não podiam
+ocultar a intenção perfida de o matar, no cazo de ser contrario. Ha uma
+tal contradição entre esse desfecho e as circumstancias precedentes, que
+não se póde acreditar nelle pelo simples dizer de um cronista, que em
+muitas outras inexatidões caiu.
+
+Se ha traço nobre do carater selvajem é essa hospitalidade, que o
+estranjeiro não pedia e sim exijia como um direito sagrado, com esta
+simples formula--_Vim_; ao que o dono da cabana respondia--_Bem vindo_.
+
+O epizodio da deliberação do conselho sobre o nome do estranjeiro está
+justificado pelo trecho seguinte de Ives d'Evreux, cap. 50.
+
+«Aprés ces paroles il vous dit--_Marapé derere_? comment t'appelles-tu?
+quel est ton nom? comme veux-tu que nous t'appellions? Quel nom veux-tu
+qu'on t'impose? Où faut-il noter que si vous ne vous estes donné et
+choisi um nom, lequel vous leur dites alors et desormais estes appellé
+par tout le pays de ce nom, les sauvages du village ou vous demeurez
+vous en choisiront um pris des choses naturelles, qui sont en leurs pays
+et ce le plus convenablement qu'il leur sera possible, selon la
+phisionomie qu'ils verront en votre visage, ou selon les humeurs et
+façons qu'ils reconnaitront en vous..... Eh bien quel nom donnerons nous
+a un tel ton compére? Je ne sais, il faut voir; lors chacun dit son
+opinion et le nom qui rencontre le mieux et est reçu de l'assemblée, est
+imposé avec son consentement si c'est quelque homme d'honneur.»
+
+Ainda nessa circumstancia se revela a delicadeza da hospitalidade do
+selvajem.
+
+
+Paj. 38
+
+_Artes da paz_.--É ainda de Ives d'Evreux, cap. 18, esta curioza
+informação. «Je raconterai ici une jolie histoire. Un jour je m'allois
+visiter le grand Theon, principal des Pierres Vertes Tabaiares: comme je
+fus en sa loge et que je l'eus demandé, une des ses femmes me conduit
+soubs une belle arbre qui estoit au bout de sa loge, qui la couvrait du
+soleil; lá-dessous il avait dressé son mestier pour testre des licts de
+coton et travaillait après forte soigneusement; je m'étonnai beaucoup de
+voir ce grand capitaine, vieil colonel de sa nation, ennobli de
+plusieurs coups de mousquets, s'amuser à faire ce mestier et je ne peus
+me taire que je ne sçusse la raison espérant apprendre quelque chose de
+nouveau en ce spectacle si particulier. Je luy fist demander par le
+truchement qui estoit avec moy, à quelle fin il s'amusait à cela? il me
+fit response: «Les jeunes gens considérent mes actions et selon que je
+fais ils font; si je demeurais sur mon lit à me branler et humer le
+petim, ils ne voudraient faire autre chose; mais quand ils me voient
+aller au bois, la hache sur l'épaule et la serpe en main, ou qu'ils me
+voient travailler à faire des licts, ils sont honteux de rien faire,
+etc.»
+
+
+Paj. 38
+
+_Lançadeira_.--Os indijenas tinham um tear que é descrito por Lery, cap.
+18. Uzavam tambem de um fuzo comprido e grosso, que as mulheres faziam
+girar entre os dedos, atirando ao ar, como ainda agora fazem as velhas
+fiandeiras do sertão.
+
+
+Paj. 43
+
+_Jurandir_.--Contração da fraze _Ajur-rendipira_--o que veiu trazido
+pela luz.
+
+
+Paj. 45
+
+_Jabotí_.--Contou-me o Dr. Coutinho que o jabotí para os indios do
+Amazonas é o simbolo da gravidade, prudencia e sabedoria, e prometeu-me
+dar um apologo, em que elles celebram essas virtudes, contando a
+historia de um jabotí, que venceu na lijeireza ao veado, na força á onça
+e assim aos mais animais.
+
+
+Paj. 45
+
+_Tetivas_.--Os Tetivas habitam nos olhos das palmeiras e de outras
+arvores: põem-lhes terra e acendem fogo. Humboldt cit., paj. 283.
+
+
+Paj. 46
+
+_Mulheres guerreiras_.--Aluzão ás Amazonas cuja existencia é tão
+controvertida. Eu acredito na sua existencia, embora reconheça que houve
+exajeração de Orellana.
+
+Não é este o momento de elucidar este ponto da historia, ou antes
+mitolojia do Brazil selvajem. Proponho-me a fazel-o quando publicar uma
+lenda que tenho esboçada ácerca do assunto. Nessa ocazião direi o que
+entendo ácerca da memoria do Dr. Gonçalves Dias, publicada na _Revista
+do Instituto_.
+
+
+Paj. 46
+
+_Senhoras de seu corpo_.--Metafora tupí. No varão a parte nobre era o
+sangue; pelo que elle dizia do filho--_taíra_, o filho do meu sangue; e
+para indicar a independencia diziam _taíguara_, que os dicionarios
+traduzem _livre_, mas que literalmente significa, _senhor do seu
+sangue_.
+
+A mulher que dizia do filho _membira_--o gerado de meu ventre, devia
+pela mesma razão uzar de expressão analoga para exprimir sua liberdade,
+e dizer _membijara_--senhora de seu ventre, que eu por elegancia traduzo
+menos literalmente, _senhora de seu corpo_.
+
+
+Paj. 47
+
+_Pará sem fim_.--Par, diz Humboldt cit. paj. 285, é uma radical guaraní
+e exprime agua. Pará creio eu que significou a grande abundancia de
+agua, e foi primitivamente empregado para dezignar os lagos e por
+ventura as vastas inundações do vale do Amazonas. Mais tarde os
+selvajens acrecentaram-lhe o verbo _nhane_ correr, e disseram
+_pará-nhanhe_--donde _paranãn_ para dezignar as grandes massas de agua
+corrente, isto é, os rios caudalozos.
+
+Os dois maiores rios da America do Sul, o Amazonas e o Prata, ambos se
+chamavam _Paranãn_, assim como outros muitos do Brazil. O mesmo radical
+se encontra já composto em Paraíba, Parnaíba, Paranapanema, etc.
+
+Foi a substituição do _p_ pela analoga _m_ que produziu o nome de
+_Maranhão_, ácerca de cuja etimolojia se inventaram tantas
+extravagancias.
+
+
+Paj. 48
+
+_Guerreiros do mar_.--Tradução da palavra tupí _caramurú_ com que os
+tupinambás da Baía dezignaram Diogo Alvares Correia.
+
+Caramurú é composto de _cara_, alteração de Pará--mar e _moro_, gente;
+homem do mar. Os selvajens acreditavam que as aguas eram habitadas, e
+daí naceu a lenda da mãi d'agua, que se transmitiu á raça invazora. Nada
+mais natural do que chamarem ao primeiro homem branco, que lhe apareceu
+surjindo do oceano, Caramurú--o guerreiro do mar.
+
+
+Paj. 48
+
+_Rezina cheiroza_.--É o ambar, que os tupís chamavam _Piraoçurepoti_, e
+de que ao tempo do descobrimento abundavam as ribeiras do mar, nas
+provincias do norte.
+
+
+Paj. 49
+
+_Moças_.--É dificil, senão impossivel, determinar atualmente, e pelas
+informações tão falhas quão malignas dos cronistas, a condição da mulher
+entre os selvajens.
+
+Do que tenho lido coliji as idéas, a que no texto se alude mui
+lijeiramente, e a que em outro logar démos maior dezenvolvimento.
+
+
+Paj. 51
+
+_Para servir a Itaquê_.--«E quando o principal não é o maior da aldeia
+dos indios das outras cazas, o que tem mais filhas é o mais rico e
+estimado e mais honrado de todos, porque são as filhas mui requestadas
+dos mancebos que as namoram; os quais servem os pais das damas dois e
+tres anos primeiro que lh'as deem por mulheres e não as dão senão aos
+que melhor os servem, a quem os namoradores fazem a roça e vão pescar e
+caçar para os sogros que dezejam de ter, e lhes trazem a lenha do mato,
+etc.» G. Soares, cit. cap. 152.
+
+Aí está a lenda biblica de Jacob servindo a Labam 7 anos para obter por
+espoza a Sara. Não consta, porém, que os selvajens uzassem da esperteza
+do pai de Lia, para descartar-se de uma filha defeituoza; se tal
+acontecesse entre os tupís, de que ridiculas indignações não se
+encheriam os cronistas?
+
+
+Paj. 52
+
+_Manatí_.--È o peixe-boi, de cujo couro mais forte que o do touro os
+indios fazem escudos. Anunciam a chuva, saltando acima d'agua.
+Gumilha--Orenoco ilustrado, paj. 276.
+
+
+Paj. 52
+
+_Biaribí_.--Um dos modos porque os indios assavam a caça, e consistia em
+enterral-a envolta em folhas de banana, e acender em cima o fogo, cujo
+calor penetrando no chão cozia a carne, concentrando-lhe o sabor.
+
+_Moquem_ era simplesmente o assado envolto em folha e feito sobre a
+braza; daí vem _moqueca_ de que tirámos os verbos moquear e amoquecar.
+
+_Bucan_, supõem alguns que seja alteração de _moquem_; mas eu o
+considero termo distinto que exprimia apenas a operação de secar a carne
+ao fumeiro para conserval-a. Neste sentido é que Lery e Ives de Evreux
+empregam constantemente o termo francez _boucaner_, derivado da palavra
+tupí.
+
+
+Paj. 54
+
+_Pela mão da mulher_. Refere Gumilla, cap. 45, que estranhando aos
+indios sobrecarregarem as mulheres com os trabalhos agricolas, elles
+retorquiram que as mulheres sabem dar fruto, o que não sabem os homens,
+e por isso na mão dellas as sementes naciam e se multiplicavam.
+
+
+Paj. 56
+
+_Pirijá_.--Uma especie de palmeira chamada palmeira real; é espinhoza e
+tem frutos semelhantes ao pecego. Humboldt cit., paj. 257 e 262.
+
+
+Paj. 58
+
+_Nunca Jandira ofereceria sua rêde de espoza_, etc.--Arací reprezenta o
+amor da virjem tupí, segundo o costume tradicional de sua nação, que
+admitia a comunidade e partilha do amor, como um privilejio do guerreiro
+ilustre. Ser amada excluzivamente, significava para a mulher selvajem,
+ser amada por um guerreiro obscuro.
+
+Jandira reprezenta o excluzivismo do amor, que muitas vezes devia lutar
+com a lei tradicional; porque é um impulso da natureza, a qual não é
+dado ao homem aniquilar embora muitas vezes a sopite.
+
+
+Paj. 61
+
+_O combate nupcial_.--Este rito, de ser a virjem requestada o premio do
+valor e da corajem, é atestado por grande numero de escritores.
+
+Barloeus, paj. 420:--«Lucta et hastarum concursu decertare gloriosum,
+finis spectanctium voluptas est, presertim amantium foemina de cujusque
+fortitudine et victoria pronuntiat, sic in proximo pignora, pugnandi
+irritamenta sunt fortitudinis præcones, ciborum administræ.»
+
+
+Paj. 65
+
+_A figura da noiva_.--Esta prova de destreza era muito uzada pelos
+selvajens. Marcgraff descreve a especie de torneio que elles faziam
+divididos em duas turmas, a ver qual levava mais depressa o seu tóro ao
+logar destinado para acampamento. Naturalis Historia Brazilia, liv. 8o,
+cap. 12.
+
+Conclue com estas palavras:-«qui deinceps tempus terunt hastilibus
+certando, luctando, currendo; quibus certaminibus duæ fæminæ ad id
+selectoe proesident et judicant de singulorum virtute et victoribus.
+
+Estes certamens guerreiros, esses jogos de luta, combate e carreira,
+prezididos por mulheres que julgavam do valor dos campeões e conferiam
+premio aos vencedores, não cedem em galanteria aos torneios da
+cavalaria.
+
+Ácerca da prova a que acima nos referimos, escreveu o Dr. Gonçalves
+Dias--_Brazil_ e _Oceania_, cap. 10, _Revista do Instituto_, tom. 30,
+parte 2a, paj. 153:--Um tóro de barrigudo em um cabo delgado e de facil
+preensão, semelhante aos soquetes ou massetes de que ainda entre nós se
+uza em muitas partes para bater a terra das sepulturas, posto que mais
+poderozo que este, ou um grande pedaço de tronco de palmeira, era
+colocado no meio do terreiro. Vinha o guerreiro correndo, tomava o
+tronco, continuava a carreira, saltava fossos, subia elevações,
+arrojava-se ás vezes ao rio com elle e quem chegava primeiro e levava
+mais lonje a carga, esse ganhava a palma e a mulher que tinha de ser
+espozada. Explicou-se esse costume, de que trata Barloeus, Marcgraff e
+outros, e que ainda conservam algumas tribus do Piauí, pela necessidade
+que tinha o guerreiro de defender a mulher, e para que em ocazião de
+perigo a podesse salvar fujindo.»
+
+
+Paj. 67
+
+_O camucim da constancia_.--Lê-se no _Tezouro do Amazonas_, cit. tom. 3
+da _Revista do Instituto_, paj. 169. «O 5o predicado que tambem, como
+muitas outras nações conservam os Arapiuns, é a prova da valentia quando
+cazam; é um exame prévio ou o primeiro principio, como se diz nas
+Universidades, a suas bodas, e uma experiencia ou tentativa de seu valor
+para mostrarem que posto cazem não é por afeminados, mas por valentes.
+Ha diversos generos dessa prova de valentia; mas uma mui ordinaria nos
+indios Arapiuns é encherem uns grandes e compridos cabaços das formigas
+que chamam saugas (_saúvas_) grandes e mui bravas; ferram na carne com
+tanta ou mais valentia que os cães de fila, com proporção á grandeza
+destes e pequenez daquellas; porque os cães assim vêm a largar; mas as
+saugas não largam ainda que as matem e antes perderão a cabeça ficando
+com as troquezes cravadas na carne do que soltarem ellas preza; por isso
+uzam dellas alguns cirurjiões quando querem cozer alguma cicatriz com
+segurança, sem uzarem pontos, como adiante dizemos. Cheios, pois, os
+cabaços de saugas, não só famintas, mas quando estão com fome talvez de
+dias ... e sobre isso bem enraivadas com sacudidelas, prezentes todos os
+velhos e graves da missão, sae a terreiro o noivo examinando,
+destapam-se os cabaços nos quais intrepido mete os braços, a que logo
+acodem as filas, já para saciar a fome, já para dezabafar a ira, e já
+para provar e castigar o bacharel, o qual posto que as dôres o façam
+mudar de côres, torcer a boca, tremer o corpo, levantar as sobrancelhas
+e arrebentar as lagrimas, tenha paciencia, que se quer, ha de aturar a
+bucha, emquanto os examinadores já bebendo-lhe á saude e já dando voltas
+em bailes se vão regalando á sua custa, etc.
+
+
+Paj. 73
+
+_Igapê_.--É o nenufar na lingua tupí, de _Ig_, _ipe_ e _potira_--flôr
+d'agua. Os portuguezes corromperam essa palavra transformando-a em
+_aguapé_, nome por que é vulgarmente conhecida. Penso eu, porém, que
+devemos restaurar o nome indijena, até mesmo porque _aguapé_ tem diversa
+significação em portuguez.
+
+Uma dessas nímféas, a rainha das flôres, a que os indios chamavam milho
+d'agua, ou a flôr jaçanan, por servir de ninho a essas aves paludais,
+nace branca e com a luz do sol vai rozeando até se tornar escarlate.
+
+Em uma noticia publicada pelos jornais li que o nome dessa flôr _napê
+jaçanan_ significa, forno das jaçanans, do que duvido. O genitivo
+exprimiam os indios com antepozição do nome rejido por esse cazo; assim
+_napê jaçanan_ significaria jaçanan do forno. Demais nem _napê_ quer
+dizer forno; nem forno indica a idéa que se pretende de pouzo ou ninho.
+
+_Uapê_ aí é o mesmo _igapê_ com a simples diferença de figurar-se a
+vogal indijena por _u_ em vez de _ig_ adotada pelo geral dos autores.
+
+
+Paj. 82
+
+_Murinhem_.--Palavra composta de _morib_ afavel e _nheng_
+falar.--Veja-se a respeito dos cantores, _nhengara_, o que se disse na
+nota a paj. 117.
+
+
+Paj. 86
+
+_Paan_.--Palavra da lingua Macaulí que significa seta--_Creban_
+significa homem alvo; e _Agniná_, monte.
+
+
+Paj. 97
+
+_Tomou a espoza aos hombros_.--Era entre as mulheres selvajens prova de
+amor, suspenderem-se ás costas daquelles que preferiam, quando as
+requestavam com cantos e dansas. Assim o atesta Marcgraff cit. «Ubi
+vespera advenit, coeunt adolescentes in varias cohortes et castra
+perambulantes cantillant ante tuguria adolescentula autem quæ juvenibus
+delectantur, produnt et cantillantes atque tripudiantes sequuntur
+adolescentes _et á tergo consistunt eorum quos amant, id enim ipsis
+amoris testimonium est_. _Paj. 280_.»
+
+Escaparam-me algumas notas que a intelijencia do leitor suprirá. Todavia
+rezumirei as de que me recordo neste momento.
+
+Á paj. 44, quando diz Jurandir que conta os anos pelos dedos, quer
+dizer que não tem mais de vinte, pois tantos são os dedos das mãos e
+pés.
+
+Á paj. 45, o grande lago que recolheu as aguas do diluvio é o _Manoa_,
+em cujas marjens se fabulou o _El-Dorado_. _Manoa_ em achagua é diluvio,
+segundo Gumilha, 2.o vol., 7; palavra homologa ao vocabulo tupí
+_amana_, que significa chuva.
+
+Á paj. 45, o combate que Jurandir figura entre o mar e o Amazonas é a
+descrição da pororoca. Elle chama as aguas do mar-guerreiros azues-por
+causa da côr das vagas, e as aguas do rio-guerreiros vermelhos-porque a
+corrente do rio é então barrenta.
+
+Á paj. 45, onde se diz que os anos de Guaribú enchiam a corda de sua
+existencia alude-se ao costume que tinham os selvajens de contar os anos
+pelos nós que davam em um cordel, outros pelos frutos do colar.
+
+Á paj. 40 faz-se referencia á lenda de Sumê, já muito conhecida. Foi
+Sumê que ensinou aos tupís a agricultura e os primeiros rudimentos das
+artes.
+
+Á paj. 54 fala-se de _matumbos_. São as leivas que se fazem no norte
+para a plantação da mandioca.
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+ I--O caçador 5
+
+ II--O guerreiro 15
+
+ III--A noiva 24
+
+ IV--A hospitalidade 37
+
+ V--Servo do amor 51
+
+ VI--O combate nupcial 61
+
+ VII--A guerra 74
+
+ VIII--A batalha 85
+
+ IX--União dos arcos 92
+
+ Notas 101
+
+
+LIVRARIA ALVES
+
+EXTRACTO DO CATALOGO
+
+COLEÇÃO ALVES
+
+Nesta coleção serão publicadas obras celebres de autores nacionais e
+estranjeiros ao modico preço de 1$000 réis cada volume, formato 16
+francez.
+
+ 1-2--=O GUARANY=, por _José de Alencar_. 2$000
+ 2 volumes br. 4$000
+ A mesma obra, 2 vols. enc.
+
+ 3--=A DAMA DAS CAMELIAS=, por _Alexandre Dumas,
+ Filho_.--(NO PRÉLO).
+
+ 4-5--=HISTORIA DE UM CORAÇÃO=, por _Emilio Castellar_.
+ --(EM PREPARAÇÃO).
+
+ 6--=IRACEMA=, (Lejenda do Ceará), por José de Alencar,
+ novissima edição. 1 vol. br. 1$000
+
+ 7--=LUCIOLA= (Um perfil de Mulher), por _José de Alencar_.
+ 1 vol. br. 1$000
+
+ 8--=CINCO MINUTOS--A VIUVINHA=, por _José de Alencar_.
+ 1 vol br. A mesma obra enc. em percalina 2$000
+
+ 9--=A MORENINHA=, por _J. M. de Macedo_.
+ 1 vol. br. 1$000
+ A mesma obra enc. em percalina 2$000
+
+ 10--=ROMANCE DE UM MOÇO POBRE=, por _Octavio Feuillet_.
+ 1 vol. br. 1$000
+
+ 11--=TRONCO DE IPÈ=, por _José de Alencar_ 1$000
+ A mesma obra enc. 2$000
+
+ 12--=A ESCRAVA IZAURA=, por _Bernardo Guimarães_.
+ 1 vol. br. 1$000
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Ubirajara, by José Alencar
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK UBIRAJARA ***
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+Produced by Júlio Reis, Fernanda Brojo, Manuela Alves,
+Rory OConor and the Online Distributed Proofreading Team
+at https://www.pgdp.net
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+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+redistribution.
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+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
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+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
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+License terms from this work, or any files containing a part of this
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+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
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+
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
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+page at https://pglaf.org
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+<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN"
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+ Ubirajara, by José De Alencar -- a Project Gutenberg eBook.
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+The Project Gutenberg EBook of Ubirajara, by José Alencar
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Ubirajara
+ Lenda tupi
+
+Author: José Alencar
+
+Release Date: January 5, 2012 [EBook #38496]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK UBIRAJARA ***
+
+
+
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+Produced by Júlio Reis, Fernanda Brojo, Manuela Alves,
+Rory OConor and the Online Distributed Proofreading Team
+at https://www.pgdp.net
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+
+
+<h3>JOSÉ DE ALENCAR</h3>
+
+<h1>UBIRAJARA</h1>
+
+<p class="center">LENDA TUPI</p>
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+<div class="figcenter" style="width: 74px;">
+<img src="images/image003.png" width="74" height="60" alt="logo" />
+</div>
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<div style="float:left; width:45%;">
+
+<p class="center"><b>FRANCISCO ALVES &amp; C.<sup>a</sup></b></p>
+<hr class="r10" />
+<p class="center">RIO DE JANEIRO<br />
+166, Rua do Ouvidor, 166</p>
+<hr class="r10" />
+<p class="center">S. PAULO<br />
+65, Rua de S. Bento, 65</p>
+<hr class="r10" />
+<p class="center">BELO HORIZONTE<br />
+1055, Rua da Baía, 1055</p>
+</div>
+
+<div style="float:left; width:5%;">
+<p class="center" style="border-right: solid 1px;">
+&nbsp;<br />
+&nbsp;<br />
+&nbsp;<br />
+&nbsp;<br />
+&nbsp;<br />
+&nbsp;<br />
+&nbsp;<br />
+&nbsp;<br />
+&nbsp;<br />
+&nbsp;<br />
+&nbsp;<br /></p>
+</div>
+<div style="float:left; width:5%;">
+<p class="center">
+&nbsp;<br />
+&nbsp;<br />
+&nbsp;<br />
+&nbsp;<br />
+&nbsp;<br />
+&nbsp;<br />
+&nbsp;<br />
+&nbsp;<br />
+&nbsp;<br />
+&nbsp;<br />
+&nbsp;<br /></p>
+</div>
+
+
+
+<div style="float:left; width:45%;">
+<p class="center"><b>AILLAUD, ALVES &amp; C.<sup>a</sup></b></p>
+<hr class="r10" />
+<p class="center">PARIS<br />
+96, Boulevard Montparnasse<br />
+<small>(Livraria Aillaud)</small></p>
+<hr class="r10" />
+<p class="center">AILLAUD, ALVES, BASTOS &amp; C.<sup>a</sup></p>
+<hr class="r10" />
+<p class="center">LISBOA<br />
+73, Rua Garrett, 75<br />
+<small>(Livraria Bertrand)</small></p>
+</div>
+
+<p class="center" style="clear:both;">1911</p>
+
+<h1>UBIRAJARA</h1>
+
+<p class="center p6">Composto e impresso na Tipografia JOSÉ BASTOS<br />
+Rua da Alegria, 100&mdash;Lisboa</p>
+
+
+
+<h2><a name="INDICE" id="INDICE"></a>INDICE</h2>
+
+<div class="center">
+<table border="0" cellpadding="4" cellspacing="0" summary="toc">
+<tr><td align="right"><a href="#I">I</a></td><td align="left">&mdash;O caçador</td><td align="right">5</td></tr>
+<tr><td align="right"><a href="#II">II</a></td><td align="left">&mdash;O guerreiro</td><td align="right">15</td></tr>
+<tr><td align="right"><a href="#III">III</a></td><td align="left">&mdash;A noiva</td><td align="right">24</td></tr>
+<tr><td align="right"><a href="#IV">IV</a></td><td align="left">&mdash;A hospitalidade</td><td align="right">37</td></tr>
+<tr><td align="right"><a href="#V">V</a></td><td align="left">&mdash;Servo do amor</td><td align="right">51</td></tr>
+<tr><td align="right"><a href="#VI">VI</a></td><td align="left">&mdash;O combate nupcial</td><td align="right">61</td></tr>
+<tr><td align="right"><a href="#VII">VII</a></td><td align="left">&mdash;A guerra</td><td align="right">74</td></tr>
+<tr><td align="right"><a href="#VIII">VIII</a></td><td align="left">&mdash;A batalha</td><td align="right">85</td></tr>
+<tr><td align="right"><a href="#IX">IX</a></td><td align="left">&mdash;União dos arcos</td><td align="right">92</td></tr>
+<tr><td align="right"></td><td align="left"><a href="#NOTAS">Notas</a></td><td align="right">101</td></tr>
+</table></div>
+<p class="p2">&nbsp;<span class="pagenum"><a name="Page_5" id="Page_5"></a></span></p>
+
+<div class="figcenter" style="width: 422px;">
+<img src="images/image005h.png" width="422" height="114" alt="header" />
+</div>
+
+
+
+
+<h1><a name="UBIRAJARA" id="UBIRAJARA"></a>UBIRAJARA</h1>
+
+
+
+
+<h2><a name="I" id="I"></a>I<br />
+<br />
+O CAÇADOR</h2>
+
+
+<p>Pela marjem do grande rio caminha Jaguarê, o
+joven caçador.</p>
+
+<p>O arco pende-lhe ao hombro, esquecido e inutil.
+As flechas dormem no coldre da uiraçaba.</p>
+
+<p>Os veados saltam das moitas de ubaia e vêm
+retouçar na grama, zombando do caçador.</p>
+
+<p>Jaguarê não vê o timido campeiro; seus olhos
+buscam um inimigo capaz de rezistir-lhe ao braço
+robusto.</p>
+
+<p>O rujido do jaguar abala a floresta; mas o caça<span class="pagenum"><a name="Page_6" id="Page_6">[6]</a></span>dor
+tambem despreza o jaguar, que já cançou de
+vencer.</p>
+
+<p>Elle chama-se Jaguarê, o mais feroz jaguar da
+floresta; os outros fojem espavoridos quando de
+lonje o presentem.</p>
+
+<p>Não é esse o inimigo que procura, porém outro
+mais terrivel, para vencel-o em combate de morte
+e ganhar nome de guerra.</p>
+
+<p>Jaguarê chegou á idade em que o mancebo troca
+a fama do caçador pela gloria do guerreiro.</p>
+
+<p>Para ser aclamado guerreiro por sua nação é
+precizo que o joven caçador conquiste esse titulo
+por uma grande façanha.</p>
+
+<p>Por isso deixou a taba dos seus e a prezença de
+Jandira, a virjem formoza que lhe guarda o seio de
+espoza.</p>
+
+<p>Mas o sol tres vezes guiou o passo rapido do
+caçador através das campinas, e tres vezes como
+agora deitou-se além nas montanhas da Aratuba,
+sem mostrar-lhe um inimigo digno de seu valor.</p>
+
+<p>A sombra vai decendo da serra pelo vale e a
+tristeza cae da fronte sobre a face de Jaguarê.</p>
+
+<p>O joven caçador empunha a lança de duas pontas,
+feita da roxa craúba, mais rija que o ferro.</p>
+
+<p>Nenhum guerreiro brandiu jámais essa arma terrivel,
+que sua mão primeiro fabricou.</p>
+
+<p>Lá estaca o joven caçador no meio da campina.
+Volvendo ao céu o olhar torvo e iracundo, solta
+ainda uma vez seu grito de guerra.</p>
+
+<p>O bramido rolou pela amplidão da mata e foi
+morrer lonje nas cavernas da montanha.</p>
+
+<p>Respondeu o ronco da sucurí na madre do rio e
+o urro do tigre escondido na furna; mas outro grito
+de guerra não acudiu ao dezafio do caçador.</p>
+
+<p>Jaguarê arremessou a lança, que vibrou nos ares
+e foi cravar-se além no grosso tronco da emburana.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_7" id="Page_7">[7]</a></span></p>
+
+<p>A copa frondoza ramalhou, como as palmas do
+coqueiro ao sopro do vento, e o tronco gemeu até
+á raiz.</p>
+
+<p>O caçador repouza á sombra de sua lança.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Salta uma corça da mata e veloz atravessa a
+campina.</p>
+
+<p>Mais veloz a persegue gentil caçadora com a seta
+embebida no arco flexivel.</p>
+
+<p>Ergue-se Jaguarê.</p>
+
+<p>Seu olhar ardente voou, sofrego de encontrar o
+inimigo que lhe tardava.</p>
+
+<p>Avistando uma mulher, a alegria do mancebo
+apagou-se no rosto sombrio.</p>
+
+<p>Pela faxa côr de ouro, tecida das penas do tucano,
+Jaguarê conheceu que era uma filha da valente
+nação dos Tocantins, senhora do grande rio, cujas
+marjens elle pizava.</p>
+
+<p>A liga vermelha que cinjia a perna esbelta da
+estranjeira dizia que nenhum guerreiro jámais possuira
+a virjem formoza.</p>
+
+<p>A corça veiu cair aos pés de Jaguarê, atravessada
+pela flecha certeira da joven caçadora que a
+seguia de perto.</p>
+
+<p>A virjem reconheceu o cocar da nação que na
+ultima lua chegára aos campos do Taari e da qual
+os pajés tinham dado noticia.</p>
+
+<p>&mdash;Guerreiro araguaia, pois vejo pela pena vermelha
+de teu cocar que pertences a essa nação
+valente; se pizas os campos dos Tocantins como<span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8">[8]</a></span>
+hospede, bem vindo sejas; mas se vens como inimigo,
+foje, para que tua mãi não chore a morte de
+seu filho e tenha quem a proteja na velhice.</p>
+
+<p>&mdash;Virjem dos Tocantins, Jaguarê já soltou seu
+grito de guerra. Elle piza os campos de teus pais
+como senhor. Tu és sua prizioneira. Não que vencer
+a corça timida seja gloria para o caçador; mas tu
+chamarás o inimigo que elle espera.</p>
+
+<p>&mdash;Se o veado te der a sua lijeireza, joven guerreiro,
+elle não te servirá senão para ver o rasto de
+meu pé antes que o vento o apague.</p>
+
+<p>A linda caçadora desferiu a corrida pela imensa
+campina. Após ella se arremessou Jaguarê, que
+muitas vezes vencera o tapir.</p>
+
+<p>Mas a virjem dos Tocantins corria como a nandú
+no dezerto, e o caçador conheceu que seu braço
+nunca a poderia alcançar.</p>
+
+<p>Travou do arco e o brandiu. A seta obedeceu-lhe,
+pregando no tronco do assaí a faxa que flutuava
+ao sopro do vento.</p>
+
+<p>&mdash;A filha dos Tocantins tem no pé as azas do
+beija-flôr; mas a seta de Jaguarê vôa como o gavião.
+Não te assustes, virjem das florestas; tua formozura
+venceu o impeto de meu braço e apagou a
+cólera no coração feroz do caçador. Feliz o guerreiro
+que te possuir.</p>
+
+<p>&mdash;Eu sou Arací, a estrela do dia, filha de Itaquê,
+pai da grande nação Tocantim. Cem dos melhores
+guerreiros o servem em sua cabana para merecer
+que elle o escolha por filho. O mais forte e valente
+me terá por espoza. Vem comigo, guerreiro araguaia;
+excede aos outros no trabalho e na constancia,
+e tu romperás a liga de Arací na proxima
+lua do amor.</p>
+
+<p>&mdash;Não, filha do sol; Jaguarê não deixou a taba
+de seus pais, onde Jandira lhe guarda o seio de
+espoza, para ser escravo da virjem. Elle vem com<span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9">[9]</a></span>bater
+e ganhar um nome de guerra que encha de
+orgulho a sua nação. Torna á taba dos Tocantins
+e dize aos cem guerreiros cativos de teu amor, que
+Jaguarê, o mais destemido dos caçadores araguaias,
+os dezafia ao combate.</p>
+
+<p>&mdash;Arací vai, pois assim o queres. Se fores vencido,
+ella guardará tua lembrança, pois nunca seus
+olhos viram mais belo caçador. Se fores vencedor,
+será uma alegria para a virjem do sol pertencer ao
+mais valente dos guerreiros.</p>
+
+<p>A virjem disse e dezapareceu na selva. Os
+olhos de Jaguarê seguiram o passo lijeiro da formoza
+caçadora, como o guachimim que rasteja a
+zabelê.</p>
+
+<p>Quando ella dezapareceu, o joven caçador recostou-se
+ao tronco da emburana e esperou.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Do outro lado da campina assoma um guerreiro.</p>
+
+<p>Tem na cabeça o canitar das plumas de tucano,
+e no punho do tacape uma franja das mesmas penas.</p>
+
+<p>É um guerreiro tocantim. De lonje avistou Jaguarê
+e reconheceu o penacho vermelho dos araguaias.</p>
+
+<p>As duas nações não estão em guerra; mas sem
+quebra da fé póde um guerreiro cansado do longo
+repouzo oferecer a outro guerreiro combate leal.</p>
+
+<p>Quando o tocantim armou o arco, Jaguarê já
+tinha brandido o seu e disparado no ar uma seta,
+mensajeira do dezafio.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10">[10]</a></span></p>
+
+<p>Respondeu o guerreiro disparando tambem uma
+flecha no ar, para dizer que aceitava o combate.</p>
+
+<p>Então os dois campeões caminharam um para
+o outro com o passo grave e pararam frente a
+frente.</p>
+
+<p>&mdash;Eu sou Jaguarê, filho de Camacan, chefe da
+valente nação dos araguaias, que vem de lonje em
+busca da terra de seus pais. Minha fama corre as
+tabas e tu já deves conhecer o maior caçador das
+florestas. Mas Jaguarê despreza a fama de caçador;
+elle quer um nome de guerra, que diga ás nações
+a força de seu braço e faça tremer aos mais bravos.
+Se tua nação te aclamou forte entre os fortes,
+prepara-te para morrer; se não, passa teu caminho,
+guerreiro vil, para que o sangue do fraco não
+manche o tacape virjem de Jaguarê.</p>
+
+<p>&mdash;O caraiba guiou teu passo ao encontro de
+Pojucan, o matador de gente, guerreiro chefe da
+terrivel nação tocantim, que enche de terror as
+outras nações. Ha tres luas, desde que fujiram
+espavoridos os barbaros Tapuias, que Pojucan não
+combate; e seu tacape tem fome do inimigo. Tu
+não és digno dos golpes de um guerreiro chefe;
+mas Pojucan se compadece de tua mocidade e consente
+em combater comtigo. Terás a gloria de ser
+morto pelo mais valente guerreiro tocantim. Os
+cantores de meus feitos lembrarão teu nome; e
+todos os mancebos de tua nação invejarão tua
+sorte.</p>
+
+<p>&mdash;Jaguarê agradece a Tupan que te fez um
+grande guerreiro e o chefe mais feroz da terrivel
+nação tocantim, Pojucan, matador de gente.
+A tua morte será a primeira façanha do caçador
+araguaia e lhe dará um nome de guerra que se
+torne o espanto dos seus e o terror das outras
+nações.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11">[11]</a></span></p>
+
+<p>Os dois campeões recuaram passo a passo até
+que se acharam a um tiro de arco.</p>
+
+<p>Então soltaram o grito de guerra e se arremessaram
+um contra outro brandindo o tacape.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Os tacapes toparam no ar e os dois guerreiros
+rodaram como as torrentes impetuozas no remoinho
+da Itaoca.</p>
+
+<p>Dez vezes as clavas bateram, e dez vezes volveram
+para bater de novo.</p>
+
+<p>Os animais que passavam na floresta fujiram espavoridos,
+como se a borrasca ribombasse no céu.</p>
+
+<p>Ainda uma vez encontraram-se os dois tacapes
+e voaram em lascas pelos ares.</p>
+
+<p>&mdash;O ubiratan é forte; mas ha outro ubiratan que
+lhe reziste. Como o braço de Pojucan é que não
+ha outro braço. Já viste, joven caçador, o veado
+nas garras da giboia? Assim vais morrer.</p>
+
+<p>&mdash;Se tu fosses a cascavel que sómente sabe
+morder, Jaguarê te esmagaria a cabeça com o pé
+e seguiria o seu caminho. Mas tu és a giboia feroz;
+e Jaguarê gosta de estrangular a giboia. Não morrerás
+pelo pé, mas pela mão do caçador. Lança teu
+bote, guerreiro tocantim.</p>
+
+<p>Pojucan estendeu os braços e estreitou os rins
+de Jaguarê, que por sua vez cinjiu os lombos do
+guerreiro.</p>
+
+<p>Cada um dos campeões pôz na luta todas as suas
+forças, bastantes para arrancar o tronco mais robusto
+da mata.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12">[12]</a></span></p>
+
+<p>Ambos, porém, ficaram imoveis. Eram dois jatobás
+que naceram juntos e entrelaçaram os galhos
+ligando-se no mesmo tronco.</p>
+
+<p>Nada os desprende; nada os abala. O tufão passa
+bramindo sem ajital-os; e elles permanecem quedos
+pelo volver dos tempos.</p>
+
+<p>Um pajé que passou na orla da mata viu os lutadores
+e esconjurou-os, pensando que eram as almas
+de dois guerreiros prezos no abraço da morte.</p>
+
+<p>Já a sombra se desdobrava pelo vale fóra e o sol
+despedia-se dos cimos dos montes, sem que os
+campeões se movessem.</p>
+
+<p>Por fim afrouxaram os braços e cada lutador recuou
+para contemplar seu adversario. Nenhum mostrava
+no rosto sombra de fadiga.</p>
+
+<p>Conheceram que podiam lutar corpo a corpo, a
+noite inteira, sem que um prostrasse o outro.</p>
+
+<p>&mdash;Tu és igual na valentia e na força ao guerreiro
+chefe da nação tocantim. Mas Pojucan
+não consente que haja na terra quem rezista a
+seu braço. É precizo que tu morras, Jaguarê,
+para que elle seja o primeiro dos guerreiros que o
+sol alumia.</p>
+
+<p>&mdash;Pojucan, matador de gente, guerreiro feroz da
+nação tocantim, Jaguarê deixou-te viver até este
+momento para saber se tu eras digno de dar-lhe um
+nome de guerra. Agora que te conhece como o
+primeiro dos guerreiros que existiram até este momento,
+elle quer que tua derrota seja a sua primeira
+façanha.</p>
+
+<p>Disse, e, arrancando do tronco da emburana a
+lança de duas pontas, caminhou outra vez para
+Pojucan.</p>
+
+<p>&mdash;Esta arma que tu vês é a lança de duas pontas.
+Jaguarê fabricou-a do rijo galho da craúba, endurecido
+pelo fogo. Sua mão foi a primeira que a
+arremessou e teu corpo é o primeiro cujo sangue<span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13">[13]</a></span>
+ella vai beber. Empunha a lança de duas pontas,
+guerreiro chefe, e ataca Jaguarê para receberes a
+morte dos valentes.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Pojucan repeliu a lança que o joven caçador lhe
+aprezentára.</p>
+
+<p>&mdash;Jámais no combate um guerreiro tocantim atacará
+seu adversario dezarmado; nem Pojucan preciza
+da lança. Ataca tu, Jaguarê, que não tens confiança
+em teu braço; o de Pojucan basta para te
+prostrar.</p>
+
+<p>&mdash;O orgulho te cega, guerreiro chefe. A lança
+conhece Jaguarê que a inventou e lhe obedece como
+o arpão á corda do pescador. Aperta-a bem em tua
+mão robusta e Jaguarê estará duas vezes mais armado
+do que tu, que não sabes manejal-a.</p>
+
+<p>O chefe tocantim cruzou os braços.</p>
+
+<p>&mdash;Toma a lança, Pojucan, se não queres que te
+chame covarde; pois tu sabes que Jaguarê não te
+matará dezarmado, mas te abandonará como indigno
+de combater com o filho do maior guerreiro araguaia,
+o grande Camacan.</p>
+
+<p>O chefe tocantim arrojou-se contra Jaguarê que
+lhe travou dos pulsos e outra vez os dois campeões
+ficaram imoveis.</p>
+
+<p>A noite veiu achal-os na mesma pozição. Tres vezes
+cessaram a luta, e de novo a travaram. Mas afinal
+se convenceram que nenhum derrubaria o outro.</p>
+
+<p>Então Pojucan disse:</p>
+
+<p>&mdash;Guerreiro araguaia, é precizo acabar o com<span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14">[14]</a></span>bate.
+A terra não chega para dois guerreiros como
+nós. Finca no chão a lança e caminhemos até á
+marjem do rio. Aquelle que primeiro chegar, será
+o senhor da lança e da vida do outro.</p>
+
+<p>Assim fizeram os dois campeões. Chegados á
+marjem do rio, dispararam a corrida. Ao mesmo
+tempo a mão de ambos tocou a haste da lança;
+mas Jaguarê, arremessado pelo impeto da desfilada,
+não pôde arrancar a arma que ficou na mão de
+Pojucan.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>O guerreiro chefe enrista desdenhozamente a
+lança e caminha para Jaguarê. Não vai como o
+guerreiro que marcha ao combate, mas como o
+matador que se prepara para imolar a vitima.</p>
+
+<p>&mdash;Guerreiro chefe, Jaguarê não te quer matar
+como a serpente que ataca o descuidado caçador.
+Dez vezes já, se quizesse, elle te houvera ferido
+com tua propria mão.</p>
+
+<p>&mdash;Abandona a gloria do guerreiro, que não é
+para ti, nhengaíba. Pojucan te concederá a vida, e
+te levará cativo á taba dos tocantins para que tu
+cantes as suas façanhas na festa dos guerreiros.</p>
+
+<p>&mdash;Cativo serás tu, mas não para cantar os feitos
+dos guerreiros. Tu servirás na taba dos araguaias
+para ajudar as velhas a varrer a oca.</p>
+
+<p>Arremessou-se Pojucan avante e desfechou o
+golpe; mas a lança rodára e foi o chefe tocantim
+quem recebeu no peito a ponta farpada.</p>
+
+<p>Quando o corpo robusto de Pojucan tombava, cravado
+pelo dardo, Jaguarê de um salto calcou a mão<span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15">[15]</a></span>
+direita sobre o hombro esquerdo do vencido e brandindo
+a arma sangrenta, soltou o grito do triunfo:</p>
+
+<p>&mdash;Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro
+invencivel que tem por arma a serpente. Reconhece
+o teu vencedor, Pojucan, e proclama o
+primeiro dos guerreiros, pois te venceu a ti, o maior
+guerreiro que existiu antes delle.</p>
+
+<p>&mdash;Se meu valor, que serviu para aumentar a tua
+fama, merece de ti uma graça, não deixes que Pojucan
+sofra mais um instante a vergonha de sua
+derrota.</p>
+
+<p>&mdash;Não, chefe tocantim. Tu me acompanharás á
+taba dos araguaias para narrar meu valor. A fama
+de Jaguarê preciza de um prizioneiro como o grande
+Pojucan na festa da vitoria.</p>
+
+<p>&mdash;Tu és cruel, guerreiro da lança; mas fica certo
+que, se tua arma traiçoeira me feriu o peito, o suplicio
+não vencerá a constancia do varão tocantim que
+sabe afrontar as iras de Tupan e desprezar a vingança
+dos araguaias.</p>
+
+
+
+
+<hr class="chap" />
+<h2><a name="II" id="II"></a>II<br />
+<br />
+O GUERREIRO</h2>
+
+
+<p>Retumba a festa na taba dos araguaias.</p>
+
+<p>As fogueiras circulam a vasta ocara e derramam
+no seio da noite escura as chamas da
+alegria.</p>
+
+<p>Toda a tarde o trocano reboou chamando os<span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16">[16]</a></span>
+guerreiros das outras tabas á grande taba do
+chefe.</p>
+
+<p>Era a festa guerreira de Jaguarê, filho de Camacan,
+o maior chefe dos araguaias.</p>
+
+<p>No fundo da ocara prezide o conselho dos anciãos,
+que decide da paz ou da guerra, e governa
+a valente nação.</p>
+
+<p>Os anciãos, sentados no longo giráu, contemplam
+taciturnos a geração de guerreiros que elles
+ensinaram a combater, e têm saudades da passada
+gloria.</p>
+
+<p>Suspenso em frente delles está o grande arco
+da nação araguaia, ornado nas pontas das penas
+vermelhas da arara.</p>
+
+<p>É a insignia do chefe dos guerreiros, a qual
+Camacan, pai de Jaguarê, conquistou na mocidade
+e ainda a conserva, pois ninguem ouza disputal-a.</p>
+
+<p>Eil-o, o velho chefe, embaixo do arco, que
+sua mão tantas vezes brandiu na guerra. Em
+pé, arrimado ao invencivel tacape, elle dirije a
+festa.</p>
+
+<p>De um e outro lado da vasta ocara, está a multidão
+dos guerreiros, colocados por sua ordem;
+primeiro os chefes das tabas; depois os varões;
+por ultimo os moços guerreiros.</p>
+
+<p>Vêm depois os jovens caçadores que já deixaram
+a oca materna e estão impacientes de ganhar
+por suas proezas a honra de serem admitidos entre
+os guerreiros.</p>
+
+<p>Mas para isso têm de passar pelas provas, e sua
+juventude não lhes consente ainda a robustez, que
+tamanho esforço demanda.</p>
+
+<p>Todos invejam a gloria de Jaguarê que hontem
+era o primeiro entre elles, e hoje ali está disputando
+a fama aos mais valentes guerreiros.</p>
+
+<p>Por detraz da estacada apinham-se as mulheres,<span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17">[17]</a></span>
+que segundo o rito patrio não podem ser admitidas
+nas festas guerreiras.</p>
+
+<p>De lonje acompanham silenciozas com os olhos,
+as velhas aos filhos, as espozas aos seus guerreiros,
+e as virjens aos noivos.</p>
+
+<p>Exultam quando ouvem celebrar as façanhas dos
+seus; mas não ouzam murmurar uma palavra.</p>
+
+<p>Entre ellas está Jandira, a doce virjem, cujos
+negros olhos não se cansam de admirar Jaguarê,
+seu futuro senhor.</p>
+
+<p>Já lhe tarda o momento de ver aclamar guerreiro
+ao joven caçador, para ter a felicidade de servil-o
+como escrava na paz, e acompanhal-o como espoza
+ao combate.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>No centro da ocara ergueu-se Jaguarê.</p>
+
+<p>Defronte delle, Pojucan, no corpo que a ferida
+não abateu, mostra a grande alma, serena em face
+dos inimigos.</p>
+
+<p>Camacan troou a inubia para ordenar silencio e
+o filho começou:</p>
+
+<p>&mdash;Guerreiros araguaias, ouvi a minha historia de
+guerra.</p>
+
+<p>«Depois que Jaguarê sofreu as provas do valor,
+partiu para conquistar um nome famozo.</p>
+
+<p>«Deixando a taba, viu o falcão negro que despedia
+o vôo para as aguas sem fim, e Jaguarê
+disse:</p>
+
+<p>«O falcão negro é o valente guerreiro dos ares;
+elle será a fama do guerreiro araguaia que atravessará
+as nuvens e subirá ao céu.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18">[18]</a></span></p>
+
+<p>«Então Jaguarê marcou o vôo do falcão negro e
+seguiu por elle.</p>
+
+<p>«O sol despediu-se e voltou; uma, duas, tres vezes.
+No ultimo sol Jaguarê encontrou um guerreiro
+da nação tocantim, senhora do grande rio.</p>
+
+<p>«Guerreiros araguaias, quereis saber qual foi o
+campeão que Tupan enviou a Jaguarê para dar-lhe
+o nome de guerra?</p>
+
+<p>«Elle aí está diante de vós.</p>
+
+<p>«É o grande Pojucan, o feroz matador de gente,
+chefe da tribu mais valente da poderoza nação dos
+tocantins, senhores do grande rio.</p>
+
+<p>«Vós que o tendes aqui prezente, vêde como é
+terrivel o seu aspeto, mas só eu que o pelejei conheço
+o seu valor no combate.</p>
+
+<p>«O tacape em sua mão possante é como o tronco
+do ubiratan que brotou no rochedo e creceu.</p>
+
+<p>«Jaguarê, que arranca da terra o cedro gigante,
+não o pôde arrancar de sua mão; e foi obrigado a
+despedaçal-o.</p>
+
+<p>«Os braços de Pojucan, quando elle os estende
+na luta, não ha quem os vergue; são dois penedos
+que saem da terra.</p>
+
+<p>«Seu corpo é a serra que se levanta no vale.
+Nenhum homem, nem mesmo Camacan, o póde
+abalar.</p>
+
+<p>«Pojucan era o varão mais forte e o mais valente
+guerreiro que o sol tinha visto até áquelle
+momento.</p>
+
+<p>«Foi este, guerreiros araguaias, o heróe que
+ofereceu combate ao filho de Camacan; e Jaguarê
+aceitou, porque logo conheceu que havia encontrado
+um inimigo digno de seu valor.</p>
+
+<p>«Elle vos contempla, guerreiros araguaias. Se
+alguem duvida da palavra de Jaguarê e da força do
+guerreiro tocantim, chame-o a combate e saberá
+quem é Pojucan.»</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19">[19]</a></span></p>
+
+<p>O chefe tocantim lançou um olhar ameaçador á
+multidão dos guerreiros; mas nenhum ouzou aceitar
+o dezafio.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Pojucan alçou a mão em sinal de que dezejava
+falar; todos escutaram com respeito o heróe, ainda
+maior na desgraça.</p>
+
+<p>&mdash;Guerreiros araguaias, ouvi a voz de Pojucan,
+vosso inimigo, que afronta as iras dos fortes e despreza
+a vingança dos fracos.</p>
+
+<p>«Pojucan, guerreiro chefe da grande nação tocantim,
+jámais encontrou guerreiro que rezistisse
+á força de seu braço invencivel.</p>
+
+<p>«Mas Tupan, cansado de ouvir celebrar em todas
+as festas o nome de Pojucan, como vencedor, emprestou
+sua força a Jaguarê, o maior guerreiro que
+já pizou a terra.</p>
+
+<p>«Eu que senti o impeto de sua corajem, posso
+dizer-vos que só o sangue tocantim é capaz de
+gerar um guerreiro tão poderozo.</p>
+
+<p>«Foi alguma virjem araguaia que vagando pela
+floresta encontrou Pojucan, e trouxe no seio fecundo
+a alma do grande guerreiro.</p>
+
+<p>«Seu braço é como o corisco do céu; e a sua
+força como a tempestade que dece das nuvens.»</p>
+
+<p>Calou-se Pojucan; e Jaguarê continuou o seu
+canto de guerra:</p>
+
+<p>«Quando a sombra começava a decer da crista
+da montanha, Pojucan e Jaguarê caminharam um
+contra o outro.</p>
+
+<p>«Toda a noite combateram. O sol nacendo veiu<span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20">[20]</a></span>
+achal-os ainda na peleja, como os deixára; nem
+vencidos, nem vencedores.</p>
+
+<p>«Conheceram que eram os dois maiores guerreiros,
+na fortaleza do corpo, e na destreza das
+armas.</p>
+
+<p>«Mas nenhum consentia que houvesse na terra
+outro guerreiro igual; pois ambos queriam ser o
+primeiro.</p>
+
+<p>«Foi então que o chefe tocantim ganhou na corrida
+a lança de duas pontas, que Jaguarê havia fabricado.</p>
+
+<p>«Tres vezes seu punho robusto a brandiu, e tres
+vezes ella escapou-lhe da mão, como a serpente
+das garras do gavião.</p>
+
+<p>«Mais uma vez o grande guerreiro investiu com
+o bote armado; e a lança, escrava de Jaguarê, cravou
+o peito do inimigo.</p>
+
+<p>«Elle caiu, o guerreiro chefe, o grande varão dos
+tocantins, o valente dos valentes, Pojucan, o feroz
+matador de gente.</p>
+
+<p>«E Jaguarê brandindo a arma da vitoria bradou:</p>
+
+<p>«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, que venceu
+o primeiro guerreiro dos guerreiros de Tupan.</p>
+
+<p>«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro
+terrivel que tem por arma uma serpente.»</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>O trocano ribombou, derramando lonje pela amplidão
+dos vales e pelos écos das montanhas a pocema
+do triunfo.</p>
+
+<p>Os tacapes, vibrados pela mão pujante dos
+guerreiros, bateram nos largos escudos retinindo.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21">[21]</a></span></p>
+
+<p>Mas a voz possante da multidão dos guerreiros
+cobriu o imenso rumor clamando:</p>
+
+<p>&mdash;Tu és Ubirajara, o senhor da lança, o vencedor
+de Pojucan, o maior guerreiro da nação tocantim.</p>
+
+<p>«Os guerreiros araguaias te recebem por seu
+irmão nas armas e te aclamam forte entre os
+fortes.</p>
+
+<p>«Os cantores celebrarão teu nome como os mais
+famozos da nação araguaia e Camacan terá a gloria
+de chamar-se pai de Ubirajara, como foi gloria
+para Jaguarê ser filho de Camacan.»</p>
+
+<p>Quando parou o estrondo da festa e cessou o
+canto dos guerreiros, avançou Camacan, o grande
+chefe dos araguaias.</p>
+
+<p>De um salto o ancião alcançou o arco da nação,
+insignia do chefe na guerra, e caminhou para Ubirajara.</p>
+
+<p>O arco era de ubiratan, grosso como o braço do
+mais robusto guerreiro; a corda trançada de crautá
+tinha o corpo do dedo que a brandia.</p>
+
+<p>Os mais possantes varões da nação araguaia a
+custo empunhavam o grande arco; mas só um tinha
+força para disparar a seta.</p>
+
+<p>Era Camacan, o chefe dos chefes, que dirijia na
+guerra os guerreiros araguaias.</p>
+
+<p>Assim falou o ancião:</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara, senhor da lança, é tempo de empunhares
+o grande arco da nação araguaia, que
+deve estar na mão do mais possante. Camacan
+o conquistou no dia em que escolheu por espoza
+Jaçanan, a virjem dos olhos de fogo, em cujo seio
+te gerou seu primeiro sangue. Ainda hoje, apezar
+da velhice que lhe mirrou o corpo, nenhum guerreiro
+ouzaria disputar o grande arco ao velho chefe,
+que não sofresse logo o castigo de sua audacia.
+Mas Tupan ordena que o ancião se curve para a<span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22">[22]</a></span>
+terra até dezabar como o tronco carcomido, e que
+o mancebo se eleve para o céu como a arvore altaneira.
+Camacan revive em ti; a gloria de ser o
+maior guerreiro crece com a gloria de ter gerado
+um guerreiro ainda maior do que elle.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Ubirajara tomou o arco que lhe aprezentava o
+pai e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Camacan, tu és o primeiro guerreiro e o maior
+chefe da nação araguaia. Para a gloria de Jaguarê
+bastava que elle se mostrasse teu filho no valor
+como é teu filho no sangue. Mas o grande arco da
+nação araguaia, Ubirajara não o recebe de ti e de
+nenhum outro guerreiro, pois o ha de conquistar
+pela sua pujança.</p>
+
+<p>Disse, e arremessando no meio da ocara o grande
+arco, bradou:</p>
+
+<p>&mdash;O guerreiro que ouze empunhar o grande
+arco da nação araguaia, venha disputal-o a Ubirajara.</p>
+
+<p>Nenhuma voz se ergueu; nenhum campeão avançou
+o passo.</p>
+
+<p>O trocano reboou de novo, e no meio da pocema
+de triunfo, a multidão dos guerreiros proclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara, senhor da lança, tu és o mais forte
+dos guerreiros araguaias; empunha o arco chefe.</p>
+
+<p>Então Ubirajara levantou o grande arco, e a corda
+zuniu como o vento na floresta.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23">[23]</a></span></p>
+
+<p>Era a primeira seta, mensajeira do chefe, que
+levava ás nuvens a fama de Ubirajara.</p>
+
+<p>Os cantores exaltaram a gloria dos dois chefes: a
+do velho Camacan, que trocára a arma do guerreiro
+pelo bordão do conselho; e a do joven Ubirajara,
+que na sua mocidade já se mostrava tão grande,
+como fôra o pai na robustez dos anos.</p>
+
+<p>Pojucan teve o consolo de ouvir seu nome, repetido
+muitas vezes e louvado a par com o de seu
+vencedor.</p>
+
+<p>Os cantores celebraram depois os grandes feitos
+da nação araguaia, desde os tempos remotos em
+que os projenitores deixaram a grande taba dos
+Tamoios, seus avós.</p>
+
+<p>Quando os nhengaçáras entoaram o canto do
+triunfo, vieram as mulheres com vazos cheios do
+generozo cauim e aprezentaram as taças aos guerreiros.</p>
+
+<p>Jandira suspirou; ella era virjem, e como suas
+companheiras, não podia aparecer na festa dos
+guerreiros.</p>
+
+<p>Sentiu não ser já espoza, para ter o orgulho de
+encher de vinho espumante, por ella fabricado, a
+taça de seu heróe e senhor.</p>
+
+<p>O guincho agoureiro da inhúma resoava na mata,
+quando começou a dansa guerreira que durou até
+perto da alvorada.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24">[24]</a></span></p>
+
+
+
+
+<hr class="chap" />
+<h2><a name="III" id="III"></a>III<br />
+<br />
+A NOIVA</h2>
+
+
+<p>Ao raiar da luz no céu, Jandira abriu os lindos
+olhos negros.</p>
+
+<p>Seu canto foi o primeiro que saudou o nacer do
+dia e acordou em seu ninho a viuvinha.</p>
+
+<p>A doce filha de Majé saltou da rêde que embalára
+os sonhos castos da virjem, e despediu-se della
+como a jaçanan que deixa a moita para habitar o
+ninho do amor.</p>
+
+<p>A virjem tocantim acreditava ter dormido a ultima
+noite na cabana paterna, que essa manhã ia trocar
+pela cabana do espozo.</p>
+
+<p>O joven caçador que a amava, Jaguarê, fôra
+aclamado guerreiro, e entre todos os guerreiros o
+chefe da nação.</p>
+
+<p>Como guerreiro elle póde tomar uma espoza; e
+como chefe pertence-lhe a virjem de sua escolha,
+entre as mais formozas da taba.</p>
+
+<p>Ainda que a virjem tenha um noivo, ou que o
+pai a destine a outro, se o chefe a dezeja, a vontade
+de Tupan é que lhe pertença.</p>
+
+<p>Tupan assim ordena para que os grandes chefes
+possam gerar de seu sangue os mais belos e valentes
+guerreiros.</p>
+
+<p>Jaguarê antes de ser aclamado chefe já a tinha
+escolhido, e Jandira não aceitaria outro noivo senão
+o joven caçador a quem amava.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25">[25]</a></span></p>
+
+<p>Ella o espera. Logo que o sol alumie a terra,
+Ubirajara, o grande chefe, ha de vir buscal-a.</p>
+
+<p>Então a virjem se despedirá de Majé; e irá armar
+na cabana de seu guerreiro e senhor a rêde da espoza.</p>
+
+<p>Lijeira e contente corre a banhar-se no rio antes
+que chegue Ubirajara, para quem purifica seu corpo
+e se unje com o oleo fragrante do sassafraz.</p>
+
+<p>Ella quer que o destemido guerreiro ache seu
+amor saborozo como o vinho que espumá na taça,
+e ferve nas veias.</p>
+
+<p>Tornando á cabana, perfumou de beijoim a larga
+rêde que tecera dos fios do algodão entrelaçados
+com as penas do guará.</p>
+
+<p>Essa rêde tinha duas vezes o tamanho de sua
+rêde de virjem, porque era a rêde do cazamento
+em que devia receber o espozo.</p>
+
+<p>Depois arrumou no urú a louça que havia fabricado
+para o serviço do guerreiro, e que devia transportar
+á sua nova cabana.</p>
+
+<p>Quando terminou todos os preparativos, encostou-se
+á porta da cabana; seus olhos impacientes
+chamavam Ubirajara.</p>
+
+<p>Mas o guerreiro não vinha, e o sol já tinha subido
+além da crista da serra.</p>
+
+<p>A luz do dia derramava a alegria pelos campos;
+e a alegria que lhe afagára os sonhos da noite fujia
+agora da alma de Jandira.</p>
+
+<p>Então a filha de Majé partiu em busca do noivo
+que a esquecera.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26">[26]</a></span></p><hr class="tb" />
+
+<p>No mais escuro da mata vaga o chefe dos araguaias.</p>
+
+<p>Seus olhos fojem á luz do dia e buscam a sombra,
+onde encontram a imajem que traz na lembrança.</p>
+
+<p>Á noite quando o guerreiro dormia em sua rêde
+solitaria, Arací, a linda virjem, lhe apareceu em
+sonho e lhe falou:</p>
+
+<p>&mdash;Jaguarê, joven caçador, tu dormes descansado
+emquanto os guerreiros tocantins se preparam para
+roubar a virjem de teus amores. Ergue-te e parte,
+se não queres chegar tarde.</p>
+
+<p>Elle erguera-se para seguil-a; mas a virjem formoza
+desferiu a corrida veloz através da campina
+e dezapareceu na floresta.</p>
+
+<p>Neste ponto do sonho o guerreiro acordára.</p>
+
+<p>Uma estrela brilhante listrava o céu, como uma
+lagrima de fogo, e Ubirajara pensou que era o
+rasto de Arací, a filha da luz.</p>
+
+<p>A jurití arrolhou docemente na mata e Ubirajara
+lembrou-se da voz mavioza da virjem do sol.</p>
+
+<p>O guerreiro tornou á rêde, esperando achar ali
+outra vez o sonho que vizitára sua alma; porém o
+sono fujira de seus olhos.</p>
+
+<p>Quando raiou a primeira alvorada, Ubirajara saiu
+da cabana e buscou no mais espesso da mata a
+sombra propicia á saudade.</p>
+
+<p>Seu passo o guiava sem querer para as bandas
+do grande rio, onde devia ficar a taba dos tocantins.</p>
+
+<p>É assim que os coqueiros, imoveis na praia,
+inclinam para o nacente seu verde cocar.</p>
+
+<p>Ubirajara ouviu o rumor de um passo lijeiro através
+da mata; de lonje conheceu Jandira que o
+procurava.</p>
+
+<p>A doce virjem achára á porta da cabana o rasto
+do guerreiro e o seguira através da floresta.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27">[27]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Que máu sonho aflige Ubirajara, o senhor da
+lança e o maior dos guerreiros, chefe da grande
+nação araguaia, para que elle se afaste de sua taba
+e esqueça a noiva que o espera.</p>
+
+<p>&mdash;A tristeza entrou no coração de Ubirajara,
+que não sabe mais dizer-te palavras de alegria,
+linda virjem.</p>
+
+<p>&mdash;A tristeza é amarga; quando entra no coração
+do guerreiro, o enche de fel. Mas Jandira fará como
+sua irmã, a abelha, ella fabricará em seus labios
+os favos mais doces para seu guerreiro; suas palavras
+serão os fios de mel que ella derramará na
+alma do espozo.</p>
+
+<p>&mdash;Filha de Majé, doce virjem, ainda não chegou
+o dia em que Ubirajara escolha uma espoza; nem
+elle sabe ainda qual o seio que Tupan destinou
+para gerar o primeiro filho do grande chefe dos
+araguaias.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>O labio de Jandira emudeceu; mas o peito soluçou.</p>
+
+<p>A virjem conheceu que o amor de Ubirajara
+retirava-se della, e que de todo o perderia se o
+não defendesse.</p>
+
+<p>Então escondeu a dôr no fundo da alma e chamou
+o rizo a seus labios, a alegria a seus olhos.</p>
+
+<p>Ella sabia que os guerreiros amam a flôr da
+formozura, como a folhajem da arvore; e que a
+tristeza murcha a graça da mais linda virjem.</p>
+
+<p>&mdash;Chefe dos araguaias, Ubirajara, não desprezes
+Jandira que outr'ora escolheste para tua noiva. Se<span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28">[28]</a></span>
+então ella era formoza a teus olhos, mais formoza
+se fará para merecer teu amor. Tu gostavas de seus
+cabelos negros que arrastam no chão; ella os entrançará
+com as plumas vermelhas do guará para
+que te pareçam mais bonitos. Seus olhos negros
+que te falavam, ella os cercará de uma listra amarela
+como os olhos da jaçanan. Sua boca, que
+ainda não provaste, Jandira a encherá de amor
+para que bebas nella o contentamento.</p>
+
+<p>Jandira esperou a palavra de Ubirajara; mas os
+labios mudos do guerreiro não se abriram.</p>
+
+<p>&mdash;Teu amor, Ubirajara, ficará em meu seio
+como a flôr no vale. Jandira te dará muitos filhos
+e todos dignos de teu valor. Nestes peitos, que te
+pertencem, ella os nutrirá com seu sangue, não
+menos guerreiro do que o teu; porque é o sangue
+de Majé, o maior dos anciãos, depois de Camacan.
+Seus braços que outr'ora querias para tua cintura,
+não servirão unicamente para te abraçarem, mas
+tambem para te servirem. Tua espoza te acompanhará
+por toda a parte, na taba, como no campo
+do combate; ella cuidará de tua cabana; aprontará
+as mais saborozas iguarias para seu guerreiro, e
+fabricará para elle o vinho, que é a alma da festa.</p>
+
+<p>&mdash;Jandira é a mais bela das virjens araguaias.
+Seu amor fará a ventura de um guerreiro valente.
+Ubirajara não podia achar para si uma espoza mais
+fiel, nem para seus filhos outra mãi tão fecunda.
+Mas a noite deceu em sua alma. Só a estrela do
+dia póde restituir-lhe a alegria que o abandonou.
+A filha de Majé merece um guerreiro que tenha
+olhos para a sua formozura.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29">[29]</a></span></p><hr class="tb" />
+
+<p>Pojucan sentou-se pensativo á porta da cabana.</p>
+
+<p>O semblante, sempre grave, como convém a um
+chefe, cobre-se de tristeza.</p>
+
+<p>A noite que foje da terra, vencida pelo
+sol, parece recolher-se na alma do chefe tocantim.</p>
+
+<p>Não é sua ferida que o faz sofrer. O balsamo
+suave da embaiba sára rapidamente os golpes mais
+profundos; e os varões tocantins aprendem desde
+o berço a desprezar a dôr.</p>
+
+<p>É em seu coração de guerreiro, que Pojucan
+sente as garras do Anhanga.</p>
+
+<p>O revez de ser vencido e cair prizioneiro, elle o
+suporta como o varão forte que viu prostrados por
+Aresqui no campo da batalha os mais terriveis
+guerreiros.</p>
+
+<p>A grandeza do vencedor o consola; resta-lhe
+ainda a gloria de ter rezistido a um braço, como o
+de Ubirajara, grande chefe dos araguaias.</p>
+
+<p>Mas elle esperava que depois de haver ornado
+com sua prezença a festa do triunfo, o vencedor
+fosse generozo, e lhe concedesse a honra do sacrificio.</p>
+
+<p>É o temor de que Ubirajara lhe recuze uma morte
+glorioza e o retenha cativo, que nesse momento
+acabrunha o chefe dos tocantins.</p>
+
+<p>Elle, um guerreiro livre que pizára outr'ora como
+senhor aquelles campos, reduzido á condição de
+escravo?</p>
+
+<p>Elle, um varão chefe que tinha na obediencia de
+seu arco mais de mil guerreiros valentes, obrigado
+a reconhecer um dono?</p>
+
+<p>Elle, que afrontava a cólera de Tupan, quando o
+deus irado rujia do céu, curvar-se ao aceno de um
+homem, fosse embora o mais pujante dos filhos da
+terra?</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30">[30]</a></span></p>
+
+<p>Pojucan estremecia quando se lembrava que podia
+ser condenado a tão grande humilhação.</p>
+
+<p>Em seu terror promovia o passo, com o impeto
+de fujir para sempre da taba dos araguaias, onde o
+ameaçava aquella vergonha.</p>
+
+<p>Mas uma força invencivel atava-lhe a vontade.
+Elle não se pertencia desde o momento
+em que Ubirajara lhe calcou a mão direita no
+hombro.</p>
+
+<p>Esse era o sinal da conquista, que prendia o
+vencido ao vencedor; aquelle que violasse a lei da
+guerra, perderia para sempre o nobre titulo de
+guerreiro.</p>
+
+<p>O desprezo do inimigo o acompanharia aos seus
+campos nativos; e a taba de seus irmãos não se
+abriria para o fujitivo que houvesse dezhonrado o
+nome de sua nação.</p>
+
+<p>Por isso na cabana solitaria, Pojucan está mais
+guardado do que se o cercasse a multidão dos
+guerreiros araguaias.</p>
+
+<p>Véla elle proprio em si, porque véla em sua
+fama.</p>
+
+<p>Póde Ubirajara esquecel-o, que na volta o encontrará
+ali onde o deixou.</p>
+
+<p>Nada o arrancará da cabana; nem a necessidade
+de buscar o alimento para o corpo.</p>
+
+<p>Bem vinda será a fome, se durar tanto que
+prostre seu corpo robusto, e o entregue ao seio
+da terra, onde o guerreiro dorme o sono da
+gloria.</p>
+
+<p>Além rompe da selva Ubirajara, que se encaminha
+para a cabana com o passo rapido.</p>
+
+<p>Segue-o de perto Jandira, como a gentil corça
+acompanha o caçador, que lhe roubou o companheiro.</p>
+
+<p>Descobrindo o chefe dos araguaias, Pojucan
+encerrou a tristeza dentro de sua alma;<span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31">[31]</a></span>
+e chamou ao rosto a altivez dos grandes guerreiros.</p>
+
+<p>O chefe tocantim não queria que seu vencedor
+se regozijasse de ter-lhe abatido o animo
+inflexivel.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Quando Ubirajara se aproximou da cabana, Pojucan
+tomou-lhe o passo.</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara, senhor da lança, grande chefe da
+nação araguaia, não confessaste tu diante dos
+anciãos das tabas e de todos os teus guerreiros,
+que Pojucan era o varão mais forte e o mais terrivel
+no combate, que o sol tinha visto até o momento
+de ser vencido por ti?</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara o disse. É a voz da nação araguaia.</p>
+
+<p>&mdash;Desde que tu cruzaste comigo a seta do
+dezafio até este momento, Pojucan, guerreiro varão,
+e chefe de uma taba, na valente nação dos
+tocantins, mostrou-se pela sua constancia e valor
+digno do sangue de seus avós?</p>
+
+<p>&mdash;Pojucan o disse; e a fama o repete.</p>
+
+<p>&mdash;Então porque Ubirajara, o grande chefe dos
+araguaias, não concede a Pojucan a morte glorioza,
+que os tocantins jámais recuzaram a um guerreiro
+valente, e que sómente se nega aos fracos? Já não
+serviu Pojucan á tua gloria na festa do triunfo?
+Esperas delle que te obedeça como um escravo?
+Se aviltas o varão, a quem venceste, humilhas o
+teu valor que elle exaltava.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32">[32]</a></span></p>
+
+<p>O grande chefe araguaia ouviu sem interromper
+o prizioneiro, e respondeu com gravidade:</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara não recuza ao bravo chefe tocantim,
+seu terrivel inimigo, o suplicio, que não negaria
+a qualquer guerreiro valente. Elle esperava que
+tua ferida se fechasse de todo, para que o grande
+Pojucan possa no dia do ultimo combate sustentar
+a fama de seu nome, e a gloria de um varão que só
+foi vencido por Ubirajara.</p>
+
+<p>O grande chefe dos araguaias levou aos labios
+a inubia de Camacan; a voz do mando reboou pelo
+vasto ambito da taba.</p>
+
+<p>Apareceram vinte jovens guerreiros, a quem
+elle ordenou que chamassem a conselho os anciãos.</p>
+
+<p>Depois tornou ao chefe tocantim:</p>
+
+<p>&mdash;Os araguaias receberam de seus avós o costume
+das nações que Tupan creou. Elles destinam
+ao prizioneiro a mais bela e a mais ilustre de todas
+as virjens da taba, para que ella conserve o sangue
+generozo do heróe inimigo e aumente a nobreza e
+o valor de sua nação.</p>
+
+<p>&mdash;É esta tambem a lei, que os guerreiros tocantins
+observam em suas tabas.</p>
+
+<p>&mdash;A mais bela e a mais nobre de todas as virjens
+araguaias, aquella que se ergue como a palmeira
+no meio da campina coberta de flôres, é
+Jandira, a filha de Majé, que tem no seio os doces
+favos da abelha.</p>
+
+<p>Travando então do pulso de Jandira, que
+ali ficára preza de sua vista, levou-a ao prizioneiro.</p>
+
+<p>&mdash;Recebe-a como espoza do tumulo.</p>
+
+<p>Jandira que ouviu espavorida aquellas palavras,
+quiz fujir; porém a mão do chefe araguaia
+a reteve.</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara parte, mas elle voltará para assistir<span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33">[33]</a></span>
+a teu suplicio e vibrar-te o ultimo golpe. Pojucan
+terá a gloria de morrer pela mão do mais valente
+guerreiro.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Ficaram Jandira e Pojucan em face um do outro.</p>
+
+<p>&mdash;Virjem dos araguaias, Tupan te rezervou para
+espoza do mais terrivel dos inimigos de tua nação.
+O filho de seu sangue será o mais valente dos
+guerreiros; tu sentirás orgulho por havel-o gerado
+em teu seio.</p>
+
+<p>&mdash;Pojucan, chefe tocantim, Jandira nunca será
+tua espoza.</p>
+
+<p>&mdash;Não é Ubirajara o chefe de tua nação, e não
+te destinou elle para servir de noiva do tumulo ao
+guerreiro que vai morrer no suplicio?</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara é o grande chefe da nação araguaia;
+á sua voz cala-se a palavra dos anciãos; a seu
+gesto curva-se a fronte dos guerreiros; á sua vontade
+obedecem as tabas. Mas no amor de Jandira,
+ninguem manda, nem Tupan. Jandira é noiva de
+Ubirajara, e se elle não quizer aceital-a, o guanumbí
+a levará para os campos alegres onde repouzam
+as virjens que morreram.</p>
+
+<p>&mdash;Pojucan não carece do amor de Jandira. Nas
+tabas dos tocantins a mais bela das virjens se regozijaria
+de pertencer ao mais valente dos chefes,
+e de habitar sua rêde. Nas tabas dos araguaias,
+onde nacem guerreiros como Ubirajara, não faltarão
+virjens formozas, que dezejem a gloria de ser
+mãi de um filho de Pojucan.</p>
+
+<p>&mdash;Jandira seria a primeira, se não conhecesse<span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34">[34]</a></span>
+Jaguarê, o mais belo dos jovens caçadores, que é
+hoje Ubirajara, o senhor da lança e chefe dos chefes.
+Pojucan merece uma espoza que nunca tenha
+ouvido o canto de outro guerreiro, para dar-lhe um
+filho digno delle.</p>
+
+<p>&mdash;Os ritos de tua nação não punem a noiva que
+rejeita o prizioneiro?</p>
+
+<p>&mdash;Jandira sabe que se sujeita á morte; mas a
+morte é menos cruel do que o abandono.</p>
+
+<p>&mdash;Então foje, virjem dos araguaias, e esconde-te
+á cólera dos anciãos. Talvez mais tarde Ubirajara
+se arrependa e te perdôe.</p>
+
+<p>&mdash;Jandira parte. Ella te dezeja uma espoza terna
+e a morte glorioza.</p>
+
+<p>A filha de Majé penetrou na floresta, e afastou-se
+rapidamente da taba.</p>
+
+<p>Quando já estava muito lonje, sentou-se á sombra
+de um manacá coberto de flôres e cantou:</p>
+
+<p>&mdash;Eu fui Jandira, a linda abelha, que fabricava
+os favos de cêra para enchel-os de mel saborozo.</p>
+
+<p>«Agora arrancaram-me as minhas azas com que
+eu voava pela campina colhendo o pó das flôres;
+e secou a doçura de meu sorrizo.</p>
+
+<p>«O canto que saía de meu seio era como o da
+patativa ao pôr do sol, quando se recolhe em seu
+ninho de paina macia.</p>
+
+<p>«Agora eu queria ter no coração uma serpente
+para morder aquella que me roubou o amor de
+meu guerreiro.</p>
+
+<p>«Guardei a minha formozura para orgulho do espozo,
+e inveja dos outros guerreiros.</p>
+
+<p>«Agora eu trocaria a flôr do meu rosto por um
+aspeto terrivel que infundisse pavor.</p>
+
+<p>«Meus seios mais lindos que os botões do cardo
+por um peito feroz, e as mãos lijeiras que tecem
+os fios do algodão pelas garras do jaguar.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35">[35]</a></span></p>
+
+<p>«Eu fui Jandira, o manacá viçozo que se vestia
+de flôres azues e brancas.</p>
+
+<p>«Agora sou como a jussara que perdeu a folha,
+e só tem espinhos para ferir aquelles que se chegam.»</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Os anciãos já estavam reunidos na oca do conselho,
+quando Ubirajara entrou.</p>
+
+<p>Falou Camacan:</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara, senhor da lança, chefe dos chefes,
+os pais da grande nação araguaia escutam a tua
+voz.</p>
+
+<p>O grande chefe tres vezes bateu no chão com a
+ponta do arco e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Pojucan, o chefe tocantim, pede a morte do
+combate; elle a merece, porque é um grande guerreiro
+e um varão ilustre. Ubirajara concedeu-lhe
+essa honra, como seu vencedor.</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara é um inimigo generozo; respondeu
+Camacan.</p>
+
+<p>Todos os anciãos inclinaram gravemente a cabeça
+encanecida para exprimirem sua aprovação ás
+palavras de Camacan.</p>
+
+<p>Proseguiu Ubirajara:</p>
+
+<p>&mdash;É tempo de escolher para o prizioneiro uma
+espoza digna de acompanhar em seus ultimos dias
+ao heróe inimigo, e de ser mãi do marabá, o filho
+da guerra.</p>
+
+<p>Todos os abarés dezejavam para si a gloria de
+oferecer uma filha ao prizioneiro.</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara destinou-lhe Jandira, filha de Majé.<span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36">[36]</a></span>
+Ella o merece por sua formozura, e pelo sangue
+do grande guerreiro que gira em suas veias.</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara é um grande chefe, disse Camacan.</p>
+
+<p>Os anciãos aprovaram outra vez com a cabeça;
+Majé acrecentou:</p>
+
+<p>&mdash;O sangue do velho Majé não desmentirá em
+Jandira a fama da nação araguaia.</p>
+
+<p>&mdash;Não! disse Ubirajara e todos os anciãos repetiram:
+Não!</p>
+
+<p>O grande chefe tornou com a voz pauzada:</p>
+
+<p>&mdash;Celebrai a ceremonia da entrega da espoza
+ao prizioneiro. Ubirajara parte; só estará de volta
+na proxima lua para assistir ao suplicio de Pojucan.
+Se na auzencia de Ubirajara cair na taba a
+flecha, nuncia da guerra, conduzi o trocano ao sitio
+onde se abraçam os grandes rios, e soltai a voz
+da nação araguaia. Nesse dia Ubirajara será comvosco.</p>
+
+<p>Os prudentes anciãos, com a cabeça inclinada
+para melhor ouvir, recebiam as palavras do grande
+chefe e as guardavam na memoria.</p>
+
+<p>Quando Ubirajara se calou, Camacan repetiu,
+ainda mais pauzado, as recomendações do filho:</p>
+
+<p>&mdash;É esta a vontade de Ubirajara?</p>
+
+<p>&mdash;Tu o disseste.</p>
+
+<p>&mdash;Os anciãos guardaram a palavra do chefe dos
+chefes? perguntou ainda Camacan.</p>
+
+<p>&mdash;Ella entrou no espirito dos abarés, como a
+raiz no seio da terra, observou Majé.</p>
+
+<p>&mdash;Bem dito, repetiram todos.</p>
+
+<p>Ubirajara saiu do carbeto; após elle os anciãos
+se retiraram lentamente.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37">[37]</a></span></p>
+
+
+
+
+<hr class="chap" />
+<h2><a name="IV" id="IV"></a>IV<br />
+<br />
+A HOSPITALIDADE</h2>
+
+
+<p>Na entrada do vale ergue-se a grande taba dos
+tocantins.</p>
+
+<p>É a hora em que as sombras abraçam os troncos
+das arvores e o sol descansa em meio da carreira.</p>
+
+<p>A floresta emudece, e todos os viventes se abrigam
+da calma que abraza.</p>
+
+<p>Ubirajara deixa o escuro da mata e caminha para
+a grande taba dos tocantins.</p>
+
+<p>Quando chegou á distancia do tiro de uma flecha
+despedida pelo mais robusto guerreiro, tocou a
+inubia.</p>
+
+<p>O guerreiro de vijia respondeu; e o chefe araguaia,
+quebrando a seta, alçou a mão direita para
+mostrar a senha da paz.</p>
+
+<p>Então avançou para a taba; na entrada da caissara
+que cercava o campo dos tocantins, atirou ao
+chão a seta partida.</p>
+
+<p>Os guerreiros que tinham acudido ao som da
+inubia, deixaram passar o estranjeiro sem inquirir
+donde vinha, nem o que o trouxera.</p>
+
+<p>Era este o costume herdado de seus maiores,
+que o hospede mandava na taba aonde Tupan o
+conduzia.</p>
+
+<p>Ubirajara passou entre os guerreiros, e dirijiu-se
+á cabana mais alta que ficava no centro da ocara.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38">[38]</a></span></p>
+
+<p>A figura do tucano, feita de barro pintado, e
+colocada em cima da porta, dizia que era ali a cabana
+do grande chefe.</p>
+
+<p>Mas Ubirajara já o sabia; pois antes de penetrar
+na taba, subira á grimpa do mais alto cedro da floresta
+para conhecer o sitio onde habitava Arací, a
+estrela do dia.</p>
+
+<p>A cabana estava dezerta naquelle instante, mas
+ouvia-se a fala das mulheres que trabalhavam no
+terreiro.</p>
+
+<p>Ubirajara transpôz o limiar, e levantando a voz
+disse:</p>
+
+<p>&mdash;O estranjeiro chegou.</p>
+
+<p>Acudiram as mulheres, e conduziram Ubirajara
+á prezença do grande chefe dos tocantins.</p>
+
+<p>Itaquê passava as horas da ardente calma á sombra
+da frondoza gameleira, que podia abrigar cem
+guerreiros em baixo de sua rama.</p>
+
+<p>Repouzando dos combates, o formidavel guerreiro
+não desdenhava as artes da paz em que era
+tão consumado como nas batalhas.</p>
+
+<p>Assim honrava as fadigas da taba, dando o exemplo
+do trabalho á familia de que era pai, e a nação
+de que era chefe.</p>
+
+<p>Nesse momento as mulheres colocadas em duas
+filas, com as mãos erguidas, urdiam os fios de algodão,
+passados pelos dedos abertos em fórma de
+pente.</p>
+
+<p>Itaquê manejava a lançadeira, tão destro como
+na peleja vibrava o tacape. Sua mão lijeira tramava
+a teia de uma rêde, que entretecia das penas douradas
+do galo da serra.</p>
+
+<p>Quando chegou Ubirajara, o grande chefe dos
+tocantins, depois de ter rematado a urdidura,
+entregou a lançadeira ao guerreiro Pirajá que
+estava a seu lado, e veiu ao encontro do hospede.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39">[39]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;O estranjeiro veiu á cabana de Itaquê, grande
+chefe da nação tocantim, disse Ubirajara.</p>
+
+<p>&mdash;Bem vindo é o estranjeiro á cabana de Itaquê,
+grande chefe da nação tocantim.</p>
+
+<p>Então o tuxava voltou-se para Jacamim, a mãi
+de seus filhos:</p>
+
+<p>&mdash;Jacamim, prepara o cachimbo do grande chefe,
+para que elle e o estranjeiro troquem a fumaça
+da hospitalidade.</p>
+
+<p>Os mensajeiros já corriam pela taba, avizando
+os guerreiros moacaras da vinda do hospede á cabana
+de Itaquê.</p>
+
+<p>Os moacaras, revestidos de seus ornatos de
+festa, se encaminharam com o passo grave á oca
+principal afim de honrar o hospede do grande chefe
+da nação tocantim.</p>
+
+<p>Ali chegados, cada um dirijiu ao estranjeiro a
+pergunta da hospitalidade e deu-lhe a boa vinda.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Depois que Itaquê ofereceu a Ubirajara o cachimbo
+da paz, e com elle trocou a fumaça da
+hospitalidade, os cantores entoaram a saudação
+da chegada:</p>
+
+<p>«O hospede é mensajeiro de Tupan. Elle traz a
+alegria á cabana; e quando parte leva comsigo a
+fama do guerreiro que teve a fortuna de o acolher.</p>
+
+<p>«Nas tabas por onde passa, e na terra de seus
+pais, elle conta aos velhos, que depois ensinam
+aos moços, as proezas dos heróes que viu em seu
+caminho, e de quem recebeu o abraço da paz.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40">[40]</a></span></p>
+
+<p>«O hospede é mensajeiro de Tupan. Elle traz
+comsigo a sabedoria; na cabana do guerreiro que
+tem a fortuna de o acolher, todos o escutam com
+respeito.</p>
+
+<p>«Em suas palavras prudentes, os anciãos da taba
+aprendem, para ensinar aos moços, os costumes
+dos outros povos, as façanhas de guerra desconhecidas
+por elles, e as artes da paz, que o estranjeiro
+viu em suas viajens.</p>
+
+<p>«O hospede é mensajeiro de Tupan. O primeiro
+que apareceu na taba dos avós da nação tocantim,
+foi Sumê, que veiu de onde a terra começa e caminhou
+para onde a terra acaba.</p>
+
+<p>«Delle aprenderam as nações a plantar a mandioca
+para fazer a farinha, e a tirar do cajú e do
+ananaz o generozo cauim, que alegra o coração do
+guerreiro.</p>
+
+<p>«O hospede é mensajeiro de Tupan. Quando o
+estranjeiro entra na cabana, o guerreiro que tem a
+fortuna de o acolher, não sabe se elle é um chefe
+ilustre ou o grande Sumê que volta de sua viajem.</p>
+
+<p>«O sabio ensina por onde passa os segredos da
+paz, e o heróe as façanhas da guerra; mas ambos
+deixam na cabana da hospitalidade a gloria de ter
+abrigado um grande varão.</p>
+
+<p>«O hospede é mensajeiro de Tupan. Por seu caminho
+vai deixando a abundancia e a festa; depois
+do banquete da boa vinda as arvores vergam com
+os frutos, e a caça não cabe na floresta.</p>
+
+<p>«A cabana que fecha a porta ao hospede, o vento
+a arranca, o fogo do céu a abraza. O guerreiro que
+não se alegra com a chegada do hospede, vê murchar
+ao redor de si a espoza, os filhos, as mulheres
+e as roças que elle plantou.</p>
+
+<p>«Bem vindo seja o estranjeiro na cabana de Itaquê,
+o grande chefe da nação tocantim, que teve a
+gloria de ser escolhido pelo hospede.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41">[41]</a></span></p>
+
+<p>«Os guerreiros exultam com a honra de seu
+chefe, e os cantores te saudam, mensajeiro de
+Tupan.»</p>
+
+<p>Emquanto na cabana resôa o canto da boa vinda,
+Jacamim, a espoza de Itaquê, chamou as amantes
+do marido, suas servas, para ajudal-a a preparar o
+banquete da hospitalidade.</p>
+
+<p>As servas pressurosas estenderam á sombra da
+gameleira as alvas esteiras de palmas entrançadas
+de airis e colocaram sobre ellas os urús cheios de
+farinha d'agua.</p>
+
+<p>Trouxeram tambem os camocins razos, onde se
+apinhavam as moquecas envoltas em folha de banana,
+e peças de carne, assada no biaribí, que ainda
+fumegava nos pratos feitos de concha de tartaruga.</p>
+
+<p>Depois suspenderam a caça mais volumoza,
+veados e antas, assim como as igaçabas de cauim,
+nos ramos inclinados da arvore, em altura que o
+braço do guerreiro podesse alcançar.</p>
+
+<p>Frutas de varias especies, pencas douradas de
+banana, cachos rôxos de assaí, os rubros croás, e
+os fragrantes abacaxis, enchiam o giráu levantado
+no meio do terreiro.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Jacamim conduzira o hospede á sombra da gameleira,
+onde o esperava o banquete da chegada.</p>
+
+<p>Ao lado de Ubirajara sentou-se Itaquê e depois
+os moacaras que tinham vindo para a festa da hospitalidade.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42">[42]</a></span></p>
+
+<p>Os guerreiros comeram em silencio. As mulheres
+dilijentes os serviam, enchendo de vinho
+de cajú e ananaz as largas combucas, tintas com
+a pasta do crajurú que dá o mais brilhante carmim.</p>
+
+<p>Quando o hospede, depois de satisfeito o apetite,
+lavou o rosto e as mãos, Jacamim ordenou ás
+servas que recolhessem os restos das provizões, e
+retirou-se com ellas.</p>
+
+<p>Tambem se afastaram os jovens guerreiros que
+ainda não tinham voz no conselho. Só ficaram sentados
+com o hospede, Itaquê, e os moacaras senhores
+das cabanas.</p>
+
+<p>O cachimbo do grande chefe passou de mão em
+mão e cada ancião bebeu a fumaça da herva de
+Tupan, que inspira a prudencia no carbeto.</p>
+
+<p>Então disse o chefe:</p>
+
+<p>&mdash;Itaquê dezeja dar a seu hospede um nome que
+lhe agrade, e preciza que o ajude a sabedoria dos
+anciãos.</p>
+
+<p>A lei da hospitalidade não consentia que se perguntasse
+o nome ao estranjeiro que chegava, nem
+que se indagasse de sua nação.</p>
+
+<p>Talvez fosse um inimigo, e o hospede não devia
+encontrar, na cabana onde se acolhia, senão a paz
+e a amizade.</p>
+
+<p>O chefe, que tinha a fortuna de receber o
+viajante, escolhia o nome de que elle devia
+uzar emquanto permanecia na cabana hospedeira.</p>
+
+<p>Foi Ipê quem primeiro falou:</p>
+
+<p>&mdash;Tu chamarás ao hospede Jutaí, porque sua
+cabeça domina o cocar dos mais fortes guerreiros,
+como a copa do grande pinheiro aparece por cima
+da mata.</p>
+
+<p>Disse Tapir:</p>
+
+<p>&mdash;Chama ao hospede Boitatá, porque elle tem os<span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43">[43]</a></span>
+olhos da grande serpente de fogo, que vôa como o
+raio de Tupan.</p>
+
+<p>Os moacaras, cada um por sua vez, falaram; e
+como a voz começava do mais moço para acabar
+no mais velho, as ultimas falas eram menos guerreiras
+e traziam a prudencia da idade.</p>
+
+<p>Assim Caraúba, que era o segundo antes do
+chefe, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Itaquê, o hospede é o nuncio da paz. Tu deves
+chamal-o Jutorib, porque elle trouxe a alegria
+á tua cabana.</p>
+
+<p>Guaribú, cujos anos enchiam a corda de sua
+existencia de mais nós, do que tem o velho cipó
+da floresta, falou por ultimo:</p>
+
+<p>&mdash;O viajante é senhor na terra que elle piza
+como hospede e amigo; e o nome é a honra do
+varão ilustre, porque narra sua sabedoria. Pergunta
+ao estranjeiro como elle quer ser chamado
+na taba dos tocantins.</p>
+
+<p>&mdash;Bem dito!</p>
+
+<p>Itaquê, aprovando as palavras prudentes do ancião,
+perguntou a Ubirajara que nome escolhia;
+este lhe respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Eu sou aquelle que veiu trazido pela luz do
+céu. Chama-me Jurandir.</p>
+
+<p>Nesse momento, Arací, a estrela do dia, apareceu
+por entre as palmeiras, e caminhou para a cabana.</p>
+
+<p>Os mais valentes entre os jovens guerreiros tocantins
+acompanhavam a formoza caçadora. Eram
+os servos do amor, que disputavam a beleza da
+virjem.</p>
+
+<p>Os cantores saudaram de novo o hospede pelo
+nome que elle escolhera:</p>
+
+<p>&mdash;Tu és aquelle que veiu trazido pela luz do
+céu. Nós te chamaremos Jurandir; para que te alegres
+ouvindo o nome de tua escolha.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44">[44]</a></span></p>
+
+<p>«Tu és aquelle que veiu trazido pela luz do céu.
+Nós te chamaremos Jurandir; e o nome de tua escolha
+alegrará o ouvido dos guerreiros.»</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>De longe Arací viu o estrangeiro, sentado entre
+os anciãos, como o frondoso jacarandá no meio
+dos velhos troncos das aroeiras.</p>
+
+<p>A virgem reconheceu logo o caçador araguaia e
+adivinhou que ele viera á cabana de Itaquê para
+disputar sua beleza aos guerreiros tocantins.</p>
+
+<p>O coração de Arací encheu-se de alegria. Seus
+negros cabelos estremeceram de contentamento,
+como as penas da jaçanan quando presente o formoso
+inverno.</p>
+
+<p>O estrangeiro não queria ser conhecido; pois deixára
+o cocar das plumas da arara, que era o ornato
+guerreiro da sua nação. Mas a imagem do jovem
+caçador ficára na lembrança da virgem, como fica
+na terra a verde folhajem, depois da lua das aguas.</p>
+
+<p>A lei da hospitalidade proíbia á virgem revelar o
+segredo do estranjeiro, só della sabido. Nesse momento
+foi á sua alma que obedeceu e não ao costume
+da nação.</p>
+
+<p>Quando Arací chegou ao terreiro, os anciãos se
+preparavam para ouvir a maranduba do hospede.
+Os guerreiros e as mulheres escutavam em silencio.</p>
+
+<p>O estrangeiro começou:</p>
+
+<p>&mdash;Jurandir é moço; ainda conta os anos pelos
+dedos e não viveu bastante para saber o que os<span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45">[45]</a></span>
+anciãos da grande nação tocantim aprenderam nas
+guerras e nas florestas.</p>
+
+<p>«O moço é o tapir que rompe a mata, e vôa como
+a seta. O velho é o jabotí prudente que não se
+apressa.</p>
+
+<p>«O tapir erra o caminho e não vê por onde passa.
+O jabotí observa tudo, e sempre chega primeiro.</p>
+
+<p>«Jurandir é moço; mas conhece as grandes florestas,
+e atravessou mais rios do que as veias por
+onde corre o sangue valente de seu pai.</p>
+
+<p>«A primeira agua em que Jaçanan, sua mãi, o
+lavou, quando elle lhe rasgou o seio, foi a do grande
+lago onde Tupan guardou as aguas do diluvio, depois
+que as retirou da terra.</p>
+
+<p>«Ainda Jurandir não era um caçador, quando elle
+se banhou no pará sem fim, onde os rios despejam
+a sua corrente e cujas aguas quando dormem se
+mudam em sal.</p>
+
+<p>«Duas vezes Jurandir seguiu o pai dos rios desde
+a grande montanha onde nace, até á varzea sem
+fim que elle enche com suas aguas.</p>
+
+<p>«Elle viu o grande rio combater com o mar, no
+tempo da pororoca. Os dois chefes tocam as inubias
+antes da peleja, para chamar seus guerreiros.</p>
+
+<p>«Vem de um lado as aguas do mar, são os guerreiros
+azues, com penachos de araruna; vem do
+outro as aguas do rio, são os guerreiros vermelhos
+com penachos de nambú.</p>
+
+<p>«Começa a batalha. Os guerreiros se enrolam,
+como a corrente da cachoeira, batendo no rochedo;
+a terra estremece com o trovão das aguas.</p>
+
+<p>«Mas o grande rio agarra o mar pela cintura.
+Arranca do chão o inimigo; carrega-o nos hombros;
+solta o grito de triunfo.</p>
+
+<p>«Por muito tempo os Tetivas, que habitam sobre
+as arvores, vêem passar correndo as aguas do mar;<span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46">[46]</a></span>
+são os guerreiros azues que fojem espavoridos e
+vão esconder-se na sombra das florestas.</p>
+
+<p>«Jurandir tambem viu a terra onde habitam as
+mulheres guerreiras, senhoras de seu corpo, que
+vivem em baixo das aguas do grande rio.</p>
+
+<p>«Só ellas sabem o segredo das pedras verdes,
+que tornam os guerreiros cativos de seu amor, sem
+prival-as da liberdade.</p>
+
+<p>«Por isso todas as luas, grande numero de guerreiros
+as vizitam em sua taba; e ellas guardam para
+os mais valentes a flôr de sua beleza.</p>
+
+<p>«Quando chega o tempo de vir o fruto do amor,
+guardam sómente as filhas; e enviam aos guerreiros
+os filhos, de onde saem os maiores chefes.</p>
+
+<p>«Feliz o guerreiro que acha uma terra valente
+e fecunda para a flôr de seu sangue. O filho será
+maior do que elle; e o neto maior do que o filho.</p>
+
+<p>«Sua geração vai assim crecendo de tronco em
+tronco; e fórma uma floresta de guerreiros, onde
+o ultimo cedro se ergue mais frondozo e robusto,
+porque recebe a seiva de seus avós.»</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Quando Jurandir proferiu as ultimas palavras,
+seus olhos que tinham muitas vezes buscado Arací,
+repouzaram nella.</p>
+
+<p>A virjem tocantim compreendeu que o estranjeiro
+se referia a si; e não escondeu sua alegria,
+como não esconde sua flôr a juquerí que o rio
+beija.</p>
+
+<p>A formoza caçadora cantou. Sua voz era limpida<span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47">[47]</a></span>
+e sonora como o gorjeio do sabiá, quando se deleita
+com o calor do sol.</p>
+
+<p>&mdash;Feliz a terra que recebe a semente do cedro
+frondozo e robusto; ella se cobrirá de sombra e
+frescura. Os guerreiros gostarão de reunir-se aí
+para falar da paz e da guerra.</p>
+
+<p>«Ella é como a virjem que um chefe ilustre escolheu
+para sua espoza, e que se povôa de uma prole
+numeroza. As nações a respeitam porque é a mãi
+de valentes guerreiros; os anciãos escutam seu conselho
+na paz e na guerra.</p>
+
+<p>«As mulheres guerreiras, senhoras de seu corpo,
+são como a palmeira do murití, que rejeita o fruto
+antes que elle amadureça e o abandona á correnteza
+do rio.</p>
+
+<p>«A espoza não desprende de si o filho, senão
+quando elle não chupa mais seu peito. Ella é como
+a mangabeira; nutre o fruto com seu leite, que é
+a flôr de seu sangue.</p>
+
+<p>«Não é na terra das mulheres guerreiras que o
+estranjeiro deve buscar a espoza; mas na taba de
+sua nação, onde Tupan guarda para seu valor a
+mais bela das virjens, aquella que tem o sorrizo
+de mel.»</p>
+
+<p>O hospede respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Jurandir sabe onde encontrará a virjem que
+dezeja para espoza. A luz do céu o guia, e nada
+reziste á força de seu braço.</p>
+
+<p>Depois de responder ao canto de Arací, o estranjeiro
+continuou sua maranduba, que todos ouviram
+silenciozos.</p>
+
+<p>Elle contou o que havia aprendido nas praias
+do mar habitadas pela valente nação dos Tupinambás,
+decendentes da mais antiga geração de
+Tupi.</p>
+
+<p>Os pajés dos Tupinambás lhe disseram que
+nas aguas do pará sem fim vivia uma nação de<span class="pagenum"><a name="Page_48" id="Page_48">[48]</a></span>
+guerreiros ferozes, filhos da grande serpente do
+mar.</p>
+
+<p>Um dia esses guerreiros saíriam das aguas para
+tomar a terra ás nações que a habitam; por isso os
+Tupinambás tinham decido ás praias do mar, para
+defendel-as contra o inimigo.</p>
+
+<p>Os guerreiros do mar tambem tinham suas guerras
+entre si, como os guerreiros da terra. Então as
+aguas pulavam mais altas do que os montes; seu
+estrondo era como o trovão.</p>
+
+<p>Jurandir contou mais que nas praias do mar se
+encontrava uma rezina amarela, muito cheiroza, a
+qual a grande serpente creava no bucho.</p>
+
+<p>Os Tupinambás faziam dessa goma contas para
+seus colares; Jurandir mostrou a pulseira que lhe
+cinjia o artelho, prezente de um guerreiro daquella
+nação.</p>
+
+<p>Essas contas tornavam o pé do guerreiro ajil na
+corrida, e protejiam o viajante contra os caiporas
+da floresta, que se apartavam de seu caminho.</p>
+
+<p>Muitas outras coizas referiu Jurandir; e os anciãos
+admiravam-se de ver o juizo prudente de um
+abaré no corpo joven de tão forte guerreiro.</p>
+
+<p>Os mais velhos dos moacaras acreditaram que o
+hospede era o filho de Sumê, mandado por seu pai
+correr as terras que o sabio tinha visto em sua mocidade.</p>
+
+<p>Calaram, porém, seu pensamento, para o comunicarem
+aos anciãos quando se reunisse o carbeto
+da nação.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_49" id="Page_49">[49]</a></span></p>
+
+<p>O sol já decia para as montanhas quando terminou
+a festa da hospitalidade na cabana de Itaquê.</p>
+
+<p>Os moacaras partiram. Itaquê voltando á sua
+ocupação, deixou o hospede senhor de sua vontade
+para fazer o que lhe agradasse.</p>
+
+<p>Vieram os jovens pescadores da taba com os
+anzóes e gequis saber do hospede que peixe elle
+preferia.</p>
+
+<p>Depois delles chegaram os jovens caçadores que
+antes de partir para a floresta vinham receber os
+dezejos do hospede.</p>
+
+<p>Por fim aproximaram-se as mulheres que já tinham
+rompido o fio da virjindade, mas não eram
+nem espozas, nem amantes de guerreiros.</p>
+
+<p>Essas eram as mulheres livres, que davam seu
+amor e o retiravam quando queriam, mas não recebiam
+a proteção de um guerreiro nem podiam jámais
+ser mãis da prole.</p>
+
+<p>Os filhos concebidos no proprio seio só tinham
+por mãi a espoza, que o guerreiro tomou por companheira
+de sua existencia e raiz de sua geração.</p>
+
+<p>O rito da hospitalidade entre os filhos da floresta
+manda que se dê ao estranjeiro amigo tudo que
+deleita ao guerreiro.</p>
+
+<p>Por isso vinham as moças oferecer a Jurandir
+sua beleza, para que elle escolhesse entre ellas
+uma companheira, que partilhasse sua rêde na
+cabana hospedeira.</p>
+
+<p>Todas se tinham enfeitado com seus mais belos
+ornatos, para agradar aos olhos de Jurandir; pois
+não havia para ellas maior gloria do que a de merecer
+o amor do estranjeiro.</p>
+
+<p>Umas traziam as tranças urdidas com penas vistozas
+dos passaros de sua predileção; outras haviam
+perfumado da essencia do sassafraz os cabelos
+soltos, que derramavam sua fragancia ao sopro da
+briza.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_50" id="Page_50">[50]</a></span></p>
+
+<p>Chegando diante do estranjeiro, começaram uma
+dansa amoroza para mostrar a graça de seu corpo.
+Aquellas que tinham a voz doce cantavam em louvor
+de Jurandir.</p>
+
+<p>Arací fôra buscar seu balaio de palha vermelha,
+e sentára-se no terreiro, junto á porta da cabana.
+Seus dedos ajeis enfiavam as sementes de jequerití,
+de que fazia um ramal para seu colo gentil.</p>
+
+<p>Emquanto compunha o colar, a virjem percebia
+que os olhos de Jurandir abandonavam os encantos
+das mulheres, e buscavam seu rosto.</p>
+
+<p>Mas ella voltava-se para a floresta; com o trinado
+de seus labios chamava o crajuá, que voava
+no olho da palmeira. O passarinho iludido vinha,
+cuidando ouvir o canto da companheira.</p>
+
+<p>Jurandir apartou as mulheres e disse:</p>
+
+<p>&mdash;As moças tocantins são formozas, qualquer
+dellas alegraria o sono do estranjeiro. Mas Jurandir
+não veiu á cabana de Itaquê para gozar do amor
+de uma noite; elle veiu buscar a espoza que ha de
+acompanhal-o até á morte, e a virjem que escolheu
+para mãi de seus filhos.</p>
+
+<p>Quando Arací ouviu estas palavras cobriu-se de
+sorrizos, como o guajerú se cobre de suas flôres
+alvas e perfumadas com os orvalhos da manhã.</p>
+
+<p>Jurandir voltou-se então para a virjem caçadora:</p>
+
+<p>&mdash;Estrela do dia, Arací, conduze-me á prezença
+de Itaquê. É tempo que elle saiba o segredo do
+estranjeiro.</p>
+
+<p>&mdash;Os sonhos disseram a Arací duas noites seguidas,
+que o joven caçador chegaria á cabana de
+Itaquê; ella te esperou. Quando meus olhos te
+viram sentado entre os moacaras, logo conheceram
+que tu vinhas buscar a espoza.</p>
+
+<p>O estranjeiro respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Jurandir chegou á taba dos seus, e recebeu
+um nome de guerra e o grande arco de sua nação.<span class="pagenum"><a name="Page_51" id="Page_51">[51]</a></span>
+Mas a cabana do chefe estava dezerta; e sua rêde
+não lhe guardou o sono tranquilo do guerreiro. Elle
+ouviu tua voz que o chamava, virjem tocantim, e
+ergueu-se; tua luz o guiou, filha do sol, e o trouxe
+á tua prezença.</p>
+
+
+
+
+<hr class="chap" />
+<h2><a name="V" id="V"></a>V<br />
+<br />
+SERVO DO AMOR</h2>
+
+
+<p>Jurandir, conduzido pela virjem, caminhou ao
+encontro de Itaquê e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Grande chefe dos tocantins, Jurandir não veiu á
+tua cabana para receber a hospitalidade; veiu para
+servir ao pai de Arací, á formoza virjem, a quem
+escolheu para espoza. Permite que elle a mereça
+por sua constancia no trabalho, e que a dispute
+aos outros guerreiros pela força de seu braço.</p>
+
+<p>Itaquê respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Arací é a filha de minha velhice. A velhice é
+a idade da prudencia e da sabedoria. O guerreiro
+que conquistar uma espoza como Arací terá a gloria
+de gerar seu valor no seio da virtude. Itaquê
+não póde dezejar para seu hospede maior alegria.</p>
+
+<p>Desde esse momento, Jurandir não foi mais
+estranjeiro na taba dos tocantins. Pertencia á oca
+de Itaquê, e devia, como servo do amor, trabalhar
+para o pai de sua noiva.</p>
+
+<p>Os guerreiros, cativos da beleza de Arací, conheceram
+que tinham de combater um adversario for<span class="pagenum"><a name="Page_52" id="Page_52">[52]</a></span>midavel;
+mas seu amor creceu com o receio de
+perder a filha de Itaquê.</p>
+
+<p>Jurandir tomou suas armas e deceu ao rio. Era a
+hora em que o jacaré boia em cima das aguas
+como o tronco morto, e a jaçanan se balança no
+seio do nenufar.</p>
+
+<p>O manatí erguia a tromba para pastar a relva na
+marjem do rio. Ouvindo o rumor das folhas, mergulhou
+na corrente; mas já levava o arpéu do pescador
+cravado no lombo.</p>
+
+<p>Jurandir não esperou que o peixe ferido dezenrolasse
+toda a linha. Puxou-o para terra; e levou-o
+ainda vivo á cabana de Itaquê, onde tres guerreiros
+custaram a deital-o no giráu.</p>
+
+<p>As mulheres cortaram as postas de carne, e os
+guerreiros cavaram a terra para fazer as grelhas
+do biaribí.</p>
+
+<p>Jurandir partiu de novo, e entrou na floresta.
+Ao lonje reboavam os gritos dos caçadores, que
+perseguiam a féra.</p>
+
+<p>Pelo assobio o guerreiro conheceu que era um
+tapir. O animal zombára dos caçadores e vinha
+rompendo a mata como a torrente do Xingú.</p>
+
+<p>As arvores que seu peito encontrava caíam lascadas.</p>
+
+<p>Jurandir estendeu o braço. O velho tapir, agarrado
+pelo pé, ficou suspenso na carreira, como o passarinho
+prezo no laço. Nunca até aquelle momento
+encontrára força maior que a sua.</p>
+
+<p>Uma vez decera á lagôa para beber. A sucurí,
+que espreitava a caça, mordeu-o na tromba. Elle
+fujia, esticando a serpente; e a serpente encolhendo-se
+o arrastava até á beira d'agua.</p>
+
+<p>Assim tornou, uma, duas, tres vezes. Mas o
+tigre urrou de fome. O velho tapir disparou pela
+floresta; e a sucurí com a cauda preza á raiz da
+arvore arrebentou pelo meio.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_53" id="Page_53">[53]</a></span></p>
+
+<p>O velho tapir rompeu a serpente como se rompe
+uma corda de piassaba; mas não pôde abalar o
+braço de Jurandir, mais firme do que o tronco do
+guaribú.</p>
+
+<p>O estranjeiro tornou á cabana com a caça. Nenhum
+dos guerreiros da taba, nem mesmo o velho
+Itaquê, pôde aguentar com as duas mãos a féra
+bravia.</p>
+
+<p>Então Jurandir obrigou o animal a agachar-se
+aos pés de Arací e disse:</p>
+
+<p>&mdash;O braço de Jurandir fará cair assim a teus pés
+o guerreiro que ouze disputar ao seu amor a tua
+formozura, estrela do dia.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Nunca a abundancia reinára na cabana sempre
+farta do chefe dos tocantins, como depois que a
+ella chegára o estranjeiro.</p>
+
+<p>Jurandir era o maior caçador das florestas, e o
+primeiro pescador dos rios. Seu olhar seguro penetrava
+na espessura das brenhas, como na profundeza
+das aguas.</p>
+
+<p>Nada escapava á destreza de sua mão. Onde ella
+não chegava, iam as unhas de suas flechas certeiras,
+que rasgavam o seio da vitima, como as garras
+do jaguar.</p>
+
+<p>O estranjeiro soubera de Arací qual era a caça
+que Itaquê preferia, e qual o peixe que elle achava
+mais saborozo. Desde então nunca o velho chefe
+sentiu a falta do manjar predileto.</p>
+
+<p>Se não era a lua propria do peixe dezejado,<span class="pagenum"><a name="Page_54" id="Page_54">[54]</a></span>
+Jurandir sabia onde o podia encontrar. Não tornava
+á cabana sem a provizão necessaria para a refeição
+do dia.</p>
+
+<p>Depois da caça e da pesca, Jurandir trabalhava
+nas roças de Itaquê. Fazia no taboleiro os
+matumbos, para que Jacamim enterrasse as estacas
+da maniva e semeasse o feijão, o milho e o fumo.</p>
+
+<p>Entre os filhos das florestas a plantação devia
+ser feita pela mão da mulher, que era mãi de
+muitos filhos; porque ella transmitia á terra sua
+fecundidade.</p>
+
+<p>A semente que a mão da virjem depozitava no
+seio da terra dava flôr; mas da flôr não saía fruto.
+E se era um guerreiro que plantava, o aipim
+endurecia como o páu de arco.</p>
+
+<p>Nas vazantes do rio, Jurandir capinava a terra
+coberta de relva e outras plantas, e só deixava
+crecer o arroz, o inhame e as bananeiras.</p>
+
+<p>Quando o estranjeiro partia pela manhã, Arací
+o acompanhava de lonje pela floresta.</p>
+
+<p>Sua vontade a levava após elle.</p>
+
+<p>O costume da taba não consentia que a virjem
+dezejada pelos servos de seu amor, preferisse um
+guerreiro antes de saber se elle a obteria por
+espoza.</p>
+
+<p>A filha de Itaquê não queria pertencer a outro
+guerreiro; mas lembrava-se que a virjem deve
+merecer o espozo por sua paciencia, assim como o
+guerreiro merece a espoza por sua constancia e
+fortaleza.</p>
+
+<p>Então voltava ao terreiro: emquanto os outros
+guerreiros espreitavam sua vontade, ella tecia as
+franjas para a rêde do cazamento.</p>
+
+<p>Sua mão sutil urdia com o alvo fio do crauatá a
+fina penujem escarlate. Os noivos cuidavam que era
+a do peito do tucano; mas ella sabia que era do peito
+da arára e que tinha as côres de seu guerreiro.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_55" id="Page_55">[55]</a></span></p>
+
+<p>Quando o sol chegava ao cimo dos montes, ouvia-se
+o canto de Jurandir que voltava da caça. A
+virjem seguida pelos guerreiros ia ao encontro do
+estranjeiro.</p>
+
+<p>Então deciam ao rio. Era a hora do banho. Arací
+cortava as ondas mais linda que a garça côr de roza;
+e os guerreiros a seguiam de perto, como um bando
+de galeirões.</p>
+
+<p>Mas nenhum, nem mesmo Jurandir, que nadava
+como um bôto, podia alcançar a formoza virjem.
+Ella parecia a flôr do mururê que se desprendeu
+da haste, e passa levada pela corrente.</p>
+
+<p>Uma vez a filha das aguas soltou um grito, e
+dezapareceu no seio das ondas. Jacamim cuidou
+que o jacaré tinha arrebatado a filha de seu seio.
+Os guerreiros mergulharam para salval-a; mas não
+a encontraram.</p>
+
+<p>Todos a julgavam perdida, quando apareceu Jurandir
+que trazia nos braços o corpo da virjem formoza.
+Pizando em terra, ella correu para a cabana,
+onde foi esconder sua alegria.</p>
+
+<p>Desde então era no banho que Arací recebia o
+abraço de Jurandir, sem que os outros guerreiros
+suspeitassem da preferencia dada ao estranjeiro.</p>
+
+<p>No seio das ondas ninguem a adivinhava, a não
+ser o ouvido sutil de Jurandir, a quem ella chamava
+com o doce murmurio do irerê.</p>
+
+<p>Encontravam-se no fundo do rio emquanto durava
+a respiração. Depois desprendiam-se do
+abraço e surjiam lonje um do outro.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="Page_56" id="Page_56">[56]</a></span></p><hr class="tb" />
+
+<p>Á tarde, voltando da caça, Jurandir viu na floresta
+um rasto, que elle conhecia.</p>
+
+<p>Chegado á cabana, entregou a Jacamim o veado
+que matára, e saiu para vizitar os arredores. Nada
+encontrou de suspeito; o rasto, que o inquietava,
+não chegára até ali.</p>
+
+<p>No outro dia, ao romper da alvorada, logo depois
+do banho os guerreiros partiram para a caça e para
+a pesca. Só ficaram na cabana Jacamim e as mulheres
+de Itaquê.</p>
+
+<p>Arací tomou o arco e entrou na floresta. A imajem
+do guerreiro amado fujia naquelle instante de
+seus olhos; elles buscaram entre as folhas o sinal
+de seus passos e não o descobriram.</p>
+
+<p>Lembrou-se a virjem, que Jurandir gostava da
+polpa do guaranan adoçada com o mel da abelha,
+e colheu os frutos encarnados que pendiam dos
+ramos da trepadeira.</p>
+
+<p>Nesse momento a arára cantou no olho do pirijá.
+Arací precizava de suas plumas vermelhas para o
+cocar que ella tecia em segredo.</p>
+
+<p>Era o cocar do amor, com que dezejava ornar a
+cabeça de seu guerreiro senhor, no dia em que
+elle a conquistasse por espoza.</p>
+
+<p>A virjem armou o arco e seguiu a arára rompendo
+a folhajem. Quando ia disparar a seta, ouviu
+ao lado um rumor dezuzado.</p>
+
+<p>Jurandir estava perto della, e segurava o braço
+de uma mulher, que ainda tinha na mão a macana
+afiada.</p>
+
+<p>Arací conheceu a virjem araguaia, pela faxa de
+algodão entretecida de penas que lhe apertava a
+curva da perna; e adivinhou que era Jandira, a
+noiva do guerreiro.</p>
+
+<p>&mdash;Filha de Majé, tua mão quiz matar a virjem
+que Jurandir escolheu para espoza. Tu vais
+morrer.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_57" id="Page_57">[57]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Desde que Ubirajara abandonou Jandira, ella
+começou a morrer, como a baunilha que o vento
+arranca da arvore. Acaba de matal-a, para que sua
+alma te acompanhe de dia na sombra das florestas
+e te fale de noite na voz dos sonhos.</p>
+
+<p>&mdash;A virjem araguaia ameaçou a vida de Arací;
+ella lhe pertence, disse a filha de Itaquê.</p>
+
+<p>Jurandir cortou na floresta uma comprida rama
+de imbê, e atou as mãos de Jandira.</p>
+
+<p>&mdash;Jandira é tua escrava. Não lhe dês a liberdade.
+Ella tem a astucia da serpente e seu veneno.</p>
+
+<p>&mdash;Eu era a cobra d'agua, amiga do guerreiro,
+que habita sua cabana e a guarda contra o inimigo.
+Quem foi que me fez a cascavel venenoza, que
+traz nos labios o sorrizo da morte?</p>
+
+<p>Jurandir não respondeu. Nesse momento elle
+teve saudade de sua cabana; e lembrou-se do
+tempo em que, joven caçador, seguia na floresta a
+formoza virjem araguaia.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>As duas virjens ficaram sós no claro da floresta.</p>
+
+<p>Já o rumor dos passos de Jurandir se apagára ao
+lonje, e ainda tinham ambas os olhos cativos uma
+da outra.</p>
+
+<p>Jandira pensou que ella não podia dar a Ubirajara
+a formozura da filha de Itaquê. Arací receiou
+que o amor do guerreiro se voltasse outra vez para
+a linda virjem araguaia.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_58" id="Page_58">[58]</a></span></p>
+
+<p>A filha de Majé preparou-se para morrer á mão
+de sua rival, mas ella preferia a morte ao suplicio
+de contemplar sua beleza.</p>
+
+<p>Arací, a estrela do dia, cantou:</p>
+
+<p>&mdash;O amor do guerreiro é a alegria da virjem;
+quando elle foje, a virjem fica triste como a varzea
+que perdeu sua relva.</p>
+
+<p>«Por isso Jandira está triste; o amor do guerreiro
+fujiu della; e a deixou solitaria como a nambú,
+a quem o companheiro abandonou.</p>
+
+<p>«Mas o amor do guerreiro é como o orvalho da
+noite. Quando o sol queima a varzea, elle dece do
+céu para cobril-a de verdura e de flôres.</p>
+
+<p>«Arací está alegre, porque o amor do guerreiro
+voltou-se para ella; e Jurandir vai fazel-a companheira
+de sua gloria e mãi de seus filhos.</p>
+
+<p>«Quando a espoza de Jurandir não tiver mais
+beleza para dar a seu guerreiro, ella consentirá que
+Jandira durma em sua rêde.</p>
+
+<p>«E o orvalho da noite decerá do céu para cobrir
+a varzea de verdura e de flôres. E Jandira achará
+outra vez seu sorrizo de mel.»</p>
+
+<p>Assim cantou Arací, a estrela do dia; e a virjem
+araguaia respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;A arvore que morreu não sofre quando o fogo
+a queima. Jandira prefere a morte á vergonha de
+ser tua serva, e á tristeza de ver a cada instante a
+formozura da estranjeira que roubou seu amor.</p>
+
+<p>«Arací, a estrela do dia, é mais bela do que Jandira,
+mas não sabe amar o guerreiro que a escolheu
+para mãi de seus filhos.</p>
+
+<p>«Nunca Jandira ofereceria sua rêde de espoza a
+outra mulher; e aquella que recebesse o amor de
+seu guerreiro, morreria por sua mão.</p>
+
+<p>«Ella amaria seu espozo tanto que sua graça
+nunca se retirasse della; pois saberia morrer
+quando não tivesse mais beleza para dar-lhe.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_59" id="Page_59">[59]</a></span></p>
+
+<p>«A nação araguaia nunca levanta a taba do vale
+onde acampou, senão quando a terra já não póde
+dar-lhe mais frutos.</p>
+
+<p>«Assim é o guerreiro. Elle não retira seu amor
+da espoza que habita, senão quando ella já não
+sabe alegrar sua alma.»</p>
+
+<p>Tornou a virjem tocantim:</p>
+
+<p>&mdash;A cajazeira, depois que dá seu fruto, perde a
+folha; o guerreiro busca a sombra de outra arvore
+para repouzar.</p>
+
+<p>«Mas vem a lua das aguas e a cajazeira outra
+vez se cobre de folhas; sua sombra é doce ao guerreiro.</p>
+
+<p>«A espoza é como a cajazeira. Quando o guerreiro
+não acha alegria em seus braços, ella sofre
+que busque outra sombra, e espera que lhe volte
+a flôr para chamal-o de novo ao seio.</p>
+
+<p>«Arací ama seu guerreiro, como Jacamim ama
+Itaquê. A cabana do grande chefe dos tocantins
+está cheia de servas; mas seu amor nunca abandonou
+a espoza.</p>
+
+<p>«As servas deram a Itaquê muitos filhos; mas os
+filhos da velhice, foi só Jacamim quem os deu ao
+grande chefe; porque o primeiro amor do guerreiro
+não morre nunca.</p>
+
+<p>«Elle é como a grama que nunca mais deixa a
+terra onde naceu: podem arrancal-a que brota
+sempre.</p>
+
+<p>«Arací quer apagar a tristeza de tua alma;
+e beber o teu sorrizo de mel, para que o espozo
+ache mais doces seus labios, quando os
+provar.</p>
+
+<p>«Tu serás irmã de Arací, e lhe darás um filho de
+Jurandir, tão valente, como os que seu amor ha de
+gerar no seio da espoza.»</p>
+
+<p>Jandira afastou os olhos da virjem dos tocantins,
+para desviar della sua ira.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_60" id="Page_60">[60]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Tua palavra dóe como o espinho da jussara,
+que tem o côco mais doce que o mel.</p>
+
+<p>«As flechas de teu arco não matam mais do que
+os sorrizos que o amor do guerreiro derrama em
+teu rosto, estrela do dia.</p>
+
+<p>«Ubirajara deixou-me por ti; mas foi a Jandira
+que elle primeiro escolheu para espoza, quando
+ainda era joven caçador.</p>
+
+<p>«Nos campos alegres, onde vão os guerreiros
+quando morrem, elle me chamará; e o guanumbí
+virá buscar a minha alma no seio da flôr do manacá
+para leval-a a seu amor.</p>
+
+<p>«Mata-me, ou deixa que eu morra para não ver
+mais tua beleza, e não ouvir o canto de tua alegria.»</p>
+
+<p>Arací caminhou para Jandira e dezatou-lhe os
+pulsos.</p>
+
+<p>&mdash;O amor do guerreiro não pertence á mulher
+que seus olhos primeiro viram; mas áquella que
+elle escolheu. Apanha teu arco; e morra aquella
+que não souber defender seu amor, e merecer o
+espozo.</p>
+
+<p>Arací disse, e tirou da uiraçaba uma seta. Jandira
+ficou imovel, com os pulsos cruzados, como
+se ainda estivessem prezos:</p>
+
+<p>&mdash;A vontade de Ubirajara atou os braços de
+Jandira; ella rejeita a liberdade dada por ti. Arací
+póde ser preferida, porém não será mais generoza
+do que a filha de Majé.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_61" id="Page_61">[61]</a></span></p>
+
+
+
+
+<hr class="chap" />
+<h2><a name="VI" id="VI"></a>VI<br />
+<br />
+O COMBATE NUPCIAL</h2>
+
+
+<p>Chegou o dia em que os noivos de Arací deviam
+disputar a posse da formoza virjem.</p>
+
+<p>Era a hora em que o sol transpondo a crista da
+montanha estende pelo vale sua arassoia de ouro.</p>
+
+<p>A grande nação tocantim cerca a vasta campina.
+No centro estão os anciãos, que formam o grande
+carbeto.</p>
+
+<p>Em frente aparece Arací, a estrela do dia, que
+ha de ser o premio da constancia e fortaleza do
+mais destro guerreiro.</p>
+
+<p>Jacamim acompanha a filha; nesse momento remoça
+com a lembrança do dia em que Itaquê a
+conquistou, lutando com os mais feros mancebos
+tocantins.</p>
+
+<p>De um e outro lado seguem pela ordem da idade
+os moacaras. Cada um cerca-se da espoza, das
+servas e das filhas, que vieram para assistir ao
+combate.</p>
+
+<p>É a unica das festas guerreiras, em que o rito
+de Tupan consente a prezença das mulheres, porque
+se trata da sua gloria.</p>
+
+<p>Contemplando o esforço heroico dos mais nobres
+guerreiros para conquistar a formozura de uma virjem,
+as outras virjens aprendem a prezar a castidade,
+e as espozas se ufanam de guardar a fé ao
+primeiro amor.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_62" id="Page_62">[62]</a></span></p>
+
+<p>Itaquê, o grande chefe dos tocantins, prezide ao
+combate, orgulhozo pela valente nação que dirije,
+como pela formoza virjem de que é pai.</p>
+
+<p>Quando seus olhos admiram a multidão de guerreiros,
+servos do amor de Arací, que se preparam
+a disputar a espoza, o grande chefe ergue a fronte
+soberba como o velho ipê da floresta coroado de
+flôres.</p>
+
+<p>Os noivos distinguem-se dos outros guerreiros
+pelo bracelete de contas verdes, que o guerreiro
+cinje ao pulso da espoza, quando rompe a liga da
+virjindade.</p>
+
+<p>Lá caminha Pirajá, o grande pescador, senhor
+dos peixes do rio, a quem obedece o manatí e o
+golfinho.</p>
+
+<p>Junto delle ergue-se Uirassú, que tomou este
+nome do valente guerreiro dos ares, pelo ímpeto
+do assalto.</p>
+
+<p>Vem depois Arariboia, a grande serpente das lagôas;
+Cauatá, o corredor das florestas; Corí, o
+altivo pinheiro; e tantos outros, ainda mancebos, e
+já guerreiros de fama.</p>
+
+<p>Entre todos, porém, assoma Jurandir. Sua fronte
+passa por cima da cabeça dos outros guerreiros,
+como o sol quando se ergue entre as cristas da
+serrania.</p>
+
+<p>Os muzicos fizeram retroar os borés, anunciando
+o começo da festa; e os servos do
+amor se estenderam em linha pelo meio da campina.</p>
+
+<p>Então os nhengaçáras levantaram o canto nupcial.</p>
+
+<p>«A espoza é a alegria e a força do guerreiro.
+Ella acende em suas veias um fogo mais generozo
+que o do cauim, e prepara para seu corpo o repouzo
+da cabana.</p>
+
+<p>«Por isso o primeiro dezejo do mancebo,<span class="pagenum"><a name="Page_63" id="Page_63">[63]</a></span>
+quando ganha nome de guerra é conquistar uma
+espoza.</p>
+
+<p>«Não basta ser valente guerreiro para merecer a
+virjem formoza, filha de um grande chefe; é precizo
+a paciencia para sofrer, e a perseverança no
+trabalho.</p>
+
+<p>«Arací, a estrela do dia, filha de Itaquê, será a
+alegria e a gloria do mais forte e do mais valente.</p>
+
+<p>«Os filhos que ella gerar em seu seio, onde
+corre o sangue do grande chefe, serão os maiores
+guerreiros das nações.»</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Itaquê deu sinal; o combate começou.</p>
+
+<p>Pirajá foi o primeiro que saiu a campo, e clamou
+esgrimindo o tacape:</p>
+
+<p>&mdash;Arací, estrela do dia, tu serás espoza do guerreiro
+Pirajá, que te vai conquistar pela força de seu
+braço.</p>
+
+<p>Avançou Uirassú, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;A virjem formoza ama ao guerreiro Uirassú e
+ha de pertencer-lhe.</p>
+
+<p>A noiva cantou:</p>
+
+<p>«Arací ama o mais forte e mais valente. Ella
+pertencerá ao vencedor, que vencer a bravura dos
+outros guerreiros, como venceu a vontade da espoza.»</p>
+
+<p>A voz mavioza da virjem afagou a esperança de
+todos os campeões; mas seus olhos ternos só viam
+o nobre semblante de Jurandir, o escolhido de sua
+alma.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_64" id="Page_64">[64]</a></span></p>
+
+<p>Os dois guerreiros travaram a pugna; os tacapes
+girando nos ares encontravam-se como dois madeiros
+arrojados pelo remoinho da cachoeira.</p>
+
+<p>Afinal Pirajá, ameaçado pelo bote do adversario,
+recuou um passo do logar em que se postára. Pela
+lei do combate estava vencido, e teve de deixar o
+campo.</p>
+
+<p>Arariboia tomou seu logar; e o combate proseguiu
+com varia fortuna até Corí que, expelindo o
+vencedor, manteve-se firme contra todos que vieram
+disputal-o.</p>
+
+<p>Faltava Jurandir. O estranjeiro avançou gravemente,
+como convinha a um grande guerreiro da
+nação araguaia.</p>
+
+<p>Elle queria dar ao vencedor de tantos combates
+o tempo precizo para descansar.</p>
+
+<p>A mão do guerreiro arrastava pelo chão o tacape,
+que desdenhava erguer para um combate sem gloria.</p>
+
+<p>Quando Jurandir se achou em face do vencedor,
+levantou a voz e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Para merecer Arací, a estrela do dia, Jurandir
+queria vencer a cem guerreiros, e não combater um
+guerreiro fatigado.</p>
+
+<p>«Tu empunhas um tacape; toma outro habituado
+a vencer; elle restituirá a teu braço a força que
+perdeu. Basta a Jurandir esta mão, para te arrebatar
+todas as tuas vitorias.»</p>
+
+<p>Disse e arremessou a arma aos pés do adversario.</p>
+
+<p>Corí, pensando que seu rival o atacava, desfechou-lhe
+o golpe. Mas Jurandir aparou-o na mão
+firme e arrebatando o tacape que o ameaçava arrancou
+o guerreiro do chão.</p>
+
+<p>Assim o pinheiro que o tufão arrebata, antes de
+partir o tronco, desprende a raiz da terra, onde
+nada o abalava.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_65" id="Page_65">[65]</a></span></p>
+
+<p>Jurandir ficou só no campo. Mas todos os noivos
+se haviam mostrado valentes guerreiros; talvez nas
+outras provas saíssem vencedores.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Os muzicos tocaram os borés; e os jovens caçadores
+trouxeram para o meio do campo a figura da
+noiva.</p>
+
+<p>Era um grosso tóro de madeira, no qual a mão
+destra de um pajé entalhára com o dente da cotia
+a cabeça de uma mulher.</p>
+
+<p>Tres caçadores vergavam com o pezo da carga;
+e foram precizos dez para trazel-o desde a cabana
+do pajé até o campo, onde ficou semelhante á uma
+mulher sentada.</p>
+
+<p>Na vespera o pajé burnira de novo com a folha
+da sambaiba o tóro de madeira, e o esfregára com
+a banha do teú, para que elle escorregasse da mão
+do caçador.</p>
+
+<p>Depois os mancebos guerreiros espalharam pelo
+campo troncos de arvores cortadas com as ramas
+e as folhas, e fincaram cercas de estacas entre os
+barrancos da varzea que ia morrer á marjem do
+rio.</p>
+
+<p>Itaquê deu sinal, e os guerreiros começaram a
+nova prova, mais dificil que a primeira.</p>
+
+<p>Era precizo que o guerreiro á disparada levantasse
+do chão, sem parar, o tóro de madeira; e se
+defendesse dos rivais que o assaltavam para tomal-o.</p>
+
+<p>Esse jogo era o emblema da ajilidade e robustez<span class="pagenum"><a name="Page_66" id="Page_66">[66]</a></span>
+que o marido devia possuir para disputar a espoza
+e protejel-a contra os que ouzassem dezejal-a.</p>
+
+<p>Na primeira corrida foi Jurandir quem mais rapido
+chegou. Como o condor que rebatendo o vôo leva
+nas garras a tartaruga adormecida, assim o veloz
+guerreiro suspendeu a figura da espoza e com ella
+arremessou-se pela campina.</p>
+
+<p>Os outros o seguiam ardendo em ímpetos de
+roubar-lhe a preza. Na planicie aberta seria vão
+intento, porque nenhum corria como o estranjeiro.</p>
+
+<p>Mas Jurandir achava diante de si, para tolher-lhe
+o passo, as arvores derrubadas, os barrancos profundos
+e outros obstaculos de propozito acumulados.</p>
+
+<p>Não hezitou, porém, o destemido mancebo. Salvou
+as corcovas, galgou as caiçaras, e subiu pelos
+galhos que estrepavam o chão.</p>
+
+<p>Uma vez os guerreiros se aproximaram tanto,
+que Jurandir sentiu nos cabelos o sopro da respiração
+ofegante. Em frente erguia-se a alta estacada.</p>
+
+<p>Se tentasse subir carregado como estava, os
+guerreiros com certeza o alcançariam a tempo de
+arrancar-lhe a preza.</p>
+
+<p>Então arremessou pelos ares o tóro de madeira,
+como se fosse o tacape de um joven caçador; e
+seguiu após.</p>
+
+<p>Sempre vencedor dos assaltos dos rivais, Jurandir
+percorreu a vasta campina, e foi colocar
+a figura da espoza no meio do carbeto dos anciãos.</p>
+
+<p>Ali era o termo da correria. O guerreiro que chegava
+a esse ponto com a sua carga, saía triunfante
+da prova.</p>
+
+<p>Elle mostrava como arrebataria a espoza do meio<span class="pagenum"><a name="Page_67" id="Page_67">[67]</a></span>
+dos inimigos, e a defenderia contra seus ataques
+até recolhel-a em um azilo seguro.</p>
+
+<p>De todos os guerreiros só Corí e Uirassú conseguiram
+ganhar a prova; mas nenhum com a galhardia
+de Jurandir.</p>
+
+<p>Corí por vezes foi alcançado, e só á confuzão
+dos outros deveu escapar-se. Uirassú recuperou a
+preza já perdida, porque Pirajá, que a havia empolgado,
+falseou na corrida e tombou.</p>
+
+<p>Os tres vencedores entraram de novo em campo
+para decidir entre si. O triunfo não se demorou.
+Jurandir o arrebatou, como o gavião arrebata a
+preza que disputam duas serpes.</p>
+
+<p>Soaram os borés; e ao som do canto de triunfo
+entoado pelos nhengaçáras, os chefes e os guerreiros
+saudaram o vencedor dos vencedores.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Quando voltou o silencio, Ogib, o grande pajé
+dos tocantins, estava em pé no meio do campo.</p>
+
+<p>Junto delle uma das velhas mãis dos guerreiros
+segurava o camucim da constancia, que tinha o bojo
+pintado de vermelho.</p>
+
+<p>O pajé disse:</p>
+
+<p>&mdash;Não basta que o guerreiro seja forte e valente,
+para merecer a espoza.</p>
+
+<p>«É precizo que tenha a constancia do varão, e
+não se perturbe com o sofrimento.</p>
+
+<p>«É precizo que elle tenha a paciencia do tatú, e
+suporte sereno as mortificações das mulheres e as
+importunações das crianças.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_68" id="Page_68">[68]</a></span></p>
+
+<p>«O guerreiro que não tem constancia e paciencia,
+depressa gasta suas forças.</p>
+
+<p>«O rio que se derrama pela varzea, nunca verá
+suas marjens cobertas de grandes florestas.</p>
+
+<p>«Assim é o guerreiro que não sabe sofrer, e derrama
+sua alma em lamentações.</p>
+
+<p>«Nunca elle será pai de uma geração forte e glorioza,
+nem verá sua cabana povoar-se dos guerreiros
+de seu sangue.</p>
+
+<p>«Se queres merecer a filha de Itaquê, mostra,
+Jurandir, que és varão ainda maior do que o famozo
+guerreiro que todos admiram.»</p>
+
+<p>O grande pajé levantou o tampo do camucim, e
+descobriu uma abertura, bastante para caber o punho
+do mais robusto guerreiro.</p>
+
+<p>Jurandir meteu a mão no vazo. O semblante
+sempre grave do guerreiro cobriu-se de um sorrizo
+doce como a luz da alvorada; e seus olhos,
+mais contentes que dois saís, pouzaram no rosto
+de Arací.</p>
+
+<p>O camucim da constancia continha um formigueiro
+de saúvas, que o pajé havia fechado ali na
+ultima lua.</p>
+
+<p>Açuladas pela fome de tantos dias, as formigas
+vorazes se prepararam para dilacerar a primeira
+vitima que lhes caísse nas garras.</p>
+
+<p>A dentada da saúva, que anda solta no campo,
+dóe como uma braza; quando são muitas e com
+fome, queimam como a fogueira.</p>
+
+<p>Todas as vistas se fitaram no semblante do guerreiro,
+para espreitar-lhe o minimo gesto de sofrimento.</p>
+
+<p>Mas Jurandir sorria; e seus labios ternos soltaram
+o canto do amor. De propozito o guerreiro
+adoçou a voz, para não parecer que disfarçava o
+gemido com o rumor do grito guerreiro.</p>
+
+<p>Assim cantou elle:</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_69" id="Page_69">[69]</a></span></p>
+
+<p>«A dôr é que fortalece o varão, assim como o
+fogo é que enrija o tronco da crauba, da qual o
+guerreiro fabríca o arco e o tacape.</p>
+
+<p>«A jussara tem setas agudas: mas Arací, quando
+atravessa a floresta, colhe o côco de mel, embora
+a palmeira lhe espinhe a mão.</p>
+
+<p>«O ferrão da saúva dóe mais do que o espinho
+da jussara; mas Jurandir acha o mel dos
+labios de Arací mais doce do que o côco da palmeira.</p>
+
+<p>«Quando Jurandir era joven caçador, gostava de
+tirar a cotia da toca, embora o seu dente agudo
+lhe sarjasse a carne.</p>
+
+<p>«O ferrão da saúva não dóe como o dente afiado;
+e Jurandir sabe que o pelo dourado da cotia, não
+é tão macio como o colo de Arací.</p>
+
+<p>«Jurandir despreza a dôr. Seus olhos estão
+bebendo o sorrizo da virjem, mais suave que o
+leite do sapotí. Sua mão está sentindo o roçar dos
+cabelos da virjem formoza.»</p>
+
+<p>Os anciãos deram sinal para concluir a prova da
+constancia; mas o guerreiro continuou seu canto
+de amor.</p>
+
+<p>«A cumarí arde no labio do guerreiro; mas
+torna mais gostoza a carne do veado assada no
+moquem.</p>
+
+<p>«O cauim queima a boca do guerreiro; mas
+derrama a alegria dentro da alma.</p>
+
+<p>«A saúva arde como a cumarí e queima como o
+cauim; porém torna os beijos de Arací mais saborozos:
+e o amor de Jurandir espuma como o vinho
+generozo.</p>
+
+<p>«Arací ha de sorrir de felicidade, quando o filho
+de seu guerreiro lhe rasgar o seio.</p>
+
+<p>«Jurandir não tem corpo para sofrer, quando o
+sorrizo de Arací lhe enche a alma de amor.»</p>
+
+<p>Foi precizo quebrar o camucim para que o guer<span class="pagenum"><a name="Page_70" id="Page_70">[70]</a></span>reiro
+podesse retirar a mão, de inflamada que
+ficára.</p>
+
+<p>O grande pajé esfregou na pele vermelha, o
+suco de uma herva delle conhecida; e logo dezapareceu
+a inchação.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Faltava a ultima prova, chamada a prova da
+virjem.</p>
+
+<p>As outras serviam para conhecer o valor, a destreza
+e robustez do guerreiro, assim como a força
+de seu amor.</p>
+
+<p>Nesta era que a virjem podia mostrar seu agrado
+pelo vencedor ou livrar-se de um espozo, que não
+soubera ganhar-lhe o afeto.</p>
+
+<p>Os cantores disseram:</p>
+
+<p>«Tupan deu azas á nambú para que ella escape
+ás garras do carcará.</p>
+
+<p>«Tupan deu lijeireza á virjem, para que ella fuja
+do guerreiro que não quer por espozo.</p>
+
+<p>«Mas a nambú, quando ouve o canto do companheiro,
+espera que elle chegue para fabricar seu
+ninho.</p>
+
+<p>«A virjem, quando a segue o guerreiro que ella
+prefere, pensa na cabana do espozo, e corre de
+vagar para chegar depressa.»</p>
+
+<p>Arací deixou a mãi, e avançou até o meio do
+campo.</p>
+
+<p>O grande pajé colocou Jurandir na distancia de
+uma mussurana, que cinje dez vezes a cintura do
+guerreiro.</p>
+
+<p>Estrela do dia lançou para as espaduas as<span class="pagenum"><a name="Page_71" id="Page_71">[71]</a></span>
+longas tranças negras que voaram ao sopro da
+briza.</p>
+
+<p>Arqueou os braços mimozos, vestidos com franjas
+de penas, como as azas brilhantes do arirama; e
+quando soou o sinal, desferiu a corrida.</p>
+
+<p>Jurandir seguiu-a. Elle conhecia a velocidade do
+pé gentil de Arací, que zombava do salto do jaguar.</p>
+
+<p>Nem que podesse alcançal-a, o guerreiro o tentaria;
+depois de vencedor, queria dever a espoza
+ao amor della e não a seu esforço.</p>
+
+<p>Disputaria Arací não só a todos os guerreiros
+das nações, como a todas as nações das florestas;
+só á vontade da propria virjem não a disputaria,
+pois a queria rendida, e não vencida.</p>
+
+<p>Mas sua gloria mandava que elle, o chefe de uma
+grande nação, se mostrasse digno da formoza
+virjem, que o aceitasse por espozo.</p>
+
+<p>Arací voava pela campina. Ás vezes trançava a
+corrida como o colibri que adeja de flôr em flôr,
+outras vezes fujia mais rapida do que a seta emplumada
+de seu arco.</p>
+
+<p>Quando mostrou a todos que Jurandir não a
+alcançaria nunca, se ella quizesse fujir-lhe, reclinou
+a cabeça para esconder o rubor.</p>
+
+<p>Jurandir abriu os braços e recebeu a espoza que
+se entregava a seu amor.</p>
+
+<p>O guerreiro suspendeu a virjem formoza ao colo;
+e levou-a á cabana do amor que elle construira á
+marjem do rio.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="Page_72" id="Page_72">[72]</a></span></p><hr class="tb" />
+
+<p>As ramas de jasmineiro e do craviri vestiam a
+cabana, e matizavam o chão de flôres.</p>
+
+<p>Arací foi buscar a rêde nupcial, que ella tecera
+de penas de tucano e arara; e Jurandir conduziu os
+utensilios da cabana.</p>
+
+<p>Então o estranjeiro sentou-se com a virjem no
+terreiro, e antes de passar a soleira da porta, revelou
+a Arací quem era o guerreiro que ella aceitára
+por espozo.</p>
+
+<p>&mdash;Arací pertence ao grande chefe da nação araguaia.
+Ella teve a gloria de vencer ao maior guerreiro
+das florestas. Ella será mãi dos filhos de
+Ubirajara; e terá por servas as virjens mais belas,
+filhas dos chefes poderozos.</p>
+
+<p>«A palmeira é formoza quando se cobre de flôres
+e o vento ajita as suas folhas verdes, que
+murmuram; mais formoza, porém, é quando as
+flôres se mudam em frutos, e ella se enfeita com
+seus cachos vermelhos.</p>
+
+<p>«Arací tambem ficará mais formoza quando de
+seu sorrizo saírem os frutos do amor, e quando o
+leite encher seus peitos mimozos, para que ella
+suspenda ao colo os filhos de Ubirajara.»</p>
+
+<p>Arací ouviu as palavras do guerreiro, palpitante
+como a corça; e ornou a fronte do espozo com o
+cocar de plumas vermelhas, que tecera em segredo.</p>
+
+<p>Depois, sentindo os olhos de Ubirajara que
+bebiam a sua formozura, ella vestiu o aimará mais
+alvo do que a pena da garça.</p>
+
+<p>A tunica de algodão entretecida de penas de
+beija-flôr dece das espaduas até á curva da perna,
+cinjida pela liga da virjindade.</p>
+
+<p>Quando Arací passava entre os guerreiros que
+admiravam sua beleza, ella não córava, porque sua
+castidade a vestia, como a flôr á sapucaia.</p>
+
+<p>Mas agora em prezença do guerreiro a quem<span class="pagenum"><a name="Page_73" id="Page_73">[73]</a></span>
+ama e para quem guardou a sua virjindade, tem
+pejo, e esconde sua formozura ás vistas de Ubirajara.</p>
+
+<p>&mdash;Os olhos do espozo são como o sol, disse
+o guerreiro: elles queimam a flôr do corpo de
+Arací.</p>
+
+<p>&mdash;Arací tem medo que os olhos do espozo não
+a achem digna de seu amor; e vestiu seus enfeites.</p>
+
+<p>«Arací queria ser como a jurití, e ter no corpo
+uma penugem macia, que só a deixasse ver em sua
+formozura.</p>
+
+<p>«Foi por isso que tua espoza se cobriu com o
+seu aimará. Os olhos de Ubirajara não lhe queimarão
+mais a flôr de seu corpo.</p>
+
+<p>O guerreiro respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;A flôr do igapê é mais formoza quando abre
+e se tinje de vermelho aos beijos do sol, do que
+fechada em botão e coberta de folhas verdes.</p>
+
+<p>Ubirajara tomou nos braços a espoza, e pôz o
+pé na soleira da porta.</p>
+
+<p>Nesse momento soou um clamor; chegaram os
+guerreiros que vinham chamar o vencedor á prezença
+de Itaquê.</p>
+
+<p>O carbeto dos anciãos tinha decidido que o vencedor
+antes de receber a espoza, devia declarar
+quem era; pois fôra recebido como estranjeiro, e
+ninguem na taba o conhecia.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_74" id="Page_74">[74]</a></span></p>
+
+
+
+
+<hr class="chap" />
+<h2><a name="VII" id="VII"></a>VII<br />
+<br />
+A GUERRA</h2>
+
+
+<p>Itaquê esperava sentado na cabana, e cercado
+do carbeto dos anciãos.</p>
+
+<p>Jurandir entrou; Arací ficou na porta, orgulhoza
+do espozo que a conquistára e da admiração que
+elle ia inspirar aos guerreiros da sua nação.</p>
+
+<p>Itaquê falou:</p>
+
+<p>&mdash;Quando o estranjeiro chegou á cabana de
+Itaquê, ninguem lhe perguntou quem era e donde
+vinha. O hospede é senhor.</p>
+
+<p>«Mas agora o estranjeiro saiu vencedor do combate
+do cazamento e conquistou uma espoza na
+taba dos tocantins.</p>
+
+<p>«É precizo que elle se faça conhecer; porque a
+filha de Itaquê, o pai da nação dos tocantins,
+jámais entrará como espoza na taba onde habite
+quem tenha ofendido a um só de seus guerreiros.»</p>
+
+<p>O estranjeiro disse:</p>
+
+<p>&mdash;Morubixaba, abarés, moacaras e guerreiros da
+valente nação tocantim, vós tendes prezente o
+chefe dos chefes da grande nação araguaia.</p>
+
+<p>«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança; e o maior
+guerreiro depois do grande Camacan, cujo sangue
+me gerou. Se quereis saber porque tomei este
+nome, ouvi a minha maranduba de guerra.»</p>
+
+<p>Ubirajara contou o seu encontro com Pojucan;
+o combate em que o venceu, e a festa do triunfo,<span class="pagenum"><a name="Page_75" id="Page_75">[75]</a></span>
+até o momento em que deixou a taba dos araguaias.</p>
+
+<p>Terminou dizendo que no seguinte sol partiria,
+para assistir ao combate da morte, como prometera
+ao prizioneiro.</p>
+
+<p>Ninguem interrompeu a maranduba de guerra.
+Ubirajara ouviu um gemido; mas não soube que
+rompera do seio de Arací.</p>
+
+<p>Itaquê arquejou como o rio ao pezo da borrasca.</p>
+
+<p>&mdash;Tu és Ubirajara, senhor da lança. Eu sou
+Itaquê, pai de Pojucan. Tenho em face o matador
+de meu filho; mas elle é meu hospede!</p>
+
+<p>«Chefe dos araguaias, tu és um joven guerreiro;
+pergunta a Camacan que te gerou, qual deve
+ser a dôr do pai, que não póde vingar a morte do
+filho.»</p>
+
+<p>O grande chefe vergou a cabeça ao peito, como
+o cedro altaneiro batido pelo tufão.</p>
+
+<p>Pojucan tinha sua taba mais lonje, na outra
+marjem do rio. Elle partira na ultima lua para rastejar
+a marcha dos tapuias; e voltava senhor do
+caminho da guerra quando encontrou Ubirajara.</p>
+
+<p>Seu pai e os guerreiros de sua taba pensavam
+que elle buscava na floresta o caminho da guerra.
+Mal sabiam que a essa hora esperava prizioneiro
+na taba dos araguaias o combate da morte.</p>
+
+<p>Anciãos e guerreiros emudeceram. Todos respeitavam
+a dôr do pai, e não ouzavam perturbal-a.</p>
+
+<p>Jacamim, a mãi de Pojucan, aproximára-se. O
+grande chefe ouviu seu gemido.</p>
+
+<p>&mdash;A espoza de Itaquê não chora na prezença do
+matador de seu filho.</p>
+
+<p>Á voz do espozo, a mãi teve força para esconder
+no seio sua tristeza, e mostrar-se digna do
+grande chefe dos tocantins.</p>
+
+<p>Ubirajara falou:</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_76" id="Page_76">[76]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;A vingança é a gloria do guerreiro; Tupan a
+deu aos valentes. Ubirajara venceu Pojucan em
+combate leal, e aceita o dezafio de Itaquê e de
+todos os chefes tocantins.</p>
+
+<p>&mdash;Tu és meu hospede; emquanto Itaquê brandir
+o grande arco da nação tocantim, ninguem ofenderá
+o amigo de Tupan na taba de seus guerreiros.</p>
+
+<p>Dizendo assim, o grande chefe ergueu-se e trocou
+com o estranjeiro a fumaça da despedida.</p>
+
+<p>&mdash;Parte. O sol que viu o estranjeiro na cabana
+hospedeira o acompanhará amigo; mas com a sombra
+da noite, mil guerreiros, mais velozes que o
+nandú, partirão para levar-te a morte.</p>
+
+<p>Ubirajara tomou suas armas e disse:</p>
+
+<p>&mdash;O hospede vai deixar tua cabana, chefe dos
+tocantins; tu verás chegar o guerreiro inimigo.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Itaquê seguiu o estranjeiro até o terreiro; em
+torno delle se reuniram os abarés, os moacaras e
+os guerreiros para assistirem á partida.</p>
+
+<p>Ubirajara caminhou com o passo lento e grave
+até o fim da taba.</p>
+
+<p>Chegado ali, tornou rapido á entrada da cabana,
+e retrocedeu apagando no chão o vestijio de seus
+passos.</p>
+
+<p>A nação tocantim o observava imovel.</p>
+
+<p>Por fim o estranjeiro postou-se no centro da
+ocara e com o formidavel tacape vibrou no largo
+escudo um golpe que repercutiu pela taba como o
+estrondo da montanha.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_77" id="Page_77">[77]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;O hospede passou o lumiar da cabana que o
+tinha acolhido, e apagou seu rasto na taba dos
+tocantins.</p>
+
+<p>«Quem está aqui é um guerreiro armado, que
+piza senhor a taba de seus inimigos.</p>
+
+<p>«Itaquê, morubixaba dos tocantins, Ubirajara, o
+senhor da lança, grande chefe dos araguaias, te
+envia a guerra na ponta de sua seta.»</p>
+
+<p>Quando o guerreiro acabou de proferir estas
+palavras, Itaquê levantou os olhos e viu cravada na
+figura do tucano, que era o simbolo da nação, a
+seta de Ubirajara.</p>
+
+<p>Mil arcos se ergueram, mil tacapes brandiram. A
+voz possante de Itaquê abateu as armas de seus
+guerreiros.</p>
+
+<p>Disse o morubixaba:</p>
+
+<p>&mdash;A lei de hospitalidade é sagrada. A cólera do
+estranjeiro não deve perturbar a serenidade do
+varão tocantim.</p>
+
+<p>Depois voltou-se para o inimigo:</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara, grande chefe dos araguaias: Itaquê,
+o pai da poderoza nação tocantim aceita a guerra
+que tu lhe enviaste. Recebe em teu escudo o penhor
+do combate.</p>
+
+<p>A corda do grande arco da nação tocantim brandiu,
+e a seta de Itaquê mordeu o escudo de Ubirajara.</p>
+
+<p>&mdash;Vai buscar teus guerreiros e nós combateremos
+á frente das nações.</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara combaterá até que lhe restituas a
+espoza; assim como elle a conquistou a seus rivais,
+saberá conquistal-a a ti e á tua nação.</p>
+
+<p>O chefe araguaia partiu. No seio da floresta
+encontrou Arací que o esperava.</p>
+
+<p>A formoza virjem fôra á cabana do cazamento
+buscar a rêde nupcial e preparar-se para acompanhar
+o espozo.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_78" id="Page_78">[78]</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara parte; mas antes de cinco sóes elle
+estará aqui para te conquistar á tua nação.</p>
+
+<p>&mdash;A espoza te acompanha. Teu braço valente
+já a conquistou; e ella entregou-se a seu senhor.
+Arací te pertence; deves leval-a.</p>
+
+<p>A virjem tocantim dezejava seguir Ubirajara á
+taba dos araguaias. Falava em sua alma a ternura
+da espoza e da irmã.</p>
+
+<p>Partindo, ella unia-se para sempre a seu guerreiro,
+e esperava que o amor o moveria a salvar
+Pojucan.</p>
+
+<p>Ubirajara pensou e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Se Ubirajara tivesse rompido a liga de Arací,
+ella era sua espoza, e ninguem a arrebataria de seus
+braços. Mas a virjem tocantim não póde abandonar
+a cabana onde naceu sem a vontade de seu pai.</p>
+
+<p>Arací suspirou:</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara vai deixar a lembrança de Arací
+nos campos dos tocantins. Jandira o espera na
+taba dos araguaias, e lhe guarda o seu sorrizo de
+mel.</p>
+
+<p>&mdash;A luz de teus olhos, Arací, estrela do dia, foi
+buscar Ubirajara na taba dos seus, onde resoavam
+os cantos de seu triunfo, e o trouxe á tua cabana.</p>
+
+<p>«Quando elle partiu encontrou Jandira, e para
+que a filha de Majé não o acompanhasse a deu a
+Pojucan, como espoza do tumulo.»</p>
+
+<p>&mdash;O goaná do lago vôa lonje, para banhar-se
+nas aguas da chuva que alagaram a varzea; mas
+logo volta ao seu ninho, e não se lembra mais da
+moita onde dormiu.</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara é um guerreiro; elle não aprende
+com o goaná do lago, que foje do perigo, mas com
+o gavião, grande chefe dos guerreiros do ar, que
+nunca mais abandona o rochedo onde assentou a
+sua oca.</p>
+
+<p>&mdash;Se Ubirajara amasse a espoza, tambem não a<span class="pagenum"><a name="Page_79" id="Page_79">[79]</a></span>
+abandonaria. Os braços de Arací já cinjiram o colo
+de seu guerreiro. O tronco não desprende de si a
+baunilha que se entrelaçou em seus galhos.</p>
+
+<p>Ubirajara calcou a mão sobre a cabeça de Arací:</p>
+
+<p>&mdash;Itaquê respeitou a lei de hospitalidade no
+corpo de Ubirajara, Ubirajara não deixará a traição
+na terra hospedeira.</p>
+
+<p>«Arací não deve querer para espozo um guerreiro
+menos generozo do que seu pai.»</p>
+
+<p>A virjem emudeceu. Ella sabia que a honra é a
+primeira lei do guerreiro.</p>
+
+<p>Antes de partir, o chefe consolou a espoza:</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara vai pedir ao gavião suas azas para
+voltar ao seio de Arací. Elle virá á frente de sua
+nação, conduzido pela luz de teus olhos.</p>
+
+<p>«As outras mulheres são o premio de um combate
+entre os servos de seu amor. Arací terá essa
+gloria, que ella será o premio da maior guerra que
+já viram as florestas.»</p>
+
+<p>O chefe araguaia pôz as mãos nos hombros de
+Arací; duas vezes uniu o seu ao rosto della, por
+uma e outra face, para exprimir que nada os podia
+separar.</p>
+
+<p>Quando o guerreiro dezapareceu na floresta,
+Arací caminhou para a cabana do espozo, que ficára
+triste e solitaria.</p>
+
+<p>A virjem fechou a porta; sentou-se na soleira, e
+cantou sua tristeza.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_80" id="Page_80">[80]</a></span></p>
+
+<p>Dois sóes tinham passado, e viera a noite.</p>
+
+<p>A ultima estrela se apagava no céu, quando Ubirajara
+pizou os campos dos araguaias.</p>
+
+<p>Sua mão robusta, vibrando a clava, feriu o trocano.
+A voz da nação araguaia derramou-se ao
+lonje pelo vale, como o estrondo da montanha que
+arrebenta.</p>
+
+<p>Com o primeiro raio do sol que subia o pincaro
+da serra, chegaram á grande taba os chefes das
+cem tabas araguaias, com todos seus guerreiros,
+convocados á ocara da nação.</p>
+
+<p>Ubirajara mandou que Pojucan, o prizioneiro,
+viesse á sua prezença:</p>
+
+<p>&mdash;Vê o mar dos meus guerreiros que enche a
+terra, como as aguas do grande rio quando alaga
+a varzea. Elles esperam o aceno de Ubirajara para
+inundarem teus campos.</p>
+
+<p>«A nação tocantim carece neste momento do
+braço de seus maiores guerreiros; vai levar-lhe o
+socorro de teu valor, para que se aumente a
+gloria de Ubirajara, seu vencedor.</p>
+
+<p>«Tu és livre, Pojucan; parte e vôa, que a guerra
+dos araguaias te segue os passos.»</p>
+
+<p>O semblante do filho de Itaquê ficou sombrio:</p>
+
+<p>&mdash;Pojucan é um chefe ilustre; não merece esta
+dezhonra. Tu lhe prometeste a morte dos bravos.
+Elle exije o combate.</p>
+
+<p>O chefe araguaia contou a maranduba da hospitalidade:</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara não sabia que Pojucan era filho de
+Itaquê; pois elle nunca pizaria como hospede a
+cabana de um guerreiro, a quem tivesse decepado
+um filho. É precizo que recuperes a liberdade para
+que não se diga que Ubirajara surpreendeu a hospitalidade
+do grande chefe dos tocantins.</p>
+
+<p>Pojucan não respondeu. Elle reconhecera que a<span class="pagenum"><a name="Page_81" id="Page_81">[81]</a></span>
+honra de seu vencedor exijia sua volta á taba dos
+seus.</p>
+
+<p>&mdash;Parte. Nós combateremos á frente das nações.
+Ubirajara pertence a Itaquê; mas depois
+delle terás a gloria de ser vencido outra vez por
+este braço.</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara é um grande chefe e maior guerreiro.
+Se Tupan não consente que Pojucan seja
+vencedor, elle não quer maior gloria do que a de
+morrer combatendo Ubirajara.</p>
+
+<p>Pojucan foi á cabana de seu vencedor buscar as
+armas. Ubirajara arrimou-se ao tacape, como o
+rochedo que se apoia ao tronco do ipê, e meditou.</p>
+
+<p>Quando passou o chefe tocantim que voltava á
+sua taba, Ubirajara levantou a cabeça e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Os olhos de Ubirajara te acompanham; tu és
+irmão de Arací, e vais para junto della. Dize á
+estrela do dia, que seu espozo está com ella.</p>
+
+<p>O conselho dos abarés se reunira para meditar
+sobre a guerra. O velho Majé, a quem irritava o
+dezaparecimento da filha, reparou que sem o voto
+do carbeto se convocasse a nação.</p>
+
+<p>Veiu um mensajeiro chamar o grande chefe para
+o carbeto. Ubirajara chegou. Antes que falasse a
+voz dos anciãos, o guerreiro levantou o arco e
+disse:</p>
+
+<p>&mdash;O conselho dos anciãos governa a taba, e
+medita nella coizas da paz. Toda a nação respeita
+sua prudencia e sabedoria.</p>
+
+<p>«Mas emquanto Ubirajara brandir o grande arco
+dos araguaias, tem a guerra fechada em sua mão.</p>
+
+<p>«Quando elle soltar o grito de combate, a voz
+que falar da paz emudecerá para sempre, ainda
+que venha da cabeça do abaré que a lua já embranqueceu.</p>
+
+<p>«Quem não quizer assim, venha arrancar da mão<span class="pagenum"><a name="Page_82" id="Page_82">[82]</a></span>
+de Ubirajara este arco que elle conquistou por seu
+valor.»</p>
+
+<p>Os abarés estremeceram. Mas o carbeto meditou,
+e decidiu que a maior gloria e sabedoria da nação
+era ter o seu grande arco de guerra na mão de um
+chefe como Ubirajara.</p>
+
+<p>Camacan tratou com os anciãos ácerca da defeza
+das tabas; e o grande chefe abriu o caminho da
+guerra.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Quando Ubirajara desdobrou sua guerra pela marjem
+do grande rio, elle viu que uma nação tapuia
+se preparava para assaltar a taba dos tocantins.</p>
+
+<p>O grande chefe tocou a inubia, cuja voz chamava
+o joven Murinhem, primeiro dos cantores
+araguaias.</p>
+
+<p>Correu o nhengaçára á prezença do grande
+chefe, e delle recebeu a mensajem que devia levar
+ao campo inimigo.</p>
+
+<p>Os cantores eram respeitados por todas as nações
+das florestas, como os filhos da alegria; pelo
+que serviam de mensajeiros entre as nações em
+guerra.</p>
+
+<p>Elles penetravam no campo inimigo, entoando o
+seu canto de paz; e nenhum guerreiro ouzava ofender
+aquelle a quem Tupan concedera a fonte da
+alegria.</p>
+
+<p>Murinhem atravessou rapido a campina e aprezentou-se
+em frente de Canicran, chefe dos tapuias.</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara, o senhor da lança, que empunha o
+arco da poderoza nação araguaia, te manda, a ti<span class="pagenum"><a name="Page_83" id="Page_83">[83]</a></span>
+quem quer que sejas, e a todos quantos te obedecem,
+a sua vontade.</p>
+
+<p>O tapuia rujiu; mas seus olhos viam o mar dos
+guerreiros araguaias que o cercava, e na frente o
+grande vulto de Ubirajara, semelhante ao rochedo
+sombrio e imovel no meio dos borbotões da cachoeira.</p>
+
+<p>Os guerreiros de Canicran só conhecem a vontade
+do seu chefe; e Canicran afronta a cólera de
+Tupan e das nações que elle gerou. Dize, mensajeiro,
+o que pede Ubirajara, ao grande chefe dos
+tapuias.</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara te manda que encostes o tacape da
+guerra. A nação tocantim aceitou a sua flecha de
+dezafio, e elle não consente que ninguem combata
+seu inimigo, antes de o ter vencido.</p>
+
+<p>&mdash;Torna e dize ao grande chefe araguaia, que
+Canicran veiu trazido pela vingança. Pojucan, um
+dos chefes tocantins penetrou em sua taba e incendiou
+a cabana do pajé, que foi devorado pelas
+chamas.</p>
+
+<p>«Ubirajara é um grande chefe araguaia; elle que
+diga se o pai da nação póde sofrer tão dura afronta.
+Canicran escuta a voz de sua amizade.»</p>
+
+<p>O chefe tapuia tomou uma de suas flechas;
+arrancou o farpão e deu ao mensajeiro a haste
+emplumada com azas negras do anun, que era o
+emblema guerreiro de sua nação.</p>
+
+<p>&mdash;Toma; entrega ao grande chefe araguaia o
+penhor da aliança.</p>
+
+<p>Murinhem partiu e foi á taba dos tocantins levar
+igual mensajem. Itaquê escutou o que lhe mandava
+Ubirajara e respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Antes que Itaquê trocasse com Ubirajara a
+seta do dezafio, Pojucan tinha levado a guerra á
+taba dos tapuias.</p>
+
+<p>«Canicran veiu trazido pela vingança; e a nação<span class="pagenum"><a name="Page_84" id="Page_84">[84]</a></span>
+tocantim não póde recuzar o combate. Mas Itaquê
+sabe honrar seu nome; se Ubirajara quer, elle combaterá
+juntamente os dois inimigos.»</p>
+
+<p>O mensajeiro tornou ao campo dos araguaias com
+as respostas dos dois chefes. Ubirajara ouviu e
+meditou.</p>
+
+<p>&mdash;Escuta a vontade de Ubirajara para leval-a
+aos inimigos. O grande chefe araguaia não roubará
+a Canicran a gloria da vingança; elle respeita a
+honra da nação tapuia, mas rejeita sua aliança.
+Restitue o penhor que recebeste.</p>
+
+<p>«Itaquê póde aceitar o combate que Pojucan foi
+buscar; Ubirajara não ofende o nome de um guerreiro,
+ainda mais de um morubixaba, e do pai de
+Arací.</p>
+
+<p>«O chefe dos araguaias não carece de auxilio
+para triunfar de seus inimigos: dezeja que a nação
+tocantim derrote aos tapuias, para ter elle a gloria
+de vencer ao vencedor.</p>
+
+<p>«Se Itaquê não póde repelir os tapuias, Ubirajara
+toma a si castigar os barbaros; e depois de varrel-os
+das florestas, combaterão as duas nações.</p>
+
+<p>«Se os tocantins necessitam de aliados para
+rezistir ao ímpeto dos araguaias, Ubirajara espera
+que Itaquê os chame e que elles venham.</p>
+
+<p>«Murinhem falará assim a um e outro chefe; a
+ambos dirá que a cabana onde estiver Arací fica
+sob a guarda de Ubirajara; quem nella penetrar
+como inimigo, sofrerá a morte vil do cobarde.»</p>
+
+<p>O guerreiro deixou a voz do chefe e falou com
+a voz de espozo:</p>
+
+<p>&mdash;A Arací levarás o canto de amor de Ubirajara.
+Tu lhe dirás que arme a rêde nupcial, e não deixe
+nossa cabana, emquanto Ubirajara não a fôr buscar.</p>
+
+<p>«Conta-lhe tambem que o canitar que ella teceu,
+ainda não deixou a cabeça de seu guerreiro e ha
+de acompanhal-o sempre.»</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_85" id="Page_85">[85]</a></span></p>
+
+
+
+
+<hr class="chap" />
+<h2><a name="VIII" id="VIII"></a>VIII<br />
+<br />
+A BATALHA</h2>
+
+
+<p>A um lado da imensa campina move-se a multidão
+dos guerreiros tocantins, do outro lado a multidão
+dos guerreiros tapuias.</p>
+
+<p>As duas nações se estendem como dois lagos
+formados pelas grandes chuvas, que se transformam
+em rios e atravessam o vale.</p>
+
+<p>De um e outro campo levantou-se a pocema
+guerreira; e os dois povos arremetendo travaram
+a batalha.</p>
+
+<p>Itaquê achou-se em frente de Canicran. Ambos
+se buscavam; dez vezes tinham combatido; vencedores
+ambos, nenhum fôra vencido.</p>
+
+<p>Emquanto viverem os formidaveis guerreiros, não
+é possivel quebrar a flecha da paz entre as duas
+nações.</p>
+
+<p>Era precizo que um delles morresse, para que o
+vencedor encostasse o tacape do combate, e désse
+repouzo á sua nação para reparar os estragos da
+guerra.</p>
+
+<p>Quando os dois chefes se encontraram, os guerreiros
+de um e outro campo ficaram imoveis, contemplando
+o pavorozo combate.</p>
+
+<p>Ubirajara, de lonje, apoiado em seu grande arco,
+admirava os dois guerreiros, e pensava qual não
+seria o seu orgulho em vencel-os a ambos.</p>
+
+<p>Durára a peleja o espaço de uma sombra. Em<span class="pagenum"><a name="Page_86" id="Page_86">[86]</a></span>
+torno dos chefes lastravam o chão os tacapes e
+escudos que se tinham espedaçado aos golpes de
+cada um.</p>
+
+<p>Imoveis no mesmo logar, só ajitavam a cabeça
+e os braços, semelhantes a dois condores que, de
+garras prezas aos pincaros do rochedo, se dilaceram
+com o bico adunco.</p>
+
+<p>Um rujido espantoso atroou pela campina, que
+estremeceu a batalha e rolou pelas profundezas da
+floresta.</p>
+
+<p>Paan, a seta, era o ultimo filho de Canicran.
+Ainda corumim, pelejava ao lado do irmão, o guerreiro
+Creban, cujo hombro mal alcançava com o
+braço.</p>
+
+<p>Elle tinha nos olhos a vista da gaivota, e nas
+setas de seu arco, feitas de espinhos de ouriço, a
+velocidade e a certeza do vôo do guanumbí.</p>
+
+<p>Quando caçava na floresta, divertia-se em matar
+as motuças traspassando-as com suas flechas, que
+voavam mais rapidas e certeiras que as vespas
+venenozas.</p>
+
+<p>Paan saltára sobre os hombros do guerreiro
+Creban para assistir ao combate. Admirando o
+valor de Canicran, teve orgulho e inveja do pai.</p>
+
+<p>Itaquê desfechára tão formidavel golpe, que o
+tacape e escudo de Canicran se espedaçaram em
+suas mãos, deixando-o á mercê do inimigo.</p>
+
+<p>O chefe tocantim arrojou-se, e já sua mão decia
+sobre a espadua do tapuia para fazel-o prizioneiro.</p>
+
+<p>O arco de Paan sibilou duas vezes. Os olhos de
+Itaquê, os olhos do varão forte que nunca humedecera
+uma lagrima, choraram sangue.</p>
+
+<p>As setas do corumim tinham vazado as pupilas
+do fero guerreiro cuja vista era raio. Assim a jandaia
+rôe o grelo do procero coqueiro.</p>
+
+<p>Foi então que Itaquê soltou o rujido pavorozo
+que fez tremer a terra. Mas o grito de espanto<span class="pagenum"><a name="Page_87" id="Page_87">[87]</a></span>
+sossobrou no peito dos guerreiros, e rompeu em
+um grito de horror.</p>
+
+<p>Itaquê estendera os braços, hirtos como duas
+garras de condor.</p>
+
+<p>A mão direita abarcou o penacho e a cabeleira
+de Canicran, a esquerda entrou pela boca do tapuia
+e travou-lhe o queixo.</p>
+
+<p>Separaram-se os braços do guerreiro cégo, e a
+cabeça de Canicran abriu-se como um côco que se
+fende pelo meio.</p>
+
+<p>Ajitando no ar o craneo sangrento como um
+maracá de guerra, Itaquê arrojou-se contra os inimigos,
+buscando a morte que lhe fujia.</p>
+
+<p>Quando o sol entrou, não havia na campina a
+sombra de um tapuia.</p>
+
+<p>O velho heróe voltou á cabana conduzido por
+Pojucan:</p>
+
+<p>&mdash;Tupan viu que Itaquê não podia ser vencido
+pela mão dos homens, e quiz vencel-o elle mesmo
+pela mão de um menino.</p>
+
+<p>Quando Ubirajara viu o exito do combate, lamentou
+que dos dois grandes guerreiros não restasse
+nenhum, para que elle o vencesse.</p>
+
+<p>Seus olhos descobriram Paan que fujia no meio
+dos destroços de sua nação. Ergueu a mão, mas
+não chegou a retezar a seta.</p>
+
+<p>A aguia não persegue a andorinha. Era indigno
+de um guerreiro, quanto mais de um chefe, empregar
+seu valor contra um menino.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_88" id="Page_88">[88]</a></span></p>
+
+<p>O chefe chamou á sua prezença Tubim, um dos
+jovens caçadores que tinham acompanhado a guerra
+para prover o alimento.</p>
+
+<p>&mdash;Tubim tem as azas da abelha; se elle alcançar
+o corumim tapuia que eu estou olhando, Ubirajara
+lhe dará o nome de Abeguar.</p>
+
+<p>O joven caçador seguiu o olhar do chefe, e
+sumiu-se num turbilhão de poeira. Quando os vagalumes
+começaram a luzir no escuro da mata, elle
+estava de volta no campo dos araguaias e trazia o
+corumim fechado nos braços.</p>
+
+<p>Nessa mesma noite Tubim recebeu o nome de
+Abeguar, senhor do vôo, em honra da façanha que
+tinha realizado.</p>
+
+<p>Os cantores entoaram seu louvor; e o joven
+caçador teve a gloria de receber os aplauzos dos
+moacaras de sua nação, e de um chefe como Ubirajara.</p>
+
+<p>Ao raiar da manhã, Murinhem foi á taba dos
+tocantins, acompanhado por vinte guerreiros que
+conduziam o corumim.</p>
+
+<p>Quando chegou em frente á cabana do grande
+chefe, o cantor viu Itaquê no terreiro sentado em
+uma sapopema.</p>
+
+<p>O guerreiro fitava os olhos no céu, onde o calor
+lhe dizia que estava o sol. Mas não encontrava a
+luz que para sempre o abandonára.</p>
+
+<p>Então o velho guerreiro abaixava os olhos para
+terra, como se buscasse o logar do repouzo.</p>
+
+<p>Quando soaram lonje os passos dos estranjeiros,
+o chefe alongou a fronte para ver pelo ouvido o
+que os olhos lhe recuzavam.</p>
+
+<p>Murinhem chegou e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara envia a Itaquê o resto da vingança.
+Este é Paan, o filho de Canicran. Elle te roubou a
+vista; mas não salvou o pai de tua mão terrivel.
+Faze do corumim tapuia um mancebo tocantim; e<span class="pagenum"><a name="Page_89" id="Page_89">[89]</a></span>
+elle será a luz de teus olhos e caminhará na frente
+do grande chefe para abrir-lhe o caminho da guerra.</p>
+
+<p>Paan avançou:</p>
+
+<p>&mdash;O filho de Canicran jámais será escravo;
+naceu tapuia e tapuia morrerá, como o grande
+chefe que o gerou. Emquanto o ouriço viver nas
+florestas, elle roubará seus espinhos para furar os
+olhos dos tucanos.</p>
+
+<p>Itaquê pouzou a palma da mão na cabeça do
+menino:</p>
+
+<p>&mdash;O corumim que ama seu pai é filho de Itaquê.
+Tu és livre, Paan; vai caçar o ouriço. Quando
+fôres um guerreiro, acharás cem mancebos do sangue
+de Itaquê para castigarem tua audacia.</p>
+
+<p>O chefe voltou-se para o cantor:</p>
+
+<p>&mdash;Tupan tirou a luz dos olhos de Itaquê; mas
+aumentou a força de seu braço. Ubirajara terá para
+combatel-o um inimigo digno de seu valor.</p>
+
+<p>Murinhem tornou ao chefe araguaia com esta
+resposta.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Quando partia o cantor, chegaram á cabana de
+Itaquê os abarés da nação tocantim.</p>
+
+<p>Os anciãos sentaram-se em torno do guerreiro
+cégo; e bebendo a fumaça da sabedoria, formaram
+o carbeto.</p>
+
+<p>Falou Guaribú:</p>
+
+<p>&mdash;O grande arco da nação carece de uma mão
+robusta para brandir sua corda, e de um olho seguro
+para dirijir sua seta. Itaquê é o maior guerreiro
+das florestas; seu nome faz tremer aos mais<span class="pagenum"><a name="Page_90" id="Page_90">[90]</a></span>
+valentes dos inimigos; seu braço fere como o raio.
+Mas a luz fujiu de seus olhos e elle não póde mais
+abrir o caminho da guerra.</p>
+
+<p>O velho chefe ergueu-se com o passo trôpego.
+Alcançando o grande arco dos tocantins abraçou-se
+com elle e falou-lhe.</p>
+
+<p>&mdash;Quando Itaquê te recebeu da mão do grande
+Javarí elle pensava que só a morte o separaria de
+ti, para transmitir-te a um guerreiro de seu sangue.
+Mas Itaquê ficou na terra, como um tronco levado
+pela corrente, que não sabe onde vai.</p>
+
+<p>Um esguicho de sangue saltou dos buracos, onde
+o velho tivera os olhos. Era a lagrima que a desgraça
+lhe deixára.</p>
+
+<p>Os abarés meditaram. Guaribú falou de novo:</p>
+
+<p>&mdash;O grande arco da nação que tu recebeste do
+grande Javarí, teu pai, não te abandonará. Elle fica
+em tua mão invencivel; haverá outro arco na mão
+do mais valente guerreiro, que abrirá o caminho da
+guerra. Mas emquanto Itaquê viver, sua voz governará
+a nação que elle defendeu com seu braço.</p>
+
+<p>O semblante do velho chefe cobriu-se de um
+sorrizo como o negro rochedo sobre o qual desliza
+um raio do luar.</p>
+
+<p>&mdash;Pais da sabedoria, abarés, olhai aquelle jatobá
+que se levanta no meio da campina, e que eu só
+posso ver agora na sombra de minha alma.</p>
+
+<p>«Elle tem muitas raizes que o sustentam nos
+ares; tem muitos galhos que o cercam e estendem
+ao lonje a sua rama. Mas o tronco é um só.</p>
+
+<p>«As grossas raizes são os abarés que sustentam
+o chefe com o seu conselho. Os galhos fortes são
+os moacaras que cercam o chefe e geram a multidão
+de guerreiros mais numeroza que as folhas das
+arvores. O tronco é o chefe da nação; se elle se
+dividir, o jatobá não subirá ás nuvens nem terá
+forças para rezistir ao tufão.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_91" id="Page_91">[91]</a></span></p>
+
+<p>«O logar de Itaquê é no conselho. O ultimo
+dente de seu colar de guerra foi o que elle arrancou
+da boca de Canicran. Convocai os guerreiros, e o
+que fôr mais forte e mais valente empunhe o grande
+arco da nação.</p>
+
+<p>O trocano chamou a nação ao carbeto. Vieram
+os moacaras, conduzindo suas tribus.</p>
+
+<p>O velho Itaquê contava pelos passos os guerreiros
+que chegavam. O grande arco da nação, que
+elle segurava direito, parecia um dos esteios da
+cabana, e tinha a corda tão grossa como a da rêde
+do chefe.</p>
+
+<p>Os mais famozos guerreiros tocantins se aprezentaram
+para disputar o grande arco; muitos conseguiram
+vergal-o; mas a seta não partiu.</p>
+
+<p>Itaquê escutava com o ouvido atento: o som
+delle conhecido não feriu os ares.</p>
+
+<p>&mdash;Onde está Pojucan? perguntou o velho chefe.</p>
+
+<p>O valente guerreiro do sangue de Itaquê estava
+de parte, grave e taciturno. Algum motivo o separava
+do arco chefe, que elle devia ser o primeiro a
+disputar.</p>
+
+<p>&mdash;Teu filho te escuta, respondeu.</p>
+
+<p>&mdash;Empunha o arco chefe; se ha um guerreiro
+tocantim que possa conquistal-o esse deve ser do
+sangue de Itaquê.</p>
+
+<p>Pojucan recebeu o arco. Fincando nelle os pés,
+o guerreiro arrojou-se para traz como a giboia
+quando se enrista para armar o bote.</p>
+
+<p>A seta partiu, e foi cravar a cabeça de um chefe
+tapuia, fincada na estaca, á entrada da taba.</p>
+
+<p>Itaquê curvára a cabeça. Elle ouviu brandir a
+arma; não era, porém, aquelle o zunido da corda
+do arco, quando o vergava sua mão possante.</p>
+
+<p>Pojucan depôz o arco chefe aos pés de Itaquê e
+disse:</p>
+
+<p>&mdash;Pojucan mostrou que em suas veias corre o<span class="pagenum"><a name="Page_92" id="Page_92">[92]</a></span>
+sangue generozo de Itaquê. Mas o grande arco
+peza em sua mão. Só ha um guerreiro na terra
+que o possa brandir como Itaquê: e esse não cinje
+a fronte com o cocar das penas de tucano.</p>
+
+<p>&mdash;Pojucan negou a Itaquê esta ultima consolação.
+O arco invencivel do grande Tocantim que foi
+o pai da nação, vai sair de sua geração. Tocantim
+o transmitiu a seu filho Javarí, que me gerou; mas
+eu não sube gerar com seu sangue um guerreiro
+digno delles.</p>
+
+
+
+
+<hr class="chap" />
+<h2><a name="IX" id="IX"></a>IX<br />
+<br />
+UNIÃO DOS ARCOS</h2>
+
+
+<p>Os tapuias voltaram; e com elles vinha Agniná
+á frente de sua nação, para vingar a morte de Canicran,
+seu irmão.</p>
+
+<p>Era grande a multidão dos guerreiros; e maior
+a tornavam a sanha da vingança e a fama do chefe
+que a conduzia.</p>
+
+<p>Não eram tantos os tocantins; mas bastaria seu
+valor para igualal-os, se não lhes faltasse a cabeça,
+que reje o corpo.</p>
+
+<p>A poderoza nação estava como o bando de caitetús
+que perdeu o pai, e desgarra-se pela floresta,
+correndo sem rumo.</p>
+
+<p>Os mais valentes moacaras, chefes das tribus,
+esperavam pelo grande chefe da nação para abrir-lhes
+o caminho da guerra.</p>
+
+<p>Os abarés meditaram. Elles não podiam inventar<span class="pagenum"><a name="Page_93" id="Page_93">[93]</a></span>
+um guerreiro capaz de suceder a Itaquê; mas não
+se rezignavam a abater a gloria da nação, trocando
+o arco invencivel do grande Tocantim por outro
+arco mais leve, que Pojucan manejasse.</p>
+
+<p>Tambem Pojucan anunciára, que não podendo
+brandir o arco de Itaquê, jámais empunharia outro
+arco chefe, menos gloriozo do que o do grande
+Tocantim.</p>
+
+<p>Abarés, chefes, moacaras, guerreiros, toda a nação
+se reuniu em torno do heróe cégo.</p>
+
+<p>Daquelle que durante tantas luas defendera a
+nação com a força de seu braço, e a protejera
+com o terror de seu nome, esperavam ainda a salvação.</p>
+
+<p>O velho ouviu a voz dos abarés, a voz dos chefes,
+a voz dos moacaras, a voz dos guerreiros, e
+disse:</p>
+
+<p>&mdash;Itaquê ainda póde combater e morrer por sua
+nação; mas sem a luz do céu, elle não póde mais
+abrir a seus filhos o caminho da vitoria.</p>
+
+<p>«O braço de Itaquê defendeu sempre a nação
+tocantim; quer ella ser defendida agora pela palavra
+daquelle, que não tem mais para dar-lhe senão
+a experiencia de sua velhice?</p>
+
+<p>«Pensem os abarés, os chefes, os moacaras e os
+guerreiros.»</p>
+
+<p>Guaribú respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;A nação pensou. Fala e todos obedecerão á
+tua palavra, como obedeciam ao braço de Itaquê.</p>
+
+<p>&mdash;A voz do coração diz ao neto de Tocantim,
+que a gloria da nação que elle gerou, não se póde
+extinguir. O sangue de Itaquê, passando pelo seio
+de Arací, se unirá a outro sangue generozo para
+brotar maior e mais ilustre.</p>
+
+<p>«Assim a terra onde naceu uma floresta de acajás
+recebe o limo do rio e gera nova floresta mais
+frondoza que a outra.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_94" id="Page_94">[94]</a></span></p>
+
+<p>«Jacamim, chama Arací, a filha de nossa velhice.
+E vós, abarés, chefes, moacaras e guerreiros,
+seguí-me.»</p>
+
+<p>O velho heróe atravessou a taba guiado por
+Arací.</p>
+
+<p>A nação o seguia em silencio.</p>
+
+<p>Quando o guerreiro cégo passava com a mão no
+hombro da virjem formoza que dirijia o seu passo
+incerto, os guerreiros lembravam-se do tronco já
+morto que a rama do maracujá ainda sustenta de
+pé junto ao penedo.</p>
+
+<p>Os cantores iam adiante, e entoavam um canto
+de paz.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Um mensajeiro de Itaquê o precedera no campo
+dos araguaias.</p>
+
+<p>Ubirajara, cercado de seus abarés, chefes, moacaras
+e guerreiros, veiu ao encontro do morubixaba
+dos tocantins.</p>
+
+<p>A alma do grande chefe araguaia encheu-se da
+alegria de ver Arací; mas elle retirou os olhos da
+espoza, para que o amor não perturbasse a serenidade
+do varão.</p>
+
+<p>&mdash;Ubirajara está em face de Itaquê; para combatel-o
+se trouxe a guerra, para abraçal-o se trouxe
+a paz.</p>
+
+<p>&mdash;Nunca Itaquê pediu a paz ao inimigo que lhe
+trouxe a guerra, antes de o vencer; nem teria
+vivido tanto para cometer essa fraqueza. Elle vem
+trazer-te a vitoria para que tu a repartas com seu
+povo.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_95" id="Page_95">[95]</a></span></p>
+
+<p>O velho heróe avançou o passo:</p>
+
+<p>&mdash;Chefe dos araguaias, tu levaste a guerra á
+taba dos tocantins para conquistar Arací, a filha de
+minha velhice.</p>
+
+<p>«Por teu heroismo, e ainda mais pela nobreza
+com que restituiste a liberdade a Pojucan, tu merecias
+uma espoza do sangue tocantim.</p>
+
+<p>«Mas desde que tu ameaçaste tomal-a pela força
+de teu braço, Itaquê não podia mais conceder-te a
+filha de sua velhice, senão depois que abatesse teu
+orgulho.</p>
+
+<p>«Elle preparava-se para te combater, e á tua
+nação; mas fujiu-lhe dos olhos a luz que dirije a
+seta da guerra; e não ha entre seus guerreiros um
+que possa brandir o arco do grande Tocantim.»</p>
+
+<p>Quando pronunciou estas palavras, a voz do
+velho guerreiro sossobrou-lhe no peito:</p>
+
+<p>&mdash;O arco de Itaquê é como o gavião que perdeu
+as azas e não póde mais levar a morte ao inimigo.
+As andorinhas zombam de suas garras.</p>
+
+<p>«Empunha o arco de Itaquê, chefe dos araguaias,
+e tu conquistarás por teu heroismo uma espoza e
+uma nação.</p>
+
+<p>«Á espoza farás mãi de cem guerreiros como
+Itaquê; e á nação conservarás a gloria que ella
+conquistou quando o filho de Javarí a conduzia á
+guerra.</p>
+
+<p>«Tupan dará a teu braço esta força para que o
+sangue de Itaquê brote mais vigorozo e os netos
+de Tocantim dominem as florestas.»</p>
+
+<p>Ubirajara sorriu:</p>
+
+<p>&mdash;Chefe dos tocantins, teus olhos não podem
+ver o grande arco da nação araguaia; mas pergunta
+á tua mão, se o arco que Camacan brandia invencivel
+e agora empunha Ubirajara, cede ao arco de
+Itaquê.</p>
+
+<p>O velho heróe palpou o arco chefe dos araguaias<span class="pagenum"><a name="Page_96" id="Page_96">[96]</a></span>
+e vergou-lhe a ponta ao hombro, como se a haste
+fosse de taquarí.</p>
+
+<p>Ubirajara travou do arco de Itaquê e desdenhando
+fincal-o no chão, elevou-o acima da fronte. A flecha
+ornada de penas de tucano partiu.</p>
+
+<p>O semblante de Itaquê remoçou, ouvindo o zunido
+que lhe recordava o tempo de seu vigor. Era assim
+que elle brandia o arco outr'ora, quando as luas
+creciam aumentando a força de seu braço.</p>
+
+<p>O velho inclinou a fronte para escutar o sibilo
+de sua flecha que talhava o azul do céu. Os cantores
+não tinham para elle mais doce harmonia do
+que essa.</p>
+
+<p>Ubirajara largou o arco de Itaquê para tomar o
+arco de Camacan. A flecha araguaia tambem partiu
+e foi atravessar nos ares a outra que tornava á
+terra.</p>
+
+<p>As duas setas deceram trespassadas uma pela
+outra como os braços do guerreiro quando se
+cruzam ao peito para exprimir a amizade.</p>
+
+<p>Ubirajara apanhou-as no ar:</p>
+
+<p>&mdash;Este é o emblema da união. Ubirajara fará a
+nação tocantim tão poderoza como a nação araguaia.
+Ambas serão irmãs na gloria e formarão
+uma só, que ha de ser a grande nação de Ubirajara,
+senhora dos rios, montes e florestas.</p>
+
+<p>O chefe dos chefes ordenou que tres guerreiros
+araguaias e tres guerreiros tocantins, ligassem com
+o fio do crautá as hastes dos dois arcos.</p>
+
+<p>Quando o arco de Camacan e o arco de Itaquê
+não fizeram mais que um, Ubirajara o empunhou
+na mão possante e mostrou-o ás nações:</p>
+
+<p>&mdash;Abarés, chefes, moacaras e guerreiros de
+minhas nações, aqui está o arco de Ubirajara, o
+chefe dos grandes chefes. Suas flechas são gemeas,
+como as duas nações, e voam juntas.</p>
+
+<p>Ambas as cordas brandiram a um tempo. A seta<span class="pagenum"><a name="Page_97" id="Page_97">[97]</a></span>
+araguaia e a seta tocantim partiram de novo como
+duas aguias que par a par remontam ás nuvens.</p>
+
+<p>Quando se calou a pocema do triunfo, Ubirajara
+caminhou para a filha de Itaquê:</p>
+
+<p>&mdash;Arací, estrela do dia, tu pertences a Ubirajara
+que te conquistou pela força de seu braço. Agora
+que é senhor, elle espera tua vontade.</p>
+
+<p>A formoza virjem rompeu a liga vermelha que
+lhe cinjia a perna, e atou-a ao pulso de seu guerreiro.</p>
+
+<p>Ubirajara tomou a espoza aos hombros e levou-a
+á cabana do cazamento.</p>
+
+<p>O jasmineiro semeava de flôres perfumadas a
+rêde do amor.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>O outro sol rompia, quando os tapuias estenderam
+pela campina a multidão de seus guerreiros.</p>
+
+<p>Na frente assomava Agniná, a montanha dos
+guerreiros, ainda mais feroz do que o irmão, o
+terrivel Canicran.</p>
+
+<p>De um lado e do outro seguiam-se os chefes,
+cada um á frente de seus guerreiros.</p>
+
+<p>Ubirajara escolheu mil guerreiros araguaias e mil
+guerreiros tocantins, com que saiu ao encontro dos
+tapuias.</p>
+
+<p>Depois que desdobrou sua batalha pela campina,
+o chefe dos chefes caminhou só para o inimigo.</p>
+
+<p>Quando chegava a meio do campo, os tapuias
+levantaram a pocema de guerra, que atroou os ares,
+como o estrépito da cachoeira.</p>
+
+<p>Um turbilhão de setas crivou o longo escudo do<span class="pagenum"><a name="Page_98" id="Page_98">[98]</a></span>
+heróe, que ficou semelhante ao grosso tronco da
+jussára, erriçado de espinhos.</p>
+
+<p>Ubirajara embraçou o escudo na altura do hombro,
+e com o pé brandiu sete vezes a corda do
+grande arco gemeo.</p>
+
+<p>As setas vermelhas e amarelas subiram direitas
+ao céu e se perderam nas nuvens.</p>
+
+<p>Quando voltaram, Agniná e os chefes que obedeciam
+a seu arco, tinham cada um fincado na cabeça
+o dezafio do formidavel guerreiro.</p>
+
+<p>Enfurecidos mais pelo insulto, do que pela dôr,
+arremessaram-se contra o inimigo que os esperava
+coberto com seu vasto escudo.</p>
+
+<p>Agniná era o primeiro na corrida, e o primeiro
+na sanha. Após elle vinham os outros, a dois e dois,
+lutando na rapidez.</p>
+
+<p>Quando o espozo de Arací viu que elles se estendiam
+pela campina, como dois ribeiros que se
+aproximam para confundir suas aguas, o heróe empunhou
+a lança de duas pontas e soltou seu grito
+de guerra que era como o bramir do jaguar, senhor
+da floresta.</p>
+
+<p>Seu pé devorou o espaço; e a lança de duas
+pontas girou em sua mão, como a serpente que se
+enrosca nos ares silvando.</p>
+
+<p>Caiu Agniná do primeiro bote; após elle caíram
+aos dois os chefes tapuias, como caem os juncos
+talhados pelo dente afiado da capivara.</p>
+
+<p>Então o heróe soltou seu grito de triunfo, que
+era como o rujido do vento no dezerto:</p>
+
+<p>&mdash;Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro
+invencivel que tem por arma uma serpente.</p>
+
+<p>«Eu sou Ubirajara, o senhor das nações, o chefe
+dos chefes, que varre a terra, como o vento do
+dezerto.»</p>
+
+<p>O heróe estendeu a vista pela campina, e não
+descobriu mais o inimigo, que se sumia na poeira.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_99" id="Page_99">[99]</a></span></p>
+
+<p>Ubirajara lançou-lhe seus guerreiros, que tinham
+fome de vingança; porém o terror de sua lança dava
+azas aos fujitivos.</p>
+
+<p>Desde esse dia nunca mais um tapuia pizou as
+marjens do grande rio.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>Ubirajara voltou á cabana, onde o esperava Arací.</p>
+
+<p>A espoza despiu as armas de seu guerreiro, enxugou-lhe
+o corpo com o macio cotão da monguba,
+e cobriu-o do balsamo fragrante da embaiba.</p>
+
+<p>Encheu depois de generozo cauim a taça vermelha
+feita do côco da sapucaia; e aplacou a sêde do
+combate.</p>
+
+<p>Emquanto nas grandes tabas se preparava a
+festa do triunfo e o heróe repouzava na rêde,
+Arací foi ao terreiro, e voltou conduzindo Jandira
+pela mão.</p>
+
+<p>&mdash;Arací, tua espoza, é irmã de Jandira. Ubirajara
+é o chefe dos chefes, senhor do arco das duas
+nações. Elle deve repartir seu amor por ellas, como
+repartiu sua força.</p>
+
+<p>A virjem araguaia pôz no guerreiro seus olhos
+de corça.</p>
+
+<p>&mdash;Jandira é serva de tua espoza; seu amor a
+obrigou a querer o que tu queres. Ella ficará em
+tua cabana para ensinar a tuas filhas como uma
+virjem araguaia ama seu guerreiro.</p>
+
+<p>Ubirajara cinjiu ao peito com um e outro braço,
+a espoza e a virjem.</p>
+
+<p>&mdash;Arací é a espoza do chefe tocantim; Jandira<span class="pagenum"><a name="Page_100" id="Page_100">[100]</a></span>
+será a espoza do chefe araguaia; ambas serão as
+mãis dos filhos de Ubirajara, o chefe dos chefes,
+e o senhor das florestas.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+<p>As duas nações, dos araguaias e dos tocantins,
+formaram a grande nação dos Ubirajaras, que tomou
+o nome do heróe.</p>
+
+<p>Foi esta poderoza nação que dominou o dezerto.</p>
+
+<p>Mais tarde, quando vieram os caramurús, guerreiros
+do mar, ella campeava ainda nas marjens do
+grande rio.</p>
+
+
+
+
+<h2>FIM</h2>
+<hr class="chap" /><p><span class="pagenum"><a name="Page_101" id="Page_101">[101]</a></span></p>
+
+
+
+
+<h2><a name="NOTAS" id="NOTAS"></a>NOTAS<br />
+<br />
+ADVERTENCIA</h2>
+
+
+<p>Este livro é irmão de Iracema.</p>
+
+<p>Chamei-lhe de lenda como ao outro. Nenhum titulo responde
+melhor pela propriedade, como pela modestia, ás
+tradições da patria indijena.</p>
+
+<p>Quem por desfastio percorrer estas pajinas, se não tiver
+estudado com alma brazileira o berço de nossa nacionalidade,
+ha de estranhar entre outras coizas a magnanimidade que
+resumbra no drama selvajem e lhe fórma o vigorozo relevo.</p>
+
+<p>Como admitir que barbaros, quais nos pintaram os indijenas,
+brutos e canibais, antes féras que homens, fossem
+sucetiveis desses brios nativos que realçam a dignidade do
+rei da creação?</p>
+
+<p>Os historiadores, cronistas e viajantes da primeira época,
+se não de todo o periodo colonial, devem ser lidos á luz de
+uma critica severa. É indispensavel sobretudo escoimar os
+fatos comprovados das fabulas a que serviam de mote, e
+das apreciações a que os sujeitavam espiritos acanhados,
+por demais embuidos de uma intolerancia rispida.</p>
+
+<p>Homens cultos, filhos de uma sociedade velha e curtida
+por longo trato de seculos, queriam esses forasteiros achar
+nos indijenas de um mundo novo e segregado da civilização
+universal uma perfeita conformidade de idéas e costumes.
+Não se lembravam, ou não sabiam, que elles mesmos provinham
+de barbaros ainda mais ferozes e grosseiros do que
+os selvajens americanos.</p>
+
+<p>Desta prevenção não escaparam muitas vezes espiritos
+graves e bastante ilustrados para escreverem a historia sob
+um ponto de vista mais largo e filozofico.</p>
+
+<p>Entre muitos citarei um exemplo. Barloeus referindo as
+justas que se faziam entre os selvajens para obterem em
+premio de seu valor a virjem mais formoza, não se esqueceu
+de acrecentar este comento&mdash;<i>finis spectantium est voluptas</i>.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_102" id="Page_102">[102]</a></span></p>
+
+<p>Narrados com este pessimismo, as cenas da cavalaria, os
+torneios e justas não passariam de manejos inspirados pela
+sensualidade. Nada rezistiria á censura ou ao ridiculo.</p>
+
+<p>Por igual teor, senão mais grosseiras, são as apreciações
+de outros escritores ácerca dos costumes indijenas. As
+coizas mais poeticas, os traços mais generozos e cavalheirescos
+do carater dos selvajens, os sentimentos mais nobres
+desses filhos da natureza, são deturpados por uma linguajem
+impropria, quando não acontece lançarem á conta dos indijenas
+as extravagancias de uma imajinação desbragada.</p>
+
+<p>Releva ainda notar, que duas classes de homens forneciam
+informações ácerca dos indijenas: a dos missionarios
+e a dos aventureiros. Em luta uma com outra, ambas se
+achavam de acôrdo nesse ponto, de figurarem os selvajens
+como féras humanas. Os missionarios encareciam assim a
+importancia de sua catequese; os aventureiros buscavam
+justificar-se da crueldade com que tratavam os indios.</p>
+
+<p>Faço estas advertencias para que, ao lerem as palavras
+textuais dos cronistas citados nas notas seguintes, não se
+deixem impressionar por suas apreciações muitas vezes
+ridiculas. É indispensavel escoimar o fato dos comentos de
+que vem acompanhado, para fazer uma idéa exata dos costumes
+e indole dos selvajens.</p>
+
+<hr class="tb" />
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_5">Paj. 5</a></p>
+
+<p><i>Grande rio</i>.&mdash;Os tupís chamavam assim ao maior rio que
+existia na rejião por elles habitada: e daí rezultou ficarem
+tantos rios com essa dezignação na lingua orijinal ou traduzida.</p>
+
+<p>O rio grande de que se trata nesta lenda é o Tocantins,
+em cujas marjens se passa a ação dramatica.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_5">Paj. 5</a></p>
+
+<p><i>Jaguarê</i>.&mdash;Nome composto de <i>Jaguar</i>, a onça e o sufixo <i>ê</i>
+que na lingua tupí reforça emfaticamente a palavra a que se
+liga. <i>Jaguarê</i>, significa, pois, a onça, verdadeiramente onça,
+digna do nome, por sua força, corajem e ferocidade.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_103" id="Page_103">[103]</a></span></p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_5">Paj. 5</a></p>
+
+<p><i>Uiraçaba</i>.&mdash;Nome que davam os tupís á aljava, de <i>uira</i>&mdash;seta
+e <i>aba</i>&mdash;dezinencia exprimindo o logar, modo e instrumento;
+literalmente «o que tem a seta.»</p>
+
+<p>Os selvajens a faziam, ou do tubo de taquarussú, ou da
+casca de certas arvores, guarnecida de fios embebidos de
+rezina, o que as tornava muito rezistentes.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_6">Paj. 6</a></p>
+
+<p><i>Nome de guerra</i>.&mdash;«Mal nacia a criança logo se lhe punha
+nome. Hans Stade achou-se prezente numa dessas ocaziões.
+Convocou o pai aos mais proximos vizinhos de dormitorio,
+pedindo-lhes para o filho um nome viril e terrivel; não lhe
+agradando nenhum dos propostos, declarou que ia escolher
+o de um de seus quatro antepassados, o que daria fortuna
+ao rapaz, e repetindo-o em voz alta, fixou a escolha. Ao
+chegar á idade de ir á guerra, dava-se outro nome ao mancebo
+que aos seus titulos ia acrecentando um por inimigo
+que trazia para caza a ser imolado. Tambem a mulher tomava
+adicional apelido quando o marido dava uma festa antropofaga.
+De objetos viziveis se tirava o cognome, determinando
+o orgulho ou a ferocidade a escolha. O epiteto <i>grande</i> frequentemente
+se compunha com o nome. Southey, <i>H. do Brazil</i>,
+tom. 1<sup>o</sup>, cap. 8<sup>o</sup>, paj. 336.</p>
+
+<p>Póde-se ler tambem a este respeito o que diz Gabriel
+Soares, cit. no cap. 160, ácerca do nome que tomava o
+tupinambá quando matava o contrario, e no cap. 164 onde
+acrecenta: «Acontece muitas vezes cativar um tupinambá a
+um contrario na guerra, onde o não quiz matar para o trazer
+cativo para sua aldêa, onde o faz engordar com as ceremonias
+já declaradas para o deixar matar a seu filho quando
+é moço e não tem idade para ir á guerra, o qual o mata
+em terreiro, como fica dito, com as mesmas ceremonias;
+mas atam as mãos ao que ha de padecer, <i>para com isso o
+filho tomar nome novo e ficar</i> armado cavaleiro e mui estimado
+de todos.»</p>
+
+<p>A este trecho de Gabriel Soares é precizo dar o devido
+desconto ácerca da engorda do cativo, e do papel insignificante
+que reprezenta o mancebo. Devemos crer que entre
+gente, cuja alma era a guerra, o titulo de guerreiro não se
+conferia ao mancebo que não fizesse prova real de seu
+esforço e corajem.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_104" id="Page_104">[104]</a></span></p>
+
+<p>Ives d'Evreux, cap. XXI, trata minuciozamente da graduação
+que a idade estabelecia entre os tupís. Havia para
+os guerreiros seis classes: 1<sup>o</sup> das crianças até dois anos,
+<i>mitanga</i>, que significa chupador ou mamador; 2<sup>o</sup> <i>curumim
+mirim</i>, isto é o pequeno que balbucia; compreendia os meninos
+até sete anos; 3<sup>o</sup> <i>curumim</i> simplesmente, correspondia
+á segunda infancia de 7 a 15 anos; 4<sup>o</sup> <i>curumim-guassú</i>, era a
+adolecencia, em que os rapazes se empregavam na caça e
+na pesca; 5<sup>o</sup> <i>aba</i>&mdash;o homem, indicava o principio da virilidade,
+o qual logo que se cazava tornava-se apiaba, o varão,
+ou como diz d'Evreux, <i>mendarama</i>, o cazado; 6<sup>o</sup> <i>tijubaê</i>, o
+ancião ou veterano, o homem de experiencia, guerreiro
+consumado.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_6">Paj. 6</a></p>
+
+<p><i>Jandira</i>.&mdash;O nome é <i>jandaíra</i>, de uma abelha que fabrica
+excelente mel; Jandira é uma contração mais eufonica
+daquelle nome, que tambem por sua vez é contração de
+<i>Jemonhaíra</i>, que fabrica mel.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_6">Paj. 6</a></p>
+
+<p><i>Aratuba</i>.&mdash;Palavra que se compõe de <i>ara</i>&mdash;o sol e <i>tuba</i>&mdash;infinito
+do verbo <i>ajub</i>&mdash;estar deitado. Vem a ser a significação
+<i>leito do sol</i>, aplicada pelos indios á montanha do
+poente, onde o sol se esconde no seu ocazo.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_6">Paj. 6</a></p>
+
+<p><i>Lança</i>.&mdash;O uzo da lança não era comum aos selvajens,
+que empregavam de preferencia o arco, o tacape, a macana,
+e a igarapema, especie de remo, que fazia as vezes de partazana.
+Outros escrevem <i>iverapema</i>; mas o nome é aquelle
+de <i>igara-pema</i>, espada da canôa; basta ver-lhe a fórma para
+compreender seu duplo destino.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_6">Paj. 6</a></p>
+
+<p><i>Craúba</i>.-É a mesma <i>carabiuba</i> dos indios, assim contraída
+pelo uzo dos nossos sertanejos. Madeira roxa, excessivamente
+rija, que não cede ao páu-ferro no pezo e na
+dureza.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_105" id="Page_105">[105]</a></span></p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_7">Paj. 7</a></p>
+
+<p><i>A liga vermelha</i>.&mdash;Era este um dos mais curiozos e interessantes
+ritos dos tupís.</p>
+
+<p>Quando a menina atinjia a puberdade, depois de sua
+purificação, da qual tratam os autores, especialmente Orbigny
+e Thevet, a mãi punha-lhe nas pernas, abaixo do joelho,
+uma liga de fio de algodão tinta de vermelho, de tres dedos
+de largura, e tecida no proprio logar de modo que uma vez
+fechada, não era mais possivel tiral-a. Vide Gabriel Soares,
+cap. 153.</p>
+
+<p>A essa liga chamavam <i>tapacora</i>, e não a podia trazer
+senão a virjem, de modo que se acontecesse quebrar a castidade
+havia de rompel-a, para que todos conhecessem sua
+falta. Eis como Gabriel Soares se exprime a este respeito
+no cap. 152: «E como o marido lhe leva a flôr, é obrigada a
+noiva a quebrar estes fios para que seja notorio que é feita
+dona; e ainda que uma moça destas seja deflorada por quem
+não seja seu marido, ainda que seja em segredo, ha de romper
+os fios de sua virjindade, que de outra maneira cuidará
+que a leva o diabo, os quais dezastres lhes acontecem muitas
+vezes, etc.»</p>
+
+<p>Este simples traço é bastante para dar uma idéa da
+moralidade dos tupís, e vingal-a contra os embustes dos
+cronistas, que por não compreenderem seus costumes,
+foram-lhes emprestando gratuitamente, quanto inventavam
+exploradores mal informados e prevenidos.</p>
+
+<p>Em que sociedade civilizada se observa tão profundo
+respeito pela união conjugal, a ponto de não consentir-se
+que a mulher decaída conserve o segredo de sua falta, e
+iluda o homem que a busque para espoza?</p>
+
+<p>A rezignação com que a moça culpada rompia a liga da
+virjindade, e fazia confissão publica de seu erro, é um
+exemplo da lealdade do carater tupí e da veneração que
+inspiravam os ritos de sua relijião.</p>
+
+<p>Nega Southey, cap. VIII, que a liga vermelha e o respeito
+que ella inspirava indicassem guarda da castidade,
+porquanto a castidade como a caridade é virtude da civilização;
+do mesmo modo considera o amor uma delicadeza da
+vida civilizada. São paradoxos de escritor. Sentimentos
+naturais á creatura humana, dezenvolvem-se nella em qualquer
+estado e condições.</p>
+
+<p>Não é possivel negar a castidade da mulher tupí; além
+desse recato da virjindade, prova-a de modo cabal a continencia
+que homens e mulheres guardavam em certas cir<span class="pagenum"><a name="Page_106" id="Page_106">[106]</a></span>cumstancias.
+Assim, nenhum homem tinha relações com a
+mulher inubil, nem ella o consentia; o proprio marido não
+violava essa lei, embora tivesse a espoza em seu poder.
+Gabriel Soares cit. Durante a gravidez e a amamentação
+interrompia-se absolutamente o ajuntamento conjugal. (Barl&#339;us
+2<sup>a</sup> edic.)</p>
+
+<p>Onde está a sociedade civilizada, que observe leis tão
+rigorozas, e refreie os instintos sensuais com a severidade
+uzada pelos tupís?</p>
+
+<p>Poderiamos fazer muitas outras observações que rezervamos
+para um estudo especial ácerca dos selvajens brazileiros.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_7">Paj. 7</a></p>
+
+<p><i>Tocantim</i>.&mdash;Compõe-se de <i>tocano</i> e <i>tim</i>; literalmente o
+nariz, o rostro do tucano. Nome que tomou um guerreiro
+por trazer na cabeça o despojo de um tucano com o grande
+bico da ave; e que transmitido a uma nação selvajem, ficou
+dezignando o rio a cujas marjens vivia.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_7">Paj. 7</a></p>
+
+<p><i>Taarí</i>.&mdash;Rio que despeja no Tocantins, pouco depois da
+confluencia do Araguaia. Indica o logar da cena.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_7">Paj. 7</a></p>
+
+<p><i>Araguaia</i>.&mdash;O nome é araguara, de <i>ara</i> e <i>guara</i>, literalmente,
+os guerreiros das araras, porque uzavam nos seus ornatos
+das penas encarnadas daquellas aves. Conservei a versão que
+ficou no nome do rio.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_8">Paj. 8</a></p>
+
+<p><i>Arací</i>.&mdash;Esta palavra tupí compõe-se de <i>ara</i>, dia, e <i>ceí</i> ou
+<i>cejí</i>, grande estrela. Este ultimo nome davam os indijenas ás
+pleiades, que lhes serviam para contar os anos.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_8">Paj. 8</a></p>
+
+<p><i>Cem dos melhores guerreiros</i>.&mdash;Nesta e outras frazes identicas,
+os numerais cem ou mil não reprezentam algarismo<span class="pagenum"><a name="Page_107" id="Page_107">[107]</a></span>
+exato, que não os tinham os tupís para exprimir numero tão
+elevado. Traduzem apenas esses termos a dezinencia <i>tiba</i>,
+com que os tupís dezignavam cópia e multidão.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_9">Paj. 9</a></p>
+
+<p><i>Canitar</i>.&mdash;Enfeite de cabeça. Adotei esta dezignação
+empregada pelos autores sob a autoridade de Hans Stade
+por me parecer mais eufonica. A exata lição pede <i>acanga
+atara</i>.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_9">Paj. 9</a></p>
+
+<p><i>As duas nações não estão em guerra</i>.&mdash;As nações tupís não
+viviam em um estado perene de guerra, como propalaram
+alguns escritores. A guerra era frequente; mas não constante.
+As nações faziam a paz e nella se mantinham até que
+sobrevinha alguma cauza de rompimento. Então não começavam
+as hostilidades senão depois de anunciada a guerra
+ao inimigo, o que se fazia lançando-lhe uma flecha na taba,
+ou levando-lhe um guerreiro o dezafio.</p>
+
+<p>É uma prova do carater leal dos selvajens. Foi depois
+da colonização, que os portuguezes, assaltando-os como a
+feras, e caçando-os a dente de cão, ensinaram-lhes a traição
+que elles não conheciam.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_10">Paj. 10</a></p>
+
+<p><i>Pojucan</i>.&mdash;Contração de uma fraze tupica.<i>I-pojuca</i>;&mdash;significa:
+eu mato gente. Essas contrações não são arbitrarias;
+ellas eram da indole da lingua e conformes ao seu
+sistema de aglutinação. Todas as vezes que os indijenas
+compunham uma palavra, cerceavam as sílabas dos vocabulos
+que entravam na compozição, para ligal-as mais eufonicamente.</p>
+
+<p>Lemos em Alfred Maury <i>La Terre et l'homme</i>, cap. VIII, o
+seguinte trecho:</p>
+
+<p>«Nas linguas americanas, não é sómente uma sinteze que
+concentra em uma palavra todos os elementos da idéa mais
+complexa; ha ainda engrazamento (enchevêtrement) das palavras
+umas nas outras; é o que M. F. Lieber chama <i>incapsulação</i>,
+comparando a maneira por que as palavras entram
+na fraze a uma caixa na qual se conteria outra que a seu
+turno conteria terceira, esta uma quarta, e assim por diante.<span class="pagenum"><a name="Page_108" id="Page_108">[108]</a></span>
+A incorporação das palavras é por vezes levada á extrema
+exajeração nesses idiomas, o que produz a mutilação dos
+vocabulos incorporados.»</p>
+
+<p>Esta observação é da maior justeza e conforma-se de
+todo o ponto com a indole da lingua, como se vê nas seguintes
+palavras&mdash;<i>A-por-u</i>&mdash;como gente&mdash;<i>A-poro-tim</i>&mdash;enterro
+gente&mdash;<i>A-po-çub</i>&mdash;vizito a gente. (Vide Figueira, <i>Gramatica
+da lingua do Brazil</i>, paj. 51.)</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_10">Paj. 10</a></p>
+
+<p><i>Tapuia</i>.&mdash;de <i>taba</i> e <i>puir</i>, o que foje das tabas. Davam os
+indijenas esse nome a povos mais barbaros e de lingua diversa.
+Segundo as ultimas investigações etnolojicas, pertenciam
+esses povos a uma raça diversa da tupí, e muito
+aproximada, senão conjenere do tipo mongolico. Entretanto
+Orbigny, <i>L'Homme Américain</i>, sustenta a identidade das duas
+raças, tapuia e tupí.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_10">Paj. 10</a></p>
+
+<p><i>Tacape</i>.&mdash;Davam os tupís o nome de <i>apem</i>, a um corpo
+alongado de fórma analoga á espada, e como ella cortante.
+Daí vinha chamarem a unha&mdash;<i>po-apem</i>, espada do dedo; e
+á raiz que surje da terra e se eleva como um galho&mdash;<i>sapopema</i>&mdash;raiz
+espada.</p>
+
+<p>Á sua principal arma de guerra chamavam <i>ita-ca-apem</i>,
+espada de páu-pedra; ou <i>ita-qui-apem</i>, machado comprido de
+pedra, por ter sido dessa materia que primeiro o fabricaram,
+antes de aprenderem a lavrar a madeira.</p>
+
+<p>Ácerca da força dessa arma e da destreza com que a
+manejavam, diz Lery que um tupinambá com ella armado
+daria que fazer a dois soldados de espada.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_10">Paj. 10</a></p>
+
+<p><i>Guerreiro chefe</i>.&mdash;Para compreender-se bem a força dessa
+dezignação, diremos alguma coiza ácerca da hierarquia selvajem.</p>
+
+<p>Como a relijião, era simples o governo dos tupís; mas
+não careciam delle, segundo inculcam os cronistas: antes o
+tinham, e bem regulado para o seu estado de civilização.</p>
+
+<p>Podemos distinguir na taba selvajem uma sociedade civil<span class="pagenum"><a name="Page_109" id="Page_109">[109]</a></span>
+e uma sociedade politica; a primeira reduzida á familia, e a
+segunda excluziva á subzistencia, defeza e guerra.</p>
+
+<p>A sociedade civil era constituida pela <i>oca</i>, a caza, onde
+o varão, <i>aba</i>, morava com suas mulheres, sua prole, os servos
+que trabalhavam para granjear as filhas em cazamento,
+os cativos que fazia na guerra, e os parentes que agregava
+a si.</p>
+
+<p>O dono da caza, ou literalmente o que fazia a caza,
+<i>moacara</i>, era a perfeita imajem do patriarca. Elle governava
+a sua gente; e formava uma sociedade independente, no
+seio da grande sociedade politica, de que era membro e para
+cuja defeza concorria não só por interesse proprio, mas pela
+honra da nação.</p>
+
+<p><i>Moacara</i> nos dicionarios significa fidalgo. A tradução
+resente-se da preocupação do homem civilizado; mas havia
+realmente uma distinção entre o <i>moacara</i>, chefe da oca, pai
+de muitos guerreiros, e o simples individuo que ainda não
+possuia uma familia.</p>
+
+<p>A sociedade politica, <i>taba</i>, era a reunião das ocas. Essa
+denominação vem de <i>tama</i>, a patria, o berço, a terra natal,
+e <i>aba</i> dezinencia que indica o logar, modo, instrumento da
+coiza. Assim, <i>taba</i> significa literalmente onde ou o que faz
+a patria, isto é, aldeia natal.</p>
+
+<p>O governo da <i>taba</i>, essencialmente democratico, rezidia
+no conselho dos <i>moacaras</i>, entre os quais predominava a
+experiencia dos anciãos, que se chamavam <i>abarés</i> ou <i>abaetês</i>;
+isto é, varões egrejios.</p>
+
+<p>Nações essencialmente guerreiras, tinham um chefe para
+governal-as nas jornadas e batalhas. A estes davam o nome
+de <i>tuxava</i>, ou <i>tauxaba</i>, o dono da taba, <i>morubixaba</i>, o que
+governa o povo; de <i>moro</i>, gente, e <i>aba</i>, dezinencia.</p>
+
+<p>Quando as nações eram grandes e não cabiam numa taba,
+destacavam-se alguns <i>moacaras</i> com suas familias e formavam
+novas tabas, sujeitas á taba mãi. Daí se orijinaria a
+diferença das duas dezignações, vindo então <i>tauxaba</i> a dezignar
+o simples chefe de uma taba; e <i>morubixaba</i> o chefe
+da taba primitiva, ou da nação, <i>moro</i>.</p>
+
+<p>Tambem acontecia que muitas vezes um <i>moacara</i> poderozo
+separava-se de sua nação por cauza de alguma dissenção
+intestina, e constituia-se independente com seus decendentes,
+e os guerreiros a elle sujeitos pelo parentesco. Essa
+<i>oca</i> independente, chamava-se <i>moroca</i>, isto é, oca de gente,
+de tribu e não mais de familia. O termo <i>moloca</i> tão frequente
+nos cronistas não é senão corruptela daquelle, e póde corresponder
+ao de tribu ou horda.</p>
+
+<p>A nomeação do chefe participava da natureza dessa so<span class="pagenum"><a name="Page_110" id="Page_110">[110]</a></span>ciedade
+democratica e guerreira. O mais audaz e o mais
+forte impunha-se: a permanencia de sua autoridade, bem
+como sua extensão, dependia do respeito que elle conseguia
+infundir a seus guerreiros.</p>
+
+<p>No momento em que surjia outro ambiciozo a disputar o
+poder, este tornava-se o premio do mais valente. Acontecia
+então que o vencido com seus sectarios revoltava-se; e daí
+as frequentes guerras intestinas, que aniquilaram a raça indijena,
+ainda mais talvez do que a crueldade dos europeus.</p>
+
+<p>Na morte do <i>morubixaba</i> ocorria igual pleito. O filho
+apossava-se do poder pelo direito de herança; e o conservava
+se não aparecia algum emulo mais poderozo que lh'o
+arrebatasse.</p>
+
+<p>Falando com as nossas teorias da civilização, podemos
+dizer que a baze desse poder executivo era, como nas republicas,
+o sufragio universal. Mas era o sufragio sempre
+ativo e vijilante, pronto a inclinar-se ao merecimento superior,
+onde elle se revelasse.</p>
+
+<p>Entre o chefe guerreiro (poder executivo), e o conselho
+dos <i>moacaras</i> (poder lejislativo) os conflitos eram inevitaveis.
+Morubixaba haveria, como o celebre Cunhanbebe, que
+era um verdadeiro despota. O tacape de muito heróe tupí
+ha de ter governado tão absolutamente como a espada de
+Cezar ou de Napoleão.</p>
+
+<p>Outros conflitos tambem se deviam dar frequentemente
+entre a influencia dos <i>pajés</i> e o poder do chefe ou dos anciãos.
+Aquelles sacerdotes, cercados do respeito dos guerreiros,
+fortes pelo prestijio de seus augurios e sortilejios,
+tentariam insuflados pela ambição governar a taba, ou pelo
+menos fomentar a rezistencia ao chefe.</p>
+
+<p>Eis em escorço as paixões que deviam ajitar aquella
+sociedade politica, depois da guerra que era a maior preocupação.</p>
+
+<p>Além das ocas, ou familias, havia na taba uma especie
+de oca mais vasta e comum. Nessa parece que moravam
+aquellas pessoas, que já não tinham oca, e estavam a cargo
+da nação; tais eram as <i>velhas</i>, e por este nome devem-se
+entender as mulheres sem companhia de marido, nem parentes;
+os orfãos, aos cuidados daquellas mãis emprestadas;
+e finalmente as moças que não faziam vida conjugal.</p>
+
+<p>Vejamos agora a sociedade civil, tal como a podemos
+induzir dos acanhados esclarecimentos que nos deixaram
+os cronistas.</p>
+
+<p>O cazamento, baze da familia, devia ter alguma ceremonia
+simbolica, ainda que não passasse da simples entrega
+da noiva ao varão. Essa minha supozição funda-se no fato<span class="pagenum"><a name="Page_111" id="Page_111">[111]</a></span>
+de haver entre esses povos um cazamento bem caracterizado,
+e não simples coito.</p>
+
+<p>A mulher lejitima distinguia-se pelo nome. O marido a
+chamava <i>temireco</i>, isto é, a verdadeira mãi de meus filhos;
+emquanto que ás outras mulheres, suas amantes, chamava
+<i>aguaçaba</i>. O marido tinha tambem um nome especial <i>menda</i>,
+que o distinguia do simples amante.</p>
+
+<p>Acrece que para obter a noiva o varão sujeitava-se a
+certas condições, e até mesmo a provas de corajem; donde
+devemos inferir com boa razão, que não era esse um ato
+insignificante para os selvajens, a ponto de não o distinguirem
+com uma fórmula qualquer, elles que em outros pontos
+eram tão ceremoniozos, como na recepção do hospede, na
+declaração da paz ou da guerra.</p>
+
+<p>Os cronistas, porém, não se ocuparam disso e todo seu
+tempo foi pouco para lamentarem a poligamia dos tupís, tirando
+logo dalí argumento para pintarem os selvajens vivendo
+a modo de cães.</p>
+
+<p>É uma falsidade. Os tupís tinham moralidade conjugal,
+e até muito severa. O adulterio era punido de morte; e
+tambem por isso permitia-se o divorcio por mutuo consentimento.</p>
+
+<p>A poligamia dos tupís foi da mesma natureza da que existiu
+entre os hebreus; era uma poligamia patriarcal, filha
+das condições da vida selvajem, e não a poligamia sensual
+dos turcos e outros povos do oriente, produzida unicamente
+pelo requinte da libidinajem.</p>
+
+<p>Compreende-se que no estado selvajem ou primitivo, a
+mulher, fraca para rezistir aos perigos que a rodeavam,
+tinha necessidade de acolher-se ao amparo e proteção do
+homem. Por outro lado cada varão, no interesse não sómente
+de sua gloria, como de seu poder, carecia rodear-se de uma
+familia numeroza, e de gerar do seu proprio sangue, os seus
+guerreiros.</p>
+
+<p>Entretanto, e é isto que distingue a poligamia patriarcal,
+a posse de muitas mulheres não destruia a instituição da
+familia, bem caracterizada pela preeminencia da primeira
+mulher ou a verdadeira espoza; e pela adoção dos filhos
+nacidos das outras mulheres, que se tornavam todos filhos
+da espoza, ou da verdadeira mãi, <i>temireco</i>.</p>
+
+<p>Muita coiza poderia dizer ácerca da educação dos filhos
+e da condição da mulher, mas não cabe esse estudo em
+uma nota. Mais tarde e a propozito é possivel que o faça.</p>
+
+<p>Para a intelijencia do texto basta saber-se que além da
+espoza, <i>temireco</i>, mãi da familia, das amantes, <i>aguaçabas</i>, que
+<span class="pagenum"><a name="Page_112" id="Page_112">[112]</a></span>faziam parte da familia na condição de servas, havia&mdash;1.<sup>o</sup> as
+virjens, <i>cunhantem</i>, mulheres debalde, que pertenciam á
+familia, e se destinavam para espozas dos guerreiros que
+as obtivessem pelas provas de esforço e denodo; 2.<sup>o</sup> as velhas,
+ou mulheres já privadas de seus maridos, e que ficavam
+sob a proteção da comunhão, incumbidas da educação
+dos orfãos, e dos filhos anonimos; 3.<sup>o</sup> as <i>moças</i> ou mulheres
+que desprezavam o cazamento e viviam livremente aceitando
+o amor do guerreiro que lhes agradava, e do qual tinham
+filhos, que não pertenciam á familia, mas á tribu; eram estas
+as mulheres que ofereciam seu amor como penhor de hospitalidade
+ao estranjeiro que chegava á taba; 4.<sup>o</sup> finalmente,
+a classe infeliz, abandonada de todo o sentimento e de todo
+o pudor, á qual davam o nome de <i>morixaba</i>, literalmente
+coiza de todos; ou, segundo o testemunho de Ives d'Evreux,
+<i>menondere</i>, que equivalia a ladra; porquanto entendiam os
+selvajens que a mulher roubava seu primeiro amante dando
+ou vendendo a outro o amor que lhe pertencia.</p>
+
+<p>Ainda nesta ultima escala, se estão manifestando as leis
+severas do recato e fidelidade da união sexual entre os selvajens.
+Além do cazamento lejitimo, havia o concubinato,
+como existiu entre os romanos, produzindo direito e obrigação
+reciproca. A mulher que traía a fé conjugal, ou o concubinato,
+era uma adultera, isto é, uma ladra e decia á ultima
+infamia. O marido tinha o direito de matal-a; o amante entregava-a
+ao desprezo da tribu.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_10">Paj. 10</a></p>
+
+<p><i>Jaguarê agradece a Tupan</i>.&mdash;Não achando entre os aborijenes
+templos e idolos, ainda que alguns cronistas atestam
+a existencia dos ultimos, foram os colonizadores peremptoriamente
+declarando ateus a esses povos. Mas logo, com
+incoerencia flagrante, reconheciam a existencia de uma
+superstição, que outra coiza não é a relijião na infancia da
+humanidade.</p>
+
+<p>Os tupís adoravam uma excelencia superior, Tupan, que
+se manifestava pelo raio e pelo trovão; donde se induz o
+grande poder que atribuiam a essa divindade. Seu nome de
+raça aprezenta uma afinidade que faz prezumir a crença de
+uma decendencia celeste.</p>
+
+<p>Tambem temiam os tupís o espirito do mal, personificado
+em Anhanga, o fantasma, que habitava as trévas, e a quem
+referiam um poder funesto. Para conjurar essa divindade
+malefica, tinham sacerdotes, os pajés, que buscavam sua
+força e virtude no fumo da planta sagrada, o tabaco.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_113" id="Page_113">[113]</a></span></p>
+
+<p>Além disso contava a mitologia tupica genios bons e máus,
+que habitavam as florestas e os rios, e percorriam as solidões
+montados em caitetús, ou transformados em certos
+animais. Entre estes mencionarei o caipora e a mãi d'agua,
+cuja abuzão transmitiu-se á raça conquistadora, e de que
+ainda se encontram vestijios entre as populações do norte.</p>
+
+<p>Não ha contestar que aí está uma relijião bem caracterizada.
+Mas como faltassem templos e idolos, os decendentes
+dos barbaros gaulezes, godos, francos e celtas não podiam
+admitir na America uma relijião sem culto regular, qual
+a tiveram aquelles selvajens europeus.</p>
+
+<p>Entre os viajantes que mais tarde percorreram a America
+havia espiritos superiores, dedicados ao estudo da humanidade,
+que investigavam sem prevenções a orijem e indole
+das raças indijenas do novo mundo. Na primeira plaina destes
+sabios figura Alexandre de Humboldt.</p>
+
+<p>O eminente naturalista assinalou a cauza dessa auzencia
+de culto dos aborijenes do Brazil, quando observou que o
+antropomorfismo da divindade se manifesta por dois modos:
+da terra ao céu, como na Grecia, ou do céu á terra, como
+na America. <i>Voyage au Nouveau Continent</i>&mdash;8.<sup>o</sup> volume,
+paj. 243.</p>
+
+<p>Quando a imajinação do homem personificando a divindade
+á sua imajem a faz subir ao céu, como os numes pagãos
+da Grecia, ella é levada naturalmente a oferecer-lhe uma
+constante adoração com que mantêm o vinculo da creatura
+ao creador. Daí a necessidade de idolos, que simbolizem
+esses numes, e a tenham prezente aos olhos mortais.</p>
+
+<p>Diverso, porém, é quando, concebendo a divindade á sua
+imajem, o mortal a humana inteiramente, transportando-a
+do céu á terra. Então o homem figura-se não a creatura,
+mas o decendente, o filho de seu deus.</p>
+
+<p>Dezaparece a necessidade dos idolos, pois a verdadeira
+reprezentação da divindade na terra é o mesmo homem que
+a continúa. Cada um tem o seu nume em si. A adoração
+transforma-se naturalmente no culto da propria individualidade,
+nessa exajeração prodijioza do estalão humano, que
+distingue as idades heroicas.</p>
+
+<p>É pela ostentação da corajem, da força, da grandeza de
+animo, que o selvajem se elevava até o deus, seu projenitor;
+e não pela adoração, pelas preces e oferendas uzadas no
+paganismo grego, o qual estava bem lonje da humildade
+evanjelica do cristianismo. Os tupís não careciam, pois, de
+orações e sacrificios; as façanhas com que se mostravam
+dignos de sua orijem celeste eram as melhores oblações do
+seu culto.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_114" id="Page_114">[114]</a></span></p>
+
+<p>Tal era o respeito que o selvajem professava pela
+dignidade humana, que matava as pessoas mais caras
+quando não se podiam curar da enfermidade. Essa implacavel
+sujeição ao mal, abatia e humilhava uma raça forte e
+guerreira.</p>
+
+<p>Muitos outros exemplos podia aprezentar dessa elevada
+conciencia da individualidade, que distinguia no mais alto
+ponto o selvajem brazileiro.</p>
+
+<p>Eis o que não souberam ver os cronistas, quando taxaram
+de ateus aos indijenas americanos.</p>
+
+<p>Abstraindo da moral absoluta em que só ha uma verdade,
+a do cristianismo, e tomada a questão no ponto de vista da
+arte, não se póde recuzar a essa relijião tupí, que nivela o
+homem á divindade, certo cunho de grandeza selvajem e um
+vigorozo sentimento da individualidade.</p>
+
+<p>O paganismo grego lhe fica inferior nesse ponto da dignidade
+humana; ao passo que elle tornava a raça de Japeto
+escrava submissa dos deuzes, e vitima de seus caprichos e
+vinganças, na mitolojia americana o homem é o filho e o
+emulo da divindade.</p>
+
+<p>Á parte as ficções graciozas do espirito helenico, a mitolojía
+grega só tem uma creação que reveste a majestade da
+relijião tupí; é a creação dos semi-deuzes, em que se operava
+o antropomorfismo terrestre da divindade, qual se deu na
+America.</p>
+
+<p>Considerando-se divino, o selvajem americano acreditava-se
+combatido por um ente malefico, antagonista
+do deus de quem decendia. Nos achaques e mizeria que
+aflijem a humanidade via as manifestações desse poder
+funesto. Os sacerdotes o esconjuravam por sortilejios;
+os heróes, porém, rezistiam-lhe pela constancia e o afrontavam.</p>
+
+<p>Á essa relijião simples e sem aparato, como devia ser
+uma relijião das florestas, professada por povos caçadores
+e guerreiros, coroava a crença profunda e inalteravel da
+imortalidade da alma, revelada pela veneração ás cinzas dos
+mortos, e pelas ceremonias da inhumação.</p>
+
+<p>Os indijenas encerravam suas mumias em tumulos especiais,
+a que davam o nome de <i>Camucins</i>; e as acompanhavam
+não só das armas e objetos de uzo proprio, como de
+alimentos para a viajem aos campos alegres, onde iam reviver
+os guerreiros e suas mulheres.</p>
+
+<p>Basta este rapido esboço para dar idéa da relijião dos
+tupís, e avaliar o criterio daquelles que os consideravam
+estranhos a qualquer noção da divindade.</p>
+
+<p>Um povo que mantinha as tradições a que aludimos, não<span class="pagenum"><a name="Page_115" id="Page_115">[115]</a></span>
+era certamente um acervo de brutos, dignos do desprezo
+com que foram tratados pelos conquistadores. E quando,
+através de suas falsas apreciações, a verdade pôde chegar
+até nossos tempos, o que não seria, se espiritos despreocupados
+e de vistas menos estreitas, vivendo entre essas
+nações primitivas, se aplicassem ao estudo de suas crenças,
+tradições e costumes?</p>
+
+<p>Os jezuitas, que podiam melhor realizar esse estudo,
+eram induzidos a exajerar a ferocidade e ignorancia dos
+selvajens, no interesse de tornar indispensavel sua catequeze.
+Já imbuidos da intolerancia relijioza, a politica exajerava
+ainda mais sua suspeição.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_11">Paj. 11</a></p>
+
+<p><i>Ubiratan</i>.&mdash;Páu-ferro; literalmente <i>ubira</i>&mdash;madeira, e
+<i>atan</i>&mdash;duro. <i>Atan</i> não é senão a palavra <i>ita</i> com a terminação
+<i>ana</i>, que na lingua tupí servia para a formação dos
+adjetivos. <i>Itana</i>, o que tem a natureza de pedra. Assim, de
+pedra fizemos nós pedregozo. Rigorozamente <i>ubiratan</i> é
+<i>páu-pedra</i>; pois que os indijenas não conheciam o ferro.
+Era dessa madeira que faziam os tacapes.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_13">Paj. 13</a></p>
+
+<p><i>O chefe tocantim</i>.&mdash;Os autores empregam em geral os
+termos maioral, principal, para dezignar o cabeça de uma
+tribu ou nação indijena. Alguns, como Southey, serviram-se
+do termo cacique adotado dos Araucanos; Barl&#339;us chamou-os
+classicamente de reis.</p>
+
+<p>Neste livro, como em <i>Iracema</i>, preferi traduzir o termo
+indijena <i>tuxaba</i>, por <i>chefe</i>; e fui levado pela razão de ser,
+além de muito apropriado e vulgar, um termo nobre e sucetivel
+de entrar no estílo o mais elevado, sem laivos de afetação.
+Ao <i>morubixaba</i> pela mesma razão chamei chefe dos
+chefes.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_14">Paj. 14</a></p>
+
+<p><i>Calcou a mão sobre o hombro esquerdo</i>.&mdash;Ácerca desse
+modo simbolico de assegurar o vencedor seu imperio sobre
+o cativo, é curiozo o que referiu e notou <i>Ives d'Evreux</i>,
+cap. XIV.</p>
+
+<p>«Então eu soube que era uma ceremonia de guerra prati<span class="pagenum"><a name="Page_116" id="Page_116">[116]</a></span>cada
+entre essas nações, que quando um prizioneiro cae na
+mão de algum, aquelle que o toma, bate-lhe com a mão na
+espadua dizendo-lhe: «Eu te faço meu escravo»; e desde
+então esse pobre cativo, por maior que seja entre os seus,
+se reconhece escravo e vencido, segue o vitoriozo, o serve
+fielmente, sem que seu senhor se importe com elle; tem
+liberdade de andar por onde lhe pareça, não faz senão o
+que quer e ordinariamente espóza a filha ou irmã de seu
+senhor, até o dia em que deve ser, morto e comido.»</p>
+
+<p>Depois o missionario lembra as palavras de Isaías cap. 9&mdash;<i>Factus
+est principatus super humerum ejus</i>&mdash;e cap. XXII&mdash;<i>Dabo
+clavem dominis David super humerum ejus</i>; e mostra a
+conformidade desse rito dos tupís com as tradições dos hebreus
+e outros povos primitivos.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_15">Paj. 15</a></p>
+
+<p><i>Ubirajara</i>&mdash;senhor da lança, de <i>ubira</i>&mdash;vara e <i>jara</i>&mdash;senhor;
+aportuguezando o sentido, vem a ser lanceíro.</p>
+
+<p>Com este nome existia ao tempo do descobrimento, nas
+cabeceiras do rio S. Francisco uma nação de que fala Gabriel
+Soares&mdash;Roteiro do Brazil, cap. 182.</p>
+
+<p>«A peleja dos Ubirajaras, diz esse escritor, é a mais notavel
+do mundo, como fica dito, porque a fazem com uns
+páus tostados muito agudos, de comprimento de tres palmos
+pouco mais ou menos cada um, e tão agudos, de ambas as
+pontas, com os quais atiram a seus contrarios como com
+punhais, e são tão certos com elles que não erram tiro,
+com o que têm grande chegada; e desta maneira matam
+tambem a caça que, se lhe espera o tiro, não lhe escapa;
+os quais com estas armas se defendem de seus contrarios
+tão valorozamente como seus vizinhos com arcos e flexas,
+etc.»</p>
+
+<p>Desta arma e da destreza com que a manejavam proveiu
+o nome de <i>bilreiros</i> que lhe deram os sertanistas, significando
+assim que tanjiam suas lanças com ajilidade e sutileza igual
+á da rendeira ao trocar os bilros.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_15">Paj. 15</a></p>
+
+<p><i>Preciza de um prizioneiro</i>.&mdash;Era entre os selvajens maior
+honra conduzir da guerra um prizioneiro, para ornar o seu
+triunfo e a festa de vitoria, do que matal-o em combate.
+<span class="pagenum"><a name="Page_117" id="Page_117">[117]</a></span>Veja Gabriel Soares&mdash;cit. na nota 4<sup>a</sup>.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_15">Paj. 15</a></p>
+
+<p><i>Chamas de alegria</i>.&mdash;Metafora tupí. Chamavam a alegria
+e a festa <i>toríba</i>, literalmente, grande quantidade de fogueiras.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_17">Paj. 17</a></p>
+
+<p><i>Historia de guerra</i>.&mdash;Os tupís para exprimirem historia,
+ou narrativa, diziam <i>maranduba</i>, conto de guerra, de
+<i>mara</i>&mdash;guerra&mdash;<i>nheng</i>&mdash;falar e <i>tuba</i>&mdash;muito; falar muito
+de guerra.</p>
+
+<p>Depois aplicaram os indijenas essa palavra a toda narrativa,
+se é que não crearam para as outras historias o
+termo analogo de <i>poranduba</i>, composto de <i>poro</i>, <i>nheng</i>, e
+<i>tuba</i>&mdash;falar muito da gente.</p>
+
+<p>Os indios eram muito apaixonados dessas narrações, em
+que mostravam sua natural eloquencia. Informa-me o Dr.
+Coutinho, incansavel explorador do vale do Amazonas, que
+ainda hoje nenhum indio chega de viajem, que não diga a sua
+maranduba, que é o recito circumstanciado de quanto viu e
+lhe aconteceu em caminho.</p>
+
+<p>Ás vezes traduzo o termo; outras o emprego orijinal
+para mais incutir no livro o espirito indijena. Do mesmo
+modo procedi ácerca de outros termos eufonicos tais como
+<i>tuxaba</i>, <i>moribixaba</i>, <i>moacara</i>, <i>nhengaçara</i>, <i>etc</i>.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_21">Paj. 21</a></p>
+
+<p><i>Os cantores</i>.&mdash;Os tupís eram muito dados á muzica e á
+dansa.</p>
+
+<p>Lery fala com entuziasmo da doçura de seus cantos; e
+Ferdinand Denis, paj. 21, afirma, não sei com que fundamento,
+que a imitação dos Chataws da America do Norte,
+certas nações do Brazil gozavam do privilejio de fornecer
+poetas e musicos aos outros povos, como sucedia com os
+tamoios entre os tupís.</p>
+
+<p>Gabriel Soares&mdash;cap. 162&mdash;descreve os cantos, improvizos
+e dansas dos tupinambás, concluindo com estas palavras:</p>
+
+<p>«Entre este gentio, os muzicos são muito estimados e
+por onde quer que vão, são bem agazalhados e muitos atravessaram
+já o sertão por entre seus contrarios, sem lhes
+fazerem mal.»</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_118" id="Page_118">[118]</a></span></p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_24">Paj. 24</a></p>
+
+<p><i>Como chefe pertence-lhe a virjem</i>, etc, Barl&#339;us&mdash;2.<sup>a</sup> edic.
+paj. 483.&mdash;Quotquot luta, hastarum concursu ac venatu
+pr&#339;cellunt, eminentiores habentur et ut h&#339;roum numero,
+qui ob virtutis fortitudinisque excellentiam ab ipsis virginibus
+ambire m&#339;rentur, cum meliores ex melioribus nasci
+opinentur, nec vanum esse nobilitatis nomen, sed cum sanguine
+transfundi.»&mdash;Quantos disputam em jogos de lança
+e caça; os eminentes são tidos no numero dos heróes; os
+quais pela excelencia da virtude e fortaleza merecem possuir
+as mesmas virjens; por quanto pensam que os melhores
+nacem dos melhores; nem é vão nome a nobreza, pois
+se comunica pela transfuzão do sangue.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_25">Paj. 25</a></p>
+
+<p><i>Purifica o corpo</i>.&mdash;Os selvajens distinguiam-se pelo apurado
+asseio. Ives d'Evreux diz a este respeito: «Ils sont fort
+soigneux de tenir leur corps net de toute ordure: ils se
+lavent fort souvent tout le corps et ne se passe jour qu'ils
+ne jettent sur eux force eau et se frottent avec les mains
+de tous côtés et en toutes les parts, pour oster la poudre
+et autres ordures. Les femmes ne manquent de se peigner
+souvent.»</p>
+
+
+<p>Pag. 25</p>
+
+<p><i>Urú</i>.&mdash;Tinham os indijenas varias especies de moveis
+para guardar objetos. O <i>urú</i> era um cesto aberto. <i>Panacum</i>
+era um cesto maior com tampa. <i>Samburá</i> era cesto com orelha,
+corrupção de <i>nambi</i> e <i>urú</i>, literalmente cesto de orelha.
+Tinham ainda os selvajens o <i>patiguá</i> ou <i>patuâ</i>, que era uma
+caixa de palha ou couro; e o <i>mocô</i>, pequeno surrão da pele
+felpuda do coelho. Todos estes nomes ainda são uzados no
+norte para dezignar os mesmos objetos, produtos da industria
+indijena, aproveitada pelos colonizadores.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_26">Paj. 26</a></p>
+
+<p><i>Coqueiros</i>.&mdash;Ao que disse em nota de Iracema ácerca do
+indijenismo desta planta acrecentarei a noticia que della<span class="pagenum"><a name="Page_119" id="Page_119">[119]</a></span>
+nos deixou Guilherme Piso&mdash;<i>Historiæ Rerum Naturalium
+Brasiliæ</i>, Liv. 8<sup>o</sup>, p. 138.</p>
+
+<p>«<i>Inaiá Guacuiba</i> cujus fructus <i>inaiaguacu</i> brasiliensibus;
+in congo vocatus <i>Ejaquiambutu</i> et fructus <i>Quetiniga quiambutu</i>:
+Palma nucifera, lusitanis <i>coqueiro</i> et fructus illius <i>coco</i>;
+qui tribus suis foraminulis lavam representat. Arbor caudice
+raro recto, sed plerumque incurvato, quatuor, quinque sex
+aut etiam septem pedes crasso, triginta, quadraginta et interdum
+quinquaginta pedes alto.»</p>
+
+<p>É esta mesma palmeira que os Mexicanos chamavam
+<i>Cogolli</i>. Piso viu em 1640 na cidade Mauricéa (Recife) transplantarem-se
+pés que tinham mais de 24 anos.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_28">Paj. 28</a></p>
+
+<p><i>Cabelos</i>.&mdash;Pelos cabelos costumavam distinguirem-se as
+diversas nações indijenas. Southey&mdash;I, cap. 8<sup>o</sup>. Das mulheres
+diz Barl&#339;us:&mdash;<i>F&#339;minis coma promissa nisi per luctus
+tempora aut absens marito</i>.&mdash;paj. 36. Traziam as mulheres a
+madeixa longa, salvo no tempo do luto ou auzencia do marido.</p>
+
+<p>Mais um traço do carater e costumes indijenas. Durante
+a auzencia do marido, a mulher trazia uma especie de luto,
+ou mostra de tristeza e saudade, que era simbolizada pelo
+sacrificio das longas tranças dos cabelos.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_28">Paj. 28</a></p>
+
+<p><i>Braços que tu querias para tua cintura</i>.&mdash;Metafora da lingua
+tupí, que exprime o amor; <i>aguaçaba</i>, a amante, literalmente,
+o que se tem á cintura.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_31">Paj. 31</a></p>
+
+<p><i>Escravo</i>.&mdash;Acerca das leis do cativeiro entre os indios
+leiam-se os dois capitulos XV e XVI, que a este assunto
+consagrou Ives d'Evreux, citado.</p>
+
+<p>Os cativos viviam em plena liberdade na taba de seus
+senhores, e era muito raro que fujissem, porque se consideravam
+ligados por um vinculo desde o momento em que o
+vencedor lhes calcava a mão sobre a espadua. Quebrar esse
+vinculo, era por elles considerado uma dezhonra.</p>
+
+<p>Até os prizioneiros destinados ao suplicio, preferiam a<span class="pagenum"><a name="Page_120" id="Page_120">[120]</a></span>
+morte glorioza a se rebaixarem pela fuga no conceito de
+seus inimigos. «Muitas vezes as mulheres tomavam substancias
+que provocavam o aborto, não querendo passar pela
+mizeria de verem trucidada a prole; não raro favoreciam a
+fuga dos tristes maridos de alguns dias pondo-lhes comida
+nos bosques e até escapulindo-se com elles. Frequentemente
+sucedeu isto a prizioneiros portuguezes; os indios brazileiros,
+porém, julgavam dezhonroza a fuga, nem era facil persuadil-os
+a tomal-a.» Southey&mdash;cap. VII onde cita&mdash;Noticias
+do Brazil, II, 69 e Herrera 4, 3, 13.</p>
+
+<p>Abbeville ainda é mais explicito:&mdash;Et bien que estant
+desliez et libres comme ils sont, ils puissent fuir et se sauver,
+si est ce que ils ne font jamais encore qu'ils soient assurez
+de estre tuez et mangez au bout de quelques temps. Car
+si quelqu'un des prisionniers s'etait eschapé pour retourner
+em son pays, non seulement il serai tenu pour un <i>couaen
+eum</i>, c'est a dire poltron et lasche de courage; mais aussi
+ceux de sa nation mesme ne manqueroient de le tuer avec
+mille reproches de ce qu'il n'aurait pas eu le courage d'endurer
+la mort parmi ses ennemis, comme si ses parents et
+tous ses semblables n'etaient assez puissants por venger sa
+mort, etc. pag. 290.</p>
+
+<p>As leis da cavalaria no tempo em que ella floreceu em
+Europa não excediam por certo em pundonor e brios a
+bizarria dos selvajens brazileiros. Jámais o ponto de honra
+foi respeitado como entre estes barbaros, que não eram menos
+galhardos e nobres do que esses outros barbaros, godos
+e arabes, que fundaram a cavalaria.</p>
+
+<p>Alí está uma pedra de toque para aferir-se o carater do
+selvajem brazileiro, tão deprimido por cronistas e noveleiros,
+avidos de inventarem monstruozidades para impinjil-as
+ao leitor. Nem isso lhes custava; pois a raça invazora buscava
+justificar suas cruezas rebaixando os aborijenes á condição
+de féras, que era forçozo montear.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_32">Paj. 32</a></p>
+
+<p><i>O suplicio</i>.&mdash;Outro ponto em que se assopra a ridicula
+indignação dos cronistas é ácerca da antropofagia dos selvajens
+americanos.</p>
+
+<p>Ninguem póde seguramente abster-se de um sentimento
+de horror ante essa idéa do homem devorado pelo homem.
+Ao nosso espirito civilizado, ella repugna não só á moral,
+como ao decoro que deve revestir os costumes de uma
+sociedade cristã.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_121" id="Page_121">[121]</a></span></p>
+
+<p>Mas antes de tudo cumpre investigar a causa que produziu
+entre algumas, não entre todas as nações indijenas, o
+costume da antropofagia.</p>
+
+<p>Disso é que não curaram os cronistas. Alguns atribuem
+o costume á ferocidade, que transformava os selvajens em
+verdadeiros carniceiros, e tornava-os como a tigres sedentos
+de sangue. A ser assim não faziam mais do que reproduzir
+os costumes citas, que sugavam o sangue do inimigo
+ferido,&mdash;quem primum interemerunt, ipsis é vulneribus ebibere.
+Pomponius M&#339;la. Descrip. da Terra.&mdash;Liv. 2<sup>o</sup> cap. 1<sup>o</sup>.</p>
+
+<p>Outros lançam a antropofajia dos americanos á conta da
+gula, pintando-os igual á horda bretã das Gallias, os Aticotes,
+dos quais diz S. Jeronimo que se nutriam de carne
+humana, regalando-se com o ubere das mulheres e a fevera
+dos pastores. (<i>S. Hieronimo IV.&mdash;paj. 201, adv. Jovin.&mdash;Liv. 2<sup>o</sup></i>.)</p>
+
+<p>O canibalismo americano não era produzido, nem por
+uma nem por outra dessas cauzas.</p>
+
+<p>É ponto averiguado, pela geral conformidade dos autores
+mais dignos de credito, que o selvajem americano só
+devorava o inimigo, vencido e cativo na guerra. Era esse
+ato um perfeito sacrificio, celebrado com pompa, e precedido
+por um combate real ou simulado que punha termo á
+existencia do prizioneiro.</p>
+
+<p>Simão de Vasconcelos, Cronica da companhia, 1 § 49,
+alude a uma velha que sentia entojos por não ter a mãozinha
+de um rapaz tapuia para chupar-lhe os ossinhos: e Hans
+Stade, paj. 4, cap. 43 e seg., conta a historia de dois individuos
+moqueados pelos tupinambás, e guardados para um
+banquete.</p>
+
+<p>Não exajeremos, porém, esses fatos izolados, alguns dos
+quais podem não passar de caraminholas, impinjidas ao pio
+leitor. Os costumes de um povo não se aferem por acidentes,
+mas pela pratica uniforme que elle observa em seus
+atos.</p>
+
+<p>Se os tupís fossem excitados pelo apetite da carne humana,
+elles aproveitariam os corpos dos inimigos mortos no
+combate, e que ficavam no campo da batalha. A guerra se
+tornaria em caçada; e em vez de montear as antas e os veados,
+os selvajens se devorariam entre si.</p>
+
+<p>Não ha, porém, escritor sério que deixasse noticia de
+fatos daquella natureza; e não me recordo de nenhum que
+referisse exemplos de serem devoradas mulheres e meninos;
+salvo quanto aos ultimos, o filho do prizioneiro de
+guerra (Not. do Brazil.&mdash;II, 69), do que tenho razão para
+duvidar.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_122" id="Page_122">[122]</a></span></p>
+
+<p>Parece-nos, pois, que a idéa da gula deve ser repelida
+sem hezitação. Se em algumas tribus ou malocas se propagou
+o apetite depravado, essa dejeneração foi por ventura
+devida ao contajio dos Aimorés, cuja invazão é posterior ao
+descobrimento. Em todo o cazo é uma exceção que não póde
+preterir o rito da relijião tupica.</p>
+
+<p>Tambem pela contraprova, havemos de excluir a ferocidade,
+como razão do canibalismo americano.</p>
+
+<p>Se o instinto carniceiro dominasse o tupí, elle se lançaria
+sobre o inimigo como o cita, ou o sarraceno de que
+fala Am. Marcellinus, para sugar-lhe o sangue da ferida, e
+trincar-lhe as carnes ainda vivas e palpitantes.</p>
+
+<p>Mas, ao contrario, vemos que o guerreiro tupí tinha por
+maior bizarria cativar seu inimigo no combate, e trazel-o
+prizioneiro, do que matal-o. Chegado á taba, em vez de o
+torturar dava-lhe por espoza uma das virjens mais formozas,
+a qual tinha a seu cargo nutril-o e tornar-lhe agradavel o
+cativeiro.</p>
+
+<p>Releva notar que a idéa da antropofajia já era comum na
+Europa, antes do descobrimento da America; não só pelas
+tradições dos barbaros, como pelas crendices da média idade,
+nas quais figuravam gigantes e bruxas, papões de meninos.
+Que tema inexgotavel para a imajinação popular não
+veiu a ser a primeira noticia, senão conjetura, sobre o canibalismo
+do selvajem brazileiro?</p>
+
+<p>Cronista ha que nesse costume, onde se está revelando
+a força tradicional de um rito, não enxergou senão
+o zelo do glotão, que engorda a preza para saboreal-a.
+Mas essa ridicula supozição nem ao menos se conforma
+com o teor da vida selvajem, a qual desconhecia a industria
+da criação.</p>
+
+<p>O selvajem comia a caça como a encontrava no mato,
+gorda logo depois do inverno, e magra na força da seca.
+Não se dava ao trabalho de a engordar. Porque motivo se
+havia de afastar desse uzo ácerca do homem, se o homem
+fosse para elle uma especie de caça?</p>
+
+<p>E por ventura faria parte do processo da engorda do
+bipede, o acessorio de uma companheira formoza e na flôr
+da idade, qual invariavelmente a davam ao prizioneiro?</p>
+
+<p>É obvio que esse uzo tinha outra razão mui diversa.
+Não se tratava de engordar o prizioneiro, mas de fortalecel-o,
+para que elle morresse com honra no dia do sacrificio,
+que devia ser o seu ultimo combate.</p>
+
+<p>Ainda nessa ocazião, os vencedores ostentavam sua gravidade,
+deixando que o prizioneiro exaltasse o proprio valor
+e os afrontasse com seu desprezo. Só chegado o momento<span class="pagenum"><a name="Page_123" id="Page_123">[123]</a></span>
+depois de celebrada a ceremonia, o abatiam com um golpe
+de tacape.</p>
+
+<p>A ferocidade não se coaduna com a calma e comedimento
+desse proceder. Póde-se explicar o sacrificio humano dos
+tupís por um intenso e profundo sentimento de vingança;
+mas não por sanha brutal.</p>
+
+<p>Ferdinand Saint-Denis (<i>Univers</i>, <i>Brésil</i>, pag. 30) diz com
+muito criterio:&mdash;<i>En accomplissant ces sacrifices, les tupinambás
+n'obéissaient pas, comme pourraient le croire quelques personnes,
+à un goût depravé qui leur aurait fait préférer la chair
+humaine à toutes les autres; ils étaient mus avant tout par un
+esprit de vengeance que se transmettait de génération en génération,
+et dont notre civilisation nous empêche de comprendre
+la violence</i>.</p>
+
+<p>Não era, porém, a vingança a verdadeira razão da antropofajia.
+O selvajem não comia o corpo do matador de seu
+pai ou filho, se acontecia matal-o em combate. Abandonava
+o cadaver no campo, e apenas cortava-lhe a cabeça para
+espetal-a em um poste á entrada da taba, e arrancava-lhe o
+dente para troféu.</p>
+
+<p>A vingança, pois, esgotava-se com a morte. O sacrificio
+humano significava uma gloria insigne rezervada aos guerreiros
+ilustres ou varões egrejios quando caíam prizioneiros.
+Para honral-os, os matavam no meio da festa guerreira; e
+comiam sua carne que devia transmitir-lhes a pujança e
+valor do heróe inimigo.</p>
+
+<p>Este pensamento resalta dos mesmos pormenores com
+que os cronistas exajeraram o cruento sacrificio.</p>
+
+<p>Morto o inimigo, não era devorado; antes as mulheres
+tratavam o corpo e o curavam, moqueando as carnes. Essas
+eram guardadas; e distribuidas por todas as tribus, incumbindo-se
+os que tinham vindo assistir á ceremonia, de leval-as
+ás tabas remotas.</p>
+
+<p>Os restos do inimigo tornavam-se, pois, como uma hostia
+sagrada que fortalecia os guerreiros; pois ás mulheres e
+aos mancebos cabia apenas uma tenue porção. Não era a
+vingança; mas uma especie de comunhão da carne, pela
+qual se operava a transfuzão do heroismo.</p>
+
+<p>Por isso dizia o prizioneiro:&mdash;«Esta carne que vêdes
+não é minha; porém vossa; ella é feita da carne dos guerreiros
+que eu sacrifiquei, vossos pais, filhos e parentes.
+Comei-a; pois comereis vossa propria carne.» Deste modo
+retribuia o vencido a gloria de que os vencedores o cercavam.
+O heroismo que lhe reconheciam, elle o referia á sua
+raça de quem o recebera por igual comunhão.</p>
+
+<p>Algumas nações tinham outra comunhão, inspirada no<span class="pagenum"><a name="Page_124" id="Page_124">[124]</a></span>
+mesmo pensamento. Era a dos ossos dos projenitores que
+reduziam a pó, e que bebiam dissolvidos no cauim em festas
+de comemoração. Este fato, assim como o sacrificio tremendo
+da mãi, que devia absorver em si o filho que lhe
+nacera morto, bem mostram que por modo algum naceu do
+espirito de vingança o chamado canibalismo.</p>
+
+<p>Transportemo-nos agora, não como homens e cristãos,
+mas como artistas, ao seio das florestas seculares, ás tabas
+dos povos guerreiros que dominavam a patria selvajem; e
+quem haverá tão severo que negue a fera nobreza desse
+barbaro e tremendo sacrificio?</p>
+
+<p>A idéa repugna; mas o banquete selvajem, tem uma
+grandeza que não se encontra no festim dos Atridas; e está
+bem lonje de inspirar o horror dessa atrocidade que entretanto
+não foi desdenhada pela muza classica.</p>
+
+<p>No Brazil é que se tem dezenvolvido da parte de certa
+gente uma aversão para o elemento indijena de nossa literatura,
+a ponto de o eliminarem absolutamente. Contra essa
+extravagante pretenção lavra mais um protesto o presente
+livro.</p>
+
+<p>Para concluir com este ponto, observaremos que nem
+todas as nações selvajens eram antropofagas; e que em
+minha opinião esse costume, bem lonje de ser introduzido
+pela raça tupí, foi por ella recebido dos Aimorés e outros povos
+da mesma orijem, que ao tempo do descobrimento apareceram
+no Brazil.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_32">Paj. 32</a></p>
+
+<p><i>Espoza do tumulo</i>.-Este rito selvajem é muito conhecido
+e dispensa-me de transcrever o que ácerca delle escreveram
+os cronistas.</p>
+
+<p>Mais uma prova do carater generozo e bizarro do selvajem
+brazileiro. Lonje de torturarem seu prizioneiro, ao contrario
+se esforçavam em alegrar-lhes os ultimos dias pelo
+amor; davam-lhe uma espoza; e tão grande honra era esta
+que o vencedor a rezervava para sua filha ou irmã virjem;
+e se não a tinha, para a filha de algum dos principais da taba.</p>
+
+<p>Falam alguns autores da <i>cunhãmembira</i>, como de uma
+ceremonia em que se devorava o filho que por ventura a
+espoza do tumulo concebia do prizioneiro morto. Duvido da
+generalidade desse fato, que me parece adulterado, e seria
+especial aos tamoios.</p>
+
+<p><i>Cunhãmembira</i>, dizem esses autores, significa <i>filho da
+mulher</i>; e daí diz Southey, copiando Lery, tiravam elles uma
+horrivel consequencia, que era devorarem a criança.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_125" id="Page_125">[125]</a></span></p>
+
+<p>Ora, <i>cunhãmembira</i> significa saído do ventre da mulher.
+A lingua tupí não tinha outro modo de dezignar a maternidade:
+taíra&mdash;isto é, saído do sangue, diziam do filho ácerca
+do pai; e <i>membira</i>, diziam do filho ácerca da mãi. Na expressão
+<i>cunhãmembira</i> não ha senão a antepozição do substantivo
+<i>cunham</i> (mulher) que os indios suprimiam por superfluo;
+assim como suprimiam na outra palavra dizendo simplesmente
+<i>taíra</i> e não <i>aba-taíra</i> saído do sangue do varão.</p>
+
+<p>Se o nome de <i>cunhãmembira</i> indicasse estar a criança
+destinada ao suplicio, então todos os nacidos da taba se
+achariam no mesmo cazo, pois todos eram em relação ás
+mais, <i>membiras</i> ou <i>cunhã membiras</i>.</p>
+
+<p>Ainda mais, se a criança era condenada ao suplicio pela
+razão de ser do sangue inimigo, parece que o nome a ella
+dado devia exprimir esse fato importante e derivar-se antes
+desta fraze: <i>miauçubtaíra</i>&mdash;o gerado do sangue do cativo.</p>
+
+<p>A estes filhos dos prizioneiros chamavam os indijenas
+<i>marabá</i>, gerado da guerra, nome honrozo, que revelava o
+apreço em que tinham essa prole, saída de um sangue heroico.
+E tanto assim era que destinavam para conceber essa
+prole o seio da virjem mais ilustre da taba.</p>
+
+<p>Se os selvajens, que nada praticavam sem uma razão justificativa,
+só tinham em mira devorar os filhos do cativo,
+para que dar-lhe uma espoza ilustre? Mais sagazmente procederiam
+adjudicando-lhe diversas mulheres para terem
+maior criação a matar.</p>
+
+<p>Está-se conhecendo que o tal banquete não passa de um
+invento de cronistas, que entenderam as outras palavras dos
+indios tão bem como a de <i>cunhãmembira</i> que elles diziam
+significar filho do inimigo.</p>
+
+<p><i>Cunhãmembira</i> creio eu ser a festa que se fazia pelo parto
+da mulher; e talvez acontecendo nacer morta a criança, se
+orijinasse a fabula do sacrificio que então se praticava entre
+algumas nações de ser a mãi obrigada a absorver em si
+esse fruto goro de sua fecundidade.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_33">Paj. 33</a></p>
+
+<p><i>Guainumbí</i>.&mdash;«Persuadem-se os brazilienses haver uma
+ave, que chamam colibri, a qual leva e traz noticia do outro
+mundo.» Santa Rita Durão&mdash;Notas ao Caramurú.</p>
+
+<p>Tambem chamavam os indios esse passaro, <i>Guaraciaba</i>&mdash;cabelos
+do sol; e Arati, ou Arataguaçú segundo Marcgraff,
+197. Quanto ao nome de Guainumbí, ou mais corretamente
+Guinambí, penso eu que significa o brinco das flôres. Os<span class="pagenum"><a name="Page_126" id="Page_126">[126]</a></span>
+selvajens tiraram naturalmente essa dezignação do modo
+por que o colibri tremula, como suspenso á flôr para chupar-lhe
+o mel, semelhante ao movimento das arrecadas suspensas
+ás orelhas, e que elles chamavam <i>nambípora</i>.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_35">Paj. 35</a></p>
+
+<p><i>Jussara</i>.&mdash;«Nas povoações feitas em terra têm muitas nações
+guerreiras a providencia de as segurarem e munirem
+com fortes muralhas, não de pedra, mas de estacas do páu
+duro como pedra. Outros as fabricam de palmeira, que chamam jussara,
+cujos espinhos são tão grandes e duros, que
+servem a muitos de agulhas de fazer meias; e as trincheiras
+feitas de <i>jussara</i> são mais seguras que as mais bem reguladas
+fortalezas; porque de modo nenhum se podem penetrar e
+romper senão com fogo por crecerem não só cheias de
+grandes estrepes ou agudos espinhos, mas tão enlaçadas e
+enleadas umas com outras que se fazem impenetraveis.
+(Tezouro descoberto no rio Amazonas, Part. 2<sup>a</sup>, cap. 1<sup>o</sup>, no
+2<sup>o</sup> vol. da Rev. do Instituto, paj. 350.)</p>
+
+<p>O nome da palmeira é em tupí <i>jussara</i>, de <i>ju</i>&mdash;espinho e
+<i>ara</i> dezinencia.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_36">Paj. 36</a></p>
+
+<p><i>Carbeto</i>.&mdash;Assim chamam Ives d'Evreux e Abbeville ao
+conselho dos velhos entre os selvajens. Este nome deriva-se
+naturalmente de <i>caraiba</i>, varão ilustre e <i>ipê</i>, logar onde.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_37">Paj. 37</a></p>
+
+<p><i>Hospede</i>.&mdash;A virtude da hospitalidade era uma das mais
+veneradas entre os indijenas. Todos os cronistas dão della
+testemunho; e alguns, como Lery e Ives d'Evreux, descrevem
+com particularidade o modo liberal e generozo por que
+os selvajens brazileiros a exerciam.</p>
+
+<p>É certo que não escapou tambem á malevolencia dos
+cronistas, essa excelencia e nobreza do carater indijena.
+Gabriel Soares cit. cap. 168 depois de falar do como os tupinambás
+agazalhavam os hospedes, acrecenta: «e lançam
+suas contas se vem de bom titulo ou, não; e se é seu contrario,
+de maravilha escapa que o não matem, etc.» Southey
+cit. cap. 8<sup>o</sup> faz coro com essa versão que nos parece suspeita.</p>
+
+<p>É possivel que depois da colonização, os selvajens viti<span class="pagenum"><a name="Page_127" id="Page_127">[127]</a></span>mas
+das perfidias dos aventureiros relaxassem suas tradições;
+mas a hospitalidade foi sempre entre elles uma coiza sagrada,
+como atestam em geral os escritores, que não referem aquella
+exceção.</p>
+
+<p>Basta refletir sobre o modo por que exerciam os selvajens
+a hospitalidade para reconhecer que não é admissivel
+a suspeita de Gabriel Soares. Em verdade, aquelles cuja
+porta estava aberta sempre ao viajante; que franqueavam
+o ingresso de sua cabana por tal modo que o estranjeiro
+nella entrava como senhor, ainda mesmo na auzencia do
+dono; que sem perguntar o nome de quem chegava nem de
+onde vinha o agazalhavam com a maior liberalidade; esses
+que assim acolhiam o hospede, não podiam ocultar a intenção
+perfida de o matar, no cazo de ser contrario. Ha uma
+tal contradição entre esse desfecho e as circumstancias precedentes,
+que não se póde acreditar nelle pelo simples dizer
+de um cronista, que em muitas outras inexatidões caiu.</p>
+
+<p>Se ha traço nobre do carater selvajem é essa hospitalidade,
+que o estranjeiro não pedia e sim exijia como um
+direito sagrado, com esta simples formula&mdash;<i>Vim</i>; ao que o
+dono da cabana respondia&mdash;<i>Bem vindo</i>.</p>
+
+<p>O epizodio da deliberação do conselho sobre o nome do
+estranjeiro está justificado pelo trecho seguinte de Ives
+d'Evreux, cap. 50.</p>
+
+<p>«Aprés ces paroles il vous dit&mdash;<i>Marapé derere</i>? comment
+t'appelles-tu? quel est ton nom? comme veux-tu que nous
+t'appellions? Quel nom veux-tu qu'on t'impose? Où faut-il
+noter que si vous ne vous estes donné et choisi um nom,
+lequel vous leur dites alors et desormais estes appellé par
+tout le pays de ce nom, les sauvages du village ou vous
+demeurez vous en choisiront um pris des choses naturelles,
+qui sont en leurs pays et ce le plus convenablement qu'il
+leur sera possible, selon la phisionomie qu'ils verront en
+votre visage, ou selon les humeurs et façons qu'ils reconnaitront
+en vous..... Eh bien quel nom donnerons nous a
+un tel ton compére? Je ne sais, il faut voir; lors chacun
+dit son opinion et le nom qui rencontre le mieux et est reçu
+de l'assemblée, est imposé avec son consentement si c'est
+quelque homme d'honneur.»</p>
+
+<p>Ainda nessa circumstancia se revela a delicadeza da
+hospitalidade do selvajem.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_38">Paj. 38</a></p>
+
+<p><i>Artes da paz</i>.&mdash;É ainda de Ives d'Evreux, cap. 18, esta
+curioza informação. «Je raconterai ici une jolie histoire. Un<span class="pagenum"><a name="Page_128" id="Page_128">[128]</a></span>
+jour je m'allois visiter le grand Theon, principal des Pierres
+Vertes Tabaiares: comme je fus en sa loge et que je l'eus
+demandé, une des ses femmes me conduit soubs une belle
+arbre qui estoit au bout de sa loge, qui la couvrait du soleil;
+lá-dessous il avait dressé son mestier pour testre des licts
+de coton et travaillait après forte soigneusement; je m'étonnai
+beaucoup de voir ce grand capitaine, vieil colonel de sa
+nation, ennobli de plusieurs coups de mousquets, s'amuser
+à faire ce mestier et je ne peus me taire que je ne sçusse
+la raison espérant apprendre quelque chose de nouveau en
+ce spectacle si particulier. Je luy fist demander par le
+truchement qui estoit avec moy, à quelle fin il s'amusait à
+cela? il me fit response: «Les jeunes gens considérent mes
+actions et selon que je fais ils font; si je demeurais sur
+mon lit à me branler et humer le petim, ils ne voudraient
+faire autre chose; mais quand ils me voient aller au bois,
+la hache sur l'épaule et la serpe en main, ou qu'ils me voient
+travailler à faire des licts, ils sont honteux de rien faire, etc.»</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_38">Paj. 38</a></p>
+
+<p><i>Lançadeira</i>.&mdash;Os indijenas tinham um tear que é descrito
+por Lery, cap. 18. Uzavam tambem de um fuzo comprido e
+grosso, que as mulheres faziam girar entre os dedos, atirando
+ao ar, como ainda agora fazem as velhas fiandeiras
+do sertão.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_43">Paj. 43</a></p>
+
+<p><i>Jurandir</i>.&mdash;Contração da fraze <i>Ajur-rendipira</i>&mdash;o que
+veiu trazido pela luz.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_45">Paj. 45</a></p>
+
+<p><i>Jabotí</i>.&mdash;Contou-me o Dr. Coutinho que o jabotí para os
+indios do Amazonas é o simbolo da gravidade, prudencia e
+sabedoria, e prometeu-me dar um apologo, em que elles
+celebram essas virtudes, contando a historia de um jabotí,
+que venceu na lijeireza ao veado, na força á onça e assim
+aos mais animais.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_45">Paj. 45</a></p>
+
+<p><i>Tetivas</i>.&mdash;Os Tetivas habitam nos olhos das palmeiras e
+de outras arvores: põem-lhes terra e acendem fogo. Humboldt
+cit., paj. 283.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_129" id="Page_129">[129]</a></span></p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_46">Paj. 46</a></p>
+
+<p><i>Mulheres guerreiras</i>.&mdash;Aluzão ás Amazonas cuja existencia
+é tão controvertida. Eu acredito na sua existencia, embora
+reconheça que houve exajeração de Orellana.</p>
+
+<p>Não é este o momento de elucidar este ponto da historia,
+ou antes mitolojia do Brazil selvajem. Proponho-me a fazel-o
+quando publicar uma lenda que tenho esboçada ácerca do
+assunto. Nessa ocazião direi o que entendo ácerca da memoria
+do Dr. Gonçalves Dias, publicada na <i>Revista do Instituto</i>.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_46">Paj. 46</a></p>
+
+<p><i>Senhoras de seu corpo</i>.&mdash;Metafora tupí. No varão a parte
+nobre era o sangue; pelo que elle dizia do filho&mdash;<i>taíra</i>, o
+filho do meu sangue; e para indicar a independencia diziam
+<i>taíguara</i>, que os dicionarios traduzem <i>livre</i>, mas que literalmente
+significa, <i>senhor do seu sangue</i>.</p>
+
+<p>A mulher que dizia do filho <i>membira</i>&mdash;o gerado de meu
+ventre, devia pela mesma razão uzar de expressão analoga
+para exprimir sua liberdade, e dizer <i>membijara</i>&mdash;senhora de
+seu ventre, que eu por elegancia traduzo menos literalmente,
+<i>senhora de seu corpo</i>.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_47">Paj. 47</a></p>
+
+<p><i>Pará sem fim</i>.&mdash;Par, diz Humboldt cit. paj. 285, é uma
+radical guaraní e exprime agua. Pará creio eu que significou
+a grande abundancia de agua, e foi primitivamente empregado
+para dezignar os lagos e por ventura as vastas inundações
+do vale do Amazonas. Mais tarde os selvajens acrecentaram-lhe
+o verbo <i>nhane</i> correr, e disseram <i>pará-nhanhe</i>&mdash;donde
+<i>paranãn</i> para dezignar as grandes massas de agua
+corrente, isto é, os rios caudalozos.</p>
+
+<p>Os dois maiores rios da America do Sul, o Amazonas e
+o Prata, ambos se chamavam <i>Paranãn</i>, assim como outros
+muitos do Brazil. O mesmo radical se encontra já composto
+em Paraíba, Parnaíba, Paranapanema, etc.</p>
+
+<p>Foi a substituição do <i>p</i> pela analoga <i>m</i> que produziu o
+nome de <i>Maranhão</i>, ácerca de cuja etimolojia se inventaram
+tantas extravagancias.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_130" id="Page_130">[130]</a></span></p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_48">Paj. 48</a></p>
+
+<p><i>Guerreiros do mar</i>.&mdash;Tradução da palavra tupí <i>caramurú</i>
+com que os tupinambás da Baía dezignaram Diogo Alvares
+Correia.</p>
+
+<p>Caramurú é composto de <i>cara</i>, alteração de Pará&mdash;mar e
+<i>moro</i>, gente; homem do mar. Os selvajens acreditavam que
+as aguas eram habitadas, e daí naceu a lenda da mãi d'agua,
+que se transmitiu á raça invazora. Nada mais natural do que
+chamarem ao primeiro homem branco, que lhe apareceu surjindo
+do oceano, Caramurú&mdash;o guerreiro do mar.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_48">Paj. 48</a></p>
+
+<p><i>Rezina cheiroza</i>.&mdash;É o ambar, que os tupís chamavam
+<i>Piraoçurepoti</i>, e de que ao tempo do descobrimento abundavam
+as ribeiras do mar, nas provincias do norte.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_49">Paj. 49</a></p>
+
+<p><i>Moças</i>.&mdash;É dificil, senão impossivel, determinar atualmente,
+e pelas informações tão falhas quão malignas dos
+cronistas, a condição da mulher entre os selvajens.</p>
+
+<p>Do que tenho lido coliji as idéas, a que no texto se alude
+mui lijeiramente, e a que em outro logar démos maior dezenvolvimento.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_51">Paj. 51</a></p>
+
+<p><i>Para servir a Itaquê</i>.&mdash;«E quando o principal não é o maior
+da aldeia dos indios das outras cazas, o que tem mais filhas
+é o mais rico e estimado e mais honrado de todos, porque
+são as filhas mui requestadas dos mancebos que as namoram;
+os quais servem os pais das damas dois e tres anos
+primeiro que lh'as deem por mulheres e não as dão senão
+aos que melhor os servem, a quem os namoradores fazem a
+roça e vão pescar e caçar para os sogros que dezejam de
+ter, e lhes trazem a lenha do mato, etc.» G. Soares, cit.
+cap. 152.</p>
+
+<p>Aí está a lenda biblica de Jacob servindo a Labam 7 anos
+para obter por espoza a Sara. Não consta, porém, que os
+selvajens uzassem da esperteza do pai de Lia, para descar<span class="pagenum"><a name="Page_131" id="Page_131">[131]</a></span>tar-se
+de uma filha defeituoza; se tal acontecesse entre os
+tupís, de que ridiculas indignações não se encheriam os cronistas?</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_52">Paj. 52</a></p>
+
+<p><i>Manatí</i>.&mdash;È o peixe-boi, de cujo couro mais forte que o
+do touro os indios fazem escudos. Anunciam a chuva, saltando
+acima d'agua. Gumilha&mdash;Orenoco ilustrado, paj. 276.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_52">Paj. 52</a></p>
+
+<p><i>Biaribí</i>.&mdash;Um dos modos porque os indios assavam a caça,
+e consistia em enterral-a envolta em folhas de banana, e
+acender em cima o fogo, cujo calor penetrando no chão
+cozia a carne, concentrando-lhe o sabor.</p>
+
+<p><i>Moquem</i> era simplesmente o assado envolto em folha e
+feito sobre a braza; daí vem <i>moqueca</i> de que tirámos os verbos
+moquear e amoquecar.</p>
+
+<p><i>Bucan</i>, supõem alguns que seja alteração de <i>moquem</i>;
+mas eu o considero termo distinto que exprimia apenas a
+operação de secar a carne ao fumeiro para conserval-a.
+Neste sentido é que Lery e Ives de Evreux empregam constantemente
+o termo francez <i>boucaner</i>, derivado da palavra
+tupí.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_54">Paj. 54</a></p>
+
+<p><i>Pela mão da mulher</i>. Refere Gumilla, cap. 45, que estranhando
+aos indios sobrecarregarem as mulheres com os
+trabalhos agricolas, elles retorquiram que as mulheres sabem
+dar fruto, o que não sabem os homens, e por isso na
+mão dellas as sementes naciam e se multiplicavam.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_56">Paj. 56</a></p>
+
+<p><i>Pirijá</i>.&mdash;Uma especie de palmeira chamada palmeira real;
+é espinhoza e tem frutos semelhantes ao pecego. Humboldt
+cit., paj. 257 e 262.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_58">Paj. 58</a></p>
+
+<p><i>Nunca Jandira ofereceria sua rêde de espoza</i>, etc.&mdash;Arací
+reprezenta o amor da virjem tupí, segundo o costume tradi<span class="pagenum"><a name="Page_132" id="Page_132">[132]</a></span>cional
+de sua nação, que admitia a comunidade e partilha do
+amor, como um privilejio do guerreiro ilustre. Ser amada
+excluzivamente, significava para a mulher selvajem, ser
+amada por um guerreiro obscuro.</p>
+
+<p>Jandira reprezenta o excluzivismo do amor, que muitas
+vezes devia lutar com a lei tradicional; porque é um impulso
+da natureza, a qual não é dado ao homem aniquilar embora
+muitas vezes a sopite.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_61">Paj. 61</a></p>
+
+<p><i>O combate nupcial</i>.&mdash;Este rito, de ser a virjem requestada
+o premio do valor e da corajem, é atestado por grande numero
+de escritores.</p>
+
+<p>Barl&#339;us, paj. 420:&mdash;«Lucta et hastarum concursu decertare
+gloriosum, finis spectanctium voluptas est, presertim
+amantium f&#339;mina de cujusque fortitudine et victoria pronuntiat,
+sic in proximo pignora, pugnandi irritamenta sunt
+fortitudinis præcones, ciborum administræ.»</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_65">Paj. 65</a></p>
+
+<p><i>A figura da noiva</i>.&mdash;Esta prova de destreza era muito
+uzada pelos selvajens. Marcgraff descreve a especie de torneio
+que elles faziam divididos em duas turmas, a ver qual
+levava mais depressa o seu tóro ao logar destinado para
+acampamento. Naturalis Historia Brazilia, liv. 8<sup>o</sup>, cap. 12.</p>
+
+<p>Conclue com estas palavras:-«qui deinceps tempus
+terunt hastilibus certando, luctando, currendo; quibus certaminibus
+duæ fæminæ ad id select&#339; pr&#339;sident et judicant
+de singulorum virtute et victoribus.</p>
+
+<p>Estes certamens guerreiros, esses jogos de luta, combate
+e carreira, prezididos por mulheres que julgavam do valor
+dos campeões e conferiam premio aos vencedores, não
+cedem em galanteria aos torneios da cavalaria.</p>
+
+<p>Ácerca da prova a que acima nos referimos, escreveu o
+Dr. Gonçalves Dias&mdash;<i>Brazil</i> e <i>Oceania</i>, cap. 10, <i>Revista do
+Instituto</i>, tom. 30, parte 2<sup>a</sup>, paj. 153:&mdash;Um tóro de barrigudo
+em um cabo delgado e de facil preensão, semelhante aos
+soquetes ou massetes de que ainda entre nós se uza em muitas
+partes para bater a terra das sepulturas, posto que mais
+poderozo que este, ou um grande pedaço de tronco de palmeira,
+era colocado no meio do terreiro. Vinha o guerreiro
+correndo, tomava o tronco, continuava a carreira, saltava
+fossos, subia elevações, arrojava-se ás vezes ao rio com elle<span class="pagenum"><a name="Page_133" id="Page_133">[133]</a></span>
+e quem chegava primeiro e levava mais lonje a carga, esse
+ganhava a palma e a mulher que tinha de ser espozada. Explicou-se
+esse costume, de que trata Barl&#339;us, Marcgraff e
+outros, e que ainda conservam algumas tribus do Piauí, pela
+necessidade que tinha o guerreiro de defender a mulher, e
+para que em ocazião de perigo a podesse salvar fujindo.»</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_67">Paj. 67</a></p>
+
+<p><i>O camucim da constancia</i>.&mdash;Lê-se no <i>Tezouro do Amazonas</i>,
+cit. tom. 3 da <i>Revista do Instituto</i>, paj. 169. «O 5<sup>o</sup> predicado
+que tambem, como muitas outras nações conservam os Arapiuns,
+é a prova da valentia quando cazam; é um exame
+prévio ou o primeiro principio, como se diz nas Universidades,
+a suas bodas, e uma experiencia ou tentativa de seu
+valor para mostrarem que posto cazem não é por afeminados,
+mas por valentes. Ha diversos generos dessa prova de
+valentia; mas uma mui ordinaria nos indios Arapiuns é encherem
+uns grandes e compridos cabaços das formigas que
+chamam saugas (<i>saúvas</i>) grandes e mui bravas; ferram na
+carne com tanta ou mais valentia que os cães de fila, com
+proporção á grandeza destes e pequenez daquellas; porque
+os cães assim vêm a largar; mas as saugas não largam ainda
+que as matem e antes perderão a cabeça ficando com as
+troquezes cravadas na carne do que soltarem ellas preza;
+por isso uzam dellas alguns cirurjiões quando querem cozer
+alguma cicatriz com segurança, sem uzarem pontos, como
+adiante dizemos. Cheios, pois, os cabaços de saugas, não
+só famintas, mas quando estão com fome talvez de dias ...
+e sobre isso bem enraivadas com sacudidelas, prezentes
+todos os velhos e graves da missão, sae a terreiro o noivo
+examinando, destapam-se os cabaços nos quais intrepido
+mete os braços, a que logo acodem as filas, já para saciar
+a fome, já para dezabafar a ira, e já para provar e castigar
+o bacharel, o qual posto que as dôres o façam mudar de
+côres, torcer a boca, tremer o corpo, levantar as sobrancelhas
+e arrebentar as lagrimas, tenha paciencia, que se quer,
+ha de aturar a bucha, emquanto os examinadores já bebendo-lhe
+á saude e já dando voltas em bailes se vão regalando
+á sua custa, etc.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_73">Paj. 73</a></p>
+
+<p><i>Igapê</i>.&mdash;É o nenufar na lingua tupí, de <i>Ig</i>, <i>ipe</i> e <i>potira</i>&mdash;flôr
+d'agua. Os portuguezes corromperam essa palavra<span class="pagenum"><a name="Page_134" id="Page_134">[134]</a></span>
+transformando-a em <i>aguapé</i>, nome por que é vulgarmente
+conhecida. Penso eu, porém, que devemos restaurar o nome
+indijena, até mesmo porque <i>aguapé</i> tem diversa significação
+em portuguez.</p>
+
+<p>Uma dessas nímféas, a rainha das flôres, a que os indios
+chamavam milho d'agua, ou a flôr jaçanan, por servir de
+ninho a essas aves paludais, nace branca e com a luz do
+sol vai rozeando até se tornar escarlate.</p>
+
+<p>Em uma noticia publicada pelos jornais li que o nome
+dessa flôr <i>napê jaçanan</i> significa, forno das jaçanans, do
+que duvido. O genitivo exprimiam os indios com antepozição
+do nome rejido por esse cazo; assim <i>napê jaçanan</i>
+significaria jaçanan do forno. Demais nem <i>napê</i> quer dizer
+forno; nem forno indica a idéa que se pretende de pouzo ou
+ninho.</p>
+
+<p><i>Uapê</i> aí é o mesmo <i>igapê</i> com a simples diferença de
+figurar-se a vogal indijena por <i>u</i> em vez de <i>ig</i> adotada pelo
+geral dos autores.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_82">Paj. 82</a></p>
+
+<p><i>Murinhem</i>.&mdash;Palavra composta de <i>morib</i> afavel e <i>nheng</i>
+falar.&mdash;Veja-se a respeito dos cantores, <i>nhengara</i>, o que se
+disse na nota a paj. 117.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_86">Paj. 86</a></p>
+
+<p><i>Paan</i>.&mdash;Palavra da lingua Macaulí que significa seta&mdash;<i>Creban</i>
+significa homem alvo; e <i>Agniná</i>, monte.</p>
+
+
+<p class="censp"><a href="#Page_97">Paj. 97</a></p>
+
+<p><i>Tomou a espoza aos hombros</i>.&mdash;Era entre as mulheres
+selvajens prova de amor, suspenderem-se ás costas daquelles
+que preferiam, quando as requestavam com cantos e dansas.
+Assim o atesta Marcgraff cit. «Ubi vespera advenit, coeunt
+adolescentes in varias cohortes et castra perambulantes
+cantillant ante tuguria adolescentula autem quæ juvenibus
+delectantur, produnt et cantillantes atque tripudiantes sequuntur
+adolescentes <i>et á tergo consistunt eorum quos amant,
+id enim ipsis amoris testimonium est</i>. <i>Paj. 280</i>.»</p>
+
+<p>Escaparam-me algumas notas que a intelijencia do leitor
+suprirá. Todavia rezumirei as de que me recordo neste
+momento.</p>
+
+<p>Á paj. 44, quando diz Jurandir que conta os anos pelos<span class="pagenum"><a name="Page_135" id="Page_135">[135]</a></span>
+dedos, quer dizer que não tem mais de vinte, pois tantos
+são os dedos das mãos e pés.</p>
+
+<p>Á paj. 45, o grande lago que recolheu as aguas do diluvio
+é o <i>Manoa</i>, em cujas marjens se fabulou o <i>El-Dorado</i>. <i>Manoa</i>
+em achagua é diluvio, segundo Gumilha, 2.<sup>o</sup> vol., 7; palavra
+homologa ao vocabulo tupí <i>amana</i>, que significa chuva.</p>
+
+<p>Á paj. 45, o combate que Jurandir figura entre o mar e
+o Amazonas é a descrição da pororoca. Elle chama as aguas
+do mar-guerreiros azues-por causa da côr das vagas, e
+as aguas do rio-guerreiros vermelhos-porque a corrente
+do rio é então barrenta.</p>
+
+<p>Á paj. 45, onde se diz que os anos de Guaribú enchiam
+a corda de sua existencia alude-se ao costume que tinham
+os selvajens de contar os anos pelos nós que davam em um
+cordel, outros pelos frutos do colar.</p>
+
+<p>Á paj. 40 faz-se referencia á lenda de Sumê, já muito
+conhecida. Foi Sumê que ensinou aos tupís a agricultura e
+os primeiros rudimentos das artes.</p>
+
+<p>Á paj. 54 fala-se de <i>matumbos</i>. São as leivas que se
+fazem no norte para a plantação da mandioca.</p>
+
+
+
+
+
+<h2>LIVRARIA ALVES</h2>
+
+<p class="center">EXTRACTO DO CATALOGO</p>
+
+<h3>COLEÇÃO ALVES</h3>
+
+<p>Nesta coleção serão publicadas obras celebres de autores nacionais e
+estranjeiros ao modico preço de 1$000 réis cada volume, formato 16 francez.</p>
+
+
+<div class="center">
+<table border="0" cellpadding="4" cellspacing="0" summary="catalog">
+<tr><td class="tdr">1-2&mdash;</td><td class="tdl"><span class="bsans">O GUARANY</span>, por <i>José de Alencar</i>. 2 volumes br.</td><td class="tdr">2$000</td></tr>
+<tr><td class="tdr"></td><td class="tdl">A mesma obra, 2 vols. enc.</td><td class="tdr">4$000</td></tr>
+<tr><td class="tdr">3&mdash;</td><td class="tdl"><span class="bsans">A DAMA DAS CAMELIAS</span>, por <i>Alexandre Dumas, Filho</i>.&mdash;(<span class="smcap">No prélo</span>).</td><td class="tdr"></td></tr>
+<tr><td class="tdr">4-5&mdash;</td><td class="tdl"><span class="bsans">HISTORIA DE UM CORAÇÃO</span>, por <i>Emilio Castellar</i>.&mdash;(<span class="smcap">Em preparação</span>).</td></tr>
+<tr><td class="tdr">6&mdash;</td><td class="tdl"><span class="bsans">IRACEMA</span>, (Lejenda do Ceará), por José de Alencar, novissima edição. 1 vol. br.</td><td class="tdr">1$000</td></tr>
+<tr><td class="tdr">7&mdash;</td><td class="tdl"><span class="bsans">LUCIOLA</span> (Um perfil de Mulher), por <i>José de Alencar</i>. 1 vol. br.</td><td class="tdr">1$000</td></tr>
+<tr><td class="tdr">8&mdash;</td><td class="tdl"><span class="bsans">CINCO MINUTOS&mdash;A VIUVINHA</span>, por <i>José de Alencar</i>. 1 vol br.</td><td class="tdr">1$000</td></tr>
+<tr><td class="tdr"></td><td class="tdl">A mesma obra enc. em percalina</td><td class="tdr">2$000</td></tr>
+<tr><td class="tdr">9&mdash;</td><td class="tdl"><span class="bsans">A MORENINHA</span>, por <i>J. M. de Macedo</i>. 1 vol. br.</td><td class="tdr">1$000</td></tr>
+<tr><td class="tdr"></td><td class="tdl">A mesma obra enc. em percalina</td><td class="tdr">2$000</td></tr>
+<tr><td class="tdr">10&mdash;</td><td class="tdl"><span class="bsans">ROMANCE DE UM MOÇO POBRE</span>, por <i>Octavio Feuillet</i>. 1 vol. br.</td><td class="tdr">1$000</td></tr>
+<tr><td class="tdr">11&mdash;</td><td class="tdl"><span class="bsans">TRONCO DE IPÈ</span>, por <i>José de Alencar</i></td><td class="tdr">1$000</td></tr>
+<tr><td class="tdr"></td><td class="tdl">A mesma obra enc.</td><td class="tdr">2$000</td></tr>
+<tr><td class="tdr">12&mdash;</td><td class="tdl"><span class="bsans">A ESCRAVA IZAURA</span>, por <i>Bernardo Guimarães</i>. 1 vol. br.</td><td class="tdr">1$000</td></tr>
+</table></div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Ubirajara, by José Alencar
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK UBIRAJARA ***
+
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
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+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
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+License as specified in paragraph 1.E.1.
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+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
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+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
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+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
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+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
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+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
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+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
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+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
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+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
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+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
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