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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Ubirajara + Lenda tupi + +Author: José Alencar + +Release Date: January 5, 2012 [EBook #38496] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK UBIRAJARA *** + + + + +Produced by Júlio Reis, Fernanda Brojo, Manuela Alves, +Rory OConor and the Online Distributed Proofreading Team +at https://www.pgdp.net + + + + + + + + + + JOSÉ DE ALENCAR + + + + + UBIRAJARA + + [Illustration] + + + FRANCISCO ALVES & C.a + + RIO DE JANEIRO + 166, Rua do Ouvidor, 166 + + S. PAULO + 65, Rua de S. Bento, 65 + + BELO HORIZONTE + 1055, Rua da Baía, 1055 + + + AILLAUD, ALVES & C.a + + PARIS + 96, Boulevard Montparnasse + (Livraria Aillaud) + + AILLAUD, ALVES, BASTOS & C.a + + LISBOA + 73, Rua Garrett, 75 + (Livraria Bertrand) + + 1911 + + + + + UBIRAJARA + + + Composto e impresso na Tipografia JOSÉ BASTOS Rua da Alegria, + 100--Lisboa + + + + + J. DE ALENCAR + + + + + UBIRAJARA + + + LENDA TUPI + + [Illustration] + + + FRANCISCO ALVES & C.a + + RIO DE JANEIRO + 166, Rua do Ouvidor, 166 + + S. PAULO + 65, Rua de S. Bento, 65 + + BELO HORIZONTE + 1055, Rua da Baía, 1055 + + + AILLAUD, ALVES & C.a + + PARIS + 96, Boulevard Montparnasse + (Livraria Aillaud) + + AILLAUD, ALVES, BASTOS & C.a + + LISBOA + 73, Rua Garrett, 75 + (Livraria Bertrand) + + 1911 + + +[Illustration] + + + + +UBIRAJARA + + + + +I + +O CAÇADOR + + +Pela marjem do grande rio caminha Jaguarê, o joven caçador. + +O arco pende-lhe ao hombro, esquecido e inutil. As flechas dormem no +coldre da uiraçaba. + +Os veados saltam das moitas de ubaia e vêm retouçar na grama, zombando +do caçador. + +Jaguarê não vê o timido campeiro; seus olhos buscam um inimigo capaz de +rezistir-lhe ao braço robusto. + +O rujido do jaguar abala a floresta; mas o caçador tambem despreza o +jaguar, que já cançou de vencer. + +Elle chama-se Jaguarê, o mais feroz jaguar da floresta; os outros fojem +espavoridos quando de lonje o presentem. + +Não é esse o inimigo que procura, porém outro mais terrivel, para +vencel-o em combate de morte e ganhar nome de guerra. + +Jaguarê chegou á idade em que o mancebo troca a fama do caçador pela +gloria do guerreiro. + +Para ser aclamado guerreiro por sua nação é precizo que o joven caçador +conquiste esse titulo por uma grande façanha. + +Por isso deixou a taba dos seus e a prezença de Jandira, a virjem +formoza que lhe guarda o seio de espoza. + +Mas o sol tres vezes guiou o passo rapido do caçador através das +campinas, e tres vezes como agora deitou-se além nas montanhas da +Aratuba, sem mostrar-lhe um inimigo digno de seu valor. + +A sombra vai decendo da serra pelo vale e a tristeza cae da fronte sobre +a face de Jaguarê. + +O joven caçador empunha a lança de duas pontas, feita da roxa craúba, +mais rija que o ferro. + +Nenhum guerreiro brandiu jámais essa arma terrivel, que sua mão primeiro +fabricou. + +Lá estaca o joven caçador no meio da campina. Volvendo ao céu o olhar +torvo e iracundo, solta ainda uma vez seu grito de guerra. + +O bramido rolou pela amplidão da mata e foi morrer lonje nas cavernas da +montanha. + +Respondeu o ronco da sucurí na madre do rio e o urro do tigre escondido +na furna; mas outro grito de guerra não acudiu ao dezafio do caçador. + +Jaguarê arremessou a lança, que vibrou nos ares e foi cravar-se além no +grosso tronco da emburana. + +A copa frondoza ramalhou, como as palmas do coqueiro ao sopro do vento, +e o tronco gemeu até á raiz. + +O caçador repouza á sombra de sua lança. + + * * * * * + +Salta uma corça da mata e veloz atravessa a campina. + +Mais veloz a persegue gentil caçadora com a seta embebida no arco +flexivel. + +Ergue-se Jaguarê. + +Seu olhar ardente voou, sofrego de encontrar o inimigo que lhe tardava. + +Avistando uma mulher, a alegria do mancebo apagou-se no rosto sombrio. + +Pela faxa côr de ouro, tecida das penas do tucano, Jaguarê conheceu que +era uma filha da valente nação dos Tocantins, senhora do grande rio, +cujas marjens elle pizava. + +A liga vermelha que cinjia a perna esbelta da estranjeira dizia que +nenhum guerreiro jámais possuira a virjem formoza. + +A corça veiu cair aos pés de Jaguarê, atravessada pela flecha certeira +da joven caçadora que a seguia de perto. + +A virjem reconheceu o cocar da nação que na ultima lua chegára aos +campos do Taari e da qual os pajés tinham dado noticia. + +--Guerreiro araguaia, pois vejo pela pena vermelha de teu cocar que +pertences a essa nação valente; se pizas os campos dos Tocantins como +hospede, bem vindo sejas; mas se vens como inimigo, foje, para que tua +mãi não chore a morte de seu filho e tenha quem a proteja na velhice. + +--Virjem dos Tocantins, Jaguarê já soltou seu grito de guerra. Elle piza +os campos de teus pais como senhor. Tu és sua prizioneira. Não que +vencer a corça timida seja gloria para o caçador; mas tu chamarás o +inimigo que elle espera. + +--Se o veado te der a sua lijeireza, joven guerreiro, elle não te +servirá senão para ver o rasto de meu pé antes que o vento o apague. + +A linda caçadora desferiu a corrida pela imensa campina. Após ella se +arremessou Jaguarê, que muitas vezes vencera o tapir. + +Mas a virjem dos Tocantins corria como a nandú no dezerto, e o caçador +conheceu que seu braço nunca a poderia alcançar. + +Travou do arco e o brandiu. A seta obedeceu-lhe, pregando no tronco do +assaí a faxa que flutuava ao sopro do vento. + +--A filha dos Tocantins tem no pé as azas do beija-flôr; mas a seta de +Jaguarê vôa como o gavião. Não te assustes, virjem das florestas; tua +formozura venceu o impeto de meu braço e apagou a cólera no coração +feroz do caçador. Feliz o guerreiro que te possuir. + +--Eu sou Arací, a estrela do dia, filha de Itaquê, pai da grande nação +Tocantim. Cem dos melhores guerreiros o servem em sua cabana para +merecer que elle o escolha por filho. O mais forte e valente me terá por +espoza. Vem comigo, guerreiro araguaia; excede aos outros no trabalho e +na constancia, e tu romperás a liga de Arací na proxima lua do amor. + +--Não, filha do sol; Jaguarê não deixou a taba de seus pais, onde +Jandira lhe guarda o seio de espoza, para ser escravo da virjem. Elle +vem combater e ganhar um nome de guerra que encha de orgulho a sua +nação. Torna á taba dos Tocantins e dize aos cem guerreiros cativos de +teu amor, que Jaguarê, o mais destemido dos caçadores araguaias, os +dezafia ao combate. + +--Arací vai, pois assim o queres. Se fores vencido, ella guardará tua +lembrança, pois nunca seus olhos viram mais belo caçador. Se fores +vencedor, será uma alegria para a virjem do sol pertencer ao mais +valente dos guerreiros. + +A virjem disse e dezapareceu na selva. Os olhos de Jaguarê seguiram o +passo lijeiro da formoza caçadora, como o guachimim que rasteja a +zabelê. + +Quando ella dezapareceu, o joven caçador recostou-se ao tronco da +emburana e esperou. + + * * * * * + +Do outro lado da campina assoma um guerreiro. + +Tem na cabeça o canitar das plumas de tucano, e no punho do tacape uma +franja das mesmas penas. + +É um guerreiro tocantim. De lonje avistou Jaguarê e reconheceu o penacho +vermelho dos araguaias. + +As duas nações não estão em guerra; mas sem quebra da fé póde um +guerreiro cansado do longo repouzo oferecer a outro guerreiro combate +leal. + +Quando o tocantim armou o arco, Jaguarê já tinha brandido o seu e +disparado no ar uma seta, mensajeira do dezafio. + +Respondeu o guerreiro disparando tambem uma flecha no ar, para dizer que +aceitava o combate. + +Então os dois campeões caminharam um para o outro com o passo grave e +pararam frente a frente. + +--Eu sou Jaguarê, filho de Camacan, chefe da valente nação dos +araguaias, que vem de lonje em busca da terra de seus pais. Minha fama +corre as tabas e tu já deves conhecer o maior caçador das florestas. Mas +Jaguarê despreza a fama de caçador; elle quer um nome de guerra, que +diga ás nações a força de seu braço e faça tremer aos mais bravos. Se +tua nação te aclamou forte entre os fortes, prepara-te para morrer; se +não, passa teu caminho, guerreiro vil, para que o sangue do fraco não +manche o tacape virjem de Jaguarê. + +--O caraiba guiou teu passo ao encontro de Pojucan, o matador de gente, +guerreiro chefe da terrivel nação tocantim, que enche de terror as +outras nações. Ha tres luas, desde que fujiram espavoridos os barbaros +Tapuias, que Pojucan não combate; e seu tacape tem fome do inimigo. Tu +não és digno dos golpes de um guerreiro chefe; mas Pojucan se compadece +de tua mocidade e consente em combater comtigo. Terás a gloria de ser +morto pelo mais valente guerreiro tocantim. Os cantores de meus feitos +lembrarão teu nome; e todos os mancebos de tua nação invejarão tua +sorte. + +--Jaguarê agradece a Tupan que te fez um grande guerreiro e o chefe mais +feroz da terrivel nação tocantim, Pojucan, matador de gente. A tua morte +será a primeira façanha do caçador araguaia e lhe dará um nome de guerra +que se torne o espanto dos seus e o terror das outras nações. + +Os dois campeões recuaram passo a passo até que se acharam a um tiro de +arco. + +Então soltaram o grito de guerra e se arremessaram um contra outro +brandindo o tacape. + + * * * * * + +Os tacapes toparam no ar e os dois guerreiros rodaram como as torrentes +impetuozas no remoinho da Itaoca. + +Dez vezes as clavas bateram, e dez vezes volveram para bater de novo. + +Os animais que passavam na floresta fujiram espavoridos, como se a +borrasca ribombasse no céu. + +Ainda uma vez encontraram-se os dois tacapes e voaram em lascas pelos +ares. + +--O ubiratan é forte; mas ha outro ubiratan que lhe reziste. Como o +braço de Pojucan é que não ha outro braço. Já viste, joven caçador, o +veado nas garras da giboia? Assim vais morrer. + +--Se tu fosses a cascavel que sómente sabe morder, Jaguarê te esmagaria +a cabeça com o pé e seguiria o seu caminho. Mas tu és a giboia feroz; e +Jaguarê gosta de estrangular a giboia. Não morrerás pelo pé, mas pela +mão do caçador. Lança teu bote, guerreiro tocantim. + +Pojucan estendeu os braços e estreitou os rins de Jaguarê, que por sua +vez cinjiu os lombos do guerreiro. + +Cada um dos campeões pôz na luta todas as suas forças, bastantes para +arrancar o tronco mais robusto da mata. + +Ambos, porém, ficaram imoveis. Eram dois jatobás que naceram juntos e +entrelaçaram os galhos ligando-se no mesmo tronco. + +Nada os desprende; nada os abala. O tufão passa bramindo sem ajital-os; +e elles permanecem quedos pelo volver dos tempos. + +Um pajé que passou na orla da mata viu os lutadores e esconjurou-os, +pensando que eram as almas de dois guerreiros prezos no abraço da morte. + +Já a sombra se desdobrava pelo vale fóra e o sol despedia-se dos cimos +dos montes, sem que os campeões se movessem. + +Por fim afrouxaram os braços e cada lutador recuou para contemplar seu +adversario. Nenhum mostrava no rosto sombra de fadiga. + +Conheceram que podiam lutar corpo a corpo, a noite inteira, sem que um +prostrasse o outro. + +--Tu és igual na valentia e na força ao guerreiro chefe da nação +tocantim. Mas Pojucan não consente que haja na terra quem rezista a seu +braço. É precizo que tu morras, Jaguarê, para que elle seja o primeiro +dos guerreiros que o sol alumia. + +--Pojucan, matador de gente, guerreiro feroz da nação tocantim, Jaguarê +deixou-te viver até este momento para saber se tu eras digno de dar-lhe +um nome de guerra. Agora que te conhece como o primeiro dos guerreiros +que existiram até este momento, elle quer que tua derrota seja a sua +primeira façanha. + +Disse, e, arrancando do tronco da emburana a lança de duas pontas, +caminhou outra vez para Pojucan. + +--Esta arma que tu vês é a lança de duas pontas. Jaguarê fabricou-a do +rijo galho da craúba, endurecido pelo fogo. Sua mão foi a primeira que a +arremessou e teu corpo é o primeiro cujo sangue ella vai beber. Empunha +a lança de duas pontas, guerreiro chefe, e ataca Jaguarê para receberes +a morte dos valentes. + + * * * * * + +Pojucan repeliu a lança que o joven caçador lhe aprezentára. + +--Jámais no combate um guerreiro tocantim atacará seu adversario +dezarmado; nem Pojucan preciza da lança. Ataca tu, Jaguarê, que não tens +confiança em teu braço; o de Pojucan basta para te prostrar. + +--O orgulho te cega, guerreiro chefe. A lança conhece Jaguarê que a +inventou e lhe obedece como o arpão á corda do pescador. Aperta-a bem em +tua mão robusta e Jaguarê estará duas vezes mais armado do que tu, que +não sabes manejal-a. + +O chefe tocantim cruzou os braços. + +--Toma a lança, Pojucan, se não queres que te chame covarde; pois tu +sabes que Jaguarê não te matará dezarmado, mas te abandonará como +indigno de combater com o filho do maior guerreiro araguaia, o grande +Camacan. + +O chefe tocantim arrojou-se contra Jaguarê que lhe travou dos pulsos e +outra vez os dois campeões ficaram imoveis. + +A noite veiu achal-os na mesma pozição. Tres vezes cessaram a luta, e de +novo a travaram. Mas afinal se convenceram que nenhum derrubaria o +outro. + +Então Pojucan disse: + +--Guerreiro araguaia, é precizo acabar o combate. A terra não chega +para dois guerreiros como nós. Finca no chão a lança e caminhemos até á +marjem do rio. Aquelle que primeiro chegar, será o senhor da lança e da +vida do outro. + +Assim fizeram os dois campeões. Chegados á marjem do rio, dispararam a +corrida. Ao mesmo tempo a mão de ambos tocou a haste da lança; mas +Jaguarê, arremessado pelo impeto da desfilada, não pôde arrancar a arma +que ficou na mão de Pojucan. + + * * * * * + +O guerreiro chefe enrista desdenhozamente a lança e caminha para +Jaguarê. Não vai como o guerreiro que marcha ao combate, mas como o +matador que se prepara para imolar a vitima. + +--Guerreiro chefe, Jaguarê não te quer matar como a serpente que ataca o +descuidado caçador. Dez vezes já, se quizesse, elle te houvera ferido +com tua propria mão. + +--Abandona a gloria do guerreiro, que não é para ti, nhengaíba. Pojucan +te concederá a vida, e te levará cativo á taba dos tocantins para que tu +cantes as suas façanhas na festa dos guerreiros. + +--Cativo serás tu, mas não para cantar os feitos dos guerreiros. Tu +servirás na taba dos araguaias para ajudar as velhas a varrer a oca. + +Arremessou-se Pojucan avante e desfechou o golpe; mas a lança rodára e +foi o chefe tocantim quem recebeu no peito a ponta farpada. + +Quando o corpo robusto de Pojucan tombava, cravado pelo dardo, Jaguarê +de um salto calcou a mão direita sobre o hombro esquerdo do vencido e +brandindo a arma sangrenta, soltou o grito do triunfo: + +--Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro invencivel que tem +por arma a serpente. Reconhece o teu vencedor, Pojucan, e proclama o +primeiro dos guerreiros, pois te venceu a ti, o maior guerreiro que +existiu antes delle. + +--Se meu valor, que serviu para aumentar a tua fama, merece de ti uma +graça, não deixes que Pojucan sofra mais um instante a vergonha de sua +derrota. + +--Não, chefe tocantim. Tu me acompanharás á taba dos araguaias para +narrar meu valor. A fama de Jaguarê preciza de um prizioneiro como o +grande Pojucan na festa da vitoria. + +--Tu és cruel, guerreiro da lança; mas fica certo que, se tua arma +traiçoeira me feriu o peito, o suplicio não vencerá a constancia do +varão tocantim que sabe afrontar as iras de Tupan e desprezar a vingança +dos araguaias. + + + + +II + +O GUERREIRO + + +Retumba a festa na taba dos araguaias. + +As fogueiras circulam a vasta ocara e derramam no seio da noite escura +as chamas da alegria. + +Toda a tarde o trocano reboou chamando os guerreiros das outras tabas á +grande taba do chefe. + +Era a festa guerreira de Jaguarê, filho de Camacan, o maior chefe dos +araguaias. + +No fundo da ocara prezide o conselho dos anciãos, que decide da paz ou +da guerra, e governa a valente nação. + +Os anciãos, sentados no longo giráu, contemplam taciturnos a geração de +guerreiros que elles ensinaram a combater, e têm saudades da passada +gloria. + +Suspenso em frente delles está o grande arco da nação araguaia, ornado +nas pontas das penas vermelhas da arara. + +É a insignia do chefe dos guerreiros, a qual Camacan, pai de Jaguarê, +conquistou na mocidade e ainda a conserva, pois ninguem ouza disputal-a. + +Eil-o, o velho chefe, embaixo do arco, que sua mão tantas vezes brandiu +na guerra. Em pé, arrimado ao invencivel tacape, elle dirije a festa. + +De um e outro lado da vasta ocara, está a multidão dos guerreiros, +colocados por sua ordem; primeiro os chefes das tabas; depois os varões; +por ultimo os moços guerreiros. + +Vêm depois os jovens caçadores que já deixaram a oca materna e estão +impacientes de ganhar por suas proezas a honra de serem admitidos entre +os guerreiros. + +Mas para isso têm de passar pelas provas, e sua juventude não lhes +consente ainda a robustez, que tamanho esforço demanda. + +Todos invejam a gloria de Jaguarê que hontem era o primeiro entre elles, +e hoje ali está disputando a fama aos mais valentes guerreiros. + +Por detraz da estacada apinham-se as mulheres, que segundo o rito +patrio não podem ser admitidas nas festas guerreiras. + +De lonje acompanham silenciozas com os olhos, as velhas aos filhos, as +espozas aos seus guerreiros, e as virjens aos noivos. + +Exultam quando ouvem celebrar as façanhas dos seus; mas não ouzam +murmurar uma palavra. + +Entre ellas está Jandira, a doce virjem, cujos negros olhos não se +cansam de admirar Jaguarê, seu futuro senhor. + +Já lhe tarda o momento de ver aclamar guerreiro ao joven caçador, para +ter a felicidade de servil-o como escrava na paz, e acompanhal-o como +espoza ao combate. + + * * * * * + +No centro da ocara ergueu-se Jaguarê. + +Defronte delle, Pojucan, no corpo que a ferida não abateu, mostra a +grande alma, serena em face dos inimigos. + +Camacan troou a inubia para ordenar silencio e o filho começou: + +--Guerreiros araguaias, ouvi a minha historia de guerra. + +«Depois que Jaguarê sofreu as provas do valor, partiu para conquistar um +nome famozo. + +«Deixando a taba, viu o falcão negro que despedia o vôo para as aguas +sem fim, e Jaguarê disse: + +«O falcão negro é o valente guerreiro dos ares; elle será a fama do +guerreiro araguaia que atravessará as nuvens e subirá ao céu. + +«Então Jaguarê marcou o vôo do falcão negro e seguiu por elle. + +«O sol despediu-se e voltou; uma, duas, tres vezes. No ultimo sol +Jaguarê encontrou um guerreiro da nação tocantim, senhora do grande rio. + +«Guerreiros araguaias, quereis saber qual foi o campeão que Tupan enviou +a Jaguarê para dar-lhe o nome de guerra? + +«Elle aí está diante de vós. + +«É o grande Pojucan, o feroz matador de gente, chefe da tribu mais +valente da poderoza nação dos tocantins, senhores do grande rio. + +«Vós que o tendes aqui prezente, vêde como é terrivel o seu aspeto, mas +só eu que o pelejei conheço o seu valor no combate. + +«O tacape em sua mão possante é como o tronco do ubiratan que brotou no +rochedo e creceu. + +«Jaguarê, que arranca da terra o cedro gigante, não o pôde arrancar de +sua mão; e foi obrigado a despedaçal-o. + +«Os braços de Pojucan, quando elle os estende na luta, não ha quem os +vergue; são dois penedos que saem da terra. + +«Seu corpo é a serra que se levanta no vale. Nenhum homem, nem mesmo +Camacan, o póde abalar. + +«Pojucan era o varão mais forte e o mais valente guerreiro que o sol +tinha visto até áquelle momento. + +«Foi este, guerreiros araguaias, o heróe que ofereceu combate ao filho +de Camacan; e Jaguarê aceitou, porque logo conheceu que havia encontrado +um inimigo digno de seu valor. + +«Elle vos contempla, guerreiros araguaias. Se alguem duvida da palavra +de Jaguarê e da força do guerreiro tocantim, chame-o a combate e saberá +quem é Pojucan.» + +O chefe tocantim lançou um olhar ameaçador á multidão dos guerreiros; +mas nenhum ouzou aceitar o dezafio. + + * * * * * + +Pojucan alçou a mão em sinal de que dezejava falar; todos escutaram com +respeito o heróe, ainda maior na desgraça. + +--Guerreiros araguaias, ouvi a voz de Pojucan, vosso inimigo, que +afronta as iras dos fortes e despreza a vingança dos fracos. + +«Pojucan, guerreiro chefe da grande nação tocantim, jámais encontrou +guerreiro que rezistisse á força de seu braço invencivel. + +«Mas Tupan, cansado de ouvir celebrar em todas as festas o nome de +Pojucan, como vencedor, emprestou sua força a Jaguarê, o maior guerreiro +que já pizou a terra. + +«Eu que senti o impeto de sua corajem, posso dizer-vos que só o sangue +tocantim é capaz de gerar um guerreiro tão poderozo. + +«Foi alguma virjem araguaia que vagando pela floresta encontrou Pojucan, +e trouxe no seio fecundo a alma do grande guerreiro. + +«Seu braço é como o corisco do céu; e a sua força como a tempestade que +dece das nuvens.» + +Calou-se Pojucan; e Jaguarê continuou o seu canto de guerra: + +«Quando a sombra começava a decer da crista da montanha, Pojucan e +Jaguarê caminharam um contra o outro. + +«Toda a noite combateram. O sol nacendo veiu achal-os ainda na peleja, +como os deixára; nem vencidos, nem vencedores. + +«Conheceram que eram os dois maiores guerreiros, na fortaleza do corpo, +e na destreza das armas. + +«Mas nenhum consentia que houvesse na terra outro guerreiro igual; pois +ambos queriam ser o primeiro. + +«Foi então que o chefe tocantim ganhou na corrida a lança de duas +pontas, que Jaguarê havia fabricado. + +«Tres vezes seu punho robusto a brandiu, e tres vezes ella escapou-lhe +da mão, como a serpente das garras do gavião. + +«Mais uma vez o grande guerreiro investiu com o bote armado; e a lança, +escrava de Jaguarê, cravou o peito do inimigo. + +«Elle caiu, o guerreiro chefe, o grande varão dos tocantins, o valente +dos valentes, Pojucan, o feroz matador de gente. + +«E Jaguarê brandindo a arma da vitoria bradou: + +«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, que venceu o primeiro guerreiro +dos guerreiros de Tupan. + +«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro terrivel que tem por +arma uma serpente.» + + * * * * * + +O trocano ribombou, derramando lonje pela amplidão dos vales e pelos +écos das montanhas a pocema do triunfo. + +Os tacapes, vibrados pela mão pujante dos guerreiros, bateram nos largos +escudos retinindo. + +Mas a voz possante da multidão dos guerreiros cobriu o imenso rumor +clamando: + +--Tu és Ubirajara, o senhor da lança, o vencedor de Pojucan, o maior +guerreiro da nação tocantim. + +«Os guerreiros araguaias te recebem por seu irmão nas armas e te aclamam +forte entre os fortes. + +«Os cantores celebrarão teu nome como os mais famozos da nação araguaia +e Camacan terá a gloria de chamar-se pai de Ubirajara, como foi gloria +para Jaguarê ser filho de Camacan.» + +Quando parou o estrondo da festa e cessou o canto dos guerreiros, +avançou Camacan, o grande chefe dos araguaias. + +De um salto o ancião alcançou o arco da nação, insignia do chefe na +guerra, e caminhou para Ubirajara. + +O arco era de ubiratan, grosso como o braço do mais robusto guerreiro; a +corda trançada de crautá tinha o corpo do dedo que a brandia. + +Os mais possantes varões da nação araguaia a custo empunhavam o grande +arco; mas só um tinha força para disparar a seta. + +Era Camacan, o chefe dos chefes, que dirijia na guerra os guerreiros +araguaias. + +Assim falou o ancião: + +--Ubirajara, senhor da lança, é tempo de empunhares o grande arco da +nação araguaia, que deve estar na mão do mais possante. Camacan o +conquistou no dia em que escolheu por espoza Jaçanan, a virjem dos olhos +de fogo, em cujo seio te gerou seu primeiro sangue. Ainda hoje, apezar +da velhice que lhe mirrou o corpo, nenhum guerreiro ouzaria disputar o +grande arco ao velho chefe, que não sofresse logo o castigo de sua +audacia. Mas Tupan ordena que o ancião se curve para a terra até +dezabar como o tronco carcomido, e que o mancebo se eleve para o céu +como a arvore altaneira. Camacan revive em ti; a gloria de ser o maior +guerreiro crece com a gloria de ter gerado um guerreiro ainda maior do +que elle. + + * * * * * + +Ubirajara tomou o arco que lhe aprezentava o pai e disse: + +--Camacan, tu és o primeiro guerreiro e o maior chefe da nação araguaia. +Para a gloria de Jaguarê bastava que elle se mostrasse teu filho no +valor como é teu filho no sangue. Mas o grande arco da nação araguaia, +Ubirajara não o recebe de ti e de nenhum outro guerreiro, pois o ha de +conquistar pela sua pujança. + +Disse, e arremessando no meio da ocara o grande arco, bradou: + +--O guerreiro que ouze empunhar o grande arco da nação araguaia, venha +disputal-o a Ubirajara. + +Nenhuma voz se ergueu; nenhum campeão avançou o passo. + +O trocano reboou de novo, e no meio da pocema de triunfo, a multidão dos +guerreiros proclamou: + +--Ubirajara, senhor da lança, tu és o mais forte dos guerreiros +araguaias; empunha o arco chefe. + +Então Ubirajara levantou o grande arco, e a corda zuniu como o vento na +floresta. + +Era a primeira seta, mensajeira do chefe, que levava ás nuvens a fama de +Ubirajara. + +Os cantores exaltaram a gloria dos dois chefes: a do velho Camacan, que +trocára a arma do guerreiro pelo bordão do conselho; e a do joven +Ubirajara, que na sua mocidade já se mostrava tão grande, como fôra o +pai na robustez dos anos. + +Pojucan teve o consolo de ouvir seu nome, repetido muitas vezes e +louvado a par com o de seu vencedor. + +Os cantores celebraram depois os grandes feitos da nação araguaia, desde +os tempos remotos em que os projenitores deixaram a grande taba dos +Tamoios, seus avós. + +Quando os nhengaçáras entoaram o canto do triunfo, vieram as mulheres +com vazos cheios do generozo cauim e aprezentaram as taças aos +guerreiros. + +Jandira suspirou; ella era virjem, e como suas companheiras, não podia +aparecer na festa dos guerreiros. + +Sentiu não ser já espoza, para ter o orgulho de encher de vinho +espumante, por ella fabricado, a taça de seu heróe e senhor. + +O guincho agoureiro da inhúma resoava na mata, quando começou a dansa +guerreira que durou até perto da alvorada. + + + + +III + +A NOIVA + + +Ao raiar da luz no céu, Jandira abriu os lindos olhos negros. + +Seu canto foi o primeiro que saudou o nacer do dia e acordou em seu +ninho a viuvinha. + +A doce filha de Majé saltou da rêde que embalára os sonhos castos da +virjem, e despediu-se della como a jaçanan que deixa a moita para +habitar o ninho do amor. + +A virjem tocantim acreditava ter dormido a ultima noite na cabana +paterna, que essa manhã ia trocar pela cabana do espozo. + +O joven caçador que a amava, Jaguarê, fôra aclamado guerreiro, e entre +todos os guerreiros o chefe da nação. + +Como guerreiro elle póde tomar uma espoza; e como chefe pertence-lhe a +virjem de sua escolha, entre as mais formozas da taba. + +Ainda que a virjem tenha um noivo, ou que o pai a destine a outro, se o +chefe a dezeja, a vontade de Tupan é que lhe pertença. + +Tupan assim ordena para que os grandes chefes possam gerar de seu sangue +os mais belos e valentes guerreiros. + +Jaguarê antes de ser aclamado chefe já a tinha escolhido, e Jandira não +aceitaria outro noivo senão o joven caçador a quem amava. + +Ella o espera. Logo que o sol alumie a terra, Ubirajara, o grande chefe, +ha de vir buscal-a. + +Então a virjem se despedirá de Majé; e irá armar na cabana de seu +guerreiro e senhor a rêde da espoza. + +Lijeira e contente corre a banhar-se no rio antes que chegue Ubirajara, +para quem purifica seu corpo e se unje com o oleo fragrante do +sassafraz. + +Ella quer que o destemido guerreiro ache seu amor saborozo como o vinho +que espumá na taça, e ferve nas veias. + +Tornando á cabana, perfumou de beijoim a larga rêde que tecera dos fios +do algodão entrelaçados com as penas do guará. + +Essa rêde tinha duas vezes o tamanho de sua rêde de virjem, porque era a +rêde do cazamento em que devia receber o espozo. + +Depois arrumou no urú a louça que havia fabricado para o serviço do +guerreiro, e que devia transportar á sua nova cabana. + +Quando terminou todos os preparativos, encostou-se á porta da cabana; +seus olhos impacientes chamavam Ubirajara. + +Mas o guerreiro não vinha, e o sol já tinha subido além da crista da +serra. + +A luz do dia derramava a alegria pelos campos; e a alegria que lhe +afagára os sonhos da noite fujia agora da alma de Jandira. + +Então a filha de Majé partiu em busca do noivo que a esquecera. + + * * * * * + +No mais escuro da mata vaga o chefe dos araguaias. + +Seus olhos fojem á luz do dia e buscam a sombra, onde encontram a imajem +que traz na lembrança. + +Á noite quando o guerreiro dormia em sua rêde solitaria, Arací, a linda +virjem, lhe apareceu em sonho e lhe falou: + +--Jaguarê, joven caçador, tu dormes descansado emquanto os guerreiros +tocantins se preparam para roubar a virjem de teus amores. Ergue-te e +parte, se não queres chegar tarde. + +Elle erguera-se para seguil-a; mas a virjem formoza desferiu a corrida +veloz através da campina e dezapareceu na floresta. + +Neste ponto do sonho o guerreiro acordára. + +Uma estrela brilhante listrava o céu, como uma lagrima de fogo, e +Ubirajara pensou que era o rasto de Arací, a filha da luz. + +A jurití arrolhou docemente na mata e Ubirajara lembrou-se da voz +mavioza da virjem do sol. + +O guerreiro tornou á rêde, esperando achar ali outra vez o sonho que +vizitára sua alma; porém o sono fujira de seus olhos. + +Quando raiou a primeira alvorada, Ubirajara saiu da cabana e buscou no +mais espesso da mata a sombra propicia á saudade. + +Seu passo o guiava sem querer para as bandas do grande rio, onde devia +ficar a taba dos tocantins. + +É assim que os coqueiros, imoveis na praia, inclinam para o nacente seu +verde cocar. + +Ubirajara ouviu o rumor de um passo lijeiro através da mata; de lonje +conheceu Jandira que o procurava. + +A doce virjem achára á porta da cabana o rasto do guerreiro e o seguira +através da floresta. + +--Que máu sonho aflige Ubirajara, o senhor da lança e o maior dos +guerreiros, chefe da grande nação araguaia, para que elle se afaste de +sua taba e esqueça a noiva que o espera. + +--A tristeza entrou no coração de Ubirajara, que não sabe mais dizer-te +palavras de alegria, linda virjem. + +--A tristeza é amarga; quando entra no coração do guerreiro, o enche de +fel. Mas Jandira fará como sua irmã, a abelha, ella fabricará em seus +labios os favos mais doces para seu guerreiro; suas palavras serão os +fios de mel que ella derramará na alma do espozo. + +--Filha de Majé, doce virjem, ainda não chegou o dia em que Ubirajara +escolha uma espoza; nem elle sabe ainda qual o seio que Tupan destinou +para gerar o primeiro filho do grande chefe dos araguaias. + + * * * * * + +O labio de Jandira emudeceu; mas o peito soluçou. + +A virjem conheceu que o amor de Ubirajara retirava-se della, e que de +todo o perderia se o não defendesse. + +Então escondeu a dôr no fundo da alma e chamou o rizo a seus labios, a +alegria a seus olhos. + +Ella sabia que os guerreiros amam a flôr da formozura, como a folhajem +da arvore; e que a tristeza murcha a graça da mais linda virjem. + +--Chefe dos araguaias, Ubirajara, não desprezes Jandira que outr'ora +escolheste para tua noiva. Se então ella era formoza a teus olhos, mais +formoza se fará para merecer teu amor. Tu gostavas de seus cabelos +negros que arrastam no chão; ella os entrançará com as plumas vermelhas +do guará para que te pareçam mais bonitos. Seus olhos negros que te +falavam, ella os cercará de uma listra amarela como os olhos da jaçanan. +Sua boca, que ainda não provaste, Jandira a encherá de amor para que +bebas nella o contentamento. + +Jandira esperou a palavra de Ubirajara; mas os labios mudos do guerreiro +não se abriram. + +--Teu amor, Ubirajara, ficará em meu seio como a flôr no vale. Jandira +te dará muitos filhos e todos dignos de teu valor. Nestes peitos, que te +pertencem, ella os nutrirá com seu sangue, não menos guerreiro do que o +teu; porque é o sangue de Majé, o maior dos anciãos, depois de Camacan. +Seus braços que outr'ora querias para tua cintura, não servirão +unicamente para te abraçarem, mas tambem para te servirem. Tua espoza te +acompanhará por toda a parte, na taba, como no campo do combate; ella +cuidará de tua cabana; aprontará as mais saborozas iguarias para seu +guerreiro, e fabricará para elle o vinho, que é a alma da festa. + +--Jandira é a mais bela das virjens araguaias. Seu amor fará a ventura +de um guerreiro valente. Ubirajara não podia achar para si uma espoza +mais fiel, nem para seus filhos outra mãi tão fecunda. Mas a noite deceu +em sua alma. Só a estrela do dia póde restituir-lhe a alegria que o +abandonou. A filha de Majé merece um guerreiro que tenha olhos para a +sua formozura. + + * * * * * + +Pojucan sentou-se pensativo á porta da cabana. + +O semblante, sempre grave, como convém a um chefe, cobre-se de tristeza. + +A noite que foje da terra, vencida pelo sol, parece recolher-se na alma +do chefe tocantim. + +Não é sua ferida que o faz sofrer. O balsamo suave da embaiba sára +rapidamente os golpes mais profundos; e os varões tocantins aprendem +desde o berço a desprezar a dôr. + +É em seu coração de guerreiro, que Pojucan sente as garras do Anhanga. + +O revez de ser vencido e cair prizioneiro, elle o suporta como o varão +forte que viu prostrados por Aresqui no campo da batalha os mais +terriveis guerreiros. + +A grandeza do vencedor o consola; resta-lhe ainda a gloria de ter +rezistido a um braço, como o de Ubirajara, grande chefe dos araguaias. + +Mas elle esperava que depois de haver ornado com sua prezença a festa do +triunfo, o vencedor fosse generozo, e lhe concedesse a honra do +sacrificio. + +É o temor de que Ubirajara lhe recuze uma morte glorioza e o retenha +cativo, que nesse momento acabrunha o chefe dos tocantins. + +Elle, um guerreiro livre que pizára outr'ora como senhor aquelles +campos, reduzido á condição de escravo? + +Elle, um varão chefe que tinha na obediencia de seu arco mais de mil +guerreiros valentes, obrigado a reconhecer um dono? + +Elle, que afrontava a cólera de Tupan, quando o deus irado rujia do céu, +curvar-se ao aceno de um homem, fosse embora o mais pujante dos filhos +da terra? + +Pojucan estremecia quando se lembrava que podia ser condenado a tão +grande humilhação. + +Em seu terror promovia o passo, com o impeto de fujir para sempre da +taba dos araguaias, onde o ameaçava aquella vergonha. + +Mas uma força invencivel atava-lhe a vontade. Elle não se pertencia +desde o momento em que Ubirajara lhe calcou a mão direita no hombro. + +Esse era o sinal da conquista, que prendia o vencido ao vencedor; +aquelle que violasse a lei da guerra, perderia para sempre o nobre +titulo de guerreiro. + +O desprezo do inimigo o acompanharia aos seus campos nativos; e a taba +de seus irmãos não se abriria para o fujitivo que houvesse dezhonrado o +nome de sua nação. + +Por isso na cabana solitaria, Pojucan está mais guardado do que se o +cercasse a multidão dos guerreiros araguaias. + +Véla elle proprio em si, porque véla em sua fama. + +Póde Ubirajara esquecel-o, que na volta o encontrará ali onde o deixou. + +Nada o arrancará da cabana; nem a necessidade de buscar o alimento para +o corpo. + +Bem vinda será a fome, se durar tanto que prostre seu corpo robusto, e o +entregue ao seio da terra, onde o guerreiro dorme o sono da gloria. + +Além rompe da selva Ubirajara, que se encaminha para a cabana com o +passo rapido. + +Segue-o de perto Jandira, como a gentil corça acompanha o caçador, que +lhe roubou o companheiro. + +Descobrindo o chefe dos araguaias, Pojucan encerrou a tristeza dentro de +sua alma; e chamou ao rosto a altivez dos grandes guerreiros. + +O chefe tocantim não queria que seu vencedor se regozijasse de ter-lhe +abatido o animo inflexivel. + + * * * * * + +Quando Ubirajara se aproximou da cabana, Pojucan tomou-lhe o passo. + +--Ubirajara, senhor da lança, grande chefe da nação araguaia, não +confessaste tu diante dos anciãos das tabas e de todos os teus +guerreiros, que Pojucan era o varão mais forte e o mais terrivel no +combate, que o sol tinha visto até o momento de ser vencido por ti? + +--Ubirajara o disse. É a voz da nação araguaia. + +--Desde que tu cruzaste comigo a seta do dezafio até este momento, +Pojucan, guerreiro varão, e chefe de uma taba, na valente nação dos +tocantins, mostrou-se pela sua constancia e valor digno do sangue de +seus avós? + +--Pojucan o disse; e a fama o repete. + +--Então porque Ubirajara, o grande chefe dos araguaias, não concede a +Pojucan a morte glorioza, que os tocantins jámais recuzaram a um +guerreiro valente, e que sómente se nega aos fracos? Já não serviu +Pojucan á tua gloria na festa do triunfo? Esperas delle que te obedeça +como um escravo? Se aviltas o varão, a quem venceste, humilhas o teu +valor que elle exaltava. + +O grande chefe araguaia ouviu sem interromper o prizioneiro, e respondeu +com gravidade: + +--Ubirajara não recuza ao bravo chefe tocantim, seu terrivel inimigo, o +suplicio, que não negaria a qualquer guerreiro valente. Elle esperava +que tua ferida se fechasse de todo, para que o grande Pojucan possa no +dia do ultimo combate sustentar a fama de seu nome, e a gloria de um +varão que só foi vencido por Ubirajara. + +O grande chefe dos araguaias levou aos labios a inubia de Camacan; a voz +do mando reboou pelo vasto ambito da taba. + +Apareceram vinte jovens guerreiros, a quem elle ordenou que chamassem a +conselho os anciãos. + +Depois tornou ao chefe tocantim: + +--Os araguaias receberam de seus avós o costume das nações que Tupan +creou. Elles destinam ao prizioneiro a mais bela e a mais ilustre de +todas as virjens da taba, para que ella conserve o sangue generozo do +heróe inimigo e aumente a nobreza e o valor de sua nação. + +--É esta tambem a lei, que os guerreiros tocantins observam em suas +tabas. + +--A mais bela e a mais nobre de todas as virjens araguaias, aquella que +se ergue como a palmeira no meio da campina coberta de flôres, é +Jandira, a filha de Majé, que tem no seio os doces favos da abelha. + +Travando então do pulso de Jandira, que ali ficára preza de sua vista, +levou-a ao prizioneiro. + +--Recebe-a como espoza do tumulo. + +Jandira que ouviu espavorida aquellas palavras, quiz fujir; porém a mão +do chefe araguaia a reteve. + +--Ubirajara parte, mas elle voltará para assistir a teu suplicio e +vibrar-te o ultimo golpe. Pojucan terá a gloria de morrer pela mão do +mais valente guerreiro. + + * * * * * + +Ficaram Jandira e Pojucan em face um do outro. + +--Virjem dos araguaias, Tupan te rezervou para espoza do mais terrivel +dos inimigos de tua nação. O filho de seu sangue será o mais valente dos +guerreiros; tu sentirás orgulho por havel-o gerado em teu seio. + +--Pojucan, chefe tocantim, Jandira nunca será tua espoza. + +--Não é Ubirajara o chefe de tua nação, e não te destinou elle para +servir de noiva do tumulo ao guerreiro que vai morrer no suplicio? + +--Ubirajara é o grande chefe da nação araguaia; á sua voz cala-se a +palavra dos anciãos; a seu gesto curva-se a fronte dos guerreiros; á sua +vontade obedecem as tabas. Mas no amor de Jandira, ninguem manda, nem +Tupan. Jandira é noiva de Ubirajara, e se elle não quizer aceital-a, o +guanumbí a levará para os campos alegres onde repouzam as virjens que +morreram. + +--Pojucan não carece do amor de Jandira. Nas tabas dos tocantins a mais +bela das virjens se regozijaria de pertencer ao mais valente dos chefes, +e de habitar sua rêde. Nas tabas dos araguaias, onde nacem guerreiros +como Ubirajara, não faltarão virjens formozas, que dezejem a gloria de +ser mãi de um filho de Pojucan. + +--Jandira seria a primeira, se não conhecesse Jaguarê, o mais belo dos +jovens caçadores, que é hoje Ubirajara, o senhor da lança e chefe dos +chefes. Pojucan merece uma espoza que nunca tenha ouvido o canto de +outro guerreiro, para dar-lhe um filho digno delle. + +--Os ritos de tua nação não punem a noiva que rejeita o prizioneiro? + +--Jandira sabe que se sujeita á morte; mas a morte é menos cruel do que +o abandono. + +--Então foje, virjem dos araguaias, e esconde-te á cólera dos anciãos. +Talvez mais tarde Ubirajara se arrependa e te perdôe. + +--Jandira parte. Ella te dezeja uma espoza terna e a morte glorioza. + +A filha de Majé penetrou na floresta, e afastou-se rapidamente da taba. + +Quando já estava muito lonje, sentou-se á sombra de um manacá coberto de +flôres e cantou: + +--Eu fui Jandira, a linda abelha, que fabricava os favos de cêra para +enchel-os de mel saborozo. + +«Agora arrancaram-me as minhas azas com que eu voava pela campina +colhendo o pó das flôres; e secou a doçura de meu sorrizo. + +«O canto que saía de meu seio era como o da patativa ao pôr do sol, +quando se recolhe em seu ninho de paina macia. + +«Agora eu queria ter no coração uma serpente para morder aquella que me +roubou o amor de meu guerreiro. + +«Guardei a minha formozura para orgulho do espozo, e inveja dos outros +guerreiros. + +«Agora eu trocaria a flôr do meu rosto por um aspeto terrivel que +infundisse pavor. + +«Meus seios mais lindos que os botões do cardo por um peito feroz, e as +mãos lijeiras que tecem os fios do algodão pelas garras do jaguar. + +«Eu fui Jandira, o manacá viçozo que se vestia de flôres azues e +brancas. + +«Agora sou como a jussara que perdeu a folha, e só tem espinhos para +ferir aquelles que se chegam.» + + * * * * * + +Os anciãos já estavam reunidos na oca do conselho, quando Ubirajara +entrou. + +Falou Camacan: + +--Ubirajara, senhor da lança, chefe dos chefes, os pais da grande nação +araguaia escutam a tua voz. + +O grande chefe tres vezes bateu no chão com a ponta do arco e disse: + +--Pojucan, o chefe tocantim, pede a morte do combate; elle a merece, +porque é um grande guerreiro e um varão ilustre. Ubirajara concedeu-lhe +essa honra, como seu vencedor. + +--Ubirajara é um inimigo generozo; respondeu Camacan. + +Todos os anciãos inclinaram gravemente a cabeça encanecida para +exprimirem sua aprovação ás palavras de Camacan. + +Proseguiu Ubirajara: + +--É tempo de escolher para o prizioneiro uma espoza digna de acompanhar +em seus ultimos dias ao heróe inimigo, e de ser mãi do marabá, o filho +da guerra. + +Todos os abarés dezejavam para si a gloria de oferecer uma filha ao +prizioneiro. + +--Ubirajara destinou-lhe Jandira, filha de Majé. Ella o merece por sua +formozura, e pelo sangue do grande guerreiro que gira em suas veias. + +--Ubirajara é um grande chefe, disse Camacan. + +Os anciãos aprovaram outra vez com a cabeça; Majé acrecentou: + +--O sangue do velho Majé não desmentirá em Jandira a fama da nação +araguaia. + +--Não! disse Ubirajara e todos os anciãos repetiram: Não! + +O grande chefe tornou com a voz pauzada: + +--Celebrai a ceremonia da entrega da espoza ao prizioneiro. Ubirajara +parte; só estará de volta na proxima lua para assistir ao suplicio de +Pojucan. Se na auzencia de Ubirajara cair na taba a flecha, nuncia da +guerra, conduzi o trocano ao sitio onde se abraçam os grandes rios, e +soltai a voz da nação araguaia. Nesse dia Ubirajara será comvosco. + +Os prudentes anciãos, com a cabeça inclinada para melhor ouvir, recebiam +as palavras do grande chefe e as guardavam na memoria. + +Quando Ubirajara se calou, Camacan repetiu, ainda mais pauzado, as +recomendações do filho: + +--É esta a vontade de Ubirajara? + +--Tu o disseste. + +--Os anciãos guardaram a palavra do chefe dos chefes? perguntou ainda +Camacan. + +--Ella entrou no espirito dos abarés, como a raiz no seio da terra, +observou Majé. + +--Bem dito, repetiram todos. + +Ubirajara saiu do carbeto; após elle os anciãos se retiraram +lentamente. + + + + +IV + +A HOSPITALIDADE + + +Na entrada do vale ergue-se a grande taba dos tocantins. + +É a hora em que as sombras abraçam os troncos das arvores e o sol +descansa em meio da carreira. + +A floresta emudece, e todos os viventes se abrigam da calma que abraza. + +Ubirajara deixa o escuro da mata e caminha para a grande taba dos +tocantins. + +Quando chegou á distancia do tiro de uma flecha despedida pelo mais +robusto guerreiro, tocou a inubia. + +O guerreiro de vijia respondeu; e o chefe araguaia, quebrando a seta, +alçou a mão direita para mostrar a senha da paz. + +Então avançou para a taba; na entrada da caissara que cercava o campo +dos tocantins, atirou ao chão a seta partida. + +Os guerreiros que tinham acudido ao som da inubia, deixaram passar o +estranjeiro sem inquirir donde vinha, nem o que o trouxera. + +Era este o costume herdado de seus maiores, que o hospede mandava na +taba aonde Tupan o conduzia. + +Ubirajara passou entre os guerreiros, e dirijiu-se á cabana mais alta +que ficava no centro da ocara. + +A figura do tucano, feita de barro pintado, e colocada em cima da porta, +dizia que era ali a cabana do grande chefe. + +Mas Ubirajara já o sabia; pois antes de penetrar na taba, subira á +grimpa do mais alto cedro da floresta para conhecer o sitio onde +habitava Arací, a estrela do dia. + +A cabana estava dezerta naquelle instante, mas ouvia-se a fala das +mulheres que trabalhavam no terreiro. + +Ubirajara transpôz o limiar, e levantando a voz disse: + +--O estranjeiro chegou. + +Acudiram as mulheres, e conduziram Ubirajara á prezença do grande chefe +dos tocantins. + +Itaquê passava as horas da ardente calma á sombra da frondoza gameleira, +que podia abrigar cem guerreiros em baixo de sua rama. + +Repouzando dos combates, o formidavel guerreiro não desdenhava as artes +da paz em que era tão consumado como nas batalhas. + +Assim honrava as fadigas da taba, dando o exemplo do trabalho á familia +de que era pai, e a nação de que era chefe. + +Nesse momento as mulheres colocadas em duas filas, com as mãos erguidas, +urdiam os fios de algodão, passados pelos dedos abertos em fórma de +pente. + +Itaquê manejava a lançadeira, tão destro como na peleja vibrava o +tacape. Sua mão lijeira tramava a teia de uma rêde, que entretecia das +penas douradas do galo da serra. + +Quando chegou Ubirajara, o grande chefe dos tocantins, depois de ter +rematado a urdidura, entregou a lançadeira ao guerreiro Pirajá que +estava a seu lado, e veiu ao encontro do hospede. + +--O estranjeiro veiu á cabana de Itaquê, grande chefe da nação tocantim, +disse Ubirajara. + +--Bem vindo é o estranjeiro á cabana de Itaquê, grande chefe da nação +tocantim. + +Então o tuxava voltou-se para Jacamim, a mãi de seus filhos: + +--Jacamim, prepara o cachimbo do grande chefe, para que elle e o +estranjeiro troquem a fumaça da hospitalidade. + +Os mensajeiros já corriam pela taba, avizando os guerreiros moacaras da +vinda do hospede á cabana de Itaquê. + +Os moacaras, revestidos de seus ornatos de festa, se encaminharam com o +passo grave á oca principal afim de honrar o hospede do grande chefe da +nação tocantim. + +Ali chegados, cada um dirijiu ao estranjeiro a pergunta da hospitalidade +e deu-lhe a boa vinda. + + * * * * * + +Depois que Itaquê ofereceu a Ubirajara o cachimbo da paz, e com elle +trocou a fumaça da hospitalidade, os cantores entoaram a saudação da +chegada: + +«O hospede é mensajeiro de Tupan. Elle traz a alegria á cabana; e quando +parte leva comsigo a fama do guerreiro que teve a fortuna de o acolher. + +«Nas tabas por onde passa, e na terra de seus pais, elle conta aos +velhos, que depois ensinam aos moços, as proezas dos heróes que viu em +seu caminho, e de quem recebeu o abraço da paz. + +«O hospede é mensajeiro de Tupan. Elle traz comsigo a sabedoria; na +cabana do guerreiro que tem a fortuna de o acolher, todos o escutam com +respeito. + +«Em suas palavras prudentes, os anciãos da taba aprendem, para ensinar +aos moços, os costumes dos outros povos, as façanhas de guerra +desconhecidas por elles, e as artes da paz, que o estranjeiro viu em +suas viajens. + +«O hospede é mensajeiro de Tupan. O primeiro que apareceu na taba dos +avós da nação tocantim, foi Sumê, que veiu de onde a terra começa e +caminhou para onde a terra acaba. + +«Delle aprenderam as nações a plantar a mandioca para fazer a farinha, e +a tirar do cajú e do ananaz o generozo cauim, que alegra o coração do +guerreiro. + +«O hospede é mensajeiro de Tupan. Quando o estranjeiro entra na cabana, +o guerreiro que tem a fortuna de o acolher, não sabe se elle é um chefe +ilustre ou o grande Sumê que volta de sua viajem. + +«O sabio ensina por onde passa os segredos da paz, e o heróe as façanhas +da guerra; mas ambos deixam na cabana da hospitalidade a gloria de ter +abrigado um grande varão. + +«O hospede é mensajeiro de Tupan. Por seu caminho vai deixando a +abundancia e a festa; depois do banquete da boa vinda as arvores vergam +com os frutos, e a caça não cabe na floresta. + +«A cabana que fecha a porta ao hospede, o vento a arranca, o fogo do céu +a abraza. O guerreiro que não se alegra com a chegada do hospede, vê +murchar ao redor de si a espoza, os filhos, as mulheres e as roças que +elle plantou. + +«Bem vindo seja o estranjeiro na cabana de Itaquê, o grande chefe da +nação tocantim, que teve a gloria de ser escolhido pelo hospede. + +«Os guerreiros exultam com a honra de seu chefe, e os cantores te +saudam, mensajeiro de Tupan.» + +Emquanto na cabana resôa o canto da boa vinda, Jacamim, a espoza de +Itaquê, chamou as amantes do marido, suas servas, para ajudal-a a +preparar o banquete da hospitalidade. + +As servas pressurosas estenderam á sombra da gameleira as alvas esteiras +de palmas entrançadas de airis e colocaram sobre ellas os urús cheios de +farinha d'agua. + +Trouxeram tambem os camocins razos, onde se apinhavam as moquecas +envoltas em folha de banana, e peças de carne, assada no biaribí, que +ainda fumegava nos pratos feitos de concha de tartaruga. + +Depois suspenderam a caça mais volumoza, veados e antas, assim como as +igaçabas de cauim, nos ramos inclinados da arvore, em altura que o braço +do guerreiro podesse alcançar. + +Frutas de varias especies, pencas douradas de banana, cachos rôxos de +assaí, os rubros croás, e os fragrantes abacaxis, enchiam o giráu +levantado no meio do terreiro. + + * * * * * + +Jacamim conduzira o hospede á sombra da gameleira, onde o esperava o +banquete da chegada. + +Ao lado de Ubirajara sentou-se Itaquê e depois os moacaras que tinham +vindo para a festa da hospitalidade. + +Os guerreiros comeram em silencio. As mulheres dilijentes os serviam, +enchendo de vinho de cajú e ananaz as largas combucas, tintas com a +pasta do crajurú que dá o mais brilhante carmim. + +Quando o hospede, depois de satisfeito o apetite, lavou o rosto e as +mãos, Jacamim ordenou ás servas que recolhessem os restos das provizões, +e retirou-se com ellas. + +Tambem se afastaram os jovens guerreiros que ainda não tinham voz no +conselho. Só ficaram sentados com o hospede, Itaquê, e os moacaras +senhores das cabanas. + +O cachimbo do grande chefe passou de mão em mão e cada ancião bebeu a +fumaça da herva de Tupan, que inspira a prudencia no carbeto. + +Então disse o chefe: + +--Itaquê dezeja dar a seu hospede um nome que lhe agrade, e preciza que +o ajude a sabedoria dos anciãos. + +A lei da hospitalidade não consentia que se perguntasse o nome ao +estranjeiro que chegava, nem que se indagasse de sua nação. + +Talvez fosse um inimigo, e o hospede não devia encontrar, na cabana onde +se acolhia, senão a paz e a amizade. + +O chefe, que tinha a fortuna de receber o viajante, escolhia o nome de +que elle devia uzar emquanto permanecia na cabana hospedeira. + +Foi Ipê quem primeiro falou: + +--Tu chamarás ao hospede Jutaí, porque sua cabeça domina o cocar dos +mais fortes guerreiros, como a copa do grande pinheiro aparece por cima +da mata. + +Disse Tapir: + +--Chama ao hospede Boitatá, porque elle tem os olhos da grande serpente +de fogo, que vôa como o raio de Tupan. + +Os moacaras, cada um por sua vez, falaram; e como a voz começava do mais +moço para acabar no mais velho, as ultimas falas eram menos guerreiras e +traziam a prudencia da idade. + +Assim Caraúba, que era o segundo antes do chefe, disse: + +--Itaquê, o hospede é o nuncio da paz. Tu deves chamal-o Jutorib, porque +elle trouxe a alegria á tua cabana. + +Guaribú, cujos anos enchiam a corda de sua existencia de mais nós, do +que tem o velho cipó da floresta, falou por ultimo: + +--O viajante é senhor na terra que elle piza como hospede e amigo; e o +nome é a honra do varão ilustre, porque narra sua sabedoria. Pergunta ao +estranjeiro como elle quer ser chamado na taba dos tocantins. + +--Bem dito! + +Itaquê, aprovando as palavras prudentes do ancião, perguntou a Ubirajara +que nome escolhia; este lhe respondeu: + +--Eu sou aquelle que veiu trazido pela luz do céu. Chama-me Jurandir. + +Nesse momento, Arací, a estrela do dia, apareceu por entre as palmeiras, +e caminhou para a cabana. + +Os mais valentes entre os jovens guerreiros tocantins acompanhavam a +formoza caçadora. Eram os servos do amor, que disputavam a beleza da +virjem. + +Os cantores saudaram de novo o hospede pelo nome que elle escolhera: + +--Tu és aquelle que veiu trazido pela luz do céu. Nós te chamaremos +Jurandir; para que te alegres ouvindo o nome de tua escolha. + +«Tu és aquelle que veiu trazido pela luz do céu. Nós te chamaremos +Jurandir; e o nome de tua escolha alegrará o ouvido dos guerreiros.» + + * * * * * + +De longe Arací viu o estrangeiro, sentado entre os anciãos, como o +frondoso jacarandá no meio dos velhos troncos das aroeiras. + +A virgem reconheceu logo o caçador araguaia e adivinhou que ele viera á +cabana de Itaquê para disputar sua beleza aos guerreiros tocantins. + +O coração de Arací encheu-se de alegria. Seus negros cabelos +estremeceram de contentamento, como as penas da jaçanan quando presente +o formoso inverno. + +O estrangeiro não queria ser conhecido; pois deixára o cocar das plumas +da arara, que era o ornato guerreiro da sua nação. Mas a imagem do jovem +caçador ficára na lembrança da virgem, como fica na terra a verde +folhajem, depois da lua das aguas. + +A lei da hospitalidade proíbia á virgem revelar o segredo do +estranjeiro, só della sabido. Nesse momento foi á sua alma que obedeceu +e não ao costume da nação. + +Quando Arací chegou ao terreiro, os anciãos se preparavam para ouvir a +maranduba do hospede. Os guerreiros e as mulheres escutavam em silencio. + +O estrangeiro começou: + +--Jurandir é moço; ainda conta os anos pelos dedos e não viveu bastante +para saber o que os anciãos da grande nação tocantim aprenderam nas +guerras e nas florestas. + +«O moço é o tapir que rompe a mata, e vôa como a seta. O velho é o +jabotí prudente que não se apressa. + +«O tapir erra o caminho e não vê por onde passa. O jabotí observa tudo, +e sempre chega primeiro. + +«Jurandir é moço; mas conhece as grandes florestas, e atravessou mais +rios do que as veias por onde corre o sangue valente de seu pai. + +«A primeira agua em que Jaçanan, sua mãi, o lavou, quando elle lhe +rasgou o seio, foi a do grande lago onde Tupan guardou as aguas do +diluvio, depois que as retirou da terra. + +«Ainda Jurandir não era um caçador, quando elle se banhou no pará sem +fim, onde os rios despejam a sua corrente e cujas aguas quando dormem se +mudam em sal. + +«Duas vezes Jurandir seguiu o pai dos rios desde a grande montanha onde +nace, até á varzea sem fim que elle enche com suas aguas. + +«Elle viu o grande rio combater com o mar, no tempo da pororoca. Os dois +chefes tocam as inubias antes da peleja, para chamar seus guerreiros. + +«Vem de um lado as aguas do mar, são os guerreiros azues, com penachos +de araruna; vem do outro as aguas do rio, são os guerreiros vermelhos +com penachos de nambú. + +«Começa a batalha. Os guerreiros se enrolam, como a corrente da +cachoeira, batendo no rochedo; a terra estremece com o trovão das aguas. + +«Mas o grande rio agarra o mar pela cintura. Arranca do chão o inimigo; +carrega-o nos hombros; solta o grito de triunfo. + +«Por muito tempo os Tetivas, que habitam sobre as arvores, vêem passar +correndo as aguas do mar; são os guerreiros azues que fojem espavoridos +e vão esconder-se na sombra das florestas. + +«Jurandir tambem viu a terra onde habitam as mulheres guerreiras, +senhoras de seu corpo, que vivem em baixo das aguas do grande rio. + +«Só ellas sabem o segredo das pedras verdes, que tornam os guerreiros +cativos de seu amor, sem prival-as da liberdade. + +«Por isso todas as luas, grande numero de guerreiros as vizitam em sua +taba; e ellas guardam para os mais valentes a flôr de sua beleza. + +«Quando chega o tempo de vir o fruto do amor, guardam sómente as filhas; +e enviam aos guerreiros os filhos, de onde saem os maiores chefes. + +«Feliz o guerreiro que acha uma terra valente e fecunda para a flôr de +seu sangue. O filho será maior do que elle; e o neto maior do que o +filho. + +«Sua geração vai assim crecendo de tronco em tronco; e fórma uma +floresta de guerreiros, onde o ultimo cedro se ergue mais frondozo e +robusto, porque recebe a seiva de seus avós.» + + * * * * * + +Quando Jurandir proferiu as ultimas palavras, seus olhos que tinham +muitas vezes buscado Arací, repouzaram nella. + +A virjem tocantim compreendeu que o estranjeiro se referia a si; e não +escondeu sua alegria, como não esconde sua flôr a juquerí que o rio +beija. + +A formoza caçadora cantou. Sua voz era limpida e sonora como o gorjeio +do sabiá, quando se deleita com o calor do sol. + +--Feliz a terra que recebe a semente do cedro frondozo e robusto; ella +se cobrirá de sombra e frescura. Os guerreiros gostarão de reunir-se aí +para falar da paz e da guerra. + +«Ella é como a virjem que um chefe ilustre escolheu para sua espoza, e +que se povôa de uma prole numeroza. As nações a respeitam porque é a mãi +de valentes guerreiros; os anciãos escutam seu conselho na paz e na +guerra. + +«As mulheres guerreiras, senhoras de seu corpo, são como a palmeira do +murití, que rejeita o fruto antes que elle amadureça e o abandona á +correnteza do rio. + +«A espoza não desprende de si o filho, senão quando elle não chupa mais +seu peito. Ella é como a mangabeira; nutre o fruto com seu leite, que é +a flôr de seu sangue. + +«Não é na terra das mulheres guerreiras que o estranjeiro deve buscar a +espoza; mas na taba de sua nação, onde Tupan guarda para seu valor a +mais bela das virjens, aquella que tem o sorrizo de mel.» + +O hospede respondeu: + +--Jurandir sabe onde encontrará a virjem que dezeja para espoza. A luz +do céu o guia, e nada reziste á força de seu braço. + +Depois de responder ao canto de Arací, o estranjeiro continuou sua +maranduba, que todos ouviram silenciozos. + +Elle contou o que havia aprendido nas praias do mar habitadas pela +valente nação dos Tupinambás, decendentes da mais antiga geração de +Tupi. + +Os pajés dos Tupinambás lhe disseram que nas aguas do pará sem fim vivia +uma nação de guerreiros ferozes, filhos da grande serpente do mar. + +Um dia esses guerreiros saíriam das aguas para tomar a terra ás nações +que a habitam; por isso os Tupinambás tinham decido ás praias do mar, +para defendel-as contra o inimigo. + +Os guerreiros do mar tambem tinham suas guerras entre si, como os +guerreiros da terra. Então as aguas pulavam mais altas do que os montes; +seu estrondo era como o trovão. + +Jurandir contou mais que nas praias do mar se encontrava uma rezina +amarela, muito cheiroza, a qual a grande serpente creava no bucho. + +Os Tupinambás faziam dessa goma contas para seus colares; Jurandir +mostrou a pulseira que lhe cinjia o artelho, prezente de um guerreiro +daquella nação. + +Essas contas tornavam o pé do guerreiro ajil na corrida, e protejiam o +viajante contra os caiporas da floresta, que se apartavam de seu +caminho. + +Muitas outras coizas referiu Jurandir; e os anciãos admiravam-se de ver +o juizo prudente de um abaré no corpo joven de tão forte guerreiro. + +Os mais velhos dos moacaras acreditaram que o hospede era o filho de +Sumê, mandado por seu pai correr as terras que o sabio tinha visto em +sua mocidade. + +Calaram, porém, seu pensamento, para o comunicarem aos anciãos quando se +reunisse o carbeto da nação. + +O sol já decia para as montanhas quando terminou a festa da +hospitalidade na cabana de Itaquê. + +Os moacaras partiram. Itaquê voltando á sua ocupação, deixou o hospede +senhor de sua vontade para fazer o que lhe agradasse. + +Vieram os jovens pescadores da taba com os anzóes e gequis saber do +hospede que peixe elle preferia. + +Depois delles chegaram os jovens caçadores que antes de partir para a +floresta vinham receber os dezejos do hospede. + +Por fim aproximaram-se as mulheres que já tinham rompido o fio da +virjindade, mas não eram nem espozas, nem amantes de guerreiros. + +Essas eram as mulheres livres, que davam seu amor e o retiravam quando +queriam, mas não recebiam a proteção de um guerreiro nem podiam jámais +ser mãis da prole. + +Os filhos concebidos no proprio seio só tinham por mãi a espoza, que o +guerreiro tomou por companheira de sua existencia e raiz de sua geração. + +O rito da hospitalidade entre os filhos da floresta manda que se dê ao +estranjeiro amigo tudo que deleita ao guerreiro. + +Por isso vinham as moças oferecer a Jurandir sua beleza, para que elle +escolhesse entre ellas uma companheira, que partilhasse sua rêde na +cabana hospedeira. + +Todas se tinham enfeitado com seus mais belos ornatos, para agradar aos +olhos de Jurandir; pois não havia para ellas maior gloria do que a de +merecer o amor do estranjeiro. + +Umas traziam as tranças urdidas com penas vistozas dos passaros de sua +predileção; outras haviam perfumado da essencia do sassafraz os cabelos +soltos, que derramavam sua fragancia ao sopro da briza. + +Chegando diante do estranjeiro, começaram uma dansa amoroza para mostrar +a graça de seu corpo. Aquellas que tinham a voz doce cantavam em louvor +de Jurandir. + +Arací fôra buscar seu balaio de palha vermelha, e sentára-se no +terreiro, junto á porta da cabana. Seus dedos ajeis enfiavam as sementes +de jequerití, de que fazia um ramal para seu colo gentil. + +Emquanto compunha o colar, a virjem percebia que os olhos de Jurandir +abandonavam os encantos das mulheres, e buscavam seu rosto. + +Mas ella voltava-se para a floresta; com o trinado de seus labios +chamava o crajuá, que voava no olho da palmeira. O passarinho iludido +vinha, cuidando ouvir o canto da companheira. + +Jurandir apartou as mulheres e disse: + +--As moças tocantins são formozas, qualquer dellas alegraria o sono do +estranjeiro. Mas Jurandir não veiu á cabana de Itaquê para gozar do amor +de uma noite; elle veiu buscar a espoza que ha de acompanhal-o até á +morte, e a virjem que escolheu para mãi de seus filhos. + +Quando Arací ouviu estas palavras cobriu-se de sorrizos, como o guajerú +se cobre de suas flôres alvas e perfumadas com os orvalhos da manhã. + +Jurandir voltou-se então para a virjem caçadora: + +--Estrela do dia, Arací, conduze-me á prezença de Itaquê. É tempo que +elle saiba o segredo do estranjeiro. + +--Os sonhos disseram a Arací duas noites seguidas, que o joven caçador +chegaria á cabana de Itaquê; ella te esperou. Quando meus olhos te viram +sentado entre os moacaras, logo conheceram que tu vinhas buscar a +espoza. + +O estranjeiro respondeu: + +--Jurandir chegou á taba dos seus, e recebeu um nome de guerra e o +grande arco de sua nação. Mas a cabana do chefe estava dezerta; e sua +rêde não lhe guardou o sono tranquilo do guerreiro. Elle ouviu tua voz +que o chamava, virjem tocantim, e ergueu-se; tua luz o guiou, filha do +sol, e o trouxe á tua prezença. + + + + +V + +SERVO DO AMOR + + +Jurandir, conduzido pela virjem, caminhou ao encontro de Itaquê e disse: + +--Grande chefe dos tocantins, Jurandir não veiu á tua cabana para +receber a hospitalidade; veiu para servir ao pai de Arací, á formoza +virjem, a quem escolheu para espoza. Permite que elle a mereça por sua +constancia no trabalho, e que a dispute aos outros guerreiros pela força +de seu braço. + +Itaquê respondeu: + +--Arací é a filha de minha velhice. A velhice é a idade da prudencia e +da sabedoria. O guerreiro que conquistar uma espoza como Arací terá a +gloria de gerar seu valor no seio da virtude. Itaquê não póde dezejar +para seu hospede maior alegria. + +Desde esse momento, Jurandir não foi mais estranjeiro na taba dos +tocantins. Pertencia á oca de Itaquê, e devia, como servo do amor, +trabalhar para o pai de sua noiva. + +Os guerreiros, cativos da beleza de Arací, conheceram que tinham de +combater um adversario formidavel; mas seu amor creceu com o receio de +perder a filha de Itaquê. + +Jurandir tomou suas armas e deceu ao rio. Era a hora em que o jacaré +boia em cima das aguas como o tronco morto, e a jaçanan se balança no +seio do nenufar. + +O manatí erguia a tromba para pastar a relva na marjem do rio. Ouvindo o +rumor das folhas, mergulhou na corrente; mas já levava o arpéu do +pescador cravado no lombo. + +Jurandir não esperou que o peixe ferido dezenrolasse toda a linha. +Puxou-o para terra; e levou-o ainda vivo á cabana de Itaquê, onde tres +guerreiros custaram a deital-o no giráu. + +As mulheres cortaram as postas de carne, e os guerreiros cavaram a terra +para fazer as grelhas do biaribí. + +Jurandir partiu de novo, e entrou na floresta. Ao lonje reboavam os +gritos dos caçadores, que perseguiam a féra. + +Pelo assobio o guerreiro conheceu que era um tapir. O animal zombára dos +caçadores e vinha rompendo a mata como a torrente do Xingú. + +As arvores que seu peito encontrava caíam lascadas. + +Jurandir estendeu o braço. O velho tapir, agarrado pelo pé, ficou +suspenso na carreira, como o passarinho prezo no laço. Nunca até aquelle +momento encontrára força maior que a sua. + +Uma vez decera á lagôa para beber. A sucurí, que espreitava a caça, +mordeu-o na tromba. Elle fujia, esticando a serpente; e a serpente +encolhendo-se o arrastava até á beira d'agua. + +Assim tornou, uma, duas, tres vezes. Mas o tigre urrou de fome. O velho +tapir disparou pela floresta; e a sucurí com a cauda preza á raiz da +arvore arrebentou pelo meio. + +O velho tapir rompeu a serpente como se rompe uma corda de piassaba; mas +não pôde abalar o braço de Jurandir, mais firme do que o tronco do +guaribú. + +O estranjeiro tornou á cabana com a caça. Nenhum dos guerreiros da taba, +nem mesmo o velho Itaquê, pôde aguentar com as duas mãos a féra bravia. + +Então Jurandir obrigou o animal a agachar-se aos pés de Arací e disse: + +--O braço de Jurandir fará cair assim a teus pés o guerreiro que ouze +disputar ao seu amor a tua formozura, estrela do dia. + + * * * * * + +Nunca a abundancia reinára na cabana sempre farta do chefe dos +tocantins, como depois que a ella chegára o estranjeiro. + +Jurandir era o maior caçador das florestas, e o primeiro pescador dos +rios. Seu olhar seguro penetrava na espessura das brenhas, como na +profundeza das aguas. + +Nada escapava á destreza de sua mão. Onde ella não chegava, iam as unhas +de suas flechas certeiras, que rasgavam o seio da vitima, como as garras +do jaguar. + +O estranjeiro soubera de Arací qual era a caça que Itaquê preferia, e +qual o peixe que elle achava mais saborozo. Desde então nunca o velho +chefe sentiu a falta do manjar predileto. + +Se não era a lua propria do peixe dezejado, Jurandir sabia onde o podia +encontrar. Não tornava á cabana sem a provizão necessaria para a +refeição do dia. + +Depois da caça e da pesca, Jurandir trabalhava nas roças de Itaquê. +Fazia no taboleiro os matumbos, para que Jacamim enterrasse as estacas +da maniva e semeasse o feijão, o milho e o fumo. + +Entre os filhos das florestas a plantação devia ser feita pela mão da +mulher, que era mãi de muitos filhos; porque ella transmitia á terra sua +fecundidade. + +A semente que a mão da virjem depozitava no seio da terra dava flôr; mas +da flôr não saía fruto. E se era um guerreiro que plantava, o aipim +endurecia como o páu de arco. + +Nas vazantes do rio, Jurandir capinava a terra coberta de relva e outras +plantas, e só deixava crecer o arroz, o inhame e as bananeiras. + +Quando o estranjeiro partia pela manhã, Arací o acompanhava de lonje +pela floresta. + +Sua vontade a levava após elle. + +O costume da taba não consentia que a virjem dezejada pelos servos de +seu amor, preferisse um guerreiro antes de saber se elle a obteria por +espoza. + +A filha de Itaquê não queria pertencer a outro guerreiro; mas +lembrava-se que a virjem deve merecer o espozo por sua paciencia, assim +como o guerreiro merece a espoza por sua constancia e fortaleza. + +Então voltava ao terreiro: emquanto os outros guerreiros espreitavam sua +vontade, ella tecia as franjas para a rêde do cazamento. + +Sua mão sutil urdia com o alvo fio do crauatá a fina penujem escarlate. +Os noivos cuidavam que era a do peito do tucano; mas ella sabia que era +do peito da arára e que tinha as côres de seu guerreiro. + +Quando o sol chegava ao cimo dos montes, ouvia-se o canto de Jurandir +que voltava da caça. A virjem seguida pelos guerreiros ia ao encontro do +estranjeiro. + +Então deciam ao rio. Era a hora do banho. Arací cortava as ondas mais +linda que a garça côr de roza; e os guerreiros a seguiam de perto, como +um bando de galeirões. + +Mas nenhum, nem mesmo Jurandir, que nadava como um bôto, podia alcançar +a formoza virjem. Ella parecia a flôr do mururê que se desprendeu da +haste, e passa levada pela corrente. + +Uma vez a filha das aguas soltou um grito, e dezapareceu no seio das +ondas. Jacamim cuidou que o jacaré tinha arrebatado a filha de seu seio. +Os guerreiros mergulharam para salval-a; mas não a encontraram. + +Todos a julgavam perdida, quando apareceu Jurandir que trazia nos braços +o corpo da virjem formoza. Pizando em terra, ella correu para a cabana, +onde foi esconder sua alegria. + +Desde então era no banho que Arací recebia o abraço de Jurandir, sem que +os outros guerreiros suspeitassem da preferencia dada ao estranjeiro. + +No seio das ondas ninguem a adivinhava, a não ser o ouvido sutil de +Jurandir, a quem ella chamava com o doce murmurio do irerê. + +Encontravam-se no fundo do rio emquanto durava a respiração. Depois +desprendiam-se do abraço e surjiam lonje um do outro. + + * * * * * + +Á tarde, voltando da caça, Jurandir viu na floresta um rasto, que elle +conhecia. + +Chegado á cabana, entregou a Jacamim o veado que matára, e saiu para +vizitar os arredores. Nada encontrou de suspeito; o rasto, que o +inquietava, não chegára até ali. + +No outro dia, ao romper da alvorada, logo depois do banho os guerreiros +partiram para a caça e para a pesca. Só ficaram na cabana Jacamim e as +mulheres de Itaquê. + +Arací tomou o arco e entrou na floresta. A imajem do guerreiro amado +fujia naquelle instante de seus olhos; elles buscaram entre as folhas o +sinal de seus passos e não o descobriram. + +Lembrou-se a virjem, que Jurandir gostava da polpa do guaranan adoçada +com o mel da abelha, e colheu os frutos encarnados que pendiam dos ramos +da trepadeira. + +Nesse momento a arára cantou no olho do pirijá. Arací precizava de suas +plumas vermelhas para o cocar que ella tecia em segredo. + +Era o cocar do amor, com que dezejava ornar a cabeça de seu guerreiro +senhor, no dia em que elle a conquistasse por espoza. + +A virjem armou o arco e seguiu a arára rompendo a folhajem. Quando ia +disparar a seta, ouviu ao lado um rumor dezuzado. + +Jurandir estava perto della, e segurava o braço de uma mulher, que ainda +tinha na mão a macana afiada. + +Arací conheceu a virjem araguaia, pela faxa de algodão entretecida de +penas que lhe apertava a curva da perna; e adivinhou que era Jandira, a +noiva do guerreiro. + +--Filha de Majé, tua mão quiz matar a virjem que Jurandir escolheu para +espoza. Tu vais morrer. + +--Desde que Ubirajara abandonou Jandira, ella começou a morrer, como a +baunilha que o vento arranca da arvore. Acaba de matal-a, para que sua +alma te acompanhe de dia na sombra das florestas e te fale de noite na +voz dos sonhos. + +--A virjem araguaia ameaçou a vida de Arací; ella lhe pertence, disse a +filha de Itaquê. + +Jurandir cortou na floresta uma comprida rama de imbê, e atou as mãos de +Jandira. + +--Jandira é tua escrava. Não lhe dês a liberdade. Ella tem a astucia da +serpente e seu veneno. + +--Eu era a cobra d'agua, amiga do guerreiro, que habita sua cabana e a +guarda contra o inimigo. Quem foi que me fez a cascavel venenoza, que +traz nos labios o sorrizo da morte? + +Jurandir não respondeu. Nesse momento elle teve saudade de sua cabana; e +lembrou-se do tempo em que, joven caçador, seguia na floresta a formoza +virjem araguaia. + + * * * * * + +As duas virjens ficaram sós no claro da floresta. + +Já o rumor dos passos de Jurandir se apagára ao lonje, e ainda tinham +ambas os olhos cativos uma da outra. + +Jandira pensou que ella não podia dar a Ubirajara a formozura da filha +de Itaquê. Arací receiou que o amor do guerreiro se voltasse outra vez +para a linda virjem araguaia. + +A filha de Majé preparou-se para morrer á mão de sua rival, mas ella +preferia a morte ao suplicio de contemplar sua beleza. + +Arací, a estrela do dia, cantou: + +--O amor do guerreiro é a alegria da virjem; quando elle foje, a virjem +fica triste como a varzea que perdeu sua relva. + +«Por isso Jandira está triste; o amor do guerreiro fujiu della; e a +deixou solitaria como a nambú, a quem o companheiro abandonou. + +«Mas o amor do guerreiro é como o orvalho da noite. Quando o sol queima +a varzea, elle dece do céu para cobril-a de verdura e de flôres. + +«Arací está alegre, porque o amor do guerreiro voltou-se para ella; e +Jurandir vai fazel-a companheira de sua gloria e mãi de seus filhos. + +«Quando a espoza de Jurandir não tiver mais beleza para dar a seu +guerreiro, ella consentirá que Jandira durma em sua rêde. + +«E o orvalho da noite decerá do céu para cobrir a varzea de verdura e de +flôres. E Jandira achará outra vez seu sorrizo de mel.» + +Assim cantou Arací, a estrela do dia; e a virjem araguaia respondeu: + +--A arvore que morreu não sofre quando o fogo a queima. Jandira prefere +a morte á vergonha de ser tua serva, e á tristeza de ver a cada instante +a formozura da estranjeira que roubou seu amor. + +«Arací, a estrela do dia, é mais bela do que Jandira, mas não sabe amar +o guerreiro que a escolheu para mãi de seus filhos. + +«Nunca Jandira ofereceria sua rêde de espoza a outra mulher; e aquella +que recebesse o amor de seu guerreiro, morreria por sua mão. + +«Ella amaria seu espozo tanto que sua graça nunca se retirasse della; +pois saberia morrer quando não tivesse mais beleza para dar-lhe. + +«A nação araguaia nunca levanta a taba do vale onde acampou, senão +quando a terra já não póde dar-lhe mais frutos. + +«Assim é o guerreiro. Elle não retira seu amor da espoza que habita, +senão quando ella já não sabe alegrar sua alma.» + +Tornou a virjem tocantim: + +--A cajazeira, depois que dá seu fruto, perde a folha; o guerreiro busca +a sombra de outra arvore para repouzar. + +«Mas vem a lua das aguas e a cajazeira outra vez se cobre de folhas; sua +sombra é doce ao guerreiro. + +«A espoza é como a cajazeira. Quando o guerreiro não acha alegria em +seus braços, ella sofre que busque outra sombra, e espera que lhe volte +a flôr para chamal-o de novo ao seio. + +«Arací ama seu guerreiro, como Jacamim ama Itaquê. A cabana do grande +chefe dos tocantins está cheia de servas; mas seu amor nunca abandonou a +espoza. + +«As servas deram a Itaquê muitos filhos; mas os filhos da velhice, foi +só Jacamim quem os deu ao grande chefe; porque o primeiro amor do +guerreiro não morre nunca. + +«Elle é como a grama que nunca mais deixa a terra onde naceu: podem +arrancal-a que brota sempre. + +«Arací quer apagar a tristeza de tua alma; e beber o teu sorrizo de mel, +para que o espozo ache mais doces seus labios, quando os provar. + +«Tu serás irmã de Arací, e lhe darás um filho de Jurandir, tão valente, +como os que seu amor ha de gerar no seio da espoza.» + +Jandira afastou os olhos da virjem dos tocantins, para desviar della sua +ira. + +--Tua palavra dóe como o espinho da jussara, que tem o côco mais doce +que o mel. + +«As flechas de teu arco não matam mais do que os sorrizos que o amor do +guerreiro derrama em teu rosto, estrela do dia. + +«Ubirajara deixou-me por ti; mas foi a Jandira que elle primeiro +escolheu para espoza, quando ainda era joven caçador. + +«Nos campos alegres, onde vão os guerreiros quando morrem, elle me +chamará; e o guanumbí virá buscar a minha alma no seio da flôr do manacá +para leval-a a seu amor. + +«Mata-me, ou deixa que eu morra para não ver mais tua beleza, e não +ouvir o canto de tua alegria.» + +Arací caminhou para Jandira e dezatou-lhe os pulsos. + +--O amor do guerreiro não pertence á mulher que seus olhos primeiro +viram; mas áquella que elle escolheu. Apanha teu arco; e morra aquella +que não souber defender seu amor, e merecer o espozo. + +Arací disse, e tirou da uiraçaba uma seta. Jandira ficou imovel, com os +pulsos cruzados, como se ainda estivessem prezos: + +--A vontade de Ubirajara atou os braços de Jandira; ella rejeita a +liberdade dada por ti. Arací póde ser preferida, porém não será mais +generoza do que a filha de Majé. + + + + +VI + +O COMBATE NUPCIAL + + +Chegou o dia em que os noivos de Arací deviam disputar a posse da +formoza virjem. + +Era a hora em que o sol transpondo a crista da montanha estende pelo +vale sua arassoia de ouro. + +A grande nação tocantim cerca a vasta campina. No centro estão os +anciãos, que formam o grande carbeto. + +Em frente aparece Arací, a estrela do dia, que ha de ser o premio da +constancia e fortaleza do mais destro guerreiro. + +Jacamim acompanha a filha; nesse momento remoça com a lembrança do dia +em que Itaquê a conquistou, lutando com os mais feros mancebos +tocantins. + +De um e outro lado seguem pela ordem da idade os moacaras. Cada um +cerca-se da espoza, das servas e das filhas, que vieram para assistir ao +combate. + +É a unica das festas guerreiras, em que o rito de Tupan consente a +prezença das mulheres, porque se trata da sua gloria. + +Contemplando o esforço heroico dos mais nobres guerreiros para +conquistar a formozura de uma virjem, as outras virjens aprendem a +prezar a castidade, e as espozas se ufanam de guardar a fé ao primeiro +amor. + +Itaquê, o grande chefe dos tocantins, prezide ao combate, orgulhozo pela +valente nação que dirije, como pela formoza virjem de que é pai. + +Quando seus olhos admiram a multidão de guerreiros, servos do amor de +Arací, que se preparam a disputar a espoza, o grande chefe ergue a +fronte soberba como o velho ipê da floresta coroado de flôres. + +Os noivos distinguem-se dos outros guerreiros pelo bracelete de contas +verdes, que o guerreiro cinje ao pulso da espoza, quando rompe a liga da +virjindade. + +Lá caminha Pirajá, o grande pescador, senhor dos peixes do rio, a quem +obedece o manatí e o golfinho. + +Junto delle ergue-se Uirassú, que tomou este nome do valente guerreiro +dos ares, pelo ímpeto do assalto. + +Vem depois Arariboia, a grande serpente das lagôas; Cauatá, o corredor +das florestas; Corí, o altivo pinheiro; e tantos outros, ainda mancebos, +e já guerreiros de fama. + +Entre todos, porém, assoma Jurandir. Sua fronte passa por cima da cabeça +dos outros guerreiros, como o sol quando se ergue entre as cristas da +serrania. + +Os muzicos fizeram retroar os borés, anunciando o começo da festa; e os +servos do amor se estenderam em linha pelo meio da campina. + +Então os nhengaçáras levantaram o canto nupcial. + +«A espoza é a alegria e a força do guerreiro. Ella acende em suas veias +um fogo mais generozo que o do cauim, e prepara para seu corpo o repouzo +da cabana. + +«Por isso o primeiro dezejo do mancebo, quando ganha nome de guerra é +conquistar uma espoza. + +«Não basta ser valente guerreiro para merecer a virjem formoza, filha de +um grande chefe; é precizo a paciencia para sofrer, e a perseverança no +trabalho. + +«Arací, a estrela do dia, filha de Itaquê, será a alegria e a gloria do +mais forte e do mais valente. + +«Os filhos que ella gerar em seu seio, onde corre o sangue do grande +chefe, serão os maiores guerreiros das nações.» + + * * * * * + +Itaquê deu sinal; o combate começou. + +Pirajá foi o primeiro que saiu a campo, e clamou esgrimindo o tacape: + +--Arací, estrela do dia, tu serás espoza do guerreiro Pirajá, que te vai +conquistar pela força de seu braço. + +Avançou Uirassú, e disse: + +--A virjem formoza ama ao guerreiro Uirassú e ha de pertencer-lhe. + +A noiva cantou: + +«Arací ama o mais forte e mais valente. Ella pertencerá ao vencedor, que +vencer a bravura dos outros guerreiros, como venceu a vontade da +espoza.» + +A voz mavioza da virjem afagou a esperança de todos os campeões; mas +seus olhos ternos só viam o nobre semblante de Jurandir, o escolhido de +sua alma. + +Os dois guerreiros travaram a pugna; os tacapes girando nos ares +encontravam-se como dois madeiros arrojados pelo remoinho da cachoeira. + +Afinal Pirajá, ameaçado pelo bote do adversario, recuou um passo do +logar em que se postára. Pela lei do combate estava vencido, e teve de +deixar o campo. + +Arariboia tomou seu logar; e o combate proseguiu com varia fortuna até +Corí que, expelindo o vencedor, manteve-se firme contra todos que vieram +disputal-o. + +Faltava Jurandir. O estranjeiro avançou gravemente, como convinha a um +grande guerreiro da nação araguaia. + +Elle queria dar ao vencedor de tantos combates o tempo precizo para +descansar. + +A mão do guerreiro arrastava pelo chão o tacape, que desdenhava erguer +para um combate sem gloria. + +Quando Jurandir se achou em face do vencedor, levantou a voz e disse: + +--Para merecer Arací, a estrela do dia, Jurandir queria vencer a cem +guerreiros, e não combater um guerreiro fatigado. + +«Tu empunhas um tacape; toma outro habituado a vencer; elle restituirá a +teu braço a força que perdeu. Basta a Jurandir esta mão, para te +arrebatar todas as tuas vitorias.» + +Disse e arremessou a arma aos pés do adversario. + +Corí, pensando que seu rival o atacava, desfechou-lhe o golpe. Mas +Jurandir aparou-o na mão firme e arrebatando o tacape que o ameaçava +arrancou o guerreiro do chão. + +Assim o pinheiro que o tufão arrebata, antes de partir o tronco, +desprende a raiz da terra, onde nada o abalava. + +Jurandir ficou só no campo. Mas todos os noivos se haviam mostrado +valentes guerreiros; talvez nas outras provas saíssem vencedores. + + * * * * * + +Os muzicos tocaram os borés; e os jovens caçadores trouxeram para o meio +do campo a figura da noiva. + +Era um grosso tóro de madeira, no qual a mão destra de um pajé entalhára +com o dente da cotia a cabeça de uma mulher. + +Tres caçadores vergavam com o pezo da carga; e foram precizos dez para +trazel-o desde a cabana do pajé até o campo, onde ficou semelhante á uma +mulher sentada. + +Na vespera o pajé burnira de novo com a folha da sambaiba o tóro de +madeira, e o esfregára com a banha do teú, para que elle escorregasse da +mão do caçador. + +Depois os mancebos guerreiros espalharam pelo campo troncos de arvores +cortadas com as ramas e as folhas, e fincaram cercas de estacas entre os +barrancos da varzea que ia morrer á marjem do rio. + +Itaquê deu sinal, e os guerreiros começaram a nova prova, mais dificil +que a primeira. + +Era precizo que o guerreiro á disparada levantasse do chão, sem parar, o +tóro de madeira; e se defendesse dos rivais que o assaltavam para +tomal-o. + +Esse jogo era o emblema da ajilidade e robustez que o marido devia +possuir para disputar a espoza e protejel-a contra os que ouzassem +dezejal-a. + +Na primeira corrida foi Jurandir quem mais rapido chegou. Como o condor +que rebatendo o vôo leva nas garras a tartaruga adormecida, assim o +veloz guerreiro suspendeu a figura da espoza e com ella arremessou-se +pela campina. + +Os outros o seguiam ardendo em ímpetos de roubar-lhe a preza. Na +planicie aberta seria vão intento, porque nenhum corria como o +estranjeiro. + +Mas Jurandir achava diante de si, para tolher-lhe o passo, as arvores +derrubadas, os barrancos profundos e outros obstaculos de propozito +acumulados. + +Não hezitou, porém, o destemido mancebo. Salvou as corcovas, galgou as +caiçaras, e subiu pelos galhos que estrepavam o chão. + +Uma vez os guerreiros se aproximaram tanto, que Jurandir sentiu nos +cabelos o sopro da respiração ofegante. Em frente erguia-se a alta +estacada. + +Se tentasse subir carregado como estava, os guerreiros com certeza o +alcançariam a tempo de arrancar-lhe a preza. + +Então arremessou pelos ares o tóro de madeira, como se fosse o tacape de +um joven caçador; e seguiu após. + +Sempre vencedor dos assaltos dos rivais, Jurandir percorreu a vasta +campina, e foi colocar a figura da espoza no meio do carbeto dos +anciãos. + +Ali era o termo da correria. O guerreiro que chegava a esse ponto com a +sua carga, saía triunfante da prova. + +Elle mostrava como arrebataria a espoza do meio dos inimigos, e a +defenderia contra seus ataques até recolhel-a em um azilo seguro. + +De todos os guerreiros só Corí e Uirassú conseguiram ganhar a prova; mas +nenhum com a galhardia de Jurandir. + +Corí por vezes foi alcançado, e só á confuzão dos outros deveu +escapar-se. Uirassú recuperou a preza já perdida, porque Pirajá, que a +havia empolgado, falseou na corrida e tombou. + +Os tres vencedores entraram de novo em campo para decidir entre si. O +triunfo não se demorou. Jurandir o arrebatou, como o gavião arrebata a +preza que disputam duas serpes. + +Soaram os borés; e ao som do canto de triunfo entoado pelos nhengaçáras, +os chefes e os guerreiros saudaram o vencedor dos vencedores. + + * * * * * + +Quando voltou o silencio, Ogib, o grande pajé dos tocantins, estava em +pé no meio do campo. + +Junto delle uma das velhas mãis dos guerreiros segurava o camucim da +constancia, que tinha o bojo pintado de vermelho. + +O pajé disse: + +--Não basta que o guerreiro seja forte e valente, para merecer a espoza. + +«É precizo que tenha a constancia do varão, e não se perturbe com o +sofrimento. + +«É precizo que elle tenha a paciencia do tatú, e suporte sereno as +mortificações das mulheres e as importunações das crianças. + +«O guerreiro que não tem constancia e paciencia, depressa gasta suas +forças. + +«O rio que se derrama pela varzea, nunca verá suas marjens cobertas de +grandes florestas. + +«Assim é o guerreiro que não sabe sofrer, e derrama sua alma em +lamentações. + +«Nunca elle será pai de uma geração forte e glorioza, nem verá sua +cabana povoar-se dos guerreiros de seu sangue. + +«Se queres merecer a filha de Itaquê, mostra, Jurandir, que és varão +ainda maior do que o famozo guerreiro que todos admiram.» + +O grande pajé levantou o tampo do camucim, e descobriu uma abertura, +bastante para caber o punho do mais robusto guerreiro. + +Jurandir meteu a mão no vazo. O semblante sempre grave do guerreiro +cobriu-se de um sorrizo doce como a luz da alvorada; e seus olhos, mais +contentes que dois saís, pouzaram no rosto de Arací. + +O camucim da constancia continha um formigueiro de saúvas, que o pajé +havia fechado ali na ultima lua. + +Açuladas pela fome de tantos dias, as formigas vorazes se prepararam +para dilacerar a primeira vitima que lhes caísse nas garras. + +A dentada da saúva, que anda solta no campo, dóe como uma braza; quando +são muitas e com fome, queimam como a fogueira. + +Todas as vistas se fitaram no semblante do guerreiro, para espreitar-lhe +o minimo gesto de sofrimento. + +Mas Jurandir sorria; e seus labios ternos soltaram o canto do amor. De +propozito o guerreiro adoçou a voz, para não parecer que disfarçava o +gemido com o rumor do grito guerreiro. + +Assim cantou elle: + +«A dôr é que fortalece o varão, assim como o fogo é que enrija o tronco +da crauba, da qual o guerreiro fabríca o arco e o tacape. + +«A jussara tem setas agudas: mas Arací, quando atravessa a floresta, +colhe o côco de mel, embora a palmeira lhe espinhe a mão. + +«O ferrão da saúva dóe mais do que o espinho da jussara; mas Jurandir +acha o mel dos labios de Arací mais doce do que o côco da palmeira. + +«Quando Jurandir era joven caçador, gostava de tirar a cotia da toca, +embora o seu dente agudo lhe sarjasse a carne. + +«O ferrão da saúva não dóe como o dente afiado; e Jurandir sabe que o +pelo dourado da cotia, não é tão macio como o colo de Arací. + +«Jurandir despreza a dôr. Seus olhos estão bebendo o sorrizo da virjem, +mais suave que o leite do sapotí. Sua mão está sentindo o roçar dos +cabelos da virjem formoza.» + +Os anciãos deram sinal para concluir a prova da constancia; mas o +guerreiro continuou seu canto de amor. + +«A cumarí arde no labio do guerreiro; mas torna mais gostoza a carne do +veado assada no moquem. + +«O cauim queima a boca do guerreiro; mas derrama a alegria dentro da +alma. + +«A saúva arde como a cumarí e queima como o cauim; porém torna os beijos +de Arací mais saborozos: e o amor de Jurandir espuma como o vinho +generozo. + +«Arací ha de sorrir de felicidade, quando o filho de seu guerreiro lhe +rasgar o seio. + +«Jurandir não tem corpo para sofrer, quando o sorrizo de Arací lhe enche +a alma de amor.» + +Foi precizo quebrar o camucim para que o guerreiro podesse retirar a +mão, de inflamada que ficára. + +O grande pajé esfregou na pele vermelha, o suco de uma herva delle +conhecida; e logo dezapareceu a inchação. + + * * * * * + +Faltava a ultima prova, chamada a prova da virjem. + +As outras serviam para conhecer o valor, a destreza e robustez do +guerreiro, assim como a força de seu amor. + +Nesta era que a virjem podia mostrar seu agrado pelo vencedor ou +livrar-se de um espozo, que não soubera ganhar-lhe o afeto. + +Os cantores disseram: + +«Tupan deu azas á nambú para que ella escape ás garras do carcará. + +«Tupan deu lijeireza á virjem, para que ella fuja do guerreiro que não +quer por espozo. + +«Mas a nambú, quando ouve o canto do companheiro, espera que elle chegue +para fabricar seu ninho. + +«A virjem, quando a segue o guerreiro que ella prefere, pensa na cabana +do espozo, e corre de vagar para chegar depressa.» + +Arací deixou a mãi, e avançou até o meio do campo. + +O grande pajé colocou Jurandir na distancia de uma mussurana, que cinje +dez vezes a cintura do guerreiro. + +Estrela do dia lançou para as espaduas as longas tranças negras que +voaram ao sopro da briza. + +Arqueou os braços mimozos, vestidos com franjas de penas, como as azas +brilhantes do arirama; e quando soou o sinal, desferiu a corrida. + +Jurandir seguiu-a. Elle conhecia a velocidade do pé gentil de Arací, que +zombava do salto do jaguar. + +Nem que podesse alcançal-a, o guerreiro o tentaria; depois de vencedor, +queria dever a espoza ao amor della e não a seu esforço. + +Disputaria Arací não só a todos os guerreiros das nações, como a todas +as nações das florestas; só á vontade da propria virjem não a +disputaria, pois a queria rendida, e não vencida. + +Mas sua gloria mandava que elle, o chefe de uma grande nação, se +mostrasse digno da formoza virjem, que o aceitasse por espozo. + +Arací voava pela campina. Ás vezes trançava a corrida como o colibri que +adeja de flôr em flôr, outras vezes fujia mais rapida do que a seta +emplumada de seu arco. + +Quando mostrou a todos que Jurandir não a alcançaria nunca, se ella +quizesse fujir-lhe, reclinou a cabeça para esconder o rubor. + +Jurandir abriu os braços e recebeu a espoza que se entregava a seu amor. + +O guerreiro suspendeu a virjem formoza ao colo; e levou-a á cabana do +amor que elle construira á marjem do rio. + + * * * * * + +As ramas de jasmineiro e do craviri vestiam a cabana, e matizavam o chão +de flôres. + +Arací foi buscar a rêde nupcial, que ella tecera de penas de tucano e +arara; e Jurandir conduziu os utensilios da cabana. + +Então o estranjeiro sentou-se com a virjem no terreiro, e antes de +passar a soleira da porta, revelou a Arací quem era o guerreiro que ella +aceitára por espozo. + +--Arací pertence ao grande chefe da nação araguaia. Ella teve a gloria +de vencer ao maior guerreiro das florestas. Ella será mãi dos filhos de +Ubirajara; e terá por servas as virjens mais belas, filhas dos chefes +poderozos. + +«A palmeira é formoza quando se cobre de flôres e o vento ajita as suas +folhas verdes, que murmuram; mais formoza, porém, é quando as flôres se +mudam em frutos, e ella se enfeita com seus cachos vermelhos. + +«Arací tambem ficará mais formoza quando de seu sorrizo saírem os frutos +do amor, e quando o leite encher seus peitos mimozos, para que ella +suspenda ao colo os filhos de Ubirajara.» + +Arací ouviu as palavras do guerreiro, palpitante como a corça; e ornou a +fronte do espozo com o cocar de plumas vermelhas, que tecera em segredo. + +Depois, sentindo os olhos de Ubirajara que bebiam a sua formozura, ella +vestiu o aimará mais alvo do que a pena da garça. + +A tunica de algodão entretecida de penas de beija-flôr dece das espaduas +até á curva da perna, cinjida pela liga da virjindade. + +Quando Arací passava entre os guerreiros que admiravam sua beleza, ella +não córava, porque sua castidade a vestia, como a flôr á sapucaia. + +Mas agora em prezença do guerreiro a quem ama e para quem guardou a sua +virjindade, tem pejo, e esconde sua formozura ás vistas de Ubirajara. + +--Os olhos do espozo são como o sol, disse o guerreiro: elles queimam a +flôr do corpo de Arací. + +--Arací tem medo que os olhos do espozo não a achem digna de seu amor; e +vestiu seus enfeites. + +«Arací queria ser como a jurití, e ter no corpo uma penugem macia, que +só a deixasse ver em sua formozura. + +«Foi por isso que tua espoza se cobriu com o seu aimará. Os olhos de +Ubirajara não lhe queimarão mais a flôr de seu corpo. + +O guerreiro respondeu: + +--A flôr do igapê é mais formoza quando abre e se tinje de vermelho aos +beijos do sol, do que fechada em botão e coberta de folhas verdes. + +Ubirajara tomou nos braços a espoza, e pôz o pé na soleira da porta. + +Nesse momento soou um clamor; chegaram os guerreiros que vinham chamar o +vencedor á prezença de Itaquê. + +O carbeto dos anciãos tinha decidido que o vencedor antes de receber a +espoza, devia declarar quem era; pois fôra recebido como estranjeiro, e +ninguem na taba o conhecia. + + + + +VII + +A GUERRA + + +Itaquê esperava sentado na cabana, e cercado do carbeto dos anciãos. + +Jurandir entrou; Arací ficou na porta, orgulhoza do espozo que a +conquistára e da admiração que elle ia inspirar aos guerreiros da sua +nação. + +Itaquê falou: + +--Quando o estranjeiro chegou á cabana de Itaquê, ninguem lhe perguntou +quem era e donde vinha. O hospede é senhor. + +«Mas agora o estranjeiro saiu vencedor do combate do cazamento e +conquistou uma espoza na taba dos tocantins. + +«É precizo que elle se faça conhecer; porque a filha de Itaquê, o pai da +nação dos tocantins, jámais entrará como espoza na taba onde habite quem +tenha ofendido a um só de seus guerreiros.» + +O estranjeiro disse: + +--Morubixaba, abarés, moacaras e guerreiros da valente nação tocantim, +vós tendes prezente o chefe dos chefes da grande nação araguaia. + +«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança; e o maior guerreiro depois do +grande Camacan, cujo sangue me gerou. Se quereis saber porque tomei este +nome, ouvi a minha maranduba de guerra.» + +Ubirajara contou o seu encontro com Pojucan; o combate em que o venceu, +e a festa do triunfo, até o momento em que deixou a taba dos araguaias. + +Terminou dizendo que no seguinte sol partiria, para assistir ao combate +da morte, como prometera ao prizioneiro. + +Ninguem interrompeu a maranduba de guerra. Ubirajara ouviu um gemido; +mas não soube que rompera do seio de Arací. + +Itaquê arquejou como o rio ao pezo da borrasca. + +--Tu és Ubirajara, senhor da lança. Eu sou Itaquê, pai de Pojucan. Tenho +em face o matador de meu filho; mas elle é meu hospede! + +«Chefe dos araguaias, tu és um joven guerreiro; pergunta a Camacan que +te gerou, qual deve ser a dôr do pai, que não póde vingar a morte do +filho.» + +O grande chefe vergou a cabeça ao peito, como o cedro altaneiro batido +pelo tufão. + +Pojucan tinha sua taba mais lonje, na outra marjem do rio. Elle partira +na ultima lua para rastejar a marcha dos tapuias; e voltava senhor do +caminho da guerra quando encontrou Ubirajara. + +Seu pai e os guerreiros de sua taba pensavam que elle buscava na +floresta o caminho da guerra. Mal sabiam que a essa hora esperava +prizioneiro na taba dos araguaias o combate da morte. + +Anciãos e guerreiros emudeceram. Todos respeitavam a dôr do pai, e não +ouzavam perturbal-a. + +Jacamim, a mãi de Pojucan, aproximára-se. O grande chefe ouviu seu +gemido. + +--A espoza de Itaquê não chora na prezença do matador de seu filho. + +Á voz do espozo, a mãi teve força para esconder no seio sua tristeza, e +mostrar-se digna do grande chefe dos tocantins. + +Ubirajara falou: + +--A vingança é a gloria do guerreiro; Tupan a deu aos valentes. +Ubirajara venceu Pojucan em combate leal, e aceita o dezafio de Itaquê e +de todos os chefes tocantins. + +--Tu és meu hospede; emquanto Itaquê brandir o grande arco da nação +tocantim, ninguem ofenderá o amigo de Tupan na taba de seus guerreiros. + +Dizendo assim, o grande chefe ergueu-se e trocou com o estranjeiro a +fumaça da despedida. + +--Parte. O sol que viu o estranjeiro na cabana hospedeira o acompanhará +amigo; mas com a sombra da noite, mil guerreiros, mais velozes que o +nandú, partirão para levar-te a morte. + +Ubirajara tomou suas armas e disse: + +--O hospede vai deixar tua cabana, chefe dos tocantins; tu verás chegar +o guerreiro inimigo. + + * * * * * + +Itaquê seguiu o estranjeiro até o terreiro; em torno delle se reuniram +os abarés, os moacaras e os guerreiros para assistirem á partida. + +Ubirajara caminhou com o passo lento e grave até o fim da taba. + +Chegado ali, tornou rapido á entrada da cabana, e retrocedeu apagando no +chão o vestijio de seus passos. + +A nação tocantim o observava imovel. + +Por fim o estranjeiro postou-se no centro da ocara e com o formidavel +tacape vibrou no largo escudo um golpe que repercutiu pela taba como o +estrondo da montanha. + +--O hospede passou o lumiar da cabana que o tinha acolhido, e apagou seu +rasto na taba dos tocantins. + +«Quem está aqui é um guerreiro armado, que piza senhor a taba de seus +inimigos. + +«Itaquê, morubixaba dos tocantins, Ubirajara, o senhor da lança, grande +chefe dos araguaias, te envia a guerra na ponta de sua seta.» + +Quando o guerreiro acabou de proferir estas palavras, Itaquê levantou os +olhos e viu cravada na figura do tucano, que era o simbolo da nação, a +seta de Ubirajara. + +Mil arcos se ergueram, mil tacapes brandiram. A voz possante de Itaquê +abateu as armas de seus guerreiros. + +Disse o morubixaba: + +--A lei de hospitalidade é sagrada. A cólera do estranjeiro não deve +perturbar a serenidade do varão tocantim. + +Depois voltou-se para o inimigo: + +--Ubirajara, grande chefe dos araguaias: Itaquê, o pai da poderoza nação +tocantim aceita a guerra que tu lhe enviaste. Recebe em teu escudo o +penhor do combate. + +A corda do grande arco da nação tocantim brandiu, e a seta de Itaquê +mordeu o escudo de Ubirajara. + +--Vai buscar teus guerreiros e nós combateremos á frente das nações. + +--Ubirajara combaterá até que lhe restituas a espoza; assim como elle a +conquistou a seus rivais, saberá conquistal-a a ti e á tua nação. + +O chefe araguaia partiu. No seio da floresta encontrou Arací que o +esperava. + +A formoza virjem fôra á cabana do cazamento buscar a rêde nupcial e +preparar-se para acompanhar o espozo. + +--Ubirajara parte; mas antes de cinco sóes elle estará aqui para te +conquistar á tua nação. + +--A espoza te acompanha. Teu braço valente já a conquistou; e ella +entregou-se a seu senhor. Arací te pertence; deves leval-a. + +A virjem tocantim dezejava seguir Ubirajara á taba dos araguaias. Falava +em sua alma a ternura da espoza e da irmã. + +Partindo, ella unia-se para sempre a seu guerreiro, e esperava que o +amor o moveria a salvar Pojucan. + +Ubirajara pensou e disse: + +--Se Ubirajara tivesse rompido a liga de Arací, ella era sua espoza, e +ninguem a arrebataria de seus braços. Mas a virjem tocantim não póde +abandonar a cabana onde naceu sem a vontade de seu pai. + +Arací suspirou: + +--Ubirajara vai deixar a lembrança de Arací nos campos dos tocantins. +Jandira o espera na taba dos araguaias, e lhe guarda o seu sorrizo de +mel. + +--A luz de teus olhos, Arací, estrela do dia, foi buscar Ubirajara na +taba dos seus, onde resoavam os cantos de seu triunfo, e o trouxe á tua +cabana. + +«Quando elle partiu encontrou Jandira, e para que a filha de Majé não o +acompanhasse a deu a Pojucan, como espoza do tumulo.» + +--O goaná do lago vôa lonje, para banhar-se nas aguas da chuva que +alagaram a varzea; mas logo volta ao seu ninho, e não se lembra mais da +moita onde dormiu. + +--Ubirajara é um guerreiro; elle não aprende com o goaná do lago, que +foje do perigo, mas com o gavião, grande chefe dos guerreiros do ar, que +nunca mais abandona o rochedo onde assentou a sua oca. + +--Se Ubirajara amasse a espoza, tambem não a abandonaria. Os braços de +Arací já cinjiram o colo de seu guerreiro. O tronco não desprende de si +a baunilha que se entrelaçou em seus galhos. + +Ubirajara calcou a mão sobre a cabeça de Arací: + +--Itaquê respeitou a lei de hospitalidade no corpo de Ubirajara, +Ubirajara não deixará a traição na terra hospedeira. + +«Arací não deve querer para espozo um guerreiro menos generozo do que +seu pai.» + +A virjem emudeceu. Ella sabia que a honra é a primeira lei do guerreiro. + +Antes de partir, o chefe consolou a espoza: + +--Ubirajara vai pedir ao gavião suas azas para voltar ao seio de Arací. +Elle virá á frente de sua nação, conduzido pela luz de teus olhos. + +«As outras mulheres são o premio de um combate entre os servos de seu +amor. Arací terá essa gloria, que ella será o premio da maior guerra que +já viram as florestas.» + +O chefe araguaia pôz as mãos nos hombros de Arací; duas vezes uniu o seu +ao rosto della, por uma e outra face, para exprimir que nada os podia +separar. + +Quando o guerreiro dezapareceu na floresta, Arací caminhou para a cabana +do espozo, que ficára triste e solitaria. + +A virjem fechou a porta; sentou-se na soleira, e cantou sua tristeza. + +Dois sóes tinham passado, e viera a noite. + +A ultima estrela se apagava no céu, quando Ubirajara pizou os campos dos +araguaias. + +Sua mão robusta, vibrando a clava, feriu o trocano. A voz da nação +araguaia derramou-se ao lonje pelo vale, como o estrondo da montanha que +arrebenta. + +Com o primeiro raio do sol que subia o pincaro da serra, chegaram á +grande taba os chefes das cem tabas araguaias, com todos seus +guerreiros, convocados á ocara da nação. + +Ubirajara mandou que Pojucan, o prizioneiro, viesse á sua prezença: + +--Vê o mar dos meus guerreiros que enche a terra, como as aguas do +grande rio quando alaga a varzea. Elles esperam o aceno de Ubirajara +para inundarem teus campos. + +«A nação tocantim carece neste momento do braço de seus maiores +guerreiros; vai levar-lhe o socorro de teu valor, para que se aumente a +gloria de Ubirajara, seu vencedor. + +«Tu és livre, Pojucan; parte e vôa, que a guerra dos araguaias te segue +os passos.» + +O semblante do filho de Itaquê ficou sombrio: + +--Pojucan é um chefe ilustre; não merece esta dezhonra. Tu lhe +prometeste a morte dos bravos. Elle exije o combate. + +O chefe araguaia contou a maranduba da hospitalidade: + +--Ubirajara não sabia que Pojucan era filho de Itaquê; pois elle nunca +pizaria como hospede a cabana de um guerreiro, a quem tivesse decepado +um filho. É precizo que recuperes a liberdade para que não se diga que +Ubirajara surpreendeu a hospitalidade do grande chefe dos tocantins. + +Pojucan não respondeu. Elle reconhecera que a honra de seu vencedor +exijia sua volta á taba dos seus. + +--Parte. Nós combateremos á frente das nações. Ubirajara pertence a +Itaquê; mas depois delle terás a gloria de ser vencido outra vez por +este braço. + +--Ubirajara é um grande chefe e maior guerreiro. Se Tupan não consente +que Pojucan seja vencedor, elle não quer maior gloria do que a de morrer +combatendo Ubirajara. + +Pojucan foi á cabana de seu vencedor buscar as armas. Ubirajara +arrimou-se ao tacape, como o rochedo que se apoia ao tronco do ipê, e +meditou. + +Quando passou o chefe tocantim que voltava á sua taba, Ubirajara +levantou a cabeça e disse: + +--Os olhos de Ubirajara te acompanham; tu és irmão de Arací, e vais para +junto della. Dize á estrela do dia, que seu espozo está com ella. + +O conselho dos abarés se reunira para meditar sobre a guerra. O velho +Majé, a quem irritava o dezaparecimento da filha, reparou que sem o voto +do carbeto se convocasse a nação. + +Veiu um mensajeiro chamar o grande chefe para o carbeto. Ubirajara +chegou. Antes que falasse a voz dos anciãos, o guerreiro levantou o arco +e disse: + +--O conselho dos anciãos governa a taba, e medita nella coizas da paz. +Toda a nação respeita sua prudencia e sabedoria. + +«Mas emquanto Ubirajara brandir o grande arco dos araguaias, tem a +guerra fechada em sua mão. + +«Quando elle soltar o grito de combate, a voz que falar da paz emudecerá +para sempre, ainda que venha da cabeça do abaré que a lua já +embranqueceu. + +«Quem não quizer assim, venha arrancar da mão de Ubirajara este arco +que elle conquistou por seu valor.» + +Os abarés estremeceram. Mas o carbeto meditou, e decidiu que a maior +gloria e sabedoria da nação era ter o seu grande arco de guerra na mão +de um chefe como Ubirajara. + +Camacan tratou com os anciãos ácerca da defeza das tabas; e o grande +chefe abriu o caminho da guerra. + + * * * * * + +Quando Ubirajara desdobrou sua guerra pela marjem do grande rio, elle +viu que uma nação tapuia se preparava para assaltar a taba dos +tocantins. + +O grande chefe tocou a inubia, cuja voz chamava o joven Murinhem, +primeiro dos cantores araguaias. + +Correu o nhengaçára á prezença do grande chefe, e delle recebeu a +mensajem que devia levar ao campo inimigo. + +Os cantores eram respeitados por todas as nações das florestas, como os +filhos da alegria; pelo que serviam de mensajeiros entre as nações em +guerra. + +Elles penetravam no campo inimigo, entoando o seu canto de paz; e nenhum +guerreiro ouzava ofender aquelle a quem Tupan concedera a fonte da +alegria. + +Murinhem atravessou rapido a campina e aprezentou-se em frente de +Canicran, chefe dos tapuias. + +--Ubirajara, o senhor da lança, que empunha o arco da poderoza nação +araguaia, te manda, a ti quem quer que sejas, e a todos quantos te +obedecem, a sua vontade. + +O tapuia rujiu; mas seus olhos viam o mar dos guerreiros araguaias que o +cercava, e na frente o grande vulto de Ubirajara, semelhante ao rochedo +sombrio e imovel no meio dos borbotões da cachoeira. + +Os guerreiros de Canicran só conhecem a vontade do seu chefe; e Canicran +afronta a cólera de Tupan e das nações que elle gerou. Dize, mensajeiro, +o que pede Ubirajara, ao grande chefe dos tapuias. + +--Ubirajara te manda que encostes o tacape da guerra. A nação tocantim +aceitou a sua flecha de dezafio, e elle não consente que ninguem combata +seu inimigo, antes de o ter vencido. + +--Torna e dize ao grande chefe araguaia, que Canicran veiu trazido pela +vingança. Pojucan, um dos chefes tocantins penetrou em sua taba e +incendiou a cabana do pajé, que foi devorado pelas chamas. + +«Ubirajara é um grande chefe araguaia; elle que diga se o pai da nação +póde sofrer tão dura afronta. Canicran escuta a voz de sua amizade.» + +O chefe tapuia tomou uma de suas flechas; arrancou o farpão e deu ao +mensajeiro a haste emplumada com azas negras do anun, que era o emblema +guerreiro de sua nação. + +--Toma; entrega ao grande chefe araguaia o penhor da aliança. + +Murinhem partiu e foi á taba dos tocantins levar igual mensajem. Itaquê +escutou o que lhe mandava Ubirajara e respondeu: + +--Antes que Itaquê trocasse com Ubirajara a seta do dezafio, Pojucan +tinha levado a guerra á taba dos tapuias. + +«Canicran veiu trazido pela vingança; e a nação tocantim não póde +recuzar o combate. Mas Itaquê sabe honrar seu nome; se Ubirajara quer, +elle combaterá juntamente os dois inimigos.» + +O mensajeiro tornou ao campo dos araguaias com as respostas dos dois +chefes. Ubirajara ouviu e meditou. + +--Escuta a vontade de Ubirajara para leval-a aos inimigos. O grande +chefe araguaia não roubará a Canicran a gloria da vingança; elle +respeita a honra da nação tapuia, mas rejeita sua aliança. Restitue o +penhor que recebeste. + +«Itaquê póde aceitar o combate que Pojucan foi buscar; Ubirajara não +ofende o nome de um guerreiro, ainda mais de um morubixaba, e do pai de +Arací. + +«O chefe dos araguaias não carece de auxilio para triunfar de seus +inimigos: dezeja que a nação tocantim derrote aos tapuias, para ter elle +a gloria de vencer ao vencedor. + +«Se Itaquê não póde repelir os tapuias, Ubirajara toma a si castigar os +barbaros; e depois de varrel-os das florestas, combaterão as duas +nações. + +«Se os tocantins necessitam de aliados para rezistir ao ímpeto dos +araguaias, Ubirajara espera que Itaquê os chame e que elles venham. + +«Murinhem falará assim a um e outro chefe; a ambos dirá que a cabana +onde estiver Arací fica sob a guarda de Ubirajara; quem nella penetrar +como inimigo, sofrerá a morte vil do cobarde.» + +O guerreiro deixou a voz do chefe e falou com a voz de espozo: + +--A Arací levarás o canto de amor de Ubirajara. Tu lhe dirás que arme a +rêde nupcial, e não deixe nossa cabana, emquanto Ubirajara não a fôr +buscar. + +«Conta-lhe tambem que o canitar que ella teceu, ainda não deixou a +cabeça de seu guerreiro e ha de acompanhal-o sempre.» + + + + +VIII + +A BATALHA + + +A um lado da imensa campina move-se a multidão dos guerreiros tocantins, +do outro lado a multidão dos guerreiros tapuias. + +As duas nações se estendem como dois lagos formados pelas grandes +chuvas, que se transformam em rios e atravessam o vale. + +De um e outro campo levantou-se a pocema guerreira; e os dois povos +arremetendo travaram a batalha. + +Itaquê achou-se em frente de Canicran. Ambos se buscavam; dez vezes +tinham combatido; vencedores ambos, nenhum fôra vencido. + +Emquanto viverem os formidaveis guerreiros, não é possivel quebrar a +flecha da paz entre as duas nações. + +Era precizo que um delles morresse, para que o vencedor encostasse o +tacape do combate, e désse repouzo á sua nação para reparar os estragos +da guerra. + +Quando os dois chefes se encontraram, os guerreiros de um e outro campo +ficaram imoveis, contemplando o pavorozo combate. + +Ubirajara, de lonje, apoiado em seu grande arco, admirava os dois +guerreiros, e pensava qual não seria o seu orgulho em vencel-os a ambos. + +Durára a peleja o espaço de uma sombra. Em torno dos chefes lastravam o +chão os tacapes e escudos que se tinham espedaçado aos golpes de cada +um. + +Imoveis no mesmo logar, só ajitavam a cabeça e os braços, semelhantes a +dois condores que, de garras prezas aos pincaros do rochedo, se +dilaceram com o bico adunco. + +Um rujido espantoso atroou pela campina, que estremeceu a batalha e +rolou pelas profundezas da floresta. + +Paan, a seta, era o ultimo filho de Canicran. Ainda corumim, pelejava ao +lado do irmão, o guerreiro Creban, cujo hombro mal alcançava com o +braço. + +Elle tinha nos olhos a vista da gaivota, e nas setas de seu arco, feitas +de espinhos de ouriço, a velocidade e a certeza do vôo do guanumbí. + +Quando caçava na floresta, divertia-se em matar as motuças +traspassando-as com suas flechas, que voavam mais rapidas e certeiras +que as vespas venenozas. + +Paan saltára sobre os hombros do guerreiro Creban para assistir ao +combate. Admirando o valor de Canicran, teve orgulho e inveja do pai. + +Itaquê desfechára tão formidavel golpe, que o tacape e escudo de +Canicran se espedaçaram em suas mãos, deixando-o á mercê do inimigo. + +O chefe tocantim arrojou-se, e já sua mão decia sobre a espadua do +tapuia para fazel-o prizioneiro. + +O arco de Paan sibilou duas vezes. Os olhos de Itaquê, os olhos do varão +forte que nunca humedecera uma lagrima, choraram sangue. + +As setas do corumim tinham vazado as pupilas do fero guerreiro cuja +vista era raio. Assim a jandaia rôe o grelo do procero coqueiro. + +Foi então que Itaquê soltou o rujido pavorozo que fez tremer a terra. +Mas o grito de espanto sossobrou no peito dos guerreiros, e rompeu em +um grito de horror. + +Itaquê estendera os braços, hirtos como duas garras de condor. + +A mão direita abarcou o penacho e a cabeleira de Canicran, a esquerda +entrou pela boca do tapuia e travou-lhe o queixo. + +Separaram-se os braços do guerreiro cégo, e a cabeça de Canicran +abriu-se como um côco que se fende pelo meio. + +Ajitando no ar o craneo sangrento como um maracá de guerra, Itaquê +arrojou-se contra os inimigos, buscando a morte que lhe fujia. + +Quando o sol entrou, não havia na campina a sombra de um tapuia. + +O velho heróe voltou á cabana conduzido por Pojucan: + +--Tupan viu que Itaquê não podia ser vencido pela mão dos homens, e quiz +vencel-o elle mesmo pela mão de um menino. + +Quando Ubirajara viu o exito do combate, lamentou que dos dois grandes +guerreiros não restasse nenhum, para que elle o vencesse. + +Seus olhos descobriram Paan que fujia no meio dos destroços de sua +nação. Ergueu a mão, mas não chegou a retezar a seta. + +A aguia não persegue a andorinha. Era indigno de um guerreiro, quanto +mais de um chefe, empregar seu valor contra um menino. + +O chefe chamou á sua prezença Tubim, um dos jovens caçadores que tinham +acompanhado a guerra para prover o alimento. + +--Tubim tem as azas da abelha; se elle alcançar o corumim tapuia que eu +estou olhando, Ubirajara lhe dará o nome de Abeguar. + +O joven caçador seguiu o olhar do chefe, e sumiu-se num turbilhão de +poeira. Quando os vagalumes começaram a luzir no escuro da mata, elle +estava de volta no campo dos araguaias e trazia o corumim fechado nos +braços. + +Nessa mesma noite Tubim recebeu o nome de Abeguar, senhor do vôo, em +honra da façanha que tinha realizado. + +Os cantores entoaram seu louvor; e o joven caçador teve a gloria de +receber os aplauzos dos moacaras de sua nação, e de um chefe como +Ubirajara. + +Ao raiar da manhã, Murinhem foi á taba dos tocantins, acompanhado por +vinte guerreiros que conduziam o corumim. + +Quando chegou em frente á cabana do grande chefe, o cantor viu Itaquê no +terreiro sentado em uma sapopema. + +O guerreiro fitava os olhos no céu, onde o calor lhe dizia que estava o +sol. Mas não encontrava a luz que para sempre o abandonára. + +Então o velho guerreiro abaixava os olhos para terra, como se buscasse o +logar do repouzo. + +Quando soaram lonje os passos dos estranjeiros, o chefe alongou a fronte +para ver pelo ouvido o que os olhos lhe recuzavam. + +Murinhem chegou e disse: + +--Ubirajara envia a Itaquê o resto da vingança. Este é Paan, o filho de +Canicran. Elle te roubou a vista; mas não salvou o pai de tua mão +terrivel. Faze do corumim tapuia um mancebo tocantim; e elle será a luz +de teus olhos e caminhará na frente do grande chefe para abrir-lhe o +caminho da guerra. + +Paan avançou: + +--O filho de Canicran jámais será escravo; naceu tapuia e tapuia +morrerá, como o grande chefe que o gerou. Emquanto o ouriço viver nas +florestas, elle roubará seus espinhos para furar os olhos dos tucanos. + +Itaquê pouzou a palma da mão na cabeça do menino: + +--O corumim que ama seu pai é filho de Itaquê. Tu és livre, Paan; vai +caçar o ouriço. Quando fôres um guerreiro, acharás cem mancebos do +sangue de Itaquê para castigarem tua audacia. + +O chefe voltou-se para o cantor: + +--Tupan tirou a luz dos olhos de Itaquê; mas aumentou a força de seu +braço. Ubirajara terá para combatel-o um inimigo digno de seu valor. + +Murinhem tornou ao chefe araguaia com esta resposta. + + * * * * * + +Quando partia o cantor, chegaram á cabana de Itaquê os abarés da nação +tocantim. + +Os anciãos sentaram-se em torno do guerreiro cégo; e bebendo a fumaça da +sabedoria, formaram o carbeto. + +Falou Guaribú: + +--O grande arco da nação carece de uma mão robusta para brandir sua +corda, e de um olho seguro para dirijir sua seta. Itaquê é o maior +guerreiro das florestas; seu nome faz tremer aos mais valentes dos +inimigos; seu braço fere como o raio. Mas a luz fujiu de seus olhos e +elle não póde mais abrir o caminho da guerra. + +O velho chefe ergueu-se com o passo trôpego. Alcançando o grande arco +dos tocantins abraçou-se com elle e falou-lhe. + +--Quando Itaquê te recebeu da mão do grande Javarí elle pensava que só a +morte o separaria de ti, para transmitir-te a um guerreiro de seu +sangue. Mas Itaquê ficou na terra, como um tronco levado pela corrente, +que não sabe onde vai. + +Um esguicho de sangue saltou dos buracos, onde o velho tivera os olhos. +Era a lagrima que a desgraça lhe deixára. + +Os abarés meditaram. Guaribú falou de novo: + +--O grande arco da nação que tu recebeste do grande Javarí, teu pai, não +te abandonará. Elle fica em tua mão invencivel; haverá outro arco na mão +do mais valente guerreiro, que abrirá o caminho da guerra. Mas emquanto +Itaquê viver, sua voz governará a nação que elle defendeu com seu braço. + +O semblante do velho chefe cobriu-se de um sorrizo como o negro rochedo +sobre o qual desliza um raio do luar. + +--Pais da sabedoria, abarés, olhai aquelle jatobá que se levanta no meio +da campina, e que eu só posso ver agora na sombra de minha alma. + +«Elle tem muitas raizes que o sustentam nos ares; tem muitos galhos que +o cercam e estendem ao lonje a sua rama. Mas o tronco é um só. + +«As grossas raizes são os abarés que sustentam o chefe com o seu +conselho. Os galhos fortes são os moacaras que cercam o chefe e geram a +multidão de guerreiros mais numeroza que as folhas das arvores. O tronco +é o chefe da nação; se elle se dividir, o jatobá não subirá ás nuvens +nem terá forças para rezistir ao tufão. + +«O logar de Itaquê é no conselho. O ultimo dente de seu colar de guerra +foi o que elle arrancou da boca de Canicran. Convocai os guerreiros, e o +que fôr mais forte e mais valente empunhe o grande arco da nação. + +O trocano chamou a nação ao carbeto. Vieram os moacaras, conduzindo suas +tribus. + +O velho Itaquê contava pelos passos os guerreiros que chegavam. O grande +arco da nação, que elle segurava direito, parecia um dos esteios da +cabana, e tinha a corda tão grossa como a da rêde do chefe. + +Os mais famozos guerreiros tocantins se aprezentaram para disputar o +grande arco; muitos conseguiram vergal-o; mas a seta não partiu. + +Itaquê escutava com o ouvido atento: o som delle conhecido não feriu os +ares. + +--Onde está Pojucan? perguntou o velho chefe. + +O valente guerreiro do sangue de Itaquê estava de parte, grave e +taciturno. Algum motivo o separava do arco chefe, que elle devia ser o +primeiro a disputar. + +--Teu filho te escuta, respondeu. + +--Empunha o arco chefe; se ha um guerreiro tocantim que possa +conquistal-o esse deve ser do sangue de Itaquê. + +Pojucan recebeu o arco. Fincando nelle os pés, o guerreiro arrojou-se +para traz como a giboia quando se enrista para armar o bote. + +A seta partiu, e foi cravar a cabeça de um chefe tapuia, fincada na +estaca, á entrada da taba. + +Itaquê curvára a cabeça. Elle ouviu brandir a arma; não era, porém, +aquelle o zunido da corda do arco, quando o vergava sua mão possante. + +Pojucan depôz o arco chefe aos pés de Itaquê e disse: + +--Pojucan mostrou que em suas veias corre o sangue generozo de Itaquê. +Mas o grande arco peza em sua mão. Só ha um guerreiro na terra que o +possa brandir como Itaquê: e esse não cinje a fronte com o cocar das +penas de tucano. + +--Pojucan negou a Itaquê esta ultima consolação. O arco invencivel do +grande Tocantim que foi o pai da nação, vai sair de sua geração. +Tocantim o transmitiu a seu filho Javarí, que me gerou; mas eu não sube +gerar com seu sangue um guerreiro digno delles. + + + + +IX + +UNIÃO DOS ARCOS + + +Os tapuias voltaram; e com elles vinha Agniná á frente de sua nação, +para vingar a morte de Canicran, seu irmão. + +Era grande a multidão dos guerreiros; e maior a tornavam a sanha da +vingança e a fama do chefe que a conduzia. + +Não eram tantos os tocantins; mas bastaria seu valor para igualal-os, se +não lhes faltasse a cabeça, que reje o corpo. + +A poderoza nação estava como o bando de caitetús que perdeu o pai, e +desgarra-se pela floresta, correndo sem rumo. + +Os mais valentes moacaras, chefes das tribus, esperavam pelo grande +chefe da nação para abrir-lhes o caminho da guerra. + +Os abarés meditaram. Elles não podiam inventar um guerreiro capaz de +suceder a Itaquê; mas não se rezignavam a abater a gloria da nação, +trocando o arco invencivel do grande Tocantim por outro arco mais leve, +que Pojucan manejasse. + +Tambem Pojucan anunciára, que não podendo brandir o arco de Itaquê, +jámais empunharia outro arco chefe, menos gloriozo do que o do grande +Tocantim. + +Abarés, chefes, moacaras, guerreiros, toda a nação se reuniu em torno do +heróe cégo. + +Daquelle que durante tantas luas defendera a nação com a força de seu +braço, e a protejera com o terror de seu nome, esperavam ainda a +salvação. + +O velho ouviu a voz dos abarés, a voz dos chefes, a voz dos moacaras, a +voz dos guerreiros, e disse: + +--Itaquê ainda póde combater e morrer por sua nação; mas sem a luz do +céu, elle não póde mais abrir a seus filhos o caminho da vitoria. + +«O braço de Itaquê defendeu sempre a nação tocantim; quer ella ser +defendida agora pela palavra daquelle, que não tem mais para dar-lhe +senão a experiencia de sua velhice? + +«Pensem os abarés, os chefes, os moacaras e os guerreiros.» + +Guaribú respondeu: + +--A nação pensou. Fala e todos obedecerão á tua palavra, como obedeciam +ao braço de Itaquê. + +--A voz do coração diz ao neto de Tocantim, que a gloria da nação que +elle gerou, não se póde extinguir. O sangue de Itaquê, passando pelo +seio de Arací, se unirá a outro sangue generozo para brotar maior e mais +ilustre. + +«Assim a terra onde naceu uma floresta de acajás recebe o limo do rio e +gera nova floresta mais frondoza que a outra. + +«Jacamim, chama Arací, a filha de nossa velhice. E vós, abarés, chefes, +moacaras e guerreiros, seguí-me.» + +O velho heróe atravessou a taba guiado por Arací. + +A nação o seguia em silencio. + +Quando o guerreiro cégo passava com a mão no hombro da virjem formoza +que dirijia o seu passo incerto, os guerreiros lembravam-se do tronco já +morto que a rama do maracujá ainda sustenta de pé junto ao penedo. + +Os cantores iam adiante, e entoavam um canto de paz. + + * * * * * + +Um mensajeiro de Itaquê o precedera no campo dos araguaias. + +Ubirajara, cercado de seus abarés, chefes, moacaras e guerreiros, veiu +ao encontro do morubixaba dos tocantins. + +A alma do grande chefe araguaia encheu-se da alegria de ver Arací; mas +elle retirou os olhos da espoza, para que o amor não perturbasse a +serenidade do varão. + +--Ubirajara está em face de Itaquê; para combatel-o se trouxe a guerra, +para abraçal-o se trouxe a paz. + +--Nunca Itaquê pediu a paz ao inimigo que lhe trouxe a guerra, antes de +o vencer; nem teria vivido tanto para cometer essa fraqueza. Elle vem +trazer-te a vitoria para que tu a repartas com seu povo. + +O velho heróe avançou o passo: + +--Chefe dos araguaias, tu levaste a guerra á taba dos tocantins para +conquistar Arací, a filha de minha velhice. + +«Por teu heroismo, e ainda mais pela nobreza com que restituiste a +liberdade a Pojucan, tu merecias uma espoza do sangue tocantim. + +«Mas desde que tu ameaçaste tomal-a pela força de teu braço, Itaquê não +podia mais conceder-te a filha de sua velhice, senão depois que abatesse +teu orgulho. + +«Elle preparava-se para te combater, e á tua nação; mas fujiu-lhe dos +olhos a luz que dirije a seta da guerra; e não ha entre seus guerreiros +um que possa brandir o arco do grande Tocantim.» + +Quando pronunciou estas palavras, a voz do velho guerreiro sossobrou-lhe +no peito: + +--O arco de Itaquê é como o gavião que perdeu as azas e não póde mais +levar a morte ao inimigo. As andorinhas zombam de suas garras. + +«Empunha o arco de Itaquê, chefe dos araguaias, e tu conquistarás por +teu heroismo uma espoza e uma nação. + +«Á espoza farás mãi de cem guerreiros como Itaquê; e á nação conservarás +a gloria que ella conquistou quando o filho de Javarí a conduzia á +guerra. + +«Tupan dará a teu braço esta força para que o sangue de Itaquê brote +mais vigorozo e os netos de Tocantim dominem as florestas.» + +Ubirajara sorriu: + +--Chefe dos tocantins, teus olhos não podem ver o grande arco da nação +araguaia; mas pergunta á tua mão, se o arco que Camacan brandia +invencivel e agora empunha Ubirajara, cede ao arco de Itaquê. + +O velho heróe palpou o arco chefe dos araguaias e vergou-lhe a ponta ao +hombro, como se a haste fosse de taquarí. + +Ubirajara travou do arco de Itaquê e desdenhando fincal-o no chão, +elevou-o acima da fronte. A flecha ornada de penas de tucano partiu. + +O semblante de Itaquê remoçou, ouvindo o zunido que lhe recordava o +tempo de seu vigor. Era assim que elle brandia o arco outr'ora, quando +as luas creciam aumentando a força de seu braço. + +O velho inclinou a fronte para escutar o sibilo de sua flecha que +talhava o azul do céu. Os cantores não tinham para elle mais doce +harmonia do que essa. + +Ubirajara largou o arco de Itaquê para tomar o arco de Camacan. A flecha +araguaia tambem partiu e foi atravessar nos ares a outra que tornava á +terra. + +As duas setas deceram trespassadas uma pela outra como os braços do +guerreiro quando se cruzam ao peito para exprimir a amizade. + +Ubirajara apanhou-as no ar: + +--Este é o emblema da união. Ubirajara fará a nação tocantim tão +poderoza como a nação araguaia. Ambas serão irmãs na gloria e formarão +uma só, que ha de ser a grande nação de Ubirajara, senhora dos rios, +montes e florestas. + +O chefe dos chefes ordenou que tres guerreiros araguaias e tres +guerreiros tocantins, ligassem com o fio do crautá as hastes dos dois +arcos. + +Quando o arco de Camacan e o arco de Itaquê não fizeram mais que um, +Ubirajara o empunhou na mão possante e mostrou-o ás nações: + +--Abarés, chefes, moacaras e guerreiros de minhas nações, aqui está o +arco de Ubirajara, o chefe dos grandes chefes. Suas flechas são gemeas, +como as duas nações, e voam juntas. + +Ambas as cordas brandiram a um tempo. A seta araguaia e a seta tocantim +partiram de novo como duas aguias que par a par remontam ás nuvens. + +Quando se calou a pocema do triunfo, Ubirajara caminhou para a filha de +Itaquê: + +--Arací, estrela do dia, tu pertences a Ubirajara que te conquistou pela +força de seu braço. Agora que é senhor, elle espera tua vontade. + +A formoza virjem rompeu a liga vermelha que lhe cinjia a perna, e atou-a +ao pulso de seu guerreiro. + +Ubirajara tomou a espoza aos hombros e levou-a á cabana do cazamento. + +O jasmineiro semeava de flôres perfumadas a rêde do amor. + + * * * * * + +O outro sol rompia, quando os tapuias estenderam pela campina a multidão +de seus guerreiros. + +Na frente assomava Agniná, a montanha dos guerreiros, ainda mais feroz +do que o irmão, o terrivel Canicran. + +De um lado e do outro seguiam-se os chefes, cada um á frente de seus +guerreiros. + +Ubirajara escolheu mil guerreiros araguaias e mil guerreiros tocantins, +com que saiu ao encontro dos tapuias. + +Depois que desdobrou sua batalha pela campina, o chefe dos chefes +caminhou só para o inimigo. + +Quando chegava a meio do campo, os tapuias levantaram a pocema de +guerra, que atroou os ares, como o estrépito da cachoeira. + +Um turbilhão de setas crivou o longo escudo do heróe, que ficou +semelhante ao grosso tronco da jussára, erriçado de espinhos. + +Ubirajara embraçou o escudo na altura do hombro, e com o pé brandiu sete +vezes a corda do grande arco gemeo. + +As setas vermelhas e amarelas subiram direitas ao céu e se perderam nas +nuvens. + +Quando voltaram, Agniná e os chefes que obedeciam a seu arco, tinham +cada um fincado na cabeça o dezafio do formidavel guerreiro. + +Enfurecidos mais pelo insulto, do que pela dôr, arremessaram-se contra o +inimigo que os esperava coberto com seu vasto escudo. + +Agniná era o primeiro na corrida, e o primeiro na sanha. Após elle +vinham os outros, a dois e dois, lutando na rapidez. + +Quando o espozo de Arací viu que elles se estendiam pela campina, como +dois ribeiros que se aproximam para confundir suas aguas, o heróe +empunhou a lança de duas pontas e soltou seu grito de guerra que era +como o bramir do jaguar, senhor da floresta. + +Seu pé devorou o espaço; e a lança de duas pontas girou em sua mão, como +a serpente que se enrosca nos ares silvando. + +Caiu Agniná do primeiro bote; após elle caíram aos dois os chefes +tapuias, como caem os juncos talhados pelo dente afiado da capivara. + +Então o heróe soltou seu grito de triunfo, que era como o rujido do +vento no dezerto: + +--Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro invencivel que tem +por arma uma serpente. + +«Eu sou Ubirajara, o senhor das nações, o chefe dos chefes, que varre a +terra, como o vento do dezerto.» + +O heróe estendeu a vista pela campina, e não descobriu mais o inimigo, +que se sumia na poeira. + +Ubirajara lançou-lhe seus guerreiros, que tinham fome de vingança; porém +o terror de sua lança dava azas aos fujitivos. + +Desde esse dia nunca mais um tapuia pizou as marjens do grande rio. + + * * * * * + +Ubirajara voltou á cabana, onde o esperava Arací. + +A espoza despiu as armas de seu guerreiro, enxugou-lhe o corpo com o +macio cotão da monguba, e cobriu-o do balsamo fragrante da embaiba. + +Encheu depois de generozo cauim a taça vermelha feita do côco da +sapucaia; e aplacou a sêde do combate. + +Emquanto nas grandes tabas se preparava a festa do triunfo e o heróe +repouzava na rêde, Arací foi ao terreiro, e voltou conduzindo Jandira +pela mão. + +--Arací, tua espoza, é irmã de Jandira. Ubirajara é o chefe dos chefes, +senhor do arco das duas nações. Elle deve repartir seu amor por ellas, +como repartiu sua força. + +A virjem araguaia pôz no guerreiro seus olhos de corça. + +--Jandira é serva de tua espoza; seu amor a obrigou a querer o que tu +queres. Ella ficará em tua cabana para ensinar a tuas filhas como uma +virjem araguaia ama seu guerreiro. + +Ubirajara cinjiu ao peito com um e outro braço, a espoza e a virjem. + +--Arací é a espoza do chefe tocantim; Jandira será a espoza do chefe +araguaia; ambas serão as mãis dos filhos de Ubirajara, o chefe dos +chefes, e o senhor das florestas. + + * * * * * + +As duas nações, dos araguaias e dos tocantins, formaram a grande nação +dos Ubirajaras, que tomou o nome do heróe. + +Foi esta poderoza nação que dominou o dezerto. + +Mais tarde, quando vieram os caramurús, guerreiros do mar, ella campeava +ainda nas marjens do grande rio. + + + + + FIM + + + + +NOTAS + +ADVERTENCIA + + +Este livro é irmão de Iracema. + +Chamei-lhe de lenda como ao outro. Nenhum titulo responde melhor pela +propriedade, como pela modestia, ás tradições da patria indijena. + +Quem por desfastio percorrer estas pajinas, se não tiver estudado com +alma brazileira o berço de nossa nacionalidade, ha de estranhar entre +outras coizas a magnanimidade que resumbra no drama selvajem e lhe fórma +o vigorozo relevo. + +Como admitir que barbaros, quais nos pintaram os indijenas, brutos e +canibais, antes féras que homens, fossem sucetiveis desses brios nativos +que realçam a dignidade do rei da creação? + +Os historiadores, cronistas e viajantes da primeira época, se não de +todo o periodo colonial, devem ser lidos á luz de uma critica severa. É +indispensavel sobretudo escoimar os fatos comprovados das fabulas a que +serviam de mote, e das apreciações a que os sujeitavam espiritos +acanhados, por demais embuidos de uma intolerancia rispida. + +Homens cultos, filhos de uma sociedade velha e curtida por longo trato +de seculos, queriam esses forasteiros achar nos indijenas de um mundo +novo e segregado da civilização universal uma perfeita conformidade de +idéas e costumes. Não se lembravam, ou não sabiam, que elles mesmos +provinham de barbaros ainda mais ferozes e grosseiros do que os +selvajens americanos. + +Desta prevenção não escaparam muitas vezes espiritos graves e bastante +ilustrados para escreverem a historia sob um ponto de vista mais largo e +filozofico. + +Entre muitos citarei um exemplo. Barloeus referindo as justas que se +faziam entre os selvajens para obterem em premio de seu valor a virjem +mais formoza, não se esqueceu de acrecentar este comento--_finis +spectantium est voluptas_. + +Narrados com este pessimismo, as cenas da cavalaria, os torneios e +justas não passariam de manejos inspirados pela sensualidade. Nada +rezistiria á censura ou ao ridiculo. + +Por igual teor, senão mais grosseiras, são as apreciações de outros +escritores ácerca dos costumes indijenas. As coizas mais poeticas, os +traços mais generozos e cavalheirescos do carater dos selvajens, os +sentimentos mais nobres desses filhos da natureza, são deturpados por +uma linguajem impropria, quando não acontece lançarem á conta dos +indijenas as extravagancias de uma imajinação desbragada. + +Releva ainda notar, que duas classes de homens forneciam informações +ácerca dos indijenas: a dos missionarios e a dos aventureiros. Em luta +uma com outra, ambas se achavam de acôrdo nesse ponto, de figurarem os +selvajens como féras humanas. Os missionarios encareciam assim a +importancia de sua catequese; os aventureiros buscavam justificar-se da +crueldade com que tratavam os indios. + +Faço estas advertencias para que, ao lerem as palavras textuais dos +cronistas citados nas notas seguintes, não se deixem impressionar por +suas apreciações muitas vezes ridiculas. É indispensavel escoimar o fato +dos comentos de que vem acompanhado, para fazer uma idéa exata dos +costumes e indole dos selvajens. + + * * * * * + + +Paj. 5 + +_Grande rio_.--Os tupís chamavam assim ao maior rio que existia na +rejião por elles habitada: e daí rezultou ficarem tantos rios com essa +dezignação na lingua orijinal ou traduzida. + +O rio grande de que se trata nesta lenda é o Tocantins, em cujas marjens +se passa a ação dramatica. + + +Paj. 5 + +_Jaguarê_.--Nome composto de _Jaguar_, a onça e o sufixo _ê_ que na +lingua tupí reforça emfaticamente a palavra a que se liga. _Jaguarê_, +significa, pois, a onça, verdadeiramente onça, digna do nome, por sua +força, corajem e ferocidade. + + +Paj. 5 + +_Uiraçaba_.--Nome que davam os tupís á aljava, de _uira_--seta e +_aba_--dezinencia exprimindo o logar, modo e instrumento; literalmente +«o que tem a seta.» + +Os selvajens a faziam, ou do tubo de taquarussú, ou da casca de certas +arvores, guarnecida de fios embebidos de rezina, o que as tornava muito +rezistentes. + + +Paj. 6 + +_Nome de guerra_.--«Mal nacia a criança logo se lhe punha nome. Hans +Stade achou-se prezente numa dessas ocaziões. Convocou o pai aos mais +proximos vizinhos de dormitorio, pedindo-lhes para o filho um nome viril +e terrivel; não lhe agradando nenhum dos propostos, declarou que ia +escolher o de um de seus quatro antepassados, o que daria fortuna ao +rapaz, e repetindo-o em voz alta, fixou a escolha. Ao chegar á idade de +ir á guerra, dava-se outro nome ao mancebo que aos seus titulos ia +acrecentando um por inimigo que trazia para caza a ser imolado. Tambem a +mulher tomava adicional apelido quando o marido dava uma festa +antropofaga. De objetos viziveis se tirava o cognome, determinando o +orgulho ou a ferocidade a escolha. O epiteto _grande_ frequentemente se +compunha com o nome. Southey, _H. do Brazil_, tom. 1o, cap. 8o, paj. +336. + +Póde-se ler tambem a este respeito o que diz Gabriel Soares, cit. no +cap. 160, ácerca do nome que tomava o tupinambá quando matava o +contrario, e no cap. 164 onde acrecenta: «Acontece muitas vezes cativar +um tupinambá a um contrario na guerra, onde o não quiz matar para o +trazer cativo para sua aldêa, onde o faz engordar com as ceremonias já +declaradas para o deixar matar a seu filho quando é moço e não tem idade +para ir á guerra, o qual o mata em terreiro, como fica dito, com as +mesmas ceremonias; mas atam as mãos ao que ha de padecer, _para com isso +o filho tomar nome novo e ficar_ armado cavaleiro e mui estimado de +todos.» + +A este trecho de Gabriel Soares é precizo dar o devido desconto ácerca +da engorda do cativo, e do papel insignificante que reprezenta o +mancebo. Devemos crer que entre gente, cuja alma era a guerra, o titulo +de guerreiro não se conferia ao mancebo que não fizesse prova real de +seu esforço e corajem. + +Ives d'Evreux, cap. XXI, trata minuciozamente da graduação que a idade +estabelecia entre os tupís. Havia para os guerreiros seis classes: 1o +das crianças até dois anos, _mitanga_, que significa chupador ou +mamador; 2o _curumim mirim_, isto é o pequeno que balbucia; compreendia +os meninos até sete anos; 3o _curumim_ simplesmente, correspondia á +segunda infancia de 7 a 15 anos; 4o _curumim-guassú_, era a +adolecencia, em que os rapazes se empregavam na caça e na pesca; 5o +_aba_--o homem, indicava o principio da virilidade, o qual logo que se +cazava tornava-se apiaba, o varão, ou como diz d'Evreux, _mendarama_, o +cazado; 6o _tijubaê_, o ancião ou veterano, o homem de experiencia, +guerreiro consumado. + + +Paj. 6 + +_Jandira_.--O nome é _jandaíra_, de uma abelha que fabrica excelente +mel; Jandira é uma contração mais eufonica daquelle nome, que tambem por +sua vez é contração de _Jemonhaíra_, que fabrica mel. + + +Paj. 6 + +_Aratuba_.--Palavra que se compõe de _ara_--o sol e _tuba_--infinito do +verbo _ajub_--estar deitado. Vem a ser a significação _leito do sol_, +aplicada pelos indios á montanha do poente, onde o sol se esconde no seu +ocazo. + + +Paj. 6 + +_Lança_.--O uzo da lança não era comum aos selvajens, que empregavam de +preferencia o arco, o tacape, a macana, e a igarapema, especie de remo, +que fazia as vezes de partazana. Outros escrevem _iverapema_; mas o nome +é aquelle de _igara-pema_, espada da canôa; basta ver-lhe a fórma para +compreender seu duplo destino. + + +Paj. 6 + +_Craúba_.-É a mesma _carabiuba_ dos indios, assim contraída pelo uzo dos +nossos sertanejos. Madeira roxa, excessivamente rija, que não cede ao +páu-ferro no pezo e na dureza. + + +Paj. 7 + +_A liga vermelha_.--Era este um dos mais curiozos e interessantes ritos +dos tupís. + +Quando a menina atinjia a puberdade, depois de sua purificação, da qual +tratam os autores, especialmente Orbigny e Thevet, a mãi punha-lhe nas +pernas, abaixo do joelho, uma liga de fio de algodão tinta de vermelho, +de tres dedos de largura, e tecida no proprio logar de modo que uma vez +fechada, não era mais possivel tiral-a. Vide Gabriel Soares, cap. 153. + +A essa liga chamavam _tapacora_, e não a podia trazer senão a virjem, de +modo que se acontecesse quebrar a castidade havia de rompel-a, para que +todos conhecessem sua falta. Eis como Gabriel Soares se exprime a este +respeito no cap. 152: «E como o marido lhe leva a flôr, é obrigada a +noiva a quebrar estes fios para que seja notorio que é feita dona; e +ainda que uma moça destas seja deflorada por quem não seja seu marido, +ainda que seja em segredo, ha de romper os fios de sua virjindade, que +de outra maneira cuidará que a leva o diabo, os quais dezastres lhes +acontecem muitas vezes, etc.» + +Este simples traço é bastante para dar uma idéa da moralidade dos tupís, +e vingal-a contra os embustes dos cronistas, que por não compreenderem +seus costumes, foram-lhes emprestando gratuitamente, quanto inventavam +exploradores mal informados e prevenidos. + +Em que sociedade civilizada se observa tão profundo respeito pela união +conjugal, a ponto de não consentir-se que a mulher decaída conserve o +segredo de sua falta, e iluda o homem que a busque para espoza? + +A rezignação com que a moça culpada rompia a liga da virjindade, e fazia +confissão publica de seu erro, é um exemplo da lealdade do carater tupí +e da veneração que inspiravam os ritos de sua relijião. + +Nega Southey, cap. VIII, que a liga vermelha e o respeito que ella +inspirava indicassem guarda da castidade, porquanto a castidade como a +caridade é virtude da civilização; do mesmo modo considera o amor uma +delicadeza da vida civilizada. São paradoxos de escritor. Sentimentos +naturais á creatura humana, dezenvolvem-se nella em qualquer estado e +condições. + +Não é possivel negar a castidade da mulher tupí; além desse recato da +virjindade, prova-a de modo cabal a continencia que homens e mulheres +guardavam em certas circumstancias. Assim, nenhum homem tinha relações +com a mulher inubil, nem ella o consentia; o proprio marido não violava +essa lei, embora tivesse a espoza em seu poder. Gabriel Soares cit. +Durante a gravidez e a amamentação interrompia-se absolutamente o +ajuntamento conjugal. (Barloeus 2a edic.) + +Onde está a sociedade civilizada, que observe leis tão rigorozas, e +refreie os instintos sensuais com a severidade uzada pelos tupís? + +Poderiamos fazer muitas outras observações que rezervamos para um estudo +especial ácerca dos selvajens brazileiros. + + +Paj. 7 + +_Tocantim_.--Compõe-se de _tocano_ e _tim_; literalmente o nariz, o +rostro do tucano. Nome que tomou um guerreiro por trazer na cabeça o +despojo de um tucano com o grande bico da ave; e que transmitido a uma +nação selvajem, ficou dezignando o rio a cujas marjens vivia. + + +Paj. 7 + +_Taarí_.--Rio que despeja no Tocantins, pouco depois da confluencia do +Araguaia. Indica o logar da cena. + + +Paj. 7 + +_Araguaia_.--O nome é araguara, de _ara_ e _guara_, literalmente, os +guerreiros das araras, porque uzavam nos seus ornatos das penas +encarnadas daquellas aves. Conservei a versão que ficou no nome do rio. + + +Paj. 8 + +_Arací_.--Esta palavra tupí compõe-se de _ara_, dia, e _ceí_ ou _cejí_, +grande estrela. Este ultimo nome davam os indijenas ás pleiades, que +lhes serviam para contar os anos. + + +Paj. 8 + +_Cem dos melhores guerreiros_.--Nesta e outras frazes identicas, os +numerais cem ou mil não reprezentam algarismo exato, que não os tinham +os tupís para exprimir numero tão elevado. Traduzem apenas esses termos +a dezinencia _tiba_, com que os tupís dezignavam cópia e multidão. + + +Paj. 9 + +_Canitar_.--Enfeite de cabeça. Adotei esta dezignação empregada pelos +autores sob a autoridade de Hans Stade por me parecer mais eufonica. A +exata lição pede _acanga atara_. + + +Paj. 9 + +_As duas nações não estão em guerra_.--As nações tupís não viviam em um +estado perene de guerra, como propalaram alguns escritores. A guerra era +frequente; mas não constante. As nações faziam a paz e nella se +mantinham até que sobrevinha alguma cauza de rompimento. Então não +começavam as hostilidades senão depois de anunciada a guerra ao inimigo, +o que se fazia lançando-lhe uma flecha na taba, ou levando-lhe um +guerreiro o dezafio. + +É uma prova do carater leal dos selvajens. Foi depois da colonização, +que os portuguezes, assaltando-os como a feras, e caçando-os a dente de +cão, ensinaram-lhes a traição que elles não conheciam. + + +Paj. 10 + +_Pojucan_.--Contração de uma fraze tupica._I-pojuca_;--significa: eu +mato gente. Essas contrações não são arbitrarias; ellas eram da indole +da lingua e conformes ao seu sistema de aglutinação. Todas as vezes que +os indijenas compunham uma palavra, cerceavam as sílabas dos vocabulos +que entravam na compozição, para ligal-as mais eufonicamente. + +Lemos em Alfred Maury _La Terre et l'homme_, cap. VIII, o seguinte +trecho: + +«Nas linguas americanas, não é sómente uma sinteze que concentra em uma +palavra todos os elementos da idéa mais complexa; ha ainda engrazamento +(enchevêtrement) das palavras umas nas outras; é o que M. F. Lieber +chama _incapsulação_, comparando a maneira por que as palavras entram na +fraze a uma caixa na qual se conteria outra que a seu turno conteria +terceira, esta uma quarta, e assim por diante. A incorporação das +palavras é por vezes levada á extrema exajeração nesses idiomas, o que +produz a mutilação dos vocabulos incorporados.» + +Esta observação é da maior justeza e conforma-se de todo o ponto com a +indole da lingua, como se vê nas seguintes palavras--_A-por-u_--como +gente--_A-poro-tim_--enterro gente--_A-po-çub_--vizito a gente. (Vide +Figueira, _Gramatica da lingua do Brazil_, paj. 51.) + + +Paj. 10 + +_Tapuia_.--de _taba_ e _puir_, o que foje das tabas. Davam os indijenas +esse nome a povos mais barbaros e de lingua diversa. Segundo as ultimas +investigações etnolojicas, pertenciam esses povos a uma raça diversa da +tupí, e muito aproximada, senão conjenere do tipo mongolico. Entretanto +Orbigny, _L'Homme Américain_, sustenta a identidade das duas raças, +tapuia e tupí. + + +Paj. 10 + +_Tacape_.--Davam os tupís o nome de _apem_, a um corpo alongado de fórma +analoga á espada, e como ella cortante. Daí vinha chamarem a +unha--_po-apem_, espada do dedo; e á raiz que surje da terra e se eleva +como um galho--_sapopema_--raiz espada. + +Á sua principal arma de guerra chamavam _ita-ca-apem_, espada de +páu-pedra; ou _ita-qui-apem_, machado comprido de pedra, por ter sido +dessa materia que primeiro o fabricaram, antes de aprenderem a lavrar a +madeira. + +Ácerca da força dessa arma e da destreza com que a manejavam, diz Lery +que um tupinambá com ella armado daria que fazer a dois soldados de +espada. + + +Paj. 10 + +_Guerreiro chefe_.--Para compreender-se bem a força dessa dezignação, +diremos alguma coiza ácerca da hierarquia selvajem. + +Como a relijião, era simples o governo dos tupís; mas não careciam +delle, segundo inculcam os cronistas: antes o tinham, e bem regulado +para o seu estado de civilização. + +Podemos distinguir na taba selvajem uma sociedade civil e uma sociedade +politica; a primeira reduzida á familia, e a segunda excluziva á +subzistencia, defeza e guerra. + +A sociedade civil era constituida pela _oca_, a caza, onde o varão, +_aba_, morava com suas mulheres, sua prole, os servos que trabalhavam +para granjear as filhas em cazamento, os cativos que fazia na guerra, e +os parentes que agregava a si. + +O dono da caza, ou literalmente o que fazia a caza, _moacara_, era a +perfeita imajem do patriarca. Elle governava a sua gente; e formava uma +sociedade independente, no seio da grande sociedade politica, de que era +membro e para cuja defeza concorria não só por interesse proprio, mas +pela honra da nação. + +_Moacara_ nos dicionarios significa fidalgo. A tradução resente-se da +preocupação do homem civilizado; mas havia realmente uma distinção entre +o _moacara_, chefe da oca, pai de muitos guerreiros, e o simples +individuo que ainda não possuia uma familia. + +A sociedade politica, _taba_, era a reunião das ocas. Essa denominação +vem de _tama_, a patria, o berço, a terra natal, e _aba_ dezinencia que +indica o logar, modo, instrumento da coiza. Assim, _taba_ significa +literalmente onde ou o que faz a patria, isto é, aldeia natal. + +O governo da _taba_, essencialmente democratico, rezidia no conselho dos +_moacaras_, entre os quais predominava a experiencia dos anciãos, que se +chamavam _abarés_ ou _abaetês_; isto é, varões egrejios. + +Nações essencialmente guerreiras, tinham um chefe para governal-as nas +jornadas e batalhas. A estes davam o nome de _tuxava_, ou _tauxaba_, o +dono da taba, _morubixaba_, o que governa o povo; de _moro_, gente, e +_aba_, dezinencia. + +Quando as nações eram grandes e não cabiam numa taba, destacavam-se +alguns _moacaras_ com suas familias e formavam novas tabas, sujeitas á +taba mãi. Daí se orijinaria a diferença das duas dezignações, vindo +então _tauxaba_ a dezignar o simples chefe de uma taba; e _morubixaba_ o +chefe da taba primitiva, ou da nação, _moro_. + +Tambem acontecia que muitas vezes um _moacara_ poderozo separava-se de +sua nação por cauza de alguma dissenção intestina, e constituia-se +independente com seus decendentes, e os guerreiros a elle sujeitos pelo +parentesco. Essa _oca_ independente, chamava-se _moroca_, isto é, oca de +gente, de tribu e não mais de familia. O termo _moloca_ tão frequente +nos cronistas não é senão corruptela daquelle, e póde corresponder ao de +tribu ou horda. + +A nomeação do chefe participava da natureza dessa sociedade democratica +e guerreira. O mais audaz e o mais forte impunha-se: a permanencia de +sua autoridade, bem como sua extensão, dependia do respeito que elle +conseguia infundir a seus guerreiros. + +No momento em que surjia outro ambiciozo a disputar o poder, este +tornava-se o premio do mais valente. Acontecia então que o vencido com +seus sectarios revoltava-se; e daí as frequentes guerras intestinas, que +aniquilaram a raça indijena, ainda mais talvez do que a crueldade dos +europeus. + +Na morte do _morubixaba_ ocorria igual pleito. O filho apossava-se do +poder pelo direito de herança; e o conservava se não aparecia algum +emulo mais poderozo que lh'o arrebatasse. + +Falando com as nossas teorias da civilização, podemos dizer que a baze +desse poder executivo era, como nas republicas, o sufragio universal. +Mas era o sufragio sempre ativo e vijilante, pronto a inclinar-se ao +merecimento superior, onde elle se revelasse. + +Entre o chefe guerreiro (poder executivo), e o conselho dos _moacaras_ +(poder lejislativo) os conflitos eram inevitaveis. Morubixaba haveria, +como o celebre Cunhanbebe, que era um verdadeiro despota. O tacape de +muito heróe tupí ha de ter governado tão absolutamente como a espada de +Cezar ou de Napoleão. + +Outros conflitos tambem se deviam dar frequentemente entre a influencia +dos _pajés_ e o poder do chefe ou dos anciãos. Aquelles sacerdotes, +cercados do respeito dos guerreiros, fortes pelo prestijio de seus +augurios e sortilejios, tentariam insuflados pela ambição governar a +taba, ou pelo menos fomentar a rezistencia ao chefe. + +Eis em escorço as paixões que deviam ajitar aquella sociedade politica, +depois da guerra que era a maior preocupação. + +Além das ocas, ou familias, havia na taba uma especie de oca mais vasta +e comum. Nessa parece que moravam aquellas pessoas, que já não tinham +oca, e estavam a cargo da nação; tais eram as _velhas_, e por este nome +devem-se entender as mulheres sem companhia de marido, nem parentes; os +orfãos, aos cuidados daquellas mãis emprestadas; e finalmente as moças +que não faziam vida conjugal. + +Vejamos agora a sociedade civil, tal como a podemos induzir dos +acanhados esclarecimentos que nos deixaram os cronistas. + +O cazamento, baze da familia, devia ter alguma ceremonia simbolica, +ainda que não passasse da simples entrega da noiva ao varão. Essa minha +supozição funda-se no fato de haver entre esses povos um cazamento bem +caracterizado, e não simples coito. + +A mulher lejitima distinguia-se pelo nome. O marido a chamava +_temireco_, isto é, a verdadeira mãi de meus filhos; emquanto que ás +outras mulheres, suas amantes, chamava _aguaçaba_. O marido tinha tambem +um nome especial _menda_, que o distinguia do simples amante. + +Acrece que para obter a noiva o varão sujeitava-se a certas condições, e +até mesmo a provas de corajem; donde devemos inferir com boa razão, que +não era esse um ato insignificante para os selvajens, a ponto de não o +distinguirem com uma fórmula qualquer, elles que em outros pontos eram +tão ceremoniozos, como na recepção do hospede, na declaração da paz ou +da guerra. + +Os cronistas, porém, não se ocuparam disso e todo seu tempo foi pouco +para lamentarem a poligamia dos tupís, tirando logo dalí argumento para +pintarem os selvajens vivendo a modo de cães. + +É uma falsidade. Os tupís tinham moralidade conjugal, e até muito +severa. O adulterio era punido de morte; e tambem por isso permitia-se o +divorcio por mutuo consentimento. + +A poligamia dos tupís foi da mesma natureza da que existiu entre os +hebreus; era uma poligamia patriarcal, filha das condições da vida +selvajem, e não a poligamia sensual dos turcos e outros povos do +oriente, produzida unicamente pelo requinte da libidinajem. + +Compreende-se que no estado selvajem ou primitivo, a mulher, fraca para +rezistir aos perigos que a rodeavam, tinha necessidade de acolher-se ao +amparo e proteção do homem. Por outro lado cada varão, no interesse não +sómente de sua gloria, como de seu poder, carecia rodear-se de uma +familia numeroza, e de gerar do seu proprio sangue, os seus guerreiros. + +Entretanto, e é isto que distingue a poligamia patriarcal, a posse de +muitas mulheres não destruia a instituição da familia, bem caracterizada +pela preeminencia da primeira mulher ou a verdadeira espoza; e pela +adoção dos filhos nacidos das outras mulheres, que se tornavam todos +filhos da espoza, ou da verdadeira mãi, _temireco_. + +Muita coiza poderia dizer ácerca da educação dos filhos e da condição da +mulher, mas não cabe esse estudo em uma nota. Mais tarde e a propozito é +possivel que o faça. + +Para a intelijencia do texto basta saber-se que além da espoza, +_temireco_, mãi da familia, das amantes, _aguaçabas_, que faziam parte +da familia na condição de servas, havia--1.o as virjens, _cunhantem_, +mulheres debalde, que pertenciam á familia, e se destinavam para espozas +dos guerreiros que as obtivessem pelas provas de esforço e denodo; 2.o +as velhas, ou mulheres já privadas de seus maridos, e que ficavam sob a +proteção da comunhão, incumbidas da educação dos orfãos, e dos filhos +anonimos; 3.o as _moças_ ou mulheres que desprezavam o cazamento e +viviam livremente aceitando o amor do guerreiro que lhes agradava, e do +qual tinham filhos, que não pertenciam á familia, mas á tribu; eram +estas as mulheres que ofereciam seu amor como penhor de hospitalidade ao +estranjeiro que chegava á taba; 4.o finalmente, a classe infeliz, +abandonada de todo o sentimento e de todo o pudor, á qual davam o nome +de _morixaba_, literalmente coiza de todos; ou, segundo o testemunho de +Ives d'Evreux, _menondere_, que equivalia a ladra; porquanto entendiam +os selvajens que a mulher roubava seu primeiro amante dando ou vendendo +a outro o amor que lhe pertencia. + +Ainda nesta ultima escala, se estão manifestando as leis severas do +recato e fidelidade da união sexual entre os selvajens. Além do +cazamento lejitimo, havia o concubinato, como existiu entre os romanos, +produzindo direito e obrigação reciproca. A mulher que traía a fé +conjugal, ou o concubinato, era uma adultera, isto é, uma ladra e decia +á ultima infamia. O marido tinha o direito de matal-a; o amante +entregava-a ao desprezo da tribu. + + +Paj. 10 + +_Jaguarê agradece a Tupan_.--Não achando entre os aborijenes templos e +idolos, ainda que alguns cronistas atestam a existencia dos ultimos, +foram os colonizadores peremptoriamente declarando ateus a esses povos. +Mas logo, com incoerencia flagrante, reconheciam a existencia de uma +superstição, que outra coiza não é a relijião na infancia da humanidade. + +Os tupís adoravam uma excelencia superior, Tupan, que se manifestava +pelo raio e pelo trovão; donde se induz o grande poder que atribuiam a +essa divindade. Seu nome de raça aprezenta uma afinidade que faz +prezumir a crença de uma decendencia celeste. + +Tambem temiam os tupís o espirito do mal, personificado em Anhanga, o +fantasma, que habitava as trévas, e a quem referiam um poder funesto. +Para conjurar essa divindade malefica, tinham sacerdotes, os pajés, que +buscavam sua força e virtude no fumo da planta sagrada, o tabaco. + +Além disso contava a mitologia tupica genios bons e máus, que habitavam +as florestas e os rios, e percorriam as solidões montados em caitetús, +ou transformados em certos animais. Entre estes mencionarei o caipora e +a mãi d'agua, cuja abuzão transmitiu-se á raça conquistadora, e de que +ainda se encontram vestijios entre as populações do norte. + +Não ha contestar que aí está uma relijião bem caracterizada. Mas como +faltassem templos e idolos, os decendentes dos barbaros gaulezes, godos, +francos e celtas não podiam admitir na America uma relijião sem culto +regular, qual a tiveram aquelles selvajens europeus. + +Entre os viajantes que mais tarde percorreram a America havia espiritos +superiores, dedicados ao estudo da humanidade, que investigavam sem +prevenções a orijem e indole das raças indijenas do novo mundo. Na +primeira plaina destes sabios figura Alexandre de Humboldt. + +O eminente naturalista assinalou a cauza dessa auzencia de culto dos +aborijenes do Brazil, quando observou que o antropomorfismo da divindade +se manifesta por dois modos: da terra ao céu, como na Grecia, ou do céu +á terra, como na America. _Voyage au Nouveau Continent_--8.o volume, +paj. 243. + +Quando a imajinação do homem personificando a divindade á sua imajem a +faz subir ao céu, como os numes pagãos da Grecia, ella é levada +naturalmente a oferecer-lhe uma constante adoração com que mantêm o +vinculo da creatura ao creador. Daí a necessidade de idolos, que +simbolizem esses numes, e a tenham prezente aos olhos mortais. + +Diverso, porém, é quando, concebendo a divindade á sua imajem, o mortal +a humana inteiramente, transportando-a do céu á terra. Então o homem +figura-se não a creatura, mas o decendente, o filho de seu deus. + +Dezaparece a necessidade dos idolos, pois a verdadeira reprezentação da +divindade na terra é o mesmo homem que a continúa. Cada um tem o seu +nume em si. A adoração transforma-se naturalmente no culto da propria +individualidade, nessa exajeração prodijioza do estalão humano, que +distingue as idades heroicas. + +É pela ostentação da corajem, da força, da grandeza de animo, que o +selvajem se elevava até o deus, seu projenitor; e não pela adoração, +pelas preces e oferendas uzadas no paganismo grego, o qual estava bem +lonje da humildade evanjelica do cristianismo. Os tupís não careciam, +pois, de orações e sacrificios; as façanhas com que se mostravam dignos +de sua orijem celeste eram as melhores oblações do seu culto. + +Tal era o respeito que o selvajem professava pela dignidade humana, que +matava as pessoas mais caras quando não se podiam curar da enfermidade. +Essa implacavel sujeição ao mal, abatia e humilhava uma raça forte e +guerreira. + +Muitos outros exemplos podia aprezentar dessa elevada conciencia da +individualidade, que distinguia no mais alto ponto o selvajem +brazileiro. + +Eis o que não souberam ver os cronistas, quando taxaram de ateus aos +indijenas americanos. + +Abstraindo da moral absoluta em que só ha uma verdade, a do +cristianismo, e tomada a questão no ponto de vista da arte, não se póde +recuzar a essa relijião tupí, que nivela o homem á divindade, certo +cunho de grandeza selvajem e um vigorozo sentimento da individualidade. + +O paganismo grego lhe fica inferior nesse ponto da dignidade humana; ao +passo que elle tornava a raça de Japeto escrava submissa dos deuzes, e +vitima de seus caprichos e vinganças, na mitolojia americana o homem é o +filho e o emulo da divindade. + +Á parte as ficções graciozas do espirito helenico, a mitolojía grega só +tem uma creação que reveste a majestade da relijião tupí; é a creação +dos semi-deuzes, em que se operava o antropomorfismo terrestre da +divindade, qual se deu na America. + +Considerando-se divino, o selvajem americano acreditava-se combatido por +um ente malefico, antagonista do deus de quem decendia. Nos achaques e +mizeria que aflijem a humanidade via as manifestações desse poder +funesto. Os sacerdotes o esconjuravam por sortilejios; os heróes, porém, +rezistiam-lhe pela constancia e o afrontavam. + +Á essa relijião simples e sem aparato, como devia ser uma relijião das +florestas, professada por povos caçadores e guerreiros, coroava a crença +profunda e inalteravel da imortalidade da alma, revelada pela veneração +ás cinzas dos mortos, e pelas ceremonias da inhumação. + +Os indijenas encerravam suas mumias em tumulos especiais, a que davam o +nome de _Camucins_; e as acompanhavam não só das armas e objetos de uzo +proprio, como de alimentos para a viajem aos campos alegres, onde iam +reviver os guerreiros e suas mulheres. + +Basta este rapido esboço para dar idéa da relijião dos tupís, e avaliar +o criterio daquelles que os consideravam estranhos a qualquer noção da +divindade. + +Um povo que mantinha as tradições a que aludimos, não era certamente um +acervo de brutos, dignos do desprezo com que foram tratados pelos +conquistadores. E quando, através de suas falsas apreciações, a verdade +pôde chegar até nossos tempos, o que não seria, se espiritos +despreocupados e de vistas menos estreitas, vivendo entre essas nações +primitivas, se aplicassem ao estudo de suas crenças, tradições e +costumes? + +Os jezuitas, que podiam melhor realizar esse estudo, eram induzidos a +exajerar a ferocidade e ignorancia dos selvajens, no interesse de tornar +indispensavel sua catequeze. Já imbuidos da intolerancia relijioza, a +politica exajerava ainda mais sua suspeição. + + +Paj. 11 + +_Ubiratan_.--Páu-ferro; literalmente _ubira_--madeira, e _atan_--duro. +_Atan_ não é senão a palavra _ita_ com a terminação _ana_, que na lingua +tupí servia para a formação dos adjetivos. _Itana_, o que tem a natureza +de pedra. Assim, de pedra fizemos nós pedregozo. Rigorozamente +_ubiratan_ é _páu-pedra_; pois que os indijenas não conheciam o ferro. +Era dessa madeira que faziam os tacapes. + + +Paj. 13 + +_O chefe tocantim_.--Os autores empregam em geral os termos maioral, +principal, para dezignar o cabeça de uma tribu ou nação indijena. +Alguns, como Southey, serviram-se do termo cacique adotado dos +Araucanos; Barloeus chamou-os classicamente de reis. + +Neste livro, como em _Iracema_, preferi traduzir o termo indijena +_tuxaba_, por _chefe_; e fui levado pela razão de ser, além de muito +apropriado e vulgar, um termo nobre e sucetivel de entrar no estílo o +mais elevado, sem laivos de afetação. Ao _morubixaba_ pela mesma razão +chamei chefe dos chefes. + + +Paj. 14 + +_Calcou a mão sobre o hombro esquerdo_.--Ácerca desse modo simbolico de +assegurar o vencedor seu imperio sobre o cativo, é curiozo o que referiu +e notou _Ives d'Evreux_, cap. XIV. + +«Então eu soube que era uma ceremonia de guerra praticada entre essas +nações, que quando um prizioneiro cae na mão de algum, aquelle que o +toma, bate-lhe com a mão na espadua dizendo-lhe: «Eu te faço meu +escravo»; e desde então esse pobre cativo, por maior que seja entre os +seus, se reconhece escravo e vencido, segue o vitoriozo, o serve +fielmente, sem que seu senhor se importe com elle; tem liberdade de +andar por onde lhe pareça, não faz senão o que quer e ordinariamente +espóza a filha ou irmã de seu senhor, até o dia em que deve ser, morto e +comido.» + +Depois o missionario lembra as palavras de Isaías cap. 9--_Factus est +principatus super humerum ejus_--e cap. XXII--_Dabo clavem dominis David +super humerum ejus_; e mostra a conformidade desse rito dos tupís com as +tradições dos hebreus e outros povos primitivos. + + +Paj. 15 + +_Ubirajara_--senhor da lança, de _ubira_--vara e _jara_--senhor; +aportuguezando o sentido, vem a ser lanceíro. + +Com este nome existia ao tempo do descobrimento, nas cabeceiras do rio +S. Francisco uma nação de que fala Gabriel Soares--Roteiro do Brazil, +cap. 182. + +«A peleja dos Ubirajaras, diz esse escritor, é a mais notavel do mundo, +como fica dito, porque a fazem com uns páus tostados muito agudos, de +comprimento de tres palmos pouco mais ou menos cada um, e tão agudos, de +ambas as pontas, com os quais atiram a seus contrarios como com punhais, +e são tão certos com elles que não erram tiro, com o que têm grande +chegada; e desta maneira matam tambem a caça que, se lhe espera o tiro, +não lhe escapa; os quais com estas armas se defendem de seus contrarios +tão valorozamente como seus vizinhos com arcos e flexas, etc.» + +Desta arma e da destreza com que a manejavam proveiu o nome de +_bilreiros_ que lhe deram os sertanistas, significando assim que tanjiam +suas lanças com ajilidade e sutileza igual á da rendeira ao trocar os +bilros. + + +Paj. 15 + +_Preciza de um prizioneiro_.--Era entre os selvajens maior honra +conduzir da guerra um prizioneiro, para ornar o seu triunfo e a festa de +vitoria, do que matal-o em combate. Veja Gabriel Soares--cit. na nota +4a. + + +Paj. 15 + +_Chamas de alegria_.--Metafora tupí. Chamavam a alegria e a festa +_toríba_, literalmente, grande quantidade de fogueiras. + + +Paj. 17 + +_Historia de guerra_.--Os tupís para exprimirem historia, ou narrativa, +diziam _maranduba_, conto de guerra, de _mara_--guerra--_nheng_--falar e +_tuba_--muito; falar muito de guerra. + +Depois aplicaram os indijenas essa palavra a toda narrativa, se é que +não crearam para as outras historias o termo analogo de _poranduba_, +composto de _poro_, _nheng_, e _tuba_--falar muito da gente. + +Os indios eram muito apaixonados dessas narrações, em que mostravam sua +natural eloquencia. Informa-me o Dr. Coutinho, incansavel explorador do +vale do Amazonas, que ainda hoje nenhum indio chega de viajem, que não +diga a sua maranduba, que é o recito circumstanciado de quanto viu e lhe +aconteceu em caminho. + +Ás vezes traduzo o termo; outras o emprego orijinal para mais incutir no +livro o espirito indijena. Do mesmo modo procedi ácerca de outros termos +eufonicos tais como _tuxaba_, _moribixaba_, _moacara_, _nhengaçara_, +_etc_. + + +Paj. 21 + +_Os cantores_.--Os tupís eram muito dados á muzica e á dansa. + +Lery fala com entuziasmo da doçura de seus cantos; e Ferdinand Denis, +paj. 21, afirma, não sei com que fundamento, que a imitação dos Chataws +da America do Norte, certas nações do Brazil gozavam do privilejio de +fornecer poetas e musicos aos outros povos, como sucedia com os tamoios +entre os tupís. + +Gabriel Soares--cap. 162--descreve os cantos, improvizos e dansas dos +tupinambás, concluindo com estas palavras: + +«Entre este gentio, os muzicos são muito estimados e por onde quer que +vão, são bem agazalhados e muitos atravessaram já o sertão por entre +seus contrarios, sem lhes fazerem mal.» + + +Paj. 24 + +_Como chefe pertence-lhe a virjem_, etc, Barloeus--2.a edic. paj. +483.--Quotquot luta, hastarum concursu ac venatu proecellunt, +eminentiores habentur et ut hoeroum numero, qui ob virtutis +fortitudinisque excellentiam ab ipsis virginibus ambire moerentur, cum +meliores ex melioribus nasci opinentur, nec vanum esse nobilitatis +nomen, sed cum sanguine transfundi.»--Quantos disputam em jogos de lança +e caça; os eminentes são tidos no numero dos heróes; os quais pela +excelencia da virtude e fortaleza merecem possuir as mesmas virjens; por +quanto pensam que os melhores nacem dos melhores; nem é vão nome a +nobreza, pois se comunica pela transfuzão do sangue. + + +Paj. 25 + +_Purifica o corpo_.--Os selvajens distinguiam-se pelo apurado asseio. +Ives d'Evreux diz a este respeito: «Ils sont fort soigneux de tenir leur +corps net de toute ordure: ils se lavent fort souvent tout le corps et +ne se passe jour qu'ils ne jettent sur eux force eau et se frottent avec +les mains de tous côtés et en toutes les parts, pour oster la poudre et +autres ordures. Les femmes ne manquent de se peigner souvent.» + + +Pag. 25 + +_Urú_.--Tinham os indijenas varias especies de moveis para guardar +objetos. O _urú_ era um cesto aberto. _Panacum_ era um cesto maior com +tampa. _Samburá_ era cesto com orelha, corrupção de _nambi_ e _urú_, +literalmente cesto de orelha. Tinham ainda os selvajens o _patiguá_ ou +_patuâ_, que era uma caixa de palha ou couro; e o _mocô_, pequeno surrão +da pele felpuda do coelho. Todos estes nomes ainda são uzados no norte +para dezignar os mesmos objetos, produtos da industria indijena, +aproveitada pelos colonizadores. + + +Paj. 26 + +_Coqueiros_.--Ao que disse em nota de Iracema ácerca do indijenismo +desta planta acrecentarei a noticia que della nos deixou Guilherme +Piso--_Historiæ Rerum Naturalium Brasiliæ_, Liv. 8o, p. 138. + +«_Inaiá Guacuiba_ cujus fructus _inaiaguacu_ brasiliensibus; in congo +vocatus _Ejaquiambutu_ et fructus _Quetiniga quiambutu_: Palma nucifera, +lusitanis _coqueiro_ et fructus illius _coco_; qui tribus suis +foraminulis lavam representat. Arbor caudice raro recto, sed plerumque +incurvato, quatuor, quinque sex aut etiam septem pedes crasso, triginta, +quadraginta et interdum quinquaginta pedes alto.» + +É esta mesma palmeira que os Mexicanos chamavam _Cogolli_. Piso viu em +1640 na cidade Mauricéa (Recife) transplantarem-se pés que tinham mais +de 24 anos. + + +Paj. 28 + +_Cabelos_.--Pelos cabelos costumavam distinguirem-se as diversas nações +indijenas. Southey--I, cap. 8o. Das mulheres diz Barloeus:--_Foeminis +coma promissa nisi per luctus tempora aut absens marito_.--paj. 36. +Traziam as mulheres a madeixa longa, salvo no tempo do luto ou auzencia +do marido. + +Mais um traço do carater e costumes indijenas. Durante a auzencia do +marido, a mulher trazia uma especie de luto, ou mostra de tristeza e +saudade, que era simbolizada pelo sacrificio das longas tranças dos +cabelos. + + +Paj. 28 + +_Braços que tu querias para tua cintura_.--Metafora da lingua tupí, que +exprime o amor; _aguaçaba_, a amante, literalmente, o que se tem á +cintura. + + +Paj. 31 + +_Escravo_.--Acerca das leis do cativeiro entre os indios leiam-se os +dois capitulos XV e XVI, que a este assunto consagrou Ives d'Evreux, +citado. + +Os cativos viviam em plena liberdade na taba de seus senhores, e era +muito raro que fujissem, porque se consideravam ligados por um vinculo +desde o momento em que o vencedor lhes calcava a mão sobre a espadua. +Quebrar esse vinculo, era por elles considerado uma dezhonra. + +Até os prizioneiros destinados ao suplicio, preferiam a morte glorioza +a se rebaixarem pela fuga no conceito de seus inimigos. «Muitas vezes as +mulheres tomavam substancias que provocavam o aborto, não querendo +passar pela mizeria de verem trucidada a prole; não raro favoreciam a +fuga dos tristes maridos de alguns dias pondo-lhes comida nos bosques e +até escapulindo-se com elles. Frequentemente sucedeu isto a prizioneiros +portuguezes; os indios brazileiros, porém, julgavam dezhonroza a fuga, +nem era facil persuadil-os a tomal-a.» Southey--cap. VII onde +cita--Noticias do Brazil, II, 69 e Herrera 4, 3, 13. + +Abbeville ainda é mais explicito:--Et bien que estant desliez et libres +comme ils sont, ils puissent fuir et se sauver, si est ce que ils ne +font jamais encore qu'ils soient assurez de estre tuez et mangez au bout +de quelques temps. Car si quelqu'un des prisionniers s'etait eschapé +pour retourner em son pays, non seulement il serai tenu pour un _couaen +eum_, c'est a dire poltron et lasche de courage; mais aussi ceux de sa +nation mesme ne manqueroient de le tuer avec mille reproches de ce qu'il +n'aurait pas eu le courage d'endurer la mort parmi ses ennemis, comme si +ses parents et tous ses semblables n'etaient assez puissants por venger +sa mort, etc. pag. 290. + +As leis da cavalaria no tempo em que ella floreceu em Europa não +excediam por certo em pundonor e brios a bizarria dos selvajens +brazileiros. Jámais o ponto de honra foi respeitado como entre estes +barbaros, que não eram menos galhardos e nobres do que esses outros +barbaros, godos e arabes, que fundaram a cavalaria. + +Alí está uma pedra de toque para aferir-se o carater do selvajem +brazileiro, tão deprimido por cronistas e noveleiros, avidos de +inventarem monstruozidades para impinjil-as ao leitor. Nem isso lhes +custava; pois a raça invazora buscava justificar suas cruezas rebaixando +os aborijenes á condição de féras, que era forçozo montear. + + +Paj. 32 + +_O suplicio_.--Outro ponto em que se assopra a ridicula indignação dos +cronistas é ácerca da antropofagia dos selvajens americanos. + +Ninguem póde seguramente abster-se de um sentimento de horror ante essa +idéa do homem devorado pelo homem. Ao nosso espirito civilizado, ella +repugna não só á moral, como ao decoro que deve revestir os costumes de +uma sociedade cristã. + +Mas antes de tudo cumpre investigar a causa que produziu entre algumas, +não entre todas as nações indijenas, o costume da antropofagia. + +Disso é que não curaram os cronistas. Alguns atribuem o costume á +ferocidade, que transformava os selvajens em verdadeiros carniceiros, e +tornava-os como a tigres sedentos de sangue. A ser assim não faziam mais +do que reproduzir os costumes citas, que sugavam o sangue do inimigo +ferido,--quem primum interemerunt, ipsis é vulneribus ebibere. Pomponius +Moela. Descrip. da Terra.--Liv. 2o cap. 1o. + +Outros lançam a antropofajia dos americanos á conta da gula, pintando-os +igual á horda bretã das Gallias, os Aticotes, dos quais diz S. Jeronimo +que se nutriam de carne humana, regalando-se com o ubere das mulheres e +a fevera dos pastores. (_S. Hieronimo IV.--paj. 201, adv. Jovin.--Liv. +2o_.) + +O canibalismo americano não era produzido, nem por uma nem por outra +dessas cauzas. + +É ponto averiguado, pela geral conformidade dos autores mais dignos de +credito, que o selvajem americano só devorava o inimigo, vencido e +cativo na guerra. Era esse ato um perfeito sacrificio, celebrado com +pompa, e precedido por um combate real ou simulado que punha termo á +existencia do prizioneiro. + +Simão de Vasconcelos, Cronica da companhia, 1 § 49, alude a uma velha +que sentia entojos por não ter a mãozinha de um rapaz tapuia para +chupar-lhe os ossinhos: e Hans Stade, paj. 4, cap. 43 e seg., conta a +historia de dois individuos moqueados pelos tupinambás, e guardados para +um banquete. + +Não exajeremos, porém, esses fatos izolados, alguns dos quais podem não +passar de caraminholas, impinjidas ao pio leitor. Os costumes de um povo +não se aferem por acidentes, mas pela pratica uniforme que elle observa +em seus atos. + +Se os tupís fossem excitados pelo apetite da carne humana, elles +aproveitariam os corpos dos inimigos mortos no combate, e que ficavam no +campo da batalha. A guerra se tornaria em caçada; e em vez de montear as +antas e os veados, os selvajens se devorariam entre si. + +Não ha, porém, escritor sério que deixasse noticia de fatos daquella +natureza; e não me recordo de nenhum que referisse exemplos de serem +devoradas mulheres e meninos; salvo quanto aos ultimos, o filho do +prizioneiro de guerra (Not. do Brazil.--II, 69), do que tenho razão para +duvidar. + +Parece-nos, pois, que a idéa da gula deve ser repelida sem hezitação. Se +em algumas tribus ou malocas se propagou o apetite depravado, essa +dejeneração foi por ventura devida ao contajio dos Aimorés, cuja invazão +é posterior ao descobrimento. Em todo o cazo é uma exceção que não póde +preterir o rito da relijião tupica. + +Tambem pela contraprova, havemos de excluir a ferocidade, como razão do +canibalismo americano. + +Se o instinto carniceiro dominasse o tupí, elle se lançaria sobre o +inimigo como o cita, ou o sarraceno de que fala Am. Marcellinus, para +sugar-lhe o sangue da ferida, e trincar-lhe as carnes ainda vivas e +palpitantes. + +Mas, ao contrario, vemos que o guerreiro tupí tinha por maior bizarria +cativar seu inimigo no combate, e trazel-o prizioneiro, do que matal-o. +Chegado á taba, em vez de o torturar dava-lhe por espoza uma das virjens +mais formozas, a qual tinha a seu cargo nutril-o e tornar-lhe agradavel +o cativeiro. + +Releva notar que a idéa da antropofajia já era comum na Europa, antes do +descobrimento da America; não só pelas tradições dos barbaros, como +pelas crendices da média idade, nas quais figuravam gigantes e bruxas, +papões de meninos. Que tema inexgotavel para a imajinação popular não +veiu a ser a primeira noticia, senão conjetura, sobre o canibalismo do +selvajem brazileiro? + +Cronista ha que nesse costume, onde se está revelando a força +tradicional de um rito, não enxergou senão o zelo do glotão, que engorda +a preza para saboreal-a. Mas essa ridicula supozição nem ao menos se +conforma com o teor da vida selvajem, a qual desconhecia a industria da +criação. + +O selvajem comia a caça como a encontrava no mato, gorda logo depois do +inverno, e magra na força da seca. Não se dava ao trabalho de a +engordar. Porque motivo se havia de afastar desse uzo ácerca do homem, +se o homem fosse para elle uma especie de caça? + +E por ventura faria parte do processo da engorda do bipede, o acessorio +de uma companheira formoza e na flôr da idade, qual invariavelmente a +davam ao prizioneiro? + +É obvio que esse uzo tinha outra razão mui diversa. Não se tratava de +engordar o prizioneiro, mas de fortalecel-o, para que elle morresse com +honra no dia do sacrificio, que devia ser o seu ultimo combate. + +Ainda nessa ocazião, os vencedores ostentavam sua gravidade, deixando +que o prizioneiro exaltasse o proprio valor e os afrontasse com seu +desprezo. Só chegado o momento depois de celebrada a ceremonia, o +abatiam com um golpe de tacape. + +A ferocidade não se coaduna com a calma e comedimento desse proceder. +Póde-se explicar o sacrificio humano dos tupís por um intenso e profundo +sentimento de vingança; mas não por sanha brutal. + +Ferdinand Saint-Denis (_Univers_, _Brésil_, pag. 30) diz com muito +criterio:--_En accomplissant ces sacrifices, les tupinambás +n'obéissaient pas, comme pourraient le croire quelques personnes, à un +goût depravé qui leur aurait fait préférer la chair humaine à toutes les +autres; ils étaient mus avant tout par un esprit de vengeance que se +transmettait de génération en génération, et dont notre civilisation +nous empêche de comprendre la violence_. + +Não era, porém, a vingança a verdadeira razão da antropofajia. O +selvajem não comia o corpo do matador de seu pai ou filho, se acontecia +matal-o em combate. Abandonava o cadaver no campo, e apenas cortava-lhe +a cabeça para espetal-a em um poste á entrada da taba, e arrancava-lhe o +dente para troféu. + +A vingança, pois, esgotava-se com a morte. O sacrificio humano +significava uma gloria insigne rezervada aos guerreiros ilustres ou +varões egrejios quando caíam prizioneiros. Para honral-os, os matavam no +meio da festa guerreira; e comiam sua carne que devia transmitir-lhes a +pujança e valor do heróe inimigo. + +Este pensamento resalta dos mesmos pormenores com que os cronistas +exajeraram o cruento sacrificio. + +Morto o inimigo, não era devorado; antes as mulheres tratavam o corpo e +o curavam, moqueando as carnes. Essas eram guardadas; e distribuidas por +todas as tribus, incumbindo-se os que tinham vindo assistir á ceremonia, +de leval-as ás tabas remotas. + +Os restos do inimigo tornavam-se, pois, como uma hostia sagrada que +fortalecia os guerreiros; pois ás mulheres e aos mancebos cabia apenas +uma tenue porção. Não era a vingança; mas uma especie de comunhão da +carne, pela qual se operava a transfuzão do heroismo. + +Por isso dizia o prizioneiro:--«Esta carne que vêdes não é minha; porém +vossa; ella é feita da carne dos guerreiros que eu sacrifiquei, vossos +pais, filhos e parentes. Comei-a; pois comereis vossa propria carne.» +Deste modo retribuia o vencido a gloria de que os vencedores o cercavam. +O heroismo que lhe reconheciam, elle o referia á sua raça de quem o +recebera por igual comunhão. + +Algumas nações tinham outra comunhão, inspirada no mesmo pensamento. +Era a dos ossos dos projenitores que reduziam a pó, e que bebiam +dissolvidos no cauim em festas de comemoração. Este fato, assim como o +sacrificio tremendo da mãi, que devia absorver em si o filho que lhe +nacera morto, bem mostram que por modo algum naceu do espirito de +vingança o chamado canibalismo. + +Transportemo-nos agora, não como homens e cristãos, mas como artistas, +ao seio das florestas seculares, ás tabas dos povos guerreiros que +dominavam a patria selvajem; e quem haverá tão severo que negue a fera +nobreza desse barbaro e tremendo sacrificio? + +A idéa repugna; mas o banquete selvajem, tem uma grandeza que não se +encontra no festim dos Atridas; e está bem lonje de inspirar o horror +dessa atrocidade que entretanto não foi desdenhada pela muza classica. + +No Brazil é que se tem dezenvolvido da parte de certa gente uma aversão +para o elemento indijena de nossa literatura, a ponto de o eliminarem +absolutamente. Contra essa extravagante pretenção lavra mais um protesto +o presente livro. + +Para concluir com este ponto, observaremos que nem todas as nações +selvajens eram antropofagas; e que em minha opinião esse costume, bem +lonje de ser introduzido pela raça tupí, foi por ella recebido dos +Aimorés e outros povos da mesma orijem, que ao tempo do descobrimento +apareceram no Brazil. + + +Paj. 32 + +_Espoza do tumulo_.-Este rito selvajem é muito conhecido e dispensa-me +de transcrever o que ácerca delle escreveram os cronistas. + +Mais uma prova do carater generozo e bizarro do selvajem brazileiro. +Lonje de torturarem seu prizioneiro, ao contrario se esforçavam em +alegrar-lhes os ultimos dias pelo amor; davam-lhe uma espoza; e tão +grande honra era esta que o vencedor a rezervava para sua filha ou irmã +virjem; e se não a tinha, para a filha de algum dos principais da taba. + +Falam alguns autores da _cunhãmembira_, como de uma ceremonia em que se +devorava o filho que por ventura a espoza do tumulo concebia do +prizioneiro morto. Duvido da generalidade desse fato, que me parece +adulterado, e seria especial aos tamoios. + +_Cunhãmembira_, dizem esses autores, significa _filho da mulher_; e daí +diz Southey, copiando Lery, tiravam elles uma horrivel consequencia, que +era devorarem a criança. + +Ora, _cunhãmembira_ significa saído do ventre da mulher. A lingua tupí +não tinha outro modo de dezignar a maternidade: taíra--isto é, saído do +sangue, diziam do filho ácerca do pai; e _membira_, diziam do filho +ácerca da mãi. Na expressão _cunhãmembira_ não ha senão a antepozição do +substantivo _cunham_ (mulher) que os indios suprimiam por superfluo; +assim como suprimiam na outra palavra dizendo simplesmente _taíra_ e não +_aba-taíra_ saído do sangue do varão. + +Se o nome de _cunhãmembira_ indicasse estar a criança destinada ao +suplicio, então todos os nacidos da taba se achariam no mesmo cazo, pois +todos eram em relação ás mais, _membiras_ ou _cunhã membiras_. + +Ainda mais, se a criança era condenada ao suplicio pela razão de ser do +sangue inimigo, parece que o nome a ella dado devia exprimir esse fato +importante e derivar-se antes desta fraze: _miauçubtaíra_--o gerado do +sangue do cativo. + +A estes filhos dos prizioneiros chamavam os indijenas _marabá_, gerado +da guerra, nome honrozo, que revelava o apreço em que tinham essa prole, +saída de um sangue heroico. E tanto assim era que destinavam para +conceber essa prole o seio da virjem mais ilustre da taba. + +Se os selvajens, que nada praticavam sem uma razão justificativa, só +tinham em mira devorar os filhos do cativo, para que dar-lhe uma espoza +ilustre? Mais sagazmente procederiam adjudicando-lhe diversas mulheres +para terem maior criação a matar. + +Está-se conhecendo que o tal banquete não passa de um invento de +cronistas, que entenderam as outras palavras dos indios tão bem como a +de _cunhãmembira_ que elles diziam significar filho do inimigo. + +_Cunhãmembira_ creio eu ser a festa que se fazia pelo parto da mulher; e +talvez acontecendo nacer morta a criança, se orijinasse a fabula do +sacrificio que então se praticava entre algumas nações de ser a mãi +obrigada a absorver em si esse fruto goro de sua fecundidade. + + +Paj. 33 + +_Guainumbí_.--«Persuadem-se os brazilienses haver uma ave, que chamam +colibri, a qual leva e traz noticia do outro mundo.» Santa Rita +Durão--Notas ao Caramurú. + +Tambem chamavam os indios esse passaro, _Guaraciaba_--cabelos do sol; e +Arati, ou Arataguaçú segundo Marcgraff, 197. Quanto ao nome de +Guainumbí, ou mais corretamente Guinambí, penso eu que significa o +brinco das flôres. Os selvajens tiraram naturalmente essa dezignação do +modo por que o colibri tremula, como suspenso á flôr para chupar-lhe o +mel, semelhante ao movimento das arrecadas suspensas ás orelhas, e que +elles chamavam _nambípora_. + + +Paj. 35 + +_Jussara_.--«Nas povoações feitas em terra têm muitas nações guerreiras +a providencia de as segurarem e munirem com fortes muralhas, não de +pedra, mas de estacas do páu duro como pedra. Outros as fabricam de +palmeira, que chamam jussara, cujos espinhos são tão grandes e duros, +que servem a muitos de agulhas de fazer meias; e as trincheiras feitas +de _jussara_ são mais seguras que as mais bem reguladas fortalezas; +porque de modo nenhum se podem penetrar e romper senão com fogo por +crecerem não só cheias de grandes estrepes ou agudos espinhos, mas tão +enlaçadas e enleadas umas com outras que se fazem impenetraveis. +(Tezouro descoberto no rio Amazonas, Part. 2a, cap. 1o, no 2o vol. da +Rev. do Instituto, paj. 350.) + +O nome da palmeira é em tupí _jussara_, de _ju_--espinho e _ara_ +dezinencia. + + +Paj. 36 + +_Carbeto_.--Assim chamam Ives d'Evreux e Abbeville ao conselho dos +velhos entre os selvajens. Este nome deriva-se naturalmente de +_caraiba_, varão ilustre e _ipê_, logar onde. + + +Paj. 37 + +_Hospede_.--A virtude da hospitalidade era uma das mais veneradas entre +os indijenas. Todos os cronistas dão della testemunho; e alguns, como +Lery e Ives d'Evreux, descrevem com particularidade o modo liberal e +generozo por que os selvajens brazileiros a exerciam. + +É certo que não escapou tambem á malevolencia dos cronistas, essa +excelencia e nobreza do carater indijena. Gabriel Soares cit. cap. 168 +depois de falar do como os tupinambás agazalhavam os hospedes, +acrecenta: «e lançam suas contas se vem de bom titulo ou, não; e se é +seu contrario, de maravilha escapa que o não matem, etc.» Southey cit. +cap. 8o faz coro com essa versão que nos parece suspeita. + +É possivel que depois da colonização, os selvajens vitimas das +perfidias dos aventureiros relaxassem suas tradições; mas a +hospitalidade foi sempre entre elles uma coiza sagrada, como atestam em +geral os escritores, que não referem aquella exceção. + +Basta refletir sobre o modo por que exerciam os selvajens a +hospitalidade para reconhecer que não é admissivel a suspeita de Gabriel +Soares. Em verdade, aquelles cuja porta estava aberta sempre ao +viajante; que franqueavam o ingresso de sua cabana por tal modo que o +estranjeiro nella entrava como senhor, ainda mesmo na auzencia do dono; +que sem perguntar o nome de quem chegava nem de onde vinha o agazalhavam +com a maior liberalidade; esses que assim acolhiam o hospede, não podiam +ocultar a intenção perfida de o matar, no cazo de ser contrario. Ha uma +tal contradição entre esse desfecho e as circumstancias precedentes, que +não se póde acreditar nelle pelo simples dizer de um cronista, que em +muitas outras inexatidões caiu. + +Se ha traço nobre do carater selvajem é essa hospitalidade, que o +estranjeiro não pedia e sim exijia como um direito sagrado, com esta +simples formula--_Vim_; ao que o dono da cabana respondia--_Bem vindo_. + +O epizodio da deliberação do conselho sobre o nome do estranjeiro está +justificado pelo trecho seguinte de Ives d'Evreux, cap. 50. + +«Aprés ces paroles il vous dit--_Marapé derere_? comment t'appelles-tu? +quel est ton nom? comme veux-tu que nous t'appellions? Quel nom veux-tu +qu'on t'impose? Où faut-il noter que si vous ne vous estes donné et +choisi um nom, lequel vous leur dites alors et desormais estes appellé +par tout le pays de ce nom, les sauvages du village ou vous demeurez +vous en choisiront um pris des choses naturelles, qui sont en leurs pays +et ce le plus convenablement qu'il leur sera possible, selon la +phisionomie qu'ils verront en votre visage, ou selon les humeurs et +façons qu'ils reconnaitront en vous..... Eh bien quel nom donnerons nous +a un tel ton compére? Je ne sais, il faut voir; lors chacun dit son +opinion et le nom qui rencontre le mieux et est reçu de l'assemblée, est +imposé avec son consentement si c'est quelque homme d'honneur.» + +Ainda nessa circumstancia se revela a delicadeza da hospitalidade do +selvajem. + + +Paj. 38 + +_Artes da paz_.--É ainda de Ives d'Evreux, cap. 18, esta curioza +informação. «Je raconterai ici une jolie histoire. Un jour je m'allois +visiter le grand Theon, principal des Pierres Vertes Tabaiares: comme je +fus en sa loge et que je l'eus demandé, une des ses femmes me conduit +soubs une belle arbre qui estoit au bout de sa loge, qui la couvrait du +soleil; lá-dessous il avait dressé son mestier pour testre des licts de +coton et travaillait après forte soigneusement; je m'étonnai beaucoup de +voir ce grand capitaine, vieil colonel de sa nation, ennobli de +plusieurs coups de mousquets, s'amuser à faire ce mestier et je ne peus +me taire que je ne sçusse la raison espérant apprendre quelque chose de +nouveau en ce spectacle si particulier. Je luy fist demander par le +truchement qui estoit avec moy, à quelle fin il s'amusait à cela? il me +fit response: «Les jeunes gens considérent mes actions et selon que je +fais ils font; si je demeurais sur mon lit à me branler et humer le +petim, ils ne voudraient faire autre chose; mais quand ils me voient +aller au bois, la hache sur l'épaule et la serpe en main, ou qu'ils me +voient travailler à faire des licts, ils sont honteux de rien faire, +etc.» + + +Paj. 38 + +_Lançadeira_.--Os indijenas tinham um tear que é descrito por Lery, cap. +18. Uzavam tambem de um fuzo comprido e grosso, que as mulheres faziam +girar entre os dedos, atirando ao ar, como ainda agora fazem as velhas +fiandeiras do sertão. + + +Paj. 43 + +_Jurandir_.--Contração da fraze _Ajur-rendipira_--o que veiu trazido +pela luz. + + +Paj. 45 + +_Jabotí_.--Contou-me o Dr. Coutinho que o jabotí para os indios do +Amazonas é o simbolo da gravidade, prudencia e sabedoria, e prometeu-me +dar um apologo, em que elles celebram essas virtudes, contando a +historia de um jabotí, que venceu na lijeireza ao veado, na força á onça +e assim aos mais animais. + + +Paj. 45 + +_Tetivas_.--Os Tetivas habitam nos olhos das palmeiras e de outras +arvores: põem-lhes terra e acendem fogo. Humboldt cit., paj. 283. + + +Paj. 46 + +_Mulheres guerreiras_.--Aluzão ás Amazonas cuja existencia é tão +controvertida. Eu acredito na sua existencia, embora reconheça que houve +exajeração de Orellana. + +Não é este o momento de elucidar este ponto da historia, ou antes +mitolojia do Brazil selvajem. Proponho-me a fazel-o quando publicar uma +lenda que tenho esboçada ácerca do assunto. Nessa ocazião direi o que +entendo ácerca da memoria do Dr. Gonçalves Dias, publicada na _Revista +do Instituto_. + + +Paj. 46 + +_Senhoras de seu corpo_.--Metafora tupí. No varão a parte nobre era o +sangue; pelo que elle dizia do filho--_taíra_, o filho do meu sangue; e +para indicar a independencia diziam _taíguara_, que os dicionarios +traduzem _livre_, mas que literalmente significa, _senhor do seu +sangue_. + +A mulher que dizia do filho _membira_--o gerado de meu ventre, devia +pela mesma razão uzar de expressão analoga para exprimir sua liberdade, +e dizer _membijara_--senhora de seu ventre, que eu por elegancia traduzo +menos literalmente, _senhora de seu corpo_. + + +Paj. 47 + +_Pará sem fim_.--Par, diz Humboldt cit. paj. 285, é uma radical guaraní +e exprime agua. Pará creio eu que significou a grande abundancia de +agua, e foi primitivamente empregado para dezignar os lagos e por +ventura as vastas inundações do vale do Amazonas. Mais tarde os +selvajens acrecentaram-lhe o verbo _nhane_ correr, e disseram +_pará-nhanhe_--donde _paranãn_ para dezignar as grandes massas de agua +corrente, isto é, os rios caudalozos. + +Os dois maiores rios da America do Sul, o Amazonas e o Prata, ambos se +chamavam _Paranãn_, assim como outros muitos do Brazil. O mesmo radical +se encontra já composto em Paraíba, Parnaíba, Paranapanema, etc. + +Foi a substituição do _p_ pela analoga _m_ que produziu o nome de +_Maranhão_, ácerca de cuja etimolojia se inventaram tantas +extravagancias. + + +Paj. 48 + +_Guerreiros do mar_.--Tradução da palavra tupí _caramurú_ com que os +tupinambás da Baía dezignaram Diogo Alvares Correia. + +Caramurú é composto de _cara_, alteração de Pará--mar e _moro_, gente; +homem do mar. Os selvajens acreditavam que as aguas eram habitadas, e +daí naceu a lenda da mãi d'agua, que se transmitiu á raça invazora. Nada +mais natural do que chamarem ao primeiro homem branco, que lhe apareceu +surjindo do oceano, Caramurú--o guerreiro do mar. + + +Paj. 48 + +_Rezina cheiroza_.--É o ambar, que os tupís chamavam _Piraoçurepoti_, e +de que ao tempo do descobrimento abundavam as ribeiras do mar, nas +provincias do norte. + + +Paj. 49 + +_Moças_.--É dificil, senão impossivel, determinar atualmente, e pelas +informações tão falhas quão malignas dos cronistas, a condição da mulher +entre os selvajens. + +Do que tenho lido coliji as idéas, a que no texto se alude mui +lijeiramente, e a que em outro logar démos maior dezenvolvimento. + + +Paj. 51 + +_Para servir a Itaquê_.--«E quando o principal não é o maior da aldeia +dos indios das outras cazas, o que tem mais filhas é o mais rico e +estimado e mais honrado de todos, porque são as filhas mui requestadas +dos mancebos que as namoram; os quais servem os pais das damas dois e +tres anos primeiro que lh'as deem por mulheres e não as dão senão aos +que melhor os servem, a quem os namoradores fazem a roça e vão pescar e +caçar para os sogros que dezejam de ter, e lhes trazem a lenha do mato, +etc.» G. Soares, cit. cap. 152. + +Aí está a lenda biblica de Jacob servindo a Labam 7 anos para obter por +espoza a Sara. Não consta, porém, que os selvajens uzassem da esperteza +do pai de Lia, para descartar-se de uma filha defeituoza; se tal +acontecesse entre os tupís, de que ridiculas indignações não se +encheriam os cronistas? + + +Paj. 52 + +_Manatí_.--È o peixe-boi, de cujo couro mais forte que o do touro os +indios fazem escudos. Anunciam a chuva, saltando acima d'agua. +Gumilha--Orenoco ilustrado, paj. 276. + + +Paj. 52 + +_Biaribí_.--Um dos modos porque os indios assavam a caça, e consistia em +enterral-a envolta em folhas de banana, e acender em cima o fogo, cujo +calor penetrando no chão cozia a carne, concentrando-lhe o sabor. + +_Moquem_ era simplesmente o assado envolto em folha e feito sobre a +braza; daí vem _moqueca_ de que tirámos os verbos moquear e amoquecar. + +_Bucan_, supõem alguns que seja alteração de _moquem_; mas eu o +considero termo distinto que exprimia apenas a operação de secar a carne +ao fumeiro para conserval-a. Neste sentido é que Lery e Ives de Evreux +empregam constantemente o termo francez _boucaner_, derivado da palavra +tupí. + + +Paj. 54 + +_Pela mão da mulher_. Refere Gumilla, cap. 45, que estranhando aos +indios sobrecarregarem as mulheres com os trabalhos agricolas, elles +retorquiram que as mulheres sabem dar fruto, o que não sabem os homens, +e por isso na mão dellas as sementes naciam e se multiplicavam. + + +Paj. 56 + +_Pirijá_.--Uma especie de palmeira chamada palmeira real; é espinhoza e +tem frutos semelhantes ao pecego. Humboldt cit., paj. 257 e 262. + + +Paj. 58 + +_Nunca Jandira ofereceria sua rêde de espoza_, etc.--Arací reprezenta o +amor da virjem tupí, segundo o costume tradicional de sua nação, que +admitia a comunidade e partilha do amor, como um privilejio do guerreiro +ilustre. Ser amada excluzivamente, significava para a mulher selvajem, +ser amada por um guerreiro obscuro. + +Jandira reprezenta o excluzivismo do amor, que muitas vezes devia lutar +com a lei tradicional; porque é um impulso da natureza, a qual não é +dado ao homem aniquilar embora muitas vezes a sopite. + + +Paj. 61 + +_O combate nupcial_.--Este rito, de ser a virjem requestada o premio do +valor e da corajem, é atestado por grande numero de escritores. + +Barloeus, paj. 420:--«Lucta et hastarum concursu decertare gloriosum, +finis spectanctium voluptas est, presertim amantium foemina de cujusque +fortitudine et victoria pronuntiat, sic in proximo pignora, pugnandi +irritamenta sunt fortitudinis præcones, ciborum administræ.» + + +Paj. 65 + +_A figura da noiva_.--Esta prova de destreza era muito uzada pelos +selvajens. Marcgraff descreve a especie de torneio que elles faziam +divididos em duas turmas, a ver qual levava mais depressa o seu tóro ao +logar destinado para acampamento. Naturalis Historia Brazilia, liv. 8o, +cap. 12. + +Conclue com estas palavras:-«qui deinceps tempus terunt hastilibus +certando, luctando, currendo; quibus certaminibus duæ fæminæ ad id +selectoe proesident et judicant de singulorum virtute et victoribus. + +Estes certamens guerreiros, esses jogos de luta, combate e carreira, +prezididos por mulheres que julgavam do valor dos campeões e conferiam +premio aos vencedores, não cedem em galanteria aos torneios da +cavalaria. + +Ácerca da prova a que acima nos referimos, escreveu o Dr. Gonçalves +Dias--_Brazil_ e _Oceania_, cap. 10, _Revista do Instituto_, tom. 30, +parte 2a, paj. 153:--Um tóro de barrigudo em um cabo delgado e de facil +preensão, semelhante aos soquetes ou massetes de que ainda entre nós se +uza em muitas partes para bater a terra das sepulturas, posto que mais +poderozo que este, ou um grande pedaço de tronco de palmeira, era +colocado no meio do terreiro. Vinha o guerreiro correndo, tomava o +tronco, continuava a carreira, saltava fossos, subia elevações, +arrojava-se ás vezes ao rio com elle e quem chegava primeiro e levava +mais lonje a carga, esse ganhava a palma e a mulher que tinha de ser +espozada. Explicou-se esse costume, de que trata Barloeus, Marcgraff e +outros, e que ainda conservam algumas tribus do Piauí, pela necessidade +que tinha o guerreiro de defender a mulher, e para que em ocazião de +perigo a podesse salvar fujindo.» + + +Paj. 67 + +_O camucim da constancia_.--Lê-se no _Tezouro do Amazonas_, cit. tom. 3 +da _Revista do Instituto_, paj. 169. «O 5o predicado que tambem, como +muitas outras nações conservam os Arapiuns, é a prova da valentia quando +cazam; é um exame prévio ou o primeiro principio, como se diz nas +Universidades, a suas bodas, e uma experiencia ou tentativa de seu valor +para mostrarem que posto cazem não é por afeminados, mas por valentes. +Ha diversos generos dessa prova de valentia; mas uma mui ordinaria nos +indios Arapiuns é encherem uns grandes e compridos cabaços das formigas +que chamam saugas (_saúvas_) grandes e mui bravas; ferram na carne com +tanta ou mais valentia que os cães de fila, com proporção á grandeza +destes e pequenez daquellas; porque os cães assim vêm a largar; mas as +saugas não largam ainda que as matem e antes perderão a cabeça ficando +com as troquezes cravadas na carne do que soltarem ellas preza; por isso +uzam dellas alguns cirurjiões quando querem cozer alguma cicatriz com +segurança, sem uzarem pontos, como adiante dizemos. Cheios, pois, os +cabaços de saugas, não só famintas, mas quando estão com fome talvez de +dias ... e sobre isso bem enraivadas com sacudidelas, prezentes todos os +velhos e graves da missão, sae a terreiro o noivo examinando, +destapam-se os cabaços nos quais intrepido mete os braços, a que logo +acodem as filas, já para saciar a fome, já para dezabafar a ira, e já +para provar e castigar o bacharel, o qual posto que as dôres o façam +mudar de côres, torcer a boca, tremer o corpo, levantar as sobrancelhas +e arrebentar as lagrimas, tenha paciencia, que se quer, ha de aturar a +bucha, emquanto os examinadores já bebendo-lhe á saude e já dando voltas +em bailes se vão regalando á sua custa, etc. + + +Paj. 73 + +_Igapê_.--É o nenufar na lingua tupí, de _Ig_, _ipe_ e _potira_--flôr +d'agua. Os portuguezes corromperam essa palavra transformando-a em +_aguapé_, nome por que é vulgarmente conhecida. Penso eu, porém, que +devemos restaurar o nome indijena, até mesmo porque _aguapé_ tem diversa +significação em portuguez. + +Uma dessas nímféas, a rainha das flôres, a que os indios chamavam milho +d'agua, ou a flôr jaçanan, por servir de ninho a essas aves paludais, +nace branca e com a luz do sol vai rozeando até se tornar escarlate. + +Em uma noticia publicada pelos jornais li que o nome dessa flôr _napê +jaçanan_ significa, forno das jaçanans, do que duvido. O genitivo +exprimiam os indios com antepozição do nome rejido por esse cazo; assim +_napê jaçanan_ significaria jaçanan do forno. Demais nem _napê_ quer +dizer forno; nem forno indica a idéa que se pretende de pouzo ou ninho. + +_Uapê_ aí é o mesmo _igapê_ com a simples diferença de figurar-se a +vogal indijena por _u_ em vez de _ig_ adotada pelo geral dos autores. + + +Paj. 82 + +_Murinhem_.--Palavra composta de _morib_ afavel e _nheng_ +falar.--Veja-se a respeito dos cantores, _nhengara_, o que se disse na +nota a paj. 117. + + +Paj. 86 + +_Paan_.--Palavra da lingua Macaulí que significa seta--_Creban_ +significa homem alvo; e _Agniná_, monte. + + +Paj. 97 + +_Tomou a espoza aos hombros_.--Era entre as mulheres selvajens prova de +amor, suspenderem-se ás costas daquelles que preferiam, quando as +requestavam com cantos e dansas. Assim o atesta Marcgraff cit. «Ubi +vespera advenit, coeunt adolescentes in varias cohortes et castra +perambulantes cantillant ante tuguria adolescentula autem quæ juvenibus +delectantur, produnt et cantillantes atque tripudiantes sequuntur +adolescentes _et á tergo consistunt eorum quos amant, id enim ipsis +amoris testimonium est_. _Paj. 280_.» + +Escaparam-me algumas notas que a intelijencia do leitor suprirá. Todavia +rezumirei as de que me recordo neste momento. + +Á paj. 44, quando diz Jurandir que conta os anos pelos dedos, quer +dizer que não tem mais de vinte, pois tantos são os dedos das mãos e +pés. + +Á paj. 45, o grande lago que recolheu as aguas do diluvio é o _Manoa_, +em cujas marjens se fabulou o _El-Dorado_. _Manoa_ em achagua é diluvio, +segundo Gumilha, 2.o vol., 7; palavra homologa ao vocabulo tupí +_amana_, que significa chuva. + +Á paj. 45, o combate que Jurandir figura entre o mar e o Amazonas é a +descrição da pororoca. Elle chama as aguas do mar-guerreiros azues-por +causa da côr das vagas, e as aguas do rio-guerreiros vermelhos-porque a +corrente do rio é então barrenta. + +Á paj. 45, onde se diz que os anos de Guaribú enchiam a corda de sua +existencia alude-se ao costume que tinham os selvajens de contar os anos +pelos nós que davam em um cordel, outros pelos frutos do colar. + +Á paj. 40 faz-se referencia á lenda de Sumê, já muito conhecida. Foi +Sumê que ensinou aos tupís a agricultura e os primeiros rudimentos das +artes. + +Á paj. 54 fala-se de _matumbos_. São as leivas que se fazem no norte +para a plantação da mandioca. + + + + +INDICE + + + I--O caçador 5 + + II--O guerreiro 15 + + III--A noiva 24 + + IV--A hospitalidade 37 + + V--Servo do amor 51 + + VI--O combate nupcial 61 + + VII--A guerra 74 + + VIII--A batalha 85 + + IX--União dos arcos 92 + + Notas 101 + + +LIVRARIA ALVES + +EXTRACTO DO CATALOGO + +COLEÇÃO ALVES + +Nesta coleção serão publicadas obras celebres de autores nacionais e +estranjeiros ao modico preço de 1$000 réis cada volume, formato 16 +francez. + + 1-2--=O GUARANY=, por _José de Alencar_. 2$000 + 2 volumes br. 4$000 + A mesma obra, 2 vols. enc. + + 3--=A DAMA DAS CAMELIAS=, por _Alexandre Dumas, + Filho_.--(NO PRÉLO). + + 4-5--=HISTORIA DE UM CORAÇÃO=, por _Emilio Castellar_. + --(EM PREPARAÇÃO). + + 6--=IRACEMA=, (Lejenda do Ceará), por José de Alencar, + novissima edição. 1 vol. br. 1$000 + + 7--=LUCIOLA= (Um perfil de Mulher), por _José de Alencar_. + 1 vol. br. 1$000 + + 8--=CINCO MINUTOS--A VIUVINHA=, por _José de Alencar_. + 1 vol br. A mesma obra enc. em percalina 2$000 + + 9--=A MORENINHA=, por _J. M. de Macedo_. + 1 vol. br. 1$000 + A mesma obra enc. em percalina 2$000 + + 10--=ROMANCE DE UM MOÇO POBRE=, por _Octavio Feuillet_. + 1 vol. br. 1$000 + + 11--=TRONCO DE IPÈ=, por _José de Alencar_ 1$000 + A mesma obra enc. 2$000 + + 12--=A ESCRAVA IZAURA=, por _Bernardo Guimarães_. + 1 vol. br. 1$000 + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Ubirajara, by José Alencar + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK UBIRAJARA *** + +***** This file should be named 38496-8.txt or 38496-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/8/4/9/38496/ + +Produced by Júlio Reis, Fernanda Brojo, Manuela Alves, +Rory OConor and the Online Distributed Proofreading Team +at https://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/38496-8.zip b/38496-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..ad05ba7 --- /dev/null +++ b/38496-8.zip diff --git a/38496-h.zip b/38496-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..ac44e61 --- /dev/null +++ b/38496-h.zip diff --git a/38496-h/38496-h.htm b/38496-h/38496-h.htm new file mode 100644 index 0000000..fdbd2a5 --- /dev/null +++ b/38496-h/38496-h.htm @@ -0,0 +1,6591 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" + "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="pt" lang="pt"> + <head> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html;charset=iso-8859-1" /> + <meta http-equiv="Content-Style-Type" content="text/css" /> + <title> + Ubirajara, by José De Alencar -- a Project Gutenberg eBook. + </title> + <link rel="coverpage" href="images/cover.png" /> + <style type="text/css"> + +body { + font-family: Romana, serif; + margin-left: 10%; + margin-right: 10%; +} + + h1,h2,h3 { + font-family: sans-serif; + text-align: center; /* all headings centered */ + clear: both; + margin-top: 4em; + margin-bottom: 2em; +} + +p { + margin: 0 0 0 0; + text-align: justify; + text-indent: 1em; +} + +.p2 {margin-top: 2em;} +.p6 {margin-top: 6em;} + +p.censp { text-align: center; + margin-top: 1em; + margin-bottom: 1em; +} + +hr { + width: 33%; + margin-top: 2em; + margin-bottom: 2em; + margin-left: auto; + margin-right: auto; + clear: both; +} + +hr.tb {width: 45%;} +hr.chap {width: 65%} + +hr.r10 {width: 10%; margin: 0.5em auto 0.5em auto;} + +table { + margin-left: auto; + margin-right: auto; +} + + .tdl {text-align: left;} + .tdr {text-align: right; + vertical-align: top;} + +.pagenum { /* uncomment the next line for invisible page numbers */ + /* visibility: hidden; */ + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; +} /* page numbers */ + +.center {text-align: center;} + +.smcap {font-variant: small-caps;} + +.bsans { font-weight: bold; + font-family: sans-serif; +} + + +/* Images */ +.figcenter { + margin: auto; + text-align: center; +} + + </style> + </head> +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Ubirajara, by José Alencar + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Ubirajara + Lenda tupi + +Author: José Alencar + +Release Date: January 5, 2012 [EBook #38496] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK UBIRAJARA *** + + + + +Produced by Júlio Reis, Fernanda Brojo, Manuela Alves, +Rory OConor and the Online Distributed Proofreading Team +at https://www.pgdp.net + + + + + + +</pre> + + + + +<h3>JOSÉ DE ALENCAR</h3> + +<h1>UBIRAJARA</h1> + +<p class="center">LENDA TUPI</p> +<p class="p2"> </p> +<div class="figcenter" style="width: 74px;"> +<img src="images/image003.png" width="74" height="60" alt="logo" /> +</div> +<p class="p2"> </p> + +<div style="float:left; width:45%;"> + +<p class="center"><b>FRANCISCO ALVES & C.<sup>a</sup></b></p> +<hr class="r10" /> +<p class="center">RIO DE JANEIRO<br /> +166, Rua do Ouvidor, 166</p> +<hr class="r10" /> +<p class="center">S. PAULO<br /> +65, Rua de S. Bento, 65</p> +<hr class="r10" /> +<p class="center">BELO HORIZONTE<br /> +1055, Rua da Baía, 1055</p> +</div> + +<div style="float:left; width:5%;"> +<p class="center" style="border-right: solid 1px;"> + <br /> + <br /> + <br /> + <br /> + <br /> + <br /> + <br /> + <br /> + <br /> + <br /> + <br /></p> +</div> +<div style="float:left; width:5%;"> +<p class="center"> + <br /> + <br /> + <br /> + <br /> + <br /> + <br /> + <br /> + <br /> + <br /> + <br /> + <br /></p> +</div> + + + +<div style="float:left; width:45%;"> +<p class="center"><b>AILLAUD, ALVES & C.<sup>a</sup></b></p> +<hr class="r10" /> +<p class="center">PARIS<br /> +96, Boulevard Montparnasse<br /> +<small>(Livraria Aillaud)</small></p> +<hr class="r10" /> +<p class="center">AILLAUD, ALVES, BASTOS & C.<sup>a</sup></p> +<hr class="r10" /> +<p class="center">LISBOA<br /> +73, Rua Garrett, 75<br /> +<small>(Livraria Bertrand)</small></p> +</div> + +<p class="center" style="clear:both;">1911</p> + +<h1>UBIRAJARA</h1> + +<p class="center p6">Composto e impresso na Tipografia JOSÉ BASTOS<br /> +Rua da Alegria, 100—Lisboa</p> + + + +<h2><a name="INDICE" id="INDICE"></a>INDICE</h2> + +<div class="center"> +<table border="0" cellpadding="4" cellspacing="0" summary="toc"> +<tr><td align="right"><a href="#I">I</a></td><td align="left">—O caçador</td><td align="right">5</td></tr> +<tr><td align="right"><a href="#II">II</a></td><td align="left">—O guerreiro</td><td align="right">15</td></tr> +<tr><td align="right"><a href="#III">III</a></td><td align="left">—A noiva</td><td align="right">24</td></tr> +<tr><td align="right"><a href="#IV">IV</a></td><td align="left">—A hospitalidade</td><td align="right">37</td></tr> +<tr><td align="right"><a href="#V">V</a></td><td align="left">—Servo do amor</td><td align="right">51</td></tr> +<tr><td align="right"><a href="#VI">VI</a></td><td align="left">—O combate nupcial</td><td align="right">61</td></tr> +<tr><td align="right"><a href="#VII">VII</a></td><td align="left">—A guerra</td><td align="right">74</td></tr> +<tr><td align="right"><a href="#VIII">VIII</a></td><td align="left">—A batalha</td><td align="right">85</td></tr> +<tr><td align="right"><a href="#IX">IX</a></td><td align="left">—União dos arcos</td><td align="right">92</td></tr> +<tr><td align="right"></td><td align="left"><a href="#NOTAS">Notas</a></td><td align="right">101</td></tr> +</table></div> +<p class="p2"> <span class="pagenum"><a name="Page_5" id="Page_5"></a></span></p> + +<div class="figcenter" style="width: 422px;"> +<img src="images/image005h.png" width="422" height="114" alt="header" /> +</div> + + + + +<h1><a name="UBIRAJARA" id="UBIRAJARA"></a>UBIRAJARA</h1> + + + + +<h2><a name="I" id="I"></a>I<br /> +<br /> +O CAÇADOR</h2> + + +<p>Pela marjem do grande rio caminha Jaguarê, o +joven caçador.</p> + +<p>O arco pende-lhe ao hombro, esquecido e inutil. +As flechas dormem no coldre da uiraçaba.</p> + +<p>Os veados saltam das moitas de ubaia e vêm +retouçar na grama, zombando do caçador.</p> + +<p>Jaguarê não vê o timido campeiro; seus olhos +buscam um inimigo capaz de rezistir-lhe ao braço +robusto.</p> + +<p>O rujido do jaguar abala a floresta; mas o caça<span class="pagenum"><a name="Page_6" id="Page_6">[6]</a></span>dor +tambem despreza o jaguar, que já cançou de +vencer.</p> + +<p>Elle chama-se Jaguarê, o mais feroz jaguar da +floresta; os outros fojem espavoridos quando de +lonje o presentem.</p> + +<p>Não é esse o inimigo que procura, porém outro +mais terrivel, para vencel-o em combate de morte +e ganhar nome de guerra.</p> + +<p>Jaguarê chegou á idade em que o mancebo troca +a fama do caçador pela gloria do guerreiro.</p> + +<p>Para ser aclamado guerreiro por sua nação é +precizo que o joven caçador conquiste esse titulo +por uma grande façanha.</p> + +<p>Por isso deixou a taba dos seus e a prezença de +Jandira, a virjem formoza que lhe guarda o seio de +espoza.</p> + +<p>Mas o sol tres vezes guiou o passo rapido do +caçador através das campinas, e tres vezes como +agora deitou-se além nas montanhas da Aratuba, +sem mostrar-lhe um inimigo digno de seu valor.</p> + +<p>A sombra vai decendo da serra pelo vale e a +tristeza cae da fronte sobre a face de Jaguarê.</p> + +<p>O joven caçador empunha a lança de duas pontas, +feita da roxa craúba, mais rija que o ferro.</p> + +<p>Nenhum guerreiro brandiu jámais essa arma terrivel, +que sua mão primeiro fabricou.</p> + +<p>Lá estaca o joven caçador no meio da campina. +Volvendo ao céu o olhar torvo e iracundo, solta +ainda uma vez seu grito de guerra.</p> + +<p>O bramido rolou pela amplidão da mata e foi +morrer lonje nas cavernas da montanha.</p> + +<p>Respondeu o ronco da sucurí na madre do rio e +o urro do tigre escondido na furna; mas outro grito +de guerra não acudiu ao dezafio do caçador.</p> + +<p>Jaguarê arremessou a lança, que vibrou nos ares +e foi cravar-se além no grosso tronco da emburana.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_7" id="Page_7">[7]</a></span></p> + +<p>A copa frondoza ramalhou, como as palmas do +coqueiro ao sopro do vento, e o tronco gemeu até +á raiz.</p> + +<p>O caçador repouza á sombra de sua lança.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Salta uma corça da mata e veloz atravessa a +campina.</p> + +<p>Mais veloz a persegue gentil caçadora com a seta +embebida no arco flexivel.</p> + +<p>Ergue-se Jaguarê.</p> + +<p>Seu olhar ardente voou, sofrego de encontrar o +inimigo que lhe tardava.</p> + +<p>Avistando uma mulher, a alegria do mancebo +apagou-se no rosto sombrio.</p> + +<p>Pela faxa côr de ouro, tecida das penas do tucano, +Jaguarê conheceu que era uma filha da valente +nação dos Tocantins, senhora do grande rio, cujas +marjens elle pizava.</p> + +<p>A liga vermelha que cinjia a perna esbelta da +estranjeira dizia que nenhum guerreiro jámais possuira +a virjem formoza.</p> + +<p>A corça veiu cair aos pés de Jaguarê, atravessada +pela flecha certeira da joven caçadora que a +seguia de perto.</p> + +<p>A virjem reconheceu o cocar da nação que na +ultima lua chegára aos campos do Taari e da qual +os pajés tinham dado noticia.</p> + +<p>—Guerreiro araguaia, pois vejo pela pena vermelha +de teu cocar que pertences a essa nação +valente; se pizas os campos dos Tocantins como<span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8">[8]</a></span> +hospede, bem vindo sejas; mas se vens como inimigo, +foje, para que tua mãi não chore a morte de +seu filho e tenha quem a proteja na velhice.</p> + +<p>—Virjem dos Tocantins, Jaguarê já soltou seu +grito de guerra. Elle piza os campos de teus pais +como senhor. Tu és sua prizioneira. Não que vencer +a corça timida seja gloria para o caçador; mas tu +chamarás o inimigo que elle espera.</p> + +<p>—Se o veado te der a sua lijeireza, joven guerreiro, +elle não te servirá senão para ver o rasto de +meu pé antes que o vento o apague.</p> + +<p>A linda caçadora desferiu a corrida pela imensa +campina. Após ella se arremessou Jaguarê, que +muitas vezes vencera o tapir.</p> + +<p>Mas a virjem dos Tocantins corria como a nandú +no dezerto, e o caçador conheceu que seu braço +nunca a poderia alcançar.</p> + +<p>Travou do arco e o brandiu. A seta obedeceu-lhe, +pregando no tronco do assaí a faxa que flutuava +ao sopro do vento.</p> + +<p>—A filha dos Tocantins tem no pé as azas do +beija-flôr; mas a seta de Jaguarê vôa como o gavião. +Não te assustes, virjem das florestas; tua formozura +venceu o impeto de meu braço e apagou a +cólera no coração feroz do caçador. Feliz o guerreiro +que te possuir.</p> + +<p>—Eu sou Arací, a estrela do dia, filha de Itaquê, +pai da grande nação Tocantim. Cem dos melhores +guerreiros o servem em sua cabana para merecer +que elle o escolha por filho. O mais forte e valente +me terá por espoza. Vem comigo, guerreiro araguaia; +excede aos outros no trabalho e na constancia, +e tu romperás a liga de Arací na proxima +lua do amor.</p> + +<p>—Não, filha do sol; Jaguarê não deixou a taba +de seus pais, onde Jandira lhe guarda o seio de +espoza, para ser escravo da virjem. Elle vem com<span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9">[9]</a></span>bater +e ganhar um nome de guerra que encha de +orgulho a sua nação. Torna á taba dos Tocantins +e dize aos cem guerreiros cativos de teu amor, que +Jaguarê, o mais destemido dos caçadores araguaias, +os dezafia ao combate.</p> + +<p>—Arací vai, pois assim o queres. Se fores vencido, +ella guardará tua lembrança, pois nunca seus +olhos viram mais belo caçador. Se fores vencedor, +será uma alegria para a virjem do sol pertencer ao +mais valente dos guerreiros.</p> + +<p>A virjem disse e dezapareceu na selva. Os +olhos de Jaguarê seguiram o passo lijeiro da formoza +caçadora, como o guachimim que rasteja a +zabelê.</p> + +<p>Quando ella dezapareceu, o joven caçador recostou-se +ao tronco da emburana e esperou.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Do outro lado da campina assoma um guerreiro.</p> + +<p>Tem na cabeça o canitar das plumas de tucano, +e no punho do tacape uma franja das mesmas penas.</p> + +<p>É um guerreiro tocantim. De lonje avistou Jaguarê +e reconheceu o penacho vermelho dos araguaias.</p> + +<p>As duas nações não estão em guerra; mas sem +quebra da fé póde um guerreiro cansado do longo +repouzo oferecer a outro guerreiro combate leal.</p> + +<p>Quando o tocantim armou o arco, Jaguarê já +tinha brandido o seu e disparado no ar uma seta, +mensajeira do dezafio.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10">[10]</a></span></p> + +<p>Respondeu o guerreiro disparando tambem uma +flecha no ar, para dizer que aceitava o combate.</p> + +<p>Então os dois campeões caminharam um para +o outro com o passo grave e pararam frente a +frente.</p> + +<p>—Eu sou Jaguarê, filho de Camacan, chefe da +valente nação dos araguaias, que vem de lonje em +busca da terra de seus pais. Minha fama corre as +tabas e tu já deves conhecer o maior caçador das +florestas. Mas Jaguarê despreza a fama de caçador; +elle quer um nome de guerra, que diga ás nações +a força de seu braço e faça tremer aos mais bravos. +Se tua nação te aclamou forte entre os fortes, +prepara-te para morrer; se não, passa teu caminho, +guerreiro vil, para que o sangue do fraco não +manche o tacape virjem de Jaguarê.</p> + +<p>—O caraiba guiou teu passo ao encontro de +Pojucan, o matador de gente, guerreiro chefe da +terrivel nação tocantim, que enche de terror as +outras nações. Ha tres luas, desde que fujiram +espavoridos os barbaros Tapuias, que Pojucan não +combate; e seu tacape tem fome do inimigo. Tu +não és digno dos golpes de um guerreiro chefe; +mas Pojucan se compadece de tua mocidade e consente +em combater comtigo. Terás a gloria de ser +morto pelo mais valente guerreiro tocantim. Os +cantores de meus feitos lembrarão teu nome; e +todos os mancebos de tua nação invejarão tua +sorte.</p> + +<p>—Jaguarê agradece a Tupan que te fez um +grande guerreiro e o chefe mais feroz da terrivel +nação tocantim, Pojucan, matador de gente. +A tua morte será a primeira façanha do caçador +araguaia e lhe dará um nome de guerra que se +torne o espanto dos seus e o terror das outras +nações.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11">[11]</a></span></p> + +<p>Os dois campeões recuaram passo a passo até +que se acharam a um tiro de arco.</p> + +<p>Então soltaram o grito de guerra e se arremessaram +um contra outro brandindo o tacape.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Os tacapes toparam no ar e os dois guerreiros +rodaram como as torrentes impetuozas no remoinho +da Itaoca.</p> + +<p>Dez vezes as clavas bateram, e dez vezes volveram +para bater de novo.</p> + +<p>Os animais que passavam na floresta fujiram espavoridos, +como se a borrasca ribombasse no céu.</p> + +<p>Ainda uma vez encontraram-se os dois tacapes +e voaram em lascas pelos ares.</p> + +<p>—O ubiratan é forte; mas ha outro ubiratan que +lhe reziste. Como o braço de Pojucan é que não +ha outro braço. Já viste, joven caçador, o veado +nas garras da giboia? Assim vais morrer.</p> + +<p>—Se tu fosses a cascavel que sómente sabe +morder, Jaguarê te esmagaria a cabeça com o pé +e seguiria o seu caminho. Mas tu és a giboia feroz; +e Jaguarê gosta de estrangular a giboia. Não morrerás +pelo pé, mas pela mão do caçador. Lança teu +bote, guerreiro tocantim.</p> + +<p>Pojucan estendeu os braços e estreitou os rins +de Jaguarê, que por sua vez cinjiu os lombos do +guerreiro.</p> + +<p>Cada um dos campeões pôz na luta todas as suas +forças, bastantes para arrancar o tronco mais robusto +da mata.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12">[12]</a></span></p> + +<p>Ambos, porém, ficaram imoveis. Eram dois jatobás +que naceram juntos e entrelaçaram os galhos +ligando-se no mesmo tronco.</p> + +<p>Nada os desprende; nada os abala. O tufão passa +bramindo sem ajital-os; e elles permanecem quedos +pelo volver dos tempos.</p> + +<p>Um pajé que passou na orla da mata viu os lutadores +e esconjurou-os, pensando que eram as almas +de dois guerreiros prezos no abraço da morte.</p> + +<p>Já a sombra se desdobrava pelo vale fóra e o sol +despedia-se dos cimos dos montes, sem que os +campeões se movessem.</p> + +<p>Por fim afrouxaram os braços e cada lutador recuou +para contemplar seu adversario. Nenhum mostrava +no rosto sombra de fadiga.</p> + +<p>Conheceram que podiam lutar corpo a corpo, a +noite inteira, sem que um prostrasse o outro.</p> + +<p>—Tu és igual na valentia e na força ao guerreiro +chefe da nação tocantim. Mas Pojucan +não consente que haja na terra quem rezista a +seu braço. É precizo que tu morras, Jaguarê, +para que elle seja o primeiro dos guerreiros que o +sol alumia.</p> + +<p>—Pojucan, matador de gente, guerreiro feroz da +nação tocantim, Jaguarê deixou-te viver até este +momento para saber se tu eras digno de dar-lhe um +nome de guerra. Agora que te conhece como o +primeiro dos guerreiros que existiram até este momento, +elle quer que tua derrota seja a sua primeira +façanha.</p> + +<p>Disse, e, arrancando do tronco da emburana a +lança de duas pontas, caminhou outra vez para +Pojucan.</p> + +<p>—Esta arma que tu vês é a lança de duas pontas. +Jaguarê fabricou-a do rijo galho da craúba, endurecido +pelo fogo. Sua mão foi a primeira que a +arremessou e teu corpo é o primeiro cujo sangue<span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13">[13]</a></span> +ella vai beber. Empunha a lança de duas pontas, +guerreiro chefe, e ataca Jaguarê para receberes a +morte dos valentes.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Pojucan repeliu a lança que o joven caçador lhe +aprezentára.</p> + +<p>—Jámais no combate um guerreiro tocantim atacará +seu adversario dezarmado; nem Pojucan preciza +da lança. Ataca tu, Jaguarê, que não tens confiança +em teu braço; o de Pojucan basta para te +prostrar.</p> + +<p>—O orgulho te cega, guerreiro chefe. A lança +conhece Jaguarê que a inventou e lhe obedece como +o arpão á corda do pescador. Aperta-a bem em tua +mão robusta e Jaguarê estará duas vezes mais armado +do que tu, que não sabes manejal-a.</p> + +<p>O chefe tocantim cruzou os braços.</p> + +<p>—Toma a lança, Pojucan, se não queres que te +chame covarde; pois tu sabes que Jaguarê não te +matará dezarmado, mas te abandonará como indigno +de combater com o filho do maior guerreiro araguaia, +o grande Camacan.</p> + +<p>O chefe tocantim arrojou-se contra Jaguarê que +lhe travou dos pulsos e outra vez os dois campeões +ficaram imoveis.</p> + +<p>A noite veiu achal-os na mesma pozição. Tres vezes +cessaram a luta, e de novo a travaram. Mas afinal +se convenceram que nenhum derrubaria o outro.</p> + +<p>Então Pojucan disse:</p> + +<p>—Guerreiro araguaia, é precizo acabar o com<span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14">[14]</a></span>bate. +A terra não chega para dois guerreiros como +nós. Finca no chão a lança e caminhemos até á +marjem do rio. Aquelle que primeiro chegar, será +o senhor da lança e da vida do outro.</p> + +<p>Assim fizeram os dois campeões. Chegados á +marjem do rio, dispararam a corrida. Ao mesmo +tempo a mão de ambos tocou a haste da lança; +mas Jaguarê, arremessado pelo impeto da desfilada, +não pôde arrancar a arma que ficou na mão de +Pojucan.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>O guerreiro chefe enrista desdenhozamente a +lança e caminha para Jaguarê. Não vai como o +guerreiro que marcha ao combate, mas como o +matador que se prepara para imolar a vitima.</p> + +<p>—Guerreiro chefe, Jaguarê não te quer matar +como a serpente que ataca o descuidado caçador. +Dez vezes já, se quizesse, elle te houvera ferido +com tua propria mão.</p> + +<p>—Abandona a gloria do guerreiro, que não é +para ti, nhengaíba. Pojucan te concederá a vida, e +te levará cativo á taba dos tocantins para que tu +cantes as suas façanhas na festa dos guerreiros.</p> + +<p>—Cativo serás tu, mas não para cantar os feitos +dos guerreiros. Tu servirás na taba dos araguaias +para ajudar as velhas a varrer a oca.</p> + +<p>Arremessou-se Pojucan avante e desfechou o +golpe; mas a lança rodára e foi o chefe tocantim +quem recebeu no peito a ponta farpada.</p> + +<p>Quando o corpo robusto de Pojucan tombava, cravado +pelo dardo, Jaguarê de um salto calcou a mão<span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15">[15]</a></span> +direita sobre o hombro esquerdo do vencido e brandindo +a arma sangrenta, soltou o grito do triunfo:</p> + +<p>—Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro +invencivel que tem por arma a serpente. Reconhece +o teu vencedor, Pojucan, e proclama o +primeiro dos guerreiros, pois te venceu a ti, o maior +guerreiro que existiu antes delle.</p> + +<p>—Se meu valor, que serviu para aumentar a tua +fama, merece de ti uma graça, não deixes que Pojucan +sofra mais um instante a vergonha de sua +derrota.</p> + +<p>—Não, chefe tocantim. Tu me acompanharás á +taba dos araguaias para narrar meu valor. A fama +de Jaguarê preciza de um prizioneiro como o grande +Pojucan na festa da vitoria.</p> + +<p>—Tu és cruel, guerreiro da lança; mas fica certo +que, se tua arma traiçoeira me feriu o peito, o suplicio +não vencerá a constancia do varão tocantim que +sabe afrontar as iras de Tupan e desprezar a vingança +dos araguaias.</p> + + + + +<hr class="chap" /> +<h2><a name="II" id="II"></a>II<br /> +<br /> +O GUERREIRO</h2> + + +<p>Retumba a festa na taba dos araguaias.</p> + +<p>As fogueiras circulam a vasta ocara e derramam +no seio da noite escura as chamas da +alegria.</p> + +<p>Toda a tarde o trocano reboou chamando os<span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16">[16]</a></span> +guerreiros das outras tabas á grande taba do +chefe.</p> + +<p>Era a festa guerreira de Jaguarê, filho de Camacan, +o maior chefe dos araguaias.</p> + +<p>No fundo da ocara prezide o conselho dos anciãos, +que decide da paz ou da guerra, e governa +a valente nação.</p> + +<p>Os anciãos, sentados no longo giráu, contemplam +taciturnos a geração de guerreiros que elles +ensinaram a combater, e têm saudades da passada +gloria.</p> + +<p>Suspenso em frente delles está o grande arco +da nação araguaia, ornado nas pontas das penas +vermelhas da arara.</p> + +<p>É a insignia do chefe dos guerreiros, a qual +Camacan, pai de Jaguarê, conquistou na mocidade +e ainda a conserva, pois ninguem ouza disputal-a.</p> + +<p>Eil-o, o velho chefe, embaixo do arco, que +sua mão tantas vezes brandiu na guerra. Em +pé, arrimado ao invencivel tacape, elle dirije a +festa.</p> + +<p>De um e outro lado da vasta ocara, está a multidão +dos guerreiros, colocados por sua ordem; +primeiro os chefes das tabas; depois os varões; +por ultimo os moços guerreiros.</p> + +<p>Vêm depois os jovens caçadores que já deixaram +a oca materna e estão impacientes de ganhar +por suas proezas a honra de serem admitidos entre +os guerreiros.</p> + +<p>Mas para isso têm de passar pelas provas, e sua +juventude não lhes consente ainda a robustez, que +tamanho esforço demanda.</p> + +<p>Todos invejam a gloria de Jaguarê que hontem +era o primeiro entre elles, e hoje ali está disputando +a fama aos mais valentes guerreiros.</p> + +<p>Por detraz da estacada apinham-se as mulheres,<span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17">[17]</a></span> +que segundo o rito patrio não podem ser admitidas +nas festas guerreiras.</p> + +<p>De lonje acompanham silenciozas com os olhos, +as velhas aos filhos, as espozas aos seus guerreiros, +e as virjens aos noivos.</p> + +<p>Exultam quando ouvem celebrar as façanhas dos +seus; mas não ouzam murmurar uma palavra.</p> + +<p>Entre ellas está Jandira, a doce virjem, cujos +negros olhos não se cansam de admirar Jaguarê, +seu futuro senhor.</p> + +<p>Já lhe tarda o momento de ver aclamar guerreiro +ao joven caçador, para ter a felicidade de servil-o +como escrava na paz, e acompanhal-o como espoza +ao combate.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>No centro da ocara ergueu-se Jaguarê.</p> + +<p>Defronte delle, Pojucan, no corpo que a ferida +não abateu, mostra a grande alma, serena em face +dos inimigos.</p> + +<p>Camacan troou a inubia para ordenar silencio e +o filho começou:</p> + +<p>—Guerreiros araguaias, ouvi a minha historia de +guerra.</p> + +<p>«Depois que Jaguarê sofreu as provas do valor, +partiu para conquistar um nome famozo.</p> + +<p>«Deixando a taba, viu o falcão negro que despedia +o vôo para as aguas sem fim, e Jaguarê +disse:</p> + +<p>«O falcão negro é o valente guerreiro dos ares; +elle será a fama do guerreiro araguaia que atravessará +as nuvens e subirá ao céu.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18">[18]</a></span></p> + +<p>«Então Jaguarê marcou o vôo do falcão negro e +seguiu por elle.</p> + +<p>«O sol despediu-se e voltou; uma, duas, tres vezes. +No ultimo sol Jaguarê encontrou um guerreiro +da nação tocantim, senhora do grande rio.</p> + +<p>«Guerreiros araguaias, quereis saber qual foi o +campeão que Tupan enviou a Jaguarê para dar-lhe +o nome de guerra?</p> + +<p>«Elle aí está diante de vós.</p> + +<p>«É o grande Pojucan, o feroz matador de gente, +chefe da tribu mais valente da poderoza nação dos +tocantins, senhores do grande rio.</p> + +<p>«Vós que o tendes aqui prezente, vêde como é +terrivel o seu aspeto, mas só eu que o pelejei conheço +o seu valor no combate.</p> + +<p>«O tacape em sua mão possante é como o tronco +do ubiratan que brotou no rochedo e creceu.</p> + +<p>«Jaguarê, que arranca da terra o cedro gigante, +não o pôde arrancar de sua mão; e foi obrigado a +despedaçal-o.</p> + +<p>«Os braços de Pojucan, quando elle os estende +na luta, não ha quem os vergue; são dois penedos +que saem da terra.</p> + +<p>«Seu corpo é a serra que se levanta no vale. +Nenhum homem, nem mesmo Camacan, o póde +abalar.</p> + +<p>«Pojucan era o varão mais forte e o mais valente +guerreiro que o sol tinha visto até áquelle +momento.</p> + +<p>«Foi este, guerreiros araguaias, o heróe que +ofereceu combate ao filho de Camacan; e Jaguarê +aceitou, porque logo conheceu que havia encontrado +um inimigo digno de seu valor.</p> + +<p>«Elle vos contempla, guerreiros araguaias. Se +alguem duvida da palavra de Jaguarê e da força do +guerreiro tocantim, chame-o a combate e saberá +quem é Pojucan.»</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19">[19]</a></span></p> + +<p>O chefe tocantim lançou um olhar ameaçador á +multidão dos guerreiros; mas nenhum ouzou aceitar +o dezafio.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Pojucan alçou a mão em sinal de que dezejava +falar; todos escutaram com respeito o heróe, ainda +maior na desgraça.</p> + +<p>—Guerreiros araguaias, ouvi a voz de Pojucan, +vosso inimigo, que afronta as iras dos fortes e despreza +a vingança dos fracos.</p> + +<p>«Pojucan, guerreiro chefe da grande nação tocantim, +jámais encontrou guerreiro que rezistisse +á força de seu braço invencivel.</p> + +<p>«Mas Tupan, cansado de ouvir celebrar em todas +as festas o nome de Pojucan, como vencedor, emprestou +sua força a Jaguarê, o maior guerreiro que +já pizou a terra.</p> + +<p>«Eu que senti o impeto de sua corajem, posso +dizer-vos que só o sangue tocantim é capaz de +gerar um guerreiro tão poderozo.</p> + +<p>«Foi alguma virjem araguaia que vagando pela +floresta encontrou Pojucan, e trouxe no seio fecundo +a alma do grande guerreiro.</p> + +<p>«Seu braço é como o corisco do céu; e a sua +força como a tempestade que dece das nuvens.»</p> + +<p>Calou-se Pojucan; e Jaguarê continuou o seu +canto de guerra:</p> + +<p>«Quando a sombra começava a decer da crista +da montanha, Pojucan e Jaguarê caminharam um +contra o outro.</p> + +<p>«Toda a noite combateram. O sol nacendo veiu<span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20">[20]</a></span> +achal-os ainda na peleja, como os deixára; nem +vencidos, nem vencedores.</p> + +<p>«Conheceram que eram os dois maiores guerreiros, +na fortaleza do corpo, e na destreza das +armas.</p> + +<p>«Mas nenhum consentia que houvesse na terra +outro guerreiro igual; pois ambos queriam ser o +primeiro.</p> + +<p>«Foi então que o chefe tocantim ganhou na corrida +a lança de duas pontas, que Jaguarê havia fabricado.</p> + +<p>«Tres vezes seu punho robusto a brandiu, e tres +vezes ella escapou-lhe da mão, como a serpente +das garras do gavião.</p> + +<p>«Mais uma vez o grande guerreiro investiu com +o bote armado; e a lança, escrava de Jaguarê, cravou +o peito do inimigo.</p> + +<p>«Elle caiu, o guerreiro chefe, o grande varão dos +tocantins, o valente dos valentes, Pojucan, o feroz +matador de gente.</p> + +<p>«E Jaguarê brandindo a arma da vitoria bradou:</p> + +<p>«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, que venceu +o primeiro guerreiro dos guerreiros de Tupan.</p> + +<p>«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro +terrivel que tem por arma uma serpente.»</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>O trocano ribombou, derramando lonje pela amplidão +dos vales e pelos écos das montanhas a pocema +do triunfo.</p> + +<p>Os tacapes, vibrados pela mão pujante dos +guerreiros, bateram nos largos escudos retinindo.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21">[21]</a></span></p> + +<p>Mas a voz possante da multidão dos guerreiros +cobriu o imenso rumor clamando:</p> + +<p>—Tu és Ubirajara, o senhor da lança, o vencedor +de Pojucan, o maior guerreiro da nação tocantim.</p> + +<p>«Os guerreiros araguaias te recebem por seu +irmão nas armas e te aclamam forte entre os +fortes.</p> + +<p>«Os cantores celebrarão teu nome como os mais +famozos da nação araguaia e Camacan terá a gloria +de chamar-se pai de Ubirajara, como foi gloria +para Jaguarê ser filho de Camacan.»</p> + +<p>Quando parou o estrondo da festa e cessou o +canto dos guerreiros, avançou Camacan, o grande +chefe dos araguaias.</p> + +<p>De um salto o ancião alcançou o arco da nação, +insignia do chefe na guerra, e caminhou para Ubirajara.</p> + +<p>O arco era de ubiratan, grosso como o braço do +mais robusto guerreiro; a corda trançada de crautá +tinha o corpo do dedo que a brandia.</p> + +<p>Os mais possantes varões da nação araguaia a +custo empunhavam o grande arco; mas só um tinha +força para disparar a seta.</p> + +<p>Era Camacan, o chefe dos chefes, que dirijia na +guerra os guerreiros araguaias.</p> + +<p>Assim falou o ancião:</p> + +<p>—Ubirajara, senhor da lança, é tempo de empunhares +o grande arco da nação araguaia, que +deve estar na mão do mais possante. Camacan +o conquistou no dia em que escolheu por espoza +Jaçanan, a virjem dos olhos de fogo, em cujo seio +te gerou seu primeiro sangue. Ainda hoje, apezar +da velhice que lhe mirrou o corpo, nenhum guerreiro +ouzaria disputar o grande arco ao velho chefe, +que não sofresse logo o castigo de sua audacia. +Mas Tupan ordena que o ancião se curve para a<span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22">[22]</a></span> +terra até dezabar como o tronco carcomido, e que +o mancebo se eleve para o céu como a arvore altaneira. +Camacan revive em ti; a gloria de ser o +maior guerreiro crece com a gloria de ter gerado +um guerreiro ainda maior do que elle.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Ubirajara tomou o arco que lhe aprezentava o +pai e disse:</p> + +<p>—Camacan, tu és o primeiro guerreiro e o maior +chefe da nação araguaia. Para a gloria de Jaguarê +bastava que elle se mostrasse teu filho no valor +como é teu filho no sangue. Mas o grande arco da +nação araguaia, Ubirajara não o recebe de ti e de +nenhum outro guerreiro, pois o ha de conquistar +pela sua pujança.</p> + +<p>Disse, e arremessando no meio da ocara o grande +arco, bradou:</p> + +<p>—O guerreiro que ouze empunhar o grande +arco da nação araguaia, venha disputal-o a Ubirajara.</p> + +<p>Nenhuma voz se ergueu; nenhum campeão avançou +o passo.</p> + +<p>O trocano reboou de novo, e no meio da pocema +de triunfo, a multidão dos guerreiros proclamou:</p> + +<p>—Ubirajara, senhor da lança, tu és o mais forte +dos guerreiros araguaias; empunha o arco chefe.</p> + +<p>Então Ubirajara levantou o grande arco, e a corda +zuniu como o vento na floresta.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23">[23]</a></span></p> + +<p>Era a primeira seta, mensajeira do chefe, que +levava ás nuvens a fama de Ubirajara.</p> + +<p>Os cantores exaltaram a gloria dos dois chefes: a +do velho Camacan, que trocára a arma do guerreiro +pelo bordão do conselho; e a do joven Ubirajara, +que na sua mocidade já se mostrava tão grande, +como fôra o pai na robustez dos anos.</p> + +<p>Pojucan teve o consolo de ouvir seu nome, repetido +muitas vezes e louvado a par com o de seu +vencedor.</p> + +<p>Os cantores celebraram depois os grandes feitos +da nação araguaia, desde os tempos remotos em +que os projenitores deixaram a grande taba dos +Tamoios, seus avós.</p> + +<p>Quando os nhengaçáras entoaram o canto do +triunfo, vieram as mulheres com vazos cheios do +generozo cauim e aprezentaram as taças aos guerreiros.</p> + +<p>Jandira suspirou; ella era virjem, e como suas +companheiras, não podia aparecer na festa dos +guerreiros.</p> + +<p>Sentiu não ser já espoza, para ter o orgulho de +encher de vinho espumante, por ella fabricado, a +taça de seu heróe e senhor.</p> + +<p>O guincho agoureiro da inhúma resoava na mata, +quando começou a dansa guerreira que durou até +perto da alvorada.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24">[24]</a></span></p> + + + + +<hr class="chap" /> +<h2><a name="III" id="III"></a>III<br /> +<br /> +A NOIVA</h2> + + +<p>Ao raiar da luz no céu, Jandira abriu os lindos +olhos negros.</p> + +<p>Seu canto foi o primeiro que saudou o nacer do +dia e acordou em seu ninho a viuvinha.</p> + +<p>A doce filha de Majé saltou da rêde que embalára +os sonhos castos da virjem, e despediu-se della +como a jaçanan que deixa a moita para habitar o +ninho do amor.</p> + +<p>A virjem tocantim acreditava ter dormido a ultima +noite na cabana paterna, que essa manhã ia trocar +pela cabana do espozo.</p> + +<p>O joven caçador que a amava, Jaguarê, fôra +aclamado guerreiro, e entre todos os guerreiros o +chefe da nação.</p> + +<p>Como guerreiro elle póde tomar uma espoza; e +como chefe pertence-lhe a virjem de sua escolha, +entre as mais formozas da taba.</p> + +<p>Ainda que a virjem tenha um noivo, ou que o +pai a destine a outro, se o chefe a dezeja, a vontade +de Tupan é que lhe pertença.</p> + +<p>Tupan assim ordena para que os grandes chefes +possam gerar de seu sangue os mais belos e valentes +guerreiros.</p> + +<p>Jaguarê antes de ser aclamado chefe já a tinha +escolhido, e Jandira não aceitaria outro noivo senão +o joven caçador a quem amava.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25">[25]</a></span></p> + +<p>Ella o espera. Logo que o sol alumie a terra, +Ubirajara, o grande chefe, ha de vir buscal-a.</p> + +<p>Então a virjem se despedirá de Majé; e irá armar +na cabana de seu guerreiro e senhor a rêde da espoza.</p> + +<p>Lijeira e contente corre a banhar-se no rio antes +que chegue Ubirajara, para quem purifica seu corpo +e se unje com o oleo fragrante do sassafraz.</p> + +<p>Ella quer que o destemido guerreiro ache seu +amor saborozo como o vinho que espumá na taça, +e ferve nas veias.</p> + +<p>Tornando á cabana, perfumou de beijoim a larga +rêde que tecera dos fios do algodão entrelaçados +com as penas do guará.</p> + +<p>Essa rêde tinha duas vezes o tamanho de sua +rêde de virjem, porque era a rêde do cazamento +em que devia receber o espozo.</p> + +<p>Depois arrumou no urú a louça que havia fabricado +para o serviço do guerreiro, e que devia transportar +á sua nova cabana.</p> + +<p>Quando terminou todos os preparativos, encostou-se +á porta da cabana; seus olhos impacientes +chamavam Ubirajara.</p> + +<p>Mas o guerreiro não vinha, e o sol já tinha subido +além da crista da serra.</p> + +<p>A luz do dia derramava a alegria pelos campos; +e a alegria que lhe afagára os sonhos da noite fujia +agora da alma de Jandira.</p> + +<p>Então a filha de Majé partiu em busca do noivo +que a esquecera.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26">[26]</a></span></p><hr class="tb" /> + +<p>No mais escuro da mata vaga o chefe dos araguaias.</p> + +<p>Seus olhos fojem á luz do dia e buscam a sombra, +onde encontram a imajem que traz na lembrança.</p> + +<p>Á noite quando o guerreiro dormia em sua rêde +solitaria, Arací, a linda virjem, lhe apareceu em +sonho e lhe falou:</p> + +<p>—Jaguarê, joven caçador, tu dormes descansado +emquanto os guerreiros tocantins se preparam para +roubar a virjem de teus amores. Ergue-te e parte, +se não queres chegar tarde.</p> + +<p>Elle erguera-se para seguil-a; mas a virjem formoza +desferiu a corrida veloz através da campina +e dezapareceu na floresta.</p> + +<p>Neste ponto do sonho o guerreiro acordára.</p> + +<p>Uma estrela brilhante listrava o céu, como uma +lagrima de fogo, e Ubirajara pensou que era o +rasto de Arací, a filha da luz.</p> + +<p>A jurití arrolhou docemente na mata e Ubirajara +lembrou-se da voz mavioza da virjem do sol.</p> + +<p>O guerreiro tornou á rêde, esperando achar ali +outra vez o sonho que vizitára sua alma; porém o +sono fujira de seus olhos.</p> + +<p>Quando raiou a primeira alvorada, Ubirajara saiu +da cabana e buscou no mais espesso da mata a +sombra propicia á saudade.</p> + +<p>Seu passo o guiava sem querer para as bandas +do grande rio, onde devia ficar a taba dos tocantins.</p> + +<p>É assim que os coqueiros, imoveis na praia, +inclinam para o nacente seu verde cocar.</p> + +<p>Ubirajara ouviu o rumor de um passo lijeiro através +da mata; de lonje conheceu Jandira que o +procurava.</p> + +<p>A doce virjem achára á porta da cabana o rasto +do guerreiro e o seguira através da floresta.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27">[27]</a></span></p> + +<p>—Que máu sonho aflige Ubirajara, o senhor da +lança e o maior dos guerreiros, chefe da grande +nação araguaia, para que elle se afaste de sua taba +e esqueça a noiva que o espera.</p> + +<p>—A tristeza entrou no coração de Ubirajara, +que não sabe mais dizer-te palavras de alegria, +linda virjem.</p> + +<p>—A tristeza é amarga; quando entra no coração +do guerreiro, o enche de fel. Mas Jandira fará como +sua irmã, a abelha, ella fabricará em seus labios +os favos mais doces para seu guerreiro; suas palavras +serão os fios de mel que ella derramará na +alma do espozo.</p> + +<p>—Filha de Majé, doce virjem, ainda não chegou +o dia em que Ubirajara escolha uma espoza; nem +elle sabe ainda qual o seio que Tupan destinou +para gerar o primeiro filho do grande chefe dos +araguaias.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>O labio de Jandira emudeceu; mas o peito soluçou.</p> + +<p>A virjem conheceu que o amor de Ubirajara +retirava-se della, e que de todo o perderia se o +não defendesse.</p> + +<p>Então escondeu a dôr no fundo da alma e chamou +o rizo a seus labios, a alegria a seus olhos.</p> + +<p>Ella sabia que os guerreiros amam a flôr da +formozura, como a folhajem da arvore; e que a +tristeza murcha a graça da mais linda virjem.</p> + +<p>—Chefe dos araguaias, Ubirajara, não desprezes +Jandira que outr'ora escolheste para tua noiva. Se<span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28">[28]</a></span> +então ella era formoza a teus olhos, mais formoza +se fará para merecer teu amor. Tu gostavas de seus +cabelos negros que arrastam no chão; ella os entrançará +com as plumas vermelhas do guará para +que te pareçam mais bonitos. Seus olhos negros +que te falavam, ella os cercará de uma listra amarela +como os olhos da jaçanan. Sua boca, que +ainda não provaste, Jandira a encherá de amor +para que bebas nella o contentamento.</p> + +<p>Jandira esperou a palavra de Ubirajara; mas os +labios mudos do guerreiro não se abriram.</p> + +<p>—Teu amor, Ubirajara, ficará em meu seio +como a flôr no vale. Jandira te dará muitos filhos +e todos dignos de teu valor. Nestes peitos, que te +pertencem, ella os nutrirá com seu sangue, não +menos guerreiro do que o teu; porque é o sangue +de Majé, o maior dos anciãos, depois de Camacan. +Seus braços que outr'ora querias para tua cintura, +não servirão unicamente para te abraçarem, mas +tambem para te servirem. Tua espoza te acompanhará +por toda a parte, na taba, como no campo +do combate; ella cuidará de tua cabana; aprontará +as mais saborozas iguarias para seu guerreiro, e +fabricará para elle o vinho, que é a alma da festa.</p> + +<p>—Jandira é a mais bela das virjens araguaias. +Seu amor fará a ventura de um guerreiro valente. +Ubirajara não podia achar para si uma espoza mais +fiel, nem para seus filhos outra mãi tão fecunda. +Mas a noite deceu em sua alma. Só a estrela do +dia póde restituir-lhe a alegria que o abandonou. +A filha de Majé merece um guerreiro que tenha +olhos para a sua formozura.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29">[29]</a></span></p><hr class="tb" /> + +<p>Pojucan sentou-se pensativo á porta da cabana.</p> + +<p>O semblante, sempre grave, como convém a um +chefe, cobre-se de tristeza.</p> + +<p>A noite que foje da terra, vencida pelo +sol, parece recolher-se na alma do chefe tocantim.</p> + +<p>Não é sua ferida que o faz sofrer. O balsamo +suave da embaiba sára rapidamente os golpes mais +profundos; e os varões tocantins aprendem desde +o berço a desprezar a dôr.</p> + +<p>É em seu coração de guerreiro, que Pojucan +sente as garras do Anhanga.</p> + +<p>O revez de ser vencido e cair prizioneiro, elle o +suporta como o varão forte que viu prostrados por +Aresqui no campo da batalha os mais terriveis +guerreiros.</p> + +<p>A grandeza do vencedor o consola; resta-lhe +ainda a gloria de ter rezistido a um braço, como o +de Ubirajara, grande chefe dos araguaias.</p> + +<p>Mas elle esperava que depois de haver ornado +com sua prezença a festa do triunfo, o vencedor +fosse generozo, e lhe concedesse a honra do sacrificio.</p> + +<p>É o temor de que Ubirajara lhe recuze uma morte +glorioza e o retenha cativo, que nesse momento +acabrunha o chefe dos tocantins.</p> + +<p>Elle, um guerreiro livre que pizára outr'ora como +senhor aquelles campos, reduzido á condição de +escravo?</p> + +<p>Elle, um varão chefe que tinha na obediencia de +seu arco mais de mil guerreiros valentes, obrigado +a reconhecer um dono?</p> + +<p>Elle, que afrontava a cólera de Tupan, quando o +deus irado rujia do céu, curvar-se ao aceno de um +homem, fosse embora o mais pujante dos filhos da +terra?</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30">[30]</a></span></p> + +<p>Pojucan estremecia quando se lembrava que podia +ser condenado a tão grande humilhação.</p> + +<p>Em seu terror promovia o passo, com o impeto +de fujir para sempre da taba dos araguaias, onde o +ameaçava aquella vergonha.</p> + +<p>Mas uma força invencivel atava-lhe a vontade. +Elle não se pertencia desde o momento +em que Ubirajara lhe calcou a mão direita no +hombro.</p> + +<p>Esse era o sinal da conquista, que prendia o +vencido ao vencedor; aquelle que violasse a lei da +guerra, perderia para sempre o nobre titulo de +guerreiro.</p> + +<p>O desprezo do inimigo o acompanharia aos seus +campos nativos; e a taba de seus irmãos não se +abriria para o fujitivo que houvesse dezhonrado o +nome de sua nação.</p> + +<p>Por isso na cabana solitaria, Pojucan está mais +guardado do que se o cercasse a multidão dos +guerreiros araguaias.</p> + +<p>Véla elle proprio em si, porque véla em sua +fama.</p> + +<p>Póde Ubirajara esquecel-o, que na volta o encontrará +ali onde o deixou.</p> + +<p>Nada o arrancará da cabana; nem a necessidade +de buscar o alimento para o corpo.</p> + +<p>Bem vinda será a fome, se durar tanto que +prostre seu corpo robusto, e o entregue ao seio +da terra, onde o guerreiro dorme o sono da +gloria.</p> + +<p>Além rompe da selva Ubirajara, que se encaminha +para a cabana com o passo rapido.</p> + +<p>Segue-o de perto Jandira, como a gentil corça +acompanha o caçador, que lhe roubou o companheiro.</p> + +<p>Descobrindo o chefe dos araguaias, Pojucan +encerrou a tristeza dentro de sua alma;<span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31">[31]</a></span> +e chamou ao rosto a altivez dos grandes guerreiros.</p> + +<p>O chefe tocantim não queria que seu vencedor +se regozijasse de ter-lhe abatido o animo +inflexivel.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Quando Ubirajara se aproximou da cabana, Pojucan +tomou-lhe o passo.</p> + +<p>—Ubirajara, senhor da lança, grande chefe da +nação araguaia, não confessaste tu diante dos +anciãos das tabas e de todos os teus guerreiros, +que Pojucan era o varão mais forte e o mais terrivel +no combate, que o sol tinha visto até o momento +de ser vencido por ti?</p> + +<p>—Ubirajara o disse. É a voz da nação araguaia.</p> + +<p>—Desde que tu cruzaste comigo a seta do +dezafio até este momento, Pojucan, guerreiro varão, +e chefe de uma taba, na valente nação dos +tocantins, mostrou-se pela sua constancia e valor +digno do sangue de seus avós?</p> + +<p>—Pojucan o disse; e a fama o repete.</p> + +<p>—Então porque Ubirajara, o grande chefe dos +araguaias, não concede a Pojucan a morte glorioza, +que os tocantins jámais recuzaram a um guerreiro +valente, e que sómente se nega aos fracos? Já não +serviu Pojucan á tua gloria na festa do triunfo? +Esperas delle que te obedeça como um escravo? +Se aviltas o varão, a quem venceste, humilhas o +teu valor que elle exaltava.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32">[32]</a></span></p> + +<p>O grande chefe araguaia ouviu sem interromper +o prizioneiro, e respondeu com gravidade:</p> + +<p>—Ubirajara não recuza ao bravo chefe tocantim, +seu terrivel inimigo, o suplicio, que não negaria +a qualquer guerreiro valente. Elle esperava que +tua ferida se fechasse de todo, para que o grande +Pojucan possa no dia do ultimo combate sustentar +a fama de seu nome, e a gloria de um varão que só +foi vencido por Ubirajara.</p> + +<p>O grande chefe dos araguaias levou aos labios +a inubia de Camacan; a voz do mando reboou pelo +vasto ambito da taba.</p> + +<p>Apareceram vinte jovens guerreiros, a quem +elle ordenou que chamassem a conselho os anciãos.</p> + +<p>Depois tornou ao chefe tocantim:</p> + +<p>—Os araguaias receberam de seus avós o costume +das nações que Tupan creou. Elles destinam +ao prizioneiro a mais bela e a mais ilustre de todas +as virjens da taba, para que ella conserve o sangue +generozo do heróe inimigo e aumente a nobreza e +o valor de sua nação.</p> + +<p>—É esta tambem a lei, que os guerreiros tocantins +observam em suas tabas.</p> + +<p>—A mais bela e a mais nobre de todas as virjens +araguaias, aquella que se ergue como a palmeira +no meio da campina coberta de flôres, é +Jandira, a filha de Majé, que tem no seio os doces +favos da abelha.</p> + +<p>Travando então do pulso de Jandira, que +ali ficára preza de sua vista, levou-a ao prizioneiro.</p> + +<p>—Recebe-a como espoza do tumulo.</p> + +<p>Jandira que ouviu espavorida aquellas palavras, +quiz fujir; porém a mão do chefe araguaia +a reteve.</p> + +<p>—Ubirajara parte, mas elle voltará para assistir<span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33">[33]</a></span> +a teu suplicio e vibrar-te o ultimo golpe. Pojucan +terá a gloria de morrer pela mão do mais valente +guerreiro.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Ficaram Jandira e Pojucan em face um do outro.</p> + +<p>—Virjem dos araguaias, Tupan te rezervou para +espoza do mais terrivel dos inimigos de tua nação. +O filho de seu sangue será o mais valente dos +guerreiros; tu sentirás orgulho por havel-o gerado +em teu seio.</p> + +<p>—Pojucan, chefe tocantim, Jandira nunca será +tua espoza.</p> + +<p>—Não é Ubirajara o chefe de tua nação, e não +te destinou elle para servir de noiva do tumulo ao +guerreiro que vai morrer no suplicio?</p> + +<p>—Ubirajara é o grande chefe da nação araguaia; +á sua voz cala-se a palavra dos anciãos; a seu +gesto curva-se a fronte dos guerreiros; á sua vontade +obedecem as tabas. Mas no amor de Jandira, +ninguem manda, nem Tupan. Jandira é noiva de +Ubirajara, e se elle não quizer aceital-a, o guanumbí +a levará para os campos alegres onde repouzam +as virjens que morreram.</p> + +<p>—Pojucan não carece do amor de Jandira. Nas +tabas dos tocantins a mais bela das virjens se regozijaria +de pertencer ao mais valente dos chefes, +e de habitar sua rêde. Nas tabas dos araguaias, +onde nacem guerreiros como Ubirajara, não faltarão +virjens formozas, que dezejem a gloria de ser +mãi de um filho de Pojucan.</p> + +<p>—Jandira seria a primeira, se não conhecesse<span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34">[34]</a></span> +Jaguarê, o mais belo dos jovens caçadores, que é +hoje Ubirajara, o senhor da lança e chefe dos chefes. +Pojucan merece uma espoza que nunca tenha +ouvido o canto de outro guerreiro, para dar-lhe um +filho digno delle.</p> + +<p>—Os ritos de tua nação não punem a noiva que +rejeita o prizioneiro?</p> + +<p>—Jandira sabe que se sujeita á morte; mas a +morte é menos cruel do que o abandono.</p> + +<p>—Então foje, virjem dos araguaias, e esconde-te +á cólera dos anciãos. Talvez mais tarde Ubirajara +se arrependa e te perdôe.</p> + +<p>—Jandira parte. Ella te dezeja uma espoza terna +e a morte glorioza.</p> + +<p>A filha de Majé penetrou na floresta, e afastou-se +rapidamente da taba.</p> + +<p>Quando já estava muito lonje, sentou-se á sombra +de um manacá coberto de flôres e cantou:</p> + +<p>—Eu fui Jandira, a linda abelha, que fabricava +os favos de cêra para enchel-os de mel saborozo.</p> + +<p>«Agora arrancaram-me as minhas azas com que +eu voava pela campina colhendo o pó das flôres; +e secou a doçura de meu sorrizo.</p> + +<p>«O canto que saía de meu seio era como o da +patativa ao pôr do sol, quando se recolhe em seu +ninho de paina macia.</p> + +<p>«Agora eu queria ter no coração uma serpente +para morder aquella que me roubou o amor de +meu guerreiro.</p> + +<p>«Guardei a minha formozura para orgulho do espozo, +e inveja dos outros guerreiros.</p> + +<p>«Agora eu trocaria a flôr do meu rosto por um +aspeto terrivel que infundisse pavor.</p> + +<p>«Meus seios mais lindos que os botões do cardo +por um peito feroz, e as mãos lijeiras que tecem +os fios do algodão pelas garras do jaguar.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35">[35]</a></span></p> + +<p>«Eu fui Jandira, o manacá viçozo que se vestia +de flôres azues e brancas.</p> + +<p>«Agora sou como a jussara que perdeu a folha, +e só tem espinhos para ferir aquelles que se chegam.»</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Os anciãos já estavam reunidos na oca do conselho, +quando Ubirajara entrou.</p> + +<p>Falou Camacan:</p> + +<p>—Ubirajara, senhor da lança, chefe dos chefes, +os pais da grande nação araguaia escutam a tua +voz.</p> + +<p>O grande chefe tres vezes bateu no chão com a +ponta do arco e disse:</p> + +<p>—Pojucan, o chefe tocantim, pede a morte do +combate; elle a merece, porque é um grande guerreiro +e um varão ilustre. Ubirajara concedeu-lhe +essa honra, como seu vencedor.</p> + +<p>—Ubirajara é um inimigo generozo; respondeu +Camacan.</p> + +<p>Todos os anciãos inclinaram gravemente a cabeça +encanecida para exprimirem sua aprovação ás +palavras de Camacan.</p> + +<p>Proseguiu Ubirajara:</p> + +<p>—É tempo de escolher para o prizioneiro uma +espoza digna de acompanhar em seus ultimos dias +ao heróe inimigo, e de ser mãi do marabá, o filho +da guerra.</p> + +<p>Todos os abarés dezejavam para si a gloria de +oferecer uma filha ao prizioneiro.</p> + +<p>—Ubirajara destinou-lhe Jandira, filha de Majé.<span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36">[36]</a></span> +Ella o merece por sua formozura, e pelo sangue +do grande guerreiro que gira em suas veias.</p> + +<p>—Ubirajara é um grande chefe, disse Camacan.</p> + +<p>Os anciãos aprovaram outra vez com a cabeça; +Majé acrecentou:</p> + +<p>—O sangue do velho Majé não desmentirá em +Jandira a fama da nação araguaia.</p> + +<p>—Não! disse Ubirajara e todos os anciãos repetiram: +Não!</p> + +<p>O grande chefe tornou com a voz pauzada:</p> + +<p>—Celebrai a ceremonia da entrega da espoza +ao prizioneiro. Ubirajara parte; só estará de volta +na proxima lua para assistir ao suplicio de Pojucan. +Se na auzencia de Ubirajara cair na taba a +flecha, nuncia da guerra, conduzi o trocano ao sitio +onde se abraçam os grandes rios, e soltai a voz +da nação araguaia. Nesse dia Ubirajara será comvosco.</p> + +<p>Os prudentes anciãos, com a cabeça inclinada +para melhor ouvir, recebiam as palavras do grande +chefe e as guardavam na memoria.</p> + +<p>Quando Ubirajara se calou, Camacan repetiu, +ainda mais pauzado, as recomendações do filho:</p> + +<p>—É esta a vontade de Ubirajara?</p> + +<p>—Tu o disseste.</p> + +<p>—Os anciãos guardaram a palavra do chefe dos +chefes? perguntou ainda Camacan.</p> + +<p>—Ella entrou no espirito dos abarés, como a +raiz no seio da terra, observou Majé.</p> + +<p>—Bem dito, repetiram todos.</p> + +<p>Ubirajara saiu do carbeto; após elle os anciãos +se retiraram lentamente.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37">[37]</a></span></p> + + + + +<hr class="chap" /> +<h2><a name="IV" id="IV"></a>IV<br /> +<br /> +A HOSPITALIDADE</h2> + + +<p>Na entrada do vale ergue-se a grande taba dos +tocantins.</p> + +<p>É a hora em que as sombras abraçam os troncos +das arvores e o sol descansa em meio da carreira.</p> + +<p>A floresta emudece, e todos os viventes se abrigam +da calma que abraza.</p> + +<p>Ubirajara deixa o escuro da mata e caminha para +a grande taba dos tocantins.</p> + +<p>Quando chegou á distancia do tiro de uma flecha +despedida pelo mais robusto guerreiro, tocou a +inubia.</p> + +<p>O guerreiro de vijia respondeu; e o chefe araguaia, +quebrando a seta, alçou a mão direita para +mostrar a senha da paz.</p> + +<p>Então avançou para a taba; na entrada da caissara +que cercava o campo dos tocantins, atirou ao +chão a seta partida.</p> + +<p>Os guerreiros que tinham acudido ao som da +inubia, deixaram passar o estranjeiro sem inquirir +donde vinha, nem o que o trouxera.</p> + +<p>Era este o costume herdado de seus maiores, +que o hospede mandava na taba aonde Tupan o +conduzia.</p> + +<p>Ubirajara passou entre os guerreiros, e dirijiu-se +á cabana mais alta que ficava no centro da ocara.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38">[38]</a></span></p> + +<p>A figura do tucano, feita de barro pintado, e +colocada em cima da porta, dizia que era ali a cabana +do grande chefe.</p> + +<p>Mas Ubirajara já o sabia; pois antes de penetrar +na taba, subira á grimpa do mais alto cedro da floresta +para conhecer o sitio onde habitava Arací, a +estrela do dia.</p> + +<p>A cabana estava dezerta naquelle instante, mas +ouvia-se a fala das mulheres que trabalhavam no +terreiro.</p> + +<p>Ubirajara transpôz o limiar, e levantando a voz +disse:</p> + +<p>—O estranjeiro chegou.</p> + +<p>Acudiram as mulheres, e conduziram Ubirajara +á prezença do grande chefe dos tocantins.</p> + +<p>Itaquê passava as horas da ardente calma á sombra +da frondoza gameleira, que podia abrigar cem +guerreiros em baixo de sua rama.</p> + +<p>Repouzando dos combates, o formidavel guerreiro +não desdenhava as artes da paz em que era +tão consumado como nas batalhas.</p> + +<p>Assim honrava as fadigas da taba, dando o exemplo +do trabalho á familia de que era pai, e a nação +de que era chefe.</p> + +<p>Nesse momento as mulheres colocadas em duas +filas, com as mãos erguidas, urdiam os fios de algodão, +passados pelos dedos abertos em fórma de +pente.</p> + +<p>Itaquê manejava a lançadeira, tão destro como +na peleja vibrava o tacape. Sua mão lijeira tramava +a teia de uma rêde, que entretecia das penas douradas +do galo da serra.</p> + +<p>Quando chegou Ubirajara, o grande chefe dos +tocantins, depois de ter rematado a urdidura, +entregou a lançadeira ao guerreiro Pirajá que +estava a seu lado, e veiu ao encontro do hospede.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39">[39]</a></span></p> + +<p>—O estranjeiro veiu á cabana de Itaquê, grande +chefe da nação tocantim, disse Ubirajara.</p> + +<p>—Bem vindo é o estranjeiro á cabana de Itaquê, +grande chefe da nação tocantim.</p> + +<p>Então o tuxava voltou-se para Jacamim, a mãi +de seus filhos:</p> + +<p>—Jacamim, prepara o cachimbo do grande chefe, +para que elle e o estranjeiro troquem a fumaça +da hospitalidade.</p> + +<p>Os mensajeiros já corriam pela taba, avizando +os guerreiros moacaras da vinda do hospede á cabana +de Itaquê.</p> + +<p>Os moacaras, revestidos de seus ornatos de +festa, se encaminharam com o passo grave á oca +principal afim de honrar o hospede do grande chefe +da nação tocantim.</p> + +<p>Ali chegados, cada um dirijiu ao estranjeiro a +pergunta da hospitalidade e deu-lhe a boa vinda.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Depois que Itaquê ofereceu a Ubirajara o cachimbo +da paz, e com elle trocou a fumaça da +hospitalidade, os cantores entoaram a saudação +da chegada:</p> + +<p>«O hospede é mensajeiro de Tupan. Elle traz a +alegria á cabana; e quando parte leva comsigo a +fama do guerreiro que teve a fortuna de o acolher.</p> + +<p>«Nas tabas por onde passa, e na terra de seus +pais, elle conta aos velhos, que depois ensinam +aos moços, as proezas dos heróes que viu em seu +caminho, e de quem recebeu o abraço da paz.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40">[40]</a></span></p> + +<p>«O hospede é mensajeiro de Tupan. Elle traz +comsigo a sabedoria; na cabana do guerreiro que +tem a fortuna de o acolher, todos o escutam com +respeito.</p> + +<p>«Em suas palavras prudentes, os anciãos da taba +aprendem, para ensinar aos moços, os costumes +dos outros povos, as façanhas de guerra desconhecidas +por elles, e as artes da paz, que o estranjeiro +viu em suas viajens.</p> + +<p>«O hospede é mensajeiro de Tupan. O primeiro +que apareceu na taba dos avós da nação tocantim, +foi Sumê, que veiu de onde a terra começa e caminhou +para onde a terra acaba.</p> + +<p>«Delle aprenderam as nações a plantar a mandioca +para fazer a farinha, e a tirar do cajú e do +ananaz o generozo cauim, que alegra o coração do +guerreiro.</p> + +<p>«O hospede é mensajeiro de Tupan. Quando o +estranjeiro entra na cabana, o guerreiro que tem a +fortuna de o acolher, não sabe se elle é um chefe +ilustre ou o grande Sumê que volta de sua viajem.</p> + +<p>«O sabio ensina por onde passa os segredos da +paz, e o heróe as façanhas da guerra; mas ambos +deixam na cabana da hospitalidade a gloria de ter +abrigado um grande varão.</p> + +<p>«O hospede é mensajeiro de Tupan. Por seu caminho +vai deixando a abundancia e a festa; depois +do banquete da boa vinda as arvores vergam com +os frutos, e a caça não cabe na floresta.</p> + +<p>«A cabana que fecha a porta ao hospede, o vento +a arranca, o fogo do céu a abraza. O guerreiro que +não se alegra com a chegada do hospede, vê murchar +ao redor de si a espoza, os filhos, as mulheres +e as roças que elle plantou.</p> + +<p>«Bem vindo seja o estranjeiro na cabana de Itaquê, +o grande chefe da nação tocantim, que teve a +gloria de ser escolhido pelo hospede.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41">[41]</a></span></p> + +<p>«Os guerreiros exultam com a honra de seu +chefe, e os cantores te saudam, mensajeiro de +Tupan.»</p> + +<p>Emquanto na cabana resôa o canto da boa vinda, +Jacamim, a espoza de Itaquê, chamou as amantes +do marido, suas servas, para ajudal-a a preparar o +banquete da hospitalidade.</p> + +<p>As servas pressurosas estenderam á sombra da +gameleira as alvas esteiras de palmas entrançadas +de airis e colocaram sobre ellas os urús cheios de +farinha d'agua.</p> + +<p>Trouxeram tambem os camocins razos, onde se +apinhavam as moquecas envoltas em folha de banana, +e peças de carne, assada no biaribí, que ainda +fumegava nos pratos feitos de concha de tartaruga.</p> + +<p>Depois suspenderam a caça mais volumoza, +veados e antas, assim como as igaçabas de cauim, +nos ramos inclinados da arvore, em altura que o +braço do guerreiro podesse alcançar.</p> + +<p>Frutas de varias especies, pencas douradas de +banana, cachos rôxos de assaí, os rubros croás, e +os fragrantes abacaxis, enchiam o giráu levantado +no meio do terreiro.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Jacamim conduzira o hospede á sombra da gameleira, +onde o esperava o banquete da chegada.</p> + +<p>Ao lado de Ubirajara sentou-se Itaquê e depois +os moacaras que tinham vindo para a festa da hospitalidade.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42">[42]</a></span></p> + +<p>Os guerreiros comeram em silencio. As mulheres +dilijentes os serviam, enchendo de vinho +de cajú e ananaz as largas combucas, tintas com +a pasta do crajurú que dá o mais brilhante carmim.</p> + +<p>Quando o hospede, depois de satisfeito o apetite, +lavou o rosto e as mãos, Jacamim ordenou ás +servas que recolhessem os restos das provizões, e +retirou-se com ellas.</p> + +<p>Tambem se afastaram os jovens guerreiros que +ainda não tinham voz no conselho. Só ficaram sentados +com o hospede, Itaquê, e os moacaras senhores +das cabanas.</p> + +<p>O cachimbo do grande chefe passou de mão em +mão e cada ancião bebeu a fumaça da herva de +Tupan, que inspira a prudencia no carbeto.</p> + +<p>Então disse o chefe:</p> + +<p>—Itaquê dezeja dar a seu hospede um nome que +lhe agrade, e preciza que o ajude a sabedoria dos +anciãos.</p> + +<p>A lei da hospitalidade não consentia que se perguntasse +o nome ao estranjeiro que chegava, nem +que se indagasse de sua nação.</p> + +<p>Talvez fosse um inimigo, e o hospede não devia +encontrar, na cabana onde se acolhia, senão a paz +e a amizade.</p> + +<p>O chefe, que tinha a fortuna de receber o +viajante, escolhia o nome de que elle devia +uzar emquanto permanecia na cabana hospedeira.</p> + +<p>Foi Ipê quem primeiro falou:</p> + +<p>—Tu chamarás ao hospede Jutaí, porque sua +cabeça domina o cocar dos mais fortes guerreiros, +como a copa do grande pinheiro aparece por cima +da mata.</p> + +<p>Disse Tapir:</p> + +<p>—Chama ao hospede Boitatá, porque elle tem os<span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43">[43]</a></span> +olhos da grande serpente de fogo, que vôa como o +raio de Tupan.</p> + +<p>Os moacaras, cada um por sua vez, falaram; e +como a voz começava do mais moço para acabar +no mais velho, as ultimas falas eram menos guerreiras +e traziam a prudencia da idade.</p> + +<p>Assim Caraúba, que era o segundo antes do +chefe, disse:</p> + +<p>—Itaquê, o hospede é o nuncio da paz. Tu deves +chamal-o Jutorib, porque elle trouxe a alegria +á tua cabana.</p> + +<p>Guaribú, cujos anos enchiam a corda de sua +existencia de mais nós, do que tem o velho cipó +da floresta, falou por ultimo:</p> + +<p>—O viajante é senhor na terra que elle piza +como hospede e amigo; e o nome é a honra do +varão ilustre, porque narra sua sabedoria. Pergunta +ao estranjeiro como elle quer ser chamado +na taba dos tocantins.</p> + +<p>—Bem dito!</p> + +<p>Itaquê, aprovando as palavras prudentes do ancião, +perguntou a Ubirajara que nome escolhia; +este lhe respondeu:</p> + +<p>—Eu sou aquelle que veiu trazido pela luz do +céu. Chama-me Jurandir.</p> + +<p>Nesse momento, Arací, a estrela do dia, apareceu +por entre as palmeiras, e caminhou para a cabana.</p> + +<p>Os mais valentes entre os jovens guerreiros tocantins +acompanhavam a formoza caçadora. Eram +os servos do amor, que disputavam a beleza da +virjem.</p> + +<p>Os cantores saudaram de novo o hospede pelo +nome que elle escolhera:</p> + +<p>—Tu és aquelle que veiu trazido pela luz do +céu. Nós te chamaremos Jurandir; para que te alegres +ouvindo o nome de tua escolha.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44">[44]</a></span></p> + +<p>«Tu és aquelle que veiu trazido pela luz do céu. +Nós te chamaremos Jurandir; e o nome de tua escolha +alegrará o ouvido dos guerreiros.»</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>De longe Arací viu o estrangeiro, sentado entre +os anciãos, como o frondoso jacarandá no meio +dos velhos troncos das aroeiras.</p> + +<p>A virgem reconheceu logo o caçador araguaia e +adivinhou que ele viera á cabana de Itaquê para +disputar sua beleza aos guerreiros tocantins.</p> + +<p>O coração de Arací encheu-se de alegria. Seus +negros cabelos estremeceram de contentamento, +como as penas da jaçanan quando presente o formoso +inverno.</p> + +<p>O estrangeiro não queria ser conhecido; pois deixára +o cocar das plumas da arara, que era o ornato +guerreiro da sua nação. Mas a imagem do jovem +caçador ficára na lembrança da virgem, como fica +na terra a verde folhajem, depois da lua das aguas.</p> + +<p>A lei da hospitalidade proíbia á virgem revelar o +segredo do estranjeiro, só della sabido. Nesse momento +foi á sua alma que obedeceu e não ao costume +da nação.</p> + +<p>Quando Arací chegou ao terreiro, os anciãos se +preparavam para ouvir a maranduba do hospede. +Os guerreiros e as mulheres escutavam em silencio.</p> + +<p>O estrangeiro começou:</p> + +<p>—Jurandir é moço; ainda conta os anos pelos +dedos e não viveu bastante para saber o que os<span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45">[45]</a></span> +anciãos da grande nação tocantim aprenderam nas +guerras e nas florestas.</p> + +<p>«O moço é o tapir que rompe a mata, e vôa como +a seta. O velho é o jabotí prudente que não se +apressa.</p> + +<p>«O tapir erra o caminho e não vê por onde passa. +O jabotí observa tudo, e sempre chega primeiro.</p> + +<p>«Jurandir é moço; mas conhece as grandes florestas, +e atravessou mais rios do que as veias por +onde corre o sangue valente de seu pai.</p> + +<p>«A primeira agua em que Jaçanan, sua mãi, o +lavou, quando elle lhe rasgou o seio, foi a do grande +lago onde Tupan guardou as aguas do diluvio, depois +que as retirou da terra.</p> + +<p>«Ainda Jurandir não era um caçador, quando elle +se banhou no pará sem fim, onde os rios despejam +a sua corrente e cujas aguas quando dormem se +mudam em sal.</p> + +<p>«Duas vezes Jurandir seguiu o pai dos rios desde +a grande montanha onde nace, até á varzea sem +fim que elle enche com suas aguas.</p> + +<p>«Elle viu o grande rio combater com o mar, no +tempo da pororoca. Os dois chefes tocam as inubias +antes da peleja, para chamar seus guerreiros.</p> + +<p>«Vem de um lado as aguas do mar, são os guerreiros +azues, com penachos de araruna; vem do +outro as aguas do rio, são os guerreiros vermelhos +com penachos de nambú.</p> + +<p>«Começa a batalha. Os guerreiros se enrolam, +como a corrente da cachoeira, batendo no rochedo; +a terra estremece com o trovão das aguas.</p> + +<p>«Mas o grande rio agarra o mar pela cintura. +Arranca do chão o inimigo; carrega-o nos hombros; +solta o grito de triunfo.</p> + +<p>«Por muito tempo os Tetivas, que habitam sobre +as arvores, vêem passar correndo as aguas do mar;<span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46">[46]</a></span> +são os guerreiros azues que fojem espavoridos e +vão esconder-se na sombra das florestas.</p> + +<p>«Jurandir tambem viu a terra onde habitam as +mulheres guerreiras, senhoras de seu corpo, que +vivem em baixo das aguas do grande rio.</p> + +<p>«Só ellas sabem o segredo das pedras verdes, +que tornam os guerreiros cativos de seu amor, sem +prival-as da liberdade.</p> + +<p>«Por isso todas as luas, grande numero de guerreiros +as vizitam em sua taba; e ellas guardam para +os mais valentes a flôr de sua beleza.</p> + +<p>«Quando chega o tempo de vir o fruto do amor, +guardam sómente as filhas; e enviam aos guerreiros +os filhos, de onde saem os maiores chefes.</p> + +<p>«Feliz o guerreiro que acha uma terra valente +e fecunda para a flôr de seu sangue. O filho será +maior do que elle; e o neto maior do que o filho.</p> + +<p>«Sua geração vai assim crecendo de tronco em +tronco; e fórma uma floresta de guerreiros, onde +o ultimo cedro se ergue mais frondozo e robusto, +porque recebe a seiva de seus avós.»</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Quando Jurandir proferiu as ultimas palavras, +seus olhos que tinham muitas vezes buscado Arací, +repouzaram nella.</p> + +<p>A virjem tocantim compreendeu que o estranjeiro +se referia a si; e não escondeu sua alegria, +como não esconde sua flôr a juquerí que o rio +beija.</p> + +<p>A formoza caçadora cantou. Sua voz era limpida<span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47">[47]</a></span> +e sonora como o gorjeio do sabiá, quando se deleita +com o calor do sol.</p> + +<p>—Feliz a terra que recebe a semente do cedro +frondozo e robusto; ella se cobrirá de sombra e +frescura. Os guerreiros gostarão de reunir-se aí +para falar da paz e da guerra.</p> + +<p>«Ella é como a virjem que um chefe ilustre escolheu +para sua espoza, e que se povôa de uma prole +numeroza. As nações a respeitam porque é a mãi +de valentes guerreiros; os anciãos escutam seu conselho +na paz e na guerra.</p> + +<p>«As mulheres guerreiras, senhoras de seu corpo, +são como a palmeira do murití, que rejeita o fruto +antes que elle amadureça e o abandona á correnteza +do rio.</p> + +<p>«A espoza não desprende de si o filho, senão +quando elle não chupa mais seu peito. Ella é como +a mangabeira; nutre o fruto com seu leite, que é +a flôr de seu sangue.</p> + +<p>«Não é na terra das mulheres guerreiras que o +estranjeiro deve buscar a espoza; mas na taba de +sua nação, onde Tupan guarda para seu valor a +mais bela das virjens, aquella que tem o sorrizo +de mel.»</p> + +<p>O hospede respondeu:</p> + +<p>—Jurandir sabe onde encontrará a virjem que +dezeja para espoza. A luz do céu o guia, e nada +reziste á força de seu braço.</p> + +<p>Depois de responder ao canto de Arací, o estranjeiro +continuou sua maranduba, que todos ouviram +silenciozos.</p> + +<p>Elle contou o que havia aprendido nas praias +do mar habitadas pela valente nação dos Tupinambás, +decendentes da mais antiga geração de +Tupi.</p> + +<p>Os pajés dos Tupinambás lhe disseram que +nas aguas do pará sem fim vivia uma nação de<span class="pagenum"><a name="Page_48" id="Page_48">[48]</a></span> +guerreiros ferozes, filhos da grande serpente do +mar.</p> + +<p>Um dia esses guerreiros saíriam das aguas para +tomar a terra ás nações que a habitam; por isso os +Tupinambás tinham decido ás praias do mar, para +defendel-as contra o inimigo.</p> + +<p>Os guerreiros do mar tambem tinham suas guerras +entre si, como os guerreiros da terra. Então as +aguas pulavam mais altas do que os montes; seu +estrondo era como o trovão.</p> + +<p>Jurandir contou mais que nas praias do mar se +encontrava uma rezina amarela, muito cheiroza, a +qual a grande serpente creava no bucho.</p> + +<p>Os Tupinambás faziam dessa goma contas para +seus colares; Jurandir mostrou a pulseira que lhe +cinjia o artelho, prezente de um guerreiro daquella +nação.</p> + +<p>Essas contas tornavam o pé do guerreiro ajil na +corrida, e protejiam o viajante contra os caiporas +da floresta, que se apartavam de seu caminho.</p> + +<p>Muitas outras coizas referiu Jurandir; e os anciãos +admiravam-se de ver o juizo prudente de um +abaré no corpo joven de tão forte guerreiro.</p> + +<p>Os mais velhos dos moacaras acreditaram que o +hospede era o filho de Sumê, mandado por seu pai +correr as terras que o sabio tinha visto em sua mocidade.</p> + +<p>Calaram, porém, seu pensamento, para o comunicarem +aos anciãos quando se reunisse o carbeto +da nação.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_49" id="Page_49">[49]</a></span></p> + +<p>O sol já decia para as montanhas quando terminou +a festa da hospitalidade na cabana de Itaquê.</p> + +<p>Os moacaras partiram. Itaquê voltando á sua +ocupação, deixou o hospede senhor de sua vontade +para fazer o que lhe agradasse.</p> + +<p>Vieram os jovens pescadores da taba com os +anzóes e gequis saber do hospede que peixe elle +preferia.</p> + +<p>Depois delles chegaram os jovens caçadores que +antes de partir para a floresta vinham receber os +dezejos do hospede.</p> + +<p>Por fim aproximaram-se as mulheres que já tinham +rompido o fio da virjindade, mas não eram +nem espozas, nem amantes de guerreiros.</p> + +<p>Essas eram as mulheres livres, que davam seu +amor e o retiravam quando queriam, mas não recebiam +a proteção de um guerreiro nem podiam jámais +ser mãis da prole.</p> + +<p>Os filhos concebidos no proprio seio só tinham +por mãi a espoza, que o guerreiro tomou por companheira +de sua existencia e raiz de sua geração.</p> + +<p>O rito da hospitalidade entre os filhos da floresta +manda que se dê ao estranjeiro amigo tudo que +deleita ao guerreiro.</p> + +<p>Por isso vinham as moças oferecer a Jurandir +sua beleza, para que elle escolhesse entre ellas +uma companheira, que partilhasse sua rêde na +cabana hospedeira.</p> + +<p>Todas se tinham enfeitado com seus mais belos +ornatos, para agradar aos olhos de Jurandir; pois +não havia para ellas maior gloria do que a de merecer +o amor do estranjeiro.</p> + +<p>Umas traziam as tranças urdidas com penas vistozas +dos passaros de sua predileção; outras haviam +perfumado da essencia do sassafraz os cabelos +soltos, que derramavam sua fragancia ao sopro da +briza.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_50" id="Page_50">[50]</a></span></p> + +<p>Chegando diante do estranjeiro, começaram uma +dansa amoroza para mostrar a graça de seu corpo. +Aquellas que tinham a voz doce cantavam em louvor +de Jurandir.</p> + +<p>Arací fôra buscar seu balaio de palha vermelha, +e sentára-se no terreiro, junto á porta da cabana. +Seus dedos ajeis enfiavam as sementes de jequerití, +de que fazia um ramal para seu colo gentil.</p> + +<p>Emquanto compunha o colar, a virjem percebia +que os olhos de Jurandir abandonavam os encantos +das mulheres, e buscavam seu rosto.</p> + +<p>Mas ella voltava-se para a floresta; com o trinado +de seus labios chamava o crajuá, que voava +no olho da palmeira. O passarinho iludido vinha, +cuidando ouvir o canto da companheira.</p> + +<p>Jurandir apartou as mulheres e disse:</p> + +<p>—As moças tocantins são formozas, qualquer +dellas alegraria o sono do estranjeiro. Mas Jurandir +não veiu á cabana de Itaquê para gozar do amor +de uma noite; elle veiu buscar a espoza que ha de +acompanhal-o até á morte, e a virjem que escolheu +para mãi de seus filhos.</p> + +<p>Quando Arací ouviu estas palavras cobriu-se de +sorrizos, como o guajerú se cobre de suas flôres +alvas e perfumadas com os orvalhos da manhã.</p> + +<p>Jurandir voltou-se então para a virjem caçadora:</p> + +<p>—Estrela do dia, Arací, conduze-me á prezença +de Itaquê. É tempo que elle saiba o segredo do +estranjeiro.</p> + +<p>—Os sonhos disseram a Arací duas noites seguidas, +que o joven caçador chegaria á cabana de +Itaquê; ella te esperou. Quando meus olhos te +viram sentado entre os moacaras, logo conheceram +que tu vinhas buscar a espoza.</p> + +<p>O estranjeiro respondeu:</p> + +<p>—Jurandir chegou á taba dos seus, e recebeu +um nome de guerra e o grande arco de sua nação.<span class="pagenum"><a name="Page_51" id="Page_51">[51]</a></span> +Mas a cabana do chefe estava dezerta; e sua rêde +não lhe guardou o sono tranquilo do guerreiro. Elle +ouviu tua voz que o chamava, virjem tocantim, e +ergueu-se; tua luz o guiou, filha do sol, e o trouxe +á tua prezença.</p> + + + + +<hr class="chap" /> +<h2><a name="V" id="V"></a>V<br /> +<br /> +SERVO DO AMOR</h2> + + +<p>Jurandir, conduzido pela virjem, caminhou ao +encontro de Itaquê e disse:</p> + +<p>—Grande chefe dos tocantins, Jurandir não veiu á +tua cabana para receber a hospitalidade; veiu para +servir ao pai de Arací, á formoza virjem, a quem +escolheu para espoza. Permite que elle a mereça +por sua constancia no trabalho, e que a dispute +aos outros guerreiros pela força de seu braço.</p> + +<p>Itaquê respondeu:</p> + +<p>—Arací é a filha de minha velhice. A velhice é +a idade da prudencia e da sabedoria. O guerreiro +que conquistar uma espoza como Arací terá a gloria +de gerar seu valor no seio da virtude. Itaquê +não póde dezejar para seu hospede maior alegria.</p> + +<p>Desde esse momento, Jurandir não foi mais +estranjeiro na taba dos tocantins. Pertencia á oca +de Itaquê, e devia, como servo do amor, trabalhar +para o pai de sua noiva.</p> + +<p>Os guerreiros, cativos da beleza de Arací, conheceram +que tinham de combater um adversario for<span class="pagenum"><a name="Page_52" id="Page_52">[52]</a></span>midavel; +mas seu amor creceu com o receio de +perder a filha de Itaquê.</p> + +<p>Jurandir tomou suas armas e deceu ao rio. Era a +hora em que o jacaré boia em cima das aguas +como o tronco morto, e a jaçanan se balança no +seio do nenufar.</p> + +<p>O manatí erguia a tromba para pastar a relva na +marjem do rio. Ouvindo o rumor das folhas, mergulhou +na corrente; mas já levava o arpéu do pescador +cravado no lombo.</p> + +<p>Jurandir não esperou que o peixe ferido dezenrolasse +toda a linha. Puxou-o para terra; e levou-o +ainda vivo á cabana de Itaquê, onde tres guerreiros +custaram a deital-o no giráu.</p> + +<p>As mulheres cortaram as postas de carne, e os +guerreiros cavaram a terra para fazer as grelhas +do biaribí.</p> + +<p>Jurandir partiu de novo, e entrou na floresta. +Ao lonje reboavam os gritos dos caçadores, que +perseguiam a féra.</p> + +<p>Pelo assobio o guerreiro conheceu que era um +tapir. O animal zombára dos caçadores e vinha +rompendo a mata como a torrente do Xingú.</p> + +<p>As arvores que seu peito encontrava caíam lascadas.</p> + +<p>Jurandir estendeu o braço. O velho tapir, agarrado +pelo pé, ficou suspenso na carreira, como o passarinho +prezo no laço. Nunca até aquelle momento +encontrára força maior que a sua.</p> + +<p>Uma vez decera á lagôa para beber. A sucurí, +que espreitava a caça, mordeu-o na tromba. Elle +fujia, esticando a serpente; e a serpente encolhendo-se +o arrastava até á beira d'agua.</p> + +<p>Assim tornou, uma, duas, tres vezes. Mas o +tigre urrou de fome. O velho tapir disparou pela +floresta; e a sucurí com a cauda preza á raiz da +arvore arrebentou pelo meio.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_53" id="Page_53">[53]</a></span></p> + +<p>O velho tapir rompeu a serpente como se rompe +uma corda de piassaba; mas não pôde abalar o +braço de Jurandir, mais firme do que o tronco do +guaribú.</p> + +<p>O estranjeiro tornou á cabana com a caça. Nenhum +dos guerreiros da taba, nem mesmo o velho +Itaquê, pôde aguentar com as duas mãos a féra +bravia.</p> + +<p>Então Jurandir obrigou o animal a agachar-se +aos pés de Arací e disse:</p> + +<p>—O braço de Jurandir fará cair assim a teus pés +o guerreiro que ouze disputar ao seu amor a tua +formozura, estrela do dia.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Nunca a abundancia reinára na cabana sempre +farta do chefe dos tocantins, como depois que a +ella chegára o estranjeiro.</p> + +<p>Jurandir era o maior caçador das florestas, e o +primeiro pescador dos rios. Seu olhar seguro penetrava +na espessura das brenhas, como na profundeza +das aguas.</p> + +<p>Nada escapava á destreza de sua mão. Onde ella +não chegava, iam as unhas de suas flechas certeiras, +que rasgavam o seio da vitima, como as garras +do jaguar.</p> + +<p>O estranjeiro soubera de Arací qual era a caça +que Itaquê preferia, e qual o peixe que elle achava +mais saborozo. Desde então nunca o velho chefe +sentiu a falta do manjar predileto.</p> + +<p>Se não era a lua propria do peixe dezejado,<span class="pagenum"><a name="Page_54" id="Page_54">[54]</a></span> +Jurandir sabia onde o podia encontrar. Não tornava +á cabana sem a provizão necessaria para a refeição +do dia.</p> + +<p>Depois da caça e da pesca, Jurandir trabalhava +nas roças de Itaquê. Fazia no taboleiro os +matumbos, para que Jacamim enterrasse as estacas +da maniva e semeasse o feijão, o milho e o fumo.</p> + +<p>Entre os filhos das florestas a plantação devia +ser feita pela mão da mulher, que era mãi de +muitos filhos; porque ella transmitia á terra sua +fecundidade.</p> + +<p>A semente que a mão da virjem depozitava no +seio da terra dava flôr; mas da flôr não saía fruto. +E se era um guerreiro que plantava, o aipim +endurecia como o páu de arco.</p> + +<p>Nas vazantes do rio, Jurandir capinava a terra +coberta de relva e outras plantas, e só deixava +crecer o arroz, o inhame e as bananeiras.</p> + +<p>Quando o estranjeiro partia pela manhã, Arací +o acompanhava de lonje pela floresta.</p> + +<p>Sua vontade a levava após elle.</p> + +<p>O costume da taba não consentia que a virjem +dezejada pelos servos de seu amor, preferisse um +guerreiro antes de saber se elle a obteria por +espoza.</p> + +<p>A filha de Itaquê não queria pertencer a outro +guerreiro; mas lembrava-se que a virjem deve +merecer o espozo por sua paciencia, assim como o +guerreiro merece a espoza por sua constancia e +fortaleza.</p> + +<p>Então voltava ao terreiro: emquanto os outros +guerreiros espreitavam sua vontade, ella tecia as +franjas para a rêde do cazamento.</p> + +<p>Sua mão sutil urdia com o alvo fio do crauatá a +fina penujem escarlate. Os noivos cuidavam que era +a do peito do tucano; mas ella sabia que era do peito +da arára e que tinha as côres de seu guerreiro.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_55" id="Page_55">[55]</a></span></p> + +<p>Quando o sol chegava ao cimo dos montes, ouvia-se +o canto de Jurandir que voltava da caça. A +virjem seguida pelos guerreiros ia ao encontro do +estranjeiro.</p> + +<p>Então deciam ao rio. Era a hora do banho. Arací +cortava as ondas mais linda que a garça côr de roza; +e os guerreiros a seguiam de perto, como um bando +de galeirões.</p> + +<p>Mas nenhum, nem mesmo Jurandir, que nadava +como um bôto, podia alcançar a formoza virjem. +Ella parecia a flôr do mururê que se desprendeu +da haste, e passa levada pela corrente.</p> + +<p>Uma vez a filha das aguas soltou um grito, e +dezapareceu no seio das ondas. Jacamim cuidou +que o jacaré tinha arrebatado a filha de seu seio. +Os guerreiros mergulharam para salval-a; mas não +a encontraram.</p> + +<p>Todos a julgavam perdida, quando apareceu Jurandir +que trazia nos braços o corpo da virjem formoza. +Pizando em terra, ella correu para a cabana, +onde foi esconder sua alegria.</p> + +<p>Desde então era no banho que Arací recebia o +abraço de Jurandir, sem que os outros guerreiros +suspeitassem da preferencia dada ao estranjeiro.</p> + +<p>No seio das ondas ninguem a adivinhava, a não +ser o ouvido sutil de Jurandir, a quem ella chamava +com o doce murmurio do irerê.</p> + +<p>Encontravam-se no fundo do rio emquanto durava +a respiração. Depois desprendiam-se do +abraço e surjiam lonje um do outro.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="Page_56" id="Page_56">[56]</a></span></p><hr class="tb" /> + +<p>Á tarde, voltando da caça, Jurandir viu na floresta +um rasto, que elle conhecia.</p> + +<p>Chegado á cabana, entregou a Jacamim o veado +que matára, e saiu para vizitar os arredores. Nada +encontrou de suspeito; o rasto, que o inquietava, +não chegára até ali.</p> + +<p>No outro dia, ao romper da alvorada, logo depois +do banho os guerreiros partiram para a caça e para +a pesca. Só ficaram na cabana Jacamim e as mulheres +de Itaquê.</p> + +<p>Arací tomou o arco e entrou na floresta. A imajem +do guerreiro amado fujia naquelle instante de +seus olhos; elles buscaram entre as folhas o sinal +de seus passos e não o descobriram.</p> + +<p>Lembrou-se a virjem, que Jurandir gostava da +polpa do guaranan adoçada com o mel da abelha, +e colheu os frutos encarnados que pendiam dos +ramos da trepadeira.</p> + +<p>Nesse momento a arára cantou no olho do pirijá. +Arací precizava de suas plumas vermelhas para o +cocar que ella tecia em segredo.</p> + +<p>Era o cocar do amor, com que dezejava ornar a +cabeça de seu guerreiro senhor, no dia em que +elle a conquistasse por espoza.</p> + +<p>A virjem armou o arco e seguiu a arára rompendo +a folhajem. Quando ia disparar a seta, ouviu +ao lado um rumor dezuzado.</p> + +<p>Jurandir estava perto della, e segurava o braço +de uma mulher, que ainda tinha na mão a macana +afiada.</p> + +<p>Arací conheceu a virjem araguaia, pela faxa de +algodão entretecida de penas que lhe apertava a +curva da perna; e adivinhou que era Jandira, a +noiva do guerreiro.</p> + +<p>—Filha de Majé, tua mão quiz matar a virjem +que Jurandir escolheu para espoza. Tu vais +morrer.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_57" id="Page_57">[57]</a></span></p> + +<p>—Desde que Ubirajara abandonou Jandira, ella +começou a morrer, como a baunilha que o vento +arranca da arvore. Acaba de matal-a, para que sua +alma te acompanhe de dia na sombra das florestas +e te fale de noite na voz dos sonhos.</p> + +<p>—A virjem araguaia ameaçou a vida de Arací; +ella lhe pertence, disse a filha de Itaquê.</p> + +<p>Jurandir cortou na floresta uma comprida rama +de imbê, e atou as mãos de Jandira.</p> + +<p>—Jandira é tua escrava. Não lhe dês a liberdade. +Ella tem a astucia da serpente e seu veneno.</p> + +<p>—Eu era a cobra d'agua, amiga do guerreiro, +que habita sua cabana e a guarda contra o inimigo. +Quem foi que me fez a cascavel venenoza, que +traz nos labios o sorrizo da morte?</p> + +<p>Jurandir não respondeu. Nesse momento elle +teve saudade de sua cabana; e lembrou-se do +tempo em que, joven caçador, seguia na floresta a +formoza virjem araguaia.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>As duas virjens ficaram sós no claro da floresta.</p> + +<p>Já o rumor dos passos de Jurandir se apagára ao +lonje, e ainda tinham ambas os olhos cativos uma +da outra.</p> + +<p>Jandira pensou que ella não podia dar a Ubirajara +a formozura da filha de Itaquê. Arací receiou +que o amor do guerreiro se voltasse outra vez para +a linda virjem araguaia.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_58" id="Page_58">[58]</a></span></p> + +<p>A filha de Majé preparou-se para morrer á mão +de sua rival, mas ella preferia a morte ao suplicio +de contemplar sua beleza.</p> + +<p>Arací, a estrela do dia, cantou:</p> + +<p>—O amor do guerreiro é a alegria da virjem; +quando elle foje, a virjem fica triste como a varzea +que perdeu sua relva.</p> + +<p>«Por isso Jandira está triste; o amor do guerreiro +fujiu della; e a deixou solitaria como a nambú, +a quem o companheiro abandonou.</p> + +<p>«Mas o amor do guerreiro é como o orvalho da +noite. Quando o sol queima a varzea, elle dece do +céu para cobril-a de verdura e de flôres.</p> + +<p>«Arací está alegre, porque o amor do guerreiro +voltou-se para ella; e Jurandir vai fazel-a companheira +de sua gloria e mãi de seus filhos.</p> + +<p>«Quando a espoza de Jurandir não tiver mais +beleza para dar a seu guerreiro, ella consentirá que +Jandira durma em sua rêde.</p> + +<p>«E o orvalho da noite decerá do céu para cobrir +a varzea de verdura e de flôres. E Jandira achará +outra vez seu sorrizo de mel.»</p> + +<p>Assim cantou Arací, a estrela do dia; e a virjem +araguaia respondeu:</p> + +<p>—A arvore que morreu não sofre quando o fogo +a queima. Jandira prefere a morte á vergonha de +ser tua serva, e á tristeza de ver a cada instante a +formozura da estranjeira que roubou seu amor.</p> + +<p>«Arací, a estrela do dia, é mais bela do que Jandira, +mas não sabe amar o guerreiro que a escolheu +para mãi de seus filhos.</p> + +<p>«Nunca Jandira ofereceria sua rêde de espoza a +outra mulher; e aquella que recebesse o amor de +seu guerreiro, morreria por sua mão.</p> + +<p>«Ella amaria seu espozo tanto que sua graça +nunca se retirasse della; pois saberia morrer +quando não tivesse mais beleza para dar-lhe.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_59" id="Page_59">[59]</a></span></p> + +<p>«A nação araguaia nunca levanta a taba do vale +onde acampou, senão quando a terra já não póde +dar-lhe mais frutos.</p> + +<p>«Assim é o guerreiro. Elle não retira seu amor +da espoza que habita, senão quando ella já não +sabe alegrar sua alma.»</p> + +<p>Tornou a virjem tocantim:</p> + +<p>—A cajazeira, depois que dá seu fruto, perde a +folha; o guerreiro busca a sombra de outra arvore +para repouzar.</p> + +<p>«Mas vem a lua das aguas e a cajazeira outra +vez se cobre de folhas; sua sombra é doce ao guerreiro.</p> + +<p>«A espoza é como a cajazeira. Quando o guerreiro +não acha alegria em seus braços, ella sofre +que busque outra sombra, e espera que lhe volte +a flôr para chamal-o de novo ao seio.</p> + +<p>«Arací ama seu guerreiro, como Jacamim ama +Itaquê. A cabana do grande chefe dos tocantins +está cheia de servas; mas seu amor nunca abandonou +a espoza.</p> + +<p>«As servas deram a Itaquê muitos filhos; mas os +filhos da velhice, foi só Jacamim quem os deu ao +grande chefe; porque o primeiro amor do guerreiro +não morre nunca.</p> + +<p>«Elle é como a grama que nunca mais deixa a +terra onde naceu: podem arrancal-a que brota +sempre.</p> + +<p>«Arací quer apagar a tristeza de tua alma; +e beber o teu sorrizo de mel, para que o espozo +ache mais doces seus labios, quando os +provar.</p> + +<p>«Tu serás irmã de Arací, e lhe darás um filho de +Jurandir, tão valente, como os que seu amor ha de +gerar no seio da espoza.»</p> + +<p>Jandira afastou os olhos da virjem dos tocantins, +para desviar della sua ira.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_60" id="Page_60">[60]</a></span></p> + +<p>—Tua palavra dóe como o espinho da jussara, +que tem o côco mais doce que o mel.</p> + +<p>«As flechas de teu arco não matam mais do que +os sorrizos que o amor do guerreiro derrama em +teu rosto, estrela do dia.</p> + +<p>«Ubirajara deixou-me por ti; mas foi a Jandira +que elle primeiro escolheu para espoza, quando +ainda era joven caçador.</p> + +<p>«Nos campos alegres, onde vão os guerreiros +quando morrem, elle me chamará; e o guanumbí +virá buscar a minha alma no seio da flôr do manacá +para leval-a a seu amor.</p> + +<p>«Mata-me, ou deixa que eu morra para não ver +mais tua beleza, e não ouvir o canto de tua alegria.»</p> + +<p>Arací caminhou para Jandira e dezatou-lhe os +pulsos.</p> + +<p>—O amor do guerreiro não pertence á mulher +que seus olhos primeiro viram; mas áquella que +elle escolheu. Apanha teu arco; e morra aquella +que não souber defender seu amor, e merecer o +espozo.</p> + +<p>Arací disse, e tirou da uiraçaba uma seta. Jandira +ficou imovel, com os pulsos cruzados, como +se ainda estivessem prezos:</p> + +<p>—A vontade de Ubirajara atou os braços de +Jandira; ella rejeita a liberdade dada por ti. Arací +póde ser preferida, porém não será mais generoza +do que a filha de Majé.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_61" id="Page_61">[61]</a></span></p> + + + + +<hr class="chap" /> +<h2><a name="VI" id="VI"></a>VI<br /> +<br /> +O COMBATE NUPCIAL</h2> + + +<p>Chegou o dia em que os noivos de Arací deviam +disputar a posse da formoza virjem.</p> + +<p>Era a hora em que o sol transpondo a crista da +montanha estende pelo vale sua arassoia de ouro.</p> + +<p>A grande nação tocantim cerca a vasta campina. +No centro estão os anciãos, que formam o grande +carbeto.</p> + +<p>Em frente aparece Arací, a estrela do dia, que +ha de ser o premio da constancia e fortaleza do +mais destro guerreiro.</p> + +<p>Jacamim acompanha a filha; nesse momento remoça +com a lembrança do dia em que Itaquê a +conquistou, lutando com os mais feros mancebos +tocantins.</p> + +<p>De um e outro lado seguem pela ordem da idade +os moacaras. Cada um cerca-se da espoza, das +servas e das filhas, que vieram para assistir ao +combate.</p> + +<p>É a unica das festas guerreiras, em que o rito +de Tupan consente a prezença das mulheres, porque +se trata da sua gloria.</p> + +<p>Contemplando o esforço heroico dos mais nobres +guerreiros para conquistar a formozura de uma virjem, +as outras virjens aprendem a prezar a castidade, +e as espozas se ufanam de guardar a fé ao +primeiro amor.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_62" id="Page_62">[62]</a></span></p> + +<p>Itaquê, o grande chefe dos tocantins, prezide ao +combate, orgulhozo pela valente nação que dirije, +como pela formoza virjem de que é pai.</p> + +<p>Quando seus olhos admiram a multidão de guerreiros, +servos do amor de Arací, que se preparam +a disputar a espoza, o grande chefe ergue a fronte +soberba como o velho ipê da floresta coroado de +flôres.</p> + +<p>Os noivos distinguem-se dos outros guerreiros +pelo bracelete de contas verdes, que o guerreiro +cinje ao pulso da espoza, quando rompe a liga da +virjindade.</p> + +<p>Lá caminha Pirajá, o grande pescador, senhor +dos peixes do rio, a quem obedece o manatí e o +golfinho.</p> + +<p>Junto delle ergue-se Uirassú, que tomou este +nome do valente guerreiro dos ares, pelo ímpeto +do assalto.</p> + +<p>Vem depois Arariboia, a grande serpente das lagôas; +Cauatá, o corredor das florestas; Corí, o +altivo pinheiro; e tantos outros, ainda mancebos, e +já guerreiros de fama.</p> + +<p>Entre todos, porém, assoma Jurandir. Sua fronte +passa por cima da cabeça dos outros guerreiros, +como o sol quando se ergue entre as cristas da +serrania.</p> + +<p>Os muzicos fizeram retroar os borés, anunciando +o começo da festa; e os servos do +amor se estenderam em linha pelo meio da campina.</p> + +<p>Então os nhengaçáras levantaram o canto nupcial.</p> + +<p>«A espoza é a alegria e a força do guerreiro. +Ella acende em suas veias um fogo mais generozo +que o do cauim, e prepara para seu corpo o repouzo +da cabana.</p> + +<p>«Por isso o primeiro dezejo do mancebo,<span class="pagenum"><a name="Page_63" id="Page_63">[63]</a></span> +quando ganha nome de guerra é conquistar uma +espoza.</p> + +<p>«Não basta ser valente guerreiro para merecer a +virjem formoza, filha de um grande chefe; é precizo +a paciencia para sofrer, e a perseverança no +trabalho.</p> + +<p>«Arací, a estrela do dia, filha de Itaquê, será a +alegria e a gloria do mais forte e do mais valente.</p> + +<p>«Os filhos que ella gerar em seu seio, onde +corre o sangue do grande chefe, serão os maiores +guerreiros das nações.»</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Itaquê deu sinal; o combate começou.</p> + +<p>Pirajá foi o primeiro que saiu a campo, e clamou +esgrimindo o tacape:</p> + +<p>—Arací, estrela do dia, tu serás espoza do guerreiro +Pirajá, que te vai conquistar pela força de seu +braço.</p> + +<p>Avançou Uirassú, e disse:</p> + +<p>—A virjem formoza ama ao guerreiro Uirassú e +ha de pertencer-lhe.</p> + +<p>A noiva cantou:</p> + +<p>«Arací ama o mais forte e mais valente. Ella +pertencerá ao vencedor, que vencer a bravura dos +outros guerreiros, como venceu a vontade da espoza.»</p> + +<p>A voz mavioza da virjem afagou a esperança de +todos os campeões; mas seus olhos ternos só viam +o nobre semblante de Jurandir, o escolhido de sua +alma.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_64" id="Page_64">[64]</a></span></p> + +<p>Os dois guerreiros travaram a pugna; os tacapes +girando nos ares encontravam-se como dois madeiros +arrojados pelo remoinho da cachoeira.</p> + +<p>Afinal Pirajá, ameaçado pelo bote do adversario, +recuou um passo do logar em que se postára. Pela +lei do combate estava vencido, e teve de deixar o +campo.</p> + +<p>Arariboia tomou seu logar; e o combate proseguiu +com varia fortuna até Corí que, expelindo o +vencedor, manteve-se firme contra todos que vieram +disputal-o.</p> + +<p>Faltava Jurandir. O estranjeiro avançou gravemente, +como convinha a um grande guerreiro da +nação araguaia.</p> + +<p>Elle queria dar ao vencedor de tantos combates +o tempo precizo para descansar.</p> + +<p>A mão do guerreiro arrastava pelo chão o tacape, +que desdenhava erguer para um combate sem gloria.</p> + +<p>Quando Jurandir se achou em face do vencedor, +levantou a voz e disse:</p> + +<p>—Para merecer Arací, a estrela do dia, Jurandir +queria vencer a cem guerreiros, e não combater um +guerreiro fatigado.</p> + +<p>«Tu empunhas um tacape; toma outro habituado +a vencer; elle restituirá a teu braço a força que +perdeu. Basta a Jurandir esta mão, para te arrebatar +todas as tuas vitorias.»</p> + +<p>Disse e arremessou a arma aos pés do adversario.</p> + +<p>Corí, pensando que seu rival o atacava, desfechou-lhe +o golpe. Mas Jurandir aparou-o na mão +firme e arrebatando o tacape que o ameaçava arrancou +o guerreiro do chão.</p> + +<p>Assim o pinheiro que o tufão arrebata, antes de +partir o tronco, desprende a raiz da terra, onde +nada o abalava.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_65" id="Page_65">[65]</a></span></p> + +<p>Jurandir ficou só no campo. Mas todos os noivos +se haviam mostrado valentes guerreiros; talvez nas +outras provas saíssem vencedores.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Os muzicos tocaram os borés; e os jovens caçadores +trouxeram para o meio do campo a figura da +noiva.</p> + +<p>Era um grosso tóro de madeira, no qual a mão +destra de um pajé entalhára com o dente da cotia +a cabeça de uma mulher.</p> + +<p>Tres caçadores vergavam com o pezo da carga; +e foram precizos dez para trazel-o desde a cabana +do pajé até o campo, onde ficou semelhante á uma +mulher sentada.</p> + +<p>Na vespera o pajé burnira de novo com a folha +da sambaiba o tóro de madeira, e o esfregára com +a banha do teú, para que elle escorregasse da mão +do caçador.</p> + +<p>Depois os mancebos guerreiros espalharam pelo +campo troncos de arvores cortadas com as ramas +e as folhas, e fincaram cercas de estacas entre os +barrancos da varzea que ia morrer á marjem do +rio.</p> + +<p>Itaquê deu sinal, e os guerreiros começaram a +nova prova, mais dificil que a primeira.</p> + +<p>Era precizo que o guerreiro á disparada levantasse +do chão, sem parar, o tóro de madeira; e se +defendesse dos rivais que o assaltavam para tomal-o.</p> + +<p>Esse jogo era o emblema da ajilidade e robustez<span class="pagenum"><a name="Page_66" id="Page_66">[66]</a></span> +que o marido devia possuir para disputar a espoza +e protejel-a contra os que ouzassem dezejal-a.</p> + +<p>Na primeira corrida foi Jurandir quem mais rapido +chegou. Como o condor que rebatendo o vôo leva +nas garras a tartaruga adormecida, assim o veloz +guerreiro suspendeu a figura da espoza e com ella +arremessou-se pela campina.</p> + +<p>Os outros o seguiam ardendo em ímpetos de +roubar-lhe a preza. Na planicie aberta seria vão +intento, porque nenhum corria como o estranjeiro.</p> + +<p>Mas Jurandir achava diante de si, para tolher-lhe +o passo, as arvores derrubadas, os barrancos profundos +e outros obstaculos de propozito acumulados.</p> + +<p>Não hezitou, porém, o destemido mancebo. Salvou +as corcovas, galgou as caiçaras, e subiu pelos +galhos que estrepavam o chão.</p> + +<p>Uma vez os guerreiros se aproximaram tanto, +que Jurandir sentiu nos cabelos o sopro da respiração +ofegante. Em frente erguia-se a alta estacada.</p> + +<p>Se tentasse subir carregado como estava, os +guerreiros com certeza o alcançariam a tempo de +arrancar-lhe a preza.</p> + +<p>Então arremessou pelos ares o tóro de madeira, +como se fosse o tacape de um joven caçador; e +seguiu após.</p> + +<p>Sempre vencedor dos assaltos dos rivais, Jurandir +percorreu a vasta campina, e foi colocar +a figura da espoza no meio do carbeto dos anciãos.</p> + +<p>Ali era o termo da correria. O guerreiro que chegava +a esse ponto com a sua carga, saía triunfante +da prova.</p> + +<p>Elle mostrava como arrebataria a espoza do meio<span class="pagenum"><a name="Page_67" id="Page_67">[67]</a></span> +dos inimigos, e a defenderia contra seus ataques +até recolhel-a em um azilo seguro.</p> + +<p>De todos os guerreiros só Corí e Uirassú conseguiram +ganhar a prova; mas nenhum com a galhardia +de Jurandir.</p> + +<p>Corí por vezes foi alcançado, e só á confuzão +dos outros deveu escapar-se. Uirassú recuperou a +preza já perdida, porque Pirajá, que a havia empolgado, +falseou na corrida e tombou.</p> + +<p>Os tres vencedores entraram de novo em campo +para decidir entre si. O triunfo não se demorou. +Jurandir o arrebatou, como o gavião arrebata a +preza que disputam duas serpes.</p> + +<p>Soaram os borés; e ao som do canto de triunfo +entoado pelos nhengaçáras, os chefes e os guerreiros +saudaram o vencedor dos vencedores.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Quando voltou o silencio, Ogib, o grande pajé +dos tocantins, estava em pé no meio do campo.</p> + +<p>Junto delle uma das velhas mãis dos guerreiros +segurava o camucim da constancia, que tinha o bojo +pintado de vermelho.</p> + +<p>O pajé disse:</p> + +<p>—Não basta que o guerreiro seja forte e valente, +para merecer a espoza.</p> + +<p>«É precizo que tenha a constancia do varão, e +não se perturbe com o sofrimento.</p> + +<p>«É precizo que elle tenha a paciencia do tatú, e +suporte sereno as mortificações das mulheres e as +importunações das crianças.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_68" id="Page_68">[68]</a></span></p> + +<p>«O guerreiro que não tem constancia e paciencia, +depressa gasta suas forças.</p> + +<p>«O rio que se derrama pela varzea, nunca verá +suas marjens cobertas de grandes florestas.</p> + +<p>«Assim é o guerreiro que não sabe sofrer, e derrama +sua alma em lamentações.</p> + +<p>«Nunca elle será pai de uma geração forte e glorioza, +nem verá sua cabana povoar-se dos guerreiros +de seu sangue.</p> + +<p>«Se queres merecer a filha de Itaquê, mostra, +Jurandir, que és varão ainda maior do que o famozo +guerreiro que todos admiram.»</p> + +<p>O grande pajé levantou o tampo do camucim, e +descobriu uma abertura, bastante para caber o punho +do mais robusto guerreiro.</p> + +<p>Jurandir meteu a mão no vazo. O semblante +sempre grave do guerreiro cobriu-se de um sorrizo +doce como a luz da alvorada; e seus olhos, +mais contentes que dois saís, pouzaram no rosto +de Arací.</p> + +<p>O camucim da constancia continha um formigueiro +de saúvas, que o pajé havia fechado ali na +ultima lua.</p> + +<p>Açuladas pela fome de tantos dias, as formigas +vorazes se prepararam para dilacerar a primeira +vitima que lhes caísse nas garras.</p> + +<p>A dentada da saúva, que anda solta no campo, +dóe como uma braza; quando são muitas e com +fome, queimam como a fogueira.</p> + +<p>Todas as vistas se fitaram no semblante do guerreiro, +para espreitar-lhe o minimo gesto de sofrimento.</p> + +<p>Mas Jurandir sorria; e seus labios ternos soltaram +o canto do amor. De propozito o guerreiro +adoçou a voz, para não parecer que disfarçava o +gemido com o rumor do grito guerreiro.</p> + +<p>Assim cantou elle:</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_69" id="Page_69">[69]</a></span></p> + +<p>«A dôr é que fortalece o varão, assim como o +fogo é que enrija o tronco da crauba, da qual o +guerreiro fabríca o arco e o tacape.</p> + +<p>«A jussara tem setas agudas: mas Arací, quando +atravessa a floresta, colhe o côco de mel, embora +a palmeira lhe espinhe a mão.</p> + +<p>«O ferrão da saúva dóe mais do que o espinho +da jussara; mas Jurandir acha o mel dos +labios de Arací mais doce do que o côco da palmeira.</p> + +<p>«Quando Jurandir era joven caçador, gostava de +tirar a cotia da toca, embora o seu dente agudo +lhe sarjasse a carne.</p> + +<p>«O ferrão da saúva não dóe como o dente afiado; +e Jurandir sabe que o pelo dourado da cotia, não +é tão macio como o colo de Arací.</p> + +<p>«Jurandir despreza a dôr. Seus olhos estão +bebendo o sorrizo da virjem, mais suave que o +leite do sapotí. Sua mão está sentindo o roçar dos +cabelos da virjem formoza.»</p> + +<p>Os anciãos deram sinal para concluir a prova da +constancia; mas o guerreiro continuou seu canto +de amor.</p> + +<p>«A cumarí arde no labio do guerreiro; mas +torna mais gostoza a carne do veado assada no +moquem.</p> + +<p>«O cauim queima a boca do guerreiro; mas +derrama a alegria dentro da alma.</p> + +<p>«A saúva arde como a cumarí e queima como o +cauim; porém torna os beijos de Arací mais saborozos: +e o amor de Jurandir espuma como o vinho +generozo.</p> + +<p>«Arací ha de sorrir de felicidade, quando o filho +de seu guerreiro lhe rasgar o seio.</p> + +<p>«Jurandir não tem corpo para sofrer, quando o +sorrizo de Arací lhe enche a alma de amor.»</p> + +<p>Foi precizo quebrar o camucim para que o guer<span class="pagenum"><a name="Page_70" id="Page_70">[70]</a></span>reiro +podesse retirar a mão, de inflamada que +ficára.</p> + +<p>O grande pajé esfregou na pele vermelha, o +suco de uma herva delle conhecida; e logo dezapareceu +a inchação.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Faltava a ultima prova, chamada a prova da +virjem.</p> + +<p>As outras serviam para conhecer o valor, a destreza +e robustez do guerreiro, assim como a força +de seu amor.</p> + +<p>Nesta era que a virjem podia mostrar seu agrado +pelo vencedor ou livrar-se de um espozo, que não +soubera ganhar-lhe o afeto.</p> + +<p>Os cantores disseram:</p> + +<p>«Tupan deu azas á nambú para que ella escape +ás garras do carcará.</p> + +<p>«Tupan deu lijeireza á virjem, para que ella fuja +do guerreiro que não quer por espozo.</p> + +<p>«Mas a nambú, quando ouve o canto do companheiro, +espera que elle chegue para fabricar seu +ninho.</p> + +<p>«A virjem, quando a segue o guerreiro que ella +prefere, pensa na cabana do espozo, e corre de +vagar para chegar depressa.»</p> + +<p>Arací deixou a mãi, e avançou até o meio do +campo.</p> + +<p>O grande pajé colocou Jurandir na distancia de +uma mussurana, que cinje dez vezes a cintura do +guerreiro.</p> + +<p>Estrela do dia lançou para as espaduas as<span class="pagenum"><a name="Page_71" id="Page_71">[71]</a></span> +longas tranças negras que voaram ao sopro da +briza.</p> + +<p>Arqueou os braços mimozos, vestidos com franjas +de penas, como as azas brilhantes do arirama; e +quando soou o sinal, desferiu a corrida.</p> + +<p>Jurandir seguiu-a. Elle conhecia a velocidade do +pé gentil de Arací, que zombava do salto do jaguar.</p> + +<p>Nem que podesse alcançal-a, o guerreiro o tentaria; +depois de vencedor, queria dever a espoza +ao amor della e não a seu esforço.</p> + +<p>Disputaria Arací não só a todos os guerreiros +das nações, como a todas as nações das florestas; +só á vontade da propria virjem não a disputaria, +pois a queria rendida, e não vencida.</p> + +<p>Mas sua gloria mandava que elle, o chefe de uma +grande nação, se mostrasse digno da formoza +virjem, que o aceitasse por espozo.</p> + +<p>Arací voava pela campina. Ás vezes trançava a +corrida como o colibri que adeja de flôr em flôr, +outras vezes fujia mais rapida do que a seta emplumada +de seu arco.</p> + +<p>Quando mostrou a todos que Jurandir não a +alcançaria nunca, se ella quizesse fujir-lhe, reclinou +a cabeça para esconder o rubor.</p> + +<p>Jurandir abriu os braços e recebeu a espoza que +se entregava a seu amor.</p> + +<p>O guerreiro suspendeu a virjem formoza ao colo; +e levou-a á cabana do amor que elle construira á +marjem do rio.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="Page_72" id="Page_72">[72]</a></span></p><hr class="tb" /> + +<p>As ramas de jasmineiro e do craviri vestiam a +cabana, e matizavam o chão de flôres.</p> + +<p>Arací foi buscar a rêde nupcial, que ella tecera +de penas de tucano e arara; e Jurandir conduziu os +utensilios da cabana.</p> + +<p>Então o estranjeiro sentou-se com a virjem no +terreiro, e antes de passar a soleira da porta, revelou +a Arací quem era o guerreiro que ella aceitára +por espozo.</p> + +<p>—Arací pertence ao grande chefe da nação araguaia. +Ella teve a gloria de vencer ao maior guerreiro +das florestas. Ella será mãi dos filhos de +Ubirajara; e terá por servas as virjens mais belas, +filhas dos chefes poderozos.</p> + +<p>«A palmeira é formoza quando se cobre de flôres +e o vento ajita as suas folhas verdes, que +murmuram; mais formoza, porém, é quando as +flôres se mudam em frutos, e ella se enfeita com +seus cachos vermelhos.</p> + +<p>«Arací tambem ficará mais formoza quando de +seu sorrizo saírem os frutos do amor, e quando o +leite encher seus peitos mimozos, para que ella +suspenda ao colo os filhos de Ubirajara.»</p> + +<p>Arací ouviu as palavras do guerreiro, palpitante +como a corça; e ornou a fronte do espozo com o +cocar de plumas vermelhas, que tecera em segredo.</p> + +<p>Depois, sentindo os olhos de Ubirajara que +bebiam a sua formozura, ella vestiu o aimará mais +alvo do que a pena da garça.</p> + +<p>A tunica de algodão entretecida de penas de +beija-flôr dece das espaduas até á curva da perna, +cinjida pela liga da virjindade.</p> + +<p>Quando Arací passava entre os guerreiros que +admiravam sua beleza, ella não córava, porque sua +castidade a vestia, como a flôr á sapucaia.</p> + +<p>Mas agora em prezença do guerreiro a quem<span class="pagenum"><a name="Page_73" id="Page_73">[73]</a></span> +ama e para quem guardou a sua virjindade, tem +pejo, e esconde sua formozura ás vistas de Ubirajara.</p> + +<p>—Os olhos do espozo são como o sol, disse +o guerreiro: elles queimam a flôr do corpo de +Arací.</p> + +<p>—Arací tem medo que os olhos do espozo não +a achem digna de seu amor; e vestiu seus enfeites.</p> + +<p>«Arací queria ser como a jurití, e ter no corpo +uma penugem macia, que só a deixasse ver em sua +formozura.</p> + +<p>«Foi por isso que tua espoza se cobriu com o +seu aimará. Os olhos de Ubirajara não lhe queimarão +mais a flôr de seu corpo.</p> + +<p>O guerreiro respondeu:</p> + +<p>—A flôr do igapê é mais formoza quando abre +e se tinje de vermelho aos beijos do sol, do que +fechada em botão e coberta de folhas verdes.</p> + +<p>Ubirajara tomou nos braços a espoza, e pôz o +pé na soleira da porta.</p> + +<p>Nesse momento soou um clamor; chegaram os +guerreiros que vinham chamar o vencedor á prezença +de Itaquê.</p> + +<p>O carbeto dos anciãos tinha decidido que o vencedor +antes de receber a espoza, devia declarar +quem era; pois fôra recebido como estranjeiro, e +ninguem na taba o conhecia.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_74" id="Page_74">[74]</a></span></p> + + + + +<hr class="chap" /> +<h2><a name="VII" id="VII"></a>VII<br /> +<br /> +A GUERRA</h2> + + +<p>Itaquê esperava sentado na cabana, e cercado +do carbeto dos anciãos.</p> + +<p>Jurandir entrou; Arací ficou na porta, orgulhoza +do espozo que a conquistára e da admiração que +elle ia inspirar aos guerreiros da sua nação.</p> + +<p>Itaquê falou:</p> + +<p>—Quando o estranjeiro chegou á cabana de +Itaquê, ninguem lhe perguntou quem era e donde +vinha. O hospede é senhor.</p> + +<p>«Mas agora o estranjeiro saiu vencedor do combate +do cazamento e conquistou uma espoza na +taba dos tocantins.</p> + +<p>«É precizo que elle se faça conhecer; porque a +filha de Itaquê, o pai da nação dos tocantins, +jámais entrará como espoza na taba onde habite +quem tenha ofendido a um só de seus guerreiros.»</p> + +<p>O estranjeiro disse:</p> + +<p>—Morubixaba, abarés, moacaras e guerreiros da +valente nação tocantim, vós tendes prezente o +chefe dos chefes da grande nação araguaia.</p> + +<p>«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança; e o maior +guerreiro depois do grande Camacan, cujo sangue +me gerou. Se quereis saber porque tomei este +nome, ouvi a minha maranduba de guerra.»</p> + +<p>Ubirajara contou o seu encontro com Pojucan; +o combate em que o venceu, e a festa do triunfo,<span class="pagenum"><a name="Page_75" id="Page_75">[75]</a></span> +até o momento em que deixou a taba dos araguaias.</p> + +<p>Terminou dizendo que no seguinte sol partiria, +para assistir ao combate da morte, como prometera +ao prizioneiro.</p> + +<p>Ninguem interrompeu a maranduba de guerra. +Ubirajara ouviu um gemido; mas não soube que +rompera do seio de Arací.</p> + +<p>Itaquê arquejou como o rio ao pezo da borrasca.</p> + +<p>—Tu és Ubirajara, senhor da lança. Eu sou +Itaquê, pai de Pojucan. Tenho em face o matador +de meu filho; mas elle é meu hospede!</p> + +<p>«Chefe dos araguaias, tu és um joven guerreiro; +pergunta a Camacan que te gerou, qual deve +ser a dôr do pai, que não póde vingar a morte do +filho.»</p> + +<p>O grande chefe vergou a cabeça ao peito, como +o cedro altaneiro batido pelo tufão.</p> + +<p>Pojucan tinha sua taba mais lonje, na outra +marjem do rio. Elle partira na ultima lua para rastejar +a marcha dos tapuias; e voltava senhor do +caminho da guerra quando encontrou Ubirajara.</p> + +<p>Seu pai e os guerreiros de sua taba pensavam +que elle buscava na floresta o caminho da guerra. +Mal sabiam que a essa hora esperava prizioneiro +na taba dos araguaias o combate da morte.</p> + +<p>Anciãos e guerreiros emudeceram. Todos respeitavam +a dôr do pai, e não ouzavam perturbal-a.</p> + +<p>Jacamim, a mãi de Pojucan, aproximára-se. O +grande chefe ouviu seu gemido.</p> + +<p>—A espoza de Itaquê não chora na prezença do +matador de seu filho.</p> + +<p>Á voz do espozo, a mãi teve força para esconder +no seio sua tristeza, e mostrar-se digna do +grande chefe dos tocantins.</p> + +<p>Ubirajara falou:</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_76" id="Page_76">[76]</a></span></p> + +<p>—A vingança é a gloria do guerreiro; Tupan a +deu aos valentes. Ubirajara venceu Pojucan em +combate leal, e aceita o dezafio de Itaquê e de +todos os chefes tocantins.</p> + +<p>—Tu és meu hospede; emquanto Itaquê brandir +o grande arco da nação tocantim, ninguem ofenderá +o amigo de Tupan na taba de seus guerreiros.</p> + +<p>Dizendo assim, o grande chefe ergueu-se e trocou +com o estranjeiro a fumaça da despedida.</p> + +<p>—Parte. O sol que viu o estranjeiro na cabana +hospedeira o acompanhará amigo; mas com a sombra +da noite, mil guerreiros, mais velozes que o +nandú, partirão para levar-te a morte.</p> + +<p>Ubirajara tomou suas armas e disse:</p> + +<p>—O hospede vai deixar tua cabana, chefe dos +tocantins; tu verás chegar o guerreiro inimigo.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Itaquê seguiu o estranjeiro até o terreiro; em +torno delle se reuniram os abarés, os moacaras e +os guerreiros para assistirem á partida.</p> + +<p>Ubirajara caminhou com o passo lento e grave +até o fim da taba.</p> + +<p>Chegado ali, tornou rapido á entrada da cabana, +e retrocedeu apagando no chão o vestijio de seus +passos.</p> + +<p>A nação tocantim o observava imovel.</p> + +<p>Por fim o estranjeiro postou-se no centro da +ocara e com o formidavel tacape vibrou no largo +escudo um golpe que repercutiu pela taba como o +estrondo da montanha.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_77" id="Page_77">[77]</a></span></p> + +<p>—O hospede passou o lumiar da cabana que o +tinha acolhido, e apagou seu rasto na taba dos +tocantins.</p> + +<p>«Quem está aqui é um guerreiro armado, que +piza senhor a taba de seus inimigos.</p> + +<p>«Itaquê, morubixaba dos tocantins, Ubirajara, o +senhor da lança, grande chefe dos araguaias, te +envia a guerra na ponta de sua seta.»</p> + +<p>Quando o guerreiro acabou de proferir estas +palavras, Itaquê levantou os olhos e viu cravada na +figura do tucano, que era o simbolo da nação, a +seta de Ubirajara.</p> + +<p>Mil arcos se ergueram, mil tacapes brandiram. A +voz possante de Itaquê abateu as armas de seus +guerreiros.</p> + +<p>Disse o morubixaba:</p> + +<p>—A lei de hospitalidade é sagrada. A cólera do +estranjeiro não deve perturbar a serenidade do +varão tocantim.</p> + +<p>Depois voltou-se para o inimigo:</p> + +<p>—Ubirajara, grande chefe dos araguaias: Itaquê, +o pai da poderoza nação tocantim aceita a guerra +que tu lhe enviaste. Recebe em teu escudo o penhor +do combate.</p> + +<p>A corda do grande arco da nação tocantim brandiu, +e a seta de Itaquê mordeu o escudo de Ubirajara.</p> + +<p>—Vai buscar teus guerreiros e nós combateremos +á frente das nações.</p> + +<p>—Ubirajara combaterá até que lhe restituas a +espoza; assim como elle a conquistou a seus rivais, +saberá conquistal-a a ti e á tua nação.</p> + +<p>O chefe araguaia partiu. No seio da floresta +encontrou Arací que o esperava.</p> + +<p>A formoza virjem fôra á cabana do cazamento +buscar a rêde nupcial e preparar-se para acompanhar +o espozo.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_78" id="Page_78">[78]</a></span></p> + +<p>—Ubirajara parte; mas antes de cinco sóes elle +estará aqui para te conquistar á tua nação.</p> + +<p>—A espoza te acompanha. Teu braço valente +já a conquistou; e ella entregou-se a seu senhor. +Arací te pertence; deves leval-a.</p> + +<p>A virjem tocantim dezejava seguir Ubirajara á +taba dos araguaias. Falava em sua alma a ternura +da espoza e da irmã.</p> + +<p>Partindo, ella unia-se para sempre a seu guerreiro, +e esperava que o amor o moveria a salvar +Pojucan.</p> + +<p>Ubirajara pensou e disse:</p> + +<p>—Se Ubirajara tivesse rompido a liga de Arací, +ella era sua espoza, e ninguem a arrebataria de seus +braços. Mas a virjem tocantim não póde abandonar +a cabana onde naceu sem a vontade de seu pai.</p> + +<p>Arací suspirou:</p> + +<p>—Ubirajara vai deixar a lembrança de Arací +nos campos dos tocantins. Jandira o espera na +taba dos araguaias, e lhe guarda o seu sorrizo de +mel.</p> + +<p>—A luz de teus olhos, Arací, estrela do dia, foi +buscar Ubirajara na taba dos seus, onde resoavam +os cantos de seu triunfo, e o trouxe á tua cabana.</p> + +<p>«Quando elle partiu encontrou Jandira, e para +que a filha de Majé não o acompanhasse a deu a +Pojucan, como espoza do tumulo.»</p> + +<p>—O goaná do lago vôa lonje, para banhar-se +nas aguas da chuva que alagaram a varzea; mas +logo volta ao seu ninho, e não se lembra mais da +moita onde dormiu.</p> + +<p>—Ubirajara é um guerreiro; elle não aprende +com o goaná do lago, que foje do perigo, mas com +o gavião, grande chefe dos guerreiros do ar, que +nunca mais abandona o rochedo onde assentou a +sua oca.</p> + +<p>—Se Ubirajara amasse a espoza, tambem não a<span class="pagenum"><a name="Page_79" id="Page_79">[79]</a></span> +abandonaria. Os braços de Arací já cinjiram o colo +de seu guerreiro. O tronco não desprende de si a +baunilha que se entrelaçou em seus galhos.</p> + +<p>Ubirajara calcou a mão sobre a cabeça de Arací:</p> + +<p>—Itaquê respeitou a lei de hospitalidade no +corpo de Ubirajara, Ubirajara não deixará a traição +na terra hospedeira.</p> + +<p>«Arací não deve querer para espozo um guerreiro +menos generozo do que seu pai.»</p> + +<p>A virjem emudeceu. Ella sabia que a honra é a +primeira lei do guerreiro.</p> + +<p>Antes de partir, o chefe consolou a espoza:</p> + +<p>—Ubirajara vai pedir ao gavião suas azas para +voltar ao seio de Arací. Elle virá á frente de sua +nação, conduzido pela luz de teus olhos.</p> + +<p>«As outras mulheres são o premio de um combate +entre os servos de seu amor. Arací terá essa +gloria, que ella será o premio da maior guerra que +já viram as florestas.»</p> + +<p>O chefe araguaia pôz as mãos nos hombros de +Arací; duas vezes uniu o seu ao rosto della, por +uma e outra face, para exprimir que nada os podia +separar.</p> + +<p>Quando o guerreiro dezapareceu na floresta, +Arací caminhou para a cabana do espozo, que ficára +triste e solitaria.</p> + +<p>A virjem fechou a porta; sentou-se na soleira, e +cantou sua tristeza.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_80" id="Page_80">[80]</a></span></p> + +<p>Dois sóes tinham passado, e viera a noite.</p> + +<p>A ultima estrela se apagava no céu, quando Ubirajara +pizou os campos dos araguaias.</p> + +<p>Sua mão robusta, vibrando a clava, feriu o trocano. +A voz da nação araguaia derramou-se ao +lonje pelo vale, como o estrondo da montanha que +arrebenta.</p> + +<p>Com o primeiro raio do sol que subia o pincaro +da serra, chegaram á grande taba os chefes das +cem tabas araguaias, com todos seus guerreiros, +convocados á ocara da nação.</p> + +<p>Ubirajara mandou que Pojucan, o prizioneiro, +viesse á sua prezença:</p> + +<p>—Vê o mar dos meus guerreiros que enche a +terra, como as aguas do grande rio quando alaga +a varzea. Elles esperam o aceno de Ubirajara para +inundarem teus campos.</p> + +<p>«A nação tocantim carece neste momento do +braço de seus maiores guerreiros; vai levar-lhe o +socorro de teu valor, para que se aumente a +gloria de Ubirajara, seu vencedor.</p> + +<p>«Tu és livre, Pojucan; parte e vôa, que a guerra +dos araguaias te segue os passos.»</p> + +<p>O semblante do filho de Itaquê ficou sombrio:</p> + +<p>—Pojucan é um chefe ilustre; não merece esta +dezhonra. Tu lhe prometeste a morte dos bravos. +Elle exije o combate.</p> + +<p>O chefe araguaia contou a maranduba da hospitalidade:</p> + +<p>—Ubirajara não sabia que Pojucan era filho de +Itaquê; pois elle nunca pizaria como hospede a +cabana de um guerreiro, a quem tivesse decepado +um filho. É precizo que recuperes a liberdade para +que não se diga que Ubirajara surpreendeu a hospitalidade +do grande chefe dos tocantins.</p> + +<p>Pojucan não respondeu. Elle reconhecera que a<span class="pagenum"><a name="Page_81" id="Page_81">[81]</a></span> +honra de seu vencedor exijia sua volta á taba dos +seus.</p> + +<p>—Parte. Nós combateremos á frente das nações. +Ubirajara pertence a Itaquê; mas depois +delle terás a gloria de ser vencido outra vez por +este braço.</p> + +<p>—Ubirajara é um grande chefe e maior guerreiro. +Se Tupan não consente que Pojucan seja +vencedor, elle não quer maior gloria do que a de +morrer combatendo Ubirajara.</p> + +<p>Pojucan foi á cabana de seu vencedor buscar as +armas. Ubirajara arrimou-se ao tacape, como o +rochedo que se apoia ao tronco do ipê, e meditou.</p> + +<p>Quando passou o chefe tocantim que voltava á +sua taba, Ubirajara levantou a cabeça e disse:</p> + +<p>—Os olhos de Ubirajara te acompanham; tu és +irmão de Arací, e vais para junto della. Dize á +estrela do dia, que seu espozo está com ella.</p> + +<p>O conselho dos abarés se reunira para meditar +sobre a guerra. O velho Majé, a quem irritava o +dezaparecimento da filha, reparou que sem o voto +do carbeto se convocasse a nação.</p> + +<p>Veiu um mensajeiro chamar o grande chefe para +o carbeto. Ubirajara chegou. Antes que falasse a +voz dos anciãos, o guerreiro levantou o arco e +disse:</p> + +<p>—O conselho dos anciãos governa a taba, e +medita nella coizas da paz. Toda a nação respeita +sua prudencia e sabedoria.</p> + +<p>«Mas emquanto Ubirajara brandir o grande arco +dos araguaias, tem a guerra fechada em sua mão.</p> + +<p>«Quando elle soltar o grito de combate, a voz +que falar da paz emudecerá para sempre, ainda +que venha da cabeça do abaré que a lua já embranqueceu.</p> + +<p>«Quem não quizer assim, venha arrancar da mão<span class="pagenum"><a name="Page_82" id="Page_82">[82]</a></span> +de Ubirajara este arco que elle conquistou por seu +valor.»</p> + +<p>Os abarés estremeceram. Mas o carbeto meditou, +e decidiu que a maior gloria e sabedoria da nação +era ter o seu grande arco de guerra na mão de um +chefe como Ubirajara.</p> + +<p>Camacan tratou com os anciãos ácerca da defeza +das tabas; e o grande chefe abriu o caminho da +guerra.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Quando Ubirajara desdobrou sua guerra pela marjem +do grande rio, elle viu que uma nação tapuia +se preparava para assaltar a taba dos tocantins.</p> + +<p>O grande chefe tocou a inubia, cuja voz chamava +o joven Murinhem, primeiro dos cantores +araguaias.</p> + +<p>Correu o nhengaçára á prezença do grande +chefe, e delle recebeu a mensajem que devia levar +ao campo inimigo.</p> + +<p>Os cantores eram respeitados por todas as nações +das florestas, como os filhos da alegria; pelo +que serviam de mensajeiros entre as nações em +guerra.</p> + +<p>Elles penetravam no campo inimigo, entoando o +seu canto de paz; e nenhum guerreiro ouzava ofender +aquelle a quem Tupan concedera a fonte da +alegria.</p> + +<p>Murinhem atravessou rapido a campina e aprezentou-se +em frente de Canicran, chefe dos tapuias.</p> + +<p>—Ubirajara, o senhor da lança, que empunha o +arco da poderoza nação araguaia, te manda, a ti<span class="pagenum"><a name="Page_83" id="Page_83">[83]</a></span> +quem quer que sejas, e a todos quantos te obedecem, +a sua vontade.</p> + +<p>O tapuia rujiu; mas seus olhos viam o mar dos +guerreiros araguaias que o cercava, e na frente o +grande vulto de Ubirajara, semelhante ao rochedo +sombrio e imovel no meio dos borbotões da cachoeira.</p> + +<p>Os guerreiros de Canicran só conhecem a vontade +do seu chefe; e Canicran afronta a cólera de +Tupan e das nações que elle gerou. Dize, mensajeiro, +o que pede Ubirajara, ao grande chefe dos +tapuias.</p> + +<p>—Ubirajara te manda que encostes o tacape da +guerra. A nação tocantim aceitou a sua flecha de +dezafio, e elle não consente que ninguem combata +seu inimigo, antes de o ter vencido.</p> + +<p>—Torna e dize ao grande chefe araguaia, que +Canicran veiu trazido pela vingança. Pojucan, um +dos chefes tocantins penetrou em sua taba e incendiou +a cabana do pajé, que foi devorado pelas +chamas.</p> + +<p>«Ubirajara é um grande chefe araguaia; elle que +diga se o pai da nação póde sofrer tão dura afronta. +Canicran escuta a voz de sua amizade.»</p> + +<p>O chefe tapuia tomou uma de suas flechas; +arrancou o farpão e deu ao mensajeiro a haste +emplumada com azas negras do anun, que era o +emblema guerreiro de sua nação.</p> + +<p>—Toma; entrega ao grande chefe araguaia o +penhor da aliança.</p> + +<p>Murinhem partiu e foi á taba dos tocantins levar +igual mensajem. Itaquê escutou o que lhe mandava +Ubirajara e respondeu:</p> + +<p>—Antes que Itaquê trocasse com Ubirajara a +seta do dezafio, Pojucan tinha levado a guerra á +taba dos tapuias.</p> + +<p>«Canicran veiu trazido pela vingança; e a nação<span class="pagenum"><a name="Page_84" id="Page_84">[84]</a></span> +tocantim não póde recuzar o combate. Mas Itaquê +sabe honrar seu nome; se Ubirajara quer, elle combaterá +juntamente os dois inimigos.»</p> + +<p>O mensajeiro tornou ao campo dos araguaias com +as respostas dos dois chefes. Ubirajara ouviu e +meditou.</p> + +<p>—Escuta a vontade de Ubirajara para leval-a +aos inimigos. O grande chefe araguaia não roubará +a Canicran a gloria da vingança; elle respeita a +honra da nação tapuia, mas rejeita sua aliança. +Restitue o penhor que recebeste.</p> + +<p>«Itaquê póde aceitar o combate que Pojucan foi +buscar; Ubirajara não ofende o nome de um guerreiro, +ainda mais de um morubixaba, e do pai de +Arací.</p> + +<p>«O chefe dos araguaias não carece de auxilio +para triunfar de seus inimigos: dezeja que a nação +tocantim derrote aos tapuias, para ter elle a gloria +de vencer ao vencedor.</p> + +<p>«Se Itaquê não póde repelir os tapuias, Ubirajara +toma a si castigar os barbaros; e depois de varrel-os +das florestas, combaterão as duas nações.</p> + +<p>«Se os tocantins necessitam de aliados para +rezistir ao ímpeto dos araguaias, Ubirajara espera +que Itaquê os chame e que elles venham.</p> + +<p>«Murinhem falará assim a um e outro chefe; a +ambos dirá que a cabana onde estiver Arací fica +sob a guarda de Ubirajara; quem nella penetrar +como inimigo, sofrerá a morte vil do cobarde.»</p> + +<p>O guerreiro deixou a voz do chefe e falou com +a voz de espozo:</p> + +<p>—A Arací levarás o canto de amor de Ubirajara. +Tu lhe dirás que arme a rêde nupcial, e não deixe +nossa cabana, emquanto Ubirajara não a fôr buscar.</p> + +<p>«Conta-lhe tambem que o canitar que ella teceu, +ainda não deixou a cabeça de seu guerreiro e ha +de acompanhal-o sempre.»</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_85" id="Page_85">[85]</a></span></p> + + + + +<hr class="chap" /> +<h2><a name="VIII" id="VIII"></a>VIII<br /> +<br /> +A BATALHA</h2> + + +<p>A um lado da imensa campina move-se a multidão +dos guerreiros tocantins, do outro lado a multidão +dos guerreiros tapuias.</p> + +<p>As duas nações se estendem como dois lagos +formados pelas grandes chuvas, que se transformam +em rios e atravessam o vale.</p> + +<p>De um e outro campo levantou-se a pocema +guerreira; e os dois povos arremetendo travaram +a batalha.</p> + +<p>Itaquê achou-se em frente de Canicran. Ambos +se buscavam; dez vezes tinham combatido; vencedores +ambos, nenhum fôra vencido.</p> + +<p>Emquanto viverem os formidaveis guerreiros, não +é possivel quebrar a flecha da paz entre as duas +nações.</p> + +<p>Era precizo que um delles morresse, para que o +vencedor encostasse o tacape do combate, e désse +repouzo á sua nação para reparar os estragos da +guerra.</p> + +<p>Quando os dois chefes se encontraram, os guerreiros +de um e outro campo ficaram imoveis, contemplando +o pavorozo combate.</p> + +<p>Ubirajara, de lonje, apoiado em seu grande arco, +admirava os dois guerreiros, e pensava qual não +seria o seu orgulho em vencel-os a ambos.</p> + +<p>Durára a peleja o espaço de uma sombra. Em<span class="pagenum"><a name="Page_86" id="Page_86">[86]</a></span> +torno dos chefes lastravam o chão os tacapes e +escudos que se tinham espedaçado aos golpes de +cada um.</p> + +<p>Imoveis no mesmo logar, só ajitavam a cabeça +e os braços, semelhantes a dois condores que, de +garras prezas aos pincaros do rochedo, se dilaceram +com o bico adunco.</p> + +<p>Um rujido espantoso atroou pela campina, que +estremeceu a batalha e rolou pelas profundezas da +floresta.</p> + +<p>Paan, a seta, era o ultimo filho de Canicran. +Ainda corumim, pelejava ao lado do irmão, o guerreiro +Creban, cujo hombro mal alcançava com o +braço.</p> + +<p>Elle tinha nos olhos a vista da gaivota, e nas +setas de seu arco, feitas de espinhos de ouriço, a +velocidade e a certeza do vôo do guanumbí.</p> + +<p>Quando caçava na floresta, divertia-se em matar +as motuças traspassando-as com suas flechas, que +voavam mais rapidas e certeiras que as vespas +venenozas.</p> + +<p>Paan saltára sobre os hombros do guerreiro +Creban para assistir ao combate. Admirando o +valor de Canicran, teve orgulho e inveja do pai.</p> + +<p>Itaquê desfechára tão formidavel golpe, que o +tacape e escudo de Canicran se espedaçaram em +suas mãos, deixando-o á mercê do inimigo.</p> + +<p>O chefe tocantim arrojou-se, e já sua mão decia +sobre a espadua do tapuia para fazel-o prizioneiro.</p> + +<p>O arco de Paan sibilou duas vezes. Os olhos de +Itaquê, os olhos do varão forte que nunca humedecera +uma lagrima, choraram sangue.</p> + +<p>As setas do corumim tinham vazado as pupilas +do fero guerreiro cuja vista era raio. Assim a jandaia +rôe o grelo do procero coqueiro.</p> + +<p>Foi então que Itaquê soltou o rujido pavorozo +que fez tremer a terra. Mas o grito de espanto<span class="pagenum"><a name="Page_87" id="Page_87">[87]</a></span> +sossobrou no peito dos guerreiros, e rompeu em +um grito de horror.</p> + +<p>Itaquê estendera os braços, hirtos como duas +garras de condor.</p> + +<p>A mão direita abarcou o penacho e a cabeleira +de Canicran, a esquerda entrou pela boca do tapuia +e travou-lhe o queixo.</p> + +<p>Separaram-se os braços do guerreiro cégo, e a +cabeça de Canicran abriu-se como um côco que se +fende pelo meio.</p> + +<p>Ajitando no ar o craneo sangrento como um +maracá de guerra, Itaquê arrojou-se contra os inimigos, +buscando a morte que lhe fujia.</p> + +<p>Quando o sol entrou, não havia na campina a +sombra de um tapuia.</p> + +<p>O velho heróe voltou á cabana conduzido por +Pojucan:</p> + +<p>—Tupan viu que Itaquê não podia ser vencido +pela mão dos homens, e quiz vencel-o elle mesmo +pela mão de um menino.</p> + +<p>Quando Ubirajara viu o exito do combate, lamentou +que dos dois grandes guerreiros não restasse +nenhum, para que elle o vencesse.</p> + +<p>Seus olhos descobriram Paan que fujia no meio +dos destroços de sua nação. Ergueu a mão, mas +não chegou a retezar a seta.</p> + +<p>A aguia não persegue a andorinha. Era indigno +de um guerreiro, quanto mais de um chefe, empregar +seu valor contra um menino.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_88" id="Page_88">[88]</a></span></p> + +<p>O chefe chamou á sua prezença Tubim, um dos +jovens caçadores que tinham acompanhado a guerra +para prover o alimento.</p> + +<p>—Tubim tem as azas da abelha; se elle alcançar +o corumim tapuia que eu estou olhando, Ubirajara +lhe dará o nome de Abeguar.</p> + +<p>O joven caçador seguiu o olhar do chefe, e +sumiu-se num turbilhão de poeira. Quando os vagalumes +começaram a luzir no escuro da mata, elle +estava de volta no campo dos araguaias e trazia o +corumim fechado nos braços.</p> + +<p>Nessa mesma noite Tubim recebeu o nome de +Abeguar, senhor do vôo, em honra da façanha que +tinha realizado.</p> + +<p>Os cantores entoaram seu louvor; e o joven +caçador teve a gloria de receber os aplauzos dos +moacaras de sua nação, e de um chefe como Ubirajara.</p> + +<p>Ao raiar da manhã, Murinhem foi á taba dos +tocantins, acompanhado por vinte guerreiros que +conduziam o corumim.</p> + +<p>Quando chegou em frente á cabana do grande +chefe, o cantor viu Itaquê no terreiro sentado em +uma sapopema.</p> + +<p>O guerreiro fitava os olhos no céu, onde o calor +lhe dizia que estava o sol. Mas não encontrava a +luz que para sempre o abandonára.</p> + +<p>Então o velho guerreiro abaixava os olhos para +terra, como se buscasse o logar do repouzo.</p> + +<p>Quando soaram lonje os passos dos estranjeiros, +o chefe alongou a fronte para ver pelo ouvido o +que os olhos lhe recuzavam.</p> + +<p>Murinhem chegou e disse:</p> + +<p>—Ubirajara envia a Itaquê o resto da vingança. +Este é Paan, o filho de Canicran. Elle te roubou a +vista; mas não salvou o pai de tua mão terrivel. +Faze do corumim tapuia um mancebo tocantim; e<span class="pagenum"><a name="Page_89" id="Page_89">[89]</a></span> +elle será a luz de teus olhos e caminhará na frente +do grande chefe para abrir-lhe o caminho da guerra.</p> + +<p>Paan avançou:</p> + +<p>—O filho de Canicran jámais será escravo; +naceu tapuia e tapuia morrerá, como o grande +chefe que o gerou. Emquanto o ouriço viver nas +florestas, elle roubará seus espinhos para furar os +olhos dos tucanos.</p> + +<p>Itaquê pouzou a palma da mão na cabeça do +menino:</p> + +<p>—O corumim que ama seu pai é filho de Itaquê. +Tu és livre, Paan; vai caçar o ouriço. Quando +fôres um guerreiro, acharás cem mancebos do sangue +de Itaquê para castigarem tua audacia.</p> + +<p>O chefe voltou-se para o cantor:</p> + +<p>—Tupan tirou a luz dos olhos de Itaquê; mas +aumentou a força de seu braço. Ubirajara terá para +combatel-o um inimigo digno de seu valor.</p> + +<p>Murinhem tornou ao chefe araguaia com esta +resposta.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Quando partia o cantor, chegaram á cabana de +Itaquê os abarés da nação tocantim.</p> + +<p>Os anciãos sentaram-se em torno do guerreiro +cégo; e bebendo a fumaça da sabedoria, formaram +o carbeto.</p> + +<p>Falou Guaribú:</p> + +<p>—O grande arco da nação carece de uma mão +robusta para brandir sua corda, e de um olho seguro +para dirijir sua seta. Itaquê é o maior guerreiro +das florestas; seu nome faz tremer aos mais<span class="pagenum"><a name="Page_90" id="Page_90">[90]</a></span> +valentes dos inimigos; seu braço fere como o raio. +Mas a luz fujiu de seus olhos e elle não póde mais +abrir o caminho da guerra.</p> + +<p>O velho chefe ergueu-se com o passo trôpego. +Alcançando o grande arco dos tocantins abraçou-se +com elle e falou-lhe.</p> + +<p>—Quando Itaquê te recebeu da mão do grande +Javarí elle pensava que só a morte o separaria de +ti, para transmitir-te a um guerreiro de seu sangue. +Mas Itaquê ficou na terra, como um tronco levado +pela corrente, que não sabe onde vai.</p> + +<p>Um esguicho de sangue saltou dos buracos, onde +o velho tivera os olhos. Era a lagrima que a desgraça +lhe deixára.</p> + +<p>Os abarés meditaram. Guaribú falou de novo:</p> + +<p>—O grande arco da nação que tu recebeste do +grande Javarí, teu pai, não te abandonará. Elle fica +em tua mão invencivel; haverá outro arco na mão +do mais valente guerreiro, que abrirá o caminho da +guerra. Mas emquanto Itaquê viver, sua voz governará +a nação que elle defendeu com seu braço.</p> + +<p>O semblante do velho chefe cobriu-se de um +sorrizo como o negro rochedo sobre o qual desliza +um raio do luar.</p> + +<p>—Pais da sabedoria, abarés, olhai aquelle jatobá +que se levanta no meio da campina, e que eu só +posso ver agora na sombra de minha alma.</p> + +<p>«Elle tem muitas raizes que o sustentam nos +ares; tem muitos galhos que o cercam e estendem +ao lonje a sua rama. Mas o tronco é um só.</p> + +<p>«As grossas raizes são os abarés que sustentam +o chefe com o seu conselho. Os galhos fortes são +os moacaras que cercam o chefe e geram a multidão +de guerreiros mais numeroza que as folhas das +arvores. O tronco é o chefe da nação; se elle se +dividir, o jatobá não subirá ás nuvens nem terá +forças para rezistir ao tufão.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_91" id="Page_91">[91]</a></span></p> + +<p>«O logar de Itaquê é no conselho. O ultimo +dente de seu colar de guerra foi o que elle arrancou +da boca de Canicran. Convocai os guerreiros, e o +que fôr mais forte e mais valente empunhe o grande +arco da nação.</p> + +<p>O trocano chamou a nação ao carbeto. Vieram +os moacaras, conduzindo suas tribus.</p> + +<p>O velho Itaquê contava pelos passos os guerreiros +que chegavam. O grande arco da nação, que +elle segurava direito, parecia um dos esteios da +cabana, e tinha a corda tão grossa como a da rêde +do chefe.</p> + +<p>Os mais famozos guerreiros tocantins se aprezentaram +para disputar o grande arco; muitos conseguiram +vergal-o; mas a seta não partiu.</p> + +<p>Itaquê escutava com o ouvido atento: o som +delle conhecido não feriu os ares.</p> + +<p>—Onde está Pojucan? perguntou o velho chefe.</p> + +<p>O valente guerreiro do sangue de Itaquê estava +de parte, grave e taciturno. Algum motivo o separava +do arco chefe, que elle devia ser o primeiro a +disputar.</p> + +<p>—Teu filho te escuta, respondeu.</p> + +<p>—Empunha o arco chefe; se ha um guerreiro +tocantim que possa conquistal-o esse deve ser do +sangue de Itaquê.</p> + +<p>Pojucan recebeu o arco. Fincando nelle os pés, +o guerreiro arrojou-se para traz como a giboia +quando se enrista para armar o bote.</p> + +<p>A seta partiu, e foi cravar a cabeça de um chefe +tapuia, fincada na estaca, á entrada da taba.</p> + +<p>Itaquê curvára a cabeça. Elle ouviu brandir a +arma; não era, porém, aquelle o zunido da corda +do arco, quando o vergava sua mão possante.</p> + +<p>Pojucan depôz o arco chefe aos pés de Itaquê e +disse:</p> + +<p>—Pojucan mostrou que em suas veias corre o<span class="pagenum"><a name="Page_92" id="Page_92">[92]</a></span> +sangue generozo de Itaquê. Mas o grande arco +peza em sua mão. Só ha um guerreiro na terra +que o possa brandir como Itaquê: e esse não cinje +a fronte com o cocar das penas de tucano.</p> + +<p>—Pojucan negou a Itaquê esta ultima consolação. +O arco invencivel do grande Tocantim que foi +o pai da nação, vai sair de sua geração. Tocantim +o transmitiu a seu filho Javarí, que me gerou; mas +eu não sube gerar com seu sangue um guerreiro +digno delles.</p> + + + + +<hr class="chap" /> +<h2><a name="IX" id="IX"></a>IX<br /> +<br /> +UNIÃO DOS ARCOS</h2> + + +<p>Os tapuias voltaram; e com elles vinha Agniná +á frente de sua nação, para vingar a morte de Canicran, +seu irmão.</p> + +<p>Era grande a multidão dos guerreiros; e maior +a tornavam a sanha da vingança e a fama do chefe +que a conduzia.</p> + +<p>Não eram tantos os tocantins; mas bastaria seu +valor para igualal-os, se não lhes faltasse a cabeça, +que reje o corpo.</p> + +<p>A poderoza nação estava como o bando de caitetús +que perdeu o pai, e desgarra-se pela floresta, +correndo sem rumo.</p> + +<p>Os mais valentes moacaras, chefes das tribus, +esperavam pelo grande chefe da nação para abrir-lhes +o caminho da guerra.</p> + +<p>Os abarés meditaram. Elles não podiam inventar<span class="pagenum"><a name="Page_93" id="Page_93">[93]</a></span> +um guerreiro capaz de suceder a Itaquê; mas não +se rezignavam a abater a gloria da nação, trocando +o arco invencivel do grande Tocantim por outro +arco mais leve, que Pojucan manejasse.</p> + +<p>Tambem Pojucan anunciára, que não podendo +brandir o arco de Itaquê, jámais empunharia outro +arco chefe, menos gloriozo do que o do grande +Tocantim.</p> + +<p>Abarés, chefes, moacaras, guerreiros, toda a nação +se reuniu em torno do heróe cégo.</p> + +<p>Daquelle que durante tantas luas defendera a +nação com a força de seu braço, e a protejera +com o terror de seu nome, esperavam ainda a salvação.</p> + +<p>O velho ouviu a voz dos abarés, a voz dos chefes, +a voz dos moacaras, a voz dos guerreiros, e +disse:</p> + +<p>—Itaquê ainda póde combater e morrer por sua +nação; mas sem a luz do céu, elle não póde mais +abrir a seus filhos o caminho da vitoria.</p> + +<p>«O braço de Itaquê defendeu sempre a nação +tocantim; quer ella ser defendida agora pela palavra +daquelle, que não tem mais para dar-lhe senão +a experiencia de sua velhice?</p> + +<p>«Pensem os abarés, os chefes, os moacaras e os +guerreiros.»</p> + +<p>Guaribú respondeu:</p> + +<p>—A nação pensou. Fala e todos obedecerão á +tua palavra, como obedeciam ao braço de Itaquê.</p> + +<p>—A voz do coração diz ao neto de Tocantim, +que a gloria da nação que elle gerou, não se póde +extinguir. O sangue de Itaquê, passando pelo seio +de Arací, se unirá a outro sangue generozo para +brotar maior e mais ilustre.</p> + +<p>«Assim a terra onde naceu uma floresta de acajás +recebe o limo do rio e gera nova floresta mais +frondoza que a outra.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_94" id="Page_94">[94]</a></span></p> + +<p>«Jacamim, chama Arací, a filha de nossa velhice. +E vós, abarés, chefes, moacaras e guerreiros, +seguí-me.»</p> + +<p>O velho heróe atravessou a taba guiado por +Arací.</p> + +<p>A nação o seguia em silencio.</p> + +<p>Quando o guerreiro cégo passava com a mão no +hombro da virjem formoza que dirijia o seu passo +incerto, os guerreiros lembravam-se do tronco já +morto que a rama do maracujá ainda sustenta de +pé junto ao penedo.</p> + +<p>Os cantores iam adiante, e entoavam um canto +de paz.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Um mensajeiro de Itaquê o precedera no campo +dos araguaias.</p> + +<p>Ubirajara, cercado de seus abarés, chefes, moacaras +e guerreiros, veiu ao encontro do morubixaba +dos tocantins.</p> + +<p>A alma do grande chefe araguaia encheu-se da +alegria de ver Arací; mas elle retirou os olhos da +espoza, para que o amor não perturbasse a serenidade +do varão.</p> + +<p>—Ubirajara está em face de Itaquê; para combatel-o +se trouxe a guerra, para abraçal-o se trouxe +a paz.</p> + +<p>—Nunca Itaquê pediu a paz ao inimigo que lhe +trouxe a guerra, antes de o vencer; nem teria +vivido tanto para cometer essa fraqueza. Elle vem +trazer-te a vitoria para que tu a repartas com seu +povo.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_95" id="Page_95">[95]</a></span></p> + +<p>O velho heróe avançou o passo:</p> + +<p>—Chefe dos araguaias, tu levaste a guerra á +taba dos tocantins para conquistar Arací, a filha de +minha velhice.</p> + +<p>«Por teu heroismo, e ainda mais pela nobreza +com que restituiste a liberdade a Pojucan, tu merecias +uma espoza do sangue tocantim.</p> + +<p>«Mas desde que tu ameaçaste tomal-a pela força +de teu braço, Itaquê não podia mais conceder-te a +filha de sua velhice, senão depois que abatesse teu +orgulho.</p> + +<p>«Elle preparava-se para te combater, e á tua +nação; mas fujiu-lhe dos olhos a luz que dirije a +seta da guerra; e não ha entre seus guerreiros um +que possa brandir o arco do grande Tocantim.»</p> + +<p>Quando pronunciou estas palavras, a voz do +velho guerreiro sossobrou-lhe no peito:</p> + +<p>—O arco de Itaquê é como o gavião que perdeu +as azas e não póde mais levar a morte ao inimigo. +As andorinhas zombam de suas garras.</p> + +<p>«Empunha o arco de Itaquê, chefe dos araguaias, +e tu conquistarás por teu heroismo uma espoza e +uma nação.</p> + +<p>«Á espoza farás mãi de cem guerreiros como +Itaquê; e á nação conservarás a gloria que ella +conquistou quando o filho de Javarí a conduzia á +guerra.</p> + +<p>«Tupan dará a teu braço esta força para que o +sangue de Itaquê brote mais vigorozo e os netos +de Tocantim dominem as florestas.»</p> + +<p>Ubirajara sorriu:</p> + +<p>—Chefe dos tocantins, teus olhos não podem +ver o grande arco da nação araguaia; mas pergunta +á tua mão, se o arco que Camacan brandia invencivel +e agora empunha Ubirajara, cede ao arco de +Itaquê.</p> + +<p>O velho heróe palpou o arco chefe dos araguaias<span class="pagenum"><a name="Page_96" id="Page_96">[96]</a></span> +e vergou-lhe a ponta ao hombro, como se a haste +fosse de taquarí.</p> + +<p>Ubirajara travou do arco de Itaquê e desdenhando +fincal-o no chão, elevou-o acima da fronte. A flecha +ornada de penas de tucano partiu.</p> + +<p>O semblante de Itaquê remoçou, ouvindo o zunido +que lhe recordava o tempo de seu vigor. Era assim +que elle brandia o arco outr'ora, quando as luas +creciam aumentando a força de seu braço.</p> + +<p>O velho inclinou a fronte para escutar o sibilo +de sua flecha que talhava o azul do céu. Os cantores +não tinham para elle mais doce harmonia do +que essa.</p> + +<p>Ubirajara largou o arco de Itaquê para tomar o +arco de Camacan. A flecha araguaia tambem partiu +e foi atravessar nos ares a outra que tornava á +terra.</p> + +<p>As duas setas deceram trespassadas uma pela +outra como os braços do guerreiro quando se +cruzam ao peito para exprimir a amizade.</p> + +<p>Ubirajara apanhou-as no ar:</p> + +<p>—Este é o emblema da união. Ubirajara fará a +nação tocantim tão poderoza como a nação araguaia. +Ambas serão irmãs na gloria e formarão +uma só, que ha de ser a grande nação de Ubirajara, +senhora dos rios, montes e florestas.</p> + +<p>O chefe dos chefes ordenou que tres guerreiros +araguaias e tres guerreiros tocantins, ligassem com +o fio do crautá as hastes dos dois arcos.</p> + +<p>Quando o arco de Camacan e o arco de Itaquê +não fizeram mais que um, Ubirajara o empunhou +na mão possante e mostrou-o ás nações:</p> + +<p>—Abarés, chefes, moacaras e guerreiros de +minhas nações, aqui está o arco de Ubirajara, o +chefe dos grandes chefes. Suas flechas são gemeas, +como as duas nações, e voam juntas.</p> + +<p>Ambas as cordas brandiram a um tempo. A seta<span class="pagenum"><a name="Page_97" id="Page_97">[97]</a></span> +araguaia e a seta tocantim partiram de novo como +duas aguias que par a par remontam ás nuvens.</p> + +<p>Quando se calou a pocema do triunfo, Ubirajara +caminhou para a filha de Itaquê:</p> + +<p>—Arací, estrela do dia, tu pertences a Ubirajara +que te conquistou pela força de seu braço. Agora +que é senhor, elle espera tua vontade.</p> + +<p>A formoza virjem rompeu a liga vermelha que +lhe cinjia a perna, e atou-a ao pulso de seu guerreiro.</p> + +<p>Ubirajara tomou a espoza aos hombros e levou-a +á cabana do cazamento.</p> + +<p>O jasmineiro semeava de flôres perfumadas a +rêde do amor.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>O outro sol rompia, quando os tapuias estenderam +pela campina a multidão de seus guerreiros.</p> + +<p>Na frente assomava Agniná, a montanha dos +guerreiros, ainda mais feroz do que o irmão, o +terrivel Canicran.</p> + +<p>De um lado e do outro seguiam-se os chefes, +cada um á frente de seus guerreiros.</p> + +<p>Ubirajara escolheu mil guerreiros araguaias e mil +guerreiros tocantins, com que saiu ao encontro dos +tapuias.</p> + +<p>Depois que desdobrou sua batalha pela campina, +o chefe dos chefes caminhou só para o inimigo.</p> + +<p>Quando chegava a meio do campo, os tapuias +levantaram a pocema de guerra, que atroou os ares, +como o estrépito da cachoeira.</p> + +<p>Um turbilhão de setas crivou o longo escudo do<span class="pagenum"><a name="Page_98" id="Page_98">[98]</a></span> +heróe, que ficou semelhante ao grosso tronco da +jussára, erriçado de espinhos.</p> + +<p>Ubirajara embraçou o escudo na altura do hombro, +e com o pé brandiu sete vezes a corda do +grande arco gemeo.</p> + +<p>As setas vermelhas e amarelas subiram direitas +ao céu e se perderam nas nuvens.</p> + +<p>Quando voltaram, Agniná e os chefes que obedeciam +a seu arco, tinham cada um fincado na cabeça +o dezafio do formidavel guerreiro.</p> + +<p>Enfurecidos mais pelo insulto, do que pela dôr, +arremessaram-se contra o inimigo que os esperava +coberto com seu vasto escudo.</p> + +<p>Agniná era o primeiro na corrida, e o primeiro +na sanha. Após elle vinham os outros, a dois e dois, +lutando na rapidez.</p> + +<p>Quando o espozo de Arací viu que elles se estendiam +pela campina, como dois ribeiros que se +aproximam para confundir suas aguas, o heróe empunhou +a lança de duas pontas e soltou seu grito +de guerra que era como o bramir do jaguar, senhor +da floresta.</p> + +<p>Seu pé devorou o espaço; e a lança de duas +pontas girou em sua mão, como a serpente que se +enrosca nos ares silvando.</p> + +<p>Caiu Agniná do primeiro bote; após elle caíram +aos dois os chefes tapuias, como caem os juncos +talhados pelo dente afiado da capivara.</p> + +<p>Então o heróe soltou seu grito de triunfo, que +era como o rujido do vento no dezerto:</p> + +<p>—Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro +invencivel que tem por arma uma serpente.</p> + +<p>«Eu sou Ubirajara, o senhor das nações, o chefe +dos chefes, que varre a terra, como o vento do +dezerto.»</p> + +<p>O heróe estendeu a vista pela campina, e não +descobriu mais o inimigo, que se sumia na poeira.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_99" id="Page_99">[99]</a></span></p> + +<p>Ubirajara lançou-lhe seus guerreiros, que tinham +fome de vingança; porém o terror de sua lança dava +azas aos fujitivos.</p> + +<p>Desde esse dia nunca mais um tapuia pizou as +marjens do grande rio.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>Ubirajara voltou á cabana, onde o esperava Arací.</p> + +<p>A espoza despiu as armas de seu guerreiro, enxugou-lhe +o corpo com o macio cotão da monguba, +e cobriu-o do balsamo fragrante da embaiba.</p> + +<p>Encheu depois de generozo cauim a taça vermelha +feita do côco da sapucaia; e aplacou a sêde do +combate.</p> + +<p>Emquanto nas grandes tabas se preparava a +festa do triunfo e o heróe repouzava na rêde, +Arací foi ao terreiro, e voltou conduzindo Jandira +pela mão.</p> + +<p>—Arací, tua espoza, é irmã de Jandira. Ubirajara +é o chefe dos chefes, senhor do arco das duas +nações. Elle deve repartir seu amor por ellas, como +repartiu sua força.</p> + +<p>A virjem araguaia pôz no guerreiro seus olhos +de corça.</p> + +<p>—Jandira é serva de tua espoza; seu amor a +obrigou a querer o que tu queres. Ella ficará em +tua cabana para ensinar a tuas filhas como uma +virjem araguaia ama seu guerreiro.</p> + +<p>Ubirajara cinjiu ao peito com um e outro braço, +a espoza e a virjem.</p> + +<p>—Arací é a espoza do chefe tocantim; Jandira<span class="pagenum"><a name="Page_100" id="Page_100">[100]</a></span> +será a espoza do chefe araguaia; ambas serão as +mãis dos filhos de Ubirajara, o chefe dos chefes, +e o senhor das florestas.</p> + +<hr class="tb" /> + +<p>As duas nações, dos araguaias e dos tocantins, +formaram a grande nação dos Ubirajaras, que tomou +o nome do heróe.</p> + +<p>Foi esta poderoza nação que dominou o dezerto.</p> + +<p>Mais tarde, quando vieram os caramurús, guerreiros +do mar, ella campeava ainda nas marjens do +grande rio.</p> + + + + +<h2>FIM</h2> +<hr class="chap" /><p><span class="pagenum"><a name="Page_101" id="Page_101">[101]</a></span></p> + + + + +<h2><a name="NOTAS" id="NOTAS"></a>NOTAS<br /> +<br /> +ADVERTENCIA</h2> + + +<p>Este livro é irmão de Iracema.</p> + +<p>Chamei-lhe de lenda como ao outro. Nenhum titulo responde +melhor pela propriedade, como pela modestia, ás +tradições da patria indijena.</p> + +<p>Quem por desfastio percorrer estas pajinas, se não tiver +estudado com alma brazileira o berço de nossa nacionalidade, +ha de estranhar entre outras coizas a magnanimidade que +resumbra no drama selvajem e lhe fórma o vigorozo relevo.</p> + +<p>Como admitir que barbaros, quais nos pintaram os indijenas, +brutos e canibais, antes féras que homens, fossem +sucetiveis desses brios nativos que realçam a dignidade do +rei da creação?</p> + +<p>Os historiadores, cronistas e viajantes da primeira época, +se não de todo o periodo colonial, devem ser lidos á luz de +uma critica severa. É indispensavel sobretudo escoimar os +fatos comprovados das fabulas a que serviam de mote, e +das apreciações a que os sujeitavam espiritos acanhados, +por demais embuidos de uma intolerancia rispida.</p> + +<p>Homens cultos, filhos de uma sociedade velha e curtida +por longo trato de seculos, queriam esses forasteiros achar +nos indijenas de um mundo novo e segregado da civilização +universal uma perfeita conformidade de idéas e costumes. +Não se lembravam, ou não sabiam, que elles mesmos provinham +de barbaros ainda mais ferozes e grosseiros do que +os selvajens americanos.</p> + +<p>Desta prevenção não escaparam muitas vezes espiritos +graves e bastante ilustrados para escreverem a historia sob +um ponto de vista mais largo e filozofico.</p> + +<p>Entre muitos citarei um exemplo. Barloeus referindo as +justas que se faziam entre os selvajens para obterem em +premio de seu valor a virjem mais formoza, não se esqueceu +de acrecentar este comento—<i>finis spectantium est voluptas</i>.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_102" id="Page_102">[102]</a></span></p> + +<p>Narrados com este pessimismo, as cenas da cavalaria, os +torneios e justas não passariam de manejos inspirados pela +sensualidade. Nada rezistiria á censura ou ao ridiculo.</p> + +<p>Por igual teor, senão mais grosseiras, são as apreciações +de outros escritores ácerca dos costumes indijenas. As +coizas mais poeticas, os traços mais generozos e cavalheirescos +do carater dos selvajens, os sentimentos mais nobres +desses filhos da natureza, são deturpados por uma linguajem +impropria, quando não acontece lançarem á conta dos indijenas +as extravagancias de uma imajinação desbragada.</p> + +<p>Releva ainda notar, que duas classes de homens forneciam +informações ácerca dos indijenas: a dos missionarios +e a dos aventureiros. Em luta uma com outra, ambas se +achavam de acôrdo nesse ponto, de figurarem os selvajens +como féras humanas. Os missionarios encareciam assim a +importancia de sua catequese; os aventureiros buscavam +justificar-se da crueldade com que tratavam os indios.</p> + +<p>Faço estas advertencias para que, ao lerem as palavras +textuais dos cronistas citados nas notas seguintes, não se +deixem impressionar por suas apreciações muitas vezes +ridiculas. É indispensavel escoimar o fato dos comentos de +que vem acompanhado, para fazer uma idéa exata dos costumes +e indole dos selvajens.</p> + +<hr class="tb" /> + + +<p class="censp"><a href="#Page_5">Paj. 5</a></p> + +<p><i>Grande rio</i>.—Os tupís chamavam assim ao maior rio que +existia na rejião por elles habitada: e daí rezultou ficarem +tantos rios com essa dezignação na lingua orijinal ou traduzida.</p> + +<p>O rio grande de que se trata nesta lenda é o Tocantins, +em cujas marjens se passa a ação dramatica.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_5">Paj. 5</a></p> + +<p><i>Jaguarê</i>.—Nome composto de <i>Jaguar</i>, a onça e o sufixo <i>ê</i> +que na lingua tupí reforça emfaticamente a palavra a que se +liga. <i>Jaguarê</i>, significa, pois, a onça, verdadeiramente onça, +digna do nome, por sua força, corajem e ferocidade.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_103" id="Page_103">[103]</a></span></p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_5">Paj. 5</a></p> + +<p><i>Uiraçaba</i>.—Nome que davam os tupís á aljava, de <i>uira</i>—seta +e <i>aba</i>—dezinencia exprimindo o logar, modo e instrumento; +literalmente «o que tem a seta.»</p> + +<p>Os selvajens a faziam, ou do tubo de taquarussú, ou da +casca de certas arvores, guarnecida de fios embebidos de +rezina, o que as tornava muito rezistentes.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_6">Paj. 6</a></p> + +<p><i>Nome de guerra</i>.—«Mal nacia a criança logo se lhe punha +nome. Hans Stade achou-se prezente numa dessas ocaziões. +Convocou o pai aos mais proximos vizinhos de dormitorio, +pedindo-lhes para o filho um nome viril e terrivel; não lhe +agradando nenhum dos propostos, declarou que ia escolher +o de um de seus quatro antepassados, o que daria fortuna +ao rapaz, e repetindo-o em voz alta, fixou a escolha. Ao +chegar á idade de ir á guerra, dava-se outro nome ao mancebo +que aos seus titulos ia acrecentando um por inimigo +que trazia para caza a ser imolado. Tambem a mulher tomava +adicional apelido quando o marido dava uma festa antropofaga. +De objetos viziveis se tirava o cognome, determinando +o orgulho ou a ferocidade a escolha. O epiteto <i>grande</i> frequentemente +se compunha com o nome. Southey, <i>H. do Brazil</i>, +tom. 1<sup>o</sup>, cap. 8<sup>o</sup>, paj. 336.</p> + +<p>Póde-se ler tambem a este respeito o que diz Gabriel +Soares, cit. no cap. 160, ácerca do nome que tomava o +tupinambá quando matava o contrario, e no cap. 164 onde +acrecenta: «Acontece muitas vezes cativar um tupinambá a +um contrario na guerra, onde o não quiz matar para o trazer +cativo para sua aldêa, onde o faz engordar com as ceremonias +já declaradas para o deixar matar a seu filho quando +é moço e não tem idade para ir á guerra, o qual o mata +em terreiro, como fica dito, com as mesmas ceremonias; +mas atam as mãos ao que ha de padecer, <i>para com isso o +filho tomar nome novo e ficar</i> armado cavaleiro e mui estimado +de todos.»</p> + +<p>A este trecho de Gabriel Soares é precizo dar o devido +desconto ácerca da engorda do cativo, e do papel insignificante +que reprezenta o mancebo. Devemos crer que entre +gente, cuja alma era a guerra, o titulo de guerreiro não se +conferia ao mancebo que não fizesse prova real de seu +esforço e corajem.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_104" id="Page_104">[104]</a></span></p> + +<p>Ives d'Evreux, cap. XXI, trata minuciozamente da graduação +que a idade estabelecia entre os tupís. Havia para +os guerreiros seis classes: 1<sup>o</sup> das crianças até dois anos, +<i>mitanga</i>, que significa chupador ou mamador; 2<sup>o</sup> <i>curumim +mirim</i>, isto é o pequeno que balbucia; compreendia os meninos +até sete anos; 3<sup>o</sup> <i>curumim</i> simplesmente, correspondia +á segunda infancia de 7 a 15 anos; 4<sup>o</sup> <i>curumim-guassú</i>, era a +adolecencia, em que os rapazes se empregavam na caça e +na pesca; 5<sup>o</sup> <i>aba</i>—o homem, indicava o principio da virilidade, +o qual logo que se cazava tornava-se apiaba, o varão, +ou como diz d'Evreux, <i>mendarama</i>, o cazado; 6<sup>o</sup> <i>tijubaê</i>, o +ancião ou veterano, o homem de experiencia, guerreiro +consumado.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_6">Paj. 6</a></p> + +<p><i>Jandira</i>.—O nome é <i>jandaíra</i>, de uma abelha que fabrica +excelente mel; Jandira é uma contração mais eufonica +daquelle nome, que tambem por sua vez é contração de +<i>Jemonhaíra</i>, que fabrica mel.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_6">Paj. 6</a></p> + +<p><i>Aratuba</i>.—Palavra que se compõe de <i>ara</i>—o sol e <i>tuba</i>—infinito +do verbo <i>ajub</i>—estar deitado. Vem a ser a significação +<i>leito do sol</i>, aplicada pelos indios á montanha do +poente, onde o sol se esconde no seu ocazo.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_6">Paj. 6</a></p> + +<p><i>Lança</i>.—O uzo da lança não era comum aos selvajens, +que empregavam de preferencia o arco, o tacape, a macana, +e a igarapema, especie de remo, que fazia as vezes de partazana. +Outros escrevem <i>iverapema</i>; mas o nome é aquelle +de <i>igara-pema</i>, espada da canôa; basta ver-lhe a fórma para +compreender seu duplo destino.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_6">Paj. 6</a></p> + +<p><i>Craúba</i>.-É a mesma <i>carabiuba</i> dos indios, assim contraída +pelo uzo dos nossos sertanejos. Madeira roxa, excessivamente +rija, que não cede ao páu-ferro no pezo e na +dureza.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_105" id="Page_105">[105]</a></span></p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_7">Paj. 7</a></p> + +<p><i>A liga vermelha</i>.—Era este um dos mais curiozos e interessantes +ritos dos tupís.</p> + +<p>Quando a menina atinjia a puberdade, depois de sua +purificação, da qual tratam os autores, especialmente Orbigny +e Thevet, a mãi punha-lhe nas pernas, abaixo do joelho, +uma liga de fio de algodão tinta de vermelho, de tres dedos +de largura, e tecida no proprio logar de modo que uma vez +fechada, não era mais possivel tiral-a. Vide Gabriel Soares, +cap. 153.</p> + +<p>A essa liga chamavam <i>tapacora</i>, e não a podia trazer +senão a virjem, de modo que se acontecesse quebrar a castidade +havia de rompel-a, para que todos conhecessem sua +falta. Eis como Gabriel Soares se exprime a este respeito +no cap. 152: «E como o marido lhe leva a flôr, é obrigada a +noiva a quebrar estes fios para que seja notorio que é feita +dona; e ainda que uma moça destas seja deflorada por quem +não seja seu marido, ainda que seja em segredo, ha de romper +os fios de sua virjindade, que de outra maneira cuidará +que a leva o diabo, os quais dezastres lhes acontecem muitas +vezes, etc.»</p> + +<p>Este simples traço é bastante para dar uma idéa da +moralidade dos tupís, e vingal-a contra os embustes dos +cronistas, que por não compreenderem seus costumes, +foram-lhes emprestando gratuitamente, quanto inventavam +exploradores mal informados e prevenidos.</p> + +<p>Em que sociedade civilizada se observa tão profundo +respeito pela união conjugal, a ponto de não consentir-se +que a mulher decaída conserve o segredo de sua falta, e +iluda o homem que a busque para espoza?</p> + +<p>A rezignação com que a moça culpada rompia a liga da +virjindade, e fazia confissão publica de seu erro, é um +exemplo da lealdade do carater tupí e da veneração que +inspiravam os ritos de sua relijião.</p> + +<p>Nega Southey, cap. VIII, que a liga vermelha e o respeito +que ella inspirava indicassem guarda da castidade, +porquanto a castidade como a caridade é virtude da civilização; +do mesmo modo considera o amor uma delicadeza da +vida civilizada. São paradoxos de escritor. Sentimentos +naturais á creatura humana, dezenvolvem-se nella em qualquer +estado e condições.</p> + +<p>Não é possivel negar a castidade da mulher tupí; além +desse recato da virjindade, prova-a de modo cabal a continencia +que homens e mulheres guardavam em certas cir<span class="pagenum"><a name="Page_106" id="Page_106">[106]</a></span>cumstancias. +Assim, nenhum homem tinha relações com a +mulher inubil, nem ella o consentia; o proprio marido não +violava essa lei, embora tivesse a espoza em seu poder. +Gabriel Soares cit. Durante a gravidez e a amamentação +interrompia-se absolutamente o ajuntamento conjugal. (Barlœus +2<sup>a</sup> edic.)</p> + +<p>Onde está a sociedade civilizada, que observe leis tão +rigorozas, e refreie os instintos sensuais com a severidade +uzada pelos tupís?</p> + +<p>Poderiamos fazer muitas outras observações que rezervamos +para um estudo especial ácerca dos selvajens brazileiros.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_7">Paj. 7</a></p> + +<p><i>Tocantim</i>.—Compõe-se de <i>tocano</i> e <i>tim</i>; literalmente o +nariz, o rostro do tucano. Nome que tomou um guerreiro +por trazer na cabeça o despojo de um tucano com o grande +bico da ave; e que transmitido a uma nação selvajem, ficou +dezignando o rio a cujas marjens vivia.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_7">Paj. 7</a></p> + +<p><i>Taarí</i>.—Rio que despeja no Tocantins, pouco depois da +confluencia do Araguaia. Indica o logar da cena.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_7">Paj. 7</a></p> + +<p><i>Araguaia</i>.—O nome é araguara, de <i>ara</i> e <i>guara</i>, literalmente, +os guerreiros das araras, porque uzavam nos seus ornatos +das penas encarnadas daquellas aves. Conservei a versão que +ficou no nome do rio.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_8">Paj. 8</a></p> + +<p><i>Arací</i>.—Esta palavra tupí compõe-se de <i>ara</i>, dia, e <i>ceí</i> ou +<i>cejí</i>, grande estrela. Este ultimo nome davam os indijenas ás +pleiades, que lhes serviam para contar os anos.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_8">Paj. 8</a></p> + +<p><i>Cem dos melhores guerreiros</i>.—Nesta e outras frazes identicas, +os numerais cem ou mil não reprezentam algarismo<span class="pagenum"><a name="Page_107" id="Page_107">[107]</a></span> +exato, que não os tinham os tupís para exprimir numero tão +elevado. Traduzem apenas esses termos a dezinencia <i>tiba</i>, +com que os tupís dezignavam cópia e multidão.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_9">Paj. 9</a></p> + +<p><i>Canitar</i>.—Enfeite de cabeça. Adotei esta dezignação +empregada pelos autores sob a autoridade de Hans Stade +por me parecer mais eufonica. A exata lição pede <i>acanga +atara</i>.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_9">Paj. 9</a></p> + +<p><i>As duas nações não estão em guerra</i>.—As nações tupís não +viviam em um estado perene de guerra, como propalaram +alguns escritores. A guerra era frequente; mas não constante. +As nações faziam a paz e nella se mantinham até que +sobrevinha alguma cauza de rompimento. Então não começavam +as hostilidades senão depois de anunciada a guerra +ao inimigo, o que se fazia lançando-lhe uma flecha na taba, +ou levando-lhe um guerreiro o dezafio.</p> + +<p>É uma prova do carater leal dos selvajens. Foi depois +da colonização, que os portuguezes, assaltando-os como a +feras, e caçando-os a dente de cão, ensinaram-lhes a traição +que elles não conheciam.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_10">Paj. 10</a></p> + +<p><i>Pojucan</i>.—Contração de uma fraze tupica.<i>I-pojuca</i>;—significa: +eu mato gente. Essas contrações não são arbitrarias; +ellas eram da indole da lingua e conformes ao seu +sistema de aglutinação. Todas as vezes que os indijenas +compunham uma palavra, cerceavam as sílabas dos vocabulos +que entravam na compozição, para ligal-as mais eufonicamente.</p> + +<p>Lemos em Alfred Maury <i>La Terre et l'homme</i>, cap. VIII, o +seguinte trecho:</p> + +<p>«Nas linguas americanas, não é sómente uma sinteze que +concentra em uma palavra todos os elementos da idéa mais +complexa; ha ainda engrazamento (enchevêtrement) das palavras +umas nas outras; é o que M. F. Lieber chama <i>incapsulação</i>, +comparando a maneira por que as palavras entram +na fraze a uma caixa na qual se conteria outra que a seu +turno conteria terceira, esta uma quarta, e assim por diante.<span class="pagenum"><a name="Page_108" id="Page_108">[108]</a></span> +A incorporação das palavras é por vezes levada á extrema +exajeração nesses idiomas, o que produz a mutilação dos +vocabulos incorporados.»</p> + +<p>Esta observação é da maior justeza e conforma-se de +todo o ponto com a indole da lingua, como se vê nas seguintes +palavras—<i>A-por-u</i>—como gente—<i>A-poro-tim</i>—enterro +gente—<i>A-po-çub</i>—vizito a gente. (Vide Figueira, <i>Gramatica +da lingua do Brazil</i>, paj. 51.)</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_10">Paj. 10</a></p> + +<p><i>Tapuia</i>.—de <i>taba</i> e <i>puir</i>, o que foje das tabas. Davam os +indijenas esse nome a povos mais barbaros e de lingua diversa. +Segundo as ultimas investigações etnolojicas, pertenciam +esses povos a uma raça diversa da tupí, e muito +aproximada, senão conjenere do tipo mongolico. Entretanto +Orbigny, <i>L'Homme Américain</i>, sustenta a identidade das duas +raças, tapuia e tupí.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_10">Paj. 10</a></p> + +<p><i>Tacape</i>.—Davam os tupís o nome de <i>apem</i>, a um corpo +alongado de fórma analoga á espada, e como ella cortante. +Daí vinha chamarem a unha—<i>po-apem</i>, espada do dedo; e +á raiz que surje da terra e se eleva como um galho—<i>sapopema</i>—raiz +espada.</p> + +<p>Á sua principal arma de guerra chamavam <i>ita-ca-apem</i>, +espada de páu-pedra; ou <i>ita-qui-apem</i>, machado comprido de +pedra, por ter sido dessa materia que primeiro o fabricaram, +antes de aprenderem a lavrar a madeira.</p> + +<p>Ácerca da força dessa arma e da destreza com que a +manejavam, diz Lery que um tupinambá com ella armado +daria que fazer a dois soldados de espada.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_10">Paj. 10</a></p> + +<p><i>Guerreiro chefe</i>.—Para compreender-se bem a força dessa +dezignação, diremos alguma coiza ácerca da hierarquia selvajem.</p> + +<p>Como a relijião, era simples o governo dos tupís; mas +não careciam delle, segundo inculcam os cronistas: antes o +tinham, e bem regulado para o seu estado de civilização.</p> + +<p>Podemos distinguir na taba selvajem uma sociedade civil<span class="pagenum"><a name="Page_109" id="Page_109">[109]</a></span> +e uma sociedade politica; a primeira reduzida á familia, e a +segunda excluziva á subzistencia, defeza e guerra.</p> + +<p>A sociedade civil era constituida pela <i>oca</i>, a caza, onde +o varão, <i>aba</i>, morava com suas mulheres, sua prole, os servos +que trabalhavam para granjear as filhas em cazamento, +os cativos que fazia na guerra, e os parentes que agregava +a si.</p> + +<p>O dono da caza, ou literalmente o que fazia a caza, +<i>moacara</i>, era a perfeita imajem do patriarca. Elle governava +a sua gente; e formava uma sociedade independente, no +seio da grande sociedade politica, de que era membro e para +cuja defeza concorria não só por interesse proprio, mas pela +honra da nação.</p> + +<p><i>Moacara</i> nos dicionarios significa fidalgo. A tradução +resente-se da preocupação do homem civilizado; mas havia +realmente uma distinção entre o <i>moacara</i>, chefe da oca, pai +de muitos guerreiros, e o simples individuo que ainda não +possuia uma familia.</p> + +<p>A sociedade politica, <i>taba</i>, era a reunião das ocas. Essa +denominação vem de <i>tama</i>, a patria, o berço, a terra natal, +e <i>aba</i> dezinencia que indica o logar, modo, instrumento da +coiza. Assim, <i>taba</i> significa literalmente onde ou o que faz +a patria, isto é, aldeia natal.</p> + +<p>O governo da <i>taba</i>, essencialmente democratico, rezidia +no conselho dos <i>moacaras</i>, entre os quais predominava a +experiencia dos anciãos, que se chamavam <i>abarés</i> ou <i>abaetês</i>; +isto é, varões egrejios.</p> + +<p>Nações essencialmente guerreiras, tinham um chefe para +governal-as nas jornadas e batalhas. A estes davam o nome +de <i>tuxava</i>, ou <i>tauxaba</i>, o dono da taba, <i>morubixaba</i>, o que +governa o povo; de <i>moro</i>, gente, e <i>aba</i>, dezinencia.</p> + +<p>Quando as nações eram grandes e não cabiam numa taba, +destacavam-se alguns <i>moacaras</i> com suas familias e formavam +novas tabas, sujeitas á taba mãi. Daí se orijinaria a +diferença das duas dezignações, vindo então <i>tauxaba</i> a dezignar +o simples chefe de uma taba; e <i>morubixaba</i> o chefe +da taba primitiva, ou da nação, <i>moro</i>.</p> + +<p>Tambem acontecia que muitas vezes um <i>moacara</i> poderozo +separava-se de sua nação por cauza de alguma dissenção +intestina, e constituia-se independente com seus decendentes, +e os guerreiros a elle sujeitos pelo parentesco. Essa +<i>oca</i> independente, chamava-se <i>moroca</i>, isto é, oca de gente, +de tribu e não mais de familia. O termo <i>moloca</i> tão frequente +nos cronistas não é senão corruptela daquelle, e póde corresponder +ao de tribu ou horda.</p> + +<p>A nomeação do chefe participava da natureza dessa so<span class="pagenum"><a name="Page_110" id="Page_110">[110]</a></span>ciedade +democratica e guerreira. O mais audaz e o mais +forte impunha-se: a permanencia de sua autoridade, bem +como sua extensão, dependia do respeito que elle conseguia +infundir a seus guerreiros.</p> + +<p>No momento em que surjia outro ambiciozo a disputar o +poder, este tornava-se o premio do mais valente. Acontecia +então que o vencido com seus sectarios revoltava-se; e daí +as frequentes guerras intestinas, que aniquilaram a raça indijena, +ainda mais talvez do que a crueldade dos europeus.</p> + +<p>Na morte do <i>morubixaba</i> ocorria igual pleito. O filho +apossava-se do poder pelo direito de herança; e o conservava +se não aparecia algum emulo mais poderozo que lh'o +arrebatasse.</p> + +<p>Falando com as nossas teorias da civilização, podemos +dizer que a baze desse poder executivo era, como nas republicas, +o sufragio universal. Mas era o sufragio sempre +ativo e vijilante, pronto a inclinar-se ao merecimento superior, +onde elle se revelasse.</p> + +<p>Entre o chefe guerreiro (poder executivo), e o conselho +dos <i>moacaras</i> (poder lejislativo) os conflitos eram inevitaveis. +Morubixaba haveria, como o celebre Cunhanbebe, que +era um verdadeiro despota. O tacape de muito heróe tupí +ha de ter governado tão absolutamente como a espada de +Cezar ou de Napoleão.</p> + +<p>Outros conflitos tambem se deviam dar frequentemente +entre a influencia dos <i>pajés</i> e o poder do chefe ou dos anciãos. +Aquelles sacerdotes, cercados do respeito dos guerreiros, +fortes pelo prestijio de seus augurios e sortilejios, +tentariam insuflados pela ambição governar a taba, ou pelo +menos fomentar a rezistencia ao chefe.</p> + +<p>Eis em escorço as paixões que deviam ajitar aquella +sociedade politica, depois da guerra que era a maior preocupação.</p> + +<p>Além das ocas, ou familias, havia na taba uma especie +de oca mais vasta e comum. Nessa parece que moravam +aquellas pessoas, que já não tinham oca, e estavam a cargo +da nação; tais eram as <i>velhas</i>, e por este nome devem-se +entender as mulheres sem companhia de marido, nem parentes; +os orfãos, aos cuidados daquellas mãis emprestadas; +e finalmente as moças que não faziam vida conjugal.</p> + +<p>Vejamos agora a sociedade civil, tal como a podemos +induzir dos acanhados esclarecimentos que nos deixaram +os cronistas.</p> + +<p>O cazamento, baze da familia, devia ter alguma ceremonia +simbolica, ainda que não passasse da simples entrega +da noiva ao varão. Essa minha supozição funda-se no fato<span class="pagenum"><a name="Page_111" id="Page_111">[111]</a></span> +de haver entre esses povos um cazamento bem caracterizado, +e não simples coito.</p> + +<p>A mulher lejitima distinguia-se pelo nome. O marido a +chamava <i>temireco</i>, isto é, a verdadeira mãi de meus filhos; +emquanto que ás outras mulheres, suas amantes, chamava +<i>aguaçaba</i>. O marido tinha tambem um nome especial <i>menda</i>, +que o distinguia do simples amante.</p> + +<p>Acrece que para obter a noiva o varão sujeitava-se a +certas condições, e até mesmo a provas de corajem; donde +devemos inferir com boa razão, que não era esse um ato +insignificante para os selvajens, a ponto de não o distinguirem +com uma fórmula qualquer, elles que em outros pontos +eram tão ceremoniozos, como na recepção do hospede, na +declaração da paz ou da guerra.</p> + +<p>Os cronistas, porém, não se ocuparam disso e todo seu +tempo foi pouco para lamentarem a poligamia dos tupís, tirando +logo dalí argumento para pintarem os selvajens vivendo +a modo de cães.</p> + +<p>É uma falsidade. Os tupís tinham moralidade conjugal, +e até muito severa. O adulterio era punido de morte; e +tambem por isso permitia-se o divorcio por mutuo consentimento.</p> + +<p>A poligamia dos tupís foi da mesma natureza da que existiu +entre os hebreus; era uma poligamia patriarcal, filha +das condições da vida selvajem, e não a poligamia sensual +dos turcos e outros povos do oriente, produzida unicamente +pelo requinte da libidinajem.</p> + +<p>Compreende-se que no estado selvajem ou primitivo, a +mulher, fraca para rezistir aos perigos que a rodeavam, +tinha necessidade de acolher-se ao amparo e proteção do +homem. Por outro lado cada varão, no interesse não sómente +de sua gloria, como de seu poder, carecia rodear-se de uma +familia numeroza, e de gerar do seu proprio sangue, os seus +guerreiros.</p> + +<p>Entretanto, e é isto que distingue a poligamia patriarcal, +a posse de muitas mulheres não destruia a instituição da +familia, bem caracterizada pela preeminencia da primeira +mulher ou a verdadeira espoza; e pela adoção dos filhos +nacidos das outras mulheres, que se tornavam todos filhos +da espoza, ou da verdadeira mãi, <i>temireco</i>.</p> + +<p>Muita coiza poderia dizer ácerca da educação dos filhos +e da condição da mulher, mas não cabe esse estudo em +uma nota. Mais tarde e a propozito é possivel que o faça.</p> + +<p>Para a intelijencia do texto basta saber-se que além da +espoza, <i>temireco</i>, mãi da familia, das amantes, <i>aguaçabas</i>, que +<span class="pagenum"><a name="Page_112" id="Page_112">[112]</a></span>faziam parte da familia na condição de servas, havia—1.<sup>o</sup> as +virjens, <i>cunhantem</i>, mulheres debalde, que pertenciam á +familia, e se destinavam para espozas dos guerreiros que +as obtivessem pelas provas de esforço e denodo; 2.<sup>o</sup> as velhas, +ou mulheres já privadas de seus maridos, e que ficavam +sob a proteção da comunhão, incumbidas da educação +dos orfãos, e dos filhos anonimos; 3.<sup>o</sup> as <i>moças</i> ou mulheres +que desprezavam o cazamento e viviam livremente aceitando +o amor do guerreiro que lhes agradava, e do qual tinham +filhos, que não pertenciam á familia, mas á tribu; eram estas +as mulheres que ofereciam seu amor como penhor de hospitalidade +ao estranjeiro que chegava á taba; 4.<sup>o</sup> finalmente, +a classe infeliz, abandonada de todo o sentimento e de todo +o pudor, á qual davam o nome de <i>morixaba</i>, literalmente +coiza de todos; ou, segundo o testemunho de Ives d'Evreux, +<i>menondere</i>, que equivalia a ladra; porquanto entendiam os +selvajens que a mulher roubava seu primeiro amante dando +ou vendendo a outro o amor que lhe pertencia.</p> + +<p>Ainda nesta ultima escala, se estão manifestando as leis +severas do recato e fidelidade da união sexual entre os selvajens. +Além do cazamento lejitimo, havia o concubinato, +como existiu entre os romanos, produzindo direito e obrigação +reciproca. A mulher que traía a fé conjugal, ou o concubinato, +era uma adultera, isto é, uma ladra e decia á ultima +infamia. O marido tinha o direito de matal-a; o amante entregava-a +ao desprezo da tribu.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_10">Paj. 10</a></p> + +<p><i>Jaguarê agradece a Tupan</i>.—Não achando entre os aborijenes +templos e idolos, ainda que alguns cronistas atestam +a existencia dos ultimos, foram os colonizadores peremptoriamente +declarando ateus a esses povos. Mas logo, com +incoerencia flagrante, reconheciam a existencia de uma +superstição, que outra coiza não é a relijião na infancia da +humanidade.</p> + +<p>Os tupís adoravam uma excelencia superior, Tupan, que +se manifestava pelo raio e pelo trovão; donde se induz o +grande poder que atribuiam a essa divindade. Seu nome de +raça aprezenta uma afinidade que faz prezumir a crença de +uma decendencia celeste.</p> + +<p>Tambem temiam os tupís o espirito do mal, personificado +em Anhanga, o fantasma, que habitava as trévas, e a quem +referiam um poder funesto. Para conjurar essa divindade +malefica, tinham sacerdotes, os pajés, que buscavam sua +força e virtude no fumo da planta sagrada, o tabaco.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_113" id="Page_113">[113]</a></span></p> + +<p>Além disso contava a mitologia tupica genios bons e máus, +que habitavam as florestas e os rios, e percorriam as solidões +montados em caitetús, ou transformados em certos +animais. Entre estes mencionarei o caipora e a mãi d'agua, +cuja abuzão transmitiu-se á raça conquistadora, e de que +ainda se encontram vestijios entre as populações do norte.</p> + +<p>Não ha contestar que aí está uma relijião bem caracterizada. +Mas como faltassem templos e idolos, os decendentes +dos barbaros gaulezes, godos, francos e celtas não podiam +admitir na America uma relijião sem culto regular, qual +a tiveram aquelles selvajens europeus.</p> + +<p>Entre os viajantes que mais tarde percorreram a America +havia espiritos superiores, dedicados ao estudo da humanidade, +que investigavam sem prevenções a orijem e indole +das raças indijenas do novo mundo. Na primeira plaina destes +sabios figura Alexandre de Humboldt.</p> + +<p>O eminente naturalista assinalou a cauza dessa auzencia +de culto dos aborijenes do Brazil, quando observou que o +antropomorfismo da divindade se manifesta por dois modos: +da terra ao céu, como na Grecia, ou do céu á terra, como +na America. <i>Voyage au Nouveau Continent</i>—8.<sup>o</sup> volume, +paj. 243.</p> + +<p>Quando a imajinação do homem personificando a divindade +á sua imajem a faz subir ao céu, como os numes pagãos +da Grecia, ella é levada naturalmente a oferecer-lhe uma +constante adoração com que mantêm o vinculo da creatura +ao creador. Daí a necessidade de idolos, que simbolizem +esses numes, e a tenham prezente aos olhos mortais.</p> + +<p>Diverso, porém, é quando, concebendo a divindade á sua +imajem, o mortal a humana inteiramente, transportando-a +do céu á terra. Então o homem figura-se não a creatura, +mas o decendente, o filho de seu deus.</p> + +<p>Dezaparece a necessidade dos idolos, pois a verdadeira +reprezentação da divindade na terra é o mesmo homem que +a continúa. Cada um tem o seu nume em si. A adoração +transforma-se naturalmente no culto da propria individualidade, +nessa exajeração prodijioza do estalão humano, que +distingue as idades heroicas.</p> + +<p>É pela ostentação da corajem, da força, da grandeza de +animo, que o selvajem se elevava até o deus, seu projenitor; +e não pela adoração, pelas preces e oferendas uzadas no +paganismo grego, o qual estava bem lonje da humildade +evanjelica do cristianismo. Os tupís não careciam, pois, de +orações e sacrificios; as façanhas com que se mostravam +dignos de sua orijem celeste eram as melhores oblações do +seu culto.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_114" id="Page_114">[114]</a></span></p> + +<p>Tal era o respeito que o selvajem professava pela +dignidade humana, que matava as pessoas mais caras +quando não se podiam curar da enfermidade. Essa implacavel +sujeição ao mal, abatia e humilhava uma raça forte e +guerreira.</p> + +<p>Muitos outros exemplos podia aprezentar dessa elevada +conciencia da individualidade, que distinguia no mais alto +ponto o selvajem brazileiro.</p> + +<p>Eis o que não souberam ver os cronistas, quando taxaram +de ateus aos indijenas americanos.</p> + +<p>Abstraindo da moral absoluta em que só ha uma verdade, +a do cristianismo, e tomada a questão no ponto de vista da +arte, não se póde recuzar a essa relijião tupí, que nivela o +homem á divindade, certo cunho de grandeza selvajem e um +vigorozo sentimento da individualidade.</p> + +<p>O paganismo grego lhe fica inferior nesse ponto da dignidade +humana; ao passo que elle tornava a raça de Japeto +escrava submissa dos deuzes, e vitima de seus caprichos e +vinganças, na mitolojia americana o homem é o filho e o +emulo da divindade.</p> + +<p>Á parte as ficções graciozas do espirito helenico, a mitolojía +grega só tem uma creação que reveste a majestade da +relijião tupí; é a creação dos semi-deuzes, em que se operava +o antropomorfismo terrestre da divindade, qual se deu na +America.</p> + +<p>Considerando-se divino, o selvajem americano acreditava-se +combatido por um ente malefico, antagonista +do deus de quem decendia. Nos achaques e mizeria que +aflijem a humanidade via as manifestações desse poder +funesto. Os sacerdotes o esconjuravam por sortilejios; +os heróes, porém, rezistiam-lhe pela constancia e o afrontavam.</p> + +<p>Á essa relijião simples e sem aparato, como devia ser +uma relijião das florestas, professada por povos caçadores +e guerreiros, coroava a crença profunda e inalteravel da +imortalidade da alma, revelada pela veneração ás cinzas dos +mortos, e pelas ceremonias da inhumação.</p> + +<p>Os indijenas encerravam suas mumias em tumulos especiais, +a que davam o nome de <i>Camucins</i>; e as acompanhavam +não só das armas e objetos de uzo proprio, como de +alimentos para a viajem aos campos alegres, onde iam reviver +os guerreiros e suas mulheres.</p> + +<p>Basta este rapido esboço para dar idéa da relijião dos +tupís, e avaliar o criterio daquelles que os consideravam +estranhos a qualquer noção da divindade.</p> + +<p>Um povo que mantinha as tradições a que aludimos, não<span class="pagenum"><a name="Page_115" id="Page_115">[115]</a></span> +era certamente um acervo de brutos, dignos do desprezo +com que foram tratados pelos conquistadores. E quando, +através de suas falsas apreciações, a verdade pôde chegar +até nossos tempos, o que não seria, se espiritos despreocupados +e de vistas menos estreitas, vivendo entre essas +nações primitivas, se aplicassem ao estudo de suas crenças, +tradições e costumes?</p> + +<p>Os jezuitas, que podiam melhor realizar esse estudo, +eram induzidos a exajerar a ferocidade e ignorancia dos +selvajens, no interesse de tornar indispensavel sua catequeze. +Já imbuidos da intolerancia relijioza, a politica exajerava +ainda mais sua suspeição.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_11">Paj. 11</a></p> + +<p><i>Ubiratan</i>.—Páu-ferro; literalmente <i>ubira</i>—madeira, e +<i>atan</i>—duro. <i>Atan</i> não é senão a palavra <i>ita</i> com a terminação +<i>ana</i>, que na lingua tupí servia para a formação dos +adjetivos. <i>Itana</i>, o que tem a natureza de pedra. Assim, de +pedra fizemos nós pedregozo. Rigorozamente <i>ubiratan</i> é +<i>páu-pedra</i>; pois que os indijenas não conheciam o ferro. +Era dessa madeira que faziam os tacapes.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_13">Paj. 13</a></p> + +<p><i>O chefe tocantim</i>.—Os autores empregam em geral os +termos maioral, principal, para dezignar o cabeça de uma +tribu ou nação indijena. Alguns, como Southey, serviram-se +do termo cacique adotado dos Araucanos; Barlœus chamou-os +classicamente de reis.</p> + +<p>Neste livro, como em <i>Iracema</i>, preferi traduzir o termo +indijena <i>tuxaba</i>, por <i>chefe</i>; e fui levado pela razão de ser, +além de muito apropriado e vulgar, um termo nobre e sucetivel +de entrar no estílo o mais elevado, sem laivos de afetação. +Ao <i>morubixaba</i> pela mesma razão chamei chefe dos +chefes.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_14">Paj. 14</a></p> + +<p><i>Calcou a mão sobre o hombro esquerdo</i>.—Ácerca desse +modo simbolico de assegurar o vencedor seu imperio sobre +o cativo, é curiozo o que referiu e notou <i>Ives d'Evreux</i>, +cap. XIV.</p> + +<p>«Então eu soube que era uma ceremonia de guerra prati<span class="pagenum"><a name="Page_116" id="Page_116">[116]</a></span>cada +entre essas nações, que quando um prizioneiro cae na +mão de algum, aquelle que o toma, bate-lhe com a mão na +espadua dizendo-lhe: «Eu te faço meu escravo»; e desde +então esse pobre cativo, por maior que seja entre os seus, +se reconhece escravo e vencido, segue o vitoriozo, o serve +fielmente, sem que seu senhor se importe com elle; tem +liberdade de andar por onde lhe pareça, não faz senão o +que quer e ordinariamente espóza a filha ou irmã de seu +senhor, até o dia em que deve ser, morto e comido.»</p> + +<p>Depois o missionario lembra as palavras de Isaías cap. 9—<i>Factus +est principatus super humerum ejus</i>—e cap. XXII—<i>Dabo +clavem dominis David super humerum ejus</i>; e mostra a +conformidade desse rito dos tupís com as tradições dos hebreus +e outros povos primitivos.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_15">Paj. 15</a></p> + +<p><i>Ubirajara</i>—senhor da lança, de <i>ubira</i>—vara e <i>jara</i>—senhor; +aportuguezando o sentido, vem a ser lanceíro.</p> + +<p>Com este nome existia ao tempo do descobrimento, nas +cabeceiras do rio S. Francisco uma nação de que fala Gabriel +Soares—Roteiro do Brazil, cap. 182.</p> + +<p>«A peleja dos Ubirajaras, diz esse escritor, é a mais notavel +do mundo, como fica dito, porque a fazem com uns +páus tostados muito agudos, de comprimento de tres palmos +pouco mais ou menos cada um, e tão agudos, de ambas as +pontas, com os quais atiram a seus contrarios como com +punhais, e são tão certos com elles que não erram tiro, +com o que têm grande chegada; e desta maneira matam +tambem a caça que, se lhe espera o tiro, não lhe escapa; +os quais com estas armas se defendem de seus contrarios +tão valorozamente como seus vizinhos com arcos e flexas, +etc.»</p> + +<p>Desta arma e da destreza com que a manejavam proveiu +o nome de <i>bilreiros</i> que lhe deram os sertanistas, significando +assim que tanjiam suas lanças com ajilidade e sutileza igual +á da rendeira ao trocar os bilros.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_15">Paj. 15</a></p> + +<p><i>Preciza de um prizioneiro</i>.—Era entre os selvajens maior +honra conduzir da guerra um prizioneiro, para ornar o seu +triunfo e a festa de vitoria, do que matal-o em combate. +<span class="pagenum"><a name="Page_117" id="Page_117">[117]</a></span>Veja Gabriel Soares—cit. na nota 4<sup>a</sup>.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_15">Paj. 15</a></p> + +<p><i>Chamas de alegria</i>.—Metafora tupí. Chamavam a alegria +e a festa <i>toríba</i>, literalmente, grande quantidade de fogueiras.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_17">Paj. 17</a></p> + +<p><i>Historia de guerra</i>.—Os tupís para exprimirem historia, +ou narrativa, diziam <i>maranduba</i>, conto de guerra, de +<i>mara</i>—guerra—<i>nheng</i>—falar e <i>tuba</i>—muito; falar muito +de guerra.</p> + +<p>Depois aplicaram os indijenas essa palavra a toda narrativa, +se é que não crearam para as outras historias o +termo analogo de <i>poranduba</i>, composto de <i>poro</i>, <i>nheng</i>, e +<i>tuba</i>—falar muito da gente.</p> + +<p>Os indios eram muito apaixonados dessas narrações, em +que mostravam sua natural eloquencia. Informa-me o Dr. +Coutinho, incansavel explorador do vale do Amazonas, que +ainda hoje nenhum indio chega de viajem, que não diga a sua +maranduba, que é o recito circumstanciado de quanto viu e +lhe aconteceu em caminho.</p> + +<p>Ás vezes traduzo o termo; outras o emprego orijinal +para mais incutir no livro o espirito indijena. Do mesmo +modo procedi ácerca de outros termos eufonicos tais como +<i>tuxaba</i>, <i>moribixaba</i>, <i>moacara</i>, <i>nhengaçara</i>, <i>etc</i>.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_21">Paj. 21</a></p> + +<p><i>Os cantores</i>.—Os tupís eram muito dados á muzica e á +dansa.</p> + +<p>Lery fala com entuziasmo da doçura de seus cantos; e +Ferdinand Denis, paj. 21, afirma, não sei com que fundamento, +que a imitação dos Chataws da America do Norte, +certas nações do Brazil gozavam do privilejio de fornecer +poetas e musicos aos outros povos, como sucedia com os +tamoios entre os tupís.</p> + +<p>Gabriel Soares—cap. 162—descreve os cantos, improvizos +e dansas dos tupinambás, concluindo com estas palavras:</p> + +<p>«Entre este gentio, os muzicos são muito estimados e +por onde quer que vão, são bem agazalhados e muitos atravessaram +já o sertão por entre seus contrarios, sem lhes +fazerem mal.»</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_118" id="Page_118">[118]</a></span></p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_24">Paj. 24</a></p> + +<p><i>Como chefe pertence-lhe a virjem</i>, etc, Barlœus—2.<sup>a</sup> edic. +paj. 483.—Quotquot luta, hastarum concursu ac venatu +prœcellunt, eminentiores habentur et ut hœroum numero, +qui ob virtutis fortitudinisque excellentiam ab ipsis virginibus +ambire mœrentur, cum meliores ex melioribus nasci +opinentur, nec vanum esse nobilitatis nomen, sed cum sanguine +transfundi.»—Quantos disputam em jogos de lança +e caça; os eminentes são tidos no numero dos heróes; os +quais pela excelencia da virtude e fortaleza merecem possuir +as mesmas virjens; por quanto pensam que os melhores +nacem dos melhores; nem é vão nome a nobreza, pois +se comunica pela transfuzão do sangue.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_25">Paj. 25</a></p> + +<p><i>Purifica o corpo</i>.—Os selvajens distinguiam-se pelo apurado +asseio. Ives d'Evreux diz a este respeito: «Ils sont fort +soigneux de tenir leur corps net de toute ordure: ils se +lavent fort souvent tout le corps et ne se passe jour qu'ils +ne jettent sur eux force eau et se frottent avec les mains +de tous côtés et en toutes les parts, pour oster la poudre +et autres ordures. Les femmes ne manquent de se peigner +souvent.»</p> + + +<p>Pag. 25</p> + +<p><i>Urú</i>.—Tinham os indijenas varias especies de moveis +para guardar objetos. O <i>urú</i> era um cesto aberto. <i>Panacum</i> +era um cesto maior com tampa. <i>Samburá</i> era cesto com orelha, +corrupção de <i>nambi</i> e <i>urú</i>, literalmente cesto de orelha. +Tinham ainda os selvajens o <i>patiguá</i> ou <i>patuâ</i>, que era uma +caixa de palha ou couro; e o <i>mocô</i>, pequeno surrão da pele +felpuda do coelho. Todos estes nomes ainda são uzados no +norte para dezignar os mesmos objetos, produtos da industria +indijena, aproveitada pelos colonizadores.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_26">Paj. 26</a></p> + +<p><i>Coqueiros</i>.—Ao que disse em nota de Iracema ácerca do +indijenismo desta planta acrecentarei a noticia que della<span class="pagenum"><a name="Page_119" id="Page_119">[119]</a></span> +nos deixou Guilherme Piso—<i>Historiæ Rerum Naturalium +Brasiliæ</i>, Liv. 8<sup>o</sup>, p. 138.</p> + +<p>«<i>Inaiá Guacuiba</i> cujus fructus <i>inaiaguacu</i> brasiliensibus; +in congo vocatus <i>Ejaquiambutu</i> et fructus <i>Quetiniga quiambutu</i>: +Palma nucifera, lusitanis <i>coqueiro</i> et fructus illius <i>coco</i>; +qui tribus suis foraminulis lavam representat. Arbor caudice +raro recto, sed plerumque incurvato, quatuor, quinque sex +aut etiam septem pedes crasso, triginta, quadraginta et interdum +quinquaginta pedes alto.»</p> + +<p>É esta mesma palmeira que os Mexicanos chamavam +<i>Cogolli</i>. Piso viu em 1640 na cidade Mauricéa (Recife) transplantarem-se +pés que tinham mais de 24 anos.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_28">Paj. 28</a></p> + +<p><i>Cabelos</i>.—Pelos cabelos costumavam distinguirem-se as +diversas nações indijenas. Southey—I, cap. 8<sup>o</sup>. Das mulheres +diz Barlœus:—<i>Fœminis coma promissa nisi per luctus +tempora aut absens marito</i>.—paj. 36. Traziam as mulheres a +madeixa longa, salvo no tempo do luto ou auzencia do marido.</p> + +<p>Mais um traço do carater e costumes indijenas. Durante +a auzencia do marido, a mulher trazia uma especie de luto, +ou mostra de tristeza e saudade, que era simbolizada pelo +sacrificio das longas tranças dos cabelos.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_28">Paj. 28</a></p> + +<p><i>Braços que tu querias para tua cintura</i>.—Metafora da lingua +tupí, que exprime o amor; <i>aguaçaba</i>, a amante, literalmente, +o que se tem á cintura.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_31">Paj. 31</a></p> + +<p><i>Escravo</i>.—Acerca das leis do cativeiro entre os indios +leiam-se os dois capitulos XV e XVI, que a este assunto +consagrou Ives d'Evreux, citado.</p> + +<p>Os cativos viviam em plena liberdade na taba de seus +senhores, e era muito raro que fujissem, porque se consideravam +ligados por um vinculo desde o momento em que o +vencedor lhes calcava a mão sobre a espadua. Quebrar esse +vinculo, era por elles considerado uma dezhonra.</p> + +<p>Até os prizioneiros destinados ao suplicio, preferiam a<span class="pagenum"><a name="Page_120" id="Page_120">[120]</a></span> +morte glorioza a se rebaixarem pela fuga no conceito de +seus inimigos. «Muitas vezes as mulheres tomavam substancias +que provocavam o aborto, não querendo passar pela +mizeria de verem trucidada a prole; não raro favoreciam a +fuga dos tristes maridos de alguns dias pondo-lhes comida +nos bosques e até escapulindo-se com elles. Frequentemente +sucedeu isto a prizioneiros portuguezes; os indios brazileiros, +porém, julgavam dezhonroza a fuga, nem era facil persuadil-os +a tomal-a.» Southey—cap. VII onde cita—Noticias +do Brazil, II, 69 e Herrera 4, 3, 13.</p> + +<p>Abbeville ainda é mais explicito:—Et bien que estant +desliez et libres comme ils sont, ils puissent fuir et se sauver, +si est ce que ils ne font jamais encore qu'ils soient assurez +de estre tuez et mangez au bout de quelques temps. Car +si quelqu'un des prisionniers s'etait eschapé pour retourner +em son pays, non seulement il serai tenu pour un <i>couaen +eum</i>, c'est a dire poltron et lasche de courage; mais aussi +ceux de sa nation mesme ne manqueroient de le tuer avec +mille reproches de ce qu'il n'aurait pas eu le courage d'endurer +la mort parmi ses ennemis, comme si ses parents et +tous ses semblables n'etaient assez puissants por venger sa +mort, etc. pag. 290.</p> + +<p>As leis da cavalaria no tempo em que ella floreceu em +Europa não excediam por certo em pundonor e brios a +bizarria dos selvajens brazileiros. Jámais o ponto de honra +foi respeitado como entre estes barbaros, que não eram menos +galhardos e nobres do que esses outros barbaros, godos +e arabes, que fundaram a cavalaria.</p> + +<p>Alí está uma pedra de toque para aferir-se o carater do +selvajem brazileiro, tão deprimido por cronistas e noveleiros, +avidos de inventarem monstruozidades para impinjil-as +ao leitor. Nem isso lhes custava; pois a raça invazora buscava +justificar suas cruezas rebaixando os aborijenes á condição +de féras, que era forçozo montear.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_32">Paj. 32</a></p> + +<p><i>O suplicio</i>.—Outro ponto em que se assopra a ridicula +indignação dos cronistas é ácerca da antropofagia dos selvajens +americanos.</p> + +<p>Ninguem póde seguramente abster-se de um sentimento +de horror ante essa idéa do homem devorado pelo homem. +Ao nosso espirito civilizado, ella repugna não só á moral, +como ao decoro que deve revestir os costumes de uma +sociedade cristã.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_121" id="Page_121">[121]</a></span></p> + +<p>Mas antes de tudo cumpre investigar a causa que produziu +entre algumas, não entre todas as nações indijenas, o +costume da antropofagia.</p> + +<p>Disso é que não curaram os cronistas. Alguns atribuem +o costume á ferocidade, que transformava os selvajens em +verdadeiros carniceiros, e tornava-os como a tigres sedentos +de sangue. A ser assim não faziam mais do que reproduzir +os costumes citas, que sugavam o sangue do inimigo +ferido,—quem primum interemerunt, ipsis é vulneribus ebibere. +Pomponius Mœla. Descrip. da Terra.—Liv. 2<sup>o</sup> cap. 1<sup>o</sup>.</p> + +<p>Outros lançam a antropofajia dos americanos á conta da +gula, pintando-os igual á horda bretã das Gallias, os Aticotes, +dos quais diz S. Jeronimo que se nutriam de carne +humana, regalando-se com o ubere das mulheres e a fevera +dos pastores. (<i>S. Hieronimo IV.—paj. 201, adv. Jovin.—Liv. 2<sup>o</sup></i>.)</p> + +<p>O canibalismo americano não era produzido, nem por +uma nem por outra dessas cauzas.</p> + +<p>É ponto averiguado, pela geral conformidade dos autores +mais dignos de credito, que o selvajem americano só +devorava o inimigo, vencido e cativo na guerra. Era esse +ato um perfeito sacrificio, celebrado com pompa, e precedido +por um combate real ou simulado que punha termo á +existencia do prizioneiro.</p> + +<p>Simão de Vasconcelos, Cronica da companhia, 1 § 49, +alude a uma velha que sentia entojos por não ter a mãozinha +de um rapaz tapuia para chupar-lhe os ossinhos: e Hans +Stade, paj. 4, cap. 43 e seg., conta a historia de dois individuos +moqueados pelos tupinambás, e guardados para um +banquete.</p> + +<p>Não exajeremos, porém, esses fatos izolados, alguns dos +quais podem não passar de caraminholas, impinjidas ao pio +leitor. Os costumes de um povo não se aferem por acidentes, +mas pela pratica uniforme que elle observa em seus +atos.</p> + +<p>Se os tupís fossem excitados pelo apetite da carne humana, +elles aproveitariam os corpos dos inimigos mortos no +combate, e que ficavam no campo da batalha. A guerra se +tornaria em caçada; e em vez de montear as antas e os veados, +os selvajens se devorariam entre si.</p> + +<p>Não ha, porém, escritor sério que deixasse noticia de +fatos daquella natureza; e não me recordo de nenhum que +referisse exemplos de serem devoradas mulheres e meninos; +salvo quanto aos ultimos, o filho do prizioneiro de +guerra (Not. do Brazil.—II, 69), do que tenho razão para +duvidar.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_122" id="Page_122">[122]</a></span></p> + +<p>Parece-nos, pois, que a idéa da gula deve ser repelida +sem hezitação. Se em algumas tribus ou malocas se propagou +o apetite depravado, essa dejeneração foi por ventura +devida ao contajio dos Aimorés, cuja invazão é posterior ao +descobrimento. Em todo o cazo é uma exceção que não póde +preterir o rito da relijião tupica.</p> + +<p>Tambem pela contraprova, havemos de excluir a ferocidade, +como razão do canibalismo americano.</p> + +<p>Se o instinto carniceiro dominasse o tupí, elle se lançaria +sobre o inimigo como o cita, ou o sarraceno de que +fala Am. Marcellinus, para sugar-lhe o sangue da ferida, e +trincar-lhe as carnes ainda vivas e palpitantes.</p> + +<p>Mas, ao contrario, vemos que o guerreiro tupí tinha por +maior bizarria cativar seu inimigo no combate, e trazel-o +prizioneiro, do que matal-o. Chegado á taba, em vez de o +torturar dava-lhe por espoza uma das virjens mais formozas, +a qual tinha a seu cargo nutril-o e tornar-lhe agradavel o +cativeiro.</p> + +<p>Releva notar que a idéa da antropofajia já era comum na +Europa, antes do descobrimento da America; não só pelas +tradições dos barbaros, como pelas crendices da média idade, +nas quais figuravam gigantes e bruxas, papões de meninos. +Que tema inexgotavel para a imajinação popular não +veiu a ser a primeira noticia, senão conjetura, sobre o canibalismo +do selvajem brazileiro?</p> + +<p>Cronista ha que nesse costume, onde se está revelando +a força tradicional de um rito, não enxergou senão +o zelo do glotão, que engorda a preza para saboreal-a. +Mas essa ridicula supozição nem ao menos se conforma +com o teor da vida selvajem, a qual desconhecia a industria +da criação.</p> + +<p>O selvajem comia a caça como a encontrava no mato, +gorda logo depois do inverno, e magra na força da seca. +Não se dava ao trabalho de a engordar. Porque motivo se +havia de afastar desse uzo ácerca do homem, se o homem +fosse para elle uma especie de caça?</p> + +<p>E por ventura faria parte do processo da engorda do +bipede, o acessorio de uma companheira formoza e na flôr +da idade, qual invariavelmente a davam ao prizioneiro?</p> + +<p>É obvio que esse uzo tinha outra razão mui diversa. +Não se tratava de engordar o prizioneiro, mas de fortalecel-o, +para que elle morresse com honra no dia do sacrificio, +que devia ser o seu ultimo combate.</p> + +<p>Ainda nessa ocazião, os vencedores ostentavam sua gravidade, +deixando que o prizioneiro exaltasse o proprio valor +e os afrontasse com seu desprezo. Só chegado o momento<span class="pagenum"><a name="Page_123" id="Page_123">[123]</a></span> +depois de celebrada a ceremonia, o abatiam com um golpe +de tacape.</p> + +<p>A ferocidade não se coaduna com a calma e comedimento +desse proceder. Póde-se explicar o sacrificio humano dos +tupís por um intenso e profundo sentimento de vingança; +mas não por sanha brutal.</p> + +<p>Ferdinand Saint-Denis (<i>Univers</i>, <i>Brésil</i>, pag. 30) diz com +muito criterio:—<i>En accomplissant ces sacrifices, les tupinambás +n'obéissaient pas, comme pourraient le croire quelques personnes, +à un goût depravé qui leur aurait fait préférer la chair +humaine à toutes les autres; ils étaient mus avant tout par un +esprit de vengeance que se transmettait de génération en génération, +et dont notre civilisation nous empêche de comprendre +la violence</i>.</p> + +<p>Não era, porém, a vingança a verdadeira razão da antropofajia. +O selvajem não comia o corpo do matador de seu +pai ou filho, se acontecia matal-o em combate. Abandonava +o cadaver no campo, e apenas cortava-lhe a cabeça para +espetal-a em um poste á entrada da taba, e arrancava-lhe o +dente para troféu.</p> + +<p>A vingança, pois, esgotava-se com a morte. O sacrificio +humano significava uma gloria insigne rezervada aos guerreiros +ilustres ou varões egrejios quando caíam prizioneiros. +Para honral-os, os matavam no meio da festa guerreira; e +comiam sua carne que devia transmitir-lhes a pujança e +valor do heróe inimigo.</p> + +<p>Este pensamento resalta dos mesmos pormenores com +que os cronistas exajeraram o cruento sacrificio.</p> + +<p>Morto o inimigo, não era devorado; antes as mulheres +tratavam o corpo e o curavam, moqueando as carnes. Essas +eram guardadas; e distribuidas por todas as tribus, incumbindo-se +os que tinham vindo assistir á ceremonia, de leval-as +ás tabas remotas.</p> + +<p>Os restos do inimigo tornavam-se, pois, como uma hostia +sagrada que fortalecia os guerreiros; pois ás mulheres e +aos mancebos cabia apenas uma tenue porção. Não era a +vingança; mas uma especie de comunhão da carne, pela +qual se operava a transfuzão do heroismo.</p> + +<p>Por isso dizia o prizioneiro:—«Esta carne que vêdes +não é minha; porém vossa; ella é feita da carne dos guerreiros +que eu sacrifiquei, vossos pais, filhos e parentes. +Comei-a; pois comereis vossa propria carne.» Deste modo +retribuia o vencido a gloria de que os vencedores o cercavam. +O heroismo que lhe reconheciam, elle o referia á sua +raça de quem o recebera por igual comunhão.</p> + +<p>Algumas nações tinham outra comunhão, inspirada no<span class="pagenum"><a name="Page_124" id="Page_124">[124]</a></span> +mesmo pensamento. Era a dos ossos dos projenitores que +reduziam a pó, e que bebiam dissolvidos no cauim em festas +de comemoração. Este fato, assim como o sacrificio tremendo +da mãi, que devia absorver em si o filho que lhe +nacera morto, bem mostram que por modo algum naceu do +espirito de vingança o chamado canibalismo.</p> + +<p>Transportemo-nos agora, não como homens e cristãos, +mas como artistas, ao seio das florestas seculares, ás tabas +dos povos guerreiros que dominavam a patria selvajem; e +quem haverá tão severo que negue a fera nobreza desse +barbaro e tremendo sacrificio?</p> + +<p>A idéa repugna; mas o banquete selvajem, tem uma +grandeza que não se encontra no festim dos Atridas; e está +bem lonje de inspirar o horror dessa atrocidade que entretanto +não foi desdenhada pela muza classica.</p> + +<p>No Brazil é que se tem dezenvolvido da parte de certa +gente uma aversão para o elemento indijena de nossa literatura, +a ponto de o eliminarem absolutamente. Contra essa +extravagante pretenção lavra mais um protesto o presente +livro.</p> + +<p>Para concluir com este ponto, observaremos que nem +todas as nações selvajens eram antropofagas; e que em +minha opinião esse costume, bem lonje de ser introduzido +pela raça tupí, foi por ella recebido dos Aimorés e outros povos +da mesma orijem, que ao tempo do descobrimento apareceram +no Brazil.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_32">Paj. 32</a></p> + +<p><i>Espoza do tumulo</i>.-Este rito selvajem é muito conhecido +e dispensa-me de transcrever o que ácerca delle escreveram +os cronistas.</p> + +<p>Mais uma prova do carater generozo e bizarro do selvajem +brazileiro. Lonje de torturarem seu prizioneiro, ao contrario +se esforçavam em alegrar-lhes os ultimos dias pelo +amor; davam-lhe uma espoza; e tão grande honra era esta +que o vencedor a rezervava para sua filha ou irmã virjem; +e se não a tinha, para a filha de algum dos principais da taba.</p> + +<p>Falam alguns autores da <i>cunhãmembira</i>, como de uma +ceremonia em que se devorava o filho que por ventura a +espoza do tumulo concebia do prizioneiro morto. Duvido da +generalidade desse fato, que me parece adulterado, e seria +especial aos tamoios.</p> + +<p><i>Cunhãmembira</i>, dizem esses autores, significa <i>filho da +mulher</i>; e daí diz Southey, copiando Lery, tiravam elles uma +horrivel consequencia, que era devorarem a criança.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_125" id="Page_125">[125]</a></span></p> + +<p>Ora, <i>cunhãmembira</i> significa saído do ventre da mulher. +A lingua tupí não tinha outro modo de dezignar a maternidade: +taíra—isto é, saído do sangue, diziam do filho ácerca +do pai; e <i>membira</i>, diziam do filho ácerca da mãi. Na expressão +<i>cunhãmembira</i> não ha senão a antepozição do substantivo +<i>cunham</i> (mulher) que os indios suprimiam por superfluo; +assim como suprimiam na outra palavra dizendo simplesmente +<i>taíra</i> e não <i>aba-taíra</i> saído do sangue do varão.</p> + +<p>Se o nome de <i>cunhãmembira</i> indicasse estar a criança +destinada ao suplicio, então todos os nacidos da taba se +achariam no mesmo cazo, pois todos eram em relação ás +mais, <i>membiras</i> ou <i>cunhã membiras</i>.</p> + +<p>Ainda mais, se a criança era condenada ao suplicio pela +razão de ser do sangue inimigo, parece que o nome a ella +dado devia exprimir esse fato importante e derivar-se antes +desta fraze: <i>miauçubtaíra</i>—o gerado do sangue do cativo.</p> + +<p>A estes filhos dos prizioneiros chamavam os indijenas +<i>marabá</i>, gerado da guerra, nome honrozo, que revelava o +apreço em que tinham essa prole, saída de um sangue heroico. +E tanto assim era que destinavam para conceber essa +prole o seio da virjem mais ilustre da taba.</p> + +<p>Se os selvajens, que nada praticavam sem uma razão justificativa, +só tinham em mira devorar os filhos do cativo, +para que dar-lhe uma espoza ilustre? Mais sagazmente procederiam +adjudicando-lhe diversas mulheres para terem +maior criação a matar.</p> + +<p>Está-se conhecendo que o tal banquete não passa de um +invento de cronistas, que entenderam as outras palavras dos +indios tão bem como a de <i>cunhãmembira</i> que elles diziam +significar filho do inimigo.</p> + +<p><i>Cunhãmembira</i> creio eu ser a festa que se fazia pelo parto +da mulher; e talvez acontecendo nacer morta a criança, se +orijinasse a fabula do sacrificio que então se praticava entre +algumas nações de ser a mãi obrigada a absorver em si +esse fruto goro de sua fecundidade.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_33">Paj. 33</a></p> + +<p><i>Guainumbí</i>.—«Persuadem-se os brazilienses haver uma +ave, que chamam colibri, a qual leva e traz noticia do outro +mundo.» Santa Rita Durão—Notas ao Caramurú.</p> + +<p>Tambem chamavam os indios esse passaro, <i>Guaraciaba</i>—cabelos +do sol; e Arati, ou Arataguaçú segundo Marcgraff, +197. Quanto ao nome de Guainumbí, ou mais corretamente +Guinambí, penso eu que significa o brinco das flôres. Os<span class="pagenum"><a name="Page_126" id="Page_126">[126]</a></span> +selvajens tiraram naturalmente essa dezignação do modo +por que o colibri tremula, como suspenso á flôr para chupar-lhe +o mel, semelhante ao movimento das arrecadas suspensas +ás orelhas, e que elles chamavam <i>nambípora</i>.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_35">Paj. 35</a></p> + +<p><i>Jussara</i>.—«Nas povoações feitas em terra têm muitas nações +guerreiras a providencia de as segurarem e munirem +com fortes muralhas, não de pedra, mas de estacas do páu +duro como pedra. Outros as fabricam de palmeira, que chamam jussara, +cujos espinhos são tão grandes e duros, que +servem a muitos de agulhas de fazer meias; e as trincheiras +feitas de <i>jussara</i> são mais seguras que as mais bem reguladas +fortalezas; porque de modo nenhum se podem penetrar e +romper senão com fogo por crecerem não só cheias de +grandes estrepes ou agudos espinhos, mas tão enlaçadas e +enleadas umas com outras que se fazem impenetraveis. +(Tezouro descoberto no rio Amazonas, Part. 2<sup>a</sup>, cap. 1<sup>o</sup>, no +2<sup>o</sup> vol. da Rev. do Instituto, paj. 350.)</p> + +<p>O nome da palmeira é em tupí <i>jussara</i>, de <i>ju</i>—espinho e +<i>ara</i> dezinencia.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_36">Paj. 36</a></p> + +<p><i>Carbeto</i>.—Assim chamam Ives d'Evreux e Abbeville ao +conselho dos velhos entre os selvajens. Este nome deriva-se +naturalmente de <i>caraiba</i>, varão ilustre e <i>ipê</i>, logar onde.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_37">Paj. 37</a></p> + +<p><i>Hospede</i>.—A virtude da hospitalidade era uma das mais +veneradas entre os indijenas. Todos os cronistas dão della +testemunho; e alguns, como Lery e Ives d'Evreux, descrevem +com particularidade o modo liberal e generozo por que +os selvajens brazileiros a exerciam.</p> + +<p>É certo que não escapou tambem á malevolencia dos +cronistas, essa excelencia e nobreza do carater indijena. +Gabriel Soares cit. cap. 168 depois de falar do como os tupinambás +agazalhavam os hospedes, acrecenta: «e lançam +suas contas se vem de bom titulo ou, não; e se é seu contrario, +de maravilha escapa que o não matem, etc.» Southey +cit. cap. 8<sup>o</sup> faz coro com essa versão que nos parece suspeita.</p> + +<p>É possivel que depois da colonização, os selvajens viti<span class="pagenum"><a name="Page_127" id="Page_127">[127]</a></span>mas +das perfidias dos aventureiros relaxassem suas tradições; +mas a hospitalidade foi sempre entre elles uma coiza sagrada, +como atestam em geral os escritores, que não referem aquella +exceção.</p> + +<p>Basta refletir sobre o modo por que exerciam os selvajens +a hospitalidade para reconhecer que não é admissivel +a suspeita de Gabriel Soares. Em verdade, aquelles cuja +porta estava aberta sempre ao viajante; que franqueavam +o ingresso de sua cabana por tal modo que o estranjeiro +nella entrava como senhor, ainda mesmo na auzencia do +dono; que sem perguntar o nome de quem chegava nem de +onde vinha o agazalhavam com a maior liberalidade; esses +que assim acolhiam o hospede, não podiam ocultar a intenção +perfida de o matar, no cazo de ser contrario. Ha uma +tal contradição entre esse desfecho e as circumstancias precedentes, +que não se póde acreditar nelle pelo simples dizer +de um cronista, que em muitas outras inexatidões caiu.</p> + +<p>Se ha traço nobre do carater selvajem é essa hospitalidade, +que o estranjeiro não pedia e sim exijia como um +direito sagrado, com esta simples formula—<i>Vim</i>; ao que o +dono da cabana respondia—<i>Bem vindo</i>.</p> + +<p>O epizodio da deliberação do conselho sobre o nome do +estranjeiro está justificado pelo trecho seguinte de Ives +d'Evreux, cap. 50.</p> + +<p>«Aprés ces paroles il vous dit—<i>Marapé derere</i>? comment +t'appelles-tu? quel est ton nom? comme veux-tu que nous +t'appellions? Quel nom veux-tu qu'on t'impose? Où faut-il +noter que si vous ne vous estes donné et choisi um nom, +lequel vous leur dites alors et desormais estes appellé par +tout le pays de ce nom, les sauvages du village ou vous +demeurez vous en choisiront um pris des choses naturelles, +qui sont en leurs pays et ce le plus convenablement qu'il +leur sera possible, selon la phisionomie qu'ils verront en +votre visage, ou selon les humeurs et façons qu'ils reconnaitront +en vous..... Eh bien quel nom donnerons nous a +un tel ton compére? Je ne sais, il faut voir; lors chacun +dit son opinion et le nom qui rencontre le mieux et est reçu +de l'assemblée, est imposé avec son consentement si c'est +quelque homme d'honneur.»</p> + +<p>Ainda nessa circumstancia se revela a delicadeza da +hospitalidade do selvajem.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_38">Paj. 38</a></p> + +<p><i>Artes da paz</i>.—É ainda de Ives d'Evreux, cap. 18, esta +curioza informação. «Je raconterai ici une jolie histoire. Un<span class="pagenum"><a name="Page_128" id="Page_128">[128]</a></span> +jour je m'allois visiter le grand Theon, principal des Pierres +Vertes Tabaiares: comme je fus en sa loge et que je l'eus +demandé, une des ses femmes me conduit soubs une belle +arbre qui estoit au bout de sa loge, qui la couvrait du soleil; +lá-dessous il avait dressé son mestier pour testre des licts +de coton et travaillait après forte soigneusement; je m'étonnai +beaucoup de voir ce grand capitaine, vieil colonel de sa +nation, ennobli de plusieurs coups de mousquets, s'amuser +à faire ce mestier et je ne peus me taire que je ne sçusse +la raison espérant apprendre quelque chose de nouveau en +ce spectacle si particulier. Je luy fist demander par le +truchement qui estoit avec moy, à quelle fin il s'amusait à +cela? il me fit response: «Les jeunes gens considérent mes +actions et selon que je fais ils font; si je demeurais sur +mon lit à me branler et humer le petim, ils ne voudraient +faire autre chose; mais quand ils me voient aller au bois, +la hache sur l'épaule et la serpe en main, ou qu'ils me voient +travailler à faire des licts, ils sont honteux de rien faire, etc.»</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_38">Paj. 38</a></p> + +<p><i>Lançadeira</i>.—Os indijenas tinham um tear que é descrito +por Lery, cap. 18. Uzavam tambem de um fuzo comprido e +grosso, que as mulheres faziam girar entre os dedos, atirando +ao ar, como ainda agora fazem as velhas fiandeiras +do sertão.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_43">Paj. 43</a></p> + +<p><i>Jurandir</i>.—Contração da fraze <i>Ajur-rendipira</i>—o que +veiu trazido pela luz.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_45">Paj. 45</a></p> + +<p><i>Jabotí</i>.—Contou-me o Dr. Coutinho que o jabotí para os +indios do Amazonas é o simbolo da gravidade, prudencia e +sabedoria, e prometeu-me dar um apologo, em que elles +celebram essas virtudes, contando a historia de um jabotí, +que venceu na lijeireza ao veado, na força á onça e assim +aos mais animais.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_45">Paj. 45</a></p> + +<p><i>Tetivas</i>.—Os Tetivas habitam nos olhos das palmeiras e +de outras arvores: põem-lhes terra e acendem fogo. Humboldt +cit., paj. 283.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_129" id="Page_129">[129]</a></span></p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_46">Paj. 46</a></p> + +<p><i>Mulheres guerreiras</i>.—Aluzão ás Amazonas cuja existencia +é tão controvertida. Eu acredito na sua existencia, embora +reconheça que houve exajeração de Orellana.</p> + +<p>Não é este o momento de elucidar este ponto da historia, +ou antes mitolojia do Brazil selvajem. Proponho-me a fazel-o +quando publicar uma lenda que tenho esboçada ácerca do +assunto. Nessa ocazião direi o que entendo ácerca da memoria +do Dr. Gonçalves Dias, publicada na <i>Revista do Instituto</i>.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_46">Paj. 46</a></p> + +<p><i>Senhoras de seu corpo</i>.—Metafora tupí. No varão a parte +nobre era o sangue; pelo que elle dizia do filho—<i>taíra</i>, o +filho do meu sangue; e para indicar a independencia diziam +<i>taíguara</i>, que os dicionarios traduzem <i>livre</i>, mas que literalmente +significa, <i>senhor do seu sangue</i>.</p> + +<p>A mulher que dizia do filho <i>membira</i>—o gerado de meu +ventre, devia pela mesma razão uzar de expressão analoga +para exprimir sua liberdade, e dizer <i>membijara</i>—senhora de +seu ventre, que eu por elegancia traduzo menos literalmente, +<i>senhora de seu corpo</i>.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_47">Paj. 47</a></p> + +<p><i>Pará sem fim</i>.—Par, diz Humboldt cit. paj. 285, é uma +radical guaraní e exprime agua. Pará creio eu que significou +a grande abundancia de agua, e foi primitivamente empregado +para dezignar os lagos e por ventura as vastas inundações +do vale do Amazonas. Mais tarde os selvajens acrecentaram-lhe +o verbo <i>nhane</i> correr, e disseram <i>pará-nhanhe</i>—donde +<i>paranãn</i> para dezignar as grandes massas de agua +corrente, isto é, os rios caudalozos.</p> + +<p>Os dois maiores rios da America do Sul, o Amazonas e +o Prata, ambos se chamavam <i>Paranãn</i>, assim como outros +muitos do Brazil. O mesmo radical se encontra já composto +em Paraíba, Parnaíba, Paranapanema, etc.</p> + +<p>Foi a substituição do <i>p</i> pela analoga <i>m</i> que produziu o +nome de <i>Maranhão</i>, ácerca de cuja etimolojia se inventaram +tantas extravagancias.</p><p><span class="pagenum"><a name="Page_130" id="Page_130">[130]</a></span></p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_48">Paj. 48</a></p> + +<p><i>Guerreiros do mar</i>.—Tradução da palavra tupí <i>caramurú</i> +com que os tupinambás da Baía dezignaram Diogo Alvares +Correia.</p> + +<p>Caramurú é composto de <i>cara</i>, alteração de Pará—mar e +<i>moro</i>, gente; homem do mar. Os selvajens acreditavam que +as aguas eram habitadas, e daí naceu a lenda da mãi d'agua, +que se transmitiu á raça invazora. Nada mais natural do que +chamarem ao primeiro homem branco, que lhe apareceu surjindo +do oceano, Caramurú—o guerreiro do mar.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_48">Paj. 48</a></p> + +<p><i>Rezina cheiroza</i>.—É o ambar, que os tupís chamavam +<i>Piraoçurepoti</i>, e de que ao tempo do descobrimento abundavam +as ribeiras do mar, nas provincias do norte.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_49">Paj. 49</a></p> + +<p><i>Moças</i>.—É dificil, senão impossivel, determinar atualmente, +e pelas informações tão falhas quão malignas dos +cronistas, a condição da mulher entre os selvajens.</p> + +<p>Do que tenho lido coliji as idéas, a que no texto se alude +mui lijeiramente, e a que em outro logar démos maior dezenvolvimento.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_51">Paj. 51</a></p> + +<p><i>Para servir a Itaquê</i>.—«E quando o principal não é o maior +da aldeia dos indios das outras cazas, o que tem mais filhas +é o mais rico e estimado e mais honrado de todos, porque +são as filhas mui requestadas dos mancebos que as namoram; +os quais servem os pais das damas dois e tres anos +primeiro que lh'as deem por mulheres e não as dão senão +aos que melhor os servem, a quem os namoradores fazem a +roça e vão pescar e caçar para os sogros que dezejam de +ter, e lhes trazem a lenha do mato, etc.» G. Soares, cit. +cap. 152.</p> + +<p>Aí está a lenda biblica de Jacob servindo a Labam 7 anos +para obter por espoza a Sara. Não consta, porém, que os +selvajens uzassem da esperteza do pai de Lia, para descar<span class="pagenum"><a name="Page_131" id="Page_131">[131]</a></span>tar-se +de uma filha defeituoza; se tal acontecesse entre os +tupís, de que ridiculas indignações não se encheriam os cronistas?</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_52">Paj. 52</a></p> + +<p><i>Manatí</i>.—È o peixe-boi, de cujo couro mais forte que o +do touro os indios fazem escudos. Anunciam a chuva, saltando +acima d'agua. Gumilha—Orenoco ilustrado, paj. 276.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_52">Paj. 52</a></p> + +<p><i>Biaribí</i>.—Um dos modos porque os indios assavam a caça, +e consistia em enterral-a envolta em folhas de banana, e +acender em cima o fogo, cujo calor penetrando no chão +cozia a carne, concentrando-lhe o sabor.</p> + +<p><i>Moquem</i> era simplesmente o assado envolto em folha e +feito sobre a braza; daí vem <i>moqueca</i> de que tirámos os verbos +moquear e amoquecar.</p> + +<p><i>Bucan</i>, supõem alguns que seja alteração de <i>moquem</i>; +mas eu o considero termo distinto que exprimia apenas a +operação de secar a carne ao fumeiro para conserval-a. +Neste sentido é que Lery e Ives de Evreux empregam constantemente +o termo francez <i>boucaner</i>, derivado da palavra +tupí.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_54">Paj. 54</a></p> + +<p><i>Pela mão da mulher</i>. Refere Gumilla, cap. 45, que estranhando +aos indios sobrecarregarem as mulheres com os +trabalhos agricolas, elles retorquiram que as mulheres sabem +dar fruto, o que não sabem os homens, e por isso na +mão dellas as sementes naciam e se multiplicavam.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_56">Paj. 56</a></p> + +<p><i>Pirijá</i>.—Uma especie de palmeira chamada palmeira real; +é espinhoza e tem frutos semelhantes ao pecego. Humboldt +cit., paj. 257 e 262.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_58">Paj. 58</a></p> + +<p><i>Nunca Jandira ofereceria sua rêde de espoza</i>, etc.—Arací +reprezenta o amor da virjem tupí, segundo o costume tradi<span class="pagenum"><a name="Page_132" id="Page_132">[132]</a></span>cional +de sua nação, que admitia a comunidade e partilha do +amor, como um privilejio do guerreiro ilustre. Ser amada +excluzivamente, significava para a mulher selvajem, ser +amada por um guerreiro obscuro.</p> + +<p>Jandira reprezenta o excluzivismo do amor, que muitas +vezes devia lutar com a lei tradicional; porque é um impulso +da natureza, a qual não é dado ao homem aniquilar embora +muitas vezes a sopite.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_61">Paj. 61</a></p> + +<p><i>O combate nupcial</i>.—Este rito, de ser a virjem requestada +o premio do valor e da corajem, é atestado por grande numero +de escritores.</p> + +<p>Barlœus, paj. 420:—«Lucta et hastarum concursu decertare +gloriosum, finis spectanctium voluptas est, presertim +amantium fœmina de cujusque fortitudine et victoria pronuntiat, +sic in proximo pignora, pugnandi irritamenta sunt +fortitudinis præcones, ciborum administræ.»</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_65">Paj. 65</a></p> + +<p><i>A figura da noiva</i>.—Esta prova de destreza era muito +uzada pelos selvajens. Marcgraff descreve a especie de torneio +que elles faziam divididos em duas turmas, a ver qual +levava mais depressa o seu tóro ao logar destinado para +acampamento. Naturalis Historia Brazilia, liv. 8<sup>o</sup>, cap. 12.</p> + +<p>Conclue com estas palavras:-«qui deinceps tempus +terunt hastilibus certando, luctando, currendo; quibus certaminibus +duæ fæminæ ad id selectœ prœsident et judicant +de singulorum virtute et victoribus.</p> + +<p>Estes certamens guerreiros, esses jogos de luta, combate +e carreira, prezididos por mulheres que julgavam do valor +dos campeões e conferiam premio aos vencedores, não +cedem em galanteria aos torneios da cavalaria.</p> + +<p>Ácerca da prova a que acima nos referimos, escreveu o +Dr. Gonçalves Dias—<i>Brazil</i> e <i>Oceania</i>, cap. 10, <i>Revista do +Instituto</i>, tom. 30, parte 2<sup>a</sup>, paj. 153:—Um tóro de barrigudo +em um cabo delgado e de facil preensão, semelhante aos +soquetes ou massetes de que ainda entre nós se uza em muitas +partes para bater a terra das sepulturas, posto que mais +poderozo que este, ou um grande pedaço de tronco de palmeira, +era colocado no meio do terreiro. Vinha o guerreiro +correndo, tomava o tronco, continuava a carreira, saltava +fossos, subia elevações, arrojava-se ás vezes ao rio com elle<span class="pagenum"><a name="Page_133" id="Page_133">[133]</a></span> +e quem chegava primeiro e levava mais lonje a carga, esse +ganhava a palma e a mulher que tinha de ser espozada. Explicou-se +esse costume, de que trata Barlœus, Marcgraff e +outros, e que ainda conservam algumas tribus do Piauí, pela +necessidade que tinha o guerreiro de defender a mulher, e +para que em ocazião de perigo a podesse salvar fujindo.»</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_67">Paj. 67</a></p> + +<p><i>O camucim da constancia</i>.—Lê-se no <i>Tezouro do Amazonas</i>, +cit. tom. 3 da <i>Revista do Instituto</i>, paj. 169. «O 5<sup>o</sup> predicado +que tambem, como muitas outras nações conservam os Arapiuns, +é a prova da valentia quando cazam; é um exame +prévio ou o primeiro principio, como se diz nas Universidades, +a suas bodas, e uma experiencia ou tentativa de seu +valor para mostrarem que posto cazem não é por afeminados, +mas por valentes. Ha diversos generos dessa prova de +valentia; mas uma mui ordinaria nos indios Arapiuns é encherem +uns grandes e compridos cabaços das formigas que +chamam saugas (<i>saúvas</i>) grandes e mui bravas; ferram na +carne com tanta ou mais valentia que os cães de fila, com +proporção á grandeza destes e pequenez daquellas; porque +os cães assim vêm a largar; mas as saugas não largam ainda +que as matem e antes perderão a cabeça ficando com as +troquezes cravadas na carne do que soltarem ellas preza; +por isso uzam dellas alguns cirurjiões quando querem cozer +alguma cicatriz com segurança, sem uzarem pontos, como +adiante dizemos. Cheios, pois, os cabaços de saugas, não +só famintas, mas quando estão com fome talvez de dias ... +e sobre isso bem enraivadas com sacudidelas, prezentes +todos os velhos e graves da missão, sae a terreiro o noivo +examinando, destapam-se os cabaços nos quais intrepido +mete os braços, a que logo acodem as filas, já para saciar +a fome, já para dezabafar a ira, e já para provar e castigar +o bacharel, o qual posto que as dôres o façam mudar de +côres, torcer a boca, tremer o corpo, levantar as sobrancelhas +e arrebentar as lagrimas, tenha paciencia, que se quer, +ha de aturar a bucha, emquanto os examinadores já bebendo-lhe +á saude e já dando voltas em bailes se vão regalando +á sua custa, etc.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_73">Paj. 73</a></p> + +<p><i>Igapê</i>.—É o nenufar na lingua tupí, de <i>Ig</i>, <i>ipe</i> e <i>potira</i>—flôr +d'agua. Os portuguezes corromperam essa palavra<span class="pagenum"><a name="Page_134" id="Page_134">[134]</a></span> +transformando-a em <i>aguapé</i>, nome por que é vulgarmente +conhecida. Penso eu, porém, que devemos restaurar o nome +indijena, até mesmo porque <i>aguapé</i> tem diversa significação +em portuguez.</p> + +<p>Uma dessas nímféas, a rainha das flôres, a que os indios +chamavam milho d'agua, ou a flôr jaçanan, por servir de +ninho a essas aves paludais, nace branca e com a luz do +sol vai rozeando até se tornar escarlate.</p> + +<p>Em uma noticia publicada pelos jornais li que o nome +dessa flôr <i>napê jaçanan</i> significa, forno das jaçanans, do +que duvido. O genitivo exprimiam os indios com antepozição +do nome rejido por esse cazo; assim <i>napê jaçanan</i> +significaria jaçanan do forno. Demais nem <i>napê</i> quer dizer +forno; nem forno indica a idéa que se pretende de pouzo ou +ninho.</p> + +<p><i>Uapê</i> aí é o mesmo <i>igapê</i> com a simples diferença de +figurar-se a vogal indijena por <i>u</i> em vez de <i>ig</i> adotada pelo +geral dos autores.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_82">Paj. 82</a></p> + +<p><i>Murinhem</i>.—Palavra composta de <i>morib</i> afavel e <i>nheng</i> +falar.—Veja-se a respeito dos cantores, <i>nhengara</i>, o que se +disse na nota a paj. 117.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_86">Paj. 86</a></p> + +<p><i>Paan</i>.—Palavra da lingua Macaulí que significa seta—<i>Creban</i> +significa homem alvo; e <i>Agniná</i>, monte.</p> + + +<p class="censp"><a href="#Page_97">Paj. 97</a></p> + +<p><i>Tomou a espoza aos hombros</i>.—Era entre as mulheres +selvajens prova de amor, suspenderem-se ás costas daquelles +que preferiam, quando as requestavam com cantos e dansas. +Assim o atesta Marcgraff cit. «Ubi vespera advenit, coeunt +adolescentes in varias cohortes et castra perambulantes +cantillant ante tuguria adolescentula autem quæ juvenibus +delectantur, produnt et cantillantes atque tripudiantes sequuntur +adolescentes <i>et á tergo consistunt eorum quos amant, +id enim ipsis amoris testimonium est</i>. <i>Paj. 280</i>.»</p> + +<p>Escaparam-me algumas notas que a intelijencia do leitor +suprirá. Todavia rezumirei as de que me recordo neste +momento.</p> + +<p>Á paj. 44, quando diz Jurandir que conta os anos pelos<span class="pagenum"><a name="Page_135" id="Page_135">[135]</a></span> +dedos, quer dizer que não tem mais de vinte, pois tantos +são os dedos das mãos e pés.</p> + +<p>Á paj. 45, o grande lago que recolheu as aguas do diluvio +é o <i>Manoa</i>, em cujas marjens se fabulou o <i>El-Dorado</i>. <i>Manoa</i> +em achagua é diluvio, segundo Gumilha, 2.<sup>o</sup> vol., 7; palavra +homologa ao vocabulo tupí <i>amana</i>, que significa chuva.</p> + +<p>Á paj. 45, o combate que Jurandir figura entre o mar e +o Amazonas é a descrição da pororoca. Elle chama as aguas +do mar-guerreiros azues-por causa da côr das vagas, e +as aguas do rio-guerreiros vermelhos-porque a corrente +do rio é então barrenta.</p> + +<p>Á paj. 45, onde se diz que os anos de Guaribú enchiam +a corda de sua existencia alude-se ao costume que tinham +os selvajens de contar os anos pelos nós que davam em um +cordel, outros pelos frutos do colar.</p> + +<p>Á paj. 40 faz-se referencia á lenda de Sumê, já muito +conhecida. Foi Sumê que ensinou aos tupís a agricultura e +os primeiros rudimentos das artes.</p> + +<p>Á paj. 54 fala-se de <i>matumbos</i>. São as leivas que se +fazem no norte para a plantação da mandioca.</p> + + + + + +<h2>LIVRARIA ALVES</h2> + +<p class="center">EXTRACTO DO CATALOGO</p> + +<h3>COLEÇÃO ALVES</h3> + +<p>Nesta coleção serão publicadas obras celebres de autores nacionais e +estranjeiros ao modico preço de 1$000 réis cada volume, formato 16 francez.</p> + + +<div class="center"> +<table border="0" cellpadding="4" cellspacing="0" summary="catalog"> +<tr><td class="tdr">1-2—</td><td class="tdl"><span class="bsans">O GUARANY</span>, por <i>José de Alencar</i>. 2 volumes br.</td><td class="tdr">2$000</td></tr> +<tr><td class="tdr"></td><td class="tdl">A mesma obra, 2 vols. enc.</td><td class="tdr">4$000</td></tr> +<tr><td class="tdr">3—</td><td class="tdl"><span class="bsans">A DAMA DAS CAMELIAS</span>, por <i>Alexandre Dumas, Filho</i>.—(<span class="smcap">No prélo</span>).</td><td class="tdr"></td></tr> +<tr><td class="tdr">4-5—</td><td class="tdl"><span class="bsans">HISTORIA DE UM CORAÇÃO</span>, por <i>Emilio Castellar</i>.—(<span class="smcap">Em preparação</span>).</td></tr> +<tr><td class="tdr">6—</td><td class="tdl"><span class="bsans">IRACEMA</span>, (Lejenda do Ceará), por José de Alencar, novissima edição. 1 vol. br.</td><td class="tdr">1$000</td></tr> +<tr><td class="tdr">7—</td><td class="tdl"><span class="bsans">LUCIOLA</span> (Um perfil de Mulher), por <i>José de Alencar</i>. 1 vol. br.</td><td class="tdr">1$000</td></tr> +<tr><td class="tdr">8—</td><td class="tdl"><span class="bsans">CINCO MINUTOS—A VIUVINHA</span>, por <i>José de Alencar</i>. 1 vol br.</td><td class="tdr">1$000</td></tr> +<tr><td class="tdr"></td><td class="tdl">A mesma obra enc. em percalina</td><td class="tdr">2$000</td></tr> +<tr><td class="tdr">9—</td><td class="tdl"><span class="bsans">A MORENINHA</span>, por <i>J. M. de Macedo</i>. 1 vol. br.</td><td class="tdr">1$000</td></tr> +<tr><td class="tdr"></td><td class="tdl">A mesma obra enc. em percalina</td><td class="tdr">2$000</td></tr> +<tr><td class="tdr">10—</td><td class="tdl"><span class="bsans">ROMANCE DE UM MOÇO POBRE</span>, por <i>Octavio Feuillet</i>. 1 vol. br.</td><td class="tdr">1$000</td></tr> +<tr><td class="tdr">11—</td><td class="tdl"><span class="bsans">TRONCO DE IPÈ</span>, por <i>José de Alencar</i></td><td class="tdr">1$000</td></tr> +<tr><td class="tdr"></td><td class="tdl">A mesma obra enc.</td><td class="tdr">2$000</td></tr> +<tr><td class="tdr">12—</td><td class="tdl"><span class="bsans">A ESCRAVA IZAURA</span>, por <i>Bernardo Guimarães</i>. 1 vol. br.</td><td class="tdr">1$000</td></tr> +</table></div> + + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Ubirajara, by José Alencar + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK UBIRAJARA *** + +***** This file should be named 38496-h.htm or 38496-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/8/4/9/38496/ + +Produced by Júlio Reis, Fernanda Brojo, Manuela Alves, +Rory OConor and the Online Distributed Proofreading Team +at https://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/38496-h/images/cover.png b/38496-h/images/cover.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..611a41b --- /dev/null +++ b/38496-h/images/cover.png diff --git a/38496-h/images/image003.png b/38496-h/images/image003.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..f81c6f5 --- /dev/null +++ b/38496-h/images/image003.png diff --git a/38496-h/images/image005h.png b/38496-h/images/image005h.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..bb51b64 --- /dev/null +++ b/38496-h/images/image005h.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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