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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 20:04:27 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Memórias + +Author: Raúl Brandão + +Release Date: April 3, 2011 [EBook #35762] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMÓRIAS *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal) and +The Internet Archive.) + + + + + + *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste + texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso + de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final + deste livro encontrará a lista de erros corrigidos. + + Rita Farinha (Abril 2011) + + + + +Direitos reservados + + + + +MEMORIAS + + + + +DE RAUL BRANDÃO + + + +A PUBLICAR: + +Theatro cinematographico +A historia humilde + + + + + +RAUL BRANDÃO + +Memorias + +1.^o VOLUME + + +EDIÇÃO DA + +«RENASCENÇA PORTUGUESA» + +PORTO + + + + +AOS MORTOS + + + + +[Figura] + + + + +PREFACIO + + + Janeiro de 1918. + + +Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e +paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas +horas diante do que é eterno, embebido ainda n'este sonho poído. Não me +habituo: não posso vêr uma arvore sem espanto, e acabo desconhecendo a +vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo +esplendido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra. Não +sei--nem me importo--se creio na imortalidade da alma, mas do fundo do +meu sêr agradeço a Deus ter-me deixado assistir um momento a este +espectaculo desabalado da vida. Isso me basta. Isso me enche: levo-o +para a cova, para remoer durante seculos e seculos, até ao juizo final. +Nunca fui homem de acção e ainda bem para mim: tive mais horas +perdidas... Fugi sempre dos phantasmas agitados, que me metem medo. Os +homens que mais me interessaram na existencia foram outros: foram, por +exemplo, D. João da Camara, poeta e santo, Correia d'Oliveira, um chapeu +alto e nervos, nascido para cantar, Columbano e a sua arte exclusiva, e +alguns desgraçados que mal sabiam exprimir-se. Conheci muitos ignorados +e felizes. Meio doidos e atonitos. O Napoles ainda hoje dorme sobre a +mesma rima de jornaes?... Outro andava roto e dava tudo aos pobres. O +homem é tanto melhor quanto maior quinhão de sonho lhe coube em sorte. +De dôr tambem. + +A que se reduz afinal a vida? A um momento de ternura e mais nada... De +tudo o que se passou comigo só conservo a memoria intacta de dois ou +tres rapidos minutos. Esses sim! Teimam, reluzem lá no fundo e +enebriam-me, como um pouco d'agua fria embacia o copo. Só de pequeno +retenho impressões tão nitidas como na primeira hora: ouço hoje como +hontem os passos de meu pae quando chegava a casa; vejo sempre diante +dos meus olhos a mancha azul ferrete das hydranjas que enchiam o +canteiro da parede. O resto esvae-se como fumo. Até as figuras dos +mortos, por mais esforços que eu faça, cada vez se afastam mais de +mim... Algumas sensações, ternura, côr, e pouco mais. Tinta. Pequenas +coisas frivolas, o calor do ninho, e sempre dois traços na retina, o +cabedelo d'oiro, a outra banda verde... Passou depois por mim o tropel +da vida e da morte, assisti a muitos factos historicos, e essas +impressões vão-se desvanecidas. Ao contrario este facto trivial ainda +hoje o recordo com a mesma vibração: a morte daquella laranjeira que, de +velha e tonta, deu flôr no inverno em que seccou. O resto usa-se hora a +hora e todos os dias se apaga. Todos os dias morre. + +Lá está a velha casa abandonada, e as arvores que minha mãe, por sua +mão, dispoz: a bica deita a mesma agua indiferente, o mesmo barco +archaico sobe o rio, guiado á espadela pelo mesmo homem do Douro, de pé +sobre a gaiola de pinheiro. Só os mortos não voltam. Dava tudo no mundo +para os tornar a vêr, e não ha lagrimas no mundo que os façam +resuscitar. + +Esta Foz de ha cincoenta annos, adormecida e doirada, a Cantareira, no +alto o Monte, depois o farol e sempre ao largo o mar diaphano ou +colerico, foi o quadro da minha vida. Aqui ao lado morreu a minha avó; +no armario, metido na parede como um beliche, dormiu em pequeno o meu +avô, que desapareceu um dia no mar com toda a tripulação do seu brigue, +e nunca mais houve noticias d'elle. Lembro-me da avó e da tia Iria, de +saia de riscas azues, sentadas no estrado da sala da frente, e possuo +ainda o volume desirmanado do Judeu que ellas liam, com o _Feliz +Independente do mundo e da fortuna_ e as _Recreações philosophicas_ do +padre Theodoro d'Almeida. Ouço, desde que me conheço, sahir do negrume, +alta noite, a voz do moço chamando os homens da companha:--Ó sê Manuel +cá p'ra baixo p'r'o mar!--Vi envelhecer todos estes pescadores, o Bilé, +o Mandum, o Manuel Arraes, que me levou pela primeira vez, na nossa +lancha, ao largo. Ha que tempos!--e foi hontem... A quarenta braças +lança-se o ancorote. Na noite cerrada uma luzinha á prôa; do mar +profundo--chape que chape--só me separa o cavername. Deito-me com os +homens sob a vela estendida. Primeiro livor da manhã, e não distingo a +luz do dia do pó verde do mar. Nasce da agua, mistura-se na agua, com +reflexos baços, a claridade salgada que palpita, o ar vivo que respiro, +o oceano immenso que me envolve.--Iça! iça!--e as redes sobem pela polé, +cheias de algas e de peixe, que se debate no fundo da catraia. Voltamos. +Já avisto, á vela panda, o farolim, depois Carreiros; um ponto branco, +alem no areal, é o Senhor da Pedra, e a terra toda, roxa e diaphana, +emerge emfim, como uma aparição, do fundo do mar. A onda quebra. Eis a +barra. Agora o leme firme!... As mulheres, de perna nua, acodem á praia +para lavar as rêdes, e o velho piloto mór, de barba branca, sentado á +porta da Pensão, fuma inalteravel o seu cachimbo de barro. O azul do +mar, desfeito em poalha, mistura-se ao oiro que o céo derrete. Mais +barcos vão aparecendo, vela a vela: o _Vae com Deus_, a _Senhora da +Ajuda_, o _Deus te guarde_, e os homens, de pé, com o barrete na mão, +cantam o _bemdito_, tanta foi a pesca.--Quantas duzias?--Um cento! dois +centos!--Nas linguetas de pedra salta a pescada de lista preta no lombo, +a raia viscosa, o ruivo de dorso vermelho, ou, no inverno, a sardinha +que os bateis carreiam do mar inexgotavel, estivando de prata todo o +caes. Ás vezes o peixe miudo e vivo é tanto, que não bastam os +almocreves com os seus burros canastreiros, as varinas com os seus +gigos, nem as mulheres de saia ensacada e perna á mostra, para o +levarem, apregoando-o, por essa terra dentro. Dá-se a quem o quer, +faz-se o quinhão dos pobres. Em setembro são as marés vivas. Mais tarde +cresce do mar um negrume. Acastelam-se as nuvens no poente, e forma-se +para o sul uma parede compacta que tem legoas de espessura. A voz é +outra, clamorosa, e, á primeira lufada, bandos de gaivotas grasnam pela +costa fóra, anunciando o inverno que vem proximo. O quadro muda, e os +homens morrem á bocca da barra, na Pedra do Cão, agarrados aos remos, +sacudidos no torvelinho da resaca, o velho arraes de pé, as duas mãos +crispadas no leme, cuspindo injurias, para lhes dar animo, e todo o +mulherio da Povoa, de Matosinhos, da Afurada--vento sul, camaroeiro +içado--com as saias pela cabeça, salpicadas de espuma e molhadas de +lagrimas:--Ai o meu rico homem! o meu filho que o não torno a ver!--E +chamam por Deus, ou insultam o mar, que, inverno a inverno, lh'os leva +todos para o fundo. + +O que sei de bello, de grande ou de util, aprendi-o n'esse tempo: o que +sei das arvores, da ternura, da dôr e do assombro, tudo me vem desse +tempo... Depois não aprendi coisa que valha. Confusão, balburdia e mais +nada. Vacuidade e mais nada. Figuras equivocas, ou, com raras excepções, +sentimentos baços. Amargor e mais nada. Nunca mais. Nunca Londres ou a +floresta americana me incutiram misterio que valesse o dos quatro palmos +do meu quintal. Nunca caça ás feras no canavial indiano foi mais fertil +em emoção e aventura, que a armadilha aos passaros na poça do Monte, com +o Manuel Barbeiro. Uma nora, dois choupos, a agua empapada, e, entre as +hervas gordas como bichos, pégadas de bois cheias de tinta azul, +reflectindo o céo implacavel de agosto. Os passaros com as azas abertas +desconfiam e hesitam: a sêde aperta-os, o sol escalda-os. Mal pousam na +armadilha agarramol-os com ferocidade. Chiu!... Uma andorinha descreve +lá no alto um circulo perfeito, e vem, no vôo desferido, arripiar com o +bico a agua estagnada. Toca n'uma palheira de visco--é nossa! Já tiveste +nas mãos uma andorinha? É pennas e vida phrenetica. E essa vida +pertence-te!... Só ao fim da tarde regressava a casa com os bolsos +cheios de rans e os olhos deslumbrados. Nenhuma figura tôrva, nem o +Anti-Christo, me communicou terror semelhante ao do inofensivo Manco da +esquina, que escondia de manhã a barba que lhe chegava ao umbigo, entre +o peito e a camisa, para a sacar de noite, quando sahia á estrada... Sou +capaz de te dizer qual o tom verde de certos dias, quando o pecegueiro +bravo encostado ao muro floresce. O murmurio da minha bica não me sae +dos ouvidos até á hora da morte. Quasi todos os meus amigos--o Nel, que +não tornei a ver...--são d'essa epocha. D'outras impressões mais tardias +não restarão vestigios, mas tenho sempre presentes os mesmos pinheiros +mansos--que já não existem--acenando para a barra, e alta noite acordo +ouvindo o rebramir do mar longinquo. Nos dias de desgraça é sempre a +mesma voz que chama por mim... Olha, olha ainda e extasia-te: o rio +parece um lago, e um bando de gaivotas desfolhadas alastra sobre a tinta +azul, com laivos esquecidos do poente. Boia espuma na agua viva que a +maré traz da barra... E não ha cheiro a flores que se compare a este +cheiro do mar. + + + Agosto de 1910. + + +Aos 23 do mez passado morreu meu pae amachucado, exhausto e pobre. +Encontrão de um, repelão de outro, assim foi até á cova. Tinha 67 annos +incompletos. Não podia mais. Encontraram-lhe alguns cobres no bolso. Ha +muitos annos que se arrastava, e só tinha de seu uma alegria e um +repouso: os domingos. Aos domingos metia-se no quarto, calçava uns +chinelos, e toda a tarde chorava lagrimas sem fim sobre um velho romance +de Camillo. Minha mãe pouco mais durou, com um olhar de pasmo. Lá ficou +a velha casa abandonada... + +Sobe a lua no céo, e a sombra no monte. Seis arvores, quatro +paredes--tudo aqui me enche de saudades. A bica continua a correr, mas +outras sêdes se apagarão n'aquella agua. Outros virão tambem sentar-se +no banco de pedra... Só me resta a tua mão querida, que a meu lado +segura a minha mão. Os mortos chamam por nós cada vez mais alto... Olho +para ti e os teus primeiros cabellos brancos fazem-me chorar. + + + Setembro de 1910. + + +Hoje acordei com este grito: eu não soube fazer uso da vida! + +O que me pesa é a inutilidade da vida. Agarro-me a um sonho; +desfaz-se-me nas mãos; agarro-me a uma mentira e sempre a mesma voz me +repete:--É inutil! é inutil! + +A aquiescencia, o sorriso:--pois sim... pois sim...--a necessidade de +transigir, o preceito, a lei, fizeram de mim este sêr inutil, que não +sabe viver e que já agora não pode viver. Não grito de desespero porque +nem de desespero sou capaz. + +A vida antiga tinha raizes, talvez a vida futura as venha a ter. A nossa +epocha é horrivel porque já não cremos--e não cremos ainda. O passado +desapareceu, de futuro nem alicerces existem. E aqui estamos nós, sem +tecto, entre ruinas, á espera... + +Não entendo nada da vida. Cada dia que avança entendo menos da vida. +Contudo ha horas, as horas perdidas--e só essas--que queria tornar a +viver e a perder. + +Deus, a vida, os grandes problemas, não são os philosophos que os +resolvem, são os pobres vivendo. O resto é engenho e mais nada. As +coisas bellas reduzem-se a meia duzia: o tecto que me cobre, o lume que +me aquece, o pão que como, a estôpa e a luz. + +Detesto a acção. A acção mete-me medo. De dia pódo as minhas arvores, á +noite sonho. Sinto Deus--toco-o. Deus é muito mais simples do que +imaginas. Rodeia-me--não o sei explicar. Terra, mortos, uma poeira de +mortos que se ergue em tempestades, e esta mão que me prende e sustenta +e que tanta força tem... + +Como em ti, ha em mim varias camadas de mortos não sei até que +profundidade. Ás vezes convoco-os, outras são elles, com a voz tão +sumida que mal a distingo, que desatam a falar. Preciso da noite eterna: +só num silencio mais profundo ainda, conto ouvil-os a todos. + +Nunca os meus me chamaram tão alto. Sentam-se a meu lado. Rodeiam-me, e +pouco a pouco o circulo da minha vida restringe-se a um ponto--a cova. + +Teimo: ha uma acção interior, a dos mortos, ha uma acção exterior, a da +alma. A inteligencia é exterior e universal e faz-nos vibrar a todos +d'uma maneira diferente. Destas duas acções resulta o conflicto tragico +da vida. O homem agita-se, debate-se, declama, imaginando que constroe e +se impõe--mas é impelido pela alma universal, na meia duzia de coisas +essenciaes á Vida, ou obedece apenas ao impulso incessante dos mortos. + +A minha alegria em velho consistiria em ter aqui meu pae para falar com +elle. Não é só saudade que sinto: é uma impressão physica. Agora é que +acharia encanto até ás lagrimas em termos a mesma idade, conversarmos ao +pé do lume e morrermos ao mesmo tempo... + + + Fevereiro de 1918. + + +Isso que ahi fica não são memorias alinhadas. Não teem essa pretensão. +São notas, conversas colhidas a esmo, dois traços sobre um +acontecimento--e mais nada. Diante da fita que a meus olhos absortos se +desenrolou, interessou-me a côr, um aspecto, uma linha, um quadro, uma +figura, e fixei-os logo no canhenho que sempre me acompanha. Sou um mero +espectador da vida, que não tenta explical-a. Não afirmo nem nego. Ha +muito que fujo de julgar os homens, e, a cada hora que passa, a vida me +parece ou muito complicada e misteriosa ou muito simples e profunda. Não +aprendo até morrer--desaprendo até morrer. Não sei nada, não sei nada, e +saio d'este mundo com a convicção de que não é a razão nem a verdade que +nos guiam: só a paixão e a chimera nos levam a resoluções definitivas. O +papel dos doidos é de primeira importancia neste triste planeta, embora +depois os outros tentem corrigil-o e canalisal-o... Tambem entendo que é +tão dificil asseverar a exactidão de um facto como julgar um homem com +justiça. Todos os dias mudamos de opinião, todos os dias somos +empurrados para leguas de distancia por uma coisa phrenetica, que nos +leva não sei para onde. Succede sempre que, passados mezes sobre o que +escrevo--eu proprio duvido e hesito. Sinto que não me pertenço... É por +isso que não condemno nem explico nada, e fujo até de descer dentro de +mim proprio, para não reconhecer com espanto que sou absurdo--para não +ter de discriminar até que ponto creio ou não creio, e de verificar o +que me pertence e o que pertence aos mortos. De resto isto de ter +opiniões não é facil. Sempre que me dei a esse luxo, fui forçado a +reconhecer que eram falsas ou erroneas. Sou talvez uma arvore que cresce +á sua vontade, pernada para aqui, pernada para acolá, á chuva e ao +vento. Não admitto poda. Perco horas com inutilidades, e passo alheado e +frio diante do que os outros contemplam extasiados. Admiro, por exemplo, +muito mais, perdoem-me, a vida ignorada do meu visinho, o senhor Crasto, +que morreu de oitenta annos, curvado, a lavrar a terra, do que a do +senhor Hintze Ribeiro, que considero inutil e destituida de toda a +belleza. + +Por isso, repito, muitas folhas destes canhenhos serão mal +interpretadas, talvez alguns tipos falsos. Só vemos mascaras, só lidamos +com phantasmas, e ninguem, por mais que queira, se livra de paixões. No +que o leitor deve acreditar é na sinceridade com que na ocasião as +escrevi. Poderão objectar-me:--Então com que destino publico tantas +paginas desalinhadas, de que eu proprio sou o primeiro a duvidar? É que +ellas ajudam a reconstituir a atmosphera d'uma epocha; são, como dizia +um grande espirito, o lixo da historia. Ensinam e elucidam. Foi sempre +com a legenda que se construiu a vida. Sei perfeitamente que a historia +viva tanto se faz com a verdade como com a mentira--se não se faz mais +com a mentira do que com a verdade. Para gerar um acontecimento é +preciso crear-lhe primeiro a atmosphera propicia. «Algumas palavras sob +caricaturas grosseiras dispersas pelos campos, formaram uma lenda na +imaginação popular, concernente ao rei, á rainha, ao conde de Artois, a +madame Lamballe, ao pacto da fome, _aos vampiros que sugam o sangue do +povo_, etc. Dessa lenda, que elle acha util, sahiu a grande +revolução»--diz um historiador. A gente nunca sabe ao certo se da +infamia poderão nascer coisas bellas... A mentira, o boato, o que se diz +ao ouvido, o que se deturpa, e que tanta força tem, a meada de odio, de +ambição e de interesses, que não cabe na historia com H grande, tem o +seu logar n'um livro como este de memorias despretenciosas. Eis uma +razão. Tenho outra ainda: torno a vêr e a ouvir alguns mortos. Recordo, +o que é necessario a quem cada vez mais se isola com o seu sonho e as +suas arvores. Isto aquece quasi tanto os primeiros annos da minha +velhice, como o lume que arde até junho na lareira d'esta casa[1]. + +Cantareira, Foz do Douro--1918. + + + + +ALGUMAS FIGURAS + + + Janeiro--1900. + + +Urbano de Castro, com um olho tôrto e um chapelinho afadistado, na +aparencia reservado e sardonico, sae-se encantador na intimidade. Os +seus amigos adoram-no, o Camara, o Schwalbach, a antiga roda do _Correio +da Manhã_. Trouxe para o jornalismo uma grande leitura de +classicos--conhece muito a lingua--e uma forma ironica e precisa: em +meia duzia de linhas incisivas deixa o adversario a sangrar. Os +politicos temem-no tanto, que uma das condições impostas pelo José +Luciano, quando do pacto com o Hintze, foi que o Urbano terminasse na +_Tarde_ com o _Espirito de S. Ex.^a_. + +Eis algumas maximas de Urbano de Castro: + + + --A paciencia é uma virtude de capote e lenço. + + --Quanto mais leve é a cabeça da mulher, mais pesada é a do marido. + + --Os homens publicos são como os papeis de credito--o que hoje tem + uma alta cotação, amanhã não vale, e inversamente. + + --Quando tiveres muitos argumentos, não empregues senão os + melhores. Quando não tiveres nenhum, emprega todos. + + --A paternidade é, muitas vezes, um rotulo. A garrafa é a mesma, + mas o vinho é outro. + + --Viuva rica, com um olho dobra, com outro repica. + + --No coração mora-me Deus, no figado o diabo. + + --Mortal é o contrario de imortal. Imortal é o que é sempre. Logo, + mortal--é o que não é nunca. + + --Theologia--a arte de fazer comprehender aos outros aquillo que + nós não entendemos. + + --De todas as armas, a mais dificil de manejar é o pau... de dois + bicos. + + --Jornalista--fabricante da opinião publica. Cada um afirma que a + unica genuina é a da sua lavra. + + --Se os homens de mais juizo pensarem a serio em muitos dos seus + actos hão de reconhecer que não teem juizo nenhum. + + --O suicida tem para mim um lado sympathico--não se julga + insubstituivel. + + + + Junho--1903. + + +Deparo hoje com o Garrido, redondinho, baixo, de bigode grisalho e um +ventre de proprietario. Nunca se altera nem perde a paciencia. Jovial? +Não, triste e falando sempre baixinho. Tem ganho fortunas, tem dissipado +fortunas com o mesmo ar inalteravel. Houve ocasiões em que todos os +theatros do Rio representaram peças com o seu nome. Está cheio de +dividas. E o seu ideal, o ideal d'esta existencia de acaso, com aflições +de morte, ou dispersa pelo Brazil entre dois numeros de opereta--pan! +pan! pan!--e dinheiro atirado a rodos, é um casebre no campo, duas +arvores n'um retalho de horta viçosa e uma nora pingue que pingue no +fundo do quintal. Paz. E não escrever uma linha. + +Um agiota não o larga. É este velhinho paternal, de cabellos brancos, +que faz recados, deita as cartas ao correio e leva coiro e cabelo. +Parece inofensivo. Começou a vida por creado de servir e esfolou os +patrões. Afirma que o Garrido é capaz de arrancar dinheiro a um morto: + +--Este senhor Garrido dá-me cada aflição! Até me faz crear caspa! + + + Fevereiro--1900. + + +A paixão d'este homem é não ter um livro de geito. G... só escreveu trez +folhetos, e por ahi ficou o seu talento. Espremido não deu mais nada. É +no entanto uma figura epigramatica e nitida de conversador e um typo +curioso de bohemio lisboeta. Dormiu nas escadas dos predios, pertenceu +ao grupo que o Fialho arrastava pelas ruas até ante manhã, dispersando +com elle o oiro da sua esplendida phantasia. Para essa meia duzia de +bohemios improvisou o grande escriptor as suas melhores satyras. Uma +noite, no café, G... aludiu á sua obra, e logo do lado o Fialho acudiu: + +--A tua obra, bem sei... Vinte e cinco cartas a vinte e cinco amigos +pedindo vinte e cinco tostões emprestados. + +G... embezerrou. Mas passados minutos aproveitou uma pausa no dialogo, +para perguntar com indiferença ao Fialho, que tinha ha pouco casado rico +com uma prima, que gastou a vida a esperal-o no fundo da provincia: + +--O Fialho fazes favor de me dizer que horas são... no relogio do teu +sogro? + + + Fevereiro--1903. + + +Vejo sempre diante de mim o D. João da Camara, já cansado e e asmathico, +olhando por cima das lunetas, e falando baixinho com receio, uma +modestia no dizer, e um medo de magoar... A barba espessa, a grenha +espessa e um chapelinho pôsto ao lado, completam a figura um pouco +molle. É quasi um santo. Joga e jejua. Dá tudo o que tem. Exploram-no. + +--O que me perdeu na vida foi não ter energia. Nunca me decido.--E mais +baixo:--Isto vem talvez dos jesuitas que me educaram. Tive alguns +condiscipulos que são homens notaveis e ninguem dá por elles. + +Vive de noite, com uns e outros, ao acaso, nos bastidores dos theatros, +ou encantado com uma ceiasinha na taberna, que descobriu no Arco da +Bandeira. Se encontra o Pinturas está perdido: não se largam mais. Vae +sempre para casa de manhã, e a sua vida é tão aflictiva que desejaria, +como o Schwalbach, que o metessem algum tempo no Limoeiro, para não +pensar no dia seguinte. + +Hontem contou-me isto que é encantador: + +--Não me importava nada de ter quatorze filhos em vez de sete. São muito +meus amigos. O Vicente nunca sae de casa sem me dar um beijo. Eu estou +sempre a dormir... Esta manhã--estava acordado, mas fingi que dormia, +quando aquelle rapagão me entrou no quarto, pé ante pé, para não me +acordar, e beijou-me... + +E fica extatico. + +Ás vezes fala-me das peças que ha-de fazer, do _Sermão da Montanha_ e de +outra com tipos de sonhadores, que se alimentam de mentira e de um +passado que nunca existiu, forjado ponto por ponto. Assobia-se, por +exemplo, um trecho d'opera, e logo este atalha:--Bem sei é da +_Dinorah!_... Tempos que já lá vão! O que eu vivi com Fulano e Sicrano, +e as ceias que demos juntos!--Tudo ilusão! tudo sonho! Vae-se a ver nem +sequer conheceram as pessoas de quem falam... Outras vezes conta-me a +sua vida: + +--O que eu tenho sofrido! Tive muitos dias d'angustia... N'essa noite _O +Pantano_ cahira. Toda a gente dizia mal de mim. Nos bastidores a intriga +fervia com a Lucinda á frente. Sahi do theatro a pensar no que havia de +empenhar no dia seguinte. Fui para casa muito tarde.--Não haveria que +pôr no prégo?--Por fim descobri uma casaca, e, ainda muito cedo, sahi +com o embrulho debaixo do braço, n'um papel de jornal. O papel amolecia, +a casaca rompia para fóra, e eu batia de prégo em prégo. Sete horas da +manhã... Estavam todos fechados. N'um disseram-me com seccura:--Não +emprestamos sobre casacas.--Fui a outro e esperei no portal que abrisse. +Lembro-me como se fosse hoje. Chovia a potes. Defronte, estava uma +carroça, com um cavallo branco. Era um burro pelle e osso, a cabeça +metida n'uma linhagem, a comer. E eu no portal, com o embrulho já todo +roto debaixo do braço, invejei aquelle cavalo!... + +Já não joga. Mas antigamente ia todos os dias para casa ás cinco horas, +tendo perdido tudo:--Foi n'essas noites que imaginei as minhas melhores +peças...--Cuidadosamente punha sempre de lado um tostão para o +americano--e quasi sempre succedia tambem que um velho fidalgo, das suas +relações, lhe pedia o tostão emprestado para um calice de vinho do +Porto, que se habituara a beber ahi pelas tres da madrugada. O D. João +dava-lh'o, e lá ia a pé para a Junqueira, a sonhar nas peças, sob a +lufada, molhado até aos ossos, de casaco de alpaca. + + +[Figura: _Columbano._--Auto-retrato.] + + + Junho--1903. + + +Passei a noite em casa do Columbano, com o Raphael Bordalo Pinheiro. +Durante o jantar falou sempre. Todo elle mexe, todo elle é caricatura e +imprevisto: os olhos, o nariz, as mãos e até o bigode que se encrespa, +desenham e imitam.--Era um homem com um ôlho assim...--E logo o ôlho se +lhe envieza. Em rapaz o seu sonho era o theatro. Chegou a ter lições do +Rosa pae. Está um pouco cansado. Queixa-se muito. Amua.--Ninguem faz +caso de mim...--Estranha quando o não vão esperar á estação--e está +sempre a chegar das Caldas e partir para as Caldas. Depois esquece-se e +põe-se a rir. Depois torna:--Eu não jogo, mas lá em casa todas as noites +jogam e pedem-me dinheiro emprestado.--Agora arremeda este e aquelle de +quem fala. Conta que em Paris ouviu o rei dizer:--Isto aqui é uma terra, +lá é uma piolheira.--E que o infante, quando lhe perguntaram:--Então em +Londres que tal, com aquelles principes todos?--Mal, mal... eu sou um +principe aza de mosca... + +E acaba--é nas vesperas do jantar que lhe vão oferecer no theatro D. +Maria--por dizer:--Veja o senhor que desgraça a minha! Daqui a pouco não +posso fazer a caricatura de ninguem! + +Efectivamente lá estavam no banquete todos os homens imponentes, os +conselheiros, os politicos decorativos, a serie completa das figuras do +_Antonio Maria_. Não faltou ninguem á chamada. E nos camarotes +aplaudiram-no com delirio as lisboetas palidas de que troçou em tantas +paginas de genio. Confundiram-no e arrazaram-no. Creio que foi a +primeira vez que perdeu a linha. + +Gostou sempre de fazer partidas. É o Schwalbach que conta: + +--O imperador do Brazil logo que chegava ao theatro metia-se no +camarote, descalçava as botas e calçava com regalo uns chinelos. Uma +noite o Raphael, que estava então no Rio, foi pé ante pé, meteu a mão +pela cortina e roubou-lhe as botas. O pobre homem não se desconcertou: +sahiu em chinelos, atravessou em chinelos a multidão, saudando para a +direita e para a esquerda, desceu ao pateo, e meteu-se em chinelos na +carruagem. + + + Dezembro--1900. + + +Latino Coelho, contado por Maximiliano d'Azevedo: + +Tinha coisas absurdas: estava sentado a conversar e levantava-se sem +mais nem menos, compunha a trumpha, e ia espreitar á janella. Era todo +de enguiços. Nunca sahia de dia. E que memoria! Dizia-se-lhe qualquer +banalidade, e elle, d'ahi a mezes, repetia-a palavra por palavra. +Discursos que revelam o conhecimento inteiro d'uma epocha, como o de +Camões, que leu na Academia, e que foi escripto das sete ás onze da +manhã, e lido ao meio dia, compunha-os com extrema facilidade. + +D'uma vez estava elle em casa politicando com alguns amigos reformistas, +o Mariano, o Lopo Vaz e não sei quem mais. Discutia-se a revolução de +onze de maio. O Latino, dando um geito á trumpha, chegou á janella e viu +o carro, puxado a mulinhas, do Saldanha: + +--Ahi vem o duque... E aposto que vem para cá. + +Efectivamente o carro parou á porta. Era o Saldanha. O Latino foi +recebel-o n'outra sala, e, depois dos cumprimentos habituaes, o Saldanha +perguntou-lhe: + +--Sabe a que venho? Venho saber a sua opinião sobre o dia de hontem. + +--Mas não tenho opinião nenhuma... + +--Não se recuse, Latino. Peço-lho como amigo. + +--Então, marechal, deixe-me dizer-lhe que quem como V. Ex.^a conquistou +um nome glorioso com a espada, não deve servir-se da canalha para fazer +o que fez. A sua situação é deploravel. + +--Não me diga isso! E se eu aproveitasse a situação para firmar de vez a +liberdade em Portugal e salvar o paiz? + +--Se V. Ex.^a quizesse... + +--Mas é que quero, e para isso venho ter comsigo. + +Combinaram que o Latino redigiria os decretos ampliando as liberdades +publicas, tornando-as efectivas, e convocando constituintes com poderes +amplissimos. + +--O maior segredo...--recomendou o Latino. + +N'essa noite não dormiu. Acompanhado d'um amanuense do ministerio, +redigiu os decretos, que no dia seguinte o proprio Saldanha foi buscar, +metendo-os dentro da pasta. Mas fosse que os amigos que lá estavam em +casa tivessem desconfiado; fosse que o Saldanha désse á lingua, o que é +certo é que o rei foi prevenido a tempo por alguem que lhe disse: + +--O Saldanha vae trazer-lhe uns decretos. V. Magestade não os assigne ou +está perdido. + +Quando o Saldanha chegou ao Paço o rei abraçou-o: + +--Pois o duque ajudou a conquistar-me o throno e não quer que meus +filhos reinem? Nem talvez eu chegue até ao fim da vida no poder... + +Saldanha que era um fraco recuou. D'ahi a dias encontrou-se com o Latino +que lhe disse: + +--V. Ex.^a não podia deixar-me dormir a minha noite socegado? + +Por trez vezes, conclue Maximiliano, o Latino me contou isto. Já tenho +querido descobrir os decretos. Devem estar em casa do irmão, n'um quarto +interior, onde a traça vai roendo os papeis do grande escriptor... + + * * * * * + +Um dia o Saraiva de Carvalho foi propor a revolução ao Latino: + +--Mas ha-de ser tudo assassinado--toda a familia real. + +--Isso não!--protestou logo o Latino. + + * * * * * + +Morreu virgem, como Newton. No dia de sua morte, estava o cadaver na +cama, apenas coberto com um lençol. Alguem disse para o Maximiliano: + +--Bastaria arrancar aquelle lençol para descobrirmos o segredo de toda a +sua existencia. + + * * * * * + +Junqueiro dizia de Latino: + +--Sim, é um homem admiravel, que em logar de c... tem duas castanhas +piladas! + + + Maio--1903. + + +Um jornal publica hoje esta noticia: + + + POVOA DE LANHOSO, 29--Faleceu, sepultando-se hoje, o sr. dr. + Joaquim da Boa Morte Alves de Moura, da freguezia de Santo Emilião, + bacharel formado em philosophia e mathematica pela Universidade de + Coimbra. + + O povo apelidava-o de santo, pelas suas sublimes virtudes christãs. + Tinha 92 annos de edade; o falecido fôra frade agostinho. + + +O homem, a quem estas seccas linhas se referem, era na verdade um santo. +Deixou tudo para viver pobre, perto de S. Martinho do Campo, entre +cavadores e a gente humilde da terra que o adorava. Vi-o muitas vezes +passar na estrada, todo branco, minguado, com o burel, que nunca quiz +largar, no fio, e os sapatos rotos. Era efectivamente formado em +philosophia e direito, e até por vezes fôra convidado para lente da +Universidade de Coimbra. Recusou sempre, recusou tudo, preferindo a +convivencia com a gente do povo e com a natureza que o rodeava. Ha entre +as duas povoações, S. Bento e S. Martinho, que ficam á beira da estrada +da Povoa de Lanhoso, uma fonte que brota da raiz de uma arvore. Perto +fica a ermida. Alli se costumava o santo homem sentar, horas e horas +embebido nas suas meditações. Em que scismava? Decerto no passado +longinquo... + +Lembram-se d'uma narrativa de Alexandre Herculano, que se chama, creio +eu, «O ultimo dia de convento?» Um frade chora ao deixar para sempre a +cella caiada, onde passou a vida inteira. É só isto, afóra a ternura, as +lagrimas, a prosa do grande escriptor. Assim D. Joaquim da Boa Morte +contava tambem as ultimas horas de convento. Velhinho, tremulo, vivendo +de esmolas, recolhido por caridade em casa de duas mulheres, que o +cuidavam, nunca esqueceu o convento, a cella, o dia de separação. E, ao +pé da arvore, junto ao fio limpido d'agua, lhe ouvi mais d'uma vez +contar o que sofrera. + +--E dos seus companheiros lembra-se? Teve mais tarde noticias? + +E elle, com os olhos razos de lagrimas: + +--Viveram ainda dispersos por esse mundo. Ha annos, ha muitos annos, +recebi, dum d'elles um recado, esta palavra:--«Adeus!» Foi o ultimo! + +Agora acompanhava-o sempre um rapazinho. Com a vida, ia-se-lhe desfeito +o burel, rôtos os sapatos. Deixára de dizer missa, mas o povo d'aquelles +logares, que é ingenuo e crente, consultava-o nas suas doenças e nos +seus sofrimentos. É que D. Joaquim fazia milagres. Excusam de sorrir... +O milagre é uma comunicação entre pessoas que têm radicada e viva esta +força enorme:--a fé. D. Joaquim da Boa Morte curava as creaturas +simples, as mulheres, as creanças e os homens da serra que o iam +visitar, com boas palavras, e, quando muito, com alguns cachos de uvas, +que elle proprio colhera e lhes distribuia, depois de benzidos. + +Antes de morrer pediu que o enterrassem embrulhado na manta coçada que +pertencera a sua mãe e que alli tinha no fundo da arca. Essa velha manta +como eu lh'a invejo! Era n'um farrapo assim, com um resto de calor e de +ternura, que eu queria ir aconchegado para a terra. Nem a eternidade das +eternidades, nem o isolamento, nem o frio dos frios, conseguiriam jamais +trespassal-a. + +Que descance em paz. Quem escreve estas linhas deve-lhe uma das maiores, +mais elevadas e puras impressões que tem recebido na vida. A sua grande +figura só desaparece da terra, depois de ter feito muito bem e estancado +muitas lagrimas. + + + Julho--1903. + + +O Silva Pinto a respeito do Cardia, que ha tres dias, em plena mocidade, +meteu uma bala no coração: + +--Eu não faço como elle, não me vou embora, porque tenho duas creanças, +o Mario e o Raul. Era de certo a isto que o Manuel se referia ao +escrever: «Não faço falta a ninguem». Isto atura-se lá a sangue frio e +determinadamente! Matava-me para me ver livre d'estes bandalhos! + +E os olhos enchem-se-lhe de lagrimas, arrasta a perna apegado á bengala, +e sacode a cabelleira branca. Parece um trapo ameigado, mas resistente +ainda:--Arre bandidos! + +De repente, sem transição, põe-se a rir: + +--Sabe de que me rio? Lembrou-me o Camillo, que tinha uma lingua +viperina e dizia mal de toda a gente. Um dia em Seide falei-lhe n'este e +naquelle, disse mal de todos. Por fim:--Sempre me refugio em Victor +Hugo, para ver se você tambem diz mal d'elle... + +E o mestre: + +--Esse velho não era nada tolo! + +Ri-se. Depois fica outra vez triste: + +--Aquellas paginas de Hugo quando o avô vê entrar o neto ferido pela +porta dentro! + + * * * * * + +O Fialho descrevendo o Cardia, esse rapaz ingenuo, insinuante e +espontaneo, que aos dezanove annos se lembra de estourar o coração com +uma bala, por causa d'uma reles cantora de quarenta e dous annos--o +Fialho diz: + +--...era isto e aquillo e uma mão enorme atirada p'ra aqui e p'ra acolá +a toda a gente, apertando a nossa. + +O que nunca mais me esquece são aquelles olhos tristes e a bocca moça +sempre a sorrir!... + + + Fevereiro--1904. + + +Hoje almoço em casa do Schwalbach com o Bulhão Pato, o Camara, João +Chagas, Antonio Bandeira, etc. O Bulhão Pato é um homensinho secco e +resistente, de cabeleira e pera branca--miniatura do alentado Pato +caçador que todos nós imaginamos ao ler-lhe algumas paginas. Parte no +dia 20 para S. Miguel, de passeio... Quando morrer desaparece com elle +toda uma epocha:--Meu rapaz podes ter lido todos os philosophos, que se +não tiveres sentimento... Minha mulher, uma velhinha lá fica... Não vae +comigo, porque recolhemos em casa uma pequena pobre, pobrissima, e +queremos-lhe como se fosse nossa filha. Sentamol-a á nossa meza... Bem +sei que ha por ahi uns moços que dizem mal de mim. Não me importo. +Quando vejo um rapaz de talento abro-lhe logo os braços. + +No fim do almoço, beija a mão ás senhoras. Conviveu com o Herculano, +ouviu-lhe dizer:--Isto dá vontade de morrer! «Que faria--accrescenta--se +vivesse hoje!»--O Conservatorio lembra-lhe o Palmeirim--«que foi da +minha creação»--É simpathico, vivo e cheira a outros tempos: conserva, +como o linho guardado no fundo d'um armario, o perfume da maçã. E que +contraste com os outros, com o Chagas, com o Schwalbach, sempre aflicto +e sempre despreocupado, com o Antonio Bandeira, que, sob uma aparencia +futil, é pratico como o diabo, e que conta que foi uma noite em Roma, +com alguns portugueses, mulheres e guitarras, bater o fado para as +ruinas do Colyseo! Depois, por _blague_, sustenta com o Chagas, que +ninguem devia ter mais de duzentas e cincoenta grammas de principios. + + + Março--1904. + + +Encontrei hoje o Marcellino Mesquita: ventas largas, marcas de bexigas, +barba com muitas brancas aparada rente, chapeu desabado, capinha curta e +olho vivo. Tipo crestado do sol, materialista e secco. + +--A gente quando chega a certa edade tem de se isolar para não viver +n'uma perpetua irritação. Olhem agora se eu encontrava o Pequito +ministro, o Pequito de quem a gente fazia troça em rapaz! E muitos +outros, que aos quarenta annos começam a desafinar-nos os nervos... Vivo +no Cartaxo, n'um descampado: a quinta fica entre duas estradas. Não +passa lá ninguem... Leio, fumo, e trabalho. Tinha um moinho; primeiro +acrescentei-lhe uma cozinha, depois um quarto: agora tenho lá uma casa. +E já não posso viver sem o ruido das mós. O meu quarto fica mesmo por +cima. D'aqui a oito dias, com as macieiras em flôr, aquillo é +adoravel... + + + Abril--1903. + + +Vi o Marianno nas camaras. É um cadaver, com uma sobrecasaca riquissima +de gola de veludo. Nunca phisionomia exprimiu maior cansaço, indiferença +ou desprezo, a palpebra cahida, o olhar vazio de expressão.--Que me +importa! que me importa!...--Parece um morto, farto de sofrimento e de +goso, e, sob aquella apparencia de sceptico raros se magoam como elle. +Toda a vida tem sido ludibriado. Contam que a mulher passa horas a +descompol-o. Elle, sentado, escreve tiras e tiras de papel, a tarefa do +jornal, sem dizer palavra nem levantar a cabeça. D'uma vez chamou-lhe +tudo quanto lhe veio á bocca, e elle inalteravel, curvado sobre os +linguados, sem lhe dizer palavra... Por fim ella, desesperada, +berrou-lhe: + +--És um estupido! + +Elle então parou, ergueu a cabeça, e muito calmo: + +--Teem-me chamado tudo, mas estupido é a primeira vez! + +E continuou a escrever. + +Por fóra uma aparencia de sceptico, por dentro uma sensibilidade enorme. +Anda sempre metido em complicações e negocios, em caminhos de ferro, em +pedaços de Africa, bahia de Lobito, etc., e afinal não passa d'um +sonhador que tem as propriedades de Azeitão hipothecadas em quatorze +contos de reis. + + + Setembro--1903. + + +O Antonio José de Freitas, homem de lettras mediocre, é um conversador +admiravel. Se conseguisse escrever como fala, e désse á prosa aquella +vida que dá á palavra, seria um grande escriptor. Pequeno, branco, na +ponta dos pés, sempre a segurar as lunetas, todo elle nervos: + +--Dei-me muito com o Castello-Melhor. Um dia começou a imaginar que +estava pobre, porque no Banco de Portugal lhe não quizeram, como sempre +se fez, descontar uma lettra só com o nome d'elle. Disse ao Barros +Gomes:--Vae beber da merda!--E sahiu furioso. D'ahi começou a imaginar +que tinha cahido na pobreza e alugou o jardim para o circo Whytoine. Uma +vez sahi com elle d'um baile pela madrugada e acompanhei-o a +casa.--Sobe.--Tenho ainda que escrever para o Brazil...--Insistiu, +subi--e eil-o a clamar no quarto:--Que diriam meus avós se vissem alli o +circo e os palhaços!...--Estava desesperado. Descompul-o. + +Passaram-se annos e morreu de repente. Vestimol-o n'aquelle mesmo +quarto, e, altas horas da noite, ouvimos, de repente, um clamor: era o +circo Whytoine que ardia. E eu assisti ao espectaculo do cadaver, +iluminado pelo clarão do incendio, alli onde o ouvira evocar com +desespero os seus mortos. Foi tudo ao enterro. O povo abria alas, e +quando chegamos ao cemiterio e quizemos pegar no caixão, veio de roldão +uma chusma de cocheiros e vadios, que nol-o arrancaram das mãos, e, +erguendo-o no alto dos braços, levaram-no até á cova... + + * * * * * + +--O Eça usou toda a vida bentinhos ao pescoço. Vi-lhos eu, que dormi por +diferentes vezes com elle no mesmo quarto... + + * * * * * + +Depois fala no Resende: + +--Se vivesse era decerto o chefe do partido conservador. Que homem +encantador, polido e sceptico! E tinha uma poderosa ascendencia +magnetica sobre nós todos. O medico, já quando elle estava muito mal, +recomendou-lhe ares do mar. Passeava n'um bote no Tejo. Umas vezes ia eu +com elle, outras o Soveral, e levavamos-lhe botijas com agua quente, +porque sentia sempre um frio mortal. Estou a ver o Soveral, com uma +botija em cada mão. O _Rabecão_, um jornal de caricaturas do tempo, +disse que nós iamos emborrachar todas as noites para o rio. Muito nos +rimos... Pois o Resende, atheu toda a vida, morreu como um crente. + +Foi elle que se esmurrou com o Eça n'uma das piramides do Egypto. Nessa +viagem ouviram ambos missa no tumulo de Jesus, em Jerusalem. O Eça cahiu +logo de joelhos; quando levantou a cabeça para ver o quadro, dois ou +trez mil peregrinos tinham como elle ajoelhado sob o mesmo impulso +irresistivel: só a seu lado, de badine e sobretudo no braço, se +conservava de pé, sem perder a serenidade nem a linha, um unico homem: o +Resende. + + * * * * * + +Os _vencidos da vida_, depois que se juntaram diziam mal uns dos outros. +Não se podiam ver. + + + Março--1900. + + +Ha mezes que Junqueiro não aparecia na Praça, onde outrora era certo á +noite, rodeado de esbirros, e discutindo politica ou arte com alguns +amigos mais intimos. Eil-o agora de volta, depois de umas febres +palustres apanhadas n'essa longinqua quinta que replanta de vinha lá +para a Barca d'Alva. + +Vem curioso. Teem por acaso os senhores noticia d'um Junqueiro adunco e +janota, mephistophelico, com ditos em braza explodindo sobre o ultimo +acontecimento, e conhecem talvez a lenda da casa de hospedes celebre da +rua dos Retrozeiros, d'onde em tempos sahiram gritos subversivos, +pamphletos, versos, theorias philosophicas, satyras e revistas do anno, +e onde--consta dos archivos da policia--morou o proprio Diabo em pessoa, +na intimidade do poeta?... Lembram-se? Depois, n'outra phase da vida, +viram-no talvez autoritario e feroz, com o mesmo perfil em bico d'aguia, +sob um chapéo molle e gasto, atacar o velho Padre Eterno?... Pois ahi o +teem agora philosopho e christão. Parece um prégador +socialista-tolstoiano, um santo cavador, de barba negra e inculta: traz +ainda terra pegada nas mãos e uma roupa velha, a que só faltam alguns +remendos cosidos á ultima hora... Usa uma camisola de lã e diz +assim:--Eu não me visto: cubro-me. + +Chega da Barca d'Alva, um terreno enorme lá para a raia, entre pantanos, +que reuniu leira a leira, depois d'uma scena, que dava um capitulo á +Balzac. É elle mesmo que a evoca em meia duzia de traços, e a gente vê +logo d'um lado os cavadores tartamudos e hesitantes, do outro o Senhor +Poeta, como elles lhe chamam, com um livro de cheques na algibeira, +encafuando-os a todos na sala do cartorio:--Se chegam a concertar-se era +uma discussão para seculos. Pediam-me uma fortuna!--Um a um compareceram +diante do tabelião:--Quanto quer? Assigne!--E sahiam logo por outra +porta. + +Já pouco a pouco a lenda se forma, discutindo-se a nova thebaida, que +d'aqui a annos será visitada como Valle de Lobos e Seide. Que procuram +os nossos grandes escriptores, desde Herculano a Fialho, na natureza, +que pouco nos dá em troca do muito que lhe damos? Afastar-se dos outros +ou esquecer-se a si proprios? Talvez as arvores e os montes nos preparem +melhor para o sepulchro e para o verme, ainda que eu julgue que não ha +como um 6.^o andar, com livros e papeis, e um cinematographo no rez do +chão, para acabar com a vida. + +Seria um curioso estudo aquelle que comparasse Valle de Lobos, Seide e a +quinta de Junqueiro, a decoração escolhida por tres homens superiores--o +fundo de tres grandes retratos. Na Barca tem o poeta uma casota de cão, +com os muros ainda em osso, e uma varanda onde passeia todo o dia +infatigavelmente. De quando em quando escreve na cal da parede versos ou +contas. Seide, n'um cahir de tarde outomniça, lembra a alma de Camillo. +Ha lá um calvario d'arvores decepadas que parecem forcas. Ha lá uma casa +tragica, pintada d'amarello. Um ermo, que, a meia legoa da estrada, fica +ao cabo do mundo, e que parece escolhido de proposito para esconder uma +desgraça ou combinar um crime. Peor: ficou na casa abandonada, no +ambito, nas pedras, alguma coisa daquella alma dilacerada de sceptico e +de crente, mixto doloroso que só tinha como solução o infortunio. O que +se ouve são risos ou gritos de dor? Depressa! depressa!... Parece que +elle anda ainda por aqui, sardonico e immenso, desgraçado e immenso. +Valle de Lobos, se uma vez o avistaram, não emociona de uma forma toda +diferente, e não diz bem com a alma de Herculano?... Quanto a Junqueiro, +a sua paizagem querida é indubitavelmente a trasmontana, grave, revolta +e grandiosa como o seu genio. + +Camillo não encontrou decerto resignação nas arvores, nem nos montes, +porque, para o mestre, em toda a natureza só o homem existia:--Não ha na +sua obra uma arvore, nota o poeta...--Nem Guerra Junqueiro por ora se +isola. Está na lucta, com os seus livros, as suas theorias, a sua +maneira suprema de discutir e de encarar os problemas do universo. + +--Para viver na aldeia é preciso, diz elle, ser João Brandão ou S. +Francisco d'Assis. + +De forma que a Barca d'Alva não é bem uma thebaida para o poeta. Os +senhores vão agora conhecel-o sob este aspecto novo--agricultor. A Barca +é-lhe mais que um refugio: é (palavras que fazem bater o coração de +todos os homens) o futuro dos seus filhos. E Junqueiro, agricultor, tem +ainda genio: inventa e descobre. Quatrocentos cavadores desbravam-lhe a +terra, que deve produzir um vinho magnifico. O mosquito propaga a febre. +O jornaleiro macilento bate o queixo com sezões. Elle ordena, dirige e +resolve as questões agricolas muito melhor que os lavradores da região, +de quem diz: + +--Plantam vinhas, como quem joga na batota--ao acaso! + +Ouçam-no! Desfilam os jornaleiros, que adquirem logo uma vida +extraordinaria, as boccas que não falam, a Maria Colhôna, que tem filhos +de toda a gente, filhos para o Brazil, filhos para soldados, filhos para +a desgraça, os sêres deformados e enormes, os tipos que se transformam +em simbolos... Descobriu um novo processo para evitar que a enxertia, +essa operação cirurgica, como elle lhe chama, falhe, e, sob as suas +ordens, trabalham alguns centos de homens, que se encostam ás enxadas +para ouvirem o Senhor Poeta... Não é raro vel-o subito, tempo humido, +perigo para as vides, abalar para a quinta com saccos de sulphato. +Adivinha, presente melhor a natureza que os sabios--e cria. Tudo o que +toca toma sob as suas mãos um aspecto novo, tão certo é que os homem de +genio, como quer Carlyle, são sempre superiores e ineditos. + +E de que maneira paradoxal elle expõe as suas theorias! Nervoso, +pequeno, calcando o lagedo da Praça, a mordiscar a ponta do charuto, que +giganteas formas de sonho não vae creando aquella magica palavra!... A +sua phantasia é eminentemente decorativa. + +--Sabem--dizia o poeta uma noite--sabem que scismo na fórma de +transformar toda a agricultura? Acabaram-se os pobres, a fome, os annos +tristes! Para o vinho, d'aqui em deante, não bastarão toneis como torres +e para o pão arcas como predios. Uma carrada de bois será apenas +suficiente para carregar uma abobora, e um simples cacho de uvas dará +vinho para duzias de borrachões. Como? Aplicando ás arvores, ás vides, +ás plantas emfim, o methodo de Brown-Séquard. O sabio dá a um organismo +gasto uma vida assombrosa, injectando-lhe a vitalidade de coelhos. +Calculem o resultado d'esse sistema aplicado na agricultura... + +Um castanheiro dura seculos, tem uma vida extraordinaria. É mais que uma +arvore--é uma força. Apodera-se dos montes. As suas raizes alastram, os +seus ramos tocam no céo. Imagine que injecto polen de castanheiro n'uma +vide... Obtenho logo uvas como as da Terra da Promissão. D'um pé de +melancia tiro um fructo capaz de carregar um carro. Tres maçãs metem no +fundo uma náu. + +E eis, por uma noite de invernia, a natureza transfigurada, pelo poder +da phantasia e do sonho. Flores são arvores abrindo lá em cima no céo em +parasoes roxos; pinheiros transformam-se em montanhas; monstros erguem +as suas corolas de veludo, e na verdade não passam de humildes flores +bravias. Uma petala desaba com o fragor de penedos, e multidões sobre +multidões sequiosas veem dessedentar-se n'este fructo colossal:--o +morango. Ha que tempos que eu erro perdido n'esta floresta monstruosa de +papoulas!... + +Junqueiro na intimidade é prodigioso de genio, de imprevisto, de +elevação. Vê os factos mais simples com um olhar que os engrandece. +Assombra de pitoresco e de inedito. O homem de genio é, como todos os +homens, filho da mesma lama, mas, por acaso, vão n'esse humus lagrimas, +aguas correntes, detrictos de florestas, restos de nuvens e a emoção +profunda da natureza. Por isso sabem tudo, sentem tudo... É pena que as +suas conversas, os seus fragmentos, esses pedaços de sonho e de vida, +atirados com febre, perdidos, e decerto esquecidos, se não possam +juntar, porque dariam um dos aspectos mais extraordinarios do seu genio. +Seria esse talvez o seu melhor livro. Assim, por exemplo, as cathedraes +de Hespanha, onde Jesus está preso e a ferros, a explicação prodigiosa +dos Christos de madeira--o Christo dos soldados, o dos ladrões, o dos +cavadores, da sua sala de jantar, unicas obras d'arte de que não quer +desfazer-se, e a sua philosophia, a maneira superior como encara o +universo e ilumina o desconhecido... + +Pois ahi o teem de novo no Porto, de barba hisurta, embrulhado n'um +casaco coçado, com um ar iluminado de Santo. Direis que vae prégar ás +multidões. Demais já ha annos que elle escrevia: + + + Tolstoi o meu sapateiro... + + +E um dia, ao saber Camillo sceptico, Camillo com noites de sombrio +desespero, palpando a coronha do revólver, não foi de proposito +procural-o para lhe prégar Deus? + +Era n'uma dessas tardes tragicas de Seide, de que o grande escriptor +fala nos _Serões_. A natureza chorava revolvida: a acacia de Jorge +batia-lhe devagarinho nos vidros. Quem é que o chama? Atormentado de +dores, ouve vozes, vê phantasmas, e sae do horror com blasphemias e +sarcasmos. Junqueiro encontra-o mergulhado na dolorosa tinta do +crepusculo, com a pala com que escrevia sobre os olhos, absorto, calado, +desesperado, o rosto marcado de dedadas, «esboçado n'uma argila côr de +mel», segundo o retrato de Ricardo Jorge. Eu tinha-lhe medo... O poeta +tenta arrancal-o ao negrume que o envolve: desenrola theorias, +explicações, argumentos; ataca-o a fundo, persuade-o talvez... Já o +julga abalado e convertido, quando d'essa figura só osso e dor, saem +emfim estas palavras ironicas: + +...--Sim, sim, Junqueiro, você convencia-me se eu não tivesse ainda no +estomago, desde o almoço, tres bolinhos de bacalhau, que me estão aqui +como tres Voltaires. + + + Março--1904. + + +Veiu a Lisboa acompanhar, por solidariedade, os lavradores do Douro, o +poeta Guerra Junqueiro. É outro homem, que perdeu talvez em +exterioridades mas ganhou em funda emoção. Tendo-se-lhe um dia deparado +universaes interrogações no caminho; tendo encontrado frente a frente, +ao meio da vida, idéas abaladoras, que só o homem de genio pode encarar +sem o pavor e o deslumbramento que o grande mistério comunica--as raizes +do universo--elle mudou de rumo, tão simplesmente como se praticasse o +acto mais banal da existencia. Sendo já um dos maiores poetas da +Europa--quiz ser tambem um santo... Durante annos procurou como Fausto o +segredo da vida no fundo dos laboratorios. E n'outra phase do seu +espirito decorativo tendo entrevisto, pelo poder do genio, novas veredas +a tentar, seguiu-as, fazendo experiencias que a sciencia d'hoje +plenamente confirma. + +Guerra Junqueiro está na mesma: alguns fios brancos a mais na grande +barba de santo, começo de calva amarelada no alto da cabeça, chapéo +baixo, uma simplicidade de trajo que vae bem com a simplicidade +verdadeira ou ficticia da sua alma. E sobre isto os olhos terriveis que +nos fitam e nos adivinham até ao fundo. A conversa é prodigio que evoca, +ilumina, toca em todos os problemas da vida, dando-lhes uma grandeza e +novos aspectos que entontecem. + +Fala-se a proposito de um livro, e elle diz, não palidamente, nem +decerto com as inexactidões com que reproduzo, o seguinte: + +--É um livro interessante. O autor conseguiu deixar falar a parte de +inconsciente que cada um de nós traz comsigo... Porque, meu amigo, a +porção de infinito que cabe a cada homem é exactamente a mesma. O +camiseiro alli defronte e um homem de genio teem na alma identico +quinhão. Sómente o camiseiro não consegue encontral-a nem pode +exteriorisal-a. Porque? Porque só pensa em camisas. O homem é o universo +reduzido... Que cada um pudesse deixar-se narrar--e teriamos a mais +maravilhosa historia do mundo!... + +E como incidentemente se refira á sciencia, eil-o que se desvia por +outro esplendido caminho: + +--As ultimas descobertas modificaram completamente a sciencia. Foi um +terremoto. E eu entrevi isto mesmo: ha annos que chegára ao seguinte +resultado:--radiação universal e desassociação dos atomos. Fiz +experiencias, que me deram resultados incompletos, procurei homens de +sciencia que não me quizeram atender. Um dia vim de proposito a Lisboa +falar a Sousa Martins e expuz-lhe as minhas theorias. Ouviu-me... Quando +me fui embora encolheu decerto os hombros. E no emtanto, passados annos, +vejo confirmado experimentalmente tudo o que eu previra... Que quer?... +Faltavam-me como comprehende os meios de verificação. Precisava de +factos. + +[Figura: _D. João da Camara._] + +Cala-se um momento e depois continua: + +--Hei-de publicar, depois da _Oração á luz_, que sae brevemente, uma +serie de memorias, com os resultados dessas experiencias. A vida--é o +Amor e a Dor. Procurar as suas leis eis tudo. Seguir-se-ha a minha +theoria philosophica. Adivinhei todo este terremoto que se deu +ultimamente na sciencia. Hoje a materia não existe: já a +definem--associação d'energias. O que é feito dos materialistas? A +sciencia futura será portanto o estudo de energias. Por ultimo +publicarei uma introducção á sciencia, visto que não posso escrever essa +obra: seria a revisão dos trabalhos de Spencer--a tarefa de toda uma +vida. + +--E tem muitos documentos? + +--Tenho tudo prompto. Necessito apenas de encontrar a fórma precisa, a +fórma mathematica, para exprimir as minhas idéas. + +Incansavel. É de ferro. Pequeno e mirrado passeia horas e horas, a +conversar... Não conversa--monologa. + + * * * * * + +Da Barca d'Alva diz: + +A minha casa de jantar tem uma meza e cadeiras de pinho. Depois de +comer, quando quero um palito, corto-o na meza. + + * * * * * + +Ramalho definido por Junqueiro:--um pinheiro com uma melancia em cima. + + * * * * * + +Junqueiro na redacção do «Mundo»: + +--D'aqui a pouco reparto a minha fortuna com as minhas filhas e o que me +restar dou-o aos pobres. + + * * * * * + +Ha outro Junqueiro de que a caricatura se apoderou, o Junqueiro do +_bric-á-brac._ O Junqueiro que a má lingua do Porto afirma que percorre +disfarçado as ruas de Hespanha, com um burro pela arreata +apregoando:--Ha por ahi quem tenha louça para vender?--O Junqueiro que +foi procurado um dia no hotel, em Salamanca:--Está cá o grande poeta +Guerra Junqueiro?--Não conheço,--disse o porteiro.--Mas elle vem sempre +para aqui. É um homem de barbas...--teimou, explicou o outro.--Esse es +Guerra el antiquario!... + +Mas até no Junqueiro caricatural algumas linhas são indispensaveis para +completar o retrato. Ha n'este grande homem uma mascara. Sinto uma parte +que se deve ao arranjo--e que é a inferior e outra em que elle obedece á +raça e que é a mais viva, a que tem raizes nos mortos. Melhor: o homem é +sempre um tablado onde varios phantasmas se despedaçam. Ha mãos que nos +puxam para o fundo, ha outras que nos procuram levantar cada vez mais +alto. Deus nos livre de julgar os mortos! + + * * * * * + +Junqueiro, de volta do Bussaco, indignado: + +--E não aparecer um doido, com um grande martelo, que deite tudo aquillo +abaixo! Qualquer dia botam as arvores a terra e põem pedraria até á +Pampilhosa! + + + Dezembro--1907. + + +Encontro-o hoje em Lisboa, emagrecido, com um velho casaco comprado n'um +adelo, e muitas rugas, finas como linhas, ao canto dos olhos. E, como o +José de Figueiredo lhe fale no Rodin: + +--É verdade, passei um dia inteiro com o Rodin, a explicar-lhe a sua +obra. Disse-lhe: você é um grande artista, mas exactamente, como em +todos os grandes artistas, a melhor parte da sua obra é inconsciente. +Porque em todos nós a razão é nada, o que é grande é o inconsciente. +Aquella cabeça que você tem no Luxembourg, emergindo da pedra--é assim, +é aquillo... Mas falta-lhe não sei quê de simbolico que ligue a cabeça á +pedra. Assim choca, é brutal. É como o _Pensador_, a estatua que está no +Pantheon. Toda a critica franceza tem tentado explicar aquella estatua, +e ainda ninguem disse as palavras necessarias. Eu lh'as digo: Aquillo +não é o _Pensador_, nem o _Pensamento_: é o primeiro pensamento em +cabeça de homem. Dispa você um tipo de verdadeiro pensador, Kant, o +Dante, por exemplo, e encontra um corpo deformado. Porque o pensamento +peza mais de que montanhas. Devora. O que você fez foi uma besta, um +gorilha, um homem capaz de arrastar calháos: Pois bem: inconscientemente +fez uma grande obra d'arte: o primeiro pensamento na cabeça d'homem. +Esse primeiro homem athletico, ao deparar com o primeiro pensamento, +essa flor abstracta, fica dominado, subjugado: cae-lhe o Atlas em cima e +esmaga-o... E adeus, são horas de partir para o comboio. + + * * * * * + +D. Carracida, professor de chimica biologica na Universidade de Madrid, +homem ilustre e que conhece perfeitamente a literatura portugueza, diz +assim de Junqueiro... (D. Carracida fala portuguez pausadamente). + +--O senhor Junqueiro, grande poeta, é um mistico... Está agora no +misticismo. O senhor Junqueiro e eu passeavamos juntos no jardim de +Villa do Conde, de cá para lá--e o senhor Junqueiro prégava a piedade e +o amor. Uns rapazinhos acendiam balões para uma festa, e eu e o senhor +Junqueiro passeavamos de cá para lá... O senhor Junqueiro prégava a +piedade e o amor, e um dos balões cahiu na cabeça do senhor Junqueiro, +que levantou a bengala e deu com ella no rapazinho... E nós continuamos +a passear de cá para lá, e o senhor Junqueiro a prégar a piedade e o +amor... + + + Março--1903. + + +Fialho não é este janota de palio rico, com uma joia tão grande que +parece falsa na gravata de veludo. Fialho era outro estranho tipo, +intratavel e pobre, com o pêlo ralo e a bocca enorme cheia de sarcasmo. +Um principe de gabinardo, que fazia cahir as peças do alto do +galinheiro, a um gesto seu irrespeitoso. Seguia-o a malta atonita de +matulas suspeitos e jornalistas de ocasião, que deslumbrou de sonho e +atascou em sonho.--Fialho! Fialho!...--Esses aplaudiram-no e +amaram-no... Esquecidos do frio e da pobreza, não despregavam os olhos +d'aquelle sonho desconforme.--Fialho! Fialho!...--Depois sumia-se n'um +terceiro andar, ou procurava os pobres que não pedem: só a mão sae da +noite e implora. Havia uma velha--nunca mais me esquece--alli á porta do +Monte Pio, que fazia parte do muro alto e espesso, e a quem elle, ao +dar-lhe esmola, lhe afagava a cabeça... Depois, amargo, feroz, +insuportavel, eil-o tornava com sarcasmos, transtornando as figuras +decorativas, cheias de veneras, que á sua voz desatavam ás cambalhotas +como palhaços. Vi-o exasperado, vi-o atordoado de phrases, como quem +quer fugir ao proprio phantasma. Vi-o mergulhar n'uma absorpção +dolorosa, e desaparecer na noite em correrias que duravam até de manhã +pelos bairros escusos ou pelas azinhagas de crime, n'um debate perpetuo +de que sahia livido, exhausto, e com a mascara transtornada. Este que +fala do seu vinho:--Livros?... O que eu trato de editar é um vinhinho +branco lá de Cuba...--este, que vem, de quando em quando, a Lisboa +deslumbrar-nos com um novo e horrivel fato, é outro Fialho, que talvez +tenha saudades d'essa vida absurda de outros tempos... + +Fialho! Fialho!... Pronuncio este nome e diante de mim desfila o +assombro, pamphletos, a obscenidade e o genio--farrapos arrancados a +ferro e tão vivos que mal ouso tocar-lhes--o estoiro d'uma bexiga +d'entrudo--ironia e esgares. E logo gritos! e agora gritos!... Ouço a +dor, sinto a dor, sinto-a sempre atravez da forma imprevista, d'uma +audacia e d'um rithmo incomparavel, escorrendo sonho, aflição, miseria, +sinto-a até nos impetos de máo gosto, nos pontapés aos leitores +surprehendidos e irritados. Está aqui diante de mim aquella bocca +enorme, aquella figura de gabinardo e chapeu molle que nas noites de +tristeza e abandono me dizia:--O que eu sofri! o que eu +sofri!...--Vejo-o sempre invejar o barqueiro louro e sardento, de que +fala nos _Gatos_, bello como um ephebo á prôa do seu barco.--Como eu +queria ter saude e ser forte!--Deu-lhe Deus o mais rico quinhão que +imaginar se pode, a lingua incomparavel para exprimir a chimera e a dor, +e, esse macaco sem fé, esbanjou-a com o mais absoluto impudor: +serviu-lhe para a chacota. Transtornou tudo, engrandeceu tudo, riu-se de +tudo. As descripções perderam a proporção, as figuras a realidade, +transformadas em figuras de dor ou de grotesco; a propria cidade +resurgiu a uma tinta livida de antemanhã, com a casaria a escorrer vicio +e aspectos tetricos... É isto sim, mas isto creou-o elle de pobreza e +desespero, creou-o de gritos que nunca ninguem lhe ouviu.--E maior! +ficou maior! A sua obra só tem outra que se lhe compare, a de Camillo. +Exigem-lhe um livro harmonico--_Os cavadores_. Porque é que toda a gente +reclama dos outros aquillo de que elles são incapazes? A obra de Fialho +não podia ser senão esta, aos arrancos e enorme. Fialho via os +pormenores atravez d'uma lente, e deturpava tudo, deformava tudo, dando +genio á propria obscenidade. Nunca conheceu Barjona, nunca viu Barjona, +e, com duas ou tres anecdotas, creou uma figura com um relevo que falta +ao mediocre Barjona da realidade. Precisou sempre de se exagerar para se +encontrar. Sacrificou o seu melhor amigo a um dito, é certo, mas começou +por se sacrificar a si próprio. Foi sempre o primeiro a sofrer. Houve +tempo em que alguem o definiu um doente com inveja das doenças dos +outros... Desatou então a gargalhar com lagrimas nos olhos. Perdeu o pé. +Arrancou as azas disformes ao Sonho e rojou-as com maldade no +enxurro.--Encharcou-as de lama e empoou-as de estrellas... O vestido +ficou mas era o d'um espectro... Não nos podemos medir todos pela mesma +craveira. Fialho tem de tudo na alma: a casa de hospedes, a existencia +reles d'estudante, a pobreza, as mil saburras, os pequenos nadas que +gastam, desgastam e transformam, e uma alma vibratil, um feixe de nervos +(capaz de tempestades que se domam com uma palavra) ligado a uma +enchente de sonho e a um orgulho doentio, como os que sentem dentro de +si, e o suportam, um mundo desconhecido e nunca dantes navegado. Fialho, +se o virassem do avêsso, escorria ternura... É tambem um timido capaz de +todas as audacias, e que sae da doença e do isolamento com desespero e +escarneo. Esta figura tão conhecida de todos nós, não é a exacta +expressão da sua alma. Ainda hoje ninguem se entende... + +[Figura: _Eça de Queiroz._--Desenho de Antonio Carneiro.] + +Silva Telles, por exemplo, conheceu um estudantinho aplicado e mediocre, +que se chamava José Valentim Fialho d'Almeida; ha ainda talvez quem se +recorde d'um moço de botica reservado e triste; e, o que é mais +extraordinario, de outro Fialho respeitoso, que não podia suportar o +exagero alheio, e d'outro, noctambulo e feroz, com risadas estridulas de +sarcasmo--e de outro, de outro maior, de outro espectro, que vem aqui +sentar-se a meu lado na sua tragica mudez. No fundo talvez tudo aquillo +fosse dor. No fundo, bem no fundo, quando irrompia n'uma phrase cruel, +não era aos outros que dilacerava, era a si proprio que se dilacerava, e +tão a serio que todos o viamos sangrar. Reparem: pouco a pouco a figura +range de dor. Arfa atravez da sua obra. É o filho do professor +d'instrucção primaria, d'aquelle homem severo, de quem dizia +baixinho:--O meu pae foi duro! o meu pae foi tão duro! Era um homem sem +ternura...--É o praticante de botica alheado e transido, o neto +deformado de cavadores, que inveja a sociedade distante, e que só aos +impetos se atreve a enchel-a de sarcasmos. Que inveja o grande +escriptor, o desgraçado Fialho, o homem de genio que passou a vida a +fazer chacota das veneras, das academias, das elegancias, dos grotescos +cobertos de patacos--que lhe faziam falta? Tanta tinta, tanto desespero +calcado e recalcado, tanta contradição e pobreza, e uma lucta de noites +e noites de que sae amarfanhado--e com paginas soberbas! Mas tu não vês +que no dia em que te roçares por elles estás perdido, como no dia em que +a cobra perde o veneno? Vae-se-te o melhor do teu genio...--Não, eu +rio-me, eu sofro...--Tantas paginas bellas!--Se soubesses como isso se +paga!--Então explica-te...--Não posso, não sei. Até dos idolos postiços +que deito abaixo me ficam saudades... Nem eu proprio sei o que +quero.--Pobre Camillo, que estoirou a cabeça de desespero, pobre +Anthero, exilado e em debate com uma sombra com que não podia arcar; +pobre Fialho, pobre cavador de genio, em perpetua discussão com os seus +mortos, em lucta comsigo e com os outros e no fundo um reverente--foi-o +sempre--sahindo em farrapos d'este inferno a que se chama a vida!... + +Da sua existencia oculta faz parte uma figura de dor calcada e +recalcada, sobre a qual outra se encarniça com desespero. Talvez seja a +verdadeira... Contentemo-nos em fixar duas ou tres aparencias, apontando +n'este canhenho algumas anecdotas frivolas... Se elle podesse gritar +gritava ainda. D'essa figura contraditoria restam farrapos--mas que +farrapos! d'essa lucta suprema existem vestigios, que nunca encarei sem +espanto... Vio-o algumas vezes ao amanhecer, n'um 3.^o andar do Arco da +Bandeira, quando elle cahia exhausto sobre a banca de tortura, á luz +d'um candieiro de petroleo, com um frasco d'alcool ao lado e o cobertor +enrodilhado nos pés. A mascara livida estava de todo mudada. Era outro! +era outro! Surprehendi-o em noites, nos giros sem destino pela Graça, +pela Penha, pelo Monte--quando o seu dedo apontava boqueirões de treva, +tropeis de casaria, sitios ermos onde duas ou tres oliveiras torcidas se +ajuntam para concertar um crime, ou, peor ainda, nas horas de amargo +descalabro, em que, dorido e sem phrases, procurava fugir de si proprio +para muito longe. Não queria então que ninguem o seguisse nas caminhadas +que duravam até ao dia--elle e a dor, elle e a noite! Amigos, +silencio... + + * * * * * + +--O que eu sofri!--dizia elle.--Tiveram-me preso oito annos n'uma botica +alli na Bemposta, ao pé da Escola do Exercito, na idade em que queria +viver. Estragaram-me a vida, encheram-me de desespero. Quando me +soltaram não imagina a minha alegria! Podia ter sido outro... Ter saude, +ser forte!... O que eu sofri! D'uma vez, no _Reporter_, o Martins +mandou-me escrever um artigo sobre uma kermesse de fidalgas. Fui e fiz +uma troça, e elle rasgou-me os linguados na cara. Para me vingar, +tirando um bocado ás noites, escrevi um artigo formidavel para publicar +em folheto. Era na occasião em que essas peidorreiras arranjavam um +bazar para os pobres, que rendeu oitocentos mil reis. Ora eu descobri +por acaso um gallego, que se juntava com outros e tiravam todas as +semanas meio dia de ganho, para irem ao domingo ao hospital dar cigarros +aos doentes, penteal-os, cortar-lhes as unhas, untar-lhes a cabeça com +banha de porco. É um velho, de barba de passa piolho, que está sempre no +largo de Camões. Homem de poucas falas. Tratou-me mal. Tive prompto o +folheto em que comparava essas mulheres, cheias de snobismo, com +adulterios e infamias, com esse santo desconhecido... Imagine... Perdi o +artigo. + +E depois, falando da mulher Oliveira Martins:--Não era a mulher que +convinha áquelle homem. E elle subordinava-se-lhe. Foi ella que o fez +confessar á hora da morte. Contou-me o Sousa Martins que a sacudira de +ao pé de si ao morrer... + + * * * * * + +Fala do livro _A Cloaca_, um d'estes livros que se sonham e nunca se +chegam a escrever: + +O primeiro capitulo está feito: é uma festa da alta sociedade no +claustro da Batalha... Aproveito a epoca do Burnay e do marquez da Foz, +a lucta da finança, quando o Foz tinha palacios e o Moser carro a duas +parelhas. Deram-se festas esplendidas... Tenho as figuras todas, homens +de negocio e jornalistas, o Mariano e o Navarro... Um dia alugam um +comboio especial e vão dar uma festa no claustro da Batalha. É uma ceia +formidavel, com mulheres da grande roda, politicos, literatos, e, dentro +do claustro, entre a grandeza e a severidade d'aquellas pedras, caem de +bebados e mijam pelos cantos, nos tumulos. O principe tambem lá está, +com o conde de Maricas--fedes: no fim do banquete, á sahida, a babar-se, +escreve nas paredes monumentaes esta palavra obscena: p... Os outros +riem-se, as mulheres aplaudem. Fora a multidão apupa. Outro capitulo ha +de ser a noite em que os jornaes apregoaram em suplemento o escandalo +Foz e a sua prisão:--Foi n'essas horas--dizia a marqueza--que os +cabellos se me puzeram brancos da noite para o dia. + + * * * * * + +Nunca terminou outro livro _A Quebra_, que chegou a trezentas paginas +impressas, no editor Costa Santos. Tinha capitulos admiraveis. Acabou +por o inutilisar:--A minha dificuldade é a falta de proporções. Perco-me +n'um incidente, e quando mal me percato estou em quatrocentas +paginas.--Sei tambem que escreveu alguns capitulos d'_Os Cavadores_. +Talvez d'_Os Ceifeiros_ pertencessem a esse livro, em que elle queria +pegar no homem do campo e leval-o, sempre explorado, desde o baptismo +até á morte... + + * * * * * + +Inventou este nome para o conde de Arnoso, a _rainha Draga_, e diz do +retrato a oleo que o Columbano lhe pintou: + +--O Columbano é tão cortezão que lhe poz um velho olho do Eça de +Queiroz. + + * * * * * + +Contemplando o cadaver do Cardia: + +--Só aos quarenta anos é que se sabe o que é isto! + +_Isto_ é a morte, á qual tem horror, assim como á velhice. + + * * * * * + +E falando a proposito do Cardia: + +--Eu tambem sou assim... Ha dias em que ninguem me arranca seja o que +fôr da cabeça. Sinto a mesma impressão de vasio que o Cardia sentia. +Depois escrevo por impetos uma pagina, pedaços destacados que me matam +de desespero para ligar. E se não escrever logo, passadas horas já não +posso, não sei... Varreu-se-me tudo! + + * * * * * + +Está furioso com a inauguração do monumento ao Eça. No fundo nunca o +pode vêr: faltou-lhe o carinho, a consideração--e isso maguou-o +muito--que rodeou o grande escriptor dos _Maias_. Elle proprio diz: +ganhou sempre a trabalhar menos que um pedreiro. No jornaleco _A +Tribuna_ escreveu em dois numeros successivos, sem assignatura, as +seguintes notas com o titulo + + + O MONUMENTO + + Já noticiamos n'outro numero do nosso jornal com todos os seus + detalhes e pormenores, como foi a festa d'inauguração do monumento + a Eça de Queiroz. Damos hoje um reflexo do humor da multidão que + assistiu ao acto. Porque, emfim, a nosso vêr, tudo é documento para + a historia. + + * * * * * + + --_Sobre a nudez forte da Verdade, o manto diaphano da phantasia_. + Dizem os amigos que n'esta frase se alegorisa a obra de Eça. Mas + olha cá. Estando a _Verdade_ completamente nua do ventre para cima, + e só rebuçada d'ahi para baixo, o que sob o manto da fantasia se + guarda é indecente. + + --Ahi está a razão porque a alegoria é flagrantissima. + + * * * * * + + --Tu, se fosses casado, davas o _Primo Bazilio_ a lêr a tua mulher? + + --Lá isso não. Mas não tinha a mais pequena duvida em o dar á tua. + + * * * * * + + --Que lhe parece a _Verdade_ do monumento? + + --Um calix de _bitter_ para fazer bocca ao _Chat Noir_, que fica em + baixo. + + * * * * * + + --Condessa, de todos os cavalheiros que fallaram, qual d'elles é o + conde d'Avila? + + --O conde d'Avila são todos. + + * * * * * + + --Este Monteiro Milhões, que inconveniencia! Consentir que das suas + cavallariças um burro esteja a interromper os oradores! + + --Condessa, é o echo. + + * * * * * + + --O que eu n'esta consagração sobretudo admiro, é o grande coração + do conde d'Arnoso. O Municipio devia premiar tão nobre musculo. + + --Com uma urna, como se fez ao D. Pedro IV? + + --Com uma urna não. Com uma travessa. + + * * * * * + + --Seria interessante conhecer todos os tramites do trabalho de + creação do esculptor, até ao momento da estatua apparecer. + + --Ah, eu lh'os conto. Primeiramente, o Carlos Mayer, na sua + qualidade de judeu, queria uma descida da Cruz, e por isso, o grupo + do Eça e da Verdade cheiram um pouco á scena da Paixão. Veio depois + o Arnoso a lembrar se dessem ao monumento reminiscencias mais + contemporaneas, ex.: o Genio perguntando á Verdade quantos dentes + queixaes queria tirar. D'esta dualidade d'inspiração resulta o + _mysterio_, que faz com que o monumento seja o que v. ex.^a quizer, + sendo o melhor--não perguntar. + + * * * * * + + Apparece no estrado o Conselheiro António Candido. + + --Silencio! Vae fallar o maior orador da Peninsula. + + --«...no povo portuguez ainda ha o grande brio dos feitos altos, + (_sussurro_). Se ámanhã esta Verdade tão núa fôr ter ao Pelourinho, + ninguem sabe até onde o amor da Pátria ha-de crescer! (_ovação_). + + * * * * * + + Interview com o conselheiro Barahona. + + --V. Ex.^a leu alguma vez o Eça? + + --Ler, nunca, mas conheci-o em Evora, delegado do thesouro, e até + por causa d'isso vim ao Principe Real ver-lhe um drama de ladrões, + que estava mesmo escripto ao meu sabor. + + --Mas isso não é o Eça de Queiroz, é o Eça Leal. + + --O que?! Não é o mesmo? Ai, os meus ricos dois contos de réis! + + * * * * * + + _Interview_ com o Snr. Monteiro Milhões. + + --V. Ex.^a que pensa do monumento? + + --Penso que tenho de voltar a frontaria da minha casa, para o + Theatro D. Amelia. Imagine que os meus netos estão constantemente a + perguntar quem é aquella senhora sem camisa. Já o outro dia lhes + disse que era D. Maria II, mas com estes frios, os pequenitos, + educados na compaixão, não me largam para que lhe mande dar um + cobertor. + + --E que impressão faz das suas janellas a barriga da Verdade? + + --Aqui entre nós (_arregalando o olho_) é uma d'aquellas barrigas + que está mesmo a glorificar a «sensação nova» (_irritado_). Não era + mais condizente á minha camoneana, transferirem o epico immortal + aqui para o meu largo, e levarem _aquelle senhor_ para as + proximidades do Bairro Alto? + + --De modo que V. Ex.^a, irritado, nem chega á janella? + + --Emquanto a Camara não mandar pôr, de roda da figura um resguardo + pintado de cinzento. + + * * * * * + + --Tu ouviste os discursos. Que opinião por elles se pode ter da + capacidade mental dos oradores? + + --Metade d'aquelles senhores não leu o Eça, e a outra metade não + tem lucidez para o julgar. Isto foi uma festa de «snobs»; o + monumento que ali está, não foi erguido á memoria do Eça litterato: + é a glorificação do conde Reinaldo e da Alfonsine. + + --E se o flamejante garoto agora cá tornasse? Mettia-os a todos + n'um romance endiabrado. + + --Já estão mettidos. Mas o que tu acabas de vêr é os _Maias_ em + quadro vivo. + + * * * * * + + Duas guapissimas, na turba. + + --_Pero Eça de Queiroz, quien és?_ + + --_Un caballero que escribió del minuete._ + + + * * * * * + +G..., antigo companheiro de Fialho, sepultado hoje no fundo d'uma +biblioteca, diz assim a proposito da livraria do grande escriptor[2]: + +«Eu chamo a estes livros as onze mil virgens. São apenas quatro mil +volumes ou pouco mais, mas--vae surprehendel-o esta minucia--estam quasi +todos por abrir. Ha aqui Balzac e Zola, Eça e Ibañez, os Goncourt e +Ponson du Terrail. Fialho tinha muito Ponson na sua biblioteca. Esta +litteratura de costureiras e guarda-portões era para as grandes horas +amarguradas». + +Era. A elle e a outros grandes espiritos basta-lhes o proprio drama para +os amargurar. Anthero, nos dias aziagos de Villa do Conde, deitado n'um +sofá, só lia Gaborieu. Para tragedia chegava-lhe a sua. + +«O Fialho tinha uma admiração extraordinaria pela obra camiliana. +Imagine que até n'um livro da mocidade poz uma dedicatoria a Camillo, em +que dizia: «acabo de lêr toda a sua obra». E quasi nada lêra a esse +tempo... Afora as obras portuguesas, na biblioteca de Fialho só ha +volumes em espanhol e em francez. Nos ultimos anos merecera-lhe uma +atenção particular a literatura espanhola.» + +E a proposito de Fialho intimo assevera: + +«O Fialho, que tinha grandes rasgos generosos e perversidades +femininas--repito-o não era bem o Fialho que se vê atravez dos seus +livros admiraveis. Era o _outro_. As suas irreverencias das paginas +rubras eram fundamentalmente apenas o odio do plebeu que inveja o +fidalgo. Sim, porque ele invejava a sociedade na sua fase demolidora +_só_ porque não tinha nela um lugar. Uma infantilidade de homem de +genio.» + +E explica: + +«Como se sabe o Fialho não tinha meios de fortuna nem ascendencias +nobres. Fez a sua vida ali no «Martinho», vivia de noite e era um +_blageur_ incorrigivel, e apezar de valer bem os seis milhões de +portugueses que existem sobre esse solo, a Monarquia, o Paço, os +conselheiros, não lhe achavam _qualidades_ para triunfar nessa sociedade +formalisada e cheia de convencionalismos. Está explicado o Fialho dos +_Gatos_--foi a revolta. Meteu-lhes medo--oh sim, um medo terrivel com as +suas _blagues_ sangrentas--fazia-os passar de largo, mas ainda mais se +afastou do _ancien régime_. Entre os republicanos, onde se lançou de +alma e coração, sentiu-se depois desconsiderado. O Fialho continuava a +ser... o _blageur_. Nunca lhe deram um cargo de confiança. Que pena teve +o Fialho de não ficar na Comissão da subscrição nacional a quando do +_ultimatum_!» + +E termina com esta nota inedita: + +«Sabe que o Fialho era um orador. Nunca ouviu dizer talvez que elle +fizesse um discurso? Mas ouvi-lhe eu muitos, todos os dias, durante +longos annos. A sua timidez invencivel nunca o deixou falar em publico +apesar de, como ninguem, sentir a necessidade do aplauso. Muita vez me +disse que desejaria ser actor, ser um grande actor, para ouvir bem de +perto o som das palmas com que o saudariam, para viver intensamente, +ruidosamente, uma grande hora de triunfo. Tinha coisas o Fialho... +Registe esta nota curiosa pois muito poucos a sabem: era soberbo, orando +alucinado para um auditorio de tres amigos intimos no alto da Avenida, +ou noite alta, á beira do Tejo.» + + * * * * * + +Á figura que se senta ao pé de mim falta-lhe talvez a rigidez das +estatuas. O gabinardo, reparem, está amachucado e encardido, a +phisionomia retrae-se no escuro e só a bocca se salienta, enorme e +prestes a escorraçar-nos com gritos e apupos. Atravessou a vida: foi +injusto, foi cruel por vezes, foi amargo. Desatou a rir para não chorar. +Atordoou-se com sarcasmos e phrases. Foi incoherente. Obedeceu ao +impulso. Não se pôde furtar a sentimentos que veem do fundo dos fundos e +nos deixam prostrados, reclamando da morte que nos apavora--enfim! +enfim!--o primeiro dia de descanço bem ganho, ao termo desta discussão +que nunca cessa e em que nos despedaçamos, sem nos comprehendermos a nós +proprios quantos mais aos outros... Toda a sua alma, que deixou +fragmentada em varias figuras, em todas as paginas dos seus livros, nos +retratos, nos tipos, nas paisagens, no Manuel, em Guilherme de Azevedo +ou na manhã do Tejo, se condensa enfim n'esta bocca amarga capaz ainda +de nos fulminar de colera ou de acusar bem alto a vida que lhe foi +impiedosa... É assim que te vejo ao pé de mim, com detrictos, +escorrencias, lama, mas tão grande, tão vivo, tão humano, que para +sintetisar a tua vida, só me servem as palavras com que um espectador +ilustre sauda o Hamlet no fim da representação:--Boas noites, meu +principe, és um homem, o homem e todo o homem! + + + 4 de Janeiro--1908. + + +Morreu ante hontem d'albuminuria o pobre D. João da Camara. Tinha feito +annos no dia 27. Conheci-o sempre, até nos maiores frios, de casaco +d'alpaca, a sorrir... Antes de acabar sahiu do torpôr e, em dois acessos +de delirio, descreveu o fim do mundo com terror e espanto. Depois rezou, +disse versos seus, e ficou, n'um ultimo suspiro. Remexeram-lhe nos +papeis e nos bolsos: só lhe encontraram recortes de jornaes, anuncios de +desgraçados pedindo esmola. + +Mezes depois ainda os pobres o procuravam nos sitios do costume:--O +senhor D. João? o senhor D. João?--Morreu.--Morreu! morreu!...--E +partiam a chorar. + +Agora é que eu sinto todo o encanto d'esse homem falando baixinho, a +olhar a gente por cima das lunetas. Andou mal vestido. Não soube o valor +do dinheiro. Desceu aos desgraçados com uma ternura e uma simplicidade +de fidalgo e de santo. Nos ultimos quatro annos ganhou alguns contos de +reis: deu tudo, levaram-lhe tudo. Até de madrugada o procuravam para lhe +pedirem dinheiro emprestado. E nunca o ouvi queixar-se, nem dizer mal de +ninguem. Foi um poeta e um santo. Deixa, alem de algumas obras +admiraveis, uma peça incompleta, com poucas scenas escriptas--_As +comadres de Panoia_, e talvez se lhe encontrem tambem apontamentos de +outra em que tanto falou e em que tanto sonhou--_O Sermão da Montanha_. + + + 18 de Março--1900. + + +Faz hoje annos que morreu Antonio Nobre. Foi uma figura inconfundivel de +poeta. Por mim nunca encontrei tambem rapaz mais lindo. Um pouco +afectado talvez... Em pequeno ia com Eduardo Caminha enterrar os seus +versos no jardim solitario do Palacio, e pedia, com os olhos limpidos e +sofregos, uma Biblia para repousar a cabeça quando o levassem no +caixão... Estou a ve-lo, com uma camisola de pescador, saltar pela +janella da casa á beira rio, de Mattosinhos, onde Alberto d'Oliveira já +imperava, esse mesmo Alberto d'Oliveira, esperto e tão dominador, que, +quando entrava em casa dos outros, começava por os convencer a +desarrumar os móveis, para os arrumar de novo a seu modo... Antonio +Nobre usava uma abotoadura de cabeças de pregos e sorria com um modo e +um ar de ternura e desdem. Fugiam d'elle antes de publicar o _Só_; os +poetas do seu tempo odiaram-no depois de publicar o _Só_. Ser diferente +dos outros é já uma desgraça; ser superior aos outros é uma desgraça +muito maior. Viveu efectivamente isolado. No concurso para consul +quizeram reprová-lo: foi preciso que Alberto d'Oliveira explicasse ao +jury quem era o poeta Antonio Nobre. Não pôde formar-se em Coimbra, e +até os seus amigos mais intimos lhe fugiram. Entrou na morte como tinha +vivido--só. Até Alberto d'Oliveira teve de interromper uma amizade de +irmão quando se encontrou diante d'este dilema: ou deixar-se dominar por +elle, que o tratava como uma creança, ou feril-o em pleno coração:--A +nossa amizade é de tal ordem que não admite que lhe desçam dois ou trez +pontos á craveira. Ou mante-la ou quebra-la.--Quebrou-a. O ilustre +escriptor possue d'esse tempo um caixão enorme, tão pesado como o que +levou o poeta para a cova, com as cartas afectadas e vivas de Antonio +Nobre, as cartas que tem obrigação de publicar, com um prefacio que só +elle pode e deve escrever. + +Digamol-o, digamol-o... No fundo detestaram-no, detestaram-no todos. Não +lhe poderam perdoar a impertinencia, o desdem, o genio. Era um sêr +diferente. Não agradava a ninguem. Só as mulheres o amaram. Era um +Poeta. Desconheceu a vida pratica. Tinha a consciencia do seu valor, e +uma superioridade que se não podia aturar. Estavamos todos mortos por +nos desfazermos d'esse ser aparte, d'esse eterno consul sem consulado, +d'esse estudante de Coimbra que os lentes reprovavam e que nos fazia +sombra. Mas debalde o arredamos: houve uma coisa nova que passou no +mundo e que ficou no mundo--que nos ficou na alma... + +[Figura: _Antonio Nobre no caixão._] + +Agora estamos todos apaziguados, todos podemos esquecer a superioridade, +a afectação e o desdem infantil de Antonio Nobre. + +Foi para a cova completar trinta e tres annos n'um dia de chuva como +este, frio e sujo, o poeta insolente como um principe e adoravel como +uma creança. Quantos estavam alli á beira do tumulo? Meia duzia escassa, +o Frei, o Justino, o Eduardo de Souza, eu--e quem mais? quantos mais? Os +jornaes deram a sua morte em duas rapidas linhas. Respirou-se. + +Hoje é um dos poetas portuguezes com mais admiradores. É um poeta de +simpathia. Nunca teve sorte senão depois de morto. Porquê? Porque não +misturou, como nós todos, o sonho com a vida pratica. Ao contrario, +raros homens terão posto tão de acordo a vida com o sonho. Fez mais: +suprimiu a vida. Correu o globo e só a si proprio se encontrou. Viu o +mundo e nunca assistiu a outro drama que não fosse o da sua alma. E +poentes, arvores, estrellas ou pedras, entraram-lhe no coração como +espadas. Nenhum outro exprimiu d'uma forma tão sua o universo. Que +universo dirás? O meu? o teu?... Não, o que elle descobriu, scismando +como um navegador, á prôa do seu barco... Por isso nunca hão-de faltar +sonhadores que evoquem essa singular figura de poeta, que uma vez +atravessou a terra, soluçou, monologou como Hamlet, e sumiu-se logo no +sepulchro. + + + 30 de Janeiro--1911. + + +Janota e coçado, com uma flor na botoeira e a fumar um charuto de dez +reis, ahi vae o poeta Gomes Leal. Quem não viu n'outro tempo este homem +extraordinario, não conheceu um verdadeiro, um authentico poeta +satanico. Passou nas ruas de chapéo alto, falando com intimidade ás +estrellas e tocando no céo com as guias do bigode. Escreveu as paginas +das _Claridades do Sul_, da _Traição_ e do _Anti-Christo_. Viveu +alheado, como é indispensavel a quem convive todo o dia, tu cá, tu lá, +com o sonho. Cantou a plebe, destruiu os deuses, arremessou sarcasmos +aos banqueiros, satirisou o grotesco, e tocou-nos hombro com hombro, +apontando altivo o cravo vermelho da lapela: + +--Amigos, as flores são as condecorações dos poetas! + +Prodigalisou-o a caricatura: teve na vida misterios perturbantes: um dia +acometeram-no no comboio, em Espinho, quando regressava do Porto, até +onde seguira a rainha Maria Pia, depois de lhe atirar uma rosa +escarlate, que arrancou da botoeira, em plena praça, com um desdem +supremo pela burguezia endinheirada... Sim, foi este que teve a gloria +da cadeia, que cantou as estrellas, Jesus e Mephistopheles, foi este +mesmo homem, a quem falta roupa na cama no inverno glacial, e que sorri +com humildade para nós, avelhantado e timido... As janellas não teem +vidros, a roupa é pouca, mas tu viveste o que não vive um rei, e o +imperio deslumbrante, que creaste á custa de dôr, cheio de obscuridades +e de genio, com catadupas d'oiro, como nas lendas, e palidas figuras; +essa mescla de gritos, de paixão; esse sonho confuso e immenso, +pertence-te, e não ha quem t'o roube, mesmo com as janellas abertas de +par em par. Deixa entrar o frio--e sorri... + + +Agora vae todas as manhãs ouvir missa á Pena ou ao Resgate. É um homem +encolhido e friorento, que a banalidade tem gasto e desgasto como as +moedas fóra de curso que se fartaram de correr de mão em mão, e ainda ha +dias o encontrei no Porto, n'uma manhã de sol, de casaco de borracha e +colarinho suspeito. Ia pregar á Associação Catholica, e atravessava a +Praça entre os aplausos dos palidos sachristas, que o rodeavam como quem +força um deus, sem repararem que só levavam um simulacro. No sonho de +outrora não ha mãos que se atrevam a tocar... Elle sorria enlevado, com +o eterno charuto ao canto da bocca. + +A vida feroz torna-nos grotescos. Consegue tudo. Deforma-nos. O proprio +sonho entra ás vezes no dominio da chacota. Onde, porém, Garrett chega +ao ridiculo, com tres cabelleiras postiças, Gomes Leal, de casaco de +borracha e discursos de propaganda, atinge o tragico... Eu bem sinto a +tristeza, bem sei, bem vejo o arranco, bem palpo a dôr. A figura que +cheira a bafio como se sahisse do fundo do armario do passado para a +plena luz, faz rir e faz chorar. No esforço para não ir ao fundo, no +gesto de naufrago que se apéga com desespero, quando a dôr estala por +todas as costuras, ha um rictus de clown. Olha lá: o peor é tu ousares +tocar no que ha em mim de mais sagrado, o peor é tu transformares-me o +sonho n'uma noticia do _Seculo_, o peor de tudo é tu atreveres-te a +tocar n'este jardim da vida--e, peor ainda, é que eu continuo a sorrir +como se possuisse o antigo thesouro de Ali-Baba. Mais um momento, outro +passo e reduzes-me á condição de trapo. Deitas-te commigo, acordo +comtigo ao meu lado, e ha occasiões em que até o som da minha voz me +sobresalta. Por ora debato-me, por ora sinto o coração opresso, fingindo +que não existes, mas ha já terror no meu sorriso, e, quando me ouço, +ouço-te tambem os passos. Sei perfeitamente que o momento terrivel +depende de um unico traço de separação--agora, já, d'aqui a bocado... + +Estás por traz de mim e o minuto grotesco será quando eu deixar de te +conhecer e quando sentir a tua mão gelada... Estás por traz de mim! +estás por traz de mim! Bem sei que estás por traz de mim, e que vaes ser +a minha companhia até á cova. Confesso-te: o que me aterra não é o +momento que passou, nem o que ha-de vir--é o momento, que vale um +seculo, em que tenho de galgar o abysmo. Por ora teimo, por ora ainda +digo:--A sciencia, meu rapaz, sabes o que é? É um cifrão cortado.--Mas +como o digo!... + +...Ha um momento tetrico nos _Espectros_ em que um novo personagem se +introduz em scena. Desde o principio que o sabemos atraz da frandulagem +de papelão: está alli presente, não como uma figura de theatro, mas +monstruoso, real e patente, como o Destino, á espera de intervir. Desde +então perco o fio da peça, não sigo mais os bonecos que se agitam no +tablado, só ouço o meu proprio monologo, e quedo-me d'olhos atonitos +n'outro espectaculo atroz. Tenho a certeza absoluta de que não ha forças +humanas que lhe detenham a marcha. Começa então a tragedia... + +É este mesmo personagem que se intromete na vida do poeta. As palavras +conteem ainda e sempre as mesmas letras, mas até as palavras mirraram. +Esqueci tudo, troquei tudo pelo sonho, e, quando tu quizeres, de mim +proprio ficarei desconhecido! Como eu comprehendo agora aquella phrase +de outro poeta: «Sinto que não posso trabalhar! sinto que não posso +trabalhar!» É com esta angustia que te ouço os passos mais perto. Já não +é só a scena que tu enches, é a sala toda, figura invisivel, unico +personagem do drama, que te entranhas na alma dos espectadores. Emquanto +os bonecos teimam em pronunciar palavras que não ouço, que não teem +significação nem importam, tu levas-me, quer eu queira, quer não queira, +a sorrir com enlevo á propria banalidade. + + * * * * * + +A casa em que mora Gomes Leal, na esquina do palacio da Bemposta, parece +arrancada a um velho quadro de Velasquez, com a sua entrada de pedra e +um arco na escada. O soalho entreaberto oscila, as janellas não teem +vidros. Conheço-a. Já lá morei ha annos no mesmo quarto que dá para um +quintalorio, com duas ou trez oliveiras carcomidas. Do buraco, onde +nunca chega o sol, sae um frio de morte. Bato, a porta abre-se, o soalho +range, e o poeta surge com o velho chapeu ás trez pancadas, luvas +pretas--até de luvas escreve Gomes Leal!--e no quarto desagasalhado ha +luvas por toda a parte, por cima das mezas, entre os livros, penduradas +no tecto. O leito é um catre. Ao lado um Christo, uma mezinha de pé de +gallo, e no soalho apodrecido, montões de jornaes e de livros. Na +parede, que ressuma humidade, um quadro a crayon, com o vidro partido: o +retrato da mãe de Gomes Leal. + +--Vivo só, não tenho familia. Minha mãe morreu-me e aqui estou como um +orphão. + +--Vive isolado sempre? + +--Levanto-me cedo, vou aos templos. Depois passo pelas bibliothecas e +pelos livreiros e venho para casa escrever. Almoço e janto onde calha. +Quando tenho bebo para esquecer, á noite escrevo, deito-me cedo e +durmo... Tenho trez livros para publicar: _As memorias d'um revoltado_, +continuação da historia da minha vida, _O macaco de Nero_, estudo de +Roma, e o livro em prosa _Cidade do Diabo_, onde trato da decadencia do +mundo moderno. Comecei tambem _Christo nos infernos_, poema em verso. +Conservo as minhas ideias religiosas, que não são incompativeis com a +republica, e ficarei contente por ver realisado o sonho de toda a minha +vida, que acalentei como um poeta, e que desejo que se não dissolva como +uma bola de sabão na cabeça d'um prego... + +E queda-se n'um silencio amargo. A chuva cae lá fóra. A noite e um frio, +uma humidade de poço, trespassam-me... + + +No seu genio houve sempre sincopes, falhas, absurdos. Se tropeçou, +ergueu-se sempre mais alto. Aos trinta annos reage-se. Mas chega um +momento da vida em que a gente se sente transida pelo ar do sepulchro e +uma sombra desmedida avoluma-se e sufoca-nos. Foi d'esse negrume, que se +chama a Morte, que elle ouviu sahir uma voz cheia de ternura--a ternura +que toda a vida o envolveu--e que começou a falar-lhe baixinho. N'esse +momento Gomes Leal deixou de viver no mundo da realidade para cohabitar +com um phantasma... + + + Setembro--1907. + + +Antonio Corrêa d'Oliveira, ossos, nervos e a pelle necessaria para os +cobrir--com um chapeu alto e lustroso em cima--grande poeta, com raizes +profundas na natureza, tem na Beira uma tia que passa a vida em dialogos +estranhos com as arvores e as pedras. E mal chega á noite eil-a começa a +cumprir o seu fadario: leva até á madrugada a dar de beber +indistinctamente ás plantas do seu quintal e ás dos quintaes vizinhos, +n'uma aflicção, n'uma piedade que se estende até ás hervas ignoradas e +ruins. Monologando sempre, vae e vem,--que não fique alguma com +sede--com o regador nas mãos, até que a manhã a encontra exhausta, +feliz, encharcada até aos ossos e ainda embebida n'aquelle sonho +phrenetico de ternura... Toda a emoção do poeta está aqui, do grande +poeta que diz:--Sinto em mim uma força da natureza... hei-de +aproveital-a.--Os avós deram cabo da casa. O pae ninguem o arrancava ás +suas arvores, e um tio, personagem de Camillo, morreu cosido de facadas. +A mocidade do poeta foi tambem dolorosa. Chamavam-lhe magico. Para não +pezar á mãe escreveu á raza n'um tabelião e foi proposto de recebedor em +Cezimbra, elle que nunca soube sommar. Iam as mulheres dos pescadores +pedir-lhe perdão das decimas; e nunca na memoria de homem se viu +recebedor em semelhantes apuros, perplexo diante dos papeis, dos pobres, +da desgraça, das contas e da sua propria alma! Um dia gostou d'uma +mulher e escreveu os primeiros versos, _Ladainhas_,--Eu não sabia o que +eram versos, nem medir versos. Sahiu-me aquillo... Troçaram-me tanto que +estive para endoidecer. Sabe o que me valeu? Um artiguinho do Trindade +Coelho no _Reporter_. Essas palavras salvaram-me! + +[Figura: _Corrêa d'Oliveira em 1903._] + + + Janeiro--1911. + + +Passei a noute de hontem em casa do Fernandes Thomaz, um velho +bibliophilo, coleccionador de autographos, de livros raros, de gravuras +antigas. Bom como o pão arruinou-se em papeis velhos... Eis emfim um +homem feliz, suponho eu, entre as estantes que revestem os muros, como a +traça entre as folhas d'um pergaminho. Ingenuo, surdo, com sessenta e +tres annos e coleccionador apaixonado de papeis velhos ainda por +cima--que sorte!...--De repente pega-me nas mãos e desata a chorar: + +--Tenho sido um martir! + +Á roda muitos documentos, muitos alfarrabios, muitos calhamaços +preciosos. São duas, tres salas catalogadas, onde tem livros e papeis +por toda a parte. A sua vida devia correr esquecida e placida, sem +sobresaltos nem duvidas, folheando, rabiscando, anotando, sonhando +sempre em coisas faceis. + +--Não imagina o que tenho sofrido! Sempre gostei muito de creanças... +Trouxe para casa uma sobrinha, morreu-me de raiva nos braços. Minha mãe +um dia teimou:--Has-de casar.--Fiz-lhe a vontade. Casei. Minha mulher, +ao fim de dois annos, abalou levando-me quasi tudo o que eu tinha. +Demandas, processos--fiquei pobre. Agora meu filho quer ir por força +para a Africa. + +E põe-se a chorar como uma creança, com a cabeça branca pousada sobre os +livros, os papeis, as gravuras...--deante d'aquella documentação cerrada +e inutil, que tem sido a razão da sua vida. + + + 1 de Fevereiro. + + +Venho de casa do Fernandes Thomaz. Teve um ataque apopletico. Está +hemiplegico, deitado n'um sofá, somnolento e tremulo. Nunca encontrei +bibliophilo que tivesse prazer em indicar, em ensinar, senão este... É +outro homem adoravel que morre, mas felizmente não sabe que morre. Á +beira do tumulo ainda me pede que lhe arranje um catalogo da guerra +peninsular. E diz-me de Theophilo: (estes homens dos papeis velhos nunca +se puderam vêr...): + +--Pode crer que nunca passou necessidades como elle diz. Conheço-o de +Coimbra, morava em casa do conde de Valença. Todos os mezes o pae lhe +mandava pelo correio duas libras em oiro n'uma caixinha de madeira. Ora +n'esse tempo valiam tanto como hoje quatro... + + + + +PÓ DA ESTRADA + + + Março--1902. + + +Este homem immenso e louro, o Alpoim, não tem um minuto de seu: não +descansa, não pode. Escreve cincoenta cartas por dia, faz a chronica do +_Janeiro_, corre ao parlamento, intriga nos corredores, enche uma pagina +do jornal, recebe toda a gente, encanta e domina toda a gente n'um riso +aberto:--Meu querido amigo...--e, mal se fecha por dentro, arranca os +ultimos pêlos do bigode e cae exhausto, exclamando n'um pranto:--Ai que +filhos da p...! ai que filhos da p...! Eu não posso! eu morro!--Nem para +ser rei de Portugal valia a pena semelhante esforço. + +No fundo é um politico com este fito: o poder. Mas alguma coisa o +distingue dos outros que conheço, do espesso Ferreira d'Almeida, por +exemplo, que exclama diante de mim sem pudor:--Hei-de ser ministro +porque quero mandar! gosto de mandar!--É um fidalgo com talento, e tanto +serve um amigo como um desgraçado de quem nada tem a esperar. O esforço +é identico.--Vou ao inferno por um amigo...--Ha ainda quem se lembre dum +Alpoim de chapeu desabado e capa á espanhola, mas o amor fel-o janota... + +Na sua vida, como em todas estas existencias de aparencia e lucta, ha um +trabalho de sapa, que quasi totalmente desconheço. Sabe tudo, pode tudo +com os seus e com os outros. O Hintze tem por elle um fraco, o José +Luciano entrega-lhe nas mãos a meada politica:--Nada se faz sem mim. Sei +tudo!--diz muitas vezes com o olho esperto a luzir. O Teixeira de Souza +é o seu amigo mais intimo. Uns temem-no, respeitam-no os outros. Este +que lhe sorri atraiçoa-o--e elle fala-lhe amavelmente:--Não me podem vêr +porque lhes faço sombra. Eu sei... Mas ninguem exija dos homens mais do +que elles podem dar.--Conspira. Tem nas mãos os mil fios da emaranhada +teia politica. Vae mais alto ou mais fundo?... Não sei, mas é talvez a +isso que elle se refere quando afirma:--Ninguem sabe a que portas vou +bater! + +Hoje conta o movimento de protesto quando dos comicios contra o governo +regenerador. Reuniam-se já ha tempos alguns pés de boi em casa de José +Luciano, que um dia sae-se com esta: + +--Bem, meus senhores, precisamos de acabar com isto senão cahimos no +ridiculo. A tomar chá não fazemos nada. Que é que os senhores resolvem? + +--A revolução! queremos a revolução!--concluiram todos. + +--Eu disponho de seis mil homens. + +--Vamos para a rua! + +--Estamos dispostos a tudo, mas temos um pedido a fazer a V. Ex.^a: é +que se responsabilize a que a guarda municipal não atire sobre nós... + +O José Luciano, a puxar pelo bigode, sem sahir da sua pachorra ironica: + +--Oh senhores, mas se eu dispozesse da municipal não precisava dos meus +amigos para nada! + +--O José Luciano o que tem tido toda a vida é sorte,--observa alguem do +lado. + +--Garanto-lhes pela saude dos meus filhos, atalha logo o Alpoim--que é +um homem inteligentissimo. E senão vejam como elle conseguiu arredar e +vencer todos os do seu tempo. Ninguem luctou mais do que eu para a +eleição do Mariano a chefe do partido progressista, ninguem!... E que +succedeu?... O José Luciano tinha em segredo conseguido pôr o paço de +seu lado. Na vespera da eleição o Mariano disse-me:--Está tudo perdido, +votem no José Luciano...--Se não o elegessemos, o rei nunca mais chamava +o partido progressista. + +Sob aquelle aspecto de inalteravel bonhomia, é um homem d'uma alta +inteligencia pratica. Muitos ao seu lado caminharam para o mesmo +destino, e elle, não sendo nem um grande jornalista nem um grande +orador, sem brilho mas solido--e com caracter! com tenacidade e +caracter!--pouco a pouco ficou sosinho em campo: arredou-os todos. + + +Fui do seu meio e do seu tempo. O Fuschini chamava-lhe com desdem:--Essa +vil alforreca...--Diz-se que no salão dos Navegantes se dava tudo o que +se podia dar--e que não lhe pertencia: logares, negocios e empregos. +Talvez. Mas se não teve a grandeza de resistir aos homens, conteve os +interesses fataes dentro de certos limites. Não podendo ser nem um santo +nem um genio, manteve essa linha de superioridade, chegando, mais tarde, +a ser uma figura. Sentado na cadeira de rodas, o velho obstinado, n'uma +sociedade a liquifazer-se, resistiu até á ultima, e adquiriu relevo e +grandeza como se os alicerces fossem de pedra. Foi dono do paiz, dictou +a lei, e, arredado e sempre lucido, leu no futuro pronunciando algumas +phrases que a historia terá de registar... + + + Junho--1902. + + +Contava o marquez de Ficalho, pae deste Ficalho, e que era vivo ainda ha +quinze annos, o seguinte caso, que mostra bem o medo que D. João VI +tinha a Carlota Joaquina. Um dia o D. João VI, ia de sege para Cintra, +Queluz, ou não sei para onde. Ao lado galopava o Ficalho, com dezasseis +annos, cavalariço do rei. De repente, ao longe, avista-se na estrada uma +nuvem de pó, e o rei, deitando a cabeça de fóra da sege, brada: + +--Parem! para traz que ahi vem a p...! + +A p...--era a mulher. As palavras são textuaes. + +[Figura: _Fernandes Thomaz._] + + + Março--1903. + + +Diz o Abel d'Andrade: + +Dos oito mil contos de deficit, quatro mil é a casa real que os gasta. +Que ministerio tem força para se impôr ao rei? Ambos os chefes estão com +medo ao João Franco... + + * * * * * + +Arroyo queria atacar o rei nas camaras. Houve mosquitos por cordas para +o dissuadirem... + + * * * * * + +Sabem quanto faz o Arroyo por anno? Dez contos. + + * * * * * + +O rei foi aqui ha tempos para Setubal, e, depois de jantar, bateu o fado +com um malandrão. O Duval Telles, no outro dia, ao jantar, aludiu ao de +leve ao caso, achando-o improprio. Á noite encontrou na mezinha de +cabeceira uma carta do rei com estas palavras: _Dispenso-te do meu +serviço_. Seis meses não fez serviço; agora, antes da rainha partir, +pediu-lhe apoquentadissimo a sua intervenção. Outra carta do rei com +estas palavras: _Entra outra vez de serviço, mas nunca mais me dês +conselhos sem t'os pedir_. + + + Março--1903. + + +Alpoim: + +--Antes de seis meses temos ahi graves acontecimentos... + +--? + +--Um governo fóra dos partidos, uma dictadura feroz. + +E a proposito dos acontecimentos de Coimbra: + +--Em Coimbra existem sociedades secretas. O governo sabe. Quando foi da +espera do Carrilho, tinham tudo combinado. Dois grupos fariam +descarrilar o comboio, apoderando-se dos papeis que o Carrilho trazia e +matando-o. Entravam lentes e estudantes... + + * * * * * + +O Alpoim: + +--O Mousinho d'Albuquerque antes de morrer disse-me:--O unico homem com +quem eu poderia ser ministro era com o José Luciano.--Dantes dizia muito +mal d'elle. D'uma vez estava no Paço, no vão d'uma janella, a dizer +cobras e lagartos de José Luciano; o rei, um pouco afastado, ouviu-o: + +--Ó Mousinho cala-te. + +--Se incomodo V. Majestade saio d'aqui. + +--Não, podes estar, mas acaba lá com a conversa. + + * * * * * + +--E porque é que o rei não gostava do Mousinho? + +--Se lhe parece! Vêr sempre o Mousinho a seu lado, carrancudo, sem +palavra, mas severo como um censor... Irritou-se. Quem lhe valeu mais +d'uma vez foi a rainha. + + + Abril--1903. + + +O Adrião de Seixas, secretario do Banco de Portugal: + +--Já por diferentes ocasiões o Estado tem corrido o risco de ir a pique. +Houve mezes em que quasi faltou o dinheiro para pagar á tropa, e mais +que uma vez o Banco de Portugal se viu em transes para arranjar +trezentos contos de reis. + + * * * * * + +Um architecto do Paço conta que a rainha D. Maria Pia fuma +constantemente charuto como um homem, e atira as pontas para onde calha, +sobre os sofás e os tapetes. Atraz d'ella anda sempre um creado de +farda, com medo que pegue o fogo, a apanhar as pontas. Anno passado, +antes de ir para o extrangeiro, mandou fazer umas obras no Paço. + +--E não volto sem estar tudo prompto. + +Quando voltou nem foi vel-as, mas, dias antes de ir outra vez para fóra, +lembrou-se das obras--e mandou deitar tudo abaixo. + +--Não volto sem estarem concluidas. + +As provas dos vestidos são um martirio para as pobres costureiras, que +mantém de joelhos duas horas seguidas, pregando-lhe alfinetes. Quando as +vê cahir exhaustas, arranca tudo, despedaça tudo... + + * * * * * + +O Alpoim conta: + +O rei é muitissimo bem educado, mas não gosta nada que ponham a rainha +em primeiro logar. Não se importa com o paiz e julga-se um grande rei +constitucional. Os ministros para elle não existem: só ouve e atende o +presidente do conselho. É tão governamental que trata delicadamente os +politicos quando estam na oposição, mas não conversa com elles. Não é +como o D. Luiz, que ás vezes fazia-se com os ministros contra o +presidente do conselho. Chegava a conspirar contra o José Luciano, +partidario da aliança ingleza, com o Barros Gomes, que era pela +Alemanha. Ás vezes andava uma hora de braço dado com o Mariano e Emydio +Navarro, sem fazer caso do presidente do conselho. E depois d'elles +sahirem, perguntava-lhe: + +--Olha lá, quando é que tu pões fóra estes gatunos? + +O D. Carlos não é assim: para elle os ministros não existem. Trata-os +sempre por tu, menos quando é da assignatura. Não conserva odios. E fica +contentissimo se os ministros descompõem a oposição. Quando foi da +exhoneração do Mousinho pelo Dias Costa, este quiz demitir-se e +queixou-se ao José Luciano: + +--No Paço todos me fazem má cara. + +O José Luciano disse-o ao rei, que protestou: + +--Não, por mim não é verdade. Quanto á rainha que a trate com todas as +atenções, mas que não faça caso. + +E para reforço traz o caso Oliveira Martins: O José Dias Ferreira nunca +chegava a presidente de conselho se o Martins tem cathegoria. Imaginou +que manejava facilmente o velho rabula--e escolheu-o para taboleta. +Enganou-se... O Valbom ainda tentou organisar ministerio, mas o Martins, +sem manha politica, teimou no José Dias. Pois ao fim de dois mezes era +elle quem mandava e que o queria alijar... No Paço, nem este rei nem o +D. Luiz, gostavam do José Dias; apezar d'isso, quando o Martins, +aborrecido, se fingiu doente, e o José Dias se queixou, o D. Carlos +disse ao Arnoso: + +--Olha lá, diz ao Joaquim Pedro--era assim que elle o tratava--que se +levante ou que se demita. Isto não é vida. + + * * * * * + +Diz-se para ahi que o D. Carlos tem o habito de mentir, e que pensa em +restaurar a monarchia no Brazil. + + + Maio--1903. + + +Os jornaes d'hontem contam que a Rainha D. Amelia não quiz receber o +presidente Loubet, por escrupulos de consciencia. Como é muito religiosa +respondeu, quando lhe foram anunciar a visita: + +--Viajo incognita. + +--Peor fez ella na Italia. Estava em Napoles, e o rei mandou-a convidar +para ir a Roma. Acceitou, e no dia seguinte safou-se para Livorno. O +governo italiano deu immediatamente ordem aos navios que estavam em +Livorno--para sahirem uma hora antes da entrada do _yacht_... + + * * * * * + +Silva Pinto contado por D. Maria Augusta: + +O Silva Pinto escrevia de quando em quando cartas á condessa d'Edla, +pedindo-lhe dinheiro. A condessa architectou um romance: nunca o vira e +imaginou um poeta pobre, n'umas aguas-furtadas, morrendo por ella. E +mandava-lhe ás vinte e trinta libras. Um dia viu-lhe o retrato no +atelier de Columbano... + +--Então este velho é que é?!... + +E não lhe deu mais vintem. + + + Maio--1903. + + +Hoje 11 o Arroyo discutiu nos pares a viagem da rainha. Acusou-a de não +ter querido receber Loubet. O Wenceslau de Lima levantou-se e negou. + +Comentario do Alpoim: + +--Que havia elle de responder? Mentiu como um cão! + +De resto o discurso foi cheio de alusões. Chegou a isto: a lançar +suspeitas sobre as relações do Soveral com a rainha. «Que está fazendo o +snr. Soveral em Paris? Façam-no recolher imediatamente a Londres[3]!» + +--Triste simptoma--afirma o D. João de Alarcão--n'um paiz monarchico +ninguem se levantou para defender o rei. Alguns como o Ayres de Gouveia +foram cumprimentar o Arroyo; outros, como o José Luciano, sahiram dos +seus logares e chegaram-se mais para perto, para não perderem pitada. + + * * * * * + +--O que nós fazemos não é discursos, é historia--diz o Arroyo. + + * * * * * + +Diz-se: + +O rei chama nomes ao Arroyo, o Arroyo chama-lhe corno... + + * * * * * + +O Alpoim: + +O Arroyo chama corno ao rei, o rei chama aos outros ladrões. Eu sempre +queria que me dissessem o que elle é... + + * * * * * + +A quinta da Bacalhôa--continua o Alpoim--foi comprada pela casa de +Bragança. Quem faz as obras é a Casa Real, isto é o Estado. + + + Maio--1903. + + +O rei--diz hoje D. João d'Alarcão em conversa com o Alpoim--não se +importa nada com isto. Tomára elle ser kkediva d'este cantinho, +defendido pelas baionetas inglezas. + + * * * * * + +O rei tem uma lista celebre a que chama _a lista dos ladrões_. + + * * * * * + +O Arroyo volta á discussão e, a proposito, conta-se de novo a historia +dos tapetes: + +«--Havia em Mafra um grande tapete persa, o mesmo que está hoje em +Vila-Viçosa, por signal muito mal tratado. Ninguem fazia caso d'elle, +até que um dia disse ao almoxarife que o guardasse. Mas fiquei sempre +com a impressão de que era magnifico. Duma vez que D. Carlos apareceu +extasiado por ter comprado qualquer tapete insignificante, lembrei-lhe: + +--V. Magestade tem em Mafra um muito melhor do que esse... + +--Ora adeus! + +Teimo, chama-se o almoxarife, reclama-se o almoxarife e o tapete, e o +homem instado apresenta, em logar do tapete, dois papelinhos... A saber: +a ordem de Pedro Victor para entregar o tapete e o respectivo recibo. +Não vi o telegrama do rei, mas vi a resposta do administrador da casa +real: «Vossa Magestade manda, obedeço». + +Dahi a dias aparecia o tapete. O Arroyo tinha-o lobrigado em Mafra e +comprado por 75$000 ao Pedro Victor. Entregou-o, e está hoje n'uma +parede do palacio de Vila-Viçosa». + + * * * * * + +Conversa entre o Soveral e o Alarcão: + +--Ninguem diga d'este Soveral não beberei. Ainda has-de ser presidente +do conselho. + +--Para quê? Então tu imaginas que deixo a minha situação lá fóra por +isto? Que mais quero eu? Sou par, sou do conselho d'estado marquez... + +E o Alarcão conclue: + +--Acredito que elle não queira. Só se fôr para arranjar algum negocio, +que elle anda muito precisado de dinheiro... + + + Maio--1903. + + +É certo que o rei falou ao José Luciano na dissolução da camara dos +pares, substituindo-a por outra em bases diferentes. A noticia foi para +os jornaes para assustar o Arroyo--que quer fazer outro discurso +sensacional contra o rei. + + * * * * * + +O José Luciano procurou o Arroyo em casa:--Venho pedir-lhe que não faça +o discurso contra o rei. É um homem na minha edade, perto da cova, que +lhe pede isto em nome d'interesses superiores.--Sim senhor... se V. +Ex.^a me assevera que por traz d'isto não está o sr. Hintze Ribeiro... + +E chorou. + + * * * * * + +--O rei--diz o Alpoim--está contentissimo. O discurso era tremendo. O +Arroyo afirmava que o rei pedia dinheiro aos ministros. D'uma vez pediu +mil e seiscentos contos. Elle proprio, quando ministro, lhe deu muitas +vezes dinheiro.--Aqui estam as provas!--E apresentava-as.--O primeiro a +ser castigado devo ser eu, porque delinqui. + + + Junho--1903. + + +Os jornaes trazem a noticia de que o rei partiu para o mar no _yacht_ D. +Amelia e de que o duque d'Orleans chega na segunda-feira a Lisboa. + +O rei safou-se de proposito para o mar, para o não receber. Do Paço +mandaram ordem para se antecipar a festa ao Barbosa du Bocage, na +Sociedade de Geographia. Tudo porque o rei supoz que os acontecimentos +de Paris com a rainha se relacionavam com imposições da familia Orleans. + +...Afinal o rei sempre veio do mar e recebeu o duque.--Mas houve o +diabo!...--diz o Alpoim. + + * * * * * + +--O Navarro defende-o, senhor Alpoim... + +--O Navarro diz hoje bem de mim, como amanhã diz mal--por doze vintens. + + + Junho--1903. + + +O _Diario de Noticias_ publica hoje esta curiosissima informação: + + + As recepções em casa do sr. conselheiro João Arroyo, constituem + sempre um acontecimento na nossa sociedade elegante. O talento + multiforme do illustre parlamentar, que é um artista de raça, + converteu o antigo palacete da rua do Telhal em uma das residencias + mais notaveis de Lisboa, tanto sob o ponto de vista da decoração + dos salões, como pelas preciosidades do mobiliario e valiosas + collecções de arte ornamental que elles encerram. + + Não se encontra ali um "bibelot" que não seja um objecto de arte ou + não faça parte de uma collecção, paciente e sabiamente reunida e + disposta com perfeito gosto e conhecimento. De todos aquelles raros + objectos que se agrupam pelos tampos dos buffetes, das commodas e + dos contadores seculares ou nas prateleiras dos armarios e + «vitrines», resalta sempre uma vibrante nota de arte, que define o + criterio do colleccionador e marca fundamente o seu temperamento + esthetico. A sala dos xarões e dos cobres e bronzes esmaltados e + «cloisonnés» é por certo a mais bella que existe no nosso paiz, e + só por si basta para aferir o elevado grau que occupa o + colleccionador no nosso meio artistico. Ha, porem, muito mais, tão + bom ou melhor que admirar nas salas do sr. João Arroyo, as quaes + dão aos «gourmets do bric-a-brac» a impressão de verdadeiros + escrinios de arte. Nestes casos estão a graciosa collecção de + figuras e mascaras chinezas, a preciosa exposição de leques, cujos + pannos ostentam as mais lindas illuminuras dos pintores francezes + do seculo XVIII ou são apenas formados de finissimas rendas a + ponto, de Allençon ou de Bruxellas; os limpidos cristaes da Bohemia + e os finissimos vidros de Veneza; as raras faianças da China, e de + Saxe; as soberbas «boiseries» da casa de jantar, bello trabalho + decorativo no estylo Renascença, do architecto Bigaglia, com o seu + fogão monumental, o seu grande lustre de ferro forjado e as + prateleiras dos «lambris» repletas de exquisitas pratas, faianças e + cristaes. + + Por toda a parte, emfim, desde o vestibulo e da galeria da escada + até ás salas do jogo, quadros a oleo das escolas italiana, + flamenga, hollandeza e franceza, tapeçarias de Gobelins e do + Oriente, colchas da India e da Persia, tudo quanto o persistente e + criterioso esforço de um artista e o bom gosto de um homem elegante + poude colleccionar, tudo chama a nossa attenção, que só encontra + ali maior attractivo no bondosissimo tracto da illustre dona de + casa, a sr.^a D. Maria Thereza Pinto de Magalhães (Arriaga) e na + conversa scintillante de seu marido, um dos mais espirituosos e + interessantes cavaqueadores da nossa sociedade, e que tem tido + naquella senhora uma valiosa collaboração artistica, assignalada em + mais de uma das preciosidades que se contem na sua bella + residencia. + + Por tudo isto, o «raout» de hontem esteve concorridissimo e + encantou todos os convidados dos illustres amphitriões, entre os + quaes estavam: + + Conselheiro Hintze Ribeiro e esposa, ministros da justiça, obras + publicas, guerra, fazenda, marinha e esposas, nuncio de S. S. e + secretarios, Rouvier, ministro da França e esposa, ministro de + Hespanha e esposa, conde e condessa de Azevedo, Miguel da Motta e + esposa, monsieur e madame Bruno, marquez da Foz e filha D. + Marianna, duqueza d'Avila, condes d'Avila, marquezes de Guell, + marqueza de Bellas, conselheiro Schroeter e esposa, Costa Pinto e + esposa, conselheiro José Vianna, Pedro Diniz e filha, Carlos + Ribeiro Ferreira e esposa, viscondessa de View e filhas, José + Sassetti e esposa, viscondes de Santo Thyrso, conselheiro Germano + Sequeira e esposa, condes de Paçô Vieira, almirante conde de Paço + d'Arcos, Sarrea Prado, conselheiro Achilles Machado e esposa, + conselheiro José de Azevedo e esposa, conselheiros José e Antonio + Arroyo, conselheiro Matheus dos Santos e esposa e filha, condes de + Sabroso, conselheiro José Ribeiro da Cunha e esposa, José E. de + Barros e esposa, Joaquim Lima, Alberto Braga, João de Freitas Rego, + F. Baerlein e esposa, Albino Freire d'Andrade, viscondes de + Mangualde, conselheiro Ferreira Lobo Francisco d'Aguiar, + conselheiro Souza Monteiro, Barbosa Colen, conselheiro Deslandes e + esposa, Terra Viana, esposa e cunhado, Carlos Blanch e esposa, D. + Elisa Pinto de Magalhães e D. Luiza Pinto de Magalhães, Alberto + Monteiro, conde de Mesquitella, Dr. Furtado e esposa, Virgilio + Teixeira, marquezes de Funchal, monsenhor Santos Viegas, + conselheiro Moraes de Carvalho, Henrique Burnay, conselheiro + Francisco Mattoso, Henrique Anjos e esposa, Carlos Soares Cardoso e + esposa, conde de Verride, D. Juan de Castro e filha, Condes de + Tattenbach, Alvaro Rego, conselheiro Poças Falcão e esposa, José + Fernando de Sousa, barão de S. Pedro, conselheiro Thomaz Rosa, + condessa d'Almedina e filha D. Luiza, Antonio Caria e esposa, M. + Emygdio da Silva, etc., etc. + + + * * * * * + +O que faltou a esta sociedade foi um Balzac, que os trouxesse desde a +obscuridade e da pobreza, que nos contasse o esforço, as transigencias, +o talento gasto e o fel gasto, até chegarem ao poder--Navarro, filho +d'um mestre de musica de Bragança, Mariano pobre, Arroyo pobre. Alguem +que nos desse a vida occulta, a audacia e o descalabro, a chaga politica +que os engrandece e corroe, que corroeu o proprio Chagas, o romantico da +_Morgadinha_, até ao ponto de acabar por estas palavras amargas, com o +ultimo suspiro:--A vida é uma comedia!--Alguem que nos mostrasse Arroyo +e os seus phantasmas, Mariano e os seus phantasmas, Navarro e os seus +phantasmas. + +Como a vida efectivamente transtorna, enxovalha e envilece--se lhe falta +ideal, paixão, ou um forte sentimento que caldeie as figuras e as eleve! +Não, a vida não é uma comedia. A vida é profunda. Elles é que lidaram +apenas com inferioridades e interesses mesquinhos. Mariano acabou quasi +desprezado. O talento não lhe serviu de nada. Talvez o prejudicasse... +Ha um momento tragico na sua vida, aquelle em que João Chrisostomo +d'Abreu e Souza lê em plena camara a declaração, em seu nome e no dos +seus colegas, de que lhes haviam sido desconhecidos os actos irregulares +praticados pelo ministro da fazenda Mariano de Carvalho. Vejo-o mudo, +livido--com um olhar atono, como nunca vi em mais ninguem. O sceptico! o +sceptico amarfanhado, reduzido a trapo, com um golphão de desprezo, por +si e pelos outros, na bocca, com um golphão de negrume!... Jamais me +esquece esta figura, que vi morta entre os vivos, sentado n'um canto da +camara, sem ninguem fazer caso d'elle, vendo sem vêr, ouvindo sem ouvir, +e não tendo podido realisar nenhuma das suas ambições:--Deixem-me! +deixem-me!--Deixem-no com os seus phantasmas! Arroyo talvez encontrasse +na musica um refugio... Navarro, porém, acabou no mesmo abatimento. +Temiam-no--mas só o temiam. Arredaram-no. No fim da vida ficava horas e +horas absorto ou ia para o fundo d'um camarote do Gimnasio ouvir musica. +Apegara-se--mau simptoma--aos netos. Desconfio que o celebre estadulho +não passava d'um espantalho, e que era grande a sua +sensibilidade:--Sinto-me ferido em pleno coração--Do coração morreu, sem +nunca o deixarem realisar as suas ambições. + +[Figura: _Guerra Junqueiro._] + +Metidos n'aquella roda de navalhas foram até ao fim do combate, luctando +sempre. Os que tinham de escrever, escrevendo sempre, espremendo o +cerebro, os que tinham de intrigar, intrigando sempre, com a mascara +livida e sorrindo sempre, ferindo sempre, e cahindo de pé. Oh quem me +dera um momento, só um momento para vêr a série de phantasmas em que se +desdobrou cada um destes sêres, para os lêr até ao amago, para lhes +descobrir o instante de cansaço e o ponto vulneravel--rodeados de +invejas, de odios, de inimigos, que esperavam na sombra e não perdoavam +um desfalecimento--uns fingindo-se cinicos, sorrindo aos insultos, e +cravando as unhas na carne até ao sangue, como Rodrigo da Fonseca +Magalhães, outros respondendo á audacia com audacia, outros sucumbindo +ao nojo, com estas palavras que já surprehendi a alguem n'um momento +supremo:--Não, não valia a pena! + + * * * * * + +O mundo politico é tão curioso! O que está á vista não tem importancia, +o que se mostra não passa de scenario. Para viver aqui dentro é preciso +habituar a pelle a todas as alfinetadas e afivelar na cara uma mascara +perpetua. Este homem elogia outro e combate-o a occultas. O que se diz +nas camaras precisa de ser explicado nos corredores, para ser +comprehendido. O Cypriano Jardim atacou ha dias o governo. Porquê? +Estava nas colonias a ganhar seis libras em oiro por dia e chamaram-no á +metropole. O artigo _D. Folião_ do Colen fez successo... Já se +diz:--Escreveu-o porque o Mattoso dos Santos lhe não despachou uma +pessoa de familia. Foi preciso um ataque rude, para o ministro lhe dar, +antes de cahir, um logar não sei onde. Ha politicos que se servem de +todos os meios: ha-os--sei eu--que se escrevem cartas anonimas. Parece +até que os ha mais completos... Um franquista barafusta hoje nos +corredores das camaras, ácerca dum deputado da maioria:--O que eu admiro +é o descaramento de Fulano, que se atreve a fazer discursos alli na +minha frente, quando sabe perfeitamente que trago na algibeira uma acta +em que elle se confessa ladrão!--Este mundo tem as suas leis, as suas +convenções, os seus preconceitos, e a sua honra especial. O principal é +o que se diz ao ouvido. Aquillo alli nas côrtes é apenas aparato: o José +Luciano combina tudo com o Hintze, o Alpoim com o Teixeira de Souza. Mas +surge ás vezes o inesperado e deita a frandulagem de pernas ao ar... A +atitude violenta do Arroyo explica-se assim: O Arroyo queria ser do +conselho do Estado, o Hintze prometeu nomeal-o, o rei opoz-se. O Hintze +teimou--o rei teimou:--Vae para casa e pensa...--A atitude do Navarro +explica-se porque o rei nunca o deixou ser par...[4] D'ahi o odio--d'ahi +barafunda... O José Luciano procurou o Arroyo para lhe pedir que não +fizesse o discurso contra o rei:--Sou eu, chefe dum grande partido, que +lhe afirmo que não está inutilisado.--E publica no _Correio da Noite_ o +discurso com alusões á rainha--que o Alpoim manda retirar do _Dia_, por +causa do Paço... Os chefes ainda conservam certa linha, mas cá em baixo +vêm-se referver os interesses, as ambições, os despeitos. O D. Carlos +mantem-se n'uma atitude que faltou ao D. Luiz--e é talvez por isso mesmo +que o atacam e o acusam. Não intriga. O D. Luiz mais de uma vez propoz +ao José Luciano, no tempo de Braamcamp, que organizasse +ministerio:--Isso não, meu senhor! E vou já d'aqui dizel-o ao +Braamcamp.--Tudo parece confusão, todos os dias a teia se emaranha. +Ainda ha quem defenda este e aquelle, que pertence ao seu partido, por +interesse, por camaradagem, seja pelo que fôr, mas já não ha ninguem que +defenda o rei. Alto ou baixo, ao ouvido ou em plena rua, só se fala no +rei... O rei! o rei! o rei!... + + + Junho--1903. + + +--Os Braganças, dizia o Latino Coelho, ou são pedantes ou fadistas. + +A este proposito o D. João da Camara conta, que um dia D. Pedro V leu um +discurso á mãe, dizendo-lhe ella no fim: + +--O menino ha-de sahir um bom pedante. + +Se tarda em morrer acabava odiado. + + +E acabava. As grandes figuras moraes são sempre uma calamidade para si e +para os outros. O universo é amoral, e não ha como os acomodaticios, com +alguma hipocrisia ao seu dispôr... Os outros só fazem a sua desgraça e a +desgraça dos que os rodeiam. + + + Junho--1903. + + +Pateo de Martel. Um cantinho com uma figueira e malvaiscos. Uma fiada de +casas e no extremo o atelier do Columbano. Por traz a quinta... E outra +luz diferente, outra atmosphera... O mestre, pobre e obstinado, fez alli +os seus melhores retratos; a senhora D. Maria Augusta, n'uma sala de +trez metros quadrados, creou as suas mais bellas rendas. Lá no fundo +morou Eugenio de Castro, pobre, morou depois o Justino e outros +diplomatas ilustres... Alli o mestre, como os artistas da Renascença, +experimentou o _fresco_, as tapeçarias, os trabalhos em cêra e prata. A +senhora D. Maria Augusta sorria-nos com a maior bondade e carinho e +dizia: + +--Quando meu pae morreu ficamos sete irmãos. Criei-os a todos. + +--E o Columbano? + +--Esse é meu irmão, meu filho e meu mestre. Por alli passaram tambem os +maiores homens de Portugal, de quem o Columbano ás vezes fala: + +--O Oliveira Martins contou-me, quando veio ao meu _atelier pousar_ para +o retrato, que um dia a rainha o mandou chamar e lhe apareceu +transtornada: + +--Salve-nos! salve-nos! + +Era depois dos acontecimentos do _ultimatum_. O Martins procurou ou +escreveu--não me lembro--ao Anthero do Quental e elle afastou-se e +abandonou tudo. + +São curiosos os grandes homens contados pelo Columbano, que os retratou. +Um levava um pente na algibeira para compor o cabelo, outro pedia para +se lhe não ver a careca. O Junqueiro era mephistophelico. Aparecia, +desaparecia logo: não pousava cinco minutos a fio. Um dia o Columbano +ouviu bater a porta, e entrou-lhe no atelier um homem já cansado, de +grossos sapatões, apegado a uma bengala, que parecia um bordão de +pedinte: + +--Disseram-me que gostava de fazer o meu retrato e aqui estou... + +Era o Anthero. Parecia um cavador, de meias grossas de lã azul--mas +quando falava!... Nunca olhou para o retrato. + +--Está prompto? + +Foi-se embora como viera... + + + Junho--1903. + + +O José de Figueiredo diz-me: + +--Copiei por minhas mãos, para o Antonio Candido, a carta em que o +Soveral é durissimo para os partidos, fala d'alto ao rei e lhe diz que, +se não tivermos juizo, a Inglaterra tutela-nos. + + + Junho--1903. + + +--Ninguem me mete na cabeça que esta rainha é boa pessoa--diz o Alpoim +ao vel-a descer o Chiado. + +Mas, quando passa, toda a redacção do _Dia_ corre á janella, para a +cumprimentar, e o Moreira d'Almeida, que tem por ella culto e paixão, +põe á pressa o chapeu na cabeça, para se ir desbarretar n'uma grande +cortezia. + + * * * * * + +Fala-se hoje do Soveral na redacção do _Dia_, e da amizade que o liga ao +rei d'Inglaterra. + +--São tão amigos que por occasião do ultimatum, ainda Eduardo VII era +Principe de Gales, este pode prevenil-o da atitude da Alemanha. Iam +ambos n'um cortejo: o principe, de passagem, chegou-se-lhe ao ouvido e +só lhe disse estas palavras:--A Alemanha está comnosco... + +O Soveral correu ao telegrapho. + + + Junho--1903. + + +O Adrião de Seixas, que, nos seus tempos aureos, entrou em muitas +combinações de finança, negociou emprestimos, esteve ligado aos Mosers, +etc.: + +--Quasi todos os homens publicos recebiam luvas, posso garantir-lh'o. +Todos estendiam a mão. Duma vez trouxe para um, um aparelho de chá, +magnifico, de prata, comprado em Paris. Elle recebeu-o e, destapando o +assucareiro, afirmou com desplante, sorrindo:--É magnifico... só lhe +falta o assucar.--Eu, que já ia prevenido, tirei das algibeiras alguns +rolos de libras, despejei-os dentro e perguntei:--E agora?--Agora está +optimo.--E concluiu:--Você é uma mercearia ambulante! + + + Junho--1903. + + +O marquez de Soveral em conversa com o Alberto Braga: + +--É que eu vivo em Londres longe de tudo isto... Se me visse forçado a +viver em Portugal, fazia-me revolucionario. + + * * * * * + +Tambem o Alpoim diz hoje: + +--Quem me dera uma revolução! + +E, deante do nosso espanto, explica: + +--Para pôr o rei no seu logar... Eu não tenho nada a perder, meus filhos +estão colocados, o que tenho chega-me para viver na Regoa como um +fidalgo... Era preciso que o rei tivesse medo. Mas quê! Agora com a +aliança ingleza é muito peor. Ainda outro dia dizia o José +Luciano:--Podem vir os republicanos todos juntos, os de cá e os de +Hespanha, que não fazem nada. É da aliança que, se houver qualquer +movimento, desembarcam tropas e defendem o rei. + +E acrescenta: + +--Eu vi tudo, vi as perguntas e as respostas, posso assegurar-lho. + + * * * * * + +--Elle é mau, é--diz o Alpoim do rei--mas a gente não tem outro. + + + Junho--1903. + + +O Abel d'Andrade: + +--Conheço muito bem o Hintze. Tem duas qualidades magnificas n'um homem, +pessimas n'um chefe. É delicadissimo. Sorri sempre, mesmo quando sabe +que o enganam--e nunca resolve nada, o que lhe acarreta dificuldades, +que vão crescendo á medida que elle as adia. Tem outro defeito enorme; +não é capaz de dizer _não_ peremptoriamente a ninguem. + + + Junho--1903. + + +O Emygdio Navarro está furioso com o rei. Sentiu immenso que o não +convidassem para nenhuma das festas dadas ao rei d'Inglaterra--quando +foi elle que iniciou, defendeu e preparou a aliança anglo-portugueza. + + + Junho--1903. + + +Estive hoje em casa do juiz Veiga, lá para o Rato, por causa d'uma +querela do _Dia_. É um homem atarracado e forte, com um ar de falsa +bonhomia. Ha n'elle não sei quê de inquisidor e de satiro, e é tão +desconfiado, que, logo que eu entro, pousa sobre os papeis da secretaria +uma larga folha azul, com medo que lh'os leia. Na sala, de cadeiras +doiradas de palhinha e _consoles_ com gatos de vidro, ha varios +mostrengos em exposição: o retrato delle e retratos de familia, +temerosos, o busto do rei D. Carlos em marmore e outro não sei de quem, +ambos de arripiar. E, entre a papelada que trasborda e estas coisas de +mau gosto, o juiz Veiga fuma n'um cachimbo d'espuma com uma mulher em +pêlo... + +É este o homem que sabe tudo e pode tudo, que conhece os segredos das +familias e os segredos da politica. N'outro dia obrigou um janota a +entregar-lhe as cartas, que comprometiam uma mulher casada. Contam-se +mais casos curiosos. É omnipotente e omnisciente. Comanda, diz-se, bufos +ilustres de quem ninguem suspeita. Tem um cofre sem fundo á sua +disposição para distribuir dinheiro a rodos. Acode a desgraçados. +Tortura--verdade ou mentira?--no fundo das celulas alguns presos +politicos para lhes arrancar segredos. Ainda ha tempos me contaram que +ao José do Valle não o deixaram dormir sem elle confessar tudo...--É uma +especie de Pina Manique, que pouco abusa do seu lugar e da sua +autoridade. Afirmam-no bondoso. Ha até quem o diga uma especie de +Providencia. É incontestavelmente um homem esperto, que +protesta:--Quero-me ir embora antes que tudo isto desabe. Esta gente não +sabe ou não quer defender-se... + +Fala baixinho, sem me olhar nos olhos e resolve n'um prompto, como quem +não encontra nunca obstaculos. Quando saio, no patamar da escada, +surprehendo duas creadas de avental sujo e chinelos esbeiçados, que dão +de comer, ás escondidas, a um policia. Enganam-no na sua propria casa e +deitam a fugir quando me vêem. + + + Junho--1903. + + +O artigo de hontem, das _Novidades_, sobre a mortandade da Servia, cheio +d'alusões ao rei, fez sensação. E dizia-se por ahi: + +--Quando se faz cá o mesmo? + +--Foi uma limpeza!--phrase do Alpoim. + + * * * * * + +O Beirão: + +--O Alpoim não quer vêr que o partido do João Franco, apezar de pequeno, +é um partido de protesto. Qualquer dia o rei chama-o e dá-lhe os mesmos +poderes que tem dado ao Hintze ou ao José Luciano. + + + Junho--1903. + + +Judice Bicker, casado com uma filha do Andrade Corvo, conta, a proposito +do rei e do poder pessoal: + +--Possuo diferentes cartas do D. Luiz, e entre ellas uma ao Corvo, +pedindo-lhe que apresente certa proposta, mas de maneira que não pareça +_poder pessoal_... Os homens desse tempo impunham-se. Um dia ao D. +Augusto meteu-se-lhe em cabeça casar com uma infanta d'Hespanha. Era no +tempo em que se falava muito na união iberica. O Corvo opoz-se, apesar +da insistencia desesperada do infante. Por ultimo procurou-o e +disse-lhe: + +--Escusa de insistir, que não casa. É pelo bem do paiz. + + * * * * * + +O Corvo foi um dos primeiros estadistas a pensar a serio na Africa e no +seu engrandecimento. Quiz augmentar o territorio de Angola e +estabelecer-lhe os limites, d'acordo com a Inglaterra. Tudo era possivel +n'esse tempo e tinhamo-nos livrado de dificuldades, do Estado livre do +Congo, etc. Avançavamos um seculo, se elle não cae por causa do tratado +de Lourenço Marques. Deitaram-no a terra, espalhando que recebera +milhões. Eu que casei com a filha, sei o que elle deixou!... + +Nas camaras o governo d'então declarou que o tratado não tenha ido a +conselho de ministros. O Andrade Corvo possuia o tratado com anotações +do punho de Fontes e Thomaz Ribeiro. Apesar d'isso calou-se. Se fosse +hoje!... + + + Junho--1903. + + +--O rei tem pensado. E tanto que o infante quiz ir agora ao estrangeiro +e pediu dinheiro ao Hintze, que lhe respondeu:--Peço-lhe que desista.--O +infante rasgou a carta furioso. Com a Maria Pia sucedeu o mesmo. Essa +inventou uma doença d'olhos e preveniu o D. Carlos de que precisava de +ir ao estrangeiro. Resposta do rei:--Cá ha um bom +especialista.--Mandou-lho, e elle disse ao rei que a Maria Pia não tinha +nada. A Maria Pia insistiu, n'um desespero, e o rei mandou-lhe o Antonio +Lencastre. O rei tem pensado... + +--Se isso fosse verdade!--exclama o Alpoim. + + + Junho--1903. + + +Esta tarde sahiu dos Martires, mesmo em frente do _Dia_, a procissão do +Corpo de Deus. Todos á janella cahiram de joelhos--quando o bispo de +Trajanopolis passou, a barba loura, muito cuidada, e um capachinho no +alto da cabeça, apartado ao meio... O Alpoim exclamou: + +--Ó que maroto! Foi a este que o Barros Gomes, quando ministro, disse um +dia: Ajoelhe a meus pés! Peça perdão!--Tinha hypothecado lá fóra os +rendimentos do curia por noventa annos! + + + Junho--1903. + + +O D. João da Camara conta que no Algarve encontrou em todas as casas +dois retratos--o de João de Deus e o do Remexido. E a proposito diz que +um tio de Coelho de Carvalho levava já a galope o comutamento da pena do +Remexido, quando o fuzilaram. E termina:--A Angela Pinto é neta do +Remexido. Aposto que não sabiam! + + + Julho--1903. + + +--Vou pedir um logar que está vago no Supremo Tribunal--disse um patusco +ao Marçal Pacheco. + +--De juiz?! + +--Isso. + +--Mas você endoideceu! Não lh'o dão! + +--Isso sei eu. + +--Mas então porque é que o pede? + +--Já pedi umas poucas de coisas, vou pedir mais esta. Recusam-ma, já +sei, mas é _capital_ de queixa que amontôo. + + * * * * * + +O Alpoim: + +--Um dia o cardeal patriarcha convidou-me para jantar. Estavam muitos +bispos. São jantares que nunca acabam, de quinze pratos, serviço +esplendido--e não calcula a impressão que eu senti, no fim, quando elles +se levantaram muito congestionados, cheios de vinhos magnificos, mamando +charutos enormes e com as saias arregaçadas... + + + Setembro--1903. + + +O Henrique de Vasconcellos, genro do Navarro, contou-me hoje que o Paço +por trez vezes mandou insistir com o sogro, para elle não continuar com +os ataques nas _Novidades_. + + + Outubro--1903. + + +O Alpoim recomenda no _Dia_ que se não publique nada que possa ferir as +susceptibilidades da côrte hespanhola. Afonso XIII está +desconfiadissimo. Além d'isso o nosso rei e rainha de Hespanha não se +podem ver: têem um pelo outro odio figadal. + + * * * * * + +Um coronel inglez, que ahi esteve, veio por ordem do seu governo vêr em +que estado tinhamos as fortificações de Lisboa. Examinou tudo. + +[Figura: _José Luciano encerra o Parlamento._--Caricatura inedita de +Celso Herminio.] + + * * * * * + +Com as festas de Afonso XIII encheu-se muita gente. Um regabofe. Da +iluminação da Avenida diz-se:--Dos Restauradores para cima dirige o +Costa Pinto, dos Restauradores para baixo digere o... + + * * * * * + +Ao ouvido conta-se que o rei de Hespanha e os que o acompanhavam +troçaram tudo isto: o paiz, a côrte, as festas. De manhã, no quarto, +emquanto elle tomava café ou chocolate, os particulares e os intimos +maldiziam, n'uma chacota pegada... Só o rei, fracamente, se opunha. + + + Outubro--1903. + + +O D. João da Camara conta o seguinte: + +--O D. Luiz deu, até pouco antes de morrer, trezentas libras por mez á +Rosa Damasceno. Todos os dias 10, 20 e 30, o Nazareth lhe entregava cem +libras em oiro, que elle nem sequer contava: mandava-as logo á Rosa. +Morreu no dia 19 de Outubro: pois no dia 10 ainda lhe mandou o +dinheiro.--E o Brazão?--Cuido que não são casados, apezar do que por ahi +se diz. O que é certo é que antigamente, as coisas arranjavam-se por +forma que a Rosa e o Brazão nunca entravam na mesma peça, e um d'elles +ia sempre passar a noite ao Paço. O D. Luiz dizia do Brazão:--É o meu +melhor amigo. A Rosa nunca abusou da situação: apenas empregou dois ou +tres homens e o D. Luiz sentia por ella verdadeira ternura. Traduziu-lhe +a _Odette_ e assistia aos ensaios. A Maria Pia sabia tudo. Um dia deixou +no quarto do Paço onde a Rosa costumava ficar, um lenço de rendas a +tapar a fechadura. Ás vezes o D. Luiz apresentava-lhe joias para ella +escolher e depois levava-as á Rosa. E ia com a rainha ao theatro, para +que ella visse o efeito das joias no colo da actriz. + + + Outubro--1903. + + +--Vi eu, vi eu!--exclama o Antonio José de Freitas--o Oliveira Martins, +n'uma sala, deslumbrado, solicitar a apresentação d'um janota qualquer, +d'um janota banal. + + + Dezembro--1903. + + +O Adrião de Seixas, secretario do Banco de Portugal: + +--Não se fazem descontos, porque não ha dinheiro e o Banco já recorreu +ás reservas de prata. O governo está sempre a pedir dinheiro. Imagine o +meu amigo que todos os annos ha um _deficit_ de 7:000 contos. Ninguem +tem a coragem de dizer as coisas como ellas são e por isso se faz um +orçamento falsificado. Resultado: como o orçamento é falso, pode-se +roubar á vontade! + + * * * * * + +O José Luciano está a morrer. O que ahi vae com a chefia do partido +progressista! Ao Antonio Candido não o tragam os progressistas, ao +Beirão não o quer o Paço, nem o Navarro, nem o Mariano. Lança-se o nome +de Antonio Candido para encobrir o seguinte proposito: presidente do +conselho o Mathias de Carvalho, com o Alpoim na pasta do reino. + +Mathias de Carvalho é uma figura decorativa, sempre de palito na bocca e +de miolos empedernidos, que ficará na presidencia e estrangeiros. Esta +solução é preferida pelo Navarro e pelo Mariano. De Mathias apenas se +sabe que é incapaz: como diplomata foi quem deu ensejo a esfriarem-se as +relações com a Italia. + +--Se o José Luciano morrer é á facada!--exclama o Alpoim. + +Morrer era ainda--Deus me perdoe!--uma solução... Peor será conserval-o +na cadeira de rodas, obstinado, querendo mandar, e os herdeiros á espera +do testamento. Toda a politica portugueza vae girar em volta d'este +leito de enfermo, onde o velho continua a dar ordens imperiosas.--Hoje +deitou um litro de pus pela pelle.--Está salvo!--Morre!--Fica +invalido!--Tem sifilis!--Nesta altura da politica portugueza, é elle +quem manda tudo. Que o diga, o José d'Azevedo, por exemplo, que o não +pode vêr, porque o José Luciano o não deixou realizar as suas +pretenções. É na sua casa que se resolvem as questões maximas. A +politica é pelo menos n'uma grande parte, na melhor parte, representada +nos bastidores... «Vejam a vergonha desta gente! O Campos Henriques vae +a casa do José Luciano com o Julio de Vilhena, para conseguir que as +emendas do codigo civil passem. Não passam e elle fica no ministerio! O +Teixeira de Souza vae lá todas as semanas. Não, este Hintze... Eu +palavra de honra antes queria ser ladrão d'estrada!...» + +Outro facto extraordinario da nossa politica: é sempre no campo adverso +que estes homens tem mais radicadas amizades. E tambem se percebe +nitidamente que no fundo da lucta só ha uma força, o rei. Por isso mesmo +o rei é sempre o culpado. Quem tudo manda é o Paço--dizem todos os +politicos--e tanto mais que não ha um nucleo de resistencia no paiz. Os +republicanos não estão organizados e o Paço nem sabe o que póde. Uma +revolução no paiz é, segundo a opinião geral, impossivel, a não ser que +se succedam trez annos de fome.--Tudo quanto se faz de mau é o rei quem +o faz...--Ainda hoje ouvi esta conversa:--Foi o Hintze quem disse ao +Arroyo, como disse ao Mariano e ao Navarro. «É el-rei que não quer». +Nunca lh'o deveria ter dito.--Os politicos inutilisam-no e +inutilizam-se. Todos os dias inventam novas atoardas. Hoje a proposito +d'uma nota oficiosa que o ministro da fazenda fez publicar no +_Noticias_, no _Seculo_ e no _Diario_, anunciando um grande emprestimo +no estrangeiro, conta-se que é um negocio de acordo com a casa Fonseca, +Santos & Viana, que tinha comprado fundos. Acusa-se o Teixeira de Souza +de conivencia. Mas já a 2 de junho o Alpoim afirma:--Quem não deixa +passar o emprestimo é o Burnay. N'outro paiz devia ter a cabeça cortada. +No ministerio da fazenda ha documentos que provam as suas maquinações no +estrangeiro. Elle manda em tudo:--manda no Credito Predial, no Banco de +Portugal, na Companhia Real. É uma desgraça que o emprestimo não passe. +Temos nós de o fazer e em que condições!... E tudo isto com que fim? E o +Burnay a ver se obriga os progressistas ao contracto dos tabacos.--A +esta trapalhada juntem a doença do José Luciano e as ambições, que +levantam a cabeça, a guerra de sapa que se encarniça.--Hoje deitou mais +pus!--Morre!--Com quem está o Paço?--O Moreirinha com a algalia não lhe +sae da cabeceira.--Quem vae ao poder? O João Franco? + +--Nem elle sabe a guerra oculta que eu lhe tinha feito. Ha-de pagar-me +caro o discurso que fez contra mim: Viva a folia, dançar! dançar!... São +mil os interesses, mil as ambições.--Tudo menos o Beirão, que só tem por +si a gente velha, a gente conhecida pelos _batibarbas_. + +Mas o velho teimoso e perspicaz, não admite sequer a idéa de que alguem, +que não seja elle, vá ao poder. Até á ultima--ambição ou +grandeza?--ha-de disputar e mandar, como o Alpoim, até ao ultimo +suspiro, ha-de conspirar. Aqui, á roda d'esta agonia, não se discutem +apenas os interesses d'uma familia. O drama é maior: são os interesses +dos partidos, com mil e uma ambições e enredos que nem sequer se +suspeitam. A confusão augmenta, redobra. O Ressano Garcia comanda o +ataque, á frente dos _batibarbas_, contra o Alpoim, e o Alpoim, que +ainda hontem atacava o João Franco, já hoje (Janeiro 1904) diz, depois +do conluio feito pelo Silva Graça:--Com esse me entendo eu! + + + Fevereiro--1904. + + +Hontem, terça-feira de entrudo, assisti ao espectaculo em S. Carlos. +Estava tudo, o rei, a rainha, a côrte... Senhoras decotadas com os +vestidos presos aos hombros por uma fita. A D. Amelia de vermelho. +Andava no ar uma bola enorme de borracha, e ao janota que quiz saltar +dentro d'um camarote tiraram-lhe as botas dos pés. Mas a risota, a +chalaça, a delicia, era um penico em miniatura, que passava de mão em +mão, por entre as grosserias, que é do uso antigo as senhoras dizerem +umas ás outras na terça-feira gorda. O fundo d'estes risos vem sempre da +mesma palavra pegajosa: merda! merda! merda! O rei, gordo e louro, +soprava por um canudo setas de papel, botando o olho de revez, e houve +um momento em que o infante mostrou do camarote o quer que era de +borracha, um canudo cheio de vento, immenso e obsceno. Foi um delirio +entre aquellas cabeças empoadas, na gente da alta roda de que se contam +baixinho os escandalos. + +Ouçam um destes rapazes que estão na plateia, e que falam das senhoras, +como quem fala com desprezo das mulheres da Antonia. Muita desta gente +não se sabe aonde vae buscar o dinheiro. É um misterio. Aquelle louro e +correcto, que está além n'uma atitude romantica, ainda ha dias quiz +extorquir alguns contos de reis, para o jogo, a uma mulher casada. Outro +só vive da roleta. Mais além, o herdeiro de um nome ilustre, tem um +modesto logar na alfandega, e a mulher usa brilhantes esplendidos. +Aquelle, acolá, tão decorativo, é conhecido pelo conde de Monta-a-Velha. +São raros os que não têm alcunhas. A uma senhora de perfil soberano +chamam-lhe a Vareira. Outra tem um sobriquet infame. Deste e de aquella +diz-se alto a chronica escandalosa. A mulher do S. deu este anno grande +escandalo em Cintra. Outra foi apanhada aos beijos a um embaixador. Com +aquella, mais além, fina como uma cobra, e que ostenta um colar +magnifico, puzeram-se os B. de mal, acusando-a de lhes ter roubado uma +carteira com trezentos mil reis, depois de terem sido todos seus +amantes. A mulher do J... deixa o marido, pé de boi rico que só lhe +serve para puxar á nora, e gasta-lhe a rodos o dinheiro que juntou. Eis +esta mãe viciosa com a filha ao lado--de olhos limpidos e innocentes. +Peor, ha peor... E mais esta--e mais esta--e mais esta condessa, que +n'outro dia foi apanhada no comboio n'uma atitude peor que equivoca... + +Puz-me a ouvir, a ouvir,--verdade? mentira?--e lembrei-me ao mesmo tempo +da côrte da senhora D. Carlota Joaquina e da _Chartreuse de Parma_. + + * * * * * + +O general Lencastre de Menezes: + +--Se o 31 de Janeiro fosse agora as coisas não se tinham passado +assim... + + + Março--1904. + + +Morreu um dia d'estes um preto riquissimo, que quiz por força passar por +branco, o que lhe custou os olhos da cara. Se teima em viver mais algum +tempo acabava a pedir. Rodeara-se d'uma corte que lhe custava carissima: +lisongeavam-no e rapavam-lhe o cofre até ao fundo. Depois inventavam-lhe +processos, depois demandas... Depois sopravam-lhe á vaidade +incomensuravel. E o preto sorria, o preto dizia sempre que sim. +Tinham-no casado com uma linda rapariga branca--e o preto, á farta, +pagara tudo, dotara tudo, a noiva, os paes da noiva, os parentes da +noiva... E cada vez mais brancos lhe faziam a côrte e o enredavam n'uma +vasta teia de interesses, com muitas zumbaias e papel selado. + +Um dia foi a Inglaterra e quiz viajar como um principe branco: comprou +um _yacht_ de luxo para ir a S. Thomé. Cincoenta contos. Na volta não +havia carvão a bordo e deitaram-se a queimar a madeira entalhada, os +doirados do barco, as portas, os salões, as molduras. E o preto sorria. +Quando chegou a Lisboa vendeu o barco por uma côdea. + +Rodearam-no mais brancos, apareceram-lhe mais brancos infatigaveis, +pressurosos, obsequiadores. E mais papel selado, mais contractos e +procurações para assignar--o enredo, a teia subtil em que o negralhão +foi arrastado e envolvido, o verdadeiro, o authentico drama, emfim, do +preto que quer ser branco... Se elle tinha por acaso um sobresalto, +falavam-lhe logo á vaidade ou davam-lhe noticia d'uma coisa que se chama +o Codigo, a Lei, a Formula, e o preto, que não comprehendia e que se +sentia feliz, submetia-se sem contestar, com uma grande satisfação por +fazer parte d'esta raça ilustre e respeitada de brancos, por ser +visconde, por pertencer á côrte e á alta sociedade elegante. + +...Antes de morrer lá lhe deram o ultimo golpe--de preto. Os brancos +ficaram-lhe com as roças, e as propriedades de S. Thomé foram +transferidas para uma sociedade por quotas. É o que consta por ahi, +emquanto o negralhão estoira com uma pneumonia dupla--e lá em casa se +toca desaforadamente piano, com as janellas abertas de par em par. + + + Março--1904. + + +As obras da sala de jantar do Paço das Necessidades custaram 180 contos. + + * * * * * + +O Abel d'Andrade contou-me que a modista da mulher lhe dissera que a +mulher do Hintze lhe devia lá uma capa ha mais dum anno. + + + Março--1904. + + +O Celso morreu ha um mez n'um dia de chuva como este. Mas, quando o +caixão chegou ao pé da cova, luziu o sol no alto. O ar parecia novo e no +vasto campo dos tumulos agitaram-se as cabeças amarellas dos +malmequeres. Os passaros começaram a cantar. E viu-se logo o Brito +Aranha, de pera branca, dar um passo em frente e fazer um discurso:--O +amigo... o camarada... descança em paz.--Depois o Cunha e Costa falou na +nossa decadencia, e por fim o Carneiro de Moura mastigou tambem uma +banalidade... Sentia-se que tudo aquilo era postiço. Mas os passaros não +cessavam de cantar--e a meu lado o D. João da Camara suspirou baixinho: + +--Quem me dera que quando eu morrer só o saibam meia duzia de amigos!... + + + Abril--1904. + + +O Ovidio d'Alpoim ácerca da D. Maria Emilia Seabra de Castro: + +--Mete-se em tudo. D'uma vez eu e o José Luciano estavamos a discutir +umas alterações á Carta Constitucional e ella começou do lado a dar a +sua opinião. O José Luciano mandou-a embora. D'outra vez sahia eu de +casa do José Luciano com o Antonio Candido e vinhamos á porta da sala +grande, quando ella do alto da galeria: + +--Ó senhor Antonio Candido então agora é que vae para Amarante, quando é +cá preciso? E é para isto que nós os fazemos pares e os enchemos de +honrarias?... + +O Antonio Candido não respondeu. Ficou tão vexado que, de casa até á +baixa, não trocamos palavra. + + + Março--1904. + + +As filhas de D. Carlota Joaquina, com excepção de duas, eram tal qual +como a mãe. O Camara conta que a duqueza de Loulé, que foi casada com o +mais lindo homem do seu tempo, estava um dia, em solteira, á janella, +quando o conde de Vimioso passou a cavallo para os touros, já vestido de +oiro e prata. Ella chamou-o, trocaram meia duzia de palavras, elle +subiu--e depois desceu e foi tourear... + +O marquez de Vallada sabia quem eram os paes de todos os filhos de D. +Carlota Joaquina. + + + Abril--1904. + + +A Hespanha concentra tropas na Galliza. Nós não podemos mobilisar quinze +mil homens. Nem dez mil! Hontem o Pimentel Pinto queixava-se ao +Maximiliano d'Azevedo, de que nem artilharia de campanha possuimos: a +que temos ficava liquidada no fim de meia hora de combate. A artilharia +do campo entrincheirado de Lisboa, comprehendendo os obuzes, serve +apenas para navios imperfeitamente protegidos. Peor: o municiamento mal +chega para uma hora de combate! + + + Abril--1904. + + +O dr. Antonio Centeno protesta: + +--Isto não pode ser! O ministro deu pela iluminação electrica do Paço de +Belem quarenta contos! Havia quem a fizesse por sete. Agora vae dar a +iluminação electrica de todos os paços por trezentos contos. Ha quem a +faça por quarenta. Mas d'esta vez oponho-me porque prejudica a Companhia +do Gaz. Vou procural-o e dizer-lho. Se teimar levo a questão para a +camara e para os jornaes. + + + Abril--1904. + + +Quem faz a politica externa é o rei e o Several. O ministro dos +estrangeiros chancela. + + + Abril--1904. + + +Isto é um paiz para estrangeiros. Não ha nenhum que não enriqueça. Hoje +afirma-se que o Chapuy, engenheiro da Companhia Real, vendeu machinas á +Companhia por cento e trinta e tres mil francos, que valiam setenta mil. +O Croneau, director do Arsenal, tambem está rico. + + + Abril--1904. + + +Diz o Alpoim: + +--O rei não ouve ninguem. Antigamente ainda atendia o general Queiroz, +que era nosso amigo. Agora não: só ouve os presidentes do conselho. +Tratava muito bem o Teixeira de Souza; pois quando o Hintze resolveu +pol-o na rua, passou logo a tratal-o mal. + + + Maio--1904. + + +O alferes que no 31 de Janeiro comandava a guarda municipal, por traz do +campo de Santo Ovidio, nas escadas da Egreja da Lapa, e que depois +comandou o fogo na rua de Santo Antonio, garante que o Lencastre e +Menezes, então comandante do 18, não sahiu com o regimento emquanto não +viu tudo decidido. E dentro do quartel havia socego... + +--Eu disse-o depois ao rei. + + * * * * * + +A proposito de 31 de Janeiro sei pelo José de Figueiredo, que o ouviu +por diferentes vezes ao Antonio Candido, que o rei e a gente do Paço +queriam um castigo exemplar. Antonio Candido opoz-se e ficou mal visto +durante muitos annos. + + + Junho--1904. + + +Disse-me hoje o Camara que o Soveral tomou parte, activa no tratado +d'_entente_ entre a Inglaterra e a França. É hoje um dos melhores amigos +de Delcassé. + + + Julho--1904. + + +A Maria Pia, que quer ir por força ao estrangeiro, mandou pedir dinheiro +aos agiotas de Paris sobre hypotheca das suas propriedades--chalet do +Estoril e parte do palacio das Necessidades, que ella afirma +pertencer-lhe... Ao todo cento e oitenta contos. De intermediarios +serviram um agiota do Porto, uma mulher designada na correspondencia +pelo nome de madame Blanche, e que recebia dez mil francos, etc. + + * * * * * + +Do Antonio José de Freitas: + +O marquez da Fronteira nunca poude levar a bem o casamento de D. +Fernando com a _comica_, como elle lhe chamava. Uma senhora da +aristocracia conversando com o marquez: + +--Fui visitar el-rei que me disse:--Não queres vêr a condessa?--Falei +com ella e parece-me...--hesitando--muito interessante... + +[Figura: _Celso Herminio._] + +E o marquez logo: + +--A senhora já tinha, é claro, relações anteriores com a condessa... + + + Dezembro--1904. + + +O João da Camara repartiu com os netos de Camillo os direitos de auctor +do _Amor de Perdição_. Os filhos de Nuno nem pão tinham no dia em que +receberam inesperadamente esse dinheiro. O Camara, quando juntou +duzentos e tantos mil reis, escreveu á viuva e mandou-lhe +metade.--N'esse dia--disse ella ao Alberto Pimentel--não tinha que lhes +dar de comer. + + * * * * * + +O rei e a rainha vivem separados. Os seus aposentos são, uns n'um +extremo, outros no outro extremo do palacio. E por ahi afirma-se que +elle, depois do tifo, ficou como Affonso VI... + + + Dezembro--1904. + + +O velho obstinado teima... Não lhe falem na successão! Ainda n'outro dia +fez uma scena, quando a D. Maria Emilia lhe leu o artigo das +_Novidades_. Um amigo disse-lhe:--Deixe lá o Sebastião Telles ou o +Alpoim ser presidente do conselho.--Essa hypothese não a admito +eu!--protestou logo. O Hintze está gasto, o João Franco foi acolhido no +norte como um Messias. O Beirão fez um discurso nas camaras--talvez +proposital--dizendo que cortaria nos empregos publicos e que não admitia +direitos adquiridos senão dentro da lei.--Elle quer inutilisar-se...--É +um tipo esgalgado, d'astronomo, com uma grande penca--o nariz do +Beirão--motivo facil de caricatura. Homem de costumes simples, alheado e +indiferente a corrilhos, agarrado aos seus livros[5]. Já em Abril, no +conselho d'estado, taes coisas disse que, á sahida, afirmou:--Acabo de +dar uma enxadada na minha reputação!--Quanto ao Alpoim desconfia que o +José Luciano o quer comer, e o Teixeira de Souza trata de crear forças +dentro do seu proprio partido: comprou _A Tribuna_ e parece influenciar +no _Diario_.--Ao Hintze custa-lhe a largar o poder, elle bem sabe +porquê...--Os tumultos nas camaras succedem-se e a situação politica +agrava-se. + +Do rei diz-se o peor possivel. Diz-se que colocou muito dinheiro no +Banco d'Inglaterra, (11 de Junho) diz-se que deu um colar de brilhantes +á bailarina Imperio, que ahi está na zarzuella... As questões +prendem-se, e agora com o contracto dos tabacos só se fala em +escandalos. Tudo come! tudo come! Come o Navarro, come o Mariano, e um +amigo meu, literato e jornalista, afirma-me:--Se a Companhia dos +Phosphoros tem feito o contracto, eu estava rico.--Corre que os +republicanos se organisam e o Bernardino Machado publicou manifesto, +aproveitando um jornal e um jornalista hespanhol: + + + ...«Ha uma lei que domina todas as outras na historia da + humanidade: nenhuma instituição vive, se sustenta e se radica senão + pelo amor á liberdade. A lei, em virtude da qual existem + instituições liberaes, cumpriu-se nos nossos annais contemporaneos. + De 1851 a 1885 tivemos um periodo de liberdade e de paz. Foi um + periodo de ascensão liberal. + + «Aboliu-se a pena de morte, e só por esse feito se proclamou pela + lei o direito á Vida. Proclamou-se esse direito com toda a sua + elevação, dando a todos, inclusivamente aos indigenas das nossas + colonias, onde se acabou com a escravatura, a faculdade de existir + espiritualmente, como uma personalidade moral. Alargou-se a + liberdade religiosa, tornando-a efectiva com o registo civil. + Alargou-se a liberdade economica pela extinção dos bens de mão + morta, pela abolição dos monopolios e pela criação legal das + associações de socorro mutuo e das cooperativas. Dilataram-se as + liberdades politicas com a extensão do sufragio e representação das + minorias. Descentralizaram-se os municipios, deram-se as maximas + franquias aos distritos e até se exarou na Constituição o principio + liberal da eleição parcial da Camara dos Pares. Nesse periodo, que + começou ouvindo-se a voz do grande tribuno José Estevão, parece que + resoaram até ao final os acentos do seu verbo eloquentissimo. + + «Essa epoca venturosa termina com a morte de Sampaio, Braamcamp e + Fontes. E a prova de que todos os partidos colaboravam nessa grande + obra de pacificação e de liberdade, está em que foi o conservador + Fontes quem mais contribuiu para ella. + + «Os partidos de governo definem-se pela sua concepção da + constituição nacional: Constituição liberal, partido liberal; + Constituição arbitral, partido reaccionario. Porque o arbitrio póde + ser, num dado momento, a liberdade; mas sempre se converte por fim + em absolutismo. + + «No periodo de iniciação liberal fez-se a Constituição quasi + republicana de 1822, e, em troca, os constitucionais da campanha da + Terceira, do Cerco do Porto, de Almoster e da Asseiceira, tiveram a + carta outorgada de 1826, que foi, consoante o livre alvedrio do + imperante, a liberdade com D. Pedro IV, e a opressão com D. Maria + II. Em oposição á carta outorgada, Passos Manuel e os setembristas + fizeram a democratica constituição de 1838, decretada pela vontade + da nação. + + «No segundo periodo da nossa vida constitucional, que abre com José + Estevão e se encerra pouco depois da morte de Sampaio, periodo que + inaugura entre nós o parlamentarismo, os regeneradores fizeram os + actos adicionaes de 1852 e de 1885, que são verdadeiros pactos + constitucionaes, e não intervalos historicos, mas reformistas, + constituintes, republicanos, que apresentavam os seus projectos, + qual delles mais avançado, da reforma constitucional. + + «De 1886 até hoje sopra um vento imperialista. A inspiração, em vez + de vir da Inglaterra liberal, vem da Alemanha cesarista. O partido + progressista faz a centralisação dos serviços materiaes. + Segue-se-lhe, no Poder, o partido regenerador, e faz a + centralisação dos serviços espirituaes na instrucção, e depois + dissolve as associações, rasga as liberdades municipaes, acaba com + as representações das minorias, legisla dictatorialmente... E, por + fim, para que toda esta centralisação não suscite uma revolução + violenta, promulga a lei sobre o anarquismo, que é uma ameaça + sempre suspensa sobre todos os liberaes. + + «Antes de 86, o partido republicano, como partido de tal natureza, + não era um perigo. Caminhava-se lentamente, pacificamente, para a + Republica, e não haveria ninguem tão insensato que sonhasse fazer + uma revolução para conseguir pela força o que se conseguiria, num + prazo fatal, pela lei e pela liberdade. Além disso, ninguem faz + revoluções por meras fórmas. Nós, os verdadeiros liberaes, + duvidamos se não é preferivel uma monarchia, com todas as + liberdades efectivas, com todas as descentralisações vivas, ou uma + Republica como a francesa, em que o Poder central é omnimodo, e o + regimen autonomo local nulo. + + «Depois de 86, fracassadas todas as tentativas para regressar ao + antigo caminho constitucional; fracassada a grande, generosa e + derradeira tentativa de 93 a 94; com a fazenda publica em + bancarrota; com todas as liberdades suprimidas; com a pena de morte + restabelecida para os delictos militares e até para certos delictos + civis; com a politica do engrandecimento do Poder Real no seu + auge,--toda a gente pensa na Republica, porque ella não é já uma + questão de mera fórma mas sim um problema organico de vida ou de + morte para Portugal... + + * * * * * + + «A anarchia da nação demonstra-se: no interior pelo desencadeamento + das forças dissolventes do caciquismo, da plutocracia e a agitação + do clericalismo e fóra, pelas mesmas consequencias dolorosas que se + seguem a qualquer dictadura progressista ou regeneradora. Depois da + dictadura progressista, o ultimatum, a bancarrota, a invasão + congreganista, sobresaltando os animos, como no caso da irmã + Collecta. Depois da dictadura regeneradora, Kionga, o convenio + definitivo da divida, e o fanatismo clerical, irrompendo no caso + Calmon. + + «Os partidos estão em dissolução. O regenerador, com dois chefes; o + progressista, com a perspectiva tremenda de uma herança + tempestuosa. Mas poder-se-hão reconstituir dentro da monarchia? + Andam varios nomes de boca em boca: os dos srs. Dias Ferreira, + visconde de Chancelleiros, Costa Lobo, Augusto Fuschini, Anselmo + d'Andrade e Augusto de Castilho. Viu-se, porém, o caso da monarchia + rodear-se d'esses homens de positivo merito? São convidados sequer + para as suas festas, que são oficiaes e não particulares? + + «Entenderá e quererá a monarchia apoiar-se nas classes + trabalhadoras, visto a burguezia estar contaminada? Foi esse o + sonho do socialismo do Estado de Oliveira Martins e talvez o do + militarismo democratico de Mousinho de Albuquerque. Mas a monarchia + não soube aproveitar-se nem de um nem doutro. Oliveira Martins + morria politicamente poucos mezes depois de ser chamado ao governo. + Mousinho de Albuquerque não chegou sequer aos conselhos da Corôa, e + suicidou-se. A monarchia tinha para a realização desse programma, + alem d'esses homens, a voz mais eloquente dos nossos dias, a de + Antonio Candido, successor de José Estevão, que teria sabido + conquistar as massas populares, e para captar as simpathias + internacionaes um diplomata, o marquez de Soveral, que pelas suas + maneiras e espirito, é da raça dos Palmellas. Aproveitou-os, + porventura? Antonio Candido, desiludido, emudeceu. O marquez de + Soveral nada mais pode fazer do que abrandar o protectorado inglez. + + «Hoje as massas afastam-se cada vez mais da monarchia, porque, como + tudo se concentrou no Poder Real, todas as responsabilidades se lhe + atribuem; o protectorado inglez serve para salvaguarda da + monarchia; a ruina financeira do paiz vem da confusão dos dois + erarios, e até o jesuitismo, se bem que não se imputa ao rei, é + comtudo imputado aos que o rodeiam. + + «Não é licito pois esperar a salvação dentro da monarchia. Por + grande que seja a cultura do chefe do Estado, por muito que seja o + seu valor, a empreza da nossa regeneração não é para um individuo + só. Só a nação é que pode erguer sobre os seus hombros tão imenso + peso. + + «E não se diga que a monarchia está identificada com a + independencia da patria. A nação foi, com efeito, sempre + monarchica; mas desgraçadamente a monarchia tem-se encarnado na + monarchia usurpadora dos Filippes, no governo napoleonico de Junot, + no governo de Beresford, sob Jorge IV. A monarchia teve um papel + soberano no começo da nossa Historia, mas foi-se gradualmente + divorciando do povo. + + «E as nossas alianças? Essas não são dos reis, mas dos povos. A + aliança da Inglaterra é com Portugal, e não com as suas fórmas de + governo. + + * * * * * + + «É indispensavel organisar as forças vivas da nação portugueza. + _Organisando-se o partido republicano salvar-se-ha a nação_. É + preciso que o partido republicano se transforme em partido do + governo, e que cesse com a sua obra de demolição, já feita. Se não + pode alcançar logares no parlamento, conquiste-os nos municipios; + se não pode intervir no municipio, intervenha na parochia. Não + deixe ao abandono nenhum logar, por minimo que seja. E faça + sobretudo por apoiar todas as justas reivindicações dos pobres e + dos humildes. + + «Deve ser um partido republicano profundamente socialista. Quando + os republicanos, por meio de toda a sua campanha, se mostrarem + homens de governo, podem estar certos de que a Republica se fará em + Portugal como se fez no Brasil, e á maneira do que succedeu em + 1871, em França, onde a Assembleia Legislativa, com uma maioria de + monarchicos, elegeu para seu chefe o republicano Grévy e para chefe + do Estado Thiers, que era um monarchico convertido á Republica. + + «A Republica em Portugal é necessaria para elevar a sua cultura, + para acabar com o numero incrivel de analfabetos, para se consagrar + á educação do povo. O estado actual o demonstra: _tanto é certo que + quando sofre a liberdade sofre tambem com ella a instrucção_. + + «A Republica em Portugal é necessaria para que a religião seja a + união das almas pelo amor, como na economia social o é pelo + trabalho. As ordens religiosas atacam não só o Estado como a + verdadeira religião, cujos primeiros vinculos devem ser o amor da + familia, a cooperação economica e o progresso politico da + sociedade. O primeiro é combatido e negado pelo voto de celibato; o + segundo pelo voto de pobreza, e o terceiro pelo voto de obediencia + servil. + + «Torna-se necessario defender a religião como um principio + immanente de justiça e de bem, e não como uma superstição e um + instrumento politico. O partido republicano não pretende destruir a + religião; o que nós pretendemos é tornal-a sincera e pura, + tornando-a voluntaria e livre. + + «A aspiração do partido republicano encerra-se nestes tres + principios: _liberdade politica, liberdade economica e liberdade + religiosa_. Em nome de todos que querem saber, e não podem, + oprimidos pela reacção politica, essa infinidade de creaturas + analfabetas; em nome de todos os que querem trabalhar e não podem, + oprimidos pela reacção economica, essa infinidade de proletarios; + em nome de todos os que querem amar e ser bons e em cujo seio a + reacção religiosa lança a semente de odio; em nome dessa infinidade + de santas e piedosas mulheres que o clericalismo tenta desvairar e + arrastar para fóra dos seus deveres; pelos pobres, pelos humildes, + pelos fracos, saudemos a Liberdade e com ella o unico partido que + hoje a sustenta e defende em Portugal: _o partido republicano_. + + «Se a Republica que não pede senão o restabelecimento e o respeito + á lei, não vier bem depressa, corromper-se-ha e perder-se-ha o + santo fundo deste povo exemplar, um dos modelos de virtude, de + paciencia e de resignação que existem sobre a face da terra». + + +D'outubro para novembro cae o governo, abalado pela questão dos tabacos: +os homens estão cada vez mais divididos por ambições e interesses. D'um +lado os Phosphoros, do outro os Tabacos; dum lado o _Seculo_ e o +Navarro, que ainda ha tres dias (Novembro) teve uma conferencia com o +José Luciano, dizendo depois á familia:--O José Luciano está cada vez +mais velhaco!--De outro o Burnay e o seu grupo... Os homens vão dia a +dia diminuindo de estatura moral! Ainda hontem alguem me contou esta +anecdota que define uma figura:--O Rebello da Silva era muito amigo do +Latino--mas muito mais amigo ainda da sua ambição: queria ser ministro +depressa. Um dia, de repente, cessou com as visitas que fazia ao grande +escriptor. Tinha descoberto um prefacio antigo, em que o Latino advogava +a união iberica, e foi para as camaras atacal-o. A questão durou tres +dias, o governo cahiu, e o Rebello da Silva substituiu o Latino na pasta +da marinha. Nessa mesma noite procurou-o de novo, e foi encontral-o a +lêr serenamente uma grammatica russa, cujo estudo interrompera durante o +tempo do governo. + +--Tu já sabes, se queres alguma coisa é como se fosses ministro. + +--Eu?!...--e sorriu-se, encolhendo os hombros. Mas tão triste, tão +sereno, que o outro ficou gelado... + + + Dezembro--1907. + + +O velho major Fumega, em conversa com outro militar reformado: + +--Em 66 o Saldanha d'acordo com o Prim, tinham resolvido proclamar o D. +Luiz imperador da Iberia. Chegaram a distribuir dinheiro aos sargentos. +A mim, que era então sargento, deram-me seis contos, para distribuir +dezoito tostões por soldado. Tornei a entregal-os intactos. Se fosse +hoje gastava-os no brodio. + +--Eu apanhei trezentos mil reis e dei cabo d'eles. + +--O movimento abortou, porque foi denunciado pelo Graça, mais tarde +celebre como major Graça, no 31 de Janeiro, que, depois de assignar as +actas, como quartel-mestre, descobriu tudo. Era um denunciante, foi-o +sempre--conclue o Fumega, fumando placidamente o seu cigarro. + + + Dezembro--1907. + + +O D. Carlos a um oficial do exercito, depois da lucta com o João Franco, +das descomposturas ao rei, etc.,--e referindo-se aos politicos: + +--Tu ouvel-os falar, não é verdade? Pois se lesses as cartas que todos +os dias me escrevem, e que estão alli n'aquella gaveta, enchias-te de +nojo! + + + Dezembro--1907. + + +Conta-me o D. João da Camara: + +--A rainha era amicissima do meu irmão, o conde da Ribeira Grande. +Visitou-o seis vezes durante a sua doença. N'uma das ultimas noites elle +puxou-a a si, beijou-a, e explicou: + +--É como se fosse minha filha. + +Já na agonia, ella entrou-lhe no quarto e elle pode ainda dizer-lhe, +n'um ultimo arranco, estas palavras proheticas: + +--Os politicos! Cautela com os politicos! + +E ella respondeu-lhe: + +--Descanse, não ha-de ter duvida, se Deus quizer. + + * * * * * + +Era um pouco apagado, mas bondosissimo. D'uma vez uma senhora foi +dar-lhe os pezames pela morte do filho. Tinha-lhe tambem morrido um +filho fazia um mez e desatou a chorar, a falar n'elle, cheia de saudade +e de lagrimas. E o conde da Ribeira, esquecendo a propria dôr, passou a +consolal-a... + + + Janeiro--1908. + + +O Fialho conta, indignado, que a viuva do Eça de Queiroz, a quem o +Estado dá uma pensão, vae vender uma propriedade no Alemtejo, por cento +e tantos contos. + +--Veja você que pouca vergonha! São uns poucos de kilometros de terra de +semeadura e montado de azinho e bolota, que sustenta um cento de +cevados! Bem sei que metade da propriedade é da irmã, da mulher do Luiz +Osorio... Ainda assim são cincoenta contos. Mas n'este paiz faz-se tudo +o que o senhor Arnoso quer!... + + + Janeiro--1908. + + +Um oficial d'armada, ao José de Figueiredo: + +--Todos os oficiaes d'armada, á excepção de meia duzia, não podem vêr o +rei, a quem chamam _o pulha_. Se houvesse em terra um movimento +republicano, secundavam-no logo. + + * * * * * + +Diz-se por ahi: + +--Venha tudo, venha o peor, venha o diabo do inferno, que nos livre +d'isto! + + + Janeiro--1908. + + +No _Turf_ e no _Club Tauromachico_ joga-se sempre escandalosamente. O +conde de... lá vae outra vez para a Africa, arruinado pelo jogo no _Club +Tauromachico_, o visconde de... tambem lá perdeu uma fortuna. + + + Janeiro--1908. + + +Grosso escandalo com o livro do Albuquerque, _O Marquez da Bacalhôa_. +Este Albuquerque, conhecido pelo _Lendea_, é o ultimo descendente, pelo +pae, do grande Afonso d'Albuquerque, e, pela mãe, do grave, do douto +João de Barros. Ainda aqui ha annos, quando o rei visitou uma terra de +provincia e se hospedou na casa delle, sahiram das lojas caixotes de +louça da India, que nunca tinham sido abertos. Elle tem tido uma vida de +aventuras: bateu-se em duello em Madrid, caçou no Cabo com lords, tocou +guitarra em Ourville e teve uma loja d'instalações electricas na Italia. +Agora é jornalista, escriptor, poeta e publica este livro d'escandalo, +em que a rainha, Senhora na mais alta acepção da palavra, é posta de +rasto... Mas faça-se-lhe justiça: tudo aquillo--e peor--anda por ahi de +bocca em bocca ha muito tempo. E não vem de baixo--vem de cima... + + * * * * * + +Do Paço mandaram buscar um exemplar á livraria Ferreira. + + + Janeiro--1908. + + +O rei em Villa Viçosa caça; o João Franco em Carnide dorme com a casa +cercada de policia. Fala-se em conspirações, na tropa, em transferencias +d'oficiaes e sargentos. O Maximiliano d'Azevedo disse hoje na livraria +ao Bernardino Machado: + +--Isto cheira a cadaver... + +--Cheira a polvora, é que é--respondeu lhe elle. + +Espera-se tudo: a falencia, tiros, a revolta. Ha prisões--fala-se em +mais prisões ainda e os jornaes estão garrotados. + + * * * * * + +O Maximiliano d'Azevedo: + +--É falso que fosse o Correia de Barros quem matou a Manuela Rey. +Disse-me muitas vezes a Emilia Adelaide como o caso se passou: Um irmão +do Tanas (Pereira das Neves) fez a corte á Manuela. Ella aceitou-lha, e +uma noite o Correia de Barros surprehendeu-os. O Tanas, ao vel-o +brandindo a bengala, saltou por uma janella. A Manuela fugiu e foi para +a rua das Galinheiras, para uma casa onde morava a cabeleireira do +theatro, e deitou-se vestida sobre a cama, a chorar. + +Debalde o Correia de Barros lhe perdoou: + +--Não! Não! + +Chorou--e morreu. Já estava tisica ha muito tempo. + + * * * * * + +E conta-me tambem: + +--A Emilia das Neves estava n'uma casa de mulheres. Deram com ella por +acaso. Quem primeiro a ensaiou foi o Garrett. Tinha genio: mal sabia lêr +e toda a vida deu sylabadas. + + + Janeiro--1908. + + +O governo retira as munições a alguns regimentos e á marinha: só tem +confiança na guarda. Diz-me o Schwalbach:--«Ouvi-o da bocca do oficial +encarregado d'esse serviço. A noite passada retiraram as munições a um +regimento da capital». Corre com insistencia que o coronel Albano da +Fonseca morreu envenenado... Os navios de guerra foram desarmados, sob +pretexto de estudo de renovação e adaptação das munições, que se +removeram para o serviço de torpedos. O Maximiliano diz-me tambem que +varias peças do campo entrincheirado ficaram assestadas sobre os navios +de guerra. + +[Figura: _Gomes Leal._--Desenho de Antonio Carneiro.] + + * * * * * + +O Fialho está um franquista ferrenho: + +--O João Franco já me mandou chamar tres vezes. + +E, como eu me espante de o vêr conservador, elle diz: + +--Fui-o sempre. Já esse maroto do Arnaldo Fonseca dizia a meu +respeito:--É um bohemio que trata a roupa com nephetalina! + + * * * * * + +A Angela Pinto está com um preto que lhe poz automovel. + +--Ó Angela, então tu agora?! + +--Vocês que querem? Não andam todos os dias ahi a prégar que o futuro de +Portugal está nas nossas colonias? + + + Janeiro--1908. + + +Prenderam hontem o Antonio José de Almeida. O João Barreira conta-me que +a policia apanhou sessenta rewolveres aos republicanos, mas não +descobriu os depositos d'armamento. O João Pinto dos Santos diz: + +--A prisão de Antonio José d'Almeida é um ensaio. Se virem que as massas +populares não protestam, desatam a prender a torto e a direito. Eu estou +aqui estou preso: o João Franco odeia-me. + + * * * * * + +Um livreiro: + +Fizeram mal em prohibir _O Marquez da Bacalhôa_. Já ha quem tenha dado +por um exemplar tres mil reis, e o preço corrente é agora de dez a +quinze tostões... Se o queriam inutilizar aprehendessem-no, tanto mais +que toda a gente sabia onde era impresso. + + + 28 de Janeiro--1908. + + +A atmosphera é electrica.--Isto não pode ser! isto não pode +ser!--ouve-se a cada passo. Toda a gente espera acontecimentos. O boato +corre de ouvido para ouvido: o comandante da municipal afirmou ao rei +que não podia contar com a guarda para combater a tropa; ha tumultos no +Porto e Villa Real; está assignado um decreto expulsando do paiz +republicanos e dissidentes; e--sabem? sabem?--o movimento é preparado +pelo João Franco para tomar medidas d'excepção... O Coelho de Carvalho, +de grandes barbas brancas, sempre ironico, pontifica na livraria +Ferreira:--Tudo isto obedece a um plano para estabelecer o protectorado +inglez, com o rei gordo e replecto, e a dotação augmentada em cento e +sessenta contos, pagos em oiro. + +Ás sete da noite encontro o Alpoim que me pergunta ancioso:--Que ha? que +ha?...--Eu sei... diz-se por ahi que varios oficiaes se reunem no Arco +da Bandeira....--Só?--E arranca-me das mãos o _Correio da Noite_:--Vem +feroz! vem optimo!...--No comercio não se desconta uma letra. A rua do +Oiro não tem metade do movimento habitual. Consta que o João Franco +disse hontem:--Dá-se-lhes uma sangria...--O que eu lhe posso garantir, e +sei-o por uma senhora de relações intimas do João Franco--diz o +Fialho,--é que elle passa as noites sem dormir.--Medo--ou revolução? As +mulheres vão buscar os maridos ás repartições e aos bancos, outras, na +previsão de acontecimentos, fornecem-se á pressa nas lojas. Ha nervos na +atmosphera. A questão dos adeantamentos levantou todo o paiz contra o +rei. Ha muito que o D. Carlos é visado, discutido e injuriado. +Atribuem-se-lhe todos os males. O Hintze morreu: foi elle quem matou o +Hintze com desgostos. Os Braganças são todos ingratos. Que quer o rei? O +rei só quer dinheiro, o rei chama ao paiz, que despreza, a _piolheira_, +o rei é um ladrão. Dizem-no até os cavadores d'enxada da provincia:--O +rei é um ladrão! o rei é um ladrão!--Gera-se não sei que excitação que +se apega e propaga. Todos estamos debaixo da mesma pressão a que não ha +fugir. Nas esquinas ainda se vêem farrapos de cartazes, anunciando o +folhetim _Soror Amelia_, com o retrato da rainha vestida de freira... + +O que os jornaes de grande circulação não se atrevem a dizer, o +_Seculo_, o _Mundo_, o _Noticias_, propala-se de ouvido para ouvido, ou +publica-o o _Correio da Noite_, do velho José Luciano, que ataca com +violencia o rei e o governo.--Que há? Que há?--Um policia aliciado pelo +João Chagas denunciou a revolução; o juiz ao lêr o depoimento do Antonio +José d'Almeida, exclamou:--Ora até que emfim encontro um homem!--O Cunha +e Costa pequenino, d'oculos e olho esperto atravez dos vidros:--Vocês +que querem? Está tudo minado. Hoje, ao entrar na Boa Hora, deparei com +este quadro: d'um lado da porta um municipal lia _O Mundo_, do outro, +outro municipal lia _A Lucta_. + +E no entanto a vida segue o seu curso habitual: todas as noites +enchentes nas revistas, _Ou vae... ou racha, Pr'a frente!_ Todas as +noites o mesmo falatorio no Rocio, o mesmo formigueiro humano seguindo +as suas manias, as suas ambições, os seus interesses... + + * * * * * + +Os populares atacaram as esquadras. No largo do Rato um bando, que +queria matar o João Franco, entrou n'um café. A policia tentou +apalpal-os--defenderam-se a tiro. Um cahiu varado: e retiraram em ordem, +fazendo fogo. Na esquadra dos Terramotos trocaram ainda balas com os +guardas. Havia um plano de revolução? É fóra de duvida. Lançaram-se +bombas que não explodiram a varias esquadras--á do Campo de Sant'Anna, +por exemplo. A policia estava, prevenida, e prendeu-os, quando um grupo +de dissidentes, Alpoim, João Pinto, Ameal, etc., se dirigia para o +elevador da Bibliotheca, no intuito de lançar um foguetão, que desse o +signal á esquadra e a varios grupos que, ao mesmo tempo e em diferentes +pontos, deviam assaltar os quarteis. Só o Alpoim e o Ameal conseguiram +fugir. No elevador havia armas, destinadas ao ataque dos correios e +telegraphos. No forte de Caxias estão presas 93 pessoas, e presos estão +tambem o Afonso Costa, o João Pinto dos Santos, o Ribeira Brava, etc. A +policia desandou então a prender a tôrto e a direito. O José de +Figueiredo que mora no Campo de Sant'Anna, por cima da esquadra, ouviu +isto: Ao telefone, o chefe da esquadra para o governo civil:--Já +prendemos quatro.--Prendam mais.--Era preso quem passava na rua. + +Á revolução adheriam varios oficiaes e toda a armada. Havia fanaticos +decididos a correr a municipal á bomba, e todo o trabalho do directorio +parece que foi sustel-os á ultima hora. Varios bandos foram prevenidos +logo que o signal falhou. Os que esperavam no café do Rato, a hora do +assalto á casa do João Franco, foram presos. Um creado do Moura Cabral, +que m'o contou, foi aliciado para atacar a esquadra da Graça--e +deram-lhe um rewolver e bebidas. Em diversas partes tem sido encontradas +bombas, e diz-se que quem denunciou um deposito d'armas, escondido em +casa d'um negociante, foi uma irmã dum actor de D. Maria. + + * * * * * + +--Isto--toda a gente o afirma--acaba logicamente no atentado pessoal. + + + 30 de Janeiro--1908. + + +Corre com insistencia que o João Chagas morreu d'uma pleurizia no +hospital. + + * * * * * + +Os _bufos_ são aos centos. Pára-se a conversar--tem-se logo um _bufo_ á +perna. O Baracho procurou hoje o ministro da guerra e declarou-lhe: + +--Eu não conspiro; portanto não me mandem espionar, senão corro os +_bufos_ a tiro. Se desconfiam de mim, julguem-me, que eu me defenderei. +E deixe-me tambem dizer-lhe uma coisa: Os senhores não hão-de ser sempre +ministros. Se me incomodam ou me infamam, quando deixarem de o ser, eu +lhes tomarei as responsabilidades.--Ao que o ministro respondeu:--Se +soubesse, general, as saudades que eu tenho do meu caminho de ferro!... + + * * * * * + +Tem sido tambem presos alguns oficiaes do exercito. E o Fialho faz +_blague_: + +--Desde que a policia entrou no caminho das descobertas, foi dar com a +escripturação completa da revolta. Tudo por ordem e por partidas +dobradas. Uma revolução burocrata! + + + 31 de Janeiro--1908. + + +Sabem qual é a impressão geral? Pena de que o movimento gorasse. + + * * * * * + +Até as mulheres estão furiosas com o Franco. Ha-as que dizem:--Eu vou +matal-o!--Mas ha tambem quem o defenda e aplauda como nenhum ministro +foi defendido e aplaudido. Um padre franquista barafusta em plena rua do +Ouro: + +--Eu até agora dizia que o João Franco tinha uns c... que não cabiam em +Lisboa. Agora não, agora digo bem alto: o João Franco tem uns c... que +não cabem em Portugal! + + * * * * * + +O Bernardino Machado: + +--Sabe o que isto parece? Parece que o rei disse ao João Franco, +entregando-lhe uma carabina:--«João arranja-me dinheiro».--O João Franco +executa.--«João torna a levar a carabina e traz mais dinheiro».--E a +atitude vergonhosa das nações estrangeiras que assistem com aplauso a +este espectaculo! Porquê? Pelo que eu disse um dia d'estes a um +negociante francez:--Ha um dictado em Portugal que explica +tudo:--Ladrões não se encobrem de graça! + + + 1 de Fevereiro--1908. + + +O João Franco responde aos clamores e á revolta com o decreto d'hoje: + + + Senhor--São bem conhecidas de Vossa Magestade as occorrencias dos + ultimos mezes, em que uma pequena minoria d'elementos + revolucionarios criminosos tem ultimamente procurado impedir a vida + politica e representativa do Paiz, alterar a ordem publica e pôr em + perigo a segurança das pessoas e das propriedades. + + Imperturbavelmente tem o governo obedecido ao proposito de limitar + a acção das medidas de circumstancia á esphera restricta de + legitima defeza social, reduzindo-as ao que de momento se tem + afigurado absolutamente indispensavel, sempre na esperança de que + essa publicação fosse um meio preventivo sufficiente e constituisse + aviso efficaz aos agitadores. + + D'essa ordem d'ideias derivaram o decreto de 21 de Junho sobre + publicações attentatorias da ordem publica e o de 21 de Novembro + sobre crimes contra a segurança do Estado, das pessoas e das + propriedades. + + Factos dos ultimos dias vieram, porém, demonstrar que as tentativas + e propositos criminosos, longe de afrouxarem, se teem mantido + obstinadamente e aggravado a ponto de ser urgente e indispensavel o + rapido afastamento do nosso meio social dos principaes dirigentes e + instigadores d'esta pertinaz conspiração contra a paz publica e + segurança do Estado antes que perdas lamentaveis de vidas venham + accrescentar se ás desgraças já occasionadas e, porventura, + originar prejuizos irremediaveis ao credito publico e á fortuna + nacional. + + Ha poucos dias ainda, o governo da Nação vizinha apresentou ás + côrtes um projecto de lei que auctoriza a fazer sair do reino por + deliberação do conselho de ministros, sob prévia informação das + auctoridades locaes, as pessoas que pertençam a associações hostis + á ordem social e que de semelhantes principios façam propaganda, e + como sejam estes factos muito graves e perigosos, seguramente não o + são mais nem podem ter mais larga, mais profunda repercussão em + toda a vida nacional que os tramas e attentados para mudar violenta + e criminosamente a forma de governo de Estado. + + N'essa ordem d'ideias, procuramos com o presente diploma, habilitar + tambem o governo com a faculdade d'expulsar do Reino ou fazer + transportar para uma provincia ultramarina aquelles que, uma vez + reconhecidos culpados pela auctoridade judicial competente, importe + á segurança do Estado e tranquillidade publica e interesses geraes + da Nação afastar, sem mais delongas, do meio em que se mostrarem e + tornarem perigosa e contumazmente incompativeis. + + Não podem, por egual, gosar immunidades parlamentares aquelles que + contra a segurança do proprio Estado se manifestam ou que como + inimigos da sociedade se apresentam. + + Taes são, Senhor, as principaes disposições do diploma que tenho a + honra de submeter á apreciação de Vossa Magestade. + + Paço, em 31 de Janeiro de 1908. _João Ferreira Franco Pinto + Castello Branco_--_Antonio José Teixeira d'Abreu_--_Fernando + Augusto Miranda Martins de Carvalho_--_Antonio Carlos Coelho + Vasconcellos Porto_--_Ayres d'Ornellas de Vasconcellos_--_Luciano + Afonso da Silva Monteiro_--_José Molheira Reymão_. + + + * * * * * + +O Alpoim fugiu para a Hespanha. + + * * * * * + +O Cunha e Costa: + +--Ha mais de duzentas pessoas apostadas em matar o João Franco. Isto +acaba por um atentado pessoal. + + + 1 de Fevereiro--1908. + + +Está uma tarde linda, azul, morna, diaphana. Converso na livraria +Ferreira com o Fialho, quando entra esbaforido e palido, o pintor Arthur +de Mello, que conheço do Porto, e diz n'um espanto, ainda +transtornado:--Acabam de matar agora o rei!--O quê?!--Eu vi, ouvi os +tiros, deitei a fugir... + +Fecham-se á pressa os taipaes das lojas. Uma mulher do povo +exclama:--Mataram agora o rei. Vi os que o mataram. Eram tres. Dois lá +estam estendidos. Passou um agora por mim, a rasto, com a cabeça +despedaçada!...--Ha palmas para o lado da praça da Figueira. Anoitece. +Um esquadrão desemboca da rua da Mouraria... Mais tarde no comboio, um +empregado do Jorge O'Neill confirma:--Vi do escriptorio um policia +correr atraz d'um dos assassinos. A certa altura cahiu-lhe o chapeu: era +calvo. O policia varou-o com um tiro. + +E pela narração do Mello, do Armando Navarro e d'outros, que assistiram, +reconstituo assim a tragedia: + +O comboio descarrilara. Seguia atrazado. Durante o trajecto o rei não +fumou nem jogou, como costumava. Vinha aprehensivo e a autopsia +demonstrou mais tarde que não tinha comido n'esse dia. + +O Malaquias de Lemos contou que na vespera, em Villa Viçosa, o rei +jogara com o principe. Era ao entardecer. Na chaminé um grande brazeiro. +Trouxeram-lhe uma carta. Para a lêr melhor, levantou-se, chegando-se á +janella. Duas vezes a percorreu com a vista, e depois rasgou-a em +bocadinhos que atirou ao lume. Petrificou-se um momento envolto na +sombra...--El-Rei não joga?--perguntou o principe.--Jogo, +jogo...--Sentou-se, jogou, mas tão preocupado que quasi não jantou +n'esse dia nem almoçou no seguinte. + +Nem uma nuvem. «Tarde sem par»--escreveu Ramalho.--Linda tarde para uma +bomba--exclama uma menina da alta, na ponte da estação. Havia, é +natural, um certo receio, e a duqueza de Palmella, ao ouvido de João +Franco:--Não haverá perigo?--V. Ex.^a vae ver que ovação!--Tinha-lha +preparada para a recita da noite, em S. Carlos. O rei e a rainha +detiveram-se uns minutos, com o João Franco e o Vasconcellos Porto, que +queria mandar vir um esquadrão de cavalaria para acompanhar o rei. D. +Carlos opoz-se. O carro descoberto partiu a chouto, com toda a familia +real junta. Ao pé da estatua um grupo... Dissiminados pela Arcada alguns +policias, e, sentado n'um banco da praça um homem de varino, que veio, +sem precipitação, colocar-se á porta do ministerio do reino[6]. + +Os empregados da fazenda tinham-no notado. Seria um bufo? Os bufos eram +tantos, que se não conheciam uns aos outros.--«Eu assisti--diz o +Navarro.--Fui para lá uma hora antes fumar o meu charuto. Tres descargas +cerradas partiram da Arcada do ministerio da fazenda. Ficou tudo +desorientado. Os policias deitaram a fugir»... Um negociante da rua de +S. Julião teve de os sacudir da escada. «Eu estava a quatro +passos--confirma o pintor Mello. Um homem subiu ás trazeiras do carro, +olhou o rei cara a cara e deu-lhe um tiro de rewolver. Vi um fumosinho +branco sahir-lhe do pescoço. O rei voltou-se, e, cem annos que eu viva, +nunca mais me esquece a expressão de espanto d'aquella mascara. Disse +uma palavra que não percebi bem»...--«Ao primeiro tiro--continua o +Navarro--a cabeça do rei descahiu para a frente, ao segundo tombou para +o lado». O Buiça, que tirára a carabina debaixo do gabão, apontava e +descarregava. O principe real ergueu-se--cahiu varado. A rainha, louca +de dôr, sacudia o Alfredo Costa com um ramo de flores.--Então não +acodem?! Não ha quem me acuda?!--Ninguem. Um cartuxo falhara ao Buiça: +sacou-o, e ia apontar outra vez, quando o Francisco Figueira o estendeu +á cutilada. Ouvi que, logo aos primeiros tiros, alguem procurara +intervir--mas uma roda de gente desconhecida protegeu-o. Succederam-se +então os tiros sem interrupção. Muita gente falou em descargas... A +policia disparava os rewolveres a torto e a direito. O Correia de +Oliveira esteve para ser morto:--Vinha de chapeu alto e foi o que me +valeu!... Um policia avançou direito a mim com o rewolver apontado, +exclamando como um doido:--Matei agora um! matei agora um! + + * * * * * + +Correu hoje que o João Franco se suicidára e que o tinham acabado a tiro +quando sahia do Paço. + + * * * * * + +O infante D. Afonso seguia desvairado atraz do carro, com o rewolver em +punho, dizendo: + +--O mano nunca quiz ouvir os conselhos da mãe! + +Depois, no Arsenal, para onde foram conduzidos o rei e principe, teve +este movimento colerico: bater no João Franco. + + * * * * * + +Acusam á boca cheia o João Franco--que não tomou precauções para o +rei--de se meter por um corredor quando foi ao Arsenal, e de, mais +tarde, endireitar por uma cavalariça, para se enfiar na carruagem. De +alguns ministros diz-se que, aos primeiros tiros, se esconderam no sotão +dos ministerios entre a papelada e as cadeiras sem fundo. + + * * * * * + +A rainha no Arsenal disse ao João Franco: + +--Veja a sua obra... + + * * * * * + +O rei chegou ao Arsenal já sem vida; ao principe custou-lhe muito a +morrer. Foram ungidos depois de mortos. O padre não teve escrupulos, +porque os medicos garantiram-lhe que a vida podia prolongar-se por meios +artificiaes. + + * * * * * + +Do Arsenal seguiu a marcha tragica para as Necessidades; n'um carro a +rainha e o D. Manuel, n'outro carro o cadaver do rei, que a custo +conseguiram meter lá dentro, e que o oficial de serviço amparava, e, no +ultimo, o duque de Bragança. Que se iria seguir? A revolução? Um +negrume, o terror do inesperado, afasta do Paço todos os que lá deviam +estar áquella hora. Vem a noite... Se seis tambores fossem rufar para +deante do Paço a monarchia acabava hoje mesmo. Espera-se tudo, espera-se +o peor. E cada um trata de não se comprometer, ou de se comprometer o +menos possivel... + + * * * * * + +Phrase cruel d'um popular: + +--Foi caçado como elle caçava os javardos--e em tempo defezo. + + * * * * * + +No dia dois, depois da morte do rei, foram assaltados alguns quarteis, +evidentemente chamando as tropas á revolução. Em artilharia os soldados +sahiram das casernas e fizeram fogo: os oficiaes não os puderam conter. +Em Campo d'Ourique houve tiroteio. No alto da Avenida ficaram estendidas +vinte e tantas pessoas. + + * * * * * + +A caminho do Paço, depois do atentado, o pequeno dizia: + +--Vamo-nos embora! vamo-nos embora!... + +E a rainha: + +--Has-de cumprir o teu dever até ao fim. + +[Figura: _D. Carlos I de Portugal._] + +O organisador da revolta militar era Candido dos Reis, oficial superior +da armada. Muitos oficiaes se reuniam no Arco da Bandeira. + + * * * * * + +Na tarde do regicidio estavam na Arcada homens com faixas á espanhola e +as faixas cheias de bombas. Diz-se tambem que havia varios grupos +postados nas esquinas até ás Necessidades. + + * * * * * + +A rainha, quando o João Franco chegou ao Paço: + +--Foram portuguezes? + +--Foram. + +--Ahi tem o que o senhor fez dos portuguezes. + +E a Maria Pia, que há muito o não pode ver: + +--Diziam por ahi que o senhor era o coveiro da monarchia, mas o senhor +foi peor, foi o assassino do meu filho e do meu neto! + +Isto cheira a phrase feita, mas como esta repetem-se, insiste-se, +inventam-se outras mais. + + * * * * * + +O João Franco tinha perdido a cabeça. Só elle mandava: não queria ouvir +ninguem. Quando fugiu d'uma esquadra um homem que estava preso pelo +fabrico de bombas, o juiz d'instrucção criminal foi-lhe dar parte do +caso. Ficou furioso: + +--Vá beber da merda! + +--Digo a V. Ex.^a que a policia não teve culpa... + +--Vá beber da merda o senhor e a policia! + +--Mas... + +--Vá beber da merda! vá beber da merda! vá beber da merda! + + * * * * * + +Diz-se que o Alpoim estava escondido em casa do Teixeira de Souza e que +fugiu emquanto a policia lhe cercava a casa. + + * * * * * + +Paçô Vieira: + +--Na noite do regicidio fui ao Paço, com o Campos Henriques. O Julio de +Vilhena, a quem procurei em casa, não foi porque lhe faltava um botão na +braguilha. Assisti a tudo: tiraram o rei e o principe de dentro do +carro. O rei estava disforme. A rainha, se tinha dito alguma coisa +desagradavel ao João Franco no Arsenal, no Paço não lhe disse palavra. A +Maria Pia perguntava de quando em quando:--A morte do rei será muito +sentida?--Estava tudo preparado para uma revolução. O Afonso Costa não +deu o signal porque esperava a morte do Franco. Pormenor absolutamente +authentico: o João Franco ainda se ofereceu para governador civil de +Lisboa. + +--Na noite tragica o Antonio Candido foi dos raros que apareceram no +Paço. Estavam lá tambem o Campos Henriques e o Teixeira de Souza. Mais +ninguem--nem sequer o corpo diplomatico. Esperava-se a cada momento a +revolução. Os creados carregaram em padiolas pelas escadas acima os +corpos do rei e do principe. A D. Amelia passeava na sala de cá para lá, +infatigavelmente. Passou, perguntou-lhe:--Que diz o Antonio +Candido?--Elle não respondeu e ella continuou a passear de cá para lá +como um automato. A rainha velha estava sentada n'uma cadeira, sem uma +palavra, sem uma lagrima, d'olhos vitreos fixos na parede. E assim ficou +horas, muda e de pedra, emquanto a D. Amelia passeava na sala, de cá +para lá, infatigavelmente... + + + 3 de Fevereiro--1908. + +Venho agora de Lisboa e--caso curioso--a impressão geral é d'alivio. +Respira-se. Estava muita gente n'um grupo: o João Barreira, o Armando +Navarro, o Rangel de Lima, o Antonio Arroyo, o Columbano, o Maximiliano +d'Azevedo, e todos concordaram em que o rei era mau e quasi glorificaram +os homens que o assassinaram. + +--Era um pulha, um pulha e um doido. Vejam o retrato que vem estampado +no _Je sais tout_... Era elle quem escrevia cartas anonimas á propria +mulher--afirma o João Barreira. + +--Foi um grande exemplo e uma tremenda lição. + +--Se escapa tinhamos ahi uma dictadura feroz. Era capaz de tudo! + +Só o Manuel Ramos, obstinado e cego, teima: + +--A memoria do rei há-de ser rehabilitada. + + * * * * * + +No conselho d'estado o João Franco foi absolutamente inconsciente. Por +proposta do Julio de Vilhena não se leram as actas da sessão anterior, +como é costume, para lhe não ser completamente desagradavel. + + * * * * * + +O João Franco teimou até á ultima, agarrou-se a tudo, para meter um +ministro no governo--o Penha Garcia. Disseram-lhe: + +--Mas não pode ser, bem vê que o governo tem de revogar a maior parte +das suas medidas. + +--Mas eu concordo com isso. Eu escrevo até uma carta concordando com +isso. + + * * * * * + +A ultima piada do ministro dos estrangeiros, Luciano Monteiro: + +--Então V. Ex.^a não faz testamento? + +--Não, o rei tambem o não fez... + + * * * * * + +O rei e os principes traziam rewolveres comsigo. Afirma-se que o +principe real e o infante D. Manuel ainda chegaram a dar dois tiros n'um +dos assassinos. + + * * * * * + +Hoje correram boatos de revolta no Porto, de ter chegado a Cascaes uma +esquadra ingleza, etc.. Tudo falso. + + * * * * * + +No Paço, na camarilha, havia dois partidos, o do rei e o da rainha. O da +rainha está agora de cima. + + * * * * * + +Insiste-se em que se o rei escapasse ao atentado havia uma hecatombe. +Diz-se que o Fontes, que tinha a qualidade intuitiva de conhecer os +homens, dizia de D. Carlos:--«Nunca o pude perceber». + + * * * * * + +Agora voltam-se as atenções para o novo rei. Dizem:--É Saboia.--No +conselho d'estado foi simpatico. Chorou, entregou-se nas mãos dos que o +ouviam:--Não estou preparado para reinar. + +Os irmãos adoravam-se. O que foi assassinado zangava-se quando este lhe +chamava _prior do Crato_. D. Luiz Fillipe era mais reflectido. Este é +mais impetuoso--mas tem melhor coração. + + + Fevereiro--1908. + + +Nos ultimos tempos o rei tinha scenas violentissimas com a D. Amelia. + + * * * * * + +A impressão no Porto foi curiosa: Quem ás onze horas da noite passava na +praça de D. Pedro via muita gente aos grupos de dez a onze pessoas cada +um. Ninguem discutia, não se falava alto. Era um borborinho de quem +conversa em segredo, a medo--ch... ch... ch...--ao ouvido. A noticia +soube-se pelo telephone do Borges & Irmão. + + * * * * * + +Foi no automovel do Baltar do _Janeiro_ que o Alpoim se safou para a +Hespanha. + + * * * * * + +As Anjos contaram á D. Maria Augusta que o electricista de S. Carlos +tinha tudo preparado para o D. Carlos morrer quando se encostasse ao +rebordo do camarote no theatro. + +O homem suicidou-se quando se viu descoberto. + + * * * * * + +O novo rei não gosta de _sport_. Sofre de reumatismo. Adora a musica. Em +pequeno dizia: + +--Reger uma orchestra n'uma grande sala e ouvir no fim os aplausos do +publico, isso sim, é que é gloria!... + +As meninas da alta roda, falando d'elle, diziam desdenhosas: + +--Isso são _mariquices_ do senhor infante. + + * * * * * + +Uma velha, a tia Julia, da familia Bordallo: + +--Coitadinho do principe! Parecia mesmo uma menina!... E não estava +estragado como estes rapazes d'agora. Tinha uma carinha de menina. E não +era porque elle não _tivesse vontade_, era porque _o não deixavam!_... + + * * * * * + +Muita gente que tinha bombas em casa tem-nas deitado ao rio. + + * * * * * + +Da camarilha contam-se coisas como esta. Alguem me diz: + +--Conheço uma senhora muito de bem, a quem este e aquelle (e cita os +nomes) foram fallar da parte do rei, para ir a bordo do _yacht_. Ella +deu-lhes uma desanda tremenda. + + * * * * * + +O João Franco já tinha organisado listas de proscripções. A alguns +administradores de concelho foram enviadas circulares, pedindo o nome +dos individuos que na localidade entravavam a marcha do governo. + + * * * * * + +O pae do João Franco e os redactores do _Jornal da Noite_ foram corridos +do Suisso. + + * * * * * + +Trindade Coelho conta que João Franco, nas vesperas dos acontecimentos, +foi consultar a bruxa--M.^{me} Brouillard, uma transmontana esperta que +ahi está em Lisboa. + + * * * * * + +Já ha seis contos para a familia do Buiça. Muita gente lhe arrancou +botões, cabellos, bocados de vestido. João de Deus Guimarães foi vel-o á +_morgue_. Era prohibido tocar no cadaver. Entrou em conversa com o +guarda: + +--Ah! O Buiça tem ainda o braço rigido! + +--Qual! + +--Parece... + +--Já teve, já, mas agora está lasso. + +--Mas olhe que... + +E aproximando-se do cadaver correu-lhe a mão pelo braço, como quem +apalpa, e deu-lhe _um formidavel aperto de mão_. + +O _frigorifico_ é um buraco, e os tres cadaveres foram atirados uns por +cima dos outros a trouxe mouxe, de mistura com pedaços de gelo. Toda a +gente tira o chapéu e fala baixinho. O regicida está amarfanhado, com +lama na barba e nos cabellos. Seus olhos não são olhos de +morto--exprimem espanto e colera, e a figura é séria, é tremenda. Tem +rasgões, feridas na cara, e mãos nervosas, mãos delicadas de mulher. + + * * * * * + +Diz hoje um professor que conheceu o Buiça: + +--Era um homem profundamente serio e que protestava sempre com colera, +quando se lhe falavam em politica:--Não me falem em politiquices! não me +falem em politiquices! + + * * * * * + +O João Pinto dos Santos: + +--Emquanto estive preso alimentei-me de vegetaes e de odio. Nos +primeiros dias aquillo impressionou-me; mas logo que tive livros +serenei... Queriam fechar as janellas, mas eu disse ao Malaquias de +Lemos:--O ar não! o ar não m'o tirem, prefiro morrer! E tambem lhe peço +que quando bater á porta m'a abram logo, senão não aguento. Antes duas +balas!--Deixaram-me a janella aberta... Mandei vir uns poucos de fatos, +calças de verão, d'inverno, etc.--para ter a sensação de que estava +livre. Depois emprestaram-me livros. Entre outros um volume de viagens +na China, onde ha algumas paginas sobre a vida da mulher chineza. E +aquillo fez-me chorar, tão certo é que a desgraça nos aproxima dos +desgraçados. Afinal chegaram os livros que tinha pedido, um compendio +francez de philosophia, sete calhamaços de economia politica--e fui +quasi feliz. O juiz interrogou-me:--Porque está preso?--Não sei.--Há uma +testemunha que o viu no elevador da bibliotheca.--É falso. Estava n'uma +casa perto da bibliotheca, para combinar com o Alpoim e alguns amigos a +nossa atitude perante as prisões que estavam sendo feitas.--Chamou-se um +policia a quem o juiz perguntou: --Conhece o snr. João Pinto dos +Santos?--Não senhor.--Diante d'isto é claro que o juiz tinha de me +mandar embora. Que imagina que fez o João Franco? _O João Franco avocou +o processo a conselho de ministros e condemnou-me!_ Era odio pessoal. Na +municipal fui sempre bem tratado. + +--E souberam? + +--Alguma coisa presentimos na noite em que foi atacado o regimento de +Campo d'Ourique. Supozemos uma revolução gorada. Se atiram bombas ao +quartel eramos indubitavelmente fuzilados. Uma noite ouvimos formar as +tropas, carregaram com precipitação as armas, um oficial passou a correr +e diante do meu quarto bradou á sentinella:--Cuidado com esse +sujeito!--O Chagas disse-me hontem que, quando chegou á janella, um +soldado lhe fez um _manguito_. Os oficiaes é que continham a +soldadesca--mas até onde? + +--E disse no seu depoimento que havia de matar o João Franco? + +--É falso; o comandante da guarda falou-me n'isso e eu +respondi-lhe:--Bem vê V. Ex.^a que não quero que meus filhos possam +dizer:--Meu pae foi um assassino.--Isso não! Mas se um dia, depois de o +insultar bem insultado, n'uma discussão em plena camara, elle avançar +para mim, deito-lhe as mãos ás guellas, e nem V. Ex.^a nem toda a guarda +municipal m'o arrancam das unhas! + + * * * * * + +Ha quem diga do João Franco:--Foi sempre um cobarde. Em Coimbra a +valentia vinha-lhe do José Lobo e dos irmãos, uns tipos d'aquelle +feitio, e agora da municipal e da policia. O pae era a mesma coisa, e o +tio, o _Mil diabos da capinha_, dava tiros e fazia disturbios sempre que +tinha as costas quentes. + + * * * * * + +João Franco fazia cincoenta e quatro annos este mez de Fevereiro. + + + 8 de Fevereiro--1908. + + +É hoje o dia do enterro. Essa gente que veio de fóra para assistir ao +funeral, principes, duques, generaes, diplomatas, está cheia de medo. E +por ahi diz-se á bocca cheia: + +--Ainda bem que foram portuguezes os que executaram o rei. É a primeira +vez que um rei portuguez morre ás mãos do seu povo. Até agora acabavam +ás mãos das camarilhas. + + * * * * * + +Não me sae dos olhos este quadro do enterro. Esperam-se bombas... Os +sinos tocam, todos os sinos das egrejas; rufam os tambores cobertos de +luto. Desfilam coches com principes e carros com fardas. Um homem +apregoa:--_O ultimo granadeiro!_ quem quer _O ultimo granadeiro?_--Mais +carros, mais coches, o filho do imperador da Allemanha, guardado por uma +escolta de prussianos, que o pae mandou com elle com medo que lh'o +matem. Tropas em fila, carroças de gala, generaes, diplomatas glabros, +com o olho desconfiado e vontade que aquillo termine depressa... Agora a +carroça com o sceptro e a corôa, e outra com crepes a rasto como se +levasse o luto da monarchia.--_O ultimo granadeiro!_...--Mais coches, e +aqui e alli o desfile cortado pela multidão irrespeitosa. Um laivo de +grotesco na tragedia, riscos exagerados de carvão que fazem medo... +Phisionomias lividas nas fardas pomposas, decorações, gente que mal se +atreve a olhar a plebe temerosa--silencio e um largo ah! a que se segue +uma gritaria d'inferno. Bicha de carros interminavel, mortos por +largarem n'uma abalada de pavor--carros funerarios passando entre a +indiferença gelada--farrapos de multidão que atravessam o prestito +propositalmente, tropas esbandalhadas, corôas que parecem velhas... E +por fim mais tropas e o mesmo grito insistente:--_O ultimo granadeiro!_ +quem quer _O ultimo granadeiro?_... + +Dias mais tarde havia sujeitos que se chegavam á beira das pessoas que +deitavam luto e perguntavam-lhe com ar de troça:--Então morreu-lhe +alguem da familia?... + + * * * * * + +O Correia d'Oliveira: + +--Se visse!... Quasi ninguem tirava o chapeu quando o enterro passou... +A sombra do rei comeu, sumiu a do principe. + + * * * * * + +Tem-se distribuido muitos papeis com estes dizeres: + + + Morte aos Sanguinarios Afonso Costa, Alpoim, Ribeira Brava, os + Verdadeiros Assassinos + + DE EL-REI E DO PRINCIPE REAL. + + +E outros, escriptos á machina, atribuindo o crime a este e áquelle... + + * * * * * + +A preocupação do rei é esta: + +--N'este caso que faria D. Pedro V? + + * * * * * + +O João Franco possue cartas do rei, em que elle lhe apontava escandalos +em diferentes secretarias. + + * * * * * + +O dr. Curry Cabral, que é um homem ponderado, disse em casa das +Thomares: + +--Ha cinco annos que o João Franco está doido. + +E o Silva Bastos, que foi da sua intimidade: + +--Ás vezes avançava para a gente de punhos fechados, n'um phrenesi. +Depois dava-lhe a nevralgia e deitava as mãos á cara ou desatava aos +berros--e, n'um instante, como n'uma roda que gira vertiginosamente e +vae passando por dois buracos, lia-se-lhe nos olhos, sucessivamente e +sem interrupção, colera, despreso, ambição, serenidade, medo, orgulho, +riso, ferocidade, paz, vertigem... + + * * * * * + +E outro: + +--Era a obra de Martins posta em pratica por um doido. Sómente o Martins +dissera, arrependido, a Junqueiro: + +--Nas penitenciarias está gente muito melhor que o rei. + + + 11 de Fevereiro--1908. + + +Espalha-se que, se isto não socegar, o rei e a rainha se vão embora e o +estrangeiro toma conta das colonias. Pede-se repressão. Diz-se que há +oficiaes de artilharia e cavalaria que querem fazer uma _intentona_--e +os politicos já se não entendem por causa das nomeações dos governadores +civis! + + * * * * * + +O João Chagas surge na livraria, mais gordo, com um esplendido casacão +alvadio: + +--Tenho estado preso diferentes vezes, mas nunca senti tanto a falta de +liberdade como d'esta. Das outras falava, tinha ar e luz á minha +disposição. Agora foi a incomunicabilidade absoluta. E, se atirassem +bombas ao quartel, eramos despedaçados. E eu, que sabia que alguns +grupos tinham combinado tudo como quem resolve um problema--dizia +comigo:--Se esses diabos não têm a caridade de se lembrarem de nós, +estamos perdidos!--Um dia á noite tive a impressão nitida de que iamos +ser fusilados. Ouvi reboliço, as tropas carregaram as armas, e até senti +que, com a precipitação, deixavam cahir alguns cartuxos. Tentei +espreitar por um postigo. Um oficial que passou correndo disse á +sentinela:--Cuidado!--O frio era mortal. O soldado encostou-se á +porta--não pude espreitar. Ignorava tudo. Estendi-me em cima da cama e +só ás quatro horas da manhã sucumbi de cansaço... Que horas! É horrivel +morrer assim sem lucta. Cheguei a fazer um pequeno testamento... + +[Figura: _Oliveira Martins._--Desenho de Antonio Carneiro.] + +E o João Pinto dos Santos: + +--Pude ver d'uma vez o _Diario Illustrado_, nas mãos d'um soldado, com o +retrato do rei, mas calculei:--chegaram de Vila Viçosa. + +--Mas nem sequer reparou na tarja de luto? + +--Eu não. O Antonio José d'Almeida diz que reparou e que desconfiou que +o rei tinha sido morto. + +--Os oficiaes--continua o Chagas--trataram-me muito bem, mas á despedida +disse-lhes:--Agradeço-lhes muito a amabilidade com que me trataram, mas +para outra vez prefiro ir para a Penitenciaria. Lá talvez chegue algum +rumor. + +E conclue: + +--Acalmação sim, acalmação, se assim o entenderem, _durante alguns +mezes_. Ah não foi em vão que trabalhamos vinte annos!... + + * * * * * + +Fui hoje ao café do Gelo ver o sitio onde o Buiça se reunia com os +amigos. O café é já de si curioso, com duas salas d'aspecto +completamente diverso, uma para o Rocio, d'aparato; outra, nas +trazeiras, baixa, para os freguezes envergonhados, com portas para a rua +do Principe. Era ali, n'aquella meza, do canto, á direita quem entra +pelas trazeiras, que o professor se juntava com os outros e passavam +horas a conversar baixinho. + +--Eram muitos? + +--Ás vezes doze ou quinze--diz o creado.--E ficavam até tarde em grandes +discussões... + + * * * * * + +Todos os politicos são concordes n'isto: o D. Carlos gastara nos ultimos +annos, alem da dotação, dez ou doze mil contos. + + * * * * * + +E toda a gente diz que era um mentiroso e que difamava a mulher. Ainda +hoje alguem contou que um dia apareceram uns papeis inventando infamias +da rainha com a Sandoval. Investigou-se. E o José Luciano disse +logo:--Escusam de procurar, isso é d'El-Rei. + + * * * * * + +O _Seculo_, disse-me o Avelino d'Almeida, tem tido tiragens de 160:000 +exemplares. + + + Fevereiro--1908. + + +Depois da morte do rei o Arnoso foi ao Malaquias de Lemos propor-lhe a +contra revolução. + +--Nem me fale n'isso. Se veem para a rua corro-os a bala raza e vou já +d'aqui contar tudo ao Ferreira do Amaral. + + + 20 de Fevereiro--1908. + + +Era hoje que devia rebentar a contra revolução, para impôr ao Paço uma +dictadura militar. + + * * * * * + +Hoje fui a casa do Schvalbach, ao Conservatorio. Coisas antigas e louça +das Caldas, velhos quadros do Liborio e tectos pintados em caramanchão +pelo Augusto Pina. O homem está aqui: é uma revista de +anno--dificuldades de que sae com um sorriso, enredo, e um fio de oiro e +de ternura a envolver tudo isto... + +Conheceu o rei e explica-o: + +--Quando queria era um _charmeur_. Ás vezes ninguem o podia aturar e +mentia como uma cesta rôta. Ultimamente déra nesta: quando se falava +d'alguma rapariga bonita, ahi dos seus quinze annos, dizia com um +sorriso:--É minha filha. + +E conclue: + +--Era um grande pantomimeiro! + + + Fevereiro--1908. + + +O Antonio José de Freitas, amigo do Paço, do Arnoso e do Sabugosa: + +--O rei era d'estes homens que gostam de esconder as boas qualidades e +de salientar os seus defeitos. Inteligente, de bom coração, artista, não +soube ou não quiz tratar com os homens. Podia ter com elle todos os que +pensam ou escrevem em Portugal--afastou-os. Ha annos para cá o caso +explica-se: garanto-lhe que, depois que teve o tipho, ficou impotente e +sentia-se humilhado e inferior ao primeiro gallego que passa na rua... +Ha cartas d'elle adoraveis de simplicidade, ha casos da sua vida e da +vida palaciana que se não comprehendem. + +--E como artista? + +--Era elle, sem duvida, que fazia com talento os esboços. Mas, como não +tinha tempo--outros lhe acabavam os quadros... Como rei só teve um +mal--começou a sel-o apenas ha um anno. + + + Fevereiro--1908. + + +Todos os dias no Paço se recebem cartas anonimas com ameaças de morte. O +medo é enorme. A rainha tem sempre deante dos olhos o quadro horroroso, +e, se acorda de noite, quer por força vêr o filho. + + * * * * * + +O Manuel Ramos: + +Serviam-se, o Franco e os outros, da pimponice do rei, para lhe +arrancarem medidas de repressão. Se o viam hesitar:--Mas se Vossa +Magestade receia...--E elle logo decidido:--Eu não!--E assignava tudo. E +fique você sabendo: não foi elle só que comeu: a maior parte do +dinheiro, dos dez ou doze mil contos gastos a mais, ficou no bolso dos +politicos. + + + Fevereiro--1908. + + +A guarda-fiscal de Cascaes tem ordens apertadas. Teme-se um desembarque +de armas e munições. + + * * * * * + +Foi prohibido o desfile do publico diante dos cadaveres regios, porque a +urna do rei era coberta de escarros! + + + Fevereiro--1908. + + +O João Chagas: + +--Tem visto a atitude palaciana do _Dia_? Eu, de mim, tenho um caderno +com este titulo _Alpoim_ e todos os dias collo pedaços do _Janeiro_ e do +_Dia_. Tome logares porque vai assistir a um espectaculo +estraordinario... Nunca o estrangeiro fez tanta pressão sobre nós como +agora... Impõe-nos um governo--e esse governo, não podendo ser rotativo, +ha-de sahir da praça publica. Ora não sendo republicano, á maneira do +que se fez na Italia ou no Brasil, vae ser do Alpoim. E verá! verá!... +Eu já disse: escrevo logo um artigo com este titulo _O Regicida_, se +elle e os seus amigos nos atraiçoarem--os seus amigos, que, diante de +mim e de Afonso Costa, se declaravam todos republicanos. D'antes +procuravam-nos todas as noites, agora fogem-nos. Vae ver, vae-os ver +servirem-se da policia contra nós. Oh, mas eu hei-de declarar que elles +é que nos forneciam as bombas! O Alpoim ha-de morrer ás nossas mãos! + + + Março--1908. + + +O Brazão conta que na _première_ do _Othelo_, o irmão de Augusto Machado +foi cumprimental-o ao camarim: + +--Vaes admiravelmente no papel, mas deixa-me dizer-te (aqui para nós) a +peça é uma grande borracheira... + + + 9 de Março--1908. + + +Na recepção de ante-hontem a raínha tinha os olhos cheios de lagrimas +sufocadas e disse: + +--Não tenho medo por mim, é por elle... + +--Os politicos, agora vão ter juizo...--disse alguem. E ella respondeu: + +--Os politicos não teem coração. + +E o rei dizia a um e a outro: + +--Seja bom portuguez e meu amigo. + + + Março--1908. + + +--Vou a Lisboa--diz o Columbano ao conde d'Arnoso. + +--Tambem eu vou a essa Penitenciaria onde andam os assassinos á solta. + + + Março--1908. + + +Antonio José de Freitas: + +--O Marianno de Carvalho tinha ido a Paris negociar um emprestimo e, +conversando com Rouvier, perguntou-lhe: + +--Se se fizer a republica em Portugal?... + +--Que me importa! Que me importa mesmo que se faça a republica em +Hespanha. Mas se se fizer a federação iberica, então alto lá! fazemos a +federação latina. + + +Rodrigo da Fonseca dizia dos Castilhos: + +--Que familia! O melhor de todos é o cego--mas esse mesmo, se tivesse +olhos, era preciso furar-lhos! + + + Março--1908. + + +O João Chagas: + +--O Alpoim foi quem nos forneceu as armas para a revolução. Foi o que +elle fez. Nós tinhamos homens, elles deram-nos as armas e uns contos de +reis. Todos elles se declaravam republicanos, menos o Moreira d'Almeida, +que disse:--Eu não só não sou republicano, mas sou +anti-republicano.--Quando sahiamos das reuniões, eu e o Afonso Costa +riamos ás gargalhadas. + +Este João Chagas tão facil, tão insinuante, com o riso prompto nos +labios grossos e sua pôpa branca no alto da cabeça, nunca conversa, +nunca o vi conversar: se encontra alguem, seja onde fôr, conspira logo. +Tem passado a vida, sempre simpathico e facil, sempre bem vestido e +correcto como um actor que desempenha o seu papel. Mas no fundo d'esta +alma, sob este riso e esta pôpa que parece pintada, só existe uma +vontade que nunca esmorece, uma ambição tenaz e um egoismo feroz. + +--Isto ha-de resolver-se em 1909. Ah, não passa d'ahi! É um conflicto +inevitavel. Que me importa o Porto? + +E como eu duvide: + +--Temos o exercito comnosco. Até na municipal. Na provincia ha terras em +que os regimentos são completamente nossos. + + + Abril--1908. + + +Hontem no Porto encontrei o Junqueiro, mais velho, mais magro, e a +proposito da atitude palaciana de Eduardo Burnay no _Jornal do +Commercio_, conta que elle em tempos, quando atacava o rei, o fôra +procurar ao Porto e lhe disséra do D. Carlos: + +--D'uma vez, n'uma d'aquellas ceias que dava no Alemtejo aos esturdios +seus amigos, ofereceu a cada conviva uma navalha de ponta e mola, com as +armas reaes. + + + Novembro--1908. + + +A rainha não disse que conhecia o assassino do rei. Phrase textual +ouvida pelo Batalha Reis: + +--Os outros não os conheço, mas aquella cara do homem das barbas nunca +mais me sae dos olhos[7]. + + + Dezembro--1908. + + +O caso do dia é este:--Um alferes da guarnição no Paço, quando assistia +ao jantar levantou-se, e, contra todas as regras e todas as +conveniencias, falou ao rei pouco mais ou menos n'estes termos:--Vossa +Magestade anda iludido. Esta gente que o cerca engana-o. A situação do +paiz é deploravel, etc. + +Imaginem, se podem, as atitudes, o espanto, o espectaculo d'esta gente, +interrompida pela primeira vez naquella representação em que o +formulario é respeitado como um culto. Mas na verdade o alferes disse o +que cada um sente no fundo da sua consciencia. Foi inconveniente, mas +poz o dedo na ferida. O rei está rodeado de ficções e de mentiras. Não +soube assumir as responsabilidades do pae, com decisão e coragem, nem +totalmente repelil-as. + +Enredam-no. Os politicos dão-se o ar de o proteger e é elle quem os +protege. Hesita, tem medo... Sente-se que tudo isto vacila... + + + Janeiro--1909. + + +--Esta vida artificial como lhe sinto a falta!--exclama o Fialho ali ao +pé do Suisso. + +--E porque não vive em Lisboa? + +--Não posso! não posso! Se soubesse!... Tenho um irmão epileptico, que +meu pae me legou á hora da morte. Não devo abandonal-o, nem entregal-o a +mãos mercenarias... Depois as arvores, depois as vides, a que a gente +cria amor...--Uma pausa triste, uma hesitação, uma duvida e acrescenta +isto:--Não tenho tido quinze dias de felicidade em toda a minha vida! + +Falamos de politica: + +--Isto está a pedir sangue... E olhe: no Alemtejo não ha +republicanos--ha odios. O pobre não pode vêr o rico. É uma gente roída +de invejas e rancores, que passa annos e annos da vida a cubiçar um +campo... + + * * * * * + +O João Barreira, pequenino, inalteravel, de capinha: + +--A revolução abortou em onze de Fevereiro porque os chefes foram todos +presos. O Chagas tinha nas mãos as chaves do movimento. + + * * * * * + +Quem são os regicidas?... O Ferreira do Amaral, ao sahir do ministerio, +declarou que não tinha apurado nada de definitivo. Diz:--Eu bem sabia, +por cartas anonimas, que se preparavam para me alijar, mas deixei-os +fazer...--Porquê, almirante?--A situação não me era agradavel. + + * * * * * + +Novos boatos de intentonas, de massacres, novos boatos de reacção. Agora +é certo!... Os regicidas vão ser presos. Conta-se que o Heitor Ferreira +dissera:--Vendi a carabina a Fulano.--O ministerio Amaral cahiu, porque, +dispondo de todos os elementos, não quiz prender os assassinos. Um dos +regicidas está em França, mas Clemenceau recusa-se a extradital-o. + + * * * * * + +O Mello Barreto garante como absolutamente autentico o boato que por ahi +correu, de que o rei se confessa todas as semanas. + + * * * * * + +Larga distribuição d'estes papelinhos:[ver nota de editor] + + + Janeiro--1909. + + +Fala-se hoje d'um Munhoz, oficial do exercito, tipo acabado de +lisboeta--café, conversa e parodia, cheio de graça popular e literaria. +Já reformado, vae aos domingos aos touros para a Outra Banda, com um +cabaz no braço e um chalemanta ás costas... Esteve amigado com uma +mulher já _fannée_, mas ainda com linha e um grande nariz imperial, que +ahi andou por Lisboa e se fazia passar como aparentada com as mais +ilustres familias de Hespanha. A mulher não tinha dinheiro, mas alguem +presenteara-a, quando a deixou, com uma rica mobilia. E Munhoz e ella +iam vivendo dos trastes, hoje um tremó vendido, amanhã uma comoda, +depois um sofá... + +--E que tal, Munhoz? + +--Vae-se vivendo, filho. Vamos vendendo os trastes. Olha, menino, hoje +almoçamos nós um _bidet_--e por signal que não estava nada mau!... + + * * * * * + +Lá no alto, no friorento Paço d'Ajuda, entre gente caduca e algumas +damas do passado, a rainha Maria Pia passa os dias e as noites, como uma +figura de tragedia, a regar as flores d'um tapete. Mataram-lhe o pae, o +filho e o neto. Peor: envelheceu. Se pára de regar conta:--Um... dois... +três...--A quem se refere? Ao pae, ao rei, ao principe, todos +assassinados? Senta-se á meza e diz a figuras imaginarias ou aos +phantasmas que se sentam a seu lado:--Come, Luiz? Não queres d'este +prato, Carlos?--E lá torna a regar um dia, outro dia, sempre, as flores +que não reverdecem do mesmo tapete do seu quarto... E esta mulher +elegante, que despertou paixões e inspirou poetas, parece uma velha +actriz, cheia de rugas, sem contracto, fóra do seu meio e da sua época. +Ao vel-a passar, baixando a cabeça para aqui e para acolá, no mesmo +gesto machinal, a gente supõe que o passado sahiu do sepulchro e teima +em sorrir-nos, com os dentes postiços e o cabelo pintado a escorrer +amarelo... + + * * * * * + +O D. Afonso adora o sobrinho. Afiança:--Se m'o matarem quero ser rei uma +hora, mas n'essa hora hei-de mandar... + + * * * * * + +--E o rei? + +--O rei...--diz alguem que foi duas ou tres vezes ao Paço--O rei é um +fidalguinho muito religioso e temente a Deus, e cheio de vontade e de +orgulho.--E acrescenta:--Não trata, como o pae, a gente por tu, mas por +você. + + + Janeiro--1909. + + +Fala-se com o Antonio José de Freitas, do D. Pedro V e um do lado diz: + +--Era um pedante. + +--Se era! O que vocês não sabem é que deixou vinte e tantos calhamaços +sobre coisas militares com o titulo em latim. E de todos esses livros +não se apura uma pagina... + +Do D. Luiz e da D. Maria Pia narra anecdotas, ditos... + +--O D. Luiz mandava-me chamar muitas vezes ao Paço--e algumas por causa +do Shakespeare. Uma vez quiz discutir o _Hamlet_ commigo--elle que me +roubou duzentas e tantas phrases!--e eu disse-lhe:--Pois sim, vamos lá +discutir, mas V. Magestade não ha-de extranhar que eu me defenda com +quantos argumentos tenha, nem que fale mais alto, porque fui professor +de meninos e tenho esse mau habito. Alem de tudo isso sou um homem +nervoso...--E discuti, discuti com unhas e dentes. Por fim elle +disse-me:--Pois sim, Freitas, mas você o que não pôde é conceber o +_Hamlet_ como eu, sob o ponto de vista de dissimulador, porque não tem a +minha categoria. Só um principe sabe o que é dissimular... + +E eu respondi logo: + +--Se V. Magestade dissimula por causa da sua categoria, é porque é um +diplomata; se é por organisação é porque é um histerico... + +E elle mandou-me embora. + + * * * * * + +Quem os põe assim aos reis, ao D. Carlos, ao D. Luiz, ao imperador do +Brazil, são os grandes homens, o Victor Hugo, o Rossini, os que os +incensam a torto e a direito. O D. Luiz era inteligente e conhecia os +classicos musicaes, mas, como não estudava, tocava mal. Pois um dia o +Rossini, em Paris, depois de o ouvir, disse-lhe:--Vou organisar um +concerto em minha casa, para que V. Magestade, que é um dos melhores +musicos que conheço, seja ouvido e apreciado. + + * * * * * + +O D. Luiz, como todos os fidalgos portuguezes, gostava de conviver com +gente baixa. Quando se iam embora os ajudantes e a côrte, ficava com os +particulares, com a gente que lhe chamava _doutor Tavares_, e então +regalava-se de escandalo, de ditos, de má lingua ordinaria. + + * * * * * + +Não me admira que elle gostasse da Rosa Damasceno. Era uma mulher +_caline_, muito meiga. Na intimidade devia ser adoravel. E boa. Desde +que foi amante de D. Luiz, dava todo o dinheiro que ganhava no theatro. + + * * * * * + +A Maria Pia é uma mulher inteligente, apezar de pessimamente educada, +sem mãe. Detestavam-se, mas que diplomatas, ella e o rei! Quando se +anunciou o casamento do D. Carlos, D. Luiz disse-me: + +--Casa por amôr. Fez a côrte á mulher, escreveram-se, elle mandou-lhe +flôres e ia para a plateia d'um theatro em Paris namoral-a para o +camarote. + + * * * * * + +Não sei quem fala do Saldanha... + +--Foi o diabo para o mandarem para Londres, quando se quizeram vêr +livres d'elle. O governo perguntou para a Inglaterra e de lá responderam +que não era _persona grata_. Foi preciso que o D. Fernando escrevesse á +rainha Victoria, que acabou por ceder, dizendo:--Mandem lá esse velho +pecador. + + + Fevereiro--1909. + + +O Judice Bicker, oficial da armada e antigo governador da Guiné no tempo +do Hintze: + +--Não, não me falem em dictaduras nem em governos de repressão! Quando +fui governador da Guiné apareceram-me lá um dia cem homens mandados pelo +governo. E com elles uma simples lista de nomes, sem a minima indicação +de crimes. Nada. Era gente que o governo me mandava e de que se queria +desfazer. Que lhes havia de fazer na Guiné? Sentei-lhes praça, e d'esses +_criminosos_, aos quaes nunca tive ocasião de aplicar um castigo, seis +mezes depois tinham morrido _cincoenta_ de febres!... + + * * * * * + +No outro dia--diz o Freitas--estive com a rainha D. Amelia. Está uma +mulher amarella e feia, enorme, com as mãos do tamanho do Maximiliano +d'Azevedo. E, como lhe notasse os dedos cheios de joias, estranhei, +perguntei e explicaram-me:--São os aneis de brilhantes, que ella +arrancou aos cadaveres do marido e do filho--e que traz sempre comsigo. + + * * * * * + +Um empregado da fazenda: + +--Em cada um dos grandes bairros de Lisboa ha milhares de processos de +dividas á fazenda parados. Companhia que tenha votos paga quando quer e +como quer. Só os desgraçados são penhorados. Isto representa muitas +centenas de contos, que se perdem por empenho, por politica, por +desleixo. + + + Fevereiro--1909. + + +O Pad'Zé contado pelo Vicente da Camara: + +--O extravagante Pad'Zé era no fundo um homem methodico. Quando chegava +a Coimbra ia sempre com grandes ideias de aprumo e arranjo: uma cama +para dormir, uma meza para escrever, etc.. Excusado será dizer que, meia +duzia de dias depois, dormia no chão. Mas á cabeceira lá estavam sempre +muito arranjadinhos os seus livros e os seus papeis. Se no dia em que se +matou, na propria hora em que deitou a mão ao rewolver, alguem o +convidasse para uma ceia,--adeus suicidio! adeus morte! trocava-a por +uma guitarrada. + + * * * * * + +No dia em que fugiu para Badajoz o D. João da Camara encontrou-o: levava +para o exilio um livro de Garrett, um par de meias e cinco mil reis +emprestados. + + * * * * * + +Trazia sempre nas algibeiras envolucros de bombas e mostrava-os ás vezes +aos amigos, no Suisso. Na algibeira do medico que morreu na explosão foi +encontrada uma carta sua, pedindo-lhe que lhe mandasse pelo portador +«seis peras do Fundão». Trazia-as ás vezes pela rua n'uma malinha de +mão, e, quando ia ao urinol, pedia ao Anibal Soares, de quem era amigo +intimo, para lha segurar:--Mas tem cuidado que são ovos!...--observava +sempre. + + * * * * * + +Dizem por ahi que se matou, para não matar... Tinha-lhe cahido em sorte, +n'uma _loja_, executar um alto personagem... + + + 25 de Fevereiro--1909. + + +Visita ao Coelho de Carvalho, que está doente, e mora n'um velho +palacio, na rua do Arco do Cego. Moveis Imperio, uma cama imponente com +golphinhos doirados e espelhos, falsos quadros de mestre nas paredes +d'estuque, onde todos os caiadores de Lisboa pintam sempre o mesmo friso +azul ferrete, e salas que se sucedem com alguns moveis antigos isolados. +São restos de grandeza d'uma existencia d'artista... Como sempre, +fala-se em politica. Não se fala n'outra coisa...--A policia tem o +processo do atentado concluido, mas fica-se por ahi. Sabe-se que no dia +21, n'uma _loja_ maçonica, foi proposto o assassinato do rei. O Alpoim +esperava na rua, dentro d'um carro, os seus amigos. Mal foi que o acordo +com os franquistas gorasse. Sabe que o Alpoim teve uma combinação +politica com o João Franco? Disse-mo elle a mim:--«O acordo esteve feito +para uma dictadura liberal, mas o rei opoz-se. Foi quando eu e Sicrano e +Beltrano decidimos perdel-o»...--Posso garantir-lhe isto: ouvi-o a elle +proprio... Quem os aproximou, ao Alpoim e ao Franco, foi o Silva Graça. +Tinham até ajustado uma serie de comicios de propaganda contra os +adiantamentos. E foi por isso que o João Franco pôde responder como +respondeu ao Centeno, dizendo-lhe que tinha nas mãos provas d'essa +combinação. + +Um tipo fino. Literato e homem de negocios, tendo ganho fortunas e +dissipado fortunas. Tem um castello em Arade sobre rocha e mar e uma +existencia um pouco dispersa. E com isto curioso e alegre, phantasista +acima de tudo, paradoxal acima de tudo. O seu escriptorio de advogado +que foi muito tempo no ministerio da justiça, é hoje alli n'uma meza do +Martinho. Desconfio que mistifica os clientes--para se divertir... As +dificuldades da sua vida são talvez invenciveis, mas a desgraça +encontra-o sempre de pé, com o mesmo riso nas mesmas lindas barbas todas +brancas enquadrando uma face moça, e oculos redondos de tartaruga, que +lhe dão uma aparencia de retrato de Holbein.--Os oculos de +Spinoza...--como elle lhes chama. + + + Março--1909. + + +O Armando Navarro: + +--D'aqui por cincoenta annos estamos absorvidos pela Hespanha, sob a +forma federativa. A autonomia municipal, a mais rasgada de todas as que +conheço, e que o conservador e reaccionario Maura acaba de dar á +Hespanha, é o primeiro passo... + + + 6 de Março--1909. + + +Foi hoje o enterro do Taborda. Aqui ha tempos cahiu de cama e disse a +alguem a chorar: + +--D'esta vez é certo! Sinto que vou morrer... E a vida é tão linda! + +Tinha oitenta e cinco annos. Os jornaes contaram d'elle esta coisa +enternecedora: D'uma vez foi recitar um monologo a um asylo de raparigas +da sua terra. O monologo começava assim: «Boas noites, meus +senhores...». Entrou no palco e disse a phrase: + + + Boas noites, meus senhores... + + +E as meninas do asylo, que o conheciam todas, levantaram-se e +responderam á uma: + +--Muito boas noites, senhor Taborda! + +A morte engrandece sempre, mas acho horrivel acabar na rua dos +Calafates, entre a convenção e a mentira, andar por cima, andar por +baixo, corôas secas, photographias e recordações de bastidores. Um velho +tem direito a morrer entre arvores, em plena natureza. Os bichos, quando +sentem aproximar-se o fim, procuram um buraco para se esconder... São +mais felizes. + + + Março--1909. + + +As declarações do Ferreira do Amaral na Camara dos Pares vieram +autenticar o que se dizia do rei. O Ferreira do Amaral afirmou:--«A +reacção envolve o rei».--Acrescenta-se cá fóra que é um jesuita +hespanhol quem dirige o rei e o Paço, e parece certo que o Ferreira do +Amaral o impedia por vezes de ir de livro e contas á missa--fazendo-o +visitar no Porto tres fabricas por cada missa que ouvia... + + * * * * * + +Espalha-se que foi a rainha quem pôz fóra o Ferreira do Amaral, e que +elle quer lá voltar para lhe dar uma lição. + + + Março--1909. + + +Apresentam-me hoje um velho janota, o visconde da Torre da Murta. É um +velho magro e esticado, de luvas e chapeu alto. Cheio de pretensões e os +cabelos todos brancos. Parece ligado por arames. Vive na miseria. A +mulher enganou-o, deixou-o. Pagou-lhe as dividas--e ficou pobre: são as +Thomares que o sustentam. O velho conserva uma grande dignidade e só sae +de luvas e chapeu alto. Mas quem sobretudo lhe vale é a creada, uma +destas extraordinarias mulheres do povo, que nascem para os outros e que +já disse que quando morrer lhe ha-de deixar as suas economias «para o +senhor visconde não passar necessidades». O senhor visconde vive n'um +cubiculo, e da sua passada grandeza restam-lhe meia duzia de livros com +magnificas encadernações. + + + Março--1909. + + +Fuschini, que fui hoje visitar, está velho e tem uma doença de coração +muito adiantada. + +--Porque não escreve as suas memorias? + +--Não sei, custa-me. Tenho pensado em escrever a minha autobiographia... +Depois deixo-me d'isso. + +E conta-me: + +--Quando foi da conversão da divida externa fui eu e poucos mais que +obstamos a que viessem tres estrangeiros para Portugal mandar n'isto. +Creia... Chegaram a dizer-me:--Não faça questão, que será um dos membros +da junta. + +E diz: + +--Ao tempo da dictadura do João Franco lembrei-me de reunir em Lisboa um +congresso de todos os homens publicos. Procurei os republicanos, o +Afonso Costa, que me prometeram o seu apoio. Estava de relações cortadas +com o Hintze, mas mandei-lhe falar e elle fez-me ir ao Estoril. Disse-me +o peor que é possivel do rei e acrescentou:--Aceito a sua idéa... E tem +casa?--Tenho.--E se a policia intervier?--Resistimos e apelamos para o +povo.--Bem, vá falar ao José Luciano.--Procurei essa _vil alforreca_, +que exclamou:--Mas isso é a revolução!... Preciso de falar primeiro com +o Hintze. Tenho uma idéa melhor...--Dias depois o Hintze dizia-me:--O +José Luciano não quer fazer nada, disse-me que era melhor esperarmos +para Outubro, quando o rei regressar a Lisboa.--Tambem me lembrei de +escrever um manifesto dirigido ao estrangeiro e assignado pelos +estadistas portuguezes.--Excelente, disse-me logo o Hintze, venha cá +amanhã... Olhe, amanhã não, que é o enterro do Casal Ribeiro. Depois de +amanhã.--No dia seguinte estava morto. + + + Março--1909. + + +Eis a impressão geral: Foi a rainha quem tramou a queda do Ferreira do +Amaral. O Julio de Vilhena queria que saissem apenas dois ministros +regeneradores, substituindo-os por outros. Foi uma tramoia do Paço. Toda +a gente diz que a rainha está feita com os reaccionarios. O D. Carlos, +emquanto vivo, opunha-se-lhe, e, logo ás primeiras investidas--festas de +Santo Antonio, etc.--poz-se do lado dos que combatiam a reacção. Agora +manda. E conta-se que o Ferreira do Amaral entrou um dia d'estes no Paço +e perguntou pelo rei.--Está com o seu director espiritual.--Então +preciso de falar á rainha.--Está tambem com o seu director espiritual. + + * * * * * + +A rainha--dizem-no todos--arrisca-se um dia a ser desfeiteada. Acusam-na +de deitar a perder o rei. + + + Março--1909. + + +Barreira conta-me que varios republicanos teem insistido junto do +general Baracho para se pôr á frente d'um movimento. + +--Bem sei, vocês querem que eu tire as castanhas do lume, para que os +outros as comam! + + + Março--1909. + + +O Cunha e Costa: + +--O Ferreira do Amaral desarmava pela bonhomia. Um dia constou ao +Bernardino que para os lados do Campo Grande havia tumultos. Telefonou +ao Amaral:--São os reaccionarios que querem repetir as scenas de cinco +de Abril...--Vou indagar.--Meia hora depois:--Está? Sou o Amaral.--E +muito placidamente:--Ó Bernardino, olhe que aquelles homens que os +senhores mandaram para o Campo Grande ainda lá não chegaram...--!!!--Os +republicanos do _Mundo_, quando lhes constou que iam ser +atacados:--Senhor presidente do conselho, consta-nos isto...--A casa do +cidadão é inviolavel e todos teem o direito de se defender.--Ao Pimentel +Pinto, cheio de dividas e que não paga a ninguem, respondendo á acusação +de jantar com os makavenkos:--Janto, janto, mas pago, meus senhores, +pago sempre.--Ao Arroyo, quando lhe dizia:--Enganaram-no, almirante.--É +que eu sou um ingenuo. + + + Abril--1909. + + +Fazem correr por ahi esta infamia: que o Wenceslau de Lima é amante da +rainha D. Amelia. + + * * * * * + +O Eduardo Pimenta, que serviu com o Mousinho em Africa: + +--Um orgulho desmedido, uma decisão rapida, e uma insensibilidade, como +nunca vi, ao frio, á fome, ao trabalho... D'uma vez, por qualquer +questiuncula, fomos obrigados a dar uma satisfação á Alemanha. Que +scena! O Mousinho arrancou do peito constelado todas as medalhas, todas +as condecorações--todas. Só lá deixou a Aguia Vermelha que obriga o +alemão a conservar-se de pé diante dos que a teem. Poz o _bonnet_ às +tres pancadas e entrou por a casa do consul dentro. Ergueram-se todos--e +elle, á porta, sacudido, impertinente, enorme, disse a phrase +protocolar:--O governo de Sua Magestade Fidelissima encarrega-me, +etc.--E sem esperar pela resposta, outra vez levou dois dedos ao +_bonnet_ e rodou sobre os calcanhares, deixando-os estupefactos. + + * * * * * + +Jayme de Seguier encontra o João Franco no estrangeiro. São amigos. E +João Franco que não queria, que jurára não tornar a falar em politica, +durante duas longas horas não conversou, não falou n'outra coisa. + +--Tinha previsto tudo. Tinha previsto a minha morte: o que eu não +previra foi o assassinato do rei. Isso nunca me passou pela cabeça... + +--Mas o que eu não comprehendo é que dissolvesse as côrtes estando +aliado com os progressistas... + +--Tinha-lhes pedido ministros, recusaram-mos. Ficava enfraquecido. Isso +é que não. Não podendo tel-os como amigos, então antes como inimigos +declarados. + +Quem me fornece estas notas (Jaime Victor) fala d'um João Franco cheio, +de sensibilidade e de coração, capaz de ir até ao fim...--P'ra diante! +p'ra diante contra tudo e contra todos!--Era um convencido. Diz-se que +os outros o empurravam. A verdade é que ninguem o podia deter: nem +palavras nem acções o faziam recuar; ia como uma bala na sua +trajectoria. Contam-me que n'um dos ultimos conselhos de ministros João +Franco expoz a situação: o movimento revolucionario, as medidas que +tomára, etc.. Vasconcellos Porto, placido e enorme, expoz a sua opinião +e concluiu: + +--Deixe-os vir para a rua, que eu conto com o exercito. E depois de +vencermos, governaremos... + +Ao que João Franco respondera: + +--Não, podendo evitar-se o sangue--evitamol-o. + +E Jaime Victor conclue: + +--A morte de D. Carlos trouxe-nos extraordinarias complicações. Elle, +por exemplo, tinha seguro o tratado de comercio com o Brazil, que nunca +mais se fará. No Brazil fizeram-se despezas extraordinarias para o +receber. + + + Novembro--1909. + + +Guerra Junqueiro desalentado: + +--Isto está liquidado, a ocasião passou. Agora o rei casa com uma +ingleza e vem para ahi um caixeiro qualquer da Inglaterra, que manobra +por traz da cortina. Não reparou n'isto?... Nas camaras passou uma lei +que os auctorisa a vender inscripções. É a bancarrota adiada por muito +tempo. D'aqui a annos o juro da divida interna é reduzido, mas vae-se +vivendo e paga-se ao estrangeiro, que é o principal. + + * * * * * + +Do João Franco diz: + +--Mentia com o coração nas mãos... Então é que era ocasião. O Franco e o +rei eram dois cães damnados... A ocasião passou, a republica passou. + + * * * * * + +O Carneiro de Moura: + +--Os bispos e as beatas deram para a imprensa reaccionaria, para _O +Portugal_, vinte contos. Já lá vão em pagodes! + +[Figura: _Dantas Baracho._--Caricatura inedita de Celso Herminio.] + + + Novembro--1909. + + +Conta hoje o Fuschini--sempre com a Alice Lawrence atraz, sempre a +caminho da Sé, com o chapeu sobre os olhos e um rôlo de papeis debaixo +do braço, sempre sufocado quando sobe as escadas, porque o coração cada +vez lhe trabalha peor, sempre irrequieto e interessante, apesar da edade +e dos cabelos todos brancos: + +--O Soveral é um homem de negocios[8]. O que elle quer é dinheiro. Já +tive todos os fios d'essa meada nas mãos... Obrigou agora o rei a ir á +Inglaterra fazer uma figura triste. Pois posso garantir-lhe que ha dois +mezes esteve em Lisboa um correspondente do _Dail Maily_, que contou á +Alice que o proprio duque de Fife mandára ao jornal o seu secretario +desmentir a noticia do casamento. + + * * * * * + +O Avelino de Almeida, jornalista com a especialidade de padres e beatas: + +--Quem deu o dinheiro para _O Portugal_ foram as beatas. Um padre +lazarista é que andou metido n'isso. Arranjaram dezoito contos. Só a +viscondessa de Sarmento deu seis. + + * * * * * + +Um artigo curioso do _Corriere de la Sera_, assignado pelo Gomes dos +Santos: + + + «Um caso singularissimo poz recentemente a policia na pista d'uma + conspiração de aventureiros que punham o seu braço ao serviço do + radicalismo, promptos para tudo quanto lhes fosse ordenado em + nome... da utopia. Uma longa serie de crimes politicos que datam do + regicidio e cujos auctores até agora tinham ficado envoltos no + mysterio, coloca em evidencia os factos preteritos e abre um + caminho seguro para a liquidação das responsabilidades. Hoje + ninguem duvida da existencia d'uma sociedade secreta que, sob a + aparencia de loja maçonica, é o verdadeiro poder executivo do + partido revolucionario, o braço sempre prompto a ferir, a espada + que cae traiçoeiramente sobre as victimas designadas pelos + dirigentes da politica radical? + + Ninguem ignora em Portugal as circumstancias em que se desenrolou o + regicidio. Na confusão da tarde tragica, a policia cae sobre dois + dos regicidas e mata-os em legitima defeza. Mas permanece sempre + firme a convicção de que os regicidas não eram sómente Buiça e + Costa, que pagaram com a vida o seu delicto! Esta convicção + fundava-se em factos de ordem material e moral, sobre os quaes não + havia duvida de especie alguma. A prova moral da existencia + d'outros cumplices reside na impossibilidade do atentado haver sido + organisado e levado a efeito apenas por dois homens. A prova + material forneceram-na numerosissimas testemunhas que viram a + carruagem real ser alvejada, simultaneamente, de varios pontos e + observaram a fuga de alguns dos cumplices do regicidio, um dos + quaes, perseguido pela policia quando fugia, com o rewolver + fumegante em punho, conseguiu perder-se de vista ao voltar uma rua, + confundindo-se depois com a multidão espavorida que fugia do logar + do crime. + + É um vulgar principio de investigação judiciaria que os deliquentes + se devem procurar entre aquelles a quem o delicto aproveita. Ora + quem podia aproveitar com a carnificina da familia real? Se + houvesse produzido uma mudança politica, aproveitavam evidentemente + os republicanos cujo triumpho teria sido d'esta arte facilitado. Se + tivesse originado apenas (como realmente produziu) uma substituição + de governo resultaria proveitosa para os mesmos republicanos aos + quaes João Franco havia fechado todos os caminhos. Vendo presos os + seus principaes chefes e ameaçada toda a sua organisação, os + republicanos esperavam reconquistar, com um golpe de mão, as + posições primitivas. Não ha outras hypotheses a considerar, visto + que o crime não podia ter sido perpetrado por uma conspiração de + monarchicos nem representa um caso individual de terrorismo porque + os regicidas não eram anarchistas. + + O Buiça e o Gosta eram republicados militantes: trabalhavam nas + ultimas filas dos revolucionarios. Livres pensadores, pertenciam á + sociedade de propaganda d'onde, de resto, teem sahido todos os + criminosos politicos. Homens de acção, pertenciam a uma loja + secreta, a «Montanha», mixto de instituição maçonica e de comité + revolucionario, sem local fixo e sem estatutos, que se reune a um + simples convite dos jornaes da seita, ninguem sabe onde e que se + compõe de homens _capazes de tudo_. Tudo deixa crer que o regicidio + foi ahi deliberado e que, como é costume, os executores foram + tirados á sorte, visto que apenas o sorteio explicava a escolha + d'um dos regicidas, cujo passado se não ilustra com actos de grande + coragem individual. + + Mas sobre o regicidio, que inaugura a conhecida série de delictos + politicos, não mais se tratou de fazer luz. Não se chegou a apurar + quem foram os cumplices da emboscada e, se porventura se tentou + esclarecer o caso, acabaram por concluir que era melhor guardar + silencio sobre elle. No entretanto, occorriam novos factos que + vieram documentar melhor a existencia d'uma organisação que + liquidava pelo assassinio as dificuldades susceptiveis de embaraçar + o movimento revolucionario. Poucos mezes depois do regicidio, um + humilde engraxador apresentava-se á policia perfeitamente apavorado + e narrava que dois republicanos lhe tinham proposto lançar uma + bomba no coche que devia conduzir D. Manuel ao Parlamento. A + declaração era verdadeira? Ignoro-o. Mas a policia prende os dois + mencionados instigadores, um dos quaes é fulminado por uma + congestão cerebral no gabinete do juiz. Este, quando se prepara + para colher do denunciante novos esclarecimentos, vê o engraxador + morrer envenenado n'um hospital no meio de horriveis aflicções. O + desventurado declarava que morria por haver dito a verdade. Por + falta de provas o processo foi archivado, o que poz de bom humor a + imprensa revolucionaria, que já se dispunha a desviar a opinião + publica com um diversivo. + + Poucos mezes depois outro crime vem afirmar a existencia da seita. + Alguns militares acusados de terem tomado parte no movimento + revolucionario de 28 de janeiro, foram condenados a penas graves + pelo tribunal, graças ao depoimento d'um sargento chamado Lima, que + se insurgiu e referiu o facto aos seus superiores. O sargento + passeava um dia em Setubal, para onde fôra transferido, quando um + revolucionario se lançou contra elle e lhe cravou um punhal no + coração. O assassino, preso quando fugia, allega uma historia + inverosimil de rivalidade que as investigações policiaes + desmentiram. Quanto á opinião da auctoridade e dos que conhecem de + perto as scenas, referidas anteriormente, da quadrilha + revolucionaria, é clara e expressa: o sargento foi condemnado á + morte por ter denunciado a existencia da conspiração. + + Dois suicidios mysteriosos--um sob o comboio de Cascaes, outro na + redacção d'um jornal revolucionario--parecem ter intimas relações + com a existencia da Mão Negra local. + + Diz-se que os suicidas, designados para certos cometimentos, + preferiram escapar pela morte ás intimações d'uma implacavel + organisação secreta. Não faço aqui menção do caso das bombas + explosivas com que ultimamente pretenderam alvejar algumas egrejas, + depois da execução de Ferrer. Não ha provas da intervenção da Mão + Negra, mas simples indicios de presumpção. Mas o que acabou de + esclarecer o paiz sobre a existencia d'uma formidavel e perigosa + associação secreta foi o recente crime de Cascaes, a que os jornaes + independentes dedicaram longas columnas. + + Vão decorridos alguns mezes depois que na administração das + alfandegas se descobriu um importante furto de armas, que estavam + para chegar ao seu destino. A ausencia d'um operario da fabrica de + armas provou a sua responsabilidade no furto, logo confirmada pela + captura d'um cumplice--um dos implicados na revolução republicana + de 28 de janeiro--que era o receptador das armas roubadas. Já a + policia averiguou o destino das armas, que se reservavam, com a + complacencia de empregados aduaneiros, ao movimento revolucionario, + quando no meio dos rochedos das arribas de Cascaes, a oito + kilometros de Lisboa, se encontra assassinado mysteriosamente o + empregado da alfandega, auctor do furto. + + Com os documentos que lhe encontraram nas algibeiras e com as + indicações fornecidas pela familia do assassinado, a policia + reconstituiu facilmente o crime. O pobre empregado, vendo + descoberto o furto das armas, dirigiu-se aos que o tinham impelido + e suplica-lhes que o salvem. Deram-lhe dinheiro para transpôr a + fronteira com promessa de o sustentarem no estrangeiro e o homem + refugiou-se em Badajoz, territorio hespanhol. Mas o dinheiro falta; + as promessas não são mantidas e o refugiado escreve aos que o + haviam levado ao crime, suplicando socorro. Como não obtivesse + resposta, ameaça-os com declarações. A Mão Negra destaca para + Badajoz um dos seus agentes, que o conduz a Lisboa enganado com + promessas de continuar a viagem para Africa; na primeira ocasião + levam-no a Cascaes a fim de seguir ocultamente para o seu novo + destino e matam-no, arrastando-o para o mar e precipitando-o do + alto das ribas. + + O assassino foi preso na fronteira, quando tentava refugiar-se em + Hespanha, e conduzido a Lisboa, sob rigorosa escolta. Aqui, depois + de alguns dias de apertados interrogatorios, apanhado em + contradição, não sabendo explicar as manchas de sangue que tinha no + fato, confessa finalmente que cometera o crime,--e que, além de ser + antigo empregado n'um centro republicano, é membro da associação + secreta a «Montanha», como os regicidas, como os auctores dos + outros crimes politicos. É a existencia da Mão Negra averiguada e + confessada. + + Os jornaes da seita, republicanos e revolucionarios, perante esta + sensacional descoberta, mantiveram a principio o maior silencio; + jornaes que costumavam ocupar columnas com o mais insignificante + acontecimento, evitaram, por todos os modos, referir-se a elle. + Depois, desesperados por não poderem conservar-se calados, + começaram a agredir violentamente e, por ultimo, a ameaçar a + imprensa independente que, mostrando-se bem informada, se ocupou + dos factos com uma certa largueza. E, emquanto a imprensa vermelha + assim procedia, a policia vinha a saber que os revolucionarios + tinham projectado fazer evadir o preso e teve a finura de o + transferir do deposito de segurança para uma caserna militar, onde + está de sentinella á vista. + + Por outro lado, diz-se que as declarações relativas ao crime de + Cascaes revelaram uma nova pista para a descoberta dos regicidas e + a policia afadiga-se no intuito de descobrir e prender os membros + da Mão Negra. Alguns jornaes lembram, a proposito d'este facto, a + fuga precipitada de certa personagem para o estrangeiro. A Mão + Negra é uma especie de comité executivo, dentro do qual se encontra + todo o elemento revolucionario. Disporá o Estado de força para + resistir a esta formidavel organisação que nem sequer hesita ante o + crime? + + A experiencia da fraqueza dos governos, que se sucederam no poder + após o regicidio, não auctorisa a responder tranquilamente a esta + interrogação...» + + + + Dezembro--1909. + + +Segundo varias pessoas, ha efectivamente em Lisboa muitas agremiações +carbonarias. + + + Dezembro--1909. + + +O A... que se suicidou hontem tinha-se alcançado em não sei +quanto--outros, passeiam por essa Lisboa. Um, o M., alcançou-se em +dezoito contos. Castigaram-no reformando-o com o ordenado por inteiro. + + * * * * * + +Conta o Columbano que a seu pae Manuel Bordallo Pinheiro, pediu um dia +um companheiro de repartição: + +--Tenho lá em casa na cocheira (do conde de Lumiares), um quadro muito +negro que queria que você visse. + +Manuel Bordallo foi buscar a tela, limpou-a da bosta dos cavalos, +lavou-a da camada de negro... Era, nem mais nem menos, o retrato de +Carlos I d'Inglaterra, por Van Dyck, que o D. Luiz depois comprou e está +hoje na galeria do Paço d'Ajuda. + + + Dezembro--1909. + + +O Avelino d'Almeida: + +--A verdadeira razão por que o _Seculo_ se fez republicano?... É que no +Paço, das ultimas vezes que o Silva Graça lá foi, receberam-no mal, +trataram-no d'alto. + + * * * * * + +--Um homem muito honesto o Hintze--diz o Carneiro de Moura--um homem +muito honesto que fazia assim:--Ó Val-Flôr, empreste-me vinte contos.--E +o Val-Flôr emprestava-lhos--e recebia do Estado compensações que valiam +o dôbro. Um homem muito honesto, o Hintze; que nunca tirou dos cofres do +Estado o valor de cincoenta mil reis. + + + Dezembro--1909. + + +Ministerio novo. O bloco foi comido. O Alpoim furioso, exclama, em pleno +Chiado:--O rei mentiu-nos! o rei é um imbecil! o rei tinha-nos prometido +o poder! + +E o Vilaça conta: + +--O José Luciano reuniu-nos hontem á noite, a mim, ao Beirão, ao Dias +Costa, ao Moreirinha e disse-nos:--Se os senhores estão no partido +apenas para serem pares do reino e para que os encha de favores, isto +acabou, hoje mesmo se liquida o partido progressista. Não podem recusar +as pastas que eu lhes indicar.--Todos se curvaram, o Vilaça, que perde +dez contos por anno, e o proprio Dias Costa, que de forma alguma queria +ser outra vez ministro. + + + 23 de Dezembro--1909. + + +O Julio de Vilhena deixou hoje de ser chefe do partido regenerador. +Conta o João Pinto dos Santos, que o Vilhena falou ao rei de cabeça +alta, e por tal forma, que D. Manuel sahiu afogueado d'essa ultima +entrevista, dizendo a alguem:--Só lhe faltou bater-me... + + + Dezembro--1909. + + +O Mardel é um homemzinho pitoresco e anecdotico que conhece Lisboa como +as suas mãos. Ninguem como elle desenha um tipo ou vae ao passado buscar +uma figura. Sabe tudo e inventa o resto. É um prazer ouvil-o. Constroe +genealogias, negoceia em _bric-à-brac_ e escreve satyras. D'uma vez, a +um figurão que se dizia filho natural de D. Pedro IV e que mostrava +desvanecido a toda a gente o retrato do rei que tinha na sala, +perguntando:--Hein, com quem se parece?...--escreveu elle a seguinte +quadra: + + +Do Imperador, de quem diz que é filho, +Tem o retrato na sala, +Mas da p... que o pariu +Não tem retrato nem fala... + + + * * * * * + +Encontro em casa do Mardel o marquez da Foz, de barbas brancas e aspecto +venerando, que desata a narrar conversas extraordinarias, surprehendidas +a meninas do _Sacre Coeur_ sobre a masculinidade dos creados... Depois +fala d'arte, de mobilia, quadros e maravilhas que comprou e vendeu. Vive +hoje arredado em Torres Novas. + +--D'uma vez, quando se vendeu a mobilia do palacio de Oeiras, dos +Pombaes, os que fizeram a liquidação, pediram-me para lhes ceder um +andar d'uma casa que eu tinha com escriptos na rua do Ferragial, para se +fazer o leilão. Cedi e antes da praça fui lá, agradaram-me diferentes +coisas e comprei-as. Custaram-me oito contos. Entre varias trapalhadas +iam cinco vasos da China, cinco maravilhas, como nunca tinha visto. Eram +precisas duas pessoas para lhes pegarem. Ao centro de cada vaso viam-se +as armas de Pombal. Quatro coloquei-os á entrada da minha casa, o outro +levei-o para a sala de jantar e pul-o defronte d'uma estufa... Um dia +reparei: por causa do calor o verniz estalára. Levantei-me, olhei: sob a +casca aparecia outro desenho. Tirei com uma faca o _craquelé_--e debaixo +das armas, do Pombal apareceram as armas dos Tavoras! Tão certo é que +até os grandes homens estão sujeitos a estas miserias... + +Depois trata da baixela do Paço, que no tempo de D. Luiz estudou a +fundo, e que então andava a trouxe-mouxe pelos armarios. São peças +magnificas, _signé Germain_, e que valem um milhar de contos.--D'uma vez +disse a D. Luiz:--Deixe-me V. Magestade arranjar-lhe uma sala de jantar +com a _boiserie_ de Queluz e a sua baixela, que nenhuma côrte da Europa +apresenta uma sala assim.--Ainda hoje não ha côrte nenhuma, nem a da +Russia, que tenha uma baixela tão rica. São mil e tantas peças +admiraveis. É falso que lá esteja tambem a baixela do duque de Aveiro. +Vi as contas todas, photographei tudo... + + * * * * * + +--Um dia fui ao Leitão ourives, a esse artista...--e sorri com +ironia--comprar qualquer joia. Ia a sahir quando dei com uma prata +antiga a um canto.--Que é aquillo?--Está alli para derreter.--Deixem-me +vêr.--Eram três peças esplendidas, com as armas do duque d'Aveiro--uma +salva enorme, a que faltava um bocado da aza, com desenhos +magnificamente gravados, e duas enormes compoteiras de prata com festões +d'ervilhas, tudo marcado, assignado, admiravel.--São para derreter? +Então venda-m'as. Quanto pezam?--Quinhentos mil reis.--Dou +seiscentos.--Venderam-mas, levei-as para casa. Tinham feito uma +tentativa para lhe apagar as armas. Quando depois as vendi deram-me +alguns contos de reis. + +Por fim fala de ninharias, d'isto, d'aquillo--e d'algumas peças que +tinham pertencido ao D. Fernando e «nas quaes alguem fez mão baixa»... + + * * * * * + +Uma anecdota que elle tem como absolutamente autentica e que andou +sempre na tradição da sua familia: + +--O D. João VI estava para morrer. O patriarcha procurou a D. Carlota +Joaquina para a reconciliar com o rei. Recebido na sala do throno, em +Queluz, diz-lhe as palavras banaes do costume--mas ella não cede. Pede, +suplica--perde o seu tempo. A rainha está renitente. Então retira-se +depois das contumelias da pragmatica--e, ao sahir, volta-se de repente e +dá com ella a fazer-lhe um grande, um imponente, um magestoso +manguito... + + * * * * * + +Ha dias comprou por cento e cincoenta mil reis um quadro de Alberto +Durer, absolutamente autentico e com a assignatura perfeita.--É o +_pendant_ do que está no Museu. E estou em vesperas de comprar mais +quatro, entre os quaes um Corregio. Suspeito, pela proveniencia, que +todos estes quadros pertenceram á galeria do duque d'Aveiro. + + + Janeiro--1910. + + +Contam-me hoje a morte tragica do Marianno de Carvalho. Estava doente, +de cama, e a familia sahiu, deixando-lhe uma campainha á cabeceira. Os +creados aproveitaram a oportunidade e safaram-se tambem. Quando voltaram +foram dar com elle morto, agarrado á campainha, n'um ultimo desespero... + + + Janeiro--1910. + + +O juiz d'instrucção criminal, dr. Antonio Emilio, a um amigo meu: + +--No dia vinte e oito de Janeiro os soldados apanharam junto a qualquer +quartel da municipal um homem com um caixote de bombas e duas pistolas +automaticas. Meteram-no no calabouço--e confessa, não confessa... o +homem nada! Então o oficial chamou um soldado e disse-lhe:--Nós vamos +alli para a porta do calabouço e tu diz-me a tudo que sim. Vamos lá.--E +começou:--Carrega lá essa pistola para darmos cabo d'esse diabo, que +vinha aqui para nos atirar bombas!--Quando o oficial abriu a porta do +calabouço o preso atirou-se-lhe aos pés:--Não me matem que eu confesso +tudo.--Então quem te entregou o caixote?--Foi o Alfredo Costa.--Veio a +participação para o governo civil--mas só chegou ás mãos do juiz depois +da morte do rei... + +[Figura: _José Maria de Alpoim._] + + * * * * * + +O juiz: + +--Estamos sobre um vulcão. Prendi varios homens das associações +secretas, podia prender mil. Já ninguem salva isto a não ser uma forte +dictadura militar. E eu vou-me embora porque não quero incorrer nas iras +populares. + + * * * * * + +O dr. Antonio Emilio ao Beirão: + +--Ou vamos para a frente, ou os senhores metam-se em casa á espera que +os chacinem. + +E garante que a explosão de outro dia na Baixa, atribuida a gaz +extravasado, foi devida a uma bomba de dinamite. + + + Janeiro--1910. + + +Os brincos de brilhantes que o Pedro d'Araujo deu á mulher do José +Luciano quando o fizeram par, custaram cem mil francos. Diz-se, +diz-se... + + + Fevereiro--1910. + + +O Paço está rodeado de piquetes. Forças vigiam a Tapada. Garante-se por +ahi que, emquanto os regicidas não forem presos, o rei não casa. O +Maximiliano d'Azevedo, oficial do campo entrincheirado, conta-me que as +forças do campo foram ante-hontem (1 de Fevereiro) postas sob as ordens +do general de divisão e com ordem de marcharem sobre Lisboa ao primeiro +aviso. + + * * * * * + +O que se diz por ahi baixinho, de ouvido para ouvido, é tremendo. Diz-se +o que _O Povo d'Aveiro_, que está tendo tiragens enormes, publicou nos +ultimos numeros[9]. + + * * * * * + +O T..., d'_O Mundo_, disse-me que janta duas vezes por semana com o +Alpoim, e já se tem gabado que é elle um dos auctores do _Diz-se_... + + * * * * * + +O Colen, n'um jantar intimo, onde esteve alguem que m'o conta: + +--No dia vinte e oito de Janeiro estava tudo preparado e seriamente +preparado para a deposição de D. Carlos--marinha, tropa, organisações, +tudo. E tudo falhou porque o Afonso Costa não quiz dar o signal sem que +o João Franco estivesse morto. + + + Março--1910. + + +Á reunião celebre do Castello, onde se decidiu a morte do rei, +assistiram trinta pessoas. + + * * * * * + +Paçô Vieira: + +--A carta que o rei escreveu ao Hintze e que fez com que o ministerio +cahisse, foi conhecida, antes de lhe ser enviada, pelos republicanos. Eu +lhe conto: um dia estava em Paçô, quando o Hintze me chamou. Parti logo, +corri logo a casa d'elle. Encontrei-o na sala de bilhar: tinha um papel +na mão.--Desculpe e obrigado. Já não é necessario. Recebi hoje esta +carta do rei que me levou a pedir a demissão.--Repliquei-lhe:--Sei +perfeitamente o que diz essa carta. Posso repetir-lha quasi phrase por +phrase.--E diante do espanto do Hintze:--Vim no comboio com o Afonso +Costa que me disse, palavra por palavra, o que continha essa +carta...--Assombro do Hintze. A copia da carta fôra mandada pelo rei aos +republicanos--naturalmente ao Bernardino--antes de ser enviada ao +Hintze. + + + Março--1910. + + +Quantos Fialhos, todos diferentes, tenho conhecido pela vida fóra! Este, +de ventre e barbicha de bode, esta figura de que os mortos se +conseguiram apoderar, agarrado á terra, conservador, discutindo com o +padre da freguezia os melhoramentos da sua egreja, este é--emfim! +emfim!--o descendente autentico dos cavadores alemtejanos. Custou... As +suas melhores obras--as que sonhou e nunca se resolveu a +escrever--leva-as elle para a cova... De quando em quando ainda tem uma +revolta: + +--É horrivel a minha vida na aldeia. Se não fossem os livros já me tinha +suicidado. Cada vez preciso mais de ver gente e d'esta vida artificial +de Lisboa. Na aldeia, em Cuba, não falo com ninguem, não tenho ninguem +com quem comunicar. São de bronze aquelles filhos da p...! E nem a mais +pequena sombra de sensibilidade. E se imaginam que a gente não tem +dinheiro, estamos perdidos!... + +--Fuja. + +--Não posso. Quem me ha-de tratar d'aquillo? E depois criei interesse ás +oliveiras que plantei, á vinha... Ah, mas as noites!... Tenho noites em +que pego n'um livro e saio. Ha uma estrada em volta de Cuba--e eu alli +ando á roda toda a noite a falar sósinho como um condenado! + + + Março--1910. + + +Centenario d'Herculano. Missa nos Jeronymos pelo padre Matos. O S. +Boaventura diz-me que, pela avó materna, é ainda parente de +Herculano.--Que eram seus avós?--Pedreiros.--Efectivamente no retrato +Herculano parece um pedreiro da minha aldeia; efectivamente Herculano +descende de pedreiros e toda a sua obra é, na realidade, a d'um homem +que moe e lavra com solemnidade a pedra, a d'um d'esses extraordinarios +montantes que metem o ferro até á raiz da fraga, racham o penedo, +afeiçoam a lage, e acabam, emfim, por construir a cathedral. Herculano +edificou em granito--e no granito abriu pacientes e admiraveis +lavores... A seriedade, a obstinação, e até o amôr á terra, ao azeite e +ao pão, seu ultimo ideal e refugio, são caracteristicos e o ideal tambem +d'essa legião de trabalho imensa e obscura, cuja alma, á força de lidar +com a pedra, adquire dureza e grandeza tambem. Essas figuras, só osso e +pelle, descarnadas, que partem de manhã com o saquitel e a borôa, que só +pronunciam palavras graves, e ao dar do meio dia se descobrem e mastigam +o pedaço sêco de pão com um ar solemne,--acabaram, emfim, por encontrar +um descendente como elles austero e grave, capaz de exprimir o +universo--o que sentiram, o que sofreram e o que sonharam--e capaz de +edificar com alicerces para seculos. Tudo, até a falta de phantasia e +imaginação, até o miudo lavor pacientemente trabalhado, até a casa +simples, vulgar e mal repartida, até a companheira, até a austeridade, +veio a Herculano d'essa grande geração de pedreiros portuguezes, que +antes d'elle fizeram obra digna de homens e desapareceram para sempre no +pó--mas poderam transmitir, filho atraz de pae, a solemnidade e a +grandeza, a quem um dia erguesse uma cathedral mais vasta e com raizes +mais fundas do que elles todos juntos. Mas todos trabalharam tambem, +sabe Deus durante quantos seculos, com tenacidade e firmeza, para a obra +do pedreiro maximo de toda a sua geração. + + + Março--1910. + + +José d'Azevedo: + +--Anno passado o rei chamou-me e pediu-me para votar o projecto da União +Vinicola. Disse-lhe logo:--Não, meu senhor, não voto. E V. Magestade +pede-me isso porque não sabe de que se trata. O projecto é ruinoso. + + + Abril--1910. + + +O Fernando de Serpa, agora em foco por causa das cartas que o Afonso +Costa leu no Parlamento[10] e se teem publicado n'_O Mundo_--esteve +estes dias para se suicidar. A mulher não dorme e o irmão d'ella entrou +hoje n'_O Imparcial_ e disse ao José d'Azevedo:--Se isto assim continua +minha irmã endoidece, e se minha irmã endoidece eu mato o Afonso +Costa.--Segundo elle, esse Fernando de Serpa que se metia em tantos +negocios, deve afinal quinze contos de reis e tem agora os seus +vencimentos suspensos... + + * * * * * + +Porque o José d'Azevedo não foi ministro com o Hintze: + +--O Hintze tinha por mim uma grande admiração, mas nunca me fez +ministro, porque a sua vida economica andava muito atrapalhada e um dia +em que me mostraram uma lista de pares que elle ia fazer, entre os quaes +estava o meu nome, eu disse:--Mas isso não é uma lista de pares--é uma +lista de credores.--Soube-o logo e nunca me perdoou. + + * * * * * + +Quem roubou ao Paçô as celebres cartas de que o Afonso Costa se serviu +no parlamento, foi o creado. Soube-o hoje por acaso. O Urbano Rodrigues +vendo um rapaz de dezeseis annos na redacção d'_O Imparcial_, +disse:--Este é o creado do Paçô, que vae muito ao _Mundo_ e pertence ás +associações secretas. + + * * * * * + +--O José Luciano foi sempre um homem pernicioso--diz o José d'Azevedo. + +--Emquanto fôr uma sombra ha-de mandar--conclue o Fuschini. E +acrescenta:--Quem manda é o seu _salão_ onde se fazem os negocios mais +escuros e mais porcos d'este paiz. + + * * * * * + +--Esse ministro italiano que ahi está--conta o José d'Azevedo--foi um +dos que mais concorreu para salvar Dreyfus. Paulucci, então secretario +de legação em Paris, viu os documentos da embaixada e convenceu-se da +inocencia de Dreyfus. Falou ao embaixador, seu tio, que lhe +disse:--Prohibo-te que te metas n'isso.--Não se importou. Procurou +Bernard Lazare, que o recambiou para o José Reinach.--Isso é +extraordinario. Vamos ter com Max Nordau e com Zola.--Reuniram-se e +examinaram os documentos da legação italiana. Dos papeis não só se +deprehendia que era outro o traidor, mas resaltava nitida e clara esta +preciosa informação: o adido encarregado da espionagem alemã possuia a +esse respeito vinte e nove cartas absolutamente decisivas. Max Nordau +partiu para Berlim e pediu ao imperador da Alemanha a publicação das +cartas. O imperador opoz-se. Paulucci não desanimou: foi a Roma, bateu á +porta d'um cardeal, pediu-lhe que o partido catholico tomasse a defeza +de Dreyfus inocente, o que assegurava ao catholicismo um papel +triumphante no mundo; falou emfim a Leão XIII, a quem só arrancou boas +palavras. (E d'ahi veio o combate da França republicana contra o +clericalismo. Que outro não seria o papel da Egreja se Leão XIII se +manifesta!) Nem assim Paulucci desanima. Insiste com o tio:--Pois meu +tio tem nas suas mãos documentos que provam a inocencia de Dreyfus e +pode dormir descançado! Apresento-me como testemunha.--O embaixador +conseguiu que todos os secretarios fossem testemunhas no processo. +Paulucci tinha doze mil e setecentos documentos (copias) da questão +Dreyfus, que arderam no ultimo fogo da embaixada italiana no campo de +Santa Clara. Paulucci dizia muitas vezes:--Andei dois annos com febre! + + * * * * * + +José d'Azevedo: + +--Fui eu que machinei e atirei com o ministerio Ferreira do Amaral a +terra. Tinha-me feito um agravo que, se é directo, m'o pagava n'um +conflicto pessoal. Fui eu que fiz tudo. O José Luciano não queria. +Procurei-o na Anadia. Obstinava-se. Mas eu fui ao Porto--e venci. Uma +tarde o Campos Henriques recebeu uma carta do Paçô, que encontrára o +Tavares Festas no comboio (o Tavares Festas vinha de casa do José +Luciano), carta em que lhe dizia: «Ouvi que vae formar ministerio com +estes nomes...» O Campos Henriques mostrou a carta á mulher:--Olha o que +me diz o Paçô...--E riu-se. No dia seguinte era chamado ao Paço e +organisava o ministerio, tal qual o Paçô lhe dizia na carta. Ordens de +José Luciano. + + + 1 de Maio--1910. + + +José d'Azevedo diz a respeito do escandalo do Credito Predial:--Não são +sessenta contos que faltam, são oitocentos! A escripta está toda +viciada. Venderam-se obrigações, deram-se juros entrando-se pelo +capital, emfim um descalabro medonho, que se não podia fazer sem +auctorisação dos governadores. + + * * * * * + +É um politico reservado e frio? Não sei. É um homem audacioso e +inteligente, que parece calmo. Mas ha n'elle uma parte em carne viva. +Sente-se a ferida sob aquella aparencia forte. Escreve sem uma emenda, +linguado atraz de linguado; nem hesitações nem duvidas e um prazer que +synthetisa n'estas palavras:--Babo-me... Não escrevo, babo-me...--Não +crê senão em si mesmo, e não deve ter um amigo, como todos os que contam +apenas com as suas proprias forças. A mulher d'um diplomata que viajou +com elle, dizia:--As maneiras encantaram-me, os olhos meteram-me +medo.--São os olhos dos Brocas. + +--Sou das raras pessoas que teem assistido ao suplicio dos chinezes. Fui +com o meu creado, a cavalo--e por signal que elle desmaiou. Cortam-lhes +primeiro a carne dos ante-braços, depois a das pernas, depois os seios, +depois os braços e as pernas pelas articulações; dão-lhes emfim um golpe +no coração e acabam por os decepar. Pois durante todo o suplicio atroz, +os desgraçados não deram um unico grito, um só gemido: erguiam a cabeça +e bufavam ou mijavam-se. Mais nada. Um d'elles prestou-se, sorrindo, a +que o photographassem, emquanto o carrasco levantava a espada para o +degolar... + + * * * * * + +Uma phrase camilliana de uma tia, irmã de Camillo:--Sobrinho, Deus não +existe... ou embarcou! + + * * * * * + +E esta de Camillo, que tinha vindo a Lisboa muito doente, e a quem Souza +Martins, para o sacudir, começou ralhando muito. Camillo, para o José +d'Azevedo, depois do medico sahir: + +--Vê, meu sobrinho, vê, não me perdoam o _Eusebio Macario_, estes filhos +de boticario! + + * * * * * + +Camillo para o José d'Azevedo, mostrando-lhe o filho, que já estava no +primeiro periodo de loucura:--Veja esse desgraçado... Era um rapaz +inteligente...--E depois d'uma pausa dolorosa:--E tudo isto porquê, +sobrinho? Por ter lido as obras do Theophilo Braga. + + + Junho--1910. + + +Nos quarteis continua a fazer-se uma larga propaganda republicana. +Distribuem-se aos soldados versos e folhetos. Exemplo: + + + || Ide escravos quebrar os grilhões, + || As algemas da fome homicida; + || Armas promptas contra esses ladrões, + || Que nos roubam a bolsa e a vida! (bis) + || Nova aurora de Paz, Redempção, + || Vá doirar nossos valles e cerros, +PROPAGANDA ELEIÇOEIRA || Libertando os captivos dos ferros, + DO BLOCO PREDIAL || Dando aos pobres a luz e o pão. + ---------------- || +(Musica--A MARSELHEZA) || Avante! Lusitanos! + || Largae a servidão! + || Unir! Unir! contra os tyramnos, + || Salvemos a Nação! + || Avante Lusitanos, + || Salvemos a Nação. + || + || + || Tareco. + + + +E o folheto «Os Barbadões»[11]: + + + «O rei D. João I da gloriosa dynastia de Aviz, enamorou-se da filha + de Pero Esteves, sapateiro alemtejano, conhecido pela alcunha _O + Barbadão_; d'estes amores nasceu um filho que foi conde de + Barcellos e primeiro duque de Bragança; casando este com uma filha + do condestavel Nun'Alvares, deu origem á nobre casa que ha 267 + annos reina em Portugal. + + A casa de Bragança foi-se engrandecendo á custa de doações regias, + bens nacionaes que os reis cediam em usufructo apenas, e que o + capricho do soberano ou a conveniencia do Estado, podiam fazer + voltar ao seu legitimo proprietário: *A Nação*. + + Não foram os serviços relevantes que engrandeceram esta casa, mas + as intrigas continuas, salientando-se entre todas a que levou o + glorioso infante D. Pedro á chacina de Alfarrobeira. + + Com a revolução de 1640 que libertou Portugal do jugo da Espanha, o + oitavo duque de Bragança foi aclamado rei com o nome de João IV; + beato e poltrão liga-se aos jesuitas, e para salvar a pelle e o + titulo de rei, não hesita em negociar por intermedio do padre + Antonio Vieira (jesuita) a entrega do seu paiz á França, ou + novamente á Espanha, a troco de o reconhecerem como rei do Brazil; + a sua pessoa era tudo, o seu paiz era nada. Os melhores servidores + do Estado foram lançados em prisões ou conduzidos ao cadafalso (o + ministro Lucena, o marquez de Montalvão, Mathias d'Albuquerque + vencedor de Montijo, etc.). O seu reinado foi coroado pelo presente + que fez á Inglaterra, como dote de sua irmã, das cidades de Bombaim + e Tanger, ricas flores de laranjeira que a infante portugueza levou + prezas ao seu vestido de noiva! + + Seu filho _Afonso VI_ que no throno lhe sucedeu, corria de noite as + ruas da cidade, com a sua purria fidalga, assaltando os cidadãos + indefezos; era doido, e d'isso se aproveita seu irmão _Pedro II_ + para lhe tirar a corôa e... a mulher, com o consentimento do papa; + este (Pedro II) dominado pelos jesuitas tambem, desterra o conde de + Castello Melhor, glorioso ministro (que por tres vezes salvou + Portugal da dominação espanhola), e celebra com a Inglaterra o + vergonhoso tratado de Methwen, que nos tira o comercio do Oriente e + nos impossibilita de montar fabricas e oficinas. + + *João V* que lhe sucede, gasta o oiro que do Brazil lhe vem, na + construção de conventos, em festas de egreja e em presentes ao + padre santo; deixa perder sem enviar socorros, as nossas colonias + da India, Ceylão e Oceania, porque o dinheiro era pouco para + presentear as freiras de quem fez amantes e o papa de quem se fez + lacaio. + + *José I* faz morrer no cadafalso toda a familia Tavora, por meio de + horriveis tormentos, com o pretexto de serem cumplices na + conspiração do duque de Aveiro, o que se não provou, sendo a causa + verdadeira a oposição que essa familia fazia aos seus amores + adulteros com a marqueza; nada escapou ao seu furor sanguinario: + nem velhos, nem mulheres, nem creanças. Para dignamente coroar o + seu reinado, abandona aos mouros as cidades que possuiamos em + Marrocos, e que tanto sangue portuguez custaram. + + [Figura: _Teixeira de Sousa._] + + *Maria I* tira o poder ao Marquez de Pombal, entrega-o aos frades e + endoidece; seu filho _João VI_ que em seu nome governou e lhe + sucedeu, foge covardemente para o Brazil abandonando o povo de que + era rei, quando os francezes invadiram o paiz; Junot entra em + Lisboa á frente de 70 soldados!!! Portugal revolta-se contra os + francezes, e o rei entrega-o aos desprezos de Wellington e ás + brutalidades de Beresford; os inglezes protegendo-nos, fazem-nos + peor mal que os invasores: arrazam as nossas provincias, queimam as + nossas fabricas, conquistam a Madeira, e impõem-nos os vergonhosos + tratados de 1810, ainda peores que o de Methwen. O general Gomes + Freire, por tentar libertar o paiz das garras inglezas, é enforcado + em S. Julião da Barra; outros 17 martires pagam com a vida, no + Campo de Sant'Anna, a sua dedicação patriotica. A revolução popular + de 1820 salva Portugal do leopardo britanico, obriga o rei a voltar + ao seu posto e liberta o exercito do oprobrio de ser comandado por + oficiaes inglezes. + + *D. Miguel* foi quem primeiro estabeleceu em Portugal um governo de + força, á semelhança do que desejam actualmente alguns idiotas + barriguistas; nada lhe faltava: as alçadas, as forcas, o cacete, + 80.000 homens de tropa e um povo fanatico e imbecil; contra si, em + todo o paiz, apenas tinha alguns liberaes desarmados; o seu retrato + figurava nos altares, e as mães pediam-lhe a honra de lhes + desflorar as filhas. Prende, enforca ou manda fuzilar toda a gente + de que suspeita, mas com toda a sua força, deixa que uma esquadra + estrangeira lhe escarre na cara e no Paiz, sem que um só tiro + partisse a repelir a afronta. Este idolo poderoso cahe do seu + pedestal de sangue, é corrido do throno pela _revolução_ + triumphante; seu numeroso exercito pouco a pouco o foi abandonando, + vindo para o lado do povo liberal, e o bronco tigre que ao começar + a guerra civil tinha 80.000 homens ás suas ordens, perde a batalha + de Asseiceira com os 5.000 homens unicos que até esse momento lhe + ficaram fieis. + + *Pedro IV*, o que tem estatua no Rocio, revolta o Brazil contra + Portugal, faz-se seu imperador e manda fuzilar no Rio de Janeiro os + soldados portuguezes á traição; corrido do Brazil, volta a Portugal + a tentar fortuna, dirigindo a guerra civil contra o irmão; emquanto + esta se não decide a seu favor, não tem vergonha de offerecer á + Inglaterra, em troca de auxilio desta, o pouco que nos restava do + nosso imperio indiano. + + *Maria II* para se aguentar no throno chama marujos inglezes e + 30:000 soldados de Espanha; faz invadir a sua patria e assassinar o + seu povo, para satisfação do seu orgulho de rainha _liberal_. + + *Pedro V* não poude passar sem irmãs de caridade, e deixa que + mansamente de novo se estabeleçam entre nós as congregações + religiosas; novamente, um almirante estrangeiro (Lavaud) nos faz o + mesmo que Roussin fizera em tempo de D. Miguel. + + *Luiz I* arvora o cynismo em governo e faz reinar a bandalheira; + deixa que na conferencia de Berlim nos roubem a maior parte do + nosso territorio Africano, e conduz o paiz á bancarrota que estala + pouco tempo depois da subida ao throno de seu filho _Carlos_. Este, + esbofeteado pela Inglaterra, curva-se rasteiramente, chama + piolheira á nação que lhe paga, e... rouba-a; rouba-lhe o seu + dinheiro e rouba-lhe a liberdade; no seu reinado perdemos vastos + territorios nas nossas colonias de Moçambique, Angola e Guiné. O + seu ultimo ministro João Franco, que queria pôr tudo isto no _xão_ + atirou com elle ao chão. Seu filho _Manuel II_ que lhe succedeu, + com sua bella e radiosa mocidade, já deu a seu povo uma explendida + amostra do muito amor que lhe tem: a chacina de 5 de abril (14 + mortos e 100 feridos!); em troca o seu primeiro ministerio entendeu + que o povo lhe devia dar mais ordenado; ainda não roubou como o + papá, mas paga-se melhor; passa a sua vida de rozario na mão, + envergando a roupêta de jezuita, seguindo os conselhos das fraldas + femeninas reaccionario-palatinas. + + Até hoje 14 reis da casa de Bragança teem governado o Paiz, e como + se vê são os legitimos representantes duma nação de idiotas, + barriguistas e poltrões; tambem não resta duvida que esta dynastia + é, como tem sido, a mais solida garantia da integridade do nosso + imperio ultramarino. Grandes são os beneficios que a Nação lhe + deve: uma divida colossal de *oitocentos mil contos*, nenhumas + industrias, nenhum commercio, uma agricultura atrazadissima, um + povo tuberculoso e analphabeto, esmagado com impostos á mercê dos + pontapés estrangeiros; nem exercito nem marinha; estradas ao + abandono e bufos com fartura, taes são as fontes de riqueza que os + Braganças nos deixam, e tudo isto por pouco dinheiro, baratinho: + *365 contos* por anno só para elle, mais *60 contos* para a mamã, + *outros 60* para a vóvó e *16* para o titi; tem tambem para + alfinetes *160 contos* a mais por anno que o generoso Amaral lhe + deu, pagamos tambem á sua guarda real de archeiros, á orchestra da + sua real Camara, e ao seu yacht, e como isto é pouco, damos-lhe + dinheiro pela honra que nos faz em alojar os seus cavallos e carros + nas nossas casas e pela licença que nos deu de utilisarmos em + serviço do Estado os nossos palacios; tudo isto, bem entendido, + nada tem com os rendimentos da casa de Bragança que disfructa. + Quando casar, se S. M. nos der essa felicidade, dar-lhe-hemos mais + *60 contos* para os alfinetes de sua esposa; e se tiver meninos? + então morreremos de alegria e daremos *20 contos* annuaes por cada + pimpolho. + + Como veem, não é pagar cara a certeza que temos de ganhar o reino + do ceu pela mão do nosso radioso soberano, com a benção de Pio X, + as indulgencias de Merry del Val e as preces solemnes do sr. + patriarcha e do reverendo bispo de Beja. + + * * * * * + + Oliveira Martins, que foi ministro de D. Carlos, diz na sua + historia de Portugal: Força é reconhecer que na familia dos + Braganças não vingou a semente da nobre raça dos Nun'Alvares; + viu-se em todos elles a descendencia do crasso sangue alemtejano da + filha do _Barbadão_. + + * * * * * + + *Portuguezes!* façamos votos pela conservação d'esta gloriosa + dynastia--*Oremos*--*Padre Nosso*--*Ave-Maria*. + + + Junho--1910. + + +Fui hoje a casa do Fernando Martins de Carvalho consultal-o. Não sae +ainda com medo aos republicanos. É pequeno, inteligente, arguto. Está +livido. + +--A rainha D. Amelia é que quiz forçosamente que o ministerio João +Franco fôsse abaixo e até se opunha a que se lavrassem os decretos como +habitualmente. + +--E o rei? + +--O rei, como dizia o Totenbach, não é um homem... Oh, vivemos dias +horriveis! Olhe, tenho provas moraes absolutas de que os republicanos +quizeram assassinar o João Franco, quando elle viesse de Carnide no +automovel. Ha na estrada uma azinhaga: de repente uma carroça surgia, +fazia parar o automovel e os assassinos cahiam-lhe em cima... + + + Julho--1910. + + +Do João de Menezes: + +--Possuo documentos (que hão-de aparecer a seu tempo) e que provam que +foi a rainha D. Amelia, d'acordo com a condessa de Paris e a duqueza de +Monpensier, quem introduziu as ordens religiosas no paiz. Foram ellas +que deram dinheiro para jornaes e o resto. + + * * * * * + +A dissidencia, o assassinato do rei, o caso do Credito Predial, foram +golpes profundos e certeiros vibrados na monarchia. Está efectivamente +tudo minado... E os ataques dos republicanos ao juiz de instrução +criminal demonstram que elle lhes tocou na ferida... Mas quem ha ahi que +se queira comprometer a serio pela monarchia, sobretudo depois do +exemplo de João Franco?--A um ministro foi preciso escrever-lhe uma +ordem necessaria «porque a mão lhe tremia...» O que resta de pé não +passa de ficção. Quem manda, quem governa, mesmo na oposição, são os +republicanos, que o Alpoim leva pela mão até ás questões importantes.--O +exercito é nosso.--E o João Chagas, para convencer um oficial incredulo, +manda desfilar certa noite no Rocio os soldados d'um regimento, que, por +senha, um a um lhe fazem todos a continencia. Sucedem-se os governos, +mas a força é outra, que se sente por traz do scenario... O José +d'Azevedo desafia-os:--Venham para a rua!--Fiado em quê? O pacto de Vila +Viçosa efectivamente existe?[12] Já o João Franco dizia tambem com +arrogancia:--Se podem fazer a republica façam-na depressa, porque d'aqui +a dois annos garanto-lhes que a não fazem.--Mas será este rei um +chefe?--pergunta necessaria e decisiva, a que os proprios monarchicos +respondem d'esta forma n'_O Liberal_: + + + «O rei de Portugal está exautorado, está reduzido a uma chancella + de quem lhe bate os pés. + + «Podia ser um rei, e é um simulacro da realeza. + + «Em tempo algum se curvaram os reis perante ameaças de qualquer + natureza e ainda menos, quando tendentes a esquecer os nossos + protestos e juramentos a que está ligada a propria dignidade e a + honra de uma nação. + + «Póde asseverar-se que o snr. D. Manuel não chegou a ser rei. No + momento em que se esqueceu do que devia á sua dignidade de nós + todos, *que lhe confiamos um cargo, que é incapaz de conservar sem + o deixar cair, o snr. D. Manuel deixou de ser rei*». + + +A excitação politica não tem diminuido, e o Teixeira de Souza, no poder, +ignora tudo que o juiz d'instrucção repete a quem o quer ouvir:--Estamos +sobre um vulcão!--A audacia dos republicanos todos os dias +augmenta:--Lisboa é nossa!--exclama o Chagas.--Se os republicanos +fizessem um comicio ao alto da Avenida e viessem por ali abaixo, a +republica estava feita!--afirma o Silva Graça--E o Porto e a +provincia?--pergunto eu ao Chagas.--Que me importa a provincia! Que +importa mesmo o Porto! A republica fazemol-a depois pelo +telegrapho.--Outro diz-me:--A marinha está toda comnosco. Tem havido +ocasiões em que a esquadrilha do Algarve nos pertence desde o oficial +mais graduado até ao ultimo fogueiro. O dificil tem sido +contel-os...--Todos os dias corre um boato e a agitação popular augmenta +pela carestia da vida[13]. Que vae sahir d'aqui? Uma grande revolução, o +terror, mortes?...--Não, soceguem, quando se fizer a republica--já o +anunciou ha annos o pontifice maximo Guerra Junqueiro--o que se ha-de +ouvir não é um grande ruido de espadas, é um grande ruido de talheres... + + + + +A SOCIEDADE ELEGANTE + + +Rodeiam a rainha o Figueiró e a Figueiró, e algumas relações intimas da +Figueiró e Sabugosa; e o rei o Ficalho, alguns velhos em oficio na +côrte, como o marquez d'Alvito, o conde de Villa Nova de Cerveira, que, +ao que se disse, morreu por ser preterido pelo conde de Sabugosa, por +influencia da rainha--o que é redondamente falso: D. Pedro de Noronha, +vulgo o Paço d'Arcos, morreu de velho. Era um homem sem cultura, e tinha +oitenta e seis annos quando foi preciso nomear novo mordomo mór por +morte do Ficalho. Acompanham o rei no yacht o Fernando de Serpa, o +Manuel Figueira, o Pinto Basto (Nico), o Malaquias de Lemos, o Queiroz, +que passou por ser a alma danada do paço; e que na realidade tinha um +certo geito para disciplinar soldados, montar a cavallo, dirigir esperas +de touros--e mais nada; algumas vezes o major Santos, feitor da +Bacalhôa, e o Soveral que, quando estava em Lisboa, era o menino bonito +da corte, onde tinham influencia o Bernardo Pindella, o Caldeira, +comandante do yacht, e poucos mais. + +A seguir ao paço podem citar-se os Palmellas, em casa de quem se dava +beijamão aos creados e ás creadas, se isto não é uma lenda como muitas +outras... Era uma pequena corte. Ella, a duqueza, viveu sempre entre +coisas bellas; elle, o duque, era um apagado guarda livros[14]. Só +recebiam raros parentes, e a duqueza toda a vida detestou os Sousa +Holstein. No tempo de D. Luiz ainda muita gente nobre mantinha uma +grande linha, que se foi pouco a pouco apagando: os Penafieis que então +fizeram uma vida brilhante; o marquez de Vianna cujo palacio se vendeu +ao marquez da Praia.--Aquella gente nem sabe acender um lustre, dizia o +velho marquez ao falar d'«esses morgadotes da ilha...» Os condes de +Lumiares davam bellas festas no palacio quasi pegado, onde é hoje o do +Marquez da Fóz. Abriam-se as janellas, apagavam-se os milhares de +lustres e continuava-se a conversa ate á missa das almas na capella +proxima. + +Chamavam-se essas festas «rosas divinas». Debutou ahi, nas salas de +Lisboa, o snr. Luiz de Soveral. No rez do chão do mesmo palacio davam +pequenas partidas os Castellos Melhor. Tocava o seu amigo Bomtempo e +juntavam-se alguns politicos, entre os quaes o Manuel Vaz Preto. No fim +do reinado de D. Luiz já a maior parte dos palacios de Lisboa ou tinham +sido alugados ou mudado de dono. No palacio de Tancos estava o colegio +do dr. Sicuro; nos dos viscondes de Asseca instalou-se o visconde de +Ouguella e depois uma fabrica; o dos condes de Murça transformou-se +n'uma escola; o do marquez de Abrantes--que ocupava apenas um +recanto--foi alugado pela legação da França; o dos condes Barão, no +largo do mesmo nome, passou a uma familia de judeus, barão de Villa de +Foscôa; o dos Almadas Carvalhaes, senhores d'Ilhavo, á Empreza Editora; +no do conde da Ribeira, de quem o rei dizia que era o homem mais honesto +do seu tempo, e que morava na casa dos Mordomos, instalou-se o colegio +Arriaga. Já os Angejas, representados pelo conde de Peniche, tinham +deixado o palacio de S. Lazaro, que depois ardeu, e o visconde de +Sampaio mudára para a rua de S. Vicente. Os condes Valladares e Povolide +haviam vendido ao snr. Burnay o palacio das Portas de Santo Antão e +retirado para a provincia. O palacio dos condes de Paraty é hoje escola +municipal, no dos condes da Ponte, á Boa Morte, habitou o general +Palmeirim, e no dos condes de Farrobo móra o snr. Monteiro Milhões, que +tambem comprou as Laranjeiras, vendidas depois successivamente até +cahirem nas mãos do snr. conde de Burnay. O palacio dos Castellos Melhor +passou ás mãos do marquez da Fóz, que alli deu algumas festas +sumptuosas. Mas a mais brilhante, a que deixou grande impressão na gente +da epoca, foi o celebre baile das Chagas, na antiga residencia, antes de +mudar para o palacio da Avenida. N'esse baile se exhibiram todas as +preciosidades que o marquez adquirira--quadros, baixelas Germain, etc. +Romperam-se os tectos da sala de baile, para se construir uma galeria +onde tocaram os musicos, acompanhados pelo côro de S. Carlos. Ahi +começou tambem o marquez a arruinar-se. Gastou, gastou... Só as grades +de ferro do corrimão do palacio da Avenida custaram noventa e cinco +contos. O marquez chegou a ter cem contos de renda. + +Muitas outras familias ilustres ocupavam, retiradas da vida mundana, os +seus palacios: o conde de Alcaçovas, na rua da Cruz dos Poiaes, o +marquez de Pombal na rua Formosa, os marquezes de Penalva, etc. Os +condes de Sabugosa, n'uma residencia que o conde tornou encantadora, +recebiam ainda com brilho. Na rua Formosa existia tambem o salão da +snr.^a D. Maria Kruz Brito, que no seu genero foi o unico comparavel aos +salões da Restauração e 2.^o Imperio, de Paris. Sua filha, a senhora +condessa de Ficalho, no solarengo palacio dos Mellos de Serpa, aos +Caetanos, reunia a fina flor da elegancia em certos dias da semana +(segundas-feiras). É o palacio ainda hoje ocupado pela senhora D. Maria +de Mello, condessa de Ficalho. O destruido e inhabitavel palacio da +Rosa, solar dos viscondes de Villa Nova de Cerveira, marquezes de Ponte +de Lima, resurgiu pelos esforços do actual marquez de Castello Melhor, +visconde da Varzea pelo seu casamento com a herdeira das casas Castello +Melhor e Ponte de Lima, e alli se deram e dão esplendidas festas. + + +Citam-se como as mulheres mais lindas d'essa epoca--fim do reinado de D. +Luiz e principio de D. Carlos--a duqueza de Palmella, a condessa de +Penamacôr, a condessa de Ficalho, a condessa de Villa Real e Mello, e a +formosissima D. Anna de Sousa Coutinho, filha do Conde de Linhares, +portanto neta da Senhora Infanta D. Anna de Jesus Maria, dama da rainha, +e pelo espirito, pelo talento, a condessa de Rio Maior (mãe), a marqueza +sua nora, filha dos marquezes de Bemposta Sub-Serra (Saint Leger) e +tantas outras sumidas ou desaparecidas no turbilhão da vida. + +Uns pobres, outros mortos, outros arredados, deram logar a esta +sociedade mais mesclada, a gente de dinheiro, a gente que enriquece, +alguns nobres de mistura, alguns fidalgotes feitos á ultima hora, e a +uma certa roda que se diverte, citada nos jornaes, e que constitue em +toda a parte o que se chama a sociedade elegante. Uma senhora de +espirito dividia a sociedade portugueza em aristocracia, _smart set_, +alto pirismo (pirismo, é claro, vem de Pires), baixo pirismo e povo. +«Esta ideia veio-me--diz ella--d'uma visita que recebemos um dia e que +muito nos impressionou: num grupo d'automobilistas do Monte Estoril +nossos conhecidos, tinha vindo a F..., aquelle sitio apartado á +beira-mar, onde já o nosso pae costumava passar o verão, uma menina da +boa sociedade de Cascaes. Essa menina, dizia minha irmã cheia de +extranhêza, que nunca tinha vindo áquella casa, esteve durante toda a +tarde exclusivamente a namorar um dos taes automobilistas, e nem antes +nem depois nem nunca, esboçou para com os donos da casa um leve sorriso +de agradecimento! Porquê n'uma menina tão fina tanto «falta de chá!...»? +Porquê, entre ellas, e as meninas finas nossas conhecidas com mais +intimidade, tamanha diferença?... Foi assim por comparações +estabelecidas e deduções tiradas, que concluimos em dividir as classes +da sociedade actual em aristocracia, _smart set_, _alto pirismo_, _baixo +pirismo_ e povo. + +É inutil explicar o que se entende por aristocracia e povo. Cada uma +dessas classes, no seu extremo oposto, está suficientemente definida por +sua propria natureza. _Baixo pirismo_ é nome novo para a baixa +burguezia, classe de que tanto, com tanta graça, e tanta verdade, se +ocupou Gervasio Lobato. _Alto pirismo_... alto pirismo, somos nós, por +exemplo, as manas da descoberta, muito bem acompanhadas por todas as +nossas amigas e por quasi todos os nossos conhecimentos, mais ou menos +endinheirados (ha de tudo!) de maior ou menor bom gosto e cultura. +Classe numerosissima, em que está incluida toda a boa gente que cuida de +ser bem educadinha e agradavel e que trata de sustentar, por um +alevantado valor civico--que muitas vezes é inconsciente...!--as regras, +os preconceitos, as convenções, de que uma sociedade bem organisada não +pode prescindir. + +Ha alguns grupos no alto pirismo, muitissimo agradaveis--se n'elle +incluimos tanta gente!...--em que se cultiva ainda a boa conversa, em +que, sem sombra de pedantismo, se discutem livros, ideias, arte, e em +que ninguem sente saudades de jogar o bridge. Mas ha outros grupos, em +que nas festas os homens não estão na mesma sala em que estão as +senhoras, festas em que só dança, e pouco, a gente muito nova, e em que +as meninas, nada interessantes, mas com aquelle ar de timidez e de +recato, que tanto agrada aos portuguezes á volta d'uma viagem pelo +extrangeiro, namoram pelos processos archaicos, sob os olhares mais ou +menos adormecidos da mamã. Festas essas em que, a alturas tantas, nós, +com a certeza absoluta de que o relogio está parado, começamos a sentir +verdadeiro odio pelas begonias artificiaes--ainda se encontram!--que +ornamentam a étagère, e que cresceram em leque de dentro d'uma especie +de musgo sêco, muito mal imitado; festas em que só pela muita fôrça da +boa educação recebida nos obrigamos a trocar umas palavras vazias de +interesse por uma contorsão dificil e dolorosa do corpo, com a senhora +gorda que está sentada no _borne_ atraz de nós! (Tambem ainda se +encontram muitos _bornes_!!) + +São estes grupos do alto pirismo, é preciso dizer a verdade toda, que +nos enchem precocemente a cabeça de cabelos brancos. + +A _smart set_ (cá está a tal menina que apareceu na F...) foi certamente +organizada em Cascaes. Deve ter nascido na Parada...--e foi fundada +provavelmente por um pequeno grupo de aristocratas neurasthenicos e +comodistas, aos quaes logo, muito contentes, se agregaram por +facilidades de convivencia e porque os souberam imitar, alguns membros +do alto pirismo. Hoje é uma classe bastante numerosa e certamente a mais +_chic_. Distingue-se das outras por varias coisas; por exemplo: desprezo +absoluto pela prudente instituição do «chaperon» (esses entreteem-se com +o bluff)--desprezo absoluto pelas boas maneiras, pela cortezia corrente +(só se cumprimentam as pessoas que passem perto e essas mesmas com +marcada indiferença)--ignorancia completa das regras da gramatica (isso +seria «falar dificil»!) e da orthographia. Cultivam só o corpo +diplomatico e a religião; vestem bem, jogam muito, dançam muito e bem, e +flirtam na perfeição. Votaram ao ostracismo algumas palavras que nós +dizemos e que são _pessidonias_ como: chavena, trem, pharmacia, carnaval +etc. etc. etc. Tratam-se todos por «você»; alguns teem muita _piada_ e +usam todos um ar muito _chateado_. (É da praxe, o calão.) A _smart_ +diverte-se... mas não sabe sorrir». + +Esta sociedade, que anda todos os dias nos jornaes, vem do alto até +baixo, da aristocracia ao povo, forma uma lista infindavel, tem um +chronista celebre, o snr. Luiz Trigueiros, e pode ser vista ás tardes no +_Dia_ e de manhã no _Diario Nacional_. Dessa lista destaca outro +informador algumas senhoras: Branca de Gonta Colaço, poetisa distincta, +voz de ouro, herdada do pae, bonita a valer e sempre apaixonada pelo +marido, o artista Jorge Colaço; Magdalena Trigueiros de Martel Patricio, +pequenina, vivissima compleição d'artista, gostos aristocraticos, +fazendo versos em francês e d'uma alegria comunicativa; Elisa Baptista +de Sousa Pedroso, pianista eximia, sempre em concertos, em recitas de +caridade, em festas que dá em sua casa e onde reune uma sociedade +mesclada de artistas, diplomatas, aristocratas e politicos; Sarah da +Motta Vieira Marques, voz rica e sciencia no cantar, só rivalisando com +a sciencia de receber: o seu salão pode considerar-se um dos poucos +refugios dos ultimos dez annos, no dizer dos seus amigos; Adelaide +Coelho da Cunha, esposa do director do _Diario de Noticias_, grande +organisadora de festas, no seu palacio a S. Vicente de Fora, festas +dramaticas d'uma grande riqueza de apresentação e mise-en-scêne; a +malograda Ada Weinstin, a esposa do conhecido banqueiro, recitando +maravilhosamente, vestindo com suprema distincção, bonita, elegante, +cheia de _charme_; Candida da Nova Kendall, formosura triumphante, que +passou pela sociedade lisboeta como um meteoro louro, cantou como um +rouxinol, e voou para terras da Santa Cruz, sua patria: ella a bem dizer +tinha duas patrias: Bahia-Paris; Alda Decken Lino, figurinha de madona, +de bandós negros e olhos transparentes, mulher do architecto Raul Lino; +Maria Emilia Macieira Lino, cantora e organisadora de soirées artisticas +com representações de autos de Gil Vicente; Alice Munró dos Anjos, dando +festas na sua casa da Praça dos Restauradores, onde se dança +alegremente, presididas pelas suas filhas, a linda condessa de Arnoso e +a simpathica condessa de S. Lourenço; Luzia Patricio de Balsemão, grande +linha de elegancia, certa em todas as premiéres; Irene Gilman, filha de +Thomaz Ribeiro, loura, inteligente, maliciosa e dançando +maravilhosamente; Christina Rezende da Silva, d'uma belleza e elegancia +patricias; Elisa Baerlein; Conceição de Carvalho, filha de Mariano, +organisadora de festas artisticas, para que escrevia peças, em casa de +seus sogros os Viscondes de Carnaxide, bonita e intelligente; Zulmira +Franco Teixeira, pequenina, d'uma requintada elegancia, fazendo versos, +como sua irmã a condessa de Almeida Araujo, etc. etc. + + * * * * * + +A sociedade lisboeta tinha dois pontos principaes de contacto--Cascaes e +o theatro de S. Carlos. Era ahi que os ricos, ou os que aparentavam, +procuravam impor-se a certa roda, que dificilmente os recebia. + + +De 1880 para cá as emprezas succedem-se em S. Carlos como os ministerios +progressistas e regenerador e Valdez disputa com Freitas Brito a vinda a +Lisboa das grandes celebridades. Se Valdez traz Masini, Patti, Devriés, +Vidal, Castel Mary, Devoyod, Cotogni, a tragica Ristori, a Regina +Pacini, Novelli, de Bassini, que passou por amante d'uma rainha (vêr +Fialho), os irmãos Andrades, etc.; Freitas Brito apresenta Varesi, +Gayarre, Rapp, irmãos De Reskée, Navarrini, Tetrazzini, Theodorini, +Gabrielesco, Nevada, Kaschmann, Sarah Bernhard, Marini, Ristori, +Salvini, Rossi, Desreins, Sherie, Belincioni, Ferrani Darclée, Tamagno, +Borghi Mamo (Herminia), baritono Aldighieri, Pandolfini, Saloni, Arkel, +maestro Gula, Delman, tenor De Marchi, Morconi, Sarasate, e tantos +outros. Os partidarios de Freitas Brito pateavam sempre na epoca de +Valdez, os de Valdez na epoca de Freitas Brito--o que não os impedia de +se juntarem em jantares semanaes, a que assistiam os dois emprezarios... +A estas duas emprezas segue Paccini, que faz fortuna. Foi n'essa epoca +que S. Carlos se transformou n'um grande salão. Vem a Lisboa os reis e +presidentes de republicas. O numero de recitas augmenta, a assignatura +augmenta. Paccini dá cincoenta recitas de assignatura, vinte e quatro +extraordinarias e doze extraordinarissimas, a que o publico chama dos +_Sebastiões_, e no palco desfilam Belincioni, Krucinisky, De Lerma, +Renaud, Tita Ruffo, Lassalle, etc., etc. Segue-se Anahory, com a +carruagem, o charuto, Wagner--e o desastre. + +Ahi está todo o mundo literario e elegante, nos camarotes ou na plateia, +toda a Lisboa como se diz nos jornaes: Carlos de Freitas Jacome, antigo +diletanti, e que se julgava pae da Patti, Freitas Rego, o Principe +Negro, conquistador irresistivel, D. Luiz da Camara, o conde de +Mesquitella e Antonio de Brito, que formavam um grupo, de que Bordallo +fez tres medalhões para distribuir pelos assignantes de S. Carlos; +Joaquim Pessoa, do _Diario de Noticias_, apaixonado da Baresi; José +Saragga, critico do _Jornal do Commercio_; o phantastico Eduardo Cheira; +Mr. Garaty e mulher, assignantes chronicos de S. Carlos, elle muito +baixo, ella muito alta; dr. Patrocinio, professor de mathematica, com +uma paixão assolapada pela cantora Pasqua; Antonio da Costa e Silva, um +dos mais elegantes rapazes de Lisboa; Alfredo Anjos, enamorado da +Devriés, e que na noite do seu beneficio lhe mandou compor um +deslumbrante jardim natural para o 3.^o acto do Fausto; Francisco da +Fonseca Benevides e esposa, o auctor da «Historia do Theatro de +S.Carlos» (recitas impares n'uma frisa, recitas pares n'uma torrinha), +Freitas Branco, Silva Canellas, Jayme Arthur da Costa Pinto, que foi +director da sociedade lyrica que se fundou em S. Carlos com o Paccini +pae; Motta Marques, que casou com a cantora Meccoci; May Figueira, o +exotico marquez de Franco e Silva Carvalho, todos tres adoradores do +corpo de baile; Custodio Borja, José Bacellar e Ottolini da Veiga, com +mania de canto e voz de _basso_--e que, d'uma vez, corrido pelo publico, +a quem fizera um manguito, fugiu no comboio para o Porto, ainda vestido +de frade, com o fraque enfiado por cima--Eduardo Cordeiro e Augusto +Ribeiro, enorme e sempre com muitos calos; Dantas Baracho; Eduardo +Tavares; Espregueira e mulher n'uma frisa; José Martinho da Silva +Guimarães; o Guerra, pae das meninas Guerras; o barão da Regaleira, +Antonio Duarte da Cruz Pinto, Agostinho Franco, José d'Alpoim, Rufino +d'Almeida, o padeiro gordissimo de S. Carlos, etc., etc. e n'uma +torrinha, que ficou na tradição, a 115, o Antonio Manuel Teixeira, +depois secretario de S. Luiz de Braga, o Luiz Campeão e o Oliveira, +chamado das _cautelas_ de _25_: era d'ahi que partiam sempre os aplausos +ou as pateadas monumentaes. + +Nos camarotes e nas frizas as lindas sobrinhas do marquês de Franco, +Falcarreras; a lindissima baroneza da Regaleira; e a mais bella mulher +de todos os tempos, já velha e sempre decotada, a duqueza de Avila e +Boiama; Espregueira, que foi a primeira que se apresentou com vestidos +sem hombros, ostentando magnificos collares de brilhantes; Moreira +Marques; a condessa de Figueiró; a condessa de Taveira, acompanhada pelo +marido, sempre de casaca com botões amarellos; a condessa d'Edla, o +gentilissimo pagem do _Baile de Mascaras_,--da cantora a rainha--; +Poitier, loira ideal, que casou com o filho de Monteiro Milhões; a +duqueza de Palmella; a condessa de Alferrarede; a condessa de Alverca; a +viscondessa de Idanha, e a de S. Luiz de Braga etc. etc. e no camarote +de bocca de 3.^a ordem n.^o 70--esta Lisboa foi sempre monumental!--a +Antonia Moreno com as suas espanholas, pilar do estado, necessario e +decerto muito mais util que a Junta de Credito Publico. Essa mulher +acabou deixando por testamenteiro Frederico Arouca, que repudiou a +fortuna que ella lhe legou, e depois de passar para alguns camarotes +brazonados de fresco uma ou outra das suas mais lindas pupilas... + + +«Cascaes, com a adjacencia dos Estoris,--diz-me um frequentador--era a +côrte na intimidade, em robe-de-chambre, mais faceis as relações, mais +accessiveis e amaveis, tu cá, tu lá. Quasi tudo gente do rei, que ia +para lá cedo, por meiados de setembro, cansados de Cintra onde D. Carlos +raro pernoitava, fugindo, a pretexto de tudo e de nada, á convivencia da +rainha e da Figueiró. A separação do rei e da rainha, segundo me +informaram, porviera de certa dama, que lançou entre elles a sizania. +Conheci-a ainda linda e elegante, um pouco roliça, de olhos aveludados e +labios vermelhos: nos ultimos annos engordára, e banalisara-se. Tinha a +furia do dominio, e rodeava-a uma côrte de gente em que ella mandava e +da qual fazia parte um diplomata mais tarde em evidencia. Passava por +ter relações anormaes com a rainha... O marido pouco esperto, só tinha +como ideal ser ministro plenipotenciario e par do reino. + +Em Cascaes, a rainha não se vulagrizava. Saía a cavalo emquanto poude +montar. Tinha varizes nas pernas,--informou um dia o D. Afonso. No meu +tempo não passeava de barco, passeava de carruagem, descendo ás vezes +para andar a pé. Dava as suas recepções á tarde, principalmente em +vespera de festa, para serem apresentadas pessoas que desejavam ir aos +bailes, e que em Cascaes mais facilmente obtinham o convite e a +apresentação preliminar indispensavel, que o conde da Ribeira, quando +estava de serviço, facilitava extraordinariamente. A Figueiró voltava +para Cintra logo que acabava serviço. + +O D. Carlos fazia vida hygienica de madrugador, tirava photographias, +pintava ligeiramente algumas marinhas, _sentindo_ o mar. Logo de manhã, +saía de carro ou a cavalo, com chuva ou com sol (demorava-se até meiados +de novembro em Cascaes), ou ia á procura de senhoras que elle perseguia. +Tivera, pelo menos um anno, n'uma vila do Mont'Estoril, uma amante, mas +isso não o dispensava de querer que o julgassem homem de boas fortunas. +Escrevia a miudo a outras damas, em caligraphia disfarçada, cartas em +prosa e verso á mistura, quasi sempre em francez. Eram muito tolas. Vi +algumas e podia ter guardado uma, que rasguei. Serviam-no dois +alcoviteiros ilustres, que o faziam encontrado com as mulheres que lhe +agradavam. Outro chegou a dar um baile, para que o rei conhecesse uma +senhora da burguezia media atraz de quem andou annos. + +Iam ao Sporting Club, mais conhecido pela Parada, jogar o tennis. Não +havia escolha nos pareceiros. O almirante Capelo, o explorador, ficava +com o sobretudo do rei no braço, emquanto elle jogava. D. Carlos era um +timido, falava pouco, nunca olhava de frente: seus pequenos olhos claros +evitavam sempre os dos outros. + +A Parada era a capital do reino de Cascaes. Ahi se reunia a flor da +aristocracia e o ingresso não era facil, como socio. Só nos ultimos +tempos é que o Tompson, a quem chamavam moço fidalgo, facilitou a +entrada. Aos domingos davam-se salsifrés á noite, e todos os annos um +grande baile, a que assistia o rei, que distribuia os parceiros e +dançava uma contradança. A rainha, se ia, não se demorava. Nos dias de +semana, poucas pessoas lá estavam, preferindo os casinos á beira-mar, +principalmente o Estoril. + +O rei, todas as tardes, ia para a Boca do Inferno e quedava-se ali, se +encontrava algumas senhoras que o interessassem. Por isso chegaram a +chamar ao D. Carlos o _balão cativo_... + +O rei mal recebia os ministros, de que se desfazia logo que lhe era +possivel. Não se demoravam em Cascaes, não os convidava para assistir, +sequer, ás partidas. Teve d'uma vez, como hospede, o Soveral. Não lhe +conheci nenhum outro. + +O D. Afonso ia cedo para o Monte Estoril, para a vila sobre o mar, que +ali possuia a mãe. Descia a praia, com uma grande simplicidade de +maneiras. Falava pouco, era bom rapaz, e a maior manifestação +intelectual que lhe conheci foi anti-clerical. Vestia-se sumariamente: +uma camisola azul, casaco e calça da mesma côr e bonet. Assim andava, de +manhã até á noite. Ás vezes ia ao mar, e os barqueiros gostavam d'elle. +Nunca tinha vintem. Os ajudantes ou oficiaes ás ordens não lhe +emprestavam dinheiro, porque sabiam que elle não lhes pagava. + +Não era dado a senhoras--preferia as outras... Certa condessa é que +conseguiu ser amante d'elle, porque conhecia todas as maneiras de +conquistar um homem. Deu um baile para que convidou o infante e a fina +flôr. O marido estava encantado. Nenhuma moral em nenhum d'elles. Elle +era muito cioso da sua nobreza e gostava de parecer. Ella queria gozar a +vida. O A... que foi seu amante, contou-me que em Madrid ella dissera +d'uma vez ao marido, que não tinha um ceitil quando casou: «Tu, para +chulo, és caro de mais!» + +Em Cascaes era dificil chegar a vias de facto com uma mulher. Meio +pequeno, coscovilheiro, maldoso, maldizente. Não se falava senão nesta +ou naquella, em escandalos, repetindo-se os ditos de ouvido para ouvido +ou acentuando-se as infamias. A M... foi apanhada no pinhal dos Olivaes +n'uma atitude equivoca... A S... faz namoro descarado ao rei... Mas as +coisas arranjavam-se para Lisboa. Vinham ao dentista, ás compras, etc. A +forçada e grande intimidade estabelecida, de manhã na praia, á tarde na +Boca do Inferno, onde toda a gente ia, apezar do vento e da poeira, na +Parada ou á boquinha da noite no passeio Maria Pia, junto á cidadela, +onde ás vezes fazia uma ventania infernal, á noite nos casinos, ou +nalguma partida de bridge, a vida quasi em comum e os namoros travados, +o ar do mar que desiquilibra os nervos e torna os amores exigentes, +fizeram tecer muitas aventuras escandalosas. Um ainda fugiu a tempo com +a mulher, que já madura, esteve em vesperas de cair... Nunca mais voltou +a Cascaes. + +As ceias nos bailes eram pugnas. Vi isso até no Paço. Uma descendente de +D. João IV, vi-a eu agarrar-se a um bufete, com unhas e dentes. Em +certas casas, as ceias nunca chegavam. Uma madrugada, num baile do M..., +chegou a iniciar-se a lucta... A alta sociedade era, em regra, pelintra. +As grandes familias tinham gasto as fortunas, e muitas não queriam, ou +não podiam, dar bailes. Só tinham dividas. Não era possivel deixar d'ir +a S. Carlos e de satisfazer outras exigencias. Havia-os com actrizes com +dezasseis annos de assignatura... Fóra o Palmella e poucos mais, não +recebiam porque de todo não podiam. E, se o faziam, era sem-cerimonia. +Não havia dinheiro! não havia dinheiro! + +Descaiam muito os fidalgos, mas obstinavam-se sempre em _parecer_. Um +oficial jogador e pae de uma serie de filhos, mandava a miudo incomodar +D. Carlos... Todos os seus famulos lhe extorquiam dinheiro, quanto +podiam. Choravam, punham-se de joelhos, contavam-lhe miserias reaes ou +falsas. Tive, em Cascaes, semanas uma arca com prata para fugir a uma +penhora iminente... Um grande fidalgo, no fim de algum tempo, despediu +os creados--mas nunca pagou a nenhum. Outro chegou a não ter que jantar, +porque o mercieiro não lhe fiava, ninguem lhe fiava, mas bebia todos os +dias garrafas de champagne. + +Havia mancebias antigas e tão respeitaveis, como o casamento, assim, por +exemplo, F... e F... Já ninguem convidava uma sem o outro. + +Quer que lhe fale tambem da gente que fingia de nobre, da burguezia +vaidosa e que fazia mexerico para ser convidada? A mulher d'um grande +industrial conseguiu entrar na casa d'um fidalgo, onde ia toda a gente, +da grande e da baixa. Convidou-a para jantar, para o theatro e andava +contente como um cuco. Um dia não a convidou mais. Chorou. Isto foi-me +afirmado por uma amiga que o viu. Era uma dama, muito linda, com um +soberbo colo, mas com o cerebro d'uma arara...» + +Ahi fica o quadro levemente esboçado por um frequentador de Cascaes. +Tudo isto é frivolo e tragico. Lembremo-nos que d'esta maledicencia, dos +ditos d'estas boccas que sorriem, da ninharia e do encanto, se gerou +parte da athmosphera donde devia sahir o descredito da rainha e o +assassinato do rei. + + + + +O MUNDO POLITICO + + + Novembro--1918. + + +Os acontecimentos dos ultimos reinados afiguraram-se-me sempre faltos de +logica e de nexo. Estão talvez muito perto de nós ainda: precisam de +perspectiva que os coloque nos seus devidos logares. Só o historiador +poderá crear mais tarde, com documentos e memorias, e certa aparencia de +verdade, o romance da nossa vida. Nós, por ora não sabemos nada, nem +mesmo dar resposta plausivel ás perguntas que nos obsidiam... Porque +foi, por exemplo, morto D. Carlos? É fora de duvida que até os +monarchicos receberam com alegria a sua morte. «Não vi lagrimas»--diz +Julio de Vilhena. Eu avanço mais: só vi aplausos. E no entanto já hoje +se pode afirmar sem erro que D. Carlos não foi morto pelos seus +defeitos, mas pelas suas qualidades. Respirou-se! respirou-se!--o que +não impede que, a cada anno que passa, esta figura cresça, a ponto de me +parecer um dos maiores reis da sua dinastia. Já redobra de proporções e +não se tira do horizonte da nossa consciencia. O rei tinha na verdade +defeitos, mas--diga-se! diga-se!--não foram os seus defeitos que o +mataram, foram as suas qualidades. Só o assassinaram quando elle tomou a +serio o seu papel de reinar, e quando, com João Franco, quiz realisar +dentro da monarchia o sonho de Portugal Maior. Foi esse o momento em +que, talvez pela primeira vez na historia, os monarchicos aplaudiram um +crime que os deixava sem chefe, e se abriram de par em par as portas das +prisões, congraçando-se todos os politicos sobre os corpos ainda mornos +dos dois desventurados. + + +O D. Luiz pôde ir até ao fim do seu reinado, porque elle proprio o +disse--«um principe é um dissimulador». Mas D. Carlos é que não foi +nunca um dissimulador. D. Carlos desprezava os politicos. Dizia:--Tu +ouvel-os falar? Se lesses as cartas que me escrevem enchias-te de +nojo.--Essas cartas existem... Na verdade toda a gente dizia mal da +politica e desprezava os politicos: só elle os não podia desprezar. É +authentico tambem que no seu desdem chegou a envolver o paiz. Toda a +gente, desde o literato ao homem rude, dizia mal do paiz. Tempo houve em +que foi moda dizel-o. Só elle não devia dizer mal do paiz. Realmente +pediu muito dinheiro aos politicos, mas os politicos pediram muito mais +dinheiro á nação, dando cabo d'elle com as suas clientelas. E ninguem +lhes tomou nunca contas: todos morreram honrados. Hintze passou por ser +um homem integro. José Luciano tambem. Pessoalmente decerto, mas com o +que ambos elles esbanjaram reconstruia-se o paiz de alto a baixo. O +partido regenerador tinha tal fama que se dizia em Lisboa: «quem não é +regenerador é ladrão de si mesmo». Na realidade não havia a esse +tempo--porque hoje tudo mudou de figura--senão um partido em Portugal +capaz de sacrificios, o partido republicano: os outros, para me servir +da phrase tão justa de Homem Christo, eram apenas «quadrilhas +politicas». Ser politico em Portugal foi a mais rendosa de todas as +industrias. «Logo que chega ao poder um chefe de partido não pensa senão +em explorar o paiz em proveito das suas clientellas. O Estado é a preza +dos politicos... Se eu podesse encontrar um homem integro que podesse +modificar tudo isto dar-lhe-hia todo o meu apoio». + +Parecia que o proprio paiz na verdade só queria comer:--Pedem tudo! +pedem as maiores poucas vergonhas!--exclamava o Alpoim; e o dr. Antonio +Cabral escrevia: + + + «No tempo da monarquia essa mesma maioria acomodaticia e + pedinchona, só conhecia o caminho dos ministérios para ir + importunar os secretarios de Estado com solicitações de empregos, + de benesses, de estradas, de favores, até de escandalos. Não ia + levar aos ministros uma ideia, um plano, a lembrança de um + beneficio para o país. Ia procurar interesses, buscar comodidades, + exigir condescendencias, sem se lembrar de que tudo isso custava, + muitas vezes, dinheiro ao Tesouro Publico e só causava prejuizos á + nação. + + Depois, quando a tempestade bramia e as moscas varejeiras zumbiam + em tôrno da montureira politica, essa mesma maioria, de larga guela + e incomensuravel ventre, era a primeira a gritar contra as + imoralidades que provocara, contra os atropelos da lei que + impuzera, contra os êrros de administração que imperiosamente + reclamara! Para essa maioria prudente... e de muito comer, os + culpados de tudo--criminosos execrandos!--eram o Rei, os ministros, + os deputados, todos, emfim, que tinham na mão as rédeas da + governação publica. Ella, a maioria exigente e dificil de + contentar, era inocente e de tudo lavava as mãos. + + Ella, a maioria composta dos influentes, dos caciques, dos + compadres, dos despoticos senhores do país, que hoje se encolhem, + transidos de pavor, e então barafustavam do alto do seu pedestal de + mandões; ella, a maioria que ordenava, que dispunha de votos, que + sabia impôr-se com arrogancia--ella, de nada era culpada e escondia + o rosto púdico na alva clamide de vitima dos maus politicos!... + + Veiu, por fim, a queda no abismo, em que se evidenciou a traição de + muitos e a incompetencia de tantos. A _maioria dos portugueses_, se + não delirou de contentamento, remeteu-se ao cómodo e discreto + silencio em que se comprazem os covardes e os maus cidadãos, para + só os interromper com murmurios de reprovação, soprados nos centros + de conversa contra os politicos... que ella empurrára para o mau + caminho e ajudara a despenhar no precipicio. + + Oh! a maioria dos bons cidadãos de larga pança!...» + + +Hintze e José Luciano tinham-se congraçado no reinado de D. Carlos, e só +elles podiam tudo, só d'elles dependiam lugares, favores, vaidades e +interesses. Antonio Cabral está certo que foi pelos seus meritos--que +não são poucos--que chegou a ministro?... Ai de quem lhes desagradasse. +Ao irrequieto Fuschini entretiveram-no com as obras da Sé para o +arredarem da politica; ao José Dias Ferreira, que foi dos raros homens +de governo comezinho do seu tempo, nem sequer o ouviam nas camaras. Toda +a gente lhe voltava as costas quando falava. Sabia-se que o Paço o +detestava. O José Luciano e o Hintze sucederam-se, d'acordo, no governo +do paiz e no governo do Credito Predial, com identico sucesso! + +Ambos elles eram pessoalmente muito boas pessoas, ambos elles tiveram um +fraco extraordinario pelos tratantes. O Hintze, o _homem que não ri_, o +_casaca de ferro_, era um homem um pouco cansado e com um lindo sorriso +para toda a gente:--Pois sim, pois sim...--Trato encantador. Nas camaras +era vel-o! Ninguem apresentava assim as questões: tinha tudo catalogado, +arrumado, disposto, e os papeis saltavam-lhe da carteira por arte +magica. O José Luciano, mais bonacheirão e ao mesmo tempo mais caustico, +conhecia como poucos os homens que lhe tinham passado em fita pelo salão +da sua casa, com as suas vaidades, as suas miserias, os seus rancores e +os seus vicios, e tocava-lhes sempre no ponto fraco. Pessoalmente +honesto,--quem o duvida?--mas tendo cada vez mais imperiosa a +necessidade de satisfazer clientelas cada vez mais sofregas--ambos +acabaram de corromper o paiz, já meio corrompido, até á medula. Importa +pouco que o snr. D. Luiz de Castro diga: «Hintze vendeu todo o seu +patrimonio e o de sua mulher para servir o reino e o rei» (_Dia_, +fevereiro, 1917). Sim, mas Hintze distribuiu a rodos o dinheiro da +nação, principalmente depois da scisão João Franco, e colocou toda a +gente a começar pelos seus[15]. + +Não resistiu. Delapidou, principalmente depois da scisão João Franco, +sem conta nem pezo nem medida. Anselmo Vieira diz: «José Maria dos +Santos entregou á viuva do Hintze, no dia do enterro, 21 contos de +lettras vencidas. Ora a questão do alcool entre o norte e o sul foi +sempre adiada pelo Hintze, o que fez ganhar 300 contos ao José Maria dos +Santos.» Na sua phrase pitoresca a politica portugueza estava condemnada +porque era um regimen de validos e _badamecos_. E cita este e aquelle e +aquelloutro, que, na sua opinião, e todos juntos, não valiam um +estadista. O Hintze não resolvia um problema, arredava-o, e as +complicações augmentavam sempre; se tinha a escolher entre dez homens, +escolhia sempre o peor... O honradissimo capitão Machado, duro como o +silex, chegou a par, porque, quando atacavam o José Luciano na camara +alta, dizia sempre:--Viessem elles cá para os deputados e quem os +ensinava era eu.--O pobre monsenhor inutil, que se chamou Santos Viegas, +achou outro _truc_ para o Hintze o elevar á mesma cathegoria: quando o +chefe do partido regenerador falava, cahia n'um assombro, de que não +havia arrancal-o!...--«Chegaram a ministros seres destituidos de todo o +miolo. O honradissimo Pequito, santissima creatura, foi um dia para uma +comissão, a que o José Dias presidia, com o Contracto dos Tabacos, que +elle só tinha assignado e mais nada. Havia um artigo redigido de forma +que cincoenta milhões de francos ficavam encobertos, para se poderem +pagar as dividas da Casa Real. José Dias pediu explicações, o outro +embrulhou-se, José Dias insistiu, o outro ficou de bocca aberta, com +cara de pasmo--até que o velho rabula lhe disse com soberano +desprezo:--Comprehendo, comprehendo... o snr. ministro da fazenda +precisa de ouvir os seus colegas para depois responder...--Se o José +Dias tem deixado passar aquella trapalhada talvez D. Carlos não tivesse +sido assassinado.» + +A politica portugueza chegára a estar apenas nas mãos e dependente da +vontade dos chefes. O José Luciano dizia:--O meu partido não é que me +leva ao poder--sou eu que levo o meu partido ao poder. Dois homens e +clientelas. Alguem se filiou jamais n'um destes partidos por principio, +por ideal? ou foi por interesses, e, mais simplesmente, por simpathias +pessoaes? + +E assim a força desses dois homens chegára tambem a ser ficticia:--não +provinha do paiz--provinha do rei... As camaras mero scenario; os +discursos, as atitudes, theatraes: o que havia a decidir não se decidia +alli. Tudo estava resolvido, preparado de antemão, nos salões, nas ante +camaras, nos gabinetes ou nos corredores, entre os chefes. O resto era +um espectaculo com as suas regras e os seus figurantes, absolutamente +inutil--absolutamente falso--absolutamente fóra de toda a realidade... + + * * * * * + +As camaras... Por lá passou Junqueiro, que de lá sahiu um dia +dizendo:--Vão áquella parte--; por lá passou o grande, o pobre João de +Deus, que nunca poude abrir a bocca, e outros homens ilustres. De lá +sahiu Fuschini, que se foi embora fazendo-lhes um manguito, quando +Arroyo n'uma sessão celebre lhe disse:--Ajoelhe a meus pés!--Oliveira +Martins, exhausto de trabalho; o romantico Chagas, cujas ultimas +palavras foram estas:--A vida é uma comedia.--Já não os ouvi, mas vi e +ouvi ainda o pachydermico Antonio d'Azevedo Castello Branco, o esguio e +taciturno Beirão, sempre alheado, o grande orador Antonio Candido, o +canarim Elvino de Brito, que manejava a palavra como quem maneja um +florete, e que o Hintze tratava d'alto, o anecdotico Baracho, cujos +discursos não tinham fim, o Campos Henriques, _lyrio pendente_, o +theatral Arroyo, o José d'Azevedo, o Eduardo Villaça tão amavel para +todos, tão afavel que ficou para sempre o Villacinha, o Chanceleiros, +com a sua grande gaforina branca, o severo e taciturno Dias Costa, que +morreu de desgosto, tendo cumprido o seu dever como um soldado, a +nobilissima figura do conde de Arnoso, que vejo sempre diante de mim, +bradando por justiça, e que acabou envolto em treva, jungido á sua dor, +o Jacintho Candido, um pouco apagado, mas resistente e teimoso, o João +Franco, o decorativo Wenceslau de Lima, o Pimentel Pinto, do alto dos +seus tacões, o Albano de Mello, tão admirador do José Luciano que chegou +a ponto de se parecer com elle na atitude, na voz e até no rosto, e, na +outra camara, a um lado o pitoresco conego José Dias, apopletico e +jovial, lá das bandas de Monsão, o torrencial Oliveira Mattos, que, a +primeira vez que falou, fez rebentar os cós das calças ao Chagas, que +perguntava entre spasmos de riso:--Mas quem é este homem? onde foram +buscar este homem?--e a quem ouço ainda invectivando o ministro da +guerra:--Heroe de Trajouce! heroe de Trajouce!--os Cabraes, um polido e +soturno, que o Hintze estimava, o outro, Antonio, de bigodes assanhados, +como um galo de combate; o José d'Alpoim, impulsivo, terrivel na +replica; o João Pinto dos Santos, um sistema de philosophia para cada +caso futil do dia, já branco, de punhos solidos, e sempre o mesmo +aprumo, a mesma linha, a mesma conducta; o Moreirinha, o Centeno, e o +juiz Francisco Medeiros que pouco antes de morrer (estou a ouvil-o) me +disse assim:--Tenho pena de não ter roubado como os outros...--E, diante +do meu espanto, concluiu:--Quando morrer deixo a minha filha pobre e os +outros estão ricos.--E a outro lado, o elegante, o frivolo conde de Paçô +Vieira, o lustroso conde de Castro Solla, o Anselmo Vieira, sempre a +debater finanças, sempre á espera das grandes ocasiões, sempre esquecido +á ultima hora na lista do ministerio, o estrabico Dias Ferreira, falando +baixinho para dois fieis que lhe restavam; o Matoso dos Santos, sempre +enfronhado em algarismos, o Sergio de Castro, o D. Alberto Bramão e +outros jornalistas da _Tarde_, o Schwalbach aparecendo, desaparecendo, +atarefado, e tantos outros sumidos lá para o fundo na obscuridade e no +silencio. + +Juntem a este mundo o mundo dos jornaes, os meios politicos onde tudo se +comenta e desfigura, e o mundo financeiro, com alguns tipos que é +necessario anotar rapidamente: primeiro os Mosers e o Foz, predominando +com o Mariano, a casa Torlades e outros grupos; a casa Burnay e o +impenetravel Jonh, e, nos ultimos tempos da monarchia, a casa +Wernestein, Alfredo da Silva e a casa alemã Ernest George. Entre essas +figuras conheci uma d'um alto pitoresco: Gomes Netto, sem instrucção, +mas d'um grande senso pratico. Não raro o encontravam em mangas de +camisa no seu escriptorio. Escrevia em largos quartos de papel e depois +dizia:--Ponham-lhe lá a gramatica!--Acabou já velho e amoroso, fazendo +todos os dias compras de legumes e peixe, na Praça da Figueira, que +depois ia distribuir de _coupé_ por casa das amantes, pescada aqui, +pescada alli... Juntem a isto as redacções dos jornaes, em forja rubra a +certas horas da tarde ou da noite, os ditos, as noticias espalhadas, a +côrte ao senhor conselheiro... Era peor o que se dizia do que o que se +fazia... Era o descredito lançado sobre tudo e todos, a tal ponto que um +dia, mais tarde, quando um juiz monarchico (Paçô Vieira) foi despachado +para a provincia, o delegado disse-lhe muito a serio:--Mas como queria +V. Ex.^a que se sustentasse um regimen em que as filhas do José Luciano +eram apalpadeiras da alfandega com cem mil reis por mez?--Nos comicios +asseverava-se que a rainha D. Amelia comprava no estrangeiro vestidos +por vinte e quatro contos. Peor, peor... Depois da republica o Eduardo +Villaça encontrou-se com João Chagas em Paris e perguntou-lhe com +ironia:--Então esses famosos inqueritos da republica, com que fizeram +tanto espalhafato, não deram nada?--Ao que o outro, lépido, +respondeu:--Vocês que querem? Tanto se acusaram de ladrões uns aos +outros, que a gente acreditou... + + * * * * * + +--Um homem! um homem!--reclamava o D. Carlos. Um momento de hesitação e +de duvida na sua vida... Dois caminhos na frente: um commodo e largo, de +transigencias faceis, o outro perigoso mas util para o seu paiz. +Decidiu-se pelo peor. Ia jogar a vida. + +Elle era, como toda a gente, um mixto de qualidades e defeitos... Ha +homens que se nos afiguram d'uma só peça. Desconfiem d'elles: andam +mascarados... Timidez e orgulho. Todos dizem:--Era encantador.--Todos +estão de acordo n'este ponto: ninguem o podia aturar. Um oficial +afirma:--Tratava os politicos como lacaios, tratava a gente do povo com +extrema bondade.--Um dia escreveu um bilhete nas costas do Hintze, que +se curvou para lhe servir de secretária; outro dia, já a cavalo para uma +ferra de touros, atirou com a capa a um velho general seu +servidor:--Guarda lá isso!--D'outra vez dispoz o ministerio á chuva para +lhe tirar o retrato. Tratava-os com desdem. Sacrificou sempre os homens +que se lhe dedicaram, o Martins e o Mousinho, por exemplo. O Carlos Lobo +d'Avila tinha-lhe dado uma formula que o lisonjeou e o deitou a perder. +Era um valente. Escrevia cartas anonimas á mulher. Media tudo pela mesma +bitola--e, se o deixam viver, tinha sido um dos maiores reis da sua +dinastia. Acabou á bala, quando ia matal-o o figado: comia e bebia +enormemente e pezava-lhe em cima esta tara: era filho d'uma histerica e +d'um sifilitico. Este mixto, n'um homem inteligente como elle, só tem +uma explicação: timidez e orgulho--timidez e orgulho... + +Efectivamente resolver-se a luctar contra os interesses dos partidos e +dos homens, desencadear paixões, era lançar-se n'um combate de que não +podia esperar senão contrariedades e a morte. Salientaram-lhe logo todos +os defeitos. Tudo que se fazia de mau era sempre o rei que o fazia. +Obscureceram-lhe de proposito as qualidades. Esqueceram que D. Carlos +colocara o paiz n'uma situação externa admiravel, e que os dois ou tres +actos de homem d'estado do seu tempo lhe pertencem, como a unica acção +grande da republica pertence a Bernardino Machado, que conseguiu levar +as tropas portuguezas para a frente europeia--quando os inglezes +reclamavam apenas o nosso esforço em Africa[16]. As viagens a Paris, a +Berlim, a Londres corôam o anno de 1895. A aliança ingleza é um facto. +Veem a Lisboa os grandes chefes d'estado. Vae começar uma grande época. +Aponta a Africa a uma pleiade brilhante de oficiaes, que elle proprio +incita, comprehendendo que o grande Portugal é outro, e que esta facha +de terreno, com um clima agricola horrivel, só pode ser uma vinha e um +logar de repouso e prazer. De lá, d'esse novo Brazil--dos extensos +planaltos d'Angola, que duas vezes por anno produzem trigo--tem de nos +vir o oiro e o pão. O resto é visão de pequenos estadistas de trazer por +casa. Só elle concebe e incita. Só elle fala e sonha n'um Portugal +maior, n'um Portugal esplendido. O plano estabelecido e iniciado, +fecha-se com um ponto culminante: o tratado de commercio com o Brazil, +que D. Carlos teve realisado, e que, ao que parece, tarde, dificilmente, +ou jamais, se conseguirá. Foi este homem que assassinaram como ladrão a +uma esquina de Lisboa... + + +Porque foi morto, afinal, o rei?... Um velho philosopho meu amigo +traduziu um dia toda a ancia contemporanea n'aquella grande phrase, que +não me canso de repetir:--Nós tambem queremos comer...--Sómente para ser +justo e completo, a uma verdade devia juntar outra verdade:--E não +cabemos todos! + +Não, os partidos não cabiam todos, não podiam caber todos, e estavam +completamente desacreditados. A grande força de João Franco foi, na +realidade, de protesto. E quem falhou, diga-se já, não foi o rei, foi +João Franco; quem não esteve á altura do seu papel, não foi D. Carlos, +foi o dictador. João Franco tinha atraz de si um partido pouco numeroso +(as clientellas haviam de vir...), mas resistente, tenaz, entusiastico. +Os franquistas de hontem são ainda hoje franquistas. Não perdem a fé, e +nem agora nem nunca despegam um olho do Fundão, embora lancem o outro, +com prazer, ironia ou desdem, sobre o ridente panorama da vida... É +preciso que realmente esse homem disponha de qualidades excepcionais +para conseguir tal poder de dominação. Era um impulsivo: grande fraqueza +e grande força. Procurava os obstaculos para os dominar e gastou uma +energia desmedida a resolver ninharias. Em Lisboa dizia-se com +espanto:--Este homem só levanta carrapatas!--Ora caçava no seu terreno, +ora no terreno dos republicanos. Homem d'estado, ia talvez ter ocasião +de o mostrar--depois da morte do rei. Ahi é que era vel-o!... Valente e +calmo foi-o decerto. Vi-o eu n'uma ocasião grave da sua vida. Os +republicanos (Ribeira Brava, talvez) tinham obtido a sua prisão logo +depois do cinco d'outubro. De Cintra levaram-no para um gabinete da +Boa-Hora. Cá fóra o França Borges, refestelado n'uma poltrona, gosava a +sua vingança e o seu triumpho, separado do cacifro por uma porta +escancarada. O juiz Meirelles e um delegado de pera ruiva e gravatinha +vermelha, vinham de quando em quando trocar não sei que impressões com +elle. Pela porta aberta vi o João Franco de pé, sereno e palido: parecia +enorme, junto dos dois bonifrates. E quando o juiz lhe disse, acabado o +interrogatorio:--É talvez melhor sahir por outra porta, porque o povo +mata-o!...--o homem teimou, o homem cresceu dois palmos:--Eu só saio por +a porta por onde entrei.--Estava preso, obrigaram-o emfim a descer umas +escadinhas, a meter-se ás escondidas no automovel, que o esperava na +calçada que sobe quasi a pique para a Biblioteca, emquanto +alguem--juro-o--prevenia a furiosa onda popular, que correu aos gritos +de--morra! morra!--a esperal-o em baixo, á esquina. Um borborinho. Tiros +de pistola. Dois marinheiros apontaram as espingardas, defendendo o +automovel, que só a custo arrancou--emfim! emfim!--pela calçada +acima.--Morra o João Franco!...--E as vozes colericas gritavam:--Morra! +matem-no!...--Era este o homem, que, com o rei, estava em frente dos +partidos progressista, regenerador, dissidente e republicano. Os ataques +sucediam-se e agravavam-se. Os monarchicos, dificilmente sustidos pelos +chefes, ameaçavam ingressar no partido republicano, que todos os dias +ganhava em numero, cohesão e audacia. O proprio José Luciano perdia a +serenidade: + + + «Ha uma coisa que aos governos nunca deve esquecer, que a lição da + historia a cada instante repete: á revolução do alto, pode muito + bem suceder que responda a revolução de baixo». (_Correio da + Noite_, 14 de Maio de 1907). + + «O presidente do conselho blazona e conta com o auxilio, sem + duvida, poderoso e eficaz do Rei, e zomba da opinião publica, que + tanto pretendeu captar, antes de subir ao poder? Faz mal, porque + ha-de chegar e oxalá que chegue a tempo o momento em que El-Rei se + recorde das suas palavras de ha um anno: + + A responsabilidade do decreto, ainda que aparentemente só acto do + poder executivo, recahe mais uma vez sobre o Rei, a quem todos hão + de pedir a responsabilidade da sua assignatura». (_Correio da + Noite_, 15 de Maio de 1907). + + +E a 24 de Maio vociferava: «A monarchia precisa dos monarchicos... a +monarchia precisa dos monarchicos, mais do que estes precisam da +monarchia». Todos os dias novos boatos, todos os dias nova causa de +excitação. Barafunda, prisões, protestos. N'uma reunião celebre, por um +triz que os regeneradores não passam em massa para o campo republicano. +E o _Correio da Noite_, no acesso do delirio, apelava já para a +linguagem biblica: «O que tem ouvidos para ouvir ouça; o que tem olhos +para ver veja...» + + + «Do alto deve descer o exemplo, e quando as acções dos que governam + são de preversão e de crime, de corrupção e de suborno, de + desbarato dos dinheiros publicos e de abuso do poder, os actos dos + governados não podem ser de veneração e de paz, de obediencia e de + acatamento. + + ................................................................... + + Com torrentes de sangue se conquistou a alforria do povo, com + oceanos de lagrimas se lavou a mancha do absolutismo». (_Correio da + Noite_, 1 de Junho de 1907). + + +Que faziam os dissidentes, o mais avançado dos partidos monarchicos? Os +dissidentes conspiravam. As dissidencias anteriores, a do Mariano, a do +Navarro, tinham fracassado: a do Alpoim ia dar como resultado a +revolução.--Foi o senhor que fez a republica.--E elle dizia, com o olho +esperto a luzir:--Levei-os pela mão.--Julgando conquistar o poder, +perdeu-o para sempre. «Baralhou para dar», como aconselhava o Marçal +Pacheco--mas enganou-se no trunfo. Depois que se separou do José Luciano +nunca mais acertou, na phrase do Moreira d'Almeida... Era um grupo +tremendo: o João Pinto dos Santos, tenaz e resoluto como as armas; o +pratico Centeno, mola distendida sabe Deus até onde; o Queiroz Ribeiro, +o Pedro Martins; o sagacissimo Egas Moniz, a quem ninguem consegue ouvir +os passos--mas que toda a noite, todo o dia, roda nos meandros da +politica, conspirador e politico até á medula; o Moreira d'Almeida, +capaz de falar e de escrever um dia inteiro, sem um desfalecimento, +enfiando todas as formas e todos os estilos, de tal maneira que, muitas +vezes o Antonio Ennes ou o Alpoim duvidavam se os artigos, que elle +escrevia, lhes pertenciam, apanhando no ar as questões, e com um grupo +de amigos _a latere_, que conheciam a fundo as colonias e as finanças; +mais este e aquelle, e outras raizes lançadas ao acaso, e ligações no +Porto com um «mercante espertissimo», como nas discussões ouvi chamar a +Lima Junior. O chefe d'este grupo unido e compacto era extraordinario... +Agitação perpetua. Orador admiravel, sobretudo na réplica, em que perdia +a retorica e ficava incisivo e nu como uma espada. Um passo a mais e +seria um escriptor ilustre: não teve um momento de seu para rever as +provas. Com a paixão, a colera, o arrebatamento, um grande coração. +Nunca lhe conheci odios, e muitas vezes lhe ouvi defender até o seu +maior inimigo, o José Luciano. Ao proprio D. Manuel elle diz: «...O José +Luciano vale mais do que todos os progressistas e regeneradores juntos, +contando com elle proprio Alpoim ». (_Documentos politicos_). E quem +conheceu o Alpoim sabe que as notas que o rei escreveu são mais que +exactas, são phonographadas. É elle a falar d'este e d'aquelle, dos +amigos, dos inimigos--de Deus e do Diabo. Uma ambição do poder que o +leva arrastado, mais pela lucta em si, necessaria a um temperamento +excessivo, do que por vaidade ou vangloria. Principios poucos--meios +aquelles que os adversarios, a tenacidade e o rancor de José Luciano, +lhe deixavam. Acusaram-no de tudo--acusaram-no da morte de D. Carlos... +«Até disseram, Senhor, que fui eu que matei El-Rei D. Carlos!!!» +(_Documentos politicos_). Resistiu sempre; morreu a conspirar. Nos seus +ultimos annos não sei que tristeza o envolve... A figura parece maior, +as palavras simplificam-se-lhe, os sentimentos tambem. Engrandece. Raros +teriam, como elle teve, a sinceridade de escrever: «Na minha defeza, que +teve de ser espectaculosamente rude por vezes e d'uma acção subterranea +por outras, excessos cometi de que me penitenceio--mais do que se +imagina»... E repete e insiste: «Em muitos actos da minha vida de lucta, +por vezes injustamente combatido, tenho sido exagerado--e errei. De +muitas coisas estou repezo, e d'ellas hoje se admira a minha +inteligencia e peço perdão á minha propria consciencia e até aos +homens!» Quantos ha ahi capazes d'esta grandeza? Quantos--tendo todos +juntos concorrido para a morte de D. Carlos--o acusaram a elle só, com a +tinta do _Correio da Noite_ ainda fresca? + + + «Aqui d'El-Rei--se nos pode ouvir El-Rei--contra quem mandou + assassinar o povo de Lisboa.» (_Correio da Noite_, tarjado de + luto). «Aparecem hoje, segundo ameaças do governo e segundo as suas + notas oficiosas sempre irritantes á imprensa, decretos esmagadores. + Tanto peor para o Rei e para as Instituições. *As responsabilidades + d'esses decretos, ainda que aparentemente só do poder executivo + recairão mais uma vez sobre o Rei, a quem todos hão-de pedir a + responsabilidade da sua assignatura.* (_Correio da Noite_, 20 de + Junho de 1907). + + + * * * * * + +Quem reina agora em Portugal não é o senhor D. Manuel, é sua Magestade o +Mêdo. Que quadro para um Saint-Simon, que descrevesse os politicos e a +côrte, o que se diz e o que se adivinha, o que resalta dos _Documentos +politicos_, e o que se conserva na sombra como um baixo relevo de odios +e de interesses! Enredam, intrigam-se, perdem-se todos juntos. A +politica portugueza gira sobre este fulchro: «O José Luciano, não +podendo governar por se achar impossibilitado... e não querendo +substituir-se para não perder o comando de que é muito cioso»[17] +emprega até ao fim todos os esforços para inutilisar o Julio de Vilhena. +Só pela vã ambição de mandar? O velho é perspicaz e teimoso, o velho +conhece, como poucos, os homens e entende que só elle pode e sabe +governar. É teimosia e grandeza. Não abdica, não pode. Toda a vida foi +obedecido. Aferra-se. O que elle quer é ser o «Deus ex-machina da nossa +politica sem se mexer da sua _chaise-longue_». Que tipo! Governou +sempre, mandou sempre, conservou-se sempre lucido. E tanta serenidade, +que até no dia em que lhe assaltaram a casa dos Navegantes, é o unico +que não perde o sangue-frio, e, quando o querem esconder n'uma banheira, +teima em ficar na cadeira de rodas! Tem a logica do diabo e uma manha, +um conhecimento dos homens, a que os outros não chegam. Desde o +principio que todos se congregam para enfraquecer o partido regenerador. +«Isto--diz a velha rapoza--é uma lucta de politicos que se querem +inutilisar e desacreditar uns aos outros». É assim--e nenhum d'elles se +lembrou que só os republicanos lucravam. Até os franquistas. «Os +franquistas, por intermedio do Martins de Carvalho, forneceram aos +republicanos todos os elementos que poderam colligir para descredito dos +rotativos» (T. do Amaral ao rei). Até os nacionalistas. Entretanto o rei +ouve-os e toma notas... A sua vontade é acertar. Passa a vida a acertar, +o que não é bem a missão d'um chefe, mas a d'um relojoeiro. Não creio +que os homens se governem só pelo interesse ou pelo terror, como queria +Napoleão, mas creio que se não governam com pannos quentes, e que mais +vale tomar uma decisão má do que não tomar nenhuma. O povo, como o +soldado, precisa de sentir um chefe, e adivinha-o logo. Tudo no rei são +boas intenções. Mal ousa dar um passo, não se resolve nunca--e atraz +d'elle está a mãe, que quer educal-o para rei, mas que tem diante dos +olhos o quadro horroroso... Apezar d'isso é ella propria que o incita a +passear á luz do dia, como uma vez quando o trouxeram a galope, entre +uma escolta de cavalaria, do Rocio ao Paço... Arrisca-o. Procura +congraçar toda a gente. E odiada. A D. Maria Pia, histerica e +perdularia, agradou sempre: até os seus ditos se repetiam:--O senhor é +um merda!--ao D. Luiz, quando elle aceitou as imposições do Saldanha; +até os seus vestidos, a sua ostentação, a atmosphera de rainha +extravagante, que só sabia que existiam contos e patacos, os chapeus que +mandava vir de Paris, aos trinta e quarenta, em cada estação; até a sua +desordem elegante de histerica. Nem os jornaes republicanos a atacavam. +E quando foi para o exilio, já doida, com um pão debaixo do braço e uma +manta pela cabeça, só ella deixou saudades. Era a Rainha. A D. Amelia +não. Essa senhora, de quem alguem disse:--É um grande homem de +bem!--subiu todo o calvario da vida. Era religiosa--o que só a +honra--chamaram-lhe beata. Andou nos folhetins e nos pamphletos. Os seus +criados detestavam-na[18]. Ao passo que a rainha D. Maria Pia, falso +anjo de caridade, pouco fez com o seu espalhafato e foi adorada, a D. +Amelia, que combateu metodicamente a tuberculose, espalhando o bem a +mãos cheias, fundando a Assistencia Nacional, com os seus sanatorios e +dispensarios, as cozinhas economicas, o hospital do Rego, o Instituto de +Socorros a Naufragos, e contribuindo para a fundação do Instituto +Bacteriologico, etc., foi sempre odiada, calumniada, insultada. Nem +dentro de sua casa lhe era possivel conversar. Um dia, para falar em +segredo com um ministro, chamou-o para o meio da sala:--Aqui, porque +senão vem tudo amanhã no _Mundo_.--E vinha. Até o homem dos telephones +era carbonario... Estou em dizer que é o acaso que governa a vida: a +razão não é, com certeza. + +Ponham agora á roda d'estas figuras, os politicos e as paixões falando +cada vez mais alto. É o momento em que todos á uma querem ser chefes! +Querem ser chefes o Teixeira de Souza e o Alpoim, querem-no ser o +Wenceslau de Lima e o Campos Henriques, e até o pobre, o inculto +Pimentel Pinto, que Antonio Candido fez um dia ministro, tem um +deslumbramento e sonha na candidatura. Elle é «o Vilhena muito +afectuoso, muito lisongeiro e muito avido de poder»; elle é o Teixeira +de Souza, «todo agrado, comtanto que elle entre no governo n'uma +situação que não seja inferior á do Campos Henriques»--retrata-os o +Wenceslau, que é o unico que sobe, como um balão cheio de vento, no +conceito de quasi todos os politicos, que se reveem n'elle como n'um +espelho.--E o José Luciano teima: «O Vilhena está quasi abandonado pelos +seus marechaes». Todos á uma proclamam ao rei e ao mundo que esse homem +é incompetente.--É um homem de talento--afirma um ex-ministro +graduado--mas nunca vi incompetencia maior como politico.--Porquê? É o +que resta saber. Elle é dos poucos que sabe o que quer, que tem um plano +e que o apresenta (_Antes da Republica_)--é tambem o unico com +superioridade mental organisada. Pequeno, sempre pendurado no charuto, +conserva, até nas ocasiões criticas, serenidade e firmeza. Mas todos +concordam na sua inferioridade politica... + +Se só pelo triumpho é que se demonstra tino politico, como quer +alguem--na verdade Julio de Vilhena falhou completamente. Nem todos os +meios lhe serviam, e em Portugal não existem correntes de idéas ou de +principios que levem um homem ao poder. O que se chama opinião não se +pronuncia. Os chefes de partido são simples chefes de bando. O Paço é +que faz ou desfaz os politicos, ou outros meios obscuros, de que cada um +se pode servir, como no tempo de Luiz XIV. Escolheram-no para chefe +n'uma occasião em que nenhum dos outros o podia ser, mas atraz delle +estava a tenacidade do Teixeira de Souza, a politiquice de Campos +Henriques e a astucia de Wenceslau.--Esse sim, chame V. Magestade o +Wehceslau--diz o Alpoim.--O Wenceslau sim--concorda o José Luciano. Elle +é o homem do Paço e dos politicos. Começa a ser indispensavel. O outro +tropeço não lhes sae da frente. Era a occasião de governar quem +governasse, mas ao José Luciano só lhe convêm «governos mixtos em que +elle mande, ou que, pelo menos, ponham o cofre das graças á sua +disposição.» (P. Pinto). E todos ou quasi todos só pensam no Wenceslau, +que promete muito, que sorri a toda a gente, e que não tem nada lá +dentro. É o optimista necessario. Impõe-se pela parte decorativa, pela +boa educação, pela maneira como contenta o mundo. As vezes chega a +oferecer o governo a um, tendo-o já oferecido a outro... (J. de +Vilhena). Só o lunatico não entende... Elle bem protesta: «Quem o +conhece tem obrigação de saber que nunca foi um aventureiro ambicioso, +nem um intrigante ordinario, capaz de empregar processos menos correctos +para obter quaesquer posições». Mas foi exactamente isso que o perdeu! +Num paiz onde não ha opinião, não pode haver chefes de partido. Que +diferença entre elle e o Teixeira de Souza, espadaúdo e forte, +abundante, abrindo logo os braços a toda a gente:--Tu que queres, +filho?!--D'outro feitio era o Campos Henriques, procurador encartado do +norte, escrevendo a meio mundo e satisfazendo a outro meio (agua molle +em pedra dura...); d'outro feitio, emfim, era o palaciano Wenceslau de +Lima, o favorito, que censurava as cartas do rei e lhe escrevia os +borrões. Nenhum homem mais _souple_ nem mais agradavel, sempre a +mastigar e a sorrir. Está nas antecamaras quando o rei conferenceia, e +ha um momento em que só elle põe e dispõe, e em que aconselha ao +rei:--Chame-me a mim, para eu declinar!--E o rei chama-o. As duas +grandes figuras do reinado, vinham a ser o Wenceslau de Lima e o +Soveral. O proprio José Luciano estava condemnado... + +Tudo isto se passa sob o olhar ironico ou severo dos republicanos e +diante do phantasma da republica. Nem assim os interesses e as ambições +abdicam. Nunca, nem no inferno, abdicaram! Acima de tudo está o odio do +José Luciano, estão as paixões do Alpoim, que sonha no poder, e que na +manhã de 5 d'Outubro ainda dizia:--Agora, sufocada a revolução, o rei +não pode deixar de me chamar a mim...--Interesses e homens, tendo cada +um «a sua policia», como diz o Teixeira de Souza. E o rei no trono, no +palacio onde as paredes teem ouvidos, sempre a rabiscar papeis, +incitando-os ás vezes (J. de Vilhena), sem prever o mundo de coleras que +está para vir á superficie. Quando á noite se apanha só, abre a gaveta e +desata a escrever aquelle interminavel romance politico, que caminha a +galope para o remate da fuga e do exilio. E as vozes, cada vez mais +altas, obstinaram-se:--Não pode haver ordem nem tranquilidade com o +Alpoim no paiz--exclama um.--Elle é um espirito claro e nada mais! +protesta outro.--É uma cambada! A propria dissidencia que é? É um +inferno!--conclue o Alpoim.--É um idiota! O mal foi elegel-o para +chefe.--E o Teixeira do Amaral observa ácerca d'um grupo:--São +pescadores d'aguas turvas... + +Quem ha-de conter os homens e os acontecimentos? O rei? O rei escreve, +escreve sempre... O Credito Predial desaba:--Foi então que os burguezes, +vendo-se roubados, nos deixaram fazer a republica...--asseverou +Junqueiro. Ao poder sobe emfim o fatidico Teixeira de Souza. Os +acontecimentos precipitam-se. Atraz dos homens está uma força monstruosa +que parece empurral-os a todos--até ao rei, que, de quando em quando, +pára de escrever e sorri enlevado para os dois bonecos que tem em cima +da comoda, a caricatura d'um marinheiro inglez e a caricatura do +Soveral--e vae leval-os a todos, sob o olhar impassivel do destino, para +o desenlace fatal. + +Todos esses homens tinham defeitos. Alguns eram até ridiculos. Mas, +apezar de tudo, não ultrapassavam determinada linha, apegados a +preconceitos e a formulas, de que não havia arrancal-os... Vae o senhor +D. Manuel, não tarda, porque a monarchia ha-de voltar--tudo sucede +vertiginosamente n'este paiz--conhecer outros, com muito menos +escrupulos, que o hão-de encher de desgostos. V. Magestade verá. + + +FIM DO 1.^o VOLUME + + + + + +INDICES + + + + +LISTA DAS PESSOAS CITADAS NO 1.^o VOLUME + + + +A + +Abel d'Andrade +Abrantes (Marquez de) +Ada Weinstin +Adelaide Coelho da Cunha +Adrião de Seixas +Affonso Costa +Affonso (Infante D.) +Affonso VI +Affonso XII +Affonso XIII +Agostinho Franco +Albano de Mello +Albano da Fonseca (Coronel) +Alberto Bramão (D.) +Alberto Braga +Alberto Pimentel +Alberto d'Oliveira +Albuquerque (Alexandre) +Alcaçovas (Conde de) +Alda Decken Lino +Alexandre Herculano +Alferrarede (Condessa de) +Alexandre Cabral +Alfredo Anjos +Alfredo Costa +Alfredo da Silva +Alice Lawrence +Alice Munró +Alpoim +Almada Carvalhais +Almeida Araujo (Condessa de) +Alvito (Marquez de) +Ameal (Conde do) +Amelia (D.) +Anna de Sousa Coutinho (D.) +Angejas +Anibal Soares +Anjos (As) +Anna de Jesus +Antonio Azevedo +Antonio Bandeira +Antonio de Brito +Antonio Cabral +Antonio Candido +Antonio Centeno +Antonio Emilio +Antonio da Costa e Silva +Antonio D. da Cruz Pinto +Antonio Ennes +Antonio José d'Almeida +Antonio José de Freitas +Antonio Manuel Teixeira +Antonia Morena +Antonio Moreira da Camara Coutinho +Antonio Nobre +Angela Pinto +Anselmo Vieira +Antero +Armando Navarro +Arnaldo Fonseca +Arnoso (Conde de) +Arnoso (Condessa) +Arroyo (Antonio) +Arroyo (João) +Arthur de Mello +Asseca (Viscondes de) +Augusto Cymbron +Augusto Machado +Augusto Pina +Augusto Ribeiro +Avelino d'Almeida +Aveiro (Duque de) +Avila e Bolama (Duqueza de) +Avila (Conde de) +Ayres de Gouveia + + +B + +Baltar +Barão (Condes) +Barahona +Barbosa Colen +Barbosa du Bocage +Barjona +Barros Gomes +Batalha Reis +Bemposta Sub-Serra (Marquezes da) +Beirão +Bernard Lazare +Bernardino Machado +Bernardo Pindella +Bomtempo +Borges & Irmão +Bourbon de Menezes +Braamcamp +Branca de Gonta Colaço +Brazão +Brito Aranha +Brouillard (Madame) +Buiça +Bulhão Pato +Burnay + + +C + +Caldeira +Camillo +Campos Henriques +Candida da Nora Kendall +Candido dos Reis +Capelo (Almirante) +Cardia +Carlos (D.) +Carlos de Freitas Jacome +Carlos Lobo d'Avila +Carlos Mayer +Carlota Joaquina (Dr.) +Carnaxide (Visconde de) +Carneiro de Moura +Carracida +Carrilho +Casal Ribeiro (Conde de) +Castello-Melhor +Castilho +Castro Solla (Conde de) +Celso Herminio +Chancelleiros +Chapuy +Christina Rezende da Silva +Cipriano Jardim +Coelho de Carvalho +Columbano +Conceição de Carvalho +Correia de Barros +Correia d'Oliveira +Costa Pinto +Costa Santos +Croneau +Cunha e Costa +Curry Cabral +Custodio Borja + + +D + +Dantas Baracho +Delcassé +Dias Costa +Dreyfus +Duval Telles + + +E + +Eça de Queiroz +Eça Leal +Edla (Condessa de) +Eduardo Burnay +Eduardo Cheira +Eduardo Cordeiro +Eduardo de Sousa +Eduardo Pimenta +Eduardo Tavares +Eduardo VII +Egas Moniz +Elisa Baerlein +Elisa Baptista de Sousa Pedroso +Elvino de Brito +Emidio Navarro +Emilia Adelaide +Emilia das Neves +Ernest George +Espregueira +Eugenio de Castro + + +F + +Falcarreras +Fernandes Thomaz +Fernando (D.) +Fernando de Serpa +Fernando Martins de Carvalho +Ferreira d'Almeida +Ferreira do Amaral +Fialho +Ficalho (Conde de) +Ficalho (Condessa de) +Ficalho (Marquez de) +Fife (Duque de) +Figueiró (Conde de) +Figueiró (Condessa de) +Fonseca, Santos & Viana +Fontes +Foz (Marquez da) +França Borges +Francisco Figueira +Francisco Medeiros +Franco (Marquez de) +Francisco da Fonseca Benevides +Frederico Arouca +Frei +Freitas Branco +Freitas Brito +Freitas Rego +Fronteira (Marquez da) +Fumega (Major) +Fuschini + + +G + +Garrett +Garaty (Mr. e M.{me}) +Garrido +Guerra Junqueiro +Gervasio Lobato +Gomes dos Santos +Gomes Leal +Gomes Netto +Graça (Major) +Guilherme de Azevedo + + +H + +Heitor Ferreira +Henrique de Vasconcellos +Hintze Ribeiro + + +I + +Idanha (Viscondessa de) +Imperador do Brazil +Irene Gilman + + +J + +Jacintho Candido +Jayme Arthur da Costa Pinho +Jayme de Seguier +Jayme Victor +João d'Alarcão (D.) +João Barreira +João Chagas +João Chrisostomo +João da Camara (D.) +João de Deus +João de Deus Guimarães +João Franco +João Pinto dos Santos +João de Menezes +João VI (D.) +Joaquim da Boa Morte Alves de Moura +Joaquim Pessoa +John Burnay +Jorge Colaço +Jorge O'Neill +José d'Azevedo +José Bacellar +José Dias (conego) +José Dias Ferreira +José de Figueiredo +José Lobo +José Luciano +José Maria dos Santos +José Nunes +José Paulo Menano +José Reinach +José Saragga +Julio de Vilhena +Judeu +Judice Bicker +Julia Bordallo +Justino + + +L + +Latino Coelho +Leão XIII +Leitão (Ourives) +Lencastre de Menezes (General) +Lima Junior +Linhares (conde de) +Lopo Vaz +Loubet +Loulé (Duqueza de) +Luciano Monteiro +Lumiares (condes de) +Luiza Patricio de Balsemão +Luiz (D.) +Luiz da Camara (D.) +Luiz Campeão +Luiz de Castro (D.) +Luiz Fillipe (D.) +Luiz Osorio +Luiz Trigueiros + + +M + +Machado (capitão) +Malaquias de Lemos +Manuela Rey +Manuel (D.) +Manuel Bordallo Pinheiro +Manuel Figueira +Manuel Hintze Ribeiro +Manuel Ramos +Manuel Ribeiro Borges +Manuel Vaz Preto +Marçal Pacheço +Magdalena Trigueiros +Mardel +Maria 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Boaventura +S. Lourenço (condessa de) +S. Luiz de Braga (Viscondes de) +Silva Bastos +Silva Canellas +Silva Carvalho +Silva Graça +Silva Pinto +Silva Telles +Sousa Holstein +Sousa Martins +Soveral (Marquez de) + + +T + +Taborda +Tavares Festas +Taveira (condessa de) +Teixeira de Sousa +Teodoro d'Almeida +Theophilo Braga +Thomaz Ribeiro +Tompson +Torlades (casa) +Torre da Murta (Visconde da) +Totenbach +Trindade Coelho + + +U + +Urbano de Castro +Urbano Rodrigues + + +V + +Valbom +Valdez +Valença (conde de) +Val-Flôr (Marquez de) +Vallada (Marquez de) +Valladares (conde de) +Varzea (Visconde da) +Vasconcellos Porto +Vianna (Marquez de) +Vicente da Camara +Victor Hugo +Victoria (Rainha) +Vilaça +Villa de Fozcoa (Barão de) +Villa Nova de Cerveira (conde de) +Villa Real e Mello (condessa de) +Vimioso (conde de) + + +W + +Wenceslau de Lima +Wernestein + + +Z + +Zola +Zulmira Franco Teixeira + + + + + +INDICE DOS CAPITULOS + + + + Pags. + +Prefacio 9 +Algumas Figuras 27 +Pó da Estrada 93 +A Sociedade Elegante 267 +O Mundo Politico 289 + + + + + +INDICE DAS GRAVURAS + + + + Pags. + +Columbano, Auto--retrato 33 +Fialho d'Almeida 49 +D. João da Camara 57 +Eça de Queiroz 65 +Antonio Nobre no caixão 81 +Correia d'Oliveira 89 +Fernandes Thomaz, no seu gabinete 97 +Guerra Junqueiro 113 +José Luciano encerra o Parlamento 129 +Celso Herminio 145 +Gomes Leal 161 +D. Carlos I de Portugal 177 +Oliveira Martins 193 +Papelinhos sobre o regicidio 206 +Dantas Baracho 225 +José Maria d'Alpoim 241 +Teixeira de Sousa 257 + + + + + + +ACABOU DE SE IMPRIMIR +NA TIPOGRAFIA DA «RENASCENÇA PORTUGUESA» +RUA DOS MÁRTIRES DA LIBERDADE, 178, +AOS 21 DE JANEIRO DE 1919. +PORTO + + + + + +Notas: + +[1] Estas _Memorias_ devem formar quatro volumes:--2.^o vol.--Os +bastidores da monarchia. Vida literaria. Theatro por dentro; 3.^o +vol.--A Republica. O comercio e a finança. Jornaes e jornalistas; 4.^o +vol.--A Republica e os seus homens. Vida militar. + +[2] _Republica_, 23 de Fevereiro de 1915. + +[3] «Volta-se para o governo do seu paiz, e pede-lhe que se lembre da +recepção de Afonso XII em Paris, e que ponha Sua Magestade a coberto de +qualquer manifestação que possa porventura nascer, da atitude da Rainha. +Limem-se as dificuldades, empreguem-se todos os esforços, nossos e +alheios; lancemos mão da nossa situação privilegiada com a Inglaterra; +ponhamos todos os elementos disponiveis em acção, para que o céo serene. +Por exemplo: que está fazendo o sr. Soveral em Paris? Façam-no recolher +imediatamente a Londres». + +[4] Existe uma carta em que o rei D. Carlos diz ao Navarro, que é +absolutamente falso que elle se oponha a que o nomeiem par do reino. +Seriam os politicos capazes de armar a intriga?... + +[5] Um dos seus sobrinhos escreveu um artigo interessante, do qual +extracto os seguintes periodos: + +«No seu espirito fluctuava uma bondade inata que se traduzia por uma +profunda afabilidade na vida intima e por uma indulgencia estranha no +julgamento dos homens. Jámais acreditou em malevolas intenções e nunca +da sua bocca saiu uma insinuação maliciosa. Confiava sempre na bondade +dos outros, não hesitando, nos momentos de agitação popular, em +atravessar serenamente as ruas da capital revoltada, como sucedeu em 5 +de outubro e 14 de maio. E quando a familia, naturalmente receiosa, lhe +solicitava para não sahir, respondia sempre com toda a tranquilidade: «a +mim ninguem me faz mal, pois eu nunca fiz mal a ninguem». + +«As suas ferias passava-as a estudar. Ora meditava trabalhos de +jurisprudeneia, ora, para descansar, apreciava as mais belas obras de +literatura. Dotado de uma memoria privilegiada, sabia de cór longos +trechos de versos, e até nos ultimos horriveis momentos da sua +existencia, arquejando no leito de dôr, ora recomendava pontos +importantes dos processos que trazia entre mãos, ora citava frases de +grandes poetas e filosofos referentes á hora suprema que rapidamente se +aproximava. E quando a noite cahia, tudo envolvendo no seu manto de +tristeza, era com uma anciedade estranha que esperava, na longa vigilia +dolorosa, a chegada do sol radiante. E foi com uma precisão rara que +previu a hora da sua morte. Mais tres dias, mais dois dias e tudo estará +acabado. E, de facto, assim sucedeu! + +«Apaixonava-o o estudo da astronomia, e nos ultimos tempos antes de +morrer, apesar da sua avançada idade de 75 anos, vergado sobre obras da +especialidade e, nas horas silenciosas das serenas noites de verão, +passeando na sua quinta dos Covas, ou encostado ás amplas janelas da sua +biblioteca, que tanto amava, reconhecia uma a uma as constelações e +descobria entre os inumeros astros que recamavam o firmamento, aquelles +que os seus auctores haviam indicado.» + +[6] «Effectivamente, segundo nos informam... o homem das _barbas e da +carabina não sahiu debaixo da Arcada_ (sic) do Ministerio do Reino, +visto, que com outro individuo se encontravam juntos da aludida +arvore.»--Para quê?... por José Nunes. + +[7] Parece que o que salvou a rainha foi o cocheiro poder arrancar, +bater nos cavalos, por ordem da condessa de Figueiró, e aquilo seguir, +com os mortos e a rainha louca de dôr:--Mortos! mortos! e ninguem para +os salvar!--N'um gesto maternal debruçara-se cobrindo o filho com o +proprio corpo. + + +--Quem matou o rei... «O grupo foi em parte organisado durante o dia 31 +e ás 3 horas da madrugada do dia 1 de fevereiro, em uma quinta dos +arredores de Lisboa decidiu-se que só fossem cinco os individuos a +executar o plano do Boulevard Poissonière.»--Para Quê? por José Nunes. + +...«Se na tarde do 1.^o de fevereiro de 1908 não se désse mais que o +primeiro tiro que se deu, e esse foi de carabina, ficariam vivas todas +as pessoas reaes, excepto o rei. Não obstante o tiroteio ter-se +desenvolvido momentaneamente, assaltando-se ao mesmo tempo a carruagem, +foi então que, sobre o pae e o filho, se dispararam mais tiros, alguns +d'elles mortaes».--Para Quê? por José Nunes. + + +...--Ao menos responda-nos a esta pergunta: o Buiça e o Costa teriam +cumplices? + +E o sr. Laranjeira, sorrindo, affirma: + +--Tinham varios amigos...?--E hesita.--O que lhe posso garantir, é que o +Buiça não foi o heroe principal; quem preparou tudo foi o Alfredo Costa +na «Loja Obreiros do Trabalho». O Costa tinha uma grande influencia +sobre varios rapazes de valor e de audacia. Tambem sem receio de ser +desmentido lhe posso asseverar que o Alfredo Luiz da Costa foi +assassinado por mão occulta, quando vinha, preso e vivo, para o posto da +Camara Municipal. Note que as suas ultimas palavras foram estas.--Ai +minha mãe, que me trahiram!--E o chefe Bazilio, um dos que o conduzia, +não pôde vêr quem lhe descarregára a arma, matando-o... No meu modo de +vêr, os novelleiros encartados, dizem coisas sobre coisas, sem +conhecerem o _fio á meada_, e é exactamente o que tem prejudicado tudo e +todos.» + +Revelações sobre o regicidio--Entrevista com o sr. Rodrigues Larangeira +publicada no _Imparcial_ de 1 de julho de 1910. + +[8] Apurou-se que o ex-ministro em Londres, de julho de 1892 a 12 de +Novembro de 1910, recebera o seguinte: + + +1892-1893 10.833$890 +1893-1894 12.841$593 +1894-1895 16.699$006 +1895-1896 (10 de Junho a 30 + de Setembro) 2.163$750 +1896-1898 17.264$456 +1896-1897 (26 de Abril a 26 de + Julho) 2.441$625 +1898-1899 15.618$168 +1899-1900 15.835$443 +1900-1901 12.976$500 +1901-1902 14.211$412 +1902-1903 21.807$881 +1903-1904 15.963$505 +1904-1905 35.481$112 + ------------ + A transportar 194.138$341 + + + Transporte 194.138$341 +1905-1906 21.437$118 +1906-1907 25.749$787 +1907-1908 20.447$868 +1908-1909 11.802$562 +1909-1910 12.487$687 +1910-1911 (de 16 de Julho a 12 + de Novembro) 3.515$680 + ------------ + 289.679$044 + +Recebeu mais: + + Pela rubrica de adeantamentos 5.743$815 + Pela rubrica de suprimentos 226$035 + Pela rubrica de adeantamentos 450$000 + Pela rubrica da visita aos Reis + d'Inglaterra, 1904-1905. 21.042$935 + ------------ + Total--Reis 317.041$828 + + +--As despezas legaes auctorisadas eram de 10.950$000 réis por anno. +Vê-se como eram excedidas! + +--Segundo o oficio do ex-ministro Vilaça para o ministro da fazenda, +pedindo mais dinheiro para Soveral, este, no almoço e ornamentação da +legação, na visita do rei Carlos, consumira mais o seguinte: + + +Almoço, libras 325-12-0 +Vinho, libras. 49- 6-6 +Decorações, libras 1.760- 1-0 + ------------ + Total, libras. 2.134-19-6 + + +--Averiguou-se, pelo oficio do ex-director geral da thesouraria, +Perestrelo, que pelo mesmo motivo da visita do rei Carlos, Soveral +recebera mais: + + +Em 30 de Novembro de 1904, + libras 1.500 +Em 10 de Dezembro do mesmo + anno, libras 1.000 + ------------ + Total, libras. 2.500 + + +Todas estas quantias, em libras, ou em réis, foram calculadas ao cambio +par. Como n'aquellas épocas houve subido agio sobre o ouro, e calculando +esse agio n'uma media de 15%, vê-se que notavel aumento ha nas despezas +descritas! + +Soveral recebeu mais, pela verba de despezas diversas extraordinarias no +anno economico de 1909-1910, sem qualquer justificação, réis 1.934$855; +e pela verba destinada á viagem a Londres do rei D. Manuel, réis +4.468$900. + +Na liquidação e pagamento dos direitos de mercê, emolumentos e sellos, +houve enorme trapalhada durante muitos annos, d'onde resultou Soveral +esquivar-se ao cumprimento das leis fiscaes. + +Deve os direitos de mercê e emolumentos e sello pelo titulo de Conselho, +pelo titulo de Marquez, pelo cargo de secretario da legação em Londres, +pelo cargo de ministro em Londres, pela gran-cruz da Torre e Espada, +etc. + +Quando foi ministro dos negocios estrangeiros, teve a habilidade de em +17 mezes, só á sua parte, consumir em despezas reservadas, réis +37.757$515, sem deixar no ministerio qualquer documento, explicando ou +justificando o emprego de qualquer verba!--_Intransigente_, de 31 de +Março de 1911. + +[9] «Escrevem-nos de Braga: + +Joaquim de Sequeira Lopes, negociante, e Manoel Coelho dos Santos, +penhorista, são pessoas de bem e residem em Espinho. + +Sequeira Lopes foi em Novembro de 1907 para Lisboa curar uma molestia +hospedando-se em casa de seu irmão Frederico, negociante, chefe graduado +do alpoinismo. D'ali escrevia semanalmente ao Coelho, com quem tinha +negocios, quando na capital começou a agitação para derrubar o Franco, +dando em cada carta uma noticia politica, que o Coelho lia em toda a +parte onde se lia politica. Na quarta-feira ou quinta da semana do +regicidio, essa noticia era d'este theor: _Disseram hoje a Frederico, no +escriptorio forense... que João Franco seria assassinado em 24 horas_. +Quando chegou a Espinho a carta que continha esta noticia, tinham +passado as taes 24 horas, por isso o valor da noticia estava +prejudicado. Deu-se o atentado no sabado e na quarta-feira seguinte a +carta habitual dava esta noticia: + +_Os revolucionarios, vendo-se perdidos pela prisão dos chefes, +reuniram-se secretamente, republicanos e dessidentes d'acção, e +resolveram a morte da familia real. Propoz-se que os executores fossem +tirados á sorte, mas o professor Buiça protestou, oferecendo-se +voluntariamente, sendo o seu alvitre secundado por muitos que se +promptificaram a auxilial-o_. + +Estes apontamentos foram dados ao ministro Campos Henriques logo depois +da formação do gabinete Amaral. Foram em carta anonyma, mas acompanhados +d'um grande numero de testemunhas que viram e leram as taes noticias, +figurando n'ellas o coronel reformado Raul de Passos, d'Elvas, que na +ocasião residia em Espinho e dava a semelhantes noticias um grande valor +para a investigação. + +Campos Henriques, o que demitiu o juiz Alves Ferreira e chamou o outro +da Meda, fez de conta que nada era com elle. N'esta pista ninguem +mexeu.» + + * * * * * + +«A reunião, afirma-se, teve logar na Costa do Castello. Tomaram parte +n'ella quadrilheiros da quadrilha republicana e de todas as quadrilhas +monarchicas»...[9a] + +[9a] Quem quizer conhecer a historia contemporanea tem de lêr e +consultar a colecção d'_O Povo d'Aveiro_. É indispensavel. Essa voz +tremenda e colérica préga, ha annos, sem um desfalecimento, meia duzia +de verdades essenciaes ao paiz. Além d'isso Homem Christo é o maior +jornalista portuguez e um pamphletario que só tem outro na nossa +literatura que se lhe compare--José Agostinho de Macedo. + +[10] Essa extraordinaria sessão, em que o parlamento parecia estar no +banco dos réus e o Afonso Costa, theatral, surgia como um acusador +triumphante!... O ministerio tinha desaparecido. Fugira! Ninguem sabia +do que se ia tratar: esperava-se peor, muito peor... A impressão real, +patente, autentica, era de que elle ia fulminal-os com provas á vista, +acusando-os d'um crime... De que crime tremendo? Quando leu os +documentos houve uma impressão de alivio, quasi a exclamação:--Era só +aquillo?...--E quando baralhou e se enganou nos nomes da pessoa que +acusava--ninguem soube aproveitar o momento, o erro, a oportunidade... +Ninguem se quiz comprometer... A defeza feita pelo Paçô foi fragil, +risonha, quasi «pedindo desculpa»... + +[11] Folheto de 10 paginas, com este titulo: _Os Barbadões, resumo +historico por D. Sebastião de Vasconcellos, Bispo de Beja, Par do Reino +e Comendador da Nobilissima Ordem de N. S. da Conceição de Villa Viçosa. +Propriedade da Empreza Editora do Jornal «Portugal» Limitada_. + +[12] Carta publicada n'_O Norte_ de 1 de Setembro de 1918 pelo snr. +Bourbon e Menezes: + + + Meu Senhor: + + +Tenho a honra de communicar a V. Magestade que, nos termos assentados, +escrevi ao seu encarregado de negocios em Berlim para fazer-lhe saber a +conveniencia q. haveria em retro-trahir _(sic)_ a data da visita de V. +Magestade para 20 de novembro e nesta orientação lhe expuz, para levar +ao conhecimento do Ministerio dos Negocios Estrangeiros allemão, os +argumentos e razões que me pareceram apropriados ao fim que se pretende. +Julgo q. isto merecerá a aprovação de V. Magestade. + +Quanto ao assunto da nossa conversação no Paço das Necessidades, entendi +hoje aproveitar a oportunidade de vir o marquez de Villalobar dar-me uns +informes que é natural que V. Magestade já conheça pelo conde de +Sabugosa, para entrar com elle em conversa officiosa sobre a +conveniencia de estreitar em bases definidas as nossas relações +politicas, visto os dois paizes soffrerem de um mal commum--a invasão da +onda democratica. Neste sentido lhe fiz um longo arrazoado que elle +recebeu com agrado a ponto de me perguntar se queria que levasse isso ao +conhecimento do seu soberano ou apenas do Presidente do Conselho. +Fiz-lhe notar que esta idea era apenas _pessoal_ e _minha_, que sobre +ella não tinha consultado o governo e que V. Magestade nem de leve +suspeitava d'este meu ponto de vista, que a minha idea era de que as +duas nações por um instrumento secreto se comprometessem a um mutuo +auxilio, no caso de irrompessem _(sic)_ movimentos revolucionarios que +puzessem lá e cá em risco a segurança das instituições. + +Elle concordou em que o interesse era commum e por isso reciproca a +vantagem e lhe parecia que seria grato ao coração de S. Magestade o Rei +D. Affonso o lembrarmo-nos d'elle em tal conjunctura, independentemente +das estipulações da nossa alliança com a Inglaterra. Entendi pôr n'este +pé a questão porq. tinha opurtunidade _(sic)_ e corresponde a uma +necessidade que não é _só nossa_ mas tambem d'elles. O ministro +comprehendeu bem a minha idea e disse-me que a ia transmitir a Espanha, +a Canalejas, afirmando-me que poria n'isto todo o seu empenho. Fiz-lhe +sentir que seria bom pôr só a questão _em principio_ e quanto á extensão +e detalhes do acordo seria para regular depois quando V. Magestade e o +governo conhecessem o assumpto. Não quiz ir mais longe para me não +envolver em dissertações sobre acordos economicos que me parecem pouco +convenientes agora para nós. Eis o que fiz e o que me parece que diviria +_(sic)_ fazer-se por emquanto, pois que este assumpto, quanto ás outras +nações, carece de opurtunidade _(sic)_ e entrados na via de explicações +correriamos o risco de prejudicar os interesses que temos em vista. + +O que se me affigura necessario e conveniente é ligar os dois paizes +n'uma deffeza _(sic)_ commum, visto que as vantagens e riscos são +communs e não julgo difficil chegar-se ao desejado fim, tanto mais +quanto as suas informações se referem a um movimento revolucionario nos +dois paizes, com dinheiro vindo de França. + +Muito prazer terei se o meu parecer merecer a subida honra da aprovação +de V. Magestade, pois que outro não é o meu desejo se não de +corresponder á sua confiança com a pratica de actos meus que sejam +acertados. + +Mostrou-se o Marquez de Villalobar muito empenhado em saber o quer que +fosse do casamento de V. Magestade. Continuei affirmando-lhe q. nada +sabia porque o que se estava ainda fazendo em Inglaterra era _à l'insu_ +do governo, mas que logo q. soubesse cousa digna de ser-lhe communicada, +lhe não faltaria com essa confidencia. + +Disse-me elle q. o seu empenho de saber correspondia ás sucessivas +perguntas que de Espanha lhe fazia o seu Soberano. + +_Forse che si: forse che nó._ + +Beijo respeitosamente as mãos de V. Magestade e em tudo aguardo, com o +devido respeito, as ordens que se dignar dar ao + + + seu ministro + e subdito obediente + +Lisboa, 19-7-910. + + (a) _José d'Azevedo Castello Branco_. + + +[13] + + PREÇO DA VIDA + +Pão--kilo 90 +Carne de segunda qualidade 300 +Carne limpa 600 +Vitella 800 +Carne de porco 480 +Toucinho 320 +Banha 320 +Assucar pilé 240 +Bacalhau 200 +Massas 150 +Manteiga 800 +Ovos--duzia 250 +Feijão branco--litro 70 +Petroleo 90 +Leite 100 +Feijão frade 50 +Feijão da ilha (manteiga) 100 +Azeite 400 +Carvão--arroba 300 +Uma pescada 500 +Um vestido de senhora 30$000 +Um fato de homem 20$000 +Um par de botas 4$000 +Média do aluguer d'um andar, por + semestre (casa para uma familia + da mediania) 120$000 + +[14] Foi oficial na marinha ingleza, condecorado na campanha do Baltico +com a medalha militar, e um excelente administrador. Diz-se que graças a +elle é que a casa da mulher sahiu da barafunda e quasi ruina a que +chegára á data do casamento. Por isso talvez é que passou por um apagado +guarda livros... + +[15] Do _Correio Nacional_, na sua secção _Ecos_: + + + O sr. Hintze Ribeiro é d'uma grande generosidade para com a sua + familia. + + Demonstra-o a seguinte lista, cuidadosamente confeiçoada sob + informes do _Diario do Governo_: + + Para o elevado logar de inspector dos impostos no Porto foi + transferido o sr. dr. José Paulo Menano, de 24 annos de edade, + casado com uma cunhada do sr. Hintze. + + Ha tempos, foi colocado no logar de director do hospital das Caldas + da Rainha o sr. dr. Augusto Cymbron Borges de Sousa, cunhado do sr. + Hintze. + + O sr. Manuel Hintze Ribeiro, irmão do sr. Hintze, foi graduado em + inspector superior da alfandega de Ponta Delgada, passando de + 1.170$000 a 1.700$000, mais do que ganha um director geral. + + O sr. Antonio Moreira da Camara Coutinho, sobrinho do sr. Hintze, + foi nomeado director da alfandega do Porto, com quatro contos de + reis anuaes, o ordenado d'um ministro, quasi. + + O sr. Manuel Rebello Borges, 2.^o oficial da alfandega de S. + Miguel, foi nomeado director da mesma casa fiscal, com um conto + seiscentos e vinte mil reis. + + É uma fortuna para o paiz que a familia do sr. Hintze não seja mais + numerosa. + + Aliaz, não haveria contribuintes cuja pelle chegasse para pagar + tantos encargos... + + +[16] De passagem apontemos a figura de Norton de Matos, o maior ministro +da guerra contemporaneo, organizador capaz d'um trabalho de ferro, que +só os technicos serão capazes de avaliar em toda a sua extensão. + +[17] Todas as palavras entre comas são dos _Documentos politicos_. + +[18] Introduziu a ordem no Paço.--Até o preço do peixe quer +saber!--dizia-se cá fóra com indignação. Quando do 5 d'outubro todos os +creados diziam bem do rei--todos diziam mal da rainha. O pequeno quadro +que segue explica talvez muita coisa: + +«Havia familias das proximidades do Paço que se alumiavam só com as +vellas do palacio real, compradas por vil preço. As contrabandistas +andavam pelas casas dos seus freguezes oferecendo roupas, desde os +vestidos da rainha e dos fatos do rei até ás roupas brancas, meias de +seda e sapatos de setim com a corôa real, para não oferecer duvidas +acerca da procedencia. D'estes factos tivemos conhecimento de sciencia +certa, por vivermos n'esse tempo perto do Paço e nos terem vindo +oferecer por mais de uma vez os espojos do saque, que não aceitamos por +varias razões, sendo uma d'ellas a falta de vocação para receptadores de +roubos. A vocação nasce com a pessoa. Da ucharia do Paço banqueteavam-se +os parentes dos empregados e cremos que até os amigos. + +A audacia do latrocinio chegou ao extremo. Indo um dia o rei D. Luiz +caçar á Tapada e tendo morto tres coelhos, ao chegar ao Paço lembrou-se +de os mostrar á rainha. + +Mandou-os buscar, mas apenas lhe apresentaram um, porque os dois +restantes tinham desaparecido durante o breve precurso da Tapada até á +Ajuda. + +Nos proprios charutos do rei todos os dias dava um ataque epileptico que +os obrigava a saltar das caixas sem que se soubesse para onde tinham +desertado. Chegou o descaramento a ponto de não deixarem um charuto para +o rei fumar». + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+---------------------+----------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+---------------------+----------------------+ + |#pág. 91| iuutil | inutil | + |#pág. 263| esqueeeu | esqueceu | + |#pág. 291| eomer | comer | + +----------+---------------------+----------------------+ + +Identificou-se a não existência nos dois originais de uma figura que se +encontraria entre as páginas 206 e 207. Presume-se que por não se +encontrar em ambas as obras da mesma edição, que se trata de um erro de +impressão que afectou esta edição em particular. + +Foram efectuadas correcções na numeração das páginas no indíce de forma +a coincidir com a localização correcta no livro. + +As figuras no original encontram-se entre páginas. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Memórias, by Raúl Brandão + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMÓRIAS *** + +***** This file should be named 35762-8.txt or 35762-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/5/7/6/35762/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal) and +The Internet Archive.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. 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Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/35762-8.zip b/35762-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..bda4f0e --- /dev/null +++ b/35762-8.zip diff --git a/35762-h.zip b/35762-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..aa661d1 --- /dev/null +++ b/35762-h.zip diff --git a/35762-h/35762-h.htm b/35762-h/35762-h.htm new file mode 100644 index 0000000..c405c54 --- /dev/null +++ b/35762-h/35762-h.htm @@ -0,0 +1,21220 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>Memorias</title> + + + <meta name="AUTHOR" content="Raul Brandão" /> + + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1" /> + + <style type="text/css"> +body {max-width: 80%; margin-left:10%; margin-right:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4, h5 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 15%; margin-right: 15%;} +.dots {color: #fff; background-color: inherit; border: 3px dotted #555; border-style: none none dotted;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.sbreak { +width: 20%; +margin-left:40%;} +.ast {text-align: center; +font-size: 150%; +font-weight: bold;} +.date {margin-right: 5%; +text-align: right; +font-variant: small-caps;} +.tinyl { font-size: 95%;} +.breaks { +width: 40%; +margin-left:30%;} +.poetry {margin-left:35%;} +.quote {margin-left:30%;} +.quote1 {margin-left:40%;} +.quote2 {margin-left:10%;} +.quote3 {margin-left:5%;} +.signature {margin-right: 5%; +text-align: right;} +.signature1 {margin-right: 13%; +text-align: right;} +.signature2 {margin-right: 10%; +text-align: right;} +.illustration {text-align: center; +font-size: 95%;} +.pagenum { position: absolute; right: 5%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Memórias, by Raúl Brandão + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Memórias + +Author: Raúl Brandão + +Release Date: April 3, 2011 [EBook #35762] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMÓRIAS *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal) and +The Internet Archive.) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b> +Devido à +quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Abril 2011) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">Direitos reservados<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h1>MEMORIAS +</h1> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 150px; height: 210px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>DE RAUL BRANDÃO +</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="quote">A PUBLICAR:</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="quote1">Theatro cinematographico<br /> + +A historia humilde<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"><br /> + +<br /> + +<h3>RAUL BRANDÃO +</h3> + +<br /> + +<h1>Memorias +</h1> + +<br /> + +<h4>1.º VOLUME +</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 150px; height: 147px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<h4> +EDIÇÃO DA<br /> + +<br /> + +«RENASCENÇA PORTUGUESA»<br /> + +<br /> + +PORTO</h4> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">AOS MORTOS<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 500px; height: 757px;" alt="" src="images/fig03.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c1" id="c1"></a>PREFACIO +</h3> + +<br /> + +<div class="date">Janeiro de 1918.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a +com os mesmos erros e +paixões. Não me arrependo, nunca me +arrependi. Perdia outras tantas horas +diante do que é eterno, embebido ainda +n'este sonho poído. Não me habituo: +não posso vêr uma arvore sem espanto, +e acabo desconhecendo a vida e titubeando +como comecei a vida. Ignoro +tudo, acho tudo esplendido, até as coisas +vulgares: extraio ternura duma pedra. +Não sei—nem me importo—se creio na +imortalidade da alma, mas do fundo do +meu sêr agradeço a Deus ter-me deixado +assistir um momento a este espectaculo +desabalado da vida. Isso me basta. Isso +<span class="pagenum">[10]</span> +me enche: levo-o para a cova, para remoer +durante seculos e seculos, até ao +juizo final. Nunca fui homem de acção e +ainda bem para mim: tive mais horas +perdidas... Fugi sempre dos phantasmas +agitados, que me metem medo. Os +homens que mais me interessaram na +existencia foram outros: foram, por exemplo, +D. João da Camara, poeta e santo, +Correia d'Oliveira, um chapeu alto e nervos, +nascido para cantar, Columbano e +a sua arte exclusiva, e alguns desgraçados +que mal sabiam exprimir-se. Conheci +muitos ignorados e felizes. Meio doidos +e atonitos. O Napoles ainda hoje dorme +sobre a mesma rima de jornaes?... Outro +andava roto e dava tudo aos pobres. +O homem é tanto melhor quanto +maior quinhão de sonho lhe coube em +sorte. De dôr tambem. +<br /> + +<br /> + +A que se reduz afinal a vida? A um +momento de ternura e mais nada... De +tudo o que se passou comigo só conservo +a memoria intacta de dois ou tres +rapidos minutos. Esses sim! Teimam, reluzem +<span class="pagenum">[11]</span> +lá no fundo e enebriam-me, como +um pouco d'agua fria embacia o copo. +Só de pequeno retenho impressões +tão nitidas como na primeira hora: +ouço hoje como hontem os passos de +meu pae quando chegava a casa; vejo +sempre diante dos meus olhos a mancha +azul ferrete das hydranjas que enchiam +o canteiro da parede. O resto esvae-se +como fumo. Até as figuras dos mortos, +por mais esforços que eu faça, cada vez +se afastam mais de mim... Algumas sensações, +ternura, côr, e pouco mais. Tinta. +Pequenas coisas frivolas, o calor do ninho, +e sempre dois traços na retina, o +cabedelo d'oiro, a outra banda verde... +Passou depois por mim o tropel da vida +e da morte, assisti a muitos factos historicos, +e essas impressões vão-se desvanecidas. +Ao contrario este facto trivial +ainda hoje o recordo com a mesma vibração: +a morte daquella laranjeira que, de +velha e tonta, deu flôr no inverno em que +seccou. O resto usa-se hora a hora e todos +os dias se apaga. Todos os dias morre. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[12]</span> +Lá está a velha casa abandonada, e +as arvores que minha mãe, por sua mão, +dispoz: a bica deita a mesma agua indiferente, +o mesmo barco archaico sobe o +rio, guiado á espadela pelo mesmo homem +do Douro, de pé sobre a gaiola de +pinheiro. Só os mortos não voltam. Dava +tudo no mundo para os tornar a vêr, e +não ha lagrimas no mundo que os façam +resuscitar. +<br /> + +<br /> + +Esta Foz de ha cincoenta annos, adormecida +e doirada, a Cantareira, no alto o +Monte, depois o farol e sempre ao largo +o mar diaphano ou colerico, foi o quadro +da minha vida. Aqui ao lado morreu a +minha avó; no armario, metido na parede +como um beliche, dormiu em pequeno o +meu avô, que desapareceu um dia no +mar com toda a tripulação do seu brigue, +e nunca mais houve noticias d'elle. Lembro-me +da avó e da tia Iria, de saia de +riscas azues, sentadas no estrado da sala +da frente, e possuo ainda o volume desirmanado +do Judeu que ellas liam, com +o <em>Feliz Independente do mundo e da</em> +<span class="pagenum">[13]</span> +<em>fortuna</em> e as +<em>Recreações +philosophicas</em> do +padre Theodoro d'Almeida. Ouço, desde +que me conheço, sahir do negrume, alta +noite, a voz do moço chamando os homens +da companha:—Ó sê Manuel cá +p'ra baixo p'r'o mar!—Vi envelhecer todos +estes pescadores, o Bilé, o Mandum, +o Manuel Arraes, que me levou pela primeira +vez, na nossa lancha, ao largo. Ha +que tempos!—e foi hontem... A quarenta +braças lança-se o ancorote. Na +noite cerrada uma luzinha á prôa; do mar +profundo—chape que chape—só me +separa o cavername. Deito-me com os +homens sob a vela estendida. Primeiro +livor da manhã, e não distingo a luz do +dia do pó verde do mar. Nasce da agua, +mistura-se na agua, com reflexos baços, a +claridade salgada que palpita, o ar vivo +que respiro, o oceano immenso que me +envolve.—Iça! iça!—e as redes +sobem +pela polé, cheias de algas e de peixe, que +se debate no fundo da catraia. Voltamos. +Já avisto, á vela panda, o farolim, +depois Carreiros; um ponto branco, alem +no areal, é o Senhor da Pedra, e a terra +<span class="pagenum">[14]</span> +toda, roxa e diaphana, emerge emfim, +como uma aparição, do fundo do mar. A +onda quebra. Eis a barra. Agora o leme +firme!... As mulheres, de perna nua, +acodem á praia para lavar as rêdes, e o +velho piloto mór, de barba branca, sentado +á porta da Pensão, fuma inalteravel +o seu cachimbo de barro. O azul do mar, +desfeito em poalha, mistura-se ao oiro que +o céo derrete. Mais barcos vão aparecendo, +vela a vela: o <em>Vae com Deus</em>, a +<em>Senhora +da Ajuda</em>, o <em>Deus te +guarde</em>, e os +homens, de pé, com o barrete na mão, cantam +o <em>bemdito</em>, tanta foi a +pesca.—Quantas +duzias?—Um cento! dois centos!—Nas +linguetas de pedra salta a pescada +de lista preta no lombo, a raia viscosa, o +ruivo de dorso vermelho, ou, no inverno, +a sardinha que os bateis carreiam do +mar inexgotavel, estivando de prata todo +o caes. Ás vezes o peixe miudo e vivo é +tanto, que não bastam os almocreves com +os seus burros canastreiros, as varinas +com os seus gigos, nem as mulheres de +saia ensacada e perna á mostra, para o +levarem, apregoando-o, por essa terra +<span class="pagenum">[15]</span> +dentro. Dá-se a quem o quer, faz-se o +quinhão dos pobres. Em setembro são +as marés vivas. Mais tarde cresce do mar +um negrume. Acastelam-se as nuvens no +poente, e forma-se para o sul uma parede +compacta que tem legoas de espessura. +A voz é outra, clamorosa, e, á primeira +lufada, bandos de gaivotas grasnam pela +costa fóra, anunciando o inverno que +vem proximo. O quadro muda, e os homens +morrem á bocca da barra, na Pedra +do Cão, agarrados aos remos, sacudidos +no torvelinho da resaca, o velho +arraes de pé, as duas mãos crispadas no +leme, cuspindo injurias, para lhes dar animo, +e todo o mulherio da Povoa, de Matosinhos, +da Afurada—vento sul, camaroeiro +içado—com as saias pela cabeça, +salpicadas de espuma e molhadas de +lagrimas:—Ai o meu rico homem! o +meu filho que o não torno a ver!—E chamam +por Deus, ou insultam o mar, que, +inverno a inverno, lh'os leva todos para +o fundo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[16]</span> +O que sei de bello, de grande ou de +util, aprendi-o n'esse tempo: o que sei +das arvores, da ternura, da dôr e do +assombro, tudo me vem desse tempo... +Depois não aprendi coisa que valha. Confusão, +balburdia e mais nada. Vacuidade +e mais nada. Figuras equivocas, ou, +com raras excepções, sentimentos +baços. +Amargor e mais nada. Nunca mais. Nunca +Londres ou a floresta americana me incutiram +misterio que valesse o dos quatro +palmos do meu quintal. Nunca caça ás feras +no canavial indiano foi mais fertil em +emoção e aventura, que a armadilha aos +passaros na poça do Monte, com o Manuel +Barbeiro. Uma nora, dois choupos, +a agua empapada, e, entre as hervas gordas +como bichos, pégadas de bois cheias +de tinta azul, reflectindo o céo implacavel +de agosto. Os passaros com as azas +abertas desconfiam e hesitam: a sêde +aperta-os, o sol escalda-os. Mal pousam +na armadilha agarramol-os com ferocidade. +Chiu!... Uma andorinha descreve lá +no alto um circulo perfeito, e vem, no +vôo desferido, arripiar com o bico a agua +<span class="pagenum">[17]</span> +estagnada. Toca n'uma palheira de visco—é +nossa! Já tiveste nas mãos uma andorinha? +É pennas e vida phrenetica. E +essa vida pertence-te!... Só ao fim da +tarde regressava a casa com os bolsos +cheios de rans e os olhos deslumbrados. +Nenhuma figura tôrva, nem o Anti-Christo, +me communicou terror semelhante +ao do inofensivo Manco da esquina, +que escondia de manhã a barba +que lhe chegava ao umbigo, entre o +peito e a camisa, para a sacar de noite, +quando sahia á estrada... Sou capaz de +te dizer qual o tom verde de certos dias, +quando o pecegueiro bravo encostado +ao muro floresce. O murmurio da minha +bica não me sae dos ouvidos até á hora +da morte. Quasi todos os meus amigos—o +Nel, que não tornei a ver...—são +d'essa epocha. D'outras impressões mais +tardias não restarão vestigios, mas tenho +sempre presentes os mesmos pinheiros +mansos—que já não +existem—acenando +para a barra, e alta noite acordo ouvindo +o rebramir do mar longinquo. Nos dias +de desgraça é sempre a mesma voz que +<span class="pagenum">[18]</span> +chama por mim... Olha, olha ainda e +extasia-te: o rio parece um lago, e um +bando de gaivotas desfolhadas alastra +sobre a tinta azul, com laivos esquecidos +do poente. Boia espuma na agua +viva que a maré traz da barra... E não +ha cheiro a flores que se compare a este +cheiro do mar. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Agosto de 1910.</div> + +<br /> + +<br /> + +Aos 23 do mez passado morreu meu +pae amachucado, exhausto e pobre. Encontrão +de um, repelão de outro, assim +foi até á cova. Tinha 67 annos incompletos. +Não podia mais. Encontraram-lhe +alguns cobres no bolso. Ha muitos annos +que se arrastava, e só tinha de seu uma +alegria e um repouso: os domingos. Aos +domingos metia-se no quarto, calçava +uns chinelos, e toda a tarde chorava lagrimas +sem fim sobre um velho romance +de Camillo. Minha mãe pouco mais durou, +com um olhar de pasmo. Lá ficou a +velha casa abandonada... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[19]</span> +Sobe a lua no céo, e a sombra no monte. +Seis arvores, quatro paredes—tudo +aqui me enche de saudades. A bica continua +a correr, mas outras sêdes se apagarão +n'aquella agua. Outros virão tambem +sentar-se no banco de pedra... Só +me resta a tua mão querida, que a meu +lado segura a minha mão. Os mortos +chamam por nós cada vez mais alto... +Olho para ti e os teus primeiros cabellos +brancos fazem-me chorar. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date"> +Setembro de 1910.</div> + +<br /> + +<br /> + +Hoje acordei com este grito: eu não +soube fazer uso da vida! +<br /> + +<br /> + +O que me pesa é a inutilidade da +vida. Agarro-me a um sonho; desfaz-se-me +nas mãos; agarro-me a uma mentira +e sempre a mesma voz me repete:—É +inutil! é inutil! +<br /> + +<br /> + +A aquiescencia, o sorriso:—pois sim... +pois sim...—a necessidade de transigir, +<span class="pagenum">[20]</span> +o preceito, a lei, fizeram de mim este sêr +inutil, que não sabe viver e que já agora +não pode viver. Não grito de desespero +porque nem de desespero sou capaz. +<br /> + +<br /> + +A vida antiga tinha raizes, talvez a +vida futura as venha a ter. A nossa epocha +é horrivel porque já não +cremos—e +não cremos ainda. O passado desapareceu, +de futuro nem alicerces existem. E +aqui estamos nós, sem tecto, entre ruinas, +á espera... +<br /> + +<br /> + +Não entendo nada da vida. Cada +dia que avança entendo menos da vida. +Contudo ha horas, as horas perdidas—e +só essas—que queria tornar a viver +e a perder. +<br /> + +<br /> + +Deus, a vida, os grandes problemas, +não são os philosophos que os resolvem, +são os pobres vivendo. O resto é engenho +e mais nada. As coisas bellas reduzem-se +a meia duzia: o tecto que me +cobre, o lume que me aquece, o pão que +como, a estôpa e a luz. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[21]</span> +Detesto a acção. A acção +mete-me +medo. De dia pódo as minhas arvores, á +noite sonho. Sinto Deus—toco-o. Deus é +muito mais simples do que imaginas. Rodeia-me—não +o sei explicar. Terra, mortos, +uma poeira de mortos que se ergue em +tempestades, e esta mão que me prende +e sustenta e que tanta força tem... +<br /> + +<br /> + +Como em ti, ha em mim varias camadas +de mortos não sei até que profundidade. +Ás vezes convoco-os, outras são +elles, com a voz tão sumida que mal a +distingo, que desatam a falar. Preciso da +noite eterna: só num silencio mais profundo +ainda, conto ouvil-os a todos. +<br /> + +<br /> + +Nunca os meus me chamaram tão +alto. Sentam-se a meu lado. Rodeiam-me, +e pouco a pouco o circulo da minha vida +restringe-se a um ponto—a cova. +<br /> + +<br /> + +Teimo: ha uma acção interior, a dos +mortos, ha uma acção exterior, a da alma. +A inteligencia é exterior e universal e +faz-nos vibrar a todos d'uma maneira diferente. +<span class="pagenum">[22]</span> +Destas duas acções resulta o +conflicto tragico da vida. O homem agita-se, +debate-se, declama, imaginando +que constroe e se impõe—mas é impelido +pela alma universal, na meia duzia de +coisas essenciaes á Vida, ou obedece apenas +ao impulso incessante dos mortos. +<br /> + +<br /> + +A minha alegria em velho consistiria +em ter aqui meu pae para falar com elle. +Não é só saudade que sinto: +é uma impressão +physica. Agora é que acharia +encanto até ás lagrimas em termos a +mesma idade, conversarmos ao pé do +lume e morrermos ao mesmo tempo... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Fevereiro de 1918.</div> + +<br /> + +<br /> + +Isso que ahi fica não são memorias +alinhadas. Não teem essa pretensão. +São +notas, conversas colhidas a esmo, dois +traços sobre um acontecimento—e mais +nada. Diante da fita que a meus olhos +absortos se desenrolou, interessou-me a +côr, um aspecto, uma linha, um quadro, +<span class="pagenum">[23]</span> +uma figura, e fixei-os logo no canhenho +que sempre me acompanha. Sou um mero +espectador da vida, que não tenta explical-a. +Não afirmo nem nego. Ha muito +que fujo de julgar os homens, e, a cada +hora que passa, a vida me parece ou +muito complicada e misteriosa ou muito +simples e profunda. Não aprendo até +morrer—desaprendo até morrer. Não +sei nada, não sei nada, e saio d'este +mundo com a convicção de que não +é +a razão nem a verdade que nos guiam: +só a paixão e a chimera nos levam a +resoluções +definitivas. O papel dos doidos +é de primeira importancia neste triste planeta, +embora depois os outros tentem corrigil-o +e canalisal-o... Tambem entendo +que é tão dificil asseverar a +exactidão de +um facto como julgar um homem com +justiça. Todos os dias mudamos de opinião, +todos os dias somos empurrados +para leguas de distancia por uma coisa +phrenetica, que nos leva não sei para +onde. Succede sempre que, passados +mezes sobre o que escrevo—eu proprio +duvido e hesito. Sinto que não me pertenço... +<span class="pagenum">[24]</span> +É por isso que não condemno +nem explico nada, e fujo até de descer +dentro de mim proprio, para não reconhecer +com espanto que sou absurdo—para +não ter de discriminar até que ponto +creio ou não creio, e de verificar o que +me pertence e o que pertence aos mortos. +De resto isto de ter opiniões não é +facil. Sempre que me dei a esse luxo, fui +forçado a reconhecer que eram falsas ou +erroneas. Sou talvez uma arvore que +cresce á sua vontade, pernada para aqui, +pernada para acolá, á chuva e ao vento. +Não admitto poda. Perco horas com inutilidades, +e passo alheado e frio diante +do que os outros contemplam extasiados. +Admiro, por exemplo, muito mais, perdoem-me, +a vida ignorada do meu visinho, +o senhor Crasto, que morreu de oitenta +annos, curvado, a lavrar a terra, do +que a do senhor Hintze Ribeiro, que +considero inutil e destituida de toda a +belleza. +<br /> + +<br /> + +Por isso, repito, muitas folhas destes +canhenhos serão mal interpretadas, talvez +alguns tipos falsos. Só vemos mascaras, +<span class="pagenum">[25]</span> +só lidamos com phantasmas, e ninguem, +por mais que queira, se livra de paixões. +No que o leitor deve acreditar é na sinceridade +com que na ocasião as escrevi. +Poderão objectar-me:—Então com que +destino publico tantas paginas desalinhadas, +de que eu proprio sou o primeiro +a duvidar? É que ellas ajudam a reconstituir +a atmosphera d'uma epocha; são, +como dizia um grande espirito, o lixo da +historia. Ensinam e elucidam. Foi sempre +com a legenda que se construiu a vida. +Sei perfeitamente que a historia viva +tanto se faz com a verdade como com a +mentira—se não se faz mais com a +mentira do que com a verdade. Para gerar +um acontecimento é preciso crear-lhe +primeiro a atmosphera propicia. «Algumas +palavras sob caricaturas grosseiras +dispersas pelos campos, formaram uma +lenda na imaginação popular, concernente +ao rei, á rainha, ao conde de Artois, +a madame Lamballe, ao pacto da +fome, <em>aos vampiros que sugam o sangue +do povo</em>, etc. Dessa lenda, que elle acha +util, sahiu a grande +revolução»—diz um +<span class="pagenum">[26]</span> +historiador. A gente nunca sabe ao certo +se da infamia poderão nascer coisas bellas... +A mentira, o boato, o que se diz +ao ouvido, o que se deturpa, e que tanta +força tem, a meada de odio, de ambição +e de interesses, que não cabe na historia +com H grande, tem o seu logar n'um +livro como este de memorias despretenciosas. +Eis uma razão. Tenho outra ainda: +torno a vêr e a ouvir alguns mortos. +Recordo, o que é necessario a quem +cada vez mais se isola com o seu sonho +e as suas arvores. Isto aquece quasi +tanto os primeiros annos da minha velhice, +como o lume que arde até junho +na lareira d'esta casa<sup><a href="#n1">[1]</a></sup>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="quote2">Cantareira, Foz do +Douro—1918.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c2" id="c2"></a>ALGUMAS +FIGURAS</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Janeiro—1900.</div> + +<br /> + +<br /> + +Urbano de Castro, com um olho tôrto e +um chapelinho afadistado, na aparencia +reservado e sardonico, sae-se encantador na intimidade. +Os seus amigos adoram-no, o Camara, +o Schwalbach, a antiga roda do <em>Correio da +Manhã</em>. +Trouxe para o jornalismo uma grande leitura de +classicos—conhece muito a lingua—e uma forma +ironica e precisa: em meia duzia de linhas incisivas +deixa o adversario a sangrar. Os politicos +temem-no tanto, que uma das condições impostas +pelo José Luciano, quando do pacto com o Hintze, +foi que o Urbano terminasse na <em>Tarde</em> +com o +<em>Espirito de S. Ex.<sup>a</sup></em>. +<br /> + +<br /> + +Eis algumas maximas de Urbano de Castro:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="tinyl">—A paciencia é +uma virtude de capote e +lenço. +<br /> + +<br /> + +—Quanto mais leve é a cabeça da mulher, +mais +pesada +é a do marido. +<br /> + +<br /> + +—Os homens publicos são como os papeis de +credito—o que hoje tem uma alta +cotação, +amanhã não vale, e +inversamente.</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[28]</span> +<div class="tinyl">—Quando tiveres muitos +argumentos, +não empregues +senão os melhores. Quando não tiveres nenhum, +emprega +todos. +<br /> + +<br /> + +—A paternidade é, muitas vezes, um rotulo. A +garrafa +é a mesma, mas o vinho é outro. +<br /> + +<br /> + +—Viuva rica, com um olho dobra, com outro repica. +<br /> + +<br /> + +—No coração mora-me Deus, no figado o +diabo. +<br /> + +<br /> + +—Mortal é o contrario de imortal. Imortal +é o +que é +sempre. Logo, mortal—é o que não +é +nunca. +<br /> + +<br /> + +—Theologia—a arte de fazer comprehender aos outros +aquillo que nós não entendemos. +<br /> + +<br /> + +—De todas as armas, a mais dificil de manejar é o +pau... de dois bicos. +<br /> + +<br /> + +—Jornalista—fabricante da opinião +publica. Cada um +afirma que a unica genuina é a da sua lavra. +<br /> + +<br /> + +—Se os homens de mais juizo pensarem a serio em +muitos dos seus actos hão de reconhecer que não +teem +juizo nenhum. +<br /> + +<br /> + +—O suicida tem para mim um lado +sympathico—não +se julga insubstituivel.</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Junho—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +Deparo hoje com o Garrido, redondinho, baixo, +de bigode grisalho e um ventre de proprietario. +Nunca se altera nem perde a paciencia. Jovial? +Não, triste e falando sempre baixinho. Tem ganho +fortunas, tem dissipado fortunas com o mesmo +ar inalteravel. Houve ocasiões em que todos os +theatros do Rio representaram peças com o seu +nome. Está cheio de dividas. E o seu ideal, o ideal +<span class="pagenum">[29]</span> +d'esta existencia de acaso, com aflições de +morte, +ou dispersa pelo Brazil entre dois numeros de +opereta—pan! pan! pan!—e dinheiro atirado +a rodos, é um casebre no campo, duas arvores +n'um retalho de horta viçosa e uma nora pingue +que pingue no fundo do quintal. Paz. E não escrever +uma linha. +<br /> + +<br /> + +Um agiota não o larga. É este velhinho paternal, +de cabellos brancos, que faz recados, deita +as cartas ao correio e leva coiro e cabelo. Parece +inofensivo. Começou a vida por creado de servir +e esfolou os patrões. Afirma que o Garrido é +capaz de arrancar dinheiro a um morto: +<br /> + +<br /> + +—Este senhor Garrido dá-me cada +aflição! +Até me faz crear caspa! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Fevereiro—1900.</div> + +<br /> + +<br /> + +A paixão d'este homem é não ter um +livro +de geito. G... só escreveu trez folhetos, e por +ahi ficou o seu talento. Espremido não deu mais +nada. É no entanto uma figura epigramatica e +nitida de conversador e um typo curioso de +bohemio lisboeta. Dormiu nas escadas dos predios, +pertenceu ao grupo que o Fialho arrastava +pelas ruas até ante manhã, dispersando com elle +o oiro da sua esplendida phantasia. Para essa +meia duzia de bohemios improvisou o grande +escriptor as suas melhores satyras. Uma noite, no +<span class="pagenum">[30]</span> +café, G... aludiu á sua obra, e logo do lado o +Fialho acudiu: +<br /> + +<br /> + +—A tua obra, bem sei... Vinte e cinco cartas +a vinte e cinco amigos pedindo vinte e cinco +tostões emprestados. +<br /> + +<br /> + +G... embezerrou. Mas passados minutos aproveitou +uma pausa no dialogo, para perguntar com +indiferença ao Fialho, que tinha ha pouco casado +rico com uma prima, que gastou a vida a esperal-o +no fundo da provincia: +<br /> + +<br /> + +—O Fialho fazes favor de me dizer que horas +são... no relogio do teu sogro? +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Fevereiro—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +Vejo sempre diante de mim o D. João da +Camara, já cansado e e asmathico, olhando por +cima das lunetas, e falando baixinho com receio, +uma modestia no dizer, e um medo de magoar... +A barba espessa, a grenha espessa e um chapelinho +pôsto ao lado, completam a figura um +pouco molle. É quasi um santo. Joga e jejua. Dá +tudo o que tem. Exploram-no. +<br /> + +<br /> + +—O que me perdeu na vida foi não ter energia. +Nunca me decido.—E mais baixo:—Isto +vem talvez dos jesuitas que me educaram. Tive +alguns condiscipulos que são homens notaveis e +ninguem dá por elles. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[31]</span> +Vive de noite, com uns e outros, ao acaso, +nos bastidores dos theatros, ou encantado com +uma ceiasinha na taberna, que descobriu no Arco +da Bandeira. Se encontra o Pinturas está perdido: +não se largam mais. Vae sempre para casa de +manhã, e a sua vida é tão aflictiva +que desejaria, +como o Schwalbach, que o metessem algum tempo +no Limoeiro, para não pensar no dia seguinte. +<br /> + +<br /> + +Hontem contou-me isto que é encantador: +<br /> + +<br /> + +—Não me importava nada de ter quatorze filhos +em vez de sete. São muito meus amigos. O +Vicente nunca sae de casa sem me dar um beijo. +Eu estou sempre a dormir... Esta manhã—estava +acordado, mas fingi que dormia, quando aquelle +rapagão me entrou no quarto, pé ante +pé, para +não me acordar, e beijou-me... +<br /> + +<br /> + +E fica extatico. +<br /> + +<br /> + +Ás vezes fala-me das peças que ha-de fazer, +do <em>Sermão da Montanha</em> e +de outra com tipos +de sonhadores, que se alimentam de mentira e de +um passado que nunca existiu, forjado ponto por +ponto. Assobia-se, por exemplo, um trecho d'opera, +e logo este atalha:—Bem sei é da +<em>Dinorah!</em>... +Tempos que já lá vão! O que eu vivi +com Fulano +e Sicrano, e as ceias que demos juntos!—Tudo +ilusão! tudo sonho! Vae-se a ver nem sequer +conheceram as pessoas de quem falam... +Outras vezes conta-me a sua vida: +<br /> + +<br /> + +—O que eu tenho sofrido! Tive muitos dias +d'angustia... N'essa noite <em>O Pantano</em> +cahira. +<span class="pagenum">[32]</span> +Toda a gente dizia mal de mim. Nos bastidores +a intriga fervia com a Lucinda á frente. Sahi do +theatro a pensar no que havia de empenhar no +dia seguinte. Fui para casa muito tarde.—Não +haveria que pôr no prégo?—Por fim +descobri +uma casaca, e, ainda muito cedo, sahi com o embrulho +debaixo do braço, n'um papel de jornal. O +papel amolecia, a casaca rompia para fóra, e eu +batia de prégo em prégo. Sete horas da +manhã... +Estavam todos fechados. N'um disseram-me +com seccura:—Não emprestamos sobre +casacas.—Fui +a outro e esperei no portal que abrisse. +Lembro-me como se fosse hoje. Chovia a potes. +Defronte, estava uma carroça, com um cavallo +branco. Era um burro pelle e osso, a cabeça +metida n'uma linhagem, a comer. E eu no portal, +com o embrulho já todo roto debaixo do +braço, invejei aquelle cavalo!... +<br /> + +<br /> + +Já não joga. Mas antigamente ia todos os dias +para casa ás cinco horas, tendo perdido tudo:—Foi +n'essas noites que imaginei as minhas melhores +peças...—Cuidadosamente punha sempre +de lado um tostão para o americano—e quasi +sempre succedia tambem que um velho fidalgo, +das suas relações, lhe pedia o tostão +emprestado +para um calice de vinho do Porto, que se habituara +a beber ahi pelas tres da madrugada. O +D. João dava-lh'o, e lá ia a pé para a +Junqueira, +a sonhar nas peças, sob a lufada, molhado até +aos ossos, de casaco de alpaca.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="illustration"><a name="f1" id="f1"></a><img style="width: 500px; height: 594px;" alt="Columbano.—Auto-retrato." title="Columbano.—Auto-retrato." src="images/fig04.png" /><br /> + +<em>Columbano.</em>—Auto-retrato.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[33]</span> +<div class="date">Junho—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +Passei a noite em casa do Columbano, com o +Raphael Bordalo Pinheiro. Durante o jantar falou +sempre. Todo elle mexe, todo elle é caricatura e imprevisto: +os olhos, o nariz, as mãos e até o bigode +que se encrespa, desenham e imitam.—Era um +homem com um ôlho assim...—E logo o ôlho +se +lhe envieza. Em rapaz o seu sonho era o theatro. +Chegou a ter lições do Rosa pae. Está +um pouco +cansado. Queixa-se muito. Amua.—Ninguem faz +caso de mim...—Estranha quando o não +vão esperar +á estação—e está +sempre a +chegar das +Caldas e partir para as Caldas. Depois esquece-se +e põe-se a rir. Depois torna:—Eu não +jogo, mas +lá em casa todas as noites jogam e pedem-me dinheiro +emprestado.—Agora arremeda este e +aquelle de quem fala. Conta que em Paris ouviu o +rei dizer:—Isto aqui é uma terra, lá +é uma piolheira.—E +que o infante, quando lhe perguntaram:—Então +em Londres que tal, com aquelles +principes todos?—Mal, mal... eu sou um principe +aza de mosca... +<br /> + +<br /> + +E acaba—é nas vesperas do jantar que lhe +vão oferecer no theatro D. Maria—por +dizer:—Veja +o senhor que desgraça a minha! Daqui +a pouco não posso fazer a caricatura de ninguem! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[34]</span> +Efectivamente lá estavam no banquete todos +os homens imponentes, os conselheiros, os politicos +decorativos, a serie completa das figuras +do <em>Antonio Maria</em>. Não +faltou ninguem á chamada. +E nos camarotes aplaudiram-no com delirio +as lisboetas palidas de que troçou em tantas +paginas de genio. Confundiram-no e arrazaram-no. +Creio que foi a primeira vez que perdeu +a linha. +<br /> + +<br /> + +Gostou sempre de fazer partidas. É o Schwalbach +que conta: +<br /> + +<br /> + +—O imperador do Brazil logo que chegava +ao theatro metia-se no camarote, descalçava as +botas e calçava com regalo uns chinelos. Uma +noite o Raphael, que estava então no Rio, foi pé +ante pé, meteu a mão pela cortina e roubou-lhe +as botas. O pobre homem não se desconcertou: +sahiu em chinelos, atravessou em chinelos a +multidão, saudando para a direita e para a esquerda, +desceu ao pateo, e meteu-se em chinelos +na carruagem. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Dezembro—1900.</div> + +<br /> + +<br /> + +Latino Coelho, contado por Maximiliano +d'Azevedo: +<br /> + +<br /> + +Tinha coisas absurdas: estava sentado a +conversar e levantava-se sem mais nem menos, +<span class="pagenum">[35]</span> +compunha a trumpha, e ia espreitar á janella. Era +todo de enguiços. Nunca sahia de dia. E que memoria! +Dizia-se-lhe qualquer banalidade, e elle, +d'ahi a mezes, repetia-a palavra por palavra. Discursos +que revelam o conhecimento inteiro d'uma +epocha, como o de Camões, que leu na Academia, +e que foi escripto das sete ás onze da manhã, +e lido ao meio dia, compunha-os com extrema +facilidade. +<br /> + +<br /> + +D'uma vez estava elle em casa politicando +com alguns amigos reformistas, o Mariano, o Lopo +Vaz e não sei quem mais. Discutia-se a +revolução +de onze de maio. O Latino, dando um geito á +trumpha, chegou á janella e viu o carro, puxado +a mulinhas, do Saldanha: +<br /> + +<br /> + +—Ahi vem o duque... E aposto que vem +para cá. +<br /> + +<br /> + +Efectivamente o carro parou á porta. Era o +Saldanha. O Latino foi recebel-o n'outra sala, e, +depois dos cumprimentos habituaes, o Saldanha +perguntou-lhe: +<br /> + +<br /> + +—Sabe a que venho? Venho saber a sua +opinião sobre o dia de hontem. +<br /> + +<br /> + +—Mas não tenho opinião nenhuma... +<br /> + +<br /> + +—Não se recuse, Latino. Peço-lho como +amigo. +<br /> + +<br /> + +—Então, marechal, deixe-me dizer-lhe que +quem como V. Ex.<sup>a</sup> conquistou um nome glorioso +com a espada, não deve servir-se da canalha +para fazer o que fez. A sua situação é +deploravel. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[36]</span> +—Não me diga isso! E se eu aproveitasse a +situação para firmar de vez a liberdade em +Portugal +e salvar o paiz? +<br /> + +<br /> + +—Se V. Ex.<sup>a</sup> quizesse... +<br /> + +<br /> + +—Mas é que quero, e para isso venho ter +comsigo. +<br /> + +<br /> + +Combinaram que o Latino redigiria os decretos +ampliando as liberdades publicas, tornando-as +efectivas, e convocando constituintes com poderes +amplissimos. +<br /> + +<br /> + +—O maior segredo...—recomendou o Latino. +<br /> + +<br /> + +N'essa noite não dormiu. Acompanhado d'um +amanuense do ministerio, redigiu os decretos, +que no dia seguinte o proprio Saldanha foi buscar, +metendo-os dentro da pasta. Mas fosse que +os amigos que lá estavam em casa tivessem desconfiado; +fosse que o Saldanha désse á lingua, +o que é certo é que o rei foi prevenido a tempo +por alguem que lhe disse: +<br /> + +<br /> + +—O Saldanha vae trazer-lhe uns decretos. +V. Magestade não os assigne ou está perdido. +<br /> + +<br /> + +Quando o Saldanha chegou ao Paço o rei +abraçou-o: +<br /> + +<br /> + +—Pois o duque ajudou a conquistar-me o +throno e não quer que meus filhos reinem? +Nem talvez eu chegue até ao fim da vida no +poder... +<br /> + +<br /> + +Saldanha que era um fraco recuou. D'ahi a +dias encontrou-se com o Latino que lhe disse: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[37]</span> +—V. Ex.<sup>a</sup> não podia +deixar-me dormir +a minha +noite socegado? +<br /> + +<br /> + +Por trez vezes, conclue Maximiliano, o Latino +me contou isto. Já tenho querido descobrir os +decretos. Devem estar em casa do irmão, n'um +quarto interior, onde a traça vai roendo os papeis +do grande escriptor...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Um dia o Saraiva de Carvalho foi propor a +revolução ao Latino: +<br /> + +<br /> + +—Mas ha-de ser tudo assassinado—toda a +familia real. +<br /> + +<br /> + +—Isso não!—protestou logo o Latino. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Morreu virgem, como Newton. No dia de +sua morte, estava o cadaver na cama, apenas +coberto com um lençol. Alguem disse para o Maximiliano: +<br /> + +<br /> + +—Bastaria arrancar aquelle lençol para +descobrirmos +o segredo de toda a sua existencia. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Junqueiro dizia de Latino: +<br /> + +<br /> + +—Sim, é um homem admiravel, que em logar +de c... tem duas castanhas piladas! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[38]</span> +<div class="date">Maio—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +Um jornal publica hoje esta noticia:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="tinyl"> +POVOA DE LANHOSO, 29—Faleceu, sepultando-se +hoje, o sr. dr. Joaquim da Boa Morte Alves de Moura, da +freguezia de Santo Emilião, bacharel formado em philosophia +e mathematica pela Universidade de Coimbra. +<br /> + +<br /> + +O povo apelidava-o de santo, pelas suas sublimes +virtudes christãs. Tinha 92 annos de edade; o falecido +fôra +frade agostinho. +</div> + +<br /> + +<br /> + +O homem, a quem estas seccas linhas se referem, +era na verdade um santo. Deixou tudo para +viver pobre, perto de S. Martinho do Campo, entre +cavadores e a gente humilde da terra que o adorava. +Vi-o muitas vezes passar na estrada, todo +branco, minguado, com o burel, que nunca quiz +largar, no fio, e os sapatos rotos. Era efectivamente +formado em philosophia e direito, e até +por vezes fôra convidado para lente da Universidade +de Coimbra. Recusou sempre, recusou tudo, +preferindo a convivencia com a gente do povo e +com a natureza que o rodeava. Ha entre as +duas povoações, S. Bento e S. Martinho, que +ficam á beira da estrada da Povoa de Lanhoso, +uma fonte que brota da raiz de uma arvore. Perto +fica a ermida. Alli se costumava o santo homem +sentar, horas e horas embebido nas suas +meditações. +<span class="pagenum">[39]</span> +Em que scismava? Decerto no passado +longinquo... +<br /> + +<br /> + +Lembram-se d'uma narrativa de Alexandre +Herculano, que se chama, creio eu, «O ultimo +dia de convento?» Um frade chora ao deixar +para sempre a cella caiada, onde passou a vida +inteira. É só isto, afóra a ternura, +as lagrimas, a +prosa do grande escriptor. Assim D. Joaquim da +Boa Morte contava tambem as ultimas horas +de convento. Velhinho, tremulo, vivendo de esmolas, +recolhido por caridade em casa de duas +mulheres, que o cuidavam, nunca esqueceu o +convento, a cella, o dia de separação. E, ao +pé da +arvore, junto ao fio limpido d'agua, lhe ouvi mais +d'uma vez contar o que sofrera. +<br /> + +<br /> + +—E dos seus companheiros lembra-se? Teve +mais tarde noticias? +<br /> + +<br /> + +E elle, com os olhos razos de lagrimas: +<br /> + +<br /> + +—Viveram ainda dispersos por esse mundo. +Ha annos, ha muitos annos, recebi, dum d'elles +um recado, esta palavra:—«Adeus!» Foi o +ultimo! +<br /> + +<br /> + +Agora acompanhava-o sempre um rapazinho. +Com a vida, ia-se-lhe desfeito o burel, rôtos os +sapatos. Deixára de dizer missa, mas o povo d'aquelles +logares, que é ingenuo e crente, consultava-o +nas suas doenças e nos seus sofrimentos. +É que D. Joaquim fazia milagres. Excusam de +sorrir... O milagre é uma comunicação +entre +pessoas que têm radicada e viva esta força +enorme:—a +<span class="pagenum">[40]</span> +fé. D. Joaquim da Boa Morte curava +as creaturas simples, as mulheres, as creanças e +os homens da serra que o iam visitar, com boas +palavras, e, quando muito, com alguns cachos de +uvas, que elle proprio colhera e lhes distribuia, +depois de benzidos. +<br /> + +<br /> + +Antes de morrer pediu que o enterrassem embrulhado +na manta coçada que pertencera a sua +mãe e que alli tinha no fundo da arca. Essa velha +manta como eu lh'a invejo! Era n'um farrapo +assim, com um resto de calor e de ternura, que +eu queria ir aconchegado para a terra. Nem a +eternidade das eternidades, nem o isolamento, +nem o frio dos frios, conseguiriam jamais trespassal-a. +<br /> + +<br /> + +Que descance em paz. Quem escreve estas linhas +deve-lhe uma das maiores, mais elevadas e +puras impressões que tem recebido na vida. A sua +grande figura só desaparece da terra, depois de +ter feito muito bem e estancado muitas lagrimas. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Julho—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Silva Pinto a respeito do Cardia, que ha +tres dias, em plena mocidade, meteu uma bala no +coração: +<br /> + +<br /> + +—Eu não faço como elle, não +me vou +embora, +porque tenho duas creanças, o Mario e o Raul. +<span class="pagenum">[41]</span> +Era de certo a isto que o Manuel se referia ao +escrever: «Não faço falta a +ninguem». Isto atura-se +lá a sangue frio e determinadamente! Matava-me +para me ver livre d'estes bandalhos! +<br /> + +<br /> + +E os olhos enchem-se-lhe de lagrimas, arrasta +a perna apegado á bengala, e sacode a cabelleira +branca. Parece um trapo ameigado, mas resistente +ainda:—Arre bandidos! +<br /> + +<br /> + +De repente, sem transição, põe-se a +rir: +<br /> + +<br /> + +—Sabe de que me rio? Lembrou-me o Camillo, +que tinha uma lingua viperina e dizia mal +de toda a gente. Um dia em Seide falei-lhe n'este +e naquelle, disse mal de todos. Por fim:—Sempre +me refugio em Victor Hugo, para ver se você +tambem diz mal d'elle... +<br /> + +<br /> + +E o mestre: +<br /> + +<br /> + +—Esse velho não era nada tolo! +<br /> + +<br /> + +Ri-se. Depois fica outra vez triste: +<br /> + +<br /> + +—Aquellas paginas de Hugo quando o avô +vê entrar o neto ferido pela porta dentro! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Fialho descrevendo o Cardia, esse rapaz ingenuo, +insinuante e espontaneo, que aos dezanove +annos se lembra de estourar o coração com +uma bala, por causa d'uma reles cantora de quarenta +e dous annos—o Fialho diz: +<br /> + +<br /> + +—...era isto e aquillo e uma mão enorme +<span class="pagenum">[42]</span> +atirada p'ra aqui e p'ra acolá a toda a gente, +apertando a nossa. +<br /> + +<br /> + +O que nunca mais me esquece são aquelles +olhos tristes e a bocca moça sempre a sorrir!... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date"> +Fevereiro—1904.</div> + +<br /> + +<br /> + +Hoje almoço em casa do Schwalbach com o +Bulhão Pato, o Camara, João Chagas, Antonio +Bandeira, etc. O Bulhão Pato é um homensinho +secco e resistente, de cabeleira e pera branca—miniatura +do alentado Pato caçador que todos nós +imaginamos ao ler-lhe algumas paginas. Parte no +dia 20 para S. Miguel, de passeio... Quando morrer +desaparece com elle toda uma epocha:—Meu +rapaz podes ter lido todos os philosophos, que +se não tiveres sentimento... Minha mulher, uma +velhinha lá fica... Não vae comigo, porque +recolhemos +em casa uma pequena pobre, pobrissima, +e queremos-lhe como se fosse nossa filha. Sentamol-a +á nossa meza... Bem sei que ha por ahi +uns moços que dizem mal de mim. Não me importo. +Quando vejo um rapaz de talento abro-lhe +logo os braços. +<br /> + +<br /> + +No fim do almoço, beija a mão ás +senhoras. +Conviveu com o Herculano, ouviu-lhe dizer:—Isto +dá vontade de morrer! «Que +faria—accrescenta—se +vivesse hoje!»—O Conservatorio lembra-lhe +<span class="pagenum">[43]</span> +o Palmeirim—«que foi da minha +creação»—É +simpathico, vivo e cheira a outros tempos: +conserva, como o linho guardado no fundo +d'um armario, o perfume da maçã. E que contraste +com os outros, com o Chagas, com o +Schwalbach, sempre aflicto e sempre despreocupado, +com o Antonio Bandeira, que, sob uma +aparencia futil, é pratico como o diabo, e que +conta que foi uma noite em Roma, com alguns +portugueses, mulheres e guitarras, bater o fado +para as ruinas do Colyseo! Depois, por +<em>blague</em>, +sustenta com o Chagas, que ninguem devia ter +mais de duzentas e cincoenta grammas de principios. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date"> +Março—1904.</div> + +<br /> + +<br /> + +Encontrei hoje o Marcellino Mesquita: ventas +largas, marcas de bexigas, barba com muitas +brancas aparada rente, chapeu desabado, capinha +curta e olho vivo. Tipo crestado do sol, materialista +e secco. +<br /> + +<br /> + +—A gente quando chega a certa edade tem +de se isolar para não viver n'uma perpetua +irritação. +Olhem agora se eu encontrava o Pequito +ministro, o Pequito de quem a gente fazia troça +em rapaz! E muitos outros, que aos quarenta +annos começam a desafinar-nos os nervos... +Vivo no Cartaxo, n'um descampado: a quinta +<span class="pagenum">[44]</span> +fica entre duas estradas. Não passa lá ninguem... +Leio, fumo, e trabalho. Tinha um moinho; primeiro +acrescentei-lhe uma cozinha, depois um +quarto: agora tenho lá uma casa. E já +não posso +viver sem o ruido das mós. O meu quarto fica +mesmo por cima. D'aqui a oito dias, com as macieiras +em flôr, aquillo é adoravel... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date"> +Abril—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +Vi o Marianno nas camaras. É um cadaver, +com uma sobrecasaca riquissima de gola de veludo. +Nunca phisionomia exprimiu maior cansaço, +indiferença ou desprezo, a palpebra cahida, +o olhar vazio de expressão.—Que me importa! +que me importa!...—Parece um morto, farto de +sofrimento e de goso, e, sob aquella apparencia de +sceptico raros se magoam como elle. Toda a vida +tem sido ludibriado. Contam que a mulher passa +horas a descompol-o. Elle, sentado, escreve tiras e +tiras de papel, a tarefa do jornal, sem dizer palavra +nem levantar a cabeça. D'uma vez chamou-lhe +tudo quanto lhe veio á bocca, e elle inalteravel, +curvado sobre os linguados, sem lhe dizer +palavra... Por fim ella, desesperada, berrou-lhe: +<br /> + +<br /> + +—És um estupido! +<br /> + +<br /> + +Elle então parou, ergueu a cabeça, e muito +calmo: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[45]</span> +—Teem-me chamado tudo, mas estupido é a +primeira vez! +<br /> + +<br /> + +E continuou a escrever. +<br /> + +<br /> + +Por fóra uma aparencia de sceptico, por +dentro uma sensibilidade enorme. Anda sempre +metido em complicações e negocios, em caminhos +de ferro, em pedaços de Africa, bahia de Lobito, +etc., e afinal não passa d'um sonhador que tem as +propriedades de Azeitão hipothecadas em quatorze +contos de reis. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date"> +Setembro—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Antonio José de Freitas, homem de lettras +mediocre, é um conversador admiravel. Se +conseguisse escrever como fala, e désse á prosa +aquella vida que dá á palavra, seria um grande +escriptor. Pequeno, branco, na ponta dos pés, +sempre a segurar as lunetas, todo elle nervos: +<br /> + +<br /> + +—Dei-me muito com o Castello-Melhor. Um +dia começou a imaginar que estava pobre, porque +no Banco de Portugal lhe não quizeram, +como sempre se fez, descontar uma lettra só com +o nome d'elle. Disse ao Barros Gomes:—Vae +beber da merda!—E sahiu furioso. D'ahi começou +a imaginar que tinha cahido na pobreza e +alugou o jardim para o circo Whytoine. Uma vez +sahi com elle d'um baile pela madrugada e acompanhei-o +a casa.—Sobe.—Tenho ainda que +<span class="pagenum">[46]</span> +escrever para o Brazil...—Insistiu, subi—e eil-o +a clamar no quarto:—Que diriam meus avós se +vissem alli o circo e os palhaços!...—Estava +desesperado. +Descompul-o. +<br /> + +<br /> + +Passaram-se annos e morreu de repente. Vestimol-o +n'aquelle mesmo quarto, e, altas horas da +noite, ouvimos, de repente, um clamor: era o circo +Whytoine que ardia. E eu assisti ao espectaculo +do cadaver, iluminado pelo clarão do incendio, +alli onde o ouvira evocar com desespero os seus +mortos. Foi tudo ao enterro. O povo abria alas, e +quando chegamos ao cemiterio e quizemos pegar +no caixão, veio de roldão uma chusma de cocheiros +e vadios, que nol-o arrancaram das mãos, e, +erguendo-o no alto dos braços, levaram-no até +á +cova... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—O Eça usou toda a vida bentinhos ao +pescoço. +Vi-lhos eu, que dormi por diferentes vezes +com elle no mesmo quarto... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Depois fala no Resende: +<br /> + +<br /> + +—Se vivesse era decerto o chefe do partido +conservador. Que homem encantador, polido e +sceptico! E tinha uma poderosa ascendencia +magnetica sobre nós todos. O medico, já quando +elle estava muito mal, recomendou-lhe ares do +mar. Passeava n'um bote no Tejo. Umas vezes +<span class="pagenum">[47]</span> +ia eu com elle, outras o Soveral, e levavamos-lhe +botijas com agua quente, porque sentia sempre +um frio mortal. Estou a ver o Soveral, com +uma botija em cada mão. O +<em>Rabecão</em>, um jornal +de caricaturas do tempo, disse que nós iamos +emborrachar todas as noites para o rio. Muito +nos rimos... Pois o Resende, atheu toda a vida, +morreu como um crente. +<br /> + +<br /> + +Foi elle que se esmurrou com o Eça n'uma +das piramides do Egypto. Nessa viagem ouviram +ambos missa no tumulo de Jesus, em Jerusalem. +O Eça cahiu logo de joelhos; quando levantou a +cabeça para ver o quadro, dois ou trez mil peregrinos +tinham como elle ajoelhado sob o mesmo +impulso irresistivel: só a seu lado, de badine e sobretudo +no braço, se conservava de pé, sem perder +a serenidade nem a linha, um unico homem: +o Resende. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Os <em>vencidos da vida</em>, depois que se +juntaram +diziam mal uns dos outros. Não se podiam ver. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date"> +Março—1900.</div> + +<br /> + +<br /> + +Ha mezes que Junqueiro não aparecia na +Praça, onde outrora era certo á noite, rodeado +de esbirros, e discutindo politica ou arte com +alguns amigos mais intimos. Eil-o agora de volta, +<span class="pagenum">[48]</span> +depois de umas febres palustres apanhadas n'essa +longinqua quinta que replanta de vinha lá para +a Barca d'Alva. +<br /> + +<br /> + +Vem curioso. Teem por acaso os senhores +noticia d'um Junqueiro adunco e janota, mephistophelico, +com ditos em braza explodindo sobre +o ultimo acontecimento, e conhecem talvez a lenda +da casa de hospedes celebre da rua dos Retrozeiros, +d'onde em tempos sahiram gritos subversivos, +pamphletos, versos, theorias philosophicas, +satyras e revistas do anno, e onde—consta +dos archivos da policia—morou o proprio Diabo +em pessoa, na intimidade do poeta?... Lembram-se? +Depois, n'outra phase da vida, viram-no +talvez autoritario e feroz, com o mesmo perfil em +bico d'aguia, sob um chapéo molle e gasto, atacar +o velho Padre Eterno?... Pois ahi o teem agora +philosopho e christão. Parece um prégador +socialista-tolstoiano, +um santo cavador, de barba negra +e inculta: traz ainda terra pegada nas mãos e +uma roupa velha, a que só faltam alguns remendos +cosidos á ultima hora... Usa uma camisola de +lã e diz assim:—Eu não me visto: +cubro-me. +<br /> + +<br /> + +Chega da Barca d'Alva, um terreno enorme +lá para a raia, entre pantanos, que reuniu leira +a leira, depois d'uma scena, que dava um capitulo +á Balzac. É elle mesmo que a evoca em meia +duzia de traços, e a gente vê logo d'um lado os +cavadores tartamudos e hesitantes, do outro o +Senhor Poeta, como elles lhe chamam, com um +<span class="pagenum">[49]</span> +livro de cheques na algibeira, encafuando-os a +todos na sala do cartorio:—Se chegam a concertar-se +era uma discussão para seculos. Pediam-me +uma fortuna!—Um a um compareceram diante +do tabelião:—Quanto quer? Assigne!—E +sahiam logo por outra porta.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="f2" id="f2"></a> +<div style="text-align: center;"><img style="width: 500px; height: 727px;" alt="" src="images/fig05.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Já pouco a pouco a lenda se forma, discutindo-se +a nova thebaida, que d'aqui a annos será +visitada como Valle de Lobos e Seide. Que procuram +os nossos grandes escriptores, desde Herculano +a Fialho, na natureza, que pouco nos dá +em troca do muito que lhe damos? Afastar-se +dos outros ou esquecer-se a si proprios?Talvez +as arvores e os montes nos preparem melhor +para o sepulchro e para o verme, ainda que +eu julgue que não ha como um 6.º andar, com +livros e papeis, e um cinematographo no rez do +chão, para acabar com a vida. +<br /> + +<br /> + +Seria um curioso estudo aquelle que comparasse +Valle de Lobos, Seide e a quinta de Junqueiro, +a decoração escolhida por tres homens +superiores—o fundo de tres grandes retratos. +Na Barca tem o poeta uma casota de cão, com +os muros ainda em osso, e uma varanda onde +passeia todo o dia infatigavelmente. De quando +em quando escreve na cal da parede versos ou +contas. Seide, n'um cahir de tarde outomniça, +lembra a alma de Camillo. Ha lá um calvario +d'arvores decepadas que parecem forcas. Ha lá +uma casa tragica, pintada d'amarello. Um ermo, +<span class="pagenum">[50]</span> +que, a meia legoa da estrada, fica ao cabo do +mundo, e que parece escolhido de proposito para +esconder uma desgraça ou combinar um crime. +Peor: ficou na casa abandonada, no ambito, nas +pedras, alguma coisa daquella alma dilacerada +de sceptico e de crente, mixto doloroso que só +tinha como solução o infortunio. O que se ouve +são risos ou gritos de dor? Depressa! depressa!... +Parece que elle anda ainda por aqui, sardonico e +immenso, desgraçado e immenso. Valle de Lobos, +se uma vez o avistaram, não emociona de +uma forma toda diferente, e não diz bem com a +alma de Herculano?... Quanto a Junqueiro, +a sua paizagem querida é indubitavelmente a +trasmontana, grave, revolta e grandiosa como +o seu genio. +<br /> + +<br /> + +Camillo não encontrou decerto +resignação nas +arvores, nem nos montes, porque, para o mestre, +em toda a natureza só o homem +existia:—Não ha +na sua obra uma arvore, nota o poeta...—Nem +Guerra Junqueiro por ora se isola. Está na lucta, +com os seus livros, as suas theorias, a sua maneira +suprema de discutir e de encarar os problemas +do universo. +<br /> + +<br /> + +—Para viver na aldeia é preciso, diz elle, ser +João Brandão ou S. Francisco d'Assis. +<br /> + +<br /> + +De forma que a Barca d'Alva não é bem +uma thebaida para o poeta. Os senhores vão +agora conhecel-o sob este aspecto novo—agricultor. +A Barca é-lhe mais que um refugio: é +<span class="pagenum">[51]</span>(palavras que fazem +bater o coração de todos os +homens) o futuro dos seus filhos. E Junqueiro, +agricultor, tem ainda genio: inventa e descobre. +Quatrocentos cavadores desbravam-lhe a terra, +que deve produzir um vinho magnifico. O mosquito +propaga a febre. O jornaleiro macilento +bate o queixo com sezões. Elle ordena, dirige e +resolve as questões agricolas muito melhor que +os lavradores da região, de quem diz: +<br /> + +<br /> + +—Plantam vinhas, como quem joga na batota—ao +acaso! +<br /> + +<br /> + +Ouçam-no! Desfilam os jornaleiros, que adquirem +logo uma vida extraordinaria, as boccas que +não falam, a Maria Colhôna, que tem filhos de +toda a gente, filhos para o Brazil, filhos para soldados, +filhos para a desgraça, os sêres deformados +e enormes, os tipos que se transformam em +simbolos... Descobriu um novo processo para evitar +que a enxertia, essa operação cirurgica, como +elle lhe chama, falhe, e, sob as suas ordens, trabalham +alguns centos de homens, que se encostam ás +enxadas para ouvirem o Senhor Poeta... Não é +raro vel-o subito, tempo humido, perigo para as +vides, abalar para a quinta com saccos de sulphato. +Adivinha, presente melhor a natureza que +os sabios—e cria. Tudo o que toca toma sob as +suas mãos um aspecto novo, tão certo é +que os +homem de genio, como quer Carlyle, são sempre +superiores e ineditos. +<br /> + +<br /> + +E de que maneira paradoxal elle expõe as +<span class="pagenum">[52]</span> +suas theorias! Nervoso, pequeno, calcando o lagedo +da Praça, a mordiscar a ponta do charuto, +que giganteas formas de sonho não vae creando +aquella magica palavra!... A sua phantasia é +eminentemente decorativa. +<br /> + +<br /> + +—Sabem—dizia o poeta uma noite—sabem +que scismo na fórma de transformar toda a agricultura? +Acabaram-se os pobres, a fome, os annos +tristes! Para o vinho, d'aqui em deante, não +bastarão +toneis como torres e para o pão arcas como +predios. Uma carrada de bois será apenas suficiente +para carregar uma abobora, e um simples +cacho de uvas dará vinho para duzias de +borrachões. +Como? Aplicando ás arvores, ás vides, +ás +plantas emfim, o methodo de Brown-Séquard. +O sabio dá a um organismo gasto uma vida +assombrosa, injectando-lhe a vitalidade de coelhos. +Calculem o resultado d'esse sistema aplicado +na agricultura... +<br /> + +<br /> + +Um castanheiro dura seculos, tem uma vida +extraordinaria. É mais que uma arvore—é +uma +força. Apodera-se dos montes. As suas raizes alastram, +os seus ramos tocam no céo. Imagine que +injecto polen de castanheiro n'uma vide... Obtenho +logo uvas como as da Terra da Promissão. +D'um pé de melancia tiro um fructo capaz de +carregar um carro. Tres maçãs metem no fundo +uma náu. +<br /> + +<br /> + +E eis, por uma noite de invernia, a natureza +transfigurada, pelo poder da phantasia +<span class="pagenum">[53]</span> +e do sonho. Flores são arvores abrindo lá em +cima no céo em parasoes roxos; pinheiros transformam-se +em montanhas; monstros erguem as +suas corolas de veludo, e na verdade não passam +de humildes flores bravias. Uma petala desaba +com o fragor de penedos, e multidões sobre +multidões +sequiosas veem dessedentar-se n'este fructo +colossal:—o morango. Ha que tempos que +eu erro perdido n'esta floresta monstruosa de +papoulas!... +<br /> + +<br /> + +Junqueiro na intimidade é prodigioso de genio, +de imprevisto, de elevação. Vê os +factos mais +simples com um olhar que os engrandece. Assombra +de pitoresco e de inedito. O homem de genio +é, como todos os homens, filho da mesma +lama, mas, por acaso, vão n'esse humus lagrimas, +aguas correntes, detrictos de florestas, restos de +nuvens e a emoção profunda da natureza. Por +isso sabem tudo, sentem tudo... É pena que as +suas conversas, os seus fragmentos, esses pedaços +de sonho e de vida, atirados com febre, perdidos, +e decerto esquecidos, se não possam juntar, +porque dariam um dos aspectos mais extraordinarios +do seu genio. Seria esse talvez o seu +melhor livro. Assim, por exemplo, as cathedraes +de Hespanha, onde Jesus está preso e a ferros, +a explicação prodigiosa dos Christos de +madeira—o +Christo dos soldados, o dos ladrões, o +dos cavadores, da sua sala de jantar, unicas +obras d'arte de que não quer desfazer-se, e a +<span class="pagenum">[54]</span> +sua philosophia, a maneira superior como encara +o universo e ilumina o desconhecido... +<br /> + +<br /> + +Pois ahi o teem de novo no Porto, de barba +hisurta, embrulhado n'um casaco coçado, com um +ar iluminado de Santo. Direis que vae prégar ás +multidões. Demais já ha annos que elle escrevia: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;" class="tinyl">Tolstoi +o meu sapateiro... +</div> + +<br /> + +<br /> + +E um dia, ao saber Camillo sceptico, Camillo +com noites de sombrio desespero, palpando a +coronha do revólver, não foi de proposito +procural-o +para lhe prégar Deus? +<br /> + +<br /> + +Era n'uma dessas tardes tragicas de Seide, +de que o grande escriptor fala nos +<em>Serões</em>. A +natureza chorava revolvida: a acacia de Jorge +batia-lhe devagarinho nos vidros. Quem é que o +chama? Atormentado de dores, ouve vozes, vê +phantasmas, e sae do horror com blasphemias e +sarcasmos. Junqueiro encontra-o mergulhado na +dolorosa tinta do crepusculo, com a pala com que +escrevia sobre os olhos, absorto, calado, desesperado, +o rosto marcado de dedadas, «esboçado +n'uma argila côr de mel», segundo o retrato de +Ricardo Jorge. Eu tinha-lhe medo... O poeta +tenta arrancal-o ao negrume que o envolve: desenrola +theorias, explicações, argumentos; ataca-o +a fundo, persuade-o talvez... Já o julga abalado +e convertido, quando d'essa figura só osso e dor, +saem emfim estas palavras ironicas: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[55]</span> +...—Sim, sim, Junqueiro, você convencia-me +se eu não tivesse ainda no estomago, desde o +almoço, +tres bolinhos de bacalhau, que me estão +aqui como tres Voltaires. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date"> +Março—1904.</div> + +<br /> + +<br /> + +Veiu a Lisboa acompanhar, por solidariedade, +os lavradores do Douro, o poeta Guerra Junqueiro. +É outro homem, que perdeu talvez em +exterioridades mas ganhou em funda emoção. +Tendo-se-lhe um dia deparado universaes +interrogações +no caminho; tendo encontrado +frente a frente, ao meio da vida, idéas abaladoras, +que só o homem de genio pode encarar +sem o pavor e o deslumbramento que o +grande mistério comunica—as raizes do +universo—elle +mudou de rumo, tão simplesmente +como se praticasse o acto mais banal da existencia. +Sendo já um dos maiores poetas da Europa—quiz +ser tambem um santo... Durante annos +procurou como Fausto o segredo da vida no +fundo dos laboratorios. E n'outra phase do seu +espirito decorativo tendo entrevisto, pelo poder +do genio, novas veredas a tentar, seguiu-as, fazendo +experiencias que a sciencia d'hoje plenamente +confirma. +<br /> + +<br /> + +Guerra Junqueiro está na mesma: alguns fios +brancos a mais na grande barba de santo, começo +<span class="pagenum">[56]</span> +de calva amarelada no alto da cabeça, +chapéo +baixo, uma simplicidade de trajo que vae bem +com a simplicidade verdadeira ou ficticia da sua +alma. E sobre isto os olhos terriveis que nos +fitam e nos adivinham até ao fundo. A conversa +é prodigio que evoca, ilumina, toca em todos +os problemas da vida, dando-lhes uma grandeza +e novos aspectos que entontecem. +<br /> + +<br /> + +Fala-se a proposito de um livro, e elle diz, não +palidamente, nem decerto com as inexactidões +com que reproduzo, o seguinte: +<br /> + +<br /> + +—É um livro interessante. O autor conseguiu +deixar falar a parte de inconsciente que cada um +de nós traz comsigo... Porque, meu amigo, a +porção de infinito que cabe a cada homem +é +exactamente a mesma. O camiseiro alli defronte +e um homem de genio teem na alma identico +quinhão. Sómente o camiseiro não +consegue encontral-a +nem pode exteriorisal-a. Porque? Porque +só pensa em camisas. O homem é o universo +reduzido... Que cada um pudesse deixar-se narrar—e +teriamos a mais maravilhosa historia do +mundo!... +<br /> + +<br /> + +E como incidentemente se refira á sciencia, +eil-o que se desvia por outro esplendido caminho: +<br /> + +<br /> + +—As ultimas descobertas modificaram completamente +a sciencia. Foi um terremoto. E eu +entrevi isto mesmo: ha annos que chegára ao +seguinte resultado:—radiação universal +e +desassociação +dos atomos. Fiz experiencias, que me +<span class="pagenum">[57]</span> +de sciencia que não me quizeram atender. Um +dia vim de proposito a Lisboa falar a Sousa Martins +e expuz-lhe as minhas theorias. Ouviu-me... +Quando me fui embora encolheu decerto os hombros. +E no emtanto, passados annos, vejo confirmado +experimentalmente tudo o que eu previra... +Que quer?... Faltavam-me como comprehende +os meios de verificação. Precisava de factos.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="illustration"><a name="f3" id="f3"></a><img style="width: 500px; height: 901px;" alt="D. João da Camara." title="D. João da Camara." src="images/fig06.png" /><br /> + +<em>D. João da +Camara.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +Cala-se um momento e depois continua: +<br /> + +<br /> + +—Hei-de publicar, depois da +<em>Oração á +luz</em>, +que sae brevemente, uma serie de memorias, com +os resultados dessas experiencias. A vida—é +o Amor e a Dor. Procurar as suas leis eis +tudo. Seguir-se-ha a minha theoria philosophica. +Adivinhei todo este terremoto que se deu ultimamente +na sciencia. Hoje a materia não existe: +já a definem—associação +d'energias. O +que é +feito dos materialistas? A sciencia futura será +portanto o estudo de energias. Por ultimo publicarei +uma introducção á sciencia, visto que +não +posso escrever essa obra: seria a revisão dos trabalhos +de Spencer—a tarefa de toda uma vida. +<br /> + +<br /> + +—E tem muitos documentos? +<br /> + +<br /> + +—Tenho tudo prompto. Necessito apenas de +encontrar a fórma precisa, a fórma mathematica, +para exprimir as minhas idéas. +<br /> + +<br /> + +Incansavel. É de ferro. Pequeno e mirrado +passeia horas e horas, a conversar... Não +conversa—monologa. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[58]</span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Da Barca d'Alva diz: +<br /> + +<br /> + +A minha casa de jantar tem uma meza e cadeiras +de pinho. Depois de comer, quando quero +um palito, corto-o na meza. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Ramalho definido por Junqueiro:—um pinheiro +com uma melancia em cima. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Junqueiro na redacção do +«Mundo»: +<br /> + +<br /> + +—D'aqui a pouco reparto a minha fortuna +com as minhas filhas e o que me restar dou-o +aos pobres. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Ha outro Junqueiro de que a caricatura se apoderou, +o Junqueiro do +<em>bric-á-brac.</em> O Junqueiro +que a má lingua do Porto afirma que percorre +disfarçado as ruas de Hespanha, com um burro +pela arreata apregoando:—Ha por ahi quem +tenha louça para vender?—O Junqueiro que +foi procurado um dia no hotel, em Salamanca:—Está +cá o grande poeta Guerra Junqueiro?—Não +conheço,—disse o porteiro.—Mas elle +vem sempre para aqui. É um homem de +barbas...—teimou, +explicou o outro.—Esse es Guerra +el antiquario!... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[59]</span> +Mas até no Junqueiro caricatural algumas linhas +são indispensaveis para completar o retrato. +Ha n'este grande homem uma mascara. Sinto +uma parte que se deve ao arranjo—e que é a +inferior e outra em que elle obedece á raça e que +é a mais viva, a que tem raizes nos mortos. Melhor: +o homem é sempre um tablado onde varios +phantasmas se despedaçam. Ha mãos que nos +puxam para o fundo, ha outras que nos procuram +levantar cada vez mais alto. Deus nos livre +de julgar os mortos! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Junqueiro, de volta do Bussaco, indignado: +<br /> + +<br /> + +—E não aparecer um doido, com um grande +martelo, que deite tudo aquillo abaixo! Qualquer +dia botam as arvores a terra e põem pedraria +até á Pampilhosa! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date"> +Dezembro—1907.</div> + +<br /> + +<br /> + +Encontro-o hoje em Lisboa, emagrecido, com +um velho casaco comprado n'um adelo, e muitas +rugas, finas como linhas, ao canto dos olhos. E, +como o José de Figueiredo lhe fale no Rodin: +<br /> + +<br /> + +—É verdade, passei um dia inteiro com o +Rodin, a explicar-lhe a sua obra. Disse-lhe: você +é um grande artista, mas exactamente, como +<span class="pagenum">[60]</span> +em todos os grandes artistas, a melhor parte da +sua obra é inconsciente. Porque em todos nós a +razão é nada, o que é grande +é o inconsciente. +Aquella cabeça que você tem no Luxembourg, +emergindo da pedra—é assim, é +aquillo... Mas +falta-lhe não sei quê de simbolico que ligue a +cabeça á pedra. Assim choca, é brutal. +É como +o <em>Pensador</em>, a estatua que +está no Pantheon. +Toda a critica franceza tem tentado explicar +aquella estatua, e ainda ninguem disse as palavras +necessarias. Eu lh'as digo: Aquillo não é +o <em>Pensador</em>, nem o +<em>Pensamento</em>: é o primeiro +pensamento em cabeça de homem. Dispa você +um tipo de verdadeiro pensador, Kant, o Dante, +por exemplo, e encontra um corpo deformado. +Porque o pensamento peza mais de que montanhas. +Devora. O que você fez foi uma besta, +um gorilha, um homem capaz de arrastar calháos: +Pois bem: inconscientemente fez uma grande +obra d'arte: o primeiro pensamento na cabeça +d'homem. Esse primeiro homem athletico, ao +deparar com o primeiro pensamento, essa flor +abstracta, fica dominado, subjugado: cae-lhe o +Atlas em cima e esmaga-o... E adeus, são horas +de partir para o comboio. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +D. Carracida, professor de chimica biologica +na Universidade de Madrid, homem ilustre e que +<span class="pagenum">[61]</span> +conhece perfeitamente a literatura portugueza, +diz assim de Junqueiro... (D. Carracida fala +portuguez pausadamente). +<br /> + +<br /> + +—O senhor Junqueiro, grande poeta, é um +mistico... Está agora no misticismo. O senhor +Junqueiro e eu passeavamos juntos no jardim de +Villa do Conde, de cá para lá—e o +senhor +Junqueiro +prégava a piedade e o amor. Uns rapazinhos +acendiam balões para uma festa, e eu e o +senhor Junqueiro passeavamos de cá para lá... +O senhor Junqueiro prégava a piedade e o amor, +e um dos balões cahiu na cabeça do senhor +Junqueiro, +que levantou a bengala e deu com ella +no rapazinho... E nós continuamos a passear +de cá para lá, e o senhor Junqueiro a +prégar a +piedade e o amor... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date"> +Março—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +Fialho não é este janota de palio rico, com +uma joia tão grande que parece falsa na gravata +de veludo. Fialho era outro estranho tipo, intratavel +e pobre, com o pêlo ralo e a bocca enorme +cheia de sarcasmo. Um principe de gabinardo, +que fazia cahir as peças do alto do galinheiro, a +um gesto seu irrespeitoso. Seguia-o a malta atonita +de matulas suspeitos e jornalistas de ocasião, +<span class="pagenum">[62]</span> +que deslumbrou de sonho e atascou em sonho.—Fialho! +Fialho!...—Esses aplaudiram-no e +amaram-no... Esquecidos do frio e da pobreza, +não despregavam os olhos d'aquelle sonho +desconforme.—Fialho! +Fialho!...—Depois sumia-se +n'um terceiro andar, ou procurava os pobres +que não pedem: só a mão sae da noite e +implora. +Havia uma velha—nunca mais me esquece—alli +á porta do Monte Pio, que fazia parte do +muro alto e espesso, e a quem elle, ao dar-lhe +esmola, lhe afagava a cabeça... Depois, amargo, +feroz, insuportavel, eil-o tornava com sarcasmos, +transtornando as figuras decorativas, cheias de +veneras, que á sua voz desatavam ás cambalhotas +como palhaços. Vi-o exasperado, vi-o atordoado +de phrases, como quem quer fugir ao +proprio phantasma. Vi-o mergulhar n'uma absorpção +dolorosa, e desaparecer na noite em correrias +que duravam até de manhã pelos bairros +escusos ou pelas azinhagas de crime, n'um debate +perpetuo de que sahia livido, exhausto, e +com a mascara transtornada. Este que fala do +seu vinho:—Livros?... O que eu trato de editar +é um vinhinho branco lá de +Cuba...—este, que +vem, de quando em quando, a Lisboa deslumbrar-nos +com um novo e horrivel fato, é outro +Fialho, que talvez tenha saudades d'essa vida +absurda de outros tempos... +<br /> + +<br /> + +Fialho! Fialho!... Pronuncio este nome e +diante de mim desfila o assombro, pamphletos, a +<span class="pagenum">[63]</span> +obscenidade e o genio—farrapos arrancados a +ferro e tão vivos que mal ouso tocar-lhes—o +estoiro +d'uma bexiga d'entrudo—ironia e esgares. +E logo gritos! e agora gritos!... Ouço a dor, sinto +a dor, sinto-a sempre atravez da forma imprevista, +d'uma audacia e d'um rithmo incomparavel, +escorrendo sonho, aflição, miseria, sinto-a +até nos +impetos de máo gosto, nos pontapés aos leitores +surprehendidos e irritados. Está aqui diante de +mim aquella bocca enorme, aquella figura de gabinardo +e chapeu molle que nas noites de tristeza +e abandono me dizia:—O que eu sofri! o que +eu sofri!...—Vejo-o sempre invejar o barqueiro +louro e sardento, de que fala nos +<em>Gatos</em>, bello +como um ephebo á prôa do seu barco.—Como +eu queria ter saude e ser forte!—Deu-lhe +Deus o mais rico quinhão que imaginar se +pode, a lingua incomparavel para exprimir a chimera +e a dor, e, esse macaco sem fé, esbanjou-a +com o mais absoluto impudor: serviu-lhe para a +chacota. Transtornou tudo, engrandeceu tudo, +riu-se de tudo. As descripções perderam a +proporção, +as figuras a realidade, transformadas em +figuras de dor ou de grotesco; a propria cidade +resurgiu a uma tinta livida de antemanhã, com +a casaria a escorrer vicio e aspectos tetricos... +É isto sim, mas isto creou-o elle de pobreza e +desespero, creou-o de gritos que nunca ninguem +lhe ouviu.—E maior! ficou maior! A sua obra +só tem outra que se lhe compare, a de Camillo. +<span class="pagenum">[64]</span> +Exigem-lhe um livro harmonico—<em>Os +cavadores</em>. Porque é que toda a gente reclama dos +outros +aquillo de que elles são incapazes? A obra de +Fialho não podia ser senão esta, aos arrancos e +enorme. Fialho via os pormenores atravez d'uma +lente, e deturpava tudo, deformava tudo, dando +genio á propria obscenidade. Nunca conheceu +Barjona, nunca viu Barjona, e, com duas ou tres +anecdotas, creou uma figura com um relevo que +falta ao mediocre Barjona da realidade. Precisou +sempre de se exagerar para se encontrar. Sacrificou +o seu melhor amigo a um dito, é certo, +mas começou por se sacrificar a si próprio. Foi +sempre o primeiro a sofrer. Houve tempo em +que alguem o definiu um doente com inveja +das doenças dos outros... Desatou então a +gargalhar +com lagrimas nos olhos. Perdeu o pé. +Arrancou as azas disformes ao Sonho e rojou-as +com maldade no enxurro.—Encharcou-as de +lama e empoou-as de estrellas... O vestido ficou +mas era o d'um espectro... Não nos podemos +medir todos pela mesma craveira. Fialho tem de +tudo na alma: a casa de hospedes, a existencia +reles d'estudante, a pobreza, as mil saburras, os +pequenos nadas que gastam, desgastam e transformam, +e uma alma vibratil, um feixe de nervos +(capaz de tempestades que se domam com uma +palavra) ligado a uma enchente de sonho e a +um orgulho doentio, como os que sentem dentro +de si, e o suportam, um mundo desconhecido e +<span class="pagenum">[65]</span> +nunca dantes navegado. Fialho, se o virassem +do avêsso, escorria ternura... É tambem um timido +capaz de todas as audacias, e que sae da +doença e do isolamento com desespero e escarneo. +Esta figura tão conhecida de todos nós, +não +é a exacta expressão da sua alma. Ainda hoje +ninguem se entende...<br /> + +<br /> + +<div class="illustration"><a name="f4" id="f4"></a><img style="width: 500px; height: 724px;" alt="Eça de Queiroz.—Desenho de Antonio Carneiro." title="Eça de Queiroz.—Desenho de Antonio Carneiro." src="images/fig07.png" /><br /> + +Eça de Queiroz.—Desenho de Antonio Carneiro.</div> + +<br /> + +<br /> + +Silva Telles, por exemplo, conheceu um estudantinho +aplicado e mediocre, que se chamava +José Valentim Fialho d'Almeida; ha ainda talvez +quem se recorde d'um moço de botica reservado +e triste; e, o que é mais extraordinario, de outro +Fialho respeitoso, que não podia suportar o +exagero alheio, e d'outro, noctambulo e feroz, +com risadas estridulas de sarcasmo—e de outro, +de outro maior, de outro espectro, que +vem aqui sentar-se a meu lado na sua tragica +mudez. No fundo talvez tudo aquillo fosse dor. +No fundo, bem no fundo, quando irrompia n'uma +phrase cruel, não era aos outros que dilacerava, +era a si proprio que se dilacerava, e tão a serio +que todos o viamos sangrar. Reparem: pouco a +pouco a figura range de dor. Arfa atravez da sua +obra. É o filho do professor +d'instrucção primaria, +d'aquelle homem severo, de quem dizia baixinho:—O +meu pae foi duro! o meu pae foi tão duro! +Era um homem sem ternura...—É o praticante de +botica alheado e transido, o neto deformado de +cavadores, que inveja a sociedade distante, e que +só aos impetos se atreve a enchel-a de sarcasmos. +<span class="pagenum">[66]</span> +Que inveja o grande escriptor, o desgraçado +Fialho, o homem de genio que passou a vida a +fazer chacota das veneras, das academias, das +elegancias, dos grotescos cobertos de patacos—que +lhe faziam falta? Tanta tinta, tanto desespero +calcado e recalcado, tanta contradição e pobreza, +e uma lucta de noites e noites de que sae amarfanhado—e +com paginas soberbas! Mas tu não +vês que no dia em que te roçares por elles +estás +perdido, como no dia em que a cobra perde o +veneno? Vae-se-te o melhor do teu genio...—Não, +eu rio-me, eu sofro...—Tantas paginas bellas!—Se +soubesses como isso se paga!—Então +explica-te...—Não posso, não sei. +Até +dos idolos +postiços que deito abaixo me ficam saudades... +Nem eu proprio sei o que quero.—Pobre +Camillo, que estoirou a cabeça de desespero, pobre +Anthero, exilado e em debate com uma sombra +com que não podia arcar; pobre Fialho, pobre +cavador de genio, em perpetua discussão +com os seus mortos, em lucta comsigo e com os +outros e no fundo um reverente—foi-o sempre—sahindo +em farrapos d'este inferno a que se +chama a vida!... +<br /> + +<br /> + +Da sua existencia oculta faz parte uma figura +de dor calcada e recalcada, sobre a qual +outra se encarniça com desespero. Talvez seja a +verdadeira... Contentemo-nos em fixar duas ou +tres aparencias, apontando n'este canhenho algumas +anecdotas frivolas... Se elle podesse gritar +<span class="pagenum">[67]</span> +gritava ainda. D'essa figura contraditoria restam +farrapos—mas que farrapos! d'essa lucta suprema +existem vestigios, que nunca encarei sem +espanto... Vio-o algumas vezes ao amanhecer, +n'um 3.º andar do Arco da Bandeira, quando +elle cahia exhausto sobre a banca de tortura, á +luz d'um candieiro de petroleo, com um frasco +d'alcool ao lado e o cobertor enrodilhado nos +pés. A mascara livida estava de todo mudada. +Era outro! era outro! Surprehendi-o em noites, +nos giros sem destino pela Graça, pela Penha, +pelo Monte—quando o seu dedo apontava +boqueirões de treva, tropeis de casaria, sitios +ermos onde duas ou tres oliveiras torcidas se +ajuntam para concertar um crime, ou, peor ainda, +nas horas de amargo descalabro, em que, dorido +e sem phrases, procurava fugir de si proprio para +muito longe. Não queria então que ninguem o +seguisse nas caminhadas que duravam até ao +dia—elle e a dor, elle e a noite! Amigos, silencio... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—O que eu sofri!—dizia elle.—Tiveram-me +preso oito annos n'uma botica alli na Bemposta, +ao pé da Escola do Exercito, na idade em que +queria viver. Estragaram-me a vida, encheram-me +de desespero. Quando me soltaram não imagina +a minha alegria! Podia ter sido outro... Ter +saude, ser forte!... O que eu sofri! D'uma vez, +<span class="pagenum">[68]</span> +no <em>Reporter</em>, o Martins mandou-me +escrever um +artigo sobre uma kermesse de fidalgas. Fui e fiz +uma troça, e elle rasgou-me os linguados na +cara. Para me vingar, tirando um bocado ás noites, +escrevi um artigo formidavel para publicar +em folheto. Era na occasião em que essas peidorreiras +arranjavam um bazar para os pobres, que +rendeu oitocentos mil reis. Ora eu descobri por +acaso um gallego, que se juntava com outros e +tiravam todas as semanas meio dia de ganho, +para irem ao domingo ao hospital dar cigarros +aos doentes, penteal-os, cortar-lhes as unhas, +untar-lhes a cabeça com banha de porco. É um +velho, de barba de passa piolho, que está sempre +no largo de Camões. Homem de poucas falas. +Tratou-me mal. Tive prompto o folheto em que +comparava essas mulheres, cheias de snobismo, +com adulterios e infamias, com esse santo desconhecido... +Imagine... Perdi o artigo. +<br /> + +<br /> + +E depois, falando da mulher Oliveira Martins:—Não +era a mulher que convinha áquelle homem. +E elle subordinava-se-lhe. Foi ella que o +fez confessar á hora da morte. Contou-me o +Sousa Martins que a sacudira de ao pé de si ao +morrer... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Fala do livro <em>A Cloaca</em>, um d'estes +livros que +se sonham e nunca se chegam a escrever: +<br /> + +<br /> + +O primeiro capitulo está feito: é uma festa da +<span class="pagenum">[69]</span> +alta sociedade no claustro da Batalha... Aproveito +a epoca do Burnay e do marquez da Foz, +a lucta da finança, quando o Foz tinha palacios +e o Moser carro a duas parelhas. Deram-se festas +esplendidas... Tenho as figuras todas, homens +de negocio e jornalistas, o Mariano e o Navarro... +Um dia alugam um comboio especial e vão dar +uma festa no claustro da Batalha. É uma ceia +formidavel, com mulheres da grande roda, politicos, +literatos, e, dentro do claustro, entre a +grandeza e a severidade d'aquellas pedras, caem +de bebados e mijam pelos cantos, nos tumulos. +O principe tambem lá está, com o conde de +Maricas—fedes: +no fim do banquete, á sahida, a +babar-se, escreve nas paredes monumentaes esta +palavra obscena: p... Os outros riem-se, as mulheres +aplaudem. Fora a multidão apupa. Outro +capitulo ha de ser a noite em que os jornaes +apregoaram em suplemento o escandalo Foz e +a sua prisão:—Foi n'essas horas—dizia a +marqueza—que +os cabellos se me puzeram brancos +da noite para o dia. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Nunca terminou outro livro <em>A Quebra</em>, +que +chegou a trezentas paginas impressas, no editor +Costa Santos. Tinha capitulos admiraveis. Acabou +por o inutilisar:—A minha dificuldade é a falta de +proporções. Perco-me n'um incidente, e quando +<span class="pagenum">[70]</span> +mal me percato estou em quatrocentas paginas.—Sei +tambem que escreveu alguns capitulos d'<em>Os +Cavadores</em>. Talvez d'<em>Os +Ceifeiros</em> pertencessem a +esse livro, em que elle queria pegar no homem +do campo e leval-o, sempre explorado, desde o +baptismo até á morte... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Inventou este nome para o conde de Arnoso, +a <em>rainha Draga</em>, e diz do retrato a +oleo que o +Columbano lhe pintou: +<br /> + +<br /> + +—O Columbano é tão cortezão +que lhe +poz +um velho olho do Eça de Queiroz. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Contemplando o cadaver do Cardia: +<br /> + +<br /> + +—Só aos quarenta anos é que se sabe o +que é isto! +<br /> + +<br /> + +<em>Isto</em> é a morte, +á qual tem horror, assim +como á velhice. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +E falando a proposito do Cardia: +<br /> + +<br /> + +—Eu tambem sou assim... Ha dias em que +ninguem me arranca seja o que fôr da cabeça. +Sinto a mesma impressão de vasio que o Cardia +sentia. Depois escrevo por impetos uma pagina, +pedaços destacados que me matam de desespero +para ligar. E se não escrever logo, passadas +horas já não posso, não sei... +Varreu-se-me tudo!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[71]</span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Está furioso com a inauguração do +monumento +ao Eça. No fundo nunca o pode vêr: faltou-lhe +o carinho, a consideração—e isso +maguou-o +muito—que rodeou o grande escriptor +dos <em>Maias</em>. Elle proprio diz: ganhou +sempre a +trabalhar menos que um pedreiro. No jornaleco +<em>A Tribuna</em> escreveu em dois numeros +successivos, +sem assignatura, as seguintes notas com o titulo<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;" class="smallcaps">o +monumento</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="tinyl">Já noticiamos n'outro numero +do nosso jornal com +todos os seus detalhes e pormenores, como foi a festa +d'inauguração do monumento a Eça de +Queiroz. Damos +hoje um reflexo do humor da multidão que assistiu ao acto. +Porque, emfim, a nosso vêr, tudo é documento para +a historia. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—<em>Sobre a nudez forte da Verdade, o manto diaphano +da phantasia</em>. Dizem os amigos que n'esta frase se +alegorisa +a obra de Eça. Mas olha cá. Estando a +<em>Verdade</em> completamente +nua do ventre para cima, e só rebuçada d'ahi para +baixo, o que sob o manto da fantasia se guarda é indecente. +<br /> + +<br /> + +—Ahi está a razão porque a alegoria +é +flagrantissima. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—Tu, se fosses casado, davas o <em>Primo +Bazilio</em> a lêr a +tua mulher? +<br /> + +<br /> + +—Lá isso não. Mas não tinha +a mais +pequena duvida +em o dar á tua.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[72]</span> +<div class="tinyl"> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—Que lhe parece a <em>Verdade</em> do +monumento? +<br /> + +<br /> + +—Um calix de <em>bitter</em> para fazer +bocca ao <em>Chat Noir</em>, +que fica em baixo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—Condessa, de todos os cavalheiros que fallaram, qual +d'elles é o conde d'Avila? +<br /> + +<br /> + +—O conde d'Avila são todos. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—Este Monteiro Milhões, que inconveniencia! +Consentir +que das suas cavallariças um burro esteja a interromper +os oradores! +<br /> + +<br /> + +—Condessa, é o echo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—O que eu n'esta consagração sobretudo +admiro, +é o +grande coração do conde d'Arnoso. O Municipio +devia premiar +tão nobre musculo. +<br /> + +<br /> + +—Com uma urna, como se fez ao D. Pedro IV? +<br /> + +<br /> + +—Com uma urna não. Com uma travessa. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—Seria interessante conhecer todos os tramites do +trabalho de creação do esculptor, até +ao momento da estatua +apparecer. +<br /> + +<br /> + +—Ah, eu lh'os conto. Primeiramente, o Carlos Mayer, +na sua qualidade de judeu, queria uma descida da Cruz, e +por isso, o grupo do Eça e da Verdade cheiram um pouco +á scena da Paixão. Veio depois o Arnoso a lembrar +se dessem +ao monumento reminiscencias mais contemporaneas, +ex.: o Genio perguntando á Verdade quantos dentes queixaes +queria tirar. D'esta dualidade d'inspiração +resulta o +<em>mysterio</em>, que faz com que o +monumento seja o que v. ex.<sup>a</sup> +quizer, sendo o melhor—não perguntar.</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[73]</span> +<div class="tinyl"> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Apparece no estrado o Conselheiro António Candido. +<br /> + +<br /> + +—Silencio! Vae fallar o maior orador da Peninsula. +<br /> + +<br /> + +—«...[*espaço?]no povo portuguez ainda +ha o +grande brio dos +feitos altos, <em>(sussurro)</em>. Se +ámanhã esta Verdade tão núa +fôr ter ao Pelourinho, ninguem sabe até onde o +amor da +Pátria ha-de crescer! +<em>(ovação).</em> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Interview com o conselheiro Barahona. +<br /> + +<br /> + +—V. Ex.<sup>a</sup> leu alguma vez o +Eça? +<br /> + +<br /> + +—Ler, nunca, mas conheci-o em Evora, delegado do +thesouro, e até por causa d'isso vim ao Principe Real +ver-lhe um drama de ladrões, que estava mesmo escripto +ao meu sabor. +<br /> + +<br /> + +—Mas isso não é o Eça de +Queiroz, +é o Eça Leal. +<br /> + +<br /> + +—O que?! Não é o mesmo? Ai, os meus +ricos dois +contos de réis! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +<em>Interview</em> com o Snr. Monteiro +Milhões. +<br /> + +<br /> + +—V. Ex.<sup>a</sup> que pensa do monumento? +<br /> + +<br /> + +—Penso que tenho de voltar a frontaria da minha +casa, para o Theatro D. Amelia. Imagine que os meus netos +estão constantemente a perguntar quem é aquella +senhora +sem camisa. Já o outro dia lhes disse que era D. Maria II, +mas com estes frios, os pequenitos, educados na compaixão, +não me largam para que lhe mande dar um cobertor. +<br /> + +<br /> + +—E que impressão faz das suas janellas a barriga +da +Verdade? +<br /> + +<br /> + +—Aqui entre nós <em>(arregalando o +olho)</em> é uma d'aquellas +barrigas que está mesmo a glorificar a +«sensação nova» +<em>(irritado)</em>. Não era mais +condizente á minha camoneana, +transferirem o epico immortal aqui para o meu largo, e +levarem <em>aquelle senhor</em> para as +proximidades do Bairro Alto? +<br /> + +<br /> + +—De modo que V. Ex.<sup>a</sup>, irritado, nem +chega +á janella?</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[74]</span> +<div class="tinyl">—Emquanto a Camara +não +mandar pôr, de roda da +figura um resguardo pintado de cinzento. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—Tu ouviste os discursos. Que opinião por elles se +pode ter da capacidade mental dos oradores? +<br /> + +<br /> + +—Metade d'aquelles senhores não leu o +Eça, e a +outra +metade não tem lucidez para o julgar. Isto foi uma festa de +«snobs»; o monumento que ali está, +não foi erguido á memoria +do Eça litterato: é a +glorificação do conde Reinaldo +e da Alfonsine. +<br /> + +<br /> + +—E se o flamejante garoto agora cá tornasse? +Mettia-os +a todos n'um romance endiabrado. +<br /> + +<br /> + +—Já estão mettidos. Mas o que tu acabas +de +vêr é os +<em>Maias</em> em quadro vivo.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Duas guapissimas, na turba. +<br /> + +<br /> + +—<em>Pero Eça de Queiroz, quien +és?</em> +<br /> + +<br /> + +—<em>Un caballero que escribió del +minuete.</em> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +G..., antigo companheiro de Fialho, sepultado +hoje no fundo d'uma biblioteca, diz assim +a proposito da livraria do grande escriptor<sup><a href="#n2">[2]</a></sup>: +<br /> + +<br /> + +«Eu chamo a estes livros as onze mil virgens. +São apenas quatro mil volumes ou pouco mais, +mas—vae surprehendel-o esta minucia—estam +quasi todos por abrir. Ha aqui Balzac e Zola, +Eça e Ibañez, os Goncourt e Ponson du Terrail. +<span class="pagenum">[75]</span> +Fialho tinha muito Ponson na sua biblioteca. +Esta litteratura de costureiras e guarda-portões +era para as grandes horas amarguradas». +<br /> + +<br /> + +Era. A elle e a outros grandes espiritos basta-lhes +o proprio drama para os amargurar. Anthero, +nos dias aziagos de Villa do Conde, deitado +n'um sofá, só lia Gaborieu. Para tragedia +chegava-lhe +a sua. +<br /> + +<br /> + +«O Fialho tinha uma admiração +extraordinaria +pela obra camiliana. Imagine que até n'um +livro da mocidade poz uma dedicatoria a Camillo, +em que dizia: «acabo de lêr toda a sua +obra». +E quasi nada lêra a esse tempo... Afora as obras +portuguesas, na biblioteca de Fialho só ha volumes +em espanhol e em francez. Nos ultimos anos +merecera-lhe uma atenção particular a literatura +espanhola.» +<br /> + +<br /> + +E a proposito de Fialho intimo assevera: +<br /> + +<br /> + +«O Fialho, que tinha grandes rasgos generosos +e perversidades femininas—repito-o não era +bem o Fialho que se vê atravez dos seus livros +admiraveis. Era o <em>outro</em>. As suas +irreverencias +das paginas rubras eram fundamentalmente apenas +o odio do plebeu que inveja o fidalgo. Sim, +porque ele invejava a sociedade na sua fase demolidora +<em>só</em> porque não +tinha nela um lugar. Uma +infantilidade de homem de genio.» +<br /> + +<br /> + +E explica: +<br /> + +<br /> + +«Como se sabe o Fialho não tinha meios de +fortuna nem ascendencias nobres. Fez a sua vida +<span class="pagenum">[76]</span> +ali no «Martinho», vivia de noite e era um +<em>blageur</em> +incorrigivel, e apezar de valer bem os seis +milhões de portugueses que existem sobre esse +solo, a Monarquia, o Paço, os conselheiros, não +lhe achavam <em>qualidades</em> para triunfar +nessa sociedade +formalisada e cheia de convencionalismos. +Está explicado o Fialho dos +<em>Gatos</em>—foi a +revolta. Meteu-lhes medo—oh sim, um medo +terrivel com as suas <em>blagues</em> +sangrentas—fazia-os +passar de largo, mas ainda mais se afastou do +<em>ancien régime</em>. Entre os +republicanos, onde se +lançou de alma e coração, sentiu-se +depois desconsiderado. +O Fialho continuava a ser... o +<em>blageur</em>. +Nunca lhe deram um cargo de confiança. +Que pena teve o Fialho de não ficar na Comissão +da subscrição nacional a quando do +<em>ultimatum!</em>» +<br /> + +<br /> + +E termina com esta nota inedita: +<br /> + +<br /> + +«Sabe que o Fialho era um orador. Nunca +ouviu dizer talvez que elle fizesse um discurso? +Mas ouvi-lhe eu muitos, todos os dias, durante +longos annos. A sua timidez invencivel nunca o +deixou falar em publico apesar de, como ninguem, +sentir a necessidade do aplauso. Muita +vez me disse que desejaria ser actor, ser um +grande actor, para ouvir bem de perto o som +das palmas com que o saudariam, para viver intensamente, +ruidosamente, uma grande hora de +triunfo. Tinha coisas o Fialho... Registe esta +nota curiosa pois muito poucos a sabem: era soberbo, +orando alucinado para um auditorio de +<span class="pagenum">[77]</span> +tres amigos intimos no alto da Avenida, ou noite +alta, á beira do Tejo.» +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Á figura que se senta ao pé de mim falta-lhe +talvez a rigidez das estatuas. O gabinardo, reparem, +está amachucado e encardido, a phisionomia +retrae-se no escuro e só a bocca se salienta, +enorme e prestes a escorraçar-nos com gritos e +apupos. Atravessou a vida: foi injusto, foi cruel +por vezes, foi amargo. Desatou a rir para não chorar. +Atordoou-se com sarcasmos e phrases. Foi +incoherente. Obedeceu ao impulso. Não se pôde +furtar a sentimentos que veem do fundo dos fundos +e nos deixam prostrados, reclamando da morte +que nos apavora—enfim! enfim!—o primeiro dia +de descanço bem ganho, ao termo desta discussão +que nunca cessa e em que nos despedaçamos, +sem nos comprehendermos a nós proprios quantos +mais aos outros... Toda a sua alma, que deixou +fragmentada em varias figuras, em todas as +paginas dos seus livros, nos retratos, nos tipos, +nas paisagens, no Manuel, em Guilherme de Azevedo +ou na manhã do Tejo, se condensa enfim +n'esta bocca amarga capaz ainda de nos fulminar +de colera ou de acusar bem alto a vida que lhe +foi impiedosa... É assim que te vejo ao pé de +mim, +com detrictos, escorrencias, lama, mas tão grande, +tão vivo, tão humano, que para sintetisar a +<span class="pagenum">[78]</span> +tua vida, só me servem as palavras com que um +espectador ilustre sauda o Hamlet no fim da +representação:—Boas +noites, meu principe, és um +homem, o homem e todo o homem! +<br /> + +<br /> + +<div class="date">4 de Janeiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +Morreu ante hontem d'albuminuria o pobre +D. João da Camara. Tinha feito annos no dia 27. +Conheci-o sempre, até nos maiores frios, de casaco +d'alpaca, a sorrir... Antes de acabar sahiu +do torpôr e, em dois acessos de delirio, descreveu +o fim do mundo com terror e espanto. Depois +rezou, disse versos seus, e ficou, n'um ultimo +suspiro. Remexeram-lhe nos papeis e nos bolsos: +só lhe encontraram recortes de jornaes, anuncios +de desgraçados pedindo esmola. +<br /> + +<br /> + +Mezes depois ainda os pobres o procuravam +nos sitios do costume:—O senhor D. João? o +senhor D. João?—Morreu.—Morreu! +morreu!...—E +partiam a chorar. +<br /> + +<br /> + +Agora é que eu sinto todo o encanto d'esse +homem falando baixinho, a olhar a gente por +cima das lunetas. Andou mal vestido. Não soube +o valor do dinheiro. Desceu aos desgraçados com +uma ternura e uma simplicidade de fidalgo e de +santo. Nos ultimos quatro annos ganhou alguns +tão vivo, tão humano, que para sintetisar a +<span class="pagenum">[79]</span> +contos de reis: deu tudo, levaram-lhe tudo. Até +de madrugada o procuravam para lhe pedirem +dinheiro emprestado. E nunca o ouvi queixar-se, +nem dizer mal de ninguem. Foi um poeta e um +santo. Deixa, alem de algumas obras admiraveis, +uma peça incompleta, com poucas scenas +escriptas—<em>As +comadres de Panoia</em>, e talvez se lhe encontrem +tambem apontamentos de outra em que +tanto falou e em que tanto sonhou—<em>O +Sermão +da Montanha</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date"> +18 de Março—1900.</div> + +<br /> + +<br /> + +Faz hoje annos que morreu Antonio Nobre. +Foi uma figura inconfundivel de poeta. Por mim +nunca encontrei tambem rapaz mais lindo. Um +pouco afectado talvez... Em pequeno ia com +Eduardo Caminha enterrar os seus versos no +jardim solitario do Palacio, e pedia, com os olhos +limpidos e sofregos, uma Biblia para repousar a +cabeça quando o levassem no caixão... Estou a +ve-lo, com uma camisola de pescador, saltar pela +janella da casa á beira rio, de Mattosinhos, onde +Alberto d'Oliveira já imperava, esse mesmo Alberto +d'Oliveira, esperto e tão dominador, que, +quando entrava em casa dos outros, começava +por os convencer a desarrumar os móveis, +para os arrumar de novo a seu modo... Antonio +<span class="pagenum">[80]</span> +Nobre usava uma abotoadura de cabeças +de pregos e sorria com um modo e um ar +de ternura e desdem. Fugiam d'elle antes de +publicar o <em>Só</em>; os poetas +do seu tempo odiaram-no +depois de publicar o <em>Só</em>. +Ser diferente +dos outros é já uma desgraça; ser +superior aos +outros é uma desgraça muito maior. Viveu +efectivamente +isolado. No concurso para consul quizeram +reprová-lo: foi preciso que Alberto d'Oliveira +explicasse ao jury quem era o poeta Antonio +Nobre. Não pôde formar-se em Coimbra, e +até os seus amigos mais intimos lhe fugiram. Entrou +na morte como tinha vivido—só. Até +Alberto +d'Oliveira teve de interromper uma amizade +de irmão quando se encontrou diante d'este dilema: +ou deixar-se dominar por elle, que o tratava +como uma creança, ou feril-o em pleno +coração:—A +nossa amizade é de tal ordem que não +admite que lhe desçam dois ou trez pontos á +craveira. Ou mante-la ou quebra-la.—Quebrou-a. +O ilustre escriptor possue d'esse tempo um caixão +enorme, tão pesado como o que levou o +poeta para a cova, com as cartas afectadas e +vivas de Antonio Nobre, as cartas que tem +obrigação +de publicar, com um prefacio que só elle +pode e deve escrever. +<br /> + +<br /> + +Digamol-o, digamol-o... No fundo detestaram-no, +detestaram-no todos. Não lhe poderam +perdoar a impertinencia, o desdem, o genio. Era +um sêr diferente. Não agradava a ninguem. +Só as +<span class="pagenum">[81]</span> +mulheres o amaram. Era um Poeta. Desconheceu +a vida pratica. Tinha a consciencia do seu valor, +e uma superioridade que se não podia aturar. Estavamos +todos mortos por nos desfazermos d'esse +ser aparte, d'esse eterno consul sem consulado, +d'esse estudante de Coimbra que os lentes reprovavam +e que nos fazia sombra. Mas debalde o +arredamos: houve uma coisa nova que passou +no mundo e que ficou no mundo—que nos ficou +na alma...<br /> + +<br /> + +<div class="illustration"><a name="f5" id="f5"></a><img style="width: 500px; height: 713px;" alt="Antonio Nobre no caixão." title="Antonio Nobre no caixão." src="images/fig08.png" /><br /> + +<em>Antonio Nobre no +caixão.</em> +</div> + +<br /> + +<br /> + +Agora estamos todos apaziguados, todos podemos +esquecer a superioridade, a afectação e o +desdem infantil de Antonio Nobre. +<br /> + +<br /> + +Foi para a cova completar trinta e tres annos +n'um dia de chuva como este, frio e sujo, o poeta +insolente como um principe e adoravel como +uma creança. Quantos estavam alli á beira do +tumulo? Meia duzia escassa, o Frei, o Justino, o +Eduardo de Souza, eu—e quem mais? quantos +mais? Os jornaes deram a sua morte em duas +rapidas linhas. Respirou-se. +<br /> + +<br /> + +Hoje é um dos poetas portuguezes com mais +admiradores. É um poeta de simpathia. Nunca +teve sorte senão depois de morto. Porquê? Porque +não misturou, como nós todos, o sonho com +a vida pratica. Ao contrario, raros homens terão +posto tão de acordo a vida com o sonho. Fez +mais: suprimiu a vida. Correu o globo e só a +si proprio se encontrou. Viu o mundo e nunca +assistiu a outro drama que não fosse o da sua +<span class="pagenum">[82]</span> +alma. E poentes, arvores, estrellas ou pedras, +entraram-lhe no coração como espadas. Nenhum +outro exprimiu d'uma forma tão sua o universo. +Que universo dirás? O meu? o teu?... +Não, o que elle descobriu, scismando como um +navegador, á prôa do seu barco... Por isso nunca +hão-de faltar sonhadores que evoquem essa singular +figura de poeta, que uma vez atravessou a +terra, soluçou, monologou como Hamlet, e sumiu-se +logo no sepulchro.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">30 de Janeiro—1911.</div> + +<br /> + +<br /> + +Janota e coçado, com uma flor na botoeira +e a fumar um charuto de dez reis, ahi vae o +poeta Gomes Leal. Quem não viu n'outro tempo +este homem extraordinario, não conheceu um +verdadeiro, um authentico poeta satanico. Passou +nas ruas de chapéo alto, falando com intimidade +ás estrellas e tocando no céo com as guias do +bigode. Escreveu as paginas das <em>Claridades do +Sul</em>, da +<em>Traição</em> e do +<em>Anti-Christo</em>. Viveu alheado, +como é indispensavel a quem convive todo o dia, +tu cá, tu lá, com o sonho. Cantou a plebe, +destruiu +os deuses, arremessou sarcasmos aos banqueiros, +satirisou o grotesco, e tocou-nos hombro +com hombro, apontando altivo o cravo vermelho +da lapela: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[83]</span> +—Amigos, as flores são as +condecorações +dos poetas! +<br /> + +<br /> + +Prodigalisou-o a caricatura: teve na vida misterios +perturbantes: um dia acometeram-no no +comboio, em Espinho, quando regressava do +Porto, até onde seguira a rainha Maria Pia, depois +de lhe atirar uma rosa escarlate, que arrancou +da botoeira, em plena praça, com um desdem +supremo pela burguezia endinheirada... Sim, foi +este que teve a gloria da cadeia, que cantou as +estrellas, Jesus e Mephistopheles, foi este mesmo +homem, a quem falta roupa na cama no inverno +glacial, e que sorri com humildade para +nós, avelhantado e timido... As janellas não +teem vidros, a roupa é pouca, mas tu viveste o +que não vive um rei, e o imperio deslumbrante, +que creaste á custa de dôr, cheio de obscuridades +e de genio, com catadupas d'oiro, como +nas lendas, e palidas figuras; essa mescla de +gritos, de paixão; esse sonho confuso e immenso, +pertence-te, e não ha quem t'o roube, mesmo +com as janellas abertas de par em par. Deixa +entrar o frio—e sorri... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Agora vae todas as manhãs ouvir missa á +Pena ou ao Resgate. É um homem encolhido e +friorento, que a banalidade tem gasto e desgasto +como as moedas fóra de curso que se fartaram +de correr de mão em mão, e ainda ha +dias o encontrei no Porto, n'uma manhã de sol, +<span class="pagenum">[84]</span> +de casaco de borracha e colarinho suspeito. Ia +pregar á Associação Catholica, e +atravessava a +Praça entre os aplausos dos palidos sachristas, +que o rodeavam como quem força um deus, sem +repararem que só levavam um simulacro. No sonho +de outrora não ha mãos que se atrevam +a tocar... Elle sorria enlevado, com o eterno charuto +ao canto da bocca. +<br /> + +<br /> + +A vida feroz torna-nos grotescos. Consegue +tudo. Deforma-nos. O proprio sonho entra ás vezes +no dominio da chacota. Onde, porém, Garrett chega +ao ridiculo, com tres cabelleiras postiças, Gomes +Leal, de casaco de borracha e discursos de propaganda, +atinge o tragico... Eu bem sinto a tristeza, +bem sei, bem vejo o arranco, bem palpo +a dôr. A figura que cheira a bafio como se +sahisse do fundo do armario do passado para a +plena luz, faz rir e faz chorar. No esforço para +não ir ao fundo, no gesto de naufrago que se +apéga com desespero, quando a dôr estala por +todas as costuras, ha um rictus de clown. Olha +lá: o peor é tu ousares tocar no que ha em +mim de mais sagrado, o peor é tu transformares-me +o sonho n'uma noticia do <em>Seculo</em>, o +peor de tudo é tu atreveres-te a tocar n'este +jardim da vida—e, peor ainda, é que eu continuo +a sorrir como se possuisse o antigo thesouro +de Ali-Baba. Mais um momento, outro +passo e reduzes-me á condição de +trapo. Deitas-te +commigo, acordo comtigo ao meu lado, e +<span class="pagenum">[85]</span> +ha occasiões em que até o som da minha voz me +sobresalta. Por ora debato-me, por ora sinto o +coração opresso, fingindo que não +existes, mas +ha já terror no meu sorriso, e, quando me ouço, +ouço-te tambem os passos. Sei perfeitamente que +o momento terrivel depende de um unico traço +de separação—agora, já, +d'aqui a +bocado... +<br /> + +<br /> + +Estás por traz de mim e o minuto grotesco +será quando eu deixar de te conhecer e quando +sentir a tua mão gelada... Estás por traz de +mim! estás por traz de mim! Bem sei que estás +por traz de mim, e que vaes ser a minha companhia +até á cova. Confesso-te: o que me aterra +não é o momento que passou, nem o que ha-de +vir—é o momento, que vale um seculo, em que +tenho de galgar o abysmo. Por ora teimo, por ora +ainda digo:—A sciencia, meu rapaz, sabes o que +é? É um cifrão cortado.—Mas +como o +digo!... +<br /> + +<br /> + +...Ha um momento tetrico nos +<em>Espectros</em> em +que um novo personagem se introduz em scena. +Desde o principio que o sabemos atraz da frandulagem +de papelão: está alli presente, não +como +uma figura de theatro, mas monstruoso, real e +patente, como o Destino, á espera de intervir. +Desde então perco o fio da peça, não +sigo mais +os bonecos que se agitam no tablado, só ouço o +meu proprio monologo, e quedo-me d'olhos atonitos +n'outro espectaculo atroz. Tenho a certeza +absoluta de que não ha forças humanas que lhe +detenham a marcha. Começa então a tragedia... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[86]</span> +É este mesmo personagem que se intromete +na vida do poeta. As palavras conteem ainda e +sempre as mesmas letras, mas até as palavras +mirraram. Esqueci tudo, troquei tudo pelo sonho, +e, quando tu quizeres, de mim proprio ficarei desconhecido! +Como eu comprehendo agora aquella +phrase de outro poeta: «Sinto que não posso +trabalhar! +sinto que não posso trabalhar!» É com +esta angustia que te ouço os passos mais perto. +Já não é só a scena que tu +enches, é a sala toda, +figura invisivel, unico personagem do drama, +que te entranhas na alma dos espectadores. Emquanto +os bonecos teimam em pronunciar palavras +que não ouço, que não teem +significação +nem importam, tu levas-me, quer eu queira, quer +não queira, a sorrir com enlevo á propria +banalidade. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +A casa em que mora Gomes Leal, na esquina +do palacio da Bemposta, parece arrancada a um +velho quadro de Velasquez, com a sua entrada +de pedra e um arco na escada. O soalho entreaberto +oscila, as janellas não teem vidros. +Conheço-a. Já lá morei ha annos no +mesmo +quarto que dá para um quintalorio, com duas +ou trez oliveiras carcomidas. Do buraco, onde +nunca chega o sol, sae um frio de morte. Bato, +a porta abre-se, o soalho range, e o poeta +<span class="pagenum">[87]</span> +surge com o velho chapeu ás trez pancadas, luvas +pretas—até de luvas escreve Gomes +Leal!—e +no quarto desagasalhado ha luvas por toda a +parte, por cima das mezas, entre os livros, penduradas +no tecto. O leito é um catre. Ao lado +um Christo, uma mezinha de pé de gallo, e no +soalho apodrecido, montões de jornaes e de livros. +Na parede, que ressuma humidade, um quadro +a crayon, com o vidro partido: o retrato +da mãe de Gomes Leal. +<br /> + +<br /> + +—Vivo só, não tenho familia. Minha +mãe +morreu-me e aqui estou como um orphão. +<br /> + +<br /> + +—Vive isolado sempre? +<br /> + +<br /> + +—Levanto-me cedo, vou aos templos. Depois +passo pelas bibliothecas e pelos livreiros e venho +para casa escrever. Almoço e janto onde calha. +Quando tenho bebo para esquecer, á noite escrevo, +deito-me cedo e durmo... Tenho trez livros +para publicar: <em>As memorias d'um +revoltado</em>, continuação +da historia da minha vida, <em>O macaco de +Nero</em>, estudo de Roma, e o livro em prosa +<em>Cidade +do Diabo</em>, onde trato da decadencia do mundo +moderno. Comecei tambem <em>Christo nos +infernos</em>, +poema em verso. Conservo as minhas ideias religiosas, +que não são incompativeis com a republica, +e ficarei contente por ver realisado o sonho +de toda a minha vida, que acalentei como um +poeta, e que desejo que se não dissolva como +uma bola de sabão na cabeça d'um prego... +<br /> + +<br /> + +E queda-se n'um silencio amargo. A chuva +<span class="pagenum">[88]</span> +cae lá fóra. A noite e um frio, uma humidade de +poço, trespassam-me... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +No seu genio houve sempre sincopes, falhas, +absurdos. Se tropeçou, ergueu-se sempre mais +alto. Aos trinta annos reage-se. Mas chega um +momento da vida em que a gente se sente transida +pelo ar do sepulchro e uma sombra desmedida +avoluma-se e sufoca-nos. Foi d'esse negrume, +que se chama a Morte, que elle ouviu +sahir uma voz cheia de ternura—a ternura que +toda a vida o envolveu—e que começou a falar-lhe +baixinho. N'esse momento Gomes Leal deixou +de viver no mundo da realidade para cohabitar +com um phantasma... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Setembro—1907.</div> + +<br /> + +<br /> + +Antonio Corrêa d'Oliveira, ossos, nervos e +a pelle necessaria para os cobrir—com um +chapeu alto e lustroso em cima—grande poeta, +com raizes profundas na natureza, tem na Beira +uma tia que passa a vida em dialogos estranhos +com as arvores e as pedras. E mal chega á noite +eil-a começa a cumprir o seu fadario: leva até +á madrugada a dar de beber indistinctamente ás +plantas do seu quintal e ás dos quintaes vizinhos, +<span class="pagenum">[89]</span> +n'uma aflicção, n'uma piedade que se estende +até +ás hervas ignoradas e ruins. Monologando sempre, +vae e vem,—que não fique alguma com +sede—com +o regador nas mãos, até que a manhã a +encontra +exhausta, feliz, encharcada até aos ossos +e ainda embebida n'aquelle sonho phrenetico de +ternura... Toda a emoção do poeta está +aqui, +do grande poeta que diz:—Sinto em mim uma +força da natureza... hei-de aproveital-a.—Os +avós deram cabo da casa. O pae ninguem o +arrancava ás suas arvores, e um tio, personagem +de Camillo, morreu cosido de facadas. A +mocidade do poeta foi tambem dolorosa. Chamavam-lhe +magico. Para não pezar á mãe escreveu +á raza n'um tabelião e foi proposto de recebedor +em Cezimbra, elle que nunca soube +sommar. Iam as mulheres dos pescadores pedir-lhe +perdão das decimas; e nunca na memoria +de homem se viu recebedor em semelhantes apuros, +perplexo diante dos papeis, dos pobres, +da desgraça, das contas e da sua propria alma! +Um dia gostou d'uma mulher e escreveu os +primeiros versos, <em>Ladainhas</em>,—Eu +não sabia o +que eram versos, nem medir versos. Sahiu-me +aquillo... Troçaram-me tanto que estive para +endoidecer. Sabe o que me valeu? Um artiguinho +do Trindade Coelho no <em>Reporter</em>. +Essas +palavras salvaram-me!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="illustration"><a name="f6" id="f6"></a><img style="width: 500px; height: 998px;" alt="Corrêa d'Oliveira em 1903." title="Corrêa d'Oliveira em 1903." src="images/fig09.png" /><br /> + +<em>Corrêa d'Oliveira em 1903.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[90]</span> +<div class="date">Janeiro—1911.</div> + +<br /> + +<br /> + +Passei a noute de hontem em casa do Fernandes +Thomaz, um velho bibliophilo, coleccionador +de autographos, de livros raros, de gravuras +antigas. Bom como o pão arruinou-se em +papeis velhos... Eis emfim um homem feliz, +suponho eu, entre as estantes que revestem os +muros, como a traça entre as folhas d'um pergaminho. +Ingenuo, surdo, com sessenta e tres +annos e coleccionador apaixonado de papeis velhos +ainda por cima—que sorte!...—De repente +pega-me nas mãos e desata a chorar: +<br /> + +<br /> + +—Tenho sido um martir! +<br /> + +<br /> + +Á roda muitos documentos, muitos alfarrabios, +muitos calhamaços preciosos. São duas, +tres salas catalogadas, onde tem livros e papeis +por toda a parte. A sua vida devia correr esquecida +e placida, sem sobresaltos nem duvidas, folheando, +rabiscando, anotando, sonhando sempre +em coisas faceis. +<br /> + +<br /> + +—Não imagina o que tenho sofrido! Sempre +gostei muito de creanças... Trouxe para casa uma +sobrinha, morreu-me de raiva nos braços. Minha +mãe um dia teimou:—Has-de casar.—Fiz-lhe +a +vontade. Casei. Minha mulher, ao fim de dois +annos, abalou levando-me quasi tudo o que eu tinha. +<span class="pagenum"><a name="p91" id="p91">[91]</a></span> +Demandas, processos—fiquei pobre. Agora +meu filho quer ir por força para a Africa. +<br /> + +<br /> + +E põe-se a chorar como uma creança, com a +cabeça branca pousada sobre os livros, os papeis, +as gravuras...—deante d'aquella +documentação +cerrada e <a href="#e1">inutil</a>, que tem sido a +razão da sua vida. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">1 de Fevereiro.</div> + +<br /> + +<br /> + +Venho de casa do Fernandes Thomaz. Teve +um ataque apopletico. Está hemiplegico, deitado +n'um sofá, somnolento e tremulo. Nunca encontrei +bibliophilo que tivesse prazer em indicar, em +ensinar, senão este... É outro homem adoravel +que morre, mas felizmente não sabe que morre. +Á beira do tumulo ainda me pede que lhe arranje +um catalogo da guerra peninsular. E diz-me de +Theophilo: (estes homens dos papeis velhos nunca +se puderam vêr...): +<br /> + +<br /> + +—Pode crer que nunca passou necessidades +como elle diz. Conheço-o de Coimbra, morava +em casa do conde de Valença. Todos os mezes o +pae lhe mandava pelo correio duas libras em oiro +n'uma caixinha de madeira. Ora n'esse tempo +valiam tanto como hoje quatro...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c3" id="c3"></a>PÓ +DA ESTRADA +</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Março—1902.</div> + +<br /> + +<br /> + +Este homem immenso e louro, o Alpoim, não +tem um minuto de seu: não descansa, não +pode. Escreve cincoenta cartas por dia, faz a +chronica do <em>Janeiro</em>, corre ao +parlamento, intriga +nos corredores, enche uma pagina do jornal, recebe +toda a gente, encanta e domina toda a +gente n'um riso aberto:—Meu querido amigo...—e, +mal se fecha por dentro, arranca os ultimos +pêlos do bigode e cae exhausto, exclamando n'um +pranto:—Ai que filhos da p...! ai que filhos da +p...! Eu não posso! eu morro!—Nem para ser +rei de Portugal valia a pena semelhante esforço. +<br /> + +<br /> + +No fundo é um politico com este fito: o poder. +Mas alguma coisa o distingue dos outros que conheço, +do espesso Ferreira d'Almeida, por exemplo, +que exclama diante de mim sem pudor:—Hei-de +ser ministro porque quero mandar! gosto +de mandar!—É um fidalgo com talento, e tanto +serve um amigo como um desgraçado de quem +nada tem a esperar. O esforço é +identico.—Vou +<span class="pagenum">[94]</span> +ao inferno por um amigo...—Ha ainda quem se +lembre dum Alpoim de chapeu desabado e capa +á espanhola, mas o amor fel-o janota... +<br /> + +<br /> + +Na sua vida, como em todas estas existencias +de aparencia e lucta, ha um trabalho de sapa, +que quasi totalmente desconheço. Sabe tudo, +pode tudo com os seus e com os outros. O Hintze +tem por elle um fraco, o José Luciano entrega-lhe +nas mãos a meada politica:—Nada se faz +sem mim. Sei tudo!—diz muitas vezes com o +olho esperto a luzir. O Teixeira de Souza é o +seu amigo mais intimo. Uns temem-no, respeitam-no +os outros. Este que lhe sorri atraiçoa-o—e +elle fala-lhe amavelmente:—Não me podem +vêr porque lhes faço sombra. Eu sei... Mas ninguem +exija dos homens mais do que elles podem +dar.—Conspira. Tem nas mãos os mil fios da +emaranhada teia politica. Vae mais alto ou mais +fundo?... Não sei, mas é talvez a isso que elle +se refere quando afirma:—Ninguem sabe a que +portas vou bater! +<br /> + +<br /> + +Hoje conta o movimento de protesto quando +dos comicios contra o governo regenerador. +Reuniam-se já ha tempos alguns pés de +boi em casa de José Luciano, que um dia sae-se com esta: +<br /> + +<br /> + +—Bem, meus senhores, precisamos de acabar +com isto senão cahimos no ridiculo. A tomar +chá não fazemos nada. Que é que os +senhores +resolvem? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[95]</span> +—A revolução! queremos a +revolução!—concluiram +todos. +<br /> + +<br /> + +—Eu disponho de seis mil homens. +<br /> + +<br /> + +—Vamos para a rua! +<br /> + +<br /> + +—Estamos dispostos a tudo, mas temos um +pedido a fazer a V. Ex.<sup>a</sup>: é que se +responsabilize +a que a guarda municipal não atire sobre nós... +<br /> + +<br /> + +O José Luciano, a puxar pelo bigode, sem +sahir da sua pachorra ironica: +<br /> + +<br /> + +—Oh senhores, mas se eu dispozesse da municipal +não precisava dos meus amigos para nada! +<br /> + +<br /> + +—O José Luciano o que tem tido toda a +vida é sorte,—observa alguem do lado. +<br /> + +<br /> + +—Garanto-lhes pela saude dos meus filhos, +atalha logo o Alpoim—que é um homem +inteligentissimo. +E senão vejam como elle conseguiu +arredar e vencer todos os do seu tempo. +Ninguem luctou mais do que eu para a eleição +do Mariano a chefe do partido progressista, +ninguem!... E que succedeu?... O José +Luciano tinha em segredo conseguido pôr o paço +de seu lado. Na vespera da eleição o Mariano +disse-me:—Está tudo perdido, votem no +José +Luciano...—Se não o elegessemos, o rei nunca +mais chamava o partido progressista. +<br /> + +<br /> + +Sob aquelle aspecto de inalteravel bonhomia, +é um homem d'uma alta inteligencia pratica. +Muitos ao seu lado caminharam para o mesmo +destino, e elle, não sendo nem um grande jornalista +nem um grande orador, sem brilho mas +<span class="pagenum">[96]</span> +solido—e com caracter! com tenacidade e +caracter!—pouco +a pouco ficou sosinho em campo: +arredou-os todos. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Fui do seu meio e do seu tempo. O Fuschini +chamava-lhe com desdem:—Essa vil +alforreca...—Diz-se +que no salão dos Navegantes se +dava tudo o que se podia dar—e que não lhe +pertencia: logares, negocios e empregos. Talvez. +Mas se não teve a grandeza de resistir aos homens, +conteve os interesses fataes dentro de certos +limites. Não podendo ser nem um santo nem +um genio, manteve essa linha de superioridade, +chegando, mais tarde, a ser uma figura. Sentado +na cadeira de rodas, o velho obstinado, n'uma +sociedade a liquifazer-se, resistiu até á ultima, +e +adquiriu relevo e grandeza como se os alicerces +fossem de pedra. Foi dono do paiz, dictou a lei, +e, arredado e sempre lucido, leu no futuro pronunciando +algumas phrases que a historia terá +de registar...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Junho—1902.</div> + +<br /> + +<br /> + +Contava o marquez de Ficalho, pae deste Ficalho, +e que era vivo ainda ha quinze annos, +o seguinte caso, que mostra bem o medo que +D. João VI tinha a Carlota Joaquina. Um dia o +<span class="pagenum">[97]</span> +D. João VI, ia de sege para Cintra, Queluz, ou +não sei para onde. Ao lado galopava o Ficalho, +com dezasseis annos, cavalariço do rei. De repente, +ao longe, avista-se na estrada uma nuvem +de pó, e o rei, deitando a cabeça de +fóra +da sege, brada: +<br /> + +<br /> + +—Parem! para traz que ahi vem a p...! +<br /> + +<br /> + +A p...—era a mulher. As palavras são textuaes.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="illustration"><a name="f7" id="f7"></a><img style="border: 1px solid ; width: 500px; height: 725px;" alt="Fernandes Thomaz." title="Fernandes Thomaz." src="images/fig10.png" /><br /> + +<em>Fernandes Thomaz.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date"> +Março—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +Diz o Abel d'Andrade: +<br /> + +<br /> + +Dos oito mil contos de deficit, quatro mil +é a casa real que os gasta. Que ministerio tem +força para se impôr ao rei? Ambos os chefes +estão com medo ao João Franco... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Arroyo queria atacar o rei nas camaras. Houve +mosquitos por cordas para o dissuadirem... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Sabem quanto faz o Arroyo por anno? Dez +contos. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[98]</span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O rei foi aqui ha tempos para Setubal, e, depois +de jantar, bateu o fado com um malandrão. +O Duval Telles, no outro dia, ao jantar, aludiu +ao de leve ao caso, achando-o improprio. Á noite +encontrou na mezinha de cabeceira uma carta do +rei com estas palavras: <em>Dispenso-te do meu +serviço</em>. +Seis meses não fez serviço; agora, antes da +rainha partir, pediu-lhe apoquentadissimo a sua +intervenção. Outra carta do rei com estas +palavras: +<em>Entra outra vez de serviço, mas nunca mais +me dês conselhos sem t'os pedir</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date"> +Março—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +Alpoim: +<br /> + +<br /> + +—Antes de seis meses temos ahi graves acontecimentos... +<br /> + +<br /> + +—? +<br /> + +<br /> + +—Um governo fóra dos partidos, uma dictadura +feroz. +<br /> + +<br /> + +E a proposito dos acontecimentos de Coimbra: +<br /> + +<br /> + +—Em Coimbra existem sociedades secretas. +O governo sabe. Quando foi da espera do Carrilho, +tinham tudo combinado. Dois grupos fariam +descarrilar o comboio, apoderando-se dos +papeis que o Carrilho trazia e matando-o. Entravam +lentes e estudantes... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[99]</span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Alpoim: +<br /> + +<br /> + +—O Mousinho d'Albuquerque antes de morrer +disse-me:—O unico homem com quem eu +poderia ser ministro era com o José +Luciano.—Dantes +dizia muito mal d'elle. D'uma vez estava +no Paço, no vão d'uma janella, a dizer cobras e +lagartos de José Luciano; o rei, um pouco afastado, +ouviu-o: +<br /> + +<br /> + +—Ó Mousinho cala-te. +<br /> + +<br /> + +—Se incomodo V. Majestade saio d'aqui. +<br /> + +<br /> + +—Não, podes estar, mas acaba lá com a +conversa. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—E porque é que o rei não gostava do +Mousinho? +<br /> + +<br /> + +—Se lhe parece! Vêr sempre o Mousinho a +seu lado, carrancudo, sem palavra, mas severo +como um censor... Irritou-se. Quem lhe valeu +mais d'uma vez foi a rainha. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Abril—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Adrião de Seixas, secretario do Banco de +Portugal: +<br /> + +<br /> + +—Já por diferentes ocasiões o Estado +tem +corrido +o risco de ir a pique. Houve mezes em que +<span class="pagenum">[100]</span> +quasi faltou o dinheiro para pagar á tropa, e +mais que uma vez o Banco de Portugal se viu +em transes para arranjar trezentos contos de reis. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Um architecto do Paço conta que a rainha +D. Maria Pia fuma constantemente charuto como +um homem, e atira as pontas para onde calha, +sobre os sofás e os tapetes. Atraz d'ella anda +sempre um creado de farda, com medo que +pegue o fogo, a apanhar as pontas. Anno passado, +antes de ir para o extrangeiro, mandou fazer +umas obras no Paço. +<br /> + +<br /> + +—E não volto sem estar tudo prompto. +<br /> + +<br /> + +Quando voltou nem foi vel-as, mas, dias antes +de ir outra vez para fóra, lembrou-se das obras—e +mandou deitar tudo abaixo. +<br /> + +<br /> + +—Não volto sem estarem concluidas. +<br /> + +<br /> + +As provas dos vestidos são um martirio para +as pobres costureiras, que mantém de joelhos +duas horas seguidas, pregando-lhe alfinetes. +Quando as vê cahir exhaustas, arranca tudo, +despedaça tudo... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Alpoim conta: +<br /> + +<br /> + +O rei é muitissimo bem educado, mas não +gosta nada que ponham a rainha em primeiro +<span class="pagenum">[101]</span> +logar. Não se importa com o paiz e julga-se um +grande rei constitucional. Os ministros para elle +não existem: só ouve e atende o presidente do +conselho. É tão governamental que trata +delicadamente +os politicos quando estam na oposição, +mas não conversa com elles. Não é como +o +D. Luiz, que ás vezes fazia-se com os ministros +contra o presidente do conselho. Chegava a conspirar +contra o José Luciano, partidario da aliança +ingleza, com o Barros Gomes, que era pela +Alemanha. Ás vezes andava uma hora de braço +dado com o Mariano e Emydio Navarro, sem fazer +caso do presidente do conselho. E depois +d'elles sahirem, perguntava-lhe: +<br /> + +<br /> + +—Olha lá, quando é que tu +pões +fóra estes +gatunos? +<br /> + +<br /> + +O D. Carlos não é assim: para elle os ministros +não existem. Trata-os sempre por tu, menos +quando é da assignatura. Não conserva odios. E +fica contentissimo se os ministros descompõem +a oposição. Quando foi da +exhoneração do Mousinho +pelo Dias Costa, este quiz demitir-se e +queixou-se ao José Luciano: +<br /> + +<br /> + +—No Paço todos me fazem má cara. +<br /> + +<br /> + +O José Luciano disse-o ao rei, que protestou: +<br /> + +<br /> + +—Não, por mim não é verdade. +Quanto +á +rainha que a trate com todas as atenções, mas +que não faça caso. +<br /> + +<br /> + +E para reforço traz o caso Oliveira Martins: +O José Dias Ferreira nunca chegava a presidente +<span class="pagenum">[102]</span> +de conselho se o Martins tem cathegoria. Imaginou +que manejava facilmente o velho rabula—e +escolheu-o para taboleta. Enganou-se... O Valbom +ainda tentou organisar ministerio, mas o +Martins, sem manha politica, teimou no José Dias. +Pois ao fim de dois mezes era elle quem mandava +e que o queria alijar... No Paço, nem este +rei nem o D. Luiz, gostavam do José Dias; +apezar d'isso, quando o Martins, aborrecido, se +fingiu doente, e o José Dias se queixou, o D. +Carlos disse ao Arnoso: +<br /> + +<br /> + +—Olha lá, diz ao Joaquim Pedro—era assim +que elle o tratava—que se levante ou que se demita. +Isto não é vida. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Diz-se para ahi que o D. Carlos tem o habito +de mentir, e que pensa em restaurar a monarchia +no Brazil. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Maio—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +Os jornaes d'hontem contam que a Rainha D. +Amelia não quiz receber o presidente Loubet, por +escrupulos de consciencia. Como é muito religiosa +respondeu, quando lhe foram anunciar a visita: +<br /> + +<br /> + +—Viajo incognita. +<br /> + +<br /> + +—Peor fez ella na Italia. Estava em Napoles, +<span class="pagenum">[103]</span> +e o rei mandou-a convidar para ir a Roma. +Acceitou, e no dia seguinte safou-se para Livorno. +O governo italiano deu immediatamente ordem +aos navios que estavam em Livorno—para +sahirem uma hora antes da entrada do +<em>yacht</em>...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Silva Pinto contado por D. Maria Augusta: +<br /> + +<br /> + +O Silva Pinto escrevia de quando em quando +cartas á condessa d'Edla, pedindo-lhe dinheiro. +A condessa architectou um romance: nunca o +vira e imaginou um poeta pobre, n'umas aguas-furtadas, +morrendo por ella. E mandava-lhe ás +vinte e trinta libras. Um dia viu-lhe o retrato no +atelier de Columbano... +<br /> + +<br /> + +—Então este velho é que +é?!... +<br /> + +<br /> + +E não lhe deu mais vintem. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Maio—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +Hoje 11 o Arroyo discutiu nos pares a viagem +da rainha. Acusou-a de não ter querido +receber Loubet. O Wenceslau de Lima levantou-se +e negou. +<br /> + +<br /> + +Comentario do Alpoim: +<br /> + +<br /> + +—Que havia elle de responder? Mentiu +como um cão! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[104]</span> +De resto o discurso foi cheio de alusões. +Chegou a isto: a lançar suspeitas sobre as +relações +do Soveral com a rainha. «Que está fazendo +o snr. Soveral em Paris? Façam-no recolher +imediatamente a Londres<sup><a href="#n3">[3]</a></sup>!» +<br /> + +<br /> + +—Triste simptoma—afirma o D. João de +Alarcão—n'um paiz monarchico ninguem se levantou +para defender o rei. Alguns como o Ayres +de Gouveia foram cumprimentar o Arroyo; +outros, como o José Luciano, sahiram dos seus +logares e chegaram-se mais para perto, para não +perderem pitada. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—O que nós fazemos não é +discursos, +é historia—diz +o Arroyo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Diz-se: +<br /> + +<br /> + +O rei chama nomes ao Arroyo, o Arroyo +chama-lhe corno... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[105]</span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Alpoim: +<br /> + +<br /> + +O Arroyo chama corno ao rei, o rei chama +aos outros ladrões. Eu sempre queria que me +dissessem o que elle é... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +A quinta da Bacalhôa—continua o +Alpoim—foi +comprada pela casa de Bragança. Quem +faz as obras é a Casa Real, isto é o Estado.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Maio—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +O rei—diz hoje D. João d'Alarcão em +conversa +com o Alpoim—não se importa nada com +isto. Tomára elle ser kkediva d'este cantinho, +defendido pelas baionetas inglezas. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O rei tem uma lista celebre a que chama +<em>a lista dos ladrões</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Arroyo volta á discussão e, a proposito, +conta-se de novo a historia dos tapetes: +<br /> + +<br /> + +«—Havia em Mafra um grande tapete persa, +o mesmo que está hoje em Vila-Viçosa, por signal +<span class="pagenum">[106]</span> +muito mal tratado. Ninguem fazia caso d'elle, +até que um dia disse ao almoxarife que o guardasse. +Mas fiquei sempre com a impressão de +que era magnifico. Duma vez que D. Carlos apareceu +extasiado por ter comprado qualquer tapete +insignificante, lembrei-lhe: +<br /> + +<br /> + +—V. Magestade tem em Mafra um muito melhor +do que esse... +<br /> + +<br /> + +—Ora adeus! +<br /> + +<br /> + +Teimo, chama-se o almoxarife, reclama-se o +almoxarife e o tapete, e o homem instado apresenta, +em logar do tapete, dois papelinhos... A +saber: a ordem de Pedro Victor para entregar o +tapete e o respectivo recibo. Não vi o telegrama +do rei, mas vi a resposta do administrador da +casa real: «Vossa Magestade manda, +obedeço». +<br /> + +<br /> + +Dahi a dias aparecia o tapete. O Arroyo +tinha-o lobrigado em Mafra e comprado por +75$000 ao Pedro Victor. Entregou-o, e está hoje +n'uma parede do palacio de Vila-Viçosa». +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Conversa entre o Soveral e o Alarcão: +<br /> + +<br /> + +—Ninguem diga d'este Soveral não beberei. +Ainda has-de ser presidente do conselho. +<br /> + +<br /> + +—Para quê? Então tu imaginas que deixo +a minha situação lá fóra +por isto? Que mais +quero eu? Sou par, sou do conselho d'estado +marquez... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[107]</span> +E o Alarcão conclue: +<br /> + +<br /> + +—Acredito que elle não queira. Só se +fôr +para arranjar algum negocio, que elle anda muito +precisado de dinheiro...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Maio—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +É certo que o rei falou ao José Luciano na +dissolução da camara dos pares, substituindo-a +por outra em bases diferentes. A noticia foi para +os jornaes para assustar o Arroyo—que quer +fazer outro discurso sensacional contra o rei. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O José Luciano procurou o Arroyo em casa:—Venho +pedir-lhe que não faça o discurso contra +o rei. É um homem na minha edade, perto da +cova, que lhe pede isto em nome d'interesses superiores.—Sim +senhor... se V. Ex.<sup>a</sup> me assevera +que por traz d'isto não está o sr. Hintze +Ribeiro... +<br /> + +<br /> + +E chorou. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—O rei—diz o Alpoim—está +contentissimo. +O discurso era tremendo. O Arroyo afirmava +<span class="pagenum">[108]</span> +que o rei pedia dinheiro aos ministros. D'uma +vez pediu mil e seiscentos contos. Elle proprio, +quando ministro, lhe deu muitas vezes dinheiro.—Aqui +estam as provas!—E apresentava-as.—O +primeiro a ser castigado devo ser eu, porque delinqui. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Junho—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +Os jornaes trazem a noticia de que o rei +partiu para o mar no <em>yacht</em> D. Amelia +e de +que o duque d'Orleans chega na segunda-feira +a Lisboa. +<br /> + +<br /> + +O rei safou-se de proposito para o mar, para +o não receber. Do Paço mandaram ordem para +se antecipar a festa ao Barbosa du Bocage, na +Sociedade de Geographia. Tudo porque o rei +supoz que os acontecimentos de Paris com a +rainha se relacionavam com imposições da familia +Orleans. +<br /> + +<br /> + +...Afinal o rei sempre veio do mar e recebeu +o duque.—Mas houve o diabo!...—diz o +Alpoim. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—O Navarro defende-o, senhor Alpoim... +<br /> + +<br /> + +—O Navarro diz hoje bem de mim, como +amanhã diz mal—por doze vintens. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[109]</span> +<div class="date">Junho—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +O <em>Diario de Noticias</em> publica hoje +esta curiosissima +informação: +<br /> + +<br /> + +<div class="tinyl"> +As recepções em casa do sr. conselheiro +João Arroyo, +constituem sempre um acontecimento na nossa sociedade +elegante. O talento multiforme do illustre parlamentar, que +é um artista de raça, converteu o antigo palacete +da rua +do Telhal em uma das residencias mais notaveis de Lisboa, +tanto sob o ponto de vista da decoração dos +salões, como +pelas preciosidades do mobiliario e valiosas +collecções de +arte ornamental que elles encerram. +<br /> + +<br /> + +Não se encontra ali um “bibelot„ que +não seja um +objecto de arte ou não faça parte de uma +collecção, paciente +e sabiamente reunida e disposta com perfeito gosto +e conhecimento. De todos aquelles raros objectos que se +agrupam pelos tampos dos buffetes, das commodas e dos +contadores seculares ou nas prateleiras dos armarios e +«vitrines», +resalta sempre uma vibrante nota de arte, que +define o criterio do colleccionador e marca fundamente o +seu temperamento esthetico. A sala dos xarões e dos cobres +e bronzes esmaltados e «cloisonnés» +é por certo a mais +bella que existe no nosso paiz, e só por si basta para +aferir +o elevado grau que occupa o colleccionador no nosso meio +artistico. Ha, porem, muito mais, tão bom ou melhor que +admirar nas salas do sr. João Arroyo, as quaes +dão aos +«gourmets do bric-a-brac» a impressão de +verdadeiros escrinios +de arte. Nestes casos estão a graciosa +collecção de +figuras e mascaras chinezas, a preciosa exposição +de leques, +cujos pannos ostentam as mais lindas illuminuras dos pintores +francezes do seculo XVIII ou são apenas formados de +finissimas rendas a ponto, de Allençon ou de Bruxellas; +os limpidos cristaes da Bohemia e os finissimos vidros de +Veneza; as raras faianças da China, e de Saxe; as soberbas +«boiseries» da casa de jantar, bello trabalho +decorativo no +estylo Renascença, do architecto Bigaglia, com o seu +fogão +monumental, o seu grande lustre de ferro forjado e as prateleiras +dos «lambris» repletas de exquisitas pratas, +faianças +e cristaes.</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[110]</span> +<div class="tinyl">Por toda a parte, emfim, desde o +vestibulo e da galeria +da escada até ás salas do jogo, quadros a oleo +das escolas +italiana, flamenga, hollandeza e franceza, tapeçarias de +Gobelins +e do Oriente, colchas da India e da Persia, tudo +quanto o persistente e criterioso esforço de um artista e o +bom gosto de um homem elegante poude colleccionar, tudo +chama a nossa attenção, que só +encontra ali maior attractivo +no bondosissimo tracto da illustre dona de casa, a +sr.<sup>a</sup> D. Maria Thereza Pinto de +Magalhães (Arriaga) e na +conversa scintillante de seu marido, um dos mais espirituosos +e interessantes cavaqueadores da nossa sociedade, e +que tem tido naquella senhora uma valiosa +collaboração +artistica, assignalada em mais de uma das preciosidades +que se contem na sua bella residencia. +<br /> + +<br /> + +Por tudo isto, o +«raout» de hontem esteve +concorridissimo +e encantou todos os convidados dos illustres amphitriões, +entre os quaes estavam: +</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[111]</span> +<div class="tinyl">Conselheiro Hintze Ribeiro e esposa, +ministros da justiça, +obras publicas, guerra, fazenda, marinha e esposas, +nuncio de S. S. e secretarios, Rouvier, ministro da França +e esposa, ministro de Hespanha e esposa, conde e condessa +de Azevedo, Miguel da Motta e esposa, monsieur e madame +Bruno, marquez da Foz e filha D. Marianna, duqueza +d'Avila, condes d'Avila, marquezes de Guell, marqueza de +Bellas, conselheiro Schroeter e esposa, Costa Pinto e esposa, +conselheiro José Vianna, Pedro Diniz e filha, Carlos Ribeiro +Ferreira e esposa, viscondessa de View e filhas, José +Sassetti +e esposa, viscondes de Santo Thyrso, conselheiro Germano +Sequeira e esposa, condes de Paçô Vieira, +almirante +conde de Paço d'Arcos, Sarrea Prado, conselheiro +Achilles +Machado e esposa, conselheiro José de Azevedo e +esposa, +conselheiros José e Antonio Arroyo, conselheiro Matheus +dos Santos e esposa e filha, condes de Sabroso, conselheiro +José Ribeiro da Cunha e esposa, José E. de Barros +e esposa, +Joaquim Lima, Alberto Braga, João de Freitas Rego, F. +Baerlein e esposa, Albino Freire d'Andrade, viscondes de +Mangualde, conselheiro Ferreira Lobo Francisco d'Aguiar, +conselheiro Souza Monteiro, Barbosa Colen, conselheiro +Deslandes e esposa, Terra Viana, esposa e cunhado, Carlos +Blanch e esposa, D. Elisa Pinto de Magalhães e D. +Luiza +Pinto de Magalhães, Alberto Monteiro, conde de +Mesquitella, +Dr. Furtado e esposa, Virgilio Teixeira, marquezes de +Funchal, monsenhor Santos Viegas, conselheiro Moraes de +Carvalho, Henrique Burnay, conselheiro Francisco Mattoso, +Henrique Anjos e esposa, Carlos Soares Cardoso e esposa, +conde de Verride, D. Juan de Castro e filha, Condes de +Tattenbach, Alvaro Rego, conselheiro Poças Falcão +e esposa, +José Fernando de Sousa, barão de S. Pedro, +conselheiro +Thomaz Rosa, condessa d'Almedina e filha D. Luiza, Antonio +Caria e esposa, M. Emygdio da Silva, etc., etc.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O que faltou a esta sociedade foi um Balzac, +que os trouxesse desde a obscuridade e da pobreza, +que nos contasse o esforço, as transigencias, +o talento gasto e o fel gasto, até chegarem +ao poder—Navarro, filho d'um mestre de musica +de Bragança, Mariano pobre, Arroyo pobre. +Alguem que nos desse a vida occulta, a audacia +e o descalabro, a chaga politica que os engrandece +e corroe, que corroeu o proprio Chagas, o +<span class="pagenum">[112]</span> +romantico da <em>Morgadinha</em>, +até ao ponto de acabar +por estas palavras amargas, com o ultimo suspiro:—A +vida é uma comedia!—Alguem que +nos mostrasse Arroyo e os seus phantasmas, Mariano +e os seus phantasmas, Navarro e os seus +phantasmas. +<br /> + +<br /> + +Como a vida efectivamente transtorna, enxovalha +e envilece—se lhe falta ideal, paixão, ou +um forte sentimento que caldeie as figuras e +as eleve! Não, a vida não é uma +comedia. A +vida é profunda. Elles é que lidaram apenas com +inferioridades e interesses mesquinhos. Mariano +acabou quasi desprezado. O talento não lhe serviu +de nada. Talvez o prejudicasse... Ha um +momento tragico na sua vida, aquelle em que +João Chrisostomo d'Abreu e Souza lê em plena +camara a declaração, em seu nome e no dos seus +colegas, de que lhes haviam sido desconhecidos +os actos irregulares praticados pelo ministro da +fazenda Mariano de Carvalho. Vejo-o mudo, livido—com +um olhar atono, como nunca vi em mais +ninguem. O sceptico! o sceptico amarfanhado, +reduzido a trapo, com um golphão de desprezo, +por si e pelos outros, na bocca, com um golphão +de negrume!... Jamais me esquece esta figura, +que vi morta entre os vivos, sentado n'um +canto da camara, sem ninguem fazer caso d'elle, +vendo sem vêr, ouvindo sem ouvir, e não tendo +podido realisar nenhuma das suas +ambições:—Deixem-me! +deixem-me!—Deixem-no com os seus +<span class="pagenum">[113]</span> +phantasmas! Arroyo talvez encontrasse na musica +um refugio... Navarro, porém, acabou no +mesmo abatimento. Temiam-no—mas só o temiam. +Arredaram-no. No fim da vida ficava +horas e horas absorto ou ia para o fundo d'um +camarote do Gimnasio ouvir musica. Apegara-se—mau +simptoma—aos netos. Desconfio que o +celebre estadulho não passava d'um espantalho, +e que era grande a sua sensibilidade:—Sinto-me +ferido em pleno coração—Do +coração morreu, +sem nunca o deixarem realisar as suas ambições.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="illustration"><a name="f8" id="f8"></a> +<img style="width: 500px; height: 686px;" alt="Guerra Junqueiro" title="Guerra Junqueiro" src="images/fig11.png" /><br /> + +<em>Guerra Junqueiro.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +Metidos n'aquella roda de navalhas foram até +ao fim do combate, luctando sempre. Os que tinham +de escrever, escrevendo sempre, espremendo +o cerebro, os que tinham de intrigar, intrigando +sempre, com a mascara livida e sorrindo +sempre, ferindo sempre, e cahindo de pé. Oh +quem me dera um momento, só um momento +para vêr a série de phantasmas em que se desdobrou +cada um destes sêres, para os lêr até ao +amago, para lhes descobrir o instante de cansaço +e o ponto vulneravel—rodeados de invejas, de +odios, de inimigos, que esperavam na sombra e +não perdoavam um desfalecimento—uns fingindo-se +cinicos, sorrindo aos insultos, e cravando +as unhas na carne até ao sangue, como Rodrigo +da Fonseca Magalhães, outros respon +Metidos n'aquella roda de navalhas foram até +ao fim do combate, luctando sempre. Os que tinham +de escrever, escrevendo sempre, espremendo +o cerebro, os que tinham de intrigar, intrigando +sempre, com a mascara livida e sorrindo +sempre, ferindo sempre, e cahindo de pé. Oh +quem me dera um momento, só um momento +para vêr a série de phantasmas em que se desdobrou +cada um destes sêres, para os lêr até ao +amago, para lhes descobrir o instante de cansaço +e o ponto vulneravel—rodeados de invejas, de +odios, de inimigos, que esperavam na sombra e +não perdoavam um desfalecimento—uns fingindo-se +cinicos, sorrindo aos insultos, e cravando +as unhas na carne até ao sangue, como Rodrigo +da Fonseca Magalhães, outros respondendo á +audacia +com audacia, outros sucumbindo ao nojo, +com estas palavras que já surprehendi a alguem +<span class="pagenum">[114]</span> +n'um momento supremo:—Não, +não valia a +pena! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O mundo politico é tão curioso! O que +está +á vista não tem importancia, o que se mostra +não +passa de scenario. Para viver aqui dentro é preciso +habituar a pelle a todas as alfinetadas e +afivelar na cara uma mascara perpetua. Este homem +elogia outro e combate-o a occultas. O que +se diz nas camaras precisa de ser explicado nos +corredores, para ser comprehendido. O Cypriano +Jardim atacou ha dias o governo. Porquê? Estava +nas colonias a ganhar seis libras em oiro por +dia e chamaram-no á metropole. O artigo <em>D. +Folião</em> +do Colen fez successo... Já se diz:—Escreveu-o +porque o Mattoso dos Santos lhe não despachou +uma pessoa de familia. Foi preciso um +ataque rude, para o ministro lhe dar, antes de cahir, +um logar não sei onde. Ha politicos que se +servem de todos os meios: ha-os—sei eu—que +se escrevem cartas anonimas. Parece até que +os ha mais completos... Um franquista barafusta +hoje nos corredores das camaras, ácerca +dum deputado da maioria:—O que eu admiro +é o descaramento de Fulano, que se atreve a +fazer discursos alli na minha frente, quando +sabe perfeitamente que trago na algibeira uma +<span class="pagenum">[115]</span> +acta em que elle se confessa ladrão!—Este +mundo tem as suas leis, as suas convenções, +os seus preconceitos, e a sua honra especial. O +principal é o que se diz ao ouvido. Aquillo alli nas +côrtes é apenas aparato: o José Luciano +combina +tudo com o Hintze, o Alpoim com o Teixeira de +Souza. Mas surge ás vezes o inesperado e deita +a frandulagem de pernas ao ar... A atitude violenta +do Arroyo explica-se assim: O Arroyo queria +ser do conselho do Estado, o Hintze prometeu +nomeal-o, o rei opoz-se. O Hintze teimou—o +rei teimou:—Vae para casa e pensa...—A +atitude do Navarro explica-se porque o rei +nunca o deixou ser par...<sup><a href="#n4">[4]</a></sup> +D'ahi o odio—d'ahi +barafunda... O José Luciano procurou o Arroyo +para lhe pedir que não fizesse o discurso contra +o rei:—Sou eu, chefe dum grande partido, que +lhe afirmo que não está inutilisado.—E +publica +no +<em>Correio da Noite</em> o discurso com +alusões á rainha—que +o Alpoim manda retirar do <em>Dia</em>, por +causa +do Paço... Os chefes ainda conservam certa linha, +mas cá em baixo vêm-se referver os interesses, +as ambições, os despeitos. O D. Carlos mantem-se +n'uma atitude que faltou ao D. Luiz—e é talvez +por isso mesmo que o atacam e o acusam. Não +<span class="pagenum">[116]</span> +intriga. O D. Luiz mais de uma vez propoz ao +José Luciano, no tempo de Braamcamp, que organizasse +ministerio:—Isso não, meu senhor! E +vou já d'aqui dizel-o ao Braamcamp.—Tudo +parece confusão, todos os dias a teia se emaranha. +Ainda ha quem defenda este e aquelle, que +pertence ao seu partido, por interesse, por camaradagem, +seja pelo que fôr, mas já não ha +ninguem +que defenda o rei. Alto ou baixo, ao ouvido +ou em plena rua, só se fala no rei... O rei! +o rei! o rei!... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Junho—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +—Os Braganças, dizia o Latino Coelho, ou +são pedantes ou fadistas. +<br /> + +<br /> + +A este proposito o D. João da Camara conta, +que um dia D. Pedro V leu um discurso á mãe, +dizendo-lhe ella no fim: +<br /> + +<br /> + +—O menino ha-de sahir um bom pedante. +<br /> + +<br /> + +Se tarda em morrer acabava odiado. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +E acabava. As grandes figuras moraes são sempre +uma calamidade para si e para os outros. O +universo é amoral, e não ha como os +acomodaticios, +com alguma hipocrisia ao seu dispôr... Os +outros só fazem a sua desgraça e a +desgraça dos +que os rodeiam. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[117]</span> +<div class="date">Junho—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +Pateo de Martel. Um cantinho com uma figueira +e malvaiscos. Uma fiada de casas e no +extremo o atelier do Columbano. Por traz a +quinta... E outra luz diferente, outra atmosphera... +O mestre, pobre e obstinado, fez alli os +seus melhores retratos; a senhora D. Maria Augusta, +n'uma sala de trez metros quadrados, creou +as suas mais bellas rendas. Lá no fundo morou +Eugenio de Castro, pobre, morou depois o Justino +e outros diplomatas ilustres... Alli o mestre, +como os artistas da Renascença, experimentou o +<em>fresco</em>, as tapeçarias, os +trabalhos em cêra e prata. +A senhora D. Maria Augusta sorria-nos com a +maior bondade e carinho e dizia: +<br /> + +<br /> + +—Quando meu pae morreu ficamos sete irmãos. +Criei-os a todos. +<br /> + +<br /> + +—E o Columbano? +<br /> + +<br /> + +—Esse é meu irmão, meu filho e meu +mestre. +Por alli passaram tambem os maiores homens +de Portugal, de quem o Columbano ás vezes fala: +<br /> + +<br /> + +—O Oliveira Martins contou-me, quando +veio ao meu <em>atelier pousar</em> para o +retrato, que +um dia a rainha o mandou chamar e lhe apareceu +transtornada: +<br /> + +<br /> + +—Salve-nos! salve-nos! +<br /> + +<br /> + +Era depois dos acontecimentos do +<em>ultimatum</em>. +<span class="pagenum">[118]</span> +O Martins procurou ou escreveu—não me +lembro—ao +Anthero do Quental e elle afastou-se e +abandonou tudo. +<br /> + +<br /> + +São curiosos os grandes homens contados +pelo Columbano, que os retratou. Um levava +um pente na algibeira para compor o cabelo, outro +pedia para se lhe não ver a careca. O Junqueiro +era mephistophelico. Aparecia, desaparecia +logo: não pousava cinco minutos a fio. +Um dia o Columbano ouviu bater a porta, e +entrou-lhe no atelier um homem já cansado, de +grossos sapatões, apegado a uma bengala, que +parecia um bordão de pedinte: +<br /> + +<br /> + +—Disseram-me que gostava de fazer o meu +retrato e aqui estou... +<br /> + +<br /> + +Era o Anthero. Parecia um cavador, de meias +grossas de lã azul—mas quando falava!... Nunca +olhou para o retrato. +<br /> + +<br /> + +—Está prompto? +<br /> + +<br /> + +Foi-se embora como viera... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Junho—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +O José de Figueiredo diz-me: +<br /> + +<br /> + +—Copiei por minhas mãos, para o Antonio +Candido, a carta em que o Soveral é durissimo +para os partidos, fala d'alto ao rei e lhe diz que, +se não tivermos juizo, a Inglaterra tutela-nos. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[119]</span> +<div class="date">Junho—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +—Ninguem me mete na cabeça que esta rainha +é boa pessoa—diz o Alpoim ao vel-a descer +o Chiado. +<br /> + +<br /> + +Mas, quando passa, toda a redacção do +<em>Dia</em> +corre á janella, para a cumprimentar, e o Moreira +d'Almeida, que tem por ella culto e paixão, põe +á +pressa o chapeu na cabeça, para se ir desbarretar +n'uma grande cortezia. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Fala-se hoje do Soveral na redacção do +<em>Dia</em>, +e da amizade que o liga ao rei d'Inglaterra. +<br /> + +<br /> + +—São tão amigos que por +occasião do +ultimatum, +ainda Eduardo VII era Principe de Gales, +este pode prevenil-o da atitude da Alemanha. +Iam ambos n'um cortejo: o principe, de +passagem, chegou-se-lhe ao ouvido e só lhe disse +estas palavras:—A Alemanha está comnosco... +<br /> + +<br /> + +O Soveral correu ao telegrapho. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Junho—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Adrião de Seixas, que, nos seus tempos +aureos, entrou em muitas combinações de +finança, +<span class="pagenum">[120]</span> +negociou emprestimos, esteve ligado aos Mosers, +etc.: +<br /> + +<br /> + +—Quasi todos os homens publicos recebiam +luvas, posso garantir-lh'o. Todos estendiam a mão. +Duma vez trouxe para um, um aparelho de chá, +magnifico, de prata, comprado em Paris. Elle recebeu-o +e, destapando o assucareiro, afirmou +com desplante, sorrindo:—É magnifico... +só lhe +falta o assucar.—Eu, que já ia prevenido, tirei +das algibeiras alguns rolos de libras, despejei-os +dentro e perguntei:—E agora?—Agora está +optimo.—E concluiu:—Você é uma +mercearia +ambulante! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Junho—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +O marquez de Soveral em conversa com o +Alberto Braga: +<br /> + +<br /> + +—É que eu vivo em Londres longe de tudo +isto... Se me visse forçado a viver em Portugal, +fazia-me revolucionario. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Tambem o Alpoim diz hoje: +<br /> + +<br /> + +—Quem me dera uma revolução! +<br /> + +<br /> + +E, deante do nosso espanto, explica: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[121]</span> +—Para pôr o rei no seu logar... Eu não +tenho +nada a perder, meus filhos estão colocados, +o que tenho chega-me para viver na Regoa como +um fidalgo... Era preciso que o rei tivesse medo. +Mas quê! Agora com a aliança ingleza é +muito +peor. Ainda outro dia dizia o José Luciano:—Podem +vir os republicanos todos juntos, os de cá +e os de Hespanha, que não fazem nada. É da +aliança que, se houver qualquer movimento, desembarcam +tropas e defendem o rei. +<br /> + +<br /> + +E acrescenta: +<br /> + +<br /> + +—Eu vi tudo, vi as perguntas e as respostas, +posso assegurar-lho. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—Elle é mau, é—diz o Alpoim +do rei—mas +a gente não tem outro. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Junho—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Abel d'Andrade: +<br /> + +<br /> + +—Conheço muito bem o Hintze. Tem duas +qualidades magnificas n'um homem, pessimas +n'um chefe. É delicadissimo. Sorri sempre, mesmo +quando sabe que o enganam—e nunca resolve +nada, o que lhe acarreta dificuldades, que vão +<span class="pagenum">[122]</span> +crescendo á medida que elle as adia. Tem outro +defeito enorme; não é capaz de dizer +<em>não</em> +peremptoriamente a ninguem. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Junho—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Emygdio Navarro está furioso com o rei. +Sentiu immenso que o não convidassem para nenhuma +das festas dadas ao rei d'Inglaterra—quando +foi elle que iniciou, defendeu e preparou +a aliança anglo-portugueza. +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Junho—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +Estive hoje em casa do juiz Veiga, lá para o +Rato, por causa d'uma querela do +<em>Dia</em>. É um homem +atarracado e forte, com um ar de falsa bonhomia. +Ha n'elle não sei quê de inquisidor e +de satiro, e é tão desconfiado, que, logo que eu +entro, pousa sobre os papeis da secretaria uma +larga folha azul, com medo que lh'os leia. Na sala, +de cadeiras doiradas de palhinha e +<em>consoles</em> com +gatos de vidro, ha varios mostrengos em +exposição: +o retrato delle e retratos de familia, temerosos, +o busto do rei D. Carlos em marmore e outro +não sei de quem, ambos de arripiar. E, entre +<span class="pagenum">[123]</span> +a papelada que trasborda e estas coisas de mau +gosto, o juiz Veiga fuma n'um cachimbo d'espuma +com uma mulher em pêlo... +<br /> + +<br /> + +É este o homem que sabe tudo e pode tudo, +que conhece os segredos das familias e os segredos +da politica. N'outro dia obrigou um janota a +entregar-lhe as cartas, que comprometiam uma +mulher casada. Contam-se mais casos curiosos. +É omnipotente e omnisciente. Comanda, diz-se, +bufos ilustres de quem ninguem suspeita. Tem +um cofre sem fundo á sua disposição +para distribuir +dinheiro a rodos. Acode a desgraçados. +Tortura—verdade ou mentira?—no fundo das +celulas alguns presos politicos para lhes arrancar +segredos. Ainda ha tempos me contaram que ao +José do Valle não o deixaram dormir sem elle +confessar tudo...—É uma especie de Pina Manique, +que pouco abusa do seu lugar e da sua +autoridade. Afirmam-no bondoso. Ha até quem +o diga uma especie de Providencia. É incontestavelmente +um homem esperto, que protesta:—Quero-me +ir embora antes que tudo isto desabe. +Esta gente não sabe ou não quer defender-se... +<br /> + +<br /> + +Fala baixinho, sem me olhar nos olhos e resolve +n'um prompto, como quem não encontra +nunca obstaculos. Quando saio, no patamar da escada, +surprehendo duas creadas de avental sujo +e chinelos esbeiçados, que dão de comer, +ás escondidas, +a um policia. Enganam-no na sua propria +casa e deitam a fugir quando me vêem. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[124]</span> +<div class="date">Junho—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +O artigo de hontem, das <em>Novidades</em>, +sobre a +mortandade da Servia, cheio d'alusões ao rei, +fez sensação. E dizia-se por ahi: +<br /> + +<br /> + +—Quando se faz cá o mesmo? +<br /> + +<br /> + +—Foi uma limpeza!—phrase do Alpoim. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Beirão: +<br /> + +<br /> + +—O Alpoim não quer vêr que o partido do +João Franco, apezar de pequeno, é um partido +de protesto. Qualquer dia o rei chama-o e dá-lhe +os mesmos poderes que tem dado ao Hintze ou +ao José Luciano. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Junho—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +Judice Bicker, casado com uma filha do Andrade +Corvo, conta, a proposito do rei e do poder +pessoal: +<br /> + +<br /> + +—Possuo diferentes cartas do D. Luiz, e entre +ellas uma ao Corvo, pedindo-lhe que apresente +certa proposta, mas de maneira que não +pareça <em>poder pessoal</em>... +Os homens desse tempo +impunham-se. Um dia ao D. Augusto meteu-se-lhe +em cabeça casar com uma infanta d'Hespanha. +Era no tempo em que se falava muito na +<span class="pagenum">[125]</span> +união iberica. O Corvo opoz-se, apesar da insistencia +desesperada do infante. Por ultimo procurou-o +e disse-lhe: +<br /> + +<br /> + +—Escusa de insistir, que não casa. É +pelo +bem do paiz. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Corvo foi um dos primeiros estadistas a pensar +a serio na Africa e no seu engrandecimento. +Quiz augmentar o territorio de Angola e estabelecer-lhe +os limites, d'acordo com a Inglaterra. +Tudo era possivel n'esse tempo e tinhamo-nos livrado +de dificuldades, do Estado livre do Congo, +etc. Avançavamos um seculo, se elle não cae por +causa do tratado de Lourenço Marques. Deitaram-no +a terra, espalhando que recebera milhões. +Eu que casei com a filha, sei o que elle deixou!... +<br /> + +<br /> + +Nas camaras o governo d'então declarou que +o tratado não tenha ido a conselho de ministros. +O Andrade Corvo possuia o tratado com anotações +do punho de Fontes e Thomaz Ribeiro. +Apesar d'isso calou-se. Se fosse hoje!... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Junho—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +—O rei tem pensado. E tanto que o infante +quiz ir agora ao estrangeiro e pediu dinheiro ao +Hintze, que lhe respondeu:—Peço-lhe que +desista.—O +<span class="pagenum">[126]</span> +infante rasgou a carta furioso. Com a +Maria Pia sucedeu o mesmo. Essa inventou uma +doença d'olhos e preveniu o D. Carlos de que +precisava de ir ao estrangeiro. Resposta do +rei:—Cá +ha um bom especialista.—Mandou-lho, e elle +disse ao rei que a Maria Pia não tinha nada. +A Maria Pia insistiu, n'um desespero, e o rei mandou-lhe +o Antonio Lencastre. O rei tem pensado... +<br /> + +<br /> + +—Se isso fosse verdade!—exclama o Alpoim. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Junho—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +Esta tarde sahiu dos Martires, mesmo em +frente do <em>Dia</em>, a +procissão do Corpo de Deus. +Todos á janella cahiram de joelhos—quando o +bispo de Trajanopolis passou, a barba loura, +muito cuidada, e um capachinho no alto da cabeça, +apartado ao meio... O Alpoim exclamou: +<br /> + +<br /> + +—Ó que maroto! Foi a este que o Barros +Gomes, +quando ministro, disse um dia: Ajoelhe a +meus pés! Peça perdão!—Tinha +hypothecado lá +fóra os rendimentos do curia por noventa annos! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Junho—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +O D. João da Camara conta que no Algarve +encontrou em todas as casas dois retratos—o de +João de Deus e o do Remexido. E a proposito diz +<span class="pagenum">[127]</span> +que um tio de Coelho de Carvalho levava já a +galope o comutamento da pena do Remexido, +quando o fuzilaram. E termina:—A Angela +Pinto é neta do Remexido. Aposto que não sabiam! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Julho—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +—Vou pedir um logar que está vago no Supremo +Tribunal—disse um patusco ao Marçal +Pacheco. +<br /> + +<br /> + +—De juiz?! +<br /> + +<br /> + +—Isso. +<br /> + +<br /> + +—Mas você endoideceu! Não lh'o +dão! +<br /> + +<br /> + +—Isso sei eu. +<br /> + +<br /> + +—Mas então porque é que o pede? +<br /> + +<br /> + +—Já pedi umas poucas de coisas, vou pedir +mais esta. Recusam-ma, já sei, mas é +<em>capital</em> de +queixa que amontôo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Alpoim: +<br /> + +<br /> + +—Um dia o cardeal patriarcha convidou-me +para jantar. Estavam muitos bispos. São jantares +que nunca acabam, de quinze pratos, serviço +esplendido—e não calcula a impressão +que eu +senti, no fim, quando elles se levantaram muito +<span class="pagenum">[128]</span> +congestionados, cheios de vinhos magnificos, mamando +charutos enormes e com as saias arregaçadas... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date"> +Setembro—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Henrique de Vasconcellos, genro do Navarro, +contou-me hoje que o Paço por trez vezes +mandou insistir com o sogro, para elle não continuar +com os ataques nas <em>Novidades</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date"> +Outubro—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Alpoim recomenda no <em>Dia</em> que se +não publique +nada que possa ferir as susceptibilidades +da côrte hespanhola. Afonso XIII está +desconfiadissimo. +Além d'isso o nosso rei e rainha de +Hespanha não se podem ver: têem um pelo outro +odio figadal. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Um coronel inglez, que ahi esteve, veio por +ordem do seu governo vêr em que estado +tinhamos as fortificações de Lisboa. Examinou +tudo. +<br /> + +<br /> + +<div class="illustration"><a name="f9" id="f9"></a><img style="width: 500px; height: 566px;" alt="José Luciano encerra o Parlamento.—Caricatura inedita de Celso Herminio." title="José Luciano encerra o Parlamento.—Caricatura inedita de Celso Herminio." src="images/fig12.png" /><br /> + +<em>José Luciano encerra o Parlamento.</em>—Caricatura +inedita de +Celso Herminio.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[129]</span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Com as festas de Afonso XIII encheu-se muita +gente. Um regabofe. Da iluminação da Avenida +diz-se:—Dos Restauradores para cima dirige o +Costa Pinto, dos Restauradores para baixo digere +o... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Ao ouvido conta-se que o rei de Hespanha e +os que o acompanhavam troçaram tudo isto: o +paiz, a côrte, as festas. De manhã, no quarto, +emquanto +elle tomava café ou chocolate, os particulares +e os intimos maldiziam, n'uma chacota +pegada... Só o rei, fracamente, se opunha. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date"> +Outubro—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +O D. João da Camara conta o seguinte: +<br /> + +<br /> + +—O D. Luiz deu, até pouco antes de morrer, +trezentas libras por mez á Rosa Damasceno. Todos +os dias 10, 20 e 30, o Nazareth lhe entregava +<span class="pagenum">[130]</span> +cem libras em oiro, que elle nem sequer contava: +mandava-as logo á Rosa. Morreu no dia 19 de +Outubro: pois no dia 10 ainda lhe mandou o dinheiro.—E +o Brazão?—Cuido que não são +casados, +apezar do que por ahi se diz. O que é certo +é que antigamente, as coisas arranjavam-se por +forma que a Rosa e o Brazão nunca entravam +na mesma peça, e um d'elles ia sempre passar +a noite ao Paço. O D. Luiz dizia do +Brazão:—É +o meu melhor amigo. A Rosa nunca abusou +da situação: apenas empregou dois ou tres homens +e o D. Luiz sentia por ella verdadeira ternura. +Traduziu-lhe a <em>Odette</em> e assistia aos +ensaios. +A Maria Pia sabia tudo. Um dia deixou no quarto +do Paço onde a Rosa costumava ficar, um lenço +de rendas a tapar a fechadura. Ás vezes o D. Luiz +apresentava-lhe joias para ella escolher e depois +levava-as á Rosa. E ia com a rainha ao theatro, +para que ella visse o efeito das joias no colo da +actriz. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date"> +Outubro—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +—Vi eu, vi eu!—exclama o Antonio José de +Freitas—o Oliveira Martins, n'uma sala, deslumbrado, +solicitar a apresentação d'um janota qualquer, +d'um janota banal. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[131]</span> +<div class="date">Dezembro—1903.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Adrião de Seixas, secretario do Banco de +Portugal: +<br /> + +<br /> + +—Não se fazem descontos, porque não ha +dinheiro +e o Banco já recorreu ás reservas de prata. +O governo está sempre a pedir dinheiro. Imagine +o meu amigo que todos os annos ha um +<em>deficit</em> +de 7:000 contos. Ninguem tem a coragem de dizer +as coisas como ellas são e por isso se faz um +orçamento falsificado. Resultado: como o +orçamento +é falso, pode-se roubar á vontade! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O José Luciano está a morrer. O que ahi vae +com a chefia do partido progressista! Ao Antonio +Candido não o tragam os progressistas, ao +Beirão não o quer o Paço, nem o +Navarro, nem +o Mariano. Lança-se o nome de Antonio Candido +para encobrir o seguinte proposito: presidente +do conselho o Mathias de Carvalho, com +o Alpoim na pasta do reino. +<br /> + +<br /> + +Mathias de Carvalho é uma figura decorativa, +sempre de palito na bocca e de miolos empedernidos, +que ficará na presidencia e estrangeiros. +Esta solução é preferida pelo Navarro +e pelo +<span class="pagenum">[132]</span> +Mariano. De Mathias apenas se sabe que é incapaz: +como diplomata foi quem deu ensejo a +esfriarem-se as relações com a Italia. +<br /> + +<br /> + +—Se o José Luciano morrer é +á +facada!—exclama +o Alpoim. +<br /> + +<br /> + +Morrer era ainda—Deus me perdoe!—uma +solução... Peor será conserval-o na +cadeira de +rodas, obstinado, querendo mandar, e os herdeiros +á espera do testamento. Toda a politica +portugueza vae girar em volta d'este leito de enfermo, +onde o velho continua a dar ordens imperiosas.—Hoje +deitou um litro de pus pela pelle.—Está +salvo!—Morre!—Fica invalido!—Tem +sifilis!—Nesta altura da politica portugueza, é +elle quem manda tudo. Que o diga, o José d'Azevedo, +por exemplo, que o não pode vêr, porque +o José Luciano o não deixou realizar as suas +pretenções. +É na sua casa que se resolvem as questões +maximas. A politica é pelo menos n'uma +grande parte, na melhor parte, representada nos +bastidores... «Vejam a vergonha desta gente! +O Campos Henriques vae a casa do José Luciano +com o Julio de Vilhena, para conseguir que +as emendas do codigo civil passem. Não passam +e elle fica no ministerio! O Teixeira de Souza vae +lá todas as semanas. Não, este Hintze... Eu +palavra +de honra antes queria ser ladrão d'estrada!...» +<br /> + +<br /> + +Outro facto extraordinario da nossa politica: +é sempre no campo adverso que estes homens +<span class="pagenum">[133]</span> +tem mais radicadas amizades. E tambem se percebe +nitidamente que no fundo da lucta só ha +uma força, o rei. Por isso mesmo o rei é sempre +o culpado. Quem tudo manda é o +Paço—dizem +todos os politicos—e tanto mais que não ha um +nucleo de resistencia no paiz. Os republicanos +não estão organizados e o Paço nem +sabe o +que póde. Uma revolução no paiz +é, segundo +a opinião geral, impossivel, a não ser que se +succedam trez annos de fome.—Tudo quanto se +faz de mau é o rei quem o faz...—Ainda hoje +ouvi esta conversa:—Foi o Hintze quem disse ao +Arroyo, como disse ao Mariano e ao Navarro. +«É el-rei que não quer». +Nunca lh'o deveria ter +dito.—Os politicos inutilisam-no e inutilizam-se. +Todos os dias inventam novas atoardas. Hoje a +proposito d'uma nota oficiosa que o ministro +da fazenda fez publicar no <em>Noticias</em>, +no <em>Seculo</em> e +no <em>Diario</em>, anunciando um grande +emprestimo +no estrangeiro, conta-se que é um negocio de +acordo com a casa Fonseca, Santos & Viana, +que tinha comprado fundos. Acusa-se o Teixeira +de Souza de conivencia. Mas já a 2 de junho +o Alpoim afirma:—Quem não deixa passar o +emprestimo é o Burnay. N'outro paiz devia ter +a cabeça cortada. No ministerio da fazenda ha +documentos que provam as suas maquinações no +estrangeiro. Elle manda em tudo:—manda no +Credito Predial, no Banco de Portugal, na Companhia +Real. É uma desgraça que o emprestimo +<span class="pagenum">[134]</span> +não passe. Temos nós de o fazer e em que +condições!... +E tudo isto com que fim? E o Burnay +a ver se obriga os progressistas ao contracto dos +tabacos.—A esta trapalhada juntem a doença do +José Luciano e as ambições, que +levantam a cabeça, +a guerra de sapa que se encarniça.—Hoje deitou +mais pus!—Morre!—Com quem está o +Paço?—O +Moreirinha com a algalia não lhe sae da +cabeceira.—Quem +vae ao poder? O João Franco? +<br /> + +<br /> + +—Nem elle sabe a guerra oculta que eu lhe +tinha feito. Ha-de pagar-me caro o discurso que +fez contra mim: Viva a folia, dançar! dançar!... +São mil os interesses, mil as +ambições.—Tudo +menos o Beirão, que só tem por si a gente velha, +a gente conhecida pelos <em>batibarbas</em>. +<br /> + +<br /> + +Mas o velho teimoso e perspicaz, não admite +sequer a idéa de que alguem, que não seja elle, +vá ao poder. Até á +ultima—ambição ou +grandeza?—ha-de +disputar e mandar, como o Alpoim, +até ao ultimo suspiro, ha-de conspirar. +Aqui, á roda d'esta agonia, não se discutem +apenas +os interesses d'uma familia. O drama é maior: +são os interesses dos partidos, com mil e uma +ambições +e enredos que nem sequer se suspeitam. +A confusão augmenta, redobra. O Ressano Garcia +comanda o ataque, á frente dos +<em>batibarbas</em>, +contra o Alpoim, e o Alpoim, que ainda hontem +atacava o João Franco, já hoje (Janeiro 1904) +diz, +depois do conluio feito pelo Silva Graça:—Com +esse me entendo eu! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[135]</span> +<div class="date">Fevereiro—1904.</div> + +<br /> + +<br /> + +Hontem, terça-feira de entrudo, assisti ao espectaculo +em S. Carlos. Estava tudo, o rei, a rainha, +a côrte... Senhoras decotadas com os vestidos +presos aos hombros por uma fita. A D. Amelia +de vermelho. Andava no ar uma bola enorme de +borracha, e ao janota que quiz saltar dentro d'um +camarote tiraram-lhe as botas dos pés. Mas a risota, +a chalaça, a delicia, era um penico em miniatura, +que passava de mão em mão, por entre +as grosserias, que é do uso antigo as senhoras +dizerem umas ás outras na terça-feira gorda. +O fundo d'estes risos vem sempre da mesma +palavra pegajosa: merda! merda! merda! O rei, +gordo e louro, soprava por um canudo setas de +papel, botando o olho de revez, e houve um momento +em que o infante mostrou do camarote +o quer que era de borracha, um canudo cheio de +vento, immenso e obsceno. Foi um delirio entre +aquellas cabeças empoadas, na gente da alta roda +de que se contam baixinho os escandalos. +<br /> + +<br /> + +Ouçam um destes rapazes que estão na plateia, +e que falam das senhoras, como quem fala +com desprezo das mulheres da Antonia. Muita +desta gente não se sabe aonde vae buscar o +dinheiro. É um misterio. Aquelle louro e correcto, +<span class="pagenum">[136]</span> +que está além n'uma atitude romantica, +ainda ha dias quiz extorquir alguns contos de +reis, para o jogo, a uma mulher casada. Outro só +vive da roleta. Mais além, o herdeiro de um nome +ilustre, tem um modesto logar na alfandega, e a +mulher usa brilhantes esplendidos. Aquelle, acolá, +tão decorativo, é conhecido pelo conde de +Monta-a-Velha. +São raros os que não têm alcunhas. +A uma senhora de perfil soberano chamam-lhe a +Vareira. Outra tem um sobriquet infame. Deste +e de aquella diz-se alto a chronica escandalosa. +A mulher do S. deu este anno grande escandalo +em Cintra. Outra foi apanhada aos beijos a um +embaixador. Com aquella, mais além, fina como +uma cobra, e que ostenta um colar magnifico, +puzeram-se os B. de mal, acusando-a de lhes ter +roubado uma carteira com trezentos mil reis, +depois de terem sido todos seus amantes. A mulher +do J... deixa o marido, pé de boi rico que +só lhe serve para puxar á nora, e +gasta-lhe a +rodos o dinheiro que juntou. Eis esta mãe viciosa +com a filha ao lado—de olhos limpidos e +innocentes. Peor, ha peor... E mais esta—e +mais esta—e mais esta condessa, que n'outro +dia foi apanhada no comboio n'uma atitude peor +que equivoca... +<br /> + +<br /> + +Puz-me a ouvir, a ouvir,—verdade? mentira?—e +lembrei-me ao mesmo tempo da côrte +da senhora D. Carlota Joaquina e da <em>Chartreuse +de Parma</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[137]</span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O general Lencastre de Menezes: +<br /> + +<br /> + +—Se o 31 de Janeiro fosse agora as coisas +não se tinham passado assim... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Março—1904.</div> + +<br /> + +<br /> + +Morreu um dia d'estes um preto riquissimo, +que quiz por força passar por branco, o que lhe +custou os olhos da cara. Se teima em viver mais +algum tempo acabava a pedir. Rodeara-se d'uma +corte que lhe custava carissima: lisongeavam-no +e rapavam-lhe o cofre até ao fundo. Depois inventavam-lhe +processos, depois demandas... Depois +sopravam-lhe á vaidade incomensuravel. E o +preto sorria, o preto dizia sempre que sim. Tinham-no +casado com uma linda rapariga branca—e +o preto, á farta, pagara tudo, dotara tudo, a +noiva, os paes da noiva, os parentes da noiva... +E cada vez mais brancos lhe faziam a côrte e o +enredavam n'uma vasta teia de interesses, com +muitas zumbaias e papel selado. +<br /> + +<br /> + +Um dia foi a Inglaterra e quiz viajar como um +principe branco: comprou um <em>yacht</em> de +luxo para +ir a S. Thomé. Cincoenta contos. Na volta não +<span class="pagenum">[138]</span> +havia carvão a bordo e deitaram-se a queimar a +madeira entalhada, os doirados do barco, as portas, +os salões, as molduras. E o preto sorria. +Quando chegou a Lisboa vendeu o barco por +uma côdea. +<br /> + +<br /> + +Rodearam-no mais brancos, apareceram-lhe +mais brancos infatigaveis, pressurosos, obsequiadores. +E mais papel selado, mais contractos e +procurações +para assignar—o enredo, a teia subtil +em que o negralhão foi arrastado e envolvido, o +verdadeiro, o authentico drama, emfim, do preto +que quer ser branco... Se elle tinha por acaso +um sobresalto, falavam-lhe logo á vaidade ou davam-lhe +noticia d'uma coisa que se chama o Codigo, +a Lei, a Formula, e o preto, que não comprehendia +e que se sentia feliz, submetia-se sem +contestar, com uma grande satisfação por fazer +parte d'esta raça ilustre e respeitada de brancos, +por ser visconde, por pertencer á côrte e +á alta +sociedade elegante. +<br /> + +<br /> + +...Antes de morrer lá lhe deram o ultimo +golpe—de preto. Os brancos ficaram-lhe com as +roças, e as propriedades de S. Thomé foram +transferidas para uma sociedade por quotas. É +o que consta por ahi, emquanto o negralhão +estoira com uma pneumonia dupla—e lá em casa +se toca desaforadamente piano, com as janellas +abertas de par em par.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[139]</span> +<div class="date">Março—1904.</div> + +<br /> + +<br /> + +As obras da sala de jantar do Paço das Necessidades +custaram 180 contos. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Abel d'Andrade contou-me que a modista +da mulher lhe dissera que a mulher do +Hintze lhe devia lá uma capa ha mais dum +anno. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Março—1904.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Celso morreu ha um mez n'um dia de chuva +como este. Mas, quando o caixão chegou ao +pé +da cova, luziu o sol no alto. O ar parecia novo e +no vasto campo dos tumulos agitaram-se as cabeças +amarellas dos malmequeres. Os passaros +começaram a cantar. E viu-se logo o Brito Aranha, +de pera branca, dar um passo em frente e +fazer um discurso:—O amigo... o camarada... +descança em paz.—Depois o Cunha e Costa falou +na nossa decadencia, e por fim o Carneiro +de Moura mastigou tambem uma banalidade... +Sentia-se que tudo aquilo era postiço. Mas os +passaros não cessavam de cantar—e a meu lado o D. +João da Camara suspirou baixinho: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[140]</span> +—Quem me dera que quando eu morrer só +o saibam meia duzia de amigos!... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Abril—1904.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Ovidio d'Alpoim ácerca da D. Maria Emilia +Seabra de Castro: +<br /> + +<br /> + +—Mete-se em tudo. D'uma vez eu e o José +Luciano estavamos a discutir umas alterações +á +Carta Constitucional e ella começou do lado a +dar a sua opinião. O José Luciano mandou-a +embora. +D'outra vez sahia eu de casa do José Luciano +com o Antonio Candido e vinhamos á +porta da sala grande, quando ella do alto da +galeria: +<br /> + +<br /> + +—Ó senhor Antonio Candido então agora +é +que vae para Amarante, quando é cá preciso? +E é para isto que nós os fazemos pares e os +enchemos +de honrarias?... +<br /> + +<br /> + +O Antonio Candido não respondeu. Ficou +tão vexado que, de casa até á baixa, +não trocamos +palavra. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Março—1904.</div> + +<br /> + +<br /> + +As filhas de D. Carlota Joaquina, com excepção +de duas, eram tal qual como a mãe. O +Camara conta que a duqueza de Loulé, que foi +<span class="pagenum">[141]</span> +casada com o mais lindo homem do seu tempo, +estava um dia, em solteira, á janella, quando o +conde de Vimioso passou a cavallo para os touros, +já vestido de oiro e prata. Ella chamou-o, +trocaram meia duzia de palavras, elle subiu—e +depois desceu e foi tourear... +<br /> + +<br /> + +O marquez de Vallada sabia quem eram os +paes de todos os filhos de D. Carlota Joaquina. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Abril—1904.</div> + +<br /> + +<br /> + +A Hespanha concentra tropas na Galliza. Nós +não podemos mobilisar quinze mil homens. Nem +dez mil! Hontem o Pimentel Pinto queixava-se +ao Maximiliano d'Azevedo, de que nem artilharia +de campanha possuimos: a que temos ficava +liquidada no fim de meia hora de combate. A artilharia +do campo entrincheirado de Lisboa, comprehendendo +os obuzes, serve apenas para +navios imperfeitamente protegidos. Peor: o municiamento +mal chega para uma hora de combate! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Abril—1904.</div> + +<br /> + +<br /> + +O dr. Antonio Centeno protesta: +<br /> + +<br /> + +—Isto não pode ser! O ministro +deu pela +iluminação electrica do Paço de Belem +quarenta +<span class="pagenum">[142]</span> +contos! Havia quem a fizesse por sete. Agora +vae dar a iluminação electrica de todos os +paços +por trezentos contos. Ha quem a faça por +quarenta. Mas d'esta vez oponho-me porque prejudica +a Companhia do Gaz. Vou procural-o e +dizer-lho. Se teimar levo a questão para a camara +e para os jornaes. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Abril—1904.</div> + +<br /> + +<br /> + +Quem faz a politica externa é o rei e o Several. +O ministro dos estrangeiros chancela. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Abril—1904.</div> + +<br /> + +<br /> + +Isto é um paiz para estrangeiros. Não ha nenhum +que não enriqueça. Hoje afirma-se que o +Chapuy, engenheiro da Companhia Real, vendeu +machinas á Companhia por cento e trinta e tres +mil francos, que valiam setenta mil. O Croneau, +director do Arsenal, tambem está rico. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Abril—1904.</div> + +<br /> + +<br /> + +Diz o Alpoim: +<br /> + +<br /> + +—O rei não ouve ninguem. Antigamente ainda +atendia o general Queiroz, que era nosso +<span class="pagenum">[143]</span> +amigo. Agora não: só ouve os presidentes do +conselho. Tratava muito bem o Teixeira de Souza; +pois quando o Hintze resolveu pol-o na rua, +passou logo a tratal-o mal. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Maio—1904.</div> + +<br /> + +<br /> + +O alferes que no 31 de Janeiro comandava +a guarda municipal, por traz do campo de Santo +Ovidio, nas escadas da Egreja da Lapa, e que +depois comandou o fogo na rua de Santo Antonio, +garante que o Lencastre e Menezes, então +comandante do 18, não sahiu com o regimento +emquanto não viu tudo decidido. E dentro do +quartel havia socego... +<br /> + +<br /> + +—Eu disse-o depois ao rei. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +A proposito de 31 de Janeiro sei pelo José +de Figueiredo, que o ouviu por diferentes vezes +ao Antonio Candido, que o rei e a gente do +Paço queriam um castigo exemplar. Antonio +Candido opoz-se e ficou mal visto durante muitos +annos. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[144]</span> +<div class="date">Junho—1904.</div> + +<br /> + +<br /> + +Disse-me hoje o Camara que o Soveral tomou +parte, activa no tratado d'<em>entente</em> +entre a Inglaterra +e a França. É hoje um dos melhores amigos +de Delcassé. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Julho—1904.</div> + +<br /> + +<br /> + +A Maria Pia, que quer ir por força ao estrangeiro, +mandou pedir dinheiro aos agiotas de Paris +sobre hypotheca das suas propriedades—chalet +do Estoril e parte do palacio das Necessidades, +que ella afirma pertencer-lhe... Ao todo +cento e oitenta contos. De intermediarios serviram +um agiota do Porto, uma mulher designada +na correspondencia pelo nome de madame Blanche, +e que recebia dez mil francos, etc. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Do Antonio José de Freitas: +<br /> + +<br /> + +O marquez da Fronteira nunca poude levar a +bem o casamento de D. Fernando com a +<em>comica</em>, +como elle lhe chamava. Uma senhora da aristocracia +conversando com o marquez: +<br /> + +<br /> + +—Fui visitar el-rei que me disse:—Não +queres +<span class="pagenum">[145]</span> +vêr a condessa?—Falei com ella e +parece-me...—hesitando—muito +interessante... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="illustration"><a name="f10" id="f10"></a><img style="width: 500px; height: 834px;" alt="Celso Herminio." title="Celso Herminio." src="images/fig13.png" /><br /> + +<em>Celso Herminio.</em></div> + +<br /> + +E o marquez logo: +<br /> + +<br /> + +—A senhora já tinha, é claro, +relações anteriores +com a condessa... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Dezembro—1904.</div> + +<br /> + +<br /> + +O João da Camara repartiu com os netos de +Camillo os direitos de auctor do <em>Amor de +Perdição</em>. +Os filhos de Nuno nem pão tinham no dia +em que receberam inesperadamente esse dinheiro. +O Camara, quando juntou duzentos e tantos mil +reis, escreveu á viuva e mandou-lhe metade.—N'esse +dia—disse ella ao Alberto Pimentel—não +tinha que lhes dar de comer. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O rei e a rainha vivem separados. Os seus +aposentos são, uns n'um extremo, outros no outro +extremo do palacio. E por ahi afirma-se que +elle, depois do tifo, ficou como Affonso VI... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Dezembro—1904.</div> + +<br /> + +<br /> + +O velho obstinado teima... Não lhe falem na +successão! Ainda n'outro dia fez uma scena, quando +a D. Maria Emilia lhe leu o artigo das <em>Novidades</em>. +<span class="pagenum">[146]</span> +Um amigo disse-lhe:—Deixe lá o +Sebastião +Telles ou o Alpoim ser presidente do conselho.—Essa +hypothese não a admito eu!—protestou logo. +O Hintze está gasto, o João Franco foi acolhido +no norte como um Messias. O Beirão fez um +discurso nas camaras—talvez proposital—dizendo +que cortaria nos empregos publicos e que +não admitia direitos adquiridos senão dentro da +lei.—Elle quer inutilisar-se...—É um +tipo esgalgado, +d'astronomo, com uma grande penca—o +nariz do Beirão—motivo facil de caricatura. +Homem de costumes simples, alheado e indiferente +a corrilhos, agarrado aos seus livros<sup><a href="#n5">[5]</a></sup>. +Já em Abril, no conselho d'estado, taes coisas +<span class="pagenum">[147]</span> +disse que, á sahida, afirmou:—Acabo de dar +uma enxadada na minha reputação!—Quanto +ao Alpoim desconfia que o José Luciano o quer +comer, e o Teixeira de Souza trata de crear forças +dentro do seu proprio partido: comprou <em>A +Tribuna</em> e parece influenciar no +<em>Diario</em>.—Ao +Hintze custa-lhe a largar o poder, elle bem sabe +porquê...—Os tumultos nas camaras succedem-se +e a situação politica agrava-se. +<br /> + +<br /> + +Do rei diz-se o peor possivel. Diz-se que colocou +muito dinheiro no Banco d'Inglaterra, (11 +de Junho) diz-se que deu um colar de brilhantes +á bailarina Imperio, que ahi está na zarzuella... +As questões prendem-se, e agora com o contracto +<span class="pagenum">[148]</span> +dos tabacos só se fala em escandalos. Tudo +come! tudo come! Come o Navarro, come o Mariano, +e um amigo meu, literato e jornalista, +afirma-me:—Se a Companhia dos Phosphoros +tem feito o contracto, eu estava rico.—Corre +que os republicanos se organisam e o Bernardino +Machado publicou manifesto, aproveitando +um jornal e um jornalista hespanhol: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="tinyl">...«Ha uma lei que domina +todas as outras na historia +da humanidade: nenhuma instituição vive, se +sustenta e se +radica senão pelo amor á liberdade. A lei, em +virtude da +qual existem instituições liberaes, cumpriu-se +nos nossos +annais contemporaneos. De 1851 a 1885 tivemos um periodo +de liberdade e de paz. Foi um periodo de ascensão liberal. +<br /> + +<br /> + +«Aboliu-se a pena de morte, e só por esse feito +se +proclamou pela lei o direito á Vida. Proclamou-se esse +direito +com toda a sua elevação, dando a todos, +inclusivamente +aos indigenas das nossas colonias, onde se acabou +com a escravatura, a faculdade de existir espiritualmente, +como uma personalidade moral. Alargou-se a liberdade religiosa, +tornando-a efectiva com o registo civil. Alargou-se +a liberdade economica pela extinção dos bens de +mão morta, +pela abolição dos monopolios e pela +criação legal das +associações de socorro mutuo e das cooperativas. +Dilataram-se +as liberdades politicas com a extensão do sufragio +e representação das minorias. Descentralizaram-se +os municipios, +deram-se as maximas franquias aos distritos e até se +exarou na Constituição o principio liberal da +eleição parcial +da Camara dos Pares. Nesse periodo, que começou ouvindo-se +a voz do grande tribuno José Estevão, parece que +resoaram +até ao final os acentos do seu verbo eloquentissimo.</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[149]</span> +<div class="tinyl">«Essa epoca venturosa termina +com a morte de Sampaio, +Braamcamp e Fontes. E a prova de que todos os partidos colaboravam +nessa grande obra de +pacificação e de +liberdade, está em que foi o conservador Fontes quem +mais contribuiu para ella. +<br /> + +<br /> + +«Os partidos de governo definem-se pela sua +concepção +da constituição nacional: +Constituição liberal, partido +liberal; Constituição arbitral, partido +reaccionario. Porque +o arbitrio póde ser, num dado momento, a liberdade; mas +sempre se converte por fim em absolutismo. +<br /> + +<br /> + +«No periodo de iniciação liberal fez-se +a Constituição +quasi republicana de 1822, e, em troca, os constitucionais +da campanha da Terceira, do Cerco do Porto, de Almoster +e da Asseiceira, tiveram a carta outorgada de 1826, que foi, +consoante o livre alvedrio do imperante, a liberdade com +D. Pedro IV, e a opressão com D. Maria II. Em +oposição á +carta outorgada, Passos Manuel e os setembristas fizeram +a democratica constituição de 1838, decretada +pela +vontade da nação. +<br /> + +<br /> + +«No segundo periodo da nossa vida constitucional, que +abre com José Estevão e se encerra pouco depois +da morte +de Sampaio, periodo que inaugura entre nós o +parlamentarismo, +os regeneradores fizeram os actos adicionaes de +1852 e de 1885, que são verdadeiros pactos constitucionaes, +e não intervalos historicos, mas reformistas, constituintes, +republicanos, que apresentavam os seus projectos, qual +delles mais avançado, da reforma constitucional. +<br /> + +<br /> + +«De 1886 até hoje sopra um vento imperialista. A +inspiração, +em vez de vir da Inglaterra liberal, vem da Alemanha +cesarista. O partido progressista faz a +centralisação +dos serviços materiaes. Segue-se-lhe, no Poder, o partido +regenerador, e faz a centralisação dos +serviços espirituaes +na instrucção, e depois dissolve as +associações, rasga as liberdades +municipaes, acaba com as representações das +minorias, +legisla dictatorialmente... E, por fim, para que +toda esta centralisação não suscite +uma revolução violenta, +promulga a lei sobre o anarquismo, que é uma +ameaça +sempre suspensa sobre todos os liberaes.</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[150]</span> +<div class="tinyl">«Antes de 86, o partido +republicano, como partido de +tal natureza, não era um perigo. Caminhava-se lentamente, +pacificamente, para a Republica, e não haveria ninguem +tão insensato que sonhasse fazer uma +revolução para conseguir +pela força o que se conseguiria, num prazo fatal, +pela lei e pela liberdade. Além disso, ninguem faz +revoluções +por meras fórmas. Nós, os verdadeiros liberaes, +duvidamos +se não é preferivel uma monarchia, com todas as +liberdades efectivas, com todas as +descentralisações vivas, +ou uma Republica como a francesa, em que o Poder central +é omnimodo, e o regimen autonomo local nulo. +<br /> + +<br /> + +«Depois de 86, fracassadas todas as tentativas para +regressar ao antigo caminho constitucional; fracassada a +grande, generosa e derradeira tentativa de 93 a 94; com a +fazenda publica em bancarrota; com todas as liberdades +suprimidas; com a pena de morte restabelecida para os delictos +militares e até para certos delictos civis; com a politica +do engrandecimento do Poder Real no seu auge,—toda +a gente pensa na Republica, porque ella não é +já uma +questão de mera fórma mas sim um problema +organico de +vida ou de morte para Portugal... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +«A anarchia da nação demonstra-se: no +interior pelo +desencadeamento das forças dissolventes do caciquismo, +da plutocracia e a agitação do clericalismo e +fóra, pelas +mesmas consequencias dolorosas que se seguem a qualquer +dictadura progressista ou regeneradora. Depois da dictadura +progressista, o ultimatum, a bancarrota, a invasão +congreganista, sobresaltando os animos, como no caso da +irmã Collecta. Depois da dictadura regeneradora, Kionga, +o convenio definitivo da divida, e o fanatismo clerical, +irrompendo no caso Calmon.</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[151]</span> +<div class="tinyl">«Os partidos estão +em +dissolução. O regenerador, com +dois chefes; o progressista, com a perspectiva tremenda de +uma herança tempestuosa. Mas poder-se-hão +reconstituir +dentro da monarchia? Andam varios nomes de boca em +boca: os dos srs. Dias Ferreira, visconde de Chancelleiros, +Costa Lobo, Augusto Fuschini, Anselmo d'Andrade e Augusto +de Castilho. Viu-se, porém, o caso da monarchia rodear-se +d'esses homens de positivo merito? São convidados +sequer para as suas festas, que são oficiaes e +não particulares? +<br /> + +<br /> + +«Entenderá e quererá a monarchia +apoiar-se nas classes +trabalhadoras, visto a burguezia estar contaminada? +Foi esse o sonho do socialismo do Estado de Oliveira Martins +e talvez o do militarismo democratico de Mousinho de +Albuquerque. Mas a monarchia não soube aproveitar-se +nem de um nem doutro. Oliveira Martins morria politicamente +poucos mezes depois de ser chamado ao governo. +Mousinho de Albuquerque não chegou sequer aos conselhos +da Corôa, e suicidou-se. A monarchia tinha para a +realização desse programma, alem d'esses homens, +a voz +mais eloquente dos nossos dias, a de Antonio Candido, +successor de José Estevão, que teria sabido +conquistar as +massas populares, e para captar as simpathias internacionaes +um diplomata, o marquez de Soveral, que pelas suas +maneiras e espirito, é da raça dos Palmellas. +Aproveitou-os, +porventura? Antonio Candido, desiludido, emudeceu. O +marquez de Soveral nada mais pode fazer do que abrandar +o protectorado inglez. +<br /> + +<br /> + +«Hoje as massas afastam-se cada vez mais da monarchia, +porque, como tudo se concentrou no Poder Real, todas +as responsabilidades se lhe atribuem; o protectorado +inglez serve para salvaguarda da monarchia; a ruina financeira +do paiz vem da confusão dos dois erarios, e até o +jesuitismo, se bem que não se imputa ao rei, é +comtudo +imputado aos que o rodeiam.</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[152]</span> +<div class="tinyl">«Não é +licito pois esperar a +salvação dentro da monarchia. +Por grande que seja a cultura do chefe do Estado, +por muito que seja o seu valor, a empreza da nossa +regeneração +não é para um +individuo só. Só a nação +é que pode +erguer sobre os seus hombros tão imenso peso. +<br /> + +<br /> + +«E não se diga que a monarchia está +identificada com +a independencia da patria. A nação foi, com +efeito, sempre +monarchica; mas desgraçadamente a monarchia tem-se encarnado +na monarchia usurpadora dos Filippes, no governo +napoleonico de Junot, no governo de Beresford, sob Jorge +IV. A monarchia teve um papel soberano no começo da +nossa Historia, mas foi-se gradualmente divorciando do +povo. +<br /> + +<br /> + +«E as nossas alianças? Essas não +são dos reis, mas +dos povos. A aliança da Inglaterra é com +Portugal, e não +com as suas fórmas de governo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +«É indispensavel organisar as forças +vivas da nação +portugueza. <em>Organisando-se o partido republicano +salvar-se-ha +a nação</em>. É preciso +que o partido republicano se transforme +em partido do governo, e que cesse com a sua obra +de demolição, já feita. Se +não pode alcançar logares no parlamento, +conquiste-os nos municipios; se não pode intervir +no municipio, intervenha na parochia. Não deixe ao abandono +nenhum logar, por minimo que seja. E faça sobretudo +por apoiar todas as justas reivindicações dos +pobres e dos +humildes. +<br /> + +<br /> + +«Deve ser um partido republicano profundamente socialista. +Quando os republicanos, por meio de toda a sua +campanha, se mostrarem homens de governo, podem estar +certos de que a Republica se fará em Portugal como se fez +no Brasil, e á maneira do que succedeu em 1871, em +França, +onde a Assembleia Legislativa, com uma maioria de monarchicos, +elegeu para seu chefe o republicano Grévy e para +chefe do Estado Thiers, que era um monarchico convertido +á Republica.</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[153]</span> +<div class="tinyl">«A Republica em Portugal +é necessaria para elevar +a +sua cultura, para acabar com o numero incrivel de analfabetos, +para se consagrar á educação do povo. +O estado +actual o demonstra: <em>tanto é certo que +quando sofre a liberdade +sofre tambem com ella a +instrucção</em>. +<br /> + +<br /> + +«A Republica em Portugal é necessaria para que a +religião +seja a união das almas pelo amor, como na economia +social o é pelo trabalho. As ordens religiosas atacam +não +só o Estado como a verdadeira religião, cujos +primeiros vinculos +devem ser o amor da familia, a cooperação +economica +e o progresso politico da sociedade. O primeiro é combatido +e negado pelo voto de celibato; o segundo pelo voto +de pobreza, e o terceiro pelo voto de obediencia servil. +<br /> + +<br /> + +«Torna-se necessario defender a religião como um +principio +immanente de justiça e de bem, e não como uma +superstição +e um instrumento politico. O partido republicano +não pretende destruir a religião; o que +nós pretendemos é +tornal-a sincera e pura, tornando-a voluntaria e livre. +<br /> + +<br /> + +«A aspiração do partido republicano +encerra-se nestes +tres principios: <em>liberdade politica, liberdade +economica e liberdade +religiosa</em>. Em nome de todos que querem saber, e +não podem, oprimidos pela reacção +politica, essa infinidade +de creaturas analfabetas; em nome de todos os que +querem trabalhar e não podem, oprimidos pela +reacção +economica, essa infinidade de proletarios; em nome de +todos os que querem amar e ser bons e em cujo seio a +reacção religiosa lança a semente de +odio; em nome dessa +infinidade de santas e piedosas mulheres que o clericalismo +tenta desvairar e arrastar para fóra dos seus deveres; pelos +pobres, pelos humildes, pelos fracos, saudemos a Liberdade +e com ella o unico partido que hoje a sustenta e defende +em Portugal: <em>o partido republicano</em>. +<br /> + +<br /> + +«Se a Republica que não pede senão o +restabelecimento +e o respeito á lei, não vier bem depressa, +corromper-se-ha +e perder-se-ha o santo fundo deste povo exemplar, +um dos modelos de virtude, de paciencia e de +resignação que existem sobre a face da +terra».</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[154]</span> +D'outubro para novembro cae o governo, +abalado pela questão dos tabacos: os homens +estão cada vez mais divididos por +ambições e +interesses. D'um lado os Phosphoros, do outro os +Tabacos; dum lado o <em>Seculo</em> e o +Navarro, que +ainda ha tres dias (Novembro) teve uma conferencia +com o José Luciano, dizendo depois á +familia:—O +José Luciano está cada vez mais +velhaco!—De +outro o Burnay e o seu grupo... +Os homens vão dia a dia diminuindo de estatura +moral! Ainda hontem alguem me contou +esta anecdota que define uma figura:—O Rebello +da Silva era muito amigo do Latino—mas +muito mais amigo ainda da sua ambição: +queria ser ministro depressa. Um dia, de repente, +cessou com as visitas que fazia ao grande escriptor. +Tinha descoberto um prefacio antigo, em +que o Latino advogava a união iberica, e foi para +as camaras atacal-o. A questão durou tres dias, o +governo cahiu, e o Rebello da Silva substituiu o +Latino na pasta da marinha. Nessa mesma noite +procurou-o de novo, e foi encontral-o a lêr serenamente +uma grammatica russa, cujo estudo +interrompera durante o tempo do governo. +<br /> + +<br /> + +—Tu já sabes, se queres alguma coisa é +como +se fosses ministro. +<br /> + +<br /> + +—Eu?!...—e sorriu-se, encolhendo os +hombros. Mas tão triste, tão sereno, que o outro +ficou gelado...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[155]</span> +<div class="date">Dezembro—1907.</div> + +<br /> + +<br /> + +O velho major Fumega, em conversa com outro +militar reformado: +<br /> + +<br /> + +—Em 66 o Saldanha d'acordo com o Prim, +tinham resolvido proclamar o D. Luiz imperador +da Iberia. Chegaram a distribuir dinheiro aos +sargentos. A mim, que era então sargento, deram-me +seis contos, para distribuir dezoito tostões +por soldado. Tornei a entregal-os intactos. +Se fosse hoje gastava-os no brodio. +<br /> + +<br /> + +—Eu apanhei trezentos mil reis e dei cabo +d'eles. +<br /> + +<br /> + +—O movimento abortou, porque foi denunciado +pelo Graça, mais tarde celebre como major +Graça, no 31 de Janeiro, que, depois de assignar +as actas, como quartel-mestre, descobriu tudo. +Era um denunciante, foi-o sempre—conclue o +Fumega, fumando placidamente o seu cigarro. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Dezembro—1907.</div> + +<br /> + +<br /> + +O D. Carlos a um oficial do exercito, depois +da lucta com o João Franco, das descomposturas +ao rei, etc.,—e referindo-se aos politicos: +<br /> + +<br /> + +—Tu ouvel-os falar, não é verdade? Pois +se +<span class="pagenum">[156]</span> +lesses as cartas que todos os dias me escrevem, +e que estão alli n'aquella gaveta, enchias-te de +nojo! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Dezembro—1907.</div> + +<br /> + +<br /> + +Conta-me o D. João da Camara: +<br /> + +<br /> + +—A rainha era amicissima do meu irmão, o +conde da Ribeira Grande. Visitou-o seis vezes +durante a sua doença. N'uma das ultimas noites +elle puxou-a a si, beijou-a, e explicou: +<br /> + +<br /> + +—É como se fosse minha filha. +<br /> + +<br /> + +Já na agonia, ella entrou-lhe no quarto e elle +pode ainda dizer-lhe, n'um ultimo arranco, estas +palavras proheticas: +<br /> + +<br /> + +—Os politicos! Cautela com os politicos! +<br /> + +<br /> + +E ella respondeu-lhe: +<br /> + +<br /> + +—Descanse, não ha-de ter duvida, se Deus +quizer. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Era um pouco apagado, mas bondosissimo. +D'uma vez uma senhora foi dar-lhe os pezames +pela morte do filho. Tinha-lhe tambem morrido +um filho fazia um mez e desatou a chorar, a falar +n'elle, cheia de saudade e de lagrimas. E o +conde da Ribeira, esquecendo a propria dôr, +passou a consolal-a... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[157]</span> +<div class="date">Janeiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Fialho conta, indignado, que a viuva do +Eça de Queiroz, a quem o Estado dá uma +pensão, +vae vender uma propriedade no Alemtejo, +por cento e tantos contos. +<br /> + +<br /> + +—Veja você que pouca vergonha! São uns +poucos de kilometros de terra de semeadura e +montado de azinho e bolota, que sustenta um +cento de cevados! Bem sei que metade da propriedade +é da irmã, da mulher do Luiz Osorio... +Ainda assim são cincoenta contos. Mas n'este paiz +faz-se tudo o que o senhor Arnoso quer!... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Janeiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +Um oficial d'armada, ao José de Figueiredo: +<br /> + +<br /> + +—Todos os oficiaes d'armada, á +excepção +de meia duzia, não podem vêr o rei, a quem chamam +<em>o pulha</em>. Se houvesse em terra um +movimento +republicano, secundavam-no logo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Diz-se por ahi: +<br /> + +<br /> + +—Venha tudo, venha o peor, venha o diabo +do inferno, que nos livre d'isto! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[158]</span> +<div class="date">Janeiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +No <em>Turf</em> e no <em>Club +Tauromachico</em> joga-se sempre +escandalosamente. O conde de... lá vae outra +vez para a Africa, arruinado pelo jogo no <em>Club +Tauromachico</em>, o visconde de... tambem lá +perdeu +uma fortuna. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Janeiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +Grosso escandalo com o livro do Albuquerque, +<em>O Marquez da Bacalhôa</em>. +Este Albuquerque, +conhecido pelo <em>Lendea</em>, é +o ultimo descendente, +pelo pae, do grande Afonso d'Albuquerque, e, +pela mãe, do grave, do douto João de Barros. +Ainda aqui ha annos, quando o rei visitou uma +terra de provincia e se hospedou na casa delle, +sahiram das lojas caixotes de louça da India, que +nunca tinham sido abertos. Elle tem tido uma +vida de aventuras: bateu-se em duello em Madrid, +caçou no Cabo com lords, tocou guitarra +em Ourville e teve uma loja d'instalações +electricas +na Italia. Agora é jornalista, escriptor, poeta +e publica este livro d'escandalo, em que a rainha, +Senhora na mais alta acepção da palavra, +é +posta de rasto... Mas faça-se-lhe justiça: tudo +aquillo—e peor—anda por ahi de bocca em +<span class="pagenum">[159]</span> +bocca ha muito tempo. E não vem de baixo—vem +de cima... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Do Paço mandaram buscar um exemplar á +livraria Ferreira. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Janeiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +O rei em Villa Viçosa caça; o João +Franco +em Carnide dorme com a casa cercada de policia. +Fala-se em conspirações, na tropa, em +transferencias +d'oficiaes e sargentos. O Maximiliano +d'Azevedo disse hoje na livraria ao Bernardino +Machado: +<br /> + +<br /> + +—Isto cheira a cadaver... +<br /> + +<br /> + +—Cheira a polvora, é que +é—respondeu +lhe elle. +<br /> + +<br /> + +Espera-se tudo: a falencia, tiros, a revolta. +Ha prisões—fala-se em mais prisões +ainda e os +jornaes estão garrotados. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Maximiliano d'Azevedo: +<br /> + +<br /> + +—É falso que fosse o Correia de Barros quem +matou a Manuela Rey. Disse-me muitas vezes a +Emilia Adelaide como o caso se passou: Um irmão +<span class="pagenum">[160]</span> +do Tanas (Pereira das Neves) fez a corte á +Manuela. Ella aceitou-lha, e uma noite o Correia +de Barros surprehendeu-os. O Tanas, ao vel-o +brandindo a bengala, saltou por uma janella. A +Manuela fugiu e foi para a rua das Galinheiras, +para uma casa onde morava a cabeleireira do theatro, +e deitou-se vestida sobre a cama, a chorar. +<br /> + +<br /> + +Debalde o Correia de Barros lhe perdoou: +<br /> + +<br /> + +—Não! Não! +<br /> + +<br /> + +Chorou—e morreu. Já estava tisica ha muito +tempo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +E conta-me tambem: +<br /> + +<br /> + +—A Emilia das Neves estava n'uma casa de +mulheres. Deram com ella por acaso. Quem primeiro +a ensaiou foi o Garrett. Tinha genio: mal +sabia lêr e toda a vida deu sylabadas. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Janeiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +O governo retira as munições a alguns regimentos +e á marinha: só tem confiança na +guarda. +Diz-me o Schwalbach:—«Ouvi-o da bocca do +oficial encarregado d'esse serviço. A noite passada +retiraram as munições a um regimento da +capital». Corre com insistencia que o coronel Albano +<span class="pagenum">[161]</span> +da Fonseca morreu envenenado... Os navios +de guerra foram desarmados, sob pretexto +de estudo de renovação e +adaptação das munições, +que se removeram para o serviço de torpedos. +O Maximiliano diz-me tambem que varias +peças do campo entrincheirado ficaram assestadas +sobre os navios de guerra. +<br /> + +<br /> + +<div class="illustration"><a name="f11" id="f11"></a><img style="width: 500px; height: 659px;" alt="Gomes Leal.—Desenho de Antonio Carneiro." title="Gomes Leal.—Desenho de Antonio Carneiro." src="images/fig14.png" /><br /> + +<em>Gomes Leal.</em>—Desenho +de Antonio Carneiro.</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Fialho está um franquista ferrenho: +<br /> + +<br /> + +—O João Franco já me mandou chamar +tres vezes. +<br /> + +<br /> + +E, como eu me espante de o vêr conservador, +elle diz: +<br /> + +<br /> + +—Fui-o sempre. Já esse maroto do Arnaldo +Fonseca dizia a meu respeito:—É um bohemio +que trata a roupa com nephetalina! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +A Angela Pinto está com um preto que lhe +poz automovel. +<br /> + +<br /> + +—Ó Angela, então tu agora?! +<br /> + +<br /> + +—Vocês que querem? Não andam todos os +dias ahi a prégar que o futuro de Portugal está +nas nossas colonias?<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[162]</span> +<div class="date">Janeiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +Prenderam hontem o Antonio José de Almeida. +O João Barreira conta-me que a policia +apanhou sessenta rewolveres aos republicanos, +mas não descobriu os depositos d'armamento. +O João Pinto dos Santos diz: +<br /> + +<br /> + +—A prisão de Antonio José d'Almeida +é +um +ensaio. Se virem que as massas populares não +protestam, desatam a prender a torto e a direito. +Eu estou aqui estou preso: o João Franco +odeia-me. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Um livreiro: +<br /> + +<br /> + +Fizeram mal em prohibir <em>O Marquez da +Bacalhôa</em>. +Já ha quem tenha dado por um exemplar +tres mil reis, e o preço corrente é agora de dez +a quinze tostões... Se o queriam inutilizar +aprehendessem-no, +tanto mais que toda a gente sabia +onde era impresso. +<br /> + +<br /> + +<div class="date">28 de Janeiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +A atmosphera é electrica.—Isto não pode +ser! isto não pode ser!—ouve-se a cada passo. +Toda a gente espera acontecimentos. O boato +corre de ouvido para ouvido: o comandante +<span class="pagenum">[163]</span> +da municipal afirmou ao rei que não podia contar +com a guarda para combater a tropa; ha tumultos +no Porto e Villa Real; está assignado um +decreto expulsando do paiz republicanos e dissidentes; +e—sabem? sabem?—o movimento é +preparado pelo João Franco para tomar medidas +d'excepção... O Coelho de Carvalho, de grandes +barbas brancas, sempre ironico, pontifica na +livraria Ferreira:—Tudo isto obedece a um plano +para estabelecer o protectorado inglez, com o +rei gordo e replecto, e a dotação augmentada +em cento e sessenta contos, pagos em oiro. +<br /> + +<br /> + +Ás sete da noite encontro o Alpoim que me +pergunta ancioso:—Que ha? que ha?...—Eu +sei... diz-se por ahi que varios oficiaes se reunem +no Arco da Bandeira....—Só?—E arranca-me +das mãos o <em>Correio da +Noite</em>:—Vem feroz! vem +optimo!...—No comercio não se desconta uma +letra. A rua do Oiro não tem metade do movimento +habitual. Consta que o João Franco disse +hontem:—Dá-se-lhes +uma sangria...—O que eu +lhe posso garantir, e sei-o por uma senhora de +relações intimas do João +Franco—diz o +Fialho,—é +que elle passa as noites sem dormir.—Medo—ou +revolução? As mulheres vão buscar os +maridos +ás repartições e aos bancos, outras, +na previsão +de acontecimentos, fornecem-se á pressa +nas lojas. Ha nervos na atmosphera. A questão +dos adeantamentos levantou todo o paiz contra +o rei. Ha muito que o D. Carlos é visado, +<span class="pagenum">[164]</span> +discutido e injuriado. Atribuem-se-lhe todos os +males. O Hintze morreu: foi elle quem matou o +Hintze com desgostos. Os Braganças são todos +ingratos. Que quer o rei? O rei só quer dinheiro, +o rei chama ao paiz, que despreza, a +<em>piolheira</em>, +o rei é um ladrão. Dizem-no até os +cavadores +d'enxada da provincia:—O rei é um +ladrão! +o rei é um ladrão!—Gera-se +não sei +que excitação +que se apega e propaga. Todos estamos debaixo +da mesma pressão a que não ha fugir. Nas +esquinas ainda se vêem farrapos de cartazes, +anunciando o folhetim <em>Soror Amelia</em>, +com o retrato +da rainha vestida de freira... +<br /> + +<br /> + +O que os jornaes de grande circulação +não +se atrevem a dizer, o <em>Seculo</em>, o +<em>Mundo</em>, o +<em>Noticias</em>, +propala-se de ouvido para ouvido, ou publica-o +o <em>Correio da Noite</em>, do velho +José Luciano, que +ataca com violencia o rei e o governo.—Que +há? Que há?—Um policia aliciado pelo +João +Chagas denunciou a revolução; o juiz ao +lêr o +depoimento do Antonio José d'Almeida, +exclamou:—Ora +até que emfim encontro um homem!—O +Cunha e Costa pequenino, d'oculos e olho +esperto atravez dos vidros:—Vocês que +querem? +Está tudo minado. Hoje, ao entrar na +Boa Hora, deparei com este quadro: d'um lado +da porta um municipal lia <em>O Mundo</em>, +do outro, +outro municipal lia <em>A Lucta</em>. +<br /> + +<br /> + +E no entanto a vida segue o seu curso habitual: +todas as noites enchentes nas revistas, +<em>Ou</em> +<span class="pagenum">[165]</span> +<em>vae... ou racha, Pr'a frente!</em> Todas +as noites o +mesmo falatorio no Rocio, o mesmo formigueiro +humano seguindo as suas manias, as suas ambições, +os seus interesses... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Os populares atacaram as esquadras. No +largo do Rato um bando, que queria matar o +João Franco, entrou n'um café. A policia tentou +apalpal-os—defenderam-se a tiro. Um cahiu varado: +e retiraram em ordem, fazendo fogo. Na +esquadra dos Terramotos trocaram ainda balas +com os guardas. Havia um plano de revolução? +É fóra de duvida. Lançaram-se bombas +que não +explodiram a varias esquadras—á do Campo de +Sant'Anna, por exemplo. A policia estava, prevenida, +e prendeu-os, quando um grupo de dissidentes, +Alpoim, João Pinto, Ameal, etc., se dirigia +para o elevador da Bibliotheca, no intuito de +lançar um foguetão, que desse o signal +á esquadra +e a varios grupos que, ao mesmo tempo e +em diferentes pontos, deviam assaltar os quarteis. +Só o Alpoim e o Ameal conseguiram fugir. +No elevador havia armas, destinadas ao ataque +dos correios e telegraphos. No forte de Caxias +estão presas 93 pessoas, e presos estão tambem +o Afonso Costa, o João Pinto dos Santos, o Ribeira +Brava, etc. A policia desandou então a prender +a tôrto e a direito. O José de Figueiredo que +<span class="pagenum">[166]</span> +mora no Campo de Sant'Anna, por cima da esquadra, +ouviu isto: Ao telefone, o chefe da esquadra +para o governo civil:—Já prendemos +quatro.—Prendam mais.—Era preso quem passava +na rua. +<br /> + +<br /> + +Á revolução adheriam varios oficiaes e +toda +a armada. Havia fanaticos decididos a correr a +municipal á bomba, e todo o trabalho do directorio +parece que foi sustel-os á ultima hora. +Varios bandos foram prevenidos logo que o +signal falhou. Os que esperavam no +café do +Rato, a hora do assalto á casa do João Franco, +foram presos. Um creado do Moura Cabral, +que m'o contou, foi aliciado para atacar a esquadra +da Graça—e deram-lhe um rewolver e bebidas. +Em diversas partes tem sido encontradas +bombas, e diz-se que quem denunciou um deposito +d'armas, escondido em casa d'um negociante, +foi uma irmã dum actor de D. Maria. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—Isto—toda a gente o afirma—acaba +logicamente +no atentado pessoal. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">30 de Janeiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +Corre com insistencia que o João Chagas +morreu d'uma pleurizia no hospital. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[167]</span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Os <em>bufos</em> são aos centos. +Pára-se a conversar—tem-se +logo um <em>bufo</em> á perna. O +Baracho procurou +hoje o ministro da guerra e declarou-lhe: +<br /> + +<br /> + +—Eu não conspiro; portanto não me +mandem +espionar, senão corro os +<em>bufos</em> a tiro. Se +desconfiam de mim, julguem-me, que eu me defenderei. +E deixe-me tambem dizer-lhe uma coisa: +Os senhores não hão-de ser sempre ministros. +Se me incomodam ou me infamam, quando deixarem +de o ser, eu lhes tomarei as responsabilidades.—Ao +que o ministro respondeu:—Se soubesse, +general, as saudades que eu tenho do meu +caminho de ferro!... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Tem sido tambem presos alguns oficiaes do +exercito. E o Fialho faz <em>blague</em>: +<br /> + +<br /> + +—Desde que a policia entrou no caminho +das descobertas, foi dar com a escripturação +completa da revolta. Tudo por ordem e por partidas +dobradas. Uma revolução burocrata! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">31 de Janeiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +Sabem qual é a impressão geral? Pena de +que o movimento gorasse. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[168]</span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Até as mulheres estão furiosas com o Franco. +Ha-as que dizem:—Eu vou matal-o!—Mas ha +tambem quem o defenda e aplauda como nenhum +ministro foi defendido e aplaudido. Um padre +franquista barafusta em plena rua do Ouro: +<br /> + +<br /> + +—Eu até agora dizia que o João Franco +tinha +uns c... que não cabiam em Lisboa. Agora +não, agora digo bem alto: o João Franco tem +uns c... que não cabem em Portugal! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Bernardino Machado: +<br /> + +<br /> + +—Sabe o que isto parece? Parece que o rei +disse ao João Franco, entregando-lhe uma +carabina:—«João +arranja-me dinheiro».—O João +Franco executa.—«João torna a levar a +carabina +e traz mais dinheiro».—E a atitude vergonhosa +das nações estrangeiras que assistem com +aplauso a este espectaculo! Porquê? Pelo que eu +disse um dia d'estes a um negociante francez:—Ha +um dictado em Portugal que explica tudo:—Ladrões +não se encobrem de graça!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">1 de Fevereiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +O João Franco responde aos clamores e á +revolta com o decreto d'hoje: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[169]</span> +<div class="tinyl">Senhor—São bem +conhecidas +de Vossa Magestade as +occorrencias dos ultimos mezes, em que uma pequena minoria +d'elementos revolucionarios criminosos tem ultimamente +procurado impedir a vida politica e representativa +do Paiz, alterar a ordem publica e pôr em perigo a +segurança +das pessoas e das propriedades. +<br /> + +<br /> + +Imperturbavelmente tem o governo obedecido ao proposito +de limitar a acção das medidas de circumstancia +á +esphera restricta de legitima defeza social, reduzindo-as ao +que de momento se tem afigurado absolutamente indispensavel, +sempre na esperança de que essa +publicação fosse +um meio preventivo sufficiente e constituisse aviso efficaz +aos agitadores. +<br /> + +<br /> + +D'essa ordem d'ideias derivaram o decreto de 21 de +Junho sobre publicações attentatorias da ordem +publica e +o de 21 de Novembro sobre crimes contra a segurança do +Estado, das pessoas e das propriedades. +<br /> + +<br /> + +Factos dos ultimos dias vieram, porém, demonstrar +que as tentativas e propositos criminosos, longe de afrouxarem, +se teem mantido obstinadamente e aggravado a +ponto de ser urgente e indispensavel o rapido afastamento +do nosso meio social dos principaes dirigentes e instigadores +d'esta pertinaz conspiração contra a paz publica +e segurança +do Estado antes que perdas lamentaveis de vidas +venham accrescentar se ás desgraças já +occasionadas e, porventura, +originar prejuizos irremediaveis ao credito publico +e á fortuna nacional. +<br /> + +<br /> + +Ha poucos dias ainda, o governo da Nação vizinha +apresentou ás côrtes um projecto de lei que +auctoriza a fazer +sair do reino por deliberação do conselho de +ministros, sob +prévia informação das auctoridades +locaes, as pessoas que +pertençam a associações hostis +á ordem social e que de +semelhantes principios façam propaganda, e como sejam +estes factos muito graves e perigosos, seguramente não o +são mais nem podem ter mais larga, mais profunda +repercussão +em toda a vida nacional que os tramas e attentados +para mudar violenta e criminosamente a forma de governo +de Estado.</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[170]</span> +<div class="tinyl">N'essa ordem d'ideias, procuramos com o +presente diploma, +habilitar tambem o governo com a faculdade d'expulsar +do Reino ou fazer transportar para uma provincia +ultramarina aquelles que, uma vez reconhecidos culpados +pela auctoridade judicial competente, importe á +segurança +do Estado e tranquillidade publica e interesses geraes da +Nação afastar, sem mais delongas, do meio em que +se mostrarem +e tornarem perigosa e contumazmente incompativeis. +<br /> + +<br /> + +Não podem, por egual, gosar immunidades parlamentares +aquelles que contra a segurança do proprio Estado +se manifestam ou que como inimigos da sociedade se +apresentam. +<br /> + +<br /> + +Taes são, Senhor, as principaes +disposições do diploma +que tenho a honra de submeter á +apreciação de Vossa +Magestade. +<br /> + +<br /> + +Paço, em 31 de Janeiro de 1908. +<em>João Ferreira Franco +Pinto Castello Branco</em>—<em>Antonio +José +Teixeira +d'Abreu</em>—<em>Fernando +Augusto Miranda Martins de Carvalho</em>—<em>Antonio +Carlos Coelho Vasconcellos Porto</em>—<em>Ayres +d'Ornellas +de +Vasconcellos</em>—<em>Luciano Afonso da Silva +Monteiro</em>—<em>José +Molheira Reymão</em>. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Alpoim fugiu para a Hespanha. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Cunha e Costa: +<br /> + +<br /> + +—Ha mais de duzentas pessoas apostadas em +matar o João Franco. Isto acaba por um atentado +pessoal.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[171]</span> +<div class="date">1 de Fevereiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +Está uma tarde linda, azul, morna, diaphana. +Converso na livraria Ferreira com o Fialho, +quando entra esbaforido e palido, o pintor Arthur +de Mello, que conheço do Porto, e diz n'um +espanto, ainda transtornado:—Acabam de matar +agora o rei!—O quê?!—Eu vi, ouvi os +tiros, +deitei a fugir... +<br /> + +<br /> + +Fecham-se á pressa os taipaes das lojas. Uma +mulher do povo exclama:—Mataram agora o rei. +Vi os que o mataram. Eram tres. Dois lá estam +estendidos. Passou um agora por mim, a rasto, +com a cabeça despedaçada!...—Ha palmas +para +o lado da praça da Figueira. Anoitece. Um +esquadrão +desemboca da rua da Mouraria... Mais +tarde no comboio, um empregado do Jorge +O'Neill confirma:—Vi do escriptorio um policia +correr atraz d'um dos assassinos. A certa altura +cahiu-lhe o chapeu: era calvo. O policia varou-o +com um tiro. +<br /> + +<br /> + +E pela narração do Mello, do Armando Navarro +e d'outros, que assistiram, reconstituo +assim a tragedia: +<br /> + +<br /> + +O comboio descarrilara. Seguia atrazado. Durante +o trajecto o rei não fumou nem jogou, +como costumava. Vinha aprehensivo e a autopsia +demonstrou mais tarde que não tinha comido +n'esse dia. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[172]</span> +O Malaquias de Lemos contou que na vespera, +em Villa Viçosa, o rei jogara com o principe. +Era ao entardecer. Na chaminé um grande +brazeiro. Trouxeram-lhe uma carta. Para a lêr +melhor, levantou-se, chegando-se á janella. Duas +vezes a percorreu com a vista, e depois rasgou-a +em bocadinhos que atirou ao lume. Petrificou-se +um momento envolto na sombra...—El-Rei não +joga?—perguntou o principe.—Jogo, +jogo...—Sentou-se, +jogou, mas tão preocupado que quasi +não jantou n'esse dia nem almoçou no seguinte. +<br /> + +<br /> + +Nem uma nuvem. «Tarde sem par»—escreveu +Ramalho.—Linda tarde para uma bomba—exclama +uma menina da alta, na ponte da estação. +Havia, é natural, um certo receio, e a duqueza +de Palmella, ao ouvido de João +Franco:—Não +haverá perigo?—V. Ex.<sup>a</sup> vae +ver que +ovação!—Tinha-lha +preparada para a recita da noite, em +S. Carlos. O rei e a rainha detiveram-se uns minutos, +com o João Franco e o Vasconcellos Porto, +que queria mandar vir um esquadrão de cavalaria +para acompanhar o rei. D. Carlos opoz-se. +O carro descoberto partiu a chouto, com toda a +familia real junta. Ao pé da estatua um grupo... +Dissiminados pela Arcada alguns policias, e, sentado +n'um banco da praça um homem de varino, +que veio, sem precipitação, colocar-se +á porta do +ministerio do reino<sup><a href="#n6">[6]</a></sup>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[173]</span> +Os empregados da fazenda tinham-no notado. +Seria um bufo? Os bufos eram tantos, que se não +conheciam uns aos outros.—«Eu assisti—diz +o Navarro.—Fui +para lá uma hora antes fumar o meu +charuto. Tres descargas cerradas partiram da Arcada +do ministerio da fazenda. Ficou tudo desorientado. +Os policias deitaram a fugir»... Um negociante +da rua de S. Julião teve de os sacudir +da escada. «Eu estava a quatro passos—confirma +o pintor Mello. Um homem subiu ás trazeiras do +carro, olhou o rei cara a cara e deu-lhe um tiro +de rewolver. Vi um fumosinho branco sahir-lhe +do pescoço. O rei voltou-se, e, cem annos que eu +viva, nunca mais me esquece a expressão de espanto +d'aquella mascara. Disse uma palavra que +não percebi bem»...—«Ao +primeiro +tiro—continua +o Navarro—a cabeça do rei descahiu para +a frente, ao segundo tombou para o lado». O +Buiça, que tirára a carabina debaixo do +gabão, +apontava e descarregava. O principe real ergueu-se—cahiu +varado. A rainha, louca de dôr, +sacudia o Alfredo Costa com um ramo de +flores.—Então +não acodem?! Não ha quem me +acuda?!—Ninguem. +Um cartuxo falhara ao Buiça: +sacou-o, e ia apontar outra vez, quando o Francisco +Figueira o estendeu á cutilada. Ouvi que, +<span class="pagenum">[174]</span> +logo aos primeiros tiros, alguem procurara intervir—mas +uma roda de gente desconhecida protegeu-o. +Succederam-se então os tiros sem +interrupção. +Muita gente falou em descargas... A policia +disparava os rewolveres a torto e a direito. +O Correia de Oliveira esteve para ser morto:—Vinha +de chapeu alto e foi o que me valeu!... +Um policia avançou direito a mim com o rewolver +apontado, exclamando como um doido:—Matei +agora um! matei agora um! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Correu hoje que o João Franco se suicidára +e que o tinham acabado a tiro quando sahia do +Paço. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O infante D. Afonso seguia desvairado atraz +do carro, com o rewolver em punho, dizendo: +<br /> + +<br /> + +—O mano nunca quiz ouvir os conselhos +da mãe! +<br /> + +<br /> + +Depois, no Arsenal, para onde foram conduzidos +o rei e principe, teve este movimento colerico: +bater no João Franco. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Acusam á boca cheia o João Franco—que +não tomou precauções para o +rei—de se +meter +<span class="pagenum">[175]</span> +por um corredor quando foi ao Arsenal, e de, mais +tarde, endireitar por uma cavalariça, para se enfiar +na carruagem. De alguns ministros diz-se +que, aos primeiros tiros, se esconderam no sotão +dos ministerios entre a papelada e as cadeiras +sem fundo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +A rainha no Arsenal disse ao João Franco: +<br /> + +<br /> + +—Veja a sua obra... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O rei chegou ao Arsenal já sem vida; ao +principe custou-lhe muito a morrer. Foram ungidos +depois de mortos. O padre não teve escrupulos, +porque os medicos garantiram-lhe que +a vida podia prolongar-se por meios artificiaes. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Do Arsenal seguiu a marcha tragica para as +Necessidades; n'um carro a rainha e o D. Manuel, +n'outro carro o cadaver do rei, que a custo +conseguiram meter lá dentro, e que o oficial de +serviço amparava, e, no ultimo, o duque de +Bragança. +Que se iria seguir? A revolução? Um negrume, +o terror do inesperado, afasta do Paço +todos os que lá deviam estar áquella hora. Vem +a noite... Se seis tambores fossem rufar para +<span class="pagenum">[176]</span> +deante do Paço a monarchia acabava hoje mesmo. +Espera-se tudo, espera-se o peor. E cada +um trata de não se comprometer, ou de se comprometer +o menos possivel... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Phrase cruel d'um popular: +<br /> + +<br /> + +—Foi caçado como elle caçava os +javardos—e +em tempo defezo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +No dia dois, depois da morte do rei, foram +assaltados alguns quarteis, evidentemente chamando +as tropas á revolução. Em artilharia +os +soldados sahiram das casernas e fizeram fogo: +os oficiaes não os puderam conter. Em Campo +d'Ourique houve tiroteio. No alto da Avenida +ficaram estendidas vinte e tantas pessoas. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +A caminho do Paço, depois do atentado, o +pequeno dizia: +<br /> + +<br /> + +—Vamo-nos embora! vamo-nos embora!... +<br /> + +<br /> + +E a rainha: +<br /> + +<br /> + +—Has-de cumprir o teu dever até ao fim.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="illustration"><a name="f12" id="f12"></a><img style="width: 500px; height: 701px;" alt="D. Carlos I de Portugal." title="D. Carlos I de Portugal." src="images/fig15.png" /><br /> + +<em>D. Carlos I de Portugal.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[177]</span> +O organisador da revolta militar era Candido +dos Reis, oficial superior da armada. Muitos oficiaes +se reuniam no Arco da Bandeira. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Na tarde do regicidio estavam na Arcada +homens com faixas á espanhola e as faixas +cheias de bombas. Diz-se tambem que havia varios +grupos postados nas esquinas até ás Necessidades. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +A rainha, quando o João Franco chegou +ao Paço: +<br /> + +<br /> + +—Foram portuguezes? +<br /> + +<br /> + +—Foram. +<br /> + +<br /> + +—Ahi tem o que o senhor fez dos portuguezes. +<br /> + +<br /> + +E a Maria Pia, que há muito o não pode ver: +<br /> + +<br /> + +—Diziam por ahi que o senhor era o coveiro +da monarchia, mas o senhor foi peor, foi o assassino +do meu filho e do meu neto! +<br /> + +<br /> + +Isto cheira a phrase feita, mas como esta repetem-se, +insiste-se, inventam-se outras mais. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O João Franco tinha perdido a cabeça. +Só +elle mandava: não queria ouvir ninguem. Quando +<span class="pagenum">[178]</span> +fugiu d'uma esquadra um homem que estava +preso pelo fabrico de bombas, o juiz d'instrucção +criminal foi-lhe dar parte do caso. Ficou +furioso: +<br /> + +<br /> + +—Vá beber da merda! +<br /> + +<br /> + +—Digo a V. Ex.<sup>a</sup> que a policia +não +teve culpa... +<br /> + +<br /> + +—Vá beber da merda o senhor e a policia! +<br /> + +<br /> + +—Mas... +<br /> + +<br /> + +—Vá beber da merda! vá beber da merda! +vá beber da merda! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Diz-se que o Alpoim estava escondido em +casa do Teixeira de Souza e que fugiu emquanto +a policia lhe cercava a casa. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Paçô Vieira: +<br /> + +<br /> + +—Na noite do regicidio fui ao Paço, com o +Campos Henriques. O Julio de Vilhena, a quem +procurei em casa, não foi porque lhe faltava um +botão na braguilha. Assisti a tudo: tiraram o rei e +o principe de dentro do carro. O rei estava disforme. +A rainha, se tinha dito alguma coisa desagradavel +ao João Franco no Arsenal, no Paço +não lhe disse palavra. A Maria Pia perguntava +de quando em quando:—A mo +—Na noite do regicidio fui ao Paço, com o +Campos Henriques. O Julio de Vilhena, a quem +procurei em casa, não foi porque lhe faltava um +botão na braguilha. Assisti a tudo: tiraram o rei e +o principe de dentro do carro. O rei estava disforme. +A rainha, se tinha dito alguma coisa desagradavel +ao João Franco no Arsenal, no Paço +não lhe disse palavra. A Maria Pia perguntava +de quando em quando:—A morte do rei será +muito sentida?—Estava tudo preparado para +<span class="pagenum">[179]</span> +uma revolução. O Afonso Costa não deu +o signal +porque esperava a morte do Franco. Pormenor +absolutamente authentico: o João Franco ainda +se ofereceu para governador civil de Lisboa. +<br /> + +<br /> + +—Na noite tragica o Antonio Candido foi +dos raros que apareceram no Paço. Estavam lá +tambem o Campos Henriques e o Teixeira de +Souza. Mais ninguem—nem sequer o corpo diplomatico. +Esperava-se a cada momento a revolução. +Os creados carregaram em padiolas pelas +escadas acima os corpos do rei e do principe. +A D. Amelia passeava na sala de cá para lá, +infatigavelmente. Passou, perguntou-lhe:—Que +diz o Antonio Candido?—Elle não respondeu e +ella continuou a passear de cá para lá como um +automato. A rainha velha estava sentada n'uma +cadeira, sem uma palavra, sem uma lagrima, +d'olhos vitreos fixos na parede. E assim ficou +horas, muda e de pedra, emquanto a D. Amelia +passeava na sala, de cá para lá, +infatigavelmente... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">3 de Fevereiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +Venho agora de Lisboa e—caso curioso—a +impressão geral é d'alivio. Respira-se. Estava +muita gente n'um grupo: o João Barreira, o Armando +Navarro, o Rangel de Lima, o Antonio +Arroyo, o Columbano, o Maximiliano d'Azevedo, +<span class="pagenum">[180]</span> +e todos concordaram em que o rei era mau e +quasi glorificaram os homens que o assassinaram. +<br /> + +<br /> + +—Era um pulha, um pulha e um doido. Vejam +o retrato que vem estampado no <em>Je sais +tout</em>... Era elle quem escrevia cartas anonimas +á +propria mulher—afirma o João Barreira. +<br /> + +<br /> + +—Foi um grande exemplo e uma tremenda +lição. +<br /> + +<br /> + +—Se escapa tinhamos ahi uma dictadura feroz. +Era capaz de tudo! +<br /> + +<br /> + +Só o Manuel Ramos, obstinado e cego, teima: +<br /> + +<br /> + +—A memoria do rei há-de ser rehabilitada. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +No conselho d'estado o João Franco foi absolutamente +inconsciente. Por proposta do Julio de +Vilhena não se leram as actas da sessão anterior, +como é costume, para lhe não ser completamente +desagradavel. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O João Franco teimou até á ultima, +agarrou-se +a tudo, para meter um ministro no governo—o +Penha Garcia. Disseram-lhe: +<br /> + +<br /> + +—Mas não pode ser, bem vê que o governo +tem de revogar a maior parte das suas medidas. +<br /> + +<br /> + +—Mas eu concordo com isso. Eu escrevo até +uma carta concordando com isso. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[181]</span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +A ultima piada do ministro dos estrangeiros, +Luciano Monteiro: +<br /> + +<br /> + +—Então V. Ex.<sup>a</sup> +não faz +testamento? +<br /> + +<br /> + +—Não, o rei tambem o não fez... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O rei e os principes traziam rewolveres comsigo. +Afirma-se que o principe real e o infante +D. Manuel ainda chegaram a dar dois tiros n'um +dos assassinos. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Hoje correram boatos de revolta no Porto, +de ter chegado a Cascaes uma esquadra ingleza, +etc.. Tudo falso. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +No Paço, na camarilha, havia dois partidos, +o do rei e o da rainha. O da rainha está agora +de cima. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Insiste-se em que se o rei escapasse ao atentado +havia uma hecatombe. Diz-se que o Fontes, +que tinha a qualidade intuitiva de conhecer os +homens, dizia de D. Carlos:—«Nunca o pude +perceber». +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[182]</span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Agora voltam-se as atenções para o novo rei. +Dizem:—É Saboia.—No conselho d'estado +foi +simpatico. Chorou, entregou-se nas mãos dos que +o ouviam:—Não estou preparado para reinar. +<br /> + +<br /> + +Os irmãos adoravam-se. O que foi assassinado +zangava-se quando este lhe chamava <em>prior +do Crato</em>. D. Luiz Fillipe era mais reflectido. Este +é mais impetuoso—mas tem melhor +coração. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Fevereiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +Nos ultimos tempos o rei tinha scenas violentissimas +com a D. Amelia. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +A impressão no Porto foi curiosa: Quem ás +onze horas da noite passava na praça de D. Pedro +via muita gente aos grupos de dez a onze +pessoas cada um. Ninguem discutia, não se falava +alto. Era um borborinho de quem conversa +em segredo, a medo—ch... ch... ch...—ao ouvido. +A noticia soube-se pelo telephone do Borges +& Irmão. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[183]</span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Foi no automovel do Baltar do +<em>Janeiro</em> que o +Alpoim se safou para a Hespanha. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +As Anjos contaram á D. Maria Augusta que +o electricista de S. Carlos tinha tudo preparado +para o D. Carlos morrer quando se encostasse +ao rebordo do camarote no theatro. +<br /> + +<br /> + +O homem suicidou-se quando se viu descoberto. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O novo rei não gosta de +<em>sport</em>. Sofre de reumatismo. +Adora a musica. Em pequeno dizia: +<br /> + +<br /> + +—Reger uma orchestra n'uma grande sala e +ouvir no fim os aplausos do publico, isso sim, +é que é gloria!... +<br /> + +<br /> + +As meninas da alta roda, falando d'elle, diziam +desdenhosas: +<br /> + +<br /> + +—Isso são <em>mariquices</em> do +senhor infante. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Uma velha, a tia Julia, da familia Bordallo: +<br /> + +<br /> + +—Coitadinho do principe! Parecia mesmo +uma menina!... E não estava estragado como +estes rapazes d'agora. Tinha uma carinha de menina. +<span class="pagenum">[184]</span> +E não era porque elle não +<em>tivesse vontade</em>, +era porque <em>o não +deixavam!</em>... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Muita gente que tinha bombas em casa tem-nas +deitado ao rio. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Da camarilha contam-se coisas como esta. +Alguem me diz: +<br /> + +<br /> + +—Conheço uma senhora muito de bem, a +quem este e aquelle (e cita os nomes) foram fallar +da parte do rei, para ir a bordo do +<em>yacht</em>. +Ella deu-lhes uma desanda tremenda. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O João Franco já tinha organisado listas de +proscripções. A alguns administradores de +concelho +foram enviadas circulares, pedindo o nome +dos individuos que na localidade entravavam a +marcha do governo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O pae do João Franco e os redactores do +<em>Jornal da Noite</em> foram corridos do +Suisso. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[185]</span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Trindade Coelho conta que João Franco, nas +vesperas dos acontecimentos, foi consultar a +bruxa—M.<sup>me</sup> Brouillard, uma +transmontana esperta +que ahi está em Lisboa. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Já ha seis contos para a familia do Buiça. +Muita gente lhe arrancou botões, cabellos, bocados +de vestido. João de Deus Guimarães foi +vel-o á <em>morgue</em>. Era +prohibido tocar no cadaver. +Entrou em conversa com o guarda: +<br /> + +<br /> + +—Ah! O Buiça tem ainda o braço rigido! +<br /> + +<br /> + +—Qual! +<br /> + +<br /> + +—Parece... +<br /> + +<br /> + +—Já teve, já, mas agora está +lasso. +<br /> + +<br /> + +—Mas olhe que... +<br /> + +<br /> + +E aproximando-se do cadaver correu-lhe a +mão pelo braço, como quem apalpa, e deu-lhe +<em>um formidavel aperto de +mão</em>. +<br /> + +<br /> + +O <em>frigorifico</em> é um +buraco, e os tres cadaveres +foram atirados uns por cima dos outros a trouxe +mouxe, de mistura com pedaços de gelo. Toda +a gente tira o chapéu e fala baixinho. O regicid +é um +buraco, e os tres cadaveres +foram atirados uns por cima dos outros a trouxe +mouxe, de mistura com pedaços de gelo. Toda +a gente tira o chapéu e fala baixinho. O regicida +está amarfanhado, com lama na barba e nos +cabellos. Seus olhos não são olhos de +morto—exprimem +espanto e colera, e a figura é séria, +é +<span class="pagenum">[186]</span> +tremenda. Tem rasgões, feridas na cara, e mãos +nervosas, mãos delicadas de mulher. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Diz hoje um professor que conheceu o Buiça: +<br /> + +<br /> + +—Era um homem profundamente serio e +que protestava sempre com colera, quando se +lhe falavam em politica:—Não me falem em +politiquices! +não me falem em politiquices! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O João Pinto dos Santos: +<br /> + +<br /> + +—Emquanto estive preso alimentei-me de vegetaes +e de odio. Nos primeiros dias aquillo impressionou-me; +mas logo que tive livros serenei... +Queriam fechar as janellas, mas eu disse ao +Malaquias de Lemos:—O ar não! o ar não +m'o +tirem, prefiro morrer! E tambem lhe peço que +quando bater á porta m'a abram logo, senão +não +aguento. Antes duas balas!—Deixaram-me a janella +aberta... Mandei vir uns poucos de fatos, +calças de verão, d'inverno, etc.—para +ter a +sensação +de que estava livre. Depois emprestaram-me +livros. Entre outros um volume de viagens +na China, onde ha algumas paginas sobre a vida +da mulher chineza. E aquillo fez-me chorar, tão +certo é que a desgraça nos aproxima dos +desgraçados. +Afinal chegaram os livros que tinha +<span class="pagenum">[187]</span> +pedido, um compendio francez de philosophia, +sete calhamaços de economia politica—e fui +quasi feliz. O juiz interrogou-me:—Porque está +preso?—Não sei.—Há uma +testemunha que o +viu no elevador da bibliotheca.—É falso. Estava +n'uma casa perto da bibliotheca, para combinar +com o Alpoim e alguns amigos a nossa atitude +perante as prisões que estavam sendo +feitas.—Chamou-se +um policia a quem o juiz perguntou: +—Conhece o snr. João Pinto dos +Santos?—Não +senhor.—Diante d'isto é claro que o juiz +tinha de me mandar embora. Que imagina que +fez o João Franco? <em>O João Franco +avocou o +processo a conselho de ministros e condemnou-me!</em> +Era odio pessoal. Na municipal fui sempre +bem tratado. +<br /> + +<br /> + +—E souberam? +<br /> + +<br /> + +—Alguma coisa presentimos na noite em +que foi atacado o regimento de Campo d'Ourique. +Supozemos uma revolução gorada. Se +atiram bombas ao quartel eramos indubitavelmente +fuzilados. Uma noite ouvimos formar +as tropas, carregaram com precipitação as armas, +um oficial passou a correr e diante do +meu quarto bradou á sentinella:—Cuidado com +esse sujeito!—O Chagas disse-me hontem que, +quando chegou á janella, um soldado lhe fez um +<em>manguito</em>. Os oficiaes é +que continham a soldadesca—mas +até onde? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[188]</span> +—E disse no seu depoimento que havia de +matar o João Franco? +<br /> + +<br /> + +—É falso; o comandante da guarda falou-me +n'isso e eu respondi-lhe:—Bem vê V. Ex.<sup>a</sup> +que +não quero que meus filhos possam dizer:—Meu +pae foi um assassino.—Isso não! Mas se um dia, +depois de o insultar bem insultado, n'uma discussão +em plena camara, elle avançar para mim, +deito-lhe as mãos ás guellas, e nem V. Ex.<sup>a</sup> +nem +toda a guarda municipal m'o arrancam das +unhas! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Ha quem diga do João Franco:—Foi sempre +um cobarde. Em Coimbra a valentia vinha-lhe +do José Lobo e dos irmãos, uns tipos d'aquelle +feitio, e agora da municipal e da policia. O pae +era a mesma coisa, e o tio, o <em>Mil diabos da +capinha</em>, +dava tiros e fazia disturbios sempre que +tinha as costas quentes. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +João Franco fazia cincoenta e quatro annos +este mez de Fevereiro. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">8 de Fevereiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +É hoje o dia do enterro. Essa gente que veio +de fóra para assistir ao funeral, principes, duques, +<span class="pagenum">[189]</span> +generaes, diplomatas, está cheia de medo. +E por ahi diz-se á bocca cheia: +<br /> + +<br /> + +—Ainda bem que foram portuguezes os que +executaram o rei. É a primeira vez que um rei +portuguez morre ás mãos do seu povo. +Até +agora acabavam ás mãos das camarilhas. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Não me sae dos olhos este quadro do enterro. +Esperam-se bombas... Os sinos tocam, todos os +sinos das egrejas; rufam os tambores cobertos de +luto. Desfilam coches com principes e carros +com fardas. Um homem apregoa:—<em>O ultimo +granadeiro!</em> +quem quer <em>O ultimo granadeiro?</em>—Mais +carros, mais coches, o filho do imperador da +Allemanha, guardado por uma escolta de prussianos, +que o pae mandou com elle com medo +que lh'o matem. Tropas em fila, carroças de gala, +generaes, diplomatas glabros, com o olho desconfiado +e vontade que aquillo termine depressa... +Agora a carroça com o sceptro e a corôa, e outra +com crepes a rasto como se levasse o luto da +monarchia.—<em>O +ultimo granadeiro!</em>...—Mais coches, +e aqui e alli o desfile cortado pela multidão irrespeitosa. +Um laivo de grotesco na tragedia, riscos +exagerados de carvão que fazem medo... Phisionomias +lividas nas fardas pomposas, decorações, +gente que mal se atreve a olhar a plebe temerosa—silencio +e um largo ah! a que se segue +<span class="pagenum">[190]</span> +uma gritaria d'inferno. Bicha de carros interminavel, +mortos por largarem n'uma abalada de +pavor—carros funerarios passando entre a +indiferença +gelada—farrapos de multidão que atravessam +o prestito propositalmente, tropas esbandalhadas, +corôas que parecem velhas... E por fim +mais tropas e o mesmo grito insistente:—<em>O ultimo +granadeiro!</em> quem quer <em>O ultimo +granadeiro?</em>... +<br /> + +<br /> + +Dias mais tarde havia sujeitos que se chegavam +á beira das pessoas que deitavam luto e perguntavam-lhe +com ar de troça:—Então morreu-lhe +alguem da familia?... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Correia d'Oliveira: +<br /> + +<br /> + +—Se visse!... Quasi ninguem tirava o chapeu +quando o enterro passou... A sombra do +rei comeu, sumiu a do principe. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Tem-se distribuido muitos papeis com estes +dizeres:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;" class="tinyl"> +Morte aos Sanguinarios<br /> + +Afonso Costa, Alpoim, Ribeira Brava,<br /> + +os Verdadeiros Assassinos +<br /> + +<br /> + +DE EL-REI E DO PRINCIPE REAL. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[191]</span> +E outros, escriptos á machina, atribuindo o +crime a este e áquelle... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +A preocupação do rei é esta: +<br /> + +<br /> + +—N'este caso que faria D. Pedro V? +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O João Franco possue cartas do rei, em que +elle lhe apontava escandalos em diferentes secretarias. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O dr. Curry Cabral, que é um homem ponderado, +disse em casa das Thomares: +<br /> + +<br /> + +—Ha cinco annos que o João Franco está +doido. +<br /> + +<br /> + +E o Silva Bastos, que foi da sua intimidade: +<br /> + +<br /> + +—Ás vezes avançava para a gente de +punhos +fechados, n'um phrenesi. Depois dava-lhe a nevralgia +e deitava as mãos á cara ou desatava +aos berros—e, n'um instante, como n'uma roda +que gira vertiginosamente e vae passando por +dois buracos, lia-se-lhe nos olhos, sucessivamente +e sem interrupção, colera, despreso, +ambição, serenidade, +medo, orgulho, riso, ferocidade, paz, +vertigem... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[192]</span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +E outro: +<br /> + +<br /> + +—Era a obra de Martins posta em pratica +por um doido. Sómente o Martins dissera, arrependido, +a Junqueiro: +<br /> + +<br /> + +—Nas penitenciarias está gente muito melhor +que o rei. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">11 de Fevereiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +Espalha-se que, se isto não socegar, o rei e a +rainha se vão embora e o estrangeiro toma conta +das colonias. Pede-se repressão. Diz-se que há +oficiaes de artilharia e cavalaria que querem fazer +uma <em>intentona</em>—e os politicos +já se não entendem +por causa das nomeações dos governadores +civis! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O João Chagas surge na livraria, mais gordo, +com um esplendido casacão alvadio: +<br /> + +<br /> + +—Tenho estado preso diferentes vezes, mas +nunca senti tanto a falta de liberdade como d'esta. +Das outras falava, tinha ar e luz á minha +disposição. +Agora foi a incomunicabilidade absoluta. +E, se atirassem bombas ao quartel, eramos despedaçados. +<span class="pagenum">[193]</span> +E eu, que sabia que alguns grupos tinham +combinado tudo como quem resolve um +problema—dizia comigo:—Se esses diabos +não +têm a caridade de se lembrarem de nós, estamos +perdidos!—Um dia á noite tive a +impressão nitida +de que iamos ser fusilados. Ouvi reboliço, as +tropas carregaram as armas, e até senti que, com +a precipitação, deixavam cahir alguns cartuxos. +Tentei espreitar por um postigo. Um oficial que +passou correndo disse á +sentinela:—Cuidado!—O +frio era mortal. O soldado encostou-se á +porta—não +pude espreitar. Ignorava tudo. Estendi-me +em cima da cama e só ás quatro horas da +manhã +sucumbi de cansaço... Que horas! É horrivel +morrer assim sem lucta. Cheguei a fazer um pequeno +testamento...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="illustration"><a name="f13" id="f13"></a><img style="width: 500px; height: 685px;" alt="Oliveira Martins.—Desenho de Antonio Carneiro." title="Oliveira Martins.—Desenho de Antonio Carneiro." src="images/fig16.png" /><br /> + +<em>Oliveira +Martins.</em>—Desenho de Antonio Carneiro.</div> + +<br /> + +<br /> + +E o João Pinto dos Santos: +<br /> + +<br /> + +—Pude ver d'uma vez o <em>Diario +Illustrado</em>, nas +mãos d'um soldado, com o retrato do rei, mas +calculei:—chegaram de Vila Viçosa. +<br /> + +<br /> + +—Mas nem sequer reparou na tarja de luto? +<br /> + +<br /> + +—Eu não. O Antonio José d'Almeida diz +que +reparou e que desconfiou que o rei tinha sido +morto. +<br /> + +<br /> + +—Os oficiaes—continua o +Chagas—trataram-me +muito bem, mas á despedida +disse-lhes:—Agradeço-lhes +muito a amabilidade com que +me trataram, mas para outra vez prefiro ir para +a Penitenciaria. Lá talvez chegue algum rumor. +<br /> + +<br /> + +E conclue: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[194]</span> +—Acalmação sim, +acalmação, +se assim o entenderem, +<em>durante alguns mezes</em>. Ah +não foi em +vão que trabalhamos vinte annos!... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Fui hoje ao café do Gelo ver o sitio onde o +Buiça se reunia com os amigos. O café +é já de +si curioso, com duas salas d'aspecto completamente +diverso, uma para o Rocio, d'aparato; +outra, nas trazeiras, baixa, para os freguezes envergonhados, +com portas para a rua do Principe. +Era ali, n'aquella meza, do canto, á direita quem +entra pelas trazeiras, que o professor se juntava +com os outros e passavam horas a conversar baixinho. +<br /> + +<br /> + +—Eram muitos? +<br /> + +<br /> + +—Ás vezes doze ou quinze—diz o +creado.—E +ficavam até tarde em grandes discussões... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Todos os politicos são concordes n'isto: o D. +Carlos gastara nos ultimos annos, alem da +dotação, +dez ou doze mil contos. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +E toda a gente diz que era um mentiroso e +que difamava a mulher. Ainda hoje alguem contou +<span class="pagenum">[195]</span> +que um dia apareceram uns papeis inventando +infamias da rainha com a Sandoval. Investigou-se. +E o José Luciano disse logo:—Escusam de procurar, +isso é d'El-Rei. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O <em>Seculo</em>, disse-me o Avelino +d'Almeida, tem +tido tiragens de 160:000 exemplares. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Fevereiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +Depois da morte do rei o Arnoso foi ao Malaquias +de Lemos propor-lhe a contra revolução. +<br /> + +<br /> + +—Nem me fale n'isso. Se veem para a rua +corro-os a bala raza e vou já d'aqui contar tudo +ao Ferreira do Amaral. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">20 de Fevereiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +Era hoje que devia rebentar a contra revolução, +para impôr ao Paço uma dictadura militar. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Hoje fui a casa do Schvalbach, ao Conservatorio. +Coisas antigas e louça das Caldas, velhos +<span class="pagenum">[196]</span> +quadros do Liborio e tectos pintados em caramanchão +pelo Augusto Pina. O homem está +aqui: é uma revista de anno—dificuldades de +que sae com um sorriso, enredo, e um fio de oiro +e de ternura a envolver tudo isto... +<br /> + +<br /> + +Conheceu o rei e explica-o: +<br /> + +<br /> + +—Quando queria era um <em>charmeur</em>. +Ás vezes +ninguem o podia aturar e mentia como uma cesta +rôta. Ultimamente déra nesta: quando se falava +d'alguma rapariga bonita, ahi dos seus quinze +annos, dizia com um sorriso:—É minha filha. +<br /> + +<br /> + +E conclue: +<br /> + +<br /> + +—Era um grande pantomimeiro! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Fevereiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Antonio José de Freitas, amigo do Paço, +do Arnoso e do Sabugosa: +<br /> + +<br /> + +—O rei era d'estes homens que gostam de +esconder as boas qualidades e de salientar os +seus defeitos. Inteligente, de bom coração, +artista, +não soube ou não quiz tratar com os homens. +Podia ter com elle todos os que pensam ou +escrevem em Portugal—afastou-os. Ha annos +para cá o caso explica-se: garanto-lhe que, depois +que teve o tipho, ficou impotente e sentia-se +humilhado e inferior ao primeiro gallego que +passa na rua... Ha cartas d'elle adoraveis de simplicidade, +<span class="pagenum">[197]</span> +ha casos da sua vida e da vida palaciana +que se não comprehendem. +<br /> + +<br /> + +—E como artista? +<br /> + +<br /> + +—Era elle, sem duvida, que fazia com talento +os esboços. Mas, como não tinha +tempo—outros +lhe acabavam os quadros... Como rei só teve um +mal—começou a sel-o apenas ha um anno. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Fevereiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +Todos os dias no Paço se recebem cartas +anonimas com ameaças de morte. O medo é +enorme. A rainha tem sempre deante dos olhos +o quadro horroroso, e, se acorda de noite, quer +por força vêr o filho. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Manuel Ramos: +<br /> + +<br /> + +Serviam-se, o Franco e os outros, da pimponice +do rei, para lhe arrancarem medidas de repressão. +Se o viam hesitar:—Mas se Vossa Magestade +receia...—E elle logo decidido:—Eu +não!—E assignava tudo. E fique você +sabendo: +não foi elle só que comeu: a maior parte do +dinheiro, +dos dez ou doze mil co +Serviam-se, o Franco e os outros, da pimponice +do rei, para lhe arrancarem medidas de repressão. +Se o viam hesitar:—Mas se Vossa Magestade +receia...—E elle logo decidido:—Eu +não!—E assignava tudo. E fique você +sabendo: +não foi elle só que comeu: a maior parte do +dinheiro, +dos dez ou doze mil contos gastos a +mais, ficou no bolso dos politicos. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[198]</span> +<div class="date">Fevereiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +A guarda-fiscal de Cascaes tem ordens apertadas. +Teme-se um desembarque de armas e munições. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Foi prohibido o desfile do publico diante dos +cadaveres regios, porque a urna do rei era coberta +de escarros! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Fevereiro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +O João Chagas: +<br /> + +<br /> + +—Tem visto a atitude palaciana do +<em>Dia</em>? +Eu, de mim, tenho um caderno com este titulo +<em>Alpoim</em> e todos os dias collo +pedaços do <em>Janeiro</em> +e do <em>Dia</em>. Tome logares porque vai +assistir a um +espectaculo estraordinario... Nunca o estrangeiro +fez tanta pressão sobre nós como agora... +Impõe-nos +um governo—e esse governo, não podendo +ser rotativo, ha-de sahir da praça publica. +Ora não sendo republicano, á maneira do que +se fez na Italia ou no Brasil, vae ser do Alpoim. +E verá! verá!... Eu já disse: escrevo +logo +um artigo com este titulo <em>O +Regicida</em>, se elle e +<span class="pagenum">[199]</span> +os seus amigos nos atraiçoarem—os seus amigos, +que, diante de mim e de Afonso Costa, se +declaravam todos republicanos. D'antes procuravam-nos +todas as noites, agora fogem-nos. Vae +ver, vae-os ver servirem-se da policia contra nós. +Oh, mas eu hei-de declarar que elles é que nos +forneciam as bombas! O Alpoim ha-de morrer +ás nossas mãos! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Março—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Brazão conta que na +<em>première</em> do +<em>Othelo</em>, +o irmão de Augusto Machado foi cumprimental-o +ao camarim: +<br /> + +<br /> + +—Vaes admiravelmente no papel, mas deixa-me +dizer-te (aqui para nós) a peça é uma +grande +borracheira... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">9 de Março—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +Na recepção de ante-hontem a raínha +tinha +os olhos cheios de lagrimas sufocadas e disse: +<br /> + +<br /> + +—Não tenho medo por mim, é por elle... +<br /> + +<br /> + +—Os politicos, agora vão ter +juizo...—disse +alguem. E ella respondeu: +<br /> + +<br /> + +—Os politicos não teem +coração. +<br /> + +<br /> + +E o rei dizia a um e a outro: +<br /> + +<br /> + +—Seja bom portuguez e meu amigo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[200]</span> +<div class="date">Março—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +—Vou a Lisboa—diz o Columbano ao conde +d'Arnoso. +<br /> + +<br /> + +—Tambem eu vou a essa Penitenciaria onde +andam os assassinos á solta. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Março—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +Antonio José de Freitas: +<br /> + +<br /> + +—O Marianno de Carvalho tinha ido a Paris +negociar um emprestimo e, conversando com +Rouvier, perguntou-lhe: +<br /> + +<br /> + +—Se se fizer a republica em Portugal?... +<br /> + +<br /> + +—Que me importa! Que me importa mesmo +que se faça a republica em Hespanha. Mas se se +fizer a federação iberica, então alto +lá! fazemos a +federação latina. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Rodrigo da Fonseca dizia dos Castilhos: +<br /> + +<br /> + +—Que familia! O melhor de todos é o +cego—mas +esse mesmo, se tivesse olhos, era preciso +furar-lhos! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[201]</span> +<div class="date">Março—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +O João Chagas: +<br /> + +<br /> + +—O Alpoim foi quem nos forneceu as armas +para a revolução. Foi o que elle fez. +Nós tinhamos +homens, elles deram-nos as armas e uns contos +de reis. Todos elles se declaravam republicanos, +menos o Moreira d'Almeida, que disse:—Eu +não só não sou republicano, mas sou +anti-republicano.—Quando +sahiamos das reuniões, eu e +o Afonso Costa riamos ás gargalhadas. +<br /> + +<br /> + +Este João Chagas tão facil, tão +insinuante, +com o riso prompto nos labios grossos e sua +pôpa branca no alto da cabeça, nunca conversa, +nunca o vi conversar: se encontra alguem, seja +onde fôr, conspira logo. Tem passado a vida, +sempre simpathico e facil, sempre bem vestido e +correcto como um actor que desempenha o seu +papel. Mas no fundo d'esta alma, sob este riso e +esta pôpa que parece pintada, só existe uma +vontade +que nunca esmorece, uma ambição tenaz e +um egoismo feroz. +<br /> + +<br /> + +—Isto ha-de resolver-se em 1909. Ah, não +passa d'ahi! É um conflicto inevitavel. Que me +importa o Porto? +<br /> + +<br /> + +E como eu duvide: +<br /> + +<br /> + +—Temos o exercito comnosco. Até na municipal. +<span class="pagenum">[202]</span> +Na provincia ha terras em que os regimentos +são completamente nossos. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Abril—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +Hontem no Porto encontrei o Junqueiro, mais +velho, mais magro, e a proposito da atitude palaciana +de Eduardo Burnay no <em>Jornal do +Commercio</em>, +conta que elle em tempos, quando atacava +o rei, o fôra procurar ao Porto e lhe disséra +do D. Carlos: +<br /> + +<br /> + +—D'uma vez, n'uma d'aquellas ceias que dava +no Alemtejo aos esturdios seus amigos, ofereceu +a cada conviva uma navalha de ponta e mola, +com as armas reaes. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Novembro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +A rainha não disse que conhecia o assassino +do rei. Phrase textual ouvida pelo Batalha Reis: +<br /> + +<br /> + +—Os outros não os conheço, mas aquella +cara do homem das barbas nunca mais me sae +dos olhos<sup><a href="#n7">[7]</a></sup>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[203]</span> +<div class="date">Dezembro—1908.</div> + +<br /> + +<br /> + +O caso do dia é este:—Um alferes da +guarnição +no Paço, quando assistia ao jantar levantou-se, +e, contra todas as regras e todas as conveniencias, +falou ao rei pouco mais ou menos +n'estes termos:—Vossa Magestade anda iludido. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[204]</span> +Esta gente que o cerca engana-o. A situação do +paiz é deploravel, etc. +<br /> + +<br /> + +Imaginem, se podem, as atitudes, o espanto, +o espectaculo d'esta gente, interrompida pela +primeira vez naquella representação em que o +formulario é respeitado como um culto. Mas na +verdade o alferes disse o que cada um sente no +fundo da sua consciencia. Foi inconveniente, +mas poz o dedo na ferida. O rei está rodeado +de ficções e de mentiras. Não soube +assumir +as responsabilidades do pae, com decisão e coragem, +nem totalmente repelil-as. +<br /> + +<br /> + +Enredam-no. Os politicos dão-se o ar de o +proteger e é elle quem os protege. Hesita, tem +medo... Sente-se que tudo isto vacila... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[205]</span> +<div class="date">Janeiro—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +—Esta vida artificial como lhe sinto a +falta!—exclama +o Fialho ali ao pé do Suisso. +<br /> + +<br /> + +—E porque não vive em Lisboa? +<br /> + +<br /> + +—Não posso! não posso! Se soubesse!... +Tenho +um irmão epileptico, que meu pae me legou +á hora da morte. Não devo abandonal-o, +nem +entregal-o a mãos mercenarias... Depois as arvores, +depois as vides, a que a gente cria amor...—Uma +pausa triste, uma hesitação, uma duvida +e acrescenta isto:—Não tenho tido quinze dias +de felicidade em toda a minha vida! +<br /> + +<br /> + +Falamos de politica: +<br /> + +<br /> + +—Isto está a pedir sangue... E olhe: no +Alemtejo não ha republicanos—ha odios. O pobre +não pode vêr o rico. É uma gente +roída de +invejas e rancores, que passa annos e annos da +vida a cubiçar um campo... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O João Barreira, pequenino, inalteravel, de +capinha: +<br /> + +<br /> + +—A revolução abortou em onze de +Fevereiro +porque os chefes foram todos presos. O Chagas +tinha nas mãos as chaves do movimento. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p206" id="p206">[206]</a></span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Quem são os regicidas?... O Ferreira do Amaral, +ao sahir do ministerio, declarou que não tinha +apurado nada de definitivo. Diz:—Eu bem sabia, +por cartas anonimas, que se preparavam +para me alijar, mas deixei-os fazer...—Porquê, +almirante?—A situação não me +era +agradavel. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Novos boatos de intentonas, de massacres, +novos boatos de reacção. Agora é +certo!... Os regicidas +vão ser presos. Conta-se que o Heitor Ferreira +dissera:—Vendi a carabina a Fulano.—O +ministerio Amaral cahiu, porque, dispondo de +todos os elementos, não quiz prender os assassinos. +Um dos regicidas está em França, mas Clemenceau +recusa-se a extradital-o. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Mello Barreto garante como absolutamente +autentico o boato que por ahi correu, de que o +rei se confessa todas as semanas. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Larga distribuição d'estes papelinhos:<sup><a href="#f14">[nota de editor]</a></sup> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p207" id="p207">[207]</a></span> +<div class="date">Janeiro—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +Fala-se hoje d'um Munhoz, oficial do exercito, +tipo acabado de lisboeta—café, conversa e parodia, +cheio de graça popular e literaria. Já reformado, +vae aos domingos aos touros para a Outra +Banda, com um cabaz no braço e um chalemanta +ás costas... Esteve amigado com uma +mulher já +<em>fannée</em>, mas ainda com +linha e um +grande nariz imperial, que ahi andou por Lisboa +e se fazia passar como aparentada com as mais +ilustres familias de Hespanha. A mulher não tinha +dinheiro, mas alguem presenteara-a, quando +a deixou, com uma rica mobilia. E Munhoz e ella +iam vivendo dos trastes, hoje um tremó vendido, +amanhã uma comoda, depois um sofá... +<br /> + +<br /> + +—E que tal, Munhoz? +<br /> + +<br /> + +—Vae-se vivendo, filho. Vamos vendendo os +trastes. Olha, menino, hoje almoçamos +nós um +<em>bidet</em>—e por signal que +não estava nada mau!... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Lá no alto, no friorento Paço d'Ajuda, entre +gente caduca e algumas damas do passado, a +rainha Maria Pia passa os dias e as noites, como +uma figura de tragedia, a regar as flores d'um +tapete. Mataram-lhe o pae, o filho e o neto. +Peor: envelheceu. Se pára de regar conta:—Um... +<span class="pagenum">[208]</span> +dois... três...—A quem se refere? Ao +pae, ao rei, ao principe, todos assassinados? +Senta-se á meza e diz a figuras imaginarias ou +aos phantasmas que se sentam a seu lado:—Come, +Luiz? Não queres d'este prato, Carlos?—E +lá torna a regar um dia, outro dia, sempre, +as flores que não reverdecem do mesmo tapete +do seu quarto... E esta mulher elegante, que +despertou paixões e inspirou poetas, parece uma +velha actriz, cheia de rugas, sem contracto, fóra +do seu meio e da sua época. Ao vel-a passar, +baixando a cabeça para aqui e para acolá, no +mesmo gesto machinal, a gente supõe que o passado +sahiu do sepulchro e teima em sorrir-nos, +com os dentes postiços e o cabelo pintado a escorrer +amarelo... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O D. Afonso adora o sobrinho. Afiança:—Se +m'o matarem quero ser rei uma hora, mas +n'essa hora hei-de mandar... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—E o rei? +<br /> + +<br /> + +—O rei...—diz alguem que foi duas ou tres +vezes ao Paço—O rei é um fidalguinho +muito +religioso e temente a Deus, e cheio de vontade e +de orgulho.—E acrescenta:—Não trata, +como +o pae, a gente por tu, mas por você.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[209]</span> +<div class="date">Janeiro—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +Fala-se com o Antonio José de Freitas, +do +D. Pedro V e um do lado diz: +<br /> + +<br /> + +—Era um pedante. +<br /> + +<br /> + +—Se era! O que vocês não sabem +é que +deixou vinte e tantos calhamaços sobre coisas +militares com o titulo em latim. E de todos esses +livros não se apura uma pagina... +<br /> + +<br /> + +Do D. Luiz e da D. Maria Pia narra anecdotas, +ditos... +<br /> + +<br /> + +—O D. Luiz mandava-me chamar muitas +vezes ao Paço—e algumas por causa do Shakespeare. +Uma vez quiz discutir o <em>Hamlet</em> +commigo—elle +que me roubou duzentas e tantas +phrases!—e eu disse-lhe:—Pois sim, vamos +lá +discutir, mas V. Magestade não ha-de extranhar +que eu me defenda com quantos argumentos tenha, +nem que fale mais alto, porque fui professor +de meninos e tenho esse mau habito. Alem +de tudo isso sou um homem nervoso...—E discuti, +discuti com unhas e dentes. Por fim elle +disse-me:—Pois sim, Freitas, mas você o que +não pôde é conceber o +<em>Hamlet</em> como eu, sob o +ponto de vista de dissimulador, porque não tem +a minha categoria. Só um principe sabe o que +é dissimular... +<br /> + +<br /> + +E eu respondi logo: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[210]</span> +—Se V. Magestade dissimula por causa da +sua categoria, é porque é um diplomata; se +é +por organisação é porque é +um histerico... +<br /> + +<br /> + +E elle mandou-me embora. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Quem os põe assim aos reis, ao D. Carlos, +ao D. Luiz, ao imperador do Brazil, são os grandes +homens, o Victor Hugo, o Rossini, os que +os incensam a torto e a direito. O D. Luiz era +inteligente e conhecia os classicos musicaes, mas, +como não estudava, tocava mal. Pois um dia o +Rossini, em Paris, depois de o ouvir, disse-lhe:—Vou +organisar um concerto em minha casa, +para que V. Magestade, que é um dos melhores +musicos que conheço, seja ouvido e apreciado. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O D. Luiz, como todos os fidalgos portuguezes, +gostava de conviver com gente baixa. Quando +se iam embora os ajudantes e a côrte, ficava +com os particulares, com a gente que lhe chamava +<em>doutor Tavares</em>, e então +regalava-se de escandalo, +de ditos, de má lingua ordinaria. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Não me admira que elle gostasse da Rosa +Damasceno. Era uma mulher <em>caline</em>, +muito meiga. +<span class="pagenum">[211]</span> +Na intimidade devia ser adoravel. E boa. Desde +que foi amante de D. Luiz, dava todo o dinheiro +que ganhava no theatro. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +A Maria Pia é uma mulher inteligente, apezar +de pessimamente educada, sem mãe. Detestavam-se, +mas que diplomatas, ella e o rei! +Quando se anunciou o casamento do D. Carlos, +D. Luiz disse-me: +<br /> + +<br /> + +—Casa por amôr. Fez a côrte á +mulher, +escreveram-se, +elle mandou-lhe flôres e ia para a +plateia d'um theatro em Paris namoral-a para o +camarote. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Não sei quem fala do Saldanha... +<br /> + +<br /> + +—Foi o diabo para o mandarem para Londres, +quando se quizeram vêr livres d'elle. O governo +perguntou para a Inglaterra e de lá responderam +que não era <em>persona +grata</em>. Foi preciso +que o D. Fernando escrevesse á rainha Victoria, +que acabou por ceder, dizendo:—Mandem +lá +esse velho pecador. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Fevereiro—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Judice Bicker, oficial da armada e antigo +governador da Guiné no tempo do Hintze: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[212]</span> +—Não, não me falem em dictaduras nem em +governos de repressão! Quando fui governador +da Guiné apareceram-me lá um dia cem homens +mandados pelo governo. E com elles uma simples +lista de nomes, sem a minima indicação de crimes. +Nada. Era gente que o governo me mandava +e de que se queria desfazer. Que lhes havia +de fazer na Guiné? Sentei-lhes praça, e d'esses +<em>criminosos</em>, aos quaes nunca tive +ocasião de aplicar +um castigo, seis mezes depois tinham morrido +<em>cincoenta</em> de febres!... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +No outro dia—diz o Freitas—estive com a +rainha D. Amelia. Está uma mulher amarella e +feia, enorme, com as mãos do tamanho do Maximiliano +d'Azevedo. E, como lhe notasse os dedos +cheios de joias, estranhei, perguntei e +explicaram-me:—São +os aneis de brilhantes, que +ella arrancou aos cadaveres do marido e do filho—e +que traz sempre comsigo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Um empregado da fazenda: +<br /> + +<br /> + +—Em cada um dos grandes bairros de Lisboa +ha milhares de processos de dividas á fazenda +parados. Companhia que tenha votos paga +quando quer e como quer. Só os desgraçados +<span class="pagenum">[213]</span> +são penhorados. Isto representa muitas centenas +de contos, que se perdem por empenho, por politica, +por desleixo. +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Fevereiro—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Pad'Zé contado pelo Vicente da Camara: +<br /> + +<br /> + +—O extravagante Pad'Zé era no fundo um +homem methodico. Quando chegava a Coimbra +ia sempre com grandes ideias de aprumo e +arranjo: uma cama para dormir, uma meza para +escrever, etc.. Excusado será dizer que, meia duzia +de dias depois, dormia no chão. Mas á cabeceira +lá estavam sempre muito arranjadinhos os +seus livros e os seus papeis. Se no dia em que +se matou, na propria hora em que deitou a mão +ao rewolver, alguem o convidasse para uma ceia,—adeus +suicidio! adeus morte! trocava-a por +uma guitarrada. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +No dia em que fugiu para Badajoz o D. João +da Camara encontrou-o: levava para o exilio um +livro de Garrett, um par de meias e cinco mil +reis emprestados. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Trazia sempre nas algibeiras envolucros de +bombas e mostrava-os ás vezes aos amigos, no +<span class="pagenum">[214]</span> +Suisso. Na algibeira do medico que morreu na +explosão foi encontrada uma carta sua, pedindo-lhe +que lhe mandasse pelo portador «seis peras +do Fundão». Trazia-as ás vezes pela rua +n'uma +malinha de mão, e, quando ia ao urinol, pedia ao +Anibal Soares, de quem era amigo intimo, para +lha segurar:—Mas tem cuidado que são +ovos!...—observava +sempre. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Dizem por ahi que se matou, para não matar... +Tinha-lhe cahido em sorte, n'uma +<em>loja</em>, executar +um alto personagem... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">25 de Fevereiro—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +Visita ao Coelho de Carvalho, que está +doente, e mora n'um velho palacio, na rua do +Arco do Cego. Moveis Imperio, uma cama imponente +com golphinhos doirados e espelhos, +falsos quadros de mestre nas paredes d'estuque, +onde todos os caiadores de Lisboa pintam sempre +o mesmo friso azul ferrete, e salas que se +sucedem com alguns moveis antigos isolados. +São restos de grandeza d'uma existencia d'artista... +Como sempre, fala-se em politica. Não +se fala n'outra coisa...—A policia tem o processo +do atentado concluido, mas fica-se por ahi. +<span class="pagenum">[215]</span> +Sabe-se que no dia 21, n'uma <em>loja</em> +maçonica, foi +proposto o assassinato do rei. O Alpoim esperava +na rua, dentro d'um carro, os seus amigos. +Mal foi que o acordo com os franquistas gorasse. +Sabe que o Alpoim teve uma combinação politica +com o João Franco? Disse-mo elle a +mim:—«O +acordo esteve feito para uma dictadura liberal, +mas o rei opoz-se. Foi quando eu e Sicrano e +Beltrano decidimos perdel-o»...—Posso garantir-lhe +isto: ouvi-o a elle proprio... Quem os +aproximou, ao Alpoim e ao Franco, foi o Silva +Graça. Tinham até ajustado uma serie de comicios +de propaganda contra os adiantamentos. +E foi por isso que o João Franco pôde responder +como respondeu ao Centeno, dizendo-lhe +que tinha nas mãos provas d'essa +combinação. +<br /> + +<br /> + +Um tipo fino. Literato e homem de negocios, +tendo ganho fortunas e dissipado fortunas. Tem +um castello em Arade sobre rocha e mar e uma +existencia um pouco dispersa. E com isto curioso +e alegre, phantasista acima de tudo, paradoxal +acima de tudo. O seu escriptorio de advogado +que foi muito tempo no ministerio da +justiça, é hoje alli n'uma meza do Martinho. +Desconfio que mistifica os clientes—para se +divertir... As dificuldades da sua vida são talvez +invenciveis, mas a desgraça encontra-o sempre +de pé, com o mesmo riso nas mesmas lindas +barbas todas brancas enquadrando uma face +moça, e oculos redondos de tartaruga, que lhe +<span class="pagenum">[216]</span> +dão uma aparencia de retrato de Holbein.—Os +oculos de Spinoza...—como elle lhes chama. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Março—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Armando Navarro: +<br /> + +<br /> + +—D'aqui por cincoenta annos estamos absorvidos +pela Hespanha, sob a forma federativa. A +autonomia municipal, a mais rasgada de todas +as que conheço, e que o conservador e reaccionario +Maura acaba de dar á Hespanha, é o primeiro +passo... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">6 de Março—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +Foi hoje o enterro do Taborda. Aqui ha tempos +cahiu de cama e disse a alguem a chorar: +<br /> + +<br /> + +—D'esta vez é certo! Sinto que vou morrer... +E a vida é tão linda! +<br /> + +<br /> + +Tinha oitenta e cinco annos. Os jornaes contaram +d'elle esta coisa enternecedora: D'uma vez +foi recitar um monologo a um asylo de raparigas +da sua terra. O monologo começava assim: +«Boas noites, meus senhores...». Entrou no +palco e disse a phrase: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;" class="tinyl"> +Boas noites, meus senhores...</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[217]</span> +E as meninas do asylo, que o conheciam todas, +levantaram-se e responderam á uma: +<br /> + +<br /> + +—Muito boas noites, senhor Taborda! +<br /> + +<br /> + +A morte engrandece sempre, mas acho horrivel +acabar na rua dos Calafates, entre a convenção +e a mentira, andar por cima, andar por +baixo, corôas secas, photographias e +recordações +de bastidores. Um velho tem direito a morrer +entre arvores, em plena natureza. Os bichos, +quando sentem aproximar-se o fim, procuram +um buraco para se esconder... São mais felizes. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Março—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +As declarações do Ferreira do Amaral na +Camara dos Pares vieram autenticar o que se +dizia do rei. O Ferreira do Amaral afirmou:—«A +reacção envolve o +rei».—Acrescenta-se +cá fóra +que é um jesuita hespanhol quem dirige o rei e +o Paço, e parece certo que o Ferreira do Amaral +o impedia por vezes de ir de livro e contas á +missa—fazendo-o visitar no Porto tres fabricas +por cada missa que ouvia... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Espalha-se que foi a rainha quem pôz fóra o +Ferreira do Amaral, e que elle quer lá voltar para +lhe dar uma lição. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[218]</span> +<div class="date">Março—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +Apresentam-me hoje um velho janota, o visconde +da Torre da Murta. É um velho magro e +esticado, de luvas e chapeu alto. Cheio de pretensões +e os cabelos todos brancos. Parece ligado +por arames. Vive na miseria. A mulher enganou-o, +deixou-o. Pagou-lhe as dividas—e ficou +pobre: são as Thomares que o sustentam. O +velho conserva uma grande dignidade e só sae +de luvas e chapeu alto. Mas quem sobretudo lhe +vale é a creada, uma destas extraordinarias mulheres +do povo, que nascem para os outros e que +já disse que quando morrer lhe ha-de deixar as +suas economias «para o senhor visconde não +passar necessidades». O senhor visconde vive +n'um cubiculo, e da sua passada grandeza restam-lhe +meia duzia de livros com magnificas +encadernações. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Março—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +Fuschini, que fui hoje visitar, +está velho e +tem uma doença de coração muito +adiantada. +<br /> + +<br /> + +—Porque não escreve as suas memorias? +<br /> + +<br /> + +—Não sei, custa-me. Tenho pensado em escrever +a minha autobiographia... Depois deixo-me +d'isso. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[219]</span> +E conta-me: +<br /> + +<br /> + +—Quando foi da conversão da divida externa +fui eu e poucos mais que obstamos a que +viessem tres estrangeiros para Portugal mandar +n'isto. Creia... Chegaram a dizer-me:—Não +faça +questão, que será um dos membros da junta. +<br /> + +<br /> + +E diz: +<br /> + +<br /> + +—Ao tempo da dictadura do João Franco +lembrei-me de reunir em Lisboa um congresso +de todos os homens publicos. Procurei os republicanos, +o Afonso Costa, que me prometeram o +seu apoio. Estava de relações cortadas com o +Hintze, mas mandei-lhe falar e elle fez-me ir ao +Estoril. Disse-me o peor que é possivel do rei e +acrescentou:—Aceito a sua idéa... E tem +casa?—Tenho.—E +se a policia intervier?—Resistimos +e apelamos para o povo.—Bem, vá falar +ao José Luciano.—Procurei essa <em>vil +alforreca</em>, +que exclamou:—Mas isso é a +revolução!... Preciso +de falar primeiro com o Hintze. Tenho uma +idéa melhor...—Dias depois o Hintze +dizia-me:—O +José Luciano não quer fazer nada, +disse-me que era melhor esperarmos para Outubro, +quando o rei regressar a Lisboa.—Tambem +me lembrei de escrever um manifesto +dirigido ao estrangeiro e assignado pelos estadistas +portuguezes.—Ex, +que exclamou:—Mas isso é a +revolução!... Preciso +de falar primeiro com o Hintze. Tenho uma +idéa melhor...—Dias depois o Hintze +dizia-me:—O +José Luciano não quer fazer nada, +disse-me que era melhor esperarmos para Outubro, +quando o rei regressar a Lisboa.—Tambem +me lembrei de escrever um manifesto +dirigido ao estrangeiro e assignado pelos estadistas +portuguezes.—Excelente, disse-me logo o +Hintze, venha cá amanhã... Olhe, +amanhã não, +que é o enterro do Casal Ribeiro. Depois de +amanhã.—No dia seguinte estava morto. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[220]</span> +<div class="date">Março—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +Eis a impressão geral: Foi a rainha quem tramou +a queda do Ferreira do Amaral. O Julio de +Vilhena queria que saissem apenas dois ministros +regeneradores, substituindo-os por outros. Foi +uma tramoia do Paço. Toda a gente diz que a +rainha está feita com os reaccionarios. O D. Carlos, +emquanto vivo, opunha-se-lhe, e, logo ás primeiras +investidas—festas de Santo Antonio, etc.—poz-se +do lado dos que combatiam a reacção. +Agora manda. E conta-se que o Ferreira do +Amaral entrou um dia d'estes no Paço e perguntou +pelo rei.—Está com o seu director +espiritual.—Então +preciso de falar á rainha.—Está +tambem com o seu director espiritual. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +A rainha—dizem-no todos—arrisca-se um +dia a ser desfeiteada. Acusam-na de deitar a +perder o rei. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Março—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +Barreira conta-me que +varios republicanos +teem insistido junto do general Baracho para +se pôr á frente d'um movimento. +<br /> + +<br /> + +—Bem sei, vocês querem que eu tire as castanhas +do lume, para que os outros as comam! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[221]</span> +<div class="date">Março—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Cunha e Costa: +<br /> + +<br /> + +—O Ferreira do Amaral desarmava pela +bonhomia. Um dia constou ao Bernardino que +para os lados do Campo Grande havia tumultos. +Telefonou ao Amaral:—São os reaccionarios que +querem repetir as scenas de cinco de Abril...—Vou +indagar.—Meia hora depois:—Está? Sou o +Amaral.—E muito placidamente:—Ó +Bernardino, +olhe que aquelles homens que os senhores +mandaram para o Campo Grande ainda +lá não chegaram...—!!!—Os +republicanos do +<em>Mundo</em>, quando lhes constou que iam +ser atacados:—Senhor +presidente do conselho, consta-nos +isto...—A casa do cidadão é inviolavel +e +todos teem o direito de se defender.—Ao Pimentel +Pinto, cheio de dividas e que não paga a +ninguem, respondendo á acusação de +jantar com +os makavenkos:—Janto, janto, mas pago, meus +senhores, pago sempre.—Ao Arroyo, quando +lhe dizia:—Enganaram-no, almirante.—É +que +eu sou um ingenuo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Abril—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +Fazem correr por ahi esta infamia: que o Wenceslau +de Lima é amante da rainha D. Amelia. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[222]</span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Eduardo Pimenta, que serviu com o Mousinho +em Africa: +<br /> + +<br /> + +—Um orgulho desmedido, uma decisão rapida, +e uma insensibilidade, como nunca vi, ao +frio, á fome, ao trabalho... D'uma vez, por qualquer +questiuncula, fomos obrigados a dar uma +satisfação á Alemanha. Que scena! O +Mousinho +arrancou do peito constelado todas as medalhas, +todas as condecorações—todas. +Só +lá deixou a +Aguia Vermelha que obriga o alemão a conservar-se +de pé diante dos que a teem. Poz o +<em>bonnet</em> +às tres pancadas e entrou por a casa do consul +dentro. Ergueram-se todos—e elle, á porta, +sacudido, +impertinente, enorme, disse a phrase protocolar:—O +governo de Sua Magestade Fidelissima +encarrega-me, etc.—E sem esperar pela +resposta, outra vez levou dois dedos ao +<em>bonnet</em> e +rodou sobre os calcanhares, deixando-os estupefactos. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Jayme de Seguier encontra o João Franco +no estrangeiro. São amigos. E João Franco +que não queria, que jurára não tornar +a falar +em politica, durante duas longas horas não conversou, +não falou n'outra coisa. +<br /> + +<br /> + +—Tinha previsto tudo. Tinha previsto a minha +<span class="pagenum">[223]</span> +morte: o que eu não previra foi o assassinato +do rei. Isso nunca me passou pela cabeça... +<br /> + +<br /> + +—Mas o que eu não +comprehendo é que +dissolvesse as +côrtes estando +aliado com os +progressistas... +<br /> + +<br /> + +—Tinha-lhes pedido +ministros, recusaram-mos. +Ficava enfraquecido. Isso é que não. +Não +podendo tel-os como amigos, então antes como +inimigos declarados. +<br /> + +<br /> + +Quem me fornece estas notas (Jaime Victor) +fala d'um João Franco cheio, de sensibilidade e +de coração, capaz de ir até ao +fim...—P'ra +diante! p'ra diante contra tudo e contra todos!—Era +um convencido. Diz-se que os outros o +empurravam. A verdade é que ninguem o podia +deter: nem palavras nem acções o faziam recuar; +ia como uma bala na sua trajectoria. Contam-me +que n'um dos ultimos conselhos de ministros +João Franco expoz a situação: o +movimento revolucionario, +as medidas que tomára, etc.. Vasconcellos +Porto, placido e enorme, expoz a sua +opinião e concluiu: +<br /> + +<br /> + +—Deixe-os vir para a rua, que eu conto com o +exercito. E depois de vencermos, governaremos... +<br /> + +<br /> + +Ao que João Franco respondera: +<br /> + +<br /> + +—Não, podendo evitar-se o +sangue—evitamol-o. +<br /> + +<br /> + +E Jaime Victor conclue: +<br /> + +<br /> + +—A morte de D. Carlos trouxe-nos extraordinarias +complicações. Elle, por exemplo, tinha +<span class="pagenum">[224]</span> +seguro o tratado de comercio com o Brazil, que +nunca mais se fará. No Brazil fizeram-se despezas +extraordinarias para o receber. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Novembro—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +Guerra Junqueiro desalentado: +<br /> + +<br /> + +—Isto está liquidado, a ocasião passou. +Agora +o rei casa com uma ingleza e vem para ahi um +caixeiro qualquer da +Inglaterra, que manobra +por traz da cortina. Não reparou n'isto?... Nas +camaras passou uma lei que os auctorisa a vender +inscripções. É a bancarrota adiada por +muito +tempo. D'aqui a annos o juro da divida interna +é reduzido, mas vae-se vivendo e paga-se ao estrangeiro, +que é o principal. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Do João Franco diz: +<br /> + +<br /> + +—Mentia com o coração nas +mãos... +Então +é que era ocasião. O Franco e o rei +eram dois +cães damnados... A ocasião passou, a republica +passou. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Carneiro de Moura: +<br /> + +<br /> + +—Os bispos e as beatas deram para a imprensa +reaccionaria, para <em>O Portugal</em>, vinte +contos. +Já lá vão em pagodes!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="illustration"><a name="f15" id="f15"></a><img style="width: 500px; height: 514px;" alt="Dantas Baracho.—Caricatura inedita de Celso Herminio." title="Dantas Baracho.—Caricatura inedita de Celso Herminio." src="images/fig17.png" /><br /> + +<em>Dantas Baracho.</em>—Caricatura inedita de +Celso +Herminio.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[225]</span> +<div class="date">Novembro—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +Conta hoje o Fuschini—sempre com a Alice +Lawrence atraz, sempre a caminho da Sé, com o +chapeu sobre os olhos e um rôlo de papeis debaixo +do braço, sempre sufocado quando sobe +as escadas, porque o coração cada vez lhe +trabalha +peor, sempre irrequieto e interessante, apesar +da edade e dos cabelos todos brancos: +<br /> + +<br /> + +—O Soveral é um homem de negocios<sup><a href="#n8">[8]</a></sup>.<span class="pagenum">[226]</span> +O que elle quer é dinheiro. Já tive todos os fios +d'essa meada nas mãos... Obrigou agora o rei a +ir á Inglaterra fazer uma figura triste. Pois posso +<span class="pagenum">[227]</span> +garantir-lhe que ha dois mezes esteve em Lisboa +um correspondente do <em>Dail Maily</em>, que +contou +á Alice que o proprio duque de Fife mandára +<span class="pagenum">[228]</span> +ao jornal o seu secretario desmentir a noticia do +casamento. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Avelino de Almeida, jornalista com a especialidade +de padres e beatas: +<br /> + +<br /> + +—Quem deu o dinheiro para <em>O +Portugal</em> foram +as beatas. Um padre lazarista é que andou +metido n'isso. Arranjaram dezoito contos. Só a +viscondessa de Sarmento deu seis. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Um artigo curioso do <em>Corriere de la +Sera</em>, assignado +pelo Gomes dos Santos:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="tinyl"> +«Um caso singularissimo poz recentemente a policia na +pista d'uma conspiração de aventureiros que +punham o seu +braço ao serviço do radicalismo, promptos para +tudo +quanto lhes fosse ordenado em nome... da utopia. Uma +longa serie de crimes politicos que datam do regicidio e +cujos auctores até agora tinham ficado envoltos no mysterio, +coloca em evidencia os factos preteritos e abre um caminho +seguro para a liquidação das responsabilidades. +Hoje ninguem duvida da existencia d'uma sociedade secreta +que, sob a aparencia de loja maçonica, é o +verdadeiro +poder executivo do partido revolucionario, o braço sempre +prompto a ferir, a espada que cae traiçoeiramente sobre +as victimas designadas pelos dirigentes da politica radical?</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[229]</span> +<div class="tinyl">Ninguem ignora em Portugal as +circumstancias em que +se desenrolou o regicidio. Na confusão da tarde tragica, a +policia cae sobre dois dos regicidas e mata-os em legitima +defeza. Mas permanece sempre firme a convicção de +que +os regicidas não eram sómente Buiça e +Costa, que pagaram +com a vida o seu delicto! Esta convicção +fundava-se +em factos de ordem material e moral, sobre os quaes não +havia duvida de especie alguma. A prova moral da existencia +d'outros cumplices reside na impossibilidade do atentado +haver sido organisado e levado a efeito apenas por +dois homens. A prova material forneceram-na numerosissimas +testemunhas que viram a carruagem real ser alvejada, +simultaneamente, de varios pontos e observaram a fuga +de alguns dos cumplices do regicidio, um dos quaes, +perseguido pela policia quando fugia, com o rewolver fumegante +em punho, conseguiu perder-se de vista ao voltar +uma rua, confundindo-se depois com a multidão espavorida +que fugia do logar do crime. +<br /> + +<br /> + +É um vulgar principio de investigação +judiciaria que +os deliquentes se devem procurar entre aquelles a quem o +delicto aproveita. Ora quem podia aproveitar com a carnificina +da familia real? Se houvesse produzido uma mudança +politica, aproveitavam evidentemente os republicanos cujo +triumpho teria sido d'esta arte facilitado. Se tivesse originado +apenas (como realmente produziu) uma substituição +de governo resultaria proveitosa para os mesmos republicanos +aos quaes João Franco havia fechado todos os caminhos. +Vendo presos os seus principaes chefes e ameaçada +toda a sua organisação, os republicanos esperavam +reconquistar, +com um golpe de mão, as posições +primitivas. Não +ha outras hypotheses a considerar, visto que o crime não +podia ter sido perpetrado por uma conspiração de +monarchicos +nem representa um caso individual de terrorismo +porque os regicidas não eram anarchistas.</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[230]</span> +<div class="tinyl">O Buiça e o Gosta eram +republicados militantes: trabalhavam +nas ultimas filas dos revolucionarios. Livres pensadores, +pertenciam á sociedade de propaganda d'onde, de +resto, teem sahido todos os criminosos politicos. Homens +de acção, pertenciam a uma loja secreta, a +«Montanha», +mixto de instituição maçonica e de +comité revolucionario, +sem local fixo e sem estatutos, que se reune a um simples +convite dos jornaes da seita, ninguem sabe onde e que se +compõe de homens <em>capazes de +tudo</em>. Tudo deixa crer que o +regicidio foi ahi deliberado e que, como é costume, os +executores +foram tirados á sorte, visto que apenas o sorteio +explicava a escolha d'um dos regicidas, cujo passado se não +ilustra com actos de grande coragem individual. +<br /> + +<br /> + +Mas sobre o regicidio, que inaugura a conhecida série +de delictos politicos, não mais se tratou de fazer luz. +Não +se chegou a apurar quem foram os cumplices da emboscada +e, se porventura se tentou esclarecer o caso, acabaram +por concluir que era melhor guardar silencio sobre +elle. No entretanto, occorriam novos factos que vieram documentar +melhor a existencia d'uma organisação que +liquidava +pelo assassinio as dificuldades susceptiveis de embaraçar +o movimento revolucionario. Poucos mezes depois do +regicidio, um humilde engraxador apresentava-se á policia +perfeitamente apavorado e narrava que dois republicanos +lhe tinham proposto lançar uma bomba no coche que devia +conduzir D. Manuel ao Parlamento. A declaração +era +verdadeira? Ignoro-o. Mas a policia prende os dois mencionados +instigadores, um dos quaes é fulminado por uma +congestão cerebral no gabinete do juiz. Este, quando se +prepara para colher do denunciante novos esclarecimentos, +vê o engraxador morrer envenenado n'um hospital no meio +de horriveis aflicções. O desventurado declarava +que morria +por haver dito a verdade. Por falta de provas o processo +foi archivado, o que poz de bom humor a imprensa +revolucionaria, que já se dispunha a desviar a +opinião +publica com um diversivo.</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[231]</span> +<div class="tinyl">Poucos mezes depois outro crime vem +afirmar a existencia +da seita. Alguns militares acusados de terem tomado +parte no movimento revolucionario de 28 de janeiro, foram +condenados a penas graves pelo tribunal, graças ao +depoimento +d'um sargento chamado Lima, que se insurgiu e referiu +o facto aos seus superiores. O sargento passeava um +dia em Setubal, para onde fôra transferido, quando um +revolucionario se lançou contra elle e lhe cravou um punhal +no coração. O assassino, preso quando fugia, +allega uma +historia inverosimil de rivalidade que as +investigações policiaes +desmentiram. Quanto á opinião da auctoridade e +dos +que conhecem de perto as scenas, referidas anteriormente, +da quadrilha revolucionaria, é clara e expressa: o sargento +foi condemnado á morte por ter denunciado a existencia +da conspiração. +<br /> + +<br /> + +Dois suicidios mysteriosos—um sob o comboio de +Cascaes, outro na redacção d'um jornal +revolucionario—parecem +ter intimas relações com a existencia da +Mão +Negra local. +<br /> + +<br /> + +Diz-se que os suicidas, designados para certos cometimentos, +preferiram escapar pela morte ás +intimações d'uma +implacavel organisação secreta. Não +faço aqui menção do +caso das bombas explosivas com que ultimamente pretenderam +alvejar algumas egrejas, depois da execução de +Ferrer. +Não ha provas da intervenção da +Mão Negra, mas +simples indicios de presumpção. Mas o que acabou +de +esclarecer o paiz sobre a existencia d'uma formidavel e +perigosa associação secreta foi o recente crime +de Cascaes, +a que os jornaes independentes dedicaram longas +columnas. +<br /> + +<br /> + +Vão decorridos alguns mezes depois que na +administração +das alfandegas se descobriu um importante furto de +armas, que estavam para chegar ao seu destino. A ausencia +d'um operario da fabrica de armas provou a sua responsabilidade +no furto, logo confirmada pela captura d'um cumplice—um +dos implicados na revolução republicana de 28 +de janeiro—que era o receptador das armas roubadas. +Já +a policia averiguou o destino das armas, que se reservavam, +com a complacencia de empregados aduaneiros, ao +movimento revolucionario, quando no meio dos rochedos +das arribas de Cascaes, a oito kilometros de Lisboa, se encontra +assassinado mysteriosamente o empregado da alfandega, +auctor do furto.</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[232]</span> +<div class="tinyl">Com os documentos que lhe encontraram +nas algibeiras +e com as indicações fornecidas pela familia do +assassinado, +a policia reconstituiu facilmente o crime. O pobre +empregado, vendo descoberto o furto das armas, dirigiu-se +aos que o tinham impelido e suplica-lhes que o salvem. Deram-lhe +dinheiro para transpôr a fronteira com promessa +de o sustentarem no estrangeiro e o homem refugiou-se +em Badajoz, territorio hespanhol. Mas o dinheiro falta; as +promessas não são mantidas e o refugiado escreve +aos que +o haviam levado ao crime, suplicando socorro. Como não +obtivesse resposta, ameaça-os com +declarações. A Mão Negra +destaca para Badajoz um dos seus agentes, que o conduz +a Lisboa enganado com promessas de continuar a viagem +para Africa; na primeira ocasião levam-no a Cascaes +a fim de seguir ocultamente para o seu novo destino e +matam-no, arrastando-o para o mar e precipitando-o do +alto das ribas. +<br /> + +<br /> + +O assassino foi preso na fronteira, quando tentava refugiar-se +em Hespanha, e conduzido a Lisboa, sob rigorosa +escolta. Aqui, depois de alguns dias de apertados interrogatorios, +apanhado em contradição, não sabendo +explicar +as manchas de sangue que tinha no fato, confessa finalmente +que cometera o crime,—e que, além de ser antigo +empregado n'um centro republicano, é membro da +associação +secreta a «Montanha», como os regicidas, como os +auctores dos outros crimes politicos. É a existencia da +Mão +Negra averiguada e confessada.</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[233]</span> +<div class="tinyl">Os jornaes da seita, republicanos e +revolucionarios, +perante esta sensacional descoberta, mantiveram a principio +o maior silencio; jornaes que costumavam ocupar columnas +com o mais insignificante acontecimento, evitaram, +por todos os modos, referir-se a elle. Depois, desesperados +por não poderem conservar-se calados, começaram a +agredir +violentamente e, por ultimo, a ameaçar a imprensa +independente +que, mostrando-se bem informada, se ocupou +dos factos com uma certa largueza. E, emquanto a imprensa +vermelha assim procedia, a policia vinha a saber que +os revolucionarios tinham projectado fazer evadir o preso +e teve a finura de o transferir do deposito de segurança +para uma caserna militar, onde está de sentinella +á vista. +<br /> + +<br /> + +Por outro lado, diz-se que as declarações +relativas ao +crime de Cascaes revelaram uma nova pista para a descoberta +dos regicidas e a policia afadiga-se no intuito de descobrir +e prender os membros da Mão Negra. Alguns jornaes +lembram, a proposito d'este facto, a fuga precipitada +de certa personagem para o estrangeiro. A Mão Negra +é +uma especie de comité executivo, dentro do qual se encontra +todo o elemento revolucionario. Disporá o Estado de +força para resistir a esta formidavel +organisação que +nem sequer hesita ante o crime? +<br /> + +<br /> + +A experiencia da fraqueza dos governos, que se sucederam +no poder após o regicidio, não auctorisa a +responder +tranquilamente a esta interrogação...» +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Dezembro—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +Segundo varias pessoas, ha efectivamente em +Lisboa muitas agremiações carbonarias. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Dezembro—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +O A... que se suicidou hontem tinha-se alcançado +em não O A... que se suicidou hontem tinha-se +alcançado +em não sei quanto—outros, passeiam por +essa Lisboa. Um, o M., alcançou-se em dezoito +<span class="pagenum">[234]</span> +contos. Castigaram-no reformando-o com o ordenado +por inteiro. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Conta o Columbano que a seu pae Manuel +Bordallo Pinheiro, pediu um dia um companheiro +de repartição: +<br /> + +<br /> + +—Tenho lá em casa na cocheira (do conde +de Lumiares), um quadro muito negro que queria +que você visse. +<br /> + +<br /> + +Manuel Bordallo foi buscar a tela, limpou-a +da bosta dos cavalos, lavou-a da camada de negro... +Era, nem mais nem menos, o retrato de +Carlos I d'Inglaterra, por Van Dyck, que o +D. Luiz depois comprou e está hoje na galeria +do Paço d'Ajuda. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Dezembro—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Avelino d'Almeida: +<br /> + +<br /> + +—A verdadeira razão por que o +<em>Seculo</em> se fez +republicano?... É que no Paço, das ultimas vezes +que o Silva Graça lá foi, receberam-no mal, +trataram-no d'alto. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—Um homem muito honesto o Hintze—diz +o Carneiro de Moura—um homem muito +<span class="pagenum">[235]</span> +honesto que fazia assim:—Ó Val-Flôr, +empreste-me +vinte contos.—E o Val-Flôr +emprestava-lhos—e +recebia do Estado compensações que valiam +o dôbro. Um homem muito honesto, o Hintze; +que nunca tirou dos cofres do Estado o valor de +cincoenta mil reis. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Dezembro—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +Ministerio novo. O bloco foi comido. O Alpoim +furioso, exclama, em pleno Chiado:—O +rei mentiu-nos! o rei é um imbecil! o rei tinha-nos +prometido o poder! +<br /> + +<br /> + +E o Vilaça conta: +<br /> + +<br /> + +—O José Luciano reuniu-nos hontem á +noite, +a mim, ao Beirão, ao Dias Costa, ao Moreirinha +e disse-nos:—Se os senhores estão no partido +apenas para serem pares do reino e para +que os encha de favores, isto acabou, hoje mesmo +se liquida o partido progressista. Não podem +recusar as pastas que eu lhes indicar.—Todos +se curvaram, o Vilaça, que perde dez contos por +anno, e o proprio Dias Costa, que de forma alguma +queria ser outra vez ministro. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">23 de Dezembro—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Julio de Vilhena deixou hoje de ser chefe +do partido regenerador. Conta o João Pinto +<span class="pagenum">[236]</span> +dos Santos, que o Vilhena falou ao rei de cabeça +alta, e por tal forma, que D. Manuel sahiu +afogueado d'essa ultima entrevista, dizendo a +alguem:—Só +lhe faltou bater-me... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Dezembro—1909.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Mardel é um homemzinho pitoresco e anecdotico +que conhece Lisboa como as suas mãos. +Ninguem como elle desenha um tipo ou vae ao +passado buscar uma figura. Sabe tudo e inventa +o resto. É um prazer ouvil-o. Constroe genealogias, +negoceia em <em>bric-à-brac</em> e +escreve satyras. +D'uma vez, a um figurão que se dizia filho natural +de D. Pedro IV e que mostrava desvanecido +a toda a gente o retrato do rei que tinha +na sala, perguntando:—Hein, com quem se +parece?...—escreveu +elle a seguinte quadra:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry">Do Imperador, de quem +diz que é filho,<br /> + +Tem o retrato na sala,<br /> + +Mas da p... que o pariu<br /> + +Não tem retrato nem fala... +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Encontro em casa do Mardel o marquez da +Foz, de barbas brancas e aspecto venerando, que +desata a narrar conversas extraordinarias, surprehendidas +<span class="pagenum">[237]</span> +a meninas do <em>Sacre +Coeur</em> sobre a +masculinidade dos creados... Depois fala d'arte, +de mobilia, quadros e maravilhas que comprou +e vendeu. Vive hoje arredado em Torres Novas. +<br /> + +<br /> + +—D'uma vez, quando se vendeu a mobilia +do palacio de Oeiras, dos Pombaes, os que fizeram +a liquidação, pediram-me para lhes ceder +um andar d'uma casa que eu tinha com escriptos +na rua do Ferragial, para se fazer o leilão. +Cedi e antes da praça fui lá, agradaram-me +diferentes +coisas e comprei-as. Custaram-me oito +contos. Entre varias trapalhadas iam cinco vasos +da China, cinco maravilhas, como nunca tinha +visto. Eram precisas duas pessoas para lhes pegarem. +Ao centro de cada vaso viam-se as armas +de Pombal. Quatro coloquei-os á entrada da minha +casa, o outro levei-o para a sala de jantar e +pul-o defronte d'uma estufa... Um dia reparei: +por causa do calor o verniz estalára. +Levantei-me, +olhei: sob a casca aparecia outro desenho. Tirei +com uma faca o +<em>craquelé</em>—e debaixo das +armas, +do Pombal apareceram as armas dos Tavoras! +Tão certo é que até os grandes homens +estão +sujeitos a estas miserias... +<br /> + +<br /> + +Depois trata da baixela do Paço, que no tempo +de D. Luiz estudou a fundo, e que então andava +a trouxe-mouxe pelos armarios. São peças +magnificas, <em>signé +Germain</em>, e que valem um milhar +de contos.—D'uma vez disse a D. Luiz:—Deixe-me +V. Magestade arranjar-lhe uma sala de +<span class="pagenum">[238]</span> +jantar com a <em>boiserie</em> de Queluz e a +sua baixela, +que nenhuma côrte da Europa apresenta uma +sala assim.—Ainda hoje não ha côrte +nenhuma, +nem a da Russia, que tenha uma baixela tão +rica. São mil e tantas peças admiraveis. +É falso +que lá esteja tambem a baixela do duque de +Aveiro. Vi as contas todas, photographei tudo... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—Um dia fui ao Leitão ourives, a esse +artista...—e +sorri com ironia—comprar qualquer +joia. Ia a sahir quando dei com uma prata antiga +a um canto.—Que é +aquillo?—Está alli +para derreter.—Deixem-me vêr.—Eram +três +peças +esplendidas, com as armas do duque d'Aveiro—uma +salva enorme, a que faltava um bocado +da aza, com desenhos magnificamente gravados, +e duas enormes compoteiras de prata com festões +d'ervilhas, tudo marcado, assignado, +admiravel.—São +para derreter? Então venda-m'as. Quanto +pezam?—Quinhentos mil reis.—Dou +seiscentos.—Venderam-mas, +levei-as para casa. Tinham feito +uma tentativa para lhe apagar as armas. Quando +depois as vendi deram-me alguns contos de reis. +<br /> + +<br /> + +Por fim fala de ninharias, d'isto, d'aquillo—e +d'algumas peças +que tinham pertencido +ao D. Fernando e «nas quaes alguem fez +mão +baixa»... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[239]</span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Uma anecdota que elle tem como absolutamente +autentica e que andou sempre na tradição +da sua familia: +<br /> + +<br /> + +—O D. João VI estava para morrer. O patriarcha +procurou a D. Carlota Joaquina para +a reconciliar com o rei. Recebido na sala do +throno, em Queluz, diz-lhe as palavras banaes +do costume—mas ella não cede. Pede, +suplica—perde +o seu tempo. A rainha está renitente. +Então retira-se depois das contumelias da +pragmatica—e, +ao sahir, volta-se de repente e dá +com ella a fazer-lhe um grande, um imponente, +um magestoso manguito... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Ha dias comprou por cento e cincoenta mil +reis um quadro de Alberto Durer, absolutamente +autentico e com a assignatura perfeita.—É o +<em>pendant</em> do que está no +Museu. E estou em vesperas +de comprar mais quatro, entre os quaes +um Corregio. Suspeito, pela proveniencia, que +todos estes do que está no +Museu. E estou em vesperas +de comprar mais quatro, entre os quaes +um Corregio. Suspeito, pela proveniencia, que +todos estes quadros pertenceram á galeria do +duque d'Aveiro. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[240]</span> +<div class="date">Janeiro—1910.</div> + +<br /> + +<br /> + +Contam-me hoje a morte tragica do Marianno +de Carvalho. Estava doente, de cama, e a familia +sahiu, deixando-lhe uma campainha á cabeceira. +Os creados aproveitaram a oportunidade e safaram-se +tambem. Quando voltaram foram dar +com elle morto, agarrado á campainha, n'um ultimo +desespero... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Janeiro—1910.</div> + +<br /> + +<br /> + +O juiz d'instrucção criminal, dr. Antonio +Emilio, a um amigo meu: +<br /> + +<br /> + +—No dia vinte e oito de Janeiro os soldados +apanharam junto a qualquer quartel da municipal +um homem com um caixote de bombas e +duas pistolas automaticas. Meteram-no no +calabouço—e +confessa, não confessa... o homem +nada! Então o oficial chamou um soldado e +disse-lhe:—Nós +vamos alli para a porta do calabouço +e tu diz-me a tudo que sim. Vamos lá.—E +começou:—Carrega lá essa pistola para +darmos +cabo d'esse diabo, que vinha aqui para nos +atirar bombas!—Quando o oficial abriu a porta +do calabouço o preso atirou-se-lhe aos +pés:—Não +me matem que eu confesso tudo.—Então +quem te entregou o caixote?—Foi o Alfredo +<span class="pagenum">[241]</span> +Costa.—Veio a participação para o +governo +civil—mas +só chegou ás mãos do juiz depois da +morte do rei...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="illustration"><a name="f16" id="f16"></a><img style="width: 500px; height: 615px;" alt="José Maria de Alpoim." title="José Maria de Alpoim." src="images/fig18.png" /><br /> + +<em>José Maria de Alpoim.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O juiz: +<br /> + +<br /> + +—Estamos sobre um vulcão. Prendi varios +homens das associações secretas, podia prender +mil. Já ninguem salva isto a não ser uma forte +dictadura militar. E eu vou-me embora porque +não quero incorrer nas iras populares. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O dr. Antonio Emilio ao Beirão: +<br /> + +<br /> + +—Ou vamos para a frente, ou os senhores +metam-se em casa á espera que os chacinem. +<br /> + +<br /> + +E garante que a explosão de outro dia na +Baixa, atribuida a gaz extravasado, foi devida a +uma bomba de dinamite. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Janeiro—1910.</div> + +<br /> + +<br /> + +Os brincos de brilhantes que o Pedro d'Araujo +deu á mulher do José Luciano quando o +fizeram par, custaram cem mil francos. Diz-se, +diz-se... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[242]</span> +<div class="date">Fevereiro—1910.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Paço está rodeado de piquetes. +Forças vigiam +a Tapada. Garante-se por ahi que, emquanto +os regicidas não forem presos, o rei +não casa. O Maximiliano d'Azevedo, oficial do +campo entrincheirado, conta-me que as forças +do campo foram ante-hontem (1 de Fevereiro) +postas sob as ordens do general de divisão e +com ordem de marcharem sobre Lisboa ao primeiro +aviso. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O que se diz por ahi baixinho, de ouvido +para ouvido, é tremendo. Diz-se o que <em>O +Povo +d'Aveiro</em>, que está tendo tiragens enormes, +publicou +nos ultimos numeros<sup><a href="#n9">[9]</a></sup>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[243]</span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O T..., d'<em>O Mundo</em>, disse-me que +janta duas +vezes por semana com o Alpoim, e já se tem gabado +que é elle um dos auctores do +<em>Diz-se</em>...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +O Colen, n'um jantar intimo, onde esteve +alguem que m'o conta: +<br /> + +<br /> + +—No dia vinte e oito de Janeiro estava tudo +preparado e seriamente preparado para a deposição +de D. Carlos—marinha, tropa, +organisações, +tudo. E tudo falhou porque o Afonso Costa +<span class="pagenum">[244]</span> +não quiz dar o signal sem que o João +Franco +estivesse morto. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Março—1910.</div> + +<br /> + +<br /> + +Á reunião celebre do Castello, onde se decidiu +a morte do rei, assistiram trinta pessoas. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Paçô Vieira: +<br /> + +<br /> + +—A carta que o rei escreveu ao Hintze e +que fez com que o ministerio cahisse, foi conhecida, +antes de lhe ser enviada, pelos republicanos. +Eu lhe conto: um dia estava em Paçô, +quando o Hintze me chamou. Parti logo, corri +<span class="pagenum">[245]</span> +logo a casa d'elle. Encontrei-o na sala de bilhar: +tinha um papel na mão.—Desculpe e obrigado. +Já não é necessario. Recebi hoje esta +carta do +rei que me levou a pedir a +demissão.—Repliquei-lhe:—Sei +perfeitamente o que diz essa carta. +Posso repetir-lha quasi phrase por phrase.—E +diante do espanto do Hintze:—Vim no comboio +com o Afonso Costa que me disse, palavra +por palavra, o que continha essa carta...—Assombro +do Hintze. A copia da carta fôra mandada +pelo rei aos republicanos—naturalmente +ao Bernardino—antes de ser enviada ao Hintze. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Março—1910.</div> + +<br /> + +<br /> + +Quantos Fialhos, todos diferentes, tenho conhecido +pela vida fóra! Este, de ventre e barbicha +de bode, esta figura de que os mortos +se conseguiram apoderar, agarrado á terra, conservador, +discutindo com o padre da freguezia +os melhoramentos da sua egreja, este é—emfim! +emfim!—o descendente autentico dos +cavadores alemtejanos. Custou... As suas melhores +obras—as que sonhou e nunca se resolveu +a escrever—leva-as elle para a cova... +De quando em quando ainda tem uma revolta: +<br /> + +<br /> + +—É horrivel a minha vida na aldeia. Se +não +fossem os livros já me tinha suicidado. Cada vez +preciso mais de ver gente e d'esta vida artificial +<span class="pagenum">[246]</span> +de Lisboa. Na aldeia, em Cuba, não falo com +ninguem, não tenho ninguem com quem comunicar. +São de bronze aquelles filhos da p...! E nem +a mais pequena sombra de sensibilidade. E se +imaginam que a gente não tem dinheiro, estamos +perdidos!... +<br /> + +<br /> + +—Fuja. +<br /> + +<br /> + +—Não posso. Quem me ha-de tratar d'aquillo? +E depois criei interesse ás oliveiras que plantei, +á vinha... Ah, mas as noites!... Tenho noites +em que pego n'um livro e saio. Ha uma estrada +em volta de Cuba—e eu alli ando á roda toda +a noite a falar sósinho como um condenado! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Março—1910.</div> + +<br /> + +<br /> + +Centenario d'Herculano. Missa nos Jeronymos +pelo padre Matos. O S. Boaventura diz-me +que, pela avó materna, é ainda parente de +Herculano.—Que +eram seus avós?—Pedreiros.—Efectivamente +no retrato Herculano parece um +pedreiro da minha aldeia; efectivamente Herculano +descende de pedreiros e toda a sua obra é, +na realidade, a d'um homem que moe e lavra +com solemnidade a pedra, a d'um d'esses extraordinarios +montantes que metem o ferro até á +raiz da fraga, racham o penedo, afeiçoam a +lage, e acabam, emfim, por construir a cathedral. +Herculano edificou em granito—e no granito +<span class="pagenum">[247]</span> +abriu pacientes e admiraveis lavores... A seriedade, +a obstinação, e até o amôr +á terra, ao +azeite e ao pão, seu ultimo ideal e refugio, são +caracteristicos e o ideal tambem d'essa legião +de trabalho imensa e obscura, cuja alma, á força +de lidar com a pedra, adquire dureza e grandeza +tambem. Essas figuras, só osso e pelle, descarnadas, +que partem de manhã com o saquitel +e a borôa, que só pronunciam palavras graves, e +ao dar do meio dia se descobrem e mastigam o +pedaço sêco de pão com um ar +solemne,—acabaram, +emfim, por encontrar um descendente +como elles austero e grave, capaz de exprimir o +universo—o que sentiram, o que sofreram e o +que sonharam—e capaz de edificar com alicerces +para seculos. Tudo, até a falta de phantasia +e imaginação, até o miudo lavor +pacientemente +trabalhado, até a casa simples, vulgar e +mal repartida, até a companheira, até a +austeridade, +veio a Herculano d'essa grande geração +de pedreiros portuguezes, que antes d'elle fizeram +obra digna de homens e desapareceram para +sempre no pó—mas poderam transmitir, filho +atraz de pae, a solemnidade e a grandeza, a +quem um dia erguesse uma cathedral mais vasta +e com raizes mais fundas do que elles todos +juntos. Mas todos trabalharam tambem, sabe +Deus durante quantos seculos, com tenacidade +e firmeza, para a obra do pedreiro maximo de +toda a sua geração. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[248]</span> +<div class="date">Março—1910.</div> + +<br /> + +<br /> + +José d'Azevedo: +<br /> + +<br /> + +—Anno passado o rei chamou-me e pediu-me +para votar o projecto da União Vinicola. Disse-lhe +logo:—Não, meu senhor, não voto. E V. +Magestade pede-me isso porque não sabe de que +se trata. O projecto é ruinoso. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Abril—1910.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Fernando de Serpa, agora em foco por +causa das cartas que o Afonso Costa leu no +Parlamento<sup><a href="#n10">[10]</a></sup> +e se teem publicado n'<em>O +Mundo</em>—esteve +<span class="pagenum">[249]</span> +estes dias para se suicidar. A mulher +não dorme e o irmão d'ella entrou hoje +n'<em>O Imparcial</em> e disse ao +José d'Azevedo:—Se +isto assim continua minha irmã endoidece, e +se minha irmã endoidece eu mato o Afonso +Costa.—Segundo elle, esse Fernando de Serpa +que se metia em tantos negocios, deve afinal +quinze contos de reis e tem agora os seus vencimentos +suspensos... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Porque o José d'Azevedo não foi ministro +com o Hintze: +<br /> + +<br /> + +—O Hintze tinha por mim uma grande +admiração, mas nunca me fez ministro, porque +a sua vida economica andava muito atrapalhada +e um dia em que me mostraram uma lista de +pares que elle ia fazer, entre os quaes estava o +meu nome, eu disse:—Mas isso não é uma +lista de pares—é uma lista de +credores.—Soube-o +logo e nunca me perdoou. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Quem roubou ao Paçô as celebres cartas de +que o Afonso Costa se serviu no parlamento, foi +o creado. Soube-o hoje por acaso. O Urbano +Rodrigues vendo um rapaz de dezeseis annos na +redacção d'<em>O +Imparcial</em>, disse:—Este é o creado +do Paçô, que vae muito ao +<em>Mundo</em> e pertence ás +associações secretas. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[250]</span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—O José Luciano foi sempre um homem +pernicioso—diz o José d'Azevedo. +<br /> + +<br /> + +—Emquanto fôr uma sombra ha-de +mandar—conclue +o Fuschini. E acrescenta:—Quem +manda é o seu +<em>salão</em> onde se fazem os +negocios +mais escuros e mais porcos d'este paiz. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—Esse ministro italiano que ahi +está—conta +o José d'Azevedo—foi um dos que mais concorreu +para salvar Dreyfus. Paulucci, então secretario +de legação em Paris, viu os documentos +da embaixada e convenceu-se da inocencia +de Dreyfus. Falou ao embaixador, seu tio, +que lhe disse:—Prohibo-te que te metas +n'isso.—Não +se importou. Procurou Bernard Lazare, +que o recambiou para o José Reinach.—Isso +é +extraordinario. Vamos ter com Max Nordau e +com Zola.—Reuniram-se e examinaram os documentos +da legação italiana. Dos papeis não +só +se deprehendia que era outro o traidor, mas resaltava +nitida e clara esta preciosa informação: o +adido encarregado da espionagem alemã possuia +a esse respeito vinte e nove cartas absolutamente +decisivas. Max Nordau partiu para Berlim +e pediu ao imperador da Alemanha a publicação +das cartas. O imperador opoz-se. Paulucci não +desanimou: foi a Roma, bateu á porta d'um cardeal, +<span class="pagenum">[251]</span> +pediu-lhe que o partido catholico tomasse +a defeza de Dreyfus inocente, o que assegurava +ao catholicismo um papel triumphante no mundo; +falou emfim a Leão XIII, a quem só arrancou +boas palavras. (E d'ahi veio o combate da +França republicana contra o clericalismo. Que +outro não seria o papel da Egreja se Leão XIII +se manifesta!) Nem assim Paulucci desanima. Insiste +com o tio:—Pois meu tio tem nas suas +mãos documentos que provam a inocencia de +Dreyfus e pode dormir descançado! Apresento-me +como testemunha.—O embaixador conseguiu +que todos os secretarios fossem testemunhas +no processo. Paulucci tinha doze mil e setecentos +documentos (copias) da questão Dreyfus, que arderam +no ultimo fogo da embaixada italiana no +campo de Santa Clara. Paulucci dizia muitas vezes:—Andei +dois annos com febre! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +José d'Azevedo: +<br /> + +<br /> + +—Fui eu que machinei e atirei com o ministerio +Ferreira do Amaral a terra. Tinha-me +feito um agravo que, se é directo, m'o pagava +n'um conflicto pessoal. Fui eu que fiz tudo. O +José Luciano não queria. Procurei-o na Anadia. +Obstinava-se. Mas eu fui ao Porto—e venci. +Uma tarde o Campos Henriques recebeu uma +carta do Paçô, que encontrára o Tavares +Festas +no comboio (o Tavares Festas vinha de casa do +<span class="pagenum">[252]</span> +José Luciano), carta em que lhe dizia: «Ouvi que +vae formar ministerio com estes nomes...» O +Campos Henriques mostrou a carta á mulher:—Olha +o que me diz o Paçô...—E riu-se. No +dia seguinte era chamado ao Paço e organisava +o ministerio, tal qual o Paçô lhe dizia +na carta. Ordens de José Luciano. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">1 de Maio—1910.</div> + +<br /> + +<br /> + +José d'Azevedo diz a respeito do escandalo +do Credito Predial:—Não são sessenta +contos +que faltam, são oitocentos! A escripta está toda +viciada. Venderam-se obrigações, deram-se juros +entrando-se pelo capital, emfim um descalabro +medonho, que se não podia fazer sem +auctorisação dos governadores. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +É um politico reservado e frio? Não sei. +É +um homem audacioso e inteligente, que parece +calmo. Mas ha n'elle uma parte em carne viva. +Sente-se a ferida sob aquella aparencia forte. Escreve +sem uma emenda, linguado atraz de linguado; +nem hesitações nem duvidas e um prazer que +synthetisa n'estas palavras:—Babo-me... Não +escrevo, +babo-me...—Não crê senão em +si mesmo, +e não deve ter um amigo, como todos os que +<span class="pagenum">[253]</span> +contam apenas com as suas proprias forças. A +mulher d'um diplomata que viajou com elle, dizia:—As +maneiras encantaram-me, os olhos meteram-me +medo.—São os olhos dos Brocas. +<br /> + +<br /> + +—Sou das raras pessoas que teem assistido +ao suplicio dos chinezes. Fui com o meu creado, +a cavalo—e por signal que elle desmaiou. Cortam-lhes +primeiro a carne dos ante-braços, depois +a das pernas, depois os seios, depois os +braços e as pernas pelas articulações; +dão-lhes +emfim um golpe no coração e acabam por os +decepar. Pois durante todo o suplicio atroz, os +desgraçados não deram um unico grito, um +só +gemido: erguiam a cabeça e bufavam ou mijavam-se. +Mais nada. Um d'elles prestou-se, sorrindo, +a que o photographassem, emquanto o +carrasco levantava a espada para o degolar... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Uma phrase camilliana de uma tia, irmã de +Camillo:—Sobrinho, Deus não existe... ou embarcou! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +E esta de Camillo, que tinha vindo a Lisboa +muito doente, e a quem Souza Martins, para o +sacudir, começou ralhando muito. Camillo, para +o José d'Azevedo, depois do medico sahir: +<br /> + +<br /> + +—Vê, meu sobrinho, vê, não me +perdoam o +<em>Eusebio Macario</em>, estes filhos de +boticario! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[254]</span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Camillo para o José d'Azevedo, mostrando-lhe +o filho, que já estava no primeiro periodo de +loucura:—Veja esse desgraçado... Era um rapaz +inteligente...—E depois d'uma pausa dolorosa:—E +tudo isto porquê, sobrinho? Por ter lido as +obras do Theophilo Braga. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Junho—1910.</div> + +<br /> + +<br /> + +Nos quarteis continua a fazer-se uma larga +propaganda republicana. Distribuem-se aos soldados +versos e folhetos. Exemplo: +<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="text-align: center;">PROPAGANDA +ELEIÇOEIRA<br /> + +DO BLOCO PREDIAL<br /> + + <br /> + + <div class="sbreak"> + <hr /></div> + + <br /> + +(Musica—A MARSELHEZA) </td> + + <td align="left" valign="top">||<br /> + +||<br /> + +||<br /> + +||<br /> + +||<br /> + +||<br /> + +||<br /> + +||<br /> + +||<br /> + +||<br /> + +||<br /> + +||<br /> + +||<br /> + +||<br /> + +||<br /> + +||<br /> + +||<br /> + +||</td> + + <td>Ide escravos quebrar os grilhões, <br /> + +As algemas da fome homicida; <br /> + +Armas promptas contra esses ladrões, <br /> + +Que nos roubam a bolsa e a vida! (bis) <br /> + +Nova aurora de Paz, Redempção, <br /> + +Vá doirar nossos valles e cerros, <br /> + +Libertando os captivos dos ferros, <br /> + +Dando aos pobres a luz e o pão.<br /> + + <br /> + + <div class="quote2">Avante! Lusitanos! <br /> + +Largae a servidão!</div> + + <div class="quote3">Unir! Unir! contra os tyramnos,</div> + + <div class="quote2">Salvemos a +Nação! <br /> + +Avante Lusitanos, <br /> + +Salvemos a Nação.</div> + + <br /> + + <br /> + + <div class="quote1">Tareco.</div> + + </td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[255]</span> +E o folheto «Os Barbadões»<sup><a href="#n11">[11]</a></sup>: +<br /> + +<br /> + +<div class="tinyl">«O rei D. João I +da gloriosa dynastia de Aviz, +enamorou-se +da filha de Pero Esteves, sapateiro alemtejano, conhecido +pela alcunha <em>O Barbadão</em>; d'estes +amores nasceu +um filho que foi conde de Barcellos e primeiro duque de +Bragança; casando este com uma filha do condestavel +Nun'Alvares, deu origem á nobre casa que ha 267 annos +reina em Portugal. +<br /> + +<br /> + +A casa de Bragança foi-se engrandecendo á custa +de +doações regias, bens nacionaes que os reis cediam +em usufructo +apenas, e que o capricho do soberano ou a conveniencia +do Estado, podiam fazer voltar ao seu legitimo +proprietário: <b>A +Nação</b>. +<br /> + +<br /> + +Não foram os serviços relevantes que +engrandeceram +esta casa, mas as intrigas continuas, salientando-se entre +todas a que levou o glorioso infante D. Pedro á chacina +de Alfarrobeira. +<br /> + +<br /> + +Com a revolução de 1640 que libertou Portugal do +jugo da Espanha, o oitavo duque de Bragança foi aclamado +rei com o nome de João IV; beato e poltrão +liga-se aos jesuitas, +e para salvar a pelle e o titulo de rei, não hesita em +negociar por intermedio do padre Antonio Vieira (jesuita) +a entrega do seu paiz á França, ou novamente +á Espanha, +a troco de o reconhecerem como rei do Brazil; a sua pessoa +era tudo, o seu paiz era nada. Os melhores servidores +do Estado foram lançados em prisões ou conduzidos +ao cadafalso +(o ministro Lucena, o marquez de Montalvão, Mathias +d'Albuquerque vencedor de Montijo, etc.). O seu +reinado foi coroado pelo presente que fez á Inglaterra, +como dote de sua irmã, das cidades de Bombaim e Tanger, +ricas flores de laranjeira que a infante portugueza levou +prezas ao seu vestido de noiva!</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[256]</span> +<div class="tinyl">Seu filho <em>Afonso VI</em> +que no throno +lhe sucedeu, corria +de noite as ruas da cidade, com a sua purria fidalga, assaltando +os cidadãos indefezos; era doido, e d'isso se aproveita +seu irmão <em>Pedro II</em> para +lhe tirar a corôa e... a +mulher, com o consentimento do papa; este (Pedro II) dominado +pelos jesuitas tambem, desterra o conde de Castello +Melhor, glorioso ministro (que por tres vezes salvou +Portugal da dominação espanhola), e celebra com a +Inglaterra +o vergonhoso tratado de Methwen, que nos tira o comercio +do Oriente e nos impossibilita de montar fabricas +e oficinas. +<br /> + +<br /> + +<b>João V</b> que lhe sucede, +gasta o oiro que do Brazil lhe +vem, na construção de conventos, em festas de +egreja e +em presentes ao padre santo; deixa perder sem enviar socorros, +as nossas colonias da India, Ceylão e Oceania, porque +o dinheiro era pouco para presentear as freiras de +quem fez amantes e o papa de quem se fez lacaio. +<br /> + +<br /> + +<b>José I</b> faz morrer no cadafalso toda a +familia Tavora, +por meio de horriveis tormentos, com o pretexto de serem +cumplices na conspiração do duque de Aveiro, o +que se +não provou, sendo a causa verdadeira a +oposição que essa +familia fazia aos seus amores adulteros com a marqueza; +nada escapou ao seu furor sanguinario: nem velhos, nem +mulheres, nem creanças. Para dignamente coroar o seu +reinado, +abandona aos mouros as cidades que possuiamos em +Marrocos, e que tanto sangue portuguez custaram.</div> + +<br /> + +<div class="illustration"><a name="f17" id="f17"></a><br /> + +<img style="width: 500px; height: 631px;" alt="Teixeira de Sousa." title="Teixeira de Sousa." src="images/fig19.png" /><br /> + +<em>Teixeira de Sousa.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[257]</span> +<div class="tinyl"><b>Maria I</b> tira o poder +ao Marquez de +Pombal, entrega-o +aos frades e endoidece; seu filho <em>João +VI</em> que em seu nome +governou e lhe sucedeu, foge covardemente para o Brazil +abandonando o povo de que era rei, quando os francezes +invadiram o paiz; Junot entra em Lisboa á frente de 70 +soldados!!! Portugal revolta-se contra os francezes, e o rei +entrega-o aos desprezos de Wellington e ás brutalidades +de Beresford; os inglezes protegendo-nos, fazem-nos peor +mal que os invasores: arrazam as nossas provincias, queimam +as nossas fabricas, conquistam a Madeira, e impõem-nos +os vergonhosos tratados de 1810, ainda peores que o +de Methwen. O general Gomes Freire, por tentar libertar +o paiz das garras inglezas, é enforcado em S. +Julião da +Barra; outros 17 martires pagam com a vida, no Campo de +Sant'Anna, a sua dedicação patriotica. A +revolução popular +de 1820 salva Portugal do leopardo britanico, obriga o +rei a voltar ao seu posto e liberta o exercito do oprobrio de +ser comandado por oficiaes inglezes. +<br /> + +<br /> + +<b>D. Miguel</b> foi quem primeiro +estabeleceu em Portugal +um governo de força, á semelhança do +que desejam actualmente +alguns idiotas barriguistas; nada lhe faltava: as alçadas, +as forcas, o cacete, 80.000 homens de tropa e um +povo fanatico e imbecil; contra si, em todo o paiz, apenas +tinha alguns liberaes desarmados; o seu retrato figurava +nos altares, e as mães pediam-lhe a honra de lhes desflorar +as filhas. Prende, enforca ou manda fuzilar toda a gente de +que suspeita, mas com toda a sua força, deixa que uma +esquadra +estrangeira lhe escarre na cara e no Paiz, sem que +um só tiro partisse a repelir a afronta. Este idolo poderoso +cahe do seu pedestal de sangue, é corrido do +throno pela +<em>revolução</em> +triumphante; seu numeroso exercito +pouco a pouco o foi abandonando, vindo para o +lado do povo liberal, e o bronco tigre que ao começar +a guerra civil tinha 80.000 homens ás suas ordens, perde +a batalha de Asseiceira com os 5.000 homens unicos +que até esse momento lhe ficaram fieis. +<br /> + +<br /> + +<b>Pedro IV</b>, o que tem estatua no +Rocio, revolta o Brazil +contra Portugal, faz-se seu imperador e manda fuzilar +no Rio de Janeiro os soldados portuguezes á +traição; corrido +do Brazil, volta a Portugal a tentar fortuna, dirigindo +a guerra civil contra o irmão; emquanto esta se +não decide +a seu favor, não tem vergonha de offerecer á +Inglaterra, +em troca de auxilio desta, o pouco que nos restava do nosso +imperio indiano.</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[258]</span> +<div class="tinyl"><b>Maria II</b> para se +aguentar no throno +chama marujos +inglezes e 30:000 soldados de Espanha; faz invadir a sua +patria e assassinar o seu povo, para satisfação +do seu orgulho +de rainha <em>liberal</em>. +<br /> + +<br /> + +<b>Pedro V</b> não poude passar +sem irmãs de caridade, e +deixa que mansamente de novo se estabeleçam entre +nós +as congregações religiosas; novamente, um +almirante estrangeiro +(Lavaud) nos faz o mesmo que Roussin fizera em +tempo de D. Miguel. +<br /> + +<br /> + +<b>Luiz I</b> arvora o cynismo em governo e +faz reinar a +bandalheira; deixa que na conferencia de Berlim nos roubem +a maior parte do nosso territorio Africano, e conduz +o paiz á bancarrota que estala pouco tempo depois da subida +ao throno de seu filho <em>Carlos</em>. Este, +esbofeteado pela +Inglaterra, curva-se rasteiramente, chama piolheira á +nação +que lhe paga, e... rouba-a; rouba-lhe o seu dinheiro e +rouba-lhe a liberdade; no seu reinado perdemos vastos +territorios nas nossas colonias de Moçambique, Angola e +Guiné. O seu ultimo ministro João Franco, que +queria pôr +tudo isto no <em>xão</em> atirou +com elle ao chão. Seu filho <em>Manuel +II</em> +que lhe succedeu, com sua bella e radiosa mocidade, +já deu a seu povo uma explendida amostra do muito amor +que lhe tem: a chacina de 5 de abril (14 mortos e 100 feridos!); +em troca o seu primeiro ministerio entendeu que o +povo lhe devia dar mais ordenado; ainda não roubou como +o papá, mas paga-se melhor; passa a sua vida de rozario +na mão, envergando a roupêta de jezuita, seguindo +os conselhos +das fraldas femeninas reaccionario-palatinas.</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[259]</span> +<div class="tinyl">Até hoje 14 reis da +casa de Bragança teem governado +o Paiz, e como se vê são os legitimos +representantes duma +nação de idiotas, barriguistas e +poltrões; tambem não resta +duvida que esta dynastia é, como tem sido, a mais solida +garantia +da integridade do nosso imperio ultramarino. Grandes +são os beneficios que a Nação lhe +deve: uma divida +colossal de <b>oitocentos mil contos</b>, +nenhumas industrias, +nenhum commercio, uma agricultura atrazadissima, um +povo tuberculoso e analphabeto, esmagado com impostos +á mercê dos pontapés estrangeiros; nem +exercito nem marinha; +estradas ao abandono e bufos com fartura, taes são +as fontes de riqueza que os Braganças nos deixam, e tudo +isto por pouco dinheiro, baratinho: <b>365 +contos</b> por anno só +para elle, mais <b>60 contos</b> para a +mamã, <b>outros 60</b> para a +vóvó e <b>16</b> para +o titi; tem tambem para alfinetes <b>160 +contos</b> +a mais por anno que o generoso Amaral lhe deu, pagamos +tambem á sua guarda real de archeiros, á +orchestra da sua +real Camara, e ao seu yacht, e como isto é pouco, damos-lhe +dinheiro pela honra que nos faz em alojar os seus cavallos e +carros nas nossas casas e pela licença que nos deu de +utilisarmos +em serviço do Estado os nossos palacios; tudo isto, bem +entendido, nada tem com os rendimentos da casa de Bragança +que disfructa. Quando casar, se S. M. nos der essa felicidade, +dar-lhe-hemos mais <b>60 contos</b> para os +alfinetes de sua +esposa; e se tiver meninos? então morreremos de alegria +e daremos <b>20 contos</b> annuaes por cada +pimpolho. +<br /> + +<br /> + +Como veem, não é pagar cara a certeza que temos +de +ganhar o reino do ceu pela mão do nosso radioso soberano, +com a benção de Pio X, as indulgencias de Merry +del Val +e as preces solemnes do sr. patriarcha e do reverendo bispo +de Beja. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Oliveira Martins, que foi ministro de D. Carlos, diz na +sua historia de Portugal: Força é reconhecer que +na familia +dos Braganças não vingou a semente da nobre +raça dos +Nun'Alvares; viu-se em todos elles a descendencia do +crasso sangue alemtejano da filha do +<em>Barbadão</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +<b>Portuguezes!</b> façamos votos pela +conservação +d'esta +gloriosa +dynastia—<b>Oremos</b>—<b>Padre +Nosso</b>—<b>Ave-Maria</b>. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[260]</span> +<div class="date">Junho—1910.</div> + +<br /> + +<br /> + +Fui hoje a casa do Fernando +Martins de +Carvalho consultal-o. Não sae ainda com medo +aos republicanos. É +pequeno, inteligente, arguto. +Está livido. +<br /> + +<br /> + +—A rainha D. Amelia é que quiz +forçosamente +que o ministerio João Franco fôsse abaixo +e até se opunha a que se lavrassem os decretos +como habitualmente. +<br /> + +<br /> + +—E o rei? +<br /> + +<br /> + +—O rei, como dizia o Totenbach, não é +um +homem... Oh, vivemos dias horriveis! Olhe, tenho +provas moraes absolutas de que os republicanos +quizeram assassinar o João Franco, quando +elle viesse de Carnide no automovel. Ha na estrada +uma azinhaga: de repente uma carroça +surgia, fazia parar o automovel e os assassinos +cahiam-lhe em cima... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="date">Julho—1910.</div> + +<br /> + +<br /> + +Do João de Menezes: +<br /> + +<br /> + +—Possuo documentos (que hão-de aparecer +a seu tempo) e que provam que foi a rainha +D. Amelia, d'acordo com a condessa de Paris e +a duqueza de Monpensier, quem introduziu as ordens +religiosas no paiz. Foram ellas que deram +dinheiro para jornaes e o resto. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[261]</span> +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +A dissidencia, o assassinato do rei, o caso do +Credito Predial, foram golpes profundos e certeiros +vibrados na monarchia. Está efectivamente +tudo minado... E os ataques dos republicanos ao +juiz de instrução criminal demonstram que elle +lhes tocou na ferida... Mas quem ha ahi que se +queira comprometer a serio pela monarchia, +sobretudo depois do exemplo de João Franco?—A +um ministro foi preciso escrever-lhe uma +ordem necessaria «porque a mão lhe +tremia...» +O que resta de pé não passa de +ficção. Quem +manda, quem governa, mesmo na oposição, +são +os republicanos, que o Alpoim leva pela mão +até ás questões +importantes.—O +exercito é nosso.—E +o João Chagas, para convencer um oficial incredulo, +manda desfilar certa noite no Rocio os soldados +d'um regimento, que, por senha, um a um +lhe fazem todos a continencia. Sucedem-se os +governos, mas a força é outra, que se sente por +traz do scenario... O José d'Azevedo +desafia-os:—Venham +para a rua!—Fiado em quê? +O pacto de Vila Viçosa efectivamente existe?<sup><a href="#n12">[12]</a></sup> +<span class="pagenum">[262]</span> +Já o João Franco dizia tambem com +arrogancia:—Se +podem fazer a republica façam-na depressa, +porque d'aqui a dois annos garanto-lhes que a +não fazem.—Mas será este rei um +chefe?—pergunta +necessaria e decisiva, a que os proprios monarchicos +respondem d'esta forma n'<em>O Liberal</em>: +<br /> + +<br /> + +<div class="tinyl">«O rei de Portugal +está exautorado, +está reduzido a +uma chancella de quem lhe bate os pés. +<br /> + +<br /> + +«Podia ser um rei, e é um simulacro da realeza. +</div> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p263" id="p263">[263]</a></span> +<div class="tinyl">«Em tempo algum se curvaram +os reis perante +ameaças +de qualquer natureza e ainda menos, quando tendentes a +esquecer os nossos protestos e juramentos a que está ligada +a propria dignidade e a honra de uma nação. +<br /> + +<br /> + +«Póde asseverar-se que o snr. D. Manuel +não chegou a +ser rei. No momento em que se <a href="#e2">esqueceu</a> +do +que devia á +sua dignidade de nós todos, <b>que lhe +confiamos um cargo, +que é incapaz de conservar sem o deixar cair, o snr. +D. Manuel deixou de ser rei</b>». +</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[264]</span> +A excitação politica não tem +diminuido, e o +Teixeira de Souza, no poder, ignora tudo que o +juiz d'instrucção repete a quem o quer +ouvir:—Estamos +sobre um vulcão!—A audacia dos +republicanos todos os dias augmenta:—Lisboa +é nossa!—exclama o Chagas.—Se os +republicanos +fizessem um comicio ao alto da Avenida +e viessem por ali abaixo, a republica estava +feita!—afirma o Silva Graça—E o Porto e +a +provincia?—pergunto +<span class="pagenum">[265]</span> +eu ao Chagas.—Que me +importa a provincia! Que importa mesmo o +Porto! A republica fazemol-a depois pelo telegrapho.—Outro +diz-me:—A marinha está toda +comnosco. Tem havido ocasiões em que a esquadrilha +do Algarve nos pertence desde o oficial +mais graduado até ao ultimo fogueiro. O dificil +tem sido contel-os...—Todos os dias corre um +boato e a agitação popular augmenta pela carestia +da vida<sup><a href="#n13">[13]</a></sup>. +Que vae sahir d'aqui? Uma +<span class="pagenum">[266]</span> +grande revolução, o terror, +mortes?...—Não, +soceguem, quando se fizer a republica—já o +anunciou ha annos o pontifice maximo Guerra +Junqueiro—o que se ha-de ouvir não é um +grande ruido de espadas, é um grande ruido de +talheres... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c4" id="c4"></a>A +SOCIEDADE ELEGANTE +</h3> + +<br /> + +Rodeiam a rainha o Figueiró e a Figueiró, e +algumas relações intimas da Figueiró e +Sabugosa; +e o rei o Ficalho, alguns velhos em oficio +na côrte, como o marquez d'Alvito, o conde de +Villa Nova de Cerveira, que, ao que se disse, +morreu por ser preterido pelo conde de Sabugosa, +por influencia da rainha—o que é redondamente +falso: D. Pedro de Noronha, vulgo o Paço +d'Arcos, morreu de velho. Era um homem sem +cultura, e tinha oitenta e seis annos quando foi +preciso nomear novo mordomo mór por morte +do Ficalho. Acompanham o rei no yacht o Fernando +de Serpa, o Manuel Figueira, o Pinto +Basto (Nico), o Malaquias de Lemos, o Queiroz, +que passou por ser a alma danada do paço; +e que na realidade tinha um certo geito para +disciplinar soldados, montar a cavallo, dirigir esperas +de touros—e mais nada; algumas vezes o +major Santos, feitor da Bacalhôa, e o +Soveral +que, quando estava em Lisboa, era o menino bonito +<span class="pagenum">[268]</span> +da corte, onde tinham influencia o Bernardo +Pindella, o Caldeira, comandante do yacht, e poucos +mais. +<br /> + +<br /> + +A seguir ao paço podem citar-se os Palmellas, +em casa de quem se dava beijamão aos creados +e ás creadas, se isto não é uma lenda +como muitas +outras... Era uma pequena corte. Ella, a duqueza, +viveu sempre entre coisas bellas; elle, o +duque, era um apagado guarda livros<sup><a href="#n14">[14]</a></sup>. +Só recebiam +raros parentes, e a duqueza toda a vida +detestou os Sousa Holstein. No tempo de D. +Luiz ainda muita gente nobre mantinha uma +grande linha, que se foi pouco a pouco apagando: +os Penafieis que então fizeram uma vida +brilhante; o marquez de Vianna cujo palacio se +vendeu ao marquez da Praia.—Aquella gente +nem sabe acender um lustre, dizia o velho marquez +ao falar d'«esses morgadotes da ilha...» +Os condes de Lumiares davam bellas festas no +palacio quasi pegado, onde é hoje o do Marquez +da Fóz. Abriam-se as janellas, apagavam-se os +milhares de lustres e continuava-se a conversa +ate á missa das almas na capella proxima. +<br /> + +<br /> + +Chamavam-se essas festas «rosas divinas». +<span class="pagenum">[269]</span> +Debutou ahi, nas salas de Lisboa, o snr. Luiz de +Soveral. No rez do chão do mesmo palacio +davam pequenas partidas os Castellos Melhor. +Tocava o seu amigo Bomtempo e juntavam-se +alguns politicos, entre os quaes o Manuel Vaz +Preto. No fim do reinado de D. Luiz já a maior +parte dos palacios de Lisboa ou tinham sido +alugados ou mudado de dono. No palacio de +Tancos estava o colegio do dr. Sicuro; nos +dos viscondes de Asseca instalou-se o visconde +de Ouguella e depois uma fabrica; o dos condes +de Murça transformou-se n'uma escola; o +do marquez de Abrantes—que ocupava apenas +um recanto—foi alugado pela legação da +França; o dos condes Barão, no largo do mesmo +nome, passou a uma familia de judeus, barão de +Villa de Foscôa; o dos Almadas Carvalhaes, senhores +d'Ilhavo, á Empreza Editora; no do conde +da Ribeira, de quem o rei dizia que era o homem +mais honesto do seu tempo, e que morava +na casa dos Mordomos, instalou-se o colegio Arriaga. +Já os Angejas, representados pelo conde +de Peniche, tinham deixado o palacio de S. Lazaro, +que depois ardeu, e o visconde de Sampaio +mudára para a rua de S. Vicente. Os +condes Valladares e Povolide haviam vendido +ao snr. Burnay o palacio das Portas de Santo +Antão e retirado para a provincia. O palacio +dos condes de Paraty é hoje escola municipal, +no dos condes da Ponte, á Boa Morte, +<span class="pagenum">[270]</span> +habitou o general Palmeirim, e no dos condes +de Farrobo móra o snr. Monteiro Milhões, que +tambem comprou as Laranjeiras, vendidas depois +successivamente até cahirem nas mãos do +snr. conde de Burnay. O palacio dos Castellos +Melhor passou ás mãos do marquez da +Fóz, que +alli deu algumas festas sumptuosas. Mas a mais +brilhante, a que deixou grande impressão na +gente da epoca, foi o celebre baile das Chagas, +na antiga residencia, antes de mudar para o +palacio da Avenida. N'esse baile se exhibiram +todas as preciosidades que o marquez adquirira—quadros, +baixelas Germain, etc. Romperam-se +os tectos da sala de baile, para se construir uma +galeria onde tocaram os musicos, acompanhados +pelo côro de S. Carlos. Ahi começou tambem o +marquez a arruinar-se. Gastou, gastou... Só as +grades de ferro do corrimão do palacio da Avenida +custaram noventa e cinco contos. O marquez +chegou a ter cem contos de renda. +<br /> + +<br /> + +Muitas outras familias ilustres ocupavam, retiradas +da vida mundana, os seus palacios: o +conde de Alcaçovas, na rua da Cruz dos Poiaes, +o marquez de Pombal na rua Formosa, os marquezes +de Penalva, etc. Os condes de Sabugosa, +n'uma residencia que o conde tornou encantadora, +recebiam ainda com brilho. Na rua Formosa +existia tambem o salão da snr.<sup>a</sup> D. +Maria Kruz +Brito, que no seu genero foi o unico comparavel +aos salões da Restauração e +2.º +Imperio, de +<span class="pagenum">[271]</span> +Paris. Sua filha, a senhora condessa de Ficalho, no +solarengo palacio dos Mellos de Serpa, aos Caetanos, +reunia a fina flor da elegancia em certos +dias da semana (segundas-feiras). É o palacio +ainda hoje ocupado pela senhora D. Maria de Mello, +condessa de Ficalho. O destruido e inhabitavel +palacio da Rosa, solar dos viscondes de Villa +Nova de Cerveira, marquezes de Ponte de Lima, +resurgiu pelos esforços do actual marquez de +Castello Melhor, visconde da Varzea pelo seu +casamento com a herdeira das casas Castello +Melhor e Ponte de Lima, e alli se deram e dão +esplendidas festas. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Citam-se como as mulheres mais lindas d'essa +epoca—fim do reinado de D. Luiz e principio de +D. Carlos—a duqueza de Palmella, a condessa +de Penamacôr, a condessa de Ficalho, a condessa +de Villa Real e Mello, e a formosissima D. +Anna de Sousa Coutinho, filha do Conde de +Linhares, portanto neta da Senhora Infanta D. +Anna de Jesus Maria, dama da rainha, e pelo +espirito, pelo talento, a condessa de Rio Maior +(mãe), a marqueza sua nora, filha dos marquezes +de Bemposta Sub-Serra (Saint Leger) e tantas +outras sumidas ou desaparecidas no turbilhão +da vida. +<br /> + +<br /> + +Uns pobres, outros mortos, outros arredados, +deram logar a esta sociedade mais mesclada, +<span class="pagenum">[272]</span> +a gente de dinheiro, a gente que enriquece, +alguns nobres de mistura, alguns fidalgotes +feitos á ultima hora, e a uma certa roda que se +diverte, citada nos jornaes, e que constitue em +toda a parte o que se chama a sociedade elegante. +Uma senhora de espirito dividia a sociedade +portugueza em aristocracia, <em>smart +set</em>, alto +pirismo (pirismo, é claro, vem de Pires), baixo +pirismo e povo. «Esta ideia veio-me—diz +ella—d'uma +visita que recebemos um dia e que muito +nos impressionou: num grupo d'automobilistas +do Monte Estoril nossos conhecidos, tinha vindo a +F..., aquelle sitio apartado á beira-mar, +onde já o nosso pae costumava passar o verão, +uma menina da boa sociedade de Cascaes. Essa +menina, dizia minha irmã cheia de extranhêza, +que nunca tinha vindo áquella casa, esteve durante +toda a tarde exclusivamente a namorar um +dos taes automobilistas, e nem antes nem depois +nem nunca, esboçou para com os donos +da casa um leve sorriso de agradecimento! Porquê +n'uma menina tão fina tanto «falta de +chá!...»? Porquê, entre ellas, e as +meninas finas +nossas conhecidas com mais intimidade, tamanha +diferença?... Foi assim por +comparações +estabelecidas e deduções tiradas, que concluimos +em dividir as classes da sociedade actual +em aristocracia, <em>smart set</em>, +<em>alto pirismo</em>, <em>baixo +pirismo</em> +e povo. +<br /> + +<br /> + +É inutil explicar o que se entende por aristocracia +<span class="pagenum">[273]</span> +e povo. Cada uma dessas classes, no +seu extremo oposto, está suficientemente definida +por sua propria natureza. <em>Baixo +pirismo</em> +é nome novo para a baixa burguezia, classe de +que tanto, com tanta graça, e tanta verdade, se +ocupou Gervasio Lobato. <em>Alto +pirismo</em>... alto +pirismo, somos nós, por exemplo, as manas da +descoberta, muito bem acompanhadas por todas +as nossas amigas e por quasi todos os nossos +conhecimentos, mais ou menos endinheirados (ha +de tudo!) de maior ou menor bom gosto e cultura. +Classe numerosissima, em que está incluida +toda a boa gente que cuida de ser bem educadinha +e agradavel e que trata de sustentar, por +um alevantado valor civico—que muitas vezes +é inconsciente...!—as regras, os preconceitos, as +convenções, de que uma sociedade bem organisada +não pode prescindir. +<br /> + +<br /> + +Ha alguns grupos no alto pirismo, muitissimo +agradaveis—se n'elle incluimos tanta gente!...—em +que se cultiva ainda a boa conversa, +em que, sem sombra de pedantismo, se discutem +livros, ideias, arte, e em que ninguem sente saudades +de jogar o bridge. Mas ha outros grupos, +em que nas festas os homens não estão na +mesma sala em que estão as senhoras, festas +em que só dança, e pouco, a gente muito nova, +e em que as meninas, nada interessantes, mas +com aquelle ar de timidez e de recato, que tanto +agrada aos portuguezes á volta d'uma viagem +<span class="pagenum">[274]</span> +pelo extrangeiro, namoram pelos processos archaicos, +sob os olhares mais ou menos adormecidos +da mamã. Festas essas em que, a alturas tantas, +nós, com a certeza absoluta de que o relogio +está parado, começamos a sentir verdadeiro odio +pelas begonias artificiaes—ainda se encontram!—que +ornamentam a étagère, e que cresceram em leque +de dentro d'uma especie de musgo sêco, muito +mal imitado; festas em que só pela muita +fôrça +da boa educação recebida nos obrigamos a trocar +umas palavras vazias de interesse por uma +contorsão dificil e dolorosa do corpo, com a senhora +gorda que está sentada no +<em>borne</em> atraz +de nós! (Tambem ainda se encontram muitos +<em>bornes</em>!!) +<br /> + +<br /> + +São estes grupos do alto pirismo, é preciso +dizer a verdade toda, que nos enchem precocemente +a cabeça de cabelos brancos. +<br /> + +<br /> + +A <em>smart set</em> (cá +está a tal menina que apareceu +na F...) foi certamente organizada em Cascaes. +Deve ter nascido na Parada...—e foi fundada provavelmente +por um pequeno grupo de aristocratas +neurasthenicos e comodistas, aos quaes logo, +muito contentes, se agregaram por facilidades +de convivencia e porque os souberam imitar, +alguns membros do alto pirismo. Hoje é uma +classe bastante numerosa e certamente a mais +<em>chic</em>. Distingue-se das outras por +varias coisas; +por exemplo: desprezo absoluto pela prudente +instituição do «chaperon» +(esses entreteem-se +<span class="pagenum">[275]</span> +com o bluff)—desprezo absoluto pelas boas +maneiras, pela cortezia corrente (só se cumprimentam +as pessoas que passem perto e essas +mesmas com marcada indiferença)—ignorancia +completa das regras da gramatica (isso seria +«falar dificil»!) e da orthographia. Cultivam +só o corpo diplomatico e a religião; vestem +bem, jogam muito, dançam muito e bem, e +flirtam na perfeição. Votaram ao ostracismo +algumas palavras que nós dizemos e que são +<em>pessidonias</em> como: chavena, trem, +pharmacia, carnaval +etc. etc. etc. Tratam-se todos por +«você»; +alguns teem muita <em>piada</em> e usam todos +um ar +muito <em>chateado</em>. (É da +praxe, o calão.) A <em>smart</em> +diverte-se... mas não sabe sorrir». +<br /> + +<br /> + +Esta sociedade, que anda todos os dias nos +jornaes, vem do alto até baixo, da aristocracia ao +povo, forma uma lista infindavel, tem um chronista +celebre, o snr. Luiz Trigueiros, e pode ser vista ás +tardes no <em>Dia</em> e de manhã +no <em>Diario Nacional</em>. +Dessa lista destaca outro informador algumas +senhoras: Branca de Gonta Colaço, poetisa +distincta, voz de ouro, herdada do pae, bonita +a valer e sempre apaixonada pelo marido, +o artista Jorge Colaço; Magdalena Trigueiros +de Martel Patricio, pequenina, vivissima +compleição d'artista, gostos aristocraticos, +fazendo +versos em francês e d'uma alegria comunicativa; +Elisa Baptista de Sousa Pedroso, pianista +eximia, sempre em concertos, em recitas de caridade, +<span class="pagenum">[276]</span> +em festas que dá em sua casa e onde +reune uma sociedade mesclada de artistas, diplomatas, +aristocratas e politicos; Sarah da Motta +Vieira Marques, voz rica e sciencia no cantar, +só rivalisando com a sciencia de receber: o seu +salão pode considerar-se um dos poucos refugios +dos ultimos dez annos, no dizer dos seus amigos; +Adelaide Coelho da Cunha, esposa do +director +do <em>Diario de Noticias</em>, grande +organisadora +de festas, no seu palacio a S. Vicente de Fora, +festas dramaticas d'uma grande riqueza de +apresentação +e mise-en-scêne; a malograda Ada +Weinstin, a esposa do conhecido banqueiro, recitando +maravilhosamente, vestindo com suprema +distincção, bonita, elegante, cheia de +<em>charme</em>; +Candida da Nova Kendall, formosura triumphante, +que passou pela sociedade lisboeta como um +meteoro louro, cantou +como um rouxinol, e +voou para terras da Santa Cruz, sua patria: ella +a bem dizer tinha duas patrias: Bahia-Paris; Alda +Decken Lino, figurinha de madona, de bandós +negros e olhos transparentes, mulher do architecto +Raul Lino; Maria +Emilia Macieira Lino, +cantora e organisadora de soirées artisticas com +representações de autos de Gil Vicente; Alice +Munró dos Anjos, dando festas na sua casa da +Praça dos Restauradores, onde +se dança alegremente, +presididas pelas suas filhas, a linda +condessa de Arnoso e a simpathica condessa de +S. Lourenço; Luzia Patricio de Balsemão, grande +<span class="pagenum">[277]</span> +linha de elegancia, certa em todas as premiéres; +Irene Gilman, filha de Thomaz Ribeiro, loura, +inteligente, maliciosa e dançando maravilhosamente; +Christina Rezende da Silva, d'uma belleza +e elegancia patricias; Elisa Baerlein; Conceição +de Carvalho, filha de Mariano, organisadora de +festas artisticas, para que escrevia peças, em +casa de seus sogros os Viscondes de Carnaxide, +bonita e intelligente; Zulmira Franco Teixeira, +pequenina, d'uma requintada elegancia, fazendo +versos, como sua irmã a condessa de Almeida +Araujo, etc. etc. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +A sociedade lisboeta tinha dois pontos principaes +de contacto—Cascaes e o theatro de S. +Carlos. Era ahi que os ricos, ou os que aparentavam, +procuravam impor-se a certa roda, que dificilmente +os recebia. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +De 1880 para cá as emprezas succedem-se em +S. Carlos como os ministerios progressistas e regenerador +e Valdez disputa com Freitas Brito a +vinda a Lisboa das grandes celebridades. Se Valdez +traz Masini, Patti, Devriés, Vidal, Castel Mary, +Devoyod, Cotogni, a tragica Ristori, a Regina +Pacini, Novelli, de Bassini, que passou por amante +<span class="pagenum">[278]</span> +d'uma rainha (vêr Fialho), os irmãos Andrades, +etc.; Freitas Brito apresenta Varesi, Gayarre, Rapp, +irmãos De Reskée, Navarrini, Tetrazzini, +Theodorini, +Gabrielesco, Nevada, Kaschmann, Sarah +Bernhard, Marini, Ristori, Salvini, Rossi, Desreins, +Sherie, Belincioni, Ferrani Darclée, Tamagno, +Borghi Mamo (Herminia), baritono Aldighieri, +Pandolfini, Saloni, Arkel, maestro Gula, +Delman, tenor De Marchi, Morconi, Sarasate, e +tantos outros. Os partidarios de Freitas Brito +pateavam sempre na epoca de Valdez, os de +Valdez na epoca de Freitas Brito—o que não +os impedia de se juntarem em jantares semanaes, +a que assistiam os dois emprezarios... A estas +duas emprezas segue Paccini, que faz fortuna. +Foi n'essa epoca que S. Carlos se transformou +n'um grande salão. Vem a Lisboa os reis e presidentes +de republicas. O numero de recitas +augmenta, a assignatura augmenta. Paccini dá +cincoenta recitas de assignatura, vinte e quatro +extraordinarias e doze extraordinarissimas, a que +o publico chama dos +<em>Sebastiões</em>, e no palco +desfilam +Belincioni, Krucinisky, De Lerma, Renaud, +Tita Ruffo, Lassalle, etc., etc. Segue-se Anahory, +com a carruagem, o charuto, Wagner—e o +desastre. +<br /> + +<br /> + +Ahi está todo o mundo literario e elegante, +nos camarotes ou na plateia, toda a Lisboa +como se diz nos jornaes: Carlos de Freitas Jacome, +antigo diletanti, e que se julgava pae da +<span class="pagenum">[279]</span> +Patti, Freitas Rego, o Principe Negro, conquistador +irresistivel, D. Luiz da Camara, o conde +de Mesquitella e Antonio de Brito, que formavam +um grupo, de que Bordallo fez tres +medalhões para distribuir pelos assignantes de +S. Carlos; Joaquim Pessoa, do <em>Diario de +Noticias</em>, +apaixonado da Baresi; José Saragga, critico +do <em>Jornal do Commercio</em>; o +phantastico Eduardo +Cheira; Mr. Garaty e mulher, assignantes chronicos +de S. Carlos, elle muito baixo, ella muito +alta; dr. Patrocinio, professor de mathematica, +com uma paixão assolapada pela cantora Pasqua; +Antonio da Costa e Silva, um dos mais elegantes +rapazes de Lisboa; Alfredo Anjos, enamorado +da Devriés, e que na noite do seu +beneficio lhe mandou compor um deslumbrante +jardim natural para o 3.º acto do Fausto; Francisco +da Fonseca Benevides e esposa, o auctor +da «Historia do Theatro de S.Carlos» (recitas +impares n'uma frisa, recitas pares n'uma torrinha), +Freitas Branco, Silva Canellas, Jayme Arthur +da Costa Pinto, que foi director da sociedade +lyrica que se fundou em S. Carlos com o +Paccini pae; Motta Marques, que casou com +a cantora Meccoci; May Figueira, o exotico +marquez de Franco e Silva Carvalho, todos tres +adoradores do corpo de baile; Custodio Borja, +José Bacellar e Ottolini da Veiga, com mania +de canto e voz de <em>basso</em>—e que, +d'uma +vez, corrido pelo publico, a quem fizera um +<span class="pagenum">[280]</span> +manguito, fugiu no comboio para o Porto, +ainda vestido de frade, com o fraque enfiado +por cima—Eduardo Cordeiro e Augusto Ribeiro, +enorme e sempre com muitos calos; Dantas Baracho; +Eduardo Tavares; Espregueira e mulher +n'uma frisa; José Martinho da Silva Guimarães; +o Guerra, pae das meninas Guerras; o barão da +Regaleira, Antonio Duarte da Cruz Pinto, Agostinho +Franco, José d'Alpoim, Rufino d'Almeida, +o padeiro gordissimo de S. Carlos, etc., etc. +e n'uma torrinha, que ficou na tradição, a 115, o +Antonio Manuel Teixeira, depois secretario de +S. Luiz de Braga, o Luiz Campeão e o Oliveira, +chamado das <em>cautelas</em> de +<em>25</em>: era d'ahi que partiam +sempre os aplausos ou as pateadas monumentaes. +<br /> + +<br /> + +Nos camarotes e nas frizas as lindas sobrinhas +do marquês de Franco, Falcarreras; a lindissima +baroneza da Regaleira; e a mais bella mulher +de todos os tempos, já velha e sempre decotada, +a duqueza de Avila e Boiama; Espregueira, que foi +a primeira que se apresentou com vestidos sem +hombros, ostentando magnificos collares de brilhantes; +Moreira Marques; a condessa de Figueiró; +a condessa de Taveira, acompanhada pelo +marido, sempre de casaca com botões amarellos; +a condessa d'Edla, o gentilissimo pagem do <em>Baile +de Mascaras</em>,—da cantora a rainha—; +Poitier, +loira ideal, que casou com o filho de Monteiro +Milhões; a duqueza de Palmella; a condessa de +<span class="pagenum">[281]</span> +Alferrarede; a condessa de Alverca; a viscondessa +de Idanha, e a de S. Luiz de Braga etc. etc. +e no camarote de bocca de 3.ª ordem n.º +70—esta +Lisboa foi sempre monumental!—a Antonia +Moreno com as suas espanholas, pilar do +estado, necessario e decerto muito mais util que +a Junta de Credito Publico. Essa mulher acabou +deixando por testamenteiro Frederico Arouca, que +repudiou a fortuna que ella lhe legou, e depois de +passar para alguns camarotes brazonados de fresco +uma ou outra das suas mais lindas pupilas... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +«Cascaes, com a adjacencia dos Estoris,—diz-me +um frequentador—era a côrte na intimidade, +em robe-de-chambre, mais faceis as +relações, mais accessiveis e amaveis, tu +cá, tu +lá. Quasi tudo gente do rei, que ia para lá +cedo, por meiados de setembro, cansados de +Cintra onde D. Carlos raro pernoitava, fugindo, +a pretexto de tudo e de nada, á convivencia +da rainha e da Figueiró. A separação +do rei +e da rainha, segundo me informaram, porviera +de certa dama, que lançou entre elles a sizania. +Conheci-a ainda linda e elegante, um pouco roliça, +de olhos aveludados e labios vermelhos: nos +ultimos annos engordára, e banalisara-se. Tinha +a furia do dominio, e rodeava-a uma côrte de +gente em que ella mandava e da qual fazia parte +um diplomata mais tarde em evidencia. Passava +<span class="pagenum">[282]</span> +por ter relações anormaes com a rainha... +O marido pouco esperto, só tinha como ideal +ser ministro plenipotenciario e par do reino. +<br /> + +<br /> + +Em Cascaes, a rainha não se vulagrizava. +Saía a cavalo emquanto poude montar. Tinha +varizes nas pernas,—informou um dia o D. +Afonso. No meu tempo não passeava de barco, +passeava de carruagem, descendo ás vezes para +andar a pé. Dava as suas recepções +á tarde, +principalmente em vespera de festa, para serem +apresentadas pessoas que desejavam ir aos bailes, +e que em Cascaes mais facilmente obtinham +o convite e a apresentação preliminar +indispensavel, +que o conde da Ribeira, quando estava +de serviço, facilitava extraordinariamente. A +Figueiró +voltava para Cintra logo que acabava +serviço. +<br /> + +<br /> + +O D. Carlos fazia vida hygienica de madrugador, +tirava photographias, pintava ligeiramente +algumas marinhas, <em>sentindo</em> o mar. +Logo de manhã, +saía de carro ou a cavalo, com chuva ou +com sol (demorava-se até meiados de novembro +em Cascaes), ou ia á procura de senhoras que elle +perseguia. Tivera, pelo menos um anno, n'uma +vila do Mont'Estoril, uma amante, mas isso não +o dispensava de querer que o julgassem homem +de boas fortunas. Escrevia a miudo a outras damas, +em caligraphia disfarçada, cartas em prosa e +verso á mistura, quasi sempre em francez. Eram +muito tolas. Vi algumas e podia ter guardado uma, +<span class="pagenum">[283]</span> +que rasguei. Serviam-no dois alcoviteiros ilustres, +que o faziam encontrado com as mulheres que lhe +agradavam. Outro chegou a dar um baile, para que +o rei conhecesse uma senhora da burguezia media +atraz de quem andou annos. +<br /> + +<br /> + +Iam ao Sporting Club, mais conhecido pela +Parada, jogar o tennis. Não havia escolha nos +pareceiros. O almirante Capelo, o explorador, ficava +com o sobretudo do rei no braço, emquanto +elle jogava. D. Carlos era um timido, falava pouco, +nunca olhava de frente: seus pequenos olhos claros +evitavam sempre os dos outros. +<br /> + +<br /> + +A Parada era a capital do reino de Cascaes. +Ahi se reunia a flor da aristocracia e o ingresso +não era facil, como socio. Só nos ultimos tempos +é que o Tompson, a quem chamavam moço fidalgo, +facilitou a entrada. Aos domingos davam-se +salsifrés á noite, e todos os annos um grande +baile, a que assistia o rei, que distribuia os parceiros +e dançava uma contradança. A rainha, se +ia, não se demorava. Nos dias de semana, poucas +pessoas lá estavam, preferindo os casinos á +beira-mar, principalmente o Estoril. +<br /> + +<br /> + +O rei, todas as tardes, ia para a Boca do +Inferno e quedava-se ali, se encontrava algumas +senhoras que o interessassem. Por isso chegaram +a chamar ao D. Carlos o <em>balão +cativo</em>... +<br /> + +<br /> + +O rei mal recebia os ministros, de que se desfazia +logo que lhe era poss +O rei mal recebia os ministros, de que se desfazia +logo que lhe era possivel. Não se demoravam +em Cascaes, não os convidava para assistir, +<span class="pagenum">[284]</span> +sequer, ás partidas. Teve d'uma vez, como hospede, +o Soveral. Não lhe conheci nenhum outro. +<br /> + +<br /> + +O D. Afonso ia cedo para o Monte Estoril, +para a vila sobre o mar, que ali possuia a mãe. +Descia a praia, com uma grande simplicidade de +maneiras. Falava pouco, era bom rapaz, e a maior +manifestação intelectual que lhe conheci foi +anti-clerical*. +Vestia-se sumariamente: uma camisola +azul, casaco e calça da mesma côr e bonet. Assim +andava, de manhã até á noite. +Ás vezes ia ao +mar, e os barqueiros gostavam d'elle. Nunca tinha +vintem. Os ajudantes ou oficiaes ás ordens não +lhe emprestavam dinheiro, porque sabiam que +elle não lhes pagava. +<br /> + +<br /> + +Não era dado a senhoras—preferia as outras... +Certa condessa é que conseguiu ser amante d'elle, +porque conhecia todas as maneiras de conquistar +um homem. Deu um baile para que convidou o +infante e a fina flôr. O marido estava encantado. +Nenhuma moral em nenhum d'elles. Elle era +muito cioso da sua nobreza e gostava de parecer. +Ella queria gozar a vida. O A... que foi seu +amante, contou-me que em Madrid ella dissera +d'uma vez ao marido, que não tinha um ceitil +quando casou: «Tu, para chulo, és caro de +mais!» +<br /> + +<br /> + +Em Cascaes era dificil chegar a vias de facto +com uma mulher. Meio pequeno, coscovilheiro, +maldoso, maldizente. Não se falava senão nesta +ou naquella, em escandalos, repetindo-se os ditos +de ouvido para ouvido ou acentuando-se as infamias. +<span class="pagenum">[285]</span> +A M... foi apanhada no pinhal dos Olivaes +n'uma atitude equivoca... A S... faz namoro +descarado ao rei... Mas as coisas arranjavam-se +para Lisboa. Vinham ao dentista, ás +compras, etc. A forçada e grande intimidade estabelecida, +de manhã na praia, á tarde na Boca +do Inferno, onde toda a gente ia, apezar do +vento e da poeira, na Parada ou á boquinha da +noite no passeio Maria Pia, junto á cidadela, +onde ás vezes fazia uma ventania infernal, á +noite nos casinos, ou nalguma partida de bridge, +a vida quasi em comum e os namoros travados, +o ar do mar que desiquilibra os nervos e torna +os amores exigentes, fizeram tecer muitas aventuras +escandalosas. Um ainda fugiu a tempo com a +mulher, que já madura, esteve em vesperas de +cair... Nunca mais voltou a Cascaes. +<br /> + +<br /> + +As ceias nos bailes eram pugnas. Vi isso até +no Paço. Uma descendente de D. João IV, vi-a +eu agarrar-se a um bufete, com unhas e dentes. +Em certas casas, as ceias nunca chegavam. Uma +madrugada, num baile do M..., chegou a iniciar-se +a lucta... A alta sociedade era, em regra, +pelintra. As grandes familias tinham gasto +as fortunas, e muitas não queriam, ou não podiam, +dar bailes. Só tinham dividas. Não era possivel +deixar d'ir a S. Carlos e de satisfazer outras +exigencias. Havia-os com actrizes com dezasseis +annos de assignatura... As ceias nos bailes eram pugnas. Vi isso +até +no Paço. Uma descendente de D. João IV, vi-a +eu agarrar-se a um bufete, com unhas e dentes. +Em certas casas, as ceias nunca chegavam. Uma +madrugada, num baile do M..., chegou a iniciar-se +a lucta... A alta sociedade era, em regra, +pelintra. As grandes familias tinham gasto +as fortunas, e muitas não queriam, ou não podiam, +dar bailes. Só tinham dividas. Não era possivel +deixar d'ir a S. Carlos e de satisfazer outras +exigencias. Havia-os com actrizes com dezasseis +annos de assignatura... Fóra o Palmella e poucos +mais, não recebiam porque de todo não podiam. +<span class="pagenum">[286]</span> +E, se o faziam, era sem-cerimonia. Não havia +dinheiro! não havia dinheiro! +<br /> + +<br /> + +Descaiam muito os fidalgos, mas obstinavam-se +sempre em <em>parecer</em>. Um oficial +jogador e pae +de uma serie de filhos, mandava a miudo incomodar +D. Carlos... Todos os seus famulos lhe +extorquiam dinheiro, quanto podiam. Choravam, +punham-se de joelhos, contavam-lhe miserias reaes +ou falsas. Tive, em Cascaes, semanas uma arca +com prata para fugir a uma penhora iminente... +Um grande fidalgo, no fim de algum tempo, despediu +os creados—mas nunca pagou a nenhum. +Outro chegou a não ter que jantar, porque o mercieiro +não lhe fiava, ninguem lhe fiava, mas bebia +todos os dias garrafas de champagne. +<br /> + +<br /> + +Havia mancebias antigas e tão respeitaveis, +como o casamento, assim, por exemplo, F... e F... +Já ninguem convidava uma sem o outro. +<br /> + +<br /> + +Quer que lhe fale tambem da gente que fingia +de nobre, da burguezia vaidosa e que fazia mexerico +para ser convidada? A mulher d'um grande +industrial conseguiu entrar na casa d'um fidalgo, +onde ia toda a gente, da grande e da baixa. +Convidou-a para jantar, para o theatro e andava +contente como um cuco. Um dia não a convidou +mais. Chorou. Isto foi-me afirmado por uma amiga +que o viu. Era uma dama, muito linda, com +um soberbo colo, mas com o cerebro d'uma +arara...» +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[287]</span> +Ahi fica o quadro levemente esboçado por +um frequentador de Cascaes. Tudo isto é frivolo +e tragico. Lembremo-nos que d'esta maledicencia, +dos ditos d'estas boccas que sorriem, da ninharia +e do encanto, se gerou parte da athmosphera +donde devia sahir o descredito da rainha +e o assassinato do rei. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c5" id="c5"></a> +O MUNDO POLITICO +</h3> + +<br /> + +<div class="date">Novembro—1918.</div> + +<br /> + +<br /> + +Os acontecimentos dos ultimos reinados afiguraram-se-me +sempre faltos de logica e +de nexo. Estão talvez muito perto de nós ainda: +precisam de perspectiva que os coloque nos seus +devidos logares. Só o historiador poderá crear +mais tarde, com documentos e memorias, e certa +aparencia de verdade, o romance da nossa vida. +Nós, por ora não sabemos nada, nem mesmo dar +resposta plausivel ás perguntas que nos obsidiam... +Porque foi, por exemplo, morto D. Carlos? +É fora de duvida que até os monarchicos +receberam com alegria a sua morte. «Não vi +lagrimas»—diz +Julio de Vilhena. Eu avanço mais: +só vi aplausos. E no entanto já hoje se pode +afirmar sem erro que D. Carlos não foi morto +pelos seus defeitos, mas pelas suas qualidades. +Respirou-se! respirou-se!—o que não impede +que, a cada anno que passa, esta figura cresça, a +ponto de me parecer um dos maiores reis da sua +dinastia. Já redobra de proporções e +não se +<span class="pagenum">[290]</span> +tira do horizonte da nossa consciencia. O rei +tinha na verdade defeitos, mas—diga-se! +diga-se!—não +foram os seus defeitos que o mataram, foram +as suas qualidades. Só o assassinaram quando +elle tomou a serio o seu papel de reinar, e quando, +com João Franco, quiz realisar dentro da monarchia +o sonho de Portugal Maior. Foi esse o +momento em que, talvez pela primeira vez na historia, +os monarchicos aplaudiram um crime que +os deixava sem chefe, e se abriram de par em par +as portas das prisões, congraçando-se todos os +politicos sobre os corpos ainda mornos dos dois +desventurados. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +O D. Luiz pôde ir até ao fim do seu +reinado, +porque elle proprio o disse—«um principe +é +um dissimulador». Mas D. Carlos é que +não foi +nunca um dissimulador. D. Carlos desprezava os +politicos. Dizia:—Tu ouvel-os falar? Se lesses as +cartas que me escrevem enchias-te de nojo.—Essas +cartas existem... Na verdade toda a gente dizia +mal da politica e desprezava os politicos: só elle +os não podia desprezar. É authentico tambem +que no seu desdem chegou a envolver o paiz. +Toda a gente, desde o literato ao homem rude, +dizia mal do paiz. Tempo houve em que foi moda +dizel-o. Só elle não devia dizer mal do paiz. +Realmente pediu muito dinheiro aos politicos, +mas os politicos pediram muito mais dinheiro á +<span class="pagenum"><a name="p291" id="p291">[291]</a></span> +nação, dando cabo d'elle com as suas clientelas. +E ninguem lhes tomou nunca contas: todos +morreram honrados. Hintze passou por ser +um homem integro. José Luciano tambem. Pessoalmente +decerto, mas com o que ambos +elles esbanjaram reconstruia-se o paiz de alto +a baixo. O partido regenerador tinha tal fama +que se dizia em Lisboa: «quem não é +regenerador +é ladrão de si mesmo». Na realidade +não +havia a esse tempo—porque hoje tudo mudou +de figura—senão um partido em Portugal capaz +de sacrificios, o partido republicano: os outros, +para me servir da phrase tão justa de Homem +Christo, eram apenas «quadrilhas politicas». Ser +politico em Portugal foi a mais rendosa de todas +as industrias. «Logo que chega ao poder um +chefe de partido não pensa senão em explorar o +paiz em proveito das suas clientellas. O Estado é +a preza dos politicos... Se eu podesse encontrar +um homem integro que podesse modificar tudo +isto dar-lhe-hia todo o meu apoio». +<br /> + +<br /> + +Parecia que o proprio paiz na verdade só +queria <a href="#e3">comer</a>:—Pedem +tudo! pedem +as maiores +poucas vergonhas!—exclamava o Alpoim; e o +dr. Antonio Cabral escrevia:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[292]</span> +<div class="tinyl">«No tempo da monarquia essa +mesma maioria acomodaticia +e pedinchona, só conhecia o caminho dos +ministérios +para ir importunar os secretarios de Estado com +solicitações +de empregos, de benesses, de estradas, de favores, +até de escandalos. Não ia levar aos ministros uma +ideia, um +plano, a lembrança de um beneficio para o país. +Ia procurar +interesses, buscar comodidades, exigir condescendencias, +sem se lembrar de que tudo isso custava, muitas vezes, +dinheiro ao Tesouro Publico e só causava prejuizos +á +nação. +<br /> + +<br /> + +Depois, quando a tempestade bramia e as moscas varejeiras +zumbiam em tôrno da montureira politica, essa +mesma maioria, de larga guela e incomensuravel ventre, +era a primeira a gritar contra as imoralidades que provocara, +contra os atropelos da lei que impuzera, contra os +êrros de administração que +imperiosamente reclamara! Para +essa maioria prudente... e de muito comer, os culpados de +tudo—criminosos execrandos!—eram o Rei, os +ministros, +os deputados, todos, emfim, que tinham na mão as +rédeas +da governação publica. Ella, a maioria exigente e +dificil de +contentar, era inocente e de tudo lavava as mãos. +<br /> + +<br /> + +Ella, a maioria composta dos influentes, dos caciques, +dos compadres, dos despoticos senhores do país, que hoje +se encolhem, transidos de pavor, e então barafustavam do +alto do seu pedestal de mandões; ella, a maioria que +ordenava, +que dispunha de votos, que sabia impôr-se com +arrogancia—ella, +de nada era culpada e escondia o rosto púdico +na alva clamide de vitima dos maus politicos!... +<br /> + +<br /> + +Veiu, por fim, a queda no abismo, em que se evidenciou +a traição de muitos e a incompetencia de tantos. +A +<em>maioria dos portugueses</em>, se +não delirou de contentamento, +remeteu-se ao cómodo e discreto silencio em que se comprazem +os covardes e os maus cidadãos, para só os +interromper +com murmurios de reprovação, soprados nos +centros de conversa contra os politicos... que ella +empurrára +para o mau caminho e ajudara a despenhar no precipicio. +<br /> + +<br /> + +Oh! a maioria dos bons cidadãos de larga +pança!...» +</div> + +<br /> + +<br /> + +Hintze e José Luciano tinham-se congraçado +no reinado de D. Carlos, e só elles podiam tudo, +<span class="pagenum">[293]</span> +só d'elles dependiam lugares, favores, vaidades e +interesses. Antonio Cabral está certo que foi +pelos seus meritos—que não são +poucos—que +chegou a ministro?... Ai de quem lhes desagradasse. +Ao irrequieto Fuschini entretiveram-no com +as obras da Sé para o arredarem da politica; ao +José Dias Ferreira, que foi dos raros homens de +governo comezinho do seu tempo, nem sequer +o ouviam nas camaras. Toda a gente lhe voltava +as costas quando falava. Sabia-se que o Paço o +detestava. O José Luciano e o Hintze sucederam-se, +d'acordo, no governo do paiz e no governo +do Credito Predial, com identico sucesso! +<br /> + +<br /> + +Ambos elles eram pessoalmente muito boas +pessoas, ambos elles tiveram um fraco extraordinario +pelos tratantes. O Hintze, o <em>homem que +não ri</em>, o <em>casaca de +ferro</em>, era um homem um +pouco cansado e com um lindo sorriso para +toda a gente:—Pois sim, pois sim...—Trato +encantador. Nas camaras era vel-o! Ninguem +apresentava assim as questões: tinha tudo catalogado, +arrumado, disposto, e os papeis saltavam-lhe +da carteira por arte magica. O José +Luciano, mais bonacheirão e ao mesmo tempo +mais caustico, conhecia como poucos os homens +que lhe tinham passado em fita pelo salão da +sua casa, com as suas vaidades, as suas miserias, +os seus rancores e os seus vicios, e tocava-lhes +sempre no ponto fraco. Pessoalmente honesto,—quem +o duvida?—mas tendo cada vez mais imperiosa +<span class="pagenum">[294]</span> +a necessidade de satisfazer clientelas +cada vez mais sofregas—ambos acabaram de +corromper o paiz, já meio corrompido, até +á medula. +Importa pouco que o snr. D. Luiz de Castro +diga: «Hintze vendeu todo o seu patrimonio e +o de sua mulher para servir o reino e o rei» +(<em>Dia</em>, fevereiro, 1917). Sim, mas +Hintze distribuiu +a rodos o dinheiro da nação, principalmente +depois da scisão João Franco, e colocou toda a +gente a começar pelos seus<sup><a href="#n15">[15]</a></sup>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[295]</span> +Não resistiu. Delapidou, principalmente depois +da scisão João Franco, sem conta nem pezo +nem medida. Anselmo Vieira diz: «José Maria +dos Santos entregou á viuva do Hintze, no dia +do enterro, 21 contos de lettras vencidas. Ora a +questão do alcool entre o norte e o sul foi sempre +adiada pelo Hintze, o que fez ganhar 300 +contos ao José Maria dos Santos.» Na sua phrase +pitoresca a politica portugueza estava condemnada +porque era um regimen de validos e +<em>badamecos</em>. +E cita este e aquelle e aquelloutro, que, na +sua opinião, e todos juntos, não valiam um +estadista. +O Hintze não resolvia um problema, arredava-o, +e as complicações augmentavam sempre; +se tinha a escolher entre dez homens, escolhia +sempre o peor... O honradissimo capitão Machado, +duro como o silex, chegou a par, porque, +quando atacavam o José Luciano na camara alta, +dizia sempre:—Viessem elles cá para os deputados +e quem os ensinava era eu.—O pobre monsenhor +inutil, que se chamou Santos Viegas, achou outro +<em>truc</em> para o Hintze o elevar +á mesma cathegoria: +quando o chefe do partido regenerador falava, +cahia n'um assombro, de que não havia +arrancal-o!...—«Chegaram +<span class="pagenum">[296]</span> +a ministros seres destituidos +de todo o miolo. O honradissimo Pequito, +santissima creatura, foi um dia para uma comissão, +a que o José Dias presidia, com o Contracto +dos Tabacos, que elle só tinha assignado e mais +nada. Havia um artigo redigido de forma que +cincoenta milhões de francos ficavam encobertos, +para se poderem pagar as dividas da Casa +Real. José Dias pediu explicações, o +outro embrulhou-se, +José Dias insistiu, o outro ficou de bocca +aberta, com cara de pasmo—até que o velho +rabula lhe disse com soberano desprezo:—Comprehendo, +comprehendo... o snr. ministro da fazenda +precisa de ouvir os seus colegas para +depois responder...—Se o José Dias tem deixado +passar aquella trapalhada talvez D. Carlos não +tivesse sido assassinado.» +<br /> + +<br /> + +A politica portugueza chegára a estar apenas +nas mãos e dependente da vontade dos chefes. +O José Luciano dizia:—O meu partido não +é que +me leva ao poder—sou eu que levo o meu partido +ao poder. Dois homens e clientelas. Alguem +se filiou jamais n'um destes partidos por principio, +por ideal? ou foi por interesses, e, mais simplesmente, +por simpathias pessoaes? +<br /> + +<br /> + +E assim a força desses dois homens chegára +tambem a ser ficticia:—não provinha do +paiz—provinha +do rei... As camaras mero scenario; os +discursos, as atitudes, theatraes: o que havia a +decidir não se decidia alli. Tudo estava resolvido, +<span class="pagenum">[297]</span> +preparado de antemão, nos salões, nas +ante camaras, nos gabinetes ou nos corredores, +entre os chefes. O resto era um espectaculo com +as suas regras e os seus figurantes, absolutamente +inutil—absolutamente falso—absolutamente +fóra de toda a realidade... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +As camaras... Por lá passou Junqueiro, que +de lá sahiu um dia dizendo:—Vão +áquella +parte—; por lá passou o grande, o pobre +João de +Deus, que nunca poude abrir a bocca, e outros +homens ilustres. De lá sahiu Fuschini, que se +foi embora fazendo-lhes um manguito, quando +Arroyo n'uma sessão celebre lhe disse:—Ajoelhe +a meus pés!—Oliveira Martins, exhausto de +trabalho; +o romantico Chagas, cujas ultimas palavras +foram estas:—A vida é uma +comedia.—Já +não +os ouvi, mas vi e ouvi ainda o pachydermico +Antonio d'Azevedo Castello Branco, o esguio e +taciturno Beirão, sempre alheado, o grande orador +Antonio Candido, o canarim Elvino de Brito, +que manejava a palavra como quem maneja um +florete, e que o Hintze tratava d'alto, o anecdotico +Baracho, cujos discursos não tinham fim, o +Campos Henriques, <em>lyrio pendente</em>, o +theatral +Arroyo, o José d'Azevedo, o Eduardo Villaça +tão amavel para todos, tão afavel que ficou +para sempre o Villacinha, o Chanceleiros, com +a sua grande gaforina branca, o severo e taciturno +<span class="pagenum">[298]</span> +Dias Costa, que morreu de desgosto, tendo +cumprido o seu dever como um soldado, a nobilissima +figura do conde de Arnoso, que vejo +sempre diante de mim, bradando por justiça, e +que acabou envolto em treva, jungido á sua dor, +o Jacintho Candido, um pouco apagado, mas +resistente e teimoso, o João Franco, o decorativo +Wenceslau de Lima, o Pimentel Pinto, do alto +dos seus tacões, o Albano de Mello, tão admirador +do José Luciano que chegou a ponto de se +parecer com elle na atitude, na voz e até no +rosto, e, na outra camara, a um lado o pitoresco +conego José Dias, apopletico e jovial, +lá das bandas de Monsão, o torrencial Oliveira +Mattos, que, a primeira vez que falou, fez rebentar +os cós das calças ao Chagas, que perguntava +entre spasmos de riso:—Mas quem é este +homem? onde foram buscar este homem?—e +a quem ouço ainda invectivando o ministro da +guerra:—Heroe de Trajouce! heroe de Trajouce!—os +Cabraes, um polido e soturno, que o +Hintze estimava, o outro, Antonio, de bigodes +assanhados, como um galo de combate; o José +d'Alpoim, impulsivo, terrivel na replica; o João +Pinto dos Santos, um sistema de philosophia para +cada caso futil do dia, já branco, de punhos solidos, +e sempre o mesmo aprumo, a mesma linha, +a mesma conducta; o Moreirinha, o Centeno, e +o juiz Francisco Medeiros que pouco antes de morrer +(estou a ouvil-o) me disse assim:—Tenho +<span class="pagenum">[299]</span> +pena de não ter roubado como os outros...—E, +diante do meu espanto, concluiu:—Quando +morrer deixo a minha filha pobre e os outros +estão ricos.—E a outro lado, o elegante, o frivolo +conde de Paçô Vieira, o lustroso conde de +Castro Solla, o Anselmo Vieira, sempre a debater +finanças, sempre á espera das grandes +ocasiões, +sempre esquecido á ultima hora na lista do ministerio, +o estrabico Dias Ferreira, falando baixinho +para dois fieis que lhe restavam; o Matoso +dos Santos, sempre enfronhado em algarismos, o +Sergio de Castro, o D. Alberto Bramão e outros +jornalistas da <em>Tarde</em>, o Schwalbach +aparecendo, +desaparecendo, atarefado, e tantos outros sumidos +lá para o fundo na obscuridade e no silencio. +<br /> + +<br /> + +Juntem a este mundo o mundo dos jornaes, +os meios politicos onde tudo se comenta e desfigura, +e o mundo financeiro, com alguns tipos que +é necessario anotar rapidamente: primeiro os Mosers +e o Foz, predominando com o Mariano, a +casa Torlades e outros grupos; a casa Burnay e +o impenetravel Jonh, e, nos ultimos tempos da +monarchia, a casa Wernestein, Alfredo da Silva +e a casa alemã Ernest George. Entre essas figuras +conheci uma d'um alto pitoresco: Gomes +Netto, sem instrucção, mas d'um grande senso +pratico. Não raro o encontravam em mangas de +camisa no seu escriptorio. Escrevia em largos +quartos de papel e depois dizia:—Ponham-lhe +lá a gramatica!—Acabou já velho e +amoroso, +fazendo +<span class="pagenum">[300]</span> +todos os dias compras de legumes e peixe, +na Praça da Figueira, que depois ia distribuir +de <em>coupé</em> por casa das +amantes, pescada aqui, +pescada alli... Juntem a isto as redacções dos +jornaes, em forja rubra a certas horas da tarde +ou da noite, os ditos, as noticias espalhadas, a +côrte ao senhor conselheiro... Era peor o que se +dizia do que o que se fazia... Era o descredito +lançado sobre tudo e todos, a tal ponto que +um dia, mais tarde, quando um juiz monarchico +(Paçô Vieira) foi despachado para a provincia, o +delegado disse-lhe muito a serio:—Mas como +queria V. Ex.<sup>a</sup> que se sustentasse um regimen +em que as filhas do José Luciano eram apalpadeiras +da alfandega com cem mil reis por mez?—Nos +comicios asseverava-se que a rainha D. +Amelia comprava no estrangeiro vestidos por +vinte e quatro contos. Peor, peor... Depois da +republica o Eduardo Villaça encontrou-se com +João Chagas em Paris e perguntou-lhe com +ironia:—Então esses famosos inqueritos da +republica, +com que fizeram tanto espalhafato, não +deram nada?—Ao que o outro, lépido, +respondeu:—Vocês +que querem? Tanto se acusaram +de ladrões uns aos outros, que a gente acreditou... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +—Um homem! um homem!—reclamava o +D. Carlos. Um momento de hesitação e de duvida +<span class="pagenum">[301]</span> +na sua vida... Dois caminhos na frente: um +commodo e largo, de transigencias faceis, o outro +perigoso mas util para o seu paiz. Decidiu-se +pelo peor. Ia jogar a vida. +<br /> + +<br /> + +Elle era, como toda a gente, um mixto de qualidades +e defeitos... Ha homens que se nos afiguram +d'uma só peça. Desconfiem d'elles: andam +mascarados... Timidez e orgulho. Todos dizem:—Era +encantador.—Todos estão de acordo n'este +ponto: ninguem o podia aturar. Um oficial afirma:—Tratava +os politicos como lacaios, tratava +a gente do povo com extrema bondade.—Um dia +escreveu um bilhete nas costas do Hintze, que +se curvou para lhe servir de secretária; outro +dia, já a cavalo para uma ferra de touros, atirou +com a capa a um velho general seu servidor:—Guarda +lá isso!—D'outra vez dispoz o ministerio +á chuva para lhe tirar o retrato. Tratava-os +com desdem. Sacrificou sempre os homens que +se lhe dedicaram, o Martins e o Mousinho, por +exemplo. O Carlos Lobo d'Avila tinha-lhe dado +uma formula que o lisonjeou e o deitou a perder. +Era um valente. Escrevia cartas anonimas á +mulher. Media tudo pela mesma bitola—e, se o +deixam viver, tinha sido um dos maiores reis da +sua dinastia. Acabou á bala, quando ia matal-o +o figado: comia e bebia enormemente e pezava-lhe +em cima esta tara: era filho d'uma +histerica e d'um sifilitico. Este mixto, n'um +homem inteligente como elle, só tem uma +explicação: +<span class="pagenum">[302]</span> +timidez e orgulho—timidez e +orgulho... +<br /> + +<br /> + +Efectivamente resolver-se a luctar contra os +interesses dos partidos e dos homens, desencadear +paixões, era lançar-se n'um combate de +que não podia esperar senão contrariedades e +a morte. Salientaram-lhe logo todos os defeitos. +Tudo que se fazia de mau era sempre o rei +que o fazia. Obscureceram-lhe de proposito +as qualidades. Esqueceram que D. Carlos colocara +o paiz n'uma situação externa admiravel, +e que os dois ou tres actos de homem d'estado +do seu tempo lhe pertencem, como a unica acção +grande da republica pertence a Bernardino +Machado, que conseguiu levar as tropas portuguezas +para a frente europeia—quando os +inglezes reclamavam apenas o nosso esforço em +Africa<sup><a href="#n16">[16]</a></sup>. +As viagens a Paris, a Berlim, a Londres +corôam o anno de 1895. A aliança ingleza +é um +facto. Veem a Lisboa os grandes chefes d'estado. +Vae começar uma grande época. Aponta +a Africa a uma pleiade brilhante de oficiaes, +que elle proprio incita, comprehendendo que o +grande Portugal é outro, e que esta facha de terreno, +com um clima agricola horrivel, só pode +ser uma vinha e um logar de repouso e prazer. +<span class="pagenum">[303]</span> +De lá, d'esse novo Brazil—dos extensos +planaltos d'Angola, que duas vezes por anno +produzem trigo—tem de nos vir o oiro e o pão. +O resto é visão de pequenos estadistas de trazer +por casa. Só elle concebe e incita. Só elle fala +e +sonha n'um Portugal maior, n'um Portugal esplendido. +O plano estabelecido e iniciado, fecha-se +com um ponto culminante: o tratado de +commercio com o Brazil, que D. Carlos teve +realisado, e que, ao que parece, tarde, dificilmente, +ou jamais, se conseguirá. Foi este homem +que assassinaram como ladrão a uma esquina +de Lisboa... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Porque foi morto, afinal, o rei?... Um +velho philosopho meu amigo traduziu um dia +toda a ancia contemporanea n'aquella grande +phrase, que não me canso de +repetir:—Nós +tambem queremos comer...—Sómente para ser +justo e completo, a uma verdade devia juntar +outra verdade:—E não cabemos todos! +<br /> + +<br /> + +Não, os partidos não cabiam todos, não +podiam +caber todos, e estavam completamente desacreditados. +A grande força de João Franco foi, +na realidade, de protesto. E quem falhou, diga-se +já, não foi o rei, foi João Franco; +quem não esteve +á altura do seu papel, não foi D. Carlos, foi +o dictador. João Franco tinha atraz de si um partido +pouco numeroso (as clientellas haviam de +vir...), mas resistente, tenaz, entusiastico. Os franquistas +<span class="pagenum">[304]</span> +de hontem são ainda hoje franquistas. +Não perdem a fé, e nem agora nem nunca despegam +um olho do Fundão, embora lancem o outro, +com prazer, ironia ou desdem, sobre o ridente +panorama da vida... É preciso que realmente +esse homem disponha de qualidades excepcionais +para conseguir tal poder de dominação. Era um +impulsivo: grande fraqueza e grande força. Procurava +os obstaculos para os dominar e gastou +uma energia desmedida a resolver ninharias. Em +Lisboa dizia-se com espanto:—Este homem só +levanta carrapatas!—Ora caçava no seu terreno, +ora no terreno dos republicanos. Homem d'estado, +ia talvez ter ocasião de o mostrar—depois +da morte do rei. Ahi é que era vel-o!... Valente +e calmo foi-o decerto. Vi-o eu n'uma ocasião grave +da sua vida. Os republicanos (Ribeira Brava, +talvez) tinham obtido a sua prisão logo depois do +cinco d'outubro. De Cintra levaram-no para um +gabinete da Boa-Hora. Cá fóra o França +Borges, +refestelado n'uma poltrona, gosava a sua vingança +e o seu triumpho, separado do cacifro por +uma porta escancarada. O juiz Meirelles e um +delegado de pera ruiva e gravatinha vermelha, +vinham de quando em quando trocar não sei +que impressões com elle. Pela porta aberta vi o +João Franco de pé, sereno e palido: parecia +enorme, junto dos dois bonifrates. E quando o +juiz lhe disse, acabado o interrogatorio:—É talvez +melhor sahir por outra porta, porque o povo +<span class="pagenum">[305]</span> +mata-o!...—o homem teimou, o homem cresceu +dois palmos:—Eu só saio por a porta por onde +entrei.—Estava preso, obrigaram-o emfim a +descer umas escadinhas, a meter-se ás escondidas +no automovel, que o esperava na calçada +que sobe quasi a pique para a Biblioteca, emquanto +alguem—juro-o—prevenia a furiosa +onda popular, que correu aos gritos de—morra! +morra!—a esperal-o em baixo, á esquina. Um +borborinho. Tiros de pistola. Dois marinheiros +apontaram as espingardas, defendendo o automovel, +que só a custo arrancou—emfim! +emfim!—pela +calçada acima.—Morra o João +Franco!...—E +as vozes colericas gritavam:—Morra! +matem-no!...—Era +este o homem, que, com o rei, estava +em frente dos partidos progressista, regenerador, +dissidente e republicano. Os ataques sucediam-se +e agravavam-se. Os monarchicos, dificilmente +sustidos pelos chefes, ameaçavam ingressar no +partido republicano, que todos os dias ganhava +em numero, cohesão e audacia. O proprio José +Luciano perdia a serenidade:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="tinyl"> +«Ha uma coisa que aos governos nunca deve esquecer, +que a lição da historia a cada instante repete: +á revolução +do alto, pode muito bem suceder que responda a +revolução +de baixo». (<em>Correio da +Noite</em>, 14 de Maio de 1907). +<br /> + +<br /> + +«O presidente do conselho +blazona e conta com o auxilio, +sem duvida, poderoso e eficaz do Rei, e zomba da +opinião publica, que tanto pretendeu captar, antes de subir +ao poder? Faz mal, porque ha-de chegar e oxalá que chegue a +tempo o momento em que El-Rei se recorde das +suas palavras de ha um anno:</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[306]</span> +<div class="tinyl">A responsabilidade do decreto, ainda +que aparentemente +só acto do poder executivo, recahe mais uma vez +sobre o Rei, a quem todos hão de pedir a responsabilidade +da sua assignatura». (<em>Correio da +Noite</em>, 15 de Maio de 1907). +</div> + +<br /> + +<br /> + +E a 24 de Maio vociferava: «A monarchia +precisa dos monarchicos... a monarchia precisa +dos monarchicos, mais do que estes precisam da +monarchia». Todos os dias novos boatos, todos +os dias nova causa de excitação. Barafunda, +prisões, +protestos. N'uma reunião celebre, por um +triz que os regeneradores não passam em massa +para o campo republicano. E o <em>Correio da +Noite</em>, +no acesso do delirio, apelava já para a linguagem +biblica: «O que tem ouvidos para ouvir ouça; o +que tem olhos para ver veja...» +<br /> + +<br /> + +<div class="tinyl"> +«Do alto deve descer o exemplo, e quando as +acções +dos que governam são de preversão e de crime, de +corrupção +e de suborno, de desbarato dos dinheiros publicos e +de abuso do poder, os actos dos governados não podem +ser de veneração e de paz, de obediencia e de +acatamento.<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +Com torrentes de sangue se conquistou a alforria do +povo, com oceanos de lagrimas se lavou a mancha do +absolutismo». (<em>Correio da +Noite</em>, 1 de Junho de 1907). +</div> + +<br /> + +<br /> + +Que faziam os dissidentes, o mais avançado +dos partidos monarchicos? Os dissidentes conspiravam. +As dissidencias anteriores, a do Mariano, +a do Navarro, tinham fracassado: a do +<span class="pagenum">[307]</span> +Alpoim ia dar como resultado a +revolução.—Foi +o senhor que fez a republica.—E elle dizia, com +o olho esperto a luzir:—Levei-os pela +mão.—Julgando +conquistar o poder, perdeu-o para sempre. +«Baralhou para dar», como aconselhava o +Marçal Pacheco—mas enganou-se no trunfo. +Depois que se separou do José Luciano nunca +mais acertou, na phrase do Moreira d'Almeida... +Era um grupo tremendo: o João Pinto dos Santos, +tenaz e resoluto como as armas; o pratico +Centeno, mola distendida sabe Deus até onde; +o Queiroz Ribeiro, o Pedro Martins; o sagacissimo +Egas Moniz, a quem ninguem consegue +ouvir os passos—mas que toda a noite, todo o +dia, roda nos meandros da politica, conspirador +e politico até á medula; o Moreira d'Almeida, +capaz de falar e de escrever um dia inteiro, sem +um desfalecimento, enfiando todas as formas e +todos os estilos, de tal maneira que, muitas vezes +o Antonio Ennes ou o Alpoim duvidavam se os +artigos, que elle escrevia, lhes pertenciam, apanhando +no ar as questões, e com um grupo de +amigos <em>a latere</em>, que conheciam a +fundo as colonias +e as finanças; mais este e aquelle, e outras +raizes lançadas ao acaso, e ligações +no Porto com +um «mercante espertissimo», como nas +discussões +ouvi chamar a Lima Junior. O chefe d'este +grupo unido e compacto era extraordinario... +Agitação perpetua. Orador admiravel, sobretudo +na réplica, em que perdia a retorica e ficava incisivo +<span class="pagenum">[308]</span> +e nu como uma espada. Um passo a mais +e seria um escriptor ilustre: não teve um momento +de seu para rever as provas. Com a paixão, +a colera, o arrebatamento, um grande coração. +Nunca lhe conheci odios, e muitas vezes lhe +ouvi defender até o seu maior inimigo, o José +Luciano. +Ao proprio D. Manuel elle diz: «...O José +Luciano vale mais do que todos os progressistas e +regeneradores juntos, contando com elle proprio +Alpoim ». (<em>Documentos +politicos</em>). E quem conheceu +o Alpoim sabe que as notas que o rei escreveu +são mais que exactas, são phonographadas. +É elle a falar d'este e d'aquelle, dos amigos, +dos inimigos—de Deus e do Diabo. Uma +ambição +do poder que o leva arrastado, mais pela +lucta em si, necessaria a um temperamento excessivo, +do que por vaidade ou vangloria. Principios +poucos—meios aquelles que os adversarios, +a tenacidade e o rancor de José Luciano, +lhe deixavam. Acusaram-no de tudo—acusaram-no +da morte de D. Carlos... «Até disseram, +Senhor, que fui eu que matei El-Rei D. Carlos!!!» +(<em>Documentos politicos</em>). Resistiu +sempre; morreu +a conspirar. Nos seus ultimos annos não sei que +tristeza o envolve... A figura parece maior, as +palavras simplificam-se-lhe, os sentimentos tambem. +Engrandece. Raros teriam, como elle teve, a +sinceridade de escrever: «Na minha defeza, que +teve de ser espectaculosamente rude por vezes e +d'uma acção subterranea por outras, excessos +cometi +<span class="pagenum">[309]</span> +de que me penitenceio—mais do que se imagina»... +E repete e insiste: «Em muitos actos da +minha vida de lucta, por vezes injustamente combatido, +tenho sido exagerado—e errei. De muitas +coisas estou repezo, e d'ellas hoje se admira a +minha inteligencia e peço perdão á +minha propria +consciencia e até aos homens!» Quantos ha +ahi capazes d'esta grandeza? Quantos—tendo +todos juntos concorrido para a morte de D. Carlos—o +acusaram a elle só, com a tinta do <em>Correio +da Noite</em> ainda fresca?<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="tinyl">«Aqui d'El-Rei—se +nos pode +ouvir El-Rei—contra +quem mandou assassinar o povo de Lisboa.» +(<em>Correio da +Noite</em>, tarjado de luto). «Aparecem hoje, +segundo ameaças +do governo e segundo as suas notas oficiosas sempre +irritantes á imprensa, decretos esmagadores. Tanto peor +para o Rei e para as Instituições. +<b>As responsabilidades +d'esses decretos, ainda que aparentemente só do poder +executivo recairão mais uma vez sobre o Rei, a quem +todos hão-de pedir a responsabilidade da sua +assignatura.</b> +(<em>Correio da Noite</em>, 20 de Junho de +1907).<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +Quem reina agora em Portugal não é o senhor +D. Manuel, é sua Magestade o Mêdo. Que +quadro para um Saint-Simon, que descrevesse os +politicos e a côrte, o que se diz e o que se adivinha, +o que resalta dos <em>Documentos +politicos</em>, e +o que se conserva na sombra como um baixo +<span class="pagenum">[310]</span> +relevo de odios e de interesses! Enredam, intrigam-se, +perdem-se todos juntos. A politica +portugueza gira sobre este fulchro: «O José +Luciano, +não podendo governar por se achar impossibilitado... +e não querendo substituir-se para +não perder o comando de que é muito +cioso»<sup><a href="#n17">[17]</a></sup> +emprega até ao fim todos os esforços para +inutilisar +o Julio de Vilhena. Só pela vã +ambição de +mandar? O velho é perspicaz e teimoso, o velho +conhece, como poucos, os homens e entende +que só elle pode e sabe governar. É teimosia +e grandeza. Não abdica, não pode. Toda a +vida foi obedecido. Aferra-se. O que elle quer é +ser o «Deus ex-machina da nossa politica sem se +mexer da sua +<em>chaise-longue</em>». Que tipo! +Governou +sempre, mandou sempre, conservou-se sempre +lucido. E tanta serenidade, que até no dia +em que lhe assaltaram a casa dos Navegantes, é +o unico que não perde o sangue-frio, e, quando o +querem esconder n'uma banheira, teima em ficar +na cadeira de rodas! Tem a logica do diabo e +uma manha, um conhecimento dos homens, a +que os outros não chegam. Desde o principio +que todos se congregam para enfraquecer o partido +regenerador. «Isto—diz a velha +rapoza—é +uma lucta de politicos que se querem inutilisar e +desacreditar uns aos outros». É assim—e +nenhum +<span class="pagenum">[311]</span> +d'elles se lembrou que só os republicanos lucravam. +Até os franquistas. «Os franquistas, por +intermedio do Martins de Carvalho, forneceram +aos republicanos todos os elementos que poderam +colligir para descredito dos rotativos» (T. do +Amaral ao rei). Até os nacionalistas. Entretanto +o rei ouve-os e toma notas... A sua vontade é +acertar. Passa a vida a acertar, o que não é bem +a missão d'um chefe, mas a d'um relojoeiro. Não +creio que os homens se governem só pelo interesse +ou pelo terror, como queria Napoleão, mas creio +que se não governam com pannos quentes, e que +mais vale tomar uma decisão má do que +não +tomar nenhuma. O povo, como o soldado, precisa +de sentir um chefe, e adivinha-o logo. Tudo +no rei são boas intenções. Mal ousa +dar um passo, +não se resolve nunca—e atraz d'elle +está a +mãe, que quer educal-o para rei, mas que tem +diante dos olhos o quadro horroroso... Apezar +d'isso é ella propria que o incita a passear á +luz do dia, como uma vez quando o trouxeram +a galope, entre uma escolta de cavalaria, do +Rocio ao Paço... Arrisca-o. Procura congraçar +toda a gente. E odiada. A D. Maria Pia, histerica +e perdularia, agradou sempre: até os seus +ditos se repetiam:—O senhor é um +merda!—ao +D. Luiz, quando elle aceitou as imposições do +Saldanha; +até os seus vestidos, a sua +ostentação, a +atmosphera de rainha extravagante, que só sabia +que existiam contos e patacos, os chapeus que +<span class="pagenum">[312]</span> +mandava vir de Paris, aos trinta e quarenta, em +cada estação; até a sua desordem +elegante de histerica. +Nem os jornaes republicanos a atacavam. +E quando foi para o exilio, já doida, com um pão +debaixo do braço e uma manta pela cabeça, +só +ella deixou saudades. Era a Rainha. A D. Amelia +não. Essa senhora, de quem alguem +disse:—É +um grande homem de bem!—subiu todo o +calvario da vida. Era religiosa—o que só a +honra—chamaram-lhe beata. Andou nos folhetins +e nos pamphletos. Os seus criados detestavam-na<sup><a href="#n18">[18]</a></sup>. +Ao passo que a rainha D. Maria Pia, +<span class="pagenum">[313]</span> +falso anjo de caridade, pouco fez com o seu espalhafato +e foi adorada, a D. Amelia, que combateu +metodicamente a tuberculose, espalhando o +bem a mãos cheias, fundando a Assistencia Nacional, +com os seus sanatorios e dispensarios, as +cozinhas economicas, o hospital do Rego, o Instituto +de Socorros a Naufragos, e contribuindo +para a fundação do Instituto Bacteriologico, +etc., +foi sempre odiada, calumniada, insultada. Nem +dentro de sua casa lhe era possivel conversar. +Um dia, para falar em segredo com um ministro, +chamou-o para o meio da sala:—Aqui, porque +senão vem tudo amanhã no +<em>Mundo</em>.—E vinha. +Até o homem dos telephones era carbonario... +Estou em dizer que é o acaso que governa a +vida: a razão não é, com certeza. +<br /> + +<br /> + +Ponham agora á roda d'estas figuras, os politicos +e as paixões falando cada vez mais alto. É +o momento em que todos á uma querem ser +chefes! Querem ser chefes o Teixeira de Souza +<span class="pagenum">[314]</span> +e o Alpoim, querem-no ser o Wenceslau de Lima +e o Campos Henriques, e até o pobre, o inculto +Pimentel Pinto, que Antonio Candido fez um dia +ministro, tem um deslumbramento e sonha na +candidatura. Elle é «o Vilhena muito afectuoso, +muito lisongeiro e muito avido de poder»; elle é +o Teixeira de Souza, «todo agrado, comtanto +que elle entre no governo n'uma situação que +não seja inferior á do Campos +Henriques»—retrata-os +o Wenceslau, que é o unico que sobe, +como um balão cheio de vento, no conceito de +quasi todos os politicos, que se reveem n'elle +como n'um espelho.—E o José Luciano teima: +«O Vilhena está quasi abandonado pelos seus +marechaes». Todos á uma proclamam ao rei e ao +mundo que esse homem é incompetente.—É +um +homem de talento—afirma um ex-ministro graduado—mas +nunca vi incompetencia maior +como politico.—Porquê? É o que resta +saber. +Elle é dos poucos que sabe o que quer, que +tem um plano e que o apresenta (<em>Antes da +Republica</em>)—é +tambem o unico com superioridade +mental organisada. Pequeno, sempre pendurado +no charuto, conserva, até nas ocasiões criticas, +serenidade e firmeza. Mas todos concordam na +sua inferioridade politica... +<br /> + +<br /> + +Se só pelo triumpho é que se demonstra tino +politico, como quer alguem—na verdade Julio +de Vilhena falhou completamente. Nem todos os +meios lhe serviam, e em Portugal não existem correntes +<span class="pagenum">[315]</span> +de idéas ou de principios que levem um +homem ao poder. O que se chama opinião não +se pronuncia. Os chefes de partido são simples +chefes de bando. O Paço é que faz ou desfaz os +politicos, ou outros meios obscuros, de que cada +um se pode servir, como no tempo de Luiz XIV. +Escolheram-no para chefe n'uma occasião em que +nenhum dos outros o podia ser, mas atraz delle +estava a tenacidade do Teixeira de Souza, a politiquice +de Campos Henriques e a astucia de +Wenceslau.—Esse sim, chame V. Magestade o +Wehceslau—diz o Alpoim.—O Wenceslau +sim—concorda +o José Luciano. Elle é o homem do +Paço e dos politicos. Começa a ser indispensavel. +O outro tropeço não lhes sae da frente. Era +a occasião de governar quem governasse, mas ao +José Luciano só lhe convêm +«governos mixtos +em que elle mande, ou que, pelo menos, ponham o +cofre das graças á sua +disposição.» +(P. Pinto). E todos ou quasi todos só pensam +no Wenceslau, que promete muito, que sorri +a toda a gente, e que não tem nada lá dentro. +É o optimista necessario. Impõe-se pela parte +decorativa, pela boa educação, pela maneira +como contenta o mundo. As vezes chega a oferecer +o governo a um, tendo-o já oferecido a +outro... (J. de Vilhena). Só o lunatico não +entende... +Elle bem protesta: «Quem o conhece tem +obrigação de saber que nunca foi um aventureiro +ambicioso, nem um intrigante ordinario, +<span class="pagenum">[316]</span> +capaz de empregar processos menos correctos +para obter quaesquer posições». Mas foi +exactamente +isso que o perdeu! Num paiz onde não ha +opinião, não pode haver chefes de partido. Que +diferença entre elle e o Teixeira de Souza, +espadaúdo +e forte, abundante, abrindo logo os braços +a toda a gente:—Tu que queres, filho?!—D'outro +feitio era o Campos Henriques, procurador +encartado do norte, escrevendo a meio +mundo e satisfazendo a outro meio (agua molle +em pedra dura...); d'outro feitio, emfim, era o +palaciano Wenceslau de Lima, o favorito, que censurava +as cartas do rei e lhe escrevia os borrões. +Nenhum homem mais <em>souple</em> nem mais +agradavel, +sempre a mastigar e a sorrir. Está nas antecamaras +quando o rei conferenceia, e ha um momento +em que só elle põe e dispõe, e em que +aconselha ao rei:—Chame-me a mim, para eu +declinar!—E o rei chama-o. As duas grandes +figuras do reinado, vinham a ser o Wenceslau +de Lima e o Soveral. O proprio José Luciano estava +condemnado... +<br /> + +<br /> + +Tudo isto se passa sob o olhar ironico ou severo +dos republicanos e diante do phantasma da +republica. Nem assim os interesses e as ambições +abdicam. Nunca, nem no inferno, abdicaram! +Acima de tudo está o odio do José Luciano, +estão as paixões do Alpoim, que sonha no poder, +e que na manhã de 5 d'Outubro ainda +dizia:—Agora, sufocada a revolução, o +rei +não +<span class="pagenum">[317]</span> +pode deixar de me chamar a mim...—Interesses +e homens, tendo cada um «a sua policia», +como diz o Teixeira de Souza. E o rei no trono, +no palacio onde as paredes teem ouvidos, sempre +a rabiscar papeis, incitando-os ás vezes (J. +de Vilhena), sem prever o mundo de coleras que +está para vir á superficie. Quando á +noite se +apanha só, abre a gaveta e desata a escrever +aquelle interminavel romance politico, que caminha +a galope para o remate da fuga e do exilio. +E as vozes, cada vez mais altas, +obstinaram-se:—Não +pode haver ordem nem tranquilidade +com o Alpoim no paiz—exclama um.—Elle é +um +espirito claro e nada mais! protesta outro.—É +uma cambada! A propria dissidencia que é? +É um inferno!—conclue o +Alpoim.—É um +idiota! O mal foi elegel-o para chefe.—E o Teixeira +do Amaral observa ácerca d'um +grupo:—São +pescadores d'aguas turvas... +<br /> + +<br /> + +Quem ha-de conter os homens e os acontecimentos? +O rei? O rei escreve, escreve sempre... +O Credito Predial desaba:—Foi então que os +burguezes, vendo-se roubados, nos deixaram fazer +a republica...—asseverou Junqueiro. Ao poder +sobe emfim o fatidico Teixeira de Souza. Os +acontecimentos precipitam-se. Atraz dos homens +está uma força monstruosa que parece empurral-os +a todos—até ao rei, que, de quando em +quando, pára de escrever e sorri enlevado para +os dois bonecos que tem em cima da comoda, +<span class="pagenum">[318]</span> +a caricatura d'um marinheiro inglez e a caricatura +do Soveral—e vae leval-os a todos, sob o olhar +impassivel do destino, para o desenlace fatal. +<br /> + +<br /> + +Todos esses homens tinham defeitos. Alguns +eram até ridiculos. Mas, apezar de tudo, não +ultrapassavam +determinada linha, apegados a preconceitos +e a formulas, de que não havia arrancal-os... +Vae o senhor D. Manuel, não tarda, +porque a monarchia ha-de voltar—tudo sucede +vertiginosamente n'este paiz—conhecer outros, +com muito menos escrupulos, que o hão-de encher +de desgostos. V. Magestade verá. +<br /> + +<br /> + +<h4>FIM DO 1.º VOLUME</h4> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>INDICES</h3> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>LISTA DAS PESSOAS CITADAS +NO 1.º VOLUME</h4> + +<br /> + +<br /> + +<b>A</b> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Abel d'Andrade +<br /> + +<br /> + +Abrantes (Marquez de) +<br /> + +<br /> + +Ada Weinstin +<br /> + +<br /> + +Adelaide Coelho da Cunha +<br /> + +<br /> + +Adrião de Seixas +<br /> + +<br /> + +Affonso Costa +<br /> + +<br /> + +Affonso (Infante D.) +<br /> + +<br /> + +Affonso VI +<br /> + +<br /> + +Affonso XII +<br /> + +<br /> + +Affonso XIII +<br /> + +<br /> + +Agostinho Franco +<br /> + +<br /> + +Albano de Mello +<br /> + +<br /> + +Albano da Fonseca (Coronel) +<br /> + +<br /> + +Alberto Bramão (D.) +<br /> + +<br /> + +Alberto Braga +<br /> + +<br /> + +Alberto Pimentel +<br /> + +<br /> + +Alberto d'Oliveira +<br /> + +<br /> + +Albuquerque (Alexandre) +<br /> + +<br /> + +Alcaçovas (Conde de) +<br /> + +<br /> + +Alda Decken Lino +<br /> + +<br /> + +Alexandre Herculano +<br /> + +<br /> + +Alferrarede (Condessa de) +<br /> + +<br /> + +Alexandre Cabral +<br /> + +<br /> + +Alfredo Anjos +<br /> + +<br /> + +Alfredo Costa +<br /> + +<br /> + +Alfredo da Silva +<br /> + +<br /> + +Alice Lawrence +<br /> + +<br /> + +Alice Munró +<br /> + +<br /> + +Alpoim +<br /> + +<br /> + +Almada Carvalhais +<br /> + +<br /> + +Almeida Araujo (Condessa de) +<br /> + +<br /> + +Alvito (Marquez de) +<br /> + +<br /> + +Ameal (Conde do) +<br /> + +<br /> + +Amelia (D.) +<br /> + +<br /> + +Anna de Sousa Coutinho (D.) +<br /> + +<br /> + +Angejas +<br /> + +<br /> + +Anibal Soares +<br /> + +<br /> + +Anjos (As) +<br /> + +<br /> + +Anna de Jesus +<br /> + +<br /> + +Antonio Azevedo +<br /> + +<br /> + +Antonio Bandeira +<br /> + +<br /> + +Antonio de Brito +<br /> + +<br /> + +Antonio Cabral +<br /> + +<br /> + +Antonio Candido +<br /> + +<br /> + +Antonio Centeno +<br /> + +<br /> + +Antonio Emilio +<br /> + +<br /> + +Antonio da Costa e Silva +<br /> + +<br /> + +Antonio D. da Cruz Pinto +<br /> + +<br /> + +Antonio Ennes +<br /> + +<br /> + +Antonio José d'Almeida +<br /> + +<br /> + +Antonio José de Freitas +<br /> + +<br /> + +Antonio Manuel Teixeira +<br /> + +<br /> + +Antonia Morena +<br /> + +<br /> + +Antonio Moreira da Camara Coutinho +<br /> + +<br /> + +Antonio Nobre +<br /> + +<br /> + +Angela Pinto +<br /> + +<br /> + +Anselmo Vieira +<br /> + +<br /> + +Antero +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[322]</span> +Armando Navarro +<br /> + +<br /> + +Arnaldo Fonseca +<br /> + +<br /> + +Arnoso (Conde de) +<br /> + +<br /> + +Arnoso (Condessa) +<br /> + +<br /> + +Arroyo (Antonio) +<br /> + +<br /> + +Arroyo (João) +<br /> + +<br /> + +Arthur de Mello +<br /> + +<br /> + +Asseca (Viscondes de) +<br /> + +<br /> + +Augusto Cymbron +<br /> + +<br /> + +Augusto Machado +<br /> + +<br /> + +Augusto Pina +<br /> + +<br /> + +Augusto Ribeiro +<br /> + +<br /> + +Avelino d'Almeida +<br /> + +<br /> + +Aveiro (Duque de) +<br /> + +<br /> + +Avila e Bolama (Duqueza de) +<br /> + +<br /> + +Avila (Conde de) +<br /> + +<br /> + +Ayres de Gouveia +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>B</b> +<br /> + +<br /> + +Baltar +<br /> + +<br /> + +Barão (Condes) +<br /> + +<br /> + +Barahona +<br /> + +<br /> + +Barbosa Colen +<br /> + +<br /> + +Barbosa du Bocage +<br /> + +<br /> + +Barjona +<br /> + +<br /> + +Barros Gomes +<br /> + +<br /> + +Batalha Reis +<br /> + +<br /> + +Bemposta Sub-Serra (Marquezes da) +<br /> + +<br /> + +Beirão +<br /> + +<br /> + +Bernard Lazare +<br /> + +<br /> + +Bernardino Machado +<br /> + +<br /> + +Bernardo Pindella +<br /> + +<br /> + +Bomtempo +<br /> + +<br /> + +Borges & Irmão +<br /> + +<br /> + +Bourbon de Menezes +<br /> + +<br /> + +Braamcamp +<br /> + +<br /> + +Branca de Gonta Colaço +<br /> + +<br /> + +Brazão +<br /> + +<br /> + +Brito Aranha +<br /> + +<br /> + +Brouillard (Madame) +<br /> + +<br /> + +Buiça +<br /> + +<br /> + +Bulhão Pato +<br /> + +<br /> + +Burnay +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>C</b> +<br /> + +<br /> + +Caldeira +<br /> + +<br /> + +Camillo +<br /> + +<br /> + +Campos Henriques +<br /> + +<br /> + +Candida da Nora Kendall +<br /> + +<br /> + +Candido dos Reis +<br /> + +<br /> + +Capelo (Almirante) +<br /> + +<br /> + +Cardia +<br /> + +<br /> + +Carlos (D.) +<br /> + +<br /> + +Carlos de Freitas Jacome +<br /> + +<br /> + +Carlos Lobo d'Avila +<br /> + +<br /> + +Carlos Mayer +<br /> + +<br /> + +Carlota Joaquina (Dr.) +<br /> + +<br /> + +Carnaxide (Visconde de) +<br /> + +<br /> + +Carneiro de Moura +<br /> + +<br /> + +Carracida +<br /> + +<br /> + +Carrilho +<br /> + +<br /> + +Casal Ribeiro (Conde de) +<br /> + +<br /> + +Castello-Melhor +<br /> + +<br /> + +Castilho +<br /> + +<br /> + +Castro Solla (Conde de) +<br /> + +<br /> + +Celso Herminio +<br /> + +<br /> + +Chancelleiros +<br /> + +<br /> + +Chapuy +<br /> + +<br /> + +Christina Rezende da Silva +<br /> + +<br /> + +Cipriano Jardim +<br /> + +<br /> + +Coelho de Carvalho +<br /> + +<br /> + +Columbano +<br /> + +<br /> + +Conceição de Carvalho +<br /> + +<br /> + +Correia de Barros +<br /> + +<br /> + +Correia d'Oliveira +<br /> + +<br /> + +Costa Pinto +<br /> + +<br /> + +Costa Santos +<br /> + +<br /> + +Croneau +<br /> + +<br /> + +Cunha e Costa +<br /> + +<br /> + +Curry Cabral +<br /> + +<br /> + +Custodio Borja +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>D</b> +<br /> + +<br /> + +Dantas Baracho +<br /> + +<br /> + +Delcassé +<br /> + +<br /> + +Dias Costa +<br /> + +<br /> + +Dreyfus +<br /> + +<br /> + +Duval Telles<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[323]</span> +<b>E</b> +<br /> + +<br /> + +Eça de Queiroz +<br /> + +<br /> + +Eça Leal +<br /> + +<br /> + +Edla (Condessa de) +<br /> + +<br /> + +Eduardo Burnay +<br /> + +<br /> + +Eduardo Cheira +<br /> + +<br /> + +Eduardo Cordeiro +<br /> + +<br /> + +Eduardo de Sousa +<br /> + +<br /> + +Eduardo Pimenta +<br /> + +<br /> + +Eduardo Tavares +<br /> + +<br /> + +Eduardo VII +<br /> + +<br /> + +Egas Moniz +<br /> + +<br /> + +Elisa Baerlein +<br /> + +<br /> + +Elisa Baptista de Sousa Pedroso +<br /> + +<br /> + +Elvino de Brito +<br /> + +<br /> + +Emidio Navarro +<br /> + +<br /> + +Emilia Adelaide +<br /> + +<br /> + +Emilia das Neves +<br /> + +<br /> + +Ernest George +<br /> + +<br /> + +Espregueira +<br /> + +<br /> + +Eugenio de Castro +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>F</b> +<br /> + +<br /> + +Falcarreras +<br /> + +<br /> + +Fernandes Thomaz +<br /> + +<br /> + +Fernando (D.) +<br /> + +<br /> + +Fernando de Serpa +<br /> + +<br /> + +Fernando Martins de Carvalho +<br /> + +<br /> + +Ferreira d'Almeida +<br /> + +<br /> + +Ferreira do Amaral +<br /> + +<br /> + +Fialho +<br /> + +<br /> + +Ficalho (Conde de) +<br /> + +<br /> + +Ficalho (Condessa de) +<br /> + +<br /> + +Ficalho (Marquez de) +<br /> + +<br /> + +Fife (Duque de) +<br /> + +<br /> + +Figueiró (Conde de) +<br /> + +<br /> + +Figueiró (Condessa de) +<br /> + +<br /> + +Fonseca, Santos & Viana +<br /> + +<br /> + +Fontes +<br /> + +<br /> + +Foz (Marquez da) +<br /> + +<br /> + +França Borges +<br /> + +<br /> + +Francisco Figueira +<br /> + +<br /> + +Francisco Medeiros +<br /> + +<br /> + +Franco (Marquez de) +<br /> + +<br /> + +Francisco da Fonseca Benevides +<br /> + +<br /> + +Frederico Arouca +<br /> + +<br /> + +Frei +<br /> + +<br /> + +Freitas Branco +<br /> + +<br /> + +Freitas Brito +<br /> + +<br /> + +Freitas Rego +<br /> + +<br /> + +Fronteira (Marquez da) +<br /> + +<br /> + +Fumega (Major) +<br /> + +<br /> + +Fuschini +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>G</b> +<br /> + +<br /> + +Garrett +<br /> + +<br /> + +Garaty (Mr. Garaty (Mr. e M.<sup>me</sup>) +<br /> + +<br /> + +Garrido +<br /> + +<br /> + +Guerra Junqueiro +<br /> + +<br /> + +Gervasio Lobato +<br /> + +<br /> + +Gomes dos Santos +<br /> + +<br /> + +Gomes Leal +<br /> + +<br /> + +Gomes Netto +<br /> + +<br /> + +Graça (Major) +<br /> + +<br /> + +Guilherme de Azevedo +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>H</b> +<br /> + +<br /> + +Heitor Ferreira +<br /> + +<br /> + +Henrique de Vasconcellos +<br /> + +<br /> + +Hintze Ribeiro +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>I</b> +<br /> + +<br /> + +Idanha (Viscondessa de) +<br /> + +<br /> + +Imperador do Brazil +<br /> + +<br /> + +Irene Gilman +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>J</b> +<br /> + +<br /> + +Jacintho Candido +<br /> + +<br /> + +Jayme Arthur da Costa Pinho +<br /> + +<br /> + +Jayme de Seguier +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[324]</span> +Jayme Victor +<br /> + +<br /> + +João d'Alarcão (D.) +<br /> + +<br /> + +João Barreira +<br /> + +<br /> + +João Chagas +<br /> + +<br /> + +João Chrisostomo +<br /> + +<br /> + +João da Camara (D.) +<br /> + +<br /> + +João de Deus +<br /> + +<br /> + +João de Deus Guimarães +<br /> + +<br /> + +João Franco +<br /> + +<br /> + +João Pinto dos Santos +<br /> + +<br /> + +João de Menezes +<br /> + +<br /> + +João VI (D.) +<br /> + +<br /> + +Joaquim da Boa Morte Alves de Moura +<br /> + +<br /> + +Joaquim Pessoa +<br /> + +<br /> + +John Burnay +<br /> + +<br /> + +Jorge Colaço +<br /> + +<br /> + +Jorge O'Neill +<br /> + +<br /> + +José d'Azevedo +<br /> + +<br /> + +José Bacellar +<br /> + +<br /> + +José Dias (conego) +<br /> + +<br /> + +José Dias Ferreira +<br /> + +<br /> + +José de Figueiredo +<br /> + +<br /> + +José Lobo +<br /> + +<br /> + +José Luciano +<br /> + +<br /> + +José Maria dos Santos +<br /> + +<br /> + +José Nunes +<br /> + +<br /> + +José Paulo Menano +<br /> + +<br /> + +José Reinach +<br /> + +<br /> + +José Saragga +<br /> + +<br /> + +Julio de Vilhena +<br /> + +<br /> + +Judeu +<br /> + +<br /> + +Judice Bicker +<br /> + +<br /> + +Julia Bordallo +<br /> + +<br /> + +Justino +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>L</b> +<br /> + +<br /> + +Latino Coelho +<br /> + +<br /> + +Leão XIII +<br /> + +<br /> + +Leitão (Ourives) +<br /> + +<br /> + +Lencastre de Menezes (General) +<br /> + +<br /> + +Lima Junior +<br /> + +<br /> + +Linhares (conde de) +<br /> + +<br /> + +Lopo Vaz +<br /> + +<br /> + +Loubet +<br /> + +<br /> + +Loulé (Duqueza de) +<br /> + +<br /> + +Luciano Monteiro +<br /> + +<br /> + +Lumiares (condes de) +<br /> + +<br /> + +Luiza Patricio de Balsemão +<br /> + +<br /> + +Luiz (D.) +<br /> + +<br /> + +Luiz da Camara (D.) +<br /> + +<br /> + +Luiz Campeão +<br /> + +<br /> + +Luiz de Castro (D.) +<br /> + +<br /> + +Luiz Fillipe (D.) +<br /> + +<br /> + +Luiz Osorio +<br /> + +<br /> + +Luiz Trigueiros +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>M</b> +<br /> + +<br /> + +Machado (capitão) +<br /> + +<br /> + +Malaquias de Lemos +<br /> + +<br /> + +Manuela Rey +<br /> + +<br /> + +Manuel (D.) +<br /> + +<br /> + +Manuel Bordallo Pinheiro +<br /> + +<br /> + +Manuel Figueira +<br /> + +<br /> + +Manuel Hintze Ribeiro +<br /> + +<br /> + +Manuel Ramos +<br /> + +<br /> + +Manuel Ribeiro Borges +<br /> + +<br /> + +Manuel Vaz Preto +<br /> + +<br /> + +Marçal Pacheço +<br /> + +<br /> + +Magdalena Trigueiros +<br /> + +<br /> + +Mardel +<br /> + +<br /> + +Maria Augusta (D.) +<br /> + +<br /> + +Maria Emilia Seabra (D.) +<br /> + +<br /> + +Maria Emilia Macieira Lino (D.) +<br /> + +<br /> + +Maria (Infanta D.) +<br /> + +<br /> + +Maria II (D.) +<br /> + +<br /> + +Maria Kruz Brito (D.) +<br /> + +<br /> + +Maria Pia (D.) +<br /> + +<br /> + +Maria Tereza Pinto de Magalhães (D.) +<br /> + +<br /> + +Marquez da Foz +<br /> + +<br /> + +Marcelino de Mesquita +<br /> + +<br /> + +Mariano +<br /> + +<br /> + +Martins de Carvalho +<br /> + +<br /> + +Mathias de Carvalho +<br /> + +<br /> + +Matoso dos Santos +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[325]</span> +Maura +<br /> + +<br /> + +Max Nordau +<br /> + +<br /> + +Maximiliano d'Azevedo +<br /> + +<br /> + +May Figueira +<br /> + +<br /> + +Mello Barreto +<br /> + +<br /> + +Mesquitella (conde de) +<br /> + +<br /> + +Monpensier (Duqueza de) +<br /> + +<br /> + +Moreira d'Almeida +<br /> + +<br /> + +Moreira Marques +<br /> + +<br /> + +Moreirinha +<br /> + +<br /> + +Monteiro Milhões +<br /> + +<br /> + +Motta Marques Meirelles (Juiz) +<br /> + +<br /> + +Moser +<br /> + +<br /> + +Moura Cabral +<br /> + +<br /> + +Mousinho +<br /> + +<br /> + +Munhoz +<br /> + +<br /> + +Murça (condes de) +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>N</b> +<br /> + +<br /> + +Napoles +<br /> + +<br /> + +Navarro +<br /> + +<br /> + +Nazareth +<br /> + +<br /> + +Norton de Mattos +<br /> + +<br /> + +Nuno Castello Branco +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>O</b> +<br /> + +<br /> + +Oliveira (das <em>cautellas</em>) +<br /> + +<br /> + +Oliveira Martins +<br /> + +<br /> + +Oliveira Mattos +<br /> + +<br /> + +Ottolini da Veiga +<br /> + +<br /> + +Ouguella (Visconde de) +<br /> + +<br /> + +Ovidio d'Alpoim +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>P</b> +<br /> + +<br /> + +Paccini +<br /> + +<br /> + +Paçô Vieira (conde de) +<br /> + +<br /> + +Pad' Zé +<br /> + +<br /> + +Padre Matos +<br /> + +<br /> + +Palmeirim +<br /> + +<br /> + +Palmeirim (General) +<br /> + +<br /> + +Palmella (Duqueza de) +<br /> + +<br /> + +Paraty (condes de) +<br /> + +<br /> + +Paris (condessa de) +<br /> + +<br /> + +Patrocinio (D.) +<br /> + +<br /> + +Paulucci +<br /> + +<br /> + +Pedro d'Araujo +<br /> + +<br /> + +Pedro Martins +<br /> + +<br /> + +Pedro de Noronha (D.) +<br /> + +<br /> + +Pedro IV (D.) +<br /> + +<br /> + +Pedro V (D.) +<br /> + +<br /> + +Pedro Victor +<br /> + +<br /> + +Penalva (Marquez de) +<br /> + +<br /> + +Penamacor (condessa de) +<br /> + +<br /> + +Penha Garcia (conde de) +<br /> + +<br /> + +Peniche (conde de) +<br /> + +<br /> + +Pequito +<br /> + +<br /> + +Pereira das Neves +<br /> + +<br /> + +Pimentel Pinto +<br /> + +<br /> + +Pinheiro Chagas +<br /> + +<br /> + +Pinto Basto +<br /> + +<br /> + +Poitier +<br /> + +<br /> + +Pombal (Marquez de) +<br /> + +<br /> + +Ponte de Lima (Marquezes) +<br /> + +<br /> + +Povolide (conde de) +<br /> + +<br /> + +Praia (Marquezes da) +<br /> + +<br /> + +Prim +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>Q</b> +<br /> + +<br /> + +Queiroz +<br /> + +<br /> + +Queiroz Ribeiro +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>R</b> +<br /> + +<br /> + +Ramalho +<br /> + +<br /> + +Rangel de Lima +<br /> + +<br /> + +Raphael Bordalo +<br /> + +<br /> + +Rebello da Silva +<br /> + +<br /> + +Regaleira (Baroneza da) +<br /> + +<br /> + +Ressano Garcia +<br /> + +<br /> + +Rezende +<br /> + +<br /> + +Ribeira Brava (Visconde da) +<br /> + +<br /> + +Ribeira Grande (conde da) +<br /> + +<br /> + +Ricardo Jorge +<br /> + +<br /> + +Rio-Maior (condessa de) +<br /> + +<br /> + +Rodin +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[326]</span> +Rodrigo da Fonseca Magalhães +<br /> + +<br /> + +Rosa Damasceno +<br /> + +<br /> + +Rosa pae +<br /> + +<br /> + +Rossini +<br /> + +<br /> + +Rufino d'Almeida +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>S</b> +<br /> + +<br /> + +Sabugosa (conde de) +<br /> + +<br /> + +Saldanha (Duque de) +<br /> + +<br /> + +Sampaio (Visconde de) +<br /> + +<br /> + +Santos (Major) +<br /> + +<br /> + +Santos Viegas +<br /> + +<br /> + +Sarah da Motta Vieira Marques +<br /> + +<br /> + +Saraiva de Carvalho +<br /> + +<br /> + +Schwalbach +<br /> + +<br /> + +Sebastião Telles +<br /> + +<br /> + +Sergio de Castro +<br /> + +<br /> + +S. Boaventura +<br /> + +<br /> + +S. Lourenço (condessa de) +<br /> + +<br /> + +S. Luiz de Braga (Viscondes de) +<br /> + +<br /> + +Silva Bastos +<br /> + +<br /> + +Silva Canellas +<br /> + +<br /> + +Silva Carvalho +<br /> + +<br /> + +Silva Graça +<br /> + +<br /> + +Silva Pinto +<br /> + +<br /> + +Silva Telles +<br /> + +<br /> + +Sousa Holstein +<br /> + +<br /> + +Sousa Martins +<br /> + +<br /> + +Soveral (Marquez de) +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>T</b> +<br /> + +<br /> + +Taborda +<br /> + +<br /> + +Tavares Festas +<br /> + +<br /> + +Taveira (condessa de) +<br /> + +<br /> + +Teixeira de Sousa +<br /> + +<br /> + +Teodoro d'Almeida +<br /> + +<br /> + +Theophilo Braga +<br /> + +<br /> + +Thomaz Ribeiro +<br /> + +<br /> + +Tompson +<br /> + +<br /> + +Torlades (casa) +<br /> + +<br /> + +Torre da Murta (Visconde da) +<br /> + +<br /> + +Totenbach +<br /> + +<br /> + +Trindade Coelho +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>U</b> +<br /> + +<br /> + +Urbano de Castro +<br /> + +<br /> + +Urbano Rodrigues +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>V</b> +<br /> + +<br /> + +Valbom +<br /> + +<br /> + +Valdez +<br /> + +<br /> + +Valença (conde de) +<br /> + +<br /> + +Val-Flôr (Marquez de) +<br /> + +<br /> + +Vallada (Marquez de) +<br /> + +<br /> + +Valladares (conde de) +<br /> + +<br /> + +Varzea (Visconde da) +<br /> + +<br /> + +Vasconcellos Porto +<br /> + +<br /> + +Vianna (Marquez de) +<br /> + +<br /> + +Vicente da Camara +<br /> + +<br /> + +Victor Hugo +<br /> + +<br /> + +Victoria (Rainha) +<br /> + +<br /> + +Vilaça +<br /> + +<br /> + +Villa de Fozcoa (Barão de) +<br /> + +<br /> + +Villa Nova de Cerveira (conde de) +<br /> + +<br /> + +Villa Real e Mello (condessa de) +<br /> + +<br /> + +Vimioso (conde de) +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>W</b> +<br /> + +<br /> + +Wenceslau de Lima +<br /> + +<br /> + +Wernestein +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>Z</b> +<br /> + +<br /> + +Zola +<br /> + +<br /> + +Zulmira Franco Teixeira +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>INDICE DOS CAPITULOS</h3> + +<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 70%; margin-left: 15%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">Pags.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Prefacio</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c1">9</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Algumas +Figuras</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c2">27</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Pó da +Estrada</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c3">93</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>A Sociedade +Elegante</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c4">267</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>O Mundo +Politico</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c5">289</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>INDICE DAS GRAVURAS +</h3> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 70%; margin-left: 15%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">Pags.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Columbano, +Auto—retrato</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#f1">33</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Fialho +d'Almeida</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#f2">49</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>D. João da +Camara</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#f3">57</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Eça de +Queiroz</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#f4">65</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Antonio Nobre no +caixão</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#f5">81</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Correia +d'Oliveira</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#f6">89</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Fernandes Thomaz, no seu +gabinete</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#f7">97</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Guerra +Junqueiro</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#f8">113</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>José Luciano encerra o +Parlamento</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#f9">129</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Celso +Herminio</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#f10">145</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Gomes +Leal</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#f11">161</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>D. Carlos I de +Portugal</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#f12">177</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Oliveira +Martins</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#f13">193</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Papelinhos sobre o +regicidio</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#f14">206</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Dantas +Baracho</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#f15">225</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>José Maria +d'Alpoim</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#f16">241</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Teixeira de +Sousa</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#f17">257</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">acabou de se imprimir<br /> + +na tipografia da «renascença portuguesa»<br /> + +rua dos mártires da liberdade, 178,<br /> + +aos 21 de janeiro de 1919.<br /> + +porto</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>Notas:</b><br /> + +<br /> + +<a name="n1" id="n1"></a><sup>[1]</sup> +Estas <em>Memorias</em> devem +formar quatro volumes:—2.º +vol.—Os bastidores da monarchia. Vida literaria. Theatro +por dentro; 3.º vol.—A Republica. O comercio e a +finança. Jornaes e jornalistas; 4.º +vol.—A +Republica e +os seus homens. Vida militar.<br /> + +<br /> + +<a name="n2" id="n2"></a><sup>[2]</sup> +<em>Republica</em>, 23 de +Fevereiro de 1915.<br /> + +<br /> + +<a name="n3" id="n3"></a><sup>[3]</sup> +«Volta-se para o governo do seu paiz, e pede-lhe +que se lembre da recepção de Afonso XII em Paris, +e que +ponha Sua Magestade a coberto de qualquer +manifestação +que possa porventura nascer, da atitude da Rainha. Limem-se +as dificuldades, empreguem-se todos os esforços, +nossos e alheios; lancemos mão da nossa +situação privilegiada +com a Inglaterra; ponhamos todos os elementos disponiveis +em acção, para que o céo serene. Por +exemplo: +que está fazendo o sr. Soveral em Paris? Façam-no +recolher +imediatamente a Londres».<br /> + +<br /> + +<a name="n4" id="n4"></a><sup>[4]</sup> +Existe uma carta em que o rei D. Carlos diz ao +Navarro, que é absolutamente falso que elle se oponha a +que o nomeiem par do reino. Seriam os politicos capazes +de armar a intriga?...<br /> + +<br /> + +<a name="n5" id="n5"></a><sup>[5]</sup> +Um dos seus sobrinhos escreveu um artigo interessante, +do qual extracto os seguintes periodos: +<br /> + +<br /> + +«No seu espirito fluctuava uma bondade inata que se +traduzia por uma profunda afabilidade na vida intima e por +uma indulgencia estranha no julgamento dos homens. Jámais +acreditou em malevolas intenções e nunca da sua +bocca saiu uma insinuação maliciosa. Confiava +sempre na +bondade dos outros, não hesitando, nos momentos de +agitação +popular, em atravessar serenamente as ruas da capital +revoltada, como sucedeu em 5 de outubro e 14 de maio. E +quando a familia, naturalmente receiosa, lhe solicitava para +não sahir, respondia sempre com toda a tranquilidade: +«a mim +ninguem me faz mal, pois eu nunca fiz mal a ninguem». +<br /> + +<br /> + +«As suas ferias passava-as a estudar. Ora meditava +trabalhos de jurisprudeneia, ora, para descansar, apreciava +as mais belas obras de literatura. Dotado de uma memoria +privilegiada, sabia de cór longos trechos de versos, e +até +nos ultimos horriveis momentos da sua existencia, arquejando no leito +de dôr, ora recomendava pontos +importantes +dos processos que trazia entre mãos, ora citava frases de +grandes poetas e filosofos referentes á hora suprema que +rapidamente se aproximava. E quando a noite cahia, tudo +envolvendo no seu manto de tristeza, era com uma anciedade +estranha que esperava, na longa vigilia dolorosa, a +chegada do sol radiante. E foi com uma precisão rara que +previu a hora da sua morte. Mais tres dias, mais dois dias +e tudo estará acabado. E, de facto, assim sucedeu! +<br /> + +<br /> + +«Apaixonava-o o estudo da astronomia, e nos ultimos +tempos antes de morrer, apesar da sua avançada idade de +75 anos, vergado sobre obras da especialidade e, nas horas +silenciosas das serenas noites de verão, passeando na sua +quinta dos Covas, ou encostado ás amplas janelas da sua +biblioteca, que tanto amava, reconhecia uma a uma as +constelações e descobria entre os inumeros astros +que recamavam +o firmamento, aquelles que os seus auctores +haviam indicado.»<br /> + +<br /> + +<a name="n6" id="n6"></a><sup>[6]</sup> +«Effectivamente, segundo nos informam... o homem +das <em>barbas e da carabina não sahiu debaixo +da Arcada</em> (sic) do +Ministerio do Reino, visto, que com outro +individuo se encontravam juntos da aludida +arvore.»—<span class="smallcaps">Para +quê?...</span> por +<span class="smallcaps">José Nunes</span>.<br /> + +<br /> + +<a name="n7" id="n7"></a><sup>[7]</sup> +Parece que o que salvou a rainha foi o cocheiro +poder arrancar, bater nos cavalos, por ordem da condessa +de Figueiró, e aquilo seguir, com os mortos e a rainha +louca de dôr:—Mortos! mortos! e ninguem para os +salvar!—N'um +gesto maternal debruçara-se cobrindo o filho com o +proprio corpo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +—Quem matou o rei... «O grupo foi em parte +organisado +durante o dia 31 e ás 3 horas da madrugada do +dia 1 de fevereiro, em uma quinta dos arredores de Lisboa +decidiu-se que só fossem cinco os individuos a executar +o plano do Boulevard +Poissonière.»—<span class="smallcaps">Para +Quê</span>? +por <span class="smallcaps">José Nunes</span>. +<br /> + +<br /> + +...«Se na tarde do 1.º de fevereiro de 1908 +não +se +désse mais que o primeiro tiro que se deu, e esse foi de +carabina, ficariam vivas todas as pessoas reaes, excepto o +rei. Não obstante o tiroteio ter-se desenvolvido +momentaneamente, +assaltando-se ao mesmo tempo a carruagem, foi +então que, sobre o pae e o filho, se dispararam mais tiros, +alguns d'elles mortaes».—<span class="smallcaps">Para +Quê</span>? por <span class="smallcaps">José +Nunes</span>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +...—Ao menos responda-nos a esta pergunta: o Buiça +e o Costa teriam cumplices? +<br /> + +<br /> + +E o sr. Laranjeira, sorrindo, affirma: +<br /> + +<br /> + +—Tinham varios amigos...?—E hesita.—O que +lhe +posso garantir, é que o Buiça +não foi o heroe principal; +quem preparou tudo foi o Alfredo Costa na «Loja Obreiros +do Trabalho». O Costa tinha uma grande influencia sobre +varios rapazes de valor e de audacia. Tambem sem receio +de ser desmentido lhe posso asseverar que o Alfredo Luiz +da Costa foi assassinado por mão occulta, quando vinha, +preso e vivo, para o posto da Camara Municipal. Note que +as suas ultimas palavras foram estas.—Ai minha +mãe, que +me trahiram!—E o chefe Bazilio, um dos que o conduzia, +não pôde vêr quem lhe +descarregára a arma, matando-o... +No meu modo de vêr, os novelleiros encartados, dizem coisas +sobre coisas, sem conhecerem o <em>fio á +meada</em>, e é exactamente +o que tem prejudicado tudo e todos.» +<br /> + +<br /> + +Revelações sobre o regicidio—Entrevista +com o +sr. Rodrigues +Larangeira publicada no <em>Imparcial</em> de +1 de julho +de 1910. +<br /> + +<br /> + +<a name="n8" id="n8"></a><sup>[8]</sup> +Apurou-se que o ex-ministro em Londres, de julho +de 1892 a 12 de Novembro de 1910, recebera o seguinte:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; margin-left: 15%; width: 70%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 65%;">1892-1893</td> + + <td style="width: 5%;"></td> + + <td style="text-align: right;">10.833$890</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>1893-1894</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">12.841$593</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>1894-1895</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">16.699$006</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>1895-1896 (10 de Junho a 30 de +Setembro)</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">2.163$750</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>1896-1898</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">17.264$456</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>1896-1897 (26 de Abril a 26 de +Julho)</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">2.441$625</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>1898-1899</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">15.618$168</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>1899-1900</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">15.835$443</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>1900-1901</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">12.976$500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>1901-1902</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">14.211$412</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>1902-1903</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">21.807$881</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>1903-1904</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">15.963$505</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>1904-1905</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">35.481$112</td> + + </tr> + + <tr> + + <td> </td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"> + <hr /></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">A +transportar</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">194.138$341</td> + + </tr> + + <tr> + + <td> </td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"> </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">Transporte</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">194.138$341</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>1905-1906</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">21.437$118</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>1906-1907</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">25.749$787</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>1907-1908</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">20.447$868</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>1908-1909</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">11.802$562</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>1909-1910</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">12.487$687</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>1910-1911 (de 16 de Julho a 12 de +Novembro)</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">3.515$680</td> + + </tr> + + <tr> + + <td> </td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"> + <hr /></td> + + </tr> + + <tr> + + <td> </td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">289.679$044</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +Recebeu mais:<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; margin-left: 15%; width: 70%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 65%;">Pela rubrica de +adeantamentos</td> + + <td style="width: 5%;"></td> + + <td style="text-align: right;">5.743$815</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Pela rubrica de +suprimentos</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">226$035</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Pela rubrica de +adeantamentos</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">450$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Pela rubrica da visita aos Reis d'Inglaterra, +1904-1905.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">21.042$935</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"> + <hr /></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">Total—Reis</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">317.041$828</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +—As despezas legaes auctorisadas eram de 10.950$000 +réis por anno. Vê-se como eram excedidas! +<br /> + +<br /> + +—Segundo o oficio do ex-ministro Vilaça para o +ministro +da fazenda, pedindo mais dinheiro para Soveral, +este, no almoço e ornamentação da +legação, na visita do +rei Carlos, consumira mais o seguinte: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; margin-left: 25%; width: 50%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 75%;">Almoço, +libras</td> + + <td style="text-align: right;">325 —</td> + + <td style="text-align: right;">12</td> + + <td style="text-align: right;">— 0 </td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Vinho, +libras.</td> + + <td style="text-align: right;">49 —</td> + + <td style="text-align: right;">6</td> + + <td style="text-align: right;">— 6</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Decorações, +libras</td> + + <td style="text-align: right;">1.760 —</td> + + <td style="text-align: right;">1</td> + + <td style="text-align: right;">— 0</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td colspan="3" rowspan="1" style="text-align: right;"> + <hr /></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">Total, libras.</td> + + <td style="text-align: right;">2.134 —</td> + + <td style="text-align: right;">19</td> + + <td style="text-align: right;">— 6</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +—Averiguou-se, pelo oficio do ex-director geral da +thesouraria, Perestrelo, que pelo mesmo motivo da visita +do rei Carlos, Soveral recebera mais: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; margin-left: 15%; width: 70%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 65%;">Em 30 de Novembro de 1904, +libras</td> + + <td style="width: 5%;"></td> + + <td style="text-align: right;">1.500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Em 10 de Dezembro do mesmo anno, +libras</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">1.000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td> + <hr /></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">Total, +libras.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">2.500</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +Todas estas quantias, em libras, ou em réis, foram +calculadas +ao cambio par. Como n'aquellas épocas houve subido +agio sobre o ouro, e calculando esse agio n'uma media de +15%, vê-se que notavel aumento ha nas despezas descritas! +<br /> + +<br /> + +Soveral recebeu mais, pela verba de despezas diversas +extraordinarias no anno economico de 1909-1910, sem qualquer +justificação, réis 1.934$855; e pela +verba destinada á +viagem a Londres do rei D. Manuel, réis 4.468$900. +<br /> + +<br /> + +Na liquidação e pagamento dos direitos de +mercê, +emolumentos e sellos, houve enorme trapalhada durante +muitos annos, d'onde resultou Soveral esquivar-se ao cumprimento +das leis fiscaes. +<br /> + +<br /> + +Deve os direitos de mercê e emolumentos e sello pelo +titulo de Conselho, pelo titulo de Marquez, pelo cargo de +secretario da legação em Londres, pelo cargo de +ministro +em Londres, pela gran-cruz da Torre e Espada, etc. +<br /> + +<br /> + +Quando foi ministro dos negocios estrangeiros, teve a +habilidade de em 17 mezes, só á sua parte, +consumir em +despezas reservadas, réis 37.757$515, sem deixar no +ministerio +qualquer documento, explicando ou justificando o emprego +de qualquer verba!—<em>Intransigente</em>, +de 31 de Março +de 1911.<br /> + +<br /> + +<a name="n9" id="n9"></a><sup>[9]</sup> +«Escrevem-nos de Braga: +<br /> + +<br /> + +Joaquim de Sequeira Lopes, negociante, e Manoel +Coelho dos Santos, penhorista, são pessoas de bem e +residem em Espinho. +<br /> + +<br /> + +Sequeira Lopes foi em Novembro de 1907 para Lisboa +curar uma molestia hospedando-se em casa de seu irmão +Frederico, negociante, chefe graduado do alpoinismo. D'ali +escrevia semanalmente ao Coelho, com quem tinha negocios, +quando na capital começou a agitação +para derrubar +o Franco, dando em cada carta uma noticia politica, que o +Coelho lia em toda a parte onde se lia politica. Na quarta-feira +ou quinta da semana do regicidio, essa noticia era d'este theor: <em>Disseram +hoje a Frederico, +no escriptorio forense... +que João Franco seria assassinado em 24 +horas</em>. Quando chegou a Espinho a carta que continha esta +noticia, +tinham passado as taes 24 horas, por isso o valor da +noticia estava prejudicado. Deu-se o atentado no sabado e +na quarta-feira seguinte a carta habitual dava esta noticia: +<br /> + +<br /> + +<em>Os revolucionarios, vendo-se perdidos pela +prisão dos +chefes, reuniram-se secretamente, republicanos e dessidentes +d'acção, e resolveram a morte da familia real. +Propoz-se que +os executores fossem tirados á sorte, mas o professor +Buiça +protestou, oferecendo-se voluntariamente, sendo o seu alvitre +secundado por muitos que se promptificaram a +auxilial-o.</em> +<br /> + +<br /> + +Estes apontamentos foram dados ao ministro Campos +Henriques logo depois da formação do gabinete +Amaral. +Foram em carta anonyma, mas acompanhados d'um +grande numero de testemunhas que viram e leram as taes +noticias, figurando n'ellas o coronel reformado Raul de Passos, +d'Elvas, que na ocasião residia em Espinho +e dava a +semelhantes noticias um grande valor para a +investigação. +<br /> + +<br /> + +Campos Henriques, o que demitiu o juiz Alves Ferreira +e chamou o outro da Meda, fez de conta que nada +era com elle. N'esta pista ninguem mexeu.» +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="ast">*</div> + +<br /> + +<br /> + +«A reunião, afirma-se, teve logar na Costa do +Castello. +Tomaram parte n'ella quadrilheiros da quadrilha republicana +e de todas as quadrilhas monarchicas»...<sup><a href="#n9a">[9a]</a></sup> +<br /> + +<br /> + +<div class="quote3"><a name="n9a" id="n9a"></a><sup>[9a]</sup> +Quem quizer conhecer a historia contemporanea tem de +lêr e +consultar a colecção d'<em>O Povo +d'Aveiro</em>. É indispensavel. Essa voz +tremenda +e colérica préga, ha annos, sem um +desfalecimento, meia duzia de +verdades essenciaes ao paiz. Além d'isso Homem Christo +é o maior jornalista +portuguez e um pamphletario que só tem outro na nossa +literatura +que se lhe compare—José Agostinho de Macedo.</div> + +<br /> + +<br /> + +<a name="n10" id="n10"></a><sup>[10]</sup> +Essa extraordinaria sessão, em que o parlamento +parecia estar no banco dos réus e o Afonso Costa, theatral, +surgia como um acusador triumphante!... O ministerio +tinha desaparecido. Fugira! Ninguem sabia do que se ia +tratar: esperava-se peor, muito peor... A impressão real, +patente, autentica, era de que elle ia fulminal-os com provas +á vista, acusando-os d'um crime... De que crime tremendo? +Quando leu os documentos houve uma impressão +de alivio, quasi a exclamação:—Era +só +aquillo?...—E +quando baralhou e se enganou nos nomes da pessoa +que acusava—ninguem soube aproveitar o momento, o +erro, a oportunidade... Ninguem se quiz comprometer... +A defeza feita pelo Paçô foi fragil, risonha, +quasi «pedindo +desculpa»...<br /> + +<br /> + +<a name="n11" id="n11"></a><sup>[11]</sup> +Folheto de 10 paginas, com este titulo: +<em>Os Barbadões, +resumo historico por D. Sebastião de Vasconcellos, +Bispo de Beja, Par do Reino e Comendador da Nobilissima +Ordem de N. S. da Conceição de Villa +Viçosa. Propriedade +da Empreza Editora do Jornal «Portugal» +Limitada</em>.<br /> + +<br /> + +<a name="n12" id="n12"></a><sup>[12]</sup> +Carta publicada n'<em>O +Norte</em> de 1 de Setembro de +1918 pelo snr. Bourbon e Menezes: +<br /> + +<br /> + +<div class="signature tinyl"> +Meu Senhor: +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="tinyl">Tenho a honra de communicar a V. +Magestade que, +nos termos assentados, escrevi ao seu encarregado de negocios +em Berlim para fazer-lhe saber a conveniencia q. +haveria em retro-trahir +<em>(sic)</em> a data da visita de +V. Magestade +para 20 de novembro e nesta orientação lhe expuz, +para levar ao conhecimento do Ministerio dos Negocios +Estrangeiros allemão, os argumentos e razões que +me pareceram +apropriados ao fim que se pretende. Julgo q. isto +merecerá a aprovação de V. Magestade. +<br /> + +<br /> + +Quanto ao assunto da nossa conversação no +Paço das +Necessidades, entendi hoje aproveitar a oportunidade de +vir o marquez de Villalobar dar-me uns informes que é +natural +que V. Magestade já conheça pelo conde de +Sabugosa, +para entrar com elle em conversa officiosa sobre a +conveniencia de estreitar em bases definidas as nossas +relações +politicas, visto os dois paizes soffrerem de um mal +commum—a invasão da onda democratica. Neste +sentido +lhe fiz um longo arrazoado que elle recebeu com agrado a +ponto de me perguntar se queria que levasse isso ao conhecimento +do seu soberano ou apenas do Presidente do +Conselho. Fiz-lhe notar que esta idea era apenas +<em>pessoal</em> e +<em>minha</em>, que sobre ella não +tinha consultado o governo e que +V. Magestade nem de leve suspeitava d'este meu ponto de +vista, que a minha idea era de que as duas nações +por um +instrumento secreto se comprometessem a um mutuo auxilio, no caso de +irrompessem<em>(sic)</em> movimentos +revolucionarios +que puzessem lá e cá em risco a +segurança das +instituições. +<br /> + +<br /> + +Elle concordou em que o interesse era commum e por +isso reciproca a vantagem e lhe parecia que seria grato ao +coração de S. Magestade o Rei D. Affonso o +lembrarmo-nos +d'elle em tal conjunctura, independentemente das +estipulações +da nossa alliança com a Inglaterra. Entendi pôr +n'este pé a questão porq. tinha +opurtunidade <em>(sic)</em> e corresponde +a uma necessidade que não é +<em>só nossa</em> mas tambem +d'elles. O ministro comprehendeu bem a minha idea e disse-me +que a ia transmitir a Espanha, a Canalejas, afirmando-me +que poria n'isto todo o seu empenho. Fiz-lhe sentir +que seria bom pôr só a questão +<em>em principio</em> e quanto á +extensão e detalhes do acordo seria para regular depois +quando V. Magestade e o governo conhecessem o assumpto. +Não quiz ir mais longe para me não envolver em +dissertações +sobre acordos economicos que me parecem pouco +convenientes agora para nós. Eis o que fiz e o que me parece +que diviria <em>(sic)</em> fazer-se por +emquanto, pois que este +assumpto, quanto ás outras nações, +carece de opurtunidade <em>(sic)</em> e entrados +na via de +explicações correriamos o +risco de prejudicar os interesses que temos em vista. +<br /> + +<br /> + +O que se me affigura necessario e conveniente é ligar +os dois paizes n'uma deffeza <em>(sic)</em> +commum, visto que as vantagens e riscos são communs e +não +julgo difficil chegar-se +ao desejado fim, tanto mais quanto as suas +informações +se referem a um movimento revolucionario nos dois +paizes, com dinheiro vindo de França. +<br /> + +<br /> + +Muito prazer terei se o meu parecer merecer a subida +honra da aprovação de V. Magestade, pois que +outro não é +o meu desejo se não de corresponder á sua +confiança com +a pratica de actos meus que sejam acertados. +<br /> + +<br /> + +Mostrou-se o Marquez de Villalobar muito empenhado +em saber o quer que fosse do casamento de V. Magestade. +Continuei affirmando-lhe q. nada sabia porque o que se estava +ainda fazendo em Inglaterra era <em>à +l'insu</em> do governo, +mas que logo q. soubesse cousa digna de ser-lhe communicada, +lhe não faltaria com essa confidencia. +<br /> + +<br /> + +Disse-me elle q. o seu empenho de saber correspondia +ás sucessivas perguntas que de Espanha lhe fazia o seu +Soberano. +<br /> + +<br /> + +<em>Forse che si: forse che +nó.</em> +<br /> + +<br /> + +Beijo respeitosamente as mãos de V. Magestade e em +tudo aguardo, com o devido respeito, as ordens que se +dignar dar ao +<br /> + +<br /> + +<div class="signature1">seu ministro</div> + +<div class="signature2">e subdito obediente</div> + +<br /> + +<div class="quote3">Lisboa, 19-7-910.</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature">(a) <em>José +d'Azevedo Castello +Branco</em>.</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<a name="n13" id="n13"></a><sup>[13]</sup><br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">PREÇO DA VIDA +</div> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 60%; margin-left: 20%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td>Pão—kilo</td> + + <td style="text-align: right;">90</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Carne de segunda +qualidade</td> + + <td style="text-align: right;">300</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Carne +limpa</td> + + <td style="text-align: right;">600</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Vitella</td> + + <td style="text-align: right;">800</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Carne de +porco</td> + + <td style="text-align: right;">480</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Toucinho</td> + + <td style="text-align: right;">320</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Banha</td> + + <td style="text-align: right;">320</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Assucar +pilé</td> + + <td style="text-align: right;">240</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Bacalhau</td> + + <td style="text-align: right;">200</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Massas</td> + + <td style="text-align: right;">150</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Manteiga</td> + + <td style="text-align: right;">800</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Ovos—duzia</td> + + <td style="text-align: right;">250</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Feijão +branco—litro</td> + + <td style="text-align: right;">70</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Petroleo</td> + + <td style="text-align: right;">90</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Leite</td> + + <td style="text-align: right;">100</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Feijão +frade</td> + + <td style="text-align: right;">50</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Feijão da ilha +(manteiga)</td> + + <td style="text-align: right;">100</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Azeite</td> + + <td style="text-align: right;">400</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Carvão—arroba</td> + + <td style="text-align: right;">300</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Uma +pescada</td> + + <td style="text-align: right;">500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Um vestido de +senhora</td> + + <td style="text-align: right;">30$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Um fato de +homem</td> + + <td style="text-align: right;">20$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Um par de +botas</td> + + <td style="text-align: right;">4$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Média do aluguer d'um andar, por semestre +(casa para uma familia da +mediania)</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">120$000</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<a name="n14" id="n14"></a><sup>[14]</sup> +Foi +oficial na marinha ingleza, condecorado na +campanha do Baltico com a medalha militar, e um excelente +administrador. Diz-se que graças a elle é que a +casa +da mulher sahiu da barafunda e quasi ruina a que chegára +á data do casamento. Por isso talvez é que passou +por um +apagado guarda livros...<br /> + +<br /> + +<a name="n15" id="n15"></a><sup>[15]</sup> +Do <em>Correio Nacional</em>, na +sua secção +<em>Ecos</em>: +<br /> + +<br /> + +<div class="tinyl">O sr. Hintze Ribeiro é d'uma +grande generosidade +para com a sua familia. +<br /> + +<br /> + +Demonstra-o a seguinte lista, cuidadosamente confeiçoada +sob informes do <em>Diario do Governo</em>: +<br /> + +<br /> + +Para o elevado logar de inspector dos impostos no +Porto foi transferido o sr. dr. José Paulo Menano, de +24 annos de edade, casado com uma cunhada do sr. +Hintze. +<br /> + +<br /> + +Ha tempos, foi colocado no logar de director do hospital +das Caldas da Rainha o sr. dr. Augusto Cymbron +Borges de Sousa, cunhado do sr. Hintze. +<br /> + +<br /> + +O sr. Manuel Hintze Ribeiro, irmão do sr. Hintze, foi +graduado em inspector superior da alfandega de Ponta +Delgada, passando de 1.170$000 a 1.700$000, mais do +que ganha um director geral. +<br /> + +<br /> + +O sr. Antonio Moreira da Camara Coutinho, sobrinho +do sr. Hintze, foi nomeado director da alfandega do Porto, +com quatro contos de reis anuaes, o ordenado d'um ministro, +quasi. +<br /> + +<br /> + +O sr. Manuel Rebello Borges, 2.º oficial da alfandega +de S. Miguel, foi nomeado director da mesma casa fiscal, +com um conto seiscentos e vinte mil reis. +<br /> + +<br /> + +É uma fortuna para o paiz que a familia do sr. Hintze +não seja mais numerosa. +<br /> + +<br /> + +Aliaz, não haveria contribuintes cuja pelle chegasse +para pagar tantos encargos...</div> + +<br /> + +<a name="n16" id="n16"></a><sup>[16]</sup> +De +passagem apontemos a figura de Norton de +Matos, o maior ministro da guerra contemporaneo, organizador +capaz d'um trabalho de ferro, que só os technicos +serão capazes de avaliar em toda a sua extensão.<br /> + +<br /> + +<a name="n17" id="n17"></a><sup>[17]</sup> +Todas +as palavras entre comas são dos +<em>Documentos +politicos</em>.<br /> + +<br /> + +<a name="n18" id="n18"></a><sup>[18]</sup> +Introduziu +a ordem no Paço.—Até o +preço do +peixe quer saber!—dizia-se cá fóra com +indignação. Quando +do 5 d'outubro todos os creados diziam bem do rei—todos +diziam mal da rainha. O pequeno quadro que segue +explica talvez muita coisa: +<br /> + +<br /> + +«Havia familias das proximidades do Paço que se +alumiavam +só com as vellas do palacio real, compradas por vil +preço. As contrabandistas andavam pelas casas dos seus +freguezes oferecendo roupas, desde os vestidos da rainha +e dos fatos do rei até ás roupas brancas, meias +de seda e +sapatos de setim com a corôa real, para não +oferecer duvidas +acerca da procedencia. D'estes factos tivemos conhecimento +de sciencia certa, por vivermos n'esse tempo perto +do Paço e nos terem vindo oferecer por mais de uma vez +os espojos do saque, que não aceitamos por varias +razões, +sendo uma d'ellas a falta de vocação para +receptadores de +roubos. A vocação nasce com a pessoa. Da ucharia +do +Paço banqueteavam-se os parentes dos empregados e +cremos que até os amigos. +<br /> + +<br /> + +A audacia do latrocinio chegou ao extremo. Indo um dia o rei +D. Luiz caçar á Tapada e +tendo morto tres coelhos, +ao chegar ao Paço lembrou-se de os mostrar á +rainha. +<br /> + +<br /> + +Mandou-os buscar, mas apenas lhe apresentaram um, +porque os dois restantes tinham desaparecido durante o +breve precurso da Tapada até á Ajuda. +<br /> + +<br /> + +Nos proprios charutos do rei todos os dias dava um +ataque epileptico que os obrigava a saltar das caixas sem +que se soubesse para onde tinham desertado. Chegou o +descaramento a ponto de não deixarem um charuto para o +rei fumar».<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 61px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e1" id="e1"></a><a href="#p91">#pág. +91</a></td> + + <td style="text-align: center;">iuutil</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">inutil</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e2" id="e2"></a><a href="#p263">#pág. +263</a> </td> + + <td style="text-align: center;">esqueeeu</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">esqueceu</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e3" id="e3"></a><a href="#p291">#pág. +291</a></td> + + <td style="text-align: center;">eomer</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">comer</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><a name="f14" id="f14"></a>Identificou-se +a não existência nos dois originais de uma figura +que se encontraria entre as páginas <a href="#p206">206</a> +e <a href="#p207">207</a>. Presume-se que por +não se encontrar em ambas as obras da mesma +edição, que se trata de um erro de +impressão que afectou esta edição em +particular.<br /> + +<br /> + +Foram efectuadas correcções na +numeração das páginas no +indíce de forma a coincidir com a +localização correcta no livro.<br /> + +<br /> + +As figuras no original encontram-se entre páginas.<br /> + +</div> + +<br /> + +</div> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Memórias, by Raúl Brandão + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMÓRIAS *** + +***** This file should be named 35762-h.htm or 35762-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/5/7/6/35762/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal) and +The Internet Archive.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. 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Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/35762-h/images/fig01.png b/35762-h/images/fig01.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..bec55d1 --- /dev/null +++ b/35762-h/images/fig01.png diff --git a/35762-h/images/fig02.png b/35762-h/images/fig02.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..1644056 --- /dev/null +++ b/35762-h/images/fig02.png diff --git a/35762-h/images/fig03.png b/35762-h/images/fig03.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..80ef2cf --- /dev/null +++ b/35762-h/images/fig03.png diff --git a/35762-h/images/fig04.png b/35762-h/images/fig04.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..5689ee8 --- /dev/null +++ b/35762-h/images/fig04.png diff --git a/35762-h/images/fig05.png b/35762-h/images/fig05.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..780ec66 --- /dev/null +++ b/35762-h/images/fig05.png diff --git a/35762-h/images/fig06.png b/35762-h/images/fig06.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..4706a5a --- /dev/null +++ b/35762-h/images/fig06.png diff --git a/35762-h/images/fig07.png b/35762-h/images/fig07.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..71f4dc5 --- /dev/null +++ b/35762-h/images/fig07.png diff --git a/35762-h/images/fig08.png b/35762-h/images/fig08.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..625e45f --- /dev/null +++ b/35762-h/images/fig08.png diff --git a/35762-h/images/fig09.png b/35762-h/images/fig09.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..4b93f8f --- /dev/null +++ b/35762-h/images/fig09.png diff --git a/35762-h/images/fig10.png b/35762-h/images/fig10.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..9797aa6 --- /dev/null +++ b/35762-h/images/fig10.png diff --git a/35762-h/images/fig11.png b/35762-h/images/fig11.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..01be796 --- /dev/null +++ b/35762-h/images/fig11.png diff --git a/35762-h/images/fig12.png b/35762-h/images/fig12.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..b26574a --- /dev/null +++ b/35762-h/images/fig12.png diff --git a/35762-h/images/fig13.png b/35762-h/images/fig13.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..fd7249c --- /dev/null +++ b/35762-h/images/fig13.png diff --git a/35762-h/images/fig14.png b/35762-h/images/fig14.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..ee0ce4e --- /dev/null +++ b/35762-h/images/fig14.png diff --git a/35762-h/images/fig15.png b/35762-h/images/fig15.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..e62bea9 --- /dev/null +++ b/35762-h/images/fig15.png diff --git a/35762-h/images/fig16.png b/35762-h/images/fig16.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..dde5ad8 --- /dev/null +++ b/35762-h/images/fig16.png diff --git a/35762-h/images/fig17.png b/35762-h/images/fig17.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..4d81f9b --- /dev/null +++ b/35762-h/images/fig17.png diff --git a/35762-h/images/fig18.png b/35762-h/images/fig18.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..eee5673 --- /dev/null +++ b/35762-h/images/fig18.png diff --git a/35762-h/images/fig19.png b/35762-h/images/fig19.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..3979ffd --- /dev/null +++ b/35762-h/images/fig19.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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