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+The Project Gutenberg EBook of Memórias, by Raúl Brandão
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Memórias
+
+Author: Raúl Brandão
+
+Release Date: April 3, 2011 [EBook #35762]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMÓRIAS ***
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+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal) and
+The Internet Archive.)
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+
+ *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste
+ texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso
+ de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
+ deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Abril 2011)
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+Direitos reservados
+
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+MEMORIAS
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+DE RAUL BRANDÃO
+
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+A PUBLICAR:
+
+Theatro cinematographico
+A historia humilde
+
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+
+
+RAUL BRANDÃO
+
+Memorias
+
+1.^o VOLUME
+
+
+EDIÇÃO DA
+
+«RENASCENÇA PORTUGUESA»
+
+PORTO
+
+
+
+
+AOS MORTOS
+
+
+
+
+[Figura]
+
+
+
+
+PREFACIO
+
+
+ Janeiro de 1918.
+
+
+Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e
+paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas
+horas diante do que é eterno, embebido ainda n'este sonho poído. Não me
+habituo: não posso vêr uma arvore sem espanto, e acabo desconhecendo a
+vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo
+esplendido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra. Não
+sei--nem me importo--se creio na imortalidade da alma, mas do fundo do
+meu sêr agradeço a Deus ter-me deixado assistir um momento a este
+espectaculo desabalado da vida. Isso me basta. Isso me enche: levo-o
+para a cova, para remoer durante seculos e seculos, até ao juizo final.
+Nunca fui homem de acção e ainda bem para mim: tive mais horas
+perdidas... Fugi sempre dos phantasmas agitados, que me metem medo. Os
+homens que mais me interessaram na existencia foram outros: foram, por
+exemplo, D. João da Camara, poeta e santo, Correia d'Oliveira, um chapeu
+alto e nervos, nascido para cantar, Columbano e a sua arte exclusiva, e
+alguns desgraçados que mal sabiam exprimir-se. Conheci muitos ignorados
+e felizes. Meio doidos e atonitos. O Napoles ainda hoje dorme sobre a
+mesma rima de jornaes?... Outro andava roto e dava tudo aos pobres. O
+homem é tanto melhor quanto maior quinhão de sonho lhe coube em sorte.
+De dôr tambem.
+
+A que se reduz afinal a vida? A um momento de ternura e mais nada... De
+tudo o que se passou comigo só conservo a memoria intacta de dois ou
+tres rapidos minutos. Esses sim! Teimam, reluzem lá no fundo e
+enebriam-me, como um pouco d'agua fria embacia o copo. Só de pequeno
+retenho impressões tão nitidas como na primeira hora: ouço hoje como
+hontem os passos de meu pae quando chegava a casa; vejo sempre diante
+dos meus olhos a mancha azul ferrete das hydranjas que enchiam o
+canteiro da parede. O resto esvae-se como fumo. Até as figuras dos
+mortos, por mais esforços que eu faça, cada vez se afastam mais de
+mim... Algumas sensações, ternura, côr, e pouco mais. Tinta. Pequenas
+coisas frivolas, o calor do ninho, e sempre dois traços na retina, o
+cabedelo d'oiro, a outra banda verde... Passou depois por mim o tropel
+da vida e da morte, assisti a muitos factos historicos, e essas
+impressões vão-se desvanecidas. Ao contrario este facto trivial ainda
+hoje o recordo com a mesma vibração: a morte daquella laranjeira que, de
+velha e tonta, deu flôr no inverno em que seccou. O resto usa-se hora a
+hora e todos os dias se apaga. Todos os dias morre.
+
+Lá está a velha casa abandonada, e as arvores que minha mãe, por sua
+mão, dispoz: a bica deita a mesma agua indiferente, o mesmo barco
+archaico sobe o rio, guiado á espadela pelo mesmo homem do Douro, de pé
+sobre a gaiola de pinheiro. Só os mortos não voltam. Dava tudo no mundo
+para os tornar a vêr, e não ha lagrimas no mundo que os façam
+resuscitar.
+
+Esta Foz de ha cincoenta annos, adormecida e doirada, a Cantareira, no
+alto o Monte, depois o farol e sempre ao largo o mar diaphano ou
+colerico, foi o quadro da minha vida. Aqui ao lado morreu a minha avó;
+no armario, metido na parede como um beliche, dormiu em pequeno o meu
+avô, que desapareceu um dia no mar com toda a tripulação do seu brigue,
+e nunca mais houve noticias d'elle. Lembro-me da avó e da tia Iria, de
+saia de riscas azues, sentadas no estrado da sala da frente, e possuo
+ainda o volume desirmanado do Judeu que ellas liam, com o _Feliz
+Independente do mundo e da fortuna_ e as _Recreações philosophicas_ do
+padre Theodoro d'Almeida. Ouço, desde que me conheço, sahir do negrume,
+alta noite, a voz do moço chamando os homens da companha:--Ó sê Manuel
+cá p'ra baixo p'r'o mar!--Vi envelhecer todos estes pescadores, o Bilé,
+o Mandum, o Manuel Arraes, que me levou pela primeira vez, na nossa
+lancha, ao largo. Ha que tempos!--e foi hontem... A quarenta braças
+lança-se o ancorote. Na noite cerrada uma luzinha á prôa; do mar
+profundo--chape que chape--só me separa o cavername. Deito-me com os
+homens sob a vela estendida. Primeiro livor da manhã, e não distingo a
+luz do dia do pó verde do mar. Nasce da agua, mistura-se na agua, com
+reflexos baços, a claridade salgada que palpita, o ar vivo que respiro,
+o oceano immenso que me envolve.--Iça! iça!--e as redes sobem pela polé,
+cheias de algas e de peixe, que se debate no fundo da catraia. Voltamos.
+Já avisto, á vela panda, o farolim, depois Carreiros; um ponto branco,
+alem no areal, é o Senhor da Pedra, e a terra toda, roxa e diaphana,
+emerge emfim, como uma aparição, do fundo do mar. A onda quebra. Eis a
+barra. Agora o leme firme!... As mulheres, de perna nua, acodem á praia
+para lavar as rêdes, e o velho piloto mór, de barba branca, sentado á
+porta da Pensão, fuma inalteravel o seu cachimbo de barro. O azul do
+mar, desfeito em poalha, mistura-se ao oiro que o céo derrete. Mais
+barcos vão aparecendo, vela a vela: o _Vae com Deus_, a _Senhora da
+Ajuda_, o _Deus te guarde_, e os homens, de pé, com o barrete na mão,
+cantam o _bemdito_, tanta foi a pesca.--Quantas duzias?--Um cento! dois
+centos!--Nas linguetas de pedra salta a pescada de lista preta no lombo,
+a raia viscosa, o ruivo de dorso vermelho, ou, no inverno, a sardinha
+que os bateis carreiam do mar inexgotavel, estivando de prata todo o
+caes. Ás vezes o peixe miudo e vivo é tanto, que não bastam os
+almocreves com os seus burros canastreiros, as varinas com os seus
+gigos, nem as mulheres de saia ensacada e perna á mostra, para o
+levarem, apregoando-o, por essa terra dentro. Dá-se a quem o quer,
+faz-se o quinhão dos pobres. Em setembro são as marés vivas. Mais tarde
+cresce do mar um negrume. Acastelam-se as nuvens no poente, e forma-se
+para o sul uma parede compacta que tem legoas de espessura. A voz é
+outra, clamorosa, e, á primeira lufada, bandos de gaivotas grasnam pela
+costa fóra, anunciando o inverno que vem proximo. O quadro muda, e os
+homens morrem á bocca da barra, na Pedra do Cão, agarrados aos remos,
+sacudidos no torvelinho da resaca, o velho arraes de pé, as duas mãos
+crispadas no leme, cuspindo injurias, para lhes dar animo, e todo o
+mulherio da Povoa, de Matosinhos, da Afurada--vento sul, camaroeiro
+içado--com as saias pela cabeça, salpicadas de espuma e molhadas de
+lagrimas:--Ai o meu rico homem! o meu filho que o não torno a ver!--E
+chamam por Deus, ou insultam o mar, que, inverno a inverno, lh'os leva
+todos para o fundo.
+
+O que sei de bello, de grande ou de util, aprendi-o n'esse tempo: o que
+sei das arvores, da ternura, da dôr e do assombro, tudo me vem desse
+tempo... Depois não aprendi coisa que valha. Confusão, balburdia e mais
+nada. Vacuidade e mais nada. Figuras equivocas, ou, com raras excepções,
+sentimentos baços. Amargor e mais nada. Nunca mais. Nunca Londres ou a
+floresta americana me incutiram misterio que valesse o dos quatro palmos
+do meu quintal. Nunca caça ás feras no canavial indiano foi mais fertil
+em emoção e aventura, que a armadilha aos passaros na poça do Monte, com
+o Manuel Barbeiro. Uma nora, dois choupos, a agua empapada, e, entre as
+hervas gordas como bichos, pégadas de bois cheias de tinta azul,
+reflectindo o céo implacavel de agosto. Os passaros com as azas abertas
+desconfiam e hesitam: a sêde aperta-os, o sol escalda-os. Mal pousam na
+armadilha agarramol-os com ferocidade. Chiu!... Uma andorinha descreve
+lá no alto um circulo perfeito, e vem, no vôo desferido, arripiar com o
+bico a agua estagnada. Toca n'uma palheira de visco--é nossa! Já tiveste
+nas mãos uma andorinha? É pennas e vida phrenetica. E essa vida
+pertence-te!... Só ao fim da tarde regressava a casa com os bolsos
+cheios de rans e os olhos deslumbrados. Nenhuma figura tôrva, nem o
+Anti-Christo, me communicou terror semelhante ao do inofensivo Manco da
+esquina, que escondia de manhã a barba que lhe chegava ao umbigo, entre
+o peito e a camisa, para a sacar de noite, quando sahia á estrada... Sou
+capaz de te dizer qual o tom verde de certos dias, quando o pecegueiro
+bravo encostado ao muro floresce. O murmurio da minha bica não me sae
+dos ouvidos até á hora da morte. Quasi todos os meus amigos--o Nel, que
+não tornei a ver...--são d'essa epocha. D'outras impressões mais tardias
+não restarão vestigios, mas tenho sempre presentes os mesmos pinheiros
+mansos--que já não existem--acenando para a barra, e alta noite acordo
+ouvindo o rebramir do mar longinquo. Nos dias de desgraça é sempre a
+mesma voz que chama por mim... Olha, olha ainda e extasia-te: o rio
+parece um lago, e um bando de gaivotas desfolhadas alastra sobre a tinta
+azul, com laivos esquecidos do poente. Boia espuma na agua viva que a
+maré traz da barra... E não ha cheiro a flores que se compare a este
+cheiro do mar.
+
+
+ Agosto de 1910.
+
+
+Aos 23 do mez passado morreu meu pae amachucado, exhausto e pobre.
+Encontrão de um, repelão de outro, assim foi até á cova. Tinha 67 annos
+incompletos. Não podia mais. Encontraram-lhe alguns cobres no bolso. Ha
+muitos annos que se arrastava, e só tinha de seu uma alegria e um
+repouso: os domingos. Aos domingos metia-se no quarto, calçava uns
+chinelos, e toda a tarde chorava lagrimas sem fim sobre um velho romance
+de Camillo. Minha mãe pouco mais durou, com um olhar de pasmo. Lá ficou
+a velha casa abandonada...
+
+Sobe a lua no céo, e a sombra no monte. Seis arvores, quatro
+paredes--tudo aqui me enche de saudades. A bica continua a correr, mas
+outras sêdes se apagarão n'aquella agua. Outros virão tambem sentar-se
+no banco de pedra... Só me resta a tua mão querida, que a meu lado
+segura a minha mão. Os mortos chamam por nós cada vez mais alto... Olho
+para ti e os teus primeiros cabellos brancos fazem-me chorar.
+
+
+ Setembro de 1910.
+
+
+Hoje acordei com este grito: eu não soube fazer uso da vida!
+
+O que me pesa é a inutilidade da vida. Agarro-me a um sonho;
+desfaz-se-me nas mãos; agarro-me a uma mentira e sempre a mesma voz me
+repete:--É inutil! é inutil!
+
+A aquiescencia, o sorriso:--pois sim... pois sim...--a necessidade de
+transigir, o preceito, a lei, fizeram de mim este sêr inutil, que não
+sabe viver e que já agora não pode viver. Não grito de desespero porque
+nem de desespero sou capaz.
+
+A vida antiga tinha raizes, talvez a vida futura as venha a ter. A nossa
+epocha é horrivel porque já não cremos--e não cremos ainda. O passado
+desapareceu, de futuro nem alicerces existem. E aqui estamos nós, sem
+tecto, entre ruinas, á espera...
+
+Não entendo nada da vida. Cada dia que avança entendo menos da vida.
+Contudo ha horas, as horas perdidas--e só essas--que queria tornar a
+viver e a perder.
+
+Deus, a vida, os grandes problemas, não são os philosophos que os
+resolvem, são os pobres vivendo. O resto é engenho e mais nada. As
+coisas bellas reduzem-se a meia duzia: o tecto que me cobre, o lume que
+me aquece, o pão que como, a estôpa e a luz.
+
+Detesto a acção. A acção mete-me medo. De dia pódo as minhas arvores, á
+noite sonho. Sinto Deus--toco-o. Deus é muito mais simples do que
+imaginas. Rodeia-me--não o sei explicar. Terra, mortos, uma poeira de
+mortos que se ergue em tempestades, e esta mão que me prende e sustenta
+e que tanta força tem...
+
+Como em ti, ha em mim varias camadas de mortos não sei até que
+profundidade. Ás vezes convoco-os, outras são elles, com a voz tão
+sumida que mal a distingo, que desatam a falar. Preciso da noite eterna:
+só num silencio mais profundo ainda, conto ouvil-os a todos.
+
+Nunca os meus me chamaram tão alto. Sentam-se a meu lado. Rodeiam-me, e
+pouco a pouco o circulo da minha vida restringe-se a um ponto--a cova.
+
+Teimo: ha uma acção interior, a dos mortos, ha uma acção exterior, a da
+alma. A inteligencia é exterior e universal e faz-nos vibrar a todos
+d'uma maneira diferente. Destas duas acções resulta o conflicto tragico
+da vida. O homem agita-se, debate-se, declama, imaginando que constroe e
+se impõe--mas é impelido pela alma universal, na meia duzia de coisas
+essenciaes á Vida, ou obedece apenas ao impulso incessante dos mortos.
+
+A minha alegria em velho consistiria em ter aqui meu pae para falar com
+elle. Não é só saudade que sinto: é uma impressão physica. Agora é que
+acharia encanto até ás lagrimas em termos a mesma idade, conversarmos ao
+pé do lume e morrermos ao mesmo tempo...
+
+
+ Fevereiro de 1918.
+
+
+Isso que ahi fica não são memorias alinhadas. Não teem essa pretensão.
+São notas, conversas colhidas a esmo, dois traços sobre um
+acontecimento--e mais nada. Diante da fita que a meus olhos absortos se
+desenrolou, interessou-me a côr, um aspecto, uma linha, um quadro, uma
+figura, e fixei-os logo no canhenho que sempre me acompanha. Sou um mero
+espectador da vida, que não tenta explical-a. Não afirmo nem nego. Ha
+muito que fujo de julgar os homens, e, a cada hora que passa, a vida me
+parece ou muito complicada e misteriosa ou muito simples e profunda. Não
+aprendo até morrer--desaprendo até morrer. Não sei nada, não sei nada, e
+saio d'este mundo com a convicção de que não é a razão nem a verdade que
+nos guiam: só a paixão e a chimera nos levam a resoluções definitivas. O
+papel dos doidos é de primeira importancia neste triste planeta, embora
+depois os outros tentem corrigil-o e canalisal-o... Tambem entendo que é
+tão dificil asseverar a exactidão de um facto como julgar um homem com
+justiça. Todos os dias mudamos de opinião, todos os dias somos
+empurrados para leguas de distancia por uma coisa phrenetica, que nos
+leva não sei para onde. Succede sempre que, passados mezes sobre o que
+escrevo--eu proprio duvido e hesito. Sinto que não me pertenço... É por
+isso que não condemno nem explico nada, e fujo até de descer dentro de
+mim proprio, para não reconhecer com espanto que sou absurdo--para não
+ter de discriminar até que ponto creio ou não creio, e de verificar o
+que me pertence e o que pertence aos mortos. De resto isto de ter
+opiniões não é facil. Sempre que me dei a esse luxo, fui forçado a
+reconhecer que eram falsas ou erroneas. Sou talvez uma arvore que cresce
+á sua vontade, pernada para aqui, pernada para acolá, á chuva e ao
+vento. Não admitto poda. Perco horas com inutilidades, e passo alheado e
+frio diante do que os outros contemplam extasiados. Admiro, por exemplo,
+muito mais, perdoem-me, a vida ignorada do meu visinho, o senhor Crasto,
+que morreu de oitenta annos, curvado, a lavrar a terra, do que a do
+senhor Hintze Ribeiro, que considero inutil e destituida de toda a
+belleza.
+
+Por isso, repito, muitas folhas destes canhenhos serão mal
+interpretadas, talvez alguns tipos falsos. Só vemos mascaras, só lidamos
+com phantasmas, e ninguem, por mais que queira, se livra de paixões. No
+que o leitor deve acreditar é na sinceridade com que na ocasião as
+escrevi. Poderão objectar-me:--Então com que destino publico tantas
+paginas desalinhadas, de que eu proprio sou o primeiro a duvidar? É que
+ellas ajudam a reconstituir a atmosphera d'uma epocha; são, como dizia
+um grande espirito, o lixo da historia. Ensinam e elucidam. Foi sempre
+com a legenda que se construiu a vida. Sei perfeitamente que a historia
+viva tanto se faz com a verdade como com a mentira--se não se faz mais
+com a mentira do que com a verdade. Para gerar um acontecimento é
+preciso crear-lhe primeiro a atmosphera propicia. «Algumas palavras sob
+caricaturas grosseiras dispersas pelos campos, formaram uma lenda na
+imaginação popular, concernente ao rei, á rainha, ao conde de Artois, a
+madame Lamballe, ao pacto da fome, _aos vampiros que sugam o sangue do
+povo_, etc. Dessa lenda, que elle acha util, sahiu a grande
+revolução»--diz um historiador. A gente nunca sabe ao certo se da
+infamia poderão nascer coisas bellas... A mentira, o boato, o que se diz
+ao ouvido, o que se deturpa, e que tanta força tem, a meada de odio, de
+ambição e de interesses, que não cabe na historia com H grande, tem o
+seu logar n'um livro como este de memorias despretenciosas. Eis uma
+razão. Tenho outra ainda: torno a vêr e a ouvir alguns mortos. Recordo,
+o que é necessario a quem cada vez mais se isola com o seu sonho e as
+suas arvores. Isto aquece quasi tanto os primeiros annos da minha
+velhice, como o lume que arde até junho na lareira d'esta casa[1].
+
+Cantareira, Foz do Douro--1918.
+
+
+
+
+ALGUMAS FIGURAS
+
+
+ Janeiro--1900.
+
+
+Urbano de Castro, com um olho tôrto e um chapelinho afadistado, na
+aparencia reservado e sardonico, sae-se encantador na intimidade. Os
+seus amigos adoram-no, o Camara, o Schwalbach, a antiga roda do _Correio
+da Manhã_. Trouxe para o jornalismo uma grande leitura de
+classicos--conhece muito a lingua--e uma forma ironica e precisa: em
+meia duzia de linhas incisivas deixa o adversario a sangrar. Os
+politicos temem-no tanto, que uma das condições impostas pelo José
+Luciano, quando do pacto com o Hintze, foi que o Urbano terminasse na
+_Tarde_ com o _Espirito de S. Ex.^a_.
+
+Eis algumas maximas de Urbano de Castro:
+
+
+ --A paciencia é uma virtude de capote e lenço.
+
+ --Quanto mais leve é a cabeça da mulher, mais pesada é a do marido.
+
+ --Os homens publicos são como os papeis de credito--o que hoje tem
+ uma alta cotação, amanhã não vale, e inversamente.
+
+ --Quando tiveres muitos argumentos, não empregues senão os
+ melhores. Quando não tiveres nenhum, emprega todos.
+
+ --A paternidade é, muitas vezes, um rotulo. A garrafa é a mesma,
+ mas o vinho é outro.
+
+ --Viuva rica, com um olho dobra, com outro repica.
+
+ --No coração mora-me Deus, no figado o diabo.
+
+ --Mortal é o contrario de imortal. Imortal é o que é sempre. Logo,
+ mortal--é o que não é nunca.
+
+ --Theologia--a arte de fazer comprehender aos outros aquillo que
+ nós não entendemos.
+
+ --De todas as armas, a mais dificil de manejar é o pau... de dois
+ bicos.
+
+ --Jornalista--fabricante da opinião publica. Cada um afirma que a
+ unica genuina é a da sua lavra.
+
+ --Se os homens de mais juizo pensarem a serio em muitos dos seus
+ actos hão de reconhecer que não teem juizo nenhum.
+
+ --O suicida tem para mim um lado sympathico--não se julga
+ insubstituivel.
+
+
+
+ Junho--1903.
+
+
+Deparo hoje com o Garrido, redondinho, baixo, de bigode grisalho e um
+ventre de proprietario. Nunca se altera nem perde a paciencia. Jovial?
+Não, triste e falando sempre baixinho. Tem ganho fortunas, tem dissipado
+fortunas com o mesmo ar inalteravel. Houve ocasiões em que todos os
+theatros do Rio representaram peças com o seu nome. Está cheio de
+dividas. E o seu ideal, o ideal d'esta existencia de acaso, com aflições
+de morte, ou dispersa pelo Brazil entre dois numeros de opereta--pan!
+pan! pan!--e dinheiro atirado a rodos, é um casebre no campo, duas
+arvores n'um retalho de horta viçosa e uma nora pingue que pingue no
+fundo do quintal. Paz. E não escrever uma linha.
+
+Um agiota não o larga. É este velhinho paternal, de cabellos brancos,
+que faz recados, deita as cartas ao correio e leva coiro e cabelo.
+Parece inofensivo. Começou a vida por creado de servir e esfolou os
+patrões. Afirma que o Garrido é capaz de arrancar dinheiro a um morto:
+
+--Este senhor Garrido dá-me cada aflição! Até me faz crear caspa!
+
+
+ Fevereiro--1900.
+
+
+A paixão d'este homem é não ter um livro de geito. G... só escreveu trez
+folhetos, e por ahi ficou o seu talento. Espremido não deu mais nada. É
+no entanto uma figura epigramatica e nitida de conversador e um typo
+curioso de bohemio lisboeta. Dormiu nas escadas dos predios, pertenceu
+ao grupo que o Fialho arrastava pelas ruas até ante manhã, dispersando
+com elle o oiro da sua esplendida phantasia. Para essa meia duzia de
+bohemios improvisou o grande escriptor as suas melhores satyras. Uma
+noite, no café, G... aludiu á sua obra, e logo do lado o Fialho acudiu:
+
+--A tua obra, bem sei... Vinte e cinco cartas a vinte e cinco amigos
+pedindo vinte e cinco tostões emprestados.
+
+G... embezerrou. Mas passados minutos aproveitou uma pausa no dialogo,
+para perguntar com indiferença ao Fialho, que tinha ha pouco casado rico
+com uma prima, que gastou a vida a esperal-o no fundo da provincia:
+
+--O Fialho fazes favor de me dizer que horas são... no relogio do teu
+sogro?
+
+
+ Fevereiro--1903.
+
+
+Vejo sempre diante de mim o D. João da Camara, já cansado e e asmathico,
+olhando por cima das lunetas, e falando baixinho com receio, uma
+modestia no dizer, e um medo de magoar... A barba espessa, a grenha
+espessa e um chapelinho pôsto ao lado, completam a figura um pouco
+molle. É quasi um santo. Joga e jejua. Dá tudo o que tem. Exploram-no.
+
+--O que me perdeu na vida foi não ter energia. Nunca me decido.--E mais
+baixo:--Isto vem talvez dos jesuitas que me educaram. Tive alguns
+condiscipulos que são homens notaveis e ninguem dá por elles.
+
+Vive de noite, com uns e outros, ao acaso, nos bastidores dos theatros,
+ou encantado com uma ceiasinha na taberna, que descobriu no Arco da
+Bandeira. Se encontra o Pinturas está perdido: não se largam mais. Vae
+sempre para casa de manhã, e a sua vida é tão aflictiva que desejaria,
+como o Schwalbach, que o metessem algum tempo no Limoeiro, para não
+pensar no dia seguinte.
+
+Hontem contou-me isto que é encantador:
+
+--Não me importava nada de ter quatorze filhos em vez de sete. São muito
+meus amigos. O Vicente nunca sae de casa sem me dar um beijo. Eu estou
+sempre a dormir... Esta manhã--estava acordado, mas fingi que dormia,
+quando aquelle rapagão me entrou no quarto, pé ante pé, para não me
+acordar, e beijou-me...
+
+E fica extatico.
+
+Ás vezes fala-me das peças que ha-de fazer, do _Sermão da Montanha_ e de
+outra com tipos de sonhadores, que se alimentam de mentira e de um
+passado que nunca existiu, forjado ponto por ponto. Assobia-se, por
+exemplo, um trecho d'opera, e logo este atalha:--Bem sei é da
+_Dinorah!_... Tempos que já lá vão! O que eu vivi com Fulano e Sicrano,
+e as ceias que demos juntos!--Tudo ilusão! tudo sonho! Vae-se a ver nem
+sequer conheceram as pessoas de quem falam... Outras vezes conta-me a
+sua vida:
+
+--O que eu tenho sofrido! Tive muitos dias d'angustia... N'essa noite _O
+Pantano_ cahira. Toda a gente dizia mal de mim. Nos bastidores a intriga
+fervia com a Lucinda á frente. Sahi do theatro a pensar no que havia de
+empenhar no dia seguinte. Fui para casa muito tarde.--Não haveria que
+pôr no prégo?--Por fim descobri uma casaca, e, ainda muito cedo, sahi
+com o embrulho debaixo do braço, n'um papel de jornal. O papel amolecia,
+a casaca rompia para fóra, e eu batia de prégo em prégo. Sete horas da
+manhã... Estavam todos fechados. N'um disseram-me com seccura:--Não
+emprestamos sobre casacas.--Fui a outro e esperei no portal que abrisse.
+Lembro-me como se fosse hoje. Chovia a potes. Defronte, estava uma
+carroça, com um cavallo branco. Era um burro pelle e osso, a cabeça
+metida n'uma linhagem, a comer. E eu no portal, com o embrulho já todo
+roto debaixo do braço, invejei aquelle cavalo!...
+
+Já não joga. Mas antigamente ia todos os dias para casa ás cinco horas,
+tendo perdido tudo:--Foi n'essas noites que imaginei as minhas melhores
+peças...--Cuidadosamente punha sempre de lado um tostão para o
+americano--e quasi sempre succedia tambem que um velho fidalgo, das suas
+relações, lhe pedia o tostão emprestado para um calice de vinho do
+Porto, que se habituara a beber ahi pelas tres da madrugada. O D. João
+dava-lh'o, e lá ia a pé para a Junqueira, a sonhar nas peças, sob a
+lufada, molhado até aos ossos, de casaco de alpaca.
+
+
+[Figura: _Columbano._--Auto-retrato.]
+
+
+ Junho--1903.
+
+
+Passei a noite em casa do Columbano, com o Raphael Bordalo Pinheiro.
+Durante o jantar falou sempre. Todo elle mexe, todo elle é caricatura e
+imprevisto: os olhos, o nariz, as mãos e até o bigode que se encrespa,
+desenham e imitam.--Era um homem com um ôlho assim...--E logo o ôlho se
+lhe envieza. Em rapaz o seu sonho era o theatro. Chegou a ter lições do
+Rosa pae. Está um pouco cansado. Queixa-se muito. Amua.--Ninguem faz
+caso de mim...--Estranha quando o não vão esperar á estação--e está
+sempre a chegar das Caldas e partir para as Caldas. Depois esquece-se e
+põe-se a rir. Depois torna:--Eu não jogo, mas lá em casa todas as noites
+jogam e pedem-me dinheiro emprestado.--Agora arremeda este e aquelle de
+quem fala. Conta que em Paris ouviu o rei dizer:--Isto aqui é uma terra,
+lá é uma piolheira.--E que o infante, quando lhe perguntaram:--Então em
+Londres que tal, com aquelles principes todos?--Mal, mal... eu sou um
+principe aza de mosca...
+
+E acaba--é nas vesperas do jantar que lhe vão oferecer no theatro D.
+Maria--por dizer:--Veja o senhor que desgraça a minha! Daqui a pouco não
+posso fazer a caricatura de ninguem!
+
+Efectivamente lá estavam no banquete todos os homens imponentes, os
+conselheiros, os politicos decorativos, a serie completa das figuras do
+_Antonio Maria_. Não faltou ninguem á chamada. E nos camarotes
+aplaudiram-no com delirio as lisboetas palidas de que troçou em tantas
+paginas de genio. Confundiram-no e arrazaram-no. Creio que foi a
+primeira vez que perdeu a linha.
+
+Gostou sempre de fazer partidas. É o Schwalbach que conta:
+
+--O imperador do Brazil logo que chegava ao theatro metia-se no
+camarote, descalçava as botas e calçava com regalo uns chinelos. Uma
+noite o Raphael, que estava então no Rio, foi pé ante pé, meteu a mão
+pela cortina e roubou-lhe as botas. O pobre homem não se desconcertou:
+sahiu em chinelos, atravessou em chinelos a multidão, saudando para a
+direita e para a esquerda, desceu ao pateo, e meteu-se em chinelos na
+carruagem.
+
+
+ Dezembro--1900.
+
+
+Latino Coelho, contado por Maximiliano d'Azevedo:
+
+Tinha coisas absurdas: estava sentado a conversar e levantava-se sem
+mais nem menos, compunha a trumpha, e ia espreitar á janella. Era todo
+de enguiços. Nunca sahia de dia. E que memoria! Dizia-se-lhe qualquer
+banalidade, e elle, d'ahi a mezes, repetia-a palavra por palavra.
+Discursos que revelam o conhecimento inteiro d'uma epocha, como o de
+Camões, que leu na Academia, e que foi escripto das sete ás onze da
+manhã, e lido ao meio dia, compunha-os com extrema facilidade.
+
+D'uma vez estava elle em casa politicando com alguns amigos reformistas,
+o Mariano, o Lopo Vaz e não sei quem mais. Discutia-se a revolução de
+onze de maio. O Latino, dando um geito á trumpha, chegou á janella e viu
+o carro, puxado a mulinhas, do Saldanha:
+
+--Ahi vem o duque... E aposto que vem para cá.
+
+Efectivamente o carro parou á porta. Era o Saldanha. O Latino foi
+recebel-o n'outra sala, e, depois dos cumprimentos habituaes, o Saldanha
+perguntou-lhe:
+
+--Sabe a que venho? Venho saber a sua opinião sobre o dia de hontem.
+
+--Mas não tenho opinião nenhuma...
+
+--Não se recuse, Latino. Peço-lho como amigo.
+
+--Então, marechal, deixe-me dizer-lhe que quem como V. Ex.^a conquistou
+um nome glorioso com a espada, não deve servir-se da canalha para fazer
+o que fez. A sua situação é deploravel.
+
+--Não me diga isso! E se eu aproveitasse a situação para firmar de vez a
+liberdade em Portugal e salvar o paiz?
+
+--Se V. Ex.^a quizesse...
+
+--Mas é que quero, e para isso venho ter comsigo.
+
+Combinaram que o Latino redigiria os decretos ampliando as liberdades
+publicas, tornando-as efectivas, e convocando constituintes com poderes
+amplissimos.
+
+--O maior segredo...--recomendou o Latino.
+
+N'essa noite não dormiu. Acompanhado d'um amanuense do ministerio,
+redigiu os decretos, que no dia seguinte o proprio Saldanha foi buscar,
+metendo-os dentro da pasta. Mas fosse que os amigos que lá estavam em
+casa tivessem desconfiado; fosse que o Saldanha désse á lingua, o que é
+certo é que o rei foi prevenido a tempo por alguem que lhe disse:
+
+--O Saldanha vae trazer-lhe uns decretos. V. Magestade não os assigne ou
+está perdido.
+
+Quando o Saldanha chegou ao Paço o rei abraçou-o:
+
+--Pois o duque ajudou a conquistar-me o throno e não quer que meus
+filhos reinem? Nem talvez eu chegue até ao fim da vida no poder...
+
+Saldanha que era um fraco recuou. D'ahi a dias encontrou-se com o Latino
+que lhe disse:
+
+--V. Ex.^a não podia deixar-me dormir a minha noite socegado?
+
+Por trez vezes, conclue Maximiliano, o Latino me contou isto. Já tenho
+querido descobrir os decretos. Devem estar em casa do irmão, n'um quarto
+interior, onde a traça vai roendo os papeis do grande escriptor...
+
+ * * * * *
+
+Um dia o Saraiva de Carvalho foi propor a revolução ao Latino:
+
+--Mas ha-de ser tudo assassinado--toda a familia real.
+
+--Isso não!--protestou logo o Latino.
+
+ * * * * *
+
+Morreu virgem, como Newton. No dia de sua morte, estava o cadaver na
+cama, apenas coberto com um lençol. Alguem disse para o Maximiliano:
+
+--Bastaria arrancar aquelle lençol para descobrirmos o segredo de toda a
+sua existencia.
+
+ * * * * *
+
+Junqueiro dizia de Latino:
+
+--Sim, é um homem admiravel, que em logar de c... tem duas castanhas
+piladas!
+
+
+ Maio--1903.
+
+
+Um jornal publica hoje esta noticia:
+
+
+ POVOA DE LANHOSO, 29--Faleceu, sepultando-se hoje, o sr. dr.
+ Joaquim da Boa Morte Alves de Moura, da freguezia de Santo Emilião,
+ bacharel formado em philosophia e mathematica pela Universidade de
+ Coimbra.
+
+ O povo apelidava-o de santo, pelas suas sublimes virtudes christãs.
+ Tinha 92 annos de edade; o falecido fôra frade agostinho.
+
+
+O homem, a quem estas seccas linhas se referem, era na verdade um santo.
+Deixou tudo para viver pobre, perto de S. Martinho do Campo, entre
+cavadores e a gente humilde da terra que o adorava. Vi-o muitas vezes
+passar na estrada, todo branco, minguado, com o burel, que nunca quiz
+largar, no fio, e os sapatos rotos. Era efectivamente formado em
+philosophia e direito, e até por vezes fôra convidado para lente da
+Universidade de Coimbra. Recusou sempre, recusou tudo, preferindo a
+convivencia com a gente do povo e com a natureza que o rodeava. Ha entre
+as duas povoações, S. Bento e S. Martinho, que ficam á beira da estrada
+da Povoa de Lanhoso, uma fonte que brota da raiz de uma arvore. Perto
+fica a ermida. Alli se costumava o santo homem sentar, horas e horas
+embebido nas suas meditações. Em que scismava? Decerto no passado
+longinquo...
+
+Lembram-se d'uma narrativa de Alexandre Herculano, que se chama, creio
+eu, «O ultimo dia de convento?» Um frade chora ao deixar para sempre a
+cella caiada, onde passou a vida inteira. É só isto, afóra a ternura, as
+lagrimas, a prosa do grande escriptor. Assim D. Joaquim da Boa Morte
+contava tambem as ultimas horas de convento. Velhinho, tremulo, vivendo
+de esmolas, recolhido por caridade em casa de duas mulheres, que o
+cuidavam, nunca esqueceu o convento, a cella, o dia de separação. E, ao
+pé da arvore, junto ao fio limpido d'agua, lhe ouvi mais d'uma vez
+contar o que sofrera.
+
+--E dos seus companheiros lembra-se? Teve mais tarde noticias?
+
+E elle, com os olhos razos de lagrimas:
+
+--Viveram ainda dispersos por esse mundo. Ha annos, ha muitos annos,
+recebi, dum d'elles um recado, esta palavra:--«Adeus!» Foi o ultimo!
+
+Agora acompanhava-o sempre um rapazinho. Com a vida, ia-se-lhe desfeito
+o burel, rôtos os sapatos. Deixára de dizer missa, mas o povo d'aquelles
+logares, que é ingenuo e crente, consultava-o nas suas doenças e nos
+seus sofrimentos. É que D. Joaquim fazia milagres. Excusam de sorrir...
+O milagre é uma comunicação entre pessoas que têm radicada e viva esta
+força enorme:--a fé. D. Joaquim da Boa Morte curava as creaturas
+simples, as mulheres, as creanças e os homens da serra que o iam
+visitar, com boas palavras, e, quando muito, com alguns cachos de uvas,
+que elle proprio colhera e lhes distribuia, depois de benzidos.
+
+Antes de morrer pediu que o enterrassem embrulhado na manta coçada que
+pertencera a sua mãe e que alli tinha no fundo da arca. Essa velha manta
+como eu lh'a invejo! Era n'um farrapo assim, com um resto de calor e de
+ternura, que eu queria ir aconchegado para a terra. Nem a eternidade das
+eternidades, nem o isolamento, nem o frio dos frios, conseguiriam jamais
+trespassal-a.
+
+Que descance em paz. Quem escreve estas linhas deve-lhe uma das maiores,
+mais elevadas e puras impressões que tem recebido na vida. A sua grande
+figura só desaparece da terra, depois de ter feito muito bem e estancado
+muitas lagrimas.
+
+
+ Julho--1903.
+
+
+O Silva Pinto a respeito do Cardia, que ha tres dias, em plena mocidade,
+meteu uma bala no coração:
+
+--Eu não faço como elle, não me vou embora, porque tenho duas creanças,
+o Mario e o Raul. Era de certo a isto que o Manuel se referia ao
+escrever: «Não faço falta a ninguem». Isto atura-se lá a sangue frio e
+determinadamente! Matava-me para me ver livre d'estes bandalhos!
+
+E os olhos enchem-se-lhe de lagrimas, arrasta a perna apegado á bengala,
+e sacode a cabelleira branca. Parece um trapo ameigado, mas resistente
+ainda:--Arre bandidos!
+
+De repente, sem transição, põe-se a rir:
+
+--Sabe de que me rio? Lembrou-me o Camillo, que tinha uma lingua
+viperina e dizia mal de toda a gente. Um dia em Seide falei-lhe n'este e
+naquelle, disse mal de todos. Por fim:--Sempre me refugio em Victor
+Hugo, para ver se você tambem diz mal d'elle...
+
+E o mestre:
+
+--Esse velho não era nada tolo!
+
+Ri-se. Depois fica outra vez triste:
+
+--Aquellas paginas de Hugo quando o avô vê entrar o neto ferido pela
+porta dentro!
+
+ * * * * *
+
+O Fialho descrevendo o Cardia, esse rapaz ingenuo, insinuante e
+espontaneo, que aos dezanove annos se lembra de estourar o coração com
+uma bala, por causa d'uma reles cantora de quarenta e dous annos--o
+Fialho diz:
+
+--...era isto e aquillo e uma mão enorme atirada p'ra aqui e p'ra acolá
+a toda a gente, apertando a nossa.
+
+O que nunca mais me esquece são aquelles olhos tristes e a bocca moça
+sempre a sorrir!...
+
+
+ Fevereiro--1904.
+
+
+Hoje almoço em casa do Schwalbach com o Bulhão Pato, o Camara, João
+Chagas, Antonio Bandeira, etc. O Bulhão Pato é um homensinho secco e
+resistente, de cabeleira e pera branca--miniatura do alentado Pato
+caçador que todos nós imaginamos ao ler-lhe algumas paginas. Parte no
+dia 20 para S. Miguel, de passeio... Quando morrer desaparece com elle
+toda uma epocha:--Meu rapaz podes ter lido todos os philosophos, que se
+não tiveres sentimento... Minha mulher, uma velhinha lá fica... Não vae
+comigo, porque recolhemos em casa uma pequena pobre, pobrissima, e
+queremos-lhe como se fosse nossa filha. Sentamol-a á nossa meza... Bem
+sei que ha por ahi uns moços que dizem mal de mim. Não me importo.
+Quando vejo um rapaz de talento abro-lhe logo os braços.
+
+No fim do almoço, beija a mão ás senhoras. Conviveu com o Herculano,
+ouviu-lhe dizer:--Isto dá vontade de morrer! «Que faria--accrescenta--se
+vivesse hoje!»--O Conservatorio lembra-lhe o Palmeirim--«que foi da
+minha creação»--É simpathico, vivo e cheira a outros tempos: conserva,
+como o linho guardado no fundo d'um armario, o perfume da maçã. E que
+contraste com os outros, com o Chagas, com o Schwalbach, sempre aflicto
+e sempre despreocupado, com o Antonio Bandeira, que, sob uma aparencia
+futil, é pratico como o diabo, e que conta que foi uma noite em Roma,
+com alguns portugueses, mulheres e guitarras, bater o fado para as
+ruinas do Colyseo! Depois, por _blague_, sustenta com o Chagas, que
+ninguem devia ter mais de duzentas e cincoenta grammas de principios.
+
+
+ Março--1904.
+
+
+Encontrei hoje o Marcellino Mesquita: ventas largas, marcas de bexigas,
+barba com muitas brancas aparada rente, chapeu desabado, capinha curta e
+olho vivo. Tipo crestado do sol, materialista e secco.
+
+--A gente quando chega a certa edade tem de se isolar para não viver
+n'uma perpetua irritação. Olhem agora se eu encontrava o Pequito
+ministro, o Pequito de quem a gente fazia troça em rapaz! E muitos
+outros, que aos quarenta annos começam a desafinar-nos os nervos... Vivo
+no Cartaxo, n'um descampado: a quinta fica entre duas estradas. Não
+passa lá ninguem... Leio, fumo, e trabalho. Tinha um moinho; primeiro
+acrescentei-lhe uma cozinha, depois um quarto: agora tenho lá uma casa.
+E já não posso viver sem o ruido das mós. O meu quarto fica mesmo por
+cima. D'aqui a oito dias, com as macieiras em flôr, aquillo é
+adoravel...
+
+
+ Abril--1903.
+
+
+Vi o Marianno nas camaras. É um cadaver, com uma sobrecasaca riquissima
+de gola de veludo. Nunca phisionomia exprimiu maior cansaço, indiferença
+ou desprezo, a palpebra cahida, o olhar vazio de expressão.--Que me
+importa! que me importa!...--Parece um morto, farto de sofrimento e de
+goso, e, sob aquella apparencia de sceptico raros se magoam como elle.
+Toda a vida tem sido ludibriado. Contam que a mulher passa horas a
+descompol-o. Elle, sentado, escreve tiras e tiras de papel, a tarefa do
+jornal, sem dizer palavra nem levantar a cabeça. D'uma vez chamou-lhe
+tudo quanto lhe veio á bocca, e elle inalteravel, curvado sobre os
+linguados, sem lhe dizer palavra... Por fim ella, desesperada,
+berrou-lhe:
+
+--És um estupido!
+
+Elle então parou, ergueu a cabeça, e muito calmo:
+
+--Teem-me chamado tudo, mas estupido é a primeira vez!
+
+E continuou a escrever.
+
+Por fóra uma aparencia de sceptico, por dentro uma sensibilidade enorme.
+Anda sempre metido em complicações e negocios, em caminhos de ferro, em
+pedaços de Africa, bahia de Lobito, etc., e afinal não passa d'um
+sonhador que tem as propriedades de Azeitão hipothecadas em quatorze
+contos de reis.
+
+
+ Setembro--1903.
+
+
+O Antonio José de Freitas, homem de lettras mediocre, é um conversador
+admiravel. Se conseguisse escrever como fala, e désse á prosa aquella
+vida que dá á palavra, seria um grande escriptor. Pequeno, branco, na
+ponta dos pés, sempre a segurar as lunetas, todo elle nervos:
+
+--Dei-me muito com o Castello-Melhor. Um dia começou a imaginar que
+estava pobre, porque no Banco de Portugal lhe não quizeram, como sempre
+se fez, descontar uma lettra só com o nome d'elle. Disse ao Barros
+Gomes:--Vae beber da merda!--E sahiu furioso. D'ahi começou a imaginar
+que tinha cahido na pobreza e alugou o jardim para o circo Whytoine. Uma
+vez sahi com elle d'um baile pela madrugada e acompanhei-o a
+casa.--Sobe.--Tenho ainda que escrever para o Brazil...--Insistiu,
+subi--e eil-o a clamar no quarto:--Que diriam meus avós se vissem alli o
+circo e os palhaços!...--Estava desesperado. Descompul-o.
+
+Passaram-se annos e morreu de repente. Vestimol-o n'aquelle mesmo
+quarto, e, altas horas da noite, ouvimos, de repente, um clamor: era o
+circo Whytoine que ardia. E eu assisti ao espectaculo do cadaver,
+iluminado pelo clarão do incendio, alli onde o ouvira evocar com
+desespero os seus mortos. Foi tudo ao enterro. O povo abria alas, e
+quando chegamos ao cemiterio e quizemos pegar no caixão, veio de roldão
+uma chusma de cocheiros e vadios, que nol-o arrancaram das mãos, e,
+erguendo-o no alto dos braços, levaram-no até á cova...
+
+ * * * * *
+
+--O Eça usou toda a vida bentinhos ao pescoço. Vi-lhos eu, que dormi por
+diferentes vezes com elle no mesmo quarto...
+
+ * * * * *
+
+Depois fala no Resende:
+
+--Se vivesse era decerto o chefe do partido conservador. Que homem
+encantador, polido e sceptico! E tinha uma poderosa ascendencia
+magnetica sobre nós todos. O medico, já quando elle estava muito mal,
+recomendou-lhe ares do mar. Passeava n'um bote no Tejo. Umas vezes ia eu
+com elle, outras o Soveral, e levavamos-lhe botijas com agua quente,
+porque sentia sempre um frio mortal. Estou a ver o Soveral, com uma
+botija em cada mão. O _Rabecão_, um jornal de caricaturas do tempo,
+disse que nós iamos emborrachar todas as noites para o rio. Muito nos
+rimos... Pois o Resende, atheu toda a vida, morreu como um crente.
+
+Foi elle que se esmurrou com o Eça n'uma das piramides do Egypto. Nessa
+viagem ouviram ambos missa no tumulo de Jesus, em Jerusalem. O Eça cahiu
+logo de joelhos; quando levantou a cabeça para ver o quadro, dois ou
+trez mil peregrinos tinham como elle ajoelhado sob o mesmo impulso
+irresistivel: só a seu lado, de badine e sobretudo no braço, se
+conservava de pé, sem perder a serenidade nem a linha, um unico homem: o
+Resende.
+
+ * * * * *
+
+Os _vencidos da vida_, depois que se juntaram diziam mal uns dos outros.
+Não se podiam ver.
+
+
+ Março--1900.
+
+
+Ha mezes que Junqueiro não aparecia na Praça, onde outrora era certo á
+noite, rodeado de esbirros, e discutindo politica ou arte com alguns
+amigos mais intimos. Eil-o agora de volta, depois de umas febres
+palustres apanhadas n'essa longinqua quinta que replanta de vinha lá
+para a Barca d'Alva.
+
+Vem curioso. Teem por acaso os senhores noticia d'um Junqueiro adunco e
+janota, mephistophelico, com ditos em braza explodindo sobre o ultimo
+acontecimento, e conhecem talvez a lenda da casa de hospedes celebre da
+rua dos Retrozeiros, d'onde em tempos sahiram gritos subversivos,
+pamphletos, versos, theorias philosophicas, satyras e revistas do anno,
+e onde--consta dos archivos da policia--morou o proprio Diabo em pessoa,
+na intimidade do poeta?... Lembram-se? Depois, n'outra phase da vida,
+viram-no talvez autoritario e feroz, com o mesmo perfil em bico d'aguia,
+sob um chapéo molle e gasto, atacar o velho Padre Eterno?... Pois ahi o
+teem agora philosopho e christão. Parece um prégador
+socialista-tolstoiano, um santo cavador, de barba negra e inculta: traz
+ainda terra pegada nas mãos e uma roupa velha, a que só faltam alguns
+remendos cosidos á ultima hora... Usa uma camisola de lã e diz
+assim:--Eu não me visto: cubro-me.
+
+Chega da Barca d'Alva, um terreno enorme lá para a raia, entre pantanos,
+que reuniu leira a leira, depois d'uma scena, que dava um capitulo á
+Balzac. É elle mesmo que a evoca em meia duzia de traços, e a gente vê
+logo d'um lado os cavadores tartamudos e hesitantes, do outro o Senhor
+Poeta, como elles lhe chamam, com um livro de cheques na algibeira,
+encafuando-os a todos na sala do cartorio:--Se chegam a concertar-se era
+uma discussão para seculos. Pediam-me uma fortuna!--Um a um compareceram
+diante do tabelião:--Quanto quer? Assigne!--E sahiam logo por outra
+porta.
+
+Já pouco a pouco a lenda se forma, discutindo-se a nova thebaida, que
+d'aqui a annos será visitada como Valle de Lobos e Seide. Que procuram
+os nossos grandes escriptores, desde Herculano a Fialho, na natureza,
+que pouco nos dá em troca do muito que lhe damos? Afastar-se dos outros
+ou esquecer-se a si proprios? Talvez as arvores e os montes nos preparem
+melhor para o sepulchro e para o verme, ainda que eu julgue que não ha
+como um 6.^o andar, com livros e papeis, e um cinematographo no rez do
+chão, para acabar com a vida.
+
+Seria um curioso estudo aquelle que comparasse Valle de Lobos, Seide e a
+quinta de Junqueiro, a decoração escolhida por tres homens superiores--o
+fundo de tres grandes retratos. Na Barca tem o poeta uma casota de cão,
+com os muros ainda em osso, e uma varanda onde passeia todo o dia
+infatigavelmente. De quando em quando escreve na cal da parede versos ou
+contas. Seide, n'um cahir de tarde outomniça, lembra a alma de Camillo.
+Ha lá um calvario d'arvores decepadas que parecem forcas. Ha lá uma casa
+tragica, pintada d'amarello. Um ermo, que, a meia legoa da estrada, fica
+ao cabo do mundo, e que parece escolhido de proposito para esconder uma
+desgraça ou combinar um crime. Peor: ficou na casa abandonada, no
+ambito, nas pedras, alguma coisa daquella alma dilacerada de sceptico e
+de crente, mixto doloroso que só tinha como solução o infortunio. O que
+se ouve são risos ou gritos de dor? Depressa! depressa!... Parece que
+elle anda ainda por aqui, sardonico e immenso, desgraçado e immenso.
+Valle de Lobos, se uma vez o avistaram, não emociona de uma forma toda
+diferente, e não diz bem com a alma de Herculano?... Quanto a Junqueiro,
+a sua paizagem querida é indubitavelmente a trasmontana, grave, revolta
+e grandiosa como o seu genio.
+
+Camillo não encontrou decerto resignação nas arvores, nem nos montes,
+porque, para o mestre, em toda a natureza só o homem existia:--Não ha na
+sua obra uma arvore, nota o poeta...--Nem Guerra Junqueiro por ora se
+isola. Está na lucta, com os seus livros, as suas theorias, a sua
+maneira suprema de discutir e de encarar os problemas do universo.
+
+--Para viver na aldeia é preciso, diz elle, ser João Brandão ou S.
+Francisco d'Assis.
+
+De forma que a Barca d'Alva não é bem uma thebaida para o poeta. Os
+senhores vão agora conhecel-o sob este aspecto novo--agricultor. A Barca
+é-lhe mais que um refugio: é (palavras que fazem bater o coração de
+todos os homens) o futuro dos seus filhos. E Junqueiro, agricultor, tem
+ainda genio: inventa e descobre. Quatrocentos cavadores desbravam-lhe a
+terra, que deve produzir um vinho magnifico. O mosquito propaga a febre.
+O jornaleiro macilento bate o queixo com sezões. Elle ordena, dirige e
+resolve as questões agricolas muito melhor que os lavradores da região,
+de quem diz:
+
+--Plantam vinhas, como quem joga na batota--ao acaso!
+
+Ouçam-no! Desfilam os jornaleiros, que adquirem logo uma vida
+extraordinaria, as boccas que não falam, a Maria Colhôna, que tem filhos
+de toda a gente, filhos para o Brazil, filhos para soldados, filhos para
+a desgraça, os sêres deformados e enormes, os tipos que se transformam
+em simbolos... Descobriu um novo processo para evitar que a enxertia,
+essa operação cirurgica, como elle lhe chama, falhe, e, sob as suas
+ordens, trabalham alguns centos de homens, que se encostam ás enxadas
+para ouvirem o Senhor Poeta... Não é raro vel-o subito, tempo humido,
+perigo para as vides, abalar para a quinta com saccos de sulphato.
+Adivinha, presente melhor a natureza que os sabios--e cria. Tudo o que
+toca toma sob as suas mãos um aspecto novo, tão certo é que os homem de
+genio, como quer Carlyle, são sempre superiores e ineditos.
+
+E de que maneira paradoxal elle expõe as suas theorias! Nervoso,
+pequeno, calcando o lagedo da Praça, a mordiscar a ponta do charuto, que
+giganteas formas de sonho não vae creando aquella magica palavra!... A
+sua phantasia é eminentemente decorativa.
+
+--Sabem--dizia o poeta uma noite--sabem que scismo na fórma de
+transformar toda a agricultura? Acabaram-se os pobres, a fome, os annos
+tristes! Para o vinho, d'aqui em deante, não bastarão toneis como torres
+e para o pão arcas como predios. Uma carrada de bois será apenas
+suficiente para carregar uma abobora, e um simples cacho de uvas dará
+vinho para duzias de borrachões. Como? Aplicando ás arvores, ás vides,
+ás plantas emfim, o methodo de Brown-Séquard. O sabio dá a um organismo
+gasto uma vida assombrosa, injectando-lhe a vitalidade de coelhos.
+Calculem o resultado d'esse sistema aplicado na agricultura...
+
+Um castanheiro dura seculos, tem uma vida extraordinaria. É mais que uma
+arvore--é uma força. Apodera-se dos montes. As suas raizes alastram, os
+seus ramos tocam no céo. Imagine que injecto polen de castanheiro n'uma
+vide... Obtenho logo uvas como as da Terra da Promissão. D'um pé de
+melancia tiro um fructo capaz de carregar um carro. Tres maçãs metem no
+fundo uma náu.
+
+E eis, por uma noite de invernia, a natureza transfigurada, pelo poder
+da phantasia e do sonho. Flores são arvores abrindo lá em cima no céo em
+parasoes roxos; pinheiros transformam-se em montanhas; monstros erguem
+as suas corolas de veludo, e na verdade não passam de humildes flores
+bravias. Uma petala desaba com o fragor de penedos, e multidões sobre
+multidões sequiosas veem dessedentar-se n'este fructo colossal:--o
+morango. Ha que tempos que eu erro perdido n'esta floresta monstruosa de
+papoulas!...
+
+Junqueiro na intimidade é prodigioso de genio, de imprevisto, de
+elevação. Vê os factos mais simples com um olhar que os engrandece.
+Assombra de pitoresco e de inedito. O homem de genio é, como todos os
+homens, filho da mesma lama, mas, por acaso, vão n'esse humus lagrimas,
+aguas correntes, detrictos de florestas, restos de nuvens e a emoção
+profunda da natureza. Por isso sabem tudo, sentem tudo... É pena que as
+suas conversas, os seus fragmentos, esses pedaços de sonho e de vida,
+atirados com febre, perdidos, e decerto esquecidos, se não possam
+juntar, porque dariam um dos aspectos mais extraordinarios do seu genio.
+Seria esse talvez o seu melhor livro. Assim, por exemplo, as cathedraes
+de Hespanha, onde Jesus está preso e a ferros, a explicação prodigiosa
+dos Christos de madeira--o Christo dos soldados, o dos ladrões, o dos
+cavadores, da sua sala de jantar, unicas obras d'arte de que não quer
+desfazer-se, e a sua philosophia, a maneira superior como encara o
+universo e ilumina o desconhecido...
+
+Pois ahi o teem de novo no Porto, de barba hisurta, embrulhado n'um
+casaco coçado, com um ar iluminado de Santo. Direis que vae prégar ás
+multidões. Demais já ha annos que elle escrevia:
+
+
+ Tolstoi o meu sapateiro...
+
+
+E um dia, ao saber Camillo sceptico, Camillo com noites de sombrio
+desespero, palpando a coronha do revólver, não foi de proposito
+procural-o para lhe prégar Deus?
+
+Era n'uma dessas tardes tragicas de Seide, de que o grande escriptor
+fala nos _Serões_. A natureza chorava revolvida: a acacia de Jorge
+batia-lhe devagarinho nos vidros. Quem é que o chama? Atormentado de
+dores, ouve vozes, vê phantasmas, e sae do horror com blasphemias e
+sarcasmos. Junqueiro encontra-o mergulhado na dolorosa tinta do
+crepusculo, com a pala com que escrevia sobre os olhos, absorto, calado,
+desesperado, o rosto marcado de dedadas, «esboçado n'uma argila côr de
+mel», segundo o retrato de Ricardo Jorge. Eu tinha-lhe medo... O poeta
+tenta arrancal-o ao negrume que o envolve: desenrola theorias,
+explicações, argumentos; ataca-o a fundo, persuade-o talvez... Já o
+julga abalado e convertido, quando d'essa figura só osso e dor, saem
+emfim estas palavras ironicas:
+
+...--Sim, sim, Junqueiro, você convencia-me se eu não tivesse ainda no
+estomago, desde o almoço, tres bolinhos de bacalhau, que me estão aqui
+como tres Voltaires.
+
+
+ Março--1904.
+
+
+Veiu a Lisboa acompanhar, por solidariedade, os lavradores do Douro, o
+poeta Guerra Junqueiro. É outro homem, que perdeu talvez em
+exterioridades mas ganhou em funda emoção. Tendo-se-lhe um dia deparado
+universaes interrogações no caminho; tendo encontrado frente a frente,
+ao meio da vida, idéas abaladoras, que só o homem de genio pode encarar
+sem o pavor e o deslumbramento que o grande mistério comunica--as raizes
+do universo--elle mudou de rumo, tão simplesmente como se praticasse o
+acto mais banal da existencia. Sendo já um dos maiores poetas da
+Europa--quiz ser tambem um santo... Durante annos procurou como Fausto o
+segredo da vida no fundo dos laboratorios. E n'outra phase do seu
+espirito decorativo tendo entrevisto, pelo poder do genio, novas veredas
+a tentar, seguiu-as, fazendo experiencias que a sciencia d'hoje
+plenamente confirma.
+
+Guerra Junqueiro está na mesma: alguns fios brancos a mais na grande
+barba de santo, começo de calva amarelada no alto da cabeça, chapéo
+baixo, uma simplicidade de trajo que vae bem com a simplicidade
+verdadeira ou ficticia da sua alma. E sobre isto os olhos terriveis que
+nos fitam e nos adivinham até ao fundo. A conversa é prodigio que evoca,
+ilumina, toca em todos os problemas da vida, dando-lhes uma grandeza e
+novos aspectos que entontecem.
+
+Fala-se a proposito de um livro, e elle diz, não palidamente, nem
+decerto com as inexactidões com que reproduzo, o seguinte:
+
+--É um livro interessante. O autor conseguiu deixar falar a parte de
+inconsciente que cada um de nós traz comsigo... Porque, meu amigo, a
+porção de infinito que cabe a cada homem é exactamente a mesma. O
+camiseiro alli defronte e um homem de genio teem na alma identico
+quinhão. Sómente o camiseiro não consegue encontral-a nem pode
+exteriorisal-a. Porque? Porque só pensa em camisas. O homem é o universo
+reduzido... Que cada um pudesse deixar-se narrar--e teriamos a mais
+maravilhosa historia do mundo!...
+
+E como incidentemente se refira á sciencia, eil-o que se desvia por
+outro esplendido caminho:
+
+--As ultimas descobertas modificaram completamente a sciencia. Foi um
+terremoto. E eu entrevi isto mesmo: ha annos que chegára ao seguinte
+resultado:--radiação universal e desassociação dos atomos. Fiz
+experiencias, que me deram resultados incompletos, procurei homens de
+sciencia que não me quizeram atender. Um dia vim de proposito a Lisboa
+falar a Sousa Martins e expuz-lhe as minhas theorias. Ouviu-me... Quando
+me fui embora encolheu decerto os hombros. E no emtanto, passados annos,
+vejo confirmado experimentalmente tudo o que eu previra... Que quer?...
+Faltavam-me como comprehende os meios de verificação. Precisava de
+factos.
+
+[Figura: _D. João da Camara._]
+
+Cala-se um momento e depois continua:
+
+--Hei-de publicar, depois da _Oração á luz_, que sae brevemente, uma
+serie de memorias, com os resultados dessas experiencias. A vida--é o
+Amor e a Dor. Procurar as suas leis eis tudo. Seguir-se-ha a minha
+theoria philosophica. Adivinhei todo este terremoto que se deu
+ultimamente na sciencia. Hoje a materia não existe: já a
+definem--associação d'energias. O que é feito dos materialistas? A
+sciencia futura será portanto o estudo de energias. Por ultimo
+publicarei uma introducção á sciencia, visto que não posso escrever essa
+obra: seria a revisão dos trabalhos de Spencer--a tarefa de toda uma
+vida.
+
+--E tem muitos documentos?
+
+--Tenho tudo prompto. Necessito apenas de encontrar a fórma precisa, a
+fórma mathematica, para exprimir as minhas idéas.
+
+Incansavel. É de ferro. Pequeno e mirrado passeia horas e horas, a
+conversar... Não conversa--monologa.
+
+ * * * * *
+
+Da Barca d'Alva diz:
+
+A minha casa de jantar tem uma meza e cadeiras de pinho. Depois de
+comer, quando quero um palito, corto-o na meza.
+
+ * * * * *
+
+Ramalho definido por Junqueiro:--um pinheiro com uma melancia em cima.
+
+ * * * * *
+
+Junqueiro na redacção do «Mundo»:
+
+--D'aqui a pouco reparto a minha fortuna com as minhas filhas e o que me
+restar dou-o aos pobres.
+
+ * * * * *
+
+Ha outro Junqueiro de que a caricatura se apoderou, o Junqueiro do
+_bric-á-brac._ O Junqueiro que a má lingua do Porto afirma que percorre
+disfarçado as ruas de Hespanha, com um burro pela arreata
+apregoando:--Ha por ahi quem tenha louça para vender?--O Junqueiro que
+foi procurado um dia no hotel, em Salamanca:--Está cá o grande poeta
+Guerra Junqueiro?--Não conheço,--disse o porteiro.--Mas elle vem sempre
+para aqui. É um homem de barbas...--teimou, explicou o outro.--Esse es
+Guerra el antiquario!...
+
+Mas até no Junqueiro caricatural algumas linhas são indispensaveis para
+completar o retrato. Ha n'este grande homem uma mascara. Sinto uma parte
+que se deve ao arranjo--e que é a inferior e outra em que elle obedece á
+raça e que é a mais viva, a que tem raizes nos mortos. Melhor: o homem é
+sempre um tablado onde varios phantasmas se despedaçam. Ha mãos que nos
+puxam para o fundo, ha outras que nos procuram levantar cada vez mais
+alto. Deus nos livre de julgar os mortos!
+
+ * * * * *
+
+Junqueiro, de volta do Bussaco, indignado:
+
+--E não aparecer um doido, com um grande martelo, que deite tudo aquillo
+abaixo! Qualquer dia botam as arvores a terra e põem pedraria até á
+Pampilhosa!
+
+
+ Dezembro--1907.
+
+
+Encontro-o hoje em Lisboa, emagrecido, com um velho casaco comprado n'um
+adelo, e muitas rugas, finas como linhas, ao canto dos olhos. E, como o
+José de Figueiredo lhe fale no Rodin:
+
+--É verdade, passei um dia inteiro com o Rodin, a explicar-lhe a sua
+obra. Disse-lhe: você é um grande artista, mas exactamente, como em
+todos os grandes artistas, a melhor parte da sua obra é inconsciente.
+Porque em todos nós a razão é nada, o que é grande é o inconsciente.
+Aquella cabeça que você tem no Luxembourg, emergindo da pedra--é assim,
+é aquillo... Mas falta-lhe não sei quê de simbolico que ligue a cabeça á
+pedra. Assim choca, é brutal. É como o _Pensador_, a estatua que está no
+Pantheon. Toda a critica franceza tem tentado explicar aquella estatua,
+e ainda ninguem disse as palavras necessarias. Eu lh'as digo: Aquillo
+não é o _Pensador_, nem o _Pensamento_: é o primeiro pensamento em
+cabeça de homem. Dispa você um tipo de verdadeiro pensador, Kant, o
+Dante, por exemplo, e encontra um corpo deformado. Porque o pensamento
+peza mais de que montanhas. Devora. O que você fez foi uma besta, um
+gorilha, um homem capaz de arrastar calháos: Pois bem: inconscientemente
+fez uma grande obra d'arte: o primeiro pensamento na cabeça d'homem.
+Esse primeiro homem athletico, ao deparar com o primeiro pensamento,
+essa flor abstracta, fica dominado, subjugado: cae-lhe o Atlas em cima e
+esmaga-o... E adeus, são horas de partir para o comboio.
+
+ * * * * *
+
+D. Carracida, professor de chimica biologica na Universidade de Madrid,
+homem ilustre e que conhece perfeitamente a literatura portugueza, diz
+assim de Junqueiro... (D. Carracida fala portuguez pausadamente).
+
+--O senhor Junqueiro, grande poeta, é um mistico... Está agora no
+misticismo. O senhor Junqueiro e eu passeavamos juntos no jardim de
+Villa do Conde, de cá para lá--e o senhor Junqueiro prégava a piedade e
+o amor. Uns rapazinhos acendiam balões para uma festa, e eu e o senhor
+Junqueiro passeavamos de cá para lá... O senhor Junqueiro prégava a
+piedade e o amor, e um dos balões cahiu na cabeça do senhor Junqueiro,
+que levantou a bengala e deu com ella no rapazinho... E nós continuamos
+a passear de cá para lá, e o senhor Junqueiro a prégar a piedade e o
+amor...
+
+
+ Março--1903.
+
+
+Fialho não é este janota de palio rico, com uma joia tão grande que
+parece falsa na gravata de veludo. Fialho era outro estranho tipo,
+intratavel e pobre, com o pêlo ralo e a bocca enorme cheia de sarcasmo.
+Um principe de gabinardo, que fazia cahir as peças do alto do
+galinheiro, a um gesto seu irrespeitoso. Seguia-o a malta atonita de
+matulas suspeitos e jornalistas de ocasião, que deslumbrou de sonho e
+atascou em sonho.--Fialho! Fialho!...--Esses aplaudiram-no e
+amaram-no... Esquecidos do frio e da pobreza, não despregavam os olhos
+d'aquelle sonho desconforme.--Fialho! Fialho!...--Depois sumia-se n'um
+terceiro andar, ou procurava os pobres que não pedem: só a mão sae da
+noite e implora. Havia uma velha--nunca mais me esquece--alli á porta do
+Monte Pio, que fazia parte do muro alto e espesso, e a quem elle, ao
+dar-lhe esmola, lhe afagava a cabeça... Depois, amargo, feroz,
+insuportavel, eil-o tornava com sarcasmos, transtornando as figuras
+decorativas, cheias de veneras, que á sua voz desatavam ás cambalhotas
+como palhaços. Vi-o exasperado, vi-o atordoado de phrases, como quem
+quer fugir ao proprio phantasma. Vi-o mergulhar n'uma absorpção
+dolorosa, e desaparecer na noite em correrias que duravam até de manhã
+pelos bairros escusos ou pelas azinhagas de crime, n'um debate perpetuo
+de que sahia livido, exhausto, e com a mascara transtornada. Este que
+fala do seu vinho:--Livros?... O que eu trato de editar é um vinhinho
+branco lá de Cuba...--este, que vem, de quando em quando, a Lisboa
+deslumbrar-nos com um novo e horrivel fato, é outro Fialho, que talvez
+tenha saudades d'essa vida absurda de outros tempos...
+
+Fialho! Fialho!... Pronuncio este nome e diante de mim desfila o
+assombro, pamphletos, a obscenidade e o genio--farrapos arrancados a
+ferro e tão vivos que mal ouso tocar-lhes--o estoiro d'uma bexiga
+d'entrudo--ironia e esgares. E logo gritos! e agora gritos!... Ouço a
+dor, sinto a dor, sinto-a sempre atravez da forma imprevista, d'uma
+audacia e d'um rithmo incomparavel, escorrendo sonho, aflição, miseria,
+sinto-a até nos impetos de máo gosto, nos pontapés aos leitores
+surprehendidos e irritados. Está aqui diante de mim aquella bocca
+enorme, aquella figura de gabinardo e chapeu molle que nas noites de
+tristeza e abandono me dizia:--O que eu sofri! o que eu
+sofri!...--Vejo-o sempre invejar o barqueiro louro e sardento, de que
+fala nos _Gatos_, bello como um ephebo á prôa do seu barco.--Como eu
+queria ter saude e ser forte!--Deu-lhe Deus o mais rico quinhão que
+imaginar se pode, a lingua incomparavel para exprimir a chimera e a dor,
+e, esse macaco sem fé, esbanjou-a com o mais absoluto impudor:
+serviu-lhe para a chacota. Transtornou tudo, engrandeceu tudo, riu-se de
+tudo. As descripções perderam a proporção, as figuras a realidade,
+transformadas em figuras de dor ou de grotesco; a propria cidade
+resurgiu a uma tinta livida de antemanhã, com a casaria a escorrer vicio
+e aspectos tetricos... É isto sim, mas isto creou-o elle de pobreza e
+desespero, creou-o de gritos que nunca ninguem lhe ouviu.--E maior!
+ficou maior! A sua obra só tem outra que se lhe compare, a de Camillo.
+Exigem-lhe um livro harmonico--_Os cavadores_. Porque é que toda a gente
+reclama dos outros aquillo de que elles são incapazes? A obra de Fialho
+não podia ser senão esta, aos arrancos e enorme. Fialho via os
+pormenores atravez d'uma lente, e deturpava tudo, deformava tudo, dando
+genio á propria obscenidade. Nunca conheceu Barjona, nunca viu Barjona,
+e, com duas ou tres anecdotas, creou uma figura com um relevo que falta
+ao mediocre Barjona da realidade. Precisou sempre de se exagerar para se
+encontrar. Sacrificou o seu melhor amigo a um dito, é certo, mas começou
+por se sacrificar a si próprio. Foi sempre o primeiro a sofrer. Houve
+tempo em que alguem o definiu um doente com inveja das doenças dos
+outros... Desatou então a gargalhar com lagrimas nos olhos. Perdeu o pé.
+Arrancou as azas disformes ao Sonho e rojou-as com maldade no
+enxurro.--Encharcou-as de lama e empoou-as de estrellas... O vestido
+ficou mas era o d'um espectro... Não nos podemos medir todos pela mesma
+craveira. Fialho tem de tudo na alma: a casa de hospedes, a existencia
+reles d'estudante, a pobreza, as mil saburras, os pequenos nadas que
+gastam, desgastam e transformam, e uma alma vibratil, um feixe de nervos
+(capaz de tempestades que se domam com uma palavra) ligado a uma
+enchente de sonho e a um orgulho doentio, como os que sentem dentro de
+si, e o suportam, um mundo desconhecido e nunca dantes navegado. Fialho,
+se o virassem do avêsso, escorria ternura... É tambem um timido capaz de
+todas as audacias, e que sae da doença e do isolamento com desespero e
+escarneo. Esta figura tão conhecida de todos nós, não é a exacta
+expressão da sua alma. Ainda hoje ninguem se entende...
+
+[Figura: _Eça de Queiroz._--Desenho de Antonio Carneiro.]
+
+Silva Telles, por exemplo, conheceu um estudantinho aplicado e mediocre,
+que se chamava José Valentim Fialho d'Almeida; ha ainda talvez quem se
+recorde d'um moço de botica reservado e triste; e, o que é mais
+extraordinario, de outro Fialho respeitoso, que não podia suportar o
+exagero alheio, e d'outro, noctambulo e feroz, com risadas estridulas de
+sarcasmo--e de outro, de outro maior, de outro espectro, que vem aqui
+sentar-se a meu lado na sua tragica mudez. No fundo talvez tudo aquillo
+fosse dor. No fundo, bem no fundo, quando irrompia n'uma phrase cruel,
+não era aos outros que dilacerava, era a si proprio que se dilacerava, e
+tão a serio que todos o viamos sangrar. Reparem: pouco a pouco a figura
+range de dor. Arfa atravez da sua obra. É o filho do professor
+d'instrucção primaria, d'aquelle homem severo, de quem dizia
+baixinho:--O meu pae foi duro! o meu pae foi tão duro! Era um homem sem
+ternura...--É o praticante de botica alheado e transido, o neto
+deformado de cavadores, que inveja a sociedade distante, e que só aos
+impetos se atreve a enchel-a de sarcasmos. Que inveja o grande
+escriptor, o desgraçado Fialho, o homem de genio que passou a vida a
+fazer chacota das veneras, das academias, das elegancias, dos grotescos
+cobertos de patacos--que lhe faziam falta? Tanta tinta, tanto desespero
+calcado e recalcado, tanta contradição e pobreza, e uma lucta de noites
+e noites de que sae amarfanhado--e com paginas soberbas! Mas tu não vês
+que no dia em que te roçares por elles estás perdido, como no dia em que
+a cobra perde o veneno? Vae-se-te o melhor do teu genio...--Não, eu
+rio-me, eu sofro...--Tantas paginas bellas!--Se soubesses como isso se
+paga!--Então explica-te...--Não posso, não sei. Até dos idolos postiços
+que deito abaixo me ficam saudades... Nem eu proprio sei o que
+quero.--Pobre Camillo, que estoirou a cabeça de desespero, pobre
+Anthero, exilado e em debate com uma sombra com que não podia arcar;
+pobre Fialho, pobre cavador de genio, em perpetua discussão com os seus
+mortos, em lucta comsigo e com os outros e no fundo um reverente--foi-o
+sempre--sahindo em farrapos d'este inferno a que se chama a vida!...
+
+Da sua existencia oculta faz parte uma figura de dor calcada e
+recalcada, sobre a qual outra se encarniça com desespero. Talvez seja a
+verdadeira... Contentemo-nos em fixar duas ou tres aparencias, apontando
+n'este canhenho algumas anecdotas frivolas... Se elle podesse gritar
+gritava ainda. D'essa figura contraditoria restam farrapos--mas que
+farrapos! d'essa lucta suprema existem vestigios, que nunca encarei sem
+espanto... Vio-o algumas vezes ao amanhecer, n'um 3.^o andar do Arco da
+Bandeira, quando elle cahia exhausto sobre a banca de tortura, á luz
+d'um candieiro de petroleo, com um frasco d'alcool ao lado e o cobertor
+enrodilhado nos pés. A mascara livida estava de todo mudada. Era outro!
+era outro! Surprehendi-o em noites, nos giros sem destino pela Graça,
+pela Penha, pelo Monte--quando o seu dedo apontava boqueirões de treva,
+tropeis de casaria, sitios ermos onde duas ou tres oliveiras torcidas se
+ajuntam para concertar um crime, ou, peor ainda, nas horas de amargo
+descalabro, em que, dorido e sem phrases, procurava fugir de si proprio
+para muito longe. Não queria então que ninguem o seguisse nas caminhadas
+que duravam até ao dia--elle e a dor, elle e a noite! Amigos,
+silencio...
+
+ * * * * *
+
+--O que eu sofri!--dizia elle.--Tiveram-me preso oito annos n'uma botica
+alli na Bemposta, ao pé da Escola do Exercito, na idade em que queria
+viver. Estragaram-me a vida, encheram-me de desespero. Quando me
+soltaram não imagina a minha alegria! Podia ter sido outro... Ter saude,
+ser forte!... O que eu sofri! D'uma vez, no _Reporter_, o Martins
+mandou-me escrever um artigo sobre uma kermesse de fidalgas. Fui e fiz
+uma troça, e elle rasgou-me os linguados na cara. Para me vingar,
+tirando um bocado ás noites, escrevi um artigo formidavel para publicar
+em folheto. Era na occasião em que essas peidorreiras arranjavam um
+bazar para os pobres, que rendeu oitocentos mil reis. Ora eu descobri
+por acaso um gallego, que se juntava com outros e tiravam todas as
+semanas meio dia de ganho, para irem ao domingo ao hospital dar cigarros
+aos doentes, penteal-os, cortar-lhes as unhas, untar-lhes a cabeça com
+banha de porco. É um velho, de barba de passa piolho, que está sempre no
+largo de Camões. Homem de poucas falas. Tratou-me mal. Tive prompto o
+folheto em que comparava essas mulheres, cheias de snobismo, com
+adulterios e infamias, com esse santo desconhecido... Imagine... Perdi o
+artigo.
+
+E depois, falando da mulher Oliveira Martins:--Não era a mulher que
+convinha áquelle homem. E elle subordinava-se-lhe. Foi ella que o fez
+confessar á hora da morte. Contou-me o Sousa Martins que a sacudira de
+ao pé de si ao morrer...
+
+ * * * * *
+
+Fala do livro _A Cloaca_, um d'estes livros que se sonham e nunca se
+chegam a escrever:
+
+O primeiro capitulo está feito: é uma festa da alta sociedade no
+claustro da Batalha... Aproveito a epoca do Burnay e do marquez da Foz,
+a lucta da finança, quando o Foz tinha palacios e o Moser carro a duas
+parelhas. Deram-se festas esplendidas... Tenho as figuras todas, homens
+de negocio e jornalistas, o Mariano e o Navarro... Um dia alugam um
+comboio especial e vão dar uma festa no claustro da Batalha. É uma ceia
+formidavel, com mulheres da grande roda, politicos, literatos, e, dentro
+do claustro, entre a grandeza e a severidade d'aquellas pedras, caem de
+bebados e mijam pelos cantos, nos tumulos. O principe tambem lá está,
+com o conde de Maricas--fedes: no fim do banquete, á sahida, a babar-se,
+escreve nas paredes monumentaes esta palavra obscena: p... Os outros
+riem-se, as mulheres aplaudem. Fora a multidão apupa. Outro capitulo ha
+de ser a noite em que os jornaes apregoaram em suplemento o escandalo
+Foz e a sua prisão:--Foi n'essas horas--dizia a marqueza--que os
+cabellos se me puzeram brancos da noite para o dia.
+
+ * * * * *
+
+Nunca terminou outro livro _A Quebra_, que chegou a trezentas paginas
+impressas, no editor Costa Santos. Tinha capitulos admiraveis. Acabou
+por o inutilisar:--A minha dificuldade é a falta de proporções. Perco-me
+n'um incidente, e quando mal me percato estou em quatrocentas
+paginas.--Sei tambem que escreveu alguns capitulos d'_Os Cavadores_.
+Talvez d'_Os Ceifeiros_ pertencessem a esse livro, em que elle queria
+pegar no homem do campo e leval-o, sempre explorado, desde o baptismo
+até á morte...
+
+ * * * * *
+
+Inventou este nome para o conde de Arnoso, a _rainha Draga_, e diz do
+retrato a oleo que o Columbano lhe pintou:
+
+--O Columbano é tão cortezão que lhe poz um velho olho do Eça de
+Queiroz.
+
+ * * * * *
+
+Contemplando o cadaver do Cardia:
+
+--Só aos quarenta anos é que se sabe o que é isto!
+
+_Isto_ é a morte, á qual tem horror, assim como á velhice.
+
+ * * * * *
+
+E falando a proposito do Cardia:
+
+--Eu tambem sou assim... Ha dias em que ninguem me arranca seja o que
+fôr da cabeça. Sinto a mesma impressão de vasio que o Cardia sentia.
+Depois escrevo por impetos uma pagina, pedaços destacados que me matam
+de desespero para ligar. E se não escrever logo, passadas horas já não
+posso, não sei... Varreu-se-me tudo!
+
+ * * * * *
+
+Está furioso com a inauguração do monumento ao Eça. No fundo nunca o
+pode vêr: faltou-lhe o carinho, a consideração--e isso maguou-o
+muito--que rodeou o grande escriptor dos _Maias_. Elle proprio diz:
+ganhou sempre a trabalhar menos que um pedreiro. No jornaleco _A
+Tribuna_ escreveu em dois numeros successivos, sem assignatura, as
+seguintes notas com o titulo
+
+
+ O MONUMENTO
+
+ Já noticiamos n'outro numero do nosso jornal com todos os seus
+ detalhes e pormenores, como foi a festa d'inauguração do monumento
+ a Eça de Queiroz. Damos hoje um reflexo do humor da multidão que
+ assistiu ao acto. Porque, emfim, a nosso vêr, tudo é documento para
+ a historia.
+
+ * * * * *
+
+ --_Sobre a nudez forte da Verdade, o manto diaphano da phantasia_.
+ Dizem os amigos que n'esta frase se alegorisa a obra de Eça. Mas
+ olha cá. Estando a _Verdade_ completamente nua do ventre para cima,
+ e só rebuçada d'ahi para baixo, o que sob o manto da fantasia se
+ guarda é indecente.
+
+ --Ahi está a razão porque a alegoria é flagrantissima.
+
+ * * * * *
+
+ --Tu, se fosses casado, davas o _Primo Bazilio_ a lêr a tua mulher?
+
+ --Lá isso não. Mas não tinha a mais pequena duvida em o dar á tua.
+
+ * * * * *
+
+ --Que lhe parece a _Verdade_ do monumento?
+
+ --Um calix de _bitter_ para fazer bocca ao _Chat Noir_, que fica em
+ baixo.
+
+ * * * * *
+
+ --Condessa, de todos os cavalheiros que fallaram, qual d'elles é o
+ conde d'Avila?
+
+ --O conde d'Avila são todos.
+
+ * * * * *
+
+ --Este Monteiro Milhões, que inconveniencia! Consentir que das suas
+ cavallariças um burro esteja a interromper os oradores!
+
+ --Condessa, é o echo.
+
+ * * * * *
+
+ --O que eu n'esta consagração sobretudo admiro, é o grande coração
+ do conde d'Arnoso. O Municipio devia premiar tão nobre musculo.
+
+ --Com uma urna, como se fez ao D. Pedro IV?
+
+ --Com uma urna não. Com uma travessa.
+
+ * * * * *
+
+ --Seria interessante conhecer todos os tramites do trabalho de
+ creação do esculptor, até ao momento da estatua apparecer.
+
+ --Ah, eu lh'os conto. Primeiramente, o Carlos Mayer, na sua
+ qualidade de judeu, queria uma descida da Cruz, e por isso, o grupo
+ do Eça e da Verdade cheiram um pouco á scena da Paixão. Veio depois
+ o Arnoso a lembrar se dessem ao monumento reminiscencias mais
+ contemporaneas, ex.: o Genio perguntando á Verdade quantos dentes
+ queixaes queria tirar. D'esta dualidade d'inspiração resulta o
+ _mysterio_, que faz com que o monumento seja o que v. ex.^a quizer,
+ sendo o melhor--não perguntar.
+
+ * * * * *
+
+ Apparece no estrado o Conselheiro António Candido.
+
+ --Silencio! Vae fallar o maior orador da Peninsula.
+
+ --«...no povo portuguez ainda ha o grande brio dos feitos altos,
+ (_sussurro_). Se ámanhã esta Verdade tão núa fôr ter ao Pelourinho,
+ ninguem sabe até onde o amor da Pátria ha-de crescer! (_ovação_).
+
+ * * * * *
+
+ Interview com o conselheiro Barahona.
+
+ --V. Ex.^a leu alguma vez o Eça?
+
+ --Ler, nunca, mas conheci-o em Evora, delegado do thesouro, e até
+ por causa d'isso vim ao Principe Real ver-lhe um drama de ladrões,
+ que estava mesmo escripto ao meu sabor.
+
+ --Mas isso não é o Eça de Queiroz, é o Eça Leal.
+
+ --O que?! Não é o mesmo? Ai, os meus ricos dois contos de réis!
+
+ * * * * *
+
+ _Interview_ com o Snr. Monteiro Milhões.
+
+ --V. Ex.^a que pensa do monumento?
+
+ --Penso que tenho de voltar a frontaria da minha casa, para o
+ Theatro D. Amelia. Imagine que os meus netos estão constantemente a
+ perguntar quem é aquella senhora sem camisa. Já o outro dia lhes
+ disse que era D. Maria II, mas com estes frios, os pequenitos,
+ educados na compaixão, não me largam para que lhe mande dar um
+ cobertor.
+
+ --E que impressão faz das suas janellas a barriga da Verdade?
+
+ --Aqui entre nós (_arregalando o olho_) é uma d'aquellas barrigas
+ que está mesmo a glorificar a «sensação nova» (_irritado_). Não era
+ mais condizente á minha camoneana, transferirem o epico immortal
+ aqui para o meu largo, e levarem _aquelle senhor_ para as
+ proximidades do Bairro Alto?
+
+ --De modo que V. Ex.^a, irritado, nem chega á janella?
+
+ --Emquanto a Camara não mandar pôr, de roda da figura um resguardo
+ pintado de cinzento.
+
+ * * * * *
+
+ --Tu ouviste os discursos. Que opinião por elles se pode ter da
+ capacidade mental dos oradores?
+
+ --Metade d'aquelles senhores não leu o Eça, e a outra metade não
+ tem lucidez para o julgar. Isto foi uma festa de «snobs»; o
+ monumento que ali está, não foi erguido á memoria do Eça litterato:
+ é a glorificação do conde Reinaldo e da Alfonsine.
+
+ --E se o flamejante garoto agora cá tornasse? Mettia-os a todos
+ n'um romance endiabrado.
+
+ --Já estão mettidos. Mas o que tu acabas de vêr é os _Maias_ em
+ quadro vivo.
+
+ * * * * *
+
+ Duas guapissimas, na turba.
+
+ --_Pero Eça de Queiroz, quien és?_
+
+ --_Un caballero que escribió del minuete._
+
+
+ * * * * *
+
+G..., antigo companheiro de Fialho, sepultado hoje no fundo d'uma
+biblioteca, diz assim a proposito da livraria do grande escriptor[2]:
+
+«Eu chamo a estes livros as onze mil virgens. São apenas quatro mil
+volumes ou pouco mais, mas--vae surprehendel-o esta minucia--estam quasi
+todos por abrir. Ha aqui Balzac e Zola, Eça e Ibañez, os Goncourt e
+Ponson du Terrail. Fialho tinha muito Ponson na sua biblioteca. Esta
+litteratura de costureiras e guarda-portões era para as grandes horas
+amarguradas».
+
+Era. A elle e a outros grandes espiritos basta-lhes o proprio drama para
+os amargurar. Anthero, nos dias aziagos de Villa do Conde, deitado n'um
+sofá, só lia Gaborieu. Para tragedia chegava-lhe a sua.
+
+«O Fialho tinha uma admiração extraordinaria pela obra camiliana.
+Imagine que até n'um livro da mocidade poz uma dedicatoria a Camillo, em
+que dizia: «acabo de lêr toda a sua obra». E quasi nada lêra a esse
+tempo... Afora as obras portuguesas, na biblioteca de Fialho só ha
+volumes em espanhol e em francez. Nos ultimos anos merecera-lhe uma
+atenção particular a literatura espanhola.»
+
+E a proposito de Fialho intimo assevera:
+
+«O Fialho, que tinha grandes rasgos generosos e perversidades
+femininas--repito-o não era bem o Fialho que se vê atravez dos seus
+livros admiraveis. Era o _outro_. As suas irreverencias das paginas
+rubras eram fundamentalmente apenas o odio do plebeu que inveja o
+fidalgo. Sim, porque ele invejava a sociedade na sua fase demolidora
+_só_ porque não tinha nela um lugar. Uma infantilidade de homem de
+genio.»
+
+E explica:
+
+«Como se sabe o Fialho não tinha meios de fortuna nem ascendencias
+nobres. Fez a sua vida ali no «Martinho», vivia de noite e era um
+_blageur_ incorrigivel, e apezar de valer bem os seis milhões de
+portugueses que existem sobre esse solo, a Monarquia, o Paço, os
+conselheiros, não lhe achavam _qualidades_ para triunfar nessa sociedade
+formalisada e cheia de convencionalismos. Está explicado o Fialho dos
+_Gatos_--foi a revolta. Meteu-lhes medo--oh sim, um medo terrivel com as
+suas _blagues_ sangrentas--fazia-os passar de largo, mas ainda mais se
+afastou do _ancien régime_. Entre os republicanos, onde se lançou de
+alma e coração, sentiu-se depois desconsiderado. O Fialho continuava a
+ser... o _blageur_. Nunca lhe deram um cargo de confiança. Que pena teve
+o Fialho de não ficar na Comissão da subscrição nacional a quando do
+_ultimatum_!»
+
+E termina com esta nota inedita:
+
+«Sabe que o Fialho era um orador. Nunca ouviu dizer talvez que elle
+fizesse um discurso? Mas ouvi-lhe eu muitos, todos os dias, durante
+longos annos. A sua timidez invencivel nunca o deixou falar em publico
+apesar de, como ninguem, sentir a necessidade do aplauso. Muita vez me
+disse que desejaria ser actor, ser um grande actor, para ouvir bem de
+perto o som das palmas com que o saudariam, para viver intensamente,
+ruidosamente, uma grande hora de triunfo. Tinha coisas o Fialho...
+Registe esta nota curiosa pois muito poucos a sabem: era soberbo, orando
+alucinado para um auditorio de tres amigos intimos no alto da Avenida,
+ou noite alta, á beira do Tejo.»
+
+ * * * * *
+
+Á figura que se senta ao pé de mim falta-lhe talvez a rigidez das
+estatuas. O gabinardo, reparem, está amachucado e encardido, a
+phisionomia retrae-se no escuro e só a bocca se salienta, enorme e
+prestes a escorraçar-nos com gritos e apupos. Atravessou a vida: foi
+injusto, foi cruel por vezes, foi amargo. Desatou a rir para não chorar.
+Atordoou-se com sarcasmos e phrases. Foi incoherente. Obedeceu ao
+impulso. Não se pôde furtar a sentimentos que veem do fundo dos fundos e
+nos deixam prostrados, reclamando da morte que nos apavora--enfim!
+enfim!--o primeiro dia de descanço bem ganho, ao termo desta discussão
+que nunca cessa e em que nos despedaçamos, sem nos comprehendermos a nós
+proprios quantos mais aos outros... Toda a sua alma, que deixou
+fragmentada em varias figuras, em todas as paginas dos seus livros, nos
+retratos, nos tipos, nas paisagens, no Manuel, em Guilherme de Azevedo
+ou na manhã do Tejo, se condensa enfim n'esta bocca amarga capaz ainda
+de nos fulminar de colera ou de acusar bem alto a vida que lhe foi
+impiedosa... É assim que te vejo ao pé de mim, com detrictos,
+escorrencias, lama, mas tão grande, tão vivo, tão humano, que para
+sintetisar a tua vida, só me servem as palavras com que um espectador
+ilustre sauda o Hamlet no fim da representação:--Boas noites, meu
+principe, és um homem, o homem e todo o homem!
+
+
+ 4 de Janeiro--1908.
+
+
+Morreu ante hontem d'albuminuria o pobre D. João da Camara. Tinha feito
+annos no dia 27. Conheci-o sempre, até nos maiores frios, de casaco
+d'alpaca, a sorrir... Antes de acabar sahiu do torpôr e, em dois acessos
+de delirio, descreveu o fim do mundo com terror e espanto. Depois rezou,
+disse versos seus, e ficou, n'um ultimo suspiro. Remexeram-lhe nos
+papeis e nos bolsos: só lhe encontraram recortes de jornaes, anuncios de
+desgraçados pedindo esmola.
+
+Mezes depois ainda os pobres o procuravam nos sitios do costume:--O
+senhor D. João? o senhor D. João?--Morreu.--Morreu! morreu!...--E
+partiam a chorar.
+
+Agora é que eu sinto todo o encanto d'esse homem falando baixinho, a
+olhar a gente por cima das lunetas. Andou mal vestido. Não soube o valor
+do dinheiro. Desceu aos desgraçados com uma ternura e uma simplicidade
+de fidalgo e de santo. Nos ultimos quatro annos ganhou alguns contos de
+reis: deu tudo, levaram-lhe tudo. Até de madrugada o procuravam para lhe
+pedirem dinheiro emprestado. E nunca o ouvi queixar-se, nem dizer mal de
+ninguem. Foi um poeta e um santo. Deixa, alem de algumas obras
+admiraveis, uma peça incompleta, com poucas scenas escriptas--_As
+comadres de Panoia_, e talvez se lhe encontrem tambem apontamentos de
+outra em que tanto falou e em que tanto sonhou--_O Sermão da Montanha_.
+
+
+ 18 de Março--1900.
+
+
+Faz hoje annos que morreu Antonio Nobre. Foi uma figura inconfundivel de
+poeta. Por mim nunca encontrei tambem rapaz mais lindo. Um pouco
+afectado talvez... Em pequeno ia com Eduardo Caminha enterrar os seus
+versos no jardim solitario do Palacio, e pedia, com os olhos limpidos e
+sofregos, uma Biblia para repousar a cabeça quando o levassem no
+caixão... Estou a ve-lo, com uma camisola de pescador, saltar pela
+janella da casa á beira rio, de Mattosinhos, onde Alberto d'Oliveira já
+imperava, esse mesmo Alberto d'Oliveira, esperto e tão dominador, que,
+quando entrava em casa dos outros, começava por os convencer a
+desarrumar os móveis, para os arrumar de novo a seu modo... Antonio
+Nobre usava uma abotoadura de cabeças de pregos e sorria com um modo e
+um ar de ternura e desdem. Fugiam d'elle antes de publicar o _Só_; os
+poetas do seu tempo odiaram-no depois de publicar o _Só_. Ser diferente
+dos outros é já uma desgraça; ser superior aos outros é uma desgraça
+muito maior. Viveu efectivamente isolado. No concurso para consul
+quizeram reprová-lo: foi preciso que Alberto d'Oliveira explicasse ao
+jury quem era o poeta Antonio Nobre. Não pôde formar-se em Coimbra, e
+até os seus amigos mais intimos lhe fugiram. Entrou na morte como tinha
+vivido--só. Até Alberto d'Oliveira teve de interromper uma amizade de
+irmão quando se encontrou diante d'este dilema: ou deixar-se dominar por
+elle, que o tratava como uma creança, ou feril-o em pleno coração:--A
+nossa amizade é de tal ordem que não admite que lhe desçam dois ou trez
+pontos á craveira. Ou mante-la ou quebra-la.--Quebrou-a. O ilustre
+escriptor possue d'esse tempo um caixão enorme, tão pesado como o que
+levou o poeta para a cova, com as cartas afectadas e vivas de Antonio
+Nobre, as cartas que tem obrigação de publicar, com um prefacio que só
+elle pode e deve escrever.
+
+Digamol-o, digamol-o... No fundo detestaram-no, detestaram-no todos. Não
+lhe poderam perdoar a impertinencia, o desdem, o genio. Era um sêr
+diferente. Não agradava a ninguem. Só as mulheres o amaram. Era um
+Poeta. Desconheceu a vida pratica. Tinha a consciencia do seu valor, e
+uma superioridade que se não podia aturar. Estavamos todos mortos por
+nos desfazermos d'esse ser aparte, d'esse eterno consul sem consulado,
+d'esse estudante de Coimbra que os lentes reprovavam e que nos fazia
+sombra. Mas debalde o arredamos: houve uma coisa nova que passou no
+mundo e que ficou no mundo--que nos ficou na alma...
+
+[Figura: _Antonio Nobre no caixão._]
+
+Agora estamos todos apaziguados, todos podemos esquecer a superioridade,
+a afectação e o desdem infantil de Antonio Nobre.
+
+Foi para a cova completar trinta e tres annos n'um dia de chuva como
+este, frio e sujo, o poeta insolente como um principe e adoravel como
+uma creança. Quantos estavam alli á beira do tumulo? Meia duzia escassa,
+o Frei, o Justino, o Eduardo de Souza, eu--e quem mais? quantos mais? Os
+jornaes deram a sua morte em duas rapidas linhas. Respirou-se.
+
+Hoje é um dos poetas portuguezes com mais admiradores. É um poeta de
+simpathia. Nunca teve sorte senão depois de morto. Porquê? Porque não
+misturou, como nós todos, o sonho com a vida pratica. Ao contrario,
+raros homens terão posto tão de acordo a vida com o sonho. Fez mais:
+suprimiu a vida. Correu o globo e só a si proprio se encontrou. Viu o
+mundo e nunca assistiu a outro drama que não fosse o da sua alma. E
+poentes, arvores, estrellas ou pedras, entraram-lhe no coração como
+espadas. Nenhum outro exprimiu d'uma forma tão sua o universo. Que
+universo dirás? O meu? o teu?... Não, o que elle descobriu, scismando
+como um navegador, á prôa do seu barco... Por isso nunca hão-de faltar
+sonhadores que evoquem essa singular figura de poeta, que uma vez
+atravessou a terra, soluçou, monologou como Hamlet, e sumiu-se logo no
+sepulchro.
+
+
+ 30 de Janeiro--1911.
+
+
+Janota e coçado, com uma flor na botoeira e a fumar um charuto de dez
+reis, ahi vae o poeta Gomes Leal. Quem não viu n'outro tempo este homem
+extraordinario, não conheceu um verdadeiro, um authentico poeta
+satanico. Passou nas ruas de chapéo alto, falando com intimidade ás
+estrellas e tocando no céo com as guias do bigode. Escreveu as paginas
+das _Claridades do Sul_, da _Traição_ e do _Anti-Christo_. Viveu
+alheado, como é indispensavel a quem convive todo o dia, tu cá, tu lá,
+com o sonho. Cantou a plebe, destruiu os deuses, arremessou sarcasmos
+aos banqueiros, satirisou o grotesco, e tocou-nos hombro com hombro,
+apontando altivo o cravo vermelho da lapela:
+
+--Amigos, as flores são as condecorações dos poetas!
+
+Prodigalisou-o a caricatura: teve na vida misterios perturbantes: um dia
+acometeram-no no comboio, em Espinho, quando regressava do Porto, até
+onde seguira a rainha Maria Pia, depois de lhe atirar uma rosa
+escarlate, que arrancou da botoeira, em plena praça, com um desdem
+supremo pela burguezia endinheirada... Sim, foi este que teve a gloria
+da cadeia, que cantou as estrellas, Jesus e Mephistopheles, foi este
+mesmo homem, a quem falta roupa na cama no inverno glacial, e que sorri
+com humildade para nós, avelhantado e timido... As janellas não teem
+vidros, a roupa é pouca, mas tu viveste o que não vive um rei, e o
+imperio deslumbrante, que creaste á custa de dôr, cheio de obscuridades
+e de genio, com catadupas d'oiro, como nas lendas, e palidas figuras;
+essa mescla de gritos, de paixão; esse sonho confuso e immenso,
+pertence-te, e não ha quem t'o roube, mesmo com as janellas abertas de
+par em par. Deixa entrar o frio--e sorri...
+
+
+Agora vae todas as manhãs ouvir missa á Pena ou ao Resgate. É um homem
+encolhido e friorento, que a banalidade tem gasto e desgasto como as
+moedas fóra de curso que se fartaram de correr de mão em mão, e ainda ha
+dias o encontrei no Porto, n'uma manhã de sol, de casaco de borracha e
+colarinho suspeito. Ia pregar á Associação Catholica, e atravessava a
+Praça entre os aplausos dos palidos sachristas, que o rodeavam como quem
+força um deus, sem repararem que só levavam um simulacro. No sonho de
+outrora não ha mãos que se atrevam a tocar... Elle sorria enlevado, com
+o eterno charuto ao canto da bocca.
+
+A vida feroz torna-nos grotescos. Consegue tudo. Deforma-nos. O proprio
+sonho entra ás vezes no dominio da chacota. Onde, porém, Garrett chega
+ao ridiculo, com tres cabelleiras postiças, Gomes Leal, de casaco de
+borracha e discursos de propaganda, atinge o tragico... Eu bem sinto a
+tristeza, bem sei, bem vejo o arranco, bem palpo a dôr. A figura que
+cheira a bafio como se sahisse do fundo do armario do passado para a
+plena luz, faz rir e faz chorar. No esforço para não ir ao fundo, no
+gesto de naufrago que se apéga com desespero, quando a dôr estala por
+todas as costuras, ha um rictus de clown. Olha lá: o peor é tu ousares
+tocar no que ha em mim de mais sagrado, o peor é tu transformares-me o
+sonho n'uma noticia do _Seculo_, o peor de tudo é tu atreveres-te a
+tocar n'este jardim da vida--e, peor ainda, é que eu continuo a sorrir
+como se possuisse o antigo thesouro de Ali-Baba. Mais um momento, outro
+passo e reduzes-me á condição de trapo. Deitas-te commigo, acordo
+comtigo ao meu lado, e ha occasiões em que até o som da minha voz me
+sobresalta. Por ora debato-me, por ora sinto o coração opresso, fingindo
+que não existes, mas ha já terror no meu sorriso, e, quando me ouço,
+ouço-te tambem os passos. Sei perfeitamente que o momento terrivel
+depende de um unico traço de separação--agora, já, d'aqui a bocado...
+
+Estás por traz de mim e o minuto grotesco será quando eu deixar de te
+conhecer e quando sentir a tua mão gelada... Estás por traz de mim!
+estás por traz de mim! Bem sei que estás por traz de mim, e que vaes ser
+a minha companhia até á cova. Confesso-te: o que me aterra não é o
+momento que passou, nem o que ha-de vir--é o momento, que vale um
+seculo, em que tenho de galgar o abysmo. Por ora teimo, por ora ainda
+digo:--A sciencia, meu rapaz, sabes o que é? É um cifrão cortado.--Mas
+como o digo!...
+
+...Ha um momento tetrico nos _Espectros_ em que um novo personagem se
+introduz em scena. Desde o principio que o sabemos atraz da frandulagem
+de papelão: está alli presente, não como uma figura de theatro, mas
+monstruoso, real e patente, como o Destino, á espera de intervir. Desde
+então perco o fio da peça, não sigo mais os bonecos que se agitam no
+tablado, só ouço o meu proprio monologo, e quedo-me d'olhos atonitos
+n'outro espectaculo atroz. Tenho a certeza absoluta de que não ha forças
+humanas que lhe detenham a marcha. Começa então a tragedia...
+
+É este mesmo personagem que se intromete na vida do poeta. As palavras
+conteem ainda e sempre as mesmas letras, mas até as palavras mirraram.
+Esqueci tudo, troquei tudo pelo sonho, e, quando tu quizeres, de mim
+proprio ficarei desconhecido! Como eu comprehendo agora aquella phrase
+de outro poeta: «Sinto que não posso trabalhar! sinto que não posso
+trabalhar!» É com esta angustia que te ouço os passos mais perto. Já não
+é só a scena que tu enches, é a sala toda, figura invisivel, unico
+personagem do drama, que te entranhas na alma dos espectadores. Emquanto
+os bonecos teimam em pronunciar palavras que não ouço, que não teem
+significação nem importam, tu levas-me, quer eu queira, quer não queira,
+a sorrir com enlevo á propria banalidade.
+
+ * * * * *
+
+A casa em que mora Gomes Leal, na esquina do palacio da Bemposta, parece
+arrancada a um velho quadro de Velasquez, com a sua entrada de pedra e
+um arco na escada. O soalho entreaberto oscila, as janellas não teem
+vidros. Conheço-a. Já lá morei ha annos no mesmo quarto que dá para um
+quintalorio, com duas ou trez oliveiras carcomidas. Do buraco, onde
+nunca chega o sol, sae um frio de morte. Bato, a porta abre-se, o soalho
+range, e o poeta surge com o velho chapeu ás trez pancadas, luvas
+pretas--até de luvas escreve Gomes Leal!--e no quarto desagasalhado ha
+luvas por toda a parte, por cima das mezas, entre os livros, penduradas
+no tecto. O leito é um catre. Ao lado um Christo, uma mezinha de pé de
+gallo, e no soalho apodrecido, montões de jornaes e de livros. Na
+parede, que ressuma humidade, um quadro a crayon, com o vidro partido: o
+retrato da mãe de Gomes Leal.
+
+--Vivo só, não tenho familia. Minha mãe morreu-me e aqui estou como um
+orphão.
+
+--Vive isolado sempre?
+
+--Levanto-me cedo, vou aos templos. Depois passo pelas bibliothecas e
+pelos livreiros e venho para casa escrever. Almoço e janto onde calha.
+Quando tenho bebo para esquecer, á noite escrevo, deito-me cedo e
+durmo... Tenho trez livros para publicar: _As memorias d'um revoltado_,
+continuação da historia da minha vida, _O macaco de Nero_, estudo de
+Roma, e o livro em prosa _Cidade do Diabo_, onde trato da decadencia do
+mundo moderno. Comecei tambem _Christo nos infernos_, poema em verso.
+Conservo as minhas ideias religiosas, que não são incompativeis com a
+republica, e ficarei contente por ver realisado o sonho de toda a minha
+vida, que acalentei como um poeta, e que desejo que se não dissolva como
+uma bola de sabão na cabeça d'um prego...
+
+E queda-se n'um silencio amargo. A chuva cae lá fóra. A noite e um frio,
+uma humidade de poço, trespassam-me...
+
+
+No seu genio houve sempre sincopes, falhas, absurdos. Se tropeçou,
+ergueu-se sempre mais alto. Aos trinta annos reage-se. Mas chega um
+momento da vida em que a gente se sente transida pelo ar do sepulchro e
+uma sombra desmedida avoluma-se e sufoca-nos. Foi d'esse negrume, que se
+chama a Morte, que elle ouviu sahir uma voz cheia de ternura--a ternura
+que toda a vida o envolveu--e que começou a falar-lhe baixinho. N'esse
+momento Gomes Leal deixou de viver no mundo da realidade para cohabitar
+com um phantasma...
+
+
+ Setembro--1907.
+
+
+Antonio Corrêa d'Oliveira, ossos, nervos e a pelle necessaria para os
+cobrir--com um chapeu alto e lustroso em cima--grande poeta, com raizes
+profundas na natureza, tem na Beira uma tia que passa a vida em dialogos
+estranhos com as arvores e as pedras. E mal chega á noite eil-a começa a
+cumprir o seu fadario: leva até á madrugada a dar de beber
+indistinctamente ás plantas do seu quintal e ás dos quintaes vizinhos,
+n'uma aflicção, n'uma piedade que se estende até ás hervas ignoradas e
+ruins. Monologando sempre, vae e vem,--que não fique alguma com
+sede--com o regador nas mãos, até que a manhã a encontra exhausta,
+feliz, encharcada até aos ossos e ainda embebida n'aquelle sonho
+phrenetico de ternura... Toda a emoção do poeta está aqui, do grande
+poeta que diz:--Sinto em mim uma força da natureza... hei-de
+aproveital-a.--Os avós deram cabo da casa. O pae ninguem o arrancava ás
+suas arvores, e um tio, personagem de Camillo, morreu cosido de facadas.
+A mocidade do poeta foi tambem dolorosa. Chamavam-lhe magico. Para não
+pezar á mãe escreveu á raza n'um tabelião e foi proposto de recebedor em
+Cezimbra, elle que nunca soube sommar. Iam as mulheres dos pescadores
+pedir-lhe perdão das decimas; e nunca na memoria de homem se viu
+recebedor em semelhantes apuros, perplexo diante dos papeis, dos pobres,
+da desgraça, das contas e da sua propria alma! Um dia gostou d'uma
+mulher e escreveu os primeiros versos, _Ladainhas_,--Eu não sabia o que
+eram versos, nem medir versos. Sahiu-me aquillo... Troçaram-me tanto que
+estive para endoidecer. Sabe o que me valeu? Um artiguinho do Trindade
+Coelho no _Reporter_. Essas palavras salvaram-me!
+
+[Figura: _Corrêa d'Oliveira em 1903._]
+
+
+ Janeiro--1911.
+
+
+Passei a noute de hontem em casa do Fernandes Thomaz, um velho
+bibliophilo, coleccionador de autographos, de livros raros, de gravuras
+antigas. Bom como o pão arruinou-se em papeis velhos... Eis emfim um
+homem feliz, suponho eu, entre as estantes que revestem os muros, como a
+traça entre as folhas d'um pergaminho. Ingenuo, surdo, com sessenta e
+tres annos e coleccionador apaixonado de papeis velhos ainda por
+cima--que sorte!...--De repente pega-me nas mãos e desata a chorar:
+
+--Tenho sido um martir!
+
+Á roda muitos documentos, muitos alfarrabios, muitos calhamaços
+preciosos. São duas, tres salas catalogadas, onde tem livros e papeis
+por toda a parte. A sua vida devia correr esquecida e placida, sem
+sobresaltos nem duvidas, folheando, rabiscando, anotando, sonhando
+sempre em coisas faceis.
+
+--Não imagina o que tenho sofrido! Sempre gostei muito de creanças...
+Trouxe para casa uma sobrinha, morreu-me de raiva nos braços. Minha mãe
+um dia teimou:--Has-de casar.--Fiz-lhe a vontade. Casei. Minha mulher,
+ao fim de dois annos, abalou levando-me quasi tudo o que eu tinha.
+Demandas, processos--fiquei pobre. Agora meu filho quer ir por força
+para a Africa.
+
+E põe-se a chorar como uma creança, com a cabeça branca pousada sobre os
+livros, os papeis, as gravuras...--deante d'aquella documentação cerrada
+e inutil, que tem sido a razão da sua vida.
+
+
+ 1 de Fevereiro.
+
+
+Venho de casa do Fernandes Thomaz. Teve um ataque apopletico. Está
+hemiplegico, deitado n'um sofá, somnolento e tremulo. Nunca encontrei
+bibliophilo que tivesse prazer em indicar, em ensinar, senão este... É
+outro homem adoravel que morre, mas felizmente não sabe que morre. Á
+beira do tumulo ainda me pede que lhe arranje um catalogo da guerra
+peninsular. E diz-me de Theophilo: (estes homens dos papeis velhos nunca
+se puderam vêr...):
+
+--Pode crer que nunca passou necessidades como elle diz. Conheço-o de
+Coimbra, morava em casa do conde de Valença. Todos os mezes o pae lhe
+mandava pelo correio duas libras em oiro n'uma caixinha de madeira. Ora
+n'esse tempo valiam tanto como hoje quatro...
+
+
+
+
+PÓ DA ESTRADA
+
+
+ Março--1902.
+
+
+Este homem immenso e louro, o Alpoim, não tem um minuto de seu: não
+descansa, não pode. Escreve cincoenta cartas por dia, faz a chronica do
+_Janeiro_, corre ao parlamento, intriga nos corredores, enche uma pagina
+do jornal, recebe toda a gente, encanta e domina toda a gente n'um riso
+aberto:--Meu querido amigo...--e, mal se fecha por dentro, arranca os
+ultimos pêlos do bigode e cae exhausto, exclamando n'um pranto:--Ai que
+filhos da p...! ai que filhos da p...! Eu não posso! eu morro!--Nem para
+ser rei de Portugal valia a pena semelhante esforço.
+
+No fundo é um politico com este fito: o poder. Mas alguma coisa o
+distingue dos outros que conheço, do espesso Ferreira d'Almeida, por
+exemplo, que exclama diante de mim sem pudor:--Hei-de ser ministro
+porque quero mandar! gosto de mandar!--É um fidalgo com talento, e tanto
+serve um amigo como um desgraçado de quem nada tem a esperar. O esforço
+é identico.--Vou ao inferno por um amigo...--Ha ainda quem se lembre dum
+Alpoim de chapeu desabado e capa á espanhola, mas o amor fel-o janota...
+
+Na sua vida, como em todas estas existencias de aparencia e lucta, ha um
+trabalho de sapa, que quasi totalmente desconheço. Sabe tudo, pode tudo
+com os seus e com os outros. O Hintze tem por elle um fraco, o José
+Luciano entrega-lhe nas mãos a meada politica:--Nada se faz sem mim. Sei
+tudo!--diz muitas vezes com o olho esperto a luzir. O Teixeira de Souza
+é o seu amigo mais intimo. Uns temem-no, respeitam-no os outros. Este
+que lhe sorri atraiçoa-o--e elle fala-lhe amavelmente:--Não me podem vêr
+porque lhes faço sombra. Eu sei... Mas ninguem exija dos homens mais do
+que elles podem dar.--Conspira. Tem nas mãos os mil fios da emaranhada
+teia politica. Vae mais alto ou mais fundo?... Não sei, mas é talvez a
+isso que elle se refere quando afirma:--Ninguem sabe a que portas vou
+bater!
+
+Hoje conta o movimento de protesto quando dos comicios contra o governo
+regenerador. Reuniam-se já ha tempos alguns pés de boi em casa de José
+Luciano, que um dia sae-se com esta:
+
+--Bem, meus senhores, precisamos de acabar com isto senão cahimos no
+ridiculo. A tomar chá não fazemos nada. Que é que os senhores resolvem?
+
+--A revolução! queremos a revolução!--concluiram todos.
+
+--Eu disponho de seis mil homens.
+
+--Vamos para a rua!
+
+--Estamos dispostos a tudo, mas temos um pedido a fazer a V. Ex.^a: é
+que se responsabilize a que a guarda municipal não atire sobre nós...
+
+O José Luciano, a puxar pelo bigode, sem sahir da sua pachorra ironica:
+
+--Oh senhores, mas se eu dispozesse da municipal não precisava dos meus
+amigos para nada!
+
+--O José Luciano o que tem tido toda a vida é sorte,--observa alguem do
+lado.
+
+--Garanto-lhes pela saude dos meus filhos, atalha logo o Alpoim--que é
+um homem inteligentissimo. E senão vejam como elle conseguiu arredar e
+vencer todos os do seu tempo. Ninguem luctou mais do que eu para a
+eleição do Mariano a chefe do partido progressista, ninguem!... E que
+succedeu?... O José Luciano tinha em segredo conseguido pôr o paço de
+seu lado. Na vespera da eleição o Mariano disse-me:--Está tudo perdido,
+votem no José Luciano...--Se não o elegessemos, o rei nunca mais chamava
+o partido progressista.
+
+Sob aquelle aspecto de inalteravel bonhomia, é um homem d'uma alta
+inteligencia pratica. Muitos ao seu lado caminharam para o mesmo
+destino, e elle, não sendo nem um grande jornalista nem um grande
+orador, sem brilho mas solido--e com caracter! com tenacidade e
+caracter!--pouco a pouco ficou sosinho em campo: arredou-os todos.
+
+
+Fui do seu meio e do seu tempo. O Fuschini chamava-lhe com desdem:--Essa
+vil alforreca...--Diz-se que no salão dos Navegantes se dava tudo o que
+se podia dar--e que não lhe pertencia: logares, negocios e empregos.
+Talvez. Mas se não teve a grandeza de resistir aos homens, conteve os
+interesses fataes dentro de certos limites. Não podendo ser nem um santo
+nem um genio, manteve essa linha de superioridade, chegando, mais tarde,
+a ser uma figura. Sentado na cadeira de rodas, o velho obstinado, n'uma
+sociedade a liquifazer-se, resistiu até á ultima, e adquiriu relevo e
+grandeza como se os alicerces fossem de pedra. Foi dono do paiz, dictou
+a lei, e, arredado e sempre lucido, leu no futuro pronunciando algumas
+phrases que a historia terá de registar...
+
+
+ Junho--1902.
+
+
+Contava o marquez de Ficalho, pae deste Ficalho, e que era vivo ainda ha
+quinze annos, o seguinte caso, que mostra bem o medo que D. João VI
+tinha a Carlota Joaquina. Um dia o D. João VI, ia de sege para Cintra,
+Queluz, ou não sei para onde. Ao lado galopava o Ficalho, com dezasseis
+annos, cavalariço do rei. De repente, ao longe, avista-se na estrada uma
+nuvem de pó, e o rei, deitando a cabeça de fóra da sege, brada:
+
+--Parem! para traz que ahi vem a p...!
+
+A p...--era a mulher. As palavras são textuaes.
+
+[Figura: _Fernandes Thomaz._]
+
+
+ Março--1903.
+
+
+Diz o Abel d'Andrade:
+
+Dos oito mil contos de deficit, quatro mil é a casa real que os gasta.
+Que ministerio tem força para se impôr ao rei? Ambos os chefes estão com
+medo ao João Franco...
+
+ * * * * *
+
+Arroyo queria atacar o rei nas camaras. Houve mosquitos por cordas para
+o dissuadirem...
+
+ * * * * *
+
+Sabem quanto faz o Arroyo por anno? Dez contos.
+
+ * * * * *
+
+O rei foi aqui ha tempos para Setubal, e, depois de jantar, bateu o fado
+com um malandrão. O Duval Telles, no outro dia, ao jantar, aludiu ao de
+leve ao caso, achando-o improprio. Á noite encontrou na mezinha de
+cabeceira uma carta do rei com estas palavras: _Dispenso-te do meu
+serviço_. Seis meses não fez serviço; agora, antes da rainha partir,
+pediu-lhe apoquentadissimo a sua intervenção. Outra carta do rei com
+estas palavras: _Entra outra vez de serviço, mas nunca mais me dês
+conselhos sem t'os pedir_.
+
+
+ Março--1903.
+
+
+Alpoim:
+
+--Antes de seis meses temos ahi graves acontecimentos...
+
+--?
+
+--Um governo fóra dos partidos, uma dictadura feroz.
+
+E a proposito dos acontecimentos de Coimbra:
+
+--Em Coimbra existem sociedades secretas. O governo sabe. Quando foi da
+espera do Carrilho, tinham tudo combinado. Dois grupos fariam
+descarrilar o comboio, apoderando-se dos papeis que o Carrilho trazia e
+matando-o. Entravam lentes e estudantes...
+
+ * * * * *
+
+O Alpoim:
+
+--O Mousinho d'Albuquerque antes de morrer disse-me:--O unico homem com
+quem eu poderia ser ministro era com o José Luciano.--Dantes dizia muito
+mal d'elle. D'uma vez estava no Paço, no vão d'uma janella, a dizer
+cobras e lagartos de José Luciano; o rei, um pouco afastado, ouviu-o:
+
+--Ó Mousinho cala-te.
+
+--Se incomodo V. Majestade saio d'aqui.
+
+--Não, podes estar, mas acaba lá com a conversa.
+
+ * * * * *
+
+--E porque é que o rei não gostava do Mousinho?
+
+--Se lhe parece! Vêr sempre o Mousinho a seu lado, carrancudo, sem
+palavra, mas severo como um censor... Irritou-se. Quem lhe valeu mais
+d'uma vez foi a rainha.
+
+
+ Abril--1903.
+
+
+O Adrião de Seixas, secretario do Banco de Portugal:
+
+--Já por diferentes ocasiões o Estado tem corrido o risco de ir a pique.
+Houve mezes em que quasi faltou o dinheiro para pagar á tropa, e mais
+que uma vez o Banco de Portugal se viu em transes para arranjar
+trezentos contos de reis.
+
+ * * * * *
+
+Um architecto do Paço conta que a rainha D. Maria Pia fuma
+constantemente charuto como um homem, e atira as pontas para onde calha,
+sobre os sofás e os tapetes. Atraz d'ella anda sempre um creado de
+farda, com medo que pegue o fogo, a apanhar as pontas. Anno passado,
+antes de ir para o extrangeiro, mandou fazer umas obras no Paço.
+
+--E não volto sem estar tudo prompto.
+
+Quando voltou nem foi vel-as, mas, dias antes de ir outra vez para fóra,
+lembrou-se das obras--e mandou deitar tudo abaixo.
+
+--Não volto sem estarem concluidas.
+
+As provas dos vestidos são um martirio para as pobres costureiras, que
+mantém de joelhos duas horas seguidas, pregando-lhe alfinetes. Quando as
+vê cahir exhaustas, arranca tudo, despedaça tudo...
+
+ * * * * *
+
+O Alpoim conta:
+
+O rei é muitissimo bem educado, mas não gosta nada que ponham a rainha
+em primeiro logar. Não se importa com o paiz e julga-se um grande rei
+constitucional. Os ministros para elle não existem: só ouve e atende o
+presidente do conselho. É tão governamental que trata delicadamente os
+politicos quando estam na oposição, mas não conversa com elles. Não é
+como o D. Luiz, que ás vezes fazia-se com os ministros contra o
+presidente do conselho. Chegava a conspirar contra o José Luciano,
+partidario da aliança ingleza, com o Barros Gomes, que era pela
+Alemanha. Ás vezes andava uma hora de braço dado com o Mariano e Emydio
+Navarro, sem fazer caso do presidente do conselho. E depois d'elles
+sahirem, perguntava-lhe:
+
+--Olha lá, quando é que tu pões fóra estes gatunos?
+
+O D. Carlos não é assim: para elle os ministros não existem. Trata-os
+sempre por tu, menos quando é da assignatura. Não conserva odios. E fica
+contentissimo se os ministros descompõem a oposição. Quando foi da
+exhoneração do Mousinho pelo Dias Costa, este quiz demitir-se e
+queixou-se ao José Luciano:
+
+--No Paço todos me fazem má cara.
+
+O José Luciano disse-o ao rei, que protestou:
+
+--Não, por mim não é verdade. Quanto á rainha que a trate com todas as
+atenções, mas que não faça caso.
+
+E para reforço traz o caso Oliveira Martins: O José Dias Ferreira nunca
+chegava a presidente de conselho se o Martins tem cathegoria. Imaginou
+que manejava facilmente o velho rabula--e escolheu-o para taboleta.
+Enganou-se... O Valbom ainda tentou organisar ministerio, mas o Martins,
+sem manha politica, teimou no José Dias. Pois ao fim de dois mezes era
+elle quem mandava e que o queria alijar... No Paço, nem este rei nem o
+D. Luiz, gostavam do José Dias; apezar d'isso, quando o Martins,
+aborrecido, se fingiu doente, e o José Dias se queixou, o D. Carlos
+disse ao Arnoso:
+
+--Olha lá, diz ao Joaquim Pedro--era assim que elle o tratava--que se
+levante ou que se demita. Isto não é vida.
+
+ * * * * *
+
+Diz-se para ahi que o D. Carlos tem o habito de mentir, e que pensa em
+restaurar a monarchia no Brazil.
+
+
+ Maio--1903.
+
+
+Os jornaes d'hontem contam que a Rainha D. Amelia não quiz receber o
+presidente Loubet, por escrupulos de consciencia. Como é muito religiosa
+respondeu, quando lhe foram anunciar a visita:
+
+--Viajo incognita.
+
+--Peor fez ella na Italia. Estava em Napoles, e o rei mandou-a convidar
+para ir a Roma. Acceitou, e no dia seguinte safou-se para Livorno. O
+governo italiano deu immediatamente ordem aos navios que estavam em
+Livorno--para sahirem uma hora antes da entrada do _yacht_...
+
+ * * * * *
+
+Silva Pinto contado por D. Maria Augusta:
+
+O Silva Pinto escrevia de quando em quando cartas á condessa d'Edla,
+pedindo-lhe dinheiro. A condessa architectou um romance: nunca o vira e
+imaginou um poeta pobre, n'umas aguas-furtadas, morrendo por ella. E
+mandava-lhe ás vinte e trinta libras. Um dia viu-lhe o retrato no
+atelier de Columbano...
+
+--Então este velho é que é?!...
+
+E não lhe deu mais vintem.
+
+
+ Maio--1903.
+
+
+Hoje 11 o Arroyo discutiu nos pares a viagem da rainha. Acusou-a de não
+ter querido receber Loubet. O Wenceslau de Lima levantou-se e negou.
+
+Comentario do Alpoim:
+
+--Que havia elle de responder? Mentiu como um cão!
+
+De resto o discurso foi cheio de alusões. Chegou a isto: a lançar
+suspeitas sobre as relações do Soveral com a rainha. «Que está fazendo o
+snr. Soveral em Paris? Façam-no recolher imediatamente a Londres[3]!»
+
+--Triste simptoma--afirma o D. João de Alarcão--n'um paiz monarchico
+ninguem se levantou para defender o rei. Alguns como o Ayres de Gouveia
+foram cumprimentar o Arroyo; outros, como o José Luciano, sahiram dos
+seus logares e chegaram-se mais para perto, para não perderem pitada.
+
+ * * * * *
+
+--O que nós fazemos não é discursos, é historia--diz o Arroyo.
+
+ * * * * *
+
+Diz-se:
+
+O rei chama nomes ao Arroyo, o Arroyo chama-lhe corno...
+
+ * * * * *
+
+O Alpoim:
+
+O Arroyo chama corno ao rei, o rei chama aos outros ladrões. Eu sempre
+queria que me dissessem o que elle é...
+
+ * * * * *
+
+A quinta da Bacalhôa--continua o Alpoim--foi comprada pela casa de
+Bragança. Quem faz as obras é a Casa Real, isto é o Estado.
+
+
+ Maio--1903.
+
+
+O rei--diz hoje D. João d'Alarcão em conversa com o Alpoim--não se
+importa nada com isto. Tomára elle ser kkediva d'este cantinho,
+defendido pelas baionetas inglezas.
+
+ * * * * *
+
+O rei tem uma lista celebre a que chama _a lista dos ladrões_.
+
+ * * * * *
+
+O Arroyo volta á discussão e, a proposito, conta-se de novo a historia
+dos tapetes:
+
+«--Havia em Mafra um grande tapete persa, o mesmo que está hoje em
+Vila-Viçosa, por signal muito mal tratado. Ninguem fazia caso d'elle,
+até que um dia disse ao almoxarife que o guardasse. Mas fiquei sempre
+com a impressão de que era magnifico. Duma vez que D. Carlos apareceu
+extasiado por ter comprado qualquer tapete insignificante, lembrei-lhe:
+
+--V. Magestade tem em Mafra um muito melhor do que esse...
+
+--Ora adeus!
+
+Teimo, chama-se o almoxarife, reclama-se o almoxarife e o tapete, e o
+homem instado apresenta, em logar do tapete, dois papelinhos... A saber:
+a ordem de Pedro Victor para entregar o tapete e o respectivo recibo.
+Não vi o telegrama do rei, mas vi a resposta do administrador da casa
+real: «Vossa Magestade manda, obedeço».
+
+Dahi a dias aparecia o tapete. O Arroyo tinha-o lobrigado em Mafra e
+comprado por 75$000 ao Pedro Victor. Entregou-o, e está hoje n'uma
+parede do palacio de Vila-Viçosa».
+
+ * * * * *
+
+Conversa entre o Soveral e o Alarcão:
+
+--Ninguem diga d'este Soveral não beberei. Ainda has-de ser presidente
+do conselho.
+
+--Para quê? Então tu imaginas que deixo a minha situação lá fóra por
+isto? Que mais quero eu? Sou par, sou do conselho d'estado marquez...
+
+E o Alarcão conclue:
+
+--Acredito que elle não queira. Só se fôr para arranjar algum negocio,
+que elle anda muito precisado de dinheiro...
+
+
+ Maio--1903.
+
+
+É certo que o rei falou ao José Luciano na dissolução da camara dos
+pares, substituindo-a por outra em bases diferentes. A noticia foi para
+os jornaes para assustar o Arroyo--que quer fazer outro discurso
+sensacional contra o rei.
+
+ * * * * *
+
+O José Luciano procurou o Arroyo em casa:--Venho pedir-lhe que não faça
+o discurso contra o rei. É um homem na minha edade, perto da cova, que
+lhe pede isto em nome d'interesses superiores.--Sim senhor... se V.
+Ex.^a me assevera que por traz d'isto não está o sr. Hintze Ribeiro...
+
+E chorou.
+
+ * * * * *
+
+--O rei--diz o Alpoim--está contentissimo. O discurso era tremendo. O
+Arroyo afirmava que o rei pedia dinheiro aos ministros. D'uma vez pediu
+mil e seiscentos contos. Elle proprio, quando ministro, lhe deu muitas
+vezes dinheiro.--Aqui estam as provas!--E apresentava-as.--O primeiro a
+ser castigado devo ser eu, porque delinqui.
+
+
+ Junho--1903.
+
+
+Os jornaes trazem a noticia de que o rei partiu para o mar no _yacht_ D.
+Amelia e de que o duque d'Orleans chega na segunda-feira a Lisboa.
+
+O rei safou-se de proposito para o mar, para o não receber. Do Paço
+mandaram ordem para se antecipar a festa ao Barbosa du Bocage, na
+Sociedade de Geographia. Tudo porque o rei supoz que os acontecimentos
+de Paris com a rainha se relacionavam com imposições da familia Orleans.
+
+...Afinal o rei sempre veio do mar e recebeu o duque.--Mas houve o
+diabo!...--diz o Alpoim.
+
+ * * * * *
+
+--O Navarro defende-o, senhor Alpoim...
+
+--O Navarro diz hoje bem de mim, como amanhã diz mal--por doze vintens.
+
+
+ Junho--1903.
+
+
+O _Diario de Noticias_ publica hoje esta curiosissima informação:
+
+
+ As recepções em casa do sr. conselheiro João Arroyo, constituem
+ sempre um acontecimento na nossa sociedade elegante. O talento
+ multiforme do illustre parlamentar, que é um artista de raça,
+ converteu o antigo palacete da rua do Telhal em uma das residencias
+ mais notaveis de Lisboa, tanto sob o ponto de vista da decoração
+ dos salões, como pelas preciosidades do mobiliario e valiosas
+ collecções de arte ornamental que elles encerram.
+
+ Não se encontra ali um "bibelot" que não seja um objecto de arte ou
+ não faça parte de uma collecção, paciente e sabiamente reunida e
+ disposta com perfeito gosto e conhecimento. De todos aquelles raros
+ objectos que se agrupam pelos tampos dos buffetes, das commodas e
+ dos contadores seculares ou nas prateleiras dos armarios e
+ «vitrines», resalta sempre uma vibrante nota de arte, que define o
+ criterio do colleccionador e marca fundamente o seu temperamento
+ esthetico. A sala dos xarões e dos cobres e bronzes esmaltados e
+ «cloisonnés» é por certo a mais bella que existe no nosso paiz, e
+ só por si basta para aferir o elevado grau que occupa o
+ colleccionador no nosso meio artistico. Ha, porem, muito mais, tão
+ bom ou melhor que admirar nas salas do sr. João Arroyo, as quaes
+ dão aos «gourmets do bric-a-brac» a impressão de verdadeiros
+ escrinios de arte. Nestes casos estão a graciosa collecção de
+ figuras e mascaras chinezas, a preciosa exposição de leques, cujos
+ pannos ostentam as mais lindas illuminuras dos pintores francezes
+ do seculo XVIII ou são apenas formados de finissimas rendas a
+ ponto, de Allençon ou de Bruxellas; os limpidos cristaes da Bohemia
+ e os finissimos vidros de Veneza; as raras faianças da China, e de
+ Saxe; as soberbas «boiseries» da casa de jantar, bello trabalho
+ decorativo no estylo Renascença, do architecto Bigaglia, com o seu
+ fogão monumental, o seu grande lustre de ferro forjado e as
+ prateleiras dos «lambris» repletas de exquisitas pratas, faianças e
+ cristaes.
+
+ Por toda a parte, emfim, desde o vestibulo e da galeria da escada
+ até ás salas do jogo, quadros a oleo das escolas italiana,
+ flamenga, hollandeza e franceza, tapeçarias de Gobelins e do
+ Oriente, colchas da India e da Persia, tudo quanto o persistente e
+ criterioso esforço de um artista e o bom gosto de um homem elegante
+ poude colleccionar, tudo chama a nossa attenção, que só encontra
+ ali maior attractivo no bondosissimo tracto da illustre dona de
+ casa, a sr.^a D. Maria Thereza Pinto de Magalhães (Arriaga) e na
+ conversa scintillante de seu marido, um dos mais espirituosos e
+ interessantes cavaqueadores da nossa sociedade, e que tem tido
+ naquella senhora uma valiosa collaboração artistica, assignalada em
+ mais de uma das preciosidades que se contem na sua bella
+ residencia.
+
+ Por tudo isto, o «raout» de hontem esteve concorridissimo e
+ encantou todos os convidados dos illustres amphitriões, entre os
+ quaes estavam:
+
+ Conselheiro Hintze Ribeiro e esposa, ministros da justiça, obras
+ publicas, guerra, fazenda, marinha e esposas, nuncio de S. S. e
+ secretarios, Rouvier, ministro da França e esposa, ministro de
+ Hespanha e esposa, conde e condessa de Azevedo, Miguel da Motta e
+ esposa, monsieur e madame Bruno, marquez da Foz e filha D.
+ Marianna, duqueza d'Avila, condes d'Avila, marquezes de Guell,
+ marqueza de Bellas, conselheiro Schroeter e esposa, Costa Pinto e
+ esposa, conselheiro José Vianna, Pedro Diniz e filha, Carlos
+ Ribeiro Ferreira e esposa, viscondessa de View e filhas, José
+ Sassetti e esposa, viscondes de Santo Thyrso, conselheiro Germano
+ Sequeira e esposa, condes de Paçô Vieira, almirante conde de Paço
+ d'Arcos, Sarrea Prado, conselheiro Achilles Machado e esposa,
+ conselheiro José de Azevedo e esposa, conselheiros José e Antonio
+ Arroyo, conselheiro Matheus dos Santos e esposa e filha, condes de
+ Sabroso, conselheiro José Ribeiro da Cunha e esposa, José E. de
+ Barros e esposa, Joaquim Lima, Alberto Braga, João de Freitas Rego,
+ F. Baerlein e esposa, Albino Freire d'Andrade, viscondes de
+ Mangualde, conselheiro Ferreira Lobo Francisco d'Aguiar,
+ conselheiro Souza Monteiro, Barbosa Colen, conselheiro Deslandes e
+ esposa, Terra Viana, esposa e cunhado, Carlos Blanch e esposa, D.
+ Elisa Pinto de Magalhães e D. Luiza Pinto de Magalhães, Alberto
+ Monteiro, conde de Mesquitella, Dr. Furtado e esposa, Virgilio
+ Teixeira, marquezes de Funchal, monsenhor Santos Viegas,
+ conselheiro Moraes de Carvalho, Henrique Burnay, conselheiro
+ Francisco Mattoso, Henrique Anjos e esposa, Carlos Soares Cardoso e
+ esposa, conde de Verride, D. Juan de Castro e filha, Condes de
+ Tattenbach, Alvaro Rego, conselheiro Poças Falcão e esposa, José
+ Fernando de Sousa, barão de S. Pedro, conselheiro Thomaz Rosa,
+ condessa d'Almedina e filha D. Luiza, Antonio Caria e esposa, M.
+ Emygdio da Silva, etc., etc.
+
+
+ * * * * *
+
+O que faltou a esta sociedade foi um Balzac, que os trouxesse desde a
+obscuridade e da pobreza, que nos contasse o esforço, as transigencias,
+o talento gasto e o fel gasto, até chegarem ao poder--Navarro, filho
+d'um mestre de musica de Bragança, Mariano pobre, Arroyo pobre. Alguem
+que nos desse a vida occulta, a audacia e o descalabro, a chaga politica
+que os engrandece e corroe, que corroeu o proprio Chagas, o romantico da
+_Morgadinha_, até ao ponto de acabar por estas palavras amargas, com o
+ultimo suspiro:--A vida é uma comedia!--Alguem que nos mostrasse Arroyo
+e os seus phantasmas, Mariano e os seus phantasmas, Navarro e os seus
+phantasmas.
+
+Como a vida efectivamente transtorna, enxovalha e envilece--se lhe falta
+ideal, paixão, ou um forte sentimento que caldeie as figuras e as eleve!
+Não, a vida não é uma comedia. A vida é profunda. Elles é que lidaram
+apenas com inferioridades e interesses mesquinhos. Mariano acabou quasi
+desprezado. O talento não lhe serviu de nada. Talvez o prejudicasse...
+Ha um momento tragico na sua vida, aquelle em que João Chrisostomo
+d'Abreu e Souza lê em plena camara a declaração, em seu nome e no dos
+seus colegas, de que lhes haviam sido desconhecidos os actos irregulares
+praticados pelo ministro da fazenda Mariano de Carvalho. Vejo-o mudo,
+livido--com um olhar atono, como nunca vi em mais ninguem. O sceptico! o
+sceptico amarfanhado, reduzido a trapo, com um golphão de desprezo, por
+si e pelos outros, na bocca, com um golphão de negrume!... Jamais me
+esquece esta figura, que vi morta entre os vivos, sentado n'um canto da
+camara, sem ninguem fazer caso d'elle, vendo sem vêr, ouvindo sem ouvir,
+e não tendo podido realisar nenhuma das suas ambições:--Deixem-me!
+deixem-me!--Deixem-no com os seus phantasmas! Arroyo talvez encontrasse
+na musica um refugio... Navarro, porém, acabou no mesmo abatimento.
+Temiam-no--mas só o temiam. Arredaram-no. No fim da vida ficava horas e
+horas absorto ou ia para o fundo d'um camarote do Gimnasio ouvir musica.
+Apegara-se--mau simptoma--aos netos. Desconfio que o celebre estadulho
+não passava d'um espantalho, e que era grande a sua
+sensibilidade:--Sinto-me ferido em pleno coração--Do coração morreu, sem
+nunca o deixarem realisar as suas ambições.
+
+[Figura: _Guerra Junqueiro._]
+
+Metidos n'aquella roda de navalhas foram até ao fim do combate, luctando
+sempre. Os que tinham de escrever, escrevendo sempre, espremendo o
+cerebro, os que tinham de intrigar, intrigando sempre, com a mascara
+livida e sorrindo sempre, ferindo sempre, e cahindo de pé. Oh quem me
+dera um momento, só um momento para vêr a série de phantasmas em que se
+desdobrou cada um destes sêres, para os lêr até ao amago, para lhes
+descobrir o instante de cansaço e o ponto vulneravel--rodeados de
+invejas, de odios, de inimigos, que esperavam na sombra e não perdoavam
+um desfalecimento--uns fingindo-se cinicos, sorrindo aos insultos, e
+cravando as unhas na carne até ao sangue, como Rodrigo da Fonseca
+Magalhães, outros respondendo á audacia com audacia, outros sucumbindo
+ao nojo, com estas palavras que já surprehendi a alguem n'um momento
+supremo:--Não, não valia a pena!
+
+ * * * * *
+
+O mundo politico é tão curioso! O que está á vista não tem importancia,
+o que se mostra não passa de scenario. Para viver aqui dentro é preciso
+habituar a pelle a todas as alfinetadas e afivelar na cara uma mascara
+perpetua. Este homem elogia outro e combate-o a occultas. O que se diz
+nas camaras precisa de ser explicado nos corredores, para ser
+comprehendido. O Cypriano Jardim atacou ha dias o governo. Porquê?
+Estava nas colonias a ganhar seis libras em oiro por dia e chamaram-no á
+metropole. O artigo _D. Folião_ do Colen fez successo... Já se
+diz:--Escreveu-o porque o Mattoso dos Santos lhe não despachou uma
+pessoa de familia. Foi preciso um ataque rude, para o ministro lhe dar,
+antes de cahir, um logar não sei onde. Ha politicos que se servem de
+todos os meios: ha-os--sei eu--que se escrevem cartas anonimas. Parece
+até que os ha mais completos... Um franquista barafusta hoje nos
+corredores das camaras, ácerca dum deputado da maioria:--O que eu admiro
+é o descaramento de Fulano, que se atreve a fazer discursos alli na
+minha frente, quando sabe perfeitamente que trago na algibeira uma acta
+em que elle se confessa ladrão!--Este mundo tem as suas leis, as suas
+convenções, os seus preconceitos, e a sua honra especial. O principal é
+o que se diz ao ouvido. Aquillo alli nas côrtes é apenas aparato: o José
+Luciano combina tudo com o Hintze, o Alpoim com o Teixeira de Souza. Mas
+surge ás vezes o inesperado e deita a frandulagem de pernas ao ar... A
+atitude violenta do Arroyo explica-se assim: O Arroyo queria ser do
+conselho do Estado, o Hintze prometeu nomeal-o, o rei opoz-se. O Hintze
+teimou--o rei teimou:--Vae para casa e pensa...--A atitude do Navarro
+explica-se porque o rei nunca o deixou ser par...[4] D'ahi o odio--d'ahi
+barafunda... O José Luciano procurou o Arroyo para lhe pedir que não
+fizesse o discurso contra o rei:--Sou eu, chefe dum grande partido, que
+lhe afirmo que não está inutilisado.--E publica no _Correio da Noite_ o
+discurso com alusões á rainha--que o Alpoim manda retirar do _Dia_, por
+causa do Paço... Os chefes ainda conservam certa linha, mas cá em baixo
+vêm-se referver os interesses, as ambições, os despeitos. O D. Carlos
+mantem-se n'uma atitude que faltou ao D. Luiz--e é talvez por isso mesmo
+que o atacam e o acusam. Não intriga. O D. Luiz mais de uma vez propoz
+ao José Luciano, no tempo de Braamcamp, que organizasse
+ministerio:--Isso não, meu senhor! E vou já d'aqui dizel-o ao
+Braamcamp.--Tudo parece confusão, todos os dias a teia se emaranha.
+Ainda ha quem defenda este e aquelle, que pertence ao seu partido, por
+interesse, por camaradagem, seja pelo que fôr, mas já não ha ninguem que
+defenda o rei. Alto ou baixo, ao ouvido ou em plena rua, só se fala no
+rei... O rei! o rei! o rei!...
+
+
+ Junho--1903.
+
+
+--Os Braganças, dizia o Latino Coelho, ou são pedantes ou fadistas.
+
+A este proposito o D. João da Camara conta, que um dia D. Pedro V leu um
+discurso á mãe, dizendo-lhe ella no fim:
+
+--O menino ha-de sahir um bom pedante.
+
+Se tarda em morrer acabava odiado.
+
+
+E acabava. As grandes figuras moraes são sempre uma calamidade para si e
+para os outros. O universo é amoral, e não ha como os acomodaticios, com
+alguma hipocrisia ao seu dispôr... Os outros só fazem a sua desgraça e a
+desgraça dos que os rodeiam.
+
+
+ Junho--1903.
+
+
+Pateo de Martel. Um cantinho com uma figueira e malvaiscos. Uma fiada de
+casas e no extremo o atelier do Columbano. Por traz a quinta... E outra
+luz diferente, outra atmosphera... O mestre, pobre e obstinado, fez alli
+os seus melhores retratos; a senhora D. Maria Augusta, n'uma sala de
+trez metros quadrados, creou as suas mais bellas rendas. Lá no fundo
+morou Eugenio de Castro, pobre, morou depois o Justino e outros
+diplomatas ilustres... Alli o mestre, como os artistas da Renascença,
+experimentou o _fresco_, as tapeçarias, os trabalhos em cêra e prata. A
+senhora D. Maria Augusta sorria-nos com a maior bondade e carinho e
+dizia:
+
+--Quando meu pae morreu ficamos sete irmãos. Criei-os a todos.
+
+--E o Columbano?
+
+--Esse é meu irmão, meu filho e meu mestre. Por alli passaram tambem os
+maiores homens de Portugal, de quem o Columbano ás vezes fala:
+
+--O Oliveira Martins contou-me, quando veio ao meu _atelier pousar_ para
+o retrato, que um dia a rainha o mandou chamar e lhe apareceu
+transtornada:
+
+--Salve-nos! salve-nos!
+
+Era depois dos acontecimentos do _ultimatum_. O Martins procurou ou
+escreveu--não me lembro--ao Anthero do Quental e elle afastou-se e
+abandonou tudo.
+
+São curiosos os grandes homens contados pelo Columbano, que os retratou.
+Um levava um pente na algibeira para compor o cabelo, outro pedia para
+se lhe não ver a careca. O Junqueiro era mephistophelico. Aparecia,
+desaparecia logo: não pousava cinco minutos a fio. Um dia o Columbano
+ouviu bater a porta, e entrou-lhe no atelier um homem já cansado, de
+grossos sapatões, apegado a uma bengala, que parecia um bordão de
+pedinte:
+
+--Disseram-me que gostava de fazer o meu retrato e aqui estou...
+
+Era o Anthero. Parecia um cavador, de meias grossas de lã azul--mas
+quando falava!... Nunca olhou para o retrato.
+
+--Está prompto?
+
+Foi-se embora como viera...
+
+
+ Junho--1903.
+
+
+O José de Figueiredo diz-me:
+
+--Copiei por minhas mãos, para o Antonio Candido, a carta em que o
+Soveral é durissimo para os partidos, fala d'alto ao rei e lhe diz que,
+se não tivermos juizo, a Inglaterra tutela-nos.
+
+
+ Junho--1903.
+
+
+--Ninguem me mete na cabeça que esta rainha é boa pessoa--diz o Alpoim
+ao vel-a descer o Chiado.
+
+Mas, quando passa, toda a redacção do _Dia_ corre á janella, para a
+cumprimentar, e o Moreira d'Almeida, que tem por ella culto e paixão,
+põe á pressa o chapeu na cabeça, para se ir desbarretar n'uma grande
+cortezia.
+
+ * * * * *
+
+Fala-se hoje do Soveral na redacção do _Dia_, e da amizade que o liga ao
+rei d'Inglaterra.
+
+--São tão amigos que por occasião do ultimatum, ainda Eduardo VII era
+Principe de Gales, este pode prevenil-o da atitude da Alemanha. Iam
+ambos n'um cortejo: o principe, de passagem, chegou-se-lhe ao ouvido e
+só lhe disse estas palavras:--A Alemanha está comnosco...
+
+O Soveral correu ao telegrapho.
+
+
+ Junho--1903.
+
+
+O Adrião de Seixas, que, nos seus tempos aureos, entrou em muitas
+combinações de finança, negociou emprestimos, esteve ligado aos Mosers,
+etc.:
+
+--Quasi todos os homens publicos recebiam luvas, posso garantir-lh'o.
+Todos estendiam a mão. Duma vez trouxe para um, um aparelho de chá,
+magnifico, de prata, comprado em Paris. Elle recebeu-o e, destapando o
+assucareiro, afirmou com desplante, sorrindo:--É magnifico... só lhe
+falta o assucar.--Eu, que já ia prevenido, tirei das algibeiras alguns
+rolos de libras, despejei-os dentro e perguntei:--E agora?--Agora está
+optimo.--E concluiu:--Você é uma mercearia ambulante!
+
+
+ Junho--1903.
+
+
+O marquez de Soveral em conversa com o Alberto Braga:
+
+--É que eu vivo em Londres longe de tudo isto... Se me visse forçado a
+viver em Portugal, fazia-me revolucionario.
+
+ * * * * *
+
+Tambem o Alpoim diz hoje:
+
+--Quem me dera uma revolução!
+
+E, deante do nosso espanto, explica:
+
+--Para pôr o rei no seu logar... Eu não tenho nada a perder, meus filhos
+estão colocados, o que tenho chega-me para viver na Regoa como um
+fidalgo... Era preciso que o rei tivesse medo. Mas quê! Agora com a
+aliança ingleza é muito peor. Ainda outro dia dizia o José
+Luciano:--Podem vir os republicanos todos juntos, os de cá e os de
+Hespanha, que não fazem nada. É da aliança que, se houver qualquer
+movimento, desembarcam tropas e defendem o rei.
+
+E acrescenta:
+
+--Eu vi tudo, vi as perguntas e as respostas, posso assegurar-lho.
+
+ * * * * *
+
+--Elle é mau, é--diz o Alpoim do rei--mas a gente não tem outro.
+
+
+ Junho--1903.
+
+
+O Abel d'Andrade:
+
+--Conheço muito bem o Hintze. Tem duas qualidades magnificas n'um homem,
+pessimas n'um chefe. É delicadissimo. Sorri sempre, mesmo quando sabe
+que o enganam--e nunca resolve nada, o que lhe acarreta dificuldades,
+que vão crescendo á medida que elle as adia. Tem outro defeito enorme;
+não é capaz de dizer _não_ peremptoriamente a ninguem.
+
+
+ Junho--1903.
+
+
+O Emygdio Navarro está furioso com o rei. Sentiu immenso que o não
+convidassem para nenhuma das festas dadas ao rei d'Inglaterra--quando
+foi elle que iniciou, defendeu e preparou a aliança anglo-portugueza.
+
+
+ Junho--1903.
+
+
+Estive hoje em casa do juiz Veiga, lá para o Rato, por causa d'uma
+querela do _Dia_. É um homem atarracado e forte, com um ar de falsa
+bonhomia. Ha n'elle não sei quê de inquisidor e de satiro, e é tão
+desconfiado, que, logo que eu entro, pousa sobre os papeis da secretaria
+uma larga folha azul, com medo que lh'os leia. Na sala, de cadeiras
+doiradas de palhinha e _consoles_ com gatos de vidro, ha varios
+mostrengos em exposição: o retrato delle e retratos de familia,
+temerosos, o busto do rei D. Carlos em marmore e outro não sei de quem,
+ambos de arripiar. E, entre a papelada que trasborda e estas coisas de
+mau gosto, o juiz Veiga fuma n'um cachimbo d'espuma com uma mulher em
+pêlo...
+
+É este o homem que sabe tudo e pode tudo, que conhece os segredos das
+familias e os segredos da politica. N'outro dia obrigou um janota a
+entregar-lhe as cartas, que comprometiam uma mulher casada. Contam-se
+mais casos curiosos. É omnipotente e omnisciente. Comanda, diz-se, bufos
+ilustres de quem ninguem suspeita. Tem um cofre sem fundo á sua
+disposição para distribuir dinheiro a rodos. Acode a desgraçados.
+Tortura--verdade ou mentira?--no fundo das celulas alguns presos
+politicos para lhes arrancar segredos. Ainda ha tempos me contaram que
+ao José do Valle não o deixaram dormir sem elle confessar tudo...--É uma
+especie de Pina Manique, que pouco abusa do seu lugar e da sua
+autoridade. Afirmam-no bondoso. Ha até quem o diga uma especie de
+Providencia. É incontestavelmente um homem esperto, que
+protesta:--Quero-me ir embora antes que tudo isto desabe. Esta gente não
+sabe ou não quer defender-se...
+
+Fala baixinho, sem me olhar nos olhos e resolve n'um prompto, como quem
+não encontra nunca obstaculos. Quando saio, no patamar da escada,
+surprehendo duas creadas de avental sujo e chinelos esbeiçados, que dão
+de comer, ás escondidas, a um policia. Enganam-no na sua propria casa e
+deitam a fugir quando me vêem.
+
+
+ Junho--1903.
+
+
+O artigo de hontem, das _Novidades_, sobre a mortandade da Servia, cheio
+d'alusões ao rei, fez sensação. E dizia-se por ahi:
+
+--Quando se faz cá o mesmo?
+
+--Foi uma limpeza!--phrase do Alpoim.
+
+ * * * * *
+
+O Beirão:
+
+--O Alpoim não quer vêr que o partido do João Franco, apezar de pequeno,
+é um partido de protesto. Qualquer dia o rei chama-o e dá-lhe os mesmos
+poderes que tem dado ao Hintze ou ao José Luciano.
+
+
+ Junho--1903.
+
+
+Judice Bicker, casado com uma filha do Andrade Corvo, conta, a proposito
+do rei e do poder pessoal:
+
+--Possuo diferentes cartas do D. Luiz, e entre ellas uma ao Corvo,
+pedindo-lhe que apresente certa proposta, mas de maneira que não pareça
+_poder pessoal_... Os homens desse tempo impunham-se. Um dia ao D.
+Augusto meteu-se-lhe em cabeça casar com uma infanta d'Hespanha. Era no
+tempo em que se falava muito na união iberica. O Corvo opoz-se, apesar
+da insistencia desesperada do infante. Por ultimo procurou-o e
+disse-lhe:
+
+--Escusa de insistir, que não casa. É pelo bem do paiz.
+
+ * * * * *
+
+O Corvo foi um dos primeiros estadistas a pensar a serio na Africa e no
+seu engrandecimento. Quiz augmentar o territorio de Angola e
+estabelecer-lhe os limites, d'acordo com a Inglaterra. Tudo era possivel
+n'esse tempo e tinhamo-nos livrado de dificuldades, do Estado livre do
+Congo, etc. Avançavamos um seculo, se elle não cae por causa do tratado
+de Lourenço Marques. Deitaram-no a terra, espalhando que recebera
+milhões. Eu que casei com a filha, sei o que elle deixou!...
+
+Nas camaras o governo d'então declarou que o tratado não tenha ido a
+conselho de ministros. O Andrade Corvo possuia o tratado com anotações
+do punho de Fontes e Thomaz Ribeiro. Apesar d'isso calou-se. Se fosse
+hoje!...
+
+
+ Junho--1903.
+
+
+--O rei tem pensado. E tanto que o infante quiz ir agora ao estrangeiro
+e pediu dinheiro ao Hintze, que lhe respondeu:--Peço-lhe que desista.--O
+infante rasgou a carta furioso. Com a Maria Pia sucedeu o mesmo. Essa
+inventou uma doença d'olhos e preveniu o D. Carlos de que precisava de
+ir ao estrangeiro. Resposta do rei:--Cá ha um bom
+especialista.--Mandou-lho, e elle disse ao rei que a Maria Pia não tinha
+nada. A Maria Pia insistiu, n'um desespero, e o rei mandou-lhe o Antonio
+Lencastre. O rei tem pensado...
+
+--Se isso fosse verdade!--exclama o Alpoim.
+
+
+ Junho--1903.
+
+
+Esta tarde sahiu dos Martires, mesmo em frente do _Dia_, a procissão do
+Corpo de Deus. Todos á janella cahiram de joelhos--quando o bispo de
+Trajanopolis passou, a barba loura, muito cuidada, e um capachinho no
+alto da cabeça, apartado ao meio... O Alpoim exclamou:
+
+--Ó que maroto! Foi a este que o Barros Gomes, quando ministro, disse um
+dia: Ajoelhe a meus pés! Peça perdão!--Tinha hypothecado lá fóra os
+rendimentos do curia por noventa annos!
+
+
+ Junho--1903.
+
+
+O D. João da Camara conta que no Algarve encontrou em todas as casas
+dois retratos--o de João de Deus e o do Remexido. E a proposito diz que
+um tio de Coelho de Carvalho levava já a galope o comutamento da pena do
+Remexido, quando o fuzilaram. E termina:--A Angela Pinto é neta do
+Remexido. Aposto que não sabiam!
+
+
+ Julho--1903.
+
+
+--Vou pedir um logar que está vago no Supremo Tribunal--disse um patusco
+ao Marçal Pacheco.
+
+--De juiz?!
+
+--Isso.
+
+--Mas você endoideceu! Não lh'o dão!
+
+--Isso sei eu.
+
+--Mas então porque é que o pede?
+
+--Já pedi umas poucas de coisas, vou pedir mais esta. Recusam-ma, já
+sei, mas é _capital_ de queixa que amontôo.
+
+ * * * * *
+
+O Alpoim:
+
+--Um dia o cardeal patriarcha convidou-me para jantar. Estavam muitos
+bispos. São jantares que nunca acabam, de quinze pratos, serviço
+esplendido--e não calcula a impressão que eu senti, no fim, quando elles
+se levantaram muito congestionados, cheios de vinhos magnificos, mamando
+charutos enormes e com as saias arregaçadas...
+
+
+ Setembro--1903.
+
+
+O Henrique de Vasconcellos, genro do Navarro, contou-me hoje que o Paço
+por trez vezes mandou insistir com o sogro, para elle não continuar com
+os ataques nas _Novidades_.
+
+
+ Outubro--1903.
+
+
+O Alpoim recomenda no _Dia_ que se não publique nada que possa ferir as
+susceptibilidades da côrte hespanhola. Afonso XIII está
+desconfiadissimo. Além d'isso o nosso rei e rainha de Hespanha não se
+podem ver: têem um pelo outro odio figadal.
+
+ * * * * *
+
+Um coronel inglez, que ahi esteve, veio por ordem do seu governo vêr em
+que estado tinhamos as fortificações de Lisboa. Examinou tudo.
+
+[Figura: _José Luciano encerra o Parlamento._--Caricatura inedita de
+Celso Herminio.]
+
+ * * * * *
+
+Com as festas de Afonso XIII encheu-se muita gente. Um regabofe. Da
+iluminação da Avenida diz-se:--Dos Restauradores para cima dirige o
+Costa Pinto, dos Restauradores para baixo digere o...
+
+ * * * * *
+
+Ao ouvido conta-se que o rei de Hespanha e os que o acompanhavam
+troçaram tudo isto: o paiz, a côrte, as festas. De manhã, no quarto,
+emquanto elle tomava café ou chocolate, os particulares e os intimos
+maldiziam, n'uma chacota pegada... Só o rei, fracamente, se opunha.
+
+
+ Outubro--1903.
+
+
+O D. João da Camara conta o seguinte:
+
+--O D. Luiz deu, até pouco antes de morrer, trezentas libras por mez á
+Rosa Damasceno. Todos os dias 10, 20 e 30, o Nazareth lhe entregava cem
+libras em oiro, que elle nem sequer contava: mandava-as logo á Rosa.
+Morreu no dia 19 de Outubro: pois no dia 10 ainda lhe mandou o
+dinheiro.--E o Brazão?--Cuido que não são casados, apezar do que por ahi
+se diz. O que é certo é que antigamente, as coisas arranjavam-se por
+forma que a Rosa e o Brazão nunca entravam na mesma peça, e um d'elles
+ia sempre passar a noite ao Paço. O D. Luiz dizia do Brazão:--É o meu
+melhor amigo. A Rosa nunca abusou da situação: apenas empregou dois ou
+tres homens e o D. Luiz sentia por ella verdadeira ternura. Traduziu-lhe
+a _Odette_ e assistia aos ensaios. A Maria Pia sabia tudo. Um dia deixou
+no quarto do Paço onde a Rosa costumava ficar, um lenço de rendas a
+tapar a fechadura. Ás vezes o D. Luiz apresentava-lhe joias para ella
+escolher e depois levava-as á Rosa. E ia com a rainha ao theatro, para
+que ella visse o efeito das joias no colo da actriz.
+
+
+ Outubro--1903.
+
+
+--Vi eu, vi eu!--exclama o Antonio José de Freitas--o Oliveira Martins,
+n'uma sala, deslumbrado, solicitar a apresentação d'um janota qualquer,
+d'um janota banal.
+
+
+ Dezembro--1903.
+
+
+O Adrião de Seixas, secretario do Banco de Portugal:
+
+--Não se fazem descontos, porque não ha dinheiro e o Banco já recorreu
+ás reservas de prata. O governo está sempre a pedir dinheiro. Imagine o
+meu amigo que todos os annos ha um _deficit_ de 7:000 contos. Ninguem
+tem a coragem de dizer as coisas como ellas são e por isso se faz um
+orçamento falsificado. Resultado: como o orçamento é falso, pode-se
+roubar á vontade!
+
+ * * * * *
+
+O José Luciano está a morrer. O que ahi vae com a chefia do partido
+progressista! Ao Antonio Candido não o tragam os progressistas, ao
+Beirão não o quer o Paço, nem o Navarro, nem o Mariano. Lança-se o nome
+de Antonio Candido para encobrir o seguinte proposito: presidente do
+conselho o Mathias de Carvalho, com o Alpoim na pasta do reino.
+
+Mathias de Carvalho é uma figura decorativa, sempre de palito na bocca e
+de miolos empedernidos, que ficará na presidencia e estrangeiros. Esta
+solução é preferida pelo Navarro e pelo Mariano. De Mathias apenas se
+sabe que é incapaz: como diplomata foi quem deu ensejo a esfriarem-se as
+relações com a Italia.
+
+--Se o José Luciano morrer é á facada!--exclama o Alpoim.
+
+Morrer era ainda--Deus me perdoe!--uma solução... Peor será conserval-o
+na cadeira de rodas, obstinado, querendo mandar, e os herdeiros á espera
+do testamento. Toda a politica portugueza vae girar em volta d'este
+leito de enfermo, onde o velho continua a dar ordens imperiosas.--Hoje
+deitou um litro de pus pela pelle.--Está salvo!--Morre!--Fica
+invalido!--Tem sifilis!--Nesta altura da politica portugueza, é elle
+quem manda tudo. Que o diga, o José d'Azevedo, por exemplo, que o não
+pode vêr, porque o José Luciano o não deixou realizar as suas
+pretenções. É na sua casa que se resolvem as questões maximas. A
+politica é pelo menos n'uma grande parte, na melhor parte, representada
+nos bastidores... «Vejam a vergonha desta gente! O Campos Henriques vae
+a casa do José Luciano com o Julio de Vilhena, para conseguir que as
+emendas do codigo civil passem. Não passam e elle fica no ministerio! O
+Teixeira de Souza vae lá todas as semanas. Não, este Hintze... Eu
+palavra de honra antes queria ser ladrão d'estrada!...»
+
+Outro facto extraordinario da nossa politica: é sempre no campo adverso
+que estes homens tem mais radicadas amizades. E tambem se percebe
+nitidamente que no fundo da lucta só ha uma força, o rei. Por isso mesmo
+o rei é sempre o culpado. Quem tudo manda é o Paço--dizem todos os
+politicos--e tanto mais que não ha um nucleo de resistencia no paiz. Os
+republicanos não estão organizados e o Paço nem sabe o que póde. Uma
+revolução no paiz é, segundo a opinião geral, impossivel, a não ser que
+se succedam trez annos de fome.--Tudo quanto se faz de mau é o rei quem
+o faz...--Ainda hoje ouvi esta conversa:--Foi o Hintze quem disse ao
+Arroyo, como disse ao Mariano e ao Navarro. «É el-rei que não quer».
+Nunca lh'o deveria ter dito.--Os politicos inutilisam-no e
+inutilizam-se. Todos os dias inventam novas atoardas. Hoje a proposito
+d'uma nota oficiosa que o ministro da fazenda fez publicar no
+_Noticias_, no _Seculo_ e no _Diario_, anunciando um grande emprestimo
+no estrangeiro, conta-se que é um negocio de acordo com a casa Fonseca,
+Santos & Viana, que tinha comprado fundos. Acusa-se o Teixeira de Souza
+de conivencia. Mas já a 2 de junho o Alpoim afirma:--Quem não deixa
+passar o emprestimo é o Burnay. N'outro paiz devia ter a cabeça cortada.
+No ministerio da fazenda ha documentos que provam as suas maquinações no
+estrangeiro. Elle manda em tudo:--manda no Credito Predial, no Banco de
+Portugal, na Companhia Real. É uma desgraça que o emprestimo não passe.
+Temos nós de o fazer e em que condições!... E tudo isto com que fim? E o
+Burnay a ver se obriga os progressistas ao contracto dos tabacos.--A
+esta trapalhada juntem a doença do José Luciano e as ambições, que
+levantam a cabeça, a guerra de sapa que se encarniça.--Hoje deitou mais
+pus!--Morre!--Com quem está o Paço?--O Moreirinha com a algalia não lhe
+sae da cabeceira.--Quem vae ao poder? O João Franco?
+
+--Nem elle sabe a guerra oculta que eu lhe tinha feito. Ha-de pagar-me
+caro o discurso que fez contra mim: Viva a folia, dançar! dançar!... São
+mil os interesses, mil as ambições.--Tudo menos o Beirão, que só tem por
+si a gente velha, a gente conhecida pelos _batibarbas_.
+
+Mas o velho teimoso e perspicaz, não admite sequer a idéa de que alguem,
+que não seja elle, vá ao poder. Até á ultima--ambição ou
+grandeza?--ha-de disputar e mandar, como o Alpoim, até ao ultimo
+suspiro, ha-de conspirar. Aqui, á roda d'esta agonia, não se discutem
+apenas os interesses d'uma familia. O drama é maior: são os interesses
+dos partidos, com mil e uma ambições e enredos que nem sequer se
+suspeitam. A confusão augmenta, redobra. O Ressano Garcia comanda o
+ataque, á frente dos _batibarbas_, contra o Alpoim, e o Alpoim, que
+ainda hontem atacava o João Franco, já hoje (Janeiro 1904) diz, depois
+do conluio feito pelo Silva Graça:--Com esse me entendo eu!
+
+
+ Fevereiro--1904.
+
+
+Hontem, terça-feira de entrudo, assisti ao espectaculo em S. Carlos.
+Estava tudo, o rei, a rainha, a côrte... Senhoras decotadas com os
+vestidos presos aos hombros por uma fita. A D. Amelia de vermelho.
+Andava no ar uma bola enorme de borracha, e ao janota que quiz saltar
+dentro d'um camarote tiraram-lhe as botas dos pés. Mas a risota, a
+chalaça, a delicia, era um penico em miniatura, que passava de mão em
+mão, por entre as grosserias, que é do uso antigo as senhoras dizerem
+umas ás outras na terça-feira gorda. O fundo d'estes risos vem sempre da
+mesma palavra pegajosa: merda! merda! merda! O rei, gordo e louro,
+soprava por um canudo setas de papel, botando o olho de revez, e houve
+um momento em que o infante mostrou do camarote o quer que era de
+borracha, um canudo cheio de vento, immenso e obsceno. Foi um delirio
+entre aquellas cabeças empoadas, na gente da alta roda de que se contam
+baixinho os escandalos.
+
+Ouçam um destes rapazes que estão na plateia, e que falam das senhoras,
+como quem fala com desprezo das mulheres da Antonia. Muita desta gente
+não se sabe aonde vae buscar o dinheiro. É um misterio. Aquelle louro e
+correcto, que está além n'uma atitude romantica, ainda ha dias quiz
+extorquir alguns contos de reis, para o jogo, a uma mulher casada. Outro
+só vive da roleta. Mais além, o herdeiro de um nome ilustre, tem um
+modesto logar na alfandega, e a mulher usa brilhantes esplendidos.
+Aquelle, acolá, tão decorativo, é conhecido pelo conde de Monta-a-Velha.
+São raros os que não têm alcunhas. A uma senhora de perfil soberano
+chamam-lhe a Vareira. Outra tem um sobriquet infame. Deste e de aquella
+diz-se alto a chronica escandalosa. A mulher do S. deu este anno grande
+escandalo em Cintra. Outra foi apanhada aos beijos a um embaixador. Com
+aquella, mais além, fina como uma cobra, e que ostenta um colar
+magnifico, puzeram-se os B. de mal, acusando-a de lhes ter roubado uma
+carteira com trezentos mil reis, depois de terem sido todos seus
+amantes. A mulher do J... deixa o marido, pé de boi rico que só lhe
+serve para puxar á nora, e gasta-lhe a rodos o dinheiro que juntou. Eis
+esta mãe viciosa com a filha ao lado--de olhos limpidos e innocentes.
+Peor, ha peor... E mais esta--e mais esta--e mais esta condessa, que
+n'outro dia foi apanhada no comboio n'uma atitude peor que equivoca...
+
+Puz-me a ouvir, a ouvir,--verdade? mentira?--e lembrei-me ao mesmo tempo
+da côrte da senhora D. Carlota Joaquina e da _Chartreuse de Parma_.
+
+ * * * * *
+
+O general Lencastre de Menezes:
+
+--Se o 31 de Janeiro fosse agora as coisas não se tinham passado
+assim...
+
+
+ Março--1904.
+
+
+Morreu um dia d'estes um preto riquissimo, que quiz por força passar por
+branco, o que lhe custou os olhos da cara. Se teima em viver mais algum
+tempo acabava a pedir. Rodeara-se d'uma corte que lhe custava carissima:
+lisongeavam-no e rapavam-lhe o cofre até ao fundo. Depois inventavam-lhe
+processos, depois demandas... Depois sopravam-lhe á vaidade
+incomensuravel. E o preto sorria, o preto dizia sempre que sim.
+Tinham-no casado com uma linda rapariga branca--e o preto, á farta,
+pagara tudo, dotara tudo, a noiva, os paes da noiva, os parentes da
+noiva... E cada vez mais brancos lhe faziam a côrte e o enredavam n'uma
+vasta teia de interesses, com muitas zumbaias e papel selado.
+
+Um dia foi a Inglaterra e quiz viajar como um principe branco: comprou
+um _yacht_ de luxo para ir a S. Thomé. Cincoenta contos. Na volta não
+havia carvão a bordo e deitaram-se a queimar a madeira entalhada, os
+doirados do barco, as portas, os salões, as molduras. E o preto sorria.
+Quando chegou a Lisboa vendeu o barco por uma côdea.
+
+Rodearam-no mais brancos, apareceram-lhe mais brancos infatigaveis,
+pressurosos, obsequiadores. E mais papel selado, mais contractos e
+procurações para assignar--o enredo, a teia subtil em que o negralhão
+foi arrastado e envolvido, o verdadeiro, o authentico drama, emfim, do
+preto que quer ser branco... Se elle tinha por acaso um sobresalto,
+falavam-lhe logo á vaidade ou davam-lhe noticia d'uma coisa que se chama
+o Codigo, a Lei, a Formula, e o preto, que não comprehendia e que se
+sentia feliz, submetia-se sem contestar, com uma grande satisfação por
+fazer parte d'esta raça ilustre e respeitada de brancos, por ser
+visconde, por pertencer á côrte e á alta sociedade elegante.
+
+...Antes de morrer lá lhe deram o ultimo golpe--de preto. Os brancos
+ficaram-lhe com as roças, e as propriedades de S. Thomé foram
+transferidas para uma sociedade por quotas. É o que consta por ahi,
+emquanto o negralhão estoira com uma pneumonia dupla--e lá em casa se
+toca desaforadamente piano, com as janellas abertas de par em par.
+
+
+ Março--1904.
+
+
+As obras da sala de jantar do Paço das Necessidades custaram 180 contos.
+
+ * * * * *
+
+O Abel d'Andrade contou-me que a modista da mulher lhe dissera que a
+mulher do Hintze lhe devia lá uma capa ha mais dum anno.
+
+
+ Março--1904.
+
+
+O Celso morreu ha um mez n'um dia de chuva como este. Mas, quando o
+caixão chegou ao pé da cova, luziu o sol no alto. O ar parecia novo e no
+vasto campo dos tumulos agitaram-se as cabeças amarellas dos
+malmequeres. Os passaros começaram a cantar. E viu-se logo o Brito
+Aranha, de pera branca, dar um passo em frente e fazer um discurso:--O
+amigo... o camarada... descança em paz.--Depois o Cunha e Costa falou na
+nossa decadencia, e por fim o Carneiro de Moura mastigou tambem uma
+banalidade... Sentia-se que tudo aquilo era postiço. Mas os passaros não
+cessavam de cantar--e a meu lado o D. João da Camara suspirou baixinho:
+
+--Quem me dera que quando eu morrer só o saibam meia duzia de amigos!...
+
+
+ Abril--1904.
+
+
+O Ovidio d'Alpoim ácerca da D. Maria Emilia Seabra de Castro:
+
+--Mete-se em tudo. D'uma vez eu e o José Luciano estavamos a discutir
+umas alterações á Carta Constitucional e ella começou do lado a dar a
+sua opinião. O José Luciano mandou-a embora. D'outra vez sahia eu de
+casa do José Luciano com o Antonio Candido e vinhamos á porta da sala
+grande, quando ella do alto da galeria:
+
+--Ó senhor Antonio Candido então agora é que vae para Amarante, quando é
+cá preciso? E é para isto que nós os fazemos pares e os enchemos de
+honrarias?...
+
+O Antonio Candido não respondeu. Ficou tão vexado que, de casa até á
+baixa, não trocamos palavra.
+
+
+ Março--1904.
+
+
+As filhas de D. Carlota Joaquina, com excepção de duas, eram tal qual
+como a mãe. O Camara conta que a duqueza de Loulé, que foi casada com o
+mais lindo homem do seu tempo, estava um dia, em solteira, á janella,
+quando o conde de Vimioso passou a cavallo para os touros, já vestido de
+oiro e prata. Ella chamou-o, trocaram meia duzia de palavras, elle
+subiu--e depois desceu e foi tourear...
+
+O marquez de Vallada sabia quem eram os paes de todos os filhos de D.
+Carlota Joaquina.
+
+
+ Abril--1904.
+
+
+A Hespanha concentra tropas na Galliza. Nós não podemos mobilisar quinze
+mil homens. Nem dez mil! Hontem o Pimentel Pinto queixava-se ao
+Maximiliano d'Azevedo, de que nem artilharia de campanha possuimos: a
+que temos ficava liquidada no fim de meia hora de combate. A artilharia
+do campo entrincheirado de Lisboa, comprehendendo os obuzes, serve
+apenas para navios imperfeitamente protegidos. Peor: o municiamento mal
+chega para uma hora de combate!
+
+
+ Abril--1904.
+
+
+O dr. Antonio Centeno protesta:
+
+--Isto não pode ser! O ministro deu pela iluminação electrica do Paço de
+Belem quarenta contos! Havia quem a fizesse por sete. Agora vae dar a
+iluminação electrica de todos os paços por trezentos contos. Ha quem a
+faça por quarenta. Mas d'esta vez oponho-me porque prejudica a Companhia
+do Gaz. Vou procural-o e dizer-lho. Se teimar levo a questão para a
+camara e para os jornaes.
+
+
+ Abril--1904.
+
+
+Quem faz a politica externa é o rei e o Several. O ministro dos
+estrangeiros chancela.
+
+
+ Abril--1904.
+
+
+Isto é um paiz para estrangeiros. Não ha nenhum que não enriqueça. Hoje
+afirma-se que o Chapuy, engenheiro da Companhia Real, vendeu machinas á
+Companhia por cento e trinta e tres mil francos, que valiam setenta mil.
+O Croneau, director do Arsenal, tambem está rico.
+
+
+ Abril--1904.
+
+
+Diz o Alpoim:
+
+--O rei não ouve ninguem. Antigamente ainda atendia o general Queiroz,
+que era nosso amigo. Agora não: só ouve os presidentes do conselho.
+Tratava muito bem o Teixeira de Souza; pois quando o Hintze resolveu
+pol-o na rua, passou logo a tratal-o mal.
+
+
+ Maio--1904.
+
+
+O alferes que no 31 de Janeiro comandava a guarda municipal, por traz do
+campo de Santo Ovidio, nas escadas da Egreja da Lapa, e que depois
+comandou o fogo na rua de Santo Antonio, garante que o Lencastre e
+Menezes, então comandante do 18, não sahiu com o regimento emquanto não
+viu tudo decidido. E dentro do quartel havia socego...
+
+--Eu disse-o depois ao rei.
+
+ * * * * *
+
+A proposito de 31 de Janeiro sei pelo José de Figueiredo, que o ouviu
+por diferentes vezes ao Antonio Candido, que o rei e a gente do Paço
+queriam um castigo exemplar. Antonio Candido opoz-se e ficou mal visto
+durante muitos annos.
+
+
+ Junho--1904.
+
+
+Disse-me hoje o Camara que o Soveral tomou parte, activa no tratado
+d'_entente_ entre a Inglaterra e a França. É hoje um dos melhores amigos
+de Delcassé.
+
+
+ Julho--1904.
+
+
+A Maria Pia, que quer ir por força ao estrangeiro, mandou pedir dinheiro
+aos agiotas de Paris sobre hypotheca das suas propriedades--chalet do
+Estoril e parte do palacio das Necessidades, que ella afirma
+pertencer-lhe... Ao todo cento e oitenta contos. De intermediarios
+serviram um agiota do Porto, uma mulher designada na correspondencia
+pelo nome de madame Blanche, e que recebia dez mil francos, etc.
+
+ * * * * *
+
+Do Antonio José de Freitas:
+
+O marquez da Fronteira nunca poude levar a bem o casamento de D.
+Fernando com a _comica_, como elle lhe chamava. Uma senhora da
+aristocracia conversando com o marquez:
+
+--Fui visitar el-rei que me disse:--Não queres vêr a condessa?--Falei
+com ella e parece-me...--hesitando--muito interessante...
+
+[Figura: _Celso Herminio._]
+
+E o marquez logo:
+
+--A senhora já tinha, é claro, relações anteriores com a condessa...
+
+
+ Dezembro--1904.
+
+
+O João da Camara repartiu com os netos de Camillo os direitos de auctor
+do _Amor de Perdição_. Os filhos de Nuno nem pão tinham no dia em que
+receberam inesperadamente esse dinheiro. O Camara, quando juntou
+duzentos e tantos mil reis, escreveu á viuva e mandou-lhe
+metade.--N'esse dia--disse ella ao Alberto Pimentel--não tinha que lhes
+dar de comer.
+
+ * * * * *
+
+O rei e a rainha vivem separados. Os seus aposentos são, uns n'um
+extremo, outros no outro extremo do palacio. E por ahi afirma-se que
+elle, depois do tifo, ficou como Affonso VI...
+
+
+ Dezembro--1904.
+
+
+O velho obstinado teima... Não lhe falem na successão! Ainda n'outro dia
+fez uma scena, quando a D. Maria Emilia lhe leu o artigo das
+_Novidades_. Um amigo disse-lhe:--Deixe lá o Sebastião Telles ou o
+Alpoim ser presidente do conselho.--Essa hypothese não a admito
+eu!--protestou logo. O Hintze está gasto, o João Franco foi acolhido no
+norte como um Messias. O Beirão fez um discurso nas camaras--talvez
+proposital--dizendo que cortaria nos empregos publicos e que não admitia
+direitos adquiridos senão dentro da lei.--Elle quer inutilisar-se...--É
+um tipo esgalgado, d'astronomo, com uma grande penca--o nariz do
+Beirão--motivo facil de caricatura. Homem de costumes simples, alheado e
+indiferente a corrilhos, agarrado aos seus livros[5]. Já em Abril, no
+conselho d'estado, taes coisas disse que, á sahida, afirmou:--Acabo de
+dar uma enxadada na minha reputação!--Quanto ao Alpoim desconfia que o
+José Luciano o quer comer, e o Teixeira de Souza trata de crear forças
+dentro do seu proprio partido: comprou _A Tribuna_ e parece influenciar
+no _Diario_.--Ao Hintze custa-lhe a largar o poder, elle bem sabe
+porquê...--Os tumultos nas camaras succedem-se e a situação politica
+agrava-se.
+
+Do rei diz-se o peor possivel. Diz-se que colocou muito dinheiro no
+Banco d'Inglaterra, (11 de Junho) diz-se que deu um colar de brilhantes
+á bailarina Imperio, que ahi está na zarzuella... As questões
+prendem-se, e agora com o contracto dos tabacos só se fala em
+escandalos. Tudo come! tudo come! Come o Navarro, come o Mariano, e um
+amigo meu, literato e jornalista, afirma-me:--Se a Companhia dos
+Phosphoros tem feito o contracto, eu estava rico.--Corre que os
+republicanos se organisam e o Bernardino Machado publicou manifesto,
+aproveitando um jornal e um jornalista hespanhol:
+
+
+ ...«Ha uma lei que domina todas as outras na historia da
+ humanidade: nenhuma instituição vive, se sustenta e se radica senão
+ pelo amor á liberdade. A lei, em virtude da qual existem
+ instituições liberaes, cumpriu-se nos nossos annais contemporaneos.
+ De 1851 a 1885 tivemos um periodo de liberdade e de paz. Foi um
+ periodo de ascensão liberal.
+
+ «Aboliu-se a pena de morte, e só por esse feito se proclamou pela
+ lei o direito á Vida. Proclamou-se esse direito com toda a sua
+ elevação, dando a todos, inclusivamente aos indigenas das nossas
+ colonias, onde se acabou com a escravatura, a faculdade de existir
+ espiritualmente, como uma personalidade moral. Alargou-se a
+ liberdade religiosa, tornando-a efectiva com o registo civil.
+ Alargou-se a liberdade economica pela extinção dos bens de mão
+ morta, pela abolição dos monopolios e pela criação legal das
+ associações de socorro mutuo e das cooperativas. Dilataram-se as
+ liberdades politicas com a extensão do sufragio e representação das
+ minorias. Descentralizaram-se os municipios, deram-se as maximas
+ franquias aos distritos e até se exarou na Constituição o principio
+ liberal da eleição parcial da Camara dos Pares. Nesse periodo, que
+ começou ouvindo-se a voz do grande tribuno José Estevão, parece que
+ resoaram até ao final os acentos do seu verbo eloquentissimo.
+
+ «Essa epoca venturosa termina com a morte de Sampaio, Braamcamp e
+ Fontes. E a prova de que todos os partidos colaboravam nessa grande
+ obra de pacificação e de liberdade, está em que foi o conservador
+ Fontes quem mais contribuiu para ella.
+
+ «Os partidos de governo definem-se pela sua concepção da
+ constituição nacional: Constituição liberal, partido liberal;
+ Constituição arbitral, partido reaccionario. Porque o arbitrio póde
+ ser, num dado momento, a liberdade; mas sempre se converte por fim
+ em absolutismo.
+
+ «No periodo de iniciação liberal fez-se a Constituição quasi
+ republicana de 1822, e, em troca, os constitucionais da campanha da
+ Terceira, do Cerco do Porto, de Almoster e da Asseiceira, tiveram a
+ carta outorgada de 1826, que foi, consoante o livre alvedrio do
+ imperante, a liberdade com D. Pedro IV, e a opressão com D. Maria
+ II. Em oposição á carta outorgada, Passos Manuel e os setembristas
+ fizeram a democratica constituição de 1838, decretada pela vontade
+ da nação.
+
+ «No segundo periodo da nossa vida constitucional, que abre com José
+ Estevão e se encerra pouco depois da morte de Sampaio, periodo que
+ inaugura entre nós o parlamentarismo, os regeneradores fizeram os
+ actos adicionaes de 1852 e de 1885, que são verdadeiros pactos
+ constitucionaes, e não intervalos historicos, mas reformistas,
+ constituintes, republicanos, que apresentavam os seus projectos,
+ qual delles mais avançado, da reforma constitucional.
+
+ «De 1886 até hoje sopra um vento imperialista. A inspiração, em vez
+ de vir da Inglaterra liberal, vem da Alemanha cesarista. O partido
+ progressista faz a centralisação dos serviços materiaes.
+ Segue-se-lhe, no Poder, o partido regenerador, e faz a
+ centralisação dos serviços espirituaes na instrucção, e depois
+ dissolve as associações, rasga as liberdades municipaes, acaba com
+ as representações das minorias, legisla dictatorialmente... E, por
+ fim, para que toda esta centralisação não suscite uma revolução
+ violenta, promulga a lei sobre o anarquismo, que é uma ameaça
+ sempre suspensa sobre todos os liberaes.
+
+ «Antes de 86, o partido republicano, como partido de tal natureza,
+ não era um perigo. Caminhava-se lentamente, pacificamente, para a
+ Republica, e não haveria ninguem tão insensato que sonhasse fazer
+ uma revolução para conseguir pela força o que se conseguiria, num
+ prazo fatal, pela lei e pela liberdade. Além disso, ninguem faz
+ revoluções por meras fórmas. Nós, os verdadeiros liberaes,
+ duvidamos se não é preferivel uma monarchia, com todas as
+ liberdades efectivas, com todas as descentralisações vivas, ou uma
+ Republica como a francesa, em que o Poder central é omnimodo, e o
+ regimen autonomo local nulo.
+
+ «Depois de 86, fracassadas todas as tentativas para regressar ao
+ antigo caminho constitucional; fracassada a grande, generosa e
+ derradeira tentativa de 93 a 94; com a fazenda publica em
+ bancarrota; com todas as liberdades suprimidas; com a pena de morte
+ restabelecida para os delictos militares e até para certos delictos
+ civis; com a politica do engrandecimento do Poder Real no seu
+ auge,--toda a gente pensa na Republica, porque ella não é já uma
+ questão de mera fórma mas sim um problema organico de vida ou de
+ morte para Portugal...
+
+ * * * * *
+
+ «A anarchia da nação demonstra-se: no interior pelo desencadeamento
+ das forças dissolventes do caciquismo, da plutocracia e a agitação
+ do clericalismo e fóra, pelas mesmas consequencias dolorosas que se
+ seguem a qualquer dictadura progressista ou regeneradora. Depois da
+ dictadura progressista, o ultimatum, a bancarrota, a invasão
+ congreganista, sobresaltando os animos, como no caso da irmã
+ Collecta. Depois da dictadura regeneradora, Kionga, o convenio
+ definitivo da divida, e o fanatismo clerical, irrompendo no caso
+ Calmon.
+
+ «Os partidos estão em dissolução. O regenerador, com dois chefes; o
+ progressista, com a perspectiva tremenda de uma herança
+ tempestuosa. Mas poder-se-hão reconstituir dentro da monarchia?
+ Andam varios nomes de boca em boca: os dos srs. Dias Ferreira,
+ visconde de Chancelleiros, Costa Lobo, Augusto Fuschini, Anselmo
+ d'Andrade e Augusto de Castilho. Viu-se, porém, o caso da monarchia
+ rodear-se d'esses homens de positivo merito? São convidados sequer
+ para as suas festas, que são oficiaes e não particulares?
+
+ «Entenderá e quererá a monarchia apoiar-se nas classes
+ trabalhadoras, visto a burguezia estar contaminada? Foi esse o
+ sonho do socialismo do Estado de Oliveira Martins e talvez o do
+ militarismo democratico de Mousinho de Albuquerque. Mas a monarchia
+ não soube aproveitar-se nem de um nem doutro. Oliveira Martins
+ morria politicamente poucos mezes depois de ser chamado ao governo.
+ Mousinho de Albuquerque não chegou sequer aos conselhos da Corôa, e
+ suicidou-se. A monarchia tinha para a realização desse programma,
+ alem d'esses homens, a voz mais eloquente dos nossos dias, a de
+ Antonio Candido, successor de José Estevão, que teria sabido
+ conquistar as massas populares, e para captar as simpathias
+ internacionaes um diplomata, o marquez de Soveral, que pelas suas
+ maneiras e espirito, é da raça dos Palmellas. Aproveitou-os,
+ porventura? Antonio Candido, desiludido, emudeceu. O marquez de
+ Soveral nada mais pode fazer do que abrandar o protectorado inglez.
+
+ «Hoje as massas afastam-se cada vez mais da monarchia, porque, como
+ tudo se concentrou no Poder Real, todas as responsabilidades se lhe
+ atribuem; o protectorado inglez serve para salvaguarda da
+ monarchia; a ruina financeira do paiz vem da confusão dos dois
+ erarios, e até o jesuitismo, se bem que não se imputa ao rei, é
+ comtudo imputado aos que o rodeiam.
+
+ «Não é licito pois esperar a salvação dentro da monarchia. Por
+ grande que seja a cultura do chefe do Estado, por muito que seja o
+ seu valor, a empreza da nossa regeneração não é para um individuo
+ só. Só a nação é que pode erguer sobre os seus hombros tão imenso
+ peso.
+
+ «E não se diga que a monarchia está identificada com a
+ independencia da patria. A nação foi, com efeito, sempre
+ monarchica; mas desgraçadamente a monarchia tem-se encarnado na
+ monarchia usurpadora dos Filippes, no governo napoleonico de Junot,
+ no governo de Beresford, sob Jorge IV. A monarchia teve um papel
+ soberano no começo da nossa Historia, mas foi-se gradualmente
+ divorciando do povo.
+
+ «E as nossas alianças? Essas não são dos reis, mas dos povos. A
+ aliança da Inglaterra é com Portugal, e não com as suas fórmas de
+ governo.
+
+ * * * * *
+
+ «É indispensavel organisar as forças vivas da nação portugueza.
+ _Organisando-se o partido republicano salvar-se-ha a nação_. É
+ preciso que o partido republicano se transforme em partido do
+ governo, e que cesse com a sua obra de demolição, já feita. Se não
+ pode alcançar logares no parlamento, conquiste-os nos municipios;
+ se não pode intervir no municipio, intervenha na parochia. Não
+ deixe ao abandono nenhum logar, por minimo que seja. E faça
+ sobretudo por apoiar todas as justas reivindicações dos pobres e
+ dos humildes.
+
+ «Deve ser um partido republicano profundamente socialista. Quando
+ os republicanos, por meio de toda a sua campanha, se mostrarem
+ homens de governo, podem estar certos de que a Republica se fará em
+ Portugal como se fez no Brasil, e á maneira do que succedeu em
+ 1871, em França, onde a Assembleia Legislativa, com uma maioria de
+ monarchicos, elegeu para seu chefe o republicano Grévy e para chefe
+ do Estado Thiers, que era um monarchico convertido á Republica.
+
+ «A Republica em Portugal é necessaria para elevar a sua cultura,
+ para acabar com o numero incrivel de analfabetos, para se consagrar
+ á educação do povo. O estado actual o demonstra: _tanto é certo que
+ quando sofre a liberdade sofre tambem com ella a instrucção_.
+
+ «A Republica em Portugal é necessaria para que a religião seja a
+ união das almas pelo amor, como na economia social o é pelo
+ trabalho. As ordens religiosas atacam não só o Estado como a
+ verdadeira religião, cujos primeiros vinculos devem ser o amor da
+ familia, a cooperação economica e o progresso politico da
+ sociedade. O primeiro é combatido e negado pelo voto de celibato; o
+ segundo pelo voto de pobreza, e o terceiro pelo voto de obediencia
+ servil.
+
+ «Torna-se necessario defender a religião como um principio
+ immanente de justiça e de bem, e não como uma superstição e um
+ instrumento politico. O partido republicano não pretende destruir a
+ religião; o que nós pretendemos é tornal-a sincera e pura,
+ tornando-a voluntaria e livre.
+
+ «A aspiração do partido republicano encerra-se nestes tres
+ principios: _liberdade politica, liberdade economica e liberdade
+ religiosa_. Em nome de todos que querem saber, e não podem,
+ oprimidos pela reacção politica, essa infinidade de creaturas
+ analfabetas; em nome de todos os que querem trabalhar e não podem,
+ oprimidos pela reacção economica, essa infinidade de proletarios;
+ em nome de todos os que querem amar e ser bons e em cujo seio a
+ reacção religiosa lança a semente de odio; em nome dessa infinidade
+ de santas e piedosas mulheres que o clericalismo tenta desvairar e
+ arrastar para fóra dos seus deveres; pelos pobres, pelos humildes,
+ pelos fracos, saudemos a Liberdade e com ella o unico partido que
+ hoje a sustenta e defende em Portugal: _o partido republicano_.
+
+ «Se a Republica que não pede senão o restabelecimento e o respeito
+ á lei, não vier bem depressa, corromper-se-ha e perder-se-ha o
+ santo fundo deste povo exemplar, um dos modelos de virtude, de
+ paciencia e de resignação que existem sobre a face da terra».
+
+
+D'outubro para novembro cae o governo, abalado pela questão dos tabacos:
+os homens estão cada vez mais divididos por ambições e interesses. D'um
+lado os Phosphoros, do outro os Tabacos; dum lado o _Seculo_ e o
+Navarro, que ainda ha tres dias (Novembro) teve uma conferencia com o
+José Luciano, dizendo depois á familia:--O José Luciano está cada vez
+mais velhaco!--De outro o Burnay e o seu grupo... Os homens vão dia a
+dia diminuindo de estatura moral! Ainda hontem alguem me contou esta
+anecdota que define uma figura:--O Rebello da Silva era muito amigo do
+Latino--mas muito mais amigo ainda da sua ambição: queria ser ministro
+depressa. Um dia, de repente, cessou com as visitas que fazia ao grande
+escriptor. Tinha descoberto um prefacio antigo, em que o Latino advogava
+a união iberica, e foi para as camaras atacal-o. A questão durou tres
+dias, o governo cahiu, e o Rebello da Silva substituiu o Latino na pasta
+da marinha. Nessa mesma noite procurou-o de novo, e foi encontral-o a
+lêr serenamente uma grammatica russa, cujo estudo interrompera durante o
+tempo do governo.
+
+--Tu já sabes, se queres alguma coisa é como se fosses ministro.
+
+--Eu?!...--e sorriu-se, encolhendo os hombros. Mas tão triste, tão
+sereno, que o outro ficou gelado...
+
+
+ Dezembro--1907.
+
+
+O velho major Fumega, em conversa com outro militar reformado:
+
+--Em 66 o Saldanha d'acordo com o Prim, tinham resolvido proclamar o D.
+Luiz imperador da Iberia. Chegaram a distribuir dinheiro aos sargentos.
+A mim, que era então sargento, deram-me seis contos, para distribuir
+dezoito tostões por soldado. Tornei a entregal-os intactos. Se fosse
+hoje gastava-os no brodio.
+
+--Eu apanhei trezentos mil reis e dei cabo d'eles.
+
+--O movimento abortou, porque foi denunciado pelo Graça, mais tarde
+celebre como major Graça, no 31 de Janeiro, que, depois de assignar as
+actas, como quartel-mestre, descobriu tudo. Era um denunciante, foi-o
+sempre--conclue o Fumega, fumando placidamente o seu cigarro.
+
+
+ Dezembro--1907.
+
+
+O D. Carlos a um oficial do exercito, depois da lucta com o João Franco,
+das descomposturas ao rei, etc.,--e referindo-se aos politicos:
+
+--Tu ouvel-os falar, não é verdade? Pois se lesses as cartas que todos
+os dias me escrevem, e que estão alli n'aquella gaveta, enchias-te de
+nojo!
+
+
+ Dezembro--1907.
+
+
+Conta-me o D. João da Camara:
+
+--A rainha era amicissima do meu irmão, o conde da Ribeira Grande.
+Visitou-o seis vezes durante a sua doença. N'uma das ultimas noites elle
+puxou-a a si, beijou-a, e explicou:
+
+--É como se fosse minha filha.
+
+Já na agonia, ella entrou-lhe no quarto e elle pode ainda dizer-lhe,
+n'um ultimo arranco, estas palavras proheticas:
+
+--Os politicos! Cautela com os politicos!
+
+E ella respondeu-lhe:
+
+--Descanse, não ha-de ter duvida, se Deus quizer.
+
+ * * * * *
+
+Era um pouco apagado, mas bondosissimo. D'uma vez uma senhora foi
+dar-lhe os pezames pela morte do filho. Tinha-lhe tambem morrido um
+filho fazia um mez e desatou a chorar, a falar n'elle, cheia de saudade
+e de lagrimas. E o conde da Ribeira, esquecendo a propria dôr, passou a
+consolal-a...
+
+
+ Janeiro--1908.
+
+
+O Fialho conta, indignado, que a viuva do Eça de Queiroz, a quem o
+Estado dá uma pensão, vae vender uma propriedade no Alemtejo, por cento
+e tantos contos.
+
+--Veja você que pouca vergonha! São uns poucos de kilometros de terra de
+semeadura e montado de azinho e bolota, que sustenta um cento de
+cevados! Bem sei que metade da propriedade é da irmã, da mulher do Luiz
+Osorio... Ainda assim são cincoenta contos. Mas n'este paiz faz-se tudo
+o que o senhor Arnoso quer!...
+
+
+ Janeiro--1908.
+
+
+Um oficial d'armada, ao José de Figueiredo:
+
+--Todos os oficiaes d'armada, á excepção de meia duzia, não podem vêr o
+rei, a quem chamam _o pulha_. Se houvesse em terra um movimento
+republicano, secundavam-no logo.
+
+ * * * * *
+
+Diz-se por ahi:
+
+--Venha tudo, venha o peor, venha o diabo do inferno, que nos livre
+d'isto!
+
+
+ Janeiro--1908.
+
+
+No _Turf_ e no _Club Tauromachico_ joga-se sempre escandalosamente. O
+conde de... lá vae outra vez para a Africa, arruinado pelo jogo no _Club
+Tauromachico_, o visconde de... tambem lá perdeu uma fortuna.
+
+
+ Janeiro--1908.
+
+
+Grosso escandalo com o livro do Albuquerque, _O Marquez da Bacalhôa_.
+Este Albuquerque, conhecido pelo _Lendea_, é o ultimo descendente, pelo
+pae, do grande Afonso d'Albuquerque, e, pela mãe, do grave, do douto
+João de Barros. Ainda aqui ha annos, quando o rei visitou uma terra de
+provincia e se hospedou na casa delle, sahiram das lojas caixotes de
+louça da India, que nunca tinham sido abertos. Elle tem tido uma vida de
+aventuras: bateu-se em duello em Madrid, caçou no Cabo com lords, tocou
+guitarra em Ourville e teve uma loja d'instalações electricas na Italia.
+Agora é jornalista, escriptor, poeta e publica este livro d'escandalo,
+em que a rainha, Senhora na mais alta acepção da palavra, é posta de
+rasto... Mas faça-se-lhe justiça: tudo aquillo--e peor--anda por ahi de
+bocca em bocca ha muito tempo. E não vem de baixo--vem de cima...
+
+ * * * * *
+
+Do Paço mandaram buscar um exemplar á livraria Ferreira.
+
+
+ Janeiro--1908.
+
+
+O rei em Villa Viçosa caça; o João Franco em Carnide dorme com a casa
+cercada de policia. Fala-se em conspirações, na tropa, em transferencias
+d'oficiaes e sargentos. O Maximiliano d'Azevedo disse hoje na livraria
+ao Bernardino Machado:
+
+--Isto cheira a cadaver...
+
+--Cheira a polvora, é que é--respondeu lhe elle.
+
+Espera-se tudo: a falencia, tiros, a revolta. Ha prisões--fala-se em
+mais prisões ainda e os jornaes estão garrotados.
+
+ * * * * *
+
+O Maximiliano d'Azevedo:
+
+--É falso que fosse o Correia de Barros quem matou a Manuela Rey.
+Disse-me muitas vezes a Emilia Adelaide como o caso se passou: Um irmão
+do Tanas (Pereira das Neves) fez a corte á Manuela. Ella aceitou-lha, e
+uma noite o Correia de Barros surprehendeu-os. O Tanas, ao vel-o
+brandindo a bengala, saltou por uma janella. A Manuela fugiu e foi para
+a rua das Galinheiras, para uma casa onde morava a cabeleireira do
+theatro, e deitou-se vestida sobre a cama, a chorar.
+
+Debalde o Correia de Barros lhe perdoou:
+
+--Não! Não!
+
+Chorou--e morreu. Já estava tisica ha muito tempo.
+
+ * * * * *
+
+E conta-me tambem:
+
+--A Emilia das Neves estava n'uma casa de mulheres. Deram com ella por
+acaso. Quem primeiro a ensaiou foi o Garrett. Tinha genio: mal sabia lêr
+e toda a vida deu sylabadas.
+
+
+ Janeiro--1908.
+
+
+O governo retira as munições a alguns regimentos e á marinha: só tem
+confiança na guarda. Diz-me o Schwalbach:--«Ouvi-o da bocca do oficial
+encarregado d'esse serviço. A noite passada retiraram as munições a um
+regimento da capital». Corre com insistencia que o coronel Albano da
+Fonseca morreu envenenado... Os navios de guerra foram desarmados, sob
+pretexto de estudo de renovação e adaptação das munições, que se
+removeram para o serviço de torpedos. O Maximiliano diz-me tambem que
+varias peças do campo entrincheirado ficaram assestadas sobre os navios
+de guerra.
+
+[Figura: _Gomes Leal._--Desenho de Antonio Carneiro.]
+
+ * * * * *
+
+O Fialho está um franquista ferrenho:
+
+--O João Franco já me mandou chamar tres vezes.
+
+E, como eu me espante de o vêr conservador, elle diz:
+
+--Fui-o sempre. Já esse maroto do Arnaldo Fonseca dizia a meu
+respeito:--É um bohemio que trata a roupa com nephetalina!
+
+ * * * * *
+
+A Angela Pinto está com um preto que lhe poz automovel.
+
+--Ó Angela, então tu agora?!
+
+--Vocês que querem? Não andam todos os dias ahi a prégar que o futuro de
+Portugal está nas nossas colonias?
+
+
+ Janeiro--1908.
+
+
+Prenderam hontem o Antonio José de Almeida. O João Barreira conta-me que
+a policia apanhou sessenta rewolveres aos republicanos, mas não
+descobriu os depositos d'armamento. O João Pinto dos Santos diz:
+
+--A prisão de Antonio José d'Almeida é um ensaio. Se virem que as massas
+populares não protestam, desatam a prender a torto e a direito. Eu estou
+aqui estou preso: o João Franco odeia-me.
+
+ * * * * *
+
+Um livreiro:
+
+Fizeram mal em prohibir _O Marquez da Bacalhôa_. Já ha quem tenha dado
+por um exemplar tres mil reis, e o preço corrente é agora de dez a
+quinze tostões... Se o queriam inutilizar aprehendessem-no, tanto mais
+que toda a gente sabia onde era impresso.
+
+
+ 28 de Janeiro--1908.
+
+
+A atmosphera é electrica.--Isto não pode ser! isto não pode
+ser!--ouve-se a cada passo. Toda a gente espera acontecimentos. O boato
+corre de ouvido para ouvido: o comandante da municipal afirmou ao rei
+que não podia contar com a guarda para combater a tropa; ha tumultos no
+Porto e Villa Real; está assignado um decreto expulsando do paiz
+republicanos e dissidentes; e--sabem? sabem?--o movimento é preparado
+pelo João Franco para tomar medidas d'excepção... O Coelho de Carvalho,
+de grandes barbas brancas, sempre ironico, pontifica na livraria
+Ferreira:--Tudo isto obedece a um plano para estabelecer o protectorado
+inglez, com o rei gordo e replecto, e a dotação augmentada em cento e
+sessenta contos, pagos em oiro.
+
+Ás sete da noite encontro o Alpoim que me pergunta ancioso:--Que ha? que
+ha?...--Eu sei... diz-se por ahi que varios oficiaes se reunem no Arco
+da Bandeira....--Só?--E arranca-me das mãos o _Correio da Noite_:--Vem
+feroz! vem optimo!...--No comercio não se desconta uma letra. A rua do
+Oiro não tem metade do movimento habitual. Consta que o João Franco
+disse hontem:--Dá-se-lhes uma sangria...--O que eu lhe posso garantir, e
+sei-o por uma senhora de relações intimas do João Franco--diz o
+Fialho,--é que elle passa as noites sem dormir.--Medo--ou revolução? As
+mulheres vão buscar os maridos ás repartições e aos bancos, outras, na
+previsão de acontecimentos, fornecem-se á pressa nas lojas. Ha nervos na
+atmosphera. A questão dos adeantamentos levantou todo o paiz contra o
+rei. Ha muito que o D. Carlos é visado, discutido e injuriado.
+Atribuem-se-lhe todos os males. O Hintze morreu: foi elle quem matou o
+Hintze com desgostos. Os Braganças são todos ingratos. Que quer o rei? O
+rei só quer dinheiro, o rei chama ao paiz, que despreza, a _piolheira_,
+o rei é um ladrão. Dizem-no até os cavadores d'enxada da provincia:--O
+rei é um ladrão! o rei é um ladrão!--Gera-se não sei que excitação que
+se apega e propaga. Todos estamos debaixo da mesma pressão a que não ha
+fugir. Nas esquinas ainda se vêem farrapos de cartazes, anunciando o
+folhetim _Soror Amelia_, com o retrato da rainha vestida de freira...
+
+O que os jornaes de grande circulação não se atrevem a dizer, o
+_Seculo_, o _Mundo_, o _Noticias_, propala-se de ouvido para ouvido, ou
+publica-o o _Correio da Noite_, do velho José Luciano, que ataca com
+violencia o rei e o governo.--Que há? Que há?--Um policia aliciado pelo
+João Chagas denunciou a revolução; o juiz ao lêr o depoimento do Antonio
+José d'Almeida, exclamou:--Ora até que emfim encontro um homem!--O Cunha
+e Costa pequenino, d'oculos e olho esperto atravez dos vidros:--Vocês
+que querem? Está tudo minado. Hoje, ao entrar na Boa Hora, deparei com
+este quadro: d'um lado da porta um municipal lia _O Mundo_, do outro,
+outro municipal lia _A Lucta_.
+
+E no entanto a vida segue o seu curso habitual: todas as noites
+enchentes nas revistas, _Ou vae... ou racha, Pr'a frente!_ Todas as
+noites o mesmo falatorio no Rocio, o mesmo formigueiro humano seguindo
+as suas manias, as suas ambições, os seus interesses...
+
+ * * * * *
+
+Os populares atacaram as esquadras. No largo do Rato um bando, que
+queria matar o João Franco, entrou n'um café. A policia tentou
+apalpal-os--defenderam-se a tiro. Um cahiu varado: e retiraram em ordem,
+fazendo fogo. Na esquadra dos Terramotos trocaram ainda balas com os
+guardas. Havia um plano de revolução? É fóra de duvida. Lançaram-se
+bombas que não explodiram a varias esquadras--á do Campo de Sant'Anna,
+por exemplo. A policia estava, prevenida, e prendeu-os, quando um grupo
+de dissidentes, Alpoim, João Pinto, Ameal, etc., se dirigia para o
+elevador da Bibliotheca, no intuito de lançar um foguetão, que desse o
+signal á esquadra e a varios grupos que, ao mesmo tempo e em diferentes
+pontos, deviam assaltar os quarteis. Só o Alpoim e o Ameal conseguiram
+fugir. No elevador havia armas, destinadas ao ataque dos correios e
+telegraphos. No forte de Caxias estão presas 93 pessoas, e presos estão
+tambem o Afonso Costa, o João Pinto dos Santos, o Ribeira Brava, etc. A
+policia desandou então a prender a tôrto e a direito. O José de
+Figueiredo que mora no Campo de Sant'Anna, por cima da esquadra, ouviu
+isto: Ao telefone, o chefe da esquadra para o governo civil:--Já
+prendemos quatro.--Prendam mais.--Era preso quem passava na rua.
+
+Á revolução adheriam varios oficiaes e toda a armada. Havia fanaticos
+decididos a correr a municipal á bomba, e todo o trabalho do directorio
+parece que foi sustel-os á ultima hora. Varios bandos foram prevenidos
+logo que o signal falhou. Os que esperavam no café do Rato, a hora do
+assalto á casa do João Franco, foram presos. Um creado do Moura Cabral,
+que m'o contou, foi aliciado para atacar a esquadra da Graça--e
+deram-lhe um rewolver e bebidas. Em diversas partes tem sido encontradas
+bombas, e diz-se que quem denunciou um deposito d'armas, escondido em
+casa d'um negociante, foi uma irmã dum actor de D. Maria.
+
+ * * * * *
+
+--Isto--toda a gente o afirma--acaba logicamente no atentado pessoal.
+
+
+ 30 de Janeiro--1908.
+
+
+Corre com insistencia que o João Chagas morreu d'uma pleurizia no
+hospital.
+
+ * * * * *
+
+Os _bufos_ são aos centos. Pára-se a conversar--tem-se logo um _bufo_ á
+perna. O Baracho procurou hoje o ministro da guerra e declarou-lhe:
+
+--Eu não conspiro; portanto não me mandem espionar, senão corro os
+_bufos_ a tiro. Se desconfiam de mim, julguem-me, que eu me defenderei.
+E deixe-me tambem dizer-lhe uma coisa: Os senhores não hão-de ser sempre
+ministros. Se me incomodam ou me infamam, quando deixarem de o ser, eu
+lhes tomarei as responsabilidades.--Ao que o ministro respondeu:--Se
+soubesse, general, as saudades que eu tenho do meu caminho de ferro!...
+
+ * * * * *
+
+Tem sido tambem presos alguns oficiaes do exercito. E o Fialho faz
+_blague_:
+
+--Desde que a policia entrou no caminho das descobertas, foi dar com a
+escripturação completa da revolta. Tudo por ordem e por partidas
+dobradas. Uma revolução burocrata!
+
+
+ 31 de Janeiro--1908.
+
+
+Sabem qual é a impressão geral? Pena de que o movimento gorasse.
+
+ * * * * *
+
+Até as mulheres estão furiosas com o Franco. Ha-as que dizem:--Eu vou
+matal-o!--Mas ha tambem quem o defenda e aplauda como nenhum ministro
+foi defendido e aplaudido. Um padre franquista barafusta em plena rua do
+Ouro:
+
+--Eu até agora dizia que o João Franco tinha uns c... que não cabiam em
+Lisboa. Agora não, agora digo bem alto: o João Franco tem uns c... que
+não cabem em Portugal!
+
+ * * * * *
+
+O Bernardino Machado:
+
+--Sabe o que isto parece? Parece que o rei disse ao João Franco,
+entregando-lhe uma carabina:--«João arranja-me dinheiro».--O João Franco
+executa.--«João torna a levar a carabina e traz mais dinheiro».--E a
+atitude vergonhosa das nações estrangeiras que assistem com aplauso a
+este espectaculo! Porquê? Pelo que eu disse um dia d'estes a um
+negociante francez:--Ha um dictado em Portugal que explica
+tudo:--Ladrões não se encobrem de graça!
+
+
+ 1 de Fevereiro--1908.
+
+
+O João Franco responde aos clamores e á revolta com o decreto d'hoje:
+
+
+ Senhor--São bem conhecidas de Vossa Magestade as occorrencias dos
+ ultimos mezes, em que uma pequena minoria d'elementos
+ revolucionarios criminosos tem ultimamente procurado impedir a vida
+ politica e representativa do Paiz, alterar a ordem publica e pôr em
+ perigo a segurança das pessoas e das propriedades.
+
+ Imperturbavelmente tem o governo obedecido ao proposito de limitar
+ a acção das medidas de circumstancia á esphera restricta de
+ legitima defeza social, reduzindo-as ao que de momento se tem
+ afigurado absolutamente indispensavel, sempre na esperança de que
+ essa publicação fosse um meio preventivo sufficiente e constituisse
+ aviso efficaz aos agitadores.
+
+ D'essa ordem d'ideias derivaram o decreto de 21 de Junho sobre
+ publicações attentatorias da ordem publica e o de 21 de Novembro
+ sobre crimes contra a segurança do Estado, das pessoas e das
+ propriedades.
+
+ Factos dos ultimos dias vieram, porém, demonstrar que as tentativas
+ e propositos criminosos, longe de afrouxarem, se teem mantido
+ obstinadamente e aggravado a ponto de ser urgente e indispensavel o
+ rapido afastamento do nosso meio social dos principaes dirigentes e
+ instigadores d'esta pertinaz conspiração contra a paz publica e
+ segurança do Estado antes que perdas lamentaveis de vidas venham
+ accrescentar se ás desgraças já occasionadas e, porventura,
+ originar prejuizos irremediaveis ao credito publico e á fortuna
+ nacional.
+
+ Ha poucos dias ainda, o governo da Nação vizinha apresentou ás
+ côrtes um projecto de lei que auctoriza a fazer sair do reino por
+ deliberação do conselho de ministros, sob prévia informação das
+ auctoridades locaes, as pessoas que pertençam a associações hostis
+ á ordem social e que de semelhantes principios façam propaganda, e
+ como sejam estes factos muito graves e perigosos, seguramente não o
+ são mais nem podem ter mais larga, mais profunda repercussão em
+ toda a vida nacional que os tramas e attentados para mudar violenta
+ e criminosamente a forma de governo de Estado.
+
+ N'essa ordem d'ideias, procuramos com o presente diploma, habilitar
+ tambem o governo com a faculdade d'expulsar do Reino ou fazer
+ transportar para uma provincia ultramarina aquelles que, uma vez
+ reconhecidos culpados pela auctoridade judicial competente, importe
+ á segurança do Estado e tranquillidade publica e interesses geraes
+ da Nação afastar, sem mais delongas, do meio em que se mostrarem e
+ tornarem perigosa e contumazmente incompativeis.
+
+ Não podem, por egual, gosar immunidades parlamentares aquelles que
+ contra a segurança do proprio Estado se manifestam ou que como
+ inimigos da sociedade se apresentam.
+
+ Taes são, Senhor, as principaes disposições do diploma que tenho a
+ honra de submeter á apreciação de Vossa Magestade.
+
+ Paço, em 31 de Janeiro de 1908. _João Ferreira Franco Pinto
+ Castello Branco_--_Antonio José Teixeira d'Abreu_--_Fernando
+ Augusto Miranda Martins de Carvalho_--_Antonio Carlos Coelho
+ Vasconcellos Porto_--_Ayres d'Ornellas de Vasconcellos_--_Luciano
+ Afonso da Silva Monteiro_--_José Molheira Reymão_.
+
+
+ * * * * *
+
+O Alpoim fugiu para a Hespanha.
+
+ * * * * *
+
+O Cunha e Costa:
+
+--Ha mais de duzentas pessoas apostadas em matar o João Franco. Isto
+acaba por um atentado pessoal.
+
+
+ 1 de Fevereiro--1908.
+
+
+Está uma tarde linda, azul, morna, diaphana. Converso na livraria
+Ferreira com o Fialho, quando entra esbaforido e palido, o pintor Arthur
+de Mello, que conheço do Porto, e diz n'um espanto, ainda
+transtornado:--Acabam de matar agora o rei!--O quê?!--Eu vi, ouvi os
+tiros, deitei a fugir...
+
+Fecham-se á pressa os taipaes das lojas. Uma mulher do povo
+exclama:--Mataram agora o rei. Vi os que o mataram. Eram tres. Dois lá
+estam estendidos. Passou um agora por mim, a rasto, com a cabeça
+despedaçada!...--Ha palmas para o lado da praça da Figueira. Anoitece.
+Um esquadrão desemboca da rua da Mouraria... Mais tarde no comboio, um
+empregado do Jorge O'Neill confirma:--Vi do escriptorio um policia
+correr atraz d'um dos assassinos. A certa altura cahiu-lhe o chapeu: era
+calvo. O policia varou-o com um tiro.
+
+E pela narração do Mello, do Armando Navarro e d'outros, que assistiram,
+reconstituo assim a tragedia:
+
+O comboio descarrilara. Seguia atrazado. Durante o trajecto o rei não
+fumou nem jogou, como costumava. Vinha aprehensivo e a autopsia
+demonstrou mais tarde que não tinha comido n'esse dia.
+
+O Malaquias de Lemos contou que na vespera, em Villa Viçosa, o rei
+jogara com o principe. Era ao entardecer. Na chaminé um grande brazeiro.
+Trouxeram-lhe uma carta. Para a lêr melhor, levantou-se, chegando-se á
+janella. Duas vezes a percorreu com a vista, e depois rasgou-a em
+bocadinhos que atirou ao lume. Petrificou-se um momento envolto na
+sombra...--El-Rei não joga?--perguntou o principe.--Jogo,
+jogo...--Sentou-se, jogou, mas tão preocupado que quasi não jantou
+n'esse dia nem almoçou no seguinte.
+
+Nem uma nuvem. «Tarde sem par»--escreveu Ramalho.--Linda tarde para uma
+bomba--exclama uma menina da alta, na ponte da estação. Havia, é
+natural, um certo receio, e a duqueza de Palmella, ao ouvido de João
+Franco:--Não haverá perigo?--V. Ex.^a vae ver que ovação!--Tinha-lha
+preparada para a recita da noite, em S. Carlos. O rei e a rainha
+detiveram-se uns minutos, com o João Franco e o Vasconcellos Porto, que
+queria mandar vir um esquadrão de cavalaria para acompanhar o rei. D.
+Carlos opoz-se. O carro descoberto partiu a chouto, com toda a familia
+real junta. Ao pé da estatua um grupo... Dissiminados pela Arcada alguns
+policias, e, sentado n'um banco da praça um homem de varino, que veio,
+sem precipitação, colocar-se á porta do ministerio do reino[6].
+
+Os empregados da fazenda tinham-no notado. Seria um bufo? Os bufos eram
+tantos, que se não conheciam uns aos outros.--«Eu assisti--diz o
+Navarro.--Fui para lá uma hora antes fumar o meu charuto. Tres descargas
+cerradas partiram da Arcada do ministerio da fazenda. Ficou tudo
+desorientado. Os policias deitaram a fugir»... Um negociante da rua de
+S. Julião teve de os sacudir da escada. «Eu estava a quatro
+passos--confirma o pintor Mello. Um homem subiu ás trazeiras do carro,
+olhou o rei cara a cara e deu-lhe um tiro de rewolver. Vi um fumosinho
+branco sahir-lhe do pescoço. O rei voltou-se, e, cem annos que eu viva,
+nunca mais me esquece a expressão de espanto d'aquella mascara. Disse
+uma palavra que não percebi bem»...--«Ao primeiro tiro--continua o
+Navarro--a cabeça do rei descahiu para a frente, ao segundo tombou para
+o lado». O Buiça, que tirára a carabina debaixo do gabão, apontava e
+descarregava. O principe real ergueu-se--cahiu varado. A rainha, louca
+de dôr, sacudia o Alfredo Costa com um ramo de flores.--Então não
+acodem?! Não ha quem me acuda?!--Ninguem. Um cartuxo falhara ao Buiça:
+sacou-o, e ia apontar outra vez, quando o Francisco Figueira o estendeu
+á cutilada. Ouvi que, logo aos primeiros tiros, alguem procurara
+intervir--mas uma roda de gente desconhecida protegeu-o. Succederam-se
+então os tiros sem interrupção. Muita gente falou em descargas... A
+policia disparava os rewolveres a torto e a direito. O Correia de
+Oliveira esteve para ser morto:--Vinha de chapeu alto e foi o que me
+valeu!... Um policia avançou direito a mim com o rewolver apontado,
+exclamando como um doido:--Matei agora um! matei agora um!
+
+ * * * * *
+
+Correu hoje que o João Franco se suicidára e que o tinham acabado a tiro
+quando sahia do Paço.
+
+ * * * * *
+
+O infante D. Afonso seguia desvairado atraz do carro, com o rewolver em
+punho, dizendo:
+
+--O mano nunca quiz ouvir os conselhos da mãe!
+
+Depois, no Arsenal, para onde foram conduzidos o rei e principe, teve
+este movimento colerico: bater no João Franco.
+
+ * * * * *
+
+Acusam á boca cheia o João Franco--que não tomou precauções para o
+rei--de se meter por um corredor quando foi ao Arsenal, e de, mais
+tarde, endireitar por uma cavalariça, para se enfiar na carruagem. De
+alguns ministros diz-se que, aos primeiros tiros, se esconderam no sotão
+dos ministerios entre a papelada e as cadeiras sem fundo.
+
+ * * * * *
+
+A rainha no Arsenal disse ao João Franco:
+
+--Veja a sua obra...
+
+ * * * * *
+
+O rei chegou ao Arsenal já sem vida; ao principe custou-lhe muito a
+morrer. Foram ungidos depois de mortos. O padre não teve escrupulos,
+porque os medicos garantiram-lhe que a vida podia prolongar-se por meios
+artificiaes.
+
+ * * * * *
+
+Do Arsenal seguiu a marcha tragica para as Necessidades; n'um carro a
+rainha e o D. Manuel, n'outro carro o cadaver do rei, que a custo
+conseguiram meter lá dentro, e que o oficial de serviço amparava, e, no
+ultimo, o duque de Bragança. Que se iria seguir? A revolução? Um
+negrume, o terror do inesperado, afasta do Paço todos os que lá deviam
+estar áquella hora. Vem a noite... Se seis tambores fossem rufar para
+deante do Paço a monarchia acabava hoje mesmo. Espera-se tudo, espera-se
+o peor. E cada um trata de não se comprometer, ou de se comprometer o
+menos possivel...
+
+ * * * * *
+
+Phrase cruel d'um popular:
+
+--Foi caçado como elle caçava os javardos--e em tempo defezo.
+
+ * * * * *
+
+No dia dois, depois da morte do rei, foram assaltados alguns quarteis,
+evidentemente chamando as tropas á revolução. Em artilharia os soldados
+sahiram das casernas e fizeram fogo: os oficiaes não os puderam conter.
+Em Campo d'Ourique houve tiroteio. No alto da Avenida ficaram estendidas
+vinte e tantas pessoas.
+
+ * * * * *
+
+A caminho do Paço, depois do atentado, o pequeno dizia:
+
+--Vamo-nos embora! vamo-nos embora!...
+
+E a rainha:
+
+--Has-de cumprir o teu dever até ao fim.
+
+[Figura: _D. Carlos I de Portugal._]
+
+O organisador da revolta militar era Candido dos Reis, oficial superior
+da armada. Muitos oficiaes se reuniam no Arco da Bandeira.
+
+ * * * * *
+
+Na tarde do regicidio estavam na Arcada homens com faixas á espanhola e
+as faixas cheias de bombas. Diz-se tambem que havia varios grupos
+postados nas esquinas até ás Necessidades.
+
+ * * * * *
+
+A rainha, quando o João Franco chegou ao Paço:
+
+--Foram portuguezes?
+
+--Foram.
+
+--Ahi tem o que o senhor fez dos portuguezes.
+
+E a Maria Pia, que há muito o não pode ver:
+
+--Diziam por ahi que o senhor era o coveiro da monarchia, mas o senhor
+foi peor, foi o assassino do meu filho e do meu neto!
+
+Isto cheira a phrase feita, mas como esta repetem-se, insiste-se,
+inventam-se outras mais.
+
+ * * * * *
+
+O João Franco tinha perdido a cabeça. Só elle mandava: não queria ouvir
+ninguem. Quando fugiu d'uma esquadra um homem que estava preso pelo
+fabrico de bombas, o juiz d'instrucção criminal foi-lhe dar parte do
+caso. Ficou furioso:
+
+--Vá beber da merda!
+
+--Digo a V. Ex.^a que a policia não teve culpa...
+
+--Vá beber da merda o senhor e a policia!
+
+--Mas...
+
+--Vá beber da merda! vá beber da merda! vá beber da merda!
+
+ * * * * *
+
+Diz-se que o Alpoim estava escondido em casa do Teixeira de Souza e que
+fugiu emquanto a policia lhe cercava a casa.
+
+ * * * * *
+
+Paçô Vieira:
+
+--Na noite do regicidio fui ao Paço, com o Campos Henriques. O Julio de
+Vilhena, a quem procurei em casa, não foi porque lhe faltava um botão na
+braguilha. Assisti a tudo: tiraram o rei e o principe de dentro do
+carro. O rei estava disforme. A rainha, se tinha dito alguma coisa
+desagradavel ao João Franco no Arsenal, no Paço não lhe disse palavra. A
+Maria Pia perguntava de quando em quando:--A morte do rei será muito
+sentida?--Estava tudo preparado para uma revolução. O Afonso Costa não
+deu o signal porque esperava a morte do Franco. Pormenor absolutamente
+authentico: o João Franco ainda se ofereceu para governador civil de
+Lisboa.
+
+--Na noite tragica o Antonio Candido foi dos raros que apareceram no
+Paço. Estavam lá tambem o Campos Henriques e o Teixeira de Souza. Mais
+ninguem--nem sequer o corpo diplomatico. Esperava-se a cada momento a
+revolução. Os creados carregaram em padiolas pelas escadas acima os
+corpos do rei e do principe. A D. Amelia passeava na sala de cá para lá,
+infatigavelmente. Passou, perguntou-lhe:--Que diz o Antonio
+Candido?--Elle não respondeu e ella continuou a passear de cá para lá
+como um automato. A rainha velha estava sentada n'uma cadeira, sem uma
+palavra, sem uma lagrima, d'olhos vitreos fixos na parede. E assim ficou
+horas, muda e de pedra, emquanto a D. Amelia passeava na sala, de cá
+para lá, infatigavelmente...
+
+
+ 3 de Fevereiro--1908.
+
+Venho agora de Lisboa e--caso curioso--a impressão geral é d'alivio.
+Respira-se. Estava muita gente n'um grupo: o João Barreira, o Armando
+Navarro, o Rangel de Lima, o Antonio Arroyo, o Columbano, o Maximiliano
+d'Azevedo, e todos concordaram em que o rei era mau e quasi glorificaram
+os homens que o assassinaram.
+
+--Era um pulha, um pulha e um doido. Vejam o retrato que vem estampado
+no _Je sais tout_... Era elle quem escrevia cartas anonimas á propria
+mulher--afirma o João Barreira.
+
+--Foi um grande exemplo e uma tremenda lição.
+
+--Se escapa tinhamos ahi uma dictadura feroz. Era capaz de tudo!
+
+Só o Manuel Ramos, obstinado e cego, teima:
+
+--A memoria do rei há-de ser rehabilitada.
+
+ * * * * *
+
+No conselho d'estado o João Franco foi absolutamente inconsciente. Por
+proposta do Julio de Vilhena não se leram as actas da sessão anterior,
+como é costume, para lhe não ser completamente desagradavel.
+
+ * * * * *
+
+O João Franco teimou até á ultima, agarrou-se a tudo, para meter um
+ministro no governo--o Penha Garcia. Disseram-lhe:
+
+--Mas não pode ser, bem vê que o governo tem de revogar a maior parte
+das suas medidas.
+
+--Mas eu concordo com isso. Eu escrevo até uma carta concordando com
+isso.
+
+ * * * * *
+
+A ultima piada do ministro dos estrangeiros, Luciano Monteiro:
+
+--Então V. Ex.^a não faz testamento?
+
+--Não, o rei tambem o não fez...
+
+ * * * * *
+
+O rei e os principes traziam rewolveres comsigo. Afirma-se que o
+principe real e o infante D. Manuel ainda chegaram a dar dois tiros n'um
+dos assassinos.
+
+ * * * * *
+
+Hoje correram boatos de revolta no Porto, de ter chegado a Cascaes uma
+esquadra ingleza, etc.. Tudo falso.
+
+ * * * * *
+
+No Paço, na camarilha, havia dois partidos, o do rei e o da rainha. O da
+rainha está agora de cima.
+
+ * * * * *
+
+Insiste-se em que se o rei escapasse ao atentado havia uma hecatombe.
+Diz-se que o Fontes, que tinha a qualidade intuitiva de conhecer os
+homens, dizia de D. Carlos:--«Nunca o pude perceber».
+
+ * * * * *
+
+Agora voltam-se as atenções para o novo rei. Dizem:--É Saboia.--No
+conselho d'estado foi simpatico. Chorou, entregou-se nas mãos dos que o
+ouviam:--Não estou preparado para reinar.
+
+Os irmãos adoravam-se. O que foi assassinado zangava-se quando este lhe
+chamava _prior do Crato_. D. Luiz Fillipe era mais reflectido. Este é
+mais impetuoso--mas tem melhor coração.
+
+
+ Fevereiro--1908.
+
+
+Nos ultimos tempos o rei tinha scenas violentissimas com a D. Amelia.
+
+ * * * * *
+
+A impressão no Porto foi curiosa: Quem ás onze horas da noite passava na
+praça de D. Pedro via muita gente aos grupos de dez a onze pessoas cada
+um. Ninguem discutia, não se falava alto. Era um borborinho de quem
+conversa em segredo, a medo--ch... ch... ch...--ao ouvido. A noticia
+soube-se pelo telephone do Borges & Irmão.
+
+ * * * * *
+
+Foi no automovel do Baltar do _Janeiro_ que o Alpoim se safou para a
+Hespanha.
+
+ * * * * *
+
+As Anjos contaram á D. Maria Augusta que o electricista de S. Carlos
+tinha tudo preparado para o D. Carlos morrer quando se encostasse ao
+rebordo do camarote no theatro.
+
+O homem suicidou-se quando se viu descoberto.
+
+ * * * * *
+
+O novo rei não gosta de _sport_. Sofre de reumatismo. Adora a musica. Em
+pequeno dizia:
+
+--Reger uma orchestra n'uma grande sala e ouvir no fim os aplausos do
+publico, isso sim, é que é gloria!...
+
+As meninas da alta roda, falando d'elle, diziam desdenhosas:
+
+--Isso são _mariquices_ do senhor infante.
+
+ * * * * *
+
+Uma velha, a tia Julia, da familia Bordallo:
+
+--Coitadinho do principe! Parecia mesmo uma menina!... E não estava
+estragado como estes rapazes d'agora. Tinha uma carinha de menina. E não
+era porque elle não _tivesse vontade_, era porque _o não deixavam!_...
+
+ * * * * *
+
+Muita gente que tinha bombas em casa tem-nas deitado ao rio.
+
+ * * * * *
+
+Da camarilha contam-se coisas como esta. Alguem me diz:
+
+--Conheço uma senhora muito de bem, a quem este e aquelle (e cita os
+nomes) foram fallar da parte do rei, para ir a bordo do _yacht_. Ella
+deu-lhes uma desanda tremenda.
+
+ * * * * *
+
+O João Franco já tinha organisado listas de proscripções. A alguns
+administradores de concelho foram enviadas circulares, pedindo o nome
+dos individuos que na localidade entravavam a marcha do governo.
+
+ * * * * *
+
+O pae do João Franco e os redactores do _Jornal da Noite_ foram corridos
+do Suisso.
+
+ * * * * *
+
+Trindade Coelho conta que João Franco, nas vesperas dos acontecimentos,
+foi consultar a bruxa--M.^{me} Brouillard, uma transmontana esperta que
+ahi está em Lisboa.
+
+ * * * * *
+
+Já ha seis contos para a familia do Buiça. Muita gente lhe arrancou
+botões, cabellos, bocados de vestido. João de Deus Guimarães foi vel-o á
+_morgue_. Era prohibido tocar no cadaver. Entrou em conversa com o
+guarda:
+
+--Ah! O Buiça tem ainda o braço rigido!
+
+--Qual!
+
+--Parece...
+
+--Já teve, já, mas agora está lasso.
+
+--Mas olhe que...
+
+E aproximando-se do cadaver correu-lhe a mão pelo braço, como quem
+apalpa, e deu-lhe _um formidavel aperto de mão_.
+
+O _frigorifico_ é um buraco, e os tres cadaveres foram atirados uns por
+cima dos outros a trouxe mouxe, de mistura com pedaços de gelo. Toda a
+gente tira o chapéu e fala baixinho. O regicida está amarfanhado, com
+lama na barba e nos cabellos. Seus olhos não são olhos de
+morto--exprimem espanto e colera, e a figura é séria, é tremenda. Tem
+rasgões, feridas na cara, e mãos nervosas, mãos delicadas de mulher.
+
+ * * * * *
+
+Diz hoje um professor que conheceu o Buiça:
+
+--Era um homem profundamente serio e que protestava sempre com colera,
+quando se lhe falavam em politica:--Não me falem em politiquices! não me
+falem em politiquices!
+
+ * * * * *
+
+O João Pinto dos Santos:
+
+--Emquanto estive preso alimentei-me de vegetaes e de odio. Nos
+primeiros dias aquillo impressionou-me; mas logo que tive livros
+serenei... Queriam fechar as janellas, mas eu disse ao Malaquias de
+Lemos:--O ar não! o ar não m'o tirem, prefiro morrer! E tambem lhe peço
+que quando bater á porta m'a abram logo, senão não aguento. Antes duas
+balas!--Deixaram-me a janella aberta... Mandei vir uns poucos de fatos,
+calças de verão, d'inverno, etc.--para ter a sensação de que estava
+livre. Depois emprestaram-me livros. Entre outros um volume de viagens
+na China, onde ha algumas paginas sobre a vida da mulher chineza. E
+aquillo fez-me chorar, tão certo é que a desgraça nos aproxima dos
+desgraçados. Afinal chegaram os livros que tinha pedido, um compendio
+francez de philosophia, sete calhamaços de economia politica--e fui
+quasi feliz. O juiz interrogou-me:--Porque está preso?--Não sei.--Há uma
+testemunha que o viu no elevador da bibliotheca.--É falso. Estava n'uma
+casa perto da bibliotheca, para combinar com o Alpoim e alguns amigos a
+nossa atitude perante as prisões que estavam sendo feitas.--Chamou-se um
+policia a quem o juiz perguntou: --Conhece o snr. João Pinto dos
+Santos?--Não senhor.--Diante d'isto é claro que o juiz tinha de me
+mandar embora. Que imagina que fez o João Franco? _O João Franco avocou
+o processo a conselho de ministros e condemnou-me!_ Era odio pessoal. Na
+municipal fui sempre bem tratado.
+
+--E souberam?
+
+--Alguma coisa presentimos na noite em que foi atacado o regimento de
+Campo d'Ourique. Supozemos uma revolução gorada. Se atiram bombas ao
+quartel eramos indubitavelmente fuzilados. Uma noite ouvimos formar as
+tropas, carregaram com precipitação as armas, um oficial passou a correr
+e diante do meu quarto bradou á sentinella:--Cuidado com esse
+sujeito!--O Chagas disse-me hontem que, quando chegou á janella, um
+soldado lhe fez um _manguito_. Os oficiaes é que continham a
+soldadesca--mas até onde?
+
+--E disse no seu depoimento que havia de matar o João Franco?
+
+--É falso; o comandante da guarda falou-me n'isso e eu
+respondi-lhe:--Bem vê V. Ex.^a que não quero que meus filhos possam
+dizer:--Meu pae foi um assassino.--Isso não! Mas se um dia, depois de o
+insultar bem insultado, n'uma discussão em plena camara, elle avançar
+para mim, deito-lhe as mãos ás guellas, e nem V. Ex.^a nem toda a guarda
+municipal m'o arrancam das unhas!
+
+ * * * * *
+
+Ha quem diga do João Franco:--Foi sempre um cobarde. Em Coimbra a
+valentia vinha-lhe do José Lobo e dos irmãos, uns tipos d'aquelle
+feitio, e agora da municipal e da policia. O pae era a mesma coisa, e o
+tio, o _Mil diabos da capinha_, dava tiros e fazia disturbios sempre que
+tinha as costas quentes.
+
+ * * * * *
+
+João Franco fazia cincoenta e quatro annos este mez de Fevereiro.
+
+
+ 8 de Fevereiro--1908.
+
+
+É hoje o dia do enterro. Essa gente que veio de fóra para assistir ao
+funeral, principes, duques, generaes, diplomatas, está cheia de medo. E
+por ahi diz-se á bocca cheia:
+
+--Ainda bem que foram portuguezes os que executaram o rei. É a primeira
+vez que um rei portuguez morre ás mãos do seu povo. Até agora acabavam
+ás mãos das camarilhas.
+
+ * * * * *
+
+Não me sae dos olhos este quadro do enterro. Esperam-se bombas... Os
+sinos tocam, todos os sinos das egrejas; rufam os tambores cobertos de
+luto. Desfilam coches com principes e carros com fardas. Um homem
+apregoa:--_O ultimo granadeiro!_ quem quer _O ultimo granadeiro?_--Mais
+carros, mais coches, o filho do imperador da Allemanha, guardado por uma
+escolta de prussianos, que o pae mandou com elle com medo que lh'o
+matem. Tropas em fila, carroças de gala, generaes, diplomatas glabros,
+com o olho desconfiado e vontade que aquillo termine depressa... Agora a
+carroça com o sceptro e a corôa, e outra com crepes a rasto como se
+levasse o luto da monarchia.--_O ultimo granadeiro!_...--Mais coches, e
+aqui e alli o desfile cortado pela multidão irrespeitosa. Um laivo de
+grotesco na tragedia, riscos exagerados de carvão que fazem medo...
+Phisionomias lividas nas fardas pomposas, decorações, gente que mal se
+atreve a olhar a plebe temerosa--silencio e um largo ah! a que se segue
+uma gritaria d'inferno. Bicha de carros interminavel, mortos por
+largarem n'uma abalada de pavor--carros funerarios passando entre a
+indiferença gelada--farrapos de multidão que atravessam o prestito
+propositalmente, tropas esbandalhadas, corôas que parecem velhas... E
+por fim mais tropas e o mesmo grito insistente:--_O ultimo granadeiro!_
+quem quer _O ultimo granadeiro?_...
+
+Dias mais tarde havia sujeitos que se chegavam á beira das pessoas que
+deitavam luto e perguntavam-lhe com ar de troça:--Então morreu-lhe
+alguem da familia?...
+
+ * * * * *
+
+O Correia d'Oliveira:
+
+--Se visse!... Quasi ninguem tirava o chapeu quando o enterro passou...
+A sombra do rei comeu, sumiu a do principe.
+
+ * * * * *
+
+Tem-se distribuido muitos papeis com estes dizeres:
+
+
+ Morte aos Sanguinarios Afonso Costa, Alpoim, Ribeira Brava, os
+ Verdadeiros Assassinos
+
+ DE EL-REI E DO PRINCIPE REAL.
+
+
+E outros, escriptos á machina, atribuindo o crime a este e áquelle...
+
+ * * * * *
+
+A preocupação do rei é esta:
+
+--N'este caso que faria D. Pedro V?
+
+ * * * * *
+
+O João Franco possue cartas do rei, em que elle lhe apontava escandalos
+em diferentes secretarias.
+
+ * * * * *
+
+O dr. Curry Cabral, que é um homem ponderado, disse em casa das
+Thomares:
+
+--Ha cinco annos que o João Franco está doido.
+
+E o Silva Bastos, que foi da sua intimidade:
+
+--Ás vezes avançava para a gente de punhos fechados, n'um phrenesi.
+Depois dava-lhe a nevralgia e deitava as mãos á cara ou desatava aos
+berros--e, n'um instante, como n'uma roda que gira vertiginosamente e
+vae passando por dois buracos, lia-se-lhe nos olhos, sucessivamente e
+sem interrupção, colera, despreso, ambição, serenidade, medo, orgulho,
+riso, ferocidade, paz, vertigem...
+
+ * * * * *
+
+E outro:
+
+--Era a obra de Martins posta em pratica por um doido. Sómente o Martins
+dissera, arrependido, a Junqueiro:
+
+--Nas penitenciarias está gente muito melhor que o rei.
+
+
+ 11 de Fevereiro--1908.
+
+
+Espalha-se que, se isto não socegar, o rei e a rainha se vão embora e o
+estrangeiro toma conta das colonias. Pede-se repressão. Diz-se que há
+oficiaes de artilharia e cavalaria que querem fazer uma _intentona_--e
+os politicos já se não entendem por causa das nomeações dos governadores
+civis!
+
+ * * * * *
+
+O João Chagas surge na livraria, mais gordo, com um esplendido casacão
+alvadio:
+
+--Tenho estado preso diferentes vezes, mas nunca senti tanto a falta de
+liberdade como d'esta. Das outras falava, tinha ar e luz á minha
+disposição. Agora foi a incomunicabilidade absoluta. E, se atirassem
+bombas ao quartel, eramos despedaçados. E eu, que sabia que alguns
+grupos tinham combinado tudo como quem resolve um problema--dizia
+comigo:--Se esses diabos não têm a caridade de se lembrarem de nós,
+estamos perdidos!--Um dia á noite tive a impressão nitida de que iamos
+ser fusilados. Ouvi reboliço, as tropas carregaram as armas, e até senti
+que, com a precipitação, deixavam cahir alguns cartuxos. Tentei
+espreitar por um postigo. Um oficial que passou correndo disse á
+sentinela:--Cuidado!--O frio era mortal. O soldado encostou-se á
+porta--não pude espreitar. Ignorava tudo. Estendi-me em cima da cama e
+só ás quatro horas da manhã sucumbi de cansaço... Que horas! É horrivel
+morrer assim sem lucta. Cheguei a fazer um pequeno testamento...
+
+[Figura: _Oliveira Martins._--Desenho de Antonio Carneiro.]
+
+E o João Pinto dos Santos:
+
+--Pude ver d'uma vez o _Diario Illustrado_, nas mãos d'um soldado, com o
+retrato do rei, mas calculei:--chegaram de Vila Viçosa.
+
+--Mas nem sequer reparou na tarja de luto?
+
+--Eu não. O Antonio José d'Almeida diz que reparou e que desconfiou que
+o rei tinha sido morto.
+
+--Os oficiaes--continua o Chagas--trataram-me muito bem, mas á despedida
+disse-lhes:--Agradeço-lhes muito a amabilidade com que me trataram, mas
+para outra vez prefiro ir para a Penitenciaria. Lá talvez chegue algum
+rumor.
+
+E conclue:
+
+--Acalmação sim, acalmação, se assim o entenderem, _durante alguns
+mezes_. Ah não foi em vão que trabalhamos vinte annos!...
+
+ * * * * *
+
+Fui hoje ao café do Gelo ver o sitio onde o Buiça se reunia com os
+amigos. O café é já de si curioso, com duas salas d'aspecto
+completamente diverso, uma para o Rocio, d'aparato; outra, nas
+trazeiras, baixa, para os freguezes envergonhados, com portas para a rua
+do Principe. Era ali, n'aquella meza, do canto, á direita quem entra
+pelas trazeiras, que o professor se juntava com os outros e passavam
+horas a conversar baixinho.
+
+--Eram muitos?
+
+--Ás vezes doze ou quinze--diz o creado.--E ficavam até tarde em grandes
+discussões...
+
+ * * * * *
+
+Todos os politicos são concordes n'isto: o D. Carlos gastara nos ultimos
+annos, alem da dotação, dez ou doze mil contos.
+
+ * * * * *
+
+E toda a gente diz que era um mentiroso e que difamava a mulher. Ainda
+hoje alguem contou que um dia apareceram uns papeis inventando infamias
+da rainha com a Sandoval. Investigou-se. E o José Luciano disse
+logo:--Escusam de procurar, isso é d'El-Rei.
+
+ * * * * *
+
+O _Seculo_, disse-me o Avelino d'Almeida, tem tido tiragens de 160:000
+exemplares.
+
+
+ Fevereiro--1908.
+
+
+Depois da morte do rei o Arnoso foi ao Malaquias de Lemos propor-lhe a
+contra revolução.
+
+--Nem me fale n'isso. Se veem para a rua corro-os a bala raza e vou já
+d'aqui contar tudo ao Ferreira do Amaral.
+
+
+ 20 de Fevereiro--1908.
+
+
+Era hoje que devia rebentar a contra revolução, para impôr ao Paço uma
+dictadura militar.
+
+ * * * * *
+
+Hoje fui a casa do Schvalbach, ao Conservatorio. Coisas antigas e louça
+das Caldas, velhos quadros do Liborio e tectos pintados em caramanchão
+pelo Augusto Pina. O homem está aqui: é uma revista de
+anno--dificuldades de que sae com um sorriso, enredo, e um fio de oiro e
+de ternura a envolver tudo isto...
+
+Conheceu o rei e explica-o:
+
+--Quando queria era um _charmeur_. Ás vezes ninguem o podia aturar e
+mentia como uma cesta rôta. Ultimamente déra nesta: quando se falava
+d'alguma rapariga bonita, ahi dos seus quinze annos, dizia com um
+sorriso:--É minha filha.
+
+E conclue:
+
+--Era um grande pantomimeiro!
+
+
+ Fevereiro--1908.
+
+
+O Antonio José de Freitas, amigo do Paço, do Arnoso e do Sabugosa:
+
+--O rei era d'estes homens que gostam de esconder as boas qualidades e
+de salientar os seus defeitos. Inteligente, de bom coração, artista, não
+soube ou não quiz tratar com os homens. Podia ter com elle todos os que
+pensam ou escrevem em Portugal--afastou-os. Ha annos para cá o caso
+explica-se: garanto-lhe que, depois que teve o tipho, ficou impotente e
+sentia-se humilhado e inferior ao primeiro gallego que passa na rua...
+Ha cartas d'elle adoraveis de simplicidade, ha casos da sua vida e da
+vida palaciana que se não comprehendem.
+
+--E como artista?
+
+--Era elle, sem duvida, que fazia com talento os esboços. Mas, como não
+tinha tempo--outros lhe acabavam os quadros... Como rei só teve um
+mal--começou a sel-o apenas ha um anno.
+
+
+ Fevereiro--1908.
+
+
+Todos os dias no Paço se recebem cartas anonimas com ameaças de morte. O
+medo é enorme. A rainha tem sempre deante dos olhos o quadro horroroso,
+e, se acorda de noite, quer por força vêr o filho.
+
+ * * * * *
+
+O Manuel Ramos:
+
+Serviam-se, o Franco e os outros, da pimponice do rei, para lhe
+arrancarem medidas de repressão. Se o viam hesitar:--Mas se Vossa
+Magestade receia...--E elle logo decidido:--Eu não!--E assignava tudo. E
+fique você sabendo: não foi elle só que comeu: a maior parte do
+dinheiro, dos dez ou doze mil contos gastos a mais, ficou no bolso dos
+politicos.
+
+
+ Fevereiro--1908.
+
+
+A guarda-fiscal de Cascaes tem ordens apertadas. Teme-se um desembarque
+de armas e munições.
+
+ * * * * *
+
+Foi prohibido o desfile do publico diante dos cadaveres regios, porque a
+urna do rei era coberta de escarros!
+
+
+ Fevereiro--1908.
+
+
+O João Chagas:
+
+--Tem visto a atitude palaciana do _Dia_? Eu, de mim, tenho um caderno
+com este titulo _Alpoim_ e todos os dias collo pedaços do _Janeiro_ e do
+_Dia_. Tome logares porque vai assistir a um espectaculo
+estraordinario... Nunca o estrangeiro fez tanta pressão sobre nós como
+agora... Impõe-nos um governo--e esse governo, não podendo ser rotativo,
+ha-de sahir da praça publica. Ora não sendo republicano, á maneira do
+que se fez na Italia ou no Brasil, vae ser do Alpoim. E verá! verá!...
+Eu já disse: escrevo logo um artigo com este titulo _O Regicida_, se
+elle e os seus amigos nos atraiçoarem--os seus amigos, que, diante de
+mim e de Afonso Costa, se declaravam todos republicanos. D'antes
+procuravam-nos todas as noites, agora fogem-nos. Vae ver, vae-os ver
+servirem-se da policia contra nós. Oh, mas eu hei-de declarar que elles
+é que nos forneciam as bombas! O Alpoim ha-de morrer ás nossas mãos!
+
+
+ Março--1908.
+
+
+O Brazão conta que na _première_ do _Othelo_, o irmão de Augusto Machado
+foi cumprimental-o ao camarim:
+
+--Vaes admiravelmente no papel, mas deixa-me dizer-te (aqui para nós) a
+peça é uma grande borracheira...
+
+
+ 9 de Março--1908.
+
+
+Na recepção de ante-hontem a raínha tinha os olhos cheios de lagrimas
+sufocadas e disse:
+
+--Não tenho medo por mim, é por elle...
+
+--Os politicos, agora vão ter juizo...--disse alguem. E ella respondeu:
+
+--Os politicos não teem coração.
+
+E o rei dizia a um e a outro:
+
+--Seja bom portuguez e meu amigo.
+
+
+ Março--1908.
+
+
+--Vou a Lisboa--diz o Columbano ao conde d'Arnoso.
+
+--Tambem eu vou a essa Penitenciaria onde andam os assassinos á solta.
+
+
+ Março--1908.
+
+
+Antonio José de Freitas:
+
+--O Marianno de Carvalho tinha ido a Paris negociar um emprestimo e,
+conversando com Rouvier, perguntou-lhe:
+
+--Se se fizer a republica em Portugal?...
+
+--Que me importa! Que me importa mesmo que se faça a republica em
+Hespanha. Mas se se fizer a federação iberica, então alto lá! fazemos a
+federação latina.
+
+
+Rodrigo da Fonseca dizia dos Castilhos:
+
+--Que familia! O melhor de todos é o cego--mas esse mesmo, se tivesse
+olhos, era preciso furar-lhos!
+
+
+ Março--1908.
+
+
+O João Chagas:
+
+--O Alpoim foi quem nos forneceu as armas para a revolução. Foi o que
+elle fez. Nós tinhamos homens, elles deram-nos as armas e uns contos de
+reis. Todos elles se declaravam republicanos, menos o Moreira d'Almeida,
+que disse:--Eu não só não sou republicano, mas sou
+anti-republicano.--Quando sahiamos das reuniões, eu e o Afonso Costa
+riamos ás gargalhadas.
+
+Este João Chagas tão facil, tão insinuante, com o riso prompto nos
+labios grossos e sua pôpa branca no alto da cabeça, nunca conversa,
+nunca o vi conversar: se encontra alguem, seja onde fôr, conspira logo.
+Tem passado a vida, sempre simpathico e facil, sempre bem vestido e
+correcto como um actor que desempenha o seu papel. Mas no fundo d'esta
+alma, sob este riso e esta pôpa que parece pintada, só existe uma
+vontade que nunca esmorece, uma ambição tenaz e um egoismo feroz.
+
+--Isto ha-de resolver-se em 1909. Ah, não passa d'ahi! É um conflicto
+inevitavel. Que me importa o Porto?
+
+E como eu duvide:
+
+--Temos o exercito comnosco. Até na municipal. Na provincia ha terras em
+que os regimentos são completamente nossos.
+
+
+ Abril--1908.
+
+
+Hontem no Porto encontrei o Junqueiro, mais velho, mais magro, e a
+proposito da atitude palaciana de Eduardo Burnay no _Jornal do
+Commercio_, conta que elle em tempos, quando atacava o rei, o fôra
+procurar ao Porto e lhe disséra do D. Carlos:
+
+--D'uma vez, n'uma d'aquellas ceias que dava no Alemtejo aos esturdios
+seus amigos, ofereceu a cada conviva uma navalha de ponta e mola, com as
+armas reaes.
+
+
+ Novembro--1908.
+
+
+A rainha não disse que conhecia o assassino do rei. Phrase textual
+ouvida pelo Batalha Reis:
+
+--Os outros não os conheço, mas aquella cara do homem das barbas nunca
+mais me sae dos olhos[7].
+
+
+ Dezembro--1908.
+
+
+O caso do dia é este:--Um alferes da guarnição no Paço, quando assistia
+ao jantar levantou-se, e, contra todas as regras e todas as
+conveniencias, falou ao rei pouco mais ou menos n'estes termos:--Vossa
+Magestade anda iludido. Esta gente que o cerca engana-o. A situação do
+paiz é deploravel, etc.
+
+Imaginem, se podem, as atitudes, o espanto, o espectaculo d'esta gente,
+interrompida pela primeira vez naquella representação em que o
+formulario é respeitado como um culto. Mas na verdade o alferes disse o
+que cada um sente no fundo da sua consciencia. Foi inconveniente, mas
+poz o dedo na ferida. O rei está rodeado de ficções e de mentiras. Não
+soube assumir as responsabilidades do pae, com decisão e coragem, nem
+totalmente repelil-as.
+
+Enredam-no. Os politicos dão-se o ar de o proteger e é elle quem os
+protege. Hesita, tem medo... Sente-se que tudo isto vacila...
+
+
+ Janeiro--1909.
+
+
+--Esta vida artificial como lhe sinto a falta!--exclama o Fialho ali ao
+pé do Suisso.
+
+--E porque não vive em Lisboa?
+
+--Não posso! não posso! Se soubesse!... Tenho um irmão epileptico, que
+meu pae me legou á hora da morte. Não devo abandonal-o, nem entregal-o a
+mãos mercenarias... Depois as arvores, depois as vides, a que a gente
+cria amor...--Uma pausa triste, uma hesitação, uma duvida e acrescenta
+isto:--Não tenho tido quinze dias de felicidade em toda a minha vida!
+
+Falamos de politica:
+
+--Isto está a pedir sangue... E olhe: no Alemtejo não ha
+republicanos--ha odios. O pobre não pode vêr o rico. É uma gente roída
+de invejas e rancores, que passa annos e annos da vida a cubiçar um
+campo...
+
+ * * * * *
+
+O João Barreira, pequenino, inalteravel, de capinha:
+
+--A revolução abortou em onze de Fevereiro porque os chefes foram todos
+presos. O Chagas tinha nas mãos as chaves do movimento.
+
+ * * * * *
+
+Quem são os regicidas?... O Ferreira do Amaral, ao sahir do ministerio,
+declarou que não tinha apurado nada de definitivo. Diz:--Eu bem sabia,
+por cartas anonimas, que se preparavam para me alijar, mas deixei-os
+fazer...--Porquê, almirante?--A situação não me era agradavel.
+
+ * * * * *
+
+Novos boatos de intentonas, de massacres, novos boatos de reacção. Agora
+é certo!... Os regicidas vão ser presos. Conta-se que o Heitor Ferreira
+dissera:--Vendi a carabina a Fulano.--O ministerio Amaral cahiu, porque,
+dispondo de todos os elementos, não quiz prender os assassinos. Um dos
+regicidas está em França, mas Clemenceau recusa-se a extradital-o.
+
+ * * * * *
+
+O Mello Barreto garante como absolutamente autentico o boato que por ahi
+correu, de que o rei se confessa todas as semanas.
+
+ * * * * *
+
+Larga distribuição d'estes papelinhos:[ver nota de editor]
+
+
+ Janeiro--1909.
+
+
+Fala-se hoje d'um Munhoz, oficial do exercito, tipo acabado de
+lisboeta--café, conversa e parodia, cheio de graça popular e literaria.
+Já reformado, vae aos domingos aos touros para a Outra Banda, com um
+cabaz no braço e um chalemanta ás costas... Esteve amigado com uma
+mulher já _fannée_, mas ainda com linha e um grande nariz imperial, que
+ahi andou por Lisboa e se fazia passar como aparentada com as mais
+ilustres familias de Hespanha. A mulher não tinha dinheiro, mas alguem
+presenteara-a, quando a deixou, com uma rica mobilia. E Munhoz e ella
+iam vivendo dos trastes, hoje um tremó vendido, amanhã uma comoda,
+depois um sofá...
+
+--E que tal, Munhoz?
+
+--Vae-se vivendo, filho. Vamos vendendo os trastes. Olha, menino, hoje
+almoçamos nós um _bidet_--e por signal que não estava nada mau!...
+
+ * * * * *
+
+Lá no alto, no friorento Paço d'Ajuda, entre gente caduca e algumas
+damas do passado, a rainha Maria Pia passa os dias e as noites, como uma
+figura de tragedia, a regar as flores d'um tapete. Mataram-lhe o pae, o
+filho e o neto. Peor: envelheceu. Se pára de regar conta:--Um... dois...
+três...--A quem se refere? Ao pae, ao rei, ao principe, todos
+assassinados? Senta-se á meza e diz a figuras imaginarias ou aos
+phantasmas que se sentam a seu lado:--Come, Luiz? Não queres d'este
+prato, Carlos?--E lá torna a regar um dia, outro dia, sempre, as flores
+que não reverdecem do mesmo tapete do seu quarto... E esta mulher
+elegante, que despertou paixões e inspirou poetas, parece uma velha
+actriz, cheia de rugas, sem contracto, fóra do seu meio e da sua época.
+Ao vel-a passar, baixando a cabeça para aqui e para acolá, no mesmo
+gesto machinal, a gente supõe que o passado sahiu do sepulchro e teima
+em sorrir-nos, com os dentes postiços e o cabelo pintado a escorrer
+amarelo...
+
+ * * * * *
+
+O D. Afonso adora o sobrinho. Afiança:--Se m'o matarem quero ser rei uma
+hora, mas n'essa hora hei-de mandar...
+
+ * * * * *
+
+--E o rei?
+
+--O rei...--diz alguem que foi duas ou tres vezes ao Paço--O rei é um
+fidalguinho muito religioso e temente a Deus, e cheio de vontade e de
+orgulho.--E acrescenta:--Não trata, como o pae, a gente por tu, mas por
+você.
+
+
+ Janeiro--1909.
+
+
+Fala-se com o Antonio José de Freitas, do D. Pedro V e um do lado diz:
+
+--Era um pedante.
+
+--Se era! O que vocês não sabem é que deixou vinte e tantos calhamaços
+sobre coisas militares com o titulo em latim. E de todos esses livros
+não se apura uma pagina...
+
+Do D. Luiz e da D. Maria Pia narra anecdotas, ditos...
+
+--O D. Luiz mandava-me chamar muitas vezes ao Paço--e algumas por causa
+do Shakespeare. Uma vez quiz discutir o _Hamlet_ commigo--elle que me
+roubou duzentas e tantas phrases!--e eu disse-lhe:--Pois sim, vamos lá
+discutir, mas V. Magestade não ha-de extranhar que eu me defenda com
+quantos argumentos tenha, nem que fale mais alto, porque fui professor
+de meninos e tenho esse mau habito. Alem de tudo isso sou um homem
+nervoso...--E discuti, discuti com unhas e dentes. Por fim elle
+disse-me:--Pois sim, Freitas, mas você o que não pôde é conceber o
+_Hamlet_ como eu, sob o ponto de vista de dissimulador, porque não tem a
+minha categoria. Só um principe sabe o que é dissimular...
+
+E eu respondi logo:
+
+--Se V. Magestade dissimula por causa da sua categoria, é porque é um
+diplomata; se é por organisação é porque é um histerico...
+
+E elle mandou-me embora.
+
+ * * * * *
+
+Quem os põe assim aos reis, ao D. Carlos, ao D. Luiz, ao imperador do
+Brazil, são os grandes homens, o Victor Hugo, o Rossini, os que os
+incensam a torto e a direito. O D. Luiz era inteligente e conhecia os
+classicos musicaes, mas, como não estudava, tocava mal. Pois um dia o
+Rossini, em Paris, depois de o ouvir, disse-lhe:--Vou organisar um
+concerto em minha casa, para que V. Magestade, que é um dos melhores
+musicos que conheço, seja ouvido e apreciado.
+
+ * * * * *
+
+O D. Luiz, como todos os fidalgos portuguezes, gostava de conviver com
+gente baixa. Quando se iam embora os ajudantes e a côrte, ficava com os
+particulares, com a gente que lhe chamava _doutor Tavares_, e então
+regalava-se de escandalo, de ditos, de má lingua ordinaria.
+
+ * * * * *
+
+Não me admira que elle gostasse da Rosa Damasceno. Era uma mulher
+_caline_, muito meiga. Na intimidade devia ser adoravel. E boa. Desde
+que foi amante de D. Luiz, dava todo o dinheiro que ganhava no theatro.
+
+ * * * * *
+
+A Maria Pia é uma mulher inteligente, apezar de pessimamente educada,
+sem mãe. Detestavam-se, mas que diplomatas, ella e o rei! Quando se
+anunciou o casamento do D. Carlos, D. Luiz disse-me:
+
+--Casa por amôr. Fez a côrte á mulher, escreveram-se, elle mandou-lhe
+flôres e ia para a plateia d'um theatro em Paris namoral-a para o
+camarote.
+
+ * * * * *
+
+Não sei quem fala do Saldanha...
+
+--Foi o diabo para o mandarem para Londres, quando se quizeram vêr
+livres d'elle. O governo perguntou para a Inglaterra e de lá responderam
+que não era _persona grata_. Foi preciso que o D. Fernando escrevesse á
+rainha Victoria, que acabou por ceder, dizendo:--Mandem lá esse velho
+pecador.
+
+
+ Fevereiro--1909.
+
+
+O Judice Bicker, oficial da armada e antigo governador da Guiné no tempo
+do Hintze:
+
+--Não, não me falem em dictaduras nem em governos de repressão! Quando
+fui governador da Guiné apareceram-me lá um dia cem homens mandados pelo
+governo. E com elles uma simples lista de nomes, sem a minima indicação
+de crimes. Nada. Era gente que o governo me mandava e de que se queria
+desfazer. Que lhes havia de fazer na Guiné? Sentei-lhes praça, e d'esses
+_criminosos_, aos quaes nunca tive ocasião de aplicar um castigo, seis
+mezes depois tinham morrido _cincoenta_ de febres!...
+
+ * * * * *
+
+No outro dia--diz o Freitas--estive com a rainha D. Amelia. Está uma
+mulher amarella e feia, enorme, com as mãos do tamanho do Maximiliano
+d'Azevedo. E, como lhe notasse os dedos cheios de joias, estranhei,
+perguntei e explicaram-me:--São os aneis de brilhantes, que ella
+arrancou aos cadaveres do marido e do filho--e que traz sempre comsigo.
+
+ * * * * *
+
+Um empregado da fazenda:
+
+--Em cada um dos grandes bairros de Lisboa ha milhares de processos de
+dividas á fazenda parados. Companhia que tenha votos paga quando quer e
+como quer. Só os desgraçados são penhorados. Isto representa muitas
+centenas de contos, que se perdem por empenho, por politica, por
+desleixo.
+
+
+ Fevereiro--1909.
+
+
+O Pad'Zé contado pelo Vicente da Camara:
+
+--O extravagante Pad'Zé era no fundo um homem methodico. Quando chegava
+a Coimbra ia sempre com grandes ideias de aprumo e arranjo: uma cama
+para dormir, uma meza para escrever, etc.. Excusado será dizer que, meia
+duzia de dias depois, dormia no chão. Mas á cabeceira lá estavam sempre
+muito arranjadinhos os seus livros e os seus papeis. Se no dia em que se
+matou, na propria hora em que deitou a mão ao rewolver, alguem o
+convidasse para uma ceia,--adeus suicidio! adeus morte! trocava-a por
+uma guitarrada.
+
+ * * * * *
+
+No dia em que fugiu para Badajoz o D. João da Camara encontrou-o: levava
+para o exilio um livro de Garrett, um par de meias e cinco mil reis
+emprestados.
+
+ * * * * *
+
+Trazia sempre nas algibeiras envolucros de bombas e mostrava-os ás vezes
+aos amigos, no Suisso. Na algibeira do medico que morreu na explosão foi
+encontrada uma carta sua, pedindo-lhe que lhe mandasse pelo portador
+«seis peras do Fundão». Trazia-as ás vezes pela rua n'uma malinha de
+mão, e, quando ia ao urinol, pedia ao Anibal Soares, de quem era amigo
+intimo, para lha segurar:--Mas tem cuidado que são ovos!...--observava
+sempre.
+
+ * * * * *
+
+Dizem por ahi que se matou, para não matar... Tinha-lhe cahido em sorte,
+n'uma _loja_, executar um alto personagem...
+
+
+ 25 de Fevereiro--1909.
+
+
+Visita ao Coelho de Carvalho, que está doente, e mora n'um velho
+palacio, na rua do Arco do Cego. Moveis Imperio, uma cama imponente com
+golphinhos doirados e espelhos, falsos quadros de mestre nas paredes
+d'estuque, onde todos os caiadores de Lisboa pintam sempre o mesmo friso
+azul ferrete, e salas que se sucedem com alguns moveis antigos isolados.
+São restos de grandeza d'uma existencia d'artista... Como sempre,
+fala-se em politica. Não se fala n'outra coisa...--A policia tem o
+processo do atentado concluido, mas fica-se por ahi. Sabe-se que no dia
+21, n'uma _loja_ maçonica, foi proposto o assassinato do rei. O Alpoim
+esperava na rua, dentro d'um carro, os seus amigos. Mal foi que o acordo
+com os franquistas gorasse. Sabe que o Alpoim teve uma combinação
+politica com o João Franco? Disse-mo elle a mim:--«O acordo esteve feito
+para uma dictadura liberal, mas o rei opoz-se. Foi quando eu e Sicrano e
+Beltrano decidimos perdel-o»...--Posso garantir-lhe isto: ouvi-o a elle
+proprio... Quem os aproximou, ao Alpoim e ao Franco, foi o Silva Graça.
+Tinham até ajustado uma serie de comicios de propaganda contra os
+adiantamentos. E foi por isso que o João Franco pôde responder como
+respondeu ao Centeno, dizendo-lhe que tinha nas mãos provas d'essa
+combinação.
+
+Um tipo fino. Literato e homem de negocios, tendo ganho fortunas e
+dissipado fortunas. Tem um castello em Arade sobre rocha e mar e uma
+existencia um pouco dispersa. E com isto curioso e alegre, phantasista
+acima de tudo, paradoxal acima de tudo. O seu escriptorio de advogado
+que foi muito tempo no ministerio da justiça, é hoje alli n'uma meza do
+Martinho. Desconfio que mistifica os clientes--para se divertir... As
+dificuldades da sua vida são talvez invenciveis, mas a desgraça
+encontra-o sempre de pé, com o mesmo riso nas mesmas lindas barbas todas
+brancas enquadrando uma face moça, e oculos redondos de tartaruga, que
+lhe dão uma aparencia de retrato de Holbein.--Os oculos de
+Spinoza...--como elle lhes chama.
+
+
+ Março--1909.
+
+
+O Armando Navarro:
+
+--D'aqui por cincoenta annos estamos absorvidos pela Hespanha, sob a
+forma federativa. A autonomia municipal, a mais rasgada de todas as que
+conheço, e que o conservador e reaccionario Maura acaba de dar á
+Hespanha, é o primeiro passo...
+
+
+ 6 de Março--1909.
+
+
+Foi hoje o enterro do Taborda. Aqui ha tempos cahiu de cama e disse a
+alguem a chorar:
+
+--D'esta vez é certo! Sinto que vou morrer... E a vida é tão linda!
+
+Tinha oitenta e cinco annos. Os jornaes contaram d'elle esta coisa
+enternecedora: D'uma vez foi recitar um monologo a um asylo de raparigas
+da sua terra. O monologo começava assim: «Boas noites, meus
+senhores...». Entrou no palco e disse a phrase:
+
+
+ Boas noites, meus senhores...
+
+
+E as meninas do asylo, que o conheciam todas, levantaram-se e
+responderam á uma:
+
+--Muito boas noites, senhor Taborda!
+
+A morte engrandece sempre, mas acho horrivel acabar na rua dos
+Calafates, entre a convenção e a mentira, andar por cima, andar por
+baixo, corôas secas, photographias e recordações de bastidores. Um velho
+tem direito a morrer entre arvores, em plena natureza. Os bichos, quando
+sentem aproximar-se o fim, procuram um buraco para se esconder... São
+mais felizes.
+
+
+ Março--1909.
+
+
+As declarações do Ferreira do Amaral na Camara dos Pares vieram
+autenticar o que se dizia do rei. O Ferreira do Amaral afirmou:--«A
+reacção envolve o rei».--Acrescenta-se cá fóra que é um jesuita
+hespanhol quem dirige o rei e o Paço, e parece certo que o Ferreira do
+Amaral o impedia por vezes de ir de livro e contas á missa--fazendo-o
+visitar no Porto tres fabricas por cada missa que ouvia...
+
+ * * * * *
+
+Espalha-se que foi a rainha quem pôz fóra o Ferreira do Amaral, e que
+elle quer lá voltar para lhe dar uma lição.
+
+
+ Março--1909.
+
+
+Apresentam-me hoje um velho janota, o visconde da Torre da Murta. É um
+velho magro e esticado, de luvas e chapeu alto. Cheio de pretensões e os
+cabelos todos brancos. Parece ligado por arames. Vive na miseria. A
+mulher enganou-o, deixou-o. Pagou-lhe as dividas--e ficou pobre: são as
+Thomares que o sustentam. O velho conserva uma grande dignidade e só sae
+de luvas e chapeu alto. Mas quem sobretudo lhe vale é a creada, uma
+destas extraordinarias mulheres do povo, que nascem para os outros e que
+já disse que quando morrer lhe ha-de deixar as suas economias «para o
+senhor visconde não passar necessidades». O senhor visconde vive n'um
+cubiculo, e da sua passada grandeza restam-lhe meia duzia de livros com
+magnificas encadernações.
+
+
+ Março--1909.
+
+
+Fuschini, que fui hoje visitar, está velho e tem uma doença de coração
+muito adiantada.
+
+--Porque não escreve as suas memorias?
+
+--Não sei, custa-me. Tenho pensado em escrever a minha autobiographia...
+Depois deixo-me d'isso.
+
+E conta-me:
+
+--Quando foi da conversão da divida externa fui eu e poucos mais que
+obstamos a que viessem tres estrangeiros para Portugal mandar n'isto.
+Creia... Chegaram a dizer-me:--Não faça questão, que será um dos membros
+da junta.
+
+E diz:
+
+--Ao tempo da dictadura do João Franco lembrei-me de reunir em Lisboa um
+congresso de todos os homens publicos. Procurei os republicanos, o
+Afonso Costa, que me prometeram o seu apoio. Estava de relações cortadas
+com o Hintze, mas mandei-lhe falar e elle fez-me ir ao Estoril. Disse-me
+o peor que é possivel do rei e acrescentou:--Aceito a sua idéa... E tem
+casa?--Tenho.--E se a policia intervier?--Resistimos e apelamos para o
+povo.--Bem, vá falar ao José Luciano.--Procurei essa _vil alforreca_,
+que exclamou:--Mas isso é a revolução!... Preciso de falar primeiro com
+o Hintze. Tenho uma idéa melhor...--Dias depois o Hintze dizia-me:--O
+José Luciano não quer fazer nada, disse-me que era melhor esperarmos
+para Outubro, quando o rei regressar a Lisboa.--Tambem me lembrei de
+escrever um manifesto dirigido ao estrangeiro e assignado pelos
+estadistas portuguezes.--Excelente, disse-me logo o Hintze, venha cá
+amanhã... Olhe, amanhã não, que é o enterro do Casal Ribeiro. Depois de
+amanhã.--No dia seguinte estava morto.
+
+
+ Março--1909.
+
+
+Eis a impressão geral: Foi a rainha quem tramou a queda do Ferreira do
+Amaral. O Julio de Vilhena queria que saissem apenas dois ministros
+regeneradores, substituindo-os por outros. Foi uma tramoia do Paço. Toda
+a gente diz que a rainha está feita com os reaccionarios. O D. Carlos,
+emquanto vivo, opunha-se-lhe, e, logo ás primeiras investidas--festas de
+Santo Antonio, etc.--poz-se do lado dos que combatiam a reacção. Agora
+manda. E conta-se que o Ferreira do Amaral entrou um dia d'estes no Paço
+e perguntou pelo rei.--Está com o seu director espiritual.--Então
+preciso de falar á rainha.--Está tambem com o seu director espiritual.
+
+ * * * * *
+
+A rainha--dizem-no todos--arrisca-se um dia a ser desfeiteada. Acusam-na
+de deitar a perder o rei.
+
+
+ Março--1909.
+
+
+Barreira conta-me que varios republicanos teem insistido junto do
+general Baracho para se pôr á frente d'um movimento.
+
+--Bem sei, vocês querem que eu tire as castanhas do lume, para que os
+outros as comam!
+
+
+ Março--1909.
+
+
+O Cunha e Costa:
+
+--O Ferreira do Amaral desarmava pela bonhomia. Um dia constou ao
+Bernardino que para os lados do Campo Grande havia tumultos. Telefonou
+ao Amaral:--São os reaccionarios que querem repetir as scenas de cinco
+de Abril...--Vou indagar.--Meia hora depois:--Está? Sou o Amaral.--E
+muito placidamente:--Ó Bernardino, olhe que aquelles homens que os
+senhores mandaram para o Campo Grande ainda lá não chegaram...--!!!--Os
+republicanos do _Mundo_, quando lhes constou que iam ser
+atacados:--Senhor presidente do conselho, consta-nos isto...--A casa do
+cidadão é inviolavel e todos teem o direito de se defender.--Ao Pimentel
+Pinto, cheio de dividas e que não paga a ninguem, respondendo á acusação
+de jantar com os makavenkos:--Janto, janto, mas pago, meus senhores,
+pago sempre.--Ao Arroyo, quando lhe dizia:--Enganaram-no, almirante.--É
+que eu sou um ingenuo.
+
+
+ Abril--1909.
+
+
+Fazem correr por ahi esta infamia: que o Wenceslau de Lima é amante da
+rainha D. Amelia.
+
+ * * * * *
+
+O Eduardo Pimenta, que serviu com o Mousinho em Africa:
+
+--Um orgulho desmedido, uma decisão rapida, e uma insensibilidade, como
+nunca vi, ao frio, á fome, ao trabalho... D'uma vez, por qualquer
+questiuncula, fomos obrigados a dar uma satisfação á Alemanha. Que
+scena! O Mousinho arrancou do peito constelado todas as medalhas, todas
+as condecorações--todas. Só lá deixou a Aguia Vermelha que obriga o
+alemão a conservar-se de pé diante dos que a teem. Poz o _bonnet_ às
+tres pancadas e entrou por a casa do consul dentro. Ergueram-se todos--e
+elle, á porta, sacudido, impertinente, enorme, disse a phrase
+protocolar:--O governo de Sua Magestade Fidelissima encarrega-me,
+etc.--E sem esperar pela resposta, outra vez levou dois dedos ao
+_bonnet_ e rodou sobre os calcanhares, deixando-os estupefactos.
+
+ * * * * *
+
+Jayme de Seguier encontra o João Franco no estrangeiro. São amigos. E
+João Franco que não queria, que jurára não tornar a falar em politica,
+durante duas longas horas não conversou, não falou n'outra coisa.
+
+--Tinha previsto tudo. Tinha previsto a minha morte: o que eu não
+previra foi o assassinato do rei. Isso nunca me passou pela cabeça...
+
+--Mas o que eu não comprehendo é que dissolvesse as côrtes estando
+aliado com os progressistas...
+
+--Tinha-lhes pedido ministros, recusaram-mos. Ficava enfraquecido. Isso
+é que não. Não podendo tel-os como amigos, então antes como inimigos
+declarados.
+
+Quem me fornece estas notas (Jaime Victor) fala d'um João Franco cheio,
+de sensibilidade e de coração, capaz de ir até ao fim...--P'ra diante!
+p'ra diante contra tudo e contra todos!--Era um convencido. Diz-se que
+os outros o empurravam. A verdade é que ninguem o podia deter: nem
+palavras nem acções o faziam recuar; ia como uma bala na sua
+trajectoria. Contam-me que n'um dos ultimos conselhos de ministros João
+Franco expoz a situação: o movimento revolucionario, as medidas que
+tomára, etc.. Vasconcellos Porto, placido e enorme, expoz a sua opinião
+e concluiu:
+
+--Deixe-os vir para a rua, que eu conto com o exercito. E depois de
+vencermos, governaremos...
+
+Ao que João Franco respondera:
+
+--Não, podendo evitar-se o sangue--evitamol-o.
+
+E Jaime Victor conclue:
+
+--A morte de D. Carlos trouxe-nos extraordinarias complicações. Elle,
+por exemplo, tinha seguro o tratado de comercio com o Brazil, que nunca
+mais se fará. No Brazil fizeram-se despezas extraordinarias para o
+receber.
+
+
+ Novembro--1909.
+
+
+Guerra Junqueiro desalentado:
+
+--Isto está liquidado, a ocasião passou. Agora o rei casa com uma
+ingleza e vem para ahi um caixeiro qualquer da Inglaterra, que manobra
+por traz da cortina. Não reparou n'isto?... Nas camaras passou uma lei
+que os auctorisa a vender inscripções. É a bancarrota adiada por muito
+tempo. D'aqui a annos o juro da divida interna é reduzido, mas vae-se
+vivendo e paga-se ao estrangeiro, que é o principal.
+
+ * * * * *
+
+Do João Franco diz:
+
+--Mentia com o coração nas mãos... Então é que era ocasião. O Franco e o
+rei eram dois cães damnados... A ocasião passou, a republica passou.
+
+ * * * * *
+
+O Carneiro de Moura:
+
+--Os bispos e as beatas deram para a imprensa reaccionaria, para _O
+Portugal_, vinte contos. Já lá vão em pagodes!
+
+[Figura: _Dantas Baracho._--Caricatura inedita de Celso Herminio.]
+
+
+ Novembro--1909.
+
+
+Conta hoje o Fuschini--sempre com a Alice Lawrence atraz, sempre a
+caminho da Sé, com o chapeu sobre os olhos e um rôlo de papeis debaixo
+do braço, sempre sufocado quando sobe as escadas, porque o coração cada
+vez lhe trabalha peor, sempre irrequieto e interessante, apesar da edade
+e dos cabelos todos brancos:
+
+--O Soveral é um homem de negocios[8]. O que elle quer é dinheiro. Já
+tive todos os fios d'essa meada nas mãos... Obrigou agora o rei a ir á
+Inglaterra fazer uma figura triste. Pois posso garantir-lhe que ha dois
+mezes esteve em Lisboa um correspondente do _Dail Maily_, que contou á
+Alice que o proprio duque de Fife mandára ao jornal o seu secretario
+desmentir a noticia do casamento.
+
+ * * * * *
+
+O Avelino de Almeida, jornalista com a especialidade de padres e beatas:
+
+--Quem deu o dinheiro para _O Portugal_ foram as beatas. Um padre
+lazarista é que andou metido n'isso. Arranjaram dezoito contos. Só a
+viscondessa de Sarmento deu seis.
+
+ * * * * *
+
+Um artigo curioso do _Corriere de la Sera_, assignado pelo Gomes dos
+Santos:
+
+
+ «Um caso singularissimo poz recentemente a policia na pista d'uma
+ conspiração de aventureiros que punham o seu braço ao serviço do
+ radicalismo, promptos para tudo quanto lhes fosse ordenado em
+ nome... da utopia. Uma longa serie de crimes politicos que datam do
+ regicidio e cujos auctores até agora tinham ficado envoltos no
+ mysterio, coloca em evidencia os factos preteritos e abre um
+ caminho seguro para a liquidação das responsabilidades. Hoje
+ ninguem duvida da existencia d'uma sociedade secreta que, sob a
+ aparencia de loja maçonica, é o verdadeiro poder executivo do
+ partido revolucionario, o braço sempre prompto a ferir, a espada
+ que cae traiçoeiramente sobre as victimas designadas pelos
+ dirigentes da politica radical?
+
+ Ninguem ignora em Portugal as circumstancias em que se desenrolou o
+ regicidio. Na confusão da tarde tragica, a policia cae sobre dois
+ dos regicidas e mata-os em legitima defeza. Mas permanece sempre
+ firme a convicção de que os regicidas não eram sómente Buiça e
+ Costa, que pagaram com a vida o seu delicto! Esta convicção
+ fundava-se em factos de ordem material e moral, sobre os quaes não
+ havia duvida de especie alguma. A prova moral da existencia
+ d'outros cumplices reside na impossibilidade do atentado haver sido
+ organisado e levado a efeito apenas por dois homens. A prova
+ material forneceram-na numerosissimas testemunhas que viram a
+ carruagem real ser alvejada, simultaneamente, de varios pontos e
+ observaram a fuga de alguns dos cumplices do regicidio, um dos
+ quaes, perseguido pela policia quando fugia, com o rewolver
+ fumegante em punho, conseguiu perder-se de vista ao voltar uma rua,
+ confundindo-se depois com a multidão espavorida que fugia do logar
+ do crime.
+
+ É um vulgar principio de investigação judiciaria que os deliquentes
+ se devem procurar entre aquelles a quem o delicto aproveita. Ora
+ quem podia aproveitar com a carnificina da familia real? Se
+ houvesse produzido uma mudança politica, aproveitavam evidentemente
+ os republicanos cujo triumpho teria sido d'esta arte facilitado. Se
+ tivesse originado apenas (como realmente produziu) uma substituição
+ de governo resultaria proveitosa para os mesmos republicanos aos
+ quaes João Franco havia fechado todos os caminhos. Vendo presos os
+ seus principaes chefes e ameaçada toda a sua organisação, os
+ republicanos esperavam reconquistar, com um golpe de mão, as
+ posições primitivas. Não ha outras hypotheses a considerar, visto
+ que o crime não podia ter sido perpetrado por uma conspiração de
+ monarchicos nem representa um caso individual de terrorismo porque
+ os regicidas não eram anarchistas.
+
+ O Buiça e o Gosta eram republicados militantes: trabalhavam nas
+ ultimas filas dos revolucionarios. Livres pensadores, pertenciam á
+ sociedade de propaganda d'onde, de resto, teem sahido todos os
+ criminosos politicos. Homens de acção, pertenciam a uma loja
+ secreta, a «Montanha», mixto de instituição maçonica e de comité
+ revolucionario, sem local fixo e sem estatutos, que se reune a um
+ simples convite dos jornaes da seita, ninguem sabe onde e que se
+ compõe de homens _capazes de tudo_. Tudo deixa crer que o regicidio
+ foi ahi deliberado e que, como é costume, os executores foram
+ tirados á sorte, visto que apenas o sorteio explicava a escolha
+ d'um dos regicidas, cujo passado se não ilustra com actos de grande
+ coragem individual.
+
+ Mas sobre o regicidio, que inaugura a conhecida série de delictos
+ politicos, não mais se tratou de fazer luz. Não se chegou a apurar
+ quem foram os cumplices da emboscada e, se porventura se tentou
+ esclarecer o caso, acabaram por concluir que era melhor guardar
+ silencio sobre elle. No entretanto, occorriam novos factos que
+ vieram documentar melhor a existencia d'uma organisação que
+ liquidava pelo assassinio as dificuldades susceptiveis de embaraçar
+ o movimento revolucionario. Poucos mezes depois do regicidio, um
+ humilde engraxador apresentava-se á policia perfeitamente apavorado
+ e narrava que dois republicanos lhe tinham proposto lançar uma
+ bomba no coche que devia conduzir D. Manuel ao Parlamento. A
+ declaração era verdadeira? Ignoro-o. Mas a policia prende os dois
+ mencionados instigadores, um dos quaes é fulminado por uma
+ congestão cerebral no gabinete do juiz. Este, quando se prepara
+ para colher do denunciante novos esclarecimentos, vê o engraxador
+ morrer envenenado n'um hospital no meio de horriveis aflicções. O
+ desventurado declarava que morria por haver dito a verdade. Por
+ falta de provas o processo foi archivado, o que poz de bom humor a
+ imprensa revolucionaria, que já se dispunha a desviar a opinião
+ publica com um diversivo.
+
+ Poucos mezes depois outro crime vem afirmar a existencia da seita.
+ Alguns militares acusados de terem tomado parte no movimento
+ revolucionario de 28 de janeiro, foram condenados a penas graves
+ pelo tribunal, graças ao depoimento d'um sargento chamado Lima, que
+ se insurgiu e referiu o facto aos seus superiores. O sargento
+ passeava um dia em Setubal, para onde fôra transferido, quando um
+ revolucionario se lançou contra elle e lhe cravou um punhal no
+ coração. O assassino, preso quando fugia, allega uma historia
+ inverosimil de rivalidade que as investigações policiaes
+ desmentiram. Quanto á opinião da auctoridade e dos que conhecem de
+ perto as scenas, referidas anteriormente, da quadrilha
+ revolucionaria, é clara e expressa: o sargento foi condemnado á
+ morte por ter denunciado a existencia da conspiração.
+
+ Dois suicidios mysteriosos--um sob o comboio de Cascaes, outro na
+ redacção d'um jornal revolucionario--parecem ter intimas relações
+ com a existencia da Mão Negra local.
+
+ Diz-se que os suicidas, designados para certos cometimentos,
+ preferiram escapar pela morte ás intimações d'uma implacavel
+ organisação secreta. Não faço aqui menção do caso das bombas
+ explosivas com que ultimamente pretenderam alvejar algumas egrejas,
+ depois da execução de Ferrer. Não ha provas da intervenção da Mão
+ Negra, mas simples indicios de presumpção. Mas o que acabou de
+ esclarecer o paiz sobre a existencia d'uma formidavel e perigosa
+ associação secreta foi o recente crime de Cascaes, a que os jornaes
+ independentes dedicaram longas columnas.
+
+ Vão decorridos alguns mezes depois que na administração das
+ alfandegas se descobriu um importante furto de armas, que estavam
+ para chegar ao seu destino. A ausencia d'um operario da fabrica de
+ armas provou a sua responsabilidade no furto, logo confirmada pela
+ captura d'um cumplice--um dos implicados na revolução republicana
+ de 28 de janeiro--que era o receptador das armas roubadas. Já a
+ policia averiguou o destino das armas, que se reservavam, com a
+ complacencia de empregados aduaneiros, ao movimento revolucionario,
+ quando no meio dos rochedos das arribas de Cascaes, a oito
+ kilometros de Lisboa, se encontra assassinado mysteriosamente o
+ empregado da alfandega, auctor do furto.
+
+ Com os documentos que lhe encontraram nas algibeiras e com as
+ indicações fornecidas pela familia do assassinado, a policia
+ reconstituiu facilmente o crime. O pobre empregado, vendo
+ descoberto o furto das armas, dirigiu-se aos que o tinham impelido
+ e suplica-lhes que o salvem. Deram-lhe dinheiro para transpôr a
+ fronteira com promessa de o sustentarem no estrangeiro e o homem
+ refugiou-se em Badajoz, territorio hespanhol. Mas o dinheiro falta;
+ as promessas não são mantidas e o refugiado escreve aos que o
+ haviam levado ao crime, suplicando socorro. Como não obtivesse
+ resposta, ameaça-os com declarações. A Mão Negra destaca para
+ Badajoz um dos seus agentes, que o conduz a Lisboa enganado com
+ promessas de continuar a viagem para Africa; na primeira ocasião
+ levam-no a Cascaes a fim de seguir ocultamente para o seu novo
+ destino e matam-no, arrastando-o para o mar e precipitando-o do
+ alto das ribas.
+
+ O assassino foi preso na fronteira, quando tentava refugiar-se em
+ Hespanha, e conduzido a Lisboa, sob rigorosa escolta. Aqui, depois
+ de alguns dias de apertados interrogatorios, apanhado em
+ contradição, não sabendo explicar as manchas de sangue que tinha no
+ fato, confessa finalmente que cometera o crime,--e que, além de ser
+ antigo empregado n'um centro republicano, é membro da associação
+ secreta a «Montanha», como os regicidas, como os auctores dos
+ outros crimes politicos. É a existencia da Mão Negra averiguada e
+ confessada.
+
+ Os jornaes da seita, republicanos e revolucionarios, perante esta
+ sensacional descoberta, mantiveram a principio o maior silencio;
+ jornaes que costumavam ocupar columnas com o mais insignificante
+ acontecimento, evitaram, por todos os modos, referir-se a elle.
+ Depois, desesperados por não poderem conservar-se calados,
+ começaram a agredir violentamente e, por ultimo, a ameaçar a
+ imprensa independente que, mostrando-se bem informada, se ocupou
+ dos factos com uma certa largueza. E, emquanto a imprensa vermelha
+ assim procedia, a policia vinha a saber que os revolucionarios
+ tinham projectado fazer evadir o preso e teve a finura de o
+ transferir do deposito de segurança para uma caserna militar, onde
+ está de sentinella á vista.
+
+ Por outro lado, diz-se que as declarações relativas ao crime de
+ Cascaes revelaram uma nova pista para a descoberta dos regicidas e
+ a policia afadiga-se no intuito de descobrir e prender os membros
+ da Mão Negra. Alguns jornaes lembram, a proposito d'este facto, a
+ fuga precipitada de certa personagem para o estrangeiro. A Mão
+ Negra é uma especie de comité executivo, dentro do qual se encontra
+ todo o elemento revolucionario. Disporá o Estado de força para
+ resistir a esta formidavel organisação que nem sequer hesita ante o
+ crime?
+
+ A experiencia da fraqueza dos governos, que se sucederam no poder
+ após o regicidio, não auctorisa a responder tranquilamente a esta
+ interrogação...»
+
+
+
+ Dezembro--1909.
+
+
+Segundo varias pessoas, ha efectivamente em Lisboa muitas agremiações
+carbonarias.
+
+
+ Dezembro--1909.
+
+
+O A... que se suicidou hontem tinha-se alcançado em não sei
+quanto--outros, passeiam por essa Lisboa. Um, o M., alcançou-se em
+dezoito contos. Castigaram-no reformando-o com o ordenado por inteiro.
+
+ * * * * *
+
+Conta o Columbano que a seu pae Manuel Bordallo Pinheiro, pediu um dia
+um companheiro de repartição:
+
+--Tenho lá em casa na cocheira (do conde de Lumiares), um quadro muito
+negro que queria que você visse.
+
+Manuel Bordallo foi buscar a tela, limpou-a da bosta dos cavalos,
+lavou-a da camada de negro... Era, nem mais nem menos, o retrato de
+Carlos I d'Inglaterra, por Van Dyck, que o D. Luiz depois comprou e está
+hoje na galeria do Paço d'Ajuda.
+
+
+ Dezembro--1909.
+
+
+O Avelino d'Almeida:
+
+--A verdadeira razão por que o _Seculo_ se fez republicano?... É que no
+Paço, das ultimas vezes que o Silva Graça lá foi, receberam-no mal,
+trataram-no d'alto.
+
+ * * * * *
+
+--Um homem muito honesto o Hintze--diz o Carneiro de Moura--um homem
+muito honesto que fazia assim:--Ó Val-Flôr, empreste-me vinte contos.--E
+o Val-Flôr emprestava-lhos--e recebia do Estado compensações que valiam
+o dôbro. Um homem muito honesto, o Hintze; que nunca tirou dos cofres do
+Estado o valor de cincoenta mil reis.
+
+
+ Dezembro--1909.
+
+
+Ministerio novo. O bloco foi comido. O Alpoim furioso, exclama, em pleno
+Chiado:--O rei mentiu-nos! o rei é um imbecil! o rei tinha-nos prometido
+o poder!
+
+E o Vilaça conta:
+
+--O José Luciano reuniu-nos hontem á noite, a mim, ao Beirão, ao Dias
+Costa, ao Moreirinha e disse-nos:--Se os senhores estão no partido
+apenas para serem pares do reino e para que os encha de favores, isto
+acabou, hoje mesmo se liquida o partido progressista. Não podem recusar
+as pastas que eu lhes indicar.--Todos se curvaram, o Vilaça, que perde
+dez contos por anno, e o proprio Dias Costa, que de forma alguma queria
+ser outra vez ministro.
+
+
+ 23 de Dezembro--1909.
+
+
+O Julio de Vilhena deixou hoje de ser chefe do partido regenerador.
+Conta o João Pinto dos Santos, que o Vilhena falou ao rei de cabeça
+alta, e por tal forma, que D. Manuel sahiu afogueado d'essa ultima
+entrevista, dizendo a alguem:--Só lhe faltou bater-me...
+
+
+ Dezembro--1909.
+
+
+O Mardel é um homemzinho pitoresco e anecdotico que conhece Lisboa como
+as suas mãos. Ninguem como elle desenha um tipo ou vae ao passado buscar
+uma figura. Sabe tudo e inventa o resto. É um prazer ouvil-o. Constroe
+genealogias, negoceia em _bric-à-brac_ e escreve satyras. D'uma vez, a
+um figurão que se dizia filho natural de D. Pedro IV e que mostrava
+desvanecido a toda a gente o retrato do rei que tinha na sala,
+perguntando:--Hein, com quem se parece?...--escreveu elle a seguinte
+quadra:
+
+
+Do Imperador, de quem diz que é filho,
+Tem o retrato na sala,
+Mas da p... que o pariu
+Não tem retrato nem fala...
+
+
+ * * * * *
+
+Encontro em casa do Mardel o marquez da Foz, de barbas brancas e aspecto
+venerando, que desata a narrar conversas extraordinarias, surprehendidas
+a meninas do _Sacre Coeur_ sobre a masculinidade dos creados... Depois
+fala d'arte, de mobilia, quadros e maravilhas que comprou e vendeu. Vive
+hoje arredado em Torres Novas.
+
+--D'uma vez, quando se vendeu a mobilia do palacio de Oeiras, dos
+Pombaes, os que fizeram a liquidação, pediram-me para lhes ceder um
+andar d'uma casa que eu tinha com escriptos na rua do Ferragial, para se
+fazer o leilão. Cedi e antes da praça fui lá, agradaram-me diferentes
+coisas e comprei-as. Custaram-me oito contos. Entre varias trapalhadas
+iam cinco vasos da China, cinco maravilhas, como nunca tinha visto. Eram
+precisas duas pessoas para lhes pegarem. Ao centro de cada vaso viam-se
+as armas de Pombal. Quatro coloquei-os á entrada da minha casa, o outro
+levei-o para a sala de jantar e pul-o defronte d'uma estufa... Um dia
+reparei: por causa do calor o verniz estalára. Levantei-me, olhei: sob a
+casca aparecia outro desenho. Tirei com uma faca o _craquelé_--e debaixo
+das armas, do Pombal apareceram as armas dos Tavoras! Tão certo é que
+até os grandes homens estão sujeitos a estas miserias...
+
+Depois trata da baixela do Paço, que no tempo de D. Luiz estudou a
+fundo, e que então andava a trouxe-mouxe pelos armarios. São peças
+magnificas, _signé Germain_, e que valem um milhar de contos.--D'uma vez
+disse a D. Luiz:--Deixe-me V. Magestade arranjar-lhe uma sala de jantar
+com a _boiserie_ de Queluz e a sua baixela, que nenhuma côrte da Europa
+apresenta uma sala assim.--Ainda hoje não ha côrte nenhuma, nem a da
+Russia, que tenha uma baixela tão rica. São mil e tantas peças
+admiraveis. É falso que lá esteja tambem a baixela do duque de Aveiro.
+Vi as contas todas, photographei tudo...
+
+ * * * * *
+
+--Um dia fui ao Leitão ourives, a esse artista...--e sorri com
+ironia--comprar qualquer joia. Ia a sahir quando dei com uma prata
+antiga a um canto.--Que é aquillo?--Está alli para derreter.--Deixem-me
+vêr.--Eram três peças esplendidas, com as armas do duque d'Aveiro--uma
+salva enorme, a que faltava um bocado da aza, com desenhos
+magnificamente gravados, e duas enormes compoteiras de prata com festões
+d'ervilhas, tudo marcado, assignado, admiravel.--São para derreter?
+Então venda-m'as. Quanto pezam?--Quinhentos mil reis.--Dou
+seiscentos.--Venderam-mas, levei-as para casa. Tinham feito uma
+tentativa para lhe apagar as armas. Quando depois as vendi deram-me
+alguns contos de reis.
+
+Por fim fala de ninharias, d'isto, d'aquillo--e d'algumas peças que
+tinham pertencido ao D. Fernando e «nas quaes alguem fez mão baixa»...
+
+ * * * * *
+
+Uma anecdota que elle tem como absolutamente autentica e que andou
+sempre na tradição da sua familia:
+
+--O D. João VI estava para morrer. O patriarcha procurou a D. Carlota
+Joaquina para a reconciliar com o rei. Recebido na sala do throno, em
+Queluz, diz-lhe as palavras banaes do costume--mas ella não cede. Pede,
+suplica--perde o seu tempo. A rainha está renitente. Então retira-se
+depois das contumelias da pragmatica--e, ao sahir, volta-se de repente e
+dá com ella a fazer-lhe um grande, um imponente, um magestoso
+manguito...
+
+ * * * * *
+
+Ha dias comprou por cento e cincoenta mil reis um quadro de Alberto
+Durer, absolutamente autentico e com a assignatura perfeita.--É o
+_pendant_ do que está no Museu. E estou em vesperas de comprar mais
+quatro, entre os quaes um Corregio. Suspeito, pela proveniencia, que
+todos estes quadros pertenceram á galeria do duque d'Aveiro.
+
+
+ Janeiro--1910.
+
+
+Contam-me hoje a morte tragica do Marianno de Carvalho. Estava doente,
+de cama, e a familia sahiu, deixando-lhe uma campainha á cabeceira. Os
+creados aproveitaram a oportunidade e safaram-se tambem. Quando voltaram
+foram dar com elle morto, agarrado á campainha, n'um ultimo desespero...
+
+
+ Janeiro--1910.
+
+
+O juiz d'instrucção criminal, dr. Antonio Emilio, a um amigo meu:
+
+--No dia vinte e oito de Janeiro os soldados apanharam junto a qualquer
+quartel da municipal um homem com um caixote de bombas e duas pistolas
+automaticas. Meteram-no no calabouço--e confessa, não confessa... o
+homem nada! Então o oficial chamou um soldado e disse-lhe:--Nós vamos
+alli para a porta do calabouço e tu diz-me a tudo que sim. Vamos lá.--E
+começou:--Carrega lá essa pistola para darmos cabo d'esse diabo, que
+vinha aqui para nos atirar bombas!--Quando o oficial abriu a porta do
+calabouço o preso atirou-se-lhe aos pés:--Não me matem que eu confesso
+tudo.--Então quem te entregou o caixote?--Foi o Alfredo Costa.--Veio a
+participação para o governo civil--mas só chegou ás mãos do juiz depois
+da morte do rei...
+
+[Figura: _José Maria de Alpoim._]
+
+ * * * * *
+
+O juiz:
+
+--Estamos sobre um vulcão. Prendi varios homens das associações
+secretas, podia prender mil. Já ninguem salva isto a não ser uma forte
+dictadura militar. E eu vou-me embora porque não quero incorrer nas iras
+populares.
+
+ * * * * *
+
+O dr. Antonio Emilio ao Beirão:
+
+--Ou vamos para a frente, ou os senhores metam-se em casa á espera que
+os chacinem.
+
+E garante que a explosão de outro dia na Baixa, atribuida a gaz
+extravasado, foi devida a uma bomba de dinamite.
+
+
+ Janeiro--1910.
+
+
+Os brincos de brilhantes que o Pedro d'Araujo deu á mulher do José
+Luciano quando o fizeram par, custaram cem mil francos. Diz-se,
+diz-se...
+
+
+ Fevereiro--1910.
+
+
+O Paço está rodeado de piquetes. Forças vigiam a Tapada. Garante-se por
+ahi que, emquanto os regicidas não forem presos, o rei não casa. O
+Maximiliano d'Azevedo, oficial do campo entrincheirado, conta-me que as
+forças do campo foram ante-hontem (1 de Fevereiro) postas sob as ordens
+do general de divisão e com ordem de marcharem sobre Lisboa ao primeiro
+aviso.
+
+ * * * * *
+
+O que se diz por ahi baixinho, de ouvido para ouvido, é tremendo. Diz-se
+o que _O Povo d'Aveiro_, que está tendo tiragens enormes, publicou nos
+ultimos numeros[9].
+
+ * * * * *
+
+O T..., d'_O Mundo_, disse-me que janta duas vezes por semana com o
+Alpoim, e já se tem gabado que é elle um dos auctores do _Diz-se_...
+
+ * * * * *
+
+O Colen, n'um jantar intimo, onde esteve alguem que m'o conta:
+
+--No dia vinte e oito de Janeiro estava tudo preparado e seriamente
+preparado para a deposição de D. Carlos--marinha, tropa, organisações,
+tudo. E tudo falhou porque o Afonso Costa não quiz dar o signal sem que
+o João Franco estivesse morto.
+
+
+ Março--1910.
+
+
+Á reunião celebre do Castello, onde se decidiu a morte do rei,
+assistiram trinta pessoas.
+
+ * * * * *
+
+Paçô Vieira:
+
+--A carta que o rei escreveu ao Hintze e que fez com que o ministerio
+cahisse, foi conhecida, antes de lhe ser enviada, pelos republicanos. Eu
+lhe conto: um dia estava em Paçô, quando o Hintze me chamou. Parti logo,
+corri logo a casa d'elle. Encontrei-o na sala de bilhar: tinha um papel
+na mão.--Desculpe e obrigado. Já não é necessario. Recebi hoje esta
+carta do rei que me levou a pedir a demissão.--Repliquei-lhe:--Sei
+perfeitamente o que diz essa carta. Posso repetir-lha quasi phrase por
+phrase.--E diante do espanto do Hintze:--Vim no comboio com o Afonso
+Costa que me disse, palavra por palavra, o que continha essa
+carta...--Assombro do Hintze. A copia da carta fôra mandada pelo rei aos
+republicanos--naturalmente ao Bernardino--antes de ser enviada ao
+Hintze.
+
+
+ Março--1910.
+
+
+Quantos Fialhos, todos diferentes, tenho conhecido pela vida fóra! Este,
+de ventre e barbicha de bode, esta figura de que os mortos se
+conseguiram apoderar, agarrado á terra, conservador, discutindo com o
+padre da freguezia os melhoramentos da sua egreja, este é--emfim!
+emfim!--o descendente autentico dos cavadores alemtejanos. Custou... As
+suas melhores obras--as que sonhou e nunca se resolveu a
+escrever--leva-as elle para a cova... De quando em quando ainda tem uma
+revolta:
+
+--É horrivel a minha vida na aldeia. Se não fossem os livros já me tinha
+suicidado. Cada vez preciso mais de ver gente e d'esta vida artificial
+de Lisboa. Na aldeia, em Cuba, não falo com ninguem, não tenho ninguem
+com quem comunicar. São de bronze aquelles filhos da p...! E nem a mais
+pequena sombra de sensibilidade. E se imaginam que a gente não tem
+dinheiro, estamos perdidos!...
+
+--Fuja.
+
+--Não posso. Quem me ha-de tratar d'aquillo? E depois criei interesse ás
+oliveiras que plantei, á vinha... Ah, mas as noites!... Tenho noites em
+que pego n'um livro e saio. Ha uma estrada em volta de Cuba--e eu alli
+ando á roda toda a noite a falar sósinho como um condenado!
+
+
+ Março--1910.
+
+
+Centenario d'Herculano. Missa nos Jeronymos pelo padre Matos. O S.
+Boaventura diz-me que, pela avó materna, é ainda parente de
+Herculano.--Que eram seus avós?--Pedreiros.--Efectivamente no retrato
+Herculano parece um pedreiro da minha aldeia; efectivamente Herculano
+descende de pedreiros e toda a sua obra é, na realidade, a d'um homem
+que moe e lavra com solemnidade a pedra, a d'um d'esses extraordinarios
+montantes que metem o ferro até á raiz da fraga, racham o penedo,
+afeiçoam a lage, e acabam, emfim, por construir a cathedral. Herculano
+edificou em granito--e no granito abriu pacientes e admiraveis
+lavores... A seriedade, a obstinação, e até o amôr á terra, ao azeite e
+ao pão, seu ultimo ideal e refugio, são caracteristicos e o ideal tambem
+d'essa legião de trabalho imensa e obscura, cuja alma, á força de lidar
+com a pedra, adquire dureza e grandeza tambem. Essas figuras, só osso e
+pelle, descarnadas, que partem de manhã com o saquitel e a borôa, que só
+pronunciam palavras graves, e ao dar do meio dia se descobrem e mastigam
+o pedaço sêco de pão com um ar solemne,--acabaram, emfim, por encontrar
+um descendente como elles austero e grave, capaz de exprimir o
+universo--o que sentiram, o que sofreram e o que sonharam--e capaz de
+edificar com alicerces para seculos. Tudo, até a falta de phantasia e
+imaginação, até o miudo lavor pacientemente trabalhado, até a casa
+simples, vulgar e mal repartida, até a companheira, até a austeridade,
+veio a Herculano d'essa grande geração de pedreiros portuguezes, que
+antes d'elle fizeram obra digna de homens e desapareceram para sempre no
+pó--mas poderam transmitir, filho atraz de pae, a solemnidade e a
+grandeza, a quem um dia erguesse uma cathedral mais vasta e com raizes
+mais fundas do que elles todos juntos. Mas todos trabalharam tambem,
+sabe Deus durante quantos seculos, com tenacidade e firmeza, para a obra
+do pedreiro maximo de toda a sua geração.
+
+
+ Março--1910.
+
+
+José d'Azevedo:
+
+--Anno passado o rei chamou-me e pediu-me para votar o projecto da União
+Vinicola. Disse-lhe logo:--Não, meu senhor, não voto. E V. Magestade
+pede-me isso porque não sabe de que se trata. O projecto é ruinoso.
+
+
+ Abril--1910.
+
+
+O Fernando de Serpa, agora em foco por causa das cartas que o Afonso
+Costa leu no Parlamento[10] e se teem publicado n'_O Mundo_--esteve
+estes dias para se suicidar. A mulher não dorme e o irmão d'ella entrou
+hoje n'_O Imparcial_ e disse ao José d'Azevedo:--Se isto assim continua
+minha irmã endoidece, e se minha irmã endoidece eu mato o Afonso
+Costa.--Segundo elle, esse Fernando de Serpa que se metia em tantos
+negocios, deve afinal quinze contos de reis e tem agora os seus
+vencimentos suspensos...
+
+ * * * * *
+
+Porque o José d'Azevedo não foi ministro com o Hintze:
+
+--O Hintze tinha por mim uma grande admiração, mas nunca me fez
+ministro, porque a sua vida economica andava muito atrapalhada e um dia
+em que me mostraram uma lista de pares que elle ia fazer, entre os quaes
+estava o meu nome, eu disse:--Mas isso não é uma lista de pares--é uma
+lista de credores.--Soube-o logo e nunca me perdoou.
+
+ * * * * *
+
+Quem roubou ao Paçô as celebres cartas de que o Afonso Costa se serviu
+no parlamento, foi o creado. Soube-o hoje por acaso. O Urbano Rodrigues
+vendo um rapaz de dezeseis annos na redacção d'_O Imparcial_,
+disse:--Este é o creado do Paçô, que vae muito ao _Mundo_ e pertence ás
+associações secretas.
+
+ * * * * *
+
+--O José Luciano foi sempre um homem pernicioso--diz o José d'Azevedo.
+
+--Emquanto fôr uma sombra ha-de mandar--conclue o Fuschini. E
+acrescenta:--Quem manda é o seu _salão_ onde se fazem os negocios mais
+escuros e mais porcos d'este paiz.
+
+ * * * * *
+
+--Esse ministro italiano que ahi está--conta o José d'Azevedo--foi um
+dos que mais concorreu para salvar Dreyfus. Paulucci, então secretario
+de legação em Paris, viu os documentos da embaixada e convenceu-se da
+inocencia de Dreyfus. Falou ao embaixador, seu tio, que lhe
+disse:--Prohibo-te que te metas n'isso.--Não se importou. Procurou
+Bernard Lazare, que o recambiou para o José Reinach.--Isso é
+extraordinario. Vamos ter com Max Nordau e com Zola.--Reuniram-se e
+examinaram os documentos da legação italiana. Dos papeis não só se
+deprehendia que era outro o traidor, mas resaltava nitida e clara esta
+preciosa informação: o adido encarregado da espionagem alemã possuia a
+esse respeito vinte e nove cartas absolutamente decisivas. Max Nordau
+partiu para Berlim e pediu ao imperador da Alemanha a publicação das
+cartas. O imperador opoz-se. Paulucci não desanimou: foi a Roma, bateu á
+porta d'um cardeal, pediu-lhe que o partido catholico tomasse a defeza
+de Dreyfus inocente, o que assegurava ao catholicismo um papel
+triumphante no mundo; falou emfim a Leão XIII, a quem só arrancou boas
+palavras. (E d'ahi veio o combate da França republicana contra o
+clericalismo. Que outro não seria o papel da Egreja se Leão XIII se
+manifesta!) Nem assim Paulucci desanima. Insiste com o tio:--Pois meu
+tio tem nas suas mãos documentos que provam a inocencia de Dreyfus e
+pode dormir descançado! Apresento-me como testemunha.--O embaixador
+conseguiu que todos os secretarios fossem testemunhas no processo.
+Paulucci tinha doze mil e setecentos documentos (copias) da questão
+Dreyfus, que arderam no ultimo fogo da embaixada italiana no campo de
+Santa Clara. Paulucci dizia muitas vezes:--Andei dois annos com febre!
+
+ * * * * *
+
+José d'Azevedo:
+
+--Fui eu que machinei e atirei com o ministerio Ferreira do Amaral a
+terra. Tinha-me feito um agravo que, se é directo, m'o pagava n'um
+conflicto pessoal. Fui eu que fiz tudo. O José Luciano não queria.
+Procurei-o na Anadia. Obstinava-se. Mas eu fui ao Porto--e venci. Uma
+tarde o Campos Henriques recebeu uma carta do Paçô, que encontrára o
+Tavares Festas no comboio (o Tavares Festas vinha de casa do José
+Luciano), carta em que lhe dizia: «Ouvi que vae formar ministerio com
+estes nomes...» O Campos Henriques mostrou a carta á mulher:--Olha o que
+me diz o Paçô...--E riu-se. No dia seguinte era chamado ao Paço e
+organisava o ministerio, tal qual o Paçô lhe dizia na carta. Ordens de
+José Luciano.
+
+
+ 1 de Maio--1910.
+
+
+José d'Azevedo diz a respeito do escandalo do Credito Predial:--Não são
+sessenta contos que faltam, são oitocentos! A escripta está toda
+viciada. Venderam-se obrigações, deram-se juros entrando-se pelo
+capital, emfim um descalabro medonho, que se não podia fazer sem
+auctorisação dos governadores.
+
+ * * * * *
+
+É um politico reservado e frio? Não sei. É um homem audacioso e
+inteligente, que parece calmo. Mas ha n'elle uma parte em carne viva.
+Sente-se a ferida sob aquella aparencia forte. Escreve sem uma emenda,
+linguado atraz de linguado; nem hesitações nem duvidas e um prazer que
+synthetisa n'estas palavras:--Babo-me... Não escrevo, babo-me...--Não
+crê senão em si mesmo, e não deve ter um amigo, como todos os que contam
+apenas com as suas proprias forças. A mulher d'um diplomata que viajou
+com elle, dizia:--As maneiras encantaram-me, os olhos meteram-me
+medo.--São os olhos dos Brocas.
+
+--Sou das raras pessoas que teem assistido ao suplicio dos chinezes. Fui
+com o meu creado, a cavalo--e por signal que elle desmaiou. Cortam-lhes
+primeiro a carne dos ante-braços, depois a das pernas, depois os seios,
+depois os braços e as pernas pelas articulações; dão-lhes emfim um golpe
+no coração e acabam por os decepar. Pois durante todo o suplicio atroz,
+os desgraçados não deram um unico grito, um só gemido: erguiam a cabeça
+e bufavam ou mijavam-se. Mais nada. Um d'elles prestou-se, sorrindo, a
+que o photographassem, emquanto o carrasco levantava a espada para o
+degolar...
+
+ * * * * *
+
+Uma phrase camilliana de uma tia, irmã de Camillo:--Sobrinho, Deus não
+existe... ou embarcou!
+
+ * * * * *
+
+E esta de Camillo, que tinha vindo a Lisboa muito doente, e a quem Souza
+Martins, para o sacudir, começou ralhando muito. Camillo, para o José
+d'Azevedo, depois do medico sahir:
+
+--Vê, meu sobrinho, vê, não me perdoam o _Eusebio Macario_, estes filhos
+de boticario!
+
+ * * * * *
+
+Camillo para o José d'Azevedo, mostrando-lhe o filho, que já estava no
+primeiro periodo de loucura:--Veja esse desgraçado... Era um rapaz
+inteligente...--E depois d'uma pausa dolorosa:--E tudo isto porquê,
+sobrinho? Por ter lido as obras do Theophilo Braga.
+
+
+ Junho--1910.
+
+
+Nos quarteis continua a fazer-se uma larga propaganda republicana.
+Distribuem-se aos soldados versos e folhetos. Exemplo:
+
+
+ || Ide escravos quebrar os grilhões,
+ || As algemas da fome homicida;
+ || Armas promptas contra esses ladrões,
+ || Que nos roubam a bolsa e a vida! (bis)
+ || Nova aurora de Paz, Redempção,
+ || Vá doirar nossos valles e cerros,
+PROPAGANDA ELEIÇOEIRA || Libertando os captivos dos ferros,
+ DO BLOCO PREDIAL || Dando aos pobres a luz e o pão.
+ ---------------- ||
+(Musica--A MARSELHEZA) || Avante! Lusitanos!
+ || Largae a servidão!
+ || Unir! Unir! contra os tyramnos,
+ || Salvemos a Nação!
+ || Avante Lusitanos,
+ || Salvemos a Nação.
+ ||
+ ||
+ || Tareco.
+
+
+
+E o folheto «Os Barbadões»[11]:
+
+
+ «O rei D. João I da gloriosa dynastia de Aviz, enamorou-se da filha
+ de Pero Esteves, sapateiro alemtejano, conhecido pela alcunha _O
+ Barbadão_; d'estes amores nasceu um filho que foi conde de
+ Barcellos e primeiro duque de Bragança; casando este com uma filha
+ do condestavel Nun'Alvares, deu origem á nobre casa que ha 267
+ annos reina em Portugal.
+
+ A casa de Bragança foi-se engrandecendo á custa de doações regias,
+ bens nacionaes que os reis cediam em usufructo apenas, e que o
+ capricho do soberano ou a conveniencia do Estado, podiam fazer
+ voltar ao seu legitimo proprietário: *A Nação*.
+
+ Não foram os serviços relevantes que engrandeceram esta casa, mas
+ as intrigas continuas, salientando-se entre todas a que levou o
+ glorioso infante D. Pedro á chacina de Alfarrobeira.
+
+ Com a revolução de 1640 que libertou Portugal do jugo da Espanha, o
+ oitavo duque de Bragança foi aclamado rei com o nome de João IV;
+ beato e poltrão liga-se aos jesuitas, e para salvar a pelle e o
+ titulo de rei, não hesita em negociar por intermedio do padre
+ Antonio Vieira (jesuita) a entrega do seu paiz á França, ou
+ novamente á Espanha, a troco de o reconhecerem como rei do Brazil;
+ a sua pessoa era tudo, o seu paiz era nada. Os melhores servidores
+ do Estado foram lançados em prisões ou conduzidos ao cadafalso (o
+ ministro Lucena, o marquez de Montalvão, Mathias d'Albuquerque
+ vencedor de Montijo, etc.). O seu reinado foi coroado pelo presente
+ que fez á Inglaterra, como dote de sua irmã, das cidades de Bombaim
+ e Tanger, ricas flores de laranjeira que a infante portugueza levou
+ prezas ao seu vestido de noiva!
+
+ Seu filho _Afonso VI_ que no throno lhe sucedeu, corria de noite as
+ ruas da cidade, com a sua purria fidalga, assaltando os cidadãos
+ indefezos; era doido, e d'isso se aproveita seu irmão _Pedro II_
+ para lhe tirar a corôa e... a mulher, com o consentimento do papa;
+ este (Pedro II) dominado pelos jesuitas tambem, desterra o conde de
+ Castello Melhor, glorioso ministro (que por tres vezes salvou
+ Portugal da dominação espanhola), e celebra com a Inglaterra o
+ vergonhoso tratado de Methwen, que nos tira o comercio do Oriente e
+ nos impossibilita de montar fabricas e oficinas.
+
+ *João V* que lhe sucede, gasta o oiro que do Brazil lhe vem, na
+ construção de conventos, em festas de egreja e em presentes ao
+ padre santo; deixa perder sem enviar socorros, as nossas colonias
+ da India, Ceylão e Oceania, porque o dinheiro era pouco para
+ presentear as freiras de quem fez amantes e o papa de quem se fez
+ lacaio.
+
+ *José I* faz morrer no cadafalso toda a familia Tavora, por meio de
+ horriveis tormentos, com o pretexto de serem cumplices na
+ conspiração do duque de Aveiro, o que se não provou, sendo a causa
+ verdadeira a oposição que essa familia fazia aos seus amores
+ adulteros com a marqueza; nada escapou ao seu furor sanguinario:
+ nem velhos, nem mulheres, nem creanças. Para dignamente coroar o
+ seu reinado, abandona aos mouros as cidades que possuiamos em
+ Marrocos, e que tanto sangue portuguez custaram.
+
+ [Figura: _Teixeira de Sousa._]
+
+ *Maria I* tira o poder ao Marquez de Pombal, entrega-o aos frades e
+ endoidece; seu filho _João VI_ que em seu nome governou e lhe
+ sucedeu, foge covardemente para o Brazil abandonando o povo de que
+ era rei, quando os francezes invadiram o paiz; Junot entra em
+ Lisboa á frente de 70 soldados!!! Portugal revolta-se contra os
+ francezes, e o rei entrega-o aos desprezos de Wellington e ás
+ brutalidades de Beresford; os inglezes protegendo-nos, fazem-nos
+ peor mal que os invasores: arrazam as nossas provincias, queimam as
+ nossas fabricas, conquistam a Madeira, e impõem-nos os vergonhosos
+ tratados de 1810, ainda peores que o de Methwen. O general Gomes
+ Freire, por tentar libertar o paiz das garras inglezas, é enforcado
+ em S. Julião da Barra; outros 17 martires pagam com a vida, no
+ Campo de Sant'Anna, a sua dedicação patriotica. A revolução popular
+ de 1820 salva Portugal do leopardo britanico, obriga o rei a voltar
+ ao seu posto e liberta o exercito do oprobrio de ser comandado por
+ oficiaes inglezes.
+
+ *D. Miguel* foi quem primeiro estabeleceu em Portugal um governo de
+ força, á semelhança do que desejam actualmente alguns idiotas
+ barriguistas; nada lhe faltava: as alçadas, as forcas, o cacete,
+ 80.000 homens de tropa e um povo fanatico e imbecil; contra si, em
+ todo o paiz, apenas tinha alguns liberaes desarmados; o seu retrato
+ figurava nos altares, e as mães pediam-lhe a honra de lhes
+ desflorar as filhas. Prende, enforca ou manda fuzilar toda a gente
+ de que suspeita, mas com toda a sua força, deixa que uma esquadra
+ estrangeira lhe escarre na cara e no Paiz, sem que um só tiro
+ partisse a repelir a afronta. Este idolo poderoso cahe do seu
+ pedestal de sangue, é corrido do throno pela _revolução_
+ triumphante; seu numeroso exercito pouco a pouco o foi abandonando,
+ vindo para o lado do povo liberal, e o bronco tigre que ao começar
+ a guerra civil tinha 80.000 homens ás suas ordens, perde a batalha
+ de Asseiceira com os 5.000 homens unicos que até esse momento lhe
+ ficaram fieis.
+
+ *Pedro IV*, o que tem estatua no Rocio, revolta o Brazil contra
+ Portugal, faz-se seu imperador e manda fuzilar no Rio de Janeiro os
+ soldados portuguezes á traição; corrido do Brazil, volta a Portugal
+ a tentar fortuna, dirigindo a guerra civil contra o irmão; emquanto
+ esta se não decide a seu favor, não tem vergonha de offerecer á
+ Inglaterra, em troca de auxilio desta, o pouco que nos restava do
+ nosso imperio indiano.
+
+ *Maria II* para se aguentar no throno chama marujos inglezes e
+ 30:000 soldados de Espanha; faz invadir a sua patria e assassinar o
+ seu povo, para satisfação do seu orgulho de rainha _liberal_.
+
+ *Pedro V* não poude passar sem irmãs de caridade, e deixa que
+ mansamente de novo se estabeleçam entre nós as congregações
+ religiosas; novamente, um almirante estrangeiro (Lavaud) nos faz o
+ mesmo que Roussin fizera em tempo de D. Miguel.
+
+ *Luiz I* arvora o cynismo em governo e faz reinar a bandalheira;
+ deixa que na conferencia de Berlim nos roubem a maior parte do
+ nosso territorio Africano, e conduz o paiz á bancarrota que estala
+ pouco tempo depois da subida ao throno de seu filho _Carlos_. Este,
+ esbofeteado pela Inglaterra, curva-se rasteiramente, chama
+ piolheira á nação que lhe paga, e... rouba-a; rouba-lhe o seu
+ dinheiro e rouba-lhe a liberdade; no seu reinado perdemos vastos
+ territorios nas nossas colonias de Moçambique, Angola e Guiné. O
+ seu ultimo ministro João Franco, que queria pôr tudo isto no _xão_
+ atirou com elle ao chão. Seu filho _Manuel II_ que lhe succedeu,
+ com sua bella e radiosa mocidade, já deu a seu povo uma explendida
+ amostra do muito amor que lhe tem: a chacina de 5 de abril (14
+ mortos e 100 feridos!); em troca o seu primeiro ministerio entendeu
+ que o povo lhe devia dar mais ordenado; ainda não roubou como o
+ papá, mas paga-se melhor; passa a sua vida de rozario na mão,
+ envergando a roupêta de jezuita, seguindo os conselhos das fraldas
+ femeninas reaccionario-palatinas.
+
+ Até hoje 14 reis da casa de Bragança teem governado o Paiz, e como
+ se vê são os legitimos representantes duma nação de idiotas,
+ barriguistas e poltrões; tambem não resta duvida que esta dynastia
+ é, como tem sido, a mais solida garantia da integridade do nosso
+ imperio ultramarino. Grandes são os beneficios que a Nação lhe
+ deve: uma divida colossal de *oitocentos mil contos*, nenhumas
+ industrias, nenhum commercio, uma agricultura atrazadissima, um
+ povo tuberculoso e analphabeto, esmagado com impostos á mercê dos
+ pontapés estrangeiros; nem exercito nem marinha; estradas ao
+ abandono e bufos com fartura, taes são as fontes de riqueza que os
+ Braganças nos deixam, e tudo isto por pouco dinheiro, baratinho:
+ *365 contos* por anno só para elle, mais *60 contos* para a mamã,
+ *outros 60* para a vóvó e *16* para o titi; tem tambem para
+ alfinetes *160 contos* a mais por anno que o generoso Amaral lhe
+ deu, pagamos tambem á sua guarda real de archeiros, á orchestra da
+ sua real Camara, e ao seu yacht, e como isto é pouco, damos-lhe
+ dinheiro pela honra que nos faz em alojar os seus cavallos e carros
+ nas nossas casas e pela licença que nos deu de utilisarmos em
+ serviço do Estado os nossos palacios; tudo isto, bem entendido,
+ nada tem com os rendimentos da casa de Bragança que disfructa.
+ Quando casar, se S. M. nos der essa felicidade, dar-lhe-hemos mais
+ *60 contos* para os alfinetes de sua esposa; e se tiver meninos?
+ então morreremos de alegria e daremos *20 contos* annuaes por cada
+ pimpolho.
+
+ Como veem, não é pagar cara a certeza que temos de ganhar o reino
+ do ceu pela mão do nosso radioso soberano, com a benção de Pio X,
+ as indulgencias de Merry del Val e as preces solemnes do sr.
+ patriarcha e do reverendo bispo de Beja.
+
+ * * * * *
+
+ Oliveira Martins, que foi ministro de D. Carlos, diz na sua
+ historia de Portugal: Força é reconhecer que na familia dos
+ Braganças não vingou a semente da nobre raça dos Nun'Alvares;
+ viu-se em todos elles a descendencia do crasso sangue alemtejano da
+ filha do _Barbadão_.
+
+ * * * * *
+
+ *Portuguezes!* façamos votos pela conservação d'esta gloriosa
+ dynastia--*Oremos*--*Padre Nosso*--*Ave-Maria*.
+
+
+ Junho--1910.
+
+
+Fui hoje a casa do Fernando Martins de Carvalho consultal-o. Não sae
+ainda com medo aos republicanos. É pequeno, inteligente, arguto. Está
+livido.
+
+--A rainha D. Amelia é que quiz forçosamente que o ministerio João
+Franco fôsse abaixo e até se opunha a que se lavrassem os decretos como
+habitualmente.
+
+--E o rei?
+
+--O rei, como dizia o Totenbach, não é um homem... Oh, vivemos dias
+horriveis! Olhe, tenho provas moraes absolutas de que os republicanos
+quizeram assassinar o João Franco, quando elle viesse de Carnide no
+automovel. Ha na estrada uma azinhaga: de repente uma carroça surgia,
+fazia parar o automovel e os assassinos cahiam-lhe em cima...
+
+
+ Julho--1910.
+
+
+Do João de Menezes:
+
+--Possuo documentos (que hão-de aparecer a seu tempo) e que provam que
+foi a rainha D. Amelia, d'acordo com a condessa de Paris e a duqueza de
+Monpensier, quem introduziu as ordens religiosas no paiz. Foram ellas
+que deram dinheiro para jornaes e o resto.
+
+ * * * * *
+
+A dissidencia, o assassinato do rei, o caso do Credito Predial, foram
+golpes profundos e certeiros vibrados na monarchia. Está efectivamente
+tudo minado... E os ataques dos republicanos ao juiz de instrução
+criminal demonstram que elle lhes tocou na ferida... Mas quem ha ahi que
+se queira comprometer a serio pela monarchia, sobretudo depois do
+exemplo de João Franco?--A um ministro foi preciso escrever-lhe uma
+ordem necessaria «porque a mão lhe tremia...» O que resta de pé não
+passa de ficção. Quem manda, quem governa, mesmo na oposição, são os
+republicanos, que o Alpoim leva pela mão até ás questões importantes.--O
+exercito é nosso.--E o João Chagas, para convencer um oficial incredulo,
+manda desfilar certa noite no Rocio os soldados d'um regimento, que, por
+senha, um a um lhe fazem todos a continencia. Sucedem-se os governos,
+mas a força é outra, que se sente por traz do scenario... O José
+d'Azevedo desafia-os:--Venham para a rua!--Fiado em quê? O pacto de Vila
+Viçosa efectivamente existe?[12] Já o João Franco dizia tambem com
+arrogancia:--Se podem fazer a republica façam-na depressa, porque d'aqui
+a dois annos garanto-lhes que a não fazem.--Mas será este rei um
+chefe?--pergunta necessaria e decisiva, a que os proprios monarchicos
+respondem d'esta forma n'_O Liberal_:
+
+
+ «O rei de Portugal está exautorado, está reduzido a uma chancella
+ de quem lhe bate os pés.
+
+ «Podia ser um rei, e é um simulacro da realeza.
+
+ «Em tempo algum se curvaram os reis perante ameaças de qualquer
+ natureza e ainda menos, quando tendentes a esquecer os nossos
+ protestos e juramentos a que está ligada a propria dignidade e a
+ honra de uma nação.
+
+ «Póde asseverar-se que o snr. D. Manuel não chegou a ser rei. No
+ momento em que se esqueceu do que devia á sua dignidade de nós
+ todos, *que lhe confiamos um cargo, que é incapaz de conservar sem
+ o deixar cair, o snr. D. Manuel deixou de ser rei*».
+
+
+A excitação politica não tem diminuido, e o Teixeira de Souza, no poder,
+ignora tudo que o juiz d'instrucção repete a quem o quer ouvir:--Estamos
+sobre um vulcão!--A audacia dos republicanos todos os dias
+augmenta:--Lisboa é nossa!--exclama o Chagas.--Se os republicanos
+fizessem um comicio ao alto da Avenida e viessem por ali abaixo, a
+republica estava feita!--afirma o Silva Graça--E o Porto e a
+provincia?--pergunto eu ao Chagas.--Que me importa a provincia! Que
+importa mesmo o Porto! A republica fazemol-a depois pelo
+telegrapho.--Outro diz-me:--A marinha está toda comnosco. Tem havido
+ocasiões em que a esquadrilha do Algarve nos pertence desde o oficial
+mais graduado até ao ultimo fogueiro. O dificil tem sido
+contel-os...--Todos os dias corre um boato e a agitação popular augmenta
+pela carestia da vida[13]. Que vae sahir d'aqui? Uma grande revolução, o
+terror, mortes?...--Não, soceguem, quando se fizer a republica--já o
+anunciou ha annos o pontifice maximo Guerra Junqueiro--o que se ha-de
+ouvir não é um grande ruido de espadas, é um grande ruido de talheres...
+
+
+
+
+A SOCIEDADE ELEGANTE
+
+
+Rodeiam a rainha o Figueiró e a Figueiró, e algumas relações intimas da
+Figueiró e Sabugosa; e o rei o Ficalho, alguns velhos em oficio na
+côrte, como o marquez d'Alvito, o conde de Villa Nova de Cerveira, que,
+ao que se disse, morreu por ser preterido pelo conde de Sabugosa, por
+influencia da rainha--o que é redondamente falso: D. Pedro de Noronha,
+vulgo o Paço d'Arcos, morreu de velho. Era um homem sem cultura, e tinha
+oitenta e seis annos quando foi preciso nomear novo mordomo mór por
+morte do Ficalho. Acompanham o rei no yacht o Fernando de Serpa, o
+Manuel Figueira, o Pinto Basto (Nico), o Malaquias de Lemos, o Queiroz,
+que passou por ser a alma danada do paço; e que na realidade tinha um
+certo geito para disciplinar soldados, montar a cavallo, dirigir esperas
+de touros--e mais nada; algumas vezes o major Santos, feitor da
+Bacalhôa, e o Soveral que, quando estava em Lisboa, era o menino bonito
+da corte, onde tinham influencia o Bernardo Pindella, o Caldeira,
+comandante do yacht, e poucos mais.
+
+A seguir ao paço podem citar-se os Palmellas, em casa de quem se dava
+beijamão aos creados e ás creadas, se isto não é uma lenda como muitas
+outras... Era uma pequena corte. Ella, a duqueza, viveu sempre entre
+coisas bellas; elle, o duque, era um apagado guarda livros[14]. Só
+recebiam raros parentes, e a duqueza toda a vida detestou os Sousa
+Holstein. No tempo de D. Luiz ainda muita gente nobre mantinha uma
+grande linha, que se foi pouco a pouco apagando: os Penafieis que então
+fizeram uma vida brilhante; o marquez de Vianna cujo palacio se vendeu
+ao marquez da Praia.--Aquella gente nem sabe acender um lustre, dizia o
+velho marquez ao falar d'«esses morgadotes da ilha...» Os condes de
+Lumiares davam bellas festas no palacio quasi pegado, onde é hoje o do
+Marquez da Fóz. Abriam-se as janellas, apagavam-se os milhares de
+lustres e continuava-se a conversa ate á missa das almas na capella
+proxima.
+
+Chamavam-se essas festas «rosas divinas». Debutou ahi, nas salas de
+Lisboa, o snr. Luiz de Soveral. No rez do chão do mesmo palacio davam
+pequenas partidas os Castellos Melhor. Tocava o seu amigo Bomtempo e
+juntavam-se alguns politicos, entre os quaes o Manuel Vaz Preto. No fim
+do reinado de D. Luiz já a maior parte dos palacios de Lisboa ou tinham
+sido alugados ou mudado de dono. No palacio de Tancos estava o colegio
+do dr. Sicuro; nos dos viscondes de Asseca instalou-se o visconde de
+Ouguella e depois uma fabrica; o dos condes de Murça transformou-se
+n'uma escola; o do marquez de Abrantes--que ocupava apenas um
+recanto--foi alugado pela legação da França; o dos condes Barão, no
+largo do mesmo nome, passou a uma familia de judeus, barão de Villa de
+Foscôa; o dos Almadas Carvalhaes, senhores d'Ilhavo, á Empreza Editora;
+no do conde da Ribeira, de quem o rei dizia que era o homem mais honesto
+do seu tempo, e que morava na casa dos Mordomos, instalou-se o colegio
+Arriaga. Já os Angejas, representados pelo conde de Peniche, tinham
+deixado o palacio de S. Lazaro, que depois ardeu, e o visconde de
+Sampaio mudára para a rua de S. Vicente. Os condes Valladares e Povolide
+haviam vendido ao snr. Burnay o palacio das Portas de Santo Antão e
+retirado para a provincia. O palacio dos condes de Paraty é hoje escola
+municipal, no dos condes da Ponte, á Boa Morte, habitou o general
+Palmeirim, e no dos condes de Farrobo móra o snr. Monteiro Milhões, que
+tambem comprou as Laranjeiras, vendidas depois successivamente até
+cahirem nas mãos do snr. conde de Burnay. O palacio dos Castellos Melhor
+passou ás mãos do marquez da Fóz, que alli deu algumas festas
+sumptuosas. Mas a mais brilhante, a que deixou grande impressão na gente
+da epoca, foi o celebre baile das Chagas, na antiga residencia, antes de
+mudar para o palacio da Avenida. N'esse baile se exhibiram todas as
+preciosidades que o marquez adquirira--quadros, baixelas Germain, etc.
+Romperam-se os tectos da sala de baile, para se construir uma galeria
+onde tocaram os musicos, acompanhados pelo côro de S. Carlos. Ahi
+começou tambem o marquez a arruinar-se. Gastou, gastou... Só as grades
+de ferro do corrimão do palacio da Avenida custaram noventa e cinco
+contos. O marquez chegou a ter cem contos de renda.
+
+Muitas outras familias ilustres ocupavam, retiradas da vida mundana, os
+seus palacios: o conde de Alcaçovas, na rua da Cruz dos Poiaes, o
+marquez de Pombal na rua Formosa, os marquezes de Penalva, etc. Os
+condes de Sabugosa, n'uma residencia que o conde tornou encantadora,
+recebiam ainda com brilho. Na rua Formosa existia tambem o salão da
+snr.^a D. Maria Kruz Brito, que no seu genero foi o unico comparavel aos
+salões da Restauração e 2.^o Imperio, de Paris. Sua filha, a senhora
+condessa de Ficalho, no solarengo palacio dos Mellos de Serpa, aos
+Caetanos, reunia a fina flor da elegancia em certos dias da semana
+(segundas-feiras). É o palacio ainda hoje ocupado pela senhora D. Maria
+de Mello, condessa de Ficalho. O destruido e inhabitavel palacio da
+Rosa, solar dos viscondes de Villa Nova de Cerveira, marquezes de Ponte
+de Lima, resurgiu pelos esforços do actual marquez de Castello Melhor,
+visconde da Varzea pelo seu casamento com a herdeira das casas Castello
+Melhor e Ponte de Lima, e alli se deram e dão esplendidas festas.
+
+
+Citam-se como as mulheres mais lindas d'essa epoca--fim do reinado de D.
+Luiz e principio de D. Carlos--a duqueza de Palmella, a condessa de
+Penamacôr, a condessa de Ficalho, a condessa de Villa Real e Mello, e a
+formosissima D. Anna de Sousa Coutinho, filha do Conde de Linhares,
+portanto neta da Senhora Infanta D. Anna de Jesus Maria, dama da rainha,
+e pelo espirito, pelo talento, a condessa de Rio Maior (mãe), a marqueza
+sua nora, filha dos marquezes de Bemposta Sub-Serra (Saint Leger) e
+tantas outras sumidas ou desaparecidas no turbilhão da vida.
+
+Uns pobres, outros mortos, outros arredados, deram logar a esta
+sociedade mais mesclada, a gente de dinheiro, a gente que enriquece,
+alguns nobres de mistura, alguns fidalgotes feitos á ultima hora, e a
+uma certa roda que se diverte, citada nos jornaes, e que constitue em
+toda a parte o que se chama a sociedade elegante. Uma senhora de
+espirito dividia a sociedade portugueza em aristocracia, _smart set_,
+alto pirismo (pirismo, é claro, vem de Pires), baixo pirismo e povo.
+«Esta ideia veio-me--diz ella--d'uma visita que recebemos um dia e que
+muito nos impressionou: num grupo d'automobilistas do Monte Estoril
+nossos conhecidos, tinha vindo a F..., aquelle sitio apartado á
+beira-mar, onde já o nosso pae costumava passar o verão, uma menina da
+boa sociedade de Cascaes. Essa menina, dizia minha irmã cheia de
+extranhêza, que nunca tinha vindo áquella casa, esteve durante toda a
+tarde exclusivamente a namorar um dos taes automobilistas, e nem antes
+nem depois nem nunca, esboçou para com os donos da casa um leve sorriso
+de agradecimento! Porquê n'uma menina tão fina tanto «falta de chá!...»?
+Porquê, entre ellas, e as meninas finas nossas conhecidas com mais
+intimidade, tamanha diferença?... Foi assim por comparações
+estabelecidas e deduções tiradas, que concluimos em dividir as classes
+da sociedade actual em aristocracia, _smart set_, _alto pirismo_, _baixo
+pirismo_ e povo.
+
+É inutil explicar o que se entende por aristocracia e povo. Cada uma
+dessas classes, no seu extremo oposto, está suficientemente definida por
+sua propria natureza. _Baixo pirismo_ é nome novo para a baixa
+burguezia, classe de que tanto, com tanta graça, e tanta verdade, se
+ocupou Gervasio Lobato. _Alto pirismo_... alto pirismo, somos nós, por
+exemplo, as manas da descoberta, muito bem acompanhadas por todas as
+nossas amigas e por quasi todos os nossos conhecimentos, mais ou menos
+endinheirados (ha de tudo!) de maior ou menor bom gosto e cultura.
+Classe numerosissima, em que está incluida toda a boa gente que cuida de
+ser bem educadinha e agradavel e que trata de sustentar, por um
+alevantado valor civico--que muitas vezes é inconsciente...!--as regras,
+os preconceitos, as convenções, de que uma sociedade bem organisada não
+pode prescindir.
+
+Ha alguns grupos no alto pirismo, muitissimo agradaveis--se n'elle
+incluimos tanta gente!...--em que se cultiva ainda a boa conversa, em
+que, sem sombra de pedantismo, se discutem livros, ideias, arte, e em
+que ninguem sente saudades de jogar o bridge. Mas ha outros grupos, em
+que nas festas os homens não estão na mesma sala em que estão as
+senhoras, festas em que só dança, e pouco, a gente muito nova, e em que
+as meninas, nada interessantes, mas com aquelle ar de timidez e de
+recato, que tanto agrada aos portuguezes á volta d'uma viagem pelo
+extrangeiro, namoram pelos processos archaicos, sob os olhares mais ou
+menos adormecidos da mamã. Festas essas em que, a alturas tantas, nós,
+com a certeza absoluta de que o relogio está parado, começamos a sentir
+verdadeiro odio pelas begonias artificiaes--ainda se encontram!--que
+ornamentam a étagère, e que cresceram em leque de dentro d'uma especie
+de musgo sêco, muito mal imitado; festas em que só pela muita fôrça da
+boa educação recebida nos obrigamos a trocar umas palavras vazias de
+interesse por uma contorsão dificil e dolorosa do corpo, com a senhora
+gorda que está sentada no _borne_ atraz de nós! (Tambem ainda se
+encontram muitos _bornes_!!)
+
+São estes grupos do alto pirismo, é preciso dizer a verdade toda, que
+nos enchem precocemente a cabeça de cabelos brancos.
+
+A _smart set_ (cá está a tal menina que apareceu na F...) foi certamente
+organizada em Cascaes. Deve ter nascido na Parada...--e foi fundada
+provavelmente por um pequeno grupo de aristocratas neurasthenicos e
+comodistas, aos quaes logo, muito contentes, se agregaram por
+facilidades de convivencia e porque os souberam imitar, alguns membros
+do alto pirismo. Hoje é uma classe bastante numerosa e certamente a mais
+_chic_. Distingue-se das outras por varias coisas; por exemplo: desprezo
+absoluto pela prudente instituição do «chaperon» (esses entreteem-se com
+o bluff)--desprezo absoluto pelas boas maneiras, pela cortezia corrente
+(só se cumprimentam as pessoas que passem perto e essas mesmas com
+marcada indiferença)--ignorancia completa das regras da gramatica (isso
+seria «falar dificil»!) e da orthographia. Cultivam só o corpo
+diplomatico e a religião; vestem bem, jogam muito, dançam muito e bem, e
+flirtam na perfeição. Votaram ao ostracismo algumas palavras que nós
+dizemos e que são _pessidonias_ como: chavena, trem, pharmacia, carnaval
+etc. etc. etc. Tratam-se todos por «você»; alguns teem muita _piada_ e
+usam todos um ar muito _chateado_. (É da praxe, o calão.) A _smart_
+diverte-se... mas não sabe sorrir».
+
+Esta sociedade, que anda todos os dias nos jornaes, vem do alto até
+baixo, da aristocracia ao povo, forma uma lista infindavel, tem um
+chronista celebre, o snr. Luiz Trigueiros, e pode ser vista ás tardes no
+_Dia_ e de manhã no _Diario Nacional_. Dessa lista destaca outro
+informador algumas senhoras: Branca de Gonta Colaço, poetisa distincta,
+voz de ouro, herdada do pae, bonita a valer e sempre apaixonada pelo
+marido, o artista Jorge Colaço; Magdalena Trigueiros de Martel Patricio,
+pequenina, vivissima compleição d'artista, gostos aristocraticos,
+fazendo versos em francês e d'uma alegria comunicativa; Elisa Baptista
+de Sousa Pedroso, pianista eximia, sempre em concertos, em recitas de
+caridade, em festas que dá em sua casa e onde reune uma sociedade
+mesclada de artistas, diplomatas, aristocratas e politicos; Sarah da
+Motta Vieira Marques, voz rica e sciencia no cantar, só rivalisando com
+a sciencia de receber: o seu salão pode considerar-se um dos poucos
+refugios dos ultimos dez annos, no dizer dos seus amigos; Adelaide
+Coelho da Cunha, esposa do director do _Diario de Noticias_, grande
+organisadora de festas, no seu palacio a S. Vicente de Fora, festas
+dramaticas d'uma grande riqueza de apresentação e mise-en-scêne; a
+malograda Ada Weinstin, a esposa do conhecido banqueiro, recitando
+maravilhosamente, vestindo com suprema distincção, bonita, elegante,
+cheia de _charme_; Candida da Nova Kendall, formosura triumphante, que
+passou pela sociedade lisboeta como um meteoro louro, cantou como um
+rouxinol, e voou para terras da Santa Cruz, sua patria: ella a bem dizer
+tinha duas patrias: Bahia-Paris; Alda Decken Lino, figurinha de madona,
+de bandós negros e olhos transparentes, mulher do architecto Raul Lino;
+Maria Emilia Macieira Lino, cantora e organisadora de soirées artisticas
+com representações de autos de Gil Vicente; Alice Munró dos Anjos, dando
+festas na sua casa da Praça dos Restauradores, onde se dança
+alegremente, presididas pelas suas filhas, a linda condessa de Arnoso e
+a simpathica condessa de S. Lourenço; Luzia Patricio de Balsemão, grande
+linha de elegancia, certa em todas as premiéres; Irene Gilman, filha de
+Thomaz Ribeiro, loura, inteligente, maliciosa e dançando
+maravilhosamente; Christina Rezende da Silva, d'uma belleza e elegancia
+patricias; Elisa Baerlein; Conceição de Carvalho, filha de Mariano,
+organisadora de festas artisticas, para que escrevia peças, em casa de
+seus sogros os Viscondes de Carnaxide, bonita e intelligente; Zulmira
+Franco Teixeira, pequenina, d'uma requintada elegancia, fazendo versos,
+como sua irmã a condessa de Almeida Araujo, etc. etc.
+
+ * * * * *
+
+A sociedade lisboeta tinha dois pontos principaes de contacto--Cascaes e
+o theatro de S. Carlos. Era ahi que os ricos, ou os que aparentavam,
+procuravam impor-se a certa roda, que dificilmente os recebia.
+
+
+De 1880 para cá as emprezas succedem-se em S. Carlos como os ministerios
+progressistas e regenerador e Valdez disputa com Freitas Brito a vinda a
+Lisboa das grandes celebridades. Se Valdez traz Masini, Patti, Devriés,
+Vidal, Castel Mary, Devoyod, Cotogni, a tragica Ristori, a Regina
+Pacini, Novelli, de Bassini, que passou por amante d'uma rainha (vêr
+Fialho), os irmãos Andrades, etc.; Freitas Brito apresenta Varesi,
+Gayarre, Rapp, irmãos De Reskée, Navarrini, Tetrazzini, Theodorini,
+Gabrielesco, Nevada, Kaschmann, Sarah Bernhard, Marini, Ristori,
+Salvini, Rossi, Desreins, Sherie, Belincioni, Ferrani Darclée, Tamagno,
+Borghi Mamo (Herminia), baritono Aldighieri, Pandolfini, Saloni, Arkel,
+maestro Gula, Delman, tenor De Marchi, Morconi, Sarasate, e tantos
+outros. Os partidarios de Freitas Brito pateavam sempre na epoca de
+Valdez, os de Valdez na epoca de Freitas Brito--o que não os impedia de
+se juntarem em jantares semanaes, a que assistiam os dois emprezarios...
+A estas duas emprezas segue Paccini, que faz fortuna. Foi n'essa epoca
+que S. Carlos se transformou n'um grande salão. Vem a Lisboa os reis e
+presidentes de republicas. O numero de recitas augmenta, a assignatura
+augmenta. Paccini dá cincoenta recitas de assignatura, vinte e quatro
+extraordinarias e doze extraordinarissimas, a que o publico chama dos
+_Sebastiões_, e no palco desfilam Belincioni, Krucinisky, De Lerma,
+Renaud, Tita Ruffo, Lassalle, etc., etc. Segue-se Anahory, com a
+carruagem, o charuto, Wagner--e o desastre.
+
+Ahi está todo o mundo literario e elegante, nos camarotes ou na plateia,
+toda a Lisboa como se diz nos jornaes: Carlos de Freitas Jacome, antigo
+diletanti, e que se julgava pae da Patti, Freitas Rego, o Principe
+Negro, conquistador irresistivel, D. Luiz da Camara, o conde de
+Mesquitella e Antonio de Brito, que formavam um grupo, de que Bordallo
+fez tres medalhões para distribuir pelos assignantes de S. Carlos;
+Joaquim Pessoa, do _Diario de Noticias_, apaixonado da Baresi; José
+Saragga, critico do _Jornal do Commercio_; o phantastico Eduardo Cheira;
+Mr. Garaty e mulher, assignantes chronicos de S. Carlos, elle muito
+baixo, ella muito alta; dr. Patrocinio, professor de mathematica, com
+uma paixão assolapada pela cantora Pasqua; Antonio da Costa e Silva, um
+dos mais elegantes rapazes de Lisboa; Alfredo Anjos, enamorado da
+Devriés, e que na noite do seu beneficio lhe mandou compor um
+deslumbrante jardim natural para o 3.^o acto do Fausto; Francisco da
+Fonseca Benevides e esposa, o auctor da «Historia do Theatro de
+S.Carlos» (recitas impares n'uma frisa, recitas pares n'uma torrinha),
+Freitas Branco, Silva Canellas, Jayme Arthur da Costa Pinto, que foi
+director da sociedade lyrica que se fundou em S. Carlos com o Paccini
+pae; Motta Marques, que casou com a cantora Meccoci; May Figueira, o
+exotico marquez de Franco e Silva Carvalho, todos tres adoradores do
+corpo de baile; Custodio Borja, José Bacellar e Ottolini da Veiga, com
+mania de canto e voz de _basso_--e que, d'uma vez, corrido pelo publico,
+a quem fizera um manguito, fugiu no comboio para o Porto, ainda vestido
+de frade, com o fraque enfiado por cima--Eduardo Cordeiro e Augusto
+Ribeiro, enorme e sempre com muitos calos; Dantas Baracho; Eduardo
+Tavares; Espregueira e mulher n'uma frisa; José Martinho da Silva
+Guimarães; o Guerra, pae das meninas Guerras; o barão da Regaleira,
+Antonio Duarte da Cruz Pinto, Agostinho Franco, José d'Alpoim, Rufino
+d'Almeida, o padeiro gordissimo de S. Carlos, etc., etc. e n'uma
+torrinha, que ficou na tradição, a 115, o Antonio Manuel Teixeira,
+depois secretario de S. Luiz de Braga, o Luiz Campeão e o Oliveira,
+chamado das _cautelas_ de _25_: era d'ahi que partiam sempre os aplausos
+ou as pateadas monumentaes.
+
+Nos camarotes e nas frizas as lindas sobrinhas do marquês de Franco,
+Falcarreras; a lindissima baroneza da Regaleira; e a mais bella mulher
+de todos os tempos, já velha e sempre decotada, a duqueza de Avila e
+Boiama; Espregueira, que foi a primeira que se apresentou com vestidos
+sem hombros, ostentando magnificos collares de brilhantes; Moreira
+Marques; a condessa de Figueiró; a condessa de Taveira, acompanhada pelo
+marido, sempre de casaca com botões amarellos; a condessa d'Edla, o
+gentilissimo pagem do _Baile de Mascaras_,--da cantora a rainha--;
+Poitier, loira ideal, que casou com o filho de Monteiro Milhões; a
+duqueza de Palmella; a condessa de Alferrarede; a condessa de Alverca; a
+viscondessa de Idanha, e a de S. Luiz de Braga etc. etc. e no camarote
+de bocca de 3.^a ordem n.^o 70--esta Lisboa foi sempre monumental!--a
+Antonia Moreno com as suas espanholas, pilar do estado, necessario e
+decerto muito mais util que a Junta de Credito Publico. Essa mulher
+acabou deixando por testamenteiro Frederico Arouca, que repudiou a
+fortuna que ella lhe legou, e depois de passar para alguns camarotes
+brazonados de fresco uma ou outra das suas mais lindas pupilas...
+
+
+«Cascaes, com a adjacencia dos Estoris,--diz-me um frequentador--era a
+côrte na intimidade, em robe-de-chambre, mais faceis as relações, mais
+accessiveis e amaveis, tu cá, tu lá. Quasi tudo gente do rei, que ia
+para lá cedo, por meiados de setembro, cansados de Cintra onde D. Carlos
+raro pernoitava, fugindo, a pretexto de tudo e de nada, á convivencia da
+rainha e da Figueiró. A separação do rei e da rainha, segundo me
+informaram, porviera de certa dama, que lançou entre elles a sizania.
+Conheci-a ainda linda e elegante, um pouco roliça, de olhos aveludados e
+labios vermelhos: nos ultimos annos engordára, e banalisara-se. Tinha a
+furia do dominio, e rodeava-a uma côrte de gente em que ella mandava e
+da qual fazia parte um diplomata mais tarde em evidencia. Passava por
+ter relações anormaes com a rainha... O marido pouco esperto, só tinha
+como ideal ser ministro plenipotenciario e par do reino.
+
+Em Cascaes, a rainha não se vulagrizava. Saía a cavalo emquanto poude
+montar. Tinha varizes nas pernas,--informou um dia o D. Afonso. No meu
+tempo não passeava de barco, passeava de carruagem, descendo ás vezes
+para andar a pé. Dava as suas recepções á tarde, principalmente em
+vespera de festa, para serem apresentadas pessoas que desejavam ir aos
+bailes, e que em Cascaes mais facilmente obtinham o convite e a
+apresentação preliminar indispensavel, que o conde da Ribeira, quando
+estava de serviço, facilitava extraordinariamente. A Figueiró voltava
+para Cintra logo que acabava serviço.
+
+O D. Carlos fazia vida hygienica de madrugador, tirava photographias,
+pintava ligeiramente algumas marinhas, _sentindo_ o mar. Logo de manhã,
+saía de carro ou a cavalo, com chuva ou com sol (demorava-se até meiados
+de novembro em Cascaes), ou ia á procura de senhoras que elle perseguia.
+Tivera, pelo menos um anno, n'uma vila do Mont'Estoril, uma amante, mas
+isso não o dispensava de querer que o julgassem homem de boas fortunas.
+Escrevia a miudo a outras damas, em caligraphia disfarçada, cartas em
+prosa e verso á mistura, quasi sempre em francez. Eram muito tolas. Vi
+algumas e podia ter guardado uma, que rasguei. Serviam-no dois
+alcoviteiros ilustres, que o faziam encontrado com as mulheres que lhe
+agradavam. Outro chegou a dar um baile, para que o rei conhecesse uma
+senhora da burguezia media atraz de quem andou annos.
+
+Iam ao Sporting Club, mais conhecido pela Parada, jogar o tennis. Não
+havia escolha nos pareceiros. O almirante Capelo, o explorador, ficava
+com o sobretudo do rei no braço, emquanto elle jogava. D. Carlos era um
+timido, falava pouco, nunca olhava de frente: seus pequenos olhos claros
+evitavam sempre os dos outros.
+
+A Parada era a capital do reino de Cascaes. Ahi se reunia a flor da
+aristocracia e o ingresso não era facil, como socio. Só nos ultimos
+tempos é que o Tompson, a quem chamavam moço fidalgo, facilitou a
+entrada. Aos domingos davam-se salsifrés á noite, e todos os annos um
+grande baile, a que assistia o rei, que distribuia os parceiros e
+dançava uma contradança. A rainha, se ia, não se demorava. Nos dias de
+semana, poucas pessoas lá estavam, preferindo os casinos á beira-mar,
+principalmente o Estoril.
+
+O rei, todas as tardes, ia para a Boca do Inferno e quedava-se ali, se
+encontrava algumas senhoras que o interessassem. Por isso chegaram a
+chamar ao D. Carlos o _balão cativo_...
+
+O rei mal recebia os ministros, de que se desfazia logo que lhe era
+possivel. Não se demoravam em Cascaes, não os convidava para assistir,
+sequer, ás partidas. Teve d'uma vez, como hospede, o Soveral. Não lhe
+conheci nenhum outro.
+
+O D. Afonso ia cedo para o Monte Estoril, para a vila sobre o mar, que
+ali possuia a mãe. Descia a praia, com uma grande simplicidade de
+maneiras. Falava pouco, era bom rapaz, e a maior manifestação
+intelectual que lhe conheci foi anti-clerical. Vestia-se sumariamente:
+uma camisola azul, casaco e calça da mesma côr e bonet. Assim andava, de
+manhã até á noite. Ás vezes ia ao mar, e os barqueiros gostavam d'elle.
+Nunca tinha vintem. Os ajudantes ou oficiaes ás ordens não lhe
+emprestavam dinheiro, porque sabiam que elle não lhes pagava.
+
+Não era dado a senhoras--preferia as outras... Certa condessa é que
+conseguiu ser amante d'elle, porque conhecia todas as maneiras de
+conquistar um homem. Deu um baile para que convidou o infante e a fina
+flôr. O marido estava encantado. Nenhuma moral em nenhum d'elles. Elle
+era muito cioso da sua nobreza e gostava de parecer. Ella queria gozar a
+vida. O A... que foi seu amante, contou-me que em Madrid ella dissera
+d'uma vez ao marido, que não tinha um ceitil quando casou: «Tu, para
+chulo, és caro de mais!»
+
+Em Cascaes era dificil chegar a vias de facto com uma mulher. Meio
+pequeno, coscovilheiro, maldoso, maldizente. Não se falava senão nesta
+ou naquella, em escandalos, repetindo-se os ditos de ouvido para ouvido
+ou acentuando-se as infamias. A M... foi apanhada no pinhal dos Olivaes
+n'uma atitude equivoca... A S... faz namoro descarado ao rei... Mas as
+coisas arranjavam-se para Lisboa. Vinham ao dentista, ás compras, etc. A
+forçada e grande intimidade estabelecida, de manhã na praia, á tarde na
+Boca do Inferno, onde toda a gente ia, apezar do vento e da poeira, na
+Parada ou á boquinha da noite no passeio Maria Pia, junto á cidadela,
+onde ás vezes fazia uma ventania infernal, á noite nos casinos, ou
+nalguma partida de bridge, a vida quasi em comum e os namoros travados,
+o ar do mar que desiquilibra os nervos e torna os amores exigentes,
+fizeram tecer muitas aventuras escandalosas. Um ainda fugiu a tempo com
+a mulher, que já madura, esteve em vesperas de cair... Nunca mais voltou
+a Cascaes.
+
+As ceias nos bailes eram pugnas. Vi isso até no Paço. Uma descendente de
+D. João IV, vi-a eu agarrar-se a um bufete, com unhas e dentes. Em
+certas casas, as ceias nunca chegavam. Uma madrugada, num baile do M...,
+chegou a iniciar-se a lucta... A alta sociedade era, em regra, pelintra.
+As grandes familias tinham gasto as fortunas, e muitas não queriam, ou
+não podiam, dar bailes. Só tinham dividas. Não era possivel deixar d'ir
+a S. Carlos e de satisfazer outras exigencias. Havia-os com actrizes com
+dezasseis annos de assignatura... Fóra o Palmella e poucos mais, não
+recebiam porque de todo não podiam. E, se o faziam, era sem-cerimonia.
+Não havia dinheiro! não havia dinheiro!
+
+Descaiam muito os fidalgos, mas obstinavam-se sempre em _parecer_. Um
+oficial jogador e pae de uma serie de filhos, mandava a miudo incomodar
+D. Carlos... Todos os seus famulos lhe extorquiam dinheiro, quanto
+podiam. Choravam, punham-se de joelhos, contavam-lhe miserias reaes ou
+falsas. Tive, em Cascaes, semanas uma arca com prata para fugir a uma
+penhora iminente... Um grande fidalgo, no fim de algum tempo, despediu
+os creados--mas nunca pagou a nenhum. Outro chegou a não ter que jantar,
+porque o mercieiro não lhe fiava, ninguem lhe fiava, mas bebia todos os
+dias garrafas de champagne.
+
+Havia mancebias antigas e tão respeitaveis, como o casamento, assim, por
+exemplo, F... e F... Já ninguem convidava uma sem o outro.
+
+Quer que lhe fale tambem da gente que fingia de nobre, da burguezia
+vaidosa e que fazia mexerico para ser convidada? A mulher d'um grande
+industrial conseguiu entrar na casa d'um fidalgo, onde ia toda a gente,
+da grande e da baixa. Convidou-a para jantar, para o theatro e andava
+contente como um cuco. Um dia não a convidou mais. Chorou. Isto foi-me
+afirmado por uma amiga que o viu. Era uma dama, muito linda, com um
+soberbo colo, mas com o cerebro d'uma arara...»
+
+Ahi fica o quadro levemente esboçado por um frequentador de Cascaes.
+Tudo isto é frivolo e tragico. Lembremo-nos que d'esta maledicencia, dos
+ditos d'estas boccas que sorriem, da ninharia e do encanto, se gerou
+parte da athmosphera donde devia sahir o descredito da rainha e o
+assassinato do rei.
+
+
+
+
+O MUNDO POLITICO
+
+
+ Novembro--1918.
+
+
+Os acontecimentos dos ultimos reinados afiguraram-se-me sempre faltos de
+logica e de nexo. Estão talvez muito perto de nós ainda: precisam de
+perspectiva que os coloque nos seus devidos logares. Só o historiador
+poderá crear mais tarde, com documentos e memorias, e certa aparencia de
+verdade, o romance da nossa vida. Nós, por ora não sabemos nada, nem
+mesmo dar resposta plausivel ás perguntas que nos obsidiam... Porque
+foi, por exemplo, morto D. Carlos? É fora de duvida que até os
+monarchicos receberam com alegria a sua morte. «Não vi lagrimas»--diz
+Julio de Vilhena. Eu avanço mais: só vi aplausos. E no entanto já hoje
+se pode afirmar sem erro que D. Carlos não foi morto pelos seus
+defeitos, mas pelas suas qualidades. Respirou-se! respirou-se!--o que
+não impede que, a cada anno que passa, esta figura cresça, a ponto de me
+parecer um dos maiores reis da sua dinastia. Já redobra de proporções e
+não se tira do horizonte da nossa consciencia. O rei tinha na verdade
+defeitos, mas--diga-se! diga-se!--não foram os seus defeitos que o
+mataram, foram as suas qualidades. Só o assassinaram quando elle tomou a
+serio o seu papel de reinar, e quando, com João Franco, quiz realisar
+dentro da monarchia o sonho de Portugal Maior. Foi esse o momento em
+que, talvez pela primeira vez na historia, os monarchicos aplaudiram um
+crime que os deixava sem chefe, e se abriram de par em par as portas das
+prisões, congraçando-se todos os politicos sobre os corpos ainda mornos
+dos dois desventurados.
+
+
+O D. Luiz pôde ir até ao fim do seu reinado, porque elle proprio o
+disse--«um principe é um dissimulador». Mas D. Carlos é que não foi
+nunca um dissimulador. D. Carlos desprezava os politicos. Dizia:--Tu
+ouvel-os falar? Se lesses as cartas que me escrevem enchias-te de
+nojo.--Essas cartas existem... Na verdade toda a gente dizia mal da
+politica e desprezava os politicos: só elle os não podia desprezar. É
+authentico tambem que no seu desdem chegou a envolver o paiz. Toda a
+gente, desde o literato ao homem rude, dizia mal do paiz. Tempo houve em
+que foi moda dizel-o. Só elle não devia dizer mal do paiz. Realmente
+pediu muito dinheiro aos politicos, mas os politicos pediram muito mais
+dinheiro á nação, dando cabo d'elle com as suas clientelas. E ninguem
+lhes tomou nunca contas: todos morreram honrados. Hintze passou por ser
+um homem integro. José Luciano tambem. Pessoalmente decerto, mas com o
+que ambos elles esbanjaram reconstruia-se o paiz de alto a baixo. O
+partido regenerador tinha tal fama que se dizia em Lisboa: «quem não é
+regenerador é ladrão de si mesmo». Na realidade não havia a esse
+tempo--porque hoje tudo mudou de figura--senão um partido em Portugal
+capaz de sacrificios, o partido republicano: os outros, para me servir
+da phrase tão justa de Homem Christo, eram apenas «quadrilhas
+politicas». Ser politico em Portugal foi a mais rendosa de todas as
+industrias. «Logo que chega ao poder um chefe de partido não pensa senão
+em explorar o paiz em proveito das suas clientellas. O Estado é a preza
+dos politicos... Se eu podesse encontrar um homem integro que podesse
+modificar tudo isto dar-lhe-hia todo o meu apoio».
+
+Parecia que o proprio paiz na verdade só queria comer:--Pedem tudo!
+pedem as maiores poucas vergonhas!--exclamava o Alpoim; e o dr. Antonio
+Cabral escrevia:
+
+
+ «No tempo da monarquia essa mesma maioria acomodaticia e
+ pedinchona, só conhecia o caminho dos ministérios para ir
+ importunar os secretarios de Estado com solicitações de empregos,
+ de benesses, de estradas, de favores, até de escandalos. Não ia
+ levar aos ministros uma ideia, um plano, a lembrança de um
+ beneficio para o país. Ia procurar interesses, buscar comodidades,
+ exigir condescendencias, sem se lembrar de que tudo isso custava,
+ muitas vezes, dinheiro ao Tesouro Publico e só causava prejuizos á
+ nação.
+
+ Depois, quando a tempestade bramia e as moscas varejeiras zumbiam
+ em tôrno da montureira politica, essa mesma maioria, de larga guela
+ e incomensuravel ventre, era a primeira a gritar contra as
+ imoralidades que provocara, contra os atropelos da lei que
+ impuzera, contra os êrros de administração que imperiosamente
+ reclamara! Para essa maioria prudente... e de muito comer, os
+ culpados de tudo--criminosos execrandos!--eram o Rei, os ministros,
+ os deputados, todos, emfim, que tinham na mão as rédeas da
+ governação publica. Ella, a maioria exigente e dificil de
+ contentar, era inocente e de tudo lavava as mãos.
+
+ Ella, a maioria composta dos influentes, dos caciques, dos
+ compadres, dos despoticos senhores do país, que hoje se encolhem,
+ transidos de pavor, e então barafustavam do alto do seu pedestal de
+ mandões; ella, a maioria que ordenava, que dispunha de votos, que
+ sabia impôr-se com arrogancia--ella, de nada era culpada e escondia
+ o rosto púdico na alva clamide de vitima dos maus politicos!...
+
+ Veiu, por fim, a queda no abismo, em que se evidenciou a traição de
+ muitos e a incompetencia de tantos. A _maioria dos portugueses_, se
+ não delirou de contentamento, remeteu-se ao cómodo e discreto
+ silencio em que se comprazem os covardes e os maus cidadãos, para
+ só os interromper com murmurios de reprovação, soprados nos centros
+ de conversa contra os politicos... que ella empurrára para o mau
+ caminho e ajudara a despenhar no precipicio.
+
+ Oh! a maioria dos bons cidadãos de larga pança!...»
+
+
+Hintze e José Luciano tinham-se congraçado no reinado de D. Carlos, e só
+elles podiam tudo, só d'elles dependiam lugares, favores, vaidades e
+interesses. Antonio Cabral está certo que foi pelos seus meritos--que
+não são poucos--que chegou a ministro?... Ai de quem lhes desagradasse.
+Ao irrequieto Fuschini entretiveram-no com as obras da Sé para o
+arredarem da politica; ao José Dias Ferreira, que foi dos raros homens
+de governo comezinho do seu tempo, nem sequer o ouviam nas camaras. Toda
+a gente lhe voltava as costas quando falava. Sabia-se que o Paço o
+detestava. O José Luciano e o Hintze sucederam-se, d'acordo, no governo
+do paiz e no governo do Credito Predial, com identico sucesso!
+
+Ambos elles eram pessoalmente muito boas pessoas, ambos elles tiveram um
+fraco extraordinario pelos tratantes. O Hintze, o _homem que não ri_, o
+_casaca de ferro_, era um homem um pouco cansado e com um lindo sorriso
+para toda a gente:--Pois sim, pois sim...--Trato encantador. Nas camaras
+era vel-o! Ninguem apresentava assim as questões: tinha tudo catalogado,
+arrumado, disposto, e os papeis saltavam-lhe da carteira por arte
+magica. O José Luciano, mais bonacheirão e ao mesmo tempo mais caustico,
+conhecia como poucos os homens que lhe tinham passado em fita pelo salão
+da sua casa, com as suas vaidades, as suas miserias, os seus rancores e
+os seus vicios, e tocava-lhes sempre no ponto fraco. Pessoalmente
+honesto,--quem o duvida?--mas tendo cada vez mais imperiosa a
+necessidade de satisfazer clientelas cada vez mais sofregas--ambos
+acabaram de corromper o paiz, já meio corrompido, até á medula. Importa
+pouco que o snr. D. Luiz de Castro diga: «Hintze vendeu todo o seu
+patrimonio e o de sua mulher para servir o reino e o rei» (_Dia_,
+fevereiro, 1917). Sim, mas Hintze distribuiu a rodos o dinheiro da
+nação, principalmente depois da scisão João Franco, e colocou toda a
+gente a começar pelos seus[15].
+
+Não resistiu. Delapidou, principalmente depois da scisão João Franco,
+sem conta nem pezo nem medida. Anselmo Vieira diz: «José Maria dos
+Santos entregou á viuva do Hintze, no dia do enterro, 21 contos de
+lettras vencidas. Ora a questão do alcool entre o norte e o sul foi
+sempre adiada pelo Hintze, o que fez ganhar 300 contos ao José Maria dos
+Santos.» Na sua phrase pitoresca a politica portugueza estava condemnada
+porque era um regimen de validos e _badamecos_. E cita este e aquelle e
+aquelloutro, que, na sua opinião, e todos juntos, não valiam um
+estadista. O Hintze não resolvia um problema, arredava-o, e as
+complicações augmentavam sempre; se tinha a escolher entre dez homens,
+escolhia sempre o peor... O honradissimo capitão Machado, duro como o
+silex, chegou a par, porque, quando atacavam o José Luciano na camara
+alta, dizia sempre:--Viessem elles cá para os deputados e quem os
+ensinava era eu.--O pobre monsenhor inutil, que se chamou Santos Viegas,
+achou outro _truc_ para o Hintze o elevar á mesma cathegoria: quando o
+chefe do partido regenerador falava, cahia n'um assombro, de que não
+havia arrancal-o!...--«Chegaram a ministros seres destituidos de todo o
+miolo. O honradissimo Pequito, santissima creatura, foi um dia para uma
+comissão, a que o José Dias presidia, com o Contracto dos Tabacos, que
+elle só tinha assignado e mais nada. Havia um artigo redigido de forma
+que cincoenta milhões de francos ficavam encobertos, para se poderem
+pagar as dividas da Casa Real. José Dias pediu explicações, o outro
+embrulhou-se, José Dias insistiu, o outro ficou de bocca aberta, com
+cara de pasmo--até que o velho rabula lhe disse com soberano
+desprezo:--Comprehendo, comprehendo... o snr. ministro da fazenda
+precisa de ouvir os seus colegas para depois responder...--Se o José
+Dias tem deixado passar aquella trapalhada talvez D. Carlos não tivesse
+sido assassinado.»
+
+A politica portugueza chegára a estar apenas nas mãos e dependente da
+vontade dos chefes. O José Luciano dizia:--O meu partido não é que me
+leva ao poder--sou eu que levo o meu partido ao poder. Dois homens e
+clientelas. Alguem se filiou jamais n'um destes partidos por principio,
+por ideal? ou foi por interesses, e, mais simplesmente, por simpathias
+pessoaes?
+
+E assim a força desses dois homens chegára tambem a ser ficticia:--não
+provinha do paiz--provinha do rei... As camaras mero scenario; os
+discursos, as atitudes, theatraes: o que havia a decidir não se decidia
+alli. Tudo estava resolvido, preparado de antemão, nos salões, nas ante
+camaras, nos gabinetes ou nos corredores, entre os chefes. O resto era
+um espectaculo com as suas regras e os seus figurantes, absolutamente
+inutil--absolutamente falso--absolutamente fóra de toda a realidade...
+
+ * * * * *
+
+As camaras... Por lá passou Junqueiro, que de lá sahiu um dia
+dizendo:--Vão áquella parte--; por lá passou o grande, o pobre João de
+Deus, que nunca poude abrir a bocca, e outros homens ilustres. De lá
+sahiu Fuschini, que se foi embora fazendo-lhes um manguito, quando
+Arroyo n'uma sessão celebre lhe disse:--Ajoelhe a meus pés!--Oliveira
+Martins, exhausto de trabalho; o romantico Chagas, cujas ultimas
+palavras foram estas:--A vida é uma comedia.--Já não os ouvi, mas vi e
+ouvi ainda o pachydermico Antonio d'Azevedo Castello Branco, o esguio e
+taciturno Beirão, sempre alheado, o grande orador Antonio Candido, o
+canarim Elvino de Brito, que manejava a palavra como quem maneja um
+florete, e que o Hintze tratava d'alto, o anecdotico Baracho, cujos
+discursos não tinham fim, o Campos Henriques, _lyrio pendente_, o
+theatral Arroyo, o José d'Azevedo, o Eduardo Villaça tão amavel para
+todos, tão afavel que ficou para sempre o Villacinha, o Chanceleiros,
+com a sua grande gaforina branca, o severo e taciturno Dias Costa, que
+morreu de desgosto, tendo cumprido o seu dever como um soldado, a
+nobilissima figura do conde de Arnoso, que vejo sempre diante de mim,
+bradando por justiça, e que acabou envolto em treva, jungido á sua dor,
+o Jacintho Candido, um pouco apagado, mas resistente e teimoso, o João
+Franco, o decorativo Wenceslau de Lima, o Pimentel Pinto, do alto dos
+seus tacões, o Albano de Mello, tão admirador do José Luciano que chegou
+a ponto de se parecer com elle na atitude, na voz e até no rosto, e, na
+outra camara, a um lado o pitoresco conego José Dias, apopletico e
+jovial, lá das bandas de Monsão, o torrencial Oliveira Mattos, que, a
+primeira vez que falou, fez rebentar os cós das calças ao Chagas, que
+perguntava entre spasmos de riso:--Mas quem é este homem? onde foram
+buscar este homem?--e a quem ouço ainda invectivando o ministro da
+guerra:--Heroe de Trajouce! heroe de Trajouce!--os Cabraes, um polido e
+soturno, que o Hintze estimava, o outro, Antonio, de bigodes assanhados,
+como um galo de combate; o José d'Alpoim, impulsivo, terrivel na
+replica; o João Pinto dos Santos, um sistema de philosophia para cada
+caso futil do dia, já branco, de punhos solidos, e sempre o mesmo
+aprumo, a mesma linha, a mesma conducta; o Moreirinha, o Centeno, e o
+juiz Francisco Medeiros que pouco antes de morrer (estou a ouvil-o) me
+disse assim:--Tenho pena de não ter roubado como os outros...--E, diante
+do meu espanto, concluiu:--Quando morrer deixo a minha filha pobre e os
+outros estão ricos.--E a outro lado, o elegante, o frivolo conde de Paçô
+Vieira, o lustroso conde de Castro Solla, o Anselmo Vieira, sempre a
+debater finanças, sempre á espera das grandes ocasiões, sempre esquecido
+á ultima hora na lista do ministerio, o estrabico Dias Ferreira, falando
+baixinho para dois fieis que lhe restavam; o Matoso dos Santos, sempre
+enfronhado em algarismos, o Sergio de Castro, o D. Alberto Bramão e
+outros jornalistas da _Tarde_, o Schwalbach aparecendo, desaparecendo,
+atarefado, e tantos outros sumidos lá para o fundo na obscuridade e no
+silencio.
+
+Juntem a este mundo o mundo dos jornaes, os meios politicos onde tudo se
+comenta e desfigura, e o mundo financeiro, com alguns tipos que é
+necessario anotar rapidamente: primeiro os Mosers e o Foz, predominando
+com o Mariano, a casa Torlades e outros grupos; a casa Burnay e o
+impenetravel Jonh, e, nos ultimos tempos da monarchia, a casa
+Wernestein, Alfredo da Silva e a casa alemã Ernest George. Entre essas
+figuras conheci uma d'um alto pitoresco: Gomes Netto, sem instrucção,
+mas d'um grande senso pratico. Não raro o encontravam em mangas de
+camisa no seu escriptorio. Escrevia em largos quartos de papel e depois
+dizia:--Ponham-lhe lá a gramatica!--Acabou já velho e amoroso, fazendo
+todos os dias compras de legumes e peixe, na Praça da Figueira, que
+depois ia distribuir de _coupé_ por casa das amantes, pescada aqui,
+pescada alli... Juntem a isto as redacções dos jornaes, em forja rubra a
+certas horas da tarde ou da noite, os ditos, as noticias espalhadas, a
+côrte ao senhor conselheiro... Era peor o que se dizia do que o que se
+fazia... Era o descredito lançado sobre tudo e todos, a tal ponto que um
+dia, mais tarde, quando um juiz monarchico (Paçô Vieira) foi despachado
+para a provincia, o delegado disse-lhe muito a serio:--Mas como queria
+V. Ex.^a que se sustentasse um regimen em que as filhas do José Luciano
+eram apalpadeiras da alfandega com cem mil reis por mez?--Nos comicios
+asseverava-se que a rainha D. Amelia comprava no estrangeiro vestidos
+por vinte e quatro contos. Peor, peor... Depois da republica o Eduardo
+Villaça encontrou-se com João Chagas em Paris e perguntou-lhe com
+ironia:--Então esses famosos inqueritos da republica, com que fizeram
+tanto espalhafato, não deram nada?--Ao que o outro, lépido,
+respondeu:--Vocês que querem? Tanto se acusaram de ladrões uns aos
+outros, que a gente acreditou...
+
+ * * * * *
+
+--Um homem! um homem!--reclamava o D. Carlos. Um momento de hesitação e
+de duvida na sua vida... Dois caminhos na frente: um commodo e largo, de
+transigencias faceis, o outro perigoso mas util para o seu paiz.
+Decidiu-se pelo peor. Ia jogar a vida.
+
+Elle era, como toda a gente, um mixto de qualidades e defeitos... Ha
+homens que se nos afiguram d'uma só peça. Desconfiem d'elles: andam
+mascarados... Timidez e orgulho. Todos dizem:--Era encantador.--Todos
+estão de acordo n'este ponto: ninguem o podia aturar. Um oficial
+afirma:--Tratava os politicos como lacaios, tratava a gente do povo com
+extrema bondade.--Um dia escreveu um bilhete nas costas do Hintze, que
+se curvou para lhe servir de secretária; outro dia, já a cavalo para uma
+ferra de touros, atirou com a capa a um velho general seu
+servidor:--Guarda lá isso!--D'outra vez dispoz o ministerio á chuva para
+lhe tirar o retrato. Tratava-os com desdem. Sacrificou sempre os homens
+que se lhe dedicaram, o Martins e o Mousinho, por exemplo. O Carlos Lobo
+d'Avila tinha-lhe dado uma formula que o lisonjeou e o deitou a perder.
+Era um valente. Escrevia cartas anonimas á mulher. Media tudo pela mesma
+bitola--e, se o deixam viver, tinha sido um dos maiores reis da sua
+dinastia. Acabou á bala, quando ia matal-o o figado: comia e bebia
+enormemente e pezava-lhe em cima esta tara: era filho d'uma histerica e
+d'um sifilitico. Este mixto, n'um homem inteligente como elle, só tem
+uma explicação: timidez e orgulho--timidez e orgulho...
+
+Efectivamente resolver-se a luctar contra os interesses dos partidos e
+dos homens, desencadear paixões, era lançar-se n'um combate de que não
+podia esperar senão contrariedades e a morte. Salientaram-lhe logo todos
+os defeitos. Tudo que se fazia de mau era sempre o rei que o fazia.
+Obscureceram-lhe de proposito as qualidades. Esqueceram que D. Carlos
+colocara o paiz n'uma situação externa admiravel, e que os dois ou tres
+actos de homem d'estado do seu tempo lhe pertencem, como a unica acção
+grande da republica pertence a Bernardino Machado, que conseguiu levar
+as tropas portuguezas para a frente europeia--quando os inglezes
+reclamavam apenas o nosso esforço em Africa[16]. As viagens a Paris, a
+Berlim, a Londres corôam o anno de 1895. A aliança ingleza é um facto.
+Veem a Lisboa os grandes chefes d'estado. Vae começar uma grande época.
+Aponta a Africa a uma pleiade brilhante de oficiaes, que elle proprio
+incita, comprehendendo que o grande Portugal é outro, e que esta facha
+de terreno, com um clima agricola horrivel, só pode ser uma vinha e um
+logar de repouso e prazer. De lá, d'esse novo Brazil--dos extensos
+planaltos d'Angola, que duas vezes por anno produzem trigo--tem de nos
+vir o oiro e o pão. O resto é visão de pequenos estadistas de trazer por
+casa. Só elle concebe e incita. Só elle fala e sonha n'um Portugal
+maior, n'um Portugal esplendido. O plano estabelecido e iniciado,
+fecha-se com um ponto culminante: o tratado de commercio com o Brazil,
+que D. Carlos teve realisado, e que, ao que parece, tarde, dificilmente,
+ou jamais, se conseguirá. Foi este homem que assassinaram como ladrão a
+uma esquina de Lisboa...
+
+
+Porque foi morto, afinal, o rei?... Um velho philosopho meu amigo
+traduziu um dia toda a ancia contemporanea n'aquella grande phrase, que
+não me canso de repetir:--Nós tambem queremos comer...--Sómente para ser
+justo e completo, a uma verdade devia juntar outra verdade:--E não
+cabemos todos!
+
+Não, os partidos não cabiam todos, não podiam caber todos, e estavam
+completamente desacreditados. A grande força de João Franco foi, na
+realidade, de protesto. E quem falhou, diga-se já, não foi o rei, foi
+João Franco; quem não esteve á altura do seu papel, não foi D. Carlos,
+foi o dictador. João Franco tinha atraz de si um partido pouco numeroso
+(as clientellas haviam de vir...), mas resistente, tenaz, entusiastico.
+Os franquistas de hontem são ainda hoje franquistas. Não perdem a fé, e
+nem agora nem nunca despegam um olho do Fundão, embora lancem o outro,
+com prazer, ironia ou desdem, sobre o ridente panorama da vida... É
+preciso que realmente esse homem disponha de qualidades excepcionais
+para conseguir tal poder de dominação. Era um impulsivo: grande fraqueza
+e grande força. Procurava os obstaculos para os dominar e gastou uma
+energia desmedida a resolver ninharias. Em Lisboa dizia-se com
+espanto:--Este homem só levanta carrapatas!--Ora caçava no seu terreno,
+ora no terreno dos republicanos. Homem d'estado, ia talvez ter ocasião
+de o mostrar--depois da morte do rei. Ahi é que era vel-o!... Valente e
+calmo foi-o decerto. Vi-o eu n'uma ocasião grave da sua vida. Os
+republicanos (Ribeira Brava, talvez) tinham obtido a sua prisão logo
+depois do cinco d'outubro. De Cintra levaram-no para um gabinete da
+Boa-Hora. Cá fóra o França Borges, refestelado n'uma poltrona, gosava a
+sua vingança e o seu triumpho, separado do cacifro por uma porta
+escancarada. O juiz Meirelles e um delegado de pera ruiva e gravatinha
+vermelha, vinham de quando em quando trocar não sei que impressões com
+elle. Pela porta aberta vi o João Franco de pé, sereno e palido: parecia
+enorme, junto dos dois bonifrates. E quando o juiz lhe disse, acabado o
+interrogatorio:--É talvez melhor sahir por outra porta, porque o povo
+mata-o!...--o homem teimou, o homem cresceu dois palmos:--Eu só saio por
+a porta por onde entrei.--Estava preso, obrigaram-o emfim a descer umas
+escadinhas, a meter-se ás escondidas no automovel, que o esperava na
+calçada que sobe quasi a pique para a Biblioteca, emquanto
+alguem--juro-o--prevenia a furiosa onda popular, que correu aos gritos
+de--morra! morra!--a esperal-o em baixo, á esquina. Um borborinho. Tiros
+de pistola. Dois marinheiros apontaram as espingardas, defendendo o
+automovel, que só a custo arrancou--emfim! emfim!--pela calçada
+acima.--Morra o João Franco!...--E as vozes colericas gritavam:--Morra!
+matem-no!...--Era este o homem, que, com o rei, estava em frente dos
+partidos progressista, regenerador, dissidente e republicano. Os ataques
+sucediam-se e agravavam-se. Os monarchicos, dificilmente sustidos pelos
+chefes, ameaçavam ingressar no partido republicano, que todos os dias
+ganhava em numero, cohesão e audacia. O proprio José Luciano perdia a
+serenidade:
+
+
+ «Ha uma coisa que aos governos nunca deve esquecer, que a lição da
+ historia a cada instante repete: á revolução do alto, pode muito
+ bem suceder que responda a revolução de baixo». (_Correio da
+ Noite_, 14 de Maio de 1907).
+
+ «O presidente do conselho blazona e conta com o auxilio, sem
+ duvida, poderoso e eficaz do Rei, e zomba da opinião publica, que
+ tanto pretendeu captar, antes de subir ao poder? Faz mal, porque
+ ha-de chegar e oxalá que chegue a tempo o momento em que El-Rei se
+ recorde das suas palavras de ha um anno:
+
+ A responsabilidade do decreto, ainda que aparentemente só acto do
+ poder executivo, recahe mais uma vez sobre o Rei, a quem todos hão
+ de pedir a responsabilidade da sua assignatura». (_Correio da
+ Noite_, 15 de Maio de 1907).
+
+
+E a 24 de Maio vociferava: «A monarchia precisa dos monarchicos... a
+monarchia precisa dos monarchicos, mais do que estes precisam da
+monarchia». Todos os dias novos boatos, todos os dias nova causa de
+excitação. Barafunda, prisões, protestos. N'uma reunião celebre, por um
+triz que os regeneradores não passam em massa para o campo republicano.
+E o _Correio da Noite_, no acesso do delirio, apelava já para a
+linguagem biblica: «O que tem ouvidos para ouvir ouça; o que tem olhos
+para ver veja...»
+
+
+ «Do alto deve descer o exemplo, e quando as acções dos que governam
+ são de preversão e de crime, de corrupção e de suborno, de
+ desbarato dos dinheiros publicos e de abuso do poder, os actos dos
+ governados não podem ser de veneração e de paz, de obediencia e de
+ acatamento.
+
+ ...................................................................
+
+ Com torrentes de sangue se conquistou a alforria do povo, com
+ oceanos de lagrimas se lavou a mancha do absolutismo». (_Correio da
+ Noite_, 1 de Junho de 1907).
+
+
+Que faziam os dissidentes, o mais avançado dos partidos monarchicos? Os
+dissidentes conspiravam. As dissidencias anteriores, a do Mariano, a do
+Navarro, tinham fracassado: a do Alpoim ia dar como resultado a
+revolução.--Foi o senhor que fez a republica.--E elle dizia, com o olho
+esperto a luzir:--Levei-os pela mão.--Julgando conquistar o poder,
+perdeu-o para sempre. «Baralhou para dar», como aconselhava o Marçal
+Pacheco--mas enganou-se no trunfo. Depois que se separou do José Luciano
+nunca mais acertou, na phrase do Moreira d'Almeida... Era um grupo
+tremendo: o João Pinto dos Santos, tenaz e resoluto como as armas; o
+pratico Centeno, mola distendida sabe Deus até onde; o Queiroz Ribeiro,
+o Pedro Martins; o sagacissimo Egas Moniz, a quem ninguem consegue ouvir
+os passos--mas que toda a noite, todo o dia, roda nos meandros da
+politica, conspirador e politico até á medula; o Moreira d'Almeida,
+capaz de falar e de escrever um dia inteiro, sem um desfalecimento,
+enfiando todas as formas e todos os estilos, de tal maneira que, muitas
+vezes o Antonio Ennes ou o Alpoim duvidavam se os artigos, que elle
+escrevia, lhes pertenciam, apanhando no ar as questões, e com um grupo
+de amigos _a latere_, que conheciam a fundo as colonias e as finanças;
+mais este e aquelle, e outras raizes lançadas ao acaso, e ligações no
+Porto com um «mercante espertissimo», como nas discussões ouvi chamar a
+Lima Junior. O chefe d'este grupo unido e compacto era extraordinario...
+Agitação perpetua. Orador admiravel, sobretudo na réplica, em que perdia
+a retorica e ficava incisivo e nu como uma espada. Um passo a mais e
+seria um escriptor ilustre: não teve um momento de seu para rever as
+provas. Com a paixão, a colera, o arrebatamento, um grande coração.
+Nunca lhe conheci odios, e muitas vezes lhe ouvi defender até o seu
+maior inimigo, o José Luciano. Ao proprio D. Manuel elle diz: «...O José
+Luciano vale mais do que todos os progressistas e regeneradores juntos,
+contando com elle proprio Alpoim ». (_Documentos politicos_). E quem
+conheceu o Alpoim sabe que as notas que o rei escreveu são mais que
+exactas, são phonographadas. É elle a falar d'este e d'aquelle, dos
+amigos, dos inimigos--de Deus e do Diabo. Uma ambição do poder que o
+leva arrastado, mais pela lucta em si, necessaria a um temperamento
+excessivo, do que por vaidade ou vangloria. Principios poucos--meios
+aquelles que os adversarios, a tenacidade e o rancor de José Luciano,
+lhe deixavam. Acusaram-no de tudo--acusaram-no da morte de D. Carlos...
+«Até disseram, Senhor, que fui eu que matei El-Rei D. Carlos!!!»
+(_Documentos politicos_). Resistiu sempre; morreu a conspirar. Nos seus
+ultimos annos não sei que tristeza o envolve... A figura parece maior,
+as palavras simplificam-se-lhe, os sentimentos tambem. Engrandece. Raros
+teriam, como elle teve, a sinceridade de escrever: «Na minha defeza, que
+teve de ser espectaculosamente rude por vezes e d'uma acção subterranea
+por outras, excessos cometi de que me penitenceio--mais do que se
+imagina»... E repete e insiste: «Em muitos actos da minha vida de lucta,
+por vezes injustamente combatido, tenho sido exagerado--e errei. De
+muitas coisas estou repezo, e d'ellas hoje se admira a minha
+inteligencia e peço perdão á minha propria consciencia e até aos
+homens!» Quantos ha ahi capazes d'esta grandeza? Quantos--tendo todos
+juntos concorrido para a morte de D. Carlos--o acusaram a elle só, com a
+tinta do _Correio da Noite_ ainda fresca?
+
+
+ «Aqui d'El-Rei--se nos pode ouvir El-Rei--contra quem mandou
+ assassinar o povo de Lisboa.» (_Correio da Noite_, tarjado de
+ luto). «Aparecem hoje, segundo ameaças do governo e segundo as suas
+ notas oficiosas sempre irritantes á imprensa, decretos esmagadores.
+ Tanto peor para o Rei e para as Instituições. *As responsabilidades
+ d'esses decretos, ainda que aparentemente só do poder executivo
+ recairão mais uma vez sobre o Rei, a quem todos hão-de pedir a
+ responsabilidade da sua assignatura.* (_Correio da Noite_, 20 de
+ Junho de 1907).
+
+
+ * * * * *
+
+Quem reina agora em Portugal não é o senhor D. Manuel, é sua Magestade o
+Mêdo. Que quadro para um Saint-Simon, que descrevesse os politicos e a
+côrte, o que se diz e o que se adivinha, o que resalta dos _Documentos
+politicos_, e o que se conserva na sombra como um baixo relevo de odios
+e de interesses! Enredam, intrigam-se, perdem-se todos juntos. A
+politica portugueza gira sobre este fulchro: «O José Luciano, não
+podendo governar por se achar impossibilitado... e não querendo
+substituir-se para não perder o comando de que é muito cioso»[17]
+emprega até ao fim todos os esforços para inutilisar o Julio de Vilhena.
+Só pela vã ambição de mandar? O velho é perspicaz e teimoso, o velho
+conhece, como poucos, os homens e entende que só elle pode e sabe
+governar. É teimosia e grandeza. Não abdica, não pode. Toda a vida foi
+obedecido. Aferra-se. O que elle quer é ser o «Deus ex-machina da nossa
+politica sem se mexer da sua _chaise-longue_». Que tipo! Governou
+sempre, mandou sempre, conservou-se sempre lucido. E tanta serenidade,
+que até no dia em que lhe assaltaram a casa dos Navegantes, é o unico
+que não perde o sangue-frio, e, quando o querem esconder n'uma banheira,
+teima em ficar na cadeira de rodas! Tem a logica do diabo e uma manha,
+um conhecimento dos homens, a que os outros não chegam. Desde o
+principio que todos se congregam para enfraquecer o partido regenerador.
+«Isto--diz a velha rapoza--é uma lucta de politicos que se querem
+inutilisar e desacreditar uns aos outros». É assim--e nenhum d'elles se
+lembrou que só os republicanos lucravam. Até os franquistas. «Os
+franquistas, por intermedio do Martins de Carvalho, forneceram aos
+republicanos todos os elementos que poderam colligir para descredito dos
+rotativos» (T. do Amaral ao rei). Até os nacionalistas. Entretanto o rei
+ouve-os e toma notas... A sua vontade é acertar. Passa a vida a acertar,
+o que não é bem a missão d'um chefe, mas a d'um relojoeiro. Não creio
+que os homens se governem só pelo interesse ou pelo terror, como queria
+Napoleão, mas creio que se não governam com pannos quentes, e que mais
+vale tomar uma decisão má do que não tomar nenhuma. O povo, como o
+soldado, precisa de sentir um chefe, e adivinha-o logo. Tudo no rei são
+boas intenções. Mal ousa dar um passo, não se resolve nunca--e atraz
+d'elle está a mãe, que quer educal-o para rei, mas que tem diante dos
+olhos o quadro horroroso... Apezar d'isso é ella propria que o incita a
+passear á luz do dia, como uma vez quando o trouxeram a galope, entre
+uma escolta de cavalaria, do Rocio ao Paço... Arrisca-o. Procura
+congraçar toda a gente. E odiada. A D. Maria Pia, histerica e
+perdularia, agradou sempre: até os seus ditos se repetiam:--O senhor é
+um merda!--ao D. Luiz, quando elle aceitou as imposições do Saldanha;
+até os seus vestidos, a sua ostentação, a atmosphera de rainha
+extravagante, que só sabia que existiam contos e patacos, os chapeus que
+mandava vir de Paris, aos trinta e quarenta, em cada estação; até a sua
+desordem elegante de histerica. Nem os jornaes republicanos a atacavam.
+E quando foi para o exilio, já doida, com um pão debaixo do braço e uma
+manta pela cabeça, só ella deixou saudades. Era a Rainha. A D. Amelia
+não. Essa senhora, de quem alguem disse:--É um grande homem de
+bem!--subiu todo o calvario da vida. Era religiosa--o que só a
+honra--chamaram-lhe beata. Andou nos folhetins e nos pamphletos. Os seus
+criados detestavam-na[18]. Ao passo que a rainha D. Maria Pia, falso
+anjo de caridade, pouco fez com o seu espalhafato e foi adorada, a D.
+Amelia, que combateu metodicamente a tuberculose, espalhando o bem a
+mãos cheias, fundando a Assistencia Nacional, com os seus sanatorios e
+dispensarios, as cozinhas economicas, o hospital do Rego, o Instituto de
+Socorros a Naufragos, e contribuindo para a fundação do Instituto
+Bacteriologico, etc., foi sempre odiada, calumniada, insultada. Nem
+dentro de sua casa lhe era possivel conversar. Um dia, para falar em
+segredo com um ministro, chamou-o para o meio da sala:--Aqui, porque
+senão vem tudo amanhã no _Mundo_.--E vinha. Até o homem dos telephones
+era carbonario... Estou em dizer que é o acaso que governa a vida: a
+razão não é, com certeza.
+
+Ponham agora á roda d'estas figuras, os politicos e as paixões falando
+cada vez mais alto. É o momento em que todos á uma querem ser chefes!
+Querem ser chefes o Teixeira de Souza e o Alpoim, querem-no ser o
+Wenceslau de Lima e o Campos Henriques, e até o pobre, o inculto
+Pimentel Pinto, que Antonio Candido fez um dia ministro, tem um
+deslumbramento e sonha na candidatura. Elle é «o Vilhena muito
+afectuoso, muito lisongeiro e muito avido de poder»; elle é o Teixeira
+de Souza, «todo agrado, comtanto que elle entre no governo n'uma
+situação que não seja inferior á do Campos Henriques»--retrata-os o
+Wenceslau, que é o unico que sobe, como um balão cheio de vento, no
+conceito de quasi todos os politicos, que se reveem n'elle como n'um
+espelho.--E o José Luciano teima: «O Vilhena está quasi abandonado pelos
+seus marechaes». Todos á uma proclamam ao rei e ao mundo que esse homem
+é incompetente.--É um homem de talento--afirma um ex-ministro
+graduado--mas nunca vi incompetencia maior como politico.--Porquê? É o
+que resta saber. Elle é dos poucos que sabe o que quer, que tem um plano
+e que o apresenta (_Antes da Republica_)--é tambem o unico com
+superioridade mental organisada. Pequeno, sempre pendurado no charuto,
+conserva, até nas ocasiões criticas, serenidade e firmeza. Mas todos
+concordam na sua inferioridade politica...
+
+Se só pelo triumpho é que se demonstra tino politico, como quer
+alguem--na verdade Julio de Vilhena falhou completamente. Nem todos os
+meios lhe serviam, e em Portugal não existem correntes de idéas ou de
+principios que levem um homem ao poder. O que se chama opinião não se
+pronuncia. Os chefes de partido são simples chefes de bando. O Paço é
+que faz ou desfaz os politicos, ou outros meios obscuros, de que cada um
+se pode servir, como no tempo de Luiz XIV. Escolheram-no para chefe
+n'uma occasião em que nenhum dos outros o podia ser, mas atraz delle
+estava a tenacidade do Teixeira de Souza, a politiquice de Campos
+Henriques e a astucia de Wenceslau.--Esse sim, chame V. Magestade o
+Wehceslau--diz o Alpoim.--O Wenceslau sim--concorda o José Luciano. Elle
+é o homem do Paço e dos politicos. Começa a ser indispensavel. O outro
+tropeço não lhes sae da frente. Era a occasião de governar quem
+governasse, mas ao José Luciano só lhe convêm «governos mixtos em que
+elle mande, ou que, pelo menos, ponham o cofre das graças á sua
+disposição.» (P. Pinto). E todos ou quasi todos só pensam no Wenceslau,
+que promete muito, que sorri a toda a gente, e que não tem nada lá
+dentro. É o optimista necessario. Impõe-se pela parte decorativa, pela
+boa educação, pela maneira como contenta o mundo. As vezes chega a
+oferecer o governo a um, tendo-o já oferecido a outro... (J. de
+Vilhena). Só o lunatico não entende... Elle bem protesta: «Quem o
+conhece tem obrigação de saber que nunca foi um aventureiro ambicioso,
+nem um intrigante ordinario, capaz de empregar processos menos correctos
+para obter quaesquer posições». Mas foi exactamente isso que o perdeu!
+Num paiz onde não ha opinião, não pode haver chefes de partido. Que
+diferença entre elle e o Teixeira de Souza, espadaúdo e forte,
+abundante, abrindo logo os braços a toda a gente:--Tu que queres,
+filho?!--D'outro feitio era o Campos Henriques, procurador encartado do
+norte, escrevendo a meio mundo e satisfazendo a outro meio (agua molle
+em pedra dura...); d'outro feitio, emfim, era o palaciano Wenceslau de
+Lima, o favorito, que censurava as cartas do rei e lhe escrevia os
+borrões. Nenhum homem mais _souple_ nem mais agradavel, sempre a
+mastigar e a sorrir. Está nas antecamaras quando o rei conferenceia, e
+ha um momento em que só elle põe e dispõe, e em que aconselha ao
+rei:--Chame-me a mim, para eu declinar!--E o rei chama-o. As duas
+grandes figuras do reinado, vinham a ser o Wenceslau de Lima e o
+Soveral. O proprio José Luciano estava condemnado...
+
+Tudo isto se passa sob o olhar ironico ou severo dos republicanos e
+diante do phantasma da republica. Nem assim os interesses e as ambições
+abdicam. Nunca, nem no inferno, abdicaram! Acima de tudo está o odio do
+José Luciano, estão as paixões do Alpoim, que sonha no poder, e que na
+manhã de 5 d'Outubro ainda dizia:--Agora, sufocada a revolução, o rei
+não pode deixar de me chamar a mim...--Interesses e homens, tendo cada
+um «a sua policia», como diz o Teixeira de Souza. E o rei no trono, no
+palacio onde as paredes teem ouvidos, sempre a rabiscar papeis,
+incitando-os ás vezes (J. de Vilhena), sem prever o mundo de coleras que
+está para vir á superficie. Quando á noite se apanha só, abre a gaveta e
+desata a escrever aquelle interminavel romance politico, que caminha a
+galope para o remate da fuga e do exilio. E as vozes, cada vez mais
+altas, obstinaram-se:--Não pode haver ordem nem tranquilidade com o
+Alpoim no paiz--exclama um.--Elle é um espirito claro e nada mais!
+protesta outro.--É uma cambada! A propria dissidencia que é? É um
+inferno!--conclue o Alpoim.--É um idiota! O mal foi elegel-o para
+chefe.--E o Teixeira do Amaral observa ácerca d'um grupo:--São
+pescadores d'aguas turvas...
+
+Quem ha-de conter os homens e os acontecimentos? O rei? O rei escreve,
+escreve sempre... O Credito Predial desaba:--Foi então que os burguezes,
+vendo-se roubados, nos deixaram fazer a republica...--asseverou
+Junqueiro. Ao poder sobe emfim o fatidico Teixeira de Souza. Os
+acontecimentos precipitam-se. Atraz dos homens está uma força monstruosa
+que parece empurral-os a todos--até ao rei, que, de quando em quando,
+pára de escrever e sorri enlevado para os dois bonecos que tem em cima
+da comoda, a caricatura d'um marinheiro inglez e a caricatura do
+Soveral--e vae leval-os a todos, sob o olhar impassivel do destino, para
+o desenlace fatal.
+
+Todos esses homens tinham defeitos. Alguns eram até ridiculos. Mas,
+apezar de tudo, não ultrapassavam determinada linha, apegados a
+preconceitos e a formulas, de que não havia arrancal-os... Vae o senhor
+D. Manuel, não tarda, porque a monarchia ha-de voltar--tudo sucede
+vertiginosamente n'este paiz--conhecer outros, com muito menos
+escrupulos, que o hão-de encher de desgostos. V. Magestade verá.
+
+
+FIM DO 1.^o VOLUME
+
+
+
+
+
+INDICES
+
+
+
+
+LISTA DAS PESSOAS CITADAS NO 1.^o VOLUME
+
+
+
+A
+
+Abel d'Andrade
+Abrantes (Marquez de)
+Ada Weinstin
+Adelaide Coelho da Cunha
+Adrião de Seixas
+Affonso Costa
+Affonso (Infante D.)
+Affonso VI
+Affonso XII
+Affonso XIII
+Agostinho Franco
+Albano de Mello
+Albano da Fonseca (Coronel)
+Alberto Bramão (D.)
+Alberto Braga
+Alberto Pimentel
+Alberto d'Oliveira
+Albuquerque (Alexandre)
+Alcaçovas (Conde de)
+Alda Decken Lino
+Alexandre Herculano
+Alferrarede (Condessa de)
+Alexandre Cabral
+Alfredo Anjos
+Alfredo Costa
+Alfredo da Silva
+Alice Lawrence
+Alice Munró
+Alpoim
+Almada Carvalhais
+Almeida Araujo (Condessa de)
+Alvito (Marquez de)
+Ameal (Conde do)
+Amelia (D.)
+Anna de Sousa Coutinho (D.)
+Angejas
+Anibal Soares
+Anjos (As)
+Anna de Jesus
+Antonio Azevedo
+Antonio Bandeira
+Antonio de Brito
+Antonio Cabral
+Antonio Candido
+Antonio Centeno
+Antonio Emilio
+Antonio da Costa e Silva
+Antonio D. da Cruz Pinto
+Antonio Ennes
+Antonio José d'Almeida
+Antonio José de Freitas
+Antonio Manuel Teixeira
+Antonia Morena
+Antonio Moreira da Camara Coutinho
+Antonio Nobre
+Angela Pinto
+Anselmo Vieira
+Antero
+Armando Navarro
+Arnaldo Fonseca
+Arnoso (Conde de)
+Arnoso (Condessa)
+Arroyo (Antonio)
+Arroyo (João)
+Arthur de Mello
+Asseca (Viscondes de)
+Augusto Cymbron
+Augusto Machado
+Augusto Pina
+Augusto Ribeiro
+Avelino d'Almeida
+Aveiro (Duque de)
+Avila e Bolama (Duqueza de)
+Avila (Conde de)
+Ayres de Gouveia
+
+
+B
+
+Baltar
+Barão (Condes)
+Barahona
+Barbosa Colen
+Barbosa du Bocage
+Barjona
+Barros Gomes
+Batalha Reis
+Bemposta Sub-Serra (Marquezes da)
+Beirão
+Bernard Lazare
+Bernardino Machado
+Bernardo Pindella
+Bomtempo
+Borges & Irmão
+Bourbon de Menezes
+Braamcamp
+Branca de Gonta Colaço
+Brazão
+Brito Aranha
+Brouillard (Madame)
+Buiça
+Bulhão Pato
+Burnay
+
+
+C
+
+Caldeira
+Camillo
+Campos Henriques
+Candida da Nora Kendall
+Candido dos Reis
+Capelo (Almirante)
+Cardia
+Carlos (D.)
+Carlos de Freitas Jacome
+Carlos Lobo d'Avila
+Carlos Mayer
+Carlota Joaquina (Dr.)
+Carnaxide (Visconde de)
+Carneiro de Moura
+Carracida
+Carrilho
+Casal Ribeiro (Conde de)
+Castello-Melhor
+Castilho
+Castro Solla (Conde de)
+Celso Herminio
+Chancelleiros
+Chapuy
+Christina Rezende da Silva
+Cipriano Jardim
+Coelho de Carvalho
+Columbano
+Conceição de Carvalho
+Correia de Barros
+Correia d'Oliveira
+Costa Pinto
+Costa Santos
+Croneau
+Cunha e Costa
+Curry Cabral
+Custodio Borja
+
+
+D
+
+Dantas Baracho
+Delcassé
+Dias Costa
+Dreyfus
+Duval Telles
+
+
+E
+
+Eça de Queiroz
+Eça Leal
+Edla (Condessa de)
+Eduardo Burnay
+Eduardo Cheira
+Eduardo Cordeiro
+Eduardo de Sousa
+Eduardo Pimenta
+Eduardo Tavares
+Eduardo VII
+Egas Moniz
+Elisa Baerlein
+Elisa Baptista de Sousa Pedroso
+Elvino de Brito
+Emidio Navarro
+Emilia Adelaide
+Emilia das Neves
+Ernest George
+Espregueira
+Eugenio de Castro
+
+
+F
+
+Falcarreras
+Fernandes Thomaz
+Fernando (D.)
+Fernando de Serpa
+Fernando Martins de Carvalho
+Ferreira d'Almeida
+Ferreira do Amaral
+Fialho
+Ficalho (Conde de)
+Ficalho (Condessa de)
+Ficalho (Marquez de)
+Fife (Duque de)
+Figueiró (Conde de)
+Figueiró (Condessa de)
+Fonseca, Santos & Viana
+Fontes
+Foz (Marquez da)
+França Borges
+Francisco Figueira
+Francisco Medeiros
+Franco (Marquez de)
+Francisco da Fonseca Benevides
+Frederico Arouca
+Frei
+Freitas Branco
+Freitas Brito
+Freitas Rego
+Fronteira (Marquez da)
+Fumega (Major)
+Fuschini
+
+
+G
+
+Garrett
+Garaty (Mr. e M.{me})
+Garrido
+Guerra Junqueiro
+Gervasio Lobato
+Gomes dos Santos
+Gomes Leal
+Gomes Netto
+Graça (Major)
+Guilherme de Azevedo
+
+
+H
+
+Heitor Ferreira
+Henrique de Vasconcellos
+Hintze Ribeiro
+
+
+I
+
+Idanha (Viscondessa de)
+Imperador do Brazil
+Irene Gilman
+
+
+J
+
+Jacintho Candido
+Jayme Arthur da Costa Pinho
+Jayme de Seguier
+Jayme Victor
+João d'Alarcão (D.)
+João Barreira
+João Chagas
+João Chrisostomo
+João da Camara (D.)
+João de Deus
+João de Deus Guimarães
+João Franco
+João Pinto dos Santos
+João de Menezes
+João VI (D.)
+Joaquim da Boa Morte Alves de Moura
+Joaquim Pessoa
+John Burnay
+Jorge Colaço
+Jorge O'Neill
+José d'Azevedo
+José Bacellar
+José Dias (conego)
+José Dias Ferreira
+José de Figueiredo
+José Lobo
+José Luciano
+José Maria dos Santos
+José Nunes
+José Paulo Menano
+José Reinach
+José Saragga
+Julio de Vilhena
+Judeu
+Judice Bicker
+Julia Bordallo
+Justino
+
+
+L
+
+Latino Coelho
+Leão XIII
+Leitão (Ourives)
+Lencastre de Menezes (General)
+Lima Junior
+Linhares (conde de)
+Lopo Vaz
+Loubet
+Loulé (Duqueza de)
+Luciano Monteiro
+Lumiares (condes de)
+Luiza Patricio de Balsemão
+Luiz (D.)
+Luiz da Camara (D.)
+Luiz Campeão
+Luiz de Castro (D.)
+Luiz Fillipe (D.)
+Luiz Osorio
+Luiz Trigueiros
+
+
+M
+
+Machado (capitão)
+Malaquias de Lemos
+Manuela Rey
+Manuel (D.)
+Manuel Bordallo Pinheiro
+Manuel Figueira
+Manuel Hintze Ribeiro
+Manuel Ramos
+Manuel Ribeiro Borges
+Manuel Vaz Preto
+Marçal Pacheço
+Magdalena Trigueiros
+Mardel
+Maria Augusta (D.)
+Maria Emilia Seabra (D.)
+Maria Emilia Macieira Lino (D.)
+Maria (Infanta D.)
+Maria II (D.)
+Maria Kruz Brito (D.)
+Maria Pia (D.)
+Maria Tereza Pinto de Magalhães (D.)
+Marquez da Foz
+Marcelino de Mesquita
+Mariano
+Martins de Carvalho
+Mathias de Carvalho
+Matoso dos Santos
+Maura
+Max Nordau
+Maximiliano d'Azevedo
+May Figueira
+Mello Barreto
+Mesquitella (conde de)
+Monpensier (Duqueza de)
+Moreira d'Almeida
+Moreira Marques
+Moreirinha
+Monteiro Milhões
+Motta Marques Meirelles (Juiz)
+Moser
+Moura Cabral
+Mousinho
+Munhoz
+Murça (condes de)
+
+
+N
+
+Napoles
+Navarro
+Nazareth
+Norton de Mattos
+Nuno Castello Branco
+
+
+O
+
+Oliveira (das _cautellas_)
+Oliveira Martins
+Oliveira Mattos
+Ottolini da Veiga
+Ouguella (Visconde de)
+Ovidio d'Alpoim
+
+
+P
+
+Paccini
+Paçô Vieira (conde de)
+Pad' Zé
+Padre Matos
+Palmeirim
+Palmeirim (General)
+Palmella (Duqueza de)
+Paraty (condes de)
+Paris (condessa de)
+Patrocinio (D.)
+Paulucci
+Pedro d'Araujo
+Pedro Martins
+Pedro de Noronha (D.)
+Pedro IV (D.)
+Pedro V (D.)
+Pedro Victor
+Penalva (Marquez de)
+Penamacor (condessa de)
+Penha Garcia (conde de)
+Peniche (conde de)
+Pequito
+Pereira das Neves
+Pimentel Pinto
+Pinheiro Chagas
+Pinto Basto
+Poitier
+Pombal (Marquez de)
+Ponte de Lima (Marquezes)
+Povolide (conde de)
+Praia (Marquezes da)
+Prim
+
+
+Q
+
+Queiroz
+Queiroz Ribeiro
+
+
+R
+
+Ramalho
+Rangel de Lima
+Raphael Bordalo
+Rebello da Silva
+Regaleira (Baroneza da)
+Ressano Garcia
+Rezende
+Ribeira Brava (Visconde da)
+Ribeira Grande (conde da)
+Ricardo Jorge
+Rio-Maior (condessa de)
+Rodin
+Rodrigo da Fonseca Magalhães
+Rosa Damasceno
+Rosa pae
+Rossini
+Rufino d'Almeida
+
+
+S
+
+Sabugosa (conde de)
+Saldanha (Duque de)
+Sampaio (Visconde de)
+Santos (Major)
+Santos Viegas
+Sarah da Motta Vieira Marques
+Saraiva de Carvalho
+Schwalbach
+Sebastião Telles
+Sergio de Castro
+S. Boaventura
+S. Lourenço (condessa de)
+S. Luiz de Braga (Viscondes de)
+Silva Bastos
+Silva Canellas
+Silva Carvalho
+Silva Graça
+Silva Pinto
+Silva Telles
+Sousa Holstein
+Sousa Martins
+Soveral (Marquez de)
+
+
+T
+
+Taborda
+Tavares Festas
+Taveira (condessa de)
+Teixeira de Sousa
+Teodoro d'Almeida
+Theophilo Braga
+Thomaz Ribeiro
+Tompson
+Torlades (casa)
+Torre da Murta (Visconde da)
+Totenbach
+Trindade Coelho
+
+
+U
+
+Urbano de Castro
+Urbano Rodrigues
+
+
+V
+
+Valbom
+Valdez
+Valença (conde de)
+Val-Flôr (Marquez de)
+Vallada (Marquez de)
+Valladares (conde de)
+Varzea (Visconde da)
+Vasconcellos Porto
+Vianna (Marquez de)
+Vicente da Camara
+Victor Hugo
+Victoria (Rainha)
+Vilaça
+Villa de Fozcoa (Barão de)
+Villa Nova de Cerveira (conde de)
+Villa Real e Mello (condessa de)
+Vimioso (conde de)
+
+
+W
+
+Wenceslau de Lima
+Wernestein
+
+
+Z
+
+Zola
+Zulmira Franco Teixeira
+
+
+
+
+
+INDICE DOS CAPITULOS
+
+
+
+ Pags.
+
+Prefacio 9
+Algumas Figuras 27
+Pó da Estrada 93
+A Sociedade Elegante 267
+O Mundo Politico 289
+
+
+
+
+
+INDICE DAS GRAVURAS
+
+
+
+ Pags.
+
+Columbano, Auto--retrato 33
+Fialho d'Almeida 49
+D. João da Camara 57
+Eça de Queiroz 65
+Antonio Nobre no caixão 81
+Correia d'Oliveira 89
+Fernandes Thomaz, no seu gabinete 97
+Guerra Junqueiro 113
+José Luciano encerra o Parlamento 129
+Celso Herminio 145
+Gomes Leal 161
+D. Carlos I de Portugal 177
+Oliveira Martins 193
+Papelinhos sobre o regicidio 206
+Dantas Baracho 225
+José Maria d'Alpoim 241
+Teixeira de Sousa 257
+
+
+
+
+
+
+ACABOU DE SE IMPRIMIR
+NA TIPOGRAFIA DA «RENASCENÇA PORTUGUESA»
+RUA DOS MÁRTIRES DA LIBERDADE, 178,
+AOS 21 DE JANEIRO DE 1919.
+PORTO
+
+
+
+
+
+Notas:
+
+[1] Estas _Memorias_ devem formar quatro volumes:--2.^o vol.--Os
+bastidores da monarchia. Vida literaria. Theatro por dentro; 3.^o
+vol.--A Republica. O comercio e a finança. Jornaes e jornalistas; 4.^o
+vol.--A Republica e os seus homens. Vida militar.
+
+[2] _Republica_, 23 de Fevereiro de 1915.
+
+[3] «Volta-se para o governo do seu paiz, e pede-lhe que se lembre da
+recepção de Afonso XII em Paris, e que ponha Sua Magestade a coberto de
+qualquer manifestação que possa porventura nascer, da atitude da Rainha.
+Limem-se as dificuldades, empreguem-se todos os esforços, nossos e
+alheios; lancemos mão da nossa situação privilegiada com a Inglaterra;
+ponhamos todos os elementos disponiveis em acção, para que o céo serene.
+Por exemplo: que está fazendo o sr. Soveral em Paris? Façam-no recolher
+imediatamente a Londres».
+
+[4] Existe uma carta em que o rei D. Carlos diz ao Navarro, que é
+absolutamente falso que elle se oponha a que o nomeiem par do reino.
+Seriam os politicos capazes de armar a intriga?...
+
+[5] Um dos seus sobrinhos escreveu um artigo interessante, do qual
+extracto os seguintes periodos:
+
+«No seu espirito fluctuava uma bondade inata que se traduzia por uma
+profunda afabilidade na vida intima e por uma indulgencia estranha no
+julgamento dos homens. Jámais acreditou em malevolas intenções e nunca
+da sua bocca saiu uma insinuação maliciosa. Confiava sempre na bondade
+dos outros, não hesitando, nos momentos de agitação popular, em
+atravessar serenamente as ruas da capital revoltada, como sucedeu em 5
+de outubro e 14 de maio. E quando a familia, naturalmente receiosa, lhe
+solicitava para não sahir, respondia sempre com toda a tranquilidade: «a
+mim ninguem me faz mal, pois eu nunca fiz mal a ninguem».
+
+«As suas ferias passava-as a estudar. Ora meditava trabalhos de
+jurisprudeneia, ora, para descansar, apreciava as mais belas obras de
+literatura. Dotado de uma memoria privilegiada, sabia de cór longos
+trechos de versos, e até nos ultimos horriveis momentos da sua
+existencia, arquejando no leito de dôr, ora recomendava pontos
+importantes dos processos que trazia entre mãos, ora citava frases de
+grandes poetas e filosofos referentes á hora suprema que rapidamente se
+aproximava. E quando a noite cahia, tudo envolvendo no seu manto de
+tristeza, era com uma anciedade estranha que esperava, na longa vigilia
+dolorosa, a chegada do sol radiante. E foi com uma precisão rara que
+previu a hora da sua morte. Mais tres dias, mais dois dias e tudo estará
+acabado. E, de facto, assim sucedeu!
+
+«Apaixonava-o o estudo da astronomia, e nos ultimos tempos antes de
+morrer, apesar da sua avançada idade de 75 anos, vergado sobre obras da
+especialidade e, nas horas silenciosas das serenas noites de verão,
+passeando na sua quinta dos Covas, ou encostado ás amplas janelas da sua
+biblioteca, que tanto amava, reconhecia uma a uma as constelações e
+descobria entre os inumeros astros que recamavam o firmamento, aquelles
+que os seus auctores haviam indicado.»
+
+[6] «Effectivamente, segundo nos informam... o homem das _barbas e da
+carabina não sahiu debaixo da Arcada_ (sic) do Ministerio do Reino,
+visto, que com outro individuo se encontravam juntos da aludida
+arvore.»--Para quê?... por José Nunes.
+
+[7] Parece que o que salvou a rainha foi o cocheiro poder arrancar,
+bater nos cavalos, por ordem da condessa de Figueiró, e aquilo seguir,
+com os mortos e a rainha louca de dôr:--Mortos! mortos! e ninguem para
+os salvar!--N'um gesto maternal debruçara-se cobrindo o filho com o
+proprio corpo.
+
+
+--Quem matou o rei... «O grupo foi em parte organisado durante o dia 31
+e ás 3 horas da madrugada do dia 1 de fevereiro, em uma quinta dos
+arredores de Lisboa decidiu-se que só fossem cinco os individuos a
+executar o plano do Boulevard Poissonière.»--Para Quê? por José Nunes.
+
+...«Se na tarde do 1.^o de fevereiro de 1908 não se désse mais que o
+primeiro tiro que se deu, e esse foi de carabina, ficariam vivas todas
+as pessoas reaes, excepto o rei. Não obstante o tiroteio ter-se
+desenvolvido momentaneamente, assaltando-se ao mesmo tempo a carruagem,
+foi então que, sobre o pae e o filho, se dispararam mais tiros, alguns
+d'elles mortaes».--Para Quê? por José Nunes.
+
+
+...--Ao menos responda-nos a esta pergunta: o Buiça e o Costa teriam
+cumplices?
+
+E o sr. Laranjeira, sorrindo, affirma:
+
+--Tinham varios amigos...?--E hesita.--O que lhe posso garantir, é que o
+Buiça não foi o heroe principal; quem preparou tudo foi o Alfredo Costa
+na «Loja Obreiros do Trabalho». O Costa tinha uma grande influencia
+sobre varios rapazes de valor e de audacia. Tambem sem receio de ser
+desmentido lhe posso asseverar que o Alfredo Luiz da Costa foi
+assassinado por mão occulta, quando vinha, preso e vivo, para o posto da
+Camara Municipal. Note que as suas ultimas palavras foram estas.--Ai
+minha mãe, que me trahiram!--E o chefe Bazilio, um dos que o conduzia,
+não pôde vêr quem lhe descarregára a arma, matando-o... No meu modo de
+vêr, os novelleiros encartados, dizem coisas sobre coisas, sem
+conhecerem o _fio á meada_, e é exactamente o que tem prejudicado tudo e
+todos.»
+
+Revelações sobre o regicidio--Entrevista com o sr. Rodrigues Larangeira
+publicada no _Imparcial_ de 1 de julho de 1910.
+
+[8] Apurou-se que o ex-ministro em Londres, de julho de 1892 a 12 de
+Novembro de 1910, recebera o seguinte:
+
+
+1892-1893 10.833$890
+1893-1894 12.841$593
+1894-1895 16.699$006
+1895-1896 (10 de Junho a 30
+ de Setembro) 2.163$750
+1896-1898 17.264$456
+1896-1897 (26 de Abril a 26 de
+ Julho) 2.441$625
+1898-1899 15.618$168
+1899-1900 15.835$443
+1900-1901 12.976$500
+1901-1902 14.211$412
+1902-1903 21.807$881
+1903-1904 15.963$505
+1904-1905 35.481$112
+ ------------
+ A transportar 194.138$341
+
+
+ Transporte 194.138$341
+1905-1906 21.437$118
+1906-1907 25.749$787
+1907-1908 20.447$868
+1908-1909 11.802$562
+1909-1910 12.487$687
+1910-1911 (de 16 de Julho a 12
+ de Novembro) 3.515$680
+ ------------
+ 289.679$044
+
+Recebeu mais:
+
+ Pela rubrica de adeantamentos 5.743$815
+ Pela rubrica de suprimentos 226$035
+ Pela rubrica de adeantamentos 450$000
+ Pela rubrica da visita aos Reis
+ d'Inglaterra, 1904-1905. 21.042$935
+ ------------
+ Total--Reis 317.041$828
+
+
+--As despezas legaes auctorisadas eram de 10.950$000 réis por anno.
+Vê-se como eram excedidas!
+
+--Segundo o oficio do ex-ministro Vilaça para o ministro da fazenda,
+pedindo mais dinheiro para Soveral, este, no almoço e ornamentação da
+legação, na visita do rei Carlos, consumira mais o seguinte:
+
+
+Almoço, libras 325-12-0
+Vinho, libras. 49- 6-6
+Decorações, libras 1.760- 1-0
+ ------------
+ Total, libras. 2.134-19-6
+
+
+--Averiguou-se, pelo oficio do ex-director geral da thesouraria,
+Perestrelo, que pelo mesmo motivo da visita do rei Carlos, Soveral
+recebera mais:
+
+
+Em 30 de Novembro de 1904,
+ libras 1.500
+Em 10 de Dezembro do mesmo
+ anno, libras 1.000
+ ------------
+ Total, libras. 2.500
+
+
+Todas estas quantias, em libras, ou em réis, foram calculadas ao cambio
+par. Como n'aquellas épocas houve subido agio sobre o ouro, e calculando
+esse agio n'uma media de 15%, vê-se que notavel aumento ha nas despezas
+descritas!
+
+Soveral recebeu mais, pela verba de despezas diversas extraordinarias no
+anno economico de 1909-1910, sem qualquer justificação, réis 1.934$855;
+e pela verba destinada á viagem a Londres do rei D. Manuel, réis
+4.468$900.
+
+Na liquidação e pagamento dos direitos de mercê, emolumentos e sellos,
+houve enorme trapalhada durante muitos annos, d'onde resultou Soveral
+esquivar-se ao cumprimento das leis fiscaes.
+
+Deve os direitos de mercê e emolumentos e sello pelo titulo de Conselho,
+pelo titulo de Marquez, pelo cargo de secretario da legação em Londres,
+pelo cargo de ministro em Londres, pela gran-cruz da Torre e Espada,
+etc.
+
+Quando foi ministro dos negocios estrangeiros, teve a habilidade de em
+17 mezes, só á sua parte, consumir em despezas reservadas, réis
+37.757$515, sem deixar no ministerio qualquer documento, explicando ou
+justificando o emprego de qualquer verba!--_Intransigente_, de 31 de
+Março de 1911.
+
+[9] «Escrevem-nos de Braga:
+
+Joaquim de Sequeira Lopes, negociante, e Manoel Coelho dos Santos,
+penhorista, são pessoas de bem e residem em Espinho.
+
+Sequeira Lopes foi em Novembro de 1907 para Lisboa curar uma molestia
+hospedando-se em casa de seu irmão Frederico, negociante, chefe graduado
+do alpoinismo. D'ali escrevia semanalmente ao Coelho, com quem tinha
+negocios, quando na capital começou a agitação para derrubar o Franco,
+dando em cada carta uma noticia politica, que o Coelho lia em toda a
+parte onde se lia politica. Na quarta-feira ou quinta da semana do
+regicidio, essa noticia era d'este theor: _Disseram hoje a Frederico, no
+escriptorio forense... que João Franco seria assassinado em 24 horas_.
+Quando chegou a Espinho a carta que continha esta noticia, tinham
+passado as taes 24 horas, por isso o valor da noticia estava
+prejudicado. Deu-se o atentado no sabado e na quarta-feira seguinte a
+carta habitual dava esta noticia:
+
+_Os revolucionarios, vendo-se perdidos pela prisão dos chefes,
+reuniram-se secretamente, republicanos e dessidentes d'acção, e
+resolveram a morte da familia real. Propoz-se que os executores fossem
+tirados á sorte, mas o professor Buiça protestou, oferecendo-se
+voluntariamente, sendo o seu alvitre secundado por muitos que se
+promptificaram a auxilial-o_.
+
+Estes apontamentos foram dados ao ministro Campos Henriques logo depois
+da formação do gabinete Amaral. Foram em carta anonyma, mas acompanhados
+d'um grande numero de testemunhas que viram e leram as taes noticias,
+figurando n'ellas o coronel reformado Raul de Passos, d'Elvas, que na
+ocasião residia em Espinho e dava a semelhantes noticias um grande valor
+para a investigação.
+
+Campos Henriques, o que demitiu o juiz Alves Ferreira e chamou o outro
+da Meda, fez de conta que nada era com elle. N'esta pista ninguem
+mexeu.»
+
+ * * * * *
+
+«A reunião, afirma-se, teve logar na Costa do Castello. Tomaram parte
+n'ella quadrilheiros da quadrilha republicana e de todas as quadrilhas
+monarchicas»...[9a]
+
+[9a] Quem quizer conhecer a historia contemporanea tem de lêr e
+consultar a colecção d'_O Povo d'Aveiro_. É indispensavel. Essa voz
+tremenda e colérica préga, ha annos, sem um desfalecimento, meia duzia
+de verdades essenciaes ao paiz. Além d'isso Homem Christo é o maior
+jornalista portuguez e um pamphletario que só tem outro na nossa
+literatura que se lhe compare--José Agostinho de Macedo.
+
+[10] Essa extraordinaria sessão, em que o parlamento parecia estar no
+banco dos réus e o Afonso Costa, theatral, surgia como um acusador
+triumphante!... O ministerio tinha desaparecido. Fugira! Ninguem sabia
+do que se ia tratar: esperava-se peor, muito peor... A impressão real,
+patente, autentica, era de que elle ia fulminal-os com provas á vista,
+acusando-os d'um crime... De que crime tremendo? Quando leu os
+documentos houve uma impressão de alivio, quasi a exclamação:--Era só
+aquillo?...--E quando baralhou e se enganou nos nomes da pessoa que
+acusava--ninguem soube aproveitar o momento, o erro, a oportunidade...
+Ninguem se quiz comprometer... A defeza feita pelo Paçô foi fragil,
+risonha, quasi «pedindo desculpa»...
+
+[11] Folheto de 10 paginas, com este titulo: _Os Barbadões, resumo
+historico por D. Sebastião de Vasconcellos, Bispo de Beja, Par do Reino
+e Comendador da Nobilissima Ordem de N. S. da Conceição de Villa Viçosa.
+Propriedade da Empreza Editora do Jornal «Portugal» Limitada_.
+
+[12] Carta publicada n'_O Norte_ de 1 de Setembro de 1918 pelo snr.
+Bourbon e Menezes:
+
+
+ Meu Senhor:
+
+
+Tenho a honra de communicar a V. Magestade que, nos termos assentados,
+escrevi ao seu encarregado de negocios em Berlim para fazer-lhe saber a
+conveniencia q. haveria em retro-trahir _(sic)_ a data da visita de V.
+Magestade para 20 de novembro e nesta orientação lhe expuz, para levar
+ao conhecimento do Ministerio dos Negocios Estrangeiros allemão, os
+argumentos e razões que me pareceram apropriados ao fim que se pretende.
+Julgo q. isto merecerá a aprovação de V. Magestade.
+
+Quanto ao assunto da nossa conversação no Paço das Necessidades, entendi
+hoje aproveitar a oportunidade de vir o marquez de Villalobar dar-me uns
+informes que é natural que V. Magestade já conheça pelo conde de
+Sabugosa, para entrar com elle em conversa officiosa sobre a
+conveniencia de estreitar em bases definidas as nossas relações
+politicas, visto os dois paizes soffrerem de um mal commum--a invasão da
+onda democratica. Neste sentido lhe fiz um longo arrazoado que elle
+recebeu com agrado a ponto de me perguntar se queria que levasse isso ao
+conhecimento do seu soberano ou apenas do Presidente do Conselho.
+Fiz-lhe notar que esta idea era apenas _pessoal_ e _minha_, que sobre
+ella não tinha consultado o governo e que V. Magestade nem de leve
+suspeitava d'este meu ponto de vista, que a minha idea era de que as
+duas nações por um instrumento secreto se comprometessem a um mutuo
+auxilio, no caso de irrompessem _(sic)_ movimentos revolucionarios que
+puzessem lá e cá em risco a segurança das instituições.
+
+Elle concordou em que o interesse era commum e por isso reciproca a
+vantagem e lhe parecia que seria grato ao coração de S. Magestade o Rei
+D. Affonso o lembrarmo-nos d'elle em tal conjunctura, independentemente
+das estipulações da nossa alliança com a Inglaterra. Entendi pôr n'este
+pé a questão porq. tinha opurtunidade _(sic)_ e corresponde a uma
+necessidade que não é _só nossa_ mas tambem d'elles. O ministro
+comprehendeu bem a minha idea e disse-me que a ia transmitir a Espanha,
+a Canalejas, afirmando-me que poria n'isto todo o seu empenho. Fiz-lhe
+sentir que seria bom pôr só a questão _em principio_ e quanto á extensão
+e detalhes do acordo seria para regular depois quando V. Magestade e o
+governo conhecessem o assumpto. Não quiz ir mais longe para me não
+envolver em dissertações sobre acordos economicos que me parecem pouco
+convenientes agora para nós. Eis o que fiz e o que me parece que diviria
+_(sic)_ fazer-se por emquanto, pois que este assumpto, quanto ás outras
+nações, carece de opurtunidade _(sic)_ e entrados na via de explicações
+correriamos o risco de prejudicar os interesses que temos em vista.
+
+O que se me affigura necessario e conveniente é ligar os dois paizes
+n'uma deffeza _(sic)_ commum, visto que as vantagens e riscos são
+communs e não julgo difficil chegar-se ao desejado fim, tanto mais
+quanto as suas informações se referem a um movimento revolucionario nos
+dois paizes, com dinheiro vindo de França.
+
+Muito prazer terei se o meu parecer merecer a subida honra da aprovação
+de V. Magestade, pois que outro não é o meu desejo se não de
+corresponder á sua confiança com a pratica de actos meus que sejam
+acertados.
+
+Mostrou-se o Marquez de Villalobar muito empenhado em saber o quer que
+fosse do casamento de V. Magestade. Continuei affirmando-lhe q. nada
+sabia porque o que se estava ainda fazendo em Inglaterra era _à l'insu_
+do governo, mas que logo q. soubesse cousa digna de ser-lhe communicada,
+lhe não faltaria com essa confidencia.
+
+Disse-me elle q. o seu empenho de saber correspondia ás sucessivas
+perguntas que de Espanha lhe fazia o seu Soberano.
+
+_Forse che si: forse che nó._
+
+Beijo respeitosamente as mãos de V. Magestade e em tudo aguardo, com o
+devido respeito, as ordens que se dignar dar ao
+
+
+ seu ministro
+ e subdito obediente
+
+Lisboa, 19-7-910.
+
+ (a) _José d'Azevedo Castello Branco_.
+
+
+[13]
+
+ PREÇO DA VIDA
+
+Pão--kilo 90
+Carne de segunda qualidade 300
+Carne limpa 600
+Vitella 800
+Carne de porco 480
+Toucinho 320
+Banha 320
+Assucar pilé 240
+Bacalhau 200
+Massas 150
+Manteiga 800
+Ovos--duzia 250
+Feijão branco--litro 70
+Petroleo 90
+Leite 100
+Feijão frade 50
+Feijão da ilha (manteiga) 100
+Azeite 400
+Carvão--arroba 300
+Uma pescada 500
+Um vestido de senhora 30$000
+Um fato de homem 20$000
+Um par de botas 4$000
+Média do aluguer d'um andar, por
+ semestre (casa para uma familia
+ da mediania) 120$000
+
+[14] Foi oficial na marinha ingleza, condecorado na campanha do Baltico
+com a medalha militar, e um excelente administrador. Diz-se que graças a
+elle é que a casa da mulher sahiu da barafunda e quasi ruina a que
+chegára á data do casamento. Por isso talvez é que passou por um apagado
+guarda livros...
+
+[15] Do _Correio Nacional_, na sua secção _Ecos_:
+
+
+ O sr. Hintze Ribeiro é d'uma grande generosidade para com a sua
+ familia.
+
+ Demonstra-o a seguinte lista, cuidadosamente confeiçoada sob
+ informes do _Diario do Governo_:
+
+ Para o elevado logar de inspector dos impostos no Porto foi
+ transferido o sr. dr. José Paulo Menano, de 24 annos de edade,
+ casado com uma cunhada do sr. Hintze.
+
+ Ha tempos, foi colocado no logar de director do hospital das Caldas
+ da Rainha o sr. dr. Augusto Cymbron Borges de Sousa, cunhado do sr.
+ Hintze.
+
+ O sr. Manuel Hintze Ribeiro, irmão do sr. Hintze, foi graduado em
+ inspector superior da alfandega de Ponta Delgada, passando de
+ 1.170$000 a 1.700$000, mais do que ganha um director geral.
+
+ O sr. Antonio Moreira da Camara Coutinho, sobrinho do sr. Hintze,
+ foi nomeado director da alfandega do Porto, com quatro contos de
+ reis anuaes, o ordenado d'um ministro, quasi.
+
+ O sr. Manuel Rebello Borges, 2.^o oficial da alfandega de S.
+ Miguel, foi nomeado director da mesma casa fiscal, com um conto
+ seiscentos e vinte mil reis.
+
+ É uma fortuna para o paiz que a familia do sr. Hintze não seja mais
+ numerosa.
+
+ Aliaz, não haveria contribuintes cuja pelle chegasse para pagar
+ tantos encargos...
+
+
+[16] De passagem apontemos a figura de Norton de Matos, o maior ministro
+da guerra contemporaneo, organizador capaz d'um trabalho de ferro, que
+só os technicos serão capazes de avaliar em toda a sua extensão.
+
+[17] Todas as palavras entre comas são dos _Documentos politicos_.
+
+[18] Introduziu a ordem no Paço.--Até o preço do peixe quer
+saber!--dizia-se cá fóra com indignação. Quando do 5 d'outubro todos os
+creados diziam bem do rei--todos diziam mal da rainha. O pequeno quadro
+que segue explica talvez muita coisa:
+
+«Havia familias das proximidades do Paço que se alumiavam só com as
+vellas do palacio real, compradas por vil preço. As contrabandistas
+andavam pelas casas dos seus freguezes oferecendo roupas, desde os
+vestidos da rainha e dos fatos do rei até ás roupas brancas, meias de
+seda e sapatos de setim com a corôa real, para não oferecer duvidas
+acerca da procedencia. D'estes factos tivemos conhecimento de sciencia
+certa, por vivermos n'esse tempo perto do Paço e nos terem vindo
+oferecer por mais de uma vez os espojos do saque, que não aceitamos por
+varias razões, sendo uma d'ellas a falta de vocação para receptadores de
+roubos. A vocação nasce com a pessoa. Da ucharia do Paço banqueteavam-se
+os parentes dos empregados e cremos que até os amigos.
+
+A audacia do latrocinio chegou ao extremo. Indo um dia o rei D. Luiz
+caçar á Tapada e tendo morto tres coelhos, ao chegar ao Paço lembrou-se
+de os mostrar á rainha.
+
+Mandou-os buscar, mas apenas lhe apresentaram um, porque os dois
+restantes tinham desaparecido durante o breve precurso da Tapada até á
+Ajuda.
+
+Nos proprios charutos do rei todos os dias dava um ataque epileptico que
+os obrigava a saltar das caixas sem que se soubesse para onde tinham
+desertado. Chegou o descaramento a ponto de não deixarem um charuto para
+o rei fumar».
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pág. 91| iuutil | inutil |
+ |#pág. 263| esqueeeu | esqueceu |
+ |#pág. 291| eomer | comer |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+Identificou-se a não existência nos dois originais de uma figura que se
+encontraria entre as páginas 206 e 207. Presume-se que por não se
+encontrar em ambas as obras da mesma edição, que se trata de um erro de
+impressão que afectou esta edição em particular.
+
+Foram efectuadas correcções na numeração das páginas no indíce de forma
+a coincidir com a localização correcta no livro.
+
+As figuras no original encontram-se entre páginas.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Memórias, by Raúl Brandão
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMÓRIAS ***
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
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+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
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