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+ <title>Memorias</title>
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+The Project Gutenberg EBook of Memórias, by Raúl Brandão
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Memórias
+
+Author: Raúl Brandão
+
+Release Date: April 3, 2011 [EBook #35762]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMÓRIAS ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal) and
+The Internet Archive.)
+
+
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+
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+</pre>
+
+
+<div>
+<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+quantidade de erros tipogr&aacute;ficos existentes neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Abril 2011)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">Direitos reservados<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h1>MEMORIAS
+</h1>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 150px; height: 210px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>DE RAUL BRAND&Atilde;O
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote">A PUBLICAR:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote1">Theatro cinematographico<br />
+
+A historia humilde<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<br />
+
+<h3>RAUL BRAND&Atilde;O
+</h3>
+
+<br />
+
+<h1>Memorias
+</h1>
+
+<br />
+
+<h4>1.&ordm; VOLUME
+</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 150px; height: 147px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>
+EDI&Ccedil;&Atilde;O DA<br />
+
+<br />
+
+&laquo;RENASCEN&Ccedil;A PORTUGUESA&raquo;<br />
+
+<br />
+
+PORTO</h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">AOS MORTOS<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 500px; height: 757px;" alt="" src="images/fig03.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c1" id="c1"></a>PREFACIO
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="date">Janeiro de 1918.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Se tivesse de recome&ccedil;ar a vida, recome&ccedil;ava-a
+com os mesmos erros e
+paix&otilde;es. N&atilde;o me arrependo, nunca me
+arrependi. Perdia outras tantas horas
+diante do que &eacute; eterno, embebido ainda
+n'este sonho po&iacute;do. N&atilde;o me habituo:
+n&atilde;o posso v&ecirc;r uma arvore sem espanto,
+e acabo desconhecendo a vida e titubeando
+como comecei a vida. Ignoro
+tudo, acho tudo esplendido, at&eacute; as coisas
+vulgares: extraio ternura duma pedra.
+N&atilde;o sei&mdash;nem me importo&mdash;se creio na
+imortalidade da alma, mas do fundo do
+meu s&ecirc;r agrade&ccedil;o a Deus ter-me deixado
+assistir um momento a este espectaculo
+desabalado da vida. Isso me basta. Isso
+<span class="pagenum">[10]</span>
+me enche: levo-o para a cova, para remoer
+durante seculos e seculos, at&eacute; ao
+juizo final. Nunca fui homem de ac&ccedil;&atilde;o e
+ainda bem para mim: tive mais horas
+perdidas... Fugi sempre dos phantasmas
+agitados, que me metem medo. Os
+homens que mais me interessaram na
+existencia foram outros: foram, por exemplo,
+D. Jo&atilde;o da Camara, poeta e santo,
+Correia d'Oliveira, um chapeu alto e nervos,
+nascido para cantar, Columbano e
+a sua arte exclusiva, e alguns desgra&ccedil;ados
+que mal sabiam exprimir-se. Conheci
+muitos ignorados e felizes. Meio doidos
+e atonitos. O Napoles ainda hoje dorme
+sobre a mesma rima de jornaes?... Outro
+andava roto e dava tudo aos pobres.
+O homem &eacute; tanto melhor quanto
+maior quinh&atilde;o de sonho lhe coube em
+sorte. De d&ocirc;r tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+A que se reduz afinal a vida? A um
+momento de ternura e mais nada... De
+tudo o que se passou comigo s&oacute; conservo
+a memoria intacta de dois ou tres
+rapidos minutos. Esses sim! Teimam, reluzem
+<span class="pagenum">[11]</span>
+l&aacute; no fundo e enebriam-me, como
+um pouco d'agua fria embacia o copo.
+S&oacute; de pequeno retenho impress&otilde;es
+t&atilde;o nitidas como na primeira hora:
+ou&ccedil;o hoje como hontem os passos de
+meu pae quando chegava a casa; vejo
+sempre diante dos meus olhos a mancha
+azul ferrete das hydranjas que enchiam
+o canteiro da parede. O resto esvae-se
+como fumo. At&eacute; as figuras dos mortos,
+por mais esfor&ccedil;os que eu fa&ccedil;a, cada vez
+se afastam mais de mim... Algumas sensa&ccedil;&otilde;es,
+ternura, c&ocirc;r, e pouco mais. Tinta.
+Pequenas coisas frivolas, o calor do ninho,
+e sempre dois tra&ccedil;os na retina, o
+cabedelo d'oiro, a outra banda verde...
+Passou depois por mim o tropel da vida
+e da morte, assisti a muitos factos historicos,
+e essas impress&otilde;es v&atilde;o-se desvanecidas.
+Ao contrario este facto trivial
+ainda hoje o recordo com a mesma vibra&ccedil;&atilde;o:
+a morte daquella laranjeira que, de
+velha e tonta, deu fl&ocirc;r no inverno em que
+seccou. O resto usa-se hora a hora e todos
+os dias se apaga. Todos os dias morre.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[12]</span>
+L&aacute; est&aacute; a velha casa abandonada, e
+as arvores que minha m&atilde;e, por sua m&atilde;o,
+dispoz: a bica deita a mesma agua indiferente,
+o mesmo barco archaico sobe o
+rio, guiado &aacute; espadela pelo mesmo homem
+do Douro, de p&eacute; sobre a gaiola de
+pinheiro. S&oacute; os mortos n&atilde;o voltam. Dava
+tudo no mundo para os tornar a v&ecirc;r, e
+n&atilde;o ha lagrimas no mundo que os fa&ccedil;am
+resuscitar.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta Foz de ha cincoenta annos, adormecida
+e doirada, a Cantareira, no alto o
+Monte, depois o farol e sempre ao largo
+o mar diaphano ou colerico, foi o quadro
+da minha vida. Aqui ao lado morreu a
+minha av&oacute;; no armario, metido na parede
+como um beliche, dormiu em pequeno o
+meu av&ocirc;, que desapareceu um dia no
+mar com toda a tripula&ccedil;&atilde;o do seu brigue,
+e nunca mais houve noticias d'elle. Lembro-me
+da av&oacute; e da tia Iria, de saia de
+riscas azues, sentadas no estrado da sala
+da frente, e possuo ainda o volume desirmanado
+do Judeu que ellas liam, com
+o <em>Feliz Independente do mundo e da</em>
+<span class="pagenum">[13]</span>
+<em>fortuna</em> e as
+<em>Recrea&ccedil;&otilde;es
+philosophicas</em> do
+padre Theodoro d'Almeida. Ou&ccedil;o, desde
+que me conhe&ccedil;o, sahir do negrume, alta
+noite, a voz do mo&ccedil;o chamando os homens
+da companha:&mdash;&Oacute; s&ecirc; Manuel c&aacute;
+p'ra baixo p'r'o mar!&mdash;Vi envelhecer todos
+estes pescadores, o Bil&eacute;, o Mandum,
+o Manuel Arraes, que me levou pela primeira
+vez, na nossa lancha, ao largo. Ha
+que tempos!&mdash;e foi hontem... A quarenta
+bra&ccedil;as lan&ccedil;a-se o ancorote. Na
+noite cerrada uma luzinha &aacute; pr&ocirc;a; do mar
+profundo&mdash;chape que chape&mdash;s&oacute; me
+separa o cavername. Deito-me com os
+homens sob a vela estendida. Primeiro
+livor da manh&atilde;, e n&atilde;o distingo a luz do
+dia do p&oacute; verde do mar. Nasce da agua,
+mistura-se na agua, com reflexos ba&ccedil;os, a
+claridade salgada que palpita, o ar vivo
+que respiro, o oceano immenso que me
+envolve.&mdash;I&ccedil;a! i&ccedil;a!&mdash;e as redes
+sobem
+pela pol&eacute;, cheias de algas e de peixe, que
+se debate no fundo da catraia. Voltamos.
+J&aacute; avisto, &aacute; vela panda, o farolim,
+depois Carreiros; um ponto branco, alem
+no areal, &eacute; o Senhor da Pedra, e a terra
+<span class="pagenum">[14]</span>
+toda, roxa e diaphana, emerge emfim,
+como uma apari&ccedil;&atilde;o, do fundo do mar. A
+onda quebra. Eis a barra. Agora o leme
+firme!... As mulheres, de perna nua,
+acodem &aacute; praia para lavar as r&ecirc;des, e o
+velho piloto m&oacute;r, de barba branca, sentado
+&aacute; porta da Pens&atilde;o, fuma inalteravel
+o seu cachimbo de barro. O azul do mar,
+desfeito em poalha, mistura-se ao oiro que
+o c&eacute;o derrete. Mais barcos v&atilde;o aparecendo,
+vela a vela: o <em>Vae com Deus</em>, a
+<em>Senhora
+da Ajuda</em>, o <em>Deus te
+guarde</em>, e os
+homens, de p&eacute;, com o barrete na m&atilde;o, cantam
+o <em>bemdito</em>, tanta foi a
+pesca.&mdash;Quantas
+duzias?&mdash;Um cento! dois centos!&mdash;Nas
+linguetas de pedra salta a pescada
+de lista preta no lombo, a raia viscosa, o
+ruivo de dorso vermelho, ou, no inverno,
+a sardinha que os bateis carreiam do
+mar inexgotavel, estivando de prata todo
+o caes. &Aacute;s vezes o peixe miudo e vivo &eacute;
+tanto, que n&atilde;o bastam os almocreves com
+os seus burros canastreiros, as varinas
+com os seus gigos, nem as mulheres de
+saia ensacada e perna &aacute; mostra, para o
+levarem, apregoando-o, por essa terra
+<span class="pagenum">[15]</span>
+dentro. D&aacute;-se a quem o quer, faz-se o
+quinh&atilde;o dos pobres. Em setembro s&atilde;o
+as mar&eacute;s vivas. Mais tarde cresce do mar
+um negrume. Acastelam-se as nuvens no
+poente, e forma-se para o sul uma parede
+compacta que tem legoas de espessura.
+A voz &eacute; outra, clamorosa, e, &aacute; primeira
+lufada, bandos de gaivotas grasnam pela
+costa f&oacute;ra, anunciando o inverno que
+vem proximo. O quadro muda, e os homens
+morrem &aacute; bocca da barra, na Pedra
+do C&atilde;o, agarrados aos remos, sacudidos
+no torvelinho da resaca, o velho
+arraes de p&eacute;, as duas m&atilde;os crispadas no
+leme, cuspindo injurias, para lhes dar animo,
+e todo o mulherio da Povoa, de Matosinhos,
+da Afurada&mdash;vento sul, camaroeiro
+i&ccedil;ado&mdash;com as saias pela cabe&ccedil;a,
+salpicadas de espuma e molhadas de
+lagrimas:&mdash;Ai o meu rico homem! o
+meu filho que o n&atilde;o torno a ver!&mdash;E chamam
+por Deus, ou insultam o mar, que,
+inverno a inverno, lh'os leva todos para
+o fundo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[16]</span>
+O que sei de bello, de grande ou de
+util, aprendi-o n'esse tempo: o que sei
+das arvores, da ternura, da d&ocirc;r e do
+assombro, tudo me vem desse tempo...
+Depois n&atilde;o aprendi coisa que valha. Confus&atilde;o,
+balburdia e mais nada. Vacuidade
+e mais nada. Figuras equivocas, ou,
+com raras excep&ccedil;&otilde;es, sentimentos
+ba&ccedil;os.
+Amargor e mais nada. Nunca mais. Nunca
+Londres ou a floresta americana me incutiram
+misterio que valesse o dos quatro
+palmos do meu quintal. Nunca ca&ccedil;a &aacute;s feras
+no canavial indiano foi mais fertil em
+emo&ccedil;&atilde;o e aventura, que a armadilha aos
+passaros na po&ccedil;a do Monte, com o Manuel
+Barbeiro. Uma nora, dois choupos,
+a agua empapada, e, entre as hervas gordas
+como bichos, p&eacute;gadas de bois cheias
+de tinta azul, reflectindo o c&eacute;o implacavel
+de agosto. Os passaros com as azas
+abertas desconfiam e hesitam: a s&ecirc;de
+aperta-os, o sol escalda-os. Mal pousam
+na armadilha agarramol-os com ferocidade.
+Chiu!... Uma andorinha descreve l&aacute;
+no alto um circulo perfeito, e vem, no
+v&ocirc;o desferido, arripiar com o bico a agua
+<span class="pagenum">[17]</span>
+estagnada. Toca n'uma palheira de visco&mdash;&eacute;
+nossa! J&aacute; tiveste nas m&atilde;os uma andorinha?
+&Eacute; pennas e vida phrenetica. E
+essa vida pertence-te!... S&oacute; ao fim da
+tarde regressava a casa com os bolsos
+cheios de rans e os olhos deslumbrados.
+Nenhuma figura t&ocirc;rva, nem o Anti-Christo,
+me communicou terror semelhante
+ao do inofensivo Manco da esquina,
+que escondia de manh&atilde; a barba
+que lhe chegava ao umbigo, entre o
+peito e a camisa, para a sacar de noite,
+quando sahia &aacute; estrada... Sou capaz de
+te dizer qual o tom verde de certos dias,
+quando o pecegueiro bravo encostado
+ao muro floresce. O murmurio da minha
+bica n&atilde;o me sae dos ouvidos at&eacute; &aacute; hora
+da morte. Quasi todos os meus amigos&mdash;o
+Nel, que n&atilde;o tornei a ver...&mdash;s&atilde;o
+d'essa epocha. D'outras impress&otilde;es mais
+tardias n&atilde;o restar&atilde;o vestigios, mas tenho
+sempre presentes os mesmos pinheiros
+mansos&mdash;que j&aacute; n&atilde;o
+existem&mdash;acenando
+para a barra, e alta noite acordo ouvindo
+o rebramir do mar longinquo. Nos dias
+de desgra&ccedil;a &eacute; sempre a mesma voz que
+<span class="pagenum">[18]</span>
+chama por mim... Olha, olha ainda e
+extasia-te: o rio parece um lago, e um
+bando de gaivotas desfolhadas alastra
+sobre a tinta azul, com laivos esquecidos
+do poente. Boia espuma na agua
+viva que a mar&eacute; traz da barra... E n&atilde;o
+ha cheiro a flores que se compare a este
+cheiro do mar.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Agosto de 1910.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Aos 23 do mez passado morreu meu
+pae amachucado, exhausto e pobre. Encontr&atilde;o
+de um, repel&atilde;o de outro, assim
+foi at&eacute; &aacute; cova. Tinha 67 annos incompletos.
+N&atilde;o podia mais. Encontraram-lhe
+alguns cobres no bolso. Ha muitos annos
+que se arrastava, e s&oacute; tinha de seu uma
+alegria e um repouso: os domingos. Aos
+domingos metia-se no quarto, cal&ccedil;ava
+uns chinelos, e toda a tarde chorava lagrimas
+sem fim sobre um velho romance
+de Camillo. Minha m&atilde;e pouco mais durou,
+com um olhar de pasmo. L&aacute; ficou a
+velha casa abandonada...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[19]</span>
+Sobe a lua no c&eacute;o, e a sombra no monte.
+Seis arvores, quatro paredes&mdash;tudo
+aqui me enche de saudades. A bica continua
+a correr, mas outras s&ecirc;des se apagar&atilde;o
+n'aquella agua. Outros vir&atilde;o tambem
+sentar-se no banco de pedra... S&oacute;
+me resta a tua m&atilde;o querida, que a meu
+lado segura a minha m&atilde;o. Os mortos
+chamam por n&oacute;s cada vez mais alto...
+Olho para ti e os teus primeiros cabellos
+brancos fazem-me chorar.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">
+Setembro de 1910.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje acordei com este grito: eu n&atilde;o
+soube fazer uso da vida!
+<br />
+
+<br />
+
+O que me pesa &eacute; a inutilidade da
+vida. Agarro-me a um sonho; desfaz-se-me
+nas m&atilde;os; agarro-me a uma mentira
+e sempre a mesma voz me repete:&mdash;&Eacute;
+inutil! &eacute; inutil!
+<br />
+
+<br />
+
+A aquiescencia, o sorriso:&mdash;pois sim...
+pois sim...&mdash;a necessidade de transigir,
+<span class="pagenum">[20]</span>
+o preceito, a lei, fizeram de mim este s&ecirc;r
+inutil, que n&atilde;o sabe viver e que j&aacute; agora
+n&atilde;o pode viver. N&atilde;o grito de desespero
+porque nem de desespero sou capaz.
+<br />
+
+<br />
+
+A vida antiga tinha raizes, talvez a
+vida futura as venha a ter. A nossa epocha
+&eacute; horrivel porque j&aacute; n&atilde;o
+cremos&mdash;e
+n&atilde;o cremos ainda. O passado desapareceu,
+de futuro nem alicerces existem. E
+aqui estamos n&oacute;s, sem tecto, entre ruinas,
+&aacute; espera...
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o entendo nada da vida. Cada
+dia que avan&ccedil;a entendo menos da vida.
+Contudo ha horas, as horas perdidas&mdash;e
+s&oacute; essas&mdash;que queria tornar a viver
+e a perder.
+<br />
+
+<br />
+
+Deus, a vida, os grandes problemas,
+n&atilde;o s&atilde;o os philosophos que os resolvem,
+s&atilde;o os pobres vivendo. O resto &eacute; engenho
+e mais nada. As coisas bellas reduzem-se
+a meia duzia: o tecto que me
+cobre, o lume que me aquece, o p&atilde;o que
+como, a est&ocirc;pa e a luz.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[21]</span>
+Detesto a ac&ccedil;&atilde;o. A ac&ccedil;&atilde;o
+mete-me
+medo. De dia p&oacute;do as minhas arvores, &aacute;
+noite sonho. Sinto Deus&mdash;toco-o. Deus &eacute;
+muito mais simples do que imaginas. Rodeia-me&mdash;n&atilde;o
+o sei explicar. Terra, mortos,
+uma poeira de mortos que se ergue em
+tempestades, e esta m&atilde;o que me prende
+e sustenta e que tanta for&ccedil;a tem...
+<br />
+
+<br />
+
+Como em ti, ha em mim varias camadas
+de mortos n&atilde;o sei at&eacute; que profundidade.
+&Aacute;s vezes convoco-os, outras s&atilde;o
+elles, com a voz t&atilde;o sumida que mal a
+distingo, que desatam a falar. Preciso da
+noite eterna: s&oacute; num silencio mais profundo
+ainda, conto ouvil-os a todos.
+<br />
+
+<br />
+
+Nunca os meus me chamaram t&atilde;o
+alto. Sentam-se a meu lado. Rodeiam-me,
+e pouco a pouco o circulo da minha vida
+restringe-se a um ponto&mdash;a cova.
+<br />
+
+<br />
+
+Teimo: ha uma ac&ccedil;&atilde;o interior, a dos
+mortos, ha uma ac&ccedil;&atilde;o exterior, a da alma.
+A inteligencia &eacute; exterior e universal e
+faz-nos vibrar a todos d'uma maneira diferente.
+<span class="pagenum">[22]</span>
+Destas duas ac&ccedil;&otilde;es resulta o
+conflicto tragico da vida. O homem agita-se,
+debate-se, declama, imaginando
+que constroe e se imp&otilde;e&mdash;mas &eacute; impelido
+pela alma universal, na meia duzia de
+coisas essenciaes &aacute; Vida, ou obedece apenas
+ao impulso incessante dos mortos.
+<br />
+
+<br />
+
+A minha alegria em velho consistiria
+em ter aqui meu pae para falar com elle.
+N&atilde;o &eacute; s&oacute; saudade que sinto:
+&eacute; uma impress&atilde;o
+physica. Agora &eacute; que acharia
+encanto at&eacute; &aacute;s lagrimas em termos a
+mesma idade, conversarmos ao p&eacute; do
+lume e morrermos ao mesmo tempo...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Fevereiro de 1918.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Isso que ahi fica n&atilde;o s&atilde;o memorias
+alinhadas. N&atilde;o teem essa pretens&atilde;o.
+S&atilde;o
+notas, conversas colhidas a esmo, dois
+tra&ccedil;os sobre um acontecimento&mdash;e mais
+nada. Diante da fita que a meus olhos
+absortos se desenrolou, interessou-me a
+c&ocirc;r, um aspecto, uma linha, um quadro,
+<span class="pagenum">[23]</span>
+uma figura, e fixei-os logo no canhenho
+que sempre me acompanha. Sou um mero
+espectador da vida, que n&atilde;o tenta explical-a.
+N&atilde;o afirmo nem nego. Ha muito
+que fujo de julgar os homens, e, a cada
+hora que passa, a vida me parece ou
+muito complicada e misteriosa ou muito
+simples e profunda. N&atilde;o aprendo at&eacute;
+morrer&mdash;desaprendo at&eacute; morrer. N&atilde;o
+sei nada, n&atilde;o sei nada, e saio d'este
+mundo com a convic&ccedil;&atilde;o de que n&atilde;o
+&eacute;
+a raz&atilde;o nem a verdade que nos guiam:
+s&oacute; a paix&atilde;o e a chimera nos levam a
+resolu&ccedil;&otilde;es
+definitivas. O papel dos doidos
+&eacute; de primeira importancia neste triste planeta,
+embora depois os outros tentem corrigil-o
+e canalisal-o... Tambem entendo
+que &eacute; t&atilde;o dificil asseverar a
+exactid&atilde;o de
+um facto como julgar um homem com
+justi&ccedil;a. Todos os dias mudamos de opini&atilde;o,
+todos os dias somos empurrados
+para leguas de distancia por uma coisa
+phrenetica, que nos leva n&atilde;o sei para
+onde. Succede sempre que, passados
+mezes sobre o que escrevo&mdash;eu proprio
+duvido e hesito. Sinto que n&atilde;o me perten&ccedil;o...
+<span class="pagenum">[24]</span>
+&Eacute; por isso que n&atilde;o condemno
+nem explico nada, e fujo at&eacute; de descer
+dentro de mim proprio, para n&atilde;o reconhecer
+com espanto que sou absurdo&mdash;para
+n&atilde;o ter de discriminar at&eacute; que ponto
+creio ou n&atilde;o creio, e de verificar o que
+me pertence e o que pertence aos mortos.
+De resto isto de ter opini&otilde;es n&atilde;o &eacute;
+facil. Sempre que me dei a esse luxo, fui
+for&ccedil;ado a reconhecer que eram falsas ou
+erroneas. Sou talvez uma arvore que
+cresce &aacute; sua vontade, pernada para aqui,
+pernada para acol&aacute;, &aacute; chuva e ao vento.
+N&atilde;o admitto poda. Perco horas com inutilidades,
+e passo alheado e frio diante
+do que os outros contemplam extasiados.
+Admiro, por exemplo, muito mais, perdoem-me,
+a vida ignorada do meu visinho,
+o senhor Crasto, que morreu de oitenta
+annos, curvado, a lavrar a terra, do
+que a do senhor Hintze Ribeiro, que
+considero inutil e destituida de toda a
+belleza.
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso, repito, muitas folhas destes
+canhenhos ser&atilde;o mal interpretadas, talvez
+alguns tipos falsos. S&oacute; vemos mascaras,
+<span class="pagenum">[25]</span>
+s&oacute; lidamos com phantasmas, e ninguem,
+por mais que queira, se livra de paix&otilde;es.
+No que o leitor deve acreditar &eacute; na sinceridade
+com que na ocasi&atilde;o as escrevi.
+Poder&atilde;o objectar-me:&mdash;Ent&atilde;o com que
+destino publico tantas paginas desalinhadas,
+de que eu proprio sou o primeiro
+a duvidar? &Eacute; que ellas ajudam a reconstituir
+a atmosphera d'uma epocha; s&atilde;o,
+como dizia um grande espirito, o lixo da
+historia. Ensinam e elucidam. Foi sempre
+com a legenda que se construiu a vida.
+Sei perfeitamente que a historia viva
+tanto se faz com a verdade como com a
+mentira&mdash;se n&atilde;o se faz mais com a
+mentira do que com a verdade. Para gerar
+um acontecimento &eacute; preciso crear-lhe
+primeiro a atmosphera propicia. &laquo;Algumas
+palavras sob caricaturas grosseiras
+dispersas pelos campos, formaram uma
+lenda na imagina&ccedil;&atilde;o popular, concernente
+ao rei, &aacute; rainha, ao conde de Artois,
+a madame Lamballe, ao pacto da
+fome, <em>aos vampiros que sugam o sangue
+do povo</em>, etc. Dessa lenda, que elle acha
+util, sahiu a grande
+revolu&ccedil;&atilde;o&raquo;&mdash;diz um
+<span class="pagenum">[26]</span>
+historiador. A gente nunca sabe ao certo
+se da infamia poder&atilde;o nascer coisas bellas...
+A mentira, o boato, o que se diz
+ao ouvido, o que se deturpa, e que tanta
+for&ccedil;a tem, a meada de odio, de ambi&ccedil;&atilde;o
+e de interesses, que n&atilde;o cabe na historia
+com H grande, tem o seu logar n'um
+livro como este de memorias despretenciosas.
+Eis uma raz&atilde;o. Tenho outra ainda:
+torno a v&ecirc;r e a ouvir alguns mortos.
+Recordo, o que &eacute; necessario a quem
+cada vez mais se isola com o seu sonho
+e as suas arvores. Isto aquece quasi
+tanto os primeiros annos da minha velhice,
+como o lume que arde at&eacute; junho
+na lareira d'esta casa<sup><a href="#n1">[1]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote2">Cantareira, Foz do
+Douro&mdash;1918.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c2" id="c2"></a>ALGUMAS
+FIGURAS</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Janeiro&mdash;1900.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Urbano de Castro, com um olho t&ocirc;rto e
+um chapelinho afadistado, na aparencia
+reservado e sardonico, sae-se encantador na intimidade.
+Os seus amigos adoram-no, o Camara,
+o Schwalbach, a antiga roda do <em>Correio da
+Manh&atilde;</em>.
+Trouxe para o jornalismo uma grande leitura de
+classicos&mdash;conhece muito a lingua&mdash;e uma forma
+ironica e precisa: em meia duzia de linhas incisivas
+deixa o adversario a sangrar. Os politicos
+temem-no tanto, que uma das condi&ccedil;&otilde;es impostas
+pelo Jos&eacute; Luciano, quando do pacto com o Hintze,
+foi que o Urbano terminasse na <em>Tarde</em>
+com o
+<em>Espirito de S. Ex.<sup>a</sup></em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Eis algumas maximas de Urbano de Castro:<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="tinyl">&mdash;A paciencia &eacute;
+uma virtude de capote e
+len&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Quanto mais leve &eacute; a cabe&ccedil;a da mulher,
+mais
+pesada
+&eacute; a do marido.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Os homens publicos s&atilde;o como os papeis de
+credito&mdash;o que hoje tem uma alta
+cota&ccedil;&atilde;o,
+amanh&atilde; n&atilde;o vale, e
+inversamente.</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[28]</span>
+<div class="tinyl">&mdash;Quando tiveres muitos
+argumentos,
+n&atilde;o empregues
+sen&atilde;o os melhores. Quando n&atilde;o tiveres nenhum,
+emprega
+todos.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;A paternidade &eacute;, muitas vezes, um rotulo. A
+garrafa
+&eacute; a mesma, mas o vinho &eacute; outro.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Viuva rica, com um olho dobra, com outro repica.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;No cora&ccedil;&atilde;o mora-me Deus, no figado o
+diabo.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Mortal &eacute; o contrario de imortal. Imortal
+&eacute; o
+que &eacute;
+sempre. Logo, mortal&mdash;&eacute; o que n&atilde;o
+&eacute;
+nunca.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Theologia&mdash;a arte de fazer comprehender aos outros
+aquillo que n&oacute;s n&atilde;o entendemos.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;De todas as armas, a mais dificil de manejar &eacute; o
+pau... de dois bicos.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Jornalista&mdash;fabricante da opini&atilde;o
+publica. Cada um
+afirma que a unica genuina &eacute; a da sua lavra.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Se os homens de mais juizo pensarem a serio em
+muitos dos seus actos h&atilde;o de reconhecer que n&atilde;o
+teem
+juizo nenhum.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O suicida tem para mim um lado
+sympathico&mdash;n&atilde;o
+se julga insubstituivel.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Junho&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Deparo hoje com o Garrido, redondinho, baixo,
+de bigode grisalho e um ventre de proprietario.
+Nunca se altera nem perde a paciencia. Jovial?
+N&atilde;o, triste e falando sempre baixinho. Tem ganho
+fortunas, tem dissipado fortunas com o mesmo
+ar inalteravel. Houve ocasi&otilde;es em que todos os
+theatros do Rio representaram pe&ccedil;as com o seu
+nome. Est&aacute; cheio de dividas. E o seu ideal, o ideal
+<span class="pagenum">[29]</span>
+d'esta existencia de acaso, com afli&ccedil;&otilde;es de
+morte,
+ou dispersa pelo Brazil entre dois numeros de
+opereta&mdash;pan! pan! pan!&mdash;e dinheiro atirado
+a rodos, &eacute; um casebre no campo, duas arvores
+n'um retalho de horta vi&ccedil;osa e uma nora pingue
+que pingue no fundo do quintal. Paz. E n&atilde;o escrever
+uma linha.
+<br />
+
+<br />
+
+Um agiota n&atilde;o o larga. &Eacute; este velhinho paternal,
+de cabellos brancos, que faz recados, deita
+as cartas ao correio e leva coiro e cabelo. Parece
+inofensivo. Come&ccedil;ou a vida por creado de servir
+e esfolou os patr&otilde;es. Afirma que o Garrido &eacute;
+capaz de arrancar dinheiro a um morto:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Este senhor Garrido d&aacute;-me cada
+afli&ccedil;&atilde;o!
+At&eacute; me faz crear caspa!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Fevereiro&mdash;1900.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A paix&atilde;o d'este homem &eacute; n&atilde;o ter um
+livro
+de geito. G... s&oacute; escreveu trez folhetos, e por
+ahi ficou o seu talento. Espremido n&atilde;o deu mais
+nada. &Eacute; no entanto uma figura epigramatica e
+nitida de conversador e um typo curioso de
+bohemio lisboeta. Dormiu nas escadas dos predios,
+pertenceu ao grupo que o Fialho arrastava
+pelas ruas at&eacute; ante manh&atilde;, dispersando com elle
+o oiro da sua esplendida phantasia. Para essa
+meia duzia de bohemios improvisou o grande
+escriptor as suas melhores satyras. Uma noite, no
+<span class="pagenum">[30]</span>
+caf&eacute;, G... aludiu &aacute; sua obra, e logo do lado o
+Fialho acudiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;A tua obra, bem sei... Vinte e cinco cartas
+a vinte e cinco amigos pedindo vinte e cinco
+tost&otilde;es emprestados.
+<br />
+
+<br />
+
+G... embezerrou. Mas passados minutos aproveitou
+uma pausa no dialogo, para perguntar com
+indiferen&ccedil;a ao Fialho, que tinha ha pouco casado
+rico com uma prima, que gastou a vida a esperal-o
+no fundo da provincia:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O Fialho fazes favor de me dizer que horas
+s&atilde;o... no relogio do teu sogro?
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Fevereiro&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Vejo sempre diante de mim o D. Jo&atilde;o da
+Camara, j&aacute; cansado e e asmathico, olhando por
+cima das lunetas, e falando baixinho com receio,
+uma modestia no dizer, e um medo de magoar...
+A barba espessa, a grenha espessa e um chapelinho
+p&ocirc;sto ao lado, completam a figura um
+pouco molle. &Eacute; quasi um santo. Joga e jejua. D&aacute;
+tudo o que tem. Exploram-no.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O que me perdeu na vida foi n&atilde;o ter energia.
+Nunca me decido.&mdash;E mais baixo:&mdash;Isto
+vem talvez dos jesuitas que me educaram. Tive
+alguns condiscipulos que s&atilde;o homens notaveis e
+ninguem d&aacute; por elles.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[31]</span>
+Vive de noite, com uns e outros, ao acaso,
+nos bastidores dos theatros, ou encantado com
+uma ceiasinha na taberna, que descobriu no Arco
+da Bandeira. Se encontra o Pinturas est&aacute; perdido:
+n&atilde;o se largam mais. Vae sempre para casa de
+manh&atilde;, e a sua vida &eacute; t&atilde;o aflictiva
+que desejaria,
+como o Schwalbach, que o metessem algum tempo
+no Limoeiro, para n&atilde;o pensar no dia seguinte.
+<br />
+
+<br />
+
+Hontem contou-me isto que &eacute; encantador:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;N&atilde;o me importava nada de ter quatorze filhos
+em vez de sete. S&atilde;o muito meus amigos. O
+Vicente nunca sae de casa sem me dar um beijo.
+Eu estou sempre a dormir... Esta manh&atilde;&mdash;estava
+acordado, mas fingi que dormia, quando aquelle
+rapag&atilde;o me entrou no quarto, p&eacute; ante
+p&eacute;, para
+n&atilde;o me acordar, e beijou-me...
+<br />
+
+<br />
+
+E fica extatico.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s vezes fala-me das pe&ccedil;as que ha-de fazer,
+do <em>Serm&atilde;o da Montanha</em> e
+de outra com tipos
+de sonhadores, que se alimentam de mentira e de
+um passado que nunca existiu, forjado ponto por
+ponto. Assobia-se, por exemplo, um trecho d'opera,
+e logo este atalha:&mdash;Bem sei &eacute; da
+<em>Dinorah!</em>...
+Tempos que j&aacute; l&aacute; v&atilde;o! O que eu vivi
+com Fulano
+e Sicrano, e as ceias que demos juntos!&mdash;Tudo
+ilus&atilde;o! tudo sonho! Vae-se a ver nem sequer
+conheceram as pessoas de quem falam...
+Outras vezes conta-me a sua vida:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O que eu tenho sofrido! Tive muitos dias
+d'angustia... N'essa noite <em>O Pantano</em>
+cahira.
+<span class="pagenum">[32]</span>
+Toda a gente dizia mal de mim. Nos bastidores
+a intriga fervia com a Lucinda &aacute; frente. Sahi do
+theatro a pensar no que havia de empenhar no
+dia seguinte. Fui para casa muito tarde.&mdash;N&atilde;o
+haveria que p&ocirc;r no pr&eacute;go?&mdash;Por fim
+descobri
+uma casaca, e, ainda muito cedo, sahi com o embrulho
+debaixo do bra&ccedil;o, n'um papel de jornal. O
+papel amolecia, a casaca rompia para f&oacute;ra, e eu
+batia de pr&eacute;go em pr&eacute;go. Sete horas da
+manh&atilde;...
+Estavam todos fechados. N'um disseram-me
+com seccura:&mdash;N&atilde;o emprestamos sobre
+casacas.&mdash;Fui
+a outro e esperei no portal que abrisse.
+Lembro-me como se fosse hoje. Chovia a potes.
+Defronte, estava uma carro&ccedil;a, com um cavallo
+branco. Era um burro pelle e osso, a cabe&ccedil;a
+metida n'uma linhagem, a comer. E eu no portal,
+com o embrulho j&aacute; todo roto debaixo do
+bra&ccedil;o, invejei aquelle cavalo!...
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; n&atilde;o joga. Mas antigamente ia todos os dias
+para casa &aacute;s cinco horas, tendo perdido tudo:&mdash;Foi
+n'essas noites que imaginei as minhas melhores
+pe&ccedil;as...&mdash;Cuidadosamente punha sempre
+de lado um tost&atilde;o para o americano&mdash;e quasi
+sempre succedia tambem que um velho fidalgo,
+das suas rela&ccedil;&otilde;es, lhe pedia o tost&atilde;o
+emprestado
+para um calice de vinho do Porto, que se habituara
+a beber ahi pelas tres da madrugada. O
+D. Jo&atilde;o dava-lh'o, e l&aacute; ia a p&eacute; para a
+Junqueira,
+a sonhar nas pe&ccedil;as, sob a lufada, molhado at&eacute;
+aos ossos, de casaco de alpaca.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="illustration"><a name="f1" id="f1"></a><img style="width: 500px; height: 594px;" alt="Columbano.&mdash;Auto-retrato." title="Columbano.&mdash;Auto-retrato." src="images/fig04.png" /><br />
+
+<em>Columbano.</em>&mdash;Auto-retrato.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[33]</span>
+<div class="date">Junho&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Passei a noite em casa do Columbano, com o
+Raphael Bordalo Pinheiro. Durante o jantar falou
+sempre. Todo elle mexe, todo elle &eacute; caricatura e imprevisto:
+os olhos, o nariz, as m&atilde;os e at&eacute; o bigode
+que se encrespa, desenham e imitam.&mdash;Era um
+homem com um &ocirc;lho assim...&mdash;E logo o &ocirc;lho
+se
+lhe envieza. Em rapaz o seu sonho era o theatro.
+Chegou a ter li&ccedil;&otilde;es do Rosa pae. Est&aacute;
+um pouco
+cansado. Queixa-se muito. Amua.&mdash;Ninguem faz
+caso de mim...&mdash;Estranha quando o n&atilde;o
+v&atilde;o esperar
+&aacute; esta&ccedil;&atilde;o&mdash;e est&aacute;
+sempre a
+chegar das
+Caldas e partir para as Caldas. Depois esquece-se
+e p&otilde;e-se a rir. Depois torna:&mdash;Eu n&atilde;o
+jogo, mas
+l&aacute; em casa todas as noites jogam e pedem-me dinheiro
+emprestado.&mdash;Agora arremeda este e
+aquelle de quem fala. Conta que em Paris ouviu o
+rei dizer:&mdash;Isto aqui &eacute; uma terra, l&aacute;
+&eacute; uma piolheira.&mdash;E
+que o infante, quando lhe perguntaram:&mdash;Ent&atilde;o
+em Londres que tal, com aquelles
+principes todos?&mdash;Mal, mal... eu sou um principe
+aza de mosca...
+<br />
+
+<br />
+
+E acaba&mdash;&eacute; nas vesperas do jantar que lhe
+v&atilde;o oferecer no theatro D. Maria&mdash;por
+dizer:&mdash;Veja
+o senhor que desgra&ccedil;a a minha! Daqui
+a pouco n&atilde;o posso fazer a caricatura de ninguem!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[34]</span>
+Efectivamente l&aacute; estavam no banquete todos
+os homens imponentes, os conselheiros, os politicos
+decorativos, a serie completa das figuras
+do <em>Antonio Maria</em>. N&atilde;o
+faltou ninguem &aacute; chamada.
+E nos camarotes aplaudiram-no com delirio
+as lisboetas palidas de que tro&ccedil;ou em tantas
+paginas de genio. Confundiram-no e arrazaram-no.
+Creio que foi a primeira vez que perdeu
+a linha.
+<br />
+
+<br />
+
+Gostou sempre de fazer partidas. &Eacute; o Schwalbach
+que conta:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O imperador do Brazil logo que chegava
+ao theatro metia-se no camarote, descal&ccedil;ava as
+botas e cal&ccedil;ava com regalo uns chinelos. Uma
+noite o Raphael, que estava ent&atilde;o no Rio, foi p&eacute;
+ante p&eacute;, meteu a m&atilde;o pela cortina e roubou-lhe
+as botas. O pobre homem n&atilde;o se desconcertou:
+sahiu em chinelos, atravessou em chinelos a
+multid&atilde;o, saudando para a direita e para a esquerda,
+desceu ao pateo, e meteu-se em chinelos
+na carruagem.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Dezembro&mdash;1900.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Latino Coelho, contado por Maximiliano
+d'Azevedo:
+<br />
+
+<br />
+
+Tinha coisas absurdas: estava sentado a
+conversar e levantava-se sem mais nem menos,
+<span class="pagenum">[35]</span>
+compunha a trumpha, e ia espreitar &aacute; janella. Era
+todo de engui&ccedil;os. Nunca sahia de dia. E que memoria!
+Dizia-se-lhe qualquer banalidade, e elle,
+d'ahi a mezes, repetia-a palavra por palavra. Discursos
+que revelam o conhecimento inteiro d'uma
+epocha, como o de Cam&otilde;es, que leu na Academia,
+e que foi escripto das sete &aacute;s onze da manh&atilde;,
+e lido ao meio dia, compunha-os com extrema
+facilidade.
+<br />
+
+<br />
+
+D'uma vez estava elle em casa politicando
+com alguns amigos reformistas, o Mariano, o Lopo
+Vaz e n&atilde;o sei quem mais. Discutia-se a
+revolu&ccedil;&atilde;o
+de onze de maio. O Latino, dando um geito &aacute;
+trumpha, chegou &aacute; janella e viu o carro, puxado
+a mulinhas, do Saldanha:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Ahi vem o duque... E aposto que vem
+para c&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Efectivamente o carro parou &aacute; porta. Era o
+Saldanha. O Latino foi recebel-o n'outra sala, e,
+depois dos cumprimentos habituaes, o Saldanha
+perguntou-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Sabe a que venho? Venho saber a sua
+opini&atilde;o sobre o dia de hontem.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Mas n&atilde;o tenho opini&atilde;o nenhuma...
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;N&atilde;o se recuse, Latino. Pe&ccedil;o-lho como
+amigo.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Ent&atilde;o, marechal, deixe-me dizer-lhe que
+quem como V. Ex.<sup>a</sup> conquistou um nome glorioso
+com a espada, n&atilde;o deve servir-se da canalha
+para fazer o que fez. A sua situa&ccedil;&atilde;o &eacute;
+deploravel.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[36]</span>
+&mdash;N&atilde;o me diga isso! E se eu aproveitasse a
+situa&ccedil;&atilde;o para firmar de vez a liberdade em
+Portugal
+e salvar o paiz?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Se V. Ex.<sup>a</sup> quizesse...
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Mas &eacute; que quero, e para isso venho ter
+comsigo.
+<br />
+
+<br />
+
+Combinaram que o Latino redigiria os decretos
+ampliando as liberdades publicas, tornando-as
+efectivas, e convocando constituintes com poderes
+amplissimos.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O maior segredo...&mdash;recomendou o Latino.
+<br />
+
+<br />
+
+N'essa noite n&atilde;o dormiu. Acompanhado d'um
+amanuense do ministerio, redigiu os decretos,
+que no dia seguinte o proprio Saldanha foi buscar,
+metendo-os dentro da pasta. Mas fosse que
+os amigos que l&aacute; estavam em casa tivessem desconfiado;
+fosse que o Saldanha d&eacute;sse &aacute; lingua,
+o que &eacute; certo &eacute; que o rei foi prevenido a tempo
+por alguem que lhe disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O Saldanha vae trazer-lhe uns decretos.
+V. Magestade n&atilde;o os assigne ou est&aacute; perdido.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando o Saldanha chegou ao Pa&ccedil;o o rei
+abra&ccedil;ou-o:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Pois o duque ajudou a conquistar-me o
+throno e n&atilde;o quer que meus filhos reinem?
+Nem talvez eu chegue at&eacute; ao fim da vida no
+poder...
+<br />
+
+<br />
+
+Saldanha que era um fraco recuou. D'ahi a
+dias encontrou-se com o Latino que lhe disse:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[37]</span>
+&mdash;V. Ex.<sup>a</sup> n&atilde;o podia
+deixar-me dormir
+a minha
+noite socegado?
+<br />
+
+<br />
+
+Por trez vezes, conclue Maximiliano, o Latino
+me contou isto. J&aacute; tenho querido descobrir os
+decretos. Devem estar em casa do irm&atilde;o, n'um
+quarto interior, onde a tra&ccedil;a vai roendo os papeis
+do grande escriptor...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Um dia o Saraiva de Carvalho foi propor a
+revolu&ccedil;&atilde;o ao Latino:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Mas ha-de ser tudo assassinado&mdash;toda a
+familia real.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Isso n&atilde;o!&mdash;protestou logo o Latino.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Morreu virgem, como Newton. No dia de
+sua morte, estava o cadaver na cama, apenas
+coberto com um len&ccedil;ol. Alguem disse para o Maximiliano:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Bastaria arrancar aquelle len&ccedil;ol para
+descobrirmos
+o segredo de toda a sua existencia.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Junqueiro dizia de Latino:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Sim, &eacute; um homem admiravel, que em logar
+de c... tem duas castanhas piladas!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[38]</span>
+<div class="date">Maio&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Um jornal publica hoje esta noticia:<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="tinyl">
+POVOA DE LANHOSO, 29&mdash;Faleceu, sepultando-se
+hoje, o sr. dr. Joaquim da Boa Morte Alves de Moura, da
+freguezia de Santo Emili&atilde;o, bacharel formado em philosophia
+e mathematica pela Universidade de Coimbra.
+<br />
+
+<br />
+
+O povo apelidava-o de santo, pelas suas sublimes
+virtudes christ&atilde;s. Tinha 92 annos de edade; o falecido
+f&ocirc;ra
+frade agostinho.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O homem, a quem estas seccas linhas se referem,
+era na verdade um santo. Deixou tudo para
+viver pobre, perto de S. Martinho do Campo, entre
+cavadores e a gente humilde da terra que o adorava.
+Vi-o muitas vezes passar na estrada, todo
+branco, minguado, com o burel, que nunca quiz
+largar, no fio, e os sapatos rotos. Era efectivamente
+formado em philosophia e direito, e at&eacute;
+por vezes f&ocirc;ra convidado para lente da Universidade
+de Coimbra. Recusou sempre, recusou tudo,
+preferindo a convivencia com a gente do povo e
+com a natureza que o rodeava. Ha entre as
+duas povoa&ccedil;&otilde;es, S. Bento e S. Martinho, que
+ficam &aacute; beira da estrada da Povoa de Lanhoso,
+uma fonte que brota da raiz de uma arvore. Perto
+fica a ermida. Alli se costumava o santo homem
+sentar, horas e horas embebido nas suas
+medita&ccedil;&otilde;es.
+<span class="pagenum">[39]</span>
+Em que scismava? Decerto no passado
+longinquo...
+<br />
+
+<br />
+
+Lembram-se d'uma narrativa de Alexandre
+Herculano, que se chama, creio eu, &laquo;O ultimo
+dia de convento?&raquo; Um frade chora ao deixar
+para sempre a cella caiada, onde passou a vida
+inteira. &Eacute; s&oacute; isto, af&oacute;ra a ternura,
+as lagrimas, a
+prosa do grande escriptor. Assim D. Joaquim da
+Boa Morte contava tambem as ultimas horas
+de convento. Velhinho, tremulo, vivendo de esmolas,
+recolhido por caridade em casa de duas
+mulheres, que o cuidavam, nunca esqueceu o
+convento, a cella, o dia de separa&ccedil;&atilde;o. E, ao
+p&eacute; da
+arvore, junto ao fio limpido d'agua, lhe ouvi mais
+d'uma vez contar o que sofrera.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;E dos seus companheiros lembra-se? Teve
+mais tarde noticias?
+<br />
+
+<br />
+
+E elle, com os olhos razos de lagrimas:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Viveram ainda dispersos por esse mundo.
+Ha annos, ha muitos annos, recebi, dum d'elles
+um recado, esta palavra:&mdash;&laquo;Adeus!&raquo; Foi o
+ultimo!
+<br />
+
+<br />
+
+Agora acompanhava-o sempre um rapazinho.
+Com a vida, ia-se-lhe desfeito o burel, r&ocirc;tos os
+sapatos. Deix&aacute;ra de dizer missa, mas o povo d'aquelles
+logares, que &eacute; ingenuo e crente, consultava-o
+nas suas doen&ccedil;as e nos seus sofrimentos.
+&Eacute; que D. Joaquim fazia milagres. Excusam de
+sorrir... O milagre &eacute; uma comunica&ccedil;&atilde;o
+entre
+pessoas que t&ecirc;m radicada e viva esta for&ccedil;a
+enorme:&mdash;a
+<span class="pagenum">[40]</span>
+f&eacute;. D. Joaquim da Boa Morte curava
+as creaturas simples, as mulheres, as crean&ccedil;as e
+os homens da serra que o iam visitar, com boas
+palavras, e, quando muito, com alguns cachos de
+uvas, que elle proprio colhera e lhes distribuia,
+depois de benzidos.
+<br />
+
+<br />
+
+Antes de morrer pediu que o enterrassem embrulhado
+na manta co&ccedil;ada que pertencera a sua
+m&atilde;e e que alli tinha no fundo da arca. Essa velha
+manta como eu lh'a invejo! Era n'um farrapo
+assim, com um resto de calor e de ternura, que
+eu queria ir aconchegado para a terra. Nem a
+eternidade das eternidades, nem o isolamento,
+nem o frio dos frios, conseguiriam jamais trespassal-a.
+<br />
+
+<br />
+
+Que descance em paz. Quem escreve estas linhas
+deve-lhe uma das maiores, mais elevadas e
+puras impress&otilde;es que tem recebido na vida. A sua
+grande figura s&oacute; desaparece da terra, depois de
+ter feito muito bem e estancado muitas lagrimas.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Julho&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Silva Pinto a respeito do Cardia, que ha
+tres dias, em plena mocidade, meteu uma bala no
+cora&ccedil;&atilde;o:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Eu n&atilde;o fa&ccedil;o como elle, n&atilde;o
+me vou
+embora,
+porque tenho duas crean&ccedil;as, o Mario e o Raul.
+<span class="pagenum">[41]</span>
+Era de certo a isto que o Manuel se referia ao
+escrever: &laquo;N&atilde;o fa&ccedil;o falta a
+ninguem&raquo;. Isto atura-se
+l&aacute; a sangue frio e determinadamente! Matava-me
+para me ver livre d'estes bandalhos!
+<br />
+
+<br />
+
+E os olhos enchem-se-lhe de lagrimas, arrasta
+a perna apegado &aacute; bengala, e sacode a cabelleira
+branca. Parece um trapo ameigado, mas resistente
+ainda:&mdash;Arre bandidos!
+<br />
+
+<br />
+
+De repente, sem transi&ccedil;&atilde;o, p&otilde;e-se a
+rir:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Sabe de que me rio? Lembrou-me o Camillo,
+que tinha uma lingua viperina e dizia mal
+de toda a gente. Um dia em Seide falei-lhe n'este
+e naquelle, disse mal de todos. Por fim:&mdash;Sempre
+me refugio em Victor Hugo, para ver se voc&ecirc;
+tambem diz mal d'elle...
+<br />
+
+<br />
+
+E o mestre:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Esse velho n&atilde;o era nada tolo!
+<br />
+
+<br />
+
+Ri-se. Depois fica outra vez triste:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Aquellas paginas de Hugo quando o av&ocirc;
+v&ecirc; entrar o neto ferido pela porta dentro!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Fialho descrevendo o Cardia, esse rapaz ingenuo,
+insinuante e espontaneo, que aos dezanove
+annos se lembra de estourar o cora&ccedil;&atilde;o com
+uma bala, por causa d'uma reles cantora de quarenta
+e dous annos&mdash;o Fialho diz:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;...era isto e aquillo e uma m&atilde;o enorme
+<span class="pagenum">[42]</span>
+atirada p'ra aqui e p'ra acol&aacute; a toda a gente,
+apertando a nossa.
+<br />
+
+<br />
+
+O que nunca mais me esquece s&atilde;o aquelles
+olhos tristes e a bocca mo&ccedil;a sempre a sorrir!...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">
+Fevereiro&mdash;1904.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje almo&ccedil;o em casa do Schwalbach com o
+Bulh&atilde;o Pato, o Camara, Jo&atilde;o Chagas, Antonio
+Bandeira, etc. O Bulh&atilde;o Pato &eacute; um homensinho
+secco e resistente, de cabeleira e pera branca&mdash;miniatura
+do alentado Pato ca&ccedil;ador que todos n&oacute;s
+imaginamos ao ler-lhe algumas paginas. Parte no
+dia 20 para S. Miguel, de passeio... Quando morrer
+desaparece com elle toda uma epocha:&mdash;Meu
+rapaz podes ter lido todos os philosophos, que
+se n&atilde;o tiveres sentimento... Minha mulher, uma
+velhinha l&aacute; fica... N&atilde;o vae comigo, porque
+recolhemos
+em casa uma pequena pobre, pobrissima,
+e queremos-lhe como se fosse nossa filha. Sentamol-a
+&aacute; nossa meza... Bem sei que ha por ahi
+uns mo&ccedil;os que dizem mal de mim. N&atilde;o me importo.
+Quando vejo um rapaz de talento abro-lhe
+logo os bra&ccedil;os.
+<br />
+
+<br />
+
+No fim do almo&ccedil;o, beija a m&atilde;o &aacute;s
+senhoras.
+Conviveu com o Herculano, ouviu-lhe dizer:&mdash;Isto
+d&aacute; vontade de morrer! &laquo;Que
+faria&mdash;accrescenta&mdash;se
+vivesse hoje!&raquo;&mdash;O Conservatorio lembra-lhe
+<span class="pagenum">[43]</span>
+o Palmeirim&mdash;&laquo;que foi da minha
+crea&ccedil;&atilde;o&raquo;&mdash;&Eacute;
+simpathico, vivo e cheira a outros tempos:
+conserva, como o linho guardado no fundo
+d'um armario, o perfume da ma&ccedil;&atilde;. E que contraste
+com os outros, com o Chagas, com o
+Schwalbach, sempre aflicto e sempre despreocupado,
+com o Antonio Bandeira, que, sob uma
+aparencia futil, &eacute; pratico como o diabo, e que
+conta que foi uma noite em Roma, com alguns
+portugueses, mulheres e guitarras, bater o fado
+para as ruinas do Colyseo! Depois, por
+<em>blague</em>,
+sustenta com o Chagas, que ninguem devia ter
+mais de duzentas e cincoenta grammas de principios.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">
+Mar&ccedil;o&mdash;1904.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Encontrei hoje o Marcellino Mesquita: ventas
+largas, marcas de bexigas, barba com muitas
+brancas aparada rente, chapeu desabado, capinha
+curta e olho vivo. Tipo crestado do sol, materialista
+e secco.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;A gente quando chega a certa edade tem
+de se isolar para n&atilde;o viver n'uma perpetua
+irrita&ccedil;&atilde;o.
+Olhem agora se eu encontrava o Pequito
+ministro, o Pequito de quem a gente fazia tro&ccedil;a
+em rapaz! E muitos outros, que aos quarenta
+annos come&ccedil;am a desafinar-nos os nervos...
+Vivo no Cartaxo, n'um descampado: a quinta
+<span class="pagenum">[44]</span>
+fica entre duas estradas. N&atilde;o passa l&aacute; ninguem...
+Leio, fumo, e trabalho. Tinha um moinho; primeiro
+acrescentei-lhe uma cozinha, depois um
+quarto: agora tenho l&aacute; uma casa. E j&aacute;
+n&atilde;o posso
+viver sem o ruido das m&oacute;s. O meu quarto fica
+mesmo por cima. D'aqui a oito dias, com as macieiras
+em fl&ocirc;r, aquillo &eacute; adoravel...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">
+Abril&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Vi o Marianno nas camaras. &Eacute; um cadaver,
+com uma sobrecasaca riquissima de gola de veludo.
+Nunca phisionomia exprimiu maior cansa&ccedil;o,
+indiferen&ccedil;a ou desprezo, a palpebra cahida,
+o olhar vazio de express&atilde;o.&mdash;Que me importa!
+que me importa!...&mdash;Parece um morto, farto de
+sofrimento e de goso, e, sob aquella apparencia de
+sceptico raros se magoam como elle. Toda a vida
+tem sido ludibriado. Contam que a mulher passa
+horas a descompol-o. Elle, sentado, escreve tiras e
+tiras de papel, a tarefa do jornal, sem dizer palavra
+nem levantar a cabe&ccedil;a. D'uma vez chamou-lhe
+tudo quanto lhe veio &aacute; bocca, e elle inalteravel,
+curvado sobre os linguados, sem lhe dizer
+palavra... Por fim ella, desesperada, berrou-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;&Eacute;s um estupido!
+<br />
+
+<br />
+
+Elle ent&atilde;o parou, ergueu a cabe&ccedil;a, e muito
+calmo:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[45]</span>
+&mdash;Teem-me chamado tudo, mas estupido &eacute; a
+primeira vez!
+<br />
+
+<br />
+
+E continuou a escrever.
+<br />
+
+<br />
+
+Por f&oacute;ra uma aparencia de sceptico, por
+dentro uma sensibilidade enorme. Anda sempre
+metido em complica&ccedil;&otilde;es e negocios, em caminhos
+de ferro, em peda&ccedil;os de Africa, bahia de Lobito,
+etc., e afinal n&atilde;o passa d'um sonhador que tem as
+propriedades de Azeit&atilde;o hipothecadas em quatorze
+contos de reis.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">
+Setembro&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Antonio Jos&eacute; de Freitas, homem de lettras
+mediocre, &eacute; um conversador admiravel. Se
+conseguisse escrever como fala, e d&eacute;sse &aacute; prosa
+aquella vida que d&aacute; &aacute; palavra, seria um grande
+escriptor. Pequeno, branco, na ponta dos p&eacute;s,
+sempre a segurar as lunetas, todo elle nervos:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Dei-me muito com o Castello-Melhor. Um
+dia come&ccedil;ou a imaginar que estava pobre, porque
+no Banco de Portugal lhe n&atilde;o quizeram,
+como sempre se fez, descontar uma lettra s&oacute; com
+o nome d'elle. Disse ao Barros Gomes:&mdash;Vae
+beber da merda!&mdash;E sahiu furioso. D'ahi come&ccedil;ou
+a imaginar que tinha cahido na pobreza e
+alugou o jardim para o circo Whytoine. Uma vez
+sahi com elle d'um baile pela madrugada e acompanhei-o
+a casa.&mdash;Sobe.&mdash;Tenho ainda que
+<span class="pagenum">[46]</span>
+escrever para o Brazil...&mdash;Insistiu, subi&mdash;e eil-o
+a clamar no quarto:&mdash;Que diriam meus av&oacute;s se
+vissem alli o circo e os palha&ccedil;os!...&mdash;Estava
+desesperado.
+Descompul-o.
+<br />
+
+<br />
+
+Passaram-se annos e morreu de repente. Vestimol-o
+n'aquelle mesmo quarto, e, altas horas da
+noite, ouvimos, de repente, um clamor: era o circo
+Whytoine que ardia. E eu assisti ao espectaculo
+do cadaver, iluminado pelo clar&atilde;o do incendio,
+alli onde o ouvira evocar com desespero os seus
+mortos. Foi tudo ao enterro. O povo abria alas, e
+quando chegamos ao cemiterio e quizemos pegar
+no caix&atilde;o, veio de rold&atilde;o uma chusma de cocheiros
+e vadios, que nol-o arrancaram das m&atilde;os, e,
+erguendo-o no alto dos bra&ccedil;os, levaram-no at&eacute;
+&aacute;
+cova...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O E&ccedil;a usou toda a vida bentinhos ao
+pesco&ccedil;o.
+Vi-lhos eu, que dormi por diferentes vezes
+com elle no mesmo quarto...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Depois fala no Resende:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Se vivesse era decerto o chefe do partido
+conservador. Que homem encantador, polido e
+sceptico! E tinha uma poderosa ascendencia
+magnetica sobre n&oacute;s todos. O medico, j&aacute; quando
+elle estava muito mal, recomendou-lhe ares do
+mar. Passeava n'um bote no Tejo. Umas vezes
+<span class="pagenum">[47]</span>
+ia eu com elle, outras o Soveral, e levavamos-lhe
+botijas com agua quente, porque sentia sempre
+um frio mortal. Estou a ver o Soveral, com
+uma botija em cada m&atilde;o. O
+<em>Rabec&atilde;o</em>, um jornal
+de caricaturas do tempo, disse que n&oacute;s iamos
+emborrachar todas as noites para o rio. Muito
+nos rimos... Pois o Resende, atheu toda a vida,
+morreu como um crente.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi elle que se esmurrou com o E&ccedil;a n'uma
+das piramides do Egypto. Nessa viagem ouviram
+ambos missa no tumulo de Jesus, em Jerusalem.
+O E&ccedil;a cahiu logo de joelhos; quando levantou a
+cabe&ccedil;a para ver o quadro, dois ou trez mil peregrinos
+tinham como elle ajoelhado sob o mesmo
+impulso irresistivel: s&oacute; a seu lado, de badine e sobretudo
+no bra&ccedil;o, se conservava de p&eacute;, sem perder
+a serenidade nem a linha, um unico homem:
+o Resende.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os <em>vencidos da vida</em>, depois que se
+juntaram
+diziam mal uns dos outros. N&atilde;o se podiam ver.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">
+Mar&ccedil;o&mdash;1900.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ha mezes que Junqueiro n&atilde;o aparecia na
+Pra&ccedil;a, onde outrora era certo &aacute; noite, rodeado
+de esbirros, e discutindo politica ou arte com
+alguns amigos mais intimos. Eil-o agora de volta,
+<span class="pagenum">[48]</span>
+depois de umas febres palustres apanhadas n'essa
+longinqua quinta que replanta de vinha l&aacute; para
+a Barca d'Alva.
+<br />
+
+<br />
+
+Vem curioso. Teem por acaso os senhores
+noticia d'um Junqueiro adunco e janota, mephistophelico,
+com ditos em braza explodindo sobre
+o ultimo acontecimento, e conhecem talvez a lenda
+da casa de hospedes celebre da rua dos Retrozeiros,
+d'onde em tempos sahiram gritos subversivos,
+pamphletos, versos, theorias philosophicas,
+satyras e revistas do anno, e onde&mdash;consta
+dos archivos da policia&mdash;morou o proprio Diabo
+em pessoa, na intimidade do poeta?... Lembram-se?
+Depois, n'outra phase da vida, viram-no
+talvez autoritario e feroz, com o mesmo perfil em
+bico d'aguia, sob um chap&eacute;o molle e gasto, atacar
+o velho Padre Eterno?... Pois ahi o teem agora
+philosopho e christ&atilde;o. Parece um pr&eacute;gador
+socialista-tolstoiano,
+um santo cavador, de barba negra
+e inculta: traz ainda terra pegada nas m&atilde;os e
+uma roupa velha, a que s&oacute; faltam alguns remendos
+cosidos &aacute; ultima hora... Usa uma camisola de
+l&atilde; e diz assim:&mdash;Eu n&atilde;o me visto:
+cubro-me.
+<br />
+
+<br />
+
+Chega da Barca d'Alva, um terreno enorme
+l&aacute; para a raia, entre pantanos, que reuniu leira
+a leira, depois d'uma scena, que dava um capitulo
+&aacute; Balzac. &Eacute; elle mesmo que a evoca em meia
+duzia de tra&ccedil;os, e a gente v&ecirc; logo d'um lado os
+cavadores tartamudos e hesitantes, do outro o
+Senhor Poeta, como elles lhe chamam, com um
+<span class="pagenum">[49]</span>
+livro de cheques na algibeira, encafuando-os a
+todos na sala do cartorio:&mdash;Se chegam a concertar-se
+era uma discuss&atilde;o para seculos. Pediam-me
+uma fortuna!&mdash;Um a um compareceram diante
+do tabeli&atilde;o:&mdash;Quanto quer? Assigne!&mdash;E
+sahiam logo por outra porta.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f2" id="f2"></a>
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 500px; height: 727px;" alt="" src="images/fig05.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; pouco a pouco a lenda se forma, discutindo-se
+a nova thebaida, que d'aqui a annos ser&aacute;
+visitada como Valle de Lobos e Seide. Que procuram
+os nossos grandes escriptores, desde Herculano
+a Fialho, na natureza, que pouco nos d&aacute;
+em troca do muito que lhe damos? Afastar-se
+dos outros ou esquecer-se a si proprios?Talvez
+as arvores e os montes nos preparem melhor
+para o sepulchro e para o verme, ainda que
+eu julgue que n&atilde;o ha como um 6.&ordm; andar, com
+livros e papeis, e um cinematographo no rez do
+ch&atilde;o, para acabar com a vida.
+<br />
+
+<br />
+
+Seria um curioso estudo aquelle que comparasse
+Valle de Lobos, Seide e a quinta de Junqueiro,
+a decora&ccedil;&atilde;o escolhida por tres homens
+superiores&mdash;o fundo de tres grandes retratos.
+Na Barca tem o poeta uma casota de c&atilde;o, com
+os muros ainda em osso, e uma varanda onde
+passeia todo o dia infatigavelmente. De quando
+em quando escreve na cal da parede versos ou
+contas. Seide, n'um cahir de tarde outomni&ccedil;a,
+lembra a alma de Camillo. Ha l&aacute; um calvario
+d'arvores decepadas que parecem forcas. Ha l&aacute;
+uma casa tragica, pintada d'amarello. Um ermo,
+<span class="pagenum">[50]</span>
+que, a meia legoa da estrada, fica ao cabo do
+mundo, e que parece escolhido de proposito para
+esconder uma desgra&ccedil;a ou combinar um crime.
+Peor: ficou na casa abandonada, no ambito, nas
+pedras, alguma coisa daquella alma dilacerada
+de sceptico e de crente, mixto doloroso que s&oacute;
+tinha como solu&ccedil;&atilde;o o infortunio. O que se ouve
+s&atilde;o risos ou gritos de dor? Depressa! depressa!...
+Parece que elle anda ainda por aqui, sardonico e
+immenso, desgra&ccedil;ado e immenso. Valle de Lobos,
+se uma vez o avistaram, n&atilde;o emociona de
+uma forma toda diferente, e n&atilde;o diz bem com a
+alma de Herculano?... Quanto a Junqueiro,
+a sua paizagem querida &eacute; indubitavelmente a
+trasmontana, grave, revolta e grandiosa como
+o seu genio.
+<br />
+
+<br />
+
+Camillo n&atilde;o encontrou decerto
+resigna&ccedil;&atilde;o nas
+arvores, nem nos montes, porque, para o mestre,
+em toda a natureza s&oacute; o homem
+existia:&mdash;N&atilde;o ha
+na sua obra uma arvore, nota o poeta...&mdash;Nem
+Guerra Junqueiro por ora se isola. Est&aacute; na lucta,
+com os seus livros, as suas theorias, a sua maneira
+suprema de discutir e de encarar os problemas
+do universo.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Para viver na aldeia &eacute; preciso, diz elle, ser
+Jo&atilde;o Brand&atilde;o ou S. Francisco d'Assis.
+<br />
+
+<br />
+
+De forma que a Barca d'Alva n&atilde;o &eacute; bem
+uma thebaida para o poeta. Os senhores v&atilde;o
+agora conhecel-o sob este aspecto novo&mdash;agricultor.
+A Barca &eacute;-lhe mais que um refugio: &eacute;
+<span class="pagenum">[51]</span>(palavras que fazem
+bater o cora&ccedil;&atilde;o de todos os
+homens) o futuro dos seus filhos. E Junqueiro,
+agricultor, tem ainda genio: inventa e descobre.
+Quatrocentos cavadores desbravam-lhe a terra,
+que deve produzir um vinho magnifico. O mosquito
+propaga a febre. O jornaleiro macilento
+bate o queixo com sez&otilde;es. Elle ordena, dirige e
+resolve as quest&otilde;es agricolas muito melhor que
+os lavradores da regi&atilde;o, de quem diz:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Plantam vinhas, como quem joga na batota&mdash;ao
+acaso!
+<br />
+
+<br />
+
+Ou&ccedil;am-no! Desfilam os jornaleiros, que adquirem
+logo uma vida extraordinaria, as boccas que
+n&atilde;o falam, a Maria Colh&ocirc;na, que tem filhos de
+toda a gente, filhos para o Brazil, filhos para soldados,
+filhos para a desgra&ccedil;a, os s&ecirc;res deformados
+e enormes, os tipos que se transformam em
+simbolos... Descobriu um novo processo para evitar
+que a enxertia, essa opera&ccedil;&atilde;o cirurgica, como
+elle lhe chama, falhe, e, sob as suas ordens, trabalham
+alguns centos de homens, que se encostam &aacute;s
+enxadas para ouvirem o Senhor Poeta... N&atilde;o &eacute;
+raro vel-o subito, tempo humido, perigo para as
+vides, abalar para a quinta com saccos de sulphato.
+Adivinha, presente melhor a natureza que
+os sabios&mdash;e cria. Tudo o que toca toma sob as
+suas m&atilde;os um aspecto novo, t&atilde;o certo &eacute;
+que os
+homem de genio, como quer Carlyle, s&atilde;o sempre
+superiores e ineditos.
+<br />
+
+<br />
+
+E de que maneira paradoxal elle exp&otilde;e as
+<span class="pagenum">[52]</span>
+suas theorias! Nervoso, pequeno, calcando o lagedo
+da Pra&ccedil;a, a mordiscar a ponta do charuto,
+que giganteas formas de sonho n&atilde;o vae creando
+aquella magica palavra!... A sua phantasia &eacute;
+eminentemente decorativa.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Sabem&mdash;dizia o poeta uma noite&mdash;sabem
+que scismo na f&oacute;rma de transformar toda a agricultura?
+Acabaram-se os pobres, a fome, os annos
+tristes! Para o vinho, d'aqui em deante, n&atilde;o
+bastar&atilde;o
+toneis como torres e para o p&atilde;o arcas como
+predios. Uma carrada de bois ser&aacute; apenas suficiente
+para carregar uma abobora, e um simples
+cacho de uvas dar&aacute; vinho para duzias de
+borrach&otilde;es.
+Como? Aplicando &aacute;s arvores, &aacute;s vides,
+&aacute;s
+plantas emfim, o methodo de Brown-S&eacute;quard.
+O sabio d&aacute; a um organismo gasto uma vida
+assombrosa, injectando-lhe a vitalidade de coelhos.
+Calculem o resultado d'esse sistema aplicado
+na agricultura...
+<br />
+
+<br />
+
+Um castanheiro dura seculos, tem uma vida
+extraordinaria. &Eacute; mais que uma arvore&mdash;&eacute;
+uma
+for&ccedil;a. Apodera-se dos montes. As suas raizes alastram,
+os seus ramos tocam no c&eacute;o. Imagine que
+injecto polen de castanheiro n'uma vide... Obtenho
+logo uvas como as da Terra da Promiss&atilde;o.
+D'um p&eacute; de melancia tiro um fructo capaz de
+carregar um carro. Tres ma&ccedil;&atilde;s metem no fundo
+uma n&aacute;u.
+<br />
+
+<br />
+
+E eis, por uma noite de invernia, a natureza
+transfigurada, pelo poder da phantasia
+<span class="pagenum">[53]</span>
+e do sonho. Flores s&atilde;o arvores abrindo l&aacute; em
+cima no c&eacute;o em parasoes roxos; pinheiros transformam-se
+em montanhas; monstros erguem as
+suas corolas de veludo, e na verdade n&atilde;o passam
+de humildes flores bravias. Uma petala desaba
+com o fragor de penedos, e multid&otilde;es sobre
+multid&otilde;es
+sequiosas veem dessedentar-se n'este fructo
+colossal:&mdash;o morango. Ha que tempos que
+eu erro perdido n'esta floresta monstruosa de
+papoulas!...
+<br />
+
+<br />
+
+Junqueiro na intimidade &eacute; prodigioso de genio,
+de imprevisto, de eleva&ccedil;&atilde;o. V&ecirc; os
+factos mais
+simples com um olhar que os engrandece. Assombra
+de pitoresco e de inedito. O homem de genio
+&eacute;, como todos os homens, filho da mesma
+lama, mas, por acaso, v&atilde;o n'esse humus lagrimas,
+aguas correntes, detrictos de florestas, restos de
+nuvens e a emo&ccedil;&atilde;o profunda da natureza. Por
+isso sabem tudo, sentem tudo... &Eacute; pena que as
+suas conversas, os seus fragmentos, esses peda&ccedil;os
+de sonho e de vida, atirados com febre, perdidos,
+e decerto esquecidos, se n&atilde;o possam juntar,
+porque dariam um dos aspectos mais extraordinarios
+do seu genio. Seria esse talvez o seu
+melhor livro. Assim, por exemplo, as cathedraes
+de Hespanha, onde Jesus est&aacute; preso e a ferros,
+a explica&ccedil;&atilde;o prodigiosa dos Christos de
+madeira&mdash;o
+Christo dos soldados, o dos ladr&otilde;es, o
+dos cavadores, da sua sala de jantar, unicas
+obras d'arte de que n&atilde;o quer desfazer-se, e a
+<span class="pagenum">[54]</span>
+sua philosophia, a maneira superior como encara
+o universo e ilumina o desconhecido...
+<br />
+
+<br />
+
+Pois ahi o teem de novo no Porto, de barba
+hisurta, embrulhado n'um casaco co&ccedil;ado, com um
+ar iluminado de Santo. Direis que vae pr&eacute;gar &aacute;s
+multid&otilde;es. Demais j&aacute; ha annos que elle escrevia:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;" class="tinyl">Tolstoi
+o meu sapateiro...
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E um dia, ao saber Camillo sceptico, Camillo
+com noites de sombrio desespero, palpando a
+coronha do rev&oacute;lver, n&atilde;o foi de proposito
+procural-o
+para lhe pr&eacute;gar Deus?
+<br />
+
+<br />
+
+Era n'uma dessas tardes tragicas de Seide,
+de que o grande escriptor fala nos
+<em>Ser&otilde;es</em>. A
+natureza chorava revolvida: a acacia de Jorge
+batia-lhe devagarinho nos vidros. Quem &eacute; que o
+chama? Atormentado de dores, ouve vozes, v&ecirc;
+phantasmas, e sae do horror com blasphemias e
+sarcasmos. Junqueiro encontra-o mergulhado na
+dolorosa tinta do crepusculo, com a pala com que
+escrevia sobre os olhos, absorto, calado, desesperado,
+o rosto marcado de dedadas, &laquo;esbo&ccedil;ado
+n'uma argila c&ocirc;r de mel&raquo;, segundo o retrato de
+Ricardo Jorge. Eu tinha-lhe medo... O poeta
+tenta arrancal-o ao negrume que o envolve: desenrola
+theorias, explica&ccedil;&otilde;es, argumentos; ataca-o
+a fundo, persuade-o talvez... J&aacute; o julga abalado
+e convertido, quando d'essa figura s&oacute; osso e dor,
+saem emfim estas palavras ironicas:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[55]</span>
+...&mdash;Sim, sim, Junqueiro, voc&ecirc; convencia-me
+se eu n&atilde;o tivesse ainda no estomago, desde o
+almo&ccedil;o,
+tres bolinhos de bacalhau, que me est&atilde;o
+aqui como tres Voltaires.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">
+Mar&ccedil;o&mdash;1904.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Veiu a Lisboa acompanhar, por solidariedade,
+os lavradores do Douro, o poeta Guerra Junqueiro.
+&Eacute; outro homem, que perdeu talvez em
+exterioridades mas ganhou em funda emo&ccedil;&atilde;o.
+Tendo-se-lhe um dia deparado universaes
+interroga&ccedil;&otilde;es
+no caminho; tendo encontrado
+frente a frente, ao meio da vida, id&eacute;as abaladoras,
+que s&oacute; o homem de genio pode encarar
+sem o pavor e o deslumbramento que o
+grande mist&eacute;rio comunica&mdash;as raizes do
+universo&mdash;elle
+mudou de rumo, t&atilde;o simplesmente
+como se praticasse o acto mais banal da existencia.
+Sendo j&aacute; um dos maiores poetas da Europa&mdash;quiz
+ser tambem um santo... Durante annos
+procurou como Fausto o segredo da vida no
+fundo dos laboratorios. E n'outra phase do seu
+espirito decorativo tendo entrevisto, pelo poder
+do genio, novas veredas a tentar, seguiu-as, fazendo
+experiencias que a sciencia d'hoje plenamente
+confirma.
+<br />
+
+<br />
+
+Guerra Junqueiro est&aacute; na mesma: alguns fios
+brancos a mais na grande barba de santo, come&ccedil;o
+<span class="pagenum">[56]</span>
+de calva amarelada no alto da cabe&ccedil;a,
+chap&eacute;o
+baixo, uma simplicidade de trajo que vae bem
+com a simplicidade verdadeira ou ficticia da sua
+alma. E sobre isto os olhos terriveis que nos
+fitam e nos adivinham at&eacute; ao fundo. A conversa
+&eacute; prodigio que evoca, ilumina, toca em todos
+os problemas da vida, dando-lhes uma grandeza
+e novos aspectos que entontecem.
+<br />
+
+<br />
+
+Fala-se a proposito de um livro, e elle diz, n&atilde;o
+palidamente, nem decerto com as inexactid&otilde;es
+com que reproduzo, o seguinte:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;&Eacute; um livro interessante. O autor conseguiu
+deixar falar a parte de inconsciente que cada um
+de n&oacute;s traz comsigo... Porque, meu amigo, a
+por&ccedil;&atilde;o de infinito que cabe a cada homem
+&eacute;
+exactamente a mesma. O camiseiro alli defronte
+e um homem de genio teem na alma identico
+quinh&atilde;o. S&oacute;mente o camiseiro n&atilde;o
+consegue encontral-a
+nem pode exteriorisal-a. Porque? Porque
+s&oacute; pensa em camisas. O homem &eacute; o universo
+reduzido... Que cada um pudesse deixar-se narrar&mdash;e
+teriamos a mais maravilhosa historia do
+mundo!...
+<br />
+
+<br />
+
+E como incidentemente se refira &aacute; sciencia,
+eil-o que se desvia por outro esplendido caminho:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;As ultimas descobertas modificaram completamente
+a sciencia. Foi um terremoto. E eu
+entrevi isto mesmo: ha annos que cheg&aacute;ra ao
+seguinte resultado:&mdash;radia&ccedil;&atilde;o universal
+e
+desassocia&ccedil;&atilde;o
+dos atomos. Fiz experiencias, que me
+<span class="pagenum">[57]</span>
+de sciencia que n&atilde;o me quizeram atender. Um
+dia vim de proposito a Lisboa falar a Sousa Martins
+e expuz-lhe as minhas theorias. Ouviu-me...
+Quando me fui embora encolheu decerto os hombros.
+E no emtanto, passados annos, vejo confirmado
+experimentalmente tudo o que eu previra...
+Que quer?... Faltavam-me como comprehende
+os meios de verifica&ccedil;&atilde;o. Precisava de factos.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="illustration"><a name="f3" id="f3"></a><img style="width: 500px; height: 901px;" alt="D. Jo&atilde;o da Camara." title="D. Jo&atilde;o da Camara." src="images/fig06.png" /><br />
+
+<em>D. Jo&atilde;o da
+Camara.</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Cala-se um momento e depois continua:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Hei-de publicar, depois da
+<em>Ora&ccedil;&atilde;o &aacute;
+luz</em>,
+que sae brevemente, uma serie de memorias, com
+os resultados dessas experiencias. A vida&mdash;&eacute;
+o Amor e a Dor. Procurar as suas leis eis
+tudo. Seguir-se-ha a minha theoria philosophica.
+Adivinhei todo este terremoto que se deu ultimamente
+na sciencia. Hoje a materia n&atilde;o existe:
+j&aacute; a definem&mdash;associa&ccedil;&atilde;o
+d'energias. O
+que &eacute;
+feito dos materialistas? A sciencia futura ser&aacute;
+portanto o estudo de energias. Por ultimo publicarei
+uma introduc&ccedil;&atilde;o &aacute; sciencia, visto que
+n&atilde;o
+posso escrever essa obra: seria a revis&atilde;o dos trabalhos
+de Spencer&mdash;a tarefa de toda uma vida.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;E tem muitos documentos?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Tenho tudo prompto. Necessito apenas de
+encontrar a f&oacute;rma precisa, a f&oacute;rma mathematica,
+para exprimir as minhas id&eacute;as.
+<br />
+
+<br />
+
+Incansavel. &Eacute; de ferro. Pequeno e mirrado
+passeia horas e horas, a conversar... N&atilde;o
+conversa&mdash;monologa.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[58]</span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Da Barca d'Alva diz:
+<br />
+
+<br />
+
+A minha casa de jantar tem uma meza e cadeiras
+de pinho. Depois de comer, quando quero
+um palito, corto-o na meza.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ramalho definido por Junqueiro:&mdash;um pinheiro
+com uma melancia em cima.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Junqueiro na redac&ccedil;&atilde;o do
+&laquo;Mundo&raquo;:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;D'aqui a pouco reparto a minha fortuna
+com as minhas filhas e o que me restar dou-o
+aos pobres.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ha outro Junqueiro de que a caricatura se apoderou,
+o Junqueiro do
+<em>bric-&aacute;-brac.</em> O Junqueiro
+que a m&aacute; lingua do Porto afirma que percorre
+disfar&ccedil;ado as ruas de Hespanha, com um burro
+pela arreata apregoando:&mdash;Ha por ahi quem
+tenha lou&ccedil;a para vender?&mdash;O Junqueiro que
+foi procurado um dia no hotel, em Salamanca:&mdash;Est&aacute;
+c&aacute; o grande poeta Guerra Junqueiro?&mdash;N&atilde;o
+conhe&ccedil;o,&mdash;disse o porteiro.&mdash;Mas elle
+vem sempre para aqui. &Eacute; um homem de
+barbas...&mdash;teimou,
+explicou o outro.&mdash;Esse es Guerra
+el antiquario!...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[59]</span>
+Mas at&eacute; no Junqueiro caricatural algumas linhas
+s&atilde;o indispensaveis para completar o retrato.
+Ha n'este grande homem uma mascara. Sinto
+uma parte que se deve ao arranjo&mdash;e que &eacute; a
+inferior e outra em que elle obedece &aacute; ra&ccedil;a e que
+&eacute; a mais viva, a que tem raizes nos mortos. Melhor:
+o homem &eacute; sempre um tablado onde varios
+phantasmas se despeda&ccedil;am. Ha m&atilde;os que nos
+puxam para o fundo, ha outras que nos procuram
+levantar cada vez mais alto. Deus nos livre
+de julgar os mortos!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Junqueiro, de volta do Bussaco, indignado:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;E n&atilde;o aparecer um doido, com um grande
+martelo, que deite tudo aquillo abaixo! Qualquer
+dia botam as arvores a terra e p&otilde;em pedraria
+at&eacute; &aacute; Pampilhosa!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">
+Dezembro&mdash;1907.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Encontro-o hoje em Lisboa, emagrecido, com
+um velho casaco comprado n'um adelo, e muitas
+rugas, finas como linhas, ao canto dos olhos. E,
+como o Jos&eacute; de Figueiredo lhe fale no Rodin:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;&Eacute; verdade, passei um dia inteiro com o
+Rodin, a explicar-lhe a sua obra. Disse-lhe: voc&ecirc;
+&eacute; um grande artista, mas exactamente, como
+<span class="pagenum">[60]</span>
+em todos os grandes artistas, a melhor parte da
+sua obra &eacute; inconsciente. Porque em todos n&oacute;s a
+raz&atilde;o &eacute; nada, o que &eacute; grande
+&eacute; o inconsciente.
+Aquella cabe&ccedil;a que voc&ecirc; tem no Luxembourg,
+emergindo da pedra&mdash;&eacute; assim, &eacute;
+aquillo... Mas
+falta-lhe n&atilde;o sei qu&ecirc; de simbolico que ligue a
+cabe&ccedil;a &aacute; pedra. Assim choca, &eacute; brutal.
+&Eacute; como
+o <em>Pensador</em>, a estatua que
+est&aacute; no Pantheon.
+Toda a critica franceza tem tentado explicar
+aquella estatua, e ainda ninguem disse as palavras
+necessarias. Eu lh'as digo: Aquillo n&atilde;o &eacute;
+o <em>Pensador</em>, nem o
+<em>Pensamento</em>: &eacute; o primeiro
+pensamento em cabe&ccedil;a de homem. Dispa voc&ecirc;
+um tipo de verdadeiro pensador, Kant, o Dante,
+por exemplo, e encontra um corpo deformado.
+Porque o pensamento peza mais de que montanhas.
+Devora. O que voc&ecirc; fez foi uma besta,
+um gorilha, um homem capaz de arrastar calh&aacute;os:
+Pois bem: inconscientemente fez uma grande
+obra d'arte: o primeiro pensamento na cabe&ccedil;a
+d'homem. Esse primeiro homem athletico, ao
+deparar com o primeiro pensamento, essa flor
+abstracta, fica dominado, subjugado: cae-lhe o
+Atlas em cima e esmaga-o... E adeus, s&atilde;o horas
+de partir para o comboio.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+D. Carracida, professor de chimica biologica
+na Universidade de Madrid, homem ilustre e que
+<span class="pagenum">[61]</span>
+conhece perfeitamente a literatura portugueza,
+diz assim de Junqueiro... (D. Carracida fala
+portuguez pausadamente).
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O senhor Junqueiro, grande poeta, &eacute; um
+mistico... Est&aacute; agora no misticismo. O senhor
+Junqueiro e eu passeavamos juntos no jardim de
+Villa do Conde, de c&aacute; para l&aacute;&mdash;e o
+senhor
+Junqueiro
+pr&eacute;gava a piedade e o amor. Uns rapazinhos
+acendiam bal&otilde;es para uma festa, e eu e o
+senhor Junqueiro passeavamos de c&aacute; para l&aacute;...
+O senhor Junqueiro pr&eacute;gava a piedade e o amor,
+e um dos bal&otilde;es cahiu na cabe&ccedil;a do senhor
+Junqueiro,
+que levantou a bengala e deu com ella
+no rapazinho... E n&oacute;s continuamos a passear
+de c&aacute; para l&aacute;, e o senhor Junqueiro a
+pr&eacute;gar a
+piedade e o amor...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">
+Mar&ccedil;o&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Fialho n&atilde;o &eacute; este janota de palio rico, com
+uma joia t&atilde;o grande que parece falsa na gravata
+de veludo. Fialho era outro estranho tipo, intratavel
+e pobre, com o p&ecirc;lo ralo e a bocca enorme
+cheia de sarcasmo. Um principe de gabinardo,
+que fazia cahir as pe&ccedil;as do alto do galinheiro, a
+um gesto seu irrespeitoso. Seguia-o a malta atonita
+de matulas suspeitos e jornalistas de ocasi&atilde;o,
+<span class="pagenum">[62]</span>
+que deslumbrou de sonho e atascou em sonho.&mdash;Fialho!
+Fialho!...&mdash;Esses aplaudiram-no e
+amaram-no... Esquecidos do frio e da pobreza,
+n&atilde;o despregavam os olhos d'aquelle sonho
+desconforme.&mdash;Fialho!
+Fialho!...&mdash;Depois sumia-se
+n'um terceiro andar, ou procurava os pobres
+que n&atilde;o pedem: s&oacute; a m&atilde;o sae da noite e
+implora.
+Havia uma velha&mdash;nunca mais me esquece&mdash;alli
+&aacute; porta do Monte Pio, que fazia parte do
+muro alto e espesso, e a quem elle, ao dar-lhe
+esmola, lhe afagava a cabe&ccedil;a... Depois, amargo,
+feroz, insuportavel, eil-o tornava com sarcasmos,
+transtornando as figuras decorativas, cheias de
+veneras, que &aacute; sua voz desatavam &aacute;s cambalhotas
+como palha&ccedil;os. Vi-o exasperado, vi-o atordoado
+de phrases, como quem quer fugir ao
+proprio phantasma. Vi-o mergulhar n'uma absorp&ccedil;&atilde;o
+dolorosa, e desaparecer na noite em correrias
+que duravam at&eacute; de manh&atilde; pelos bairros
+escusos ou pelas azinhagas de crime, n'um debate
+perpetuo de que sahia livido, exhausto, e
+com a mascara transtornada. Este que fala do
+seu vinho:&mdash;Livros?... O que eu trato de editar
+&eacute; um vinhinho branco l&aacute; de
+Cuba...&mdash;este, que
+vem, de quando em quando, a Lisboa deslumbrar-nos
+com um novo e horrivel fato, &eacute; outro
+Fialho, que talvez tenha saudades d'essa vida
+absurda de outros tempos...
+<br />
+
+<br />
+
+Fialho! Fialho!... Pronuncio este nome e
+diante de mim desfila o assombro, pamphletos, a
+<span class="pagenum">[63]</span>
+obscenidade e o genio&mdash;farrapos arrancados a
+ferro e t&atilde;o vivos que mal ouso tocar-lhes&mdash;o
+estoiro
+d'uma bexiga d'entrudo&mdash;ironia e esgares.
+E logo gritos! e agora gritos!... Ou&ccedil;o a dor, sinto
+a dor, sinto-a sempre atravez da forma imprevista,
+d'uma audacia e d'um rithmo incomparavel,
+escorrendo sonho, afli&ccedil;&atilde;o, miseria, sinto-a
+at&eacute; nos
+impetos de m&aacute;o gosto, nos pontap&eacute;s aos leitores
+surprehendidos e irritados. Est&aacute; aqui diante de
+mim aquella bocca enorme, aquella figura de gabinardo
+e chapeu molle que nas noites de tristeza
+e abandono me dizia:&mdash;O que eu sofri! o que
+eu sofri!...&mdash;Vejo-o sempre invejar o barqueiro
+louro e sardento, de que fala nos
+<em>Gatos</em>, bello
+como um ephebo &aacute; pr&ocirc;a do seu barco.&mdash;Como
+eu queria ter saude e ser forte!&mdash;Deu-lhe
+Deus o mais rico quinh&atilde;o que imaginar se
+pode, a lingua incomparavel para exprimir a chimera
+e a dor, e, esse macaco sem f&eacute;, esbanjou-a
+com o mais absoluto impudor: serviu-lhe para a
+chacota. Transtornou tudo, engrandeceu tudo,
+riu-se de tudo. As descrip&ccedil;&otilde;es perderam a
+propor&ccedil;&atilde;o,
+as figuras a realidade, transformadas em
+figuras de dor ou de grotesco; a propria cidade
+resurgiu a uma tinta livida de antemanh&atilde;, com
+a casaria a escorrer vicio e aspectos tetricos...
+&Eacute; isto sim, mas isto creou-o elle de pobreza e
+desespero, creou-o de gritos que nunca ninguem
+lhe ouviu.&mdash;E maior! ficou maior! A sua obra
+s&oacute; tem outra que se lhe compare, a de Camillo.
+<span class="pagenum">[64]</span>
+Exigem-lhe um livro harmonico&mdash;<em>Os
+cavadores</em>. Porque &eacute; que toda a gente reclama dos
+outros
+aquillo de que elles s&atilde;o incapazes? A obra de
+Fialho n&atilde;o podia ser sen&atilde;o esta, aos arrancos e
+enorme. Fialho via os pormenores atravez d'uma
+lente, e deturpava tudo, deformava tudo, dando
+genio &aacute; propria obscenidade. Nunca conheceu
+Barjona, nunca viu Barjona, e, com duas ou tres
+anecdotas, creou uma figura com um relevo que
+falta ao mediocre Barjona da realidade. Precisou
+sempre de se exagerar para se encontrar. Sacrificou
+o seu melhor amigo a um dito, &eacute; certo,
+mas come&ccedil;ou por se sacrificar a si pr&oacute;prio. Foi
+sempre o primeiro a sofrer. Houve tempo em
+que alguem o definiu um doente com inveja
+das doen&ccedil;as dos outros... Desatou ent&atilde;o a
+gargalhar
+com lagrimas nos olhos. Perdeu o p&eacute;.
+Arrancou as azas disformes ao Sonho e rojou-as
+com maldade no enxurro.&mdash;Encharcou-as de
+lama e empoou-as de estrellas... O vestido ficou
+mas era o d'um espectro... N&atilde;o nos podemos
+medir todos pela mesma craveira. Fialho tem de
+tudo na alma: a casa de hospedes, a existencia
+reles d'estudante, a pobreza, as mil saburras, os
+pequenos nadas que gastam, desgastam e transformam,
+e uma alma vibratil, um feixe de nervos
+(capaz de tempestades que se domam com uma
+palavra) ligado a uma enchente de sonho e a
+um orgulho doentio, como os que sentem dentro
+de si, e o suportam, um mundo desconhecido e
+<span class="pagenum">[65]</span>
+nunca dantes navegado. Fialho, se o virassem
+do av&ecirc;sso, escorria ternura... &Eacute; tambem um timido
+capaz de todas as audacias, e que sae da
+doen&ccedil;a e do isolamento com desespero e escarneo.
+Esta figura t&atilde;o conhecida de todos n&oacute;s,
+n&atilde;o
+&eacute; a exacta express&atilde;o da sua alma. Ainda hoje
+ninguem se entende...<br />
+
+<br />
+
+<div class="illustration"><a name="f4" id="f4"></a><img style="width: 500px; height: 724px;" alt="E&ccedil;a de Queiroz.&mdash;Desenho de Antonio Carneiro." title="E&ccedil;a de Queiroz.&mdash;Desenho de Antonio Carneiro." src="images/fig07.png" /><br />
+
+E&ccedil;a de Queiroz.&mdash;Desenho de Antonio Carneiro.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Silva Telles, por exemplo, conheceu um estudantinho
+aplicado e mediocre, que se chamava
+Jos&eacute; Valentim Fialho d'Almeida; ha ainda talvez
+quem se recorde d'um mo&ccedil;o de botica reservado
+e triste; e, o que &eacute; mais extraordinario, de outro
+Fialho respeitoso, que n&atilde;o podia suportar o
+exagero alheio, e d'outro, noctambulo e feroz,
+com risadas estridulas de sarcasmo&mdash;e de outro,
+de outro maior, de outro espectro, que
+vem aqui sentar-se a meu lado na sua tragica
+mudez. No fundo talvez tudo aquillo fosse dor.
+No fundo, bem no fundo, quando irrompia n'uma
+phrase cruel, n&atilde;o era aos outros que dilacerava,
+era a si proprio que se dilacerava, e t&atilde;o a serio
+que todos o viamos sangrar. Reparem: pouco a
+pouco a figura range de dor. Arfa atravez da sua
+obra. &Eacute; o filho do professor
+d'instruc&ccedil;&atilde;o primaria,
+d'aquelle homem severo, de quem dizia baixinho:&mdash;O
+meu pae foi duro! o meu pae foi t&atilde;o duro!
+Era um homem sem ternura...&mdash;&Eacute; o praticante de
+botica alheado e transido, o neto deformado de
+cavadores, que inveja a sociedade distante, e que
+s&oacute; aos impetos se atreve a enchel-a de sarcasmos.
+<span class="pagenum">[66]</span>
+Que inveja o grande escriptor, o desgra&ccedil;ado
+Fialho, o homem de genio que passou a vida a
+fazer chacota das veneras, das academias, das
+elegancias, dos grotescos cobertos de patacos&mdash;que
+lhe faziam falta? Tanta tinta, tanto desespero
+calcado e recalcado, tanta contradi&ccedil;&atilde;o e pobreza,
+e uma lucta de noites e noites de que sae amarfanhado&mdash;e
+com paginas soberbas! Mas tu n&atilde;o
+v&ecirc;s que no dia em que te ro&ccedil;ares por elles
+est&aacute;s
+perdido, como no dia em que a cobra perde o
+veneno? Vae-se-te o melhor do teu genio...&mdash;N&atilde;o,
+eu rio-me, eu sofro...&mdash;Tantas paginas bellas!&mdash;Se
+soubesses como isso se paga!&mdash;Ent&atilde;o
+explica-te...&mdash;N&atilde;o posso, n&atilde;o sei.
+At&eacute;
+dos idolos
+posti&ccedil;os que deito abaixo me ficam saudades...
+Nem eu proprio sei o que quero.&mdash;Pobre
+Camillo, que estoirou a cabe&ccedil;a de desespero, pobre
+Anthero, exilado e em debate com uma sombra
+com que n&atilde;o podia arcar; pobre Fialho, pobre
+cavador de genio, em perpetua discuss&atilde;o
+com os seus mortos, em lucta comsigo e com os
+outros e no fundo um reverente&mdash;foi-o sempre&mdash;sahindo
+em farrapos d'este inferno a que se
+chama a vida!...
+<br />
+
+<br />
+
+Da sua existencia oculta faz parte uma figura
+de dor calcada e recalcada, sobre a qual
+outra se encarni&ccedil;a com desespero. Talvez seja a
+verdadeira... Contentemo-nos em fixar duas ou
+tres aparencias, apontando n'este canhenho algumas
+anecdotas frivolas... Se elle podesse gritar
+<span class="pagenum">[67]</span>
+gritava ainda. D'essa figura contraditoria restam
+farrapos&mdash;mas que farrapos! d'essa lucta suprema
+existem vestigios, que nunca encarei sem
+espanto... Vio-o algumas vezes ao amanhecer,
+n'um 3.&ordm; andar do Arco da Bandeira, quando
+elle cahia exhausto sobre a banca de tortura, &aacute;
+luz d'um candieiro de petroleo, com um frasco
+d'alcool ao lado e o cobertor enrodilhado nos
+p&eacute;s. A mascara livida estava de todo mudada.
+Era outro! era outro! Surprehendi-o em noites,
+nos giros sem destino pela Gra&ccedil;a, pela Penha,
+pelo Monte&mdash;quando o seu dedo apontava
+boqueir&otilde;es de treva, tropeis de casaria, sitios
+ermos onde duas ou tres oliveiras torcidas se
+ajuntam para concertar um crime, ou, peor ainda,
+nas horas de amargo descalabro, em que, dorido
+e sem phrases, procurava fugir de si proprio para
+muito longe. N&atilde;o queria ent&atilde;o que ninguem o
+seguisse nas caminhadas que duravam at&eacute; ao
+dia&mdash;elle e a dor, elle e a noite! Amigos, silencio...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O que eu sofri!&mdash;dizia elle.&mdash;Tiveram-me
+preso oito annos n'uma botica alli na Bemposta,
+ao p&eacute; da Escola do Exercito, na idade em que
+queria viver. Estragaram-me a vida, encheram-me
+de desespero. Quando me soltaram n&atilde;o imagina
+a minha alegria! Podia ter sido outro... Ter
+saude, ser forte!... O que eu sofri! D'uma vez,
+<span class="pagenum">[68]</span>
+no <em>Reporter</em>, o Martins mandou-me
+escrever um
+artigo sobre uma kermesse de fidalgas. Fui e fiz
+uma tro&ccedil;a, e elle rasgou-me os linguados na
+cara. Para me vingar, tirando um bocado &aacute;s noites,
+escrevi um artigo formidavel para publicar
+em folheto. Era na occasi&atilde;o em que essas peidorreiras
+arranjavam um bazar para os pobres, que
+rendeu oitocentos mil reis. Ora eu descobri por
+acaso um gallego, que se juntava com outros e
+tiravam todas as semanas meio dia de ganho,
+para irem ao domingo ao hospital dar cigarros
+aos doentes, penteal-os, cortar-lhes as unhas,
+untar-lhes a cabe&ccedil;a com banha de porco. &Eacute; um
+velho, de barba de passa piolho, que est&aacute; sempre
+no largo de Cam&otilde;es. Homem de poucas falas.
+Tratou-me mal. Tive prompto o folheto em que
+comparava essas mulheres, cheias de snobismo,
+com adulterios e infamias, com esse santo desconhecido...
+Imagine... Perdi o artigo.
+<br />
+
+<br />
+
+E depois, falando da mulher Oliveira Martins:&mdash;N&atilde;o
+era a mulher que convinha &aacute;quelle homem.
+E elle subordinava-se-lhe. Foi ella que o
+fez confessar &aacute; hora da morte. Contou-me o
+Sousa Martins que a sacudira de ao p&eacute; de si ao
+morrer...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Fala do livro <em>A Cloaca</em>, um d'estes
+livros que
+se sonham e nunca se chegam a escrever:
+<br />
+
+<br />
+
+O primeiro capitulo est&aacute; feito: &eacute; uma festa da
+<span class="pagenum">[69]</span>
+alta sociedade no claustro da Batalha... Aproveito
+a epoca do Burnay e do marquez da Foz,
+a lucta da finan&ccedil;a, quando o Foz tinha palacios
+e o Moser carro a duas parelhas. Deram-se festas
+esplendidas... Tenho as figuras todas, homens
+de negocio e jornalistas, o Mariano e o Navarro...
+Um dia alugam um comboio especial e v&atilde;o dar
+uma festa no claustro da Batalha. &Eacute; uma ceia
+formidavel, com mulheres da grande roda, politicos,
+literatos, e, dentro do claustro, entre a
+grandeza e a severidade d'aquellas pedras, caem
+de bebados e mijam pelos cantos, nos tumulos.
+O principe tambem l&aacute; est&aacute;, com o conde de
+Maricas&mdash;fedes:
+no fim do banquete, &aacute; sahida, a
+babar-se, escreve nas paredes monumentaes esta
+palavra obscena: p... Os outros riem-se, as mulheres
+aplaudem. Fora a multid&atilde;o apupa. Outro
+capitulo ha de ser a noite em que os jornaes
+apregoaram em suplemento o escandalo Foz e
+a sua pris&atilde;o:&mdash;Foi n'essas horas&mdash;dizia a
+marqueza&mdash;que
+os cabellos se me puzeram brancos
+da noite para o dia.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Nunca terminou outro livro <em>A Quebra</em>,
+que
+chegou a trezentas paginas impressas, no editor
+Costa Santos. Tinha capitulos admiraveis. Acabou
+por o inutilisar:&mdash;A minha dificuldade &eacute; a falta de
+propor&ccedil;&otilde;es. Perco-me n'um incidente, e quando
+<span class="pagenum">[70]</span>
+mal me percato estou em quatrocentas paginas.&mdash;Sei
+tambem que escreveu alguns capitulos d'<em>Os
+Cavadores</em>. Talvez d'<em>Os
+Ceifeiros</em> pertencessem a
+esse livro, em que elle queria pegar no homem
+do campo e leval-o, sempre explorado, desde o
+baptismo at&eacute; &aacute; morte...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Inventou este nome para o conde de Arnoso,
+a <em>rainha Draga</em>, e diz do retrato a
+oleo que o
+Columbano lhe pintou:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O Columbano &eacute; t&atilde;o cortez&atilde;o
+que lhe
+poz
+um velho olho do E&ccedil;a de Queiroz.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Contemplando o cadaver do Cardia:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;S&oacute; aos quarenta anos &eacute; que se sabe o
+que &eacute; isto!
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Isto</em> &eacute; a morte,
+&aacute; qual tem horror, assim
+como &aacute; velhice.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E falando a proposito do Cardia:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Eu tambem sou assim... Ha dias em que
+ninguem me arranca seja o que f&ocirc;r da cabe&ccedil;a.
+Sinto a mesma impress&atilde;o de vasio que o Cardia
+sentia. Depois escrevo por impetos uma pagina,
+peda&ccedil;os destacados que me matam de desespero
+para ligar. E se n&atilde;o escrever logo, passadas
+horas j&aacute; n&atilde;o posso, n&atilde;o sei...
+Varreu-se-me tudo!<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[71]</span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Est&aacute; furioso com a inaugura&ccedil;&atilde;o do
+monumento
+ao E&ccedil;a. No fundo nunca o pode v&ecirc;r: faltou-lhe
+o carinho, a considera&ccedil;&atilde;o&mdash;e isso
+maguou-o
+muito&mdash;que rodeou o grande escriptor
+dos <em>Maias</em>. Elle proprio diz: ganhou
+sempre a
+trabalhar menos que um pedreiro. No jornaleco
+<em>A Tribuna</em> escreveu em dois numeros
+successivos,
+sem assignatura, as seguintes notas com o titulo<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;" class="smallcaps">o
+monumento</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="tinyl">J&aacute; noticiamos n'outro numero
+do nosso jornal com
+todos os seus detalhes e pormenores, como foi a festa
+d'inaugura&ccedil;&atilde;o do monumento a E&ccedil;a de
+Queiroz. Damos
+hoje um reflexo do humor da multid&atilde;o que assistiu ao acto.
+Porque, emfim, a nosso v&ecirc;r, tudo &eacute; documento para
+a historia.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;<em>Sobre a nudez forte da Verdade, o manto diaphano
+da phantasia</em>. Dizem os amigos que n'esta frase se
+alegorisa
+a obra de E&ccedil;a. Mas olha c&aacute;. Estando a
+<em>Verdade</em> completamente
+nua do ventre para cima, e s&oacute; rebu&ccedil;ada d'ahi para
+baixo, o que sob o manto da fantasia se guarda &eacute; indecente.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Ahi est&aacute; a raz&atilde;o porque a alegoria
+&eacute;
+flagrantissima.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Tu, se fosses casado, davas o <em>Primo
+Bazilio</em> a l&ecirc;r a
+tua mulher?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;L&aacute; isso n&atilde;o. Mas n&atilde;o tinha
+a mais
+pequena duvida
+em o dar &aacute; tua.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[72]</span>
+<div class="tinyl">
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Que lhe parece a <em>Verdade</em> do
+monumento?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Um calix de <em>bitter</em> para fazer
+bocca ao <em>Chat Noir</em>,
+que fica em baixo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Condessa, de todos os cavalheiros que fallaram, qual
+d'elles &eacute; o conde d'Avila?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O conde d'Avila s&atilde;o todos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Este Monteiro Milh&otilde;es, que inconveniencia!
+Consentir
+que das suas cavallari&ccedil;as um burro esteja a interromper
+os oradores!
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Condessa, &eacute; o echo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O que eu n'esta consagra&ccedil;&atilde;o sobretudo
+admiro,
+&eacute; o
+grande cora&ccedil;&atilde;o do conde d'Arnoso. O Municipio
+devia premiar
+t&atilde;o nobre musculo.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Com uma urna, como se fez ao D. Pedro IV?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Com uma urna n&atilde;o. Com uma travessa.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Seria interessante conhecer todos os tramites do
+trabalho de crea&ccedil;&atilde;o do esculptor, at&eacute;
+ao momento da estatua
+apparecer.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Ah, eu lh'os conto. Primeiramente, o Carlos Mayer,
+na sua qualidade de judeu, queria uma descida da Cruz, e
+por isso, o grupo do E&ccedil;a e da Verdade cheiram um pouco
+&aacute; scena da Paix&atilde;o. Veio depois o Arnoso a lembrar
+se dessem
+ao monumento reminiscencias mais contemporaneas,
+ex.: o Genio perguntando &aacute; Verdade quantos dentes queixaes
+queria tirar. D'esta dualidade d'inspira&ccedil;&atilde;o
+resulta o
+<em>mysterio</em>, que faz com que o
+monumento seja o que v. ex.<sup>a</sup>
+quizer, sendo o melhor&mdash;n&atilde;o perguntar.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[73]</span>
+<div class="tinyl">
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Apparece no estrado o Conselheiro Ant&oacute;nio Candido.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Silencio! Vae fallar o maior orador da Peninsula.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;&laquo;...[*espa&ccedil;o?]no povo portuguez ainda
+ha o
+grande brio dos
+feitos altos, <em>(sussurro)</em>. Se
+&aacute;manh&atilde; esta Verdade t&atilde;o n&uacute;a
+f&ocirc;r ter ao Pelourinho, ninguem sabe at&eacute; onde o
+amor da
+P&aacute;tria ha-de crescer!
+<em>(ova&ccedil;&atilde;o).</em>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Interview com o conselheiro Barahona.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;V. Ex.<sup>a</sup> leu alguma vez o
+E&ccedil;a?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Ler, nunca, mas conheci-o em Evora, delegado do
+thesouro, e at&eacute; por causa d'isso vim ao Principe Real
+ver-lhe um drama de ladr&otilde;es, que estava mesmo escripto
+ao meu sabor.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Mas isso n&atilde;o &eacute; o E&ccedil;a de
+Queiroz,
+&eacute; o E&ccedil;a Leal.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O que?! N&atilde;o &eacute; o mesmo? Ai, os meus
+ricos dois
+contos de r&eacute;is!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Interview</em> com o Snr. Monteiro
+Milh&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;V. Ex.<sup>a</sup> que pensa do monumento?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Penso que tenho de voltar a frontaria da minha
+casa, para o Theatro D. Amelia. Imagine que os meus netos
+est&atilde;o constantemente a perguntar quem &eacute; aquella
+senhora
+sem camisa. J&aacute; o outro dia lhes disse que era D. Maria II,
+mas com estes frios, os pequenitos, educados na compaix&atilde;o,
+n&atilde;o me largam para que lhe mande dar um cobertor.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;E que impress&atilde;o faz das suas janellas a barriga
+da
+Verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Aqui entre n&oacute;s <em>(arregalando o
+olho)</em> &eacute; uma d'aquellas
+barrigas que est&aacute; mesmo a glorificar a
+&laquo;sensa&ccedil;&atilde;o nova&raquo;
+<em>(irritado)</em>. N&atilde;o era mais
+condizente &aacute; minha camoneana,
+transferirem o epico immortal aqui para o meu largo, e
+levarem <em>aquelle senhor</em> para as
+proximidades do Bairro Alto?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;De modo que V. Ex.<sup>a</sup>, irritado, nem
+chega
+&aacute; janella?</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[74]</span>
+<div class="tinyl">&mdash;Emquanto a Camara
+n&atilde;o
+mandar p&ocirc;r, de roda da
+figura um resguardo pintado de cinzento.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Tu ouviste os discursos. Que opini&atilde;o por elles se
+pode ter da capacidade mental dos oradores?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Metade d'aquelles senhores n&atilde;o leu o
+E&ccedil;a, e a
+outra
+metade n&atilde;o tem lucidez para o julgar. Isto foi uma festa de
+&laquo;snobs&raquo;; o monumento que ali est&aacute;,
+n&atilde;o foi erguido &aacute; memoria
+do E&ccedil;a litterato: &eacute; a
+glorifica&ccedil;&atilde;o do conde Reinaldo
+e da Alfonsine.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;E se o flamejante garoto agora c&aacute; tornasse?
+Mettia-os
+a todos n'um romance endiabrado.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;J&aacute; est&atilde;o mettidos. Mas o que tu acabas
+de
+v&ecirc;r &eacute; os
+<em>Maias</em> em quadro vivo.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Duas guapissimas, na turba.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;<em>Pero E&ccedil;a de Queiroz, quien
+&eacute;s?</em>
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;<em>Un caballero que escribi&oacute; del
+minuete.</em>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+G..., antigo companheiro de Fialho, sepultado
+hoje no fundo d'uma biblioteca, diz assim
+a proposito da livraria do grande escriptor<sup><a href="#n2">[2]</a></sup>:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Eu chamo a estes livros as onze mil virgens.
+S&atilde;o apenas quatro mil volumes ou pouco mais,
+mas&mdash;vae surprehendel-o esta minucia&mdash;estam
+quasi todos por abrir. Ha aqui Balzac e Zola,
+E&ccedil;a e Iba&ntilde;ez, os Goncourt e Ponson du Terrail.
+<span class="pagenum">[75]</span>
+Fialho tinha muito Ponson na sua biblioteca.
+Esta litteratura de costureiras e guarda-port&otilde;es
+era para as grandes horas amarguradas&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+Era. A elle e a outros grandes espiritos basta-lhes
+o proprio drama para os amargurar. Anthero,
+nos dias aziagos de Villa do Conde, deitado
+n'um sof&aacute;, s&oacute; lia Gaborieu. Para tragedia
+chegava-lhe
+a sua.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O Fialho tinha uma admira&ccedil;&atilde;o
+extraordinaria
+pela obra camiliana. Imagine que at&eacute; n'um
+livro da mocidade poz uma dedicatoria a Camillo,
+em que dizia: &laquo;acabo de l&ecirc;r toda a sua
+obra&raquo;.
+E quasi nada l&ecirc;ra a esse tempo... Afora as obras
+portuguesas, na biblioteca de Fialho s&oacute; ha volumes
+em espanhol e em francez. Nos ultimos anos
+merecera-lhe uma aten&ccedil;&atilde;o particular a literatura
+espanhola.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+E a proposito de Fialho intimo assevera:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O Fialho, que tinha grandes rasgos generosos
+e perversidades femininas&mdash;repito-o n&atilde;o era
+bem o Fialho que se v&ecirc; atravez dos seus livros
+admiraveis. Era o <em>outro</em>. As suas
+irreverencias
+das paginas rubras eram fundamentalmente apenas
+o odio do plebeu que inveja o fidalgo. Sim,
+porque ele invejava a sociedade na sua fase demolidora
+<em>s&oacute;</em> porque n&atilde;o
+tinha nela um lugar. Uma
+infantilidade de homem de genio.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+E explica:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Como se sabe o Fialho n&atilde;o tinha meios de
+fortuna nem ascendencias nobres. Fez a sua vida
+<span class="pagenum">[76]</span>
+ali no &laquo;Martinho&raquo;, vivia de noite e era um
+<em>blageur</em>
+incorrigivel, e apezar de valer bem os seis
+milh&otilde;es de portugueses que existem sobre esse
+solo, a Monarquia, o Pa&ccedil;o, os conselheiros, n&atilde;o
+lhe achavam <em>qualidades</em> para triunfar
+nessa sociedade
+formalisada e cheia de convencionalismos.
+Est&aacute; explicado o Fialho dos
+<em>Gatos</em>&mdash;foi a
+revolta. Meteu-lhes medo&mdash;oh sim, um medo
+terrivel com as suas <em>blagues</em>
+sangrentas&mdash;fazia-os
+passar de largo, mas ainda mais se afastou do
+<em>ancien r&eacute;gime</em>. Entre os
+republicanos, onde se
+lan&ccedil;ou de alma e cora&ccedil;&atilde;o, sentiu-se
+depois desconsiderado.
+O Fialho continuava a ser... o
+<em>blageur</em>.
+Nunca lhe deram um cargo de confian&ccedil;a.
+Que pena teve o Fialho de n&atilde;o ficar na Comiss&atilde;o
+da subscri&ccedil;&atilde;o nacional a quando do
+<em>ultimatum!</em>&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+E termina com esta nota inedita:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Sabe que o Fialho era um orador. Nunca
+ouviu dizer talvez que elle fizesse um discurso?
+Mas ouvi-lhe eu muitos, todos os dias, durante
+longos annos. A sua timidez invencivel nunca o
+deixou falar em publico apesar de, como ninguem,
+sentir a necessidade do aplauso. Muita
+vez me disse que desejaria ser actor, ser um
+grande actor, para ouvir bem de perto o som
+das palmas com que o saudariam, para viver intensamente,
+ruidosamente, uma grande hora de
+triunfo. Tinha coisas o Fialho... Registe esta
+nota curiosa pois muito poucos a sabem: era soberbo,
+orando alucinado para um auditorio de
+<span class="pagenum">[77]</span>
+tres amigos intimos no alto da Avenida, ou noite
+alta, &aacute; beira do Tejo.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; figura que se senta ao p&eacute; de mim falta-lhe
+talvez a rigidez das estatuas. O gabinardo, reparem,
+est&aacute; amachucado e encardido, a phisionomia
+retrae-se no escuro e s&oacute; a bocca se salienta,
+enorme e prestes a escorra&ccedil;ar-nos com gritos e
+apupos. Atravessou a vida: foi injusto, foi cruel
+por vezes, foi amargo. Desatou a rir para n&atilde;o chorar.
+Atordoou-se com sarcasmos e phrases. Foi
+incoherente. Obedeceu ao impulso. N&atilde;o se p&ocirc;de
+furtar a sentimentos que veem do fundo dos fundos
+e nos deixam prostrados, reclamando da morte
+que nos apavora&mdash;enfim! enfim!&mdash;o primeiro dia
+de descan&ccedil;o bem ganho, ao termo desta discuss&atilde;o
+que nunca cessa e em que nos despeda&ccedil;amos,
+sem nos comprehendermos a n&oacute;s proprios quantos
+mais aos outros... Toda a sua alma, que deixou
+fragmentada em varias figuras, em todas as
+paginas dos seus livros, nos retratos, nos tipos,
+nas paisagens, no Manuel, em Guilherme de Azevedo
+ou na manh&atilde; do Tejo, se condensa enfim
+n'esta bocca amarga capaz ainda de nos fulminar
+de colera ou de acusar bem alto a vida que lhe
+foi impiedosa... &Eacute; assim que te vejo ao p&eacute; de
+mim,
+com detrictos, escorrencias, lama, mas t&atilde;o grande,
+t&atilde;o vivo, t&atilde;o humano, que para sintetisar a
+<span class="pagenum">[78]</span>
+tua vida, s&oacute; me servem as palavras com que um
+espectador ilustre sauda o Hamlet no fim da
+representa&ccedil;&atilde;o:&mdash;Boas
+noites, meu principe, &eacute;s um
+homem, o homem e todo o homem!
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">4 de Janeiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Morreu ante hontem d'albuminuria o pobre
+D. Jo&atilde;o da Camara. Tinha feito annos no dia 27.
+Conheci-o sempre, at&eacute; nos maiores frios, de casaco
+d'alpaca, a sorrir... Antes de acabar sahiu
+do torp&ocirc;r e, em dois acessos de delirio, descreveu
+o fim do mundo com terror e espanto. Depois
+rezou, disse versos seus, e ficou, n'um ultimo
+suspiro. Remexeram-lhe nos papeis e nos bolsos:
+s&oacute; lhe encontraram recortes de jornaes, anuncios
+de desgra&ccedil;ados pedindo esmola.
+<br />
+
+<br />
+
+Mezes depois ainda os pobres o procuravam
+nos sitios do costume:&mdash;O senhor D. Jo&atilde;o? o
+senhor D. Jo&atilde;o?&mdash;Morreu.&mdash;Morreu!
+morreu!...&mdash;E
+partiam a chorar.
+<br />
+
+<br />
+
+Agora &eacute; que eu sinto todo o encanto d'esse
+homem falando baixinho, a olhar a gente por
+cima das lunetas. Andou mal vestido. N&atilde;o soube
+o valor do dinheiro. Desceu aos desgra&ccedil;ados com
+uma ternura e uma simplicidade de fidalgo e de
+santo. Nos ultimos quatro annos ganhou alguns
+t&atilde;o vivo, t&atilde;o humano, que para sintetisar a
+<span class="pagenum">[79]</span>
+contos de reis: deu tudo, levaram-lhe tudo. At&eacute;
+de madrugada o procuravam para lhe pedirem
+dinheiro emprestado. E nunca o ouvi queixar-se,
+nem dizer mal de ninguem. Foi um poeta e um
+santo. Deixa, alem de algumas obras admiraveis,
+uma pe&ccedil;a incompleta, com poucas scenas
+escriptas&mdash;<em>As
+comadres de Panoia</em>, e talvez se lhe encontrem
+tambem apontamentos de outra em que
+tanto falou e em que tanto sonhou&mdash;<em>O
+Serm&atilde;o
+da Montanha</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">
+18 de Mar&ccedil;o&mdash;1900.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Faz hoje annos que morreu Antonio Nobre.
+Foi uma figura inconfundivel de poeta. Por mim
+nunca encontrei tambem rapaz mais lindo. Um
+pouco afectado talvez... Em pequeno ia com
+Eduardo Caminha enterrar os seus versos no
+jardim solitario do Palacio, e pedia, com os olhos
+limpidos e sofregos, uma Biblia para repousar a
+cabe&ccedil;a quando o levassem no caix&atilde;o... Estou a
+ve-lo, com uma camisola de pescador, saltar pela
+janella da casa &aacute; beira rio, de Mattosinhos, onde
+Alberto d'Oliveira j&aacute; imperava, esse mesmo Alberto
+d'Oliveira, esperto e t&atilde;o dominador, que,
+quando entrava em casa dos outros, come&ccedil;ava
+por os convencer a desarrumar os m&oacute;veis,
+para os arrumar de novo a seu modo... Antonio
+<span class="pagenum">[80]</span>
+Nobre usava uma abotoadura de cabe&ccedil;as
+de pregos e sorria com um modo e um ar
+de ternura e desdem. Fugiam d'elle antes de
+publicar o <em>S&oacute;</em>; os poetas
+do seu tempo odiaram-no
+depois de publicar o <em>S&oacute;</em>.
+Ser diferente
+dos outros &eacute; j&aacute; uma desgra&ccedil;a; ser
+superior aos
+outros &eacute; uma desgra&ccedil;a muito maior. Viveu
+efectivamente
+isolado. No concurso para consul quizeram
+reprov&aacute;-lo: foi preciso que Alberto d'Oliveira
+explicasse ao jury quem era o poeta Antonio
+Nobre. N&atilde;o p&ocirc;de formar-se em Coimbra, e
+at&eacute; os seus amigos mais intimos lhe fugiram. Entrou
+na morte como tinha vivido&mdash;s&oacute;. At&eacute;
+Alberto
+d'Oliveira teve de interromper uma amizade
+de irm&atilde;o quando se encontrou diante d'este dilema:
+ou deixar-se dominar por elle, que o tratava
+como uma crean&ccedil;a, ou feril-o em pleno
+cora&ccedil;&atilde;o:&mdash;A
+nossa amizade &eacute; de tal ordem que n&atilde;o
+admite que lhe des&ccedil;am dois ou trez pontos &aacute;
+craveira. Ou mante-la ou quebra-la.&mdash;Quebrou-a.
+O ilustre escriptor possue d'esse tempo um caix&atilde;o
+enorme, t&atilde;o pesado como o que levou o
+poeta para a cova, com as cartas afectadas e
+vivas de Antonio Nobre, as cartas que tem
+obriga&ccedil;&atilde;o
+de publicar, com um prefacio que s&oacute; elle
+pode e deve escrever.
+<br />
+
+<br />
+
+Digamol-o, digamol-o... No fundo detestaram-no,
+detestaram-no todos. N&atilde;o lhe poderam
+perdoar a impertinencia, o desdem, o genio. Era
+um s&ecirc;r diferente. N&atilde;o agradava a ninguem.
+S&oacute; as
+<span class="pagenum">[81]</span>
+mulheres o amaram. Era um Poeta. Desconheceu
+a vida pratica. Tinha a consciencia do seu valor,
+e uma superioridade que se n&atilde;o podia aturar. Estavamos
+todos mortos por nos desfazermos d'esse
+ser aparte, d'esse eterno consul sem consulado,
+d'esse estudante de Coimbra que os lentes reprovavam
+e que nos fazia sombra. Mas debalde o
+arredamos: houve uma coisa nova que passou
+no mundo e que ficou no mundo&mdash;que nos ficou
+na alma...<br />
+
+<br />
+
+<div class="illustration"><a name="f5" id="f5"></a><img style="width: 500px; height: 713px;" alt="Antonio Nobre no caix&atilde;o." title="Antonio Nobre no caix&atilde;o." src="images/fig08.png" /><br />
+
+<em>Antonio Nobre no
+caix&atilde;o.</em>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Agora estamos todos apaziguados, todos podemos
+esquecer a superioridade, a afecta&ccedil;&atilde;o e o
+desdem infantil de Antonio Nobre.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi para a cova completar trinta e tres annos
+n'um dia de chuva como este, frio e sujo, o poeta
+insolente como um principe e adoravel como
+uma crean&ccedil;a. Quantos estavam alli &aacute; beira do
+tumulo? Meia duzia escassa, o Frei, o Justino, o
+Eduardo de Souza, eu&mdash;e quem mais? quantos
+mais? Os jornaes deram a sua morte em duas
+rapidas linhas. Respirou-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje &eacute; um dos poetas portuguezes com mais
+admiradores. &Eacute; um poeta de simpathia. Nunca
+teve sorte sen&atilde;o depois de morto. Porqu&ecirc;? Porque
+n&atilde;o misturou, como n&oacute;s todos, o sonho com
+a vida pratica. Ao contrario, raros homens ter&atilde;o
+posto t&atilde;o de acordo a vida com o sonho. Fez
+mais: suprimiu a vida. Correu o globo e s&oacute; a
+si proprio se encontrou. Viu o mundo e nunca
+assistiu a outro drama que n&atilde;o fosse o da sua
+<span class="pagenum">[82]</span>
+alma. E poentes, arvores, estrellas ou pedras,
+entraram-lhe no cora&ccedil;&atilde;o como espadas. Nenhum
+outro exprimiu d'uma forma t&atilde;o sua o universo.
+Que universo dir&aacute;s? O meu? o teu?...
+N&atilde;o, o que elle descobriu, scismando como um
+navegador, &aacute; pr&ocirc;a do seu barco... Por isso nunca
+h&atilde;o-de faltar sonhadores que evoquem essa singular
+figura de poeta, que uma vez atravessou a
+terra, solu&ccedil;ou, monologou como Hamlet, e sumiu-se
+logo no sepulchro.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">30 de Janeiro&mdash;1911.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Janota e co&ccedil;ado, com uma flor na botoeira
+e a fumar um charuto de dez reis, ahi vae o
+poeta Gomes Leal. Quem n&atilde;o viu n'outro tempo
+este homem extraordinario, n&atilde;o conheceu um
+verdadeiro, um authentico poeta satanico. Passou
+nas ruas de chap&eacute;o alto, falando com intimidade
+&aacute;s estrellas e tocando no c&eacute;o com as guias do
+bigode. Escreveu as paginas das <em>Claridades do
+Sul</em>, da
+<em>Trai&ccedil;&atilde;o</em> e do
+<em>Anti-Christo</em>. Viveu alheado,
+como &eacute; indispensavel a quem convive todo o dia,
+tu c&aacute;, tu l&aacute;, com o sonho. Cantou a plebe,
+destruiu
+os deuses, arremessou sarcasmos aos banqueiros,
+satirisou o grotesco, e tocou-nos hombro
+com hombro, apontando altivo o cravo vermelho
+da lapela:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[83]</span>
+&mdash;Amigos, as flores s&atilde;o as
+condecora&ccedil;&otilde;es
+dos poetas!
+<br />
+
+<br />
+
+Prodigalisou-o a caricatura: teve na vida misterios
+perturbantes: um dia acometeram-no no
+comboio, em Espinho, quando regressava do
+Porto, at&eacute; onde seguira a rainha Maria Pia, depois
+de lhe atirar uma rosa escarlate, que arrancou
+da botoeira, em plena pra&ccedil;a, com um desdem
+supremo pela burguezia endinheirada... Sim, foi
+este que teve a gloria da cadeia, que cantou as
+estrellas, Jesus e Mephistopheles, foi este mesmo
+homem, a quem falta roupa na cama no inverno
+glacial, e que sorri com humildade para
+n&oacute;s, avelhantado e timido... As janellas n&atilde;o
+teem vidros, a roupa &eacute; pouca, mas tu viveste o
+que n&atilde;o vive um rei, e o imperio deslumbrante,
+que creaste &aacute; custa de d&ocirc;r, cheio de obscuridades
+e de genio, com catadupas d'oiro, como
+nas lendas, e palidas figuras; essa mescla de
+gritos, de paix&atilde;o; esse sonho confuso e immenso,
+pertence-te, e n&atilde;o ha quem t'o roube, mesmo
+com as janellas abertas de par em par. Deixa
+entrar o frio&mdash;e sorri...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Agora vae todas as manh&atilde;s ouvir missa &aacute;
+Pena ou ao Resgate. &Eacute; um homem encolhido e
+friorento, que a banalidade tem gasto e desgasto
+como as moedas f&oacute;ra de curso que se fartaram
+de correr de m&atilde;o em m&atilde;o, e ainda ha
+dias o encontrei no Porto, n'uma manh&atilde; de sol,
+<span class="pagenum">[84]</span>
+de casaco de borracha e colarinho suspeito. Ia
+pregar &aacute; Associa&ccedil;&atilde;o Catholica, e
+atravessava a
+Pra&ccedil;a entre os aplausos dos palidos sachristas,
+que o rodeavam como quem for&ccedil;a um deus, sem
+repararem que s&oacute; levavam um simulacro. No sonho
+de outrora n&atilde;o ha m&atilde;os que se atrevam
+a tocar... Elle sorria enlevado, com o eterno charuto
+ao canto da bocca.
+<br />
+
+<br />
+
+A vida feroz torna-nos grotescos. Consegue
+tudo. Deforma-nos. O proprio sonho entra &aacute;s vezes
+no dominio da chacota. Onde, por&eacute;m, Garrett chega
+ao ridiculo, com tres cabelleiras posti&ccedil;as, Gomes
+Leal, de casaco de borracha e discursos de propaganda,
+atinge o tragico... Eu bem sinto a tristeza,
+bem sei, bem vejo o arranco, bem palpo
+a d&ocirc;r. A figura que cheira a bafio como se
+sahisse do fundo do armario do passado para a
+plena luz, faz rir e faz chorar. No esfor&ccedil;o para
+n&atilde;o ir ao fundo, no gesto de naufrago que se
+ap&eacute;ga com desespero, quando a d&ocirc;r estala por
+todas as costuras, ha um rictus de clown. Olha
+l&aacute;: o peor &eacute; tu ousares tocar no que ha em
+mim de mais sagrado, o peor &eacute; tu transformares-me
+o sonho n'uma noticia do <em>Seculo</em>, o
+peor de tudo &eacute; tu atreveres-te a tocar n'este
+jardim da vida&mdash;e, peor ainda, &eacute; que eu continuo
+a sorrir como se possuisse o antigo thesouro
+de Ali-Baba. Mais um momento, outro
+passo e reduzes-me &aacute; condi&ccedil;&atilde;o de
+trapo. Deitas-te
+commigo, acordo comtigo ao meu lado, e
+<span class="pagenum">[85]</span>
+ha occasi&otilde;es em que at&eacute; o som da minha voz me
+sobresalta. Por ora debato-me, por ora sinto o
+cora&ccedil;&atilde;o opresso, fingindo que n&atilde;o
+existes, mas
+ha j&aacute; terror no meu sorriso, e, quando me ou&ccedil;o,
+ou&ccedil;o-te tambem os passos. Sei perfeitamente que
+o momento terrivel depende de um unico tra&ccedil;o
+de separa&ccedil;&atilde;o&mdash;agora, j&aacute;,
+d'aqui a
+bocado...
+<br />
+
+<br />
+
+Est&aacute;s por traz de mim e o minuto grotesco
+ser&aacute; quando eu deixar de te conhecer e quando
+sentir a tua m&atilde;o gelada... Est&aacute;s por traz de
+mim! est&aacute;s por traz de mim! Bem sei que est&aacute;s
+por traz de mim, e que vaes ser a minha companhia
+at&eacute; &aacute; cova. Confesso-te: o que me aterra
+n&atilde;o &eacute; o momento que passou, nem o que ha-de
+vir&mdash;&eacute; o momento, que vale um seculo, em que
+tenho de galgar o abysmo. Por ora teimo, por ora
+ainda digo:&mdash;A sciencia, meu rapaz, sabes o que
+&eacute;? &Eacute; um cifr&atilde;o cortado.&mdash;Mas
+como o
+digo!...
+<br />
+
+<br />
+
+...Ha um momento tetrico nos
+<em>Espectros</em> em
+que um novo personagem se introduz em scena.
+Desde o principio que o sabemos atraz da frandulagem
+de papel&atilde;o: est&aacute; alli presente, n&atilde;o
+como
+uma figura de theatro, mas monstruoso, real e
+patente, como o Destino, &aacute; espera de intervir.
+Desde ent&atilde;o perco o fio da pe&ccedil;a, n&atilde;o
+sigo mais
+os bonecos que se agitam no tablado, s&oacute; ou&ccedil;o o
+meu proprio monologo, e quedo-me d'olhos atonitos
+n'outro espectaculo atroz. Tenho a certeza
+absoluta de que n&atilde;o ha for&ccedil;as humanas que lhe
+detenham a marcha. Come&ccedil;a ent&atilde;o a tragedia...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[86]</span>
+&Eacute; este mesmo personagem que se intromete
+na vida do poeta. As palavras conteem ainda e
+sempre as mesmas letras, mas at&eacute; as palavras
+mirraram. Esqueci tudo, troquei tudo pelo sonho,
+e, quando tu quizeres, de mim proprio ficarei desconhecido!
+Como eu comprehendo agora aquella
+phrase de outro poeta: &laquo;Sinto que n&atilde;o posso
+trabalhar!
+sinto que n&atilde;o posso trabalhar!&raquo; &Eacute; com
+esta angustia que te ou&ccedil;o os passos mais perto.
+J&aacute; n&atilde;o &eacute; s&oacute; a scena que tu
+enches, &eacute; a sala toda,
+figura invisivel, unico personagem do drama,
+que te entranhas na alma dos espectadores. Emquanto
+os bonecos teimam em pronunciar palavras
+que n&atilde;o ou&ccedil;o, que n&atilde;o teem
+significa&ccedil;&atilde;o
+nem importam, tu levas-me, quer eu queira, quer
+n&atilde;o queira, a sorrir com enlevo &aacute; propria
+banalidade.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A casa em que mora Gomes Leal, na esquina
+do palacio da Bemposta, parece arrancada a um
+velho quadro de Velasquez, com a sua entrada
+de pedra e um arco na escada. O soalho entreaberto
+oscila, as janellas n&atilde;o teem vidros.
+Conhe&ccedil;o-a. J&aacute; l&aacute; morei ha annos no
+mesmo
+quarto que d&aacute; para um quintalorio, com duas
+ou trez oliveiras carcomidas. Do buraco, onde
+nunca chega o sol, sae um frio de morte. Bato,
+a porta abre-se, o soalho range, e o poeta
+<span class="pagenum">[87]</span>
+surge com o velho chapeu &aacute;s trez pancadas, luvas
+pretas&mdash;at&eacute; de luvas escreve Gomes
+Leal!&mdash;e
+no quarto desagasalhado ha luvas por toda a
+parte, por cima das mezas, entre os livros, penduradas
+no tecto. O leito &eacute; um catre. Ao lado
+um Christo, uma mezinha de p&eacute; de gallo, e no
+soalho apodrecido, mont&otilde;es de jornaes e de livros.
+Na parede, que ressuma humidade, um quadro
+a crayon, com o vidro partido: o retrato
+da m&atilde;e de Gomes Leal.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Vivo s&oacute;, n&atilde;o tenho familia. Minha
+m&atilde;e
+morreu-me e aqui estou como um orph&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Vive isolado sempre?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Levanto-me cedo, vou aos templos. Depois
+passo pelas bibliothecas e pelos livreiros e venho
+para casa escrever. Almo&ccedil;o e janto onde calha.
+Quando tenho bebo para esquecer, &aacute; noite escrevo,
+deito-me cedo e durmo... Tenho trez livros
+para publicar: <em>As memorias d'um
+revoltado</em>, continua&ccedil;&atilde;o
+da historia da minha vida, <em>O macaco de
+Nero</em>, estudo de Roma, e o livro em prosa
+<em>Cidade
+do Diabo</em>, onde trato da decadencia do mundo
+moderno. Comecei tambem <em>Christo nos
+infernos</em>,
+poema em verso. Conservo as minhas ideias religiosas,
+que n&atilde;o s&atilde;o incompativeis com a republica,
+e ficarei contente por ver realisado o sonho
+de toda a minha vida, que acalentei como um
+poeta, e que desejo que se n&atilde;o dissolva como
+uma bola de sab&atilde;o na cabe&ccedil;a d'um prego...
+<br />
+
+<br />
+
+E queda-se n'um silencio amargo. A chuva
+<span class="pagenum">[88]</span>
+cae l&aacute; f&oacute;ra. A noite e um frio, uma humidade de
+po&ccedil;o, trespassam-me...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+No seu genio houve sempre sincopes, falhas,
+absurdos. Se trope&ccedil;ou, ergueu-se sempre mais
+alto. Aos trinta annos reage-se. Mas chega um
+momento da vida em que a gente se sente transida
+pelo ar do sepulchro e uma sombra desmedida
+avoluma-se e sufoca-nos. Foi d'esse negrume,
+que se chama a Morte, que elle ouviu
+sahir uma voz cheia de ternura&mdash;a ternura que
+toda a vida o envolveu&mdash;e que come&ccedil;ou a falar-lhe
+baixinho. N'esse momento Gomes Leal deixou
+de viver no mundo da realidade para cohabitar
+com um phantasma...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Setembro&mdash;1907.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Antonio Corr&ecirc;a d'Oliveira, ossos, nervos e
+a pelle necessaria para os cobrir&mdash;com um
+chapeu alto e lustroso em cima&mdash;grande poeta,
+com raizes profundas na natureza, tem na Beira
+uma tia que passa a vida em dialogos estranhos
+com as arvores e as pedras. E mal chega &aacute; noite
+eil-a come&ccedil;a a cumprir o seu fadario: leva at&eacute;
+&aacute; madrugada a dar de beber indistinctamente &aacute;s
+plantas do seu quintal e &aacute;s dos quintaes vizinhos,
+<span class="pagenum">[89]</span>
+n'uma aflic&ccedil;&atilde;o, n'uma piedade que se estende
+at&eacute;
+&aacute;s hervas ignoradas e ruins. Monologando sempre,
+vae e vem,&mdash;que n&atilde;o fique alguma com
+sede&mdash;com
+o regador nas m&atilde;os, at&eacute; que a manh&atilde; a
+encontra
+exhausta, feliz, encharcada at&eacute; aos ossos
+e ainda embebida n'aquelle sonho phrenetico de
+ternura... Toda a emo&ccedil;&atilde;o do poeta est&aacute;
+aqui,
+do grande poeta que diz:&mdash;Sinto em mim uma
+for&ccedil;a da natureza... hei-de aproveital-a.&mdash;Os
+av&oacute;s deram cabo da casa. O pae ninguem o
+arrancava &aacute;s suas arvores, e um tio, personagem
+de Camillo, morreu cosido de facadas. A
+mocidade do poeta foi tambem dolorosa. Chamavam-lhe
+magico. Para n&atilde;o pezar &aacute; m&atilde;e escreveu
+&aacute; raza n'um tabeli&atilde;o e foi proposto de recebedor
+em Cezimbra, elle que nunca soube
+sommar. Iam as mulheres dos pescadores pedir-lhe
+perd&atilde;o das decimas; e nunca na memoria
+de homem se viu recebedor em semelhantes apuros,
+perplexo diante dos papeis, dos pobres,
+da desgra&ccedil;a, das contas e da sua propria alma!
+Um dia gostou d'uma mulher e escreveu os
+primeiros versos, <em>Ladainhas</em>,&mdash;Eu
+n&atilde;o sabia o
+que eram versos, nem medir versos. Sahiu-me
+aquillo... Tro&ccedil;aram-me tanto que estive para
+endoidecer. Sabe o que me valeu? Um artiguinho
+do Trindade Coelho no <em>Reporter</em>.
+Essas
+palavras salvaram-me!<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="illustration"><a name="f6" id="f6"></a><img style="width: 500px; height: 998px;" alt="Corr&ecirc;a d'Oliveira em 1903." title="Corr&ecirc;a d'Oliveira em 1903." src="images/fig09.png" /><br />
+
+<em>Corr&ecirc;a d'Oliveira em 1903.</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[90]</span>
+<div class="date">Janeiro&mdash;1911.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Passei a noute de hontem em casa do Fernandes
+Thomaz, um velho bibliophilo, coleccionador
+de autographos, de livros raros, de gravuras
+antigas. Bom como o p&atilde;o arruinou-se em
+papeis velhos... Eis emfim um homem feliz,
+suponho eu, entre as estantes que revestem os
+muros, como a tra&ccedil;a entre as folhas d'um pergaminho.
+Ingenuo, surdo, com sessenta e tres
+annos e coleccionador apaixonado de papeis velhos
+ainda por cima&mdash;que sorte!...&mdash;De repente
+pega-me nas m&atilde;os e desata a chorar:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Tenho sido um martir!
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; roda muitos documentos, muitos alfarrabios,
+muitos calhama&ccedil;os preciosos. S&atilde;o duas,
+tres salas catalogadas, onde tem livros e papeis
+por toda a parte. A sua vida devia correr esquecida
+e placida, sem sobresaltos nem duvidas, folheando,
+rabiscando, anotando, sonhando sempre
+em coisas faceis.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;N&atilde;o imagina o que tenho sofrido! Sempre
+gostei muito de crean&ccedil;as... Trouxe para casa uma
+sobrinha, morreu-me de raiva nos bra&ccedil;os. Minha
+m&atilde;e um dia teimou:&mdash;Has-de casar.&mdash;Fiz-lhe
+a
+vontade. Casei. Minha mulher, ao fim de dois
+annos, abalou levando-me quasi tudo o que eu tinha.
+<span class="pagenum"><a name="p91" id="p91">[91]</a></span>
+Demandas, processos&mdash;fiquei pobre. Agora
+meu filho quer ir por for&ccedil;a para a Africa.
+<br />
+
+<br />
+
+E p&otilde;e-se a chorar como uma crean&ccedil;a, com a
+cabe&ccedil;a branca pousada sobre os livros, os papeis,
+as gravuras...&mdash;deante d'aquella
+documenta&ccedil;&atilde;o
+cerrada e <a href="#e1">inutil</a>, que tem sido a
+raz&atilde;o da sua vida.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">1 de Fevereiro.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Venho de casa do Fernandes Thomaz. Teve
+um ataque apopletico. Est&aacute; hemiplegico, deitado
+n'um sof&aacute;, somnolento e tremulo. Nunca encontrei
+bibliophilo que tivesse prazer em indicar, em
+ensinar, sen&atilde;o este... &Eacute; outro homem adoravel
+que morre, mas felizmente n&atilde;o sabe que morre.
+&Aacute; beira do tumulo ainda me pede que lhe arranje
+um catalogo da guerra peninsular. E diz-me de
+Theophilo: (estes homens dos papeis velhos nunca
+se puderam v&ecirc;r...):
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Pode crer que nunca passou necessidades
+como elle diz. Conhe&ccedil;o-o de Coimbra, morava
+em casa do conde de Valen&ccedil;a. Todos os mezes o
+pae lhe mandava pelo correio duas libras em oiro
+n'uma caixinha de madeira. Ora n'esse tempo
+valiam tanto como hoje quatro...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c3" id="c3"></a>P&Oacute;
+DA ESTRADA
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Mar&ccedil;o&mdash;1902.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Este homem immenso e louro, o Alpoim, n&atilde;o
+tem um minuto de seu: n&atilde;o descansa, n&atilde;o
+pode. Escreve cincoenta cartas por dia, faz a
+chronica do <em>Janeiro</em>, corre ao
+parlamento, intriga
+nos corredores, enche uma pagina do jornal, recebe
+toda a gente, encanta e domina toda a
+gente n'um riso aberto:&mdash;Meu querido amigo...&mdash;e,
+mal se fecha por dentro, arranca os ultimos
+p&ecirc;los do bigode e cae exhausto, exclamando n'um
+pranto:&mdash;Ai que filhos da p...! ai que filhos da
+p...! Eu n&atilde;o posso! eu morro!&mdash;Nem para ser
+rei de Portugal valia a pena semelhante esfor&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+No fundo &eacute; um politico com este fito: o poder.
+Mas alguma coisa o distingue dos outros que conhe&ccedil;o,
+do espesso Ferreira d'Almeida, por exemplo,
+que exclama diante de mim sem pudor:&mdash;Hei-de
+ser ministro porque quero mandar! gosto
+de mandar!&mdash;&Eacute; um fidalgo com talento, e tanto
+serve um amigo como um desgra&ccedil;ado de quem
+nada tem a esperar. O esfor&ccedil;o &eacute;
+identico.&mdash;Vou
+<span class="pagenum">[94]</span>
+ao inferno por um amigo...&mdash;Ha ainda quem se
+lembre dum Alpoim de chapeu desabado e capa
+&aacute; espanhola, mas o amor fel-o janota...
+<br />
+
+<br />
+
+Na sua vida, como em todas estas existencias
+de aparencia e lucta, ha um trabalho de sapa,
+que quasi totalmente desconhe&ccedil;o. Sabe tudo,
+pode tudo com os seus e com os outros. O Hintze
+tem por elle um fraco, o Jos&eacute; Luciano entrega-lhe
+nas m&atilde;os a meada politica:&mdash;Nada se faz
+sem mim. Sei tudo!&mdash;diz muitas vezes com o
+olho esperto a luzir. O Teixeira de Souza &eacute; o
+seu amigo mais intimo. Uns temem-no, respeitam-no
+os outros. Este que lhe sorri atrai&ccedil;oa-o&mdash;e
+elle fala-lhe amavelmente:&mdash;N&atilde;o me podem
+v&ecirc;r porque lhes fa&ccedil;o sombra. Eu sei... Mas ninguem
+exija dos homens mais do que elles podem
+dar.&mdash;Conspira. Tem nas m&atilde;os os mil fios da
+emaranhada teia politica. Vae mais alto ou mais
+fundo?... N&atilde;o sei, mas &eacute; talvez a isso que elle
+se refere quando afirma:&mdash;Ninguem sabe a que
+portas vou bater!
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje conta o movimento de protesto quando
+dos comicios contra o governo regenerador.
+Reuniam-se j&aacute; ha tempos alguns p&eacute;s de
+boi em casa de Jos&eacute; Luciano, que um dia sae-se com esta:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Bem, meus senhores, precisamos de acabar
+com isto sen&atilde;o cahimos no ridiculo. A tomar
+ch&aacute; n&atilde;o fazemos nada. Que &eacute; que os
+senhores
+resolvem?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[95]</span>
+&mdash;A revolu&ccedil;&atilde;o! queremos a
+revolu&ccedil;&atilde;o!&mdash;concluiram
+todos.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Eu disponho de seis mil homens.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Vamos para a rua!
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Estamos dispostos a tudo, mas temos um
+pedido a fazer a V. Ex.<sup>a</sup>: &eacute; que se
+responsabilize
+a que a guarda municipal n&atilde;o atire sobre n&oacute;s...
+<br />
+
+<br />
+
+O Jos&eacute; Luciano, a puxar pelo bigode, sem
+sahir da sua pachorra ironica:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Oh senhores, mas se eu dispozesse da municipal
+n&atilde;o precisava dos meus amigos para nada!
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O Jos&eacute; Luciano o que tem tido toda a
+vida &eacute; sorte,&mdash;observa alguem do lado.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Garanto-lhes pela saude dos meus filhos,
+atalha logo o Alpoim&mdash;que &eacute; um homem
+inteligentissimo.
+E sen&atilde;o vejam como elle conseguiu
+arredar e vencer todos os do seu tempo.
+Ninguem luctou mais do que eu para a elei&ccedil;&atilde;o
+do Mariano a chefe do partido progressista,
+ninguem!... E que succedeu?... O Jos&eacute;
+Luciano tinha em segredo conseguido p&ocirc;r o pa&ccedil;o
+de seu lado. Na vespera da elei&ccedil;&atilde;o o Mariano
+disse-me:&mdash;Est&aacute; tudo perdido, votem no
+Jos&eacute;
+Luciano...&mdash;Se n&atilde;o o elegessemos, o rei nunca
+mais chamava o partido progressista.
+<br />
+
+<br />
+
+Sob aquelle aspecto de inalteravel bonhomia,
+&eacute; um homem d'uma alta inteligencia pratica.
+Muitos ao seu lado caminharam para o mesmo
+destino, e elle, n&atilde;o sendo nem um grande jornalista
+nem um grande orador, sem brilho mas
+<span class="pagenum">[96]</span>
+solido&mdash;e com caracter! com tenacidade e
+caracter!&mdash;pouco
+a pouco ficou sosinho em campo:
+arredou-os todos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Fui do seu meio e do seu tempo. O Fuschini
+chamava-lhe com desdem:&mdash;Essa vil
+alforreca...&mdash;Diz-se
+que no sal&atilde;o dos Navegantes se
+dava tudo o que se podia dar&mdash;e que n&atilde;o lhe
+pertencia: logares, negocios e empregos. Talvez.
+Mas se n&atilde;o teve a grandeza de resistir aos homens,
+conteve os interesses fataes dentro de certos
+limites. N&atilde;o podendo ser nem um santo nem
+um genio, manteve essa linha de superioridade,
+chegando, mais tarde, a ser uma figura. Sentado
+na cadeira de rodas, o velho obstinado, n'uma
+sociedade a liquifazer-se, resistiu at&eacute; &aacute; ultima,
+e
+adquiriu relevo e grandeza como se os alicerces
+fossem de pedra. Foi dono do paiz, dictou a lei,
+e, arredado e sempre lucido, leu no futuro pronunciando
+algumas phrases que a historia ter&aacute;
+de registar...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Junho&mdash;1902.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Contava o marquez de Ficalho, pae deste Ficalho,
+e que era vivo ainda ha quinze annos,
+o seguinte caso, que mostra bem o medo que
+D. Jo&atilde;o VI tinha a Carlota Joaquina. Um dia o
+<span class="pagenum">[97]</span>
+D. Jo&atilde;o VI, ia de sege para Cintra, Queluz, ou
+n&atilde;o sei para onde. Ao lado galopava o Ficalho,
+com dezasseis annos, cavalari&ccedil;o do rei. De repente,
+ao longe, avista-se na estrada uma nuvem
+de p&oacute;, e o rei, deitando a cabe&ccedil;a de
+f&oacute;ra
+da sege, brada:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Parem! para traz que ahi vem a p...!
+<br />
+
+<br />
+
+A p...&mdash;era a mulher. As palavras s&atilde;o textuaes.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="illustration"><a name="f7" id="f7"></a><img style="border: 1px solid ; width: 500px; height: 725px;" alt="Fernandes Thomaz." title="Fernandes Thomaz." src="images/fig10.png" /><br />
+
+<em>Fernandes Thomaz.</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">
+Mar&ccedil;o&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Diz o Abel d'Andrade:
+<br />
+
+<br />
+
+Dos oito mil contos de deficit, quatro mil
+&eacute; a casa real que os gasta. Que ministerio tem
+for&ccedil;a para se imp&ocirc;r ao rei? Ambos os chefes
+est&atilde;o com medo ao Jo&atilde;o Franco...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Arroyo queria atacar o rei nas camaras. Houve
+mosquitos por cordas para o dissuadirem...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Sabem quanto faz o Arroyo por anno? Dez
+contos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[98]</span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O rei foi aqui ha tempos para Setubal, e, depois
+de jantar, bateu o fado com um malandr&atilde;o.
+O Duval Telles, no outro dia, ao jantar, aludiu
+ao de leve ao caso, achando-o improprio. &Aacute; noite
+encontrou na mezinha de cabeceira uma carta do
+rei com estas palavras: <em>Dispenso-te do meu
+servi&ccedil;o</em>.
+Seis meses n&atilde;o fez servi&ccedil;o; agora, antes da
+rainha partir, pediu-lhe apoquentadissimo a sua
+interven&ccedil;&atilde;o. Outra carta do rei com estas
+palavras:
+<em>Entra outra vez de servi&ccedil;o, mas nunca mais
+me d&ecirc;s conselhos sem t'os pedir</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">
+Mar&ccedil;o&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Alpoim:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Antes de seis meses temos ahi graves acontecimentos...
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Um governo f&oacute;ra dos partidos, uma dictadura
+feroz.
+<br />
+
+<br />
+
+E a proposito dos acontecimentos de Coimbra:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Em Coimbra existem sociedades secretas.
+O governo sabe. Quando foi da espera do Carrilho,
+tinham tudo combinado. Dois grupos fariam
+descarrilar o comboio, apoderando-se dos
+papeis que o Carrilho trazia e matando-o. Entravam
+lentes e estudantes...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[99]</span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Alpoim:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O Mousinho d'Albuquerque antes de morrer
+disse-me:&mdash;O unico homem com quem eu
+poderia ser ministro era com o Jos&eacute;
+Luciano.&mdash;Dantes
+dizia muito mal d'elle. D'uma vez estava
+no Pa&ccedil;o, no v&atilde;o d'uma janella, a dizer cobras e
+lagartos de Jos&eacute; Luciano; o rei, um pouco afastado,
+ouviu-o:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;&Oacute; Mousinho cala-te.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Se incomodo V. Majestade saio d'aqui.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;N&atilde;o, podes estar, mas acaba l&aacute; com a
+conversa.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;E porque &eacute; que o rei n&atilde;o gostava do
+Mousinho?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Se lhe parece! V&ecirc;r sempre o Mousinho a
+seu lado, carrancudo, sem palavra, mas severo
+como um censor... Irritou-se. Quem lhe valeu
+mais d'uma vez foi a rainha.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Abril&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Adri&atilde;o de Seixas, secretario do Banco de
+Portugal:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;J&aacute; por diferentes ocasi&otilde;es o Estado
+tem
+corrido
+o risco de ir a pique. Houve mezes em que
+<span class="pagenum">[100]</span>
+quasi faltou o dinheiro para pagar &aacute; tropa, e
+mais que uma vez o Banco de Portugal se viu
+em transes para arranjar trezentos contos de reis.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Um architecto do Pa&ccedil;o conta que a rainha
+D. Maria Pia fuma constantemente charuto como
+um homem, e atira as pontas para onde calha,
+sobre os sof&aacute;s e os tapetes. Atraz d'ella anda
+sempre um creado de farda, com medo que
+pegue o fogo, a apanhar as pontas. Anno passado,
+antes de ir para o extrangeiro, mandou fazer
+umas obras no Pa&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;E n&atilde;o volto sem estar tudo prompto.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando voltou nem foi vel-as, mas, dias antes
+de ir outra vez para f&oacute;ra, lembrou-se das obras&mdash;e
+mandou deitar tudo abaixo.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;N&atilde;o volto sem estarem concluidas.
+<br />
+
+<br />
+
+As provas dos vestidos s&atilde;o um martirio para
+as pobres costureiras, que mant&eacute;m de joelhos
+duas horas seguidas, pregando-lhe alfinetes.
+Quando as v&ecirc; cahir exhaustas, arranca tudo,
+despeda&ccedil;a tudo...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Alpoim conta:
+<br />
+
+<br />
+
+O rei &eacute; muitissimo bem educado, mas n&atilde;o
+gosta nada que ponham a rainha em primeiro
+<span class="pagenum">[101]</span>
+logar. N&atilde;o se importa com o paiz e julga-se um
+grande rei constitucional. Os ministros para elle
+n&atilde;o existem: s&oacute; ouve e atende o presidente do
+conselho. &Eacute; t&atilde;o governamental que trata
+delicadamente
+os politicos quando estam na oposi&ccedil;&atilde;o,
+mas n&atilde;o conversa com elles. N&atilde;o &eacute; como
+o
+D. Luiz, que &aacute;s vezes fazia-se com os ministros
+contra o presidente do conselho. Chegava a conspirar
+contra o Jos&eacute; Luciano, partidario da alian&ccedil;a
+ingleza, com o Barros Gomes, que era pela
+Alemanha. &Aacute;s vezes andava uma hora de bra&ccedil;o
+dado com o Mariano e Emydio Navarro, sem fazer
+caso do presidente do conselho. E depois
+d'elles sahirem, perguntava-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Olha l&aacute;, quando &eacute; que tu
+p&otilde;es
+f&oacute;ra estes
+gatunos?
+<br />
+
+<br />
+
+O D. Carlos n&atilde;o &eacute; assim: para elle os ministros
+n&atilde;o existem. Trata-os sempre por tu, menos
+quando &eacute; da assignatura. N&atilde;o conserva odios. E
+fica contentissimo se os ministros descomp&otilde;em
+a oposi&ccedil;&atilde;o. Quando foi da
+exhonera&ccedil;&atilde;o do Mousinho
+pelo Dias Costa, este quiz demitir-se e
+queixou-se ao Jos&eacute; Luciano:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;No Pa&ccedil;o todos me fazem m&aacute; cara.
+<br />
+
+<br />
+
+O Jos&eacute; Luciano disse-o ao rei, que protestou:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;N&atilde;o, por mim n&atilde;o &eacute; verdade.
+Quanto
+&aacute;
+rainha que a trate com todas as aten&ccedil;&otilde;es, mas
+que n&atilde;o fa&ccedil;a caso.
+<br />
+
+<br />
+
+E para refor&ccedil;o traz o caso Oliveira Martins:
+O Jos&eacute; Dias Ferreira nunca chegava a presidente
+<span class="pagenum">[102]</span>
+de conselho se o Martins tem cathegoria. Imaginou
+que manejava facilmente o velho rabula&mdash;e
+escolheu-o para taboleta. Enganou-se... O Valbom
+ainda tentou organisar ministerio, mas o
+Martins, sem manha politica, teimou no Jos&eacute; Dias.
+Pois ao fim de dois mezes era elle quem mandava
+e que o queria alijar... No Pa&ccedil;o, nem este
+rei nem o D. Luiz, gostavam do Jos&eacute; Dias;
+apezar d'isso, quando o Martins, aborrecido, se
+fingiu doente, e o Jos&eacute; Dias se queixou, o D.
+Carlos disse ao Arnoso:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Olha l&aacute;, diz ao Joaquim Pedro&mdash;era assim
+que elle o tratava&mdash;que se levante ou que se demita.
+Isto n&atilde;o &eacute; vida.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Diz-se para ahi que o D. Carlos tem o habito
+de mentir, e que pensa em restaurar a monarchia
+no Brazil.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Maio&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os jornaes d'hontem contam que a Rainha D.
+Amelia n&atilde;o quiz receber o presidente Loubet, por
+escrupulos de consciencia. Como &eacute; muito religiosa
+respondeu, quando lhe foram anunciar a visita:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Viajo incognita.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Peor fez ella na Italia. Estava em Napoles,
+<span class="pagenum">[103]</span>
+e o rei mandou-a convidar para ir a Roma.
+Acceitou, e no dia seguinte safou-se para Livorno.
+O governo italiano deu immediatamente ordem
+aos navios que estavam em Livorno&mdash;para
+sahirem uma hora antes da entrada do
+<em>yacht</em>...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Silva Pinto contado por D. Maria Augusta:
+<br />
+
+<br />
+
+O Silva Pinto escrevia de quando em quando
+cartas &aacute; condessa d'Edla, pedindo-lhe dinheiro.
+A condessa architectou um romance: nunca o
+vira e imaginou um poeta pobre, n'umas aguas-furtadas,
+morrendo por ella. E mandava-lhe &aacute;s
+vinte e trinta libras. Um dia viu-lhe o retrato no
+atelier de Columbano...
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Ent&atilde;o este velho &eacute; que
+&eacute;?!...
+<br />
+
+<br />
+
+E n&atilde;o lhe deu mais vintem.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Maio&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje 11 o Arroyo discutiu nos pares a viagem
+da rainha. Acusou-a de n&atilde;o ter querido
+receber Loubet. O Wenceslau de Lima levantou-se
+e negou.
+<br />
+
+<br />
+
+Comentario do Alpoim:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Que havia elle de responder? Mentiu
+como um c&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[104]</span>
+De resto o discurso foi cheio de alus&otilde;es.
+Chegou a isto: a lan&ccedil;ar suspeitas sobre as
+rela&ccedil;&otilde;es
+do Soveral com a rainha. &laquo;Que est&aacute; fazendo
+o snr. Soveral em Paris? Fa&ccedil;am-no recolher
+imediatamente a Londres<sup><a href="#n3">[3]</a></sup>!&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Triste simptoma&mdash;afirma o D. Jo&atilde;o de
+Alarc&atilde;o&mdash;n'um paiz monarchico ninguem se levantou
+para defender o rei. Alguns como o Ayres
+de Gouveia foram cumprimentar o Arroyo;
+outros, como o Jos&eacute; Luciano, sahiram dos seus
+logares e chegaram-se mais para perto, para n&atilde;o
+perderem pitada.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O que n&oacute;s fazemos n&atilde;o &eacute;
+discursos,
+&eacute; historia&mdash;diz
+o Arroyo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Diz-se:
+<br />
+
+<br />
+
+O rei chama nomes ao Arroyo, o Arroyo
+chama-lhe corno...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[105]</span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Alpoim:
+<br />
+
+<br />
+
+O Arroyo chama corno ao rei, o rei chama
+aos outros ladr&otilde;es. Eu sempre queria que me
+dissessem o que elle &eacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A quinta da Bacalh&ocirc;a&mdash;continua o
+Alpoim&mdash;foi
+comprada pela casa de Bragan&ccedil;a. Quem
+faz as obras &eacute; a Casa Real, isto &eacute; o Estado.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Maio&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O rei&mdash;diz hoje D. Jo&atilde;o d'Alarc&atilde;o em
+conversa
+com o Alpoim&mdash;n&atilde;o se importa nada com
+isto. Tom&aacute;ra elle ser kkediva d'este cantinho,
+defendido pelas baionetas inglezas.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O rei tem uma lista celebre a que chama
+<em>a lista dos ladr&otilde;es</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Arroyo volta &aacute; discuss&atilde;o e, a proposito,
+conta-se de novo a historia dos tapetes:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&mdash;Havia em Mafra um grande tapete persa,
+o mesmo que est&aacute; hoje em Vila-Vi&ccedil;osa, por signal
+<span class="pagenum">[106]</span>
+muito mal tratado. Ninguem fazia caso d'elle,
+at&eacute; que um dia disse ao almoxarife que o guardasse.
+Mas fiquei sempre com a impress&atilde;o de
+que era magnifico. Duma vez que D. Carlos apareceu
+extasiado por ter comprado qualquer tapete
+insignificante, lembrei-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;V. Magestade tem em Mafra um muito melhor
+do que esse...
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Ora adeus!
+<br />
+
+<br />
+
+Teimo, chama-se o almoxarife, reclama-se o
+almoxarife e o tapete, e o homem instado apresenta,
+em logar do tapete, dois papelinhos... A
+saber: a ordem de Pedro Victor para entregar o
+tapete e o respectivo recibo. N&atilde;o vi o telegrama
+do rei, mas vi a resposta do administrador da
+casa real: &laquo;Vossa Magestade manda,
+obede&ccedil;o&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+Dahi a dias aparecia o tapete. O Arroyo
+tinha-o lobrigado em Mafra e comprado por
+75$000 ao Pedro Victor. Entregou-o, e est&aacute; hoje
+n'uma parede do palacio de Vila-Vi&ccedil;osa&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Conversa entre o Soveral e o Alarc&atilde;o:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Ninguem diga d'este Soveral n&atilde;o beberei.
+Ainda has-de ser presidente do conselho.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Para qu&ecirc;? Ent&atilde;o tu imaginas que deixo
+a minha situa&ccedil;&atilde;o l&aacute; f&oacute;ra
+por isto? Que mais
+quero eu? Sou par, sou do conselho d'estado
+marquez...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[107]</span>
+E o Alarc&atilde;o conclue:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Acredito que elle n&atilde;o queira. S&oacute; se
+f&ocirc;r
+para arranjar algum negocio, que elle anda muito
+precisado de dinheiro...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Maio&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; certo que o rei falou ao Jos&eacute; Luciano na
+dissolu&ccedil;&atilde;o da camara dos pares, substituindo-a
+por outra em bases diferentes. A noticia foi para
+os jornaes para assustar o Arroyo&mdash;que quer
+fazer outro discurso sensacional contra o rei.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Jos&eacute; Luciano procurou o Arroyo em casa:&mdash;Venho
+pedir-lhe que n&atilde;o fa&ccedil;a o discurso contra
+o rei. &Eacute; um homem na minha edade, perto da
+cova, que lhe pede isto em nome d'interesses superiores.&mdash;Sim
+senhor... se V. Ex.<sup>a</sup> me assevera
+que por traz d'isto n&atilde;o est&aacute; o sr. Hintze
+Ribeiro...
+<br />
+
+<br />
+
+E chorou.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O rei&mdash;diz o Alpoim&mdash;est&aacute;
+contentissimo.
+O discurso era tremendo. O Arroyo afirmava
+<span class="pagenum">[108]</span>
+que o rei pedia dinheiro aos ministros. D'uma
+vez pediu mil e seiscentos contos. Elle proprio,
+quando ministro, lhe deu muitas vezes dinheiro.&mdash;Aqui
+estam as provas!&mdash;E apresentava-as.&mdash;O
+primeiro a ser castigado devo ser eu, porque delinqui.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Junho&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os jornaes trazem a noticia de que o rei
+partiu para o mar no <em>yacht</em> D. Amelia
+e de
+que o duque d'Orleans chega na segunda-feira
+a Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+O rei safou-se de proposito para o mar, para
+o n&atilde;o receber. Do Pa&ccedil;o mandaram ordem para
+se antecipar a festa ao Barbosa du Bocage, na
+Sociedade de Geographia. Tudo porque o rei
+supoz que os acontecimentos de Paris com a
+rainha se relacionavam com imposi&ccedil;&otilde;es da familia
+Orleans.
+<br />
+
+<br />
+
+...Afinal o rei sempre veio do mar e recebeu
+o duque.&mdash;Mas houve o diabo!...&mdash;diz o
+Alpoim.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O Navarro defende-o, senhor Alpoim...
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O Navarro diz hoje bem de mim, como
+amanh&atilde; diz mal&mdash;por doze vintens.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[109]</span>
+<div class="date">Junho&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>Diario de Noticias</em> publica hoje
+esta curiosissima
+informa&ccedil;&atilde;o:
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="tinyl">
+As recep&ccedil;&otilde;es em casa do sr. conselheiro
+Jo&atilde;o Arroyo,
+constituem sempre um acontecimento na nossa sociedade
+elegante. O talento multiforme do illustre parlamentar, que
+&eacute; um artista de ra&ccedil;a, converteu o antigo palacete
+da rua
+do Telhal em uma das residencias mais notaveis de Lisboa,
+tanto sob o ponto de vista da decora&ccedil;&atilde;o dos
+sal&otilde;es, como
+pelas preciosidades do mobiliario e valiosas
+collec&ccedil;&otilde;es de
+arte ornamental que elles encerram.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se encontra ali um &ldquo;bibelot&bdquo; que
+n&atilde;o seja um
+objecto de arte ou n&atilde;o fa&ccedil;a parte de uma
+collec&ccedil;&atilde;o, paciente
+e sabiamente reunida e disposta com perfeito gosto
+e conhecimento. De todos aquelles raros objectos que se
+agrupam pelos tampos dos buffetes, das commodas e dos
+contadores seculares ou nas prateleiras dos armarios e
+&laquo;vitrines&raquo;,
+resalta sempre uma vibrante nota de arte, que
+define o criterio do colleccionador e marca fundamente o
+seu temperamento esthetico. A sala dos xar&otilde;es e dos cobres
+e bronzes esmaltados e &laquo;cloisonn&eacute;s&raquo;
+&eacute; por certo a mais
+bella que existe no nosso paiz, e s&oacute; por si basta para
+aferir
+o elevado grau que occupa o colleccionador no nosso meio
+artistico. Ha, porem, muito mais, t&atilde;o bom ou melhor que
+admirar nas salas do sr. Jo&atilde;o Arroyo, as quaes
+d&atilde;o aos
+&laquo;gourmets do bric-a-brac&raquo; a impress&atilde;o de
+verdadeiros escrinios
+de arte. Nestes casos est&atilde;o a graciosa
+collec&ccedil;&atilde;o de
+figuras e mascaras chinezas, a preciosa exposi&ccedil;&atilde;o
+de leques,
+cujos pannos ostentam as mais lindas illuminuras dos pintores
+francezes do seculo XVIII ou s&atilde;o apenas formados de
+finissimas rendas a ponto, de Allen&ccedil;on ou de Bruxellas;
+os limpidos cristaes da Bohemia e os finissimos vidros de
+Veneza; as raras faian&ccedil;as da China, e de Saxe; as soberbas
+&laquo;boiseries&raquo; da casa de jantar, bello trabalho
+decorativo no
+estylo Renascen&ccedil;a, do architecto Bigaglia, com o seu
+fog&atilde;o
+monumental, o seu grande lustre de ferro forjado e as prateleiras
+dos &laquo;lambris&raquo; repletas de exquisitas pratas,
+faian&ccedil;as
+e cristaes.</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[110]</span>
+<div class="tinyl">Por toda a parte, emfim, desde o
+vestibulo e da galeria
+da escada at&eacute; &aacute;s salas do jogo, quadros a oleo
+das escolas
+italiana, flamenga, hollandeza e franceza, tape&ccedil;arias de
+Gobelins
+e do Oriente, colchas da India e da Persia, tudo
+quanto o persistente e criterioso esfor&ccedil;o de um artista e o
+bom gosto de um homem elegante poude colleccionar, tudo
+chama a nossa atten&ccedil;&atilde;o, que s&oacute;
+encontra ali maior attractivo
+no bondosissimo tracto da illustre dona de casa, a
+sr.<sup>a</sup> D. Maria Thereza Pinto de
+Magalh&atilde;es (Arriaga) e na
+conversa scintillante de seu marido, um dos mais espirituosos
+e interessantes cavaqueadores da nossa sociedade, e
+que tem tido naquella senhora uma valiosa
+collabora&ccedil;&atilde;o
+artistica, assignalada em mais de uma das preciosidades
+que se contem na sua bella residencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Por tudo isto, o
+&laquo;raout&raquo; de hontem esteve
+concorridissimo
+e encantou todos os convidados dos illustres amphitri&otilde;es,
+entre os quaes estavam:
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[111]</span>
+<div class="tinyl">Conselheiro Hintze Ribeiro e esposa,
+ministros da justi&ccedil;a,
+obras publicas, guerra, fazenda, marinha e esposas,
+nuncio de S. S. e secretarios, Rouvier, ministro da Fran&ccedil;a
+e esposa, ministro de Hespanha e esposa, conde e condessa
+de Azevedo, Miguel da Motta e esposa, monsieur e madame
+Bruno, marquez da Foz e filha D. Marianna, duqueza
+d'Avila, condes d'Avila, marquezes de Guell, marqueza de
+Bellas, conselheiro Schroeter e esposa, Costa Pinto e esposa,
+conselheiro Jos&eacute; Vianna, Pedro Diniz e filha, Carlos Ribeiro
+Ferreira e esposa, viscondessa de View e filhas, Jos&eacute;
+Sassetti
+e esposa, viscondes de Santo Thyrso, conselheiro Germano
+Sequeira e esposa, condes de Pa&ccedil;&ocirc; Vieira,
+almirante
+conde de Pa&ccedil;o d'Arcos, Sarrea Prado, conselheiro
+Achilles
+Machado e esposa, conselheiro Jos&eacute; de Azevedo e
+esposa,
+conselheiros Jos&eacute; e Antonio Arroyo, conselheiro Matheus
+dos Santos e esposa e filha, condes de Sabroso, conselheiro
+Jos&eacute; Ribeiro da Cunha e esposa, Jos&eacute; E. de Barros
+e esposa,
+Joaquim Lima, Alberto Braga, Jo&atilde;o de Freitas Rego, F.
+Baerlein e esposa, Albino Freire d'Andrade, viscondes de
+Mangualde, conselheiro Ferreira Lobo Francisco d'Aguiar,
+conselheiro Souza Monteiro, Barbosa Colen, conselheiro
+Deslandes e esposa, Terra Viana, esposa e cunhado, Carlos
+Blanch e esposa, D. Elisa Pinto de Magalh&atilde;es e D.
+Luiza
+Pinto de Magalh&atilde;es, Alberto Monteiro, conde de
+Mesquitella,
+Dr. Furtado e esposa, Virgilio Teixeira, marquezes de
+Funchal, monsenhor Santos Viegas, conselheiro Moraes de
+Carvalho, Henrique Burnay, conselheiro Francisco Mattoso,
+Henrique Anjos e esposa, Carlos Soares Cardoso e esposa,
+conde de Verride, D. Juan de Castro e filha, Condes de
+Tattenbach, Alvaro Rego, conselheiro Po&ccedil;as Falc&atilde;o
+e esposa,
+Jos&eacute; Fernando de Sousa, bar&atilde;o de S. Pedro,
+conselheiro
+Thomaz Rosa, condessa d'Almedina e filha D. Luiza, Antonio
+Caria e esposa, M. Emygdio da Silva, etc., etc.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O que faltou a esta sociedade foi um Balzac,
+que os trouxesse desde a obscuridade e da pobreza,
+que nos contasse o esfor&ccedil;o, as transigencias,
+o talento gasto e o fel gasto, at&eacute; chegarem
+ao poder&mdash;Navarro, filho d'um mestre de musica
+de Bragan&ccedil;a, Mariano pobre, Arroyo pobre.
+Alguem que nos desse a vida occulta, a audacia
+e o descalabro, a chaga politica que os engrandece
+e corroe, que corroeu o proprio Chagas, o
+<span class="pagenum">[112]</span>
+romantico da <em>Morgadinha</em>,
+at&eacute; ao ponto de acabar
+por estas palavras amargas, com o ultimo suspiro:&mdash;A
+vida &eacute; uma comedia!&mdash;Alguem que
+nos mostrasse Arroyo e os seus phantasmas, Mariano
+e os seus phantasmas, Navarro e os seus
+phantasmas.
+<br />
+
+<br />
+
+Como a vida efectivamente transtorna, enxovalha
+e envilece&mdash;se lhe falta ideal, paix&atilde;o, ou
+um forte sentimento que caldeie as figuras e
+as eleve! N&atilde;o, a vida n&atilde;o &eacute; uma
+comedia. A
+vida &eacute; profunda. Elles &eacute; que lidaram apenas com
+inferioridades e interesses mesquinhos. Mariano
+acabou quasi desprezado. O talento n&atilde;o lhe serviu
+de nada. Talvez o prejudicasse... Ha um
+momento tragico na sua vida, aquelle em que
+Jo&atilde;o Chrisostomo d'Abreu e Souza l&ecirc; em plena
+camara a declara&ccedil;&atilde;o, em seu nome e no dos seus
+colegas, de que lhes haviam sido desconhecidos
+os actos irregulares praticados pelo ministro da
+fazenda Mariano de Carvalho. Vejo-o mudo, livido&mdash;com
+um olhar atono, como nunca vi em mais
+ninguem. O sceptico! o sceptico amarfanhado,
+reduzido a trapo, com um golph&atilde;o de desprezo,
+por si e pelos outros, na bocca, com um golph&atilde;o
+de negrume!... Jamais me esquece esta figura,
+que vi morta entre os vivos, sentado n'um
+canto da camara, sem ninguem fazer caso d'elle,
+vendo sem v&ecirc;r, ouvindo sem ouvir, e n&atilde;o tendo
+podido realisar nenhuma das suas
+ambi&ccedil;&otilde;es:&mdash;Deixem-me!
+deixem-me!&mdash;Deixem-no com os seus
+<span class="pagenum">[113]</span>
+phantasmas! Arroyo talvez encontrasse na musica
+um refugio... Navarro, por&eacute;m, acabou no
+mesmo abatimento. Temiam-no&mdash;mas s&oacute; o temiam.
+Arredaram-no. No fim da vida ficava
+horas e horas absorto ou ia para o fundo d'um
+camarote do Gimnasio ouvir musica. Apegara-se&mdash;mau
+simptoma&mdash;aos netos. Desconfio que o
+celebre estadulho n&atilde;o passava d'um espantalho,
+e que era grande a sua sensibilidade:&mdash;Sinto-me
+ferido em pleno cora&ccedil;&atilde;o&mdash;Do
+cora&ccedil;&atilde;o morreu,
+sem nunca o deixarem realisar as suas ambi&ccedil;&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="illustration"><a name="f8" id="f8"></a>
+<img style="width: 500px; height: 686px;" alt="Guerra Junqueiro" title="Guerra Junqueiro" src="images/fig11.png" /><br />
+
+<em>Guerra Junqueiro.</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Metidos n'aquella roda de navalhas foram at&eacute;
+ao fim do combate, luctando sempre. Os que tinham
+de escrever, escrevendo sempre, espremendo
+o cerebro, os que tinham de intrigar, intrigando
+sempre, com a mascara livida e sorrindo
+sempre, ferindo sempre, e cahindo de p&eacute;. Oh
+quem me dera um momento, s&oacute; um momento
+para v&ecirc;r a s&eacute;rie de phantasmas em que se desdobrou
+cada um destes s&ecirc;res, para os l&ecirc;r at&eacute; ao
+amago, para lhes descobrir o instante de cansa&ccedil;o
+e o ponto vulneravel&mdash;rodeados de invejas, de
+odios, de inimigos, que esperavam na sombra e
+n&atilde;o perdoavam um desfalecimento&mdash;uns fingindo-se
+cinicos, sorrindo aos insultos, e cravando
+as unhas na carne at&eacute; ao sangue, como Rodrigo
+da Fonseca Magalh&atilde;es, outros respon
+Metidos n'aquella roda de navalhas foram at&eacute;
+ao fim do combate, luctando sempre. Os que tinham
+de escrever, escrevendo sempre, espremendo
+o cerebro, os que tinham de intrigar, intrigando
+sempre, com a mascara livida e sorrindo
+sempre, ferindo sempre, e cahindo de p&eacute;. Oh
+quem me dera um momento, s&oacute; um momento
+para v&ecirc;r a s&eacute;rie de phantasmas em que se desdobrou
+cada um destes s&ecirc;res, para os l&ecirc;r at&eacute; ao
+amago, para lhes descobrir o instante de cansa&ccedil;o
+e o ponto vulneravel&mdash;rodeados de invejas, de
+odios, de inimigos, que esperavam na sombra e
+n&atilde;o perdoavam um desfalecimento&mdash;uns fingindo-se
+cinicos, sorrindo aos insultos, e cravando
+as unhas na carne at&eacute; ao sangue, como Rodrigo
+da Fonseca Magalh&atilde;es, outros respondendo &aacute;
+audacia
+com audacia, outros sucumbindo ao nojo,
+com estas palavras que j&aacute; surprehendi a alguem
+<span class="pagenum">[114]</span>
+n'um momento supremo:&mdash;N&atilde;o,
+n&atilde;o valia a
+pena!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O mundo politico &eacute; t&atilde;o curioso! O que
+est&aacute;
+&aacute; vista n&atilde;o tem importancia, o que se mostra
+n&atilde;o
+passa de scenario. Para viver aqui dentro &eacute; preciso
+habituar a pelle a todas as alfinetadas e
+afivelar na cara uma mascara perpetua. Este homem
+elogia outro e combate-o a occultas. O que
+se diz nas camaras precisa de ser explicado nos
+corredores, para ser comprehendido. O Cypriano
+Jardim atacou ha dias o governo. Porqu&ecirc;? Estava
+nas colonias a ganhar seis libras em oiro por
+dia e chamaram-no &aacute; metropole. O artigo <em>D.
+Foli&atilde;o</em>
+do Colen fez successo... J&aacute; se diz:&mdash;Escreveu-o
+porque o Mattoso dos Santos lhe n&atilde;o despachou
+uma pessoa de familia. Foi preciso um
+ataque rude, para o ministro lhe dar, antes de cahir,
+um logar n&atilde;o sei onde. Ha politicos que se
+servem de todos os meios: ha-os&mdash;sei eu&mdash;que
+se escrevem cartas anonimas. Parece at&eacute; que
+os ha mais completos... Um franquista barafusta
+hoje nos corredores das camaras, &aacute;cerca
+dum deputado da maioria:&mdash;O que eu admiro
+&eacute; o descaramento de Fulano, que se atreve a
+fazer discursos alli na minha frente, quando
+sabe perfeitamente que trago na algibeira uma
+<span class="pagenum">[115]</span>
+acta em que elle se confessa ladr&atilde;o!&mdash;Este
+mundo tem as suas leis, as suas conven&ccedil;&otilde;es,
+os seus preconceitos, e a sua honra especial. O
+principal &eacute; o que se diz ao ouvido. Aquillo alli nas
+c&ocirc;rtes &eacute; apenas aparato: o Jos&eacute; Luciano
+combina
+tudo com o Hintze, o Alpoim com o Teixeira de
+Souza. Mas surge &aacute;s vezes o inesperado e deita
+a frandulagem de pernas ao ar... A atitude violenta
+do Arroyo explica-se assim: O Arroyo queria
+ser do conselho do Estado, o Hintze prometeu
+nomeal-o, o rei opoz-se. O Hintze teimou&mdash;o
+rei teimou:&mdash;Vae para casa e pensa...&mdash;A
+atitude do Navarro explica-se porque o rei
+nunca o deixou ser par...<sup><a href="#n4">[4]</a></sup>
+D'ahi o odio&mdash;d'ahi
+barafunda... O Jos&eacute; Luciano procurou o Arroyo
+para lhe pedir que n&atilde;o fizesse o discurso contra
+o rei:&mdash;Sou eu, chefe dum grande partido, que
+lhe afirmo que n&atilde;o est&aacute; inutilisado.&mdash;E
+publica
+no
+<em>Correio da Noite</em> o discurso com
+alus&otilde;es &aacute; rainha&mdash;que
+o Alpoim manda retirar do <em>Dia</em>, por
+causa
+do Pa&ccedil;o... Os chefes ainda conservam certa linha,
+mas c&aacute; em baixo v&ecirc;m-se referver os interesses,
+as ambi&ccedil;&otilde;es, os despeitos. O D. Carlos mantem-se
+n'uma atitude que faltou ao D. Luiz&mdash;e &eacute; talvez
+por isso mesmo que o atacam e o acusam. N&atilde;o
+<span class="pagenum">[116]</span>
+intriga. O D. Luiz mais de uma vez propoz ao
+Jos&eacute; Luciano, no tempo de Braamcamp, que organizasse
+ministerio:&mdash;Isso n&atilde;o, meu senhor! E
+vou j&aacute; d'aqui dizel-o ao Braamcamp.&mdash;Tudo
+parece confus&atilde;o, todos os dias a teia se emaranha.
+Ainda ha quem defenda este e aquelle, que
+pertence ao seu partido, por interesse, por camaradagem,
+seja pelo que f&ocirc;r, mas j&aacute; n&atilde;o ha
+ninguem
+que defenda o rei. Alto ou baixo, ao ouvido
+ou em plena rua, s&oacute; se fala no rei... O rei!
+o rei! o rei!...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Junho&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Os Bragan&ccedil;as, dizia o Latino Coelho, ou
+s&atilde;o pedantes ou fadistas.
+<br />
+
+<br />
+
+A este proposito o D. Jo&atilde;o da Camara conta,
+que um dia D. Pedro V leu um discurso &aacute; m&atilde;e,
+dizendo-lhe ella no fim:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O menino ha-de sahir um bom pedante.
+<br />
+
+<br />
+
+Se tarda em morrer acabava odiado.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+E acabava. As grandes figuras moraes s&atilde;o sempre
+uma calamidade para si e para os outros. O
+universo &eacute; amoral, e n&atilde;o ha como os
+acomodaticios,
+com alguma hipocrisia ao seu disp&ocirc;r... Os
+outros s&oacute; fazem a sua desgra&ccedil;a e a
+desgra&ccedil;a dos
+que os rodeiam.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[117]</span>
+<div class="date">Junho&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Pateo de Martel. Um cantinho com uma figueira
+e malvaiscos. Uma fiada de casas e no
+extremo o atelier do Columbano. Por traz a
+quinta... E outra luz diferente, outra atmosphera...
+O mestre, pobre e obstinado, fez alli os
+seus melhores retratos; a senhora D. Maria Augusta,
+n'uma sala de trez metros quadrados, creou
+as suas mais bellas rendas. L&aacute; no fundo morou
+Eugenio de Castro, pobre, morou depois o Justino
+e outros diplomatas ilustres... Alli o mestre,
+como os artistas da Renascen&ccedil;a, experimentou o
+<em>fresco</em>, as tape&ccedil;arias, os
+trabalhos em c&ecirc;ra e prata.
+A senhora D. Maria Augusta sorria-nos com a
+maior bondade e carinho e dizia:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Quando meu pae morreu ficamos sete irm&atilde;os.
+Criei-os a todos.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;E o Columbano?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Esse &eacute; meu irm&atilde;o, meu filho e meu
+mestre.
+Por alli passaram tambem os maiores homens
+de Portugal, de quem o Columbano &aacute;s vezes fala:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O Oliveira Martins contou-me, quando
+veio ao meu <em>atelier pousar</em> para o
+retrato, que
+um dia a rainha o mandou chamar e lhe apareceu
+transtornada:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Salve-nos! salve-nos!
+<br />
+
+<br />
+
+Era depois dos acontecimentos do
+<em>ultimatum</em>.
+<span class="pagenum">[118]</span>
+O Martins procurou ou escreveu&mdash;n&atilde;o me
+lembro&mdash;ao
+Anthero do Quental e elle afastou-se e
+abandonou tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o curiosos os grandes homens contados
+pelo Columbano, que os retratou. Um levava
+um pente na algibeira para compor o cabelo, outro
+pedia para se lhe n&atilde;o ver a careca. O Junqueiro
+era mephistophelico. Aparecia, desaparecia
+logo: n&atilde;o pousava cinco minutos a fio.
+Um dia o Columbano ouviu bater a porta, e
+entrou-lhe no atelier um homem j&aacute; cansado, de
+grossos sapat&otilde;es, apegado a uma bengala, que
+parecia um bord&atilde;o de pedinte:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Disseram-me que gostava de fazer o meu
+retrato e aqui estou...
+<br />
+
+<br />
+
+Era o Anthero. Parecia um cavador, de meias
+grossas de l&atilde; azul&mdash;mas quando falava!... Nunca
+olhou para o retrato.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Est&aacute; prompto?
+<br />
+
+<br />
+
+Foi-se embora como viera...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Junho&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Jos&eacute; de Figueiredo diz-me:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Copiei por minhas m&atilde;os, para o Antonio
+Candido, a carta em que o Soveral &eacute; durissimo
+para os partidos, fala d'alto ao rei e lhe diz que,
+se n&atilde;o tivermos juizo, a Inglaterra tutela-nos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[119]</span>
+<div class="date">Junho&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Ninguem me mete na cabe&ccedil;a que esta rainha
+&eacute; boa pessoa&mdash;diz o Alpoim ao vel-a descer
+o Chiado.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas, quando passa, toda a redac&ccedil;&atilde;o do
+<em>Dia</em>
+corre &aacute; janella, para a cumprimentar, e o Moreira
+d'Almeida, que tem por ella culto e paix&atilde;o, p&otilde;e
+&aacute;
+pressa o chapeu na cabe&ccedil;a, para se ir desbarretar
+n'uma grande cortezia.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Fala-se hoje do Soveral na redac&ccedil;&atilde;o do
+<em>Dia</em>,
+e da amizade que o liga ao rei d'Inglaterra.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;S&atilde;o t&atilde;o amigos que por
+occasi&atilde;o do
+ultimatum,
+ainda Eduardo VII era Principe de Gales,
+este pode prevenil-o da atitude da Alemanha.
+Iam ambos n'um cortejo: o principe, de
+passagem, chegou-se-lhe ao ouvido e s&oacute; lhe disse
+estas palavras:&mdash;A Alemanha est&aacute; comnosco...
+<br />
+
+<br />
+
+O Soveral correu ao telegrapho.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Junho&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Adri&atilde;o de Seixas, que, nos seus tempos
+aureos, entrou em muitas combina&ccedil;&otilde;es de
+finan&ccedil;a,
+<span class="pagenum">[120]</span>
+negociou emprestimos, esteve ligado aos Mosers,
+etc.:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Quasi todos os homens publicos recebiam
+luvas, posso garantir-lh'o. Todos estendiam a m&atilde;o.
+Duma vez trouxe para um, um aparelho de ch&aacute;,
+magnifico, de prata, comprado em Paris. Elle recebeu-o
+e, destapando o assucareiro, afirmou
+com desplante, sorrindo:&mdash;&Eacute; magnifico...
+s&oacute; lhe
+falta o assucar.&mdash;Eu, que j&aacute; ia prevenido, tirei
+das algibeiras alguns rolos de libras, despejei-os
+dentro e perguntei:&mdash;E agora?&mdash;Agora est&aacute;
+optimo.&mdash;E concluiu:&mdash;Voc&ecirc; &eacute; uma
+mercearia
+ambulante!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Junho&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O marquez de Soveral em conversa com o
+Alberto Braga:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;&Eacute; que eu vivo em Londres longe de tudo
+isto... Se me visse for&ccedil;ado a viver em Portugal,
+fazia-me revolucionario.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Tambem o Alpoim diz hoje:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Quem me dera uma revolu&ccedil;&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+E, deante do nosso espanto, explica:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[121]</span>
+&mdash;Para p&ocirc;r o rei no seu logar... Eu n&atilde;o
+tenho
+nada a perder, meus filhos est&atilde;o colocados,
+o que tenho chega-me para viver na Regoa como
+um fidalgo... Era preciso que o rei tivesse medo.
+Mas qu&ecirc;! Agora com a alian&ccedil;a ingleza &eacute;
+muito
+peor. Ainda outro dia dizia o Jos&eacute; Luciano:&mdash;Podem
+vir os republicanos todos juntos, os de c&aacute;
+e os de Hespanha, que n&atilde;o fazem nada. &Eacute; da
+alian&ccedil;a que, se houver qualquer movimento, desembarcam
+tropas e defendem o rei.
+<br />
+
+<br />
+
+E acrescenta:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Eu vi tudo, vi as perguntas e as respostas,
+posso assegurar-lho.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Elle &eacute; mau, &eacute;&mdash;diz o Alpoim
+do rei&mdash;mas
+a gente n&atilde;o tem outro.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Junho&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Abel d'Andrade:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Conhe&ccedil;o muito bem o Hintze. Tem duas
+qualidades magnificas n'um homem, pessimas
+n'um chefe. &Eacute; delicadissimo. Sorri sempre, mesmo
+quando sabe que o enganam&mdash;e nunca resolve
+nada, o que lhe acarreta dificuldades, que v&atilde;o
+<span class="pagenum">[122]</span>
+crescendo &aacute; medida que elle as adia. Tem outro
+defeito enorme; n&atilde;o &eacute; capaz de dizer
+<em>n&atilde;o</em>
+peremptoriamente a ninguem.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Junho&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Emygdio Navarro est&aacute; furioso com o rei.
+Sentiu immenso que o n&atilde;o convidassem para nenhuma
+das festas dadas ao rei d'Inglaterra&mdash;quando
+foi elle que iniciou, defendeu e preparou
+a alian&ccedil;a anglo-portugueza.
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Junho&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Estive hoje em casa do juiz Veiga, l&aacute; para o
+Rato, por causa d'uma querela do
+<em>Dia</em>. &Eacute; um homem
+atarracado e forte, com um ar de falsa bonhomia.
+Ha n'elle n&atilde;o sei qu&ecirc; de inquisidor e
+de satiro, e &eacute; t&atilde;o desconfiado, que, logo que eu
+entro, pousa sobre os papeis da secretaria uma
+larga folha azul, com medo que lh'os leia. Na sala,
+de cadeiras doiradas de palhinha e
+<em>consoles</em> com
+gatos de vidro, ha varios mostrengos em
+exposi&ccedil;&atilde;o:
+o retrato delle e retratos de familia, temerosos,
+o busto do rei D. Carlos em marmore e outro
+n&atilde;o sei de quem, ambos de arripiar. E, entre
+<span class="pagenum">[123]</span>
+a papelada que trasborda e estas coisas de mau
+gosto, o juiz Veiga fuma n'um cachimbo d'espuma
+com uma mulher em p&ecirc;lo...
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; este o homem que sabe tudo e pode tudo,
+que conhece os segredos das familias e os segredos
+da politica. N'outro dia obrigou um janota a
+entregar-lhe as cartas, que comprometiam uma
+mulher casada. Contam-se mais casos curiosos.
+&Eacute; omnipotente e omnisciente. Comanda, diz-se,
+bufos ilustres de quem ninguem suspeita. Tem
+um cofre sem fundo &aacute; sua disposi&ccedil;&atilde;o
+para distribuir
+dinheiro a rodos. Acode a desgra&ccedil;ados.
+Tortura&mdash;verdade ou mentira?&mdash;no fundo das
+celulas alguns presos politicos para lhes arrancar
+segredos. Ainda ha tempos me contaram que ao
+Jos&eacute; do Valle n&atilde;o o deixaram dormir sem elle
+confessar tudo...&mdash;&Eacute; uma especie de Pina Manique,
+que pouco abusa do seu lugar e da sua
+autoridade. Afirmam-no bondoso. Ha at&eacute; quem
+o diga uma especie de Providencia. &Eacute; incontestavelmente
+um homem esperto, que protesta:&mdash;Quero-me
+ir embora antes que tudo isto desabe.
+Esta gente n&atilde;o sabe ou n&atilde;o quer defender-se...
+<br />
+
+<br />
+
+Fala baixinho, sem me olhar nos olhos e resolve
+n'um prompto, como quem n&atilde;o encontra
+nunca obstaculos. Quando saio, no patamar da escada,
+surprehendo duas creadas de avental sujo
+e chinelos esbei&ccedil;ados, que d&atilde;o de comer,
+&aacute;s escondidas,
+a um policia. Enganam-no na sua propria
+casa e deitam a fugir quando me v&ecirc;em.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[124]</span>
+<div class="date">Junho&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O artigo de hontem, das <em>Novidades</em>,
+sobre a
+mortandade da Servia, cheio d'alus&otilde;es ao rei,
+fez sensa&ccedil;&atilde;o. E dizia-se por ahi:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Quando se faz c&aacute; o mesmo?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Foi uma limpeza!&mdash;phrase do Alpoim.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Beir&atilde;o:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O Alpoim n&atilde;o quer v&ecirc;r que o partido do
+Jo&atilde;o Franco, apezar de pequeno, &eacute; um partido
+de protesto. Qualquer dia o rei chama-o e d&aacute;-lhe
+os mesmos poderes que tem dado ao Hintze ou
+ao Jos&eacute; Luciano.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Junho&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Judice Bicker, casado com uma filha do Andrade
+Corvo, conta, a proposito do rei e do poder
+pessoal:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Possuo diferentes cartas do D. Luiz, e entre
+ellas uma ao Corvo, pedindo-lhe que apresente
+certa proposta, mas de maneira que n&atilde;o
+pare&ccedil;a <em>poder pessoal</em>...
+Os homens desse tempo
+impunham-se. Um dia ao D. Augusto meteu-se-lhe
+em cabe&ccedil;a casar com uma infanta d'Hespanha.
+Era no tempo em que se falava muito na
+<span class="pagenum">[125]</span>
+uni&atilde;o iberica. O Corvo opoz-se, apesar da insistencia
+desesperada do infante. Por ultimo procurou-o
+e disse-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Escusa de insistir, que n&atilde;o casa. &Eacute;
+pelo
+bem do paiz.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Corvo foi um dos primeiros estadistas a pensar
+a serio na Africa e no seu engrandecimento.
+Quiz augmentar o territorio de Angola e estabelecer-lhe
+os limites, d'acordo com a Inglaterra.
+Tudo era possivel n'esse tempo e tinhamo-nos livrado
+de dificuldades, do Estado livre do Congo,
+etc. Avan&ccedil;avamos um seculo, se elle n&atilde;o cae por
+causa do tratado de Louren&ccedil;o Marques. Deitaram-no
+a terra, espalhando que recebera milh&otilde;es.
+Eu que casei com a filha, sei o que elle deixou!...
+<br />
+
+<br />
+
+Nas camaras o governo d'ent&atilde;o declarou que
+o tratado n&atilde;o tenha ido a conselho de ministros.
+O Andrade Corvo possuia o tratado com anota&ccedil;&otilde;es
+do punho de Fontes e Thomaz Ribeiro.
+Apesar d'isso calou-se. Se fosse hoje!...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Junho&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O rei tem pensado. E tanto que o infante
+quiz ir agora ao estrangeiro e pediu dinheiro ao
+Hintze, que lhe respondeu:&mdash;Pe&ccedil;o-lhe que
+desista.&mdash;O
+<span class="pagenum">[126]</span>
+infante rasgou a carta furioso. Com a
+Maria Pia sucedeu o mesmo. Essa inventou uma
+doen&ccedil;a d'olhos e preveniu o D. Carlos de que
+precisava de ir ao estrangeiro. Resposta do
+rei:&mdash;C&aacute;
+ha um bom especialista.&mdash;Mandou-lho, e elle
+disse ao rei que a Maria Pia n&atilde;o tinha nada.
+A Maria Pia insistiu, n'um desespero, e o rei mandou-lhe
+o Antonio Lencastre. O rei tem pensado...
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Se isso fosse verdade!&mdash;exclama o Alpoim.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Junho&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Esta tarde sahiu dos Martires, mesmo em
+frente do <em>Dia</em>, a
+prociss&atilde;o do Corpo de Deus.
+Todos &aacute; janella cahiram de joelhos&mdash;quando o
+bispo de Trajanopolis passou, a barba loura,
+muito cuidada, e um capachinho no alto da cabe&ccedil;a,
+apartado ao meio... O Alpoim exclamou:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;&Oacute; que maroto! Foi a este que o Barros
+Gomes,
+quando ministro, disse um dia: Ajoelhe a
+meus p&eacute;s! Pe&ccedil;a perd&atilde;o!&mdash;Tinha
+hypothecado l&aacute;
+f&oacute;ra os rendimentos do curia por noventa annos!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Junho&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O D. Jo&atilde;o da Camara conta que no Algarve
+encontrou em todas as casas dois retratos&mdash;o de
+Jo&atilde;o de Deus e o do Remexido. E a proposito diz
+<span class="pagenum">[127]</span>
+que um tio de Coelho de Carvalho levava j&aacute; a
+galope o comutamento da pena do Remexido,
+quando o fuzilaram. E termina:&mdash;A Angela
+Pinto &eacute; neta do Remexido. Aposto que n&atilde;o sabiam!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Julho&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Vou pedir um logar que est&aacute; vago no Supremo
+Tribunal&mdash;disse um patusco ao Mar&ccedil;al
+Pacheco.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;De juiz?!
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Isso.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Mas voc&ecirc; endoideceu! N&atilde;o lh'o
+d&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Isso sei eu.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Mas ent&atilde;o porque &eacute; que o pede?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;J&aacute; pedi umas poucas de coisas, vou pedir
+mais esta. Recusam-ma, j&aacute; sei, mas &eacute;
+<em>capital</em> de
+queixa que amont&ocirc;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Alpoim:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Um dia o cardeal patriarcha convidou-me
+para jantar. Estavam muitos bispos. S&atilde;o jantares
+que nunca acabam, de quinze pratos, servi&ccedil;o
+esplendido&mdash;e n&atilde;o calcula a impress&atilde;o
+que eu
+senti, no fim, quando elles se levantaram muito
+<span class="pagenum">[128]</span>
+congestionados, cheios de vinhos magnificos, mamando
+charutos enormes e com as saias arrega&ccedil;adas...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">
+Setembro&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Henrique de Vasconcellos, genro do Navarro,
+contou-me hoje que o Pa&ccedil;o por trez vezes
+mandou insistir com o sogro, para elle n&atilde;o continuar
+com os ataques nas <em>Novidades</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">
+Outubro&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Alpoim recomenda no <em>Dia</em> que se
+n&atilde;o publique
+nada que possa ferir as susceptibilidades
+da c&ocirc;rte hespanhola. Afonso XIII est&aacute;
+desconfiadissimo.
+Al&eacute;m d'isso o nosso rei e rainha de
+Hespanha n&atilde;o se podem ver: t&ecirc;em um pelo outro
+odio figadal.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Um coronel inglez, que ahi esteve, veio por
+ordem do seu governo v&ecirc;r em que estado
+tinhamos as fortifica&ccedil;&otilde;es de Lisboa. Examinou
+tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="illustration"><a name="f9" id="f9"></a><img style="width: 500px; height: 566px;" alt="Jos&eacute; Luciano encerra o Parlamento.&mdash;Caricatura inedita de Celso Herminio." title="Jos&eacute; Luciano encerra o Parlamento.&mdash;Caricatura inedita de Celso Herminio." src="images/fig12.png" /><br />
+
+<em>Jos&eacute; Luciano encerra o Parlamento.</em>&mdash;Caricatura
+inedita de
+Celso Herminio.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[129]</span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Com as festas de Afonso XIII encheu-se muita
+gente. Um regabofe. Da ilumina&ccedil;&atilde;o da Avenida
+diz-se:&mdash;Dos Restauradores para cima dirige o
+Costa Pinto, dos Restauradores para baixo digere
+o...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ao ouvido conta-se que o rei de Hespanha e
+os que o acompanhavam tro&ccedil;aram tudo isto: o
+paiz, a c&ocirc;rte, as festas. De manh&atilde;, no quarto,
+emquanto
+elle tomava caf&eacute; ou chocolate, os particulares
+e os intimos maldiziam, n'uma chacota
+pegada... S&oacute; o rei, fracamente, se opunha.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">
+Outubro&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O D. Jo&atilde;o da Camara conta o seguinte:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O D. Luiz deu, at&eacute; pouco antes de morrer,
+trezentas libras por mez &aacute; Rosa Damasceno. Todos
+os dias 10, 20 e 30, o Nazareth lhe entregava
+<span class="pagenum">[130]</span>
+cem libras em oiro, que elle nem sequer contava:
+mandava-as logo &aacute; Rosa. Morreu no dia 19 de
+Outubro: pois no dia 10 ainda lhe mandou o dinheiro.&mdash;E
+o Braz&atilde;o?&mdash;Cuido que n&atilde;o s&atilde;o
+casados,
+apezar do que por ahi se diz. O que &eacute; certo
+&eacute; que antigamente, as coisas arranjavam-se por
+forma que a Rosa e o Braz&atilde;o nunca entravam
+na mesma pe&ccedil;a, e um d'elles ia sempre passar
+a noite ao Pa&ccedil;o. O D. Luiz dizia do
+Braz&atilde;o:&mdash;&Eacute;
+o meu melhor amigo. A Rosa nunca abusou
+da situa&ccedil;&atilde;o: apenas empregou dois ou tres homens
+e o D. Luiz sentia por ella verdadeira ternura.
+Traduziu-lhe a <em>Odette</em> e assistia aos
+ensaios.
+A Maria Pia sabia tudo. Um dia deixou no quarto
+do Pa&ccedil;o onde a Rosa costumava ficar, um len&ccedil;o
+de rendas a tapar a fechadura. &Aacute;s vezes o D. Luiz
+apresentava-lhe joias para ella escolher e depois
+levava-as &aacute; Rosa. E ia com a rainha ao theatro,
+para que ella visse o efeito das joias no colo da
+actriz.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">
+Outubro&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Vi eu, vi eu!&mdash;exclama o Antonio Jos&eacute; de
+Freitas&mdash;o Oliveira Martins, n'uma sala, deslumbrado,
+solicitar a apresenta&ccedil;&atilde;o d'um janota qualquer,
+d'um janota banal.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[131]</span>
+<div class="date">Dezembro&mdash;1903.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Adri&atilde;o de Seixas, secretario do Banco de
+Portugal:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;N&atilde;o se fazem descontos, porque n&atilde;o ha
+dinheiro
+e o Banco j&aacute; recorreu &aacute;s reservas de prata.
+O governo est&aacute; sempre a pedir dinheiro. Imagine
+o meu amigo que todos os annos ha um
+<em>deficit</em>
+de 7:000 contos. Ninguem tem a coragem de dizer
+as coisas como ellas s&atilde;o e por isso se faz um
+or&ccedil;amento falsificado. Resultado: como o
+or&ccedil;amento
+&eacute; falso, pode-se roubar &aacute; vontade!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Jos&eacute; Luciano est&aacute; a morrer. O que ahi vae
+com a chefia do partido progressista! Ao Antonio
+Candido n&atilde;o o tragam os progressistas, ao
+Beir&atilde;o n&atilde;o o quer o Pa&ccedil;o, nem o
+Navarro, nem
+o Mariano. Lan&ccedil;a-se o nome de Antonio Candido
+para encobrir o seguinte proposito: presidente
+do conselho o Mathias de Carvalho, com
+o Alpoim na pasta do reino.
+<br />
+
+<br />
+
+Mathias de Carvalho &eacute; uma figura decorativa,
+sempre de palito na bocca e de miolos empedernidos,
+que ficar&aacute; na presidencia e estrangeiros.
+Esta solu&ccedil;&atilde;o &eacute; preferida pelo Navarro
+e pelo
+<span class="pagenum">[132]</span>
+Mariano. De Mathias apenas se sabe que &eacute; incapaz:
+como diplomata foi quem deu ensejo a
+esfriarem-se as rela&ccedil;&otilde;es com a Italia.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Se o Jos&eacute; Luciano morrer &eacute;
+&aacute;
+facada!&mdash;exclama
+o Alpoim.
+<br />
+
+<br />
+
+Morrer era ainda&mdash;Deus me perdoe!&mdash;uma
+solu&ccedil;&atilde;o... Peor ser&aacute; conserval-o na
+cadeira de
+rodas, obstinado, querendo mandar, e os herdeiros
+&aacute; espera do testamento. Toda a politica
+portugueza vae girar em volta d'este leito de enfermo,
+onde o velho continua a dar ordens imperiosas.&mdash;Hoje
+deitou um litro de pus pela pelle.&mdash;Est&aacute;
+salvo!&mdash;Morre!&mdash;Fica invalido!&mdash;Tem
+sifilis!&mdash;Nesta altura da politica portugueza, &eacute;
+elle quem manda tudo. Que o diga, o Jos&eacute; d'Azevedo,
+por exemplo, que o n&atilde;o pode v&ecirc;r, porque
+o Jos&eacute; Luciano o n&atilde;o deixou realizar as suas
+preten&ccedil;&otilde;es.
+&Eacute; na sua casa que se resolvem as quest&otilde;es
+maximas. A politica &eacute; pelo menos n'uma
+grande parte, na melhor parte, representada nos
+bastidores... &laquo;Vejam a vergonha desta gente!
+O Campos Henriques vae a casa do Jos&eacute; Luciano
+com o Julio de Vilhena, para conseguir que
+as emendas do codigo civil passem. N&atilde;o passam
+e elle fica no ministerio! O Teixeira de Souza vae
+l&aacute; todas as semanas. N&atilde;o, este Hintze... Eu
+palavra
+de honra antes queria ser ladr&atilde;o d'estrada!...&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Outro facto extraordinario da nossa politica:
+&eacute; sempre no campo adverso que estes homens
+<span class="pagenum">[133]</span>
+tem mais radicadas amizades. E tambem se percebe
+nitidamente que no fundo da lucta s&oacute; ha
+uma for&ccedil;a, o rei. Por isso mesmo o rei &eacute; sempre
+o culpado. Quem tudo manda &eacute; o
+Pa&ccedil;o&mdash;dizem
+todos os politicos&mdash;e tanto mais que n&atilde;o ha um
+nucleo de resistencia no paiz. Os republicanos
+n&atilde;o est&atilde;o organizados e o Pa&ccedil;o nem
+sabe o
+que p&oacute;de. Uma revolu&ccedil;&atilde;o no paiz
+&eacute;, segundo
+a opini&atilde;o geral, impossivel, a n&atilde;o ser que se
+succedam trez annos de fome.&mdash;Tudo quanto se
+faz de mau &eacute; o rei quem o faz...&mdash;Ainda hoje
+ouvi esta conversa:&mdash;Foi o Hintze quem disse ao
+Arroyo, como disse ao Mariano e ao Navarro.
+&laquo;&Eacute; el-rei que n&atilde;o quer&raquo;.
+Nunca lh'o deveria ter
+dito.&mdash;Os politicos inutilisam-no e inutilizam-se.
+Todos os dias inventam novas atoardas. Hoje a
+proposito d'uma nota oficiosa que o ministro
+da fazenda fez publicar no <em>Noticias</em>,
+no <em>Seculo</em> e
+no <em>Diario</em>, anunciando um grande
+emprestimo
+no estrangeiro, conta-se que &eacute; um negocio de
+acordo com a casa Fonseca, Santos &amp; Viana,
+que tinha comprado fundos. Acusa-se o Teixeira
+de Souza de conivencia. Mas j&aacute; a 2 de junho
+o Alpoim afirma:&mdash;Quem n&atilde;o deixa passar o
+emprestimo &eacute; o Burnay. N'outro paiz devia ter
+a cabe&ccedil;a cortada. No ministerio da fazenda ha
+documentos que provam as suas maquina&ccedil;&otilde;es no
+estrangeiro. Elle manda em tudo:&mdash;manda no
+Credito Predial, no Banco de Portugal, na Companhia
+Real. &Eacute; uma desgra&ccedil;a que o emprestimo
+<span class="pagenum">[134]</span>
+n&atilde;o passe. Temos n&oacute;s de o fazer e em que
+condi&ccedil;&otilde;es!...
+E tudo isto com que fim? E o Burnay
+a ver se obriga os progressistas ao contracto dos
+tabacos.&mdash;A esta trapalhada juntem a doen&ccedil;a do
+Jos&eacute; Luciano e as ambi&ccedil;&otilde;es, que
+levantam a cabe&ccedil;a,
+a guerra de sapa que se encarni&ccedil;a.&mdash;Hoje deitou
+mais pus!&mdash;Morre!&mdash;Com quem est&aacute; o
+Pa&ccedil;o?&mdash;O
+Moreirinha com a algalia n&atilde;o lhe sae da
+cabeceira.&mdash;Quem
+vae ao poder? O Jo&atilde;o Franco?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Nem elle sabe a guerra oculta que eu lhe
+tinha feito. Ha-de pagar-me caro o discurso que
+fez contra mim: Viva a folia, dan&ccedil;ar! dan&ccedil;ar!...
+S&atilde;o mil os interesses, mil as
+ambi&ccedil;&otilde;es.&mdash;Tudo
+menos o Beir&atilde;o, que s&oacute; tem por si a gente velha,
+a gente conhecida pelos <em>batibarbas</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o velho teimoso e perspicaz, n&atilde;o admite
+sequer a id&eacute;a de que alguem, que n&atilde;o seja elle,
+v&aacute; ao poder. At&eacute; &aacute;
+ultima&mdash;ambi&ccedil;&atilde;o ou
+grandeza?&mdash;ha-de
+disputar e mandar, como o Alpoim,
+at&eacute; ao ultimo suspiro, ha-de conspirar.
+Aqui, &aacute; roda d'esta agonia, n&atilde;o se discutem
+apenas
+os interesses d'uma familia. O drama &eacute; maior:
+s&atilde;o os interesses dos partidos, com mil e uma
+ambi&ccedil;&otilde;es
+e enredos que nem sequer se suspeitam.
+A confus&atilde;o augmenta, redobra. O Ressano Garcia
+comanda o ataque, &aacute; frente dos
+<em>batibarbas</em>,
+contra o Alpoim, e o Alpoim, que ainda hontem
+atacava o Jo&atilde;o Franco, j&aacute; hoje (Janeiro 1904)
+diz,
+depois do conluio feito pelo Silva Gra&ccedil;a:&mdash;Com
+esse me entendo eu!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[135]</span>
+<div class="date">Fevereiro&mdash;1904.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Hontem, ter&ccedil;a-feira de entrudo, assisti ao espectaculo
+em S. Carlos. Estava tudo, o rei, a rainha,
+a c&ocirc;rte... Senhoras decotadas com os vestidos
+presos aos hombros por uma fita. A D. Amelia
+de vermelho. Andava no ar uma bola enorme de
+borracha, e ao janota que quiz saltar dentro d'um
+camarote tiraram-lhe as botas dos p&eacute;s. Mas a risota,
+a chala&ccedil;a, a delicia, era um penico em miniatura,
+que passava de m&atilde;o em m&atilde;o, por entre
+as grosserias, que &eacute; do uso antigo as senhoras
+dizerem umas &aacute;s outras na ter&ccedil;a-feira gorda.
+O fundo d'estes risos vem sempre da mesma
+palavra pegajosa: merda! merda! merda! O rei,
+gordo e louro, soprava por um canudo setas de
+papel, botando o olho de revez, e houve um momento
+em que o infante mostrou do camarote
+o quer que era de borracha, um canudo cheio de
+vento, immenso e obsceno. Foi um delirio entre
+aquellas cabe&ccedil;as empoadas, na gente da alta roda
+de que se contam baixinho os escandalos.
+<br />
+
+<br />
+
+Ou&ccedil;am um destes rapazes que est&atilde;o na plateia,
+e que falam das senhoras, como quem fala
+com desprezo das mulheres da Antonia. Muita
+desta gente n&atilde;o se sabe aonde vae buscar o
+dinheiro. &Eacute; um misterio. Aquelle louro e correcto,
+<span class="pagenum">[136]</span>
+que est&aacute; al&eacute;m n'uma atitude romantica,
+ainda ha dias quiz extorquir alguns contos de
+reis, para o jogo, a uma mulher casada. Outro s&oacute;
+vive da roleta. Mais al&eacute;m, o herdeiro de um nome
+ilustre, tem um modesto logar na alfandega, e a
+mulher usa brilhantes esplendidos. Aquelle, acol&aacute;,
+t&atilde;o decorativo, &eacute; conhecido pelo conde de
+Monta-a-Velha.
+S&atilde;o raros os que n&atilde;o t&ecirc;m alcunhas.
+A uma senhora de perfil soberano chamam-lhe a
+Vareira. Outra tem um sobriquet infame. Deste
+e de aquella diz-se alto a chronica escandalosa.
+A mulher do S. deu este anno grande escandalo
+em Cintra. Outra foi apanhada aos beijos a um
+embaixador. Com aquella, mais al&eacute;m, fina como
+uma cobra, e que ostenta um colar magnifico,
+puzeram-se os B. de mal, acusando-a de lhes ter
+roubado uma carteira com trezentos mil reis,
+depois de terem sido todos seus amantes. A mulher
+do J... deixa o marido, p&eacute; de boi rico que
+s&oacute; lhe serve para puxar &aacute; nora, e
+gasta-lhe a
+rodos o dinheiro que juntou. Eis esta m&atilde;e viciosa
+com a filha ao lado&mdash;de olhos limpidos e
+innocentes. Peor, ha peor... E mais esta&mdash;e
+mais esta&mdash;e mais esta condessa, que n'outro
+dia foi apanhada no comboio n'uma atitude peor
+que equivoca...
+<br />
+
+<br />
+
+Puz-me a ouvir, a ouvir,&mdash;verdade? mentira?&mdash;e
+lembrei-me ao mesmo tempo da c&ocirc;rte
+da senhora D. Carlota Joaquina e da <em>Chartreuse
+de Parma</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[137]</span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O general Lencastre de Menezes:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Se o 31 de Janeiro fosse agora as coisas
+n&atilde;o se tinham passado assim...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Mar&ccedil;o&mdash;1904.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Morreu um dia d'estes um preto riquissimo,
+que quiz por for&ccedil;a passar por branco, o que lhe
+custou os olhos da cara. Se teima em viver mais
+algum tempo acabava a pedir. Rodeara-se d'uma
+corte que lhe custava carissima: lisongeavam-no
+e rapavam-lhe o cofre at&eacute; ao fundo. Depois inventavam-lhe
+processos, depois demandas... Depois
+sopravam-lhe &aacute; vaidade incomensuravel. E o
+preto sorria, o preto dizia sempre que sim. Tinham-no
+casado com uma linda rapariga branca&mdash;e
+o preto, &aacute; farta, pagara tudo, dotara tudo, a
+noiva, os paes da noiva, os parentes da noiva...
+E cada vez mais brancos lhe faziam a c&ocirc;rte e o
+enredavam n'uma vasta teia de interesses, com
+muitas zumbaias e papel selado.
+<br />
+
+<br />
+
+Um dia foi a Inglaterra e quiz viajar como um
+principe branco: comprou um <em>yacht</em> de
+luxo para
+ir a S. Thom&eacute;. Cincoenta contos. Na volta n&atilde;o
+<span class="pagenum">[138]</span>
+havia carv&atilde;o a bordo e deitaram-se a queimar a
+madeira entalhada, os doirados do barco, as portas,
+os sal&otilde;es, as molduras. E o preto sorria.
+Quando chegou a Lisboa vendeu o barco por
+uma c&ocirc;dea.
+<br />
+
+<br />
+
+Rodearam-no mais brancos, apareceram-lhe
+mais brancos infatigaveis, pressurosos, obsequiadores.
+E mais papel selado, mais contractos e
+procura&ccedil;&otilde;es
+para assignar&mdash;o enredo, a teia subtil
+em que o negralh&atilde;o foi arrastado e envolvido, o
+verdadeiro, o authentico drama, emfim, do preto
+que quer ser branco... Se elle tinha por acaso
+um sobresalto, falavam-lhe logo &aacute; vaidade ou davam-lhe
+noticia d'uma coisa que se chama o Codigo,
+a Lei, a Formula, e o preto, que n&atilde;o comprehendia
+e que se sentia feliz, submetia-se sem
+contestar, com uma grande satisfa&ccedil;&atilde;o por fazer
+parte d'esta ra&ccedil;a ilustre e respeitada de brancos,
+por ser visconde, por pertencer &aacute; c&ocirc;rte e
+&aacute; alta
+sociedade elegante.
+<br />
+
+<br />
+
+...Antes de morrer l&aacute; lhe deram o ultimo
+golpe&mdash;de preto. Os brancos ficaram-lhe com as
+ro&ccedil;as, e as propriedades de S. Thom&eacute; foram
+transferidas para uma sociedade por quotas. &Eacute;
+o que consta por ahi, emquanto o negralh&atilde;o
+estoira com uma pneumonia dupla&mdash;e l&aacute; em casa
+se toca desaforadamente piano, com as janellas
+abertas de par em par.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[139]</span>
+<div class="date">Mar&ccedil;o&mdash;1904.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+As obras da sala de jantar do Pa&ccedil;o das Necessidades
+custaram 180 contos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Abel d'Andrade contou-me que a modista
+da mulher lhe dissera que a mulher do
+Hintze lhe devia l&aacute; uma capa ha mais dum
+anno.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Mar&ccedil;o&mdash;1904.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Celso morreu ha um mez n'um dia de chuva
+como este. Mas, quando o caix&atilde;o chegou ao
+p&eacute;
+da cova, luziu o sol no alto. O ar parecia novo e
+no vasto campo dos tumulos agitaram-se as cabe&ccedil;as
+amarellas dos malmequeres. Os passaros
+come&ccedil;aram a cantar. E viu-se logo o Brito Aranha,
+de pera branca, dar um passo em frente e
+fazer um discurso:&mdash;O amigo... o camarada...
+descan&ccedil;a em paz.&mdash;Depois o Cunha e Costa falou
+na nossa decadencia, e por fim o Carneiro
+de Moura mastigou tambem uma banalidade...
+Sentia-se que tudo aquilo era posti&ccedil;o. Mas os
+passaros n&atilde;o cessavam de cantar&mdash;e a meu lado o D.
+Jo&atilde;o da Camara suspirou baixinho:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[140]</span>
+&mdash;Quem me dera que quando eu morrer s&oacute;
+o saibam meia duzia de amigos!...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Abril&mdash;1904.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Ovidio d'Alpoim &aacute;cerca da D. Maria Emilia
+Seabra de Castro:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Mete-se em tudo. D'uma vez eu e o Jos&eacute;
+Luciano estavamos a discutir umas altera&ccedil;&otilde;es
+&aacute;
+Carta Constitucional e ella come&ccedil;ou do lado a
+dar a sua opini&atilde;o. O Jos&eacute; Luciano mandou-a
+embora.
+D'outra vez sahia eu de casa do Jos&eacute; Luciano
+com o Antonio Candido e vinhamos &aacute;
+porta da sala grande, quando ella do alto da
+galeria:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;&Oacute; senhor Antonio Candido ent&atilde;o agora
+&eacute;
+que vae para Amarante, quando &eacute; c&aacute; preciso?
+E &eacute; para isto que n&oacute;s os fazemos pares e os
+enchemos
+de honrarias?...
+<br />
+
+<br />
+
+O Antonio Candido n&atilde;o respondeu. Ficou
+t&atilde;o vexado que, de casa at&eacute; &aacute; baixa,
+n&atilde;o trocamos
+palavra.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Mar&ccedil;o&mdash;1904.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+As filhas de D. Carlota Joaquina, com excep&ccedil;&atilde;o
+de duas, eram tal qual como a m&atilde;e. O
+Camara conta que a duqueza de Loul&eacute;, que foi
+<span class="pagenum">[141]</span>
+casada com o mais lindo homem do seu tempo,
+estava um dia, em solteira, &aacute; janella, quando o
+conde de Vimioso passou a cavallo para os touros,
+j&aacute; vestido de oiro e prata. Ella chamou-o,
+trocaram meia duzia de palavras, elle subiu&mdash;e
+depois desceu e foi tourear...
+<br />
+
+<br />
+
+O marquez de Vallada sabia quem eram os
+paes de todos os filhos de D. Carlota Joaquina.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Abril&mdash;1904.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A Hespanha concentra tropas na Galliza. N&oacute;s
+n&atilde;o podemos mobilisar quinze mil homens. Nem
+dez mil! Hontem o Pimentel Pinto queixava-se
+ao Maximiliano d'Azevedo, de que nem artilharia
+de campanha possuimos: a que temos ficava
+liquidada no fim de meia hora de combate. A artilharia
+do campo entrincheirado de Lisboa, comprehendendo
+os obuzes, serve apenas para
+navios imperfeitamente protegidos. Peor: o municiamento
+mal chega para uma hora de combate!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Abril&mdash;1904.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O dr. Antonio Centeno protesta:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Isto n&atilde;o pode ser! O ministro
+deu pela
+ilumina&ccedil;&atilde;o electrica do Pa&ccedil;o de Belem
+quarenta
+<span class="pagenum">[142]</span>
+contos! Havia quem a fizesse por sete. Agora
+vae dar a ilumina&ccedil;&atilde;o electrica de todos os
+pa&ccedil;os
+por trezentos contos. Ha quem a fa&ccedil;a por
+quarenta. Mas d'esta vez oponho-me porque prejudica
+a Companhia do Gaz. Vou procural-o e
+dizer-lho. Se teimar levo a quest&atilde;o para a camara
+e para os jornaes.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Abril&mdash;1904.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Quem faz a politica externa &eacute; o rei e o Several.
+O ministro dos estrangeiros chancela.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Abril&mdash;1904.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Isto &eacute; um paiz para estrangeiros. N&atilde;o ha nenhum
+que n&atilde;o enrique&ccedil;a. Hoje afirma-se que o
+Chapuy, engenheiro da Companhia Real, vendeu
+machinas &aacute; Companhia por cento e trinta e tres
+mil francos, que valiam setenta mil. O Croneau,
+director do Arsenal, tambem est&aacute; rico.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Abril&mdash;1904.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Diz o Alpoim:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O rei n&atilde;o ouve ninguem. Antigamente ainda
+atendia o general Queiroz, que era nosso
+<span class="pagenum">[143]</span>
+amigo. Agora n&atilde;o: s&oacute; ouve os presidentes do
+conselho. Tratava muito bem o Teixeira de Souza;
+pois quando o Hintze resolveu pol-o na rua,
+passou logo a tratal-o mal.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Maio&mdash;1904.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O alferes que no 31 de Janeiro comandava
+a guarda municipal, por traz do campo de Santo
+Ovidio, nas escadas da Egreja da Lapa, e que
+depois comandou o fogo na rua de Santo Antonio,
+garante que o Lencastre e Menezes, ent&atilde;o
+comandante do 18, n&atilde;o sahiu com o regimento
+emquanto n&atilde;o viu tudo decidido. E dentro do
+quartel havia socego...
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Eu disse-o depois ao rei.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A proposito de 31 de Janeiro sei pelo Jos&eacute;
+de Figueiredo, que o ouviu por diferentes vezes
+ao Antonio Candido, que o rei e a gente do
+Pa&ccedil;o queriam um castigo exemplar. Antonio
+Candido opoz-se e ficou mal visto durante muitos
+annos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[144]</span>
+<div class="date">Junho&mdash;1904.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Disse-me hoje o Camara que o Soveral tomou
+parte, activa no tratado d'<em>entente</em>
+entre a Inglaterra
+e a Fran&ccedil;a. &Eacute; hoje um dos melhores amigos
+de Delcass&eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Julho&mdash;1904.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A Maria Pia, que quer ir por for&ccedil;a ao estrangeiro,
+mandou pedir dinheiro aos agiotas de Paris
+sobre hypotheca das suas propriedades&mdash;chalet
+do Estoril e parte do palacio das Necessidades,
+que ella afirma pertencer-lhe... Ao todo
+cento e oitenta contos. De intermediarios serviram
+um agiota do Porto, uma mulher designada
+na correspondencia pelo nome de madame Blanche,
+e que recebia dez mil francos, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Do Antonio Jos&eacute; de Freitas:
+<br />
+
+<br />
+
+O marquez da Fronteira nunca poude levar a
+bem o casamento de D. Fernando com a
+<em>comica</em>,
+como elle lhe chamava. Uma senhora da aristocracia
+conversando com o marquez:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Fui visitar el-rei que me disse:&mdash;N&atilde;o
+queres
+<span class="pagenum">[145]</span>
+v&ecirc;r a condessa?&mdash;Falei com ella e
+parece-me...&mdash;hesitando&mdash;muito
+interessante...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="illustration"><a name="f10" id="f10"></a><img style="width: 500px; height: 834px;" alt="Celso Herminio." title="Celso Herminio." src="images/fig13.png" /><br />
+
+<em>Celso Herminio.</em></div>
+
+<br />
+
+E o marquez logo:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;A senhora j&aacute; tinha, &eacute; claro,
+rela&ccedil;&otilde;es anteriores
+com a condessa...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Dezembro&mdash;1904.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Jo&atilde;o da Camara repartiu com os netos de
+Camillo os direitos de auctor do <em>Amor de
+Perdi&ccedil;&atilde;o</em>.
+Os filhos de Nuno nem p&atilde;o tinham no dia
+em que receberam inesperadamente esse dinheiro.
+O Camara, quando juntou duzentos e tantos mil
+reis, escreveu &aacute; viuva e mandou-lhe metade.&mdash;N'esse
+dia&mdash;disse ella ao Alberto Pimentel&mdash;n&atilde;o
+tinha que lhes dar de comer.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O rei e a rainha vivem separados. Os seus
+aposentos s&atilde;o, uns n'um extremo, outros no outro
+extremo do palacio. E por ahi afirma-se que
+elle, depois do tifo, ficou como Affonso VI...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Dezembro&mdash;1904.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O velho obstinado teima... N&atilde;o lhe falem na
+success&atilde;o! Ainda n'outro dia fez uma scena, quando
+a D. Maria Emilia lhe leu o artigo das <em>Novidades</em>.
+<span class="pagenum">[146]</span>
+Um amigo disse-lhe:&mdash;Deixe l&aacute; o
+Sebasti&atilde;o
+Telles ou o Alpoim ser presidente do conselho.&mdash;Essa
+hypothese n&atilde;o a admito eu!&mdash;protestou logo.
+O Hintze est&aacute; gasto, o Jo&atilde;o Franco foi acolhido
+no norte como um Messias. O Beir&atilde;o fez um
+discurso nas camaras&mdash;talvez proposital&mdash;dizendo
+que cortaria nos empregos publicos e que
+n&atilde;o admitia direitos adquiridos sen&atilde;o dentro da
+lei.&mdash;Elle quer inutilisar-se...&mdash;&Eacute; um
+tipo esgalgado,
+d'astronomo, com uma grande penca&mdash;o
+nariz do Beir&atilde;o&mdash;motivo facil de caricatura.
+Homem de costumes simples, alheado e indiferente
+a corrilhos, agarrado aos seus livros<sup><a href="#n5">[5]</a></sup>.
+J&aacute; em Abril, no conselho d'estado, taes coisas
+<span class="pagenum">[147]</span>
+disse que, &aacute; sahida, afirmou:&mdash;Acabo de dar
+uma enxadada na minha reputa&ccedil;&atilde;o!&mdash;Quanto
+ao Alpoim desconfia que o Jos&eacute; Luciano o quer
+comer, e o Teixeira de Souza trata de crear for&ccedil;as
+dentro do seu proprio partido: comprou <em>A
+Tribuna</em> e parece influenciar no
+<em>Diario</em>.&mdash;Ao
+Hintze custa-lhe a largar o poder, elle bem sabe
+porqu&ecirc;...&mdash;Os tumultos nas camaras succedem-se
+e a situa&ccedil;&atilde;o politica agrava-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Do rei diz-se o peor possivel. Diz-se que colocou
+muito dinheiro no Banco d'Inglaterra, (11
+de Junho) diz-se que deu um colar de brilhantes
+&aacute; bailarina Imperio, que ahi est&aacute; na zarzuella...
+As quest&otilde;es prendem-se, e agora com o contracto
+<span class="pagenum">[148]</span>
+dos tabacos s&oacute; se fala em escandalos. Tudo
+come! tudo come! Come o Navarro, come o Mariano,
+e um amigo meu, literato e jornalista,
+afirma-me:&mdash;Se a Companhia dos Phosphoros
+tem feito o contracto, eu estava rico.&mdash;Corre
+que os republicanos se organisam e o Bernardino
+Machado publicou manifesto, aproveitando
+um jornal e um jornalista hespanhol:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="tinyl">...&laquo;Ha uma lei que domina
+todas as outras na historia
+da humanidade: nenhuma institui&ccedil;&atilde;o vive, se
+sustenta e se
+radica sen&atilde;o pelo amor &aacute; liberdade. A lei, em
+virtude da
+qual existem institui&ccedil;&otilde;es liberaes, cumpriu-se
+nos nossos
+annais contemporaneos. De 1851 a 1885 tivemos um periodo
+de liberdade e de paz. Foi um periodo de ascens&atilde;o liberal.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Aboliu-se a pena de morte, e s&oacute; por esse feito
+se
+proclamou pela lei o direito &aacute; Vida. Proclamou-se esse
+direito
+com toda a sua eleva&ccedil;&atilde;o, dando a todos,
+inclusivamente
+aos indigenas das nossas colonias, onde se acabou
+com a escravatura, a faculdade de existir espiritualmente,
+como uma personalidade moral. Alargou-se a liberdade religiosa,
+tornando-a efectiva com o registo civil. Alargou-se
+a liberdade economica pela extin&ccedil;&atilde;o dos bens de
+m&atilde;o morta,
+pela aboli&ccedil;&atilde;o dos monopolios e pela
+cria&ccedil;&atilde;o legal das
+associa&ccedil;&otilde;es de socorro mutuo e das cooperativas.
+Dilataram-se
+as liberdades politicas com a extens&atilde;o do sufragio
+e representa&ccedil;&atilde;o das minorias. Descentralizaram-se
+os municipios,
+deram-se as maximas franquias aos distritos e at&eacute; se
+exarou na Constitui&ccedil;&atilde;o o principio liberal da
+elei&ccedil;&atilde;o parcial
+da Camara dos Pares. Nesse periodo, que come&ccedil;ou ouvindo-se
+a voz do grande tribuno Jos&eacute; Estev&atilde;o, parece que
+resoaram
+at&eacute; ao final os acentos do seu verbo eloquentissimo.</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[149]</span>
+<div class="tinyl">&laquo;Essa epoca venturosa termina
+com a morte de Sampaio,
+Braamcamp e Fontes. E a prova de que todos os partidos colaboravam
+nessa grande obra de
+pacifica&ccedil;&atilde;o e de
+liberdade, est&aacute; em que foi o conservador Fontes quem
+mais contribuiu para ella.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Os partidos de governo definem-se pela sua
+concep&ccedil;&atilde;o
+da constitui&ccedil;&atilde;o nacional:
+Constitui&ccedil;&atilde;o liberal, partido
+liberal; Constitui&ccedil;&atilde;o arbitral, partido
+reaccionario. Porque
+o arbitrio p&oacute;de ser, num dado momento, a liberdade; mas
+sempre se converte por fim em absolutismo.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;No periodo de inicia&ccedil;&atilde;o liberal fez-se
+a Constitui&ccedil;&atilde;o
+quasi republicana de 1822, e, em troca, os constitucionais
+da campanha da Terceira, do Cerco do Porto, de Almoster
+e da Asseiceira, tiveram a carta outorgada de 1826, que foi,
+consoante o livre alvedrio do imperante, a liberdade com
+D. Pedro IV, e a opress&atilde;o com D. Maria II. Em
+oposi&ccedil;&atilde;o &aacute;
+carta outorgada, Passos Manuel e os setembristas fizeram
+a democratica constitui&ccedil;&atilde;o de 1838, decretada
+pela
+vontade da na&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;No segundo periodo da nossa vida constitucional, que
+abre com Jos&eacute; Estev&atilde;o e se encerra pouco depois
+da morte
+de Sampaio, periodo que inaugura entre n&oacute;s o
+parlamentarismo,
+os regeneradores fizeram os actos adicionaes de
+1852 e de 1885, que s&atilde;o verdadeiros pactos constitucionaes,
+e n&atilde;o intervalos historicos, mas reformistas, constituintes,
+republicanos, que apresentavam os seus projectos, qual
+delles mais avan&ccedil;ado, da reforma constitucional.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;De 1886 at&eacute; hoje sopra um vento imperialista. A
+inspira&ccedil;&atilde;o,
+em vez de vir da Inglaterra liberal, vem da Alemanha
+cesarista. O partido progressista faz a
+centralisa&ccedil;&atilde;o
+dos servi&ccedil;os materiaes. Segue-se-lhe, no Poder, o partido
+regenerador, e faz a centralisa&ccedil;&atilde;o dos
+servi&ccedil;os espirituaes
+na instruc&ccedil;&atilde;o, e depois dissolve as
+associa&ccedil;&otilde;es, rasga as liberdades
+municipaes, acaba com as representa&ccedil;&otilde;es das
+minorias,
+legisla dictatorialmente... E, por fim, para que
+toda esta centralisa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o suscite
+uma revolu&ccedil;&atilde;o violenta,
+promulga a lei sobre o anarquismo, que &eacute; uma
+amea&ccedil;a
+sempre suspensa sobre todos os liberaes.</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[150]</span>
+<div class="tinyl">&laquo;Antes de 86, o partido
+republicano, como partido de
+tal natureza, n&atilde;o era um perigo. Caminhava-se lentamente,
+pacificamente, para a Republica, e n&atilde;o haveria ninguem
+t&atilde;o insensato que sonhasse fazer uma
+revolu&ccedil;&atilde;o para conseguir
+pela for&ccedil;a o que se conseguiria, num prazo fatal,
+pela lei e pela liberdade. Al&eacute;m disso, ninguem faz
+revolu&ccedil;&otilde;es
+por meras f&oacute;rmas. N&oacute;s, os verdadeiros liberaes,
+duvidamos
+se n&atilde;o &eacute; preferivel uma monarchia, com todas as
+liberdades efectivas, com todas as
+descentralisa&ccedil;&otilde;es vivas,
+ou uma Republica como a francesa, em que o Poder central
+&eacute; omnimodo, e o regimen autonomo local nulo.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Depois de 86, fracassadas todas as tentativas para
+regressar ao antigo caminho constitucional; fracassada a
+grande, generosa e derradeira tentativa de 93 a 94; com a
+fazenda publica em bancarrota; com todas as liberdades
+suprimidas; com a pena de morte restabelecida para os delictos
+militares e at&eacute; para certos delictos civis; com a politica
+do engrandecimento do Poder Real no seu auge,&mdash;toda
+a gente pensa na Republica, porque ella n&atilde;o &eacute;
+j&aacute; uma
+quest&atilde;o de mera f&oacute;rma mas sim um problema
+organico de
+vida ou de morte para Portugal...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A anarchia da na&ccedil;&atilde;o demonstra-se: no
+interior pelo
+desencadeamento das for&ccedil;as dissolventes do caciquismo,
+da plutocracia e a agita&ccedil;&atilde;o do clericalismo e
+f&oacute;ra, pelas
+mesmas consequencias dolorosas que se seguem a qualquer
+dictadura progressista ou regeneradora. Depois da dictadura
+progressista, o ultimatum, a bancarrota, a invas&atilde;o
+congreganista, sobresaltando os animos, como no caso da
+irm&atilde; Collecta. Depois da dictadura regeneradora, Kionga,
+o convenio definitivo da divida, e o fanatismo clerical,
+irrompendo no caso Calmon.</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[151]</span>
+<div class="tinyl">&laquo;Os partidos est&atilde;o
+em
+dissolu&ccedil;&atilde;o. O regenerador, com
+dois chefes; o progressista, com a perspectiva tremenda de
+uma heran&ccedil;a tempestuosa. Mas poder-se-h&atilde;o
+reconstituir
+dentro da monarchia? Andam varios nomes de boca em
+boca: os dos srs. Dias Ferreira, visconde de Chancelleiros,
+Costa Lobo, Augusto Fuschini, Anselmo d'Andrade e Augusto
+de Castilho. Viu-se, por&eacute;m, o caso da monarchia rodear-se
+d'esses homens de positivo merito? S&atilde;o convidados
+sequer para as suas festas, que s&atilde;o oficiaes e
+n&atilde;o particulares?
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Entender&aacute; e querer&aacute; a monarchia
+apoiar-se nas classes
+trabalhadoras, visto a burguezia estar contaminada?
+Foi esse o sonho do socialismo do Estado de Oliveira Martins
+e talvez o do militarismo democratico de Mousinho de
+Albuquerque. Mas a monarchia n&atilde;o soube aproveitar-se
+nem de um nem doutro. Oliveira Martins morria politicamente
+poucos mezes depois de ser chamado ao governo.
+Mousinho de Albuquerque n&atilde;o chegou sequer aos conselhos
+da Cor&ocirc;a, e suicidou-se. A monarchia tinha para a
+realiza&ccedil;&atilde;o desse programma, alem d'esses homens,
+a voz
+mais eloquente dos nossos dias, a de Antonio Candido,
+successor de Jos&eacute; Estev&atilde;o, que teria sabido
+conquistar as
+massas populares, e para captar as simpathias internacionaes
+um diplomata, o marquez de Soveral, que pelas suas
+maneiras e espirito, &eacute; da ra&ccedil;a dos Palmellas.
+Aproveitou-os,
+porventura? Antonio Candido, desiludido, emudeceu. O
+marquez de Soveral nada mais pode fazer do que abrandar
+o protectorado inglez.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Hoje as massas afastam-se cada vez mais da monarchia,
+porque, como tudo se concentrou no Poder Real, todas
+as responsabilidades se lhe atribuem; o protectorado
+inglez serve para salvaguarda da monarchia; a ruina financeira
+do paiz vem da confus&atilde;o dos dois erarios, e at&eacute; o
+jesuitismo, se bem que n&atilde;o se imputa ao rei, &eacute;
+comtudo
+imputado aos que o rodeiam.</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[152]</span>
+<div class="tinyl">&laquo;N&atilde;o &eacute;
+licito pois esperar a
+salva&ccedil;&atilde;o dentro da monarchia.
+Por grande que seja a cultura do chefe do Estado,
+por muito que seja o seu valor, a empreza da nossa
+regenera&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o &eacute; para um
+individuo s&oacute;. S&oacute; a na&ccedil;&atilde;o
+&eacute; que pode
+erguer sobre os seus hombros t&atilde;o imenso peso.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E n&atilde;o se diga que a monarchia est&aacute;
+identificada com
+a independencia da patria. A na&ccedil;&atilde;o foi, com
+efeito, sempre
+monarchica; mas desgra&ccedil;adamente a monarchia tem-se encarnado
+na monarchia usurpadora dos Filippes, no governo
+napoleonico de Junot, no governo de Beresford, sob Jorge
+IV. A monarchia teve um papel soberano no come&ccedil;o da
+nossa Historia, mas foi-se gradualmente divorciando do
+povo.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E as nossas alian&ccedil;as? Essas n&atilde;o
+s&atilde;o dos reis, mas
+dos povos. A alian&ccedil;a da Inglaterra &eacute; com
+Portugal, e n&atilde;o
+com as suas f&oacute;rmas de governo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&Eacute; indispensavel organisar as for&ccedil;as
+vivas da na&ccedil;&atilde;o
+portugueza. <em>Organisando-se o partido republicano
+salvar-se-ha
+a na&ccedil;&atilde;o</em>. &Eacute; preciso
+que o partido republicano se transforme
+em partido do governo, e que cesse com a sua obra
+de demoli&ccedil;&atilde;o, j&aacute; feita. Se
+n&atilde;o pode alcan&ccedil;ar logares no parlamento,
+conquiste-os nos municipios; se n&atilde;o pode intervir
+no municipio, intervenha na parochia. N&atilde;o deixe ao abandono
+nenhum logar, por minimo que seja. E fa&ccedil;a sobretudo
+por apoiar todas as justas reivindica&ccedil;&otilde;es dos
+pobres e dos
+humildes.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Deve ser um partido republicano profundamente socialista.
+Quando os republicanos, por meio de toda a sua
+campanha, se mostrarem homens de governo, podem estar
+certos de que a Republica se far&aacute; em Portugal como se fez
+no Brasil, e &aacute; maneira do que succedeu em 1871, em
+Fran&ccedil;a,
+onde a Assembleia Legislativa, com uma maioria de monarchicos,
+elegeu para seu chefe o republicano Gr&eacute;vy e para
+chefe do Estado Thiers, que era um monarchico convertido
+&aacute; Republica.</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[153]</span>
+<div class="tinyl">&laquo;A Republica em Portugal
+&eacute; necessaria para elevar
+a
+sua cultura, para acabar com o numero incrivel de analfabetos,
+para se consagrar &aacute; educa&ccedil;&atilde;o do povo.
+O estado
+actual o demonstra: <em>tanto &eacute; certo que
+quando sofre a liberdade
+sofre tambem com ella a
+instruc&ccedil;&atilde;o</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A Republica em Portugal &eacute; necessaria para que a
+religi&atilde;o
+seja a uni&atilde;o das almas pelo amor, como na economia
+social o &eacute; pelo trabalho. As ordens religiosas atacam
+n&atilde;o
+s&oacute; o Estado como a verdadeira religi&atilde;o, cujos
+primeiros vinculos
+devem ser o amor da familia, a coopera&ccedil;&atilde;o
+economica
+e o progresso politico da sociedade. O primeiro &eacute; combatido
+e negado pelo voto de celibato; o segundo pelo voto
+de pobreza, e o terceiro pelo voto de obediencia servil.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Torna-se necessario defender a religi&atilde;o como um
+principio
+immanente de justi&ccedil;a e de bem, e n&atilde;o como uma
+supersti&ccedil;&atilde;o
+e um instrumento politico. O partido republicano
+n&atilde;o pretende destruir a religi&atilde;o; o que
+n&oacute;s pretendemos &eacute;
+tornal-a sincera e pura, tornando-a voluntaria e livre.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A aspira&ccedil;&atilde;o do partido republicano
+encerra-se nestes
+tres principios: <em>liberdade politica, liberdade
+economica e liberdade
+religiosa</em>. Em nome de todos que querem saber, e
+n&atilde;o podem, oprimidos pela reac&ccedil;&atilde;o
+politica, essa infinidade
+de creaturas analfabetas; em nome de todos os que
+querem trabalhar e n&atilde;o podem, oprimidos pela
+reac&ccedil;&atilde;o
+economica, essa infinidade de proletarios; em nome de
+todos os que querem amar e ser bons e em cujo seio a
+reac&ccedil;&atilde;o religiosa lan&ccedil;a a semente de
+odio; em nome dessa
+infinidade de santas e piedosas mulheres que o clericalismo
+tenta desvairar e arrastar para f&oacute;ra dos seus deveres; pelos
+pobres, pelos humildes, pelos fracos, saudemos a Liberdade
+e com ella o unico partido que hoje a sustenta e defende
+em Portugal: <em>o partido republicano</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Se a Republica que n&atilde;o pede sen&atilde;o o
+restabelecimento
+e o respeito &aacute; lei, n&atilde;o vier bem depressa,
+corromper-se-ha
+e perder-se-ha o santo fundo deste povo exemplar,
+um dos modelos de virtude, de paciencia e de
+resigna&ccedil;&atilde;o que existem sobre a face da
+terra&raquo;.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[154]</span>
+D'outubro para novembro cae o governo,
+abalado pela quest&atilde;o dos tabacos: os homens
+est&atilde;o cada vez mais divididos por
+ambi&ccedil;&otilde;es e
+interesses. D'um lado os Phosphoros, do outro os
+Tabacos; dum lado o <em>Seculo</em> e o
+Navarro, que
+ainda ha tres dias (Novembro) teve uma conferencia
+com o Jos&eacute; Luciano, dizendo depois &aacute;
+familia:&mdash;O
+Jos&eacute; Luciano est&aacute; cada vez mais
+velhaco!&mdash;De
+outro o Burnay e o seu grupo...
+Os homens v&atilde;o dia a dia diminuindo de estatura
+moral! Ainda hontem alguem me contou
+esta anecdota que define uma figura:&mdash;O Rebello
+da Silva era muito amigo do Latino&mdash;mas
+muito mais amigo ainda da sua ambi&ccedil;&atilde;o:
+queria ser ministro depressa. Um dia, de repente,
+cessou com as visitas que fazia ao grande escriptor.
+Tinha descoberto um prefacio antigo, em
+que o Latino advogava a uni&atilde;o iberica, e foi para
+as camaras atacal-o. A quest&atilde;o durou tres dias, o
+governo cahiu, e o Rebello da Silva substituiu o
+Latino na pasta da marinha. Nessa mesma noite
+procurou-o de novo, e foi encontral-o a l&ecirc;r serenamente
+uma grammatica russa, cujo estudo
+interrompera durante o tempo do governo.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Tu j&aacute; sabes, se queres alguma coisa &eacute;
+como
+se fosses ministro.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Eu?!...&mdash;e sorriu-se, encolhendo os
+hombros. Mas t&atilde;o triste, t&atilde;o sereno, que o outro
+ficou gelado...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[155]</span>
+<div class="date">Dezembro&mdash;1907.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O velho major Fumega, em conversa com outro
+militar reformado:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Em 66 o Saldanha d'acordo com o Prim,
+tinham resolvido proclamar o D. Luiz imperador
+da Iberia. Chegaram a distribuir dinheiro aos
+sargentos. A mim, que era ent&atilde;o sargento, deram-me
+seis contos, para distribuir dezoito tost&otilde;es
+por soldado. Tornei a entregal-os intactos.
+Se fosse hoje gastava-os no brodio.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Eu apanhei trezentos mil reis e dei cabo
+d'eles.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O movimento abortou, porque foi denunciado
+pelo Gra&ccedil;a, mais tarde celebre como major
+Gra&ccedil;a, no 31 de Janeiro, que, depois de assignar
+as actas, como quartel-mestre, descobriu tudo.
+Era um denunciante, foi-o sempre&mdash;conclue o
+Fumega, fumando placidamente o seu cigarro.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Dezembro&mdash;1907.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O D. Carlos a um oficial do exercito, depois
+da lucta com o Jo&atilde;o Franco, das descomposturas
+ao rei, etc.,&mdash;e referindo-se aos politicos:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Tu ouvel-os falar, n&atilde;o &eacute; verdade? Pois
+se
+<span class="pagenum">[156]</span>
+lesses as cartas que todos os dias me escrevem,
+e que est&atilde;o alli n'aquella gaveta, enchias-te de
+nojo!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Dezembro&mdash;1907.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Conta-me o D. Jo&atilde;o da Camara:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;A rainha era amicissima do meu irm&atilde;o, o
+conde da Ribeira Grande. Visitou-o seis vezes
+durante a sua doen&ccedil;a. N'uma das ultimas noites
+elle puxou-a a si, beijou-a, e explicou:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;&Eacute; como se fosse minha filha.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; na agonia, ella entrou-lhe no quarto e elle
+pode ainda dizer-lhe, n'um ultimo arranco, estas
+palavras proheticas:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Os politicos! Cautela com os politicos!
+<br />
+
+<br />
+
+E ella respondeu-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Descanse, n&atilde;o ha-de ter duvida, se Deus
+quizer.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Era um pouco apagado, mas bondosissimo.
+D'uma vez uma senhora foi dar-lhe os pezames
+pela morte do filho. Tinha-lhe tambem morrido
+um filho fazia um mez e desatou a chorar, a falar
+n'elle, cheia de saudade e de lagrimas. E o
+conde da Ribeira, esquecendo a propria d&ocirc;r,
+passou a consolal-a...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[157]</span>
+<div class="date">Janeiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Fialho conta, indignado, que a viuva do
+E&ccedil;a de Queiroz, a quem o Estado d&aacute; uma
+pens&atilde;o,
+vae vender uma propriedade no Alemtejo,
+por cento e tantos contos.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Veja voc&ecirc; que pouca vergonha! S&atilde;o uns
+poucos de kilometros de terra de semeadura e
+montado de azinho e bolota, que sustenta um
+cento de cevados! Bem sei que metade da propriedade
+&eacute; da irm&atilde;, da mulher do Luiz Osorio...
+Ainda assim s&atilde;o cincoenta contos. Mas n'este paiz
+faz-se tudo o que o senhor Arnoso quer!...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Janeiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Um oficial d'armada, ao Jos&eacute; de Figueiredo:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Todos os oficiaes d'armada, &aacute;
+excep&ccedil;&atilde;o
+de meia duzia, n&atilde;o podem v&ecirc;r o rei, a quem chamam
+<em>o pulha</em>. Se houvesse em terra um
+movimento
+republicano, secundavam-no logo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Diz-se por ahi:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Venha tudo, venha o peor, venha o diabo
+do inferno, que nos livre d'isto!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[158]</span>
+<div class="date">Janeiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No <em>Turf</em> e no <em>Club
+Tauromachico</em> joga-se sempre
+escandalosamente. O conde de... l&aacute; vae outra
+vez para a Africa, arruinado pelo jogo no <em>Club
+Tauromachico</em>, o visconde de... tambem l&aacute;
+perdeu
+uma fortuna.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Janeiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Grosso escandalo com o livro do Albuquerque,
+<em>O Marquez da Bacalh&ocirc;a</em>.
+Este Albuquerque,
+conhecido pelo <em>Lendea</em>, &eacute;
+o ultimo descendente,
+pelo pae, do grande Afonso d'Albuquerque, e,
+pela m&atilde;e, do grave, do douto Jo&atilde;o de Barros.
+Ainda aqui ha annos, quando o rei visitou uma
+terra de provincia e se hospedou na casa delle,
+sahiram das lojas caixotes de lou&ccedil;a da India, que
+nunca tinham sido abertos. Elle tem tido uma
+vida de aventuras: bateu-se em duello em Madrid,
+ca&ccedil;ou no Cabo com lords, tocou guitarra
+em Ourville e teve uma loja d'instala&ccedil;&otilde;es
+electricas
+na Italia. Agora &eacute; jornalista, escriptor, poeta
+e publica este livro d'escandalo, em que a rainha,
+Senhora na mais alta acep&ccedil;&atilde;o da palavra,
+&eacute;
+posta de rasto... Mas fa&ccedil;a-se-lhe justi&ccedil;a: tudo
+aquillo&mdash;e peor&mdash;anda por ahi de bocca em
+<span class="pagenum">[159]</span>
+bocca ha muito tempo. E n&atilde;o vem de baixo&mdash;vem
+de cima...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Do Pa&ccedil;o mandaram buscar um exemplar &aacute;
+livraria Ferreira.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Janeiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O rei em Villa Vi&ccedil;osa ca&ccedil;a; o Jo&atilde;o
+Franco
+em Carnide dorme com a casa cercada de policia.
+Fala-se em conspira&ccedil;&otilde;es, na tropa, em
+transferencias
+d'oficiaes e sargentos. O Maximiliano
+d'Azevedo disse hoje na livraria ao Bernardino
+Machado:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Isto cheira a cadaver...
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Cheira a polvora, &eacute; que
+&eacute;&mdash;respondeu
+lhe elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Espera-se tudo: a falencia, tiros, a revolta.
+Ha pris&otilde;es&mdash;fala-se em mais pris&otilde;es
+ainda e os
+jornaes est&atilde;o garrotados.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Maximiliano d'Azevedo:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;&Eacute; falso que fosse o Correia de Barros quem
+matou a Manuela Rey. Disse-me muitas vezes a
+Emilia Adelaide como o caso se passou: Um irm&atilde;o
+<span class="pagenum">[160]</span>
+do Tanas (Pereira das Neves) fez a corte &aacute;
+Manuela. Ella aceitou-lha, e uma noite o Correia
+de Barros surprehendeu-os. O Tanas, ao vel-o
+brandindo a bengala, saltou por uma janella. A
+Manuela fugiu e foi para a rua das Galinheiras,
+para uma casa onde morava a cabeleireira do theatro,
+e deitou-se vestida sobre a cama, a chorar.
+<br />
+
+<br />
+
+Debalde o Correia de Barros lhe perdoou:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;N&atilde;o! N&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+Chorou&mdash;e morreu. J&aacute; estava tisica ha muito
+tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E conta-me tambem:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;A Emilia das Neves estava n'uma casa de
+mulheres. Deram com ella por acaso. Quem primeiro
+a ensaiou foi o Garrett. Tinha genio: mal
+sabia l&ecirc;r e toda a vida deu sylabadas.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Janeiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O governo retira as muni&ccedil;&otilde;es a alguns regimentos
+e &aacute; marinha: s&oacute; tem confian&ccedil;a na
+guarda.
+Diz-me o Schwalbach:&mdash;&laquo;Ouvi-o da bocca do
+oficial encarregado d'esse servi&ccedil;o. A noite passada
+retiraram as muni&ccedil;&otilde;es a um regimento da
+capital&raquo;. Corre com insistencia que o coronel Albano
+<span class="pagenum">[161]</span>
+da Fonseca morreu envenenado... Os navios
+de guerra foram desarmados, sob pretexto
+de estudo de renova&ccedil;&atilde;o e
+adapta&ccedil;&atilde;o das muni&ccedil;&otilde;es,
+que se removeram para o servi&ccedil;o de torpedos.
+O Maximiliano diz-me tambem que varias
+pe&ccedil;as do campo entrincheirado ficaram assestadas
+sobre os navios de guerra.
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="illustration"><a name="f11" id="f11"></a><img style="width: 500px; height: 659px;" alt="Gomes Leal.&mdash;Desenho de Antonio Carneiro." title="Gomes Leal.&mdash;Desenho de Antonio Carneiro." src="images/fig14.png" /><br />
+
+<em>Gomes Leal.</em>&mdash;Desenho
+de Antonio Carneiro.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Fialho est&aacute; um franquista ferrenho:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O Jo&atilde;o Franco j&aacute; me mandou chamar
+tres vezes.
+<br />
+
+<br />
+
+E, como eu me espante de o v&ecirc;r conservador,
+elle diz:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Fui-o sempre. J&aacute; esse maroto do Arnaldo
+Fonseca dizia a meu respeito:&mdash;&Eacute; um bohemio
+que trata a roupa com nephetalina!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A Angela Pinto est&aacute; com um preto que lhe
+poz automovel.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;&Oacute; Angela, ent&atilde;o tu agora?!
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Voc&ecirc;s que querem? N&atilde;o andam todos os
+dias ahi a pr&eacute;gar que o futuro de Portugal est&aacute;
+nas nossas colonias?<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[162]</span>
+<div class="date">Janeiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Prenderam hontem o Antonio Jos&eacute; de Almeida.
+O Jo&atilde;o Barreira conta-me que a policia
+apanhou sessenta rewolveres aos republicanos,
+mas n&atilde;o descobriu os depositos d'armamento.
+O Jo&atilde;o Pinto dos Santos diz:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;A pris&atilde;o de Antonio Jos&eacute; d'Almeida
+&eacute;
+um
+ensaio. Se virem que as massas populares n&atilde;o
+protestam, desatam a prender a torto e a direito.
+Eu estou aqui estou preso: o Jo&atilde;o Franco
+odeia-me.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Um livreiro:
+<br />
+
+<br />
+
+Fizeram mal em prohibir <em>O Marquez da
+Bacalh&ocirc;a</em>.
+J&aacute; ha quem tenha dado por um exemplar
+tres mil reis, e o pre&ccedil;o corrente &eacute; agora de dez
+a quinze tost&otilde;es... Se o queriam inutilizar
+aprehendessem-no,
+tanto mais que toda a gente sabia
+onde era impresso.
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">28 de Janeiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A atmosphera &eacute; electrica.&mdash;Isto n&atilde;o pode
+ser! isto n&atilde;o pode ser!&mdash;ouve-se a cada passo.
+Toda a gente espera acontecimentos. O boato
+corre de ouvido para ouvido: o comandante
+<span class="pagenum">[163]</span>
+da municipal afirmou ao rei que n&atilde;o podia contar
+com a guarda para combater a tropa; ha tumultos
+no Porto e Villa Real; est&aacute; assignado um
+decreto expulsando do paiz republicanos e dissidentes;
+e&mdash;sabem? sabem?&mdash;o movimento &eacute;
+preparado pelo Jo&atilde;o Franco para tomar medidas
+d'excep&ccedil;&atilde;o... O Coelho de Carvalho, de grandes
+barbas brancas, sempre ironico, pontifica na
+livraria Ferreira:&mdash;Tudo isto obedece a um plano
+para estabelecer o protectorado inglez, com o
+rei gordo e replecto, e a dota&ccedil;&atilde;o augmentada
+em cento e sessenta contos, pagos em oiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s sete da noite encontro o Alpoim que me
+pergunta ancioso:&mdash;Que ha? que ha?...&mdash;Eu
+sei... diz-se por ahi que varios oficiaes se reunem
+no Arco da Bandeira....&mdash;S&oacute;?&mdash;E arranca-me
+das m&atilde;os o <em>Correio da
+Noite</em>:&mdash;Vem feroz! vem
+optimo!...&mdash;No comercio n&atilde;o se desconta uma
+letra. A rua do Oiro n&atilde;o tem metade do movimento
+habitual. Consta que o Jo&atilde;o Franco disse
+hontem:&mdash;D&aacute;-se-lhes
+uma sangria...&mdash;O que eu
+lhe posso garantir, e sei-o por uma senhora de
+rela&ccedil;&otilde;es intimas do Jo&atilde;o
+Franco&mdash;diz o
+Fialho,&mdash;&eacute;
+que elle passa as noites sem dormir.&mdash;Medo&mdash;ou
+revolu&ccedil;&atilde;o? As mulheres v&atilde;o buscar os
+maridos
+&aacute;s reparti&ccedil;&otilde;es e aos bancos, outras,
+na previs&atilde;o
+de acontecimentos, fornecem-se &aacute; pressa
+nas lojas. Ha nervos na atmosphera. A quest&atilde;o
+dos adeantamentos levantou todo o paiz contra
+o rei. Ha muito que o D. Carlos &eacute; visado,
+<span class="pagenum">[164]</span>
+discutido e injuriado. Atribuem-se-lhe todos os
+males. O Hintze morreu: foi elle quem matou o
+Hintze com desgostos. Os Bragan&ccedil;as s&atilde;o todos
+ingratos. Que quer o rei? O rei s&oacute; quer dinheiro,
+o rei chama ao paiz, que despreza, a
+<em>piolheira</em>,
+o rei &eacute; um ladr&atilde;o. Dizem-no at&eacute; os
+cavadores
+d'enxada da provincia:&mdash;O rei &eacute; um
+ladr&atilde;o!
+o rei &eacute; um ladr&atilde;o!&mdash;Gera-se
+n&atilde;o sei
+que excita&ccedil;&atilde;o
+que se apega e propaga. Todos estamos debaixo
+da mesma press&atilde;o a que n&atilde;o ha fugir. Nas
+esquinas ainda se v&ecirc;em farrapos de cartazes,
+anunciando o folhetim <em>Soror Amelia</em>,
+com o retrato
+da rainha vestida de freira...
+<br />
+
+<br />
+
+O que os jornaes de grande circula&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o
+se atrevem a dizer, o <em>Seculo</em>, o
+<em>Mundo</em>, o
+<em>Noticias</em>,
+propala-se de ouvido para ouvido, ou publica-o
+o <em>Correio da Noite</em>, do velho
+Jos&eacute; Luciano, que
+ataca com violencia o rei e o governo.&mdash;Que
+h&aacute;? Que h&aacute;?&mdash;Um policia aliciado pelo
+Jo&atilde;o
+Chagas denunciou a revolu&ccedil;&atilde;o; o juiz ao
+l&ecirc;r o
+depoimento do Antonio Jos&eacute; d'Almeida,
+exclamou:&mdash;Ora
+at&eacute; que emfim encontro um homem!&mdash;O
+Cunha e Costa pequenino, d'oculos e olho
+esperto atravez dos vidros:&mdash;Voc&ecirc;s que
+querem?
+Est&aacute; tudo minado. Hoje, ao entrar na
+Boa Hora, deparei com este quadro: d'um lado
+da porta um municipal lia <em>O Mundo</em>,
+do outro,
+outro municipal lia <em>A Lucta</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+E no entanto a vida segue o seu curso habitual:
+todas as noites enchentes nas revistas,
+<em>Ou</em>
+<span class="pagenum">[165]</span>
+<em>vae... ou racha, Pr'a frente!</em> Todas
+as noites o
+mesmo falatorio no Rocio, o mesmo formigueiro
+humano seguindo as suas manias, as suas ambi&ccedil;&otilde;es,
+os seus interesses...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os populares atacaram as esquadras. No
+largo do Rato um bando, que queria matar o
+Jo&atilde;o Franco, entrou n'um caf&eacute;. A policia tentou
+apalpal-os&mdash;defenderam-se a tiro. Um cahiu varado:
+e retiraram em ordem, fazendo fogo. Na
+esquadra dos Terramotos trocaram ainda balas
+com os guardas. Havia um plano de revolu&ccedil;&atilde;o?
+&Eacute; f&oacute;ra de duvida. Lan&ccedil;aram-se bombas
+que n&atilde;o
+explodiram a varias esquadras&mdash;&aacute; do Campo de
+Sant'Anna, por exemplo. A policia estava, prevenida,
+e prendeu-os, quando um grupo de dissidentes,
+Alpoim, Jo&atilde;o Pinto, Ameal, etc., se dirigia
+para o elevador da Bibliotheca, no intuito de
+lan&ccedil;ar um foguet&atilde;o, que desse o signal
+&aacute; esquadra
+e a varios grupos que, ao mesmo tempo e
+em diferentes pontos, deviam assaltar os quarteis.
+S&oacute; o Alpoim e o Ameal conseguiram fugir.
+No elevador havia armas, destinadas ao ataque
+dos correios e telegraphos. No forte de Caxias
+est&atilde;o presas 93 pessoas, e presos est&atilde;o tambem
+o Afonso Costa, o Jo&atilde;o Pinto dos Santos, o Ribeira
+Brava, etc. A policia desandou ent&atilde;o a prender
+a t&ocirc;rto e a direito. O Jos&eacute; de Figueiredo que
+<span class="pagenum">[166]</span>
+mora no Campo de Sant'Anna, por cima da esquadra,
+ouviu isto: Ao telefone, o chefe da esquadra
+para o governo civil:&mdash;J&aacute; prendemos
+quatro.&mdash;Prendam mais.&mdash;Era preso quem passava
+na rua.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; revolu&ccedil;&atilde;o adheriam varios oficiaes e
+toda
+a armada. Havia fanaticos decididos a correr a
+municipal &aacute; bomba, e todo o trabalho do directorio
+parece que foi sustel-os &aacute; ultima hora.
+Varios bandos foram prevenidos logo que o
+signal falhou. Os que esperavam no
+caf&eacute; do
+Rato, a hora do assalto &aacute; casa do Jo&atilde;o Franco,
+foram presos. Um creado do Moura Cabral,
+que m'o contou, foi aliciado para atacar a esquadra
+da Gra&ccedil;a&mdash;e deram-lhe um rewolver e bebidas.
+Em diversas partes tem sido encontradas
+bombas, e diz-se que quem denunciou um deposito
+d'armas, escondido em casa d'um negociante,
+foi uma irm&atilde; dum actor de D. Maria.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Isto&mdash;toda a gente o afirma&mdash;acaba
+logicamente
+no atentado pessoal.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">30 de Janeiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Corre com insistencia que o Jo&atilde;o Chagas
+morreu d'uma pleurizia no hospital.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[167]</span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os <em>bufos</em> s&atilde;o aos centos.
+P&aacute;ra-se a conversar&mdash;tem-se
+logo um <em>bufo</em> &aacute; perna. O
+Baracho procurou
+hoje o ministro da guerra e declarou-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Eu n&atilde;o conspiro; portanto n&atilde;o me
+mandem
+espionar, sen&atilde;o corro os
+<em>bufos</em> a tiro. Se
+desconfiam de mim, julguem-me, que eu me defenderei.
+E deixe-me tambem dizer-lhe uma coisa:
+Os senhores n&atilde;o h&atilde;o-de ser sempre ministros.
+Se me incomodam ou me infamam, quando deixarem
+de o ser, eu lhes tomarei as responsabilidades.&mdash;Ao
+que o ministro respondeu:&mdash;Se soubesse,
+general, as saudades que eu tenho do meu
+caminho de ferro!...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Tem sido tambem presos alguns oficiaes do
+exercito. E o Fialho faz <em>blague</em>:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Desde que a policia entrou no caminho
+das descobertas, foi dar com a escriptura&ccedil;&atilde;o
+completa da revolta. Tudo por ordem e por partidas
+dobradas. Uma revolu&ccedil;&atilde;o burocrata!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">31 de Janeiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Sabem qual &eacute; a impress&atilde;o geral? Pena de
+que o movimento gorasse.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[168]</span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+At&eacute; as mulheres est&atilde;o furiosas com o Franco.
+Ha-as que dizem:&mdash;Eu vou matal-o!&mdash;Mas ha
+tambem quem o defenda e aplauda como nenhum
+ministro foi defendido e aplaudido. Um padre
+franquista barafusta em plena rua do Ouro:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Eu at&eacute; agora dizia que o Jo&atilde;o Franco
+tinha
+uns c... que n&atilde;o cabiam em Lisboa. Agora
+n&atilde;o, agora digo bem alto: o Jo&atilde;o Franco tem
+uns c... que n&atilde;o cabem em Portugal!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Bernardino Machado:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Sabe o que isto parece? Parece que o rei
+disse ao Jo&atilde;o Franco, entregando-lhe uma
+carabina:&mdash;&laquo;Jo&atilde;o
+arranja-me dinheiro&raquo;.&mdash;O Jo&atilde;o
+Franco executa.&mdash;&laquo;Jo&atilde;o torna a levar a
+carabina
+e traz mais dinheiro&raquo;.&mdash;E a atitude vergonhosa
+das na&ccedil;&otilde;es estrangeiras que assistem com
+aplauso a este espectaculo! Porqu&ecirc;? Pelo que eu
+disse um dia d'estes a um negociante francez:&mdash;Ha
+um dictado em Portugal que explica tudo:&mdash;Ladr&otilde;es
+n&atilde;o se encobrem de gra&ccedil;a!<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">1 de Fevereiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Jo&atilde;o Franco responde aos clamores e &aacute;
+revolta com o decreto d'hoje:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[169]</span>
+<div class="tinyl">Senhor&mdash;S&atilde;o bem
+conhecidas
+de Vossa Magestade as
+occorrencias dos ultimos mezes, em que uma pequena minoria
+d'elementos revolucionarios criminosos tem ultimamente
+procurado impedir a vida politica e representativa
+do Paiz, alterar a ordem publica e p&ocirc;r em perigo a
+seguran&ccedil;a
+das pessoas e das propriedades.
+<br />
+
+<br />
+
+Imperturbavelmente tem o governo obedecido ao proposito
+de limitar a ac&ccedil;&atilde;o das medidas de circumstancia
+&aacute;
+esphera restricta de legitima defeza social, reduzindo-as ao
+que de momento se tem afigurado absolutamente indispensavel,
+sempre na esperan&ccedil;a de que essa
+publica&ccedil;&atilde;o fosse
+um meio preventivo sufficiente e constituisse aviso efficaz
+aos agitadores.
+<br />
+
+<br />
+
+D'essa ordem d'ideias derivaram o decreto de 21 de
+Junho sobre publica&ccedil;&otilde;es attentatorias da ordem
+publica e
+o de 21 de Novembro sobre crimes contra a seguran&ccedil;a do
+Estado, das pessoas e das propriedades.
+<br />
+
+<br />
+
+Factos dos ultimos dias vieram, por&eacute;m, demonstrar
+que as tentativas e propositos criminosos, longe de afrouxarem,
+se teem mantido obstinadamente e aggravado a
+ponto de ser urgente e indispensavel o rapido afastamento
+do nosso meio social dos principaes dirigentes e instigadores
+d'esta pertinaz conspira&ccedil;&atilde;o contra a paz publica
+e seguran&ccedil;a
+do Estado antes que perdas lamentaveis de vidas
+venham accrescentar se &aacute;s desgra&ccedil;as j&aacute;
+occasionadas e, porventura,
+originar prejuizos irremediaveis ao credito publico
+e &aacute; fortuna nacional.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha poucos dias ainda, o governo da Na&ccedil;&atilde;o vizinha
+apresentou &aacute;s c&ocirc;rtes um projecto de lei que
+auctoriza a fazer
+sair do reino por delibera&ccedil;&atilde;o do conselho de
+ministros, sob
+pr&eacute;via informa&ccedil;&atilde;o das auctoridades
+locaes, as pessoas que
+perten&ccedil;am a associa&ccedil;&otilde;es hostis
+&aacute; ordem social e que de
+semelhantes principios fa&ccedil;am propaganda, e como sejam
+estes factos muito graves e perigosos, seguramente n&atilde;o o
+s&atilde;o mais nem podem ter mais larga, mais profunda
+repercuss&atilde;o
+em toda a vida nacional que os tramas e attentados
+para mudar violenta e criminosamente a forma de governo
+de Estado.</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[170]</span>
+<div class="tinyl">N'essa ordem d'ideias, procuramos com o
+presente diploma,
+habilitar tambem o governo com a faculdade d'expulsar
+do Reino ou fazer transportar para uma provincia
+ultramarina aquelles que, uma vez reconhecidos culpados
+pela auctoridade judicial competente, importe &aacute;
+seguran&ccedil;a
+do Estado e tranquillidade publica e interesses geraes da
+Na&ccedil;&atilde;o afastar, sem mais delongas, do meio em que
+se mostrarem
+e tornarem perigosa e contumazmente incompativeis.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o podem, por egual, gosar immunidades parlamentares
+aquelles que contra a seguran&ccedil;a do proprio Estado
+se manifestam ou que como inimigos da sociedade se
+apresentam.
+<br />
+
+<br />
+
+Taes s&atilde;o, Senhor, as principaes
+disposi&ccedil;&otilde;es do diploma
+que tenho a honra de submeter &aacute;
+aprecia&ccedil;&atilde;o de Vossa
+Magestade.
+<br />
+
+<br />
+
+Pa&ccedil;o, em 31 de Janeiro de 1908.
+<em>Jo&atilde;o Ferreira Franco
+Pinto Castello Branco</em>&mdash;<em>Antonio
+Jos&eacute;
+Teixeira
+d'Abreu</em>&mdash;<em>Fernando
+Augusto Miranda Martins de Carvalho</em>&mdash;<em>Antonio
+Carlos Coelho Vasconcellos Porto</em>&mdash;<em>Ayres
+d'Ornellas
+de
+Vasconcellos</em>&mdash;<em>Luciano Afonso da Silva
+Monteiro</em>&mdash;<em>Jos&eacute;
+Molheira Reym&atilde;o</em>.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Alpoim fugiu para a Hespanha.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Cunha e Costa:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Ha mais de duzentas pessoas apostadas em
+matar o Jo&atilde;o Franco. Isto acaba por um atentado
+pessoal.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[171]</span>
+<div class="date">1 de Fevereiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Est&aacute; uma tarde linda, azul, morna, diaphana.
+Converso na livraria Ferreira com o Fialho,
+quando entra esbaforido e palido, o pintor Arthur
+de Mello, que conhe&ccedil;o do Porto, e diz n'um
+espanto, ainda transtornado:&mdash;Acabam de matar
+agora o rei!&mdash;O qu&ecirc;?!&mdash;Eu vi, ouvi os
+tiros,
+deitei a fugir...
+<br />
+
+<br />
+
+Fecham-se &aacute; pressa os taipaes das lojas. Uma
+mulher do povo exclama:&mdash;Mataram agora o rei.
+Vi os que o mataram. Eram tres. Dois l&aacute; estam
+estendidos. Passou um agora por mim, a rasto,
+com a cabe&ccedil;a despeda&ccedil;ada!...&mdash;Ha palmas
+para
+o lado da pra&ccedil;a da Figueira. Anoitece. Um
+esquadr&atilde;o
+desemboca da rua da Mouraria... Mais
+tarde no comboio, um empregado do Jorge
+O'Neill confirma:&mdash;Vi do escriptorio um policia
+correr atraz d'um dos assassinos. A certa altura
+cahiu-lhe o chapeu: era calvo. O policia varou-o
+com um tiro.
+<br />
+
+<br />
+
+E pela narra&ccedil;&atilde;o do Mello, do Armando Navarro
+e d'outros, que assistiram, reconstituo
+assim a tragedia:
+<br />
+
+<br />
+
+O comboio descarrilara. Seguia atrazado. Durante
+o trajecto o rei n&atilde;o fumou nem jogou,
+como costumava. Vinha aprehensivo e a autopsia
+demonstrou mais tarde que n&atilde;o tinha comido
+n'esse dia.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[172]</span>
+O Malaquias de Lemos contou que na vespera,
+em Villa Vi&ccedil;osa, o rei jogara com o principe.
+Era ao entardecer. Na chamin&eacute; um grande
+brazeiro. Trouxeram-lhe uma carta. Para a l&ecirc;r
+melhor, levantou-se, chegando-se &aacute; janella. Duas
+vezes a percorreu com a vista, e depois rasgou-a
+em bocadinhos que atirou ao lume. Petrificou-se
+um momento envolto na sombra...&mdash;El-Rei n&atilde;o
+joga?&mdash;perguntou o principe.&mdash;Jogo,
+jogo...&mdash;Sentou-se,
+jogou, mas t&atilde;o preocupado que quasi
+n&atilde;o jantou n'esse dia nem almo&ccedil;ou no seguinte.
+<br />
+
+<br />
+
+Nem uma nuvem. &laquo;Tarde sem par&raquo;&mdash;escreveu
+Ramalho.&mdash;Linda tarde para uma bomba&mdash;exclama
+uma menina da alta, na ponte da esta&ccedil;&atilde;o.
+Havia, &eacute; natural, um certo receio, e a duqueza
+de Palmella, ao ouvido de Jo&atilde;o
+Franco:&mdash;N&atilde;o
+haver&aacute; perigo?&mdash;V. Ex.<sup>a</sup> vae
+ver que
+ova&ccedil;&atilde;o!&mdash;Tinha-lha
+preparada para a recita da noite, em
+S. Carlos. O rei e a rainha detiveram-se uns minutos,
+com o Jo&atilde;o Franco e o Vasconcellos Porto,
+que queria mandar vir um esquadr&atilde;o de cavalaria
+para acompanhar o rei. D. Carlos opoz-se.
+O carro descoberto partiu a chouto, com toda a
+familia real junta. Ao p&eacute; da estatua um grupo...
+Dissiminados pela Arcada alguns policias, e, sentado
+n'um banco da pra&ccedil;a um homem de varino,
+que veio, sem precipita&ccedil;&atilde;o, colocar-se
+&aacute; porta do
+ministerio do reino<sup><a href="#n6">[6]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[173]</span>
+Os empregados da fazenda tinham-no notado.
+Seria um bufo? Os bufos eram tantos, que se n&atilde;o
+conheciam uns aos outros.&mdash;&laquo;Eu assisti&mdash;diz
+o Navarro.&mdash;Fui
+para l&aacute; uma hora antes fumar o meu
+charuto. Tres descargas cerradas partiram da Arcada
+do ministerio da fazenda. Ficou tudo desorientado.
+Os policias deitaram a fugir&raquo;... Um negociante
+da rua de S. Juli&atilde;o teve de os sacudir
+da escada. &laquo;Eu estava a quatro passos&mdash;confirma
+o pintor Mello. Um homem subiu &aacute;s trazeiras do
+carro, olhou o rei cara a cara e deu-lhe um tiro
+de rewolver. Vi um fumosinho branco sahir-lhe
+do pesco&ccedil;o. O rei voltou-se, e, cem annos que eu
+viva, nunca mais me esquece a express&atilde;o de espanto
+d'aquella mascara. Disse uma palavra que
+n&atilde;o percebi bem&raquo;...&mdash;&laquo;Ao
+primeiro
+tiro&mdash;continua
+o Navarro&mdash;a cabe&ccedil;a do rei descahiu para
+a frente, ao segundo tombou para o lado&raquo;. O
+Bui&ccedil;a, que tir&aacute;ra a carabina debaixo do
+gab&atilde;o,
+apontava e descarregava. O principe real ergueu-se&mdash;cahiu
+varado. A rainha, louca de d&ocirc;r,
+sacudia o Alfredo Costa com um ramo de
+flores.&mdash;Ent&atilde;o
+n&atilde;o acodem?! N&atilde;o ha quem me
+acuda?!&mdash;Ninguem.
+Um cartuxo falhara ao Bui&ccedil;a:
+sacou-o, e ia apontar outra vez, quando o Francisco
+Figueira o estendeu &aacute; cutilada. Ouvi que,
+<span class="pagenum">[174]</span>
+logo aos primeiros tiros, alguem procurara intervir&mdash;mas
+uma roda de gente desconhecida protegeu-o.
+Succederam-se ent&atilde;o os tiros sem
+interrup&ccedil;&atilde;o.
+Muita gente falou em descargas... A policia
+disparava os rewolveres a torto e a direito.
+O Correia de Oliveira esteve para ser morto:&mdash;Vinha
+de chapeu alto e foi o que me valeu!...
+Um policia avan&ccedil;ou direito a mim com o rewolver
+apontado, exclamando como um doido:&mdash;Matei
+agora um! matei agora um!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Correu hoje que o Jo&atilde;o Franco se suicid&aacute;ra
+e que o tinham acabado a tiro quando sahia do
+Pa&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O infante D. Afonso seguia desvairado atraz
+do carro, com o rewolver em punho, dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O mano nunca quiz ouvir os conselhos
+da m&atilde;e!
+<br />
+
+<br />
+
+Depois, no Arsenal, para onde foram conduzidos
+o rei e principe, teve este movimento colerico:
+bater no Jo&atilde;o Franco.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Acusam &aacute; boca cheia o Jo&atilde;o Franco&mdash;que
+n&atilde;o tomou precau&ccedil;&otilde;es para o
+rei&mdash;de se
+meter
+<span class="pagenum">[175]</span>
+por um corredor quando foi ao Arsenal, e de, mais
+tarde, endireitar por uma cavalari&ccedil;a, para se enfiar
+na carruagem. De alguns ministros diz-se
+que, aos primeiros tiros, se esconderam no sot&atilde;o
+dos ministerios entre a papelada e as cadeiras
+sem fundo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A rainha no Arsenal disse ao Jo&atilde;o Franco:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Veja a sua obra...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O rei chegou ao Arsenal j&aacute; sem vida; ao
+principe custou-lhe muito a morrer. Foram ungidos
+depois de mortos. O padre n&atilde;o teve escrupulos,
+porque os medicos garantiram-lhe que
+a vida podia prolongar-se por meios artificiaes.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Do Arsenal seguiu a marcha tragica para as
+Necessidades; n'um carro a rainha e o D. Manuel,
+n'outro carro o cadaver do rei, que a custo
+conseguiram meter l&aacute; dentro, e que o oficial de
+servi&ccedil;o amparava, e, no ultimo, o duque de
+Bragan&ccedil;a.
+Que se iria seguir? A revolu&ccedil;&atilde;o? Um negrume,
+o terror do inesperado, afasta do Pa&ccedil;o
+todos os que l&aacute; deviam estar &aacute;quella hora. Vem
+a noite... Se seis tambores fossem rufar para
+<span class="pagenum">[176]</span>
+deante do Pa&ccedil;o a monarchia acabava hoje mesmo.
+Espera-se tudo, espera-se o peor. E cada
+um trata de n&atilde;o se comprometer, ou de se comprometer
+o menos possivel...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Phrase cruel d'um popular:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Foi ca&ccedil;ado como elle ca&ccedil;ava os
+javardos&mdash;e
+em tempo defezo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No dia dois, depois da morte do rei, foram
+assaltados alguns quarteis, evidentemente chamando
+as tropas &aacute; revolu&ccedil;&atilde;o. Em artilharia
+os
+soldados sahiram das casernas e fizeram fogo:
+os oficiaes n&atilde;o os puderam conter. Em Campo
+d'Ourique houve tiroteio. No alto da Avenida
+ficaram estendidas vinte e tantas pessoas.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A caminho do Pa&ccedil;o, depois do atentado, o
+pequeno dizia:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Vamo-nos embora! vamo-nos embora!...
+<br />
+
+<br />
+
+E a rainha:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Has-de cumprir o teu dever at&eacute; ao fim.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="illustration"><a name="f12" id="f12"></a><img style="width: 500px; height: 701px;" alt="D. Carlos I de Portugal." title="D. Carlos I de Portugal." src="images/fig15.png" /><br />
+
+<em>D. Carlos I de Portugal.</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[177]</span>
+O organisador da revolta militar era Candido
+dos Reis, oficial superior da armada. Muitos oficiaes
+se reuniam no Arco da Bandeira.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Na tarde do regicidio estavam na Arcada
+homens com faixas &aacute; espanhola e as faixas
+cheias de bombas. Diz-se tambem que havia varios
+grupos postados nas esquinas at&eacute; &aacute;s Necessidades.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A rainha, quando o Jo&atilde;o Franco chegou
+ao Pa&ccedil;o:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Foram portuguezes?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Foram.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Ahi tem o que o senhor fez dos portuguezes.
+<br />
+
+<br />
+
+E a Maria Pia, que h&aacute; muito o n&atilde;o pode ver:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Diziam por ahi que o senhor era o coveiro
+da monarchia, mas o senhor foi peor, foi o assassino
+do meu filho e do meu neto!
+<br />
+
+<br />
+
+Isto cheira a phrase feita, mas como esta repetem-se,
+insiste-se, inventam-se outras mais.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Jo&atilde;o Franco tinha perdido a cabe&ccedil;a.
+S&oacute;
+elle mandava: n&atilde;o queria ouvir ninguem. Quando
+<span class="pagenum">[178]</span>
+fugiu d'uma esquadra um homem que estava
+preso pelo fabrico de bombas, o juiz d'instruc&ccedil;&atilde;o
+criminal foi-lhe dar parte do caso. Ficou
+furioso:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;V&aacute; beber da merda!
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Digo a V. Ex.<sup>a</sup> que a policia
+n&atilde;o
+teve culpa...
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;V&aacute; beber da merda o senhor e a policia!
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Mas...
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;V&aacute; beber da merda! v&aacute; beber da merda!
+v&aacute; beber da merda!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Diz-se que o Alpoim estava escondido em
+casa do Teixeira de Souza e que fugiu emquanto
+a policia lhe cercava a casa.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Pa&ccedil;&ocirc; Vieira:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Na noite do regicidio fui ao Pa&ccedil;o, com o
+Campos Henriques. O Julio de Vilhena, a quem
+procurei em casa, n&atilde;o foi porque lhe faltava um
+bot&atilde;o na braguilha. Assisti a tudo: tiraram o rei e
+o principe de dentro do carro. O rei estava disforme.
+A rainha, se tinha dito alguma coisa desagradavel
+ao Jo&atilde;o Franco no Arsenal, no Pa&ccedil;o
+n&atilde;o lhe disse palavra. A Maria Pia perguntava
+de quando em quando:&mdash;A mo
+&mdash;Na noite do regicidio fui ao Pa&ccedil;o, com o
+Campos Henriques. O Julio de Vilhena, a quem
+procurei em casa, n&atilde;o foi porque lhe faltava um
+bot&atilde;o na braguilha. Assisti a tudo: tiraram o rei e
+o principe de dentro do carro. O rei estava disforme.
+A rainha, se tinha dito alguma coisa desagradavel
+ao Jo&atilde;o Franco no Arsenal, no Pa&ccedil;o
+n&atilde;o lhe disse palavra. A Maria Pia perguntava
+de quando em quando:&mdash;A morte do rei ser&aacute;
+muito sentida?&mdash;Estava tudo preparado para
+<span class="pagenum">[179]</span>
+uma revolu&ccedil;&atilde;o. O Afonso Costa n&atilde;o deu
+o signal
+porque esperava a morte do Franco. Pormenor
+absolutamente authentico: o Jo&atilde;o Franco ainda
+se ofereceu para governador civil de Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Na noite tragica o Antonio Candido foi
+dos raros que apareceram no Pa&ccedil;o. Estavam l&aacute;
+tambem o Campos Henriques e o Teixeira de
+Souza. Mais ninguem&mdash;nem sequer o corpo diplomatico.
+Esperava-se a cada momento a revolu&ccedil;&atilde;o.
+Os creados carregaram em padiolas pelas
+escadas acima os corpos do rei e do principe.
+A D. Amelia passeava na sala de c&aacute; para l&aacute;,
+infatigavelmente. Passou, perguntou-lhe:&mdash;Que
+diz o Antonio Candido?&mdash;Elle n&atilde;o respondeu e
+ella continuou a passear de c&aacute; para l&aacute; como um
+automato. A rainha velha estava sentada n'uma
+cadeira, sem uma palavra, sem uma lagrima,
+d'olhos vitreos fixos na parede. E assim ficou
+horas, muda e de pedra, emquanto a D. Amelia
+passeava na sala, de c&aacute; para l&aacute;,
+infatigavelmente...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">3 de Fevereiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Venho agora de Lisboa e&mdash;caso curioso&mdash;a
+impress&atilde;o geral &eacute; d'alivio. Respira-se. Estava
+muita gente n'um grupo: o Jo&atilde;o Barreira, o Armando
+Navarro, o Rangel de Lima, o Antonio
+Arroyo, o Columbano, o Maximiliano d'Azevedo,
+<span class="pagenum">[180]</span>
+e todos concordaram em que o rei era mau e
+quasi glorificaram os homens que o assassinaram.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Era um pulha, um pulha e um doido. Vejam
+o retrato que vem estampado no <em>Je sais
+tout</em>... Era elle quem escrevia cartas anonimas
+&aacute;
+propria mulher&mdash;afirma o Jo&atilde;o Barreira.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Foi um grande exemplo e uma tremenda
+li&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Se escapa tinhamos ahi uma dictadura feroz.
+Era capaz de tudo!
+<br />
+
+<br />
+
+S&oacute; o Manuel Ramos, obstinado e cego, teima:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;A memoria do rei h&aacute;-de ser rehabilitada.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No conselho d'estado o Jo&atilde;o Franco foi absolutamente
+inconsciente. Por proposta do Julio de
+Vilhena n&atilde;o se leram as actas da sess&atilde;o anterior,
+como &eacute; costume, para lhe n&atilde;o ser completamente
+desagradavel.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Jo&atilde;o Franco teimou at&eacute; &aacute; ultima,
+agarrou-se
+a tudo, para meter um ministro no governo&mdash;o
+Penha Garcia. Disseram-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Mas n&atilde;o pode ser, bem v&ecirc; que o governo
+tem de revogar a maior parte das suas medidas.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Mas eu concordo com isso. Eu escrevo at&eacute;
+uma carta concordando com isso.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[181]</span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A ultima piada do ministro dos estrangeiros,
+Luciano Monteiro:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Ent&atilde;o V. Ex.<sup>a</sup>
+n&atilde;o faz
+testamento?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;N&atilde;o, o rei tambem o n&atilde;o fez...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O rei e os principes traziam rewolveres comsigo.
+Afirma-se que o principe real e o infante
+D. Manuel ainda chegaram a dar dois tiros n'um
+dos assassinos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje correram boatos de revolta no Porto,
+de ter chegado a Cascaes uma esquadra ingleza,
+etc.. Tudo falso.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No Pa&ccedil;o, na camarilha, havia dois partidos,
+o do rei e o da rainha. O da rainha est&aacute; agora
+de cima.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Insiste-se em que se o rei escapasse ao atentado
+havia uma hecatombe. Diz-se que o Fontes,
+que tinha a qualidade intuitiva de conhecer os
+homens, dizia de D. Carlos:&mdash;&laquo;Nunca o pude
+perceber&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[182]</span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Agora voltam-se as aten&ccedil;&otilde;es para o novo rei.
+Dizem:&mdash;&Eacute; Saboia.&mdash;No conselho d'estado
+foi
+simpatico. Chorou, entregou-se nas m&atilde;os dos que
+o ouviam:&mdash;N&atilde;o estou preparado para reinar.
+<br />
+
+<br />
+
+Os irm&atilde;os adoravam-se. O que foi assassinado
+zangava-se quando este lhe chamava <em>prior
+do Crato</em>. D. Luiz Fillipe era mais reflectido. Este
+&eacute; mais impetuoso&mdash;mas tem melhor
+cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Fevereiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Nos ultimos tempos o rei tinha scenas violentissimas
+com a D. Amelia.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A impress&atilde;o no Porto foi curiosa: Quem &aacute;s
+onze horas da noite passava na pra&ccedil;a de D. Pedro
+via muita gente aos grupos de dez a onze
+pessoas cada um. Ninguem discutia, n&atilde;o se falava
+alto. Era um borborinho de quem conversa
+em segredo, a medo&mdash;ch... ch... ch...&mdash;ao ouvido.
+A noticia soube-se pelo telephone do Borges
+&amp; Irm&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[183]</span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Foi no automovel do Baltar do
+<em>Janeiro</em> que o
+Alpoim se safou para a Hespanha.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+As Anjos contaram &aacute; D. Maria Augusta que
+o electricista de S. Carlos tinha tudo preparado
+para o D. Carlos morrer quando se encostasse
+ao rebordo do camarote no theatro.
+<br />
+
+<br />
+
+O homem suicidou-se quando se viu descoberto.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O novo rei n&atilde;o gosta de
+<em>sport</em>. Sofre de reumatismo.
+Adora a musica. Em pequeno dizia:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Reger uma orchestra n'uma grande sala e
+ouvir no fim os aplausos do publico, isso sim,
+&eacute; que &eacute; gloria!...
+<br />
+
+<br />
+
+As meninas da alta roda, falando d'elle, diziam
+desdenhosas:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Isso s&atilde;o <em>mariquices</em> do
+senhor infante.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Uma velha, a tia Julia, da familia Bordallo:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Coitadinho do principe! Parecia mesmo
+uma menina!... E n&atilde;o estava estragado como
+estes rapazes d'agora. Tinha uma carinha de menina.
+<span class="pagenum">[184]</span>
+E n&atilde;o era porque elle n&atilde;o
+<em>tivesse vontade</em>,
+era porque <em>o n&atilde;o
+deixavam!</em>...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Muita gente que tinha bombas em casa tem-nas
+deitado ao rio.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Da camarilha contam-se coisas como esta.
+Alguem me diz:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Conhe&ccedil;o uma senhora muito de bem, a
+quem este e aquelle (e cita os nomes) foram fallar
+da parte do rei, para ir a bordo do
+<em>yacht</em>.
+Ella deu-lhes uma desanda tremenda.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Jo&atilde;o Franco j&aacute; tinha organisado listas de
+proscrip&ccedil;&otilde;es. A alguns administradores de
+concelho
+foram enviadas circulares, pedindo o nome
+dos individuos que na localidade entravavam a
+marcha do governo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O pae do Jo&atilde;o Franco e os redactores do
+<em>Jornal da Noite</em> foram corridos do
+Suisso.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[185]</span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Trindade Coelho conta que Jo&atilde;o Franco, nas
+vesperas dos acontecimentos, foi consultar a
+bruxa&mdash;M.<sup>me</sup> Brouillard, uma
+transmontana esperta
+que ahi est&aacute; em Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; ha seis contos para a familia do Bui&ccedil;a.
+Muita gente lhe arrancou bot&otilde;es, cabellos, bocados
+de vestido. Jo&atilde;o de Deus Guimar&atilde;es foi
+vel-o &aacute; <em>morgue</em>. Era
+prohibido tocar no cadaver.
+Entrou em conversa com o guarda:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Ah! O Bui&ccedil;a tem ainda o bra&ccedil;o rigido!
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Qual!
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Parece...
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;J&aacute; teve, j&aacute;, mas agora est&aacute;
+lasso.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Mas olhe que...
+<br />
+
+<br />
+
+E aproximando-se do cadaver correu-lhe a
+m&atilde;o pelo bra&ccedil;o, como quem apalpa, e deu-lhe
+<em>um formidavel aperto de
+m&atilde;o</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>frigorifico</em> &eacute; um
+buraco, e os tres cadaveres
+foram atirados uns por cima dos outros a trouxe
+mouxe, de mistura com peda&ccedil;os de gelo. Toda
+a gente tira o chap&eacute;u e fala baixinho. O regicid
+&eacute; um
+buraco, e os tres cadaveres
+foram atirados uns por cima dos outros a trouxe
+mouxe, de mistura com peda&ccedil;os de gelo. Toda
+a gente tira o chap&eacute;u e fala baixinho. O regicida
+est&aacute; amarfanhado, com lama na barba e nos
+cabellos. Seus olhos n&atilde;o s&atilde;o olhos de
+morto&mdash;exprimem
+espanto e colera, e a figura &eacute; s&eacute;ria,
+&eacute;
+<span class="pagenum">[186]</span>
+tremenda. Tem rasg&otilde;es, feridas na cara, e m&atilde;os
+nervosas, m&atilde;os delicadas de mulher.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Diz hoje um professor que conheceu o Bui&ccedil;a:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Era um homem profundamente serio e
+que protestava sempre com colera, quando se
+lhe falavam em politica:&mdash;N&atilde;o me falem em
+politiquices!
+n&atilde;o me falem em politiquices!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Jo&atilde;o Pinto dos Santos:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Emquanto estive preso alimentei-me de vegetaes
+e de odio. Nos primeiros dias aquillo impressionou-me;
+mas logo que tive livros serenei...
+Queriam fechar as janellas, mas eu disse ao
+Malaquias de Lemos:&mdash;O ar n&atilde;o! o ar n&atilde;o
+m'o
+tirem, prefiro morrer! E tambem lhe pe&ccedil;o que
+quando bater &aacute; porta m'a abram logo, sen&atilde;o
+n&atilde;o
+aguento. Antes duas balas!&mdash;Deixaram-me a janella
+aberta... Mandei vir uns poucos de fatos,
+cal&ccedil;as de ver&atilde;o, d'inverno, etc.&mdash;para
+ter a
+sensa&ccedil;&atilde;o
+de que estava livre. Depois emprestaram-me
+livros. Entre outros um volume de viagens
+na China, onde ha algumas paginas sobre a vida
+da mulher chineza. E aquillo fez-me chorar, t&atilde;o
+certo &eacute; que a desgra&ccedil;a nos aproxima dos
+desgra&ccedil;ados.
+Afinal chegaram os livros que tinha
+<span class="pagenum">[187]</span>
+pedido, um compendio francez de philosophia,
+sete calhama&ccedil;os de economia politica&mdash;e fui
+quasi feliz. O juiz interrogou-me:&mdash;Porque est&aacute;
+preso?&mdash;N&atilde;o sei.&mdash;H&aacute; uma
+testemunha que o
+viu no elevador da bibliotheca.&mdash;&Eacute; falso. Estava
+n'uma casa perto da bibliotheca, para combinar
+com o Alpoim e alguns amigos a nossa atitude
+perante as pris&otilde;es que estavam sendo
+feitas.&mdash;Chamou-se
+um policia a quem o juiz perguntou:
+&mdash;Conhece o snr. Jo&atilde;o Pinto dos
+Santos?&mdash;N&atilde;o
+senhor.&mdash;Diante d'isto &eacute; claro que o juiz
+tinha de me mandar embora. Que imagina que
+fez o Jo&atilde;o Franco? <em>O Jo&atilde;o Franco
+avocou o
+processo a conselho de ministros e condemnou-me!</em>
+Era odio pessoal. Na municipal fui sempre
+bem tratado.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;E souberam?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Alguma coisa presentimos na noite em
+que foi atacado o regimento de Campo d'Ourique.
+Supozemos uma revolu&ccedil;&atilde;o gorada. Se
+atiram bombas ao quartel eramos indubitavelmente
+fuzilados. Uma noite ouvimos formar
+as tropas, carregaram com precipita&ccedil;&atilde;o as armas,
+um oficial passou a correr e diante do
+meu quarto bradou &aacute; sentinella:&mdash;Cuidado com
+esse sujeito!&mdash;O Chagas disse-me hontem que,
+quando chegou &aacute; janella, um soldado lhe fez um
+<em>manguito</em>. Os oficiaes &eacute;
+que continham a soldadesca&mdash;mas
+at&eacute; onde?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[188]</span>
+&mdash;E disse no seu depoimento que havia de
+matar o Jo&atilde;o Franco?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;&Eacute; falso; o comandante da guarda falou-me
+n'isso e eu respondi-lhe:&mdash;Bem v&ecirc; V. Ex.<sup>a</sup>
+que
+n&atilde;o quero que meus filhos possam dizer:&mdash;Meu
+pae foi um assassino.&mdash;Isso n&atilde;o! Mas se um dia,
+depois de o insultar bem insultado, n'uma discuss&atilde;o
+em plena camara, elle avan&ccedil;ar para mim,
+deito-lhe as m&atilde;os &aacute;s guellas, e nem V. Ex.<sup>a</sup>
+nem
+toda a guarda municipal m'o arrancam das
+unhas!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ha quem diga do Jo&atilde;o Franco:&mdash;Foi sempre
+um cobarde. Em Coimbra a valentia vinha-lhe
+do Jos&eacute; Lobo e dos irm&atilde;os, uns tipos d'aquelle
+feitio, e agora da municipal e da policia. O pae
+era a mesma coisa, e o tio, o <em>Mil diabos da
+capinha</em>,
+dava tiros e fazia disturbios sempre que
+tinha as costas quentes.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Franco fazia cincoenta e quatro annos
+este mez de Fevereiro.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">8 de Fevereiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; hoje o dia do enterro. Essa gente que veio
+de f&oacute;ra para assistir ao funeral, principes, duques,
+<span class="pagenum">[189]</span>
+generaes, diplomatas, est&aacute; cheia de medo.
+E por ahi diz-se &aacute; bocca cheia:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Ainda bem que foram portuguezes os que
+executaram o rei. &Eacute; a primeira vez que um rei
+portuguez morre &aacute;s m&atilde;os do seu povo.
+At&eacute;
+agora acabavam &aacute;s m&atilde;os das camarilhas.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o me sae dos olhos este quadro do enterro.
+Esperam-se bombas... Os sinos tocam, todos os
+sinos das egrejas; rufam os tambores cobertos de
+luto. Desfilam coches com principes e carros
+com fardas. Um homem apregoa:&mdash;<em>O ultimo
+granadeiro!</em>
+quem quer <em>O ultimo granadeiro?</em>&mdash;Mais
+carros, mais coches, o filho do imperador da
+Allemanha, guardado por uma escolta de prussianos,
+que o pae mandou com elle com medo
+que lh'o matem. Tropas em fila, carro&ccedil;as de gala,
+generaes, diplomatas glabros, com o olho desconfiado
+e vontade que aquillo termine depressa...
+Agora a carro&ccedil;a com o sceptro e a cor&ocirc;a, e outra
+com crepes a rasto como se levasse o luto da
+monarchia.&mdash;<em>O
+ultimo granadeiro!</em>...&mdash;Mais coches,
+e aqui e alli o desfile cortado pela multid&atilde;o irrespeitosa.
+Um laivo de grotesco na tragedia, riscos
+exagerados de carv&atilde;o que fazem medo... Phisionomias
+lividas nas fardas pomposas, decora&ccedil;&otilde;es,
+gente que mal se atreve a olhar a plebe temerosa&mdash;silencio
+e um largo ah! a que se segue
+<span class="pagenum">[190]</span>
+uma gritaria d'inferno. Bicha de carros interminavel,
+mortos por largarem n'uma abalada de
+pavor&mdash;carros funerarios passando entre a
+indiferen&ccedil;a
+gelada&mdash;farrapos de multid&atilde;o que atravessam
+o prestito propositalmente, tropas esbandalhadas,
+cor&ocirc;as que parecem velhas... E por fim
+mais tropas e o mesmo grito insistente:&mdash;<em>O ultimo
+granadeiro!</em> quem quer <em>O ultimo
+granadeiro?</em>...
+<br />
+
+<br />
+
+Dias mais tarde havia sujeitos que se chegavam
+&aacute; beira das pessoas que deitavam luto e perguntavam-lhe
+com ar de tro&ccedil;a:&mdash;Ent&atilde;o morreu-lhe
+alguem da familia?...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Correia d'Oliveira:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Se visse!... Quasi ninguem tirava o chapeu
+quando o enterro passou... A sombra do
+rei comeu, sumiu a do principe.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Tem-se distribuido muitos papeis com estes
+dizeres:<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;" class="tinyl">
+Morte aos Sanguinarios<br />
+
+Afonso Costa, Alpoim, Ribeira Brava,<br />
+
+os Verdadeiros Assassinos
+<br />
+
+<br />
+
+DE EL-REI E DO PRINCIPE REAL.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[191]</span>
+E outros, escriptos &aacute; machina, atribuindo o
+crime a este e &aacute;quelle...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A preocupa&ccedil;&atilde;o do rei &eacute; esta:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;N'este caso que faria D. Pedro V?
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Jo&atilde;o Franco possue cartas do rei, em que
+elle lhe apontava escandalos em diferentes secretarias.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O dr. Curry Cabral, que &eacute; um homem ponderado,
+disse em casa das Thomares:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Ha cinco annos que o Jo&atilde;o Franco est&aacute;
+doido.
+<br />
+
+<br />
+
+E o Silva Bastos, que foi da sua intimidade:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;&Aacute;s vezes avan&ccedil;ava para a gente de
+punhos
+fechados, n'um phrenesi. Depois dava-lhe a nevralgia
+e deitava as m&atilde;os &aacute; cara ou desatava
+aos berros&mdash;e, n'um instante, como n'uma roda
+que gira vertiginosamente e vae passando por
+dois buracos, lia-se-lhe nos olhos, sucessivamente
+e sem interrup&ccedil;&atilde;o, colera, despreso,
+ambi&ccedil;&atilde;o, serenidade,
+medo, orgulho, riso, ferocidade, paz,
+vertigem...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[192]</span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E outro:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Era a obra de Martins posta em pratica
+por um doido. S&oacute;mente o Martins dissera, arrependido,
+a Junqueiro:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Nas penitenciarias est&aacute; gente muito melhor
+que o rei.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">11 de Fevereiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Espalha-se que, se isto n&atilde;o socegar, o rei e a
+rainha se v&atilde;o embora e o estrangeiro toma conta
+das colonias. Pede-se repress&atilde;o. Diz-se que h&aacute;
+oficiaes de artilharia e cavalaria que querem fazer
+uma <em>intentona</em>&mdash;e os politicos
+j&aacute; se n&atilde;o entendem
+por causa das nomea&ccedil;&otilde;es dos governadores
+civis!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Jo&atilde;o Chagas surge na livraria, mais gordo,
+com um esplendido casac&atilde;o alvadio:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Tenho estado preso diferentes vezes, mas
+nunca senti tanto a falta de liberdade como d'esta.
+Das outras falava, tinha ar e luz &aacute; minha
+disposi&ccedil;&atilde;o.
+Agora foi a incomunicabilidade absoluta.
+E, se atirassem bombas ao quartel, eramos despeda&ccedil;ados.
+<span class="pagenum">[193]</span>
+E eu, que sabia que alguns grupos tinham
+combinado tudo como quem resolve um
+problema&mdash;dizia comigo:&mdash;Se esses diabos
+n&atilde;o
+t&ecirc;m a caridade de se lembrarem de n&oacute;s, estamos
+perdidos!&mdash;Um dia &aacute; noite tive a
+impress&atilde;o nitida
+de que iamos ser fusilados. Ouvi reboli&ccedil;o, as
+tropas carregaram as armas, e at&eacute; senti que, com
+a precipita&ccedil;&atilde;o, deixavam cahir alguns cartuxos.
+Tentei espreitar por um postigo. Um oficial que
+passou correndo disse &aacute;
+sentinela:&mdash;Cuidado!&mdash;O
+frio era mortal. O soldado encostou-se &aacute;
+porta&mdash;n&atilde;o
+pude espreitar. Ignorava tudo. Estendi-me
+em cima da cama e s&oacute; &aacute;s quatro horas da
+manh&atilde;
+sucumbi de cansa&ccedil;o... Que horas! &Eacute; horrivel
+morrer assim sem lucta. Cheguei a fazer um pequeno
+testamento...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="illustration"><a name="f13" id="f13"></a><img style="width: 500px; height: 685px;" alt="Oliveira Martins.&mdash;Desenho de Antonio Carneiro." title="Oliveira Martins.&mdash;Desenho de Antonio Carneiro." src="images/fig16.png" /><br />
+
+<em>Oliveira
+Martins.</em>&mdash;Desenho de Antonio Carneiro.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E o Jo&atilde;o Pinto dos Santos:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Pude ver d'uma vez o <em>Diario
+Illustrado</em>, nas
+m&atilde;os d'um soldado, com o retrato do rei, mas
+calculei:&mdash;chegaram de Vila Vi&ccedil;osa.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Mas nem sequer reparou na tarja de luto?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Eu n&atilde;o. O Antonio Jos&eacute; d'Almeida diz
+que
+reparou e que desconfiou que o rei tinha sido
+morto.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Os oficiaes&mdash;continua o
+Chagas&mdash;trataram-me
+muito bem, mas &aacute; despedida
+disse-lhes:&mdash;Agrade&ccedil;o-lhes
+muito a amabilidade com que
+me trataram, mas para outra vez prefiro ir para
+a Penitenciaria. L&aacute; talvez chegue algum rumor.
+<br />
+
+<br />
+
+E conclue:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[194]</span>
+&mdash;Acalma&ccedil;&atilde;o sim,
+acalma&ccedil;&atilde;o,
+se assim o entenderem,
+<em>durante alguns mezes</em>. Ah
+n&atilde;o foi em
+v&atilde;o que trabalhamos vinte annos!...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Fui hoje ao caf&eacute; do Gelo ver o sitio onde o
+Bui&ccedil;a se reunia com os amigos. O caf&eacute;
+&eacute; j&aacute; de
+si curioso, com duas salas d'aspecto completamente
+diverso, uma para o Rocio, d'aparato;
+outra, nas trazeiras, baixa, para os freguezes envergonhados,
+com portas para a rua do Principe.
+Era ali, n'aquella meza, do canto, &aacute; direita quem
+entra pelas trazeiras, que o professor se juntava
+com os outros e passavam horas a conversar baixinho.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Eram muitos?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;&Aacute;s vezes doze ou quinze&mdash;diz o
+creado.&mdash;E
+ficavam at&eacute; tarde em grandes discuss&otilde;es...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Todos os politicos s&atilde;o concordes n'isto: o D.
+Carlos gastara nos ultimos annos, alem da
+dota&ccedil;&atilde;o,
+dez ou doze mil contos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E toda a gente diz que era um mentiroso e
+que difamava a mulher. Ainda hoje alguem contou
+<span class="pagenum">[195]</span>
+que um dia apareceram uns papeis inventando
+infamias da rainha com a Sandoval. Investigou-se.
+E o Jos&eacute; Luciano disse logo:&mdash;Escusam de procurar,
+isso &eacute; d'El-Rei.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>Seculo</em>, disse-me o Avelino
+d'Almeida, tem
+tido tiragens de 160:000 exemplares.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Fevereiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Depois da morte do rei o Arnoso foi ao Malaquias
+de Lemos propor-lhe a contra revolu&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Nem me fale n'isso. Se veem para a rua
+corro-os a bala raza e vou j&aacute; d'aqui contar tudo
+ao Ferreira do Amaral.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">20 de Fevereiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Era hoje que devia rebentar a contra revolu&ccedil;&atilde;o,
+para imp&ocirc;r ao Pa&ccedil;o uma dictadura militar.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje fui a casa do Schvalbach, ao Conservatorio.
+Coisas antigas e lou&ccedil;a das Caldas, velhos
+<span class="pagenum">[196]</span>
+quadros do Liborio e tectos pintados em caramanch&atilde;o
+pelo Augusto Pina. O homem est&aacute;
+aqui: &eacute; uma revista de anno&mdash;dificuldades de
+que sae com um sorriso, enredo, e um fio de oiro
+e de ternura a envolver tudo isto...
+<br />
+
+<br />
+
+Conheceu o rei e explica-o:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Quando queria era um <em>charmeur</em>.
+&Aacute;s vezes
+ninguem o podia aturar e mentia como uma cesta
+r&ocirc;ta. Ultimamente d&eacute;ra nesta: quando se falava
+d'alguma rapariga bonita, ahi dos seus quinze
+annos, dizia com um sorriso:&mdash;&Eacute; minha filha.
+<br />
+
+<br />
+
+E conclue:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Era um grande pantomimeiro!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Fevereiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Antonio Jos&eacute; de Freitas, amigo do Pa&ccedil;o,
+do Arnoso e do Sabugosa:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O rei era d'estes homens que gostam de
+esconder as boas qualidades e de salientar os
+seus defeitos. Inteligente, de bom cora&ccedil;&atilde;o,
+artista,
+n&atilde;o soube ou n&atilde;o quiz tratar com os homens.
+Podia ter com elle todos os que pensam ou
+escrevem em Portugal&mdash;afastou-os. Ha annos
+para c&aacute; o caso explica-se: garanto-lhe que, depois
+que teve o tipho, ficou impotente e sentia-se
+humilhado e inferior ao primeiro gallego que
+passa na rua... Ha cartas d'elle adoraveis de simplicidade,
+<span class="pagenum">[197]</span>
+ha casos da sua vida e da vida palaciana
+que se n&atilde;o comprehendem.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;E como artista?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Era elle, sem duvida, que fazia com talento
+os esbo&ccedil;os. Mas, como n&atilde;o tinha
+tempo&mdash;outros
+lhe acabavam os quadros... Como rei s&oacute; teve um
+mal&mdash;come&ccedil;ou a sel-o apenas ha um anno.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Fevereiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Todos os dias no Pa&ccedil;o se recebem cartas
+anonimas com amea&ccedil;as de morte. O medo &eacute;
+enorme. A rainha tem sempre deante dos olhos
+o quadro horroroso, e, se acorda de noite, quer
+por for&ccedil;a v&ecirc;r o filho.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Manuel Ramos:
+<br />
+
+<br />
+
+Serviam-se, o Franco e os outros, da pimponice
+do rei, para lhe arrancarem medidas de repress&atilde;o.
+Se o viam hesitar:&mdash;Mas se Vossa Magestade
+receia...&mdash;E elle logo decidido:&mdash;Eu
+n&atilde;o!&mdash;E assignava tudo. E fique voc&ecirc;
+sabendo:
+n&atilde;o foi elle s&oacute; que comeu: a maior parte do
+dinheiro,
+dos dez ou doze mil co
+Serviam-se, o Franco e os outros, da pimponice
+do rei, para lhe arrancarem medidas de repress&atilde;o.
+Se o viam hesitar:&mdash;Mas se Vossa Magestade
+receia...&mdash;E elle logo decidido:&mdash;Eu
+n&atilde;o!&mdash;E assignava tudo. E fique voc&ecirc;
+sabendo:
+n&atilde;o foi elle s&oacute; que comeu: a maior parte do
+dinheiro,
+dos dez ou doze mil contos gastos a
+mais, ficou no bolso dos politicos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[198]</span>
+<div class="date">Fevereiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A guarda-fiscal de Cascaes tem ordens apertadas.
+Teme-se um desembarque de armas e muni&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Foi prohibido o desfile do publico diante dos
+cadaveres regios, porque a urna do rei era coberta
+de escarros!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Fevereiro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Jo&atilde;o Chagas:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Tem visto a atitude palaciana do
+<em>Dia</em>?
+Eu, de mim, tenho um caderno com este titulo
+<em>Alpoim</em> e todos os dias collo
+peda&ccedil;os do <em>Janeiro</em>
+e do <em>Dia</em>. Tome logares porque vai
+assistir a um
+espectaculo estraordinario... Nunca o estrangeiro
+fez tanta press&atilde;o sobre n&oacute;s como agora...
+Imp&otilde;e-nos
+um governo&mdash;e esse governo, n&atilde;o podendo
+ser rotativo, ha-de sahir da pra&ccedil;a publica.
+Ora n&atilde;o sendo republicano, &aacute; maneira do que
+se fez na Italia ou no Brasil, vae ser do Alpoim.
+E ver&aacute;! ver&aacute;!... Eu j&aacute; disse: escrevo
+logo
+um artigo com este titulo <em>O
+Regicida</em>, se elle e
+<span class="pagenum">[199]</span>
+os seus amigos nos atrai&ccedil;oarem&mdash;os seus amigos,
+que, diante de mim e de Afonso Costa, se
+declaravam todos republicanos. D'antes procuravam-nos
+todas as noites, agora fogem-nos. Vae
+ver, vae-os ver servirem-se da policia contra n&oacute;s.
+Oh, mas eu hei-de declarar que elles &eacute; que nos
+forneciam as bombas! O Alpoim ha-de morrer
+&aacute;s nossas m&atilde;os!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Mar&ccedil;o&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Braz&atilde;o conta que na
+<em>premi&egrave;re</em> do
+<em>Othelo</em>,
+o irm&atilde;o de Augusto Machado foi cumprimental-o
+ao camarim:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Vaes admiravelmente no papel, mas deixa-me
+dizer-te (aqui para n&oacute;s) a pe&ccedil;a &eacute; uma
+grande
+borracheira...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">9 de Mar&ccedil;o&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Na recep&ccedil;&atilde;o de ante-hontem a ra&iacute;nha
+tinha
+os olhos cheios de lagrimas sufocadas e disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;N&atilde;o tenho medo por mim, &eacute; por elle...
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Os politicos, agora v&atilde;o ter
+juizo...&mdash;disse
+alguem. E ella respondeu:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Os politicos n&atilde;o teem
+cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+E o rei dizia a um e a outro:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Seja bom portuguez e meu amigo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[200]</span>
+<div class="date">Mar&ccedil;o&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Vou a Lisboa&mdash;diz o Columbano ao conde
+d'Arnoso.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Tambem eu vou a essa Penitenciaria onde
+andam os assassinos &aacute; solta.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Mar&ccedil;o&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Antonio Jos&eacute; de Freitas:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O Marianno de Carvalho tinha ido a Paris
+negociar um emprestimo e, conversando com
+Rouvier, perguntou-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Se se fizer a republica em Portugal?...
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Que me importa! Que me importa mesmo
+que se fa&ccedil;a a republica em Hespanha. Mas se se
+fizer a federa&ccedil;&atilde;o iberica, ent&atilde;o alto
+l&aacute;! fazemos a
+federa&ccedil;&atilde;o latina.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Rodrigo da Fonseca dizia dos Castilhos:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Que familia! O melhor de todos &eacute; o
+cego&mdash;mas
+esse mesmo, se tivesse olhos, era preciso
+furar-lhos!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[201]</span>
+<div class="date">Mar&ccedil;o&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Jo&atilde;o Chagas:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O Alpoim foi quem nos forneceu as armas
+para a revolu&ccedil;&atilde;o. Foi o que elle fez.
+N&oacute;s tinhamos
+homens, elles deram-nos as armas e uns contos
+de reis. Todos elles se declaravam republicanos,
+menos o Moreira d'Almeida, que disse:&mdash;Eu
+n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o sou republicano, mas sou
+anti-republicano.&mdash;Quando
+sahiamos das reuni&otilde;es, eu e
+o Afonso Costa riamos &aacute;s gargalhadas.
+<br />
+
+<br />
+
+Este Jo&atilde;o Chagas t&atilde;o facil, t&atilde;o
+insinuante,
+com o riso prompto nos labios grossos e sua
+p&ocirc;pa branca no alto da cabe&ccedil;a, nunca conversa,
+nunca o vi conversar: se encontra alguem, seja
+onde f&ocirc;r, conspira logo. Tem passado a vida,
+sempre simpathico e facil, sempre bem vestido e
+correcto como um actor que desempenha o seu
+papel. Mas no fundo d'esta alma, sob este riso e
+esta p&ocirc;pa que parece pintada, s&oacute; existe uma
+vontade
+que nunca esmorece, uma ambi&ccedil;&atilde;o tenaz e
+um egoismo feroz.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Isto ha-de resolver-se em 1909. Ah, n&atilde;o
+passa d'ahi! &Eacute; um conflicto inevitavel. Que me
+importa o Porto?
+<br />
+
+<br />
+
+E como eu duvide:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Temos o exercito comnosco. At&eacute; na municipal.
+<span class="pagenum">[202]</span>
+Na provincia ha terras em que os regimentos
+s&atilde;o completamente nossos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Abril&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Hontem no Porto encontrei o Junqueiro, mais
+velho, mais magro, e a proposito da atitude palaciana
+de Eduardo Burnay no <em>Jornal do
+Commercio</em>,
+conta que elle em tempos, quando atacava
+o rei, o f&ocirc;ra procurar ao Porto e lhe diss&eacute;ra
+do D. Carlos:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;D'uma vez, n'uma d'aquellas ceias que dava
+no Alemtejo aos esturdios seus amigos, ofereceu
+a cada conviva uma navalha de ponta e mola,
+com as armas reaes.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Novembro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A rainha n&atilde;o disse que conhecia o assassino
+do rei. Phrase textual ouvida pelo Batalha Reis:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Os outros n&atilde;o os conhe&ccedil;o, mas aquella
+cara do homem das barbas nunca mais me sae
+dos olhos<sup><a href="#n7">[7]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[203]</span>
+<div class="date">Dezembro&mdash;1908.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O caso do dia &eacute; este:&mdash;Um alferes da
+guarni&ccedil;&atilde;o
+no Pa&ccedil;o, quando assistia ao jantar levantou-se,
+e, contra todas as regras e todas as conveniencias,
+falou ao rei pouco mais ou menos
+n'estes termos:&mdash;Vossa Magestade anda iludido.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[204]</span>
+Esta gente que o cerca engana-o. A situa&ccedil;&atilde;o do
+paiz &eacute; deploravel, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Imaginem, se podem, as atitudes, o espanto,
+o espectaculo d'esta gente, interrompida pela
+primeira vez naquella representa&ccedil;&atilde;o em que o
+formulario &eacute; respeitado como um culto. Mas na
+verdade o alferes disse o que cada um sente no
+fundo da sua consciencia. Foi inconveniente,
+mas poz o dedo na ferida. O rei est&aacute; rodeado
+de fic&ccedil;&otilde;es e de mentiras. N&atilde;o soube
+assumir
+as responsabilidades do pae, com decis&atilde;o e coragem,
+nem totalmente repelil-as.
+<br />
+
+<br />
+
+Enredam-no. Os politicos d&atilde;o-se o ar de o
+proteger e &eacute; elle quem os protege. Hesita, tem
+medo... Sente-se que tudo isto vacila...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[205]</span>
+<div class="date">Janeiro&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Esta vida artificial como lhe sinto a
+falta!&mdash;exclama
+o Fialho ali ao p&eacute; do Suisso.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;E porque n&atilde;o vive em Lisboa?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;N&atilde;o posso! n&atilde;o posso! Se soubesse!...
+Tenho
+um irm&atilde;o epileptico, que meu pae me legou
+&aacute; hora da morte. N&atilde;o devo abandonal-o,
+nem
+entregal-o a m&atilde;os mercenarias... Depois as arvores,
+depois as vides, a que a gente cria amor...&mdash;Uma
+pausa triste, uma hesita&ccedil;&atilde;o, uma duvida
+e acrescenta isto:&mdash;N&atilde;o tenho tido quinze dias
+de felicidade em toda a minha vida!
+<br />
+
+<br />
+
+Falamos de politica:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Isto est&aacute; a pedir sangue... E olhe: no
+Alemtejo n&atilde;o ha republicanos&mdash;ha odios. O pobre
+n&atilde;o pode v&ecirc;r o rico. &Eacute; uma gente
+ro&iacute;da de
+invejas e rancores, que passa annos e annos da
+vida a cubi&ccedil;ar um campo...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Jo&atilde;o Barreira, pequenino, inalteravel, de
+capinha:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;A revolu&ccedil;&atilde;o abortou em onze de
+Fevereiro
+porque os chefes foram todos presos. O Chagas
+tinha nas m&atilde;os as chaves do movimento.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p206" id="p206">[206]</a></span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Quem s&atilde;o os regicidas?... O Ferreira do Amaral,
+ao sahir do ministerio, declarou que n&atilde;o tinha
+apurado nada de definitivo. Diz:&mdash;Eu bem sabia,
+por cartas anonimas, que se preparavam
+para me alijar, mas deixei-os fazer...&mdash;Porqu&ecirc;,
+almirante?&mdash;A situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o me
+era
+agradavel.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Novos boatos de intentonas, de massacres,
+novos boatos de reac&ccedil;&atilde;o. Agora &eacute;
+certo!... Os regicidas
+v&atilde;o ser presos. Conta-se que o Heitor Ferreira
+dissera:&mdash;Vendi a carabina a Fulano.&mdash;O
+ministerio Amaral cahiu, porque, dispondo de
+todos os elementos, n&atilde;o quiz prender os assassinos.
+Um dos regicidas est&aacute; em Fran&ccedil;a, mas Clemenceau
+recusa-se a extradital-o.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Mello Barreto garante como absolutamente
+autentico o boato que por ahi correu, de que o
+rei se confessa todas as semanas.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Larga distribui&ccedil;&atilde;o d'estes papelinhos:<sup><a href="#f14">[nota de editor]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p207" id="p207">[207]</a></span>
+<div class="date">Janeiro&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Fala-se hoje d'um Munhoz, oficial do exercito,
+tipo acabado de lisboeta&mdash;caf&eacute;, conversa e parodia,
+cheio de gra&ccedil;a popular e literaria. J&aacute; reformado,
+vae aos domingos aos touros para a Outra
+Banda, com um cabaz no bra&ccedil;o e um chalemanta
+&aacute;s costas... Esteve amigado com uma
+mulher j&aacute;
+<em>fann&eacute;e</em>, mas ainda com
+linha e um
+grande nariz imperial, que ahi andou por Lisboa
+e se fazia passar como aparentada com as mais
+ilustres familias de Hespanha. A mulher n&atilde;o tinha
+dinheiro, mas alguem presenteara-a, quando
+a deixou, com uma rica mobilia. E Munhoz e ella
+iam vivendo dos trastes, hoje um trem&oacute; vendido,
+amanh&atilde; uma comoda, depois um sof&aacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;E que tal, Munhoz?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Vae-se vivendo, filho. Vamos vendendo os
+trastes. Olha, menino, hoje almo&ccedil;amos
+n&oacute;s um
+<em>bidet</em>&mdash;e por signal que
+n&atilde;o estava nada mau!...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+L&aacute; no alto, no friorento Pa&ccedil;o d'Ajuda, entre
+gente caduca e algumas damas do passado, a
+rainha Maria Pia passa os dias e as noites, como
+uma figura de tragedia, a regar as flores d'um
+tapete. Mataram-lhe o pae, o filho e o neto.
+Peor: envelheceu. Se p&aacute;ra de regar conta:&mdash;Um...
+<span class="pagenum">[208]</span>
+dois... tr&ecirc;s...&mdash;A quem se refere? Ao
+pae, ao rei, ao principe, todos assassinados?
+Senta-se &aacute; meza e diz a figuras imaginarias ou
+aos phantasmas que se sentam a seu lado:&mdash;Come,
+Luiz? N&atilde;o queres d'este prato, Carlos?&mdash;E
+l&aacute; torna a regar um dia, outro dia, sempre,
+as flores que n&atilde;o reverdecem do mesmo tapete
+do seu quarto... E esta mulher elegante, que
+despertou paix&otilde;es e inspirou poetas, parece uma
+velha actriz, cheia de rugas, sem contracto, f&oacute;ra
+do seu meio e da sua &eacute;poca. Ao vel-a passar,
+baixando a cabe&ccedil;a para aqui e para acol&aacute;, no
+mesmo gesto machinal, a gente sup&otilde;e que o passado
+sahiu do sepulchro e teima em sorrir-nos,
+com os dentes posti&ccedil;os e o cabelo pintado a escorrer
+amarelo...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O D. Afonso adora o sobrinho. Afian&ccedil;a:&mdash;Se
+m'o matarem quero ser rei uma hora, mas
+n'essa hora hei-de mandar...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;E o rei?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O rei...&mdash;diz alguem que foi duas ou tres
+vezes ao Pa&ccedil;o&mdash;O rei &eacute; um fidalguinho
+muito
+religioso e temente a Deus, e cheio de vontade e
+de orgulho.&mdash;E acrescenta:&mdash;N&atilde;o trata,
+como
+o pae, a gente por tu, mas por voc&ecirc;.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[209]</span>
+<div class="date">Janeiro&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Fala-se com o Antonio Jos&eacute; de Freitas,
+do
+D. Pedro V e um do lado diz:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Era um pedante.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Se era! O que voc&ecirc;s n&atilde;o sabem
+&eacute; que
+deixou vinte e tantos calhama&ccedil;os sobre coisas
+militares com o titulo em latim. E de todos esses
+livros n&atilde;o se apura uma pagina...
+<br />
+
+<br />
+
+Do D. Luiz e da D. Maria Pia narra anecdotas,
+ditos...
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O D. Luiz mandava-me chamar muitas
+vezes ao Pa&ccedil;o&mdash;e algumas por causa do Shakespeare.
+Uma vez quiz discutir o <em>Hamlet</em>
+commigo&mdash;elle
+que me roubou duzentas e tantas
+phrases!&mdash;e eu disse-lhe:&mdash;Pois sim, vamos
+l&aacute;
+discutir, mas V. Magestade n&atilde;o ha-de extranhar
+que eu me defenda com quantos argumentos tenha,
+nem que fale mais alto, porque fui professor
+de meninos e tenho esse mau habito. Alem
+de tudo isso sou um homem nervoso...&mdash;E discuti,
+discuti com unhas e dentes. Por fim elle
+disse-me:&mdash;Pois sim, Freitas, mas voc&ecirc; o que
+n&atilde;o p&ocirc;de &eacute; conceber o
+<em>Hamlet</em> como eu, sob o
+ponto de vista de dissimulador, porque n&atilde;o tem
+a minha categoria. S&oacute; um principe sabe o que
+&eacute; dissimular...
+<br />
+
+<br />
+
+E eu respondi logo:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[210]</span>
+&mdash;Se V. Magestade dissimula por causa da
+sua categoria, &eacute; porque &eacute; um diplomata; se
+&eacute;
+por organisa&ccedil;&atilde;o &eacute; porque &eacute;
+um histerico...
+<br />
+
+<br />
+
+E elle mandou-me embora.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Quem os p&otilde;e assim aos reis, ao D. Carlos,
+ao D. Luiz, ao imperador do Brazil, s&atilde;o os grandes
+homens, o Victor Hugo, o Rossini, os que
+os incensam a torto e a direito. O D. Luiz era
+inteligente e conhecia os classicos musicaes, mas,
+como n&atilde;o estudava, tocava mal. Pois um dia o
+Rossini, em Paris, depois de o ouvir, disse-lhe:&mdash;Vou
+organisar um concerto em minha casa,
+para que V. Magestade, que &eacute; um dos melhores
+musicos que conhe&ccedil;o, seja ouvido e apreciado.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O D. Luiz, como todos os fidalgos portuguezes,
+gostava de conviver com gente baixa. Quando
+se iam embora os ajudantes e a c&ocirc;rte, ficava
+com os particulares, com a gente que lhe chamava
+<em>doutor Tavares</em>, e ent&atilde;o
+regalava-se de escandalo,
+de ditos, de m&aacute; lingua ordinaria.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o me admira que elle gostasse da Rosa
+Damasceno. Era uma mulher <em>caline</em>,
+muito meiga.
+<span class="pagenum">[211]</span>
+Na intimidade devia ser adoravel. E boa. Desde
+que foi amante de D. Luiz, dava todo o dinheiro
+que ganhava no theatro.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A Maria Pia &eacute; uma mulher inteligente, apezar
+de pessimamente educada, sem m&atilde;e. Detestavam-se,
+mas que diplomatas, ella e o rei!
+Quando se anunciou o casamento do D. Carlos,
+D. Luiz disse-me:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Casa por am&ocirc;r. Fez a c&ocirc;rte &aacute;
+mulher,
+escreveram-se,
+elle mandou-lhe fl&ocirc;res e ia para a
+plateia d'um theatro em Paris namoral-a para o
+camarote.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o sei quem fala do Saldanha...
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Foi o diabo para o mandarem para Londres,
+quando se quizeram v&ecirc;r livres d'elle. O governo
+perguntou para a Inglaterra e de l&aacute; responderam
+que n&atilde;o era <em>persona
+grata</em>. Foi preciso
+que o D. Fernando escrevesse &aacute; rainha Victoria,
+que acabou por ceder, dizendo:&mdash;Mandem
+l&aacute;
+esse velho pecador.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Fevereiro&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Judice Bicker, oficial da armada e antigo
+governador da Guin&eacute; no tempo do Hintze:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[212]</span>
+&mdash;N&atilde;o, n&atilde;o me falem em dictaduras nem em
+governos de repress&atilde;o! Quando fui governador
+da Guin&eacute; apareceram-me l&aacute; um dia cem homens
+mandados pelo governo. E com elles uma simples
+lista de nomes, sem a minima indica&ccedil;&atilde;o de crimes.
+Nada. Era gente que o governo me mandava
+e de que se queria desfazer. Que lhes havia
+de fazer na Guin&eacute;? Sentei-lhes pra&ccedil;a, e d'esses
+<em>criminosos</em>, aos quaes nunca tive
+ocasi&atilde;o de aplicar
+um castigo, seis mezes depois tinham morrido
+<em>cincoenta</em> de febres!...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No outro dia&mdash;diz o Freitas&mdash;estive com a
+rainha D. Amelia. Est&aacute; uma mulher amarella e
+feia, enorme, com as m&atilde;os do tamanho do Maximiliano
+d'Azevedo. E, como lhe notasse os dedos
+cheios de joias, estranhei, perguntei e
+explicaram-me:&mdash;S&atilde;o
+os aneis de brilhantes, que
+ella arrancou aos cadaveres do marido e do filho&mdash;e
+que traz sempre comsigo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Um empregado da fazenda:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Em cada um dos grandes bairros de Lisboa
+ha milhares de processos de dividas &aacute; fazenda
+parados. Companhia que tenha votos paga
+quando quer e como quer. S&oacute; os desgra&ccedil;ados
+<span class="pagenum">[213]</span>
+s&atilde;o penhorados. Isto representa muitas centenas
+de contos, que se perdem por empenho, por politica,
+por desleixo.
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Fevereiro&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Pad'Z&eacute; contado pelo Vicente da Camara:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O extravagante Pad'Z&eacute; era no fundo um
+homem methodico. Quando chegava a Coimbra
+ia sempre com grandes ideias de aprumo e
+arranjo: uma cama para dormir, uma meza para
+escrever, etc.. Excusado ser&aacute; dizer que, meia duzia
+de dias depois, dormia no ch&atilde;o. Mas &aacute; cabeceira
+l&aacute; estavam sempre muito arranjadinhos os
+seus livros e os seus papeis. Se no dia em que
+se matou, na propria hora em que deitou a m&atilde;o
+ao rewolver, alguem o convidasse para uma ceia,&mdash;adeus
+suicidio! adeus morte! trocava-a por
+uma guitarrada.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No dia em que fugiu para Badajoz o D. Jo&atilde;o
+da Camara encontrou-o: levava para o exilio um
+livro de Garrett, um par de meias e cinco mil
+reis emprestados.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Trazia sempre nas algibeiras envolucros de
+bombas e mostrava-os &aacute;s vezes aos amigos, no
+<span class="pagenum">[214]</span>
+Suisso. Na algibeira do medico que morreu na
+explos&atilde;o foi encontrada uma carta sua, pedindo-lhe
+que lhe mandasse pelo portador &laquo;seis peras
+do Fund&atilde;o&raquo;. Trazia-as &aacute;s vezes pela rua
+n'uma
+malinha de m&atilde;o, e, quando ia ao urinol, pedia ao
+Anibal Soares, de quem era amigo intimo, para
+lha segurar:&mdash;Mas tem cuidado que s&atilde;o
+ovos!...&mdash;observava
+sempre.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Dizem por ahi que se matou, para n&atilde;o matar...
+Tinha-lhe cahido em sorte, n'uma
+<em>loja</em>, executar
+um alto personagem...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">25 de Fevereiro&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Visita ao Coelho de Carvalho, que est&aacute;
+doente, e mora n'um velho palacio, na rua do
+Arco do Cego. Moveis Imperio, uma cama imponente
+com golphinhos doirados e espelhos,
+falsos quadros de mestre nas paredes d'estuque,
+onde todos os caiadores de Lisboa pintam sempre
+o mesmo friso azul ferrete, e salas que se
+sucedem com alguns moveis antigos isolados.
+S&atilde;o restos de grandeza d'uma existencia d'artista...
+Como sempre, fala-se em politica. N&atilde;o
+se fala n'outra coisa...&mdash;A policia tem o processo
+do atentado concluido, mas fica-se por ahi.
+<span class="pagenum">[215]</span>
+Sabe-se que no dia 21, n'uma <em>loja</em>
+ma&ccedil;onica, foi
+proposto o assassinato do rei. O Alpoim esperava
+na rua, dentro d'um carro, os seus amigos.
+Mal foi que o acordo com os franquistas gorasse.
+Sabe que o Alpoim teve uma combina&ccedil;&atilde;o politica
+com o Jo&atilde;o Franco? Disse-mo elle a
+mim:&mdash;&laquo;O
+acordo esteve feito para uma dictadura liberal,
+mas o rei opoz-se. Foi quando eu e Sicrano e
+Beltrano decidimos perdel-o&raquo;...&mdash;Posso garantir-lhe
+isto: ouvi-o a elle proprio... Quem os
+aproximou, ao Alpoim e ao Franco, foi o Silva
+Gra&ccedil;a. Tinham at&eacute; ajustado uma serie de comicios
+de propaganda contra os adiantamentos.
+E foi por isso que o Jo&atilde;o Franco p&ocirc;de responder
+como respondeu ao Centeno, dizendo-lhe
+que tinha nas m&atilde;os provas d'essa
+combina&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Um tipo fino. Literato e homem de negocios,
+tendo ganho fortunas e dissipado fortunas. Tem
+um castello em Arade sobre rocha e mar e uma
+existencia um pouco dispersa. E com isto curioso
+e alegre, phantasista acima de tudo, paradoxal
+acima de tudo. O seu escriptorio de advogado
+que foi muito tempo no ministerio da
+justi&ccedil;a, &eacute; hoje alli n'uma meza do Martinho.
+Desconfio que mistifica os clientes&mdash;para se
+divertir... As dificuldades da sua vida s&atilde;o talvez
+invenciveis, mas a desgra&ccedil;a encontra-o sempre
+de p&eacute;, com o mesmo riso nas mesmas lindas
+barbas todas brancas enquadrando uma face
+mo&ccedil;a, e oculos redondos de tartaruga, que lhe
+<span class="pagenum">[216]</span>
+d&atilde;o uma aparencia de retrato de Holbein.&mdash;Os
+oculos de Spinoza...&mdash;como elle lhes chama.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Mar&ccedil;o&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Armando Navarro:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;D'aqui por cincoenta annos estamos absorvidos
+pela Hespanha, sob a forma federativa. A
+autonomia municipal, a mais rasgada de todas
+as que conhe&ccedil;o, e que o conservador e reaccionario
+Maura acaba de dar &aacute; Hespanha, &eacute; o primeiro
+passo...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">6 de Mar&ccedil;o&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Foi hoje o enterro do Taborda. Aqui ha tempos
+cahiu de cama e disse a alguem a chorar:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;D'esta vez &eacute; certo! Sinto que vou morrer...
+E a vida &eacute; t&atilde;o linda!
+<br />
+
+<br />
+
+Tinha oitenta e cinco annos. Os jornaes contaram
+d'elle esta coisa enternecedora: D'uma vez
+foi recitar um monologo a um asylo de raparigas
+da sua terra. O monologo come&ccedil;ava assim:
+&laquo;Boas noites, meus senhores...&raquo;. Entrou no
+palco e disse a phrase:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;" class="tinyl">
+Boas noites, meus senhores...</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[217]</span>
+E as meninas do asylo, que o conheciam todas,
+levantaram-se e responderam &aacute; uma:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Muito boas noites, senhor Taborda!
+<br />
+
+<br />
+
+A morte engrandece sempre, mas acho horrivel
+acabar na rua dos Calafates, entre a conven&ccedil;&atilde;o
+e a mentira, andar por cima, andar por
+baixo, cor&ocirc;as secas, photographias e
+recorda&ccedil;&otilde;es
+de bastidores. Um velho tem direito a morrer
+entre arvores, em plena natureza. Os bichos,
+quando sentem aproximar-se o fim, procuram
+um buraco para se esconder... S&atilde;o mais felizes.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Mar&ccedil;o&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+As declara&ccedil;&otilde;es do Ferreira do Amaral na
+Camara dos Pares vieram autenticar o que se
+dizia do rei. O Ferreira do Amaral afirmou:&mdash;&laquo;A
+reac&ccedil;&atilde;o envolve o
+rei&raquo;.&mdash;Acrescenta-se
+c&aacute; f&oacute;ra
+que &eacute; um jesuita hespanhol quem dirige o rei e
+o Pa&ccedil;o, e parece certo que o Ferreira do Amaral
+o impedia por vezes de ir de livro e contas &aacute;
+missa&mdash;fazendo-o visitar no Porto tres fabricas
+por cada missa que ouvia...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Espalha-se que foi a rainha quem p&ocirc;z f&oacute;ra o
+Ferreira do Amaral, e que elle quer l&aacute; voltar para
+lhe dar uma li&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[218]</span>
+<div class="date">Mar&ccedil;o&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Apresentam-me hoje um velho janota, o visconde
+da Torre da Murta. &Eacute; um velho magro e
+esticado, de luvas e chapeu alto. Cheio de pretens&otilde;es
+e os cabelos todos brancos. Parece ligado
+por arames. Vive na miseria. A mulher enganou-o,
+deixou-o. Pagou-lhe as dividas&mdash;e ficou
+pobre: s&atilde;o as Thomares que o sustentam. O
+velho conserva uma grande dignidade e s&oacute; sae
+de luvas e chapeu alto. Mas quem sobretudo lhe
+vale &eacute; a creada, uma destas extraordinarias mulheres
+do povo, que nascem para os outros e que
+j&aacute; disse que quando morrer lhe ha-de deixar as
+suas economias &laquo;para o senhor visconde n&atilde;o
+passar necessidades&raquo;. O senhor visconde vive
+n'um cubiculo, e da sua passada grandeza restam-lhe
+meia duzia de livros com magnificas
+encaderna&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Mar&ccedil;o&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Fuschini, que fui hoje visitar,
+est&aacute; velho e
+tem uma doen&ccedil;a de cora&ccedil;&atilde;o muito
+adiantada.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Porque n&atilde;o escreve as suas memorias?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;N&atilde;o sei, custa-me. Tenho pensado em escrever
+a minha autobiographia... Depois deixo-me
+d'isso.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[219]</span>
+E conta-me:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Quando foi da convers&atilde;o da divida externa
+fui eu e poucos mais que obstamos a que
+viessem tres estrangeiros para Portugal mandar
+n'isto. Creia... Chegaram a dizer-me:&mdash;N&atilde;o
+fa&ccedil;a
+quest&atilde;o, que ser&aacute; um dos membros da junta.
+<br />
+
+<br />
+
+E diz:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Ao tempo da dictadura do Jo&atilde;o Franco
+lembrei-me de reunir em Lisboa um congresso
+de todos os homens publicos. Procurei os republicanos,
+o Afonso Costa, que me prometeram o
+seu apoio. Estava de rela&ccedil;&otilde;es cortadas com o
+Hintze, mas mandei-lhe falar e elle fez-me ir ao
+Estoril. Disse-me o peor que &eacute; possivel do rei e
+acrescentou:&mdash;Aceito a sua id&eacute;a... E tem
+casa?&mdash;Tenho.&mdash;E
+se a policia intervier?&mdash;Resistimos
+e apelamos para o povo.&mdash;Bem, v&aacute; falar
+ao Jos&eacute; Luciano.&mdash;Procurei essa <em>vil
+alforreca</em>,
+que exclamou:&mdash;Mas isso &eacute; a
+revolu&ccedil;&atilde;o!... Preciso
+de falar primeiro com o Hintze. Tenho uma
+id&eacute;a melhor...&mdash;Dias depois o Hintze
+dizia-me:&mdash;O
+Jos&eacute; Luciano n&atilde;o quer fazer nada,
+disse-me que era melhor esperarmos para Outubro,
+quando o rei regressar a Lisboa.&mdash;Tambem
+me lembrei de escrever um manifesto
+dirigido ao estrangeiro e assignado pelos estadistas
+portuguezes.&mdash;Ex,
+que exclamou:&mdash;Mas isso &eacute; a
+revolu&ccedil;&atilde;o!... Preciso
+de falar primeiro com o Hintze. Tenho uma
+id&eacute;a melhor...&mdash;Dias depois o Hintze
+dizia-me:&mdash;O
+Jos&eacute; Luciano n&atilde;o quer fazer nada,
+disse-me que era melhor esperarmos para Outubro,
+quando o rei regressar a Lisboa.&mdash;Tambem
+me lembrei de escrever um manifesto
+dirigido ao estrangeiro e assignado pelos estadistas
+portuguezes.&mdash;Excelente, disse-me logo o
+Hintze, venha c&aacute; amanh&atilde;... Olhe,
+amanh&atilde; n&atilde;o,
+que &eacute; o enterro do Casal Ribeiro. Depois de
+amanh&atilde;.&mdash;No dia seguinte estava morto.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[220]</span>
+<div class="date">Mar&ccedil;o&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Eis a impress&atilde;o geral: Foi a rainha quem tramou
+a queda do Ferreira do Amaral. O Julio de
+Vilhena queria que saissem apenas dois ministros
+regeneradores, substituindo-os por outros. Foi
+uma tramoia do Pa&ccedil;o. Toda a gente diz que a
+rainha est&aacute; feita com os reaccionarios. O D. Carlos,
+emquanto vivo, opunha-se-lhe, e, logo &aacute;s primeiras
+investidas&mdash;festas de Santo Antonio, etc.&mdash;poz-se
+do lado dos que combatiam a reac&ccedil;&atilde;o.
+Agora manda. E conta-se que o Ferreira do
+Amaral entrou um dia d'estes no Pa&ccedil;o e perguntou
+pelo rei.&mdash;Est&aacute; com o seu director
+espiritual.&mdash;Ent&atilde;o
+preciso de falar &aacute; rainha.&mdash;Est&aacute;
+tambem com o seu director espiritual.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A rainha&mdash;dizem-no todos&mdash;arrisca-se um
+dia a ser desfeiteada. Acusam-na de deitar a
+perder o rei.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Mar&ccedil;o&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Barreira conta-me que
+varios republicanos
+teem insistido junto do general Baracho para
+se p&ocirc;r &aacute; frente d'um movimento.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Bem sei, voc&ecirc;s querem que eu tire as castanhas
+do lume, para que os outros as comam!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[221]</span>
+<div class="date">Mar&ccedil;o&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Cunha e Costa:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O Ferreira do Amaral desarmava pela
+bonhomia. Um dia constou ao Bernardino que
+para os lados do Campo Grande havia tumultos.
+Telefonou ao Amaral:&mdash;S&atilde;o os reaccionarios que
+querem repetir as scenas de cinco de Abril...&mdash;Vou
+indagar.&mdash;Meia hora depois:&mdash;Est&aacute;? Sou o
+Amaral.&mdash;E muito placidamente:&mdash;&Oacute;
+Bernardino,
+olhe que aquelles homens que os senhores
+mandaram para o Campo Grande ainda
+l&aacute; n&atilde;o chegaram...&mdash;!!!&mdash;Os
+republicanos do
+<em>Mundo</em>, quando lhes constou que iam
+ser atacados:&mdash;Senhor
+presidente do conselho, consta-nos
+isto...&mdash;A casa do cidad&atilde;o &eacute; inviolavel
+e
+todos teem o direito de se defender.&mdash;Ao Pimentel
+Pinto, cheio de dividas e que n&atilde;o paga a
+ninguem, respondendo &aacute; acusa&ccedil;&atilde;o de
+jantar com
+os makavenkos:&mdash;Janto, janto, mas pago, meus
+senhores, pago sempre.&mdash;Ao Arroyo, quando
+lhe dizia:&mdash;Enganaram-no, almirante.&mdash;&Eacute;
+que
+eu sou um ingenuo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Abril&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Fazem correr por ahi esta infamia: que o Wenceslau
+de Lima &eacute; amante da rainha D. Amelia.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[222]</span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Eduardo Pimenta, que serviu com o Mousinho
+em Africa:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Um orgulho desmedido, uma decis&atilde;o rapida,
+e uma insensibilidade, como nunca vi, ao
+frio, &aacute; fome, ao trabalho... D'uma vez, por qualquer
+questiuncula, fomos obrigados a dar uma
+satisfa&ccedil;&atilde;o &aacute; Alemanha. Que scena! O
+Mousinho
+arrancou do peito constelado todas as medalhas,
+todas as condecora&ccedil;&otilde;es&mdash;todas.
+S&oacute;
+l&aacute; deixou a
+Aguia Vermelha que obriga o alem&atilde;o a conservar-se
+de p&eacute; diante dos que a teem. Poz o
+<em>bonnet</em>
+&agrave;s tres pancadas e entrou por a casa do consul
+dentro. Ergueram-se todos&mdash;e elle, &aacute; porta,
+sacudido,
+impertinente, enorme, disse a phrase protocolar:&mdash;O
+governo de Sua Magestade Fidelissima
+encarrega-me, etc.&mdash;E sem esperar pela
+resposta, outra vez levou dois dedos ao
+<em>bonnet</em> e
+rodou sobre os calcanhares, deixando-os estupefactos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Jayme de Seguier encontra o Jo&atilde;o Franco
+no estrangeiro. S&atilde;o amigos. E Jo&atilde;o Franco
+que n&atilde;o queria, que jur&aacute;ra n&atilde;o tornar
+a falar
+em politica, durante duas longas horas n&atilde;o conversou,
+n&atilde;o falou n'outra coisa.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Tinha previsto tudo. Tinha previsto a minha
+<span class="pagenum">[223]</span>
+morte: o que eu n&atilde;o previra foi o assassinato
+do rei. Isso nunca me passou pela cabe&ccedil;a...
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Mas o que eu n&atilde;o
+comprehendo &eacute; que
+dissolvesse as
+c&ocirc;rtes estando
+aliado com os
+progressistas...
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Tinha-lhes pedido
+ministros, recusaram-mos.
+Ficava enfraquecido. Isso &eacute; que n&atilde;o.
+N&atilde;o
+podendo tel-os como amigos, ent&atilde;o antes como
+inimigos declarados.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem me fornece estas notas (Jaime Victor)
+fala d'um Jo&atilde;o Franco cheio, de sensibilidade e
+de cora&ccedil;&atilde;o, capaz de ir at&eacute; ao
+fim...&mdash;P'ra
+diante! p'ra diante contra tudo e contra todos!&mdash;Era
+um convencido. Diz-se que os outros o
+empurravam. A verdade &eacute; que ninguem o podia
+deter: nem palavras nem ac&ccedil;&otilde;es o faziam recuar;
+ia como uma bala na sua trajectoria. Contam-me
+que n'um dos ultimos conselhos de ministros
+Jo&atilde;o Franco expoz a situa&ccedil;&atilde;o: o
+movimento revolucionario,
+as medidas que tom&aacute;ra, etc.. Vasconcellos
+Porto, placido e enorme, expoz a sua
+opini&atilde;o e concluiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Deixe-os vir para a rua, que eu conto com o
+exercito. E depois de vencermos, governaremos...
+<br />
+
+<br />
+
+Ao que Jo&atilde;o Franco respondera:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;N&atilde;o, podendo evitar-se o
+sangue&mdash;evitamol-o.
+<br />
+
+<br />
+
+E Jaime Victor conclue:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;A morte de D. Carlos trouxe-nos extraordinarias
+complica&ccedil;&otilde;es. Elle, por exemplo, tinha
+<span class="pagenum">[224]</span>
+seguro o tratado de comercio com o Brazil, que
+nunca mais se far&aacute;. No Brazil fizeram-se despezas
+extraordinarias para o receber.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Novembro&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Guerra Junqueiro desalentado:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Isto est&aacute; liquidado, a ocasi&atilde;o passou.
+Agora
+o rei casa com uma ingleza e vem para ahi um
+caixeiro qualquer da
+Inglaterra, que manobra
+por traz da cortina. N&atilde;o reparou n'isto?... Nas
+camaras passou uma lei que os auctorisa a vender
+inscrip&ccedil;&otilde;es. &Eacute; a bancarrota adiada por
+muito
+tempo. D'aqui a annos o juro da divida interna
+&eacute; reduzido, mas vae-se vivendo e paga-se ao estrangeiro,
+que &eacute; o principal.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Do Jo&atilde;o Franco diz:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Mentia com o cora&ccedil;&atilde;o nas
+m&atilde;os...
+Ent&atilde;o
+&eacute; que era ocasi&atilde;o. O Franco e o rei
+eram dois
+c&atilde;es damnados... A ocasi&atilde;o passou, a republica
+passou.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Carneiro de Moura:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Os bispos e as beatas deram para a imprensa
+reaccionaria, para <em>O Portugal</em>, vinte
+contos.
+J&aacute; l&aacute; v&atilde;o em pagodes!<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="illustration"><a name="f15" id="f15"></a><img style="width: 500px; height: 514px;" alt="Dantas Baracho.&mdash;Caricatura inedita de Celso Herminio." title="Dantas Baracho.&mdash;Caricatura inedita de Celso Herminio." src="images/fig17.png" /><br />
+
+<em>Dantas Baracho.</em>&mdash;Caricatura inedita de
+Celso
+Herminio.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[225]</span>
+<div class="date">Novembro&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Conta hoje o Fuschini&mdash;sempre com a Alice
+Lawrence atraz, sempre a caminho da S&eacute;, com o
+chapeu sobre os olhos e um r&ocirc;lo de papeis debaixo
+do bra&ccedil;o, sempre sufocado quando sobe
+as escadas, porque o cora&ccedil;&atilde;o cada vez lhe
+trabalha
+peor, sempre irrequieto e interessante, apesar
+da edade e dos cabelos todos brancos:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O Soveral &eacute; um homem de negocios<sup><a href="#n8">[8]</a></sup>.<span class="pagenum">[226]</span>
+O que elle quer &eacute; dinheiro. J&aacute; tive todos os fios
+d'essa meada nas m&atilde;os... Obrigou agora o rei a
+ir &aacute; Inglaterra fazer uma figura triste. Pois posso
+<span class="pagenum">[227]</span>
+garantir-lhe que ha dois mezes esteve em Lisboa
+um correspondente do <em>Dail Maily</em>, que
+contou
+&aacute; Alice que o proprio duque de Fife mand&aacute;ra
+<span class="pagenum">[228]</span>
+ao jornal o seu secretario desmentir a noticia do
+casamento.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Avelino de Almeida, jornalista com a especialidade
+de padres e beatas:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Quem deu o dinheiro para <em>O
+Portugal</em> foram
+as beatas. Um padre lazarista &eacute; que andou
+metido n'isso. Arranjaram dezoito contos. S&oacute; a
+viscondessa de Sarmento deu seis.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Um artigo curioso do <em>Corriere de la
+Sera</em>, assignado
+pelo Gomes dos Santos:<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="tinyl">
+&laquo;Um caso singularissimo poz recentemente a policia na
+pista d'uma conspira&ccedil;&atilde;o de aventureiros que
+punham o seu
+bra&ccedil;o ao servi&ccedil;o do radicalismo, promptos para
+tudo
+quanto lhes fosse ordenado em nome... da utopia. Uma
+longa serie de crimes politicos que datam do regicidio e
+cujos auctores at&eacute; agora tinham ficado envoltos no mysterio,
+coloca em evidencia os factos preteritos e abre um caminho
+seguro para a liquida&ccedil;&atilde;o das responsabilidades.
+Hoje ninguem duvida da existencia d'uma sociedade secreta
+que, sob a aparencia de loja ma&ccedil;onica, &eacute; o
+verdadeiro
+poder executivo do partido revolucionario, o bra&ccedil;o sempre
+prompto a ferir, a espada que cae trai&ccedil;oeiramente sobre
+as victimas designadas pelos dirigentes da politica radical?</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[229]</span>
+<div class="tinyl">Ninguem ignora em Portugal as
+circumstancias em que
+se desenrolou o regicidio. Na confus&atilde;o da tarde tragica, a
+policia cae sobre dois dos regicidas e mata-os em legitima
+defeza. Mas permanece sempre firme a convic&ccedil;&atilde;o de
+que
+os regicidas n&atilde;o eram s&oacute;mente Bui&ccedil;a e
+Costa, que pagaram
+com a vida o seu delicto! Esta convic&ccedil;&atilde;o
+fundava-se
+em factos de ordem material e moral, sobre os quaes n&atilde;o
+havia duvida de especie alguma. A prova moral da existencia
+d'outros cumplices reside na impossibilidade do atentado
+haver sido organisado e levado a efeito apenas por
+dois homens. A prova material forneceram-na numerosissimas
+testemunhas que viram a carruagem real ser alvejada,
+simultaneamente, de varios pontos e observaram a fuga
+de alguns dos cumplices do regicidio, um dos quaes,
+perseguido pela policia quando fugia, com o rewolver fumegante
+em punho, conseguiu perder-se de vista ao voltar
+uma rua, confundindo-se depois com a multid&atilde;o espavorida
+que fugia do logar do crime.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um vulgar principio de investiga&ccedil;&atilde;o
+judiciaria que
+os deliquentes se devem procurar entre aquelles a quem o
+delicto aproveita. Ora quem podia aproveitar com a carnificina
+da familia real? Se houvesse produzido uma mudan&ccedil;a
+politica, aproveitavam evidentemente os republicanos cujo
+triumpho teria sido d'esta arte facilitado. Se tivesse originado
+apenas (como realmente produziu) uma substitui&ccedil;&atilde;o
+de governo resultaria proveitosa para os mesmos republicanos
+aos quaes Jo&atilde;o Franco havia fechado todos os caminhos.
+Vendo presos os seus principaes chefes e amea&ccedil;ada
+toda a sua organisa&ccedil;&atilde;o, os republicanos esperavam
+reconquistar,
+com um golpe de m&atilde;o, as posi&ccedil;&otilde;es
+primitivas. N&atilde;o
+ha outras hypotheses a considerar, visto que o crime n&atilde;o
+podia ter sido perpetrado por uma conspira&ccedil;&atilde;o de
+monarchicos
+nem representa um caso individual de terrorismo
+porque os regicidas n&atilde;o eram anarchistas.</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[230]</span>
+<div class="tinyl">O Bui&ccedil;a e o Gosta eram
+republicados militantes: trabalhavam
+nas ultimas filas dos revolucionarios. Livres pensadores,
+pertenciam &aacute; sociedade de propaganda d'onde, de
+resto, teem sahido todos os criminosos politicos. Homens
+de ac&ccedil;&atilde;o, pertenciam a uma loja secreta, a
+&laquo;Montanha&raquo;,
+mixto de institui&ccedil;&atilde;o ma&ccedil;onica e de
+comit&eacute; revolucionario,
+sem local fixo e sem estatutos, que se reune a um simples
+convite dos jornaes da seita, ninguem sabe onde e que se
+comp&otilde;e de homens <em>capazes de
+tudo</em>. Tudo deixa crer que o
+regicidio foi ahi deliberado e que, como &eacute; costume, os
+executores
+foram tirados &aacute; sorte, visto que apenas o sorteio
+explicava a escolha d'um dos regicidas, cujo passado se n&atilde;o
+ilustra com actos de grande coragem individual.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas sobre o regicidio, que inaugura a conhecida s&eacute;rie
+de delictos politicos, n&atilde;o mais se tratou de fazer luz.
+N&atilde;o
+se chegou a apurar quem foram os cumplices da emboscada
+e, se porventura se tentou esclarecer o caso, acabaram
+por concluir que era melhor guardar silencio sobre
+elle. No entretanto, occorriam novos factos que vieram documentar
+melhor a existencia d'uma organisa&ccedil;&atilde;o que
+liquidava
+pelo assassinio as dificuldades susceptiveis de embara&ccedil;ar
+o movimento revolucionario. Poucos mezes depois do
+regicidio, um humilde engraxador apresentava-se &aacute; policia
+perfeitamente apavorado e narrava que dois republicanos
+lhe tinham proposto lan&ccedil;ar uma bomba no coche que devia
+conduzir D. Manuel ao Parlamento. A declara&ccedil;&atilde;o
+era
+verdadeira? Ignoro-o. Mas a policia prende os dois mencionados
+instigadores, um dos quaes &eacute; fulminado por uma
+congest&atilde;o cerebral no gabinete do juiz. Este, quando se
+prepara para colher do denunciante novos esclarecimentos,
+v&ecirc; o engraxador morrer envenenado n'um hospital no meio
+de horriveis aflic&ccedil;&otilde;es. O desventurado declarava
+que morria
+por haver dito a verdade. Por falta de provas o processo
+foi archivado, o que poz de bom humor a imprensa
+revolucionaria, que j&aacute; se dispunha a desviar a
+opini&atilde;o
+publica com um diversivo.</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[231]</span>
+<div class="tinyl">Poucos mezes depois outro crime vem
+afirmar a existencia
+da seita. Alguns militares acusados de terem tomado
+parte no movimento revolucionario de 28 de janeiro, foram
+condenados a penas graves pelo tribunal, gra&ccedil;as ao
+depoimento
+d'um sargento chamado Lima, que se insurgiu e referiu
+o facto aos seus superiores. O sargento passeava um
+dia em Setubal, para onde f&ocirc;ra transferido, quando um
+revolucionario se lan&ccedil;ou contra elle e lhe cravou um punhal
+no cora&ccedil;&atilde;o. O assassino, preso quando fugia,
+allega uma
+historia inverosimil de rivalidade que as
+investiga&ccedil;&otilde;es policiaes
+desmentiram. Quanto &aacute; opini&atilde;o da auctoridade e
+dos
+que conhecem de perto as scenas, referidas anteriormente,
+da quadrilha revolucionaria, &eacute; clara e expressa: o sargento
+foi condemnado &aacute; morte por ter denunciado a existencia
+da conspira&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Dois suicidios mysteriosos&mdash;um sob o comboio de
+Cascaes, outro na redac&ccedil;&atilde;o d'um jornal
+revolucionario&mdash;parecem
+ter intimas rela&ccedil;&otilde;es com a existencia da
+M&atilde;o
+Negra local.
+<br />
+
+<br />
+
+Diz-se que os suicidas, designados para certos cometimentos,
+preferiram escapar pela morte &aacute;s
+intima&ccedil;&otilde;es d'uma
+implacavel organisa&ccedil;&atilde;o secreta. N&atilde;o
+fa&ccedil;o aqui men&ccedil;&atilde;o do
+caso das bombas explosivas com que ultimamente pretenderam
+alvejar algumas egrejas, depois da execu&ccedil;&atilde;o de
+Ferrer.
+N&atilde;o ha provas da interven&ccedil;&atilde;o da
+M&atilde;o Negra, mas
+simples indicios de presump&ccedil;&atilde;o. Mas o que acabou
+de
+esclarecer o paiz sobre a existencia d'uma formidavel e
+perigosa associa&ccedil;&atilde;o secreta foi o recente crime
+de Cascaes,
+a que os jornaes independentes dedicaram longas
+columnas.
+<br />
+
+<br />
+
+V&atilde;o decorridos alguns mezes depois que na
+administra&ccedil;&atilde;o
+das alfandegas se descobriu um importante furto de
+armas, que estavam para chegar ao seu destino. A ausencia
+d'um operario da fabrica de armas provou a sua responsabilidade
+no furto, logo confirmada pela captura d'um cumplice&mdash;um
+dos implicados na revolu&ccedil;&atilde;o republicana de 28
+de janeiro&mdash;que era o receptador das armas roubadas.
+J&aacute;
+a policia averiguou o destino das armas, que se reservavam,
+com a complacencia de empregados aduaneiros, ao
+movimento revolucionario, quando no meio dos rochedos
+das arribas de Cascaes, a oito kilometros de Lisboa, se encontra
+assassinado mysteriosamente o empregado da alfandega,
+auctor do furto.</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[232]</span>
+<div class="tinyl">Com os documentos que lhe encontraram
+nas algibeiras
+e com as indica&ccedil;&otilde;es fornecidas pela familia do
+assassinado,
+a policia reconstituiu facilmente o crime. O pobre
+empregado, vendo descoberto o furto das armas, dirigiu-se
+aos que o tinham impelido e suplica-lhes que o salvem. Deram-lhe
+dinheiro para transp&ocirc;r a fronteira com promessa
+de o sustentarem no estrangeiro e o homem refugiou-se
+em Badajoz, territorio hespanhol. Mas o dinheiro falta; as
+promessas n&atilde;o s&atilde;o mantidas e o refugiado escreve
+aos que
+o haviam levado ao crime, suplicando socorro. Como n&atilde;o
+obtivesse resposta, amea&ccedil;a-os com
+declara&ccedil;&otilde;es. A M&atilde;o Negra
+destaca para Badajoz um dos seus agentes, que o conduz
+a Lisboa enganado com promessas de continuar a viagem
+para Africa; na primeira ocasi&atilde;o levam-no a Cascaes
+a fim de seguir ocultamente para o seu novo destino e
+matam-no, arrastando-o para o mar e precipitando-o do
+alto das ribas.
+<br />
+
+<br />
+
+O assassino foi preso na fronteira, quando tentava refugiar-se
+em Hespanha, e conduzido a Lisboa, sob rigorosa
+escolta. Aqui, depois de alguns dias de apertados interrogatorios,
+apanhado em contradi&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o sabendo
+explicar
+as manchas de sangue que tinha no fato, confessa finalmente
+que cometera o crime,&mdash;e que, al&eacute;m de ser antigo
+empregado n'um centro republicano, &eacute; membro da
+associa&ccedil;&atilde;o
+secreta a &laquo;Montanha&raquo;, como os regicidas, como os
+auctores dos outros crimes politicos. &Eacute; a existencia da
+M&atilde;o
+Negra averiguada e confessada.</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[233]</span>
+<div class="tinyl">Os jornaes da seita, republicanos e
+revolucionarios,
+perante esta sensacional descoberta, mantiveram a principio
+o maior silencio; jornaes que costumavam ocupar columnas
+com o mais insignificante acontecimento, evitaram,
+por todos os modos, referir-se a elle. Depois, desesperados
+por n&atilde;o poderem conservar-se calados, come&ccedil;aram a
+agredir
+violentamente e, por ultimo, a amea&ccedil;ar a imprensa
+independente
+que, mostrando-se bem informada, se ocupou
+dos factos com uma certa largueza. E, emquanto a imprensa
+vermelha assim procedia, a policia vinha a saber que
+os revolucionarios tinham projectado fazer evadir o preso
+e teve a finura de o transferir do deposito de seguran&ccedil;a
+para uma caserna militar, onde est&aacute; de sentinella
+&aacute; vista.
+<br />
+
+<br />
+
+Por outro lado, diz-se que as declara&ccedil;&otilde;es
+relativas ao
+crime de Cascaes revelaram uma nova pista para a descoberta
+dos regicidas e a policia afadiga-se no intuito de descobrir
+e prender os membros da M&atilde;o Negra. Alguns jornaes
+lembram, a proposito d'este facto, a fuga precipitada
+de certa personagem para o estrangeiro. A M&atilde;o Negra
+&eacute;
+uma especie de comit&eacute; executivo, dentro do qual se encontra
+todo o elemento revolucionario. Dispor&aacute; o Estado de
+for&ccedil;a para resistir a esta formidavel
+organisa&ccedil;&atilde;o que
+nem sequer hesita ante o crime?
+<br />
+
+<br />
+
+A experiencia da fraqueza dos governos, que se sucederam
+no poder ap&oacute;s o regicidio, n&atilde;o auctorisa a
+responder
+tranquilamente a esta interroga&ccedil;&atilde;o...&raquo;
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Dezembro&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Segundo varias pessoas, ha efectivamente em
+Lisboa muitas agremia&ccedil;&otilde;es carbonarias.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Dezembro&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O A... que se suicidou hontem tinha-se alcan&ccedil;ado
+em n&atilde;o O A... que se suicidou hontem tinha-se
+alcan&ccedil;ado
+em n&atilde;o sei quanto&mdash;outros, passeiam por
+essa Lisboa. Um, o M., alcan&ccedil;ou-se em dezoito
+<span class="pagenum">[234]</span>
+contos. Castigaram-no reformando-o com o ordenado
+por inteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Conta o Columbano que a seu pae Manuel
+Bordallo Pinheiro, pediu um dia um companheiro
+de reparti&ccedil;&atilde;o:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Tenho l&aacute; em casa na cocheira (do conde
+de Lumiares), um quadro muito negro que queria
+que voc&ecirc; visse.
+<br />
+
+<br />
+
+Manuel Bordallo foi buscar a tela, limpou-a
+da bosta dos cavalos, lavou-a da camada de negro...
+Era, nem mais nem menos, o retrato de
+Carlos I d'Inglaterra, por Van Dyck, que o
+D. Luiz depois comprou e est&aacute; hoje na galeria
+do Pa&ccedil;o d'Ajuda.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Dezembro&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Avelino d'Almeida:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;A verdadeira raz&atilde;o por que o
+<em>Seculo</em> se fez
+republicano?... &Eacute; que no Pa&ccedil;o, das ultimas vezes
+que o Silva Gra&ccedil;a l&aacute; foi, receberam-no mal,
+trataram-no d'alto.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Um homem muito honesto o Hintze&mdash;diz
+o Carneiro de Moura&mdash;um homem muito
+<span class="pagenum">[235]</span>
+honesto que fazia assim:&mdash;&Oacute; Val-Fl&ocirc;r,
+empreste-me
+vinte contos.&mdash;E o Val-Fl&ocirc;r
+emprestava-lhos&mdash;e
+recebia do Estado compensa&ccedil;&otilde;es que valiam
+o d&ocirc;bro. Um homem muito honesto, o Hintze;
+que nunca tirou dos cofres do Estado o valor de
+cincoenta mil reis.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Dezembro&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ministerio novo. O bloco foi comido. O Alpoim
+furioso, exclama, em pleno Chiado:&mdash;O
+rei mentiu-nos! o rei &eacute; um imbecil! o rei tinha-nos
+prometido o poder!
+<br />
+
+<br />
+
+E o Vila&ccedil;a conta:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O Jos&eacute; Luciano reuniu-nos hontem &aacute;
+noite,
+a mim, ao Beir&atilde;o, ao Dias Costa, ao Moreirinha
+e disse-nos:&mdash;Se os senhores est&atilde;o no partido
+apenas para serem pares do reino e para
+que os encha de favores, isto acabou, hoje mesmo
+se liquida o partido progressista. N&atilde;o podem
+recusar as pastas que eu lhes indicar.&mdash;Todos
+se curvaram, o Vila&ccedil;a, que perde dez contos por
+anno, e o proprio Dias Costa, que de forma alguma
+queria ser outra vez ministro.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">23 de Dezembro&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Julio de Vilhena deixou hoje de ser chefe
+do partido regenerador. Conta o Jo&atilde;o Pinto
+<span class="pagenum">[236]</span>
+dos Santos, que o Vilhena falou ao rei de cabe&ccedil;a
+alta, e por tal forma, que D. Manuel sahiu
+afogueado d'essa ultima entrevista, dizendo a
+alguem:&mdash;S&oacute;
+lhe faltou bater-me...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Dezembro&mdash;1909.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Mardel &eacute; um homemzinho pitoresco e anecdotico
+que conhece Lisboa como as suas m&atilde;os.
+Ninguem como elle desenha um tipo ou vae ao
+passado buscar uma figura. Sabe tudo e inventa
+o resto. &Eacute; um prazer ouvil-o. Constroe genealogias,
+negoceia em <em>bric-&agrave;-brac</em> e
+escreve satyras.
+D'uma vez, a um figur&atilde;o que se dizia filho natural
+de D. Pedro IV e que mostrava desvanecido
+a toda a gente o retrato do rei que tinha
+na sala, perguntando:&mdash;Hein, com quem se
+parece?...&mdash;escreveu
+elle a seguinte quadra:<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">Do Imperador, de quem
+diz que &eacute; filho,<br />
+
+Tem o retrato na sala,<br />
+
+Mas da p... que o pariu<br />
+
+N&atilde;o tem retrato nem fala...
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Encontro em casa do Mardel o marquez da
+Foz, de barbas brancas e aspecto venerando, que
+desata a narrar conversas extraordinarias, surprehendidas
+<span class="pagenum">[237]</span>
+a meninas do <em>Sacre
+Coeur</em> sobre a
+masculinidade dos creados... Depois fala d'arte,
+de mobilia, quadros e maravilhas que comprou
+e vendeu. Vive hoje arredado em Torres Novas.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;D'uma vez, quando se vendeu a mobilia
+do palacio de Oeiras, dos Pombaes, os que fizeram
+a liquida&ccedil;&atilde;o, pediram-me para lhes ceder
+um andar d'uma casa que eu tinha com escriptos
+na rua do Ferragial, para se fazer o leil&atilde;o.
+Cedi e antes da pra&ccedil;a fui l&aacute;, agradaram-me
+diferentes
+coisas e comprei-as. Custaram-me oito
+contos. Entre varias trapalhadas iam cinco vasos
+da China, cinco maravilhas, como nunca tinha
+visto. Eram precisas duas pessoas para lhes pegarem.
+Ao centro de cada vaso viam-se as armas
+de Pombal. Quatro coloquei-os &aacute; entrada da minha
+casa, o outro levei-o para a sala de jantar e
+pul-o defronte d'uma estufa... Um dia reparei:
+por causa do calor o verniz estal&aacute;ra.
+Levantei-me,
+olhei: sob a casca aparecia outro desenho. Tirei
+com uma faca o
+<em>craquel&eacute;</em>&mdash;e debaixo das
+armas,
+do Pombal apareceram as armas dos Tavoras!
+T&atilde;o certo &eacute; que at&eacute; os grandes homens
+est&atilde;o
+sujeitos a estas miserias...
+<br />
+
+<br />
+
+Depois trata da baixela do Pa&ccedil;o, que no tempo
+de D. Luiz estudou a fundo, e que ent&atilde;o andava
+a trouxe-mouxe pelos armarios. S&atilde;o pe&ccedil;as
+magnificas, <em>sign&eacute;
+Germain</em>, e que valem um milhar
+de contos.&mdash;D'uma vez disse a D. Luiz:&mdash;Deixe-me
+V. Magestade arranjar-lhe uma sala de
+<span class="pagenum">[238]</span>
+jantar com a <em>boiserie</em> de Queluz e a
+sua baixela,
+que nenhuma c&ocirc;rte da Europa apresenta uma
+sala assim.&mdash;Ainda hoje n&atilde;o ha c&ocirc;rte
+nenhuma,
+nem a da Russia, que tenha uma baixela t&atilde;o
+rica. S&atilde;o mil e tantas pe&ccedil;as admiraveis.
+&Eacute; falso
+que l&aacute; esteja tambem a baixela do duque de
+Aveiro. Vi as contas todas, photographei tudo...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Um dia fui ao Leit&atilde;o ourives, a esse
+artista...&mdash;e
+sorri com ironia&mdash;comprar qualquer
+joia. Ia a sahir quando dei com uma prata antiga
+a um canto.&mdash;Que &eacute;
+aquillo?&mdash;Est&aacute; alli
+para derreter.&mdash;Deixem-me v&ecirc;r.&mdash;Eram
+tr&ecirc;s
+pe&ccedil;as
+esplendidas, com as armas do duque d'Aveiro&mdash;uma
+salva enorme, a que faltava um bocado
+da aza, com desenhos magnificamente gravados,
+e duas enormes compoteiras de prata com fest&otilde;es
+d'ervilhas, tudo marcado, assignado,
+admiravel.&mdash;S&atilde;o
+para derreter? Ent&atilde;o venda-m'as. Quanto
+pezam?&mdash;Quinhentos mil reis.&mdash;Dou
+seiscentos.&mdash;Venderam-mas,
+levei-as para casa. Tinham feito
+uma tentativa para lhe apagar as armas. Quando
+depois as vendi deram-me alguns contos de reis.
+<br />
+
+<br />
+
+Por fim fala de ninharias, d'isto, d'aquillo&mdash;e
+d'algumas pe&ccedil;as
+que tinham pertencido
+ao D. Fernando e &laquo;nas quaes alguem fez
+m&atilde;o
+baixa&raquo;...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[239]</span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Uma anecdota que elle tem como absolutamente
+autentica e que andou sempre na tradi&ccedil;&atilde;o
+da sua familia:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O D. Jo&atilde;o VI estava para morrer. O patriarcha
+procurou a D. Carlota Joaquina para
+a reconciliar com o rei. Recebido na sala do
+throno, em Queluz, diz-lhe as palavras banaes
+do costume&mdash;mas ella n&atilde;o cede. Pede,
+suplica&mdash;perde
+o seu tempo. A rainha est&aacute; renitente.
+Ent&atilde;o retira-se depois das contumelias da
+pragmatica&mdash;e,
+ao sahir, volta-se de repente e d&aacute;
+com ella a fazer-lhe um grande, um imponente,
+um magestoso manguito...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ha dias comprou por cento e cincoenta mil
+reis um quadro de Alberto Durer, absolutamente
+autentico e com a assignatura perfeita.&mdash;&Eacute; o
+<em>pendant</em> do que est&aacute; no
+Museu. E estou em vesperas
+de comprar mais quatro, entre os quaes
+um Corregio. Suspeito, pela proveniencia, que
+todos estes do que est&aacute; no
+Museu. E estou em vesperas
+de comprar mais quatro, entre os quaes
+um Corregio. Suspeito, pela proveniencia, que
+todos estes quadros pertenceram &aacute; galeria do
+duque d'Aveiro.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[240]</span>
+<div class="date">Janeiro&mdash;1910.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Contam-me hoje a morte tragica do Marianno
+de Carvalho. Estava doente, de cama, e a familia
+sahiu, deixando-lhe uma campainha &aacute; cabeceira.
+Os creados aproveitaram a oportunidade e safaram-se
+tambem. Quando voltaram foram dar
+com elle morto, agarrado &aacute; campainha, n'um ultimo
+desespero...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Janeiro&mdash;1910.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O juiz d'instruc&ccedil;&atilde;o criminal, dr. Antonio
+Emilio, a um amigo meu:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;No dia vinte e oito de Janeiro os soldados
+apanharam junto a qualquer quartel da municipal
+um homem com um caixote de bombas e
+duas pistolas automaticas. Meteram-no no
+calabou&ccedil;o&mdash;e
+confessa, n&atilde;o confessa... o homem
+nada! Ent&atilde;o o oficial chamou um soldado e
+disse-lhe:&mdash;N&oacute;s
+vamos alli para a porta do calabou&ccedil;o
+e tu diz-me a tudo que sim. Vamos l&aacute;.&mdash;E
+come&ccedil;ou:&mdash;Carrega l&aacute; essa pistola para
+darmos
+cabo d'esse diabo, que vinha aqui para nos
+atirar bombas!&mdash;Quando o oficial abriu a porta
+do calabou&ccedil;o o preso atirou-se-lhe aos
+p&eacute;s:&mdash;N&atilde;o
+me matem que eu confesso tudo.&mdash;Ent&atilde;o
+quem te entregou o caixote?&mdash;Foi o Alfredo
+<span class="pagenum">[241]</span>
+Costa.&mdash;Veio a participa&ccedil;&atilde;o para o
+governo
+civil&mdash;mas
+s&oacute; chegou &aacute;s m&atilde;os do juiz depois da
+morte do rei...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="illustration"><a name="f16" id="f16"></a><img style="width: 500px; height: 615px;" alt="Jos&eacute; Maria de Alpoim." title="Jos&eacute; Maria de Alpoim." src="images/fig18.png" /><br />
+
+<em>Jos&eacute; Maria de Alpoim.</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O juiz:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Estamos sobre um vulc&atilde;o. Prendi varios
+homens das associa&ccedil;&otilde;es secretas, podia prender
+mil. J&aacute; ninguem salva isto a n&atilde;o ser uma forte
+dictadura militar. E eu vou-me embora porque
+n&atilde;o quero incorrer nas iras populares.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O dr. Antonio Emilio ao Beir&atilde;o:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Ou vamos para a frente, ou os senhores
+metam-se em casa &aacute; espera que os chacinem.
+<br />
+
+<br />
+
+E garante que a explos&atilde;o de outro dia na
+Baixa, atribuida a gaz extravasado, foi devida a
+uma bomba de dinamite.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Janeiro&mdash;1910.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os brincos de brilhantes que o Pedro d'Araujo
+deu &aacute; mulher do Jos&eacute; Luciano quando o
+fizeram par, custaram cem mil francos. Diz-se,
+diz-se...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[242]</span>
+<div class="date">Fevereiro&mdash;1910.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Pa&ccedil;o est&aacute; rodeado de piquetes.
+For&ccedil;as vigiam
+a Tapada. Garante-se por ahi que, emquanto
+os regicidas n&atilde;o forem presos, o rei
+n&atilde;o casa. O Maximiliano d'Azevedo, oficial do
+campo entrincheirado, conta-me que as for&ccedil;as
+do campo foram ante-hontem (1 de Fevereiro)
+postas sob as ordens do general de divis&atilde;o e
+com ordem de marcharem sobre Lisboa ao primeiro
+aviso.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O que se diz por ahi baixinho, de ouvido
+para ouvido, &eacute; tremendo. Diz-se o que <em>O
+Povo
+d'Aveiro</em>, que est&aacute; tendo tiragens enormes,
+publicou
+nos ultimos numeros<sup><a href="#n9">[9]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[243]</span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O T..., d'<em>O Mundo</em>, disse-me que
+janta duas
+vezes por semana com o Alpoim, e j&aacute; se tem gabado
+que &eacute; elle um dos auctores do
+<em>Diz-se</em>...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Colen, n'um jantar intimo, onde esteve
+alguem que m'o conta:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;No dia vinte e oito de Janeiro estava tudo
+preparado e seriamente preparado para a deposi&ccedil;&atilde;o
+de D. Carlos&mdash;marinha, tropa,
+organisa&ccedil;&otilde;es,
+tudo. E tudo falhou porque o Afonso Costa
+<span class="pagenum">[244]</span>
+n&atilde;o quiz dar o signal sem que o Jo&atilde;o
+Franco
+estivesse morto.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Mar&ccedil;o&mdash;1910.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; reuni&atilde;o celebre do Castello, onde se decidiu
+a morte do rei, assistiram trinta pessoas.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Pa&ccedil;&ocirc; Vieira:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;A carta que o rei escreveu ao Hintze e
+que fez com que o ministerio cahisse, foi conhecida,
+antes de lhe ser enviada, pelos republicanos.
+Eu lhe conto: um dia estava em Pa&ccedil;&ocirc;,
+quando o Hintze me chamou. Parti logo, corri
+<span class="pagenum">[245]</span>
+logo a casa d'elle. Encontrei-o na sala de bilhar:
+tinha um papel na m&atilde;o.&mdash;Desculpe e obrigado.
+J&aacute; n&atilde;o &eacute; necessario. Recebi hoje esta
+carta do
+rei que me levou a pedir a
+demiss&atilde;o.&mdash;Repliquei-lhe:&mdash;Sei
+perfeitamente o que diz essa carta.
+Posso repetir-lha quasi phrase por phrase.&mdash;E
+diante do espanto do Hintze:&mdash;Vim no comboio
+com o Afonso Costa que me disse, palavra
+por palavra, o que continha essa carta...&mdash;Assombro
+do Hintze. A copia da carta f&ocirc;ra mandada
+pelo rei aos republicanos&mdash;naturalmente
+ao Bernardino&mdash;antes de ser enviada ao Hintze.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Mar&ccedil;o&mdash;1910.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Quantos Fialhos, todos diferentes, tenho conhecido
+pela vida f&oacute;ra! Este, de ventre e barbicha
+de bode, esta figura de que os mortos
+se conseguiram apoderar, agarrado &aacute; terra, conservador,
+discutindo com o padre da freguezia
+os melhoramentos da sua egreja, este &eacute;&mdash;emfim!
+emfim!&mdash;o descendente autentico dos
+cavadores alemtejanos. Custou... As suas melhores
+obras&mdash;as que sonhou e nunca se resolveu
+a escrever&mdash;leva-as elle para a cova...
+De quando em quando ainda tem uma revolta:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;&Eacute; horrivel a minha vida na aldeia. Se
+n&atilde;o
+fossem os livros j&aacute; me tinha suicidado. Cada vez
+preciso mais de ver gente e d'esta vida artificial
+<span class="pagenum">[246]</span>
+de Lisboa. Na aldeia, em Cuba, n&atilde;o falo com
+ninguem, n&atilde;o tenho ninguem com quem comunicar.
+S&atilde;o de bronze aquelles filhos da p...! E nem
+a mais pequena sombra de sensibilidade. E se
+imaginam que a gente n&atilde;o tem dinheiro, estamos
+perdidos!...
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Fuja.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;N&atilde;o posso. Quem me ha-de tratar d'aquillo?
+E depois criei interesse &aacute;s oliveiras que plantei,
+&aacute; vinha... Ah, mas as noites!... Tenho noites
+em que pego n'um livro e saio. Ha uma estrada
+em volta de Cuba&mdash;e eu alli ando &aacute; roda toda
+a noite a falar s&oacute;sinho como um condenado!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Mar&ccedil;o&mdash;1910.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Centenario d'Herculano. Missa nos Jeronymos
+pelo padre Matos. O S. Boaventura diz-me
+que, pela av&oacute; materna, &eacute; ainda parente de
+Herculano.&mdash;Que
+eram seus av&oacute;s?&mdash;Pedreiros.&mdash;Efectivamente
+no retrato Herculano parece um
+pedreiro da minha aldeia; efectivamente Herculano
+descende de pedreiros e toda a sua obra &eacute;,
+na realidade, a d'um homem que moe e lavra
+com solemnidade a pedra, a d'um d'esses extraordinarios
+montantes que metem o ferro at&eacute; &aacute;
+raiz da fraga, racham o penedo, afei&ccedil;oam a
+lage, e acabam, emfim, por construir a cathedral.
+Herculano edificou em granito&mdash;e no granito
+<span class="pagenum">[247]</span>
+abriu pacientes e admiraveis lavores... A seriedade,
+a obstina&ccedil;&atilde;o, e at&eacute; o am&ocirc;r
+&aacute; terra, ao
+azeite e ao p&atilde;o, seu ultimo ideal e refugio, s&atilde;o
+caracteristicos e o ideal tambem d'essa legi&atilde;o
+de trabalho imensa e obscura, cuja alma, &aacute; for&ccedil;a
+de lidar com a pedra, adquire dureza e grandeza
+tambem. Essas figuras, s&oacute; osso e pelle, descarnadas,
+que partem de manh&atilde; com o saquitel
+e a bor&ocirc;a, que s&oacute; pronunciam palavras graves, e
+ao dar do meio dia se descobrem e mastigam o
+peda&ccedil;o s&ecirc;co de p&atilde;o com um ar
+solemne,&mdash;acabaram,
+emfim, por encontrar um descendente
+como elles austero e grave, capaz de exprimir o
+universo&mdash;o que sentiram, o que sofreram e o
+que sonharam&mdash;e capaz de edificar com alicerces
+para seculos. Tudo, at&eacute; a falta de phantasia
+e imagina&ccedil;&atilde;o, at&eacute; o miudo lavor
+pacientemente
+trabalhado, at&eacute; a casa simples, vulgar e
+mal repartida, at&eacute; a companheira, at&eacute; a
+austeridade,
+veio a Herculano d'essa grande gera&ccedil;&atilde;o
+de pedreiros portuguezes, que antes d'elle fizeram
+obra digna de homens e desapareceram para
+sempre no p&oacute;&mdash;mas poderam transmitir, filho
+atraz de pae, a solemnidade e a grandeza, a
+quem um dia erguesse uma cathedral mais vasta
+e com raizes mais fundas do que elles todos
+juntos. Mas todos trabalharam tambem, sabe
+Deus durante quantos seculos, com tenacidade
+e firmeza, para a obra do pedreiro maximo de
+toda a sua gera&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[248]</span>
+<div class="date">Mar&ccedil;o&mdash;1910.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; d'Azevedo:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Anno passado o rei chamou-me e pediu-me
+para votar o projecto da Uni&atilde;o Vinicola. Disse-lhe
+logo:&mdash;N&atilde;o, meu senhor, n&atilde;o voto. E V.
+Magestade pede-me isso porque n&atilde;o sabe de que
+se trata. O projecto &eacute; ruinoso.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Abril&mdash;1910.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Fernando de Serpa, agora em foco por
+causa das cartas que o Afonso Costa leu no
+Parlamento<sup><a href="#n10">[10]</a></sup>
+e se teem publicado n'<em>O
+Mundo</em>&mdash;esteve
+<span class="pagenum">[249]</span>
+estes dias para se suicidar. A mulher
+n&atilde;o dorme e o irm&atilde;o d'ella entrou hoje
+n'<em>O Imparcial</em> e disse ao
+Jos&eacute; d'Azevedo:&mdash;Se
+isto assim continua minha irm&atilde; endoidece, e
+se minha irm&atilde; endoidece eu mato o Afonso
+Costa.&mdash;Segundo elle, esse Fernando de Serpa
+que se metia em tantos negocios, deve afinal
+quinze contos de reis e tem agora os seus vencimentos
+suspensos...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Porque o Jos&eacute; d'Azevedo n&atilde;o foi ministro
+com o Hintze:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O Hintze tinha por mim uma grande
+admira&ccedil;&atilde;o, mas nunca me fez ministro, porque
+a sua vida economica andava muito atrapalhada
+e um dia em que me mostraram uma lista de
+pares que elle ia fazer, entre os quaes estava o
+meu nome, eu disse:&mdash;Mas isso n&atilde;o &eacute; uma
+lista de pares&mdash;&eacute; uma lista de
+credores.&mdash;Soube-o
+logo e nunca me perdoou.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Quem roubou ao Pa&ccedil;&ocirc; as celebres cartas de
+que o Afonso Costa se serviu no parlamento, foi
+o creado. Soube-o hoje por acaso. O Urbano
+Rodrigues vendo um rapaz de dezeseis annos na
+redac&ccedil;&atilde;o d'<em>O
+Imparcial</em>, disse:&mdash;Este &eacute; o creado
+do Pa&ccedil;&ocirc;, que vae muito ao
+<em>Mundo</em> e pertence &aacute;s
+associa&ccedil;&otilde;es secretas.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[250]</span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O Jos&eacute; Luciano foi sempre um homem
+pernicioso&mdash;diz o Jos&eacute; d'Azevedo.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Emquanto f&ocirc;r uma sombra ha-de
+mandar&mdash;conclue
+o Fuschini. E acrescenta:&mdash;Quem
+manda &eacute; o seu
+<em>sal&atilde;o</em> onde se fazem os
+negocios
+mais escuros e mais porcos d'este paiz.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Esse ministro italiano que ahi
+est&aacute;&mdash;conta
+o Jos&eacute; d'Azevedo&mdash;foi um dos que mais concorreu
+para salvar Dreyfus. Paulucci, ent&atilde;o secretario
+de lega&ccedil;&atilde;o em Paris, viu os documentos
+da embaixada e convenceu-se da inocencia
+de Dreyfus. Falou ao embaixador, seu tio,
+que lhe disse:&mdash;Prohibo-te que te metas
+n'isso.&mdash;N&atilde;o
+se importou. Procurou Bernard Lazare,
+que o recambiou para o Jos&eacute; Reinach.&mdash;Isso
+&eacute;
+extraordinario. Vamos ter com Max Nordau e
+com Zola.&mdash;Reuniram-se e examinaram os documentos
+da lega&ccedil;&atilde;o italiana. Dos papeis n&atilde;o
+s&oacute;
+se deprehendia que era outro o traidor, mas resaltava
+nitida e clara esta preciosa informa&ccedil;&atilde;o: o
+adido encarregado da espionagem alem&atilde; possuia
+a esse respeito vinte e nove cartas absolutamente
+decisivas. Max Nordau partiu para Berlim
+e pediu ao imperador da Alemanha a publica&ccedil;&atilde;o
+das cartas. O imperador opoz-se. Paulucci n&atilde;o
+desanimou: foi a Roma, bateu &aacute; porta d'um cardeal,
+<span class="pagenum">[251]</span>
+pediu-lhe que o partido catholico tomasse
+a defeza de Dreyfus inocente, o que assegurava
+ao catholicismo um papel triumphante no mundo;
+falou emfim a Le&atilde;o XIII, a quem s&oacute; arrancou
+boas palavras. (E d'ahi veio o combate da
+Fran&ccedil;a republicana contra o clericalismo. Que
+outro n&atilde;o seria o papel da Egreja se Le&atilde;o XIII
+se manifesta!) Nem assim Paulucci desanima. Insiste
+com o tio:&mdash;Pois meu tio tem nas suas
+m&atilde;os documentos que provam a inocencia de
+Dreyfus e pode dormir descan&ccedil;ado! Apresento-me
+como testemunha.&mdash;O embaixador conseguiu
+que todos os secretarios fossem testemunhas
+no processo. Paulucci tinha doze mil e setecentos
+documentos (copias) da quest&atilde;o Dreyfus, que arderam
+no ultimo fogo da embaixada italiana no
+campo de Santa Clara. Paulucci dizia muitas vezes:&mdash;Andei
+dois annos com febre!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; d'Azevedo:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Fui eu que machinei e atirei com o ministerio
+Ferreira do Amaral a terra. Tinha-me
+feito um agravo que, se &eacute; directo, m'o pagava
+n'um conflicto pessoal. Fui eu que fiz tudo. O
+Jos&eacute; Luciano n&atilde;o queria. Procurei-o na Anadia.
+Obstinava-se. Mas eu fui ao Porto&mdash;e venci.
+Uma tarde o Campos Henriques recebeu uma
+carta do Pa&ccedil;&ocirc;, que encontr&aacute;ra o Tavares
+Festas
+no comboio (o Tavares Festas vinha de casa do
+<span class="pagenum">[252]</span>
+Jos&eacute; Luciano), carta em que lhe dizia: &laquo;Ouvi que
+vae formar ministerio com estes nomes...&raquo; O
+Campos Henriques mostrou a carta &aacute; mulher:&mdash;Olha
+o que me diz o Pa&ccedil;&ocirc;...&mdash;E riu-se. No
+dia seguinte era chamado ao Pa&ccedil;o e organisava
+o ministerio, tal qual o Pa&ccedil;&ocirc; lhe dizia
+na carta. Ordens de Jos&eacute; Luciano.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">1 de Maio&mdash;1910.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; d'Azevedo diz a respeito do escandalo
+do Credito Predial:&mdash;N&atilde;o s&atilde;o sessenta
+contos
+que faltam, s&atilde;o oitocentos! A escripta est&aacute; toda
+viciada. Venderam-se obriga&ccedil;&otilde;es, deram-se juros
+entrando-se pelo capital, emfim um descalabro
+medonho, que se n&atilde;o podia fazer sem
+auctorisa&ccedil;&atilde;o dos governadores.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um politico reservado e frio? N&atilde;o sei.
+&Eacute;
+um homem audacioso e inteligente, que parece
+calmo. Mas ha n'elle uma parte em carne viva.
+Sente-se a ferida sob aquella aparencia forte. Escreve
+sem uma emenda, linguado atraz de linguado;
+nem hesita&ccedil;&otilde;es nem duvidas e um prazer que
+synthetisa n'estas palavras:&mdash;Babo-me... N&atilde;o
+escrevo,
+babo-me...&mdash;N&atilde;o cr&ecirc; sen&atilde;o em
+si mesmo,
+e n&atilde;o deve ter um amigo, como todos os que
+<span class="pagenum">[253]</span>
+contam apenas com as suas proprias for&ccedil;as. A
+mulher d'um diplomata que viajou com elle, dizia:&mdash;As
+maneiras encantaram-me, os olhos meteram-me
+medo.&mdash;S&atilde;o os olhos dos Brocas.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Sou das raras pessoas que teem assistido
+ao suplicio dos chinezes. Fui com o meu creado,
+a cavalo&mdash;e por signal que elle desmaiou. Cortam-lhes
+primeiro a carne dos ante-bra&ccedil;os, depois
+a das pernas, depois os seios, depois os
+bra&ccedil;os e as pernas pelas articula&ccedil;&otilde;es;
+d&atilde;o-lhes
+emfim um golpe no cora&ccedil;&atilde;o e acabam por os
+decepar. Pois durante todo o suplicio atroz, os
+desgra&ccedil;ados n&atilde;o deram um unico grito, um
+s&oacute;
+gemido: erguiam a cabe&ccedil;a e bufavam ou mijavam-se.
+Mais nada. Um d'elles prestou-se, sorrindo,
+a que o photographassem, emquanto o
+carrasco levantava a espada para o degolar...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Uma phrase camilliana de uma tia, irm&atilde; de
+Camillo:&mdash;Sobrinho, Deus n&atilde;o existe... ou embarcou!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E esta de Camillo, que tinha vindo a Lisboa
+muito doente, e a quem Souza Martins, para o
+sacudir, come&ccedil;ou ralhando muito. Camillo, para
+o Jos&eacute; d'Azevedo, depois do medico sahir:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;V&ecirc;, meu sobrinho, v&ecirc;, n&atilde;o me
+perdoam o
+<em>Eusebio Macario</em>, estes filhos de
+boticario!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[254]</span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Camillo para o Jos&eacute; d'Azevedo, mostrando-lhe
+o filho, que j&aacute; estava no primeiro periodo de
+loucura:&mdash;Veja esse desgra&ccedil;ado... Era um rapaz
+inteligente...&mdash;E depois d'uma pausa dolorosa:&mdash;E
+tudo isto porqu&ecirc;, sobrinho? Por ter lido as
+obras do Theophilo Braga.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Junho&mdash;1910.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Nos quarteis continua a fazer-se uma larga
+propaganda republicana. Distribuem-se aos soldados
+versos e folhetos. Exemplo:
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">PROPAGANDA
+ELEI&Ccedil;OEIRA<br />
+
+DO BLOCO PREDIAL<br />
+
+ <br />
+
+ <div class="sbreak">
+ <hr /></div>
+
+ <br />
+
+(Musica&mdash;A MARSELHEZA) </td>
+
+ <td align="left" valign="top">||<br />
+
+||<br />
+
+||<br />
+
+||<br />
+
+||<br />
+
+||<br />
+
+||<br />
+
+||<br />
+
+||<br />
+
+||<br />
+
+||<br />
+
+||<br />
+
+||<br />
+
+||<br />
+
+||<br />
+
+||<br />
+
+||<br />
+
+||</td>
+
+ <td>Ide escravos quebrar os grilh&otilde;es, <br />
+
+As algemas da fome homicida; <br />
+
+Armas promptas contra esses ladr&otilde;es, <br />
+
+Que nos roubam a bolsa e a vida! (bis) <br />
+
+Nova aurora de Paz, Redemp&ccedil;&atilde;o, <br />
+
+V&aacute; doirar nossos valles e cerros, <br />
+
+Libertando os captivos dos ferros, <br />
+
+Dando aos pobres a luz e o p&atilde;o.<br />
+
+ <br />
+
+ <div class="quote2">Avante! Lusitanos! <br />
+
+Largae a servid&atilde;o!</div>
+
+ <div class="quote3">Unir! Unir! contra os tyramnos,</div>
+
+ <div class="quote2">Salvemos a
+Na&ccedil;&atilde;o! <br />
+
+Avante Lusitanos, <br />
+
+Salvemos a Na&ccedil;&atilde;o.</div>
+
+ <br />
+
+ <br />
+
+ <div class="quote1">Tareco.</div>
+
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[255]</span>
+E o folheto &laquo;Os Barbad&otilde;es&raquo;<sup><a href="#n11">[11]</a></sup>:
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="tinyl">&laquo;O rei D. Jo&atilde;o I
+da gloriosa dynastia de Aviz,
+enamorou-se
+da filha de Pero Esteves, sapateiro alemtejano, conhecido
+pela alcunha <em>O Barbad&atilde;o</em>; d'estes
+amores nasceu
+um filho que foi conde de Barcellos e primeiro duque de
+Bragan&ccedil;a; casando este com uma filha do condestavel
+Nun'Alvares, deu origem &aacute; nobre casa que ha 267 annos
+reina em Portugal.
+<br />
+
+<br />
+
+A casa de Bragan&ccedil;a foi-se engrandecendo &aacute; custa
+de
+doa&ccedil;&otilde;es regias, bens nacionaes que os reis cediam
+em usufructo
+apenas, e que o capricho do soberano ou a conveniencia
+do Estado, podiam fazer voltar ao seu legitimo
+propriet&aacute;rio: <b>A
+Na&ccedil;&atilde;o</b>.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o foram os servi&ccedil;os relevantes que
+engrandeceram
+esta casa, mas as intrigas continuas, salientando-se entre
+todas a que levou o glorioso infante D. Pedro &aacute; chacina
+de Alfarrobeira.
+<br />
+
+<br />
+
+Com a revolu&ccedil;&atilde;o de 1640 que libertou Portugal do
+jugo da Espanha, o oitavo duque de Bragan&ccedil;a foi aclamado
+rei com o nome de Jo&atilde;o IV; beato e poltr&atilde;o
+liga-se aos jesuitas,
+e para salvar a pelle e o titulo de rei, n&atilde;o hesita em
+negociar por intermedio do padre Antonio Vieira (jesuita)
+a entrega do seu paiz &aacute; Fran&ccedil;a, ou novamente
+&aacute; Espanha,
+a troco de o reconhecerem como rei do Brazil; a sua pessoa
+era tudo, o seu paiz era nada. Os melhores servidores
+do Estado foram lan&ccedil;ados em pris&otilde;es ou conduzidos
+ao cadafalso
+(o ministro Lucena, o marquez de Montalv&atilde;o, Mathias
+d'Albuquerque vencedor de Montijo, etc.). O seu
+reinado foi coroado pelo presente que fez &aacute; Inglaterra,
+como dote de sua irm&atilde;, das cidades de Bombaim e Tanger,
+ricas flores de laranjeira que a infante portugueza levou
+prezas ao seu vestido de noiva!</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[256]</span>
+<div class="tinyl">Seu filho <em>Afonso VI</em>
+que no throno
+lhe sucedeu, corria
+de noite as ruas da cidade, com a sua purria fidalga, assaltando
+os cidad&atilde;os indefezos; era doido, e d'isso se aproveita
+seu irm&atilde;o <em>Pedro II</em> para
+lhe tirar a cor&ocirc;a e... a
+mulher, com o consentimento do papa; este (Pedro II) dominado
+pelos jesuitas tambem, desterra o conde de Castello
+Melhor, glorioso ministro (que por tres vezes salvou
+Portugal da domina&ccedil;&atilde;o espanhola), e celebra com a
+Inglaterra
+o vergonhoso tratado de Methwen, que nos tira o comercio
+do Oriente e nos impossibilita de montar fabricas
+e oficinas.
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Jo&atilde;o V</b> que lhe sucede,
+gasta o oiro que do Brazil lhe
+vem, na constru&ccedil;&atilde;o de conventos, em festas de
+egreja e
+em presentes ao padre santo; deixa perder sem enviar socorros,
+as nossas colonias da India, Ceyl&atilde;o e Oceania, porque
+o dinheiro era pouco para presentear as freiras de
+quem fez amantes e o papa de quem se fez lacaio.
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Jos&eacute; I</b> faz morrer no cadafalso toda a
+familia Tavora,
+por meio de horriveis tormentos, com o pretexto de serem
+cumplices na conspira&ccedil;&atilde;o do duque de Aveiro, o
+que se
+n&atilde;o provou, sendo a causa verdadeira a
+oposi&ccedil;&atilde;o que essa
+familia fazia aos seus amores adulteros com a marqueza;
+nada escapou ao seu furor sanguinario: nem velhos, nem
+mulheres, nem crean&ccedil;as. Para dignamente coroar o seu
+reinado,
+abandona aos mouros as cidades que possuiamos em
+Marrocos, e que tanto sangue portuguez custaram.</div>
+
+<br />
+
+<div class="illustration"><a name="f17" id="f17"></a><br />
+
+<img style="width: 500px; height: 631px;" alt="Teixeira de Sousa." title="Teixeira de Sousa." src="images/fig19.png" /><br />
+
+<em>Teixeira de Sousa.</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[257]</span>
+<div class="tinyl"><b>Maria I</b> tira o poder
+ao Marquez de
+Pombal, entrega-o
+aos frades e endoidece; seu filho <em>Jo&atilde;o
+VI</em> que em seu nome
+governou e lhe sucedeu, foge covardemente para o Brazil
+abandonando o povo de que era rei, quando os francezes
+invadiram o paiz; Junot entra em Lisboa &aacute; frente de 70
+soldados!!! Portugal revolta-se contra os francezes, e o rei
+entrega-o aos desprezos de Wellington e &aacute;s brutalidades
+de Beresford; os inglezes protegendo-nos, fazem-nos peor
+mal que os invasores: arrazam as nossas provincias, queimam
+as nossas fabricas, conquistam a Madeira, e imp&otilde;em-nos
+os vergonhosos tratados de 1810, ainda peores que o
+de Methwen. O general Gomes Freire, por tentar libertar
+o paiz das garras inglezas, &eacute; enforcado em S.
+Juli&atilde;o da
+Barra; outros 17 martires pagam com a vida, no Campo de
+Sant'Anna, a sua dedica&ccedil;&atilde;o patriotica. A
+revolu&ccedil;&atilde;o popular
+de 1820 salva Portugal do leopardo britanico, obriga o
+rei a voltar ao seu posto e liberta o exercito do oprobrio de
+ser comandado por oficiaes inglezes.
+<br />
+
+<br />
+
+<b>D. Miguel</b> foi quem primeiro
+estabeleceu em Portugal
+um governo de for&ccedil;a, &aacute; semelhan&ccedil;a do
+que desejam actualmente
+alguns idiotas barriguistas; nada lhe faltava: as al&ccedil;adas,
+as forcas, o cacete, 80.000 homens de tropa e um
+povo fanatico e imbecil; contra si, em todo o paiz, apenas
+tinha alguns liberaes desarmados; o seu retrato figurava
+nos altares, e as m&atilde;es pediam-lhe a honra de lhes desflorar
+as filhas. Prende, enforca ou manda fuzilar toda a gente de
+que suspeita, mas com toda a sua for&ccedil;a, deixa que uma
+esquadra
+estrangeira lhe escarre na cara e no Paiz, sem que
+um s&oacute; tiro partisse a repelir a afronta. Este idolo poderoso
+cahe do seu pedestal de sangue, &eacute; corrido do
+throno pela
+<em>revolu&ccedil;&atilde;o</em>
+triumphante; seu numeroso exercito
+pouco a pouco o foi abandonando, vindo para o
+lado do povo liberal, e o bronco tigre que ao come&ccedil;ar
+a guerra civil tinha 80.000 homens &aacute;s suas ordens, perde
+a batalha de Asseiceira com os 5.000 homens unicos
+que at&eacute; esse momento lhe ficaram fieis.
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Pedro IV</b>, o que tem estatua no
+Rocio, revolta o Brazil
+contra Portugal, faz-se seu imperador e manda fuzilar
+no Rio de Janeiro os soldados portuguezes &aacute;
+trai&ccedil;&atilde;o; corrido
+do Brazil, volta a Portugal a tentar fortuna, dirigindo
+a guerra civil contra o irm&atilde;o; emquanto esta se
+n&atilde;o decide
+a seu favor, n&atilde;o tem vergonha de offerecer &aacute;
+Inglaterra,
+em troca de auxilio desta, o pouco que nos restava do nosso
+imperio indiano.</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[258]</span>
+<div class="tinyl"><b>Maria II</b> para se
+aguentar no throno
+chama marujos
+inglezes e 30:000 soldados de Espanha; faz invadir a sua
+patria e assassinar o seu povo, para satisfa&ccedil;&atilde;o
+do seu orgulho
+de rainha <em>liberal</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Pedro V</b> n&atilde;o poude passar
+sem irm&atilde;s de caridade, e
+deixa que mansamente de novo se estabele&ccedil;am entre
+n&oacute;s
+as congrega&ccedil;&otilde;es religiosas; novamente, um
+almirante estrangeiro
+(Lavaud) nos faz o mesmo que Roussin fizera em
+tempo de D. Miguel.
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Luiz I</b> arvora o cynismo em governo e
+faz reinar a
+bandalheira; deixa que na conferencia de Berlim nos roubem
+a maior parte do nosso territorio Africano, e conduz
+o paiz &aacute; bancarrota que estala pouco tempo depois da subida
+ao throno de seu filho <em>Carlos</em>. Este,
+esbofeteado pela
+Inglaterra, curva-se rasteiramente, chama piolheira &aacute;
+na&ccedil;&atilde;o
+que lhe paga, e... rouba-a; rouba-lhe o seu dinheiro e
+rouba-lhe a liberdade; no seu reinado perdemos vastos
+territorios nas nossas colonias de Mo&ccedil;ambique, Angola e
+Guin&eacute;. O seu ultimo ministro Jo&atilde;o Franco, que
+queria p&ocirc;r
+tudo isto no <em>x&atilde;o</em> atirou
+com elle ao ch&atilde;o. Seu filho <em>Manuel
+II</em>
+que lhe succedeu, com sua bella e radiosa mocidade,
+j&aacute; deu a seu povo uma explendida amostra do muito amor
+que lhe tem: a chacina de 5 de abril (14 mortos e 100 feridos!);
+em troca o seu primeiro ministerio entendeu que o
+povo lhe devia dar mais ordenado; ainda n&atilde;o roubou como
+o pap&aacute;, mas paga-se melhor; passa a sua vida de rozario
+na m&atilde;o, envergando a roup&ecirc;ta de jezuita, seguindo
+os conselhos
+das fraldas femeninas reaccionario-palatinas.</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[259]</span>
+<div class="tinyl">At&eacute; hoje 14 reis da
+casa de Bragan&ccedil;a teem governado
+o Paiz, e como se v&ecirc; s&atilde;o os legitimos
+representantes duma
+na&ccedil;&atilde;o de idiotas, barriguistas e
+poltr&otilde;es; tambem n&atilde;o resta
+duvida que esta dynastia &eacute;, como tem sido, a mais solida
+garantia
+da integridade do nosso imperio ultramarino. Grandes
+s&atilde;o os beneficios que a Na&ccedil;&atilde;o lhe
+deve: uma divida
+colossal de <b>oitocentos mil contos</b>,
+nenhumas industrias,
+nenhum commercio, uma agricultura atrazadissima, um
+povo tuberculoso e analphabeto, esmagado com impostos
+&aacute; merc&ecirc; dos pontap&eacute;s estrangeiros; nem
+exercito nem marinha;
+estradas ao abandono e bufos com fartura, taes s&atilde;o
+as fontes de riqueza que os Bragan&ccedil;as nos deixam, e tudo
+isto por pouco dinheiro, baratinho: <b>365
+contos</b> por anno s&oacute;
+para elle, mais <b>60 contos</b> para a
+mam&atilde;, <b>outros 60</b> para a
+v&oacute;v&oacute; e <b>16</b> para
+o titi; tem tambem para alfinetes <b>160
+contos</b>
+a mais por anno que o generoso Amaral lhe deu, pagamos
+tambem &aacute; sua guarda real de archeiros, &aacute;
+orchestra da sua
+real Camara, e ao seu yacht, e como isto &eacute; pouco, damos-lhe
+dinheiro pela honra que nos faz em alojar os seus cavallos e
+carros nas nossas casas e pela licen&ccedil;a que nos deu de
+utilisarmos
+em servi&ccedil;o do Estado os nossos palacios; tudo isto, bem
+entendido, nada tem com os rendimentos da casa de Bragan&ccedil;a
+que disfructa. Quando casar, se S. M. nos der essa felicidade,
+dar-lhe-hemos mais <b>60 contos</b> para os
+alfinetes de sua
+esposa; e se tiver meninos? ent&atilde;o morreremos de alegria
+e daremos <b>20 contos</b> annuaes por cada
+pimpolho.
+<br />
+
+<br />
+
+Como veem, n&atilde;o &eacute; pagar cara a certeza que temos
+de
+ganhar o reino do ceu pela m&atilde;o do nosso radioso soberano,
+com a ben&ccedil;&atilde;o de Pio X, as indulgencias de Merry
+del Val
+e as preces solemnes do sr. patriarcha e do reverendo bispo
+de Beja.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Oliveira Martins, que foi ministro de D. Carlos, diz na
+sua historia de Portugal: For&ccedil;a &eacute; reconhecer que
+na familia
+dos Bragan&ccedil;as n&atilde;o vingou a semente da nobre
+ra&ccedil;a dos
+Nun'Alvares; viu-se em todos elles a descendencia do
+crasso sangue alemtejano da filha do
+<em>Barbad&atilde;o</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Portuguezes!</b> fa&ccedil;amos votos pela
+conserva&ccedil;&atilde;o
+d'esta
+gloriosa
+dynastia&mdash;<b>Oremos</b>&mdash;<b>Padre
+Nosso</b>&mdash;<b>Ave-Maria</b>.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[260]</span>
+<div class="date">Junho&mdash;1910.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Fui hoje a casa do Fernando
+Martins de
+Carvalho consultal-o. N&atilde;o sae ainda com medo
+aos republicanos. &Eacute;
+pequeno, inteligente, arguto.
+Est&aacute; livido.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;A rainha D. Amelia &eacute; que quiz
+for&ccedil;osamente
+que o ministerio Jo&atilde;o Franco f&ocirc;sse abaixo
+e at&eacute; se opunha a que se lavrassem os decretos
+como habitualmente.
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;E o rei?
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;O rei, como dizia o Totenbach, n&atilde;o &eacute;
+um
+homem... Oh, vivemos dias horriveis! Olhe, tenho
+provas moraes absolutas de que os republicanos
+quizeram assassinar o Jo&atilde;o Franco, quando
+elle viesse de Carnide no automovel. Ha na estrada
+uma azinhaga: de repente uma carro&ccedil;a
+surgia, fazia parar o automovel e os assassinos
+cahiam-lhe em cima...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="date">Julho&mdash;1910.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Do Jo&atilde;o de Menezes:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Possuo documentos (que h&atilde;o-de aparecer
+a seu tempo) e que provam que foi a rainha
+D. Amelia, d'acordo com a condessa de Paris e
+a duqueza de Monpensier, quem introduziu as ordens
+religiosas no paiz. Foram ellas que deram
+dinheiro para jornaes e o resto.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[261]</span>
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A dissidencia, o assassinato do rei, o caso do
+Credito Predial, foram golpes profundos e certeiros
+vibrados na monarchia. Est&aacute; efectivamente
+tudo minado... E os ataques dos republicanos ao
+juiz de instru&ccedil;&atilde;o criminal demonstram que elle
+lhes tocou na ferida... Mas quem ha ahi que se
+queira comprometer a serio pela monarchia,
+sobretudo depois do exemplo de Jo&atilde;o Franco?&mdash;A
+um ministro foi preciso escrever-lhe uma
+ordem necessaria &laquo;porque a m&atilde;o lhe
+tremia...&raquo;
+O que resta de p&eacute; n&atilde;o passa de
+fic&ccedil;&atilde;o. Quem
+manda, quem governa, mesmo na oposi&ccedil;&atilde;o,
+s&atilde;o
+os republicanos, que o Alpoim leva pela m&atilde;o
+at&eacute; &aacute;s quest&otilde;es
+importantes.&mdash;O
+exercito &eacute; nosso.&mdash;E
+o Jo&atilde;o Chagas, para convencer um oficial incredulo,
+manda desfilar certa noite no Rocio os soldados
+d'um regimento, que, por senha, um a um
+lhe fazem todos a continencia. Sucedem-se os
+governos, mas a for&ccedil;a &eacute; outra, que se sente por
+traz do scenario... O Jos&eacute; d'Azevedo
+desafia-os:&mdash;Venham
+para a rua!&mdash;Fiado em qu&ecirc;?
+O pacto de Vila Vi&ccedil;osa efectivamente existe?<sup><a href="#n12">[12]</a></sup>
+<span class="pagenum">[262]</span>
+J&aacute; o Jo&atilde;o Franco dizia tambem com
+arrogancia:&mdash;Se
+podem fazer a republica fa&ccedil;am-na depressa,
+porque d'aqui a dois annos garanto-lhes que a
+n&atilde;o fazem.&mdash;Mas ser&aacute; este rei um
+chefe?&mdash;pergunta
+necessaria e decisiva, a que os proprios monarchicos
+respondem d'esta forma n'<em>O Liberal</em>:
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="tinyl">&laquo;O rei de Portugal
+est&aacute; exautorado,
+est&aacute; reduzido a
+uma chancella de quem lhe bate os p&eacute;s.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Podia ser um rei, e &eacute; um simulacro da realeza.
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p263" id="p263">[263]</a></span>
+<div class="tinyl">&laquo;Em tempo algum se curvaram
+os reis perante
+amea&ccedil;as
+de qualquer natureza e ainda menos, quando tendentes a
+esquecer os nossos protestos e juramentos a que est&aacute; ligada
+a propria dignidade e a honra de uma na&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;P&oacute;de asseverar-se que o snr. D. Manuel
+n&atilde;o chegou a
+ser rei. No momento em que se <a href="#e2">esqueceu</a>
+do
+que devia &aacute;
+sua dignidade de n&oacute;s todos, <b>que lhe
+confiamos um cargo,
+que &eacute; incapaz de conservar sem o deixar cair, o snr.
+D. Manuel deixou de ser rei</b>&raquo;.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[264]</span>
+A excita&ccedil;&atilde;o politica n&atilde;o tem
+diminuido, e o
+Teixeira de Souza, no poder, ignora tudo que o
+juiz d'instruc&ccedil;&atilde;o repete a quem o quer
+ouvir:&mdash;Estamos
+sobre um vulc&atilde;o!&mdash;A audacia dos
+republicanos todos os dias augmenta:&mdash;Lisboa
+&eacute; nossa!&mdash;exclama o Chagas.&mdash;Se os
+republicanos
+fizessem um comicio ao alto da Avenida
+e viessem por ali abaixo, a republica estava
+feita!&mdash;afirma o Silva Gra&ccedil;a&mdash;E o Porto e
+a
+provincia?&mdash;pergunto
+<span class="pagenum">[265]</span>
+eu ao Chagas.&mdash;Que me
+importa a provincia! Que importa mesmo o
+Porto! A republica fazemol-a depois pelo telegrapho.&mdash;Outro
+diz-me:&mdash;A marinha est&aacute; toda
+comnosco. Tem havido ocasi&otilde;es em que a esquadrilha
+do Algarve nos pertence desde o oficial
+mais graduado at&eacute; ao ultimo fogueiro. O dificil
+tem sido contel-os...&mdash;Todos os dias corre um
+boato e a agita&ccedil;&atilde;o popular augmenta pela carestia
+da vida<sup><a href="#n13">[13]</a></sup>.
+Que vae sahir d'aqui? Uma
+<span class="pagenum">[266]</span>
+grande revolu&ccedil;&atilde;o, o terror,
+mortes?...&mdash;N&atilde;o,
+soceguem, quando se fizer a republica&mdash;j&aacute; o
+anunciou ha annos o pontifice maximo Guerra
+Junqueiro&mdash;o que se ha-de ouvir n&atilde;o &eacute; um
+grande ruido de espadas, &eacute; um grande ruido de
+talheres...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c4" id="c4"></a>A
+SOCIEDADE ELEGANTE
+</h3>
+
+<br />
+
+Rodeiam a rainha o Figueir&oacute; e a Figueir&oacute;, e
+algumas rela&ccedil;&otilde;es intimas da Figueir&oacute; e
+Sabugosa;
+e o rei o Ficalho, alguns velhos em oficio
+na c&ocirc;rte, como o marquez d'Alvito, o conde de
+Villa Nova de Cerveira, que, ao que se disse,
+morreu por ser preterido pelo conde de Sabugosa,
+por influencia da rainha&mdash;o que &eacute; redondamente
+falso: D. Pedro de Noronha, vulgo o Pa&ccedil;o
+d'Arcos, morreu de velho. Era um homem sem
+cultura, e tinha oitenta e seis annos quando foi
+preciso nomear novo mordomo m&oacute;r por morte
+do Ficalho. Acompanham o rei no yacht o Fernando
+de Serpa, o Manuel Figueira, o Pinto
+Basto (Nico), o Malaquias de Lemos, o Queiroz,
+que passou por ser a alma danada do pa&ccedil;o;
+e que na realidade tinha um certo geito para
+disciplinar soldados, montar a cavallo, dirigir esperas
+de touros&mdash;e mais nada; algumas vezes o
+major Santos, feitor da Bacalh&ocirc;a, e o
+Soveral
+que, quando estava em Lisboa, era o menino bonito
+<span class="pagenum">[268]</span>
+da corte, onde tinham influencia o Bernardo
+Pindella, o Caldeira, comandante do yacht, e poucos
+mais.
+<br />
+
+<br />
+
+A seguir ao pa&ccedil;o podem citar-se os Palmellas,
+em casa de quem se dava beijam&atilde;o aos creados
+e &aacute;s creadas, se isto n&atilde;o &eacute; uma lenda
+como muitas
+outras... Era uma pequena corte. Ella, a duqueza,
+viveu sempre entre coisas bellas; elle, o
+duque, era um apagado guarda livros<sup><a href="#n14">[14]</a></sup>.
+S&oacute; recebiam
+raros parentes, e a duqueza toda a vida
+detestou os Sousa Holstein. No tempo de D.
+Luiz ainda muita gente nobre mantinha uma
+grande linha, que se foi pouco a pouco apagando:
+os Penafieis que ent&atilde;o fizeram uma vida
+brilhante; o marquez de Vianna cujo palacio se
+vendeu ao marquez da Praia.&mdash;Aquella gente
+nem sabe acender um lustre, dizia o velho marquez
+ao falar d'&laquo;esses morgadotes da ilha...&raquo;
+Os condes de Lumiares davam bellas festas no
+palacio quasi pegado, onde &eacute; hoje o do Marquez
+da F&oacute;z. Abriam-se as janellas, apagavam-se os
+milhares de lustres e continuava-se a conversa
+ate &aacute; missa das almas na capella proxima.
+<br />
+
+<br />
+
+Chamavam-se essas festas &laquo;rosas divinas&raquo;.
+<span class="pagenum">[269]</span>
+Debutou ahi, nas salas de Lisboa, o snr. Luiz de
+Soveral. No rez do ch&atilde;o do mesmo palacio
+davam pequenas partidas os Castellos Melhor.
+Tocava o seu amigo Bomtempo e juntavam-se
+alguns politicos, entre os quaes o Manuel Vaz
+Preto. No fim do reinado de D. Luiz j&aacute; a maior
+parte dos palacios de Lisboa ou tinham sido
+alugados ou mudado de dono. No palacio de
+Tancos estava o colegio do dr. Sicuro; nos
+dos viscondes de Asseca instalou-se o visconde
+de Ouguella e depois uma fabrica; o dos condes
+de Mur&ccedil;a transformou-se n'uma escola; o
+do marquez de Abrantes&mdash;que ocupava apenas
+um recanto&mdash;foi alugado pela lega&ccedil;&atilde;o da
+Fran&ccedil;a; o dos condes Bar&atilde;o, no largo do mesmo
+nome, passou a uma familia de judeus, bar&atilde;o de
+Villa de Fosc&ocirc;a; o dos Almadas Carvalhaes, senhores
+d'Ilhavo, &aacute; Empreza Editora; no do conde
+da Ribeira, de quem o rei dizia que era o homem
+mais honesto do seu tempo, e que morava
+na casa dos Mordomos, instalou-se o colegio Arriaga.
+J&aacute; os Angejas, representados pelo conde
+de Peniche, tinham deixado o palacio de S. Lazaro,
+que depois ardeu, e o visconde de Sampaio
+mud&aacute;ra para a rua de S. Vicente. Os
+condes Valladares e Povolide haviam vendido
+ao snr. Burnay o palacio das Portas de Santo
+Ant&atilde;o e retirado para a provincia. O palacio
+dos condes de Paraty &eacute; hoje escola municipal,
+no dos condes da Ponte, &aacute; Boa Morte,
+<span class="pagenum">[270]</span>
+habitou o general Palmeirim, e no dos condes
+de Farrobo m&oacute;ra o snr. Monteiro Milh&otilde;es, que
+tambem comprou as Laranjeiras, vendidas depois
+successivamente at&eacute; cahirem nas m&atilde;os do
+snr. conde de Burnay. O palacio dos Castellos
+Melhor passou &aacute;s m&atilde;os do marquez da
+F&oacute;z, que
+alli deu algumas festas sumptuosas. Mas a mais
+brilhante, a que deixou grande impress&atilde;o na
+gente da epoca, foi o celebre baile das Chagas,
+na antiga residencia, antes de mudar para o
+palacio da Avenida. N'esse baile se exhibiram
+todas as preciosidades que o marquez adquirira&mdash;quadros,
+baixelas Germain, etc. Romperam-se
+os tectos da sala de baile, para se construir uma
+galeria onde tocaram os musicos, acompanhados
+pelo c&ocirc;ro de S. Carlos. Ahi come&ccedil;ou tambem o
+marquez a arruinar-se. Gastou, gastou... S&oacute; as
+grades de ferro do corrim&atilde;o do palacio da Avenida
+custaram noventa e cinco contos. O marquez
+chegou a ter cem contos de renda.
+<br />
+
+<br />
+
+Muitas outras familias ilustres ocupavam, retiradas
+da vida mundana, os seus palacios: o
+conde de Alca&ccedil;ovas, na rua da Cruz dos Poiaes,
+o marquez de Pombal na rua Formosa, os marquezes
+de Penalva, etc. Os condes de Sabugosa,
+n'uma residencia que o conde tornou encantadora,
+recebiam ainda com brilho. Na rua Formosa
+existia tambem o sal&atilde;o da snr.<sup>a</sup> D.
+Maria Kruz
+Brito, que no seu genero foi o unico comparavel
+aos sal&otilde;es da Restaura&ccedil;&atilde;o e
+2.&ordm;
+Imperio, de
+<span class="pagenum">[271]</span>
+Paris. Sua filha, a senhora condessa de Ficalho, no
+solarengo palacio dos Mellos de Serpa, aos Caetanos,
+reunia a fina flor da elegancia em certos
+dias da semana (segundas-feiras). &Eacute; o palacio
+ainda hoje ocupado pela senhora D. Maria de Mello,
+condessa de Ficalho. O destruido e inhabitavel
+palacio da Rosa, solar dos viscondes de Villa
+Nova de Cerveira, marquezes de Ponte de Lima,
+resurgiu pelos esfor&ccedil;os do actual marquez de
+Castello Melhor, visconde da Varzea pelo seu
+casamento com a herdeira das casas Castello
+Melhor e Ponte de Lima, e alli se deram e d&atilde;o
+esplendidas festas.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Citam-se como as mulheres mais lindas d'essa
+epoca&mdash;fim do reinado de D. Luiz e principio de
+D. Carlos&mdash;a duqueza de Palmella, a condessa
+de Penamac&ocirc;r, a condessa de Ficalho, a condessa
+de Villa Real e Mello, e a formosissima D.
+Anna de Sousa Coutinho, filha do Conde de
+Linhares, portanto neta da Senhora Infanta D.
+Anna de Jesus Maria, dama da rainha, e pelo
+espirito, pelo talento, a condessa de Rio Maior
+(m&atilde;e), a marqueza sua nora, filha dos marquezes
+de Bemposta Sub-Serra (Saint Leger) e tantas
+outras sumidas ou desaparecidas no turbilh&atilde;o
+da vida.
+<br />
+
+<br />
+
+Uns pobres, outros mortos, outros arredados,
+deram logar a esta sociedade mais mesclada,
+<span class="pagenum">[272]</span>
+a gente de dinheiro, a gente que enriquece,
+alguns nobres de mistura, alguns fidalgotes
+feitos &aacute; ultima hora, e a uma certa roda que se
+diverte, citada nos jornaes, e que constitue em
+toda a parte o que se chama a sociedade elegante.
+Uma senhora de espirito dividia a sociedade
+portugueza em aristocracia, <em>smart
+set</em>, alto
+pirismo (pirismo, &eacute; claro, vem de Pires), baixo
+pirismo e povo. &laquo;Esta ideia veio-me&mdash;diz
+ella&mdash;d'uma
+visita que recebemos um dia e que muito
+nos impressionou: num grupo d'automobilistas
+do Monte Estoril nossos conhecidos, tinha vindo a
+F..., aquelle sitio apartado &aacute; beira-mar,
+onde j&aacute; o nosso pae costumava passar o ver&atilde;o,
+uma menina da boa sociedade de Cascaes. Essa
+menina, dizia minha irm&atilde; cheia de extranh&ecirc;za,
+que nunca tinha vindo &aacute;quella casa, esteve durante
+toda a tarde exclusivamente a namorar um
+dos taes automobilistas, e nem antes nem depois
+nem nunca, esbo&ccedil;ou para com os donos
+da casa um leve sorriso de agradecimento! Porqu&ecirc;
+n'uma menina t&atilde;o fina tanto &laquo;falta de
+ch&aacute;!...&raquo;? Porqu&ecirc;, entre ellas, e as
+meninas finas
+nossas conhecidas com mais intimidade, tamanha
+diferen&ccedil;a?... Foi assim por
+compara&ccedil;&otilde;es
+estabelecidas e dedu&ccedil;&otilde;es tiradas, que concluimos
+em dividir as classes da sociedade actual
+em aristocracia, <em>smart set</em>,
+<em>alto pirismo</em>, <em>baixo
+pirismo</em>
+e povo.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; inutil explicar o que se entende por aristocracia
+<span class="pagenum">[273]</span>
+e povo. Cada uma dessas classes, no
+seu extremo oposto, est&aacute; suficientemente definida
+por sua propria natureza. <em>Baixo
+pirismo</em>
+&eacute; nome novo para a baixa burguezia, classe de
+que tanto, com tanta gra&ccedil;a, e tanta verdade, se
+ocupou Gervasio Lobato. <em>Alto
+pirismo</em>... alto
+pirismo, somos n&oacute;s, por exemplo, as manas da
+descoberta, muito bem acompanhadas por todas
+as nossas amigas e por quasi todos os nossos
+conhecimentos, mais ou menos endinheirados (ha
+de tudo!) de maior ou menor bom gosto e cultura.
+Classe numerosissima, em que est&aacute; incluida
+toda a boa gente que cuida de ser bem educadinha
+e agradavel e que trata de sustentar, por
+um alevantado valor civico&mdash;que muitas vezes
+&eacute; inconsciente...!&mdash;as regras, os preconceitos, as
+conven&ccedil;&otilde;es, de que uma sociedade bem organisada
+n&atilde;o pode prescindir.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha alguns grupos no alto pirismo, muitissimo
+agradaveis&mdash;se n'elle incluimos tanta gente!...&mdash;em
+que se cultiva ainda a boa conversa,
+em que, sem sombra de pedantismo, se discutem
+livros, ideias, arte, e em que ninguem sente saudades
+de jogar o bridge. Mas ha outros grupos,
+em que nas festas os homens n&atilde;o est&atilde;o na
+mesma sala em que est&atilde;o as senhoras, festas
+em que s&oacute; dan&ccedil;a, e pouco, a gente muito nova,
+e em que as meninas, nada interessantes, mas
+com aquelle ar de timidez e de recato, que tanto
+agrada aos portuguezes &aacute; volta d'uma viagem
+<span class="pagenum">[274]</span>
+pelo extrangeiro, namoram pelos processos archaicos,
+sob os olhares mais ou menos adormecidos
+da mam&atilde;. Festas essas em que, a alturas tantas,
+n&oacute;s, com a certeza absoluta de que o relogio
+est&aacute; parado, come&ccedil;amos a sentir verdadeiro odio
+pelas begonias artificiaes&mdash;ainda se encontram!&mdash;que
+ornamentam a &eacute;tag&egrave;re, e que cresceram em leque
+de dentro d'uma especie de musgo s&ecirc;co, muito
+mal imitado; festas em que s&oacute; pela muita
+f&ocirc;r&ccedil;a
+da boa educa&ccedil;&atilde;o recebida nos obrigamos a trocar
+umas palavras vazias de interesse por uma
+contors&atilde;o dificil e dolorosa do corpo, com a senhora
+gorda que est&aacute; sentada no
+<em>borne</em> atraz
+de n&oacute;s! (Tambem ainda se encontram muitos
+<em>bornes</em>!!)
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o estes grupos do alto pirismo, &eacute; preciso
+dizer a verdade toda, que nos enchem precocemente
+a cabe&ccedil;a de cabelos brancos.
+<br />
+
+<br />
+
+A <em>smart set</em> (c&aacute;
+est&aacute; a tal menina que apareceu
+na F...) foi certamente organizada em Cascaes.
+Deve ter nascido na Parada...&mdash;e foi fundada provavelmente
+por um pequeno grupo de aristocratas
+neurasthenicos e comodistas, aos quaes logo,
+muito contentes, se agregaram por facilidades
+de convivencia e porque os souberam imitar,
+alguns membros do alto pirismo. Hoje &eacute; uma
+classe bastante numerosa e certamente a mais
+<em>chic</em>. Distingue-se das outras por
+varias coisas;
+por exemplo: desprezo absoluto pela prudente
+institui&ccedil;&atilde;o do &laquo;chaperon&raquo;
+(esses entreteem-se
+<span class="pagenum">[275]</span>
+com o bluff)&mdash;desprezo absoluto pelas boas
+maneiras, pela cortezia corrente (s&oacute; se cumprimentam
+as pessoas que passem perto e essas
+mesmas com marcada indiferen&ccedil;a)&mdash;ignorancia
+completa das regras da gramatica (isso seria
+&laquo;falar dificil&raquo;!) e da orthographia. Cultivam
+s&oacute; o corpo diplomatico e a religi&atilde;o; vestem
+bem, jogam muito, dan&ccedil;am muito e bem, e
+flirtam na perfei&ccedil;&atilde;o. Votaram ao ostracismo
+algumas palavras que n&oacute;s dizemos e que s&atilde;o
+<em>pessidonias</em> como: chavena, trem,
+pharmacia, carnaval
+etc. etc. etc. Tratam-se todos por
+&laquo;voc&ecirc;&raquo;;
+alguns teem muita <em>piada</em> e usam todos
+um ar
+muito <em>chateado</em>. (&Eacute; da
+praxe, o cal&atilde;o.) A <em>smart</em>
+diverte-se... mas n&atilde;o sabe sorrir&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta sociedade, que anda todos os dias nos
+jornaes, vem do alto at&eacute; baixo, da aristocracia ao
+povo, forma uma lista infindavel, tem um chronista
+celebre, o snr. Luiz Trigueiros, e pode ser vista &aacute;s
+tardes no <em>Dia</em> e de manh&atilde;
+no <em>Diario Nacional</em>.
+Dessa lista destaca outro informador algumas
+senhoras: Branca de Gonta Cola&ccedil;o, poetisa
+distincta, voz de ouro, herdada do pae, bonita
+a valer e sempre apaixonada pelo marido,
+o artista Jorge Cola&ccedil;o; Magdalena Trigueiros
+de Martel Patricio, pequenina, vivissima
+complei&ccedil;&atilde;o d'artista, gostos aristocraticos,
+fazendo
+versos em franc&ecirc;s e d'uma alegria comunicativa;
+Elisa Baptista de Sousa Pedroso, pianista
+eximia, sempre em concertos, em recitas de caridade,
+<span class="pagenum">[276]</span>
+em festas que d&aacute; em sua casa e onde
+reune uma sociedade mesclada de artistas, diplomatas,
+aristocratas e politicos; Sarah da Motta
+Vieira Marques, voz rica e sciencia no cantar,
+s&oacute; rivalisando com a sciencia de receber: o seu
+sal&atilde;o pode considerar-se um dos poucos refugios
+dos ultimos dez annos, no dizer dos seus amigos;
+Adelaide Coelho da Cunha, esposa do
+director
+do <em>Diario de Noticias</em>, grande
+organisadora
+de festas, no seu palacio a S. Vicente de Fora,
+festas dramaticas d'uma grande riqueza de
+apresenta&ccedil;&atilde;o
+e mise-en-sc&ecirc;ne; a malograda Ada
+Weinstin, a esposa do conhecido banqueiro, recitando
+maravilhosamente, vestindo com suprema
+distinc&ccedil;&atilde;o, bonita, elegante, cheia de
+<em>charme</em>;
+Candida da Nova Kendall, formosura triumphante,
+que passou pela sociedade lisboeta como um
+meteoro louro, cantou
+como um rouxinol, e
+voou para terras da Santa Cruz, sua patria: ella
+a bem dizer tinha duas patrias: Bahia-Paris; Alda
+Decken Lino, figurinha de madona, de band&oacute;s
+negros e olhos transparentes, mulher do architecto
+Raul Lino; Maria
+Emilia Macieira Lino,
+cantora e organisadora de soir&eacute;es artisticas com
+representa&ccedil;&otilde;es de autos de Gil Vicente; Alice
+Munr&oacute; dos Anjos, dando festas na sua casa da
+Pra&ccedil;a dos Restauradores, onde
+se dan&ccedil;a alegremente,
+presididas pelas suas filhas, a linda
+condessa de Arnoso e a simpathica condessa de
+S. Louren&ccedil;o; Luzia Patricio de Balsem&atilde;o, grande
+<span class="pagenum">[277]</span>
+linha de elegancia, certa em todas as premi&eacute;res;
+Irene Gilman, filha de Thomaz Ribeiro, loura,
+inteligente, maliciosa e dan&ccedil;ando maravilhosamente;
+Christina Rezende da Silva, d'uma belleza
+e elegancia patricias; Elisa Baerlein; Concei&ccedil;&atilde;o
+de Carvalho, filha de Mariano, organisadora de
+festas artisticas, para que escrevia pe&ccedil;as, em
+casa de seus sogros os Viscondes de Carnaxide,
+bonita e intelligente; Zulmira Franco Teixeira,
+pequenina, d'uma requintada elegancia, fazendo
+versos, como sua irm&atilde; a condessa de Almeida
+Araujo, etc. etc.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A sociedade lisboeta tinha dois pontos principaes
+de contacto&mdash;Cascaes e o theatro de S.
+Carlos. Era ahi que os ricos, ou os que aparentavam,
+procuravam impor-se a certa roda, que dificilmente
+os recebia.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+De 1880 para c&aacute; as emprezas succedem-se em
+S. Carlos como os ministerios progressistas e regenerador
+e Valdez disputa com Freitas Brito a
+vinda a Lisboa das grandes celebridades. Se Valdez
+traz Masini, Patti, Devri&eacute;s, Vidal, Castel Mary,
+Devoyod, Cotogni, a tragica Ristori, a Regina
+Pacini, Novelli, de Bassini, que passou por amante
+<span class="pagenum">[278]</span>
+d'uma rainha (v&ecirc;r Fialho), os irm&atilde;os Andrades,
+etc.; Freitas Brito apresenta Varesi, Gayarre, Rapp,
+irm&atilde;os De Resk&eacute;e, Navarrini, Tetrazzini,
+Theodorini,
+Gabrielesco, Nevada, Kaschmann, Sarah
+Bernhard, Marini, Ristori, Salvini, Rossi, Desreins,
+Sherie, Belincioni, Ferrani Darcl&eacute;e, Tamagno,
+Borghi Mamo (Herminia), baritono Aldighieri,
+Pandolfini, Saloni, Arkel, maestro Gula,
+Delman, tenor De Marchi, Morconi, Sarasate, e
+tantos outros. Os partidarios de Freitas Brito
+pateavam sempre na epoca de Valdez, os de
+Valdez na epoca de Freitas Brito&mdash;o que n&atilde;o
+os impedia de se juntarem em jantares semanaes,
+a que assistiam os dois emprezarios... A estas
+duas emprezas segue Paccini, que faz fortuna.
+Foi n'essa epoca que S. Carlos se transformou
+n'um grande sal&atilde;o. Vem a Lisboa os reis e presidentes
+de republicas. O numero de recitas
+augmenta, a assignatura augmenta. Paccini d&aacute;
+cincoenta recitas de assignatura, vinte e quatro
+extraordinarias e doze extraordinarissimas, a que
+o publico chama dos
+<em>Sebasti&otilde;es</em>, e no palco
+desfilam
+Belincioni, Krucinisky, De Lerma, Renaud,
+Tita Ruffo, Lassalle, etc., etc. Segue-se Anahory,
+com a carruagem, o charuto, Wagner&mdash;e o
+desastre.
+<br />
+
+<br />
+
+Ahi est&aacute; todo o mundo literario e elegante,
+nos camarotes ou na plateia, toda a Lisboa
+como se diz nos jornaes: Carlos de Freitas Jacome,
+antigo diletanti, e que se julgava pae da
+<span class="pagenum">[279]</span>
+Patti, Freitas Rego, o Principe Negro, conquistador
+irresistivel, D. Luiz da Camara, o conde
+de Mesquitella e Antonio de Brito, que formavam
+um grupo, de que Bordallo fez tres
+medalh&otilde;es para distribuir pelos assignantes de
+S. Carlos; Joaquim Pessoa, do <em>Diario de
+Noticias</em>,
+apaixonado da Baresi; Jos&eacute; Saragga, critico
+do <em>Jornal do Commercio</em>; o
+phantastico Eduardo
+Cheira; Mr. Garaty e mulher, assignantes chronicos
+de S. Carlos, elle muito baixo, ella muito
+alta; dr. Patrocinio, professor de mathematica,
+com uma paix&atilde;o assolapada pela cantora Pasqua;
+Antonio da Costa e Silva, um dos mais elegantes
+rapazes de Lisboa; Alfredo Anjos, enamorado
+da Devri&eacute;s, e que na noite do seu
+beneficio lhe mandou compor um deslumbrante
+jardim natural para o 3.&ordm; acto do Fausto; Francisco
+da Fonseca Benevides e esposa, o auctor
+da &laquo;Historia do Theatro de S.Carlos&raquo; (recitas
+impares n'uma frisa, recitas pares n'uma torrinha),
+Freitas Branco, Silva Canellas, Jayme Arthur
+da Costa Pinto, que foi director da sociedade
+lyrica que se fundou em S. Carlos com o
+Paccini pae; Motta Marques, que casou com
+a cantora Meccoci; May Figueira, o exotico
+marquez de Franco e Silva Carvalho, todos tres
+adoradores do corpo de baile; Custodio Borja,
+Jos&eacute; Bacellar e Ottolini da Veiga, com mania
+de canto e voz de <em>basso</em>&mdash;e que,
+d'uma
+vez, corrido pelo publico, a quem fizera um
+<span class="pagenum">[280]</span>
+manguito, fugiu no comboio para o Porto,
+ainda vestido de frade, com o fraque enfiado
+por cima&mdash;Eduardo Cordeiro e Augusto Ribeiro,
+enorme e sempre com muitos calos; Dantas Baracho;
+Eduardo Tavares; Espregueira e mulher
+n'uma frisa; Jos&eacute; Martinho da Silva Guimar&atilde;es;
+o Guerra, pae das meninas Guerras; o bar&atilde;o da
+Regaleira, Antonio Duarte da Cruz Pinto, Agostinho
+Franco, Jos&eacute; d'Alpoim, Rufino d'Almeida,
+o padeiro gordissimo de S. Carlos, etc., etc.
+e n'uma torrinha, que ficou na tradi&ccedil;&atilde;o, a 115, o
+Antonio Manuel Teixeira, depois secretario de
+S. Luiz de Braga, o Luiz Campe&atilde;o e o Oliveira,
+chamado das <em>cautelas</em> de
+<em>25</em>: era d'ahi que partiam
+sempre os aplausos ou as pateadas monumentaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos camarotes e nas frizas as lindas sobrinhas
+do marqu&ecirc;s de Franco, Falcarreras; a lindissima
+baroneza da Regaleira; e a mais bella mulher
+de todos os tempos, j&aacute; velha e sempre decotada,
+a duqueza de Avila e Boiama; Espregueira, que foi
+a primeira que se apresentou com vestidos sem
+hombros, ostentando magnificos collares de brilhantes;
+Moreira Marques; a condessa de Figueir&oacute;;
+a condessa de Taveira, acompanhada pelo
+marido, sempre de casaca com bot&otilde;es amarellos;
+a condessa d'Edla, o gentilissimo pagem do <em>Baile
+de Mascaras</em>,&mdash;da cantora a rainha&mdash;;
+Poitier,
+loira ideal, que casou com o filho de Monteiro
+Milh&otilde;es; a duqueza de Palmella; a condessa de
+<span class="pagenum">[281]</span>
+Alferrarede; a condessa de Alverca; a viscondessa
+de Idanha, e a de S. Luiz de Braga etc. etc.
+e no camarote de bocca de 3.&ordf; ordem n.&ordm;
+70&mdash;esta
+Lisboa foi sempre monumental!&mdash;a Antonia
+Moreno com as suas espanholas, pilar do
+estado, necessario e decerto muito mais util que
+a Junta de Credito Publico. Essa mulher acabou
+deixando por testamenteiro Frederico Arouca, que
+repudiou a fortuna que ella lhe legou, e depois de
+passar para alguns camarotes brazonados de fresco
+uma ou outra das suas mais lindas pupilas...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Cascaes, com a adjacencia dos Estoris,&mdash;diz-me
+um frequentador&mdash;era a c&ocirc;rte na intimidade,
+em robe-de-chambre, mais faceis as
+rela&ccedil;&otilde;es, mais accessiveis e amaveis, tu
+c&aacute;, tu
+l&aacute;. Quasi tudo gente do rei, que ia para l&aacute;
+cedo, por meiados de setembro, cansados de
+Cintra onde D. Carlos raro pernoitava, fugindo,
+a pretexto de tudo e de nada, &aacute; convivencia
+da rainha e da Figueir&oacute;. A separa&ccedil;&atilde;o
+do rei
+e da rainha, segundo me informaram, porviera
+de certa dama, que lan&ccedil;ou entre elles a sizania.
+Conheci-a ainda linda e elegante, um pouco roli&ccedil;a,
+de olhos aveludados e labios vermelhos: nos
+ultimos annos engord&aacute;ra, e banalisara-se. Tinha
+a furia do dominio, e rodeava-a uma c&ocirc;rte de
+gente em que ella mandava e da qual fazia parte
+um diplomata mais tarde em evidencia. Passava
+<span class="pagenum">[282]</span>
+por ter rela&ccedil;&otilde;es anormaes com a rainha...
+O marido pouco esperto, s&oacute; tinha como ideal
+ser ministro plenipotenciario e par do reino.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Cascaes, a rainha n&atilde;o se vulagrizava.
+Sa&iacute;a a cavalo emquanto poude montar. Tinha
+varizes nas pernas,&mdash;informou um dia o D.
+Afonso. No meu tempo n&atilde;o passeava de barco,
+passeava de carruagem, descendo &aacute;s vezes para
+andar a p&eacute;. Dava as suas recep&ccedil;&otilde;es
+&aacute; tarde,
+principalmente em vespera de festa, para serem
+apresentadas pessoas que desejavam ir aos bailes,
+e que em Cascaes mais facilmente obtinham
+o convite e a apresenta&ccedil;&atilde;o preliminar
+indispensavel,
+que o conde da Ribeira, quando estava
+de servi&ccedil;o, facilitava extraordinariamente. A
+Figueir&oacute;
+voltava para Cintra logo que acabava
+servi&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O D. Carlos fazia vida hygienica de madrugador,
+tirava photographias, pintava ligeiramente
+algumas marinhas, <em>sentindo</em> o mar.
+Logo de manh&atilde;,
+sa&iacute;a de carro ou a cavalo, com chuva ou
+com sol (demorava-se at&eacute; meiados de novembro
+em Cascaes), ou ia &aacute; procura de senhoras que elle
+perseguia. Tivera, pelo menos um anno, n'uma
+vila do Mont'Estoril, uma amante, mas isso n&atilde;o
+o dispensava de querer que o julgassem homem
+de boas fortunas. Escrevia a miudo a outras damas,
+em caligraphia disfar&ccedil;ada, cartas em prosa e
+verso &aacute; mistura, quasi sempre em francez. Eram
+muito tolas. Vi algumas e podia ter guardado uma,
+<span class="pagenum">[283]</span>
+que rasguei. Serviam-no dois alcoviteiros ilustres,
+que o faziam encontrado com as mulheres que lhe
+agradavam. Outro chegou a dar um baile, para que
+o rei conhecesse uma senhora da burguezia media
+atraz de quem andou annos.
+<br />
+
+<br />
+
+Iam ao Sporting Club, mais conhecido pela
+Parada, jogar o tennis. N&atilde;o havia escolha nos
+pareceiros. O almirante Capelo, o explorador, ficava
+com o sobretudo do rei no bra&ccedil;o, emquanto
+elle jogava. D. Carlos era um timido, falava pouco,
+nunca olhava de frente: seus pequenos olhos claros
+evitavam sempre os dos outros.
+<br />
+
+<br />
+
+A Parada era a capital do reino de Cascaes.
+Ahi se reunia a flor da aristocracia e o ingresso
+n&atilde;o era facil, como socio. S&oacute; nos ultimos tempos
+&eacute; que o Tompson, a quem chamavam mo&ccedil;o fidalgo,
+facilitou a entrada. Aos domingos davam-se
+salsifr&eacute;s &aacute; noite, e todos os annos um grande
+baile, a que assistia o rei, que distribuia os parceiros
+e dan&ccedil;ava uma contradan&ccedil;a. A rainha, se
+ia, n&atilde;o se demorava. Nos dias de semana, poucas
+pessoas l&aacute; estavam, preferindo os casinos &aacute;
+beira-mar, principalmente o Estoril.
+<br />
+
+<br />
+
+O rei, todas as tardes, ia para a Boca do
+Inferno e quedava-se ali, se encontrava algumas
+senhoras que o interessassem. Por isso chegaram
+a chamar ao D. Carlos o <em>bal&atilde;o
+cativo</em>...
+<br />
+
+<br />
+
+O rei mal recebia os ministros, de que se desfazia
+logo que lhe era poss
+O rei mal recebia os ministros, de que se desfazia
+logo que lhe era possivel. N&atilde;o se demoravam
+em Cascaes, n&atilde;o os convidava para assistir,
+<span class="pagenum">[284]</span>
+sequer, &aacute;s partidas. Teve d'uma vez, como hospede,
+o Soveral. N&atilde;o lhe conheci nenhum outro.
+<br />
+
+<br />
+
+O D. Afonso ia cedo para o Monte Estoril,
+para a vila sobre o mar, que ali possuia a m&atilde;e.
+Descia a praia, com uma grande simplicidade de
+maneiras. Falava pouco, era bom rapaz, e a maior
+manifesta&ccedil;&atilde;o intelectual que lhe conheci foi
+anti-clerical*.
+Vestia-se sumariamente: uma camisola
+azul, casaco e cal&ccedil;a da mesma c&ocirc;r e bonet. Assim
+andava, de manh&atilde; at&eacute; &aacute; noite.
+&Aacute;s vezes ia ao
+mar, e os barqueiros gostavam d'elle. Nunca tinha
+vintem. Os ajudantes ou oficiaes &aacute;s ordens n&atilde;o
+lhe emprestavam dinheiro, porque sabiam que
+elle n&atilde;o lhes pagava.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o era dado a senhoras&mdash;preferia as outras...
+Certa condessa &eacute; que conseguiu ser amante d'elle,
+porque conhecia todas as maneiras de conquistar
+um homem. Deu um baile para que convidou o
+infante e a fina fl&ocirc;r. O marido estava encantado.
+Nenhuma moral em nenhum d'elles. Elle era
+muito cioso da sua nobreza e gostava de parecer.
+Ella queria gozar a vida. O A... que foi seu
+amante, contou-me que em Madrid ella dissera
+d'uma vez ao marido, que n&atilde;o tinha um ceitil
+quando casou: &laquo;Tu, para chulo, &eacute;s caro de
+mais!&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Em Cascaes era dificil chegar a vias de facto
+com uma mulher. Meio pequeno, coscovilheiro,
+maldoso, maldizente. N&atilde;o se falava sen&atilde;o nesta
+ou naquella, em escandalos, repetindo-se os ditos
+de ouvido para ouvido ou acentuando-se as infamias.
+<span class="pagenum">[285]</span>
+A M... foi apanhada no pinhal dos Olivaes
+n'uma atitude equivoca... A S... faz namoro
+descarado ao rei... Mas as coisas arranjavam-se
+para Lisboa. Vinham ao dentista, &aacute;s
+compras, etc. A for&ccedil;ada e grande intimidade estabelecida,
+de manh&atilde; na praia, &aacute; tarde na Boca
+do Inferno, onde toda a gente ia, apezar do
+vento e da poeira, na Parada ou &aacute; boquinha da
+noite no passeio Maria Pia, junto &aacute; cidadela,
+onde &aacute;s vezes fazia uma ventania infernal, &aacute;
+noite nos casinos, ou nalguma partida de bridge,
+a vida quasi em comum e os namoros travados,
+o ar do mar que desiquilibra os nervos e torna
+os amores exigentes, fizeram tecer muitas aventuras
+escandalosas. Um ainda fugiu a tempo com a
+mulher, que j&aacute; madura, esteve em vesperas de
+cair... Nunca mais voltou a Cascaes.
+<br />
+
+<br />
+
+As ceias nos bailes eram pugnas. Vi isso at&eacute;
+no Pa&ccedil;o. Uma descendente de D. Jo&atilde;o IV, vi-a
+eu agarrar-se a um bufete, com unhas e dentes.
+Em certas casas, as ceias nunca chegavam. Uma
+madrugada, num baile do M..., chegou a iniciar-se
+a lucta... A alta sociedade era, em regra,
+pelintra. As grandes familias tinham gasto
+as fortunas, e muitas n&atilde;o queriam, ou n&atilde;o podiam,
+dar bailes. S&oacute; tinham dividas. N&atilde;o era possivel
+deixar d'ir a S. Carlos e de satisfazer outras
+exigencias. Havia-os com actrizes com dezasseis
+annos de assignatura... As ceias nos bailes eram pugnas. Vi isso
+at&eacute;
+no Pa&ccedil;o. Uma descendente de D. Jo&atilde;o IV, vi-a
+eu agarrar-se a um bufete, com unhas e dentes.
+Em certas casas, as ceias nunca chegavam. Uma
+madrugada, num baile do M..., chegou a iniciar-se
+a lucta... A alta sociedade era, em regra,
+pelintra. As grandes familias tinham gasto
+as fortunas, e muitas n&atilde;o queriam, ou n&atilde;o podiam,
+dar bailes. S&oacute; tinham dividas. N&atilde;o era possivel
+deixar d'ir a S. Carlos e de satisfazer outras
+exigencias. Havia-os com actrizes com dezasseis
+annos de assignatura... F&oacute;ra o Palmella e poucos
+mais, n&atilde;o recebiam porque de todo n&atilde;o podiam.
+<span class="pagenum">[286]</span>
+E, se o faziam, era sem-cerimonia. N&atilde;o havia
+dinheiro! n&atilde;o havia dinheiro!
+<br />
+
+<br />
+
+Descaiam muito os fidalgos, mas obstinavam-se
+sempre em <em>parecer</em>. Um oficial
+jogador e pae
+de uma serie de filhos, mandava a miudo incomodar
+D. Carlos... Todos os seus famulos lhe
+extorquiam dinheiro, quanto podiam. Choravam,
+punham-se de joelhos, contavam-lhe miserias reaes
+ou falsas. Tive, em Cascaes, semanas uma arca
+com prata para fugir a uma penhora iminente...
+Um grande fidalgo, no fim de algum tempo, despediu
+os creados&mdash;mas nunca pagou a nenhum.
+Outro chegou a n&atilde;o ter que jantar, porque o mercieiro
+n&atilde;o lhe fiava, ninguem lhe fiava, mas bebia
+todos os dias garrafas de champagne.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia mancebias antigas e t&atilde;o respeitaveis,
+como o casamento, assim, por exemplo, F... e F...
+J&aacute; ninguem convidava uma sem o outro.
+<br />
+
+<br />
+
+Quer que lhe fale tambem da gente que fingia
+de nobre, da burguezia vaidosa e que fazia mexerico
+para ser convidada? A mulher d'um grande
+industrial conseguiu entrar na casa d'um fidalgo,
+onde ia toda a gente, da grande e da baixa.
+Convidou-a para jantar, para o theatro e andava
+contente como um cuco. Um dia n&atilde;o a convidou
+mais. Chorou. Isto foi-me afirmado por uma amiga
+que o viu. Era uma dama, muito linda, com
+um soberbo colo, mas com o cerebro d'uma
+arara...&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[287]</span>
+Ahi fica o quadro levemente esbo&ccedil;ado por
+um frequentador de Cascaes. Tudo isto &eacute; frivolo
+e tragico. Lembremo-nos que d'esta maledicencia,
+dos ditos d'estas boccas que sorriem, da ninharia
+e do encanto, se gerou parte da athmosphera
+donde devia sahir o descredito da rainha
+e o assassinato do rei.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c5" id="c5"></a>
+O MUNDO POLITICO
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="date">Novembro&mdash;1918.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os acontecimentos dos ultimos reinados afiguraram-se-me
+sempre faltos de logica e
+de nexo. Est&atilde;o talvez muito perto de n&oacute;s ainda:
+precisam de perspectiva que os coloque nos seus
+devidos logares. S&oacute; o historiador poder&aacute; crear
+mais tarde, com documentos e memorias, e certa
+aparencia de verdade, o romance da nossa vida.
+N&oacute;s, por ora n&atilde;o sabemos nada, nem mesmo dar
+resposta plausivel &aacute;s perguntas que nos obsidiam...
+Porque foi, por exemplo, morto D. Carlos?
+&Eacute; fora de duvida que at&eacute; os monarchicos
+receberam com alegria a sua morte. &laquo;N&atilde;o vi
+lagrimas&raquo;&mdash;diz
+Julio de Vilhena. Eu avan&ccedil;o mais:
+s&oacute; vi aplausos. E no entanto j&aacute; hoje se pode
+afirmar sem erro que D. Carlos n&atilde;o foi morto
+pelos seus defeitos, mas pelas suas qualidades.
+Respirou-se! respirou-se!&mdash;o que n&atilde;o impede
+que, a cada anno que passa, esta figura cres&ccedil;a, a
+ponto de me parecer um dos maiores reis da sua
+dinastia. J&aacute; redobra de propor&ccedil;&otilde;es e
+n&atilde;o se
+<span class="pagenum">[290]</span>
+tira do horizonte da nossa consciencia. O rei
+tinha na verdade defeitos, mas&mdash;diga-se!
+diga-se!&mdash;n&atilde;o
+foram os seus defeitos que o mataram, foram
+as suas qualidades. S&oacute; o assassinaram quando
+elle tomou a serio o seu papel de reinar, e quando,
+com Jo&atilde;o Franco, quiz realisar dentro da monarchia
+o sonho de Portugal Maior. Foi esse o
+momento em que, talvez pela primeira vez na historia,
+os monarchicos aplaudiram um crime que
+os deixava sem chefe, e se abriram de par em par
+as portas das pris&otilde;es, congra&ccedil;ando-se todos os
+politicos sobre os corpos ainda mornos dos dois
+desventurados.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+O D. Luiz p&ocirc;de ir at&eacute; ao fim do seu
+reinado,
+porque elle proprio o disse&mdash;&laquo;um principe
+&eacute;
+um dissimulador&raquo;. Mas D. Carlos &eacute; que
+n&atilde;o foi
+nunca um dissimulador. D. Carlos desprezava os
+politicos. Dizia:&mdash;Tu ouvel-os falar? Se lesses as
+cartas que me escrevem enchias-te de nojo.&mdash;Essas
+cartas existem... Na verdade toda a gente dizia
+mal da politica e desprezava os politicos: s&oacute; elle
+os n&atilde;o podia desprezar. &Eacute; authentico tambem
+que no seu desdem chegou a envolver o paiz.
+Toda a gente, desde o literato ao homem rude,
+dizia mal do paiz. Tempo houve em que foi moda
+dizel-o. S&oacute; elle n&atilde;o devia dizer mal do paiz.
+Realmente pediu muito dinheiro aos politicos,
+mas os politicos pediram muito mais dinheiro &aacute;
+<span class="pagenum"><a name="p291" id="p291">[291]</a></span>
+na&ccedil;&atilde;o, dando cabo d'elle com as suas clientelas.
+E ninguem lhes tomou nunca contas: todos
+morreram honrados. Hintze passou por ser
+um homem integro. Jos&eacute; Luciano tambem. Pessoalmente
+decerto, mas com o que ambos
+elles esbanjaram reconstruia-se o paiz de alto
+a baixo. O partido regenerador tinha tal fama
+que se dizia em Lisboa: &laquo;quem n&atilde;o &eacute;
+regenerador
+&eacute; ladr&atilde;o de si mesmo&raquo;. Na realidade
+n&atilde;o
+havia a esse tempo&mdash;porque hoje tudo mudou
+de figura&mdash;sen&atilde;o um partido em Portugal capaz
+de sacrificios, o partido republicano: os outros,
+para me servir da phrase t&atilde;o justa de Homem
+Christo, eram apenas &laquo;quadrilhas politicas&raquo;. Ser
+politico em Portugal foi a mais rendosa de todas
+as industrias. &laquo;Logo que chega ao poder um
+chefe de partido n&atilde;o pensa sen&atilde;o em explorar o
+paiz em proveito das suas clientellas. O Estado &eacute;
+a preza dos politicos... Se eu podesse encontrar
+um homem integro que podesse modificar tudo
+isto dar-lhe-hia todo o meu apoio&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+Parecia que o proprio paiz na verdade s&oacute;
+queria <a href="#e3">comer</a>:&mdash;Pedem
+tudo! pedem
+as maiores
+poucas vergonhas!&mdash;exclamava o Alpoim; e o
+dr. Antonio Cabral escrevia:<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[292]</span>
+<div class="tinyl">&laquo;No tempo da monarquia essa
+mesma maioria acomodaticia
+e pedinchona, s&oacute; conhecia o caminho dos
+minist&eacute;rios
+para ir importunar os secretarios de Estado com
+solicita&ccedil;&otilde;es
+de empregos, de benesses, de estradas, de favores,
+at&eacute; de escandalos. N&atilde;o ia levar aos ministros uma
+ideia, um
+plano, a lembran&ccedil;a de um beneficio para o pa&iacute;s.
+Ia procurar
+interesses, buscar comodidades, exigir condescendencias,
+sem se lembrar de que tudo isso custava, muitas vezes,
+dinheiro ao Tesouro Publico e s&oacute; causava prejuizos
+&aacute;
+na&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois, quando a tempestade bramia e as moscas varejeiras
+zumbiam em t&ocirc;rno da montureira politica, essa
+mesma maioria, de larga guela e incomensuravel ventre,
+era a primeira a gritar contra as imoralidades que provocara,
+contra os atropelos da lei que impuzera, contra os
+&ecirc;rros de administra&ccedil;&atilde;o que
+imperiosamente reclamara! Para
+essa maioria prudente... e de muito comer, os culpados de
+tudo&mdash;criminosos execrandos!&mdash;eram o Rei, os
+ministros,
+os deputados, todos, emfim, que tinham na m&atilde;o as
+r&eacute;deas
+da governa&ccedil;&atilde;o publica. Ella, a maioria exigente e
+dificil de
+contentar, era inocente e de tudo lavava as m&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+Ella, a maioria composta dos influentes, dos caciques,
+dos compadres, dos despoticos senhores do pa&iacute;s, que hoje
+se encolhem, transidos de pavor, e ent&atilde;o barafustavam do
+alto do seu pedestal de mand&otilde;es; ella, a maioria que
+ordenava,
+que dispunha de votos, que sabia imp&ocirc;r-se com
+arrogancia&mdash;ella,
+de nada era culpada e escondia o rosto p&uacute;dico
+na alva clamide de vitima dos maus politicos!...
+<br />
+
+<br />
+
+Veiu, por fim, a queda no abismo, em que se evidenciou
+a trai&ccedil;&atilde;o de muitos e a incompetencia de tantos.
+A
+<em>maioria dos portugueses</em>, se
+n&atilde;o delirou de contentamento,
+remeteu-se ao c&oacute;modo e discreto silencio em que se comprazem
+os covardes e os maus cidad&atilde;os, para s&oacute; os
+interromper
+com murmurios de reprova&ccedil;&atilde;o, soprados nos
+centros de conversa contra os politicos... que ella
+empurr&aacute;ra
+para o mau caminho e ajudara a despenhar no precipicio.
+<br />
+
+<br />
+
+Oh! a maioria dos bons cidad&atilde;os de larga
+pan&ccedil;a!...&raquo;
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Hintze e Jos&eacute; Luciano tinham-se congra&ccedil;ado
+no reinado de D. Carlos, e s&oacute; elles podiam tudo,
+<span class="pagenum">[293]</span>
+s&oacute; d'elles dependiam lugares, favores, vaidades e
+interesses. Antonio Cabral est&aacute; certo que foi
+pelos seus meritos&mdash;que n&atilde;o s&atilde;o
+poucos&mdash;que
+chegou a ministro?... Ai de quem lhes desagradasse.
+Ao irrequieto Fuschini entretiveram-no com
+as obras da S&eacute; para o arredarem da politica; ao
+Jos&eacute; Dias Ferreira, que foi dos raros homens de
+governo comezinho do seu tempo, nem sequer
+o ouviam nas camaras. Toda a gente lhe voltava
+as costas quando falava. Sabia-se que o Pa&ccedil;o o
+detestava. O Jos&eacute; Luciano e o Hintze sucederam-se,
+d'acordo, no governo do paiz e no governo
+do Credito Predial, com identico sucesso!
+<br />
+
+<br />
+
+Ambos elles eram pessoalmente muito boas
+pessoas, ambos elles tiveram um fraco extraordinario
+pelos tratantes. O Hintze, o <em>homem que
+n&atilde;o ri</em>, o <em>casaca de
+ferro</em>, era um homem um
+pouco cansado e com um lindo sorriso para
+toda a gente:&mdash;Pois sim, pois sim...&mdash;Trato
+encantador. Nas camaras era vel-o! Ninguem
+apresentava assim as quest&otilde;es: tinha tudo catalogado,
+arrumado, disposto, e os papeis saltavam-lhe
+da carteira por arte magica. O Jos&eacute;
+Luciano, mais bonacheir&atilde;o e ao mesmo tempo
+mais caustico, conhecia como poucos os homens
+que lhe tinham passado em fita pelo sal&atilde;o da
+sua casa, com as suas vaidades, as suas miserias,
+os seus rancores e os seus vicios, e tocava-lhes
+sempre no ponto fraco. Pessoalmente honesto,&mdash;quem
+o duvida?&mdash;mas tendo cada vez mais imperiosa
+<span class="pagenum">[294]</span>
+a necessidade de satisfazer clientelas
+cada vez mais sofregas&mdash;ambos acabaram de
+corromper o paiz, j&aacute; meio corrompido, at&eacute;
+&aacute; medula.
+Importa pouco que o snr. D. Luiz de Castro
+diga: &laquo;Hintze vendeu todo o seu patrimonio e
+o de sua mulher para servir o reino e o rei&raquo;
+(<em>Dia</em>, fevereiro, 1917). Sim, mas
+Hintze distribuiu
+a rodos o dinheiro da na&ccedil;&atilde;o, principalmente
+depois da scis&atilde;o Jo&atilde;o Franco, e colocou toda a
+gente a come&ccedil;ar pelos seus<sup><a href="#n15">[15]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[295]</span>
+N&atilde;o resistiu. Delapidou, principalmente depois
+da scis&atilde;o Jo&atilde;o Franco, sem conta nem pezo
+nem medida. Anselmo Vieira diz: &laquo;Jos&eacute; Maria
+dos Santos entregou &aacute; viuva do Hintze, no dia
+do enterro, 21 contos de lettras vencidas. Ora a
+quest&atilde;o do alcool entre o norte e o sul foi sempre
+adiada pelo Hintze, o que fez ganhar 300
+contos ao Jos&eacute; Maria dos Santos.&raquo; Na sua phrase
+pitoresca a politica portugueza estava condemnada
+porque era um regimen de validos e
+<em>badamecos</em>.
+E cita este e aquelle e aquelloutro, que, na
+sua opini&atilde;o, e todos juntos, n&atilde;o valiam um
+estadista.
+O Hintze n&atilde;o resolvia um problema, arredava-o,
+e as complica&ccedil;&otilde;es augmentavam sempre;
+se tinha a escolher entre dez homens, escolhia
+sempre o peor... O honradissimo capit&atilde;o Machado,
+duro como o silex, chegou a par, porque,
+quando atacavam o Jos&eacute; Luciano na camara alta,
+dizia sempre:&mdash;Viessem elles c&aacute; para os deputados
+e quem os ensinava era eu.&mdash;O pobre monsenhor
+inutil, que se chamou Santos Viegas, achou outro
+<em>truc</em> para o Hintze o elevar
+&aacute; mesma cathegoria:
+quando o chefe do partido regenerador falava,
+cahia n'um assombro, de que n&atilde;o havia
+arrancal-o!...&mdash;&laquo;Chegaram
+<span class="pagenum">[296]</span>
+a ministros seres destituidos
+de todo o miolo. O honradissimo Pequito,
+santissima creatura, foi um dia para uma comiss&atilde;o,
+a que o Jos&eacute; Dias presidia, com o Contracto
+dos Tabacos, que elle s&oacute; tinha assignado e mais
+nada. Havia um artigo redigido de forma que
+cincoenta milh&otilde;es de francos ficavam encobertos,
+para se poderem pagar as dividas da Casa
+Real. Jos&eacute; Dias pediu explica&ccedil;&otilde;es, o
+outro embrulhou-se,
+Jos&eacute; Dias insistiu, o outro ficou de bocca
+aberta, com cara de pasmo&mdash;at&eacute; que o velho
+rabula lhe disse com soberano desprezo:&mdash;Comprehendo,
+comprehendo... o snr. ministro da fazenda
+precisa de ouvir os seus colegas para
+depois responder...&mdash;Se o Jos&eacute; Dias tem deixado
+passar aquella trapalhada talvez D. Carlos n&atilde;o
+tivesse sido assassinado.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+A politica portugueza cheg&aacute;ra a estar apenas
+nas m&atilde;os e dependente da vontade dos chefes.
+O Jos&eacute; Luciano dizia:&mdash;O meu partido n&atilde;o
+&eacute; que
+me leva ao poder&mdash;sou eu que levo o meu partido
+ao poder. Dois homens e clientelas. Alguem
+se filiou jamais n'um destes partidos por principio,
+por ideal? ou foi por interesses, e, mais simplesmente,
+por simpathias pessoaes?
+<br />
+
+<br />
+
+E assim a for&ccedil;a desses dois homens cheg&aacute;ra
+tambem a ser ficticia:&mdash;n&atilde;o provinha do
+paiz&mdash;provinha
+do rei... As camaras mero scenario; os
+discursos, as atitudes, theatraes: o que havia a
+decidir n&atilde;o se decidia alli. Tudo estava resolvido,
+<span class="pagenum">[297]</span>
+preparado de antem&atilde;o, nos sal&otilde;es, nas
+ante camaras, nos gabinetes ou nos corredores,
+entre os chefes. O resto era um espectaculo com
+as suas regras e os seus figurantes, absolutamente
+inutil&mdash;absolutamente falso&mdash;absolutamente
+f&oacute;ra de toda a realidade...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+As camaras... Por l&aacute; passou Junqueiro, que
+de l&aacute; sahiu um dia dizendo:&mdash;V&atilde;o
+&aacute;quella
+parte&mdash;; por l&aacute; passou o grande, o pobre
+Jo&atilde;o de
+Deus, que nunca poude abrir a bocca, e outros
+homens ilustres. De l&aacute; sahiu Fuschini, que se
+foi embora fazendo-lhes um manguito, quando
+Arroyo n'uma sess&atilde;o celebre lhe disse:&mdash;Ajoelhe
+a meus p&eacute;s!&mdash;Oliveira Martins, exhausto de
+trabalho;
+o romantico Chagas, cujas ultimas palavras
+foram estas:&mdash;A vida &eacute; uma
+comedia.&mdash;J&aacute;
+n&atilde;o
+os ouvi, mas vi e ouvi ainda o pachydermico
+Antonio d'Azevedo Castello Branco, o esguio e
+taciturno Beir&atilde;o, sempre alheado, o grande orador
+Antonio Candido, o canarim Elvino de Brito,
+que manejava a palavra como quem maneja um
+florete, e que o Hintze tratava d'alto, o anecdotico
+Baracho, cujos discursos n&atilde;o tinham fim, o
+Campos Henriques, <em>lyrio pendente</em>, o
+theatral
+Arroyo, o Jos&eacute; d'Azevedo, o Eduardo Villa&ccedil;a
+t&atilde;o amavel para todos, t&atilde;o afavel que ficou
+para sempre o Villacinha, o Chanceleiros, com
+a sua grande gaforina branca, o severo e taciturno
+<span class="pagenum">[298]</span>
+Dias Costa, que morreu de desgosto, tendo
+cumprido o seu dever como um soldado, a nobilissima
+figura do conde de Arnoso, que vejo
+sempre diante de mim, bradando por justi&ccedil;a, e
+que acabou envolto em treva, jungido &aacute; sua dor,
+o Jacintho Candido, um pouco apagado, mas
+resistente e teimoso, o Jo&atilde;o Franco, o decorativo
+Wenceslau de Lima, o Pimentel Pinto, do alto
+dos seus tac&otilde;es, o Albano de Mello, t&atilde;o admirador
+do Jos&eacute; Luciano que chegou a ponto de se
+parecer com elle na atitude, na voz e at&eacute; no
+rosto, e, na outra camara, a um lado o pitoresco
+conego Jos&eacute; Dias, apopletico e jovial,
+l&aacute; das bandas de Mons&atilde;o, o torrencial Oliveira
+Mattos, que, a primeira vez que falou, fez rebentar
+os c&oacute;s das cal&ccedil;as ao Chagas, que perguntava
+entre spasmos de riso:&mdash;Mas quem &eacute; este
+homem? onde foram buscar este homem?&mdash;e
+a quem ou&ccedil;o ainda invectivando o ministro da
+guerra:&mdash;Heroe de Trajouce! heroe de Trajouce!&mdash;os
+Cabraes, um polido e soturno, que o
+Hintze estimava, o outro, Antonio, de bigodes
+assanhados, como um galo de combate; o Jos&eacute;
+d'Alpoim, impulsivo, terrivel na replica; o Jo&atilde;o
+Pinto dos Santos, um sistema de philosophia para
+cada caso futil do dia, j&aacute; branco, de punhos solidos,
+e sempre o mesmo aprumo, a mesma linha,
+a mesma conducta; o Moreirinha, o Centeno, e
+o juiz Francisco Medeiros que pouco antes de morrer
+(estou a ouvil-o) me disse assim:&mdash;Tenho
+<span class="pagenum">[299]</span>
+pena de n&atilde;o ter roubado como os outros...&mdash;E,
+diante do meu espanto, concluiu:&mdash;Quando
+morrer deixo a minha filha pobre e os outros
+est&atilde;o ricos.&mdash;E a outro lado, o elegante, o frivolo
+conde de Pa&ccedil;&ocirc; Vieira, o lustroso conde de
+Castro Solla, o Anselmo Vieira, sempre a debater
+finan&ccedil;as, sempre &aacute; espera das grandes
+ocasi&otilde;es,
+sempre esquecido &aacute; ultima hora na lista do ministerio,
+o estrabico Dias Ferreira, falando baixinho
+para dois fieis que lhe restavam; o Matoso
+dos Santos, sempre enfronhado em algarismos, o
+Sergio de Castro, o D. Alberto Bram&atilde;o e outros
+jornalistas da <em>Tarde</em>, o Schwalbach
+aparecendo,
+desaparecendo, atarefado, e tantos outros sumidos
+l&aacute; para o fundo na obscuridade e no silencio.
+<br />
+
+<br />
+
+Juntem a este mundo o mundo dos jornaes,
+os meios politicos onde tudo se comenta e desfigura,
+e o mundo financeiro, com alguns tipos que
+&eacute; necessario anotar rapidamente: primeiro os Mosers
+e o Foz, predominando com o Mariano, a
+casa Torlades e outros grupos; a casa Burnay e
+o impenetravel Jonh, e, nos ultimos tempos da
+monarchia, a casa Wernestein, Alfredo da Silva
+e a casa alem&atilde; Ernest George. Entre essas figuras
+conheci uma d'um alto pitoresco: Gomes
+Netto, sem instruc&ccedil;&atilde;o, mas d'um grande senso
+pratico. N&atilde;o raro o encontravam em mangas de
+camisa no seu escriptorio. Escrevia em largos
+quartos de papel e depois dizia:&mdash;Ponham-lhe
+l&aacute; a gramatica!&mdash;Acabou j&aacute; velho e
+amoroso,
+fazendo
+<span class="pagenum">[300]</span>
+todos os dias compras de legumes e peixe,
+na Pra&ccedil;a da Figueira, que depois ia distribuir
+de <em>coup&eacute;</em> por casa das
+amantes, pescada aqui,
+pescada alli... Juntem a isto as redac&ccedil;&otilde;es dos
+jornaes, em forja rubra a certas horas da tarde
+ou da noite, os ditos, as noticias espalhadas, a
+c&ocirc;rte ao senhor conselheiro... Era peor o que se
+dizia do que o que se fazia... Era o descredito
+lan&ccedil;ado sobre tudo e todos, a tal ponto que
+um dia, mais tarde, quando um juiz monarchico
+(Pa&ccedil;&ocirc; Vieira) foi despachado para a provincia, o
+delegado disse-lhe muito a serio:&mdash;Mas como
+queria V. Ex.<sup>a</sup> que se sustentasse um regimen
+em que as filhas do Jos&eacute; Luciano eram apalpadeiras
+da alfandega com cem mil reis por mez?&mdash;Nos
+comicios asseverava-se que a rainha D.
+Amelia comprava no estrangeiro vestidos por
+vinte e quatro contos. Peor, peor... Depois da
+republica o Eduardo Villa&ccedil;a encontrou-se com
+Jo&atilde;o Chagas em Paris e perguntou-lhe com
+ironia:&mdash;Ent&atilde;o esses famosos inqueritos da
+republica,
+com que fizeram tanto espalhafato, n&atilde;o
+deram nada?&mdash;Ao que o outro, l&eacute;pido,
+respondeu:&mdash;Voc&ecirc;s
+que querem? Tanto se acusaram
+de ladr&otilde;es uns aos outros, que a gente acreditou...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Um homem! um homem!&mdash;reclamava o
+D. Carlos. Um momento de hesita&ccedil;&atilde;o e de duvida
+<span class="pagenum">[301]</span>
+na sua vida... Dois caminhos na frente: um
+commodo e largo, de transigencias faceis, o outro
+perigoso mas util para o seu paiz. Decidiu-se
+pelo peor. Ia jogar a vida.
+<br />
+
+<br />
+
+Elle era, como toda a gente, um mixto de qualidades
+e defeitos... Ha homens que se nos afiguram
+d'uma s&oacute; pe&ccedil;a. Desconfiem d'elles: andam
+mascarados... Timidez e orgulho. Todos dizem:&mdash;Era
+encantador.&mdash;Todos est&atilde;o de acordo n'este
+ponto: ninguem o podia aturar. Um oficial afirma:&mdash;Tratava
+os politicos como lacaios, tratava
+a gente do povo com extrema bondade.&mdash;Um dia
+escreveu um bilhete nas costas do Hintze, que
+se curvou para lhe servir de secret&aacute;ria; outro
+dia, j&aacute; a cavalo para uma ferra de touros, atirou
+com a capa a um velho general seu servidor:&mdash;Guarda
+l&aacute; isso!&mdash;D'outra vez dispoz o ministerio
+&aacute; chuva para lhe tirar o retrato. Tratava-os
+com desdem. Sacrificou sempre os homens que
+se lhe dedicaram, o Martins e o Mousinho, por
+exemplo. O Carlos Lobo d'Avila tinha-lhe dado
+uma formula que o lisonjeou e o deitou a perder.
+Era um valente. Escrevia cartas anonimas &aacute;
+mulher. Media tudo pela mesma bitola&mdash;e, se o
+deixam viver, tinha sido um dos maiores reis da
+sua dinastia. Acabou &aacute; bala, quando ia matal-o
+o figado: comia e bebia enormemente e pezava-lhe
+em cima esta tara: era filho d'uma
+histerica e d'um sifilitico. Este mixto, n'um
+homem inteligente como elle, s&oacute; tem uma
+explica&ccedil;&atilde;o:
+<span class="pagenum">[302]</span>
+timidez e orgulho&mdash;timidez e
+orgulho...
+<br />
+
+<br />
+
+Efectivamente resolver-se a luctar contra os
+interesses dos partidos e dos homens, desencadear
+paix&otilde;es, era lan&ccedil;ar-se n'um combate de
+que n&atilde;o podia esperar sen&atilde;o contrariedades e
+a morte. Salientaram-lhe logo todos os defeitos.
+Tudo que se fazia de mau era sempre o rei
+que o fazia. Obscureceram-lhe de proposito
+as qualidades. Esqueceram que D. Carlos colocara
+o paiz n'uma situa&ccedil;&atilde;o externa admiravel,
+e que os dois ou tres actos de homem d'estado
+do seu tempo lhe pertencem, como a unica ac&ccedil;&atilde;o
+grande da republica pertence a Bernardino
+Machado, que conseguiu levar as tropas portuguezas
+para a frente europeia&mdash;quando os
+inglezes reclamavam apenas o nosso esfor&ccedil;o em
+Africa<sup><a href="#n16">[16]</a></sup>.
+As viagens a Paris, a Berlim, a Londres
+cor&ocirc;am o anno de 1895. A alian&ccedil;a ingleza
+&eacute; um
+facto. Veem a Lisboa os grandes chefes d'estado.
+Vae come&ccedil;ar uma grande &eacute;poca. Aponta
+a Africa a uma pleiade brilhante de oficiaes,
+que elle proprio incita, comprehendendo que o
+grande Portugal &eacute; outro, e que esta facha de terreno,
+com um clima agricola horrivel, s&oacute; pode
+ser uma vinha e um logar de repouso e prazer.
+<span class="pagenum">[303]</span>
+De l&aacute;, d'esse novo Brazil&mdash;dos extensos
+planaltos d'Angola, que duas vezes por anno
+produzem trigo&mdash;tem de nos vir o oiro e o p&atilde;o.
+O resto &eacute; vis&atilde;o de pequenos estadistas de trazer
+por casa. S&oacute; elle concebe e incita. S&oacute; elle fala
+e
+sonha n'um Portugal maior, n'um Portugal esplendido.
+O plano estabelecido e iniciado, fecha-se
+com um ponto culminante: o tratado de
+commercio com o Brazil, que D. Carlos teve
+realisado, e que, ao que parece, tarde, dificilmente,
+ou jamais, se conseguir&aacute;. Foi este homem
+que assassinaram como ladr&atilde;o a uma esquina
+de Lisboa...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Porque foi morto, afinal, o rei?... Um
+velho philosopho meu amigo traduziu um dia
+toda a ancia contemporanea n'aquella grande
+phrase, que n&atilde;o me canso de
+repetir:&mdash;N&oacute;s
+tambem queremos comer...&mdash;S&oacute;mente para ser
+justo e completo, a uma verdade devia juntar
+outra verdade:&mdash;E n&atilde;o cabemos todos!
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o, os partidos n&atilde;o cabiam todos, n&atilde;o
+podiam
+caber todos, e estavam completamente desacreditados.
+A grande for&ccedil;a de Jo&atilde;o Franco foi,
+na realidade, de protesto. E quem falhou, diga-se
+j&aacute;, n&atilde;o foi o rei, foi Jo&atilde;o Franco;
+quem n&atilde;o esteve
+&aacute; altura do seu papel, n&atilde;o foi D. Carlos, foi
+o dictador. Jo&atilde;o Franco tinha atraz de si um partido
+pouco numeroso (as clientellas haviam de
+vir...), mas resistente, tenaz, entusiastico. Os franquistas
+<span class="pagenum">[304]</span>
+de hontem s&atilde;o ainda hoje franquistas.
+N&atilde;o perdem a f&eacute;, e nem agora nem nunca despegam
+um olho do Fund&atilde;o, embora lancem o outro,
+com prazer, ironia ou desdem, sobre o ridente
+panorama da vida... &Eacute; preciso que realmente
+esse homem disponha de qualidades excepcionais
+para conseguir tal poder de domina&ccedil;&atilde;o. Era um
+impulsivo: grande fraqueza e grande for&ccedil;a. Procurava
+os obstaculos para os dominar e gastou
+uma energia desmedida a resolver ninharias. Em
+Lisboa dizia-se com espanto:&mdash;Este homem s&oacute;
+levanta carrapatas!&mdash;Ora ca&ccedil;ava no seu terreno,
+ora no terreno dos republicanos. Homem d'estado,
+ia talvez ter ocasi&atilde;o de o mostrar&mdash;depois
+da morte do rei. Ahi &eacute; que era vel-o!... Valente
+e calmo foi-o decerto. Vi-o eu n'uma ocasi&atilde;o grave
+da sua vida. Os republicanos (Ribeira Brava,
+talvez) tinham obtido a sua pris&atilde;o logo depois do
+cinco d'outubro. De Cintra levaram-no para um
+gabinete da Boa-Hora. C&aacute; f&oacute;ra o Fran&ccedil;a
+Borges,
+refestelado n'uma poltrona, gosava a sua vingan&ccedil;a
+e o seu triumpho, separado do cacifro por
+uma porta escancarada. O juiz Meirelles e um
+delegado de pera ruiva e gravatinha vermelha,
+vinham de quando em quando trocar n&atilde;o sei
+que impress&otilde;es com elle. Pela porta aberta vi o
+Jo&atilde;o Franco de p&eacute;, sereno e palido: parecia
+enorme, junto dos dois bonifrates. E quando o
+juiz lhe disse, acabado o interrogatorio:&mdash;&Eacute; talvez
+melhor sahir por outra porta, porque o povo
+<span class="pagenum">[305]</span>
+mata-o!...&mdash;o homem teimou, o homem cresceu
+dois palmos:&mdash;Eu s&oacute; saio por a porta por onde
+entrei.&mdash;Estava preso, obrigaram-o emfim a
+descer umas escadinhas, a meter-se &aacute;s escondidas
+no automovel, que o esperava na cal&ccedil;ada
+que sobe quasi a pique para a Biblioteca, emquanto
+alguem&mdash;juro-o&mdash;prevenia a furiosa
+onda popular, que correu aos gritos de&mdash;morra!
+morra!&mdash;a esperal-o em baixo, &aacute; esquina. Um
+borborinho. Tiros de pistola. Dois marinheiros
+apontaram as espingardas, defendendo o automovel,
+que s&oacute; a custo arrancou&mdash;emfim!
+emfim!&mdash;pela
+cal&ccedil;ada acima.&mdash;Morra o Jo&atilde;o
+Franco!...&mdash;E
+as vozes colericas gritavam:&mdash;Morra!
+matem-no!...&mdash;Era
+este o homem, que, com o rei, estava
+em frente dos partidos progressista, regenerador,
+dissidente e republicano. Os ataques sucediam-se
+e agravavam-se. Os monarchicos, dificilmente
+sustidos pelos chefes, amea&ccedil;avam ingressar no
+partido republicano, que todos os dias ganhava
+em numero, cohes&atilde;o e audacia. O proprio Jos&eacute;
+Luciano perdia a serenidade:<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="tinyl">
+&laquo;Ha uma coisa que aos governos nunca deve esquecer,
+que a li&ccedil;&atilde;o da historia a cada instante repete:
+&aacute; revolu&ccedil;&atilde;o
+do alto, pode muito bem suceder que responda a
+revolu&ccedil;&atilde;o
+de baixo&raquo;. (<em>Correio da
+Noite</em>, 14 de Maio de 1907).
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O presidente do conselho
+blazona e conta com o auxilio,
+sem duvida, poderoso e eficaz do Rei, e zomba da
+opini&atilde;o publica, que tanto pretendeu captar, antes de subir
+ao poder? Faz mal, porque ha-de chegar e oxal&aacute; que chegue a
+tempo o momento em que El-Rei se recorde das
+suas palavras de ha um anno:</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[306]</span>
+<div class="tinyl">A responsabilidade do decreto, ainda
+que aparentemente
+s&oacute; acto do poder executivo, recahe mais uma vez
+sobre o Rei, a quem todos h&atilde;o de pedir a responsabilidade
+da sua assignatura&raquo;. (<em>Correio da
+Noite</em>, 15 de Maio de 1907).
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E a 24 de Maio vociferava: &laquo;A monarchia
+precisa dos monarchicos... a monarchia precisa
+dos monarchicos, mais do que estes precisam da
+monarchia&raquo;. Todos os dias novos boatos, todos
+os dias nova causa de excita&ccedil;&atilde;o. Barafunda,
+pris&otilde;es,
+protestos. N'uma reuni&atilde;o celebre, por um
+triz que os regeneradores n&atilde;o passam em massa
+para o campo republicano. E o <em>Correio da
+Noite</em>,
+no acesso do delirio, apelava j&aacute; para a linguagem
+biblica: &laquo;O que tem ouvidos para ouvir ou&ccedil;a; o
+que tem olhos para ver veja...&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="tinyl">
+&laquo;Do alto deve descer o exemplo, e quando as
+ac&ccedil;&otilde;es
+dos que governam s&atilde;o de prevers&atilde;o e de crime, de
+corrup&ccedil;&atilde;o
+e de suborno, de desbarato dos dinheiros publicos e
+de abuso do poder, os actos dos governados n&atilde;o podem
+ser de venera&ccedil;&atilde;o e de paz, de obediencia e de
+acatamento.<br />
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+Com torrentes de sangue se conquistou a alforria do
+povo, com oceanos de lagrimas se lavou a mancha do
+absolutismo&raquo;. (<em>Correio da
+Noite</em>, 1 de Junho de 1907).
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Que faziam os dissidentes, o mais avan&ccedil;ado
+dos partidos monarchicos? Os dissidentes conspiravam.
+As dissidencias anteriores, a do Mariano,
+a do Navarro, tinham fracassado: a do
+<span class="pagenum">[307]</span>
+Alpoim ia dar como resultado a
+revolu&ccedil;&atilde;o.&mdash;Foi
+o senhor que fez a republica.&mdash;E elle dizia, com
+o olho esperto a luzir:&mdash;Levei-os pela
+m&atilde;o.&mdash;Julgando
+conquistar o poder, perdeu-o para sempre.
+&laquo;Baralhou para dar&raquo;, como aconselhava o
+Mar&ccedil;al Pacheco&mdash;mas enganou-se no trunfo.
+Depois que se separou do Jos&eacute; Luciano nunca
+mais acertou, na phrase do Moreira d'Almeida...
+Era um grupo tremendo: o Jo&atilde;o Pinto dos Santos,
+tenaz e resoluto como as armas; o pratico
+Centeno, mola distendida sabe Deus at&eacute; onde;
+o Queiroz Ribeiro, o Pedro Martins; o sagacissimo
+Egas Moniz, a quem ninguem consegue
+ouvir os passos&mdash;mas que toda a noite, todo o
+dia, roda nos meandros da politica, conspirador
+e politico at&eacute; &aacute; medula; o Moreira d'Almeida,
+capaz de falar e de escrever um dia inteiro, sem
+um desfalecimento, enfiando todas as formas e
+todos os estilos, de tal maneira que, muitas vezes
+o Antonio Ennes ou o Alpoim duvidavam se os
+artigos, que elle escrevia, lhes pertenciam, apanhando
+no ar as quest&otilde;es, e com um grupo de
+amigos <em>a latere</em>, que conheciam a
+fundo as colonias
+e as finan&ccedil;as; mais este e aquelle, e outras
+raizes lan&ccedil;adas ao acaso, e liga&ccedil;&otilde;es
+no Porto com
+um &laquo;mercante espertissimo&raquo;, como nas
+discuss&otilde;es
+ouvi chamar a Lima Junior. O chefe d'este
+grupo unido e compacto era extraordinario...
+Agita&ccedil;&atilde;o perpetua. Orador admiravel, sobretudo
+na r&eacute;plica, em que perdia a retorica e ficava incisivo
+<span class="pagenum">[308]</span>
+e nu como uma espada. Um passo a mais
+e seria um escriptor ilustre: n&atilde;o teve um momento
+de seu para rever as provas. Com a paix&atilde;o,
+a colera, o arrebatamento, um grande cora&ccedil;&atilde;o.
+Nunca lhe conheci odios, e muitas vezes lhe
+ouvi defender at&eacute; o seu maior inimigo, o Jos&eacute;
+Luciano.
+Ao proprio D. Manuel elle diz: &laquo;...O Jos&eacute;
+Luciano vale mais do que todos os progressistas e
+regeneradores juntos, contando com elle proprio
+Alpoim &raquo;. (<em>Documentos
+politicos</em>). E quem conheceu
+o Alpoim sabe que as notas que o rei escreveu
+s&atilde;o mais que exactas, s&atilde;o phonographadas.
+&Eacute; elle a falar d'este e d'aquelle, dos amigos,
+dos inimigos&mdash;de Deus e do Diabo. Uma
+ambi&ccedil;&atilde;o
+do poder que o leva arrastado, mais pela
+lucta em si, necessaria a um temperamento excessivo,
+do que por vaidade ou vangloria. Principios
+poucos&mdash;meios aquelles que os adversarios,
+a tenacidade e o rancor de Jos&eacute; Luciano,
+lhe deixavam. Acusaram-no de tudo&mdash;acusaram-no
+da morte de D. Carlos... &laquo;At&eacute; disseram,
+Senhor, que fui eu que matei El-Rei D. Carlos!!!&raquo;
+(<em>Documentos politicos</em>). Resistiu
+sempre; morreu
+a conspirar. Nos seus ultimos annos n&atilde;o sei que
+tristeza o envolve... A figura parece maior, as
+palavras simplificam-se-lhe, os sentimentos tambem.
+Engrandece. Raros teriam, como elle teve, a
+sinceridade de escrever: &laquo;Na minha defeza, que
+teve de ser espectaculosamente rude por vezes e
+d'uma ac&ccedil;&atilde;o subterranea por outras, excessos
+cometi
+<span class="pagenum">[309]</span>
+de que me penitenceio&mdash;mais do que se imagina&raquo;...
+E repete e insiste: &laquo;Em muitos actos da
+minha vida de lucta, por vezes injustamente combatido,
+tenho sido exagerado&mdash;e errei. De muitas
+coisas estou repezo, e d'ellas hoje se admira a
+minha inteligencia e pe&ccedil;o perd&atilde;o &aacute;
+minha propria
+consciencia e at&eacute; aos homens!&raquo; Quantos ha
+ahi capazes d'esta grandeza? Quantos&mdash;tendo
+todos juntos concorrido para a morte de D. Carlos&mdash;o
+acusaram a elle s&oacute;, com a tinta do <em>Correio
+da Noite</em> ainda fresca?<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="tinyl">&laquo;Aqui d'El-Rei&mdash;se
+nos pode
+ouvir El-Rei&mdash;contra
+quem mandou assassinar o povo de Lisboa.&raquo;
+(<em>Correio da
+Noite</em>, tarjado de luto). &laquo;Aparecem hoje,
+segundo amea&ccedil;as
+do governo e segundo as suas notas oficiosas sempre
+irritantes &aacute; imprensa, decretos esmagadores. Tanto peor
+para o Rei e para as Institui&ccedil;&otilde;es.
+<b>As responsabilidades
+d'esses decretos, ainda que aparentemente s&oacute; do poder
+executivo recair&atilde;o mais uma vez sobre o Rei, a quem
+todos h&atilde;o-de pedir a responsabilidade da sua
+assignatura.</b>
+(<em>Correio da Noite</em>, 20 de Junho de
+1907).<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Quem reina agora em Portugal n&atilde;o &eacute; o senhor
+D. Manuel, &eacute; sua Magestade o M&ecirc;do. Que
+quadro para um Saint-Simon, que descrevesse os
+politicos e a c&ocirc;rte, o que se diz e o que se adivinha,
+o que resalta dos <em>Documentos
+politicos</em>, e
+o que se conserva na sombra como um baixo
+<span class="pagenum">[310]</span>
+relevo de odios e de interesses! Enredam, intrigam-se,
+perdem-se todos juntos. A politica
+portugueza gira sobre este fulchro: &laquo;O Jos&eacute;
+Luciano,
+n&atilde;o podendo governar por se achar impossibilitado...
+e n&atilde;o querendo substituir-se para
+n&atilde;o perder o comando de que &eacute; muito
+cioso&raquo;<sup><a href="#n17">[17]</a></sup>
+emprega at&eacute; ao fim todos os esfor&ccedil;os para
+inutilisar
+o Julio de Vilhena. S&oacute; pela v&atilde;
+ambi&ccedil;&atilde;o de
+mandar? O velho &eacute; perspicaz e teimoso, o velho
+conhece, como poucos, os homens e entende
+que s&oacute; elle pode e sabe governar. &Eacute; teimosia
+e grandeza. N&atilde;o abdica, n&atilde;o pode. Toda a
+vida foi obedecido. Aferra-se. O que elle quer &eacute;
+ser o &laquo;Deus ex-machina da nossa politica sem se
+mexer da sua
+<em>chaise-longue</em>&raquo;. Que tipo!
+Governou
+sempre, mandou sempre, conservou-se sempre
+lucido. E tanta serenidade, que at&eacute; no dia
+em que lhe assaltaram a casa dos Navegantes, &eacute;
+o unico que n&atilde;o perde o sangue-frio, e, quando o
+querem esconder n'uma banheira, teima em ficar
+na cadeira de rodas! Tem a logica do diabo e
+uma manha, um conhecimento dos homens, a
+que os outros n&atilde;o chegam. Desde o principio
+que todos se congregam para enfraquecer o partido
+regenerador. &laquo;Isto&mdash;diz a velha
+rapoza&mdash;&eacute;
+uma lucta de politicos que se querem inutilisar e
+desacreditar uns aos outros&raquo;. &Eacute; assim&mdash;e
+nenhum
+<span class="pagenum">[311]</span>
+d'elles se lembrou que s&oacute; os republicanos lucravam.
+At&eacute; os franquistas. &laquo;Os franquistas, por
+intermedio do Martins de Carvalho, forneceram
+aos republicanos todos os elementos que poderam
+colligir para descredito dos rotativos&raquo; (T. do
+Amaral ao rei). At&eacute; os nacionalistas. Entretanto
+o rei ouve-os e toma notas... A sua vontade &eacute;
+acertar. Passa a vida a acertar, o que n&atilde;o &eacute; bem
+a miss&atilde;o d'um chefe, mas a d'um relojoeiro. N&atilde;o
+creio que os homens se governem s&oacute; pelo interesse
+ou pelo terror, como queria Napole&atilde;o, mas creio
+que se n&atilde;o governam com pannos quentes, e que
+mais vale tomar uma decis&atilde;o m&aacute; do que
+n&atilde;o
+tomar nenhuma. O povo, como o soldado, precisa
+de sentir um chefe, e adivinha-o logo. Tudo
+no rei s&atilde;o boas inten&ccedil;&otilde;es. Mal ousa
+dar um passo,
+n&atilde;o se resolve nunca&mdash;e atraz d'elle
+est&aacute; a
+m&atilde;e, que quer educal-o para rei, mas que tem
+diante dos olhos o quadro horroroso... Apezar
+d'isso &eacute; ella propria que o incita a passear &aacute;
+luz do dia, como uma vez quando o trouxeram
+a galope, entre uma escolta de cavalaria, do
+Rocio ao Pa&ccedil;o... Arrisca-o. Procura congra&ccedil;ar
+toda a gente. E odiada. A D. Maria Pia, histerica
+e perdularia, agradou sempre: at&eacute; os seus
+ditos se repetiam:&mdash;O senhor &eacute; um
+merda!&mdash;ao
+D. Luiz, quando elle aceitou as imposi&ccedil;&otilde;es do
+Saldanha;
+at&eacute; os seus vestidos, a sua
+ostenta&ccedil;&atilde;o, a
+atmosphera de rainha extravagante, que s&oacute; sabia
+que existiam contos e patacos, os chapeus que
+<span class="pagenum">[312]</span>
+mandava vir de Paris, aos trinta e quarenta, em
+cada esta&ccedil;&atilde;o; at&eacute; a sua desordem
+elegante de histerica.
+Nem os jornaes republicanos a atacavam.
+E quando foi para o exilio, j&aacute; doida, com um p&atilde;o
+debaixo do bra&ccedil;o e uma manta pela cabe&ccedil;a,
+s&oacute;
+ella deixou saudades. Era a Rainha. A D. Amelia
+n&atilde;o. Essa senhora, de quem alguem
+disse:&mdash;&Eacute;
+um grande homem de bem!&mdash;subiu todo o
+calvario da vida. Era religiosa&mdash;o que s&oacute; a
+honra&mdash;chamaram-lhe beata. Andou nos folhetins
+e nos pamphletos. Os seus criados detestavam-na<sup><a href="#n18">[18]</a></sup>.
+Ao passo que a rainha D. Maria Pia,
+<span class="pagenum">[313]</span>
+falso anjo de caridade, pouco fez com o seu espalhafato
+e foi adorada, a D. Amelia, que combateu
+metodicamente a tuberculose, espalhando o
+bem a m&atilde;os cheias, fundando a Assistencia Nacional,
+com os seus sanatorios e dispensarios, as
+cozinhas economicas, o hospital do Rego, o Instituto
+de Socorros a Naufragos, e contribuindo
+para a funda&ccedil;&atilde;o do Instituto Bacteriologico,
+etc.,
+foi sempre odiada, calumniada, insultada. Nem
+dentro de sua casa lhe era possivel conversar.
+Um dia, para falar em segredo com um ministro,
+chamou-o para o meio da sala:&mdash;Aqui, porque
+sen&atilde;o vem tudo amanh&atilde; no
+<em>Mundo</em>.&mdash;E vinha.
+At&eacute; o homem dos telephones era carbonario...
+Estou em dizer que &eacute; o acaso que governa a
+vida: a raz&atilde;o n&atilde;o &eacute;, com certeza.
+<br />
+
+<br />
+
+Ponham agora &aacute; roda d'estas figuras, os politicos
+e as paix&otilde;es falando cada vez mais alto. &Eacute;
+o momento em que todos &aacute; uma querem ser
+chefes! Querem ser chefes o Teixeira de Souza
+<span class="pagenum">[314]</span>
+e o Alpoim, querem-no ser o Wenceslau de Lima
+e o Campos Henriques, e at&eacute; o pobre, o inculto
+Pimentel Pinto, que Antonio Candido fez um dia
+ministro, tem um deslumbramento e sonha na
+candidatura. Elle &eacute; &laquo;o Vilhena muito afectuoso,
+muito lisongeiro e muito avido de poder&raquo;; elle &eacute;
+o Teixeira de Souza, &laquo;todo agrado, comtanto
+que elle entre no governo n'uma situa&ccedil;&atilde;o que
+n&atilde;o seja inferior &aacute; do Campos
+Henriques&raquo;&mdash;retrata-os
+o Wenceslau, que &eacute; o unico que sobe,
+como um bal&atilde;o cheio de vento, no conceito de
+quasi todos os politicos, que se reveem n'elle
+como n'um espelho.&mdash;E o Jos&eacute; Luciano teima:
+&laquo;O Vilhena est&aacute; quasi abandonado pelos seus
+marechaes&raquo;. Todos &aacute; uma proclamam ao rei e ao
+mundo que esse homem &eacute; incompetente.&mdash;&Eacute;
+um
+homem de talento&mdash;afirma um ex-ministro graduado&mdash;mas
+nunca vi incompetencia maior
+como politico.&mdash;Porqu&ecirc;? &Eacute; o que resta
+saber.
+Elle &eacute; dos poucos que sabe o que quer, que
+tem um plano e que o apresenta (<em>Antes da
+Republica</em>)&mdash;&eacute;
+tambem o unico com superioridade
+mental organisada. Pequeno, sempre pendurado
+no charuto, conserva, at&eacute; nas ocasi&otilde;es criticas,
+serenidade e firmeza. Mas todos concordam na
+sua inferioridade politica...
+<br />
+
+<br />
+
+Se s&oacute; pelo triumpho &eacute; que se demonstra tino
+politico, como quer alguem&mdash;na verdade Julio
+de Vilhena falhou completamente. Nem todos os
+meios lhe serviam, e em Portugal n&atilde;o existem correntes
+<span class="pagenum">[315]</span>
+de id&eacute;as ou de principios que levem um
+homem ao poder. O que se chama opini&atilde;o n&atilde;o
+se pronuncia. Os chefes de partido s&atilde;o simples
+chefes de bando. O Pa&ccedil;o &eacute; que faz ou desfaz os
+politicos, ou outros meios obscuros, de que cada
+um se pode servir, como no tempo de Luiz XIV.
+Escolheram-no para chefe n'uma occasi&atilde;o em que
+nenhum dos outros o podia ser, mas atraz delle
+estava a tenacidade do Teixeira de Souza, a politiquice
+de Campos Henriques e a astucia de
+Wenceslau.&mdash;Esse sim, chame V. Magestade o
+Wehceslau&mdash;diz o Alpoim.&mdash;O Wenceslau
+sim&mdash;concorda
+o Jos&eacute; Luciano. Elle &eacute; o homem do
+Pa&ccedil;o e dos politicos. Come&ccedil;a a ser indispensavel.
+O outro trope&ccedil;o n&atilde;o lhes sae da frente. Era
+a occasi&atilde;o de governar quem governasse, mas ao
+Jos&eacute; Luciano s&oacute; lhe conv&ecirc;m
+&laquo;governos mixtos
+em que elle mande, ou que, pelo menos, ponham o
+cofre das gra&ccedil;as &aacute; sua
+disposi&ccedil;&atilde;o.&raquo;
+(P. Pinto). E todos ou quasi todos s&oacute; pensam
+no Wenceslau, que promete muito, que sorri
+a toda a gente, e que n&atilde;o tem nada l&aacute; dentro.
+&Eacute; o optimista necessario. Imp&otilde;e-se pela parte
+decorativa, pela boa educa&ccedil;&atilde;o, pela maneira
+como contenta o mundo. As vezes chega a oferecer
+o governo a um, tendo-o j&aacute; oferecido a
+outro... (J. de Vilhena). S&oacute; o lunatico n&atilde;o
+entende...
+Elle bem protesta: &laquo;Quem o conhece tem
+obriga&ccedil;&atilde;o de saber que nunca foi um aventureiro
+ambicioso, nem um intrigante ordinario,
+<span class="pagenum">[316]</span>
+capaz de empregar processos menos correctos
+para obter quaesquer posi&ccedil;&otilde;es&raquo;. Mas foi
+exactamente
+isso que o perdeu! Num paiz onde n&atilde;o ha
+opini&atilde;o, n&atilde;o pode haver chefes de partido. Que
+diferen&ccedil;a entre elle e o Teixeira de Souza,
+espada&uacute;do
+e forte, abundante, abrindo logo os bra&ccedil;os
+a toda a gente:&mdash;Tu que queres, filho?!&mdash;D'outro
+feitio era o Campos Henriques, procurador
+encartado do norte, escrevendo a meio
+mundo e satisfazendo a outro meio (agua molle
+em pedra dura...); d'outro feitio, emfim, era o
+palaciano Wenceslau de Lima, o favorito, que censurava
+as cartas do rei e lhe escrevia os borr&otilde;es.
+Nenhum homem mais <em>souple</em> nem mais
+agradavel,
+sempre a mastigar e a sorrir. Est&aacute; nas antecamaras
+quando o rei conferenceia, e ha um momento
+em que s&oacute; elle p&otilde;e e disp&otilde;e, e em que
+aconselha ao rei:&mdash;Chame-me a mim, para eu
+declinar!&mdash;E o rei chama-o. As duas grandes
+figuras do reinado, vinham a ser o Wenceslau
+de Lima e o Soveral. O proprio Jos&eacute; Luciano estava
+condemnado...
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo isto se passa sob o olhar ironico ou severo
+dos republicanos e diante do phantasma da
+republica. Nem assim os interesses e as ambi&ccedil;&otilde;es
+abdicam. Nunca, nem no inferno, abdicaram!
+Acima de tudo est&aacute; o odio do Jos&eacute; Luciano,
+est&atilde;o as paix&otilde;es do Alpoim, que sonha no poder,
+e que na manh&atilde; de 5 d'Outubro ainda
+dizia:&mdash;Agora, sufocada a revolu&ccedil;&atilde;o, o
+rei
+n&atilde;o
+<span class="pagenum">[317]</span>
+pode deixar de me chamar a mim...&mdash;Interesses
+e homens, tendo cada um &laquo;a sua policia&raquo;,
+como diz o Teixeira de Souza. E o rei no trono,
+no palacio onde as paredes teem ouvidos, sempre
+a rabiscar papeis, incitando-os &aacute;s vezes (J.
+de Vilhena), sem prever o mundo de coleras que
+est&aacute; para vir &aacute; superficie. Quando &aacute;
+noite se
+apanha s&oacute;, abre a gaveta e desata a escrever
+aquelle interminavel romance politico, que caminha
+a galope para o remate da fuga e do exilio.
+E as vozes, cada vez mais altas,
+obstinaram-se:&mdash;N&atilde;o
+pode haver ordem nem tranquilidade
+com o Alpoim no paiz&mdash;exclama um.&mdash;Elle &eacute;
+um
+espirito claro e nada mais! protesta outro.&mdash;&Eacute;
+uma cambada! A propria dissidencia que &eacute;?
+&Eacute; um inferno!&mdash;conclue o
+Alpoim.&mdash;&Eacute; um
+idiota! O mal foi elegel-o para chefe.&mdash;E o Teixeira
+do Amaral observa &aacute;cerca d'um
+grupo:&mdash;S&atilde;o
+pescadores d'aguas turvas...
+<br />
+
+<br />
+
+Quem ha-de conter os homens e os acontecimentos?
+O rei? O rei escreve, escreve sempre...
+O Credito Predial desaba:&mdash;Foi ent&atilde;o que os
+burguezes, vendo-se roubados, nos deixaram fazer
+a republica...&mdash;asseverou Junqueiro. Ao poder
+sobe emfim o fatidico Teixeira de Souza. Os
+acontecimentos precipitam-se. Atraz dos homens
+est&aacute; uma for&ccedil;a monstruosa que parece empurral-os
+a todos&mdash;at&eacute; ao rei, que, de quando em
+quando, p&aacute;ra de escrever e sorri enlevado para
+os dois bonecos que tem em cima da comoda,
+<span class="pagenum">[318]</span>
+a caricatura d'um marinheiro inglez e a caricatura
+do Soveral&mdash;e vae leval-os a todos, sob o olhar
+impassivel do destino, para o desenlace fatal.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos esses homens tinham defeitos. Alguns
+eram at&eacute; ridiculos. Mas, apezar de tudo, n&atilde;o
+ultrapassavam
+determinada linha, apegados a preconceitos
+e a formulas, de que n&atilde;o havia arrancal-os...
+Vae o senhor D. Manuel, n&atilde;o tarda,
+porque a monarchia ha-de voltar&mdash;tudo sucede
+vertiginosamente n'este paiz&mdash;conhecer outros,
+com muito menos escrupulos, que o h&atilde;o-de encher
+de desgostos. V. Magestade ver&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>FIM DO 1.&ordm; VOLUME</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>INDICES</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>LISTA DAS PESSOAS CITADAS
+NO 1.&ordm; VOLUME</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>A</b>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Abel d'Andrade
+<br />
+
+<br />
+
+Abrantes (Marquez de)
+<br />
+
+<br />
+
+Ada Weinstin
+<br />
+
+<br />
+
+Adelaide Coelho da Cunha
+<br />
+
+<br />
+
+Adri&atilde;o de Seixas
+<br />
+
+<br />
+
+Affonso Costa
+<br />
+
+<br />
+
+Affonso (Infante D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Affonso VI
+<br />
+
+<br />
+
+Affonso XII
+<br />
+
+<br />
+
+Affonso XIII
+<br />
+
+<br />
+
+Agostinho Franco
+<br />
+
+<br />
+
+Albano de Mello
+<br />
+
+<br />
+
+Albano da Fonseca (Coronel)
+<br />
+
+<br />
+
+Alberto Bram&atilde;o (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Alberto Braga
+<br />
+
+<br />
+
+Alberto Pimentel
+<br />
+
+<br />
+
+Alberto d'Oliveira
+<br />
+
+<br />
+
+Albuquerque (Alexandre)
+<br />
+
+<br />
+
+Alca&ccedil;ovas (Conde de)
+<br />
+
+<br />
+
+Alda Decken Lino
+<br />
+
+<br />
+
+Alexandre Herculano
+<br />
+
+<br />
+
+Alferrarede (Condessa de)
+<br />
+
+<br />
+
+Alexandre Cabral
+<br />
+
+<br />
+
+Alfredo Anjos
+<br />
+
+<br />
+
+Alfredo Costa
+<br />
+
+<br />
+
+Alfredo da Silva
+<br />
+
+<br />
+
+Alice Lawrence
+<br />
+
+<br />
+
+Alice Munr&oacute;
+<br />
+
+<br />
+
+Alpoim
+<br />
+
+<br />
+
+Almada Carvalhais
+<br />
+
+<br />
+
+Almeida Araujo (Condessa de)
+<br />
+
+<br />
+
+Alvito (Marquez de)
+<br />
+
+<br />
+
+Ameal (Conde do)
+<br />
+
+<br />
+
+Amelia (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Anna de Sousa Coutinho (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Angejas
+<br />
+
+<br />
+
+Anibal Soares
+<br />
+
+<br />
+
+Anjos (As)
+<br />
+
+<br />
+
+Anna de Jesus
+<br />
+
+<br />
+
+Antonio Azevedo
+<br />
+
+<br />
+
+Antonio Bandeira
+<br />
+
+<br />
+
+Antonio de Brito
+<br />
+
+<br />
+
+Antonio Cabral
+<br />
+
+<br />
+
+Antonio Candido
+<br />
+
+<br />
+
+Antonio Centeno
+<br />
+
+<br />
+
+Antonio Emilio
+<br />
+
+<br />
+
+Antonio da Costa e Silva
+<br />
+
+<br />
+
+Antonio D. da Cruz Pinto
+<br />
+
+<br />
+
+Antonio Ennes
+<br />
+
+<br />
+
+Antonio Jos&eacute; d'Almeida
+<br />
+
+<br />
+
+Antonio Jos&eacute; de Freitas
+<br />
+
+<br />
+
+Antonio Manuel Teixeira
+<br />
+
+<br />
+
+Antonia Morena
+<br />
+
+<br />
+
+Antonio Moreira da Camara Coutinho
+<br />
+
+<br />
+
+Antonio Nobre
+<br />
+
+<br />
+
+Angela Pinto
+<br />
+
+<br />
+
+Anselmo Vieira
+<br />
+
+<br />
+
+Antero
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[322]</span>
+Armando Navarro
+<br />
+
+<br />
+
+Arnaldo Fonseca
+<br />
+
+<br />
+
+Arnoso (Conde de)
+<br />
+
+<br />
+
+Arnoso (Condessa)
+<br />
+
+<br />
+
+Arroyo (Antonio)
+<br />
+
+<br />
+
+Arroyo (Jo&atilde;o)
+<br />
+
+<br />
+
+Arthur de Mello
+<br />
+
+<br />
+
+Asseca (Viscondes de)
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto Cymbron
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto Machado
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto Pina
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto Ribeiro
+<br />
+
+<br />
+
+Avelino d'Almeida
+<br />
+
+<br />
+
+Aveiro (Duque de)
+<br />
+
+<br />
+
+Avila e Bolama (Duqueza de)
+<br />
+
+<br />
+
+Avila (Conde de)
+<br />
+
+<br />
+
+Ayres de Gouveia
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>B</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Baltar
+<br />
+
+<br />
+
+Bar&atilde;o (Condes)
+<br />
+
+<br />
+
+Barahona
+<br />
+
+<br />
+
+Barbosa Colen
+<br />
+
+<br />
+
+Barbosa du Bocage
+<br />
+
+<br />
+
+Barjona
+<br />
+
+<br />
+
+Barros Gomes
+<br />
+
+<br />
+
+Batalha Reis
+<br />
+
+<br />
+
+Bemposta Sub-Serra (Marquezes da)
+<br />
+
+<br />
+
+Beir&atilde;o
+<br />
+
+<br />
+
+Bernard Lazare
+<br />
+
+<br />
+
+Bernardino Machado
+<br />
+
+<br />
+
+Bernardo Pindella
+<br />
+
+<br />
+
+Bomtempo
+<br />
+
+<br />
+
+Borges &amp; Irm&atilde;o
+<br />
+
+<br />
+
+Bourbon de Menezes
+<br />
+
+<br />
+
+Braamcamp
+<br />
+
+<br />
+
+Branca de Gonta Cola&ccedil;o
+<br />
+
+<br />
+
+Braz&atilde;o
+<br />
+
+<br />
+
+Brito Aranha
+<br />
+
+<br />
+
+Brouillard (Madame)
+<br />
+
+<br />
+
+Bui&ccedil;a
+<br />
+
+<br />
+
+Bulh&atilde;o Pato
+<br />
+
+<br />
+
+Burnay
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>C</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Caldeira
+<br />
+
+<br />
+
+Camillo
+<br />
+
+<br />
+
+Campos Henriques
+<br />
+
+<br />
+
+Candida da Nora Kendall
+<br />
+
+<br />
+
+Candido dos Reis
+<br />
+
+<br />
+
+Capelo (Almirante)
+<br />
+
+<br />
+
+Cardia
+<br />
+
+<br />
+
+Carlos (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Carlos de Freitas Jacome
+<br />
+
+<br />
+
+Carlos Lobo d'Avila
+<br />
+
+<br />
+
+Carlos Mayer
+<br />
+
+<br />
+
+Carlota Joaquina (Dr.)
+<br />
+
+<br />
+
+Carnaxide (Visconde de)
+<br />
+
+<br />
+
+Carneiro de Moura
+<br />
+
+<br />
+
+Carracida
+<br />
+
+<br />
+
+Carrilho
+<br />
+
+<br />
+
+Casal Ribeiro (Conde de)
+<br />
+
+<br />
+
+Castello-Melhor
+<br />
+
+<br />
+
+Castilho
+<br />
+
+<br />
+
+Castro Solla (Conde de)
+<br />
+
+<br />
+
+Celso Herminio
+<br />
+
+<br />
+
+Chancelleiros
+<br />
+
+<br />
+
+Chapuy
+<br />
+
+<br />
+
+Christina Rezende da Silva
+<br />
+
+<br />
+
+Cipriano Jardim
+<br />
+
+<br />
+
+Coelho de Carvalho
+<br />
+
+<br />
+
+Columbano
+<br />
+
+<br />
+
+Concei&ccedil;&atilde;o de Carvalho
+<br />
+
+<br />
+
+Correia de Barros
+<br />
+
+<br />
+
+Correia d'Oliveira
+<br />
+
+<br />
+
+Costa Pinto
+<br />
+
+<br />
+
+Costa Santos
+<br />
+
+<br />
+
+Croneau
+<br />
+
+<br />
+
+Cunha e Costa
+<br />
+
+<br />
+
+Curry Cabral
+<br />
+
+<br />
+
+Custodio Borja
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>D</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Dantas Baracho
+<br />
+
+<br />
+
+Delcass&eacute;
+<br />
+
+<br />
+
+Dias Costa
+<br />
+
+<br />
+
+Dreyfus
+<br />
+
+<br />
+
+Duval Telles<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[323]</span>
+<b>E</b>
+<br />
+
+<br />
+
+E&ccedil;a de Queiroz
+<br />
+
+<br />
+
+E&ccedil;a Leal
+<br />
+
+<br />
+
+Edla (Condessa de)
+<br />
+
+<br />
+
+Eduardo Burnay
+<br />
+
+<br />
+
+Eduardo Cheira
+<br />
+
+<br />
+
+Eduardo Cordeiro
+<br />
+
+<br />
+
+Eduardo de Sousa
+<br />
+
+<br />
+
+Eduardo Pimenta
+<br />
+
+<br />
+
+Eduardo Tavares
+<br />
+
+<br />
+
+Eduardo VII
+<br />
+
+<br />
+
+Egas Moniz
+<br />
+
+<br />
+
+Elisa Baerlein
+<br />
+
+<br />
+
+Elisa Baptista de Sousa Pedroso
+<br />
+
+<br />
+
+Elvino de Brito
+<br />
+
+<br />
+
+Emidio Navarro
+<br />
+
+<br />
+
+Emilia Adelaide
+<br />
+
+<br />
+
+Emilia das Neves
+<br />
+
+<br />
+
+Ernest George
+<br />
+
+<br />
+
+Espregueira
+<br />
+
+<br />
+
+Eugenio de Castro
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>F</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Falcarreras
+<br />
+
+<br />
+
+Fernandes Thomaz
+<br />
+
+<br />
+
+Fernando (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Fernando de Serpa
+<br />
+
+<br />
+
+Fernando Martins de Carvalho
+<br />
+
+<br />
+
+Ferreira d'Almeida
+<br />
+
+<br />
+
+Ferreira do Amaral
+<br />
+
+<br />
+
+Fialho
+<br />
+
+<br />
+
+Ficalho (Conde de)
+<br />
+
+<br />
+
+Ficalho (Condessa de)
+<br />
+
+<br />
+
+Ficalho (Marquez de)
+<br />
+
+<br />
+
+Fife (Duque de)
+<br />
+
+<br />
+
+Figueir&oacute; (Conde de)
+<br />
+
+<br />
+
+Figueir&oacute; (Condessa de)
+<br />
+
+<br />
+
+Fonseca, Santos &amp; Viana
+<br />
+
+<br />
+
+Fontes
+<br />
+
+<br />
+
+Foz (Marquez da)
+<br />
+
+<br />
+
+Fran&ccedil;a Borges
+<br />
+
+<br />
+
+Francisco Figueira
+<br />
+
+<br />
+
+Francisco Medeiros
+<br />
+
+<br />
+
+Franco (Marquez de)
+<br />
+
+<br />
+
+Francisco da Fonseca Benevides
+<br />
+
+<br />
+
+Frederico Arouca
+<br />
+
+<br />
+
+Frei
+<br />
+
+<br />
+
+Freitas Branco
+<br />
+
+<br />
+
+Freitas Brito
+<br />
+
+<br />
+
+Freitas Rego
+<br />
+
+<br />
+
+Fronteira (Marquez da)
+<br />
+
+<br />
+
+Fumega (Major)
+<br />
+
+<br />
+
+Fuschini
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>G</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Garrett
+<br />
+
+<br />
+
+Garaty (Mr. Garaty (Mr. e M.<sup>me</sup>)
+<br />
+
+<br />
+
+Garrido
+<br />
+
+<br />
+
+Guerra Junqueiro
+<br />
+
+<br />
+
+Gervasio Lobato
+<br />
+
+<br />
+
+Gomes dos Santos
+<br />
+
+<br />
+
+Gomes Leal
+<br />
+
+<br />
+
+Gomes Netto
+<br />
+
+<br />
+
+Gra&ccedil;a (Major)
+<br />
+
+<br />
+
+Guilherme de Azevedo
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>H</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Heitor Ferreira
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Vasconcellos
+<br />
+
+<br />
+
+Hintze Ribeiro
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>I</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Idanha (Viscondessa de)
+<br />
+
+<br />
+
+Imperador do Brazil
+<br />
+
+<br />
+
+Irene Gilman
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>J</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Jacintho Candido
+<br />
+
+<br />
+
+Jayme Arthur da Costa Pinho
+<br />
+
+<br />
+
+Jayme de Seguier
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[324]</span>
+Jayme Victor
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o d'Alarc&atilde;o (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Barreira
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Chagas
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Chrisostomo
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o da Camara (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o de Deus
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o de Deus Guimar&atilde;es
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Franco
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Pinto dos Santos
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o de Menezes
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o VI (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Joaquim da Boa Morte Alves de Moura
+<br />
+
+<br />
+
+Joaquim Pessoa
+<br />
+
+<br />
+
+John Burnay
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge Cola&ccedil;o
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge O'Neill
+<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; d'Azevedo
+<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; Bacellar
+<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; Dias (conego)
+<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; Dias Ferreira
+<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; de Figueiredo
+<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; Lobo
+<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; Luciano
+<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; Maria dos Santos
+<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; Nunes
+<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; Paulo Menano
+<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; Reinach
+<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; Saragga
+<br />
+
+<br />
+
+Julio de Vilhena
+<br />
+
+<br />
+
+Judeu
+<br />
+
+<br />
+
+Judice Bicker
+<br />
+
+<br />
+
+Julia Bordallo
+<br />
+
+<br />
+
+Justino
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>L</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Latino Coelho
+<br />
+
+<br />
+
+Le&atilde;o XIII
+<br />
+
+<br />
+
+Leit&atilde;o (Ourives)
+<br />
+
+<br />
+
+Lencastre de Menezes (General)
+<br />
+
+<br />
+
+Lima Junior
+<br />
+
+<br />
+
+Linhares (conde de)
+<br />
+
+<br />
+
+Lopo Vaz
+<br />
+
+<br />
+
+Loubet
+<br />
+
+<br />
+
+Loul&eacute; (Duqueza de)
+<br />
+
+<br />
+
+Luciano Monteiro
+<br />
+
+<br />
+
+Lumiares (condes de)
+<br />
+
+<br />
+
+Luiza Patricio de Balsem&atilde;o
+<br />
+
+<br />
+
+Luiz (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Luiz da Camara (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Luiz Campe&atilde;o
+<br />
+
+<br />
+
+Luiz de Castro (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Luiz Fillipe (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Luiz Osorio
+<br />
+
+<br />
+
+Luiz Trigueiros
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>M</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Machado (capit&atilde;o)
+<br />
+
+<br />
+
+Malaquias de Lemos
+<br />
+
+<br />
+
+Manuela Rey
+<br />
+
+<br />
+
+Manuel (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Manuel Bordallo Pinheiro
+<br />
+
+<br />
+
+Manuel Figueira
+<br />
+
+<br />
+
+Manuel Hintze Ribeiro
+<br />
+
+<br />
+
+Manuel Ramos
+<br />
+
+<br />
+
+Manuel Ribeiro Borges
+<br />
+
+<br />
+
+Manuel Vaz Preto
+<br />
+
+<br />
+
+Mar&ccedil;al Pache&ccedil;o
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena Trigueiros
+<br />
+
+<br />
+
+Mardel
+<br />
+
+<br />
+
+Maria Augusta (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Maria Emilia Seabra (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Maria Emilia Macieira Lino (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Maria (Infanta D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Maria II (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Maria Kruz Brito (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Maria Pia (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Maria Tereza Pinto de Magalh&atilde;es (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Marquez da Foz
+<br />
+
+<br />
+
+Marcelino de Mesquita
+<br />
+
+<br />
+
+Mariano
+<br />
+
+<br />
+
+Martins de Carvalho
+<br />
+
+<br />
+
+Mathias de Carvalho
+<br />
+
+<br />
+
+Matoso dos Santos
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[325]</span>
+Maura
+<br />
+
+<br />
+
+Max Nordau
+<br />
+
+<br />
+
+Maximiliano d'Azevedo
+<br />
+
+<br />
+
+May Figueira
+<br />
+
+<br />
+
+Mello Barreto
+<br />
+
+<br />
+
+Mesquitella (conde de)
+<br />
+
+<br />
+
+Monpensier (Duqueza de)
+<br />
+
+<br />
+
+Moreira d'Almeida
+<br />
+
+<br />
+
+Moreira Marques
+<br />
+
+<br />
+
+Moreirinha
+<br />
+
+<br />
+
+Monteiro Milh&otilde;es
+<br />
+
+<br />
+
+Motta Marques Meirelles (Juiz)
+<br />
+
+<br />
+
+Moser
+<br />
+
+<br />
+
+Moura Cabral
+<br />
+
+<br />
+
+Mousinho
+<br />
+
+<br />
+
+Munhoz
+<br />
+
+<br />
+
+Mur&ccedil;a (condes de)
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>N</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Napoles
+<br />
+
+<br />
+
+Navarro
+<br />
+
+<br />
+
+Nazareth
+<br />
+
+<br />
+
+Norton de Mattos
+<br />
+
+<br />
+
+Nuno Castello Branco
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>O</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Oliveira (das <em>cautellas</em>)
+<br />
+
+<br />
+
+Oliveira Martins
+<br />
+
+<br />
+
+Oliveira Mattos
+<br />
+
+<br />
+
+Ottolini da Veiga
+<br />
+
+<br />
+
+Ouguella (Visconde de)
+<br />
+
+<br />
+
+Ovidio d'Alpoim
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>P</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Paccini
+<br />
+
+<br />
+
+Pa&ccedil;&ocirc; Vieira (conde de)
+<br />
+
+<br />
+
+Pad' Z&eacute;
+<br />
+
+<br />
+
+Padre Matos
+<br />
+
+<br />
+
+Palmeirim
+<br />
+
+<br />
+
+Palmeirim (General)
+<br />
+
+<br />
+
+Palmella (Duqueza de)
+<br />
+
+<br />
+
+Paraty (condes de)
+<br />
+
+<br />
+
+Paris (condessa de)
+<br />
+
+<br />
+
+Patrocinio (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Paulucci
+<br />
+
+<br />
+
+Pedro d'Araujo
+<br />
+
+<br />
+
+Pedro Martins
+<br />
+
+<br />
+
+Pedro de Noronha (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Pedro IV (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Pedro V (D.)
+<br />
+
+<br />
+
+Pedro Victor
+<br />
+
+<br />
+
+Penalva (Marquez de)
+<br />
+
+<br />
+
+Penamacor (condessa de)
+<br />
+
+<br />
+
+Penha Garcia (conde de)
+<br />
+
+<br />
+
+Peniche (conde de)
+<br />
+
+<br />
+
+Pequito
+<br />
+
+<br />
+
+Pereira das Neves
+<br />
+
+<br />
+
+Pimentel Pinto
+<br />
+
+<br />
+
+Pinheiro Chagas
+<br />
+
+<br />
+
+Pinto Basto
+<br />
+
+<br />
+
+Poitier
+<br />
+
+<br />
+
+Pombal (Marquez de)
+<br />
+
+<br />
+
+Ponte de Lima (Marquezes)
+<br />
+
+<br />
+
+Povolide (conde de)
+<br />
+
+<br />
+
+Praia (Marquezes da)
+<br />
+
+<br />
+
+Prim
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Q</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Queiroz
+<br />
+
+<br />
+
+Queiroz Ribeiro
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>R</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Ramalho
+<br />
+
+<br />
+
+Rangel de Lima
+<br />
+
+<br />
+
+Raphael Bordalo
+<br />
+
+<br />
+
+Rebello da Silva
+<br />
+
+<br />
+
+Regaleira (Baroneza da)
+<br />
+
+<br />
+
+Ressano Garcia
+<br />
+
+<br />
+
+Rezende
+<br />
+
+<br />
+
+Ribeira Brava (Visconde da)
+<br />
+
+<br />
+
+Ribeira Grande (conde da)
+<br />
+
+<br />
+
+Ricardo Jorge
+<br />
+
+<br />
+
+Rio-Maior (condessa de)
+<br />
+
+<br />
+
+Rodin
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[326]</span>
+Rodrigo da Fonseca Magalh&atilde;es
+<br />
+
+<br />
+
+Rosa Damasceno
+<br />
+
+<br />
+
+Rosa pae
+<br />
+
+<br />
+
+Rossini
+<br />
+
+<br />
+
+Rufino d'Almeida
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>S</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Sabugosa (conde de)
+<br />
+
+<br />
+
+Saldanha (Duque de)
+<br />
+
+<br />
+
+Sampaio (Visconde de)
+<br />
+
+<br />
+
+Santos (Major)
+<br />
+
+<br />
+
+Santos Viegas
+<br />
+
+<br />
+
+Sarah da Motta Vieira Marques
+<br />
+
+<br />
+
+Saraiva de Carvalho
+<br />
+
+<br />
+
+Schwalbach
+<br />
+
+<br />
+
+Sebasti&atilde;o Telles
+<br />
+
+<br />
+
+Sergio de Castro
+<br />
+
+<br />
+
+S. Boaventura
+<br />
+
+<br />
+
+S. Louren&ccedil;o (condessa de)
+<br />
+
+<br />
+
+S. Luiz de Braga (Viscondes de)
+<br />
+
+<br />
+
+Silva Bastos
+<br />
+
+<br />
+
+Silva Canellas
+<br />
+
+<br />
+
+Silva Carvalho
+<br />
+
+<br />
+
+Silva Gra&ccedil;a
+<br />
+
+<br />
+
+Silva Pinto
+<br />
+
+<br />
+
+Silva Telles
+<br />
+
+<br />
+
+Sousa Holstein
+<br />
+
+<br />
+
+Sousa Martins
+<br />
+
+<br />
+
+Soveral (Marquez de)
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>T</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Taborda
+<br />
+
+<br />
+
+Tavares Festas
+<br />
+
+<br />
+
+Taveira (condessa de)
+<br />
+
+<br />
+
+Teixeira de Sousa
+<br />
+
+<br />
+
+Teodoro d'Almeida
+<br />
+
+<br />
+
+Theophilo Braga
+<br />
+
+<br />
+
+Thomaz Ribeiro
+<br />
+
+<br />
+
+Tompson
+<br />
+
+<br />
+
+Torlades (casa)
+<br />
+
+<br />
+
+Torre da Murta (Visconde da)
+<br />
+
+<br />
+
+Totenbach
+<br />
+
+<br />
+
+Trindade Coelho
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>U</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Urbano de Castro
+<br />
+
+<br />
+
+Urbano Rodrigues
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>V</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Valbom
+<br />
+
+<br />
+
+Valdez
+<br />
+
+<br />
+
+Valen&ccedil;a (conde de)
+<br />
+
+<br />
+
+Val-Fl&ocirc;r (Marquez de)
+<br />
+
+<br />
+
+Vallada (Marquez de)
+<br />
+
+<br />
+
+Valladares (conde de)
+<br />
+
+<br />
+
+Varzea (Visconde da)
+<br />
+
+<br />
+
+Vasconcellos Porto
+<br />
+
+<br />
+
+Vianna (Marquez de)
+<br />
+
+<br />
+
+Vicente da Camara
+<br />
+
+<br />
+
+Victor Hugo
+<br />
+
+<br />
+
+Victoria (Rainha)
+<br />
+
+<br />
+
+Vila&ccedil;a
+<br />
+
+<br />
+
+Villa de Fozcoa (Bar&atilde;o de)
+<br />
+
+<br />
+
+Villa Nova de Cerveira (conde de)
+<br />
+
+<br />
+
+Villa Real e Mello (condessa de)
+<br />
+
+<br />
+
+Vimioso (conde de)
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>W</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Wenceslau de Lima
+<br />
+
+<br />
+
+Wernestein
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Z</b>
+<br />
+
+<br />
+
+Zola
+<br />
+
+<br />
+
+Zulmira Franco Teixeira
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>INDICE DOS CAPITULOS</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 70%; margin-left: 15%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">Pags.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Prefacio</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c1">9</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Algumas
+Figuras</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c2">27</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>P&oacute; da
+Estrada</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c3">93</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>A Sociedade
+Elegante</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c4">267</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>O Mundo
+Politico</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c5">289</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>INDICE DAS GRAVURAS
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 70%; margin-left: 15%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">Pags.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Columbano,
+Auto&mdash;retrato</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#f1">33</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Fialho
+d'Almeida</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#f2">49</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>D. Jo&atilde;o da
+Camara</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#f3">57</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>E&ccedil;a de
+Queiroz</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#f4">65</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Antonio Nobre no
+caix&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#f5">81</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Correia
+d'Oliveira</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#f6">89</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Fernandes Thomaz, no seu
+gabinete</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#f7">97</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Guerra
+Junqueiro</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#f8">113</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Jos&eacute; Luciano encerra o
+Parlamento</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#f9">129</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Celso
+Herminio</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#f10">145</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Gomes
+Leal</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#f11">161</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>D. Carlos I de
+Portugal</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#f12">177</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Oliveira
+Martins</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#f13">193</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Papelinhos sobre o
+regicidio</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#f14">206</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Dantas
+Baracho</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#f15">225</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Jos&eacute; Maria
+d'Alpoim</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#f16">241</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Teixeira de
+Sousa</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#f17">257</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">acabou de se imprimir<br />
+
+na tipografia da &laquo;renascen&ccedil;a portuguesa&raquo;<br />
+
+rua dos m&aacute;rtires da liberdade, 178,<br />
+
+aos 21 de janeiro de 1919.<br />
+
+porto</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Notas:</b><br />
+
+<br />
+
+<a name="n1" id="n1"></a><sup>[1]</sup>
+Estas <em>Memorias</em> devem
+formar quatro volumes:&mdash;2.&ordm;
+vol.&mdash;Os bastidores da monarchia. Vida literaria. Theatro
+por dentro; 3.&ordm; vol.&mdash;A Republica. O comercio e a
+finan&ccedil;a. Jornaes e jornalistas; 4.&ordm;
+vol.&mdash;A
+Republica e
+os seus homens. Vida militar.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n2" id="n2"></a><sup>[2]</sup>
+<em>Republica</em>, 23 de
+Fevereiro de 1915.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n3" id="n3"></a><sup>[3]</sup>
+&laquo;Volta-se para o governo do seu paiz, e pede-lhe
+que se lembre da recep&ccedil;&atilde;o de Afonso XII em Paris,
+e que
+ponha Sua Magestade a coberto de qualquer
+manifesta&ccedil;&atilde;o
+que possa porventura nascer, da atitude da Rainha. Limem-se
+as dificuldades, empreguem-se todos os esfor&ccedil;os,
+nossos e alheios; lancemos m&atilde;o da nossa
+situa&ccedil;&atilde;o privilegiada
+com a Inglaterra; ponhamos todos os elementos disponiveis
+em ac&ccedil;&atilde;o, para que o c&eacute;o serene. Por
+exemplo:
+que est&aacute; fazendo o sr. Soveral em Paris? Fa&ccedil;am-no
+recolher
+imediatamente a Londres&raquo;.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n4" id="n4"></a><sup>[4]</sup>
+Existe uma carta em que o rei D. Carlos diz ao
+Navarro, que &eacute; absolutamente falso que elle se oponha a
+que o nomeiem par do reino. Seriam os politicos capazes
+de armar a intriga?...<br />
+
+<br />
+
+<a name="n5" id="n5"></a><sup>[5]</sup>
+Um dos seus sobrinhos escreveu um artigo interessante,
+do qual extracto os seguintes periodos:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;No seu espirito fluctuava uma bondade inata que se
+traduzia por uma profunda afabilidade na vida intima e por
+uma indulgencia estranha no julgamento dos homens. J&aacute;mais
+acreditou em malevolas inten&ccedil;&otilde;es e nunca da sua
+bocca saiu uma insinua&ccedil;&atilde;o maliciosa. Confiava
+sempre na
+bondade dos outros, n&atilde;o hesitando, nos momentos de
+agita&ccedil;&atilde;o
+popular, em atravessar serenamente as ruas da capital
+revoltada, como sucedeu em 5 de outubro e 14 de maio. E
+quando a familia, naturalmente receiosa, lhe solicitava para
+n&atilde;o sahir, respondia sempre com toda a tranquilidade:
+&laquo;a mim
+ninguem me faz mal, pois eu nunca fiz mal a ninguem&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;As suas ferias passava-as a estudar. Ora meditava
+trabalhos de jurisprudeneia, ora, para descansar, apreciava
+as mais belas obras de literatura. Dotado de uma memoria
+privilegiada, sabia de c&oacute;r longos trechos de versos, e
+at&eacute;
+nos ultimos horriveis momentos da sua existencia, arquejando no leito
+de d&ocirc;r, ora recomendava pontos
+importantes
+dos processos que trazia entre m&atilde;os, ora citava frases de
+grandes poetas e filosofos referentes &aacute; hora suprema que
+rapidamente se aproximava. E quando a noite cahia, tudo
+envolvendo no seu manto de tristeza, era com uma anciedade
+estranha que esperava, na longa vigilia dolorosa, a
+chegada do sol radiante. E foi com uma precis&atilde;o rara que
+previu a hora da sua morte. Mais tres dias, mais dois dias
+e tudo estar&aacute; acabado. E, de facto, assim sucedeu!
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Apaixonava-o o estudo da astronomia, e nos ultimos
+tempos antes de morrer, apesar da sua avan&ccedil;ada idade de
+75 anos, vergado sobre obras da especialidade e, nas horas
+silenciosas das serenas noites de ver&atilde;o, passeando na sua
+quinta dos Covas, ou encostado &aacute;s amplas janelas da sua
+biblioteca, que tanto amava, reconhecia uma a uma as
+constela&ccedil;&otilde;es e descobria entre os inumeros astros
+que recamavam
+o firmamento, aquelles que os seus auctores
+haviam indicado.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<a name="n6" id="n6"></a><sup>[6]</sup>
+&laquo;Effectivamente, segundo nos informam... o homem
+das <em>barbas e da carabina n&atilde;o sahiu debaixo
+da Arcada</em> (sic) do
+Ministerio do Reino, visto, que com outro
+individuo se encontravam juntos da aludida
+arvore.&raquo;&mdash;<span class="smallcaps">Para
+qu&ecirc;?...</span> por
+<span class="smallcaps">Jos&eacute; Nunes</span>.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n7" id="n7"></a><sup>[7]</sup>
+Parece que o que salvou a rainha foi o cocheiro
+poder arrancar, bater nos cavalos, por ordem da condessa
+de Figueir&oacute;, e aquilo seguir, com os mortos e a rainha
+louca de d&ocirc;r:&mdash;Mortos! mortos! e ninguem para os
+salvar!&mdash;N'um
+gesto maternal debru&ccedil;ara-se cobrindo o filho com o
+proprio corpo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Quem matou o rei... &laquo;O grupo foi em parte
+organisado
+durante o dia 31 e &aacute;s 3 horas da madrugada do
+dia 1 de fevereiro, em uma quinta dos arredores de Lisboa
+decidiu-se que s&oacute; fossem cinco os individuos a executar
+o plano do Boulevard
+Poissoni&egrave;re.&raquo;&mdash;<span class="smallcaps">Para
+Qu&ecirc;</span>?
+por <span class="smallcaps">Jos&eacute; Nunes</span>.
+<br />
+
+<br />
+
+...&laquo;Se na tarde do 1.&ordm; de fevereiro de 1908
+n&atilde;o
+se
+d&eacute;sse mais que o primeiro tiro que se deu, e esse foi de
+carabina, ficariam vivas todas as pessoas reaes, excepto o
+rei. N&atilde;o obstante o tiroteio ter-se desenvolvido
+momentaneamente,
+assaltando-se ao mesmo tempo a carruagem, foi
+ent&atilde;o que, sobre o pae e o filho, se dispararam mais tiros,
+alguns d'elles mortaes&raquo;.&mdash;<span class="smallcaps">Para
+Qu&ecirc;</span>? por <span class="smallcaps">Jos&eacute;
+Nunes</span>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+...&mdash;Ao menos responda-nos a esta pergunta: o Bui&ccedil;a
+e o Costa teriam cumplices?
+<br />
+
+<br />
+
+E o sr. Laranjeira, sorrindo, affirma:
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Tinham varios amigos...?&mdash;E hesita.&mdash;O que
+lhe
+posso garantir, &eacute; que o Bui&ccedil;a
+n&atilde;o foi o heroe principal;
+quem preparou tudo foi o Alfredo Costa na &laquo;Loja Obreiros
+do Trabalho&raquo;. O Costa tinha uma grande influencia sobre
+varios rapazes de valor e de audacia. Tambem sem receio
+de ser desmentido lhe posso asseverar que o Alfredo Luiz
+da Costa foi assassinado por m&atilde;o occulta, quando vinha,
+preso e vivo, para o posto da Camara Municipal. Note que
+as suas ultimas palavras foram estas.&mdash;Ai minha
+m&atilde;e, que
+me trahiram!&mdash;E o chefe Bazilio, um dos que o conduzia,
+n&atilde;o p&ocirc;de v&ecirc;r quem lhe
+descarreg&aacute;ra a arma, matando-o...
+No meu modo de v&ecirc;r, os novelleiros encartados, dizem coisas
+sobre coisas, sem conhecerem o <em>fio &aacute;
+meada</em>, e &eacute; exactamente
+o que tem prejudicado tudo e todos.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Revela&ccedil;&otilde;es sobre o regicidio&mdash;Entrevista
+com o
+sr. Rodrigues
+Larangeira publicada no <em>Imparcial</em> de
+1 de julho
+de 1910.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n8" id="n8"></a><sup>[8]</sup>
+Apurou-se que o ex-ministro em Londres, de julho
+de 1892 a 12 de Novembro de 1910, recebera o seguinte:<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; margin-left: 15%; width: 70%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 65%;">1892-1893</td>
+
+ <td style="width: 5%;"></td>
+
+ <td style="text-align: right;">10.833$890</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1893-1894</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">12.841$593</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1894-1895</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">16.699$006</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1895-1896 (10 de Junho a 30 de
+Setembro)</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">2.163$750</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1896-1898</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">17.264$456</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1896-1897 (26 de Abril a 26 de
+Julho)</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">2.441$625</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1898-1899</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">15.618$168</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1899-1900</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">15.835$443</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1900-1901</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">12.976$500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1901-1902</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">14.211$412</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1902-1903</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">21.807$881</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1903-1904</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">15.963$505</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1904-1905</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">35.481$112</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td> </td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">
+ <hr /></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">A
+transportar</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">194.138$341</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td> </td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"> </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">Transporte</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">194.138$341</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1905-1906</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">21.437$118</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1906-1907</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">25.749$787</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1907-1908</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">20.447$868</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1908-1909</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">11.802$562</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1909-1910</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">12.487$687</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1910-1911 (de 16 de Julho a 12 de
+Novembro)</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">3.515$680</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td> </td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">
+ <hr /></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td> </td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">289.679$044</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Recebeu mais:<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; margin-left: 15%; width: 70%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 65%;">Pela rubrica de
+adeantamentos</td>
+
+ <td style="width: 5%;"></td>
+
+ <td style="text-align: right;">5.743$815</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Pela rubrica de
+suprimentos</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">226$035</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Pela rubrica de
+adeantamentos</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">450$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Pela rubrica da visita aos Reis d'Inglaterra,
+1904-1905.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">21.042$935</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">
+ <hr /></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">Total&mdash;Reis</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">317.041$828</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;As despezas legaes auctorisadas eram de 10.950$000
+r&eacute;is por anno. V&ecirc;-se como eram excedidas!
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Segundo o oficio do ex-ministro Vila&ccedil;a para o
+ministro
+da fazenda, pedindo mais dinheiro para Soveral,
+este, no almo&ccedil;o e ornamenta&ccedil;&atilde;o da
+lega&ccedil;&atilde;o, na visita do
+rei Carlos, consumira mais o seguinte:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; margin-left: 25%; width: 50%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 75%;">Almo&ccedil;o,
+libras</td>
+
+ <td style="text-align: right;">325 &mdash;</td>
+
+ <td style="text-align: right;">12</td>
+
+ <td style="text-align: right;">&mdash; 0 </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Vinho,
+libras.</td>
+
+ <td style="text-align: right;">49 &mdash;</td>
+
+ <td style="text-align: right;">6</td>
+
+ <td style="text-align: right;">&mdash; 6</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Decora&ccedil;&otilde;es,
+libras</td>
+
+ <td style="text-align: right;">1.760 &mdash;</td>
+
+ <td style="text-align: right;">1</td>
+
+ <td style="text-align: right;">&mdash; 0</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1" style="text-align: right;">
+ <hr /></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">Total, libras.</td>
+
+ <td style="text-align: right;">2.134 &mdash;</td>
+
+ <td style="text-align: right;">19</td>
+
+ <td style="text-align: right;">&mdash; 6</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Averiguou-se, pelo oficio do ex-director geral da
+thesouraria, Perestrelo, que pelo mesmo motivo da visita
+do rei Carlos, Soveral recebera mais:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; margin-left: 15%; width: 70%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 65%;">Em 30 de Novembro de 1904,
+libras</td>
+
+ <td style="width: 5%;"></td>
+
+ <td style="text-align: right;">1.500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Em 10 de Dezembro do mesmo anno,
+libras</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">1.000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>
+ <hr /></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">Total,
+libras.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">2.500</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Todas estas quantias, em libras, ou em r&eacute;is, foram
+calculadas
+ao cambio par. Como n'aquellas &eacute;pocas houve subido
+agio sobre o ouro, e calculando esse agio n'uma media de
+15%, v&ecirc;-se que notavel aumento ha nas despezas descritas!
+<br />
+
+<br />
+
+Soveral recebeu mais, pela verba de despezas diversas
+extraordinarias no anno economico de 1909-1910, sem qualquer
+justifica&ccedil;&atilde;o, r&eacute;is 1.934$855; e pela
+verba destinada &aacute;
+viagem a Londres do rei D. Manuel, r&eacute;is 4.468$900.
+<br />
+
+<br />
+
+Na liquida&ccedil;&atilde;o e pagamento dos direitos de
+merc&ecirc;,
+emolumentos e sellos, houve enorme trapalhada durante
+muitos annos, d'onde resultou Soveral esquivar-se ao cumprimento
+das leis fiscaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Deve os direitos de merc&ecirc; e emolumentos e sello pelo
+titulo de Conselho, pelo titulo de Marquez, pelo cargo de
+secretario da lega&ccedil;&atilde;o em Londres, pelo cargo de
+ministro
+em Londres, pela gran-cruz da Torre e Espada, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando foi ministro dos negocios estrangeiros, teve a
+habilidade de em 17 mezes, s&oacute; &aacute; sua parte,
+consumir em
+despezas reservadas, r&eacute;is 37.757$515, sem deixar no
+ministerio
+qualquer documento, explicando ou justificando o emprego
+de qualquer verba!&mdash;<em>Intransigente</em>,
+de 31 de Mar&ccedil;o
+de 1911.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n9" id="n9"></a><sup>[9]</sup>
+&laquo;Escrevem-nos de Braga:
+<br />
+
+<br />
+
+Joaquim de Sequeira Lopes, negociante, e Manoel
+Coelho dos Santos, penhorista, s&atilde;o pessoas de bem e
+residem em Espinho.
+<br />
+
+<br />
+
+Sequeira Lopes foi em Novembro de 1907 para Lisboa
+curar uma molestia hospedando-se em casa de seu irm&atilde;o
+Frederico, negociante, chefe graduado do alpoinismo. D'ali
+escrevia semanalmente ao Coelho, com quem tinha negocios,
+quando na capital come&ccedil;ou a agita&ccedil;&atilde;o
+para derrubar
+o Franco, dando em cada carta uma noticia politica, que o
+Coelho lia em toda a parte onde se lia politica. Na quarta-feira
+ou quinta da semana do regicidio, essa noticia era d'este theor: <em>Disseram
+hoje a Frederico,
+no escriptorio forense...
+que Jo&atilde;o Franco seria assassinado em 24
+horas</em>. Quando chegou a Espinho a carta que continha esta
+noticia,
+tinham passado as taes 24 horas, por isso o valor da
+noticia estava prejudicado. Deu-se o atentado no sabado e
+na quarta-feira seguinte a carta habitual dava esta noticia:
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Os revolucionarios, vendo-se perdidos pela
+pris&atilde;o dos
+chefes, reuniram-se secretamente, republicanos e dessidentes
+d'ac&ccedil;&atilde;o, e resolveram a morte da familia real.
+Propoz-se que
+os executores fossem tirados &aacute; sorte, mas o professor
+Bui&ccedil;a
+protestou, oferecendo-se voluntariamente, sendo o seu alvitre
+secundado por muitos que se promptificaram a
+auxilial-o.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+Estes apontamentos foram dados ao ministro Campos
+Henriques logo depois da forma&ccedil;&atilde;o do gabinete
+Amaral.
+Foram em carta anonyma, mas acompanhados d'um
+grande numero de testemunhas que viram e leram as taes
+noticias, figurando n'ellas o coronel reformado Raul de Passos,
+d'Elvas, que na ocasi&atilde;o residia em Espinho
+e dava a
+semelhantes noticias um grande valor para a
+investiga&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Campos Henriques, o que demitiu o juiz Alves Ferreira
+e chamou o outro da Meda, fez de conta que nada
+era com elle. N'esta pista ninguem mexeu.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="ast">*</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A reuni&atilde;o, afirma-se, teve logar na Costa do
+Castello.
+Tomaram parte n'ella quadrilheiros da quadrilha republicana
+e de todas as quadrilhas monarchicas&raquo;...<sup><a href="#n9a">[9a]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote3"><a name="n9a" id="n9a"></a><sup>[9a]</sup>
+Quem quizer conhecer a historia contemporanea tem de
+l&ecirc;r e
+consultar a colec&ccedil;&atilde;o d'<em>O Povo
+d'Aveiro</em>. &Eacute; indispensavel. Essa voz
+tremenda
+e col&eacute;rica pr&eacute;ga, ha annos, sem um
+desfalecimento, meia duzia de
+verdades essenciaes ao paiz. Al&eacute;m d'isso Homem Christo
+&eacute; o maior jornalista
+portuguez e um pamphletario que s&oacute; tem outro na nossa
+literatura
+que se lhe compare&mdash;Jos&eacute; Agostinho de Macedo.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n10" id="n10"></a><sup>[10]</sup>
+Essa extraordinaria sess&atilde;o, em que o parlamento
+parecia estar no banco dos r&eacute;us e o Afonso Costa, theatral,
+surgia como um acusador triumphante!... O ministerio
+tinha desaparecido. Fugira! Ninguem sabia do que se ia
+tratar: esperava-se peor, muito peor... A impress&atilde;o real,
+patente, autentica, era de que elle ia fulminal-os com provas
+&aacute; vista, acusando-os d'um crime... De que crime tremendo?
+Quando leu os documentos houve uma impress&atilde;o
+de alivio, quasi a exclama&ccedil;&atilde;o:&mdash;Era
+s&oacute;
+aquillo?...&mdash;E
+quando baralhou e se enganou nos nomes da pessoa
+que acusava&mdash;ninguem soube aproveitar o momento, o
+erro, a oportunidade... Ninguem se quiz comprometer...
+A defeza feita pelo Pa&ccedil;&ocirc; foi fragil, risonha,
+quasi &laquo;pedindo
+desculpa&raquo;...<br />
+
+<br />
+
+<a name="n11" id="n11"></a><sup>[11]</sup>
+Folheto de 10 paginas, com este titulo:
+<em>Os Barbad&otilde;es,
+resumo historico por D. Sebasti&atilde;o de Vasconcellos,
+Bispo de Beja, Par do Reino e Comendador da Nobilissima
+Ordem de N. S. da Concei&ccedil;&atilde;o de Villa
+Vi&ccedil;osa. Propriedade
+da Empreza Editora do Jornal &laquo;Portugal&raquo;
+Limitada</em>.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n12" id="n12"></a><sup>[12]</sup>
+Carta publicada n'<em>O
+Norte</em> de 1 de Setembro de
+1918 pelo snr. Bourbon e Menezes:
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature tinyl">
+Meu Senhor:
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="tinyl">Tenho a honra de communicar a V.
+Magestade que,
+nos termos assentados, escrevi ao seu encarregado de negocios
+em Berlim para fazer-lhe saber a conveniencia q.
+haveria em retro-trahir
+<em>(sic)</em> a data da visita de
+V. Magestade
+para 20 de novembro e nesta orienta&ccedil;&atilde;o lhe expuz,
+para levar ao conhecimento do Ministerio dos Negocios
+Estrangeiros allem&atilde;o, os argumentos e raz&otilde;es que
+me pareceram
+apropriados ao fim que se pretende. Julgo q. isto
+merecer&aacute; a aprova&ccedil;&atilde;o de V. Magestade.
+<br />
+
+<br />
+
+Quanto ao assunto da nossa conversa&ccedil;&atilde;o no
+Pa&ccedil;o das
+Necessidades, entendi hoje aproveitar a oportunidade de
+vir o marquez de Villalobar dar-me uns informes que &eacute;
+natural
+que V. Magestade j&aacute; conhe&ccedil;a pelo conde de
+Sabugosa,
+para entrar com elle em conversa officiosa sobre a
+conveniencia de estreitar em bases definidas as nossas
+rela&ccedil;&otilde;es
+politicas, visto os dois paizes soffrerem de um mal
+commum&mdash;a invas&atilde;o da onda democratica. Neste
+sentido
+lhe fiz um longo arrazoado que elle recebeu com agrado a
+ponto de me perguntar se queria que levasse isso ao conhecimento
+do seu soberano ou apenas do Presidente do
+Conselho. Fiz-lhe notar que esta idea era apenas
+<em>pessoal</em> e
+<em>minha</em>, que sobre ella n&atilde;o
+tinha consultado o governo e que
+V. Magestade nem de leve suspeitava d'este meu ponto de
+vista, que a minha idea era de que as duas na&ccedil;&otilde;es
+por um
+instrumento secreto se comprometessem a um mutuo auxilio, no caso de
+irrompessem<em>(sic)</em> movimentos
+revolucionarios
+que puzessem l&aacute; e c&aacute; em risco a
+seguran&ccedil;a das
+institui&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Elle concordou em que o interesse era commum e por
+isso reciproca a vantagem e lhe parecia que seria grato ao
+cora&ccedil;&atilde;o de S. Magestade o Rei D. Affonso o
+lembrarmo-nos
+d'elle em tal conjunctura, independentemente das
+estipula&ccedil;&otilde;es
+da nossa allian&ccedil;a com a Inglaterra. Entendi p&ocirc;r
+n'este p&eacute; a quest&atilde;o porq. tinha
+opurtunidade <em>(sic)</em> e corresponde
+a uma necessidade que n&atilde;o &eacute;
+<em>s&oacute; nossa</em> mas tambem
+d'elles. O ministro comprehendeu bem a minha idea e disse-me
+que a ia transmitir a Espanha, a Canalejas, afirmando-me
+que poria n'isto todo o seu empenho. Fiz-lhe sentir
+que seria bom p&ocirc;r s&oacute; a quest&atilde;o
+<em>em principio</em> e quanto &aacute;
+extens&atilde;o e detalhes do acordo seria para regular depois
+quando V. Magestade e o governo conhecessem o assumpto.
+N&atilde;o quiz ir mais longe para me n&atilde;o envolver em
+disserta&ccedil;&otilde;es
+sobre acordos economicos que me parecem pouco
+convenientes agora para n&oacute;s. Eis o que fiz e o que me parece
+que diviria <em>(sic)</em> fazer-se por
+emquanto, pois que este
+assumpto, quanto &aacute;s outras na&ccedil;&otilde;es,
+carece de opurtunidade <em>(sic)</em> e entrados
+na via de
+explica&ccedil;&otilde;es correriamos o
+risco de prejudicar os interesses que temos em vista.
+<br />
+
+<br />
+
+O que se me affigura necessario e conveniente &eacute; ligar
+os dois paizes n'uma deffeza <em>(sic)</em>
+commum, visto que as vantagens e riscos s&atilde;o communs e
+n&atilde;o
+julgo difficil chegar-se
+ao desejado fim, tanto mais quanto as suas
+informa&ccedil;&otilde;es
+se referem a um movimento revolucionario nos dois
+paizes, com dinheiro vindo de Fran&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Muito prazer terei se o meu parecer merecer a subida
+honra da aprova&ccedil;&atilde;o de V. Magestade, pois que
+outro n&atilde;o &eacute;
+o meu desejo se n&atilde;o de corresponder &aacute; sua
+confian&ccedil;a com
+a pratica de actos meus que sejam acertados.
+<br />
+
+<br />
+
+Mostrou-se o Marquez de Villalobar muito empenhado
+em saber o quer que fosse do casamento de V. Magestade.
+Continuei affirmando-lhe q. nada sabia porque o que se estava
+ainda fazendo em Inglaterra era <em>&agrave;
+l'insu</em> do governo,
+mas que logo q. soubesse cousa digna de ser-lhe communicada,
+lhe n&atilde;o faltaria com essa confidencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Disse-me elle q. o seu empenho de saber correspondia
+&aacute;s sucessivas perguntas que de Espanha lhe fazia o seu
+Soberano.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Forse che si: forse che
+n&oacute;.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+Beijo respeitosamente as m&atilde;os de V. Magestade e em
+tudo aguardo, com o devido respeito, as ordens que se
+dignar dar ao
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature1">seu ministro</div>
+
+<div class="signature2">e subdito obediente</div>
+
+<br />
+
+<div class="quote3">Lisboa, 19-7-910.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">(a) <em>Jos&eacute;
+d'Azevedo Castello
+Branco</em>.</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n13" id="n13"></a><sup>[13]</sup><br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">PRE&Ccedil;O DA VIDA
+</div>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 60%; margin-left: 20%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td>P&atilde;o&mdash;kilo</td>
+
+ <td style="text-align: right;">90</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Carne de segunda
+qualidade</td>
+
+ <td style="text-align: right;">300</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Carne
+limpa</td>
+
+ <td style="text-align: right;">600</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Vitella</td>
+
+ <td style="text-align: right;">800</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Carne de
+porco</td>
+
+ <td style="text-align: right;">480</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Toucinho</td>
+
+ <td style="text-align: right;">320</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Banha</td>
+
+ <td style="text-align: right;">320</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Assucar
+pil&eacute;</td>
+
+ <td style="text-align: right;">240</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Bacalhau</td>
+
+ <td style="text-align: right;">200</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Massas</td>
+
+ <td style="text-align: right;">150</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Manteiga</td>
+
+ <td style="text-align: right;">800</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Ovos&mdash;duzia</td>
+
+ <td style="text-align: right;">250</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Feij&atilde;o
+branco&mdash;litro</td>
+
+ <td style="text-align: right;">70</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Petroleo</td>
+
+ <td style="text-align: right;">90</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Leite</td>
+
+ <td style="text-align: right;">100</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Feij&atilde;o
+frade</td>
+
+ <td style="text-align: right;">50</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Feij&atilde;o da ilha
+(manteiga)</td>
+
+ <td style="text-align: right;">100</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Azeite</td>
+
+ <td style="text-align: right;">400</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Carv&atilde;o&mdash;arroba</td>
+
+ <td style="text-align: right;">300</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Uma
+pescada</td>
+
+ <td style="text-align: right;">500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Um vestido de
+senhora</td>
+
+ <td style="text-align: right;">30$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Um fato de
+homem</td>
+
+ <td style="text-align: right;">20$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Um par de
+botas</td>
+
+ <td style="text-align: right;">4$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>M&eacute;dia do aluguer d'um andar, por semestre
+(casa para uma familia da
+mediania)</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">120$000</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n14" id="n14"></a><sup>[14]</sup>
+Foi
+oficial na marinha ingleza, condecorado na
+campanha do Baltico com a medalha militar, e um excelente
+administrador. Diz-se que gra&ccedil;as a elle &eacute; que a
+casa
+da mulher sahiu da barafunda e quasi ruina a que cheg&aacute;ra
+&aacute; data do casamento. Por isso talvez &eacute; que passou
+por um
+apagado guarda livros...<br />
+
+<br />
+
+<a name="n15" id="n15"></a><sup>[15]</sup>
+Do <em>Correio Nacional</em>, na
+sua sec&ccedil;&atilde;o
+<em>Ecos</em>:
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="tinyl">O sr. Hintze Ribeiro &eacute; d'uma
+grande generosidade
+para com a sua familia.
+<br />
+
+<br />
+
+Demonstra-o a seguinte lista, cuidadosamente confei&ccedil;oada
+sob informes do <em>Diario do Governo</em>:
+<br />
+
+<br />
+
+Para o elevado logar de inspector dos impostos no
+Porto foi transferido o sr. dr. Jos&eacute; Paulo Menano, de
+24 annos de edade, casado com uma cunhada do sr.
+Hintze.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha tempos, foi colocado no logar de director do hospital
+das Caldas da Rainha o sr. dr. Augusto Cymbron
+Borges de Sousa, cunhado do sr. Hintze.
+<br />
+
+<br />
+
+O sr. Manuel Hintze Ribeiro, irm&atilde;o do sr. Hintze, foi
+graduado em inspector superior da alfandega de Ponta
+Delgada, passando de 1.170$000 a 1.700$000, mais do
+que ganha um director geral.
+<br />
+
+<br />
+
+O sr. Antonio Moreira da Camara Coutinho, sobrinho
+do sr. Hintze, foi nomeado director da alfandega do Porto,
+com quatro contos de reis anuaes, o ordenado d'um ministro,
+quasi.
+<br />
+
+<br />
+
+O sr. Manuel Rebello Borges, 2.&ordm; oficial da alfandega
+de S. Miguel, foi nomeado director da mesma casa fiscal,
+com um conto seiscentos e vinte mil reis.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; uma fortuna para o paiz que a familia do sr. Hintze
+n&atilde;o seja mais numerosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Aliaz, n&atilde;o haveria contribuintes cuja pelle chegasse
+para pagar tantos encargos...</div>
+
+<br />
+
+<a name="n16" id="n16"></a><sup>[16]</sup>
+De
+passagem apontemos a figura de Norton de
+Matos, o maior ministro da guerra contemporaneo, organizador
+capaz d'um trabalho de ferro, que s&oacute; os technicos
+ser&atilde;o capazes de avaliar em toda a sua extens&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n17" id="n17"></a><sup>[17]</sup>
+Todas
+as palavras entre comas s&atilde;o dos
+<em>Documentos
+politicos</em>.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n18" id="n18"></a><sup>[18]</sup>
+Introduziu
+a ordem no Pa&ccedil;o.&mdash;At&eacute; o
+pre&ccedil;o do
+peixe quer saber!&mdash;dizia-se c&aacute; f&oacute;ra com
+indigna&ccedil;&atilde;o. Quando
+do 5 d'outubro todos os creados diziam bem do rei&mdash;todos
+diziam mal da rainha. O pequeno quadro que segue
+explica talvez muita coisa:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Havia familias das proximidades do Pa&ccedil;o que se
+alumiavam
+s&oacute; com as vellas do palacio real, compradas por vil
+pre&ccedil;o. As contrabandistas andavam pelas casas dos seus
+freguezes oferecendo roupas, desde os vestidos da rainha
+e dos fatos do rei at&eacute; &aacute;s roupas brancas, meias
+de seda e
+sapatos de setim com a cor&ocirc;a real, para n&atilde;o
+oferecer duvidas
+acerca da procedencia. D'estes factos tivemos conhecimento
+de sciencia certa, por vivermos n'esse tempo perto
+do Pa&ccedil;o e nos terem vindo oferecer por mais de uma vez
+os espojos do saque, que n&atilde;o aceitamos por varias
+raz&otilde;es,
+sendo uma d'ellas a falta de voca&ccedil;&atilde;o para
+receptadores de
+roubos. A voca&ccedil;&atilde;o nasce com a pessoa. Da ucharia
+do
+Pa&ccedil;o banqueteavam-se os parentes dos empregados e
+cremos que at&eacute; os amigos.
+<br />
+
+<br />
+
+A audacia do latrocinio chegou ao extremo. Indo um dia o rei
+D. Luiz ca&ccedil;ar &aacute; Tapada e
+tendo morto tres coelhos,
+ao chegar ao Pa&ccedil;o lembrou-se de os mostrar &aacute;
+rainha.
+<br />
+
+<br />
+
+Mandou-os buscar, mas apenas lhe apresentaram um,
+porque os dois restantes tinham desaparecido durante o
+breve precurso da Tapada at&eacute; &aacute; Ajuda.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos proprios charutos do rei todos os dias dava um
+ataque epileptico que os obrigava a saltar das caixas sem
+que se soubesse para onde tinham desertado. Chegou o
+descaramento a ponto de n&atilde;o deixarem um charuto para o
+rei fumar&raquo;.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 61px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e1" id="e1"></a><a href="#p91">#p&aacute;g.
+91</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">iuutil</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">inutil</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e2" id="e2"></a><a href="#p263">#p&aacute;g.
+263</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">esqueeeu</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">esqueceu</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e3" id="e3"></a><a href="#p291">#p&aacute;g.
+291</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">eomer</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">comer</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><a name="f14" id="f14"></a>Identificou-se
+a n&atilde;o exist&ecirc;ncia nos dois originais de uma figura
+que se encontraria entre as p&aacute;ginas <a href="#p206">206</a>
+e <a href="#p207">207</a>. Presume-se que por
+n&atilde;o se encontrar em ambas as obras da mesma
+edi&ccedil;&atilde;o, que se trata de um erro de
+impress&atilde;o que afectou esta edi&ccedil;&atilde;o em
+particular.<br />
+
+<br />
+
+Foram efectuadas correc&ccedil;&otilde;es na
+numera&ccedil;&atilde;o das p&aacute;ginas no
+ind&iacute;ce de forma a coincidir com a
+localiza&ccedil;&atilde;o correcta no livro.<br />
+
+<br />
+
+As figuras no original encontram-se entre p&aacute;ginas.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Memórias, by Raúl Brandão
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMÓRIAS ***
+
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+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
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+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+
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+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
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+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
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+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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