diff options
| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:56:58 -0700 |
|---|---|---|
| committer | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:56:58 -0700 |
| commit | 6322ff353227f6afa01800896029607b5c3679e7 (patch) | |
| tree | db16173abd83c6bd5d762bf8f6cf25e5e250e29b /32072-8.txt | |
Diffstat (limited to '32072-8.txt')
| -rw-r--r-- | 32072-8.txt | 4220 |
1 files changed, 4220 insertions, 0 deletions
diff --git a/32072-8.txt b/32072-8.txt new file mode 100644 index 0000000..92a2be0 --- /dev/null +++ b/32072-8.txt @@ -0,0 +1,4220 @@ +The Project Gutenberg EBook of Algumas lições de psicologia e pedologia, by +António Aurélio da Costa Ferreira + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Algumas lições de psicologia e pedologia + +Author: António Aurélio da Costa Ferreira + +Release Date: April 20, 2010 [EBook #32072] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ALGUMAS LIÇÕES DE PSICOLOGIA *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos + existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à + versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com + o original. No final deste livro encontrará a lista de erros + corrigidos. + + Rita Farinha (Abril 2010) + + + + +ANTÓNIO AURÉLIO DA COSTA FERREIRA + +Professor de Psicologia experimental e Pedologia +na Escola Normal Primária de Lisboa + + + + +ALGUMAS LIÇÕES +DE +PSICOLOGIA E PEDOLOGIA + + + + +LVMEN EMPREZA INTERNACIONAL + EDITORA + +LISBOA PORTO--RIO +COIMBRA DE JANEIRO + + SÉDE +132, Rua Aurea, 138, Lisboa + + + + + +PSICOLOGIA E PEDOLOGIA + + + + +ANTÓNIO AURÉLIO DA COSTA FERREIRA + +Professor de Psicologia experimental e Pedologia +na Escola Normal Primária de Lisboa + + + + +ALGUMAS LIÇÕES +DE +PSICOLOGIA E PEDOLOGIA + + + + +LVMEN EMPREZA INTERNACIONAL + EDITORA + +LISBOA PORTO--RIO +COIMBRA DE JANEIRO + + SÉDE + +132, Rua Aurea, 138, Lisboa + + + + +Comp. e impr. na Typ. Costa Carregal--Porto + + + + +AOS MEUS COLEGAS E AOS MEUS ALUNOS +DA +ANTIGA E DA NOVA +ESCOLA NORMAL PRIMÁRIA DE LISBOA + + + + +ÍNDICE + + + Pág. + +Prefácio 5 + +O ensino da pedologia na escola normal primária 7 + +A arte de educar e a psicologia experimental 17 + +O pêso do corpo da criança 29 + +A agudeza visual e a auditiva debaixo do ponto +de vista pedagógico 47 + +A visão das côres 61 + +Sôbre umas provas de exame da atenção voluntária +visual 89 + +Da inteligência do escolar e da sua avaliação 111 + +Inteligência e apercepção 123 + +Sôbre psicologia, estética e pedagogia do gesto 135 + + + + +PREFÁCIO + + +_Com o título_ Algumas lições de Psicologia e Pedologia _publíco neste +pequeno volume as principais lições que li e comentei, como professor da +antiga Escola Normal do Calvário, e da actual Escola Normal de Bemfica, +às quais acrescento a conferência que realizei no Conservatório, por +ocasião da Exposição de Arte na Escola. + +Algumas das lições são verdadeiros planos e resumos dos meus cursos. + +A matéria vai exposta com a maior clareza de que fui capaz e pela forma +que me pareceu melhor, em atenção à preparação habitual dos alunos das +Escolas Normais e ao fim que essas escolas têm ou devem ter em vista. +Busquei principalmente interessar e orientar os meus alunos, +habituando-os a confiar na prática dos métodos scientíficos em +pedagogia. + +O livrinho vai ilustrado com uma gravura, reprodução duma cópia feita +pelo professor Eduardo Romero, da Casa Pia, cópia de um curioso desenho +de R. Gudden, de Francfort s. M., excelente exemplo de um fenómeno de +apercepção, que encontrei publicado no manual de Starch:_ Experiments in +Educational psychology, _e que me pareceu ser uma ilustração muito +apropriada para acompanhar as minhas lições de Psicologia e Pedologia, e +particularmente a lição:_ Inteligencia e apercepção. + +_Estou certo de que a leitura dêste livrinho, e a dos livros que nele +cito, será de muita, utilidade para os alunos das Escolas Normais e para +os candidatos aos concursos de Inspectores primários. + +Belem--25--XII--920._ + + A. Aurélio da Costa Ferreira. + + + + +O ENSINO DA PEDOLOGIA NA ESCOLA NORMAL PRIMÁRIA[1] + + + Minhas Senhoras e meus Senhores: + + +Parafraseando o emérito Claparède, direi:--como se consideraria uma +escola de horticultura onde se não ensinasse a botânica?! + +Que se poderia dizer de uma escola que preparasse professores para a +infância, seus educadores, e em que se não professasse a pedologia?! + +Como se chamaria aquele que hoje, no estado em que se encontra a +sciência, quizesse como outrora tratar de doenças, empíricamente, sem +saber, sem nunca ter estudado a anatomia e a fisiologia e as suas +aplicações ao diagnóstico e não soubesse examinar convenientemente, +scientíficamente, um doente, e procurar as indicações? Seria, hoje, +porventura, um médico? Não. Nem mereceria confiança, nem mereceria +consideração e as penalidades da lei até sôbre êle recaìriam. + +Como se poderiam considerar aqueles que hoje se obstinassem a pretender +desenvolver a inteligência, formar caractéres, corrigir os instintos da +criança, sem nunca ter aprendido a estudá-la, a medir-lhe a inteligência +e a examinar-lhe o feitio mental, as suas tendências e as suas aptidões? + +Pois se a psicologia tem progredido tanto que hoje há processos quási +tam seguros para fazer tudo isto, como há na clínica para estudar o +pulso ou a respiração, desconhecê-los não será, pelo menos, ser um +professor incompleto, atrazado, fóra do seu tempo? Sem dúvida que sim. + +Bem posso dizer como eu mesmo dizia no último Congresso Pedagógico de +Lisboa: «querer e crer que sem conhecimentos de pedologia, de higiene +escolar, de metodologia dos trabalhos manuais e da ginástica, possam +saír das nossas escolas normais professores dignos da nossa época, a +quem os governos possam confiar a educação das novas gerações, capazes, +como dizia, parece-me, numa das suas célebres lições de pedagogia, o meu +querido mestre, Dr. Bernardino Machado, capazes não só de +transmitir--_«em tôda a sua pureza o património da civilização dos +antepassados, a hercúlea fôrça atávica que nos pode permitir +reabilitar-nos perante a história»_--mas tambêm capazes de fazer tudo o +que fôr possível fazer-se para fomentar o progresso, melhorar a raça, +melhorar o solo, melhorar o país; querer que aqueles a quem compete +fazer e refazer a pátria, a façam e refaçam como noutros tempos, como no +nosso tempo já não deve fazer-se, é tão estulto como querer confiar hoje +a defeza da nossa terra aos heróis de outrora, a valentes de cota e +malha, ou os progressos do nosso comércio, às antigas e gloriosas +caravelas!» + +Van Bierveliet, da Universidade de Gand, numa das suas magistrais lições +de pedagogia scientífica, feitas para professores de instrução primária, +exprime-se assim: + +«Consideremos uma classe qualquer e interroguemos o professor; saberemos +logo que num conjunto de cincoenta alunos, por exemplo, se encontram +dois ou três que demostram uma grande diligência, e aceitam com prazer +tôdas as tarefas que se lhe impõem. Constituem os primeiros da classe, o +que pode chamar-se a _cabeça da classe_. Na grande massa dos alunos, +dominam aquêles em que o zêlo é moderado; cometem erros e sabem as suas +lições mais ou menos bem. Finalmente, um número mais ou menos +considerável da classe acha que a tarefa que se lhe impõe é demasiado +pesada e aborrecida; constitui o grupo dos _preguiçosos_, dos mandriões. +Estes, fazem os seus exercícios mal, ou nada fazem, e aprendem muito +pouco, uma ou outra pequena cousa, um ou outro fragmento de lição. As +classes apresentam uma cabeça, um corpo e uma cauda; geralmente a cabeça +é composta por dois ou três indivíduos e a cauda, pelo contrário, é +muitas vezes notavelmente desenvolvida; as classes são organismos por +vezes _microcéfalos_ (de cabeça pequena) e _macrures_ (de cauda grande). + +«A simples constatação dêste facto, basta para demonstrar que o regimen +escolar é pouco atraente para as inteligências em formação. + +«Se num jantar de cincoenta talheres se constatasse que três pessoas +sómente mostravam bom apetite, trinta comiam com repugnância e o resto +nada comia, concluir-se-ia, com alguma razão, que ou o _menú_ era +medíocre ou que os convivas tinham o estomago caprichoso e que por isso +lhes não convinham os pratos que lhes eram oferecidos ou destinados. O +mesmo se pode dizer das classes. Há inteligências excepcionalmente vivas +que assimilam tudo, como sucede com as pessoas que têm o que se usa +chamar estomago de avestruz, que tudo digerem. Há outras, pelo +contrário, que perante os conhecimentos apresentados, pelos métodos mais +correntes, se comportam como dispépticos da inteligência. Que se faz em +regra a estas? Castigam-se. Melhor fôra curá-las.» + +Melhor fôra, acrescento eu, saber conhecer o feitio mental dos alunos, +agrupá-los consoante as suas semelhanças e diferenças, e saber +administrar-lhes os mesmos conhecimentos por métodos diferentes, aqueles +que melhor se acomodem e mais convenham ao seu feitio. + +As mesmas doenças não se tratam sempre do mesmo modo; tem que se atender +ao doente. No ensino sucede a mesma coisa. Não se ensinam todos pelo +mesmo modo; tem que se atender ao aluno. + +Um professor de instrução primária não pode, não deve desconhecer, ao +entrar no exercício da sua profissão, a psicologia infantil e os +processos de a estudar e de a observar. Não basta conhecer a +_metodologia_, é necessário a _psicologia_. + +A metodologia deverá, de resto, ajustar-se à psicologia da classe e à do +aluno. + +Diz Claparède num livro, cuja leitura muito lhes aconselho (_Psychologie +de l'enfant_):«Muitas pessoas supõem que só a prática do ensino pode +formar o professor e dar-lhe a verdadeira experiência. Seguramente, a +importância da prática é capital para formar um especialista numa +determinada arte. Mas é preciso esforçar-se por reduzir ao mínimo as +experiências, as tentativas, sobretudo quando se trata de seres humanos. +O professor que entra na prática da sua profissão, sem ter o menor +conhecimento de psicologia, vê-se naturalmente reduzido a tentar, a +fazer experiências com que os alunos podem sofrer; é obrigado a +experimentar _in anima vili_, e algumas vezes essas experiências são +demasiado longas e peníveis para as gerações de alunos que as têm de +sofrer. Sem dúvida, a prática pode, dentro de certos limites, compensar +a insuficiência dos conhecimentos teóricos, mas à custa de quantos +rodeios e de quantos erros! Á força de construir pontes que abatem, ou +máquinas que estoiram e se escangalham, pode um técnico sem instrução +teórica acabar por ser um bom construtor e encontrar empíricamente as +fórmulas que êle é incapaz de calcular. Mas quem quereria semelhante +engenheiro? + +«Um professor sem educação psicológica está precisamente no mesmo caso, +com esta diferença, contudo: que, quando uma ponte tende a abater, no +decurso da sua construção, pode ser reparada imediatamente ou pode ser +refeita. Enquanto que se se trata de uma inteligência ou de um carácter +que erradamente se forçou ou tratou na sua evolução, só tarde se dá pelo +mal, quando êle já se não pode remediar, e nunca em nenhum caso se pode +refazer, reconstruir, fazer de novo outra inteligência ou outro +carácter.» + +Estas parábolas devem convencer as senhoras e os senhores normalistas da +utilidade do estudo da psicologia, do estudo das faculdades mentais, na +preparação dos professores de instrução primária. + +Mas que psicologia? + +Será a psicologia clássica dos compêndios de filosofia? Será a +psicologia especulativa? Será a psicologia, o conhecimento das +faculdades mentais pelo exame introspectivo de indivíduos excepcionais, +supra-normais quási sempre, filósofos que se deram ao trabalho de se +estudar a si mesmo? Não. + +A psicologia do adulto é diferente da da criança e o estudo desta não se +pode fundar no exame feito por ela própria. O estudo da psicologia da +criança é quási como o da dos animais. A criança não é um homem e é +quási tam diferente do homem como a lagarta da borboleta. Que se diria +de quem quizesse alimentar ou tratar a lagarta do bicho da sêda como a +sua borboleta, como êle na sua fase de insecto perfeito? E no entanto +lagarta e borboleta, tam diferentes na fórma e nos hábitos, são o mesmo +indivíduo. Assim sucede com cada um de nós, na sua fase infantil e na +sua fase adulta. + +A propósito da psicologia clássica, talvez com mais razão do que dizia +Binet da antiga pedagogia, se pudesse dizer: «deve ser completamente +suprimida», no ensino das escolas normais, acrescento eu. + +Eu sei com que razão se tem apresentado contra o ensino da pedologia, ou +estudo da criança, aos professores de instrução primária, o argumento de +que êle tem levado êstes a distrair-se das suas funções docentes, para +se dedicarem a estudos e experiências que não só prejudicam, porque +afastam o professor da sua principal missão: instruir e educar, como +tambêm porque o levam a fornecer dados que por insuficiência ou carência +de preparação scientífica, que só em cursos superiores e especiais se +pode adquirir, são em regra dados perdidos, cheios de erros, falseados, +quási inúteis para a sciência. + +Mas o que eu pretendo fazer não é preparar psicólogos, antropologistas, +filósofos; nem eu, nem ninguem deveria pretender fazê-los numa escola +normal primária, principalmente com as habilitações que os senhores +podem e devem ter. O que eu pretendo fazer é ensinar os principais +elementos de pedologia, que a sua preparação literária consente e que os +professores devem conhecer para melhor ensinar. + +Procurarei, em suma, ensinar _rudimentos de pedologia e as suas +aplicações ao ensino na escola primária_. + +Seria estulto que eu, médico antropologista, embora director de um +instituto de educação, eu que não fiz estudos regulares de metodologia +do ensino primário, nem nunca professei êsse ensino, viesse ensinar-lhes +todo o programa actual da pedagogia, sciência e arte de ensinar, como +seria igualmente estulto e injustificado que se exigisse a um professor +de instrução primária, que não tivesse feito estudos especiais de +antropologia, e não tivesse suficientes conhecimentos de +técnica-pedométrica, que ensinasse a pedologia, sciência que é +conveniente e, mais do que conveniente, indispensável ensinar ao futuro +professor. + +Não é preciso exagerar como Chaillou e Mac-Auliffe, quando na sua +_Morfologia médica_, dizem: «A educação é e continua a ser puramente +pedagógica. _Escapa ao único homem que deve dirigi-la, ao médico._» Não. +Mas é preciso dizer-se, porque é fácil provar que o é, que é necessário +que parte da preparação do professor primário seja feita por médico +especializado nas aplicações das sciências médicas à pedagogia, e que o +professor seja um auxiliar do médico. + +Os exercícios que habitualmente passarei, serão exercícios de educação +scientífica e neles terei em vista não só ensinar como se estuda e +desenvolve as faculdades da criança, mas tambem o ensinar a estudar e a +desenvolver as faculdades dos que a têm de educar. + +A S. Ex.^a o actual Ministro de Instrução Pública caberá a honra de ter +introduzido no quadro dos estudos do curso normal, o ensino regular da +pedologia. + +Por minha parte, procurarei corresponder aos desejos de S. Ex.^a o +Ministro, repartindo com todos os meus alunos o que da matéria souber e +com êles estudando o que fôr preciso estudar, pondo ao seu dispôr os +meus hábitos, os meus recursos e o meu método de trabalho. + +Que a dedicação e a lialdade com que sempre uso servir nos lugares para +que me nomeiam, possam compensar outras minhas faltas, que eu possa +provar ao digno director e ao ilustre corpo docente dêste +estabelecimento de instrução, a que agora muito me honro de pertencer, +quanto desejo contribuir para o bom nome e reputação desta Escola, e +finalmente que eu possa ter o maior e melhor pago que desejo ter: o +poder ouvir dizer aos meus alunos que na vida prática de bastante lhes +serviu o que procurei ensinar-lhes, os conhecimentos que lhes transmiti, +os hábitos que lhes criei e as prelecções que lhes fiz. + + + + +A ARTE DE EDUCAR E A PSICOLOGIA EXPERIMENTAL[2] + + + «To educate is to bring out all the powers that are in the child + and to traim him to use them to the best advantage of himself and + indirectly of the nation of which he is a part». + + (Miss C. Aguther, _Child Study_, June, 1917). + + + Minhas Senhoras e meus Senhores: + + +A arte de educar é fundamentalmente a arte de regular a conduta presente +e futura dos que se têm de educar. Implica forçosamente o conhecimento +da conduta, das causas dela, do seu mecanismo e das possibilidades que o +indivíduo oferece. A arte de educar assenta como a arte de curar, na +anatomia e na fisiologia e assim como o médico, médico que tenha de +exercer a profissão, tem não só de conhecer as doenças e os remédios, +mas tambêm conhecer os doentes e encontrar as indicações, assim tambêm o +educador, que tenha de educar, tem não só de conhecer os fins da +educação e os meios da educação, a pedagogia e a metodologia, mas tambêm +de saber conhecer o educando e encontrar a fórma de educação que mais +lhe convenha e se adapte ao seu feitio. E assim como para o estudo do +doente não basta conhecer os sintomas das doenças, porque é necessário +sabê-los observar, assim tambêm não basta ao educador conhecer os +fenómenos da educação, a psicologia, mesmo que esta tenha a feição +moderna e scientífica, e se chame psico-fisiologia ou psicologia +experimental, é necessário tambêm principalmente possuir a técnica da +observação e da experimentação. Saber psicologia pode não ser saber +fazer psicologia, como saber quais os sintomas das doenças pode não ser +saber observá-los e fazer diagnóstico. + +Ensinar num curso prático de psicologia experimental, que é como +oficialmente se chama o curso que tive a honra de ser chamado a reger, +ensinar nesse curso numa Escola Normal, é fundamentalmente ensinar o que +fôr preciso para habilitar os futuros professores a conhecer e praticar +os meios scientíficos de estudar práticamente os fenómenos mentais, isto +é, possuir as regras e os meios de condicionar êsses fenómenos, por +fórma a que outros os possam observar nas mesmas condições, e +verificá-los. + +Educar não é hoje, como noutros tempos se supunha, criar, é +essencialmente orientar. Não é lutar contra a natureza. O educador dos +homens como o educador dos animais, tem que aproveitar as boas +tendências, os talentos, para os enriquecer e desenvolver, como dos +instintos diz o educador e moralista Foerster, falando do ensino dos +animais. E quanto às más tendências, tem que saber inibi-las, ou +sublimá-las. Talvez que nesta altura, para lhes dar uma exacta idea +acêrca do valor e possibilidades do ensino e quebrar-lhes preconceitos +que a todos os professores desta Escola pertence o combater, e isto, por +minha parte, na intenção de aproveitar o pretexto de demonstrar que a +arte de educar hoje assenta e quási se confunde com a arte de estudar os +fenómenos psíquicos, com a psico-técnica, talvez que, para isso, não +lhes pudesse de momento aconselhar melhor leitura, como leitura prévia, +do que a do livrinho _Criminalidade e Educação_, do Sr. Padre António de +Oliveira que não é só, como todos sabem, uma admirável figura de +filântropo, mas, mais do que isso, uma figura notável de educador, com +vocação e larga e valiosíssima experiência. + +É preciso que a arte de educar seja como a arte de curar. + +É necessário ouvir tambêm o prático, ouvir o que educa, ouvir o que +cura, sobretudo quando sucede como deve ser, que a arte que praticam +seja arte esclarecida pela sciência, e não simples empirismo. + +Educar é condicionar intencionalmente as reacções do indivíduo. Educar, +portanto, implica, primeiro do que tudo, o saber estudar as causas e +mecanismo das reacções individuais. E o estudo dessas reacções feito +experimentalmente tem o maior interêsse e importância para o educador. +Muitas dessas reacções são de ordem interna e só o próprio indivíduo as +pode observar directamente, mas essas mesmas são acompanhadas doutras +reacções, acessíveis ao estudo directo dos outros e portanto podem ser +estudadas objectivamente, sem intervenção do exame dos próprios em que +elas se dão. O educador, em resumo, tem de estudar o mecanismo das +reacções individuais e a maneira scientífica de as condicionar. + +De acôrdo com estas ideas, já a dentro da velha Escola Normal, onde tive +a honra de reger durante alguns anos o _Curso de Pedologia_, o meu +distinto colega naquela e nesta Escola Sr. Professor Dr. Alberto +Pimentel, cujo livrinho de lições lhes aconselho, procurou orientar o +ensino teórico da Psicologia. Eu, por minha parte, completarei êsse +trabalho ensinando-lhes a técnica dos estudos psicológicos, segundo essa +orientação. + +Disse eu que a psicologia experimental se prende tanto com a arte de +educar, que por vezes até quási se confunde com ela. Não é quási se +confunde, confunde-se até. Em psicologia animal, ramo da psicologia +quási desconhecido entre nós, a psicologia experimental funda-se na +_educabilidade_, é o proprio exame da educabilidade, é a propria arte da +educação exercida com o fim de estudar os fenómenos e os recursos +mentais do animal. + +Vejam por exemplo, para fácilmente e sob uma fórma agradável apreenderem +melhor o assunto, o excelente livrinho de Hache-Souplet, director do +Instituto de Psicologia Zoológica, intitulado _De l'animal à l'enfant_ +(Bibl. de ph. contemporaine) e que se pode considerar um pequeno manual +adoptável na preparação dos professores de ensino infantil. + +Não se surpreendam com êste atrevido conselho de lhes indicar um livro +de psicologia zoológica, como meio de preparação pedagógica. Há grandes +afinidades entre a psicologia dos animais superiores e a das crianças e +sobretudo é a estas duas psicologias, a zoológica e a infantil, que é, +quando não indispensável, pelo menos mais necessária a prática dos +métodos da psicologia objectiva. Num dos melhores e mais modernos livros +de _psicologia pedagógica_, o de Thorndike, notável professor de +psicologia pedagógica numa escola de mestres, têm um livro cheio de +estudos interessantes de psicologia zoológica sôbre a inteligência dos +animais, estudada pelos meios da psicologia experimental; e o afamado e +emérito psicólogo suisso, cujo nome já vai sendo banal citar entre nós, +o Professor Claparède disse, ao publicar o programa do Instituto de +Sciências da Educação de Genebra: «Para ser completa uma escola de +sciências da educação deveria possuir um serviço anexo..., quero dizer, +um laboratório de psicologia animal...» + +Adestrar um animal, regular-lhe a conduta, é aprender muitas vezes a +ensinar uma criança. Algumas vezes, por isso, recorrerei, se as +circunstâncias o permitirem, a alguns exercícios de psicologia animal, +para lhes esclarecer uma ou outra questão psicotécnica pedagógica. + +O exame objectivo das reacções será o escopo principal do meu curso. +Curso prático de psicologia objectiva podia bem ser o título a dar-lhe. +Psicologia objectiva não quere porêm dizer, que seja exclusivamente um +curso de psico-fisiologia, como muitos podem supor. A psico-fisiologia é +apenas uma parte da psicologia objectiva, aquela em que se estudam as +variações fisiológicas, própriamente ditas, que acompanham ou +condicionam os fenómenos mentais. As reacções exteriorizam-se tambêm por +outras fórmas, que não podem sómente ser estudadas pelos métodos da +fisiologia. O estudo das reacções provocadas por certos reagentes +mentais é um verdadeiro estudo pedagógico. Outra cousa não é a maior +parte das vezes o estudo dos chamados _tests_, como é por exemplo o dos +_tests_ para a medida da inteligência, de que por certo já têm ouvido +falar e talvez tenham já visto descritos. + +A psicologia experimental será talvez ainda preferível à psicologia +objectiva, porque a psicologia experimental atinge tambêm o estudo +introspectivo dos fenómenos mentais, o seu estudo directo, e êste +há-de-nos ser preciso quando se tratar do estudo da psicologia do +professor, da psicologia de quem ensina, porque o ensino não depende só +da psicologia do educando, mas tambêm da do educador, e bom é que êste +aprenda a saber examinar-se, a estudar as reacções que o aluno e a +escola nele determinam para examinar a sua aptidão, e a corrigir vícios +de reacção, que são por vezes causa de graves perturbações escolares. +Não é só o aluno anormal que perturba a classe, é o professor anormal, é +o que não se adapta à profissão, é o que não a sabe praticar, por falta +de cultura ou por falta de intuìção. + +No aluno professor poder-se há com vantagem praticar a psicologia +experimental subjectiva. A psicologia experimental não é apenas a +psicologia objectiva, repito. E a propósito lembrarei as palavras do +fisiologista francês Prof. Ch. Richet: «A observação interior constitui +uma psicologia de observação tam fecunda, tam legítima, como a +psicologia a mais experimental que se possa imaginar. Os factos assim +adquiridos pelo estudo do _eu_ têm tanto valor como os fenómenos +fisiológicos registados nos laboratórios pelos métodos mais +aperfeiçoados da técnica contemporânea.» + +Apesar de tudo, porém, o nosso curso será principalmente um curso de +técnica objectiva, porque êle visa, primeiro do que tudo, o estudo +psicológico do educando e porque é minha tenção, mesmo quando se trate +da prática da psicologia subjectiva, recorrer a ela apenas como um +auxiliar da psicologia objectiva. A propósito recordo os dizeres do +grande Binet: «Em nossa opinião, diz êle, não é preciso procurar limitar +e simplificar as respostas do indivíduo em experiência, é preciso, pelo +contrário, deixar-lhe a plena liberdade de exprimir o que sente, e mesmo +convidá-lo a expressamente se observar de perto durante o decurso da +experiência; esta maneira de proceder tem a vantagem de não restringir a +investigação ao círculo da idea preconcebida: podem-se constatar muitas +vezes factos novos e não previstos, que muitas vezes tambêm permitem +compreender o mecanismo dum certo estado de consciência.» + +Com felicidade, pois, se chamou «Curso prático de psicologia +experimental» ao curso de técnica psicológica desta Escola, criado pelo +Sr. Ministro de Instrução, Prof. Dr. Alfredo de Magalhães, cujo nome +deve merecer sempre a todos nós, desta Escola Normal, uma grata +homenagem, pela atenção que lhe merecemos e pelo entusiasmo, apaixonado +entusiasmo e energia, com que procurou instalar e proteger a nova +Escola. O curso prático, e acentuo a palavra prático, de psicologia +experimental será uma maneira de logo, desde o início da freqùência da +Escola Normal, habituar o futuro professor, a sentir-se professor, a +despertar-lhe e trenar-lhe a aptidão, a pô-lo em contacto real, directo, +concreto com a massa que tem de trabalhar, com a sublime argila que tem +de moldar: a alma tal qual ela é. + +Trabalhar a alma da criança com alma e com arte, com arte e com acêrto, +com acêrto e com sciência, tal é o nosso escopo. + +A psicologia que havemos de praticar, será, mais uma vez o digo, de +carácter principalmente objectivo, não só pela dificuldade, se não +impossibilidade, do exame subjectivo no meio e com os indivíduos que +temos de trabalhar, não só porque o exame objectivo constitúi uma fórma +excelente de fazer a educação scientífica do aluno professor, de dar-lhe +hábitos de observação e experiência extrospectivos ou melhor exteriores, +essenciais à arte de educar, mas tambêm porque em psicologia, pode-se +dizer, que o que mais importa ao educador são os actos psíquicos, os +fenómenos mentais de que introspectivamente se tem menos conhecimento. + +Em psicologia pedagógica o sub-consciente vale mais que o consciente. E +mesmo quando ao educador compete regular o comportamento do adulto, +quando ao educador compete fazer reeducação, compete-lhe principalmente +examinar o sub-consciente, porque é nele que se guarda a fôrça que a +experiência anterior gerou e que regula e influi, por vezes, mais do que +nenhuma, no comportamento do indivíduo. + +A conduta é principalmente governada pelo sub-consciente e neste tem +tanta influência a infância, o que ela foi em cada um, que quando a +fadiga ou a doença perturba o exame introspectivo e a fiscalização, +censura e govêrno, que por meio dele podemos exercer nos nossos actos, é +a mentalidade infantil que aparece, se exterioriza e nos revela, tal +como fomos e no íntimo somos. + +Uma escola de psicologia há até, que hoje já invadiu a filosofia, a +medicina e a pedagogia, que assenta tôda no estudo do sub-consciente e +particularmente na pesquisa das impressões que nele gravou a vida +sexual. Refiro-me à _psico-análise_, de Freud e seus sequazes, que, +apesar dos ataques violentos que tem sofrido, mormente depois da +declaração da última guerra (mais talvez por xenofobia do que por outra +cousa), contém muito de verdade. Tirado o que há de místico, de +escabroso e de exagerado no seu pansexualismo, a psico-análise pode e +deve ser conhecida pelo educador. E, para terminar com estas referências +à questão da importância do consciente e do sub-consciente em educação, +lembrarei a já banalizada definição de Gustavo Le Bon: _A educação é a +arte de fazer passar do consciente para o inconsciente_. A reeducação, +essa é muitas vezes o trabalho oposto, digo eu, o de trazer do +inconsciente ao consciente, para transformar e depois voltar a tornar +inconsciente. + +A educação, na idea de Bacon, é o conjunto dos hábitos adquiridos na +infância. A reeducação é muitas vezes a correcção dêsses hábitos; mas +tanto em educação como em reeducação há que aproveitar a Natureza, +porque ela, ainda segundo Bacon, não se governa, senão deixando-a +governar, conhecendo-a, aproveitando-a, seguindo-a. + + + Meus Alunos: + + +A arte de educar, como logo no princípio eu disse, é a arte de regular a +conduta presente e futura do educando, e a psicologia experimental, de +escôpo pedagógico, é a psicologia que pela experiência ensina a conhecer +as causas, o mecanismo da conduta do indivíduo ou da classe a educar. + +Psicologia experimental é quási pedagogia experimental. E não imaginem +que esta pedagogia experimental é menos do que a outra, porque não tem +em conta os ideais, a parte política, religiosa, social, a finalidade da +educação. Não. + +O Ideal quando não é factor da acção, é produto da acção, ou as duas +cousas ao mesmo tempo, factor e produto da experiência pessoal, e o que +nós vamos aprender é a arte de estudar práticamente, experimentalmente, +os factores e o mecanismo da acção, ou melhor das reacções do indivíduo +sujeito à influência dos meios, isto é, ainda a parte prática, +experimental, utilitária, debaixo do ponto de vista educativo, que +talvez melhor do que psicologia, se poderia chamar, à maneira de +Bechterew, a _reflexologia pedagógica_, e nela bem podemos estudar o +valor, a acção e a formação dos ideais. + +Com isto declaro aberto o «Curso prático de psicologia experimental», +que neste semestre será essencialmente um curso de propedêutica, +destinado ao estudo das noções preliminares e fundamentais de anatomia, +fisiologia e psicologia, que mais importam à _psico-técnica_... + +Disse. + + +15-III-919. + + + + +O PÊSO DO CORPO DA CRIANÇA[3] + + + + Meus Alunos + Senhoras e Senhores + + +Quiz um pouco o acaso que o _pêso do corpo da criança_ fôsse o tema da +minha última lição. O fim do ano, como sabeis, veio-nos surpreender num +ponto ainda atrasado do programa a que me obrigára: o estudo dos métodos +da pedologia somática, particularmente da pedometria e com ela o dos +principais caractéres métricos da criança. O pêso do corpo da criança +terá que ser o tema da lição de encerramento do meu curso dêste ano. E, +embora pareça o contrário, talvez não pudesse encontrar melhor tema para +encerrar o concurso. + +A lição de abertura que vos li foi, como devia ser, uma lição-programa e +uma lição-promessa. Na lição de encerramento que vou ler-vos tambêm, +procurarei fazer com que ela seja o que deve ser uma lição de +encerramento: uma lição em que até certo ponto se recapitulem as noções +principais expostas durante o curso, uma lição-conclusão, e uma lição em +que se procure provar a realização de algumas das promessas que se +haviam feito na lição inicial. + +A criança é fundamentalmente um ser humano em via de crescimento; é um +homem ou uma mulher em via de formação. A sua principal função é +crescer, procurando atingir a grandeza que a hereditariedade lhe +destinou e alcançar o equilíbrio morfológico e fisiológico do adulto, +que constitui a perfeição do ser. Respeitar o crescimento, a lei natural +do crescimento, é o principal dever do educador, e tôda a educação se +tem de subordinar a esta questão de medida: _não perturbar a lei natural +do crescimento_. + +O pêso não cresce como deve ser? Diminui, pára, aumenta de mais ou de +menos? Um problema se põe. O regimen de vida ou de educação +provavelmente não é o que convêm. Modifique-se e observe-se, por exemplo +por meio da balança, a influência das modificações. A balança guia a +higiene, e na higiene assenta a educação. Por isso, com razão dizia eu +no Congresso da Liga Nacional contra a Tuberculose, em 1907, e o repetia +no Congresso Pedagógico do ano passado: «O problema escolar é +essencialmente um problema métrico.» + +Mas mesmo que a medida do pêso e sobretudo a da sua evolução não +servisse, como serve, para julgar da saúde e do estado da nutrição da +criança e por êle aferir o valor do meio em que a criança vive e dos +meios educativos de que se serve quem dela cuida, mesmo que o estudo das +variações do pêso não tivesse grande significação para os educadores, +ainda assim, como muitas vezes vos tenho dito, valeria a pena ensinar o +professor a pesar a criança. Mais do que uma vez, na realidade, vos +tenho afirmado que uma das vantagens do ensino da pedologia aos futuros +professores está em ela servir excelentemente para fazer a sua educação +scientífica, para os ensinar a observar, a descrever, a medir, a +experimentar, a analisar e a criticar, para aperfeiçoar o _bom senso_, +que é a mesma cousa que o espírito scientífico, que permite sentir e +descobrir a realidade e medir a possibilidade. O _bom senso_ é a +principal qualidade de carácter de qualquer e principalmente do +professor. + +Aprender a pesar é aprender a julgar, e com razão, por isso, um médico +francês, o Dr. Baudrand, numa tese extensa e notável sôbre o +crescimento, diz: «Um médico que regista o pêso assemelha-se ao +magistrado que aprecia o valor de um prejuízo e calcula o valor da +indemnização.» + +A pesagem tem ainda sôbre outras muitas medidas pedométricas a vantagem +de ser a mais fácil de tôdas; nem exige instrumentos especiais, nem +técnica muito diferente da das pesagens mais comuns e, porque está +sujeita a menos erros, permite ao professor ou ao médico não ser tão +fácilmente logrado, como sucede com muitas outras medidas pedométricas, +que praticadas mesmo às vezes por quem tenha cultura especial levam a +conclusões falsas, a listas de números que outra cousa não são mais do +que números, vistosos na aparência, mas vazios na significação. + +_Meçam sim, mas meçam só aquilo que fôr fácil de medir, menos sujeito a +erros e que sirva para julgar da saúde do educando, e das influências +que sôbre êle tem o regimen de vida e os métodos de ensino._ + +Mais uma vez insisto, chamando-lhes a atenção para a obrigação que +têm--quando medirem e quizerem apresentar os resultados de suas +medições--de exporem minuciosamente o _modus faciendi_ que adoptaram e +se darem ao trabalho de, pelo menos nas primeiras medidas, repeti-las +algumas vezes, no mesmo sujeito e na mesma sessão, para verificar a +técnica. O observador não tem só que conquistar a confiança dos outros, +precisa tambêm de conquistar a sua própria. + +O pêso do corpo do escolar, não obstante haver balanças especiais, pode +tomar-se com uma balança décimal ordinária, aferida, e convêm que +quando, por qualquer razão, se não possa despir completamente a criança, +ela tenha sôbre si o menor número possível de peças de vestuário: um +leve calção nos rapazes, uma simples saia ou uma saia e um corpete nas +raparigas. A pesagem deve fazer-se no mesmo indivíduo, sempre à mesma +hora, de preferência de manhã, e nas condições o mais idênticas que fôr +possível. Convêm tambêm repetir a pesagem em cada ano, com intervalo de +semestre, por exemplo. + +Podem parecer exageradas as precauções que acabo de aconselhar, mas não +o são por que é bom saber-se que as variações do pêso não são sempre +sinal de crescimento, e porque tambêm está provado que o pêso da criança +como o do adulto oscila durante o dia, e de época para época do ano. + +_Há oscilações regulares diárias do pêso_. De manhã, ao levantar da +cama, todos pesam menos do que à noite. Esta diferença de pêso chega a +ser, numa criança de dez anos, de setecentos gramas, e num adulto pode +chegar a um quilo (Camerer), quilo e meio (Ammon). Parece resultar êste +facto de que durante o dia, as perdas que se sofrem por saída de +substâncias do organismo são compensadas pela entrada de substâncias +reparadoras, enquanto que durante a noite as perdas não são compensadas. +Nos adultos a diminuição do pêso durante a noite é em média igual à +elevação do pêso durante o dia, mas nas crianças a diminuição do pêso +durante a noite é menor do que a elevação durante o dia, o que +corresponde ao crescimento. + +Pode algumas vezes observar-se uma diferença de gramas a mais, +simplesmente porque o intestino ainda não se esvaziou. + +As estações influem tambêm e produzem oscilações no pêso. Está provado +que êste aumenta mais de agosto a dezembro do que de abril a junho. O +aumento máximo verifica-se no primeiro período apresentado e o mínimo no +segundo. De dezembro a abril o valor do aumento é intermédio. Estas +oscilações podem depender ou resultar de desarranjos que o organismo +experimenta com as mudanças de estação e tambêm com mudança de hábitos +que podem levar a aumentar ou a diminuir as perdas. A sudação e os +jogos, por exemplo, tudo que modifica a função dos emuntórios ou a +desassimilação, tudo pode influir. Aos factores metereológicos devem +juntar-se os da _metereologia do ensino_, os exames por exemplo, que +desarranjam e consomem. O conhecimento dêstes factos levou-me a +determinar, de acordo com o distinto médico-inspector da Casa Pia e seu +professor, Dr. Jorge Cid, que a medida e observação periódica de todos +os alunos fôsse feita duas vezes ao ano, nos primeiros meses do ano +lectivo, a começar em outubro, e naqueles que imediatamente precedem as +férias grandes, nos três últimos. + +Ás vezes, com a melhoria da alimentação, com a mudança de ares, com a +liberdade, a criança aumenta extraordináriamente de pêso, como por ex. +observei na _colónia de férias_, instalada na Figueira da Foz, por +iniciativa e sob a protecção do meu mestre Dr. Bernardino +Machado,--colónia em que vi crianças aumentarem _cinco vezes mais_ do +que em igual período aumentaram alunos da mesma idade, dum colégio +excelente, como é o Colégio Militar (vidè medidas do Dr. Mascarenhas de +Melo, apresentadas no Congresso Internacional de Medicina de 1906, e o +meu artigo, _Uma_ _colónia de férias_, publicado no _Boletim da +Assistência Nacional aos Tuberculosos_, em 1908). + +Êste facto, que tem sido observado por vários, dos grandes aumentos de +pêso que, às vezes mesmo ao fim de quinze dias, se notam nas _colónias +de férias_ das crianças pobres das cidades, dessas que eu chamei em +tempos pobres _exilados da Natureza_, mostra bem a importância destas +instituições peri-escolares: as _colónias_, para que me não canso de vos +chamar a atenção, instigando-vos a promover sempre que vos fôr possível +a sua organização, mas sempre com o auxílio do médico, a quem cabe a +selecção dos casos e a indicação daqueles a quem convêm a praia e +daqueloutros a quem o campo mais convêm. + +Na apreciação do pêso do aluno deve ter-se em vista mais a fórma porque +êle cresce do que a diferença do seu pêso para a média dos da sua idade. +Muito seria para desejar que à semelhança do que se faz, por ex. em +Bruxelas, o professor dispuzesse de uns cartões quadriculados onde +apontasse o pêso do corpo de seu aluno em cada ano e fôsse traçando a +curva da sua variação ao lado da curva média normal, que convinha se +tratasse de obter com dados colhidos entre nós. Muito convinha, direi de +passagem, que se generalizasse o uso da _Caderneta da mocidade, da +Instrução militar preparatória_, tal como está, ou melhor, +_simplificada_. + +Nem a todos é destinado o mesmo tamanho: há crianças leves e crianças +pesadas, como há indivíduos altos e indivíduos baixos, indivíduos loiros +e indivíduos morenos. A inferioridade do pêso, por isso, nem sempre +significa que a criança sofre. Mas acresce a isto o não termos ainda, +nós portugueses, médias nossas, pelas quais nos possâmos seguramente +guiar. A raça influi no pêso, e a composição étnica de cada povo deve +influir na média do pêso absoluto da sua população, em cada idade. Para +as raparigas portuguesas não conheço tabela alguma; para os rapazes +costumo guiar-me, enquanto não organizo uma tabela com os pêsos +observados nos rapazes da Casa Pia, costumo guiar-me, dizia, pelas +observações do Dr. Mascarenhas de Melo, publicadas nos _Anuários do +Colégio Militar_ e de que aquele meu distinto colega fez um apanhado na +sua comunicação ao Congresso Internacional de Medicina, realizado em +Lisboa em 1906, comunicação intitulada: _Sur l'Antropométrie médicale_. +As tabelas do Dr. Mascarenhas de Melo servem, porêm, apenas para o +estudo do pêso dos dez aos dezanove anos. Sôbre estas observações e +sôbre pedometria escolar podem vêr um pequeno relatório que com o +título--_Antropometria escolar_--escrevi para o Congresso da Liga contra +a Tuberculose de 1907 e que com poucas modificações foi reimpresso o ano +passado, por ocasião do Congresso Pedagógico de Lisboa[4]. + +A título de curiosidade porei em face umas das outras algumas médias das +tabelas do Dr. Mascarenhas de Melo (observações portuguesas) e algumas +extraídas dum trabalho de Camerer, de Stuttgart: + + ++---------+-------------+-------------+-------------+ +| | Rapazes | | | +| Idades | (Masc.^{as} | Rapazes | Raparigas | +| | de Melo) | (Camerer) | (Camerer) | ++---------+-------------+-------------+-------------+ +| 10 anos | 29 kg. | 30 kg. | 27 kg. | +| 11 » | 30,5 » | 32,5 » | 29 » | +| 12 » | 33 » | 35 » | 32 » | +| 13 » | 36,5 » | 37,5 » | 37 » | +| 14 » | 42 » | 41 » | 43 » | +| 15 » | 47 » | 45 » | 48 » | ++---------+-------------+-------------+-------------+ + + +Uma alemã parece pesar, a partir dos catorze anos, mais do que uma +portuguesa da mesma idade. + +Estas médias são às vezes assombrosamente excedidas, nos casos de +obesidade. Neste momento estou tratando na minha clínica particular de +um rapaz de quinze anos, um obeso com gigantismo, obeso +hipófiso-genital, que pesa bastante mais de cem quilos! + +O primeiro ano da vida é aquele em que o pêso aumenta mais. Em média, +segundo Camerer, por ex. ao nascer, um rapaz pesa três quilos e +quatrocentos gramas e uma rapariga três quilos e duzentos gramas. Na +Maternidade de Lisboa, no tempo do Prof. Alfredo da Costa (1899-1904), a +média do pêso dos rapazes foi de 3^{kg},236 e a do das raparigas +3^{kg},103. + +Nos dois primeiros dias a criança perde uns duzentos gramas, mas ao +oitavo ou ao nono recupera o pêso da nascença. O aumento diário das +crianças criadas ao peito, ainda por ex. segundo Camerer, anda por uns +30 gr. até à quarta semana, de 26-28 da quinta à décima segunda, de +20-24 da décima terceira à vigésima, de 16-18 da vigésima primeira à +trigésima sexta, e de 10-15 da trigésima sétima à quinquagésima segunda. + +_No quinto mês da vida, em regra, a criança dobra de pêso, e ao fim do +primeiro ano costuma tê-lo triplicado._ Pode dizer-se que nos cinco +primeiros meses o aumento é de cêrca de setecentos gramas por mês; nos +cinco meses seguintes é metade menor. Daqui a regra indicada por Terrien +para calcular o pêso de uma criança de peito durante o primeiro ano: +para os cinco primeiros meses, multiplicar 700 pelo número de meses que +a criança tem e juntar ao produto o pêso que ela tinha à nascença; para +os cinco meses seguintes, multiplicar 350 pelo número de meses que ela +tem _alêm do 5.^o_, e juntar-lhe o pêso do quinto mês, isto é, o dôbro +do pêso à nascença. + +«No segundo ano de vida o aumento de pêso é notavelmente menor que no +primeiro e chega tam só, tanto nos rapazes como nas raparigas, a cêrca +de dois quilos e meio; dos três aos cinco anos o crescimento diminui um +pouco mais, não passando de um a dois quilos por ano. Finalmente, ao fim +do quinto ano os rapazes vêem a ter 18 quilos e as raparigas 17. A +partir desta idade, até aos catorze anos, os _rapazes_ aumentam de 2 a 3 +quilos; segue-se depois dos _quinze aos dezóito_ um período de maior +crescimento, com aumento anual que pode chegar a oito quilos. Nas +_raparigas_ o acréscimo anual pode manter-se até aos doze anos à volta +de dois quilos, e dos _13 aos 16_ o aumento anda por uns 4 a 5 quilos. A +partir dos _16 nas raparigas_ e dos _19 nos rapazes_, o acréscimo pode +cessar. Em regra, porêm, poucos são os indivíduos nos quais permanece +estacionário o pêso adquirido aos 16 ou aos 19.» (Camerer). + +Duma longa série de observações feitas em crianças portuguesas de +escolas primárias oficiais do Alentejo e de escolas primárias não +oficiais de Lisboa, série infelizmente pouco homogénea e insuficiente +para algumas idades, dessa longa série de observações feitas pelo Dr. +Moraes Manchego e pelo Sr. Major Desidério Beça, tirou o Dr. Manchego os +elementos com que construiu uma curva de crescimento do pêso em +portugueses de 6 a 19 anos de idade, curva que conjuntamente com algumas +tabelas interessantes, foi apresentada num trabalho daquele distinto +médico:--_Contribuição ao estudo do crescimento da criança portuguesa_ +(Trabalhos do 3.^o Congresso Pedagógico, realizado em abril de 1912, por +iniciativa da Liga Nacional de Instrução[5]. Por ser interessante e +dizer respeito a observações portuguesas, transcrevo dêsse trabalho, +digno de apreço, as seguintes linhas:--«Na curva portuguesa há +primeiramente um pequeno acréscimo com o máximo nos 8 anos, que joga +perfeitamente com o acidente similar já apontado no mesmo trôço da curva +homóloga da estatura, depois vem um crescimento quási insensível até aos +12 anos; a seguir apresenta-se uma depressão, e aos 13 anos começa o +crescimento muito intensivo com o máximo absoluto aos 16 (êste acréscimo +é de 6^{k},8); depois desta idade a curva desce muito de ano para ano, +sendo o acréscimo para os 19 anos apenas de 1^{k},5. O aumento de pêso +dos 6 aos 19 anos é de 36^{k},8, isto é, o pêso que aos 14 anos já +duplicou é aos 19 superior ao triplo do que corresponde aos 6 anos.» + +O que convêm, porêm, principalmente fixar é que durante o crescimento se +observam dois períodos de crescimento máximo: o primeiro período +corresponde ao primeiro ano da vida, e o segundo nas _raparigas_ ao que +vai dos _doze aos dezasseis anos_ e nos _rapazes_ dos _quinze aos +dezóito_. O primeiro dêstes períodos é, como diz Camerer, uma +continuação da excessiva energia fetal do crescimento (lembremo-nos, +como faz notar Variot, que em nove meses se passa de um óvulo de duas +décimas de milímetro a um féto que mede meio metro e pesa cêrca de três +quilos!) + +O segundo período de crescimento máximo corresponde, tanto nos rapazes +como nas raparigas, à puberdade. + +As condições de vida das mães influem no pêso dos filhos. Sem ir buscar +exemplos lá de fóra, basta dizer-lhes, para documentar a afirmação, que +o falecido e ilustre professor da Escola Médica de Lisboa, Alfredo da +Costa, encontrou notáveis diferenças entre os pesos à nascença dos +filhos de mulheres que passaram os últimos tempos da gravidez em repouso +e tranquilidade moral e os daquelas que pelo contrário até ao último +momento trabalharam e viveram na miséria. As crianças destas últimas +pesavam sempre menos. + +Niceforo, no seu afamado volume--_Les Classes Pauvres_,--publica um +quadro comparativo do pêso médio de umas séries de rapazes e raparigas, +por onde se vê que o pêso médio é mais baixo nas crianças pobres do que +nas ricas, da mesma idade. + +Ley e outros verificaram que em regra as crianças atardadas são +inferiores em pêso aos normais que em idade lhes correspondem. E Sluys, +o antigo e illustre director da Escola Normal de Bruxelas, num +interessante opúsculo que muito vos recomendo--_Loi de +Croissance_,--chama a atenção para o emmagrecimento dos sobreexcitados e +sobrecarregados pelos trabalhos de preparação dos exames[6]. E já que +acidentalmente vos recomendei a leitura dêste livro sôbre as variações +do pêso do corpo da criança, não quero deixar de vos aconselhar tambêm a +leitura do que escreveu e das tabelas que sôbre o pêso publicou nas suas +_Lições de Pedologia_ o nosso distinto conterrâneo Dr. Faria e +Vasconcelos, professor em Bruxelas, de quem por várias vezes tenho tido +o prazer de vos falar. + +Afinal a balança, como fiz vêr, pesa, mede a marcha da nutrição e +permite apreciar as condições de vida e os regimens de trabalho. +Perturbar o crescimento é perturbar a vida, é afrouxar os meios de +defesa, é predispor para a doença, é inferiorisar o indivíduo. + +Foi minha tenção ler-vos esta lição de encerramento do curso, no +_Lactário de Lisboa_, instituição que eu muito desejava que visitasseis +em minha companhia. + +De facto, em nenhum sítio melhor eu poderia mostrar o valor da medida do +pêso nas crianças. Nos lactários, nessas benemeritas instituições +destinadas a distribuir leite para alimentação artificial das crianças, +cujas mães, por doença, e as mais das vezes apenas por imposição do +trabalho, não podem amamentar, a balança não é apenas um meio de estudar +o crescimento, é um meio de salvar a vida. A aleitação artificial +desregrada é uma espécie de infanticídio que vitíma muitas crianças. +Graças à balança, o médico pode dirigir a alimentação por fórma a evitar +muitos e danosos males. + +Mas, meus alunos, os lactários e as consultas para recemnascidos não são +apenas laboratórios de pesagem e agências de alimentação láctea. São +verdadeiras escolas que em muita parte com êxito freqùentam normalistas +como vós, que ali vão aprender a alimentar e a tratar de crianças. + +Para o ano, se me fôr permitido e se se me oferecer, como espero, +ocasião e facilidade, procurarei fazer com que o _Lactário_ e o +_Instituto de Puericultura_, da rua Alexandre Herculano, para que agora +chamo a vossa atenção, se relacionem com esta Escola Normal. + +A preparação do professor deve ser uma espécie de preparação materna. + +Professoras ou professores só têm a ganhar com se habituarem a lidar +desde muito cedo com crianças, e a estudá-las, estimá-las como pais. E +êste deve ser a meu vêr o principal fim da co-educação na Escola Normal. + +De resto, eu quereria que desde o primeiro ano do curso, alunos e alunas +estudassem Pedologia para se habituarem a viver com as crianças, para se +habituarem a vê-las não só no mutismo e no rijo formalismo, muitas vezes +necessário, das aulas, onde se lhes estanha a fisionomia, se lhes +paralisam os movimentos, se lhes esconde a graça, se lhes abafam os +sorrisos, se lhes sufocam os cantares, mas tambêm para se habituarem a +vê-las, e lidar com elas, quando em plena liberdade, com a eloqùência da +sua mímica, com a alacridade dos seus gritos, esfusiando alegria, +irradiando afectividade, nos prendem, nos alegram, nos comovem, nos +enternecem, nos interessam e nos fazem estimá-las, compreendê-las, +protejê-las, e educá-las. + +Meditai as palavras de Waynbaum, com que terminarei a minha lição e que +se referem à fisionomia da criança: + +«A voz do sangue, o amor da progenitura, o instinto natural pouco entram +na constituição dêste sentimento sólido e orgânico que fórma o amor do +pai pelo seu filho. Estes laços naturais, hereditários, existem +certamente, mas não valem o laço que a própria criança cria e faz +aparecer no nosso coração, êsse laço que é uma arma poderosa que a +natureza lhe deu e de que ela largamente usa para se prender a nós, para +se tornar uma parte de nós mesmos.» + +Meus alunos, senhoras e senhores, que em breve todos sejais professores. + +Futuros pais, sêde bons professores: _futuros professores, sêde como +pais_[7]. + + +Lisboa, 19-IV-915. + + + + +A AGUDEZA VISUAL E A AUDITIVA DEBAIXO DO PONTO DE VISTA PEDAGÓGICO[8] + + + + Minhas Senhoras e Meus Senhores + Meus Alunos + + +Sejam as minhas primeiras palavras, no dia de hoje, de saúdação e +agradecimento e principalmente de agradecimento para com S. Ex.^a o +actual Ministro da Instrução Sr. Prof. Ferreira de Simas, e para com o +Conselho desta Escola a quem sobretudo devo a honra de poder novamente +retomar êste logar, grato para mim como nenhum outro, e onde poderei +continuar a série de lições que o ano passado iniciei, desejando e +esperando que elas, pelo menos, sejam tam atentamente ouvidas e tam +proveitosas como o ano passado tenho a certeza que foram. + + + + Meus Alunos + + +Posso dizer que a lição que vou fazer-vos, embora seja a lição de +abertura do meu curso dêste ano, não é no entanto a primeira lição que +êste ano vos dou. A primeira foi aquela que cada um de vós recebeu, +quando eu, acedendo ao criterioso convite do Sr. prof. Tiago da Fonseca, +secretário desta Escola, procedi à medida da agudeza visual e da +auditiva de cada um dos que pretendiam matricular-se, a fim de que na +sua distribuição pelas turmas e pelas salas se atendesse às indicações +tiradas daquele utilíssimo exame. + +Procedi a êsse exame não como médico, mas como professor, e procedi por +fórma a dar-lhes uma norma de inspecção, segundo a qual todos, no +exercício das suas funções, em qualquer escola que seja, poderão +proceder a ela, e por meio dela classificar, segundo a visão e a +audição, os seus alunos em um dos três grupos:--_supra-normais_, +_normais_, _infra-normais_, distribuindo-os nas salas das classes pela +maneira que mais convêm ao ensino: adiante os que ouvem e vêem pouco, ao +meio os que vêem e ouvem regularmente e ao fundo os que ouvem e vêem +melhor. Tive sempre tambem o cuidado de, quando verificava a existência +de anormalidade, ou melhor, quando encontrava candidato que via ou ouvia +a uma distância notávelmente inferior àquela a que a maioria costuma vêr +e ouvir, tive sempre o cuidado, dizia, de lhes aconselhar a que se +dirigissem a médico competente para que se julgasse da causa da +inferioridade e se corrigisse esta, se porventura isso fôsse possível; +enfim, para que se tratassem. Quiz assim não só cuidar ou fazer com que +cuidassem da saúde de órgãos importantíssimos para todos e +principalmente para quem aprende e para quem ensina, mas tambêm quiz +assim indirectamente aconselhar-lhes ou apontar-lhes a maneira de +proceder que convêm que adoptem quando tiverem como eu, na sua qualidade +de professores, de examinar e medir a agudeza visual e auditiva dos seus +alunos. + +A instrução, como sabeis, faz-se nas nossas escolas sobretudo à custa de +excitações visuais e auditivas. O professor dirige-se principalmente à +vista e ao ouvido do aluno. Se vista e ouvido não estiverem em condições +de aprender nítidamente, de serem clara, forte, profunda e +agradávelmente impressionados, a instrução não se fará ou far-se há +defeituosa e deficiêntemente; a falta de aproveitamento com facilidade +se fará notar. + +Aquele que nem vê nem ouve bem, acaba por deixar de prestar atenção; não +se aplica, não se instrui e não se educa tambêm, como deve ser, porque a +experiência é pouca e má, porque não excita convenientemente os +sentidos, porque não enriquece convenientemente o cérebro em imagens, +precisas e nítidas. Não tem ou tem pouco sôbre que trabalhar; não +desenvolve a inteligência. + +Pelos olhos tomamos nós habitualmente conhecimento dum grande número de +propriedades e tal é o papel que as imagens visuais representam na +_cerebralidade_, na compreensão das cousas, que Gaston Gaillard, num +artigo notável sôbre as _condições ópticas e fórma visual da +inteligência_, disse: «a inteligência parece ser uma espécie de +faculdade óptica.» Fisiologistas e histologistas têm demonstrado que a +visão tem uma influência importantíssima no desenvolvimento dos centros +cerebrais, e vários médicos têm demonstrado tambêm que muitas vezes o +atraso intelectual nas crianças, que os franceses chamam _arriérés_, nos +débeis mentais ou _atardados_ como se vai dizendo em português, o +atraso, a inferioridade resulta muitas vezes dum defeito de visão. +Vários casos se apontam tambêm de perfeita normalização de crianças +anormais-inferiores, por simples tratamento ou correcção conveniente do +seu defeito visual. Êstes anormais são verdadeiros _anormais de ocasião_ +ou anormais por _deficit sensorial_, como os chama Ley. E já que vos +estou falando das relações da visão com o desenvolvimento intelectual, +com muito prazer e com muita utilidade para vós vos chamarei a atenção, +convidando a lê-la, para a conferência realizada em 20 de Maio de 1914, +na Sociedade Portuguesa de Estudos Pedagógicos, pelo nosso distinto +Inspector Geral de Sanidade Escolar e meu muito presado amigo Dr. Costa +Sacadura, conferência intitulada: _Influência do estado da visão sôbre o +desenvolvimento intelectual e físico das crianças_. + +Cousa semelhante ao que acabo de vos dizer a propósito da inferioridade +da agudeza visual, poderei dizer tambêm a propósito da baixa ou redução +da agudeza auditiva. A criança que ouve mal, compreende mal, acaba por +desinteressar-se, distrai-se, deixando de escutar e aprender, +atrasando-se na instrução por falta de noções que lhe ministram +oralmente e que ela não aprende, atrasando-se na educação, por _deficit_ +de excitações sensoriais auditivas. O professor Bezold, de Munich, notou +que quanto maior fôr a dureza do ouvido, tanto menor é o desenvolvimento +intelectual. E Rouma no seu importante livro: _La parole et les troubles +de la parole_, conta que numa classe de crianças semi-surdas, em Berlim, +classe composta por 12 alunos, entre os quais havia 4 que tinham sido +apontados como intelectualmente inferiores, êstes se mostraram como +perfeitamente aptos para o trabalho escolar e provaram ter uma +inteligência perfeitamente normal, logo que foram colocados num meio em +que se os educou tendo em vista a sua inferioridade física. + +A dureza do ouvido deforma as imagens auditivas e a criança procurando +reproduzir os sons, as palavras que ouve emite sons, pronuncia palavras +deformadas, adulteradas, sofrendo assim dum defeito de pronúncia por +simples defeito da audição. + +A redução da agudeza visual e da auditiva veem a ter tambêm uma +influência importante no feitio moral daqueles que delas sofrem. A má +compreensão dos factos que se passam em redor e de que tomam +conhecimento por intermédio de órgãos insuficientes e a dificuldade de +comunicar com as outras pessoas, acarretam muitas vezes conseqùências +mais ou menos emocionantes que podem perturbar o carácter. Lembrem-se +das diferenças psicológicas, de ordem moral, que todos sabem que existem +entre o surdo e o que ouve, e entre o cego e o que vê. E neste momento, +ao tratar-se dêste assunto, eu relembro a transformação que se operou no +meu espírito, e a alegria que experimentei, quando pela primeira vez eu, +que era um _míope inconsciente_, olhei para o que me cercava, através de +umas lunetas de vidros divergentes. Corrigi a minha vista e então +comecei a aproveitar mais nas minhas aulas, onde muitas vezes não seguia +o que se expunha no quadro preto, por supôr que isso era só para os que +junto dêle estavam, e comecei então tambêm a usufruir uma maior soma de +prazer, o prazer de vêr e gosar o que se vê. A minha concepção do mundo +modificou-se, melhorou. Passei a ser mais optimista; encontrei no mundo +e na vida um fim estético, harmonioso, espectacular, se me permitem o +termo. + +E lembrar-me eu que entre vós, segundo as minhas recentes observações, +há, de 43% de inferiores ou defeituosos da visão, apenas uns 10% com a +vista corrigida! Correi já, por vosso interêsse, aos médicos oculistas; +eis o meu conselho. + +Pelo que respeita ao ouvido, os 9% de infra-normais que a observação me +levou a encontrar, na população desta Escola, que não se descuidem +tambêm, porque é possível que nalguns se trate de defeito corrigível, +talvez apenas de uma obstrução ocasional, que simples lavagens ou duches +auriculares farão desaparecer. Devo dizer-lhes que as percentagens que +acabo de apontar dizem apenas respeito a alunos com inferioridade +bilateral dos olhos ou dos ouvidos, reconhecida pelos processos simples, +que todos viram praticar, e dos quais lhes vou agora dar mais minuciosa +conta. + +Numa sala desta Escola que me pareceu ser daquelas onde menos se ouve o +barulho da rua, que neste sítio infelizmente não é pequeno, coloquei em +face de uma das janelas, a seis metros aproximadamente dela, e a uma +altura que correspondesse aproximadamente à dos olhos da maior parte dos +alunos, coloquei, dizia, um cartão em que colocara o _quadro +optométrico_ dos Drs. Mario Moutinho e Costa Sacadura, quadro que +suponho se encontra espalhado por tôdas as escolas, mercê de uma larga e +útil distribuição. + +Marquei a giz sôbre o chão um traço indicando a distância de 5 metros +para àquem da parede onde pendurava o quadro optométrico. + +Numa outra parede, no tôpo da sala, tracei a uma altura correspondente à +dos ouvidos na maioria dos alunos, um traço horizontal, a giz, sôbre o +qual a partir aproximadamente de 1 metro de uma das extremidades marquei +um zero e, a partir dêste, pequenos traços verticais indicando os +decímetros e os metros (4 metros aproximadamente). + +Quando ia proceder aos meus exames, procurava obter o maior silêncio +possível, na proximidade da sala, e fazia entrar os alunos um a um ou +dois a dois, e de maneira a evitar que se distraíssem. Uma empregada +tomava-lhes à entrada o nome e eu logo começava o meu exame, em que fui +várias vezes auxiliado pelo meu venerando colega Sr. prof. Pedro +Ferreira. Para a medida da agudeza visual, mandava colocar o aluno em +frente do quadro optométrico a uma distância aproximadamente de 6 +metros. As letras do quadro estão dispostas em 3 linhas paralelas e tais +que para uma visão normal devem respectivamente ser lidas a 20, 10 e 5 +metros de distância. Mandava procurar ler a 6 metros as letras da linha +inferior, aquelas que se devem lêr, quando a visão seja mediana, à +distância de 5 metros. Se o aluno as lia tôdas ou dois terços delas à +distância de 6 metros, colocava-o no grupo dos _supra-normais da visão_, +se não, mandava-o tentar ler as letras da mesma linha à distância de 5 +metros. Se as lia, colocava-o no grupo dos _normais_: finalmente se o +aluno nem à distância de 5 metros lia sequer dois terços das letras que +a essa distância devia ler se a visão fôsse normal, colocava-o no grupo +dos _infra-normais_, e procurava então vêr quais as letras que conseguia +ler a essa distância de 5 metros. Se lia as da linha média, que um +normal devia ler a 10 metros, dizia que tinha uma agudeza visual igual a +1/2 do normal, se lia a 5 metros só aquelas que um normal lê à distância +de 20 metros, dizia que tinha uma agudeza visual igual a 1/4 do normal. +Se nem estas lia, dizia que tinha uma agudeza visual inferior a 1/4 do +normal. + +O exame era feito em separado, para cada um dos olhos, tendo o cuidado +de evitar que com a mão carregassem sôbre aquele cuja agudeza visual se +não estava medindo. Em regra, e esta parece ser a melhor fórma, mandava +colocar um cartão de visita diante do ôlho a encobrir, mas um pouco +afastado dele. + +Esta técnica, que é uma técnica de confiança para determinar com +precisão a agudeza visual, pode ser empregada por qualquer professor, e +praticada em todos os escolares, mesmo naqueles que não sabem ler, visto +que junto às letras e com dimensões respectivamente iguais às delas se +encontram no quadro optométrico linhas com sinais (_optotipos_ se +chamam) que um analfabeto pode perfeitamente apontar (zonas circulares +incompletas, com abertura voltada segundo quatro direcções). + +Para o exame do ouvido, mandava colocar o aluno em frente da linha que +traçara na parede, voltado para ela, junto dela e com o ouvido direito à +altura do zero. O aluno, com um dedo, sem carregar, tapava o ouvido +esquerdo e olhando em frente, prestava atenção a vêr se ouvia o +_tic-tac_ de um relógio de algibeira, que eu lhe aproximava do ouvido. +Logo que o aluno dava sinais de o ouvir, começava eu a afastar o +relógio, fazendo deslocar êste sôbre uma linha, não perpendicular à +face, mas sim dirigida para diante, perpendicularmente ao pavilhão da +orelha. E deslocando o relógio procurava determinar a maior distância a +que o aluno conseguia ouvir o bater dêsse relógio. + +Fiz uma série de observações e verifiquei que _com o meu relógio_ a +maioria ouvia o _tic-tac_ a uma distância de 2 a 3 metros. Em vista +disto considerei como _infra-normais_, na audição, francamente +infra-normais, os que ouviam o máximo a 1 metro e _supra-normais_, na +audição, francamente **supra-normais**, os que ouviam a 3 metros e mais. + +Para o exame do ouvido esquerdo, mandava voltar o aluno, colocava-o com +o ouvido esquerdo à altura do zero, pedia-lhe para tapar o ouvido +direito e olhar bem em frente, ou fechar os olhos, e procedia depois por +uma fórma semelhante à que adoptei para o exame da agudeza auditiva do +ouvido direito. + +Quando a redução da agudeza auditiva era notável (menos de 1 metro), +mandava sentar o aluno no fundo da sala, voltado para a parede, e +colocando-me atrás dele, no lado oposto, falava-lhe em tom ordinário por +fórma a ver se me ouvia e para isso o mandava repetir a frase que eu +pronunciava ou executar movimentos que lhe ordenava. + +Êste processo, da medida da agudeza auditiva, ao contrário do que +adoptara para medida de agudeza visual, não é exacto, não é preciso, não +é seguro, mas serve, e isso basta, para comparar os alunos debaixo do +ponto de vista da agudeza auditiva e distribuí-los nas aulas, de acôrdo +com ela. + +Nas crianças é necessário talvez tomar mais precauções do que aquelas +que com os senhores tomei é conveniente sentá-las, vendar-lhes: os olhos +e de vez em quando _fingir_ que se aproxima ou afasta o relógio, para +assim julgar do valor das suas respostas. + +Devo dizer-lhes, o que tambêm importa, que levava, em regra, dois a três +minutos com o exame da agudeza visual e da auditiva. + +Na Casa Pia, onde eu e o Dr. Jorge Cid temos feito várias observações, +usando de processos semelhantes àqueles de que vos falei, verifiquei há +dias a existência de alguns factos curiosos para que não quero deixar de +chamar-vos a atenção. Considerando apenas os alunos que neste momento +freqùentam a 4.^a classe de instrução primária, e com êles os que em +Julho a freqùentaram e distribuindo-os por ordem crescente das idades +verifica-se: que à medida que se avança na escala das idades, e aumenta +o número de anos de internato, diminui a percentagem de alunos que +fizeram exame do 2.^o grau, e _diminui a percentagem dos que têm audição +normal_. Quere isto dizer que é provável que o atraso de alguns alunos +provenha de inferioridade auditiva. Por outro lado encontram-se dois +máximos de freqùência da visão inferior à normal um (30%) coincidindo +com o máximo de freqùência de exames do 2.^o grau (61%) e outro (40%) +coincidindo com o máximo da idade (16 anos e mais) e o mínimo da +freqùência de exames (40%), factos estes que interpreto por esta fórma: +a anormalidade visual nos rapazes de 16 anos e mais (máximo de idade), +que ainda não fizeram exame do 2.^o grau, coincide e deve estar +relacionada com inferioridade mental e a grande freqùência da visão +inferior à normal nos rapazes de 14 a 15 anos, grupo a que na sua maior +parte pertencem os que fizeram exame do 2.^o grau, é naturalmente devida +à _miopía_ que o trabalho das aulas agrava, quando não determina. Quando +um dia me ocupar particularmente dêste importante defeito da visão, a +miopía, procurarei obter alguns dados especiais recorrendo, +provávelmente, para isso, ao registo das observações oftalmológicas e às +estatísticas do distinto médico-oftalmologista da Casa Pia Dr. Xavier da +Costa. + +A miopía é uma verdadeira doença profissional da escola; é em grande +parte um produto do trabalho escolar. A sua freqùência aumenta à medida +que se avança no grau do ensino. E já que levantei êste incidente, não +deixarei de vos recomendar a leitura de uma interessante e utilíssima +conferência feita na Imprensa Nacional, em 19 de Abril de 1914, pelo Dr. +Sebastião da Costa Santos, tambêm distinto médico-oftalmologista, e em +que por fórma muito clara e completa se trata da miopía e doutros +assuntos de oculística que se prendem com a higiene escolar. + +O exame da agudeza visual e da auditiva presta-se tambêm a permitir +julgar até certo ponto de certas qualidades de ordem psíquica que ao +educador muito interessa conhecer. A maneira por que o aluno se +apresenta, a rapidez ou a lentidão dos seus movimentos, a rapidez ou a +lentidão na leitura do quadro optométrico, a maneira agitada ou, pelo +contrário, lenta e dócil por que se comporta, a precisão ou a indecisão +na compreensão e execução das nossas ordens, tudo permite, com grande +probabilidade de acêrto, formar um juízo útil e necessário para o +educador, sôbre o grau de emotividade, ou sôbre a _potencialidade +nervosa_ de cada aluno, destrinçando particularmente os dois tipos +extremos, o do _hipersténico_, agitado, e o do _hiposténico_, tardo nas +suas reacções. O educador encontrará nesse exame elementos importantes +para calcular possibilidades na educação, e tirar indicações muito úteis +para a escolha dos meios educativos a empregar. + +O exame da agudeza visual e da auditiva feito à luz dos conhecimentos +que vos procurei transmitir permitir-vos há convencer-vos, desta verdade +fundamental: _de que os escolares são diferentes uns dos outros_. E +convencidos disso, o vosso espírito estará preparado para a adquisição +desta outra verdade: _de que o ensino se deve individualizar o mais +possível_. + +A pedologia, estudo da criança, vos ensinará a conhecer os vossos +alunos, e a encontrar o caminho educativo que mais convêm seguir. + +Pudesse eu deixar-vos convencidos disso, e conseguisse que em tôdas as +escolas o professor determinasse a agudeza visual e a auditiva e eu, e +todos os que tivessem contribuído para isso, teríamos alcançado a não +pequena glória de ter promovido na escola o que o grande professor +Biervliet, a propósito do mesmo assunto, não duvidou chamar um +_progresso imenso_. + +Disse. + + + + +A VISÃO DAS CORES[9] + + + Minhas Senhoras e meus Senhores: + + +Foi objecto da minha lição de abertura, no ano findo: _A agudeza visual +e a auditiva, debaixo do ponto de vista pedagógico_, tendo-me servido de +pretexto para a lição o exame da agudeza visual e da auditiva por mim +praticado, nos alunos desta Escola, com o fim de se regular a sua +distribuìção nas aulas. Será êste ano objecto da minha primeira lição um +assunto que se prende tambêm com a fisiologia dos sentidos, servindo-me +de pretexto para ela o exame que êste ano tambêm fiz a alunos desta +Escola, mas não só com o fim de julgar da sua agudeza visual e da sua +agudeza auditiva, mas tambêm para julgar até certo ponto do seu sentido +cromático, do grau da sua visão, na visão das côres. + +Deu origem a esta ampliação do exame fisio-pedagógico que se começou a +praticar o ano passado por iniciativa do Sr. Secretário desta Escola, e +seu distinto professor sr. Tiago da Fonseca, deu origem a essa +ampliação, um simples acaso. Um dos jornais da cidade, ao noticiar que +eu ia proceder ao exame dos alunos, falou em _daltonismo_, e isso +fazendo-me suspeitar uma confusão entre o exame da agudeza visual e o do +sentido cromático e recordando-me da importância que êste pode ter na +escolha dos candidatos a professores, resolveu-me a fazer a minha +primeira lição dêste ano sôbre o _sentido cromático e os seus defeitos_, +e proceder, como procedi, a um _exame elementar_ dêsse sentido. + +M.^{elle} Yoteyko, a ilustre professora belga, considera como +indispensável na escola normal a prática de um exame do sentido +cromático, por causa da importância que a diferenciação das côres tem no +ensino. É sua opinião tambêm que a êsse exame devem ser obrigatóriamente +sujeitas tôdas as professoras dos jardins de infância e, mais ainda, +atribúi-lhe, e com razão, grande valor no exame pedagógico dos alunos da +escola primária. + +E isto lembra-me as palavras do professor americano Rowe, quando num dos +seus livros, diz: «na cegueira das côres está muitas vezes a explicação +da aparente estupidez que revelam certas crianças das nossas escolas, +diante dos mapas». + +O exame fisio-pedagógico que o ano passado se começou a praticar nesta +Escola, deve ser ainda mais ampliado do que foi êste ano, e quando êste +assunto, a _visão das côres_, não fôsse julgado como de maior +importância, para servir de mais a mais de tema a uma lição de abertura +de curso, bastaria para justificar-me e dar-lhe o valor que lhe +contestassem, o tomá-lo como pretexto para chamar a atenção para êste +capítulo importante e quási virgem entre nós, do exame das aptidões. + +Hoje, minhas senhoras e meus senhores, a fisiologia e a psicologia, não +são apenas sciências de gabinete, simples curiosidades, domínios de +investigação scientífica desinteressada, ramos de conhecimentos sem +maior aplicação e utilidade. Não. O fisiologista e o psicólogo têm hoje +o seu lugar até na oficina, até na fábrica. A êles se recorre não só +para julgar das aptidões do operário, mas até para regular a própria +técnica. Opera-se neste momento uma profunda reforma nas indústrias, +visando a levar ao máximo o rendimento de cada operário, recorrendo-se +para isso à fisiologia e à psicologia. É o _tailorismo_ que avança, é a +organisação scientífica do trabalho. + +A fisiologia e a psicologia são tam úteis, mesmo fora dos domínios da +Medicina, que neste momento, até em plena guerra elas figuram, sendo os +seus processos de análise regular e obrigatóriamente praticados no exame +dos candidatos a aviadores, êsses heróicos soldados, que nesta guerra, +formidável pela sciência e pela barbaría, tanto influem na estratégia. +Na nossa legislação militar, a propósito da inspecção médica dos +candidatos a aviadores, já se fala do exame das reacções psico-motrizes. +Mas mais ainda. A _psico-fisiologia_, de que em suas proveitosas lições +muitas vezes vos fala o Sr. professor Dr. Alberto Pimentel, logrou até +encontrar aplicação em pleno campo da refrega, onde por exemplo, M. +Lahy, chefe dos trabalhos práticos de psicologia experimental na Escola +de Altos Estudos de Paris, e actualmente mobilizado como oficial, teve +ocasião de com notável utilidade aplicar os seus métodos de estudo a +gloriosos soldados da Argonne, durante a tremenda campanha de Verdun. + +E, minhas senhoras e meus senhores, se a psico-fisiologia presta já +tantos serviços na escolha dos candidatos a operários e em soldados, +porque não há-de ela ter tambêm o seu lugar no exame dos candidatos à +profissão de professor?! Pensai nisto, que é nesta arte que andais a +aprender: a arte de educar, que é mais necessário rigorosamente escolher +os mesteirais, porque são êles que lidam com a mais preciosa e delicada +das nossas matérias primas: a criança, e se ocupam da mais importante de +tôdas as indústrias: a indústria da formação de cidadãos úteis, +prestimosos na sua profissão, excelentes nas suas virtudes físicas e +morais, e no seu amor à Pátria! + + + Meus Alunos: + + +A visão das côres e a aptidão a discriminá-las não se revela logo após a +nascença, nos primeiros dias. Factos que a sciência regista levam a +supor que essa faculdade visual se manifesta _claramente_ e +_indiscutívelmente_ só ao fim de alguns meses. Ao poder de discriminação +das côres, segue-se o de nomeá-las. É interessante fazer notar o facto +de que a criança aprende mais fácilmente os nomes das cousas do que os +das côres. Citam-se casos em que crianças de dois anos e mais, +conhecendo perfeitamente os nomes de certos frutos bem característicos, +pela sua fórma e pela sua côr, uvas, morangos e laranjas, não sabem no +entanto apropriadamente aplicar-lhes os nomes das côres que ostentam. + +Trace, professor da Universidade de Toronto, que examinou vários +vocabulários infantis, da língua inglesa, chama a atenção para o facto +de ter encontrado apenas perto de trinta nomes de côres num vocabulário +de mil e cem palavras. E várias vezes, diz êle, não encontrou, em +vocabulários de crianças de dois anos, um só nome de côr, não obstante +essas crianças possuirem já de trezentos a quinhentos vocábulos. + +Um outro facto a pôr em destaque é o de que a criança pode discriminar +as côres, possuir vocábulos para as nomear, mas não associar +correctamente a côr ao seu nome. Parece que é esta a principal +dificuldade que a criança tem no reconhecimento das côres. + +Creio que foi o professor Monroe, professor de Psicologia em Westfield, +quem realizou o maior número de experiências sôbre o sentido cromático +de crianças, de três a sete anos de idade. São curiosas as conclusões a +que chegou. As meninas distinguem, em geral, mais fácilmente, as côres, +e reteem mais fácilmente tambêm os nomes destas. Esta superioridade no +sentido cromático é mais acentuada dos cinco aos sete anos do que antes, +e está de acôrdo com a superioridade do sentido cromático que as +estatísticas dos defeitos de visão das côres levam a atribuir à mulher, +onde êles são menos freqùentes. E como essa superioridade se revela +mesmo nas idades em que as crianças dos diversos sexos têm as mesmas +ocupações, pode-se atribui-la a uma diferença sexual inata, em que +talvez se possa tambêm, como alguns fazem, encontrar a causa do +coquetismo, da garridice das côres dos trajos da mulher. + +As experiências sôbre a visão das cores nas crianças, são muito +delicadas, por serem difíceis e muito sujeitas a erros. Para se fazerem, +ou se lhes mostram côres e se lhes perguntam os nomes, determinando a +percentagem dos erros cometidos, ou se nomeiam côres e se pede à criança +que as vá indicando ou escolhendo numa colecção de objectos, iguais ou +diferentes, diversamente coloridos, ou se lhes mostra uma côr e se pede +para dentre muitas diferentes escolher uma igual, ou, e êste é o +processo de escolha na criancinha de tenra idade, se observa a sua +expressão fisionómica e a sua mímica, vendo se ella sorri ou chora, ou +se assusta, ou se aproxima, ou se afasta ou, mais precisamente, medindo, +contando como faz Baldwin, que considera como a melhor maneira de julgar +do valor dos estímulos sensoriais na criança, o estudo das reacções +motrizes que êles provocam, e principalmente os movimentos da mão, +contando, como eu dizia, o número de movimentos de aproximação ou +atracção, e o dos de recúo ou repulsa, que as diferentes côres provocam, +quando mostradas a distâncias diferentes. + +Para terminar esta parte da minha lição, dar-lhes hei conta ainda de +dois factos mais, que interessam muito ao estudo da visão das côres na +criança. + +Lehman notou que as côres que a criança reconhece mais fácilmente são +aquelas cujos nomes melhor sabe, e notou mais ainda que os tons que não +têm nomes especiais não são por elas reconhecidos. + +Outro facto tambêm de que vale a pena tomar conhecimento e fixar é de +que experiências de diversos levam a considerar como côres de maior +predilecção na criança, o vermelho e o azul. + +Assim como há diferenças individuais na sensibilidade à luz, que +permitem discriminar diferentes graus de intensidade luminosa, assim +como há diferenças individuais na sensibilidade visual que permitem +discriminar, pela fórma, os objectos a distância, assim há diferenças +individuais na sensibilidade visual que permitem discriminar as côres e +perceber as variações de tonalidade de cada uma delas. E do mesmo modo +que há cégos que sentem a luz mas não vêem os objectos, há cégos que +vêem os objectos mas não lhes vêem as côres. Há de facto indivíduos, +raros é verdade, que vêem os quadros mesmo os mais ricos em colorido, os +mais variegados, como se fôssem pintados em cinzento, de vários tons. + +Há tambêm indivíduos, e estes na percentagem aproximada de 3 a 4% no +homem e 1 a 2% na mulher, que discriminando algumas côres como o azul e +o amarelo, não distinguem o verde do vermelho e vice-versa. + +Para alguns dêstes indivíduos, como dizia Arago, as cerejas nunca estão +maduras. E neles compreende-se que possa suceder, como diz M.^{elle} +Yoteyko, que não vejam os morangos, num morangueiro carregado dêles, ou +não descubram um lápis de lacre, em cima de um relvado. É a êste grupo +de cegos cromáticos ou indivíduos daltónicos, que pertencia aquele de +que Fuchs por exemplo fala no seu _Manual de Oftalmologia_, que queria +remendar um fato preto com um pedaço de pano encarnado, julgando que +êste era preto! + +A cegueira total para as côres ou _acromatopsia total_, a cegueira +parcial para as côres ou _acromatopsia parcial_, a cegueira especial +para o vermelho, ou _aneritropsia_, e outros defeitos cromáticos de +menor vulto ou _discromatopsias_, denominam-se muitas vezes, em globo, +_daltonismo_, termo que mais própriamente se deve empregar nos casos de +_aneritropsia_, ou cegueira para o vermelho. + +A palavra _daltonismo_ deriva de Dalton, nome do célebre físico inglês, +que vendo que confundia as côres das flôres, examinou o espectro solar e +constatou que a parte do espectro que se chama vermelha, lhe parecia +apenas quási uma sombra, quási um feixe sem luz (vid. sôbre êste assunto +da visão das côres um livrinho excelente que muito vos recomendo: o +livrinho de M.^{elle} Dr.^a Yoteyko, _Aide-mémoire de psychologie +expérimentale et de pédologie_, vol. 1, _Les sensations_, pág. 309). + +Há indivíduos que confundem os nomes das côres e que no entanto não +sofrem de discromatopsia, pois discriminam bem as côres e os seus tons; +são apenas ignorantes. Assim, por exemplo, sucedia a um doente do +Hospital de S. José, examinado pelo meu prezado amigo e distinto +oftalmologista Dr. Costa Santos, hoje director daquele Hospital, que lhe +falava de um «azulinho côr de alface», não obstante distinguir bem os +tons azuis e verdes. + +Em contraposição há _daltónicos_ que com tôda a propriedade chamam +vermelhas as cerejas e verdes as fôlhas, mas que não distinguem o +vermelho do verde; empregam os qualificativos verde e vermelho, por os +ouvirem empregar aos outros. Há mesmo mais: há _daltónicos_, que +distinguem um objecto verde de outro igual, mas em vermelho, não +própriamente porque a _qualidade_ da côr os impressione, mas sim pela +_quantidade_ da côr, pelo seu pêso, pela quantidade de pigmento que +contêem. Se êsses objectos fôssem um vermelho e outro verde, mas de tons +da mesma quantidade, igualmente leves ou igualmente carregados, então +não os distinguiriam, confundi-los-iam, achá-los-iam perfeitamente +iguais. + +Está-me lembrando neste momento um dos nossos mais notáveis +oftalmologistas e até por sinal grande apreciador de quadros, que me +confessou e por fórma bem sincera e brilhante, que sentia mais ou menos +o vermelho, mas quási não via o verde; para êle o verde e o vermelho são +tão distintos como o azul e o amarelo. E na mesma ocasião em que isto +ouvia, um colega que assistia à conversa, informou-me de que um dos +nossos melhores paisagistas não distingue fácilmente os tons de certos +objectos que vê e está pintando. Sofre da dúvida das côres. + +As discromatopsias ou defeitos da visão cromática, passam por vezes +desapercebidas aos indivíduos que deles sofrem. Assim como há _míopes +inconscientes_, de que o ano passado por exemplo falei na minha lição de +abertura sôbre a _agudeza visual e auditiva, sob o ponto de vista +pedagógico_, há _daltónicos inconscientes_. E um dos mais notáveis +exemplos que dêles se pode apresentar é o que Fuchs menciona no seu +_Manual_: um médico de uma companhia de caminhos de ferro, médico +encarregado de examinar o sentido cromático dos candidatos a empregados +da companhia, que o procurou para lhe pedir algumas instruções sôbre os +métodos dêsse exame, e que Fuchs no decurso da conversa e em vista dos +erros que notou que êle cometia no exame das provas, verificou ser um +daltónico, e nem mais nem menos do que cego para o vermelho! + +A cegueira ou a simples diminuìção da agudeza cromática pode ser +congénita ou adquirida. Há lesões oculares que a determinam e +discromatopsias há que são atribuíveis a intoxicações, pelo álcool ou +pelo tabaco. + +Van Biervliet atribui certas discromatopsias congénitas a uma acção +resultante de hereditariedade por falta de treino do sentido cromático +nos ascendentes. + +Interpretando, como em regra se interpreta, a diferença séxual notável +que existe entre a percentagem das discromatopsias no homem e na mulher, +com vantagem para esta, ao maior uso que esta faz do seu sentido +cromático, notávelmente aplicado em certos trabalhos como os trabalhos +de bordadora e de modista, profissões muito espalhadas entre os +indivíduos do sexo feminino, generaliza e diz que os visuais, cujos pais +eram pintores, iluminadores, mosaístas, etc., nascem, graças ao treino +realizado pelos seus ascendentes, com uma retina e centros visuais mais +sensíveis às côres. É uma opinião, de resto discutível. + +Tendo examinado todos os candidatos à matrícula no 1.^o ano desta Escola +Normal, pela fórma que adiante descreverei, àparte uma ou outra +hesitação, discromatopsias própriamente ditas só em dois candidatos, +senhoras, encontrei, verificando uma confusão notável de tons do +amarelo, com que experimentámos, amarelo canário claro, e amarelo gema +de ôvo. + +A visão das côres tem sido particularmente estudada nos escolares +anormais. Zihen cita casos de atardados de doze a quinze anos, com +suficientes conhecimentos escolares, podendo sustentar uma conversa +sôbre assunto simples, mas incapazes de reconhecer as côres. Ley, cujo +trabalho sôbre o _atraso mental_, em escolares é o mais bem documentado +que conheço, e que observou 110 crianças da escola especial para +atardados, de Antuérpia, que tive o prazer de com o maior proveito e na +companhia do seu director o Sr. professor Yack, tive o prazer, dizia, de +visitar, por sinal um mês antes de rebentar a guerra, Ley encontrou 23 +crianças com graves defeitos da visão das côres, e 45 reagindo +normalmente, correctamente, seriando de cinco a seis tons de oito côres +diferentes. Pode haver, portanto, em face de tudo o que dissemos, +crianças inteligentes com fraca visão das côres ou mesmo cegueira, e +inferiores mentais com boa visão cromática. + +Vale a pena citar tambêm, nesta altura, o facto mencionado por vários e +verificado por M.^{lle} Descoeudres, de Genebra, de que as côres mais +vulgarmente confundidas pelos anormais são o azul e o violeta. M.^{lle} +Descoeudres cita tambêm no seu _Manual_ para a educação de anormais, +como notável, o caso de um rapaz epiléptico, que desde os oito aos treze +anos, apesar de tempos a tempos se lhe mostrar uma série de fichas ou +tentos, de côr azul ferrete com uma ficha de côr violeta, de permeio, +pedindo-se-lhe que indicasse aquela ficha que não era como as outras, +êle não a encontrava, não obstante compreender bem a pergunta. Êste +rapaz confundia tambêm o verde-malva com o azul claro. + +Há na visão das côres um elemento que importa muito considerar: é a +atenção. A falta de atenção explica muitas vezes erros da visão das +côres, que à primeira vista se poderiam ter como sinais de daltonismo. +Ao lado do daltonismo verdadeiro, há um falso daltonismo, uma cegueira +de distracção, que não própriamente cegueira ou incapacidade de visão +das côres. + +Numa série de rapazes da Casa Pia, principalmente entre aqueles +atardados, que com onze, doze e treze anos de idade, ainda freqùentam a +primeira classe de instrução primária, tendo dois a três anos de casa, +observei eu que alguns, quási todos, cometiam erros graves na visão das +côres, mas erros que variavam com a natureza do _test_ e com a hora do +exame. O aluno 4.337 que de manhã, antes de começar as aulas, apenas +confundia o verde claro com o azul claro, e alguns tons de verde, entre +si, à tarde, logo em seguida à quarta hora da aula, confundia alguns +_tons verdes com tons vermelhos_, como se se tivesse tornado daltónico +de manhã para a tarde. Era a fadiga que lhe diminuia a atenção, e o +levava a cometer erros dêstes. O aluno 305, êsse ainda mais claramente +mostrava que os erros que cometia na visão das côres resultavam de falta +de atenção, pois que quási não cometendo erros no exame discriminativo +de vários tons do vermelho, verde, azul e amarelo, na mesma sessão +cometeu erros tais que confundia roxo com vermelho, alaranjado com +amarelo claro e azul com verde, simplesmente porque tinha de atender de +cada vez a duas côres, que se mostravam ao mesmo tempo. Olhava só para +uma, a que cobria uma maior extensão, e que êle distinguia +perfeitamente, não se importando no entanto com a outra, para que aliás +se lhe chamava tambêm a atenção. Bem diz M.^{lle} Descoeudres a +propósito da visão das côres nos anormais: «é preciso sempre entrar em +linha de conta com o factor atenção, por causa da qual se torna difícil +o pronunciarmo-nos sôbre as noções de côr nos anormais.» + +Não basta para explicar as anomalias da visão das côres invocar por +exemplo uma das duas teorias clássicas da visão cromática: a de +Yung-helmholtz ou a de Hering. Não basta explicar, como se faz na +primeira destas teorias, explicar, por exemplo, a cegueira para o +vermelho, pela ausência, na estrutura da retina, de uns elementos que +são mais particularmente sensíveis ao vermelho e nos dão esta sensação, +e dizer que, faltando êles, a luz vermelha impressiona os elementos +principalmente sensíveis à luz verde, e que nos dão a sensação do verde, +fazendo assim com que o vermelho nos impressione como se fôsse apenas um +tom daquela côr. Não basta explicar, como se faz na teoria de Hering, a +cegueira para o vermelho e para o verde, pela falta de uma substância +foto-química, alterável pela acção da luz vermelha e da luz verde, e que +conforme o sentido da alteração origina a sensação do verde ou do +vermelho. Não. É necessário lembrarmo-nos que a atenção é elemento muito +importante, a considerar tambêm na visão das côres, podendo só por si +dar origem à confusão delas, sem que haja própriamente incapacidade +orgânica para a visão. + +Há uma concepção filosófica da visão, devida a Tscherning (vid. _Année +psichologique,_ 1914, pág. 43), que permite compreender bem a influência +que a atenção pode ter na visão. Tscherning compára a sensibilidade +visual à sensibilidade táctil e diz que se pode considerar os raios +luminosos, que dimanam do exterior para a retina, como uma espécie de +antenas invisíveis, presas ao fundo dos olhos e que com êles se movem, +antenas com que nós examinamos os objectos. São o que êle chama os +_fotóforos_. Se tivessemos um só fotóforo estariamos nas condições de um +cego, que se guia com a ponteira da bengala; como, porêm, temos vários +fotóforos, quando olhamos para os objectos, como que passeamos sôbre +êles esta espécie de retina aparente, como que os apalpamos, +examinando-os atentamente, tal como sucede quando julgamos do paladar de +uma substância, saboreando-a com atenção. É uma concepção interessante, +que me parece permitir muito bem fazer uma idea da influência que a +atenção pode e deve ter na apreciação das qualidades dos corpos pela +vista, e entre elas a côr. + +O exame da visão das côres na escola pode permitir explicar insucessos +que se dão no ensino por meio dos mapas e das estampas nas lições de +cousas, e nos lavores, mas, àparte êste préstimo, tem tambêm o de por +vezes servir para orientar o aluno na escolha da profissão. O professor +deve sempre preocupar-se com o futuro do aluno. Ao daltónico são vedadas +certas profissões, principalmente nas carreiras marítima e militar e na +de maquinista, onde se é obrigado a guiar-se, como sucede nos caminhos +de ferro e nas embarcações, interpretando sinais de côres diferentes. +Esta questão tem tanta importância que num excelente manual inglês de +higiene escolar se consagram, no capítulo que trata dos olhos e da +vista, bastantes linhas à questão do exame da visão das côres nos que +deixam a escola, por terem terminado o seu ensino (_the leavers_). + +São muitos os processos adoptados no exame da visão das côres, e pode-se +dizer que não são de mais, visto que muitas vezes é necessário sujeitar +o indivíduo a vários exames, para descobrir-lhes os defeitos ou melhor +para verificar o defeito. Aquele que pretende ingressar em carreira em +que se liga grande importância à visão das côres, serve-se de vários +meios ardilosos, tendentes a vencer a barreira que se lhe põe do exame +rigoroso a que são sujeitos; chegam a estudar os _tests_, a +habilitarem-se para o exame médico. Aprendem a ser observados, e a +enganar. E compreende-se que possam chegar a fazê-lo, visto que, como já +tive ocasião de dizer nesta lição, o daltónico pode distinguir as côres, +sem as vêr, atendendo únicamente à quantidade e não à qualidade da côr, +e pode apropriadamente aplicar-lhes os nomes. Na criança é preciso +contar sobretudo com os erros que comete por ignorância e falta de +atenção. Uns e outros podem levar a considerar como daltónico, quem o +não seja. Não é bom o processo de perguntar os nomes das côres à +criança, para julgar da sua visão. O melhor é mostrar, sem nomear, um +tom de uma certa côr e mandar escolher entre muitas uma côr e tom igual. + +Os processos mais comummente empregados são os das lãs de Holmgren, os +dos quadros pseudo-isocromáticos, como os de Stilling, e os das luzes de +lanterna, como o de Edridge Green, por exemplo. + +Com as lãs, escolhe-se no meio de muitas meadas, de várias côres e tons, +uma de certa côr e tom, e manda-se procurar uma meada que lhe seja +perfeitamente igual. Pode-se tambêm escolher, por exemplo, meadas de +três côres diferentes, mostrá-las, misturá-las depois com as outras, e +mandá-las procurar, ou ainda mandar separar as meadas por côres, e +seriá-las para cada côr, segundo os tons. Nos quadros +pseudo-isocromáticos há letras ou outros sinais de côres diferentes +sôbre fundos coloridos por tal fórma que um daltónico não os possa +distinguir. + +Com a lanterna mostra-se, a distâncias diferentes, luzes cuja côr e tom +se faz variar por meio de vidros apropriados. Etc. + +A agudeza da sensibilidade cromática mede-se por fórma semelhante àquela +por que se mede a agudeza visual própriamente dita. Empregam-se, para +isso, quadros especiais, com sinais de diferentes côres, e de +determinado tamanho, e escolhidos por maneira a que se saiba de antemão +as distâncias a que são ordináriamente vistos por normais. No exame da +agudeza cromática vê-se a que distância são vistos pelo examinando e +compára-se esta com aquela a que normalmente elas se vêem. + +No exame dos escolares da classe especial de Antuérpia, a que no decurso +desta lição já tive ocasião de me referir, Ley empregou uma colecção de +meadas de lã, de oito côres diferentes e cinco a seis tons por cada côr. +Examinou _isoladamente_ cada um dos escolares (e esta precaução é +importante porque evita os erros por imitação), e para examiná-los +apresentava-lhes uma meada de lã verde-pálido, e _sem lhes nomear a +côr_, mandava-lhes escolher, entre as meadas, todas as que fossem da +mesma côr, tanto as de tom mais leve, como as de tom mais carregado. +Esta prova era seguida de uma outra semelhante em que em vez de uma +meada verde-pálido, se lhe dava uma côr de rosa, muito clara. + +No exame sumário que pratiquei em alunos desta Escola, empreguei, em vez +de meadas, carrinhos de retrós, de quatro côres: vermelho, verde, azul e +amarelo, e para cada uma destas côres escolhi dois tons, um muito +carregado e outro muito leve. De cada tom havia dois carrinhos, e os +tons das diferentes côres foram escolhidos por fórma que a quantidade da +côr fôsse a mesma para os tons correspondentes, carregados ou leves, de +cada uma delas. + +O _test_ consistia em agrupar dois a dois os carrinhos do mesmo tom e +côr. Não foi só a falta de material, mas tambêm o desejo de lhes indicar +um processo muito simples e económico, que me levou a improvisar êste +processo, em que as côres se sujam menos e se pode fácilmente renovar. +Fora de uso, é preciso conservar as côres ao abrigo da luz. + +Nas experiências que fiz na Casa Pia utilizei um dos _jogos educativos_ +do Dr. Decroly e de M.^{lle} Mochamp. Êste jôgo é formado por quatro +cartões, como os cartões do lôto, cada um dêles tendo pintado sôbre +papel, que lhe está colado, uma série de figuras todas do mesmo tamanho, +representando bandeiras de côres e tons diferentes, cada uma delas de +seu tom e côr. As bandeiras são quatro por cartão, tôdas da mesma côr, +no mesmo cartão, e em cada um dêstes dispostas pela ordem de quantidade +de côr, sendo a primeira a mais carregada e a última a mais leve. Num +dos cartões as bandeiras são de côr azul, noutro de côr verde, noutro de +côr vermelha e noutro de côr amarela. Alêm dêstes cartões há uma série +de cartões pequenos, cada um com sua bandeira, de sua côr e tom, a que +corresponde uma igual nos cartões grandes. Utilizei êste jôgo, dando a +cada aluno, e de cada vez, um cartão grande, sôbre o qual deviam colocar +os cartões pequenos correspondentes. Após o exame de cada cartão grande, +misturavam-se os cartões pequenos, os cartões já aplicados e os que +restava aplicar. É um verdadeiro lôto. + +Numerando nas costas os cartões pequenos, pode exprimir-se o êrro, por +confusão, indicando-o por meio de uma expressão semelhante a um +quebrado, em cujo numerador se escreva abreviadamente a côr e indique o +número do tom do cartão grande, e em cujo denominador se escreva +abreviadamente tambêm a côr e se indique o número do tom do cartão +pequeno, que erradamente sôbre o primeiro se colocou. + +Alêm desta prova sujeitei tambêm os alunos da Casa Pia, que examinei, a +uma outra, que consistia no aproveitamento de um outro lôto de côres da +colecção do Dr. Decroly e M.^{lle} Mochamp. Nesse lôto há quatro +cartões, em cada um dos quais figuram quatro homens jogando a bola. Cada +um deles figura vestido de certa côr, e cada uma das bolas com que está +jogando tem a sua côr tambêm, mas diferente daquela. Alêm dos quatro +cartões grandes, há uma série de cartões pequenos com figuras +correspondentes à do primeiro. + +A criança tem que colocar um pequeno cartão no lugar do cartão grande, +que lhe corresponder. Como se vê, tem de fazer simultâneamente a +identificação de duas côres. É um verdadeiro _test_ de atenção. + +Estes lôtos ou lôtos semelhantes podem fabricar-se na própria escola, e +constituem meios, muito interessantes para a criança, de lhe testificar +a visão das côres e, como se verá mais para diante, de lhe educar a +atenção e de a instruir. + +Ao médico interessam principalmente as discromatopsias adquiridas, não +só porque algumas são curáveis, visto serem de natureza tóxica, mas +sobretudo porque são muitas vezes um sinal importante e precoce de +graves lesões ópticas. + +Ao educador, porêm, importam particularmente as discromatopsias +resultantes da falta de atenção. Tive já ocasião de vos dizer que a +instrução supre muitas vezes, até certo ponto, a cegueira das côres, o +que faz com que o daltónico não só ignore a sua cegueira, mas até engane +os outros, por distinguir objectos de côres diferentes e apropriadamente +denominar diferentes côres que aliás não vê. + +Mas é principalmente nos falsos daltónicos, naqueles que trocam os nomes +às côres, por ignorância, e nos que as não distinguem por falta de +atenção e exercício, que o educador tem muito a lucrar, ensinando a +denominar apropriadamente as côres e sobretudo a discriminar-lhes as +nuances. Os exercícios que se empregam na chamada educação dos sentidos +e que mais própriamente a meu vêr se deve chamar a educação da atenção +dos sentidos, porque o que se educa e aperfeiçoa principalmente não é o +sentido em si, mas a maneira de o aplicar, êsses exercícios têm tambêm, +áparte a sua acção sôbre a atenção, esta faculdade que é a base do que +vulgarmente se chama inteligência escolar, a faculdade de aprender, +êsses exercícios, repito, têm tambêm uma acção notável na educação do +poder discriminativo, que é o que regula, e torna mais seguros e +exactos, os juízos. Mas mais ainda. Como as côres têm um poder +emocional, umas excitando e outras deprimindo, o que até em terapêutica +se utiliza, elas podem servir para a educação do sentimento estético, +preparando a criança para a emoção pelas obras da Arte e pelas da +Natureza, o que tudo tem um grande valor moral. A criança é muito +sensível a êste poder emocionante das côres e nele afinal está a razão +da aplicação dos velhos estimulantes escolares: as condecorações e os +cromos, e do útil aproveitamento no ensino das estampas coloridas. E a +propósito vos chamarei a atenção para um livrinho muito interessante, +intitulado: _O nosso Portugal_, trabalho do distinto professor da Casa +Pia e meu dedicado amigo e colaborador, o Sr. professor Fernando Palyart +Pinto Ferreira, de mais a mais discípulo desta Escola, livrinho que tive +o prazer de prefaciar, e que é, entre nós, assim o julgo, a primeira +aplicação consciente dos princípios fundamentais da psicologia visual +infantil. + +No _Método Montessóri_, de que agora tanto se fala, e que, vai para um +ano, a Câmara Municipal de Lisboa mandou dois dos seus mais distintos +professores, um discípulo desta Escola, o Sr. professor Rosa y Alberty, +da Casa Pia, e sua esposa a Ex.^{ma} Sr.^a D. Pulcena Estrela da Costa, +antiga aluna da Escola de Ponta Delgada, mandou, dizia, estudar êsse +método com a sua própria autora, que se encontrava em Barcelona, no +_Método Montessóri_, a educação da visão das côres tem um lugar +importantíssimo. Nêle se faz uma inteligente aplicação pedagógica do +processo de diagnóstico de que vos falei, o processo das lãs de +Holmgren. Dá-se uma amostra de lã ou de retrós, de uma certa côr e tom, +e manda-se a criança procurar uma igual, entre muitas outras de diversas +côres e tons; mostra-se-lhe duas ou três côres e manda-se depois a +criança ir procurá-las, de cor, de memória; ensina-se a criança a nomear +as côres e os tons; a própria professora mostra-lhas, nomeando-as, +dizendo-lhes os nomes por fórma a atrair a sua atenção, usando de tom e +maneiras que seduzam a criança, e por vezes finalmente se organiza com +as crianças da escola um jôgo em que cada uma por sua vez é encarregada +de ir fornecendo às outras as côres e os tons que estas lhe vão pedindo, +e que depois cada uma tem de agrupar e seriar. + +Êste _Método **Montessóri**_, de que tanto agora se fala e que vai +avassalando os jardins de infância e as escolas primárias de todo o +mundo, não é bem uma novidade pedagógica, nem, como alguns supõem, uma +simples moda, uma fantasia. Nem novidade porque nele se encontra a +aplicação e por vezes a reprodução, pura e simples, de métodos de +outros, nem simples e inútil moda ou fantasia, porque assenta nas mais +sólidas bases da psicologia da criança. + +A Sr.^a Montessóri teve o condão de com estranha eloqùência fazer a +propaganda do método de educação dos sentidos de Froebel e +principalmente das variantes adoptadas pelos médicos e professores dos +asilos de crianças anormais. Fez e faz uma inteligente propaganda da +aplicação dos métodos adoptados na educação dos que sofrem de +insuficiência mental de origem patológica, àqueles em que apenas existe +a insuficiência fisio-psicológica, própria da sua idade, aqueles em que +por assim dizer existe um atrazo normal. E a Sr.^a Montessóri, médica e +antropologista como é, encontrou meios excelentes de fazer essa +aplicação. É sobretudo o notável aproveitamento que faz do _instinto +dramático_ da criança, procurando educá-la pela emoção e por isso, ou +deixando-a representar, e guiando-a na representação, ou tornando-a um +espectador interessado, atento e entusiasta, que ouve bem o que +propositadamente diante dêle se faz, e que depois reproduz por imitação. + +Há porêm, na escola Montessóri, e principalmente na exposição dos +métodos da Sr.^a Montessóri, misticismo a mais e froebelianismo a mais +tambêm. E quando digo froebelianismo, quero referir-me ao êrro +pedagógico do método froebeliano: à confusão da simplicidade lógica com +a simplicidade pedagógica. Aos olhos da criança as formas que nós +chamamos simples, as fórmas abstractas, não são as fórmas mais simples; +no concreto e no complexo está muitas vezes o que parece mais simples à +criança, porque a interessa mais. + +Em português têm as senhoras e os senhores um livrinho interessante e +bom para fazer uma idea do método Montessóri; é o livrinho da Sr.^a D. +Luiza Sérgio, intitulado _Método Montessóri_; e se quizerem conhecer, +alêm de uma apologia, uma severa censura e crítica à Sr.^a Montessóri e +ao chamado seu método, leiam um artigo de Guido della Valle no n.^o 6 de +Janeiro de 1911, da _Rivista pedagogica_, revista italiana. + +Nos jogos educativos do Dr. Decroly e de M.^{lle} Mochamp, a educação do +sentido cromático tem tambêm um lugar importante. Alêm dos lôtos de que +falei a propósito do exame do sentido cromático em rapazes da Casa Pia, +há outros lôtos, e um dominó curioso, que muito interessa os pequeninos +(já o tenho experimentado em meus filhos), um jôgo de dominó constituido +por uma série de pequenos cartões, aproximadamente do tamanho das pedras +do dominó vulgar, cartões a cada um dos quais estão, num dos lados, +colados, lado a lado, dois papéis, cada um de sua côr. Joga-se como se +joga o dominó. O aspecto, que a série dos cartões toma no fim do jôgo, +interessa muito as crianças. E já que de novo falei nos jogos educativos +do Dr. Decroly e de M.^{lle} Mochamp, dir-vos hei que cada um de vós +terá muito que lucrar, lendo o pequeno folheto que acompanha a colecção +daqueles jogos que o Instituto Jean Jacques Rousseau, de Genebra, +costuma vender, folheto intitulado _Jeux educatifs_, e onde todos +encontrarão compendiadas excelentes sugestões, úteis não só para +improvisar processos de educação dos sentidos e de instrução tambêm, mas +até material de ensino, que, pode-se dizer, qualquer pode fabricar. +Inspirados naqueles jogos se pode dizer que são os processos e o +material que se empregam na classe de anormais que no Instituto +médico-pedagógico da Casa Pia de Lisboa, à Travessa das Terras de Santa +Ana (a Santa Isabel), funciona sob a direcção do professor Fernando +Palyart Pinto Ferreira e de sua esposa a Sr.^a D. Lucila Carmina Lopes +de Santa Clara, distinta professora oficial, antiga aluna tambêm da +Escola Normal de Lisboa, que com o Sr. professor Cruz Filipe, da classe +de ortofonia, e o Sr. Joaquim Almada, da classe de dizer, comigo ali +trabalham. + + + Minhas Senhoras e meus Senhores + Meus Alunos + + +Agora mais do que nunca é preciso organizar os serviços de instrução por +fórma que na educação se vise o aproveitamento de todos, a valorização +de cada um, ao máximo, aumentando o mais possível o rendimento de suas +faculdades. A guerra pede-nos os mais fortes e os melhores. Na paz só +nos poderemos salvar, compensando o sacrifício que fizemos, valorizando +ao máximo os que restarem, os que escaparem, e os novos. Temos +infelizmente não só que suprir as faltas de todos os dias, as faltas +triviais, mas alêm destas as formidáveis perdas que por certo resultarão +dêste monstruoso acidente da vida do mundo: a actual guerra. Por isso há +que tratar cada um dêstes homens embrionários, dêstes cidadãos _in +herbis_, que nos confiam, há que tratá-los por fórma a bem medirmos o +valor das suas faculdades e préstimos incipientes, e por meio da +sciência, e com tôda a arte, aproveitar-lhas e desenvolvê-las e +encaminhá-las o melhor possível. Não. Não podemos nem devemos como até +aqui limitar-nos a aprender métodos de ensino, quási na ignorância e +desprendimento do conhecimento da natureza e características da criança. + +¿Que se diria de um alfaiate que nos quizesse fazer um fato, sem medida? +¿E sobretudo que se diria ao ver que o fato que nos destinava não nos +servia, não se ajustava ao nosso corpo e ou nos tolhia os movimentos ou +nos cobria de ridículo? ¿E com mais razão, que se diria do educador, que +no desconhecimento da natureza da criança, a educasse, deformando-lhe a +mente, prejudicando-lhe o carácter, e obstinando-se em adoptar processos +os menos conformes com o seu temperamento, os menos convenientes para um +inteligente aproveitamento da sua personalidade, e os menos conducentes +à sua felicidade e afinal à nossa própria, porque são as crianças de +hoje quem amanhã nos há-de governar e julgar? Vós respondereis. + +Para vos ensinar a conhecer a criança e para vos ensinar a pelo seu +conhecimento melhor aplicar e escolher os métodos que os vossos +professores de pedagogia e de prática vos ensinam, para isso aqui estou. + +Ajudai-me com a vossa atenção e eu vos ajudarei com a minha experiência, +com o meu modesto saber e com a minha dedicação a mais sincera. + +Está aberto o nosso curso dêste ano. + + +Belêm, 3 de Dezembro de 1916. + + + + +SÔBRE UMAS PROVAS DE EXAME DA ATENÇÃO VOLUNTÁRIA VISUAL[10] + + + + Minhas Senhoras e Meus Senhores: + + +Havia eu prometido ocupar-me na série de _conferências pedagógicas_ +organizada na última gerência ministerial do senhor professor Ferreira +de Simas, havia eu prometido, ocupar-me, dizia, do ponto: _A pedologia +prática e a prática do ensino na escola primária_, e prometera tambêm +que essa minha conferência serviria êste ano de lição de encerramento do +curso de Pedologia que tenho tido a honra de reger na Escola Normal de +Lisboa. Sucede, porêm, que o meu último trabalho dêste ano foi +industriar os meus alunos na prática da medida da atenção voluntária +visual, e sendo assim pareceu-me poder conciliar o compromisso tomado +com a necessidade de comentar as observações que, sôbre aquela fórma de +atenção periférica, fizemos na escola anexa à Normal Primária de Lisboa, +pareceu-me poder conciliar o compromisso com a necessidade do +comentário, aproveitando as observações feitas para, por uma maneira +mais concreta, dizer o que tencionava dizer sôbre o ponto que escolhera +e a que a princípio pensára dar uma fórma mais teórica e geral. + +O assunto: _a atenção e a sua medida_ é um ponto capital de pedologia +psíquica aplicada à educação. + +A atenção é a base do que Binet chamou a _faculdade escolar_, a +faculdade de aprender na escola, a faculdade de assimilar o ensino nela +ministrado, pelos métodos mais usuais. Para ser bem sucedido nos estudos +são precisas, diz com razão ainda Binet, qualidades que dependem +sobretudo da atenção, da vontade e do carácter. E «saber manter a +atenção dos escolares, apropriar o grau de atenção à dificuldade e à +importância do trabalho a realizar é quási tôda a arte do professor», +diz Van Biervliet. Portanto, debaixo do ponto de vista da importância, +creio ter escolhido um ponto excelente. E quanto ao que queria +principalmente demonstrar na minha conferência: a possibilidade de +praticar estudos pedológicos, sem perturbação nem prejuízo das funções e +obrigações didácticas, nenhum melhor assunto serviria para defender esta +tese do que êste: a atenção e a sua medida. Alunos meus tiveram ocasião +de ver que, em alguns minutos, se poderia sem perturbar a classe, nem +alterar o ensino, fazer importantes experiências que entre outras coisas +podem ser aproveitadas para conhecer os alunos debaixo do ponto de vista +da atenção, descobrir anormais, medir a fadiga, julgar horários, +programas, métodos de ensino, e até ensinar a estar atento. + +Tem sido sempre minha principal preocupação o professar pedologia que +possa directamente aproveitar ao ensino primário, não aconselhando senão +processos de observação e experiência, fáceis, compatíveis com a +preparação dos alunos da Escola Normal Primária, e que não distraíam os +mestres das obrigações didácticas, e antes pelo contrário contribuam +para que melhor as cumpram, fazendo sempre lembrar-lhes que, mais do que +ministrar noções, lhes compete preparar o espírito dos alunos para as +receber, e para isso é indispensável saber conhecer os alunos, saber o +que são, conhecer a personalidade de cada um, e saber-lhes aproveitar o +feitio. Esta tem sido de facto a preocupação principal e a orientação +com que tenho preparado as minhas lições e elas claramente se notam nas +três lições que já publiquei:--_O ensino da pedologia, na Escola Normal +Primária_, _O pêso do corpo da criança_, e _A agudeza visual_ _e a +auditiva, debaixo do ponto de vista pedagógico_. + + + Minhas Senhoras e meus Senhores: + + +No ensino ordinário da escola primária utiliza-se e treina-se muito a +atenção voluntária visual verbal, isto é, utiliza-se e exige-se um +estado de espírito em que o aluno voluntáriamente toma a atitude que +mais convêm para receber as estimulações visuais determinadas pelas +palavras escritas. Não será a fórma de atenção mais útil para a vida, +porque no mundo ambiente, como diz Van Biervliet, a atenção não tem que +dirigir-se, orientar-se, concentrar-se sôbre as fórmas verbais das +cousas, sôbre a descrição dos factos, sôbre os resumos dos +acontecimentos, mas sim sôbre as próprias cousas, sôbre os próprios +factos, sôbre os próprios acontecimentos; não será portanto a fórma mais +útil para a vida, mas é uma das mais úteis para o sucesso na escola. +Alêm disso, por meio da sua medida, se podem resolver vários problemas +escolares, principalmente porque por meio dela se pode medir a fadiga +escolar. Aqui têm, pois, V. Ex.^{as} mais uma razão, e afinal a +principal, da escolha que fiz do tema da minha lição de encerramento, +que vai versar: _sôbre umas provas de exame da atenção voluntária +visual,_ _colhidas em alunos da, escola anexa, à Normal Primária de +Lisboa_. + +Mediu-se a atenção pelo método da _correcção de provas_ (método de +Bourdon), utilizando umas vezes o _test_ de Toulouse e Vaschide, uma +fôlha impressa com 1.600 sinais, figurando cada um deles um pequeno +quadrado com um traço do mesmo tamanho, dirigido para fora, e orientado +segundo 8 direcções, o que dá lugar a 8 sinais diferentes, fôlha que +obtivemos mandando reproduzir a que acompanha o vol. II da _Técnica de +psicologia experimental_ de Toulouse e Piéron (edição de 1911), outras +vezes utilizando trechos do livro de leitura habitual dos alunos da 4.^a +classe da escola anexa, mandando nele riscar determinadas letras, uma ou +duas, num tempo determinado (cinco minutos em regra) ou riscá-las, +cortando-as numa certa porção de trecho, em que de antemão tinhamos +verificado qual o número de letras escolhidas que nela havia, número que +a criança, riscando as letras, deveria verificar, recomeçando o trabalho +tantas vezes quantas fôssem precisas para alcançar o número de letras +que no trecho existiam e que nós lhe haviamos préviamente indicado +(processo de Van Biervliet). Mediamos assim a atenção pela correcção ou +pela velocidade ou pela correcção e velocidade com que as crianças +suprimiam sinais do _test_ de Toulouse e Vaschide ou letras dum trecho +do seu livro de leitura. + +O método que empregámos é aquele que permitiu a Binet verificar, numa +escola primária de Paris, a coincidência da classificação dos alunos, +debaixo do ponto de vista da atenção, feita por meio dos _tests_ +colhidos em alguns minutos de experiência, com a classificação dos +mesmos alunos feita pelas notas do professor, notas resultantes duma +apreciação longa e demorada. E a propósito vale a pena lembrar que, +citando estes factos, Binet acentuou que o êxito escolar resulta mais da +atenção do que da inteligência, que o aluno mais atento pode não ser o +mais inteligente e que por isso não é de estranhar que as crianças, que +os _tests_ levam a considerar como inteligentes, não sejam sempre as +mais adiantadas, as que mais aproveitam, as que dão melhores _tests_ da +atenção. + +O mesmo método de medida da atenção que pratiquei e fiz praticar aos +meus alunos é um dos que permitiu a Ley demonstrar que os movimentos +respiratórios lentos e amplos, dilatando vagarosamente e largamente o +torax, com as espáduas bem aproximadas, sem elevação dos braços nem +elevação do corpo sôbre as pontas dos pés, são um excitante da atenção +voluntária, e foi êle que com o método dos _tempos de reacção_ tambêm +permitiu a Ley verificar que um repouso de quatro minutos, sem execução +dêsses exercícios respiratórios, actua muito menos benéficamente sôbre a +atenção do que quando durante o mesmo tempo se executam movimentos +respiratórios pela fórma que acima precisei. + +Foi tambêm empregando êste método da _correcção de provas_ que eu obtive +_tests_ da atenção em alunos da escola primária oficial de Belêm, sem +classe de trabalhos manuais, e em alunos do mesmo grau escolar, da Casa +Pia, com bastante prática de trabalhos manuais, _tests_ que me +permitiram sustentar e demonstrar no meu discurso: _Da influência dos +trabalhos manuais no desenvolvimento do espírito_, que os trabalhos +manuais treinam a atenção, melhoram a atenção. + +As primeiras experiências que fizemos na escola anexa foram praticadas +utilizando o _test_ de Toulouse e Vaschide. + +A medida da atenção por meio da supressão de letras ou sinais +equivalentes funda-se no facto de numa série de percepções análogas, +monótonas, tenderem essas percepções a alterar-se, a enfraquecer, a +apagar-se, sendo necessário para evitar essa alteração e fazer com que +as percepções continuem a efectuar-se correctamente, que a atenção +voluntária intervenha, procurando assim fazer manter a intensidade +inicial dos fenómenos sensoriais. Se a atenção voluntária tende a +enfraquecer, a baixar, as percepções deixam de se efectuar uma ou outra +vez, ou efectuam-se incorrectamente, e nós podemos medir essa baixa, o +gráu de atenção, examinando os erros e a variação da velocidade do +exame, durante um certo lapso de tempo, em que o examinando colhe uma +série de percepções da mesma espécie e gráu (percepções monótonas). + +Mandando riscar as letras num trecho em língua conhecida, o exame pode +ser perturbado pela influência da leitura do texto, pela compreensão do +texto, pelo sentido das palavras, sendo muito difícil, se não +impossível, a quem não está habituado a abstrair, fazer com que só se +procurem letras e não se leiam as palavras. + +Tem-se procurado evitar êste inconveniente ou dando trechos em língua +estranha ou empregando _tests_ como o de Henrotin (_Contribution à +l'étude de l'atention visuelle chez les enfants_, in _Rév. de +Pédotechnie_, n.^{os} 2 e 3, 1914), em que a prova é constitùida por uma +fôlha com 832 letras, repartidas em 26 linhas de 82 caracteres de +imprensa bem separados e muito nítidos, de maneira a evitar confusões, +letras que, como por exemplo o _a_, o _e_ e o _u_, se encontram +repartidas duma maneira irregular e por fórma tal que nada há que possa +indicar ao examinando nem o lugar, nem o número das letras cuja +supressão ou indicação se pede. Sucede, porêm, que nem tôdas as letras +do alfabeto são igualmente visíveis, nem tôdas chamam igualmente a +atenção, como o faz notar Van Biervliet; umas, como êle diz, o _x_ por +exemplo, atraem pela sua raridade, outras como o _f_ e o _b_, letras ao +alto, extensas, chamam mais a atenção do que as letras baixas _e_ e _r_, +por exemplo. Entre estas, umas há bastante largas como o _m_, que nos +impressionam mais, outras mais altas do que largas, outras tão largas +como altas, etc. Para evitar estas diferenças que podem perturbar o +exame, a medida da atenção, é que Toulouse e Vaschide propuzeram a sua +prova, uma prova de sinais igualmente interessantes, que podem servir +mesmo para os que não sabem ler; tem alêm disso a vantagem de evitar a +influência do hábito da leitura e revisão de provas. + +O emprêgo da prova de Toulouse e Vaschide na escola anexa revelou-nos +factos interessantes para que chamo a vossa atenção. Em primeiro +lugar:--examinando a atitude dos alunos da 4.^a classe durante o tempo +em que riscavam sinais, alguns vimos que pelo cuidado com que examinavam +pareciam prestar grande atenção, mas cujas provas vinham cheias de +erros. Sucede isso muitas vezes. São criaturas apáticas, cuja lentidão +habitual os faz confundir com aqueles que, não sendo apáticos, se +imobilizam, ou tornam lentos, pelo esfôrço da atenção. Os primeiros não +são atentos, assemelham-se aos atentos. + +Pode suceder tambêm que apareçam alunos que não compreendam a prova, que +cortem a êsmo, que cometam muitos erros, riscando sinais e letras ao +acaso. Sucede isso com atardados profundos, e essa prova serve-me muitas +vezes no _Instituto Pedagógico da Casa Pia_, como meio de reconhecer o +gráu de anormalidade dos anormais que ali vão. + +Anormal que não compreende o _test_, é anormal médico, é anormal +profundo, é, em regra, o idiota. Para mim êste sinal vale como o de +Demoor. + +Outro facto curioso que observámos é o de na primeira experiência termos +chegado pelos _tests_ a considerar como atentos alunos que a Sr.^a +professora da escola anexa indicava como desatentos e grandes +desatentos. Um facto semelhante sucedeu a Binet, que, com grande +surpresa, verificou uma vez, examinando alunos de uma classe de anormais +pedagógicos, que êsses anormais afinal riscavam tantas letras como os +normais. O facto resultava das condições em que primeiro experimentára: +os alunos tinham sido observados isoladamente e na sua presença. A acção +da presença do observador foi uma verdadeira acção estimulante. Postos +os alunos à vontade, trabalhando sem estar sujeitos a vigilância, +diferenças, e grandes, logo se mostraram. + +O resultado das discordâncias que observámos no nosso primeiro exame +deve provir, em primeiro lugar, da acção da curiosidade despertada por +aquele exercício completamente novo; em segundo lugar da minha presença +e do ar solene que a prova tomou; em terceiro lugar talvez de nesta +altura do ano se encontrarem mais fatigados os bons alunos, os alunos +aplicados, que mais trabalharam, do que os desatentos habituais, +preguiçosos, menos aplicados, que menos se esforçaram. + +A lição a tirar é de que não devemos procurar formar um juízo sôbre a +atenção por um só exame por meio de _tests_. É necessário repetir e +sempre ter o aluno à vontade, sem estar sujeito a uma vigilância severa, +nem às nossas estimulações por acção intimidante ou reconfortante, como +diz Binet. + +Em regra, fizemos cortar um só sinal. Há vantagem, quando se quer +acentuar as diferenças individuais, em empregar dois. Toulouse e Piéron, +na sua _Técnica_, dizem obter-se por esta fórma, em condições normais, +um óptimo de diferença individual. Outro facto importante e interessante +que observámos, no dia da primeira experiência, foi o de, ao contrário +do que era de esperar, ver que as provas da tarde foram, em geral, +superiores em velocidade e correcção às provas da manhã. Nos mesmos +cinco minutos, os alunos, na sua maioria, percorreram uma maior extensão +de _test_, e cometeram menos erros. Ora era de esperar que, depois de +quatro horas de trabalho, a atenção tivesse baixado, em virtude de +fadiga, que era natural que houvesse. Êste paradoxo resulta em primeiro +lugar da surprêsa, da emoção que deve ter causado a experiência da +manhã. Os alunos nunca tinham sido sujeitos a ela; nunca tinham visto o +_test_. Deviam estar em estado emocional semelhante àquele em que nos +coloca um exame, de que nos arreceamos. Á tarde estavam mais calmos, e +de mais a mais vim a saber que se lhes tinha explicado o fim da +experiência e se os tinha animado. Alêm disso, nestes exames, o aluno +treina-se, aperfeiçoa-se, aprende a fazer o _test_. + +E esta influência do treino deve entrar em linha de conta na +interpretação dos resultados das experiências. Para anular a influência +do exercício, aconselha-se a prática do _método das repetições_, que +consiste em «fazer um grande número de experiências preliminares até que +o exercício tenha produzido todo o seu efeito», até que o examinando +tenha adquirido todo o treino. Podem tomar um conhecimento suficiente +dêste método lendo o que sôbre êle diz Claparède no livro _Psychologie +de l'enfant_, que conjuntamente com o livro de Binet, _Les idées +modernes sur les enfants_, não me canso de aconselhar, e a que por mais +de uma vez tenho com razão chamado _breviários do educador_. + +Para terminar o que desejava dizer sôbre as nossas primeiras +experiências, apontarei o facto curioso de termos observado duas alunas +da 4.^a classe da escola anexa, que percorreram o _test_, não deslocando +o olhar horizontalmente, seguindo as linhas, mas sim verticalmente, +seguindo as colunas. A propósito lembra-me dizer-lhes que há quem tenha +recomendado, como convindo mais à leitura, o dispor as palavras em +linhas verticais e não em horizontais, como fazem os japoneses, por +exemplo. Com o esfôrço e o movimento dos olhos que se executam +percorrendo uma palavra horizontalmente, pode-se, com a disposição em +linhas verticais, atravessar umas poucas de palavras e abreviar a +leitura. + +O facto que se deu mostra que antes de iniciar a experiência com a prova +de Toulouse e Vaschide se deve explicar a maneira de proceder. + +Habitualmente costumo destinar cinco minutos para a experiência e contar +no fim o número total de sinais existentes no trecho do _test_ que cada +um observou, contando depois o número de erros, conjuntamente os erros +de omissão ou falta de supressão, e os de troca de sinal, ou erros de +reconhecimento. + +O número total de sinais existentes no trecho _visto em cinco minutos_ +indica-nos, para cada um, a velocidade; a percentagem dos erros +indica-nos o grau de correcção. + +Como os futuros professores, na sua escola, não vão ter naturalmente à +sua disposição fôlhas com os sinais de Toulouse e Vaschide, fiz praticar +alguns exames da atenção, pelo método de correcção de provas, utilizando +trechos do próprio livro de leitura dos alunos, fazendo-os cortar duas +letras igualmente visíveis, e atraindo igualmente a atenção, _b_ e _d_, +_b_ e _t_ por exemplo, mudando de letras de experiência para +experiência, para evitar a influência do treino. Fazia tambêm com que +todos os alunos cortassem letras no mesmo tempo (cinco minutos, em +regra, como já disse) e no fim recolhia os livros de leitura para tomar +nota do número total de letras escolhidas existentes no trecho examinado +em cinco minutos, e estabelecia a proporção por cento das faltas que +tivessem cometido. + +Dos processos que praticámos aquele que particularmente aconselharei é o +de Van Biervliet, que já descrevi, e em que se mede a atenção visual +pela velocidade da correcção de provas, indicando para isso ao aluno um +trecho com um determinado número de uma ou duas letras escolhidas (todos +os _b_ e _d_ por exemplo) e fazendo-o verificar êsse número, devendo +recomeçar tantas vezes o trabalho quantas as necessárias para encontrar +o número indicado. A velocidade é expressa pelo tempo de duração da +prova, para cada um. Êste _test_ obtêm-se em regra em dois ou três +minutos, e os meus alunos que assistiram às experiências viram como êle +com facilidade permite comparar a atenção visual dos alunos de uma +classe, e agrupá-los debaixo do ponto de vista da atenção. As +experiências em que praticámos êste processo mostram-nos bem a +influência que a fadiga tem sôbre a atenção. Comparando os resultados +obtidos nas experiências da manhã, antes de começarem as aulas, com os +obtidos à tarde, ao fim delas, verificou-se com facilidade que o número +de alunos do primeiro grupo, o dos que realizaram a prova com mais +rapidez, diminuiu: e mais se viu que, naqueles que na segunda vez ainda +figuravam entre os primeiros, a velocidade era menor à tarde do que de +manhã; a prova durava mais. O processo que Van Biervliet recomenda, e +que é aquele de que estou falando, tem o inconveniente de exigir para +uma fácil verificação da duração da prova, e evitar que nos enganem, +exigir, dizia, o exame dos alunos por pequenos grupos, de quatro a +cinco. Para tirar conclusões é, como em todos os de que falei, +necessário repetir as experiências. Como questão capital, mais uma vez +direi que estas experiências psicométricas que se aconselham aos +professores, não têm em vista, como muitos supõem, distraindo-os das +suas funções de professores, pô-los na situação de investigadores ao +serviço da sciência, a perscrutar leis, ou descobrir novos factos, ou +verificar observações daqueles que com uma preparação, profunda e +especial, se consagram a estudos pedológicos. O professor deve fazer a +pedologia necessária para praticar o ensino que lhe pertence e +praticá-lo nas melhores condições, e no maior acôrdo possível com o +feitio do seu educando, e com as regras pedagógicas induzidas pelos +pedologistas de profissão, por aqueles que especialmente se preparam +para investigações scientíficas na criança, tendo em vista as suas +aplicações pedagógicas. + +Os processos de medida da atenção visual de que falei podem ser +praticados pelo professor, sem que lhe tomem muito tempo, e podem +servir-lhe, desde que se não esqueça de certas precauções, tendo em +vista evitar a influência de factores que perturbam os resultados ou a +interpretação dos resultados destas experiências fáceis, mas não +simples, podem servir-lhe, dizia, para orientar convenientemente o seu +ensino, e verificar, como por exemplo Van Biervliet diz a propósito da +medida da fadiga escolar, verificar o valor, o interêsse da sua própria +maneira de ensinar. + + * * * * * + +Os _tests_ não servem só para julgar, por exemplo no nosso caso, do +valor da atenção e do gráu da fadiga; servem tambêm como meios +excelentes para educar, para treinar a própria atenção do aluno. Demais +êles têm para o aluno o caracter, que mais lhes prende e chama a +atenção, de verdadeiros jogos, e como tal podem ser aproveitados. Com o +fim de treinar a atenção podereis, sem inconveniente nem perturbação do +ensino, mandar de vez em quando, durante alguns minutos, mesmo no +decurso da própria lição, mandar cortar certas letras, uma, duas, três, +etc, e estimular os alunos para ver quem mais correctamente e +rápidamente as corta. Ensinareis assim os vossos alunos a orientar a sua +atenção, e a fixá-la. É uma verdadeira lição de vontade. E o exame dos +_tests_ e a sua apreciação contribuem tambêm muito para a educação do +professor; experimenta-lhe e disciplina-lhe a sua própria atenção e +paciência e dá-lhe, pelas conclusões a que leva, ensinamentos muito +úteis à pratica do ensino. Cria-lhes, alêm disso, um utilíssimo hábito +scientífico: o hábito de experimentar. + + * * * * * + +É das Universidades e dos seus cursos de psicologia e de pedologia, dos +seus laboratórios especiais, e da sciência livre e desinteressada e pura +que muitas vezes nelas exclusivamente se professa, que têm saído os +ensinamentos que transformam dia a dia a arte de ensinar e revolucionam +a sciência pedagógica. + +Se não se quere ir até fazer com que a preparação do professor primário +se faça na própria Universidade, como nalgumas partes sucede, é +indispensável aproximar o mais possível a _escola dos mestres_ da +Universidade, para que ela sofra a benéfica influência desta _alma +mater_, onde se deve professar com todo o desenvolvimento a sciência da +criança, a antropologia da criança, a pedologia, a base da pedagogia +nova, da pedagogia scientífica, da pedagogia natural, da pedagogia +moderna, da verdadeira pedagogia. + +Que ao menos, como Credaro fez em Itália, se crie junto às Universidades +_escolas pedagógicas_, cursos de aperfeiçoamento para os futuros +professores, e mesmo para os actuais. + + + Senhores: + + +Na Universidade é que se deve apurar no maior gráu possível o espírito +scientífico, o espírito de investigação e de crítica tolerante, o bom +senso, aquele que permite descobrir a realidade e as possibilidades. E +em nenhuma arte, mais do que na do mestre-escola, é necessário êsse +bom-senso, o excelente hábito de observar e experimentar, que leva ao +tacto e à paciência, indispensáveis para proveitosamente se lidar com +crianças e saber conhecê-las para saber ensiná-las. + +A aproximação do mestre primário da Universidade tem ainda outras +vantagens. O espírito da Universidade deve ser o verdadeiro espírito +democrático; difundir a cultura por todos, criar uma atmosfera em que se +encontrem misturadas tôdas as ideas, todos os sentimentos que irradiam +de todos os ramos da cultura e que contribuem, como diz Lanson, «para +abrir no espírito dos novos, antes da hora da especialização inevitável, +o espectáculo total da sciência, a fim de fazer com que cada um seja +mais do que um simples artífice intelectual, para que todos compreendam +a dignidade da tarefa que a cada um pertence, sabendo que laços a +prendem ao todo.» + +Á Universidade compete (e é nela que é mais fácil isso fazer-se), +compete formar a própria nacionalidade e a própria democracia. +Juntando-se todos dentro dela e sofrendo-lhe a influência, poderá mais +fácilmente fazer-se, do que nas escolas especiais se faz, fazer-se, +dizia, com que desapareçam os preconceitos de origem, de classe e de +profissão. «De certo, como diz o Dr. Bernardino Machado, na sua célebre +oração de sapiência, _A Universidade e a nação_, de certo que entre os +diversos ramos da actividade humana há classificação, mas reversível, à +semelhança do que acontece com a própria árvore natural, onde até os +ramos se podem transmudar em raízes e as raízes em ramos. O que não há é +subordinação deprimente, do maior para o menor; como a não há, de um +para outro ramo, entre os profissionais que os cultivam. São todos +homólogos, todos irmãos». Êste espírito de fraternidade ninguem melhor o +pode incutir do que o ensino universitário. + + +Meus senhores e particularmente meus alunos: não sofram da ilusão do +diploma, a mais perigosa de tôdas as ilusões das escolas da nossa terra. +Não imaginem que o número de valores com que no fim do seu curso a +Escola Normal os brinda, e lhes premeia o seu esfôrço, significa que são +professores, aptos e prontos, cujo _valor profissional_, profissional +repito, se pode medir exclusivamente, ou principalmente, olhando para um +papel e para uma cifra. + +Um diploma distinto de uma das nossas escolas normais significa apenas +que o aluno estudou e se apresentou distintamente na freqùência das +disciplinas dessas escolas. As nossas escolas normais são, como me +parece que disse Guex, o autorizado professor suiço, simples escolas +primárias superiores com a cadeira de pedagogia. Nos valores da carta do +normalista não influi ainda o curso de pedologia, nem a pedagogia tem um +maior coeficiente do que o das disciplinas de cultura geral. Está-me a +lembrar o que há dois anos me sucedeu com um candidato a professor da +Casa Pia, que calorosamente defendia a sua pretensão, insistindo em que +devia ser preferido só porque tinha 20 valores; muito simplesmente lhe +retorqui:--_Imagine o senhor que não tem paciência, nem calma. ¿Dizem os +seus valores alguma cousa sôbre isso? ¿Quem o quererá para professor de +seus filhos, se não tiver_ _aquelas qualidades? Professe, ensine +primeiro; depois se verá se é professor_. E, a propósito ainda, me +lembro de uma outra anedota que uma vez ouvi contar, na aula de +obstetrícia da Universidade de Coimbra, ao querido e sábio professor Dr. +Daniel de Matos. Contava êle que um parteiro notável com quem uma vez +conversára, falando-lhe dum grande êrro profissional cometido por um +médico, começou assim a sua narrativa:--_Un jour, un collégue, pardon, +un médecin_...» Há na realidade muitas vezes uma grande distância entre +um diplomado distinto e um distinto profissional. + +O professor primário precisa de ter uma sólida cultura geral, e conhecer +bem os métodos de ensinar, e o ser que tem a ensinar, mas não menos do +que da erudição, deve tratar da sua educação scientífica, do hábito de +investigação, adestrar a paciência, apurar o bom senso, e criar e +fortalecer e desenvolver a fé e o entusiásmo pela sua profissão. + +Aproximá-lo da Universidade e nela pô-lo em contacto com aqueles que +mais provávelmente subirão e alcançarão os mais elevados lugares, os de +dirigentes da sociedade, é contribuir não só para lhe ampliar a cultura +e para lhe desenvolver o espírito scientífico, mas tambêm para o +dignificar, e fazer estimar mais a sua profissão, a sua nobilíssima e +importantíssima missão de educador primário, primário em todos os +sentidos da palavra. + +Bem haja quem organizou esta série de conferências, de que a minha é +êste ano a última em número e em mérito e bem haja a nobre Universidade +de Lisboa por não ter duvidado abrir as suas salas aos professores +primários e permitir-lhes até que das suas cátedras falassem. + +_Escolas, escolas, construí escolas_, se grita à maneira de Sarmiento, +na crença de que elas por si transformarão e melhorarão a sociedade. + +_Professores, professores, bons professores_, exclamarei eu, _porque +êles são indispensáveis para fazer as boas escolas_. E antes talvez de +melhorar os processos da sua formação, talvez que antes disso seja +preferível fazer o que estamos aqui a fazer: dignificar a profissão, +fomentar a consideração por ela, atrair os mais aptos e criar o +entusiásmo e a fé, que nesta modesta mas fundamental profissão ou, +melhor, sacerdócio do professor primário, mais do que em nenhuma são +precisos. + +Proteger o professor, honrar o professor, e fazer com que êle seja o que +deve ser e saiba honrar a sua profissão é contribuir para a valorização +da nossa terra. Êles tudo têm em suas mãos, porque, como já uma vez eu +mesmo disse, nelas têm a Patria e os seus soldados. + +A vitalidade de uma nação pode julgar-se pela maneira por que ela +prepara e considera e paga os seus professores. + +¡Senhoras e senhores! ¡Honrai o professor! + +Disse. + + + + +DA INTELIGÊNCIA DO ESCOLAR E DA SUA AVALIAÇÃO[11] + +/# + «_Vuota di sentimento e di azione l'intelligenza è una forma + inconcepibile._» + + Prof. Saffiotti. +#/ + + +Á semelhança do que têm feito outros paises em que a politica da +Educação é politica dominante e onde, portanto, a arte de governar os +homens se prende íntimamente e depende intencionalmente da de governar +as crianças, à semelhança de algum dêstes países onde a felicidade da +Nação se trabalha e fórma principalmente na escola, abriu-se êste ano +entre nós um curso de aperfeiçoamento para professores primários, em que +eu tenho a honra de inaugurar o curso de Psicologia experimental. Em bôa +hora o seja. + +Longe de me poder considerar à altura dos Mestres, a quem lá fóra se tem +confiado êsse ensino de aperfeiçoamento, extensivo até aos professores +de escolas normais e aos inspectores primários, esforçar-me hei no +entanto por me pôr ao par deles no desejo de, segundo os seus +ensinamentos, fazer com que as senhoras e os senhores adquiram o mais +rápidamente possível noções e hábitos que se possam traduzir num +imediato melhoramento do ensino pelo melhoramento dos mestres. Não +pretendo tanto aumentar-lhes a cultura, como sobretudo aperfeiçoar a +arte de aproveitar a cultura e as aptidões que já têm, em grande parte +até, graças à sua experiência profissional. + +Não farei o que costumo fazer no meu curso regular, agora de dois anos +completos e onde insistentemente, minuciosamente, eu principalmente +procuro: 1.^o _Arreigar a convicção de que os fenómenos psíquicos são +fenómenos de reação nervosa, susceptíveis de serem estudados por métodos +objectivos, e portanto de que a Psicologia é uma sciência biológica, uma +sciência do quadro das sciências naturais_; 2.^o _de que a educabilidade +é uma propriedade do sistema nervoso_; 3.^o _de que essa, propriedade se +pode estudar e cultivar segundo as normas habituais das experiências +scientíficas_; 4.^o _de que a avaliação da educabilidade é o problêma, +psicológico fundamental do professor_. + +Quási saltarei sôbre os três primeiros números do meu programa habitual +e caírei sôbre o quarto, e estudarei, em sua companhia, aquilo para que +os julgo mais habilitados e que mais rápidamente se poderá traduzir num +melhoramento pedagógico, de origem puramente psicológica: _A +inteligência do escolar e a sua avaliação_; tanto mais que para êsse +estudo se encontram prontos a serem utilizados pelos mestres dois +pequenos volumes ao alcance de todos: _La medida del desarollo de la +intelligencia en los niños_ de Binet e Simon, tradução espanhola do +professor do Instituto nacional de surdos mudos, cégos e anormais, de +Madrid, sr. Orellana, publicado em 1918, e a _Contribuição para o +estabelecimento de uma escala de pontos dos níveis mentais das crianças +portuguêsas_, publicada por dois ilustres compatriotas nossos, a quem a +bibliografia pedagógica moderna portuguêsa já bastante deve: o sr. +Antonio Sergio e sua esposa a sr.^a D. Luiza Sergio, contribuição +publicada em volume, em junho de 1919. + + * * * * * + +Num curso de psicologia objectiva, os fenómenos psíquicos são +considerados como _reflexos cerebrais_, como lhe chama Bechterew, +reacções exteriores que dependem da experiência de cada indivíduo, +durante a sua vida. Estudam-se as reacções do indivíduo em relação com o +meio ambiente, incluindo nêste o meio social e a própria escola. + +As reacções que particularmente estudamos, os fenómenos que constituem o +objecto da Psicologia objectiva, e que nela os procuramos estudar como +se estudam os outros fenómenos da Natureza, dependem não só da estrutura +do indivíduo e da acção da ocasião, mas tambêm de acções e reacções +anteriores a essa ocasião. + +A acção de ocasião junta-se, _associa-se_ nos seus efeitos aos efeitos +das acções anteriores, de maneira que a reacção é influída e regulada +por estas. Eis a essência do fenómeno mental. + +A educação não é mais do que o aproveitamento desta propriedade do +sistema nervoso, ou mais precisamente dos hemisférios cerebrais, desta +_memória associativa_ (Loeb), com o fim de, por meio dela, regular a +actividade, o procedimento, a acção do indivíduo. + +A educação é a utilização da _memória associativa_, é o regulamento +intencional da experiência do indivíduo, é a formação, a cultura, em +obediência a certos princípios e interêsses, do poder da sua _memória +associativa_. + +Será esta a _Inteligência_? + +Variadas e, por vezes, discordes são as definições que se dão, e as +significações que se atribuem a esta palavra. + +A inteligência talvez se possa definir, em psicologia objectiva, como +uma manifestação externa da memória associativa, que se caracteriza por +actos de adaptação às variações das circunstâncias. É, até certo ponto +isto, se assim se pode dizer, uma tradução em linguagem fisiológica da +concepção que Bergson exprime quando diz que a «função essencial da +inteligência consiste em encontrar em quaisquer circunstâncias os meios +de se tirar de dificuldades.» + +É a inteligência uma utilização da memória associativa. É a propriedade +de ajustar os traços das reacções anteriores, isto é, a experiência +individual anterior, à experiência da ocasião, para uma adaptação a +novas circunstâncias, por meio de reacções reguladas pela experiência +anterior do indivíduo, repito. + +A inteligência sob este ponto de vista, é uma manifestação externa, +global, da memória associativa, e que se avalia pela sua finalidade, +pelo valor do ajustamento, em rapidez e perfeição, às variações +quantitativas e qualitativas das circunstâncias. + +Ora esta fórma de actividade mental deve depender não só dos +conhecimentos própriamente ditos, das ideas, mas tambêm do sentimento de +prazer ou de dôr que acompanhou as experiências anteriores e acompanha +as actuais, isto é, da _afecção_, se se quizer adoptar o termo que o sr. +Antonio Sergio emprega para designar o _elemento sentimental_ (_Da +Natureza da afecção_, separata da «Revista Americana», 1913, pág. 8.) + +A inteligência revela-se, portanto, em actos em que as ideas e os +sentimentos influem, como nos _tropismos_ influem certas substâncias. + +A inteligência depende do interêsse, das tendências, que, por sua vez, +são funções da estrutura do indivíduo, da natureza da sua experiência +anterior e da natureza da experiência de ocasião. + +Sendo assim, fácil é compreender porque é que se podem considerar como +não inteligentes, certos indivíduos cuja fórma de reacção mental de +adaptação se revela dificiente em determinadas circunstâncias, em certos +meios. + +Percebe-se que, com Binet, se distinga a inteligência escolar da +inteligência extra-escolar, se porventura as circunstâncias da escola +são muito diferentes das de fóra da escola e os interêsses que a escola +desperta são diferentes do que a vida ordinária ou o meio extra-escolar +despertam. + +Há inteligências que se não revelam na escola. + +Verdadeiramente, completamente inteligente, porêm, é o que se ajusta a +quaisquer circunstâncias, é o que se mostra inteligente em qualquer +meio. + +A inteligência não é apenas a inteligência que consiste em adaptar +respostas a preguntas, na escola, falando, escrevendo ou calculando, mas +tambêm a que se revela por actos e gestos de outra ordem, em +circunstâncias de tôda a ordem. + +A inteligência julga-se pelo valor adaptivo do gesto ou do acto +considerado debaixo do ponto de vista da sua prontidão, rapidez, +exactidão e perfeição. + +A inteligência não tem um significado cognoscitivo apenas, revelação e +utilização de conhecimentos; tem tambêm um significado moral e um +significado estético, que se revelam na reacção às variações das +condições morais e estéticas do meio, no condicionalismo ético e +estético da experiência. + +Compreende-se, pelo que lhes vou dizendo, que por exemplo, como faz Van +Biervliet, se classifique a inteligência em espécies: _inteligência +clássica_, isto é, inteligência que se revela principalmente nos +trabalhos da classe, _inteligência prática e inteligência estética_. + +Compreende-se tambêm que com propriedade se possa dizer que há uma +imbecilidade intelectual, uma imbecilidade estética e uma imbecilidade +moral. + +Kirckpatrick considerando a inteligência, ou melhor a actividade +intelectual, não própriamente sob o ponto de vista da sua finalidade, +mas no do seu mecanismo, descreve, quatro tipos de inteligência, tendo +como inteligência tudo aquilo que constitui acto de adaptação +individual, e assim descreve: um tipo de _inteligência fisiológica_, um +tipo de _inteligência senso-motriz_ ou _perceptiva_, um tipo de +_inteligência representativa_ e um tipo de _inteligência conceptual_ ou +_conceptiva_. + +A primeira excluo-a eu aqui, porque não depende de fenómenos da _memória +associativa_. São fenómenos de adaptação de outra ordem, pura adaptação +fisiológica, em que a própria imunização tem o seu lugar. + +Dos outros tipos convem dar-lhes hoje uma noção. + +Na _inteligência senso-motriz_ ou _perceptiva_ o que há, o que a +caracteriza é uma adaptação imediata de movimentos e sensações de +ocasião. Estes actos não se manifestam, não se repetem senão quando +estímulos da mesma natureza actuam em circunstâncias semelhantes. + +Por exemplo certos movimentos que se executam no decurso do jôgo do +_foot-ball_, movimentos de equilíbrio, de ataque, de defesa ou melhor os +movimentos que, quando tropeçamos e vamos a cair, fazemos para nos +equilibrarmos. + +São as próprias sensações que experimentamos, que _directamente_ +provocam e regulam os actos de adaptação. De factos em relação com esta +espécie de inteligência tratei eu num artigo sôbre mutilados da mão, que +publiquei na _Medicina Moderna_ do Pôrto, com o título _Inteligência +motriz_. + +Na _Inteligência representativa_ os actos da adaptação podem ser +provocados e regulados apenas por símbolos que se tenham associado a +sensações anteriores. O acto pode executar-se em virtude duma +experiência anterior regulada por acções semelhantes que víssemos +executar ou que nos fôssem descritas. É a experiência anterior de outros +a regular a nossa. + +Na _conceptual_ ou _conceptiva_ o acto de adaptação revela-se não só na +ausência de uma experiência _do mesmo tipo_, feita pelo próprio ou por +outrem, vista ou descrita, como se dando nas mesmas circunstâncias, mas +em resultado de experiências _várias e diferentes_, do próprio e de +outros. + +Uma pessoa quando salta dum carro em movimento, pode fazê-lo com sucesso +ou porque já o tenha feito outras vezes, e portanto associe as acções +sensoriais de momento às reacções anteriores (_inteligência +senso-motriz_), ou porque já tenha visto saltar outrem ou lhe tenham +dito como se deve saltar (_inteligência representativa_), ou porque +reacções diferentes que tenha por si mesmo experimentado, observado ou +visto descritas por outros, se tenham associado e combinado por forma a +gerar o conhecimento das leis dos corpos em movimento, o que associado +às acções do momento regula o acto de adaptação (_inteligência +conceptual_). + +Em tôdas estas formas de inteligência se verifica a associação dos +resultados das experiências anteriores aos das experiências do momento, +da mesma natureza ou não. O acto intelectual é um acto de adaptação e de +revelação da memória associativa. + +Na escola, onde se governa e conduz a experiência do indivíduo, em +atenção ao futuro, se utilizam ou devem utilizar e cultivar todos os +três tipos de inteligência, e, para a instrução, principalmente os dois +últimos. + +Mas nem tôdas as idades, nem em todos os indivíduos da mesma idade a +_inteligência_ tem o mesmo valor. Compreende-se, portanto, bem o +interesse que para o professor tem o saber e o poder analisar os actos +intelectuais, por forma a, se assim se pode dizer, obter a _fórmula +qualitativa e quantitativa_ da inteligência de cada um. + +Pode calcular-se essa fórmula? Pode analisar-se a inteligência? Pode +esta avaliar-se? Pode ser medida? Pode. + +A inteligência é, se quizerem empregar os termos de Saffiotti: «_a +capacidade de estabelecer novas relações entre a própria personalidade e +as novas condições; é a capacidade de tirar destas relações +interpretação adequada e conformar com ela a sua reacção_». + +A inteligência, perante isto e perante o que lhes tenho dito, deve +depender da estrutura do indivíduo, das propriedades inatas, do momento +do seu desenvolvimento, e tambêm da natureza e valor da sua experiência +anterior, da sua cultura, regulada ou não intencionalmente por outrem. + +Ora sendo assim poderá alguma coisa prever-se sôbre a inteligência, +estudando a estrutura, as características biológicas do indivíduo, como +se pode até certo ponto julgar do valor de um motor, das suas +capacidades, pelo estudo do maquinismo, da sua organização, da sua +anatomia, da sua estrutura, como se podem prever certas propriedades +químicas, certas reacções, observando caracteres organo-nolépticos e +físicos de certos corpos. É esta a base da avaliação da inteligência nos +métodos que assentam no estudo das correlações psico-somáticas e +psico-fisiológicas. + +A inteligência pode ser avaliada tambêm analisando a forma, o mecanismo +de certas reacções psíquicas elementares, sujeitando o indivíduo a +_provas_ psíquicas de diferente tipo e natureza em que sobretudo influi +a maneira da actividade intelectual, o tipo ou a espécie da +inteligência. + +Pode mesmo usar-se provas experimentadas em muitos, usando o que se +chamam _tests_, que não são outra cousa do que verdadeiros _reagentes +mentais titulados_, ou, se quizerem tambêm verdadeiros _padrões, tipos +de reacção_, em que a forma desta e a sua velocidade, foi préviamente +_observada e medida em muitos_. + +É um tipo de avaliação em que se estuda ou analisa principalmente o +mecanismo do acto intelectual, decomposto em elementos. É a base dos +métodos de avaliação fundados no estudo das correlações +psico-analíticas. Mas assim como na apreciação ou na classificação de um +tipo de vinho não basta a analise própriamente dita; há que proceder a +uma apreciação global, tendo em vista o fim comercial, por exemplo, a +que visa a apreciação, assim tambêm no exame de inteligência é por vezes +necessário recorrer a um exame global, em que não se atende apenas ao +mecanismo do acto, mas tambêm à sua finalidade e à finalidade da sua +avaliação. + +Ora o educador não deve apenas preocupar-se com o mecanismo do acto +intelectual do aluno, para o caracterizar e escolher o método de ensino +que mais convenha. O educador não toma o aluno _em branco_, se assim se +pode dizer. Os actos intelectuais que êle tem de regular, a experiência +intelectual que êle tem de conduzir, tem um passado que influi e está em +estreitas relações com os fins educativos. A experiência anterior do +aluno tem uma grande importância e valor, e está dependente da sua idade +e do meio em que viveu e vive. + +Ao professor, no exame escolar da inteligência, convêm-lhe _reagentes_, +_tests_, que precipitem em globo, em massa, se assim se pode dizer, a +inteligência e dêem a forma e a natureza desta, e tambêm a da sua +experiência anterior. + +Se há questão pedagógica em que se possa falar de criança portuguesa, e +duma maneira geral de um tipo ou tipos nacionais de criança, é a +proposito da inteligência. + +O momento histórico regula a inteligência e deve regular a sua formação. + +A psicologia de que carece o educador não pode nem deve viver afastada +da ética. E se há questão psicológica em que há que atender aos fins da +educação, é a da inteligência. + +Recordo-me da profunda emoção que me causou a leitura das palavras de um +formoso livro, um dos que mais podem contribuir para a cultura do +entusiasmo pela carreira de professor, o livro de Münsterberg: _A +psicologia e o mestre_. Recordo-me. Diz êle e eu repito: + +«_Agora é evidente que o estudo dos meios psicológicos póde ser útil +sómente quando as aspirações do mestre tenham sido determinadas pela +investigação ética independente do filósofo. Porêm tão prontamente com +estes fins, os resultados cada, vez mais ricos da psicologia +experimental, devem ser levados ao mestre de tal modo que êste possa +conhecer e escolher os meios úteis para a satisfação das suas +aspirações._» + +A Educação é uma das artes em que a Psicologia serve a Ética. + +Está aberto o curso de Psicologia. + + + + +INTELIGÊNCIA E APERCEPÇÃO[12] + + +/# + «Notre réprésentation de la matiére est la mesure de notre action + possible sur les corps; ele résulte de l'élimination de ce qui + n'interesse pas nos besoins et plus géneralemente nos fonctions». + + Bergson: _Matiére et mémoire_ + + + «Il faut respecter en nous les lois de la nature, acepter les + devoires nés de l'organisme, acomplir les fonctions pour lesquelles + on est fait, avec le pouvoir énergétique que l'on posséde. Le but + de la vie c'est tout le _perfectionement_ possible, physique ou + psychique, par la méthode et la discipline». + + Albert Deschamps: _Les maladies de l'esprit et les asthénies_. + + «Non seulement une conception mécanique de la vie est compatible + avec l'ethique; ele semble être la seule conception de la vie, qui + puisse amener á comprendre oú est la source de l'éthique». + + L[oe]b: _La conception mécanique de la vie_(tradução francesa). +#/ + +Viver é essencialmente adaptar-se; é a luta pela adaptação, é o esfôrço +para o ajustamento do sêr ao meio, acomodando-se, ajustando-se a êle, ou +ajustando-o a si próprio. Educar é favorecer, conduzir intencionalmente, +metódicamente êsse ajustamento, essa adaptação. + +Ora o indivíduo possui em si faculdades, capacidades de adaptação, de +ajustamento, de assimilação, de utilização do meio em que vive. Essas +possibilidades revelam-se na sua actividade, na maneira porque procede, +e desta actividade uma parte, uma forma há que é herdada, que nasce com +o indivíduo, que é inata, que não é determinada pela experiência +individual, que não é aprendida e outra que é adquirida, que resulta da +experiência de cada um, dirigida ou não por outrem. + +Por vezes, quási sempre, a forma da actividade inata é favorável ao +ajustamento do indivíduo ao meio, à adaptação, às condições em que nasce +e ordináriamente se encontra, e a maior parte das vezes tambêm a forma +de actividade adquirida é como esta favorável ao ajustamento. + +As condições mantendo-se as mesmas, a adaptação verifica-se, as +necessidades são conformes à capacidade de utilização dos recursos. O +indivíduo está adaptado ou adapta-se por instinto ou por hábito. Se, +porêm, as circunstâncias em que vive o indivíduo são muito variáveis, se +se rompe o ajustamento, se há conflito entre o instinto ou o hábito e as +circunstâncias, o indivíduo pode ou não readaptar-se, pode ou não +assimilar o meio, utilizando-o, adaptando-o ou adaptando-se. + +Concebe-se que haja seres que se adaptem, independentemente da +experiência, seres que nascem pode dizer-se, adaptados a certos meios, e +só neles e em precisas circunstâncias podem viver: seres instintivos, +ineducaveis, mas sôbre que o educador pode ainda assim influir, +colocando-os em meios os mais conformes com os seus instintos, e pela +forma mais conveniente à sociedade. + +Concebe-se que haja seres que, alêm de se ajustarem por instinto a +certas circunstâncias possam em virtude da experiência, conduzida ou não +intencionalmente, adaptarem-se a ela, adquirindo estas formas de +actividade que se chamam hábitos, seres educáveis sôbre que o educador +pode actuar criando os hábitos que mais convenha, e que, como tive +ocasião de lhes dizer, mostrar e demonstrar o ano passado, deve fazer-se +segundo certas leis induzidas de experiências scientíficas que se têm +realizado. + +Concebe-se finalmente que haja seres que não só se adaptem por instinto, +ou por hábito, que não só se adaptem a precisas circunstâncias, mas se +adaptem tambêm fácilmente a novas circunstâncias, encontrando nelas +sempre maneiras de se ajustar, de com elas viver em concordância, sêres +inteligentes, sôbre que o educador deve actuar variando o mais possível +as condições da experiência educativa, para que o mais possível tambêm +se apure este dom sublime da inteligência, do poder de utilizar o meio, +que é a base da felicidade e do progresso. + +Só é verdadeiramente livre, quem é suficientemente inteligente. + +Na lição da abertura do curso de aperfeiçoamento do ano passado, lição +que intitulei _Da inteligência do escolar e da sua avaliação_, lição que +devem ler, citei e adoptei, para certos casos, a definição de +inteligência do Professor Saffiotti: + +«Inteligência é a capacidade de estabelecer novas relações entre a +própria personalidade e as novas condições; é a capacidade de tirar +destas relações, _interpretação_ adequada e conformar com elas a sua +reacção». + +A inteligência é função portanto da interpretação e só se revela quando +a interpretação é adequada e a reacção a que a interpretação conduz por +sua vez se revela em actos de adaptação. + +Ora é êste poder de _interpretação_ que se chama a apercepção. A +inteligência depende da apercepção, da maneira porque se interpreta. +Quem interpreta por uma maneira inadequada às conveniências da sua +adaptação, não se adapta, reage por forma desfavorável, não procede com +inteligência. + +Vêem já portanto quanto interessa o estudo da apercepção. Leiam +particularmente sôbre esta o que vem da pág. 430 à 434 da tradução +francêsa do compêndio de Psicologia, de William James, 4.^a edição. + + * * * * * + +A interpretação ou apercepção depende de uma série de condições que, +como verão em James, Lewes denominou _a soma das condições +psicoestáticas_: a natureza do indivíduo, o seu carácter, a sua +experiência, a sua educação, os seus hábitos, o seu humor, etc. A +apercepção é uma faculdade intelectual contingente, que depende dos mais +variados factores, desde, os mais materiais aos mais espirituais, desde +as necessidades do corpo às necessidades do espírito (usando a linguagem +corrente), e sôbre que, tanto pode actuar o médico como o professor, +tanto o gimnasta como o filósofo. + +O aspecto físico, a forma do corpo por si indicam tendências, certas +aptidões psicológicas, certas necessidades, certos interêsses que +conduzem a experiência do indivíduo por forma a ele entrar em contacto +com o meio em que vive, e que por sua vez conduz a determinada +interpretação dele, e portanto o leva a reagir e proceder e adaptar-se +por determinada forma. O psicólogo se quere descobrir a alma tem muito a +ganhar em conhecer o corpo. Se quere prever a fórma de reacção do +indivíduo tem que estudar os orgãos dessa reacção; se quere ser +psicólogo a valer tem que ser antropólogo. O que tudo quere dizer que: +psicólogo e antropólogo, psicologia da criança e pedologia física, se +devem entrelaçar, se podem e se devem estudar conjuntamente. + +As anomalias mentais da criança explicam-se por vezes fácilmente se se +estudar a forma, os caracteres do seu corpo, se se julgar do grau do seu +desenvolvimento físico, se se vê se o crescimento nela é normal ou não. + +Há caracteres mentais que são sintomas de alterações orgânicas, e +perturbações do crescimento que o médico pode corrigir para o professor +depois aproveitar. + +Há no nosso corpo um órgão até cuja influência sôbre a inteligência é +tal que alguem já o chamou _a glândula da inteligência_ (Pende). + +É tal a importância que o estudo da anatomia e da psicologia tem para o +psicólogo que nos modernos trabalhos sôbre as astenias, defeitos ou +insuficiências da energia orgânica, vícios de funcionamento orgânico, se +se caracterizam êsses defeitos pela insuficiência revelada nos actos de +adaptação social, e se vai até a explicar a moral e a filosofia de +muitos por essa insuficiência de origem fisiológica, aparecendo-nos a +moral como um ramo da biologia e a filosofia como uma arte dos +psicasténicos. + +Pierre Janet, um dos maiores psicólogos da nossa época, foi até a +afirmar que talvez a filosofia não passasse duma doença do espírito. A +filosofia, de facto, parece a consequência, a revelação duma actividade +interpretativa filha de uma atitude mental, duma tendência anciosa para +a procura de relações entre as cousas e os factos que nos cercam e se +passam no meio que nos circunda, e que as dificuldades de adaptação, e a +insuficiência da adaptação em certos gera. + +Seja como fôr, o que lhes quero acentuar é que o estudo da psicologia e +em particular o da _apercepção_, que será o objecto principal do nosso +curso dêste ano, tem muito a ganhar iniciando-se pelo estudo da +influência das condições orgânicas neste fenómeno, e mais +particularmente ainda pelo estudo da influência que tanto na forma do +processo aperceptivo, como na maneira por que se interpreta, como na +natureza dos conhecimentos que se utilizam, influi o tipo fisiológico da +criança, as suas tendências inatas, a sua constituição, o seu +temperamento, e a fase do crescimento em que se encontra. + + * * * * * + +Esta influência do organismo na apercepção, de que lhes tenho estado a +falar, esta influência do condicionalismo fisiológico na interpretação +das circunstâncias e na adaptação a elas, é já uma influência do passado +no presente, é a hereditariedade a comandar-nos, é, pode dizer-se a +tradução fisiológica do mote que tantos têm já glosado: _os mortos +mandam_. + +Mas não é só por esta forma que o passado se mistura com o presente e +nos governa, nos impõe até certo ponto uma interpretação do presente, e +nos regula, a nossa adaptação às novas condições. É tambêm, e talvez +ainda mais, pelo resultado da nossa própria experiência, regulada, +intencionalmente ou não, pelos outros, resultado das modificações que +nas nossas reacções vai introduzindo o contacto diário com o meio em que +se vive, com a natureza e com a sociedade, resultado da interferência +das acções desta com as nossas reacções. + +Dia a dia as nossas tendências, os nossos interêsses, o nosso saber, o +nosso carácter, a nossa experiência, são postos à prova, e dia a dia nos +vamos consumindo na emprêsa do ajustamento das nossas reacções às +circunstâncias. + +Impressiona-nos mais não o que é própriamente mais forte ou mais novo, +mais estranho, mas o que é mais forte e estranho para nós, aquilo que é +novo para o ponto de vista dos nossos interêsses, que cahe na zona do +nosso saber e das nossas necessidades e que nós nos esforçamos +naturalmente por assimilar na tendência vital, orgânica, da nossa +adaptação. O que não sabemos, não vêmos; o que não experimentamos não +sabemos. + +Palavras estranhas ou letras associadas mesmo ao acaso, tendemos a +interpretá-las e a lê-las, em nossa língua. Desenhos informes, nuvens +que o acaso amontuou, manchas que o acaso estampa, borrões de tinta, +tudo tendemos a interpretar como se fossem formas conhecidas e segundo +os nossos conhecimentos e até certo ponto os nossos interêsses. Sempre o +passado a mandar; sempre segundo a nossa mentalidade e a nossa +experiência! + +O mundo, a interpretação do que nos cerca, é função do nosso organismo e +da nossa experiência ou saber. + +A realidade é uma interpretação, consoante os nossos interêsses, e os +nossos interêsses expressão da nossa organização e da nossa experiência, +experiência livre, ou intencionalmente condicionada, como sucede na +educação. + +Meditem as palavras de Bergson que, livremente mas fielmente, julgo, +assim poder traduzir: + +«...O nosso carácter, sempre presente a tôdas as nossas decisões é bem a +síntese actual de todos os estados por que já passámos. Sob esta forma +condensada, a nossa vida psicológica anterior existe para nós mesmo mais +do que o próprio mundo externo, porque dêste apercebemos apenas uma +muito pequena parte, enquanto que pelo contrário utilizámos a totalidade +da nossa experiência vivida já, experimentada e feita.» + +Como que há, como Bergson tambêm diz, uma tendência constante do passado +a reconquistar a sua influência, actualizando-se. + +Dir-se-ia que só o génio não tem passado. + +Vejam quão longe nos leva, e interessante e vasto é êste tema da +inteligência e da apercepção. + + * * * * * + +Não imaginem, porêm, que apesar da _linguagem de subjectivo_ que venho +empregando, se não pode tambêm em _linguagem de objectivo_, ia dizer em +linguagem scientífica, em termos das sciências experimentais, não +imaginem que se não podem tambêm interpretar, adoptando uma concepção +mecânica da vida, estes fenómenos da apercepção e da inteligência, +própriamente dita. + +Reportando-nos a um notável trabalho de Bohn sôbre a _dinâmica, +cerebral_, (_Rev. Philosophique_, março-abril de 1919) adoptemos a +concepção que êle defende de que nos fenómenos psíquicos se verifica uma +das grandes leis da sciência física, _a lei dos fenómenos recíprocos_. +Quando se comprime um cristal de turmalina o cristal por êste facto +electriza-se e a electrização desenvolve fôrças que se opõem ao +encurtamento do cristal. + +Quando se aquece um cristal de turmalina o cristal electriza-se tambêm; +a electrização traz consigo um arrefecimento do cristal. + +Dir-se-ia que o cristal que se electriza, apercebe a variação das +circunstâncias e tende a reagir de acôrdo com a interpretação adequada. +Afinal é um sistema de fôrças, orientado segundo um certo plano, que +caracteriza o cristal e que reage contra as acções que tendem a +perturbar-lhe o equilíbrio ou alterar-lhe o plano. + +Pode conceber-se tambêm o indivíduo como um sistema de fôrças organizado +segundo um plano hereditário, tendendo a reagir às acções externas ou +internas por maneira a opôr-se ao desiquilíbrio do plano da sua +organização, caracterizado por certas propriedades vectoriais, isto é +que se manifestam em determinadas direcções ou segundo certos vectores +(instintos, tendências, interêsses). + +A cada acção vectorial ou polarizante corresponde, segundo Bohn, uma +acção recíproca inversa, despolarizante. + +Quando se excitam os sentidos, a excitação que é transmitida ao cérebro +e dirigida depois aos músculos, às glândulas e às diferentes vísceras +provoca excitações em sentido contrário, que provêm de todos estes +domínios e vem por sua vez depois a reagir sôbre os primeiros +receptores. Os centros nervosos são excitados pelos sentidos e estes +excitados pelos centros nervosos. A interferência destas duas espécies +de ondas nervosas, daria a memória associativa, revelando-se na +apercepção e nos actos que a exteriorizam. + +Estas concepções mecânicas têm a vantagem de lhes mostrar que afinal os +fenómenos que estudamos são fenómenos naturais que podem condicionar-se +e utilizar-se como os outros. + +Quando o professor conheça bem esta mecânica poderá ser tão seguramente +útil como o engenheiro que lida com as outras máquinas. + +Vêem tambêm como com estas concepções mecânicas se pode fácilmente +compreender como cuidando do corpo e educando-o se pode influir na +educação intelectual e moral, na maneira de interpretar o mundo e a +sociedade e de com êles harmonizar o indivíduo e fazê-lo viver em +inteligência. + +Não imaginem que como muitos supõem se despreza, nestas concepções, o +valor das ideas, não. Simplesmente intrepretamos a acção destas e +utilizamo-las como no estudo dos tropismos se interpreta a acção e se +utilizam as substâncias sensibilizadoras. + +Tudo que impressiona os nossos sentidos tem repercussão sôbre as nossas +vísceras, tem um coeficiente emocional que muito influi na interpretação +das circunstâncias e na nossa maneira de proceder, na nossa actividade +ou reactividade. + +Os orgãos da circulação são fortemente impressionados e influem no +_tonus_ nervoso, na energia nervosa de que muito depende a nossa +inteligência. Glândulas há que, segundo a impressão ou excitação que +sofrem, segregam mais ou menos substâncias (_hormonas_) que muito +influem no _tonus_ nervoso e nos fenómenos gerais da nutrição, o que se +pode vir a observar em alterações ou certa orientação dos fenómenos de +apercepção e inteligência. + +O problema do educador é essencialmente um problema psicológico: tornar +o real aceitável, e, conforme a natureza do indivíduo, pôr esta em +equilíbrio com a sociedade. Para isso carece de saber de que depende a +apercepção e como nela se pode influir; como afinal dar ao indivíduo a +noção mais conforme com a natureza do meio social. O problema do +educador é o problema da felicidade, que como diz Deschamps se pode +chamar uma «harmonia psico-social, uma adaptação completa dos desejos +aos poderes e dos poderes ao meio.» + +É afinal um problema de conciliação, e esta deve ser o fim de tudo. + +Está aberto o nosso curso de psicologia experimental em que este ano +particularmente me ocuparei dos fenómenos e estudo experimental da +apercepção, sobretudo debaixo do ponto de vista da genética. + +Lisbôa, 8-10-920. + + + + +SÔBRE PSICOLOGIA, ESTÉTICA E PEDAGOGIA DO GESTO[13] + + + «qu'il soit permis à l'école d'insister sur ce qui nous rapproche.» + + Buisson. + + «O fim da arte é unir as almas, associando-as num mesmo + sentimento...» + + Tolstoi. + + «A simples cortezia de palavra, de expressão e de maneiras é já uma + revelação de delicadeza estética.» + + Bernardino Machado. + + «...si le geste est à la base de tous les arts, le principe de + toute éducation esthétique (et même de toute éducation intégrale) + ne sera-t-il pas la culture et le développement du sens créateur + des attitudes?» + + Lalo. + + «Deve pois ser a mímica a base de todo o ensino.» + + Júlio Dantas. + + +A Arte na escola não deve apenas ter em mira a cultura do sentimento +estético; deve principalmente ter em vista o aumentar a apetência +escolar, o gôsto pela escola, não só para chamar para ela, mas sobretudo +para facilitar a assimilação dos conhecimentos, o aproveitamento +escolar, tal como sucede com a arte na mesa, que visa principalmente a +facilitar a digestão dos vários e complicados cozinhados que nela se +servem. + +Decorar a escola, por decorá-la, cobrir as paredes das salas da classe +com quadros vistosos, embora dos melhores, enfeitar essas salas levando +para elas flores, peixes, avezinhas, etc., será útil para a cultura +estética, mas contribui para distrair do fim principal da escola, a não +ser que as lições versem sôbre ou a propósito das decorações, o que nem +sempre é possível, nem prático. Van Biervliet, a propósito da atenção +visual, dizia, numa das suas lições, que as salas das classes deveriam +ser como a sala do teatro de Bayreuth: não distrair do palco, da scena, +do principal; os alunos não deveriam ver mais do que os _tests_ +utilizados na lição. Nada os deveria distrair das estimulações que o +professor procura directamente praticar, para ensinar-lhes o que lhes +quere ensinar. + +Mas, minhas senhoras e meus senhores, embora mesmo que na arquitectura, +na decoração interior, no mobiliário, nos livros, a arte que em tudo +isso se ponha vise não só a educação artística, mas principalmente o +atraír o aluno, o prender-lhe a atenção, o tornar-lhe agradável a +escola, sem o distrair das lições, mesmo que assim seja, se uma vez nela +o aluno se defronta com um professor, que por seus gestos e atitudes se +torna ridículo, antipático ou temido, um professor que não saiba nem +ritmar convenientemente a sua voz, nem compor agradávelmente a sua +fisionomia, nem servir-se das expressões, dos gestos e das atitudes que +mais atraem e prendem a criança e tornam mais clara e interessante a +lição, se êsse professor desconhece a influência que a mímica tem nos +alunos, a importância que as atitudes e a maneira de tratar e de falar +têm na educação, se êsse professor não tiver por intùição nem por +cultura o conhecimento do valor pedagógico das estimulações motrizes +atraentes, não será só o professor que será mau, a própria escola, +apesar de tôda a sua arte, passará a ser uma escola má, porque deixará +de atrair e a falta de senso e de estética do professor tornará assim +essa escola, a que me refiro, pior do que uma outra, cuja arquitectura, +cuja decoração, cujo mobiliário seja menos artístico, seja mesmo +inferior. + +A atitude, o gesto, a expressão fisionómica do professor actua directa e +fortemente sôbre o aluno, levando-o a tomar atitudes, a esboçar gestos e +a usar de uma expressão fisionómica que são o reflexo da atitude e da +mímica do professor. Mas não deve o professor apenas lembrar-se disto, e +por isso cuidar da sua atitude e expressão, deve lembrar-se tambêm que, +como diz Baldwin, deve lembrar-se que o ver expressões emotivas noutrem +não só provoca directamente aquele que as vê a colocar-se em atitudes +semelhantes, levando-o a reproduzir essas expressões, mas tambêm faz com +que, uma vez esboçados os movimentos provocados e assim iniciada a +imitação muscular, faz com que, dizia, os movimentos esboçados despertem +ou levem aos estados de consciência que ordináriamente precedem essas +reacções emocionais. É por isso, e ainda mais do que por meu feitio +afectivo, que eu, na casa de educação, cuja direcção me está confiada, +tanto uso da cortezia, procurando nunca esquecer-me de cumprimentar e de +pôr na minha expressão e nos meus gestos uma grande afabilidade. + +Há-de sempre lembrar-me o que comigo se passou, quando eu tinha quinze +anos e havia pouco tempo que freqùentava a minha Universidade: a +Universidade de Coimbra. Encontrei-me uma vez com um cavalheiro de +figura grave, todo êle de preto, longas barbas brancas, que eu nunca +tinha visto, que completamente desconhecia e que com grande espanto e +comoção minha, sendo eu a única pessoa que na ocasião com êle na rua se +cruzava, se descobriu, cumprimentando-me grave e afectuosamente, logo me +obrigando a mim a curvar num grande gesto e com um grande sentimento de +respeito. Era o Reitor da Universidade, o ilustre e venerando professor +Dr. Costa Simões, cuja figura vim depois a conhecer e que hoje ainda, ao +falar nela, me desperta uma emoção fortíssima. Era o Reitor que me +ensinava a respeitá-lo. + +Ás vezes, minhas senhoras e meus senhores, me sorrio, me sorrio sim, mas +com pezar, quando vejo por exemplo, alguns dos meus prefeitos virem +procurar-me, pálidos com um ar de cólera mal contida, queixar-se de +alunos que lhes faltaram ao respeito e satisfeito comigo fico, quando +consigo logo, mostrando-me aos alunos com expressão um pouco diferente +da habitual, consigo, dizia, levá-los imediatamente a mudar a sua +atitude de cólera tambêm, como a do prefeito, e a tomarem uma atitude +antagónica, de obediência, de pezar e de desgôsto. Há, por vezes, na +vida escolar, alguns episódios, que se passam entre educadores e +educandos, que me lembram a scena dum animal investindo furioso contra +um espelho, por nele ver reproduzida uma atitude de hostilidade que +cresce e aumenta à maneira que êle mais se encoleriza. Enfurece-se, sem +o saber, contra si mesmo. + +Estou certo de que o facto de freqùentemente se verem professores, +pessoas aliás de fino trato, tomarem nas aulas atitudes grosseiras e +hostis, como o de políticos ostentarem no govêrno atitudes completamente +opostas aos sentimentos que mostravam fora dele, resulta da imitação +inconsciente de atitudes que viram na sua infância, ou na sua mocidade, +nos que ensinavam e governavam. + +O professor é como o actor. O estado emocional do público é um reflexo +do seu próprio estado emocional, é uma reacção simpática, provocada pela +sua atitude, pelo seu gesto, pela sua expressão. E se o actor tem de +cuidar e tem de estudar a estética da expressão, o professor quási tanto +como êle a deveria estudar. Compreende-se bem porque é que Van Biervliet +diz, como disse: «_todo o mestre, e principalmente todo o professor +primário, deveria passar por um curso semelhante, aos dos +conservatórios, a fim de aprender a falar belamente (califasia) e +expressivamente, ou melhor, direi, esculturalmente_.» + + + Minhas Senhoras e meus Senhores: + + +A atenção, como V. Ex.^{as} sabem, é a faculdade base, é a faculdade +mãe, é a mãe do que vulgarmente se chama a inteligência. Quem ensina, +quem educa deve ter antes de mais nada em vista provocar a atenção, +prender a atenção. Ora a atenção depende intimamente do interêsse. É +indispensável que o professor saiba estimular agradávelmente os sentidos +que tem de utilizar no ensino. Se a sua atitude, se os seus gestos, se a +sua expressão são de molde a repelir, o aluno não presta atenção, desvia +a atenção. Mas não é ainda só por isto que o professor se deve preocupar +com a sua atitude, com os seus gestos, com a sua maneira de falar; não é +só para chamar a atenção e para a prender. É que o gesto, a expressão +fisionómica, a maneira de nos apresentarmos aos alunos durante a lição, +quando falamos ou quando mostramos, ajudam a compreender o que dizemos e +o que mostramos. Sabem V. Ex.^{as} muito bem que se se fechar os olhos, +emquanto se ouve um discurso, se tem de fazer um maior esfôrço para +segui-lo, para o ouvir, para o interpretar. Os míopes que assistam a um +espectáculo sem as suas lunetas, e verão como parece que ouvem menos, e +como o espectáculo se lhes torna inferior, menos interessante, menos +agradável, mais difícil de seguir. O gesto auxilia imensamente a +expressão verbal, e tanto que um gesto mal adequado, ao que se diz, pode +transtornar completamente o sentido da palavra. + +A mímica auxilia tambêm a memória. Inconscientemente está provado isto), +quando se ouve ou se vê alguem, tendemos a imitar-lhe, quando mais não +seja, _interiormente_, a expressão. As palavras que ouvimos articulam-se +na nossa linguagem interior e tanto mais fácilmente as compreendemos, +quanto melhor elas forem articuladas. É mais fácil reter o que se diz +lentamente e rítmicamente, do que aquilo que se diz rápidamente e com má +expressão. O ver esboçar um gesto é por vezes bastante para antever um +pensamento, e para nos recordarmos. + +E tanto a mímica influi na memória que hoje, em pedagogia moderna, se +aconselha muito o emprêgo da mímica como auxiliar importantíssimo do +ensino. Está demonstrado que é mais fácil fazer fixar a um aluno o que +se disse, gesticulando nós e fazendo-o gesticular a êle, quando repete, +por forma apropriada, é claro, do que dizendo monótonamente e sem gesto +e fazendo-o repetir sem gesto e sem expressão, papagueando. + +Estou cêrto (a minha experiência que já não é pequena me autoriza a +dizê-lo), que os gagos até certo ponto não gaguejam quando cantam, +porque as imagens motrizes, no canto, são mais bem desenhadas, mais +perfeitas, fixam-se melhor, esquecem-se menos, deformam-se menos. De +resto o canto tem hoje um papel importante no ensino da articulação, no +ensino das línguas, mesmo nos normais. O gago, estou convencido, diga-se +de passagem, é um doente da atenção, por excesso de emotividade. + +E agora, para resumir: _um professor que gesticule com propriedade, que +fale com correcção, que articule perfeitamente, que diga com arte, que +gesticule com arte, que se exprima com arte, não é só agradável, não é +apenas um artista, é um excelente professor_. + + + Minhas Senhoras e meus Senhores: + + +O estudo do gesto, da atitude, da expressão tem ainda uma outra +importância, uma outra vantagem pedagógica de que ainda não falei: é a +de servir excelentemente para conhecermos o aluno. + +Deixem-me assistir, sem ser visto, ao recreio, numa escola, e eu +poderei, sem errar muito, fazer alguns juízos sôbre o feitio mental dos +alunos. A criança até aos onze anos é, como diz Waynbaum, uma espécie de +alienado sem freio social, ou um grande actor. As suas atitudes, os seus +gestos são francamente a expressão do seu estado afectivo. A vontade, a +astúcia, o cálculo, o interêsse, as conveniências, os hábitos não são +ainda freios tão poderosos que lhe dominem, que lhe mutilem ou deformem +o estado afectivo, que no-lo ocultem ou o tornem difícil de descobrir: a +expressão é sincera, é a tradução exacta do seu estado e, até certo +ponto, do seu carácter habitual. + +A mímica é duma eloqùência impressionante. Examinai-a bem, examinai os +gestos, as atitudes, a expressão fisionómica e podereis com facilidade +fazer um juízo sôbre o feitio mental, e principalmente sôbre o estado +afectivo na ocasião. Mandai, por exemplo, abrir a boca a uma criança de +menos de onze anos, para lhe examinar a garganta, e notai bem a +expressão, a atitude, os gestos, a maneira de reagir: fácilmente vereis +qual é o grau de eloqùência da fisionomia na criança, e em grande parte +verificareis a verdade do que digo. + +Dos onze anos para diante e mais tarde na puberdade, o gesto, a +expressão, a atitude já enganam mais; o exame é mais sujeito a erros. + +Nessa idade recorro muitas vezes ao exame do olhar, emquanto falo, e +sobretudo ao do apêrto de mão, dêsse gesto de quem Vaschide, num +monumental trabalho de psicologia, disse ser um gesto em aparência +banal, mas revelador de tôda a nossa vida mental sub-consciente e a +propósito do qual disse mais: «há tôda uma psicologia e da maior +importância neste contacto musculo-táctil que eu chamarei mental.» O +mesmo ilustre psicólogo francês, que a morte tão cedo roubou, examinando +alienados do Asilo Villejuif, chegou à conclusão de que aquele gesto tão +trivial pode fornecer importantes elementos para julgar da mentalidade +dos internados, o que, até certo ponto, confirma a opinião do velho +médico da Salpetrière, Falret, que pelo exame da mão pretendia apreciar +o estado mental dos seus doentes. + +Mas não querendo em pedologia utilizar o exame do apêrto de mão, o +professor pode recorrer com facilidade e êxito ao exame de outros +gestos, com o fim de colher alguns elementos de ordem psíquica. + +Na lição de abertura do meu curso de Pedologia dêste ano, a propósito da +medida da agudeza visual e da auditiva, debaixo do ponto de vista +pedagógico, disse eu: «O exame da agudeza visual e da auditiva presta-se +tambêm a permitir-nos julgar até certo ponto de certas qualidades de +ordem psíquica, que ao educador muito interessam conhecer. A maneira por +que o aluno se apresenta, a rapidez, a lentidão dos seus movimentos, a +rapidez ou a lentidão na leitura do quadro optométrico, a maneira +agitada ou, pelo contrário, lenta e dócil por que se comporta, a +precisão ou a decisão na compreensão e execução das nossas ordens, tudo +permite, com grande probabilidade de acêrto, formar um juízo, útil e +necessário para o educador, sôbre o grau de emotividade, ou sôbre a +_potencialidade nervosa_ de cada aluno, destrinçando particularmente os +dois tipos extremos, o do _hipersténico_, agitado, e o do _hiposténico_, +tardo nas suas reacções. O educador encontrará nesse exame elementos +importantes para calcular possibilidades na educação, e tirar indicações +muito úteis para a escolha dos meios educativos a empregar». + +E, como o exame da agudeza visual e da auditiva, há outros que se podem +praticar na escola e que permittem examinar com rigor os gestos, e por +estes com certo êxito julgar da mentalidade do aluno. + +Ley, a propósito de um estudo dinamométrico dos alunos atardados da +escola especial de Antuérpia, fez notar que a observação das atitudes +durante o exame da fôrça de pressão, lhe permitiram verificar: 1.^o--que +os nervosos e indisciplinados, habitualmente atingem o máximo, dum +jacto, bruscamente; 2.^o--que nos apáticos a agulha do dinamómetro +caminha para o máximo, com regularidade e lentidão; e finalmente, +3.^o--que nos apáticos mais acentuados, nos apáticos profundos, o máximo +ordináriamente era atingido depois de uma contracção lenta, seguida de +uma pausa, a que por sua vez se seguiam algumas outras lentas e mais +pequenas contracções. + +Mas mais ainda. A título de exemplo, apresentarei a V. Ex.^{as}, sob +forma resumida, a parte mais interessante do resultado dum exame a que +procedi, a fim de surpreender as características do apêrto de mão em +rapazes da Casa Pia, de 16 anos para cima, tomados ao acaso, e chamados +à minha presença, sem saber para quê. Á medida que chegavam, e entravam +isoladamente no meu gabinete, cumprimentava-os naturalmente +estendendo-lhes a minha mão; depois fazia-lhes algumas perguntas de +pouca importância para êles, como era por exemplo, _qual o curso em que +estavam? se tinham frequentado a oficina?_ etc, inspeccionava-lhes a +mão, e media-lhes finalmente com um dinamómetro Mathieu a fôrça à +pressão da mão direita, procurando assim sugerir-lhes a idea de que eu o +que desejava era estabelecer alguma relação entre a profissão e as +características das mãos. Terminando êste exame, despedia-os +naturalmente, estendendo-lhes, como no principio, a minha mão. Várias +_nuances_ surpreendi na maneira por que as mãos dos alunos se +comportavam durante o cumprimento, mas fácilmente as pude agrupar, +distribuindo-as por três tipos característicos:--1.^o--o dos que +cumprimentam _entregando_ a mão, _sem apertar, abandonando-a_; 2.^o--o +dos que apertam a mão, mais ou menos fortemente, sem tentar rápidamente +fugir com ela; 3.^o--o dos que quási que não _apertam_, e que +rápidamente a procuram retirar após o contacto (_mãos que fogem, mãos +furtivas_). + +Dias depois de feita a minha observação, inesperadamente e sem dizer +para que queria informações, apenas dizendo que era para um estudo, +consultei separadamente o chefe dos prefeitos e o professor de curso +freqùentado pelos alunos, que mais em contacto e durante mais tempo está +com êles. Foram tambêm consultados alguns mestres de oficinas, daqueles +poucos alunos entre os que eu examinei, que nelas andavam. + +O pedido da minha informação visava sobretudo saber se na opinião das +pessoas que eu consultava, os alunos eram ou não disciplinados, se se +acomodavam ou não fácilmente ao regimen habitual da Casa, e tambêm se +eram considerados sinceros ou pelo contrário dissimulados. Ora, coisa +interessante: no grupo dos que mal apertam a mão, que rápidamente a +procuram furtar ao contacto da nossa, figuram os alunos que na lista das +informações do professor e do prefeito têm as notas de dificeis de +disciplinar, dissimulados, reservados, pouco sinceros; os que tem a nota +firme de disciplinados, exemplares, sinceros, aparentando o que são, não +dissimulando, estão no grupo dos que cumprimentam apertando a mão, e não +fugindo; finalmente no grupo dos que não apertam e abandonam a mão, dos +que têm um aperto de mão insignificativo, figura a maioria daqueles +sôbre que professor e prefeito tiveram dúvida em informar e traduziram o +seu juízo por um ponto de interrogação. + +Isto a meu ver basta para acabar de ilustrar e documentar a tese de que +a _simples observação dum gesto tão trivial, como é por exemplo um +apêrto de mão, pode servir ao educador para fazer um rápido e útil exame +psicológico_. + + + Minhas Senhoras e meus Senhores: + + +Mas na escola, o gesto, a atitude, a fisionomia servem ainda para alguma +cousa mais. + +Séguin, no seu afamado livro sôbre o _tratamento moral dos idiotas_, +consagra _páginas_ ao estudo e à preparação, no professor, do gesto, +«desta forma oratória, como êle diz, que tôda a gente usa mais ou menos, +mas muito mal e sem o saber», e do olhar e da fisionomia, «meios, como +êle diz tambêm, de dirigir e possuir o aluno». + +A criança compreende mais a nossa fisionomia e os nossos gestos do que a +nossa palavra. De resto, a palavra é mais para mentir. O olhar e as mãos +é que são as verdadeiras janelas da alma. É difícil dissimular com o +olhar e com o gesto, e estes melhores do que nada se prestam a traduzir +com tôda a verdade o estado do nosso espírito. + +Fixai o olhar do vosso educando, aprendei a usar de gestos apropriados, +a traduzir pela expressão do olhar e pela maneira de gesticular a vossa +intenção e com facilidade podereis socegar o agitado, disciplinar o +indisciplinado, tornar atento o distraído, despertar o apático, +imobilizar quando quizerdes imobilizar, agir quando quizerdes que se +movam, castigar quando quizerdes castigar, premiar quando quizerdes +premiar, e por êles mais fácilmente do que com os vossos discursos +podereis conseguir o que constitui, tanto no ensino de anormais como de +normais, o principal segredo da arte do educador: saber fazer do +educando um amigo, saber apossar-se do aluno. + +Educai não só com a alma; educai com alma. + + + Minhas Senhoras e meus Senhores: + + +O gesto, a atitude, não são apenas a expressão do estado afectivo, são +por vezes a própria causa do estado afectivo. Segundo William James, o +grande psicólogo americano, o estado emocional não é que determina a +expressão emocional. A percepção dum objecto, ou dum acto capaz de nos +emocionar, provoca, como por reflexo, reacções corporais, reacções +nervosas, que geram atitudes, expressões, gestos, perturbações orgânicas +e são estas reacções corporais que, impressionando-nos, geram os estados +afectivos. Como corolário desta tese, James sustenta que tôda a +produção, voluntária e a sangue frio, das chamadas manifestações duma +emoção determina essa emoção. Para comover-nos basta colocarmo-nos em +atitude de comoção. Entristecereis se persistirdes em tomar atitudes de +tristeza; cultivai as atitudes recolhidas, em flexão, próprias dos +humildes e tornar-vos heis humildes; curvai-vos em adoração e acabareis +por adorar; preparai-vos para admirar e admirareis. Se, pelo contrário, +cuidardes principalmente de atitudes abertas, em extensão, próprias para +exprimir a alegria ou a fôrça, tornar-vos heis alegres, fortes, +destemidos, senhores de vós, e, se exagerardes, revoltados. + +Antes de James, pode-se dizer que os educadores haviam descoberto a +teoria; pelo menos a experiência os levara a proceder de acôrdo com ela. +A importância que muitos dão ao ensino da civilidade demonstra-o, e +demonstra-o sobretudo o cuidado com que nos manuais de civilidade, nos +livros que muitos chamam de educação, própriamente dita, e +principalmente nos das casas de educação religiosa, demonstra-o +sobretudo, dizia, o cuidado com que neles se prescrevem as regras que +devem pautar o gesto, o tratamento, a atitude, a expressão do olhar, +etc., tôdas visando, nas casas de educação religiosa, a modéstia, o ar +humilde, recolhido, obediente, por vezes servil, que leva ao estado de +espírito que principalmente se tem em vista criar. Vale a pena ler, por +exemplo, para verificar o que digo, vale a pena ler por exemplo o +_Regulamento para as casas da Pia Sociedade de S. Francisco de Sales_. + +Compreende-se bem agora porque é que eu tanto me preocupo, quando falo +com os meus alunos, ou quando êles falam comigo, em aconselhar-lhes ou +sugestionar-lhes uma atitude recta, firme, simples, afectuosa, +forçando-os a fitarem-me naturalmente, serenamente, modestamente, e a +falar sem cochichar, mas tambêm sem levantar demasiado a voz, procurando +sempre regular-lhes a palavra e o gesto, e dar-lhes um ar disciplinado e +simpático. E se tanto me dá prazer ver a harmonia no andar, no falar, no +gesticular, se tanto às vezes me comovo, quando vejo desfilar +ordenadamente e nobremente os rapazes da nossa Casa Pia, não é só por +simples emoção estética, é porque por aqueles sinais externos eu julgo +do estado interno da nossa Casa. Vai bem. + +_Educadores, educai o corpo, que educareis o espírito_. + + + Minhas Senhoras e meus Senhores: + + +Os nossos gestos, as nossas expressões, constituem um dinamismo afectivo +que não só actua sôbre os nossos próprios sentimentos, e exprimem o que +nós sentimos, mas tambêm actua sôbre os sentimentos dos outros, +inflùindo fortemente neles. Os gestos, as atitudes, as expressões +fisionómicas são factores sociais importantíssimos. A sociedade é um +verdadeiro campo de fôrças afectivas. E a maneira de ser de cada um de +nós, e a maneira de nos exprimirmos, e de nos comportarmos actuam no +meio em que vivemos como fôrças orientadoras ou perturbadoras da ordem +social. + +Habituar os nossos educandos às atitudes e gestos de respeito, gestos de +uma cortezia simples, mas atraente, é trabalhar pela _tolerância_, pela +«aceitação serena das diferenças que existem entre os homens», como diz +Lanson. Procedendo assim aumentar-se há a fôrça da solidariedade, +criar-se há a atmosfera mais favorável à descoberta da verdade, ao amor +do belo e à prática do bem, e vencer-se há um dos nossos maiores +inimigos internos:--«a intolerância, que, como a ignorância, ainda na +expressão de Lanson, é um instrumento de despotismo», e de divisão, +acrescentarei eu. + +Como vêdes, a educação do gesto até tem um alcance político. Como vêdes +até pode contribuir para a solução do nosso maior problema: o problema +da _unidade nacional_. + +Mais uma vez me convenço de que os nossos maiores problemas são +problemas pedagógicos. Mais uma vez me convenço de que a educação é a +maior das fôrças políticas. Mais uma vez compreendo o sublime paradoxo, +a que nos momentos mais difíceis da sua vida histórica com êxito +recorreram as duas grandes nações europeias, centros dos dois +poderosíssimos sistemas de civilização, que neste grandioso e aflitivo +momento da vida da Europa, se batem e formidávelmente lutam; sim, mais +uma vez compreendo porque «se foi pedir a salvação da Pátria à força em +aparéncia a menos feita para isso, aquela cuja acção é, por definição +mesma, a mais modesta, a mais doce, a mais longínqua--a educação»[14]. + +Recorramos tambêm nós a ela. _Eduquemo-nos e eduquemos_. + +Que a arte entre na escola e que o fim da escola seja como o da própria +arte no dizer de Tolstoi:--«unir as almas, associando-as num mesmo +sentimento». E que nesta ocasião de perigo, e sempre, todos os meios, +todos os pretextos sirvam, como me está servindo esta minha leitura, +sirvam para cultivar o sentimento supremo e utilíssimo do amor da +Pátria. + +Disse. + + + + +ALGUMAS PUBLICAÇÕES DO AUTOR, SÔBRE ASSUNTOS PEDAGÓGICOS[15] + + +_Antropometria escolar_--Relatório apresentado ao IV Congresso Nacional +da Liga Contra a Tuberculose, 1907. + +_Uma colónia de férias_--Apontamentos de antropometria médica publicados +no _Boletim da Assistência Nacional aos Tuberculosos_ e na _Clinique +infantile_, 1908. + +_Instrução e política em Portugal_--Artigo publicado na _Alma Nacional_, +1909. + +_A educação intelectual e moral da mocidade nos colégios dos +jesuítas_--Conferência, 1910. + +_Carta dirigida ao Grão-Mestre da Maçonaria Portuguesa, no dia do +Centenário do nascimento de José Estêvão_, 1910. + +_O ensino das sciências fisico-naturais na escola primária +portuguesa_--Artigo publicado na _Revista de Educação_ e no _Éducateur +Moderne_, 1910. + +Casa Pia de Lisboa--_Algumas observações sôbre alunos gagos_--Artigo +publicado na _Escola Nova_, 1912. + +_Refeições escolares_--Artigo publicado na _Medicina Moderna_, 1912. + +_A bem da República_--Discurso lido na Casa Pia de Lisboa e publicado na +_Revista de Educação Geral e Técnica_, 1916. + +_Pneumogrames de bégues--Contribution à l'étude de l'emotivité_, +publicado no _Boletim da Sociedade Portuguesa de Sciências Naturais_, +1916. + +_Gimnástica--escola de moral e de civismo_--Discurso proferido na Casa +Pia, por ocasião da recepção de Sua Ex.^a o Presidente da República e +dos membros do Congresso de Educação Física, publicado na _Revista de +Educação_, 1916. + +_Entre dois Congressos_--Artigo publicado no jornal _A República_, 1908. + +_Elementos para a elaboração de um projecto de distribuição_ _de água +esterelizada aos alunos do Liceu de Camões_--Artigo publicado na +_Medicina Moderna_, 1911. + +_Ensino útil e ensino utilitário_--Artigo publicado no _Tempo_, de +Lisboa, 1911. + +_Cantinas escolares_--Carta ao Snr. Presidente da República, publicada +no jornal _República_, 1911. + +_Numa festa da Casa Pia_, trechos dum discurso, publicado na _Revista de +Educação_, 1913. + +Casa Pia de Lisboa--_Sôbre uns acidentes no recreio_--Artigo publicado +no _Movimento médico_, 1913. + +_Ensino dos surdos-mudos_--Discurso proferido por ocasião da abertura +dum curso para habilitação de professores de surdos-mudos, discurso +publicado na _Educação_, 1913. + +_A spirometria em antropometria escolar_--Artigo publicado na revista _A +Tutoria_, de Lisboa, 1913. + +Educação física--_Elogio do Dr. Jaime Mauperrin dos Santos_, lido na +Sociedade de Geografia e publicado no _Sport de Lisboa_, 1914. + +_Dois documentos para a Historia_--Duas cartas a propósito de uma +conferência sôbre a educação nos colégios de jesuítas, publicadas na +_República_, 1914. + +_Da influência dos trabalhos manuais no desenvolvimento do +espírito_--Discurso lido na Casa Pia de Lisboa, por ocasião do Congresso +Pedagógico, e publicado no _Diário de Noticias_ e em parte na _Medicina +Contemporanea_, onde se encontram tabelas que o documentam, 1914. + +_Uma ilusão muscular_--Artigo publicado na _Medicina Contemporanea_, +1914. + +_Algumas considerações sôbre um calão escolar_--O calão da Casa +Pia--Artigo publicado de colaboração com Canuto Soares, na revista _A +Aguia_, do Porto, 1914. + +_Arte e democracia_, Discurso, in _Atlantida_, 1918. + +_Como educar o operário e seus filhos_, Tese Nacional do Livre +Pensamento, in _Actas do Congresso_, 1918. + +_No Lactário_, Discurso, in _A Aguia_, 1919. + +_Inteligência motriz_, in _A Medicina Moderna_, 1919. + +_Morfologia e educação física_, in _Medicina Contenporanea_, 1920. + +_O foot-ball e as curvas do crescimento na Casa Pia de Lisboa_, in +jornal _Football_, 1920. + + + + +LVMEN + +EMPRESA INTERNACIONAL EDITORA + +Lisboa--Porto--Coimbra--Rio de Janeiro + + + + +ULTIMAS PUBLICAÇÕES + + +Dr. Mendes dos Remedios--*Historia da Literatura Portuguesa*, 5.^a edição + +Dr. Eugenio de Castro--*Camafeus Romanos*--_Versos_ + +Teixeira de Pascoais--*Maranos*, 2.^a edição--_Versos + *As Sombras*, 2.^a Edição--_Versos_ + *Cantos Indecisos*, 1.^a edição--_Versos_ + +Dr. Antonio Cabral--*Terras Longinquas*--_Viagens_ + +Manuel da Silva Gaio--*Eça de Queiroz*--_Carta_ + +João Ameal--*Em voz alta e em voz baixa*--_Dialogos_ + +Rui Gomes--*Elementos de Teoria de Comércio*, 1.^a parte + +Dr. Pedro Fazenda--*A Crise Politica em Portugal* + + + + +Notas: + +[1] Lição de abertura do curso de Pedologia na antiga Escola Normal de +Lisboa. Lida em 19 de Janeiro de 1915. Publicada no jornal da _Tutoria +da Infância_ e no _Anuário da Casa Pia de Lisboa_. + +[2] Lição de abertura do Curso de Psicologia Experimental da Escola +Normal de Bemfica, no 2.^o semestre do ano lectivo de 1919-20. Publicada +no _Boletim Bibliográfico da Bibliotéca da Universidade de Coimbra_ e no +_Anuário da Casa Pia de Lisboa_. + +[3] Lição de encerramento do Curso de Pedologia na Escola Normal de +Lisboa no ano lectivo de 1914-15. Publicada no _Arquivo de Anatomia e +Antropologia_ do Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina de +Lisboa, e no _Anuário da Casa Pia_. + +[4] Ao lado das tabelas e curvas do Dr. Mascarenhas de Melo devem +citar-se as tabelas e curvas de cuja existência só hoje tive +conhecimento e que foram elaboradas pelo ilustre professor de gimnástica +desta Escola Normal, o Sr. Pedro Ferreira, quando professor no extinto +Colégio de Campolide. Êsses trabalhos foram publicados num folheto +intitulado--_La gymnastique médicale au Collége de Campolide_,--que foi +apresentado, segundo me informa aquele meu venerando colega, seu autor, +no Congresso de Higiéne Escolar, realizado em Paris em 1910. Os dados +colhidos pelo Sr. professor Pedro Ferreira poderão servir, +particularmente, para um estudo das crianças da aristocracia portuguesa, +visto que era sobretudo às camadas aristocráticas da nossa sociedade que +pertenciam os alunos de Campolide. + +[5] Esta curva figura tambêm no último relatório da _Escola-oficina n.^o +1_, onde o Dr. Manchego tem feito observações antropométricas. + +[6] Ainda há minutos o sr. professor Pedro Ferreira, ao ter conhecimento +desta passagem da minha lição, me informou de que tem verificado o facto +nesta Escola e no Liceu Maria Pia, onde tem procedido a mensurações. Há +dias, neste nosso curso, entre as senhoras, me disse ter observado casos +bem demonstrativos. + +[7] Vd. sobre o assumpto desta lição o livro do Snr. Dr. Alves dos +Santos:--_Educação Nova_--As bases--I--O _Corpo da criança_ (1919) e a +conferência que preparei para a Escola de oficiais médicos milicianos e +publiquei em 1917 no _Arquivo de Anatomia e Antropologia_, com o título: +_Auxanometria militar_. + +[8] Lição de abertura do Curso de Pedologia da Escola Normal de Lisboa +no ano lectivo de 1915-1916. Lida em 20 de Janeiro de 1916. + +[9] Lição de abertura do Curso de Pedologia na Escola Normal de Lisboa, +no anno lectivo de 1916-1917. Lida e explicada, em 26 de Fevereiro de +1917. Publicada no _Boletim do Ministério da Instrução Pública_. + +[10] Lição de encerramento do curso de pedologia da Escola Normal de +Lisboa, no ano lectivo de 1915-1916, lida na sala de Física da Faculdade +de Sciências de Lisboa e publicada, como as duas anteriores, no _Boletim +do Ministério da Instrução Pública_ e no _Anuário da Casa Pia de +Lisboa_. + +[11] Lição de abertura dum curso de aperfeiçoamento na Escola Normal +Primária de Lisboa (Bemfica), no ano lectivo de 1919-1920. Publicada na +_Medicina Contemporanea_. + +[12] Lição de abertura do Curso de Psicologia experimental no ano +lectivo de 1920-1921, publicada na _Medicina Contemporanea_. + +[13] Conferência realizada no dia 17 de Abril de 1916, no Salão do +Conservatório, e publicada em separata pela Sociedade de Estudos +Pedagógicos. + +[14] Palavras de Ferdinand Buisson. + +[15] Excluem-se as publicações que vão reproduzidas e reunidas neste +volume e alguns outros trabalhos publicados nos anuários da Casa Pia. + + + + +Lista de erros corrigidos + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+---------------------+----------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+---------------------+----------------------+ + |#pág. 56| infra-normais | supra-normais | + |#pág. 83| _Montesssóri_ | _Montessóri_ | + +----------+---------------------+----------------------+ + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Algumas lições de psicologia e +pedologia, by António Aurélio da Costa Ferreira + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ALGUMAS LIÇÕES DE PSICOLOGIA *** + +***** This file should be named 32072-8.txt or 32072-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/2/0/7/32072/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. |
