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+The Project Gutenberg EBook of Algumas lições de psicologia e pedologia, by
+António Aurélio da Costa Ferreira
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Algumas lições de psicologia e pedologia
+
+Author: António Aurélio da Costa Ferreira
+
+Release Date: April 20, 2010 [EBook #32072]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ALGUMAS LIÇÕES DE PSICOLOGIA ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
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+
+ *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
+ existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
+ versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Abril 2010)
+
+
+
+
+ANTÓNIO AURÉLIO DA COSTA FERREIRA
+
+Professor de Psicologia experimental e Pedologia
+na Escola Normal Primária de Lisboa
+
+
+
+
+ALGUMAS LIÇÕES
+DE
+PSICOLOGIA E PEDOLOGIA
+
+
+
+
+LVMEN EMPREZA INTERNACIONAL
+ EDITORA
+
+LISBOA PORTO--RIO
+COIMBRA DE JANEIRO
+
+ SÉDE
+132, Rua Aurea, 138, Lisboa
+
+
+
+
+
+PSICOLOGIA E PEDOLOGIA
+
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+
+
+ANTÓNIO AURÉLIO DA COSTA FERREIRA
+
+Professor de Psicologia experimental e Pedologia
+na Escola Normal Primária de Lisboa
+
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+
+ALGUMAS LIÇÕES
+DE
+PSICOLOGIA E PEDOLOGIA
+
+
+
+
+LVMEN EMPREZA INTERNACIONAL
+ EDITORA
+
+LISBOA PORTO--RIO
+COIMBRA DE JANEIRO
+
+ SÉDE
+
+132, Rua Aurea, 138, Lisboa
+
+
+
+
+Comp. e impr. na Typ. Costa Carregal--Porto
+
+
+
+
+AOS MEUS COLEGAS E AOS MEUS ALUNOS
+DA
+ANTIGA E DA NOVA
+ESCOLA NORMAL PRIMÁRIA DE LISBOA
+
+
+
+
+ÍNDICE
+
+
+ Pág.
+
+Prefácio 5
+
+O ensino da pedologia na escola normal primária 7
+
+A arte de educar e a psicologia experimental 17
+
+O pêso do corpo da criança 29
+
+A agudeza visual e a auditiva debaixo do ponto
+de vista pedagógico 47
+
+A visão das côres 61
+
+Sôbre umas provas de exame da atenção voluntária
+visual 89
+
+Da inteligência do escolar e da sua avaliação 111
+
+Inteligência e apercepção 123
+
+Sôbre psicologia, estética e pedagogia do gesto 135
+
+
+
+
+PREFÁCIO
+
+
+_Com o título_ Algumas lições de Psicologia e Pedologia _publíco neste
+pequeno volume as principais lições que li e comentei, como professor da
+antiga Escola Normal do Calvário, e da actual Escola Normal de Bemfica,
+às quais acrescento a conferência que realizei no Conservatório, por
+ocasião da Exposição de Arte na Escola.
+
+Algumas das lições são verdadeiros planos e resumos dos meus cursos.
+
+A matéria vai exposta com a maior clareza de que fui capaz e pela forma
+que me pareceu melhor, em atenção à preparação habitual dos alunos das
+Escolas Normais e ao fim que essas escolas têm ou devem ter em vista.
+Busquei principalmente interessar e orientar os meus alunos,
+habituando-os a confiar na prática dos métodos scientíficos em
+pedagogia.
+
+O livrinho vai ilustrado com uma gravura, reprodução duma cópia feita
+pelo professor Eduardo Romero, da Casa Pia, cópia de um curioso desenho
+de R. Gudden, de Francfort s. M., excelente exemplo de um fenómeno de
+apercepção, que encontrei publicado no manual de Starch:_ Experiments in
+Educational psychology, _e que me pareceu ser uma ilustração muito
+apropriada para acompanhar as minhas lições de Psicologia e Pedologia, e
+particularmente a lição:_ Inteligencia e apercepção.
+
+_Estou certo de que a leitura dêste livrinho, e a dos livros que nele
+cito, será de muita, utilidade para os alunos das Escolas Normais e para
+os candidatos aos concursos de Inspectores primários.
+
+Belem--25--XII--920._
+
+ A. Aurélio da Costa Ferreira.
+
+
+
+
+O ENSINO DA PEDOLOGIA NA ESCOLA NORMAL PRIMÁRIA[1]
+
+
+ Minhas Senhoras e meus Senhores:
+
+
+Parafraseando o emérito Claparède, direi:--como se consideraria uma
+escola de horticultura onde se não ensinasse a botânica?!
+
+Que se poderia dizer de uma escola que preparasse professores para a
+infância, seus educadores, e em que se não professasse a pedologia?!
+
+Como se chamaria aquele que hoje, no estado em que se encontra a
+sciência, quizesse como outrora tratar de doenças, empíricamente, sem
+saber, sem nunca ter estudado a anatomia e a fisiologia e as suas
+aplicações ao diagnóstico e não soubesse examinar convenientemente,
+scientíficamente, um doente, e procurar as indicações? Seria, hoje,
+porventura, um médico? Não. Nem mereceria confiança, nem mereceria
+consideração e as penalidades da lei até sôbre êle recaìriam.
+
+Como se poderiam considerar aqueles que hoje se obstinassem a pretender
+desenvolver a inteligência, formar caractéres, corrigir os instintos da
+criança, sem nunca ter aprendido a estudá-la, a medir-lhe a inteligência
+e a examinar-lhe o feitio mental, as suas tendências e as suas aptidões?
+
+Pois se a psicologia tem progredido tanto que hoje há processos quási
+tam seguros para fazer tudo isto, como há na clínica para estudar o
+pulso ou a respiração, desconhecê-los não será, pelo menos, ser um
+professor incompleto, atrazado, fóra do seu tempo? Sem dúvida que sim.
+
+Bem posso dizer como eu mesmo dizia no último Congresso Pedagógico de
+Lisboa: «querer e crer que sem conhecimentos de pedologia, de higiene
+escolar, de metodologia dos trabalhos manuais e da ginástica, possam
+saír das nossas escolas normais professores dignos da nossa época, a
+quem os governos possam confiar a educação das novas gerações, capazes,
+como dizia, parece-me, numa das suas célebres lições de pedagogia, o meu
+querido mestre, Dr. Bernardino Machado, capazes não só de
+transmitir--_«em tôda a sua pureza o património da civilização dos
+antepassados, a hercúlea fôrça atávica que nos pode permitir
+reabilitar-nos perante a história»_--mas tambêm capazes de fazer tudo o
+que fôr possível fazer-se para fomentar o progresso, melhorar a raça,
+melhorar o solo, melhorar o país; querer que aqueles a quem compete
+fazer e refazer a pátria, a façam e refaçam como noutros tempos, como no
+nosso tempo já não deve fazer-se, é tão estulto como querer confiar hoje
+a defeza da nossa terra aos heróis de outrora, a valentes de cota e
+malha, ou os progressos do nosso comércio, às antigas e gloriosas
+caravelas!»
+
+Van Bierveliet, da Universidade de Gand, numa das suas magistrais lições
+de pedagogia scientífica, feitas para professores de instrução primária,
+exprime-se assim:
+
+«Consideremos uma classe qualquer e interroguemos o professor; saberemos
+logo que num conjunto de cincoenta alunos, por exemplo, se encontram
+dois ou três que demostram uma grande diligência, e aceitam com prazer
+tôdas as tarefas que se lhe impõem. Constituem os primeiros da classe, o
+que pode chamar-se a _cabeça da classe_. Na grande massa dos alunos,
+dominam aquêles em que o zêlo é moderado; cometem erros e sabem as suas
+lições mais ou menos bem. Finalmente, um número mais ou menos
+considerável da classe acha que a tarefa que se lhe impõe é demasiado
+pesada e aborrecida; constitui o grupo dos _preguiçosos_, dos mandriões.
+Estes, fazem os seus exercícios mal, ou nada fazem, e aprendem muito
+pouco, uma ou outra pequena cousa, um ou outro fragmento de lição. As
+classes apresentam uma cabeça, um corpo e uma cauda; geralmente a cabeça
+é composta por dois ou três indivíduos e a cauda, pelo contrário, é
+muitas vezes notavelmente desenvolvida; as classes são organismos por
+vezes _microcéfalos_ (de cabeça pequena) e _macrures_ (de cauda grande).
+
+«A simples constatação dêste facto, basta para demonstrar que o regimen
+escolar é pouco atraente para as inteligências em formação.
+
+«Se num jantar de cincoenta talheres se constatasse que três pessoas
+sómente mostravam bom apetite, trinta comiam com repugnância e o resto
+nada comia, concluir-se-ia, com alguma razão, que ou o _menú_ era
+medíocre ou que os convivas tinham o estomago caprichoso e que por isso
+lhes não convinham os pratos que lhes eram oferecidos ou destinados. O
+mesmo se pode dizer das classes. Há inteligências excepcionalmente vivas
+que assimilam tudo, como sucede com as pessoas que têm o que se usa
+chamar estomago de avestruz, que tudo digerem. Há outras, pelo
+contrário, que perante os conhecimentos apresentados, pelos métodos mais
+correntes, se comportam como dispépticos da inteligência. Que se faz em
+regra a estas? Castigam-se. Melhor fôra curá-las.»
+
+Melhor fôra, acrescento eu, saber conhecer o feitio mental dos alunos,
+agrupá-los consoante as suas semelhanças e diferenças, e saber
+administrar-lhes os mesmos conhecimentos por métodos diferentes, aqueles
+que melhor se acomodem e mais convenham ao seu feitio.
+
+As mesmas doenças não se tratam sempre do mesmo modo; tem que se atender
+ao doente. No ensino sucede a mesma coisa. Não se ensinam todos pelo
+mesmo modo; tem que se atender ao aluno.
+
+Um professor de instrução primária não pode, não deve desconhecer, ao
+entrar no exercício da sua profissão, a psicologia infantil e os
+processos de a estudar e de a observar. Não basta conhecer a
+_metodologia_, é necessário a _psicologia_.
+
+A metodologia deverá, de resto, ajustar-se à psicologia da classe e à do
+aluno.
+
+Diz Claparède num livro, cuja leitura muito lhes aconselho (_Psychologie
+de l'enfant_):«Muitas pessoas supõem que só a prática do ensino pode
+formar o professor e dar-lhe a verdadeira experiência. Seguramente, a
+importância da prática é capital para formar um especialista numa
+determinada arte. Mas é preciso esforçar-se por reduzir ao mínimo as
+experiências, as tentativas, sobretudo quando se trata de seres humanos.
+O professor que entra na prática da sua profissão, sem ter o menor
+conhecimento de psicologia, vê-se naturalmente reduzido a tentar, a
+fazer experiências com que os alunos podem sofrer; é obrigado a
+experimentar _in anima vili_, e algumas vezes essas experiências são
+demasiado longas e peníveis para as gerações de alunos que as têm de
+sofrer. Sem dúvida, a prática pode, dentro de certos limites, compensar
+a insuficiência dos conhecimentos teóricos, mas à custa de quantos
+rodeios e de quantos erros! Á força de construir pontes que abatem, ou
+máquinas que estoiram e se escangalham, pode um técnico sem instrução
+teórica acabar por ser um bom construtor e encontrar empíricamente as
+fórmulas que êle é incapaz de calcular. Mas quem quereria semelhante
+engenheiro?
+
+«Um professor sem educação psicológica está precisamente no mesmo caso,
+com esta diferença, contudo: que, quando uma ponte tende a abater, no
+decurso da sua construção, pode ser reparada imediatamente ou pode ser
+refeita. Enquanto que se se trata de uma inteligência ou de um carácter
+que erradamente se forçou ou tratou na sua evolução, só tarde se dá pelo
+mal, quando êle já se não pode remediar, e nunca em nenhum caso se pode
+refazer, reconstruir, fazer de novo outra inteligência ou outro
+carácter.»
+
+Estas parábolas devem convencer as senhoras e os senhores normalistas da
+utilidade do estudo da psicologia, do estudo das faculdades mentais, na
+preparação dos professores de instrução primária.
+
+Mas que psicologia?
+
+Será a psicologia clássica dos compêndios de filosofia? Será a
+psicologia especulativa? Será a psicologia, o conhecimento das
+faculdades mentais pelo exame introspectivo de indivíduos excepcionais,
+supra-normais quási sempre, filósofos que se deram ao trabalho de se
+estudar a si mesmo? Não.
+
+A psicologia do adulto é diferente da da criança e o estudo desta não se
+pode fundar no exame feito por ela própria. O estudo da psicologia da
+criança é quási como o da dos animais. A criança não é um homem e é
+quási tam diferente do homem como a lagarta da borboleta. Que se diria
+de quem quizesse alimentar ou tratar a lagarta do bicho da sêda como a
+sua borboleta, como êle na sua fase de insecto perfeito? E no entanto
+lagarta e borboleta, tam diferentes na fórma e nos hábitos, são o mesmo
+indivíduo. Assim sucede com cada um de nós, na sua fase infantil e na
+sua fase adulta.
+
+A propósito da psicologia clássica, talvez com mais razão do que dizia
+Binet da antiga pedagogia, se pudesse dizer: «deve ser completamente
+suprimida», no ensino das escolas normais, acrescento eu.
+
+Eu sei com que razão se tem apresentado contra o ensino da pedologia, ou
+estudo da criança, aos professores de instrução primária, o argumento de
+que êle tem levado êstes a distrair-se das suas funções docentes, para
+se dedicarem a estudos e experiências que não só prejudicam, porque
+afastam o professor da sua principal missão: instruir e educar, como
+tambêm porque o levam a fornecer dados que por insuficiência ou carência
+de preparação scientífica, que só em cursos superiores e especiais se
+pode adquirir, são em regra dados perdidos, cheios de erros, falseados,
+quási inúteis para a sciência.
+
+Mas o que eu pretendo fazer não é preparar psicólogos, antropologistas,
+filósofos; nem eu, nem ninguem deveria pretender fazê-los numa escola
+normal primária, principalmente com as habilitações que os senhores
+podem e devem ter. O que eu pretendo fazer é ensinar os principais
+elementos de pedologia, que a sua preparação literária consente e que os
+professores devem conhecer para melhor ensinar.
+
+Procurarei, em suma, ensinar _rudimentos de pedologia e as suas
+aplicações ao ensino na escola primária_.
+
+Seria estulto que eu, médico antropologista, embora director de um
+instituto de educação, eu que não fiz estudos regulares de metodologia
+do ensino primário, nem nunca professei êsse ensino, viesse ensinar-lhes
+todo o programa actual da pedagogia, sciência e arte de ensinar, como
+seria igualmente estulto e injustificado que se exigisse a um professor
+de instrução primária, que não tivesse feito estudos especiais de
+antropologia, e não tivesse suficientes conhecimentos de
+técnica-pedométrica, que ensinasse a pedologia, sciência que é
+conveniente e, mais do que conveniente, indispensável ensinar ao futuro
+professor.
+
+Não é preciso exagerar como Chaillou e Mac-Auliffe, quando na sua
+_Morfologia médica_, dizem: «A educação é e continua a ser puramente
+pedagógica. _Escapa ao único homem que deve dirigi-la, ao médico._» Não.
+Mas é preciso dizer-se, porque é fácil provar que o é, que é necessário
+que parte da preparação do professor primário seja feita por médico
+especializado nas aplicações das sciências médicas à pedagogia, e que o
+professor seja um auxiliar do médico.
+
+Os exercícios que habitualmente passarei, serão exercícios de educação
+scientífica e neles terei em vista não só ensinar como se estuda e
+desenvolve as faculdades da criança, mas tambem o ensinar a estudar e a
+desenvolver as faculdades dos que a têm de educar.
+
+A S. Ex.^a o actual Ministro de Instrução Pública caberá a honra de ter
+introduzido no quadro dos estudos do curso normal, o ensino regular da
+pedologia.
+
+Por minha parte, procurarei corresponder aos desejos de S. Ex.^a o
+Ministro, repartindo com todos os meus alunos o que da matéria souber e
+com êles estudando o que fôr preciso estudar, pondo ao seu dispôr os
+meus hábitos, os meus recursos e o meu método de trabalho.
+
+Que a dedicação e a lialdade com que sempre uso servir nos lugares para
+que me nomeiam, possam compensar outras minhas faltas, que eu possa
+provar ao digno director e ao ilustre corpo docente dêste
+estabelecimento de instrução, a que agora muito me honro de pertencer,
+quanto desejo contribuir para o bom nome e reputação desta Escola, e
+finalmente que eu possa ter o maior e melhor pago que desejo ter: o
+poder ouvir dizer aos meus alunos que na vida prática de bastante lhes
+serviu o que procurei ensinar-lhes, os conhecimentos que lhes transmiti,
+os hábitos que lhes criei e as prelecções que lhes fiz.
+
+
+
+
+A ARTE DE EDUCAR E A PSICOLOGIA EXPERIMENTAL[2]
+
+
+ «To educate is to bring out all the powers that are in the child
+ and to traim him to use them to the best advantage of himself and
+ indirectly of the nation of which he is a part».
+
+ (Miss C. Aguther, _Child Study_, June, 1917).
+
+
+ Minhas Senhoras e meus Senhores:
+
+
+A arte de educar é fundamentalmente a arte de regular a conduta presente
+e futura dos que se têm de educar. Implica forçosamente o conhecimento
+da conduta, das causas dela, do seu mecanismo e das possibilidades que o
+indivíduo oferece. A arte de educar assenta como a arte de curar, na
+anatomia e na fisiologia e assim como o médico, médico que tenha de
+exercer a profissão, tem não só de conhecer as doenças e os remédios,
+mas tambêm conhecer os doentes e encontrar as indicações, assim tambêm o
+educador, que tenha de educar, tem não só de conhecer os fins da
+educação e os meios da educação, a pedagogia e a metodologia, mas tambêm
+de saber conhecer o educando e encontrar a fórma de educação que mais
+lhe convenha e se adapte ao seu feitio. E assim como para o estudo do
+doente não basta conhecer os sintomas das doenças, porque é necessário
+sabê-los observar, assim tambêm não basta ao educador conhecer os
+fenómenos da educação, a psicologia, mesmo que esta tenha a feição
+moderna e scientífica, e se chame psico-fisiologia ou psicologia
+experimental, é necessário tambêm principalmente possuir a técnica da
+observação e da experimentação. Saber psicologia pode não ser saber
+fazer psicologia, como saber quais os sintomas das doenças pode não ser
+saber observá-los e fazer diagnóstico.
+
+Ensinar num curso prático de psicologia experimental, que é como
+oficialmente se chama o curso que tive a honra de ser chamado a reger,
+ensinar nesse curso numa Escola Normal, é fundamentalmente ensinar o que
+fôr preciso para habilitar os futuros professores a conhecer e praticar
+os meios scientíficos de estudar práticamente os fenómenos mentais, isto
+é, possuir as regras e os meios de condicionar êsses fenómenos, por
+fórma a que outros os possam observar nas mesmas condições, e
+verificá-los.
+
+Educar não é hoje, como noutros tempos se supunha, criar, é
+essencialmente orientar. Não é lutar contra a natureza. O educador dos
+homens como o educador dos animais, tem que aproveitar as boas
+tendências, os talentos, para os enriquecer e desenvolver, como dos
+instintos diz o educador e moralista Foerster, falando do ensino dos
+animais. E quanto às más tendências, tem que saber inibi-las, ou
+sublimá-las. Talvez que nesta altura, para lhes dar uma exacta idea
+acêrca do valor e possibilidades do ensino e quebrar-lhes preconceitos
+que a todos os professores desta Escola pertence o combater, e isto, por
+minha parte, na intenção de aproveitar o pretexto de demonstrar que a
+arte de educar hoje assenta e quási se confunde com a arte de estudar os
+fenómenos psíquicos, com a psico-técnica, talvez que, para isso, não
+lhes pudesse de momento aconselhar melhor leitura, como leitura prévia,
+do que a do livrinho _Criminalidade e Educação_, do Sr. Padre António de
+Oliveira que não é só, como todos sabem, uma admirável figura de
+filântropo, mas, mais do que isso, uma figura notável de educador, com
+vocação e larga e valiosíssima experiência.
+
+É preciso que a arte de educar seja como a arte de curar.
+
+É necessário ouvir tambêm o prático, ouvir o que educa, ouvir o que
+cura, sobretudo quando sucede como deve ser, que a arte que praticam
+seja arte esclarecida pela sciência, e não simples empirismo.
+
+Educar é condicionar intencionalmente as reacções do indivíduo. Educar,
+portanto, implica, primeiro do que tudo, o saber estudar as causas e
+mecanismo das reacções individuais. E o estudo dessas reacções feito
+experimentalmente tem o maior interêsse e importância para o educador.
+Muitas dessas reacções são de ordem interna e só o próprio indivíduo as
+pode observar directamente, mas essas mesmas são acompanhadas doutras
+reacções, acessíveis ao estudo directo dos outros e portanto podem ser
+estudadas objectivamente, sem intervenção do exame dos próprios em que
+elas se dão. O educador, em resumo, tem de estudar o mecanismo das
+reacções individuais e a maneira scientífica de as condicionar.
+
+De acôrdo com estas ideas, já a dentro da velha Escola Normal, onde tive
+a honra de reger durante alguns anos o _Curso de Pedologia_, o meu
+distinto colega naquela e nesta Escola Sr. Professor Dr. Alberto
+Pimentel, cujo livrinho de lições lhes aconselho, procurou orientar o
+ensino teórico da Psicologia. Eu, por minha parte, completarei êsse
+trabalho ensinando-lhes a técnica dos estudos psicológicos, segundo essa
+orientação.
+
+Disse eu que a psicologia experimental se prende tanto com a arte de
+educar, que por vezes até quási se confunde com ela. Não é quási se
+confunde, confunde-se até. Em psicologia animal, ramo da psicologia
+quási desconhecido entre nós, a psicologia experimental funda-se na
+_educabilidade_, é o proprio exame da educabilidade, é a propria arte da
+educação exercida com o fim de estudar os fenómenos e os recursos
+mentais do animal.
+
+Vejam por exemplo, para fácilmente e sob uma fórma agradável apreenderem
+melhor o assunto, o excelente livrinho de Hache-Souplet, director do
+Instituto de Psicologia Zoológica, intitulado _De l'animal à l'enfant_
+(Bibl. de ph. contemporaine) e que se pode considerar um pequeno manual
+adoptável na preparação dos professores de ensino infantil.
+
+Não se surpreendam com êste atrevido conselho de lhes indicar um livro
+de psicologia zoológica, como meio de preparação pedagógica. Há grandes
+afinidades entre a psicologia dos animais superiores e a das crianças e
+sobretudo é a estas duas psicologias, a zoológica e a infantil, que é,
+quando não indispensável, pelo menos mais necessária a prática dos
+métodos da psicologia objectiva. Num dos melhores e mais modernos livros
+de _psicologia pedagógica_, o de Thorndike, notável professor de
+psicologia pedagógica numa escola de mestres, têm um livro cheio de
+estudos interessantes de psicologia zoológica sôbre a inteligência dos
+animais, estudada pelos meios da psicologia experimental; e o afamado e
+emérito psicólogo suisso, cujo nome já vai sendo banal citar entre nós,
+o Professor Claparède disse, ao publicar o programa do Instituto de
+Sciências da Educação de Genebra: «Para ser completa uma escola de
+sciências da educação deveria possuir um serviço anexo..., quero dizer,
+um laboratório de psicologia animal...»
+
+Adestrar um animal, regular-lhe a conduta, é aprender muitas vezes a
+ensinar uma criança. Algumas vezes, por isso, recorrerei, se as
+circunstâncias o permitirem, a alguns exercícios de psicologia animal,
+para lhes esclarecer uma ou outra questão psicotécnica pedagógica.
+
+O exame objectivo das reacções será o escopo principal do meu curso.
+Curso prático de psicologia objectiva podia bem ser o título a dar-lhe.
+Psicologia objectiva não quere porêm dizer, que seja exclusivamente um
+curso de psico-fisiologia, como muitos podem supor. A psico-fisiologia é
+apenas uma parte da psicologia objectiva, aquela em que se estudam as
+variações fisiológicas, própriamente ditas, que acompanham ou
+condicionam os fenómenos mentais. As reacções exteriorizam-se tambêm por
+outras fórmas, que não podem sómente ser estudadas pelos métodos da
+fisiologia. O estudo das reacções provocadas por certos reagentes
+mentais é um verdadeiro estudo pedagógico. Outra cousa não é a maior
+parte das vezes o estudo dos chamados _tests_, como é por exemplo o dos
+_tests_ para a medida da inteligência, de que por certo já têm ouvido
+falar e talvez tenham já visto descritos.
+
+A psicologia experimental será talvez ainda preferível à psicologia
+objectiva, porque a psicologia experimental atinge tambêm o estudo
+introspectivo dos fenómenos mentais, o seu estudo directo, e êste
+há-de-nos ser preciso quando se tratar do estudo da psicologia do
+professor, da psicologia de quem ensina, porque o ensino não depende só
+da psicologia do educando, mas tambêm da do educador, e bom é que êste
+aprenda a saber examinar-se, a estudar as reacções que o aluno e a
+escola nele determinam para examinar a sua aptidão, e a corrigir vícios
+de reacção, que são por vezes causa de graves perturbações escolares.
+Não é só o aluno anormal que perturba a classe, é o professor anormal, é
+o que não se adapta à profissão, é o que não a sabe praticar, por falta
+de cultura ou por falta de intuìção.
+
+No aluno professor poder-se há com vantagem praticar a psicologia
+experimental subjectiva. A psicologia experimental não é apenas a
+psicologia objectiva, repito. E a propósito lembrarei as palavras do
+fisiologista francês Prof. Ch. Richet: «A observação interior constitui
+uma psicologia de observação tam fecunda, tam legítima, como a
+psicologia a mais experimental que se possa imaginar. Os factos assim
+adquiridos pelo estudo do _eu_ têm tanto valor como os fenómenos
+fisiológicos registados nos laboratórios pelos métodos mais
+aperfeiçoados da técnica contemporânea.»
+
+Apesar de tudo, porém, o nosso curso será principalmente um curso de
+técnica objectiva, porque êle visa, primeiro do que tudo, o estudo
+psicológico do educando e porque é minha tenção, mesmo quando se trate
+da prática da psicologia subjectiva, recorrer a ela apenas como um
+auxiliar da psicologia objectiva. A propósito recordo os dizeres do
+grande Binet: «Em nossa opinião, diz êle, não é preciso procurar limitar
+e simplificar as respostas do indivíduo em experiência, é preciso, pelo
+contrário, deixar-lhe a plena liberdade de exprimir o que sente, e mesmo
+convidá-lo a expressamente se observar de perto durante o decurso da
+experiência; esta maneira de proceder tem a vantagem de não restringir a
+investigação ao círculo da idea preconcebida: podem-se constatar muitas
+vezes factos novos e não previstos, que muitas vezes tambêm permitem
+compreender o mecanismo dum certo estado de consciência.»
+
+Com felicidade, pois, se chamou «Curso prático de psicologia
+experimental» ao curso de técnica psicológica desta Escola, criado pelo
+Sr. Ministro de Instrução, Prof. Dr. Alfredo de Magalhães, cujo nome
+deve merecer sempre a todos nós, desta Escola Normal, uma grata
+homenagem, pela atenção que lhe merecemos e pelo entusiasmo, apaixonado
+entusiasmo e energia, com que procurou instalar e proteger a nova
+Escola. O curso prático, e acentuo a palavra prático, de psicologia
+experimental será uma maneira de logo, desde o início da freqùência da
+Escola Normal, habituar o futuro professor, a sentir-se professor, a
+despertar-lhe e trenar-lhe a aptidão, a pô-lo em contacto real, directo,
+concreto com a massa que tem de trabalhar, com a sublime argila que tem
+de moldar: a alma tal qual ela é.
+
+Trabalhar a alma da criança com alma e com arte, com arte e com acêrto,
+com acêrto e com sciência, tal é o nosso escopo.
+
+A psicologia que havemos de praticar, será, mais uma vez o digo, de
+carácter principalmente objectivo, não só pela dificuldade, se não
+impossibilidade, do exame subjectivo no meio e com os indivíduos que
+temos de trabalhar, não só porque o exame objectivo constitúi uma fórma
+excelente de fazer a educação scientífica do aluno professor, de dar-lhe
+hábitos de observação e experiência extrospectivos ou melhor exteriores,
+essenciais à arte de educar, mas tambêm porque em psicologia, pode-se
+dizer, que o que mais importa ao educador são os actos psíquicos, os
+fenómenos mentais de que introspectivamente se tem menos conhecimento.
+
+Em psicologia pedagógica o sub-consciente vale mais que o consciente. E
+mesmo quando ao educador compete regular o comportamento do adulto,
+quando ao educador compete fazer reeducação, compete-lhe principalmente
+examinar o sub-consciente, porque é nele que se guarda a fôrça que a
+experiência anterior gerou e que regula e influi, por vezes, mais do que
+nenhuma, no comportamento do indivíduo.
+
+A conduta é principalmente governada pelo sub-consciente e neste tem
+tanta influência a infância, o que ela foi em cada um, que quando a
+fadiga ou a doença perturba o exame introspectivo e a fiscalização,
+censura e govêrno, que por meio dele podemos exercer nos nossos actos, é
+a mentalidade infantil que aparece, se exterioriza e nos revela, tal
+como fomos e no íntimo somos.
+
+Uma escola de psicologia há até, que hoje já invadiu a filosofia, a
+medicina e a pedagogia, que assenta tôda no estudo do sub-consciente e
+particularmente na pesquisa das impressões que nele gravou a vida
+sexual. Refiro-me à _psico-análise_, de Freud e seus sequazes, que,
+apesar dos ataques violentos que tem sofrido, mormente depois da
+declaração da última guerra (mais talvez por xenofobia do que por outra
+cousa), contém muito de verdade. Tirado o que há de místico, de
+escabroso e de exagerado no seu pansexualismo, a psico-análise pode e
+deve ser conhecida pelo educador. E, para terminar com estas referências
+à questão da importância do consciente e do sub-consciente em educação,
+lembrarei a já banalizada definição de Gustavo Le Bon: _A educação é a
+arte de fazer passar do consciente para o inconsciente_. A reeducação,
+essa é muitas vezes o trabalho oposto, digo eu, o de trazer do
+inconsciente ao consciente, para transformar e depois voltar a tornar
+inconsciente.
+
+A educação, na idea de Bacon, é o conjunto dos hábitos adquiridos na
+infância. A reeducação é muitas vezes a correcção dêsses hábitos; mas
+tanto em educação como em reeducação há que aproveitar a Natureza,
+porque ela, ainda segundo Bacon, não se governa, senão deixando-a
+governar, conhecendo-a, aproveitando-a, seguindo-a.
+
+
+ Meus Alunos:
+
+
+A arte de educar, como logo no princípio eu disse, é a arte de regular a
+conduta presente e futura do educando, e a psicologia experimental, de
+escôpo pedagógico, é a psicologia que pela experiência ensina a conhecer
+as causas, o mecanismo da conduta do indivíduo ou da classe a educar.
+
+Psicologia experimental é quási pedagogia experimental. E não imaginem
+que esta pedagogia experimental é menos do que a outra, porque não tem
+em conta os ideais, a parte política, religiosa, social, a finalidade da
+educação. Não.
+
+O Ideal quando não é factor da acção, é produto da acção, ou as duas
+cousas ao mesmo tempo, factor e produto da experiência pessoal, e o que
+nós vamos aprender é a arte de estudar práticamente, experimentalmente,
+os factores e o mecanismo da acção, ou melhor das reacções do indivíduo
+sujeito à influência dos meios, isto é, ainda a parte prática,
+experimental, utilitária, debaixo do ponto de vista educativo, que
+talvez melhor do que psicologia, se poderia chamar, à maneira de
+Bechterew, a _reflexologia pedagógica_, e nela bem podemos estudar o
+valor, a acção e a formação dos ideais.
+
+Com isto declaro aberto o «Curso prático de psicologia experimental»,
+que neste semestre será essencialmente um curso de propedêutica,
+destinado ao estudo das noções preliminares e fundamentais de anatomia,
+fisiologia e psicologia, que mais importam à _psico-técnica_...
+
+Disse.
+
+
+15-III-919.
+
+
+
+
+O PÊSO DO CORPO DA CRIANÇA[3]
+
+
+
+ Meus Alunos
+ Senhoras e Senhores
+
+
+Quiz um pouco o acaso que o _pêso do corpo da criança_ fôsse o tema da
+minha última lição. O fim do ano, como sabeis, veio-nos surpreender num
+ponto ainda atrasado do programa a que me obrigára: o estudo dos métodos
+da pedologia somática, particularmente da pedometria e com ela o dos
+principais caractéres métricos da criança. O pêso do corpo da criança
+terá que ser o tema da lição de encerramento do meu curso dêste ano. E,
+embora pareça o contrário, talvez não pudesse encontrar melhor tema para
+encerrar o concurso.
+
+A lição de abertura que vos li foi, como devia ser, uma lição-programa e
+uma lição-promessa. Na lição de encerramento que vou ler-vos tambêm,
+procurarei fazer com que ela seja o que deve ser uma lição de
+encerramento: uma lição em que até certo ponto se recapitulem as noções
+principais expostas durante o curso, uma lição-conclusão, e uma lição em
+que se procure provar a realização de algumas das promessas que se
+haviam feito na lição inicial.
+
+A criança é fundamentalmente um ser humano em via de crescimento; é um
+homem ou uma mulher em via de formação. A sua principal função é
+crescer, procurando atingir a grandeza que a hereditariedade lhe
+destinou e alcançar o equilíbrio morfológico e fisiológico do adulto,
+que constitui a perfeição do ser. Respeitar o crescimento, a lei natural
+do crescimento, é o principal dever do educador, e tôda a educação se
+tem de subordinar a esta questão de medida: _não perturbar a lei natural
+do crescimento_.
+
+O pêso não cresce como deve ser? Diminui, pára, aumenta de mais ou de
+menos? Um problema se põe. O regimen de vida ou de educação
+provavelmente não é o que convêm. Modifique-se e observe-se, por exemplo
+por meio da balança, a influência das modificações. A balança guia a
+higiene, e na higiene assenta a educação. Por isso, com razão dizia eu
+no Congresso da Liga Nacional contra a Tuberculose, em 1907, e o repetia
+no Congresso Pedagógico do ano passado: «O problema escolar é
+essencialmente um problema métrico.»
+
+Mas mesmo que a medida do pêso e sobretudo a da sua evolução não
+servisse, como serve, para julgar da saúde e do estado da nutrição da
+criança e por êle aferir o valor do meio em que a criança vive e dos
+meios educativos de que se serve quem dela cuida, mesmo que o estudo das
+variações do pêso não tivesse grande significação para os educadores,
+ainda assim, como muitas vezes vos tenho dito, valeria a pena ensinar o
+professor a pesar a criança. Mais do que uma vez, na realidade, vos
+tenho afirmado que uma das vantagens do ensino da pedologia aos futuros
+professores está em ela servir excelentemente para fazer a sua educação
+scientífica, para os ensinar a observar, a descrever, a medir, a
+experimentar, a analisar e a criticar, para aperfeiçoar o _bom senso_,
+que é a mesma cousa que o espírito scientífico, que permite sentir e
+descobrir a realidade e medir a possibilidade. O _bom senso_ é a
+principal qualidade de carácter de qualquer e principalmente do
+professor.
+
+Aprender a pesar é aprender a julgar, e com razão, por isso, um médico
+francês, o Dr. Baudrand, numa tese extensa e notável sôbre o
+crescimento, diz: «Um médico que regista o pêso assemelha-se ao
+magistrado que aprecia o valor de um prejuízo e calcula o valor da
+indemnização.»
+
+A pesagem tem ainda sôbre outras muitas medidas pedométricas a vantagem
+de ser a mais fácil de tôdas; nem exige instrumentos especiais, nem
+técnica muito diferente da das pesagens mais comuns e, porque está
+sujeita a menos erros, permite ao professor ou ao médico não ser tão
+fácilmente logrado, como sucede com muitas outras medidas pedométricas,
+que praticadas mesmo às vezes por quem tenha cultura especial levam a
+conclusões falsas, a listas de números que outra cousa não são mais do
+que números, vistosos na aparência, mas vazios na significação.
+
+_Meçam sim, mas meçam só aquilo que fôr fácil de medir, menos sujeito a
+erros e que sirva para julgar da saúde do educando, e das influências
+que sôbre êle tem o regimen de vida e os métodos de ensino._
+
+Mais uma vez insisto, chamando-lhes a atenção para a obrigação que
+têm--quando medirem e quizerem apresentar os resultados de suas
+medições--de exporem minuciosamente o _modus faciendi_ que adoptaram e
+se darem ao trabalho de, pelo menos nas primeiras medidas, repeti-las
+algumas vezes, no mesmo sujeito e na mesma sessão, para verificar a
+técnica. O observador não tem só que conquistar a confiança dos outros,
+precisa tambêm de conquistar a sua própria.
+
+O pêso do corpo do escolar, não obstante haver balanças especiais, pode
+tomar-se com uma balança décimal ordinária, aferida, e convêm que
+quando, por qualquer razão, se não possa despir completamente a criança,
+ela tenha sôbre si o menor número possível de peças de vestuário: um
+leve calção nos rapazes, uma simples saia ou uma saia e um corpete nas
+raparigas. A pesagem deve fazer-se no mesmo indivíduo, sempre à mesma
+hora, de preferência de manhã, e nas condições o mais idênticas que fôr
+possível. Convêm tambêm repetir a pesagem em cada ano, com intervalo de
+semestre, por exemplo.
+
+Podem parecer exageradas as precauções que acabo de aconselhar, mas não
+o são por que é bom saber-se que as variações do pêso não são sempre
+sinal de crescimento, e porque tambêm está provado que o pêso da criança
+como o do adulto oscila durante o dia, e de época para época do ano.
+
+_Há oscilações regulares diárias do pêso_. De manhã, ao levantar da
+cama, todos pesam menos do que à noite. Esta diferença de pêso chega a
+ser, numa criança de dez anos, de setecentos gramas, e num adulto pode
+chegar a um quilo (Camerer), quilo e meio (Ammon). Parece resultar êste
+facto de que durante o dia, as perdas que se sofrem por saída de
+substâncias do organismo são compensadas pela entrada de substâncias
+reparadoras, enquanto que durante a noite as perdas não são compensadas.
+Nos adultos a diminuição do pêso durante a noite é em média igual à
+elevação do pêso durante o dia, mas nas crianças a diminuição do pêso
+durante a noite é menor do que a elevação durante o dia, o que
+corresponde ao crescimento.
+
+Pode algumas vezes observar-se uma diferença de gramas a mais,
+simplesmente porque o intestino ainda não se esvaziou.
+
+As estações influem tambêm e produzem oscilações no pêso. Está provado
+que êste aumenta mais de agosto a dezembro do que de abril a junho. O
+aumento máximo verifica-se no primeiro período apresentado e o mínimo no
+segundo. De dezembro a abril o valor do aumento é intermédio. Estas
+oscilações podem depender ou resultar de desarranjos que o organismo
+experimenta com as mudanças de estação e tambêm com mudança de hábitos
+que podem levar a aumentar ou a diminuir as perdas. A sudação e os
+jogos, por exemplo, tudo que modifica a função dos emuntórios ou a
+desassimilação, tudo pode influir. Aos factores metereológicos devem
+juntar-se os da _metereologia do ensino_, os exames por exemplo, que
+desarranjam e consomem. O conhecimento dêstes factos levou-me a
+determinar, de acordo com o distinto médico-inspector da Casa Pia e seu
+professor, Dr. Jorge Cid, que a medida e observação periódica de todos
+os alunos fôsse feita duas vezes ao ano, nos primeiros meses do ano
+lectivo, a começar em outubro, e naqueles que imediatamente precedem as
+férias grandes, nos três últimos.
+
+Ás vezes, com a melhoria da alimentação, com a mudança de ares, com a
+liberdade, a criança aumenta extraordináriamente de pêso, como por ex.
+observei na _colónia de férias_, instalada na Figueira da Foz, por
+iniciativa e sob a protecção do meu mestre Dr. Bernardino
+Machado,--colónia em que vi crianças aumentarem _cinco vezes mais_ do
+que em igual período aumentaram alunos da mesma idade, dum colégio
+excelente, como é o Colégio Militar (vidè medidas do Dr. Mascarenhas de
+Melo, apresentadas no Congresso Internacional de Medicina de 1906, e o
+meu artigo, _Uma_ _colónia de férias_, publicado no _Boletim da
+Assistência Nacional aos Tuberculosos_, em 1908).
+
+Êste facto, que tem sido observado por vários, dos grandes aumentos de
+pêso que, às vezes mesmo ao fim de quinze dias, se notam nas _colónias
+de férias_ das crianças pobres das cidades, dessas que eu chamei em
+tempos pobres _exilados da Natureza_, mostra bem a importância destas
+instituições peri-escolares: as _colónias_, para que me não canso de vos
+chamar a atenção, instigando-vos a promover sempre que vos fôr possível
+a sua organização, mas sempre com o auxílio do médico, a quem cabe a
+selecção dos casos e a indicação daqueles a quem convêm a praia e
+daqueloutros a quem o campo mais convêm.
+
+Na apreciação do pêso do aluno deve ter-se em vista mais a fórma porque
+êle cresce do que a diferença do seu pêso para a média dos da sua idade.
+Muito seria para desejar que à semelhança do que se faz, por ex. em
+Bruxelas, o professor dispuzesse de uns cartões quadriculados onde
+apontasse o pêso do corpo de seu aluno em cada ano e fôsse traçando a
+curva da sua variação ao lado da curva média normal, que convinha se
+tratasse de obter com dados colhidos entre nós. Muito convinha, direi de
+passagem, que se generalizasse o uso da _Caderneta da mocidade, da
+Instrução militar preparatória_, tal como está, ou melhor,
+_simplificada_.
+
+Nem a todos é destinado o mesmo tamanho: há crianças leves e crianças
+pesadas, como há indivíduos altos e indivíduos baixos, indivíduos loiros
+e indivíduos morenos. A inferioridade do pêso, por isso, nem sempre
+significa que a criança sofre. Mas acresce a isto o não termos ainda,
+nós portugueses, médias nossas, pelas quais nos possâmos seguramente
+guiar. A raça influi no pêso, e a composição étnica de cada povo deve
+influir na média do pêso absoluto da sua população, em cada idade. Para
+as raparigas portuguesas não conheço tabela alguma; para os rapazes
+costumo guiar-me, enquanto não organizo uma tabela com os pêsos
+observados nos rapazes da Casa Pia, costumo guiar-me, dizia, pelas
+observações do Dr. Mascarenhas de Melo, publicadas nos _Anuários do
+Colégio Militar_ e de que aquele meu distinto colega fez um apanhado na
+sua comunicação ao Congresso Internacional de Medicina, realizado em
+Lisboa em 1906, comunicação intitulada: _Sur l'Antropométrie médicale_.
+As tabelas do Dr. Mascarenhas de Melo servem, porêm, apenas para o
+estudo do pêso dos dez aos dezanove anos. Sôbre estas observações e
+sôbre pedometria escolar podem vêr um pequeno relatório que com o
+título--_Antropometria escolar_--escrevi para o Congresso da Liga contra
+a Tuberculose de 1907 e que com poucas modificações foi reimpresso o ano
+passado, por ocasião do Congresso Pedagógico de Lisboa[4].
+
+A título de curiosidade porei em face umas das outras algumas médias das
+tabelas do Dr. Mascarenhas de Melo (observações portuguesas) e algumas
+extraídas dum trabalho de Camerer, de Stuttgart:
+
+
++---------+-------------+-------------+-------------+
+| | Rapazes | | |
+| Idades | (Masc.^{as} | Rapazes | Raparigas |
+| | de Melo) | (Camerer) | (Camerer) |
++---------+-------------+-------------+-------------+
+| 10 anos | 29 kg. | 30 kg. | 27 kg. |
+| 11 » | 30,5 » | 32,5 » | 29 » |
+| 12 » | 33 » | 35 » | 32 » |
+| 13 » | 36,5 » | 37,5 » | 37 » |
+| 14 » | 42 » | 41 » | 43 » |
+| 15 » | 47 » | 45 » | 48 » |
++---------+-------------+-------------+-------------+
+
+
+Uma alemã parece pesar, a partir dos catorze anos, mais do que uma
+portuguesa da mesma idade.
+
+Estas médias são às vezes assombrosamente excedidas, nos casos de
+obesidade. Neste momento estou tratando na minha clínica particular de
+um rapaz de quinze anos, um obeso com gigantismo, obeso
+hipófiso-genital, que pesa bastante mais de cem quilos!
+
+O primeiro ano da vida é aquele em que o pêso aumenta mais. Em média,
+segundo Camerer, por ex. ao nascer, um rapaz pesa três quilos e
+quatrocentos gramas e uma rapariga três quilos e duzentos gramas. Na
+Maternidade de Lisboa, no tempo do Prof. Alfredo da Costa (1899-1904), a
+média do pêso dos rapazes foi de 3^{kg},236 e a do das raparigas
+3^{kg},103.
+
+Nos dois primeiros dias a criança perde uns duzentos gramas, mas ao
+oitavo ou ao nono recupera o pêso da nascença. O aumento diário das
+crianças criadas ao peito, ainda por ex. segundo Camerer, anda por uns
+30 gr. até à quarta semana, de 26-28 da quinta à décima segunda, de
+20-24 da décima terceira à vigésima, de 16-18 da vigésima primeira à
+trigésima sexta, e de 10-15 da trigésima sétima à quinquagésima segunda.
+
+_No quinto mês da vida, em regra, a criança dobra de pêso, e ao fim do
+primeiro ano costuma tê-lo triplicado._ Pode dizer-se que nos cinco
+primeiros meses o aumento é de cêrca de setecentos gramas por mês; nos
+cinco meses seguintes é metade menor. Daqui a regra indicada por Terrien
+para calcular o pêso de uma criança de peito durante o primeiro ano:
+para os cinco primeiros meses, multiplicar 700 pelo número de meses que
+a criança tem e juntar ao produto o pêso que ela tinha à nascença; para
+os cinco meses seguintes, multiplicar 350 pelo número de meses que ela
+tem _alêm do 5.^o_, e juntar-lhe o pêso do quinto mês, isto é, o dôbro
+do pêso à nascença.
+
+«No segundo ano de vida o aumento de pêso é notavelmente menor que no
+primeiro e chega tam só, tanto nos rapazes como nas raparigas, a cêrca
+de dois quilos e meio; dos três aos cinco anos o crescimento diminui um
+pouco mais, não passando de um a dois quilos por ano. Finalmente, ao fim
+do quinto ano os rapazes vêem a ter 18 quilos e as raparigas 17. A
+partir desta idade, até aos catorze anos, os _rapazes_ aumentam de 2 a 3
+quilos; segue-se depois dos _quinze aos dezóito_ um período de maior
+crescimento, com aumento anual que pode chegar a oito quilos. Nas
+_raparigas_ o acréscimo anual pode manter-se até aos doze anos à volta
+de dois quilos, e dos _13 aos 16_ o aumento anda por uns 4 a 5 quilos. A
+partir dos _16 nas raparigas_ e dos _19 nos rapazes_, o acréscimo pode
+cessar. Em regra, porêm, poucos são os indivíduos nos quais permanece
+estacionário o pêso adquirido aos 16 ou aos 19.» (Camerer).
+
+Duma longa série de observações feitas em crianças portuguesas de
+escolas primárias oficiais do Alentejo e de escolas primárias não
+oficiais de Lisboa, série infelizmente pouco homogénea e insuficiente
+para algumas idades, dessa longa série de observações feitas pelo Dr.
+Moraes Manchego e pelo Sr. Major Desidério Beça, tirou o Dr. Manchego os
+elementos com que construiu uma curva de crescimento do pêso em
+portugueses de 6 a 19 anos de idade, curva que conjuntamente com algumas
+tabelas interessantes, foi apresentada num trabalho daquele distinto
+médico:--_Contribuição ao estudo do crescimento da criança portuguesa_
+(Trabalhos do 3.^o Congresso Pedagógico, realizado em abril de 1912, por
+iniciativa da Liga Nacional de Instrução[5]. Por ser interessante e
+dizer respeito a observações portuguesas, transcrevo dêsse trabalho,
+digno de apreço, as seguintes linhas:--«Na curva portuguesa há
+primeiramente um pequeno acréscimo com o máximo nos 8 anos, que joga
+perfeitamente com o acidente similar já apontado no mesmo trôço da curva
+homóloga da estatura, depois vem um crescimento quási insensível até aos
+12 anos; a seguir apresenta-se uma depressão, e aos 13 anos começa o
+crescimento muito intensivo com o máximo absoluto aos 16 (êste acréscimo
+é de 6^{k},8); depois desta idade a curva desce muito de ano para ano,
+sendo o acréscimo para os 19 anos apenas de 1^{k},5. O aumento de pêso
+dos 6 aos 19 anos é de 36^{k},8, isto é, o pêso que aos 14 anos já
+duplicou é aos 19 superior ao triplo do que corresponde aos 6 anos.»
+
+O que convêm, porêm, principalmente fixar é que durante o crescimento se
+observam dois períodos de crescimento máximo: o primeiro período
+corresponde ao primeiro ano da vida, e o segundo nas _raparigas_ ao que
+vai dos _doze aos dezasseis anos_ e nos _rapazes_ dos _quinze aos
+dezóito_. O primeiro dêstes períodos é, como diz Camerer, uma
+continuação da excessiva energia fetal do crescimento (lembremo-nos,
+como faz notar Variot, que em nove meses se passa de um óvulo de duas
+décimas de milímetro a um féto que mede meio metro e pesa cêrca de três
+quilos!)
+
+O segundo período de crescimento máximo corresponde, tanto nos rapazes
+como nas raparigas, à puberdade.
+
+As condições de vida das mães influem no pêso dos filhos. Sem ir buscar
+exemplos lá de fóra, basta dizer-lhes, para documentar a afirmação, que
+o falecido e ilustre professor da Escola Médica de Lisboa, Alfredo da
+Costa, encontrou notáveis diferenças entre os pesos à nascença dos
+filhos de mulheres que passaram os últimos tempos da gravidez em repouso
+e tranquilidade moral e os daquelas que pelo contrário até ao último
+momento trabalharam e viveram na miséria. As crianças destas últimas
+pesavam sempre menos.
+
+Niceforo, no seu afamado volume--_Les Classes Pauvres_,--publica um
+quadro comparativo do pêso médio de umas séries de rapazes e raparigas,
+por onde se vê que o pêso médio é mais baixo nas crianças pobres do que
+nas ricas, da mesma idade.
+
+Ley e outros verificaram que em regra as crianças atardadas são
+inferiores em pêso aos normais que em idade lhes correspondem. E Sluys,
+o antigo e illustre director da Escola Normal de Bruxelas, num
+interessante opúsculo que muito vos recomendo--_Loi de
+Croissance_,--chama a atenção para o emmagrecimento dos sobreexcitados e
+sobrecarregados pelos trabalhos de preparação dos exames[6]. E já que
+acidentalmente vos recomendei a leitura dêste livro sôbre as variações
+do pêso do corpo da criança, não quero deixar de vos aconselhar tambêm a
+leitura do que escreveu e das tabelas que sôbre o pêso publicou nas suas
+_Lições de Pedologia_ o nosso distinto conterrâneo Dr. Faria e
+Vasconcelos, professor em Bruxelas, de quem por várias vezes tenho tido
+o prazer de vos falar.
+
+Afinal a balança, como fiz vêr, pesa, mede a marcha da nutrição e
+permite apreciar as condições de vida e os regimens de trabalho.
+Perturbar o crescimento é perturbar a vida, é afrouxar os meios de
+defesa, é predispor para a doença, é inferiorisar o indivíduo.
+
+Foi minha tenção ler-vos esta lição de encerramento do curso, no
+_Lactário de Lisboa_, instituição que eu muito desejava que visitasseis
+em minha companhia.
+
+De facto, em nenhum sítio melhor eu poderia mostrar o valor da medida do
+pêso nas crianças. Nos lactários, nessas benemeritas instituições
+destinadas a distribuir leite para alimentação artificial das crianças,
+cujas mães, por doença, e as mais das vezes apenas por imposição do
+trabalho, não podem amamentar, a balança não é apenas um meio de estudar
+o crescimento, é um meio de salvar a vida. A aleitação artificial
+desregrada é uma espécie de infanticídio que vitíma muitas crianças.
+Graças à balança, o médico pode dirigir a alimentação por fórma a evitar
+muitos e danosos males.
+
+Mas, meus alunos, os lactários e as consultas para recemnascidos não são
+apenas laboratórios de pesagem e agências de alimentação láctea. São
+verdadeiras escolas que em muita parte com êxito freqùentam normalistas
+como vós, que ali vão aprender a alimentar e a tratar de crianças.
+
+Para o ano, se me fôr permitido e se se me oferecer, como espero,
+ocasião e facilidade, procurarei fazer com que o _Lactário_ e o
+_Instituto de Puericultura_, da rua Alexandre Herculano, para que agora
+chamo a vossa atenção, se relacionem com esta Escola Normal.
+
+A preparação do professor deve ser uma espécie de preparação materna.
+
+Professoras ou professores só têm a ganhar com se habituarem a lidar
+desde muito cedo com crianças, e a estudá-las, estimá-las como pais. E
+êste deve ser a meu vêr o principal fim da co-educação na Escola Normal.
+
+De resto, eu quereria que desde o primeiro ano do curso, alunos e alunas
+estudassem Pedologia para se habituarem a viver com as crianças, para se
+habituarem a vê-las não só no mutismo e no rijo formalismo, muitas vezes
+necessário, das aulas, onde se lhes estanha a fisionomia, se lhes
+paralisam os movimentos, se lhes esconde a graça, se lhes abafam os
+sorrisos, se lhes sufocam os cantares, mas tambêm para se habituarem a
+vê-las, e lidar com elas, quando em plena liberdade, com a eloqùência da
+sua mímica, com a alacridade dos seus gritos, esfusiando alegria,
+irradiando afectividade, nos prendem, nos alegram, nos comovem, nos
+enternecem, nos interessam e nos fazem estimá-las, compreendê-las,
+protejê-las, e educá-las.
+
+Meditai as palavras de Waynbaum, com que terminarei a minha lição e que
+se referem à fisionomia da criança:
+
+«A voz do sangue, o amor da progenitura, o instinto natural pouco entram
+na constituição dêste sentimento sólido e orgânico que fórma o amor do
+pai pelo seu filho. Estes laços naturais, hereditários, existem
+certamente, mas não valem o laço que a própria criança cria e faz
+aparecer no nosso coração, êsse laço que é uma arma poderosa que a
+natureza lhe deu e de que ela largamente usa para se prender a nós, para
+se tornar uma parte de nós mesmos.»
+
+Meus alunos, senhoras e senhores, que em breve todos sejais professores.
+
+Futuros pais, sêde bons professores: _futuros professores, sêde como
+pais_[7].
+
+
+Lisboa, 19-IV-915.
+
+
+
+
+A AGUDEZA VISUAL E A AUDITIVA DEBAIXO DO PONTO DE VISTA PEDAGÓGICO[8]
+
+
+
+ Minhas Senhoras e Meus Senhores
+ Meus Alunos
+
+
+Sejam as minhas primeiras palavras, no dia de hoje, de saúdação e
+agradecimento e principalmente de agradecimento para com S. Ex.^a o
+actual Ministro da Instrução Sr. Prof. Ferreira de Simas, e para com o
+Conselho desta Escola a quem sobretudo devo a honra de poder novamente
+retomar êste logar, grato para mim como nenhum outro, e onde poderei
+continuar a série de lições que o ano passado iniciei, desejando e
+esperando que elas, pelo menos, sejam tam atentamente ouvidas e tam
+proveitosas como o ano passado tenho a certeza que foram.
+
+
+
+ Meus Alunos
+
+
+Posso dizer que a lição que vou fazer-vos, embora seja a lição de
+abertura do meu curso dêste ano, não é no entanto a primeira lição que
+êste ano vos dou. A primeira foi aquela que cada um de vós recebeu,
+quando eu, acedendo ao criterioso convite do Sr. prof. Tiago da Fonseca,
+secretário desta Escola, procedi à medida da agudeza visual e da
+auditiva de cada um dos que pretendiam matricular-se, a fim de que na
+sua distribuição pelas turmas e pelas salas se atendesse às indicações
+tiradas daquele utilíssimo exame.
+
+Procedi a êsse exame não como médico, mas como professor, e procedi por
+fórma a dar-lhes uma norma de inspecção, segundo a qual todos, no
+exercício das suas funções, em qualquer escola que seja, poderão
+proceder a ela, e por meio dela classificar, segundo a visão e a
+audição, os seus alunos em um dos três grupos:--_supra-normais_,
+_normais_, _infra-normais_, distribuindo-os nas salas das classes pela
+maneira que mais convêm ao ensino: adiante os que ouvem e vêem pouco, ao
+meio os que vêem e ouvem regularmente e ao fundo os que ouvem e vêem
+melhor. Tive sempre tambem o cuidado de, quando verificava a existência
+de anormalidade, ou melhor, quando encontrava candidato que via ou ouvia
+a uma distância notávelmente inferior àquela a que a maioria costuma vêr
+e ouvir, tive sempre o cuidado, dizia, de lhes aconselhar a que se
+dirigissem a médico competente para que se julgasse da causa da
+inferioridade e se corrigisse esta, se porventura isso fôsse possível;
+enfim, para que se tratassem. Quiz assim não só cuidar ou fazer com que
+cuidassem da saúde de órgãos importantíssimos para todos e
+principalmente para quem aprende e para quem ensina, mas tambêm quiz
+assim indirectamente aconselhar-lhes ou apontar-lhes a maneira de
+proceder que convêm que adoptem quando tiverem como eu, na sua qualidade
+de professores, de examinar e medir a agudeza visual e auditiva dos seus
+alunos.
+
+A instrução, como sabeis, faz-se nas nossas escolas sobretudo à custa de
+excitações visuais e auditivas. O professor dirige-se principalmente à
+vista e ao ouvido do aluno. Se vista e ouvido não estiverem em condições
+de aprender nítidamente, de serem clara, forte, profunda e
+agradávelmente impressionados, a instrução não se fará ou far-se há
+defeituosa e deficiêntemente; a falta de aproveitamento com facilidade
+se fará notar.
+
+Aquele que nem vê nem ouve bem, acaba por deixar de prestar atenção; não
+se aplica, não se instrui e não se educa tambêm, como deve ser, porque a
+experiência é pouca e má, porque não excita convenientemente os
+sentidos, porque não enriquece convenientemente o cérebro em imagens,
+precisas e nítidas. Não tem ou tem pouco sôbre que trabalhar; não
+desenvolve a inteligência.
+
+Pelos olhos tomamos nós habitualmente conhecimento dum grande número de
+propriedades e tal é o papel que as imagens visuais representam na
+_cerebralidade_, na compreensão das cousas, que Gaston Gaillard, num
+artigo notável sôbre as _condições ópticas e fórma visual da
+inteligência_, disse: «a inteligência parece ser uma espécie de
+faculdade óptica.» Fisiologistas e histologistas têm demonstrado que a
+visão tem uma influência importantíssima no desenvolvimento dos centros
+cerebrais, e vários médicos têm demonstrado tambêm que muitas vezes o
+atraso intelectual nas crianças, que os franceses chamam _arriérés_, nos
+débeis mentais ou _atardados_ como se vai dizendo em português, o
+atraso, a inferioridade resulta muitas vezes dum defeito de visão.
+Vários casos se apontam tambêm de perfeita normalização de crianças
+anormais-inferiores, por simples tratamento ou correcção conveniente do
+seu defeito visual. Êstes anormais são verdadeiros _anormais de ocasião_
+ou anormais por _deficit sensorial_, como os chama Ley. E já que vos
+estou falando das relações da visão com o desenvolvimento intelectual,
+com muito prazer e com muita utilidade para vós vos chamarei a atenção,
+convidando a lê-la, para a conferência realizada em 20 de Maio de 1914,
+na Sociedade Portuguesa de Estudos Pedagógicos, pelo nosso distinto
+Inspector Geral de Sanidade Escolar e meu muito presado amigo Dr. Costa
+Sacadura, conferência intitulada: _Influência do estado da visão sôbre o
+desenvolvimento intelectual e físico das crianças_.
+
+Cousa semelhante ao que acabo de vos dizer a propósito da inferioridade
+da agudeza visual, poderei dizer tambêm a propósito da baixa ou redução
+da agudeza auditiva. A criança que ouve mal, compreende mal, acaba por
+desinteressar-se, distrai-se, deixando de escutar e aprender,
+atrasando-se na instrução por falta de noções que lhe ministram
+oralmente e que ela não aprende, atrasando-se na educação, por _deficit_
+de excitações sensoriais auditivas. O professor Bezold, de Munich, notou
+que quanto maior fôr a dureza do ouvido, tanto menor é o desenvolvimento
+intelectual. E Rouma no seu importante livro: _La parole et les troubles
+de la parole_, conta que numa classe de crianças semi-surdas, em Berlim,
+classe composta por 12 alunos, entre os quais havia 4 que tinham sido
+apontados como intelectualmente inferiores, êstes se mostraram como
+perfeitamente aptos para o trabalho escolar e provaram ter uma
+inteligência perfeitamente normal, logo que foram colocados num meio em
+que se os educou tendo em vista a sua inferioridade física.
+
+A dureza do ouvido deforma as imagens auditivas e a criança procurando
+reproduzir os sons, as palavras que ouve emite sons, pronuncia palavras
+deformadas, adulteradas, sofrendo assim dum defeito de pronúncia por
+simples defeito da audição.
+
+A redução da agudeza visual e da auditiva veem a ter tambêm uma
+influência importante no feitio moral daqueles que delas sofrem. A má
+compreensão dos factos que se passam em redor e de que tomam
+conhecimento por intermédio de órgãos insuficientes e a dificuldade de
+comunicar com as outras pessoas, acarretam muitas vezes conseqùências
+mais ou menos emocionantes que podem perturbar o carácter. Lembrem-se
+das diferenças psicológicas, de ordem moral, que todos sabem que existem
+entre o surdo e o que ouve, e entre o cego e o que vê. E neste momento,
+ao tratar-se dêste assunto, eu relembro a transformação que se operou no
+meu espírito, e a alegria que experimentei, quando pela primeira vez eu,
+que era um _míope inconsciente_, olhei para o que me cercava, através de
+umas lunetas de vidros divergentes. Corrigi a minha vista e então
+comecei a aproveitar mais nas minhas aulas, onde muitas vezes não seguia
+o que se expunha no quadro preto, por supôr que isso era só para os que
+junto dêle estavam, e comecei então tambêm a usufruir uma maior soma de
+prazer, o prazer de vêr e gosar o que se vê. A minha concepção do mundo
+modificou-se, melhorou. Passei a ser mais optimista; encontrei no mundo
+e na vida um fim estético, harmonioso, espectacular, se me permitem o
+termo.
+
+E lembrar-me eu que entre vós, segundo as minhas recentes observações,
+há, de 43% de inferiores ou defeituosos da visão, apenas uns 10% com a
+vista corrigida! Correi já, por vosso interêsse, aos médicos oculistas;
+eis o meu conselho.
+
+Pelo que respeita ao ouvido, os 9% de infra-normais que a observação me
+levou a encontrar, na população desta Escola, que não se descuidem
+tambêm, porque é possível que nalguns se trate de defeito corrigível,
+talvez apenas de uma obstrução ocasional, que simples lavagens ou duches
+auriculares farão desaparecer. Devo dizer-lhes que as percentagens que
+acabo de apontar dizem apenas respeito a alunos com inferioridade
+bilateral dos olhos ou dos ouvidos, reconhecida pelos processos simples,
+que todos viram praticar, e dos quais lhes vou agora dar mais minuciosa
+conta.
+
+Numa sala desta Escola que me pareceu ser daquelas onde menos se ouve o
+barulho da rua, que neste sítio infelizmente não é pequeno, coloquei em
+face de uma das janelas, a seis metros aproximadamente dela, e a uma
+altura que correspondesse aproximadamente à dos olhos da maior parte dos
+alunos, coloquei, dizia, um cartão em que colocara o _quadro
+optométrico_ dos Drs. Mario Moutinho e Costa Sacadura, quadro que
+suponho se encontra espalhado por tôdas as escolas, mercê de uma larga e
+útil distribuição.
+
+Marquei a giz sôbre o chão um traço indicando a distância de 5 metros
+para àquem da parede onde pendurava o quadro optométrico.
+
+Numa outra parede, no tôpo da sala, tracei a uma altura correspondente à
+dos ouvidos na maioria dos alunos, um traço horizontal, a giz, sôbre o
+qual a partir aproximadamente de 1 metro de uma das extremidades marquei
+um zero e, a partir dêste, pequenos traços verticais indicando os
+decímetros e os metros (4 metros aproximadamente).
+
+Quando ia proceder aos meus exames, procurava obter o maior silêncio
+possível, na proximidade da sala, e fazia entrar os alunos um a um ou
+dois a dois, e de maneira a evitar que se distraíssem. Uma empregada
+tomava-lhes à entrada o nome e eu logo começava o meu exame, em que fui
+várias vezes auxiliado pelo meu venerando colega Sr. prof. Pedro
+Ferreira. Para a medida da agudeza visual, mandava colocar o aluno em
+frente do quadro optométrico a uma distância aproximadamente de 6
+metros. As letras do quadro estão dispostas em 3 linhas paralelas e tais
+que para uma visão normal devem respectivamente ser lidas a 20, 10 e 5
+metros de distância. Mandava procurar ler a 6 metros as letras da linha
+inferior, aquelas que se devem lêr, quando a visão seja mediana, à
+distância de 5 metros. Se o aluno as lia tôdas ou dois terços delas à
+distância de 6 metros, colocava-o no grupo dos _supra-normais da visão_,
+se não, mandava-o tentar ler as letras da mesma linha à distância de 5
+metros. Se as lia, colocava-o no grupo dos _normais_: finalmente se o
+aluno nem à distância de 5 metros lia sequer dois terços das letras que
+a essa distância devia ler se a visão fôsse normal, colocava-o no grupo
+dos _infra-normais_, e procurava então vêr quais as letras que conseguia
+ler a essa distância de 5 metros. Se lia as da linha média, que um
+normal devia ler a 10 metros, dizia que tinha uma agudeza visual igual a
+1/2 do normal, se lia a 5 metros só aquelas que um normal lê à distância
+de 20 metros, dizia que tinha uma agudeza visual igual a 1/4 do normal.
+Se nem estas lia, dizia que tinha uma agudeza visual inferior a 1/4 do
+normal.
+
+O exame era feito em separado, para cada um dos olhos, tendo o cuidado
+de evitar que com a mão carregassem sôbre aquele cuja agudeza visual se
+não estava medindo. Em regra, e esta parece ser a melhor fórma, mandava
+colocar um cartão de visita diante do ôlho a encobrir, mas um pouco
+afastado dele.
+
+Esta técnica, que é uma técnica de confiança para determinar com
+precisão a agudeza visual, pode ser empregada por qualquer professor, e
+praticada em todos os escolares, mesmo naqueles que não sabem ler, visto
+que junto às letras e com dimensões respectivamente iguais às delas se
+encontram no quadro optométrico linhas com sinais (_optotipos_ se
+chamam) que um analfabeto pode perfeitamente apontar (zonas circulares
+incompletas, com abertura voltada segundo quatro direcções).
+
+Para o exame do ouvido, mandava colocar o aluno em frente da linha que
+traçara na parede, voltado para ela, junto dela e com o ouvido direito à
+altura do zero. O aluno, com um dedo, sem carregar, tapava o ouvido
+esquerdo e olhando em frente, prestava atenção a vêr se ouvia o
+_tic-tac_ de um relógio de algibeira, que eu lhe aproximava do ouvido.
+Logo que o aluno dava sinais de o ouvir, começava eu a afastar o
+relógio, fazendo deslocar êste sôbre uma linha, não perpendicular à
+face, mas sim dirigida para diante, perpendicularmente ao pavilhão da
+orelha. E deslocando o relógio procurava determinar a maior distância a
+que o aluno conseguia ouvir o bater dêsse relógio.
+
+Fiz uma série de observações e verifiquei que _com o meu relógio_ a
+maioria ouvia o _tic-tac_ a uma distância de 2 a 3 metros. Em vista
+disto considerei como _infra-normais_, na audição, francamente
+infra-normais, os que ouviam o máximo a 1 metro e _supra-normais_, na
+audição, francamente **supra-normais**, os que ouviam a 3 metros e mais.
+
+Para o exame do ouvido esquerdo, mandava voltar o aluno, colocava-o com
+o ouvido esquerdo à altura do zero, pedia-lhe para tapar o ouvido
+direito e olhar bem em frente, ou fechar os olhos, e procedia depois por
+uma fórma semelhante à que adoptei para o exame da agudeza auditiva do
+ouvido direito.
+
+Quando a redução da agudeza auditiva era notável (menos de 1 metro),
+mandava sentar o aluno no fundo da sala, voltado para a parede, e
+colocando-me atrás dele, no lado oposto, falava-lhe em tom ordinário por
+fórma a ver se me ouvia e para isso o mandava repetir a frase que eu
+pronunciava ou executar movimentos que lhe ordenava.
+
+Êste processo, da medida da agudeza auditiva, ao contrário do que
+adoptara para medida de agudeza visual, não é exacto, não é preciso, não
+é seguro, mas serve, e isso basta, para comparar os alunos debaixo do
+ponto de vista da agudeza auditiva e distribuí-los nas aulas, de acôrdo
+com ela.
+
+Nas crianças é necessário talvez tomar mais precauções do que aquelas
+que com os senhores tomei é conveniente sentá-las, vendar-lhes: os olhos
+e de vez em quando _fingir_ que se aproxima ou afasta o relógio, para
+assim julgar do valor das suas respostas.
+
+Devo dizer-lhes, o que tambêm importa, que levava, em regra, dois a três
+minutos com o exame da agudeza visual e da auditiva.
+
+Na Casa Pia, onde eu e o Dr. Jorge Cid temos feito várias observações,
+usando de processos semelhantes àqueles de que vos falei, verifiquei há
+dias a existência de alguns factos curiosos para que não quero deixar de
+chamar-vos a atenção. Considerando apenas os alunos que neste momento
+freqùentam a 4.^a classe de instrução primária, e com êles os que em
+Julho a freqùentaram e distribuindo-os por ordem crescente das idades
+verifica-se: que à medida que se avança na escala das idades, e aumenta
+o número de anos de internato, diminui a percentagem de alunos que
+fizeram exame do 2.^o grau, e _diminui a percentagem dos que têm audição
+normal_. Quere isto dizer que é provável que o atraso de alguns alunos
+provenha de inferioridade auditiva. Por outro lado encontram-se dois
+máximos de freqùência da visão inferior à normal um (30%) coincidindo
+com o máximo de freqùência de exames do 2.^o grau (61%) e outro (40%)
+coincidindo com o máximo da idade (16 anos e mais) e o mínimo da
+freqùência de exames (40%), factos estes que interpreto por esta fórma:
+a anormalidade visual nos rapazes de 16 anos e mais (máximo de idade),
+que ainda não fizeram exame do 2.^o grau, coincide e deve estar
+relacionada com inferioridade mental e a grande freqùência da visão
+inferior à normal nos rapazes de 14 a 15 anos, grupo a que na sua maior
+parte pertencem os que fizeram exame do 2.^o grau, é naturalmente devida
+à _miopía_ que o trabalho das aulas agrava, quando não determina. Quando
+um dia me ocupar particularmente dêste importante defeito da visão, a
+miopía, procurarei obter alguns dados especiais recorrendo,
+provávelmente, para isso, ao registo das observações oftalmológicas e às
+estatísticas do distinto médico-oftalmologista da Casa Pia Dr. Xavier da
+Costa.
+
+A miopía é uma verdadeira doença profissional da escola; é em grande
+parte um produto do trabalho escolar. A sua freqùência aumenta à medida
+que se avança no grau do ensino. E já que levantei êste incidente, não
+deixarei de vos recomendar a leitura de uma interessante e utilíssima
+conferência feita na Imprensa Nacional, em 19 de Abril de 1914, pelo Dr.
+Sebastião da Costa Santos, tambêm distinto médico-oftalmologista, e em
+que por fórma muito clara e completa se trata da miopía e doutros
+assuntos de oculística que se prendem com a higiene escolar.
+
+O exame da agudeza visual e da auditiva presta-se tambêm a permitir
+julgar até certo ponto de certas qualidades de ordem psíquica que ao
+educador muito interessa conhecer. A maneira por que o aluno se
+apresenta, a rapidez ou a lentidão dos seus movimentos, a rapidez ou a
+lentidão na leitura do quadro optométrico, a maneira agitada ou, pelo
+contrário, lenta e dócil por que se comporta, a precisão ou a indecisão
+na compreensão e execução das nossas ordens, tudo permite, com grande
+probabilidade de acêrto, formar um juízo útil e necessário para o
+educador, sôbre o grau de emotividade, ou sôbre a _potencialidade
+nervosa_ de cada aluno, destrinçando particularmente os dois tipos
+extremos, o do _hipersténico_, agitado, e o do _hiposténico_, tardo nas
+suas reacções. O educador encontrará nesse exame elementos importantes
+para calcular possibilidades na educação, e tirar indicações muito úteis
+para a escolha dos meios educativos a empregar.
+
+O exame da agudeza visual e da auditiva feito à luz dos conhecimentos
+que vos procurei transmitir permitir-vos há convencer-vos, desta verdade
+fundamental: _de que os escolares são diferentes uns dos outros_. E
+convencidos disso, o vosso espírito estará preparado para a adquisição
+desta outra verdade: _de que o ensino se deve individualizar o mais
+possível_.
+
+A pedologia, estudo da criança, vos ensinará a conhecer os vossos
+alunos, e a encontrar o caminho educativo que mais convêm seguir.
+
+Pudesse eu deixar-vos convencidos disso, e conseguisse que em tôdas as
+escolas o professor determinasse a agudeza visual e a auditiva e eu, e
+todos os que tivessem contribuído para isso, teríamos alcançado a não
+pequena glória de ter promovido na escola o que o grande professor
+Biervliet, a propósito do mesmo assunto, não duvidou chamar um
+_progresso imenso_.
+
+Disse.
+
+
+
+
+A VISÃO DAS CORES[9]
+
+
+ Minhas Senhoras e meus Senhores:
+
+
+Foi objecto da minha lição de abertura, no ano findo: _A agudeza visual
+e a auditiva, debaixo do ponto de vista pedagógico_, tendo-me servido de
+pretexto para a lição o exame da agudeza visual e da auditiva por mim
+praticado, nos alunos desta Escola, com o fim de se regular a sua
+distribuìção nas aulas. Será êste ano objecto da minha primeira lição um
+assunto que se prende tambêm com a fisiologia dos sentidos, servindo-me
+de pretexto para ela o exame que êste ano tambêm fiz a alunos desta
+Escola, mas não só com o fim de julgar da sua agudeza visual e da sua
+agudeza auditiva, mas tambêm para julgar até certo ponto do seu sentido
+cromático, do grau da sua visão, na visão das côres.
+
+Deu origem a esta ampliação do exame fisio-pedagógico que se começou a
+praticar o ano passado por iniciativa do Sr. Secretário desta Escola, e
+seu distinto professor sr. Tiago da Fonseca, deu origem a essa
+ampliação, um simples acaso. Um dos jornais da cidade, ao noticiar que
+eu ia proceder ao exame dos alunos, falou em _daltonismo_, e isso
+fazendo-me suspeitar uma confusão entre o exame da agudeza visual e o do
+sentido cromático e recordando-me da importância que êste pode ter na
+escolha dos candidatos a professores, resolveu-me a fazer a minha
+primeira lição dêste ano sôbre o _sentido cromático e os seus defeitos_,
+e proceder, como procedi, a um _exame elementar_ dêsse sentido.
+
+M.^{elle} Yoteyko, a ilustre professora belga, considera como
+indispensável na escola normal a prática de um exame do sentido
+cromático, por causa da importância que a diferenciação das côres tem no
+ensino. É sua opinião tambêm que a êsse exame devem ser obrigatóriamente
+sujeitas tôdas as professoras dos jardins de infância e, mais ainda,
+atribúi-lhe, e com razão, grande valor no exame pedagógico dos alunos da
+escola primária.
+
+E isto lembra-me as palavras do professor americano Rowe, quando num dos
+seus livros, diz: «na cegueira das côres está muitas vezes a explicação
+da aparente estupidez que revelam certas crianças das nossas escolas,
+diante dos mapas».
+
+O exame fisio-pedagógico que o ano passado se começou a praticar nesta
+Escola, deve ser ainda mais ampliado do que foi êste ano, e quando êste
+assunto, a _visão das côres_, não fôsse julgado como de maior
+importância, para servir de mais a mais de tema a uma lição de abertura
+de curso, bastaria para justificar-me e dar-lhe o valor que lhe
+contestassem, o tomá-lo como pretexto para chamar a atenção para êste
+capítulo importante e quási virgem entre nós, do exame das aptidões.
+
+Hoje, minhas senhoras e meus senhores, a fisiologia e a psicologia, não
+são apenas sciências de gabinete, simples curiosidades, domínios de
+investigação scientífica desinteressada, ramos de conhecimentos sem
+maior aplicação e utilidade. Não. O fisiologista e o psicólogo têm hoje
+o seu lugar até na oficina, até na fábrica. A êles se recorre não só
+para julgar das aptidões do operário, mas até para regular a própria
+técnica. Opera-se neste momento uma profunda reforma nas indústrias,
+visando a levar ao máximo o rendimento de cada operário, recorrendo-se
+para isso à fisiologia e à psicologia. É o _tailorismo_ que avança, é a
+organisação scientífica do trabalho.
+
+A fisiologia e a psicologia são tam úteis, mesmo fora dos domínios da
+Medicina, que neste momento, até em plena guerra elas figuram, sendo os
+seus processos de análise regular e obrigatóriamente praticados no exame
+dos candidatos a aviadores, êsses heróicos soldados, que nesta guerra,
+formidável pela sciência e pela barbaría, tanto influem na estratégia.
+Na nossa legislação militar, a propósito da inspecção médica dos
+candidatos a aviadores, já se fala do exame das reacções psico-motrizes.
+Mas mais ainda. A _psico-fisiologia_, de que em suas proveitosas lições
+muitas vezes vos fala o Sr. professor Dr. Alberto Pimentel, logrou até
+encontrar aplicação em pleno campo da refrega, onde por exemplo, M.
+Lahy, chefe dos trabalhos práticos de psicologia experimental na Escola
+de Altos Estudos de Paris, e actualmente mobilizado como oficial, teve
+ocasião de com notável utilidade aplicar os seus métodos de estudo a
+gloriosos soldados da Argonne, durante a tremenda campanha de Verdun.
+
+E, minhas senhoras e meus senhores, se a psico-fisiologia presta já
+tantos serviços na escolha dos candidatos a operários e em soldados,
+porque não há-de ela ter tambêm o seu lugar no exame dos candidatos à
+profissão de professor?! Pensai nisto, que é nesta arte que andais a
+aprender: a arte de educar, que é mais necessário rigorosamente escolher
+os mesteirais, porque são êles que lidam com a mais preciosa e delicada
+das nossas matérias primas: a criança, e se ocupam da mais importante de
+tôdas as indústrias: a indústria da formação de cidadãos úteis,
+prestimosos na sua profissão, excelentes nas suas virtudes físicas e
+morais, e no seu amor à Pátria!
+
+
+ Meus Alunos:
+
+
+A visão das côres e a aptidão a discriminá-las não se revela logo após a
+nascença, nos primeiros dias. Factos que a sciência regista levam a
+supor que essa faculdade visual se manifesta _claramente_ e
+_indiscutívelmente_ só ao fim de alguns meses. Ao poder de discriminação
+das côres, segue-se o de nomeá-las. É interessante fazer notar o facto
+de que a criança aprende mais fácilmente os nomes das cousas do que os
+das côres. Citam-se casos em que crianças de dois anos e mais,
+conhecendo perfeitamente os nomes de certos frutos bem característicos,
+pela sua fórma e pela sua côr, uvas, morangos e laranjas, não sabem no
+entanto apropriadamente aplicar-lhes os nomes das côres que ostentam.
+
+Trace, professor da Universidade de Toronto, que examinou vários
+vocabulários infantis, da língua inglesa, chama a atenção para o facto
+de ter encontrado apenas perto de trinta nomes de côres num vocabulário
+de mil e cem palavras. E várias vezes, diz êle, não encontrou, em
+vocabulários de crianças de dois anos, um só nome de côr, não obstante
+essas crianças possuirem já de trezentos a quinhentos vocábulos.
+
+Um outro facto a pôr em destaque é o de que a criança pode discriminar
+as côres, possuir vocábulos para as nomear, mas não associar
+correctamente a côr ao seu nome. Parece que é esta a principal
+dificuldade que a criança tem no reconhecimento das côres.
+
+Creio que foi o professor Monroe, professor de Psicologia em Westfield,
+quem realizou o maior número de experiências sôbre o sentido cromático
+de crianças, de três a sete anos de idade. São curiosas as conclusões a
+que chegou. As meninas distinguem, em geral, mais fácilmente, as côres,
+e reteem mais fácilmente tambêm os nomes destas. Esta superioridade no
+sentido cromático é mais acentuada dos cinco aos sete anos do que antes,
+e está de acôrdo com a superioridade do sentido cromático que as
+estatísticas dos defeitos de visão das côres levam a atribuir à mulher,
+onde êles são menos freqùentes. E como essa superioridade se revela
+mesmo nas idades em que as crianças dos diversos sexos têm as mesmas
+ocupações, pode-se atribui-la a uma diferença sexual inata, em que
+talvez se possa tambêm, como alguns fazem, encontrar a causa do
+coquetismo, da garridice das côres dos trajos da mulher.
+
+As experiências sôbre a visão das cores nas crianças, são muito
+delicadas, por serem difíceis e muito sujeitas a erros. Para se fazerem,
+ou se lhes mostram côres e se lhes perguntam os nomes, determinando a
+percentagem dos erros cometidos, ou se nomeiam côres e se pede à criança
+que as vá indicando ou escolhendo numa colecção de objectos, iguais ou
+diferentes, diversamente coloridos, ou se lhes mostra uma côr e se pede
+para dentre muitas diferentes escolher uma igual, ou, e êste é o
+processo de escolha na criancinha de tenra idade, se observa a sua
+expressão fisionómica e a sua mímica, vendo se ella sorri ou chora, ou
+se assusta, ou se aproxima, ou se afasta ou, mais precisamente, medindo,
+contando como faz Baldwin, que considera como a melhor maneira de julgar
+do valor dos estímulos sensoriais na criança, o estudo das reacções
+motrizes que êles provocam, e principalmente os movimentos da mão,
+contando, como eu dizia, o número de movimentos de aproximação ou
+atracção, e o dos de recúo ou repulsa, que as diferentes côres provocam,
+quando mostradas a distâncias diferentes.
+
+Para terminar esta parte da minha lição, dar-lhes hei conta ainda de
+dois factos mais, que interessam muito ao estudo da visão das côres na
+criança.
+
+Lehman notou que as côres que a criança reconhece mais fácilmente são
+aquelas cujos nomes melhor sabe, e notou mais ainda que os tons que não
+têm nomes especiais não são por elas reconhecidos.
+
+Outro facto tambêm de que vale a pena tomar conhecimento e fixar é de
+que experiências de diversos levam a considerar como côres de maior
+predilecção na criança, o vermelho e o azul.
+
+Assim como há diferenças individuais na sensibilidade à luz, que
+permitem discriminar diferentes graus de intensidade luminosa, assim
+como há diferenças individuais na sensibilidade visual que permitem
+discriminar, pela fórma, os objectos a distância, assim há diferenças
+individuais na sensibilidade visual que permitem discriminar as côres e
+perceber as variações de tonalidade de cada uma delas. E do mesmo modo
+que há cégos que sentem a luz mas não vêem os objectos, há cégos que
+vêem os objectos mas não lhes vêem as côres. Há de facto indivíduos,
+raros é verdade, que vêem os quadros mesmo os mais ricos em colorido, os
+mais variegados, como se fôssem pintados em cinzento, de vários tons.
+
+Há tambêm indivíduos, e estes na percentagem aproximada de 3 a 4% no
+homem e 1 a 2% na mulher, que discriminando algumas côres como o azul e
+o amarelo, não distinguem o verde do vermelho e vice-versa.
+
+Para alguns dêstes indivíduos, como dizia Arago, as cerejas nunca estão
+maduras. E neles compreende-se que possa suceder, como diz M.^{elle}
+Yoteyko, que não vejam os morangos, num morangueiro carregado dêles, ou
+não descubram um lápis de lacre, em cima de um relvado. É a êste grupo
+de cegos cromáticos ou indivíduos daltónicos, que pertencia aquele de
+que Fuchs por exemplo fala no seu _Manual de Oftalmologia_, que queria
+remendar um fato preto com um pedaço de pano encarnado, julgando que
+êste era preto!
+
+A cegueira total para as côres ou _acromatopsia total_, a cegueira
+parcial para as côres ou _acromatopsia parcial_, a cegueira especial
+para o vermelho, ou _aneritropsia_, e outros defeitos cromáticos de
+menor vulto ou _discromatopsias_, denominam-se muitas vezes, em globo,
+_daltonismo_, termo que mais própriamente se deve empregar nos casos de
+_aneritropsia_, ou cegueira para o vermelho.
+
+A palavra _daltonismo_ deriva de Dalton, nome do célebre físico inglês,
+que vendo que confundia as côres das flôres, examinou o espectro solar e
+constatou que a parte do espectro que se chama vermelha, lhe parecia
+apenas quási uma sombra, quási um feixe sem luz (vid. sôbre êste assunto
+da visão das côres um livrinho excelente que muito vos recomendo: o
+livrinho de M.^{elle} Dr.^a Yoteyko, _Aide-mémoire de psychologie
+expérimentale et de pédologie_, vol. 1, _Les sensations_, pág. 309).
+
+Há indivíduos que confundem os nomes das côres e que no entanto não
+sofrem de discromatopsia, pois discriminam bem as côres e os seus tons;
+são apenas ignorantes. Assim, por exemplo, sucedia a um doente do
+Hospital de S. José, examinado pelo meu prezado amigo e distinto
+oftalmologista Dr. Costa Santos, hoje director daquele Hospital, que lhe
+falava de um «azulinho côr de alface», não obstante distinguir bem os
+tons azuis e verdes.
+
+Em contraposição há _daltónicos_ que com tôda a propriedade chamam
+vermelhas as cerejas e verdes as fôlhas, mas que não distinguem o
+vermelho do verde; empregam os qualificativos verde e vermelho, por os
+ouvirem empregar aos outros. Há mesmo mais: há _daltónicos_, que
+distinguem um objecto verde de outro igual, mas em vermelho, não
+própriamente porque a _qualidade_ da côr os impressione, mas sim pela
+_quantidade_ da côr, pelo seu pêso, pela quantidade de pigmento que
+contêem. Se êsses objectos fôssem um vermelho e outro verde, mas de tons
+da mesma quantidade, igualmente leves ou igualmente carregados, então
+não os distinguiriam, confundi-los-iam, achá-los-iam perfeitamente
+iguais.
+
+Está-me lembrando neste momento um dos nossos mais notáveis
+oftalmologistas e até por sinal grande apreciador de quadros, que me
+confessou e por fórma bem sincera e brilhante, que sentia mais ou menos
+o vermelho, mas quási não via o verde; para êle o verde e o vermelho são
+tão distintos como o azul e o amarelo. E na mesma ocasião em que isto
+ouvia, um colega que assistia à conversa, informou-me de que um dos
+nossos melhores paisagistas não distingue fácilmente os tons de certos
+objectos que vê e está pintando. Sofre da dúvida das côres.
+
+As discromatopsias ou defeitos da visão cromática, passam por vezes
+desapercebidas aos indivíduos que deles sofrem. Assim como há _míopes
+inconscientes_, de que o ano passado por exemplo falei na minha lição de
+abertura sôbre a _agudeza visual e auditiva, sob o ponto de vista
+pedagógico_, há _daltónicos inconscientes_. E um dos mais notáveis
+exemplos que dêles se pode apresentar é o que Fuchs menciona no seu
+_Manual_: um médico de uma companhia de caminhos de ferro, médico
+encarregado de examinar o sentido cromático dos candidatos a empregados
+da companhia, que o procurou para lhe pedir algumas instruções sôbre os
+métodos dêsse exame, e que Fuchs no decurso da conversa e em vista dos
+erros que notou que êle cometia no exame das provas, verificou ser um
+daltónico, e nem mais nem menos do que cego para o vermelho!
+
+A cegueira ou a simples diminuìção da agudeza cromática pode ser
+congénita ou adquirida. Há lesões oculares que a determinam e
+discromatopsias há que são atribuíveis a intoxicações, pelo álcool ou
+pelo tabaco.
+
+Van Biervliet atribui certas discromatopsias congénitas a uma acção
+resultante de hereditariedade por falta de treino do sentido cromático
+nos ascendentes.
+
+Interpretando, como em regra se interpreta, a diferença séxual notável
+que existe entre a percentagem das discromatopsias no homem e na mulher,
+com vantagem para esta, ao maior uso que esta faz do seu sentido
+cromático, notávelmente aplicado em certos trabalhos como os trabalhos
+de bordadora e de modista, profissões muito espalhadas entre os
+indivíduos do sexo feminino, generaliza e diz que os visuais, cujos pais
+eram pintores, iluminadores, mosaístas, etc., nascem, graças ao treino
+realizado pelos seus ascendentes, com uma retina e centros visuais mais
+sensíveis às côres. É uma opinião, de resto discutível.
+
+Tendo examinado todos os candidatos à matrícula no 1.^o ano desta Escola
+Normal, pela fórma que adiante descreverei, àparte uma ou outra
+hesitação, discromatopsias própriamente ditas só em dois candidatos,
+senhoras, encontrei, verificando uma confusão notável de tons do
+amarelo, com que experimentámos, amarelo canário claro, e amarelo gema
+de ôvo.
+
+A visão das côres tem sido particularmente estudada nos escolares
+anormais. Zihen cita casos de atardados de doze a quinze anos, com
+suficientes conhecimentos escolares, podendo sustentar uma conversa
+sôbre assunto simples, mas incapazes de reconhecer as côres. Ley, cujo
+trabalho sôbre o _atraso mental_, em escolares é o mais bem documentado
+que conheço, e que observou 110 crianças da escola especial para
+atardados, de Antuérpia, que tive o prazer de com o maior proveito e na
+companhia do seu director o Sr. professor Yack, tive o prazer, dizia, de
+visitar, por sinal um mês antes de rebentar a guerra, Ley encontrou 23
+crianças com graves defeitos da visão das côres, e 45 reagindo
+normalmente, correctamente, seriando de cinco a seis tons de oito côres
+diferentes. Pode haver, portanto, em face de tudo o que dissemos,
+crianças inteligentes com fraca visão das côres ou mesmo cegueira, e
+inferiores mentais com boa visão cromática.
+
+Vale a pena citar tambêm, nesta altura, o facto mencionado por vários e
+verificado por M.^{lle} Descoeudres, de Genebra, de que as côres mais
+vulgarmente confundidas pelos anormais são o azul e o violeta. M.^{lle}
+Descoeudres cita tambêm no seu _Manual_ para a educação de anormais,
+como notável, o caso de um rapaz epiléptico, que desde os oito aos treze
+anos, apesar de tempos a tempos se lhe mostrar uma série de fichas ou
+tentos, de côr azul ferrete com uma ficha de côr violeta, de permeio,
+pedindo-se-lhe que indicasse aquela ficha que não era como as outras,
+êle não a encontrava, não obstante compreender bem a pergunta. Êste
+rapaz confundia tambêm o verde-malva com o azul claro.
+
+Há na visão das côres um elemento que importa muito considerar: é a
+atenção. A falta de atenção explica muitas vezes erros da visão das
+côres, que à primeira vista se poderiam ter como sinais de daltonismo.
+Ao lado do daltonismo verdadeiro, há um falso daltonismo, uma cegueira
+de distracção, que não própriamente cegueira ou incapacidade de visão
+das côres.
+
+Numa série de rapazes da Casa Pia, principalmente entre aqueles
+atardados, que com onze, doze e treze anos de idade, ainda freqùentam a
+primeira classe de instrução primária, tendo dois a três anos de casa,
+observei eu que alguns, quási todos, cometiam erros graves na visão das
+côres, mas erros que variavam com a natureza do _test_ e com a hora do
+exame. O aluno 4.337 que de manhã, antes de começar as aulas, apenas
+confundia o verde claro com o azul claro, e alguns tons de verde, entre
+si, à tarde, logo em seguida à quarta hora da aula, confundia alguns
+_tons verdes com tons vermelhos_, como se se tivesse tornado daltónico
+de manhã para a tarde. Era a fadiga que lhe diminuia a atenção, e o
+levava a cometer erros dêstes. O aluno 305, êsse ainda mais claramente
+mostrava que os erros que cometia na visão das côres resultavam de falta
+de atenção, pois que quási não cometendo erros no exame discriminativo
+de vários tons do vermelho, verde, azul e amarelo, na mesma sessão
+cometeu erros tais que confundia roxo com vermelho, alaranjado com
+amarelo claro e azul com verde, simplesmente porque tinha de atender de
+cada vez a duas côres, que se mostravam ao mesmo tempo. Olhava só para
+uma, a que cobria uma maior extensão, e que êle distinguia
+perfeitamente, não se importando no entanto com a outra, para que aliás
+se lhe chamava tambêm a atenção. Bem diz M.^{lle} Descoeudres a
+propósito da visão das côres nos anormais: «é preciso sempre entrar em
+linha de conta com o factor atenção, por causa da qual se torna difícil
+o pronunciarmo-nos sôbre as noções de côr nos anormais.»
+
+Não basta para explicar as anomalias da visão das côres invocar por
+exemplo uma das duas teorias clássicas da visão cromática: a de
+Yung-helmholtz ou a de Hering. Não basta explicar, como se faz na
+primeira destas teorias, explicar, por exemplo, a cegueira para o
+vermelho, pela ausência, na estrutura da retina, de uns elementos que
+são mais particularmente sensíveis ao vermelho e nos dão esta sensação,
+e dizer que, faltando êles, a luz vermelha impressiona os elementos
+principalmente sensíveis à luz verde, e que nos dão a sensação do verde,
+fazendo assim com que o vermelho nos impressione como se fôsse apenas um
+tom daquela côr. Não basta explicar, como se faz na teoria de Hering, a
+cegueira para o vermelho e para o verde, pela falta de uma substância
+foto-química, alterável pela acção da luz vermelha e da luz verde, e que
+conforme o sentido da alteração origina a sensação do verde ou do
+vermelho. Não. É necessário lembrarmo-nos que a atenção é elemento muito
+importante, a considerar tambêm na visão das côres, podendo só por si
+dar origem à confusão delas, sem que haja própriamente incapacidade
+orgânica para a visão.
+
+Há uma concepção filosófica da visão, devida a Tscherning (vid. _Année
+psichologique,_ 1914, pág. 43), que permite compreender bem a influência
+que a atenção pode ter na visão. Tscherning compára a sensibilidade
+visual à sensibilidade táctil e diz que se pode considerar os raios
+luminosos, que dimanam do exterior para a retina, como uma espécie de
+antenas invisíveis, presas ao fundo dos olhos e que com êles se movem,
+antenas com que nós examinamos os objectos. São o que êle chama os
+_fotóforos_. Se tivessemos um só fotóforo estariamos nas condições de um
+cego, que se guia com a ponteira da bengala; como, porêm, temos vários
+fotóforos, quando olhamos para os objectos, como que passeamos sôbre
+êles esta espécie de retina aparente, como que os apalpamos,
+examinando-os atentamente, tal como sucede quando julgamos do paladar de
+uma substância, saboreando-a com atenção. É uma concepção interessante,
+que me parece permitir muito bem fazer uma idea da influência que a
+atenção pode e deve ter na apreciação das qualidades dos corpos pela
+vista, e entre elas a côr.
+
+O exame da visão das côres na escola pode permitir explicar insucessos
+que se dão no ensino por meio dos mapas e das estampas nas lições de
+cousas, e nos lavores, mas, àparte êste préstimo, tem tambêm o de por
+vezes servir para orientar o aluno na escolha da profissão. O professor
+deve sempre preocupar-se com o futuro do aluno. Ao daltónico são vedadas
+certas profissões, principalmente nas carreiras marítima e militar e na
+de maquinista, onde se é obrigado a guiar-se, como sucede nos caminhos
+de ferro e nas embarcações, interpretando sinais de côres diferentes.
+Esta questão tem tanta importância que num excelente manual inglês de
+higiene escolar se consagram, no capítulo que trata dos olhos e da
+vista, bastantes linhas à questão do exame da visão das côres nos que
+deixam a escola, por terem terminado o seu ensino (_the leavers_).
+
+São muitos os processos adoptados no exame da visão das côres, e pode-se
+dizer que não são de mais, visto que muitas vezes é necessário sujeitar
+o indivíduo a vários exames, para descobrir-lhes os defeitos ou melhor
+para verificar o defeito. Aquele que pretende ingressar em carreira em
+que se liga grande importância à visão das côres, serve-se de vários
+meios ardilosos, tendentes a vencer a barreira que se lhe põe do exame
+rigoroso a que são sujeitos; chegam a estudar os _tests_, a
+habilitarem-se para o exame médico. Aprendem a ser observados, e a
+enganar. E compreende-se que possam chegar a fazê-lo, visto que, como já
+tive ocasião de dizer nesta lição, o daltónico pode distinguir as côres,
+sem as vêr, atendendo únicamente à quantidade e não à qualidade da côr,
+e pode apropriadamente aplicar-lhes os nomes. Na criança é preciso
+contar sobretudo com os erros que comete por ignorância e falta de
+atenção. Uns e outros podem levar a considerar como daltónico, quem o
+não seja. Não é bom o processo de perguntar os nomes das côres à
+criança, para julgar da sua visão. O melhor é mostrar, sem nomear, um
+tom de uma certa côr e mandar escolher entre muitas uma côr e tom igual.
+
+Os processos mais comummente empregados são os das lãs de Holmgren, os
+dos quadros pseudo-isocromáticos, como os de Stilling, e os das luzes de
+lanterna, como o de Edridge Green, por exemplo.
+
+Com as lãs, escolhe-se no meio de muitas meadas, de várias côres e tons,
+uma de certa côr e tom, e manda-se procurar uma meada que lhe seja
+perfeitamente igual. Pode-se tambêm escolher, por exemplo, meadas de
+três côres diferentes, mostrá-las, misturá-las depois com as outras, e
+mandá-las procurar, ou ainda mandar separar as meadas por côres, e
+seriá-las para cada côr, segundo os tons. Nos quadros
+pseudo-isocromáticos há letras ou outros sinais de côres diferentes
+sôbre fundos coloridos por tal fórma que um daltónico não os possa
+distinguir.
+
+Com a lanterna mostra-se, a distâncias diferentes, luzes cuja côr e tom
+se faz variar por meio de vidros apropriados. Etc.
+
+A agudeza da sensibilidade cromática mede-se por fórma semelhante àquela
+por que se mede a agudeza visual própriamente dita. Empregam-se, para
+isso, quadros especiais, com sinais de diferentes côres, e de
+determinado tamanho, e escolhidos por maneira a que se saiba de antemão
+as distâncias a que são ordináriamente vistos por normais. No exame da
+agudeza cromática vê-se a que distância são vistos pelo examinando e
+compára-se esta com aquela a que normalmente elas se vêem.
+
+No exame dos escolares da classe especial de Antuérpia, a que no decurso
+desta lição já tive ocasião de me referir, Ley empregou uma colecção de
+meadas de lã, de oito côres diferentes e cinco a seis tons por cada côr.
+Examinou _isoladamente_ cada um dos escolares (e esta precaução é
+importante porque evita os erros por imitação), e para examiná-los
+apresentava-lhes uma meada de lã verde-pálido, e _sem lhes nomear a
+côr_, mandava-lhes escolher, entre as meadas, todas as que fossem da
+mesma côr, tanto as de tom mais leve, como as de tom mais carregado.
+Esta prova era seguida de uma outra semelhante em que em vez de uma
+meada verde-pálido, se lhe dava uma côr de rosa, muito clara.
+
+No exame sumário que pratiquei em alunos desta Escola, empreguei, em vez
+de meadas, carrinhos de retrós, de quatro côres: vermelho, verde, azul e
+amarelo, e para cada uma destas côres escolhi dois tons, um muito
+carregado e outro muito leve. De cada tom havia dois carrinhos, e os
+tons das diferentes côres foram escolhidos por fórma que a quantidade da
+côr fôsse a mesma para os tons correspondentes, carregados ou leves, de
+cada uma delas.
+
+O _test_ consistia em agrupar dois a dois os carrinhos do mesmo tom e
+côr. Não foi só a falta de material, mas tambêm o desejo de lhes indicar
+um processo muito simples e económico, que me levou a improvisar êste
+processo, em que as côres se sujam menos e se pode fácilmente renovar.
+Fora de uso, é preciso conservar as côres ao abrigo da luz.
+
+Nas experiências que fiz na Casa Pia utilizei um dos _jogos educativos_
+do Dr. Decroly e de M.^{lle} Mochamp. Êste jôgo é formado por quatro
+cartões, como os cartões do lôto, cada um dêles tendo pintado sôbre
+papel, que lhe está colado, uma série de figuras todas do mesmo tamanho,
+representando bandeiras de côres e tons diferentes, cada uma delas de
+seu tom e côr. As bandeiras são quatro por cartão, tôdas da mesma côr,
+no mesmo cartão, e em cada um dêstes dispostas pela ordem de quantidade
+de côr, sendo a primeira a mais carregada e a última a mais leve. Num
+dos cartões as bandeiras são de côr azul, noutro de côr verde, noutro de
+côr vermelha e noutro de côr amarela. Alêm dêstes cartões há uma série
+de cartões pequenos, cada um com sua bandeira, de sua côr e tom, a que
+corresponde uma igual nos cartões grandes. Utilizei êste jôgo, dando a
+cada aluno, e de cada vez, um cartão grande, sôbre o qual deviam colocar
+os cartões pequenos correspondentes. Após o exame de cada cartão grande,
+misturavam-se os cartões pequenos, os cartões já aplicados e os que
+restava aplicar. É um verdadeiro lôto.
+
+Numerando nas costas os cartões pequenos, pode exprimir-se o êrro, por
+confusão, indicando-o por meio de uma expressão semelhante a um
+quebrado, em cujo numerador se escreva abreviadamente a côr e indique o
+número do tom do cartão grande, e em cujo denominador se escreva
+abreviadamente tambêm a côr e se indique o número do tom do cartão
+pequeno, que erradamente sôbre o primeiro se colocou.
+
+Alêm desta prova sujeitei tambêm os alunos da Casa Pia, que examinei, a
+uma outra, que consistia no aproveitamento de um outro lôto de côres da
+colecção do Dr. Decroly e M.^{lle} Mochamp. Nesse lôto há quatro
+cartões, em cada um dos quais figuram quatro homens jogando a bola. Cada
+um deles figura vestido de certa côr, e cada uma das bolas com que está
+jogando tem a sua côr tambêm, mas diferente daquela. Alêm dos quatro
+cartões grandes, há uma série de cartões pequenos com figuras
+correspondentes à do primeiro.
+
+A criança tem que colocar um pequeno cartão no lugar do cartão grande,
+que lhe corresponder. Como se vê, tem de fazer simultâneamente a
+identificação de duas côres. É um verdadeiro _test_ de atenção.
+
+Estes lôtos ou lôtos semelhantes podem fabricar-se na própria escola, e
+constituem meios, muito interessantes para a criança, de lhe testificar
+a visão das côres e, como se verá mais para diante, de lhe educar a
+atenção e de a instruir.
+
+Ao médico interessam principalmente as discromatopsias adquiridas, não
+só porque algumas são curáveis, visto serem de natureza tóxica, mas
+sobretudo porque são muitas vezes um sinal importante e precoce de
+graves lesões ópticas.
+
+Ao educador, porêm, importam particularmente as discromatopsias
+resultantes da falta de atenção. Tive já ocasião de vos dizer que a
+instrução supre muitas vezes, até certo ponto, a cegueira das côres, o
+que faz com que o daltónico não só ignore a sua cegueira, mas até engane
+os outros, por distinguir objectos de côres diferentes e apropriadamente
+denominar diferentes côres que aliás não vê.
+
+Mas é principalmente nos falsos daltónicos, naqueles que trocam os nomes
+às côres, por ignorância, e nos que as não distinguem por falta de
+atenção e exercício, que o educador tem muito a lucrar, ensinando a
+denominar apropriadamente as côres e sobretudo a discriminar-lhes as
+nuances. Os exercícios que se empregam na chamada educação dos sentidos
+e que mais própriamente a meu vêr se deve chamar a educação da atenção
+dos sentidos, porque o que se educa e aperfeiçoa principalmente não é o
+sentido em si, mas a maneira de o aplicar, êsses exercícios têm tambêm,
+áparte a sua acção sôbre a atenção, esta faculdade que é a base do que
+vulgarmente se chama inteligência escolar, a faculdade de aprender,
+êsses exercícios, repito, têm tambêm uma acção notável na educação do
+poder discriminativo, que é o que regula, e torna mais seguros e
+exactos, os juízos. Mas mais ainda. Como as côres têm um poder
+emocional, umas excitando e outras deprimindo, o que até em terapêutica
+se utiliza, elas podem servir para a educação do sentimento estético,
+preparando a criança para a emoção pelas obras da Arte e pelas da
+Natureza, o que tudo tem um grande valor moral. A criança é muito
+sensível a êste poder emocionante das côres e nele afinal está a razão
+da aplicação dos velhos estimulantes escolares: as condecorações e os
+cromos, e do útil aproveitamento no ensino das estampas coloridas. E a
+propósito vos chamarei a atenção para um livrinho muito interessante,
+intitulado: _O nosso Portugal_, trabalho do distinto professor da Casa
+Pia e meu dedicado amigo e colaborador, o Sr. professor Fernando Palyart
+Pinto Ferreira, de mais a mais discípulo desta Escola, livrinho que tive
+o prazer de prefaciar, e que é, entre nós, assim o julgo, a primeira
+aplicação consciente dos princípios fundamentais da psicologia visual
+infantil.
+
+No _Método Montessóri_, de que agora tanto se fala, e que, vai para um
+ano, a Câmara Municipal de Lisboa mandou dois dos seus mais distintos
+professores, um discípulo desta Escola, o Sr. professor Rosa y Alberty,
+da Casa Pia, e sua esposa a Ex.^{ma} Sr.^a D. Pulcena Estrela da Costa,
+antiga aluna da Escola de Ponta Delgada, mandou, dizia, estudar êsse
+método com a sua própria autora, que se encontrava em Barcelona, no
+_Método Montessóri_, a educação da visão das côres tem um lugar
+importantíssimo. Nêle se faz uma inteligente aplicação pedagógica do
+processo de diagnóstico de que vos falei, o processo das lãs de
+Holmgren. Dá-se uma amostra de lã ou de retrós, de uma certa côr e tom,
+e manda-se a criança procurar uma igual, entre muitas outras de diversas
+côres e tons; mostra-se-lhe duas ou três côres e manda-se depois a
+criança ir procurá-las, de cor, de memória; ensina-se a criança a nomear
+as côres e os tons; a própria professora mostra-lhas, nomeando-as,
+dizendo-lhes os nomes por fórma a atrair a sua atenção, usando de tom e
+maneiras que seduzam a criança, e por vezes finalmente se organiza com
+as crianças da escola um jôgo em que cada uma por sua vez é encarregada
+de ir fornecendo às outras as côres e os tons que estas lhe vão pedindo,
+e que depois cada uma tem de agrupar e seriar.
+
+Êste _Método **Montessóri**_, de que tanto agora se fala e que vai
+avassalando os jardins de infância e as escolas primárias de todo o
+mundo, não é bem uma novidade pedagógica, nem, como alguns supõem, uma
+simples moda, uma fantasia. Nem novidade porque nele se encontra a
+aplicação e por vezes a reprodução, pura e simples, de métodos de
+outros, nem simples e inútil moda ou fantasia, porque assenta nas mais
+sólidas bases da psicologia da criança.
+
+A Sr.^a Montessóri teve o condão de com estranha eloqùência fazer a
+propaganda do método de educação dos sentidos de Froebel e
+principalmente das variantes adoptadas pelos médicos e professores dos
+asilos de crianças anormais. Fez e faz uma inteligente propaganda da
+aplicação dos métodos adoptados na educação dos que sofrem de
+insuficiência mental de origem patológica, àqueles em que apenas existe
+a insuficiência fisio-psicológica, própria da sua idade, aqueles em que
+por assim dizer existe um atrazo normal. E a Sr.^a Montessóri, médica e
+antropologista como é, encontrou meios excelentes de fazer essa
+aplicação. É sobretudo o notável aproveitamento que faz do _instinto
+dramático_ da criança, procurando educá-la pela emoção e por isso, ou
+deixando-a representar, e guiando-a na representação, ou tornando-a um
+espectador interessado, atento e entusiasta, que ouve bem o que
+propositadamente diante dêle se faz, e que depois reproduz por imitação.
+
+Há porêm, na escola Montessóri, e principalmente na exposição dos
+métodos da Sr.^a Montessóri, misticismo a mais e froebelianismo a mais
+tambêm. E quando digo froebelianismo, quero referir-me ao êrro
+pedagógico do método froebeliano: à confusão da simplicidade lógica com
+a simplicidade pedagógica. Aos olhos da criança as formas que nós
+chamamos simples, as fórmas abstractas, não são as fórmas mais simples;
+no concreto e no complexo está muitas vezes o que parece mais simples à
+criança, porque a interessa mais.
+
+Em português têm as senhoras e os senhores um livrinho interessante e
+bom para fazer uma idea do método Montessóri; é o livrinho da Sr.^a D.
+Luiza Sérgio, intitulado _Método Montessóri_; e se quizerem conhecer,
+alêm de uma apologia, uma severa censura e crítica à Sr.^a Montessóri e
+ao chamado seu método, leiam um artigo de Guido della Valle no n.^o 6 de
+Janeiro de 1911, da _Rivista pedagogica_, revista italiana.
+
+Nos jogos educativos do Dr. Decroly e de M.^{lle} Mochamp, a educação do
+sentido cromático tem tambêm um lugar importante. Alêm dos lôtos de que
+falei a propósito do exame do sentido cromático em rapazes da Casa Pia,
+há outros lôtos, e um dominó curioso, que muito interessa os pequeninos
+(já o tenho experimentado em meus filhos), um jôgo de dominó constituido
+por uma série de pequenos cartões, aproximadamente do tamanho das pedras
+do dominó vulgar, cartões a cada um dos quais estão, num dos lados,
+colados, lado a lado, dois papéis, cada um de sua côr. Joga-se como se
+joga o dominó. O aspecto, que a série dos cartões toma no fim do jôgo,
+interessa muito as crianças. E já que de novo falei nos jogos educativos
+do Dr. Decroly e de M.^{lle} Mochamp, dir-vos hei que cada um de vós
+terá muito que lucrar, lendo o pequeno folheto que acompanha a colecção
+daqueles jogos que o Instituto Jean Jacques Rousseau, de Genebra,
+costuma vender, folheto intitulado _Jeux educatifs_, e onde todos
+encontrarão compendiadas excelentes sugestões, úteis não só para
+improvisar processos de educação dos sentidos e de instrução tambêm, mas
+até material de ensino, que, pode-se dizer, qualquer pode fabricar.
+Inspirados naqueles jogos se pode dizer que são os processos e o
+material que se empregam na classe de anormais que no Instituto
+médico-pedagógico da Casa Pia de Lisboa, à Travessa das Terras de Santa
+Ana (a Santa Isabel), funciona sob a direcção do professor Fernando
+Palyart Pinto Ferreira e de sua esposa a Sr.^a D. Lucila Carmina Lopes
+de Santa Clara, distinta professora oficial, antiga aluna tambêm da
+Escola Normal de Lisboa, que com o Sr. professor Cruz Filipe, da classe
+de ortofonia, e o Sr. Joaquim Almada, da classe de dizer, comigo ali
+trabalham.
+
+
+ Minhas Senhoras e meus Senhores
+ Meus Alunos
+
+
+Agora mais do que nunca é preciso organizar os serviços de instrução por
+fórma que na educação se vise o aproveitamento de todos, a valorização
+de cada um, ao máximo, aumentando o mais possível o rendimento de suas
+faculdades. A guerra pede-nos os mais fortes e os melhores. Na paz só
+nos poderemos salvar, compensando o sacrifício que fizemos, valorizando
+ao máximo os que restarem, os que escaparem, e os novos. Temos
+infelizmente não só que suprir as faltas de todos os dias, as faltas
+triviais, mas alêm destas as formidáveis perdas que por certo resultarão
+dêste monstruoso acidente da vida do mundo: a actual guerra. Por isso há
+que tratar cada um dêstes homens embrionários, dêstes cidadãos _in
+herbis_, que nos confiam, há que tratá-los por fórma a bem medirmos o
+valor das suas faculdades e préstimos incipientes, e por meio da
+sciência, e com tôda a arte, aproveitar-lhas e desenvolvê-las e
+encaminhá-las o melhor possível. Não. Não podemos nem devemos como até
+aqui limitar-nos a aprender métodos de ensino, quási na ignorância e
+desprendimento do conhecimento da natureza e características da criança.
+
+¿Que se diria de um alfaiate que nos quizesse fazer um fato, sem medida?
+¿E sobretudo que se diria ao ver que o fato que nos destinava não nos
+servia, não se ajustava ao nosso corpo e ou nos tolhia os movimentos ou
+nos cobria de ridículo? ¿E com mais razão, que se diria do educador, que
+no desconhecimento da natureza da criança, a educasse, deformando-lhe a
+mente, prejudicando-lhe o carácter, e obstinando-se em adoptar processos
+os menos conformes com o seu temperamento, os menos convenientes para um
+inteligente aproveitamento da sua personalidade, e os menos conducentes
+à sua felicidade e afinal à nossa própria, porque são as crianças de
+hoje quem amanhã nos há-de governar e julgar? Vós respondereis.
+
+Para vos ensinar a conhecer a criança e para vos ensinar a pelo seu
+conhecimento melhor aplicar e escolher os métodos que os vossos
+professores de pedagogia e de prática vos ensinam, para isso aqui estou.
+
+Ajudai-me com a vossa atenção e eu vos ajudarei com a minha experiência,
+com o meu modesto saber e com a minha dedicação a mais sincera.
+
+Está aberto o nosso curso dêste ano.
+
+
+Belêm, 3 de Dezembro de 1916.
+
+
+
+
+SÔBRE UMAS PROVAS DE EXAME DA ATENÇÃO VOLUNTÁRIA VISUAL[10]
+
+
+
+ Minhas Senhoras e Meus Senhores:
+
+
+Havia eu prometido ocupar-me na série de _conferências pedagógicas_
+organizada na última gerência ministerial do senhor professor Ferreira
+de Simas, havia eu prometido, ocupar-me, dizia, do ponto: _A pedologia
+prática e a prática do ensino na escola primária_, e prometera tambêm
+que essa minha conferência serviria êste ano de lição de encerramento do
+curso de Pedologia que tenho tido a honra de reger na Escola Normal de
+Lisboa. Sucede, porêm, que o meu último trabalho dêste ano foi
+industriar os meus alunos na prática da medida da atenção voluntária
+visual, e sendo assim pareceu-me poder conciliar o compromisso tomado
+com a necessidade de comentar as observações que, sôbre aquela fórma de
+atenção periférica, fizemos na escola anexa à Normal Primária de Lisboa,
+pareceu-me poder conciliar o compromisso com a necessidade do
+comentário, aproveitando as observações feitas para, por uma maneira
+mais concreta, dizer o que tencionava dizer sôbre o ponto que escolhera
+e a que a princípio pensára dar uma fórma mais teórica e geral.
+
+O assunto: _a atenção e a sua medida_ é um ponto capital de pedologia
+psíquica aplicada à educação.
+
+A atenção é a base do que Binet chamou a _faculdade escolar_, a
+faculdade de aprender na escola, a faculdade de assimilar o ensino nela
+ministrado, pelos métodos mais usuais. Para ser bem sucedido nos estudos
+são precisas, diz com razão ainda Binet, qualidades que dependem
+sobretudo da atenção, da vontade e do carácter. E «saber manter a
+atenção dos escolares, apropriar o grau de atenção à dificuldade e à
+importância do trabalho a realizar é quási tôda a arte do professor»,
+diz Van Biervliet. Portanto, debaixo do ponto de vista da importância,
+creio ter escolhido um ponto excelente. E quanto ao que queria
+principalmente demonstrar na minha conferência: a possibilidade de
+praticar estudos pedológicos, sem perturbação nem prejuízo das funções e
+obrigações didácticas, nenhum melhor assunto serviria para defender esta
+tese do que êste: a atenção e a sua medida. Alunos meus tiveram ocasião
+de ver que, em alguns minutos, se poderia sem perturbar a classe, nem
+alterar o ensino, fazer importantes experiências que entre outras coisas
+podem ser aproveitadas para conhecer os alunos debaixo do ponto de vista
+da atenção, descobrir anormais, medir a fadiga, julgar horários,
+programas, métodos de ensino, e até ensinar a estar atento.
+
+Tem sido sempre minha principal preocupação o professar pedologia que
+possa directamente aproveitar ao ensino primário, não aconselhando senão
+processos de observação e experiência, fáceis, compatíveis com a
+preparação dos alunos da Escola Normal Primária, e que não distraíam os
+mestres das obrigações didácticas, e antes pelo contrário contribuam
+para que melhor as cumpram, fazendo sempre lembrar-lhes que, mais do que
+ministrar noções, lhes compete preparar o espírito dos alunos para as
+receber, e para isso é indispensável saber conhecer os alunos, saber o
+que são, conhecer a personalidade de cada um, e saber-lhes aproveitar o
+feitio. Esta tem sido de facto a preocupação principal e a orientação
+com que tenho preparado as minhas lições e elas claramente se notam nas
+três lições que já publiquei:--_O ensino da pedologia, na Escola Normal
+Primária_, _O pêso do corpo da criança_, e _A agudeza visual_ _e a
+auditiva, debaixo do ponto de vista pedagógico_.
+
+
+ Minhas Senhoras e meus Senhores:
+
+
+No ensino ordinário da escola primária utiliza-se e treina-se muito a
+atenção voluntária visual verbal, isto é, utiliza-se e exige-se um
+estado de espírito em que o aluno voluntáriamente toma a atitude que
+mais convêm para receber as estimulações visuais determinadas pelas
+palavras escritas. Não será a fórma de atenção mais útil para a vida,
+porque no mundo ambiente, como diz Van Biervliet, a atenção não tem que
+dirigir-se, orientar-se, concentrar-se sôbre as fórmas verbais das
+cousas, sôbre a descrição dos factos, sôbre os resumos dos
+acontecimentos, mas sim sôbre as próprias cousas, sôbre os próprios
+factos, sôbre os próprios acontecimentos; não será portanto a fórma mais
+útil para a vida, mas é uma das mais úteis para o sucesso na escola.
+Alêm disso, por meio da sua medida, se podem resolver vários problemas
+escolares, principalmente porque por meio dela se pode medir a fadiga
+escolar. Aqui têm, pois, V. Ex.^{as} mais uma razão, e afinal a
+principal, da escolha que fiz do tema da minha lição de encerramento,
+que vai versar: _sôbre umas provas de exame da atenção voluntária
+visual,_ _colhidas em alunos da, escola anexa, à Normal Primária de
+Lisboa_.
+
+Mediu-se a atenção pelo método da _correcção de provas_ (método de
+Bourdon), utilizando umas vezes o _test_ de Toulouse e Vaschide, uma
+fôlha impressa com 1.600 sinais, figurando cada um deles um pequeno
+quadrado com um traço do mesmo tamanho, dirigido para fora, e orientado
+segundo 8 direcções, o que dá lugar a 8 sinais diferentes, fôlha que
+obtivemos mandando reproduzir a que acompanha o vol. II da _Técnica de
+psicologia experimental_ de Toulouse e Piéron (edição de 1911), outras
+vezes utilizando trechos do livro de leitura habitual dos alunos da 4.^a
+classe da escola anexa, mandando nele riscar determinadas letras, uma ou
+duas, num tempo determinado (cinco minutos em regra) ou riscá-las,
+cortando-as numa certa porção de trecho, em que de antemão tinhamos
+verificado qual o número de letras escolhidas que nela havia, número que
+a criança, riscando as letras, deveria verificar, recomeçando o trabalho
+tantas vezes quantas fôssem precisas para alcançar o número de letras
+que no trecho existiam e que nós lhe haviamos préviamente indicado
+(processo de Van Biervliet). Mediamos assim a atenção pela correcção ou
+pela velocidade ou pela correcção e velocidade com que as crianças
+suprimiam sinais do _test_ de Toulouse e Vaschide ou letras dum trecho
+do seu livro de leitura.
+
+O método que empregámos é aquele que permitiu a Binet verificar, numa
+escola primária de Paris, a coincidência da classificação dos alunos,
+debaixo do ponto de vista da atenção, feita por meio dos _tests_
+colhidos em alguns minutos de experiência, com a classificação dos
+mesmos alunos feita pelas notas do professor, notas resultantes duma
+apreciação longa e demorada. E a propósito vale a pena lembrar que,
+citando estes factos, Binet acentuou que o êxito escolar resulta mais da
+atenção do que da inteligência, que o aluno mais atento pode não ser o
+mais inteligente e que por isso não é de estranhar que as crianças, que
+os _tests_ levam a considerar como inteligentes, não sejam sempre as
+mais adiantadas, as que mais aproveitam, as que dão melhores _tests_ da
+atenção.
+
+O mesmo método de medida da atenção que pratiquei e fiz praticar aos
+meus alunos é um dos que permitiu a Ley demonstrar que os movimentos
+respiratórios lentos e amplos, dilatando vagarosamente e largamente o
+torax, com as espáduas bem aproximadas, sem elevação dos braços nem
+elevação do corpo sôbre as pontas dos pés, são um excitante da atenção
+voluntária, e foi êle que com o método dos _tempos de reacção_ tambêm
+permitiu a Ley verificar que um repouso de quatro minutos, sem execução
+dêsses exercícios respiratórios, actua muito menos benéficamente sôbre a
+atenção do que quando durante o mesmo tempo se executam movimentos
+respiratórios pela fórma que acima precisei.
+
+Foi tambêm empregando êste método da _correcção de provas_ que eu obtive
+_tests_ da atenção em alunos da escola primária oficial de Belêm, sem
+classe de trabalhos manuais, e em alunos do mesmo grau escolar, da Casa
+Pia, com bastante prática de trabalhos manuais, _tests_ que me
+permitiram sustentar e demonstrar no meu discurso: _Da influência dos
+trabalhos manuais no desenvolvimento do espírito_, que os trabalhos
+manuais treinam a atenção, melhoram a atenção.
+
+As primeiras experiências que fizemos na escola anexa foram praticadas
+utilizando o _test_ de Toulouse e Vaschide.
+
+A medida da atenção por meio da supressão de letras ou sinais
+equivalentes funda-se no facto de numa série de percepções análogas,
+monótonas, tenderem essas percepções a alterar-se, a enfraquecer, a
+apagar-se, sendo necessário para evitar essa alteração e fazer com que
+as percepções continuem a efectuar-se correctamente, que a atenção
+voluntária intervenha, procurando assim fazer manter a intensidade
+inicial dos fenómenos sensoriais. Se a atenção voluntária tende a
+enfraquecer, a baixar, as percepções deixam de se efectuar uma ou outra
+vez, ou efectuam-se incorrectamente, e nós podemos medir essa baixa, o
+gráu de atenção, examinando os erros e a variação da velocidade do
+exame, durante um certo lapso de tempo, em que o examinando colhe uma
+série de percepções da mesma espécie e gráu (percepções monótonas).
+
+Mandando riscar as letras num trecho em língua conhecida, o exame pode
+ser perturbado pela influência da leitura do texto, pela compreensão do
+texto, pelo sentido das palavras, sendo muito difícil, se não
+impossível, a quem não está habituado a abstrair, fazer com que só se
+procurem letras e não se leiam as palavras.
+
+Tem-se procurado evitar êste inconveniente ou dando trechos em língua
+estranha ou empregando _tests_ como o de Henrotin (_Contribution à
+l'étude de l'atention visuelle chez les enfants_, in _Rév. de
+Pédotechnie_, n.^{os} 2 e 3, 1914), em que a prova é constitùida por uma
+fôlha com 832 letras, repartidas em 26 linhas de 82 caracteres de
+imprensa bem separados e muito nítidos, de maneira a evitar confusões,
+letras que, como por exemplo o _a_, o _e_ e o _u_, se encontram
+repartidas duma maneira irregular e por fórma tal que nada há que possa
+indicar ao examinando nem o lugar, nem o número das letras cuja
+supressão ou indicação se pede. Sucede, porêm, que nem tôdas as letras
+do alfabeto são igualmente visíveis, nem tôdas chamam igualmente a
+atenção, como o faz notar Van Biervliet; umas, como êle diz, o _x_ por
+exemplo, atraem pela sua raridade, outras como o _f_ e o _b_, letras ao
+alto, extensas, chamam mais a atenção do que as letras baixas _e_ e _r_,
+por exemplo. Entre estas, umas há bastante largas como o _m_, que nos
+impressionam mais, outras mais altas do que largas, outras tão largas
+como altas, etc. Para evitar estas diferenças que podem perturbar o
+exame, a medida da atenção, é que Toulouse e Vaschide propuzeram a sua
+prova, uma prova de sinais igualmente interessantes, que podem servir
+mesmo para os que não sabem ler; tem alêm disso a vantagem de evitar a
+influência do hábito da leitura e revisão de provas.
+
+O emprêgo da prova de Toulouse e Vaschide na escola anexa revelou-nos
+factos interessantes para que chamo a vossa atenção. Em primeiro
+lugar:--examinando a atitude dos alunos da 4.^a classe durante o tempo
+em que riscavam sinais, alguns vimos que pelo cuidado com que examinavam
+pareciam prestar grande atenção, mas cujas provas vinham cheias de
+erros. Sucede isso muitas vezes. São criaturas apáticas, cuja lentidão
+habitual os faz confundir com aqueles que, não sendo apáticos, se
+imobilizam, ou tornam lentos, pelo esfôrço da atenção. Os primeiros não
+são atentos, assemelham-se aos atentos.
+
+Pode suceder tambêm que apareçam alunos que não compreendam a prova, que
+cortem a êsmo, que cometam muitos erros, riscando sinais e letras ao
+acaso. Sucede isso com atardados profundos, e essa prova serve-me muitas
+vezes no _Instituto Pedagógico da Casa Pia_, como meio de reconhecer o
+gráu de anormalidade dos anormais que ali vão.
+
+Anormal que não compreende o _test_, é anormal médico, é anormal
+profundo, é, em regra, o idiota. Para mim êste sinal vale como o de
+Demoor.
+
+Outro facto curioso que observámos é o de na primeira experiência termos
+chegado pelos _tests_ a considerar como atentos alunos que a Sr.^a
+professora da escola anexa indicava como desatentos e grandes
+desatentos. Um facto semelhante sucedeu a Binet, que, com grande
+surpresa, verificou uma vez, examinando alunos de uma classe de anormais
+pedagógicos, que êsses anormais afinal riscavam tantas letras como os
+normais. O facto resultava das condições em que primeiro experimentára:
+os alunos tinham sido observados isoladamente e na sua presença. A acção
+da presença do observador foi uma verdadeira acção estimulante. Postos
+os alunos à vontade, trabalhando sem estar sujeitos a vigilância,
+diferenças, e grandes, logo se mostraram.
+
+O resultado das discordâncias que observámos no nosso primeiro exame
+deve provir, em primeiro lugar, da acção da curiosidade despertada por
+aquele exercício completamente novo; em segundo lugar da minha presença
+e do ar solene que a prova tomou; em terceiro lugar talvez de nesta
+altura do ano se encontrarem mais fatigados os bons alunos, os alunos
+aplicados, que mais trabalharam, do que os desatentos habituais,
+preguiçosos, menos aplicados, que menos se esforçaram.
+
+A lição a tirar é de que não devemos procurar formar um juízo sôbre a
+atenção por um só exame por meio de _tests_. É necessário repetir e
+sempre ter o aluno à vontade, sem estar sujeito a uma vigilância severa,
+nem às nossas estimulações por acção intimidante ou reconfortante, como
+diz Binet.
+
+Em regra, fizemos cortar um só sinal. Há vantagem, quando se quer
+acentuar as diferenças individuais, em empregar dois. Toulouse e Piéron,
+na sua _Técnica_, dizem obter-se por esta fórma, em condições normais,
+um óptimo de diferença individual. Outro facto importante e interessante
+que observámos, no dia da primeira experiência, foi o de, ao contrário
+do que era de esperar, ver que as provas da tarde foram, em geral,
+superiores em velocidade e correcção às provas da manhã. Nos mesmos
+cinco minutos, os alunos, na sua maioria, percorreram uma maior extensão
+de _test_, e cometeram menos erros. Ora era de esperar que, depois de
+quatro horas de trabalho, a atenção tivesse baixado, em virtude de
+fadiga, que era natural que houvesse. Êste paradoxo resulta em primeiro
+lugar da surprêsa, da emoção que deve ter causado a experiência da
+manhã. Os alunos nunca tinham sido sujeitos a ela; nunca tinham visto o
+_test_. Deviam estar em estado emocional semelhante àquele em que nos
+coloca um exame, de que nos arreceamos. Á tarde estavam mais calmos, e
+de mais a mais vim a saber que se lhes tinha explicado o fim da
+experiência e se os tinha animado. Alêm disso, nestes exames, o aluno
+treina-se, aperfeiçoa-se, aprende a fazer o _test_.
+
+E esta influência do treino deve entrar em linha de conta na
+interpretação dos resultados das experiências. Para anular a influência
+do exercício, aconselha-se a prática do _método das repetições_, que
+consiste em «fazer um grande número de experiências preliminares até que
+o exercício tenha produzido todo o seu efeito», até que o examinando
+tenha adquirido todo o treino. Podem tomar um conhecimento suficiente
+dêste método lendo o que sôbre êle diz Claparède no livro _Psychologie
+de l'enfant_, que conjuntamente com o livro de Binet, _Les idées
+modernes sur les enfants_, não me canso de aconselhar, e a que por mais
+de uma vez tenho com razão chamado _breviários do educador_.
+
+Para terminar o que desejava dizer sôbre as nossas primeiras
+experiências, apontarei o facto curioso de termos observado duas alunas
+da 4.^a classe da escola anexa, que percorreram o _test_, não deslocando
+o olhar horizontalmente, seguindo as linhas, mas sim verticalmente,
+seguindo as colunas. A propósito lembra-me dizer-lhes que há quem tenha
+recomendado, como convindo mais à leitura, o dispor as palavras em
+linhas verticais e não em horizontais, como fazem os japoneses, por
+exemplo. Com o esfôrço e o movimento dos olhos que se executam
+percorrendo uma palavra horizontalmente, pode-se, com a disposição em
+linhas verticais, atravessar umas poucas de palavras e abreviar a
+leitura.
+
+O facto que se deu mostra que antes de iniciar a experiência com a prova
+de Toulouse e Vaschide se deve explicar a maneira de proceder.
+
+Habitualmente costumo destinar cinco minutos para a experiência e contar
+no fim o número total de sinais existentes no trecho do _test_ que cada
+um observou, contando depois o número de erros, conjuntamente os erros
+de omissão ou falta de supressão, e os de troca de sinal, ou erros de
+reconhecimento.
+
+O número total de sinais existentes no trecho _visto em cinco minutos_
+indica-nos, para cada um, a velocidade; a percentagem dos erros
+indica-nos o grau de correcção.
+
+Como os futuros professores, na sua escola, não vão ter naturalmente à
+sua disposição fôlhas com os sinais de Toulouse e Vaschide, fiz praticar
+alguns exames da atenção, pelo método de correcção de provas, utilizando
+trechos do próprio livro de leitura dos alunos, fazendo-os cortar duas
+letras igualmente visíveis, e atraindo igualmente a atenção, _b_ e _d_,
+_b_ e _t_ por exemplo, mudando de letras de experiência para
+experiência, para evitar a influência do treino. Fazia tambêm com que
+todos os alunos cortassem letras no mesmo tempo (cinco minutos, em
+regra, como já disse) e no fim recolhia os livros de leitura para tomar
+nota do número total de letras escolhidas existentes no trecho examinado
+em cinco minutos, e estabelecia a proporção por cento das faltas que
+tivessem cometido.
+
+Dos processos que praticámos aquele que particularmente aconselharei é o
+de Van Biervliet, que já descrevi, e em que se mede a atenção visual
+pela velocidade da correcção de provas, indicando para isso ao aluno um
+trecho com um determinado número de uma ou duas letras escolhidas (todos
+os _b_ e _d_ por exemplo) e fazendo-o verificar êsse número, devendo
+recomeçar tantas vezes o trabalho quantas as necessárias para encontrar
+o número indicado. A velocidade é expressa pelo tempo de duração da
+prova, para cada um. Êste _test_ obtêm-se em regra em dois ou três
+minutos, e os meus alunos que assistiram às experiências viram como êle
+com facilidade permite comparar a atenção visual dos alunos de uma
+classe, e agrupá-los debaixo do ponto de vista da atenção. As
+experiências em que praticámos êste processo mostram-nos bem a
+influência que a fadiga tem sôbre a atenção. Comparando os resultados
+obtidos nas experiências da manhã, antes de começarem as aulas, com os
+obtidos à tarde, ao fim delas, verificou-se com facilidade que o número
+de alunos do primeiro grupo, o dos que realizaram a prova com mais
+rapidez, diminuiu: e mais se viu que, naqueles que na segunda vez ainda
+figuravam entre os primeiros, a velocidade era menor à tarde do que de
+manhã; a prova durava mais. O processo que Van Biervliet recomenda, e
+que é aquele de que estou falando, tem o inconveniente de exigir para
+uma fácil verificação da duração da prova, e evitar que nos enganem,
+exigir, dizia, o exame dos alunos por pequenos grupos, de quatro a
+cinco. Para tirar conclusões é, como em todos os de que falei,
+necessário repetir as experiências. Como questão capital, mais uma vez
+direi que estas experiências psicométricas que se aconselham aos
+professores, não têm em vista, como muitos supõem, distraindo-os das
+suas funções de professores, pô-los na situação de investigadores ao
+serviço da sciência, a perscrutar leis, ou descobrir novos factos, ou
+verificar observações daqueles que com uma preparação, profunda e
+especial, se consagram a estudos pedológicos. O professor deve fazer a
+pedologia necessária para praticar o ensino que lhe pertence e
+praticá-lo nas melhores condições, e no maior acôrdo possível com o
+feitio do seu educando, e com as regras pedagógicas induzidas pelos
+pedologistas de profissão, por aqueles que especialmente se preparam
+para investigações scientíficas na criança, tendo em vista as suas
+aplicações pedagógicas.
+
+Os processos de medida da atenção visual de que falei podem ser
+praticados pelo professor, sem que lhe tomem muito tempo, e podem
+servir-lhe, desde que se não esqueça de certas precauções, tendo em
+vista evitar a influência de factores que perturbam os resultados ou a
+interpretação dos resultados destas experiências fáceis, mas não
+simples, podem servir-lhe, dizia, para orientar convenientemente o seu
+ensino, e verificar, como por exemplo Van Biervliet diz a propósito da
+medida da fadiga escolar, verificar o valor, o interêsse da sua própria
+maneira de ensinar.
+
+ * * * * *
+
+Os _tests_ não servem só para julgar, por exemplo no nosso caso, do
+valor da atenção e do gráu da fadiga; servem tambêm como meios
+excelentes para educar, para treinar a própria atenção do aluno. Demais
+êles têm para o aluno o caracter, que mais lhes prende e chama a
+atenção, de verdadeiros jogos, e como tal podem ser aproveitados. Com o
+fim de treinar a atenção podereis, sem inconveniente nem perturbação do
+ensino, mandar de vez em quando, durante alguns minutos, mesmo no
+decurso da própria lição, mandar cortar certas letras, uma, duas, três,
+etc, e estimular os alunos para ver quem mais correctamente e
+rápidamente as corta. Ensinareis assim os vossos alunos a orientar a sua
+atenção, e a fixá-la. É uma verdadeira lição de vontade. E o exame dos
+_tests_ e a sua apreciação contribuem tambêm muito para a educação do
+professor; experimenta-lhe e disciplina-lhe a sua própria atenção e
+paciência e dá-lhe, pelas conclusões a que leva, ensinamentos muito
+úteis à pratica do ensino. Cria-lhes, alêm disso, um utilíssimo hábito
+scientífico: o hábito de experimentar.
+
+ * * * * *
+
+É das Universidades e dos seus cursos de psicologia e de pedologia, dos
+seus laboratórios especiais, e da sciência livre e desinteressada e pura
+que muitas vezes nelas exclusivamente se professa, que têm saído os
+ensinamentos que transformam dia a dia a arte de ensinar e revolucionam
+a sciência pedagógica.
+
+Se não se quere ir até fazer com que a preparação do professor primário
+se faça na própria Universidade, como nalgumas partes sucede, é
+indispensável aproximar o mais possível a _escola dos mestres_ da
+Universidade, para que ela sofra a benéfica influência desta _alma
+mater_, onde se deve professar com todo o desenvolvimento a sciência da
+criança, a antropologia da criança, a pedologia, a base da pedagogia
+nova, da pedagogia scientífica, da pedagogia natural, da pedagogia
+moderna, da verdadeira pedagogia.
+
+Que ao menos, como Credaro fez em Itália, se crie junto às Universidades
+_escolas pedagógicas_, cursos de aperfeiçoamento para os futuros
+professores, e mesmo para os actuais.
+
+
+ Senhores:
+
+
+Na Universidade é que se deve apurar no maior gráu possível o espírito
+scientífico, o espírito de investigação e de crítica tolerante, o bom
+senso, aquele que permite descobrir a realidade e as possibilidades. E
+em nenhuma arte, mais do que na do mestre-escola, é necessário êsse
+bom-senso, o excelente hábito de observar e experimentar, que leva ao
+tacto e à paciência, indispensáveis para proveitosamente se lidar com
+crianças e saber conhecê-las para saber ensiná-las.
+
+A aproximação do mestre primário da Universidade tem ainda outras
+vantagens. O espírito da Universidade deve ser o verdadeiro espírito
+democrático; difundir a cultura por todos, criar uma atmosfera em que se
+encontrem misturadas tôdas as ideas, todos os sentimentos que irradiam
+de todos os ramos da cultura e que contribuem, como diz Lanson, «para
+abrir no espírito dos novos, antes da hora da especialização inevitável,
+o espectáculo total da sciência, a fim de fazer com que cada um seja
+mais do que um simples artífice intelectual, para que todos compreendam
+a dignidade da tarefa que a cada um pertence, sabendo que laços a
+prendem ao todo.»
+
+Á Universidade compete (e é nela que é mais fácil isso fazer-se),
+compete formar a própria nacionalidade e a própria democracia.
+Juntando-se todos dentro dela e sofrendo-lhe a influência, poderá mais
+fácilmente fazer-se, do que nas escolas especiais se faz, fazer-se,
+dizia, com que desapareçam os preconceitos de origem, de classe e de
+profissão. «De certo, como diz o Dr. Bernardino Machado, na sua célebre
+oração de sapiência, _A Universidade e a nação_, de certo que entre os
+diversos ramos da actividade humana há classificação, mas reversível, à
+semelhança do que acontece com a própria árvore natural, onde até os
+ramos se podem transmudar em raízes e as raízes em ramos. O que não há é
+subordinação deprimente, do maior para o menor; como a não há, de um
+para outro ramo, entre os profissionais que os cultivam. São todos
+homólogos, todos irmãos». Êste espírito de fraternidade ninguem melhor o
+pode incutir do que o ensino universitário.
+
+
+Meus senhores e particularmente meus alunos: não sofram da ilusão do
+diploma, a mais perigosa de tôdas as ilusões das escolas da nossa terra.
+Não imaginem que o número de valores com que no fim do seu curso a
+Escola Normal os brinda, e lhes premeia o seu esfôrço, significa que são
+professores, aptos e prontos, cujo _valor profissional_, profissional
+repito, se pode medir exclusivamente, ou principalmente, olhando para um
+papel e para uma cifra.
+
+Um diploma distinto de uma das nossas escolas normais significa apenas
+que o aluno estudou e se apresentou distintamente na freqùência das
+disciplinas dessas escolas. As nossas escolas normais são, como me
+parece que disse Guex, o autorizado professor suiço, simples escolas
+primárias superiores com a cadeira de pedagogia. Nos valores da carta do
+normalista não influi ainda o curso de pedologia, nem a pedagogia tem um
+maior coeficiente do que o das disciplinas de cultura geral. Está-me a
+lembrar o que há dois anos me sucedeu com um candidato a professor da
+Casa Pia, que calorosamente defendia a sua pretensão, insistindo em que
+devia ser preferido só porque tinha 20 valores; muito simplesmente lhe
+retorqui:--_Imagine o senhor que não tem paciência, nem calma. ¿Dizem os
+seus valores alguma cousa sôbre isso? ¿Quem o quererá para professor de
+seus filhos, se não tiver_ _aquelas qualidades? Professe, ensine
+primeiro; depois se verá se é professor_. E, a propósito ainda, me
+lembro de uma outra anedota que uma vez ouvi contar, na aula de
+obstetrícia da Universidade de Coimbra, ao querido e sábio professor Dr.
+Daniel de Matos. Contava êle que um parteiro notável com quem uma vez
+conversára, falando-lhe dum grande êrro profissional cometido por um
+médico, começou assim a sua narrativa:--_Un jour, un collégue, pardon,
+un médecin_...» Há na realidade muitas vezes uma grande distância entre
+um diplomado distinto e um distinto profissional.
+
+O professor primário precisa de ter uma sólida cultura geral, e conhecer
+bem os métodos de ensinar, e o ser que tem a ensinar, mas não menos do
+que da erudição, deve tratar da sua educação scientífica, do hábito de
+investigação, adestrar a paciência, apurar o bom senso, e criar e
+fortalecer e desenvolver a fé e o entusiásmo pela sua profissão.
+
+Aproximá-lo da Universidade e nela pô-lo em contacto com aqueles que
+mais provávelmente subirão e alcançarão os mais elevados lugares, os de
+dirigentes da sociedade, é contribuir não só para lhe ampliar a cultura
+e para lhe desenvolver o espírito scientífico, mas tambêm para o
+dignificar, e fazer estimar mais a sua profissão, a sua nobilíssima e
+importantíssima missão de educador primário, primário em todos os
+sentidos da palavra.
+
+Bem haja quem organizou esta série de conferências, de que a minha é
+êste ano a última em número e em mérito e bem haja a nobre Universidade
+de Lisboa por não ter duvidado abrir as suas salas aos professores
+primários e permitir-lhes até que das suas cátedras falassem.
+
+_Escolas, escolas, construí escolas_, se grita à maneira de Sarmiento,
+na crença de que elas por si transformarão e melhorarão a sociedade.
+
+_Professores, professores, bons professores_, exclamarei eu, _porque
+êles são indispensáveis para fazer as boas escolas_. E antes talvez de
+melhorar os processos da sua formação, talvez que antes disso seja
+preferível fazer o que estamos aqui a fazer: dignificar a profissão,
+fomentar a consideração por ela, atrair os mais aptos e criar o
+entusiásmo e a fé, que nesta modesta mas fundamental profissão ou,
+melhor, sacerdócio do professor primário, mais do que em nenhuma são
+precisos.
+
+Proteger o professor, honrar o professor, e fazer com que êle seja o que
+deve ser e saiba honrar a sua profissão é contribuir para a valorização
+da nossa terra. Êles tudo têm em suas mãos, porque, como já uma vez eu
+mesmo disse, nelas têm a Patria e os seus soldados.
+
+A vitalidade de uma nação pode julgar-se pela maneira por que ela
+prepara e considera e paga os seus professores.
+
+¡Senhoras e senhores! ¡Honrai o professor!
+
+Disse.
+
+
+
+
+DA INTELIGÊNCIA DO ESCOLAR E DA SUA AVALIAÇÃO[11]
+
+/#
+ «_Vuota di sentimento e di azione l'intelligenza è una forma
+ inconcepibile._»
+
+ Prof. Saffiotti.
+#/
+
+
+Á semelhança do que têm feito outros paises em que a politica da
+Educação é politica dominante e onde, portanto, a arte de governar os
+homens se prende íntimamente e depende intencionalmente da de governar
+as crianças, à semelhança de algum dêstes países onde a felicidade da
+Nação se trabalha e fórma principalmente na escola, abriu-se êste ano
+entre nós um curso de aperfeiçoamento para professores primários, em que
+eu tenho a honra de inaugurar o curso de Psicologia experimental. Em bôa
+hora o seja.
+
+Longe de me poder considerar à altura dos Mestres, a quem lá fóra se tem
+confiado êsse ensino de aperfeiçoamento, extensivo até aos professores
+de escolas normais e aos inspectores primários, esforçar-me hei no
+entanto por me pôr ao par deles no desejo de, segundo os seus
+ensinamentos, fazer com que as senhoras e os senhores adquiram o mais
+rápidamente possível noções e hábitos que se possam traduzir num
+imediato melhoramento do ensino pelo melhoramento dos mestres. Não
+pretendo tanto aumentar-lhes a cultura, como sobretudo aperfeiçoar a
+arte de aproveitar a cultura e as aptidões que já têm, em grande parte
+até, graças à sua experiência profissional.
+
+Não farei o que costumo fazer no meu curso regular, agora de dois anos
+completos e onde insistentemente, minuciosamente, eu principalmente
+procuro: 1.^o _Arreigar a convicção de que os fenómenos psíquicos são
+fenómenos de reação nervosa, susceptíveis de serem estudados por métodos
+objectivos, e portanto de que a Psicologia é uma sciência biológica, uma
+sciência do quadro das sciências naturais_; 2.^o _de que a educabilidade
+é uma propriedade do sistema nervoso_; 3.^o _de que essa, propriedade se
+pode estudar e cultivar segundo as normas habituais das experiências
+scientíficas_; 4.^o _de que a avaliação da educabilidade é o problêma,
+psicológico fundamental do professor_.
+
+Quási saltarei sôbre os três primeiros números do meu programa habitual
+e caírei sôbre o quarto, e estudarei, em sua companhia, aquilo para que
+os julgo mais habilitados e que mais rápidamente se poderá traduzir num
+melhoramento pedagógico, de origem puramente psicológica: _A
+inteligência do escolar e a sua avaliação_; tanto mais que para êsse
+estudo se encontram prontos a serem utilizados pelos mestres dois
+pequenos volumes ao alcance de todos: _La medida del desarollo de la
+intelligencia en los niños_ de Binet e Simon, tradução espanhola do
+professor do Instituto nacional de surdos mudos, cégos e anormais, de
+Madrid, sr. Orellana, publicado em 1918, e a _Contribuição para o
+estabelecimento de uma escala de pontos dos níveis mentais das crianças
+portuguêsas_, publicada por dois ilustres compatriotas nossos, a quem a
+bibliografia pedagógica moderna portuguêsa já bastante deve: o sr.
+Antonio Sergio e sua esposa a sr.^a D. Luiza Sergio, contribuição
+publicada em volume, em junho de 1919.
+
+ * * * * *
+
+Num curso de psicologia objectiva, os fenómenos psíquicos são
+considerados como _reflexos cerebrais_, como lhe chama Bechterew,
+reacções exteriores que dependem da experiência de cada indivíduo,
+durante a sua vida. Estudam-se as reacções do indivíduo em relação com o
+meio ambiente, incluindo nêste o meio social e a própria escola.
+
+As reacções que particularmente estudamos, os fenómenos que constituem o
+objecto da Psicologia objectiva, e que nela os procuramos estudar como
+se estudam os outros fenómenos da Natureza, dependem não só da estrutura
+do indivíduo e da acção da ocasião, mas tambêm de acções e reacções
+anteriores a essa ocasião.
+
+A acção de ocasião junta-se, _associa-se_ nos seus efeitos aos efeitos
+das acções anteriores, de maneira que a reacção é influída e regulada
+por estas. Eis a essência do fenómeno mental.
+
+A educação não é mais do que o aproveitamento desta propriedade do
+sistema nervoso, ou mais precisamente dos hemisférios cerebrais, desta
+_memória associativa_ (Loeb), com o fim de, por meio dela, regular a
+actividade, o procedimento, a acção do indivíduo.
+
+A educação é a utilização da _memória associativa_, é o regulamento
+intencional da experiência do indivíduo, é a formação, a cultura, em
+obediência a certos princípios e interêsses, do poder da sua _memória
+associativa_.
+
+Será esta a _Inteligência_?
+
+Variadas e, por vezes, discordes são as definições que se dão, e as
+significações que se atribuem a esta palavra.
+
+A inteligência talvez se possa definir, em psicologia objectiva, como
+uma manifestação externa da memória associativa, que se caracteriza por
+actos de adaptação às variações das circunstâncias. É, até certo ponto
+isto, se assim se pode dizer, uma tradução em linguagem fisiológica da
+concepção que Bergson exprime quando diz que a «função essencial da
+inteligência consiste em encontrar em quaisquer circunstâncias os meios
+de se tirar de dificuldades.»
+
+É a inteligência uma utilização da memória associativa. É a propriedade
+de ajustar os traços das reacções anteriores, isto é, a experiência
+individual anterior, à experiência da ocasião, para uma adaptação a
+novas circunstâncias, por meio de reacções reguladas pela experiência
+anterior do indivíduo, repito.
+
+A inteligência sob este ponto de vista, é uma manifestação externa,
+global, da memória associativa, e que se avalia pela sua finalidade,
+pelo valor do ajustamento, em rapidez e perfeição, às variações
+quantitativas e qualitativas das circunstâncias.
+
+Ora esta fórma de actividade mental deve depender não só dos
+conhecimentos própriamente ditos, das ideas, mas tambêm do sentimento de
+prazer ou de dôr que acompanhou as experiências anteriores e acompanha
+as actuais, isto é, da _afecção_, se se quizer adoptar o termo que o sr.
+Antonio Sergio emprega para designar o _elemento sentimental_ (_Da
+Natureza da afecção_, separata da «Revista Americana», 1913, pág. 8.)
+
+A inteligência revela-se, portanto, em actos em que as ideas e os
+sentimentos influem, como nos _tropismos_ influem certas substâncias.
+
+A inteligência depende do interêsse, das tendências, que, por sua vez,
+são funções da estrutura do indivíduo, da natureza da sua experiência
+anterior e da natureza da experiência de ocasião.
+
+Sendo assim, fácil é compreender porque é que se podem considerar como
+não inteligentes, certos indivíduos cuja fórma de reacção mental de
+adaptação se revela dificiente em determinadas circunstâncias, em certos
+meios.
+
+Percebe-se que, com Binet, se distinga a inteligência escolar da
+inteligência extra-escolar, se porventura as circunstâncias da escola
+são muito diferentes das de fóra da escola e os interêsses que a escola
+desperta são diferentes do que a vida ordinária ou o meio extra-escolar
+despertam.
+
+Há inteligências que se não revelam na escola.
+
+Verdadeiramente, completamente inteligente, porêm, é o que se ajusta a
+quaisquer circunstâncias, é o que se mostra inteligente em qualquer
+meio.
+
+A inteligência não é apenas a inteligência que consiste em adaptar
+respostas a preguntas, na escola, falando, escrevendo ou calculando, mas
+tambêm a que se revela por actos e gestos de outra ordem, em
+circunstâncias de tôda a ordem.
+
+A inteligência julga-se pelo valor adaptivo do gesto ou do acto
+considerado debaixo do ponto de vista da sua prontidão, rapidez,
+exactidão e perfeição.
+
+A inteligência não tem um significado cognoscitivo apenas, revelação e
+utilização de conhecimentos; tem tambêm um significado moral e um
+significado estético, que se revelam na reacção às variações das
+condições morais e estéticas do meio, no condicionalismo ético e
+estético da experiência.
+
+Compreende-se, pelo que lhes vou dizendo, que por exemplo, como faz Van
+Biervliet, se classifique a inteligência em espécies: _inteligência
+clássica_, isto é, inteligência que se revela principalmente nos
+trabalhos da classe, _inteligência prática e inteligência estética_.
+
+Compreende-se tambêm que com propriedade se possa dizer que há uma
+imbecilidade intelectual, uma imbecilidade estética e uma imbecilidade
+moral.
+
+Kirckpatrick considerando a inteligência, ou melhor a actividade
+intelectual, não própriamente sob o ponto de vista da sua finalidade,
+mas no do seu mecanismo, descreve, quatro tipos de inteligência, tendo
+como inteligência tudo aquilo que constitui acto de adaptação
+individual, e assim descreve: um tipo de _inteligência fisiológica_, um
+tipo de _inteligência senso-motriz_ ou _perceptiva_, um tipo de
+_inteligência representativa_ e um tipo de _inteligência conceptual_ ou
+_conceptiva_.
+
+A primeira excluo-a eu aqui, porque não depende de fenómenos da _memória
+associativa_. São fenómenos de adaptação de outra ordem, pura adaptação
+fisiológica, em que a própria imunização tem o seu lugar.
+
+Dos outros tipos convem dar-lhes hoje uma noção.
+
+Na _inteligência senso-motriz_ ou _perceptiva_ o que há, o que a
+caracteriza é uma adaptação imediata de movimentos e sensações de
+ocasião. Estes actos não se manifestam, não se repetem senão quando
+estímulos da mesma natureza actuam em circunstâncias semelhantes.
+
+Por exemplo certos movimentos que se executam no decurso do jôgo do
+_foot-ball_, movimentos de equilíbrio, de ataque, de defesa ou melhor os
+movimentos que, quando tropeçamos e vamos a cair, fazemos para nos
+equilibrarmos.
+
+São as próprias sensações que experimentamos, que _directamente_
+provocam e regulam os actos de adaptação. De factos em relação com esta
+espécie de inteligência tratei eu num artigo sôbre mutilados da mão, que
+publiquei na _Medicina Moderna_ do Pôrto, com o título _Inteligência
+motriz_.
+
+Na _Inteligência representativa_ os actos da adaptação podem ser
+provocados e regulados apenas por símbolos que se tenham associado a
+sensações anteriores. O acto pode executar-se em virtude duma
+experiência anterior regulada por acções semelhantes que víssemos
+executar ou que nos fôssem descritas. É a experiência anterior de outros
+a regular a nossa.
+
+Na _conceptual_ ou _conceptiva_ o acto de adaptação revela-se não só na
+ausência de uma experiência _do mesmo tipo_, feita pelo próprio ou por
+outrem, vista ou descrita, como se dando nas mesmas circunstâncias, mas
+em resultado de experiências _várias e diferentes_, do próprio e de
+outros.
+
+Uma pessoa quando salta dum carro em movimento, pode fazê-lo com sucesso
+ou porque já o tenha feito outras vezes, e portanto associe as acções
+sensoriais de momento às reacções anteriores (_inteligência
+senso-motriz_), ou porque já tenha visto saltar outrem ou lhe tenham
+dito como se deve saltar (_inteligência representativa_), ou porque
+reacções diferentes que tenha por si mesmo experimentado, observado ou
+visto descritas por outros, se tenham associado e combinado por forma a
+gerar o conhecimento das leis dos corpos em movimento, o que associado
+às acções do momento regula o acto de adaptação (_inteligência
+conceptual_).
+
+Em tôdas estas formas de inteligência se verifica a associação dos
+resultados das experiências anteriores aos das experiências do momento,
+da mesma natureza ou não. O acto intelectual é um acto de adaptação e de
+revelação da memória associativa.
+
+Na escola, onde se governa e conduz a experiência do indivíduo, em
+atenção ao futuro, se utilizam ou devem utilizar e cultivar todos os
+três tipos de inteligência, e, para a instrução, principalmente os dois
+últimos.
+
+Mas nem tôdas as idades, nem em todos os indivíduos da mesma idade a
+_inteligência_ tem o mesmo valor. Compreende-se, portanto, bem o
+interesse que para o professor tem o saber e o poder analisar os actos
+intelectuais, por forma a, se assim se pode dizer, obter a _fórmula
+qualitativa e quantitativa_ da inteligência de cada um.
+
+Pode calcular-se essa fórmula? Pode analisar-se a inteligência? Pode
+esta avaliar-se? Pode ser medida? Pode.
+
+A inteligência é, se quizerem empregar os termos de Saffiotti: «_a
+capacidade de estabelecer novas relações entre a própria personalidade e
+as novas condições; é a capacidade de tirar destas relações
+interpretação adequada e conformar com ela a sua reacção_».
+
+A inteligência, perante isto e perante o que lhes tenho dito, deve
+depender da estrutura do indivíduo, das propriedades inatas, do momento
+do seu desenvolvimento, e tambêm da natureza e valor da sua experiência
+anterior, da sua cultura, regulada ou não intencionalmente por outrem.
+
+Ora sendo assim poderá alguma coisa prever-se sôbre a inteligência,
+estudando a estrutura, as características biológicas do indivíduo, como
+se pode até certo ponto julgar do valor de um motor, das suas
+capacidades, pelo estudo do maquinismo, da sua organização, da sua
+anatomia, da sua estrutura, como se podem prever certas propriedades
+químicas, certas reacções, observando caracteres organo-nolépticos e
+físicos de certos corpos. É esta a base da avaliação da inteligência nos
+métodos que assentam no estudo das correlações psico-somáticas e
+psico-fisiológicas.
+
+A inteligência pode ser avaliada tambêm analisando a forma, o mecanismo
+de certas reacções psíquicas elementares, sujeitando o indivíduo a
+_provas_ psíquicas de diferente tipo e natureza em que sobretudo influi
+a maneira da actividade intelectual, o tipo ou a espécie da
+inteligência.
+
+Pode mesmo usar-se provas experimentadas em muitos, usando o que se
+chamam _tests_, que não são outra cousa do que verdadeiros _reagentes
+mentais titulados_, ou, se quizerem tambêm verdadeiros _padrões, tipos
+de reacção_, em que a forma desta e a sua velocidade, foi préviamente
+_observada e medida em muitos_.
+
+É um tipo de avaliação em que se estuda ou analisa principalmente o
+mecanismo do acto intelectual, decomposto em elementos. É a base dos
+métodos de avaliação fundados no estudo das correlações
+psico-analíticas. Mas assim como na apreciação ou na classificação de um
+tipo de vinho não basta a analise própriamente dita; há que proceder a
+uma apreciação global, tendo em vista o fim comercial, por exemplo, a
+que visa a apreciação, assim tambêm no exame de inteligência é por vezes
+necessário recorrer a um exame global, em que não se atende apenas ao
+mecanismo do acto, mas tambêm à sua finalidade e à finalidade da sua
+avaliação.
+
+Ora o educador não deve apenas preocupar-se com o mecanismo do acto
+intelectual do aluno, para o caracterizar e escolher o método de ensino
+que mais convenha. O educador não toma o aluno _em branco_, se assim se
+pode dizer. Os actos intelectuais que êle tem de regular, a experiência
+intelectual que êle tem de conduzir, tem um passado que influi e está em
+estreitas relações com os fins educativos. A experiência anterior do
+aluno tem uma grande importância e valor, e está dependente da sua idade
+e do meio em que viveu e vive.
+
+Ao professor, no exame escolar da inteligência, convêm-lhe _reagentes_,
+_tests_, que precipitem em globo, em massa, se assim se pode dizer, a
+inteligência e dêem a forma e a natureza desta, e tambêm a da sua
+experiência anterior.
+
+Se há questão pedagógica em que se possa falar de criança portuguesa, e
+duma maneira geral de um tipo ou tipos nacionais de criança, é a
+proposito da inteligência.
+
+O momento histórico regula a inteligência e deve regular a sua formação.
+
+A psicologia de que carece o educador não pode nem deve viver afastada
+da ética. E se há questão psicológica em que há que atender aos fins da
+educação, é a da inteligência.
+
+Recordo-me da profunda emoção que me causou a leitura das palavras de um
+formoso livro, um dos que mais podem contribuir para a cultura do
+entusiasmo pela carreira de professor, o livro de Münsterberg: _A
+psicologia e o mestre_. Recordo-me. Diz êle e eu repito:
+
+«_Agora é evidente que o estudo dos meios psicológicos póde ser útil
+sómente quando as aspirações do mestre tenham sido determinadas pela
+investigação ética independente do filósofo. Porêm tão prontamente com
+estes fins, os resultados cada, vez mais ricos da psicologia
+experimental, devem ser levados ao mestre de tal modo que êste possa
+conhecer e escolher os meios úteis para a satisfação das suas
+aspirações._»
+
+A Educação é uma das artes em que a Psicologia serve a Ética.
+
+Está aberto o curso de Psicologia.
+
+
+
+
+INTELIGÊNCIA E APERCEPÇÃO[12]
+
+
+/#
+ «Notre réprésentation de la matiére est la mesure de notre action
+ possible sur les corps; ele résulte de l'élimination de ce qui
+ n'interesse pas nos besoins et plus géneralemente nos fonctions».
+
+ Bergson: _Matiére et mémoire_
+
+
+ «Il faut respecter en nous les lois de la nature, acepter les
+ devoires nés de l'organisme, acomplir les fonctions pour lesquelles
+ on est fait, avec le pouvoir énergétique que l'on posséde. Le but
+ de la vie c'est tout le _perfectionement_ possible, physique ou
+ psychique, par la méthode et la discipline».
+
+ Albert Deschamps: _Les maladies de l'esprit et les asthénies_.
+
+ «Non seulement une conception mécanique de la vie est compatible
+ avec l'ethique; ele semble être la seule conception de la vie, qui
+ puisse amener á comprendre oú est la source de l'éthique».
+
+ L[oe]b: _La conception mécanique de la vie_(tradução francesa).
+#/
+
+Viver é essencialmente adaptar-se; é a luta pela adaptação, é o esfôrço
+para o ajustamento do sêr ao meio, acomodando-se, ajustando-se a êle, ou
+ajustando-o a si próprio. Educar é favorecer, conduzir intencionalmente,
+metódicamente êsse ajustamento, essa adaptação.
+
+Ora o indivíduo possui em si faculdades, capacidades de adaptação, de
+ajustamento, de assimilação, de utilização do meio em que vive. Essas
+possibilidades revelam-se na sua actividade, na maneira porque procede,
+e desta actividade uma parte, uma forma há que é herdada, que nasce com
+o indivíduo, que é inata, que não é determinada pela experiência
+individual, que não é aprendida e outra que é adquirida, que resulta da
+experiência de cada um, dirigida ou não por outrem.
+
+Por vezes, quási sempre, a forma da actividade inata é favorável ao
+ajustamento do indivíduo ao meio, à adaptação, às condições em que nasce
+e ordináriamente se encontra, e a maior parte das vezes tambêm a forma
+de actividade adquirida é como esta favorável ao ajustamento.
+
+As condições mantendo-se as mesmas, a adaptação verifica-se, as
+necessidades são conformes à capacidade de utilização dos recursos. O
+indivíduo está adaptado ou adapta-se por instinto ou por hábito. Se,
+porêm, as circunstâncias em que vive o indivíduo são muito variáveis, se
+se rompe o ajustamento, se há conflito entre o instinto ou o hábito e as
+circunstâncias, o indivíduo pode ou não readaptar-se, pode ou não
+assimilar o meio, utilizando-o, adaptando-o ou adaptando-se.
+
+Concebe-se que haja seres que se adaptem, independentemente da
+experiência, seres que nascem pode dizer-se, adaptados a certos meios, e
+só neles e em precisas circunstâncias podem viver: seres instintivos,
+ineducaveis, mas sôbre que o educador pode ainda assim influir,
+colocando-os em meios os mais conformes com os seus instintos, e pela
+forma mais conveniente à sociedade.
+
+Concebe-se que haja seres que, alêm de se ajustarem por instinto a
+certas circunstâncias possam em virtude da experiência, conduzida ou não
+intencionalmente, adaptarem-se a ela, adquirindo estas formas de
+actividade que se chamam hábitos, seres educáveis sôbre que o educador
+pode actuar criando os hábitos que mais convenha, e que, como tive
+ocasião de lhes dizer, mostrar e demonstrar o ano passado, deve fazer-se
+segundo certas leis induzidas de experiências scientíficas que se têm
+realizado.
+
+Concebe-se finalmente que haja seres que não só se adaptem por instinto,
+ou por hábito, que não só se adaptem a precisas circunstâncias, mas se
+adaptem tambêm fácilmente a novas circunstâncias, encontrando nelas
+sempre maneiras de se ajustar, de com elas viver em concordância, sêres
+inteligentes, sôbre que o educador deve actuar variando o mais possível
+as condições da experiência educativa, para que o mais possível tambêm
+se apure este dom sublime da inteligência, do poder de utilizar o meio,
+que é a base da felicidade e do progresso.
+
+Só é verdadeiramente livre, quem é suficientemente inteligente.
+
+Na lição da abertura do curso de aperfeiçoamento do ano passado, lição
+que intitulei _Da inteligência do escolar e da sua avaliação_, lição que
+devem ler, citei e adoptei, para certos casos, a definição de
+inteligência do Professor Saffiotti:
+
+«Inteligência é a capacidade de estabelecer novas relações entre a
+própria personalidade e as novas condições; é a capacidade de tirar
+destas relações, _interpretação_ adequada e conformar com elas a sua
+reacção».
+
+A inteligência é função portanto da interpretação e só se revela quando
+a interpretação é adequada e a reacção a que a interpretação conduz por
+sua vez se revela em actos de adaptação.
+
+Ora é êste poder de _interpretação_ que se chama a apercepção. A
+inteligência depende da apercepção, da maneira porque se interpreta.
+Quem interpreta por uma maneira inadequada às conveniências da sua
+adaptação, não se adapta, reage por forma desfavorável, não procede com
+inteligência.
+
+Vêem já portanto quanto interessa o estudo da apercepção. Leiam
+particularmente sôbre esta o que vem da pág. 430 à 434 da tradução
+francêsa do compêndio de Psicologia, de William James, 4.^a edição.
+
+ * * * * *
+
+A interpretação ou apercepção depende de uma série de condições que,
+como verão em James, Lewes denominou _a soma das condições
+psicoestáticas_: a natureza do indivíduo, o seu carácter, a sua
+experiência, a sua educação, os seus hábitos, o seu humor, etc. A
+apercepção é uma faculdade intelectual contingente, que depende dos mais
+variados factores, desde, os mais materiais aos mais espirituais, desde
+as necessidades do corpo às necessidades do espírito (usando a linguagem
+corrente), e sôbre que, tanto pode actuar o médico como o professor,
+tanto o gimnasta como o filósofo.
+
+O aspecto físico, a forma do corpo por si indicam tendências, certas
+aptidões psicológicas, certas necessidades, certos interêsses que
+conduzem a experiência do indivíduo por forma a ele entrar em contacto
+com o meio em que vive, e que por sua vez conduz a determinada
+interpretação dele, e portanto o leva a reagir e proceder e adaptar-se
+por determinada forma. O psicólogo se quere descobrir a alma tem muito a
+ganhar em conhecer o corpo. Se quere prever a fórma de reacção do
+indivíduo tem que estudar os orgãos dessa reacção; se quere ser
+psicólogo a valer tem que ser antropólogo. O que tudo quere dizer que:
+psicólogo e antropólogo, psicologia da criança e pedologia física, se
+devem entrelaçar, se podem e se devem estudar conjuntamente.
+
+As anomalias mentais da criança explicam-se por vezes fácilmente se se
+estudar a forma, os caracteres do seu corpo, se se julgar do grau do seu
+desenvolvimento físico, se se vê se o crescimento nela é normal ou não.
+
+Há caracteres mentais que são sintomas de alterações orgânicas, e
+perturbações do crescimento que o médico pode corrigir para o professor
+depois aproveitar.
+
+Há no nosso corpo um órgão até cuja influência sôbre a inteligência é
+tal que alguem já o chamou _a glândula da inteligência_ (Pende).
+
+É tal a importância que o estudo da anatomia e da psicologia tem para o
+psicólogo que nos modernos trabalhos sôbre as astenias, defeitos ou
+insuficiências da energia orgânica, vícios de funcionamento orgânico, se
+se caracterizam êsses defeitos pela insuficiência revelada nos actos de
+adaptação social, e se vai até a explicar a moral e a filosofia de
+muitos por essa insuficiência de origem fisiológica, aparecendo-nos a
+moral como um ramo da biologia e a filosofia como uma arte dos
+psicasténicos.
+
+Pierre Janet, um dos maiores psicólogos da nossa época, foi até a
+afirmar que talvez a filosofia não passasse duma doença do espírito. A
+filosofia, de facto, parece a consequência, a revelação duma actividade
+interpretativa filha de uma atitude mental, duma tendência anciosa para
+a procura de relações entre as cousas e os factos que nos cercam e se
+passam no meio que nos circunda, e que as dificuldades de adaptação, e a
+insuficiência da adaptação em certos gera.
+
+Seja como fôr, o que lhes quero acentuar é que o estudo da psicologia e
+em particular o da _apercepção_, que será o objecto principal do nosso
+curso dêste ano, tem muito a ganhar iniciando-se pelo estudo da
+influência das condições orgânicas neste fenómeno, e mais
+particularmente ainda pelo estudo da influência que tanto na forma do
+processo aperceptivo, como na maneira por que se interpreta, como na
+natureza dos conhecimentos que se utilizam, influi o tipo fisiológico da
+criança, as suas tendências inatas, a sua constituição, o seu
+temperamento, e a fase do crescimento em que se encontra.
+
+ * * * * *
+
+Esta influência do organismo na apercepção, de que lhes tenho estado a
+falar, esta influência do condicionalismo fisiológico na interpretação
+das circunstâncias e na adaptação a elas, é já uma influência do passado
+no presente, é a hereditariedade a comandar-nos, é, pode dizer-se a
+tradução fisiológica do mote que tantos têm já glosado: _os mortos
+mandam_.
+
+Mas não é só por esta forma que o passado se mistura com o presente e
+nos governa, nos impõe até certo ponto uma interpretação do presente, e
+nos regula, a nossa adaptação às novas condições. É tambêm, e talvez
+ainda mais, pelo resultado da nossa própria experiência, regulada,
+intencionalmente ou não, pelos outros, resultado das modificações que
+nas nossas reacções vai introduzindo o contacto diário com o meio em que
+se vive, com a natureza e com a sociedade, resultado da interferência
+das acções desta com as nossas reacções.
+
+Dia a dia as nossas tendências, os nossos interêsses, o nosso saber, o
+nosso carácter, a nossa experiência, são postos à prova, e dia a dia nos
+vamos consumindo na emprêsa do ajustamento das nossas reacções às
+circunstâncias.
+
+Impressiona-nos mais não o que é própriamente mais forte ou mais novo,
+mais estranho, mas o que é mais forte e estranho para nós, aquilo que é
+novo para o ponto de vista dos nossos interêsses, que cahe na zona do
+nosso saber e das nossas necessidades e que nós nos esforçamos
+naturalmente por assimilar na tendência vital, orgânica, da nossa
+adaptação. O que não sabemos, não vêmos; o que não experimentamos não
+sabemos.
+
+Palavras estranhas ou letras associadas mesmo ao acaso, tendemos a
+interpretá-las e a lê-las, em nossa língua. Desenhos informes, nuvens
+que o acaso amontuou, manchas que o acaso estampa, borrões de tinta,
+tudo tendemos a interpretar como se fossem formas conhecidas e segundo
+os nossos conhecimentos e até certo ponto os nossos interêsses. Sempre o
+passado a mandar; sempre segundo a nossa mentalidade e a nossa
+experiência!
+
+O mundo, a interpretação do que nos cerca, é função do nosso organismo e
+da nossa experiência ou saber.
+
+A realidade é uma interpretação, consoante os nossos interêsses, e os
+nossos interêsses expressão da nossa organização e da nossa experiência,
+experiência livre, ou intencionalmente condicionada, como sucede na
+educação.
+
+Meditem as palavras de Bergson que, livremente mas fielmente, julgo,
+assim poder traduzir:
+
+«...O nosso carácter, sempre presente a tôdas as nossas decisões é bem a
+síntese actual de todos os estados por que já passámos. Sob esta forma
+condensada, a nossa vida psicológica anterior existe para nós mesmo mais
+do que o próprio mundo externo, porque dêste apercebemos apenas uma
+muito pequena parte, enquanto que pelo contrário utilizámos a totalidade
+da nossa experiência vivida já, experimentada e feita.»
+
+Como que há, como Bergson tambêm diz, uma tendência constante do passado
+a reconquistar a sua influência, actualizando-se.
+
+Dir-se-ia que só o génio não tem passado.
+
+Vejam quão longe nos leva, e interessante e vasto é êste tema da
+inteligência e da apercepção.
+
+ * * * * *
+
+Não imaginem, porêm, que apesar da _linguagem de subjectivo_ que venho
+empregando, se não pode tambêm em _linguagem de objectivo_, ia dizer em
+linguagem scientífica, em termos das sciências experimentais, não
+imaginem que se não podem tambêm interpretar, adoptando uma concepção
+mecânica da vida, estes fenómenos da apercepção e da inteligência,
+própriamente dita.
+
+Reportando-nos a um notável trabalho de Bohn sôbre a _dinâmica,
+cerebral_, (_Rev. Philosophique_, março-abril de 1919) adoptemos a
+concepção que êle defende de que nos fenómenos psíquicos se verifica uma
+das grandes leis da sciência física, _a lei dos fenómenos recíprocos_.
+Quando se comprime um cristal de turmalina o cristal por êste facto
+electriza-se e a electrização desenvolve fôrças que se opõem ao
+encurtamento do cristal.
+
+Quando se aquece um cristal de turmalina o cristal electriza-se tambêm;
+a electrização traz consigo um arrefecimento do cristal.
+
+Dir-se-ia que o cristal que se electriza, apercebe a variação das
+circunstâncias e tende a reagir de acôrdo com a interpretação adequada.
+Afinal é um sistema de fôrças, orientado segundo um certo plano, que
+caracteriza o cristal e que reage contra as acções que tendem a
+perturbar-lhe o equilíbrio ou alterar-lhe o plano.
+
+Pode conceber-se tambêm o indivíduo como um sistema de fôrças organizado
+segundo um plano hereditário, tendendo a reagir às acções externas ou
+internas por maneira a opôr-se ao desiquilíbrio do plano da sua
+organização, caracterizado por certas propriedades vectoriais, isto é
+que se manifestam em determinadas direcções ou segundo certos vectores
+(instintos, tendências, interêsses).
+
+A cada acção vectorial ou polarizante corresponde, segundo Bohn, uma
+acção recíproca inversa, despolarizante.
+
+Quando se excitam os sentidos, a excitação que é transmitida ao cérebro
+e dirigida depois aos músculos, às glândulas e às diferentes vísceras
+provoca excitações em sentido contrário, que provêm de todos estes
+domínios e vem por sua vez depois a reagir sôbre os primeiros
+receptores. Os centros nervosos são excitados pelos sentidos e estes
+excitados pelos centros nervosos. A interferência destas duas espécies
+de ondas nervosas, daria a memória associativa, revelando-se na
+apercepção e nos actos que a exteriorizam.
+
+Estas concepções mecânicas têm a vantagem de lhes mostrar que afinal os
+fenómenos que estudamos são fenómenos naturais que podem condicionar-se
+e utilizar-se como os outros.
+
+Quando o professor conheça bem esta mecânica poderá ser tão seguramente
+útil como o engenheiro que lida com as outras máquinas.
+
+Vêem tambêm como com estas concepções mecânicas se pode fácilmente
+compreender como cuidando do corpo e educando-o se pode influir na
+educação intelectual e moral, na maneira de interpretar o mundo e a
+sociedade e de com êles harmonizar o indivíduo e fazê-lo viver em
+inteligência.
+
+Não imaginem que como muitos supõem se despreza, nestas concepções, o
+valor das ideas, não. Simplesmente intrepretamos a acção destas e
+utilizamo-las como no estudo dos tropismos se interpreta a acção e se
+utilizam as substâncias sensibilizadoras.
+
+Tudo que impressiona os nossos sentidos tem repercussão sôbre as nossas
+vísceras, tem um coeficiente emocional que muito influi na interpretação
+das circunstâncias e na nossa maneira de proceder, na nossa actividade
+ou reactividade.
+
+Os orgãos da circulação são fortemente impressionados e influem no
+_tonus_ nervoso, na energia nervosa de que muito depende a nossa
+inteligência. Glândulas há que, segundo a impressão ou excitação que
+sofrem, segregam mais ou menos substâncias (_hormonas_) que muito
+influem no _tonus_ nervoso e nos fenómenos gerais da nutrição, o que se
+pode vir a observar em alterações ou certa orientação dos fenómenos de
+apercepção e inteligência.
+
+O problema do educador é essencialmente um problema psicológico: tornar
+o real aceitável, e, conforme a natureza do indivíduo, pôr esta em
+equilíbrio com a sociedade. Para isso carece de saber de que depende a
+apercepção e como nela se pode influir; como afinal dar ao indivíduo a
+noção mais conforme com a natureza do meio social. O problema do
+educador é o problema da felicidade, que como diz Deschamps se pode
+chamar uma «harmonia psico-social, uma adaptação completa dos desejos
+aos poderes e dos poderes ao meio.»
+
+É afinal um problema de conciliação, e esta deve ser o fim de tudo.
+
+Está aberto o nosso curso de psicologia experimental em que este ano
+particularmente me ocuparei dos fenómenos e estudo experimental da
+apercepção, sobretudo debaixo do ponto de vista da genética.
+
+Lisbôa, 8-10-920.
+
+
+
+
+SÔBRE PSICOLOGIA, ESTÉTICA E PEDAGOGIA DO GESTO[13]
+
+
+ «qu'il soit permis à l'école d'insister sur ce qui nous rapproche.»
+
+ Buisson.
+
+ «O fim da arte é unir as almas, associando-as num mesmo
+ sentimento...»
+
+ Tolstoi.
+
+ «A simples cortezia de palavra, de expressão e de maneiras é já uma
+ revelação de delicadeza estética.»
+
+ Bernardino Machado.
+
+ «...si le geste est à la base de tous les arts, le principe de
+ toute éducation esthétique (et même de toute éducation intégrale)
+ ne sera-t-il pas la culture et le développement du sens créateur
+ des attitudes?»
+
+ Lalo.
+
+ «Deve pois ser a mímica a base de todo o ensino.»
+
+ Júlio Dantas.
+
+
+A Arte na escola não deve apenas ter em mira a cultura do sentimento
+estético; deve principalmente ter em vista o aumentar a apetência
+escolar, o gôsto pela escola, não só para chamar para ela, mas sobretudo
+para facilitar a assimilação dos conhecimentos, o aproveitamento
+escolar, tal como sucede com a arte na mesa, que visa principalmente a
+facilitar a digestão dos vários e complicados cozinhados que nela se
+servem.
+
+Decorar a escola, por decorá-la, cobrir as paredes das salas da classe
+com quadros vistosos, embora dos melhores, enfeitar essas salas levando
+para elas flores, peixes, avezinhas, etc., será útil para a cultura
+estética, mas contribui para distrair do fim principal da escola, a não
+ser que as lições versem sôbre ou a propósito das decorações, o que nem
+sempre é possível, nem prático. Van Biervliet, a propósito da atenção
+visual, dizia, numa das suas lições, que as salas das classes deveriam
+ser como a sala do teatro de Bayreuth: não distrair do palco, da scena,
+do principal; os alunos não deveriam ver mais do que os _tests_
+utilizados na lição. Nada os deveria distrair das estimulações que o
+professor procura directamente praticar, para ensinar-lhes o que lhes
+quere ensinar.
+
+Mas, minhas senhoras e meus senhores, embora mesmo que na arquitectura,
+na decoração interior, no mobiliário, nos livros, a arte que em tudo
+isso se ponha vise não só a educação artística, mas principalmente o
+atraír o aluno, o prender-lhe a atenção, o tornar-lhe agradável a
+escola, sem o distrair das lições, mesmo que assim seja, se uma vez nela
+o aluno se defronta com um professor, que por seus gestos e atitudes se
+torna ridículo, antipático ou temido, um professor que não saiba nem
+ritmar convenientemente a sua voz, nem compor agradávelmente a sua
+fisionomia, nem servir-se das expressões, dos gestos e das atitudes que
+mais atraem e prendem a criança e tornam mais clara e interessante a
+lição, se êsse professor desconhece a influência que a mímica tem nos
+alunos, a importância que as atitudes e a maneira de tratar e de falar
+têm na educação, se êsse professor não tiver por intùição nem por
+cultura o conhecimento do valor pedagógico das estimulações motrizes
+atraentes, não será só o professor que será mau, a própria escola,
+apesar de tôda a sua arte, passará a ser uma escola má, porque deixará
+de atrair e a falta de senso e de estética do professor tornará assim
+essa escola, a que me refiro, pior do que uma outra, cuja arquitectura,
+cuja decoração, cujo mobiliário seja menos artístico, seja mesmo
+inferior.
+
+A atitude, o gesto, a expressão fisionómica do professor actua directa e
+fortemente sôbre o aluno, levando-o a tomar atitudes, a esboçar gestos e
+a usar de uma expressão fisionómica que são o reflexo da atitude e da
+mímica do professor. Mas não deve o professor apenas lembrar-se disto, e
+por isso cuidar da sua atitude e expressão, deve lembrar-se tambêm que,
+como diz Baldwin, deve lembrar-se que o ver expressões emotivas noutrem
+não só provoca directamente aquele que as vê a colocar-se em atitudes
+semelhantes, levando-o a reproduzir essas expressões, mas tambêm faz com
+que, uma vez esboçados os movimentos provocados e assim iniciada a
+imitação muscular, faz com que, dizia, os movimentos esboçados despertem
+ou levem aos estados de consciência que ordináriamente precedem essas
+reacções emocionais. É por isso, e ainda mais do que por meu feitio
+afectivo, que eu, na casa de educação, cuja direcção me está confiada,
+tanto uso da cortezia, procurando nunca esquecer-me de cumprimentar e de
+pôr na minha expressão e nos meus gestos uma grande afabilidade.
+
+Há-de sempre lembrar-me o que comigo se passou, quando eu tinha quinze
+anos e havia pouco tempo que freqùentava a minha Universidade: a
+Universidade de Coimbra. Encontrei-me uma vez com um cavalheiro de
+figura grave, todo êle de preto, longas barbas brancas, que eu nunca
+tinha visto, que completamente desconhecia e que com grande espanto e
+comoção minha, sendo eu a única pessoa que na ocasião com êle na rua se
+cruzava, se descobriu, cumprimentando-me grave e afectuosamente, logo me
+obrigando a mim a curvar num grande gesto e com um grande sentimento de
+respeito. Era o Reitor da Universidade, o ilustre e venerando professor
+Dr. Costa Simões, cuja figura vim depois a conhecer e que hoje ainda, ao
+falar nela, me desperta uma emoção fortíssima. Era o Reitor que me
+ensinava a respeitá-lo.
+
+Ás vezes, minhas senhoras e meus senhores, me sorrio, me sorrio sim, mas
+com pezar, quando vejo por exemplo, alguns dos meus prefeitos virem
+procurar-me, pálidos com um ar de cólera mal contida, queixar-se de
+alunos que lhes faltaram ao respeito e satisfeito comigo fico, quando
+consigo logo, mostrando-me aos alunos com expressão um pouco diferente
+da habitual, consigo, dizia, levá-los imediatamente a mudar a sua
+atitude de cólera tambêm, como a do prefeito, e a tomarem uma atitude
+antagónica, de obediência, de pezar e de desgôsto. Há, por vezes, na
+vida escolar, alguns episódios, que se passam entre educadores e
+educandos, que me lembram a scena dum animal investindo furioso contra
+um espelho, por nele ver reproduzida uma atitude de hostilidade que
+cresce e aumenta à maneira que êle mais se encoleriza. Enfurece-se, sem
+o saber, contra si mesmo.
+
+Estou certo de que o facto de freqùentemente se verem professores,
+pessoas aliás de fino trato, tomarem nas aulas atitudes grosseiras e
+hostis, como o de políticos ostentarem no govêrno atitudes completamente
+opostas aos sentimentos que mostravam fora dele, resulta da imitação
+inconsciente de atitudes que viram na sua infância, ou na sua mocidade,
+nos que ensinavam e governavam.
+
+O professor é como o actor. O estado emocional do público é um reflexo
+do seu próprio estado emocional, é uma reacção simpática, provocada pela
+sua atitude, pelo seu gesto, pela sua expressão. E se o actor tem de
+cuidar e tem de estudar a estética da expressão, o professor quási tanto
+como êle a deveria estudar. Compreende-se bem porque é que Van Biervliet
+diz, como disse: «_todo o mestre, e principalmente todo o professor
+primário, deveria passar por um curso semelhante, aos dos
+conservatórios, a fim de aprender a falar belamente (califasia) e
+expressivamente, ou melhor, direi, esculturalmente_.»
+
+
+ Minhas Senhoras e meus Senhores:
+
+
+A atenção, como V. Ex.^{as} sabem, é a faculdade base, é a faculdade
+mãe, é a mãe do que vulgarmente se chama a inteligência. Quem ensina,
+quem educa deve ter antes de mais nada em vista provocar a atenção,
+prender a atenção. Ora a atenção depende intimamente do interêsse. É
+indispensável que o professor saiba estimular agradávelmente os sentidos
+que tem de utilizar no ensino. Se a sua atitude, se os seus gestos, se a
+sua expressão são de molde a repelir, o aluno não presta atenção, desvia
+a atenção. Mas não é ainda só por isto que o professor se deve preocupar
+com a sua atitude, com os seus gestos, com a sua maneira de falar; não é
+só para chamar a atenção e para a prender. É que o gesto, a expressão
+fisionómica, a maneira de nos apresentarmos aos alunos durante a lição,
+quando falamos ou quando mostramos, ajudam a compreender o que dizemos e
+o que mostramos. Sabem V. Ex.^{as} muito bem que se se fechar os olhos,
+emquanto se ouve um discurso, se tem de fazer um maior esfôrço para
+segui-lo, para o ouvir, para o interpretar. Os míopes que assistam a um
+espectáculo sem as suas lunetas, e verão como parece que ouvem menos, e
+como o espectáculo se lhes torna inferior, menos interessante, menos
+agradável, mais difícil de seguir. O gesto auxilia imensamente a
+expressão verbal, e tanto que um gesto mal adequado, ao que se diz, pode
+transtornar completamente o sentido da palavra.
+
+A mímica auxilia tambêm a memória. Inconscientemente está provado isto),
+quando se ouve ou se vê alguem, tendemos a imitar-lhe, quando mais não
+seja, _interiormente_, a expressão. As palavras que ouvimos articulam-se
+na nossa linguagem interior e tanto mais fácilmente as compreendemos,
+quanto melhor elas forem articuladas. É mais fácil reter o que se diz
+lentamente e rítmicamente, do que aquilo que se diz rápidamente e com má
+expressão. O ver esboçar um gesto é por vezes bastante para antever um
+pensamento, e para nos recordarmos.
+
+E tanto a mímica influi na memória que hoje, em pedagogia moderna, se
+aconselha muito o emprêgo da mímica como auxiliar importantíssimo do
+ensino. Está demonstrado que é mais fácil fazer fixar a um aluno o que
+se disse, gesticulando nós e fazendo-o gesticular a êle, quando repete,
+por forma apropriada, é claro, do que dizendo monótonamente e sem gesto
+e fazendo-o repetir sem gesto e sem expressão, papagueando.
+
+Estou cêrto (a minha experiência que já não é pequena me autoriza a
+dizê-lo), que os gagos até certo ponto não gaguejam quando cantam,
+porque as imagens motrizes, no canto, são mais bem desenhadas, mais
+perfeitas, fixam-se melhor, esquecem-se menos, deformam-se menos. De
+resto o canto tem hoje um papel importante no ensino da articulação, no
+ensino das línguas, mesmo nos normais. O gago, estou convencido, diga-se
+de passagem, é um doente da atenção, por excesso de emotividade.
+
+E agora, para resumir: _um professor que gesticule com propriedade, que
+fale com correcção, que articule perfeitamente, que diga com arte, que
+gesticule com arte, que se exprima com arte, não é só agradável, não é
+apenas um artista, é um excelente professor_.
+
+
+ Minhas Senhoras e meus Senhores:
+
+
+O estudo do gesto, da atitude, da expressão tem ainda uma outra
+importância, uma outra vantagem pedagógica de que ainda não falei: é a
+de servir excelentemente para conhecermos o aluno.
+
+Deixem-me assistir, sem ser visto, ao recreio, numa escola, e eu
+poderei, sem errar muito, fazer alguns juízos sôbre o feitio mental dos
+alunos. A criança até aos onze anos é, como diz Waynbaum, uma espécie de
+alienado sem freio social, ou um grande actor. As suas atitudes, os seus
+gestos são francamente a expressão do seu estado afectivo. A vontade, a
+astúcia, o cálculo, o interêsse, as conveniências, os hábitos não são
+ainda freios tão poderosos que lhe dominem, que lhe mutilem ou deformem
+o estado afectivo, que no-lo ocultem ou o tornem difícil de descobrir: a
+expressão é sincera, é a tradução exacta do seu estado e, até certo
+ponto, do seu carácter habitual.
+
+A mímica é duma eloqùência impressionante. Examinai-a bem, examinai os
+gestos, as atitudes, a expressão fisionómica e podereis com facilidade
+fazer um juízo sôbre o feitio mental, e principalmente sôbre o estado
+afectivo na ocasião. Mandai, por exemplo, abrir a boca a uma criança de
+menos de onze anos, para lhe examinar a garganta, e notai bem a
+expressão, a atitude, os gestos, a maneira de reagir: fácilmente vereis
+qual é o grau de eloqùência da fisionomia na criança, e em grande parte
+verificareis a verdade do que digo.
+
+Dos onze anos para diante e mais tarde na puberdade, o gesto, a
+expressão, a atitude já enganam mais; o exame é mais sujeito a erros.
+
+Nessa idade recorro muitas vezes ao exame do olhar, emquanto falo, e
+sobretudo ao do apêrto de mão, dêsse gesto de quem Vaschide, num
+monumental trabalho de psicologia, disse ser um gesto em aparência
+banal, mas revelador de tôda a nossa vida mental sub-consciente e a
+propósito do qual disse mais: «há tôda uma psicologia e da maior
+importância neste contacto musculo-táctil que eu chamarei mental.» O
+mesmo ilustre psicólogo francês, que a morte tão cedo roubou, examinando
+alienados do Asilo Villejuif, chegou à conclusão de que aquele gesto tão
+trivial pode fornecer importantes elementos para julgar da mentalidade
+dos internados, o que, até certo ponto, confirma a opinião do velho
+médico da Salpetrière, Falret, que pelo exame da mão pretendia apreciar
+o estado mental dos seus doentes.
+
+Mas não querendo em pedologia utilizar o exame do apêrto de mão, o
+professor pode recorrer com facilidade e êxito ao exame de outros
+gestos, com o fim de colher alguns elementos de ordem psíquica.
+
+Na lição de abertura do meu curso de Pedologia dêste ano, a propósito da
+medida da agudeza visual e da auditiva, debaixo do ponto de vista
+pedagógico, disse eu: «O exame da agudeza visual e da auditiva presta-se
+tambêm a permitir-nos julgar até certo ponto de certas qualidades de
+ordem psíquica, que ao educador muito interessam conhecer. A maneira por
+que o aluno se apresenta, a rapidez, a lentidão dos seus movimentos, a
+rapidez ou a lentidão na leitura do quadro optométrico, a maneira
+agitada ou, pelo contrário, lenta e dócil por que se comporta, a
+precisão ou a decisão na compreensão e execução das nossas ordens, tudo
+permite, com grande probabilidade de acêrto, formar um juízo, útil e
+necessário para o educador, sôbre o grau de emotividade, ou sôbre a
+_potencialidade nervosa_ de cada aluno, destrinçando particularmente os
+dois tipos extremos, o do _hipersténico_, agitado, e o do _hiposténico_,
+tardo nas suas reacções. O educador encontrará nesse exame elementos
+importantes para calcular possibilidades na educação, e tirar indicações
+muito úteis para a escolha dos meios educativos a empregar».
+
+E, como o exame da agudeza visual e da auditiva, há outros que se podem
+praticar na escola e que permittem examinar com rigor os gestos, e por
+estes com certo êxito julgar da mentalidade do aluno.
+
+Ley, a propósito de um estudo dinamométrico dos alunos atardados da
+escola especial de Antuérpia, fez notar que a observação das atitudes
+durante o exame da fôrça de pressão, lhe permitiram verificar: 1.^o--que
+os nervosos e indisciplinados, habitualmente atingem o máximo, dum
+jacto, bruscamente; 2.^o--que nos apáticos a agulha do dinamómetro
+caminha para o máximo, com regularidade e lentidão; e finalmente,
+3.^o--que nos apáticos mais acentuados, nos apáticos profundos, o máximo
+ordináriamente era atingido depois de uma contracção lenta, seguida de
+uma pausa, a que por sua vez se seguiam algumas outras lentas e mais
+pequenas contracções.
+
+Mas mais ainda. A título de exemplo, apresentarei a V. Ex.^{as}, sob
+forma resumida, a parte mais interessante do resultado dum exame a que
+procedi, a fim de surpreender as características do apêrto de mão em
+rapazes da Casa Pia, de 16 anos para cima, tomados ao acaso, e chamados
+à minha presença, sem saber para quê. Á medida que chegavam, e entravam
+isoladamente no meu gabinete, cumprimentava-os naturalmente
+estendendo-lhes a minha mão; depois fazia-lhes algumas perguntas de
+pouca importância para êles, como era por exemplo, _qual o curso em que
+estavam? se tinham frequentado a oficina?_ etc, inspeccionava-lhes a
+mão, e media-lhes finalmente com um dinamómetro Mathieu a fôrça à
+pressão da mão direita, procurando assim sugerir-lhes a idea de que eu o
+que desejava era estabelecer alguma relação entre a profissão e as
+características das mãos. Terminando êste exame, despedia-os
+naturalmente, estendendo-lhes, como no principio, a minha mão. Várias
+_nuances_ surpreendi na maneira por que as mãos dos alunos se
+comportavam durante o cumprimento, mas fácilmente as pude agrupar,
+distribuindo-as por três tipos característicos:--1.^o--o dos que
+cumprimentam _entregando_ a mão, _sem apertar, abandonando-a_; 2.^o--o
+dos que apertam a mão, mais ou menos fortemente, sem tentar rápidamente
+fugir com ela; 3.^o--o dos que quási que não _apertam_, e que
+rápidamente a procuram retirar após o contacto (_mãos que fogem, mãos
+furtivas_).
+
+Dias depois de feita a minha observação, inesperadamente e sem dizer
+para que queria informações, apenas dizendo que era para um estudo,
+consultei separadamente o chefe dos prefeitos e o professor de curso
+freqùentado pelos alunos, que mais em contacto e durante mais tempo está
+com êles. Foram tambêm consultados alguns mestres de oficinas, daqueles
+poucos alunos entre os que eu examinei, que nelas andavam.
+
+O pedido da minha informação visava sobretudo saber se na opinião das
+pessoas que eu consultava, os alunos eram ou não disciplinados, se se
+acomodavam ou não fácilmente ao regimen habitual da Casa, e tambêm se
+eram considerados sinceros ou pelo contrário dissimulados. Ora, coisa
+interessante: no grupo dos que mal apertam a mão, que rápidamente a
+procuram furtar ao contacto da nossa, figuram os alunos que na lista das
+informações do professor e do prefeito têm as notas de dificeis de
+disciplinar, dissimulados, reservados, pouco sinceros; os que tem a nota
+firme de disciplinados, exemplares, sinceros, aparentando o que são, não
+dissimulando, estão no grupo dos que cumprimentam apertando a mão, e não
+fugindo; finalmente no grupo dos que não apertam e abandonam a mão, dos
+que têm um aperto de mão insignificativo, figura a maioria daqueles
+sôbre que professor e prefeito tiveram dúvida em informar e traduziram o
+seu juízo por um ponto de interrogação.
+
+Isto a meu ver basta para acabar de ilustrar e documentar a tese de que
+a _simples observação dum gesto tão trivial, como é por exemplo um
+apêrto de mão, pode servir ao educador para fazer um rápido e útil exame
+psicológico_.
+
+
+ Minhas Senhoras e meus Senhores:
+
+
+Mas na escola, o gesto, a atitude, a fisionomia servem ainda para alguma
+cousa mais.
+
+Séguin, no seu afamado livro sôbre o _tratamento moral dos idiotas_,
+consagra _páginas_ ao estudo e à preparação, no professor, do gesto,
+«desta forma oratória, como êle diz, que tôda a gente usa mais ou menos,
+mas muito mal e sem o saber», e do olhar e da fisionomia, «meios, como
+êle diz tambêm, de dirigir e possuir o aluno».
+
+A criança compreende mais a nossa fisionomia e os nossos gestos do que a
+nossa palavra. De resto, a palavra é mais para mentir. O olhar e as mãos
+é que são as verdadeiras janelas da alma. É difícil dissimular com o
+olhar e com o gesto, e estes melhores do que nada se prestam a traduzir
+com tôda a verdade o estado do nosso espírito.
+
+Fixai o olhar do vosso educando, aprendei a usar de gestos apropriados,
+a traduzir pela expressão do olhar e pela maneira de gesticular a vossa
+intenção e com facilidade podereis socegar o agitado, disciplinar o
+indisciplinado, tornar atento o distraído, despertar o apático,
+imobilizar quando quizerdes imobilizar, agir quando quizerdes que se
+movam, castigar quando quizerdes castigar, premiar quando quizerdes
+premiar, e por êles mais fácilmente do que com os vossos discursos
+podereis conseguir o que constitui, tanto no ensino de anormais como de
+normais, o principal segredo da arte do educador: saber fazer do
+educando um amigo, saber apossar-se do aluno.
+
+Educai não só com a alma; educai com alma.
+
+
+ Minhas Senhoras e meus Senhores:
+
+
+O gesto, a atitude, não são apenas a expressão do estado afectivo, são
+por vezes a própria causa do estado afectivo. Segundo William James, o
+grande psicólogo americano, o estado emocional não é que determina a
+expressão emocional. A percepção dum objecto, ou dum acto capaz de nos
+emocionar, provoca, como por reflexo, reacções corporais, reacções
+nervosas, que geram atitudes, expressões, gestos, perturbações orgânicas
+e são estas reacções corporais que, impressionando-nos, geram os estados
+afectivos. Como corolário desta tese, James sustenta que tôda a
+produção, voluntária e a sangue frio, das chamadas manifestações duma
+emoção determina essa emoção. Para comover-nos basta colocarmo-nos em
+atitude de comoção. Entristecereis se persistirdes em tomar atitudes de
+tristeza; cultivai as atitudes recolhidas, em flexão, próprias dos
+humildes e tornar-vos heis humildes; curvai-vos em adoração e acabareis
+por adorar; preparai-vos para admirar e admirareis. Se, pelo contrário,
+cuidardes principalmente de atitudes abertas, em extensão, próprias para
+exprimir a alegria ou a fôrça, tornar-vos heis alegres, fortes,
+destemidos, senhores de vós, e, se exagerardes, revoltados.
+
+Antes de James, pode-se dizer que os educadores haviam descoberto a
+teoria; pelo menos a experiência os levara a proceder de acôrdo com ela.
+A importância que muitos dão ao ensino da civilidade demonstra-o, e
+demonstra-o sobretudo o cuidado com que nos manuais de civilidade, nos
+livros que muitos chamam de educação, própriamente dita, e
+principalmente nos das casas de educação religiosa, demonstra-o
+sobretudo, dizia, o cuidado com que neles se prescrevem as regras que
+devem pautar o gesto, o tratamento, a atitude, a expressão do olhar,
+etc., tôdas visando, nas casas de educação religiosa, a modéstia, o ar
+humilde, recolhido, obediente, por vezes servil, que leva ao estado de
+espírito que principalmente se tem em vista criar. Vale a pena ler, por
+exemplo, para verificar o que digo, vale a pena ler por exemplo o
+_Regulamento para as casas da Pia Sociedade de S. Francisco de Sales_.
+
+Compreende-se bem agora porque é que eu tanto me preocupo, quando falo
+com os meus alunos, ou quando êles falam comigo, em aconselhar-lhes ou
+sugestionar-lhes uma atitude recta, firme, simples, afectuosa,
+forçando-os a fitarem-me naturalmente, serenamente, modestamente, e a
+falar sem cochichar, mas tambêm sem levantar demasiado a voz, procurando
+sempre regular-lhes a palavra e o gesto, e dar-lhes um ar disciplinado e
+simpático. E se tanto me dá prazer ver a harmonia no andar, no falar, no
+gesticular, se tanto às vezes me comovo, quando vejo desfilar
+ordenadamente e nobremente os rapazes da nossa Casa Pia, não é só por
+simples emoção estética, é porque por aqueles sinais externos eu julgo
+do estado interno da nossa Casa. Vai bem.
+
+_Educadores, educai o corpo, que educareis o espírito_.
+
+
+ Minhas Senhoras e meus Senhores:
+
+
+Os nossos gestos, as nossas expressões, constituem um dinamismo afectivo
+que não só actua sôbre os nossos próprios sentimentos, e exprimem o que
+nós sentimos, mas tambêm actua sôbre os sentimentos dos outros,
+inflùindo fortemente neles. Os gestos, as atitudes, as expressões
+fisionómicas são factores sociais importantíssimos. A sociedade é um
+verdadeiro campo de fôrças afectivas. E a maneira de ser de cada um de
+nós, e a maneira de nos exprimirmos, e de nos comportarmos actuam no
+meio em que vivemos como fôrças orientadoras ou perturbadoras da ordem
+social.
+
+Habituar os nossos educandos às atitudes e gestos de respeito, gestos de
+uma cortezia simples, mas atraente, é trabalhar pela _tolerância_, pela
+«aceitação serena das diferenças que existem entre os homens», como diz
+Lanson. Procedendo assim aumentar-se há a fôrça da solidariedade,
+criar-se há a atmosfera mais favorável à descoberta da verdade, ao amor
+do belo e à prática do bem, e vencer-se há um dos nossos maiores
+inimigos internos:--«a intolerância, que, como a ignorância, ainda na
+expressão de Lanson, é um instrumento de despotismo», e de divisão,
+acrescentarei eu.
+
+Como vêdes, a educação do gesto até tem um alcance político. Como vêdes
+até pode contribuir para a solução do nosso maior problema: o problema
+da _unidade nacional_.
+
+Mais uma vez me convenço de que os nossos maiores problemas são
+problemas pedagógicos. Mais uma vez me convenço de que a educação é a
+maior das fôrças políticas. Mais uma vez compreendo o sublime paradoxo,
+a que nos momentos mais difíceis da sua vida histórica com êxito
+recorreram as duas grandes nações europeias, centros dos dois
+poderosíssimos sistemas de civilização, que neste grandioso e aflitivo
+momento da vida da Europa, se batem e formidávelmente lutam; sim, mais
+uma vez compreendo porque «se foi pedir a salvação da Pátria à força em
+aparéncia a menos feita para isso, aquela cuja acção é, por definição
+mesma, a mais modesta, a mais doce, a mais longínqua--a educação»[14].
+
+Recorramos tambêm nós a ela. _Eduquemo-nos e eduquemos_.
+
+Que a arte entre na escola e que o fim da escola seja como o da própria
+arte no dizer de Tolstoi:--«unir as almas, associando-as num mesmo
+sentimento». E que nesta ocasião de perigo, e sempre, todos os meios,
+todos os pretextos sirvam, como me está servindo esta minha leitura,
+sirvam para cultivar o sentimento supremo e utilíssimo do amor da
+Pátria.
+
+Disse.
+
+
+
+
+ALGUMAS PUBLICAÇÕES DO AUTOR, SÔBRE ASSUNTOS PEDAGÓGICOS[15]
+
+
+_Antropometria escolar_--Relatório apresentado ao IV Congresso Nacional
+da Liga Contra a Tuberculose, 1907.
+
+_Uma colónia de férias_--Apontamentos de antropometria médica publicados
+no _Boletim da Assistência Nacional aos Tuberculosos_ e na _Clinique
+infantile_, 1908.
+
+_Instrução e política em Portugal_--Artigo publicado na _Alma Nacional_,
+1909.
+
+_A educação intelectual e moral da mocidade nos colégios dos
+jesuítas_--Conferência, 1910.
+
+_Carta dirigida ao Grão-Mestre da Maçonaria Portuguesa, no dia do
+Centenário do nascimento de José Estêvão_, 1910.
+
+_O ensino das sciências fisico-naturais na escola primária
+portuguesa_--Artigo publicado na _Revista de Educação_ e no _Éducateur
+Moderne_, 1910.
+
+Casa Pia de Lisboa--_Algumas observações sôbre alunos gagos_--Artigo
+publicado na _Escola Nova_, 1912.
+
+_Refeições escolares_--Artigo publicado na _Medicina Moderna_, 1912.
+
+_A bem da República_--Discurso lido na Casa Pia de Lisboa e publicado na
+_Revista de Educação Geral e Técnica_, 1916.
+
+_Pneumogrames de bégues--Contribution à l'étude de l'emotivité_,
+publicado no _Boletim da Sociedade Portuguesa de Sciências Naturais_,
+1916.
+
+_Gimnástica--escola de moral e de civismo_--Discurso proferido na Casa
+Pia, por ocasião da recepção de Sua Ex.^a o Presidente da República e
+dos membros do Congresso de Educação Física, publicado na _Revista de
+Educação_, 1916.
+
+_Entre dois Congressos_--Artigo publicado no jornal _A República_, 1908.
+
+_Elementos para a elaboração de um projecto de distribuição_ _de água
+esterelizada aos alunos do Liceu de Camões_--Artigo publicado na
+_Medicina Moderna_, 1911.
+
+_Ensino útil e ensino utilitário_--Artigo publicado no _Tempo_, de
+Lisboa, 1911.
+
+_Cantinas escolares_--Carta ao Snr. Presidente da República, publicada
+no jornal _República_, 1911.
+
+_Numa festa da Casa Pia_, trechos dum discurso, publicado na _Revista de
+Educação_, 1913.
+
+Casa Pia de Lisboa--_Sôbre uns acidentes no recreio_--Artigo publicado
+no _Movimento médico_, 1913.
+
+_Ensino dos surdos-mudos_--Discurso proferido por ocasião da abertura
+dum curso para habilitação de professores de surdos-mudos, discurso
+publicado na _Educação_, 1913.
+
+_A spirometria em antropometria escolar_--Artigo publicado na revista _A
+Tutoria_, de Lisboa, 1913.
+
+Educação física--_Elogio do Dr. Jaime Mauperrin dos Santos_, lido na
+Sociedade de Geografia e publicado no _Sport de Lisboa_, 1914.
+
+_Dois documentos para a Historia_--Duas cartas a propósito de uma
+conferência sôbre a educação nos colégios de jesuítas, publicadas na
+_República_, 1914.
+
+_Da influência dos trabalhos manuais no desenvolvimento do
+espírito_--Discurso lido na Casa Pia de Lisboa, por ocasião do Congresso
+Pedagógico, e publicado no _Diário de Noticias_ e em parte na _Medicina
+Contemporanea_, onde se encontram tabelas que o documentam, 1914.
+
+_Uma ilusão muscular_--Artigo publicado na _Medicina Contemporanea_,
+1914.
+
+_Algumas considerações sôbre um calão escolar_--O calão da Casa
+Pia--Artigo publicado de colaboração com Canuto Soares, na revista _A
+Aguia_, do Porto, 1914.
+
+_Arte e democracia_, Discurso, in _Atlantida_, 1918.
+
+_Como educar o operário e seus filhos_, Tese Nacional do Livre
+Pensamento, in _Actas do Congresso_, 1918.
+
+_No Lactário_, Discurso, in _A Aguia_, 1919.
+
+_Inteligência motriz_, in _A Medicina Moderna_, 1919.
+
+_Morfologia e educação física_, in _Medicina Contenporanea_, 1920.
+
+_O foot-ball e as curvas do crescimento na Casa Pia de Lisboa_, in
+jornal _Football_, 1920.
+
+
+
+
+LVMEN
+
+EMPRESA INTERNACIONAL EDITORA
+
+Lisboa--Porto--Coimbra--Rio de Janeiro
+
+
+
+
+ULTIMAS PUBLICAÇÕES
+
+
+Dr. Mendes dos Remedios--*Historia da Literatura Portuguesa*, 5.^a edição
+
+Dr. Eugenio de Castro--*Camafeus Romanos*--_Versos_
+
+Teixeira de Pascoais--*Maranos*, 2.^a edição--_Versos
+ *As Sombras*, 2.^a Edição--_Versos_
+ *Cantos Indecisos*, 1.^a edição--_Versos_
+
+Dr. Antonio Cabral--*Terras Longinquas*--_Viagens_
+
+Manuel da Silva Gaio--*Eça de Queiroz*--_Carta_
+
+João Ameal--*Em voz alta e em voz baixa*--_Dialogos_
+
+Rui Gomes--*Elementos de Teoria de Comércio*, 1.^a parte
+
+Dr. Pedro Fazenda--*A Crise Politica em Portugal*
+
+
+
+
+Notas:
+
+[1] Lição de abertura do curso de Pedologia na antiga Escola Normal de
+Lisboa. Lida em 19 de Janeiro de 1915. Publicada no jornal da _Tutoria
+da Infância_ e no _Anuário da Casa Pia de Lisboa_.
+
+[2] Lição de abertura do Curso de Psicologia Experimental da Escola
+Normal de Bemfica, no 2.^o semestre do ano lectivo de 1919-20. Publicada
+no _Boletim Bibliográfico da Bibliotéca da Universidade de Coimbra_ e no
+_Anuário da Casa Pia de Lisboa_.
+
+[3] Lição de encerramento do Curso de Pedologia na Escola Normal de
+Lisboa no ano lectivo de 1914-15. Publicada no _Arquivo de Anatomia e
+Antropologia_ do Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina de
+Lisboa, e no _Anuário da Casa Pia_.
+
+[4] Ao lado das tabelas e curvas do Dr. Mascarenhas de Melo devem
+citar-se as tabelas e curvas de cuja existência só hoje tive
+conhecimento e que foram elaboradas pelo ilustre professor de gimnástica
+desta Escola Normal, o Sr. Pedro Ferreira, quando professor no extinto
+Colégio de Campolide. Êsses trabalhos foram publicados num folheto
+intitulado--_La gymnastique médicale au Collége de Campolide_,--que foi
+apresentado, segundo me informa aquele meu venerando colega, seu autor,
+no Congresso de Higiéne Escolar, realizado em Paris em 1910. Os dados
+colhidos pelo Sr. professor Pedro Ferreira poderão servir,
+particularmente, para um estudo das crianças da aristocracia portuguesa,
+visto que era sobretudo às camadas aristocráticas da nossa sociedade que
+pertenciam os alunos de Campolide.
+
+[5] Esta curva figura tambêm no último relatório da _Escola-oficina n.^o
+1_, onde o Dr. Manchego tem feito observações antropométricas.
+
+[6] Ainda há minutos o sr. professor Pedro Ferreira, ao ter conhecimento
+desta passagem da minha lição, me informou de que tem verificado o facto
+nesta Escola e no Liceu Maria Pia, onde tem procedido a mensurações. Há
+dias, neste nosso curso, entre as senhoras, me disse ter observado casos
+bem demonstrativos.
+
+[7] Vd. sobre o assumpto desta lição o livro do Snr. Dr. Alves dos
+Santos:--_Educação Nova_--As bases--I--O _Corpo da criança_ (1919) e a
+conferência que preparei para a Escola de oficiais médicos milicianos e
+publiquei em 1917 no _Arquivo de Anatomia e Antropologia_, com o título:
+_Auxanometria militar_.
+
+[8] Lição de abertura do Curso de Pedologia da Escola Normal de Lisboa
+no ano lectivo de 1915-1916. Lida em 20 de Janeiro de 1916.
+
+[9] Lição de abertura do Curso de Pedologia na Escola Normal de Lisboa,
+no anno lectivo de 1916-1917. Lida e explicada, em 26 de Fevereiro de
+1917. Publicada no _Boletim do Ministério da Instrução Pública_.
+
+[10] Lição de encerramento do curso de pedologia da Escola Normal de
+Lisboa, no ano lectivo de 1915-1916, lida na sala de Física da Faculdade
+de Sciências de Lisboa e publicada, como as duas anteriores, no _Boletim
+do Ministério da Instrução Pública_ e no _Anuário da Casa Pia de
+Lisboa_.
+
+[11] Lição de abertura dum curso de aperfeiçoamento na Escola Normal
+Primária de Lisboa (Bemfica), no ano lectivo de 1919-1920. Publicada na
+_Medicina Contemporanea_.
+
+[12] Lição de abertura do Curso de Psicologia experimental no ano
+lectivo de 1920-1921, publicada na _Medicina Contemporanea_.
+
+[13] Conferência realizada no dia 17 de Abril de 1916, no Salão do
+Conservatório, e publicada em separata pela Sociedade de Estudos
+Pedagógicos.
+
+[14] Palavras de Ferdinand Buisson.
+
+[15] Excluem-se as publicações que vão reproduzidas e reunidas neste
+volume e alguns outros trabalhos publicados nos anuários da Casa Pia.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pág. 56| infra-normais | supra-normais |
+ |#pág. 83| _Montesssóri_ | _Montessóri_ |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Algumas lições de psicologia e
+pedologia, by António Aurélio da Costa Ferreira
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ALGUMAS LIÇÕES DE PSICOLOGIA ***
+
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+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
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+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
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+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
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+
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+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
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+ must be paid within 60 days following each date on which you
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+ of receipt of the work.
+
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.