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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:56:58 -0700
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+The Project Gutenberg EBook of Algumas lições de psicologia e pedologia, by
+António Aurélio da Costa Ferreira
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Algumas lições de psicologia e pedologia
+
+Author: António Aurélio da Costa Ferreira
+
+Release Date: April 20, 2010 [EBook #32072]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ALGUMAS LIÇÕES DE PSICOLOGIA ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
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+
+ *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
+ existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
+ versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Abril 2010)
+
+
+
+
+ANTÓNIO AURÉLIO DA COSTA FERREIRA
+
+Professor de Psicologia experimental e Pedologia
+na Escola Normal Primária de Lisboa
+
+
+
+
+ALGUMAS LIÇÕES
+DE
+PSICOLOGIA E PEDOLOGIA
+
+
+
+
+LVMEN EMPREZA INTERNACIONAL
+ EDITORA
+
+LISBOA PORTO--RIO
+COIMBRA DE JANEIRO
+
+ SÉDE
+132, Rua Aurea, 138, Lisboa
+
+
+
+
+
+PSICOLOGIA E PEDOLOGIA
+
+
+
+
+ANTÓNIO AURÉLIO DA COSTA FERREIRA
+
+Professor de Psicologia experimental e Pedologia
+na Escola Normal Primária de Lisboa
+
+
+
+
+ALGUMAS LIÇÕES
+DE
+PSICOLOGIA E PEDOLOGIA
+
+
+
+
+LVMEN EMPREZA INTERNACIONAL
+ EDITORA
+
+LISBOA PORTO--RIO
+COIMBRA DE JANEIRO
+
+ SÉDE
+
+132, Rua Aurea, 138, Lisboa
+
+
+
+
+Comp. e impr. na Typ. Costa Carregal--Porto
+
+
+
+
+AOS MEUS COLEGAS E AOS MEUS ALUNOS
+DA
+ANTIGA E DA NOVA
+ESCOLA NORMAL PRIMÁRIA DE LISBOA
+
+
+
+
+ÍNDICE
+
+
+ Pág.
+
+Prefácio 5
+
+O ensino da pedologia na escola normal primária 7
+
+A arte de educar e a psicologia experimental 17
+
+O pêso do corpo da criança 29
+
+A agudeza visual e a auditiva debaixo do ponto
+de vista pedagógico 47
+
+A visão das côres 61
+
+Sôbre umas provas de exame da atenção voluntária
+visual 89
+
+Da inteligência do escolar e da sua avaliação 111
+
+Inteligência e apercepção 123
+
+Sôbre psicologia, estética e pedagogia do gesto 135
+
+
+
+
+PREFÁCIO
+
+
+_Com o título_ Algumas lições de Psicologia e Pedologia _publíco neste
+pequeno volume as principais lições que li e comentei, como professor da
+antiga Escola Normal do Calvário, e da actual Escola Normal de Bemfica,
+às quais acrescento a conferência que realizei no Conservatório, por
+ocasião da Exposição de Arte na Escola.
+
+Algumas das lições são verdadeiros planos e resumos dos meus cursos.
+
+A matéria vai exposta com a maior clareza de que fui capaz e pela forma
+que me pareceu melhor, em atenção à preparação habitual dos alunos das
+Escolas Normais e ao fim que essas escolas têm ou devem ter em vista.
+Busquei principalmente interessar e orientar os meus alunos,
+habituando-os a confiar na prática dos métodos scientíficos em
+pedagogia.
+
+O livrinho vai ilustrado com uma gravura, reprodução duma cópia feita
+pelo professor Eduardo Romero, da Casa Pia, cópia de um curioso desenho
+de R. Gudden, de Francfort s. M., excelente exemplo de um fenómeno de
+apercepção, que encontrei publicado no manual de Starch:_ Experiments in
+Educational psychology, _e que me pareceu ser uma ilustração muito
+apropriada para acompanhar as minhas lições de Psicologia e Pedologia, e
+particularmente a lição:_ Inteligencia e apercepção.
+
+_Estou certo de que a leitura dêste livrinho, e a dos livros que nele
+cito, será de muita, utilidade para os alunos das Escolas Normais e para
+os candidatos aos concursos de Inspectores primários.
+
+Belem--25--XII--920._
+
+ A. Aurélio da Costa Ferreira.
+
+
+
+
+O ENSINO DA PEDOLOGIA NA ESCOLA NORMAL PRIMÁRIA[1]
+
+
+ Minhas Senhoras e meus Senhores:
+
+
+Parafraseando o emérito Claparède, direi:--como se consideraria uma
+escola de horticultura onde se não ensinasse a botânica?!
+
+Que se poderia dizer de uma escola que preparasse professores para a
+infância, seus educadores, e em que se não professasse a pedologia?!
+
+Como se chamaria aquele que hoje, no estado em que se encontra a
+sciência, quizesse como outrora tratar de doenças, empíricamente, sem
+saber, sem nunca ter estudado a anatomia e a fisiologia e as suas
+aplicações ao diagnóstico e não soubesse examinar convenientemente,
+scientíficamente, um doente, e procurar as indicações? Seria, hoje,
+porventura, um médico? Não. Nem mereceria confiança, nem mereceria
+consideração e as penalidades da lei até sôbre êle recaìriam.
+
+Como se poderiam considerar aqueles que hoje se obstinassem a pretender
+desenvolver a inteligência, formar caractéres, corrigir os instintos da
+criança, sem nunca ter aprendido a estudá-la, a medir-lhe a inteligência
+e a examinar-lhe o feitio mental, as suas tendências e as suas aptidões?
+
+Pois se a psicologia tem progredido tanto que hoje há processos quási
+tam seguros para fazer tudo isto, como há na clínica para estudar o
+pulso ou a respiração, desconhecê-los não será, pelo menos, ser um
+professor incompleto, atrazado, fóra do seu tempo? Sem dúvida que sim.
+
+Bem posso dizer como eu mesmo dizia no último Congresso Pedagógico de
+Lisboa: «querer e crer que sem conhecimentos de pedologia, de higiene
+escolar, de metodologia dos trabalhos manuais e da ginástica, possam
+saír das nossas escolas normais professores dignos da nossa época, a
+quem os governos possam confiar a educação das novas gerações, capazes,
+como dizia, parece-me, numa das suas célebres lições de pedagogia, o meu
+querido mestre, Dr. Bernardino Machado, capazes não só de
+transmitir--_«em tôda a sua pureza o património da civilização dos
+antepassados, a hercúlea fôrça atávica que nos pode permitir
+reabilitar-nos perante a história»_--mas tambêm capazes de fazer tudo o
+que fôr possível fazer-se para fomentar o progresso, melhorar a raça,
+melhorar o solo, melhorar o país; querer que aqueles a quem compete
+fazer e refazer a pátria, a façam e refaçam como noutros tempos, como no
+nosso tempo já não deve fazer-se, é tão estulto como querer confiar hoje
+a defeza da nossa terra aos heróis de outrora, a valentes de cota e
+malha, ou os progressos do nosso comércio, às antigas e gloriosas
+caravelas!»
+
+Van Bierveliet, da Universidade de Gand, numa das suas magistrais lições
+de pedagogia scientífica, feitas para professores de instrução primária,
+exprime-se assim:
+
+«Consideremos uma classe qualquer e interroguemos o professor; saberemos
+logo que num conjunto de cincoenta alunos, por exemplo, se encontram
+dois ou três que demostram uma grande diligência, e aceitam com prazer
+tôdas as tarefas que se lhe impõem. Constituem os primeiros da classe, o
+que pode chamar-se a _cabeça da classe_. Na grande massa dos alunos,
+dominam aquêles em que o zêlo é moderado; cometem erros e sabem as suas
+lições mais ou menos bem. Finalmente, um número mais ou menos
+considerável da classe acha que a tarefa que se lhe impõe é demasiado
+pesada e aborrecida; constitui o grupo dos _preguiçosos_, dos mandriões.
+Estes, fazem os seus exercícios mal, ou nada fazem, e aprendem muito
+pouco, uma ou outra pequena cousa, um ou outro fragmento de lição. As
+classes apresentam uma cabeça, um corpo e uma cauda; geralmente a cabeça
+é composta por dois ou três indivíduos e a cauda, pelo contrário, é
+muitas vezes notavelmente desenvolvida; as classes são organismos por
+vezes _microcéfalos_ (de cabeça pequena) e _macrures_ (de cauda grande).
+
+«A simples constatação dêste facto, basta para demonstrar que o regimen
+escolar é pouco atraente para as inteligências em formação.
+
+«Se num jantar de cincoenta talheres se constatasse que três pessoas
+sómente mostravam bom apetite, trinta comiam com repugnância e o resto
+nada comia, concluir-se-ia, com alguma razão, que ou o _menú_ era
+medíocre ou que os convivas tinham o estomago caprichoso e que por isso
+lhes não convinham os pratos que lhes eram oferecidos ou destinados. O
+mesmo se pode dizer das classes. Há inteligências excepcionalmente vivas
+que assimilam tudo, como sucede com as pessoas que têm o que se usa
+chamar estomago de avestruz, que tudo digerem. Há outras, pelo
+contrário, que perante os conhecimentos apresentados, pelos métodos mais
+correntes, se comportam como dispépticos da inteligência. Que se faz em
+regra a estas? Castigam-se. Melhor fôra curá-las.»
+
+Melhor fôra, acrescento eu, saber conhecer o feitio mental dos alunos,
+agrupá-los consoante as suas semelhanças e diferenças, e saber
+administrar-lhes os mesmos conhecimentos por métodos diferentes, aqueles
+que melhor se acomodem e mais convenham ao seu feitio.
+
+As mesmas doenças não se tratam sempre do mesmo modo; tem que se atender
+ao doente. No ensino sucede a mesma coisa. Não se ensinam todos pelo
+mesmo modo; tem que se atender ao aluno.
+
+Um professor de instrução primária não pode, não deve desconhecer, ao
+entrar no exercício da sua profissão, a psicologia infantil e os
+processos de a estudar e de a observar. Não basta conhecer a
+_metodologia_, é necessário a _psicologia_.
+
+A metodologia deverá, de resto, ajustar-se à psicologia da classe e à do
+aluno.
+
+Diz Claparède num livro, cuja leitura muito lhes aconselho (_Psychologie
+de l'enfant_):«Muitas pessoas supõem que só a prática do ensino pode
+formar o professor e dar-lhe a verdadeira experiência. Seguramente, a
+importância da prática é capital para formar um especialista numa
+determinada arte. Mas é preciso esforçar-se por reduzir ao mínimo as
+experiências, as tentativas, sobretudo quando se trata de seres humanos.
+O professor que entra na prática da sua profissão, sem ter o menor
+conhecimento de psicologia, vê-se naturalmente reduzido a tentar, a
+fazer experiências com que os alunos podem sofrer; é obrigado a
+experimentar _in anima vili_, e algumas vezes essas experiências são
+demasiado longas e peníveis para as gerações de alunos que as têm de
+sofrer. Sem dúvida, a prática pode, dentro de certos limites, compensar
+a insuficiência dos conhecimentos teóricos, mas à custa de quantos
+rodeios e de quantos erros! Á força de construir pontes que abatem, ou
+máquinas que estoiram e se escangalham, pode um técnico sem instrução
+teórica acabar por ser um bom construtor e encontrar empíricamente as
+fórmulas que êle é incapaz de calcular. Mas quem quereria semelhante
+engenheiro?
+
+«Um professor sem educação psicológica está precisamente no mesmo caso,
+com esta diferença, contudo: que, quando uma ponte tende a abater, no
+decurso da sua construção, pode ser reparada imediatamente ou pode ser
+refeita. Enquanto que se se trata de uma inteligência ou de um carácter
+que erradamente se forçou ou tratou na sua evolução, só tarde se dá pelo
+mal, quando êle já se não pode remediar, e nunca em nenhum caso se pode
+refazer, reconstruir, fazer de novo outra inteligência ou outro
+carácter.»
+
+Estas parábolas devem convencer as senhoras e os senhores normalistas da
+utilidade do estudo da psicologia, do estudo das faculdades mentais, na
+preparação dos professores de instrução primária.
+
+Mas que psicologia?
+
+Será a psicologia clássica dos compêndios de filosofia? Será a
+psicologia especulativa? Será a psicologia, o conhecimento das
+faculdades mentais pelo exame introspectivo de indivíduos excepcionais,
+supra-normais quási sempre, filósofos que se deram ao trabalho de se
+estudar a si mesmo? Não.
+
+A psicologia do adulto é diferente da da criança e o estudo desta não se
+pode fundar no exame feito por ela própria. O estudo da psicologia da
+criança é quási como o da dos animais. A criança não é um homem e é
+quási tam diferente do homem como a lagarta da borboleta. Que se diria
+de quem quizesse alimentar ou tratar a lagarta do bicho da sêda como a
+sua borboleta, como êle na sua fase de insecto perfeito? E no entanto
+lagarta e borboleta, tam diferentes na fórma e nos hábitos, são o mesmo
+indivíduo. Assim sucede com cada um de nós, na sua fase infantil e na
+sua fase adulta.
+
+A propósito da psicologia clássica, talvez com mais razão do que dizia
+Binet da antiga pedagogia, se pudesse dizer: «deve ser completamente
+suprimida», no ensino das escolas normais, acrescento eu.
+
+Eu sei com que razão se tem apresentado contra o ensino da pedologia, ou
+estudo da criança, aos professores de instrução primária, o argumento de
+que êle tem levado êstes a distrair-se das suas funções docentes, para
+se dedicarem a estudos e experiências que não só prejudicam, porque
+afastam o professor da sua principal missão: instruir e educar, como
+tambêm porque o levam a fornecer dados que por insuficiência ou carência
+de preparação scientífica, que só em cursos superiores e especiais se
+pode adquirir, são em regra dados perdidos, cheios de erros, falseados,
+quási inúteis para a sciência.
+
+Mas o que eu pretendo fazer não é preparar psicólogos, antropologistas,
+filósofos; nem eu, nem ninguem deveria pretender fazê-los numa escola
+normal primária, principalmente com as habilitações que os senhores
+podem e devem ter. O que eu pretendo fazer é ensinar os principais
+elementos de pedologia, que a sua preparação literária consente e que os
+professores devem conhecer para melhor ensinar.
+
+Procurarei, em suma, ensinar _rudimentos de pedologia e as suas
+aplicações ao ensino na escola primária_.
+
+Seria estulto que eu, médico antropologista, embora director de um
+instituto de educação, eu que não fiz estudos regulares de metodologia
+do ensino primário, nem nunca professei êsse ensino, viesse ensinar-lhes
+todo o programa actual da pedagogia, sciência e arte de ensinar, como
+seria igualmente estulto e injustificado que se exigisse a um professor
+de instrução primária, que não tivesse feito estudos especiais de
+antropologia, e não tivesse suficientes conhecimentos de
+técnica-pedométrica, que ensinasse a pedologia, sciência que é
+conveniente e, mais do que conveniente, indispensável ensinar ao futuro
+professor.
+
+Não é preciso exagerar como Chaillou e Mac-Auliffe, quando na sua
+_Morfologia médica_, dizem: «A educação é e continua a ser puramente
+pedagógica. _Escapa ao único homem que deve dirigi-la, ao médico._» Não.
+Mas é preciso dizer-se, porque é fácil provar que o é, que é necessário
+que parte da preparação do professor primário seja feita por médico
+especializado nas aplicações das sciências médicas à pedagogia, e que o
+professor seja um auxiliar do médico.
+
+Os exercícios que habitualmente passarei, serão exercícios de educação
+scientífica e neles terei em vista não só ensinar como se estuda e
+desenvolve as faculdades da criança, mas tambem o ensinar a estudar e a
+desenvolver as faculdades dos que a têm de educar.
+
+A S. Ex.^a o actual Ministro de Instrução Pública caberá a honra de ter
+introduzido no quadro dos estudos do curso normal, o ensino regular da
+pedologia.
+
+Por minha parte, procurarei corresponder aos desejos de S. Ex.^a o
+Ministro, repartindo com todos os meus alunos o que da matéria souber e
+com êles estudando o que fôr preciso estudar, pondo ao seu dispôr os
+meus hábitos, os meus recursos e o meu método de trabalho.
+
+Que a dedicação e a lialdade com que sempre uso servir nos lugares para
+que me nomeiam, possam compensar outras minhas faltas, que eu possa
+provar ao digno director e ao ilustre corpo docente dêste
+estabelecimento de instrução, a que agora muito me honro de pertencer,
+quanto desejo contribuir para o bom nome e reputação desta Escola, e
+finalmente que eu possa ter o maior e melhor pago que desejo ter: o
+poder ouvir dizer aos meus alunos que na vida prática de bastante lhes
+serviu o que procurei ensinar-lhes, os conhecimentos que lhes transmiti,
+os hábitos que lhes criei e as prelecções que lhes fiz.
+
+
+
+
+A ARTE DE EDUCAR E A PSICOLOGIA EXPERIMENTAL[2]
+
+
+ «To educate is to bring out all the powers that are in the child
+ and to traim him to use them to the best advantage of himself and
+ indirectly of the nation of which he is a part».
+
+ (Miss C. Aguther, _Child Study_, June, 1917).
+
+
+ Minhas Senhoras e meus Senhores:
+
+
+A arte de educar é fundamentalmente a arte de regular a conduta presente
+e futura dos que se têm de educar. Implica forçosamente o conhecimento
+da conduta, das causas dela, do seu mecanismo e das possibilidades que o
+indivíduo oferece. A arte de educar assenta como a arte de curar, na
+anatomia e na fisiologia e assim como o médico, médico que tenha de
+exercer a profissão, tem não só de conhecer as doenças e os remédios,
+mas tambêm conhecer os doentes e encontrar as indicações, assim tambêm o
+educador, que tenha de educar, tem não só de conhecer os fins da
+educação e os meios da educação, a pedagogia e a metodologia, mas tambêm
+de saber conhecer o educando e encontrar a fórma de educação que mais
+lhe convenha e se adapte ao seu feitio. E assim como para o estudo do
+doente não basta conhecer os sintomas das doenças, porque é necessário
+sabê-los observar, assim tambêm não basta ao educador conhecer os
+fenómenos da educação, a psicologia, mesmo que esta tenha a feição
+moderna e scientífica, e se chame psico-fisiologia ou psicologia
+experimental, é necessário tambêm principalmente possuir a técnica da
+observação e da experimentação. Saber psicologia pode não ser saber
+fazer psicologia, como saber quais os sintomas das doenças pode não ser
+saber observá-los e fazer diagnóstico.
+
+Ensinar num curso prático de psicologia experimental, que é como
+oficialmente se chama o curso que tive a honra de ser chamado a reger,
+ensinar nesse curso numa Escola Normal, é fundamentalmente ensinar o que
+fôr preciso para habilitar os futuros professores a conhecer e praticar
+os meios scientíficos de estudar práticamente os fenómenos mentais, isto
+é, possuir as regras e os meios de condicionar êsses fenómenos, por
+fórma a que outros os possam observar nas mesmas condições, e
+verificá-los.
+
+Educar não é hoje, como noutros tempos se supunha, criar, é
+essencialmente orientar. Não é lutar contra a natureza. O educador dos
+homens como o educador dos animais, tem que aproveitar as boas
+tendências, os talentos, para os enriquecer e desenvolver, como dos
+instintos diz o educador e moralista Foerster, falando do ensino dos
+animais. E quanto às más tendências, tem que saber inibi-las, ou
+sublimá-las. Talvez que nesta altura, para lhes dar uma exacta idea
+acêrca do valor e possibilidades do ensino e quebrar-lhes preconceitos
+que a todos os professores desta Escola pertence o combater, e isto, por
+minha parte, na intenção de aproveitar o pretexto de demonstrar que a
+arte de educar hoje assenta e quási se confunde com a arte de estudar os
+fenómenos psíquicos, com a psico-técnica, talvez que, para isso, não
+lhes pudesse de momento aconselhar melhor leitura, como leitura prévia,
+do que a do livrinho _Criminalidade e Educação_, do Sr. Padre António de
+Oliveira que não é só, como todos sabem, uma admirável figura de
+filântropo, mas, mais do que isso, uma figura notável de educador, com
+vocação e larga e valiosíssima experiência.
+
+É preciso que a arte de educar seja como a arte de curar.
+
+É necessário ouvir tambêm o prático, ouvir o que educa, ouvir o que
+cura, sobretudo quando sucede como deve ser, que a arte que praticam
+seja arte esclarecida pela sciência, e não simples empirismo.
+
+Educar é condicionar intencionalmente as reacções do indivíduo. Educar,
+portanto, implica, primeiro do que tudo, o saber estudar as causas e
+mecanismo das reacções individuais. E o estudo dessas reacções feito
+experimentalmente tem o maior interêsse e importância para o educador.
+Muitas dessas reacções são de ordem interna e só o próprio indivíduo as
+pode observar directamente, mas essas mesmas são acompanhadas doutras
+reacções, acessíveis ao estudo directo dos outros e portanto podem ser
+estudadas objectivamente, sem intervenção do exame dos próprios em que
+elas se dão. O educador, em resumo, tem de estudar o mecanismo das
+reacções individuais e a maneira scientífica de as condicionar.
+
+De acôrdo com estas ideas, já a dentro da velha Escola Normal, onde tive
+a honra de reger durante alguns anos o _Curso de Pedologia_, o meu
+distinto colega naquela e nesta Escola Sr. Professor Dr. Alberto
+Pimentel, cujo livrinho de lições lhes aconselho, procurou orientar o
+ensino teórico da Psicologia. Eu, por minha parte, completarei êsse
+trabalho ensinando-lhes a técnica dos estudos psicológicos, segundo essa
+orientação.
+
+Disse eu que a psicologia experimental se prende tanto com a arte de
+educar, que por vezes até quási se confunde com ela. Não é quási se
+confunde, confunde-se até. Em psicologia animal, ramo da psicologia
+quási desconhecido entre nós, a psicologia experimental funda-se na
+_educabilidade_, é o proprio exame da educabilidade, é a propria arte da
+educação exercida com o fim de estudar os fenómenos e os recursos
+mentais do animal.
+
+Vejam por exemplo, para fácilmente e sob uma fórma agradável apreenderem
+melhor o assunto, o excelente livrinho de Hache-Souplet, director do
+Instituto de Psicologia Zoológica, intitulado _De l'animal à l'enfant_
+(Bibl. de ph. contemporaine) e que se pode considerar um pequeno manual
+adoptável na preparação dos professores de ensino infantil.
+
+Não se surpreendam com êste atrevido conselho de lhes indicar um livro
+de psicologia zoológica, como meio de preparação pedagógica. Há grandes
+afinidades entre a psicologia dos animais superiores e a das crianças e
+sobretudo é a estas duas psicologias, a zoológica e a infantil, que é,
+quando não indispensável, pelo menos mais necessária a prática dos
+métodos da psicologia objectiva. Num dos melhores e mais modernos livros
+de _psicologia pedagógica_, o de Thorndike, notável professor de
+psicologia pedagógica numa escola de mestres, têm um livro cheio de
+estudos interessantes de psicologia zoológica sôbre a inteligência dos
+animais, estudada pelos meios da psicologia experimental; e o afamado e
+emérito psicólogo suisso, cujo nome já vai sendo banal citar entre nós,
+o Professor Claparède disse, ao publicar o programa do Instituto de
+Sciências da Educação de Genebra: «Para ser completa uma escola de
+sciências da educação deveria possuir um serviço anexo..., quero dizer,
+um laboratório de psicologia animal...»
+
+Adestrar um animal, regular-lhe a conduta, é aprender muitas vezes a
+ensinar uma criança. Algumas vezes, por isso, recorrerei, se as
+circunstâncias o permitirem, a alguns exercícios de psicologia animal,
+para lhes esclarecer uma ou outra questão psicotécnica pedagógica.
+
+O exame objectivo das reacções será o escopo principal do meu curso.
+Curso prático de psicologia objectiva podia bem ser o título a dar-lhe.
+Psicologia objectiva não quere porêm dizer, que seja exclusivamente um
+curso de psico-fisiologia, como muitos podem supor. A psico-fisiologia é
+apenas uma parte da psicologia objectiva, aquela em que se estudam as
+variações fisiológicas, própriamente ditas, que acompanham ou
+condicionam os fenómenos mentais. As reacções exteriorizam-se tambêm por
+outras fórmas, que não podem sómente ser estudadas pelos métodos da
+fisiologia. O estudo das reacções provocadas por certos reagentes
+mentais é um verdadeiro estudo pedagógico. Outra cousa não é a maior
+parte das vezes o estudo dos chamados _tests_, como é por exemplo o dos
+_tests_ para a medida da inteligência, de que por certo já têm ouvido
+falar e talvez tenham já visto descritos.
+
+A psicologia experimental será talvez ainda preferível à psicologia
+objectiva, porque a psicologia experimental atinge tambêm o estudo
+introspectivo dos fenómenos mentais, o seu estudo directo, e êste
+há-de-nos ser preciso quando se tratar do estudo da psicologia do
+professor, da psicologia de quem ensina, porque o ensino não depende só
+da psicologia do educando, mas tambêm da do educador, e bom é que êste
+aprenda a saber examinar-se, a estudar as reacções que o aluno e a
+escola nele determinam para examinar a sua aptidão, e a corrigir vícios
+de reacção, que são por vezes causa de graves perturbações escolares.
+Não é só o aluno anormal que perturba a classe, é o professor anormal, é
+o que não se adapta à profissão, é o que não a sabe praticar, por falta
+de cultura ou por falta de intuìção.
+
+No aluno professor poder-se há com vantagem praticar a psicologia
+experimental subjectiva. A psicologia experimental não é apenas a
+psicologia objectiva, repito. E a propósito lembrarei as palavras do
+fisiologista francês Prof. Ch. Richet: «A observação interior constitui
+uma psicologia de observação tam fecunda, tam legítima, como a
+psicologia a mais experimental que se possa imaginar. Os factos assim
+adquiridos pelo estudo do _eu_ têm tanto valor como os fenómenos
+fisiológicos registados nos laboratórios pelos métodos mais
+aperfeiçoados da técnica contemporânea.»
+
+Apesar de tudo, porém, o nosso curso será principalmente um curso de
+técnica objectiva, porque êle visa, primeiro do que tudo, o estudo
+psicológico do educando e porque é minha tenção, mesmo quando se trate
+da prática da psicologia subjectiva, recorrer a ela apenas como um
+auxiliar da psicologia objectiva. A propósito recordo os dizeres do
+grande Binet: «Em nossa opinião, diz êle, não é preciso procurar limitar
+e simplificar as respostas do indivíduo em experiência, é preciso, pelo
+contrário, deixar-lhe a plena liberdade de exprimir o que sente, e mesmo
+convidá-lo a expressamente se observar de perto durante o decurso da
+experiência; esta maneira de proceder tem a vantagem de não restringir a
+investigação ao círculo da idea preconcebida: podem-se constatar muitas
+vezes factos novos e não previstos, que muitas vezes tambêm permitem
+compreender o mecanismo dum certo estado de consciência.»
+
+Com felicidade, pois, se chamou «Curso prático de psicologia
+experimental» ao curso de técnica psicológica desta Escola, criado pelo
+Sr. Ministro de Instrução, Prof. Dr. Alfredo de Magalhães, cujo nome
+deve merecer sempre a todos nós, desta Escola Normal, uma grata
+homenagem, pela atenção que lhe merecemos e pelo entusiasmo, apaixonado
+entusiasmo e energia, com que procurou instalar e proteger a nova
+Escola. O curso prático, e acentuo a palavra prático, de psicologia
+experimental será uma maneira de logo, desde o início da freqùência da
+Escola Normal, habituar o futuro professor, a sentir-se professor, a
+despertar-lhe e trenar-lhe a aptidão, a pô-lo em contacto real, directo,
+concreto com a massa que tem de trabalhar, com a sublime argila que tem
+de moldar: a alma tal qual ela é.
+
+Trabalhar a alma da criança com alma e com arte, com arte e com acêrto,
+com acêrto e com sciência, tal é o nosso escopo.
+
+A psicologia que havemos de praticar, será, mais uma vez o digo, de
+carácter principalmente objectivo, não só pela dificuldade, se não
+impossibilidade, do exame subjectivo no meio e com os indivíduos que
+temos de trabalhar, não só porque o exame objectivo constitúi uma fórma
+excelente de fazer a educação scientífica do aluno professor, de dar-lhe
+hábitos de observação e experiência extrospectivos ou melhor exteriores,
+essenciais à arte de educar, mas tambêm porque em psicologia, pode-se
+dizer, que o que mais importa ao educador são os actos psíquicos, os
+fenómenos mentais de que introspectivamente se tem menos conhecimento.
+
+Em psicologia pedagógica o sub-consciente vale mais que o consciente. E
+mesmo quando ao educador compete regular o comportamento do adulto,
+quando ao educador compete fazer reeducação, compete-lhe principalmente
+examinar o sub-consciente, porque é nele que se guarda a fôrça que a
+experiência anterior gerou e que regula e influi, por vezes, mais do que
+nenhuma, no comportamento do indivíduo.
+
+A conduta é principalmente governada pelo sub-consciente e neste tem
+tanta influência a infância, o que ela foi em cada um, que quando a
+fadiga ou a doença perturba o exame introspectivo e a fiscalização,
+censura e govêrno, que por meio dele podemos exercer nos nossos actos, é
+a mentalidade infantil que aparece, se exterioriza e nos revela, tal
+como fomos e no íntimo somos.
+
+Uma escola de psicologia há até, que hoje já invadiu a filosofia, a
+medicina e a pedagogia, que assenta tôda no estudo do sub-consciente e
+particularmente na pesquisa das impressões que nele gravou a vida
+sexual. Refiro-me à _psico-análise_, de Freud e seus sequazes, que,
+apesar dos ataques violentos que tem sofrido, mormente depois da
+declaração da última guerra (mais talvez por xenofobia do que por outra
+cousa), contém muito de verdade. Tirado o que há de místico, de
+escabroso e de exagerado no seu pansexualismo, a psico-análise pode e
+deve ser conhecida pelo educador. E, para terminar com estas referências
+à questão da importância do consciente e do sub-consciente em educação,
+lembrarei a já banalizada definição de Gustavo Le Bon: _A educação é a
+arte de fazer passar do consciente para o inconsciente_. A reeducação,
+essa é muitas vezes o trabalho oposto, digo eu, o de trazer do
+inconsciente ao consciente, para transformar e depois voltar a tornar
+inconsciente.
+
+A educação, na idea de Bacon, é o conjunto dos hábitos adquiridos na
+infância. A reeducação é muitas vezes a correcção dêsses hábitos; mas
+tanto em educação como em reeducação há que aproveitar a Natureza,
+porque ela, ainda segundo Bacon, não se governa, senão deixando-a
+governar, conhecendo-a, aproveitando-a, seguindo-a.
+
+
+ Meus Alunos:
+
+
+A arte de educar, como logo no princípio eu disse, é a arte de regular a
+conduta presente e futura do educando, e a psicologia experimental, de
+escôpo pedagógico, é a psicologia que pela experiência ensina a conhecer
+as causas, o mecanismo da conduta do indivíduo ou da classe a educar.
+
+Psicologia experimental é quási pedagogia experimental. E não imaginem
+que esta pedagogia experimental é menos do que a outra, porque não tem
+em conta os ideais, a parte política, religiosa, social, a finalidade da
+educação. Não.
+
+O Ideal quando não é factor da acção, é produto da acção, ou as duas
+cousas ao mesmo tempo, factor e produto da experiência pessoal, e o que
+nós vamos aprender é a arte de estudar práticamente, experimentalmente,
+os factores e o mecanismo da acção, ou melhor das reacções do indivíduo
+sujeito à influência dos meios, isto é, ainda a parte prática,
+experimental, utilitária, debaixo do ponto de vista educativo, que
+talvez melhor do que psicologia, se poderia chamar, à maneira de
+Bechterew, a _reflexologia pedagógica_, e nela bem podemos estudar o
+valor, a acção e a formação dos ideais.
+
+Com isto declaro aberto o «Curso prático de psicologia experimental»,
+que neste semestre será essencialmente um curso de propedêutica,
+destinado ao estudo das noções preliminares e fundamentais de anatomia,
+fisiologia e psicologia, que mais importam à _psico-técnica_...
+
+Disse.
+
+
+15-III-919.
+
+
+
+
+O PÊSO DO CORPO DA CRIANÇA[3]
+
+
+
+ Meus Alunos
+ Senhoras e Senhores
+
+
+Quiz um pouco o acaso que o _pêso do corpo da criança_ fôsse o tema da
+minha última lição. O fim do ano, como sabeis, veio-nos surpreender num
+ponto ainda atrasado do programa a que me obrigára: o estudo dos métodos
+da pedologia somática, particularmente da pedometria e com ela o dos
+principais caractéres métricos da criança. O pêso do corpo da criança
+terá que ser o tema da lição de encerramento do meu curso dêste ano. E,
+embora pareça o contrário, talvez não pudesse encontrar melhor tema para
+encerrar o concurso.
+
+A lição de abertura que vos li foi, como devia ser, uma lição-programa e
+uma lição-promessa. Na lição de encerramento que vou ler-vos tambêm,
+procurarei fazer com que ela seja o que deve ser uma lição de
+encerramento: uma lição em que até certo ponto se recapitulem as noções
+principais expostas durante o curso, uma lição-conclusão, e uma lição em
+que se procure provar a realização de algumas das promessas que se
+haviam feito na lição inicial.
+
+A criança é fundamentalmente um ser humano em via de crescimento; é um
+homem ou uma mulher em via de formação. A sua principal função é
+crescer, procurando atingir a grandeza que a hereditariedade lhe
+destinou e alcançar o equilíbrio morfológico e fisiológico do adulto,
+que constitui a perfeição do ser. Respeitar o crescimento, a lei natural
+do crescimento, é o principal dever do educador, e tôda a educação se
+tem de subordinar a esta questão de medida: _não perturbar a lei natural
+do crescimento_.
+
+O pêso não cresce como deve ser? Diminui, pára, aumenta de mais ou de
+menos? Um problema se põe. O regimen de vida ou de educação
+provavelmente não é o que convêm. Modifique-se e observe-se, por exemplo
+por meio da balança, a influência das modificações. A balança guia a
+higiene, e na higiene assenta a educação. Por isso, com razão dizia eu
+no Congresso da Liga Nacional contra a Tuberculose, em 1907, e o repetia
+no Congresso Pedagógico do ano passado: «O problema escolar é
+essencialmente um problema métrico.»
+
+Mas mesmo que a medida do pêso e sobretudo a da sua evolução não
+servisse, como serve, para julgar da saúde e do estado da nutrição da
+criança e por êle aferir o valor do meio em que a criança vive e dos
+meios educativos de que se serve quem dela cuida, mesmo que o estudo das
+variações do pêso não tivesse grande significação para os educadores,
+ainda assim, como muitas vezes vos tenho dito, valeria a pena ensinar o
+professor a pesar a criança. Mais do que uma vez, na realidade, vos
+tenho afirmado que uma das vantagens do ensino da pedologia aos futuros
+professores está em ela servir excelentemente para fazer a sua educação
+scientífica, para os ensinar a observar, a descrever, a medir, a
+experimentar, a analisar e a criticar, para aperfeiçoar o _bom senso_,
+que é a mesma cousa que o espírito scientífico, que permite sentir e
+descobrir a realidade e medir a possibilidade. O _bom senso_ é a
+principal qualidade de carácter de qualquer e principalmente do
+professor.
+
+Aprender a pesar é aprender a julgar, e com razão, por isso, um médico
+francês, o Dr. Baudrand, numa tese extensa e notável sôbre o
+crescimento, diz: «Um médico que regista o pêso assemelha-se ao
+magistrado que aprecia o valor de um prejuízo e calcula o valor da
+indemnização.»
+
+A pesagem tem ainda sôbre outras muitas medidas pedométricas a vantagem
+de ser a mais fácil de tôdas; nem exige instrumentos especiais, nem
+técnica muito diferente da das pesagens mais comuns e, porque está
+sujeita a menos erros, permite ao professor ou ao médico não ser tão
+fácilmente logrado, como sucede com muitas outras medidas pedométricas,
+que praticadas mesmo às vezes por quem tenha cultura especial levam a
+conclusões falsas, a listas de números que outra cousa não são mais do
+que números, vistosos na aparência, mas vazios na significação.
+
+_Meçam sim, mas meçam só aquilo que fôr fácil de medir, menos sujeito a
+erros e que sirva para julgar da saúde do educando, e das influências
+que sôbre êle tem o regimen de vida e os métodos de ensino._
+
+Mais uma vez insisto, chamando-lhes a atenção para a obrigação que
+têm--quando medirem e quizerem apresentar os resultados de suas
+medições--de exporem minuciosamente o _modus faciendi_ que adoptaram e
+se darem ao trabalho de, pelo menos nas primeiras medidas, repeti-las
+algumas vezes, no mesmo sujeito e na mesma sessão, para verificar a
+técnica. O observador não tem só que conquistar a confiança dos outros,
+precisa tambêm de conquistar a sua própria.
+
+O pêso do corpo do escolar, não obstante haver balanças especiais, pode
+tomar-se com uma balança décimal ordinária, aferida, e convêm que
+quando, por qualquer razão, se não possa despir completamente a criança,
+ela tenha sôbre si o menor número possível de peças de vestuário: um
+leve calção nos rapazes, uma simples saia ou uma saia e um corpete nas
+raparigas. A pesagem deve fazer-se no mesmo indivíduo, sempre à mesma
+hora, de preferência de manhã, e nas condições o mais idênticas que fôr
+possível. Convêm tambêm repetir a pesagem em cada ano, com intervalo de
+semestre, por exemplo.
+
+Podem parecer exageradas as precauções que acabo de aconselhar, mas não
+o são por que é bom saber-se que as variações do pêso não são sempre
+sinal de crescimento, e porque tambêm está provado que o pêso da criança
+como o do adulto oscila durante o dia, e de época para época do ano.
+
+_Há oscilações regulares diárias do pêso_. De manhã, ao levantar da
+cama, todos pesam menos do que à noite. Esta diferença de pêso chega a
+ser, numa criança de dez anos, de setecentos gramas, e num adulto pode
+chegar a um quilo (Camerer), quilo e meio (Ammon). Parece resultar êste
+facto de que durante o dia, as perdas que se sofrem por saída de
+substâncias do organismo são compensadas pela entrada de substâncias
+reparadoras, enquanto que durante a noite as perdas não são compensadas.
+Nos adultos a diminuição do pêso durante a noite é em média igual à
+elevação do pêso durante o dia, mas nas crianças a diminuição do pêso
+durante a noite é menor do que a elevação durante o dia, o que
+corresponde ao crescimento.
+
+Pode algumas vezes observar-se uma diferença de gramas a mais,
+simplesmente porque o intestino ainda não se esvaziou.
+
+As estações influem tambêm e produzem oscilações no pêso. Está provado
+que êste aumenta mais de agosto a dezembro do que de abril a junho. O
+aumento máximo verifica-se no primeiro período apresentado e o mínimo no
+segundo. De dezembro a abril o valor do aumento é intermédio. Estas
+oscilações podem depender ou resultar de desarranjos que o organismo
+experimenta com as mudanças de estação e tambêm com mudança de hábitos
+que podem levar a aumentar ou a diminuir as perdas. A sudação e os
+jogos, por exemplo, tudo que modifica a função dos emuntórios ou a
+desassimilação, tudo pode influir. Aos factores metereológicos devem
+juntar-se os da _metereologia do ensino_, os exames por exemplo, que
+desarranjam e consomem. O conhecimento dêstes factos levou-me a
+determinar, de acordo com o distinto médico-inspector da Casa Pia e seu
+professor, Dr. Jorge Cid, que a medida e observação periódica de todos
+os alunos fôsse feita duas vezes ao ano, nos primeiros meses do ano
+lectivo, a começar em outubro, e naqueles que imediatamente precedem as
+férias grandes, nos três últimos.
+
+Ás vezes, com a melhoria da alimentação, com a mudança de ares, com a
+liberdade, a criança aumenta extraordináriamente de pêso, como por ex.
+observei na _colónia de férias_, instalada na Figueira da Foz, por
+iniciativa e sob a protecção do meu mestre Dr. Bernardino
+Machado,--colónia em que vi crianças aumentarem _cinco vezes mais_ do
+que em igual período aumentaram alunos da mesma idade, dum colégio
+excelente, como é o Colégio Militar (vidè medidas do Dr. Mascarenhas de
+Melo, apresentadas no Congresso Internacional de Medicina de 1906, e o
+meu artigo, _Uma_ _colónia de férias_, publicado no _Boletim da
+Assistência Nacional aos Tuberculosos_, em 1908).
+
+Êste facto, que tem sido observado por vários, dos grandes aumentos de
+pêso que, às vezes mesmo ao fim de quinze dias, se notam nas _colónias
+de férias_ das crianças pobres das cidades, dessas que eu chamei em
+tempos pobres _exilados da Natureza_, mostra bem a importância destas
+instituições peri-escolares: as _colónias_, para que me não canso de vos
+chamar a atenção, instigando-vos a promover sempre que vos fôr possível
+a sua organização, mas sempre com o auxílio do médico, a quem cabe a
+selecção dos casos e a indicação daqueles a quem convêm a praia e
+daqueloutros a quem o campo mais convêm.
+
+Na apreciação do pêso do aluno deve ter-se em vista mais a fórma porque
+êle cresce do que a diferença do seu pêso para a média dos da sua idade.
+Muito seria para desejar que à semelhança do que se faz, por ex. em
+Bruxelas, o professor dispuzesse de uns cartões quadriculados onde
+apontasse o pêso do corpo de seu aluno em cada ano e fôsse traçando a
+curva da sua variação ao lado da curva média normal, que convinha se
+tratasse de obter com dados colhidos entre nós. Muito convinha, direi de
+passagem, que se generalizasse o uso da _Caderneta da mocidade, da
+Instrução militar preparatória_, tal como está, ou melhor,
+_simplificada_.
+
+Nem a todos é destinado o mesmo tamanho: há crianças leves e crianças
+pesadas, como há indivíduos altos e indivíduos baixos, indivíduos loiros
+e indivíduos morenos. A inferioridade do pêso, por isso, nem sempre
+significa que a criança sofre. Mas acresce a isto o não termos ainda,
+nós portugueses, médias nossas, pelas quais nos possâmos seguramente
+guiar. A raça influi no pêso, e a composição étnica de cada povo deve
+influir na média do pêso absoluto da sua população, em cada idade. Para
+as raparigas portuguesas não conheço tabela alguma; para os rapazes
+costumo guiar-me, enquanto não organizo uma tabela com os pêsos
+observados nos rapazes da Casa Pia, costumo guiar-me, dizia, pelas
+observações do Dr. Mascarenhas de Melo, publicadas nos _Anuários do
+Colégio Militar_ e de que aquele meu distinto colega fez um apanhado na
+sua comunicação ao Congresso Internacional de Medicina, realizado em
+Lisboa em 1906, comunicação intitulada: _Sur l'Antropométrie médicale_.
+As tabelas do Dr. Mascarenhas de Melo servem, porêm, apenas para o
+estudo do pêso dos dez aos dezanove anos. Sôbre estas observações e
+sôbre pedometria escolar podem vêr um pequeno relatório que com o
+título--_Antropometria escolar_--escrevi para o Congresso da Liga contra
+a Tuberculose de 1907 e que com poucas modificações foi reimpresso o ano
+passado, por ocasião do Congresso Pedagógico de Lisboa[4].
+
+A título de curiosidade porei em face umas das outras algumas médias das
+tabelas do Dr. Mascarenhas de Melo (observações portuguesas) e algumas
+extraídas dum trabalho de Camerer, de Stuttgart:
+
+
++---------+-------------+-------------+-------------+
+| | Rapazes | | |
+| Idades | (Masc.^{as} | Rapazes | Raparigas |
+| | de Melo) | (Camerer) | (Camerer) |
++---------+-------------+-------------+-------------+
+| 10 anos | 29 kg. | 30 kg. | 27 kg. |
+| 11 » | 30,5 » | 32,5 » | 29 » |
+| 12 » | 33 » | 35 » | 32 » |
+| 13 » | 36,5 » | 37,5 » | 37 » |
+| 14 » | 42 » | 41 » | 43 » |
+| 15 » | 47 » | 45 » | 48 » |
++---------+-------------+-------------+-------------+
+
+
+Uma alemã parece pesar, a partir dos catorze anos, mais do que uma
+portuguesa da mesma idade.
+
+Estas médias são às vezes assombrosamente excedidas, nos casos de
+obesidade. Neste momento estou tratando na minha clínica particular de
+um rapaz de quinze anos, um obeso com gigantismo, obeso
+hipófiso-genital, que pesa bastante mais de cem quilos!
+
+O primeiro ano da vida é aquele em que o pêso aumenta mais. Em média,
+segundo Camerer, por ex. ao nascer, um rapaz pesa três quilos e
+quatrocentos gramas e uma rapariga três quilos e duzentos gramas. Na
+Maternidade de Lisboa, no tempo do Prof. Alfredo da Costa (1899-1904), a
+média do pêso dos rapazes foi de 3^{kg},236 e a do das raparigas
+3^{kg},103.
+
+Nos dois primeiros dias a criança perde uns duzentos gramas, mas ao
+oitavo ou ao nono recupera o pêso da nascença. O aumento diário das
+crianças criadas ao peito, ainda por ex. segundo Camerer, anda por uns
+30 gr. até à quarta semana, de 26-28 da quinta à décima segunda, de
+20-24 da décima terceira à vigésima, de 16-18 da vigésima primeira à
+trigésima sexta, e de 10-15 da trigésima sétima à quinquagésima segunda.
+
+_No quinto mês da vida, em regra, a criança dobra de pêso, e ao fim do
+primeiro ano costuma tê-lo triplicado._ Pode dizer-se que nos cinco
+primeiros meses o aumento é de cêrca de setecentos gramas por mês; nos
+cinco meses seguintes é metade menor. Daqui a regra indicada por Terrien
+para calcular o pêso de uma criança de peito durante o primeiro ano:
+para os cinco primeiros meses, multiplicar 700 pelo número de meses que
+a criança tem e juntar ao produto o pêso que ela tinha à nascença; para
+os cinco meses seguintes, multiplicar 350 pelo número de meses que ela
+tem _alêm do 5.^o_, e juntar-lhe o pêso do quinto mês, isto é, o dôbro
+do pêso à nascença.
+
+«No segundo ano de vida o aumento de pêso é notavelmente menor que no
+primeiro e chega tam só, tanto nos rapazes como nas raparigas, a cêrca
+de dois quilos e meio; dos três aos cinco anos o crescimento diminui um
+pouco mais, não passando de um a dois quilos por ano. Finalmente, ao fim
+do quinto ano os rapazes vêem a ter 18 quilos e as raparigas 17. A
+partir desta idade, até aos catorze anos, os _rapazes_ aumentam de 2 a 3
+quilos; segue-se depois dos _quinze aos dezóito_ um período de maior
+crescimento, com aumento anual que pode chegar a oito quilos. Nas
+_raparigas_ o acréscimo anual pode manter-se até aos doze anos à volta
+de dois quilos, e dos _13 aos 16_ o aumento anda por uns 4 a 5 quilos. A
+partir dos _16 nas raparigas_ e dos _19 nos rapazes_, o acréscimo pode
+cessar. Em regra, porêm, poucos são os indivíduos nos quais permanece
+estacionário o pêso adquirido aos 16 ou aos 19.» (Camerer).
+
+Duma longa série de observações feitas em crianças portuguesas de
+escolas primárias oficiais do Alentejo e de escolas primárias não
+oficiais de Lisboa, série infelizmente pouco homogénea e insuficiente
+para algumas idades, dessa longa série de observações feitas pelo Dr.
+Moraes Manchego e pelo Sr. Major Desidério Beça, tirou o Dr. Manchego os
+elementos com que construiu uma curva de crescimento do pêso em
+portugueses de 6 a 19 anos de idade, curva que conjuntamente com algumas
+tabelas interessantes, foi apresentada num trabalho daquele distinto
+médico:--_Contribuição ao estudo do crescimento da criança portuguesa_
+(Trabalhos do 3.^o Congresso Pedagógico, realizado em abril de 1912, por
+iniciativa da Liga Nacional de Instrução[5]. Por ser interessante e
+dizer respeito a observações portuguesas, transcrevo dêsse trabalho,
+digno de apreço, as seguintes linhas:--«Na curva portuguesa há
+primeiramente um pequeno acréscimo com o máximo nos 8 anos, que joga
+perfeitamente com o acidente similar já apontado no mesmo trôço da curva
+homóloga da estatura, depois vem um crescimento quási insensível até aos
+12 anos; a seguir apresenta-se uma depressão, e aos 13 anos começa o
+crescimento muito intensivo com o máximo absoluto aos 16 (êste acréscimo
+é de 6^{k},8); depois desta idade a curva desce muito de ano para ano,
+sendo o acréscimo para os 19 anos apenas de 1^{k},5. O aumento de pêso
+dos 6 aos 19 anos é de 36^{k},8, isto é, o pêso que aos 14 anos já
+duplicou é aos 19 superior ao triplo do que corresponde aos 6 anos.»
+
+O que convêm, porêm, principalmente fixar é que durante o crescimento se
+observam dois períodos de crescimento máximo: o primeiro período
+corresponde ao primeiro ano da vida, e o segundo nas _raparigas_ ao que
+vai dos _doze aos dezasseis anos_ e nos _rapazes_ dos _quinze aos
+dezóito_. O primeiro dêstes períodos é, como diz Camerer, uma
+continuação da excessiva energia fetal do crescimento (lembremo-nos,
+como faz notar Variot, que em nove meses se passa de um óvulo de duas
+décimas de milímetro a um féto que mede meio metro e pesa cêrca de três
+quilos!)
+
+O segundo período de crescimento máximo corresponde, tanto nos rapazes
+como nas raparigas, à puberdade.
+
+As condições de vida das mães influem no pêso dos filhos. Sem ir buscar
+exemplos lá de fóra, basta dizer-lhes, para documentar a afirmação, que
+o falecido e ilustre professor da Escola Médica de Lisboa, Alfredo da
+Costa, encontrou notáveis diferenças entre os pesos à nascença dos
+filhos de mulheres que passaram os últimos tempos da gravidez em repouso
+e tranquilidade moral e os daquelas que pelo contrário até ao último
+momento trabalharam e viveram na miséria. As crianças destas últimas
+pesavam sempre menos.
+
+Niceforo, no seu afamado volume--_Les Classes Pauvres_,--publica um
+quadro comparativo do pêso médio de umas séries de rapazes e raparigas,
+por onde se vê que o pêso médio é mais baixo nas crianças pobres do que
+nas ricas, da mesma idade.
+
+Ley e outros verificaram que em regra as crianças atardadas são
+inferiores em pêso aos normais que em idade lhes correspondem. E Sluys,
+o antigo e illustre director da Escola Normal de Bruxelas, num
+interessante opúsculo que muito vos recomendo--_Loi de
+Croissance_,--chama a atenção para o emmagrecimento dos sobreexcitados e
+sobrecarregados pelos trabalhos de preparação dos exames[6]. E já que
+acidentalmente vos recomendei a leitura dêste livro sôbre as variações
+do pêso do corpo da criança, não quero deixar de vos aconselhar tambêm a
+leitura do que escreveu e das tabelas que sôbre o pêso publicou nas suas
+_Lições de Pedologia_ o nosso distinto conterrâneo Dr. Faria e
+Vasconcelos, professor em Bruxelas, de quem por várias vezes tenho tido
+o prazer de vos falar.
+
+Afinal a balança, como fiz vêr, pesa, mede a marcha da nutrição e
+permite apreciar as condições de vida e os regimens de trabalho.
+Perturbar o crescimento é perturbar a vida, é afrouxar os meios de
+defesa, é predispor para a doença, é inferiorisar o indivíduo.
+
+Foi minha tenção ler-vos esta lição de encerramento do curso, no
+_Lactário de Lisboa_, instituição que eu muito desejava que visitasseis
+em minha companhia.
+
+De facto, em nenhum sítio melhor eu poderia mostrar o valor da medida do
+pêso nas crianças. Nos lactários, nessas benemeritas instituições
+destinadas a distribuir leite para alimentação artificial das crianças,
+cujas mães, por doença, e as mais das vezes apenas por imposição do
+trabalho, não podem amamentar, a balança não é apenas um meio de estudar
+o crescimento, é um meio de salvar a vida. A aleitação artificial
+desregrada é uma espécie de infanticídio que vitíma muitas crianças.
+Graças à balança, o médico pode dirigir a alimentação por fórma a evitar
+muitos e danosos males.
+
+Mas, meus alunos, os lactários e as consultas para recemnascidos não são
+apenas laboratórios de pesagem e agências de alimentação láctea. São
+verdadeiras escolas que em muita parte com êxito freqùentam normalistas
+como vós, que ali vão aprender a alimentar e a tratar de crianças.
+
+Para o ano, se me fôr permitido e se se me oferecer, como espero,
+ocasião e facilidade, procurarei fazer com que o _Lactário_ e o
+_Instituto de Puericultura_, da rua Alexandre Herculano, para que agora
+chamo a vossa atenção, se relacionem com esta Escola Normal.
+
+A preparação do professor deve ser uma espécie de preparação materna.
+
+Professoras ou professores só têm a ganhar com se habituarem a lidar
+desde muito cedo com crianças, e a estudá-las, estimá-las como pais. E
+êste deve ser a meu vêr o principal fim da co-educação na Escola Normal.
+
+De resto, eu quereria que desde o primeiro ano do curso, alunos e alunas
+estudassem Pedologia para se habituarem a viver com as crianças, para se
+habituarem a vê-las não só no mutismo e no rijo formalismo, muitas vezes
+necessário, das aulas, onde se lhes estanha a fisionomia, se lhes
+paralisam os movimentos, se lhes esconde a graça, se lhes abafam os
+sorrisos, se lhes sufocam os cantares, mas tambêm para se habituarem a
+vê-las, e lidar com elas, quando em plena liberdade, com a eloqùência da
+sua mímica, com a alacridade dos seus gritos, esfusiando alegria,
+irradiando afectividade, nos prendem, nos alegram, nos comovem, nos
+enternecem, nos interessam e nos fazem estimá-las, compreendê-las,
+protejê-las, e educá-las.
+
+Meditai as palavras de Waynbaum, com que terminarei a minha lição e que
+se referem à fisionomia da criança:
+
+«A voz do sangue, o amor da progenitura, o instinto natural pouco entram
+na constituição dêste sentimento sólido e orgânico que fórma o amor do
+pai pelo seu filho. Estes laços naturais, hereditários, existem
+certamente, mas não valem o laço que a própria criança cria e faz
+aparecer no nosso coração, êsse laço que é uma arma poderosa que a
+natureza lhe deu e de que ela largamente usa para se prender a nós, para
+se tornar uma parte de nós mesmos.»
+
+Meus alunos, senhoras e senhores, que em breve todos sejais professores.
+
+Futuros pais, sêde bons professores: _futuros professores, sêde como
+pais_[7].
+
+
+Lisboa, 19-IV-915.
+
+
+
+
+A AGUDEZA VISUAL E A AUDITIVA DEBAIXO DO PONTO DE VISTA PEDAGÓGICO[8]
+
+
+
+ Minhas Senhoras e Meus Senhores
+ Meus Alunos
+
+
+Sejam as minhas primeiras palavras, no dia de hoje, de saúdação e
+agradecimento e principalmente de agradecimento para com S. Ex.^a o
+actual Ministro da Instrução Sr. Prof. Ferreira de Simas, e para com o
+Conselho desta Escola a quem sobretudo devo a honra de poder novamente
+retomar êste logar, grato para mim como nenhum outro, e onde poderei
+continuar a série de lições que o ano passado iniciei, desejando e
+esperando que elas, pelo menos, sejam tam atentamente ouvidas e tam
+proveitosas como o ano passado tenho a certeza que foram.
+
+
+
+ Meus Alunos
+
+
+Posso dizer que a lição que vou fazer-vos, embora seja a lição de
+abertura do meu curso dêste ano, não é no entanto a primeira lição que
+êste ano vos dou. A primeira foi aquela que cada um de vós recebeu,
+quando eu, acedendo ao criterioso convite do Sr. prof. Tiago da Fonseca,
+secretário desta Escola, procedi à medida da agudeza visual e da
+auditiva de cada um dos que pretendiam matricular-se, a fim de que na
+sua distribuição pelas turmas e pelas salas se atendesse às indicações
+tiradas daquele utilíssimo exame.
+
+Procedi a êsse exame não como médico, mas como professor, e procedi por
+fórma a dar-lhes uma norma de inspecção, segundo a qual todos, no
+exercício das suas funções, em qualquer escola que seja, poderão
+proceder a ela, e por meio dela classificar, segundo a visão e a
+audição, os seus alunos em um dos três grupos:--_supra-normais_,
+_normais_, _infra-normais_, distribuindo-os nas salas das classes pela
+maneira que mais convêm ao ensino: adiante os que ouvem e vêem pouco, ao
+meio os que vêem e ouvem regularmente e ao fundo os que ouvem e vêem
+melhor. Tive sempre tambem o cuidado de, quando verificava a existência
+de anormalidade, ou melhor, quando encontrava candidato que via ou ouvia
+a uma distância notávelmente inferior àquela a que a maioria costuma vêr
+e ouvir, tive sempre o cuidado, dizia, de lhes aconselhar a que se
+dirigissem a médico competente para que se julgasse da causa da
+inferioridade e se corrigisse esta, se porventura isso fôsse possível;
+enfim, para que se tratassem. Quiz assim não só cuidar ou fazer com que
+cuidassem da saúde de órgãos importantíssimos para todos e
+principalmente para quem aprende e para quem ensina, mas tambêm quiz
+assim indirectamente aconselhar-lhes ou apontar-lhes a maneira de
+proceder que convêm que adoptem quando tiverem como eu, na sua qualidade
+de professores, de examinar e medir a agudeza visual e auditiva dos seus
+alunos.
+
+A instrução, como sabeis, faz-se nas nossas escolas sobretudo à custa de
+excitações visuais e auditivas. O professor dirige-se principalmente à
+vista e ao ouvido do aluno. Se vista e ouvido não estiverem em condições
+de aprender nítidamente, de serem clara, forte, profunda e
+agradávelmente impressionados, a instrução não se fará ou far-se há
+defeituosa e deficiêntemente; a falta de aproveitamento com facilidade
+se fará notar.
+
+Aquele que nem vê nem ouve bem, acaba por deixar de prestar atenção; não
+se aplica, não se instrui e não se educa tambêm, como deve ser, porque a
+experiência é pouca e má, porque não excita convenientemente os
+sentidos, porque não enriquece convenientemente o cérebro em imagens,
+precisas e nítidas. Não tem ou tem pouco sôbre que trabalhar; não
+desenvolve a inteligência.
+
+Pelos olhos tomamos nós habitualmente conhecimento dum grande número de
+propriedades e tal é o papel que as imagens visuais representam na
+_cerebralidade_, na compreensão das cousas, que Gaston Gaillard, num
+artigo notável sôbre as _condições ópticas e fórma visual da
+inteligência_, disse: «a inteligência parece ser uma espécie de
+faculdade óptica.» Fisiologistas e histologistas têm demonstrado que a
+visão tem uma influência importantíssima no desenvolvimento dos centros
+cerebrais, e vários médicos têm demonstrado tambêm que muitas vezes o
+atraso intelectual nas crianças, que os franceses chamam _arriérés_, nos
+débeis mentais ou _atardados_ como se vai dizendo em português, o
+atraso, a inferioridade resulta muitas vezes dum defeito de visão.
+Vários casos se apontam tambêm de perfeita normalização de crianças
+anormais-inferiores, por simples tratamento ou correcção conveniente do
+seu defeito visual. Êstes anormais são verdadeiros _anormais de ocasião_
+ou anormais por _deficit sensorial_, como os chama Ley. E já que vos
+estou falando das relações da visão com o desenvolvimento intelectual,
+com muito prazer e com muita utilidade para vós vos chamarei a atenção,
+convidando a lê-la, para a conferência realizada em 20 de Maio de 1914,
+na Sociedade Portuguesa de Estudos Pedagógicos, pelo nosso distinto
+Inspector Geral de Sanidade Escolar e meu muito presado amigo Dr. Costa
+Sacadura, conferência intitulada: _Influência do estado da visão sôbre o
+desenvolvimento intelectual e físico das crianças_.
+
+Cousa semelhante ao que acabo de vos dizer a propósito da inferioridade
+da agudeza visual, poderei dizer tambêm a propósito da baixa ou redução
+da agudeza auditiva. A criança que ouve mal, compreende mal, acaba por
+desinteressar-se, distrai-se, deixando de escutar e aprender,
+atrasando-se na instrução por falta de noções que lhe ministram
+oralmente e que ela não aprende, atrasando-se na educação, por _deficit_
+de excitações sensoriais auditivas. O professor Bezold, de Munich, notou
+que quanto maior fôr a dureza do ouvido, tanto menor é o desenvolvimento
+intelectual. E Rouma no seu importante livro: _La parole et les troubles
+de la parole_, conta que numa classe de crianças semi-surdas, em Berlim,
+classe composta por 12 alunos, entre os quais havia 4 que tinham sido
+apontados como intelectualmente inferiores, êstes se mostraram como
+perfeitamente aptos para o trabalho escolar e provaram ter uma
+inteligência perfeitamente normal, logo que foram colocados num meio em
+que se os educou tendo em vista a sua inferioridade física.
+
+A dureza do ouvido deforma as imagens auditivas e a criança procurando
+reproduzir os sons, as palavras que ouve emite sons, pronuncia palavras
+deformadas, adulteradas, sofrendo assim dum defeito de pronúncia por
+simples defeito da audição.
+
+A redução da agudeza visual e da auditiva veem a ter tambêm uma
+influência importante no feitio moral daqueles que delas sofrem. A má
+compreensão dos factos que se passam em redor e de que tomam
+conhecimento por intermédio de órgãos insuficientes e a dificuldade de
+comunicar com as outras pessoas, acarretam muitas vezes conseqùências
+mais ou menos emocionantes que podem perturbar o carácter. Lembrem-se
+das diferenças psicológicas, de ordem moral, que todos sabem que existem
+entre o surdo e o que ouve, e entre o cego e o que vê. E neste momento,
+ao tratar-se dêste assunto, eu relembro a transformação que se operou no
+meu espírito, e a alegria que experimentei, quando pela primeira vez eu,
+que era um _míope inconsciente_, olhei para o que me cercava, através de
+umas lunetas de vidros divergentes. Corrigi a minha vista e então
+comecei a aproveitar mais nas minhas aulas, onde muitas vezes não seguia
+o que se expunha no quadro preto, por supôr que isso era só para os que
+junto dêle estavam, e comecei então tambêm a usufruir uma maior soma de
+prazer, o prazer de vêr e gosar o que se vê. A minha concepção do mundo
+modificou-se, melhorou. Passei a ser mais optimista; encontrei no mundo
+e na vida um fim estético, harmonioso, espectacular, se me permitem o
+termo.
+
+E lembrar-me eu que entre vós, segundo as minhas recentes observações,
+há, de 43% de inferiores ou defeituosos da visão, apenas uns 10% com a
+vista corrigida! Correi já, por vosso interêsse, aos médicos oculistas;
+eis o meu conselho.
+
+Pelo que respeita ao ouvido, os 9% de infra-normais que a observação me
+levou a encontrar, na população desta Escola, que não se descuidem
+tambêm, porque é possível que nalguns se trate de defeito corrigível,
+talvez apenas de uma obstrução ocasional, que simples lavagens ou duches
+auriculares farão desaparecer. Devo dizer-lhes que as percentagens que
+acabo de apontar dizem apenas respeito a alunos com inferioridade
+bilateral dos olhos ou dos ouvidos, reconhecida pelos processos simples,
+que todos viram praticar, e dos quais lhes vou agora dar mais minuciosa
+conta.
+
+Numa sala desta Escola que me pareceu ser daquelas onde menos se ouve o
+barulho da rua, que neste sítio infelizmente não é pequeno, coloquei em
+face de uma das janelas, a seis metros aproximadamente dela, e a uma
+altura que correspondesse aproximadamente à dos olhos da maior parte dos
+alunos, coloquei, dizia, um cartão em que colocara o _quadro
+optométrico_ dos Drs. Mario Moutinho e Costa Sacadura, quadro que
+suponho se encontra espalhado por tôdas as escolas, mercê de uma larga e
+útil distribuição.
+
+Marquei a giz sôbre o chão um traço indicando a distância de 5 metros
+para àquem da parede onde pendurava o quadro optométrico.
+
+Numa outra parede, no tôpo da sala, tracei a uma altura correspondente à
+dos ouvidos na maioria dos alunos, um traço horizontal, a giz, sôbre o
+qual a partir aproximadamente de 1 metro de uma das extremidades marquei
+um zero e, a partir dêste, pequenos traços verticais indicando os
+decímetros e os metros (4 metros aproximadamente).
+
+Quando ia proceder aos meus exames, procurava obter o maior silêncio
+possível, na proximidade da sala, e fazia entrar os alunos um a um ou
+dois a dois, e de maneira a evitar que se distraíssem. Uma empregada
+tomava-lhes à entrada o nome e eu logo começava o meu exame, em que fui
+várias vezes auxiliado pelo meu venerando colega Sr. prof. Pedro
+Ferreira. Para a medida da agudeza visual, mandava colocar o aluno em
+frente do quadro optométrico a uma distância aproximadamente de 6
+metros. As letras do quadro estão dispostas em 3 linhas paralelas e tais
+que para uma visão normal devem respectivamente ser lidas a 20, 10 e 5
+metros de distância. Mandava procurar ler a 6 metros as letras da linha
+inferior, aquelas que se devem lêr, quando a visão seja mediana, à
+distância de 5 metros. Se o aluno as lia tôdas ou dois terços delas à
+distância de 6 metros, colocava-o no grupo dos _supra-normais da visão_,
+se não, mandava-o tentar ler as letras da mesma linha à distância de 5
+metros. Se as lia, colocava-o no grupo dos _normais_: finalmente se o
+aluno nem à distância de 5 metros lia sequer dois terços das letras que
+a essa distância devia ler se a visão fôsse normal, colocava-o no grupo
+dos _infra-normais_, e procurava então vêr quais as letras que conseguia
+ler a essa distância de 5 metros. Se lia as da linha média, que um
+normal devia ler a 10 metros, dizia que tinha uma agudeza visual igual a
+1/2 do normal, se lia a 5 metros só aquelas que um normal lê à distância
+de 20 metros, dizia que tinha uma agudeza visual igual a 1/4 do normal.
+Se nem estas lia, dizia que tinha uma agudeza visual inferior a 1/4 do
+normal.
+
+O exame era feito em separado, para cada um dos olhos, tendo o cuidado
+de evitar que com a mão carregassem sôbre aquele cuja agudeza visual se
+não estava medindo. Em regra, e esta parece ser a melhor fórma, mandava
+colocar um cartão de visita diante do ôlho a encobrir, mas um pouco
+afastado dele.
+
+Esta técnica, que é uma técnica de confiança para determinar com
+precisão a agudeza visual, pode ser empregada por qualquer professor, e
+praticada em todos os escolares, mesmo naqueles que não sabem ler, visto
+que junto às letras e com dimensões respectivamente iguais às delas se
+encontram no quadro optométrico linhas com sinais (_optotipos_ se
+chamam) que um analfabeto pode perfeitamente apontar (zonas circulares
+incompletas, com abertura voltada segundo quatro direcções).
+
+Para o exame do ouvido, mandava colocar o aluno em frente da linha que
+traçara na parede, voltado para ela, junto dela e com o ouvido direito à
+altura do zero. O aluno, com um dedo, sem carregar, tapava o ouvido
+esquerdo e olhando em frente, prestava atenção a vêr se ouvia o
+_tic-tac_ de um relógio de algibeira, que eu lhe aproximava do ouvido.
+Logo que o aluno dava sinais de o ouvir, começava eu a afastar o
+relógio, fazendo deslocar êste sôbre uma linha, não perpendicular à
+face, mas sim dirigida para diante, perpendicularmente ao pavilhão da
+orelha. E deslocando o relógio procurava determinar a maior distância a
+que o aluno conseguia ouvir o bater dêsse relógio.
+
+Fiz uma série de observações e verifiquei que _com o meu relógio_ a
+maioria ouvia o _tic-tac_ a uma distância de 2 a 3 metros. Em vista
+disto considerei como _infra-normais_, na audição, francamente
+infra-normais, os que ouviam o máximo a 1 metro e _supra-normais_, na
+audição, francamente **supra-normais**, os que ouviam a 3 metros e mais.
+
+Para o exame do ouvido esquerdo, mandava voltar o aluno, colocava-o com
+o ouvido esquerdo à altura do zero, pedia-lhe para tapar o ouvido
+direito e olhar bem em frente, ou fechar os olhos, e procedia depois por
+uma fórma semelhante à que adoptei para o exame da agudeza auditiva do
+ouvido direito.
+
+Quando a redução da agudeza auditiva era notável (menos de 1 metro),
+mandava sentar o aluno no fundo da sala, voltado para a parede, e
+colocando-me atrás dele, no lado oposto, falava-lhe em tom ordinário por
+fórma a ver se me ouvia e para isso o mandava repetir a frase que eu
+pronunciava ou executar movimentos que lhe ordenava.
+
+Êste processo, da medida da agudeza auditiva, ao contrário do que
+adoptara para medida de agudeza visual, não é exacto, não é preciso, não
+é seguro, mas serve, e isso basta, para comparar os alunos debaixo do
+ponto de vista da agudeza auditiva e distribuí-los nas aulas, de acôrdo
+com ela.
+
+Nas crianças é necessário talvez tomar mais precauções do que aquelas
+que com os senhores tomei é conveniente sentá-las, vendar-lhes: os olhos
+e de vez em quando _fingir_ que se aproxima ou afasta o relógio, para
+assim julgar do valor das suas respostas.
+
+Devo dizer-lhes, o que tambêm importa, que levava, em regra, dois a três
+minutos com o exame da agudeza visual e da auditiva.
+
+Na Casa Pia, onde eu e o Dr. Jorge Cid temos feito várias observações,
+usando de processos semelhantes àqueles de que vos falei, verifiquei há
+dias a existência de alguns factos curiosos para que não quero deixar de
+chamar-vos a atenção. Considerando apenas os alunos que neste momento
+freqùentam a 4.^a classe de instrução primária, e com êles os que em
+Julho a freqùentaram e distribuindo-os por ordem crescente das idades
+verifica-se: que à medida que se avança na escala das idades, e aumenta
+o número de anos de internato, diminui a percentagem de alunos que
+fizeram exame do 2.^o grau, e _diminui a percentagem dos que têm audição
+normal_. Quere isto dizer que é provável que o atraso de alguns alunos
+provenha de inferioridade auditiva. Por outro lado encontram-se dois
+máximos de freqùência da visão inferior à normal um (30%) coincidindo
+com o máximo de freqùência de exames do 2.^o grau (61%) e outro (40%)
+coincidindo com o máximo da idade (16 anos e mais) e o mínimo da
+freqùência de exames (40%), factos estes que interpreto por esta fórma:
+a anormalidade visual nos rapazes de 16 anos e mais (máximo de idade),
+que ainda não fizeram exame do 2.^o grau, coincide e deve estar
+relacionada com inferioridade mental e a grande freqùência da visão
+inferior à normal nos rapazes de 14 a 15 anos, grupo a que na sua maior
+parte pertencem os que fizeram exame do 2.^o grau, é naturalmente devida
+à _miopía_ que o trabalho das aulas agrava, quando não determina. Quando
+um dia me ocupar particularmente dêste importante defeito da visão, a
+miopía, procurarei obter alguns dados especiais recorrendo,
+provávelmente, para isso, ao registo das observações oftalmológicas e às
+estatísticas do distinto médico-oftalmologista da Casa Pia Dr. Xavier da
+Costa.
+
+A miopía é uma verdadeira doença profissional da escola; é em grande
+parte um produto do trabalho escolar. A sua freqùência aumenta à medida
+que se avança no grau do ensino. E já que levantei êste incidente, não
+deixarei de vos recomendar a leitura de uma interessante e utilíssima
+conferência feita na Imprensa Nacional, em 19 de Abril de 1914, pelo Dr.
+Sebastião da Costa Santos, tambêm distinto médico-oftalmologista, e em
+que por fórma muito clara e completa se trata da miopía e doutros
+assuntos de oculística que se prendem com a higiene escolar.
+
+O exame da agudeza visual e da auditiva presta-se tambêm a permitir
+julgar até certo ponto de certas qualidades de ordem psíquica que ao
+educador muito interessa conhecer. A maneira por que o aluno se
+apresenta, a rapidez ou a lentidão dos seus movimentos, a rapidez ou a
+lentidão na leitura do quadro optométrico, a maneira agitada ou, pelo
+contrário, lenta e dócil por que se comporta, a precisão ou a indecisão
+na compreensão e execução das nossas ordens, tudo permite, com grande
+probabilidade de acêrto, formar um juízo útil e necessário para o
+educador, sôbre o grau de emotividade, ou sôbre a _potencialidade
+nervosa_ de cada aluno, destrinçando particularmente os dois tipos
+extremos, o do _hipersténico_, agitado, e o do _hiposténico_, tardo nas
+suas reacções. O educador encontrará nesse exame elementos importantes
+para calcular possibilidades na educação, e tirar indicações muito úteis
+para a escolha dos meios educativos a empregar.
+
+O exame da agudeza visual e da auditiva feito à luz dos conhecimentos
+que vos procurei transmitir permitir-vos há convencer-vos, desta verdade
+fundamental: _de que os escolares são diferentes uns dos outros_. E
+convencidos disso, o vosso espírito estará preparado para a adquisição
+desta outra verdade: _de que o ensino se deve individualizar o mais
+possível_.
+
+A pedologia, estudo da criança, vos ensinará a conhecer os vossos
+alunos, e a encontrar o caminho educativo que mais convêm seguir.
+
+Pudesse eu deixar-vos convencidos disso, e conseguisse que em tôdas as
+escolas o professor determinasse a agudeza visual e a auditiva e eu, e
+todos os que tivessem contribuído para isso, teríamos alcançado a não
+pequena glória de ter promovido na escola o que o grande professor
+Biervliet, a propósito do mesmo assunto, não duvidou chamar um
+_progresso imenso_.
+
+Disse.
+
+
+
+
+A VISÃO DAS CORES[9]
+
+
+ Minhas Senhoras e meus Senhores:
+
+
+Foi objecto da minha lição de abertura, no ano findo: _A agudeza visual
+e a auditiva, debaixo do ponto de vista pedagógico_, tendo-me servido de
+pretexto para a lição o exame da agudeza visual e da auditiva por mim
+praticado, nos alunos desta Escola, com o fim de se regular a sua
+distribuìção nas aulas. Será êste ano objecto da minha primeira lição um
+assunto que se prende tambêm com a fisiologia dos sentidos, servindo-me
+de pretexto para ela o exame que êste ano tambêm fiz a alunos desta
+Escola, mas não só com o fim de julgar da sua agudeza visual e da sua
+agudeza auditiva, mas tambêm para julgar até certo ponto do seu sentido
+cromático, do grau da sua visão, na visão das côres.
+
+Deu origem a esta ampliação do exame fisio-pedagógico que se começou a
+praticar o ano passado por iniciativa do Sr. Secretário desta Escola, e
+seu distinto professor sr. Tiago da Fonseca, deu origem a essa
+ampliação, um simples acaso. Um dos jornais da cidade, ao noticiar que
+eu ia proceder ao exame dos alunos, falou em _daltonismo_, e isso
+fazendo-me suspeitar uma confusão entre o exame da agudeza visual e o do
+sentido cromático e recordando-me da importância que êste pode ter na
+escolha dos candidatos a professores, resolveu-me a fazer a minha
+primeira lição dêste ano sôbre o _sentido cromático e os seus defeitos_,
+e proceder, como procedi, a um _exame elementar_ dêsse sentido.
+
+M.^{elle} Yoteyko, a ilustre professora belga, considera como
+indispensável na escola normal a prática de um exame do sentido
+cromático, por causa da importância que a diferenciação das côres tem no
+ensino. É sua opinião tambêm que a êsse exame devem ser obrigatóriamente
+sujeitas tôdas as professoras dos jardins de infância e, mais ainda,
+atribúi-lhe, e com razão, grande valor no exame pedagógico dos alunos da
+escola primária.
+
+E isto lembra-me as palavras do professor americano Rowe, quando num dos
+seus livros, diz: «na cegueira das côres está muitas vezes a explicação
+da aparente estupidez que revelam certas crianças das nossas escolas,
+diante dos mapas».
+
+O exame fisio-pedagógico que o ano passado se começou a praticar nesta
+Escola, deve ser ainda mais ampliado do que foi êste ano, e quando êste
+assunto, a _visão das côres_, não fôsse julgado como de maior
+importância, para servir de mais a mais de tema a uma lição de abertura
+de curso, bastaria para justificar-me e dar-lhe o valor que lhe
+contestassem, o tomá-lo como pretexto para chamar a atenção para êste
+capítulo importante e quási virgem entre nós, do exame das aptidões.
+
+Hoje, minhas senhoras e meus senhores, a fisiologia e a psicologia, não
+são apenas sciências de gabinete, simples curiosidades, domínios de
+investigação scientífica desinteressada, ramos de conhecimentos sem
+maior aplicação e utilidade. Não. O fisiologista e o psicólogo têm hoje
+o seu lugar até na oficina, até na fábrica. A êles se recorre não só
+para julgar das aptidões do operário, mas até para regular a própria
+técnica. Opera-se neste momento uma profunda reforma nas indústrias,
+visando a levar ao máximo o rendimento de cada operário, recorrendo-se
+para isso à fisiologia e à psicologia. É o _tailorismo_ que avança, é a
+organisação scientífica do trabalho.
+
+A fisiologia e a psicologia são tam úteis, mesmo fora dos domínios da
+Medicina, que neste momento, até em plena guerra elas figuram, sendo os
+seus processos de análise regular e obrigatóriamente praticados no exame
+dos candidatos a aviadores, êsses heróicos soldados, que nesta guerra,
+formidável pela sciência e pela barbaría, tanto influem na estratégia.
+Na nossa legislação militar, a propósito da inspecção médica dos
+candidatos a aviadores, já se fala do exame das reacções psico-motrizes.
+Mas mais ainda. A _psico-fisiologia_, de que em suas proveitosas lições
+muitas vezes vos fala o Sr. professor Dr. Alberto Pimentel, logrou até
+encontrar aplicação em pleno campo da refrega, onde por exemplo, M.
+Lahy, chefe dos trabalhos práticos de psicologia experimental na Escola
+de Altos Estudos de Paris, e actualmente mobilizado como oficial, teve
+ocasião de com notável utilidade aplicar os seus métodos de estudo a
+gloriosos soldados da Argonne, durante a tremenda campanha de Verdun.
+
+E, minhas senhoras e meus senhores, se a psico-fisiologia presta já
+tantos serviços na escolha dos candidatos a operários e em soldados,
+porque não há-de ela ter tambêm o seu lugar no exame dos candidatos à
+profissão de professor?! Pensai nisto, que é nesta arte que andais a
+aprender: a arte de educar, que é mais necessário rigorosamente escolher
+os mesteirais, porque são êles que lidam com a mais preciosa e delicada
+das nossas matérias primas: a criança, e se ocupam da mais importante de
+tôdas as indústrias: a indústria da formação de cidadãos úteis,
+prestimosos na sua profissão, excelentes nas suas virtudes físicas e
+morais, e no seu amor à Pátria!
+
+
+ Meus Alunos:
+
+
+A visão das côres e a aptidão a discriminá-las não se revela logo após a
+nascença, nos primeiros dias. Factos que a sciência regista levam a
+supor que essa faculdade visual se manifesta _claramente_ e
+_indiscutívelmente_ só ao fim de alguns meses. Ao poder de discriminação
+das côres, segue-se o de nomeá-las. É interessante fazer notar o facto
+de que a criança aprende mais fácilmente os nomes das cousas do que os
+das côres. Citam-se casos em que crianças de dois anos e mais,
+conhecendo perfeitamente os nomes de certos frutos bem característicos,
+pela sua fórma e pela sua côr, uvas, morangos e laranjas, não sabem no
+entanto apropriadamente aplicar-lhes os nomes das côres que ostentam.
+
+Trace, professor da Universidade de Toronto, que examinou vários
+vocabulários infantis, da língua inglesa, chama a atenção para o facto
+de ter encontrado apenas perto de trinta nomes de côres num vocabulário
+de mil e cem palavras. E várias vezes, diz êle, não encontrou, em
+vocabulários de crianças de dois anos, um só nome de côr, não obstante
+essas crianças possuirem já de trezentos a quinhentos vocábulos.
+
+Um outro facto a pôr em destaque é o de que a criança pode discriminar
+as côres, possuir vocábulos para as nomear, mas não associar
+correctamente a côr ao seu nome. Parece que é esta a principal
+dificuldade que a criança tem no reconhecimento das côres.
+
+Creio que foi o professor Monroe, professor de Psicologia em Westfield,
+quem realizou o maior número de experiências sôbre o sentido cromático
+de crianças, de três a sete anos de idade. São curiosas as conclusões a
+que chegou. As meninas distinguem, em geral, mais fácilmente, as côres,
+e reteem mais fácilmente tambêm os nomes destas. Esta superioridade no
+sentido cromático é mais acentuada dos cinco aos sete anos do que antes,
+e está de acôrdo com a superioridade do sentido cromático que as
+estatísticas dos defeitos de visão das côres levam a atribuir à mulher,
+onde êles são menos freqùentes. E como essa superioridade se revela
+mesmo nas idades em que as crianças dos diversos sexos têm as mesmas
+ocupações, pode-se atribui-la a uma diferença sexual inata, em que
+talvez se possa tambêm, como alguns fazem, encontrar a causa do
+coquetismo, da garridice das côres dos trajos da mulher.
+
+As experiências sôbre a visão das cores nas crianças, são muito
+delicadas, por serem difíceis e muito sujeitas a erros. Para se fazerem,
+ou se lhes mostram côres e se lhes perguntam os nomes, determinando a
+percentagem dos erros cometidos, ou se nomeiam côres e se pede à criança
+que as vá indicando ou escolhendo numa colecção de objectos, iguais ou
+diferentes, diversamente coloridos, ou se lhes mostra uma côr e se pede
+para dentre muitas diferentes escolher uma igual, ou, e êste é o
+processo de escolha na criancinha de tenra idade, se observa a sua
+expressão fisionómica e a sua mímica, vendo se ella sorri ou chora, ou
+se assusta, ou se aproxima, ou se afasta ou, mais precisamente, medindo,
+contando como faz Baldwin, que considera como a melhor maneira de julgar
+do valor dos estímulos sensoriais na criança, o estudo das reacções
+motrizes que êles provocam, e principalmente os movimentos da mão,
+contando, como eu dizia, o número de movimentos de aproximação ou
+atracção, e o dos de recúo ou repulsa, que as diferentes côres provocam,
+quando mostradas a distâncias diferentes.
+
+Para terminar esta parte da minha lição, dar-lhes hei conta ainda de
+dois factos mais, que interessam muito ao estudo da visão das côres na
+criança.
+
+Lehman notou que as côres que a criança reconhece mais fácilmente são
+aquelas cujos nomes melhor sabe, e notou mais ainda que os tons que não
+têm nomes especiais não são por elas reconhecidos.
+
+Outro facto tambêm de que vale a pena tomar conhecimento e fixar é de
+que experiências de diversos levam a considerar como côres de maior
+predilecção na criança, o vermelho e o azul.
+
+Assim como há diferenças individuais na sensibilidade à luz, que
+permitem discriminar diferentes graus de intensidade luminosa, assim
+como há diferenças individuais na sensibilidade visual que permitem
+discriminar, pela fórma, os objectos a distância, assim há diferenças
+individuais na sensibilidade visual que permitem discriminar as côres e
+perceber as variações de tonalidade de cada uma delas. E do mesmo modo
+que há cégos que sentem a luz mas não vêem os objectos, há cégos que
+vêem os objectos mas não lhes vêem as côres. Há de facto indivíduos,
+raros é verdade, que vêem os quadros mesmo os mais ricos em colorido, os
+mais variegados, como se fôssem pintados em cinzento, de vários tons.
+
+Há tambêm indivíduos, e estes na percentagem aproximada de 3 a 4% no
+homem e 1 a 2% na mulher, que discriminando algumas côres como o azul e
+o amarelo, não distinguem o verde do vermelho e vice-versa.
+
+Para alguns dêstes indivíduos, como dizia Arago, as cerejas nunca estão
+maduras. E neles compreende-se que possa suceder, como diz M.^{elle}
+Yoteyko, que não vejam os morangos, num morangueiro carregado dêles, ou
+não descubram um lápis de lacre, em cima de um relvado. É a êste grupo
+de cegos cromáticos ou indivíduos daltónicos, que pertencia aquele de
+que Fuchs por exemplo fala no seu _Manual de Oftalmologia_, que queria
+remendar um fato preto com um pedaço de pano encarnado, julgando que
+êste era preto!
+
+A cegueira total para as côres ou _acromatopsia total_, a cegueira
+parcial para as côres ou _acromatopsia parcial_, a cegueira especial
+para o vermelho, ou _aneritropsia_, e outros defeitos cromáticos de
+menor vulto ou _discromatopsias_, denominam-se muitas vezes, em globo,
+_daltonismo_, termo que mais própriamente se deve empregar nos casos de
+_aneritropsia_, ou cegueira para o vermelho.
+
+A palavra _daltonismo_ deriva de Dalton, nome do célebre físico inglês,
+que vendo que confundia as côres das flôres, examinou o espectro solar e
+constatou que a parte do espectro que se chama vermelha, lhe parecia
+apenas quási uma sombra, quási um feixe sem luz (vid. sôbre êste assunto
+da visão das côres um livrinho excelente que muito vos recomendo: o
+livrinho de M.^{elle} Dr.^a Yoteyko, _Aide-mémoire de psychologie
+expérimentale et de pédologie_, vol. 1, _Les sensations_, pág. 309).
+
+Há indivíduos que confundem os nomes das côres e que no entanto não
+sofrem de discromatopsia, pois discriminam bem as côres e os seus tons;
+são apenas ignorantes. Assim, por exemplo, sucedia a um doente do
+Hospital de S. José, examinado pelo meu prezado amigo e distinto
+oftalmologista Dr. Costa Santos, hoje director daquele Hospital, que lhe
+falava de um «azulinho côr de alface», não obstante distinguir bem os
+tons azuis e verdes.
+
+Em contraposição há _daltónicos_ que com tôda a propriedade chamam
+vermelhas as cerejas e verdes as fôlhas, mas que não distinguem o
+vermelho do verde; empregam os qualificativos verde e vermelho, por os
+ouvirem empregar aos outros. Há mesmo mais: há _daltónicos_, que
+distinguem um objecto verde de outro igual, mas em vermelho, não
+própriamente porque a _qualidade_ da côr os impressione, mas sim pela
+_quantidade_ da côr, pelo seu pêso, pela quantidade de pigmento que
+contêem. Se êsses objectos fôssem um vermelho e outro verde, mas de tons
+da mesma quantidade, igualmente leves ou igualmente carregados, então
+não os distinguiriam, confundi-los-iam, achá-los-iam perfeitamente
+iguais.
+
+Está-me lembrando neste momento um dos nossos mais notáveis
+oftalmologistas e até por sinal grande apreciador de quadros, que me
+confessou e por fórma bem sincera e brilhante, que sentia mais ou menos
+o vermelho, mas quási não via o verde; para êle o verde e o vermelho são
+tão distintos como o azul e o amarelo. E na mesma ocasião em que isto
+ouvia, um colega que assistia à conversa, informou-me de que um dos
+nossos melhores paisagistas não distingue fácilmente os tons de certos
+objectos que vê e está pintando. Sofre da dúvida das côres.
+
+As discromatopsias ou defeitos da visão cromática, passam por vezes
+desapercebidas aos indivíduos que deles sofrem. Assim como há _míopes
+inconscientes_, de que o ano passado por exemplo falei na minha lição de
+abertura sôbre a _agudeza visual e auditiva, sob o ponto de vista
+pedagógico_, há _daltónicos inconscientes_. E um dos mais notáveis
+exemplos que dêles se pode apresentar é o que Fuchs menciona no seu
+_Manual_: um médico de uma companhia de caminhos de ferro, médico
+encarregado de examinar o sentido cromático dos candidatos a empregados
+da companhia, que o procurou para lhe pedir algumas instruções sôbre os
+métodos dêsse exame, e que Fuchs no decurso da conversa e em vista dos
+erros que notou que êle cometia no exame das provas, verificou ser um
+daltónico, e nem mais nem menos do que cego para o vermelho!
+
+A cegueira ou a simples diminuìção da agudeza cromática pode ser
+congénita ou adquirida. Há lesões oculares que a determinam e
+discromatopsias há que são atribuíveis a intoxicações, pelo álcool ou
+pelo tabaco.
+
+Van Biervliet atribui certas discromatopsias congénitas a uma acção
+resultante de hereditariedade por falta de treino do sentido cromático
+nos ascendentes.
+
+Interpretando, como em regra se interpreta, a diferença séxual notável
+que existe entre a percentagem das discromatopsias no homem e na mulher,
+com vantagem para esta, ao maior uso que esta faz do seu sentido
+cromático, notávelmente aplicado em certos trabalhos como os trabalhos
+de bordadora e de modista, profissões muito espalhadas entre os
+indivíduos do sexo feminino, generaliza e diz que os visuais, cujos pais
+eram pintores, iluminadores, mosaístas, etc., nascem, graças ao treino
+realizado pelos seus ascendentes, com uma retina e centros visuais mais
+sensíveis às côres. É uma opinião, de resto discutível.
+
+Tendo examinado todos os candidatos à matrícula no 1.^o ano desta Escola
+Normal, pela fórma que adiante descreverei, àparte uma ou outra
+hesitação, discromatopsias própriamente ditas só em dois candidatos,
+senhoras, encontrei, verificando uma confusão notável de tons do
+amarelo, com que experimentámos, amarelo canário claro, e amarelo gema
+de ôvo.
+
+A visão das côres tem sido particularmente estudada nos escolares
+anormais. Zihen cita casos de atardados de doze a quinze anos, com
+suficientes conhecimentos escolares, podendo sustentar uma conversa
+sôbre assunto simples, mas incapazes de reconhecer as côres. Ley, cujo
+trabalho sôbre o _atraso mental_, em escolares é o mais bem documentado
+que conheço, e que observou 110 crianças da escola especial para
+atardados, de Antuérpia, que tive o prazer de com o maior proveito e na
+companhia do seu director o Sr. professor Yack, tive o prazer, dizia, de
+visitar, por sinal um mês antes de rebentar a guerra, Ley encontrou 23
+crianças com graves defeitos da visão das côres, e 45 reagindo
+normalmente, correctamente, seriando de cinco a seis tons de oito côres
+diferentes. Pode haver, portanto, em face de tudo o que dissemos,
+crianças inteligentes com fraca visão das côres ou mesmo cegueira, e
+inferiores mentais com boa visão cromática.
+
+Vale a pena citar tambêm, nesta altura, o facto mencionado por vários e
+verificado por M.^{lle} Descoeudres, de Genebra, de que as côres mais
+vulgarmente confundidas pelos anormais são o azul e o violeta. M.^{lle}
+Descoeudres cita tambêm no seu _Manual_ para a educação de anormais,
+como notável, o caso de um rapaz epiléptico, que desde os oito aos treze
+anos, apesar de tempos a tempos se lhe mostrar uma série de fichas ou
+tentos, de côr azul ferrete com uma ficha de côr violeta, de permeio,
+pedindo-se-lhe que indicasse aquela ficha que não era como as outras,
+êle não a encontrava, não obstante compreender bem a pergunta. Êste
+rapaz confundia tambêm o verde-malva com o azul claro.
+
+Há na visão das côres um elemento que importa muito considerar: é a
+atenção. A falta de atenção explica muitas vezes erros da visão das
+côres, que à primeira vista se poderiam ter como sinais de daltonismo.
+Ao lado do daltonismo verdadeiro, há um falso daltonismo, uma cegueira
+de distracção, que não própriamente cegueira ou incapacidade de visão
+das côres.
+
+Numa série de rapazes da Casa Pia, principalmente entre aqueles
+atardados, que com onze, doze e treze anos de idade, ainda freqùentam a
+primeira classe de instrução primária, tendo dois a três anos de casa,
+observei eu que alguns, quási todos, cometiam erros graves na visão das
+côres, mas erros que variavam com a natureza do _test_ e com a hora do
+exame. O aluno 4.337 que de manhã, antes de começar as aulas, apenas
+confundia o verde claro com o azul claro, e alguns tons de verde, entre
+si, à tarde, logo em seguida à quarta hora da aula, confundia alguns
+_tons verdes com tons vermelhos_, como se se tivesse tornado daltónico
+de manhã para a tarde. Era a fadiga que lhe diminuia a atenção, e o
+levava a cometer erros dêstes. O aluno 305, êsse ainda mais claramente
+mostrava que os erros que cometia na visão das côres resultavam de falta
+de atenção, pois que quási não cometendo erros no exame discriminativo
+de vários tons do vermelho, verde, azul e amarelo, na mesma sessão
+cometeu erros tais que confundia roxo com vermelho, alaranjado com
+amarelo claro e azul com verde, simplesmente porque tinha de atender de
+cada vez a duas côres, que se mostravam ao mesmo tempo. Olhava só para
+uma, a que cobria uma maior extensão, e que êle distinguia
+perfeitamente, não se importando no entanto com a outra, para que aliás
+se lhe chamava tambêm a atenção. Bem diz M.^{lle} Descoeudres a
+propósito da visão das côres nos anormais: «é preciso sempre entrar em
+linha de conta com o factor atenção, por causa da qual se torna difícil
+o pronunciarmo-nos sôbre as noções de côr nos anormais.»
+
+Não basta para explicar as anomalias da visão das côres invocar por
+exemplo uma das duas teorias clássicas da visão cromática: a de
+Yung-helmholtz ou a de Hering. Não basta explicar, como se faz na
+primeira destas teorias, explicar, por exemplo, a cegueira para o
+vermelho, pela ausência, na estrutura da retina, de uns elementos que
+são mais particularmente sensíveis ao vermelho e nos dão esta sensação,
+e dizer que, faltando êles, a luz vermelha impressiona os elementos
+principalmente sensíveis à luz verde, e que nos dão a sensação do verde,
+fazendo assim com que o vermelho nos impressione como se fôsse apenas um
+tom daquela côr. Não basta explicar, como se faz na teoria de Hering, a
+cegueira para o vermelho e para o verde, pela falta de uma substância
+foto-química, alterável pela acção da luz vermelha e da luz verde, e que
+conforme o sentido da alteração origina a sensação do verde ou do
+vermelho. Não. É necessário lembrarmo-nos que a atenção é elemento muito
+importante, a considerar tambêm na visão das côres, podendo só por si
+dar origem à confusão delas, sem que haja própriamente incapacidade
+orgânica para a visão.
+
+Há uma concepção filosófica da visão, devida a Tscherning (vid. _Année
+psichologique,_ 1914, pág. 43), que permite compreender bem a influência
+que a atenção pode ter na visão. Tscherning compára a sensibilidade
+visual à sensibilidade táctil e diz que se pode considerar os raios
+luminosos, que dimanam do exterior para a retina, como uma espécie de
+antenas invisíveis, presas ao fundo dos olhos e que com êles se movem,
+antenas com que nós examinamos os objectos. São o que êle chama os
+_fotóforos_. Se tivessemos um só fotóforo estariamos nas condições de um
+cego, que se guia com a ponteira da bengala; como, porêm, temos vários
+fotóforos, quando olhamos para os objectos, como que passeamos sôbre
+êles esta espécie de retina aparente, como que os apalpamos,
+examinando-os atentamente, tal como sucede quando julgamos do paladar de
+uma substância, saboreando-a com atenção. É uma concepção interessante,
+que me parece permitir muito bem fazer uma idea da influência que a
+atenção pode e deve ter na apreciação das qualidades dos corpos pela
+vista, e entre elas a côr.
+
+O exame da visão das côres na escola pode permitir explicar insucessos
+que se dão no ensino por meio dos mapas e das estampas nas lições de
+cousas, e nos lavores, mas, àparte êste préstimo, tem tambêm o de por
+vezes servir para orientar o aluno na escolha da profissão. O professor
+deve sempre preocupar-se com o futuro do aluno. Ao daltónico são vedadas
+certas profissões, principalmente nas carreiras marítima e militar e na
+de maquinista, onde se é obrigado a guiar-se, como sucede nos caminhos
+de ferro e nas embarcações, interpretando sinais de côres diferentes.
+Esta questão tem tanta importância que num excelente manual inglês de
+higiene escolar se consagram, no capítulo que trata dos olhos e da
+vista, bastantes linhas à questão do exame da visão das côres nos que
+deixam a escola, por terem terminado o seu ensino (_the leavers_).
+
+São muitos os processos adoptados no exame da visão das côres, e pode-se
+dizer que não são de mais, visto que muitas vezes é necessário sujeitar
+o indivíduo a vários exames, para descobrir-lhes os defeitos ou melhor
+para verificar o defeito. Aquele que pretende ingressar em carreira em
+que se liga grande importância à visão das côres, serve-se de vários
+meios ardilosos, tendentes a vencer a barreira que se lhe põe do exame
+rigoroso a que são sujeitos; chegam a estudar os _tests_, a
+habilitarem-se para o exame médico. Aprendem a ser observados, e a
+enganar. E compreende-se que possam chegar a fazê-lo, visto que, como já
+tive ocasião de dizer nesta lição, o daltónico pode distinguir as côres,
+sem as vêr, atendendo únicamente à quantidade e não à qualidade da côr,
+e pode apropriadamente aplicar-lhes os nomes. Na criança é preciso
+contar sobretudo com os erros que comete por ignorância e falta de
+atenção. Uns e outros podem levar a considerar como daltónico, quem o
+não seja. Não é bom o processo de perguntar os nomes das côres à
+criança, para julgar da sua visão. O melhor é mostrar, sem nomear, um
+tom de uma certa côr e mandar escolher entre muitas uma côr e tom igual.
+
+Os processos mais comummente empregados são os das lãs de Holmgren, os
+dos quadros pseudo-isocromáticos, como os de Stilling, e os das luzes de
+lanterna, como o de Edridge Green, por exemplo.
+
+Com as lãs, escolhe-se no meio de muitas meadas, de várias côres e tons,
+uma de certa côr e tom, e manda-se procurar uma meada que lhe seja
+perfeitamente igual. Pode-se tambêm escolher, por exemplo, meadas de
+três côres diferentes, mostrá-las, misturá-las depois com as outras, e
+mandá-las procurar, ou ainda mandar separar as meadas por côres, e
+seriá-las para cada côr, segundo os tons. Nos quadros
+pseudo-isocromáticos há letras ou outros sinais de côres diferentes
+sôbre fundos coloridos por tal fórma que um daltónico não os possa
+distinguir.
+
+Com a lanterna mostra-se, a distâncias diferentes, luzes cuja côr e tom
+se faz variar por meio de vidros apropriados. Etc.
+
+A agudeza da sensibilidade cromática mede-se por fórma semelhante àquela
+por que se mede a agudeza visual própriamente dita. Empregam-se, para
+isso, quadros especiais, com sinais de diferentes côres, e de
+determinado tamanho, e escolhidos por maneira a que se saiba de antemão
+as distâncias a que são ordináriamente vistos por normais. No exame da
+agudeza cromática vê-se a que distância são vistos pelo examinando e
+compára-se esta com aquela a que normalmente elas se vêem.
+
+No exame dos escolares da classe especial de Antuérpia, a que no decurso
+desta lição já tive ocasião de me referir, Ley empregou uma colecção de
+meadas de lã, de oito côres diferentes e cinco a seis tons por cada côr.
+Examinou _isoladamente_ cada um dos escolares (e esta precaução é
+importante porque evita os erros por imitação), e para examiná-los
+apresentava-lhes uma meada de lã verde-pálido, e _sem lhes nomear a
+côr_, mandava-lhes escolher, entre as meadas, todas as que fossem da
+mesma côr, tanto as de tom mais leve, como as de tom mais carregado.
+Esta prova era seguida de uma outra semelhante em que em vez de uma
+meada verde-pálido, se lhe dava uma côr de rosa, muito clara.
+
+No exame sumário que pratiquei em alunos desta Escola, empreguei, em vez
+de meadas, carrinhos de retrós, de quatro côres: vermelho, verde, azul e
+amarelo, e para cada uma destas côres escolhi dois tons, um muito
+carregado e outro muito leve. De cada tom havia dois carrinhos, e os
+tons das diferentes côres foram escolhidos por fórma que a quantidade da
+côr fôsse a mesma para os tons correspondentes, carregados ou leves, de
+cada uma delas.
+
+O _test_ consistia em agrupar dois a dois os carrinhos do mesmo tom e
+côr. Não foi só a falta de material, mas tambêm o desejo de lhes indicar
+um processo muito simples e económico, que me levou a improvisar êste
+processo, em que as côres se sujam menos e se pode fácilmente renovar.
+Fora de uso, é preciso conservar as côres ao abrigo da luz.
+
+Nas experiências que fiz na Casa Pia utilizei um dos _jogos educativos_
+do Dr. Decroly e de M.^{lle} Mochamp. Êste jôgo é formado por quatro
+cartões, como os cartões do lôto, cada um dêles tendo pintado sôbre
+papel, que lhe está colado, uma série de figuras todas do mesmo tamanho,
+representando bandeiras de côres e tons diferentes, cada uma delas de
+seu tom e côr. As bandeiras são quatro por cartão, tôdas da mesma côr,
+no mesmo cartão, e em cada um dêstes dispostas pela ordem de quantidade
+de côr, sendo a primeira a mais carregada e a última a mais leve. Num
+dos cartões as bandeiras são de côr azul, noutro de côr verde, noutro de
+côr vermelha e noutro de côr amarela. Alêm dêstes cartões há uma série
+de cartões pequenos, cada um com sua bandeira, de sua côr e tom, a que
+corresponde uma igual nos cartões grandes. Utilizei êste jôgo, dando a
+cada aluno, e de cada vez, um cartão grande, sôbre o qual deviam colocar
+os cartões pequenos correspondentes. Após o exame de cada cartão grande,
+misturavam-se os cartões pequenos, os cartões já aplicados e os que
+restava aplicar. É um verdadeiro lôto.
+
+Numerando nas costas os cartões pequenos, pode exprimir-se o êrro, por
+confusão, indicando-o por meio de uma expressão semelhante a um
+quebrado, em cujo numerador se escreva abreviadamente a côr e indique o
+número do tom do cartão grande, e em cujo denominador se escreva
+abreviadamente tambêm a côr e se indique o número do tom do cartão
+pequeno, que erradamente sôbre o primeiro se colocou.
+
+Alêm desta prova sujeitei tambêm os alunos da Casa Pia, que examinei, a
+uma outra, que consistia no aproveitamento de um outro lôto de côres da
+colecção do Dr. Decroly e M.^{lle} Mochamp. Nesse lôto há quatro
+cartões, em cada um dos quais figuram quatro homens jogando a bola. Cada
+um deles figura vestido de certa côr, e cada uma das bolas com que está
+jogando tem a sua côr tambêm, mas diferente daquela. Alêm dos quatro
+cartões grandes, há uma série de cartões pequenos com figuras
+correspondentes à do primeiro.
+
+A criança tem que colocar um pequeno cartão no lugar do cartão grande,
+que lhe corresponder. Como se vê, tem de fazer simultâneamente a
+identificação de duas côres. É um verdadeiro _test_ de atenção.
+
+Estes lôtos ou lôtos semelhantes podem fabricar-se na própria escola, e
+constituem meios, muito interessantes para a criança, de lhe testificar
+a visão das côres e, como se verá mais para diante, de lhe educar a
+atenção e de a instruir.
+
+Ao médico interessam principalmente as discromatopsias adquiridas, não
+só porque algumas são curáveis, visto serem de natureza tóxica, mas
+sobretudo porque são muitas vezes um sinal importante e precoce de
+graves lesões ópticas.
+
+Ao educador, porêm, importam particularmente as discromatopsias
+resultantes da falta de atenção. Tive já ocasião de vos dizer que a
+instrução supre muitas vezes, até certo ponto, a cegueira das côres, o
+que faz com que o daltónico não só ignore a sua cegueira, mas até engane
+os outros, por distinguir objectos de côres diferentes e apropriadamente
+denominar diferentes côres que aliás não vê.
+
+Mas é principalmente nos falsos daltónicos, naqueles que trocam os nomes
+às côres, por ignorância, e nos que as não distinguem por falta de
+atenção e exercício, que o educador tem muito a lucrar, ensinando a
+denominar apropriadamente as côres e sobretudo a discriminar-lhes as
+nuances. Os exercícios que se empregam na chamada educação dos sentidos
+e que mais própriamente a meu vêr se deve chamar a educação da atenção
+dos sentidos, porque o que se educa e aperfeiçoa principalmente não é o
+sentido em si, mas a maneira de o aplicar, êsses exercícios têm tambêm,
+áparte a sua acção sôbre a atenção, esta faculdade que é a base do que
+vulgarmente se chama inteligência escolar, a faculdade de aprender,
+êsses exercícios, repito, têm tambêm uma acção notável na educação do
+poder discriminativo, que é o que regula, e torna mais seguros e
+exactos, os juízos. Mas mais ainda. Como as côres têm um poder
+emocional, umas excitando e outras deprimindo, o que até em terapêutica
+se utiliza, elas podem servir para a educação do sentimento estético,
+preparando a criança para a emoção pelas obras da Arte e pelas da
+Natureza, o que tudo tem um grande valor moral. A criança é muito
+sensível a êste poder emocionante das côres e nele afinal está a razão
+da aplicação dos velhos estimulantes escolares: as condecorações e os
+cromos, e do útil aproveitamento no ensino das estampas coloridas. E a
+propósito vos chamarei a atenção para um livrinho muito interessante,
+intitulado: _O nosso Portugal_, trabalho do distinto professor da Casa
+Pia e meu dedicado amigo e colaborador, o Sr. professor Fernando Palyart
+Pinto Ferreira, de mais a mais discípulo desta Escola, livrinho que tive
+o prazer de prefaciar, e que é, entre nós, assim o julgo, a primeira
+aplicação consciente dos princípios fundamentais da psicologia visual
+infantil.
+
+No _Método Montessóri_, de que agora tanto se fala, e que, vai para um
+ano, a Câmara Municipal de Lisboa mandou dois dos seus mais distintos
+professores, um discípulo desta Escola, o Sr. professor Rosa y Alberty,
+da Casa Pia, e sua esposa a Ex.^{ma} Sr.^a D. Pulcena Estrela da Costa,
+antiga aluna da Escola de Ponta Delgada, mandou, dizia, estudar êsse
+método com a sua própria autora, que se encontrava em Barcelona, no
+_Método Montessóri_, a educação da visão das côres tem um lugar
+importantíssimo. Nêle se faz uma inteligente aplicação pedagógica do
+processo de diagnóstico de que vos falei, o processo das lãs de
+Holmgren. Dá-se uma amostra de lã ou de retrós, de uma certa côr e tom,
+e manda-se a criança procurar uma igual, entre muitas outras de diversas
+côres e tons; mostra-se-lhe duas ou três côres e manda-se depois a
+criança ir procurá-las, de cor, de memória; ensina-se a criança a nomear
+as côres e os tons; a própria professora mostra-lhas, nomeando-as,
+dizendo-lhes os nomes por fórma a atrair a sua atenção, usando de tom e
+maneiras que seduzam a criança, e por vezes finalmente se organiza com
+as crianças da escola um jôgo em que cada uma por sua vez é encarregada
+de ir fornecendo às outras as côres e os tons que estas lhe vão pedindo,
+e que depois cada uma tem de agrupar e seriar.
+
+Êste _Método **Montessóri**_, de que tanto agora se fala e que vai
+avassalando os jardins de infância e as escolas primárias de todo o
+mundo, não é bem uma novidade pedagógica, nem, como alguns supõem, uma
+simples moda, uma fantasia. Nem novidade porque nele se encontra a
+aplicação e por vezes a reprodução, pura e simples, de métodos de
+outros, nem simples e inútil moda ou fantasia, porque assenta nas mais
+sólidas bases da psicologia da criança.
+
+A Sr.^a Montessóri teve o condão de com estranha eloqùência fazer a
+propaganda do método de educação dos sentidos de Froebel e
+principalmente das variantes adoptadas pelos médicos e professores dos
+asilos de crianças anormais. Fez e faz uma inteligente propaganda da
+aplicação dos métodos adoptados na educação dos que sofrem de
+insuficiência mental de origem patológica, àqueles em que apenas existe
+a insuficiência fisio-psicológica, própria da sua idade, aqueles em que
+por assim dizer existe um atrazo normal. E a Sr.^a Montessóri, médica e
+antropologista como é, encontrou meios excelentes de fazer essa
+aplicação. É sobretudo o notável aproveitamento que faz do _instinto
+dramático_ da criança, procurando educá-la pela emoção e por isso, ou
+deixando-a representar, e guiando-a na representação, ou tornando-a um
+espectador interessado, atento e entusiasta, que ouve bem o que
+propositadamente diante dêle se faz, e que depois reproduz por imitação.
+
+Há porêm, na escola Montessóri, e principalmente na exposição dos
+métodos da Sr.^a Montessóri, misticismo a mais e froebelianismo a mais
+tambêm. E quando digo froebelianismo, quero referir-me ao êrro
+pedagógico do método froebeliano: à confusão da simplicidade lógica com
+a simplicidade pedagógica. Aos olhos da criança as formas que nós
+chamamos simples, as fórmas abstractas, não são as fórmas mais simples;
+no concreto e no complexo está muitas vezes o que parece mais simples à
+criança, porque a interessa mais.
+
+Em português têm as senhoras e os senhores um livrinho interessante e
+bom para fazer uma idea do método Montessóri; é o livrinho da Sr.^a D.
+Luiza Sérgio, intitulado _Método Montessóri_; e se quizerem conhecer,
+alêm de uma apologia, uma severa censura e crítica à Sr.^a Montessóri e
+ao chamado seu método, leiam um artigo de Guido della Valle no n.^o 6 de
+Janeiro de 1911, da _Rivista pedagogica_, revista italiana.
+
+Nos jogos educativos do Dr. Decroly e de M.^{lle} Mochamp, a educação do
+sentido cromático tem tambêm um lugar importante. Alêm dos lôtos de que
+falei a propósito do exame do sentido cromático em rapazes da Casa Pia,
+há outros lôtos, e um dominó curioso, que muito interessa os pequeninos
+(já o tenho experimentado em meus filhos), um jôgo de dominó constituido
+por uma série de pequenos cartões, aproximadamente do tamanho das pedras
+do dominó vulgar, cartões a cada um dos quais estão, num dos lados,
+colados, lado a lado, dois papéis, cada um de sua côr. Joga-se como se
+joga o dominó. O aspecto, que a série dos cartões toma no fim do jôgo,
+interessa muito as crianças. E já que de novo falei nos jogos educativos
+do Dr. Decroly e de M.^{lle} Mochamp, dir-vos hei que cada um de vós
+terá muito que lucrar, lendo o pequeno folheto que acompanha a colecção
+daqueles jogos que o Instituto Jean Jacques Rousseau, de Genebra,
+costuma vender, folheto intitulado _Jeux educatifs_, e onde todos
+encontrarão compendiadas excelentes sugestões, úteis não só para
+improvisar processos de educação dos sentidos e de instrução tambêm, mas
+até material de ensino, que, pode-se dizer, qualquer pode fabricar.
+Inspirados naqueles jogos se pode dizer que são os processos e o
+material que se empregam na classe de anormais que no Instituto
+médico-pedagógico da Casa Pia de Lisboa, à Travessa das Terras de Santa
+Ana (a Santa Isabel), funciona sob a direcção do professor Fernando
+Palyart Pinto Ferreira e de sua esposa a Sr.^a D. Lucila Carmina Lopes
+de Santa Clara, distinta professora oficial, antiga aluna tambêm da
+Escola Normal de Lisboa, que com o Sr. professor Cruz Filipe, da classe
+de ortofonia, e o Sr. Joaquim Almada, da classe de dizer, comigo ali
+trabalham.
+
+
+ Minhas Senhoras e meus Senhores
+ Meus Alunos
+
+
+Agora mais do que nunca é preciso organizar os serviços de instrução por
+fórma que na educação se vise o aproveitamento de todos, a valorização
+de cada um, ao máximo, aumentando o mais possível o rendimento de suas
+faculdades. A guerra pede-nos os mais fortes e os melhores. Na paz só
+nos poderemos salvar, compensando o sacrifício que fizemos, valorizando
+ao máximo os que restarem, os que escaparem, e os novos. Temos
+infelizmente não só que suprir as faltas de todos os dias, as faltas
+triviais, mas alêm destas as formidáveis perdas que por certo resultarão
+dêste monstruoso acidente da vida do mundo: a actual guerra. Por isso há
+que tratar cada um dêstes homens embrionários, dêstes cidadãos _in
+herbis_, que nos confiam, há que tratá-los por fórma a bem medirmos o
+valor das suas faculdades e préstimos incipientes, e por meio da
+sciência, e com tôda a arte, aproveitar-lhas e desenvolvê-las e
+encaminhá-las o melhor possível. Não. Não podemos nem devemos como até
+aqui limitar-nos a aprender métodos de ensino, quási na ignorância e
+desprendimento do conhecimento da natureza e características da criança.
+
+¿Que se diria de um alfaiate que nos quizesse fazer um fato, sem medida?
+¿E sobretudo que se diria ao ver que o fato que nos destinava não nos
+servia, não se ajustava ao nosso corpo e ou nos tolhia os movimentos ou
+nos cobria de ridículo? ¿E com mais razão, que se diria do educador, que
+no desconhecimento da natureza da criança, a educasse, deformando-lhe a
+mente, prejudicando-lhe o carácter, e obstinando-se em adoptar processos
+os menos conformes com o seu temperamento, os menos convenientes para um
+inteligente aproveitamento da sua personalidade, e os menos conducentes
+à sua felicidade e afinal à nossa própria, porque são as crianças de
+hoje quem amanhã nos há-de governar e julgar? Vós respondereis.
+
+Para vos ensinar a conhecer a criança e para vos ensinar a pelo seu
+conhecimento melhor aplicar e escolher os métodos que os vossos
+professores de pedagogia e de prática vos ensinam, para isso aqui estou.
+
+Ajudai-me com a vossa atenção e eu vos ajudarei com a minha experiência,
+com o meu modesto saber e com a minha dedicação a mais sincera.
+
+Está aberto o nosso curso dêste ano.
+
+
+Belêm, 3 de Dezembro de 1916.
+
+
+
+
+SÔBRE UMAS PROVAS DE EXAME DA ATENÇÃO VOLUNTÁRIA VISUAL[10]
+
+
+
+ Minhas Senhoras e Meus Senhores:
+
+
+Havia eu prometido ocupar-me na série de _conferências pedagógicas_
+organizada na última gerência ministerial do senhor professor Ferreira
+de Simas, havia eu prometido, ocupar-me, dizia, do ponto: _A pedologia
+prática e a prática do ensino na escola primária_, e prometera tambêm
+que essa minha conferência serviria êste ano de lição de encerramento do
+curso de Pedologia que tenho tido a honra de reger na Escola Normal de
+Lisboa. Sucede, porêm, que o meu último trabalho dêste ano foi
+industriar os meus alunos na prática da medida da atenção voluntária
+visual, e sendo assim pareceu-me poder conciliar o compromisso tomado
+com a necessidade de comentar as observações que, sôbre aquela fórma de
+atenção periférica, fizemos na escola anexa à Normal Primária de Lisboa,
+pareceu-me poder conciliar o compromisso com a necessidade do
+comentário, aproveitando as observações feitas para, por uma maneira
+mais concreta, dizer o que tencionava dizer sôbre o ponto que escolhera
+e a que a princípio pensára dar uma fórma mais teórica e geral.
+
+O assunto: _a atenção e a sua medida_ é um ponto capital de pedologia
+psíquica aplicada à educação.
+
+A atenção é a base do que Binet chamou a _faculdade escolar_, a
+faculdade de aprender na escola, a faculdade de assimilar o ensino nela
+ministrado, pelos métodos mais usuais. Para ser bem sucedido nos estudos
+são precisas, diz com razão ainda Binet, qualidades que dependem
+sobretudo da atenção, da vontade e do carácter. E «saber manter a
+atenção dos escolares, apropriar o grau de atenção à dificuldade e à
+importância do trabalho a realizar é quási tôda a arte do professor»,
+diz Van Biervliet. Portanto, debaixo do ponto de vista da importância,
+creio ter escolhido um ponto excelente. E quanto ao que queria
+principalmente demonstrar na minha conferência: a possibilidade de
+praticar estudos pedológicos, sem perturbação nem prejuízo das funções e
+obrigações didácticas, nenhum melhor assunto serviria para defender esta
+tese do que êste: a atenção e a sua medida. Alunos meus tiveram ocasião
+de ver que, em alguns minutos, se poderia sem perturbar a classe, nem
+alterar o ensino, fazer importantes experiências que entre outras coisas
+podem ser aproveitadas para conhecer os alunos debaixo do ponto de vista
+da atenção, descobrir anormais, medir a fadiga, julgar horários,
+programas, métodos de ensino, e até ensinar a estar atento.
+
+Tem sido sempre minha principal preocupação o professar pedologia que
+possa directamente aproveitar ao ensino primário, não aconselhando senão
+processos de observação e experiência, fáceis, compatíveis com a
+preparação dos alunos da Escola Normal Primária, e que não distraíam os
+mestres das obrigações didácticas, e antes pelo contrário contribuam
+para que melhor as cumpram, fazendo sempre lembrar-lhes que, mais do que
+ministrar noções, lhes compete preparar o espírito dos alunos para as
+receber, e para isso é indispensável saber conhecer os alunos, saber o
+que são, conhecer a personalidade de cada um, e saber-lhes aproveitar o
+feitio. Esta tem sido de facto a preocupação principal e a orientação
+com que tenho preparado as minhas lições e elas claramente se notam nas
+três lições que já publiquei:--_O ensino da pedologia, na Escola Normal
+Primária_, _O pêso do corpo da criança_, e _A agudeza visual_ _e a
+auditiva, debaixo do ponto de vista pedagógico_.
+
+
+ Minhas Senhoras e meus Senhores:
+
+
+No ensino ordinário da escola primária utiliza-se e treina-se muito a
+atenção voluntária visual verbal, isto é, utiliza-se e exige-se um
+estado de espírito em que o aluno voluntáriamente toma a atitude que
+mais convêm para receber as estimulações visuais determinadas pelas
+palavras escritas. Não será a fórma de atenção mais útil para a vida,
+porque no mundo ambiente, como diz Van Biervliet, a atenção não tem que
+dirigir-se, orientar-se, concentrar-se sôbre as fórmas verbais das
+cousas, sôbre a descrição dos factos, sôbre os resumos dos
+acontecimentos, mas sim sôbre as próprias cousas, sôbre os próprios
+factos, sôbre os próprios acontecimentos; não será portanto a fórma mais
+útil para a vida, mas é uma das mais úteis para o sucesso na escola.
+Alêm disso, por meio da sua medida, se podem resolver vários problemas
+escolares, principalmente porque por meio dela se pode medir a fadiga
+escolar. Aqui têm, pois, V. Ex.^{as} mais uma razão, e afinal a
+principal, da escolha que fiz do tema da minha lição de encerramento,
+que vai versar: _sôbre umas provas de exame da atenção voluntária
+visual,_ _colhidas em alunos da, escola anexa, à Normal Primária de
+Lisboa_.
+
+Mediu-se a atenção pelo método da _correcção de provas_ (método de
+Bourdon), utilizando umas vezes o _test_ de Toulouse e Vaschide, uma
+fôlha impressa com 1.600 sinais, figurando cada um deles um pequeno
+quadrado com um traço do mesmo tamanho, dirigido para fora, e orientado
+segundo 8 direcções, o que dá lugar a 8 sinais diferentes, fôlha que
+obtivemos mandando reproduzir a que acompanha o vol. II da _Técnica de
+psicologia experimental_ de Toulouse e Piéron (edição de 1911), outras
+vezes utilizando trechos do livro de leitura habitual dos alunos da 4.^a
+classe da escola anexa, mandando nele riscar determinadas letras, uma ou
+duas, num tempo determinado (cinco minutos em regra) ou riscá-las,
+cortando-as numa certa porção de trecho, em que de antemão tinhamos
+verificado qual o número de letras escolhidas que nela havia, número que
+a criança, riscando as letras, deveria verificar, recomeçando o trabalho
+tantas vezes quantas fôssem precisas para alcançar o número de letras
+que no trecho existiam e que nós lhe haviamos préviamente indicado
+(processo de Van Biervliet). Mediamos assim a atenção pela correcção ou
+pela velocidade ou pela correcção e velocidade com que as crianças
+suprimiam sinais do _test_ de Toulouse e Vaschide ou letras dum trecho
+do seu livro de leitura.
+
+O método que empregámos é aquele que permitiu a Binet verificar, numa
+escola primária de Paris, a coincidência da classificação dos alunos,
+debaixo do ponto de vista da atenção, feita por meio dos _tests_
+colhidos em alguns minutos de experiência, com a classificação dos
+mesmos alunos feita pelas notas do professor, notas resultantes duma
+apreciação longa e demorada. E a propósito vale a pena lembrar que,
+citando estes factos, Binet acentuou que o êxito escolar resulta mais da
+atenção do que da inteligência, que o aluno mais atento pode não ser o
+mais inteligente e que por isso não é de estranhar que as crianças, que
+os _tests_ levam a considerar como inteligentes, não sejam sempre as
+mais adiantadas, as que mais aproveitam, as que dão melhores _tests_ da
+atenção.
+
+O mesmo método de medida da atenção que pratiquei e fiz praticar aos
+meus alunos é um dos que permitiu a Ley demonstrar que os movimentos
+respiratórios lentos e amplos, dilatando vagarosamente e largamente o
+torax, com as espáduas bem aproximadas, sem elevação dos braços nem
+elevação do corpo sôbre as pontas dos pés, são um excitante da atenção
+voluntária, e foi êle que com o método dos _tempos de reacção_ tambêm
+permitiu a Ley verificar que um repouso de quatro minutos, sem execução
+dêsses exercícios respiratórios, actua muito menos benéficamente sôbre a
+atenção do que quando durante o mesmo tempo se executam movimentos
+respiratórios pela fórma que acima precisei.
+
+Foi tambêm empregando êste método da _correcção de provas_ que eu obtive
+_tests_ da atenção em alunos da escola primária oficial de Belêm, sem
+classe de trabalhos manuais, e em alunos do mesmo grau escolar, da Casa
+Pia, com bastante prática de trabalhos manuais, _tests_ que me
+permitiram sustentar e demonstrar no meu discurso: _Da influência dos
+trabalhos manuais no desenvolvimento do espírito_, que os trabalhos
+manuais treinam a atenção, melhoram a atenção.
+
+As primeiras experiências que fizemos na escola anexa foram praticadas
+utilizando o _test_ de Toulouse e Vaschide.
+
+A medida da atenção por meio da supressão de letras ou sinais
+equivalentes funda-se no facto de numa série de percepções análogas,
+monótonas, tenderem essas percepções a alterar-se, a enfraquecer, a
+apagar-se, sendo necessário para evitar essa alteração e fazer com que
+as percepções continuem a efectuar-se correctamente, que a atenção
+voluntária intervenha, procurando assim fazer manter a intensidade
+inicial dos fenómenos sensoriais. Se a atenção voluntária tende a
+enfraquecer, a baixar, as percepções deixam de se efectuar uma ou outra
+vez, ou efectuam-se incorrectamente, e nós podemos medir essa baixa, o
+gráu de atenção, examinando os erros e a variação da velocidade do
+exame, durante um certo lapso de tempo, em que o examinando colhe uma
+série de percepções da mesma espécie e gráu (percepções monótonas).
+
+Mandando riscar as letras num trecho em língua conhecida, o exame pode
+ser perturbado pela influência da leitura do texto, pela compreensão do
+texto, pelo sentido das palavras, sendo muito difícil, se não
+impossível, a quem não está habituado a abstrair, fazer com que só se
+procurem letras e não se leiam as palavras.
+
+Tem-se procurado evitar êste inconveniente ou dando trechos em língua
+estranha ou empregando _tests_ como o de Henrotin (_Contribution à
+l'étude de l'atention visuelle chez les enfants_, in _Rév. de
+Pédotechnie_, n.^{os} 2 e 3, 1914), em que a prova é constitùida por uma
+fôlha com 832 letras, repartidas em 26 linhas de 82 caracteres de
+imprensa bem separados e muito nítidos, de maneira a evitar confusões,
+letras que, como por exemplo o _a_, o _e_ e o _u_, se encontram
+repartidas duma maneira irregular e por fórma tal que nada há que possa
+indicar ao examinando nem o lugar, nem o número das letras cuja
+supressão ou indicação se pede. Sucede, porêm, que nem tôdas as letras
+do alfabeto são igualmente visíveis, nem tôdas chamam igualmente a
+atenção, como o faz notar Van Biervliet; umas, como êle diz, o _x_ por
+exemplo, atraem pela sua raridade, outras como o _f_ e o _b_, letras ao
+alto, extensas, chamam mais a atenção do que as letras baixas _e_ e _r_,
+por exemplo. Entre estas, umas há bastante largas como o _m_, que nos
+impressionam mais, outras mais altas do que largas, outras tão largas
+como altas, etc. Para evitar estas diferenças que podem perturbar o
+exame, a medida da atenção, é que Toulouse e Vaschide propuzeram a sua
+prova, uma prova de sinais igualmente interessantes, que podem servir
+mesmo para os que não sabem ler; tem alêm disso a vantagem de evitar a
+influência do hábito da leitura e revisão de provas.
+
+O emprêgo da prova de Toulouse e Vaschide na escola anexa revelou-nos
+factos interessantes para que chamo a vossa atenção. Em primeiro
+lugar:--examinando a atitude dos alunos da 4.^a classe durante o tempo
+em que riscavam sinais, alguns vimos que pelo cuidado com que examinavam
+pareciam prestar grande atenção, mas cujas provas vinham cheias de
+erros. Sucede isso muitas vezes. São criaturas apáticas, cuja lentidão
+habitual os faz confundir com aqueles que, não sendo apáticos, se
+imobilizam, ou tornam lentos, pelo esfôrço da atenção. Os primeiros não
+são atentos, assemelham-se aos atentos.
+
+Pode suceder tambêm que apareçam alunos que não compreendam a prova, que
+cortem a êsmo, que cometam muitos erros, riscando sinais e letras ao
+acaso. Sucede isso com atardados profundos, e essa prova serve-me muitas
+vezes no _Instituto Pedagógico da Casa Pia_, como meio de reconhecer o
+gráu de anormalidade dos anormais que ali vão.
+
+Anormal que não compreende o _test_, é anormal médico, é anormal
+profundo, é, em regra, o idiota. Para mim êste sinal vale como o de
+Demoor.
+
+Outro facto curioso que observámos é o de na primeira experiência termos
+chegado pelos _tests_ a considerar como atentos alunos que a Sr.^a
+professora da escola anexa indicava como desatentos e grandes
+desatentos. Um facto semelhante sucedeu a Binet, que, com grande
+surpresa, verificou uma vez, examinando alunos de uma classe de anormais
+pedagógicos, que êsses anormais afinal riscavam tantas letras como os
+normais. O facto resultava das condições em que primeiro experimentára:
+os alunos tinham sido observados isoladamente e na sua presença. A acção
+da presença do observador foi uma verdadeira acção estimulante. Postos
+os alunos à vontade, trabalhando sem estar sujeitos a vigilância,
+diferenças, e grandes, logo se mostraram.
+
+O resultado das discordâncias que observámos no nosso primeiro exame
+deve provir, em primeiro lugar, da acção da curiosidade despertada por
+aquele exercício completamente novo; em segundo lugar da minha presença
+e do ar solene que a prova tomou; em terceiro lugar talvez de nesta
+altura do ano se encontrarem mais fatigados os bons alunos, os alunos
+aplicados, que mais trabalharam, do que os desatentos habituais,
+preguiçosos, menos aplicados, que menos se esforçaram.
+
+A lição a tirar é de que não devemos procurar formar um juízo sôbre a
+atenção por um só exame por meio de _tests_. É necessário repetir e
+sempre ter o aluno à vontade, sem estar sujeito a uma vigilância severa,
+nem às nossas estimulações por acção intimidante ou reconfortante, como
+diz Binet.
+
+Em regra, fizemos cortar um só sinal. Há vantagem, quando se quer
+acentuar as diferenças individuais, em empregar dois. Toulouse e Piéron,
+na sua _Técnica_, dizem obter-se por esta fórma, em condições normais,
+um óptimo de diferença individual. Outro facto importante e interessante
+que observámos, no dia da primeira experiência, foi o de, ao contrário
+do que era de esperar, ver que as provas da tarde foram, em geral,
+superiores em velocidade e correcção às provas da manhã. Nos mesmos
+cinco minutos, os alunos, na sua maioria, percorreram uma maior extensão
+de _test_, e cometeram menos erros. Ora era de esperar que, depois de
+quatro horas de trabalho, a atenção tivesse baixado, em virtude de
+fadiga, que era natural que houvesse. Êste paradoxo resulta em primeiro
+lugar da surprêsa, da emoção que deve ter causado a experiência da
+manhã. Os alunos nunca tinham sido sujeitos a ela; nunca tinham visto o
+_test_. Deviam estar em estado emocional semelhante àquele em que nos
+coloca um exame, de que nos arreceamos. Á tarde estavam mais calmos, e
+de mais a mais vim a saber que se lhes tinha explicado o fim da
+experiência e se os tinha animado. Alêm disso, nestes exames, o aluno
+treina-se, aperfeiçoa-se, aprende a fazer o _test_.
+
+E esta influência do treino deve entrar em linha de conta na
+interpretação dos resultados das experiências. Para anular a influência
+do exercício, aconselha-se a prática do _método das repetições_, que
+consiste em «fazer um grande número de experiências preliminares até que
+o exercício tenha produzido todo o seu efeito», até que o examinando
+tenha adquirido todo o treino. Podem tomar um conhecimento suficiente
+dêste método lendo o que sôbre êle diz Claparède no livro _Psychologie
+de l'enfant_, que conjuntamente com o livro de Binet, _Les idées
+modernes sur les enfants_, não me canso de aconselhar, e a que por mais
+de uma vez tenho com razão chamado _breviários do educador_.
+
+Para terminar o que desejava dizer sôbre as nossas primeiras
+experiências, apontarei o facto curioso de termos observado duas alunas
+da 4.^a classe da escola anexa, que percorreram o _test_, não deslocando
+o olhar horizontalmente, seguindo as linhas, mas sim verticalmente,
+seguindo as colunas. A propósito lembra-me dizer-lhes que há quem tenha
+recomendado, como convindo mais à leitura, o dispor as palavras em
+linhas verticais e não em horizontais, como fazem os japoneses, por
+exemplo. Com o esfôrço e o movimento dos olhos que se executam
+percorrendo uma palavra horizontalmente, pode-se, com a disposição em
+linhas verticais, atravessar umas poucas de palavras e abreviar a
+leitura.
+
+O facto que se deu mostra que antes de iniciar a experiência com a prova
+de Toulouse e Vaschide se deve explicar a maneira de proceder.
+
+Habitualmente costumo destinar cinco minutos para a experiência e contar
+no fim o número total de sinais existentes no trecho do _test_ que cada
+um observou, contando depois o número de erros, conjuntamente os erros
+de omissão ou falta de supressão, e os de troca de sinal, ou erros de
+reconhecimento.
+
+O número total de sinais existentes no trecho _visto em cinco minutos_
+indica-nos, para cada um, a velocidade; a percentagem dos erros
+indica-nos o grau de correcção.
+
+Como os futuros professores, na sua escola, não vão ter naturalmente à
+sua disposição fôlhas com os sinais de Toulouse e Vaschide, fiz praticar
+alguns exames da atenção, pelo método de correcção de provas, utilizando
+trechos do próprio livro de leitura dos alunos, fazendo-os cortar duas
+letras igualmente visíveis, e atraindo igualmente a atenção, _b_ e _d_,
+_b_ e _t_ por exemplo, mudando de letras de experiência para
+experiência, para evitar a influência do treino. Fazia tambêm com que
+todos os alunos cortassem letras no mesmo tempo (cinco minutos, em
+regra, como já disse) e no fim recolhia os livros de leitura para tomar
+nota do número total de letras escolhidas existentes no trecho examinado
+em cinco minutos, e estabelecia a proporção por cento das faltas que
+tivessem cometido.
+
+Dos processos que praticámos aquele que particularmente aconselharei é o
+de Van Biervliet, que já descrevi, e em que se mede a atenção visual
+pela velocidade da correcção de provas, indicando para isso ao aluno um
+trecho com um determinado número de uma ou duas letras escolhidas (todos
+os _b_ e _d_ por exemplo) e fazendo-o verificar êsse número, devendo
+recomeçar tantas vezes o trabalho quantas as necessárias para encontrar
+o número indicado. A velocidade é expressa pelo tempo de duração da
+prova, para cada um. Êste _test_ obtêm-se em regra em dois ou três
+minutos, e os meus alunos que assistiram às experiências viram como êle
+com facilidade permite comparar a atenção visual dos alunos de uma
+classe, e agrupá-los debaixo do ponto de vista da atenção. As
+experiências em que praticámos êste processo mostram-nos bem a
+influência que a fadiga tem sôbre a atenção. Comparando os resultados
+obtidos nas experiências da manhã, antes de começarem as aulas, com os
+obtidos à tarde, ao fim delas, verificou-se com facilidade que o número
+de alunos do primeiro grupo, o dos que realizaram a prova com mais
+rapidez, diminuiu: e mais se viu que, naqueles que na segunda vez ainda
+figuravam entre os primeiros, a velocidade era menor à tarde do que de
+manhã; a prova durava mais. O processo que Van Biervliet recomenda, e
+que é aquele de que estou falando, tem o inconveniente de exigir para
+uma fácil verificação da duração da prova, e evitar que nos enganem,
+exigir, dizia, o exame dos alunos por pequenos grupos, de quatro a
+cinco. Para tirar conclusões é, como em todos os de que falei,
+necessário repetir as experiências. Como questão capital, mais uma vez
+direi que estas experiências psicométricas que se aconselham aos
+professores, não têm em vista, como muitos supõem, distraindo-os das
+suas funções de professores, pô-los na situação de investigadores ao
+serviço da sciência, a perscrutar leis, ou descobrir novos factos, ou
+verificar observações daqueles que com uma preparação, profunda e
+especial, se consagram a estudos pedológicos. O professor deve fazer a
+pedologia necessária para praticar o ensino que lhe pertence e
+praticá-lo nas melhores condições, e no maior acôrdo possível com o
+feitio do seu educando, e com as regras pedagógicas induzidas pelos
+pedologistas de profissão, por aqueles que especialmente se preparam
+para investigações scientíficas na criança, tendo em vista as suas
+aplicações pedagógicas.
+
+Os processos de medida da atenção visual de que falei podem ser
+praticados pelo professor, sem que lhe tomem muito tempo, e podem
+servir-lhe, desde que se não esqueça de certas precauções, tendo em
+vista evitar a influência de factores que perturbam os resultados ou a
+interpretação dos resultados destas experiências fáceis, mas não
+simples, podem servir-lhe, dizia, para orientar convenientemente o seu
+ensino, e verificar, como por exemplo Van Biervliet diz a propósito da
+medida da fadiga escolar, verificar o valor, o interêsse da sua própria
+maneira de ensinar.
+
+ * * * * *
+
+Os _tests_ não servem só para julgar, por exemplo no nosso caso, do
+valor da atenção e do gráu da fadiga; servem tambêm como meios
+excelentes para educar, para treinar a própria atenção do aluno. Demais
+êles têm para o aluno o caracter, que mais lhes prende e chama a
+atenção, de verdadeiros jogos, e como tal podem ser aproveitados. Com o
+fim de treinar a atenção podereis, sem inconveniente nem perturbação do
+ensino, mandar de vez em quando, durante alguns minutos, mesmo no
+decurso da própria lição, mandar cortar certas letras, uma, duas, três,
+etc, e estimular os alunos para ver quem mais correctamente e
+rápidamente as corta. Ensinareis assim os vossos alunos a orientar a sua
+atenção, e a fixá-la. É uma verdadeira lição de vontade. E o exame dos
+_tests_ e a sua apreciação contribuem tambêm muito para a educação do
+professor; experimenta-lhe e disciplina-lhe a sua própria atenção e
+paciência e dá-lhe, pelas conclusões a que leva, ensinamentos muito
+úteis à pratica do ensino. Cria-lhes, alêm disso, um utilíssimo hábito
+scientífico: o hábito de experimentar.
+
+ * * * * *
+
+É das Universidades e dos seus cursos de psicologia e de pedologia, dos
+seus laboratórios especiais, e da sciência livre e desinteressada e pura
+que muitas vezes nelas exclusivamente se professa, que têm saído os
+ensinamentos que transformam dia a dia a arte de ensinar e revolucionam
+a sciência pedagógica.
+
+Se não se quere ir até fazer com que a preparação do professor primário
+se faça na própria Universidade, como nalgumas partes sucede, é
+indispensável aproximar o mais possível a _escola dos mestres_ da
+Universidade, para que ela sofra a benéfica influência desta _alma
+mater_, onde se deve professar com todo o desenvolvimento a sciência da
+criança, a antropologia da criança, a pedologia, a base da pedagogia
+nova, da pedagogia scientífica, da pedagogia natural, da pedagogia
+moderna, da verdadeira pedagogia.
+
+Que ao menos, como Credaro fez em Itália, se crie junto às Universidades
+_escolas pedagógicas_, cursos de aperfeiçoamento para os futuros
+professores, e mesmo para os actuais.
+
+
+ Senhores:
+
+
+Na Universidade é que se deve apurar no maior gráu possível o espírito
+scientífico, o espírito de investigação e de crítica tolerante, o bom
+senso, aquele que permite descobrir a realidade e as possibilidades. E
+em nenhuma arte, mais do que na do mestre-escola, é necessário êsse
+bom-senso, o excelente hábito de observar e experimentar, que leva ao
+tacto e à paciência, indispensáveis para proveitosamente se lidar com
+crianças e saber conhecê-las para saber ensiná-las.
+
+A aproximação do mestre primário da Universidade tem ainda outras
+vantagens. O espírito da Universidade deve ser o verdadeiro espírito
+democrático; difundir a cultura por todos, criar uma atmosfera em que se
+encontrem misturadas tôdas as ideas, todos os sentimentos que irradiam
+de todos os ramos da cultura e que contribuem, como diz Lanson, «para
+abrir no espírito dos novos, antes da hora da especialização inevitável,
+o espectáculo total da sciência, a fim de fazer com que cada um seja
+mais do que um simples artífice intelectual, para que todos compreendam
+a dignidade da tarefa que a cada um pertence, sabendo que laços a
+prendem ao todo.»
+
+Á Universidade compete (e é nela que é mais fácil isso fazer-se),
+compete formar a própria nacionalidade e a própria democracia.
+Juntando-se todos dentro dela e sofrendo-lhe a influência, poderá mais
+fácilmente fazer-se, do que nas escolas especiais se faz, fazer-se,
+dizia, com que desapareçam os preconceitos de origem, de classe e de
+profissão. «De certo, como diz o Dr. Bernardino Machado, na sua célebre
+oração de sapiência, _A Universidade e a nação_, de certo que entre os
+diversos ramos da actividade humana há classificação, mas reversível, à
+semelhança do que acontece com a própria árvore natural, onde até os
+ramos se podem transmudar em raízes e as raízes em ramos. O que não há é
+subordinação deprimente, do maior para o menor; como a não há, de um
+para outro ramo, entre os profissionais que os cultivam. São todos
+homólogos, todos irmãos». Êste espírito de fraternidade ninguem melhor o
+pode incutir do que o ensino universitário.
+
+
+Meus senhores e particularmente meus alunos: não sofram da ilusão do
+diploma, a mais perigosa de tôdas as ilusões das escolas da nossa terra.
+Não imaginem que o número de valores com que no fim do seu curso a
+Escola Normal os brinda, e lhes premeia o seu esfôrço, significa que são
+professores, aptos e prontos, cujo _valor profissional_, profissional
+repito, se pode medir exclusivamente, ou principalmente, olhando para um
+papel e para uma cifra.
+
+Um diploma distinto de uma das nossas escolas normais significa apenas
+que o aluno estudou e se apresentou distintamente na freqùência das
+disciplinas dessas escolas. As nossas escolas normais são, como me
+parece que disse Guex, o autorizado professor suiço, simples escolas
+primárias superiores com a cadeira de pedagogia. Nos valores da carta do
+normalista não influi ainda o curso de pedologia, nem a pedagogia tem um
+maior coeficiente do que o das disciplinas de cultura geral. Está-me a
+lembrar o que há dois anos me sucedeu com um candidato a professor da
+Casa Pia, que calorosamente defendia a sua pretensão, insistindo em que
+devia ser preferido só porque tinha 20 valores; muito simplesmente lhe
+retorqui:--_Imagine o senhor que não tem paciência, nem calma. ¿Dizem os
+seus valores alguma cousa sôbre isso? ¿Quem o quererá para professor de
+seus filhos, se não tiver_ _aquelas qualidades? Professe, ensine
+primeiro; depois se verá se é professor_. E, a propósito ainda, me
+lembro de uma outra anedota que uma vez ouvi contar, na aula de
+obstetrícia da Universidade de Coimbra, ao querido e sábio professor Dr.
+Daniel de Matos. Contava êle que um parteiro notável com quem uma vez
+conversára, falando-lhe dum grande êrro profissional cometido por um
+médico, começou assim a sua narrativa:--_Un jour, un collégue, pardon,
+un médecin_...» Há na realidade muitas vezes uma grande distância entre
+um diplomado distinto e um distinto profissional.
+
+O professor primário precisa de ter uma sólida cultura geral, e conhecer
+bem os métodos de ensinar, e o ser que tem a ensinar, mas não menos do
+que da erudição, deve tratar da sua educação scientífica, do hábito de
+investigação, adestrar a paciência, apurar o bom senso, e criar e
+fortalecer e desenvolver a fé e o entusiásmo pela sua profissão.
+
+Aproximá-lo da Universidade e nela pô-lo em contacto com aqueles que
+mais provávelmente subirão e alcançarão os mais elevados lugares, os de
+dirigentes da sociedade, é contribuir não só para lhe ampliar a cultura
+e para lhe desenvolver o espírito scientífico, mas tambêm para o
+dignificar, e fazer estimar mais a sua profissão, a sua nobilíssima e
+importantíssima missão de educador primário, primário em todos os
+sentidos da palavra.
+
+Bem haja quem organizou esta série de conferências, de que a minha é
+êste ano a última em número e em mérito e bem haja a nobre Universidade
+de Lisboa por não ter duvidado abrir as suas salas aos professores
+primários e permitir-lhes até que das suas cátedras falassem.
+
+_Escolas, escolas, construí escolas_, se grita à maneira de Sarmiento,
+na crença de que elas por si transformarão e melhorarão a sociedade.
+
+_Professores, professores, bons professores_, exclamarei eu, _porque
+êles são indispensáveis para fazer as boas escolas_. E antes talvez de
+melhorar os processos da sua formação, talvez que antes disso seja
+preferível fazer o que estamos aqui a fazer: dignificar a profissão,
+fomentar a consideração por ela, atrair os mais aptos e criar o
+entusiásmo e a fé, que nesta modesta mas fundamental profissão ou,
+melhor, sacerdócio do professor primário, mais do que em nenhuma são
+precisos.
+
+Proteger o professor, honrar o professor, e fazer com que êle seja o que
+deve ser e saiba honrar a sua profissão é contribuir para a valorização
+da nossa terra. Êles tudo têm em suas mãos, porque, como já uma vez eu
+mesmo disse, nelas têm a Patria e os seus soldados.
+
+A vitalidade de uma nação pode julgar-se pela maneira por que ela
+prepara e considera e paga os seus professores.
+
+¡Senhoras e senhores! ¡Honrai o professor!
+
+Disse.
+
+
+
+
+DA INTELIGÊNCIA DO ESCOLAR E DA SUA AVALIAÇÃO[11]
+
+/#
+ «_Vuota di sentimento e di azione l'intelligenza è una forma
+ inconcepibile._»
+
+ Prof. Saffiotti.
+#/
+
+
+Á semelhança do que têm feito outros paises em que a politica da
+Educação é politica dominante e onde, portanto, a arte de governar os
+homens se prende íntimamente e depende intencionalmente da de governar
+as crianças, à semelhança de algum dêstes países onde a felicidade da
+Nação se trabalha e fórma principalmente na escola, abriu-se êste ano
+entre nós um curso de aperfeiçoamento para professores primários, em que
+eu tenho a honra de inaugurar o curso de Psicologia experimental. Em bôa
+hora o seja.
+
+Longe de me poder considerar à altura dos Mestres, a quem lá fóra se tem
+confiado êsse ensino de aperfeiçoamento, extensivo até aos professores
+de escolas normais e aos inspectores primários, esforçar-me hei no
+entanto por me pôr ao par deles no desejo de, segundo os seus
+ensinamentos, fazer com que as senhoras e os senhores adquiram o mais
+rápidamente possível noções e hábitos que se possam traduzir num
+imediato melhoramento do ensino pelo melhoramento dos mestres. Não
+pretendo tanto aumentar-lhes a cultura, como sobretudo aperfeiçoar a
+arte de aproveitar a cultura e as aptidões que já têm, em grande parte
+até, graças à sua experiência profissional.
+
+Não farei o que costumo fazer no meu curso regular, agora de dois anos
+completos e onde insistentemente, minuciosamente, eu principalmente
+procuro: 1.^o _Arreigar a convicção de que os fenómenos psíquicos são
+fenómenos de reação nervosa, susceptíveis de serem estudados por métodos
+objectivos, e portanto de que a Psicologia é uma sciência biológica, uma
+sciência do quadro das sciências naturais_; 2.^o _de que a educabilidade
+é uma propriedade do sistema nervoso_; 3.^o _de que essa, propriedade se
+pode estudar e cultivar segundo as normas habituais das experiências
+scientíficas_; 4.^o _de que a avaliação da educabilidade é o problêma,
+psicológico fundamental do professor_.
+
+Quási saltarei sôbre os três primeiros números do meu programa habitual
+e caírei sôbre o quarto, e estudarei, em sua companhia, aquilo para que
+os julgo mais habilitados e que mais rápidamente se poderá traduzir num
+melhoramento pedagógico, de origem puramente psicológica: _A
+inteligência do escolar e a sua avaliação_; tanto mais que para êsse
+estudo se encontram prontos a serem utilizados pelos mestres dois
+pequenos volumes ao alcance de todos: _La medida del desarollo de la
+intelligencia en los niños_ de Binet e Simon, tradução espanhola do
+professor do Instituto nacional de surdos mudos, cégos e anormais, de
+Madrid, sr. Orellana, publicado em 1918, e a _Contribuição para o
+estabelecimento de uma escala de pontos dos níveis mentais das crianças
+portuguêsas_, publicada por dois ilustres compatriotas nossos, a quem a
+bibliografia pedagógica moderna portuguêsa já bastante deve: o sr.
+Antonio Sergio e sua esposa a sr.^a D. Luiza Sergio, contribuição
+publicada em volume, em junho de 1919.
+
+ * * * * *
+
+Num curso de psicologia objectiva, os fenómenos psíquicos são
+considerados como _reflexos cerebrais_, como lhe chama Bechterew,
+reacções exteriores que dependem da experiência de cada indivíduo,
+durante a sua vida. Estudam-se as reacções do indivíduo em relação com o
+meio ambiente, incluindo nêste o meio social e a própria escola.
+
+As reacções que particularmente estudamos, os fenómenos que constituem o
+objecto da Psicologia objectiva, e que nela os procuramos estudar como
+se estudam os outros fenómenos da Natureza, dependem não só da estrutura
+do indivíduo e da acção da ocasião, mas tambêm de acções e reacções
+anteriores a essa ocasião.
+
+A acção de ocasião junta-se, _associa-se_ nos seus efeitos aos efeitos
+das acções anteriores, de maneira que a reacção é influída e regulada
+por estas. Eis a essência do fenómeno mental.
+
+A educação não é mais do que o aproveitamento desta propriedade do
+sistema nervoso, ou mais precisamente dos hemisférios cerebrais, desta
+_memória associativa_ (Loeb), com o fim de, por meio dela, regular a
+actividade, o procedimento, a acção do indivíduo.
+
+A educação é a utilização da _memória associativa_, é o regulamento
+intencional da experiência do indivíduo, é a formação, a cultura, em
+obediência a certos princípios e interêsses, do poder da sua _memória
+associativa_.
+
+Será esta a _Inteligência_?
+
+Variadas e, por vezes, discordes são as definições que se dão, e as
+significações que se atribuem a esta palavra.
+
+A inteligência talvez se possa definir, em psicologia objectiva, como
+uma manifestação externa da memória associativa, que se caracteriza por
+actos de adaptação às variações das circunstâncias. É, até certo ponto
+isto, se assim se pode dizer, uma tradução em linguagem fisiológica da
+concepção que Bergson exprime quando diz que a «função essencial da
+inteligência consiste em encontrar em quaisquer circunstâncias os meios
+de se tirar de dificuldades.»
+
+É a inteligência uma utilização da memória associativa. É a propriedade
+de ajustar os traços das reacções anteriores, isto é, a experiência
+individual anterior, à experiência da ocasião, para uma adaptação a
+novas circunstâncias, por meio de reacções reguladas pela experiência
+anterior do indivíduo, repito.
+
+A inteligência sob este ponto de vista, é uma manifestação externa,
+global, da memória associativa, e que se avalia pela sua finalidade,
+pelo valor do ajustamento, em rapidez e perfeição, às variações
+quantitativas e qualitativas das circunstâncias.
+
+Ora esta fórma de actividade mental deve depender não só dos
+conhecimentos própriamente ditos, das ideas, mas tambêm do sentimento de
+prazer ou de dôr que acompanhou as experiências anteriores e acompanha
+as actuais, isto é, da _afecção_, se se quizer adoptar o termo que o sr.
+Antonio Sergio emprega para designar o _elemento sentimental_ (_Da
+Natureza da afecção_, separata da «Revista Americana», 1913, pág. 8.)
+
+A inteligência revela-se, portanto, em actos em que as ideas e os
+sentimentos influem, como nos _tropismos_ influem certas substâncias.
+
+A inteligência depende do interêsse, das tendências, que, por sua vez,
+são funções da estrutura do indivíduo, da natureza da sua experiência
+anterior e da natureza da experiência de ocasião.
+
+Sendo assim, fácil é compreender porque é que se podem considerar como
+não inteligentes, certos indivíduos cuja fórma de reacção mental de
+adaptação se revela dificiente em determinadas circunstâncias, em certos
+meios.
+
+Percebe-se que, com Binet, se distinga a inteligência escolar da
+inteligência extra-escolar, se porventura as circunstâncias da escola
+são muito diferentes das de fóra da escola e os interêsses que a escola
+desperta são diferentes do que a vida ordinária ou o meio extra-escolar
+despertam.
+
+Há inteligências que se não revelam na escola.
+
+Verdadeiramente, completamente inteligente, porêm, é o que se ajusta a
+quaisquer circunstâncias, é o que se mostra inteligente em qualquer
+meio.
+
+A inteligência não é apenas a inteligência que consiste em adaptar
+respostas a preguntas, na escola, falando, escrevendo ou calculando, mas
+tambêm a que se revela por actos e gestos de outra ordem, em
+circunstâncias de tôda a ordem.
+
+A inteligência julga-se pelo valor adaptivo do gesto ou do acto
+considerado debaixo do ponto de vista da sua prontidão, rapidez,
+exactidão e perfeição.
+
+A inteligência não tem um significado cognoscitivo apenas, revelação e
+utilização de conhecimentos; tem tambêm um significado moral e um
+significado estético, que se revelam na reacção às variações das
+condições morais e estéticas do meio, no condicionalismo ético e
+estético da experiência.
+
+Compreende-se, pelo que lhes vou dizendo, que por exemplo, como faz Van
+Biervliet, se classifique a inteligência em espécies: _inteligência
+clássica_, isto é, inteligência que se revela principalmente nos
+trabalhos da classe, _inteligência prática e inteligência estética_.
+
+Compreende-se tambêm que com propriedade se possa dizer que há uma
+imbecilidade intelectual, uma imbecilidade estética e uma imbecilidade
+moral.
+
+Kirckpatrick considerando a inteligência, ou melhor a actividade
+intelectual, não própriamente sob o ponto de vista da sua finalidade,
+mas no do seu mecanismo, descreve, quatro tipos de inteligência, tendo
+como inteligência tudo aquilo que constitui acto de adaptação
+individual, e assim descreve: um tipo de _inteligência fisiológica_, um
+tipo de _inteligência senso-motriz_ ou _perceptiva_, um tipo de
+_inteligência representativa_ e um tipo de _inteligência conceptual_ ou
+_conceptiva_.
+
+A primeira excluo-a eu aqui, porque não depende de fenómenos da _memória
+associativa_. São fenómenos de adaptação de outra ordem, pura adaptação
+fisiológica, em que a própria imunização tem o seu lugar.
+
+Dos outros tipos convem dar-lhes hoje uma noção.
+
+Na _inteligência senso-motriz_ ou _perceptiva_ o que há, o que a
+caracteriza é uma adaptação imediata de movimentos e sensações de
+ocasião. Estes actos não se manifestam, não se repetem senão quando
+estímulos da mesma natureza actuam em circunstâncias semelhantes.
+
+Por exemplo certos movimentos que se executam no decurso do jôgo do
+_foot-ball_, movimentos de equilíbrio, de ataque, de defesa ou melhor os
+movimentos que, quando tropeçamos e vamos a cair, fazemos para nos
+equilibrarmos.
+
+São as próprias sensações que experimentamos, que _directamente_
+provocam e regulam os actos de adaptação. De factos em relação com esta
+espécie de inteligência tratei eu num artigo sôbre mutilados da mão, que
+publiquei na _Medicina Moderna_ do Pôrto, com o título _Inteligência
+motriz_.
+
+Na _Inteligência representativa_ os actos da adaptação podem ser
+provocados e regulados apenas por símbolos que se tenham associado a
+sensações anteriores. O acto pode executar-se em virtude duma
+experiência anterior regulada por acções semelhantes que víssemos
+executar ou que nos fôssem descritas. É a experiência anterior de outros
+a regular a nossa.
+
+Na _conceptual_ ou _conceptiva_ o acto de adaptação revela-se não só na
+ausência de uma experiência _do mesmo tipo_, feita pelo próprio ou por
+outrem, vista ou descrita, como se dando nas mesmas circunstâncias, mas
+em resultado de experiências _várias e diferentes_, do próprio e de
+outros.
+
+Uma pessoa quando salta dum carro em movimento, pode fazê-lo com sucesso
+ou porque já o tenha feito outras vezes, e portanto associe as acções
+sensoriais de momento às reacções anteriores (_inteligência
+senso-motriz_), ou porque já tenha visto saltar outrem ou lhe tenham
+dito como se deve saltar (_inteligência representativa_), ou porque
+reacções diferentes que tenha por si mesmo experimentado, observado ou
+visto descritas por outros, se tenham associado e combinado por forma a
+gerar o conhecimento das leis dos corpos em movimento, o que associado
+às acções do momento regula o acto de adaptação (_inteligência
+conceptual_).
+
+Em tôdas estas formas de inteligência se verifica a associação dos
+resultados das experiências anteriores aos das experiências do momento,
+da mesma natureza ou não. O acto intelectual é um acto de adaptação e de
+revelação da memória associativa.
+
+Na escola, onde se governa e conduz a experiência do indivíduo, em
+atenção ao futuro, se utilizam ou devem utilizar e cultivar todos os
+três tipos de inteligência, e, para a instrução, principalmente os dois
+últimos.
+
+Mas nem tôdas as idades, nem em todos os indivíduos da mesma idade a
+_inteligência_ tem o mesmo valor. Compreende-se, portanto, bem o
+interesse que para o professor tem o saber e o poder analisar os actos
+intelectuais, por forma a, se assim se pode dizer, obter a _fórmula
+qualitativa e quantitativa_ da inteligência de cada um.
+
+Pode calcular-se essa fórmula? Pode analisar-se a inteligência? Pode
+esta avaliar-se? Pode ser medida? Pode.
+
+A inteligência é, se quizerem empregar os termos de Saffiotti: «_a
+capacidade de estabelecer novas relações entre a própria personalidade e
+as novas condições; é a capacidade de tirar destas relações
+interpretação adequada e conformar com ela a sua reacção_».
+
+A inteligência, perante isto e perante o que lhes tenho dito, deve
+depender da estrutura do indivíduo, das propriedades inatas, do momento
+do seu desenvolvimento, e tambêm da natureza e valor da sua experiência
+anterior, da sua cultura, regulada ou não intencionalmente por outrem.
+
+Ora sendo assim poderá alguma coisa prever-se sôbre a inteligência,
+estudando a estrutura, as características biológicas do indivíduo, como
+se pode até certo ponto julgar do valor de um motor, das suas
+capacidades, pelo estudo do maquinismo, da sua organização, da sua
+anatomia, da sua estrutura, como se podem prever certas propriedades
+químicas, certas reacções, observando caracteres organo-nolépticos e
+físicos de certos corpos. É esta a base da avaliação da inteligência nos
+métodos que assentam no estudo das correlações psico-somáticas e
+psico-fisiológicas.
+
+A inteligência pode ser avaliada tambêm analisando a forma, o mecanismo
+de certas reacções psíquicas elementares, sujeitando o indivíduo a
+_provas_ psíquicas de diferente tipo e natureza em que sobretudo influi
+a maneira da actividade intelectual, o tipo ou a espécie da
+inteligência.
+
+Pode mesmo usar-se provas experimentadas em muitos, usando o que se
+chamam _tests_, que não são outra cousa do que verdadeiros _reagentes
+mentais titulados_, ou, se quizerem tambêm verdadeiros _padrões, tipos
+de reacção_, em que a forma desta e a sua velocidade, foi préviamente
+_observada e medida em muitos_.
+
+É um tipo de avaliação em que se estuda ou analisa principalmente o
+mecanismo do acto intelectual, decomposto em elementos. É a base dos
+métodos de avaliação fundados no estudo das correlações
+psico-analíticas. Mas assim como na apreciação ou na classificação de um
+tipo de vinho não basta a analise própriamente dita; há que proceder a
+uma apreciação global, tendo em vista o fim comercial, por exemplo, a
+que visa a apreciação, assim tambêm no exame de inteligência é por vezes
+necessário recorrer a um exame global, em que não se atende apenas ao
+mecanismo do acto, mas tambêm à sua finalidade e à finalidade da sua
+avaliação.
+
+Ora o educador não deve apenas preocupar-se com o mecanismo do acto
+intelectual do aluno, para o caracterizar e escolher o método de ensino
+que mais convenha. O educador não toma o aluno _em branco_, se assim se
+pode dizer. Os actos intelectuais que êle tem de regular, a experiência
+intelectual que êle tem de conduzir, tem um passado que influi e está em
+estreitas relações com os fins educativos. A experiência anterior do
+aluno tem uma grande importância e valor, e está dependente da sua idade
+e do meio em que viveu e vive.
+
+Ao professor, no exame escolar da inteligência, convêm-lhe _reagentes_,
+_tests_, que precipitem em globo, em massa, se assim se pode dizer, a
+inteligência e dêem a forma e a natureza desta, e tambêm a da sua
+experiência anterior.
+
+Se há questão pedagógica em que se possa falar de criança portuguesa, e
+duma maneira geral de um tipo ou tipos nacionais de criança, é a
+proposito da inteligência.
+
+O momento histórico regula a inteligência e deve regular a sua formação.
+
+A psicologia de que carece o educador não pode nem deve viver afastada
+da ética. E se há questão psicológica em que há que atender aos fins da
+educação, é a da inteligência.
+
+Recordo-me da profunda emoção que me causou a leitura das palavras de um
+formoso livro, um dos que mais podem contribuir para a cultura do
+entusiasmo pela carreira de professor, o livro de Münsterberg: _A
+psicologia e o mestre_. Recordo-me. Diz êle e eu repito:
+
+«_Agora é evidente que o estudo dos meios psicológicos póde ser útil
+sómente quando as aspirações do mestre tenham sido determinadas pela
+investigação ética independente do filósofo. Porêm tão prontamente com
+estes fins, os resultados cada, vez mais ricos da psicologia
+experimental, devem ser levados ao mestre de tal modo que êste possa
+conhecer e escolher os meios úteis para a satisfação das suas
+aspirações._»
+
+A Educação é uma das artes em que a Psicologia serve a Ética.
+
+Está aberto o curso de Psicologia.
+
+
+
+
+INTELIGÊNCIA E APERCEPÇÃO[12]
+
+
+/#
+ «Notre réprésentation de la matiére est la mesure de notre action
+ possible sur les corps; ele résulte de l'élimination de ce qui
+ n'interesse pas nos besoins et plus géneralemente nos fonctions».
+
+ Bergson: _Matiére et mémoire_
+
+
+ «Il faut respecter en nous les lois de la nature, acepter les
+ devoires nés de l'organisme, acomplir les fonctions pour lesquelles
+ on est fait, avec le pouvoir énergétique que l'on posséde. Le but
+ de la vie c'est tout le _perfectionement_ possible, physique ou
+ psychique, par la méthode et la discipline».
+
+ Albert Deschamps: _Les maladies de l'esprit et les asthénies_.
+
+ «Non seulement une conception mécanique de la vie est compatible
+ avec l'ethique; ele semble être la seule conception de la vie, qui
+ puisse amener á comprendre oú est la source de l'éthique».
+
+ L[oe]b: _La conception mécanique de la vie_(tradução francesa).
+#/
+
+Viver é essencialmente adaptar-se; é a luta pela adaptação, é o esfôrço
+para o ajustamento do sêr ao meio, acomodando-se, ajustando-se a êle, ou
+ajustando-o a si próprio. Educar é favorecer, conduzir intencionalmente,
+metódicamente êsse ajustamento, essa adaptação.
+
+Ora o indivíduo possui em si faculdades, capacidades de adaptação, de
+ajustamento, de assimilação, de utilização do meio em que vive. Essas
+possibilidades revelam-se na sua actividade, na maneira porque procede,
+e desta actividade uma parte, uma forma há que é herdada, que nasce com
+o indivíduo, que é inata, que não é determinada pela experiência
+individual, que não é aprendida e outra que é adquirida, que resulta da
+experiência de cada um, dirigida ou não por outrem.
+
+Por vezes, quási sempre, a forma da actividade inata é favorável ao
+ajustamento do indivíduo ao meio, à adaptação, às condições em que nasce
+e ordináriamente se encontra, e a maior parte das vezes tambêm a forma
+de actividade adquirida é como esta favorável ao ajustamento.
+
+As condições mantendo-se as mesmas, a adaptação verifica-se, as
+necessidades são conformes à capacidade de utilização dos recursos. O
+indivíduo está adaptado ou adapta-se por instinto ou por hábito. Se,
+porêm, as circunstâncias em que vive o indivíduo são muito variáveis, se
+se rompe o ajustamento, se há conflito entre o instinto ou o hábito e as
+circunstâncias, o indivíduo pode ou não readaptar-se, pode ou não
+assimilar o meio, utilizando-o, adaptando-o ou adaptando-se.
+
+Concebe-se que haja seres que se adaptem, independentemente da
+experiência, seres que nascem pode dizer-se, adaptados a certos meios, e
+só neles e em precisas circunstâncias podem viver: seres instintivos,
+ineducaveis, mas sôbre que o educador pode ainda assim influir,
+colocando-os em meios os mais conformes com os seus instintos, e pela
+forma mais conveniente à sociedade.
+
+Concebe-se que haja seres que, alêm de se ajustarem por instinto a
+certas circunstâncias possam em virtude da experiência, conduzida ou não
+intencionalmente, adaptarem-se a ela, adquirindo estas formas de
+actividade que se chamam hábitos, seres educáveis sôbre que o educador
+pode actuar criando os hábitos que mais convenha, e que, como tive
+ocasião de lhes dizer, mostrar e demonstrar o ano passado, deve fazer-se
+segundo certas leis induzidas de experiências scientíficas que se têm
+realizado.
+
+Concebe-se finalmente que haja seres que não só se adaptem por instinto,
+ou por hábito, que não só se adaptem a precisas circunstâncias, mas se
+adaptem tambêm fácilmente a novas circunstâncias, encontrando nelas
+sempre maneiras de se ajustar, de com elas viver em concordância, sêres
+inteligentes, sôbre que o educador deve actuar variando o mais possível
+as condições da experiência educativa, para que o mais possível tambêm
+se apure este dom sublime da inteligência, do poder de utilizar o meio,
+que é a base da felicidade e do progresso.
+
+Só é verdadeiramente livre, quem é suficientemente inteligente.
+
+Na lição da abertura do curso de aperfeiçoamento do ano passado, lição
+que intitulei _Da inteligência do escolar e da sua avaliação_, lição que
+devem ler, citei e adoptei, para certos casos, a definição de
+inteligência do Professor Saffiotti:
+
+«Inteligência é a capacidade de estabelecer novas relações entre a
+própria personalidade e as novas condições; é a capacidade de tirar
+destas relações, _interpretação_ adequada e conformar com elas a sua
+reacção».
+
+A inteligência é função portanto da interpretação e só se revela quando
+a interpretação é adequada e a reacção a que a interpretação conduz por
+sua vez se revela em actos de adaptação.
+
+Ora é êste poder de _interpretação_ que se chama a apercepção. A
+inteligência depende da apercepção, da maneira porque se interpreta.
+Quem interpreta por uma maneira inadequada às conveniências da sua
+adaptação, não se adapta, reage por forma desfavorável, não procede com
+inteligência.
+
+Vêem já portanto quanto interessa o estudo da apercepção. Leiam
+particularmente sôbre esta o que vem da pág. 430 à 434 da tradução
+francêsa do compêndio de Psicologia, de William James, 4.^a edição.
+
+ * * * * *
+
+A interpretação ou apercepção depende de uma série de condições que,
+como verão em James, Lewes denominou _a soma das condições
+psicoestáticas_: a natureza do indivíduo, o seu carácter, a sua
+experiência, a sua educação, os seus hábitos, o seu humor, etc. A
+apercepção é uma faculdade intelectual contingente, que depende dos mais
+variados factores, desde, os mais materiais aos mais espirituais, desde
+as necessidades do corpo às necessidades do espírito (usando a linguagem
+corrente), e sôbre que, tanto pode actuar o médico como o professor,
+tanto o gimnasta como o filósofo.
+
+O aspecto físico, a forma do corpo por si indicam tendências, certas
+aptidões psicológicas, certas necessidades, certos interêsses que
+conduzem a experiência do indivíduo por forma a ele entrar em contacto
+com o meio em que vive, e que por sua vez conduz a determinada
+interpretação dele, e portanto o leva a reagir e proceder e adaptar-se
+por determinada forma. O psicólogo se quere descobrir a alma tem muito a
+ganhar em conhecer o corpo. Se quere prever a fórma de reacção do
+indivíduo tem que estudar os orgãos dessa reacção; se quere ser
+psicólogo a valer tem que ser antropólogo. O que tudo quere dizer que:
+psicólogo e antropólogo, psicologia da criança e pedologia física, se
+devem entrelaçar, se podem e se devem estudar conjuntamente.
+
+As anomalias mentais da criança explicam-se por vezes fácilmente se se
+estudar a forma, os caracteres do seu corpo, se se julgar do grau do seu
+desenvolvimento físico, se se vê se o crescimento nela é normal ou não.
+
+Há caracteres mentais que são sintomas de alterações orgânicas, e
+perturbações do crescimento que o médico pode corrigir para o professor
+depois aproveitar.
+
+Há no nosso corpo um órgão até cuja influência sôbre a inteligência é
+tal que alguem já o chamou _a glândula da inteligência_ (Pende).
+
+É tal a importância que o estudo da anatomia e da psicologia tem para o
+psicólogo que nos modernos trabalhos sôbre as astenias, defeitos ou
+insuficiências da energia orgânica, vícios de funcionamento orgânico, se
+se caracterizam êsses defeitos pela insuficiência revelada nos actos de
+adaptação social, e se vai até a explicar a moral e a filosofia de
+muitos por essa insuficiência de origem fisiológica, aparecendo-nos a
+moral como um ramo da biologia e a filosofia como uma arte dos
+psicasténicos.
+
+Pierre Janet, um dos maiores psicólogos da nossa época, foi até a
+afirmar que talvez a filosofia não passasse duma doença do espírito. A
+filosofia, de facto, parece a consequência, a revelação duma actividade
+interpretativa filha de uma atitude mental, duma tendência anciosa para
+a procura de relações entre as cousas e os factos que nos cercam e se
+passam no meio que nos circunda, e que as dificuldades de adaptação, e a
+insuficiência da adaptação em certos gera.
+
+Seja como fôr, o que lhes quero acentuar é que o estudo da psicologia e
+em particular o da _apercepção_, que será o objecto principal do nosso
+curso dêste ano, tem muito a ganhar iniciando-se pelo estudo da
+influência das condições orgânicas neste fenómeno, e mais
+particularmente ainda pelo estudo da influência que tanto na forma do
+processo aperceptivo, como na maneira por que se interpreta, como na
+natureza dos conhecimentos que se utilizam, influi o tipo fisiológico da
+criança, as suas tendências inatas, a sua constituição, o seu
+temperamento, e a fase do crescimento em que se encontra.
+
+ * * * * *
+
+Esta influência do organismo na apercepção, de que lhes tenho estado a
+falar, esta influência do condicionalismo fisiológico na interpretação
+das circunstâncias e na adaptação a elas, é já uma influência do passado
+no presente, é a hereditariedade a comandar-nos, é, pode dizer-se a
+tradução fisiológica do mote que tantos têm já glosado: _os mortos
+mandam_.
+
+Mas não é só por esta forma que o passado se mistura com o presente e
+nos governa, nos impõe até certo ponto uma interpretação do presente, e
+nos regula, a nossa adaptação às novas condições. É tambêm, e talvez
+ainda mais, pelo resultado da nossa própria experiência, regulada,
+intencionalmente ou não, pelos outros, resultado das modificações que
+nas nossas reacções vai introduzindo o contacto diário com o meio em que
+se vive, com a natureza e com a sociedade, resultado da interferência
+das acções desta com as nossas reacções.
+
+Dia a dia as nossas tendências, os nossos interêsses, o nosso saber, o
+nosso carácter, a nossa experiência, são postos à prova, e dia a dia nos
+vamos consumindo na emprêsa do ajustamento das nossas reacções às
+circunstâncias.
+
+Impressiona-nos mais não o que é própriamente mais forte ou mais novo,
+mais estranho, mas o que é mais forte e estranho para nós, aquilo que é
+novo para o ponto de vista dos nossos interêsses, que cahe na zona do
+nosso saber e das nossas necessidades e que nós nos esforçamos
+naturalmente por assimilar na tendência vital, orgânica, da nossa
+adaptação. O que não sabemos, não vêmos; o que não experimentamos não
+sabemos.
+
+Palavras estranhas ou letras associadas mesmo ao acaso, tendemos a
+interpretá-las e a lê-las, em nossa língua. Desenhos informes, nuvens
+que o acaso amontuou, manchas que o acaso estampa, borrões de tinta,
+tudo tendemos a interpretar como se fossem formas conhecidas e segundo
+os nossos conhecimentos e até certo ponto os nossos interêsses. Sempre o
+passado a mandar; sempre segundo a nossa mentalidade e a nossa
+experiência!
+
+O mundo, a interpretação do que nos cerca, é função do nosso organismo e
+da nossa experiência ou saber.
+
+A realidade é uma interpretação, consoante os nossos interêsses, e os
+nossos interêsses expressão da nossa organização e da nossa experiência,
+experiência livre, ou intencionalmente condicionada, como sucede na
+educação.
+
+Meditem as palavras de Bergson que, livremente mas fielmente, julgo,
+assim poder traduzir:
+
+«...O nosso carácter, sempre presente a tôdas as nossas decisões é bem a
+síntese actual de todos os estados por que já passámos. Sob esta forma
+condensada, a nossa vida psicológica anterior existe para nós mesmo mais
+do que o próprio mundo externo, porque dêste apercebemos apenas uma
+muito pequena parte, enquanto que pelo contrário utilizámos a totalidade
+da nossa experiência vivida já, experimentada e feita.»
+
+Como que há, como Bergson tambêm diz, uma tendência constante do passado
+a reconquistar a sua influência, actualizando-se.
+
+Dir-se-ia que só o génio não tem passado.
+
+Vejam quão longe nos leva, e interessante e vasto é êste tema da
+inteligência e da apercepção.
+
+ * * * * *
+
+Não imaginem, porêm, que apesar da _linguagem de subjectivo_ que venho
+empregando, se não pode tambêm em _linguagem de objectivo_, ia dizer em
+linguagem scientífica, em termos das sciências experimentais, não
+imaginem que se não podem tambêm interpretar, adoptando uma concepção
+mecânica da vida, estes fenómenos da apercepção e da inteligência,
+própriamente dita.
+
+Reportando-nos a um notável trabalho de Bohn sôbre a _dinâmica,
+cerebral_, (_Rev. Philosophique_, março-abril de 1919) adoptemos a
+concepção que êle defende de que nos fenómenos psíquicos se verifica uma
+das grandes leis da sciência física, _a lei dos fenómenos recíprocos_.
+Quando se comprime um cristal de turmalina o cristal por êste facto
+electriza-se e a electrização desenvolve fôrças que se opõem ao
+encurtamento do cristal.
+
+Quando se aquece um cristal de turmalina o cristal electriza-se tambêm;
+a electrização traz consigo um arrefecimento do cristal.
+
+Dir-se-ia que o cristal que se electriza, apercebe a variação das
+circunstâncias e tende a reagir de acôrdo com a interpretação adequada.
+Afinal é um sistema de fôrças, orientado segundo um certo plano, que
+caracteriza o cristal e que reage contra as acções que tendem a
+perturbar-lhe o equilíbrio ou alterar-lhe o plano.
+
+Pode conceber-se tambêm o indivíduo como um sistema de fôrças organizado
+segundo um plano hereditário, tendendo a reagir às acções externas ou
+internas por maneira a opôr-se ao desiquilíbrio do plano da sua
+organização, caracterizado por certas propriedades vectoriais, isto é
+que se manifestam em determinadas direcções ou segundo certos vectores
+(instintos, tendências, interêsses).
+
+A cada acção vectorial ou polarizante corresponde, segundo Bohn, uma
+acção recíproca inversa, despolarizante.
+
+Quando se excitam os sentidos, a excitação que é transmitida ao cérebro
+e dirigida depois aos músculos, às glândulas e às diferentes vísceras
+provoca excitações em sentido contrário, que provêm de todos estes
+domínios e vem por sua vez depois a reagir sôbre os primeiros
+receptores. Os centros nervosos são excitados pelos sentidos e estes
+excitados pelos centros nervosos. A interferência destas duas espécies
+de ondas nervosas, daria a memória associativa, revelando-se na
+apercepção e nos actos que a exteriorizam.
+
+Estas concepções mecânicas têm a vantagem de lhes mostrar que afinal os
+fenómenos que estudamos são fenómenos naturais que podem condicionar-se
+e utilizar-se como os outros.
+
+Quando o professor conheça bem esta mecânica poderá ser tão seguramente
+útil como o engenheiro que lida com as outras máquinas.
+
+Vêem tambêm como com estas concepções mecânicas se pode fácilmente
+compreender como cuidando do corpo e educando-o se pode influir na
+educação intelectual e moral, na maneira de interpretar o mundo e a
+sociedade e de com êles harmonizar o indivíduo e fazê-lo viver em
+inteligência.
+
+Não imaginem que como muitos supõem se despreza, nestas concepções, o
+valor das ideas, não. Simplesmente intrepretamos a acção destas e
+utilizamo-las como no estudo dos tropismos se interpreta a acção e se
+utilizam as substâncias sensibilizadoras.
+
+Tudo que impressiona os nossos sentidos tem repercussão sôbre as nossas
+vísceras, tem um coeficiente emocional que muito influi na interpretação
+das circunstâncias e na nossa maneira de proceder, na nossa actividade
+ou reactividade.
+
+Os orgãos da circulação são fortemente impressionados e influem no
+_tonus_ nervoso, na energia nervosa de que muito depende a nossa
+inteligência. Glândulas há que, segundo a impressão ou excitação que
+sofrem, segregam mais ou menos substâncias (_hormonas_) que muito
+influem no _tonus_ nervoso e nos fenómenos gerais da nutrição, o que se
+pode vir a observar em alterações ou certa orientação dos fenómenos de
+apercepção e inteligência.
+
+O problema do educador é essencialmente um problema psicológico: tornar
+o real aceitável, e, conforme a natureza do indivíduo, pôr esta em
+equilíbrio com a sociedade. Para isso carece de saber de que depende a
+apercepção e como nela se pode influir; como afinal dar ao indivíduo a
+noção mais conforme com a natureza do meio social. O problema do
+educador é o problema da felicidade, que como diz Deschamps se pode
+chamar uma «harmonia psico-social, uma adaptação completa dos desejos
+aos poderes e dos poderes ao meio.»
+
+É afinal um problema de conciliação, e esta deve ser o fim de tudo.
+
+Está aberto o nosso curso de psicologia experimental em que este ano
+particularmente me ocuparei dos fenómenos e estudo experimental da
+apercepção, sobretudo debaixo do ponto de vista da genética.
+
+Lisbôa, 8-10-920.
+
+
+
+
+SÔBRE PSICOLOGIA, ESTÉTICA E PEDAGOGIA DO GESTO[13]
+
+
+ «qu'il soit permis à l'école d'insister sur ce qui nous rapproche.»
+
+ Buisson.
+
+ «O fim da arte é unir as almas, associando-as num mesmo
+ sentimento...»
+
+ Tolstoi.
+
+ «A simples cortezia de palavra, de expressão e de maneiras é já uma
+ revelação de delicadeza estética.»
+
+ Bernardino Machado.
+
+ «...si le geste est à la base de tous les arts, le principe de
+ toute éducation esthétique (et même de toute éducation intégrale)
+ ne sera-t-il pas la culture et le développement du sens créateur
+ des attitudes?»
+
+ Lalo.
+
+ «Deve pois ser a mímica a base de todo o ensino.»
+
+ Júlio Dantas.
+
+
+A Arte na escola não deve apenas ter em mira a cultura do sentimento
+estético; deve principalmente ter em vista o aumentar a apetência
+escolar, o gôsto pela escola, não só para chamar para ela, mas sobretudo
+para facilitar a assimilação dos conhecimentos, o aproveitamento
+escolar, tal como sucede com a arte na mesa, que visa principalmente a
+facilitar a digestão dos vários e complicados cozinhados que nela se
+servem.
+
+Decorar a escola, por decorá-la, cobrir as paredes das salas da classe
+com quadros vistosos, embora dos melhores, enfeitar essas salas levando
+para elas flores, peixes, avezinhas, etc., será útil para a cultura
+estética, mas contribui para distrair do fim principal da escola, a não
+ser que as lições versem sôbre ou a propósito das decorações, o que nem
+sempre é possível, nem prático. Van Biervliet, a propósito da atenção
+visual, dizia, numa das suas lições, que as salas das classes deveriam
+ser como a sala do teatro de Bayreuth: não distrair do palco, da scena,
+do principal; os alunos não deveriam ver mais do que os _tests_
+utilizados na lição. Nada os deveria distrair das estimulações que o
+professor procura directamente praticar, para ensinar-lhes o que lhes
+quere ensinar.
+
+Mas, minhas senhoras e meus senhores, embora mesmo que na arquitectura,
+na decoração interior, no mobiliário, nos livros, a arte que em tudo
+isso se ponha vise não só a educação artística, mas principalmente o
+atraír o aluno, o prender-lhe a atenção, o tornar-lhe agradável a
+escola, sem o distrair das lições, mesmo que assim seja, se uma vez nela
+o aluno se defronta com um professor, que por seus gestos e atitudes se
+torna ridículo, antipático ou temido, um professor que não saiba nem
+ritmar convenientemente a sua voz, nem compor agradávelmente a sua
+fisionomia, nem servir-se das expressões, dos gestos e das atitudes que
+mais atraem e prendem a criança e tornam mais clara e interessante a
+lição, se êsse professor desconhece a influência que a mímica tem nos
+alunos, a importância que as atitudes e a maneira de tratar e de falar
+têm na educação, se êsse professor não tiver por intùição nem por
+cultura o conhecimento do valor pedagógico das estimulações motrizes
+atraentes, não será só o professor que será mau, a própria escola,
+apesar de tôda a sua arte, passará a ser uma escola má, porque deixará
+de atrair e a falta de senso e de estética do professor tornará assim
+essa escola, a que me refiro, pior do que uma outra, cuja arquitectura,
+cuja decoração, cujo mobiliário seja menos artístico, seja mesmo
+inferior.
+
+A atitude, o gesto, a expressão fisionómica do professor actua directa e
+fortemente sôbre o aluno, levando-o a tomar atitudes, a esboçar gestos e
+a usar de uma expressão fisionómica que são o reflexo da atitude e da
+mímica do professor. Mas não deve o professor apenas lembrar-se disto, e
+por isso cuidar da sua atitude e expressão, deve lembrar-se tambêm que,
+como diz Baldwin, deve lembrar-se que o ver expressões emotivas noutrem
+não só provoca directamente aquele que as vê a colocar-se em atitudes
+semelhantes, levando-o a reproduzir essas expressões, mas tambêm faz com
+que, uma vez esboçados os movimentos provocados e assim iniciada a
+imitação muscular, faz com que, dizia, os movimentos esboçados despertem
+ou levem aos estados de consciência que ordináriamente precedem essas
+reacções emocionais. É por isso, e ainda mais do que por meu feitio
+afectivo, que eu, na casa de educação, cuja direcção me está confiada,
+tanto uso da cortezia, procurando nunca esquecer-me de cumprimentar e de
+pôr na minha expressão e nos meus gestos uma grande afabilidade.
+
+Há-de sempre lembrar-me o que comigo se passou, quando eu tinha quinze
+anos e havia pouco tempo que freqùentava a minha Universidade: a
+Universidade de Coimbra. Encontrei-me uma vez com um cavalheiro de
+figura grave, todo êle de preto, longas barbas brancas, que eu nunca
+tinha visto, que completamente desconhecia e que com grande espanto e
+comoção minha, sendo eu a única pessoa que na ocasião com êle na rua se
+cruzava, se descobriu, cumprimentando-me grave e afectuosamente, logo me
+obrigando a mim a curvar num grande gesto e com um grande sentimento de
+respeito. Era o Reitor da Universidade, o ilustre e venerando professor
+Dr. Costa Simões, cuja figura vim depois a conhecer e que hoje ainda, ao
+falar nela, me desperta uma emoção fortíssima. Era o Reitor que me
+ensinava a respeitá-lo.
+
+Ás vezes, minhas senhoras e meus senhores, me sorrio, me sorrio sim, mas
+com pezar, quando vejo por exemplo, alguns dos meus prefeitos virem
+procurar-me, pálidos com um ar de cólera mal contida, queixar-se de
+alunos que lhes faltaram ao respeito e satisfeito comigo fico, quando
+consigo logo, mostrando-me aos alunos com expressão um pouco diferente
+da habitual, consigo, dizia, levá-los imediatamente a mudar a sua
+atitude de cólera tambêm, como a do prefeito, e a tomarem uma atitude
+antagónica, de obediência, de pezar e de desgôsto. Há, por vezes, na
+vida escolar, alguns episódios, que se passam entre educadores e
+educandos, que me lembram a scena dum animal investindo furioso contra
+um espelho, por nele ver reproduzida uma atitude de hostilidade que
+cresce e aumenta à maneira que êle mais se encoleriza. Enfurece-se, sem
+o saber, contra si mesmo.
+
+Estou certo de que o facto de freqùentemente se verem professores,
+pessoas aliás de fino trato, tomarem nas aulas atitudes grosseiras e
+hostis, como o de políticos ostentarem no govêrno atitudes completamente
+opostas aos sentimentos que mostravam fora dele, resulta da imitação
+inconsciente de atitudes que viram na sua infância, ou na sua mocidade,
+nos que ensinavam e governavam.
+
+O professor é como o actor. O estado emocional do público é um reflexo
+do seu próprio estado emocional, é uma reacção simpática, provocada pela
+sua atitude, pelo seu gesto, pela sua expressão. E se o actor tem de
+cuidar e tem de estudar a estética da expressão, o professor quási tanto
+como êle a deveria estudar. Compreende-se bem porque é que Van Biervliet
+diz, como disse: «_todo o mestre, e principalmente todo o professor
+primário, deveria passar por um curso semelhante, aos dos
+conservatórios, a fim de aprender a falar belamente (califasia) e
+expressivamente, ou melhor, direi, esculturalmente_.»
+
+
+ Minhas Senhoras e meus Senhores:
+
+
+A atenção, como V. Ex.^{as} sabem, é a faculdade base, é a faculdade
+mãe, é a mãe do que vulgarmente se chama a inteligência. Quem ensina,
+quem educa deve ter antes de mais nada em vista provocar a atenção,
+prender a atenção. Ora a atenção depende intimamente do interêsse. É
+indispensável que o professor saiba estimular agradávelmente os sentidos
+que tem de utilizar no ensino. Se a sua atitude, se os seus gestos, se a
+sua expressão são de molde a repelir, o aluno não presta atenção, desvia
+a atenção. Mas não é ainda só por isto que o professor se deve preocupar
+com a sua atitude, com os seus gestos, com a sua maneira de falar; não é
+só para chamar a atenção e para a prender. É que o gesto, a expressão
+fisionómica, a maneira de nos apresentarmos aos alunos durante a lição,
+quando falamos ou quando mostramos, ajudam a compreender o que dizemos e
+o que mostramos. Sabem V. Ex.^{as} muito bem que se se fechar os olhos,
+emquanto se ouve um discurso, se tem de fazer um maior esfôrço para
+segui-lo, para o ouvir, para o interpretar. Os míopes que assistam a um
+espectáculo sem as suas lunetas, e verão como parece que ouvem menos, e
+como o espectáculo se lhes torna inferior, menos interessante, menos
+agradável, mais difícil de seguir. O gesto auxilia imensamente a
+expressão verbal, e tanto que um gesto mal adequado, ao que se diz, pode
+transtornar completamente o sentido da palavra.
+
+A mímica auxilia tambêm a memória. Inconscientemente está provado isto),
+quando se ouve ou se vê alguem, tendemos a imitar-lhe, quando mais não
+seja, _interiormente_, a expressão. As palavras que ouvimos articulam-se
+na nossa linguagem interior e tanto mais fácilmente as compreendemos,
+quanto melhor elas forem articuladas. É mais fácil reter o que se diz
+lentamente e rítmicamente, do que aquilo que se diz rápidamente e com má
+expressão. O ver esboçar um gesto é por vezes bastante para antever um
+pensamento, e para nos recordarmos.
+
+E tanto a mímica influi na memória que hoje, em pedagogia moderna, se
+aconselha muito o emprêgo da mímica como auxiliar importantíssimo do
+ensino. Está demonstrado que é mais fácil fazer fixar a um aluno o que
+se disse, gesticulando nós e fazendo-o gesticular a êle, quando repete,
+por forma apropriada, é claro, do que dizendo monótonamente e sem gesto
+e fazendo-o repetir sem gesto e sem expressão, papagueando.
+
+Estou cêrto (a minha experiência que já não é pequena me autoriza a
+dizê-lo), que os gagos até certo ponto não gaguejam quando cantam,
+porque as imagens motrizes, no canto, são mais bem desenhadas, mais
+perfeitas, fixam-se melhor, esquecem-se menos, deformam-se menos. De
+resto o canto tem hoje um papel importante no ensino da articulação, no
+ensino das línguas, mesmo nos normais. O gago, estou convencido, diga-se
+de passagem, é um doente da atenção, por excesso de emotividade.
+
+E agora, para resumir: _um professor que gesticule com propriedade, que
+fale com correcção, que articule perfeitamente, que diga com arte, que
+gesticule com arte, que se exprima com arte, não é só agradável, não é
+apenas um artista, é um excelente professor_.
+
+
+ Minhas Senhoras e meus Senhores:
+
+
+O estudo do gesto, da atitude, da expressão tem ainda uma outra
+importância, uma outra vantagem pedagógica de que ainda não falei: é a
+de servir excelentemente para conhecermos o aluno.
+
+Deixem-me assistir, sem ser visto, ao recreio, numa escola, e eu
+poderei, sem errar muito, fazer alguns juízos sôbre o feitio mental dos
+alunos. A criança até aos onze anos é, como diz Waynbaum, uma espécie de
+alienado sem freio social, ou um grande actor. As suas atitudes, os seus
+gestos são francamente a expressão do seu estado afectivo. A vontade, a
+astúcia, o cálculo, o interêsse, as conveniências, os hábitos não são
+ainda freios tão poderosos que lhe dominem, que lhe mutilem ou deformem
+o estado afectivo, que no-lo ocultem ou o tornem difícil de descobrir: a
+expressão é sincera, é a tradução exacta do seu estado e, até certo
+ponto, do seu carácter habitual.
+
+A mímica é duma eloqùência impressionante. Examinai-a bem, examinai os
+gestos, as atitudes, a expressão fisionómica e podereis com facilidade
+fazer um juízo sôbre o feitio mental, e principalmente sôbre o estado
+afectivo na ocasião. Mandai, por exemplo, abrir a boca a uma criança de
+menos de onze anos, para lhe examinar a garganta, e notai bem a
+expressão, a atitude, os gestos, a maneira de reagir: fácilmente vereis
+qual é o grau de eloqùência da fisionomia na criança, e em grande parte
+verificareis a verdade do que digo.
+
+Dos onze anos para diante e mais tarde na puberdade, o gesto, a
+expressão, a atitude já enganam mais; o exame é mais sujeito a erros.
+
+Nessa idade recorro muitas vezes ao exame do olhar, emquanto falo, e
+sobretudo ao do apêrto de mão, dêsse gesto de quem Vaschide, num
+monumental trabalho de psicologia, disse ser um gesto em aparência
+banal, mas revelador de tôda a nossa vida mental sub-consciente e a
+propósito do qual disse mais: «há tôda uma psicologia e da maior
+importância neste contacto musculo-táctil que eu chamarei mental.» O
+mesmo ilustre psicólogo francês, que a morte tão cedo roubou, examinando
+alienados do Asilo Villejuif, chegou à conclusão de que aquele gesto tão
+trivial pode fornecer importantes elementos para julgar da mentalidade
+dos internados, o que, até certo ponto, confirma a opinião do velho
+médico da Salpetrière, Falret, que pelo exame da mão pretendia apreciar
+o estado mental dos seus doentes.
+
+Mas não querendo em pedologia utilizar o exame do apêrto de mão, o
+professor pode recorrer com facilidade e êxito ao exame de outros
+gestos, com o fim de colher alguns elementos de ordem psíquica.
+
+Na lição de abertura do meu curso de Pedologia dêste ano, a propósito da
+medida da agudeza visual e da auditiva, debaixo do ponto de vista
+pedagógico, disse eu: «O exame da agudeza visual e da auditiva presta-se
+tambêm a permitir-nos julgar até certo ponto de certas qualidades de
+ordem psíquica, que ao educador muito interessam conhecer. A maneira por
+que o aluno se apresenta, a rapidez, a lentidão dos seus movimentos, a
+rapidez ou a lentidão na leitura do quadro optométrico, a maneira
+agitada ou, pelo contrário, lenta e dócil por que se comporta, a
+precisão ou a decisão na compreensão e execução das nossas ordens, tudo
+permite, com grande probabilidade de acêrto, formar um juízo, útil e
+necessário para o educador, sôbre o grau de emotividade, ou sôbre a
+_potencialidade nervosa_ de cada aluno, destrinçando particularmente os
+dois tipos extremos, o do _hipersténico_, agitado, e o do _hiposténico_,
+tardo nas suas reacções. O educador encontrará nesse exame elementos
+importantes para calcular possibilidades na educação, e tirar indicações
+muito úteis para a escolha dos meios educativos a empregar».
+
+E, como o exame da agudeza visual e da auditiva, há outros que se podem
+praticar na escola e que permittem examinar com rigor os gestos, e por
+estes com certo êxito julgar da mentalidade do aluno.
+
+Ley, a propósito de um estudo dinamométrico dos alunos atardados da
+escola especial de Antuérpia, fez notar que a observação das atitudes
+durante o exame da fôrça de pressão, lhe permitiram verificar: 1.^o--que
+os nervosos e indisciplinados, habitualmente atingem o máximo, dum
+jacto, bruscamente; 2.^o--que nos apáticos a agulha do dinamómetro
+caminha para o máximo, com regularidade e lentidão; e finalmente,
+3.^o--que nos apáticos mais acentuados, nos apáticos profundos, o máximo
+ordináriamente era atingido depois de uma contracção lenta, seguida de
+uma pausa, a que por sua vez se seguiam algumas outras lentas e mais
+pequenas contracções.
+
+Mas mais ainda. A título de exemplo, apresentarei a V. Ex.^{as}, sob
+forma resumida, a parte mais interessante do resultado dum exame a que
+procedi, a fim de surpreender as características do apêrto de mão em
+rapazes da Casa Pia, de 16 anos para cima, tomados ao acaso, e chamados
+à minha presença, sem saber para quê. Á medida que chegavam, e entravam
+isoladamente no meu gabinete, cumprimentava-os naturalmente
+estendendo-lhes a minha mão; depois fazia-lhes algumas perguntas de
+pouca importância para êles, como era por exemplo, _qual o curso em que
+estavam? se tinham frequentado a oficina?_ etc, inspeccionava-lhes a
+mão, e media-lhes finalmente com um dinamómetro Mathieu a fôrça à
+pressão da mão direita, procurando assim sugerir-lhes a idea de que eu o
+que desejava era estabelecer alguma relação entre a profissão e as
+características das mãos. Terminando êste exame, despedia-os
+naturalmente, estendendo-lhes, como no principio, a minha mão. Várias
+_nuances_ surpreendi na maneira por que as mãos dos alunos se
+comportavam durante o cumprimento, mas fácilmente as pude agrupar,
+distribuindo-as por três tipos característicos:--1.^o--o dos que
+cumprimentam _entregando_ a mão, _sem apertar, abandonando-a_; 2.^o--o
+dos que apertam a mão, mais ou menos fortemente, sem tentar rápidamente
+fugir com ela; 3.^o--o dos que quási que não _apertam_, e que
+rápidamente a procuram retirar após o contacto (_mãos que fogem, mãos
+furtivas_).
+
+Dias depois de feita a minha observação, inesperadamente e sem dizer
+para que queria informações, apenas dizendo que era para um estudo,
+consultei separadamente o chefe dos prefeitos e o professor de curso
+freqùentado pelos alunos, que mais em contacto e durante mais tempo está
+com êles. Foram tambêm consultados alguns mestres de oficinas, daqueles
+poucos alunos entre os que eu examinei, que nelas andavam.
+
+O pedido da minha informação visava sobretudo saber se na opinião das
+pessoas que eu consultava, os alunos eram ou não disciplinados, se se
+acomodavam ou não fácilmente ao regimen habitual da Casa, e tambêm se
+eram considerados sinceros ou pelo contrário dissimulados. Ora, coisa
+interessante: no grupo dos que mal apertam a mão, que rápidamente a
+procuram furtar ao contacto da nossa, figuram os alunos que na lista das
+informações do professor e do prefeito têm as notas de dificeis de
+disciplinar, dissimulados, reservados, pouco sinceros; os que tem a nota
+firme de disciplinados, exemplares, sinceros, aparentando o que são, não
+dissimulando, estão no grupo dos que cumprimentam apertando a mão, e não
+fugindo; finalmente no grupo dos que não apertam e abandonam a mão, dos
+que têm um aperto de mão insignificativo, figura a maioria daqueles
+sôbre que professor e prefeito tiveram dúvida em informar e traduziram o
+seu juízo por um ponto de interrogação.
+
+Isto a meu ver basta para acabar de ilustrar e documentar a tese de que
+a _simples observação dum gesto tão trivial, como é por exemplo um
+apêrto de mão, pode servir ao educador para fazer um rápido e útil exame
+psicológico_.
+
+
+ Minhas Senhoras e meus Senhores:
+
+
+Mas na escola, o gesto, a atitude, a fisionomia servem ainda para alguma
+cousa mais.
+
+Séguin, no seu afamado livro sôbre o _tratamento moral dos idiotas_,
+consagra _páginas_ ao estudo e à preparação, no professor, do gesto,
+«desta forma oratória, como êle diz, que tôda a gente usa mais ou menos,
+mas muito mal e sem o saber», e do olhar e da fisionomia, «meios, como
+êle diz tambêm, de dirigir e possuir o aluno».
+
+A criança compreende mais a nossa fisionomia e os nossos gestos do que a
+nossa palavra. De resto, a palavra é mais para mentir. O olhar e as mãos
+é que são as verdadeiras janelas da alma. É difícil dissimular com o
+olhar e com o gesto, e estes melhores do que nada se prestam a traduzir
+com tôda a verdade o estado do nosso espírito.
+
+Fixai o olhar do vosso educando, aprendei a usar de gestos apropriados,
+a traduzir pela expressão do olhar e pela maneira de gesticular a vossa
+intenção e com facilidade podereis socegar o agitado, disciplinar o
+indisciplinado, tornar atento o distraído, despertar o apático,
+imobilizar quando quizerdes imobilizar, agir quando quizerdes que se
+movam, castigar quando quizerdes castigar, premiar quando quizerdes
+premiar, e por êles mais fácilmente do que com os vossos discursos
+podereis conseguir o que constitui, tanto no ensino de anormais como de
+normais, o principal segredo da arte do educador: saber fazer do
+educando um amigo, saber apossar-se do aluno.
+
+Educai não só com a alma; educai com alma.
+
+
+ Minhas Senhoras e meus Senhores:
+
+
+O gesto, a atitude, não são apenas a expressão do estado afectivo, são
+por vezes a própria causa do estado afectivo. Segundo William James, o
+grande psicólogo americano, o estado emocional não é que determina a
+expressão emocional. A percepção dum objecto, ou dum acto capaz de nos
+emocionar, provoca, como por reflexo, reacções corporais, reacções
+nervosas, que geram atitudes, expressões, gestos, perturbações orgânicas
+e são estas reacções corporais que, impressionando-nos, geram os estados
+afectivos. Como corolário desta tese, James sustenta que tôda a
+produção, voluntária e a sangue frio, das chamadas manifestações duma
+emoção determina essa emoção. Para comover-nos basta colocarmo-nos em
+atitude de comoção. Entristecereis se persistirdes em tomar atitudes de
+tristeza; cultivai as atitudes recolhidas, em flexão, próprias dos
+humildes e tornar-vos heis humildes; curvai-vos em adoração e acabareis
+por adorar; preparai-vos para admirar e admirareis. Se, pelo contrário,
+cuidardes principalmente de atitudes abertas, em extensão, próprias para
+exprimir a alegria ou a fôrça, tornar-vos heis alegres, fortes,
+destemidos, senhores de vós, e, se exagerardes, revoltados.
+
+Antes de James, pode-se dizer que os educadores haviam descoberto a
+teoria; pelo menos a experiência os levara a proceder de acôrdo com ela.
+A importância que muitos dão ao ensino da civilidade demonstra-o, e
+demonstra-o sobretudo o cuidado com que nos manuais de civilidade, nos
+livros que muitos chamam de educação, própriamente dita, e
+principalmente nos das casas de educação religiosa, demonstra-o
+sobretudo, dizia, o cuidado com que neles se prescrevem as regras que
+devem pautar o gesto, o tratamento, a atitude, a expressão do olhar,
+etc., tôdas visando, nas casas de educação religiosa, a modéstia, o ar
+humilde, recolhido, obediente, por vezes servil, que leva ao estado de
+espírito que principalmente se tem em vista criar. Vale a pena ler, por
+exemplo, para verificar o que digo, vale a pena ler por exemplo o
+_Regulamento para as casas da Pia Sociedade de S. Francisco de Sales_.
+
+Compreende-se bem agora porque é que eu tanto me preocupo, quando falo
+com os meus alunos, ou quando êles falam comigo, em aconselhar-lhes ou
+sugestionar-lhes uma atitude recta, firme, simples, afectuosa,
+forçando-os a fitarem-me naturalmente, serenamente, modestamente, e a
+falar sem cochichar, mas tambêm sem levantar demasiado a voz, procurando
+sempre regular-lhes a palavra e o gesto, e dar-lhes um ar disciplinado e
+simpático. E se tanto me dá prazer ver a harmonia no andar, no falar, no
+gesticular, se tanto às vezes me comovo, quando vejo desfilar
+ordenadamente e nobremente os rapazes da nossa Casa Pia, não é só por
+simples emoção estética, é porque por aqueles sinais externos eu julgo
+do estado interno da nossa Casa. Vai bem.
+
+_Educadores, educai o corpo, que educareis o espírito_.
+
+
+ Minhas Senhoras e meus Senhores:
+
+
+Os nossos gestos, as nossas expressões, constituem um dinamismo afectivo
+que não só actua sôbre os nossos próprios sentimentos, e exprimem o que
+nós sentimos, mas tambêm actua sôbre os sentimentos dos outros,
+inflùindo fortemente neles. Os gestos, as atitudes, as expressões
+fisionómicas são factores sociais importantíssimos. A sociedade é um
+verdadeiro campo de fôrças afectivas. E a maneira de ser de cada um de
+nós, e a maneira de nos exprimirmos, e de nos comportarmos actuam no
+meio em que vivemos como fôrças orientadoras ou perturbadoras da ordem
+social.
+
+Habituar os nossos educandos às atitudes e gestos de respeito, gestos de
+uma cortezia simples, mas atraente, é trabalhar pela _tolerância_, pela
+«aceitação serena das diferenças que existem entre os homens», como diz
+Lanson. Procedendo assim aumentar-se há a fôrça da solidariedade,
+criar-se há a atmosfera mais favorável à descoberta da verdade, ao amor
+do belo e à prática do bem, e vencer-se há um dos nossos maiores
+inimigos internos:--«a intolerância, que, como a ignorância, ainda na
+expressão de Lanson, é um instrumento de despotismo», e de divisão,
+acrescentarei eu.
+
+Como vêdes, a educação do gesto até tem um alcance político. Como vêdes
+até pode contribuir para a solução do nosso maior problema: o problema
+da _unidade nacional_.
+
+Mais uma vez me convenço de que os nossos maiores problemas são
+problemas pedagógicos. Mais uma vez me convenço de que a educação é a
+maior das fôrças políticas. Mais uma vez compreendo o sublime paradoxo,
+a que nos momentos mais difíceis da sua vida histórica com êxito
+recorreram as duas grandes nações europeias, centros dos dois
+poderosíssimos sistemas de civilização, que neste grandioso e aflitivo
+momento da vida da Europa, se batem e formidávelmente lutam; sim, mais
+uma vez compreendo porque «se foi pedir a salvação da Pátria à força em
+aparéncia a menos feita para isso, aquela cuja acção é, por definição
+mesma, a mais modesta, a mais doce, a mais longínqua--a educação»[14].
+
+Recorramos tambêm nós a ela. _Eduquemo-nos e eduquemos_.
+
+Que a arte entre na escola e que o fim da escola seja como o da própria
+arte no dizer de Tolstoi:--«unir as almas, associando-as num mesmo
+sentimento». E que nesta ocasião de perigo, e sempre, todos os meios,
+todos os pretextos sirvam, como me está servindo esta minha leitura,
+sirvam para cultivar o sentimento supremo e utilíssimo do amor da
+Pátria.
+
+Disse.
+
+
+
+
+ALGUMAS PUBLICAÇÕES DO AUTOR, SÔBRE ASSUNTOS PEDAGÓGICOS[15]
+
+
+_Antropometria escolar_--Relatório apresentado ao IV Congresso Nacional
+da Liga Contra a Tuberculose, 1907.
+
+_Uma colónia de férias_--Apontamentos de antropometria médica publicados
+no _Boletim da Assistência Nacional aos Tuberculosos_ e na _Clinique
+infantile_, 1908.
+
+_Instrução e política em Portugal_--Artigo publicado na _Alma Nacional_,
+1909.
+
+_A educação intelectual e moral da mocidade nos colégios dos
+jesuítas_--Conferência, 1910.
+
+_Carta dirigida ao Grão-Mestre da Maçonaria Portuguesa, no dia do
+Centenário do nascimento de José Estêvão_, 1910.
+
+_O ensino das sciências fisico-naturais na escola primária
+portuguesa_--Artigo publicado na _Revista de Educação_ e no _Éducateur
+Moderne_, 1910.
+
+Casa Pia de Lisboa--_Algumas observações sôbre alunos gagos_--Artigo
+publicado na _Escola Nova_, 1912.
+
+_Refeições escolares_--Artigo publicado na _Medicina Moderna_, 1912.
+
+_A bem da República_--Discurso lido na Casa Pia de Lisboa e publicado na
+_Revista de Educação Geral e Técnica_, 1916.
+
+_Pneumogrames de bégues--Contribution à l'étude de l'emotivité_,
+publicado no _Boletim da Sociedade Portuguesa de Sciências Naturais_,
+1916.
+
+_Gimnástica--escola de moral e de civismo_--Discurso proferido na Casa
+Pia, por ocasião da recepção de Sua Ex.^a o Presidente da República e
+dos membros do Congresso de Educação Física, publicado na _Revista de
+Educação_, 1916.
+
+_Entre dois Congressos_--Artigo publicado no jornal _A República_, 1908.
+
+_Elementos para a elaboração de um projecto de distribuição_ _de água
+esterelizada aos alunos do Liceu de Camões_--Artigo publicado na
+_Medicina Moderna_, 1911.
+
+_Ensino útil e ensino utilitário_--Artigo publicado no _Tempo_, de
+Lisboa, 1911.
+
+_Cantinas escolares_--Carta ao Snr. Presidente da República, publicada
+no jornal _República_, 1911.
+
+_Numa festa da Casa Pia_, trechos dum discurso, publicado na _Revista de
+Educação_, 1913.
+
+Casa Pia de Lisboa--_Sôbre uns acidentes no recreio_--Artigo publicado
+no _Movimento médico_, 1913.
+
+_Ensino dos surdos-mudos_--Discurso proferido por ocasião da abertura
+dum curso para habilitação de professores de surdos-mudos, discurso
+publicado na _Educação_, 1913.
+
+_A spirometria em antropometria escolar_--Artigo publicado na revista _A
+Tutoria_, de Lisboa, 1913.
+
+Educação física--_Elogio do Dr. Jaime Mauperrin dos Santos_, lido na
+Sociedade de Geografia e publicado no _Sport de Lisboa_, 1914.
+
+_Dois documentos para a Historia_--Duas cartas a propósito de uma
+conferência sôbre a educação nos colégios de jesuítas, publicadas na
+_República_, 1914.
+
+_Da influência dos trabalhos manuais no desenvolvimento do
+espírito_--Discurso lido na Casa Pia de Lisboa, por ocasião do Congresso
+Pedagógico, e publicado no _Diário de Noticias_ e em parte na _Medicina
+Contemporanea_, onde se encontram tabelas que o documentam, 1914.
+
+_Uma ilusão muscular_--Artigo publicado na _Medicina Contemporanea_,
+1914.
+
+_Algumas considerações sôbre um calão escolar_--O calão da Casa
+Pia--Artigo publicado de colaboração com Canuto Soares, na revista _A
+Aguia_, do Porto, 1914.
+
+_Arte e democracia_, Discurso, in _Atlantida_, 1918.
+
+_Como educar o operário e seus filhos_, Tese Nacional do Livre
+Pensamento, in _Actas do Congresso_, 1918.
+
+_No Lactário_, Discurso, in _A Aguia_, 1919.
+
+_Inteligência motriz_, in _A Medicina Moderna_, 1919.
+
+_Morfologia e educação física_, in _Medicina Contenporanea_, 1920.
+
+_O foot-ball e as curvas do crescimento na Casa Pia de Lisboa_, in
+jornal _Football_, 1920.
+
+
+
+
+LVMEN
+
+EMPRESA INTERNACIONAL EDITORA
+
+Lisboa--Porto--Coimbra--Rio de Janeiro
+
+
+
+
+ULTIMAS PUBLICAÇÕES
+
+
+Dr. Mendes dos Remedios--*Historia da Literatura Portuguesa*, 5.^a edição
+
+Dr. Eugenio de Castro--*Camafeus Romanos*--_Versos_
+
+Teixeira de Pascoais--*Maranos*, 2.^a edição--_Versos
+ *As Sombras*, 2.^a Edição--_Versos_
+ *Cantos Indecisos*, 1.^a edição--_Versos_
+
+Dr. Antonio Cabral--*Terras Longinquas*--_Viagens_
+
+Manuel da Silva Gaio--*Eça de Queiroz*--_Carta_
+
+João Ameal--*Em voz alta e em voz baixa*--_Dialogos_
+
+Rui Gomes--*Elementos de Teoria de Comércio*, 1.^a parte
+
+Dr. Pedro Fazenda--*A Crise Politica em Portugal*
+
+
+
+
+Notas:
+
+[1] Lição de abertura do curso de Pedologia na antiga Escola Normal de
+Lisboa. Lida em 19 de Janeiro de 1915. Publicada no jornal da _Tutoria
+da Infância_ e no _Anuário da Casa Pia de Lisboa_.
+
+[2] Lição de abertura do Curso de Psicologia Experimental da Escola
+Normal de Bemfica, no 2.^o semestre do ano lectivo de 1919-20. Publicada
+no _Boletim Bibliográfico da Bibliotéca da Universidade de Coimbra_ e no
+_Anuário da Casa Pia de Lisboa_.
+
+[3] Lição de encerramento do Curso de Pedologia na Escola Normal de
+Lisboa no ano lectivo de 1914-15. Publicada no _Arquivo de Anatomia e
+Antropologia_ do Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina de
+Lisboa, e no _Anuário da Casa Pia_.
+
+[4] Ao lado das tabelas e curvas do Dr. Mascarenhas de Melo devem
+citar-se as tabelas e curvas de cuja existência só hoje tive
+conhecimento e que foram elaboradas pelo ilustre professor de gimnástica
+desta Escola Normal, o Sr. Pedro Ferreira, quando professor no extinto
+Colégio de Campolide. Êsses trabalhos foram publicados num folheto
+intitulado--_La gymnastique médicale au Collége de Campolide_,--que foi
+apresentado, segundo me informa aquele meu venerando colega, seu autor,
+no Congresso de Higiéne Escolar, realizado em Paris em 1910. Os dados
+colhidos pelo Sr. professor Pedro Ferreira poderão servir,
+particularmente, para um estudo das crianças da aristocracia portuguesa,
+visto que era sobretudo às camadas aristocráticas da nossa sociedade que
+pertenciam os alunos de Campolide.
+
+[5] Esta curva figura tambêm no último relatório da _Escola-oficina n.^o
+1_, onde o Dr. Manchego tem feito observações antropométricas.
+
+[6] Ainda há minutos o sr. professor Pedro Ferreira, ao ter conhecimento
+desta passagem da minha lição, me informou de que tem verificado o facto
+nesta Escola e no Liceu Maria Pia, onde tem procedido a mensurações. Há
+dias, neste nosso curso, entre as senhoras, me disse ter observado casos
+bem demonstrativos.
+
+[7] Vd. sobre o assumpto desta lição o livro do Snr. Dr. Alves dos
+Santos:--_Educação Nova_--As bases--I--O _Corpo da criança_ (1919) e a
+conferência que preparei para a Escola de oficiais médicos milicianos e
+publiquei em 1917 no _Arquivo de Anatomia e Antropologia_, com o título:
+_Auxanometria militar_.
+
+[8] Lição de abertura do Curso de Pedologia da Escola Normal de Lisboa
+no ano lectivo de 1915-1916. Lida em 20 de Janeiro de 1916.
+
+[9] Lição de abertura do Curso de Pedologia na Escola Normal de Lisboa,
+no anno lectivo de 1916-1917. Lida e explicada, em 26 de Fevereiro de
+1917. Publicada no _Boletim do Ministério da Instrução Pública_.
+
+[10] Lição de encerramento do curso de pedologia da Escola Normal de
+Lisboa, no ano lectivo de 1915-1916, lida na sala de Física da Faculdade
+de Sciências de Lisboa e publicada, como as duas anteriores, no _Boletim
+do Ministério da Instrução Pública_ e no _Anuário da Casa Pia de
+Lisboa_.
+
+[11] Lição de abertura dum curso de aperfeiçoamento na Escola Normal
+Primária de Lisboa (Bemfica), no ano lectivo de 1919-1920. Publicada na
+_Medicina Contemporanea_.
+
+[12] Lição de abertura do Curso de Psicologia experimental no ano
+lectivo de 1920-1921, publicada na _Medicina Contemporanea_.
+
+[13] Conferência realizada no dia 17 de Abril de 1916, no Salão do
+Conservatório, e publicada em separata pela Sociedade de Estudos
+Pedagógicos.
+
+[14] Palavras de Ferdinand Buisson.
+
+[15] Excluem-se as publicações que vão reproduzidas e reunidas neste
+volume e alguns outros trabalhos publicados nos anuários da Casa Pia.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pág. 56| infra-normais | supra-normais |
+ |#pág. 83| _Montesssóri_ | _Montessóri_ |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Algumas lições de psicologia e
+pedologia, by António Aurélio da Costa Ferreira
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ALGUMAS LIÇÕES DE PSICOLOGIA ***
+
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+1.E.9.
+
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+1.F.
+
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+opportunities to fix the problem.
+
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+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Algumas lições de psicologia e pedologia, by
+António Aurélio da Costa Ferreira
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Algumas lições de psicologia e pedologia
+
+Author: António Aurélio da Costa Ferreira
+
+Release Date: April 20, 2010 [EBook #32072]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ALGUMAS LIÇÕES DE PSICOLOGIA ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div>
+<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+quantidade de erros tipogr&aacute;ficos existentes neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Abril 2010)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox">
+<h4>ANT&Oacute;NIO AUR&Eacute;LIO DA COSTA FERREIRA
+</h4>
+
+<div style="text-align: center;" class="tiny">Professor
+de Psicologia experimental e Pedologia<br />
+
+na Escola Normal Prim&aacute;ria de Lisboa</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>ALGUMAS LI&Ccedil;&Otilde;ES</h3>
+
+<h3>DE</h3>
+
+<h2>PSICOLOGIA E PEDOLOGIA
+</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 350px; height: 210px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 250px; height: 146px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>PSICOLOGIA E PEDOLOGIA
+</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>ANT&Oacute;NIO AUR&Eacute;LIO DA COSTA FERREIRA
+</h4>
+
+<div style="text-align: center;" class="tiny">Professor
+de Psicologia experimental e Pedologia<br />
+
+na Escola Normal Prim&aacute;ria de Lisboa</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>ALGUMAS LI&Ccedil;&Otilde;ES</h3>
+
+<h3>DE</h3>
+
+<h2>PSICOLOGIA E PEDOLOGIA
+</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 350px; height: 210px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 250px; height: 146px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<hr />
+<div style="text-align: center;">Comp. e impr. na Typ.
+Costa Carregal&mdash;Porto
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">AOS MEUS COLEGAS E AOS
+MEUS ALUNOS<br />
+
+DA<br />
+
+ANTIGA E DA NOVA<br />
+
+ESCOLA NORMAL PRIM&Aacute;RIA DE LISBOA<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>&Iacute;NDICE
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">P&aacute;g.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Pref&aacute;cio</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c1">5</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>O ensino da pedologia na escola normal
+prim&aacute;ria</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c2">7</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>A arte de educar e a psicologia
+experimental</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c3">17</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>O p&ecirc;so do corpo da
+crian&ccedil;a</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c4">29</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>A agudeza visual e a auditiva debaixo do ponto
+de vista
+pedag&oacute;gico</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c5">47</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>A vis&atilde;o das
+c&ocirc;res</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c6">61</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>S&ocirc;bre umas provas de exame da
+aten&ccedil;&atilde;o
+volunt&aacute;ria
+visual</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c7">89</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Da intelig&ecirc;ncia do escolar e da sua
+avalia&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c8">111</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Intelig&ecirc;ncia e
+apercep&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c9">123</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>S&ocirc;bre psicologia, est&eacute;tica e
+pedagogia do
+gesto</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c10">135</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c1" id="c1"></a>
+<h3>PREF&Aacute;CIO
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Com o t&iacute;tulo</em> Algumas
+li&ccedil;&otilde;es de Psicologia
+e Pedologia <em>publ&iacute;co neste pequeno volume as
+principais li&ccedil;&otilde;es que li e comentei, como
+professor da antiga Escola Normal do Calv&aacute;rio,
+e da actual Escola Normal de Bemfica,
+&agrave;s quais acrescento a confer&ecirc;ncia que realizei
+no Conservat&oacute;rio, por ocasi&atilde;o da
+Exposi&ccedil;&atilde;o
+de Arte na Escola.
+<br />
+
+<br />
+
+Algumas das li&ccedil;&otilde;es s&atilde;o verdadeiros
+planos
+e resumos dos meus cursos.
+<br />
+
+<br />
+
+A mat&eacute;ria vai exposta com a maior clareza
+de que fui capaz e pela forma que me pareceu
+melhor, em aten&ccedil;&atilde;o &agrave;
+prepara&ccedil;&atilde;o habitual dos
+alunos das Escolas Normais e ao fim que
+essas escolas t&ecirc;m ou devem ter em vista. Busquei
+principalmente interessar e orientar os
+meus alunos, habituando-os a confiar na pr&aacute;tica
+dos m&eacute;todos scient&iacute;ficos em pedagogia.
+<br />
+
+<br />
+
+O livrinho vai ilustrado com uma gravura,
+reprodu&ccedil;&atilde;o duma c&oacute;pia feita pelo
+professor
+Eduardo Romero, da Casa Pia, c&oacute;pia de
+um curioso desenho de R. Gudden, de Francfort
+s. M., excelente exemplo de um fen&oacute;meno
+de apercep&ccedil;&atilde;o, que encontrei publicado no manual
+de Starch:</em> Experiments in Educational
+psychology, <em>e que me pareceu ser uma
+ilustra&ccedil;&atilde;o
+muito apropriada para acompanhar as
+minhas li&ccedil;&otilde;es de Psicologia e Pedologia, e
+particularmente a li&ccedil;&atilde;o:</em>
+Inteligencia e apercep&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Estou certo de que a leitura d&ecirc;ste livrinho,
+e a dos livros que nele cito, ser&aacute; de muita,
+utilidade para os alunos das Escolas Normais
+e para os candidatos aos concursos de
+Inspectores prim&aacute;rios.<br />
+
+<br />
+
+<span class="quote">Belem&mdash;25&mdash;XII&mdash;920.</span>
+
+</em><br />
+
+<div class="smallcaps signature">A. Aur&eacute;lio da
+Costa
+Ferreira.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c2" id="c2"></a>
+<h3>O ENSINO DA PEDOLOGIA
+NA ESCOLA NORMAL PRIM&Aacute;RIA<sup><a href="#n1">[1]</a></sup>
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Minhas Senhoras e meus
+Senhores:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Parafraseando o em&eacute;rito
+<span class="smallcaps">Clapar&egrave;de</span>,
+direi:&mdash;como
+se consideraria uma escola de horticultura
+onde se n&atilde;o ensinasse a bot&acirc;nica?!
+<br />
+
+<br />
+
+Que se poderia dizer de uma escola que
+preparasse professores para a inf&acirc;ncia, seus
+educadores, e em que se n&atilde;o professasse a
+pedologia?!
+<br />
+
+<br />
+
+Como se chamaria aquele que hoje, no estado
+em que se encontra a sci&ecirc;ncia, quizesse
+como outrora tratar de doen&ccedil;as, emp&iacute;ricamente,
+sem saber, sem nunca ter estudado a anatomia
+e a fisiologia e as suas aplica&ccedil;&otilde;es ao
+diagn&oacute;stico e n&atilde;o soubesse examinar
+convenientemente,
+scient&iacute;ficamente, um doente, e
+<span class="pagenum">[8]</span>
+procurar as indica&ccedil;&otilde;es? Seria, hoje, porventura,
+um m&eacute;dico? N&atilde;o. Nem mereceria
+confian&ccedil;a,
+nem mereceria considera&ccedil;&atilde;o e as penalidades
+da lei at&eacute; s&ocirc;bre &ecirc;le
+reca&igrave;riam.
+<br />
+
+<br />
+
+Como se poderiam considerar aqueles que
+hoje se obstinassem a pretender desenvolver
+a intelig&ecirc;ncia, formar caract&eacute;res, corrigir os
+instintos da crian&ccedil;a, sem nunca ter aprendido
+a estud&aacute;-la, a medir-lhe a intelig&ecirc;ncia e a
+examinar-lhe
+o feitio mental, as suas tend&ecirc;ncias e
+as suas aptid&otilde;es?
+<br />
+
+<br />
+
+Pois se a psicologia tem progredido tanto
+que hoje h&aacute; processos qu&aacute;si tam seguros para
+fazer tudo isto, como h&aacute; na cl&iacute;nica para estudar
+o pulso ou a respira&ccedil;&atilde;o, desconhec&ecirc;-los
+n&atilde;o ser&aacute;, pelo menos, ser um professor
+incompleto,
+atrazado, f&oacute;ra do seu tempo? Sem d&uacute;vida
+que sim.
+<br />
+
+<br />
+
+Bem posso dizer como eu mesmo dizia no
+&uacute;ltimo Congresso Pedag&oacute;gico de Lisboa:
+&laquo;querer
+e crer que sem conhecimentos de pedologia,
+de higiene escolar, de metodologia dos trabalhos
+manuais e da gin&aacute;stica, possam sa&iacute;r
+das nossas escolas normais professores dignos
+da nossa &eacute;poca, a quem os governos possam
+confiar a educa&ccedil;&atilde;o das novas
+gera&ccedil;&otilde;es, capazes,
+como dizia, parece-me, numa das suas c&eacute;lebres
+li&ccedil;&otilde;es de pedagogia, o meu querido
+mestre, Dr. <span class="smallcaps">Bernardino Machado</span>,
+capazes n&atilde;o
+s&oacute; de transmitir&mdash;<em>&laquo;em
+t&ocirc;da a sua pureza o patrim&oacute;nio
+da civiliza&ccedil;&atilde;o dos antepassados, a
+herc&uacute;lea f&ocirc;r&ccedil;a at&aacute;vica que
+nos pode permitir
+reabilitar-nos perante a
+hist&oacute;ria&raquo;</em>&mdash;mas tamb&ecirc;m
+capazes de fazer tudo o que f&ocirc;r poss&iacute;vel
+<span class="pagenum">[9]</span>
+fazer-se para fomentar o progresso, melhorar
+a ra&ccedil;a, melhorar o solo, melhorar o pa&iacute;s; querer
+que aqueles a quem compete fazer e refazer
+a p&aacute;tria, a fa&ccedil;am e refa&ccedil;am como
+noutros
+tempos, como no nosso tempo j&aacute; n&atilde;o deve fazer-se,
+&eacute; t&atilde;o estulto como querer confiar hoje
+a defeza da nossa terra aos her&oacute;is de outrora,
+a valentes de cota e malha, ou os progressos
+do nosso com&eacute;rcio, &agrave;s antigas e gloriosas
+caravelas!&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Van Bierveliet</span>, da
+Universidade de
+Gand,
+numa das suas magistrais li&ccedil;&otilde;es de pedagogia
+scient&iacute;fica, feitas para professores de
+instru&ccedil;&atilde;o
+prim&aacute;ria, exprime-se assim:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Consideremos uma classe qualquer e interroguemos
+o professor; saberemos logo que
+num conjunto de cincoenta alunos, por exemplo,
+se encontram dois ou tr&ecirc;s que demostram
+uma grande dilig&ecirc;ncia, e aceitam com prazer
+t&ocirc;das as tarefas que se lhe imp&otilde;em. Constituem
+os primeiros da classe, o que pode chamar-se
+a <em>cabe&ccedil;a da classe</em>. Na
+grande massa
+dos alunos, dominam aqu&ecirc;les em que o z&ecirc;lo
+&eacute;
+moderado; cometem erros e sabem as suas li&ccedil;&otilde;es
+mais ou menos bem. Finalmente, um n&uacute;mero
+mais ou menos consider&aacute;vel da classe
+acha que a tarefa que se lhe imp&otilde;e &eacute; demasiado
+pesada e aborrecida; constitui o grupo
+dos <em>pregui&ccedil;osos</em>, dos
+mandri&otilde;es. Estes, fazem
+os seus exerc&iacute;cios mal, ou nada fazem, e aprendem
+muito pouco, uma ou outra pequena cousa,
+um ou outro fragmento de li&ccedil;&atilde;o. As classes
+apresentam uma cabe&ccedil;a, um corpo e uma cauda;
+geralmente a cabe&ccedil;a &eacute; composta por dois
+<span class="pagenum">[10]</span>
+ou tr&ecirc;s indiv&iacute;duos e a cauda, pelo
+contr&aacute;rio,
+&eacute; muitas vezes notavelmente desenvolvida; as
+classes s&atilde;o organismos por vezes
+<em>microc&eacute;falos</em>
+(de cabe&ccedil;a pequena) e
+<em>macrures</em> (de cauda
+grande).
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A simples constata&ccedil;&atilde;o d&ecirc;ste
+facto, basta
+para demonstrar que o regimen escolar &eacute; pouco
+atraente para as intelig&ecirc;ncias em
+forma&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Se num jantar de cincoenta talheres se
+constatasse que tr&ecirc;s pessoas s&oacute;mente mostravam
+bom apetite, trinta comiam com repugn&acirc;ncia
+e o resto nada comia, concluir-se-ia, com
+alguma raz&atilde;o, que ou o
+<em>men&uacute;</em> era
+med&iacute;ocre ou
+que os convivas tinham o estomago caprichoso
+e que por isso lhes n&atilde;o convinham os pratos
+que lhes eram oferecidos ou destinados. O mesmo
+se pode dizer das classes. H&aacute; intelig&ecirc;ncias
+excepcionalmente vivas que assimilam tudo,
+como sucede com as pessoas que t&ecirc;m o que
+se usa chamar estomago de avestruz, que tudo
+digerem. H&aacute; outras, pelo contr&aacute;rio, que perante
+os conhecimentos apresentados, pelos m&eacute;todos
+mais correntes, se comportam como disp&eacute;pticos
+da intelig&ecirc;ncia. Que se faz em regra a estas?
+Castigam-se. Melhor f&ocirc;ra cur&aacute;-las.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Melhor f&ocirc;ra, acrescento eu, saber conhecer
+o feitio mental dos alunos, agrup&aacute;-los consoante
+as suas semelhan&ccedil;as e diferen&ccedil;as, e saber
+administrar-lhes
+os mesmos conhecimentos por
+m&eacute;todos diferentes, aqueles que melhor se acomodem
+e mais convenham ao seu feitio.
+<br />
+
+<br />
+
+As mesmas doen&ccedil;as n&atilde;o se tratam sempre
+do mesmo modo; tem que se atender ao doente.
+No ensino sucede a mesma coisa. N&atilde;o se ensinam
+<span class="pagenum">[11]</span>
+todos pelo mesmo modo; tem que se atender
+ao aluno.
+<br />
+
+<br />
+
+Um professor de instru&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria
+n&atilde;o
+pode, n&atilde;o deve desconhecer, ao entrar no
+exerc&iacute;cio
+da sua profiss&atilde;o, a psicologia infantil e
+os processos de a estudar e de a observar.
+N&atilde;o basta conhecer a
+<em>metodologia</em>, &eacute;
+necess&aacute;rio
+a <em>psicologia</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+A metodologia dever&aacute;, de resto, ajustar-se
+&agrave; psicologia da classe e &agrave; do aluno.
+<br />
+
+<br />
+
+Diz <span class="smallcaps">Clapar&egrave;de</span>
+num
+livro, cuja leitura muito
+lhes aconselho (<em>Psychologie de
+l'enfant</em>):&laquo;Muitas
+pessoas sup&otilde;em que s&oacute; a pr&aacute;tica do
+ensino
+pode formar o professor e dar-lhe a verdadeira
+experi&ecirc;ncia. Seguramente, a import&acirc;ncia da
+pr&aacute;tica &eacute; capital para formar um especialista
+numa determinada arte. Mas &eacute; preciso esfor&ccedil;ar-se
+por reduzir ao m&iacute;nimo as experi&ecirc;ncias,
+as tentativas, sobretudo quando se trata de
+seres humanos. O professor que entra na pr&aacute;tica
+da sua profiss&atilde;o, sem ter o menor conhecimento
+de psicologia, v&ecirc;-se naturalmente reduzido
+a tentar, a fazer experi&ecirc;ncias com que
+os alunos podem sofrer; &eacute; obrigado a experimentar
+<em>in anima vili</em>, e algumas vezes essas
+experi&ecirc;ncias s&atilde;o demasiado longas e
+pen&iacute;veis
+para as gera&ccedil;&otilde;es de alunos que as t&ecirc;m
+de
+sofrer. Sem d&uacute;vida, a pr&aacute;tica pode, dentro de
+certos limites, compensar a insufici&ecirc;ncia dos
+conhecimentos te&oacute;ricos, mas &agrave; custa de quantos
+rodeios e de quantos erros! &Aacute; for&ccedil;a de
+construir pontes que abatem, ou m&aacute;quinas que
+estoiram e se escangalham, pode um t&eacute;cnico
+sem instru&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica acabar por ser
+um bom
+<span class="pagenum">[12]</span>
+construtor e encontrar emp&iacute;ricamente as f&oacute;rmulas
+que &ecirc;le &eacute; incapaz de calcular. Mas quem
+quereria semelhante engenheiro?
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Um professor sem educa&ccedil;&atilde;o
+psicol&oacute;gica
+est&aacute; precisamente no mesmo caso, com esta
+diferen&ccedil;a, contudo: que, quando uma ponte
+tende a abater, no decurso da sua constru&ccedil;&atilde;o,
+pode ser reparada imediatamente ou pode ser
+refeita. Enquanto que se se trata de uma intelig&ecirc;ncia
+ou de um car&aacute;cter que erradamente
+se for&ccedil;ou ou tratou na sua evolu&ccedil;&atilde;o,
+s&oacute; tarde
+se d&aacute; pelo mal, quando &ecirc;le j&aacute; se
+n&atilde;o pode remediar,
+e nunca em nenhum caso se pode refazer,
+reconstruir, fazer de novo outra intelig&ecirc;ncia
+ou outro car&aacute;cter.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Estas par&aacute;bolas devem convencer as senhoras
+e os senhores normalistas da utilidade do
+estudo da psicologia, do estudo das faculdades
+mentais, na prepara&ccedil;&atilde;o dos professores de
+instru&ccedil;&atilde;o
+prim&aacute;ria.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas que psicologia?
+<br />
+
+<br />
+
+Ser&aacute; a psicologia cl&aacute;ssica dos
+comp&ecirc;ndios
+de filosofia? Ser&aacute; a psicologia especulativa?
+Ser&aacute; a psicologia, o conhecimento das faculdades
+mentais pelo exame introspectivo de indiv&iacute;duos
+excepcionais, supra-normais qu&aacute;si sempre,
+fil&oacute;sofos que se deram ao trabalho de se
+estudar a si mesmo? N&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A psicologia do adulto &eacute; diferente da da
+crian&ccedil;a e o estudo desta n&atilde;o se pode fundar
+no exame feito por ela pr&oacute;pria. O estudo da
+psicologia da crian&ccedil;a &eacute; qu&aacute;si como o
+da dos
+animais. A crian&ccedil;a n&atilde;o &eacute; um homem e
+&eacute; qu&aacute;si
+tam diferente do homem como a lagarta da
+<span class="pagenum">[13]</span>
+borboleta. Que se diria de quem quizesse alimentar
+ou tratar a lagarta do bicho da s&ecirc;da
+como a sua borboleta, como &ecirc;le na sua fase
+de insecto perfeito? E no entanto lagarta e
+borboleta, tam diferentes na f&oacute;rma e nos h&aacute;bitos,
+s&atilde;o o mesmo indiv&iacute;duo. Assim sucede com
+cada um de n&oacute;s, na sua fase infantil e na sua
+fase adulta.
+<br />
+
+<br />
+
+A prop&oacute;sito da psicologia cl&aacute;ssica, talvez
+com mais raz&atilde;o do que dizia
+<span class="smallcaps">Binet</span> da antiga
+pedagogia, se pudesse dizer: &laquo;deve ser completamente
+suprimida&raquo;, no ensino das escolas
+normais, acrescento eu.
+<br />
+
+<br />
+
+Eu sei com que raz&atilde;o se tem apresentado
+contra o ensino da pedologia, ou estudo da
+crian&ccedil;a, aos professores de instru&ccedil;&atilde;o
+prim&aacute;ria,
+o argumento de que &ecirc;le tem levado &ecirc;stes a
+distrair-se das suas fun&ccedil;&otilde;es docentes, para se
+dedicarem a estudos e experi&ecirc;ncias que n&atilde;o
+s&oacute; prejudicam, porque afastam o professor da
+sua principal miss&atilde;o: instruir e educar, como
+tamb&ecirc;m porque o levam a fornecer dados que
+por insufici&ecirc;ncia ou car&ecirc;ncia de
+prepara&ccedil;&atilde;o
+scient&iacute;fica, que s&oacute; em cursos superiores e
+especiais
+se pode adquirir, s&atilde;o em regra dados
+perdidos, cheios de erros, falseados, qu&aacute;si
+in&uacute;teis
+para a sci&ecirc;ncia.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o que eu pretendo fazer n&atilde;o &eacute; preparar
+psic&oacute;logos, antropologistas, fil&oacute;sofos; nem
+eu, nem ninguem deveria pretender faz&ecirc;-los
+numa escola normal prim&aacute;ria, principalmente
+com as habilita&ccedil;&otilde;es que os senhores podem e
+devem ter. O que eu pretendo fazer &eacute; ensinar
+os principais elementos de pedologia, que a
+<span class="pagenum">[14]</span>
+sua prepara&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria consente e
+que os
+professores devem conhecer para melhor ensinar.
+<br />
+
+<br />
+
+Procurarei, em suma, ensinar <em>rudimentos
+de pedologia e as suas aplica&ccedil;&otilde;es ao ensino
+na escola prim&aacute;ria</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Seria estulto que eu, m&eacute;dico antropologista,
+embora director de um instituto de educa&ccedil;&atilde;o,
+eu que n&atilde;o fiz estudos regulares de metodologia
+do ensino prim&aacute;rio, nem nunca professei
+&ecirc;sse ensino, viesse ensinar-lhes todo o programa
+actual da pedagogia, sci&ecirc;ncia e arte de
+ensinar, como seria igualmente estulto e injustificado
+que se exigisse a um professor de
+instru&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria, que n&atilde;o
+tivesse feito estudos
+especiais de antropologia, e n&atilde;o tivesse
+suficientes conhecimentos de t&eacute;cnica-pedom&eacute;trica,
+que ensinasse a pedologia, sci&ecirc;ncia que
+&eacute; conveniente e, mais do que conveniente,
+indispens&aacute;vel
+ensinar ao futuro professor.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; preciso exagerar como
+<span class="smallcaps">Chaillou</span> e
+<span class="smallcaps">Mac-Auliffe</span>, quando
+na sua
+<em>Morfologia m&eacute;dica</em>,
+dizem: &laquo;A educa&ccedil;&atilde;o &eacute; e
+continua a ser puramente
+pedag&oacute;gica. <em>Escapa ao &uacute;nico
+homem
+que deve dirigi-la, ao m&eacute;dico.</em>&raquo;
+N&atilde;o. Mas &eacute;
+preciso dizer-se, porque &eacute; f&aacute;cil provar que o
+&eacute;, que &eacute; necess&aacute;rio que parte da
+prepara&ccedil;&atilde;o
+do professor prim&aacute;rio seja feita por m&eacute;dico
+especializado nas aplica&ccedil;&otilde;es das
+sci&ecirc;ncias m&eacute;dicas
+&agrave; pedagogia, e que o professor seja um
+auxiliar do m&eacute;dico.
+<br />
+
+<br />
+
+Os exerc&iacute;cios que habitualmente passarei,
+ser&atilde;o exerc&iacute;cios de
+educa&ccedil;&atilde;o scient&iacute;fica e neles
+terei em vista n&atilde;o s&oacute; ensinar como se estuda
+<span class="pagenum">[15]</span>
+e desenvolve as faculdades da crian&ccedil;a, mas
+tambem o ensinar a estudar e a desenvolver
+as faculdades dos que a t&ecirc;m de educar.
+<br />
+
+<br />
+
+A S. Ex.<sup>a</sup> o actual Ministro de
+Instru&ccedil;&atilde;o
+P&uacute;blica caber&aacute; a honra de ter introduzido no
+quadro dos estudos do curso normal, o ensino
+regular da pedologia.
+<br />
+
+<br />
+
+Por minha parte, procurarei corresponder
+aos desejos de S. Ex.<sup>a</sup> o Ministro, repartindo
+com todos os meus alunos o que da mat&eacute;ria
+souber e com &ecirc;les estudando o que f&ocirc;r preciso
+estudar, pondo ao seu disp&ocirc;r os meus h&aacute;bitos,
+os meus recursos e o meu m&eacute;todo de trabalho.
+<br />
+
+<br />
+
+Que a dedica&ccedil;&atilde;o e a lialdade com que sempre
+uso servir nos lugares para que me nomeiam,
+possam compensar outras minhas faltas,
+que eu possa provar ao digno director e
+ao ilustre corpo docente d&ecirc;ste estabelecimento
+de instru&ccedil;&atilde;o, a que agora muito me honro de
+pertencer, quanto desejo contribuir para o bom
+nome e reputa&ccedil;&atilde;o desta Escola, e finalmente
+que eu possa ter o maior e melhor pago que
+desejo ter: o poder ouvir dizer aos meus alunos
+que na vida pr&aacute;tica de bastante lhes serviu
+o que procurei ensinar-lhes, os conhecimentos
+que lhes transmiti, os h&aacute;bitos que lhes criei
+e as prelec&ccedil;&otilde;es que lhes fiz.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c3" id="c3"></a>
+<h3>A ARTE DE EDUCAR
+E A PSICOLOGIA EXPERIMENTAL<sup><a href="#n2">[2]</a></sup>
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="intro1">
+&laquo;To educate is to bring out all the
+powers that are in the child and to
+traim him to use them to the best
+advantage of himself and indirectly of
+the nation of which he is a part&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">(<span class="smallcaps">Miss
+C. Aguther</span>,
+<em>Child Study</em>,
+June, 1917).</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Minhas Senhoras e meus
+Senhores:
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A arte de educar &eacute; fundamentalmente a
+arte de regular a conduta presente e futura
+dos que se t&ecirc;m de educar. Implica for&ccedil;osamente
+o conhecimento da conduta, das causas
+dela, do seu mecanismo e das possibilidades
+que o indiv&iacute;duo oferece. A arte de educar assenta
+<span class="pagenum">[18]</span>
+como a arte de curar, na anatomia e na
+fisiologia e assim como o m&eacute;dico, m&eacute;dico que
+tenha de exercer a profiss&atilde;o, tem n&atilde;o
+s&oacute; de
+conhecer as doen&ccedil;as e os rem&eacute;dios, mas
+tamb&ecirc;m
+conhecer os doentes e encontrar as indica&ccedil;&otilde;es,
+assim tamb&ecirc;m o educador, que tenha
+de educar, tem n&atilde;o s&oacute; de conhecer os fins da
+educa&ccedil;&atilde;o e os meios da
+educa&ccedil;&atilde;o, a pedagogia
+e a metodologia, mas tamb&ecirc;m de saber conhecer
+o educando e encontrar a f&oacute;rma de
+educa&ccedil;&atilde;o
+que mais lhe convenha e se adapte ao seu
+feitio. E assim como para o estudo do doente
+n&atilde;o basta conhecer os sintomas das doen&ccedil;as,
+porque &eacute; necess&aacute;rio sab&ecirc;-los observar,
+assim
+tamb&ecirc;m n&atilde;o basta ao educador conhecer os
+fen&oacute;menos da educa&ccedil;&atilde;o, a psicologia,
+mesmo
+que esta tenha a fei&ccedil;&atilde;o moderna e
+scient&iacute;fica,
+e se chame psico-fisiologia ou psicologia experimental,
+&eacute; necess&aacute;rio tamb&ecirc;m principalmente
+possuir a t&eacute;cnica da observa&ccedil;&atilde;o e da
+experimenta&ccedil;&atilde;o.
+Saber psicologia pode n&atilde;o ser saber
+fazer psicologia, como saber quais os sintomas
+das doen&ccedil;as pode n&atilde;o ser saber
+observ&aacute;-los e
+fazer diagn&oacute;stico.
+<br />
+
+<br />
+
+Ensinar num curso pr&aacute;tico de psicologia
+experimental, que &eacute; como oficialmente se chama
+o curso que tive a honra de ser chamado
+a reger, ensinar nesse curso numa Escola Normal,
+&eacute; fundamentalmente ensinar o que f&ocirc;r
+preciso para habilitar os futuros professores a
+conhecer e praticar os meios scient&iacute;ficos de estudar
+pr&aacute;ticamente os fen&oacute;menos mentais, isto
+&eacute;, possuir as regras e os meios de condicionar
+&ecirc;sses fen&oacute;menos, por f&oacute;rma a que outros
+os
+<span class="pagenum">[19]</span>
+possam observar nas mesmas condi&ccedil;&otilde;es, e
+verific&aacute;-los.
+<br />
+
+<br />
+
+Educar n&atilde;o &eacute; hoje, como noutros tempos
+se supunha, criar, &eacute; essencialmente orientar.
+N&atilde;o &eacute; lutar contra a natureza. O educador dos
+homens como o educador dos animais, tem que
+aproveitar as boas tend&ecirc;ncias, os talentos, para
+os enriquecer e desenvolver, como dos instintos
+diz o educador e moralista Foerster, falando do
+ensino dos animais. E quanto &agrave;s m&aacute;s
+tend&ecirc;ncias,
+tem que saber inibi-las, ou sublim&aacute;-las.
+Talvez que nesta altura, para lhes dar uma
+exacta idea ac&ecirc;rca do valor e possibilidades
+do ensino e quebrar-lhes preconceitos que a
+todos os professores desta Escola pertence o
+combater, e isto, por minha parte, na inten&ccedil;&atilde;o
+de aproveitar o pretexto de demonstrar que a
+arte de educar hoje assenta e qu&aacute;si se confunde
+com a arte de estudar os fen&oacute;menos
+ps&iacute;quicos, com a psico-t&eacute;cnica, talvez que, para
+isso, n&atilde;o lhes pudesse de momento aconselhar
+melhor leitura, como leitura pr&eacute;via, do que a
+do livrinho <em>Criminalidade e
+Educa&ccedil;&atilde;o</em>, do Sr.
+Padre <span class="smallcaps">Ant&oacute;nio de
+Oliveira</span> que n&atilde;o &eacute;
+s&oacute;, como
+todos sabem, uma admir&aacute;vel figura de fil&acirc;ntropo,
+mas, mais do que isso, uma figura not&aacute;vel
+de educador, com voca&ccedil;&atilde;o e larga e
+valios&iacute;ssima
+experi&ecirc;ncia.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; preciso que a arte de educar seja como
+a arte de curar.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; necess&aacute;rio ouvir tamb&ecirc;m o
+pr&aacute;tico, ouvir
+o que educa, ouvir o que cura, sobretudo quando
+sucede como deve ser, que a arte que praticam
+<span class="pagenum">[20]</span>
+seja arte esclarecida pela sci&ecirc;ncia, e n&atilde;o
+simples empirismo.
+<br />
+
+<br />
+
+Educar &eacute; condicionar intencionalmente as
+reac&ccedil;&otilde;es do indiv&iacute;duo. Educar,
+portanto, implica,
+primeiro do que tudo, o saber estudar as
+causas e mecanismo das reac&ccedil;&otilde;es individuais.
+E o estudo dessas reac&ccedil;&otilde;es feito
+experimentalmente
+tem o maior inter&ecirc;sse e import&acirc;ncia
+para o educador. Muitas dessas reac&ccedil;&otilde;es
+s&atilde;o
+de ordem interna e s&oacute; o pr&oacute;prio
+indiv&iacute;duo as
+pode observar directamente, mas essas mesmas
+s&atilde;o acompanhadas doutras reac&ccedil;&otilde;es,
+acess&iacute;veis
+ao estudo directo dos outros e portanto podem
+ser estudadas objectivamente, sem interven&ccedil;&atilde;o
+do exame dos pr&oacute;prios em que elas se d&atilde;o.
+O educador, em resumo, tem de estudar o mecanismo
+das reac&ccedil;&otilde;es individuais e a maneira
+scient&iacute;fica de as condicionar.
+<br />
+
+<br />
+
+De ac&ocirc;rdo com estas ideas, j&aacute; a dentro da
+velha Escola Normal, onde tive a honra de
+reger durante alguns anos o <em>Curso de
+Pedologia</em>,
+o meu distinto colega naquela e nesta Escola
+Sr. Professor Dr. <span class="smallcaps">Alberto
+Pimentel</span>, cujo
+livrinho de li&ccedil;&otilde;es lhes aconselho, procurou
+orientar o ensino te&oacute;rico da Psicologia. Eu,
+por minha parte, completarei &ecirc;sse trabalho
+ensinando-lhes a t&eacute;cnica dos estudos
+psicol&oacute;gicos,
+segundo essa orienta&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Disse eu que a psicologia experimental se
+prende tanto com a arte de educar, que por
+vezes at&eacute; qu&aacute;si se confunde com ela.
+N&atilde;o &eacute;
+qu&aacute;si se confunde, confunde-se at&eacute;. Em psicologia
+animal, ramo da psicologia qu&aacute;si desconhecido
+entre n&oacute;s, a psicologia experimental
+<span class="pagenum">[21]</span>
+funda-se na <em>educabilidade</em>,
+&eacute; o proprio exame
+da educabilidade, &eacute; a propria arte da
+educa&ccedil;&atilde;o
+exercida com o fim de estudar os fen&oacute;menos
+e os recursos mentais do animal.
+<br />
+
+<br />
+
+Vejam por exemplo, para f&aacute;cilmente e sob
+uma f&oacute;rma agrad&aacute;vel apreenderem melhor o
+assunto, o excelente livrinho de
+<span class="smallcaps">Hache-Souplet</span>,
+director do Instituto de Psicologia Zool&oacute;gica,
+intitulado <em>De l'animal &agrave;
+l'enfant</em> (Bibl. de ph.
+contemporaine) e que se pode considerar um
+pequeno manual adopt&aacute;vel na prepara&ccedil;&atilde;o
+dos
+professores de ensino infantil.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se surpreendam com &ecirc;ste atrevido conselho
+de lhes indicar um livro de psicologia
+zool&oacute;gica, como meio de prepara&ccedil;&atilde;o
+pedag&oacute;gica.
+H&aacute; grandes afinidades entre a psicologia
+dos animais superiores e a das crian&ccedil;as e sobretudo
+&eacute; a estas duas psicologias, a zool&oacute;gica
+e a infantil, que &eacute;, quando n&atilde;o
+indispens&aacute;vel,
+pelo menos mais necess&aacute;ria a pr&aacute;tica
+dos m&eacute;todos da psicologia objectiva. Num dos
+melhores e mais modernos livros de <em>psicologia
+pedag&oacute;gica</em>, o de
+<span class="smallcaps">Thorndike</span>,
+not&aacute;vel
+professor
+de psicologia pedag&oacute;gica numa escola de mestres,
+t&ecirc;m um livro cheio de estudos interessantes
+de psicologia zool&oacute;gica s&ocirc;bre a
+intelig&ecirc;ncia
+dos animais, estudada pelos meios da
+psicologia experimental; e o afamado e em&eacute;rito
+psic&oacute;logo suisso, cujo nome j&aacute; vai sendo
+banal citar entre n&oacute;s, o Professor
+<span class="smallcaps">Clapar&egrave;de</span>
+disse, ao publicar o programa do Instituto de
+Sci&ecirc;ncias da Educa&ccedil;&atilde;o de Genebra:
+&laquo;Para
+ser completa uma escola de sci&ecirc;ncias da
+educa&ccedil;&atilde;o
+deveria possuir um servi&ccedil;o anexo...,
+<span class="pagenum">[22]</span>
+quero dizer, um laborat&oacute;rio de psicologia
+animal...&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Adestrar um animal, regular-lhe a conduta,
+&eacute; aprender muitas vezes a ensinar uma crian&ccedil;a.
+Algumas vezes, por isso, recorrerei, se as
+circunst&acirc;ncias o permitirem, a alguns exerc&iacute;cios
+de psicologia animal, para lhes esclarecer
+uma ou outra quest&atilde;o psicot&eacute;cnica
+pedag&oacute;gica.
+<br />
+
+<br />
+
+O exame objectivo das reac&ccedil;&otilde;es ser&aacute; o
+escopo
+principal do meu curso. Curso pr&aacute;tico de
+psicologia objectiva podia bem ser o t&iacute;tulo a
+dar-lhe. Psicologia objectiva n&atilde;o quere por&ecirc;m
+dizer, que seja exclusivamente um curso de
+psico-fisiologia, como muitos podem supor. A
+psico-fisiologia &eacute; apenas uma parte da psicologia
+objectiva, aquela em que se estudam as
+varia&ccedil;&otilde;es fisiol&oacute;gicas,
+pr&oacute;priamente ditas, que
+acompanham ou condicionam os fen&oacute;menos
+mentais. As reac&ccedil;&otilde;es exteriorizam-se
+tamb&ecirc;m
+por outras f&oacute;rmas, que n&atilde;o podem
+s&oacute;mente
+ser estudadas pelos m&eacute;todos da fisiologia.
+O estudo das reac&ccedil;&otilde;es provocadas por certos
+reagentes mentais &eacute; um verdadeiro estudo
+pedag&oacute;gico. Outra cousa n&atilde;o &eacute; a maior
+parte das vezes o estudo dos chamados
+<em>tests</em>,
+como &eacute; por exemplo o dos
+<em>tests</em> para a medida
+da intelig&ecirc;ncia, de que por certo j&aacute; t&ecirc;m
+ouvido
+falar e talvez tenham j&aacute; visto descritos.
+<br />
+
+<br />
+
+A psicologia experimental ser&aacute; talvez ainda
+prefer&iacute;vel &agrave; psicologia objectiva, porque a
+psicologia
+experimental atinge tamb&ecirc;m o estudo
+introspectivo dos fen&oacute;menos mentais, o seu
+estudo directo, e &ecirc;ste h&aacute;-de-nos ser preciso
+quando se tratar do estudo da psicologia do
+<span class="pagenum">[23]</span>
+professor, da psicologia de quem ensina, porque
+o ensino n&atilde;o depende s&oacute; da psicologia do
+educando, mas tamb&ecirc;m da do educador, e bom
+&eacute; que &ecirc;ste aprenda a saber examinar-se, a estudar
+as reac&ccedil;&otilde;es que o aluno e a escola nele
+determinam para examinar a sua aptid&atilde;o, e
+a corrigir v&iacute;cios de reac&ccedil;&atilde;o, que
+s&atilde;o por vezes
+causa de graves perturba&ccedil;&otilde;es escolares.
+N&atilde;o &eacute;
+s&oacute; o aluno anormal que perturba a classe, &eacute;
+o professor anormal, &eacute; o que n&atilde;o se adapta
+&agrave;
+profiss&atilde;o, &eacute; o que n&atilde;o a sabe
+praticar, por
+falta de cultura ou por falta de
+intu&igrave;&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+No aluno professor poder-se h&aacute; com vantagem
+praticar a psicologia experimental subjectiva.
+A psicologia experimental n&atilde;o &eacute; apenas
+a psicologia objectiva, repito. E a prop&oacute;sito
+lembrarei as palavras do fisiologista franc&ecirc;s
+Prof. <span class="smallcaps">Ch. Richet</span>:
+&laquo;A
+observa&ccedil;&atilde;o interior constitui
+uma psicologia de observa&ccedil;&atilde;o tam fecunda,
+tam leg&iacute;tima, como a psicologia a mais experimental
+que se possa imaginar. Os factos
+assim adquiridos pelo estudo do <em>eu</em>
+t&ecirc;m tanto
+valor como os fen&oacute;menos fisiol&oacute;gicos registados
+nos laborat&oacute;rios pelos m&eacute;todos mais
+aperfei&ccedil;oados
+da t&eacute;cnica contempor&acirc;nea.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Apesar de tudo, por&eacute;m, o nosso curso ser&aacute;
+principalmente um curso de t&eacute;cnica objectiva,
+porque &ecirc;le visa, primeiro do que tudo, o estudo
+psicol&oacute;gico do educando e porque &eacute; minha
+ten&ccedil;&atilde;o, mesmo quando se trate da
+pr&aacute;tica da
+psicologia subjectiva, recorrer a ela apenas
+como um auxiliar da psicologia objectiva. A
+prop&oacute;sito recordo os dizeres do grande
+<span class="smallcaps">Binet</span>:
+&laquo;Em nossa opini&atilde;o, diz &ecirc;le,
+n&atilde;o &eacute; preciso procurar
+<span class="pagenum">[24]</span>
+limitar e simplificar as respostas do indiv&iacute;duo
+em experi&ecirc;ncia, &eacute; preciso, pelo
+contr&aacute;rio,
+deixar-lhe a plena liberdade de exprimir
+o que sente, e mesmo convid&aacute;-lo a expressamente
+se observar de perto durante o decurso
+da experi&ecirc;ncia; esta maneira de proceder tem
+a vantagem de n&atilde;o restringir a
+investiga&ccedil;&atilde;o
+ao c&iacute;rculo da idea preconcebida: podem-se
+constatar muitas vezes factos novos e n&atilde;o previstos,
+que muitas vezes tamb&ecirc;m permitem
+compreender o mecanismo dum certo estado
+de consci&ecirc;ncia.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Com felicidade, pois, se chamou &laquo;Curso pr&aacute;tico
+de psicologia experimental&raquo; ao curso de
+t&eacute;cnica psicol&oacute;gica desta Escola, criado pelo
+Sr. Ministro de Instru&ccedil;&atilde;o, Prof. Dr.
+<span class="smallcaps">Alfredo de
+Magalh&atilde;es</span>, cujo nome deve merecer sempre
+a
+todos n&oacute;s, desta Escola Normal, uma grata homenagem,
+pela aten&ccedil;&atilde;o que lhe merecemos e
+pelo entusiasmo, apaixonado entusiasmo e energia,
+com que procurou instalar e proteger a
+nova Escola. O curso pr&aacute;tico, e acentuo a palavra
+pr&aacute;tico, de psicologia experimental ser&aacute;
+uma maneira de logo, desde o in&iacute;cio da
+freq&ugrave;&ecirc;ncia
+da Escola Normal, habituar o futuro
+professor, a sentir-se professor, a despertar-lhe
+e trenar-lhe a aptid&atilde;o, a p&ocirc;-lo em contacto
+real, directo, concreto com a massa que tem
+de trabalhar, com a sublime argila que tem
+de moldar: a alma tal qual ela &eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Trabalhar a alma da crian&ccedil;a com alma e
+com arte, com arte e com ac&ecirc;rto, com ac&ecirc;rto e
+com sci&ecirc;ncia, tal &eacute; o nosso escopo.
+<br />
+
+<br />
+
+A psicologia que havemos de praticar, ser&aacute;,
+<span class="pagenum">[25]</span>
+mais uma vez o digo, de car&aacute;cter principalmente
+objectivo, n&atilde;o s&oacute; pela dificuldade, se
+n&atilde;o impossibilidade, do exame subjectivo no
+meio e com os indiv&iacute;duos que temos de trabalhar,
+n&atilde;o s&oacute; porque o exame objectivo
+constit&uacute;i
+uma f&oacute;rma excelente de fazer a
+educa&ccedil;&atilde;o
+scient&iacute;fica do aluno professor, de dar-lhe
+h&aacute;bitos
+de observa&ccedil;&atilde;o e experi&ecirc;ncia
+extrospectivos
+ou melhor exteriores, essenciais &agrave; arte de educar,
+mas tamb&ecirc;m porque em psicologia, pode-se
+dizer, que o que mais importa ao educador
+s&atilde;o os actos ps&iacute;quicos, os fen&oacute;menos
+mentais
+de que introspectivamente se tem menos conhecimento.
+<br />
+
+<br />
+
+Em psicologia pedag&oacute;gica o sub-consciente
+vale mais que o consciente. E mesmo quando
+ao educador compete regular o comportamento
+do adulto, quando ao educador compete fazer
+reeduca&ccedil;&atilde;o, compete-lhe principalmente examinar
+o sub-consciente, porque &eacute; nele que se
+guarda a f&ocirc;r&ccedil;a que a experi&ecirc;ncia
+anterior gerou
+e que regula e influi, por vezes, mais do
+que nenhuma, no comportamento do indiv&iacute;duo.
+<br />
+
+<br />
+
+A conduta &eacute; principalmente governada
+pelo sub-consciente e neste tem tanta influ&ecirc;ncia
+a inf&acirc;ncia, o que ela foi em cada um, que
+quando a fadiga ou a doen&ccedil;a perturba o exame
+introspectivo e a fiscaliza&ccedil;&atilde;o, censura e
+gov&ecirc;rno, que por meio dele podemos exercer
+nos nossos actos, &eacute; a mentalidade infantil que
+aparece, se exterioriza e nos revela, tal como
+fomos e no &iacute;ntimo somos.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma escola de psicologia h&aacute; at&eacute;, que hoje
+<span class="pagenum">[26]</span>
+j&aacute; invadiu a filosofia, a medicina e a pedagogia,
+que assenta t&ocirc;da no estudo do sub-consciente
+e particularmente na pesquisa das impress&otilde;es
+que nele gravou a vida sexual. Refiro-me
+&agrave;
+<em>psico-an&aacute;lise</em>, de
+<span class="smallcaps">Freud</span> e seus
+sequazes,
+que, apesar dos ataques violentos que
+tem sofrido, mormente depois da declara&ccedil;&atilde;o
+da &uacute;ltima guerra (mais talvez por xenofobia do
+que por outra cousa), cont&eacute;m muito de verdade.
+Tirado o que h&aacute; de m&iacute;stico, de escabroso
+e de exagerado no seu pansexualismo, a psico-an&aacute;lise
+pode e deve ser conhecida pelo educador.
+E, para terminar com estas refer&ecirc;ncias &agrave;
+quest&atilde;o da import&acirc;ncia do consciente e do
+sub-consciente em educa&ccedil;&atilde;o, lembrarei a
+j&aacute;
+banalizada defini&ccedil;&atilde;o de <span class="smallcaps">Gustavo
+Le Bon</span>: <em>A
+educa&ccedil;&atilde;o &eacute; a arte de fazer passar do
+consciente
+para o inconsciente</em>. A
+reeduca&ccedil;&atilde;o, essa
+&eacute; muitas vezes o trabalho oposto, digo eu, o
+de trazer do inconsciente ao consciente, para
+transformar e depois voltar a tornar inconsciente.
+<br />
+
+<br />
+
+A educa&ccedil;&atilde;o, na idea de
+<span class="smallcaps">Bacon</span>, &eacute; o
+conjunto
+dos h&aacute;bitos adquiridos na inf&acirc;ncia. A
+reeduca&ccedil;&atilde;o
+&eacute; muitas vezes a correc&ccedil;&atilde;o
+d&ecirc;sses h&aacute;bitos;
+mas tanto em educa&ccedil;&atilde;o como em
+reeduca&ccedil;&atilde;o
+h&aacute; que aproveitar a Natureza, porque ela,
+ainda segundo <span class="smallcaps">Bacon</span>,
+n&atilde;o se governa, sen&atilde;o
+deixando-a governar, conhecendo-a, aproveitando-a,
+seguindo-a.
+<span class="pagenum">[27]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Meus Alunos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A arte de educar, como logo no princ&iacute;pio
+eu disse, &eacute; a arte de regular a conduta presente
+e futura do educando, e a psicologia experimental,
+de esc&ocirc;po pedag&oacute;gico, &eacute; a psicologia
+que pela experi&ecirc;ncia ensina a conhecer as
+causas, o mecanismo da conduta do indiv&iacute;duo
+ou da classe a educar.
+<br />
+
+<br />
+
+Psicologia experimental &eacute; qu&aacute;si pedagogia
+experimental. E n&atilde;o imaginem que esta pedagogia
+experimental &eacute; menos do que a outra,
+porque n&atilde;o tem em conta os ideais, a parte
+pol&iacute;tica, religiosa, social, a finalidade da
+educa&ccedil;&atilde;o.
+N&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O Ideal quando n&atilde;o &eacute; factor da
+ac&ccedil;&atilde;o, &eacute;
+produto da ac&ccedil;&atilde;o, ou as duas cousas ao mesmo
+tempo, factor e produto da experi&ecirc;ncia pessoal,
+e o que n&oacute;s vamos aprender &eacute; a arte de
+estudar pr&aacute;ticamente, experimentalmente, os
+factores e o mecanismo da ac&ccedil;&atilde;o, ou melhor
+das reac&ccedil;&otilde;es do indiv&iacute;duo sujeito
+&agrave; influ&ecirc;ncia
+dos meios, isto &eacute;, ainda a parte pr&aacute;tica,
+experimental,
+utilit&aacute;ria, debaixo do ponto de vista
+educativo, que talvez melhor do que psicologia,
+se poderia chamar, &agrave; maneira de
+<span class="smallcaps">Bechterew</span>,
+a <em>reflexologia
+pedag&oacute;gica</em>, e nela bem
+podemos estudar o valor, a ac&ccedil;&atilde;o e a
+forma&ccedil;&atilde;o
+dos ideais.
+<span class="pagenum">[28]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Com isto declaro aberto o &laquo;Curso pr&aacute;tico de
+psicologia experimental&raquo;, que neste semestre
+ser&aacute; essencialmente um curso de proped&ecirc;utica,
+destinado ao estudo das no&ccedil;&otilde;es preliminares
+e fundamentais de anatomia, fisiologia e psicologia,
+que mais importam &agrave;
+<em>psico-t&eacute;cnica</em>...
+<br />
+
+<br />
+
+Disse.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote">15-III-919.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c4" id="c4"></a>
+<h3>O P&Ecirc;SO DO CORPO DA CRIAN&Ccedil;A<sup><a href="#n3">[3]</a></sup>
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Meus Alunos<br />
+Senhoras e Senhores</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Quiz um pouco o acaso que o <em>p&ecirc;so do corpo
+da crian&ccedil;a</em> f&ocirc;sse o tema da minha
+&uacute;ltima li&ccedil;&atilde;o.
+O fim do ano, como sabeis, veio-nos surpreender
+num ponto ainda atrasado do programa a
+que me obrig&aacute;ra: o estudo dos m&eacute;todos da
+pedologia
+som&aacute;tica, particularmente da pedometria
+e com ela o dos principais caract&eacute;res m&eacute;tricos
+da crian&ccedil;a. O p&ecirc;so do corpo da crian&ccedil;a
+ter&aacute; que ser o tema da li&ccedil;&atilde;o de
+encerramento
+do meu curso d&ecirc;ste ano. E, embora pare&ccedil;a o
+contr&aacute;rio, talvez n&atilde;o pudesse encontrar melhor
+tema para encerrar o concurso.
+<br />
+
+<br />
+
+A li&ccedil;&atilde;o de abertura que vos li foi, como
+<span class="pagenum">[30]</span>
+devia ser, uma li&ccedil;&atilde;o-programa e uma
+li&ccedil;&atilde;o-promessa.
+Na li&ccedil;&atilde;o de encerramento que vou ler-vos
+tamb&ecirc;m, procurarei fazer com que ela seja
+o que deve ser uma li&ccedil;&atilde;o de encerramento:
+uma li&ccedil;&atilde;o em que at&eacute; certo ponto se
+recapitulem
+as no&ccedil;&otilde;es principais expostas durante o
+curso, uma li&ccedil;&atilde;o-conclus&atilde;o, e uma
+li&ccedil;&atilde;o em que
+se procure provar a realiza&ccedil;&atilde;o de algumas das
+promessas que se haviam feito na li&ccedil;&atilde;o inicial.
+<br />
+
+<br />
+
+A crian&ccedil;a &eacute; fundamentalmente um ser humano
+em via de crescimento; &eacute; um homem ou
+uma mulher em via de forma&ccedil;&atilde;o. A sua principal
+fun&ccedil;&atilde;o &eacute; crescer, procurando atingir a
+grandeza que a hereditariedade lhe destinou e
+alcan&ccedil;ar o equil&iacute;brio morfol&oacute;gico e
+fisiol&oacute;gico
+do adulto, que constitui a perfei&ccedil;&atilde;o do ser.
+Respeitar o crescimento, a lei natural do crescimento,
+&eacute; o principal dever do educador, e
+t&ocirc;da a educa&ccedil;&atilde;o se tem de subordinar a
+esta
+quest&atilde;o de medida: <em>n&atilde;o perturbar
+a lei natural
+do crescimento</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+O p&ecirc;so n&atilde;o cresce como deve ser? Diminui,
+p&aacute;ra, aumenta de mais ou de menos? Um problema
+se p&otilde;e. O regimen de vida ou de
+educa&ccedil;&atilde;o
+provavelmente n&atilde;o &eacute; o que conv&ecirc;m.
+Modifique-se
+e observe-se, por exemplo por meio
+da balan&ccedil;a, a influ&ecirc;ncia das
+modifica&ccedil;&otilde;es. A
+balan&ccedil;a guia a higiene, e na higiene assenta a
+educa&ccedil;&atilde;o. Por isso, com raz&atilde;o dizia eu
+no Congresso
+da Liga Nacional contra a Tuberculose,
+em 1907, e o repetia no Congresso Pedag&oacute;gico
+do ano passado: &laquo;O problema escolar &eacute;
+essencialmente
+um problema m&eacute;trico.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Mas mesmo que a medida do p&ecirc;so e sobretudo
+<span class="pagenum">[31]</span>
+a da sua evolu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o servisse, como
+serve, para julgar da sa&uacute;de e do estado da
+nutri&ccedil;&atilde;o da crian&ccedil;a e por
+&ecirc;le aferir o valor do
+meio em que a crian&ccedil;a vive e dos meios educativos
+de que se serve quem dela cuida, mesmo
+que o estudo das varia&ccedil;&otilde;es do p&ecirc;so
+n&atilde;o
+tivesse grande significa&ccedil;&atilde;o para os educadores,
+ainda assim, como muitas vezes vos tenho dito,
+valeria a pena ensinar o professor a pesar a
+crian&ccedil;a. Mais do que uma vez, na realidade,
+vos tenho afirmado que uma das vantagens
+do ensino da pedologia aos futuros professores
+est&aacute; em ela servir excelentemente para
+fazer a sua educa&ccedil;&atilde;o scient&iacute;fica, para
+os ensinar
+a observar, a descrever, a medir, a experimentar,
+a analisar e a criticar, para aperfei&ccedil;oar
+o <em>bom senso</em>, que &eacute; a
+mesma cousa que o
+esp&iacute;rito scient&iacute;fico, que permite sentir e
+descobrir
+a realidade e medir a possibilidade. O
+<em>bom senso</em> &eacute; a principal
+qualidade de car&aacute;cter
+de qualquer e principalmente do professor.
+<br />
+
+<br />
+
+Aprender a pesar &eacute; aprender a julgar, e
+com raz&atilde;o, por isso, um m&eacute;dico franc&ecirc;s,
+o Dr.
+<span class="smallcaps">Baudrand</span>, numa tese
+extensa e
+not&aacute;vel s&ocirc;bre
+o crescimento, diz: &laquo;Um m&eacute;dico que regista o
+p&ecirc;so assemelha-se ao magistrado que aprecia
+o valor de um preju&iacute;zo e calcula o valor da
+indemniza&ccedil;&atilde;o.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+A pesagem tem ainda s&ocirc;bre outras muitas
+medidas pedom&eacute;tricas a vantagem de ser a
+mais f&aacute;cil de t&ocirc;das; nem exige instrumentos
+especiais, nem t&eacute;cnica muito diferente da das
+pesagens mais comuns e, porque est&aacute; sujeita
+a menos erros, permite ao professor ou ao
+<span class="pagenum">[32]</span>
+m&eacute;dico n&atilde;o ser t&atilde;o
+f&aacute;cilmente logrado, como
+sucede com muitas outras medidas pedom&eacute;tricas,
+que praticadas mesmo &agrave;s vezes por quem
+tenha cultura especial levam a conclus&otilde;es falsas,
+a listas de n&uacute;meros que outra cousa n&atilde;o
+s&atilde;o mais do que n&uacute;meros, vistosos na
+apar&ecirc;ncia,
+mas vazios na significa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Me&ccedil;am sim, mas me&ccedil;am
+s&oacute; aquilo que f&ocirc;r
+f&aacute;cil de medir, menos sujeito a erros e que
+sirva para julgar da sa&uacute;de do educando, e
+das influ&ecirc;ncias que s&ocirc;bre &ecirc;le tem o
+regimen
+de vida e os m&eacute;todos de ensino.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+Mais uma vez insisto, chamando-lhes a aten&ccedil;&atilde;o
+para a obriga&ccedil;&atilde;o que t&ecirc;m&mdash;quando
+medirem
+e quizerem apresentar os resultados de
+suas medi&ccedil;&otilde;es&mdash;de exporem minuciosamente o
+<em>modus faciendi</em> que adoptaram e se
+darem ao
+trabalho de, pelo menos nas primeiras medidas,
+repeti-las algumas vezes, no mesmo sujeito e
+na mesma sess&atilde;o, para verificar a t&eacute;cnica. O
+observador n&atilde;o tem s&oacute; que conquistar a
+confian&ccedil;a
+dos outros, precisa tamb&ecirc;m de conquistar
+a sua pr&oacute;pria.
+<br />
+
+<br />
+
+O p&ecirc;so do corpo do escolar, n&atilde;o obstante
+haver balan&ccedil;as especiais, pode tomar-se com
+uma balan&ccedil;a d&eacute;cimal ordin&aacute;ria,
+aferida, e conv&ecirc;m
+que quando, por qualquer raz&atilde;o, se n&atilde;o
+possa despir completamente a crian&ccedil;a, ela tenha
+s&ocirc;bre si o menor n&uacute;mero poss&iacute;vel de
+pe&ccedil;as
+de vestu&aacute;rio: um leve cal&ccedil;&atilde;o nos
+rapazes,
+uma simples saia ou uma saia e um corpete
+nas raparigas. A pesagem deve fazer-se no
+mesmo indiv&iacute;duo, sempre &agrave; mesma hora, de
+prefer&ecirc;ncia de manh&atilde;, e nas
+condi&ccedil;&otilde;es o mais
+<span class="pagenum">[33]</span>
+id&ecirc;nticas que f&ocirc;r poss&iacute;vel.
+Conv&ecirc;m tamb&ecirc;m
+repetir a pesagem em cada ano, com intervalo
+de semestre, por exemplo.
+<br />
+
+<br />
+
+Podem parecer exageradas as precau&ccedil;&otilde;es
+que acabo de aconselhar, mas n&atilde;o o s&atilde;o por
+que &eacute; bom saber-se que as varia&ccedil;&otilde;es do
+p&ecirc;so
+n&atilde;o s&atilde;o sempre sinal de crescimento, e porque
+tamb&ecirc;m est&aacute; provado que o p&ecirc;so da
+crian&ccedil;a
+como o do adulto oscila durante o dia, e de
+&eacute;poca para &eacute;poca do ano.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>H&aacute; oscila&ccedil;&otilde;es
+regulares di&aacute;rias do p&ecirc;so</em>.
+De manh&atilde;, ao levantar da cama, todos pesam
+menos do que &agrave; noite. Esta diferen&ccedil;a de
+p&ecirc;so
+chega a ser, numa crian&ccedil;a de dez anos, de setecentos
+gramas, e num adulto pode chegar a
+um quilo (<span class="smallcaps">Camerer</span>),
+quilo e meio
+(<span class="smallcaps">Ammon</span>). Parece
+resultar &ecirc;ste facto de que durante o dia,
+as perdas que se sofrem por sa&iacute;da de subst&acirc;ncias
+do organismo s&atilde;o compensadas pela
+entrada de subst&acirc;ncias reparadoras, enquanto
+que durante a noite as perdas n&atilde;o s&atilde;o
+compensadas.
+Nos adultos a diminui&ccedil;&atilde;o do p&ecirc;so
+durante a noite &eacute; em m&eacute;dia igual &agrave;
+eleva&ccedil;&atilde;o
+do p&ecirc;so durante o dia, mas nas crian&ccedil;as a
+diminui&ccedil;&atilde;o
+do p&ecirc;so durante a noite &eacute; menor do
+que a eleva&ccedil;&atilde;o durante o dia, o que corresponde
+ao crescimento.
+<br />
+
+<br />
+
+Pode algumas vezes observar-se uma diferen&ccedil;a
+de gramas a mais, simplesmente porque
+o intestino ainda n&atilde;o se esvaziou.
+<br />
+
+<br />
+
+As esta&ccedil;&otilde;es influem tamb&ecirc;m e produzem
+oscila&ccedil;&otilde;es no p&ecirc;so. Est&aacute;
+provado que &ecirc;ste aumenta
+mais de agosto a dezembro do que de
+abril a junho. O aumento m&aacute;ximo verifica-se
+<span class="pagenum">[34]</span>
+no primeiro per&iacute;odo apresentado e o m&iacute;nimo
+no segundo. De dezembro a abril o valor do
+aumento &eacute; interm&eacute;dio. Estas
+oscila&ccedil;&otilde;es podem
+depender ou resultar de desarranjos que o
+organismo experimenta com as mudan&ccedil;as de
+esta&ccedil;&atilde;o e tamb&ecirc;m com mudan&ccedil;a
+de h&aacute;bitos
+que podem levar a aumentar ou a diminuir as
+perdas. A suda&ccedil;&atilde;o e os jogos, por exemplo,
+tudo que modifica a fun&ccedil;&atilde;o dos
+emunt&oacute;rios
+ou a desassimila&ccedil;&atilde;o, tudo pode influir. Aos
+factores metereol&oacute;gicos devem juntar-se os da
+<em>metereologia do ensino</em>, os exames
+por exemplo,
+que desarranjam e consomem. O conhecimento
+d&ecirc;stes factos levou-me a determinar, de
+acordo com o distinto m&eacute;dico-inspector da
+Casa Pia e seu professor, Dr. <span class="smallcaps">Jorge
+Cid</span>, que
+a medida e observa&ccedil;&atilde;o peri&oacute;dica de
+todos os
+alunos f&ocirc;sse feita duas vezes ao ano, nos primeiros
+meses do ano lectivo, a come&ccedil;ar em
+outubro, e naqueles que imediatamente precedem
+as f&eacute;rias grandes, nos tr&ecirc;s &uacute;ltimos.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s vezes, com a melhoria da
+alimenta&ccedil;&atilde;o,
+com a mudan&ccedil;a de ares, com a liberdade, a
+crian&ccedil;a aumenta extraordin&aacute;riamente de
+p&ecirc;so,
+como por ex. observei na <em>col&oacute;nia de
+f&eacute;rias</em>,
+instalada na Figueira da Foz, por iniciativa e
+sob a protec&ccedil;&atilde;o do meu mestre Dr.
+<span class="smallcaps">Bernardino
+Machado</span>,&mdash;col&oacute;nia em que vi
+crian&ccedil;as
+aumentarem <em>cinco vezes mais</em> do que
+em igual
+per&iacute;odo aumentaram alunos da mesma idade,
+dum col&eacute;gio excelente, como &eacute; o
+Col&eacute;gio Militar
+(vid&egrave; medidas do Dr. <span class="smallcaps">Mascarenhas
+de
+Melo</span>, apresentadas no Congresso Internacional
+de Medicina de 1906, e o meu artigo,
+<em>Uma</em>
+<span class="pagenum">[35]</span>
+<em>col&oacute;nia de
+f&eacute;rias</em>, publicado no
+<em>Boletim da Assist&ecirc;ncia
+Nacional aos Tuberculosos</em>, em 1908).
+<br />
+
+<br />
+
+&Ecirc;ste facto, que tem sido observado por
+v&aacute;rios, dos grandes aumentos de p&ecirc;so que,
+&agrave;s
+vezes mesmo ao fim de quinze dias, se notam
+nas <em>col&oacute;nias de
+f&eacute;rias</em> das crian&ccedil;as pobres das
+cidades, dessas que eu chamei em tempos pobres
+<em>exilados da Natureza</em>, mostra bem a
+import&acirc;ncia
+destas institui&ccedil;&otilde;es peri-escolares: as
+<em>col&oacute;nias</em>, para que me
+n&atilde;o canso de vos chamar
+a aten&ccedil;&atilde;o, instigando-vos a promover sempre
+que vos f&ocirc;r poss&iacute;vel a sua
+organiza&ccedil;&atilde;o,
+mas sempre com o aux&iacute;lio do m&eacute;dico, a quem
+cabe a selec&ccedil;&atilde;o dos casos e a
+indica&ccedil;&atilde;o daqueles
+a quem conv&ecirc;m a praia e daqueloutros a
+quem o campo mais conv&ecirc;m.
+<br />
+
+<br />
+
+Na aprecia&ccedil;&atilde;o do p&ecirc;so do aluno deve
+ter-se
+em vista mais a f&oacute;rma porque &ecirc;le cresce
+do que a diferen&ccedil;a do seu p&ecirc;so para a
+m&eacute;dia
+dos da sua idade. Muito seria para desejar
+que &agrave; semelhan&ccedil;a do que se faz, por ex. em
+Bruxelas, o professor dispuzesse de uns cart&otilde;es
+quadriculados onde apontasse o p&ecirc;so do
+corpo de seu aluno em cada ano e f&ocirc;sse tra&ccedil;ando
+a curva da sua varia&ccedil;&atilde;o ao lado da
+curva m&eacute;dia normal, que convinha se tratasse
+de obter com dados colhidos entre n&oacute;s. Muito
+convinha, direi de passagem, que se generalizasse
+o uso da <em>Caderneta da mocidade, da
+Instru&ccedil;&atilde;o militar
+preparat&oacute;ria</em>, tal como est&aacute;,
+ou melhor, <em>simplificada</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Nem a todos &eacute; destinado o mesmo tamanho:
+h&aacute; crian&ccedil;as leves e crian&ccedil;as pesadas,
+como
+h&aacute; indiv&iacute;duos altos e indiv&iacute;duos
+baixos, indiv&iacute;duos
+<span class="pagenum">[36]</span>
+loiros e indiv&iacute;duos morenos. A inferioridade
+do p&ecirc;so, por isso, nem sempre significa
+que a crian&ccedil;a sofre. Mas acresce a isto o n&atilde;o
+termos ainda, n&oacute;s portugueses, m&eacute;dias nossas,
+pelas quais nos poss&acirc;mos seguramente guiar.
+A ra&ccedil;a influi no p&ecirc;so, e a
+composi&ccedil;&atilde;o &eacute;tnica
+de cada povo deve influir na m&eacute;dia do p&ecirc;so
+absoluto da sua popula&ccedil;&atilde;o, em cada idade.
+Para as raparigas portuguesas n&atilde;o conhe&ccedil;o
+tabela alguma; para os rapazes costumo guiar-me,
+enquanto n&atilde;o organizo uma tabela com
+os p&ecirc;sos observados nos rapazes da Casa Pia,
+costumo guiar-me, dizia, pelas observa&ccedil;&otilde;es do
+Dr. <span class="smallcaps">Mascarenhas de Melo</span>,
+publicadas nos
+<em>Anu&aacute;rios do Col&eacute;gio
+Militar</em> e de que aquele
+meu distinto colega fez um apanhado na sua
+comunica&ccedil;&atilde;o ao Congresso Internacional de
+Medicina, realizado em Lisboa em 1906,
+comunica&ccedil;&atilde;o
+intitulada: <em>Sur l'Antropom&eacute;trie
+m&eacute;dicale</em>.
+As tabelas do Dr. <span class="smallcaps">Mascarenhas de
+Melo</span>
+servem, por&ecirc;m, apenas para o estudo do p&ecirc;so
+dos dez aos dezanove anos. S&ocirc;bre estas
+observa&ccedil;&otilde;es
+e s&ocirc;bre pedometria escolar podem v&ecirc;r
+um pequeno relat&oacute;rio que com o
+t&iacute;tulo&mdash;<em>Antropometria
+escolar</em>&mdash;escrevi para o Congresso
+da Liga contra a Tuberculose de 1907 e que
+com poucas modifica&ccedil;&otilde;es foi reimpresso o ano
+passado, por ocasi&atilde;o do Congresso Pedag&oacute;gico
+de Lisboa[4].
+<span class="pagenum">[37]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+A t&iacute;tulo de curiosidade porei em face umas
+das outras algumas m&eacute;dias das tabelas do Dr.
+<span class="smallcaps">Mascarenhas de Melo</span>
+(observa&ccedil;&otilde;es portuguesas)
+e algumas extra&iacute;das dum trabalho de
+<span class="smallcaps">Camerer</span>, de
+Stuttgart:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" class="tinyl" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">Idades</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">Rapazes<br />
+
+(Masc.<sup>as</sup><br />
+
+de Melo)</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">Rapazes<br />
+
+(Camerer)</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">Raparigas<br />
+
+(Camerer)</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">10</td>
+
+ <td style="width: 5%; text-align: center;">anos</td>
+
+ <td style="width: 5%;">
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">29</td>
+
+ <td style="text-align: center;">kg.</td>
+
+ <td style="text-align: right;">30</td>
+
+ <td style="text-align: center;">kg.</td>
+
+ <td style="text-align: right;">27</td>
+
+ <td style="text-align: center;">kg.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">11</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">30,5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ <td style="text-align: right;">32,5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ <td style="text-align: right;">29</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">12</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">33</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ <td style="text-align: right;">35</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ <td style="text-align: right;">32</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">13</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">36,5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ <td style="text-align: right;">37,5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ <td style="text-align: right;">37</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">14</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">42</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ <td style="text-align: right;">41</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ <td style="text-align: right;">43</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">15</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">47</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ <td style="text-align: right;">45</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ <td style="text-align: right;">48</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Uma alem&atilde; parece pesar, a partir dos catorze
+anos, mais do que uma portuguesa da mesma
+idade.
+<span class="pagenum">[38]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Estas m&eacute;dias s&atilde;o &agrave;s vezes
+assombrosamente
+excedidas, nos casos de obesidade. Neste momento
+estou tratando na minha cl&iacute;nica particular
+de um rapaz de quinze anos, um obeso
+com gigantismo, obeso hip&oacute;fiso-genital, que
+pesa bastante mais de cem quilos!
+<br />
+
+<br />
+
+O primeiro ano da vida &eacute; aquele em que o
+p&ecirc;so aumenta mais. Em m&eacute;dia, segundo
+<span class="smallcaps">Camerer</span>,
+por ex. ao nascer, um rapaz pesa tr&ecirc;s
+quilos e quatrocentos gramas e uma rapariga
+tr&ecirc;s quilos e duzentos gramas. Na Maternidade
+de Lisboa, no tempo do Prof. <span class="smallcaps">Alfredo
+da Costa</span> (1899-1904), a m&eacute;dia do
+p&ecirc;so dos
+rapazes foi de 3<sup>kg</sup>,236 e a do das raparigas
+3<sup>kg</sup>,103.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos dois primeiros dias a crian&ccedil;a perde uns
+duzentos gramas, mas ao oitavo ou ao nono
+recupera o p&ecirc;so da nascen&ccedil;a. O aumento
+di&aacute;rio
+das crian&ccedil;as criadas ao peito, ainda por
+ex. segundo <span class="smallcaps">Camerer</span>,
+anda por uns
+30 gr.
+at&eacute; &agrave; quarta semana, de 26-28 da quinta
+&agrave; d&eacute;cima
+segunda, de 20-24 da d&eacute;cima terceira &agrave;
+vig&eacute;sima, de 16-18 da vig&eacute;sima primeira
+&agrave; trig&eacute;sima
+sexta, e de 10-15 da trig&eacute;sima s&eacute;tima
+&agrave;
+quinquag&eacute;sima segunda.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>No quinto m&ecirc;s da vida, em regra, a
+crian&ccedil;a
+dobra de p&ecirc;so, e ao fim do primeiro ano
+costuma t&ecirc;-lo triplicado.</em> Pode dizer-se que
+nos
+cinco primeiros meses o aumento &eacute; de c&ecirc;rca
+de setecentos gramas por m&ecirc;s; nos cinco meses
+seguintes &eacute; metade menor. Daqui a regra indicada
+por <span class="smallcaps">Terrien</span> para
+calcular o
+p&ecirc;so de uma
+crian&ccedil;a de peito durante o primeiro ano: para
+os cinco primeiros meses, multiplicar 700 pelo
+<span class="pagenum">[39]</span>
+n&uacute;mero de meses que a crian&ccedil;a tem e juntar
+ao produto o p&ecirc;so que ela tinha &agrave;
+nascen&ccedil;a;
+para os cinco meses seguintes, multiplicar 350
+pelo n&uacute;mero de meses que ela tem
+<em>al&ecirc;m do 5.&ordm;</em>,
+e juntar-lhe o p&ecirc;so do quinto m&ecirc;s, isto
+&eacute;, o
+d&ocirc;bro do p&ecirc;so &agrave; nascen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;No segundo ano de vida o aumento de
+p&ecirc;so &eacute; notavelmente menor que no primeiro e
+chega tam s&oacute;, tanto nos rapazes como nas raparigas,
+a c&ecirc;rca de dois quilos e meio; dos
+tr&ecirc;s aos cinco anos o crescimento diminui um
+pouco mais, n&atilde;o passando de um a dois quilos
+por ano. Finalmente, ao fim do quinto ano os
+rapazes v&ecirc;em a ter 18 quilos e as raparigas
+17. A partir desta idade, at&eacute; aos catorze
+anos, os <em>rapazes</em> aumentam de 2 a 3
+quilos;
+segue-se depois dos <em>quinze aos
+dez&oacute;ito</em> um per&iacute;odo
+de maior crescimento, com aumento anual
+que pode chegar a oito quilos. Nas
+<em>raparigas</em>
+o acr&eacute;scimo anual pode manter-se at&eacute; aos doze
+anos &agrave; volta de dois quilos, e dos <em>13 aos
+16</em>
+o aumento anda por uns 4 a 5 quilos. A partir
+dos <em>16 nas raparigas</em> e dos
+<em>19 nos rapazes</em>,
+o acr&eacute;scimo pode cessar. Em regra, por&ecirc;m,
+poucos s&atilde;o os indiv&iacute;duos nos quais permanece
+estacion&aacute;rio o p&ecirc;so adquirido aos 16
+ou aos 19.&raquo; (<span class="smallcaps">Camerer</span>).
+<br />
+
+<br />
+
+Duma longa s&eacute;rie de observa&ccedil;&otilde;es feitas
+em
+crian&ccedil;as portuguesas de escolas prim&aacute;rias
+oficiais
+do Alentejo e de escolas prim&aacute;rias n&atilde;o
+oficiais de Lisboa, s&eacute;rie infelizmente pouco
+homog&eacute;nea
+e insuficiente para algumas idades,
+dessa longa s&eacute;rie de observa&ccedil;&otilde;es
+feitas pelo
+Dr. <span class="smallcaps">Moraes Manchego</span>
+e pelo Sr.
+Major <span class="smallcaps">Desid&eacute;rio</span>
+<span class="pagenum">[40]</span>
+<span class="smallcaps">Be&ccedil;a</span>,
+tirou o Dr.
+<span class="smallcaps">Manchego</span> os elementos
+com que construiu uma curva de crescimento
+do p&ecirc;so em portugueses de 6 a 19 anos
+de idade, curva que conjuntamente com algumas
+tabelas interessantes, foi apresentada
+num trabalho daquele distinto
+m&eacute;dico:&mdash;<em>Contribui&ccedil;&atilde;o
+ao estudo do crescimento da crian&ccedil;a
+portuguesa</em> (Trabalhos do 3.&ordm; Congresso
+Pedag&oacute;gico,
+realizado em abril de 1912, por iniciativa
+da Liga Nacional de Instru&ccedil;&atilde;o<sup><a href="#n5">[5]</a></sup>. Por
+ser interessante e dizer respeito a observa&ccedil;&otilde;es
+portuguesas, transcrevo d&ecirc;sse trabalho, digno
+de apre&ccedil;o, as seguintes linhas:&mdash;&laquo;Na curva
+portuguesa h&aacute; primeiramente um pequeno
+acr&eacute;scimo com o m&aacute;ximo nos 8 anos, que joga
+perfeitamente com o acidente similar j&aacute; apontado
+no mesmo tr&ocirc;&ccedil;o da curva hom&oacute;loga da
+estatura, depois vem um crescimento qu&aacute;si
+insens&iacute;vel
+at&eacute; aos 12 anos; a seguir apresenta-se
+uma depress&atilde;o, e aos 13 anos come&ccedil;a o
+crescimento muito intensivo com o m&aacute;ximo
+absoluto aos 16 (&ecirc;ste acr&eacute;scimo &eacute; de
+6<sup>k</sup>,8);
+depois desta idade a curva desce muito de
+ano para ano, sendo o acr&eacute;scimo para os 19
+anos apenas de 1<sup>k</sup>,5. O aumento de p&ecirc;so
+dos
+6 aos 19 anos &eacute; de 36<sup>k</sup>,8, isto
+&eacute;, o
+p&ecirc;so que
+aos 14 anos j&aacute; duplicou &eacute; aos 19 superior ao
+triplo do que corresponde aos 6 anos.&raquo;
+<span class="pagenum">[41]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+O que conv&ecirc;m, por&ecirc;m, principalmente fixar
+&eacute; que durante o crescimento se observam dois
+per&iacute;odos de crescimento m&aacute;ximo: o primeiro
+per&iacute;odo corresponde ao primeiro ano da vida,
+e o segundo nas <em>raparigas</em> ao que vai
+dos
+<em>doze aos dezasseis anos</em> e nos
+<em>rapazes</em> dos <em>quinze
+aos dez&oacute;ito</em>. O primeiro d&ecirc;stes
+per&iacute;odos &eacute;,
+como diz <span class="smallcaps">Camerer</span>,
+uma
+continua&ccedil;&atilde;o da excessiva
+energia fetal do crescimento (lembremo-nos,
+como faz notar <span class="smallcaps">Variot</span>,
+que em nove
+meses
+se passa de um &oacute;vulo de duas d&eacute;cimas de
+mil&iacute;metro a um f&eacute;to que mede meio metro e
+pesa c&ecirc;rca de tr&ecirc;s quilos!)
+<br />
+
+<br />
+
+O segundo per&iacute;odo de crescimento m&aacute;ximo
+corresponde, tanto nos rapazes como nas raparigas,
+&agrave; puberdade.
+<br />
+
+<br />
+
+As condi&ccedil;&otilde;es de vida das m&atilde;es influem
+no
+p&ecirc;so dos filhos. Sem ir buscar exemplos l&aacute; de
+f&oacute;ra, basta dizer-lhes, para documentar a
+afirma&ccedil;&atilde;o,
+que o falecido e ilustre professor da
+Escola M&eacute;dica de Lisboa, <span class="smallcaps">Alfredo
+da
+Costa</span>,
+encontrou not&aacute;veis diferen&ccedil;as entre os pesos
+&agrave;
+nascen&ccedil;a dos filhos de mulheres que passaram
+os &uacute;ltimos tempos da gravidez em repouso e
+tranquilidade moral e os daquelas que pelo
+contr&aacute;rio at&eacute; ao &uacute;ltimo momento
+trabalharam
+e viveram na mis&eacute;ria. As crian&ccedil;as destas
+&uacute;ltimas
+pesavam sempre menos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Niceforo</span>, no seu
+afamado
+volume&mdash;<em>Les
+Classes Pauvres</em>,&mdash;publica um quadro comparativo
+do p&ecirc;so m&eacute;dio de umas s&eacute;ries de rapazes
+e raparigas, por onde se v&ecirc; que o p&ecirc;so
+m&eacute;dio &eacute; mais baixo nas crian&ccedil;as pobres
+do
+que nas ricas, da mesma idade.
+<span class="pagenum">[42]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Ley</span> e outros
+verificaram que em
+regra as
+crian&ccedil;as atardadas s&atilde;o inferiores em
+p&ecirc;so aos
+normais que em idade lhes correspondem. E
+<span class="smallcaps">Sluys</span>, o antigo e
+illustre
+director da Escola
+Normal de Bruxelas, num interessante op&uacute;sculo
+que muito vos recomendo&mdash;<em>Loi de
+Croissance</em>,&mdash;chama
+a aten&ccedil;&atilde;o para o emmagrecimento
+dos sobreexcitados e sobrecarregados pelos
+trabalhos de prepara&ccedil;&atilde;o dos exames<sup><a href="#n6">[6]</a></sup>. E
+j&aacute;
+que acidentalmente vos recomendei a leitura
+d&ecirc;ste livro s&ocirc;bre as
+varia&ccedil;&otilde;es do p&ecirc;so do corpo
+da crian&ccedil;a, n&atilde;o quero deixar de vos aconselhar
+tamb&ecirc;m a leitura do que escreveu e das
+tabelas que s&ocirc;bre o p&ecirc;so publicou nas suas
+<em>Li&ccedil;&otilde;es de
+Pedologia</em> o nosso distinto conterr&acirc;neo
+Dr. <span class="smallcaps">Faria e Vasconcelos</span>,
+professor
+em
+Bruxelas, de quem por v&aacute;rias vezes tenho tido
+o prazer de vos falar.
+<br />
+
+<br />
+
+Afinal a balan&ccedil;a, como fiz v&ecirc;r, pesa, mede
+a marcha da nutri&ccedil;&atilde;o e permite apreciar as
+condi&ccedil;&otilde;es de vida e os regimens de trabalho.
+Perturbar o crescimento &eacute; perturbar a vida, &eacute;
+afrouxar os meios de defesa, &eacute; predispor para
+a doen&ccedil;a, &eacute; inferiorisar o indiv&iacute;duo.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi minha ten&ccedil;&atilde;o ler-vos esta
+li&ccedil;&atilde;o de encerramento
+do curso, no <em>Lact&aacute;rio de
+Lisboa</em>,
+<span class="pagenum">[43]</span>
+institui&ccedil;&atilde;o que eu muito desejava que visitasseis
+em minha companhia.
+<br />
+
+<br />
+
+De facto, em nenhum s&iacute;tio melhor eu poderia
+mostrar o valor da medida do p&ecirc;so nas
+crian&ccedil;as. Nos lact&aacute;rios, nessas benemeritas
+institui&ccedil;&otilde;es
+destinadas a distribuir leite para alimenta&ccedil;&atilde;o
+artificial das crian&ccedil;as, cujas m&atilde;es,
+por doen&ccedil;a, e as mais das vezes apenas por
+imposi&ccedil;&atilde;o do trabalho, n&atilde;o podem
+amamentar,
+a balan&ccedil;a n&atilde;o &eacute; apenas um meio de
+estudar o
+crescimento, &eacute; um meio de salvar a vida. A
+aleita&ccedil;&atilde;o
+artificial desregrada &eacute; uma esp&eacute;cie de
+infantic&iacute;dio que vit&iacute;ma muitas
+crian&ccedil;as. Gra&ccedil;as
+&agrave; balan&ccedil;a, o m&eacute;dico pode dirigir a
+alimenta&ccedil;&atilde;o
+por f&oacute;rma a evitar muitos e danosos
+males.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas, meus alunos, os lact&aacute;rios e as consultas
+para recemnascidos n&atilde;o s&atilde;o apenas
+laborat&oacute;rios
+de pesagem e ag&ecirc;ncias de alimenta&ccedil;&atilde;o
+l&aacute;ctea. S&atilde;o verdadeiras escolas que em muita
+parte com &ecirc;xito freq&ugrave;entam normalistas como
+v&oacute;s, que ali v&atilde;o aprender a alimentar e a tratar
+de crian&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+Para o ano, se me f&ocirc;r permitido e se se
+me oferecer, como espero, ocasi&atilde;o e facilidade,
+procurarei fazer com que o
+<em>Lact&aacute;rio</em> e o
+<em>Instituto de Puericultura</em>, da rua
+Alexandre
+Herculano, para que agora chamo a vossa
+aten&ccedil;&atilde;o, se relacionem com esta Escola Normal.
+<br />
+
+<br />
+
+A prepara&ccedil;&atilde;o do professor deve ser uma
+esp&eacute;cie de prepara&ccedil;&atilde;o materna.
+<br />
+
+<br />
+
+Professoras ou professores s&oacute; t&ecirc;m a ganhar
+com se habituarem a lidar desde muito
+<span class="pagenum">[44]</span>
+cedo com crian&ccedil;as, e a estud&aacute;-las,
+estim&aacute;-las
+como pais. E &ecirc;ste deve ser a meu v&ecirc;r o principal
+fim da co-educa&ccedil;&atilde;o na Escola Normal.
+<br />
+
+<br />
+
+De resto, eu quereria que desde o primeiro
+ano do curso, alunos e alunas estudassem Pedologia
+para se habituarem a viver com as
+crian&ccedil;as, para se habituarem a v&ecirc;-las
+n&atilde;o s&oacute;
+no mutismo e no rijo formalismo, muitas vezes
+necess&aacute;rio, das aulas, onde se lhes estanha a
+fisionomia, se lhes paralisam os movimentos,
+se lhes esconde a gra&ccedil;a, se lhes abafam os
+sorrisos, se lhes sufocam os cantares, mas tamb&ecirc;m
+para se habituarem a v&ecirc;-las, e lidar com
+elas, quando em plena liberdade, com a eloq&ugrave;&ecirc;ncia
+da sua m&iacute;mica, com a alacridade dos
+seus gritos, esfusiando alegria, irradiando afectividade,
+nos prendem, nos alegram, nos comovem,
+nos enternecem, nos interessam e nos
+fazem estim&aacute;-las, compreend&ecirc;-las,
+protej&ecirc;-las,
+e educ&aacute;-las.
+<br />
+
+<br />
+
+Meditai as palavras de <span class="smallcaps">Waynbaum</span>,
+com que
+terminarei a minha li&ccedil;&atilde;o e que se referem
+&agrave;
+fisionomia da crian&ccedil;a:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A voz do sangue, o amor da progenitura,
+o instinto natural pouco entram na constitui&ccedil;&atilde;o
+d&ecirc;ste sentimento s&oacute;lido e org&acirc;nico que
+f&oacute;rma o amor do pai pelo seu filho. Estes la&ccedil;os
+naturais, heredit&aacute;rios, existem certamente,
+mas n&atilde;o valem o la&ccedil;o que a pr&oacute;pria
+crian&ccedil;a
+cria e faz aparecer no nosso cora&ccedil;&atilde;o,
+&ecirc;sse la&ccedil;o
+que &eacute; uma arma poderosa que a natureza lhe
+deu e de que ela largamente usa para se
+prender a n&oacute;s, para se tornar uma parte de
+n&oacute;s mesmos.&raquo;
+<span class="pagenum">[45]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Meus alunos, senhoras e senhores, que em
+breve todos sejais professores.
+<br />
+
+<br />
+
+Futuros pais, s&ecirc;de bons professores: <em>futuros
+professores, s&ecirc;de como pais</em><sup><a href="#n7">[7]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote">Lisboa, 19-IV-915.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c5" id="c5"></a>
+<h3>A AGUDEZA VISUAL
+E A AUDITIVA DEBAIXO DO PONTO
+DE VISTA PEDAG&Oacute;GICO<sup><a href="#n8">[8]</a></sup>
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Minhas Senhoras e Meus
+Senhores<br />
+Meus Alunos</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Sejam as minhas primeiras palavras, no dia
+de hoje, de sa&uacute;da&ccedil;&atilde;o e agradecimento e
+principalmente
+de agradecimento para com S. Ex.<sup>a</sup>
+o actual Ministro da Instru&ccedil;&atilde;o Sr. Prof.
+<span class="smallcaps">Ferreira
+de Simas</span>, e para com o Conselho desta
+Escola a quem sobretudo devo a honra de
+poder novamente retomar &ecirc;ste logar, grato para
+mim como nenhum outro, e onde poderei continuar
+a s&eacute;rie de li&ccedil;&otilde;es que o ano passado
+iniciei, desejando e esperando que elas, pelo
+menos, sejam tam atentamente ouvidas e tam
+<span class="pagenum">[48]</span>
+proveitosas como o ano passado tenho a certeza
+que foram.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Meus Alunos</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Posso dizer que a li&ccedil;&atilde;o que vou fazer-vos,
+embora seja a li&ccedil;&atilde;o de abertura do meu curso
+d&ecirc;ste ano, n&atilde;o &eacute; no entanto a primeira
+li&ccedil;&atilde;o
+que &ecirc;ste ano vos dou. A primeira foi aquela
+que cada um de v&oacute;s recebeu, quando eu, acedendo
+ao criterioso convite do Sr. prof. <span class="smallcaps">Tiago
+da Fonseca</span>, secret&aacute;rio desta Escola,
+procedi &agrave;
+medida da agudeza visual e da auditiva de
+cada um dos que pretendiam matricular-se, a
+fim de que na sua distribui&ccedil;&atilde;o pelas turmas e
+pelas salas se atendesse &agrave;s indica&ccedil;&otilde;es
+tiradas
+daquele util&iacute;ssimo exame.
+<br />
+
+<br />
+
+Procedi a &ecirc;sse exame n&atilde;o como m&eacute;dico,
+mas
+como professor, e procedi por f&oacute;rma a dar-lhes
+uma norma de inspec&ccedil;&atilde;o, segundo a qual todos,
+no exerc&iacute;cio das suas fun&ccedil;&otilde;es, em
+qualquer
+escola que seja, poder&atilde;o proceder a ela,
+e por meio dela classificar, segundo a vis&atilde;o e
+a audi&ccedil;&atilde;o, os seus alunos em um dos
+tr&ecirc;s
+grupos:&mdash;<em>supra-normais</em>,
+<em>normais</em>,
+<em>infra-normais</em>,
+distribuindo-os nas salas das classes pela maneira
+que mais conv&ecirc;m ao ensino: adiante os
+que ouvem e v&ecirc;em pouco, ao meio os que v&ecirc;em
+e ouvem regularmente e ao fundo os que ouvem
+e v&ecirc;em melhor. Tive sempre tambem o
+cuidado de, quando verificava a exist&ecirc;ncia de
+<span class="pagenum">[49]</span>
+anormalidade, ou melhor, quando encontrava
+candidato que via ou ouvia a uma dist&acirc;ncia
+not&aacute;velmente inferior &agrave;quela a que a maioria
+costuma v&ecirc;r e ouvir, tive sempre o cuidado,
+dizia, de lhes aconselhar a que se dirigissem a
+m&eacute;dico competente para que se julgasse da
+causa da inferioridade e se corrigisse esta, se
+porventura isso f&ocirc;sse poss&iacute;vel; enfim, para que
+se tratassem. Quiz assim n&atilde;o s&oacute; cuidar ou fazer
+com que cuidassem da sa&uacute;de de &oacute;rg&atilde;os
+important&iacute;ssimos para todos e principalmente
+para quem aprende e para quem ensina, mas
+tamb&ecirc;m quiz assim indirectamente aconselhar-lhes
+ou apontar-lhes a maneira de proceder
+que conv&ecirc;m que adoptem quando tiverem como
+eu, na sua qualidade de professores, de examinar
+e medir a agudeza visual e auditiva dos
+seus alunos.
+<br />
+
+<br />
+
+A instru&ccedil;&atilde;o, como sabeis, faz-se nas nossas
+escolas sobretudo &agrave; custa de
+excita&ccedil;&otilde;es visuais
+e auditivas. O professor dirige-se principalmente
+&agrave; vista e ao ouvido do aluno. Se vista
+e ouvido n&atilde;o estiverem em condi&ccedil;&otilde;es de
+aprender
+n&iacute;tidamente, de serem clara, forte, profunda
+e agrad&aacute;velmente impressionados, a
+instru&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o se far&aacute; ou far-se h&aacute; defeituosa e
+defici&ecirc;ntemente; a falta de aproveitamento com
+facilidade se far&aacute; notar.
+<br />
+
+<br />
+
+Aquele que nem v&ecirc; nem ouve bem, acaba
+por deixar de prestar aten&ccedil;&atilde;o; n&atilde;o se
+aplica,
+n&atilde;o se instrui e n&atilde;o se educa tamb&ecirc;m,
+como
+deve ser, porque a experi&ecirc;ncia &eacute; pouca e
+m&aacute;,
+porque n&atilde;o excita convenientemente os sentidos,
+porque n&atilde;o enriquece convenientemente o
+<span class="pagenum">[50]</span>
+c&eacute;rebro em imagens, precisas e n&iacute;tidas.
+N&atilde;o
+tem ou tem pouco s&ocirc;bre que trabalhar; n&atilde;o
+desenvolve a intelig&ecirc;ncia.
+<br />
+
+<br />
+
+Pelos olhos tomamos n&oacute;s habitualmente conhecimento
+dum grande n&uacute;mero de propriedades
+e tal &eacute; o papel que as imagens visuais
+representam na <em>cerebralidade</em>, na
+compreens&atilde;o
+das cousas, que <span class="smallcaps">Gaston Gaillard</span>,
+num artigo
+not&aacute;vel s&ocirc;bre as
+<em>condi&ccedil;&otilde;es &oacute;pticas e
+f&oacute;rma
+visual da intelig&ecirc;ncia</em>, disse: &laquo;a
+intelig&ecirc;ncia
+parece ser uma esp&eacute;cie de faculdade
+&oacute;ptica.&raquo;
+Fisiologistas e histologistas t&ecirc;m demonstrado
+que a vis&atilde;o tem uma influ&ecirc;ncia
+important&iacute;ssima
+no desenvolvimento dos centros cerebrais,
+e v&aacute;rios m&eacute;dicos t&ecirc;m demonstrado
+tamb&ecirc;m
+que muitas vezes o atraso intelectual nas crian&ccedil;as,
+que os franceses chamam
+<em>arri&eacute;r&eacute;s</em>, nos
+d&eacute;beis mentais ou
+<em>atardados</em> como se vai dizendo
+em portugu&ecirc;s, o atraso, a inferioridade
+resulta muitas vezes dum defeito de vis&atilde;o.
+V&aacute;rios casos se apontam tamb&ecirc;m de perfeita
+normaliza&ccedil;&atilde;o de crian&ccedil;as
+anormais-inferiores,
+por simples tratamento ou correc&ccedil;&atilde;o conveniente
+do seu defeito visual. &Ecirc;stes anormais
+s&atilde;o verdadeiros <em>anormais de
+ocasi&atilde;o</em> ou anormais
+por <em>deficit sensorial</em>, como os chama
+<span class="smallcaps">Ley</span>. E j&aacute;
+que vos estou
+falando das rela&ccedil;&otilde;es
+da vis&atilde;o com o desenvolvimento intelectual,
+com muito prazer e com muita utilidade para
+v&oacute;s vos chamarei a aten&ccedil;&atilde;o, convidando
+a l&ecirc;-la,
+para a confer&ecirc;ncia realizada em 20 de Maio
+de 1914, na Sociedade Portuguesa de Estudos
+Pedag&oacute;gicos, pelo nosso distinto Inspector Geral
+de Sanidade Escolar e meu muito presado
+<span class="pagenum">[51]</span>
+amigo Dr. <span class="smallcaps">Costa Sacadura</span>,
+confer&ecirc;ncia intitulada:
+<em>Influ&ecirc;ncia do estado da vis&atilde;o
+s&ocirc;bre o desenvolvimento
+intelectual e f&iacute;sico das
+crian&ccedil;as</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Cousa semelhante ao que acabo de vos dizer
+a prop&oacute;sito da inferioridade da agudeza
+visual, poderei dizer tamb&ecirc;m a prop&oacute;sito da
+baixa ou redu&ccedil;&atilde;o da agudeza auditiva. A
+crian&ccedil;a que ouve mal, compreende mal, acaba
+por desinteressar-se, distrai-se, deixando de
+escutar e aprender, atrasando-se na instru&ccedil;&atilde;o
+por falta de no&ccedil;&otilde;es que lhe ministram oralmente
+e que ela n&atilde;o aprende, atrasando-se na
+educa&ccedil;&atilde;o, por
+<em>deficit</em> de
+excita&ccedil;&otilde;es sensoriais
+auditivas. O professor <span class="smallcaps">Bezold</span>,
+de
+Munich, notou
+que quanto maior f&ocirc;r a dureza do ouvido,
+tanto menor &eacute; o desenvolvimento intelectual.
+E <span class="smallcaps">Rouma</span> no seu
+importante livro:
+<em>La parole
+et les troubles de la parole</em>, conta que numa
+classe de crian&ccedil;as semi-surdas, em Berlim,
+classe composta por 12 alunos, entre os quais
+havia 4 que tinham sido apontados como intelectualmente
+inferiores, &ecirc;stes se mostraram
+como perfeitamente aptos para o trabalho
+escolar e provaram ter uma intelig&ecirc;ncia perfeitamente
+normal, logo que foram colocados
+num meio em que se os educou tendo em vista
+a sua inferioridade f&iacute;sica.
+<br />
+
+<br />
+
+A dureza do ouvido deforma as imagens
+auditivas e a crian&ccedil;a procurando reproduzir
+os sons, as palavras que ouve emite sons, pronuncia
+palavras deformadas, adulteradas, sofrendo
+assim dum defeito de pron&uacute;ncia por
+simples defeito da audi&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A redu&ccedil;&atilde;o da agudeza visual e da auditiva
+<span class="pagenum">[52]</span>
+veem a ter tamb&ecirc;m uma influ&ecirc;ncia importante
+no feitio moral daqueles que delas sofrem. A
+m&aacute; compreens&atilde;o dos factos que se passam em
+redor e de que tomam conhecimento por interm&eacute;dio
+de &oacute;rg&atilde;os insuficientes e a dificuldade
+de comunicar com as outras pessoas, acarretam
+muitas vezes conseq&ugrave;&ecirc;ncias mais ou menos
+emocionantes que podem perturbar o car&aacute;cter.
+Lembrem-se das diferen&ccedil;as psicol&oacute;gicas, de
+ordem moral, que todos sabem que existem
+entre o surdo e o que ouve, e entre o cego e o
+que v&ecirc;. E neste momento, ao tratar-se d&ecirc;ste
+assunto, eu relembro a transforma&ccedil;&atilde;o que se
+operou no meu esp&iacute;rito, e a alegria que experimentei,
+quando pela primeira vez eu, que era um
+<em>m&iacute;ope inconsciente</em>, olhei
+para o que me cercava,
+atrav&eacute;s de umas lunetas de vidros divergentes.
+Corrigi a minha vista e ent&atilde;o comecei
+a aproveitar mais nas minhas aulas, onde muitas
+vezes n&atilde;o seguia o que se expunha no
+quadro preto, por sup&ocirc;r que isso era s&oacute; para
+os que junto d&ecirc;le estavam, e comecei ent&atilde;o
+tamb&ecirc;m a usufruir uma maior soma de prazer,
+o prazer de v&ecirc;r e gosar o que se v&ecirc;. A minha
+concep&ccedil;&atilde;o do mundo modificou-se, melhorou.
+Passei a ser mais optimista; encontrei no mundo
+e na vida um fim est&eacute;tico, harmonioso, espectacular,
+se me permitem o termo.
+<br />
+
+<br />
+
+E lembrar-me eu que entre v&oacute;s, segundo
+as minhas recentes observa&ccedil;&otilde;es, h&aacute;, de
+43%
+de inferiores ou defeituosos da vis&atilde;o, apenas
+uns 10% com a vista corrigida! Correi j&aacute;, por
+vosso inter&ecirc;sse, aos m&eacute;dicos oculistas; eis o
+meu conselho.
+<span class="pagenum">[53]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Pelo que respeita ao ouvido, os 9% de
+infra-normais que a observa&ccedil;&atilde;o me levou a
+encontrar, na popula&ccedil;&atilde;o desta Escola, que
+n&atilde;o
+se descuidem tamb&ecirc;m, porque &eacute; poss&iacute;vel
+que
+nalguns se trate de defeito corrig&iacute;vel, talvez
+apenas de uma obstru&ccedil;&atilde;o ocasional, que simples
+lavagens ou duches auriculares far&atilde;o desaparecer.
+Devo dizer-lhes que as percentagens
+que acabo de apontar dizem apenas respeito a
+alunos com inferioridade bilateral dos olhos
+ou dos ouvidos, reconhecida pelos processos
+simples, que todos viram praticar, e dos quais
+lhes vou agora dar mais minuciosa conta.
+<br />
+
+<br />
+
+Numa sala desta Escola que me pareceu
+ser daquelas onde menos se ouve o barulho
+da rua, que neste s&iacute;tio infelizmente n&atilde;o
+&eacute; pequeno,
+coloquei em face de uma das janelas, a
+seis metros aproximadamente dela, e a uma
+altura que correspondesse aproximadamente &agrave;
+dos olhos da maior parte dos alunos, coloquei,
+dizia, um cart&atilde;o em que colocara o <em>quadro
+optom&eacute;trico</em> dos Drs.
+<span class="smallcaps">Mario Moutinho</span> e
+<span class="smallcaps">Costa
+Sacadura</span>, quadro que suponho se encontra
+espalhado por t&ocirc;das as escolas, merc&ecirc; de uma
+larga e &uacute;til distribui&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Marquei a giz s&ocirc;bre o ch&atilde;o um tra&ccedil;o
+indicando
+a dist&acirc;ncia de 5 metros para &agrave;quem da
+parede onde pendurava o quadro optom&eacute;trico.
+<br />
+
+<br />
+
+Numa outra parede, no t&ocirc;po da sala, tracei
+a uma altura correspondente &agrave; dos ouvidos
+na maioria dos alunos, um tra&ccedil;o horizontal, a
+giz, s&ocirc;bre o qual a partir aproximadamente de
+1 metro de uma das extremidades marquei um
+zero e, a partir d&ecirc;ste, pequenos tra&ccedil;os verticais
+<span class="pagenum">[54]</span>
+indicando os dec&iacute;metros e os metros (4 metros
+aproximadamente).
+<br />
+
+<br />
+
+Quando ia proceder aos meus exames, procurava
+obter o maior sil&ecirc;ncio poss&iacute;vel, na proximidade
+da sala, e fazia entrar os alunos um
+a um ou dois a dois, e de maneira a evitar
+que se distra&iacute;ssem. Uma empregada tomava-lhes
+&agrave; entrada o nome e eu logo come&ccedil;ava o
+meu exame, em que fui v&aacute;rias vezes auxiliado
+pelo meu venerando colega Sr. prof. <span class="smallcaps">Pedro
+Ferreira</span>. Para a medida da agudeza visual,
+mandava colocar o aluno em frente do quadro
+optom&eacute;trico a uma dist&acirc;ncia aproximadamente
+de 6 metros. As letras do quadro est&atilde;o dispostas
+em 3 linhas paralelas e tais que para
+uma vis&atilde;o normal devem respectivamente ser
+lidas a 20, 10 e 5 metros de dist&acirc;ncia. Mandava
+procurar ler a 6 metros as letras da
+linha inferior, aquelas que se devem l&ecirc;r, quando
+a vis&atilde;o seja mediana, &agrave; dist&acirc;ncia de 5
+metros.
+Se o aluno as lia t&ocirc;das ou dois ter&ccedil;os delas
+&agrave;
+dist&acirc;ncia de 6 metros, colocava-o no grupo dos
+<em>supra-normais da vis&atilde;o</em>,
+se n&atilde;o, mandava-o
+tentar ler as letras da mesma linha &agrave; dist&acirc;ncia
+de 5 metros. Se as lia, colocava-o no grupo
+dos <em>normais</em>: finalmente se o aluno
+nem &agrave;
+dist&acirc;ncia de 5 metros lia sequer dois ter&ccedil;os
+das letras que a essa dist&acirc;ncia devia ler se a
+vis&atilde;o f&ocirc;sse normal, colocava-o no grupo dos
+<em>infra-normais</em>, e procurava
+ent&atilde;o v&ecirc;r quais as
+letras que conseguia ler a essa dist&acirc;ncia de 5
+metros. Se lia as da linha m&eacute;dia, que um normal
+devia ler a 10 metros, dizia que tinha uma
+agudeza visual igual a <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>2</sub>
+do normal, se lia a
+<span class="pagenum">[55]</span>
+5 metros s&oacute; aquelas que um normal l&ecirc; &agrave;
+dist&acirc;ncia
+de 20 metros, dizia que tinha uma agudeza
+visual igual a <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>4</sub>
+do normal. Se nem
+estas lia, dizia que tinha uma agudeza visual
+inferior a <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>4</sub>
+do normal.
+<br />
+
+<br />
+
+O exame era feito em separado, para cada
+um dos olhos, tendo o cuidado de evitar que
+com a m&atilde;o carregassem s&ocirc;bre aquele cuja agudeza
+visual se n&atilde;o estava medindo. Em regra,
+e esta parece ser a melhor f&oacute;rma, mandava
+colocar um cart&atilde;o de visita diante do &ocirc;lho a
+encobrir, mas um pouco afastado dele.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta t&eacute;cnica, que &eacute; uma t&eacute;cnica de
+confian&ccedil;a
+para determinar com precis&atilde;o a agudeza
+visual, pode ser empregada por qualquer professor,
+e praticada em todos os escolares,
+mesmo naqueles que n&atilde;o sabem ler, visto que
+junto &agrave;s letras e com dimens&otilde;es respectivamente
+iguais &agrave;s delas se encontram no quadro
+optom&eacute;trico linhas com sinais
+(<em>optotipos</em>
+se chamam) que um analfabeto pode perfeitamente
+apontar (zonas circulares incompletas,
+com abertura voltada segundo quatro
+direc&ccedil;&otilde;es).
+<br />
+
+<br />
+
+Para o exame do ouvido, mandava colocar
+o aluno em frente da linha que tra&ccedil;ara na
+parede, voltado para ela, junto dela e com o
+ouvido direito &agrave; altura do zero. O aluno, com
+um dedo, sem carregar, tapava o ouvido esquerdo
+e olhando em frente, prestava aten&ccedil;&atilde;o
+a v&ecirc;r se ouvia o <em>tic-tac</em>
+de um rel&oacute;gio de algibeira,
+que eu lhe aproximava do ouvido. Logo
+que o aluno dava sinais de o ouvir, come&ccedil;ava
+eu a afastar o rel&oacute;gio, fazendo deslocar &ecirc;ste
+<span class="pagenum"><a name="p56" id="p56">[56]</a></span>
+s&ocirc;bre uma linha, n&atilde;o perpendicular &agrave;
+face,
+mas sim dirigida para diante, perpendicularmente
+ao pavilh&atilde;o da orelha. E deslocando o
+rel&oacute;gio procurava determinar a maior dist&acirc;ncia
+a que o aluno conseguia ouvir o bater
+d&ecirc;sse rel&oacute;gio.
+<br />
+
+<br />
+
+Fiz uma s&eacute;rie de observa&ccedil;&otilde;es e
+verifiquei
+que <em>com o meu rel&oacute;gio</em> a
+maioria ouvia o
+<em>tic-tac</em> a uma dist&acirc;ncia de
+2 a 3 metros. Em
+vista disto considerei como
+<em>infra-normais</em>, na
+audi&ccedil;&atilde;o, francamente infra-normais, os que ouviam
+o m&aacute;ximo a 1 metro e
+<em>supra-normais</em>,
+na audi&ccedil;&atilde;o, francamente <a href="#e1">supra-normais</a>,
+os que
+ouviam a 3 metros e mais.
+<br />
+
+<br />
+
+Para o exame do ouvido esquerdo, mandava
+voltar o aluno, colocava-o com o ouvido esquerdo
+&agrave; altura do zero, pedia-lhe para tapar
+o ouvido direito e olhar bem em frente, ou
+fechar os olhos, e procedia depois por uma
+f&oacute;rma semelhante &agrave; que adoptei para o exame
+da agudeza auditiva do ouvido direito.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando a redu&ccedil;&atilde;o da agudeza auditiva era
+not&aacute;vel (menos de 1 metro), mandava sentar
+o aluno no fundo da sala, voltado para a parede,
+e colocando-me atr&aacute;s dele, no lado oposto,
+falava-lhe em tom ordin&aacute;rio por f&oacute;rma a
+ver se me ouvia e para isso o mandava repetir
+a frase que eu pronunciava ou executar
+movimentos que lhe ordenava.
+<br />
+
+<br />
+
+&Ecirc;ste processo, da medida da agudeza auditiva,
+ao contr&aacute;rio do que adoptara para medida
+de agudeza visual, n&atilde;o &eacute; exacto, n&atilde;o
+&eacute;
+preciso, n&atilde;o &eacute; seguro, mas serve, e isso basta,
+para comparar os alunos debaixo do ponto de
+<span class="pagenum">[57]</span>
+vista da agudeza auditiva e distribu&iacute;-los nas
+aulas, de ac&ocirc;rdo com ela.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas crian&ccedil;as &eacute; necess&aacute;rio talvez tomar
+mais
+precau&ccedil;&otilde;es do que aquelas que com os senhores
+tomei &eacute; conveniente sent&aacute;-las, vendar-lhes:
+os olhos e de vez em quando <em>fingir</em>
+que se
+aproxima ou afasta o rel&oacute;gio, para assim julgar
+do valor das suas respostas.
+<br />
+
+<br />
+
+Devo dizer-lhes, o que tamb&ecirc;m importa, que
+levava, em regra, dois a tr&ecirc;s minutos com o
+exame da agudeza visual e da auditiva.
+<br />
+
+<br />
+
+Na Casa Pia, onde eu e o Dr. <span class="smallcaps">Jorge
+Cid</span>
+temos feito v&aacute;rias observa&ccedil;&otilde;es, usando
+de processos
+semelhantes &agrave;queles de que vos falei, verifiquei
+h&aacute; dias a exist&ecirc;ncia de alguns factos
+curiosos para que n&atilde;o quero deixar de chamar-vos
+a aten&ccedil;&atilde;o. Considerando apenas os
+alunos que neste momento freq&ugrave;entam a 4.&ordf; classe de
+instru&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria, e com
+&ecirc;les os que
+em Julho a freq&ugrave;entaram e distribuindo-os por
+ordem crescente das idades verifica-se: que &agrave;
+medida que se avan&ccedil;a na escala das idades, e
+aumenta o n&uacute;mero de anos de internato, diminui
+a percentagem de alunos que fizeram
+exame do 2.&ordm; grau, e <em>diminui a percentagem
+dos que t&ecirc;m audi&ccedil;&atilde;o
+normal</em>. Quere isto dizer
+que &eacute; prov&aacute;vel que o atraso de alguns
+alunos provenha de inferioridade auditiva. Por
+outro lado encontram-se dois m&aacute;ximos de
+freq&ugrave;&ecirc;ncia
+da vis&atilde;o inferior &agrave; normal um (30%)
+coincidindo com o m&aacute;ximo de freq&ugrave;&ecirc;ncia
+de
+exames do 2.&ordm; grau (61%) e outro (40%)
+coincidindo com o m&aacute;ximo da idade (16 anos
+e mais) e o m&iacute;nimo da freq&ugrave;&ecirc;ncia de
+exames
+<span class="pagenum">[58]</span>
+(40%), factos estes que interpreto por esta
+f&oacute;rma: a anormalidade visual nos rapazes de
+16 anos e mais (m&aacute;ximo de idade), que ainda
+n&atilde;o fizeram exame do 2.&ordm; grau, coincide e
+deve estar relacionada com inferioridade mental
+e a grande freq&ugrave;&ecirc;ncia da vis&atilde;o inferior
+&agrave;
+normal nos rapazes de 14 a 15 anos, grupo a
+que na sua maior parte pertencem os que fizeram
+exame do 2.&ordm; grau, &eacute; naturalmente devida
+&agrave; <em>miop&iacute;a</em> que o
+trabalho das aulas agrava,
+quando n&atilde;o determina. Quando um dia me
+ocupar particularmente d&ecirc;ste importante defeito
+da vis&atilde;o, a miop&iacute;a, procurarei obter alguns
+dados especiais recorrendo, prov&aacute;velmente, para
+isso, ao registo das observa&ccedil;&otilde;es
+oftalmol&oacute;gicas
+e &agrave;s estat&iacute;sticas do distinto
+m&eacute;dico-oftalmologista
+da Casa Pia Dr. <span class="smallcaps">Xavier da Costa</span>.
+<br />
+
+<br />
+
+A miop&iacute;a &eacute; uma verdadeira doen&ccedil;a
+profissional
+da escola; &eacute; em grande parte um produto
+do trabalho escolar. A sua freq&ugrave;&ecirc;ncia
+aumenta &agrave; medida que se avan&ccedil;a no grau do
+ensino. E j&aacute; que levantei &ecirc;ste incidente,
+n&atilde;o
+deixarei de vos recomendar a leitura de uma
+interessante e util&iacute;ssima confer&ecirc;ncia feita na
+Imprensa Nacional, em 19 de Abril de 1914,
+pelo Dr. <span class="smallcaps">Sebasti&atilde;o da
+Costa
+Santos</span>, tamb&ecirc;m
+distinto m&eacute;dico-oftalmologista, e em que por
+f&oacute;rma muito clara e completa se trata da miop&iacute;a
+e doutros assuntos de ocul&iacute;stica que se
+prendem com a higiene escolar.
+<br />
+
+<br />
+
+O exame da agudeza visual e da auditiva
+presta-se tamb&ecirc;m a permitir julgar at&eacute; certo
+ponto de certas qualidades de ordem ps&iacute;quica
+que ao educador muito interessa conhecer. A
+<span class="pagenum">[59]</span>
+maneira por que o aluno se apresenta, a rapidez
+ou a lentid&atilde;o dos seus movimentos, a rapidez
+ou a lentid&atilde;o na leitura do quadro optom&eacute;trico,
+a maneira agitada ou, pelo contr&aacute;rio,
+lenta e d&oacute;cil por que se comporta, a precis&atilde;o
+ou a indecis&atilde;o na compreens&atilde;o e
+execu&ccedil;&atilde;o das
+nossas ordens, tudo permite, com grande probabilidade
+de ac&ecirc;rto, formar um ju&iacute;zo &uacute;til e
+necess&aacute;rio para o educador, s&ocirc;bre o grau de
+emotividade, ou s&ocirc;bre a <em>potencialidade
+nervosa</em>
+de cada aluno, destrin&ccedil;ando particularmente
+os dois tipos extremos, o do
+<em>hiperst&eacute;nico</em>,
+agitado, e o do
+<em>hipost&eacute;nico</em>, tardo nas
+suas
+reac&ccedil;&otilde;es. O educador encontrar&aacute; nesse
+exame
+elementos importantes para calcular possibilidades
+na educa&ccedil;&atilde;o, e tirar
+indica&ccedil;&otilde;es muito
+&uacute;teis para a escolha dos meios educativos a
+empregar.
+<br />
+
+<br />
+
+O exame da agudeza visual e da auditiva
+feito &agrave; luz dos conhecimentos que vos procurei
+transmitir permitir-vos h&aacute; convencer-vos,
+desta verdade fundamental: <em>de que os escolares
+s&atilde;o diferentes uns dos outros</em>. E
+convencidos
+disso, o vosso esp&iacute;rito estar&aacute; preparado
+para a adquisi&ccedil;&atilde;o desta outra verdade:
+<em>de
+que o ensino se deve individualizar o mais
+poss&iacute;vel</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+A pedologia, estudo da crian&ccedil;a, vos ensinar&aacute;
+a conhecer os vossos alunos, e a encontrar o
+caminho educativo que mais conv&ecirc;m seguir.
+<br />
+
+<br />
+
+Pudesse eu deixar-vos convencidos disso, e
+conseguisse que em t&ocirc;das as escolas o professor
+determinasse a agudeza visual e a auditiva e
+eu, e todos os que tivessem contribu&iacute;do para
+<span class="pagenum">[60]</span>
+isso, ter&iacute;amos alcan&ccedil;ado a n&atilde;o pequena
+gl&oacute;ria
+de ter promovido na escola o que o grande
+professor <span class="smallcaps">Biervliet</span>,
+a
+prop&oacute;sito do mesmo
+assunto, n&atilde;o duvidou chamar um <em>progresso
+imenso</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Disse.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c6" id="c6"></a>
+<h3>A VIS&Atilde;O DAS CORES<sup><a href="#n9">[9]</a></sup>
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Minhas Senhoras e meus
+Senhores:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Foi objecto da minha li&ccedil;&atilde;o de abertura, no
+ano findo: <em>A agudeza visual e a auditiva,
+debaixo do ponto de vista pedag&oacute;gico</em>,
+tendo-me
+servido de pretexto para a li&ccedil;&atilde;o o exame
+da agudeza visual e da auditiva por mim praticado,
+nos alunos desta Escola, com o fim de
+se regular a sua distribu&igrave;&ccedil;&atilde;o nas
+aulas. Ser&aacute;
+&ecirc;ste ano objecto da minha primeira
+li&ccedil;&atilde;o um
+assunto que se prende tamb&ecirc;m com a fisiologia
+dos sentidos, servindo-me de pretexto para
+ela o exame que &ecirc;ste ano tamb&ecirc;m fiz a alunos
+desta Escola, mas n&atilde;o s&oacute; com o fim de
+julgar da sua agudeza visual e da sua agudeza
+auditiva, mas tamb&ecirc;m para julgar at&eacute;
+<span class="pagenum">[62]</span>
+certo ponto do seu sentido crom&aacute;tico, do grau
+da sua vis&atilde;o, na vis&atilde;o das c&ocirc;res.
+<br />
+
+<br />
+
+Deu origem a esta amplia&ccedil;&atilde;o do exame
+fisio-pedag&oacute;gico que se come&ccedil;ou a praticar o
+ano passado por iniciativa do Sr. Secret&aacute;rio
+desta Escola, e seu distinto professor sr. <span class="smallcaps">Tiago
+da Fonseca</span>, deu origem a essa
+amplia&ccedil;&atilde;o, um
+simples acaso. Um dos jornais da cidade, ao
+noticiar que eu ia proceder ao exame dos alunos,
+falou em <em>daltonismo</em>, e isso
+fazendo-me
+suspeitar uma confus&atilde;o entre o exame da agudeza
+visual e o do sentido crom&aacute;tico e recordando-me
+da import&acirc;ncia que &ecirc;ste pode ter na
+escolha dos candidatos a professores, resolveu-me
+a fazer a minha primeira li&ccedil;&atilde;o d&ecirc;ste
+ano s&ocirc;bre o <em>sentido crom&aacute;tico e
+os seus defeitos</em>,
+e proceder, como procedi, a um <em>exame
+elementar</em> d&ecirc;sse sentido.
+<br />
+
+<br />
+
+M.<sup>elle</sup> <span class="smallcaps">Yoteyko</span>,
+a
+ilustre
+professora belga,
+considera como indispens&aacute;vel na escola normal
+a pr&aacute;tica de um exame do sentido crom&aacute;tico,
+por causa da import&acirc;ncia que a
+diferencia&ccedil;&atilde;o
+das c&ocirc;res tem no ensino. &Eacute; sua opini&atilde;o
+tamb&ecirc;m que a &ecirc;sse exame devem ser
+obrigat&oacute;riamente
+sujeitas t&ocirc;das as professoras dos
+jardins de inf&acirc;ncia e, mais ainda, atrib&uacute;i-lhe,
+e com raz&atilde;o, grande valor no exame pedag&oacute;gico
+dos alunos da escola prim&aacute;ria.
+<br />
+
+<br />
+
+E isto lembra-me as palavras do professor
+americano <span class="smallcaps">Rowe</span>,
+quando num dos
+seus livros,
+diz: &laquo;na cegueira das c&ocirc;res est&aacute; muitas
+vezes
+a explica&ccedil;&atilde;o da aparente estupidez que revelam
+certas crian&ccedil;as das nossas escolas, diante
+dos mapas&raquo;.
+<span class="pagenum">[63]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+O exame fisio-pedag&oacute;gico que o ano passado
+se come&ccedil;ou a praticar nesta Escola, deve
+ser ainda mais ampliado do que foi &ecirc;ste ano,
+e quando &ecirc;ste assunto, a <em>vis&atilde;o
+das c&ocirc;res</em>, n&atilde;o
+f&ocirc;sse julgado como de maior import&acirc;ncia, para
+servir de mais a mais de tema a uma li&ccedil;&atilde;o
+de abertura de curso, bastaria para justificar-me
+e dar-lhe o valor que lhe contestassem, o
+tom&aacute;-lo como pretexto para chamar a
+aten&ccedil;&atilde;o
+para &ecirc;ste cap&iacute;tulo importante e qu&aacute;si
+virgem
+entre n&oacute;s, do exame das aptid&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje, minhas senhoras e meus senhores, a
+fisiologia e a psicologia, n&atilde;o s&atilde;o apenas
+sci&ecirc;ncias
+de gabinete, simples curiosidades, dom&iacute;nios
+de investiga&ccedil;&atilde;o scient&iacute;fica
+desinteressada,
+ramos de conhecimentos sem maior aplica&ccedil;&atilde;o
+e utilidade. N&atilde;o. O fisiologista e o psic&oacute;logo
+t&ecirc;m hoje o seu lugar at&eacute; na oficina,
+at&eacute; na
+f&aacute;brica. A &ecirc;les se recorre n&atilde;o
+s&oacute; para julgar
+das aptid&otilde;es do oper&aacute;rio, mas at&eacute; para
+regular
+a pr&oacute;pria t&eacute;cnica. Opera-se neste momento
+uma profunda reforma nas ind&uacute;strias, visando
+a levar ao m&aacute;ximo o rendimento de cada oper&aacute;rio,
+recorrendo-se para isso &agrave; fisiologia e &agrave;
+psicologia. &Eacute; o
+<em>tailorismo</em> que avan&ccedil;a,
+&eacute; a
+organisa&ccedil;&atilde;o scient&iacute;fica do trabalho.
+<br />
+
+<br />
+
+A fisiologia e a psicologia s&atilde;o tam &uacute;teis,
+mesmo fora dos dom&iacute;nios da Medicina, que
+neste momento, at&eacute; em plena guerra elas figuram,
+sendo os seus processos de an&aacute;lise regular
+e obrigat&oacute;riamente praticados no exame
+dos candidatos a aviadores, &ecirc;sses her&oacute;icos
+soldados,
+que nesta guerra, formid&aacute;vel pela sci&ecirc;ncia
+e pela barbar&iacute;a, tanto influem na estrat&eacute;gia.
+<span class="pagenum">[64]</span>
+Na nossa legisla&ccedil;&atilde;o militar, a
+prop&oacute;sito
+da inspec&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica dos candidatos a
+aviadores,
+j&aacute; se fala do exame das reac&ccedil;&otilde;es
+psico-motrizes.
+Mas mais ainda. A <em>psico-fisiologia</em>,
+de que em suas proveitosas li&ccedil;&otilde;es muitas vezes
+vos fala o Sr. professor Dr. <span class="smallcaps">Alberto
+Pimentel</span>,
+logrou at&eacute; encontrar aplica&ccedil;&atilde;o em
+pleno
+campo da refrega, onde por exemplo, M.
+<span class="smallcaps">Lahy</span>, chefe dos
+trabalhos
+pr&aacute;ticos de psicologia
+experimental na Escola de Altos Estudos
+de Paris, e actualmente mobilizado como oficial,
+teve ocasi&atilde;o de com not&aacute;vel utilidade
+aplicar os seus m&eacute;todos de estudo a gloriosos
+soldados da Argonne, durante a tremenda
+campanha de Verdun.
+<br />
+
+<br />
+
+E, minhas senhoras e meus senhores, se a
+psico-fisiologia presta j&aacute; tantos servi&ccedil;os na
+escolha dos candidatos a oper&aacute;rios e em soldados,
+porque n&atilde;o h&aacute;-de ela ter tamb&ecirc;m o seu
+lugar no exame dos candidatos &agrave; profiss&atilde;o de
+professor?! Pensai nisto, que &eacute; nesta arte que
+andais a aprender: a arte de educar, que &eacute;
+mais necess&aacute;rio rigorosamente escolher os mesteirais,
+porque s&atilde;o &ecirc;les que lidam com a mais
+preciosa e delicada das nossas mat&eacute;rias primas:
+a crian&ccedil;a, e se ocupam da mais importante
+de t&ocirc;das as ind&uacute;strias: a ind&uacute;stria da
+forma&ccedil;&atilde;o de cidad&atilde;os &uacute;teis,
+prestimosos na
+sua profiss&atilde;o, excelentes nas suas virtudes
+f&iacute;sicas e morais, e no seu amor &agrave;
+P&aacute;tria!
+<span class="pagenum">[65]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Meus Alunos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A vis&atilde;o das c&ocirc;res e a aptid&atilde;o a
+discrimin&aacute;-las
+n&atilde;o se revela logo ap&oacute;s a nascen&ccedil;a,
+nos
+primeiros dias. Factos que a sci&ecirc;ncia regista
+levam a supor que essa faculdade visual se
+manifesta <em>claramente</em> e
+<em>indiscut&iacute;velmente</em>
+s&oacute;
+ao fim de alguns meses. Ao poder de discrimina&ccedil;&atilde;o
+das c&ocirc;res, segue-se o de nome&aacute;-las.
+&Eacute; interessante fazer notar o facto de que a
+crian&ccedil;a aprende mais f&aacute;cilmente os nomes das
+cousas do que os das c&ocirc;res. Citam-se casos
+em que crian&ccedil;as de dois anos e mais, conhecendo
+perfeitamente os nomes de certos frutos
+bem caracter&iacute;sticos, pela sua f&oacute;rma e pela sua
+c&ocirc;r, uvas, morangos e laranjas, n&atilde;o sabem no
+entanto apropriadamente aplicar-lhes os nomes
+das c&ocirc;res que ostentam.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Trace</span>, professor da
+Universidade
+de Toronto,
+que examinou v&aacute;rios vocabul&aacute;rios infantis,
+da l&iacute;ngua inglesa, chama a aten&ccedil;&atilde;o
+para o
+facto de ter encontrado apenas perto de trinta
+nomes de c&ocirc;res num vocabul&aacute;rio de mil e cem
+palavras. E v&aacute;rias vezes, diz &ecirc;le, n&atilde;o
+encontrou,
+em vocabul&aacute;rios de crian&ccedil;as de dois anos,
+um s&oacute; nome de c&ocirc;r, n&atilde;o obstante essas
+crian&ccedil;as
+possuirem j&aacute; de trezentos a quinhentos
+voc&aacute;bulos.
+<br />
+
+<br />
+
+Um outro facto a p&ocirc;r em destaque &eacute; o de
+que a crian&ccedil;a pode discriminar as c&ocirc;res, possuir
+voc&aacute;bulos para as nomear, mas n&atilde;o associar
+correctamente a c&ocirc;r ao seu nome. Parece
+<span class="pagenum">[66]</span>
+que &eacute; esta a principal dificuldade que a crian&ccedil;a
+tem no reconhecimento das c&ocirc;res.
+<br />
+
+<br />
+
+Creio que foi o professor <span class="smallcaps">Monroe</span>,
+professor
+de Psicologia em Westfield, quem realizou
+o maior n&uacute;mero de experi&ecirc;ncias s&ocirc;bre o
+sentido
+crom&aacute;tico de crian&ccedil;as, de tr&ecirc;s a sete
+anos
+de idade. S&atilde;o curiosas as conclus&otilde;es a que
+chegou. As meninas distinguem, em geral, mais
+f&aacute;cilmente, as c&ocirc;res, e reteem mais
+f&aacute;cilmente
+tamb&ecirc;m os nomes destas. Esta superioridade
+no sentido crom&aacute;tico &eacute; mais acentuada dos
+cinco aos sete anos do que antes, e est&aacute; de
+ac&ocirc;rdo com a superioridade do sentido crom&aacute;tico
+que as estat&iacute;sticas dos defeitos de vis&atilde;o
+das c&ocirc;res levam a atribuir &agrave; mulher, onde
+&ecirc;les s&atilde;o menos freq&ugrave;entes. E como essa
+superioridade
+se revela mesmo nas idades em que
+as crian&ccedil;as dos diversos sexos t&ecirc;m as mesmas
+ocupa&ccedil;&otilde;es, pode-se atribui-la a uma
+diferen&ccedil;a
+sexual inata, em que talvez se possa tamb&ecirc;m,
+como alguns fazem, encontrar a causa do coquetismo,
+da garridice das c&ocirc;res dos trajos da
+mulher.
+<br />
+
+<br />
+
+As experi&ecirc;ncias s&ocirc;bre a vis&atilde;o das cores
+nas crian&ccedil;as, s&atilde;o muito delicadas, por serem
+dif&iacute;ceis e muito sujeitas a erros. Para se fazerem,
+ou se lhes mostram c&ocirc;res e se lhes perguntam
+os nomes, determinando a percentagem
+dos erros cometidos, ou se nomeiam c&ocirc;res
+e se pede &agrave; crian&ccedil;a que as v&aacute;
+indicando ou
+escolhendo numa colec&ccedil;&atilde;o de objectos, iguais
+ou diferentes, diversamente coloridos, ou se
+lhes mostra uma c&ocirc;r e se pede para dentre
+muitas diferentes escolher uma igual, ou, e
+<span class="pagenum">[67]</span>
+&ecirc;ste &eacute; o processo de escolha na criancinha de
+tenra idade, se observa a sua express&atilde;o
+fision&oacute;mica
+e a sua m&iacute;mica, vendo se ella sorri ou
+chora, ou se assusta, ou se aproxima, ou se
+afasta ou, mais precisamente, medindo, contando
+como faz <span class="smallcaps">Baldwin</span>,
+que considera
+como a
+melhor maneira de julgar do valor dos est&iacute;mulos
+sensoriais na crian&ccedil;a, o estudo das
+reac&ccedil;&otilde;es
+motrizes que &ecirc;les provocam, e principalmente
+os movimentos da m&atilde;o, contando, como
+eu dizia, o n&uacute;mero de movimentos de
+aproxima&ccedil;&atilde;o
+ou atrac&ccedil;&atilde;o, e o dos de rec&uacute;o ou
+repulsa,
+que as diferentes c&ocirc;res provocam, quando
+mostradas a dist&acirc;ncias diferentes.
+<br />
+
+<br />
+
+Para terminar esta parte da minha li&ccedil;&atilde;o,
+dar-lhes hei conta ainda de dois factos mais,
+que interessam muito ao estudo da vis&atilde;o das
+c&ocirc;res na crian&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Lehman</span> notou que as
+c&ocirc;res que a crian&ccedil;a
+reconhece mais f&aacute;cilmente s&atilde;o aquelas cujos
+nomes melhor sabe, e notou mais ainda que
+os tons que n&atilde;o t&ecirc;m nomes especiais n&atilde;o
+s&atilde;o
+por elas reconhecidos.
+<br />
+
+<br />
+
+Outro facto tamb&ecirc;m de que vale a pena
+tomar conhecimento e fixar &eacute; de que experi&ecirc;ncias
+de diversos levam a considerar como
+c&ocirc;res de maior predilec&ccedil;&atilde;o na
+crian&ccedil;a, o vermelho
+e o azul.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim como h&aacute; diferen&ccedil;as individuais na
+sensibilidade &agrave; luz, que permitem discriminar
+diferentes graus de intensidade luminosa, assim
+como h&aacute; diferen&ccedil;as individuais na sensibilidade
+visual que permitem discriminar, pela
+f&oacute;rma, os objectos a dist&acirc;ncia, assim
+h&aacute; diferen&ccedil;as
+<span class="pagenum">[68]</span>
+individuais na sensibilidade visual que
+permitem discriminar as c&ocirc;res e perceber as
+varia&ccedil;&otilde;es de tonalidade de cada uma delas. E do
+mesmo modo que h&aacute; c&eacute;gos que sentem a luz
+mas n&atilde;o v&ecirc;em os objectos, h&aacute;
+c&eacute;gos que v&ecirc;em
+os objectos mas n&atilde;o lhes v&ecirc;em as c&ocirc;res.
+H&aacute; de
+facto indiv&iacute;duos, raros &eacute; verdade, que
+v&ecirc;em
+os quadros mesmo os mais ricos em colorido,
+os mais variegados, como se f&ocirc;ssem pintados
+em cinzento, de v&aacute;rios tons.
+<br />
+
+<br />
+
+H&aacute; tamb&ecirc;m indiv&iacute;duos, e estes na
+percentagem
+aproximada de 3 a 4% no homem e 1
+a 2% na mulher, que discriminando algumas
+c&ocirc;res como o azul e o amarelo, n&atilde;o distinguem
+o verde do vermelho e vice-versa.
+<br />
+
+<br />
+
+Para alguns d&ecirc;stes indiv&iacute;duos, como dizia
+<span class="smallcaps">Arago</span>, as cerejas
+nunca
+est&atilde;o maduras. E
+neles compreende-se que possa suceder, como
+diz M.<sup>elle</sup> <span class="smallcaps">Yoteyko</span>,
+que
+n&atilde;o vejam os morangos,
+num morangueiro carregado d&ecirc;les, ou n&atilde;o
+descubram um l&aacute;pis de lacre, em cima de um
+relvado. &Eacute; a &ecirc;ste grupo de cegos
+crom&aacute;ticos
+ou indiv&iacute;duos dalt&oacute;nicos, que pertencia aquele
+de que <span class="smallcaps">Fuchs</span> por
+exemplo fala no
+seu <em>Manual
+de Oftalmologia</em>, que queria remendar um
+fato preto com um peda&ccedil;o de pano encarnado,
+julgando que &ecirc;ste era preto!
+<br />
+
+<br />
+
+A cegueira total para as c&ocirc;res ou
+<em>acromatopsia
+total</em>, a cegueira parcial para as c&ocirc;res
+ou <em>acromatopsia parcial</em>, a cegueira
+especial
+para o vermelho, ou <em>aneritropsia</em>, e
+outros
+defeitos crom&aacute;ticos de menor vulto ou
+<em>discromatopsias</em>,
+denominam-se muitas vezes, em
+globo, <em>daltonismo</em>, termo que mais
+pr&oacute;priamente
+<span class="pagenum">[69]</span>
+se deve empregar nos casos de
+<em>aneritropsia</em>,
+ou cegueira para o vermelho.
+<br />
+
+<br />
+
+A palavra <em>daltonismo</em> deriva de
+<span class="smallcaps">Dalton</span>,
+nome do c&eacute;lebre f&iacute;sico ingl&ecirc;s, que
+vendo que
+confundia as c&ocirc;res das fl&ocirc;res, examinou o espectro
+solar e constatou que a parte do espectro
+que se chama vermelha, lhe parecia apenas
+qu&aacute;si uma sombra, qu&aacute;si um feixe sem
+luz (vid. s&ocirc;bre &ecirc;ste assunto da vis&atilde;o
+das c&ocirc;res
+um livrinho excelente que muito vos recomendo:
+o livrinho de M.<sup>elle</sup> Dr.<sup>a</sup>
+<span class="smallcaps">Yoteyko</span>,
+<em>Aide-m&eacute;moire
+de psychologie exp&eacute;rimentale et de
+p&eacute;dologie</em>, vol. 1, <em>Les
+sensations</em>, p&aacute;g. 309).
+<br />
+
+<br />
+
+H&aacute; indiv&iacute;duos que confundem os nomes
+das c&ocirc;res e que no entanto n&atilde;o sofrem de
+discromatopsia, pois discriminam bem as c&ocirc;res
+e os seus tons; s&atilde;o apenas ignorantes. Assim,
+por exemplo, sucedia a um doente do Hospital
+de S. Jos&eacute;, examinado pelo meu prezado
+amigo e distinto oftalmologista Dr. <span class="smallcaps">Costa
+Santos</span>,
+hoje director daquele Hospital, que lhe
+falava de um &laquo;azulinho c&ocirc;r de alface&raquo;,
+n&atilde;o
+obstante distinguir bem os tons azuis e verdes.
+<br />
+
+<br />
+
+Em contraposi&ccedil;&atilde;o h&aacute;
+<em>dalt&oacute;nicos</em> que com
+t&ocirc;da a propriedade chamam vermelhas as cerejas
+e verdes as f&ocirc;lhas, mas que n&atilde;o distinguem
+o vermelho do verde; empregam os
+qualificativos verde e vermelho, por os ouvirem
+empregar aos outros. H&aacute; mesmo mais:
+h&aacute; <em>dalt&oacute;nicos</em>,
+que distinguem um objecto
+verde de outro igual, mas em vermelho, n&atilde;o
+pr&oacute;priamente porque a
+<em>qualidade</em> da c&ocirc;r os
+impressione, mas sim pela <em>quantidade</em>
+da c&ocirc;r,
+<span class="pagenum">[70]</span>
+pelo seu p&ecirc;so, pela quantidade de pigmento
+que cont&ecirc;em. Se &ecirc;sses objectos f&ocirc;ssem um
+vermelho e outro verde, mas de tons da mesma
+quantidade, igualmente leves ou igualmente
+carregados, ent&atilde;o n&atilde;o os distinguiriam,
+confundi-los-iam,
+ach&aacute;-los-iam perfeitamente iguais.
+<br />
+
+<br />
+
+Est&aacute;-me lembrando neste momento um dos
+nossos mais not&aacute;veis oftalmologistas e at&eacute; por
+sinal grande apreciador de quadros, que me
+confessou e por f&oacute;rma bem sincera e brilhante,
+que sentia mais ou menos o vermelho, mas
+qu&aacute;si n&atilde;o via o verde; para &ecirc;le o verde
+e o
+vermelho s&atilde;o t&atilde;o distintos como o azul e o
+amarelo. E na mesma ocasi&atilde;o em que isto
+ouvia, um colega que assistia &agrave; conversa, informou-me
+de que um dos nossos melhores
+paisagistas n&atilde;o distingue f&aacute;cilmente os tons
+de certos objectos que v&ecirc; e est&aacute; pintando.
+Sofre da d&uacute;vida das c&ocirc;res.
+<br />
+
+<br />
+
+As discromatopsias ou defeitos da vis&atilde;o
+crom&aacute;tica, passam por vezes desapercebidas
+aos indiv&iacute;duos que deles sofrem. Assim como
+h&aacute; <em>m&iacute;opes
+inconscientes</em>, de que o ano passado
+por exemplo falei na minha li&ccedil;&atilde;o de abertura
+s&ocirc;bre a <em>agudeza visual e auditiva, sob o
+ponto de vista pedag&oacute;gico</em>, h&aacute;
+<em>dalt&oacute;nicos inconscientes</em>.
+E um dos mais not&aacute;veis exemplos
+que d&ecirc;les se pode apresentar &eacute; o que
+<span class="smallcaps">Fuchs</span>
+menciona no seu <em>Manual</em>: um
+m&eacute;dico de uma
+companhia de caminhos de ferro, m&eacute;dico encarregado
+de examinar o sentido crom&aacute;tico
+dos candidatos a empregados da companhia,
+que o procurou para lhe pedir algumas instru&ccedil;&otilde;es
+s&ocirc;bre os m&eacute;todos d&ecirc;sse exame, e que
+<span class="pagenum">[71]</span>
+<span class="smallcaps">Fuchs</span> no decurso da
+conversa e em
+vista dos
+erros que notou que &ecirc;le cometia no exame
+das provas, verificou ser um dalt&oacute;nico, e nem
+mais nem menos do que cego para o vermelho!
+<br />
+
+<br />
+
+A cegueira ou a simples diminu&igrave;&ccedil;&atilde;o da
+agudeza crom&aacute;tica pode ser cong&eacute;nita ou
+adquirida.
+H&aacute; les&otilde;es oculares que a determinam
+e discromatopsias h&aacute; que s&atilde;o
+atribu&iacute;veis a
+intoxica&ccedil;&otilde;es, pelo &aacute;lcool ou pelo
+tabaco.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Van Biervliet</span> atribui
+certas
+discromatopsias
+cong&eacute;nitas a uma ac&ccedil;&atilde;o resultante de
+hereditariedade
+por falta de treino do sentido crom&aacute;tico
+nos ascendentes.
+<br />
+
+<br />
+
+Interpretando, como em regra se interpreta,
+a diferen&ccedil;a s&eacute;xual not&aacute;vel que existe
+entre
+a percentagem das discromatopsias no homem
+e na mulher, com vantagem para esta, ao
+maior uso que esta faz do seu sentido crom&aacute;tico,
+not&aacute;velmente aplicado em certos trabalhos
+como os trabalhos de bordadora e de
+modista, profiss&otilde;es muito espalhadas entre os
+indiv&iacute;duos do sexo feminino, generaliza e diz
+que os visuais, cujos pais eram pintores, iluminadores,
+mosa&iacute;stas, etc., nascem, gra&ccedil;as ao
+treino realizado pelos seus ascendentes, com
+uma retina e centros visuais mais sens&iacute;veis &agrave;s
+c&ocirc;res. &Eacute; uma opini&atilde;o, de resto
+discut&iacute;vel.
+<br />
+
+<br />
+
+Tendo examinado todos os candidatos &agrave;
+matr&iacute;cula no 1.&ordm; ano desta Escola Normal,
+pela f&oacute;rma que adiante descreverei, &agrave;parte
+uma ou outra hesita&ccedil;&atilde;o, discromatopsias
+pr&oacute;priamente
+ditas s&oacute; em dois candidatos, senhoras,
+encontrei, verificando uma confus&atilde;o not&aacute;vel
+<span class="pagenum">[72]</span>
+de tons do amarelo, com que experiment&aacute;mos,
+amarelo can&aacute;rio claro, e amarelo gema
+de &ocirc;vo.
+<br />
+
+<br />
+
+A vis&atilde;o das c&ocirc;res tem sido particularmente
+estudada nos escolares anormais.
+<span class="smallcaps">Zihen</span> cita
+casos de atardados de doze a quinze anos,
+com suficientes conhecimentos escolares, podendo
+sustentar uma conversa s&ocirc;bre assunto
+simples, mas incapazes de reconhecer as c&ocirc;res.
+<span class="smallcaps">Ley</span>, cujo trabalho
+s&ocirc;bre
+o <em>atraso mental</em>, em
+escolares &eacute; o mais bem documentado que conhe&ccedil;o,
+e que observou 110 crian&ccedil;as da escola
+especial para atardados, de Antu&eacute;rpia, que
+tive o prazer de com o maior proveito e na
+companhia do seu director o Sr. professor
+<span class="smallcaps">Yack</span>, tive o prazer,
+dizia, de
+visitar, por sinal
+um m&ecirc;s antes de rebentar a guerra,
+<span class="smallcaps">Ley</span> encontrou
+23 crian&ccedil;as com graves defeitos da
+vis&atilde;o das c&ocirc;res, e 45 reagindo normalmente,
+correctamente, seriando de cinco a seis tons
+de oito c&ocirc;res diferentes. Pode haver, portanto,
+em face de tudo o que dissemos, crian&ccedil;as inteligentes
+com fraca vis&atilde;o das c&ocirc;res ou mesmo
+cegueira, e inferiores mentais com boa vis&atilde;o
+crom&aacute;tica.
+<br />
+
+<br />
+
+Vale a pena citar tamb&ecirc;m, nesta altura, o
+facto mencionado por v&aacute;rios e verificado por
+M.<sup>lle</sup> <span class="smallcaps">Descoeudres</span>,
+de Genebra,
+de que as c&ocirc;res
+mais vulgarmente confundidas pelos anormais
+s&atilde;o o azul e o violeta. M.<sup>lle</sup>
+<span class="smallcaps">Descoeudres</span>
+cita tamb&ecirc;m no seu <em>Manual</em>
+para a educa&ccedil;&atilde;o
+de anormais, como not&aacute;vel, o caso de um rapaz
+epil&eacute;ptico, que desde os oito aos treze
+anos, apesar de tempos a tempos se lhe mostrar
+<span class="pagenum">[73]</span>
+uma s&eacute;rie de fichas ou tentos, de c&ocirc;r azul
+ferrete com uma ficha de c&ocirc;r violeta, de permeio,
+pedindo-se-lhe que indicasse aquela ficha
+que n&atilde;o era como as outras, &ecirc;le n&atilde;o a
+encontrava,
+n&atilde;o obstante compreender bem a pergunta.
+&Ecirc;ste rapaz confundia tamb&ecirc;m o verde-malva
+com o azul claro.
+<br />
+
+<br />
+
+H&aacute; na vis&atilde;o das c&ocirc;res um elemento que
+importa muito considerar: &eacute; a aten&ccedil;&atilde;o.
+A falta
+de aten&ccedil;&atilde;o explica muitas vezes erros da
+vis&atilde;o
+das c&ocirc;res, que &agrave; primeira vista se poderiam
+ter como sinais de daltonismo. Ao lado do
+daltonismo verdadeiro, h&aacute; um falso daltonismo,
+uma cegueira de distrac&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o
+pr&oacute;priamente
+cegueira ou incapacidade de vis&atilde;o
+das c&ocirc;res.
+<br />
+
+<br />
+
+Numa s&eacute;rie de rapazes da Casa Pia, principalmente
+entre aqueles atardados, que com
+onze, doze e treze anos de idade, ainda freq&ugrave;entam
+a primeira classe de instru&ccedil;&atilde;o
+prim&aacute;ria,
+tendo dois a tr&ecirc;s anos de casa, observei
+eu que alguns, qu&aacute;si todos, cometiam erros
+graves na vis&atilde;o das c&ocirc;res, mas erros que variavam
+com a natureza do <em>test</em> e com a hora
+do exame. O aluno 4.337 que de manh&atilde;, antes
+de come&ccedil;ar as aulas, apenas confundia o verde
+claro com o azul claro, e alguns tons de verde,
+entre si, &agrave; tarde, logo em seguida &agrave; quarta
+hora da aula, confundia alguns <em>tons verdes
+com tons vermelhos</em>, como se se tivesse tornado
+dalt&oacute;nico de manh&atilde; para a tarde. Era a
+fadiga que lhe diminuia a aten&ccedil;&atilde;o, e o levava
+a cometer erros d&ecirc;stes. O aluno 305, &ecirc;sse ainda
+mais claramente mostrava que os erros que
+<span class="pagenum">[74]</span>
+cometia na vis&atilde;o das c&ocirc;res resultavam de falta
+de aten&ccedil;&atilde;o, pois que qu&aacute;si
+n&atilde;o cometendo
+erros no exame discriminativo de v&aacute;rios tons
+do vermelho, verde, azul e amarelo, na mesma
+sess&atilde;o cometeu erros tais que confundia roxo
+com vermelho, alaranjado com amarelo claro
+e azul com verde, simplesmente porque tinha
+de atender de cada vez a duas c&ocirc;res, que se
+mostravam ao mesmo tempo. Olhava s&oacute; para
+uma, a que cobria uma maior extens&atilde;o, e que
+&ecirc;le distinguia perfeitamente, n&atilde;o se importando
+no entanto com a outra, para que ali&aacute;s se lhe
+chamava tamb&ecirc;m a aten&ccedil;&atilde;o. Bem diz
+M.<sup>lle</sup>
+<span class="smallcaps">Descoeudres</span> a
+prop&oacute;sito
+da vis&atilde;o das c&ocirc;res
+nos anormais: &laquo;&eacute; preciso sempre entrar em
+linha de conta com o factor aten&ccedil;&atilde;o, por causa
+da qual se torna dif&iacute;cil o pronunciarmo-nos
+s&ocirc;bre as no&ccedil;&otilde;es de c&ocirc;r nos
+anormais.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o basta para explicar as anomalias da
+vis&atilde;o das c&ocirc;res invocar por exemplo uma das
+duas teorias cl&aacute;ssicas da vis&atilde;o
+crom&aacute;tica: a
+de <span class="smallcaps">Yung-helmholtz</span> ou
+a de
+<span class="smallcaps">Hering</span>.
+N&atilde;o
+basta explicar, como se faz na primeira destas
+teorias, explicar, por exemplo, a cegueira para
+o vermelho, pela aus&ecirc;ncia, na estrutura da
+retina, de uns elementos que s&atilde;o mais particularmente
+sens&iacute;veis ao vermelho e nos d&atilde;o
+esta sensa&ccedil;&atilde;o, e dizer que, faltando
+&ecirc;les, a luz
+vermelha impressiona os elementos principalmente
+sens&iacute;veis &agrave; luz verde, e que nos d&atilde;o a
+sensa&ccedil;&atilde;o do verde, fazendo assim com que o
+vermelho nos impressione como se f&ocirc;sse apenas
+um tom daquela c&ocirc;r. N&atilde;o basta explicar,
+como se faz na teoria de <span class="smallcaps">Hering</span>,
+a
+cegueira
+<span class="pagenum">[75]</span>
+para o vermelho e para o verde, pela falta
+de uma subst&acirc;ncia foto-qu&iacute;mica,
+alter&aacute;vel pela
+ac&ccedil;&atilde;o da luz vermelha e da luz verde, e que
+conforme o sentido da altera&ccedil;&atilde;o origina a
+sensa&ccedil;&atilde;o
+do verde ou do vermelho. N&atilde;o. &Eacute;
+necess&aacute;rio
+lembrarmo-nos que a aten&ccedil;&atilde;o &eacute; elemento
+muito importante, a considerar tamb&ecirc;m
+na vis&atilde;o das c&ocirc;res, podendo s&oacute; por si
+dar
+origem &agrave; confus&atilde;o delas, sem que haja
+pr&oacute;priamente
+incapacidade org&acirc;nica para a
+vis&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+H&aacute; uma concep&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica
+da vis&atilde;o, devida
+a <span class="smallcaps">Tscherning</span> (vid.
+<em>Ann&eacute;e psichologique,</em>
+1914, p&aacute;g. 43), que permite compreender bem
+a influ&ecirc;ncia que a aten&ccedil;&atilde;o pode ter na
+vis&atilde;o.
+<span class="smallcaps">Tscherning</span>
+comp&aacute;ra a
+sensibilidade visual &agrave;
+sensibilidade t&aacute;ctil e diz que se pode considerar
+os raios luminosos, que dimanam do exterior
+para a retina, como uma esp&eacute;cie de antenas
+invis&iacute;veis, presas ao fundo dos olhos e
+que com &ecirc;les se movem, antenas com que n&oacute;s
+examinamos os objectos. S&atilde;o o que &ecirc;le chama
+os <em>fot&oacute;foros</em>. Se
+tivessemos um s&oacute; fot&oacute;foro
+estariamos nas condi&ccedil;&otilde;es de um cego, que se
+guia com a ponteira da bengala; como, por&ecirc;m,
+temos v&aacute;rios fot&oacute;foros, quando olhamos para
+os objectos, como que passeamos s&ocirc;bre &ecirc;les
+esta esp&eacute;cie de retina aparente, como que os
+apalpamos, examinando-os atentamente, tal
+como sucede quando julgamos do paladar de
+uma subst&acirc;ncia, saboreando-a com
+aten&ccedil;&atilde;o. &Eacute;
+uma concep&ccedil;&atilde;o interessante, que me parece
+permitir muito bem fazer uma idea da influ&ecirc;ncia
+que a aten&ccedil;&atilde;o pode e deve ter na
+<span class="pagenum">[76]</span>
+aprecia&ccedil;&atilde;o das qualidades dos corpos pela
+vista, e entre elas a c&ocirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+O exame da vis&atilde;o das c&ocirc;res na escola pode
+permitir explicar insucessos que se d&atilde;o no
+ensino por meio dos mapas e das estampas
+nas li&ccedil;&otilde;es de cousas, e nos lavores, mas,
+&agrave;parte
+&ecirc;ste pr&eacute;stimo, tem tamb&ecirc;m o de por vezes
+servir para orientar o aluno na escolha da
+profiss&atilde;o. O professor deve sempre preocupar-se
+com o futuro do aluno. Ao dalt&oacute;nico s&atilde;o
+vedadas certas profiss&otilde;es, principalmente nas
+carreiras mar&iacute;tima e militar e na de maquinista,
+onde se &eacute; obrigado a guiar-se, como
+sucede nos caminhos de ferro e nas embarca&ccedil;&otilde;es,
+interpretando sinais de c&ocirc;res diferentes.
+Esta quest&atilde;o tem tanta import&acirc;ncia que num
+excelente manual ingl&ecirc;s de higiene escolar se
+consagram, no cap&iacute;tulo que trata dos olhos e
+da vista, bastantes linhas &agrave; quest&atilde;o do exame
+da vis&atilde;o das c&ocirc;res nos que deixam a escola,
+por terem terminado o seu ensino (<em>the
+leavers</em>).
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o muitos os processos adoptados no exame
+da vis&atilde;o das c&ocirc;res, e pode-se dizer que
+n&atilde;o s&atilde;o de mais, visto que muitas vezes
+&eacute;
+necess&aacute;rio sujeitar o indiv&iacute;duo a
+v&aacute;rios exames,
+para descobrir-lhes os defeitos ou melhor
+para verificar o defeito. Aquele que pretende
+ingressar em carreira em que se liga grande
+import&acirc;ncia &agrave; vis&atilde;o das
+c&ocirc;res, serve-se de v&aacute;rios
+meios ardilosos, tendentes a vencer a barreira
+que se lhe p&otilde;e do exame rigoroso a que
+s&atilde;o sujeitos; chegam a estudar os
+<em>tests</em>, a
+habilitarem-se para o exame m&eacute;dico. Aprendem
+<span class="pagenum">[77]</span>
+a ser observados, e a enganar. E compreende-se
+que possam chegar a faz&ecirc;-lo, visto
+que, como j&aacute; tive ocasi&atilde;o de dizer nesta
+li&ccedil;&atilde;o,
+o dalt&oacute;nico pode distinguir as c&ocirc;res, sem as
+v&ecirc;r, atendendo &uacute;nicamente &agrave; quantidade
+e n&atilde;o
+&agrave; qualidade da c&ocirc;r, e pode apropriadamente
+aplicar-lhes os nomes. Na crian&ccedil;a &eacute; preciso
+contar sobretudo com os erros que comete
+por ignor&acirc;ncia e falta de aten&ccedil;&atilde;o. Uns
+e
+outros podem levar a considerar como dalt&oacute;nico,
+quem o n&atilde;o seja. N&atilde;o &eacute; bom o processo
+de perguntar os nomes das c&ocirc;res &agrave;
+crian&ccedil;a,
+para julgar da sua vis&atilde;o. O melhor &eacute; mostrar,
+sem nomear, um tom de uma certa c&ocirc;r e mandar
+escolher entre muitas uma c&ocirc;r e tom
+igual.
+<br />
+
+<br />
+
+Os processos mais comummente empregados
+s&atilde;o os das l&atilde;s de
+<span class="smallcaps">Holmgren</span>, os dos
+quadros
+pseudo-isocrom&aacute;ticos, como os de
+<span class="smallcaps">Stilling</span>,
+e os das luzes de lanterna, como o de
+<span class="smallcaps">Edridge Green</span>, por
+exemplo.
+<br />
+
+<br />
+
+Com as l&atilde;s, escolhe-se no meio de muitas
+meadas, de v&aacute;rias c&ocirc;res e tons, uma de certa
+c&ocirc;r e tom, e manda-se procurar uma meada
+que lhe seja perfeitamente igual. Pode-se tamb&ecirc;m
+escolher, por exemplo, meadas de tr&ecirc;s
+c&ocirc;res diferentes, mostr&aacute;-las,
+mistur&aacute;-las depois
+com as outras, e mand&aacute;-las procurar, ou ainda
+mandar separar as meadas por c&ocirc;res, e seri&aacute;-las
+para cada c&ocirc;r, segundo os tons. Nos quadros
+pseudo-isocrom&aacute;ticos h&aacute; letras ou outros
+sinais de c&ocirc;res diferentes s&ocirc;bre fundos coloridos
+por tal f&oacute;rma que um dalt&oacute;nico n&atilde;o os
+possa distinguir.
+<span class="pagenum">[78]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Com a lanterna mostra-se, a dist&acirc;ncias diferentes,
+luzes cuja c&ocirc;r e tom se faz variar
+por meio de vidros apropriados. Etc.
+<br />
+
+<br />
+
+A agudeza da sensibilidade crom&aacute;tica mede-se
+por f&oacute;rma semelhante &agrave;quela por que se
+mede a agudeza visual pr&oacute;priamente dita. Empregam-se,
+para isso, quadros especiais, com
+sinais de diferentes c&ocirc;res, e de determinado
+tamanho, e escolhidos por maneira a que se
+saiba de antem&atilde;o as dist&acirc;ncias a que
+s&atilde;o ordin&aacute;riamente
+vistos por normais. No exame
+da agudeza crom&aacute;tica v&ecirc;-se a que
+dist&acirc;ncia
+s&atilde;o vistos pelo examinando e comp&aacute;ra-se esta
+com aquela a que normalmente elas se v&ecirc;em.
+<br />
+
+<br />
+
+No exame dos escolares da classe especial
+de Antu&eacute;rpia, a que no decurso desta
+li&ccedil;&atilde;o j&aacute;
+tive ocasi&atilde;o de me referir,
+<span class="smallcaps">Ley</span> empregou uma
+colec&ccedil;&atilde;o de meadas de l&atilde;, de oito
+c&ocirc;res diferentes
+e cinco a seis tons por cada c&ocirc;r. Examinou
+<em>isoladamente</em> cada um dos escolares
+(e
+esta precau&ccedil;&atilde;o &eacute; importante porque
+evita os
+erros por imita&ccedil;&atilde;o), e para
+examin&aacute;-los apresentava-lhes
+uma meada de l&atilde; verde-p&aacute;lido, e
+<em>sem lhes nomear a c&ocirc;r</em>,
+mandava-lhes escolher,
+entre as meadas, todas as que fossem da
+mesma c&ocirc;r, tanto as de tom mais leve, como
+as de tom mais carregado. Esta prova era
+seguida de uma outra semelhante em que em
+vez de uma meada verde-p&aacute;lido, se lhe dava
+uma c&ocirc;r de rosa, muito clara.
+<br />
+
+<br />
+
+No exame sum&aacute;rio que pratiquei em alunos
+desta Escola, empreguei, em vez de meadas,
+carrinhos de retr&oacute;s, de quatro c&ocirc;res: vermelho,
+verde, azul e amarelo, e para cada uma destas
+<span class="pagenum">[79]</span>
+c&ocirc;res escolhi dois tons, um muito carregado e
+outro muito leve. De cada tom havia dois carrinhos,
+e os tons das diferentes c&ocirc;res foram
+escolhidos por f&oacute;rma que a quantidade da c&ocirc;r
+f&ocirc;sse a mesma para os tons correspondentes,
+carregados ou leves, de cada uma delas.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>test</em> consistia em agrupar dois a
+dois os
+carrinhos do mesmo tom e c&ocirc;r. N&atilde;o foi
+s&oacute; a
+falta de material, mas tamb&ecirc;m o desejo de
+lhes indicar um processo muito simples e econ&oacute;mico,
+que me levou a improvisar &ecirc;ste processo,
+em que as c&ocirc;res se sujam menos e se
+pode f&aacute;cilmente renovar. Fora de uso, &eacute; preciso
+conservar as c&ocirc;res ao abrigo da luz.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas experi&ecirc;ncias que fiz na Casa Pia utilizei
+um dos <em>jogos educativos</em> do Dr.
+<span class="smallcaps">Decroly</span>
+e de M.<sup>lle</sup> <span class="smallcaps">Mochamp</span>.
+&Ecirc;ste j&ocirc;go &eacute; formado por
+quatro cart&otilde;es, como os cart&otilde;es do
+l&ocirc;to, cada
+um d&ecirc;les tendo pintado s&ocirc;bre papel, que lhe
+est&aacute; colado, uma s&eacute;rie de figuras todas do
+mesmo tamanho, representando bandeiras de
+c&ocirc;res e tons diferentes, cada uma delas de seu
+tom e c&ocirc;r. As bandeiras s&atilde;o quatro por
+cart&atilde;o,
+t&ocirc;das da mesma c&ocirc;r, no mesmo cart&atilde;o, e
+em cada um d&ecirc;stes dispostas pela ordem de
+quantidade de c&ocirc;r, sendo a primeira a mais
+carregada e a &uacute;ltima a mais leve. Num dos
+cart&otilde;es as bandeiras s&atilde;o de c&ocirc;r azul,
+noutro
+de c&ocirc;r verde, noutro de c&ocirc;r vermelha e noutro
+de c&ocirc;r amarela. Al&ecirc;m d&ecirc;stes
+cart&otilde;es h&aacute; uma
+s&eacute;rie de cart&otilde;es pequenos, cada um com sua
+bandeira, de sua c&ocirc;r e tom, a que corresponde
+uma igual nos cart&otilde;es grandes. Utilizei &ecirc;ste
+j&ocirc;go, dando a cada aluno, e de cada vez, um
+<span class="pagenum">[80]</span>
+cart&atilde;o grande, s&ocirc;bre o qual deviam colocar os
+cart&otilde;es pequenos correspondentes. Ap&oacute;s o exame
+de cada cart&atilde;o grande, misturavam-se os
+cart&otilde;es pequenos, os cart&otilde;es j&aacute;
+aplicados e os
+que restava aplicar. &Eacute; um verdadeiro l&ocirc;to.
+<br />
+
+<br />
+
+Numerando nas costas os cart&otilde;es pequenos,
+pode exprimir-se o &ecirc;rro, por confus&atilde;o, indicando-o
+por meio de uma express&atilde;o semelhante
+a um quebrado, em cujo numerador se escreva
+abreviadamente a c&ocirc;r e indique o n&uacute;mero
+do tom do cart&atilde;o grande, e em cujo
+denominador se escreva abreviadamente tamb&ecirc;m
+a c&ocirc;r e se indique o n&uacute;mero do tom do
+cart&atilde;o pequeno, que erradamente s&ocirc;bre o primeiro
+se colocou.
+<br />
+
+<br />
+
+Al&ecirc;m desta prova sujeitei tamb&ecirc;m os alunos
+da Casa Pia, que examinei, a uma outra,
+que consistia no aproveitamento de um outro
+l&ocirc;to de c&ocirc;res da colec&ccedil;&atilde;o do
+Dr. <span class="smallcaps">Decroly</span> e
+M.<sup>lle</sup> <span class="smallcaps">Mochamp</span>.
+Nesse
+l&ocirc;to h&aacute; quatro cart&otilde;es,
+em cada um dos quais figuram quatro homens
+jogando a bola. Cada um deles figura vestido
+de certa c&ocirc;r, e cada uma das bolas com que
+est&aacute; jogando tem a sua c&ocirc;r tamb&ecirc;m, mas
+diferente
+daquela. Al&ecirc;m dos quatro cart&otilde;es grandes,
+h&aacute; uma s&eacute;rie de cart&otilde;es pequenos com
+figuras correspondentes &agrave; do primeiro.
+<br />
+
+<br />
+
+A crian&ccedil;a tem que colocar um pequeno
+cart&atilde;o no lugar do cart&atilde;o grande, que lhe
+corresponder. Como se v&ecirc;, tem de fazer
+simult&acirc;neamente
+a identifica&ccedil;&atilde;o de duas c&ocirc;res.
+&Eacute;
+um verdadeiro <em>test</em> de
+aten&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Estes l&ocirc;tos ou l&ocirc;tos semelhantes podem
+fabricar-se na pr&oacute;pria escola, e constituem
+<span class="pagenum">[81]</span>
+meios, muito interessantes para a crian&ccedil;a, de
+lhe testificar a vis&atilde;o das c&ocirc;res e, como se
+ver&aacute; mais para diante, de lhe educar a
+aten&ccedil;&atilde;o
+e de a instruir.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao m&eacute;dico interessam principalmente as
+discromatopsias adquiridas, n&atilde;o s&oacute; porque
+algumas s&atilde;o cur&aacute;veis, visto serem de natureza
+t&oacute;xica, mas sobretudo porque s&atilde;o muitas vezes
+um sinal importante e precoce de graves
+les&otilde;es &oacute;pticas.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao educador, por&ecirc;m, importam particularmente
+as discromatopsias resultantes da falta
+de aten&ccedil;&atilde;o. Tive j&aacute; ocasi&atilde;o
+de vos dizer que
+a instru&ccedil;&atilde;o supre muitas vezes, at&eacute;
+certo ponto,
+a cegueira das c&ocirc;res, o que faz com que o
+dalt&oacute;nico n&atilde;o s&oacute; ignore a sua
+cegueira, mas
+at&eacute; engane os outros, por distinguir objectos
+de c&ocirc;res diferentes e apropriadamente denominar
+diferentes c&ocirc;res que ali&aacute;s n&atilde;o
+v&ecirc;.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas &eacute; principalmente nos falsos dalt&oacute;nicos,
+naqueles que trocam os nomes &agrave;s c&ocirc;res, por
+ignor&acirc;ncia, e nos que as n&atilde;o distinguem por
+falta de aten&ccedil;&atilde;o e exerc&iacute;cio, que o
+educador
+tem muito a lucrar, ensinando a denominar
+apropriadamente as c&ocirc;res e sobretudo a discriminar-lhes
+as nuances. Os exerc&iacute;cios que se
+empregam na chamada educa&ccedil;&atilde;o dos sentidos
+e que mais pr&oacute;priamente a meu v&ecirc;r se deve
+chamar a educa&ccedil;&atilde;o da
+aten&ccedil;&atilde;o dos sentidos,
+porque o que se educa e aperfei&ccedil;oa principalmente
+n&atilde;o &eacute; o sentido em si, mas a maneira
+de o aplicar, &ecirc;sses exerc&iacute;cios t&ecirc;m
+tamb&ecirc;m,
+&aacute;parte a sua ac&ccedil;&atilde;o s&ocirc;bre a
+aten&ccedil;&atilde;o, esta faculdade
+que &eacute; a base do que vulgarmente se
+<span class="pagenum">[82]</span>
+chama intelig&ecirc;ncia escolar, a faculdade de
+aprender, &ecirc;sses exerc&iacute;cios, repito, t&ecirc;m
+tamb&ecirc;m
+uma ac&ccedil;&atilde;o not&aacute;vel na
+educa&ccedil;&atilde;o do poder discriminativo,
+que &eacute; o que regula, e torna mais
+seguros e exactos, os ju&iacute;zos. Mas mais ainda.
+Como as c&ocirc;res t&ecirc;m um poder emocional, umas
+excitando e outras deprimindo, o que at&eacute; em
+terap&ecirc;utica se utiliza, elas podem servir para
+a educa&ccedil;&atilde;o do sentimento est&eacute;tico,
+preparando
+a crian&ccedil;a para a emo&ccedil;&atilde;o pelas obras da
+Arte
+e pelas da Natureza, o que tudo tem um
+grande valor moral. A crian&ccedil;a &eacute; muito
+sens&iacute;vel
+a &ecirc;ste poder emocionante das c&ocirc;res e nele
+afinal est&aacute; a raz&atilde;o da
+aplica&ccedil;&atilde;o dos velhos
+estimulantes escolares: as condecora&ccedil;&otilde;es e os
+cromos, e do &uacute;til aproveitamento no ensino
+das estampas coloridas. E a prop&oacute;sito vos
+chamarei a aten&ccedil;&atilde;o para um livrinho muito
+interessante, intitulado: <em>O nosso
+Portugal</em>, trabalho
+do distinto professor da Casa Pia e
+meu dedicado amigo e colaborador, o Sr. professor
+<span class="smallcaps">Fernando Palyart Pinto Ferreira</span>,
+de mais a mais disc&iacute;pulo desta Escola, livrinho
+que tive o prazer de prefaciar, e que &eacute;,
+entre n&oacute;s, assim o julgo, a primeira
+aplica&ccedil;&atilde;o
+consciente dos princ&iacute;pios fundamentais da psicologia
+visual infantil.
+<br />
+
+<br />
+
+No <em>M&eacute;todo
+Montess&oacute;ri</em>, de que agora tanto
+se fala, e que, vai para um ano, a C&acirc;mara
+Municipal de Lisboa mandou dois dos seus
+mais distintos professores, um disc&iacute;pulo desta
+Escola, o Sr. professor <span class="smallcaps">Rosa y
+Alberty</span>, da
+Casa Pia, e sua esposa a Ex.<sup>ma</sup> Sr.<sup>a</sup>
+D. <span class="smallcaps">Pulcena
+Estrela da Costa</span>, antiga aluna da
+<span class="pagenum"><a name="p83" id="p83">[83]</a></span>
+Escola de Ponta Delgada, mandou, dizia, estudar
+&ecirc;sse m&eacute;todo com a sua pr&oacute;pria autora,
+que se encontrava em Barcelona, no <em>M&eacute;todo
+Montess&oacute;ri</em>, a
+educa&ccedil;&atilde;o da vis&atilde;o das c&ocirc;res
+tem
+um lugar important&iacute;ssimo. N&ecirc;le se faz uma
+inteligente aplica&ccedil;&atilde;o pedag&oacute;gica do
+processo
+de diagn&oacute;stico de que vos falei, o processo
+das l&atilde;s de <span class="smallcaps">Holmgren</span>.
+D&aacute;-se uma amostra de
+l&atilde; ou de retr&oacute;s, de uma certa c&ocirc;r e
+tom, e
+manda-se a crian&ccedil;a procurar uma igual, entre
+muitas outras de diversas c&ocirc;res e tons; mostra-se-lhe
+duas ou tr&ecirc;s c&ocirc;res e manda-se depois
+a crian&ccedil;a ir procur&aacute;-las, de cor, de
+mem&oacute;ria;
+ensina-se a crian&ccedil;a a nomear as c&ocirc;res e
+os tons; a pr&oacute;pria professora mostra-lhas, nomeando-as,
+dizendo-lhes os nomes por f&oacute;rma
+a atrair a sua aten&ccedil;&atilde;o, usando de tom e maneiras
+que seduzam a crian&ccedil;a, e por vezes
+finalmente se organiza com as crian&ccedil;as da
+escola um j&ocirc;go em que cada uma por sua vez
+&eacute; encarregada de ir fornecendo &agrave;s outras as
+c&ocirc;res e os tons que estas lhe v&atilde;o pedindo, e
+que depois cada uma tem de agrupar e seriar.
+<br />
+
+<br />
+
+&Ecirc;ste <em>M&eacute;todo
+<a href="#e2">Montess&oacute;ri</a></em>,
+de que tanto agora
+se fala e que vai avassalando os jardins de
+inf&acirc;ncia e as escolas prim&aacute;rias de todo o mundo,
+n&atilde;o &eacute; bem uma novidade pedag&oacute;gica,
+nem,
+como alguns sup&otilde;em, uma simples moda, uma
+fantasia. Nem novidade porque nele se encontra
+a aplica&ccedil;&atilde;o e por vezes a
+reprodu&ccedil;&atilde;o,
+pura e simples, de m&eacute;todos de outros, nem
+simples e in&uacute;til moda ou fantasia, porque
+assenta nas mais s&oacute;lidas bases da psicologia
+da crian&ccedil;a.
+<span class="pagenum">[84]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+A Sr.<sup>a</sup> <span class="smallcaps">Montess&oacute;ri</span>
+teve
+o cond&atilde;o de com
+estranha eloq&ugrave;&ecirc;ncia fazer a propaganda do
+m&eacute;todo de educa&ccedil;&atilde;o dos sentidos de
+<span class="smallcaps">Froebel</span>
+e principalmente das variantes adoptadas pelos
+m&eacute;dicos e professores dos asilos de crian&ccedil;as
+anormais. Fez e faz uma inteligente propaganda
+da aplica&ccedil;&atilde;o dos m&eacute;todos adoptados
+na educa&ccedil;&atilde;o dos que sofrem de
+insufici&ecirc;ncia
+mental de origem patol&oacute;gica, &agrave;queles em que
+apenas existe a insufici&ecirc;ncia fisio-psicol&oacute;gica,
+pr&oacute;pria da sua idade, aqueles em que por
+assim dizer existe um atrazo normal. E a Sr.<sup>a</sup>
+<span class="smallcaps">Montess&oacute;ri</span>,
+m&eacute;dica e antropologista como &eacute;,
+encontrou meios excelentes de fazer essa
+aplica&ccedil;&atilde;o.
+&Eacute; sobretudo o not&aacute;vel aproveitamento
+que faz do <em>instinto
+dram&aacute;tico</em> da crian&ccedil;a,
+procurando educ&aacute;-la pela emo&ccedil;&atilde;o e por
+isso,
+ou deixando-a representar, e guiando-a na
+representa&ccedil;&atilde;o, ou tornando-a um espectador
+interessado, atento e entusiasta, que ouve bem
+o que propositadamente diante d&ecirc;le se faz, e
+que depois reproduz por imita&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+H&aacute; por&ecirc;m, na escola Montess&oacute;ri, e
+principalmente
+na exposi&ccedil;&atilde;o dos m&eacute;todos da Sr.<sup>a</sup>
+<span class="smallcaps">Montess&oacute;ri</span>,
+misticismo
+a mais e froebelianismo
+a mais tamb&ecirc;m. E quando digo froebelianismo,
+quero referir-me ao &ecirc;rro pedag&oacute;gico do
+m&eacute;todo froebeliano: &agrave; confus&atilde;o da
+simplicidade
+l&oacute;gica com a simplicidade pedag&oacute;gica.
+Aos olhos da crian&ccedil;a as formas que n&oacute;s chamamos
+simples, as f&oacute;rmas abstractas, n&atilde;o s&atilde;o
+as f&oacute;rmas mais simples; no concreto e no complexo
+est&aacute; muitas vezes o que parece mais simples
+&agrave; crian&ccedil;a, porque a interessa mais.
+<span class="pagenum">[85]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Em portugu&ecirc;s t&ecirc;m as senhoras e os senhores
+um livrinho interessante e bom para
+fazer uma idea do m&eacute;todo Montess&oacute;ri; &eacute;
+o
+livrinho da Sr.<sup>a</sup> D. <span class="smallcaps">Luiza
+S&eacute;rgio</span>, intitulado
+<em>M&eacute;todo
+Montess&oacute;ri</em>; e se quizerem conhecer,
+al&ecirc;m de uma apologia, uma severa censura e
+cr&iacute;tica &agrave; Sr.<sup>a</sup>
+<span class="smallcaps">Montess&oacute;ri</span>
+e ao chamado
+seu
+m&eacute;todo, leiam um artigo de <span class="smallcaps">Guido
+della
+Valle</span> no n.&ordm; 6 de Janeiro de 1911, da
+<em>Rivista
+pedagogica</em>, revista italiana.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos jogos educativos do Dr.
+<span class="smallcaps">Decroly</span> e
+de M.<sup>lle</sup> <span class="smallcaps">Mochamp</span>,
+a
+educa&ccedil;&atilde;o do sentido crom&aacute;tico
+tem tamb&ecirc;m um lugar importante.
+Al&ecirc;m dos l&ocirc;tos de que falei a prop&oacute;sito
+do
+exame do sentido crom&aacute;tico em rapazes da
+Casa Pia, h&aacute; outros l&ocirc;tos, e um domin&oacute;
+curioso,
+que muito interessa os pequeninos (j&aacute; o
+tenho experimentado em meus filhos), um j&ocirc;go
+de domin&oacute; constituido por uma s&eacute;rie de pequenos
+cart&otilde;es, aproximadamente do tamanho
+das pedras do domin&oacute; vulgar, cart&otilde;es a cada
+um dos quais est&atilde;o, num dos lados, colados,
+lado a lado, dois pap&eacute;is, cada um de sua c&ocirc;r.
+Joga-se como se joga o domin&oacute;. O aspecto,
+que a s&eacute;rie dos cart&otilde;es toma no fim do
+j&ocirc;go,
+interessa muito as crian&ccedil;as. E j&aacute; que de novo
+falei nos jogos educativos do Dr.
+<span class="smallcaps">Decroly</span> e
+de M.<sup>lle</sup> <span class="smallcaps">Mochamp</span>,
+dir-vos hei
+que cada um de
+v&oacute;s ter&aacute; muito que lucrar, lendo o pequeno
+folheto que acompanha a colec&ccedil;&atilde;o daqueles
+jogos que o Instituto Jean Jacques Rousseau,
+de Genebra, costuma vender, folheto intitulado
+<em>Jeux educatifs</em>, e onde todos
+encontrar&atilde;o compendiadas
+excelentes sugest&otilde;es, &uacute;teis n&atilde;o
+s&oacute;
+<span class="pagenum">[86]</span>
+para improvisar processos de educa&ccedil;&atilde;o dos
+sentidos e de instru&ccedil;&atilde;o tamb&ecirc;m, mas
+at&eacute; material
+de ensino, que, pode-se dizer, qualquer
+pode fabricar. Inspirados naqueles jogos se
+pode dizer que s&atilde;o os processos e o material
+que se empregam na classe de anormais que
+no Instituto m&eacute;dico-pedag&oacute;gico da Casa Pia
+de Lisboa, &agrave; Travessa das Terras de Santa
+Ana (a Santa Isabel), funciona sob a direc&ccedil;&atilde;o
+do professor <span class="smallcaps">Fernando Palyart
+Pinto
+Ferreira</span>
+e de sua esposa a Sr.<sup>a</sup> D. <span class="smallcaps">Lucila
+Carmina
+Lopes de Santa Clara</span>, distinta professora
+oficial, antiga aluna tamb&ecirc;m da Escola
+Normal de Lisboa, que com o Sr. professor
+<span class="smallcaps">Cruz Filipe</span>, da
+classe de
+ortofonia, e o Sr.
+<span class="smallcaps">Joaquim Almada</span>, da
+classe de
+dizer, comigo
+ali trabalham.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Minhas Senhoras e meus
+Senhores<br />
+Meus Alunos</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Agora mais do que nunca &eacute; preciso organizar
+os servi&ccedil;os de instru&ccedil;&atilde;o por
+f&oacute;rma que
+na educa&ccedil;&atilde;o se vise o aproveitamento de todos,
+a valoriza&ccedil;&atilde;o de cada um, ao m&aacute;ximo,
+aumentando o mais poss&iacute;vel o rendimento de
+suas faculdades. A guerra pede-nos os mais
+fortes e os melhores. Na paz s&oacute; nos poderemos
+salvar, compensando o sacrif&iacute;cio que fizemos,
+valorizando ao m&aacute;ximo os que restarem,
+os que escaparem, e os novos. Temos infelizmente
+<span class="pagenum">[87]</span>
+n&atilde;o s&oacute; que suprir as faltas de todos
+os dias, as faltas triviais, mas al&ecirc;m destas as
+formid&aacute;veis perdas que por certo resultar&atilde;o
+d&ecirc;ste monstruoso acidente da vida do mundo:
+a actual guerra. Por isso h&aacute; que tratar cada
+um d&ecirc;stes homens embrion&aacute;rios, d&ecirc;stes
+cidad&atilde;os
+<em>in herbis</em>, que nos confiam,
+h&aacute; que trat&aacute;-los
+por f&oacute;rma a bem medirmos o valor das
+suas faculdades e pr&eacute;stimos incipientes, e por
+meio da sci&ecirc;ncia, e com t&ocirc;da a arte,
+aproveitar-lhas
+e desenvolv&ecirc;-las e encaminh&aacute;-las o
+melhor poss&iacute;vel. N&atilde;o. N&atilde;o podemos nem
+devemos
+como at&eacute; aqui limitar-nos a aprender
+m&eacute;todos de ensino, qu&aacute;si na ignor&acirc;ncia
+e desprendimento
+do conhecimento da natureza e
+caracter&iacute;sticas da crian&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&iquest;Que se diria de um alfaiate que nos quizesse
+fazer um fato, sem medida? &iquest;E sobretudo
+que se diria ao ver que o fato que nos
+destinava n&atilde;o nos servia, n&atilde;o se ajustava ao
+nosso corpo e ou nos tolhia os movimentos
+ou nos cobria de rid&iacute;culo? &iquest;E com mais
+raz&atilde;o,
+que se diria do educador, que no desconhecimento
+da natureza da crian&ccedil;a, a educasse,
+deformando-lhe a mente, prejudicando-lhe o
+car&aacute;cter, e obstinando-se em adoptar processos
+os menos conformes com o seu temperamento,
+os menos convenientes para um inteligente
+aproveitamento da sua personalidade, e os
+menos conducentes &agrave; sua felicidade e afinal &agrave;
+nossa pr&oacute;pria, porque s&atilde;o as crian&ccedil;as
+de hoje
+quem amanh&atilde; nos h&aacute;-de governar e julgar?
+V&oacute;s respondereis.
+<br />
+
+<br />
+
+Para vos ensinar a conhecer a crian&ccedil;a e
+<span class="pagenum">[88]</span>
+para vos ensinar a pelo seu conhecimento melhor
+aplicar e escolher os m&eacute;todos que os
+vossos professores de pedagogia e de pr&aacute;tica
+vos ensinam, para isso aqui estou.
+<br />
+
+<br />
+
+Ajudai-me com a vossa aten&ccedil;&atilde;o e eu vos
+ajudarei com a minha experi&ecirc;ncia, com o meu
+modesto saber e com a minha dedica&ccedil;&atilde;o a
+mais sincera.
+<br />
+
+<br />
+
+Est&aacute; aberto o nosso curso d&ecirc;ste ano.<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote">
+Bel&ecirc;m, 3 de Dezembro de 1916.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c7" id="c7"></a>
+<h3>S&Ocirc;BRE UMAS PROVAS DE EXAME
+DA ATEN&Ccedil;&Atilde;O VOLUNT&Aacute;RIA VISUAL<sup><a href="#n10">[10]</a></sup>
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Minhas Senhoras e Meus
+Senhores:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Havia eu prometido ocupar-me na s&eacute;rie de
+<em>confer&ecirc;ncias
+pedag&oacute;gicas</em> organizada na
+&uacute;ltima
+ger&ecirc;ncia ministerial do senhor professor
+<span class="smallcaps">Ferreira
+de Simas</span>, havia eu prometido, ocupar-me,
+dizia, do ponto: <em>A pedologia pr&aacute;tica e a
+pr&aacute;tica do ensino na escola
+prim&aacute;ria</em>, e prometera
+tamb&ecirc;m que essa minha confer&ecirc;ncia
+serviria &ecirc;ste ano de li&ccedil;&atilde;o de
+encerramento do
+curso de Pedologia que tenho tido a honra
+<span class="pagenum">[90]</span>
+de reger na Escola Normal de Lisboa. Sucede,
+por&ecirc;m, que o meu &uacute;ltimo trabalho d&ecirc;ste
+ano
+foi industriar os meus alunos na pr&aacute;tica da
+medida da aten&ccedil;&atilde;o volunt&aacute;ria visual, e
+sendo
+assim pareceu-me poder conciliar o compromisso
+tomado com a necessidade de comentar
+as observa&ccedil;&otilde;es que, s&ocirc;bre aquela
+f&oacute;rma de
+aten&ccedil;&atilde;o perif&eacute;rica, fizemos na escola
+anexa &agrave;
+Normal Prim&aacute;ria de Lisboa, pareceu-me poder
+conciliar o compromisso com a necessidade do
+coment&aacute;rio, aproveitando as
+observa&ccedil;&otilde;es feitas
+para, por uma maneira mais concreta, dizer o
+que tencionava dizer s&ocirc;bre o ponto que escolhera
+e a que a princ&iacute;pio pens&aacute;ra dar uma
+f&oacute;rma mais te&oacute;rica e geral.
+<br />
+
+<br />
+
+O assunto: <em>a aten&ccedil;&atilde;o e a sua
+medida</em> &eacute;
+um ponto capital de pedologia ps&iacute;quica aplicada
+&agrave; educa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A aten&ccedil;&atilde;o &eacute; a base do que
+<span class="smallcaps">Binet</span> chamou
+a <em>faculdade escolar</em>, a faculdade de
+aprender
+na escola, a faculdade de assimilar o ensino
+nela ministrado, pelos m&eacute;todos mais usuais.
+Para ser bem sucedido nos estudos s&atilde;o precisas,
+diz com raz&atilde;o ainda
+<span class="smallcaps">Binet</span>, qualidades
+que dependem sobretudo da aten&ccedil;&atilde;o, da vontade
+e do car&aacute;cter. E &laquo;saber manter a
+aten&ccedil;&atilde;o
+dos escolares, apropriar o grau de aten&ccedil;&atilde;o
+&agrave; dificuldade e &agrave; import&acirc;ncia do
+trabalho a
+realizar &eacute; qu&aacute;si t&ocirc;da a arte do
+professor&raquo;,
+diz <span class="smallcaps">Van Biervliet</span>.
+Portanto,
+debaixo do ponto
+de vista da import&acirc;ncia, creio ter escolhido
+um ponto excelente. E quanto ao que queria
+principalmente demonstrar na minha confer&ecirc;ncia:
+a possibilidade de praticar estudos pedol&oacute;gicos,
+<span class="pagenum">[91]</span>
+sem perturba&ccedil;&atilde;o nem preju&iacute;zo das
+fun&ccedil;&otilde;es e obriga&ccedil;&otilde;es
+did&aacute;cticas, nenhum melhor
+assunto serviria para defender esta tese
+do que &ecirc;ste: a aten&ccedil;&atilde;o e a sua medida.
+Alunos
+meus tiveram ocasi&atilde;o de ver que, em alguns
+minutos, se poderia sem perturbar a
+classe, nem alterar o ensino, fazer importantes
+experi&ecirc;ncias que entre outras coisas podem
+ser aproveitadas para conhecer os alunos
+debaixo do ponto de vista da aten&ccedil;&atilde;o, descobrir
+anormais, medir a fadiga, julgar hor&aacute;rios,
+programas, m&eacute;todos de ensino, e at&eacute; ensinar
+a estar atento.
+<br />
+
+<br />
+
+Tem sido sempre minha principal preocupa&ccedil;&atilde;o
+o professar pedologia que possa directamente
+aproveitar ao ensino prim&aacute;rio, n&atilde;o
+aconselhando sen&atilde;o processos de
+observa&ccedil;&atilde;o
+e experi&ecirc;ncia, f&aacute;ceis, compat&iacute;veis com
+a prepara&ccedil;&atilde;o
+dos alunos da Escola Normal Prim&aacute;ria,
+e que n&atilde;o distra&iacute;am os mestres das
+obriga&ccedil;&otilde;es
+did&aacute;cticas, e antes pelo contr&aacute;rio contribuam
+para que melhor as cumpram, fazendo
+sempre lembrar-lhes que, mais do que ministrar
+no&ccedil;&otilde;es, lhes compete preparar o
+esp&iacute;rito
+dos alunos para as receber, e para isso &eacute;
+indispens&aacute;vel
+saber conhecer os alunos, saber o
+que s&atilde;o, conhecer a personalidade de cada
+um, e saber-lhes aproveitar o feitio. Esta tem
+sido de facto a preocupa&ccedil;&atilde;o principal e a
+orienta&ccedil;&atilde;o com que tenho preparado as minhas
+li&ccedil;&otilde;es e elas claramente se notam nas
+tr&ecirc;s li&ccedil;&otilde;es que j&aacute;
+publiquei:&mdash;<em>O ensino da
+pedologia, na Escola Normal Prim&aacute;ria</em>,
+<em>O
+p&ecirc;so do corpo da crian&ccedil;a</em>, e
+<em>A agudeza visual</em>
+<span class="pagenum">[92]</span>
+<em>e a auditiva, debaixo do ponto de vista
+pedag&oacute;gico</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Minhas Senhoras e meus
+Senhores:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No ensino ordin&aacute;rio da escola prim&aacute;ria
+utiliza-se e treina-se muito a aten&ccedil;&atilde;o
+volunt&aacute;ria
+visual verbal, isto &eacute;, utiliza-se e exige-se
+um estado de esp&iacute;rito em que o aluno
+volunt&aacute;riamente
+toma a atitude que mais conv&ecirc;m
+para receber as estimula&ccedil;&otilde;es visuais determinadas
+pelas palavras escritas. N&atilde;o ser&aacute; a
+f&oacute;rma de aten&ccedil;&atilde;o mais &uacute;til
+para a vida, porque
+no mundo ambiente, como diz <span class="smallcaps">Van
+Biervliet</span>,
+a aten&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tem que dirigir-se,
+orientar-se,
+concentrar-se s&ocirc;bre as f&oacute;rmas verbais
+das cousas, s&ocirc;bre a descri&ccedil;&atilde;o dos
+factos, s&ocirc;bre
+os resumos dos acontecimentos, mas sim s&ocirc;bre
+as pr&oacute;prias cousas, s&ocirc;bre os pr&oacute;prios
+factos,
+s&ocirc;bre os pr&oacute;prios acontecimentos; n&atilde;o
+ser&aacute;
+portanto a f&oacute;rma mais &uacute;til para a vida, mas
+&eacute; uma das mais &uacute;teis para o sucesso na escola.
+Al&ecirc;m disso, por meio da sua medida, se
+podem resolver v&aacute;rios problemas escolares,
+principalmente porque por meio dela se pode
+medir a fadiga escolar. Aqui t&ecirc;m, pois, V.
+Ex.<sup>as</sup> mais uma raz&atilde;o, e afinal a
+principal, da
+escolha que fiz do tema da minha li&ccedil;&atilde;o de
+encerramento, que vai versar: <em>s&ocirc;bre umas
+provas de exame da aten&ccedil;&atilde;o volunt&aacute;ria
+visual,</em>
+<span class="pagenum">[93]</span>
+<em>colhidas em alunos da, escola anexa, &agrave;
+Normal Prim&aacute;ria de Lisboa</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Mediu-se a aten&ccedil;&atilde;o pelo m&eacute;todo da
+<em>correc&ccedil;&atilde;o
+de provas</em> (m&eacute;todo de
+<span class="smallcaps">Bourdon</span>), utilizando
+umas vezes o <em>test</em> de
+<span class="smallcaps">Toulouse</span> e
+<span class="smallcaps">Vaschide</span>,
+uma f&ocirc;lha impressa com 1.600 sinais, figurando
+cada um deles um pequeno quadrado
+com um tra&ccedil;o do mesmo tamanho, dirigido
+para fora, e orientado segundo 8 direc&ccedil;&otilde;es, o
+que d&aacute; lugar a 8 sinais diferentes, f&ocirc;lha que
+obtivemos mandando reproduzir a que acompanha
+o vol. II da <em>T&eacute;cnica de psicologia
+experimental</em>
+de <span class="smallcaps">Toulouse</span> e
+<span class="smallcaps">Pi&eacute;ron</span>
+(edi&ccedil;&atilde;o de
+1911), outras vezes utilizando trechos do livro
+de leitura habitual dos alunos da 4.&ordf; classe
+da escola anexa, mandando nele riscar determinadas
+letras, uma ou duas, num tempo determinado
+(cinco minutos em regra) ou risc&aacute;-las,
+cortando-as numa certa por&ccedil;&atilde;o de trecho,
+em que de antem&atilde;o tinhamos verificado qual
+o n&uacute;mero de letras escolhidas que nela havia,
+n&uacute;mero que a crian&ccedil;a, riscando as letras, deveria
+verificar, recome&ccedil;ando o trabalho tantas
+vezes quantas f&ocirc;ssem precisas para alcan&ccedil;ar o
+n&uacute;mero de letras que no trecho existiam e
+que n&oacute;s lhe haviamos pr&eacute;viamente indicado
+(processo de <span class="smallcaps">Van Biervliet</span>).
+Mediamos assim
+a aten&ccedil;&atilde;o pela correc&ccedil;&atilde;o ou
+pela velocidade
+ou pela correc&ccedil;&atilde;o e velocidade com que as
+crian&ccedil;as suprimiam sinais do
+<em>test</em> de
+<span class="smallcaps">Toulouse</span>
+e <span class="smallcaps">Vaschide</span> ou letras
+dum trecho do
+seu livro
+de leitura.
+<br />
+
+<br />
+
+O m&eacute;todo que empreg&aacute;mos &eacute; aquele que
+permitiu a <span class="smallcaps">Binet</span>
+verificar, numa
+escola prim&aacute;ria
+<span class="pagenum">[94]</span>
+de Paris, a coincid&ecirc;ncia da
+classifica&ccedil;&atilde;o
+dos alunos, debaixo do ponto de vista da
+aten&ccedil;&atilde;o, feita por meio dos
+<em>tests</em> colhidos em
+alguns minutos de experi&ecirc;ncia, com a
+classifica&ccedil;&atilde;o
+dos mesmos alunos feita pelas notas do
+professor, notas resultantes duma aprecia&ccedil;&atilde;o
+longa e demorada. E a prop&oacute;sito vale a pena
+lembrar que, citando estes factos,
+<span class="smallcaps">Binet</span> acentuou
+que o &ecirc;xito escolar resulta mais da
+aten&ccedil;&atilde;o
+do que da intelig&ecirc;ncia, que o aluno mais
+atento pode n&atilde;o ser o mais inteligente e que
+por isso n&atilde;o &eacute; de estranhar que as
+crian&ccedil;as,
+que os <em>tests</em> levam a considerar como
+inteligentes,
+n&atilde;o sejam sempre as mais adiantadas,
+as que mais aproveitam, as que d&atilde;o melhores
+<em>tests</em> da
+aten&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O mesmo m&eacute;todo de medida da aten&ccedil;&atilde;o
+que pratiquei e fiz praticar aos meus alunos
+&eacute; um dos que permitiu a
+<span class="smallcaps">Ley</span> demonstrar que
+os movimentos respirat&oacute;rios lentos e amplos,
+dilatando vagarosamente e largamente o torax,
+com as esp&aacute;duas bem aproximadas, sem
+eleva&ccedil;&atilde;o
+dos bra&ccedil;os nem eleva&ccedil;&atilde;o do corpo
+s&ocirc;bre
+as pontas dos p&eacute;s, s&atilde;o um excitante da
+aten&ccedil;&atilde;o
+volunt&aacute;ria, e foi &ecirc;le que com o m&eacute;todo
+dos <em>tempos de
+reac&ccedil;&atilde;o</em> tamb&ecirc;m
+permitiu a <span class="smallcaps">Ley</span>
+verificar que um repouso de quatro minutos,
+sem execu&ccedil;&atilde;o d&ecirc;sses
+exerc&iacute;cios respirat&oacute;rios,
+actua muito menos ben&eacute;ficamente s&ocirc;bre a
+aten&ccedil;&atilde;o
+do que quando durante o mesmo tempo
+se executam movimentos respirat&oacute;rios pela
+f&oacute;rma que acima precisei.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi tamb&ecirc;m empregando &ecirc;ste m&eacute;todo da
+<em>correc&ccedil;&atilde;o de
+provas</em> que eu obtive
+<em>tests</em> da
+<span class="pagenum">[95]</span>
+aten&ccedil;&atilde;o em alunos da escola prim&aacute;ria
+oficial
+de Bel&ecirc;m, sem classe de trabalhos manuais, e
+em alunos do mesmo grau escolar, da Casa
+Pia, com bastante pr&aacute;tica de trabalhos manuais,
+<em>tests</em> que me permitiram sustentar e
+demonstrar no meu discurso: <em>Da influ&ecirc;ncia
+dos trabalhos manuais no desenvolvimento do
+esp&iacute;rito</em>, que os trabalhos manuais treinam
+a
+aten&ccedil;&atilde;o, melhoram a
+aten&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+As primeiras experi&ecirc;ncias que fizemos na
+escola anexa foram praticadas utilizando o
+<em>test</em> de
+<span class="smallcaps">Toulouse</span> e
+<span class="smallcaps">Vaschide</span>.
+<br />
+
+<br />
+
+A medida da aten&ccedil;&atilde;o por meio da
+supress&atilde;o
+de letras ou sinais equivalentes funda-se
+no facto de numa s&eacute;rie de percep&ccedil;&otilde;es
+an&aacute;logas,
+mon&oacute;tonas, tenderem essas percep&ccedil;&otilde;es a
+alterar-se, a enfraquecer, a apagar-se, sendo
+necess&aacute;rio para evitar essa altera&ccedil;&atilde;o
+e fazer
+com que as percep&ccedil;&otilde;es continuem a efectuar-se
+correctamente, que a aten&ccedil;&atilde;o
+volunt&aacute;ria intervenha,
+procurando assim fazer manter a intensidade
+inicial dos fen&oacute;menos sensoriais. Se
+a aten&ccedil;&atilde;o volunt&aacute;ria tende a
+enfraquecer, a
+baixar, as percep&ccedil;&otilde;es deixam de se efectuar
+uma ou outra vez, ou efectuam-se incorrectamente,
+e n&oacute;s podemos medir essa baixa, o
+gr&aacute;u de aten&ccedil;&atilde;o, examinando os erros e
+a varia&ccedil;&atilde;o
+da velocidade do exame, durante um
+certo lapso de tempo, em que o examinando
+colhe uma s&eacute;rie de percep&ccedil;&otilde;es da mesma
+esp&eacute;cie
+e gr&aacute;u (percep&ccedil;&otilde;es
+mon&oacute;tonas).
+<br />
+
+<br />
+
+Mandando riscar as letras num trecho em
+l&iacute;ngua conhecida, o exame pode ser perturbado
+pela influ&ecirc;ncia da leitura do texto, pela
+<span class="pagenum">[96]</span>
+compreens&atilde;o do texto, pelo sentido das palavras,
+sendo muito dif&iacute;cil, se n&atilde;o
+imposs&iacute;vel, a
+quem n&atilde;o est&aacute; habituado a abstrair, fazer
+com que s&oacute; se procurem letras e n&atilde;o se leiam
+as palavras.
+<br />
+
+<br />
+
+Tem-se procurado evitar &ecirc;ste inconveniente
+ou dando trechos em l&iacute;ngua estranha ou empregando
+<em>tests</em> como o de
+<span class="smallcaps">Henrotin</span>
+(<em>Contribution
+&agrave; l'&eacute;tude de l'atention visuelle chez les
+enfants</em>, in <em>R&eacute;v. de
+P&eacute;dotechnie</em>, n.<sup>os</sup> 2 e 3,
+1914), em que a prova &eacute; constit&ugrave;ida por uma
+f&ocirc;lha com 832 letras, repartidas em 26 linhas
+de 82 caracteres de imprensa bem separados
+e muito n&iacute;tidos, de maneira a evitar confus&otilde;es,
+letras que, como por exemplo o <em>a</em>, o
+<em>e</em> e
+o <em>u</em>, se encontram repartidas duma
+maneira
+irregular e por f&oacute;rma tal que nada h&aacute; que
+possa indicar ao examinando nem o lugar,
+nem o n&uacute;mero das letras cuja supress&atilde;o ou
+indica&ccedil;&atilde;o se pede. Sucede, por&ecirc;m, que
+nem
+t&ocirc;das as letras do alfabeto s&atilde;o igualmente
+vis&iacute;veis, nem t&ocirc;das chamam igualmente a
+aten&ccedil;&atilde;o,
+como o faz notar <span class="smallcaps">Van Biervliet</span>;
+umas,
+como &ecirc;le diz, o <em>x</em> por
+exemplo, atraem pela
+sua raridade, outras como o <em>f</em> e o
+<em>b</em>, letras ao
+alto, extensas, chamam mais a aten&ccedil;&atilde;o do que
+as letras baixas <em>e</em> e
+<em>r</em>, por exemplo. Entre
+estas, umas h&aacute; bastante largas como o
+<em>m</em>, que
+nos impressionam mais, outras mais altas do
+que largas, outras t&atilde;o largas como altas, etc.
+Para evitar estas diferen&ccedil;as que podem perturbar
+o exame, a medida da aten&ccedil;&atilde;o, &eacute; que
+<span class="smallcaps">Toulouse</span> e
+<span class="smallcaps">Vaschide</span> propuzeram a
+sua prova,
+uma prova de sinais igualmente interessantes,
+<span class="pagenum">[97]</span>
+que podem servir mesmo para os que
+n&atilde;o sabem ler; tem al&ecirc;m disso a vantagem
+de evitar a influ&ecirc;ncia do h&aacute;bito da leitura e
+revis&atilde;o de provas.
+<br />
+
+<br />
+
+O empr&ecirc;go da prova de
+<span class="smallcaps">Toulouse</span> e
+<span class="smallcaps">Vaschide</span>
+na escola anexa revelou-nos factos interessantes
+para que chamo a vossa aten&ccedil;&atilde;o.
+Em primeiro lugar:&mdash;examinando a atitude
+dos alunos da 4.&ordf; classe durante o tempo em
+que riscavam sinais, alguns vimos que pelo
+cuidado com que examinavam pareciam prestar
+grande aten&ccedil;&atilde;o, mas cujas provas vinham
+cheias de erros. Sucede isso muitas vezes. S&atilde;o
+criaturas ap&aacute;ticas, cuja lentid&atilde;o habitual os
+faz confundir com aqueles que, n&atilde;o sendo
+ap&aacute;ticos, se imobilizam, ou tornam lentos, pelo
+esf&ocirc;r&ccedil;o da aten&ccedil;&atilde;o. Os
+primeiros n&atilde;o s&atilde;o atentos,
+assemelham-se aos atentos.
+<br />
+
+<br />
+
+Pode suceder tamb&ecirc;m que apare&ccedil;am alunos
+que n&atilde;o compreendam a prova, que cortem a
+&ecirc;smo, que cometam muitos erros, riscando sinais
+e letras ao acaso. Sucede isso com atardados
+profundos, e essa prova serve-me muitas
+vezes no <em>Instituto Pedag&oacute;gico da Casa
+Pia</em>, como meio de reconhecer o gr&aacute;u de
+anormalidade
+dos anormais que ali v&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Anormal que n&atilde;o compreende o
+<em>test</em>, &eacute;
+anormal m&eacute;dico, &eacute; anormal profundo, &eacute;,
+em
+regra, o idiota. Para mim &ecirc;ste sinal vale como
+o de <span class="smallcaps">Demoor</span>.
+<br />
+
+<br />
+
+Outro facto curioso que observ&aacute;mos &eacute; o
+de na primeira experi&ecirc;ncia termos chegado
+pelos <em>tests</em> a considerar como
+atentos alunos
+que a Sr.<sup>a</sup> professora da escola anexa indicava
+<span class="pagenum">[98]</span>
+como desatentos e grandes desatentos.
+Um facto semelhante sucedeu a
+<span class="smallcaps">Binet</span>, que,
+com grande surpresa, verificou uma vez, examinando
+alunos de uma classe de anormais
+pedag&oacute;gicos, que &ecirc;sses anormais afinal riscavam
+tantas letras como os normais. O facto
+resultava das condi&ccedil;&otilde;es em que primeiro
+experiment&aacute;ra:
+os alunos tinham sido observados
+isoladamente e na sua presen&ccedil;a. A
+ac&ccedil;&atilde;o da
+presen&ccedil;a do observador foi uma verdadeira
+ac&ccedil;&atilde;o estimulante. Postos os alunos &agrave;
+vontade,
+trabalhando sem estar sujeitos a vigil&acirc;ncia,
+diferen&ccedil;as, e grandes, logo se mostraram.
+<br />
+
+<br />
+
+O resultado das discord&acirc;ncias que observ&aacute;mos
+no nosso primeiro exame deve provir,
+em primeiro lugar, da ac&ccedil;&atilde;o da curiosidade
+despertada por aquele exerc&iacute;cio completamente
+novo; em segundo lugar da minha presen&ccedil;a e
+do ar solene que a prova tomou; em terceiro
+lugar talvez de nesta altura do ano se encontrarem
+mais fatigados os bons alunos, os alunos
+aplicados, que mais trabalharam, do que
+os desatentos habituais, pregui&ccedil;osos, menos
+aplicados, que menos se esfor&ccedil;aram.
+<br />
+
+<br />
+
+A li&ccedil;&atilde;o a tirar &eacute; de que
+n&atilde;o devemos procurar
+formar um ju&iacute;zo s&ocirc;bre a
+aten&ccedil;&atilde;o por
+um s&oacute; exame por meio de
+<em>tests</em>. &Eacute;
+necess&aacute;rio
+repetir e sempre ter o aluno &agrave; vontade, sem
+estar sujeito a uma vigil&acirc;ncia severa, nem &agrave;s
+nossas estimula&ccedil;&otilde;es por
+ac&ccedil;&atilde;o intimidante ou
+reconfortante, como diz <span class="smallcaps">Binet</span>.
+<br />
+
+<br />
+
+Em regra, fizemos cortar um s&oacute; sinal. H&aacute;
+vantagem, quando se quer acentuar as diferen&ccedil;as
+individuais, em empregar dois.
+<span class="smallcaps">Toulouse</span>
+<span class="pagenum">[99]</span>
+e <span class="smallcaps">Pi&eacute;ron</span>,
+na sua
+<em>T&eacute;cnica</em>, dizem obter-se
+por esta f&oacute;rma, em condi&ccedil;&otilde;es normais,
+um
+&oacute;ptimo de diferen&ccedil;a individual. Outro facto
+importante e interessante que observ&aacute;mos, no
+dia da primeira experi&ecirc;ncia, foi o de, ao
+contr&aacute;rio
+do que era de esperar, ver que as provas
+da tarde foram, em geral, superiores em
+velocidade e correc&ccedil;&atilde;o &agrave;s provas da
+manh&atilde;.
+Nos mesmos cinco minutos, os alunos, na sua
+maioria, percorreram uma maior extens&atilde;o de
+<em>test</em>, e cometeram menos erros. Ora
+era de
+esperar que, depois de quatro horas de trabalho,
+a aten&ccedil;&atilde;o tivesse baixado, em virtude de
+fadiga, que era natural que houvesse. &Ecirc;ste
+paradoxo resulta em primeiro lugar da surpr&ecirc;sa,
+da emo&ccedil;&atilde;o que deve ter causado a
+experi&ecirc;ncia
+da manh&atilde;. Os alunos nunca tinham
+sido sujeitos a ela; nunca tinham visto o
+<em>test</em>.
+Deviam estar em estado emocional semelhante
+&agrave;quele em que nos coloca um exame, de que
+nos arreceamos. &Aacute; tarde estavam mais calmos,
+e de mais a mais vim a saber que se lhes
+tinha explicado o fim da experi&ecirc;ncia e se os
+tinha animado. Al&ecirc;m disso, nestes exames, o
+aluno treina-se, aperfei&ccedil;oa-se, aprende a fazer
+o <em>test</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+E esta influ&ecirc;ncia do treino deve entrar em
+linha de conta na interpreta&ccedil;&atilde;o dos resultados
+das experi&ecirc;ncias. Para anular a influ&ecirc;ncia do
+exerc&iacute;cio, aconselha-se a pr&aacute;tica do
+<em>m&eacute;todo
+das repeti&ccedil;&otilde;es</em>, que consiste em
+&laquo;fazer um
+grande n&uacute;mero de experi&ecirc;ncias preliminares
+at&eacute; que o exerc&iacute;cio tenha produzido todo o
+seu efeito&raquo;, at&eacute; que o examinando tenha adquirido
+<span class="pagenum">[100]</span>
+todo o treino. Podem tomar um conhecimento
+suficiente d&ecirc;ste m&eacute;todo lendo o que
+s&ocirc;bre &ecirc;le diz
+<span class="smallcaps">Clapar&egrave;de</span>
+no livro
+<em>Psychologie
+de l'enfant</em>, que conjuntamente com o livro
+de <span class="smallcaps">Binet</span>, <em>Les
+id&eacute;es modernes sur les enfants</em>,
+n&atilde;o me canso de aconselhar, e a que por mais
+de uma vez tenho com raz&atilde;o chamado
+<em>brevi&aacute;rios
+do educador</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Para terminar o que desejava dizer s&ocirc;bre
+as nossas primeiras experi&ecirc;ncias, apontarei o
+facto curioso de termos observado duas alunas
+da 4.&ordf; classe da escola anexa, que percorreram
+o <em>test</em>, n&atilde;o deslocando o
+olhar horizontalmente,
+seguindo as linhas, mas sim verticalmente,
+seguindo as colunas. A prop&oacute;sito lembra-me
+dizer-lhes que h&aacute; quem tenha recomendado,
+como convindo mais &agrave; leitura, o
+dispor as palavras em linhas verticais e n&atilde;o
+em horizontais, como fazem os japoneses, por
+exemplo. Com o esf&ocirc;r&ccedil;o e o movimento dos
+olhos que se executam percorrendo uma palavra
+horizontalmente, pode-se, com a disposi&ccedil;&atilde;o
+em linhas verticais, atravessar umas poucas
+de palavras e abreviar a leitura.
+<br />
+
+<br />
+
+O facto que se deu mostra que antes de
+iniciar a experi&ecirc;ncia com a prova de
+<span class="smallcaps">Toulouse</span>
+e <span class="smallcaps">Vaschide</span> se deve
+explicar a
+maneira
+de proceder.
+<br />
+
+<br />
+
+Habitualmente costumo destinar cinco minutos
+para a experi&ecirc;ncia e contar no fim o
+n&uacute;mero total de sinais existentes no trecho
+do <em>test</em> que cada um observou,
+contando depois
+o n&uacute;mero de erros, conjuntamente os
+erros de omiss&atilde;o ou falta de supress&atilde;o, e os
+<span class="pagenum">[101]</span>
+de troca de sinal, ou erros de reconhecimento.
+<br />
+
+<br />
+
+O n&uacute;mero total de sinais existentes no
+trecho <em>visto em cinco minutos</em>
+indica-nos, para
+cada um, a velocidade; a percentagem dos
+erros indica-nos o grau de correc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Como os futuros professores, na sua escola,
+n&atilde;o v&atilde;o ter naturalmente &agrave; sua
+disposi&ccedil;&atilde;o
+f&ocirc;lhas com os sinais de
+<span class="smallcaps">Toulouse</span> e
+<span class="smallcaps">Vaschide</span>,
+fiz praticar alguns exames da aten&ccedil;&atilde;o,
+pelo m&eacute;todo de correc&ccedil;&atilde;o de provas,
+utilizando
+trechos do pr&oacute;prio livro de leitura dos alunos,
+fazendo-os cortar duas letras igualmente vis&iacute;veis,
+e atraindo igualmente a aten&ccedil;&atilde;o,
+<em>b</em> e
+<em>d</em>,
+<em>b</em> e
+<em>t</em> por exemplo, mudando de letras de
+experi&ecirc;ncia
+para experi&ecirc;ncia, para evitar a influ&ecirc;ncia
+do treino. Fazia tamb&ecirc;m com que
+todos os alunos cortassem letras no mesmo
+tempo (cinco minutos, em regra, como j&aacute; disse)
+e no fim recolhia os livros de leitura para
+tomar nota do n&uacute;mero total de letras escolhidas
+existentes no trecho examinado em cinco
+minutos, e estabelecia a propor&ccedil;&atilde;o por cento
+das faltas que tivessem cometido.
+<br />
+
+<br />
+
+Dos processos que pratic&aacute;mos aquele que
+particularmente aconselharei &eacute; o de <span class="smallcaps">Van
+Biervliet</span>,
+que j&aacute; descrevi, e em que se mede a
+aten&ccedil;&atilde;o visual pela velocidade da
+correc&ccedil;&atilde;o
+de provas, indicando para isso ao aluno um
+trecho com um determinado n&uacute;mero de uma
+ou duas letras escolhidas (todos os
+<em>b</em> e
+<em>d</em> por
+exemplo) e fazendo-o verificar &ecirc;sse n&uacute;mero,
+devendo recome&ccedil;ar tantas vezes o trabalho
+quantas as necess&aacute;rias para encontrar o n&uacute;mero
+<span class="pagenum">[102]</span>
+indicado. A velocidade &eacute; expressa pelo
+tempo de dura&ccedil;&atilde;o da prova, para cada um.
+&Ecirc;ste <em>test</em>
+obt&ecirc;m-se em regra em dois ou tr&ecirc;s
+minutos, e os meus alunos que assistiram &agrave;s
+experi&ecirc;ncias viram como &ecirc;le com facilidade
+permite comparar a aten&ccedil;&atilde;o visual dos alunos
+de uma classe, e agrup&aacute;-los debaixo do ponto
+de vista da aten&ccedil;&atilde;o. As experi&ecirc;ncias em
+que
+pratic&aacute;mos &ecirc;ste processo mostram-nos bem a
+influ&ecirc;ncia que a fadiga tem s&ocirc;bre a
+aten&ccedil;&atilde;o.
+Comparando os resultados obtidos nas experi&ecirc;ncias
+da manh&atilde;, antes de come&ccedil;arem as
+aulas, com os obtidos &agrave; tarde, ao fim delas,
+verificou-se com facilidade que o n&uacute;mero de
+alunos do primeiro grupo, o dos que realizaram
+a prova com mais rapidez, diminuiu: e
+mais se viu que, naqueles que na segunda
+vez ainda figuravam entre os primeiros, a velocidade
+era menor &agrave; tarde do que de manh&atilde;;
+a prova durava mais. O processo que <span class="smallcaps">Van
+Biervliet</span> recomenda, e que &eacute; aquele de
+que
+estou falando, tem o inconveniente de exigir
+para uma f&aacute;cil verifica&ccedil;&atilde;o da
+dura&ccedil;&atilde;o da prova,
+e evitar que nos enganem, exigir, dizia, o
+exame dos alunos por pequenos grupos, de
+quatro a cinco. Para tirar conclus&otilde;es &eacute;, como
+em todos os de que falei, necess&aacute;rio repetir
+as experi&ecirc;ncias. Como quest&atilde;o capital, mais
+uma vez direi que estas experi&ecirc;ncias psicom&eacute;tricas
+que se aconselham aos professores, n&atilde;o
+t&ecirc;m em vista, como muitos sup&otilde;em, distraindo-os
+das suas fun&ccedil;&otilde;es de professores, p&ocirc;-los
+na situa&ccedil;&atilde;o de investigadores ao
+servi&ccedil;o da
+sci&ecirc;ncia, a perscrutar leis, ou descobrir novos
+<span class="pagenum">[103]</span>
+factos, ou verificar observa&ccedil;&otilde;es daqueles que
+com uma prepara&ccedil;&atilde;o, profunda e especial, se
+consagram a estudos pedol&oacute;gicos. O professor
+deve fazer a pedologia necess&aacute;ria para praticar
+o ensino que lhe pertence e pratic&aacute;-lo nas
+melhores condi&ccedil;&otilde;es, e no maior ac&ocirc;rdo
+poss&iacute;vel
+com o feitio do seu educando, e com as
+regras pedag&oacute;gicas induzidas pelos pedologistas
+de profiss&atilde;o, por aqueles que especialmente
+se preparam para investiga&ccedil;&otilde;es
+scient&iacute;ficas
+na crian&ccedil;a, tendo em vista as suas
+aplica&ccedil;&otilde;es
+pedag&oacute;gicas.
+<br />
+
+<br />
+
+Os processos de medida da aten&ccedil;&atilde;o visual
+de que falei podem ser praticados pelo professor,
+sem que lhe tomem muito tempo, e
+podem servir-lhe, desde que se n&atilde;o esque&ccedil;a
+de certas precau&ccedil;&otilde;es, tendo em vista evitar a
+influ&ecirc;ncia de factores que perturbam os resultados
+ou a interpreta&ccedil;&atilde;o dos resultados destas
+experi&ecirc;ncias f&aacute;ceis, mas n&atilde;o simples,
+podem
+servir-lhe, dizia, para orientar convenientemente
+o seu ensino, e verificar, como por
+exemplo <span class="smallcaps">Van Biervliet</span>
+diz a
+prop&oacute;sito da
+medida da fadiga escolar, verificar o valor, o
+inter&ecirc;sse da sua pr&oacute;pria maneira de ensinar.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os <em>tests</em> n&atilde;o servem
+s&oacute; para julgar, por
+exemplo no nosso caso, do valor da aten&ccedil;&atilde;o e
+do gr&aacute;u da fadiga; servem tamb&ecirc;m como
+meios excelentes para educar, para treinar a
+<span class="pagenum">[104]</span>
+pr&oacute;pria aten&ccedil;&atilde;o do aluno. Demais
+&ecirc;les t&ecirc;m
+para o aluno o caracter, que mais lhes prende
+e chama a aten&ccedil;&atilde;o, de verdadeiros jogos, e
+como tal podem ser aproveitados. Com o fim
+de treinar a aten&ccedil;&atilde;o podereis, sem inconveniente
+nem perturba&ccedil;&atilde;o do ensino, mandar de
+vez em quando, durante alguns minutos, mesmo
+no decurso da pr&oacute;pria li&ccedil;&atilde;o, mandar
+cortar
+certas letras, uma, duas, tr&ecirc;s, etc, e estimular
+os alunos para ver quem mais correctamente
+e r&aacute;pidamente as corta. Ensinareis
+assim os vossos alunos a orientar a sua aten&ccedil;&atilde;o,
+e a fix&aacute;-la. &Eacute; uma verdadeira
+li&ccedil;&atilde;o de
+vontade. E o exame dos <em>tests</em> e a sua
+aprecia&ccedil;&atilde;o
+contribuem tamb&ecirc;m muito para a educa&ccedil;&atilde;o
+do professor; experimenta-lhe e disciplina-lhe
+a sua pr&oacute;pria aten&ccedil;&atilde;o e
+paci&ecirc;ncia e
+d&aacute;-lhe, pelas conclus&otilde;es a que leva, ensinamentos
+muito &uacute;teis &agrave; pratica do ensino. Cria-lhes,
+al&ecirc;m disso, um util&iacute;ssimo h&aacute;bito
+scient&iacute;fico:
+o h&aacute;bito de experimentar.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; das Universidades e dos seus cursos de
+psicologia e de pedologia, dos seus laborat&oacute;rios
+especiais, e da sci&ecirc;ncia livre e desinteressada
+e pura que muitas vezes nelas exclusivamente
+se professa, que t&ecirc;m sa&iacute;do os ensinamentos
+que transformam dia a dia a arte de
+ensinar e revolucionam a sci&ecirc;ncia pedag&oacute;gica.
+<br />
+
+<br />
+
+Se n&atilde;o se quere ir at&eacute; fazer com que a
+<span class="pagenum">[105]</span>
+prepara&ccedil;&atilde;o do professor prim&aacute;rio se
+fa&ccedil;a na
+pr&oacute;pria Universidade, como nalgumas partes
+sucede, &eacute; indispens&aacute;vel aproximar o mais
+poss&iacute;vel
+a <em>escola dos mestres</em> da
+Universidade,
+para que ela sofra a ben&eacute;fica influ&ecirc;ncia desta
+<em>alma mater</em>, onde se deve professar
+com todo
+o desenvolvimento a sci&ecirc;ncia da crian&ccedil;a, a
+antropologia da crian&ccedil;a, a pedologia, a base
+da pedagogia nova, da pedagogia scient&iacute;fica,
+da pedagogia natural, da pedagogia moderna,
+da verdadeira pedagogia.
+<br />
+
+<br />
+
+Que ao menos, como Credaro fez em It&aacute;lia,
+se crie junto &agrave;s Universidades <em>escolas
+pedag&oacute;gicas</em>,
+cursos de aperfei&ccedil;oamento para os futuros
+professores, e mesmo para os actuais.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Senhores:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Na Universidade &eacute; que se deve apurar no
+maior gr&aacute;u poss&iacute;vel o esp&iacute;rito
+scient&iacute;fico, o
+esp&iacute;rito de investiga&ccedil;&atilde;o e de
+cr&iacute;tica tolerante,
+o bom senso, aquele que permite descobrir a
+realidade e as possibilidades. E em nenhuma
+arte, mais do que na do mestre-escola, &eacute;
+necess&aacute;rio
+&ecirc;sse bom-senso, o excelente h&aacute;bito de
+observar e experimentar, que leva ao tacto e
+&agrave; paci&ecirc;ncia, indispens&aacute;veis para
+proveitosamente
+se lidar com crian&ccedil;as e saber conhec&ecirc;-las
+para saber ensin&aacute;-las.
+<br />
+
+<br />
+
+A aproxima&ccedil;&atilde;o do mestre prim&aacute;rio da
+Universidade
+<span class="pagenum">[106]</span>
+tem ainda outras vantagens. O esp&iacute;rito
+da Universidade deve ser o verdadeiro
+esp&iacute;rito democr&aacute;tico; difundir a cultura por
+todos, criar uma atmosfera em que se encontrem
+misturadas t&ocirc;das as ideas, todos os sentimentos
+que irradiam de todos os ramos da
+cultura e que contribuem, como diz
+<span class="smallcaps">Lanson</span>,
+&laquo;para abrir no esp&iacute;rito dos novos, antes da
+hora da especializa&ccedil;&atilde;o inevit&aacute;vel, o
+espect&aacute;culo
+total da sci&ecirc;ncia, a fim de fazer com que
+cada um seja mais do que um simples art&iacute;fice
+intelectual, para que todos compreendam a
+dignidade da tarefa que a cada um pertence,
+sabendo que la&ccedil;os a prendem ao todo.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; Universidade compete (e &eacute; nela que &eacute;
+mais f&aacute;cil isso fazer-se), compete formar a
+pr&oacute;pria nacionalidade e a pr&oacute;pria democracia.
+Juntando-se todos dentro dela e sofrendo-lhe
+a influ&ecirc;ncia, poder&aacute; mais f&aacute;cilmente
+fazer-se,
+do que nas escolas especiais se faz, fazer-se,
+dizia, com que desapare&ccedil;am os preconceitos
+de origem, de classe e de profiss&atilde;o. &laquo;De certo,
+como diz o Dr. <span class="smallcaps">Bernardino Machado</span>,
+na sua
+c&eacute;lebre ora&ccedil;&atilde;o de sapi&ecirc;ncia,
+<em>A Universidade e
+a na&ccedil;&atilde;o</em>, de certo que entre os
+diversos ramos
+da actividade humana h&aacute; classifica&ccedil;&atilde;o,
+mas
+revers&iacute;vel, &agrave; semelhan&ccedil;a do que
+acontece com
+a pr&oacute;pria &aacute;rvore natural, onde at&eacute; os
+ramos
+se podem transmudar em ra&iacute;zes e as ra&iacute;zes
+em ramos. O que n&atilde;o h&aacute; &eacute;
+subordina&ccedil;&atilde;o deprimente,
+do maior para o menor; como a n&atilde;o
+h&aacute;, de um para outro ramo, entre os profissionais
+que os cultivam. S&atilde;o todos hom&oacute;logos,
+todos irm&atilde;os&raquo;. &Ecirc;ste esp&iacute;rito
+de fraternidade
+<span class="pagenum">[107]</span>
+ninguem melhor o pode incutir do que
+o ensino universit&aacute;rio.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Meus senhores e particularmente meus alunos:
+n&atilde;o sofram da ilus&atilde;o do diploma, a mais
+perigosa de t&ocirc;das as ilus&otilde;es das escolas da
+nossa terra. N&atilde;o imaginem que o n&uacute;mero de
+valores com que no fim do seu curso a Escola
+Normal os brinda, e lhes premeia o seu esf&ocirc;r&ccedil;o,
+significa que s&atilde;o professores, aptos e prontos,
+cujo <em>valor profissional</em>,
+profissional repito,
+se pode medir exclusivamente, ou principalmente,
+olhando para um papel e para uma
+cifra.
+<br />
+
+<br />
+
+Um diploma distinto de uma das nossas
+escolas normais significa apenas que o aluno
+estudou e se apresentou distintamente na
+freq&ugrave;&ecirc;ncia
+das disciplinas dessas escolas. As nossas
+escolas normais s&atilde;o, como me parece que
+disse <span class="smallcaps">Guex</span>, o
+autorizado professor
+sui&ccedil;o, simples
+escolas prim&aacute;rias superiores com a cadeira
+de pedagogia. Nos valores da carta do normalista
+n&atilde;o influi ainda o curso de pedologia,
+nem a pedagogia tem um maior coeficiente do
+que o das disciplinas de cultura geral. Est&aacute;-me
+a lembrar o que h&aacute; dois anos me sucedeu
+com um candidato a professor da Casa Pia,
+que calorosamente defendia a sua pretens&atilde;o,
+insistindo em que devia ser preferido s&oacute; porque
+tinha 20 valores; muito simplesmente lhe
+retorqui:&mdash;<em>Imagine o senhor que n&atilde;o tem
+paci&ecirc;ncia,
+nem calma. &iquest;Dizem os seus valores
+alguma cousa s&ocirc;bre isso? &iquest;Quem o
+querer&aacute;
+para professor de seus filhos, se n&atilde;o
+tiver</em>
+<span class="pagenum">[108]</span>
+<em>aquelas qualidades? Professe, ensine primeiro;
+depois se ver&aacute; se &eacute; professor</em>.
+E, a prop&oacute;sito
+ainda, me lembro de uma outra anedota
+que uma vez ouvi contar, na aula de obstetr&iacute;cia
+da Universidade de Coimbra, ao querido
+e s&aacute;bio professor Dr. <span class="smallcaps">Daniel
+de
+Matos</span>. Contava
+&ecirc;le que um parteiro not&aacute;vel com quem
+uma vez convers&aacute;ra, falando-lhe dum grande
+&ecirc;rro profissional cometido por um m&eacute;dico,
+come&ccedil;ou assim a sua narrativa:&mdash;<em>Un jour,
+un coll&eacute;gue, pardon, un
+m&eacute;decin</em>...&raquo; H&aacute; na
+realidade muitas vezes uma grande dist&acirc;ncia
+entre um diplomado distinto e um distinto
+profissional.
+<br />
+
+<br />
+
+O professor prim&aacute;rio precisa de ter uma
+s&oacute;lida cultura geral, e conhecer bem os m&eacute;todos
+de ensinar, e o ser que tem a ensinar,
+mas n&atilde;o menos do que da erudi&ccedil;&atilde;o, deve
+tratar
+da sua educa&ccedil;&atilde;o scient&iacute;fica, do
+h&aacute;bito de
+investiga&ccedil;&atilde;o, adestrar a paci&ecirc;ncia,
+apurar o
+bom senso, e criar e fortalecer e desenvolver
+a f&eacute; e o entusi&aacute;smo pela sua
+profiss&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Aproxim&aacute;-lo da Universidade e nela p&ocirc;-lo
+em contacto com aqueles que mais prov&aacute;velmente
+subir&atilde;o e alcan&ccedil;ar&atilde;o os mais elevados
+lugares, os de dirigentes da sociedade, &eacute; contribuir
+n&atilde;o s&oacute; para lhe ampliar a cultura e
+para lhe desenvolver o esp&iacute;rito scient&iacute;fico,
+mas tamb&ecirc;m para o dignificar, e fazer estimar
+mais a sua profiss&atilde;o, a sua nobil&iacute;ssima e
+important&iacute;ssima
+miss&atilde;o de educador prim&aacute;rio,
+prim&aacute;rio em todos os sentidos da palavra.
+<br />
+
+<br />
+
+Bem haja quem organizou esta s&eacute;rie de
+confer&ecirc;ncias, de que a minha &eacute; &ecirc;ste ano
+a &uacute;ltima
+<span class="pagenum">[109]</span>
+em n&uacute;mero e em m&eacute;rito e bem haja a
+nobre Universidade de Lisboa por n&atilde;o ter duvidado
+abrir as suas salas aos professores prim&aacute;rios
+e permitir-lhes at&eacute; que das suas c&aacute;tedras
+falassem.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Escolas, escolas, constru&iacute;
+escolas</em>, se grita
+&agrave; maneira de Sarmiento, na cren&ccedil;a de que elas
+por si transformar&atilde;o e melhorar&atilde;o a sociedade.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Professores, professores, bons
+professores</em>,
+exclamarei eu, <em>porque &ecirc;les s&atilde;o
+indispens&aacute;veis
+para fazer as boas escolas</em>. E antes talvez de
+melhorar os processos da sua forma&ccedil;&atilde;o, talvez
+que antes disso seja prefer&iacute;vel fazer o que estamos
+aqui a fazer: dignificar a profiss&atilde;o, fomentar
+a considera&ccedil;&atilde;o por ela, atrair os mais
+aptos e criar o entusi&aacute;smo e a f&eacute;, que nesta
+modesta mas fundamental profiss&atilde;o ou, melhor,
+sacerd&oacute;cio do professor prim&aacute;rio, mais do que
+em nenhuma s&atilde;o precisos.
+<br />
+
+<br />
+
+Proteger o professor, honrar o professor, e
+fazer com que &ecirc;le seja o que deve ser e saiba
+honrar a sua profiss&atilde;o &eacute; contribuir para a
+valoriza&ccedil;&atilde;o
+da nossa terra. &Ecirc;les tudo t&ecirc;m em suas
+m&atilde;os, porque, como j&aacute; uma vez eu mesmo
+disse, nelas t&ecirc;m a Patria e os seus soldados.
+<br />
+
+<br />
+
+A vitalidade de uma na&ccedil;&atilde;o pode julgar-se
+pela maneira por que ela prepara e considera
+e paga os seus professores.
+<br />
+
+<br />
+
+&iexcl;Senhoras e senhores! &iexcl;Honrai o professor!
+<br />
+
+<br />
+
+Disse.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c8" id="c8"></a>
+<h3>DA INTELIG&Ecirc;NCIA DO ESCOLAR
+E DA SUA AVALIA&Ccedil;&Atilde;O<sup><a href="#n11">[11]</a></sup></h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="intro1">
+&laquo;<em>Vuota di sentimento e di azione
+l'intelligenza &egrave; una forma
+inconcepibile.</em>&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">Prof. <span class="smallcaps">Saffiotti</span>.
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; semelhan&ccedil;a do que t&ecirc;m feito outros
+paises
+em que a politica da Educa&ccedil;&atilde;o &eacute;
+politica
+dominante e onde, portanto, a arte de governar
+os homens se prende &iacute;ntimamente e depende
+intencionalmente da de governar as crian&ccedil;as,
+&agrave; semelhan&ccedil;a de algum d&ecirc;stes
+pa&iacute;ses onde
+a felicidade da Na&ccedil;&atilde;o se trabalha e
+f&oacute;rma
+principalmente na escola, abriu-se &ecirc;ste ano entre
+n&oacute;s um curso de aperfei&ccedil;oamento para professores
+prim&aacute;rios, em que eu tenho a honra
+de inaugurar o curso de Psicologia experimental.
+Em b&ocirc;a hora o seja.
+<br />
+
+<br />
+
+Longe de me poder considerar &agrave; altura dos
+<span class="pagenum">[112]</span>
+Mestres, a quem l&aacute; f&oacute;ra se tem confiado
+&ecirc;sse
+ensino de aperfei&ccedil;oamento, extensivo at&eacute; aos
+professores de escolas normais e aos inspectores
+prim&aacute;rios, esfor&ccedil;ar-me hei no entanto por
+me p&ocirc;r ao par deles no desejo de, segundo os
+seus ensinamentos, fazer com que as senhoras
+e os senhores adquiram o mais r&aacute;pidamente
+poss&iacute;vel no&ccedil;&otilde;es e h&aacute;bitos
+que se possam traduzir
+num imediato melhoramento do ensino
+pelo melhoramento dos mestres. N&atilde;o pretendo
+tanto aumentar-lhes a cultura, como sobretudo
+aperfei&ccedil;oar a arte de aproveitar a cultura e
+as aptid&otilde;es que j&aacute; t&ecirc;m, em grande parte
+at&eacute;,
+gra&ccedil;as &agrave; sua experi&ecirc;ncia profissional.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o farei o que costumo fazer no meu curso
+regular, agora de dois anos completos e
+onde insistentemente, minuciosamente, eu principalmente
+procuro: 1.&ordm; <em>Arreigar a
+convic&ccedil;&atilde;o
+de que os fen&oacute;menos ps&iacute;quicos s&atilde;o
+fen&oacute;menos
+de rea&ccedil;&atilde;o nervosa, suscept&iacute;veis de
+serem estudados
+por m&eacute;todos objectivos, e portanto de
+que a Psicologia &eacute; uma sci&ecirc;ncia
+biol&oacute;gica,
+uma sci&ecirc;ncia do quadro das sci&ecirc;ncias
+naturais</em>;
+2.&ordm; <em>de que a educabilidade &eacute; uma
+propriedade
+do sistema nervoso</em>; 3.&ordm; <em>de que
+essa,
+propriedade se pode estudar e cultivar segundo
+as normas habituais das experi&ecirc;ncias
+scient&iacute;ficas</em>;
+4.&ordm; <em>de que a avalia&ccedil;&atilde;o da
+educabilidade
+&eacute; o probl&ecirc;ma, psicol&oacute;gico fundamental
+do professor</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Qu&aacute;si saltarei s&ocirc;bre os tr&ecirc;s primeiros
+n&uacute;meros
+do meu programa habitual e ca&iacute;rei s&ocirc;bre
+o quarto, e estudarei, em sua companhia,
+aquilo para que os julgo mais habilitados e
+<span class="pagenum">[113]</span>
+que mais r&aacute;pidamente se poder&aacute; traduzir num
+melhoramento pedag&oacute;gico, de origem puramente
+psicol&oacute;gica: <em>A intelig&ecirc;ncia do
+escolar e
+a sua avalia&ccedil;&atilde;o</em>; tanto mais que
+para &ecirc;sse
+estudo se encontram prontos a serem utilizados
+pelos mestres dois pequenos volumes ao
+alcance de todos: <em>La medida del desarollo de
+la intelligencia en los ni&ntilde;os</em> de
+<span class="smallcaps">Binet</span> e
+<span class="smallcaps">Simon</span>,
+tradu&ccedil;&atilde;o espanhola do professor do Instituto
+nacional de surdos mudos, c&eacute;gos e anormais,
+de Madrid, sr. <span class="smallcaps">Orellana</span>,
+publicado
+em 1918, e a
+<em>Contribui&ccedil;&atilde;o para o
+estabelecimento de uma
+escala de pontos dos n&iacute;veis mentais das crian&ccedil;as
+portugu&ecirc;sas</em>, publicada por dois ilustres
+compatriotas nossos, a quem a bibliografia pedag&oacute;gica
+moderna portugu&ecirc;sa j&aacute; bastante
+deve: o sr. <span class="smallcaps">Antonio Sergio</span>
+e sua
+esposa a Sr.<sup>a</sup>
+D. <span class="smallcaps">Luiza Sergio</span>,
+contribui&ccedil;&atilde;o publicada em
+volume, em junho de 1919.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Num curso de psicologia objectiva, os fen&oacute;menos
+ps&iacute;quicos s&atilde;o considerados como
+<em>reflexos
+cerebrais</em>, como lhe chama
+<span class="smallcaps">Bechterew</span>,
+reac&ccedil;&otilde;es exteriores que dependem da
+experi&ecirc;ncia
+de cada indiv&iacute;duo, durante a sua vida.
+Estudam-se as reac&ccedil;&otilde;es do indiv&iacute;duo em
+rela&ccedil;&atilde;o
+com o meio ambiente, incluindo n&ecirc;ste o
+meio social e a pr&oacute;pria escola.
+<br />
+
+<br />
+
+As reac&ccedil;&otilde;es que particularmente estudamos,
+os fen&oacute;menos que constituem o objecto da
+<span class="pagenum">[114]</span>
+Psicologia objectiva, e que nela os procuramos
+estudar como se estudam os outros fen&oacute;menos
+da Natureza, dependem n&atilde;o s&oacute; da estrutura
+do indiv&iacute;duo e da ac&ccedil;&atilde;o da
+ocasi&atilde;o, mas tamb&ecirc;m
+de ac&ccedil;&otilde;es e reac&ccedil;&otilde;es
+anteriores a essa
+ocasi&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A ac&ccedil;&atilde;o de ocasi&atilde;o junta-se,
+<em>associa-se</em> nos
+seus efeitos aos efeitos das ac&ccedil;&otilde;es anteriores,
+de maneira que a reac&ccedil;&atilde;o &eacute;
+influ&iacute;da e regulada
+por estas. Eis a ess&ecirc;ncia do fen&oacute;meno
+mental.
+<br />
+
+<br />
+
+A educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; mais do
+que o aproveitamento
+desta propriedade do sistema nervoso,
+ou mais precisamente dos hemisf&eacute;rios cerebrais,
+desta <em>mem&oacute;ria associativa</em>
+(<span class="smallcaps">Loeb</span>), com
+o fim de, por meio dela, regular a actividade,
+o procedimento, a ac&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo.
+<br />
+
+<br />
+
+A educa&ccedil;&atilde;o &eacute; a
+utiliza&ccedil;&atilde;o da <em>mem&oacute;ria
+associativa</em>,
+&eacute; o regulamento intencional da experi&ecirc;ncia
+do indiv&iacute;duo, &eacute; a forma&ccedil;&atilde;o,
+a cultura,
+em obedi&ecirc;ncia a certos princ&iacute;pios e
+inter&ecirc;sses,
+do poder da sua <em>mem&oacute;ria
+associativa</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Ser&aacute; esta a
+<em>Intelig&ecirc;ncia</em>?
+<br />
+
+<br />
+
+Variadas e, por vezes, discordes s&atilde;o as
+defini&ccedil;&otilde;es
+que se d&atilde;o, e as significa&ccedil;&otilde;es que se
+atribuem a esta palavra.
+<br />
+
+<br />
+
+A intelig&ecirc;ncia talvez se possa definir, em
+psicologia objectiva, como uma manifesta&ccedil;&atilde;o
+externa da mem&oacute;ria associativa, que se caracteriza
+por actos de adapta&ccedil;&atilde;o &agrave;s
+varia&ccedil;&otilde;es das
+circunst&acirc;ncias. &Eacute;, at&eacute; certo ponto
+isto, se
+assim se pode dizer, uma tradu&ccedil;&atilde;o em linguagem
+fisiol&oacute;gica da concep&ccedil;&atilde;o que
+<span class="smallcaps">Bergson</span> exprime
+quando diz que a &laquo;fun&ccedil;&atilde;o essencial da
+<span class="pagenum">[115]</span>
+intelig&ecirc;ncia consiste em encontrar em quaisquer
+circunst&acirc;ncias os meios de se tirar de
+dificuldades.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; a intelig&ecirc;ncia uma
+utiliza&ccedil;&atilde;o da mem&oacute;ria
+associativa. &Eacute; a propriedade de ajustar os
+tra&ccedil;os das reac&ccedil;&otilde;es anteriores, isto
+&eacute;, a experi&ecirc;ncia
+individual anterior, &agrave; experi&ecirc;ncia da
+ocasi&atilde;o, para uma adapta&ccedil;&atilde;o a novas
+circunst&acirc;ncias,
+por meio de reac&ccedil;&otilde;es reguladas pela
+experi&ecirc;ncia anterior do indiv&iacute;duo, repito.
+<br />
+
+<br />
+
+A intelig&ecirc;ncia sob este ponto de vista, &eacute;
+uma manifesta&ccedil;&atilde;o externa, global, da
+mem&oacute;ria
+associativa, e que se avalia pela sua finalidade,
+pelo valor do ajustamento, em rapidez e
+perfei&ccedil;&atilde;o, &agrave;s
+varia&ccedil;&otilde;es quantitativas e qualitativas
+das circunst&acirc;ncias.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora esta f&oacute;rma de actividade mental deve
+depender n&atilde;o s&oacute; dos conhecimentos
+pr&oacute;priamente
+ditos, das ideas, mas tamb&ecirc;m do sentimento
+de prazer ou de d&ocirc;r que acompanhou
+as experi&ecirc;ncias anteriores e acompanha as
+actuais, isto &eacute;, da
+<em>afec&ccedil;&atilde;o</em>, se se
+quizer adoptar
+o termo que o sr. <span class="smallcaps">Antonio Sergio</span>
+emprega
+para designar o <em>elemento sentimental</em>
+(<em>Da
+Natureza da afec&ccedil;&atilde;o</em>, separata
+da &laquo;<span class="smallcaps">Revista
+Americana</span>&raquo;, 1913, p&aacute;g. 8.)
+<br />
+
+<br />
+
+A intelig&ecirc;ncia revela-se, portanto, em actos
+em que as ideas e os sentimentos influem, como
+nos <em>tropismos</em> influem certas
+subst&acirc;ncias.
+<br />
+
+<br />
+
+A intelig&ecirc;ncia depende do inter&ecirc;sse, das
+tend&ecirc;ncias, que, por sua vez, s&atilde;o
+fun&ccedil;&otilde;es da
+estrutura do indiv&iacute;duo, da natureza da sua
+experi&ecirc;ncia anterior e da natureza da experi&ecirc;ncia
+de ocasi&atilde;o.
+<span class="pagenum">[116]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Sendo assim, f&aacute;cil &eacute; compreender porque
+&eacute; que se podem considerar como n&atilde;o inteligentes,
+certos indiv&iacute;duos cuja f&oacute;rma de
+reac&ccedil;&atilde;o
+mental de adapta&ccedil;&atilde;o se revela dificiente
+em determinadas circunst&acirc;ncias, em certos
+meios.
+<br />
+
+<br />
+
+Percebe-se que, com <span class="smallcaps">Binet</span>,
+se
+distinga a
+intelig&ecirc;ncia escolar da intelig&ecirc;ncia extra-escolar,
+se porventura as circunst&acirc;ncias da escola
+s&atilde;o muito diferentes das de f&oacute;ra da escola e
+os inter&ecirc;sses que a escola desperta s&atilde;o diferentes
+do que a vida ordin&aacute;ria ou o meio extra-escolar
+despertam.
+<br />
+
+<br />
+
+H&aacute; intelig&ecirc;ncias que se n&atilde;o revelam na
+escola.
+<br />
+
+<br />
+
+Verdadeiramente, completamente inteligente,
+por&ecirc;m, &eacute; o que se ajusta a quaisquer
+circunst&acirc;ncias,
+&eacute; o que se mostra inteligente em qualquer
+meio.
+<br />
+
+<br />
+
+A intelig&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; apenas a
+intelig&ecirc;ncia
+que consiste em adaptar respostas a preguntas,
+na escola, falando, escrevendo ou calculando,
+mas tamb&ecirc;m a que se revela por actos e gestos
+de outra ordem, em circunst&acirc;ncias de t&ocirc;da
+a ordem.
+<br />
+
+<br />
+
+A intelig&ecirc;ncia julga-se pelo valor adaptivo
+do gesto ou do acto considerado debaixo do
+ponto de vista da sua prontid&atilde;o, rapidez,
+exactid&atilde;o
+e perfei&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A intelig&ecirc;ncia n&atilde;o tem um significado cognoscitivo
+apenas, revela&ccedil;&atilde;o e
+utiliza&ccedil;&atilde;o de
+conhecimentos; tem tamb&ecirc;m um significado moral
+e um significado est&eacute;tico, que se revelam
+na reac&ccedil;&atilde;o &agrave;s
+varia&ccedil;&otilde;es das condi&ccedil;&otilde;es
+morais
+<span class="pagenum">[117]</span>
+e est&eacute;ticas do meio, no condicionalismo &eacute;tico e
+est&eacute;tico da experi&ecirc;ncia.
+<br />
+
+<br />
+
+Compreende-se, pelo que lhes vou dizendo,
+que por exemplo, como faz <span class="smallcaps">Van
+Biervliet</span>,
+se classifique a intelig&ecirc;ncia em esp&eacute;cies:
+<em>intelig&ecirc;ncia
+cl&aacute;ssica</em>, isto &eacute;,
+intelig&ecirc;ncia que se
+revela principalmente nos trabalhos da classe,
+<em>intelig&ecirc;ncia pr&aacute;tica e
+intelig&ecirc;ncia est&eacute;tica</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Compreende-se tamb&ecirc;m que com propriedade
+se possa dizer que h&aacute; uma imbecilidade intelectual,
+uma imbecilidade est&eacute;tica e uma imbecilidade
+moral.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Kirckpatrick</span>
+considerando a
+intelig&ecirc;ncia,
+ou melhor a actividade intelectual, n&atilde;o
+pr&oacute;priamente
+sob o ponto de vista da sua finalidade,
+mas no do seu mecanismo, descreve, quatro
+tipos de intelig&ecirc;ncia, tendo como intelig&ecirc;ncia
+tudo aquilo que constitui acto de adapta&ccedil;&atilde;o
+individual, e assim descreve: um tipo
+de <em>intelig&ecirc;ncia
+fisiol&oacute;gica</em>, um tipo de
+<em>intelig&ecirc;ncia
+senso-motriz</em> ou
+<em>perceptiva</em>, um tipo de
+<em>intelig&ecirc;ncia
+representativa</em> e um tipo de
+<em>intelig&ecirc;ncia
+conceptual</em> ou
+<em>conceptiva</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+A primeira excluo-a eu aqui, porque n&atilde;o
+depende de fen&oacute;menos da <em>mem&oacute;ria
+associativa</em>.
+S&atilde;o fen&oacute;menos de adapta&ccedil;&atilde;o
+de outra ordem,
+pura adapta&ccedil;&atilde;o fisiol&oacute;gica, em que a
+pr&oacute;pria
+imuniza&ccedil;&atilde;o tem o seu lugar.
+<br />
+
+<br />
+
+Dos outros tipos convem dar-lhes hoje uma
+no&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Na <em>intelig&ecirc;ncia
+senso-motriz</em> ou
+<em>perceptiva</em>
+o que h&aacute;, o que a caracteriza &eacute; uma
+adapta&ccedil;&atilde;o
+imediata de movimentos e sensa&ccedil;&otilde;es de
+ocasi&atilde;o.
+Estes actos n&atilde;o se manifestam, n&atilde;o se repetem
+<span class="pagenum">[118]</span>
+sen&atilde;o quando est&iacute;mulos da mesma natureza
+actuam em circunst&acirc;ncias semelhantes.
+<br />
+
+<br />
+
+Por exemplo certos movimentos que se executam
+no decurso do j&ocirc;go do
+<em>foot-ball</em>, movimentos
+de equil&iacute;brio, de ataque, de defesa ou
+melhor os movimentos que, quando trope&ccedil;amos
+e vamos a cair, fazemos para nos equilibrarmos.
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o as pr&oacute;prias sensa&ccedil;&otilde;es
+que experimentamos,
+que <em>directamente</em> provocam e regulam
+os actos de adapta&ccedil;&atilde;o. De factos em
+rela&ccedil;&atilde;o com
+esta esp&eacute;cie de intelig&ecirc;ncia tratei eu num artigo
+s&ocirc;bre mutilados da m&atilde;o, que publiquei
+na <em>Medicina Moderna</em> do
+P&ocirc;rto, com o t&iacute;tulo
+<em>Intelig&ecirc;ncia motriz</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Na <em>Intelig&ecirc;ncia
+representativa</em> os actos da
+adapta&ccedil;&atilde;o podem ser provocados e regulados
+apenas por s&iacute;mbolos que se tenham associado
+a sensa&ccedil;&otilde;es anteriores. O acto pode executar-se
+em virtude duma experi&ecirc;ncia anterior regulada
+por ac&ccedil;&otilde;es semelhantes que v&iacute;ssemos
+executar ou que nos f&ocirc;ssem descritas. &Eacute; a
+experi&ecirc;ncia
+anterior de outros a regular a nossa.
+<br />
+
+<br />
+
+Na <em>conceptual</em> ou
+<em>conceptiva</em> o acto de
+adapta&ccedil;&atilde;o
+revela-se n&atilde;o s&oacute; na aus&ecirc;ncia de uma
+experi&ecirc;ncia
+<em>do mesmo tipo</em>, feita pelo
+pr&oacute;prio ou
+por outrem, vista ou descrita, como se dando
+nas mesmas circunst&acirc;ncias, mas em resultado
+de experi&ecirc;ncias <em>v&aacute;rias e
+diferentes</em>, do pr&oacute;prio
+e de outros.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma pessoa quando salta dum carro em
+movimento, pode faz&ecirc;-lo com sucesso ou porque
+j&aacute; o tenha feito outras vezes, e portanto
+associe as ac&ccedil;&otilde;es sensoriais de momento
+&agrave;s
+<span class="pagenum">[119]</span>
+reac&ccedil;&otilde;es anteriores
+(<em>intelig&ecirc;ncia
+senso-motriz</em>),
+ou porque j&aacute; tenha visto saltar outrem ou
+lhe tenham dito como se deve saltar
+(<em>intelig&ecirc;ncia
+representativa</em>), ou porque
+reac&ccedil;&otilde;es diferentes
+que tenha por si mesmo experimentado,
+observado ou visto descritas por outros,
+se tenham associado e combinado por forma a
+gerar o conhecimento das leis dos corpos em
+movimento, o que associado &agrave;s ac&ccedil;&otilde;es
+do momento
+regula o acto de adapta&ccedil;&atilde;o
+(<em>intelig&ecirc;ncia
+conceptual</em>).
+<br />
+
+<br />
+
+Em t&ocirc;das estas formas de intelig&ecirc;ncia se
+verifica a associa&ccedil;&atilde;o dos resultados das
+experi&ecirc;ncias
+anteriores aos das experi&ecirc;ncias do
+momento, da mesma natureza ou n&atilde;o. O acto intelectual
+&eacute; um acto de adapta&ccedil;&atilde;o e de
+revela&ccedil;&atilde;o
+da mem&oacute;ria associativa.
+<br />
+
+<br />
+
+Na escola, onde se governa e conduz a
+experi&ecirc;ncia do indiv&iacute;duo, em
+aten&ccedil;&atilde;o ao futuro,
+se utilizam ou devem utilizar e cultivar
+todos os tr&ecirc;s tipos de intelig&ecirc;ncia, e, para a
+instru&ccedil;&atilde;o, principalmente os dois
+&uacute;ltimos.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas nem t&ocirc;das as idades, nem em todos os
+indiv&iacute;duos da mesma idade a
+<em>intelig&ecirc;ncia</em> tem
+o mesmo valor. Compreende-se, portanto, bem
+o interesse que para o professor tem o saber
+e o poder analisar os actos intelectuais, por
+forma a, se assim se pode dizer, obter a
+<em>f&oacute;rmula
+qualitativa e quantitativa</em> da intelig&ecirc;ncia
+de cada um.
+<br />
+
+<br />
+
+Pode calcular-se essa f&oacute;rmula? Pode analisar-se
+a intelig&ecirc;ncia? Pode esta avaliar-se?
+Pode ser medida? Pode.
+<br />
+
+<br />
+
+A intelig&ecirc;ncia &eacute;, se quizerem empregar os
+<span class="pagenum">[120]</span>
+termos de <span class="smallcaps">Saffiotti</span>:
+&laquo;<em>a capacidade de estabelecer
+novas rela&ccedil;&otilde;es entre a pr&oacute;pria
+personalidade
+e as novas condi&ccedil;&otilde;es; &eacute; a capacidade
+de tirar destas rela&ccedil;&otilde;es
+interpreta&ccedil;&atilde;o adequada
+e conformar com ela a sua
+reac&ccedil;&atilde;o</em>&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+A intelig&ecirc;ncia, perante isto e perante o que
+lhes tenho dito, deve depender da estrutura do
+indiv&iacute;duo, das propriedades inatas, do momento
+do seu desenvolvimento, e tamb&ecirc;m da natureza
+e valor da sua experi&ecirc;ncia anterior, da
+sua cultura, regulada ou n&atilde;o intencionalmente
+por outrem.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora sendo assim poder&aacute; alguma coisa prever-se
+s&ocirc;bre a intelig&ecirc;ncia, estudando a estrutura,
+as caracter&iacute;sticas biol&oacute;gicas do
+indiv&iacute;duo,
+como se pode at&eacute; certo ponto julgar do
+valor de um motor, das suas capacidades, pelo
+estudo do maquinismo, da sua organiza&ccedil;&atilde;o,
+da sua anatomia, da sua estrutura, como se
+podem prever certas propriedades qu&iacute;micas,
+certas reac&ccedil;&otilde;es, observando caracteres
+organo-nol&eacute;pticos
+e f&iacute;sicos de certos corpos. &Eacute; esta a
+base da avalia&ccedil;&atilde;o da intelig&ecirc;ncia nos
+m&eacute;todos
+que assentam no estudo das correla&ccedil;&otilde;es
+psico-som&aacute;ticas
+e psico-fisiol&oacute;gicas.
+<br />
+
+<br />
+
+A intelig&ecirc;ncia pode ser avaliada tamb&ecirc;m
+analisando a forma, o mecanismo de certas
+reac&ccedil;&otilde;es ps&iacute;quicas elementares,
+sujeitando o indiv&iacute;duo
+a <em>provas</em> ps&iacute;quicas de
+diferente tipo e
+natureza em que sobretudo influi a maneira
+da actividade intelectual, o tipo ou a esp&eacute;cie
+da intelig&ecirc;ncia.
+<br />
+
+<br />
+
+Pode mesmo usar-se provas experimentadas
+em muitos, usando o que se chamam
+<em>tests</em>,
+<span class="pagenum">[121]</span>
+que n&atilde;o s&atilde;o outra cousa do que verdadeiros
+<em>reagentes mentais titulados</em>, ou, se
+quizerem
+tamb&ecirc;m verdadeiros <em>padr&otilde;es, tipos
+de reac&ccedil;&atilde;o</em>,
+em que a forma desta e a sua velocidade,
+foi pr&eacute;viamente <em>observada e medida em
+muitos</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um tipo de avalia&ccedil;&atilde;o em que se
+estuda
+ou analisa principalmente o mecanismo do
+acto intelectual, decomposto em elementos. &Eacute; a
+base dos m&eacute;todos de avalia&ccedil;&atilde;o fundados
+no
+estudo das correla&ccedil;&otilde;es
+psico-anal&iacute;ticas. Mas
+assim como na aprecia&ccedil;&atilde;o ou na
+classifica&ccedil;&atilde;o
+de um tipo de vinho n&atilde;o basta a analise
+pr&oacute;priamente
+dita; h&aacute; que proceder a uma aprecia&ccedil;&atilde;o
+global, tendo em vista o fim comercial,
+por exemplo, a que visa a aprecia&ccedil;&atilde;o, assim
+tamb&ecirc;m no exame de intelig&ecirc;ncia &eacute; por
+vezes
+necess&aacute;rio recorrer a um exame global, em
+que n&atilde;o se atende apenas ao mecanismo do
+acto, mas tamb&ecirc;m &agrave; sua finalidade e &agrave;
+finalidade
+da sua avalia&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora o educador n&atilde;o deve apenas preocupar-se
+com o mecanismo do acto intelectual
+do aluno, para o caracterizar e escolher o m&eacute;todo
+de ensino que mais convenha. O educador
+n&atilde;o toma o aluno <em>em
+branco</em>, se assim
+se pode dizer. Os actos intelectuais que &ecirc;le tem
+de regular, a experi&ecirc;ncia intelectual que &ecirc;le
+tem de conduzir, tem um passado que influi
+e est&aacute; em estreitas rela&ccedil;&otilde;es com os
+fins educativos.
+A experi&ecirc;ncia anterior do aluno tem
+uma grande import&acirc;ncia e valor, e est&aacute; dependente
+da sua idade e do meio em que viveu
+e vive.
+<span class="pagenum">[122]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Ao professor, no exame escolar da intelig&ecirc;ncia,
+conv&ecirc;m-lhe <em>reagentes</em>,
+<em>tests</em>, que precipitem
+em globo, em massa, se assim se pode dizer, a
+intelig&ecirc;ncia e d&ecirc;em a forma e a natureza desta,
+e tamb&ecirc;m a da sua experi&ecirc;ncia anterior.
+<br />
+
+<br />
+
+Se h&aacute; quest&atilde;o pedag&oacute;gica em que se
+possa
+falar de crian&ccedil;a portuguesa, e duma maneira
+geral de um tipo ou tipos nacionais de crian&ccedil;a,
+&eacute; a proposito da intelig&ecirc;ncia.
+<br />
+
+<br />
+
+O momento hist&oacute;rico regula a intelig&ecirc;ncia
+e deve regular a sua forma&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A psicologia de que carece o educador n&atilde;o
+pode nem deve viver afastada da &eacute;tica. E se
+h&aacute; quest&atilde;o psicol&oacute;gica em que
+h&aacute; que atender
+aos fins da educa&ccedil;&atilde;o, &eacute; a da
+intelig&ecirc;ncia.
+<br />
+
+<br />
+
+Recordo-me da profunda emo&ccedil;&atilde;o que me
+causou a leitura das palavras de um formoso
+livro, um dos que mais podem contribuir para
+a cultura do entusiasmo pela carreira de professor,
+o livro de <span class="smallcaps">M&uuml;nsterberg</span>:
+<em>A psicologia
+e o mestre</em>. Recordo-me. Diz &ecirc;le e eu
+repito:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;<em>Agora &eacute; evidente que o estudo
+dos meios
+psicol&oacute;gicos p&oacute;de ser &uacute;til
+s&oacute;mente quando as
+aspira&ccedil;&otilde;es do mestre tenham sido determinadas
+pela investiga&ccedil;&atilde;o &eacute;tica independente
+do fil&oacute;sofo.
+Por&ecirc;m t&atilde;o prontamente com estes fins,
+os resultados cada, vez mais ricos da psicologia
+experimental, devem ser levados ao mestre
+de tal modo que &ecirc;ste possa conhecer e escolher
+os meios &uacute;teis para a satisfa&ccedil;&atilde;o das
+suas aspira&ccedil;&otilde;es.</em>&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+A Educa&ccedil;&atilde;o &eacute; uma das artes em que a
+Psicologia serve a &Eacute;tica.
+<br />
+
+<br />
+
+Est&aacute; aberto o curso de Psicologia.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c9" id="c9"></a>
+<h3>INTELIG&Ecirc;NCIA E APERCEP&Ccedil;&Atilde;O<sup><a href="#n12">[12]</a></sup></h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="intro1">&laquo;Notre
+r&eacute;pr&eacute;sentation de la
+mati&eacute;re
+est la mesure de notre action
+possible sur les corps; ele r&eacute;sulte
+de l'&eacute;limination de ce qui n'interesse
+pas nos besoins et plus g&eacute;neralemente
+nos fonctions&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><span class="smallcaps">Bergson</span>:
+<em>Mati&eacute;re et
+m&eacute;moire</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Il faut respecter en nous les
+lois de la nature, acepter les devoires
+n&eacute;s de l'organisme, acomplir
+les fonctions pour lesquelles on est
+fait, avec le pouvoir &eacute;nerg&eacute;tique
+que l'on poss&eacute;de. Le but de la vie
+c'est tout le <em>perfectionement</em>
+possible,
+physique ou psychique, par la m&eacute;thode
+et la discipline&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><span class="smallcaps">Albert
+Deschamps</span>:
+<em>Les maladies de l'esprit et les
+asth&eacute;nies</em>.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Non seulement une conception
+m&eacute;canique de la vie est compatible
+avec l'ethique; ele semble &ecirc;tre la
+seule conception de la vie, qui puisse
+amener &aacute; comprendre o&uacute; est la
+source de l'&eacute;thique&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><span class="smallcaps">Loeb</span>:
+<em>La
+conception m&eacute;canique de la
+vie </em>(tradu&ccedil;&atilde;o francesa).</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Viver &eacute; essencialmente adaptar-se; &eacute; a luta
+pela adapta&ccedil;&atilde;o, &eacute; o
+esf&ocirc;r&ccedil;o para o ajustamento
+<span class="pagenum">[124]</span>
+do s&ecirc;r ao meio, acomodando-se, ajustando-se a
+&ecirc;le, ou ajustando-o a si pr&oacute;prio. Educar
+&eacute; favorecer,
+conduzir intencionalmente, met&oacute;dicamente
+&ecirc;sse ajustamento, essa adapta&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora o indiv&iacute;duo possui em si faculdades,
+capacidades de adapta&ccedil;&atilde;o, de ajustamento, de
+assimila&ccedil;&atilde;o, de utiliza&ccedil;&atilde;o
+do meio em que vive.
+Essas possibilidades revelam-se na sua actividade,
+na maneira porque procede, e desta actividade
+uma parte, uma forma h&aacute; que &eacute; herdada,
+que nasce com o indiv&iacute;duo, que &eacute; inata,
+que n&atilde;o &eacute; determinada pela experi&ecirc;ncia
+individual,
+que n&atilde;o &eacute; aprendida e outra que &eacute;
+adquirida, que resulta da experi&ecirc;ncia de cada
+um, dirigida ou n&atilde;o por outrem.
+<br />
+
+<br />
+
+Por vezes, qu&aacute;si sempre, a forma da actividade
+inata &eacute; favor&aacute;vel ao ajustamento do
+indiv&iacute;duo ao meio, &agrave;
+adapta&ccedil;&atilde;o, &agrave;s
+condi&ccedil;&otilde;es
+em que nasce e ordin&aacute;riamente se encontra, e
+a maior parte das vezes tamb&ecirc;m a forma de
+actividade adquirida &eacute; como esta favor&aacute;vel ao
+ajustamento.
+<br />
+
+<br />
+
+As condi&ccedil;&otilde;es mantendo-se as mesmas, a
+adapta&ccedil;&atilde;o verifica-se, as necessidades
+s&atilde;o conformes
+&agrave; capacidade de utiliza&ccedil;&atilde;o dos
+recursos.
+O indiv&iacute;duo est&aacute; adaptado ou adapta-se por
+instinto ou por h&aacute;bito. Se, por&ecirc;m, as
+circunst&acirc;ncias
+em que vive o indiv&iacute;duo s&atilde;o muito
+vari&aacute;veis, se se rompe o ajustamento, se h&aacute;
+conflito entre o instinto ou o h&aacute;bito e as
+circunst&acirc;ncias,
+o indiv&iacute;duo pode ou n&atilde;o readaptar-se,
+pode ou n&atilde;o assimilar o meio, utilizando-o,
+adaptando-o ou adaptando-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Concebe-se que haja seres que se adaptem,
+<span class="pagenum">[125]</span>
+independentemente da experi&ecirc;ncia, seres que
+nascem pode dizer-se, adaptados a certos meios,
+e s&oacute; neles e em precisas circunst&acirc;ncias podem
+viver: seres instintivos, ineducaveis, mas s&ocirc;bre
+que o educador pode ainda assim influir, colocando-os
+em meios os mais conformes com
+os seus instintos, e pela forma mais conveniente
+&agrave; sociedade.
+<br />
+
+<br />
+
+Concebe-se que haja seres que, al&ecirc;m de
+se ajustarem por instinto a certas circunst&acirc;ncias
+possam em virtude da experi&ecirc;ncia, conduzida
+ou n&atilde;o intencionalmente, adaptarem-se
+a ela, adquirindo estas formas de actividade
+que se chamam h&aacute;bitos, seres educ&aacute;veis
+s&ocirc;bre
+que o educador pode actuar criando os h&aacute;bitos
+que mais convenha, e que, como tive
+ocasi&atilde;o de lhes dizer, mostrar e demonstrar o
+ano passado, deve fazer-se segundo certas
+leis induzidas de experi&ecirc;ncias scient&iacute;ficas que
+se t&ecirc;m realizado.
+<br />
+
+<br />
+
+Concebe-se finalmente que haja seres que
+n&atilde;o s&oacute; se adaptem por instinto, ou por
+h&aacute;bito,
+que n&atilde;o s&oacute; se adaptem a precisas
+circunst&acirc;ncias,
+mas se adaptem tamb&ecirc;m f&aacute;cilmente a novas
+circunst&acirc;ncias, encontrando nelas sempre
+maneiras de se ajustar, de com elas viver em
+concord&acirc;ncia, s&ecirc;res inteligentes, s&ocirc;bre
+que o
+educador deve actuar variando o mais poss&iacute;vel
+as condi&ccedil;&otilde;es da experi&ecirc;ncia educativa,
+para
+que o mais poss&iacute;vel tamb&ecirc;m se apure este dom
+sublime da intelig&ecirc;ncia, do poder de utilizar o
+meio, que &eacute; a base da felicidade e do progresso.
+<br />
+
+<br />
+
+S&oacute; &eacute; verdadeiramente livre, quem &eacute;
+suficientemente
+inteligente.
+<span class="pagenum">[126]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Na li&ccedil;&atilde;o da abertura do curso de
+aperfei&ccedil;oamento
+do ano passado, li&ccedil;&atilde;o que intitulei
+<em>Da intelig&ecirc;ncia do escolar e da sua
+avalia&ccedil;&atilde;o</em>,
+li&ccedil;&atilde;o que devem ler, citei e adoptei, para certos
+casos, a defini&ccedil;&atilde;o de intelig&ecirc;ncia do
+Professor
+<span class="smallcaps">Saffiotti</span>:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Intelig&ecirc;ncia &eacute; a capacidade de
+estabelecer
+novas rela&ccedil;&otilde;es entre a pr&oacute;pria
+personalidade
+e as novas condi&ccedil;&otilde;es; &eacute; a capacidade
+de tirar
+destas rela&ccedil;&otilde;es,
+<em>interpreta&ccedil;&atilde;o</em>
+adequada e conformar
+com elas a sua reac&ccedil;&atilde;o&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+A intelig&ecirc;ncia &eacute; fun&ccedil;&atilde;o
+portanto da interpreta&ccedil;&atilde;o
+e s&oacute; se revela quando a interpreta&ccedil;&atilde;o
+&eacute; adequada e a reac&ccedil;&atilde;o a que a
+interpreta&ccedil;&atilde;o
+conduz por sua vez se revela em actos
+de adapta&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora &eacute; &ecirc;ste poder de
+<em>interpreta&ccedil;&atilde;o</em>
+que se
+chama a apercep&ccedil;&atilde;o. A intelig&ecirc;ncia
+depende
+da apercep&ccedil;&atilde;o, da maneira porque se interpreta.
+Quem interpreta por uma maneira inadequada
+&agrave;s conveni&ecirc;ncias da sua
+adapta&ccedil;&atilde;o,
+n&atilde;o se adapta, reage por forma desfavor&aacute;vel,
+n&atilde;o procede com intelig&ecirc;ncia.
+<br />
+
+<br />
+
+V&ecirc;em j&aacute; portanto quanto interessa o estudo
+da apercep&ccedil;&atilde;o. Leiam particularmente
+s&ocirc;bre
+esta o que vem da p&aacute;g. 430 &agrave; 434 da
+tradu&ccedil;&atilde;o
+franc&ecirc;sa do comp&ecirc;ndio de Psicologia,
+de <span class="smallcaps">William James</span>,
+4.&ordf;
+edi&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A interpreta&ccedil;&atilde;o ou
+apercep&ccedil;&atilde;o depende de
+uma s&eacute;rie de condi&ccedil;&otilde;es que, como
+ver&atilde;o em
+<span class="pagenum">[127]</span>
+<span class="smallcaps">James</span>,
+<span class="smallcaps">Lewes</span> denominou <em>a
+soma das condi&ccedil;&otilde;es
+psicoest&aacute;ticas</em>: a natureza do
+indiv&iacute;duo, o
+seu car&aacute;cter, a sua experi&ecirc;ncia, a sua
+educa&ccedil;&atilde;o,
+os seus h&aacute;bitos, o seu humor, etc. A
+apercep&ccedil;&atilde;o
+&eacute; uma faculdade intelectual contingente,
+que depende dos mais variados factores, desde,
+os mais materiais aos mais espirituais, desde
+as necessidades do corpo &agrave;s necessidades do
+esp&iacute;rito (usando a linguagem corrente), e s&ocirc;bre
+que, tanto pode actuar o m&eacute;dico como o
+professor, tanto o gimnasta como o fil&oacute;sofo.
+<br />
+
+<br />
+
+O aspecto f&iacute;sico, a forma do corpo por si
+indicam tend&ecirc;ncias, certas aptid&otilde;es
+psicol&oacute;gicas,
+certas necessidades, certos inter&ecirc;sses que
+conduzem a experi&ecirc;ncia do indiv&iacute;duo por
+forma a ele entrar em contacto com o meio
+em que vive, e que por sua vez conduz a
+determinada interpreta&ccedil;&atilde;o dele, e portanto o
+leva a reagir e proceder e adaptar-se por determinada
+forma. O psic&oacute;logo se quere descobrir
+a alma tem muito a ganhar em conhecer
+o corpo. Se quere prever a f&oacute;rma de
+reac&ccedil;&atilde;o
+do indiv&iacute;duo tem que estudar os org&atilde;os dessa
+reac&ccedil;&atilde;o; se quere ser psic&oacute;logo a
+valer tem que
+ser antrop&oacute;logo. O que tudo quere dizer que:
+psic&oacute;logo e antrop&oacute;logo, psicologia da
+crian&ccedil;a
+e pedologia f&iacute;sica, se devem entrela&ccedil;ar, se podem
+e se devem estudar conjuntamente.
+<br />
+
+<br />
+
+As anomalias mentais da crian&ccedil;a explicam-se
+por vezes f&aacute;cilmente se se estudar a
+forma, os caracteres do seu corpo, se se julgar
+do grau do seu desenvolvimento f&iacute;sico,
+se se v&ecirc; se o crescimento nela &eacute; normal ou
+n&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+H&aacute; caracteres mentais que s&atilde;o sintomas de
+<span class="pagenum">[128]</span>
+altera&ccedil;&otilde;es org&acirc;nicas, e
+perturba&ccedil;&otilde;es do crescimento
+que o m&eacute;dico pode corrigir para o professor
+depois aproveitar.
+<br />
+
+<br />
+
+H&aacute; no nosso corpo um &oacute;rg&atilde;o
+at&eacute; cuja influ&ecirc;ncia
+s&ocirc;bre a intelig&ecirc;ncia &eacute; tal que alguem
+j&aacute; o chamou <em>a gl&acirc;ndula da
+intelig&ecirc;ncia</em>
+(<span class="smallcaps">Pende</span>).
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; tal a import&acirc;ncia que o estudo da anatomia
+e da psicologia tem para o psic&oacute;logo
+que nos modernos trabalhos s&ocirc;bre as astenias,
+defeitos ou insufici&ecirc;ncias da energia org&acirc;nica,
+v&iacute;cios de funcionamento org&acirc;nico, se se
+caracterizam
+&ecirc;sses defeitos pela insufici&ecirc;ncia revelada
+nos actos de adapta&ccedil;&atilde;o social, e se vai
+at&eacute; a explicar a moral e a filosofia de muitos
+por essa insufici&ecirc;ncia de origem fisiol&oacute;gica,
+aparecendo-nos
+a moral como um ramo da biologia
+e a filosofia como uma arte dos psicast&eacute;nicos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Pierre Janet</span>, um dos
+maiores
+psic&oacute;logos
+da nossa &eacute;poca, foi at&eacute; a afirmar que talvez
+a filosofia n&atilde;o passasse duma doen&ccedil;a do
+esp&iacute;rito.
+A filosofia, de facto, parece a consequ&ecirc;ncia,
+a revela&ccedil;&atilde;o duma actividade interpretativa
+filha de uma atitude mental, duma
+tend&ecirc;ncia anciosa para a procura de
+rela&ccedil;&otilde;es
+entre as cousas e os factos que nos cercam
+e se passam no meio que nos circunda, e que
+as dificuldades de adapta&ccedil;&atilde;o, e a
+insufici&ecirc;ncia
+da adapta&ccedil;&atilde;o em certos gera.
+<br />
+
+<br />
+
+Seja como f&ocirc;r, o que lhes quero acentuar
+&eacute; que o estudo da psicologia e em particular o
+da <em>apercep&ccedil;&atilde;o</em>,
+que ser&aacute; o objecto principal
+do nosso curso d&ecirc;ste ano, tem muito a ganhar
+iniciando-se pelo estudo da influ&ecirc;ncia
+<span class="pagenum">[129]</span>
+das condi&ccedil;&otilde;es org&acirc;nicas neste
+fen&oacute;meno, e
+mais particularmente ainda pelo estudo da
+influ&ecirc;ncia que tanto na forma do processo
+aperceptivo, como na maneira por que se interpreta,
+como na natureza dos conhecimentos
+que se utilizam, influi o tipo fisiol&oacute;gico da
+crian&ccedil;a, as suas tend&ecirc;ncias inatas, a sua
+constitui&ccedil;&atilde;o,
+o seu temperamento, e a fase do
+crescimento em que se encontra.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Esta influ&ecirc;ncia do organismo na
+apercep&ccedil;&atilde;o,
+de que lhes tenho estado a falar, esta
+influ&ecirc;ncia do condicionalismo fisiol&oacute;gico na
+interpreta&ccedil;&atilde;o das circunst&acirc;ncias e na
+adapta&ccedil;&atilde;o
+a elas, &eacute; j&aacute; uma influ&ecirc;ncia do passado
+no presente, &eacute; a hereditariedade a comandar-nos,
+&eacute;, pode dizer-se a tradu&ccedil;&atilde;o
+fisiol&oacute;gica do
+mote que tantos t&ecirc;m j&aacute; glosado:
+<em>os mortos
+mandam</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas n&atilde;o &eacute; s&oacute; por esta forma que o
+passado
+se mistura com o presente e nos governa,
+nos imp&otilde;e at&eacute; certo ponto uma
+interpreta&ccedil;&atilde;o
+do presente, e nos regula, a nossa
+adapta&ccedil;&atilde;o &agrave;s novas
+condi&ccedil;&otilde;es. &Eacute; tamb&ecirc;m, e
+talvez ainda mais, pelo resultado da nossa
+pr&oacute;pria experi&ecirc;ncia, regulada, intencionalmente
+ou n&atilde;o, pelos outros, resultado das
+modifica&ccedil;&otilde;es
+que nas nossas reac&ccedil;&otilde;es vai introduzindo
+o contacto di&aacute;rio com o meio em que
+se vive, com a natureza e com a sociedade,
+<span class="pagenum">[130]</span>
+resultado da interfer&ecirc;ncia das ac&ccedil;&otilde;es
+desta
+com as nossas reac&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Dia a dia as nossas tend&ecirc;ncias, os nossos
+inter&ecirc;sses, o nosso saber, o nosso car&aacute;cter, a
+nossa experi&ecirc;ncia, s&atilde;o postos &agrave; prova,
+e dia
+a dia nos vamos consumindo na empr&ecirc;sa do
+ajustamento das nossas reac&ccedil;&otilde;es &agrave;s
+circunst&acirc;ncias.
+<br />
+
+<br />
+
+Impressiona-nos mais n&atilde;o o que &eacute;
+pr&oacute;priamente
+mais forte ou mais novo, mais estranho,
+mas o que &eacute; mais forte e estranho para
+n&oacute;s, aquilo que &eacute; novo para o ponto de vista
+dos nossos inter&ecirc;sses, que cahe na zona do
+nosso saber e das nossas necessidades e que
+n&oacute;s nos esfor&ccedil;amos naturalmente por assimilar
+na tend&ecirc;ncia vital, org&acirc;nica, da nossa
+adapta&ccedil;&atilde;o. O que n&atilde;o sabemos,
+n&atilde;o v&ecirc;mos;
+o que n&atilde;o experimentamos n&atilde;o sabemos.
+<br />
+
+<br />
+
+Palavras estranhas ou letras associadas
+mesmo ao acaso, tendemos a interpret&aacute;-las e a
+l&ecirc;-las, em nossa l&iacute;ngua. Desenhos informes,
+nuvens que o acaso amontuou, manchas que
+o acaso estampa, borr&otilde;es de tinta, tudo tendemos
+a interpretar como se fossem formas
+conhecidas e segundo os nossos conhecimentos
+e at&eacute; certo ponto os nossos inter&ecirc;sses.
+Sempre o passado a mandar; sempre segundo
+a nossa mentalidade e a nossa experi&ecirc;ncia!
+<br />
+
+<br />
+
+O mundo, a interpreta&ccedil;&atilde;o do que nos
+cerca, &eacute; fun&ccedil;&atilde;o do nosso organismo e
+da
+nossa experi&ecirc;ncia ou saber.
+<br />
+
+<br />
+
+A realidade &eacute; uma interpreta&ccedil;&atilde;o,
+consoante
+os nossos inter&ecirc;sses, e os nossos inter&ecirc;sses
+express&atilde;o da nossa organiza&ccedil;&atilde;o e da
+nossa
+<span class="pagenum">[131]</span>
+experi&ecirc;ncia, experi&ecirc;ncia livre, ou intencionalmente
+condicionada, como sucede na educa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Meditem as palavras de <span class="smallcaps">Bergson</span>
+que, livremente
+mas fielmente, julgo, assim poder
+traduzir:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;...O nosso car&aacute;cter, sempre presente a
+t&ocirc;das as nossas decis&otilde;es &eacute; bem a
+s&iacute;ntese
+actual de todos os estados por que j&aacute; pass&aacute;mos.
+Sob esta forma condensada, a nossa vida
+psicol&oacute;gica anterior existe para n&oacute;s mesmo
+mais do que o pr&oacute;prio mundo externo, porque
+d&ecirc;ste apercebemos apenas uma muito pequena
+parte, enquanto que pelo contr&aacute;rio utiliz&aacute;mos
+a totalidade da nossa experi&ecirc;ncia vivida
+j&aacute;, experimentada e feita.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Como que h&aacute;, como
+<span class="smallcaps">Bergson</span>
+tamb&ecirc;m diz,
+uma tend&ecirc;ncia constante do passado a reconquistar
+a sua influ&ecirc;ncia, actualizando-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Dir-se-ia que s&oacute; o g&eacute;nio n&atilde;o tem
+passado.
+<br />
+
+<br />
+
+Vejam qu&atilde;o longe nos leva, e interessante
+e vasto &eacute; &ecirc;ste tema da intelig&ecirc;ncia e da
+apercep&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o imaginem, por&ecirc;m, que apesar da
+<em>linguagem
+de subjectivo</em> que venho empregando,
+se n&atilde;o pode tamb&ecirc;m em <em>linguagem
+de objectivo</em>,
+ia dizer em linguagem scient&iacute;fica, em
+termos das sci&ecirc;ncias experimentais, n&atilde;o imaginem
+que se n&atilde;o podem tamb&ecirc;m interpretar,
+adoptando uma concep&ccedil;&atilde;o mec&acirc;nica da
+vida,
+estes fen&oacute;menos da apercep&ccedil;&atilde;o e da
+intelig&ecirc;ncia,
+pr&oacute;priamente dita.
+<br />
+
+<br />
+
+Reportando-nos a um not&aacute;vel trabalho de
+<span class="pagenum">[132]</span>
+<span class="smallcaps">Bohn</span> s&ocirc;bre
+a
+<em>din&acirc;mica, cerebral</em>,
+(<em>Rev. Philosophique</em>,
+mar&ccedil;o-abril de 1919) adoptemos a
+concep&ccedil;&atilde;o
+que &ecirc;le defende de que nos fen&oacute;menos
+ps&iacute;quicos se verifica uma das grandes leis da
+sci&ecirc;ncia f&iacute;sica, <em>a lei dos
+fen&oacute;menos rec&iacute;procos</em>.
+Quando se comprime um cristal de turmalina
+o cristal por &ecirc;ste facto electriza-se e a
+electriza&ccedil;&atilde;o
+desenvolve f&ocirc;r&ccedil;as que se op&otilde;em ao
+encurtamento
+do cristal.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando se aquece um cristal de turmalina
+o cristal electriza-se tamb&ecirc;m; a
+electriza&ccedil;&atilde;o
+traz consigo um arrefecimento do cristal.
+<br />
+
+<br />
+
+Dir-se-ia que o cristal que se electriza, apercebe
+a varia&ccedil;&atilde;o das circunst&acirc;ncias e tende a
+reagir de ac&ocirc;rdo com a interpreta&ccedil;&atilde;o
+adequada.
+Afinal &eacute; um sistema de f&ocirc;r&ccedil;as,
+orientado
+segundo um certo plano, que caracteriza
+o cristal e que reage contra as ac&ccedil;&otilde;es que
+tendem a perturbar-lhe o equil&iacute;brio ou alterar-lhe
+o plano.
+<br />
+
+<br />
+
+Pode conceber-se tamb&ecirc;m o indiv&iacute;duo como
+um sistema de f&ocirc;r&ccedil;as organizado segundo um
+plano heredit&aacute;rio, tendendo a reagir &agrave;s
+ac&ccedil;&otilde;es
+externas ou internas por maneira a op&ocirc;r-se
+ao desiquil&iacute;brio do plano da sua
+organiza&ccedil;&atilde;o,
+caracterizado por certas propriedades vectoriais,
+isto &eacute; que se manifestam em determinadas
+direc&ccedil;&otilde;es ou segundo certos vectores (instintos,
+tend&ecirc;ncias, inter&ecirc;sses).
+<br />
+
+<br />
+
+A cada ac&ccedil;&atilde;o vectorial ou polarizante
+corresponde,
+segundo <span class="smallcaps">Bohn</span>, uma
+ac&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca
+inversa, despolarizante.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando se excitam os sentidos, a excita&ccedil;&atilde;o
+que &eacute; transmitida ao c&eacute;rebro e dirigida depois
+<span class="pagenum">[133]</span>
+aos m&uacute;sculos, &agrave;s gl&acirc;ndulas e
+&agrave;s diferentes
+v&iacute;sceras provoca excita&ccedil;&otilde;es em sentido
+contr&aacute;rio, que prov&ecirc;m de todos estes
+dom&iacute;nios
+e vem por sua vez depois a reagir s&ocirc;bre os
+primeiros receptores. Os centros nervosos s&atilde;o
+excitados pelos sentidos e estes excitados pelos
+centros nervosos. A interfer&ecirc;ncia destas duas
+esp&eacute;cies de ondas nervosas, daria a mem&oacute;ria
+associativa, revelando-se na apercep&ccedil;&atilde;o e nos
+actos que a exteriorizam.
+<br />
+
+<br />
+
+Estas concep&ccedil;&otilde;es mec&acirc;nicas
+t&ecirc;m a vantagem
+de lhes mostrar que afinal os fen&oacute;menos
+que estudamos s&atilde;o fen&oacute;menos naturais que
+podem condicionar-se e utilizar-se como os
+outros.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando o professor conhe&ccedil;a bem esta mec&acirc;nica
+poder&aacute; ser t&atilde;o seguramente &uacute;til como
+o engenheiro que lida com as outras m&aacute;quinas.
+<br />
+
+<br />
+
+V&ecirc;em tamb&ecirc;m como com estas
+concep&ccedil;&otilde;es
+mec&acirc;nicas se pode f&aacute;cilmente compreender
+como cuidando do corpo e educando-o se pode
+influir na educa&ccedil;&atilde;o intelectual e moral, na
+maneira de interpretar o mundo e a sociedade
+e de com &ecirc;les harmonizar o indiv&iacute;duo e
+faz&ecirc;-lo viver em intelig&ecirc;ncia.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o imaginem que como muitos sup&otilde;em se
+despreza, nestas concep&ccedil;&otilde;es, o valor das ideas,
+n&atilde;o. Simplesmente intrepretamos a
+ac&ccedil;&atilde;o destas
+e utilizamo-las como no estudo dos tropismos
+se interpreta a ac&ccedil;&atilde;o e se utilizam as
+subst&acirc;ncias sensibilizadoras.
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo que impressiona os nossos sentidos
+tem repercuss&atilde;o s&ocirc;bre as nossas
+v&iacute;sceras, tem
+um coeficiente emocional que muito influi na
+<span class="pagenum">[134]</span>
+interpreta&ccedil;&atilde;o das circunst&acirc;ncias e na
+nossa
+maneira de proceder, na nossa actividade ou
+reactividade.
+<br />
+
+<br />
+
+Os org&atilde;os da circula&ccedil;&atilde;o s&atilde;o
+fortemente impressionados
+e influem no <em>tonus</em> nervoso, na
+energia nervosa de que muito depende a nossa
+intelig&ecirc;ncia. Gl&acirc;ndulas h&aacute; que, segundo
+a impress&atilde;o
+ou excita&ccedil;&atilde;o que sofrem, segregam
+mais ou menos subst&acirc;ncias
+(<em>hormonas</em>) que
+muito influem no <em>tonus</em> nervoso e nos
+fen&oacute;menos
+gerais da nutri&ccedil;&atilde;o, o que se pode vir a
+observar em altera&ccedil;&otilde;es ou certa
+orienta&ccedil;&atilde;o dos
+fen&oacute;menos de apercep&ccedil;&atilde;o e
+intelig&ecirc;ncia.
+<br />
+
+<br />
+
+O problema do educador &eacute; essencialmente
+um problema psicol&oacute;gico: tornar o real aceit&aacute;vel,
+e, conforme a natureza do indiv&iacute;duo, p&ocirc;r
+esta em equil&iacute;brio com a sociedade. Para isso
+carece de saber de que depende a apercep&ccedil;&atilde;o
+e como nela se pode influir; como afinal dar
+ao indiv&iacute;duo a no&ccedil;&atilde;o mais conforme com
+a
+natureza do meio social. O problema do educador
+&eacute; o problema da felicidade, que como
+diz <span class="smallcaps">Deschamps</span> se
+pode chamar uma
+&laquo;harmonia
+psico-social, uma adapta&ccedil;&atilde;o completa dos
+desejos aos poderes e dos poderes ao meio.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; afinal um problema de concilia&ccedil;&atilde;o, e
+esta deve ser o fim de tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+Est&aacute; aberto o nosso curso de psicologia
+experimental em que este ano particularmente
+me ocuparei dos fen&oacute;menos e estudo experimental
+da apercep&ccedil;&atilde;o, sobretudo debaixo do
+ponto de vista da gen&eacute;tica.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote">Lisb&ocirc;a, 8-10-920.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c10" id="c10"></a>
+<h3>S&Ocirc;BRE PSICOLOGIA, EST&Eacute;TICA
+E PEDAGOGIA DO GESTO
+<sup><a href="#n13">[13]</a></sup></h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="intro1">&laquo;qu'il
+soit
+permis &agrave; l'&eacute;cole d'insister
+sur ce qui nous rapproche.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Buisson.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O fim da arte &eacute; unir as almas, associando-as
+num mesmo sentimento...&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Tolstoi.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A simples cortezia de palavra, de
+express&atilde;o e de maneiras &eacute; j&aacute; uma
+revela&ccedil;&atilde;o
+de delicadeza est&eacute;tica.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Bernardino
+Machado.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;...si le geste est &agrave; la base de tous
+les arts, le principe de toute &eacute;ducation
+esth&eacute;tique (et m&ecirc;me de toute &eacute;ducation
+int&eacute;grale) ne sera-t-il pas la culture et
+le d&eacute;veloppement du sens cr&eacute;ateur des
+attitudes?&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Lalo.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Deve pois ser a m&iacute;mica a base de
+todo o ensino.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">J&uacute;lio
+Dantas.</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A Arte na escola n&atilde;o deve apenas ter em
+mira a cultura do sentimento est&eacute;tico; deve
+<span class="pagenum">[136]</span>
+principalmente ter em vista o aumentar a
+apet&ecirc;ncia escolar, o g&ocirc;sto pela escola,
+n&atilde;o s&oacute;
+para chamar para ela, mas sobretudo para
+facilitar a assimila&ccedil;&atilde;o dos conhecimentos, o
+aproveitamento escolar, tal como sucede com
+a arte na mesa, que visa principalmente a facilitar
+a digest&atilde;o dos v&aacute;rios e complicados
+cozinhados que nela se servem.
+<br />
+
+<br />
+
+Decorar a escola, por decor&aacute;-la, cobrir as
+paredes das salas da classe com quadros vistosos,
+embora dos melhores, enfeitar essas salas
+levando para elas flores, peixes, avezinhas,
+etc., ser&aacute; &uacute;til para a cultura
+est&eacute;tica, mas contribui
+para distrair do fim principal da escola,
+a n&atilde;o ser que as li&ccedil;&otilde;es versem
+s&ocirc;bre ou a
+prop&oacute;sito das decora&ccedil;&otilde;es, o que nem
+sempre &eacute;
+poss&iacute;vel, nem pr&aacute;tico. <span class="smallcaps">Van
+Biervliet</span>, a prop&oacute;sito
+da aten&ccedil;&atilde;o visual, dizia, numa das suas
+li&ccedil;&otilde;es, que as salas das classes deveriam ser
+como a sala do teatro de Bayreuth: n&atilde;o distrair
+do palco, da scena, do principal; os alunos
+n&atilde;o deveriam ver mais do que os
+<em>tests</em>
+utilizados na li&ccedil;&atilde;o. Nada os deveria distrair
+das estimula&ccedil;&otilde;es que o professor procura
+directamente
+praticar, para ensinar-lhes o que
+lhes quere ensinar.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas, minhas senhoras e meus senhores,
+embora mesmo que na arquitectura, na decora&ccedil;&atilde;o
+interior, no mobili&aacute;rio, nos livros, a arte
+que em tudo isso se ponha vise n&atilde;o s&oacute; a
+educa&ccedil;&atilde;o
+art&iacute;stica, mas principalmente o atra&iacute;r o
+aluno, o prender-lhe a aten&ccedil;&atilde;o, o tornar-lhe
+agrad&aacute;vel a escola, sem o distrair das
+li&ccedil;&otilde;es,
+mesmo que assim seja, se uma vez nela o
+<span class="pagenum">[137]</span>
+aluno se defronta com um professor, que por
+seus gestos e atitudes se torna rid&iacute;culo,
+antip&aacute;tico
+ou temido, um professor que n&atilde;o saiba
+nem ritmar convenientemente a sua voz, nem
+compor agrad&aacute;velmente a sua fisionomia, nem
+servir-se das express&otilde;es, dos gestos e das atitudes
+que mais atraem e prendem a crian&ccedil;a e
+tornam mais clara e interessante a li&ccedil;&atilde;o, se
+&ecirc;sse professor desconhece a influ&ecirc;ncia que a
+m&iacute;mica tem nos alunos, a import&acirc;ncia que as
+atitudes e a maneira de tratar e de falar t&ecirc;m
+na educa&ccedil;&atilde;o, se &ecirc;sse professor
+n&atilde;o tiver por
+int&ugrave;i&ccedil;&atilde;o nem por cultura o
+conhecimento do
+valor pedag&oacute;gico das estimula&ccedil;&otilde;es
+motrizes
+atraentes, n&atilde;o ser&aacute; s&oacute; o professor que
+ser&aacute;
+mau, a pr&oacute;pria escola, apesar de t&ocirc;da a sua
+arte, passar&aacute; a ser uma escola m&aacute;, porque
+deixar&aacute; de atrair e a falta de senso e de
+est&eacute;tica
+do professor tornar&aacute; assim essa escola, a
+que me refiro, pior do que uma outra, cuja
+arquitectura, cuja decora&ccedil;&atilde;o, cujo
+mobili&aacute;rio
+seja menos art&iacute;stico, seja mesmo inferior.
+<br />
+
+<br />
+
+A atitude, o gesto, a express&atilde;o fision&oacute;mica
+do professor actua directa e fortemente s&ocirc;bre
+o aluno, levando-o a tomar atitudes, a esbo&ccedil;ar
+gestos e a usar de uma express&atilde;o fision&oacute;mica
+que s&atilde;o o reflexo da atitude e da m&iacute;mica do
+professor. Mas n&atilde;o deve o professor apenas
+lembrar-se disto, e por isso cuidar da sua atitude
+e express&atilde;o, deve lembrar-se tamb&ecirc;m
+que, como diz <span class="smallcaps">Baldwin</span>,
+deve
+lembrar-se que
+o ver express&otilde;es emotivas noutrem n&atilde;o
+s&oacute;
+provoca directamente aquele que as v&ecirc; a colocar-se
+em atitudes semelhantes, levando-o a
+<span class="pagenum">[138]</span>
+reproduzir essas express&otilde;es, mas tamb&ecirc;m faz
+com que, uma vez esbo&ccedil;ados os movimentos
+provocados e assim iniciada a imita&ccedil;&atilde;o muscular,
+faz com que, dizia, os movimentos esbo&ccedil;ados
+despertem ou levem aos estados de
+consci&ecirc;ncia que ordin&aacute;riamente precedem essas
+reac&ccedil;&otilde;es emocionais. &Eacute; por isso, e
+ainda mais
+do que por meu feitio afectivo, que eu, na
+casa de educa&ccedil;&atilde;o, cuja
+direc&ccedil;&atilde;o me est&aacute; confiada,
+tanto uso da cortezia, procurando nunca
+esquecer-me de cumprimentar e de p&ocirc;r na
+minha express&atilde;o e nos meus gestos uma grande
+afabilidade.
+<br />
+
+<br />
+
+H&aacute;-de sempre lembrar-me o que comigo se
+passou, quando eu tinha quinze anos e havia
+pouco tempo que freq&ugrave;entava a minha Universidade:
+a Universidade de Coimbra. Encontrei-me
+uma vez com um cavalheiro de figura
+grave, todo &ecirc;le de preto, longas barbas brancas,
+que eu nunca tinha visto, que completamente
+desconhecia e que com grande espanto
+e como&ccedil;&atilde;o minha, sendo eu a &uacute;nica
+pessoa
+que na ocasi&atilde;o com &ecirc;le na rua se cruzava,
+se descobriu, cumprimentando-me grave e afectuosamente,
+logo me obrigando a mim a curvar
+num grande gesto e com um grande sentimento
+de respeito. Era o Reitor da Universidade,
+o ilustre e venerando professor Dr.
+<span class="smallcaps">Costa Sim&otilde;es</span>,
+cuja
+figura vim depois a conhecer
+e que hoje ainda, ao falar nela, me
+desperta uma emo&ccedil;&atilde;o fort&iacute;ssima. Era o
+Reitor
+que me ensinava a respeit&aacute;-lo.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s vezes, minhas senhoras e meus senhores,
+me sorrio, me sorrio sim, mas com pezar,
+<span class="pagenum">[139]</span>
+quando vejo por exemplo, alguns dos meus
+prefeitos virem procurar-me, p&aacute;lidos com um
+ar de c&oacute;lera mal contida, queixar-se de alunos
+que lhes faltaram ao respeito e satisfeito comigo
+fico, quando consigo logo, mostrando-me
+aos alunos com express&atilde;o um pouco diferente
+da habitual, consigo, dizia, lev&aacute;-los imediatamente
+a mudar a sua atitude de c&oacute;lera tamb&ecirc;m,
+como a do prefeito, e a tomarem uma
+atitude antag&oacute;nica, de obedi&ecirc;ncia, de pezar e
+de desg&ocirc;sto. H&aacute;, por vezes, na vida escolar,
+alguns epis&oacute;dios, que se passam entre educadores
+e educandos, que me lembram a scena
+dum animal investindo furioso contra um espelho,
+por nele ver reproduzida uma atitude
+de hostilidade que cresce e aumenta &agrave; maneira
+que &ecirc;le mais se encoleriza. Enfurece-se, sem o
+saber, contra si mesmo.
+<br />
+
+<br />
+
+Estou certo de que o facto de freq&ugrave;entemente
+se verem professores, pessoas ali&aacute;s de
+fino trato, tomarem nas aulas atitudes grosseiras
+e hostis, como o de pol&iacute;ticos ostentarem
+no gov&ecirc;rno atitudes completamente opostas
+aos sentimentos que mostravam fora dele, resulta
+da imita&ccedil;&atilde;o inconsciente de atitudes que
+viram na sua inf&acirc;ncia, ou na sua mocidade,
+nos que ensinavam e governavam.
+<br />
+
+<br />
+
+O professor &eacute; como o actor. O estado emocional
+do p&uacute;blico &eacute; um reflexo do seu pr&oacute;prio
+estado emocional, &eacute; uma reac&ccedil;&atilde;o
+simp&aacute;tica,
+provocada pela sua atitude, pelo seu gesto,
+pela sua express&atilde;o. E se o actor tem de cuidar
+e tem de estudar a est&eacute;tica da express&atilde;o,
+o professor qu&aacute;si tanto como &ecirc;le a deveria
+<span class="pagenum">[140]</span>
+estudar. Compreende-se bem porque &eacute; que
+<span class="smallcaps">Van Biervliet</span> diz,
+como disse:
+&laquo;<em>todo o mestre,
+e principalmente todo o professor prim&aacute;rio,
+deveria passar por um curso semelhante,
+aos dos conservat&oacute;rios, a fim de aprender a
+falar belamente (califasia) e expressivamente,
+ou melhor, direi, esculturalmente</em>.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Minhas
+Senhoras e meus
+Senhores:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A aten&ccedil;&atilde;o, como V. Ex.<sup>as</sup>
+sabem, &eacute; a
+faculdade
+base, &eacute; a faculdade m&atilde;e, &eacute; a
+m&atilde;e do
+que vulgarmente se chama a intelig&ecirc;ncia.
+Quem ensina, quem educa deve ter antes de
+mais nada em vista provocar a aten&ccedil;&atilde;o, prender
+a aten&ccedil;&atilde;o. Ora a aten&ccedil;&atilde;o
+depende intimamente
+do inter&ecirc;sse. &Eacute; indispens&aacute;vel que o
+professor saiba estimular agrad&aacute;velmente os
+sentidos que tem de utilizar no ensino. Se a
+sua atitude, se os seus gestos, se a sua express&atilde;o
+s&atilde;o de molde a repelir, o aluno n&atilde;o presta
+aten&ccedil;&atilde;o, desvia a aten&ccedil;&atilde;o.
+Mas n&atilde;o &eacute; ainda s&oacute;
+por isto que o professor se deve preocupar
+com a sua atitude, com os seus gestos, com a
+sua maneira de falar; n&atilde;o &eacute; s&oacute; para
+chamar
+a aten&ccedil;&atilde;o e para a prender. &Eacute; que o
+gesto, a
+express&atilde;o fision&oacute;mica, a maneira de nos
+apresentarmos
+aos alunos durante a li&ccedil;&atilde;o, quando
+falamos ou quando mostramos, ajudam a compreender
+o que dizemos e o que mostramos.
+Sabem V. Ex.<sup>as</sup> muito bem que se se fechar
+<span class="pagenum">[141]</span>
+os olhos, emquanto se ouve um discurso, se
+tem de fazer um maior esf&ocirc;r&ccedil;o para segui-lo,
+para o ouvir, para o interpretar. Os m&iacute;opes
+que assistam a um espect&aacute;culo sem as suas
+lunetas, e ver&atilde;o como parece que ouvem menos,
+e como o espect&aacute;culo se lhes torna inferior,
+menos interessante, menos agrad&aacute;vel, mais
+dif&iacute;cil de seguir. O gesto auxilia imensamente
+a express&atilde;o verbal, e tanto que um gesto mal
+adequado, ao que se diz, pode transtornar
+completamente o sentido da palavra.
+<br />
+
+<br />
+
+A m&iacute;mica auxilia tamb&ecirc;m a mem&oacute;ria.
+Inconscientemente
+est&aacute; provado isto), quando
+se ouve ou se v&ecirc; alguem, tendemos a imitar-lhe,
+quando mais n&atilde;o seja,
+<em>interiormente</em>, a
+express&atilde;o. As palavras que ouvimos articulam-se
+na nossa linguagem interior e tanto
+mais f&aacute;cilmente as compreendemos, quanto
+melhor elas forem articuladas. &Eacute; mais f&aacute;cil
+reter o que se diz lentamente e r&iacute;tmicamente,
+do que aquilo que se diz r&aacute;pidamente e com
+m&aacute; express&atilde;o. O ver esbo&ccedil;ar um gesto
+&eacute; por
+vezes bastante para antever um pensamento,
+e para nos recordarmos.
+<br />
+
+<br />
+
+E tanto a m&iacute;mica influi na mem&oacute;ria que
+hoje, em pedagogia moderna, se aconselha
+muito o empr&ecirc;go da m&iacute;mica como auxiliar
+important&iacute;ssimo
+do ensino. Est&aacute; demonstrado
+que &eacute; mais f&aacute;cil fazer fixar a um aluno o que
+se disse, gesticulando n&oacute;s e fazendo-o gesticular
+a &ecirc;le, quando repete, por forma apropriada,
+&eacute; claro, do que dizendo mon&oacute;tonamente e
+sem gesto e fazendo-o repetir sem gesto e
+sem express&atilde;o, papagueando.
+<span class="pagenum">[142]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Estou c&ecirc;rto (a minha experi&ecirc;ncia que j&aacute;
+n&atilde;o &eacute; pequena me autoriza a diz&ecirc;-lo),
+que os
+gagos at&eacute; certo ponto n&atilde;o gaguejam quando
+cantam, porque as imagens motrizes, no canto,
+s&atilde;o mais bem desenhadas, mais perfeitas,
+fixam-se melhor, esquecem-se menos, deformam-se
+menos. De resto o canto tem hoje um
+papel importante no ensino da articula&ccedil;&atilde;o, no
+ensino das l&iacute;nguas, mesmo nos normais. O
+gago, estou convencido, diga-se de passagem,
+&eacute; um doente da aten&ccedil;&atilde;o, por excesso de
+emotividade.
+<br />
+
+<br />
+
+E agora, para resumir: <em>um professor que
+gesticule com propriedade, que fale com
+correc&ccedil;&atilde;o,
+que articule perfeitamente, que diga
+com arte, que gesticule com arte, que se exprima
+com arte, n&atilde;o &eacute; s&oacute;
+agrad&aacute;vel, n&atilde;o &eacute;
+apenas um artista, &eacute; um excelente
+professor</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Minhas
+Senhoras e meus
+Senhores:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O estudo do gesto, da atitude, da express&atilde;o
+tem ainda uma outra import&acirc;ncia, uma
+outra vantagem pedag&oacute;gica de que ainda n&atilde;o
+falei: &eacute; a de servir excelentemente para conhecermos
+o aluno.
+<br />
+
+<br />
+
+Deixem-me assistir, sem ser visto, ao recreio,
+numa escola, e eu poderei, sem errar
+muito, fazer alguns ju&iacute;zos s&ocirc;bre o feitio mental
+dos alunos. A crian&ccedil;a at&eacute; aos onze anos
+&eacute;,
+<span class="pagenum">[143]</span>
+como diz <span class="smallcaps">Waynbaum</span>,
+uma
+esp&eacute;cie de alienado
+sem freio social, ou um grande actor. As suas
+atitudes, os seus gestos s&atilde;o francamente a
+express&atilde;o do seu estado afectivo. A vontade,
+a ast&uacute;cia, o c&aacute;lculo, o inter&ecirc;sse, as
+conveni&ecirc;ncias,
+os h&aacute;bitos n&atilde;o s&atilde;o ainda freios
+t&atilde;o poderosos
+que lhe dominem, que lhe mutilem ou
+deformem o estado afectivo, que no-lo ocultem
+ou o tornem dif&iacute;cil de descobrir: a express&atilde;o
+&eacute; sincera, &eacute; a tradu&ccedil;&atilde;o
+exacta do seu estado
+e, at&eacute; certo ponto, do seu car&aacute;cter habitual.
+<br />
+
+<br />
+
+A m&iacute;mica &eacute; duma eloq&ugrave;&ecirc;ncia
+impressionante.
+Examinai-a bem, examinai os gestos,
+as atitudes, a express&atilde;o fision&oacute;mica e podereis
+com facilidade fazer um ju&iacute;zo s&ocirc;bre o feitio
+mental, e principalmente s&ocirc;bre o estado afectivo
+na ocasi&atilde;o. Mandai, por exemplo, abrir a
+boca a uma crian&ccedil;a de menos de onze anos,
+para lhe examinar a garganta, e notai bem a
+express&atilde;o, a atitude, os gestos, a maneira de
+reagir: f&aacute;cilmente vereis qual &eacute; o grau de
+eloq&ugrave;&ecirc;ncia
+da fisionomia na crian&ccedil;a, e em grande
+parte verificareis a verdade do que digo.
+<br />
+
+<br />
+
+Dos onze anos para diante e mais tarde na
+puberdade, o gesto, a express&atilde;o, a atitude j&aacute;
+enganam mais; o exame &eacute; mais sujeito a erros.
+<br />
+
+<br />
+
+Nessa idade recorro muitas vezes ao exame
+do olhar, emquanto falo, e sobretudo ao do
+ap&ecirc;rto de m&atilde;o, d&ecirc;sse gesto de quem
+<span class="smallcaps">Vaschide</span>,
+num monumental trabalho de psicologia, disse
+ser um gesto em apar&ecirc;ncia banal, mas revelador
+de t&ocirc;da a nossa vida mental sub-consciente
+e a prop&oacute;sito do qual disse mais: &laquo;h&aacute;
+t&ocirc;da
+uma psicologia e da maior import&acirc;ncia neste
+<span class="pagenum">[144]</span>
+contacto musculo-t&aacute;ctil que eu chamarei mental.&raquo;
+O mesmo ilustre psic&oacute;logo franc&ecirc;s, que a
+morte t&atilde;o cedo roubou, examinando alienados
+do Asilo Villejuif, chegou &agrave; conclus&atilde;o de que
+aquele gesto t&atilde;o trivial pode fornecer importantes
+elementos para julgar da mentalidade
+dos internados, o que, at&eacute; certo ponto, confirma
+a opini&atilde;o do velho m&eacute;dico da
+Salpetri&egrave;re,
+<span class="smallcaps">Falret</span>, que pelo
+exame da
+m&atilde;o pretendia
+apreciar o estado mental dos seus
+doentes.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas n&atilde;o querendo em pedologia utilizar o
+exame do ap&ecirc;rto de m&atilde;o, o professor pode
+recorrer com facilidade e &ecirc;xito ao exame de
+outros gestos, com o fim de colher alguns elementos
+de ordem ps&iacute;quica.
+<br />
+
+<br />
+
+Na li&ccedil;&atilde;o de abertura do meu curso de Pedologia
+d&ecirc;ste ano, a prop&oacute;sito da medida da
+agudeza visual e da auditiva, debaixo do
+ponto de vista pedag&oacute;gico, disse eu: &laquo;O exame
+da agudeza visual e da auditiva presta-se
+tamb&ecirc;m a permitir-nos julgar at&eacute; certo ponto
+de certas qualidades de ordem ps&iacute;quica, que
+ao educador muito interessam conhecer. A
+maneira por que o aluno se apresenta, a rapidez,
+a lentid&atilde;o dos seus movimentos, a rapidez
+ou a lentid&atilde;o na leitura do quadro optom&eacute;trico,
+a maneira agitada ou, pelo contr&aacute;rio,
+lenta e d&oacute;cil por que se comporta, a precis&atilde;o
+ou a decis&atilde;o na compreens&atilde;o e
+execu&ccedil;&atilde;o das
+nossas ordens, tudo permite, com grande probabilidade
+de ac&ecirc;rto, formar um ju&iacute;zo, &uacute;til e
+necess&aacute;rio para o educador, s&ocirc;bre o grau de
+emotividade, ou s&ocirc;bre a <em>potencialidade
+nervosa</em>
+<span class="pagenum">[145]</span>
+de cada aluno, destrin&ccedil;ando particularmente
+os dois tipos extremos, o do
+<em>hiperst&eacute;nico</em>,
+agitado, e o do
+<em>hipost&eacute;nico</em>, tardo nas
+suas reac&ccedil;&otilde;es. O educador encontrar&aacute;
+nesse
+exame elementos importantes para calcular
+possibilidades na educa&ccedil;&atilde;o, e tirar
+indica&ccedil;&otilde;es
+muito &uacute;teis para a escolha dos meios educativos
+a empregar&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+E, como o exame da agudeza visual e da
+auditiva, h&aacute; outros que se podem praticar na
+escola e que permittem examinar com rigor
+os gestos, e por estes com certo &ecirc;xito julgar
+da mentalidade do aluno.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Ley</span>, a
+prop&oacute;sito de um
+estudo dinamom&eacute;trico
+dos alunos atardados da escola especial
+de Antu&eacute;rpia, fez notar que a
+observa&ccedil;&atilde;o das
+atitudes durante o exame da f&ocirc;r&ccedil;a de
+press&atilde;o,
+lhe permitiram verificar: 1.&ordm;&mdash;que os nervosos
+e indisciplinados, habitualmente atingem o
+m&aacute;ximo, dum jacto, bruscamente; 2.&ordm;&mdash;que
+nos ap&aacute;ticos a agulha do dinam&oacute;metro caminha
+para o m&aacute;ximo, com regularidade e lentid&atilde;o;
+e finalmente, 3.&ordm;&mdash;que nos ap&aacute;ticos mais
+acentuados, nos ap&aacute;ticos profundos, o m&aacute;ximo
+ordin&aacute;riamente era atingido depois de uma
+contrac&ccedil;&atilde;o lenta, seguida de uma pausa, a que
+por sua vez se seguiam algumas outras lentas
+e mais pequenas contrac&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas mais ainda. A t&iacute;tulo de exemplo, apresentarei
+a V. Ex.<sup>as</sup>, sob forma resumida, a
+parte mais interessante do resultado dum exame
+a que procedi, a fim de surpreender as
+caracter&iacute;sticas do ap&ecirc;rto de m&atilde;o em
+rapazes
+da Casa Pia, de 16 anos para cima, tomados
+<span class="pagenum">[146]</span>
+ao acaso, e chamados &agrave; minha presen&ccedil;a, sem
+saber para qu&ecirc;. &Aacute; medida que chegavam, e
+entravam isoladamente no meu gabinete, cumprimentava-os
+naturalmente estendendo-lhes a
+minha m&atilde;o; depois fazia-lhes algumas perguntas
+de pouca import&acirc;ncia para &ecirc;les, como era
+por exemplo, <em>qual o curso em que estavam?
+se tinham frequentado a oficina?</em> etc,
+inspeccionava-lhes
+a m&atilde;o, e media-lhes finalmente
+com um dinam&oacute;metro
+<span class="smallcaps">Mathieu</span> a
+f&ocirc;r&ccedil;a &agrave; press&atilde;o
+da m&atilde;o direita, procurando assim sugerir-lhes
+a idea de que eu o que desejava era estabelecer
+alguma rela&ccedil;&atilde;o entre a profiss&atilde;o e
+as caracter&iacute;sticas das m&atilde;os. Terminando
+&ecirc;ste
+exame, despedia-os naturalmente, estendendo-lhes,
+como no principio, a minha m&atilde;o. V&aacute;rias
+<em>nuances</em> surpreendi na maneira por
+que as
+m&atilde;os dos alunos se comportavam durante o
+cumprimento, mas f&aacute;cilmente as pude agrupar,
+distribuindo-as por tr&ecirc;s tipos
+caracter&iacute;sticos:&mdash;1.&ordm;&mdash;o
+dos que cumprimentam <em>entregando</em> a
+m&atilde;o, <em>sem apertar,
+abandonando-a</em>; 2.&ordm;&mdash;o
+dos que apertam a m&atilde;o, mais ou menos fortemente,
+sem tentar r&aacute;pidamente fugir com
+ela; 3.&ordm;&mdash;o dos que qu&aacute;si que n&atilde;o
+<em>apertam</em>, e
+que r&aacute;pidamente a procuram retirar ap&oacute;s o
+contacto (<em>m&atilde;os que fogem, m&atilde;os
+furtivas</em>).
+<br />
+
+<br />
+
+Dias depois de feita a minha observa&ccedil;&atilde;o,
+inesperadamente e sem dizer para que queria
+informa&ccedil;&otilde;es, apenas dizendo que era para um
+estudo, consultei separadamente o chefe dos
+prefeitos e o professor de curso freq&ugrave;entado
+pelos alunos, que mais em contacto e durante
+mais tempo est&aacute; com &ecirc;les. Foram tamb&ecirc;m
+consultados
+<span class="pagenum">[147]</span>
+alguns mestres de oficinas, daqueles
+poucos alunos entre os que eu examinei, que
+nelas andavam.
+<br />
+
+<br />
+
+O pedido da minha informa&ccedil;&atilde;o visava sobretudo
+saber se na opini&atilde;o das pessoas que
+eu consultava, os alunos eram ou n&atilde;o disciplinados,
+se se acomodavam ou n&atilde;o f&aacute;cilmente
+ao regimen habitual da Casa, e tamb&ecirc;m se
+eram considerados sinceros ou pelo contr&aacute;rio
+dissimulados. Ora, coisa interessante: no grupo
+dos que mal apertam a m&atilde;o, que r&aacute;pidamente
+a procuram furtar ao contacto da nossa, figuram
+os alunos que na lista das informa&ccedil;&otilde;es
+do professor e do prefeito t&ecirc;m as notas de dificeis
+de disciplinar, dissimulados, reservados,
+pouco sinceros; os que tem a nota firme de
+disciplinados, exemplares, sinceros, aparentando
+o que s&atilde;o, n&atilde;o dissimulando, est&atilde;o no
+grupo
+dos que cumprimentam apertando a m&atilde;o, e
+n&atilde;o fugindo; finalmente no grupo dos que
+n&atilde;o apertam e abandonam a m&atilde;o, dos que
+t&ecirc;m um aperto de m&atilde;o insignificativo, figura
+a maioria daqueles s&ocirc;bre que professor e prefeito
+tiveram d&uacute;vida em informar e traduziram
+o seu ju&iacute;zo por um ponto de
+interroga&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Isto a meu ver basta para acabar de ilustrar
+e documentar a tese de que a <em>simples
+observa&ccedil;&atilde;o dum gesto t&atilde;o trivial, como
+&eacute; por
+exemplo um ap&ecirc;rto de m&atilde;o, pode servir ao
+educador para fazer um r&aacute;pido e &uacute;til exame
+psicol&oacute;gico</em>.
+<span class="pagenum">[148]</span><br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Minhas
+Senhoras e meus
+Senhores:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Mas na escola, o gesto, a atitude, a fisionomia
+servem ainda para alguma cousa mais.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">S&eacute;guin</span>, no
+seu afamado
+livro s&ocirc;bre o <em>tratamento
+moral dos idiotas</em>, consagra
+<em>p&aacute;ginas</em>
+ao estudo e &agrave; prepara&ccedil;&atilde;o, no
+professor, do
+gesto, &laquo;desta forma orat&oacute;ria, como &ecirc;le
+diz, que
+t&ocirc;da a gente usa mais ou menos, mas muito
+mal e sem o saber&raquo;, e do olhar e da fisionomia,
+&laquo;meios, como &ecirc;le diz tamb&ecirc;m, de dirigir
+e possuir o aluno&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+A crian&ccedil;a compreende mais a nossa fisionomia
+e os nossos gestos do que a nossa palavra.
+De resto, a palavra &eacute; mais para mentir.
+O olhar e as m&atilde;os &eacute; que s&atilde;o as
+verdadeiras
+janelas da alma. &Eacute; dif&iacute;cil dissimular com o
+olhar e com o gesto, e estes melhores do que
+nada se prestam a traduzir com t&ocirc;da a verdade
+o estado do nosso esp&iacute;rito.
+<br />
+
+<br />
+
+Fixai o olhar do vosso educando, aprendei
+a usar de gestos apropriados, a traduzir pela
+express&atilde;o do olhar e pela maneira de gesticular
+a vossa inten&ccedil;&atilde;o e com facilidade podereis
+socegar o agitado, disciplinar o indisciplinado,
+tornar atento o distra&iacute;do, despertar o ap&aacute;tico,
+imobilizar quando quizerdes imobilizar, agir
+quando quizerdes que se movam, castigar
+quando quizerdes castigar, premiar quando
+quizerdes premiar, e por &ecirc;les mais f&aacute;cilmente
+do que com os vossos discursos podereis conseguir
+<span class="pagenum">[149]</span>
+o que constitui, tanto no ensino de
+anormais como de normais, o principal segredo
+da arte do educador: saber fazer do educando
+um amigo, saber apossar-se do aluno.
+<br />
+
+<br />
+
+Educai n&atilde;o s&oacute; com a alma; educai com
+alma.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Minhas
+Senhoras e meus
+Senhores:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O gesto, a atitude, n&atilde;o s&atilde;o apenas a
+express&atilde;o
+do estado afectivo, s&atilde;o por vezes a
+pr&oacute;pria causa do estado afectivo. Segundo
+<span class="smallcaps">William James</span>, o
+grande
+psic&oacute;logo americano,
+o estado emocional n&atilde;o &eacute; que determina a
+express&atilde;o emocional. A percep&ccedil;&atilde;o dum
+objecto,
+ou dum acto capaz de nos emocionar, provoca,
+como por reflexo, reac&ccedil;&otilde;es corporais,
+reac&ccedil;&otilde;es nervosas, que geram atitudes,
+express&otilde;es,
+gestos, perturba&ccedil;&otilde;es org&acirc;nicas e
+s&atilde;o
+estas reac&ccedil;&otilde;es corporais que, impressionando-nos,
+geram os estados afectivos. Como corol&aacute;rio
+desta tese, <span class="smallcaps">James</span>
+sustenta que
+t&ocirc;da a produ&ccedil;&atilde;o,
+volunt&aacute;ria e a sangue frio, das chamadas
+manifesta&ccedil;&otilde;es duma emo&ccedil;&atilde;o
+determina
+essa emo&ccedil;&atilde;o. Para comover-nos basta colocarmo-nos
+em atitude de como&ccedil;&atilde;o. Entristecereis
+se persistirdes em tomar atitudes de tristeza;
+cultivai as atitudes recolhidas, em flex&atilde;o,
+pr&oacute;prias
+dos humildes e tornar-vos heis humildes;
+curvai-vos em adora&ccedil;&atilde;o e acabareis por adorar;
+preparai-vos para admirar e admirareis.
+Se, pelo contr&aacute;rio, cuidardes principalmente de
+<span class="pagenum">[150]</span>
+atitudes abertas, em extens&atilde;o, pr&oacute;prias para
+exprimir a alegria ou a f&ocirc;r&ccedil;a, tornar-vos heis
+alegres, fortes, destemidos, senhores de v&oacute;s, e,
+se exagerardes, revoltados.
+<br />
+
+<br />
+
+Antes de James, pode-se dizer que os educadores
+haviam descoberto a teoria; pelo menos
+a experi&ecirc;ncia os levara a proceder de
+ac&ocirc;rdo com ela. A import&acirc;ncia que muitos
+d&atilde;o
+ao ensino da civilidade demonstra-o, e demonstra-o
+sobretudo o cuidado com que nos manuais
+de civilidade, nos livros que muitos chamam
+de educa&ccedil;&atilde;o, pr&oacute;priamente dita, e
+principalmente
+nos das casas de educa&ccedil;&atilde;o religiosa,
+demonstra-o sobretudo, dizia, o cuidado com
+que neles se prescrevem as regras que devem
+pautar o gesto, o tratamento, a atitude, a express&atilde;o
+do olhar, etc., t&ocirc;das visando, nas casas
+de educa&ccedil;&atilde;o religiosa, a mod&eacute;stia, o
+ar humilde,
+recolhido, obediente, por vezes servil, que
+leva ao estado de esp&iacute;rito que principalmente
+se tem em vista criar. Vale a pena ler, por
+exemplo, para verificar o que digo, vale a
+pena ler por exemplo o <em>Regulamento para as
+casas da Pia Sociedade de S. Francisco de
+Sales</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Compreende-se bem agora porque &eacute; que
+eu tanto me preocupo, quando falo com os
+meus alunos, ou quando &ecirc;les falam comigo,
+em aconselhar-lhes ou sugestionar-lhes uma
+atitude recta, firme, simples, afectuosa, for&ccedil;ando-os
+a fitarem-me naturalmente, serenamente,
+modestamente, e a falar sem cochichar, mas
+tamb&ecirc;m sem levantar demasiado a voz, procurando
+sempre regular-lhes a palavra e o gesto,
+<span class="pagenum">[151]</span>
+e dar-lhes um ar disciplinado e simp&aacute;tico. E
+se tanto me d&aacute; prazer ver a harmonia no andar,
+no falar, no gesticular, se tanto &agrave;s vezes
+me comovo, quando vejo desfilar ordenadamente
+e nobremente os rapazes da nossa Casa
+Pia, n&atilde;o &eacute; s&oacute; por simples
+emo&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica, &eacute;
+porque por aqueles sinais externos eu julgo
+do estado interno da nossa Casa. Vai bem.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Educadores, educai o corpo, que educareis
+o esp&iacute;rito</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Minhas
+Senhoras e meus
+Senhores:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os nossos gestos, as nossas express&otilde;es,
+constituem um dinamismo afectivo que n&atilde;o s&oacute;
+actua s&ocirc;bre os nossos pr&oacute;prios sentimentos, e
+exprimem o que n&oacute;s sentimos, mas tamb&ecirc;m
+actua s&ocirc;bre os sentimentos dos outros, infl&ugrave;indo
+fortemente neles. Os gestos, as atitudes,
+as express&otilde;es fision&oacute;micas s&atilde;o
+factores
+sociais important&iacute;ssimos. A sociedade &eacute; um
+verdadeiro campo de f&ocirc;r&ccedil;as afectivas. E a
+maneira de ser de cada um de n&oacute;s, e a maneira
+de nos exprimirmos, e de nos comportarmos
+actuam no meio em que vivemos como
+f&ocirc;r&ccedil;as orientadoras ou perturbadoras da ordem
+social.
+<br />
+
+<br />
+
+Habituar os nossos educandos &agrave;s atitudes
+e gestos de respeito, gestos de uma cortezia
+simples, mas atraente, &eacute; trabalhar pela
+<em>toler&acirc;ncia</em>,
+<span class="pagenum">[152]</span>
+pela &laquo;aceita&ccedil;&atilde;o serena das
+diferen&ccedil;as
+que existem entre os homens&raquo;, como diz
+<span class="smallcaps">Lanson</span>.
+Procedendo assim aumentar-se h&aacute; a f&ocirc;r&ccedil;a
+da solidariedade, criar-se h&aacute; a atmosfera mais
+favor&aacute;vel &agrave; descoberta da verdade, ao amor
+do belo e &agrave; pr&aacute;tica do bem, e vencer-se
+h&aacute;
+um dos nossos maiores inimigos internos:&mdash;&laquo;a
+intoler&acirc;ncia, que, como a ignor&acirc;ncia, ainda
+na express&atilde;o de <span class="smallcaps">Lanson</span>,
+&eacute; um instrumento de
+despotismo&raquo;, e de divis&atilde;o, acrescentarei eu.
+<br />
+
+<br />
+
+Como v&ecirc;des, a educa&ccedil;&atilde;o do gesto
+at&eacute; tem
+um alcance pol&iacute;tico. Como v&ecirc;des at&eacute;
+pode contribuir
+para a solu&ccedil;&atilde;o do nosso maior problema:
+o problema da <em>unidade nacional</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Mais uma vez me conven&ccedil;o de que os nossos
+maiores problemas s&atilde;o problemas pedag&oacute;gicos.
+Mais uma vez me conven&ccedil;o de que a
+educa&ccedil;&atilde;o
+&eacute; a maior das f&ocirc;r&ccedil;as
+pol&iacute;ticas. Mais uma
+vez compreendo o sublime paradoxo, a que
+nos momentos mais dif&iacute;ceis da sua vida hist&oacute;rica
+com &ecirc;xito recorreram as duas grandes
+na&ccedil;&otilde;es
+europeias, centros dos dois poderos&iacute;ssimos
+sistemas de civiliza&ccedil;&atilde;o, que neste grandioso
+e aflitivo momento da vida da Europa,
+se batem e formid&aacute;velmente lutam; sim, mais
+uma vez compreendo porque &laquo;se foi pedir a
+salva&ccedil;&atilde;o da P&aacute;tria &agrave;
+for&ccedil;a em apar&eacute;ncia a
+menos feita para isso, aquela cuja ac&ccedil;&atilde;o
+&eacute;, por
+defini&ccedil;&atilde;o mesma, a mais modesta, a mais doce,
+a mais long&iacute;nqua&mdash;a
+educa&ccedil;&atilde;o&raquo;<sup><a href="#n14">[14]</a></sup>.
+<span class="pagenum">[153]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Recorramos tamb&ecirc;m n&oacute;s a ela.
+<em>Eduquemo-nos
+e eduquemos</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Que a arte entre na escola e que o fim da
+escola seja como o da pr&oacute;pria arte no dizer
+de <span class="smallcaps">Tolstoi</span>:&mdash;&laquo;unir
+as
+almas, associando-as
+num mesmo sentimento&raquo;. E que nesta ocasi&atilde;o
+de perigo, e sempre, todos os meios, todos os
+pretextos sirvam, como me est&aacute; servindo esta
+minha leitura, sirvam para cultivar o sentimento
+supremo e util&iacute;ssimo do amor da
+P&aacute;tria.
+<br />
+
+<br />
+
+Disse.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>ALGUMAS PUBLICA&Ccedil;&Otilde;ES
+DO AUTOR, S&Ocirc;BRE ASSUNTOS
+PEDAG&Oacute;GICOS<sup><a href="#n15">[15]</a></sup>
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Antropometria
+escolar</em>&mdash;Relat&oacute;rio apresentado ao IV
+Congresso Nacional da Liga Contra a Tuberculose, 1907.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Uma col&oacute;nia de
+f&eacute;rias</em>&mdash;Apontamentos de antropometria
+m&eacute;dica publicados no <em>Boletim da
+Assist&ecirc;ncia
+Nacional aos Tuberculosos</em> e na
+<em>Clinique infantile</em>, 1908.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Instru&ccedil;&atilde;o e pol&iacute;tica
+em Portugal</em>&mdash;Artigo publicado
+na <em>Alma Nacional</em>, 1909.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>A educa&ccedil;&atilde;o intelectual e moral
+da mocidade nos
+col&eacute;gios dos
+jesu&iacute;tas</em>&mdash;Confer&ecirc;ncia, 1910.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Carta dirigida ao Gr&atilde;o-Mestre da
+Ma&ccedil;onaria Portuguesa,
+no dia do Centen&aacute;rio do nascimento de Jos&eacute;
+Est&ecirc;v&atilde;o</em>, 1910.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>O ensino das sci&ecirc;ncias fisico-naturais na
+escola prim&aacute;ria
+portuguesa</em>&mdash;Artigo publicado na
+<em>Revista de
+Educa&ccedil;&atilde;o</em>
+e no <em>&Eacute;ducateur Moderne</em>,
+1910.
+<br />
+
+<br />
+
+Casa Pia de Lisboa&mdash;<em>Algumas
+observa&ccedil;&otilde;es s&ocirc;bre alunos
+gagos</em>&mdash;Artigo publicado na <em>Escola
+Nova</em>, 1912.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Refei&ccedil;&otilde;es
+escolares</em>&mdash;Artigo publicado na
+<em>Medicina
+Moderna</em>, 1912.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>A bem da
+Rep&uacute;blica</em>&mdash;Discurso lido na Casa Pia de
+Lisboa e publicado na <em>Revista de
+Educa&ccedil;&atilde;o Geral e
+T&eacute;cnica</em>, 1916.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Pneumogrames de b&eacute;gues&mdash;Contribution
+&agrave; l'&eacute;tude de
+l'emotivit&eacute;</em>, publicado no
+<em>Boletim da Sociedade Portuguesa
+de Sci&ecirc;ncias Naturais</em>, 1916.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Gimn&aacute;stica&mdash;escola de moral e de
+civismo</em>&mdash;Discurso
+proferido na Casa Pia, por ocasi&atilde;o da
+recep&ccedil;&atilde;o de
+Sua Ex.<sup>a</sup> o Presidente da Rep&uacute;blica e
+dos membros do
+Congresso de Educa&ccedil;&atilde;o F&iacute;sica,
+publicado na <em>Revista de
+Educa&ccedil;&atilde;o</em>, 1916.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Entre dois Congressos</em>&mdash;Artigo
+publicado no jornal
+<em>A Rep&uacute;blica</em>, 1908.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Elementos para a elabora&ccedil;&atilde;o de
+um projecto de distribui&ccedil;&atilde;o</em>
+<span class="pagenum">[156]</span>
+<em>de &aacute;gua esterelizada aos alunos do Liceu de
+Cam&otilde;es</em>&mdash;Artigo publicado na
+<em>Medicina Moderna</em>, 1911.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Ensino &uacute;til e ensino
+utilit&aacute;rio</em>&mdash;Artigo publicado no
+<em>Tempo</em>, de Lisboa, 1911.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Cantinas escolares</em>&mdash;Carta ao Snr.
+Presidente da Rep&uacute;blica,
+publicada no jornal
+<em>Rep&uacute;blica</em>, 1911.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Numa festa da Casa Pia</em>, trechos dum
+discurso, publicado
+na <em>Revista de
+Educa&ccedil;&atilde;o</em>, 1913.
+<br />
+
+<br />
+
+Casa Pia de Lisboa&mdash;<em>S&ocirc;bre uns acidentes no
+recreio</em>&mdash;Artigo
+publicado no <em>Movimento
+m&eacute;dico</em>, 1913.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Ensino dos surdos-mudos</em>&mdash;Discurso
+proferido por
+ocasi&atilde;o da abertura dum curso para
+habilita&ccedil;&atilde;o de professores
+de surdos-mudos, discurso publicado na
+<em>Educa&ccedil;&atilde;o</em>,
+1913.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>A spirometria em antropometria
+escolar</em>&mdash;Artigo publicado
+na revista <em>A Tutoria</em>, de Lisboa,
+1913.
+<br />
+
+<br />
+
+Educa&ccedil;&atilde;o
+f&iacute;sica&mdash;<em>Elogio do Dr. Jaime Mauperrin
+dos Santos</em>, lido na Sociedade de Geografia e
+publicado
+no <em>Sport de Lisboa</em>, 1914.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Dois documentos para a
+Historia</em>&mdash;Duas cartas a
+prop&oacute;sito de uma confer&ecirc;ncia s&ocirc;bre a
+educa&ccedil;&atilde;o nos col&eacute;gios
+de jesu&iacute;tas, publicadas na
+<em>Rep&uacute;blica</em>, 1914.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Da influ&ecirc;ncia dos trabalhos manuais no
+desenvolvimento
+do esp&iacute;rito</em>&mdash;Discurso lido na Casa Pia de
+Lisboa,
+por ocasi&atilde;o do Congresso Pedag&oacute;gico, e publicado
+no <em>Di&aacute;rio de Noticias</em> e
+em parte na <em>Medicina Contemporanea</em>,
+onde se encontram tabelas que o documentam,
+1914.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Uma ilus&atilde;o
+muscular</em>&mdash;Artigo publicado na
+<em>Medicina
+Contemporanea</em>, 1914.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Algumas considera&ccedil;&otilde;es
+s&ocirc;bre um cal&atilde;o escolar</em>&mdash;O
+cal&atilde;o da Casa Pia&mdash;Artigo publicado de
+colabora&ccedil;&atilde;o com
+Canuto Soares, na revista <em>A Aguia</em>,
+do Porto, 1914.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Arte e democracia</em>, Discurso, in
+<em>Atlantida</em>, 1918.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Como educar o oper&aacute;rio e seus
+filhos</em>, Tese Nacional
+do Livre Pensamento, in <em>Actas do
+Congresso</em>, 1918.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>No Lact&aacute;rio</em>, Discurso, in
+<em>A Aguia</em>, 1919.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Intelig&ecirc;ncia motriz</em>, in
+<em>A Medicina Moderna</em>, 1919.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Morfologia e educa&ccedil;&atilde;o
+f&iacute;sica</em>, in <em>Medicina
+Contenporanea</em>,
+1920.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>O foot-ball e as curvas do crescimento na Casa Pia
+de Lisboa</em>, in jornal
+<em>Football</em>, 1920.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: left; vertical-align: middle;"><big><big><big>LVMEN</big></big></big></td>
+
+ <td style="text-align: center;" valign="top">EMPRESA
+INTERNACIONAL EDITORA <br />
+
+ <br />
+
+Lisboa&mdash;Porto&mdash;Coimbra&mdash;Rio de Janeiro</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;" valign="top"><img style="width: 100px; height: 114px;" alt="" src="images/fig03.png" /></td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">
+ <h3>ULTIMAS PUBLICA&Ccedil;&Otilde;ES</h3>
+
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" class="tinyl" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td><span class="smallcaps">Dr. Mendes dos
+Remedios</span></td>
+
+ <td>&mdash;</td>
+
+ <td><b>Historia
+da Literatura
+Portuguesa</b>, 5.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><span class="smallcaps">Dr. Eugenio de
+Castro</span></td>
+
+ <td>&mdash;</td>
+
+ <td><b>Camafeus
+Romanos</b>&mdash;<em>Versos</em></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><span class="smallcaps">Teixeira de
+Pascoais</span></td>
+
+ <td>&mdash;</td>
+
+ <td><b>Maranos</b>,
+2.&ordf;
+edi&ccedil;&atilde;o&mdash;<em>Versos</em></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td><b>As Sombras</b>, 2.&ordf;
+Edi&ccedil;&atilde;o&mdash;<em>Versos</em></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td><b>Cantos Indecisos</b>, 1.&ordf;
+edi&ccedil;&atilde;o&mdash;<em>Versos</em></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><span class="smallcaps">Dr. Antonio
+Cabral</span></td>
+
+ <td>&mdash;</td>
+
+ <td><b>Terras
+Longinquas</b>&mdash;<em>Viagens</em></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><span class="smallcaps">Manuel da Silva
+Gaio</span></td>
+
+ <td>&mdash;</td>
+
+ <td><b>E&ccedil;a de
+Queiroz</b>&mdash;<em>Carta</em></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><span class="smallcaps">Jo&atilde;o
+Ameal</span></td>
+
+ <td>&mdash;</td>
+
+ <td><b>Em voz alta e em voz
+baixa</b>&mdash;<em>Dialogos</em></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><span class="smallcaps">Rui
+Gomes</span></td>
+
+ <td>&mdash;</td>
+
+ <td><b>Elementos de Teoria de
+Com&eacute;rcio</b>, 1.&ordf; parte</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><span class="smallcaps">Dr. Pedro
+Fazenda</span></td>
+
+ <td>&mdash;</td>
+
+ <td><b>A Crise Politica em
+Portugal</b></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="smallcaps"></span><br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Notas:</b>
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n1" id="n1"></a><sup>[1]</sup>
+Li&ccedil;&atilde;o de abertura do curso de Pedologia na
+antiga
+Escola Normal de Lisboa. Lida em 19 de Janeiro
+de 1915. Publicada no jornal da <em>Tutoria da
+Inf&acirc;ncia</em> e
+no <em>Anu&aacute;rio da Casa Pia de
+Lisboa</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n2" id="n2"></a><sup>[2]</sup>
+Li&ccedil;&atilde;o de abertura do Curso de Psicologia
+Experimental
+da Escola Normal de Bemfica, no 2.&ordm; semestre
+do ano lectivo de 1919-20. Publicada no <em>Boletim
+Bibliogr&aacute;fico
+da Bibliot&eacute;ca da Universidade de Coimbra</em>
+e no <em>Anu&aacute;rio da Casa Pia de
+Lisboa</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n3" id="n3"></a><sup>[3]</sup>
+Li&ccedil;&atilde;o de encerramento do Curso de Pedologia
+na Escola Normal de Lisboa no ano lectivo de 1914-15.
+Publicada no <em>Arquivo de Anatomia e
+Antropologia</em> do
+Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina de Lisboa,
+e no <em>Anu&aacute;rio da Casa Pia</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n4" id="n4"></a><sup>[4]</sup>
+Ao lado das tabelas e curvas do Dr. <span class="smallcaps">Mascarenhas
+de Melo</span> devem citar-se as tabelas e curvas de cuja
+exist&ecirc;ncia s&oacute; hoje tive conhecimento e que foram
+elaboradas
+pelo ilustre professor de gimn&aacute;stica desta Escola
+Normal, o Sr. <span class="smallcaps">Pedro Ferreira</span>,
+quando professor no extinto
+Col&eacute;gio de Campolide. &Ecirc;sses trabalhos foram
+publicados
+num folheto intitulado&mdash;<em>La gymnastique
+m&eacute;dicale
+au Coll&eacute;ge de Campolide</em>,&mdash;que foi
+apresentado,
+segundo me informa aquele meu venerando colega, seu
+autor, no Congresso de Higi&eacute;ne Escolar, realizado em
+Paris em 1910. Os dados colhidos pelo Sr. professor
+<span class="smallcaps">Pedro
+Ferreira</span> poder&atilde;o servir, particularmente,
+para um
+estudo das crian&ccedil;as da aristocracia portuguesa, visto que
+era sobretudo &agrave;s camadas aristocr&aacute;ticas da nossa
+sociedade
+que pertenciam os alunos de Campolide.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n5" id="n5"></a><sup>[5]</sup>
+Esta curva figura tamb&ecirc;m no &uacute;ltimo
+relat&oacute;rio
+da <em>Escola-oficina n.&ordm; 1</em>,
+onde o Dr. <span class="smallcaps">Manchego</span>
+tem feito
+observa&ccedil;&otilde;es antropom&eacute;tricas.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n6" id="n6"></a><sup>[6]</sup>
+Ainda h&aacute; minutos o sr. professor <span class="smallcaps">Pedro
+Ferreira</span>,
+ao ter conhecimento desta passagem da minha
+li&ccedil;&atilde;o, me informou de que tem verificado o facto
+nesta
+Escola e no Liceu Maria Pia, onde tem procedido a
+mensura&ccedil;&otilde;es.
+H&aacute; dias, neste nosso curso, entre as senhoras,
+me disse ter observado casos bem demonstrativos.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n7" id="n7"></a><sup>[7]</sup>
+Vd. sobre o assumpto desta li&ccedil;&atilde;o o livro do
+Snr. Dr. <span class="smallcaps">Alves dos
+Santos</span>:&mdash;<em>Educa&ccedil;&atilde;o
+Nova</em>&mdash;As
+bases&mdash;I&mdash;O <em>Corpo da
+crian&ccedil;a</em> (1919) e a confer&ecirc;ncia
+que preparei para a Escola de oficiais m&eacute;dicos milicianos
+e publiquei em 1917 no <em>Arquivo de Anatomia e
+Antropologia</em>, com o t&iacute;tulo:
+<em>Auxanometria militar</em>.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n8" id="n8"></a><sup>[8]</sup>
+Li&ccedil;&atilde;o de abertura do Curso de Pedologia da
+Escola Normal de Lisboa no ano lectivo de 1915-1916.
+Lida em 20 de Janeiro de 1916.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n9" id="n9"></a><sup>[9]</sup>
+Li&ccedil;&atilde;o de abertura do Curso de Pedologia na
+Escola Normal de Lisboa, no anno lectivo de 1916-1917.
+Lida e explicada, em 26 de Fevereiro de 1917. Publicada
+no <em>Boletim do Minist&eacute;rio da
+Instru&ccedil;&atilde;o P&uacute;blica</em>.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n10" id="n10"></a><sup>[10]</sup>
+Li&ccedil;&atilde;o de encerramento do curso de pedologia
+da
+Escola Normal de Lisboa, no ano lectivo de 1915-1916,
+lida na sala de F&iacute;sica da Faculdade de Sci&ecirc;ncias
+de
+Lisboa e publicada, como as duas anteriores, no
+<em>Boletim
+do Minist&eacute;rio da Instru&ccedil;&atilde;o
+P&uacute;blica</em> e no
+<em>Anu&aacute;rio da
+Casa Pia de Lisboa</em>.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n11" id="n11"></a><sup>[11]</sup>
+Li&ccedil;&atilde;o de abertura dum curso de
+aperfei&ccedil;oamento
+na Escola Normal Prim&aacute;ria de Lisboa (Bemfica), no ano
+lectivo de 1919-1920. Publicada na <em>Medicina
+Contemporanea</em>.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n12" id="n12"></a><sup>[12]</sup>
+Li&ccedil;&atilde;o de abertura do Curso de Psicologia
+experimental
+no ano lectivo de 1920-1921, publicada na
+<em>Medicina Contemporanea</em>.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n13" id="n13"></a><sup>[13]</sup>
+Confer&ecirc;ncia realizada no dia 17 de Abril de 1916,
+no Sal&atilde;o do Conservat&oacute;rio, e publicada em
+separata pela
+Sociedade de Estudos Pedag&oacute;gicos.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n14" id="n14"></a><sup>[14]</sup>
+Palavras de <span class="smallcaps">Ferdinand Buisson</span>.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n15" id="n15"></a><sup>[15]</sup>
+Excluem-se as publica&ccedil;&otilde;es que v&atilde;o
+reproduzidas e reunidas
+neste volume e alguns outros trabalhos publicados nos
+anu&aacute;rios da
+Casa Pia.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros
+corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui
+encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 61px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e1" id="e1"></a><a href="#p56">#p&aacute;g.
+56</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 121px;">infra-normais</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">supra-normais</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e2" id="e2"></a><a href="#p83">#p&aacute;g.
+83</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 121px;"><em>Montesss&oacute;ri</em></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;"><em>Montess&oacute;ri</em></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Algumas lições de psicologia e
+pedologia, by António Aurélio da Costa Ferreira
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ALGUMAS LIÇÕES DE PSICOLOGIA ***
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
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+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
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+
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+
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+concept of a library of electronic works that could be freely shared
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+
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