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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:55:37 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Contos + +Author: José Maria Eça de Queirós + +Release Date: February 22, 2010 [EBook #31347] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net + + + + + + +CONTOS + +PORTO--Imprensa Moderna + + + + + EÇA DE QUEIROZ + + CONTOS + + + TERCEIRA EDIÇÃO + + + PORTO + + LIVRARIA CHARDRON, DE LELO & IRMÃO, + EDITORES--RUA DAS CARMELITAS, 144 + + 1913 + +Todos os direitos reservados + + + + +Obras de EÇA DE QUEIROZ + +*O Crime do Padre Amaro*, 1 vol. 1$200 + +*O Primo Bazílio*, 1 volume 1$000 + +*O Mandarim*, 1 volume 500 + +*Os Maias*, 2 grossos volumes 2$000 + +*A Relíquia*, 1 grosso volume 1$000 + +*Correspondência de Fradique Mendes*, 1 volume 600 + +*A Ilustre Casa de Ramires*, 1 volume 1$000 + +*A Cidade e as Serras*, 1 volume 800 + +*Contos*, 1 volume 600 + +*Prosas Bárbaras*, 1 volume 600 + +*Cartas de Inglaterra*, 1 volume 500 + +*Ecos de Paris*, 1 volume 500 + +*Cartas Familiares*, 1 vol. 500 + +*Notas Contemporâneas*, 1 volume 1$000 + +*Últimas páginas* (manuscritos inéditos), 1 vol. 1$000 + +*Páginas esquecidas*, com um largo estudo de José Sampaio (Bruno) no prélo + +*As Minas de Salomão*, (tradução), 1 volume 600 + +*Revista de Portugal*, 4 grossos volumes (colaboração) 12$000 + + + + +A propriedade literária e artística está garantida em todos os países +que aderiram à convenção de Berne--(Em Portugal, pela lei de 18 de março +de 1911. No Brasil pela lei n.º 2.577 de 17 de Jan. de 1912.) + + * * * * * + + + + +A obra dispersa de Eça de Queiroz, desde os seus primeiros folhetins na +_Revolução de Setembro_ e na _Gazeta de Portugal_ até à sua assídua +colaboração na _Gazeta de Notícias_, do Rio de Janeiro, e na _Revista +Moderna_, é muito vasta, muito variada e encerra algumas das mais +maravilhosas páginas do grande e saudoso escritor. + +Os seus editores começam, com a publicação do presente volume, a +_compilação da obra póstuma e dispersa_, recolhendo cuidadosamente êsse +riquíssimo espólio, para o salvar, pelo livro, do esquecimento a que o +condenariam a dispersão das fôlhas diárias e a sua efémera vida. + +Os _Contos_ compreendem todos os escritos dêste género que Eça de +Queiroz nos deixou, a partir das _Singularidades duma rapariga loura_. +Os seus primitivos escritos na _Revolução_ e na _Gazeta de +Portugal_, obra mixta de fantasia e de crítica, seguir-se hão a êste em +outro volume, já no prelo, e a que uma feliz indicação do snr. Jaime +Batalha Reis[1] nos revelou o próprio título que o autor +determinara dar-lhe: _Prosas Bárbaras_. + +Mais três volumes serão destinados a coligir as suas correspondências +para os jornais brasileiros, conservando-se-lhes como títulos as +rúbricas sob que ali eram publicadas: _Cartas de Inglaterra_, _Ecos de +Paris e Cartas Familiares_; e outros dois encerrarão[2] a +sua copiosa _vária_, onde se misturam impressões de literatura e de +arte, artigos sôbre política geral, estudos biográficos, notas de +viagem, ensaios, críticas, polémica, etc. + +Completará esta série um derradeiro volume com o precioso inédito do _S. +Cristóvão_,[3] tal como o admirável artista o deixou: um +esbôço magnífico, um verdadeiro improviso, traçado com largueza numa +primeira factura pronta e fluente, onde a sua imaginação e a sua prosa +brotam em jorros impetuosos e borbulhantes, em contrário da falsa lenda +que fazia de Eça de Queiroz um criador moroso, e um escritor sem +espontaneidade. + +A título de curiosidade, para mostrar o poder de desenvolvimento e +ampliação das suas faculdades imaginativas e como um exemplo dos seus +processos de trabalho, inserimos no presente volume o conto intitulado +_Civilização_, que o autor, amplificando-o, transformou depois na +deliciosa novela _A Cidade e as Serras_. + +Ao terminar estas linhas, os editores cumprem o grato dever de +testemunhar o seu reconhecimento ao snr. Francisco Ramos Paz, +co-proprietário da _Gazeta de Notícias_, do Rio de Janeiro, que, com o +mais vivo interesse pela publicação dos escritos dispersos de Eça de +Queiroz, lhes forneceu obsequiosamente toda a vasta colaboração do +ilustre romancista no importante jornal fluminense. + + +Pôrto, 1903. + + *_Lelo & Irmão._* + +(_Da primeira edição_) + + + + [1] ANTHERO DE QUENTAL, _In Memoriam_, pag. 444. + + [2] Publicado num só volume--_Notas Contemporâneas_--1909. + + [3] Incluido no volume--_Últimas páginas_--1911. + + + + + +SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA + + +I + +Começou por me dizer que o seu caso era simples--e que se chamava +Macário... + +Devo contar que conheci êste homem numa estalagem do Minho. Era alto e +grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se +lhe erriçavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda +engelhada e amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e +rectidão--por trás dos seus óculos redondos com aros de tartaruga. Tinha +a barba rapada, o queixo saliente e resoluto. Trazia uma gravata de +setim negro apertada por trás com uma fivela; um casaco comprido côr de +pinhão, com as mangas estreitas e justas e canhões de veludilho. E pela +longa abertura do seu colete de sêda, onde reluzia um grilhão antigo, +saíam as pregas moles de uma camisa bordada. + +Era isto em setembro: já as noites vinham mais cedo, com uma friagem +fina e sêca e uma escuridão aparatosa. Eu tinha descido da diligência, +fatigado, esfomeado, tiritando num cobrejão de listas escarlates. + +Vinha de atravessar a serra e os seus aspectos pardos e desertos. Eram +oito horas da noite. Os céus estavam pesados e sujos. E, ou fôsse um +certo adormecimento cerebral produzido pelo rolar monótono da +diligência, ou fôsse a debilidade nervosa da fadiga, ou a influência da +paizagem escarpada e árida, sob o côncavo silêncio noturno, ou a +opressão da electricidade, que enchia as alturas--o facto é que eu--que +sou naturalmente positivo e realista--tinha vindo tiranizado pela +imaginação e pelas quimeras. Existe, no fundo de cada um de nós, é +certo,--tam friamente educados que sejâmos--um resto de misticismo; e +basta às vezes uma paizagem soturna, o vélho muro de um cemitério, um +ermo ascético, as emolientes brancuras de um luar, para que êsse fundo +místico suba, se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensação e a +idea, e fique assim o mais matemático ou o mais crítico--tam triste, tam +visionário, tam idealista--como um vélho monge poeta. A mim, o que me +lançara na quimera e no sonho, fôra o aspecto do mosteiro de Rastelo, +que eu tinha visto, à claridade suave e outonal da tarde, na sua doce +colina. Então, emquanto anoitecia, a diligência rolava contínuamente ao +trote esgalgado dos seus magros cavalos brancos, e o cocheiro, com o +capuz do gabão enterrado na cabeça, ruminava o seu cachimbo--eu pus-me, +elegíacamente, ridículamente, a considerar a esterilidade da vida: e +desejava ser um monge, estar num convento, tranqùilo, entre arvoredos ou +na murmurosa concavidade dum vale, e emquanto a água da cêrca canta +sonoramente nas bacias de pedra, ler a _Imitação_, e ouvindo os +rouxinóis nos loireirais ter saudades do céu.--Não se pode ser mais +estúpido. Mas eu estava assim, e atribuo a esta disposição visionária a +falta de espírito--a sensação--que me fez a história daquele homem dos +canhões de veludilho. + +A minha curiosidade começou à ceia, quando eu desfazia o peito de uma +galinha afogada em arroz branco, com fatias escarlates de paio--e a +criada, uma gorda e cheia de sardas, fazia espumar o vinho verde no +copo, fazendo-o cair de alto de uma caneca vidrada. O homem estava +defronte de mim, comendo tranqùilamente a sua geleia: perguntei-lhe, com +a bôca cheia, o meu guardanapo de linho de Guimarães suspenso nos +dedos--se êle era de Vila Rial. + +--Vivo lá. Há muitos anos--disse-me êle. + +--Terra de mulheres bonitas, segundo me consta--disse eu. + +O homem calou-se. + +--Hein?--tornei. + +O homem contraiu-se num silêncio saliente. Até aí estivera alegre, rindo +dilatadamente; loquaz e cheio de bonomia. Mas então imobilizou o seu +sorriso fino. + +Compreendi que tinha tocado a carne viva de uma lembrança. Havia +de-certo no destino daquele vélho uma _mulher_. Aí estava o seu +melodrama ou a sua farça, porque inconscientemente estabeleci-me na idea +de que o _facto_, o _caso_ daquele homem, devera ser grotesco e exalar +escárnio. + +De sorte que lhe disse: + +--A mim teem-me afirmado que as mulheres de Vila Rial são as mais +bonitas do Norte. Para os olhos pretos Guimarães, para corpos Santo +Aleixo, para tranças os Arcos: é lá que se vêem os cabellos claros côr +de trigo. + +O homem estava calado, comendo, com os olhos baixos. + +--Para cinturas finas Viana, para boas peles Amarante--e para isto tudo +Vila Rial. Eu tenho um amigo que veio casar a Vila Rial. Talvez conheça. +O Peixoto, um alto, de barba loura, bacharel. + +--O Peixoto, sim,--disse-me êle, olhando gravemente para mim. + +--Veio casar a Vila Rial como antigamente se ia casar à +Andaluzia--questão de arranjar a fina flor da perfeição.--À sua saude. + +Eu evidentemente constrangia-o, porque se ergueu, foi à janela com um +passo pesado, e reparei então nos seus grossos sapatos de casimira com a +sola forte e atilhos de coiro. E saiu. + +Quando pedi o meu castiçal, a criada trouxe-me um candieiro de latão +lustroso e antigo e disse: + +--O senhor está com outro. É no n.º 3. + +Nas estalagens do Minho, às vezes, cada quarto é um dormitório +impertinente. + +--Vá--disse eu. + +O n.º 3 era no fundo do corredor. Às portas dos lados os hóspedes tinham +posto o seu calçado para engraxar: estavam umas grossas botas de montar, +enlameadas, com esporas de correia; os sapatos brancos de um caçador; +botas de proprietário, de altos canos vermelhos; as botas de um padre, +altas, com a sua borla de retroz; os botins cambados de bezerro, de um +estudante; e a uma das portas, o n.º 15, havia umas botinas de mulher, +de duraque, pequeninas e finas, e ao lado as pequeninas botas de uma +criança, todas coçadas e batidas, e os seus canos de pelica-mór +caíam-lhe para os lados com os atacadores desatados. Todos dormiam. +Defronte do n.º 3 estavam os sapatos de casimira com atilhos: e quando +abri a porta vi o homem dos canhões de veludilho, que amarrava na cabeça +um lenço de sêda: estava com uma jaqueta curta de ramagens, uma meia de +lã, grossa e alta, e os pés metidos nuns chinelos de ourelo. + +--O senhor não repare--disse êle. + +--À vontade--e para estabelecer a intimidade tirei o casaco. + +Não direi os motivos porque êle daí a pouco, já deitado, me disse a sua +história. Há um provérbio eslavo da Galícia que diz: o que não contas à +tua mulher, o que não contas ao teu amigo, conta-lo a um estranho, na +estalagem. Mas êle teve raivas inesperadas e dominantes para a sua larga +e sentida confidência. Foi a respeito do meu amigo, do Peixoto, que fôra +casar a Vila Rial. Vi-o chorar, àquele vélho de quási sessenta anos. +Talvez a história seja julgada trivial: a mim, que nessa noite estava +nervoso e sensível, pareceu-me terrível,--mas conto-a apenas como um +acidente singular da vida amorosa.... + +Começou pois por me dizer que o seu caso era simples--e que se chamava +Macário. + +Perguntei-lhe então se era de uma família que eu conhecera que tinha o +apelido de _Macário_. E como êle me respondeu que era primo dêsses, eu +tive logo do seu carácter uma idea simpática, porque os Macários eram +uma antiga família, quási uma dinastia de comerciantes, que mantinham +com uma severidade religiosa a sua vélha tradição de honra e de +escrúpulo. Macário disse-me que nesse tempo, em 1823 ou 33, na sua +mocidade, seu tio Francisco tinha, em Lisboa, um armazêm de panos, e êle +era um dos caixeiros. Depois o tio compenetrára-se de certos instintos +inteligentes e do talento prático e aritmético de Macário, e deu-lhe a +escrituração. Macário tornou-se o seu _guarda-livros_. + +Disse-me êle que sendo naturalmente linfático e mesmo tímido, a sua vida +tinha nesse tempo uma grande concentração. Um trabalho escrupuloso e +fiel, algumas raras merendas no campo, um apuro saliente de fato e de +roupas brancas, era todo o interesse da sua vida. A existência nesse +tempo era caseira e apertada. Uma grande simplicidade social aclarava os +costumes: os espíritos eram mais ingénuos, os sentimentos menos +complicados. + +Jantar alegremente numa horta, debaixo das parreiras, vendo correr a +água das regas--chorar com os melodramas que rugiam entre os bastidores +do Salitre, alumiados a cera, eram contentamentos que bastavam à +burguesia cautelosa. Alêm disso os tempos eram confusos e +revolucionários: e nada torna o homem recolhido, conchegado à lareira, +simples e fácilmente feliz--como a guerra. É a paz que dando os +vagares da imaginação--causa as impaciências do desejo. + +Macário, aos vinte e dois anos, ainda não tinha--como lhe dizia uma +vélha tia, que fôra querida do desembargador Curvo Semedo, da +Arcádia,--_sentido Vénus_. + +Mas por êsse tempo veio morar para defronte do armazêm dos Macários, +para um terceiro andar, uma mulher de quarenta anos, vestida de luto, +uma pele branca e baça, o busto bem feito e redondo e um aspecto +desejável. Macário tinha a sua carteira no primeiro andar, por cima do +armazêm, ao pé de uma varanda, e dali viu uma manhã aquela mulher com o +cabelo preto solto e anelado, um chambre branco e braços nus, chegar-se +a uma pequena janela de peitoril, a sacudir um vestido. Macário +afirmou-se e sem mais intenção dizia mentalmente que aquela mulher, aos +vinte anos, devia ter sido uma pessoa cativante e cheia de domínio: +porque os seus cabelos violentos e ásperos, o sobr'ôlho espesso, o lábio +forte, o perfil aquilino e firme, revelavam um temperamento activo e +imaginações apaixonadas. No entanto, continuou serenamente alinhando as +suas cifras. Mas à noite estava sentado fumando à janela do seu quarto, +que abria sôbre o pátio: era em julho e a atmosfera estava eléctrica e +amorosa: a rebeca de um vizinho gemia uma _chácara_ mourisca, que +então sensibilizava, e era de um melodrama; o quarto estava numa +penumbra doce e cheia de mistério--e Macário, que estava em chinelas, +começou a lembrar-se daqueles cabelos negros e fortes e daqueles braços +que tinham a côr dos mármores pálidos: espreguiçou-se, rolou +mórbidamente a cabeça pelas costas da cadeira de vime, como os gatos +sensíveis que se esfregam, e decidiu bocejando que a sua vida era +monótona. E ao outro dia, ainda impressionado, sentou-se à sua carteira +com a janela toda aberta, e olhando o prédio fronteiro onde viviam +aqueles cabelos grandes--começou a aparar vagarosamente a sua pena de +rama. Mas ninguêm se chegou à janela de peitoril, com caixilhos verdes. +Macário estava enfastiado, pesado--e o trabalho foi lento. Pareceu-lhe +que havia na rua um sol alegre, e que nos campos as sombras deviam ser +mimosas e que se estaria bem vendo o palpitar das borboletas brancas nas +madre-silvas! E, quando fechou a carteira, sentiu defronte correr-se a +vidraça; eram de-certo os cabelos pretos. Mas apareceram uns cabelos +louros. Oh! E Macário veio logo salientemente para a varanda aparar um +lápis. Era uma rapariga de vinte anos, talvez--fina, fresca, loura como +uma vinheta inglesa: a brancura da pele tinha alguma coisa da +transparência das vélhas porcelanas, e havia no seu perfil uma linha +pura como de uma medalha antiga, e os vélhos poetas pitorescos +ter-lhe-iam chamado--pomba, arminho, neve e oiro. + +Macário disse consigo: + +--É filha. + +A outra vestia de luto, mas esta, a loira, tinha um vestido de cassa com +pintas azuis, um lenço de cambraia traspassado sôbre o peito, as mangas +perdidas com rendas, e tudo aquilo era asseado, môço, fresco, flexível e +tenro. + +Macário nesse tempo era louro com a barba curta. O cabelo era anelado e +a sua figura devia ter aquele ar sêco e nervoso que depois do século +XVIII e da revolução--foi tam vulgar nas raças plebeias. + +A rapariga loura reparou naturalmente em Macário, e naturalmente desceu +a vidraça, correndo por trás uma cortina de cassa bordada. Estas +pequenas cortinas datam de Goethe e teem na vida amorosa um +interessante destino: revelam. Levantar-lhes uma ponta e espreitar, +franzi-la suavemente, revela um fim; corrê-la, pregar nela uma flor, +agitá-la fazendo sentir que por trás um rosto atento se move e +espera--são vélhas maneiras com que na realidade e na arte começa o +romance. A cortina ergueu-se devagarinho e o rosto louro espreitou. + +Macário não me contou por pulsações--a história minuciosa do seu +coração. Disse singelamente que daí a cinco dias--_estava doido_ +_por ela_. O seu trabalho tornou-se logo vagaroso e infiel e o seu belo +cursivo inglês firme e largo ganhou curvas, ganchos, rabiscos, onde +estava todo o romance impaciente dos seus nervos. Não a podia ver pela +manhã: o sol mordente de julho batia e escaldava a pequena janela de +peitoril. Só pela tarde, a cortina se franzia, se corria a vidraça, e +ela, estendendo uma almofadinha no rebordo do peitoril, vinha +encostar-se mimosa e fresca com o seu leque. Leque que preocupou +Macário: era uma ventarola chinesa, redonda, de sêda branca com dragões +escarlates bordados à pena, uma cercadura de plumagem azul, fina e +trémula como uma penugem e o seu cabo de marfim, donde pendiam duas +borlas de fio de oiro, tinha incrustações de nácar à linda maneira persa. + +Era um leque magnífico e naquele tempo inesperado nas mãos plebeias de +uma rapariga vestida de cassa. Mas como ela era loura e a mãe tam +meridional, Macário, com esta intuição interpretativa dos namorados, +disse à sua curiosidade: _será filha de um inglês_. O inglês vai à +China, à Pérsia, a Ormuz, à Austrália e vem cheio daquelas jóias dos +luxos exóticos, e nem Macário sabia porque é que aquela ventarola de +mandarina o preocupava assim: mas segundo êle me disse--_aquilo deu-lhe +no gôto_. + +Tinha-se passado uma semana, quando um dia Macário viu, da sua carteira, +que ela, a loura, saía com a mãe, porque se acostumara a considerar +mãe dela aquela magnífica pessoa, magníficamente pálida e vestida de luto. + +Macário veio à janela e viu-a atravessar a rua e entrarem no armazêm. No +seu armazêm! Desceu logo trémulo, sôfrego, apaixonado e com palpitações. +Estavam elas já encostadas ao balcão e um caixeiro desdobrava-lhes +defronte casimiras pretas. Isto comoveu Macário. Êle mesmo mo disse. + +--Porque emfim, meu caro, não era natural que elas viessem comprar, para +si, casimiras pretas. + +E não: elas não usavam _amazonas_, não quereriam de-certo estofar +cadeiras com casimira preta, não havia homens em casa delas; portanto +aquela vinda ao armazêm era um meio delicado de o ver de perto, de lhe +falar, e tinha o encanto penetrante de uma mentira sentimental. Eu disse +a Macário que, sendo assim, êle devia estranhar aquele movimento +amoroso, porque denotava na mãe uma cumplicidade equívoca. Êle +confessou-me _que nem pensava em tal_. O que fez foi chegar ao balcão e +dizer estúpidamente: + +--Sim senhor, vão bem servidas, estas casimiras não encolhem. + +E a loura ergueu para êle o seu olhar azul, e foi como se Macário se +sentisse envolvido na doçura de um céu. + +Mas quando êle ia dizer-lhe uma palavra reveladora e veemente, apareceu +ao fundo do armazêm o tio Francisco, com o seu comprido casaco côr de +pinhão, de botões amarelos. Como era singular e desusado achar-se o snr. +guarda-livros vendendo ao balcão e o tio Francisco com a sua crítica +estreita e celibatária podia escandalizar-se, Macário começou a subir +vagarosamente a escada em caracol que levava ao escritório, e ainda +ouviu a voz delicada da loura dizer brandamente: + +--Agora queria ver lenços da Índia. + +E o caixeiro foi buscar um pequenino pacote daqueles lenços, acamados e +apertados numa tira de papel dourado. + +Macário, que tinha visto naquela visita uma revelação de amor, quási uma +_declaração_, esteve todo o dia entregue às impaciências amargas da +paixão. Andava distraído, abstracto, pueril, não deu atenção à +escrituração, jantou calado, sem escutar o tio Francisco que exaltava as +almôndegas, mal reparou no seu ordenado que lhe foi pago em pintos às +três horas, e não entendeu bem as recomendações do tio e a preocupação +dos caixeiros sôbre o desaparecimento de um pacote de lenços da Índia. + +--É o costume de deixar entrar pobres no armazêm--tinha dito no seu +laconismo majestoso o tio Francisco.--São 12$000 réis de lenços. Lance à +minha conta. + +Macário, no entanto, ruminava secretamente uma carta, mas sucedeu que ao +outro dia, estando êle à varanda, a mãe, a de cabelos pretos, veio +encostar-se ao peitoril da janela, e neste momento, passava na rua um +rapaz amigo de Macário, que vendo aquela senhora afirmou-se e tirou-lhe, +com uma cortesia toda risonha, o seu chapéu de palha. Macário ficou +radioso: logo nessa noite procurou o seu amigo, e abruptamente, sem meia +tinta: + +--¿Quem é aquela mulher que tu hoje cumprimentaste defronte do armazêm? + +--É a Vilaça. Bela mulher. + +--E a filha? + +--A filha! + +--Sim, uma loura, clara, com um leque chinês. + +--Ah! sim. É filha. + +--É o que eu dizia.... + +--Sim, e então? + +--É bonita. + +--É bonita. + +--É gente de bem, hein? + +--Sim, gente de bem. + +--Está bom. Tu conhece-las muito? + +--Conheço-as. Muito não. Encontrava-as dantes em casa de D. Cláudia. + +--Bem, ouve lá. + +E Macário, contando a história do seu coração acordado e exigente e +falando do amor com as exaltações de então, pediu-lhe como a glória +da sua vida, _que achasse um meio de o encaixar lá_. Não era difícil. As +Vilaças costumavam ir aos sábados a casa de um tabelião muito rico na +rua dos Calafates: eram assembleias simples e pacatas, onde se cantavam +motetes ao cravo, se glosavam motes e havia jogos de prendas do tempo da +senhora D. Maria I, e às 9 horas a criada servia a orchata. Bem. Logo no +primeiro sábado, Macário, de casaca azul, calças de ganga com presilhas +de trama de metal, gravata de setim roxo, curvava-se diante da espôsa do +tabelião, a snr.ª D. Maria da Graça, pessoa sêca e aguçada, com um +vestido bordado a matiz, um nariz adunco, uma enorme luneta de +tartaruga, a pluma de _marabout_ nos seus cabelos grisalhos. A um canto +da sala já lá estava, entre um _frou-frou_ de vestidos enormes, a menina +Vilaça, a loura, vestida de branco, simples, fresca, com o seu ar de +gravura colorida. A mãe Vilaça, a soberba mulher pálida, cochichava com +um desembargador de figura apoplética. O tabelião era homem letrado, +latinista e amigo das musas; escrevia num jornal de então, a _Alcofa das +Damas_: porque era sobretudo galante, e êle mesmo se intitulava, numa +ode pitoresca, _môço escudeiro de Vénus_. Assim, as suas reùniões eram +ocupadas pelas belas-artes--e nessa noite um poeta do tempo devia +vir ler um poemeto intitulado _Elmira ou a vingança do veneziano_!... +Começavam então a aparecer as primeiras audácias românticas. As +revoluções da Grécia principiavam a atrair os espíritos romanescos e +saídos da mitologia para os países maravilhosos do Oriente. Por toda a +parte se falava no pachá de Janina. E a poesia apossava-se vorazmente +dêste mundo novo e virginal de minaretes, serralhos, sultanas côr de +ámbar, piratas do Arquipélago, e salas rendilhadas, cheias do perfume do +aloés onde pachás decrépitos acariciam leões.--De sorte que a +curiosidade era grande--e quando o poeta apareceu com os cabelos +compridos, o nariz adunco e fatal, o pescoço entalado na alta gola do +seu fraque à Restauração e um canudo de lata na mão--o snr. Macário é +que não experimentou sensação alguma, porque lá estava todo absorvido, +falando com a menina Vilaça. E dizia-lhe meigamente: + +--¿Então, noutro dia, gostou das casimiras? + +--Muito--disse ela baixo. + +E, desde êsse momento, envolveu-os um destino nupcial. + +No entanto, na larga sala a noite passava-se espiritualmente. Macário +não pôde dar todos os pormenores históricos e característicos daquela +assembleia. Lembrava-se apenas que um corregedor de Leiria recitava o +_Madrigal a Lídia_: lia-o de pé, com uma luneta redonda aplicada +sôbre o papel, a perna direita lançada para diante, a mão na abertura do +colete branco de gola alta. E em redor, formando círculo, as damas, com +vestidos de ramagens, cobertas de plumas, as mangas estreitas terminadas +num fofo de rendas, mitenes de retroz preto cheias da scintilação dos +aneis, tinham sorrisos ternos, cochichos, doces murmurações, risinhos, e +um brando palpitar de leques recamados de lantejoulas.--Muito bonito, +diziam, muito bonito! E o corregedor, desviando a luneta, cumprimentava +sorrindo--e via-se-lhe um dente pôdre. + +Depois a preciosa D. Jerónima da Piedade e Sande, sentando-se com +maneiras comovidas ao cravo, cantou com a sua voz roufenha a antiga ária +de Sully: + + Oh Ricardo, oh meu rei, + O mundo te abandona + +o que obrigou o terrível Gaudêncio, democrata de 20 e admirador de +Robespierre, a rosnar rancorosamente junto de Macário: + +--Reis!... víboras! + +Depois, o cónego Saavedra cantou uma modinha de Pernambuco muito usada +no tempo do senhor D. João VI: _lindas môças_, _lindas môças_. E a noite +ia assim correndo, literária, pachorrenta, erudita, requintada e toda +cheia de musas. + +Oito dias depois, Macário era recebido em casa da Vilaça, num domingo. A +mãe convidára-o, dizendo-lhe: + +--Espero que o vizinho honre aquela choupana. + +E até o desembargador apoplético, que estava ao lado, exclamou: + +--Choupana?! diga alcáçar, formosa dama! + +Estavam, nesta noite, o amigo do chapéu de palha, um vélho cavaleiro de +Malta, trôpego, estúpido e surdo, um beneficiado da Sé, ilustre pela sua +voz de tiple, e as manas Hilárias, a mais vélha das quais tendo +assistido, como aia de uma senhora da casa da Mina, à tourada de +Salvaterra, em que morreu o conde dos Arcos, nunca deixava de narrar os +episódios pitorescos daquela tarde: a figura do conde dos Arcos de cara +rapada e uma fita de setim escarlate no rabicho; o soneto que um magro +poeta, parasita da casa de Vimioso, recitou quando o conde entrou, +fazendo ladear o seu cavalo negro, arreado à espanhola, com um xairel +onde as suas armas estavam lavradas em prata: o tombo que nesse momento +um frade de S. Francisco deu da trincheira alta, e a hilaridade da +côrte, que até a snr.ª condessa de Pavolide apertava as mãos nas +ilhargas: depois el-rei o senhor D. José I, vestido de veludo escarlate, +recamado de ouro, todo encostado ao rebordo do seu palanque, e fazendo +girar entre dois dedos a sua caixa de rapé cravejada, e por trás, +imóveis, o físico Lourenço e o frade, seu confessor: depois o rico +aspecto da praça cheia de gente de Salvaterra, maiorais, mendigos dos +arredores, frades, lacaios, e o grito que houve, quando D. José I +entrou--Viva el-rei, nosso senhor! E o povo ajoelhou, e el-rei tinha-se +sentado, comendo doces, que um criado trouxe num saco de veludo, atrás +dêle. Depois a morte do conde dos Arcos, os desmaios, e até el-rei todo +debruçado, batendo com a mão no parapeito, gritando na confusão, e o +capelão da casa dos Arcos que tinha corrido a buscar a extrema-unção. +Ela, Hilária, ficara estarrecida de pavor: sentia os urros dos bois, +gritos agudos de mulheres, os ganidos dos flatos, e vira então um vélho, +todo vestido de veludo preto, com a fina espada na mão, debater-se entre +fidalgos e damas que o seguravam, e querer atirar-se à praça, bramindo +de raiva! «É o pai do conde!» explicavam em volta. Ela então desmaiara +nos braços de um padre da Congregação. Quando veio a si, achou-se junto +da praça; a berlinda rial estava à porta, com os bolieiros emplumados, +os machos cheios de guisos, e os batedores a cavalo, à frente: via-se lá +dentro el-rei, escondido ao fundo, pálido, sorvendo febrilmente rapé, +todo encolhido com o confessor; e defronte, com uma das mãos apoiada à +alta bengala, forte, espadaúdo, o aspecto carregado, o marquês de +Pombal falava devagar e intimativamente, gesticulando com a luneta. Mas +os batedores picaram, os estalos dos bolieiros retiniram, e a berlinda +partiu a galope, emquanto o povo gritava: Viva el-rei, nosso senhor!--e +o sino da capela do paço tocava a finados! Era uma honra que el-rei +concedia à casa dos Arcos. + +Quando D. Hilária acabou de contar, suspirando, estas desgraças +passadas, começou-se a jogar. Era singular que Macário não se lembrava o +que tinha jogado nessa noite radiosa. Só se recordava que tinha ficado +ao lado da menina Vilaça (que se chamava Luísa), que reparara muito na +sua fina pele rosada, tocada de luz, e na meiga e amorosa pequenez da +sua mão com uma unha mais polida que o marfim de Dieppe. E lembrava-se +tambêm de um acidente excêntrico, que determinara nele, desde êsse dia, +uma grande hostilidade ao clero da Sé. Macário estava sentado à mesa, e +ao pé dêle Luísa: Luísa estava toda voltada para êle com uma das mãos +apoiando a sua fina cabeça loura e amorosa, e a outra esquecida no +regaço. Defronte estava o beneficiado, com o seu barrete preto, os seus +óculos na ponta aguda do nariz, o tom azulado da forte barba rapada, e +as suas duas grandes orelhas, complicadas e cheias de cabelo, separadas +do crânio como dois postigos abertos. Ora, como era necessário no +fim do jôgo pagar uns tentos ao cavaleiro de Malta, que estava ao lado +do beneficiado, Macário tirou da algibeira uma peça e quando o +cavaleiro, todo curvado e com um ôlho pisco, fazia a sôma dos tentos nas +costas dum az, Macário conversava com Luísa, e fazia girar sôbre o pano +verde a sua peça de oiro, como um bilro ou um peão. Era uma peça nova +que luzia, faiscava, rodando, e feria a vista como uma bola de névoa +doirada. Luísa sorria vendo-a girar, girar, e parecia a Macário que todo +o céu, a pureza, a bondade das flores e a castidade das estrêlas estavam +naquele claro sorriso distraído, espiritual, arcangélico, com que ela +seguia o giro fulgurante da peça de oiro nova. Mas de repente, a peça, +correndo até à borda da mesa, caiu para o lado do regaço de Luísa, e +desapareceu, sem se ouvir no soalho de tábuas o seu ruído metálico. O +beneficiado abaixou-se logo cortêsmente: Macário afastou a cadeira, +olhando para debaixo da mesa: a mãe Vilaça alumiou com um castiçal, e +Luísa ergueu-se e sacudiu com pequenina pancada o seu vestido de cassa. +A peça não apareceu. + +--É celebre--disse o amigo de chapéu de palha--eu não ouvi tinir no chão. + +--Nem eu, nem eu--disseram. + +O beneficiado, curvado, buscava tenazmente, e a Hilária mais nova +rosnava o responso de Santo António. + +--Pois a casa não tem buracos--dizia a mãe Vilaça. + +--Sumiço assim!--resmungava o beneficiado. + +No entanto Macário exalava-se em exclamações desinteressadas: + +--Pelo amor de Deus! Ora que tem! Àmanhã aparecerá! Tenham a bondade! +Por quem são! Então, snr.ª D. Luísa! Pelo amor de Deus! Não vale nada. + +Mas mentalmente estabeleceu que houvera uma subtracção--e atribuiu-a ao +beneficiado. A peça rolara, de-certo, até junto dêle sem ruido; êle +pusera-lhe em cima o seu vasto sapato eclesiástico e tachado; depois, no +movimento brusco e curto que tivera, empolgára-a vilmente. E, quando +saíram, o beneficiado, todo embrulhado no seu vasto capote de camelão, +dizia a Macário pela escada: + +--¿Ora o sumiço da peça, hein? Que brincadeira! + +--¿Acha, snr. beneficiado?!--disse Macário parando, pasmado da impudência. + +--Ora essa! Se acho?! Se lhe parece! Uma peça de 7$000 réis! Só se o +senhor as semeia... Safa! Eu dava em doido! + +Macário teve tédio daquela astúcia fria. Não lhe respondeu. O +beneficiado é que acrescentou: + +--Àmanhã mande lá pela manhã, homem. Que diabo... Deus me perdôe! +Que diabo! uma peça não se perde assim. Que bolada, hein! + +E Macário tinha vontade de lhe bater. + +Foi neste ponto que Macário me disse, com a sua voz singularmente sentida: + +--Emfim, meu amigo, para encurtarmos razões, resolvi-me casar com ela. + +--Mas a peça? + +--Não pensei mais nisso! Pensava eu lá na peça! Resolvi-me casar com ela! + + +II + +Macário contou-me o que o determinara mais precisamente àquela resolução +profunda e perpétua. Foi um beijo. Mas êsse caso, casto e simples, eu +calo-o;--mesmo porque a única testemunha foi uma imagem em gravura da +Virgem, que estava pendurada no seu caixilho de pau preto, na saleta +escura que abria para a escada... Um beijo fugitivo, superficial, +efémero. Mas isso bastou ao seu espírito recto e severo para o obrigar a +tomá-la como espôsa, a dar-lhe uma fé imutável e a posse da sua vida. +Tais foram os seus esponsais. Aquela simpática sombra das janelas +vizinhas tornara-se para êle um destino, o fim moral da sua vida e +toda a idea dominante do seu trabalho. E esta história toma, desde logo, +um alto carácter de santidade e de tristeza. + +Macário falou-me muito do carácter e da figura do tio Francisco: a sua +possante estatura, os seus óculos de oiro, a sua barba grisalha, em +colar, por baixo do queixo, um tic nervoso que tinha numa asa do nariz, +a dureza da sua voz, a sua austera e majestosa tranqùilidade, os seus +princípios antigos, autoritários e tirânicos, e a brevidade telegráfica +das suas palavras. + +Quando Macário lhe disse, uma manhã, ao almôço, abruptamente, sem +transições emolientes: «Peço-lhe licença para casar» o tio Francisco, +que deitava o açúcar no seu café, ficou calado, remexendo com a colher, +devagar, majestoso e terrível: e quando acabou de sorver pelo pires, com +grande ruído, tirou do pescoço o guardanapo, dobrou-o, aguçou com a faca +o seu palito, meteu-o na bôca e saíu: mas à porta da sala parou, e +voltando-se para Macário, que estava de pé, junto da mesa, disse secamente: + +--Não. + +--Perdão, tio Francisco! + +--Não. + +--Mas oiça, tio Francisco... + +--Não. + +Macário sentiu uma grande cólera: + +--Nesse caso, faço-o sem licença. + +--Despedido da casa. + +--Sairei. Não haja dúvida. + +--Hoje. + +--Hoje. + +E o tio Francisco ia a fechar a porta, mas voltando-se: + +--Olá!--disse êle a Macário, que estava exasperado, apoplético, raspando +nos vidros da janela. + +Macário voltou-se com uma esperança. + +--Dê-me daí a caixa do rapé--disse o tio Francisco. + +Tinha-lhe esquecido a caixa! Portanto, estava perturbado. + +--Tio Francisco...--começou Macário. + +--Basta. Estamos a 12. Receberá o seu mês por inteiro. Vá. + +As antigas educações produziam estas situações insensatas. Era brutal e +idiota. Macário afirmou-me que era assim. + +Nessa tarde Macário achava-se no quarto de uma hospedaria na Praça da +Figueira com seis peças, o seu baú de roupa branca e a sua paixão. No +entanto estava tranqùilo. Sentia o seu destino cheio de apuros. Tinha +relações e amizades no comércio. Era conhecido vantajosamente: a nitidez +do seu trabalho, a sua honra tradicional, o nome da família, o seu +tacto comercial, o seu belo cursivo inglês, abriam-lhe, de par em par, +respeitosamente, todas as portas dos escritórios. No outro dia foi +procurar alegremente o negociante Faleiro, antiga relação comercial da +sua casa. + +--De muito boa vontade, meu amigo--disse-me êle.--Quem mo déra cá! Mas, +se o recebo, fico de mal com seu tio, meu vélho amigo de vinte anos. Êle +declarou-mo categóricamente. Bem vê. Fôrça maior. Eu sinto, mas... + +E todos, a quem Macário se dirigiu, confiado em relações sólidas, +receavam _ficar de mal com o seu tio, vélho amigo de vinte anos_. + +E todos _sentiam_, _mas_... + +Macário dirigiu-se então a negociantes novos, estranhos à sua casa e à +sua família, e sobretudo aos estrangeiros: esperava encontrar gente +livre da amizade de vinte anos do tio. Mas, para êsses, Macário era +desconhecido, e desconhecidos por igual a sua dignidade e o seu hábil +trabalho. Se tomavam informações, sabiam que êle fôra despedido da casa +do tio repentinamente, por causa duma rapariga loura, vestida de cassa. +Esta circunstância tirava as simpatias a Macário. O comércio evita o +guarda-livros sentimental. De sorte que Macário começou a sentir-se num +momento agudo. Procurando, pedindo, rebuscando, o tempo passava, +sorvendo, pinto a pinto, as suas seis peças. + +Macário mudou para uma estalagem barata, e continuou farejando. Mas, +como fôra sempre de temperamento recolhido, não criara amigos. De modo +que se encontrava desamparado e solitário--e a vida aparecia-lhe como um +descampado. + +As peças findaram. Macário entrou, pouco a pouco, na tradição antiga da +miséria. Ela tem solenidades fatais e estabelecidas: começou por +empenhar--depois vendeu. Relógio, aneis, casaco azul, cadeia, paletot de +alamares, tudo foi levando pouco e pouco, embrulhado debaixo do chale, +uma vélha sêca e cheia de asma. + +No entanto via Luísa de noite, na saleta escura que dava para o patamar: +uma lamparina ardia em cima da mesa: era feliz ali naquela penumbra, +todo sentado castamente, ao pé de Luísa, a um canto de um vélho canapé +de palhinha. Não a via de dia, porque trazia já a roupa usada, as botas +cambadas, e não queria mostrar à fresca Luísa, toda mimosa nas suas +cambraias asseadas, a sua miséria remendada: ali, àquela luz ténue e +esbatida, êle exalava a sua paixão crescente e escondia o seu fato +decadente. Segundo me disse Macário--era muito singular o temperamento +de Luísa. Tinha o carácter louro como o cabelo--se é certo que o louro é +uma côr fraca e desbotada: falava pouco, sorria sempre com os seus +brancos dentinhos, dizia a tudo _pois sim_: era muito simples, quási +indiferente, cheia de transigências. + +Amava de-certo Macário, mas com todo o amor que podia dar a sua natureza +débil, aguada, nula. Era como uma estriga de linho, fiava-se como se +queria: e às vezes, naqueles encontros noturnos, tinha sono. + +Um dia, porêm, Macário encontrou-a excitada: estava com pressa, o chale +traçado à tôa, olhando sempre para a porta interior. + +--A mamã percebeu--disse ela. + +E contou-lhe que a mãe desconfiava, ainda rabugenta e áspera, e que +de-certo farejava aquele plano nupcial tramado como uma conjuração. + +--¿Porque não me vens pedir à mamã? + +--Mas, filha, se eu não posso! Não tenho arranjo nenhum. Espera. É mais +um mês talvez. Tenho agora aí um negócio em bom caminho. Morríamos de fome. + +Luísa calou-se, torcendo a ponta do chale, com os olhos baixos. + +--¿Mas ao menos--disse ela--emquanto eu te não fizer sinal da janela, +não subas mais, sim? + +Macário rompeu a chorar, os soluços saíam violentos e desesperados. + +--Chut!--dizia-lhe Luísa.--Não chores alto!... + +Macário contou-me a noite que passou, ao acaso pelas ruas, ruminando +febrilmente a sua dor, e lutando, sob a friagem de janeiro, na sua +quinzena curta. Não dormiu, e logo pela manhã, ao outro dia, entrou como +uma rajada no quarto do tio Francisco e disse-lhe abruptamente, secamente: + +--É tudo o que tenho--e mostrava-lhe três pintos.--Roupa, estou sem ela. +Vendi tudo. Daqui a pouco tenho fome. + +O Tio Francisco, que fazia a barba à janela, com o lenço da Índia +amarrado na cabeça, voltou-se e, pondo os óculos, fitou-o. + +--A sua carteira lá está. Fique--e acrescentou, com um gesto +decisivo--solteiro. + +--Tio Francisco, ouça-me!... + +--Solteiro, disse eu--continuou o tio Francisco, dando o fio à navalha +numa tira de sola. + +--Não posso. + +--Então, rua! + +Macário saíu, estonteado. Chegou a casa, deitou-se, chorou e adormeceu. +Quando saiu, à noitinha, não tinha resolução, nem idea. Estava como uma +esponja saturada. Deixava-se ir. + +De repente, uma voz disse de dentro de uma loja: + +--Eh! pst! olá! + +Era o amigo do chapéu de palha: abriu grandes braços pasmados. + +--Que diacho! desde manhã que te procuro + +E contou-lhe que tinha chegado da província, tinha sabido a sua crise e +trazia-lhe um desenlace. + +--Queres? + +--Tudo. + +Uma casa comercial queria um homem hábil, resoluto e duro, para ir numa +comissão difícil e de grande ganho a Cabo-Verde. + +--Pronto!--disse Macário.--Pronto! Àmanhã. + +E foi logo escrever a Luísa, pedindo-lhe uma despedida, um último +encontro, aquele em que os braços desolados e veementes tanto custam a +desenlaçar-se. Foi. Encontrou-a toda embrulhada no seu chale, tiritando +de frio. Macário chorou. Ela, com a sua passiva e loura doçura, disse-lhe: + +--Fazes bem. Talvez ganhes. + +E ao outro dia Macário partiu. + +Conheceu as viagens trabalhosas nos mares inimigos, o enjôo monótono num +beliche abafado, os duros sóis das colónias, a brutalidade tirânica dos +fazendeiros ricos, o pêso dos fardos humilhantes, as dilacerações da +ausência, as viagens ao interior das terras negras e a melancolia das +caravanas que costeiam por violentas noites, durante dias e dias, os +rios tranqùilos, donde se exala a morte. + +Voltou. + +E logo nessa tarde a viu a ela, Luísa, clara, fresca, repousada, +serena, encostada ao peitoril da janela, com a sua ventarola chinesa. E +ao outro dia, sôfregamente, foi pedi-la à mãe. Macário tinha feito um +ganho saliente--e a mãe Vilaça abriu-lhe uns grandes braços amigos, +cheia de exclamações. O casamento decidiu-se para daí a um ano. + +--Porquê?--disse eu a Macário. + +E êle explicou-me que os lucros de Cabo-Verde não podiam constituir um +capital definitivo: eram apenas um capital de habilitação. Trazia de +Cabo-Verde elementos de poderosos negócios: trabalharia, durante um ano, +heróicamente, e ao fim poderia, sossegadamente, criar uma família. + +E trabalhou: pôs naquele trabalho a fôrça criadora da sua paixão. +Erguia-se de madrugada, comia à pressa, mal falava. À tardinha ia +visitar Luísa. Depois voltava sôfregamente para a fadiga, como um avaro +para o seu cofre. Estava grosso, forte, duro, fero: servia-se com o +mesmo ímpeto das ideas e dos músculos: vivia numa tempestade de cifras. +Às vezes Luísa, de passagem, entrava no seu armazêm: aquele pousar de +ave fugitiva dava-lhe alegria, fé, reconforto para todo um mês +cheiamente trabalhado. + +Por êsse tempo o amigo do chapéu de palha veio pedir a Macário que fôsse +seu fiador por uma grande quantia que êle pedira para estabelecer +uma loja de ferragens em grande. Macário, que estava no vigor do seu +crédito, cedeu com alegria. O amigo do chapéu de palha é que lhe dera o +negócio providencial de Cabo-Verde. Faltavam então dois meses para o +casamento. Macário já sentia, por vezes, subirem-lhe ao rosto as febris +vermelhidões da esperança. Já começara a tratar dos _banhos_. Mas um dia +o amigo do chapéu de palha desapareceu com a mulher de um alferes. O seu +estabelecimento estava em comêço. Era uma confusa aventura. Não se pôde +nunca precisar nítidamente aquele _embróglio_ doloroso. O que era +positivo é que Macário era fiador, Macário devia reembolsar. Quando o +soube, empalideceu e disse simplesmente: + +--Liquído e pago! + +E quando liquidou, ficou outra vez pobre. Mas nesse mesmo dia, como o +desastre tivera uma grande publicidade, e a sua honra estava santificada +na opinião, a casa Peres & C.ª, que o mandara a Cabo-Verde, veio +propor-lhe uma outra viagem e outros ganhos. + +--Voltar a Cabo-Verde outra vez! + +--Faz outra vez fortuna, homem. O senhor é o diabo!--disse o snr. +Eleutério Peres. + +Quando se viu assim, só e pobre, Macário desatou a chorar. Tudo estava +perdido, findo, extinto; era necessário recomeçar pacientemente a vida, +voltar às longas misérias de Cabo-Verde, tornar a tremer os passados +desesperos, suar os antigos suores! E Luísa? Macário escreveu-lhe. +Depois, rasgou a carta. Foi a casa dela: as janelas tinham luz: subiu +até ao primeiro andar, mas aí tomou-o uma mágoa, uma covardia de revelar +o desastre, o pavor trémulo de uma separação, o terror de ela se +recusar, negar-se, hesitar! ¿E quereria ela esperar mais? Não se atreveu +a falar, explicar, pedir; desceu, pé-ante-pé. Era noite. Andou ao acaso +pelas ruas: havia um sereno e silencioso luar. Ia sem saber: de repente +ouviu, de uma janela alumiada, uma rabeca que tocava a _xácara +mourisca_. Lembrou-se do tempo em que conhecera Luísa, do bom sol claro +que havia então, e do vestido dela, de cassa com pintas azuis! Estava na +rua onde eram os armazêns do tio. Foi caminhando. Pôs-se a olhar para a +sua antiga casa. A janela do escritório estava fechada. Quantas vezes +dali vira Luísa, e o brando movimento do seu leque chinês! Mas uma +janela, no segundo andar, tinha luz; era o quarto do tio. Macário foi +observar mais de longe: uma figura estava encostada, por dentro, à +vidraça: era o tio Francisco. Veio-lhe uma saudade de todo o seu passado +simples, retirado, plácido. Lembrava-lhe o seu quarto, e a vélha +carteira com fecho de prata, e a miniatura de sua mãe, que estava por +cima da barra do leito; a sala de jantar e o seu vélho aparador de +pau preto, e a grande caneca de água, cuja asa era uma serpente +irritada. Decidiu-se, e impelido por um instinto, bateu à porta. Bateu +outra vez. Sentiu abrir a vidraça, e a voz do tio perguntar: + +--Quem é? + +--Sou eu, tio Francisco, sou eu. Venho dizer-lhe adeus. + +A vidraça fechou-se, e daí a pouco a porta abriu-se, com um grande ruído +de ferrolhos. O tio Francisco tinha um candieiro de azeite na mão. +Macário achou-o magro, mais vélho. Beijou-lhe a mão. + +--Suba--disse o tio. + +Macário ia calado, cosido com o corrimão. + +Quando chegou ao quarto, o tio Francisco poisou o candieiro sôbre uma +larga mesa de pau-santo, e de pé, com as mãos nos bolsos, esperou. + +Macário estava calado, anediando a barba. + +--Que quer?--gritou-lhe o tio. + +--Vinha dizer-lhe adeus; volto para Cabo-Verde. + +--Boa viagem. + +E o tio Francisco, voltando-lhe as costas, foi rufar na vidraça. + +Macário ficou imóvel, deu dois passos no quarto, todo revoltado, e ia sair. + +--¿Onde vai, seu estúpido?--gritou-lhe o tio. + +--Vou-me. + +--Sente-se ali! + +E o tio Francisco continuou, com grandes passadas pelo quarto: + +--O seu amigo é um canalha! Loja de ferragens! Não está má! O senhor é +um homem de bem. Estúpido, mas homem de bem. Sente-se ali! Sente-se! O +seu amigo é um canalha! O senhor é um homem de bem! Foi a Cabo-Verde! +Bem sei! Pagou tudo. Está claro! Tambêm sei! Àmanhã faz o favor de ir +para a sua carteira, lá para baixo. Mandei pôr palhinha nova na cadeira. +Faz favor de pôr na factura Macário & Sobrinho. E case. Case, e que lhe +preste! Levante dinheiro. O senhor precisa de roupa branca e de mobília. +Levante dinheiro. E meta na minha conta. A sua cama lá está feita. + +Macário, estonteado, radioso, com as lágrimas nos olhos, queria abraçá-lo. + +--Bem, bem. Adeus! + +Macário ia sair. + +--¿Oh! burro, pois quer-se ir desta sua casa? + +E, indo a um pequeno armário, trouxe geleia, um covilhete de doce, uma +garrafa antiga do Pôrto e biscoitos. + +--Côma! + +E sentando-se ao pé dêle, e tornando a chamar-lhe estúpido, tinha uma +lágrima a correr-lhe pelo engelhado da pele. + +De sorte que o casamento foi decidido para dali a um mês. E Luísa +começou a tratar do seu enxoval. + +Macário estava então na plenitude do amor e da alegria. + +Via o fim da sua vida preenchido, completo, feliz. Estava quási sempre +em casa da noiva, e um dia andando a acompanhá-la, em compras, pela +lojas, êle mesmo lhe quisera fazer um pequeno presente. A mãe tinha +ficado numa modista, num primeiro andar da rua do Ouro, e êles tinham +descido, alegremente, rindo, a um ourives que havia em baixo, no mesmo +prédio, na loja. + +O dia estava de inverno, claro, fino, frio, com um grande céu +azul-ferrete, profundo, luminoso, consolador. + +--Que bonito dia!--disse Macário. + +E com a noiva pelo braço, caminhou um pouco, ao comprido do passeio. + +--Está!--disse ela.--Mas podem reparar; nós sós... + +--Deixa, está tam bom... + +--Não, não. + +E Luísa arrastou-o brandamente para a loja do ourives. Estava apenas um +caixeiro, trigueiro, de cabelo hirsuto. + +Macário disse-lhe: + +--Queria ver aneis. + +--Com pedras--disse Luísa--e o mais bonito. + +--Sim, com pedras--disse Macário.--Ametista, granada. Emfim, o melhor. + +E, no entanto, Luísa ia examinando as _montres_ forradas de veludo azul, +onde reluziam as grossas pulseiras cravejadas, os grilhões, os colares +de camafeus, os aneis, as finas _alianças_ frágeis como o amor, e toda a +scintilação da pesada ourivesaria. + +--Vê, Luísa--disse Macário. + +O caixeiro tinha estendido, na outra extremidade do balcão, em cima do +vidro da _montre_, um reluzente espalhado de aneis de ouro, de pedras, +lavrados, esmaltados; e Luísa, tomando-os e deixando-os com as pontas +dos dedos, ia-os correndo e dizendo: + +--É feio... É pesado... É largo... + +--Vê este--disse-lhe Macário. + +Era um anel de pequenas pérolas. + +--É bonito--respondeu ela.--É lindo! + +--Deixa ver se serve--tornou Macário. + +E tomando-lhe a mão, meteu-lhe o anel devagarinho, docemente, no dedo; e +ela ria, com os seus brancos dentinhos finos, todos esmaltados. + +--É muito largo--disse Macário.--Que pena! + +--Aperta-se, querendo. Deixe a medida. Tem-no pronto àmanhã. + +--Boa idea--disse Macário--sim senhor. Porque é muito bonito. Não é +verdade? As pérolas muito iguais, muito claras. Muito bonito! E +êstes brincos?--acrescentou, indo ao fim do balcão, a outra +_montre_.--¿Êstes brincos com uma concha? + +--Dez moedas--disse o caixeiro. + +E, no entanto, Luísa continuava examinando os aneis, experimentando-os +em todos os dedos, revolvendo aquela delicada _montre_, scintilante e +preciosa. + +Mas, de repente, o caixeiro fez-se muito pálido, e afirmou-se em Luísa, +passeando vagarosamente a mão pela cara. + +--Bem--disse Macário, aproximando-se--então àmanhã temos o anel pronto. +A que horas? + +O caixeiro não respondeu e começou a olhar fixamente para Macário. + +--A que horas? + +--Ao meio dia. + +--Bem, adeus--disse Macário. + +E iam sair. Luísa trazia um vestido de lã azul, que arrastava um pouco, +dando uma ondulação melodiosa ao seu passo, e as suas mãos pequeninas +estavam escondidas num regalo branco. + +--Perdão!--disse de repente o caixeiro. + +Macário voltou-se. + +--O senhor não pagou... + +Macário olhou para êle gravemente. + +--Está claro que não. Àmanhã venho buscar o anel, pago àmanhã. + +--Perdão!--insistiu o caixeiro--mas o outro... + +--Qual outro?--exclamou Macário com uma voz surpreendida, adiantando-se +para o balcão. + +--Essa senhora sabe--afirmou o caixeiro.--Essa senhora sabe... + +Macário tirou a carteira lentamente. + +--Perdão, se há uma conta antiga... + +O caixeiro abriu o balcão, e com um aspecto resoluto: + +--Nada, meu caro senhor, é de agora. É um anel com dois brilhantes que +aquela senhora leva. + +--Eu!--disse Luísa, com a voz baixa, toda escarlate. + +--Que é? Que está a dizer? + +E Macário, pálido, com os dentes cerrados, contraído, fitava o caixeiro +coléricamente. + +O caixeiro disse então: + +--Essa senhora tirou dali um anel. + +Macário ficou imóvel, encarando-o. + +--Um anel com dois brilhantes--continuou o rapaz.--Vi perfeitamente. + +O caixeiro estava tam excitado, que a sua voz gaguejava, prendia-se +espessamente. + +--Essa senhora não sei quem é. Mas tirou o anel. Tirou-o dali... + +Macário, maquinalmente, agarrou-lhe no braço, e voltando-se para Luísa, +com a palavra abafada, gotas de suor na testa, lívido: + +--Luísa, dize... + +Mas a voz cortou-se-lhe. + +--Eu...--balbuciou ela, trémula, assombrada, enfiada, decomposta. + +E deixou cair o regalo no chão. + +Macário veio para ela, agarrou-lhe no pulso fitando-a: e o seu aspecto +era tam resoluto e tam imperioso, que ela meteu a mão no bôlso, +bruscamente, apavorada, e mostrando o anel: + +--Não me faça mal!--suplicou, encolhendo-se toda. + +Macário ficou com os braços caidos, o ar abstracto, os beiços brancos; +mas de repente, dando um puxão ao casaco, recuperando-se, disse ao +caixeiro: + +--Tem razão. Era distracção... Está claro! Esta senhora tinha-se +esquecido. É o anel. Sim, senhor, evidentemente... Tem a bondade. Toma, +filha, toma. Deixa estar, êste senhor embrulha-o. Quanto custa? + +Abriu a carteira e pagou. + +Depois apanhou o regalo, sacudiu-o brandamente, limpou os beiços com o +lenço, deu o braço a Luísa, e dizendo ao caixeiro: _desculpe_, +_desculpe_, levou-a, inerte, passiva, aterrada, semi-morta. + +Deram alguns passos na rua, que um largo sol iluminava intensamente: as +seges cruzavam-se, rolando ao estalido do chicote: figuras risonhas +passavam, conversando: os pregões subiam em gritos alegres: um cavaleiro +de calção de anta fazia ladear o seu cavalo, enfeitado de rosetas; e a +rua estava cheia, ruidosa, viva, feliz e coberta de sol. + +Macário ia maquinalmente, como no fundo de um sonho. Parou a uma +esquina. Tinha o braço de Luísa passado no seu; e via-lhe a mão +pendente, a sua linda mão de cera, com as veias docemente azuladas, os +dedos finos e amorosos: era a mão direita, e aquela mão era a da sua +noiva! E, instintivamente, leu o cartaz que anunciava, para esta noite, +_Palafoz em Saragoça_. + +De repente, soltando o braço de Luísa, disse-lhe baixo: + +--Vai-te. + +--Ouve!...--rogou ela, com a cabeça toda inclinada. + +--Vai-te.--E com a voz abafada e terrível:--Vai-te! Olha que chamo. +Mando-te para o Aljube. Vai-te. + +--Mas ouve, Jesus! + +--Vai-te!--E fez um gesto, com o punho cerrado. + +--Pelo amor de Deus, não me batas aqui!--disse ela, sufocada. + +--Vai-te! Podem reparar. Não chores. Olha que vêem. Vai-te! + +E chegando-se para ela, disse baixo: + +--És uma ladra! + +E voltando-lhe as costas, afastou-se, devagar, riscando o chão com a +bengala. + +A distância, voltou-se: ainda viu, através dos vultos, o seu vestido azul. + +Como partiu nessa tarde para a província, não soube mais daquela +rapariga loura. + + + + +UM POETA LÍRICO + + +Aqui está, simplesmente, sem frases e sem ornatos, a história triste do +poeta Korriscosso. De todos os poetas líricos de que tenho notícia, é +êste, certamente, o mais infeliz. Conheci-o em Londres, no hotel de +Charing-Cross, uma madrugada regelada de dezembro. Tinha eu chegado do +continente, prostrado por duas horas de Canal da Mancha... Ah! que mar! +E era só uma brisa fresca de Noroeste: mas ali, no tombadilho, sob uma +capa de oleado de que um marujo me tinha coberto, como se cobre um corpo +morto, fustigado da neve e da vaga, oprimido por aquela treva tumultuosa +que o paquete ia rompendo aos roncos e aos encontrões--parecia-me um +tufão dos mares da China... + +Apenas entrei no hotel, gelado e estremunhado, corri ao vasto fogão do +perístilo, e ali fiquei, saturando-me daquela paz quente em que a sala +estava adormecida, com os olhos beatamente postos na boa brasa +escarlate... E foi então que vi aquela figura esguia e longa, já de +casaca e gravata branca, que do outro lado da chaminé, de pé, com a +taciturna tristeza duma cegonha que scisma, olhava tambêm os carvões +ardentes, com um guardanapo no braço. Mas o porteiro tinha rolado a +minha bagagem, e eu fui inscrever-me ao _bureau_. A _guarda-livros_, +tesa e loura, com um perfil antiquado de medalha safada, pousou o seu +_crochet_ ao lado da sua chávena de chá, acariciou com um gesto doce os +dois bandós louros, assentou correctamente o meu nome, de dedinho no ar, +fazendo rebrilhar um diamante, e eu ia subir a vasta escadaria,--quando +a figura magra e fatal se dobrou num ângulo, e murmurou-me num inglês +silabado: + +--Já está servido o almôço das sete... + +Mas eu não queria o almôço das sete. Fui dormir. + +Mais tarde, já repousado, fresco do banho, quando desci ao restaurante +para o _lunch_, avistei logo, plantado melancólicamente ao pé da larga +janela, o indivíduo esguio e triste. A sala estava deserta numa luz +parda; os fogões flamejavam; e fóra, no silêncio do domingo, nas +ruas mudas, a neve caía sem cessar dum ceu amarelento e baço. Eu via +apenas as costas do homem; mas havia na sua linha magra e um pouco +dobrada uma expressão tam evidente de desalento, que me interessei por +aquela figura. O cabelo comprido, de tenor, caído sôbre a gola da +casaca, era, manifestamente, dum meridional; e toda a sua magreza +friorenta se encolhia ao aspecto daqueles telhados cobertos de neve, na +sensação daquele silêncio lívido... Chamei-o. Quando êle se voltou, a +sua fisionomia, que apenas entrevira na véspera, impressionou-me: era um +carão longo e triste, muito moreno, de nariz judaico e uma barba curta e +frisada, uma barba de Cristo em estampa romântica; a testa era destas +que, em boa literatura, se chama, creio eu, _fronte_; era larga e era +lustrosa. Tinha o olhar encovado e vago, com uma indecisão de sonho +nadando num fluido enternecido... E que magreza! quando andava, a calça +curta torcia-se em tôrno da canela como pregas de bandeira em tôrno dum +mastro: a casaca tinha dobras de túnica ampla; as duas abas compridas e +agudas eram desgraçadamente grotescas. Recebeu a ordem do meu almôço, +sem me olhar, num tédio resignado: arrastou-se para o _comptoir_ onde o +_maître de hotel_ lia a Bíblia, passou a mão pela testa com um gesto +errante e dolente, e disse-lhe numa voz surda: + +--Nùmero 307. Duas costeletas. Chá... + +O _maître de hotel_ afastou a _Bíblia_, inscreveu o _menu_--e eu +acomodei-me à mesa, e abri o volume de Tennyson que trouxera para +almoçar comigo--porque, creio que lhes disse, era domingo, dia sem +jornais e sem pão fresco. Fóra continuava a nevar sôbre a cidade muda. A +uma mesa distante, um vélho côr de tijolo e todo branco de cabelo e de +suíças, que acabara de almoçar, dormitava de mãos no ventre, bôca +aberta, e luneta na ponta do nariz. E o único som vinha da rua, uma voz +gemente que a neve abafava mais, uma voz pedinte que à esquina defronte +garganteava um psalmo... Um domingo de Londres. + +Foi o magro que me trouxe o almôço--e apenas êle se aproximou, com o +serviço do chá, eu senti logo que aquele volume de Tennyson nas minhas +mãos o tinha interessado e impressionado: foi um olhar rápido, +gulosamente fixado na página aberta, um estremecimento quási +imperceptível,--emoção fugitiva, de-certo, porque depois de ter pousado +o serviço, rodou sôbre os calcanhares e foi plantar-se, +melancólicamente, à janela, de ôlho triste e posto na neve triste. Eu +atribuí aquele movimento curioso ao esplendor da encadernação do volume, +que eram os _Idílios de El-Rei_, em marroquim negro, com o escudo de +armas de Lançarote do Lago--o pelicano de oiro sôbre um mar de sinopla. + +Nessa noite parti no expresso para a Escócia, e ainda não tinha passado +York, adormecida na sua gravidade episcopal, já me esquecera o criado +romanesco do restaurante de Charing-Cross. Foi só daí a um mês, ao +voltar a Londres, que entrando no restaurante, e revendo aquela figura +lenta e fatal atravessar com um prato de _roast-beef_ numa das mãos e na +outra um _puding_ de batata, senti renascer o antigo interesse. E nessa +noite mesmo, tive a singular felicidade de saber o seu nome e de +entrever um fragmento do seu passado. Era já tarde e eu voltava do +_Covent-Garden_, quando no perístilo do hotel encontrei, majestoso e +próspero, o meu amigo Bracolletti. + +¿Não conhecem Bracolletti? A sua presença é formidável; tem a amplidão +pançuda, o negro cerrado da barba, a lentidão, o cerimonial dum pachá +gordo; mas esta ponderosa gravidade turca é temperada, em Bracolletti, +pelo sorriso e pelo olhar. Que olhar! Um olhar doce, que me faz lembrar +o dos animais da Síria: é o mesmo enternecimento. Parece errar no seu +fluido macio a religiosidade meiga das raças que dão os Messias... Mas o +sorriso! O sorriso de Bracolletti é a mais complexa, a mais perfeita, a +mais rica das expressões humanas; há finura, inocência, bonomia, +abandono, ironia doce, persuasão, naqueles dois lábios que se descerram +e que deixam brilhar um esmalte de dentes de virgem... Ah! mas +tambêm êste sorriso é a fortuna de Bracolletti. + +Moralmente, Bracolletti é um hábil. Nasceu em Esmirna de pais gregos; é +tudo o que êle revela: de resto, quando se lhe pergunta pelo seu +passado, o bom grego rola um momento a cabeça de ombro a ombro, esconde +sob as palpebras cerradas com bonomia o seu ôlho maometano, desabrocha o +sorriso duma doçura de tentar abelhas, e murmura, como afogado em +bondade e em enternecimento: + +--_Eh! mon Dieu! Eh! mon Dieu!_... + +Nada mais. Parece, porêm, que viajou,--porque conhece o Perú, a Crimeia, +o Cabo da Boa-Esperança, os países exóticos--tam bem como Regent-Street: +mas é evidente para todos que a sua existência não foi tecida, como a +dos vulgares aventureiros do Levante, de oiro e estôpa, de esplendores e +pelintrices: é um gordo e, portanto, um prudente: o seu magnífico +solitário nunca deixou de lhe brilhar no dedo: nenhum frio jàmais o +surpreendeu sem uma pelissa de dois mil francos: e nunca deixa de +ganhar, todas as semanas, no _Fraternal Club_, de que é um membro +querido, dez libras ao whist. É um forte. + +Mas tem uma debilidade. É singularmente guloso de rapariguinhas de dôze +a catorze anos: gosta delas magrinhas, muito louras, e com o hábito de +praguejar. Coleciona-as pelos bairros pobres de Londres, com método. +Instala-as em casa, e ali as tem, como passarinhos na gaiola, +metendo-lhes a papinha no bico, ouvindo-as palrar todo baboso, +animando-as a que lhe roubem os _shillings_ da algibeira, gozando o +desenvolvimento dos vícios naquelas flores, pondo-lhes ao alcance as +garrafas de _gin_ para que os anjinhos se embebedem;--e quando alguma, +excitada de álcool, de cabelo ao vento e face acesa, o injuría, o +arrepela, baba obscenidades,--o bom Bracolletti, encruzado no sofá, de +mãos beatamente cruzadas na pança, o olhar afogado em êxtase, murmura no +seu italiano da costa síria. + +--_Piccolina! Gentilleta!_ + +Querido Bracolletti! Foi, realmente, com prazer, que o abracei, nessa +noite, em Charing-Cross: e como nos não víamos há muito, fomos cear +juntos ao restaurante. O criado triste lá estava no seu _comptoir_, +curvado sôbre o _Journal des Debats_. E apenas Bracolletti apareceu, na +sua majestade de obeso, o homem estendeu-lhe silenciosamente a mão; foi +um _shake-hands_ solene, enternecido e sincero. + +Bom Deus, eram amigos! Arrebatei Bracolletti para o fundo da sala, e +vibrando de curiosidade, interroguei-o com sofreguidão. Quis primeiro o +nome do homem. + +--Chama-se Korriscosso--disse-me Bracolletti, grave. + +Quis depois a sua história. Mas Bracolletti, como os deuses da Ática +que, nos seus embaraços no mundo, se recolhiam à sua nuvem, Bracolletti +refugiou-se na sua vaga reticência. + +--_Eh! mon Dieu!..._ _Eh! mon Dieu!_... + +--Não, não, Bracolletti. Vejâmos. Quero-lhe a história... Aquela face +fatal e baironeana deve ter uma história... + +Bracolletti então tomou todo o ar cândido que lhe permitem a sua pança e +as suas barbas--e confessou-me, deixando cair as frases às gotas, que +tinham viajado ambos na Bulgária e no Montenegro... Korriscosso foi seu +secretário... Boa letra... Tempos difíceis... _Eh! mon Dieu!_... + +--De onde é êle? + +Bracolletti respondeu sem hesitar, baixando a voz com um gesto repassado +de desconsideração: + +--É um grego de Atenas. + +O meu interesse sumiu-se como a água que a areia absorve. Quando se tem +viajado no Oriente e nas escalas do Levante, adquire-se fácilmente o +hábito, talvez injusto, de suspeitar do grego: aos primeiros que se +vêem, sobretudo tendo uma educação universitária e clássica, o +entusiasmo acende-se um pouco, pensa-se em Alcibíades e em Platão, nas +glórias duma raça estética e livre, e perfilam-se na imaginação as +linhas augustas do Pártenon. Mas, depois de os ter freqùentado, às +mesas redondas e nos tombadilhos das _Messageries_, e principalmente +depois de ter escutado a lenda de velhacaria que êles tem deixado desde +Esmirna até Túnis, os outros que se vêem provocam, apenas, êstes +movimentos: abotoar rápidamente o casaco, cruzar fortemente os braços +sôbre a cadeia do relógio, e aguçar o intelecto para rechassar a +_escroquerie_. A causa desta reputação funesta é que a gente grega, que +emigra para as escalas do Levante, é uma plebe torpe, parte pirata e +parte lacaia, bando de rapina astuto e perverso. A verdade é que apenas +soube Korriscosso um grego, lembrei-me logo que o meu belo volume de +Tennyson, na minha última estada em Charing-Cross, me desaparecera do +quarto, e recordei o olhar de gula e de prêsa que cravara nele +Korriscosso... Era um bandido! + +E durante a ceia não falamos mais de Korriscosso. Serviu-nos outro +criado, rubro, honesto e são. O lúgubre Korriscosso não se afastou do +_comptoir_ abismado no _Journal des Debats_. + +Nessa noite aconteceu, ao recolher-me ao meu quarto, que me perdi... O +hotel estava atulhado, e eu tinha sido alojado naqueles altos de +Charing-Cross, numa complicação de corredores, escadas, recantos, +ângulos, onde é quási necessário roteiro e bússola. + +De castiçal na mão, penetrei num passadiço onde corria um bafo morno de +viela mal arejada. As portas aí não tinham números, mas pequenos cartões +colados onde estavam inscritos nomes: _John Smith_, _Charlie_, +_Willie_... Emfim, eram evidentemente as habitações dos criados. De uma +porta aberta saía a claridade de um bico de gás; adiantei-me, e vi logo +Korriscosso, ainda de casaca, sentado a uma mesa alastrada de papeis, de +testa pendida sôbre a mão, escrevendo. + +--¿Pode-me indicar o caminho para o número 508?--balbuciei. + +Êle ergueu para mim um olhar estremunhado e ennevoado; parecia ressurgir +de muito longe, de um outro universo; batia as pálpebras, repetindo: + +--508? 508?... + +Foi então que eu avistei, sôbre a mesa, entre papeis, colarinhos sujos e +um rosário--o meu volume de Tennyson! Êle viu o meu olhar, o bandido! e +acusou-se todo numa vermelhidão que lhe inundou a face chupada. O meu +primeiro movimento foi não reconhecer o livro: como era um movimento +bom, e obedecendo logo à moral superior do mestre Talleyrand, reprimi-o; +apontando o volume com um dedo severo, um dedo de Providência irritada, +disse-lhe: + +--É o meu Tennyson... + +Não sei que resposta êle tartamudeou, porque eu, apiedado, retomado +tambêm pelo interesse que me dava aquela figura picaresca de grego +sentimental, acrescentei num tom repassado de perdão e de justificação: + +--¿Grande poeta, não é verdade? Que lhe pareceu? Tenho a certeza que se +entusiasmou... + +Korriscosso corou mais: mas não era o despeito humilhado do salteador +surpreendido: era, julguei eu, a vergonha de ver a sua inteligência, o +seu gôsto poético adivinhados--e de ter no corpo a casaca coçada de +criado de restaurante. Não respondeu. Mas as páginas do volume, que eu +abri, responderam por êle; a brancura das margens largas desaparecia sob +uma rêde de comentários a lápis: _Sublime!_ _Grandioso!_ +_Divino!_--palavras lançadas numa letra convulsiva, num tremor de mão, +agitada por uma sensibilidade vibrante... + +No entanto, Korriscosso permanecia de pé, respeitoso, culpado, de cabeça +baixa, com o laço da gravata branca fugindo para o cachaço. Pobre +Korriscosso! Compadeci-me daquela atitude, revelando todo um passado sem +sorte, tantas tristezas de dependência... Lembrei-me que nada +impressiona o homem do Levante como um gesto de drama e de palco; +estendi-lhe ambas as mãos num movimento à Talma, e disse-lhe: + +--Eu tambem sou poeta!... + +Esta frase extraordinária pareceria grotesca e impudente a um homem do +Norte; o levantino viu logo nela a expansão de uma alma irmã. ¿Porque, +não lhes disse? o que Korriscosso estava escrevendo, numa tira de papel, +eram estrofes: era uma ode. + +Daí a pouco, com a porta fechada, Korriscosso contava-me a sua +história--ou antes fragmentos, anedotas desirmanadas da sua biografia. É +tam triste, que a condenso. De resto, havia na sua narração lacunas de +anos;--e eu não posso reconstituir com lógica e seqùência a história +dêste sentimental. Tudo é vago e suspeito. Nasceu com efeito em Atenas; +seu pai parece que era carregador no Pireu. Aos 18 anos Korriscosso +servia de criado a um médico, e nos intervalos do serviço freqùentava a +Universidade de Atenas; estas coisas são freqùentes _là-bas_, como êle +dizia. Formou-se em leis: isto habilitou-o, mais tarde, em tempos +difíceis, a ser um intérprete de hotel. Dêsse tempo datam as suas +primeiras elégias num semanário lírico intitulado _Ecos da Ática_. A +literatura levou-o directamente à política e às ambições parlamentares. +Uma paixão, uma crise patética, um marido brutal, ameaças de morte, +forçaram-no a expatriar-se. Viajou na Bulgária, foi em Salónica +empregado numa sucursal do _Banco Otomano_, remeteu endechas +dolorosas a um jornal da província--a _Trombeta da Argólida_. Aqui há +uma dessas lacunas, um buraco negro na sua história. Reaparece em +Atenas, com fato novo, liberal e deputado. + +Êste período de glória foi breve, mas suficiente para o pôr em +evidência; a sua palavra colorida, poética, recamada de imagens +engenhosas e lustrosas, encantou Atenas: tinha o segredo de florir, como +êle dizia, os terrenos mais áridos; duma discussão de imposto ou de +viação fazia saltar éclogas de Teócrito. Em Atenas êste talento leva ao +poder: Korriscosso era indicado para gerir uma alta administração do +Estado: o ministério, porêm, e com êle a maioria de que Korriscosso era +o tenor querido, caíram, sumiram-se sem lógica constitucional, num +dêstes súbitos desabamentos políticos tam comuns na Grécia, em que os +governos se aluem, como as casas em Atenas--sem motivo. Falta de base, +decrepitude de materiais e de individualidades... Tudo tende para o pó +num solo de ruinas... + +Nova lacuna, novo mergulho obscuro na história de Korriscosso... + +Volta à superfície, membro de um club rèpublicano de Atenas, pede num +jornal a emancipação da Polónia, e a Grécia governada por um concílio de +génios. Publíca então os seus _Suspiros da Trácia_. Tem outro +romance de coração... E emfim--e isto disse-mo sem explicações--é +obrigado a refugiar-se em Inglaterra. Depois de tentar em Londres várias +posições, coloca-se no restaurant de Charing-Cross. + +--É um pôrto de abrigo--disse-lhe eu, apertando-lhe a mão. + +Êle sorriu com amargura. Era de-certo um pôrto de abrigo, e vantajoso. É +bem alimentado; as gorgetas são razoáveis; tem um vélho colxão de +molas,--mas as delicadezas da sua alma são, a todo o momento, +dolorosamente feridas... + +Dias atribulados, dias crucificados, os daquele poeta lírico, forçado a +distribuir numa sala, a burgueses estabelecidos e glutões, costeletas e +copos de cerveja! Não é a dependência que o aflige; a sua alma de grego +não é particularmente ávida de liberdade, basta-lhe que o patrão seja +cortês. E, como êle me disse, é-lhe grato reconhecer que os fregueses de +Charing-Cross nunca lhe pedem a mostarda ou o queijo sem dizer _if you +please_; e quando saem, ao passar por êle, levam dois dedos à aba do +chapéu: isto satisfaz a dignidade de Korriscosso. + +Mas o que o tortura é o contacto constante com o alimento. Se êle fôsse +um guarda-livros de um banqueiro, primeiro caixeiro de um armazêm de +sêdas... Nisso há uma sombra de poesia--os milhões que se revolvem, as +frotas mercantes, a brutal fôrça do oiro, ou então dispôr ricamente +os estofos, os cortes de sêda, fazer correr a luz nas ondulações dos +_moirés_, dar ao veludo as molezas da linha e da prega... Mas num +restaurante como se pode exercer o gôsto, a originalidade artística, o +instinto da côr, do efeito, do drama--a partir nacos de _roast-beef_ ou +de presunto de York?!... Depois, como êle disse, dar a comer, fornecer +alimento, é servir exclusivamente a pança, a tripa, a baixa necessidade +material: no restaurante, o ventre é Deus: a alma fica fóra, com o +chapéu que se pendura no cabide ou com o rôlo de jornais que se deixou +no bôlso do paletot. + +E as convivências, e a falta de conversação! Nunca se voltarem para êle +senão para lhe pedirem salame ou sardinhas de Nantes! Nunca abrir os +seus lábios, de onde pendia o parlamento de Atenas, senão para +perguntar:--Mais pão? mais bife?--Esta privação de eloqùência é-lhe +dolorosa. + +Alêm disso o serviço impede-lhe o trabalho. Korriscosso compõe de +memória; quatro passeios pelo quarto, um repelão ao cabelo, e a ode +sai-lhe harmoniosa e doce.... Mas a interrupção glutona da voz do +freguês, pedindo nutrição, é fatal a esta maneira de trabalhar. Às +vezes, encostado a uma janela, de guardanapo no braço, Korriscosso está +fazendo uma elégia; são tudo luares, roupagens alvas de virgens +pálidas, horizontes celestes, flores de alma dolorida... É feliz; +está remontado aos céus poéticos, nas planícies azuladas onde os sonhos +acampam, galopando de estrêla em estrêla... De repente, uma grossa voz +faminta berra dum canto: + +--Bife e batatas! + +Ai! as aladas fantasias batem o vôo como pombas espavoridas! E aí vem o +infeliz Korriscosso, precipitado dos cimos ideais, de ombros vergados e +as abas da casaca balouçando, perguntar com o sorriso lívido: + +--¿Passado ou meio crú? + +Ah! é um amargo destino! + +--¿Mas--perguntei-lhe eu--porque não deixa êste covil, êste templo do +ventre? + +Ele deixou pender a sua bela cabeça de poeta. E disse-me a razão que o +prende: disse-ma, quási chorando nos meus braços, com o nó da gravata +branca no cachaço: Korriscosso ama. + +Ama uma Fanny, criada de todo o serviço em Charing-Cross. Ama-a desde o +primeiro dia em que entrou no hotel: amou-a no momento em que a viu +lavando as escadas de pedra, com os braços roliços nus, e os cabelos +louros, os fatais cabelos louros, dêste louro que entontece os +meridionais, cabelos ricos, de um tom de cobre, dum tom de oiro mate, +torcendo-se numa trança de deusa. E depois a carnação, uma carnação +de inglesa do Yorkshire--leite e rosas... + +E o que Korriscosso tem sofrido! Toda a sua dor exala-a em odes--que +passa a limpo ao domingo, dia de repouso e dia do Senhor! Leu-mas. E eu +vi quanto a paixão pode perturbar um ser nervoso: que ferocidade de +linguagem, que lances de desespero, que gritos de alma dilacerada +arremesados dali, daqueles altos de Charing-Cross, para a mudez do céu +frio! É que Korriscosso tem ciumes. A desgraçada Fanny ignora aquele +poeta a seu lado, aquele delicado, aquele sentimental, e ama um +_policeman_. Ama um _policeman_, um colosso, um alcides, uma montanha de +carne erriçada duma floresta de barbas, com o peito como o flanco de um +couraçado, com pernas como fortalezas normandas. Êste Polifemo, como diz +Korriscosso, tem, ordináriamente, serviço no Strand; e a pobre Fanny +passa o seu dia a espreitá-lo de um postigo, dos altos do hotel. + +Todas as suas economias as gasta em quartilhos de _gin_, de _brandy_, de +genebra, que à noite lhe leva em copinhos debaixo do avental: mantem-no +fiel pelo álcool; o monstro, plantado enormemente a uma esquina, recebe +em silêncio o copo, atira-o de um golpe às fauces tenebrosas, arrota +cavamente, passa a mão cabeluda pela barba de hércules, e segue +taciturnamente, sem um _obrigado_, sem um _amo-te_, batendo o lagedo +com a vastidão das suas solas sonoras. A pobre Fanny admira-o babosa... +E talvez nesse momento, à outra esquina, o magro Korriscosso, fazendo no +nevoeiro um esguio relêvo de poste telegráfico, soluce com a face magra +entre as mãos transparentes. + +Pobre Korriscosso! Se êle ao menos a pudesse comover... Mas quê! Ela +despreza-lhe o corpo de tísico triste: e a alma não lha compreende... +Não que Fanny seja inacessível a sentimentos ardentes, expressos em +linguagem melodiosa. Mas Korriscosso só pode escrever as suas elégias na +sua língua materna... E Fanny não compreende grego... E Korriscosso é só +um grande homem--em grego... + +Quando desci ao meu quarto, deixei-o soluçando sôbre o catre. Tenho-o +visto depois, outras vezes, ao passar em Londres. Está mais magro, mais +fatal, mais mirrado de zelos, mais curvado quando se move pelo +restaurante com a travessa do _roast-beef_, mais exaltado no seu +lirismo... Sempre que êle me serve dou-lhe um _shilling_ de gorgeta: e +depois, ao retirar, aperto-lhe sinceramente a mão. + + + + +NO MOINHO + + +D. Maria da Piedade era considerada em toda a vila como «uma senhora +modêlo». O vélho Nunes, director do correio, sempre que se falava nela, +dizia, acariciando com autoridade os quatro pêlos da calva: + +--É uma santa! É o que ela é! + +A vila tinha quási orgulho na sua beleza delicada e tocante; era uma +loura, de perfil fino, a pele eburnea, e os olhos escuros de um tom de +violeta, a que as pestanas longas escureciam mais o brilho sombrio e +doce. Morava ao fim da estrada, numa casa azul de três sacadas; e era, +para a gente que às tardes ia fazer o giro até ao moinho, um encanto +sempre novo vê-la por trás da vidraça, entre as cortinas de cassa, +curvada sôbre a sua costura, vestida de preto, recolhida e séria. +Poucas vezes saía. O marido, mais vélho que ela, era um inválido, +sempre de cama, inutilizado por uma doença de espinha; havia anos que +não descia à rua; avistavam-no às vezes tambêm à janela murcho e +trôpego, agarrado à bengala, encolhido na _robe-de-chambre_, com uma +face macilenta, a barba desleixada e com um barretinho de sêda enterrado +melancólicamente até ao cachaço. Os filhos, duas rapariguitas e um +rapaz, eram tambêm doentes, crescendo pouco e com dificuldade, cheios de +tumores nas orelhas, chorões e tristonhos. A casa, interiormente, +parecia lúgubre. Andava-se nas pontas dos pés, porque o senhor, na +excitação nervosa que lhe davam as insónias, irritava-se com o menor +rumor; havia sôbre as cómodas alguma garrafada da botica, alguma malga +com papas de linhaça; as mesmas flores com que ela, no seu arranjo e no +seu gôsto de frescura, ornava as mesas, depressa murchavam naquele ar +abafado de febre, nunca renovado por causa das correntes de ar; e era +uma tristeza ver sempre algum dos pequenos ou de emplastro sôbre a +orelha, ou a um canto do camapé, embrulhado em cobertores com uma +amarelidão de hospital. + +Maria da Piedade vivia assim, desde os vinte anos. Mesmo em solteira, em +casa dos pais, a sua existência fôra triste. A mãe era uma criatura +desagradável e azêda; o pai, que se empenhara pelas tavernas e pelas +batotas, já vélho, sempre bêbedo, os dias que aparecia em casa +passava-os à lareira, num silêncio sombrio, cachimbando e escarrando +para as cinzas. Todas as semanas desancava a mulher. E quando João +Coutinho pediu Maria em casamento, a-pesar de doente já, ela aceitou, +sem hesitação, quási com reconhecimento, para salvar o casebre da +penhora, não ouvir mais os gritos da mãe, que a faziam tremer, rezar, em +cima no seu quarto, onde a chuva entrava pelo telhado. Não amava o +marido, de-certo; e mesmo na vila tinha-se lamentado que aquele lindo +rosto de Virgem Maria, aquela figura de fada, fôsse pertencer ao +Joãosinho Coutinho, que desde rapaz fôra sempre entrevado. O Coutinho, +por morte do pai, ficára rico; e ela, acostumada por fim àquele marido +rabugento, que passava o dia arrastando-se sombriamente da sala para a +álcôva, ter-se-ia resignado, na sua natureza de enfermeira e de +consoladora, se os filhos ao menos tivessem nascido sãos e robustos. Mas +aquela família que lhe vinha com o sangue viciado, aquelas existências +hesitantes, que depois pareciam apodrecer-lhe nas mãos, a-pesar dos seus +cuidados inquietos, acabrunhavam-na. Às vezes só, picando a sua costura, +corriam-lhe as lágrimas pela face: uma fadiga da vida invadia-a, como +uma névoa que lhe escurecia a alma. + +Mas se o marido de dentro chamava desesperado, ou um dos pequenos +choramingava, lá limpava os olhos, lá aparecia com a sua bonita face +tranqùila, com alguma palavra consoladora, compondo a almofada a um, +indo animar o outro, feliz em ser boa. Toda a sua ambição era ver o seu +pequeno mundo bem tratado e bem acarinhado. Nunca tivera desde casada +uma curiosidade, um desejo, um capricho: nada a interessava na terra +senão as horas dos remédios e o sono dos seus doentes. Todo o esfôrço +lhe era fácil quando era para os contentar: a-pesar de fraca, passeava +horas trazendo ao colo o pequerrucho, que era o mais impertinente, com +as feridas que faziam dos seus pobres beicinhos uma crosta escura: +durante as insónias do marido não dormia tambêm, sentada ao pé da cama, +conversando, lendo-lhe as Vidas dos Santos, porque o pobre entrevado ia +caíndo em devoção. De manhã estava um pouco mais pálida, mas toda +correcta no seu vestido preto, fresca, com os bandós bem lustrosos, +fazendo-se bonita para ir dar as sopas de leite aos pequerruchos. A sua +única distracção era à tarde sentar-se à janela com a sua costura, e a +pequenada em roda, aninhada no chão, brincando tristemente. A mesma +paizagem que ela via da janela era tam monótona como a sua vida: em +baixo a estrada, depois uma ondulação de campos, uma terra magra +plantada aqui e alêm de oliveiras e, erguendo-se ao fundo, uma +colina triste e nua, sem uma casa, uma árvore, um fumo de casal que +pusesse naquela solidão de terreno pobre uma nota humana e viva. + +Vendo-a assim tam resignada e tam sujeita, algumas senhoras da vila +afirmavam que ela era beata: todavia ninguêm a avistava na igreja, a não +ser ao domingo, com o pequerrucho mais vélho pela mão, todo pálido no +seu vestido de veludo azul. Com efeito, a sua devoção limitava-se a esta +missa todas as semanas. A sua casa ocupava-a muito para se deixar +invadir pelas preocupações do céu: naquele dever de boa mãe, cumprido +com amor, encontrava uma satisfação suficiente à sua sensibilidade; não +necessitava adorar santos ou enternecer-se com Jesus. Instintivamente +mesmo pensava que toda a afeição excessiva dada ao Pai do Céu, todo o +tempo gasto em se arrastar pelo confessionário ou junto do oratório, +seria uma diminuição cruel no seu cuidado de enfermeira: a sua maneira +de rezar era velar os filhos: e aquele pobre marido pregado numa cama, +todo dependente dela, tendo-a só a ela, parecia-lhe ter mais direito ao +seu fervor que o outro, pregado numa cruz, tendo para o amar toda uma +humanidade pronta. Alêm disso, nunca tivera estas sentimentalidades de +alma triste que levam à devoção. O seu longo hábito de dirigir uma casa +de doentes, de ser ela o centro, a fôrça, o amparo daqueles +inválidos, tornára-a terna, mas pràtica: e assim era ela que +administrava agora a casa do marido, com um bom senso que a afeição +dirigira, uma solicitude de mãe próvida. Tais ocupações bastavam para +entreter o seu dia: o marido, de resto, detestava visitas, o aspecto de +caras saudáveis, as comiserações de cerimónia; e passavam-se meses sem +que em casa de Maria da Piedade se ouvisse outra voz estranha à família, +a não ser a do Dr. Abílio--que a adorava, e que dizia dela com os olhos +esgazeados: + +--É uma fada! é uma fada... + + +Foi por isso grande a excitação na casa, quando João Coutinho recebeu +uma carta de seu primo Adrião que lhe anunciava que em duas ou três +semanas ia chegar à vila. Adrião era um homem célebre, e o marido de +Maria da Piedade tinha naquele parente um orgulho enfático. Assinára +mesmo um jornal de Lisboa, só para ver o seu nome nas locais e na +crítica. Adrião era um romancista: e o seu último livro, _Madalena_, um +estudo de mulher trabalhado a grande estilo, duma análise delicada e +subtil, consagrara-o como um mestre. A sua fama, que chegara até à vila, +num vago de legenda, apresentava-o como uma personalidade interessante, +um herói de Lisboa, amado das fidalgas, impetuoso e brilhante, destinado +a uma alta situação no Estado. Mas realmente na vila era sobretudo +notável por ser primo do João Coutinho. + +D. Maria da Piedade ficou aterrada com esta visita. Via já a sua casa em +confusão com a presença do hóspede extraordinário. Depois a necessidade +de fazer mais _toilette_, de alterar a hora do jantar, de conversar com +um literato, e tantos outros esforços crueis!... E a brusca invasão +daquele mundano, com as suas malas, o fumo do seu charuto, a sua alegria +de são, na paz triste do seu hospital, dava-lhe a impressão apavorada +duma profanação. Foi por isso um alívio, quási um reconhecimento, quando +Adrião chegou, e muito simplesmente se instalou na antiga estalagem do +tio André, à outra extremidade da vila. João Coutinho escandalizou-se: +tinha já o quarto do hóspede preparado, com lençóis de rendas, uma +colcha de damasco, pratas sôbre a cómoda, e queria-o todo para si, o +primo, o homem célebre, o grande autor... Adrião porêm recusou: + +--Eu tenho os meus hábitos, vocês teem os seus... ¿Não nos contrariemos, +hein?... O que faço é vir cá jantar. De resto, não estou mal no tio +André... Vejo da janela um moinho e uma reprêsa que são um quadrosinho +delicioso... ¿E ficamos amigos, não é verdade? + +Maria da Piedade olhava-o assombrada: aquele herói, aquele fascinador +por quem choravam mulheres, aquele poeta que os jornais +glorificavam, era um sujeito extremamente simples,--muito menos +complicado, menos espectaculoso que o filho do recebedor! Nem formoso +era: e com o seu chapéu desabado sôbre uma face cheia e barbuda, a +quinzena de flanela caíndo à larga num corpo robusto e pequeno, os seus +sapatos enormes, parecia-lhe a ela um dos caçadores de aldeia que às +vezes encontrava, quando de mês a mês ia visitar as fazendas do outro +lado do rio. Alêm disso não fazia frases; e a primeira vez que veio +jantar, falou apenas, com grande bonomia, dos seus negócios. Viera por +êles. Da fortuna do pai, a única terra que não estava devorada, ou +abominavelmente hipotecada, era a Curgossa, uma fazenda ao pé da vila, +que andava alêm disso mal arrendada... O que êle desejava era vendê-la. +Mas isso parecia-lhe a êle tam difícil, como fazer a _Ilíada_!... E +lamentava sinceramente ver o primo ali, inútil sôbre uma cama, sem o +poder ajudar nesses passos a dar com os proprietários da vila. Foi por +isso, com grande alegria, que ouviu João Coutinho declarar-lhe que a +mulher era uma administradora de primeira ordem, e hábil nestas questões +como um antigo rábula!... + +--Ela vai contigo ver a fazenda, fala com o Teles, e arranja-te isso +tudo... E na questão de preço, deixa-a a ela!... + +--Mas que superioridade, prima!--exclamou Adrião maravilhado.--Um anjo +que entende de cifras! + +Pela primeira vez na sua existência Maria da Piedade corou com a palavra +dum homem. De resto prontificou-se logo a ser a procuradora do primo... + +No outro dia foram ver a fazenda. Como ficava perto, e era um dia de +março fresco e claro, partiram a pé. Ao princípio, acanhada por aquela +companhia de um leão, a pobre senhora caminhava junto dêle com o ar de +um pássaro assustado: a-pesar de êle ser tam simples, havia na sua +figura enérgica e musculosa, no timbre rico da sua voz, nos seus olhos +pequenos e luzidios alguma coisa de forte, de dominante, que a enleava. +Tinha-se-lhe prendido à orla do seu vestido um galho de silvado, e como +êle se abaixára para o desprender delicadamente, o contacto daquela mão +branca e fina de artista na orla da sua saia incomodou-a singularmente. +Apressava o passo para chegar bem depressa à fazenda, aviar o negócio +com o Teles, e voltar imediatamente a refugiar-se, como no seu elemento +próprio, no ar abafado e triste do seu hospital. Mas a estrada +estendia-se, branca e longa, sob o sol tépido--e a conversa de Adrião +foi-a lentamente acostumado à sua presença. + +Êle parecia desolado daquela tristeza da casa. Deu-lhe alguns bons +conselhos: o que os pequenos necessitavam era ar, sol, uma outra vida +diversa daquele abafamento de alcôva... + +Ela tambêm assim o julgava: mas quê! o pobre João, sempre que se lhe +falava de ir passar algum tempo à quinta, afligia-se terrívelmente: +tinha horror aos grandes ares e aos grandes horizontes: a natureza forte +fazia-o quási desmaiar; tornára-se um ser artificial, encafuado entre os +cortinados da cama... + +Êle então lamentou-a. De-certo poderia haver alguma satisfação num dever +tam santamente cumprido... Mas, emfim, ela devia ter momentos em que +desejasse alguma outra cousa alêm daquelas quatro paredes, impregnadas +do bafo da doença... + +--¿Que hei-de eu desejar mais?--disse ela. + +Adrião calou-se: pareceu-lhe absurdo supôr que ela desejasse, realmente, +o Chiado ou o Teatro da Trindade... No que êle pensava era noutros +apetites, nas ambições do coração insatisfeito... Mas isto pareceu-lhe +tam delicado, tam grave de dizer àquela criatura virginal e séria--que +falou da paizagem... + +--Já viu o moinho?--perguntou-lhe ela. + +--Tenho vontade de o ver, se mo quiser ir mostrar, prima. + +--Hoje é tarde. + +Combinaram logo ir visitar êsse recanto de verdura, que era o idílio da +vila. + +Na fazenda, a longa conversa com o Teles criou uma aproximação maior +entre Adrião e Maria da Piedade. Aquela venda que ela discutia com uma +astúcia de aldeã, punha entre êles como que um interesse comum. Ela +falou-lhe já com menos reserva quando voltaram. Havia nas maneiras dêle, +dum respeito tocante, uma atracção que a seu pesar a levava a +revelar-se, a dar-lhe a sua confiança: nunca falára tanto a ninguêm: a +ninguêm jàmais deixara ver tanto da melancolia oculta que errava +constantemente na sua alma. De resto as suas queixas eram sôbre a mesma +dor--a tristeza do seu interior, as doenças, tantos cuidados graves... E +vinha-lhe por êle uma simpatia, como um indefinido desejo de o ter +sempre presente, desde que êle se tornava assim depositário das suas +tristezas. + +Adrião voltou para o seu quarto, na estalagem do André, impressionado, +interessado por aquela criatura tam triste e tam doce. Ela destacava +sôbre o mundo de mulheres que até ali conhecera, como um perfil suave de +anjo gótico entre fisionomias de mesa redonda. Tudo nela concordava +deliciosamente: o oiro do cabelo, a doçura da voz, a modéstia na +melancolia, a linha casta, fazendo um ser delicado e tocante, a que +mesmo o seu pequenino espírito burguês, certo fundo rústico de aldeã e +uma leve vulgaridade de hábitos davam um encanto: era um anjo que +vivia há muito tempo numa vilota grosseira e estava por muitos lados +prêso às trivialidades do sítio: mas bastaria um sôpro para o fazer +remontar ao céu natural, aos cimos puros da sentimentalidade... + +Achava absurdo e infame fazer a côrte à prima... Mas involuntáriamente +pensava no delicioso prazer de fazer bater aquele coração que não estava +deformado pelo espartilho, e de pôr emfim os seus lábios numa face onde +não houvesse pós de arroz... E o que o tentava sobretudo era pensar que +poderia percorrer toda a província em Portugal, sem encontrar nem aquela +linha do corpo, nem aquela virgindade tocante de alma adormecida... Era +uma ocasião que não voltava. + +O passeio ao moinho foi encantador. Era um recanto de natureza, digno de +Corot, sobretudo à hora do meio dia em que êles lá foram, com a frescura +da verdura, a sombra recolhida das grandes árvores, e toda a sorte de +murmúrios de água corrente, fugindo, reluzindo entre os musgos e as +pedras, levando e espalhando no ar o frio da folhagem, da relva, por +onde corriam cantando. O moinho era dum alto pitoresco, com a sua vélha +edificação de pedra secular, a sua roda enorme, quási pôdre, coberta de +ervas, imóvel sôbre a gelada limpidez da água escura. Adrião achou-o +digno duma scena de romance, ou melhor, da morada duma fada. Maria +da Piedade não dizia nada, achando extraordinária aquela admiração pelo +moinho abandonado do tio Costa. Como ela vinha um pouco cansada, +sentaram-se numa escada desconjuntada de pedra, que mergulhava na água +da reprêsa os últimos degraus: e ali ficaram um momento calados, no +encanto daquela frescura murmurosa, ouvindo as aves piarem nas ramas. +Adrião via-a de perfil, um pouco curvada, esburacando com a ponteira do +guarda-sol as ervas bravas que invadiam os degraus: era deliciosa assim, +tam branca, tam loura, duma linha tam pura sôbre o fundo azul do ar: o +seu chapéu era de mau gôsto, o seu mantelete antiquado, mas êle achava +nisso mesmo uma ingenuidade picante. O silêncio dos campos em redor +isolava-os--e, insensívelmente, êle começou a falar-lhe baixo. Era ainda +a mesma compaixão pela melancolia da sua existência naquela triste vila, +pelo seu destino de enfermeira... Ela escutava-o de olhos baixos, +pasmada de se achar ali tam só com aquele homem tam robusto, toda +receosa e achando um sabor delicioso ao seu receio... Houve um momento +em que êle falou do encanto de ficar ali para sempre na vila. + +--Ficar aqui? Para quê?--perguntou ela sorrindo. + +--Para quê? para isto, para estar sempre ao pé de si... + +Ela cobriu-se de um rubor, o guarda-solinho escapou-lhe das mãos. Adrião +receou tê-la ofendido, e acrescentou logo rindo: + +--¿Pois não era delicioso?... Eu podia alugar êste moinho, fazer-me +moleiro... A prima havia de me dar a sua freguesia... + +Isto fê-la rir: era mais linda quando ria: tudo brilhava nela, os +dentes, a pele, a côr do cabelo. Êle continuou gracejando, com o seu +plano de se fazer moleiro, e de ir pela estrada tocando o burro, +carregado de sacas de farinha. + +--E eu venho ajudá-lo, primo!--disse ela, animada pelo seu próprio riso, +pela alegria daquele homem a seu lado. + +--Vem?--exclamou êle.--Juro-lhe que me faço moleiro! Que paraíso nós +aqui ambos no moinho, ganhando alegremente a nossa vida, ouvindo cantar +êstes melros! + +Ela corou outra vez do fervor da sua voz, e recuou como se êle fôsse já +arrebatá-la para o moinho. Mas Adrião agora, inflamado àquela idea, +pintava-lhe na sua palavra colorida toda uma vida romanesca, de uma +felicidade idílica, naquele esconderijo de verdura: de manhã, a pé cedo, +para o trabalho; depois o jantar na relva à beira de água; e à noite as +boas palestras ali sentados, à claridade das estrêlas ou sob a +sombra cálida dos céus negros de verão... + +E de repente, sem que ela resistisse, prendeu-a nos braços, e beijou-a +sôbre os lábios, dum só beijo profundo e interminável. Ela tinha ficado +contra o seu peito, branca, como morta: e duas lágrimas corriam-lhe ao +comprido da face. Era assim tam dolorosa e fraca, que êle soltou-a; ela +ergueu-se, apanhou o guarda-solinho e ficou diante dêle, com o beicinho +a tremer, murmurando: + +--É mal feito... é mal feito... + +Êle mesmo estava tam perturbado--que a deixou descer para o caminho: e +daí a um momento, seguiam ambos calados para a vila. Foi só na estalagem +que êle pensou: + +--Fui um tolo! + +Mas no fundo estava contente da sua generosidade. À noite foi a casa +dela: encontrou-a com o pequerrucho no colo, lavando-lhe em àgua de +malvas as feridas que êle tinha na perna. E então, pareceu-lhe odioso +distrair aquela mulher dos seus doentes. De resto um momento como aquele +no moinho não voltaria. Seria absurdo ficar ali, naquele canto odioso da +província, desmoralizando, a frio, uma boa mãe... A venda da fazenda +estava concluída. Por isso, no dia seguinte, apareceu de tarde, a +dizer-lhe adeus: partia à noitinha na diligência: encontrou-a na sala, +à janela costumada, com a pequenada doente aninhada contra as suas +saias... Ouviu que êle partia, sem lhe mudar a côr, sem lhe arfar o +peito. Mas Adrião achou-lhe a palma da mão tam fria como um mármore: e +quando êle saíu, Maria da Piedade ficou voltada para a janela, +escondendo a face dos pequenos, olhando abstractamente a paizagem que +escurecia, com as lágrimas, quatro a quatro, caíndo-lhe na costura... + +Amava-o. Desde os primeiros dias, a sua figura resoluta e forte, os seus +olhos luzidios, toda a virilidade da sua pessoa, se lhe tinham apossado +da imaginação. O que a encantava nele não era o seu talento, nem a sua +celebridade em Lisboa, nem as mulheres que o tinham amado: isso para ela +aparecia-lhe vago e pouco compreensível: o que a fascinava era aquela +seriedade, aquele ar honesto e são, aquela robustez de vida, aquela voz +tam grave e tam rica: e antevia, para alêm da sua existência ligada a um +inválido, outras existências possíveis, em que se não vê sempre diante +dos olhos uma face fraca e moribunda, em que as noites se não passam a +esperar as horas dos remédios... Era como uma rajada de ar impregnado de +todas as fôrças vivas da natureza, que atravessava, súbitamente, a sua +alcôva abafada: e ela respirava-a deliciosamente... Depois, tinha +ouvido aquelas conversas em que êle se mostrava tam bom, tam sério, +tam delicado: e à fôrça do seu corpo, que admirava, juntava-se agora um +coração terno, duma ternura varonil e forte, para a cativar... Êste amor +latente invadiu-a, apoderou-se dela uma noite que lhe apareceu esta +idea, esta visão--_Se êle fosse meu marido!_ Toda ela estremeceu, +apertou desesperadamente os braços contra o peito, como confundindo-se +com a sua imagem evocada, prendendo-se a ela, refugiando-se na sua +fôrça... Depois êle deu-lhe aquele beijo no moinho. + +E partira! + + +Então começou para Maria da Piedade uma existência de abandonada. Tudo +de repente em volta dela--a doença do marido, achaques dos filhos, +tristezas do seu dia, a sua costura--lhe pareceu lúgubre. Os seus +deveres, agora que não punha neles toda a sua alma, eram-lhe pesados +como fardos injustos. A sua vida representava-se-lhe como desgraça +excepcional: não se revoltava ainda: mas tinha dêsses abatimentos, +dessas súbitas fadigas de todo o seu ser, em que caía sôbre a cadeira, +com os braços pendentes, murmurando: + +--¿Quando se acabará isto? + +Refugiava-se então naquele amor como uma compensação deliciosa. +Julgando-o todo puro, todo de alma, deixava-se penetrar dêle e da sua +lenta influência. Adrião tornara-se, na sua imaginação, como um ser de +proporções extraordinárias, tudo o que é forte, e que é belo, e que dá +razão à vida. Não quis que nada do que era dêle ou vinha dêle lhe fôsse +alheio. Leu todos os seus livros, sobretudo aquela _Madalena_ que tambêm +amara, e morrera dum abandono. Estas leituras calmavam-na, davam-lhe +como uma vaga satisfação ao desejo. Chorando as dores das heroínas de +romance, parecia sentir alívio às suas. + +Lentamente, esta necessidade de encher a imaginação dêsses lances de +amor, de dramas infelizes, apoderou-se dela. Foi durante meses um +devorar constante de romances. Ia-se assim criando no seu espírito um +mundo artificial e idealizado. A realidade tornava-se-lhe odiosa, +sobretudo sob aquele aspecto da sua casa, onde encontrava sempre +agarrado às saias um ser enfermo. Vieram as primeiras revoltas. +Tornou-se impaciente e áspera. Não suportava ser arrancada aos episódios +sentimentais do seu livro, para ir ajudar a voltar o marido e sentir-lhe +o hálito mau. Veio-lhe o nojo das garrafadas, dos emplastros, das +feridas dos pequenos a lavar. Começou a ler versos. Passava horas só, +num mutismo, à janela, tendo sob o seu olhar de virgem loura toda a +rebelião duma apaixonada. Acreditava nos amantes que escalam os balcões, +entre o canto dos rouxinóis: e queria ser amada assim, possuída num +mistério de noite romântica... + +O seu amor desprendeu-se pouco a pouco da imagem de Adrião e alargou-se, +estendeu-se a um ser vago que era feito de tudo o que a encantara nos +heróis de novela; era um ente meio príncipe e meio facínora, que tinha, +sobretudo, a fôrça. Porque era isto que admirava, que queria, porque +ansiava nas noites cálidas em que não podia dormir--dois braços fortes +como aço, que a apertassem num abraço mortal, dois lábios de fogo que, +num beijo, lhe chupassem a alma. Estava uma histérica. + +Às vezes, ao pé do leito do marido, vendo diante de si aquele corpo de +tísico, numa imobilidade de entrevado, vinha-lhe um ódio torpe, um +desejo de lhe apressar a morte... + +E no meio desta excitação mórbida do temperamento irritado, eram +fraquezas súbitas, sustos de ave que pousa, um grito ao ouvir bater uma +porta, uma palidez de desmaio se havia na sala flores muito cheirosas... +À noite abafava; abria a janela; mas o cálido ar, o bafo môrno da terra +aquecida do sol, enchiam-na dum desejo intenso, duma ânsia voluptuosa, +cortada de crises de chôro... + +A Santa tornava-se Vénus. + +E o romantismo mórbido tinha penetrado tanto naquele ser, e +desmoralizára-o tam profundamente, que chegou ao momento em que bastaria +que um homem lhe tocasse, para ela lhe caír nos braços:--e foi o que +sucedeu emfim, com o primeiro que a namorou, daí a dois anos. Era o +praticante da botica. + +Por causa dêle escandalizou toda a vila. E agora deixa a casa numa +desordem, os filhos sujos e ramelosos, em farrapos, sem comer até altas +horas, o marido a gemer abandonado na sua alcôva, toda a trapagem dos +emplastros por cima das cadeiras, tudo num desamparo torpe--para andar +atrás do homem, um maganão odioso e cebento, de cara balôfa e +gordalhufa, luneta preta com grossa fita passada atrás da orelha, e +bonésinho de sêda posto à catita. Vem de noite às entrevistas de chinelo +de ourelo: cheira a suor: e pede-lhe dinheiro emprestado para sustentar +uma Joana, criatura obêsa, a quem chamam na vila a _bola de unto_. + + + + +CIVILIZAÇÃO + + +I + +Eu possuo preciosamente um amigo (o seu nome é Jacinto) que nasceu num +palácio, com quarenta contos de renda em pingues terras de pão, azeite e +gado. + +Desde o berço, onde sua mãe, senhora gorda e crédula de Trás-os-montes, +espalhava, para reter as Fadas Benéficas, funcho e âmbar, Jacinto fôra +sempre mais resistente e são que um pinheiro das dunas. Um lindo rio, +murmuroso e transparente, com um leito muito liso de areia muito branca, +reflectindo apenas pedaços lustrosos de um céu de verão ou ramagens +sempre verdes e de bom aroma, não ofereceria, àquele que o descesse numa +barca cheia de almofadas e de Champanhe gelada, mais doçura e +facilidades do que a vida oferecia ao meu camarada Jacinto. Não teve +sarampo e não teve lombrigas. Nunca padeceu, mesmo na idade em que se lê +Balzac e Musset, os tormentos da sensibilidade. Nas suas amizades foi +sempre tam feliz como o clássico Orestes. Do Amor só experimentára o +mel--êsse mel que o amor invariavelmente concede a quem o pratíca, como +as abelhas, com ligeireza e mobilidade. Ambição, sentira sómente a de +compreender bem as ideas gerais, e a «ponta do seu intelecto» (como diz +o vélho cronista medieval) não estava ainda romba nem ferrugenta... E +todavia, desde os vinte e oito anos, Jacinto já se vinha repastando de +Schopenhauer, do Eclesiastes, doutros Pessimistas menores, e três, +quatro vezes por dia, bocejava, com um bocejo cavo e lento, passando os +dedos finos sôbre as faces, como se nela só palpasse palidez e ruína. +Porquê? + +Era êle, de todos os homens que conheci, o mais complexamente +civilizado--ou antes aquele que se munira da mais vasta sôma de +civilização material, ornamental e intelectual. Nesse palácio +(floridamente chamado o _Jasmineiro_) que seu pai, tambêm Jacinto, +construira sôbre uma honesta casa do século XVII, assoalhada a pinho e +branqueada a cal--existia, creio eu, tudo quanto para bem do espírito ou +da matéria os homens teem criado, através da incerteza e dor, desde que +abandonaram o vale feliz de Septa-Sindu, a Terra das Águas Fáceis, o +doce país Ariano. A biblioteca, que em duas salas, amplas e claras como +praças, forrava as paredes, inteiramente, desde os tapetes de Caranânia +até ao teto de onde, alternadamente, através de cristais, o sol e a +electricidade vertiam uma luz estudiosa e calma--continha vinte e cinco +mil volumes, instalados em ébano, magnificamente revestidos de marroquim +escarlate. Só sistemas filosóficos (e com justa prudência, para poupar +espaço, o bibliotecário apenas colecionára os que irreconciliavelmente +se contradizem) havia mil oito centos e dezassete! + +Uma tarde que eu desejava copiar um ditame de Adam Smith, percorri, +buscando êste economista ao longo das estantes, oito metros de economia +política! Assim se achava formidavelmente abastecido o meu amigo Jacinto +de todas as obras essenciais da inteligência--e mesmo da estupidez. E o +único inconveniente dêste monumental armazêm do saber era que todo +aquele que lá penetrava, inevitavelmente lá adormecia, por causa das +poltronas, que provídas de finas pranchas móveis para sustentar o livro, +o charuto, o lápis das notas, a taça de café, ofereciam ainda uma +combinação oscilante e flácida de almofadas, onde o corpo encontrava +logo, para mal do espírito, a doçura, a profundidade e a paz estirada de +um leito. + +Ao fundo, e como um altar-mór, era o gabinete de trabalho de Jacinto. A +sua cadeira, grave e abacial, de couro, com brazões, datava do século +XIV, e em tôrno dela pendiam numerosos tubos acústicos, que, sôbre os +panejamentos de sêda côr de musgo e côr de hera, pareciam serpentes +adormecidas e suspensas num vélho muro de quinta. Nunca recordo sem +assombro a sua mesa, recoberta toda de sagazes e subtis instrumentos +para cortar papel, numerar páginas, colar estampilhas, aguçar lápis, +raspar emendas, imprimir datas, derreter lacre, cintar documentos, +carimbar contas! Uns de níquel, outros de aço, rebrilhantes e frios, +todos eram de um manejo laborioso e lento: alguns, com as molas rígidas, +as pontas vivas, trilhavam e feriam: e nas largas fôlhas de papel +Whatman em que êle escrevia, e que custavam 500 réis, eu por vezes +surpreendi gotas de sangue do meu amigo. Mas a todos êle considerava +indispensáveis para compôr as suas cartas (Jacinto não compunha obras) +assim como os trinta e cinco dicionários, e os manuais, e as +enciclopédias, e os guias, e os directórios, atulhando uma estante +isolada, esguia, em forma de tôrre, que silenciosamente girava sôbre o +seu pedestal, e que eu denominára o Farol. O que, porêm, mais +completamente imprimia àquele gabinete um portentoso carácter de +civilização eram, sôbre as suas peanhas de carvalho, os grandes +aparelhos, facilitadores do pensamento,--a máquina de escrever, os +auto-copistas, o telégrafo-Morse, o fonógrafo, o telefone, o teatrofone, +outros ainda, todos com metais luzidios, todos com longos fios. +Constantemente sons curtos e secos retiniam no ar morno daquele +santuário. Tic, tic, tic! Dlin, dlin, dlin! Crac, crac, crac! Trrre, +trrre!... Era o meu amigo comunicando. Todos êsses fios mergulhavam em +fôrças universais, transmitiam fôrças universais. E elas nem sempre, +desgraçadamente, se conservavam domadas e disciplinadas! Jacinto +recolhera no fonógrafo a voz do conselheiro Pinto Pôrto, uma voz +oracular e rotunda, no momento de exclamar com respeito, com autoridade: + +--«_Maravilhosa invenção! ¿Quem não admirará os progressos dêste século?_» + +Pois, numa doce noite de S. João, o meu supercivilizado amigo, desejando +que umas senhoras parentas de Pinto Pôrto (as amáveis Gouveias) +admirassem o fonógrafo, fez romper do bocarrão do aparelho, que parece +uma trompa, a conhecida voz rotunda e oracular. + +--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_ + +Mas, inábil ou brusco, certamente desconcertou alguma mola vital--porque +de repente o fonógrafo começa a redizer, sem descontinuação, +interminavelmente, com uma sonoridade cada vez mais rotunda, a sentença +do conselheiro: + +--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_ + +Debalde Jacinto, pálido, com os dedos trémulos, torturava o aparelho. A +exclamação recomeçava, rolava, oracular e majestosa: + +--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_ + +Enervados, retiramos para uma sala distante, pesadamente revestida de +panos de Arraz. Em vão! A voz de Pinto Pôrto lá estava, entre os panos +de Arraz, implacável e rotunda: + +--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_ + +Furiosos, enterramos uma almofada na bôca do fonógrafo, atiramos por +cima mantas, cobertores espessos, para sufocar a voz abominável. Em vão! +sob a mordaça, sob as grossas lãs, a voz rouquejava, surda mas oracular: + +--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_ + +As amáveis Gouveias tinham abalado, apertando desesperadamente os chales +sôbre a cabeça. Mesmo à cozinha, onde nos refugiamos, a voz descia, +engasgada e gosmosa: + +--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_ + +Fugimos espavoridos para a rua. + +Era de madrugada. Um fresco bando de raparigas, de volta das fontes, +passava cantando com braçados de flores: + + Todas as ervas são bentas + Em manhã de S. João... + +Jacinto, respirando o ar matinal, limpava as bagas lentas do suor. +Recolhemos ao _Jasmineiro_, com o sol já alto, já quente. Muito de manso +abrimos as portas, como no receio de despertar _alguêm_. Horror! Logo da +ante-câmara percebemos sons estrangulados, roufenhos: «_admirará..._ +_progressos..._ _século!..._» Só de tarde um electricista pôde emmudecer +aquele fonógrafo horrendo. + +Bem mais aprazível (para mim) do que esse gabinete temerosamente +atulhado de civilização--era a sala de jantar, pelo seu arranjo +compreensível, fácil e íntimo. À mesa só cabiam seis amigos que Jacinto +escolhia com critério na literatura, na arte e na metafísica, e que, +entre as tapeçarias de Arraz, representando colinas, pomares e portos da +Ática cheias de classicismo e de luz, renovavam ali repetidamente +banquetes que, pela sua intelectualidade, lembravam os de Platão. Cada +garfada se cruzava com um pensamento ou com palavras dextramente +arranjadas em forma de pensamento. + +E a cada talher correspondiam seis garfos, todos de feitios +dissemelhantes e astuciosos:--um para as ostras, outro para o peixe, +outro para as carnes, outro para os legumes, outro para a fruta, outro +para o queijo. Os copos, pela diversidade dos contornos e das côres, +faziam, sôbre a toalha mais reluzente que esmalte, como ramalhetes +silvestres espalhados por cima de neve. Mas Jacinto e os seus filósofos, +lembrando o que o experiente Salomão ensina sôbre as ruínas e amarguras +do vinho, bebiam apenas em três gotas de água uma gota de Bordeus +(Chateaubriand, 1860). Assim o recomendam--Hesíodo no seu _Nereu_, e +Diocles nas suas _Abelhas_. E de águas havia sempre no _Jasmineiro_ um +luxo redundante--águas geladas, águas carbonatadas, águas esterilizadas, +águas gasosas, águas de sais, águas minerais, outras ainda, em garrafas +sérias, com tratados terapêuticos impressos no rótulo... O cozinheiro, +mestre Sardão, era daqueles que Anaxágoras equiparava aos Retóricos, aos +oradores, a todos os que sabem a arte divina de «temperar e servir a +Idea»: e em Sybaris, cidade do Viver Excelente, os magistrados teriam +votado a mestre Sardão, pelas festas de Juno Lacina, a coroa de fôlhas +de ouro e a túnica Milésia que se devia aos bemfeitores cívicos. A +sua sopa de alcachofra e ovas de carpa; os seus filetes de veado +macerados em vélho Madeira com _purée_ de nozes; as suas amoras geladas +em éter, outros acepipes ainda, numerosos e profundos (e os únicos que +tolerava o meu Jacinto) eram obras de um artista, superior pela +abundância das ideas novas--e juntavam sempre a raridade do sabor à +magnificência da forma. Tal prato dêsse mestre imcomparável, parecia, +pela ornamentação, pela graça florida dos lavores, pelo arranjo dos +coloridos frescos e cantantes, uma joia esmaltada do cinzel de Cellini +ou Meurice. Quantas tardes eu desejei fotografar aquelas composições de +excelente fantasia, antes que o trinchante as retalhasse! E esta +superfinidade do comer condizia deliciosamente com a do servir. Por +sôbre um tapete, mais fôfo e mole que o musgo da floresta da +Brocelândia, deslizavam, como sombras fardadas de branco, cinco criados +e um pagem preto, à maneira vistosa do século XVIII. As travessas (de +prata) subiam da cozinha e da copa por dous ascensores, um para as +iguarias quentes, forrado de tubos onde a água fervia; outro, mais +lento, para as iguarias frias, forrado de zinco, amónia e sal, e ambos +escondidos por flores tam densas e viçosas que era como se até a sopa +saísse fumegando dos românticos jardins de Armida. E muito bem me lembro +de um domingo de maio em que, jantando com Jacinto um bispo, o +erudito bispo de Chorazin, o peixe emperrou no meio do ascensor, sendo +necessário que acudissem, para o extrair, pedreiros com alavancas. + + +II + +Nas tardes em que havia «banquete de Platão» (que assim denominávamos +essas festas de trutas e ideas gerais), eu, vizinho e íntimo, aparecia +ao declinar do sol, e subia familiarmente aos quartos do nosso +Jacinto--onde o encontrava sempre incerto entre as suas casacas, porque +as usava alternadamente de sêda, de pano, de flanelas Jaegher, e de +_foulard_ das Índias. O quarto respirava o frescor e aroma do jardim por +duas vastas janelas, providas magnificamente (alêm das cortinas de sêda +mole Luís XV) de uma vidraça exterior de cristal inteiro, duma vidraça +interior de cristais miudos, dum tôldo rolando na cimalha, dum estore de +sedinha frouxa, de gases que franziam e se enrolavam como nuvens, e duma +gelosia móvel de gradaria mourisca. Todos êstes resguardos (sábia +invenção de Holland & C.ª, de Londres) serviam a guardar a luz e o +ar--segundo os avisos de termómetros, barómetros e higrómetros, montados +em ébano, e a que um meteorologista (Cunha Guedes) vinha, todas as +semanas, verificar a precisão. + +Entre estas duas varandas rebrilhava a mesa de _toilette_, uma mesa +enorme de vidro, toda de vidro, para a tornar impenetrável aos +micróbios, e coberta de todos êsses utensílios de asseio e alinho que o +homem do século XIX necessita numa capital, para não desfear o conjunto +suntuário da civilização. Quando o nosso Jacinto, arrastando as suas +engenhosas chinelas de pelica e sêda, se acercava desta ara--eu, bem +aconchegado num divã, abria com indolência uma Revista, ordináriamente a +_Revista Electro-Pática_, ou a das _Indagações Psíquicas_. E Jacinto +começava... Cada um dêsses utensílios de aço, de marfim, de prata, +impunham ao meu amigo, pela influência omnipoderosa que as cousas +exercem sôbre o dono (_sunt tyranniæ rerum_) o dever de o utilizar com +aptidão e deferência. E assim as operações do alindamento de Jacinto +apresentavam a prolixidade, reverente e insuprimível, dos ritos dum +sacrifício. + +Começava pelo cabelo... Com uma escôva chata, redonda e dura, acamava o +cabelo, corredio e louro, no alto, aos lados da risca; com uma escôva +estreita e recurva, à maneira do alfange dum persa, ondeava o cabelo +sôbre a orelha; com uma escôva côncava, em forma de telha, empastava o +cabelo, por trás, sôbre a nuca... Respirava e sorria. Depois, com +uma escôva de longas cerdas, fixava o bigode; com uma escôva leve e +flácida acurvava as sobrancelhas; com uma escôva feita de penugem +regularizava as pestanas. E dêste modo Jacinto ficava diante do espelho, +passando pêlos sôbre o seu pêlo, durante catorze minutos. + +Penteado e cansado, ia purificar as mãos. Dois criados, ao fundo, +manobravam com perícia e vigor os aparelhos do lavatório--que era apenas +um resumo dos maquinismos monumentais da sala de banho. Ali, sôbre o +mármore verde e róseo do lavatório, havia apenas duas duches (quente e +fria) para a cabeça; quatro jactos, graduados desde _zero até cem +graus_; o vaporizador de perfumes; a fonte de água esterilizada (para os +dentes); o repuxo para a barba; e ainda torneiras que rebrilhavam e +botões de ébano que, de leve roçados, desencadeavam o marulho e o +estridor de torrentes nos Alpes... Nunca eu, para molhar os dedos, me +cheguei àquele lavatório sem terror--escarmentado da tarde amarga de +janeiro em que bruscamente, dessoldada a torneira, o jacto de água a +_cem graus_ rebentou, silvando e fumegando, furioso, devastador... +Fugimos todos, espavoridos. Um clamor atroou o _Jasmineiro_. O vélho +Grilo, escudeiro que fôra do Jacinto pai, ficou coberto de empôlas na +face, nas mãos fieis. + +Quando Jacinto acabava de se enxugar laboriosamente a toalhas de felpo, +de linho, de corda entrançada (para restabelecer a circulação), de sêda +frouxa (para lustrar a pele) bocejava, com um bocejo cavo e lento. + +E era êste bocejo, perpétuo e vago, que nos inquietava a nós, seus +amigos e filósofos. ¿Que faltava a êste homem excelente? Êle tinha a sua +inabalável saúde de pinheiro bravo, crescido nas dunas; uma luz da +inteligência, própria a tudo alumiar, firme e clara sem tremor ou +morrão; quarenta magníficos contos de renda; todas as simpatias duma +cidade chasqueadora e scéptica; uma vida varrida de sombras, mais +liberta e lisa do que um céu de verão... E todavia bocejava +constantemente, palpava na face, com os dedos finos, a palidez e as +rugas. Aos trinta anos Jacinto corcovava, como sob um fardo injusto! E +pela morosidade desconsolada de toda a sua acção parecia ligado, desde +os dedos até à vontade, pelas malhas apertadas duma rêde que se não via +e que o travava. Era doloroso testemunhar o fastio com que êle, para +apontar um enderêço, tomava o seu lápis pneumático, a sua pena +eléctrica--ou, para avisar o cocheiro, apanhava o tubo telefónico!... +Neste mover lento do braço magro, nos vincos que lhe arrepanhavam o +nariz, mesmo nos seus silêncios, longos e derreados, se sentia o brado +constante que lhe ia na alma;--_Que massada! Que massada!_ +Claramente a vida era para Jacinto um cansaço--ou por laboriosa e +difícil, ou por desinteressante e ôca... Por isso o meu pobre amigo +procurava constantemente juntar à sua vida novos interêsses, novas +facilidades. Dois inventores, homens de muito zêlo e pesquiza estavam +encarregados, um em Inglaterra, outro na América, de lhe noticiar e de +lhe fornecer todas as invenções, as mais miudas, que concorressem a +aperfeiçoar a confortabilidade do _Jasmineiro_. De resto, êle proprio se +correspondia com Edison. E, pelo lado do pensamento, Jacinto não cessava +tambêm de buscar interêsses e emoções que o reconciliassem com a +vida--penetrando à cata dessas emoções e dêsses interêsses pelas veredas +mais desviadas do saber, a ponto de devorar, desde janeiro a março, +setenta e sete volumes sôbre a _evolução das ideas morais entre as raças +negróides_. Ah! nunca homem dêste século batalhou mais esforçadamente +contra a _séca de viver_! Debalde! Mesmo de explorações tam cativantes +como essa, através da moral dos negróides, Jacinto regressava mais +murcho, com bocejos mais cavos! + +E era então que êle se refugiava intensamente na leitura de Schopenhauer +e do _Eclesiastes_. Porque? Sem dúvida porque ambos êsses pessimistas o +confirmavam nas conclusões que êle tirava de uma experiência +paciente e rigorosa: «que tudo é vaidade ou dor, que quanto mais se +sabe, mais se péna, e que ter sido rei de Jerusalêm e obtido os gózos +todos na vida só leva a maior amargura...» ¿Mas porque rolara assim a +tam escura desilusão--o saùdável, rico, sereno e intelectual Jacinto? O +vélho escudeiro Grilo pretendia que «S. Ex.ª sofria de fartura!» + + +III + +Ora justamente depois dêsse inverno, em que êle se embrenhara na moral +dos negróides e instalara a luz eléctrica entre os arvoredos do jardim, +sucedeu que Jacinto teve a necessidade moral iniludível de partir para o +Norte, para o seu vélho solar de Torges. Jacinto não conhecia Torges, e +foi com desusado tédio que êle se preparou, durante sete semanas, para +essa jornada agreste. A quinta fica nas serras--e a rude casa solarenga, +onde ainda resta uma tôrre do século XV, estava ocupada, havia trinta +anos, pelos caseiros, boa gente de trabalho, que comia o seu caldo entre +a fumaraça da lareira, e estendia o trigo a secar nas salas senhoriais. + +Jacinto, logo nos começos de março, escrevera cuidadosamente ao seu +procurador Sousa, que habitava a aldeia de Torges, ordenando-lhe que +compuzesse os telhados, caiasse os muros, envidraçasse as janelas. +Depois mandou expedir, por combóios rápidos, em caixotes que transpunham +a custo os portões do _Jasmineiro_, todos os confortos necessários a +duas semanas de montanha--camas de penas, poltronas, divãs, lâmpadas de +Carcel, banheiras de níquel, tubos acústicos para chamar os escudeiros, +tapetes persas para amaciar os soalhos. Um dos cocheiros partiu com um +copé, uma vitória, um breque, mulas e guizos. + +Depois foi o cozinheiro, com a bateria, a garrafeira, a geleira, bocais +de trufas, caixas profundas de águas mineráis. Desde o amanhecer, nos +pátios largos do palacete, se pregava, se martelava, como na construção +de uma cidade. E as bagagens, desfilando, lembravam uma página de +Heródoto ao narrar a invasão persa. Jacinto emmagrecera com os cuidados +daquele Êxodo. Por fim, largamos numa manhã de junho, com o Grilo, e +trinta e sete malas. + +Eu acompanhava Jacinto, no meu caminho para Guiães, onde vive minha tia, +a uma légua farta de Torges: e íamos num vagom reservado, entre vastas +almofadas, com perdizes e Champanhe num cêsto. A meio da jornada +devíamos mudar de combóio--nessa estação, que tem um nome sonoro em +_ola_ e um tam suave e cândido jardim de roseiras brancas. Era domingo +de imensa poeira e sol--e encontrámos aí, enchendo a plata-forma +estreita, todo um povaréu festivo que vinha da romaria de S. Gregório da +Serra. + +Para aquele trasbôrdo, em tarde de arraial, o horário só nos concedia +três minutos avaros. O outro combóio já esperava, rente aos alpendres, +impaciente e silvando. Uma sineta badalava com furor. E, sem mesmo +atender às lindas môças que ali saracoteavam, aos bandos, afogueadas, de +lenços flamejantes, o seio farto coberto de ouro, e a imagem do santo +espetada no chapéu--corremos, empurrámos, furámos, saltámos para o outro +vagom, já reservado, marcado por um cartão com as iniciais de Jacinto. +Imediatamente o trem rolou. Pensei então no nosso Grilo, nas trinta e +sete malas! E debruçado da portinhola avistei ainda junto ao cunhal da +estação, sob os eucaliptos, um monte de bagagens, e homens de boné +agaloado que, diante delas, bracejavam com desespêro. + +Murmurei, recaindo nas almofadas: + +--Que serviço! + +Jacinto, ao canto, sem descerrar os olhos, suspirou: + +--Que massada! + +Toda uma hora deslizamos lentamente entre trigais e vinhedo; e ainda o +sol batia nas vidraças, quente e poeirento, quando chegamos à estação de +Gondim, onde o procurador de Jacinto, o excelente Sousa, nos devia +esperar com cavalos para treparmos a serra até ao solar de Torges. Por +trás do jardim da estação, todo florido tambêm de rosas e margaridas, +Jacinto reconheceu logo as suas carruagens ainda empacotadas em lona. + +Mas quando nos apeamos no pequeno cais branco e fresco--só houve em +tôrno de nós solidão e silêncio. Nem procurador, nem cavalos! O chefe da +estação, a quem eu perguntara com ansiedade «se não aparecera ali o snr. +Sousa, se não conhecia o snr. Sousa», tirou afavelmente o seu boné de +galão. Era um moço gordo e redondo, com côres de maçã camoesa, que +trazia sob o braço um volume de versos. «Conhecia perfeitamente o snr. +Sousa! Três semanas antes jogara êle a manilha com o snr. Sousa! Nessa +tarde porêm, infelizmente, não avistara o snr. Sousa!» O comboio +desaparecera por detrás das fragas altas que ali pendem sôbre o rio. Um +carregador enrolava o cigarro, assobiando. Rente da grade do jardim, uma +vélha, toda de negro, dormitava agachada no chão, diante duma cêsta de +ovos. ¿E o nosso Grilo, e as nossas bagagens?... O chefe encolheu +risonhamente os ombros nédios. Todos os nossos bens tinham +encalhado, de-certo, naquela estação de roseiras brancas que tem um nome +sonoro em _ola_. E nós ali estávamos, perdidos na serra agreste, sem +procurador, sem cavalos, sem Grilo, sem malas. + +¿Para que esfiar miudamente o lance lamentável? Ao pé da estação, numa +quebrada da serra, havia um casal foreiro à quinta, onde alcançamos, +para nos levarem e nos guiarem a Torges, uma égua lazarenta, um jumento +branco, um rapaz e um podengo. E aí começamos a trepar, enfastiadamente, +êsses caminhos agrestes--os mesmos, de-certo, por onde vinham e iam, de +monte a rio, os Jacintos do século XV. Mas, passada uma trémula ponte de +pau que galga um ribeiro todo quebrado por fragas (e onde abunda a truta +adorável) os nossos males esqueceram, ante a inesperada, incomparável +beleza daquela terra bemdita. O divino artista que está nos céus +compuzera, certamente, êsse monte numa das suas manhãs de mais solene e +bucólica inspiração. + +A grandeza era tanta como a graça... Dizer os vales fôfos de verdura, os +bosques quási sacros, os pomares cheirosos e em flor, a frescura das +águas cantantes, as ermidinhas branqueando nos altos, as rochas +musgosas, o ar de uma doçura de paraíso, toda a majestade e toda a +lindeza--não é para mim, homem de pequena arte. Nem creio mesmo que +fôsse para mestre Horácio. ¿Quem pode dizer a beleza das cousas, +tam simples e inexprímivel? Jacinto adiante, na égua tarda, murmurava: + +--Ah! que beleza! + +Eu atrás, no burro, com as pernas bambas, murmurava: + +--Ah! que beleza! + +Os espertos regatos riam, saltando de rocha em rocha. Finos ramos de +arbustos floridos roçavam as nossas faces, com familiaridade e carinho. +Muito tempo um melro nos seguiu, de choupo para castanheiro, assobiando +os nossos louvores. Serra bem acolhedora e amável... Ah! que beleza! + +Por entre _ahs_ maravilhados chegamos a uma avenida de faias, que nos +pareceu clássica e nobre. Atirando uma nova vergastada ao burro e à +égua, o nosso rapaz, com o seu podengo ao lado, gritava: + +--Aqui é que estêmos! + +E ao fundo das faias havia, com efeito, um portão de quinta, que um +escudo de armas de vélha pedra, roída de musgo, grandemente afidalgava. +Dentro já os cães ladravam com furor. E mal Jacinto, e eu atrás dêle no +burro de Sancho, transpuzemos o limiar solarengo, correu para nós, do +alto da escadaria, um homem branco, rapado como um clérigo, sem colete, +sem jaleca, que erguia para o ar, num assombro, os braços desolados. Era +o caseiro, o Zé Brás. E logo ali, nas pedras do pátio, entre o +latir dos cães, surdiu uma tumultuosa história, que o pobre Brás +balbuciava, aturdido, e que enchia a face de Jacinto de lividez e de +cólera. O caseiro não esperava S. Ex.ª Ninguêm esperava S. Ex.ª (Êle +dizia _sua inselência_). + +O procurador, o snr. Sousa, estava para a raia desde maio, a tratar a +mãe que levára um couce de mula. E de-certo houvera engano, cartas +perdidas... Porque o snr. Sousa só contava com S. Ex.ª... em setembro, +para a vindima. Na casa nenhuma obra começára. E, infelizmente para S. +Ex.ª, os telhados ainda estavam sem telhas, e as janelas sem vidraças... + +Cruzei os braços, num justo espanto. ¿Mas os caixotes--êsses caixotes +remetidos para Torges, com tanta prudência, em abril, repletos de +colchões, de regalos, de civilização?... O caseiro, vago, sem +compreender, arregalava os olhos miudos onde já bailavam lágrimas. Os +caixotes?! Nada chegára, nada aparecera. E na sua perturbação o Zé Brás +procurava entre as arcadas do pátio, nas algibeiras das pantalonas... Os +caixotes? Não, não tinha os caixotes! + +Foi então que o cocheiro de Jacinto (que trouxera os cavalos e as +carruagens) se acercou, gravemente. Êsse era um civilizado--e +acusou logo o govêrno. Já quando êle servia o snr. visconde de S. +Francisco se tinham assim perdido, por desleixo do govêrno, da cidade +para a serra, dous caixotes com vinho vélho da Madeira, e roupa branca +de senhora. Por isso êle, escarmentado, sem confiança na nação, não +largára as carruagens--e era tudo o que restava a S. Ex.ª: o breque, a +vitória, o copé e os guizos. Sómente, naquela rude montanha, não havia +estradas onde elas rolassem. E como só podiam subir para a quinta em +grandes carros de bois--êle lá as deixára em baixo, na estação, quietas, +empacotadas na lona... + +Jacinto ficára plantado diante de mim, com as mãos nos bolsos: + +--E agora? + +Nada restava senão recolher, cear o caldo do tio Zé Brás, e dormir nas +palhas que os fados nos concedessem. Subimos. A escadaria nobre conduzia +a uma varanda, toda coberta, em alpendre, acompanhando a fachada do +casarão e ornada, entre os seus grossos pilares de granito, por caixotes +cheios de terra, em que floriam cravos. Colhi um cravo. Entramos. E o +meu pobre Jacinto contemplou, emfim, as salas do seu solar! Eram +enormes, com as altas paredes rebocadas a cal que o tempo e o abandôno +tinham ennegrecido, e vazias, desoladamente nuas, oferecendo apenas como +vestígio de habitação e de vida, pelos cantos algum monte de cestos +ou algum mólho de enxadas. Nos tetos remotos de carvalho negro alvejavam +manchas--que era o céu já pálido do fim da tarde, surpreendido através +dos buracos do telhado. Não restava uma vidraça. Por vezes, sob os +nossos passos, uma tábua pôdre rangia e cedia. + +Paramos, emfim, na última, a mais vasta, onde havia duas arcas tulheiras +para guardar o grão; e aí depuzemos, melancólicamente, o que nos ficára +de trinta e sete malas--os paletós alvadios, uma bengala e um _Jornal da +Tarde_. Através das janelas desvidraçadas, por onde se avistavam copas +de arvoredos e as serras azuis de alêm-rio, o ar entrava, montesino e +largo, circulando plenamente como em um eirado, com aromas de pinheiro +bravo. E, lá debaixo, dos vales, subia, desgarrada e triste, uma voz de +pegureira cantando. Jacinto balbuciou: + +--É horroroso! + +Eu murmurei: + +--É campestre! + + +IV + +O Zé Brás, no entanto, com as mãos na cabeça, desaparecera a ordenar a +ceia para _suas inselências_. O pobre Jacinto, esbarrondado pelo +desastre, sem resistência contra aquele brusco desaparecimento de toda a +civilização, caíra pesadamente sôbre o poial duma janela, e daí olhava +os montes. E eu, a quem aqueles ares serranos e o cantar do pegureiro +sabiam bem, terminei por descer à cozinha, conduzido pelo cocheiro, +através de escadas e becos onde a escuridão vinha menos do crepúsculo do +que de densas teias de aranha. + +A cozinha era uma espessa massa de tons e formas negras, côr de fuligem, +onde refulgia ao fundo, sôbre o chão de terra, uma fogueira vermelha que +lambia grossas panelas de ferro, e se perdia em fumarada pela grade +escassa que no alto coava a luz. Aí um bando alvoroçado e palreiro de +mulheres depenava frangos, batia ovos, escarolava arroz, com santo +fervor... Do meio delas o bom caseiro, estonteado, investiu para mim +jurando que «a ceia de _suas inselências_ não demorava um credo». E como +eu o interrogava a respeito de camas, o digno Brás teve um murmúrio +vago e tímido sobre «enxergasinhas no chão». + +--É o que basta, snr. Zé Brás--acudi eu para o consolar. + +--Pois assim Deus seja servido!--suspirou o homem excelente, que +atravessava, nessa hora, o transe mais amargo da sua vida serrana. + +Voltando a cima, com estas consolantes novas de ceia e cama, encontrei +ainda o meu Jacinto no poial da janela, embebendo-se todo da doce paz +crepuscular, que lenta e caladamente se estabelecia sôbre vale e monte. +No alto já tremeluzia uma estrêla, a Vesper diamantina, que é tudo o que +neste céu cristão resta do esplendor corporal de Vénus! Jacinto nunca +considerára bem aquela estrêla--nem assistira a êste majestoso e doce +adormecer das cousas. Êsse ennegrecimento de montes e arvoredos, casais +claros fundindo-se na sombra, um toque dormente de sino que vinha pelas +quebradas, o cochichar das águas entre relvas baixas--eram para êle como +iniciações. Eu estava defronte, no outro poial. E senti-o suspirar como +um homem que emfim descansa. + +Assim nos encontrou nesta contemplação o Zé Brás, com o doce aviso de +que estava na mesa a _ceiasinha_. Era adiante, noutra sala mais nua, +mais negra. E aí, o meu supercivilizado Jacinto recuou com um pavor +genuíno. Na mesa de pinho, recoberta com uma toalha de mãos, encostada à +parede sórdida, uma vela de cebo meio derretida num castiçal de latão, +alumiava dous pratos de louça amarela, ladeados por colheres de pau e +por garfos de ferro. Os copos, de vidro, grosso e baço, conservavam o +tom rôxo do vinho que neles passára em fartos anos de fartas vindimas. O +covilhete de barro com as azeitonas deleitaria, pela sua singeleza +ática, o coração de Diógenes. Na larga brôa estava cravado um +facalhão... Pobre Jacinto! + +Mas lá abancou resignado, e muito tempo, pensativamente, esfregou com o +seu lenço o garfo negro e a colher de pau. Depois, mudo, desconfiado, +provou um gole curto do caldo, que era de galinha e rescendia. Provou, e +levantou para mim, seu companheiro e amigo, uns olhos largos que luziam, +surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada de caldo, mais cheia, mais +lenta... E sorriu, murmurando com espanto: + +--Está bom! + +Estava realmente bom: tinha figado e tinha moela: o seu perfume +enternecia. Eu, três vezes, com energia, ataquei aquele caldo: foi +Jacinto que rapou a sopeira. Mas já, arredando a brôa, arredando a vela, +o bom Zé Brás pousára na mesa uma travessa vidrada, que +transbordava de arroz com favas. Ora, a-pesar da fava (que os gregos +chamaram _cibória_) pertencer às épocas superiores da civilização, e +promover tanto a sapiência que havia em Sycio, na Galácia, um templo +dedicado a Minerva Ciboriana--Jacinto sempre detestára favas. Tentou +todavia uma garfada tímida. De novo os seus olhos, alargados pelo +assombro, procuravam os meus. Outra garfada, outra concentração... E eis +que o meu dificíllimo amigo exclama: + +--Está ótimo! + +¿Eram os picantes ares da serra? ¿Era a arte deliciosa daquelas mulheres +que em baixo remexiam as panelas, cantando o _Vira_, _meu bem_? Não +sei:--mas os louvores de Jacinto a cada travessa foram ganhando em +amplidão e firmeza. E diante do frango louro, assado no espêto de pau, +terminou por bradar: + +--Está divino! + +Nada porêm o entusiasmou como o vinho, o vinho caíndo de alto, da grossa +caneca verde, um vinho gostoso, penetrante, vivo, quente, que tinha em +si mais alma que muito poema ou livro santo! Mirando à luz de cebo o +copo rude que êle orlava de espuma, eu recordava o dia geórgico em que +Virgílio, em casa de Horácio, sob a ramada, cantava o fresco palhete da +Rética. E Jacinto, com uma côr que eu nunca vira na sua palidez +schopenháurica, sussurrou logo o doce verso: + + _Rethica quò te carmina dicat._ + +¿Quem dignamente te cantará, vinho daquelas serras?! + +Assim jantamos deliciosamente, sob os auspícios do Zé Brás. E depois +voltamos para as alegrias únicas da casa, para as janelas desvidraçadas, +a contemplar silenciosamente um suntuoso céu de verão, tam cheio de +estrêlas que todo êle parecia uma densa poeirada de oiro vivo, suspensa, +imóvel, por cima dos montes negros. Como eu observei ao meu Jacinto, na +cidade nunca se olham os astros por causa dos candieiros--que os +ofuscam: e nunca se entra por isso numa completa comunhão com o +universo. O homem nas capitais pertence à sua casa, ou se o impelem +fortes tendências de sociabilidade, ao seu bairro. Tudo o isola e o +separa da restante natureza--os prédios obstrutores de seis andares, a +fumaça das chaminés, o rolar moroso e grosso dos ónibus, a trama +encarceradora da vida urbana... Mas que diferença, num cimo de monte, +como Torges! Aí todas essas belas estrelas olham para nós de pérto, +rebrilhando, à maneira de olhos conscientes, umas fixamente, com sublime +indiferença, outras ansiosamente, com uma luz que palpita, uma luz +que chama, como se tentassem revelar os seus segredos ou compreender os +nossos... E é impossível não sentir uma solidariedade perfeita entre +êsses imensos mundos e os nossos pobres corpos. Todos somos obra da +mesma vontade. Todos vivemos da acção dessa vontade imanente. Todos, +portanto, desde os Uranos até aos Jacintos, constituimos modos diversos +de um ser único, e através das suas transformações somamos na mesma +unidade. Não há idea mais consoladora do que esta--que eu, e tu, e +aquele monte, e o sol que agora se esconde, somos moléculas do mesmo +Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim. Desde logo se +sómem as responsabilidades torturantes do individualismo. ¿Que somos +nós? Formas sem fôrça, que uma Fôrça impele. E há um descanso delicioso +nesta certeza, mesmo fugitiva, de que se é o grão de pó irresponsável e +passivo que vai levado no grande vento, ou a gota perdida na torrente! +Jacinto concordava, sumido na sombra. Nem êle nem eu sabíamos os nomes +dêsses astros admiráveis. Eu, por causa da maciça e indesbastável +ignorância de bacharel, com que saí do ventre de Coímbra, minha mãe +espiritual. Jacinto, porque na sua ponderosa biblioteca tinha _trezentos +e dezoito_ tratados sôbre astronomia! ¿Mas que nos importava, de +resto, que aquele astro alêm se chamasse Sírius e aquele outro +Aldebaran? ¿Que lhes importava a êles que um de nós fôsse José e o outro +Jacinto? Éramos formas transitórias do mesmo ser eterno--e em nós havia +o mesmo Deus. E se êles tambêm assim o compreendiam, estávamos ali, nós +à janela num casarão serrano, êles no seu maravilhoso infinito, +perfazendo um acto sacrossanto, um perfeito acto de Graça--que era +sentir conscientemente a nossa unidade, e realizar, durante um instante, +na consciência, a nossa divinização. + +Assim ennevoadamente filosofávamos--quando Zé Brás, com uma candeia na +mão, veio avisar que «estavam preparadas as camas de _suas +inselências..._» Da idealidade descemos gostosamente à realidade, ¿e que +vimos então nós, os irmãos dos astros? Em duas salas tenebrosas e +côncavas, duas enxergas, postas no chão, a um canto, com duas cobertas +de chita; à cabeceira um castiçal de latão, pousado sôbre um alqueire: e +aos pés, como lavatório, um alguidar vidrado em cima de uma cadeira de pau! + +Em silêncio, o meu super-civilizado amigo palpou a sua enxerga e sentiu +nela a rigidez dum granito. Depois, correndo pela face descaída os dedos +murchos, considerou que, perdidas as suas malas, não tinha nem +chinelas nem roupão! E foi ainda o Zé Brás que providenciou, +trazendo ao pobre Jacinto, para êle desafogar os pés, uns tremendos +tamancos de pau, e para êle embrulhar o corpo, docemente educado em +Sybaris, uma camisa da caseira, enorme, de estopa mais aspera que +estamenha de penitente, e com folhos crespos e duros como lavores em +madeira... Para o consolar, lembrei que Platão, quando compunha o +_Banquete_, Xenofonte, quando comandava os Dez Mil, dormiam em piores +catres. As enxergas austeras fazem as fortes almas--e é só vestido de +estamenha que se penetra no Paraíso. + +--¿Tem você--murmurou o meu amigo, desatento e sêco--alguma cousa que eu +leia?.... Eu não posso adormecer sem ler! + +Eu possuia apenas o número do _Jornal da Tarde_, que rasguei pelo meio, +e partilhei com êle fraternalmente. E quem não viu então Jacinto, senhor +de Torges, acaçapado à borda da enxerga, junto da vela que pingava sôbre +o alqueire, com os pés nus encafuados nos grossos sócos, perdido dentro +da camisa da patrôa, toda em folhos, percorrendo na metade do _Jornal da +Tarde_, com os olhos turvos, os anúncios dos paquetes--não pode saber o +que é uma vigorosa e real imagem do desalento! + +Assim o deixei--e daí a pouco, estendido na minha enxerga tambêm +espartana, subia, através dum sonho jovial e erudito, ao planeta Vénus, +onde encontrava, entre os olmos e os ciprestes, num vergel, Platão e Zé +Brás, em alta camaradagem intelectual, bebendo o vinho da Rética pelos +copos de Torges! Travámos todos três bruscamente uma controvérsia sôbre +o século XIX. Ao longe, por entre uma floresta de roseiras mais altas +que carvalhos, alvejavam os mármores duma cidade e ressoavam cantos +sacros. Não recordo o que Xenofonte sustentou àcêrca da civilização e do +fonógrafo. De repente tudo foi turbado por fuscas nuvens, através das +quais eu distinguia Jacinto, fugindo num burro que êle impelia +furiosamente com os calcanhares, com uma vergasta, com berros, para os +lados do _Jasmineiro_! + + +V + +Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar Jacinto, que, com as +mãos sôbre o peito, dormia plácidamente no seu leito de granito--parti +para Guiães. E durante três quietas semanas, naquela vila onde se +conservam os hábitos e as ideas do tempo de El-Rei D. Dinís, não +soube do meu desconsolado amigo, que de-certo fugira dos seus tetos +esburacados e remergulhára na civilização. Depois, por uma abrasada +manhã de agosto, descendo de Guiães, de novo trilhei a avenida de faias, +e entrei o portão solarengo de Torges, entre o furioso latir dos +rafeiros. A mulher do Zé Brás apareceu alvoroçada à porta da tulha. E a +sua nova foi logo que o snr. D. Jacinto (em Torges, o meu amigo tinha +dom) andava lá em baixo com o Sousa nos campos de Freixomil. + +--¿Então, ainda cá está o snr. D. Jacinto?! + +_Sua inselência_ ainda estava em Torges--e _sua inselência_ ficava para +a vindima!... Justamente eu reparava que as janelas do solar tinham +vidraças novas; e a um canto do pátio pousavam baldes de cal; uma escada +de pedreiro ficára arrimada contra a varanda; e num caixote aberto, +ainda cheio de palha de empacotar, dormiam dois gatos. + +--E o Grilo apareceu? + +--O snr. Grilo está no pomar, à sombra. + +--Bem! e as malas? + +--O snr. D. Jacinto já tem o seu saquinho de couro... + +Louvado Deus! O meu Jacinto estava, emfim, provido de civilização! Subi +contente. Na sala nobre, onde o soalho fôra composto e esfregado, +encontrei uma mesa recoberta de oleado, prateleiras de pinho com +louça branca de Barcelos e cadeiras de palhinha, orlando as paredes +muito caiadas que davam uma frescura de capela nova. Ao lado, noutra +sala, tambêm de faiscante alvura, havia o confôrto inesperado de três +cadeiras de vêrga da Madeira, com braços largos e almofadas de chita: +sôbre a mesa de pinho, o papel almasso, o candieiro de azeite, as penas +de pato espetadas num tinteiro de frade, pareciam preparadas para um +estudo calmo e ditoso de humanidades: e na parede, suspensa de dois +pregos, uma estantesinha continha quatro ou cinco livros, folheados e +usados, o _D. Quixote_, um Virgílio, uma História de Roma, as Crónicas +de Froissart. Adiante era certamente o quarto de D. Jacinto, um quarto +claro e casto de estudante, com um catre de ferro, um lavatório de +ferro, a roupa pendurada de cabides toscos. Tudo resplandecia de asseio +e ordem. As janelas cerradas defendiam do sol de agosto, que escaldava +fóra os peitoris de pedra. Do soalho, borrifado de água, subia uma +fresquidão consoladora. Num vélho vaso azul um mólho de cravos alegrava +e perfumava. Não havia um rumor. Torges dormia no esplendor da sésta. E +envolvido naquele repouso de convento remoto, terminei por me estender +numa cadeira de vêrga junto à mesa, abri lânguidamente o Virgílio, +murmurando: + + _Fortunate Jacinthe! tu inter arva nota_ + _Et fontes sacros frigus captabis opacum._ + +Já mesmo irreverentemente adormecera sôbre o divino bucolista, quando me +despertou um brado amigo. Era o nosso Jacinto. E imediatamente o +comparei a uma planta, meio murcha e estiolada no escuro, que fôra +profusamente regada e revivera em pleno sol. Não corcovava. Sôbre a sua +palidez de supercivilizado, o ar da serra ou a reconciliação com a vida +tinham espalhado um tom trigueiro e forte que o virilizava soberbamente. +Dos olhos, que na cidade eu lhe conhecera sempre crepusculares, saltava +agora um brilho de meio dia, decidido e largo, que mergulhava +francamente na beleza das cousas. Já não passava as mãos murchas sôbre a +face--batia com elas rijamente na côxa... Que sei eu?! Era uma +reincarnação. E tudo o que me contou, pisando alegremente com os sapatos +brancos o soalho, foi que se sentira, ao fim de três dias em Torges, +como desanuviado, mandára comprar um colchão macio, reùnira cinco +livros, nunca lidos, e ali estava... + +--Para todo o verão? + +--Para todo o sempre! E agora, homem das cidades, vem almoçar umas +trutas que eu pesquei, e compreende emfim o que é o céu. + +As trutas eram, com efeito, celestes. E apareceu tambêm uma salada fria +de couve-flor e vagens, e um vinho branco de Azães... ¿Mas quem +condignamente vos cantará, comeres e beberes daquelas serras? + +De tarde, finda a calma, passeamos pelos caminhos, coleando a vasta +quinta, que vai de vales a montes. Jacinto parava a contemplar com +carinho os milhos altos. Com a mão espalmada e forte batia no tronco dos +castanheiros, como nas costas de amigos recuperados. Todo o fio de água, +todo o tufo de erva, todo o pé de vinha o ocupava como vidas filiais +porque fôsse responsável. Conhecia certos melros que cantavam em certos +choupos. Exclamava enternecido: + +--Que encanto, a flor do trevo! + +À noite, depois de um cabrito assado no forno, a que mestre Horácio +teria dedicado uma Ode (talvez mesmo um Carme Heróico) conversamos sôbre +o Destino e a Vida. Eu citei, com discreta malícia, Schopenhauer e o +_Eclesiastes_... Mas Jacinto ergueu os ombros, com seguro desdêm. A sua +confiança nesses dois sombrios explicadores da vida desaparecera, e +irremediavelmente, sem poder mais voltar, como uma névoa que o sol +espalha. Tremenda tolice! afirmar que a vida se compõe, meramente, duma +longa ilusão--é erguer um aparatoso sistema sôbre um ponto especial +e estreito da vida, deixando fóra do sistema toda a vida restante, como +uma contradição permanente e soberba. Era como se êle, Jacinto, +apontando para uma ortiga, crescida naquele pátio, declarasse, +triunfalmente:--«Aqui está uma ortiga! Toda a quinta de Torges, +portanto, é uma massa de ortigas.»--Mas bastaria que o hóspede erguesse +os olhos, para ver as searas, os pomares e os vinhedos! + +¿De resto, dêsses dois ilustres pessimistas, um o alemão, que conhecia +êle da vida--dessa vida de que fizera, com doutoral majestade, uma +teoria definitiva e dolente? Tudo o que pode conhecer quem, como êste +genial farçante, viveu cincoenta anos numa soturna hospedaria da +província, levantando apenas os óculos dos livros para conversar, à mesa +redonda, com os alferes da guarnição! E o outro, o israelista, o homem +dos _Cantares_, o muito pedantesco rei de Jerusalêm, só descobre que a +vida é uma ilusão aos setenta e cinco anos, quando o poder lhe escapa +das mãos trémulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se torna +ridículamente supérfluo à sua carcassa frígida. Um dogmatiza +fúnebremente sôbre o que não sabe--e o outro sôbre o que não pode. ¿Mas +que se dê a êsse bom Schopenhauer uma vida tam completa e cheia como a +de César, e onde estará o seu schopenhaurismo? ¿que se restitua a êsse +sultão, besuntado de literatura, que tanto edificou e professorou +em Jerusalêm, a sua virilidade--e onde estará o _Eclesiastes_? ¿De +resto, que importa bemdizer ou maldizer da vida? Afortunada ou dolorosa, +fecunda ou vã, ela tem de ser vida. Loucos aqueles que, para a +atravessar, se embrulham desde logo em pesados véus de tristeza e +desilusão, de sorte que na sua estrada tudo lhe seja negrume, não só as +léguas realmente escuras, mas mesmo aquelas em que scintila um sol +amável. Na terra tudo vive--e só o homem sente a dor e a desilusão da +vida. E tanto mais as sente, quanto mais alarga e acumula a obra dessa +inteligência que o torna homem, e que o separa da restante natureza, +impensante e inerte. É no máximo de civilização que êle experimenta o +máximo de tédio. A sapiência, portanto, está em recuar até êsse honesto +mínimo de civilização, que consiste em ter um teto de colmo, uma leira +de terra e o grão para nela semear. Em resumo, para reaver a felicidade, +é necessário regressar ao Paraíso--e ficar lá, quieto, na sua fôlha de +vinha, inteiramente desguarnecido de civilização, contemplando o anho +aos saltos entre o tomilho, e sem procurar, nem com o desejo, a árvore +funesta da Sciência! _Dixi!_ + +Eu escutava, assombrado, êste Jacinto novíssimo. Era verdadeiramente uma +ressurreição no magnífico estilo de Lázaro. Ao _surge et ambula_ +que lhe tinham sussurrado as águas e os bosques de Torges, êle erguia-se +do fundo da cova do Pessimismo, desembaraçava-se das suas casacas de +Poole, _et ambulabat_, e começava a ser ditoso. Quando recolhi ao meu +quarto, àquelas horas honestas que convêm ao campo e ao Otimismo, tomei +entre as minhas a mão já firme do meu amigo, e pensando que êle emfim +alcançára a verdadeira rialeza, porque possuia a verdadeira liberdade, +gritei-lhe os meus parabens à maneira do moralista de Tibur: + + _Vive et regna, fortunate Jacinthe!_ + +Daí a pouco, através da porta aberta que nos separava, senti uma risada +fresca, môça, genuína e consolada. Era Jacinto que lia o _D. Quixote_. +Oh bemaventurado Jacinto! Conservava o agudo poder de criticar, e +recuperára o dom divino de rir! + + +Quatro anos vão passados. Jacinto ainda habita Torges. As paredes do seu +solar continuam bem caiadas, mas nuas. + +De inverno enverga um gabão de briche e acende um braseiro. Para chamar +o Grilo ou a môça, bate as mãos, como fazia Catão. Com os seus +deliciosos vagares, já leu a _Ilíada_. + +Não faz a barba. Nos caminhos silvestres, pára e fala com as crianças. +Todos os casais da serra o bemdizem. Ouço que vai casar com uma forte, +sã, e bela rapariga de Guiães. De-certo crescerá ali uma tríbu, que será +grata ao Senhor! + +Como êle, recentemente, me mandou pedir livros da sua livraria (uma +_Vida de Buda_, uma _História da Grécia_ e as obras de S. Francisco de +Sales) fui, depois dêstes quatro anos, ao _Jasmineiro_ deserto. Cada +passo meu sôbre os fofos tapetes de Koranânia soou triste como num chão +de mortos. Todos os brocados estavam engelhados, esgaçados. Pelas +paredes pendiam, como olhos fóra de órbitas, os botões eléctricos das +campainhas e das luzes:--e havia vagos fios de arame, soltos, +enroscados, onde a aranha regalada e reinando tecera teias espessas. Na +livraria, todo o vasto saber dos séculos jazia numa imensa mudez, +debaixo duma imensa poeira. Sôbre as lombadas dos sistemas filosóficos +alvejava o bolôr: vorazmente a traça devastára as Histórias Universais: +errava ali um cheiro mole de literatura apodrecida:--e eu abalei, com o +lenço no nariz, certo de que naqueles vinte mil volumes não restava uma +verdade viva! Quis lavar as mãos maculadas pelo contacto com estes +detritos de conhecimentos humanos. Mas os maravilhosos aparelhos do +lavatório, da sala de banho, enferrujados, perros, dessoldados, não +largaram uma gota de água; e, como chovia nessa tarde de abril, tive de +saír à varanda, pedir ao céu que me lavasse. + +Ao descer, penetrei no gabinete de trabalho de Jacinto e tropecei num +montão negro de ferragens, rodas, lâminas, campainhas, parafusos... +Entreabri a janela, e reconheci o telefone, o teatrofone, o fonógrafo, +outros aparelhos, tombados das suas peanhas, sórdidos, desfeitos, sob a +poeira dos anos. Empurrei com o pé êste lixo do engenho humano. A +máquina de escrever, escancarada, com os buracos negros marcando as +letras desarraigadas, era como uma bôca alvar e desdentada. O telefone +parecia esborrachado, enrodilhado nas suas tripas de arame. Na trompa do +fonógrafo, torta, esbeiçada, para sempre muda, fervilhavam carochas. E +ali jaziam, tam lamentáveis e grotescas, aquelas geniais invenções, que +eu saí rindo, como duma enorme facécia, daquele super-civilizado palácio. + +A chuva de abril secára: os telhados remotos da cidade negrejavam sôbre +um poente de carmesim e oiro. E, através das ruas mais frescas, eu ia +pensando que êste nosso magnifíco século XIX se assemelharia, um dia, +àquele _Jasmineiro_ abandonado, e que outros homens, com uma certeza +mais pura do que é a Vida e a Felicidade, dariam, como eu, com o pé no +lixo da super-civilização, e, como eu, ririam alegremente da grande +ilusão que findára, inútil e coberta de ferrugem. + +Àquela hora, de-certo, Jacinto, na varanda, em Torges, sem fonógrafo e +sem telefone, reentrado na simplicidade, via, sob a paz lenta da tarde, +ao tremeluzir da primeira estrêla, a boiada recolher entre o canto dos +boieiros. + + + + +O TESOIRO + + +I + +Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guannes e Rostabal, eram então, em +todo o Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados. + +Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levára vidraça e telha, +passavam êles as tardes dêsse inverno, engelhados nos seus pelotes de +camelão, batendo as solas rotas sôbre as lages da cozinha, diante da +vasta lareira negra, onde desde muito não estalava lume, nem fervia a +panela de ferro. Ao escurecer devoravam uma côdea de pão negro, +esfregada com alho. Depois, sem candeia, através do pátio, fendendo a +neve, iam dormir à estrebaria, para aproveitar o calor das três éguas +lazarentas que, esfaimadas como êles, roíam as traves da +mangedoura. E a miséria tornára êstes senhores mais bravios que lôbos. + +Ora, na primavera, por uma silenciosa manhã de domingo, andando todos +três na mata de Roquelanes a espiar pègadas de caça e a apanhar +tortulhos entre os robles, emquanto as três éguas pastavam a relva nova +de abril,--os irmãos de Medranhos encontraram, por trás de uma moita de +espinheiros, numa cova de rocha, um vélho cofre de ferro. Como se o +resguardasse uma tôrre segura, conservava as suas três chaves nas suas +três fechaduras. Sôbre a tampa, mal decifrável através da ferrugem, +corria um dístico em letras árabes. E dentro, até às bordas, estava +cheio de dobrões de oiro! + +No terror e esplendor da emoção, os três senhores ficaram mais lívidos +do que círios. Depois, mergulhando furiosamente as mãos no oiro, +estalaram a rir, num riso de tam larga rajada, que as fôlhas tenras dos +olmos, em roda, tremiam... E de novo recuaram, bruscamente se encararam, +com os olhos a flamejar, numa desconfiança tam desabrida que Guannes e +Rostabal apalpavam nos cintos os cabos das grandes facas. Então Rui, que +era gordo e ruivo, e o mais avisado, ergueu os braços, como um árbitro, +e começou por decidir que o tesoiro, ou viesse de Deus ou do demónio, +pertencia aos três, e entre êles se repartiria, rígidamente, +pesando-se o oiro em balanças. ¿Mas como poderiam carregar para +Medranhos, para os cimos da serra, aquele cofre tam cheio? Nem convinha +que saíssem da mata com o seu bem, antes de cerrar a escuridão. Por isso +êle entendia que o mano Guannes, como mais leve, devia trotar para a +vila vizinha de Retortilho, levando já oiro na bolsinha, a comprar três +alforges de coiro, três maquias de cevada, três empadões de carne, e +três botelhas de vinho. Vinho e carne eram para êles, que não comiam +desde a véspera: a cevada era para as éguas. E assim refeitos, senhores +e cavalgaduras, ensacariam o oiro nos alforges, e subiriam para +Medranhos, sob a segurança da noite sem lua. + +--Bem tramado!--gritou Rostabal, homem mais alto que um pinheiro, de +longa guedelha, e com uma barba que lhe caía desde os olhos raiados de +sangue até à fivela do cinturão. + +Mas Guannes não se arredava do cofre, enrugado, desconfiado, puxando +entre os dedos a pele negra do seu pescoço de grou. Por fim, brutalmente: + +--Manos! O cofre tem três chaves... Eu quero fechar a minha fechadura e +levar a minha chave! + +--Tambêm eu quero a minha, mil raios!--rugiu logo Rostabal. + +Rui sorriu. De-certo, de-certo! A cada dono do oiro cabia uma das chaves +que o guardavam. E cada um em silêncio, agachado ante o cofre, cerrou a +sua fechadura com fôrça. Imediatamente Guannes, desanuviado, saltou na +égua, meteu pela vereda de olmos, a caminho de Retortilho, atirando aos +ramos a sua cantiga costumada e dolente: + + Olé! olé! + Sale la crus de la iglesia, + Vestida de negro luto... + + +II + +Na clareira, em frente à moita que encobria o tesoiro (e que os três +tinham desbastado a cutiladas) um fio de água, brotando entre rochas, +caía sôbre uma vasta lage escavada, onde fazia como um tanque, claro e +quieto, antes de se escoar para as relvas altas. E ao lado, na sombra de +uma faia, jazia um vélho pilar de granito, tombado e musgoso. Ali vieram +sentar-se Rui e Rostabal, com os seus tremendos espadões entre os +joelhos. As duas éguas tosavam a boa erva pintalgada de papoulas e +botões de oiro. Pela ramaria andava um melro a assobiar. Um cheiro +errante de violetas adoçava o ar luminoso. E Rostabal, olhando o sol, +bocejava com fome. + +Então Rui, que tirára o _sombrero_ e lhe cofiava as vélhas plumas rôxas, +começou a considerar, na sua fala avisada e mansa, que Guannes, nessa +manhã, não quisera descer com êles à mata de Roquelanes. E assim era a +sorte ruim! Pois que se Guannes tivesse quedado em Medranhos, só êles +dois teriam descoberto o cofre, e só entre êles dois se dividiria o +oiro! Grande pena! Tanto mais que a parte de Guannes seria em breve +dissipada, com rufiões, aos dados, pelas tavernas. + +--Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guannes, passando aqui sòzinho, tivesse +achado êste oiro, não dividia comnosco, Rostabal! + +O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas negras: + +--Não, mil raios! Guannes é sôfrego... Quando o ano passado, se te +lembras, ganhou os cem ducados ao espadeiro de Fresno, nem me quis +emprestar três para eu comprar um gibão novo! + +--Vês tu?--gritou Rui, resplandecendo. + +Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma +idea, que os deslumbrava. E, através das suas largas passadas, as ervas +altas silvavam. + +--E para quê?--prosseguia Rui,--¿Para que lhe serve todo o oiro que +nos leva? ¿Tu não o ouves, de noite, como tosse? Ao redor da palha em +que dorme, todo o chão está negro do sangue que escarra! Não dura até às +outras neves, Rostabal! Mas até lá terá dissipado os bons dobrões que +deviam ser nossos, para levantarmos a nossa casa, e para tu teres +ginetes, e armas, e trajes nobres, e o teu terço de solarengos, como +compete, a quem é, como tu, o mais vélho dos de Medranhos... + +--Pois que morra, e morra hoje!--bradou Rostabal. + +--Queres? + +Vivamente, Rui agarrára o braço do irmão e apontava para a vereda de +olmos, por onde Guannes partira cantando: + +--Logo adiante, ao fim do trilho, há um sítio bom, nos silvados. E +hás-de ser tu, Rostabal, que és o mais forte e o mais destro. Um golpe +de ponta pelas costas. E é justiça de Deus que sejas tu, que muitas +vezes, nas tavernas, sem pudor, Guannes te tratava de _cerdo_ e de +torpe, por não saberes a letra nem os numeros. + +--Malvado! + +--Vem! + +Foram. Ambos se emboscaram por trás dum silvado, que dominava o atalho, +estreito e pedregoso como um leito de torrente. Rostabal assolapado na +vala, tinha já a espada nua. Um vento leve arripiou na encosta as +fôlhas dos álamos--e sentiram o repique leve dos sinos de Retortilho. +Rui, coçando a barba, calculava as horas pelo sol, que já se inclinava +para as serras. Um bando de córvos passou sôbre êles, grasnando. E +Rostabal, que lhes seguira o vôo, recomeçou a bocejar, com fome, +pensando nos empadões e no vinho que o outro trazia nos alforges. + +Emfim! Àlerta! Era, na vereda, a cantiga dolente e rouca, atirada aos +ramos: + + Olé! olé! + Sale la crus de la iglesia + Toda vestida de negro... + +Rui murmurou:--«Na ilharga! Mal que passe!» O chouto da égua bateu o +cascalho, uma pluma num _sombrero_ vermelhejou por sôbre a ponta das +silvas. + +Rostabal rompeu de entre a sarça por uma brecha, atirou o braço, a longa +espada;--e toda a lâmina se embebeu molemente na ilharga de Guannes, +quando ao rumor, bruscamente, êle se virára na sela. Com um surdo +arranco, tombou de lado, sôbre as pedras. Já Rui se arremessava aos +freios da égua:--Rostabal, caíndo sôbre Guannes, que arquejava, de novo +lhe mergulhou a espada, agarrada pela fôlha como um punhal, no peito e +na garganta. + +--A chave!--gritou Rui. + +E arrancada a chave do cofre ao seio do morto, ambos largaram pela +vereda--Rostabal adiante, fugindo, com a pluma do _sombrero_ quebrada e +torta, a espada ainda nua entalada sob o braço, todo encolhido, +arripiado com o sabor de sangue que lhe espirrára para a bôca; Rui, +atrás, puxando desesperadamente os freios da égua, que, de patas +fincadas no chão pedregoso, arreganhando a longa dentuça amarela, não +queria deixar o seu amo assim estirado, abandonado, ao comprido das sebes. + +Teve de lhe espicaçar as ancas lazarentas com a ponta da espada:--e foi +correndo sôbre ela, de lâmina alta, como se perseguisse um mouro, que +desembocou na clareira onde o sol já não doirava as fôlhas. Rostabal +arremessára para a relva o _sombrero_ e a espada; e debruçado sôbre a +lage escavada em tanque, de mangas arregaçadas, lavava, ruidosamente, a +face e as barbas. + +A égua, quieta, recomeçou a pastar, carregada com os alforges novos que +Guannes comprára em Retortilho. Do mais largo, abarrotado, surdiam dois +gargalos de garrafas. Então, Rui tirou, lentamente, do cinto, a sua +larga navalha. Sem um rumor na relva espessa, deslizou até Rostabal, que +resfolgava, com as longas barbas pingando. E, serenamente, como se +pregasse uma estaca num canteiro, enterrou a fôlha toda no largo +dorso dobrado, certeira sôbre o coração. + +Rostabal caíu sôbre o tanque, sem um gemido, com a face na água, os +longos cabelos flutuando na água. A sua vélha escarcela de coiro ficára +entalada sob a côxa. Para tirar de dentro a terceira chave do cofre, Rui +solevou o corpo--e um sangue mais grosso jorrou, escorreu pela borda do +tanque, fumegando. + + +III + +Agora eram dêle, só dêle, as três chaves do cofre!... E Rui, alargando +os braços, respirou deliciosamente. Mal a noite descesse, com o oiro +metido nos alforges, guiando a fila das éguas pelos trilhos da serra, +subiria a Medranhos e enterraria na adega o seu tesoiro! E quando ali na +fonte, e alêm rente aos silvados, só restassem, sob as neves de +dezembro, alguns ossos sem nome, êle seria o magnífico senhor de +Medranhos, e na capela nova do solar renascido, mandaria dizer missas +ricas pelos seus dois irmãos mortos... Mortos, como? Como devem morrer +os de Medranhos--a pelejar contra o Turco! + +Abriu as três fechaduras, apanhou um punhado de dobrões, que fez +retinir sôbre as pedras. Que puro oiro, de fino quilate! E era o _seu_ +oiro! Depois foi examinar a capacidade dos alforges--e encontrando as +duas garrafas de vinho, e um gordo capão assado, sentiu uma imensa fome. +Desde a véspera só comera uma lasca de peixe sêco. E há quanto tempo não +provava capão! + +Com que delícia se sentou na relva, com as pernas abertas, e entre elas, +a ave loura, que rescendia, e o vinho côr de ámbar! Ah! Guannes fôra bom +mordomo--nem esquecera azeitonas. ¿Mas, porque trouxera êle, para três +convivas, só duas garrafas? Rasgou uma asa do capão: devorava a grandes +dentadas. A tarde descia, pensativa e doce, com nuvemsinhas côr de rosa. +Para alêm, na vereda, um bando de corvos grasnava. As éguas fartas +dormitavam, com o focinho pendido. E a fonte cantava, lavando o morto. + +Rui ergueu à luz a garrafa de vinho. Com aquela côr vélha e quente, não +teria custado menos de três maravedis. E pondo o gargalo à bôca, bebeu +em sorvos lentos, que lhe faziam ondular o pescoço peludo. Oh vinho +bemdito, que tam prontamente aquecia o sangue! Atirou a garrafa +vazia--destapou outra. Mas, como era avisado, não bebeu, porque a +jornada para a serra, com o tesoiro, requeria firmeza e acêrto. +Estendido sôbre o cotovelo, descansando, pensava em Medranhos +coberto de telha nova, nas altas chamas da lareira por noites de neve, e +o seu leito com brocados, onde teria sempre mulheres. + +De repente, tomado de uma ansiedade, teve pressa de carregar os +alforges. Já, entre os troncos, a sombra se adensava. Puxou uma das +éguas para junto do cofre, ergueu a tampa, tomou um punhado de oiro... +Mas oscilou, largando os dobrões que retilintaram no chão, e levou as +duas mãos aflitas ao peito. ¿Que é, D. Rui? Raios de Deus! era um lume, +um lume vivo, que se lhe acendera dentro, lhe subia até às guelas. Já +rasgára o gibão, atirava os passos incertos, e, a arquejar, com a língua +pendente, limpava as grossas bagas de um suor horrendo que o regelava +como neve. Oh Virgem Mãe! Outra vez o lume, mais forte, que alastrava, o +roía! Gritou: + +--Socorro! Alguêm! Guannes! Rostabal! + +Os seus braços torcidos batiam o ar desesperadamente. E a chama dentro +galgava--sentia os ossos a estalarem como as traves duma casa em fogo. + +Cambaleou até à fonte para apagar aquela labareda, tropeçou sôbre +Rostabal; e foi com o joelho fincado no morto, arranhando a rocha, que +êle, entre uivos, procurava o fio de água, que recebia sôbre os olhos, +pelos cabelos. Mas a água mais o queimava, como se fôsse um metal +derretido. Recuou, caíu para cima da relva que arrancava aos punhados, e +que mordia, mordendo os dedos, para lhe sugar a frescura. Ainda se +ergueu, com uma baba densa a escorrer-lhe nas barbas: e de repente, +esbogalhando pavorosamente os olhos, berrou, como se compreendesse emfim +a traição, todo o horror: + +--É veneno! + +Oh! D. Rui, o avisado, era veneno! Porque Guannes, apenas chegára a +Retortilho, mesmo antes de comprar os alforges, correra cantando a uma +viela, por detrás da catedral, a comprar ao vélho droguista judeu o +veneno que, misturado ao vinho, o tornaria a êle, a êle sómente, dono de +todo o tesoiro. + +Anoiteceu. Dois corvos de entre o bando que grasnava, alêm nos silvados, +já tinham pousado sôbre o corpo de Guannes. A fonte, cantando, lavava o +outro morto. Meio enterrada na erva negra, toda a face de Rui se tornára +negra. Uma estrelinha tremeluzia no céu. + +O tesoiro ainda lá está, na mata de Roquelanes. + + + + +FREI GENEBRO + + +I + +Nesse tempo ainda vivia na sua solidão das montanhas da Úmbria, o divino +Francisco de Assis--e já por toda a Itália se louvava a santidade de +Frei Genebro, seu amigo e seu discípulo. + +Frei Genebro, na verdade, completára a perfeição em todas as virtudes +evangélicas. Pela abundância e perpètuidade da Oração, êle arrancava da +sua alma as raízes mais miudas do Pecado, e tornava-a limpa e cândida +como um dêsses celestes jardins em que o sólo anda regado pelo Senhor, e +onde só podem brotar açucenas. A sua penitência, durante vinte anos de +clâustro, fôra tam dura e alta que já não temia o Tentador; e agora, só +com o sacudir a manga do hábito, rechaçava as tentações, as mais +pavorosas ou as mais deliciosas, como se fôssem apenas moscas +importunas. Benéfica e universal à maneira de um orvalho de verão, a sua +caridade não se derramava sómente sôbre as misérias do pobre, mas sôbre +as melancolias do rico. Na sua humilíssima humildade não se considerava +nem o igual dum verme. Os bravios barões, cujas negras tôrres esmagavam +a Itália, acolhiam reverentemente e curvavam a cabeça a êste franciscano +descalço e mal remendado que lhes ensinava a mansidão. Em Roma, em S. +João de Latrão, o Papa Honório beijára as feridas de cadeias que lhe +tinham ficado nos pulsos, do ano em que na Mourama, por amor dos +escravos, padecera a escravidão. E como nessas idades os anjos ainda +viajavam na terra, com as asas escondidas, arrimados a um bordão, muitas +vezes, trilhando uma vélha estrada pagã ou atravessando uma selva, êle +encontrava um moço de inefável formosura, que lhe sorria e murmurava: + +--Bons dias, irmão Genebro! + +Ora, um dia, indo êste admirável mendicante de Spoleto para Terni, e +avistando no azul e no sol da manhã, sôbre uma colina coberta de +carvalhos, as ruínas do castelo de Otofrid, pensou no seu amigo Egídio, +antigo noviço como êle no mosteiro de Santa Maria dos Anjos, que se +retirára àquele ermo para se avizinhar mais de Deus, e ali habitava +uma cabana de colmo, junto das muralhas derrocadas, cantando e +regando as alfaces do seu horto, porque a sua virtude era amena. E como +mais de três anos tinham passado desde que visitára o bom Egídio, largou +a estrada, passou em baixo, no vale, sôbre as alpondras, o riacho que +fugia por entre os aloendros em flor, e começou a subir, lentamente, a +colina frondosa. Depois da poeira e ardor do caminho de Spoleto, era +doce a larga sombra dos castanheiros e a relva que lhe refrescava os pés +doridos. A meia encosta, numa rocha onde se esguedelhavam silvados, +sussurrava e luzia um fio de água. Estendido ao lado, nas ervas húmidas, +dormia, ressonando consoladamente, um homem, que de-certo ali guardava +porcos, porque vestia um grosso surrão de coiro e trazia, pendurada da +cinta, uma buzina de porqueiro. O bom frade bebeu de leve, afugentou os +moscardos que zumbiam sôbre a rude face adormecida e continuou a trepar +a colina, com o seu alforge, o seu cajado, agradecendo ao Senhor aquela +água, aquela sombra, aquela frescura, tantos bens inesperados. Em breve +avistou, com efeito, o rebanho de porcos, espalhados sob as frondes, +roncando e fossando as raízes, uns magros e agudos, de cerdas duras, +outros redondos, com o focinho curto afogado em gordura, e os bacorinhos +correndo em tôrno às têtas das mães, luzidios e côr de rosa. + +Frei Genebro pensou nos lôbos e lamentou o sono do pastor descuidado. No +fim da mata começava a rocha, onde os restos do castelo lombardo se +erguiam, revestidos de hera, conservando ainda alguma seteira esburacada +sôbre o céu, ou, numa esquina de tôrre, uma goteira que, esticando o +pescoço de dragão, espreitava por meio das silvas bravas. + +A cabana do ermitão, telhada de colmo que lascas de pedra seguravam, +apenas se percebia, entre aqueles escuros granitos, pela horta que em +frente verdejava, com os seus talhões de couve e estacas de feijoal, +entre alfazema cheirosa. Egídio não andaria afastado porque sôbre o +murosinho de pedra solta ficára pousado o seu cântaro, o seu podão e a +sua enxada. E docemente, para o não importunar, se àquela hora da sésta +estivesse recolhido e orando, Frei Genebro empurrou a porta de pranchas +vélhas, que não tinha loquete para ser mais hospitaleira. + +--Irmão Egídio! + +Do fundo da choça rude, que mais parecia cova de bicho, veio um lento +gemido: + +--Quem me chama? Aqui neste canto, neste canto a morrer!... A morrer, +meu irmão! + +Frei Genebro acudiu em grande dó; encontrou o bom ermitão estirado num +monte de fôlhas sêcas, encolhido em farrapos, e tam definhado que a sua +face, outrora farta e rosada, era como um pedacinho de vélho +pergaminho muito enrugado, perdido entre os flocos das barbas brancas. +Com infinita caridade e doçura o abraçou. + +--¿E há quanto tempo, há quanto tempo neste abandôno, irmão Egídio? + +Louvado Deus, desde a véspera! Só na véspera, à tarde, depois de olhar +uma derradeira vez para o sol e para a sua horta, se viera estender +naquele canto para acabar... Mas havia meses que com êle entrára um +cansaço, que nem podia segurar a bilha cheia quando voltava da fonte. + +--¿E dizei, irmão Egídio, pois que o Senhor me trouxe, que posso eu +fazer pelo vosso corpo? Pelo corpo, digo; que pela alma bastante tendes +vós feito na virtude desta solidão! + +Gemendo, arrepanhando para o peito as fôlhas sêcas em que jazia, como se +fôssem dobras dum lençol, o pobre ermitão murmurou: + +--Meu bom Frei Genebro, não sei se é pecado, mas toda esta noite, em +verdade vos confesso, me apeteceu comer um pedaço de carne, um pedaço de +porco assado!... Mas será pecado? + +Frei Genebro, com a sua imensa misericórdia, logo o tranqùilizou. +Pecado? Não, certamente! Aquele que, por tortura, recusa ao seu corpo um +contentamento honesto, desagrada ao Senhor. ¿Não ordenava êle aos +seus discípulos que comessem as boas cousas da terra? O corpo é +servo; e está na vontade divina que as suas fôrças sejam sustentadas, +para que preste ao espírito, seu amo, bom e leal serviço. Quando Frei +Silvestre, já tam doentinho, sentira aquele longo desejo de uvas +moscateis, o bom Francisco de Assis logo o conduziu à vinha, e por suas +mãos lhe apanhou os melhores cachos, depois de os abençoar para serem +mais sumarentos e mais doces... + +--¿É um pedaço de porco assado que apeteceis?--exclamava risonhamente o +bom Frei Genebro, acariciando as mãos transparentes do ermitão.--Pois +sossegai, irmão querido, que bem sei como vos vou contentar! + +E imediatamente, com os olhos a reluzir de caridade e de amor, agarrou o +afiado podão que pousava sôbre o muro da horta. Arregaçando as mangas do +hábito, e mais ligeiro que um gamo, porque era aquele um serviço do +Senhor, correu pela colina até aos densos castanheiros onde encontrára o +rebanho de porcos. E aí, andando sorrateiramente de tronco para tronco, +surpreendeu um bacorinho desgarrado que fossava a bolota, desabou sobre +êle, e, emquanto lhe sufocava o focinho e os gritos, decepou, com dois +golpes certeiro do podão, a perna por onde o agarrára. Depois, com as +mãos salpicadas de sangue, a perna de porco bem alta a pingar sangue, +deixando a rês a arquejar numa pôça de sangue, o piedoso homem +galgou a colina, correu à cabana, gritou para dentro alegremente: + +--Irmão Egídio, a peça de carne já o Senhor a deu! E eu, em Santa Maria +dos Anjos, era bom cozinheiro. + +Na horta do ermitão arrancou uma estaca do feijoal, que, com o podão +sangrento, aguçou em espêto. Entre duas pedras acendeu uma fogueira. Com +zeloso carinho assou a perna do porco. Tanta era a sua caridade que para +dar a Egídio todos os antegostos daquele banquete, raro em terra de +mortificação, anunciava com vozes festivas e de boa promessa: + +--Já vai aloirando o porquinho, irmão Egídio! A pele já tosta, meu santo! + +Entrou emfim na choça, triunfalmente, com o assado que fumegava e +rescendia, cercado de frescas fôlhas de alface. Ternamente, ajudou a +sentar o vélho, que tremia e se babava de gula. Arredou das pobres faces +maceradas os cabelos que o suor da fraqueza empastára. E, para que o bom +Egídio se não vexasse com a sua voracidade e tam carnal apetite, ia +afirmando, emquanto lhe partia as febras gordas, que tambêm êle comeria +regaladamente daquele excelente porco, se não tivesse almoçado à farta +na _Locanda dos Três Caminhos_. + +--Mas nem bocado agora me podia entrar, meu irmão! Com uma galinha +inteira me atochei! E depois uma fritada de ovos! E de vinho branco, um +quartilho! + +E o santo homem mentia santamente--porque, desde madrugada, não provára +mais que um magro caldo de ervas, recebido por esmola à cancela de uma +granja. + +Farto, consolado, Egídio deu um suspiro, recaíu no seu leito de fôlhas +sêcas. Que bem lhe fizera, que bem lhe fizera! O Senhor, na sua justiça, +pagasse a seu irmão Genebro aquele pedaço de porco! Até sentia a alma +mais rija para a temerosa jornada... E o ermitão com as mãos postas, +Genebro ajoelhado, ambos louvaram, ardentemente, o Senhor que, a toda a +necessidade solitária, manda de longe o socorro. + +Então, tendo coberto Egídio com um pedaço de manta e posto, a seu lado, +a bilha cheia de água fresca, e tapado, contra as aragens da tarde, a +fresta da cabana, Frei Genebro, debruçado sôbre êle, murmurou: + +--Meu bom irmão, vós não podeis ficar neste abandono... Eu vou levado +por obra de Jesus, que não admite tardança. Mas passarei no convento de +Sambricena e darei recado para que um noviço venha e cuide de vós com +amor, no vosso transe. Deus vos vele entretanto, meu irmão; Deus +vos sossegue e vos ampare com a sua mão direita! + +Mas Egídio cerrára os olhos, nem se moveu, ou porque adormecera, ou +porque o seu espírito, tendo pago aquele derradeiro salário ao corpo, +como a um bom servidor, para sempre partira, finda a sua obra na terra. +Frei Genebro abençoou o vélho, tomou o seu bordão, desceu a colina dos +grandes carvalhos. Sob a fronde, para os lados onde andava o rebanho, a +buzina do porqueiro ressoava agora num toque de alarma e de furor. +De-certo acordára, descobrira o seu porco mutilado... Estugando o passo, +Frei Genebro pensava quanto era magnânimo o Senhor em permitir que o +homem, feito à sua imagem augusta, recebesse tam fácil consolação duma +perna de cerdo assada entre duas pedras. + +Retomou a estrada, marchou para Terni. E prodigiosa foi, desde êsse dia, +a actividade da sua virtude. Através de toda a Itália, sem descanso, +prègou o Evangelho Eterno, adoçando a aspereza dos ricos, alargando a +esperança dos pobres. O seu imenso amor ia ainda para alêm dos que +sofrem, até àqueles que pecam, oferecendo um alívio a cada dôr, +estendendo um perdão a cada culpa: e com a mesma caridade com que +tratava os leprosos, convertia os bandidos. Durante as invernias e a +neve, vezes inumeráveis dava, aos mendigos, a sua túnica, as suas +alpercatas; os abades dos mosteiros ricos, as damas devotas de novo o +vestiam, para evitar o escândalo da sua nudez através das cidades; e sem +demora, na primeira esquina, ante qualquer esfarrapado, êle se despojava +sorrindo. Para remir servos que penavam sob um amo fero, penetrava nas +igrejas, arrancava do altar os candelabros de prata, afirmando, +jovialmente, que mais praz a Deus uma alma liberta que uma tocha acesa. + +Cercado de viuvas, de crianças famintas, invadia as padarias, os +açougues, até as tendas dos cambistas, e reclamava imperiosamente, em +nome de Deus, a parte dos deserdados. Sofrer, sentir a humilhação, eram, +para êle, as únicas alegrias completas: nada o deliciava mais do que +chegar de noite, molhado, esfaimado, tiritando, a uma opulenta abadia +feudal, e ser repelido da portaria como um mau vagabundo: só então, +agachado nos lôdos do caminho, mastigando um punhado de ervas cruas, êle +se reconhecia verdadeiramente irmão de Jesus, que não tivera tambêm, +como teem sequer os bichos do mato, um covil para se abrigar. Quando um +dia, em Perusa, as confrarias saíram ao seu encontro, com bandeiras +festivas, ao repique dos sinos, êle correu para um monte de estêrco, +onde se rolou e se sujou, para que daqueles que o vinham +engrandecer, só recebesse compaixão e escárnio. Nos clâustros, nos +descampados, em meio das multidões, durante as lides mais pesadas, orava +constantemente, não por obrigação, mas porque na prece encontrava um +deleite adorável. Deleite maior, porêm, era, para o franciscano, ensinar +e servir. Assim, longos anos errou entre os homens, vertendo o seu +coração como a água de um rio, oferecendo os seus braços como alavancas +incansáveis; e tam depressa, numa ladeira deserta, aliviava uma pobre +vélha da sua carga de lenha, como numa cidade revoltada, onde reluzissem +armas, se adiantava, com o peito aberto, e amansava as discórdias. + +Emfim, uma tarde, em véspera de Páscoa, estando a descansar nos degraus +de Santa Maria dos Anjos, avistou de repente, no ar liso e branco, uma +vasta mão luminosa que sôbre êle se abria e faiscava. Pensativo, murmurou: + +--Eis a mão de Deus, a sua mão direita, que se estende para me acolher +ou para me repelir. + +Deu logo a um pobre, que ali rezava a Avé-Maria, com a sua sacola nos +joelhos, tudo o que no mundo lhe restava, que era um volume do +Evangelho, muito usado e manchado das suas lágrimas. No domingo, na +igreja, ao levantar da Hóstia, desmaiou. Sentindo então que ia +terminar a sua jornada terrestre, quis que o levassem para um curral, o +deitassem sôbre uma camada de cinzas. + +Em santa obediência ao guardião do convento, consentiu que o limpassem +dos seus trapos, lhe vestissem um hábito novo: mas, com os olhos +alagados de ternura, implorou que o enterrassem num sepulcro emprestado +como fôra o de Jesus, seu senhor. + +E, suspirando, só se queixava de não sofrer: + +--¿O senhor, que tanto sofreu, porque me não manda a mim o padecimento +bemdito? + +De madrugada pediu que abrissem, bem largo, o portão do curral. + +Contemplou o céu que clareava, escutou as andorinhas que, na frescura e +silêncio, começavam a cantar sôbre o beiral do telhado, e, sorrindo, +recordou uma manhã, assim de silêncio e frescura, em que, andando com +Francisco de Assis à beira do lago de Perusa, o mestre incomparável se +detivera ante uma árvore cheia de pássaros, e, fraternalmente, lhes +recomendára que louvassem sempre o Senhor! «Meus irmãos, meus irmãos +passarinhos, cantai bem o vosso Criador, que vos deu essa árvore para +que nela habiteis, e toda esta limpa água para nela beber, e essas penas +bem quentes para vos agasalharem, a vós e aos vossos filhinhos!» +Depois, beijando humildemente a manga do monge que o amparava, Frei +Genebro morreu. + + +II + +Logo que êle cerrou os seus olhos carnais, um Grande Anjo penetrou +diáfanamente no curral e tomou, nos braços, a alma de Frei Genebro. +Durante um momento, na fina luz da madrugada, deslizou por sôbre o prado +fronteiro tam levemente que nem roçava as pontas orvalhadas da relva +alta. Depois, abrindo as asas, radiantes e níveas, transpôs, num vôo +sereno, as nuvens, os astros, todo o céu que os homens conhecem. + +Aninhada nos seus braços, como na doçura de um berço, a alma de Genebro +conservava a forma do corpo que sôbre a terra ficára; o hábito +franciscano ainda a cobria, com um resto de poeira e de cinza nas pregas +rudes; e, com um olhar novo, que agora tudo trespassava e tudo +compreendia, ela contemplava, num deslumbramento, aquela região em que o +Anjo parára, para alêm dos universos transitórios e de todos os rumores +siderais. Era um espaço sem limite, sem contôrno e sem côr. Por +cima começava uma claridade, subindo espalhada à maneira duma aurora, +cada vez mais branca, e mais luzente, e mais radiante, até que +resplandecia num fulgor tam sublime que nela um sol coruscante seria +como uma nódoa pardacenta. E por baixo estendia-se uma sombra cada vez +mais baça, mais fusca, mais cinzenta, até que formava como um espesso +crepúsculo de profunda, insondável tristeza. Entre essa refulgência +ascendente e a escuridão inferior, permanecera o Anjo imóvel, esperando, +com as asas fechadas. E a alma de Genebro perfeitamente sentia que +estava ali, esperando tambêm, entre o Purgatório e o Paraíso. Então, +súbitamente, nas alturas, apareceram os dois imensos pratos duma +Balança--um que rebrilhava como diamante e era reservado às suas Boas +Obras, outro, negrejando mais que carvão, para receber o pêso das suas +Obras Más. Entre os braços do Anjo, a alma de Genebro estremeceu... Mas +o prato diamantino começou a descer lentamente. Oh! contentamento e +glória! Carregado com as suas Boas Obras, êle descia, calmo e majestoso, +espargindo claridade. Tam pesado vinha, que as suas grossas cordas se +retesavam, rangiam. E entre elas, formando como uma montanha de neve, +alvejavam magníficamente as suas virtudes evangélicas. Lá estavam as +incontáveis esmolas que semeára no mundo, agora desabrochadas em +alvas flores, cheias de aroma e de luz. + +A sua humildade era um cimo, aureolado por um clarão. Cada uma das suas +penitências scintilava mais límpidamente que cristais puríssimos. E a +sua oração perene subia e enrolava-se em tôrno das cordas, à maneira +duma deslumbrante névoa de oiro. + +Sereno, tendo a majestade de um astro, o prato das Boas Obras parou, +finalmente, com a sua carga preciosa. O outro, lá em cima, não se movia +tambêm, negro, da côr do carvão, inútil, esquecido, vazio. Já das +profundidades, sonoros bandos de Serafins voavam, balançando palmas +verdes. O pobre franciscano ia entrar triunfalmente no Paraíso--e aquela +era a milícia divina que o acompanharia cantando. Um frémito de alegria +passou na luz do Paraíso, que um Santo novo enriquecia. E a alma de +Genebro anteprovou as delícias da Bemaventurança. + +Súbitamente, porêm, no alto, o prato negro oscilou como a um pêso +inesperado que sôbre êle caísse! E começou a descer, duro, temeroso, +fazendo uma sombra dolente através da celestial claridade. ¿Que Má Acção +de Genebro trazia êle, tam miuda que nem se avistava, tam pesada que +forçava o prato luminoso a subir, remontar ligeiramente como se a +montanha de Boas Acções, que nele transbordavam, fôssem um fumo +mentiroso? Oh! mágoa! oh! desesperança! Os Serafins recuavam, com as +asas trementes. Na alma de Frei Genebro correu um arrepio imenso de +terror. O negro prato descia, firme, inexorável, com as cordas retêsas. +E na região que se cavava sob os pés do Anjo, cinzenta, de inconsolável +tristeza, uma massa de sombra, molemente e sem rumor, arfou, cresceu, +rolou, como a onda duma maré devoradora. + +O prato, mais triste que a noite, parára--parára em pavoroso equilíbrio +com o prato que rebrilhava. E os Serafins, Genebro, o Anjo que o +trouxera, descobriram, no fundo daquele prato que inutilizava um Santo, +um porco, um pobre porquinho com uma perna bárbaramente cortada, +arquejando, a morrer, numa pôça de sangue... O animal mutilado pesava +tanto na balança da justiça como a montanha luminosa de virtudes perfeitas! + +Então, das alturas, surgiu uma vasta mão, abrindo os dedos que +faiscavam. Era a mão de Deus, a sua mão direita, que aparecera a Genebro +na escada de Santa Maria dos Anjos, e que agora supremamente se estendia +para o acolher ou para o repelir. Toda a luz e toda a sombra, desde o +Paraíso fulgente ao Purgatório crepuscular, se contraíram num +recolhimento de inexprimível amor e terror. E na estática mudez, a +vasta mão, através das alturas, lançou um gesto que repelia... + +Então o Anjo, baixando a face compadecida, alargou os braços e deixou +caír, na escuridão do Purgatório, a alma de Frei Genebro. + + + + +ADÃO E EVA NO PARAÍSO + + +I + +Adão, Pai dos Homens, foi criado no dia 28 de Outubro, às 2 horas da +tarde... + +Assim o afirma, com majestade, nos seus _Annales Veteris et Novi +Testamento_, o muito douto e muito ilustre Usserius, Bispo de Meath, +Arcebispo de Armagh, e Chanceler-Mór da Sé de S. Patrício. + +A Terra existia desde que a Luz se fizera, a 23, na manhã de todas as +manhãs. Mas já não era essa Terra primordial, parda e mole, ensopada em +águas barrentas, abafada numa névoa densa, erguendo, aqui e alêm, +rígidos troncos duma só fôlha e dum só rebento, muito solitária, muito +silenciosa, com uma vida toda escondida, apenas surdamente revelada pelo +remexer de bichos obscuros, gelatinosos, sem côr e quási sem forma, +crescendo no fundo dos lôdos. Não! agora, durante os dias genesíacos de +26 e 27, toda ela se completára, se abastecera e se enfeitára, para +acolher condignamente o Predestinado que vinha. No dia 28 já apareceu +perfeita, _perfecta_, com as provisões e alfaias que a Bíblia enumera, +as ervas verdes de espiga madura, as árvores providas do fruto entre a +flor, todos os peixes nadando nos mares resplandecentes, todas as aves +voando pelos ares aclarados, todos os animais pastando sôbre as colinas +viçosas, e os regatos regando, e o fogo armazenado no seio da pedra, e o +cristal, e o ónix, e o oiro muito bom do país de Hevilath... + +Nesses tempos, meus amigos, o Sol ainda girava em tôrno da Terra. Ela era +môça e formosa e preferida de Deus. Êle ainda se não submetera à +imobilidade augusta que lhe impôs mais tarde, entre amuados suspiros da +Igreja, mestre Galileu, estendendo um dedo do fundo do seu pomar, rente +aos muros do Convento de S. Mateus de Florença. E o sol, amorosamente, +corria em volta da Terra, como o noivo dos _Cantares_, que, nos lascivos +dias da ilusão, sôbre o outeiro de mirra, sem descanso e pulando mais +levemente que os gamos de Gaalad, circundava a Bem-Amada, a cobria com o +fulgor dos seus olhos, coroado de sal-gêma, a faiscar de fecunda +impaciência. Ora desde essa alvorada do dia 28, segundo o cálculo +majestático de Usserius, o Sol, muito novo, sem sardas, sem rugas, sem +falhas na sua cabeleira flamante, envolvera a terra, durante oito horas, +numa contínua e insaciada carícia de calor e de luz. Quando a oitava +hora scintilou e fugiu, uma emoção confusa, feita de medo e feita de +glória, perpassou por toda a Criação, agitando num frémito as relvas e +as frondes, arripiando o pêlo das feras, empolando o dorso dos montes, +apressando o borbulhar das nascentes, arrancando dos pórfiros um brilho +mais vivo... Então numa floresta muito cerrada e muito tenebrosa, certo +Ser, desprendendo lentamente a garra do galho de árvore onde se +empoleirára toda essa manhã de longos séculos, escorregou pelo tronco +comido de hera, pousou as duas patas no sólo que o musgo afofava, sôbre +as duas patas se firmou com esforçada energia, e ficou erecto, e alargou +os braços livres, e lançou um passo forte, e sentiu a sua dissemelhança +da Animalidade, e concebeu o deslumbrado pensamento do que era, e +verdadeiramente _foi_! Deus, que o amparára, nesse instante o criou. E +vivo, da vida superior, descido da inconsciência da árvore, Adão +caminhou para o Paraíso. + +Era medonho. Um pêlo crespo e luzidio cobria todo o seu grosso, maciço +corpo, rareando apenas em tôrno dos cotovelos, dos joelhos rudes, +onde o coiro aparecia curtido e da côr de cobre fosco. Do achatado, +fugidio crânio, vincado de rugas, rompia uma guedelha rala e ruiva, +tufando sôbre as orelhas agudas. Entre as rombas queixadas, na fenda +enorme dos beiços trombudos, estirados em focinho, as prêsas reluziam, +afiadas rijamente para rasgar a febra e esmigalhar o osso. E sob as +arcadas sombriamente fundas, que um felpo hirsuto orlava como um silvado +orla o arco duma caverna, os olhos redondos, dum amarelo de ámbar, sem +cessar se moviam, tremiam, esgazeados de inquietação e de espanto... +Não, não era belo, nosso Pai venerável, nessa tarde de Outono, quando +Jeová o ajudou com carinho a descer da sua Árvore! E todavia, nesses +olhos redondos, de fino ámbar, mesmo através do tremor e do espanto, +rebrilhava uma superior beleza--a Energia Inteligente que o ia +trôpegamente levando, sôbre as pernas arqueadas, para fóra da mata onde +passára a sua manhã de longos séculos a pular e a guinchar por cima dos +ramos altos. + +Mas (se os Compêndios de Antropologia nos não iludem) os primeiros passos +humanos de Adão não foram logo atirados, com alacridade e confiança, para o +destino que o esperava entre os quatro rios do Éden. Entorpecido, envolvido +pelas influências da Floresta, ainda despega com custo a pata de entre o +folhoso chão de fetos e begónias, e gostosamente se roça pelos pesados +cachos de flores que lhe orvalham o pêlo, e acaricia as longas barbas de +lichen branco, pendentes dos troncos de roble e de teca, onde gozára as +doçuras da irresponsabilidade. Nas ramagens que tam generosamente, através +tam longas idades, o nutriram e o embalaram, ainda colhe as bagas +sumarentas, os rebentões mais tenros. Para transpor os regatos, que por +todo o bosque reluzem e sussurram depois da sazão das chuvas, ainda se +pendura duma rija liana, entrelaçada de orquídeas, e se balança, e arqueia +o pulo, com pesada indolência. E receio bem que quando a aragem restolhasse +pela espessura, carregada com o cheiro morno e acre das fêmeas acocoradas +nos cimos, o Pai dos Homens ainda dilatasse as ventas chatas e soltasse do +peito felpudo um grunhido rouco e triste. + +Mas caminha... As suas pupilas amarelas, onde faisca o Querer, sondam, +esbugalhadas, através da ramaria, procuram para alêm o mundo que deseja +e receia, e a que sente já a zoada violenta, como toda feita de batalha +e rancor. E, à maneira que a penumbra das folhagens clareia, vai +surgindo, dentro do seu crânio bisonho, como uma alvorada que penetra +numa toca, o sentimento das Formas diferentes e da Vida diferente +que as anima. Essa rudimentar compreensão só trouxe a nosso Pai +venerável turbação e terror. Todas as Tradições, as mais orgulhosas, +concordam em que Adão, na sua entrada inicial pelas planícies do Éden, +tremeu e gritou como criancinha perdida em arraial turbulento. E bem +podemos pensar que, de todas as Formas, nenhuma o apavorava mais que a +dessas mesmas árvores onde vivera, agora que as reconhecia como seres +tam dissemelhantes do seu Ser e imobilizadas numa inércia tam contrária +à sua Energia. Liberto da Animalidade, em caminho para a sua +Humanização, o arvoredo que lhe fôra abrigo natural e doce só lhe +pareceria agora um cativeiro de degradante tristeza. ¿E êsses ramos +tortuosos, empecendo a sua marcha, não seriam braços fortes que se +estendiam para o empolgar, o repuxar, o reter nos cimos frondosos? ¿Êsse +ramalhado sussurro que o seguia, composto do desassossêgo irritado de +cada fôlha, não era a selva toda, num alvoroço, reclamando o seu secular +morador? De tam estranho medo nasceu, talvez, a primeira luta do Homem +com a Natureza. Quando um galho alongado o roçasse, de-certo nosso Pai +atiraria contra êle as garras desesperadas para o repelir e lhe escapar. +Nesses bruscos ímpetos quantas vezes se desequilibrou, e as suas mãos se +abateram desamparadamente sôbre o sólo de mato ou rocha, de novo +precipitado na postura bestial, retrogradando à inconsciência, entre o +clamor triunfal da Floresta! Que angustioso esfôrço então para se +erguer, recuperar a atitude humana, e correr, com os felpudos braços +despegados da terra bruta, livres para a obra imensa da sua Humanização! +Esfôrço sublime, em que ruge, morde as raíses detestadas, e, ¿quem sabe? +levanta já os olhos de ámbar lustroso para os céus, onde, confusamente, +sente Alguêm que o vem amparando--e que na realidade o levanta. + +Mas, de cada um dêstes tombos modificantes, nosso Pai ressurge mais +humano, mais nosso Pai. E há já consciência, pressa da Racionalidade, +nos ressoantes passos com que se arranca ao seu limbo arboral, +despedaçando as enrediças, fendendo o bravio denso, despertando os +tapires adormecidos sob cogumelos monstruosos, ou espantando algum urso +môço e tresmalhado que, de patas contra um olmo, chupa, meio borracho, +as uvas dêsse farto outono. + + +Emfim, Adão emerge da Floresta obscura:--e os seus olhos de ámbar +vivamente se cerram sob o deslumbramento em que o envolve o Éden. + +Ao fundo dessa encosta, onde parara, resplandecem vastas campinas (se as +Tradições não exageram) com desordenada e sombria abundância. +Lentamente, através, um rio corre, semeado de ilhas, ensopando, em +fecundos e espraiados remansos, as verduras onde já talvez cresce a +lentilha e se alastra o arrozal. Rochas de mármore rosado rebrilham com +um rubor quente. De entre bosques de algodoeiros, brancos como crespa +espuma, sobem outeiros cobertos de magnólias, dum esplendor ainda mais +branco. Alêm a neve coroa uma serra com um radiante nimbo de santidade, +e escorre, por entre os flancos despedaçados, em finas franjas que +refulgem. Outros montes dardejam mudas labaredas. Da borda de rígidas +escarpas, pendem perdidamente, sôbre profundidades, palmeirais +desgrenhados. Pelas lagôas a bruma arrasta a luminosa moleza das suas +rendas. E o mar, nos confins do mundo, faiscando, tudo encerra, como um +aro de oiro.--Neste fecundo espaço toda a Criação se espaneja, com a +fôrça, a graça, a braveza vivaz duma mocidade de cinco dias, ainda +quente das mãos do seu Criador. Profusos rebanhos de auroques, de +pelagem ruiva, pastam, majestosamente, enterrados nas ervas tam altas +que nelas desaparece a ovelha e o seu anho. Temerosos e barbudos urus, +brigando contra gigantescos veados-elefas, entrechocam cornos e +galhos com o sêco fragor de robles que o vento racha. Um bando de +girafas rodeia uma mimosa a que vai trincando, delicadamente, nos +trémulos cimos, as folhinhas mais tenras. À sombra dos tamarindos, +repousam disformes rinocerontes, sob o vôo apressado de pássaros que +lhes catam serviçalmente a vermina. Cada arremêsso de tigre causa uma +debandada furiosa de ancas, e chifres, e clinas, onde, mais certo e mais +leve, se arqueia o pulo grácil dos antílopes. Uma rija palmeira verga +toda ao pêso da jibóia que nela se enrosca. Entre duas penedias, por +vezes, aparece, numa profusão de juba, a face magnífica de um leão que, +serenamente, olha o sol, a imensidade radiante. No remoto azul, enormes +condores dormem imóveis, de asas abertas, entre o sulco níveo e róseo +das garças e dos flamingos. E em frente à encosta, num alto, entre o +matagal, passa, lenta e montanhosa, uma récua de mastodontes, com a rude +clina do dorso erriçada ao vento, e a tromba a bambolear entre os dentes +mais recurvos que foices. + +Assim vetustíssimas Crónicas contam o vetustíssimo Éden, que era nas +campinas do Eufrates, talvez na trigueira Ceilão, ou entre os quatro +claros rios que hoje regam a Húngria, ou mesmo nestas terras bemditas +onde a nossa Lisboa aquece a sua velhice ao soalheiro, cansada de +proezas e mares. ¿Mas quem pode garantir êstes bosques e êstes bichos, +pois que desde êsse dia 25 de Outubro, que inundava o Paraíso de +esplendor outonal, já passaram, muito breves e muito cheios, sôbre o +grão de pó que é o nosso mundo, mais de sete vezes setecentos mil anos? +Só parece certo que, diante de Adão apavorado, um grande pássaro passou. +Um pássaro cinzento, calvo e pensativo, com as penas esguedelhadas como +as pétalas de um crisântemo, que saltitava pesadamente sôbre uma das +patas, erguendo na outra, bem agarrado, um mólho de ervas e ramos. O +nosso Pai venerável, com a fusca face franzida, no doloroso esfôrço de +compreender, pasmava para aquele pássaro, que ao lado, sob o abrigo de +azáleas em flor, terminava muito gravemente a construção duma cabana! +Vistosa e sólida cabana, com o seu chão de greda bem alisado, galhos +fortes de pinheiro e faia formando estacas e traves, um seguro teto de +relva sêca, e na parede de enrediças bem liadas o desafôgo duma +janela!... Mas o Pai dos Homens, nessa tarde, ainda não compreendeu. + +Depois caminhou para o largo rio, desconfiadamente, sem se afastar da +ourela do bosque abrigador. Lento, farejando o cheiro novo dos gordos +herbívoros da planície, com os punhos rijamente cerrados contra o +peito peludo, Adão vai arfando entre o apetite daquela resplandecente +Natureza e o terror dos seres nunca avistados que a atulham e atroam com +tam fera turbulência. Mas dentro dêle borbulha, não cessa, a nascente +sublime, a sublime nascente da Energia, que o impele a desentranhar da +crassa bruteza, e a ensaiar, com esforços que são semi-penosos porque +são já semi-lúcidos, os Dons que estabelecerão a sua supremacia sôbre +essa Natureza incompreendida e o libertarão do seu terror. Assim, na +surprêsa de todas aquelas inesperadas aparições do Éden, reses, +pastagens, montes nevados, imensidades radiosas, Adão solta roucas +exclamações, gritos com que desafoga, vozes gaguejadas, em que por +instinto reproduz outras vozes, e brados, e toadas, e mesmo o reboliço +das criaturas, e mesmo o estrondo das águas despenhadas... E êstes sons +ficam já na escura memória de nosso Pai ligados às sensações que lhos +arrancam:--de sorte que o guincho áspero que lhe escapara ao topar um +cangurú com a sua ninhada embolsada no ventre, de novo lhe ressoará nos +lábios trombudos quando outros cangurús, fugindo dêle, adiante, se +embrenhem na sombra negra das caneleiras. A Bíblia, com a sua exageração +oriental, cândida e simplista, conta que Adão, logo na sua entrada pelo +Éden, distribuiu nomes a todos os animais, e a todas as plantas, +muito definitivamente, muito eruditamente, como se compuzesse o Lexicon +da Criação, entre Buffon, já com os seus punhos, e Linneu, já com os +seus óculos. Não! eram apenas grunhidos, roncos mais verdadeiramente +augustos, porque todos êles se plantavam na sua consciência nascente +como as tôscas raízes dessa Palavra pela qual verdadeiramente se +humanou, e foi depois, sôbre a terra, tam sublime e tam burlesco. + +E bem podemos pensar, com orgulho, que ao descer a borda do rio Edénico, +nosso Pai, compenetrado do que _era_, e quanto diverso dos outros seres! +já se afirmava, se individualizava, e batia no peito sonoro, e rugia +soberbamente:--_Eheu! Eheu!_ Depois, alongando os olhos reluzentes por +aquela longa água que corria vagarosamente para alêm, já tenta +exteriorizar o seu espantado sentimento dos espaços, e rosna com +pensativa cubiça:--_Lhlâ! Lhlâ!_ + + +II + +Calmo, magníficamente fecundo, corria êle, o nobre rio do Paraíso, por +entre as ilhas, quási afundadas sob o pêso rijo do rijo arvoredo +todas fragrantes, e atroadas pelo clamor das cacatuas. E Adão, +trotando pesadamente pela margem baixa, já sente a atracção das águas +disciplinadas que andam e vivem--essa atracção que será tam forte nos +seus filhos, quando no rio descobrirem o bom servidor que desaltera, +estruma, rega, mói e acarreta. Mas quantos terrores especiais ainda o +arrepiam, o atiram com espavoridos pulos para o abrigo dos salgueiros e +dos choupos! Noutras ilhas, de areia fina e rosada, preguiçam pedregosos +crocodilos, achatados sôbre o ventre, que arfam molemente, escancarando +as fundas goelas na tépida preguiça da tarde, embebendo todo o ar com um +cheirinho de almíscar. Por entre os canaviais, coleam e refulgem gordas +cobras de água, de colo alteado, que fitam Adão com furor, dardejando e +silvando. E, para nosso Pai que nunca as avistara, certamente seriam +pavorosas as tartarugas imensas dêsse comêço do Mundo, pastando, com +arrastada mansidão, através dos prados novos. Mas uma curiosidade o +atrai, quási resvala na riba lodosa, onde a franja de água roça e +marulha. Na largueza do rio espraiado, uma longa e negra fila de +auroques, serenamente, com os cornos altos e a espessa barba a flutuar, +nada para a outra margem, campina coberta de louras messes onde talvez +já amaduram as espigas sociáveis do centeio e do milho. Nosso Pai +venerável olha a fila lenta, olha o rio lustroso, concebe o ennevoado +desejo de tambêm atravessar para aqueles longes em que as ervas +rebrilham, e arrisca a mão na corrente--na rija corrente que lha repuxa, +como para o atrair e iniciar. Êle grunhe, arranca a mão--e segue, com +ásperas patadas, esmagando, sem mesmo lhes sentir o perfume, os frescos +morangos silvestres que ensangùentam a relva... Em breve pára, +considerando um bando de aves alcandoradas numa penedia toda riscada de +guanos, que espreitam, com o bico atento, para baixo, onde as águas +apertadas refervem. ¿Que espreitam elas, as brancas garças? Lindos +peixes em cardume, que rompem contra a levada, e pulam, lampejando nas +espumas claras. E bruscamente, num desabrido abanar de asas brancas, uma +garça, depois outra, fende o céu alto, levando, atravessado no bico, um +peixe que se estorce e reluz. Nosso Pai venerável coça a ilharga. A sua +crassa gula, entre aquela abundância do rio, tambêm apetece uma prêsa: e +atira a garra, colhe, no seu vôo soante, cascudos insectos que farisca e +trinca. Mas nada certamente assombrou o Primeiro Homem como um grosso +tronco de árvore meio apodrecido, que boiava, descia na corrente, +levando sentados numa ponta, com segurança e graça, dois bichos sedosos, +louros, de focinho esperto, e fôfas caudas vaidosas. Para os +seguir, os observar, ansiosamente correu, enorme e desengonçado. E os +seus olhos faiscavam, como se já compreendesse a malícia daqueles dois +bichos, embarcados num toro de árvore, e viajando, com a macia frescura +da tarde, no rio do Paraíso. + +No entanto, a água que êle costeava era mais baixa, turva e tarda. Já na +sua largueza não verdejam ilhas, nem nela se molha a orla das fartas +pastagens. Para alêm, sem limite, fundidas nas neblinas, fogem +descampadas solidões, de onde rola um vento lento e húmido. Nosso Pai +venerável enterrava as patas em ribas moles, através de aluviões, de +lixos silvestres, em que chapinavam, para seu intenso horror, enormes +rãs coaxando furiosamente. E o rio em breve se perdeu numa vasta lagôa, +escura e desolada, resto das grandes águas sôbre que flutuara o Espírito +de Jeová. Uma tristeza humana apertou o coração de nosso Pai. Do meio de +grossas bôlhas, que se empolavam na estanhada lisura da água triste, +constantemente surdiam horrendas trombas, a escorrer de limos verdes, +que bufavam ruidosamente, logo se afundavam, como repuxadas pelos lôdos +viscosos. E quando de entre os altos e negros canaviais, manchando a +vermelhidão da tarde, se elevou, se alargou sobre êle uma nuvem +estridente de moscardos vorazes, Adão foge, estonteado, trilha +saibros pegajosos, rasga o pêlo na aspereza dos cardos brancos que o +vento estorce, resvala por uma encosta de cascalho e seixo, e pára em +areia fina. Arqueja: as suas longas orelhas remexem, escutando, para +alêm das dunas, um vasto rumor que rola e desaba e retumba... É o mar. +Nosso Pai transpõe as pálidas dunas--e diante dêle está o Mar! + + +Então foi o pavor supremo. Com um pulo, batendo convulsamente os punhos +no peito, recúa até onde três pinheiros, mortos e sem rama, lhe oferecem +o refúgio hereditário. ¿Porque avançam assim para êle, sem cessar, numa +inchada ameaça, aqueles rolos verdes, com a sua clina de espuma, e se +atiram, se esmigalham, refervem, babujam rudemente a areia? Mas toda a +outra vasta água permanece imóvel, como morta, com uma grande mancha de +sangue que lateja. Todo êsse sangue caíu, de-certo, da ferida do sol, +redonda e vermelha, sangrando em cima, num céu dilacerado por fundos +golpes já rôxos. Para alêm da névoa leitosa que cobre as lagôas, dos +charcos salgados, onde a marezia ainda chega e se espraia muito longe, +um monte flameja e fumega. E sempre diante de Adão, contra Adão, os +verdes rolos da verde vaga avançam, e ribombam, e alastram a praia de +algas, de conchas, de gelatinas que alvejam lívidamente. + +Mas eis que todo o mar se povôa! E, encolhido contra o pinheiro, nosso +Pai venerável dardeja os olhos inquietos e trémulos, para aqui, para +alêm--para os rochedos cobertos de sargaço onde gordíssimas focas +rebolam majestosamente; para os repuxos de água, que ao largo esguicham +até às nuvens rôxas e recáem numa chuva radiante; para uma linda armada +de búzios, imensos búzios alvos e nacarados, vogando à bolina, +circundando as penedias, com manobra elegante... Adão pasma sem saber +que estas são as Amonites, e que nenhum outro homem, depois dêle, verá a +luzida e rósea armada singrando nos mares dêste mundo. Ainda êle a +admira, talvez com a impressão inicial da beleza das cousas, quando +bruscamente, num tremor de sulcos brancos, toda a maravilhosa frota +sossobra! Com o mesmo salto mole, as focas tombam, trambulham na vaga +funda. E um terror passa, um terror levantado do mar, tam intenso que um +bando de albatrozes, muito seguro sôbre uma escarpa, bate, com azoados +gritos, o vôo espavorido. + +Nosso Pai venerável aferra a mão a um galho de pinheiro, sondando, num +arrepio, a imensidão deserta. Então, ao longe, sob o clarão enfiado +do sol que se esconde, um dorso imenso sai, lentamente, das águas, como +uma comprida colina, toda espetada de negras, agudas lascas de rocha. E +avança! Adiante um tumulto de bôlhas redemoinha e rebenta; e de entre +elas emerge, por fim, resfolegando cavamente, uma tromba disforme, de +fauces entreabertas, onde lampejam e se somem cardumes de peixes que os +seus sorvos vem tragando... + +É um monstro, um pavoroso monstro marinho! E bem podemos supor que nosso +Pai, esquecendo toda a sua dignidade humana (ainda recente), trepou +desesperadamente ao pinheiro até onde os galhos findavam. Mas mesmo +nesse abrigo, os seus poderosos queixos batiam, num medo convulso, ante +o horrífico ser surgido das profundidades. Com um baque raspante, +esmigalhando conchas, seixos e galhos de coral, o monstro esbarra na +areia, que fundamente escava e sôbre que retesa as duas patas, mais +grossas que troncos de teca, com as unhas todas enrodilhadas de silvas +marinhas. Da caverna das suas fauces, através dos dentes terríficos, que +os limos e musgos esverdeiam, sopra um bafo espesso de fadiga ou de +furor, tam forte que faz rodopiar as algas sêcas e os búzios ligeiros. +Entre as crostas pedregosas, que lhe couraçam a fronte, negrejam dois +cornos curtos e rombos. Os seus olhos, lívidos e vítreos, são como +duas enormes luas mortas. A imensa cauda dentada arrasta pelo mar +distante, e a cada rabeio lento levanta uma tempestade. + +Por estas feições, pouco amáveis, já reconhecesteis o Ictiosaurio, o +mais horrendo dos cetáceos concebidos por Jeová. Era êle!--talvez o +derradeiro, que durara nas trevas oceânicas até êste dia memorável de 28 +de Outubro, para que nosso Pai entrevisse as origens da Vida. E agora +está em frente de Adão, ligando os tempos vélhos aos tempos novos--e, +com as escamas do dorso assanhadas, muge devastadoramente. Nosso Pai +venerável, enroscado ao tronco alto, guincha de vivo horror... E eis +que, do lado dos charcos ennevoados, um silvo fende os céus, uivado e +arremetido, como o de um áspero vento numa garganta de serrania. O quê! +Outro monstro?... Sim, o Plesiosaurio. É tambêm o derradeiro +Plesiosaurio que corre do fundo dos pântanos. E agora de novo se trava, +para assombro do primeiro Homem (e gôsto dos Paleontologistas) o combate +que foi a desolação dos pre-humanos dias da Terra. Lá aparece a fabulosa +cabeça do Plésio, terminada em bico de ave, bico de duas braças, mais +agudo que o dardo mais agudo, erguida sôbre um longuíssimo e esguio +pescoço que ondula, arqueia, esfusia, dardeja com pavorosa elegância! +Duas barbatanas de incomparável rijeza veem movendo o seu disforme +corpo, mole, glutinoso, todo em rugas, manchado por uma lepra de fungos +esverdinhados. E tam imenso é assim rojando, com o pescoço empinado, +que, diante da duna onde se levantam os pinheiros que acoitam Adão, êle +parece uma outra duna negra sustentando um pinheiro solitário. +Furiosamente avança.--E de repente é um horroroso tumulto de mugidos, e +sibilos, e choques ribombantes, e areias torvelinhando, e grossos mares +espadanando. Nosso Pai venerável salta dum pinheiro para outro pinheiro, +tremendo tanto que, com êle, tremem os rijos troncos. E quando se +arrisca a espreitar, ao recrescer dos bramidos, só percebe, na enrolada +massa dos dois monstros, através de uma névoa de espuma que os esguichos +de sangue avermelham, o bico do Plésio todo enterrado no ventre mole do +Ictio, cuja cauda, erguida, se estorce furiosamente na palidez dos céus +espantados. De novo esconde perdidamente a face, nosso Pai venerável! Um +urro de monstruosa agonia rola na praia. As pálidas dunas estremecem, as +cavernas soturnas ressoam. Depois é uma paz muito larga, em que o ruido +do mar Oceano não é mais que um consolado murmúrio de alívio. Adão +espia, debruçado entre os galhos... O Plésio recuara ferido para a +tépida lama dos seus pântanos. E sôbre a praia jaz o Ictio morto, +como uma colina onde a vaga da tarde mansamente se quebra. + +Então, nosso Pai venerável cautelosamente escorrega do seu pinheiro, e +se abeira do monstro. A areia, em redor, está medonhamente revôlta;--e +por toda ela, em lentos regos, em pôças escuras, o sangue, mal chupado, +fumega. Tam montanhoso é o Ictio, que Adão, erguendo a face assombrada, +nem avista as puas do monstro, erriçadas ao longo daquele alcantilado +espinhaço, a que o bico do Plésio arrancou escamas mais pesadas que +lages. Mas, diante das mãos trementes do Homem, estão os rasgões do +ventre mole, de onde o sangue pinga, e gorduras babam, e imensas tripas +esfiadas escorrem, e pendem febras atassalhadas de carne rosada... E as +chatas ventas de nosso Pai venerável estranhamente se alargam e farejam. + +Toda essa tarde êle caminhara, desde a Floresta, através do Paraíso, +chupando bagas, rilhando raízes, trincando os insectos de casca picante. +Mas agora o sol penetrou no mar--e Adão tem fome, nesse areal maninho, +onde só alvejam cardos que o vento estorce. Oh! aquela carne rija, +sangrenta, ainda viva, que exala um cheiro tam fresco e salino! As suas +rombas mandíbulas ruidosamente se escancaram num bocejo enfastiado e +famélico... O Oceano arfa, como adormecido... Então, irresistívelmente, +Adão mergulha numa das feridas do sáurio os dedos que lambe e +rechupa, moles de sangue e gorduras. O espanto dum sabor novo imobiliza +o homem frugal que vem das ervas e das frutas. Depois, com um salto, +arremete contra a montanha de abundância, e arranca uma fêbra que trinca +e traga, a grunhir, num furor, numa pressa, em que há o gôzo e há o medo +da primeira carne comida. + + +Tendo ceado assim postas cruas dum monstro marinho, nosso Pai venerável +sente uma grande sêde. São salgadas as pôças que na areia rebrilham. +Pesado e triste, com os beiços empastados de banha e de sangue, Adão, +sob o calado crepúsculo, atravessa as dunas, repenetra nas terras, +rebuscando sôfregamente água doce. Por toda a relva, nesses tempos de +universal humidade, fugia e chalrava um regato. Em breve, estendido numa +riba lodosa, Adão bebeu consoladamente, em fundos sorvos, sob o vôo +espantado de moscas fosforescentes que se lhe prendiam na guedelha. + +Era junto dum bosque de carvalhos e faias. A noite, que já se adensara, +ennegrecia um chão todo de plantas, onde a malva se encostava à hortelã, +e a salsa ao funcho ligeiro. Nessa clareira fresca, penetrou nosso Pai +venerável, estafado com a marcha e os espantos daquela tarde do Paraíso. +E apenas se estendera na alfombra cheirosa, com a hirsuta face +pousada sôbre as palmas unidas, os joelhos colhidos contra o ventre +distendido como um tambor, mergulhou num sono como êle nunca +dormira--todo povoado de sombras moventes, que eram aves construindo uma +casa, patas de insectos tecendo uma teia, dois bichos vogando nas águas +rolantes. + +Ora conta a Lenda que então, em tôrno do Primeiro Homem adormecido, +começaram a surdir, por entre o mato baixo, focinhos fariscantes, finas +orelhas espetadas, olhinhos reluzindo como botões de azeviche, e +espinhaços inquietos que a emoção arqueava--emquanto que, dos cimos dos +carvalhos e faias, num abafado frémito de asas, se debruçavam bicos +recurvos, bicos retesos, bicos bravios, bicos pensativos, todos +alvejando na claridade delgada da lua, que subia por trás dos montes, e +banhava as frondes altas. Depois, à orla da clareira, uma hiena +apareceu, coxeando, miando com lástima. Através da campina trotaram dois +lobos, esgalgados, famélicos, com os verdes olhos acesos. Os leões não +tardaram, com as riais faces erguidas, soberanamente enrugadas, numa +profusão de jubas flamantes. Em confusa manada, que chegava bufando, os +cornos dos auroques entrechocavam com impaciência os galhos palmares das +renas. Todos os pêlos se arrepiaram quando o tigre e a pantera +negra, ondulando calada e aveludadamente, resvalaram, com as línguas +pendentes e vermelhas como coalhos de sangue. Dos vales, das serranias, +das fragas, outros acudiam, numa pressa tam anciosa, que os horrendos +cavalos primitivos se empinavam por sôbre os cangurus, e a tromba do +hipopótamo, a escorrer de limos, empurrava as ancas lentas do +dromedário. Entre as patas e os cascos apinhados coleavam em aliança o +furão, a sardonisca, a doninha, a cobra fulgente que engole a doninha, e +o alegre manguço que assassina a cobra. Um bando de gazelas tropeçava, +magoando as pernas finas, contra a crosta dos crocodilos, que subiam em +fila da borda das lagôas, de goelas preparadas e a gemer. Já toda a +planície arfava, sob a lua, no mole remexer de dorsos apertados, de onde +se erguia, ora o pescoço da girafa, ora o corpo da jibóia, como mastros +naufragados, balançados entre vagas. E por fim, abalando o sólo, +enchendo o céu, com a tromba enrolada entre os dentes recurvos, assomou +o rugoso mastodonte. + +Era toda a Animalidade do Paraíso, que, sabendo o Primeiro Homem +adormecido, sem defesa, num ermo bosque, corria, na imensa esperança de +o destruir e eliminar da terra a Fôrça Inteligente, destinada a submeter +a Fôrça Bruta. Mas, naquela pavorosa turba que fumegava, se +atropelava à borda da clareira, onde Adão dormia sôbre a hortelã e a +malva, nenhuma fera avançava. Os longos dentes reluziam, feramente +arreganhados; todos os cornos repontavam; cada garra saída dilacerava +com ânsia a terra mole; e os bicos, de cima das ramas, terçavam os fios +da lua com bicadas famintas.... Mas nem ave descia, nem fera +avançava,--porque ao lado de Adão velava uma Figura séria e branca, de +asas brancas fechadas, os cabelos presos num aro de estrêlas, o peito +guardado numa couraça de diamante, e as duas refulgentes mãos apoiadas +ao punho duma espada que era de lume--e vivia. + + +A aurora despontou, com ardente pompa, comunicando à terra alegre, à +terra braviamente alegre, à terra ainda sem andrajos, à terra ainda sem +sepulturas, uma alegria superior, mais grave, religiosa e nupcial. Adão +acordou: e, batendo as fuscas pálpebras, na surprêsa do seu acordar +humano, sentiu sôbre a ilharga um pêso que era macio e que era doce. +Nesse terror que, desde as árvores, não desamparava o seu coração, pulou +e com tam ruidoso pulo, que, pela selva, os melros, os rouxinóis, as +toutinegras, todos os passarinhos de festa e de amor, despertaram e +romperam num canto de congratulações e de esperanças.--E, oh maravilha! +diante de Adão, e como despegado dêle, estava outro Ser a êle +semelhante, mas mais esbelto, suavemente coberto dum pêlo mais sedoso, +que o contemplava com largos olhos lustrosos e líquidos. Uma côma ruiva, +dum ruivo tostado, rolava, em espessas ondas, até às suas ancas +arredondadas numa plenitude harmoniosa e fecunda. De entre os braços +peludinhos, que cruzara, surdiam, abundantes e gordos, os dois peitos da +côr do medronho, com uma penugem crespa orlando o bico, que se +enristava, entumecido. E roçando, num roçar lento, num roçar muito doce, +os joelhos pelados, todo aquele sedoso e tenro Ser se ofertava com uma +submissão pasmada e lasciva. Era Eva... Eras tu, Mãe Venerável! + + +III + +Então começaram, para nossos Pais, os dias abomináveis do Paraíso. + +O seu constante e desesperado esfôrço foi sobreviver--no meio duma +Natureza que, sem cessar e furiosamente, tramava a sua destruição. +E Adão e Eva passaram êsses tempos, que os poemas Semíticos celebram +como Inefáveis--sempre a tremer, sempre a ganir, sempre a fugir! A terra +ainda não era uma obra perfeita: e a Divina Energia, que a andava +compondo, incessantemente a emendava, numa tam móbil inspiração, que em +sítio coberto ao alvorecer por uma floresta, à noite se espelhava uma +lagôa onde a Lua, já doente, vinha estudar a sua palidez. Quantas vezes +nossos Pais, repousando no pendor de um outeiro inocente, entre o serpol +e o rosmaninho (Adão com a face deitada sôbre a côxa de Eva, Eva com +dedos ágeis catando o pêlo de Adão) foram sacudidos pela encosta amena +como por um dorso irritado, e rolaram, embrulhados, entre o ribombo, e a +labareda, e a fumarada, e a cinza quente do vulcão que Jeová +improvisara! Quantas noites escaparam, uivando, dalguma abrigada +caverna, quando já sôbre ela corria um grande mar inchado que bramava, +se desenrolava, ficava fervendo entre as rochas, com negras focas mortas +a boiar. Ou então era o chão, o chão seguro, já social e fertilizado +para as searas sociáveis, que de repente rugia como uma fera, +escancarava uma insondável goela, e tragava rebanhos, prados, nascentes, +benéficos cedros com todas as rôlas que na sua rama arrulhavam. + +Depois eram as chuvas, as longas chuvas Edénicas, desabando em +jorros clamorosos, durante alagados dias, durante torrentosas noites, +tam desabaladamente que do Paraíso, vasto charco barrento, apenas +apareciam as pontas do arvoredo afogado, e os cimos dos montes atulhados +de bichos transidos que bramiam no terror das águas soltas. E nossos +Pais, refugiados nalguma erguida fraga, gemiam lamentavelmente, com +regatos a escorrer dos ombros, com ribeiras a escorrer dos pés, como se +o barro novo de que Jeová os fizera se andasse já desfazendo. + +E mais terríficas eram as estiagens. Oh! o incomparável tormento das +sêcas no Paraíso! Lentos dias tristes, após lentos dias tristes, a +imensa brasa do sol candente coriscava furiosamente num céu côr de +cobre, em que o ar baço e grosso crepitava e arfava. Os montes +estalavam, gretados: e as planícies desapareciam sob uma denegrida +camada de fios retorcidos, ennovelados, rijos como arames, que eram os +restos das verdes pastagens. Toda a tisnada folhagem rolava nos ventos +abrasados, com rugidora restolhada. O leito dos rios chupados tinha a +rigidez de ferro fundido. O musgo escorregava das rochas, como uma pele +sêca que se despega descobrindo largos ossos. Cada noite um bosque +ardia, fogueira estralejante, de lenha ressequida, escaldando mais a +abóbada do forno inclemente. Todo o Éden andava coberto das +revoadas de abutres e corvos, porque, com tanto animal morto de fome e +de sêde, abundava a carne pôdre. No rio, a água que restava mal corria, +empoçada pela massa fervilhante de cobras, rãs, lontras, tartarugas, +refugiadas naquele derradeiro veio, lodoso e todo morno. E nossos Pais +veneráveis, com as magras costelas a arquejar contra o pêlo crestado, a +língua pendida e mais dura que cortiça, erravam de fonte em fonte, a +sorver desesperadamente alguma gota que ainda brotasse, gota rara, que +assobiava, ao caír, sobre as lages esbraseadas... + +E assim Adão e Eva, fugindo do Fogo, fugindo da Água, fugindo da Terra, +fugindo do Ar, encetavam a vida no Jardim de Delícias. + +E no meio de tantos perigos, constantes e flagrantes, era necessário +comer! Ah! Comer--que portentosa emprêsa para nossos Pais veneráveis! +Sobretudo desde que Adão (e depois Eva, por Adão iniciada) tendo provado +os deleites fatais da carne, já não encontravam sabor, nem fartura, nem +decência, nos frutos, nas raízes, e nos bagos do tempo da sua +Animalidade. Certamente, as boas carnes não faltavam no Paraíso. +Delicioso seria o salmão primitivo--mas nadava alegremente nas águas +rápidas. Saborosa seria a galinhola, ou o faisão rutilante, nutridos com +os grãos que o Criador considerara bons--mas voavam nos céus, em +triunfal segurança. O coelho, a lebre--que fugas ligeiras no mato +cheiroso!... E nosso Pai, nesses dias cândidos, não possuia o anzol nem +a seta. Por isso, sem cessar rondava em tôrno das lagôas, nas ribas do +mar, onde casualmente encalhava, boiando, algum cetáceo morto. Mas êsses +achados de abundância eram raros--e o triste casal humano, nas suas +marchas famintas pela borda das águas, só conquistava, aqui e alêm, na +rocha ou na areia revôlta, algum feio caranguejo em cuja dura casca os +seus beiços se esgaçavam. Essas solidões marinhas andavam tambêm +infestadas por bandos de feras esperando, como Adão, que a vaga rolasse +os peixes vencidos em borrasca ou batalha. E quantas vezes, nossos Pais, +já com a garra cravada numa posta de foca ou golfinho, fugiam +desconsoladamente, sentindo o passo fôfo do horrendo speleo, ou o bafo +dos ursos brancos, bamboleando pelo branco areal, sob a branca +indiferença da lua! + +De-certo, a sua sciência hereditária de trepar às arvores socorria +nossos Pais nesta conquista da prêsa. Que, sob as ramarias da caneleira +de onde êles, assolapadamente, espreitavam, aparecesse algum cabrito +desgarrado, ou uma tartaruga môça e bisonha se arrastasse para a erva +miuda--e eis o repasto seguro! Num relance, o cabrito ficava +atassalhado, todo o seu sangue chupado em sorvos convulsos: e Eva, nossa +Mãe forte, guinchando sombriamente, arrancava, uma a uma, de entre a +casca, as patas da tartaruga... Mas quantas noites, depois de jejuns +angustiosos, se achavam os Eleitos da Terra forçados a afugentar a +hiena, com rijos brados, através das clareiras, para lhe roubar um osso +fetidamente babujado, que era já o sobejo de um leão farto! E dias +piores sucediam, em que a fome reduzia nossos Pais a retrogradar à +desgostosa frugalidade do tempo da Árvore, às ervas, aos rebentos, às +raízes amargas--conhecendo assim, entre a abundância do Paraíso, a +primeira forma da Miséria! + +E, através dêstes trabalhos, não os desamparava o terror das feras! +Porque, se Adão e Eva comiam os bichos fracos e fáceis, eram tambêm uma +prêsa apetecida por todos os brutos superiores. Comer Eva, tam redonda e +carnuda, foi de-certo o sonho de muito tigre nos juncais do Paraíso. +Quanto urso, mesmo ocupado a roubar favos de mel num escavado tronco de +roble, não se deteve, e se balançou, e lambeu o focinho numa gula mais +fina, ao avistar, através da ramaria, num rebrilho errante de sol, o +sombrio corpanzão de nosso Pai venerável! E nem só o perigo vinha das +hordas esfaimadas dos carnívoros, mas ainda dos lentos e fartos +herbívoros, o auroque, o urus, o cervo elefas, que alegremente +escorneariam e espesinhariam nossos Pais, por estupidez, dissemelhança +de raça e cheiro, emprêgo da vida ociosa. E acresciam ainda os que +matavam para não serem mortos--porque Medo, Fome e Furor, foram as leis +da vida no Paraíso. + +Certamente nossos Pais eram tambêm ferozes, de tremenda fôrça, e +perfeitos na arte salvadora de trepar aos cimos frondosos. Mas o +leopardo pulava de ramo em ramo, sem rumor, com uma destreza mais felina +e segura! A jibóia furava com a cabeça até aos galhos extremos do mais +levantado cedro para colher os macacos--e bem poderia abocar Adão, com +aquela obtusa incapacidade que sempre as jibóias tiveram de distinguir, +sob a similitude das formas, a diversidade dos méritos. ¿E que valiam as +garras de Adão, mesmo aliadas às garras de Eva, contra êsses pavorosos +leões do Jardim de Delícias que a Zoologia, ainda hoje arrepiada, chama +o _Leo Anticus_? ¿Ou contra a hiena-spelea tam ousada, que, nos +primeiros dias do Génesis, os Anjos, quando desciam ao Paraíso, +caminhavam sempre com as asas arregaçadas, para que ela, saltando de +entre dos bambus, lhes não arrancasse as penas refulgentes? ¿Ou contra +os cães, os horrendos cães do Paraíso, que atacando em cerradas e +ululantes hostes, foram, nesses começos do Homem, os piores inimigos do +Homem? + +E entre toda esta bicharia adversa, Adão não contava um aliado. Os seus +próprios parentes, os Antropóides, invejosos e farçantes, o apedrejavam +com enormes côcos. Só um animal, e formidável, conservava pelo Homem uma +majestosa e pachorrenta simpatia. Era o Mastodonte. Mas a ennevoada +Inteligência de nosso Pai ainda, nesses dias Edénicos, não compreendia a +bondade, a justiça, o serviçal coração do paquiderme admirável. Por +isso, certo da sua fraqueza e do seu isolamento, êle viveu, durante +êsses trágicos anos, num ansiado terror. Tam ansiado e longo, que o seu +arrepio, como uma longa ondulação, se perpètuou por toda a sua +descendência--e é o vélho medo de Adão que nos torna inquietos, quando +atravessamos a mata mais segura na solidão crepuscular. + +E depois consideremos que ainda restavam pelo Paraíso, entre bichos de +formas racionais, polidas, já preparadas para a prosa nobre de Mr. de +Buffon, alguns dos grotescos monstros que desonraram a Criação antes da +madrugada purificadora de 25 de Outubro. De-certo Jeová poupou a Adão o +degradante horror de viver no Paraíso em companhia dessa escandalosa +avantesma a que os Paleontologistas, assombrados, deram o nome de +_Iguanodão_! Na véspera do advento do Homem, Jeová, muito caridosamente, +afogou todos os Iguanodões nos lôdos de um pântano, a um canto escondido +do Paraíso, onde hoje se estende a Flandres. Mas Adão e Eva ainda +conheceram os Pterodactilos. Oh! estes Pterodactilos!... Corpos de +Jacaré, escamosos e penugentos; duas lúgubres, negras, carnudas asas, de +morcego: um bico disparatado, mais grosso que o corpo, tristonhamente +caído, erriçado de centenas de dentes, finos como os duma serra. E não +voava! Descia, de asas moles, e mudas, e nelas abafava a prêsa como num +pano viscoso e gelado, para a retalhar toda com os estalados golpes das +mandíbulas fétidas. E êste funambulesco avejão enturvava o céu do +Paraíso com a mesma abundância com que os melros ou as andorinhas cruzam +os santos ares de Portugal. Os dias de nossos Pais veneráveis foram por +êles torturados;--e nunca o seu pobre coração tremia tanto como quando, +de alêm dos montes, se vinha despenhado, com sinistro estridor de asas e +bicos, a revoada dos Pterodactilos. + +¿Como sobreviveram nossos Pais, neste Jardim de Delícias? De-certo muito +faiscou e trabalhou a espada do Anjo que os guardava! + + +Pois bem, meus amigos! A todos êstes furiosos seres deve o homem a sua +carreira triunfal. Sem os Sáurios, e os Pterodactilos, e a Hiena Spelea, +e o arrepiado terror que espalhavam, e a necessidade de ter, contra o +seu ataque, sempre bestial, uma defesa sempre racional--a Terra +permaneceria um temeroso Paraíso, onde erraríamos todos, desgrenhados e +nus, chupando pela borda dos mares as banhas cruas de monstros +naufragados. Ao encolhido medo de Adão se deve a supremacia da sua +descendência. Foi o bicho perseguidor que o forçou a subir aos cimos da +Humanidade. E bem sabedores das Origens se mostraram os poetas +Mesopotâmicos do Génesis, nesses versículos subtis em que um animal, e o +mais perigoso, a Serpente, leva Adão, por amor de Eva, a colher o fruto +do Saber! Se não rugisse outrora o Leão das cavernas, não trabalhava +hoje o Homem das cidades--pois que a Civilização nasceu do desesperado +esfôrço defensivo contra o Inanimado e o Inconsciente. A Sociedade é +realmente a obra da féra. Que a Hiena e o Tigre, no Paraíso, começassem +por acariciar lânguidamente o ombro peludo de Adão com pata amiga--Adão +ficaria irmão do Tigre e da Hiena, partilhando as suas tocas, as suas +prêsas, os seus ócios, os seus gostos bravios. E a Energia +Inteligente, que o descera da Árvore, em breve se apagaria dentro da sua +bruteza inerte, como se apaga a faisca, mesmo entre galhos secos, se um +frio sôpro, vindo de um buraco escuro, não a estimula a viver, para +vencer a friagem e vencer a escuridão. + +Mas uma tarde (como ensinaria o exacto Usserius) saíndo Adão e Eva da +espessura dum bosque, um urso enorme, o Pai dos Ursos, apareceu diante +dêles, ergueu as negras patas, escancarou a goela sangrenta... Então, +assim colhido, sem refúgio, na apertada ânsia de defender a sua fêmea, o +Pai dos Homens arremessou contra o Pai dos Ursos o cajado a que se +arrimava, um forte galho de téca, arrancado na mata, que findava em +lasca aguda... E o pau atravessou o coração da féra. + + +Ah! Desde essa tarde bemdita houve verdadeiramente, sôbre a terra, um +Homem. + +Era já um Homem, e superior, quando lançou um passo espantado, e +arrancou o pau do seio do monstro estendido, e lhe mirou a ponta +gotejante de sangue--com a testa toda franzida, no afã de compreender. +Os seus olhos resplandeceram, num deslumbrado triunfo. Adão +compreendera... + +Nem cuidou mais da boa carne do urso! Remergulhou na floresta, e toda a +tarde, emquanto a luz se arrastou pelas frondes, arrancou ramos aos +troncos, cautelosamente, destramente, para que as pontas quebrassem bem +lascadas e agudas. Ah! que soberbo estalar de hastes, pelo fundo bosque, +através da frescura e da sombra, para a obra da primeira Redenção! Selva +amável, que foste a primeira oficina, quem soubera onde jazes, na tua +secular sepultura, tornada negro carvão!... Quando da mata largaram, +fumegando de suor, para recolher à toca distante, nossos Pais veneráveis +vergavam sob o pêso glorioso de dois grossos mólhos de armas. + +E então não cessam mais os feitos do Homem. Ainda os corvos e os chacais +não tinham esburgado a carcassa do Pai dos Ursos--já nosso Pai racha uma +ponta do seu cajado vitorioso; entala na fenda um dêsses seixos afiados +e bicudos, em que por vezes se feriam as suas patas, descendo à beira +dos rios; e segura o fino estilhaço na racha com os lios, muito +arrochados, de uma fibra de enrediça sêca. E eis a lança! Como essas +pedras não abundam, Adão e Eva ensangùentam as garras, tentando fender +os pedregões redondos de sílex em lascas curtas, que venham perfeitas, +com ponta e com gume, para rasgar, cravar. A pedra resiste, pouco +desejosa de ajudar o Homem que, nos dias genesíacos do grande +Outubro, ela tentara suplantar (como contam as prodigiosas Crónicas de +Backun).--Mas de novo lampeja a face de Adão, numa idea que o sulca, +como faisca emanada da Eterna Sabedoria. Apanha um pedregulho, bate a +rocha, arranca a lasca... E eis o martelo! + +Depois, noutra tarde bemdita, costeando uma escura e bravia colina, +descobre, com aqueles seus olhos que já rebuscam e comparam, um calhau +negro, áspero, facetado, sombriamente luzidio. Pasma do seu pêso--e logo +pressente nele um maço superior, de decisiva rijeza. Com que alvoroço o +leva agarrado contra o peito, para martelar o sílex rebelde! Ao lado de +Eva, que o espera à beira do rio, logo malha rijamente sôbre a +pederneira... E oh espanto! uma fagulha salta, refulge, morre! Ambos +recúam, se entreolham, num terror quási sagrado! É um lume, um vivo +lume, que êle assim arrancou com as suas mãos da rocha bruta--semelhante +ao lume vivo que dardeja de entre as nuvens. De novo bate, a tremer. A +scentelha brilha, a scentelha passa, e Adão remira e fareja o escuro +calhau. Mas não compreende. E pensativos, nossos Pais veneráveis sobem, +com os cabelos ao vento, para a sua caverna costumada, que é no pendor +dum cêrro, junto duma fonte borbulhando entre fétos. + +E aí, no seu retiro, Adão, com uma curiosidade onde lateja uma +esperança, novamente entala o sílex, grosso como uma abóbora, entre os +calosos pés, e recomeça a martelar, sob o bafo de Eva, que se debruça e +arfa. Sempre a faúlha salta, rebrilha na sombra, tam refulgente como +aqueles lumes que agora palpitam, olham, de alêm, das alturas. Mas êsses +lumes permanecem, através da negrura do céu e da noite, vivos, a +espreitar, na sua radiância. E aquelas estrelinhas da pedra ainda não +tem vivido e já teem morrido... ¿Será o vento que as leva, êle que tudo +leva, vozes, nuvens e fôlhas? Nosso Pai venerável, fugindo do vento +malévolo que ronda no monte, recúa até ao fundo mais abrigado da +caverna, onde se afôfam as camadas de feno muito sêco, que são o seu +leito. E de novo fere a pedra, despedindo scentelha apoz scentelha, +emquanto Eva, agachada, abriga com as mãos aqueles refulgentes e +fugitivos seres. E eis que dos fenos um fumosinho se eleva, e se +engrossa, e se enrola, e através dêle, vermelha, uma chama ressalta... É +o Fogo! Nossos Pais fogem espavoridamente da caverna, obscurecida por +uma fumaraça cheirosa, onde flamejam alegres, rutilantes línguas, que +lambem a rocha. Acocorados à porta da toca, ambos arquejam, no pasmo e +terror da sua obra, com os olhos a chorar do fumo acre. E, mesmo +através do susto e do espanto, sentem uma doçura muito nova que os +penetra e que vem daquela luz e vem daquele calor... Mas já o fumo se +escapou da caverna, o vento roubador o levou. As chamas rastejam, +incertas, azuladas: em breve só resta um borralho que descóra, se +acinzenta, se abate em cisco: e a derradeira faúlha corre, tremeluz, +passa. O fogo morreu! Então, na alma nascente de Adão, entra a dor duma +ruína. Desesperadamente puxa os grossos beiços e geme. ¿Saberá êle +jàmais recomeçar o feito maravilhoso?... E é nossa Mãe, já consoladora, +que o consola. Com as suas rudes mãos comovidas, porque realiza sôbre a +terra a sua primeira obra, junta outro montão de fenos sêcos, pousa +entre êles o sílex redondo, toma o escuro calhau, bate rijamente, num +faúlhar de estrelinhas. E de novo o fumo rola, e de novo a chama +refulge. Oh triunfo! eis a fogueira, a fogueira inicial do Paraíso, e +não casualmente rebentada, mas acendida por uma clara Vontade, que agora +para todo sempre, cada noite e cada manhã, poderá repetir com segurança +a façanha suprema! + +À nossa Mãe Venerável pertence então, na caverna, a doce e augusta +tarefa do Lume. Ela o cria, ela o nutre, ela o defende, ela o perpetúa. +E, como mãe deslumbrada, descobre cada dia, nesse resplandecente filho +dos seus cuidados, uma virtude ou graça nova. Agora já Adão sabe +que o _seu_ fogo espanta todas as féras e que no Paraíso existe emfim um +buraco seguro, que é o _seu_ buraco! Não só seguro, mas amável--porque o +lume o alumia, o aquece, o alegra, o purifica. E quando Adão, com um +mólho de lanças, desce à planície ou se embrenha na selva a caçar a +prêsa, já mata com redobrada ânsia, para recolher depressa àquela boa +segurança e consolação do lume. Ah! que docemente êle o penetra, e lhe +séca no pêlo a friagem dos matos, e doura como um sol a penedia da sua +toca! E depois ainda lhe prende os olhos, e o enleva, e o guia num +scismar fecundo, em que inspiradamente lhe aparecem formas de flexas, +malhos com cabos, ossos recurvos que fisgam os peixes, lascas dentadas +que serram o pau!... À sua fêmea forte deve Adão esta hora criadora! + +E quanto lhe não deve a Humanidade! Recordemos, meus irmãos, que nossa +Mãe, com aquela adivinhação superior que mais tarde a tornou Profetiza e +Sibila, não hesitou, quando a Serpente lhe disse, coleando entre as +Rosas:--«Come do fruto do Saber, que os teus olhos se abrirão, e serás +como os Deuses sabedores!» Adão teria comido a serpente, bocado mais +suculento. Nem acreditaria em frutos que comunicam a Divindade e +Sapiência, êle que tanta fruta comera nas árvores, e se conservava +insciente e bestial como o urso e o auroque. Eva, porêm, com a +credulidade sublime que sempre no mundo opéra as transformações +sublimes, comeu logo a maçã, e a casca, e a pevide. E persuadindo Adão a +que partilhasse do transcendente pômo, muito dôce e enredosamente o +convenceu do proveito, da felicidade, da glória e da fôrça que dá o +Saber! Esta alegoria dos poetas do Génesis com esplêndida subtileza nos +revela a imensa obra de Eva nos anos dolorosos do Paraíso. Por ela Deus +continua a Criação superior, a do Reino espiritual, a que desenrola +sôbre a terra o lar, a família, a tríbu, a cidade. É Eva que cimenta e +bate as grandes pedras angulares na construção da Humanidade. + +Senão, vêde! Quando o bravio caçador recolhe à caverna, derreado sob o +pêso da caça morta, cheirando todo a selva, e a sangue, e a féra, é êle, +de-certo, que esfola a rês com a faca de pedra, e retalha as postas, e +esburga os ossos (que sôfregamente guarda sob a côxa e reserva para a +sua ração, porque contêm a moela preciosa). Mas Eva junta essa pele, +cuidadosamente, às outras peles armazenadas; esconde os ossos partidos, +porque as suas lascas agudas pregam e furam; e numa cavidade da rocha +fresca guarda a carne que sobejou. Ora em breve uma dessas fartas +postas esquece, caída junto à fogueira perpétua. O lume alastra, +lentamente lambe a carne pelo lado mais gordo, até que um cheiro, +desconhecido e saboroso, afaga e alarga as rudes narinas de nossa Mãe +venerável. ¿De onde vem êle, o gostoso aroma? Do fogo, onde a posta de +veado ou de lebre grelha e rechina. Então Eva, inspirada e grave, +empurra a carne para a braza viva; e espera, ajoelhada, até que a espeta +com uma ponta de osso, e a retira da chama ruidosa, e a trinca, em +sombrio silêncio. Os seus olhos rebrilhantes anunciam outra conquista. +E, com a pressa amorosa com que oferece a Maçã a Adão, lhe apresenta +agora aquela carne tam nova, que êle cheira desconfiado, e depois devora +a rijas dentadas, roncando de gôzo! E eis que, por êste pedaço de gamo +assado, nossos Pais sobem vitoriosamente outro escalão da Humanidade! + +A água ainda a bebem na nascente vizinha, entre os fétos, com a face +mergulhada no veio claro. Depois de beber, Adão, arrimado à sua grossa +lança, olha ao longe o rolar do rio lento, os montes coroados de neve ou +de lume, o sol sôbre o mar--pensando, com arrastado pensar, se nessas +terras que se estendem, se escondem para alêm, a prêsa será mais certa e +as selvas menos cerradas. Mas Eva recolhe logo à caverna, para se +entregar, sem descanso, a uma tarefa que a encanta. Encruzada no +chão, toda atenta sob a côma crespa, nossa Mãe fura, com um ossinho +agudo, buracos finos na orla duma pele, e depois na orla doutra pele. E, +tam embebida que nem sente Adão entrar e remexer nas suas armas, une as +duas peles sobrepostas, passando através dos buracos uma delgada fibra +das algas que secam diante do lume. Adão considera com desdêm êsse +trabalho miudo que não acrescenta fôrça à sua fôrça. Não pressente +ainda, o bruto Pai, que aquelas peles cosidas serão o resguardo do seu +corpo, a armação da sua tenda, o saco do seu farnel, o ôdre da sua água, +e o tambor em que bata quando fôr um Guerreiro, e a página em que +escreva quando fôr um Profeta! + +Outros gostos e modos de Eva o irritam tambêm: e por vezes, com uma +desumanidade que é já toda humana, nosso Pai arrebata pelos cabelos a +sua fêmea, e a derruba, e a pisa sob a pata calosa. Assim um furor o +tomou uma tarde, avistando, no regaço de Eva, sentada diante da +fogueira, um cachorrinho mole e trôpego, que ela, com carinho e +paciência, ensinava a sugar numa febra de carne fresca. À beira da fonte +descobrira o cachorrinho perdido e ganindo; e muito mansamente o +recolhera, o aquecera, o alimentara, com uma sensação que lhe era doce, +e lhe abria na espessa bôca, ainda mal sabedora de sorrir, um +sorriso de maternidade. Nosso Pai venerável, com as pupilas a reluzir, +atira a garra, quer devorar o cachorro que entrara na sua toca. Mas Eva +defende o animal pequenino, que treme e que a lambe. O primeiro +sentimento de Caridade, informe como a primeira flor que brotou dos +limos, aparece na terra! E, com as curtas e roucas vozes que eram o +falar de nossos Pais, Eva tenta talvez afiançar que será útil, na +caverna do homem, a amizade dum bicho... Adão puxa o beiço trombudo. +Depois, em silêncio, mansamente, corre os dedos pelo lombo macio do +cachorrinho encolhido. E êste é, na História, um momento espantoso! Eis +que o Homem domestíca o Animal! Dêsse cachorro agasalhado no Paraíso +nascerá o cão amigo, por êle a aliança com o cavalo, depois o domínio +sôbre a ovelha. O rebanho crescerá; o pastor o levará; o cão fiel o +guardará. Eva, da beira do seu lume, prepara os povos errantes que +pastoreiam os gados. + +Depois, naquelas longas manhãs em que Adão bravio caçava, Eva, errando +de vale a monte, apanhava conchas, ovos de aves, curiosas raízes, +sementes, com o gôsto de acumular, de abastecer a sua toca de riquezas +novas, que escondia nas fendas da rocha. Ora um punhado dessas sementes +caíra, através dos seus dedos, sôbre terra húmida e negra, quando +recolhia pela beira da fonte. Uma ponta verde brotou; depois uma haste +cresceu; depois uma espiga amadurou. Os seus grãos são gostosos. Eva, +pensativa, enterra outras sementes, na esperança de criar em tôrno do +seu lar, num bocado do seu torrão, altas ervas que espiguem, e lhe +tragam o grão adocicado e tenro... E eis a seara! E assim nossa Mãe +torna possíveis, do fundo do Paraíso, os povos estáveis que lavram a terra. + + +No entanto, bem podemos supôr que Abel nasceu--e, uns após outros, os +dias deslizam no Paraíso, mais seguros e fáceis. Já os vulcões +lentamente se vão apagando. As rochas não se despenham já com fragor +sôbre a abundância inocente dos vales. Tam amansadas andam as águas, que +na sua transparência se miram, com demora e cuidado, as nuvens e os +ramos dos olmos. Raramente um Pterodactilo macúla, com o escândalo do +seu bico e das suas asas, os céus, onde o sol alterna com a bruma, e os +estios se franjam de chuvas ligeiras. E nesta tranqùilidade que se +estabelece há como uma submissão consciente. O Mundo pressente e aceita +a supremacia do Homem. A floresta já não arde com a leviandade do +restolho, sabendo que em breve o Homem lhe pedirá a estaca, a trave, o +rêmo, o mastro. O vento, nas gargantas da serra, brandamente se +disciplina, e ensaia os sopros regulares com que trabalhará a mó do +moinho. O mar afogou os seus monstros, e estira o dorso preparado para o +cortar da quilha. A terra torna estável a sua gleba, e molemente se +humedece, para quando chegar o arado e a semente. E todos os metais se +alinham em filão, e alegremente se dispõem para o fogo que lhes dará +forma e beleza. + +E pela tarde Adão recolhe contente, com caça abundante. A lareira +flameja: e alumia a face de nosso Pai, que o esfôrço da Vida embelezou, +onde já os beiços se adelgaçaram, e a testa se encheu com o lento +pensar, e os olhos sossegaram num brilho mais certo. O anho, espetado +num pau, assa e pinga nas brasas. No chão pousam cascas de côco, cheias +de clara água da fonte. Uma pele de urso tornou macio o leito de fetos. +Outra pele, pendurada, abriga a bôca da caverna. A um canto, que é a +oficina, estão os montões de sílex e o malho: a outro canto, que é o +arsenal, estão as lanças e as clavas. Eva torce os fios duma lã de +cabra. Ao bom calor, sôbre folhelho, dorme Abel, muito gordo, todo nú, +com um pêlo mais ralo na carninha mais branca. Partilhando do folhelho +e do mesmo calor, vela o cão, já crescido, com o ôlho amorável, o +focinho entre as patas. E Adão (oh, a estranha tarefa!) muito absorto, +tenta gravar, com uma ponta de pedra, sôbre um osso largo, os galhos, o +dorso, as pernas estiradas dum veado a correr!... A lenha estala. Todas +as estrêlas do céu estão presentes. Deus, pensativo, contempla o crescer +da Humanidade. + + +E agora que acendi, na noite estrelada do Paraíso, com galhos bem sêcos +da Árvore da Sciência, êste verídico lar, consenti que vos deixe, oh +Pais veneráveis! + +Já não receio que a Terra instável vos esmague; ou que as feras +superiores vos devorem; ou que, apagada, à maneira duma lâmpada +imperfeita, a Energia que vos trouxe da Floresta, vós retrogradeis à +vossa Árvore. Sois já irremediavelmente humanos--e cada manhã +progredireis, com tam poderoso arremêsso, para a perfeição do Corpo e +esplendor da Razão, que em breve, dentro dumas centenas de milhares de +curtos anos, Eva será a formosa Helena e Adão será o imenso Aristóteles! + +Mas não sei se vos felicite, oh Pais veneráveis! Outros irmãos vossos +ficaram na espessura das árvores--e a sua vida é doce. + +Todas as manhãs o Orangotango acorda entre os seus lençóis de fôlhas de +pendénia, sôbre o fôfo colchão de musgos que êle, com cuidado, acamou +por cima dum catre de ramos cheirosos. Lânguidamente, sem cuidados, +preguiça na moleza dos musgos, escutando as límpidas árias dos pássaros, +gozando os fios do sol que se emmaranham por entre a renda das fôlhas, e +lambendo no pêlo dos seus braços o orvalho açucarado. Depois de bem se +coçar e bem se esfregar, sobe com pachorra à árvore dilecta, que elegeu +em todo o bosque pela sua frescura, pela elasticidade embaladora das +suas ramagens. Daí, tendo respirado as brisas carregadas de aromas, +salta, com lestos pulos, através das sempre fáceis, sempre fartas +ucharias do bosque, onde almoça a banana, a manga, a goiaba, todos os +finos frutos que o tornam tam são e alheio a males como as árvores onde +os colheu. Percorre então, sociavelmente, as ruas e as vielas palreiras +da espessura; cabriola com destros amigos, em jogos amáveis de ligeireza +e fôrça; galanteia as Orangas gentis que o catam, e penduradas com êle, +duma liana florida, se balançam chalrando; trota, entre alegres ranchos, +pela borda das águas claras; ou, sentado na ponta dum ramo, escuta algum +vélho e facundo chimpanzé contando divertidas histórias de caça, de +viagens, de amores e de troças às feras pesadas, que circulam nas +relvas e não podem trepar. Cedo recolhe à sua árvore, e, estendido na +folhosa rêde, brandamente se abandona à delícia de sonhar, num sonho +acordado, semelhante às nossas Metafísicas e às nossas Epopeias, mas que +rolando todo sôbre sensações reais, é, ao contrário dos nossos incertos +sonhos, um sonho todo feito de certeza. Por fim a Floresta lentamente se +cala, a sombra escorrega entre os troncos:--e o Orango ditoso desce ao +seu catre de pendénias e musgos, e adormece na imensa paz de Deus--de +Deus que êle nunca se cansou em comentar, nem sequer em negar, e que +todavia sôbre êle derrama, com imparcial carinho, os bens inteiros da +sua Misericórdia. + +Assim ocupou o seu dia o Orango, nas Árvores. ¿E no entanto, como +gastou, nas Cidades, o seu dia, o Homem, primo do Orango? Sofrendo--por +ter os dons superiores que faltam ao Orango! Sofrendo--por arrastar +consigo, irresgatavelmente, êsse mal incurável que é a sua Alma! +Sofrendo--porque nosso Pai Adão, no terrível dia 28 de Outubro, depois +de espreitar e farejar o Paraíso, não ousou declarar reverentemente ao +Senhor:--«Obrigado, oh meu doce Criador; dá o governo da Terra a quem +melhor escolheres, ao Elefante ou ao Cangurú, que eu por mim, bem +mais avisado, volto já para a minha árvore!...» + +Mas, emfim, desde que nosso Pai venerável não teve a previdência ou a +abnegação de declinar a grande supremacia--continuemos a reinar sôbre a +Criação e a ser sublimes... Sobretudo continuemos a usar, +insaciavelmente, do dom melhor que Deus nos concedeu entre todos os +dons, o mais puro, o único genuìnamente grande, o dom de o amar--pois +que não nos concedeu tambêm o dom de o compreender. E não esqueçamos que +Êle já nos ensinou, através de vozes levantadas em Galilea, e sob as +mangueiras de Veluvana, e nos vales severos de Yen-Chou, que a melhor +maneira de o amar é que uns aos outros nos amemos, e que amemos toda a +sua obra, mesmo o verme, e a rocha dura, e a raiz venenosa, e até êsses +vastos seres que não parecem necessitar o nosso amor, êsses Sóis, êsses +Mundos, essas esparsas Nebuloses, que, inicialmente fechadas, como nós, +na mão de Deus, e feitas da nossa substância, nem de-certo nos amam--nem +talvez nos conhecem. + + + + +A AIA + + +Era uma vez um rei, môço e valente, senhor de um reino abundante em +cidades e searas, que partira a batalhar por terras distantes, deixando +solitária e triste a sua raínha e um filhinho, que ainda vivia no seu +berço, dentro das suas faixas. + +A lua cheia que o vira marchar, levado no seu sonho de conquista e de +fama, começava a minguar--quando um dos seus cavaleiros apareceu, com as +armas rôtas, negro do sangue sêco e do pó dos caminhos, trazendo a +amarga nova de uma batalha perdida e da morte do rei, traspassado por +sete lanças entre a flor da sua nobreza, à beira de um grande rio. + +A raínha chorou magníficamente o rei. Chorou ainda desoladamente o +espôso, que era formoso e alegre. Mas, sobretudo, chorou ansiosamente o +pai que assim deixava o filhinho desamparado, no meio de tantos inimigos +da sua frágil vida e do reino que seria seu, sem um braço que o +defendesse, forte pela fôrça e forte pelo amor. + +Dêsses inimigos o mais temeroso era seu tio, irmão bastardo do rei, +homem depravado e bravio, consumido de cobiças grosseiras, desejando só +a rialeza por causa dos seus tesoiros, e que havia anos vivia num +castelo sôbre os montes, com uma horda de rebeldes, à maneira de um lôbo +que, de atalaia no seu fojo, espera a prêsa. Ai! a prêsa agora era +aquela criancinha, rei de mama, senhor de tantas províncias, e que +dormia no seu berço com seu guiso de oiro fechado na mão! + +Ao lado dêle, outro menino dormia noutro berço. Mas êste era um +escravosinho, filho da bela e robusta escrava que amamentava o príncipe. +Ambos tinham nascido na mesma noite de verão. O mesmo seio os criava. +Quando a raínha, antes de adormecer, vinha beijar o principesinho, que +tinha o cabelo louro e fino, beijava tambêm por amor dêle o +escravosinho, que tinha o cabelo negro e crespo. Os olhos de ambos +reluziam como pedras preciosas. Sómente, o berço de um era magnífico e +de marfim entre brocados--e o berço do outro pobre e de vêrga. A +leal escrava, porêm, a ambos cercava de carinho igual, porque se um era +o seu filho--o outro seria o seu rei. + +Nascida naquela casa rial, ela tinha a paixão, a religião dos seus +senhores. Nenhum pranto correra mais sentidamente do que o seu pelo rei +morto à beira do grande rio. Pertencia, porêm, a uma raça que acredita +que a vida da terra se continua no céu. O rei seu amo, de-certo, já +estaria agora reinando num outro reino, para alêm das nuvens, abundante +tambêm em searas e cidades. O seu cavalo de batalha, as suas armas, os +seus pagens tinham subido com êle às alturas. Os seus vassalos, que +fôssem morrendo, prontamente iriam, nesse reino celeste, retomar em +tôrno dele a sua vassalagem. E ela um dia, por seu turno, remontaria num +raio de luz a habitar o palácio do seu senhor, e a fiar de novo o linho +das suas túnicas, e a acender de novo a caçoleta dos seus perfumes; +seria no céu como fôra na terra, e feliz na sua servidão. + +Todavia, tambêm ela tremia pelo seu príncipesinho! Quantas vezes, com +êle pendurado do peito, pensava na sua fragilidade, na sua longa +infância, nos anos lentos que correriam antes que êle fôsse ao menos do +tamanho de uma espada, e naquele tio cruel, de face mais escura que +a noite e coração mais escuro que a face, faminto do trono, e +espreitando de cima do seu rochedo entre os alfanges da sua horda! Pobre +príncipesinho da sua alma! Com uma ternura maior o apertava então nos +braços. Mas se o seu filho chalrava ao lado--era para êle que os seus +braços corriam com um ardor mais feliz. Êsse, na sua indigência, nada +tinha a recear da vida. Desgraças, assaltos da sorte má nunca o poderiam +deixar mais despido das glórias e bens do mundo do que já estava ali no +seu berço, sob o pedaço de linho branco que resguardava a sua nudez. A +existência, na verdade, era para êle mais preciosa e digna de ser +conservada que a do seu príncipe, porque nenhum dos duros cuidados com +que ela ennegrece a alma dos senhores roçaria sequer a sua alma livre e +simples de escravo. E, como se o amasse mais por aquela humildade +ditosa, cobria o seu corpinho gordo de beijos pesados e devoradores--dos +beijos que ela fazia ligeiros sôbre as mãos do seu príncipe. + +No entanto um grande temor enchia o palácio, onde agora reinava uma +mulher entre mulheres. O bastardo, o homem de rapina, que errava no cimo +das serras, descera à planície com a sua horda, e já através de casais e +aldeias felizes ia deixando um sulco de matança e ruínas. As portas da +cidade tinham sido seguras com cadeias mais fortes. Nas atalaias +ardiam lumes mais altos. Mas à defesa faltava disciplina viril. Uma roca +não governa como uma espada. Toda a nobreza fiel perecera na grande +batalha. E a raínha desventurosa apenas sabia correr a cada instante ao +berço do seu filhinho e chorar sôbre êle a sua fraqueza de viuva. Só a +ama leal parecia segura--como se os braços em que estreitava o seu +príncipe fôssem muralhas de uma cidadela que nenhuma audácia pode transpôr. + +Ora uma noite, noite de silêncio e de escuridão, indo ela a adormecer, +já despida, no seu catre, entre os seus dois meninos, adivinhou, mais +que sentiu, um curto rumor de ferro e de briga, longe, à entrada dos +vergeis riais. Embrulhada à pressa num pano, atirando os cabelos para +trás, escutou ansiosamente. Na terra areada, entre os jasmineiros, +corriam passos pesados e rudes. Depois houve um gemido, um corpo +tombando molemente, sôbre lages, como um fardo. Descerrou violentamente +a cortina. E alêm, ao fundo da galeria, avistou homens, um clarão de +lanternas, brilhos de armas... Num relance tudo compreendeu--o palácio +surpreendido, o bastardo cruel vindo roubar, matar o seu príncipe! +Então, rápidamente, sem uma vacilação, uma dúvida, arrebatou o príncipe +do seu berço de marfim, atirou-o para o pobre berço de vêrga--e tirando +o seu filho do berço servil, entre beijos desesperados, deitou-o no +berço rial que cobriu com um brocado. + +Bruscamente um homem enorme, de face flamejante, com um manto negro +sôbre a cota de malha, surgiu à porta da câmara, entre outros, que +erguiam lanternas. Olhou--correu ao berço de marfim onde os brocados +luziam, arrancou a criança, como se arranca uma bôlsa de oiro, e +abafando os seus gritos no manto, abalou furiosamente. + +O príncipe dormia no seu novo berço. A ama ficara imóvel no silêncio e +na treva. + +Mas brados de alarme atroaram de repente o palácio. Pelas janelas +perpassou o longo flamejar das tochas. Os pátios ressoavam com o bater +das armas. E desgrenhada, quási nua, a raínha invadiu a câmara, entre as +aias, gritando pelo seu filho! Ao avistar o berço de marfim, com as +roupas desmanchadas, vazio, caiu sôbre as lages, num choro, despedaçada. +Então calada, muito lenta, muito pálida, a ama descobriu o pobre berço +de vêrga... O príncipe lá estava quieto, adormecido, num sonho que o +fazia sorrir, lhe iluminava toda a face entre os seus cabelos de oiro. A +mãe caíu sôbre o berço, com um suspiro, como cai um corpo morto. + +E nesse instante um novo clamor abalou a galeria de mármore. Era o +capitão das guardas, a sua gente fiel. Nos seus clamores havia, +porêm, mais tristeza que triunfo. O bastardo morrera! Colhido, ao fugir, +entre o palácio e a cidadela, esmagado pela forte legião de archeiros, +sucumbira, êle e vinte da sua horda. O seu corpo lá ficara, com flechas +no flanco, numa pôça de sangue. Mas, ai! dor sem nome! O corposinho +tenro do príncipe lá ficara tambêm, envolto num manto, já frio, rôxo +ainda das mãos ferozes que o tinham esganado! Assim tumultuosamente +lançavam a nova cruel os homens de armas--quando a raínha, deslumbrada, +com lágrimas entre risos, ergueu nos braços, para lho mostrar, o +príncipe que despertara. + +Foi um espanto, uma aclamação. ¿Quem o salvara? Quem?... Lá estava junto +do berço de marfim vazio, muda e hirta, aquela que o salvara! Serva +sublimemente leal! Fôra ela que, para conservar a vida ao seu príncipe, +mandara à morte o seu filho... Então, só então, a mãe ditosa, emergindo +da sua alegria estática, abraçou apaixonadamente a mãe dolorosa, e a +beijou, e lhe chamou irmã do seu coração... E de entre aquela multidão +que se apertava na galeria veio uma nova, ardente aclamação, com +súplicas de que fôsse recompensada magníficamente a serva admirável que +salvara o rei e o reino. + +Mas como? ¿Que bôlsas de oiro podem pagar um filho? Então um vélho +de casta nobre lembrou que ela fôsse levada ao tesoiro rial, e +escolhesse de entre essas riquezas, que eram como as maiores dos maiores +tesoiros da Índia, todas as que o seu desejo apetecesse... + +A raínha tomou a mão da serva. E sem que a sua face de mármore perdesse +a rigidez, com um andar de morta, como num sonho, ela foi assim +conduzida para a Câmara dos Tesoiros. Senhores, aias, homens de armas, +seguiam, num respeito tam comovido que apenas se ouvia o roçar das +sandálias nas lages. As espessas portas do Tesoiro rodaram lentamente. +E, quando um servo destrancou as janelas, a luz da madrugada, já clara e +rósea, entrando pelos gradeamentos de ferro, acendeu um maravilhoso e +faiscante incêndio de oiro e pedrarias! Do chão de rocha até às sombrias +abóbadas, por toda a câmara, reluziam, scintilavam, refulgiam os escudos +de oiro, as armas marchetadas, os montões de diamantes, as pilhas de +moedas, os longos fios de pérolas, todas as riquezas daquele reino, +acumuladas por cem reis durante vinte séculos. Um longo _ah_, lento e +maravilhado, passou por sôbre a turba que emmudecera. Depois houve um +silêncio ansioso. E no meio da câmara, envolta na refulgência preciosa, +a ama não se movia... Apenas os seus olhos, brilhantes e secos, se +tinham erguido para aquele céu que, alêm das grades, se tingia de rosa e +de oiro. Era lá, nesse céu fresco de madrugada, que estava agora o seu +menino. Estava lá, e já o sol se erguia, e era tarde, e o seu menino +chorava de-certo, e procurava o seu peito!... E então a ama sorriu e +estendeu a mão. Todos seguiam, sem respirar, aquele lento mover da sua +mão aberta. ¿Que joia maravilhosa, que fio de diamantes, que punhado de +rubís, ia ela escolher? + +A ama estendia a mão--e sôbre um escabelo ao lado, entre um molho de +armas, agarrou um punhal. Era um punhal de um vélho rei, todo cravejado +de esmeraldas, e que valia uma província. + +Agarrara o punhal, e com êle apertado fortemente na mão, apontando para +o céu, onde subiam os primeiros raios do sol, encarou a raínha, a +multidão, e gritou: + +--Salvei o meu príncipe, e agora--vou dar de mamar ao meu filho! + +E cravou o punhal no coração. + + + + +O DEFUNTO + + +I + +No ano de 1474, que foi por toda a Cristandade tam abundante em mercês +divinas, reinando em Castela el-rei Henrique IV, veio habitar na cidade +de Segóvia, onde herdara moradias e uma horta, um cavaleiro moço, de +muito limpa linhagem e gentil parecer, que se chamava D. Rui de Cardenas. + +Essa casa, que lhe legara seu tio, arcediago e mestre em cânones, ficava +ao lado e na sombra silenciosa da igreja de Nossa Senhora do Pilar; e, +em frente, para alêm do adro, onde cantavam as três bicas de um chafariz +antigo, era o escuro e gradeado palácio de D. Alonso de Lara, fidalgo de +grande riqueza e maneiras sombrias, que já na madureza da sua +idade, todo grisalho, desposara uma menina falada em Castela pela sua +alvura, cabelos côr de sol claro, e colo de garça rial. D. Rui tivera +justamente por madrinha, ao nascer, Nossa Senhora do Pilar, de quem +sempre se conservou devoto e fiel servidor; ainda que, sendo de sangue +bravo e alegre, amava as armas, a caça, os saraus bem galanteados, e +mesmo por vezes uma noite ruidosa de taverna com dados e picheis de +vinho. Por amor, e pelas facilidades desta santa vizinhança, tomara êle +o piedoso costume, desde a sua chegada a Segóvia, de visitar todas as +manhãs, à hora de Prima, a sua divina madrinha e de lhe pedir, em três +_Ave-Marias_, a bênção e a graça. + +Ao escurecer, mesmo depois de alguma rija correria por campo e monte com +lebreus ou falcão, ainda voltava para, à saudação de Vésperas, murmurar +docemente uma _Salve-Raínha_. + +E todos os domingos comprava no adro, a uma ramalheteira mourisca, algum +ramo de junquilhos, ou cravos, ou rosas singelas, que espalhava, com +ternura e cuidado galante, em frente ao altar da Senhora. + +A esta venerada igreja do Pilar vinha tambêm cada domingo D. Leonor, a +tam falada e formosa mulher do senhor de Lara, acompanhada por uma aia +carrancuda, de olhos mais abertos e duros que os de uma coruja, e +por dois possantes lacaios que a ladeavam e guardavam como tôrres. Tam +ciumento era o senhor D. Alonso que, só por lho haver severamente +ordenado o seu confessor, e com medo de ofender a Senhora, sua vizinha, +permitia esta visita fugitiva, a que êle ficava espreitando +sôfregamente, de entre as rexas de uma gelosia, os passos e a demora. +Todos os lentos dias da lenta semana os passava a senhora D. Leonor no +encêrro do gradeado solar de granito negro, não tendo, para se recrear e +respirar, mesmo nas calmas do estio, mais que um fundo de jardim +verde-negro, cercado de tam altos muros, que apenas se avistava, +emergindo dêles, aqui, alêm, alguma ponta de triste cipreste. Mas essa +curta visita a Nossa Senhora do Pilar bastou para que D. Rui se +namorasse dela tresloucadamente, na manhã de maio em que a viu de +joelhos ante o altar, numa réstea de sol, aureolada pelos seus cabelos +de oiro, com as compridas pestanas pendidas sôbre o livro de Horas, o +rosário caíndo de entre os dedos finos, fina toda ela e macia, e branca, +de uma brancura de lírio aberto na sombra, mais branca entre as rendas +negras e os negros setins que à volta do seu corpo cheio de graça se +quebravam, em pregas duras, sôbre as lages da capela, vélhas lages de +sepulturas. Quando depois dum momento de enleio e de delicioso +pasmo se ajoelhou, foi menos para a Virgem do Pilar, sua divina +Madrinha, do que para aquela aparição mortal, de quem não sabia o nome +nem a vida, e só que por ela daria vida e nome, se ela se rendesse por +tam incerto preço. Balbuciando, com uma prece ingrata, as três +Ave-Marias com que cada manhã saùdava Maria, apanhou o seu sombreiro, +desceu levemente a nave sonora e no portal se quedou, esperando por ela +entre os mendigos lazarentos que se catavam ao sol. Mas quando ao cabo +de um tempo, em que D. Rui sentiu no coração um desusado bater de +ansiedade e medo, a senhora D. Leonor passou e se deteve, molhando os +dedos na pia de mármore de água benta, os seus olhos sob o véu descido, +não se ergueram para êle, ou tímidos ou desatentos. Com a aia de olhos +muito abertos colada aos vestidos, entre os dois lacaios, como entre +duas tôrres, atravessou vagarosamente o adro, pedra por pedra, gozando +de-certo, como encarcerada, o desafogado ar e o livre sol que o +inundavam. E foi um espanto para D. Rui quando ela penetrou na sombria +arcada, de grossos pilares, sôbre que assentava o palácio, e desapareceu +por uma esguia porta recoberta de ferragens. Era, pois, essa a tam +falada D. Leonor, a linda e nobre senhora de Lara... + +Então começaram sete arrastados dias, que êle gastou sentado a um +poial da sua janela, considerando aquela negra porta recoberta de +ferragens como se fôsse a do Paraíso, e por ela devesse saír um anjo +para lhe anunciar a Bemaventurança. Até que chegou o vagaroso domingo: e +passando êle no adro, à hora de Prima, ao repicar dos sinos, com um +mólho de cravos amarelos para a sua divina Madrinha, cruzou D. Leonor, +que saía de entre os pilares da escura arcada, branca, doce e pensativa, +como uma lua de entre nuvens. Os cravos quási lhe caíram naquele gostoso +alvoroço em que o peito lhe arfou mais que um mar, e a alma toda lhe +fugiu em tumulto através do olhar com que a devorava. E ela ergueu +tambêm os olhos para D. Rui, mas uns olhos repousados, uns olhos +serenos, em que não luzia curiosidade, nem mesmo consciência de se +estarem trocando com outros, tam acesos e ennegrecidos pelo desejo. O +môço cavalheiro não entrou na igreja, com piedoso receio de não prestar +à sua Madrinha divina a atenção, que de-certo lhe roubaria toda aquela +que era só humana, mas dona já do seu coração, e nele divinizada. + +Esperou sôfregamente à porta, entre os mendigos, secando os cravos com o +ardor das mãos trémulas, pensando quanto era demorado o rosário que ela +rezava. Ainda D. Leonor descia a nave, já êle sentia dentro da alma +o doce rugir das sedas fortes que ela arrastava nas lages. A branca +senhora passou--e o mesmo distraido olhar, desatento e calmo, que +espalhou pelos mendigos e pelo adro, o deixou escorregar sôbre êle, ou +porque não compreendesse aquele moço que de repente se tornara tam +pálido, ou porque não o diferenciava ainda das cousas e das formas +indiferentes. + +D. Rui abalou, com um fundo suspiro; e, no seu quarto, pôs devotamente +ante a imagem da Virgem as flores que não oferecera, na igreja, ao seu +altar. Toda a sua vida se tornou então um longo queixume por sentir tam +fria e desumana aquela mulher, única entre as mulheres, que prendera e +tornara sério o seu coração ligeiro e errante. Numa esperança, a que +antevia bem o desengano, começou a rondar os muros altos do jardim--ou +embuçado numa capa, com o ombro contra uma esquina, lentas horas se +quedava contemplando as grades das gelosias, negras e grossas como as +dum cárcere. Os muros não se fendiam, das grades não saía sequer um +rasto de luz prometedora. Todo o solar era como um jazigo onde jazia uma +insensível, e por trás das frias pedras havia ainda um frio peito. Para +se desafogar compôs, com piedoso cuidado, em noites veladas sôbre o +pergaminho, trovas gementes que o não desafogavam. Diante do altar +da Senhora do Pilar, sôbre as mesmas lages onde a vira ajoelhada, +pousava êle os joelhos, e ficava, sem palavras de oração, num scismar +amargo e doce, esperando que o seu coração serenasse e se consolasse, +sob a influência de Aquela que tudo consola e serena. Mas sempre se +erguia mais desditoso e tendo apenas a sensação de quanto eram frias e +rígidas as pedras sôbre que ajoelhara. O mundo todo só lhe parecia +conter rigidez e frieza. + +Outras claras manhãs de domingo encontrou D. Leonor: e sempre os olhos +dela permaneciam descuidados e como esquecidos, ou quando se cruzavam +com os seus era tam singelamente, tam limpos de toda a emoção, que D. +Rui os preferiria ofendidos e faiscando de ira, ou soberbamente +desviados com soberbo desdêm. De-certo D. Leonor já o conhecia:--mas, +assim, conhecia tambêm a ramalheteira mourisca agachada diante do seu +cêsto à beira da fonte; ou os pobres que se catavam ao sol diante do +portal da Senhora. Nem D. Rui já podia pensar que ela fôsse desumana e +fria. Era apenas soberanamente remota, como uma estrêla que nas alturas +gira e refulge, sem saber que, em baixo, num mundo que ela não +distingue, olhos que ela não suspeita a contemplam, a adoram e lhe +entregam o govêrno da sua ventura e sorte. + +Então D. Rui pensou: + +--Ela não quer, eu não posso: foi um sonho que findou, e Nossa Senhora a +ambos nos tenha na sua graça! + +E como era cavaleiro muito discreto, desde que a reconheceu assim +inabalável na sua indiferença, não a procurou, nem sequer ergueu mais os +olhos para as grades das suas janelas, e até nem penetrava na igreja de +Nossa Senhora quando casualmente, do portal, a avistava ajoelhada, com a +sua cabeça tam cheia de graça e de oiro, pendida sôbre o Livro de Horas. + + +II + +A vélha aia, de olhos mais abertos e duros que os de uma coruja, não +tardara em contar ao senhor de Lara que um môço audaz, de gentil +parecer, novo morador nas vélhas casas do arcediago, constantemente se +atravessava no adro, se postava diante da igreja para atirar o coração +pelos olhos à senhora D. Leonor. Bem amargamente o sabia já o ciumento +fidalgo, porque quando da sua janela espreitava, como um falcão, a +airosa senhora a caminho da igreja, observara os giros, as esperas, os +olhares dardejados daquele môço galante--e puxara as barbas de +furor. Desde então, na verdade, a sua mais intensa ocupação era odiar D. +Rui, o impudente sobrinho do cónego, que ousava erguer o seu baixo +desejo até à alta senhora de Lara. Constantemente agora o trazia vigiado +por um serviçal--e conhecia todos os seus passos e pousos, e os amigos +com quem caçava ou folgava, e até quem lhe talhava os gibões, e até quem +lhe polia a espada, e cada hora do seu viver. E mais ansiosamente ainda +vigiava D. Leonor--cada um dos seus movimentos, os mais fugitivos modos, +os silêncios e o conversar com as aias, as distracções sôbre o bordado, +o geito de scismar sob as árvores do jardim, e o ar e a côr com que +recolhia da igreja... Mas tam inalteradamente serena no seu sossêgo de +coração se mostrava a senhora D. Leonor que nem o ciume mais imaginador +de culpas poderia achar manchas naquela pura neve. Redobradamente áspero +então se voltava o rancor de D. Alonso contra o sobrinho do cónego por +ter apetecido aquela pureza, e aqueles cabelos côr de sol claro, e +aquele colo de garça rial, que eram só seus, para esplêndido gôsto da +sua vida. E quando passeava na sombria galeria do solar, sonora e toda +de abóbada, embrulhado na sua samarra orlada de peles, com o bico da +barba grisalha espetado para diante, a grenha crespa erriçada para trás +e os punhos cerrados, era sempre remoendo o mesmo fel: + +--Tentou contra a virtude dela, tentou contra a minha honra... É culpado +por duas culpas e merece duas mortes! + +Mas ao seu furor quási se misturou um terror, quando soube que D. Rui já +não esperava no adro a senhora D. Leonor, nem rondava amorosamente os +muros do palacete, nem penetrava na igreja quando ela lá rezava, aos +domingos; e que tam inteiramente se alheava dela que uma manhã, estando +rente da arcada, e sentindo bem ranger e abrir a porta por onde a +senhora ia aparecer, permanecera de costas voltadas, sem se mover, rindo +com um cavaleiro gordo que lhe lia um pergaminho. Tam bem afectada +indiferença só servia de-certo (pensou D. Alonso) a esconder alguma bem +danada tenção! ¿Que tramava êle, o destro enganador? Tudo no desabrido +fidalgo se exacerbou--ciume, rancor, vigilância, pesar da sua idade +grisalha e feia. No sossêgo de D. Leonor suspeitou manha e +fingimento;--e imediatamente lhe vedou as visitas à Senhora do Pilar. + +Nas manhãs costumadas corria êle à igreja para rezar o rosário, a levar +as desculpas de D. Leonor--«_que no puede venir_ (murmurava curvado +diante do altar) _por lo que sabeis, virgem purissima!_» Cuidadosamente +visitou e reforçou todos os negros ferrolhos das portas do seu solar. + +De noite soltava dois mastins nas sombras do jardim murado. + +À cabeceira do vasto leito, junto da mesa onde ficava a lâmpada, um +relicário e o copo de vinho quente com canela e cravo para lhe +retemperar as fôrças--luzia sempre uma grande espada nua. Mas, com +tantas seguranças, mal dormia--e a cada instante se solevava em +sobressalto de entre as fundas almofadas, agarrando a senhora D. Leonor +com mão bruta e sôfrega, que lhe pisava o colo, para rugir muito baixo, +numa ânsia: «Dize que me queres só a mim!...» Depois, com a alvorada, lá +se empoleirava, a espreitar, como um falcão, as janelas de D. Rui. Nunca +o avistava, agora, nem à porta da igreja às horas de missa, nem +recolhendo do campo, a cavalo, ao toque de Ave-Marias. + +E por o sentir assim sumido dos sítios e giros costumados--é que mais o +suspeitava dentro do coração de D. Leonor. + +Emfim, uma noite, depois de muito trilhar o lagedo da galeria, remoendo +surdamente desconfianças e ódios, gritou pelo intendente e ordenou que +se preparassem trouxas e cavalgaduras. Cedo, de madrugada, partiria, com +a senhora D. Leonor, para a sua herdade de Cabril, a duas léguas de +Segóvia! A partida não foi de madrugada, como uma fuga de avarento +que vai esconder longe o seu tesoiro:--mas, realizada com aparato e +demora, ficando a liteira diante da arcada, a esperar longas horas, de +cortinas abertas, emquanto um cavalariço passeava pelo adro a mula +branca do fidalgo, enxairelada à mourisca, e do lado do jardim a récua +de machos, carregados de baús, presos às argolas, sob o sol e a mosca, +aturdiam a viela com o tilintar dos guizos. Assim D. Rui soube a jornada +do senhor de Lara:--e assim a soube toda a cidade. + +Fôra um grande contentamento para D. Leonor, que gostava de Cabril, dos +seus viçosos pomares, dos jardins, para onde abriam, rasgadamente e sem +grades, as janelas dos seus aposentos claros: aí ao menos tinha largo +ar, pleno sol, e alegretes a regar, um viveiro de pássaros, e tam +compridas ruas de loureiro ou teixo, que eram quási a liberdade. E +depois esperava que no campo se aligeirassem aqueles cuidados que +traziam, nos derradeiros tempos, tam enrugado e taciturno seu marido e +senhor. Mas não logrou esta esperança, porque ao cabo de uma semana +ainda se não desanuviara a face de D. Alonso--nem de-certo havia +frescura de arvoredos, sussurros de águas correntes, ou aromas esparsos +nos rosais em flor, que calmassem agitação tam amarga e funda. Como em +Segóvia, na galeria sonora de grande abobada, sem descanso +passeava, enterrado na sua samarra, com o bico da barba espetado para +diante, a grenha basta erriçada para trás, um geito de arreganhar +silenciosamente o beiço, como se meditasse maldades a que gozava de +antemão o sabor acre. E todo o interêsse da sua vida se concentrara num +serviçal, que constantemente galopava entre Segóvia e Cabril, e que êle +por vezes esperava no comêço da aldeia, junto ao Cruzeiro, ficando a +escutar o homem que desmontava, ofegante, e logo lhe dava novas apressadas. + +Uma noite em que D. Leonor, no seu quarto, rezava o terço com as aias, à +luz duma tocha de cera, o senhor de Lara entrou muito vagarosamente, +trazendo na mão uma fôlha de pergaminho e uma pena mergulhada no seu +tinteiro de osso. Com um rude acêno despediu as aias, que o temiam como +a um lôbo. E, empurrando um escabelo para junto da mesa, volvendo para +D. Leonor a face a que impusera tranqùilidade e agrado, como se apenas +viesse por cousas naturais e fáceis: + +--Senhora--disse--quero que me escrevais aqui uma carta que muito convêm +escrever... + +Tam costumada era nela a submissão, que, sem outro reparo ou +curiosidade, indo apenas pendurar na barra do leito o rosário em +que rezara, se acomodou sôbre o escabelo, e os seus dedos finos, com +muita aplicação, para que a letra fôsse esmerada e clara, traçaram a +primeira linha curta que o Senhor de Lara ditara e era: _Meu +cavaleiro_...» Mas quando êle ditou a outra, mais longa, e dum modo +amargo, D. Leonor arrojou a pena como se a pena a escaldasse, e, +recuando da mesa, gritou, numa aflição: + +--¿Senhor, para que convêm que eu escreva tais cousas e tam falsas?... + +Num brusco furor, o senhor de Lara arrancou do cinto um punhal, que lhe +agitou junto à face, rugindo surdamente: + +--Ou escreveis o que vos mando e que a mim me convêm, ou por Deus, que +vos varo o coração!... + +Mais branca que a cera da tocha que os alumiava, com a carne arrepiada +ante aquele ferro que luzia, num terror supremo e que tudo aceitava, D. +Leonor murmurou: + +--Pela Virgem Maria, não me façais mal!... Nem vos agasteis, senhor, que +eu vivo para vos obedecer e servir... Agora, mandai, que eu escreverei. + +Então, com os punhos cerrados nas bordas da mesa, onde pousara o punhal, +esmagando a frágil e desditosa mulher sob o olhar duro que fuzilava, o +senhor de Lara ditou, atirou roucamente, aos pedaços, aos repelões, +uma carta que dizia, quando finda e traçada em letra bem incerta e +trémula:--«Meu cavaleiro: Muito mal haveis compreendido, ou muito mal +pagais o amor que vos tenho, e que não vos pude nunca, em Segóvia, +mostrar claramente... Agora aqui estou em Cabril, ardendo por vos ver; e +se o vosso desejo corresponde ao meu, bem fàcilmente o podeis realizar, +pois que meu marido se acha ausente noutra herdade, e esta de Cabril é +toda fácil e aberta. Vinde esta noite, entrai pela porta do jardim, do +lado da azinhaga, passando o tanque, até ao terraço. Aí avistareis uma +escada encostada a uma janela da casa, que é a janela do meu quarto, +onde sereis bem docemente agasalhado por quem ansiosamente vos espera...» + +--Agora, senhora, assinai por baixo o vosso nome, que isso sobretudo +convêm! + +D. Leonor traçou vagarosamente o seu nome, tam vermelha como se a +despissem diante de uma multidão. + +--E agora--ordenou o marido mais surdamente, através dos dentes +cerrados--endereçai a D. Rui de Cardenas! + +Ela ousou erguer os olhos, na surprêsa daquele nome desconhecido. + +--Andai!... A D. Rui de Cardenas!--gritou o homem sombrio. + +E ela endereçou a sua desonesta carta a D. Rui de Cardenas. + +D. Alonso meteu o pergaminho no cinto, junto ao punhal que embainhara, e +saíu em silêncio com a barba espetada, abafando o rumor dos passos nas +lages do corredor + +Ela ficara sôbre o escabelo, as mãos cansadas e caídas no regaço, num +infinito espanto, o olhar perdido na escuridão da noite silente. Menos +escura lhe parecia a morte que essa escura aventura em que se sentia +envolvida e levada! ¿Quem era êsse D. Rui de Cardenas, de quem nunca +ouvira falar, que nunca atravessara a sua vida, tam quieta, tam pouco +povoada de memórias e de homens? E êle de-certo a conhecia, a +encontrara, a seguira, ao menos com os olhos, pois que era cousa natural +e bem ligada receber dela carta de tanta paixão e promessa... + +¿Assim, um homem, e môço de-certo bem nascido, talvez gentil, penetrava +no seu destino bruscamente, trazido pela mão de seu marido? Tam +íntimamente mesmo se entranhara êsse homem na sua vida, sem que ela se +apercebesse, que já para êle se abria de noite a porta do seu jardim, e +contra a sua janela, para êle subir, se arrumava de noite uma escada!... +E era seu marido que muito secretamente escancarava a porta, e muito +secretamente levantava a escada... Para que? + +Então, num relance, D. Leonor compreendeu a verdade, a vergonhosa +verdade, que lhe arrancou um grito ansiado e mal sufocado. Era uma +cilada! O senhor de Lara atraía a Cabril êsse D. Rui com uma promessa +magnífica, para dêle se apoderar, e de-certo o matar, indefeso e +solitário! E ela, o seu amor, o seu corpo, eram as promessas que se +faziam rebrilhar ante os olhos seduzidos do môço desventuroso. Assim seu +marido usava a sua beleza, o seu leito, como a rêde de oiro em que devia +caír aquela prêsa estouvada! ¿Onde haveria maior ofensa? E tambêm quanta +imprudência! Bem poderia esse D. Rui de Cardenas desconfiar, não aceder +a convite tam abertamente amoroso, e depois mostrar por toda a Segóvia, +rindo e triunfando, aquela carta em que lhe fazia oferta do seu leito e +do seu corpo a mulher de Alonso de Lara! Mas não! o desventurado +correria a Cabril--e para morrer, miserávelmente morrer no negro +silêncio da noite, sem padre, nem sacramentos, com a alma encharcada em +pecado de amor! Para morrer, de-certo--porque nunca o senhor de Lara +permitiria que vivesse o homem que recebera tal carta. Assim, aquele +môço morria por amor dela, e por um amor que, sem lhe valer nunca um +gôsto, lhe valia logo a morte! De-certo por amor dela--pois que tal ódio +do senhor de Lara, ódio que com tanta deslealdade e vilania se +cevava, só podia nascer de ciumes, que lhe escureciam todo o dever de +cavaleiro e de cristão. Sem dúvida êle surpreendera olhares, passos, +tenções dêste senhor D. Rui, mal acautelado por bem namorado. + +Mas como? quando? Confusamente se lembrava ela de um moço que um domingo +a cruzara no adro, a esperara ao portal da igreja, com um molho de +cravos na mão... Seria êsse? Era de nobre parecer, muito pálido, com +grandes olhos negros e quentes. Ela passara--indiferente... Os cravos +que segurava na mão eram vermelhos e amarelos... A quem os levava?... +Ah! se o pudesse avisar, bem cedo, de madrugada! + +¿Como, se não havia em Cabril serviçal ou aia de quem se fiasse? Mas +deixar que uma bruta espada varasse traiçoeiramente aquele coração, que +vinha cheio dela, palpitando por ela, todo na esperança dela!... + +Oh! a desabrida e ardente correria de D. Rui, desde Segóvia a Cabril, +com a promessa do encantador jardim aberto, da escada posta contra a +janela, sob a nudez e protecção da noite! ¿Mandaria realmente o senhor +de Lara encostar uma escada à janela? De-certo, para com mais facilidade +o poderem matar, ao pobre, e doce, e inocente môço, quando êle subisse, +mal seguro sôbre um frágil degrau, as mãos embaraçadas, a espada a +dormir na bainha... E assim, na outra noite, em face ao seu leito, a sua +janela estaria aberta, e uma escada estaria erguida contra a sua janela +à espera de um homem! Emboscado na sombra do quarto, seu marido +seguramente mataria êsse homem... + +¿Mas se o senhor de Lara esperasse fóra dos muros da quinta, assaltasse +brutalmente, nalguma azinhaga, aquele D. Rui de Cardenas, e ou por menos +destro, ou por menos forte, num terçar de armas, caísse êle traspassado, +sem que o outro conhecesse a quem matara? E ela, ali, no seu quarto, sem +saber, e todas as portas abertas, e a escada erguida, e aquele homem +assomando à janela na sombra macia da noite tépida, e o marido que a +devia defender morto no fundo duma azinhaga... ¿Que faria ela, Virgem +Mãe? Oh! de-certo repeliria, soberbarmente, o môço temerário. Mas o +espanto dêle e a cólera do seu desejo enganado! «Por Vós é que eu vim +chamado, senhora! E ali trazia, sôbre o coração, a carta dela, com seu +nome, que a sua mão traçara. ¿Como lhe poderia contar a emboscada e o +dolo? Era tam longo de contar, naquele silêncio e solidão da noite, +emquanto os olhos dêle, húmidos e negros, a estivessem suplicando e +traspassando... Desgraçada dela se o senhor de Lara morresse, a deixasse +solitária, sem defesa, naquela vasta casa aberta! Mas quanto +desgraçada tambêm se aquele môço, chamado por ela, e que a amava, e que +por êsse amor vinha correndo deslumbrante, encontrasse a morte no sítio +da sua esperança, que era o sítio do seu pecado, e, morto em pleno +pecado, rolasse para a eterna desesperança... Vinte e cinco anos, +êle--se era o mesmo de quem se lembrava, pálido, e tam airoso, com um +gibão de veludo roxo e um ramo de cravos na mão, à porta da igreja, em +Segóvia... + +Duas lágrimas saltaram dos cansados olhos de D. Leonor. E dobrando os +joelhos, levantando a alma toda para o céu, onde a lua se começava a +levantar, murmurou, numa infinita mágoa e fé: + +--Oh! Santa Virgem do Pilar, Senhora minha, vela por nós ambos, vela por +todos nós!... + + +III + +D. Rui entrava, pela hora da calma, no fresco pátio da sua casa, quando +de um banco de pedra, na sombra, se ergueu um môço do campo, que tirou +de dentro do surrão uma carta, lha entregou, murmurando: + +--Senhor, dai-vos pressa em ler, que tenho de voltar a Cabril, a quem me +mandou... + +D. Rui abriu o pergaminho; e, no deslumbramento que o tomou, bateu com +êle contra o peito, como para o enterrar no coração... + +O moço do campo insistia, inquieto: + +--Aviai, senhor, aviai! Nem precisais responder. Basta que me deis um +sinal de vos ter vindo o recado... + +Muito pálido, D. Rui arrancou uma das luvas bordadas a retroz, que o +môço enrolou e sumiu no surrão. E já abalava na ponta das alpercatas +leves, quando, com um acêno, D. Rui ainda o deteve: + +--Escuta. ¿Que caminho tomas tu para Cabril? + +--O mais certo e sòzinho para gente afoita, que é pelo Cêrro dos +Enforcados. + +--Bem. + +D. Rui galgou as escadas de pedra, e no seu aposento, sem mesmo tirar o +sombreiro, de novo leu junto da gelosia aquele pergaminho divino, em que +D. Leonor o chamava de noite ao seu quarto, à posse inteira do seu ser. +E não o maravilhava esta oferta--depois de uma tam constante, +imperturbada indiferença. Antes nela logo percebeu um amor muito astuto, +por ser muito forte, que com grande paciência se esconde ante os +estorvos e os perigos, e mudamente prepara a sua hora de +contentamento, melhor e mais deliciosa por tam preparada. Sempre ela o +amara, pois, desde a manhã bemdita em que os seus olhos se tinham +cruzado no portal de Nossa Senhora. E emquanto êle rondava aqueles muros +do jardim, maldizendo uma frieza que lhe parecia mais fria que a dos +frios muros, já ela lhe dera a sua alma, e cheia de constância, com +amorosa sagacidade, recalcando o menor suspiro, adormecendo +desconfianças, preparava a noite radiante em que lhe daria tambêm o seu +corpo. + +Tanta firmeza, tam fino engenho nas coisas do amor ainda lha tornavam +mais bela e mais apetecida! + +Com que impaciência olhava então o sol, tam desapressado nessa tarde em +descer para os montes! Sem repouso, no seu quarto, com as gelosias +cerradas para melhor concentrar a sua felicidade, tudo aprontava +amorosamente para a triunfal jornada: as finas roupas, as finas rendas, +um gibão de veludo negro e as essências perfumadas. Duas vezes desceu à +cavalariça a verificar se o seu cavalo estava bem ferrado e bem pensado. +Sôbre o soalho, vergou e revergou, para a experimentar, a folha da +espada que levaria à cinta... Mas o seu maior cuidado era o caminho para +Cabril, a-pesar de bem o conhecer, e a aldeia apinhada em tôrno ao +mosteiro franciscano, e a vélha ponte romana com o seu Calvário, e +a azinhaga funda que levava à herdade do senhor de Lara. Ainda nesse +inverno por lá passara, indo montear com dois amigos de Astorga, e +avistara a torre dos de Lara, e pensara:--«Eis a torre da minha +ingrata!» Como se enganava! As noites agora eram de lua, e êle saíria de +Segóvia caladamente, pela porta de S. Mauros. Um galope curto o punha no +Cêrro dos Enforcados... Bem o conhecia tambêm, êsse sítio de tristeza e +pavor, com os seus quatro pilares de pedra, onde se enforcavam os +criminosos, e onde os seus corpos ficavam, balouçados da ventania, +ressequidos do sol, até que as cordas apodrecessem e as ossadas caíssem, +brancas e limpas da carne pelo bico dos corvos. Por trás do Cêrro era a +lagôa das Donas. A derradeira vez que por lá andara, fôra em dia do +apóstolo S. Matias, quando o corregedor e as confrarias de caridade e +paz, em procissão, iam dar sepultura sagrada às ossadas caídas no chão +negro, esbrugadas pelas aves. Daí o caminho, depois, corria liso e +direito a Cabril. + +Assim D. Rui meditava a sua jornada venturosa, emquanto a tarde ia +caíndo. Mas, quando escureceu, e em tôrno às tôrres da igreja começaram +a girar os morcegos, e nas esquinas do adro se acenderam os nichos das +Almas, o valente môço sentiu um medo estranho, o medo daquela +felicidade que se acercava e que lhe parecia sobrenatural. ¿Era, pois, +certo que essa mulher de divina formosura, famosa em Castela, e mais +inacessível que um astro, seria sua, toda sua, no silêncio e segurança +duma alcova, dentro em breves instantes, quando ainda se não tivessem +apagado diante dos retábulos das Almas aqueles lumes devotos? ¿E o que +fizera êle para lograr tam grande bem? Pisara as lages de um adro, +esperara no portal de uma igreja, procurando com os olhos outros dois +olhos, que não se erguiam, indiferentes ou desatentos. Então, sem dor, +abandonara a sua esperança... E eis que de repente aqueles olhos +distraídos o procuram, e aqueles braços fechados se lhe abrem, largos e +nus, e com o corpo e com a alma aquela mulher lhe grita:--«Oh! mal +avisado, que não me entendeste! Vem! Quem te desanimou já te pertence!» +¿Houvera jàmais igual ventura? Tam alta, tam rara era, que de-certo +atrás dela, se não erra a lei humana, já devia caminhar a desventura! Já +na verdade caminhava;--pois quanta desventura em saber que depois de tal +ventura, quando de madrugada, saíndo dos divinos braços, êle recolhesse +a Segóvia, a sua Leonor, o bem sublime da sua vida, tam inesperadamente +adquirido por um instante, recaíria logo sob o poder de outro amo! + +Que importava! Viessem depois dores e zelos! Aquela noite era +esplêndidamente sua, o mundo todo uma aparência vã e a única realidade +êsse quarto de Cabril, mal alumiado, onde ela o esperaria, com os +cabelos soltos! Foi com sofreguidão que desceu a escada, se arremessou +sôbre o seu cavalo. Depois, por prudência, atravessou o adro muito +lentamente, com o sombreiro bem levantado da face, como num passeio +natural, a procurar fóra dos muros a frescura da noite. Nenhum encontro +o inquietou até à porta de S. Mauros. Aí, um mendigo, agachado na +escuridão dum arco, e que tocava monótonamente a sua sanfona, pediu, em +lamúria, à Virgem e a todos os santos, que levassem aquele gentil +cavaleiro na sua doce e santa guarda. D. Rui parara para lhe atirar uma +esmola, quando se lembrou que nessa tarde não fôra à igreja, à hora de +vésperas, rezar e pedir a bênção à sua divina madrinha. Com um salto, +desceu logo do cavalo, porque, justamente, rente ao vélho arco, +tremeluzia uma lâmpada alumiando um retábulo. Era uma imagem da Virgem +com o peito traspassado por sete espadas. D. Rui ajoelhou, pousou o +sombreiro nas lages, e com as mãos erguidas, muito zelosamente, rezou +uma Salve-Rainha. O clarão amarelo da luz envolvia o rosto da Senhora, +que, sem sentir as dores dos sete ferros, ou como se êles só déssem +inefáveis gozos, sorria com os lábios muito vermelhos. Emquanto êle +rezava, no convento de São Domingos, ao lado, a sineta começou a tocar a +agonia. De entre a sombra negra do arco, cessando a sanfona, o mendigo +murmurou:--«Lá está um frade a morrer!» D. Rui disse uma Ave-Maria pelo +frade que morria. A Virgem das sete espadas sorria docemente--o toque de +agonia não era, pois, de mau preságio! D. Rui cavalgou alegremente e +partiu. + +Para alêm da porta de S. Mauros, depois de alguns casebres de oleiros, o +caminho seguia, esguio e negro, entre altas piteiras. Por trás das +colinas, ao fundo da planície escura, subia o primeiro clarão, amarelo e +lânguido, da lua cheia, ainda escondida. E D. Rui marchava a passo, +receando chegar a Cabril muito cedo, antes que as aias e os moços +findassem o serão e o rosário. ¿Porque não lhe marcara D. Leonor a hora, +naquela carta tam clara e tam pensada? Então a sua imaginação corria +adiante, rompia pelo jardim de Cabril, galgava aladamente a escada +prometida--e êle largava tambêm atrás, numa carreira sôfrega, que +arrancava as pedras do caminho mal junto. Depois sofreava o cavalo +ofegante. Era cedo, era cedo! E retomava o passo penoso, sentindo o +coração contra o peito, como ave presa que bate às grades. + +Assim chegou ao Cruzeiro, onde a estrada se fendia em duas, mais +juntas que as pontas de uma forquilha, ambas cortando através de +pinheiral. Descoberto diante da imagem crucificada, D. Rui teve um +instante de angústia, pois não se recordava qual delas levava ao Cêrro +dos Enforcados. Já se embrenhara na mais cerrada, quando, de entre os +pinheiros calados, uma luz surgiu, dansando no escuro. Era uma vélha em +farrapos, com as longas melenas soltas, vergada sôbre um bordão e +levando uma candeia. + +--¿Para onde vai este caminho?--gritou Rui. + +A vélha balançou mais ao alto a candeia, para mirar o cavaleiro. + +--Para Xarama. + +E luz e vélha imediatamente se sumiram, fundidas na sombra, como se ali +tivessem surgindo sómente para avisar o cavaleiro do seu caminho +errado... Já êle virara arrebatadamente; e, rodeando o Calvário, galopou +pela outra estrada mais larga, até avistar sôbre a claridade do céu os +pilares negros, os madeiros negros do Cêrro dos Enforcados. Então +estacou, direito nos estribos. Num cômoro alto, sêco, sem erva ou urze, +ligados por um muro baixo, todo esbrechado, lá se erguiam, negros, +enormes, sôbre a amarelidão do luar, os quatro pilares de granito +semelhantes aos quatro cunhais duma casa desfeita. Sôbre os pilares +pousavam quatro grossas traves. Das traves pendiam quatro enforcados +negros e rígidos, no ar parado e mudo. Tudo em tôrno parecia morto como +êles. + +Gordas aves de rapina dormiam empoleiradas sôbre os madeiros. Para alêm, +rebrilhava lívidamente a água morta da lagôa das Donas. E, no céu, a lua +ia grande e cheia. + +D. Rui murmurou o Padre Nosso devido por todo o cristão àquelas almas +culpadas. Depois impeliu o cavalo, e passava--quando, no imenso silêncio +e na imensa solidão, se ergueu, ressoou uma voz, uma voz que o chamava, +suplicante e lenta: + +--Cavaleiro, detende-vos, vinde cá!... + +D. Rui colheu bruscamente as rédeas e erguido sôbre os estribos, atirou +os olhos espantados por todo o sinistro ermo. Só avistou o cêrro áspero, +a água rebrilhante e muda, os madeiros, os mortos. Pensou que fôra +ilusão da noite ou ousadia de algum demónio errante. E, serenamente, +picou o cavalo, sem sobressalto ou pressa, como numa rua de Segóvia. +Mas, por trás, a voz tornou, mais urgentemente o chamou, ansiosa, quási +aflita: + +--Cavaleiro, esperai, não vos vades, voltai, chegai aqui!... + +De novo D. Rui estacou e, virado sôbre a sela, encarou afoitamente os +quatro corpos pendurados das traves. Do lado dêles soava a voz, +que, sendo humana, só podia saír de forma humana! Um dêsses enforcados, +pois, o chamara, com tanta pressa e ânsia. + +¿Restaria nalguns, por maravilhosa mercê de Deus, alento e vida? ¿Ou +seria que, por maior maravilha, uma dessas carcassas meio apodrecidas o +detinha para lhe transmitir avisos de Alêm-da-Campa?... Mas, que a voz +rompesse dum peito vivo ou dum peito morto, grande covardia era abalar, +espavoridamente, sem a atender e a ouvir. + +Atirou logo para dentro do cêrro o cavalo, que tremia; e, parando, +direito e calmo, com a mão na ilharga, depois de fitar, um por um, os +quatro corpos suspensos, gritou: + +--¿Qual de vós, homens enforcados, ousou chamar por D. Rui de Cardenas? + +Então aquele que voltava as costas à lua cheia respondeu, do alto da +corda, muito quieta e naturalmente, como um homem que conversa da sua +janela para a rua: + +--Senhor, fui eu. + +D. Rui fez avançar para diante dêle o cavalo. Não lhe distinguia a face, +enterrada no peito, escondida pelas longas e negras melenas pendentes. +Só percebeu que tinha as mãos soltas e desamarradas, e tambêm soltos os +pés nus, já ressequidos e da côr do betume. + +--Que me queres? + +O enforcado, suspirando, murmurou: + +--Senhor, fazei-me a grande mercê de me cortar esta corda em que estou +pendurado. + +D. Rui arrancou a espada e de um golpe certo cortou a corda meio +apodrecida. Com um sinistro som de ossos entrechocados o corpo caíu no +chão, onde jazeu um momento, estirado. Mas, imediatamente, se endireitou +sôbre os pés mal seguros e ainda dormentes--e ergueu para D. Rui uma +face morta, que era uma caveira com a pele muito colada, e mais amarela +que a lua que nela batia. Os olhos não tinham movimento nem brilho. +Ambos os beiços se lhe arreganhavam num sorriso empedernido. De entre os +dentes, muito brancos, surdia uma ponta de língua muito negra. + +D. Rui não mostrou terror, nem asco. E embainhando serenamente a espada: + +--¿Tu estás morto ou vivo?--perguntou. O homem encolheu os ombros com +lentidão: + +--Senhor, não sei... ¿Quem sabe o que é a vida? ¿Quem sabe o que é a +morte?... + +--¿Mas que queres de mim? + +O enforcado, com os longos dedos descarnados, alargou o nó da corda que +ainda lhe laçava o pescoço e declarou muito serena e firmemente: + +--Senhor, eu tenho de ir convosco a Cabril, onde vós ides. + +O cavaleiro estremeceu num tam forte assombro, repuxando as rédeas, que +o seu bom cavalo se empinou como assombrado tambêm. + +--Comigo a Cabril?!... + +O homem curvou o espinhaço, a que se viam os ossos todos, mais agudos +que os dentes de uma serra, através de um longo rasgão da camisa de +estamenha: + +--Senhor--suplicou--não mo negueis. Que eu tenho a receber grande +salário se vos fizer grande serviço! + +Então D. Rui pensou de repente que bem podia ser aquela uma traça +formidável do Demónio. E, cravando os olhos muito brilhantes na face morta +que para êle se erguia, ansiosa, à espera do seu consentimento--fez um +lento e largo Sinal da Cruz. + +O enforcado vergou os joelhos com assustada reverência: + +--¿Senhor, para que me experimentais com êsse sinal? Só por êle +alcançamos remissão, e eu só dêle espero misericórdia. + +Então D. Rui pensou que, se êsse homem não era mandado pelo Demónio, bem +podia ser mandado por Deus! E logo devotamente, com um gesto submisso em +que tudo entregava ao céu, consentiu, aceitou o pavoroso companheiro: + +--Vem comigo, pois, a Cabril, se Deus te manda! Mas eu nada te +pergunto e tu nada me perguntes. + +Desceu logo o cavalo à estrada, toda alumiada da lua. O enforcado seguia +ao seu lado, com passos tam ligeiros, que mesmo quando D. Rui galopava +êle se conservava rente ao estribo, como levado por um vento mudo. + +Por vezes, para respirar mais livremente, repuxava o nó da corda que lhe +enroscava o pescoço. E, quando passavam entre sebes onde errasse o aroma +de flores silvestres, o homem murmurava com infinito alívio e delícia: + +--Como é bom correr! + +D. Rui ia num assombro, num tormentoso cuidado. Bem compreendia agora +que era aquele um cadáver reanimado por Deus, para um estranho e +encoberto serviço. ¿Mas para que lhe dava Deus tam medonho companheiro? +¿Para o proteger? ¿Para impedir que D. Leonor, amada do céu pela sua +piedade, caísse em culpa mortal? ¿E, para tam divina incumbência de tam +alta mercê, já não tinha o Senhor anjos no céu, que necessitasse +empregar um supliciado?... Ah! como êle voltaria alegremente a rédea +para Segóvia, se não fôra a galante lealdade de cavaleiro, o orgulho de +nunca recuar, e a submissão às ordens de Deus, que sentia sôbre si +pesarem... + +Dum alto da estrada, de repente avistaram Cabril, as torres do convento +franciscano alvejando ao luar, os casais adormecidos entre as +hortas. Muito silenciosamente, sem que um cão ladrasse detrás das +cancelas ou de cima dos muros, desceram a vélha ponte romana. Diante do +Calvário, o enforcado caíu de joelhos nas lages, ergueu os lívidos ossos +das mãos, ficou longamente rezando, entre longos suspiros. Depois ao +entrar na azinhaga, bebeu muito tempo, e consoladamente, de uma fonte +que corria e cantava sob as frondes de um salgueiro. Como a azinhaga era +muito estreita, êle caminhava adiante do cavaleiro, todo curvado, os +braços cruzados fortemente sôbre o peito, sem um rumor. + +A lua ia alta no céu. D. Rui considerava com amargura aquele disco, +cheio e lustroso, que espargia tanta claridade, e tam indiscreta, sôbre +o seu segredo. Ah! como se estragava a noite que devia ser divina! Uma +enorme lua surdia de entre os montes para tudo alumiar. Um enforcado +descia da forca para o seguir e tudo saber. Deus assim o ordenara. Mas +que tristeza chegar à doce porta docemente prometida, com tal intruso ao +seu lado, sob aquele céu todo claro! + +Bruscamente, o enforcado estacou, erguendo o braço, de onde a manga +pendia em farrapos. Era o fim da azinhaga que desembocava em caminho +mais largo e mais batido:--e diante dêles alvejava o comprido muro da +quinta do senhor de Lara, tendo aí um mirante, com varandins de +pedra, e todo revestido de hera. + +--Senhor--murmurou o enforcado, segurando com respeito o estribo de D. +Rui--logo a poucos passos dêste mirante é a porta por onde deveis +penetrar no jardim. Convêm que aqui deixeis o cavalo, amarrado a uma +árvore, se o tendes por seguro e fiel. Que na emprêsa em que vamos, já é +de mais o rumor dos nossos pés!... + +Silenciosamente D. Rui apeou, prendeu o cavalo, que sabia fiel e seguro, +ao tronco dum álamo sêco. + +E tam submisso se tornara àquele companheiro imposto por Deus, que sem +outro reparo o foi seguindo rente do muro que o luar batia. + +Com vagarosa cautela, e na ponta dos pés nus, avançava agora o +enforcado, vigiando o alto do muro, sondando a negrura da sebe, parando +a escutar rumores que só para êle eram percebíveis--porque nunca D. Rui +conhecera noite mais fundamente adormecida e muda. + +E tal susto, em quem devia ser indiferente a perigos humanos, foi +lentamente enchendo tambêm o valoroso cavaleiro de tam viva +desconfiança, que tirava o punhal da baínha, enrodilhava a capa no +braço, e marchava em defesa, com o olhar faiscando, como num +caminho de emboscada e briga. Assim chegaram a uma porta baixa, que o +enforcado empurrou, e que se abriu sem gemer nos gonzos. Penetraram numa +rua ladeada de espessos teixos até a um tanque cheio de água, onde +boiavam fôlhas de nenúfares, e que toscos bancos de pedra circundavam, +cobertos pela rama de arbustos em flor. + +--Por ali--murmurou o enforcado, estendendo o braço mirrado. + +Era alêm do tanque, uma avenida que densas e vélhas árvores abobadavam e +escureciam. Por ela se meteram, como sombras na sombra, o enforcado +adiante, D. Rui seguindo muito subtilmente, sem roçar um ramo, mal +pisando a areia. Um leve fio de água sussurrava entre relvas. Pelos +troncos subiam rosas trepadeiras, que cheiravam docemente. O coração de +D. Rui recomeçou a bater numa esperança de amor. + +--Chut!--fez o enforcado. + +E D. Rui quási tropeçou no sinistro homem que estacava, com os braços +abertos como as traves de uma cancela. Diante dêles quatro degraus de +pedra subiam a um terraço, onde a claridade era larga e livre. +Agachados, treparam os degraus--e ao fundo dum jardim sem árvores, todo +em canteiros de flores bem recortados, orlados de buxo curto, +avistaram um lado da casa batido pela lua cheia. Ao meio, entre as +janelas de peitoril fechadas, um balcão de pedra, com manjericões aos +cantos, conservava as vidraças abertas largamente. O quarto, dentro, +apagado, era como um buraco de treva na claridade da fachada que o luar +banhava. E arrimada contra o balcão, estava uma escada com degraus de +corda. + +Então o enforcado empurrou D. Rui vivamente dos degraus para a escuridão +da avenida. E aí, com um modo urgente, dominando o cavaleiro, exclamou: + +--Senhor! Convêm agora que me deis o vosso sombreiro e a capa! Vós +quedais aqui na escuridão destas árvores. Eu vou trepar àquela escada e +espreitar para aquele quarto... E se fôr como desejais, aqui voltarei, e +com Deus sêde feliz... + +D. Rui recuou no horror de que tal criatura subisse a tal janela! + +E bateu o pé, gritou surdamente: + +--Não, por Deus! + +Mas a mão do enforcado, lívida na escuridão, bruscamente lhe arrancou o +sombreiro da cabeça, lhe puxou a capa do braço. E já se cobria, já se +embuçava, murmurando agora, numa súplica ansiosa: + +--Não mo negueis, senhor, que se vos fizer grande serviço, ganharei +grande mercê! + +E galgou os degraus:--estava no alumiado e largo terraço. + +D. Rui subiu, atontado, e espreitou. E--oh maravilha!--era êle, D. Rui, +todo êle, na figura e no modo, aquele homem que, por entre os canteiros +e o buxo curto, avançava, airoso e leve, com a mão na cintura, a face +erguida risonhamente para a janela, a longa pluma escarlate do chapéu +balançando em triunfo. O homem avançava no luar esplêndido. O quarto +amoroso lá estava esperando, aberto e negro. E D. Rui olhava, com olhos +que faiscavam, tremendo de pasmo e cólera. O homem chegara à escada: +destraçou a capa, assentou o pé no degrau de corda!--«Oh! lá sobe, o +maldito!»--rugiu D. Rui. O enforcado subia. Já a alta figura, que era +dêle, D. Rui, estava a meio da escada, toda negra contra a parede +branca. Parou!... Não! não parara: subia, chegava,--já sôbre o rebordo +da varanda pousara o joelho cauteloso. D. Rui olhava, desesperadamente, +com os olhos, com a alma, com todo o seu ser... E eis que, de repente, +do quarto negro surge um negro vulto, uma furiosa voz brada:--«vilão, +vilão!»--e uma lâmina de adaga faisca, e cai, e outra vez se ergue, e +rebrilha, e se abate, e ainda refulge, e ainda se embebe!... Como um +fardo, do alto da escada, pesadamente, o enforcado cai sôbre a terra +mole. Vidraças, portadas do balcão logo se fecham com fragor. E não +houve mais senão o silêncio, a serenidade macia, a lua muito alta e +redonda no céu de verão. + +Num relance D. Rui compreendera a traição, arrancara a espada, recuando +para a escuridão da avenida--quando, oh milagre! correndo através do +terraço, aparece o enforcado, que lhe agarra a manga e lhe grita: + +--A cavalo, senhor, e abalar, que o encontro não era de amor, mas de morte! + +Ambos descem arrebatadamente a avenida, costeiam o tanque sob o refúgio +dos arbustos em flor, metem pela rua estreita orlada de teixos, varam a +porta--e um momento param, ofegantes, na estrada, onde a lua, mais +refulgente, mais cheia, fazia como um puro dia. + +E então, só então, D. Rui descobriu que o enforcado conservava cravada +no peito, até aos copos, a adaga, cuja ponta lhe saía pelas costas, +luzidia e limpa!... Mas já o pavoroso homem o empurrava, o apressava: + +--A cavalo, senhor, e abalar, que ainda está sôbre nós a traição! + +Arrepiado, numa ânsia de findar aventura tam cheia de milagre e de +horror, D. Rui colheu as rédeas, cavalgou sôfregamente. E logo, em +grande pressa, o enforcado saltou tambêm para a garupa do cavalo fiel. +Todo se arrepiou o bom cavaleiro, ao sentir nas suas costas o roçar +daquele corpo morto, dependurado de uma forca, atravessado por uma +adaga. Com que desespêro galopou então pela estrada infindável! Em +carreira tam violenta o enforcado nem oscilava, rígido sôbre a garupa, +como um bronze num pedestal. E D. Rui a cada momento sentia um frio mais +regelado que lhe regelava os ombros, como se levasse sôbre êles um saco +cheio de gêlo. Ao passar no cruzeiro murmurou:--«Senhor, +valei-me!»--Para alêm do cruzeiro, de repente estremeceu com o quimérico +medo de que tam fúnebre companheiro para sempre o ficasse acompanhando, +e se tornasse seu destino galopar através do mundo, numa noite eterna, +levando um morto à garupa... E não se conteve, gritou para trás, no +vento da carreira que os vergastava: + +--¿Para onde quereis que vos leve? + +O enforcado, encostando tanto o corpo a D. Rui que o magoou com os copos +da adaga, segredou: + +--Senhor, convêm que me deixeis no Cêrro! + +Doce e infinito alívio para o bom cavaleiro--pois o Cêrro estava perto, +e já lhe avistava, na claridade desmaiada, os pilares e as traves +negras... Em breve estacou o cavalo que tremia, branqueado de espuma. + +Logo o enforcado, sem rumor, escorregou da garupa, segurou, como +bom serviçal, o estribo de D. Rui. E com a caveira erguida, a língua +negra mais saída de entre os dentes brancos, murmurou em respeitosa +súplica: + +--Senhor, fazei-me agora a grande mercê de me pendurar outra vez da +minha trave. + +D. Rui estremeceu de horror: + +--Por Deus! Que vos enforque, eu?... + +O homem suspirou, abrindo os braços compridos: + +--Senhor, por vontade de Deus é, e por vontade de Aquela que é mais cara +a Deus! + +Então, resignado, submisso aos mandados do Alto, D. Rui apeou--e começou +a seguir o homem, que subia para o Cêrro pensativamente, vergando o +dorso, de onde saía, espetada e luzidia, a ponta da adaga. Pararam ambos +sob a trave vazia. Em tôrno das outras traves pendiam as outras +carcassas. O silêncio era mais triste e fundo que os outros silêncios da +terra. A água da lagôa ennegrecera. A lua descia e desfalecia. + +D. Rui considerou a trave onde restava, curto no ar, o pedaço de corda +que êle cortara com a espada. + +--¿Como quereis que vos pendure?--exclamou.--Àquele pedaço de corda não +posso chegar com a mão; nem eu só basto para lá vos içar. + +--Senhor--respondeu o homem--aí a um canto deve haver um longo rôlo de +corda. Uma ponta dela ma atareis a este nó que trago no pescoço: a outra +ponta a arremessareis por cima da trave, e puxando depois, forte como +sois, bem me podereis reenforcar. + +Ambos curvados, com passos lentos, procuraram o rôlo de corda. E foi o +enforcado que o encontrou, o desenrolou... Então D. Rui descalçou as +luvas. E ensinado por êle (que tam bem o aprendera do carrasco) atou uma +ponta da corda ao laço que o homem conservava no pescoço, e arremessou +fortemente a outra ponta, que ondeou no ar, passou sôbre a trave, ficou +pendurada rente ao chão. E o rijo cavaleiro, fincando os pés, retezando +os braços, puxou, içou o homem, até êle se quedar, suspenso, negro no +ar, como um enforcado natural entre os outros enforcados. + +--Estais bem assim? + +Lenta e sumida, veio a voz do morto: + +--Senhor, estou como devo. + +Então D. Rui, para o fixar, enrolou a corda em voltas grossas ao pilar +de pedra. E tirando o sombreiro, limpando com as costas da mão o suor +que o alagava, contemplou o seu sinistro e miraculoso companheiro. +Estava já rígido como antes, com a face pendida sob as melenas caídas, +os pés inteiriçados, todo poído e carcomido como uma vélha carcassa. No +peito conservava a adaga cravada. Por cima, dois corvos dormiam +quietos. + +--¿E agora que mais quereis?--perguntou D. Rui, começando a calçar as +luvas. + +Sumidamente, do alto, o enforcado murmurou: + +--Senhor, muito vos rogo agora que, ao chegar a Segóvia, tudo conteis +fielmente a Nossa Senhora do Pilar, vossa madrinha, que dela espero +grande mercê para a minha alma, por êste serviço que, a seu mandado, vos +fez o meu corpo! + +Então, D. Rui de Cardenas tudo compreendeu--e, ajoelhando devotamente +sôbre o chão de dor e morte, rezou uma longa oração por aquele bom +enforcado. + +Depois galopou para Segóvia. A manhã clareava quando êle transpôs a +porta de S. Mauros. No ar fino os sinos claros tocavam a matinas. E +entrando na igreja de Nossa Senhora do Pilar, ainda no desalinho da sua +terrível jornada, D. Rui, de rôjo ante o altar, narrou à sua Divina +Madrinha a ruim tenção que o levara a Cabril, o socorro que do céu +recebera, e, com quentes lágrimas de arrependimento e gratidão, lhe +jurou que nunca mais poria desejo onde houvesse pecado, nem no seu +coração daria entrada a pensamento que viesse do Mundo e do Mal. + + +IV + +A essa hora, em Cabril, D. Alonso de Lara, com os olhos esbugalhados de +pasmo e terror, esquadrinhava todas as ruas e recantos e sombras do seu +jardim. + +Quando ao alvorecer, depois de escutar à porta da câmara onde nessa +noite encerrara D. Leonor, êle descera subtilmente ao jardim e não +encontrara, debaixo do balcão, rente à escada, como deliciosamente +esperava, o corpo de D. Rui de Cardenas, teve por certo que o homem +odioso, ao tombar, ainda com um resto débil de vida, se arrastara +sangrando e arquejando, na tentativa de alcançar o cavalo e abalar de +Cabril... Mas, com aquela rija adaga que êle três vezes lhe enterrara no +peito, e que no peito lhe deixara, não se arrastaria o vilão por muitas +jardas, e nalgum canto devia jazer frio e inteiriçado. Rebuscou então +cada rua, cada sombra, cada maciço de arbustos. E--maravilhoso +caso!--não descobria o corpo, nem pègadas, nem terra que houvesse sido +remexida, nem sequer rasto de sangue sôbre a terra! E todavia, com mão +certeira e faminta de vingança, três vezes êle lhe embebera a adaga +no peito, e no peito lha deixara! + +E era Rui de Cardenas o homem que êle matara--que muito bem o conhecera +logo, do fundo apagado do quarto de onde espreitava, quando êle, à +claridade da lua, veio através do terraço, confiado, ligeiro, com a mão +na cintura, a face risonhamente erguida e a pluma do sombreiro meneando +em triunfo! ¿Como podia ser cousa tam rara--um corpo mortal sobrevivendo +a um ferro, que três vezes lhe vara o coração e no coração lhe fica +cravado? E a maior raridade era que nem no chão, debaixo da varanda, +onde corria ao longo do muro uma tira de goivos e cecêns, deixara um +vestígio aquele corpo forte, caíndo de tam alto pesadamente, +inertemente, como um fardo! Nem uma flor machucada--todas direitas, +viçosas, como novas, com gotas leves de orvalho! Imóvel de espanto, +quási de terror, D. Alonso de Lara ali parava, considerando o balcão, +medindo a altura da escada, olhando esgazeadamente os goivos direitos, +frescos, sem uma haste ou fôlha vergada. Depois recomeçava a correr +loucamente o terraço, a avenida, a rua de teixos, na esperança ainda +duma pègada, dum galho partido, de uma nódoa de sangue na areia fina. + +Nada! Todo o jardim oferecia um desusado arranjo e limpeza nova, como se +sôbre êle nunca houvesse passado nem o vento que desfolha, nem o +sol que murcha. + +Então, ao entardecer, devorado pela incerteza e mistério, tomou um +cavalo e, sem escudeiro ou cavalariço, partiu para Segóvia. Curvada e +escondidamente, como um foragido, penetrou no seu palácio pela porta do +pomar: e o seu primeiro cuidado foi correr à galeria de abóbada, +destrancar as portadas da janela e espreitar ávidamente a casa de D. Rui +de Cardenas. Todas as gelosias da vélha morada do arcediago estavam +escuras, abertas, respirando a fresquidão da noite:--e à porta, sentado +num banco de pedra, um môço de cavalariça afinava preguiçosamente a +bandurra. + +D. Alonso de Lara desceu à sua câmara, lívido, pensando que não houvera +certamente desgraça em casa onde todas as janelas se abrem para +refrescar, e no portão da rua os moços folgam. Então bateu as palmas, +pediu furiosamente a ceia. E, apenas sentado, ao tôpo da mesa, na sua +alta séde de couro lavrado, mandou chamar o intendente, a quem ofereceu +logo com estranha familiaridade um copo de vinho vélho. Emquanto o +homem, de pé, bebia respeitosamente, D. Alonso, metendo os dedos pelas +barbas e forçando a sua sombria face a sorrir, perguntava pelas novas e +rumores de Segóvia. ¿Nesses dias da sua estada em Cabril, nenhum +caso criara pela cidade espanto e murmuração?... O intendente limpou os +beiços, para afirmar que nada ocorrera em Segóvia de que andasse +murmuração, a não ser que a filha do senhor D. Gutierres, tam môça e tam +rica herdeira, tomara o véu no convento das Carmelitas Descalças. D. +Alonso insistia, fitando vorazmente o intendente. ¿E não se travara uma +grande briga?... ¿não se encontrara ferido, na estrada de Cabril, um +cavaleiro môço, muito falado?... O intendente encolhia os ombros: nada +ouvira, pela cidade, de brigas ou de cavaleiros feridos. Com um acêno +desabrido D. Alonso despediu o intendente. + +Apenas ceara, parcamente, logo voltou à galeria a espreitar as janelas +de D. Rui. Estavam agora cerradas; na última, da esquina, tremeluzia uma +claridade. Toda a noite D. Alonso velou, remoendo incansavelmente o +mesmo espanto. ¿Como pudera escapar aquele homem, com uma adaga +atravessada no coração? Como pudera?... Ao luzir da manhã, tomou uma +capa, um largo sombreiro, desceu ao adro, todo embuçado e encoberto, e +ficou rondando por diante da casa de D. Rui. Os sinos tocaram a matinas. +Os mercadores, com os gibões mal abotoados, saíam a erguer as portadas +das lojas, a pendurar as taboletas. Já os hortelões, picando os burros +carregados de ceiras, atiravam os pregões de hortaliça fresca, e +frades descalços, com o alforge aos ombros, pediam esmola, benziam as +moças. + +Beatas embiocadas, com grossos rosários negros, enfiavam gulosamente +para a igreja. Depois o pregoeiro da cidade, parando a um canto do adro, +tocou uma buzina, e numa voz tremenda começou a ler um edital. + +O senhor de Lara, parara junto do chafariz, pasmado, como embebido no +cantar das três bicas de água. De repente pensou que aquele edital, lido +pelo pregoeiro da cidade, se referia talvez a D. Rui, ao seu +desaparecimento... Correu à esquina do adro--mas já o homem enrolara o +papel, se afastava majestosamente, batendo nas lages com a sua vara +branca. E, quando se voltava para espiar de novo a casa, eis que os seus +olhos atónitos encontram D. Rui, D. Rui que êle matara--e que vinha +caminhando para a igreja de Nossa Senhora, ligeiro, airoso, a face +risonha e erguida no fresco ar da manhã, de gibão claro, de plumas +claras, com uma das mãos pousando na cinta, a outra meneando +distraídamente um bastão com borlas de torçal de oiro! + +D. Alonso recolheu então a casa com passos arrastados e envelhecidos. No +alto da escadaria de pedra, achou o seu vélho capelão, que o viera +saùdar, e que, penetrando com êle na ante-câmara, depois de pedir, com +reverência, novas da senhora D. Leonor, lhe contou logo dum +prodigioso caso que causava pela cidade grave murmuração e espanto. Na +véspera, de tarde, indo o corregedor visitar o cêrro das forcas, pois se +acercava a festa dos Santos Apóstolos, descobrira, com muito pasmo e +muito escândalo, que um dos enforcados tinha uma adaga cravada no peito! +¿Fôra gracejo de um pícaro sinistro? ¿Vingança que nem a morte +saciara?... E para maior prodígio ainda, o corpo fôra despendurado da +forca, arrastado em horta ou jardim (pois que prêsas aos vélhos farrapos +se encontraram fôlhas tenras) e depois novamente enforcado e com corda +nova!... E assim ia a turbulência dos tempos, que nem os mortos se +furtavam a ultrajes! + +D. Alonso escutava com as mãos a tremer, os pêlos arrepiados. E +imediatamente, numa ansiosa agitação, bradando, tropeçando contra as +portas, quis partir, e por seus olhos verificar a fúnebre profanação. Em +duas mulas ajaezadas à pressa, ambos abalaram para o Cêrro dos +Enforcados, êle e o capelão arrastado e aturdido. Numeroso povo de +Segóvia se ajuntara já no Cêrro, pasmando para o maravilhoso horror--o +morto que fôra morto!... Todos se arredaram ante o nobre senhor de Lara, +que arremessando-se pelo cabeço acima, estacara a olhar, esgazeado e +lívido, para o enforcado e para a adaga que lhe varava o peito. Era +a sua adaga:--fôra êle que matara o morto! + +Galopou espavoridamente para Cabril. E aí se encerrou com o seu segredo, +começando logo a amarelecer, a definhar, sempre arredado da senhora D. +Leonor, escondido pelas ruas sombrias do jardim, murmurando palavras ao +vento, até que na madrugada de S. João uma serva, que voltava da fonte +com a sua bilha, o encontrou morto, por baixo do balcão de pedra, todo +estirado no chão, com os dedos encravados no canteiro de goivos, onde +parecia ter longamente esgravatado a terra, a procurar... + + +V + +Para fugir a tam lamentáveis memórias, a senhora D. Leonor, herdeira de +todos os bens da casa de Lara, recolheu ao seu palácio de Segóvia. Mas +como agora sabia que o senhor D. Rui de Cardenas escapara +miraculosamente à emboscada de Cabril, e como cada manhã, espreitando de +entre as gelosias, meio cerradas, o seguia, com olhos que se não +fartavam e se humedeciam, quando êle cruzava o adro para entrar na +igreja, não quis ela, com receio das pressas e impaciências do seu +coração, visitar a Senhora do Pilar emquanto durasse o seu luto. Depois, +uma manhã de domingo, quando, em vez de crepes negros, se poude cobrir +de sêdas roxas, desceu a escadaria do seu palácio, pálida de uma emoção +nova e divina, pisou as lages do adro, transpôs as portas da igreja. D. +Rui de Cardenas estava ajoelhado diante do altar, onde depusera o seu +ramo votivo de cravos amarelos e brancos. Ao rumor das sêdas finas, +ergueu os olhos com uma esperança muito pura e toda feita de graça +celeste, como se um anjo o chamasse. D. Leonor ajoelhou, com o peito a +arfar, tam pálida e tam feliz que a cera das tochas não era mais pálida, +nem mais felizes as andorinhas que batiam as asas livres pelas ogivas da +vélha igreja. + +Ante êsse altar, e de joelhos nessas lages, foram eles casados pelo +bispo de Segóvia, D. Martinho, no outono do ano da Graça de 1475, sendo +já reis de Castela Isabel e Fernando, muito fortes e muito católicos, +por quem Deus operou grandes feitos sôbre a terra e sôbre o mar. + + + + +JOSE MATIAS + + +Linda tarde, meu amigo!... Estou esperando o entêrro do José Matias--do +José Matias de Albuquerque, sobrinho do Visconde de Garmilde... O meu +amigo certamente o conheceu--um rapaz airoso, louro como uma espiga, com +um bigode crespo de paladino sôbre uma bôca indecisa de contemplativo, +déstro cavaleiro, duma elegância sóbria e fina. E espírito curioso, +muito afeiçoado às ideas gerais, tam penetrante que compreendeu a minha +_Defesa da Filosofia Hegeliana_! Esta imagem do José Matias data de +1865: porque a derradeira vez que o encontrei, numa tarde agreste de +Janeiro, metido num portal da rua de S. Bento, tiritava dentro duma +quinzena côr de mel, roída nos cotovelos, e cheirava abominavelmente a +aguardente. + +Mas o meu amigo, numa ocasião que o José Matias parou em Coímbra, +recolhendo do Pôrto, ceou com êle, no Paço do Conde! Até o Craveiro, que +preparava as _Ironias e Dores de Satan_, para acirrar mais a briga entre +a Escola Purista e a Escola Satânica, recitou aquele seu soneto, de tam +fúnebre idealismo: _Na jaula do meu peito, o coração_... E ainda lembro +o José Matias, com uma grande gravata de setim preto tufada entre o +colete de linho branco, sem despegar os olhos das velas das serpentinas, +sorrindo pálidamente àquele coração que rugia na sua jaula... Era uma +noite de Abril, de lua cheia. Passeamos depois em bando, com guitarras, +pela Ponte e pelo Choupal. O Januário cantou ardentemente as endechas +românticas do nosso tempo: + + Ontem de tarde, ao sol posto, + Contemplavas, silenciosa, + A torrente caudalosa + Que refervia a teus pés... + +E o José Matias, encostado ao parapeito da Ponte, com a alma e os olhos +perdidos na lua!--¿Porque não acompanha o meu amigo êste môço +interessante ao Cemitério dos Prazeres? Eu tenho uma tipóia, de praça e +com número, como convêm a um Professor de filosofia... O quê! ¿Por causa +das calças claras? Oh! meu caro amigo! De todas as materializações +da simpatia, nenhuma mais grosseiramente material do que a casimira +preta. E o homem que nós vamos enterrar era um grande espiritualista! + +Vem o caixão saíndo da Igreja... Apenas três carruagens para o +acompanhar. Mas realmente, meu caro amigo, o José Matias morreu há seis +anos, no seu puro brilho. Êsse, que aí levamos, meio decomposto, dentro +de tábuas agaloadas de amarelo, é um resto de bêbedo, sem história e sem +nome, que o frio de Fevereiro matou no vão dum portal. + +¿O sujeito de óculos de oiro, dentro do copé?... Não conheço, meu amigo. +Talvez um parente rico, dêsses que aparecem nos enterros, com o +parentesco correctamente coberto de fumo, quando o defunto já não +importuna, nem compromete. O homem obeso de carão amarelo, dentro da +vitória, é o Alves _Capão_, que tem um jornal onde desgraçadamente a +Filosofia não abunda, e que se chama a _Piada_. ¿Que relações o prendiam +ao Matias?... Não sei. Talvez se embebedassem nas mesmas tascas; talvez +o José Matias últimamente colaborasse na _Piada_; talvez debaixo daquela +gordura e daquela literatura, ambas tam sórdidas, se abrigue uma alma +compassiva. Agora é a nossa tipóia... ¿Quer que desça a vidraça? Um +cigarro?... Eu trago fósforos. Pois êste José Matias foi um homem +desconsolador para quem, como eu, na vida ama a evolução lógica e +pretende que a espiga nasça coerentemente do grão. Em Coímbra sempre o +consideramos como uma alma escandalosamente banal. Para êste juizo +concorria talvez a sua horrenda correcção. Nunca um rasgão brilhante na +batina! nunca uma poeira estouvada nos sapatos! nunca um pêlo rebelde do +cabelo ou do bigode fugindo daquele rígido alinho que nos desolava! Alêm +disso, na nossa ardente geração, êle foi o único intelectual que não +rugiu com as misérias da Polónia; que leu sem palidez ou pranto as +_Contemplações_; que permaneceu insensível ante a ferida de Garibaldi! E +todavia, nesse José Matias, nenhuma secura ou dureza ou egoismo ou +desafabilidade! Pelo contrário! Um suave camarada, sempre cordial, e +mansamente risonho. Toda a sua inabalável quietação parecia provir duma +imensa superficialidade sentimental. E, nesse tempo, não foi sem razão e +propriedade que nós alcunhamos aquele môço tam macio, tam louro e tam +ligeiro, de _Matias-Coração-de-Esquilo_. Quando se formou, como lhe +morrera o pai, depois a mãe, delicada e linda senhora de quem herdara +cincoenta contos, partiu para Lisboa, alegrar a solidão dum tio que o +adorava, o general Visconde de Garmilde. O meu amigo sem dúvida se +lembra dessa perfeita estampa de general clássico, sempre de bigodes +terríficamente encerados, as calças côr de flor de alecrim +desesperadamente esticadas pelas presilhas sôbre as botas coruscantes, e +o chicote debaixo do braço com a ponta a tremer, ávida de vergastar o +Mundo! Guerreiro grotesco e deliciosamente bom... O Garmilde morava +então em Arroios, numa casa antiga de azulejos, com um jardim, onde êle +cultivava apaixonadamente canteiros soberbos de dálias. Êsse jardim +subia muito suavemente até ao muro coberto de hera que o separava de +outro jardim, o largo e belo jardim de rosas do Conselheiro Matos +Miranda, cuja casa, com um arejado terraço entre dois torreõsinhos +amarelos, se erguia no cimo do outeiro e se chamava a casa da +«Parreira». O meu amigo conhece (pelo menos de tradição, como se conhece +Helena de Troia ou Inês de Castro) a formosa Elisa Miranda, a Elisa da +Parreira... Foi a sublime beleza romântica de Lisboa, nos fins da +Regeneração. Mas realmente Lisboa apenas a entrevia pelos vidros da sua +grande caleche, ou nalguma noite de iluminação do Passeio Público entre +a poeira e a turba, ou nos dois bailes da Assembleia do Carmo de que o +Matos Miranda era um director venerado. Por gôsto borralheiro de +provinciana, ou por pertencer àquela burguesia séria que nesses +tempos, em Lisboa, ainda conservava os antigos hábitos severamente +encerrados, ou por imposição paternal do marido, já diabético e com +sessenta anos--a Deusa raramente emergia de Arroios e se mostrava aos +mortais. Mas quem a viu, e com facilidade constante, quási +irremediavelmente, logo que se instalou em Lisboa, foi o José +Matias--porque, jazendo o palacete do general na falda da colina, aos +pés do jardim e da casa da Parreira, não podia a divina Elisa assomar a +uma janela, atravessar o terraço, colhêr uma rosa entre as ruas de buxo, +sem ser deliciosamente visível, tanto mais que nos dois jardins +assoalhados nenhuma árvore espalhava a cortina da sua rama densa. O meu +amigo de-certo trauteou, como todos trauteamos, aqueles versos gastos, +mas imortais: + + Era no outono, quando a imagem tua + Á luz da lua... + +Pois, como nessa estrofe, o pobre José Matias, ao regressar da praia da +Ericeira em outubro, no outono, avistou Elisa Miranda, uma noite no +terraço, à luz da lua! O meu amigo nunca contemplou aquele precioso tipo +de encanto Lamartiniano. Alta, esbelta, ondulosa, digna da comparação +bíblica da palmeira ao vento. Cabelos negros, lustrosos e ricos, em +bandós ondeados. Uma carnação de camélia muito fresca. Olhos negros, +líquidos, quebrados, tristes, de longas pestanas... Ah! meu amigo, até +eu, que já então laboriosamente anotava Hegel, depois de a encontrar +numa tarde de chuva esperando a carruagem à porta do Seixas, a adorei +durante três exaltados dias e lhe rimei um soneto! Não sei se o José +Matias lhe dedicou sonetos. Mas todos nós, seus amigos, percebemos logo +o forte, profundo, absoluto amor que concebera, desde a noite de outono, +à luz da lua, aquele coração, que em Coímbra considerávamos de _esquilo_! + +Bem compreende que homem tam comedido e quieto não se exalou em suspiros +públicos. Já, porêm, no tempo de Aristóteles, se afirmava que amor e +fumo não se escondem; e do nosso cerrado José Matias o amor começou logo +a escapar, como o fumo leve através das fendas invisíveis duma casa +fechada que arde terrívelmente. Bem me recordo duma tarde que o visitei +em Arroios, depois de voltar do Alentejo. Era um domingo de Julho. Êle +ia jantar com uma tia-avó, uma D. Mafalda Noronha, que vivia em Bemfica, +na quinta dos Cedros, onde habitualmente jantavam tambêm aos domingos o +Matos Miranda e a divina Elisa. Creio mesmo que só nessa casa ela e o +José Matias se encontravam, sobretudo com as facilidades que +oferecem pensativas alamedas e retiros de sombra. As janelas do quarto +do José Matias abriam sôbre o seu jardim e sôbre o jardim dos Mirandas: +e, quando entrei, êle ainda se vestia, lentamente. Nunca admirei, meu +amigo, face humana aureolada por felicidade mais segura e serena! Sorria +iluminadamente quando me abraçou, com um sorriso que vinha das +profundidades da alma iluminada; sorria ainda deliciadamente emquanto eu +lhe contei todos os meus desgostos no Alentejo: sorriu depois +estáticamente, aludindo ao calor e enrolando um cigarro distraído; e +sorriu sempre, enlevado, a escolher na gaveta da cómoda, com escrúpulo +religioso, uma gravata de sêda branca. E a cada momento, +irresistivelmente, por um hábito já tam inconsciente como o pestanejar, +os seus olhos risonhos, calmamente enternecidos, se voltavam para as +vidraças fechadas... De sorte que, acompanhando aquele raio ditoso, logo +descobri, no terraço da casa da Parreira, a divina Elisa, vestida de +claro, com um chapéu branco, passeando preguiçosamente, calçando +pensativamente as luvas, e espreitando tambêm as janelas do meu amigo, +que um lampejo oblíquo do sol ofuscava de manchas de oiro. O José Matias +no entanto conversava, antes murmurava, através do sorriso perene, +coisas afáveis e dispersas. Toda a sua atenção se concentrara +diante do espelho, no alfinete de coral e pérola para prender a gravata, +no colete branco que abotoava e ajustava com a devoção com que um padre +novo, na exaltação cândida da primeira missa, se reveste da estola e do +amito para se acercar do altar. Nunca eu vira um homem deitar, com tam +profundo êxtasi, água de Colónia no lenço! E depois de enfiar a +sobrecasaca, de lhe espetar uma soberba rosa, foi com inefável emoção, +sem reter um delicioso suspiro, que abriu largamente, solenemente, as +vidraças! _Introibo ad altarem Deæ!_ Eu permaneci discretamente +enterrado no sofá. E, meu caro amigo, acredite! invejei aquele homem à +janela, imóvel, hirto na sua adoração sublime, com os olhos, e a alma, e +todo o ser cravados no terraço, na branca mulher calçando as luvas +claras, e tam indiferente ao Mundo como se o Mundo fôsse apenas o +ladrilho que ela pisava e cobria com os pés! + +E êste enlêvo, meu amigo, durou dez anos, assim esplêndido, puro, +distante e imaterial! Não ria... De-certo se encontravam na quinta de D. +Mafalda: de-certo se escreviam, e transbordantemente, atirando as cartas +por cima do muro que separava os dois quintais: mas nunca, por cima das +heras dêsse muro, procuraram a rara delícia duma conversa roubada ou a +delícia ainda mais perfeita dum silêncio escondido na sombra. E +nunca trocaram um beijo... Não duvide! Algum apêrto de mão fugidio e +sôfrego, sob os arvoredos da D. Mafalda, foi o limite exaltadamente +extremo, que a vontade lhes marcou ao desejo. O meu amigo não compreende +como se mantiveram assim dois frágeis corpos, durante dez anos, em tam +terrível e mórbido renunciamento... Sim, de-certo lhes faltou, para se +perderem, uma hora de segurança ou uma portinha no muro. Depois a divina +Elisa vivia realmente num mosteiro, em que ferrolhos e grades eram +formados pelos hábitos rígidamente reclusos do Matos Miranda, diabético +e tristonho. Mas, na castidade dêste amor, entrou muita nobreza moral e +finura superior de sentimento. O amor espiritualiza o homem--e +materializa a mulher. Essa espiritualização era fácil ao José Matias, +que (sem nós desconfiarmos) nascera desvairadamente espiritualista; mas +a humana Elisa encontrou tambêm um gôzo delicado nessa ideal adoração de +monge, que nem ousa roçar, com os dedos trémulos e embrulhados no +rozário, a túnica da Virgem sublimada. Êle, sim! êle gozou nesse amor +transcendentemente desmaterializado um encanto sobreumano. E durante dez +anos, como o Ruy-Blas do vélho Hugo, caminhou, vivo e deslumbrado, +dentro do seu sonho radiante, sonho em que Elisa habitou realmente +dentro da sua alma, numa fusão tam absoluta que se tornou consubstancial +com o seu ser! ¿Acreditará o meu amigo que êle abandonou o charuto, +mesmo passeando solitariamente a cavalo pelos arredores de Lisboa, logo +que descobrira na quinta de D. Mafalda, uma tarde, que o fumo perturbava +Elisa? + +E esta presença real da divina criatura no seu ser criou no José Matias +modos novos, estranhos, derivando da alucinação. Como o Visconde de +Garmilde jantava cedo, à hora vernácula do Portugal antigo, José Matias +ceava, depois de S. Carlos, naquele delicioso e saudoso Café Central, +onde o linguado parecia frito no céu, e o Colares no céu engarrafado. +Pois nunca ceava sem serpentinas profusamente acesas e a mesa juncada de +flores. Porque? Porque Elisa tambêm ali ceava invisível. Daí êsses +silêncios banhados num sorriso religiosamente atento... Porque? Porque a +estava sempre escutando! Ainda me lembro dêle arrancar do quarto três +gravuras clássicas de Faunos ousados e Ninfas rendidas... Elisa pairava +idealmente naquele ambiente; e êle purificava as paredes, que mandou +forrar de sêdas claras. O amor arrasta ao luxo, sobretudo amor de tam +elegante idealismo: e o José Matias prodigalizou com esplendor o luxo +que ela partilhava. Decentemente não podia andar com a imagem de +Elisa numa tipóia de praça, nem consentir que a augusta imagem roçasse +pelas cadeiras de palhinha da plateia de S. Carlos. Montou, portanto, +carruagens dum gôsto sóbrio e puro: e assinou um camarote na Ópera, onde +instalou, para ela, uma poltrona pontifical, de setim branco, bordado a +êstrelas de oiro. + +Alêm disso como descobrira a generosidade de Elisa, logo se tornou +congénere e suntuosamente generoso: e ninguêm existiu então em Lisboa +que espalhasse, com facilidade mais risonha, notas de cem mil réis. +Assim desbaratou, rápidamente, sessenta contos com o amor daquela mulher +a quem nunca déra uma flor! + +¿E, durante êsse tempo, o Matos Miranda? Meu amigo, o bom Matos Miranda +não desmanchava nem a perfeição, nem a quietação desta felicidade! ¿Tam +absoluto seria o espiritualismo do José Matias que apenas se +interessasse pela alma de Elisa, indiferente às submissões do seu corpo, +invólucro inferior e mortal?... Não sei. Verdade seja! aquele digno +diabético, tam grave, sempre de cachené de lã escura, com as suas suíças +grisalhas, os seus ponderosos óculos de oiro, não sugeria ideas +inquietadoras de marido ardente, cujo ardor, fatalmente e +involuntariamente, se partilha e abrasa. Todavia nunca compreendi, +eu, Filósofo, aquela consideração, quási carinhosa, do José Matias pelo +homem que, mesmo desinteressadamente, podia por direito, por costume, +contemplar Elisa desapertando as fitas da saia branca!... ¿Haveria ali +reconhecimento por o Miranda ter descoberto numa remota rua de Setúbal +(onde José Matias nunca a descortinaria) aquela divina mulher, e por a +manter em confôrto, sólidamente nutrida, finamente vestida, transportada +em caleches de macias molas? ¿Ou recebera o José Matias aquela costumada +confidência--«não sou tua, nem dêle»--que tanto consola do sacrifício +porque tanto lisonjeia o egoismo?... Não sei. Mas com certeza, êste seu +magnânimo desdêm pela presença corporal do Miranda no templo, onde +habitava a sua Deusa, dava à felicidade de José Matias uma unidade +perfeita, a unidade dum cristal que por todos os lados rebrilha, +igualmente puro, sem arranhadura ou mancha. E esta felicidade, meu +amigo, durou dez anos... Que escandaloso luxo para um mortal! + +Mas um dia, a terra, para o José Matias, tremeu toda, num terramoto de +incomparável espanto. Em Janeiro ou Fevereiro de 1871, o Miranda, já +debilitado pela diabetes, morreu com uma pneumonia. Por estas mesmas +ruas, numa pachorrenta tipóia de praça, acompanhei o seu entêrro +numeroso, rico, com Ministros, porque o Miranda pertencia às +Instituições. E depois, aproveitando a tipóia, visitei o José Matias em +Arroios, não por curiosidade perversa, nem para lhe levar felicitações +indecentes, mas para que, naquele lance deslumbrador, êle sentisse ao +lado a fôrça moderadora da Filosofia... Encontrei porêm com êle um amigo +mais antigo e confidencial, aquele brilhante Nicolau da Barca, que já +conduzi tambêm a êste cemitério, onde agora jazem, debaixo de lápides, +todos aqueles camaradas com quem levantei castelos nas nuvens... O +Nicolau chegara da Velosa, da sua quinta de Santarêm, de madrugada, +reclamado por um telegrama do Matias. Quando entrei, um criado atarefado +arranjava duas malas enormes. O José Matias abalava nessa noite para o +Pôrto. Já envergara mesmo um fato de viagem, todo negro, com sapatos de +couro amarelo: e depois de me sacudir a mão, emquanto o Nicolau remexia +um grog, continuou vagando pelo quarto, calado, como embaçado, com um +modo que não era emoção, nem alegria púdicamente disfarçada, nem +surprêsa do seu destino bruscamente sublimado. Não! se o bom Darwin nos +não ilude no seu livro da _Expressão das Emoções_, o José Matias, nessa +tarde, só sentia e só exprimia embaraço! Em frente, na casa da Parreira, +todas as janelas permaneciam fechadas sob a tristeza da tarde +cinzenta. E todavia surpreendi o José Matias atirando para o terraço, +rápidamente, um olhar em que transparecia inquietação, ansiedade, quasi +terror! Como direi? Aquele é o olhar que se resvala para a jaula mal +segura onde se agita uma leôa! Num momento em que êle entrara na alcova, +murmurei ao Nicolau, por cima do grog:--«O Matias faz perfeitamente em +ir para o Pôrto...» Nicolau encolheu os ombros:--«Sim, pensou que era +mais delicado... Eu aprovei. Mas só durante os meses de luto pesado...» +Às sete horas acompanhamos o nosso amigo à estação de Santa Apolónia. Na +volta, dentro do copé que uma grande chuva batia, filosofamos. Eu sorria +contente:--«Um ano de luto, e depois muita felicidade e muitos filhos... +É um poema acabado!»--O Nicolau acudiu sério:--«E acabado numa deliciosa +e suculenta prosa. A divina Elisa fica com toda a sua divindade e a +fortuna do Miranda, uns dez ou dôze contos de renda... Pela primeira vez +na nossa vida contemplamos, tu e eu, a virtude recompensada!» + + +Meu caro amigo! os meses cerimoniais de luto passaram, depois outros, e +José Matias não se arredou do Pôrto. Nesse Agosto o encontrei eu +instalado fundamentalmente no Hotel Francfort, onde entretinha a +melancolia dos dias abrasados, fumando (porque voltara ao tabaco), lendo +romances de Júlio Verne, e bebendo cerveja gelada até que a tarde +refrescava e êle se vestia, se perfumava, se floria para jantar na Foz. + +E a-pesar de se acercar o bemdito remate do luto e da desesperada +espera, não notei no José Matias nem alvoroço elegantemente reprimido, +nem revolta contra a lentidão do tempo, vélho por vezes tam moroso e +trôpego... Pelo contrário! Ao sorriso de radiosa certeza, que nesses +anos o iluminara com um nimbo de beatitude, sucedera a seriedade +carregada, toda em sombra e rugas, de quem se debate numa dúvida +irresolúvel, sempre presente, roedora e dolorosa. ¿Quer que lhe diga? +Nesse verão, no Hotel Francfort, sempre me pareceu que o José Matias, a +cada instante da sua vida acordada, mesmo emborcando a fresca cerveja, +mesmo calçando as luvas ao entrar para a caleche que o levava à Foz, +angustiadamente perguntava à sua consciência:--«Que hei-de fazer? Que +hei-de fazer?»--E depois, uma manhã, ao almôço, realmente me assombrou, +exclamando ao abrir o jornal, com um assomo de sangue na face: «O quê! +Já são 29 de Agosto? Santo Deus... Já o fim de Agosto!...» + +Voltei a Lisboa, meu amigo. O inverno passou, muito sêco e muito azul. +Eu trabalhei nas minhas _Origens do Utilitarismo_. Um domingo, no Rocio, +quando já se vendiam cravos nas tabacarias, avistei dentro dum copé a +divina Elisa, com plumas roxas no chapéu. E nessa semana encontrei no +meu _Diário Ilustrado_ a notícia curta, quási tímida, do casamento da +Snr.ª D. Elisa Miranda... ¿Com quem, meu amigo?--Com o conhecido +propriétário, o Snr. Francisco Tôrres Nogueira!... + +O meu amigo cerrou aí o punho, e bateu na coxa espantado. Eu tambêm +cerrei os punhos ambos, mas para os levantar ao Céu onde se julgam os +feitos da Terra, e clamar furiosamente, aos urros, contra a falsidade, a +inconstância ondeante e pérfida, toda a enganadora torpeza das mulheres, +e daquela especial Elisa cheia de infâmia entre as mulheres! Atraiçoar à +pressa, atabalhoadamente, apenas findara o luto negro, aquele nobre, +puro, intelectual Matias! e o seu amor de dez anos, submisso e sublime!... + +E depois de apontar os punhos para o Céu ainda os apertava na cabeça, +gritando:--«Mas porquê? porquê?»--Por amor? Durante anos ela amara +enlevadamente êste môço, e dum amor que se não desiludira nem se +fartara, porque permanecia suspenso, imaterial, insatisfeito. Por +ambição? Tôrres Nogueira era um ocioso amável como José Matias, e +possuia em vinhas hipotecadas os mesmos cincoenta ou sessenta contos que +o José Matias herdara agora do tio Garmilde em terras excelentes e +livres. Então porquê? Certamente porque os grossos bigodes negros do +Tôrres Nogueira apeteciam mais à sua carne, do que o buço louro e +pensativo do José Matias! Ah! bem ensinara S. João Crisólogo que a +mulher é um monturo de impureza, erguido à porta do Inferno! + +Pois, meu amigo, quando eu assim rugia, encontro uma tarde na rua do +Alecrim o nosso Nicolau da Barca, que salta da tipóia, me empurra para +um portal, agarra excitadamente no meu pobre braço, e exclama +engasgado:--«Já sabes? Foi o José Matias que recusou! Ela escreveu, +esteve no Pôrto, chorou... Êle nem consentiu em a ver! Não quis casar, +não quer casar!» Fiquei trespassado.--«E então ela...»--«Despeitada, +fortemente cercada pelo Tôrres, cansada da viuvice, com aqueles bélos +trinta anos em botão, que diabo! coitada, casou!» Eu ergui os braços até +a abóbada do pátio:--«¿Mas então êsse sublime amor do José Matias?». O +Nicolau, seu íntimo e confidente, jurou com irrecusável segurança:--«É o +mesmo sempre! Infinito, absoluto... Mas não quer casar!»--Ambos nos +olhamos, e depois ambos nos separamos, encolhendo os ombros, com +aquele assombro resignado que convêm a espíritos prudentes perante o +Incognoscível. Mas eu, Filósofo, e portanto espírito imprudente, toda +essa noite esfuraquei o acto do José Matias com a ponta duma Psicologia +que expressamente aguçara:--e já de madrugada, estafado, concluí, como +se conclui sempre em Filosofia, que me encontrava diante duma Causa +Primária, portanto impenetrável, onde se quebraria, sem vantagem para +êle, para mim, ou para o Mundo, a ponta do meu Instrumento! + +Depois a divina Elisa casou e continuou habitando a Parreira com o seu +Tôrres Nogueira, no confôrto e sossêgo que já gozara com o seu Matos +Miranda. No meado do verão José Matias recolheu do Pôrto a Arroios, ao +casarão do tio Garmilde, onde reocupou os seus antigos quartos, com as +varandas para o jardim, já florido de dálias que ninguêm tratava. Veio +Agosto, como sempre em Lisboa silencioso e quente. Aos domingos José Matias +jantava com D. Mafalda de Noronha, em Bemfica, solitariamente--porque o +Tôrres Nogueira não conhecia aquela venerada senhora da Quinta dos Cedros. +A divina Elisa, com vestidos claros, passeava à tarde no jardim entre as +roseiras. De sorte que a única mudança, naquele doce canto de Arroios, +parecia ser o Matos Miranda no seu belo jazigo dos Prazeres, todo de +mármore--e o Tôrres Nogueira no leito excelente de Elisa. + +Havia, porêm, uma tremenda e dolorosa mudança--a do José Matias! +¿Adivinha o meu amigo como êsse desgraçado consumia os seus estéreis +dias? Com os olhos, e a memória, e a alma, e todo o ser cravados no +terraço, nas janelas, nos jardins da Parreira! Mas agora não era de +vidraças largamente abertas, em aberto êxtasi, com o sorriso de segura +beatitude: era por trás das cortinas fechadas, através duma escassa +fenda, escondido, surripiando furtivamente os brancos sulcos do vestido +branco, com a face toda devastada pela angústia e pela derrota. ¿E +compreende porque sofria assim, êste pobre coração? Certamente porque +Elisa, desdenhada pelos seus braços fechados, correra logo, sem luta, +sem escrúpulos, para outros braços, mais acessíveis e prontos... Não, +meu amigo! E note agora a complicada subtileza desta paixão. O José +Matias permanecia devotamente crente de que Elisa, na profundidade da +sua alma, nesse sagrado fundo espiritual onde não entram as imposições +das conveniências, nem as decisões da razão pura, nem os ímpetos do +orgulho, nem as emoções da carne--o amava, a êle, únicamente a êle, e +com um amor que não deperecera, não se alterara, floria em todo o +seu viço, mesmo sem ser regado ou tratado, como a antiga Rosa Mística! O +que o torturava, meu amigo, o que lhe cavara longas rugas em curtos +meses, era que um homem, um macho, um bruto, se tivesse apoderado +daquela mulher que era sua! e que do modo mais santo e mais socialmente +puro, sob o patrocínio enternecido da Igreja e do Estado, lambuzasse com +os rijos bigodes negros, à farta, os divinos lábios que êle nunca ousara +roçar, na supersticiosa reverência e quási no terror da sua divindade! +Como lhe direi?... O sentimento dêste extraordinário Matias era o de um +monge, prostrado ante uma Imagem da Virgem, em transcendente +enlêvo--quando de repente um bestial sacrílego trepa ao altar, e ergue +obscenamente a túnica da Imagem! O meu amigo sorri... ¿E então o Matos +Miranda? Ah! meu amigo! êsse era diabético, e grave, e obeso, e já +existia instalado na Parreira, com a sua obesidade e a sua diabetes, +quando êle conhecera Elisa e lhe dera para sempre vida e coração. E o +Tôrres Nogueira, êsse, rompera brutalmente através do seu puríssimo +amor, com os negros bigodes, e os carnudos braços, e o rijo arranque dum +antigo pegador de toiros, e empolgara aquela mulher--a quem revelara +talvez o que é um homem! + +Mas, com os demónios! essa mulher êle a recusara, quando ela se lhe +oferecia, na frescura e na grandeza dum sentimento que nenhum desdêm +ainda ressequira ou abatera. Que quer?... É a espantosa tortuosidade +espiritual dêste Matias! Ao cabo duns meses êle _esquecera_, +positivamente _esquecera_ essa recusa afrontosa, como se fôra um leve +desencontro de interêsses materiais ou sociais, passado há meses, no +Norte, e a que a distância e o tempo dissipavam a realidade e a amargura +leve! E agora, aqui em Lisboa, com as janelas de Elisa diante das suas +janelas e as rosas dos dois jardins unidos rescendendo na sombra, a dor +presente, a dor real, era que êle amara sublimemente uma mulher, e que a +colocara entre as estrêlas para mais pura adoração, e que um bruto +moreno, de bigodes negros, arrancara essa mulher de entre as estrêlas e +a arremessara para a cama! + +¿Enredado caso, hein, meu amigo? Ah! muito filosofei sôbre êle, por +dever de filósofo! E concluí que o Matias era um doente, atacado de +hiper-espiritualismo, duma inflamação violenta e putrida do +espiritualismo, que receara apavoradamente as materialidades do +casamento, as chinelas, a pele pouco fresca ao acordar, um ventre enorme +durante seis meses, os meninos berrando no berço molhado... E agora +rugia de furor e tormento, porque certo materialão, ao lado, se +prontificara a aceitar Elisa em camisola de lã. Um imbecil?... Não, meu +amigo! um ultra-romântico, loucamente alheio às realidades fortes da +vida, que nunca suspeitou que chinelas e cueiros sujos de meninos são +coisas de superior beleza em casa em que entre o sol e haja amor. + +¿E sabe o meu amigo o que exacerbou, mais furiosamente, êste tormento? É +que a pobre Elisa mostrava por êle o antigo amor! Que lhe parece? +Infernal, hein?... Pelo menos se não sentia o antigo amor intacto na sua +essência, forte como outrora e único, conservava pelo pobre Matias uma +irresistível curiosidade e repetia os gestos dêsse amor... Talvez fôsse +apenas a fatalidade dos jardins vizinhos! Não sei. Mas logo desde +Setembro, quando o Tôrres Nogueira partiu para as suas vinhas de +Carcavelos a assistir à vindima, ela recomeçou da borda do terraço, por +sôbre as rosas e as dálias abertas, aquela doce remessa de doces olhares +com que durante dez anos extasiara o coração do José Matias. + +Não creio que se escrevessem por cima do muro do jardim, como sob o +regímen paternal do Matos Miranda... O novo senhor, o homem robusto da +bigodeira negra, impunha à divina Elisa, mesmo de longe, de entre as +vinhas de Carcavelos, retraímento e prudência. E acalmada por aquele +marido, môço e forte, menos sentiria agora a necessidade de algum +encontro discreto na sombra tépida da noite, mesmo quando a sua +elegância moral e o rígido idealismo do José Matias consentissem em +aproveitar uma escada contra o muro... De resto, Elisa era +fundamentalmente honesta; e conservava o respeito sagrado do seu corpo, +por o sentir tam belo e cuidadosamente feito por Deus--mais do que da +sua alma. E quem sabe?... Talvez a adorável mulher pertencesse à bela +raça daquela marquesa italiana, a Marquesa Júlia de Malfieri, que +conservava dois amorosos ao seu doce serviço, um poeta para as +delicadezas românticas e um cocheiro para as necessidades grosseiras. + +Emfim, meu amigo, não psicologuemos mais sôbre esta viva, atrás do morto +que morreu por ela! O facto foi que Elisa e o seu amigo insensivelmente +recaíram na vélha união ideal através dos jardins em flor. E em Outubro, +como o Tôrres Nogueira continuava a vindimar em Carcavelos, o José +Matias, para contemplar o terraço da Parreira, já abria de novo as +vidraças, larga e estáticamente! + +Parece que um tam estreme espiritualista, reconquistando a idealidade do +antigo amor, devia reentrar tambêm na antiga felicidade perfeita. Êle +reinava na alma imortal de Elisa:--¿que importava que outro se ocupasse +do seu corpo mortal? Mas não! o pobre môço sofria, angustiadamente. +E, para sacudir a pungência dêstes tormentos, findou, êle tam sereno, +duma tam doce harmonia de modos, por se tornar um agitado. Ah! meu +amigo, que redemoínho e estrépito de vida! Desesperadamente, durante um +ano, remexeu, aturdiu, escandalizou Lisboa! São dêsse tempo algumas das +suas extravagâncias lendárias... ¿Conhece a da ceia?... Uma ceia +oferecida a trinta ou quarenta mulheres das mais torpes e das mais +sujas, apanhadas pelas negras vielas do Bairro-Alto e da Mouraria, que +depois mandou montar em burros, e gravemente, melancólicamente, posto na +frente, sôbre um grande cavalo branco, com um imenso chicote, conduziu +aos altos da Graça, para saudar a aparição do sol! + +Mas todo êste alarido não lhe dissipou a dor--e foi então que, nesse +inverno, começou a jogar e a beber! Todo o dia se encerrava em casa +(certamente por trás das vidraças, agora que Tôrres Nogueira regressara +das vinhas) com olhos e alma cravados no terraço fatal; depois à noite, +quando as janelas de Elisa se apagavam, saía numa tipóia, sempre a +mesma, a tipóia do _Gago_, corria à roleta do Bravo, depois ao club do +«Cavalheiro», onde jogava frenéticamente até a tardia hora de cear, num +gabinete de restaurante, com molhos de velas acesas, e o Colares, e o +Champanhe, e o Conhaque correndo em jorros desesperados. + +E esta vida, espicaçada pelas Fúrias, durou anos, sete anos! Todas as +terras que lhe deixara o tio Garmilde se foram, largamente jogadas e +bebidas: e só lhe restava o casarão de Arroios e o dinheiro apressado +porque o hipotecara. Mas, súbitamente, desapareceu de todos os antros do +vinho e de jôgo. E soubemos que o Tôrres Nogueira estava morrendo com +uma anasarca! + +Por êsse tempo, e por causa dum negócio do Nicolau da Barca que me +telegrafara ansiosamente da sua quinta de Santarêm (negócio embrulhado, +duma letra) procurei o José Matias em Arroios, às dez horas, numa noite +quente de Abril. O criado, emquanto me conduzia pelo corredor mal +alumiado, já desadornado das ricas arcas e talhas da Índia do vélho +Garmilde, confessou que S. Ex.ª não acabara de jantar... E ainda me +lembro, com um arrepio, da impressão desolada que me deu o desgraçado! +Era no quarto que abria sôbre os dois jardins. Diante duma janela, que +as cortinas de damasco cerravam, a mesa resplandecia, com duas +serpentinas, um cêsto de rosas brancas, e algumas das nobres pratas do +Garmilde: e ao lado, todo estendido numa poltrona, com o colete branco +desabotoado, a face lívida descaída sôbre o peito, um copo vazio na +mão inerte, o José Matias parecia adormecido ou morto. + +Quando lhe toquei no ombro, ergueu num sobressalto a cabeça, toda +despenteada:--«¿Que horas são?»--Apenas lhe gritei, num gesto alegre, +para o despertar, que era tarde, que eram dez, encheu precipitadamente o +copo, da garrafa mais chegada, de vinho branco, e bebeu lentamente, com +a mão a tremer, a tremer... Depois, arredando os cabelos da testa +húmida:--«¿Então que há de novo?»--Esgazeado, sem compreender, escutou, +como num sonho, o recado que lhe mandava o Nicolau. Por fim, com um +suspiro, remexeu uma garrafa de Champanhe dentro do balde em que ela +gelava, encheu outro copo, murmurando:--«Um calor... Uma sêde!...» Mas +não bebeu: arrancou o corpo pesado à poltrona de vêrga, e forçou os +passos mal firmes para a janela, a que abriu violentamente as cortinas, +depois a vidraça... E ficou hirto, como colhido pelo silêncio e escuro +sossêgo da noite estrelada. Eu espreitei, meu amigo! Na casa da Parreira +duas janelas brilhavam, fortemente alumiadas, abertas à aragem. E essa +claridade viva envolvia uma figura branca, nas longas pregas de um +roupão branco, parada à beira do terraço, como esquecida numa +contemplação. Era Elisa, meu amigo! Por trás, no fundo do quarto claro, +o marido certamente arquejava, na opressão da anasarca. Ela, +imóvel, repousava, mandando um doce olhar, talvez um sorriso, ao seu +doce amigo. O miserável, fascinado, sem respirar, sorvia o encanto +daquela visão bemfazeja. E entre êles rescendiam, na moleza da noite, +todas as flores dos dois jardins... Súbitamente Elisa recolheu, à +pressa, chamada por algum gemido ou impaciência do pobre Tôrres. E as +janelas logo se fecharam, toda a luz e vida se sumiram na casa da Parreira. + +Então José Matias, com um soluço despedaçado, de transbordante tormento, +cambaleou, tam ansiadamente se agarrou à cortina que a rasgou, e tombou +desamparado nos braços que lhe estendi, e em que o arrastei para a +cadeira, pesadamente, como a um morto ou a um bêbado. Mas, volvido um +momento, com espanto meu, o extraordinário homem descerra os olhos, +sorri num lento e inerte sorriso, murmura quási serenamente:--«É o +calor... Está um calor! ¿Você não quer tomar chá?» + +Recusei e abalei--emquanto êle, indiferente à minha fuga, estendido na +poltrona, acendia trémulamente um imenso charuto. + + +Santo Deus! já estamos em Santa Isabel! Como êstes lagóias vão +arrastando depressa o pobre José Matias para o pó e para o verme +final! Pois, meu amigo, depois dessa curiosa noite, o Tôrres Nogueira +morreu. A divina Elisa, durante o novo luto, recolheu à quinta duma +cunhada tambêm viuva, à «Côrte Moreira», ao pé de Beja. E o José Matias +inteiramente se sumiu, se evaporou, sem que me revoassem novas dêle, +mesmo incertas--tanto mais que o íntimo por quem as conheceria, o nosso +brilhante Nicolau da Barca, partira para a ilha da Madeira, com o seu +derradeiro pedaço de pulmão, sem esperança, por dever clássico, quási +dever social, de tísico. + +Todo êsse ano, tambêm, andei enfronhado no meu _Ensaio dos Fenómenos +afectivos_. Depois, um dia, no comêço do verão, descendo pela rua de S. +Bento, com os olhos levantados, a procurar o n.º 214, onde se catalogava +a livraria do Morgado de Azemel, ¿quem avisto eu à varanda duma casa +nova e de esquina? A divina Elisa, metendo fôlhas de alface na gaiola de +um canário! E bela, meu amigo! mais cheia e mais harmoniosa, toda +madura, e suculenta, e desejável, a-pesar de ter festejado em Beja os +seus quarenta e dois anos! Mas aquela mulher era da grande raça de +Helena que, quarenta anos tambêm depois do cêrco de Troia, ainda +deslumbrava os homens mortais e os Deuses imortais. E, curioso acaso! +logo nessa tarde, pelo Sêco, o João Sêco da Biblioteca, que catalogava a +livraria do Morgado, conheci a nova história desta Helena admirável. + +A divina Elisa tinha agora um amante... E únicamente por não poder, com +a sua costumada honestidade, possuir um legítimo e terceiro marido. O +ditoso môço que ela adorava era com efeito casado... Casado em Beja com +uma espanhola que, ao cabo dum ano dêsse casamento e de outros +requebros, partira para Sevilha, passar devotamente a Semana Santa, e lá +adormecera nos braços dum riquíssimo criador de gado. O marido, pacato +apontador de Obras-Públicas, continuara em Beja, onde tambêm vagamente +ensinava um vago desenho... Ora uma das suas discípulas era a filha da +senhora da «Côrte Moreira»: e aí na quinta, emquanto êle guiava o +esfuminho da menina, Elisa o conheceu e o amou, com uma paixão tam +urgente que o arrancou precipitadamente às Obras Públicas, e o arrastou +a Lisboa, cidade mais propícia do que Beja a uma felicidade escandalosa, +e que se esconde. O João Sêco é de Beja, onde passara o Natal; conhecia +perfeitamente o apontador, as senhoras da «Côrte Moreira»; e compreendeu +o romance, quando das janelas dêsse n.º 214, onde catalogava a Livraria +do Azemel, reconheceu Elisa na varanda da esquina, e o apontador +enfiando regaladamente o portão, bem vestido, bem calçado, de luvas +claras, com aparência de ser infinitamente mais ditoso naquelas +obras particulares do que nas Públicas. + +E dessa mesma janela do 214 o conheci eu tambêm, o apontador! Belo môço, +sólido, branco, de barba escura, em excelentes condições de quantidade +(e talvez mesmo de qualidade) para encher um coração viuvo, e portanto +«vazio», como diz a Bíblia. Eu freqùentava êsse n.º 214, interessado no +catálogo da Livraria, porque o Morgado de Azemel possuia, pelo irónico +acaso das heranças, uma colecção incomparável dos Filósofos do século +XVIII. E passadas semanas, saíndo dêsses livros uma noite (o João Sêco +trabalhava de noite) e parando adiante, à beira dum portal aberto, para +acender o charuto, enxergo à luz tremente do fósforo, metido na sombra, +o José Matias! Mas que José Matias, meu caro amigo! Para o considerar +mais detidamente, raspei outro fósforo. Pobre José Matias! Deixara +crescer a barba, uma barba rara, indecisa, suja, mole como cotão +amarelado: deixara crescer o cabelo, que lhe surdia em farripas sêcas de +sob um vélho chapéu côco: mas todo êle, no resto, parecia diminuido, +minguado, dentro duma quinzena de mescla enxovalhada, e dumas calças +pretas, de grandes bolsos, onde escondia as mãos com o gesto +tradicional, tam infinitamente triste, da miséria ociosa. Na +espantada lástima que me tomou, apenas balbuciei:--«Ora esta! Você! +¿Então que é feito?»--E êle, com a sua mansidão polida, mas secamente, +para se desembaraçar, e numa voz que a aguardente enrouquecera: «Por +aqui, à espera de um sujeito».--Não insisti, segui. Depois, adiante, +parando, verifiquei o que num relance adivinhara--que o portal negro +ficava em frente ao prédio novo e às varandas de Elisa! + +Pois, meu amigo, três anos viveu o José Matias encafuado naquele portal! + + +Era um dêsses pátios da Lisboa antiga, sem porteiro, sempre +escancarados, sempre sujos, cavernas laterais da rua, de onde ninguêm +escorraça os escondidos da miséria ou da dor. Ao lado havia uma taberna. +Infalivelmente, ao anoitecer, o José Matias descia a rua de S. Bento, +colado aos muros, e, como uma sombra, mergulhava na sombra do portal. A +essa hora já as janelas de Elisa luziam, de inverno embaciadas pela +névoa fina, de verão ainda abertas e arejando no repouso e na calma. E +para elas, imóvel, com as mãos nas algibeiras, o José Matias se quedava +em contemplação. Cada meia-hora, subtilmente, enfiava para a taberna. +Copo de vinho, copo de aguardente;--e, de mansinho, recolhia à +negrura do portal, ao seu êxtasi. Quando as janelas de Elisa se +apagavam, ainda através da longa noite, mesmo das negras noites de +inverno--encolhido, transido, a bater as solas rôtas no lagedo, ou +sentado ao fundo, nos degraus da escada--ficava esmagando os olhos +turvos na fachada negra daquela casa, onde a sabia dormindo com o outro! + +Ao princípio, para fumar um cigarro apressado, trepava até ao patamar +deserto, a esconder o lume que o denunciaria no seu esconderijo. Mas +depois, meu amigo, fumava incessantemente, colado à ombreira, puxando o +cigarro com ânsia, para que a ponta rebrilhasse, o alumiasse! ¿E percebe +porquê, meu amigo?... Porque Elisa já descobrira que, dentro daquele +portal, a adorar submissamente as suas janelas, com a alma de outrora, +estava o seu pobre José Matias!... + +¿E acreditará o meu amigo que então, todas as noites, ou por trás da +vidraça ou encostada à varanda (com o apontador dentro, estirado no +sofá, já de chinelas, lendo o _Jornal da Noite_) ela se demorava a fitar +o portal, muito quieta, sem outro gesto, naquele antigo e mudo olhar do +terraço por sôbre as rosas e as dálias? O José Matias percebera, +deslumbrado. E agora avivava desesperadamente o lume, como um farol, +para guiar na escuridão os amados olhos dela, e lhe mostrar que ali +estava, transido, todo seu, e fiel! + +De dia nunca êle passava na rua de S. Bento. ¿Como ousaria, com o +jaquetão rôto nos cotovelos e as botas cambadas? Porque aquele môço de +elegância sóbria e fina tombara na miséria do andrajo. ¿Onde arranjava +mesmo, cada dia, os três patacos para o vinho e para a posta de bacalhau +nas tabernas? Não sei... Mas louvemos a divina Elisa, meu amigo! Muito +delicadamente, por caminhos arredados e astutos, ela, rica, procurara +estabelecer uma pensão ao José Matias, mendigo. ¿Situação picante, hein? +A grata senhora dando duas mesadas aos seus dois homens--o amante do +corpo e o amante da alma! Êle, porêm, adivinhou de onde procedia a +pavorosa esmola--e recusou, sem revolta, nem alarido de orgulho, até com +enternecimento, até com lágrimas nas pálpebras que a aguardente inflamara! + +Mas só com noite muito cerrada ousava descer à rua de S. Bento, e enfiar +para o seu portal. ¿E adivinha o meu amigo como êle gastava o dia? A +espreitar, a seguir, a farejar o apontador de Obras-Públicas! Sim, meu +amigo! uma curiosidade insaciada, frenética, atroz, por aquele homem, +que Elisa escolhera!... Os dois anteriores, o Miranda e o Nogueira, +tinham entrado na alcova de Elisa, públicamente, pela porta da +Igreja, e para outros fins humanos alêm do amor--para possuir um lar, +talvez filhos, estabilidade e quietação na vida. Mas êste era meramente +o amante, que ela nomeara e mantinha só para ser amada: e nessa união +não aparecia outro motivo racional senão que os dois corpos se unissem. +Não se fartava, portanto, de o estudar, na figura, na roupa, nos modos, +ansioso por saber bem como era êsse homem, que, para se completar, a sua +Elisa preferira entre a turba dos homens. Por decência, o apontador +morava na outra extremidade da rua de S. Bento, diante do Mercado. E +essa parte da rua, onde o não surpreenderiam, na sua pelintrice, os +olhos de Elisa, era o paradeiro do José Matias, logo de manhã, para +mirar, farejar o homem, quando êle recolhia da casa de Elisa, ainda +quente do calor da sua alcôva. Depois não o largava, cautelosamente, +como um larápio, rastejando de longe no seu rasto. E eu suspeito que o +seguia assim, menos por curiosidade perversa, do que para verificar se, +através das tentações de Lisboa, terríveis para um apontador de Beja, o +homem conservava o corpo fiel a Elisa. Em serviço da felicidade +dela--fiscalizava o amante da mulher que amava! + +Requinte furioso de espiritualismo e devoção, meu amigo! A alma de Elisa +era a sua e recebia perenemente a adoração perene: e agora queria +que o corpo de Elisa não fôsse menos adorado, nem menos lealmente, por +aquele a quem ela entregara o corpo! Mas o apontador era fácilmente fiel +a uma mulher tam formosa, tam rica, de meias de sêda, de brilhantes nas +orelhas, que o deslumbrava. ¿E quem sabe, meu amigo? talvez esta +fidelidade, preito carnal à divindade de Elisa, fôsse para o José Matias +a derradeira felicidade que lhe concedeu a vida. Assim me persuado, +porque no inverno passado, encontrei o apontador, numa manhã de chuva, +comprando camélias a um florista da rua do Oiro; e defronte, a uma +esquina, o José Matias, escaveirado, esfrangalhado, cocava o homem, com +carinho, quási com gratidão! E talvez nessa noite, no portal, tiritando, +batendo as solas encharcadas, com os olhos enternecidos nas escuras +vidraças, pensasse:--«Coitadinha, pobre Elisa! Ficou bem contente por +êle lhe trazer as flores!» + +Isto durou três anos. + +Emfim, meu amigo, antes de ontem, o João Sêco apareceu em minha casa, de +tarde, esbaforido:--«Lá levaram o José Matias numa maca, para o +hospital, com uma congestão nos pulmões!» + +Parece que o encontraram, de madrugada, estirado no ladrilho, todo +encolhido no jaquetão delgado, arquejando, com a face coberta de +morte, voltada para as varandas de Elisa. Corri ao hospital. Morrera... +Subi, com o médico de serviço, à enfermaria. Levantei o lençol que o +cobria. Na abertura da camisa suja e rôta, prêso ao pescoço por um +cordão, conservava um saquinho de sêda, poído e sujo tambêm. De-certo +continha flor, ou cabelos, ou pedaço de renda de Elisa, do tempo do +primeiro encanto e das tardes de Bemfica... Perguntei ao médico, que o +conhecia e o lastimava, se êle sofrera.--«Não! Teve um momento comatoso, +depois arregalou os olhos, exclamou _Oh!_ com grande espanto, e ficou.» + +¿Era o grito da alma, no assombro e horror de morrer tambêm? ¿Ou era a +alma triunfando por se reconhecer emfim imortal e livre? O meu amigo não +sabe; nem o soube o divino Platão; nem o saberá o derradeiro filósofo na +derradeira tarde do mundo. + +Chegamos ao cemitério. Creio que devemos pegar às borlas do caixão... Na +verdade, é bem singular êste Alves _Capão_, seguindo tam sentidamente o +nosso pobre espiritualista... Mas, Santo Deus, olhe! Alêm, à espera, à +porta da Igreja, aquele sujeito compenetrado, de casaca, com paletó +alvadio... É o apontador de Obras Públicas! E trás um grosso ramo de +violetas... Elisa mandou o seu amante carnal acompanhar à cova e +cobrir de flores o seu amante espiritual! Mas, nunca ela pediria ao +José Matias para espalhar violetas sôbre o cadaver do apontador! É que +sempre a Matéria, mesmo sem o compreender, sem dêle tirar a sua +felicidade, adorará o Espírito, e sempre a si própria, através dos gozos +que de si recebe, se tratará com brutalidade e desdêm! Grande consôlo, +meu amigo, êste apontador com o seu ramo, para um Metafísico que, como +eu, comentou Spínosa e Mallebranche, reabilitou Fichte, e provou +suficientemente a ilusão da sensação! Só por isto valeu a pena trazer à +sua cova êste inexplicado José Matias, que era talvez muito mais que um +homem--ou talvez ainda menos que um homem...--Com efeito, está frio... +Mas que linda tarde! + + + + +A PERFEIÇÃO + + +I + +Sentado numa rocha, na ilha de Ogigya, com a barba enterrada entre as +mãos, de onde desaparecera a aspereza calosa e tisnada das armas e dos +remos, Ulisses, o mais subtil dos homens, considerava, numa escura e +pesada tristeza, o mar muito azul que mansa e harmoniosamente rolava +sôbre a areia muito branca. Uma túnica bordada de flores escarlates +cobria, em pregas moles, o seu corpo poderoso, que engordara. Nas +correias das sandálias, que lhe calçavam os pés amaciados e perfumados +de essências, reluziam esmeraldas do Egipto. E o seu bastão era um +maravilhoso galho de coral, rematado em pinha de pérolas, como os que +usam os Deuses marinhos. + +A divina Ilha, com os seus rochedos de alabastro, os bosques de cedros e +tuias odoríferas, as messes eternas doirando os vales, a frescura das +roseiras revestindo os outeiros suaves, resplandecia, adormecida na +moleza da sésta, toda envolta em mar resplandecente. Nem um sôpro dos +Zéfiros curiosos, que brincam e correm por sôbre o Arquipélago, +desmanchava a serenidade do luminoso ar, mais doce que o vinho mais +doce, todo repassado pelo fino aroma dos prados de violetas. No +silêncio, embebido de calor afável, eram duma harmonia mais embaladora +os murmúrios de arroios e fontes, o arrulhar das pombas voando dos +ciprestes aos plátanos, e o lento rolar e quebrar da onda mansa sôbre a +areia macia. E nesta inefável paz e beleza imortal, o subtil Ulisses, +com os olhos perdidos nas águas lustrosas, amargamente gemia, revolvendo +o queixume do seu coração... + +Sete anos, sete imensos anos, iam passados desde que o raio fulgente de +Júpiter fendera a sua nave de alta prôa vermelha, e êle, agarrado ao +mastro partido, trambulhara na braveza mugidora das espumas sombrias, +durante nove dias, durante nove noites, até que boiara em águas mais +calmas, e tocara as areias daquela ilha onde Calipso, a Deusa radiosa, o +recolhera e o amara! ¿E durante êsses imensos anos, como se arrastara a +sua vida, a sua grande e forte vida, que, depois da partida para os +muros fatais de Troia, abandonando entre lágrimas inumeráveis a sua +Penélope de olhos claros, o seu pequenino Telêmaco enfaixado no colo da +ama, andara sempre tam agitada por perigos, e guerras, e astúcias, e +tormentas, e rumos perdidos?... Ah! ditosos os Reis mortos, com formosas +feridas no branco peito, diante das portas de Troia! Felizes os seus +companheiros tragados pela onda amarga! Feliz êle se as lanças troianas +o trespassassem nessa tarde de grande vento e poeira, quando, junto à +_Faia_, defendia dos ultrajes, com a espada sonora, o corpo morto de +Aquiles! Mas não! vivera!--E agora, cada manhã, ao saír sem alegria do +trabalhoso leito de Calipso, as Ninfas, servas da Deusa, o banhavam numa +água muito pura, o perfumavam de lânguidas essências, o cobriam com uma +túnica sempre nova, ora bordada a sêdas finas, ora bordada de oiro +pálido! No entanto, sôbre a mesa lustrosa, erguida à porta da gruta, na +sombra das ramadas, junto ao sussurro dormente dum arroio diamantino, os +açafates e as travessas lavradas transbordavam de bolos, de frutas, de +tenras carnes fumegando, de peixes scintilando como tramas de prata. A +intendenta venerável gelava os vinhos doces nas crateras de bronze, +coroadas de rosas. E êle, sentado num escabelo, estendia as mãos +para as iguarias perfeitas, emquanto ao lado, sôbre um trono de marfim, +Calipso, espargindo através da túnica nevada a claridade e o aroma do +seu corpo imortal, sublimemente serena, com um sorriso taciturno, sem +tocar nas comidas humanas, debicava a ambrosia, bebia em goles delgados +o néctar transparente e rubro. Depois, tomando aquele bastão de +Príncipe-de-Povos com que Calipso o presenteara, repercorria sem +curiosidade os sabidos caminho da Ilha, tam lisos e tratados que nunca +as suas sandálias reluzentes se maculavam de pó, tam penetrados pela +imortalidade da Deusa que jàmais neles encontrara fôlha sêca, nem flor +menos fresca pendendo na haste. Sôbre uma rocha se sentava então, +contemplando aquele mar que tambêm banhava Ítaca, lá tam bravio, aqui +tam sereno, e pensava, e gemia, até que as águas e os caminhos se +cobriam de sombra, e êle recolhia à gruta para dormir, sem desejo, com a +Deusa que o desejava!... ¿E durante êstes imensos anos, que destino +envolvera a sua Ítaca, a áspera ilha de sombrias matas? ¿Viviam êles +ainda, os seres amados? ¿Sôbre a forte colina, dominando a enseada de +Reithros e os pinheirais de Neus, ainda se erguia o seu palácio, com os +belos pórticos pintados de vermelho e roxo? ¿Ao cabo de tam lentos e +vazios anos, sem novas, apagada toda a esperança como uma lâmpada, +despira a sua Penélope a túnica passageira da viuvez e passara para os +braços doutro espôso forte, que agora manejava as suas lanças e +vindimava as suas vinhas? ¿E o doce filho Telêmaco? ¿Reinaria êle em +Ítaca, sentado, com o branco scetro, sôbre o mármore alto da Agorá? +¿Ocioso e rondando pelos pátios, baixaria os olhos sob o império duro +dum padrasto? ¿Erraria por cidades alheias, mendigando um salário?... +Ah! se a sua existência, assim para sempre arrancada da mulher, do +filho, tam doces ao seu coração, andasse ao menos empregada em façanhas +ilustres! Dez anos antes, tambêm desconhecia a sorte de Ítaca, e dos +seres preciosos que lá deixara em solidão e fragilidade; mas uma emprêsa +heróica o agitava; e cada manhã a sua fama crescia, como uma árvore num +promontório, que enche o céu e todos os homens contemplam. Então era a +planície de Troia--e as brancas tendas dos gregos ao longo do mar +sonoro! Sem cessar, meditava astúcias de guerra; com soberba facúndia +discursava na Assembleia dos Reis; rijamente jungia os cavalos empinados +ao timão dos carros; de lança alta corria, entre a grita e a pressa, +contra os Troianos de altos elmos, que surdiam, em roldão ressoante, das +portas Skaias!... Oh! e quando êle, Príncipe-de-Povos, encolhido sob +farrapos de mendigo, com os braços maculados de chagas postiças, +coxeando e gemendo, penetrara nos muros da orgulhosa Troia, pelo lado da +Faia, para de noite, com incomparável ardil e bravura, roubar o Paládio +tutelar da cidade! E quando, dentro do ventre do Cavalo-de-Pau, na +escuridão, no apêrto de todos aqueles guerreiros hirtos e cobertos de +ferro, calmava a impaciência dos que sufocavam, e tapava com a mão a +bôca de Antiklos bravejando furioso, ao escutar fóra na planície os +ultrajes e os escárnios troianos, e a todos murmurava: «Cala, cala! que +a noite desce e Troia é nossa...» E depois as prodigiosas viagens! O +pavoroso Polifemo, ludibriado com uma astúcia que para sempre +maravilhará as gerações! As manobras sublimes entre Scylla e Carybdes! +As Sereias, vogando e cantando em tôrno do mastro, de onde êle, +amarrado, as rechaçava com o mudo dardejar dos olhos mais agudos que +dardos! A descida aos Infernos, jàmais concedida a um mortal!... E agora +homem de tam rutilantes feitos jazia numa ilha mole, eternamente prêso, +sem amor, pelo amor duma Deusa! ¿Como poderia êle fugir, rodeado de mar +indomável, sem nave, nem companheiros para mover os remos longos? Os +Deuses ditosos certamente esqueciam quem tanto por êles combatera e +sempre piedosamente lhes votara as reses devidas, mesmo através do +fragor e fumaraça das cidadelas derrubadas, mesmo quando a sua prôa +encalhava em terra agreste!... E ao herói, que recebera dos Reis da +Grécia as armas de Aquiles, cabia por destino amargo engordar na +ociosidade duma ilha mais lânguida que uma cêsta de rosas, e estender as +mãos amolecidas para as iguarias abundantes, e, quando águas e caminhos +se cobriam de sombra, dormir sem desejo com uma Deusa que, sem cessar, o +desejava. + +Assim gemia o magnânimo Ulisses, à beira do mar lustroso... E eis que de +repente um sulco de desusado brilho, mais rutilantemente branco que o +duma estrêla caíndo, riscou a rutilância do céu, desde as alturas até à +cheirosa mata de tuias e cedros, que assombreava um golfo sereno, a +oriente da Ilha. Com alvoroço bateu o coração do herói. Rasto tam +refulgente, na refulgência do dia, só um Deus o podia traçar através do +largo Ouranos. ¿Um Deus, pois, descera à Ilha? + + +II + +Um Deus descera, um grande Deus... Era o Mensageiro dos Deuses, o leve, +eloqùente Mercúrio. Calçado com aquelas sandálias que teem duas +asas brancas, os cabelos côr de vinho cobertos pelo casco onde batem +tambêm duas claras asas, erguendo na mão o Caduceu, êle fendera o Éter, +roçara a lisura do mar sossegado, pisara a areia da Ilha, onde as suas +pègadas ficavam rebrilhando como palmilhas de oiro novo. A-pesar de +percorrer toda a terra, com os recados inumeráveis dos Deuses, o +luminoso Mensageiro não conhecia aquela ilha de Ogigya--e admirou, +sorrindo, a beleza dos prados de violetas tam doces para o correr e +brincar de Ninfas, e o harmonioso faiscar dos regatos por entre os altos +e lânguidos lírios. Uma vinha, sôbre esteios de jaspe, carregada de +cachos maduros, conduzia, como fresco pórtico salpicado de sol, até à +entrada da gruta, toda de rochas polidas, de onde pendiam jasmineiros e +madre-silvas, envoltas no sussurrar das abelhas. E logo avistou Calipso, +a Deusa ditosa, sentada num Trono, fiando em roca de oiro, com fuso de +oiro, a lã formosa de púrpura marinha. Um aro de esmeraldas prendia os +seus cabelos muito anelados e ardentemente louros. Sob a túnica diáfana +a mocidade imortal do seu corpo rebrilhava, como a neve quando a aurora +a tinge de rosas nas colinas eternas povoadas de Deuses. E, emquanto +torcia o fuso, cantava um trinado e fino canto, como trémulo fio de +cristal vibrando da Terra ao Céu. Mercúrio pensou: «Linda ilha, e linda +Ninfa!» + +Dum lume claro de cedro e tuia, subia, muito direito, um fumo delgado +que perfumava toda a Ilha. Em roda, sentadas em esteiras sôbre o chão de +ágata, as Ninfas, servas da Deusa, dobavam as lãs, bordavam na sêda as +flores ligeiras, teciam as puras teias em teares de prata. Todas +coraram, com o seio a arfar, sentindo a presença do Deus. E sem deter o +fuso faiscante, Calipso reconhecera logo o Mensageiro--pois que todos os +Imortais sabem, uns dos outros, os nomes, os feitos, e os rostos +soberanos, mesmo quando habitam retiros remotos que o Éter e o Mar separam. + +Mercúrio parara, risonho, na sua nudez divina, exalando o perfume do +Olimpo. Então a Deusa ergueu para êle, com composta serenidade, o +esplendor largo dos seus olhos verdes: + +--Oh Mercúrio! ¿porque desceste à minha Ilha humilde, tu, venerável e +querido, que eu nunca vi pisar a terra? Dize o que de mim esperas. Já o +meu aberto coração me ordena que te contente, se o teu desejo couber +dentro do meu poder e do Fado... Mas entra, repousa, e que eu te sirva, +como doce irmã, à mesa da hospitalidade. + +Tirou da cintura a roca, arredou os aneis soltos do cabelo radiante--e +com as suas nacaradas mãos colocou sôbre a mesa, que as Ninfas +acercaram do lume aromático, o prato transbordando de Ambrosia, e as +infusas de cristal onde scintilava o Néctar. + +Mercúrio murmurou:--«Doce é a tua hospitalidade, ó Deusa!» Pendurou o +Caduceu do fresco ramo dum plátano, estendeu os dedos reluzentes para a +travessa de oiro, risonhamente louvou a excelência daquele Néctar da +Ilha. E contentada a alma, encostando a cabeça ao tronco liso do plátano +que se cobriu de claridade, começou, com palavras perfeitas e aladas: + +--Perguntaste porque descia um Deus à tua morada, oh Deusa! E certamente +nenhum Imortal percorreria sem motivo, desde o Olimpo até Ogigya, esta +deserta imensidade do mar salgado em que se não encontram cidades de +homens, nem templos cercados de bosques, nem sequer um pequenino +santuário de onde suba o aroma do incenso, ou o cheiro das carnes +votivas, ou o murmúrio gostoso das preces... Mas foi nosso Pai Júpiter, +o tempestuoso, que me mandou neste recado. Tu recolhestes, e retens pela +fôrça incomensurável da tua doçura, o mais subtil e desgraçado de todos +os Príncipes que combateram durante dez anos a alta Troia, e depois +embarcaram nas naves fundas para voltar à terra da Pátria. Muitos dêsses +conseguiram reentrar nos seus ricos lares, carregados de fama, de +despojos, e de histórias excelentes para contar. Ventos inimigos, +porêm, e um fado mais inexorável, arremessaram a esta tua ilha, enrolado +nas sujas espumas, o facundo e astuto Ulisses... Ora o destino dêste +herói não é ficar na ociosidade imortal do leito, longe daqueles que o +choram, e que carecem da sua fôrça e manhas divinas. Por isso Júpiter, +regulador da Ordem, te ordena, oh Deusa, que soltes o magnânimo Ulisses +dos teus braços claros, e o restituas, com os presentes docemente +devidos, à sua Ítaca amada, e à sua Penélope, que tece e desfaz a teia +ardilosa, cercada dos Pretendentes arrogantes, devoradores dos seus +gordos bois, sorvedores dos seus frescos vinhos! + +A divina Calipso mordeu levemente o beiço; e sôbre a sua face luminosa +desceu a sombra das densas pestanas côr de jacinto. Depois, com um +harmonioso suspiro, em que ondulou todo o seu peito rebrilhante: + +--Ah Deuses grandes, Deuses ditosos! como sois ásperamente ciumentos das +Deusas, que, sem se esconderem pela espessura dos bosques ou nas pregas +escuras dos montes, amam os homens eloqùentes e fortes!... Êste, que me +invejais, rolou às areias da minha Ilha, nu, pisado, faminto, prêso a +uma quilha partida, perseguido por todas as iras, e todas as rajadas, e +todos os raios dardejantes de que dispõe o Olimpo. Eu o recolhi, o +lavei, o nutri, o amei, o guardei, para que ficasse eternamente ao +abrigo das tormentas, da dor e da velhice. E agora Júpiter trovejador, +ao cabo de oito anos em que a minha doce vida se enroscou em tôrno desta +afeição como a vide ao olmo, determina que eu me separe do companheiro +que escolhera para a minha imortalidade! Realmente sois crueis, oh +Deuses, que constantemente aumentais a raça turbulenta dos Semideuses +dormindo com as mulheres mortais! ¿E como queres que eu mande Ulisses à +sua pátria, se não possuo naves, nem remadores, nem pilôto sabedor que o +guie através das Ilhas? ¿Mas quem pode resistir a Júpiter, que ajunta as +nuvens? Seja! e que Olimpo ria, obedecido. Eu ensinarei o intrépido +Ulisses a construir uma jangada segura, com que de novo fenda o dorso +verde do mar... + +Imediatamente, o Mensageiro Mercúrio se levantou do escabelo pregado com +pregos de oiro, retomou o seu Caduceu, e bebendo uma derradeira taça do +Néctar excelente da Ilha, louvou a obediência da Deusa: + +--Bem farás, oh Calipso! Assim evitas a cólera do Pai trovejante. ¿Quem +lhe resistirá? A sua Omnisciência dirige a sua Omnipotência. E êle +sustenta, como scetro, uma árvore que tem por flor a Ordem... As suas +decisões, clementes ou crueis, resultam sempre em harmonia. Por isso o +seu braço se torna terrífico aos peitos rebeldes. Pela tua pronta +submissão serás filha estimada, e gozarás uma imortalidade repassada de +sossêgo, sem intrigas e sem surpresas... + +Já as asas impacientes das suas sandálias palpitavam, e o seu corpo, com +sublime graça, se balançava por sôbre as relvas e flores que alcatifavam +a entrada da gruta. + +--De resto--acrescentou--a tua Ilha, oh Deusa, fica no caminho das naves +ousadas que cortam as ondas. Em breve talvez outro herói robusto, tendo +ofendido os Imortais, aportará à tua doce praia, abraçado a uma +quilha... Acende um facho claro, de noite, nas rocas altas! + +E, rindo, o Mensageiro Divino serenamente se elevou, riscando no Éter um +sulco de elegante fulgor que as Ninfas, esquecida a tarefa, seguiam, com +os frescos lábios entreabertos e o seio levantado, no desejo daquele +imortal formoso. + +Então Calipso, pensativa, lançando sôbre os seus cabelos anelados um véu +da côr do açafrão, caminhou para a orla do mar, através dos prados, numa +pressa que lhe enrodilhava a túnica, à maneira duma espuma leve, em +tôrno das pernas redondas e róseas. Tam levemente pisou a areia, que o +magnânimo Ulisses não a sentiu deslizar, perdido na contemplação das +águas lustrosas, com a negra barba entre as mãos, aliviando em +gemidos o pêso do seu coração. A Deusa sorriu, com fugitiva e soberana +amargura. Depois, pousando no vasto ombro do Herói os seus dedos tam +claros como os de Eos, mãe do dia: + +--Não te lamentes mais, desgraçado, nem te consumas, olhando o Mar! Os +Deuses, que me são superiores pela inteligência e pela vontade, +determinam que tu partas, afrontes a inconstância dos ventos, e calques +de novo a terra da Pátria... + +Bruscamente, como o condor fendendo sôbre a prêsa, o divino Ulisses, com +a face assombrada, saltou da rocha musgosa: + +--Oh Deusa, tu dizes!... + +Ela continuou sossegadamente, com os formosos braços pendidos, +enrodilhados no véu côr de açafrão, emquanto a vaga rolava, mais doce e +cantante, no amoroso respeito da sua presença divina: + +--Bem sabes que não tenho naves de alta prôa, nem remadores de rijo +peito, nem pilôto amigo das estrêlas, que te conduzam... Mas certamente +te confiarei o machado de bronze que foi de meu pai, para tu abateres as +árvores que eu te marcar, e construires uma jangada em que embarques... +Depois eu a proverei de odres de vinho, de comidas perfeitas, e a +impelirei com um sôpro amigo para o mar indomado... + +O cauteloso Ulisses recuara lentamente, cravando na Deusa um duro olhar +que a desconfiança ennegrecia. E erguendo a mão, que tremia toda, com a +ansiedade do seu coração: + +--Oh Deusa, tu abrigas um pensamento terrível, pois que assim me +convidas a afrontar numa jangada as ondas difíceis, onde mal se mantêm +fundas naves! Não, Deusa perigosa, não! Eu combati na grande guerra onde +os Deuses tambêm combateram, e conheço a malícia infinita que contêm o +coração dos Imortais! Se resisti às sereias irresistíveis, e me safei +com sublimes manobras de entre Scylla e Charybdes, e venci Polifemo com +um ardil que eternamente me tornará ilustre entre os homens, não foi +de-certo, oh Deusa, para que agora, na Ilha de Ogigya, como passarinho +de pouca penugem, no seu primeiro vôo do ninho, cáia em armadilha +ligeira arranjada com dizeres de mel! Não, Deusa, não! Só embarcarei na +tua extraordinária jangada se tu jurares, pelo juramento terrífico dos +Deuses, que não preparas, com êsses quietos olhos, a minha perda +irreparável. + +Assim bradava, à beira das ondas, com o peito a arfar, Ulisses, o Herói +prudente... Então a Deusa clemente riu, com um cantado e refulgente +riso. E caminhando para o Herói, correndo os dedos celestes pelos seus +espessos cabelos mais negros que o pez: + +--Oh maravilhoso Ulisses--disse--tu és bem na verdade o mais refalsado e +manhoso dos homens, pois que nem concebes que exista espírito sem manha +e sem falsidade! Meu pai ilustre não me gerou com um coração de ferro! +A-pesar de imortal, compreendo as desventuras mortais. Só te aconselhei +o que eu, Deusa, empreenderia, se o Fado me obrigasse a saír de Ogigya +através do mar incerto!... + +O divino Ulisses retirou lenta e sombriamente a cabeça da rosada carícia +dos dedos divinos: + +--Mas jura... Oh Deusa, jura, para que ao meu peito desça, como onda de +leite, a saborosa confiança! + +Ela ergueu o claro braço ao azul onde os Deuses moram: + +--Por Gaia, e pelo Céu superior, e pelas águas subterrâneas do Stygio, +que é a maior invocação que podem lançar os Imortais, juro, oh homem, +Príncipe dos homens, que não preparo a tua perda, nem misérias maiores... + +O valente Ulisses respirou largamente. E arregaçando logo as mangas da +túnica, esfregando as palmas das mãos robustas: + +--¿Onde está o machado de teu pai magnífico? Mostra as árvores, oh +Deusa!... O dia baixa e o trabalho é longo! + +--Sossega, oh homem sôfrego de males humanos! Os deuses superiores em +sapiência já determinaram o teu destino... Recolhe comigo à doce gruta, +a reforçar a tua fôrça... Quando Eos vermelha aparecer, àmanhã, eu te +conduzirei à floresta. + + +III + +Era com efeito a hora em que homens mortais e Deuses imortais se acercam +das mesas cobertas de baixelas, onde os espera a abundância, o repouso, +o esquecimento dos cuidados, e as amoráveis conversas que contentam a +alma. Em breve Ulisses se sentou no escabelo de marfim, que ainda +conservava o aroma do corpo de Mercúrio, e diante dêle as Ninfas, servas +da Deusa, colocaram os bôlos, as frutas, as tenras carnes fumegando, os +peixes rebrilhantes como tramas de prata. Pousada num Trono de oiro +puro, a Deusa recebeu da Intendenta venerável o prato de Ambrosia e a +taça de Néctar. Ambos estenderam as mãos para as comidas perfeitas da +Terra e do Céu. E logo que deram a oferenda abundante à Fome e à Sêde, a +ilustre Calipso, encostando a face aos dedos róseos, e considerando +pensativamente o Herói, soltou estas palavras aladas: + +--Oh Ulisses muito subtil, tu queres voltar à tua morada mortal e à +terra da Pátria... Ah! se conhecesses, como eu, quantos duros males tens +de sofrer antes de avistar as rochas de Ítaca, ficarias entre os meus +braços, amimado, banhado, bem nutrido, revestido de linhos finos, sem +nunca perder a querida fôrça, nem a agudeza do entendimento, nem o calor +da facúndia, pois que eu te comunicaria a minha imortalidade!... Mas +desejas voltar à espôsa mortal, que habita na ilha áspera onde as matas +são tenebrosas. E todavia eu não lhe sou inferior, nem pela beleza, nem +pela inteligência, porque as mortais brilham ante as Imortais como +lâmpadas fumarentas diante de estrêlas puras... + +O facundo Ulisses acariciou a barba rude. Depois, erguendo o braço, como +costumava na Assembleia dos Reis, à sombra das altas pôpas, diante dos +muros de Troia, disse: + +--Oh Deusa venerável, não te escandalises! Perfeitamente sei que +Penélope te está muito inferior em formusura, sapiência e majestade. Tu +serás eternamente bela e môça, emquanto os Deuses durarem: e ela, em +poucos anos, conhecerá a melancolia das rugas, dos cabelos brancos, das +dores da decrepitude, e dos passos que tremem apoiados a um pau que +treme. O seu espírito mortal erra através da escuridão e da dúvida; tu, +sob essa fonte luminosa, possuis as luminosas certezas. Mas, oh Deusa, +justamente pelo que ela tem de incompleto, de frágil, de grosseiro e de +mortal, eu a amo, e apeteço a sua companhia congénere! Considera como é +penoso que, nesta mesa, cada dia, eu côma vorazmente o anho das +pastagens e a fruta dos vergeis, emquanto tu ao meu lado, pela inefável +superioridade da tua natureza, levas aos lábios, com lentidão soberana, +a Ambrosia divina! Em oito anos, oh Deusa, nunca a tua face rebrilhou +com uma alegria; nem dos teus verdes olhos rolou uma lágrima; nem +bateste o pé, com irada impaciência; nem, gemendo com uma dor, te +estendeste no leito macio... E assim trazes inutilizadas todas as +virtudes do meu coração, pois que a tua divindade não permite que eu te +congratule, te console, te sossegue, ou mesmo te esfregue o corpo dorido +com o suco das ervas benéficas. Considera ainda que a tua inteligência +de Deusa possui todo o saber, atinge sempre a verdade: e, durante o +longo tempo que contigo dormi, nunca gozei a felicidade de te emendar, +de te contradizer, e de sentir, ante a fraqueza do teu, a fôrça do meu +entendimento! Oh Deusa, tu és aquele ser terrífico que tem sempre razão! +Considera ainda que, como Deusa, conheces todo o passado e todo o +futuro dos homens: e eu não pude saborear a incomparável delícia de te +contar à noite, bebendo o vinho fresco, as minhas ilustres façanhas e as +minhas viagens sublimes! Oh Deusa, tu és impecável: e quando eu +escorregue num tapete estendido, ou me estale uma correia da sandália, +não te posso gritar, como os homens mortais gritam às espôsas +mortais--«Foi culpa tua, mulher!»--erguendo, em frente à lareira, um +alarido cruel! Por isso sofrerei, num espírito paciente, todos os males +com que os Deuses me assaltem no sombrio mar, para voltar a uma humana +Penélope que eu mande e console, e repreenda, e acuse, e contrarie, e +ensine, e humilhe, e deslumbre, e por isso ame dum amor que +constantemente se alimenta dêstes modos ondeantes, como o lume se nutre +dos ventos contrários! + +Assim o facundo Ulisses desabafava, ante a taça de oiro vazia: e +serenamente a Deusa escutava, com um sorriso taciturno, e as mãos +imóveis sôbre o regaço, enrodilhadas na ponta do véu. + +No entanto, Febo Apolo descia para Ocidente; e já das ancas dos seus +quatro cavalos suados subia e se espalhava por sôbre o Mar um vapor +rúbido e doirado. Em breve os caminhos da Ilha se cobriam de +sombra. E sôbre os velos preciosos do leito, ao fundo da gruta, +Ulisses, sem desejo, e a Deusa, que o desejava, gozaram o doce amor, e +depois o doce sono. + +Cedo, apenas Eos entreabria as portas do largo Ouranos, a divina +Calipso, que revestira uma túnica mais branca que a neve do Pindo, e +pregara nos cabelos um véu transparente e azul como o Éter ligeiro, saíu +da gruta, trazendo ao magnânimo Ulisses, já sentado à porta, sob a +ramada, diante duma taça de vinho claro, o machado poderoso de seu pai +ilustre, todo de bronze, com dois fios, e um rijo cabo de oliveira +cortado nas faldas do Olimpo. + +Limpando rápidamente a dura barba com as costas da mão, o Herói +arrebatou o machado venerável: + +--Oh Deusa, há quantos anos não palpo uma arma ou uma ferramenta, eu, +devastador de cidadelas e construtor de naves! + +A Deusa sorriu. E, iluminada a lisa face, em palavras aladas: + +--Oh, Ulisses, vencedor de homens, se tu ficasses nesta ilha, eu +encomendaria para ti, a Vulcano e às suas forjas do Etna, armas +maravilhosas... + +--¿Que valem armas sem combates, ou homens que as admirem? De resto, oh +Deusa, já muito batalhei, e a minha glória entre as gerações está +soberbamente segura; Só aspiro ao macio repouso, vigiando os meu gados, +concebendo sábias leis para os meus povos... Sê benévola, oh Deusa, e +mostra as árvores fortes que me convêm cortar! + +Em silêncio ela caminhou por um atalho florido de altas e radiosas +açucenas, que conduzia à ponta da Ilha mais cerrada de matas, do lado do +Oriente: e atrás seguia o intrépido Ulisses, com o luzidio machado ao +ombro. As pombas deixavam os ramos dos cedros, ou as concavidades das +rochas onde bebiam, para esvoaçarem em tôrno da Deusa num tumulto +amoroso. Um aroma mais delicado, quando ela passava, subia das flores +abertas, como de incensadores. As relvas que a orla da sua túnica roçava +reverdejavam num viço mais fresco. E Ulisses, indiferente aos prestígios +da Deusa, impaciente com a serenidade divina do seu andar harmonioso, +meditava a jangada, almejava pelo bosque. + +Denso e escuro o avistou emfim, povoado de carvalhos, de velhíssimas +técas, de pinheiros que ramalhavam no alto Éter. Da sua orla descia um +areal a que nem concha, nem galho quebrado de coral, nem pálida flor de +cardo marinho, desmanchava a doçura perfeita. E o Mar refulgia com um +brilho safírico, na quietação da manhã branca e còrada. Caminhando dos +carvalhos às técas, a Deusa marcou ao atento Ulisses os troncos +sêcos, robustecidos por sóis inumeráveis, que flutuariam, com ligeireza +mais segura, sôbre as águas traidoras. Depois, acariciando o ombro do +Herói, como outra árvore robusta tambêm votada às aguas crueis, recolheu +à sua gruta, onde tomou a roca de oiro, e todo o dia fiou, e todo o dia +cantou... + +Com alvoroçada e soberba alegria, Ulisses atirou o machado contra um +vasto carvalho que gemeu. E em breve toda a Ilha retumbava, no fragor da +obra sobreumana. As gaivotas, adormecidas no silêncio eterno daquelas +ribas, bateram o vôo em largos bandos, espantadas e gritando. As fluidas +divindades dos ribeiros indolentes, estremecendo num fulgente arrepio, +fugiam para entre os canaviais e as raízes dos amieiros. Nesse curto dia +o valente Ulisses abateu vinte árvores, robles, pinheiros, técas e +choupos--e todas decotou, esquadrou, e alinhou sôbre a areia. O seu +pescoço e arcado peito fumegavam de suor, quando recolheu pesadamente à +gruta, para saciar a rude fome, e beber a cerveja gelada. E nunca êle +parecera tam belo à Deusa Imortal, que, sobre o leito de peles +preciosas, apenas os caminhos se cobriram de sombra, encontrou incansada +e pronta a fôrça daqueles braços que tinham abatido vinte troncos! + +Assim, durante três dias, trabalhou o Herói. + +E, como arrebatada nessa actividade magnífica que abalava a Ilha, a +Deusa ajudava Ulisses, conduzindo da gruta para a praia, nas suas mãos +delicadas, as cordas e os pregos de bronze. As Ninfas, por seu mandado, +abandonando as tarefas suaves, teciam uma tela forte, para a vela que +empurrariam com amor os ventos amáveis. E a Intendenta venerável já +enchia os odres de vinhos robustos, e preparava com generosidade os +víveres numerosos para a travessia incerta. No entanto a jangada +crescia, com os troncos bem ligados, e um banco erguido ao meio, donde +se empinava o mastro, desbastado num pinheiro, mais redondo e lizo que +uma vara de marfim. Cada tarde a Deusa, sentada numa rocha à sombra do +bosque, contemplava o calafate admirável martelando furiosamente, e +cantando, com rija alegria, um canto de remador. E, ligeiras, na ponta +dos pés luzidios, por entre o arvoredo, as Ninfas, escapando à tarefa, +acudiam a espreitar, com desejosos olhos fulgurantes, aquela fôrça +solitária, que soberbamente, no areal solitário, ia erguendo uma nave. + + +IV + +Emfim no quarto dia, de manhã, Ulisses findou de esquadrar o leme, que +reforçou com grades de amieiro para melhor aparar o embate das ondas. +Depois ajuntou um lastro copioso, com a terra da Ilha imortal e as suas +pedras polidas. Sem descanso, numa ânsia risonha, amarrou à vêrga alta a +vela cortada pelas Ninfas. Sôbre pesados rolos, manobrando a alavanca, +rolou a jangada imensa até à espuma da vaga, num esfôrço sublime, com +músculos tam retesos e veias tam inchadas, que êle mesmo parecia feito +de troncos e cordas. Uma ponta da jangada arfou, levantada em cadência +pela onda harmoniosa. E o Herói, erguendo os braços lustrosos de suor, +louvou os Deuses Imortais. + +Então, como a obra findára e a tarde rebrilhava, propícia à partida, a +generosa Calipso trouxe Ulisses, através das violetas e das anémonas, à +fresca gruta. Pelas suas divinas mãos o banhou numa concha de nácar, e o +perfumou com essências sobrenaturais, e o vestiu com uma túnica formosa +de lã bordada, e lançou sôbre os seus ombros um manto impenetrável às +neblinas do mar, e lhe estendeu sôbre a mesa, para êle saciar a +fome rude, as comidas mais sãs e mais finas da Terra. O Herói aceitava +os amorosos cuidados, com paciente magnanimidade. A Deusa, de gestos +serenos, sorria taciturnamente. + +Depois ela tomou a mão cabeluda de Ulisses, palpando com gôsto os calos +que lhe deixara o machado; e pela borda do Mar o conduziu à praia, onde +a vaga mansamente lambia os troncos da jangada forte. Ambos descansaram +sôbre uma rocha musgosa. Nunca a Ilha resplandecera com uma beleza tam +serena, entre um mar tam azul, sob um céu tam macio. Nem a água fresca +do Pindo bebida em marcha abrasada, nem o vinho doirado que produzem as +colinas de Chio, eram mais doces de sorver do que aquele ar repassado de +aromas, composto pelos Deuses para o respirar duma Deusa. A frescura +imorredoira das árvores entrava no coração, quási pedia a carícia dos +dedos. Todos os rumores, o dos regatos na relva, o das ondas no areal, o +das aves nas sombras frondosas, subiam, suave e finamente fundidos, como +as harmonias sagradas de um Templo distante. O esplendor e a graça das +flores retinham os raios pasmados do sol. Tantos eram os frutos nos +vergeis, e as espigas nas messes, que a Ilha parecia ceder, afundada no +Mar, sob o pêso da sua abundância. + +Então a Deusa, ao lado do Herói, levemente suspirou, e murmurou num +sorriso alado: + +--Oh, magnânimo Ulisses, tu certamente partes! O desejo te leva de rever +a mortal Penélope, e o teu doce Telêmaco, que deixaste no colo da ama +quando a Europa correu contra a Ásia, e agora já sustenta na mão uma +lança temida. Sempre dum amor antigo, com raízes fundas, brotará mais +tarde uma flor, mesmo triste. Mas dize! ¿Se em Ítaca não te esperasse a +espôsa tecendo e destecendo a teia, e o filho ansioso que alonga os +olhos incansados para o mar, deixarias tu, oh homem prudente, esta +doçura, esta paz, esta abundância e beleza imortal? + +O Herói, ao lado da Deusa, estendeu o braço poderoso, como na Assembleia +dos Reis, diante dos muros de Troia, quando plantava nas almas a verdade +persuasiva: + +--Oh Deusa, não te escandalises! Mas ainda que não existissem, para me +levar, nem filho, nem espôsa, nem reino, eu afrontaria alegremente os +mares e a ira dos Deuses! Porque, na verdade, oh Deusa muito ilustre, o +meu coração saciado já não suporta esta paz, esta doçura e esta beleza +imortal. Considera, oh Deusa, que em oito anos nunca vi a folhagem +destas árvores amarelecer e caír. Nunca êste céu rutilante se carregou +de nuvens escuras; nem tive o contentamento de estender, bem +abrigado, as mãos ao doce lume, emquanto a borrasca grossa batesse nos +montes. Todas essas flores que brilham nas hastes airosas são as mesmas, +oh Deusa, que admirei e respirei, na primeira manhã que me mostraste +êstes prados perpétuos:--e há lírios que odeio, com um ódio amargo, pela +impassibilidade da sua alvura eterna! Estas gaivotas repetem tam +incessantemente, tam implacavelmente, o seu vôo harmonioso e branco, que +eu escondo delas a face, como outros a escondem das negras Harpias! E +quantas vezes me refugío no fundo da gruta para não escutar o murmúrio +sempre lânguido dêstes arroios sempre transparentes! Considera, oh +Deusa, que na tua Ilha nunca encontrei um charco; um tronco apodrecido; +a carcassa dum bicho morto e coberto de moscas zumbidoras. Oh Deusa, há +oito anos, oito anos terríveis, estou privado de ver o trabalho, o +esfôrço, a luta e o sofrimento... Oh Deusa, não te escandalises! Ando +esfaimado por encontrar um corpo arquejando sob um fardo; dois bois +fumegantes puxando um arado; homens que se injuriem na passagem duma +ponte; os braços suplicantes duma mãe que chora; um coxo, sôbre a sua +muleta, mendigando à porta das vilas... Deusa, há oito anos que não ólho +para uma sepultura... Não posso mais com esta serenidade sublime! +Toda a minha alma arde no desejo do que se deforma, e se suja, e se +espedaça, e se corrompe... Oh Deusa imortal, eu morro com saudades da +morte! + +Imóvel, com as mãos imóveis no regaço, enrodilhadas nas pontas do véu +amarelo, a Deusa escutara, com um sorriso serenamente divino, o furioso +queixume do Herói cativo... No entanto já pela colina as Ninfas, servas +da Deusa, desciam, trazendo à cabeça, e amparando-os com o braço +redondo, os jarros de vinho, os sacos de coiro, que a Intendenta +venerável mandava para abastecer a jangada. Silenciosamente, o Herói +lançou uma tábua desde a areia até ao bordo de altos toros. E emquanto +sôbre ela as Ninfas passavam, ligeiras, com as manilhas de oiro +tilintando nos pés luzidios, Ulisses atento, contando os sacos e os +odres, gozava no seu nobre coração a abundância generosa. Mas, amarrados +com cordas às cavilhas aqueles fardos excelentes, todas as Ninfas, +lentamente, se sentaram sôbre o areal em tôrno da Deusa, para +contemplarem a despedida, o embarque, as manobras do Herói sôbre o dorso +das águas... Então uma cólera lampejou nos largos olhos de Ulisses. E, +diante de Calipso, cruzando furiosamente os valentes braços: + +--¿Oh Deusa, pensas tu na verdade que nada falta para que eu largue +a vela e navegue? ¿Onde estão os ricos presentes que me deves? Oito +anos, oito duros anos, fui o hóspede magnífico da tua Ilha, da tua +gruta, do teu leito... Sempre os Deuses imortais determinaram que aos +hóspedes, no momento amigo da partida, se ofertem consideráveis +presentes! ¿Onde estão elas, oh Deusa, essas riquezas abundantes que me +deves por costume da Terra e lei do Céu? + +A Deusa sorriu, com sublime paciência. E com palavras aladas, que fugiam +na aragem: + +--Oh Ulisses, tu és claramente o mais interesseiro dos homens! E tambêm +o mais desconfiado, pois que supões que uma Deusa negaria os presentes +devidos àquele que amou... Sossega, oh subtil Herói... Os ricos +presentes não tardam, largos e rebrilhantes. + +E, certamente, pela colina suave, outras Ninfas desciam, ligeiras, com +os véus a ondular, trazendo nos braços alfaias lustrosas, que ao sol +rutilavam! O magnânimo Ulisses estendeu as mãos, os olhos devoradores... +E emquanto elas passavam sôbre a tábua rangente, o Herói astuto contava, +avaliava no seu nobre espírito os escabelos de marfim, os rolos de telas +bordadas, os cântaros de bronze lavrado, os escudos cravejados de pedras... + +Tam rico e belo era o vaso de oiro que a derradeira Ninfa sustentava no +ombro, que Ulisses deteve a Ninfa, arrebatou o vaso, o sopesou, o +mirou, e gritou, com soberbo riso estridente: + +--Na verdade, êste oiro é bom! + +Depois de arrumadas e ligadas sob o largo banco as alfaias preciosas, o +impaciente Herói, arrebatando o machado, cortou a corda que prendia a +jangada ao tronco dum roble, e saltou para o alto bordo que a espuma +envolvia. Mas então recordou que nem beijara a generosa e ilustre +Calipso! Rápido, arremessando o manto, pulou através da espuma, correu +pela areia, e pousou um beijo sereno na fronte aureolada da Deusa. Ela +segurou de leve o seu ombro robusto: + +--Quantos males te esperam, oh desgraçado! Antes ficasses, para toda a +imortalidade, na minha Ilha perfeita, entre os meus braços perfeitos... + +Ulisses recuou, com um brado magnífico: + +--Oh Deusa, o irreparável e supremo mal está na tua perfeição! + +E, através da vaga, fugiu, trepou sôfregamente à jangada, soltou a vela, +fendeu o mar, partiu para os trabalhos, para as tormentas, para as +misérias--para a delícia das coisas imperfeitas! + + + + +O SUAVE MILAGRE! + + +Nesse tempo Jesus ainda se não afastara da Galilea e das doces, +luminosas margens do Lago de Tiberíade:--mas a nova dos seus Milagres +penetrara já até Enganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre olivais +e vinhedos, no país de Issachar. + +Uma tarde um homem de olhos ardentes e deslumbrados passou no fresco +vale, e anunciou que um novo Profeta, um Rabi formoso, percorria os +campos e as aldeias da Galilea, predizendo a chegada do Reino de Deus, +curando todos os males humanos. E emquanto descansava, sentado à beira +da _Fonte dos Vergeis_, contou ainda que êsse Rabi, na estrada de +Magdala, sarara da lepra o servo dum Decurião Romano só com estender +sôbre êle a sombra das suas mãos; e que noutra manhã, atravessando +numa barca para a terra dos Gerassénios, onde começava a colheita do +bâlsamo, ressuscitara a filha de Jaira, homem considerável e douto que +comentava os Livros na Sinagoga. E como em redor, assombrados, +seareiros, pastores, e as mulheres trigueiras com a bilha no ombro, lhe +perguntassem se êsse era, em verdade, o Messias da Judea, e se diante +dêle refulgia a espada de fogo, e se o ladeavam, caminhando como as +sombras de duas tôrres, as sombras de Gog e de Magog--o homem, sem mesmo +beber daquela água tam fria de que bebera Josué, apanhou o cajado, +sacudiu os cabelos, e meteu pensativamente por sob o Aqueduto, logo +sumido na espessura das amendoeiras em flor. Mas uma esperança, +deliciosa como o orvalho nos meses em que canta a cigarra, refrescou as +almas simples: logo, por toda a campina que verdeja até Ascalon, o arado +pareceu mais brando de enterrar, mais leve de mover a pedra do lagar: as +crianças, colhendo ramos de anémonas, espreitavam pelos caminhos se alêm +da esquina do muro, ou de sob o sicómoro, não surgiria uma claridade: e +nos bancos de pedra, às portas da cidade, os vélhos, correndo os dedos +pelos fios das barbas, já não desenrolavam, com tam sapiente certeza, os +ditames antigos. + +Ora então vivia em Enganim um vélho, por nome Obed, duma família +pontifical de Samaria que sacrificara nas aras do Monte Ebal, senhor de +fartos rebanhos e de fartas vinhas--e com o coração tam cheio de orgulho +como o seu celeiro de trigo. Mas um vento árido e abrasado, êsse vento +de desolação que ao mando do Senhor sopra das torvas terras de Assur, +matara as reses mais gordas das suas manadas, e pelas encostas onde as +suas vinhas se enroscavam ao olmo, e se estiravam na latada airosa, só +deixara, em tôrno dos olmos e pilares despidos, sarmentos, cêpas +mirradas, e a parra roída de crespa ferrugem. E Obed agachado à soleira +da sua porta, com a ponta do manto sôbre a face, palpava a poeira, +lamentava a velhice, ruminava queixumes contra Deus cruel. + +Apenas ouvira falar dêsse novo Rabi da Galilea, que alimentava as +multidões, amedrontava os demónios, emendava todas as desventuras--Obed, +homem lido, que viajara na Fenícia, logo pensou que Jesus seria um +dêsses feiticeiros, tam costumados na Palestina, como Apolónio, ou Rabi +Ben-Dossa, ou Simão, o Subtil. Êsses, mesmo nas noites tenebrosas, +conversam com as estrêlas, para êles sempre claras e fáceis nos seus +segredos: com uma vara afugentam de sôbre as searas os moscardos gerados +nos lôdos do Egipto: e agarram entre os dedos as sombras das +árvores, que conduzem, como toldos benéficos, para cima das eiras, à +hora da sésta. Jesus da Galilea, mais novo, com magias mais viçosas +de-certo, se êle largamente o pagasse, sustaria a mortandade dos seus +gados, reverdeceria os seus vinhedos. Então Obed ordenou aos seus servos +que partissem, procurassem por toda a Galilea o Rabi novo, e com +promessa de dinheiros ou alfaias o trouxessem a Enganim, no país de +Assachar. + +Os servos apertaram os cinturões de coiro--e largaram pela estrada das +Caravanas, que, costeando o Lago, se estende até Damasco. Uma tarde, +avistaram sôbre o poente, vermelho como uma romã muito madura, as neves +finas do monte Hermon. Depois, na frescura duma manhã macia, o lago de +Tiberíade resplandeceu diante dêles, transparente, coberto de silêncio, +mais azul que o céu, todo orlado de prados floridos, de densos vergeis, +de rochas de pórfiro, e de alvos terraços por entre os pomares, sob o +vôo das rôlas. Um pescador que desamarrava preguiçosamente a sua barca +duma ponta de relva, assombreada de aloendros, escutou, sorrindo, os +servos. ¿O Rabi de Nazareth? Oh! desde o mês de Ijar, o Rabi descera, +com os seus discípulos, para os lados para onde o Jordão leva as águas. + +Os servos, correndo, seguiram pelas margens do rio, até adiante do +vau, onde êle se estira num largo remanso, e descansa, e um instante +dorme, imóvel e verde, à sombra dos tamarindos. Um homem da tríbu dos +Essénios, todo vestido de linho branco, apanhava lentamente ervas +salutares, pela beira da água, com um cordeirinho branco ao colo. Os +servos humildemente saudaram-no porque o povo ama aqueles homens de +coração tam limpo, e claro, e cândido como as suas vestes cada manhã +lavadas em tanques purificados. ¿E sabia êle da passagem do novo Rabi da +Galilea, que como os Essénios ensinava a doçura, e curava as gentes e os +gados? O Essénio murmurou que o Rabi atravessara o Oásis de Engaddi, +depois se adiantara para alêm...--Mas onde, «alêm?»--Movendo um ramo de +flores roxas que colhera, o Essénio mostrou as terras de Alêm Jordão, a +planície de Moab. Os servos vadearam o rio--e debalde procuraram Jesus, +arquejando pelos rudes trilhos, até às fragas onde se ergue a cidadela +sinistra de Makaur... No Pôço de Yakob repousava uma larga caravana, que +conduzia para o Egipto mirra, especiarias e bâlsamos de Gilead: e os +cameleiros, tirando a água com os baldes de coiro, contaram aos servos +de Obed que em Gadara, pela lua nova um Rabi maravilhoso, maior que +David ou Isaias, arrancara sete demónios do peito duma tecedeira, e +que, à sua voz, um homem degolado pelo salteador Barabas, se erguera da +sua sepultura e recolhera ao seu horto. Os servos, esperançados, subiram +logo açodadamente pelo caminho dos Peregrinos até Gadara, cidade de +altas tôrres, e ainda mais longe até às Nascentes da Amalha... Mas +Jesus, nessa madrugada, seguindo por um povo que cantava e sacudia ramos +de mimosa, embarcara no Lago, num batel de pesca, e à vela navegara para +Magdala. E os servos de Obed descorçoados, de novo passaram o Jordão na +Ponte das Filhas de Jacob. Um dia, já com as sandálias rôtas dos longos +caminhos, pisando já as terras da Judea Romana, cruzaram um Fariseu +sombrio, que recolhia a Efraim, montado na sua mula. Com devota +reverência detiveram o homem da Lei. ¿Encontrara êle por acaso êsse +Profeta novo da Galilea que, como um Deus passeando na terra, semeava +milagres? A adunca face do Fariseu escureceu enrugada--e a sua cólera, +retumbou como um tambor orgulhoso: + +--Oh escravos pagãos! Oh blasfemos! ¿Onde ouvistes que existissem +profetas ou milagres fóra de Jerusalêm? Só Jeová tem fôrça no seu +Templo. De Galilea surdem os néscios e os impostores... + +E como os servos recuavam ante o seu punho erguido, todo enrodilhado de +dísticos sagrados--o furioso Doutor saltou da mula, e, com as +pedras da estrada, apedrejou os servos de Obed, uivando: _Racca! Racca!_ +e todos os Anátemas rituais. Os servos fugiram para Enganim. E grande +foi a desconsolação de Obed, porque os seus gados morriam, as suas +vinhas secavam,--e todavia radiantemente, como uma alvorada por detrás +de serras, crescia, consoladora e cheia de promessas divinas, a fama de +Jesus da Galilea. + +Por êsse tempo, um Centurião Romano, Publius Septimus, comandava o forte +que domina o vale de Cesarea, até à cidade e ao mar. Publius, homem +áspero, veterano da campanha de Tibério contra os Partas, enriquecera +durante a revolta de Samaria com prêsas e saques, possuia minas na +Ática, e gozava, como favor supremo dos Deuses, a amizade de Flaccus, +Legado Imperial da Síria. Mas uma dor roía a sua prosperidade muito +poderosa, como um verme rói um fruto muito suculento. Sua filha única, +para êle mais amada que vida e bens, definhava com um mal subtil e +lento, estranho mesmo ao saber dos esculápios e mágicos que êle mandara +consultar a Sidon e a Tyro. Branca e triste como a lua num cemitério, +sem um queixume, sorrindo pálidamente a seu pai, definhava, sentada na +alta esplanada do forte, sob um velário, alongando saudosamente os +negros olhos tristes pelo azul do mar de Tyro, por onde ela +navegara de Itália, numa opulenta galera. Ao seu lado, por vezes, um +legionário, entre as ameias, apontava vagarosamente ao alto a flecha, e +varava uma grande águia, voando de asa serena, no céu rutilante. A filha +de Septimus, seguia um momento a ave, torneando até bater morta sôbre as +rochas:--depois, com um suspiro, mais triste e mais pálida, recomeçava a +olhar para o mar. + +Então Septimus, ouvindo contar, a mercadores de Chorazin, dêste Rabi +admirável, tam potente sôbre os Espíritos, que sarava os males +tenebrosos da alma, destacou três decúrias de soldados para que o +procurassem pela Galilea, e por todas as cidades da Decápola, até à +costa e até Ascalon. Os soldados enfiaram os escudos nos sacos de lona, +espetaram nos elmos ramos de oliveira--e as suas sandálias ferradas +apressadamente se afastaram, ressoando sôbre as lages de basalto da +estrada romana, que desde Cesarea até ao Lago corta toda a Tetraquia de +Herodes. As suas armas, de noite, brilhavam no tôpo das colinas, por +entre a chama ondeante dos archotes erguidos. De dia invadiam os casais, +rebuscavam a espessura dos pomares, esfuracavam com a ponta das lanças a +palha das medas: e as mulheres, assustadas, para os amansar, logo +acudiam com bolos de mel, figos novos, e malgas cheias de vinho, que +êles bebiam dum trago, sentados à sombra dos sicómoros. Assim correram a +Baixa Galilea--e, do Rabi, só encontraram o sulco luminoso nos corações. +Enfastiados com as inúteis marchas, desconfiando que os Judeus +sonegassem o seu feiticeiro para que Romanos não aproveitassem do +superior feitiço, derramavam com tumulto a sua cólera, através da +piedosa terra submissa. À entrada das pontes detinham os peregrinos, +gritando o nome do Rabi, rasgando os véus às virgens: e, à hora em que +os cântaros se enchem nas cisternas, invadiam as ruas estreitas dos +burgos, penetravam nas Sinagogas, e batiam sacrílegamente com os punhos +das espadas nas _Thebahs_, os Santos Armários de cedro que continham os +Livros Sagrados. Nas cercanias de Hebron arrastaram os Solitários pelas +barbas para fóra das grutas, para lhes arrancar o nome do deserto ou do +palmar em que se ocultava o Rabi:--e dois mercadores Fenícios que vinham +de Joppé com uma carga de malobatro, e a quem nunca chegara o nome de +Jesus, pagaram por êsse delito cem drácmas a cada Decurião. Já a gente +dos campos, mesmos os bravios pastores de Idumea, que levam as reses +brancas para o Templo, fugiam espavoridos para as serranias, apenas +luziam, nalguma volta do caminho, as armas do bando violento. E da beira +dos eirados, as vélhas sacudiam como taleigos a ponta dos cabelos +desgrenhados, e arrojavam sôbre êles as Más-Sortes, invocando a vingança +de Elias. Assim tumultuosamente erraram até Ascalon: não encontraram +Jesus: e retrocederam ao longo da costa enterrando as sandálias nas +areias ardentes. + +Uma madrugada, perto de Cesarea, marchando num vale, avistaram sôbre um +outeiro um verde-negro bosque de loureiros, onde alvejava, +recolhidamente, o fino e claro pórtico dum templo. Um vélho, de +compridas barbas brancas, coroado de fôlhas de louro, vestido com uma +túnica côr de açafrão, segurando uma curta lira de três cordas, esperava +gravemente, sôbre os degraus de mármore, a aparição do sol. Debaixo, +agitando um ramo de oliveira, os soldados bradaram pelo Sacerdote. +¿Conhecia êle um novo Profeta que surgira na Galilea, e tam déstro em +milagres que ressuscitava os mortos e mudava a água em vinho? +Serenamente, alargando os braços, o sereno vélho exclamou por sôbre a +rociada verdura do vale: + +--Oh romanos! ¿pois acreditais que em Galilea ou Judea apareçam profetas +consumando milagres? ¿Como pode um bárbaro alterar a Ordem instituida +por Zeus?... Mágicos e feiticeiros são vendilhões, que murmuram +palavras ôcas, para arrebatar a espórtula dos simples... Sem a permissão +dos Imortais nem um galho sêco pode tombar da árvore, nem sêca fôlha +pode ser sacudida na árvore. Não há profetas, não há milagres... Só +Apolo Délfico conhece o segredo das coisas! + +Então, devagar, com a cabeça derrubada, como numa tarde de derrota, os +soldados recolheram à fortaleza de Cesarea. E grande foi o desespero de +Septimus, porque sua filha morria, sem um queixume, olhando o mar de +Tyro--e todavia a fama de Jesus, curador dos lânguidos males, crescia, +sempre mais consoladora e fresca, como a aragem da tarde que sopra do +Hermon e, através dos hortos, reanima e levanta as açucenas pendidas. + +Ora entre Enganim e Cesarea, num casebre desgarrado, sumido na prega dum +cêrro, vivia a êsse tempo uma viuva, mais desgraçada mulher que todas as +mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do +magro peito a que ela o criara para os farrapos da enxerga apodrecida, +onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Tambêm a ela a +doença a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e +torcida que uma cepa arrancada. E, sôbre ambos, espessamente a miséria +cresceu como o bolôr sôbre cacos perdidos num ermo. Até na lâmpada +de barro vermelho, secara há muito o azeite. Dentro da arca pintada não +restava grão ou côdea. No estio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no +quinteiro, secara a figueira. Tam longe do povoado, nunca esmola de pão +ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das rochas, +cosidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida, +onde até às aves maléficas sobrava o sustento! + +Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe +amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas +das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, êsse Rabi que +aparecera na Galilea, e de um pão no mesmo cêsto fazia sete, e amava +todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres +um grande e luminoso Reino, de abundância maior que a Côrte de Salomão. +A mulher escutava com olhos famintos. ¿E êsse dôce Rabi, esperança dos +tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah êsse dôce Rabi! +quantos o desejavam, que se desesperançavam! A sua fama andava por sôbre +toda a Judea como o sol que até por qualquer vélho muro se estende e se +goza; mas para enxergar a claridade do seu rosto, só aqueles ditosos que +o seu desejo escolhia. Obed, tam rico, mandara os seus servos por +toda a Galilea para que procurassem Jesus, o chamassem com promessas a +Enganim: Septimus, tam soberano, destacara os seus soldados até à costa +do mar, para que buscassem Jesus, o conduzissem, por seu mando, a +Cesarea. Errando, esmolando por tantas estradas, êle topara os servos de +Obed, depois os legionários de Septimus. E todos voltavam, como +derrotados, com as sandálias rôtas, sem ter descoberto em que mata ou +cidade, em que toca ou palácio, se escondia Jesus. + +A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, +entre a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto, mais vergada, mais +abandonada. E então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar duma +asa, pediu à mãe que lhe trouxesse êsse Rabi, que amava as criancinhas +ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. A mãe +apertou a cabeça esguedelhada: + +--Oh filho! ¿e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos, à +procura do Rabi da Galilea? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram +Jesus, por areais e colinas, desde Chorazin até ao país de Moab. +Septimus é forte, e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde o +Hebron até ao mar! ¿Como queres que te deixe? Jesus anda por muito longe +e a nossa dor mora comnosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos +prende. ¿E mesmo que o encontrasse, como convenceria eu o Rabi tam +desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse através das +cidades até êste ermo, para sarar um entrevadinho tam pobre, sôbre +enxerga tam rôta? + +A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou: + +--Oh mãe! Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tam pequeno, e com +um mal tam pesado, e que tanto queria sarar! + +E a mãe, em soluços: + +--¿Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da +Galilea, e curta a piedade dos homens. Tam rôta, tam trôpega, tam +triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguêm atenderia +o meu recado, e me apontaria a morada do doce Rabi. Oh filho! talvez +Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O céu o +trouxe, o céu o levou. E com êle para sempre morreu a esperança dos +tristes. + +De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãosinhas que +tremiam, a criança murmurou: + +--Mãe, eu queria ver Jesus... + +E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança: + +--Aqui estou. + + +FIM + + + + +ÍNDICE + + Pag. + + Singularidades de uma rapariga loura 1 + + Um poeta lírico 43 + + No moínho 61 + + Civilização 81 + + O tesoiro 123 + + Frei Genebro 135 + + Adão e Eva no Paraíso 153 + + A aia 205 + + O defunto 215 + + José Matias 265 + + A perfeição 303 + + O suave milagre! 335 + + + + +Notas de transcrição: + +Foram encontrados e corrigidos alguns erros tipográficos evidentes, +de que não considerámos necessária menção especial. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Contos, by José Maria Eça de Queirós + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS *** + +***** This file should be named 31347-8.txt or 31347-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/1/3/4/31347/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Contos + +Author: José Maria Eça de Queirós + +Release Date: February 22, 2010 [EBook #31347] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net + + + + + + +</pre> + +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> + +<p style="font-size: 2em;">CONTOS</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="text-align: right; text-decoration: underline;">PORTO—Imprensa Moderna</p> +</div> + +<p><span class="pn">{II}</span><br> + +<span class="pn">{III}</span><br> + +<span class="pn">{IV}</span></p> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p><img src="images/eca_de_queiroz.png" border="0" alt="Eça de Queiroz"></p> +<p><em>Eça de Queiroz</em></p> +</div> + +<p><span class="pn">{V}</span></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center; border: solid 1px #000;"> +<p style="font-size: 1.4em;">EÇA DE QUEIROZ</p> + +<p style="font-size: 3em;">CONTOS</p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p>TERCEIRA EDIÇÃO</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.2em;">PORTO</p> + +<p>L<small>IVRARIA </small>C<small>HARDRON, DE </small>L<small>ELO +</small>& I<small>RMÃO,<br> </small>E<small>DITORES—</small>R<small>UA DAS +</small>C<small>ARMELITAS, 144</small><br> + +1913</p> + +<p><small>Todos os direitos reservados</small></p> + +</div> + +<p><span class="pn">{VI}</span></p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="font-size: 80%;"> +<p style="text-align: center; font-size: 1.2em;">Obras de EÇA DE QUEIROZ</p> + +<p> </p> + +<blockquote> + <strong>O Crime do Padre Amaro</strong>, 1 vol. 1$200 + + <p><strong>O Primo Bazílio</strong>, 1 volume 1$000</p> + + <p><strong>O Mandarim</strong>, 1 volume 500</p> + + <p><strong>Os Maias</strong>, 2 grossos volumes 2$000</p> + + <p><strong>A Relíquia</strong>, 1 grosso volume 1$000</p> + + <p><strong>Correspondência de Fradique Mendes</strong>, 1 volume 600</p> + + <p><strong>A Ilustre Casa de Ramires</strong>, 1 volume 1$000</p> + + <p><strong>A Cidade e as Serras</strong>, 1 volume 800</p> + + <p><strong>Contos</strong>, 1 volume 600</p> + + <p><strong>Prosas Bárbaras</strong>, 1 volume 600</p> + + <p><strong>Cartas de Inglaterra</strong>, 1 volume 500</p> + + <p><strong>Ecos de Paris</strong>, 1 volume 500</p> + + <p><strong>Cartas Familiares</strong>, 1 vol. 500</p> + + <p><strong>Notas Contemporâneas</strong>, 1 volume 1$000</p> + + <p><strong>Últimas páginas</strong> (manuscritos inéditos), 1 vol. 1$000</p> + + <p><strong>Páginas esquecidas</strong>, com um largo estudo de José Sampaio + (Bruno) no prélo</p> + + <p><strong>As Minas de Salomão</strong>, (tradução), 1 volume 600</p> + + <p><strong>Revista de Portugal</strong>, 4 grossos volumes (colaboração) + 12$000</p> +</blockquote> + +</div> + +<p style="text-align: center;">—</p> + +<p>A propriedade literária e artística está garantida em todos os países que +aderiram à convenção de Berne—(Em Portugal, pela lei de 18 de março de 1911. +No Brasil pela lei n.º 2.577 de 17 de Jan. de 1912.) <span class="pn">{VII}</span></p> + +<div id="corpo"> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>A obra dispersa de Eça de Queiroz, desde os seus primeiros folhetins na +<em>Revolução de Setembro</em> e na <em>Gazeta de Portugal</em> até à sua +assídua colaboração na <em>Gazeta de Notícias</em>, do Rio de Janeiro, e na +<em>Revista Moderna</em>, é muito vasta, muito variada e encerra algumas das +mais maravilhosas páginas do grande e saudoso escritor.</p> + +<p>Os seus editores começam, com a publicação do presente volume, a +<em>compilação da obra póstuma e dispersa</em>, recolhendo cuidadosamente êsse +riquíssimo espólio, para o salvar, pelo livro, do esquecimento a que o +condenariam a dispersão das fôlhas diárias e a sua efémera vida.</p> + +<p>Os <em>Contos</em> compreendem todos os escritos dêste género que Eça de +Queiroz nos deixou, a partir das <em>Singularidades duma rapariga loura</em>. +Os seus primitivos escritos na <em>Revolução</em> e na<span class="pn">{VIII}</span> <em>Gazeta de +Portugal</em>, obra mixta de fantasia e de crítica, seguir-se hão a êste em +outro volume, já no prelo, e a que uma feliz indicação do snr. Jaime Batalha +Reis<a name="tex2html2" href="#foot738"><sup>[1]</sup></a> nos revelou o +próprio título que o autor determinara dar-lhe: <em>Prosas Bárbaras</em>.</p> + +<p>Mais três volumes serão destinados a coligir as suas correspondências para +os jornais brasileiros, conservando-se-lhes como títulos as rúbricas sob que +ali eram publicadas: <em>Cartas de Inglaterra</em>, <em>Ecos de Paris e Cartas +Familiares</em>; e outros dois encerrarão<a name="tex2html3" +href="#foot739"><sup>[2]</sup></a> a sua copiosa <em>vária</em>, onde se +misturam impressões de literatura e de arte, artigos sôbre política geral, +estudos biográficos,<span class="pn">{IX}</span> notas de viagem, ensaios, críticas, polémica, etc. +</p> + +<p>Completará esta série um derradeiro volume com o precioso inédito do <em>S. +Cristóvão</em>,<a name="tex2html4" href="#foot740"><sup>[3]</sup></a> tal como +o admirável artista o deixou: um esbôço magnífico, um verdadeiro improviso, +traçado com largueza numa primeira factura pronta e fluente, onde a sua +imaginação e a sua prosa brotam em jorros impetuosos e borbulhantes, em +contrário da falsa lenda que fazia de Eça de Queiroz um criador moroso, e um +escritor sem espontaneidade.</p> + +<p>A título de curiosidade, para mostrar o poder de desenvolvimento e ampliação +das suas faculdades imaginativas e como um exemplo dos seus<span class="pn">{X}</span> processos de +trabalho, inserimos no presente volume o conto intitulado <em>Civilização</em>, +que o autor, amplificando-o, transformou depois na deliciosa novela <em>A +Cidade e as Serras</em>.</p> + +<p>Ao terminar estas linhas, os editores cumprem o grato dever de testemunhar o +seu reconhecimento ao snr. Francisco Ramos Paz, co-proprietário da <em>Gazeta +de Notícias</em>, do Rio de Janeiro, que, com o mais vivo interesse pela +publicação dos escritos dispersos de Eça de Queiroz, lhes forneceu +obsequiosamente toda a vasta colaboração do ilustre romancista no importante +jornal fluminense.</p> + +<p> </p> + +<p>Pôrto, 1903.</p> + +<p style="text-align: right;"><strong><em>Lelo & Irmão.</em></strong></p> + +<p>(<em>Da primeira edição</em>)</p> + +<p> </p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot738" href="#tex2html2"><sup>[1]</sup></a> A<small>NTHERO DE +</small>Q<small>UENTAL</small>, <em>In Memoriam</em>, pag. 444.</p> + +<p><a name="foot739" href="#tex2html3"><sup>[2]</sup></a> Publicado num só +volume—<em>Notas Contemporâneas</em>—1909.</p> + +<p><a name="foot740" href="#tex2html4"><sup>[3]</sup></a> Incluido no +volume—<em>Últimas páginas</em>—1911.</p> +</div> + + +<p><span class="pn">{1}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION000100">SINGULARIDADES <br> +DE <br> +UMA RAPARIGA LOURA</a> </h1> + + +<h2><a name="SECTION000110">I</a> </h2> + +<p>Começou por me dizer que o seu caso era simples—e que se chamava Macário... +</p> + +<p>Devo contar que conheci êste homem numa estalagem do Minho. Era alto e +grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se lhe +erriçavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda engelhada e +amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e rectidão—por trás +dos seus óculos redondos com aros de tartaruga. Tinha a barba rapada, o queixo +saliente e resoluto. Trazia uma gravata de setim negro apertada por trás com +uma fivela; um casaco comprido côr de pinhão, com as mangas estreitas e justas +e canhões de veludilho. E pela longa<span class="pn">{2}</span> abertura do seu colete de sêda, onde +reluzia um grilhão antigo, saíam as pregas moles de uma camisa bordada.</p> + +<p>Era isto em setembro: já as noites vinham mais cedo, com uma friagem fina e +sêca e uma escuridão aparatosa. Eu tinha descido da diligência, fatigado, +esfomeado, tiritando num cobrejão de listas escarlates.</p> + +<p>Vinha de atravessar a serra e os seus aspectos pardos e desertos. Eram oito +horas da noite. Os céus estavam pesados e sujos. E, ou fôsse um certo +adormecimento cerebral produzido pelo rolar monótono da diligência, ou fôsse a +debilidade nervosa da fadiga, ou a influência da paizagem escarpada e árida, +sob o côncavo silêncio noturno, ou a opressão da electricidade, que enchia as +alturas—o facto é que eu—que sou naturalmente positivo e realista—tinha +vindo tiranizado pela imaginação e pelas quimeras. Existe, no fundo de cada um +de nós, é certo,—tam friamente educados que sejâmos—um resto de misticismo; e +basta às vezes uma paizagem soturna, o vélho muro de um cemitério, um ermo +ascético, as emolientes brancuras de um luar, para que êsse fundo místico suba, +se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensação e a idea, e fique assim o +mais matemático ou o mais crítico—tam triste, tam visionário, tam +idealista—como um vélho monge poeta. A mim, o que me lançara na quimera<span class="pn">{3}</span> e +no sonho, fôra o aspecto do mosteiro de Rastelo, que eu tinha visto, à +claridade suave e outonal da tarde, na sua doce colina. Então, emquanto +anoitecia, a diligência rolava contínuamente ao trote esgalgado dos seus magros +cavalos brancos, e o cocheiro, com o capuz do gabão enterrado na cabeça, +ruminava o seu cachimbo—eu pus-me, elegíacamente, ridículamente, a considerar +a esterilidade da vida: e desejava ser um monge, estar num convento, tranqùilo, +entre arvoredos ou na murmurosa concavidade dum vale, e emquanto a água da +cêrca canta sonoramente nas bacias de pedra, ler a <em>Imitação</em>, e ouvindo +os rouxinóis nos loireirais ter saudades do céu.—Não se pode ser mais +estúpido. Mas eu estava assim, e atribuo a esta disposição visionária a falta +de espírito—a sensação—que me fez a história daquele homem dos canhões de +veludilho.</p> + +<p>A minha curiosidade começou à ceia, quando eu desfazia o peito de uma +galinha afogada em arroz branco, com fatias escarlates de paio—e a criada, uma +gorda e cheia de sardas, fazia espumar o vinho verde no copo, fazendo-o cair de +alto de uma caneca vidrada. O homem estava defronte de mim, comendo +tranqùilamente a sua geleia: perguntei-lhe, com a bôca cheia, o meu guardanapo +de linho de Guimarães suspenso nos dedos—se êle era de Vila Rial.<span class="pn">{4}</span></p> + +<p>—Vivo lá. Há muitos anos—disse-me êle.</p> + +<p>—Terra de mulheres bonitas, segundo me consta—disse eu.</p> + +<p>O homem calou-se.</p> + +<p>—Hein?—tornei.</p> + +<p>O homem contraiu-se num silêncio saliente. Até aí estivera alegre, rindo +dilatadamente; loquaz e cheio de bonomia. Mas então imobilizou o seu sorriso +fino.</p> + +<p>Compreendi que tinha tocado a carne viva de uma lembrança. Havia de-certo no +destino daquele vélho uma <em>mulher</em>. Aí estava o seu melodrama ou a sua +farça, porque inconscientemente estabeleci-me na idea de que o <em>facto</em>, +o <em>caso</em> daquele homem, devera ser grotesco e exalar escárnio.</p> + +<p>De sorte que lhe disse:</p> + +<p>—A mim teem-me afirmado que as mulheres de Vila Rial são as mais bonitas do +Norte. Para os olhos pretos Guimarães, para corpos Santo Aleixo, para tranças +os Arcos: é lá que se vêem os cabellos claros côr de trigo.</p> + +<p>O homem estava calado, comendo, com os olhos baixos.</p> + +<p>—Para cinturas finas Viana, para boas peles Amarante—e para isto tudo Vila +Rial. Eu tenho um amigo que veio casar a Vila Rial. Talvez conheça. O Peixoto, +um alto, de barba loura, bacharel.<span class="pn">{5}</span></p> + +<p>—O Peixoto, sim,—disse-me êle, olhando gravemente para mim.</p> + +<p>—Veio casar a Vila Rial como antigamente se ia casar à Andaluzia—questão +de arranjar a fina flor da perfeição.—À sua saude.</p> + +<p>Eu evidentemente constrangia-o, porque se ergueu, foi à janela com um passo +pesado, e reparei então nos seus grossos sapatos de casimira com a sola forte e +atilhos de coiro. E saiu.</p> + +<p>Quando pedi o meu castiçal, a criada trouxe-me um candieiro de latão +lustroso e antigo e disse:</p> + +<p>—O senhor está com outro. É no n.º 3.</p> + +<p>Nas estalagens do Minho, às vezes, cada quarto é um dormitório impertinente. +</p> + +<p>—Vá—disse eu.</p> + +<p>O n.º 3 era no fundo do corredor. Às portas dos lados os hóspedes tinham +posto o seu calçado para engraxar: estavam umas grossas botas de montar, +enlameadas, com esporas de correia; os sapatos brancos de um caçador; botas de +proprietário, de altos canos vermelhos; as botas de um padre, altas, com a sua +borla de retroz; os botins cambados de bezerro, de um estudante; e a uma das +portas, o n.º 15, havia umas botinas de mulher, de duraque, pequeninas e finas, +e ao lado as pequeninas botas de uma criança, todas coçadas e batidas, e os +seus canos de pelica-mór caíam-lhe para os lados com os atacadores desatados. +Todos dormiam.<span class="pn">{6}</span> Defronte do n.º 3 estavam os sapatos de casimira com +atilhos: e quando abri a porta vi o homem dos canhões de veludilho, que +amarrava na cabeça um lenço de sêda: estava com uma jaqueta curta de ramagens, +uma meia de lã, grossa e alta, e os pés metidos nuns chinelos de ourelo.</p> + +<p>—O senhor não repare—disse êle.</p> + +<p>—À vontade—e para estabelecer a intimidade tirei o casaco.</p> + +<p>Não direi os motivos porque êle daí a pouco, já deitado, me disse a sua +história. Há um provérbio eslavo da Galícia que diz: o que não contas à tua +mulher, o que não contas ao teu amigo, conta-lo a um estranho, na estalagem. +Mas êle teve raivas inesperadas e dominantes para a sua larga e sentida +confidência. Foi a respeito do meu amigo, do Peixoto, que fôra casar a Vila +Rial. Vi-o chorar, àquele vélho de quási sessenta anos. Talvez a história seja +julgada trivial: a mim, que nessa noite estava nervoso e sensível, pareceu-me +terrível,—mas conto-a apenas como um acidente singular da vida amorosa....</p> + +<p>Começou pois por me dizer que o seu caso era simples—e que se chamava +Macário.</p> + +<p>Perguntei-lhe então se era de uma família que eu conhecera que tinha o +apelido de <em>Macário</em>. E como êle me respondeu que era primo dêsses, eu +tive logo do seu carácter uma idea<span class="pn">{7}</span> simpática, porque os Macários eram uma +antiga família, quási uma dinastia de comerciantes, que mantinham com uma +severidade religiosa a sua vélha tradição de honra e de escrúpulo. Macário +disse-me que nesse tempo, em 1823 ou 33, na sua mocidade, seu tio Francisco +tinha, em Lisboa, um armazêm de panos, e êle era um dos caixeiros. Depois o tio +compenetrára-se de certos instintos inteligentes e do talento prático e +aritmético de Macário, e deu-lhe a escrituração. Macário tornou-se o seu +<em>guarda-livros</em>.</p> + +<p>Disse-me êle que sendo naturalmente linfático e mesmo tímido, a sua vida +tinha nesse tempo uma grande concentração. Um trabalho escrupuloso e fiel, +algumas raras merendas no campo, um apuro saliente de fato e de roupas brancas, +era todo o interesse da sua vida. A existência nesse tempo era caseira e +apertada. Uma grande simplicidade social aclarava os costumes: os espíritos +eram mais ingénuos, os sentimentos menos complicados.</p> + +<p>Jantar alegremente numa horta, debaixo das parreiras, vendo correr a água +das regas—chorar com os melodramas que rugiam entre os bastidores do Salitre, +alumiados a cera, eram contentamentos que bastavam à burguesia cautelosa. Alêm +disso os tempos eram confusos e revolucionários: e nada torna o homem +recolhido, conchegado à lareira, simples e fácilmente<span class="pn">{8}</span> feliz—como a +guerra. É a paz que dando os vagares da imaginação—causa as impaciências do +desejo.</p> + +<p>Macário, aos vinte e dois anos, ainda não tinha—como lhe dizia uma vélha +tia, que fôra querida do desembargador Curvo Semedo, da Arcádia,—<em>sentido +Vénus</em>.</p> + +<p>Mas por êsse tempo veio morar para defronte do armazêm dos Macários, para um +terceiro andar, uma mulher de quarenta anos, vestida de luto, uma pele branca e +baça, o busto bem feito e redondo e um aspecto desejável. Macário tinha a sua +carteira no primeiro andar, por cima do armazêm, ao pé de uma varanda, e dali +viu uma manhã aquela mulher com o cabelo preto solto e anelado, um chambre +branco e braços nus, chegar-se a uma pequena janela de peitoril, a sacudir um +vestido. Macário afirmou-se e sem mais intenção dizia mentalmente que aquela +mulher, aos vinte anos, devia ter sido uma pessoa cativante e cheia de domínio: +porque os seus cabelos violentos e ásperos, o sobr'ôlho espesso, o lábio forte, +o perfil aquilino e firme, revelavam um temperamento activo e imaginações +apaixonadas. No entanto, continuou serenamente alinhando as suas cifras. Mas à +noite estava sentado fumando à janela do seu quarto, que abria sôbre o pátio: +era em julho e a atmosfera estava eléctrica e amorosa: a rebeca de um +vizinho<span class="pn">{9}</span> gemia uma <em>chácara</em> mourisca, que então sensibilizava, e +era de um melodrama; o quarto estava numa penumbra doce e cheia de mistério—e +Macário, que estava em chinelas, começou a lembrar-se daqueles cabelos negros e +fortes e daqueles braços que tinham a côr dos mármores pálidos: espreguiçou-se, +rolou mórbidamente a cabeça pelas costas da cadeira de vime, como os gatos +sensíveis que se esfregam, e decidiu bocejando que a sua vida era monótona. E +ao outro dia, ainda impressionado, sentou-se à sua carteira com a janela toda +aberta, e olhando o prédio fronteiro onde viviam aqueles cabelos +grandes—começou a aparar vagarosamente a sua pena de rama. Mas ninguêm se +chegou à janela de peitoril, com caixilhos verdes. Macário estava enfastiado, +pesado—e o trabalho foi lento. Pareceu-lhe que havia na rua um sol alegre, e +que nos campos as sombras deviam ser mimosas e que se estaria bem vendo o +palpitar das borboletas brancas nas madre-silvas! E, quando fechou a carteira, +sentiu defronte correr-se a vidraça; eram de-certo os cabelos pretos. Mas +apareceram uns cabelos louros. Oh! E Macário veio logo salientemente para a +varanda aparar um lápis. Era uma rapariga de vinte anos, talvez—fina, fresca, +loura como uma vinheta inglesa: a brancura da pele tinha alguma coisa da +transparência das vélhas porcelanas, e havia no seu perfil uma<span class="pn">{10}</span> linha pura +como de uma medalha antiga, e os vélhos poetas pitorescos ter-lhe-iam +chamado—pomba, arminho, neve e oiro.</p> + +<p>Macário disse consigo:</p> + +<p>—É filha.</p> + +<p>A outra vestia de luto, mas esta, a loira, tinha um vestido de cassa com +pintas azuis, um lenço de cambraia traspassado sôbre o peito, as mangas +perdidas com rendas, e tudo aquilo era asseado, môço, fresco, flexível e tenro. +</p> + +<p>Macário nesse tempo era louro com a barba curta. O cabelo era anelado e a +sua figura devia ter aquele ar sêco e nervoso que depois do século XVIII e da +revolução—foi tam vulgar nas raças plebeias.</p> + +<p>A rapariga loura reparou naturalmente em Macário, e naturalmente desceu a +vidraça, correndo por trás uma cortina de cassa bordada. Estas pequenas +cortinas datam de G[oe]the e teem na vida amorosa um interessante destino: +revelam. Levantar-lhes uma ponta e espreitar, franzi-la suavemente, revela um +fim; corrê-la, pregar nela uma flor, agitá-la fazendo sentir que por trás um +rosto atento se move e espera—são vélhas maneiras com que na realidade e na +arte começa o romance. A cortina ergueu-se devagarinho e o rosto louro +espreitou.</p> + +<p>Macário não me contou por pulsações—a história minuciosa do seu coração. +Disse singelamente que daí a cinco dias—<em>estava doido</em><span class="pn">{11}</span> <em>por +ela</em>. O seu trabalho tornou-se logo vagaroso e infiel e o seu belo cursivo +inglês firme e largo ganhou curvas, ganchos, rabiscos, onde estava todo o +romance impaciente dos seus nervos. Não a podia ver pela manhã: o sol mordente +de julho batia e escaldava a pequena janela de peitoril. Só pela tarde, a +cortina se franzia, se corria a vidraça, e ela, estendendo uma almofadinha no +rebordo do peitoril, vinha encostar-se mimosa e fresca com o seu leque. Leque +que preocupou Macário: era uma ventarola chinesa, redonda, de sêda branca com +dragões escarlates bordados à pena, uma cercadura de plumagem azul, fina e +trémula como uma penugem e o seu cabo de marfim, donde pendiam duas borlas de +fio de oiro, tinha incrustações de nácar à linda maneira persa.</p> + +<p>Era um leque magnífico e naquele tempo inesperado nas mãos plebeias de uma +rapariga vestida de cassa. Mas como ela era loura e a mãe tam meridional, +Macário, com esta intuição interpretativa dos namorados, disse à sua +curiosidade: <em>será filha de um inglês</em>. O inglês vai à China, à Pérsia, +a Ormuz, à Austrália e vem cheio daquelas jóias dos luxos exóticos, e nem +Macário sabia porque é que aquela ventarola de mandarina o preocupava assim: +mas segundo êle me disse—<em>aquilo deu-lhe no gôto</em>.</p> + +<p>Tinha-se passado uma semana, quando um dia Macário viu, da sua carteira, que +ela, a<span class="pn">{12}</span> loura, saía com a mãe, porque se acostumara a considerar mãe dela +aquela magnífica pessoa, magníficamente pálida e vestida de luto.</p> + +<p>Macário veio à janela e viu-a atravessar a rua e entrarem no armazêm. No seu +armazêm! Desceu logo trémulo, sôfrego, apaixonado e com palpitações. Estavam +elas já encostadas ao balcão e um caixeiro desdobrava-lhes defronte casimiras +pretas. Isto comoveu Macário. Êle mesmo mo disse.</p> + +<p>—Porque emfim, meu caro, não era natural que elas viessem comprar, para si, +casimiras pretas.</p> + +<p>E não: elas não usavam <em>amazonas</em>, não quereriam de-certo estofar +cadeiras com casimira preta, não havia homens em casa delas; portanto aquela +vinda ao armazêm era um meio delicado de o ver de perto, de lhe falar, e tinha +o encanto penetrante de uma mentira sentimental. Eu disse a Macário que, sendo +assim, êle devia estranhar aquele movimento amoroso, porque denotava na mãe uma +cumplicidade equívoca. Êle confessou-me <em>que nem pensava em tal</em>. O que +fez foi chegar ao balcão e dizer estúpidamente:</p> + +<p>—Sim senhor, vão bem servidas, estas casimiras não encolhem.</p> + +<p>E a loura ergueu para êle o seu olhar azul, e foi como se Macário se +sentisse envolvido na doçura de um céu.<span class="pn">{13}</span></p> + +<p>Mas quando êle ia dizer-lhe uma palavra reveladora e veemente, apareceu ao +fundo do armazêm o tio Francisco, com o seu comprido casaco côr de pinhão, de +botões amarelos. Como era singular e desusado achar-se o snr. guarda-livros +vendendo ao balcão e o tio Francisco com a sua crítica estreita e celibatária +podia escandalizar-se, Macário começou a subir vagarosamente a escada em +caracol que levava ao escritório, e ainda ouviu a voz delicada da loura dizer +brandamente:</p> + +<p>—Agora queria ver lenços da Índia.</p> + +<p>E o caixeiro foi buscar um pequenino pacote daqueles lenços, acamados e +apertados numa tira de papel dourado.</p> + +<p>Macário, que tinha visto naquela visita uma revelação de amor, quási uma +<em>declaração</em>, esteve todo o dia entregue às impaciências amargas da +paixão. Andava distraído, abstracto, pueril, não deu atenção à escrituração, +jantou calado, sem escutar o tio Francisco que exaltava as almôndegas, mal +reparou no seu ordenado que lhe foi pago em pintos às três horas, e não +entendeu bem as recomendações do tio e a preocupação dos caixeiros sôbre o +desaparecimento de um pacote de lenços da Índia.</p> + +<p>—É o costume de deixar entrar pobres no armazêm—tinha dito no seu +laconismo majestoso o tio Francisco.—São 12$000 réis de lenços. Lance à minha +conta.<span class="pn">{14}</span></p> + +<p>Macário, no entanto, ruminava secretamente uma carta, mas sucedeu que ao +outro dia, estando êle à varanda, a mãe, a de cabelos pretos, veio encostar-se +ao peitoril da janela, e neste momento, passava na rua um rapaz amigo de +Macário, que vendo aquela senhora afirmou-se e tirou-lhe, com uma cortesia toda +risonha, o seu chapéu de palha. Macário ficou radioso: logo nessa noite +procurou o seu amigo, e abruptamente, sem meia tinta:</p> + +<p>—¿Quem é aquela mulher que tu hoje cumprimentaste defronte do armazêm?</p> + +<p>—É a Vilaça. Bela mulher.</p> + +<p>—E a filha?</p> + +<p>—A filha!</p> + +<p>—Sim, uma loura, clara, com um leque chinês.</p> + +<p>—Ah! sim. É filha.</p> + +<p>—É o que eu dizia....</p> + +<p>—Sim, e então?</p> + +<p>—É bonita.</p> + +<p>—É bonita.</p> + +<p>—É gente de bem, hein?</p> + +<p>—Sim, gente de bem.</p> + +<p>—Está bom. Tu conhece-las muito?</p> + +<p>—Conheço-as. Muito não. Encontrava-as dantes em casa de D. Cláudia.</p> + +<p>—Bem, ouve lá.</p> + +<p>E Macário, contando a história do seu coração acordado e exigente e falando +do amor<span class="pn">{15}</span> com as exaltações de então, pediu-lhe como a glória da sua vida, +<em>que achasse um meio de o encaixar lá</em>. Não era difícil. As Vilaças +costumavam ir aos sábados a casa de um tabelião muito rico na rua dos +Calafates: eram assembleias simples e pacatas, onde se cantavam motetes ao +cravo, se glosavam motes e havia jogos de prendas do tempo da senhora D. Maria +I, e às 9 horas a criada servia a orchata. Bem. Logo no primeiro sábado, +Macário, de casaca azul, calças de ganga com presilhas de trama de metal, +gravata de setim roxo, curvava-se diante da espôsa do tabelião, a snr.ª D. +Maria da Graça, pessoa sêca e aguçada, com um vestido bordado a matiz, um nariz +adunco, uma enorme luneta de tartaruga, a pluma de <em>marabout</em> nos seus +cabelos grisalhos. A um canto da sala já lá estava, entre um <em>frou-frou</em> +de vestidos enormes, a menina Vilaça, a loura, vestida de branco, simples, +fresca, com o seu ar de gravura colorida. A mãe Vilaça, a soberba mulher +pálida, cochichava com um desembargador de figura apoplética. O tabelião era +homem letrado, latinista e amigo das musas; escrevia num jornal de então, a +<em>Alcofa das Damas</em>: porque era sobretudo galante, e êle mesmo se +intitulava, numa ode pitoresca, <em>môço escudeiro de Vénus</em>. Assim, as +suas reùniões eram ocupadas pelas belas-artes—e nessa noite um poeta do +tempo<span class="pn">{16}</span> devia vir ler um poemeto intitulado <em>Elmira ou a vingança do +veneziano</em>!... Começavam então a aparecer as primeiras audácias românticas. +As revoluções da Grécia principiavam a atrair os espíritos romanescos e saídos +da mitologia para os países maravilhosos do Oriente. Por toda a parte se falava +no pachá de Janina. E a poesia apossava-se vorazmente dêste mundo novo e +virginal de minaretes, serralhos, sultanas côr de ámbar, piratas do +Arquipélago, e salas rendilhadas, cheias do perfume do aloés onde pachás +decrépitos acariciam leões.—De sorte que a curiosidade era grande—e quando o +poeta apareceu com os cabelos compridos, o nariz adunco e fatal, o pescoço +entalado na alta gola do seu fraque à Restauração e um canudo de lata na mão—o +snr. Macário é que não experimentou sensação alguma, porque lá estava todo +absorvido, falando com a menina Vilaça. E dizia-lhe meigamente:</p> + +<p>—¿Então, noutro dia, gostou das casimiras?</p> + +<p>—Muito—disse ela baixo.</p> + +<p>E, desde êsse momento, envolveu-os um destino nupcial.</p> + +<p>No entanto, na larga sala a noite passava-se espiritualmente. Macário não +pôde dar todos os pormenores históricos e característicos daquela assembleia. +Lembrava-se apenas que um corregedor de Leiria recitava o <em>Madrigal a +Lídia</em>: lia-o de pé, com uma luneta redonda aplicada<span class="pn">{17}</span> sôbre o papel, a +perna direita lançada para diante, a mão na abertura do colete branco de gola +alta. E em redor, formando círculo, as damas, com vestidos de ramagens, +cobertas de plumas, as mangas estreitas terminadas num fofo de rendas, mitenes +de retroz preto cheias da scintilação dos aneis, tinham sorrisos ternos, +cochichos, doces murmurações, risinhos, e um brando palpitar de leques +recamados de lantejoulas.—Muito bonito, diziam, muito bonito! E o corregedor, +desviando a luneta, cumprimentava sorrindo—e via-se-lhe um dente pôdre.</p> + +<p>Depois a preciosa D. Jerónima da Piedade e Sande, sentando-se com maneiras +comovidas ao cravo, cantou com a sua voz roufenha a antiga ária de Sully:</p> + + +<blockquote> + Oh Ricardo, oh meu rei,<br> + O mundo te abandona</blockquote> + +<p>o que obrigou o terrível Gaudêncio, democrata de 20 e admirador de +Robespierre, a rosnar rancorosamente junto de Macário:</p> + +<p>—Reis!... víboras!</p> + +<p>Depois, o cónego Saavedra cantou uma modinha de Pernambuco muito usada no +tempo do senhor D. João <small>VI</small>: <em>lindas môças</em>, <em>lindas +môças</em>. E a noite ia assim correndo, literária, pachorrenta, erudita, +requintada e toda cheia de musas.<span class="pn">{18}</span></p> + +<p>Oito dias depois, Macário era recebido em casa da Vilaça, num domingo. A mãe +convidára-o, dizendo-lhe:</p> + +<p>—Espero que o vizinho honre aquela choupana.</p> + +<p>E até o desembargador apoplético, que estava ao lado, exclamou:</p> + +<p>—Choupana?! diga alcáçar, formosa dama!</p> + +<p>Estavam, nesta noite, o amigo do chapéu de palha, um vélho cavaleiro de +Malta, trôpego, estúpido e surdo, um beneficiado da Sé, ilustre pela sua voz de +tiple, e as manas Hilárias, a mais vélha das quais tendo assistido, como aia de +uma senhora da casa da Mina, à tourada de Salvaterra, em que morreu o conde dos +Arcos, nunca deixava de narrar os episódios pitorescos daquela tarde: a figura +do conde dos Arcos de cara rapada e uma fita de setim escarlate no rabicho; o +soneto que um magro poeta, parasita da casa de Vimioso, recitou quando o conde +entrou, fazendo ladear o seu cavalo negro, arreado à espanhola, com um xairel +onde as suas armas estavam lavradas em prata: o tombo que nesse momento um +frade de S. Francisco deu da trincheira alta, e a hilaridade da côrte, que até +a snr.ª condessa de Pavolide apertava as mãos nas ilhargas: depois el-rei o +senhor D. José I, vestido de veludo escarlate, recamado de ouro, todo encostado +ao rebordo do seu palanque, e fazendo girar entre<span class="pn">{19}</span> dois dedos a sua caixa +de rapé cravejada, e por trás, imóveis, o físico Lourenço e o frade, seu +confessor: depois o rico aspecto da praça cheia de gente de Salvaterra, +maiorais, mendigos dos arredores, frades, lacaios, e o grito que houve, quando +D. José I entrou—Viva el-rei, nosso senhor! E o povo ajoelhou, e el-rei +tinha-se sentado, comendo doces, que um criado trouxe num saco de veludo, atrás +dêle. Depois a morte do conde dos Arcos, os desmaios, e até el-rei todo +debruçado, batendo com a mão no parapeito, gritando na confusão, e o capelão da +casa dos Arcos que tinha corrido a buscar a extrema-unção. Ela, Hilária, ficara +estarrecida de pavor: sentia os urros dos bois, gritos agudos de mulheres, os +ganidos dos flatos, e vira então um vélho, todo vestido de veludo preto, com a +fina espada na mão, debater-se entre fidalgos e damas que o seguravam, e querer +atirar-se à praça, bramindo de raiva! «É o pai do conde!» explicavam em volta. +Ela então desmaiara nos braços de um padre da Congregação. Quando veio a si, +achou-se junto da praça; a berlinda rial estava à porta, com os bolieiros +emplumados, os machos cheios de guisos, e os batedores a cavalo, à frente: +via-se lá dentro el-rei, escondido ao fundo, pálido, sorvendo febrilmente rapé, +todo encolhido com o confessor; e defronte, com uma das mãos apoiada à alta +bengala, forte, espadaúdo, o aspecto<span class="pn">{20}</span> carregado, o marquês de Pombal +falava devagar e intimativamente, gesticulando com a luneta. Mas os batedores +picaram, os estalos dos bolieiros retiniram, e a berlinda partiu a galope, +emquanto o povo gritava: Viva el-rei, nosso senhor!—e o sino da capela do paço +tocava a finados! Era uma honra que el-rei concedia à casa dos Arcos.</p> + +<p>Quando D. Hilária acabou de contar, suspirando, estas desgraças passadas, +começou-se a jogar. Era singular que Macário não se lembrava o que tinha jogado +nessa noite radiosa. Só se recordava que tinha ficado ao lado da menina Vilaça +(que se chamava Luísa), que reparara muito na sua fina pele rosada, tocada de +luz, e na meiga e amorosa pequenez da sua mão com uma unha mais polida que o +marfim de Dieppe. E lembrava-se tambêm de um acidente excêntrico, que +determinara nele, desde êsse dia, uma grande hostilidade ao clero da Sé. +Macário estava sentado à mesa, e ao pé dêle Luísa: Luísa estava toda voltada +para êle com uma das mãos apoiando a sua fina cabeça loura e amorosa, e a outra +esquecida no regaço. Defronte estava o beneficiado, com o seu barrete preto, os +seus óculos na ponta aguda do nariz, o tom azulado da forte barba rapada, e as +suas duas grandes orelhas, complicadas e cheias de cabelo, separadas do crânio +como dois postigos abertos. Ora, como era necessário<span class="pn">{21}</span> no fim do jôgo pagar +uns tentos ao cavaleiro de Malta, que estava ao lado do beneficiado, Macário +tirou da algibeira uma peça e quando o cavaleiro, todo curvado e com um ôlho +pisco, fazia a sôma dos tentos nas costas dum az, Macário conversava com Luísa, +e fazia girar sôbre o pano verde a sua peça de oiro, como um bilro ou um peão. +Era uma peça nova que luzia, faiscava, rodando, e feria a vista como uma bola +de névoa doirada. Luísa sorria vendo-a girar, girar, e parecia a Macário que +todo o céu, a pureza, a bondade das flores e a castidade das estrêlas estavam +naquele claro sorriso distraído, espiritual, arcangélico, com que ela seguia o +giro fulgurante da peça de oiro nova. Mas de repente, a peça, correndo até à +borda da mesa, caiu para o lado do regaço de Luísa, e desapareceu, sem se ouvir +no soalho de tábuas o seu ruído metálico. O beneficiado abaixou-se logo +cortêsmente: Macário afastou a cadeira, olhando para debaixo da mesa: a mãe +Vilaça alumiou com um castiçal, e Luísa ergueu-se e sacudiu com pequenina +pancada o seu vestido de cassa. A peça não apareceu.</p> + +<p>—É celebre—disse o amigo de chapéu de palha—eu não ouvi tinir no chão. +</p> + +<p>—Nem eu, nem eu—disseram.</p> + +<p>O beneficiado, curvado, buscava tenazmente, e a Hilária mais nova rosnava o +responso de Santo António.<span class="pn">{22}</span></p> + +<p>—Pois a casa não tem buracos—dizia a mãe Vilaça.</p> + +<p>—Sumiço assim!—resmungava o beneficiado.</p> + +<p>No entanto Macário exalava-se em exclamações desinteressadas:</p> + +<p>—Pelo amor de Deus! Ora que tem! Àmanhã aparecerá! Tenham a bondade! Por +quem são! Então, snr.ª D. Luísa! Pelo amor de Deus! Não vale nada.</p> + +<p>Mas mentalmente estabeleceu que houvera uma subtracção—e atribuiu-a ao +beneficiado. A peça rolara, de-certo, até junto dêle sem ruido; êle pusera-lhe +em cima o seu vasto sapato eclesiástico e tachado; depois, no movimento brusco +e curto que tivera, empolgára-a vilmente. E, quando saíram, o beneficiado, todo +embrulhado no seu vasto capote de camelão, dizia a Macário pela escada:</p> + +<p>—¿Ora o sumiço da peça, hein? Que brincadeira!</p> + +<p>—¿Acha, snr. beneficiado?!—disse Macário parando, pasmado da impudência. +</p> + +<p>—Ora essa! Se acho?! Se lhe parece! Uma peça de 7$000 réis! Só se o senhor +as semeia... Safa! Eu dava em doido!</p> + +<p>Macário teve tédio daquela astúcia fria. Não lhe respondeu. O beneficiado é +que acrescentou:</p> + +<p>—Àmanhã mande lá pela manhã, homem.<span class="pn">{23}</span> Que diabo... Deus me perdôe! Que +diabo! uma peça não se perde assim. Que bolada, hein!</p> + +<p>E Macário tinha vontade de lhe bater.</p> + +<p>Foi neste ponto que Macário me disse, com a sua voz singularmente sentida: +</p> + +<p>—Emfim, meu amigo, para encurtarmos razões, resolvi-me casar com ela.</p> + +<p>—Mas a peça?</p> + +<p>—Não pensei mais nisso! Pensava eu lá na peça! Resolvi-me casar com ela! +</p> + +<h2><a name="SECTION000120">II</a> </h2> + +<p>Macário contou-me o que o determinara mais precisamente àquela resolução +profunda e perpétua. Foi um beijo. Mas êsse caso, casto e simples, eu +calo-o;—mesmo porque a única testemunha foi uma imagem em gravura da Virgem, +que estava pendurada no seu caixilho de pau preto, na saleta escura que abria +para a escada... Um beijo fugitivo, superficial, efémero. Mas isso bastou ao +seu espírito recto e severo para o obrigar a tomá-la como espôsa, a dar-lhe uma +fé imutável e a posse da sua vida. Tais foram os seus esponsais. Aquela +simpática sombra das janelas vizinhas tornara-se<span class="pn">{24}</span> para êle um destino, o +fim moral da sua vida e toda a idea dominante do seu trabalho. E esta história +toma, desde logo, um alto carácter de santidade e de tristeza.</p> + +<p>Macário falou-me muito do carácter e da figura do tio Francisco: a sua +possante estatura, os seus óculos de oiro, a sua barba grisalha, em colar, por +baixo do queixo, um tic nervoso que tinha numa asa do nariz, a dureza da sua +voz, a sua austera e majestosa tranqùilidade, os seus princípios antigos, +autoritários e tirânicos, e a brevidade telegráfica das suas palavras.</p> + +<p>Quando Macário lhe disse, uma manhã, ao almôço, abruptamente, sem transições +emolientes: «Peço-lhe licença para casar» o tio Francisco, que deitava o açúcar +no seu café, ficou calado, remexendo com a colher, devagar, majestoso e +terrível: e quando acabou de sorver pelo pires, com grande ruído, tirou do +pescoço o guardanapo, dobrou-o, aguçou com a faca o seu palito, meteu-o na bôca +e saíu: mas à porta da sala parou, e voltando-se para Macário, que estava de +pé, junto da mesa, disse secamente:</p> + +<p>—Não.</p> + +<p>—Perdão, tio Francisco!</p> + +<p>—Não.</p> + +<p>—Mas oiça, tio Francisco...</p> + +<p>—Não.<span class="pn">{25}</span></p> + +<p>Macário sentiu uma grande cólera:</p> + +<p>—Nesse caso, faço-o sem licença.</p> + +<p>—Despedido da casa.</p> + +<p>—Sairei. Não haja dúvida.</p> + +<p>—Hoje.</p> + +<p>—Hoje.</p> + +<p>E o tio Francisco ia a fechar a porta, mas voltando-se:</p> + +<p>—Olá!—disse êle a Macário, que estava exasperado, apoplético, raspando nos +vidros da janela.</p> + +<p>Macário voltou-se com uma esperança.</p> + +<p>—Dê-me daí a caixa do rapé—disse o tio Francisco.</p> + +<p>Tinha-lhe esquecido a caixa! Portanto, estava perturbado.</p> + +<p>—Tio Francisco...—começou Macário.</p> + +<p>—Basta. Estamos a 12. Receberá o seu mês por inteiro. Vá.</p> + +<p>As antigas educações produziam estas situações insensatas. Era brutal e +idiota. Macário afirmou-me que era assim.</p> + +<p>Nessa tarde Macário achava-se no quarto de uma hospedaria na Praça da +Figueira com seis peças, o seu baú de roupa branca e a sua paixão. No entanto +estava tranqùilo. Sentia o seu destino cheio de apuros. Tinha relações e +amizades no comércio. Era conhecido vantajosamente: a nitidez do seu trabalho, +a sua honra tradicional, o nome da família, o<span class="pn">{26}</span> seu tacto comercial, o seu +belo cursivo inglês, abriam-lhe, de par em par, respeitosamente, todas as +portas dos escritórios. No outro dia foi procurar alegremente o negociante +Faleiro, antiga relação comercial da sua casa.</p> + +<p>—De muito boa vontade, meu amigo—disse-me êle.—Quem mo déra cá! Mas, se o +recebo, fico de mal com seu tio, meu vélho amigo de vinte anos. Êle declarou-mo +categóricamente. Bem vê. Fôrça maior. Eu sinto, mas...</p> + +<p>E todos, a quem Macário se dirigiu, confiado em relações sólidas, receavam +<em>ficar de mal com o seu tio, vélho amigo de vinte anos</em>.</p> + +<p>E todos <em>sentiam</em>, <em>mas...</em></p> + +<p>Macário dirigiu-se então a negociantes novos, estranhos à sua casa e à sua +família, e sobretudo aos estrangeiros: esperava encontrar gente livre da +amizade de vinte anos do tio. Mas, para êsses, Macário era desconhecido, e +desconhecidos por igual a sua dignidade e o seu hábil trabalho. Se tomavam +informações, sabiam que êle fôra despedido da casa do tio repentinamente, por +causa duma rapariga loura, vestida de cassa. Esta circunstância tirava as +simpatias a Macário. O comércio evita o guarda-livros sentimental. De sorte que +Macário começou a sentir-se num momento agudo. Procurando, pedindo, rebuscando, +o tempo passava, sorvendo, pinto a pinto, as suas seis peças.<span class="pn">{27}</span></p> + +<p>Macário mudou para uma estalagem barata, e continuou farejando. Mas, como +fôra sempre de temperamento recolhido, não criara amigos. De modo que se +encontrava desamparado e solitário—e a vida aparecia-lhe como um descampado. +</p> + +<p>As peças findaram. Macário entrou, pouco a pouco, na tradição antiga da +miséria. Ela tem solenidades fatais e estabelecidas: começou por +empenhar—depois vendeu. Relógio, aneis, casaco azul, cadeia, paletot de +alamares, tudo foi levando pouco e pouco, embrulhado debaixo do chale, uma +vélha sêca e cheia de asma.</p> + +<p>No entanto via Luísa de noite, na saleta escura que dava para o patamar: uma +lamparina ardia em cima da mesa: era feliz ali naquela penumbra, todo sentado +castamente, ao pé de Luísa, a um canto de um vélho canapé de palhinha. Não a +via de dia, porque trazia já a roupa usada, as botas cambadas, e não queria +mostrar à fresca Luísa, toda mimosa nas suas cambraias asseadas, a sua miséria +remendada: ali, àquela luz ténue e esbatida, êle exalava a sua paixão crescente +e escondia o seu fato decadente. Segundo me disse Macário—era muito singular o +temperamento de Luísa. Tinha o carácter louro como o cabelo—se é certo que o +louro é uma côr fraca e desbotada: falava pouco, sorria sempre com os seus +brancos dentinhos,<span class="pn">{28}</span> dizia a tudo <em>pois sim</em>: era muito simples, +quási indiferente, cheia de transigências.</p> + +<p>Amava de-certo Macário, mas com todo o amor que podia dar a sua natureza +débil, aguada, nula. Era como uma estriga de linho, fiava-se como se queria: e +às vezes, naqueles encontros noturnos, tinha sono.</p> + +<p>Um dia, porêm, Macário encontrou-a excitada: estava com pressa, o chale +traçado à tôa, olhando sempre para a porta interior.</p> + +<p>—A mamã percebeu—disse ela.</p> + +<p>E contou-lhe que a mãe desconfiava, ainda rabugenta e áspera, e que de-certo +farejava aquele plano nupcial tramado como uma conjuração.</p> + +<p>—¿Porque não me vens pedir à mamã?</p> + +<p>—Mas, filha, se eu não posso! Não tenho arranjo nenhum. Espera. É mais um +mês talvez. Tenho agora aí um negócio em bom caminho. Morríamos de fome.</p> + +<p>Luísa calou-se, torcendo a ponta do chale, com os olhos baixos.</p> + +<p>—¿Mas ao menos—disse ela—emquanto eu te não fizer sinal da janela, não +subas mais, sim?</p> + +<p>Macário rompeu a chorar, os soluços saíam violentos e desesperados.</p> + +<p>—Chut!—dizia-lhe Luísa.—Não chores alto!...</p> + +<p>Macário contou-me a noite que passou, ao<span class="pn">{29}</span> acaso pelas ruas, ruminando +febrilmente a sua dor, e lutando, sob a friagem de janeiro, na sua quinzena +curta. Não dormiu, e logo pela manhã, ao outro dia, entrou como uma rajada no +quarto do tio Francisco e disse-lhe abruptamente, secamente:</p> + +<p>—É tudo o que tenho—e mostrava-lhe três pintos.—Roupa, estou sem ela. +Vendi tudo. Daqui a pouco tenho fome.</p> + +<p>O Tio Francisco, que fazia a barba à janela, com o lenço da Índia amarrado +na cabeça, voltou-se e, pondo os óculos, fitou-o.</p> + +<p>—A sua carteira lá está. Fique—e acrescentou, com um gesto +decisivo—solteiro.</p> + +<p>—Tio Francisco, ouça-me!...</p> + +<p>—Solteiro, disse eu—continuou o tio Francisco, dando o fio à navalha numa +tira de sola.</p> + +<p>—Não posso.</p> + +<p>—Então, rua!</p> + +<p>Macário saíu, estonteado. Chegou a casa, deitou-se, chorou e adormeceu. +Quando saiu, à noitinha, não tinha resolução, nem idea. Estava como uma esponja +saturada. Deixava-se ir.</p> + +<p>De repente, uma voz disse de dentro de uma loja:</p> + +<p>—Eh! pst! olá!</p> + +<p>Era o amigo do chapéu de palha: abriu grandes braços pasmados.</p> + +<p>—Que diacho! desde manhã que te procuro<span class="pn">{30}</span></p> + +<p>E contou-lhe que tinha chegado da província, tinha sabido a sua crise e +trazia-lhe um desenlace.</p> + +<p>—Queres?</p> + +<p>—Tudo.</p> + +<p>Uma casa comercial queria um homem hábil, resoluto e duro, para ir numa +comissão difícil e de grande ganho a Cabo-Verde.</p> + +<p>—Pronto!—disse Macário.—Pronto! Àmanhã.</p> + +<p>E foi logo escrever a Luísa, pedindo-lhe uma despedida, um último encontro, +aquele em que os braços desolados e veementes tanto custam a desenlaçar-se. +Foi. Encontrou-a toda embrulhada no seu chale, tiritando de frio. Macário +chorou. Ela, com a sua passiva e loura doçura, disse-lhe:</p> + +<p>—Fazes bem. Talvez ganhes.</p> + +<p>E ao outro dia Macário partiu.</p> + +<p>Conheceu as viagens trabalhosas nos mares inimigos, o enjôo monótono num +beliche abafado, os duros sóis das colónias, a brutalidade tirânica dos +fazendeiros ricos, o pêso dos fardos humilhantes, as dilacerações da ausência, +as viagens ao interior das terras negras e a melancolia das caravanas que +costeiam por violentas noites, durante dias e dias, os rios tranqùilos, donde +se exala a morte.</p> + +<p>Voltou.</p> + +<p>E logo nessa tarde a viu a ela, Luísa, clara,<span class="pn">{31}</span> fresca, repousada, +serena, encostada ao peitoril da janela, com a sua ventarola chinesa. E ao +outro dia, sôfregamente, foi pedi-la à mãe. Macário tinha feito um ganho +saliente—e a mãe Vilaça abriu-lhe uns grandes braços amigos, cheia de +exclamações. O casamento decidiu-se para daí a um ano.</p> + +<p>—Porquê?—disse eu a Macário.</p> + +<p>E êle explicou-me que os lucros de Cabo-Verde não podiam constituir um +capital definitivo: eram apenas um capital de habilitação. Trazia de Cabo-Verde +elementos de poderosos negócios: trabalharia, durante um ano, heróicamente, e +ao fim poderia, sossegadamente, criar uma família.</p> + +<p>E trabalhou: pôs naquele trabalho a fôrça criadora da sua paixão. Erguia-se +de madrugada, comia à pressa, mal falava. À tardinha ia visitar Luísa. Depois +voltava sôfregamente para a fadiga, como um avaro para o seu cofre. Estava +grosso, forte, duro, fero: servia-se com o mesmo ímpeto das ideas e dos +músculos: vivia numa tempestade de cifras. Às vezes Luísa, de passagem, entrava +no seu armazêm: aquele pousar de ave fugitiva dava-lhe alegria, fé, reconforto +para todo um mês cheiamente trabalhado.</p> + +<p>Por êsse tempo o amigo do chapéu de palha veio pedir a Macário que fôsse seu +fiador por uma grande quantia que êle pedira para<span class="pn">{32}</span> estabelecer uma loja de +ferragens em grande. Macário, que estava no vigor do seu crédito, cedeu com +alegria. O amigo do chapéu de palha é que lhe dera o negócio providencial de +Cabo-Verde. Faltavam então dois meses para o casamento. Macário já sentia, por +vezes, subirem-lhe ao rosto as febris vermelhidões da esperança. Já começara a +tratar dos <em>banhos</em>. Mas um dia o amigo do chapéu de palha desapareceu +com a mulher de um alferes. O seu estabelecimento estava em comêço. Era uma +confusa aventura. Não se pôde nunca precisar nítidamente aquele +<em>embróglio</em> doloroso. O que era positivo é que Macário era fiador, +Macário devia reembolsar. Quando o soube, empalideceu e disse simplesmente:</p> + +<p>—Liquído e pago!</p> + +<p>E quando liquidou, ficou outra vez pobre. Mas nesse mesmo dia, como o +desastre tivera uma grande publicidade, e a sua honra estava santificada na +opinião, a casa Peres & C.ª, que o mandara a Cabo-Verde, veio propor-lhe +uma outra viagem e outros ganhos.</p> + +<p>—Voltar a Cabo-Verde outra vez!</p> + +<p>—Faz outra vez fortuna, homem. O senhor é o diabo!—disse o snr. Eleutério +Peres.</p> + +<p>Quando se viu assim, só e pobre, Macário desatou a chorar. Tudo estava +perdido, findo, extinto; era necessário recomeçar pacientemente a vida, voltar +às longas misérias de<span class="pn">{33}</span> Cabo-Verde, tornar a tremer os passados desesperos, +suar os antigos suores! E Luísa? Macário escreveu-lhe. Depois, rasgou a carta. +Foi a casa dela: as janelas tinham luz: subiu até ao primeiro andar, mas aí +tomou-o uma mágoa, uma covardia de revelar o desastre, o pavor trémulo de uma +separação, o terror de ela se recusar, negar-se, hesitar! ¿E quereria ela +esperar mais? Não se atreveu a falar, explicar, pedir; desceu, pé-ante-pé. Era +noite. Andou ao acaso pelas ruas: havia um sereno e silencioso luar. Ia sem +saber: de repente ouviu, de uma janela alumiada, uma rabeca que tocava a +<em>xácara mourisca</em>. Lembrou-se do tempo em que conhecera Luísa, do bom +sol claro que havia então, e do vestido dela, de cassa com pintas azuis! Estava +na rua onde eram os armazêns do tio. Foi caminhando. Pôs-se a olhar para a sua +antiga casa. A janela do escritório estava fechada. Quantas vezes dali vira +Luísa, e o brando movimento do seu leque chinês! Mas uma janela, no segundo +andar, tinha luz; era o quarto do tio. Macário foi observar mais de longe: uma +figura estava encostada, por dentro, à vidraça: era o tio Francisco. Veio-lhe +uma saudade de todo o seu passado simples, retirado, plácido. Lembrava-lhe o +seu quarto, e a vélha carteira com fecho de prata, e a miniatura de sua mãe, +que estava por cima da barra do leito; a sala de<span class="pn">{34}</span> jantar e o seu vélho +aparador de pau preto, e a grande caneca de água, cuja asa era uma serpente +irritada. Decidiu-se, e impelido por um instinto, bateu à porta. Bateu outra +vez. Sentiu abrir a vidraça, e a voz do tio perguntar:</p> + +<p>—Quem é?</p> + +<p>—Sou eu, tio Francisco, sou eu. Venho dizer-lhe adeus.</p> + +<p>A vidraça fechou-se, e daí a pouco a porta abriu-se, com um grande ruído de +ferrolhos. O tio Francisco tinha um candieiro de azeite na mão. Macário achou-o +magro, mais vélho. Beijou-lhe a mão.</p> + +<p>—Suba—disse o tio.</p> + +<p>Macário ia calado, cosido com o corrimão.</p> + +<p>Quando chegou ao quarto, o tio Francisco poisou o candieiro sôbre uma larga +mesa de pau-santo, e de pé, com as mãos nos bolsos, esperou.</p> + +<p>Macário estava calado, anediando a barba.</p> + +<p>—Que quer?—gritou-lhe o tio.</p> + +<p>—Vinha dizer-lhe adeus; volto para Cabo-Verde.</p> + +<p>—Boa viagem.</p> + +<p>E o tio Francisco, voltando-lhe as costas, foi rufar na vidraça.</p> + +<p>Macário ficou imóvel, deu dois passos no quarto, todo revoltado, e ia sair. +</p> + +<p>—¿Onde vai, seu estúpido?—gritou-lhe o tio.</p> + +<p>—Vou-me.<span class="pn">{35}</span></p> + +<p>—Sente-se ali!</p> + +<p>E o tio Francisco continuou, com grandes passadas pelo quarto:</p> + +<p>—O seu amigo é um canalha! Loja de ferragens! Não está má! O senhor é um +homem de bem. Estúpido, mas homem de bem. Sente-se ali! Sente-se! O seu amigo é +um canalha! O senhor é um homem de bem! Foi a Cabo-Verde! Bem sei! Pagou tudo. +Está claro! Tambêm sei! Àmanhã faz o favor de ir para a sua carteira, lá para +baixo. Mandei pôr palhinha nova na cadeira. Faz favor de pôr na factura Macário +& Sobrinho. E case. Case, e que lhe preste! Levante dinheiro. O senhor +precisa de roupa branca e de mobília. Levante dinheiro. E meta na minha conta. +A sua cama lá está feita.</p> + +<p>Macário, estonteado, radioso, com as lágrimas nos olhos, queria abraçá-lo. +</p> + +<p>—Bem, bem. Adeus!</p> + +<p>Macário ia sair.</p> + +<p>—¿Oh! burro, pois quer-se ir desta sua casa?</p> + +<p>E, indo a um pequeno armário, trouxe geleia, um covilhete de doce, uma +garrafa antiga do Pôrto e biscoitos.</p> + +<p>—Côma!</p> + +<p>E sentando-se ao pé dêle, e tornando a chamar-lhe estúpido, tinha uma +lágrima a correr-lhe pelo engelhado da pele.</p> + +<p>De sorte que o casamento foi decidido para<span class="pn">{36}</span> dali a um mês. E Luísa +começou a tratar do seu enxoval.</p> + +<p>Macário estava então na plenitude do amor e da alegria.</p> + +<p>Via o fim da sua vida preenchido, completo, feliz. Estava quási sempre em +casa da noiva, e um dia andando a acompanhá-la, em compras, pela lojas, êle +mesmo lhe quisera fazer um pequeno presente. A mãe tinha ficado numa modista, +num primeiro andar da rua do Ouro, e êles tinham descido, alegremente, rindo, a +um ourives que havia em baixo, no mesmo prédio, na loja.</p> + +<p>O dia estava de inverno, claro, fino, frio, com um grande céu azul-ferrete, +profundo, luminoso, consolador.</p> + +<p>—Que bonito dia!—disse Macário.</p> + +<p>E com a noiva pelo braço, caminhou um pouco, ao comprido do passeio.</p> + +<p>—Está!—disse ela.—Mas podem reparar; nós sós...</p> + +<p>—Deixa, está tam bom...</p> + +<p>—Não, não.</p> + +<p>E Luísa arrastou-o brandamente para a loja do ourives. Estava apenas um +caixeiro, trigueiro, de cabelo hirsuto.</p> + +<p>Macário disse-lhe:</p> + +<p>—Queria ver aneis.</p> + +<p>—Com pedras—disse Luísa—e o mais bonito.<span class="pn">{37}</span></p> + +<p>—Sim, com pedras—disse Macário.—Ametista, granada. Emfim, o melhor.</p> + +<p>E, no entanto, Luísa ia examinando as <em>montres</em> forradas de veludo +azul, onde reluziam as grossas pulseiras cravejadas, os grilhões, os colares de +camafeus, os aneis, as finas <em>alianças</em> frágeis como o amor, e toda a +scintilação da pesada ourivesaria.</p> + +<p>—Vê, Luísa—disse Macário.</p> + +<p>O caixeiro tinha estendido, na outra extremidade do balcão, em cima do vidro +da <em>montre</em>, um reluzente espalhado de aneis de ouro, de pedras, +lavrados, esmaltados; e Luísa, tomando-os e deixando-os com as pontas dos +dedos, ia-os correndo e dizendo:</p> + +<p>—É feio... É pesado... É largo...</p> + +<p>—Vê este—disse-lhe Macário.</p> + +<p>Era um anel de pequenas pérolas.</p> + +<p>—É bonito—respondeu ela.—É lindo!</p> + +<p>—Deixa ver se serve—tornou Macário.</p> + +<p>E tomando-lhe a mão, meteu-lhe o anel devagarinho, docemente, no dedo; e ela +ria, com os seus brancos dentinhos finos, todos esmaltados.</p> + +<p>—É muito largo—disse Macário.—Que pena!</p> + +<p>—Aperta-se, querendo. Deixe a medida. Tem-no pronto àmanhã.</p> + +<p>—Boa idea—disse Macário—sim senhor. Porque é muito bonito. Não é verdade? +As<span class="pn">{38}</span> pérolas muito iguais, muito claras. Muito bonito! E êstes +brincos?—acrescentou, indo ao fim do balcão, a outra <em>montre</em>.—¿Êstes +brincos com uma concha?</p> + +<p>—Dez moedas—disse o caixeiro.</p> + +<p>E, no entanto, Luísa continuava examinando os aneis, experimentando-os em +todos os dedos, revolvendo aquela delicada <em>montre</em>, scintilante e +preciosa.</p> + +<p>Mas, de repente, o caixeiro fez-se muito pálido, e afirmou-se em Luísa, +passeando vagarosamente a mão pela cara.</p> + +<p>—Bem—disse Macário, aproximando-se—então àmanhã temos o anel pronto. A +que horas?</p> + +<p>O caixeiro não respondeu e começou a olhar fixamente para Macário.</p> + +<p>—A que horas?</p> + +<p>—Ao meio dia.</p> + +<p>—Bem, adeus—disse Macário.</p> + +<p>E iam sair. Luísa trazia um vestido de lã azul, que arrastava um pouco, +dando uma ondulação melodiosa ao seu passo, e as suas mãos pequeninas estavam +escondidas num regalo branco.</p> + +<p>—Perdão!—disse de repente o caixeiro.</p> + +<p>Macário voltou-se.</p> + +<p>—O senhor não pagou...</p> + +<p>Macário olhou para êle gravemente.</p> + +<p>—Está claro que não. Àmanhã venho buscar o anel, pago àmanhã.<span class="pn">{39}</span></p> + +<p>—Perdão!—insistiu o caixeiro—mas o outro...</p> + +<p>—Qual outro?—exclamou Macário com uma voz surpreendida, adiantando-se para +o balcão.</p> + +<p>—Essa senhora sabe—afirmou o caixeiro.—Essa senhora sabe...</p> + +<p>Macário tirou a carteira lentamente.</p> + +<p>—Perdão, se há uma conta antiga...</p> + +<p>O caixeiro abriu o balcão, e com um aspecto resoluto:</p> + +<p>—Nada, meu caro senhor, é de agora. É um anel com dois brilhantes que +aquela senhora leva.</p> + +<p>—Eu!—disse Luísa, com a voz baixa, toda escarlate.</p> + +<p>—Que é? Que está a dizer?</p> + +<p>E Macário, pálido, com os dentes cerrados, contraído, fitava o caixeiro +coléricamente.</p> + +<p>O caixeiro disse então:</p> + +<p>—Essa senhora tirou dali um anel.</p> + +<p>Macário ficou imóvel, encarando-o.</p> + +<p>—Um anel com dois brilhantes—continuou o rapaz.—Vi perfeitamente.</p> + +<p>O caixeiro estava tam excitado, que a sua voz gaguejava, prendia-se +espessamente.</p> + +<p>—Essa senhora não sei quem é. Mas tirou o anel. Tirou-o dali...</p> + +<p>Macário, maquinalmente, agarrou-lhe no braço, e voltando-se para Luísa, com +a palavra<span class="pn">{40}</span> abafada, gotas de suor na testa, lívido:</p> + +<p>—Luísa, dize...</p> + +<p>Mas a voz cortou-se-lhe.</p> + +<p>—Eu...—balbuciou ela, trémula, assombrada, enfiada, decomposta.</p> + +<p>E deixou cair o regalo no chão.</p> + +<p>Macário veio para ela, agarrou-lhe no pulso fitando-a: e o seu aspecto era +tam resoluto e tam imperioso, que ela meteu a mão no bôlso, bruscamente, +apavorada, e mostrando o anel:</p> + +<p>—Não me faça mal!—suplicou, encolhendo-se toda.</p> + +<p>Macário ficou com os braços caidos, o ar abstracto, os beiços brancos; mas +de repente, dando um puxão ao casaco, recuperando-se, disse ao caixeiro:</p> + +<p>—Tem razão. Era distracção... Está claro! Esta senhora tinha-se esquecido. +É o anel. Sim, senhor, evidentemente... Tem a bondade. Toma, filha, toma. Deixa +estar, êste senhor embrulha-o. Quanto custa?</p> + +<p>Abriu a carteira e pagou.</p> + +<p>Depois apanhou o regalo, sacudiu-o brandamente, limpou os beiços com o +lenço, deu o braço a Luísa, e dizendo ao caixeiro: <em>desculpe</em>, +<em>desculpe</em>, levou-a, inerte, passiva, aterrada, semi-morta.</p> + +<p>Deram alguns passos na rua, que um largo sol iluminava intensamente: as +seges cruzavam-se, rolando ao estalido do chicote: figuras risonhas<span class="pn">{41}</span> +passavam, conversando: os pregões subiam em gritos alegres: um cavaleiro de +calção de anta fazia ladear o seu cavalo, enfeitado de rosetas; e a rua estava +cheia, ruidosa, viva, feliz e coberta de sol.</p> + +<p>Macário ia maquinalmente, como no fundo de um sonho. Parou a uma esquina. +Tinha o braço de Luísa passado no seu; e via-lhe a mão pendente, a sua linda +mão de cera, com as veias docemente azuladas, os dedos finos e amorosos: era a +mão direita, e aquela mão era a da sua noiva! E, instintivamente, leu o cartaz +que anunciava, para esta noite, <em>Palafoz em Saragoça</em>.</p> + +<p>De repente, soltando o braço de Luísa, disse-lhe baixo:</p> + +<p>—Vai-te.</p> + +<p>—Ouve!...—rogou ela, com a cabeça toda inclinada.</p> + +<p>—Vai-te.—E com a voz abafada e terrível:—Vai-te! Olha que chamo. Mando-te +para o Aljube. Vai-te.</p> + +<p>—Mas ouve, Jesus!</p> + +<p>—Vai-te!—E fez um gesto, com o punho cerrado.</p> + +<p>—Pelo amor de Deus, não me batas aqui!—disse ela, sufocada.</p> + +<p>—Vai-te! Podem reparar. Não chores. Olha que vêem. Vai-te!</p> + +<p>E chegando-se para ela, disse baixo:</p> + +<p>—És uma ladra!<span class="pn">{42}</span></p> + +<p>E voltando-lhe as costas, afastou-se, devagar, riscando o chão com a +bengala.</p> + +<p>A distância, voltou-se: ainda viu, através dos vultos, o seu vestido azul. +</p> + +<p>Como partiu nessa tarde para a província, não soube mais daquela rapariga +loura.<span class="pn">{43}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION000200">UM POETA LÍRICO</a> </h1> + +<p>Aqui está, simplesmente, sem frases e sem ornatos, a história triste do +poeta Korriscosso. De todos os poetas líricos de que tenho notícia, é êste, +certamente, o mais infeliz. Conheci-o em Londres, no hotel de Charing-Cross, +uma madrugada regelada de dezembro. Tinha eu chegado do continente, prostrado +por duas horas de Canal da Mancha... Ah! que mar! E era só uma brisa fresca de +Noroeste: mas ali, no tombadilho, sob uma capa de oleado de que um marujo me +tinha coberto, como se cobre um corpo morto, fustigado da neve e da vaga, +oprimido por aquela treva tumultuosa que o paquete ia rompendo aos roncos e aos +encontrões—parecia-me um tufão dos mares da China...<span class="pn">{44}</span></p> + +<p>Apenas entrei no hotel, gelado e estremunhado, corri ao vasto fogão do +perístilo, e ali fiquei, saturando-me daquela paz quente em que a sala estava +adormecida, com os olhos beatamente postos na boa brasa escarlate... E foi +então que vi aquela figura esguia e longa, já de casaca e gravata branca, que +do outro lado da chaminé, de pé, com a taciturna tristeza duma cegonha que +scisma, olhava tambêm os carvões ardentes, com um guardanapo no braço. Mas o +porteiro tinha rolado a minha bagagem, e eu fui inscrever-me ao +<em>bureau</em>. A <em>guarda-livros</em>, tesa e loura, com um perfil +antiquado de medalha safada, pousou o seu <em>crochet</em> ao lado da sua +chávena de chá, acariciou com um gesto doce os dois bandós louros, assentou +correctamente o meu nome, de dedinho no ar, fazendo rebrilhar um diamante, e eu +ia subir a vasta escadaria,—quando a figura magra e fatal se dobrou num +ângulo, e murmurou-me num inglês silabado:</p> + +<p>—Já está servido o almôço das sete...</p> + +<p>Mas eu não queria o almôço das sete. Fui dormir.</p> + +<p>Mais tarde, já repousado, fresco do banho, quando desci ao restaurante para +o <em>lunch</em>, avistei logo, plantado melancólicamente ao pé da larga +janela, o indivíduo esguio e triste. A sala estava deserta numa luz parda; os +fogões flamejavam; e fóra, no silêncio do domingo,<span class="pn">{45}</span> nas ruas mudas, a neve +caía sem cessar dum ceu amarelento e baço. Eu via apenas as costas do homem; +mas havia na sua linha magra e um pouco dobrada uma expressão tam evidente de +desalento, que me interessei por aquela figura. O cabelo comprido, de tenor, +caído sôbre a gola da casaca, era, manifestamente, dum meridional; e toda a sua +magreza friorenta se encolhia ao aspecto daqueles telhados cobertos de neve, na +sensação daquele silêncio lívido... Chamei-o. Quando êle se voltou, a sua +fisionomia, que apenas entrevira na véspera, impressionou-me: era um carão +longo e triste, muito moreno, de nariz judaico e uma barba curta e frisada, uma +barba de Cristo em estampa romântica; a testa era destas que, em boa +literatura, se chama, creio eu, <em>fronte</em>; era larga e era lustrosa. +Tinha o olhar encovado e vago, com uma indecisão de sonho nadando num fluido +enternecido... E que magreza! quando andava, a calça curta torcia-se em tôrno +da canela como pregas de bandeira em tôrno dum mastro: a casaca tinha dobras de +túnica ampla; as duas abas compridas e agudas eram desgraçadamente grotescas. +Recebeu a ordem do meu almôço, sem me olhar, num tédio resignado: arrastou-se +para o <em>comptoir</em> onde o <em>maître de hotel</em> lia a Bíblia, passou a +mão pela testa com um gesto errante e dolente, e disse-lhe numa voz +surda:<span class="pn">{46}</span></p> + +<p>—Nùmero 307. Duas costeletas. Chá...</p> + +<p>O <em>maître de hotel</em> afastou a <em>Bíblia</em>, inscreveu o +<em>menu</em>—e eu acomodei-me à mesa, e abri o volume de Tennyson que +trouxera para almoçar comigo—porque, creio que lhes disse, era domingo, dia +sem jornais e sem pão fresco. Fóra continuava a nevar sôbre a cidade muda. A +uma mesa distante, um vélho côr de tijolo e todo branco de cabelo e de suíças, +que acabara de almoçar, dormitava de mãos no ventre, bôca aberta, e luneta na +ponta do nariz. E o único som vinha da rua, uma voz gemente que a neve abafava +mais, uma voz pedinte que à esquina defronte garganteava um psalmo... Um +domingo de Londres.</p> + +<p>Foi o magro que me trouxe o almôço—e apenas êle se aproximou, com o serviço +do chá, eu senti logo que aquele volume de Tennyson nas minhas mãos o tinha +interessado e impressionado: foi um olhar rápido, gulosamente fixado na página +aberta, um estremecimento quási imperceptível,—emoção fugitiva, de-certo, +porque depois de ter pousado o serviço, rodou sôbre os calcanhares e foi +plantar-se, melancólicamente, à janela, de ôlho triste e posto na neve triste. +Eu atribuí aquele movimento curioso ao esplendor da encadernação do volume, que +eram os <em>Idílios de El-Rei</em>, em marroquim negro, com o escudo de armas +de Lançarote do Lago—o pelicano de oiro sôbre um mar de sinopla.<span class="pn">{47}</span></p> + +<p>Nessa noite parti no expresso para a Escócia, e ainda não tinha passado +York, adormecida na sua gravidade episcopal, já me esquecera o criado romanesco +do restaurante de Charing-Cross. Foi só daí a um mês, ao voltar a Londres, que +entrando no restaurante, e revendo aquela figura lenta e fatal atravessar com +um prato de <em>roast-beef</em> numa das mãos e na outra um <em>puding</em> de +batata, senti renascer o antigo interesse. E nessa noite mesmo, tive a singular +felicidade de saber o seu nome e de entrever um fragmento do seu passado. Era +já tarde e eu voltava do <em>Covent-Garden</em>, quando no perístilo do hotel +encontrei, majestoso e próspero, o meu amigo Bracolletti.</p> + +<p>¿Não conhecem Bracolletti? A sua presença é formidável; tem a amplidão +pançuda, o negro cerrado da barba, a lentidão, o cerimonial dum pachá gordo; +mas esta ponderosa gravidade turca é temperada, em Bracolletti, pelo sorriso e +pelo olhar. Que olhar! Um olhar doce, que me faz lembrar o dos animais da +Síria: é o mesmo enternecimento. Parece errar no seu fluido macio a +religiosidade meiga das raças que dão os Messias... Mas o sorriso! O sorriso de +Bracolletti é a mais complexa, a mais perfeita, a mais rica das expressões +humanas; há finura, inocência, bonomia, abandono, ironia doce, persuasão, +naqueles dois lábios que se descerram e que deixam brilhar um esmalte de +dentes<span class="pn">{48}</span> de virgem... Ah! mas tambêm êste sorriso é a fortuna de +Bracolletti.</p> + +<p>Moralmente, Bracolletti é um hábil. Nasceu em Esmirna de pais gregos; é tudo +o que êle revela: de resto, quando se lhe pergunta pelo seu passado, o bom +grego rola um momento a cabeça de ombro a ombro, esconde sob as palpebras +cerradas com bonomia o seu ôlho maometano, desabrocha o sorriso duma doçura de +tentar abelhas, e murmura, como afogado em bondade e em enternecimento:</p> + +<p>—<em>Eh! mon Dieu! Eh! mon Dieu!</em>...</p> + +<p>Nada mais. Parece, porêm, que viajou,—porque conhece o Perú, a Crimeia, o +Cabo da Boa-Esperança, os países exóticos—tam bem como Regent-Street: mas é +evidente para todos que a sua existência não foi tecida, como a dos vulgares +aventureiros do Levante, de oiro e estôpa, de esplendores e pelintrices: é um +gordo e, portanto, um prudente: o seu magnífico solitário nunca deixou de lhe +brilhar no dedo: nenhum frio jàmais o surpreendeu sem uma pelissa de dois mil +francos: e nunca deixa de ganhar, todas as semanas, no <em>Fraternal Club</em>, +de que é um membro querido, dez libras ao whist. É um forte.</p> + +<p>Mas tem uma debilidade. É singularmente guloso de rapariguinhas de dôze a +catorze anos: gosta delas magrinhas, muito louras, e com o hábito de praguejar. +Coleciona-as<span class="pn">{49}</span> pelos bairros pobres de Londres, com método. Instala-as em +casa, e ali as tem, como passarinhos na gaiola, metendo-lhes a papinha no bico, +ouvindo-as palrar todo baboso, animando-as a que lhe roubem os +<em>shillings</em> da algibeira, gozando o desenvolvimento dos vícios naquelas +flores, pondo-lhes ao alcance as garrafas de <em>gin</em> para que os anjinhos +se embebedem;—e quando alguma, excitada de álcool, de cabelo ao vento e face +acesa, o injuría, o arrepela, baba obscenidades,—o bom Bracolletti, encruzado +no sofá, de mãos beatamente cruzadas na pança, o olhar afogado em êxtase, +murmura no seu italiano da costa síria.</p> + +<p>—<em>Piccolina! Gentilleta!</em></p> + +<p>Querido Bracolletti! Foi, realmente, com prazer, que o abracei, nessa noite, +em Charing-Cross: e como nos não víamos há muito, fomos cear juntos ao +restaurante. O criado triste lá estava no seu <em>comptoir</em>, curvado sôbre +o <em>Journal des Debats</em>. E apenas Bracolletti apareceu, na sua majestade +de obeso, o homem estendeu-lhe silenciosamente a mão; foi um +<em>shake-hands</em> solene, enternecido e sincero.</p> + +<p>Bom Deus, eram amigos! Arrebatei Bracolletti para o fundo da sala, e +vibrando de curiosidade, interroguei-o com sofreguidão. Quis primeiro o nome do +homem.</p> + +<p>—Chama-se Korriscosso—disse-me Bracolletti, grave.<span class="pn">{50}</span></p> + +<p>Quis depois a sua história. Mas Bracolletti, como os deuses da Ática que, +nos seus embaraços no mundo, se recolhiam à sua nuvem, Bracolletti refugiou-se +na sua vaga reticência.</p> + +<p>—<em>Eh! mon Dieu!...</em> <em>Eh! mon Dieu!</em>...</p> + +<p>—Não, não, Bracolletti. Vejâmos. Quero-lhe a história... Aquela face fatal +e baironeana deve ter uma história...</p> + +<p>Bracolletti então tomou todo o ar cândido que lhe permitem a sua pança e as +suas barbas—e confessou-me, deixando cair as frases às gotas, que tinham +viajado ambos na Bulgária e no Montenegro... Korriscosso foi seu secretário... +Boa letra... Tempos difíceis... <em>Eh! mon Dieu!</em>...</p> + +<p>—De onde é êle?</p> + +<p>Bracolletti respondeu sem hesitar, baixando a voz com um gesto repassado de +desconsideração:</p> + +<p>—É um grego de Atenas.</p> + +<p>O meu interesse sumiu-se como a água que a areia absorve. Quando se tem +viajado no Oriente e nas escalas do Levante, adquire-se fácilmente o hábito, +talvez injusto, de suspeitar do grego: aos primeiros que se vêem, sobretudo +tendo uma educação universitária e clássica, o entusiasmo acende-se um pouco, +pensa-se em Alcibíades e em Platão, nas glórias duma raça estética e livre, e +perfilam-se na imaginação as linhas augustas do Pártenon.<span class="pn">{51}</span> Mas, depois de +os ter freqùentado, às mesas redondas e nos tombadilhos das +<em>Messageries</em>, e principalmente depois de ter escutado a lenda de +velhacaria que êles tem deixado desde Esmirna até Túnis, os outros que se vêem +provocam, apenas, êstes movimentos: abotoar rápidamente o casaco, cruzar +fortemente os braços sôbre a cadeia do relógio, e aguçar o intelecto para +rechassar a <em>escroquerie</em>. A causa desta reputação funesta é que a gente +grega, que emigra para as escalas do Levante, é uma plebe torpe, parte pirata e +parte lacaia, bando de rapina astuto e perverso. A verdade é que apenas soube +Korriscosso um grego, lembrei-me logo que o meu belo volume de Tennyson, na +minha última estada em Charing-Cross, me desaparecera do quarto, e recordei o +olhar de gula e de prêsa que cravara nele Korriscosso... Era um bandido!</p> + +<p>E durante a ceia não falamos mais de Korriscosso. Serviu-nos outro criado, +rubro, honesto e são. O lúgubre Korriscosso não se afastou do <em>comptoir</em> +abismado no <em>Journal des Debats</em>.</p> + +<p>Nessa noite aconteceu, ao recolher-me ao meu quarto, que me perdi... O hotel +estava atulhado, e eu tinha sido alojado naqueles altos de Charing-Cross, numa +complicação de corredores, escadas, recantos, ângulos, onde é quási necessário +roteiro e bússola.<span class="pn">{52}</span></p> + +<p>De castiçal na mão, penetrei num passadiço onde corria um bafo morno de +viela mal arejada. As portas aí não tinham números, mas pequenos cartões +colados onde estavam inscritos nomes: <em>John Smith</em>, <em>Charlie</em>, +<em>Willie</em>... Emfim, eram evidentemente as habitações dos criados. De uma +porta aberta saía a claridade de um bico de gás; adiantei-me, e vi logo +Korriscosso, ainda de casaca, sentado a uma mesa alastrada de papeis, de testa +pendida sôbre a mão, escrevendo.</p> + +<p>—¿Pode-me indicar o caminho para o número 508?—balbuciei.</p> + +<p>Êle ergueu para mim um olhar estremunhado e ennevoado; parecia ressurgir de +muito longe, de um outro universo; batia as pálpebras, repetindo:</p> + +<p>—508? 508?...</p> + +<p>Foi então que eu avistei, sôbre a mesa, entre papeis, colarinhos sujos e um +rosário—o meu volume de Tennyson! Êle viu o meu olhar, o bandido! e acusou-se +todo numa vermelhidão que lhe inundou a face chupada. O meu primeiro movimento +foi não reconhecer o livro: como era um movimento bom, e obedecendo logo à +moral superior do mestre Talleyrand, reprimi-o; apontando o volume com um dedo +severo, um dedo de Providência irritada, disse-lhe:</p> + +<p>—É o meu Tennyson...<span class="pn">{53}</span></p> + +<p>Não sei que resposta êle tartamudeou, porque eu, apiedado, retomado tambêm +pelo interesse que me dava aquela figura picaresca de grego sentimental, +acrescentei num tom repassado de perdão e de justificação:</p> + +<p>—¿Grande poeta, não é verdade? Que lhe pareceu? Tenho a certeza que se +entusiasmou...</p> + +<p>Korriscosso corou mais: mas não era o despeito humilhado do salteador +surpreendido: era, julguei eu, a vergonha de ver a sua inteligência, o seu +gôsto poético adivinhados—e de ter no corpo a casaca coçada de criado de +restaurante. Não respondeu. Mas as páginas do volume, que eu abri, responderam +por êle; a brancura das margens largas desaparecia sob uma rêde de comentários +a lápis: <em>Sublime!</em> <em>Grandioso!</em> <em>Divino!</em>—palavras +lançadas numa letra convulsiva, num tremor de mão, agitada por uma +sensibilidade vibrante...</p> + +<p>No entanto, Korriscosso permanecia de pé, respeitoso, culpado, de cabeça +baixa, com o laço da gravata branca fugindo para o cachaço. Pobre Korriscosso! +Compadeci-me daquela atitude, revelando todo um passado sem sorte, tantas +tristezas de dependência... Lembrei-me que nada impressiona o homem do Levante +como um gesto de drama e de palco; estendi-lhe ambas as mãos num movimento à +Talma, e disse-lhe:<span class="pn">{54}</span></p> + +<p>—Eu tambem sou poeta!...</p> + +<p>Esta frase extraordinária pareceria grotesca e impudente a um homem do +Norte; o levantino viu logo nela a expansão de uma alma irmã. ¿Porque, não lhes +disse? o que Korriscosso estava escrevendo, numa tira de papel, eram estrofes: +era uma ode.</p> + +<p>Daí a pouco, com a porta fechada, Korriscosso contava-me a sua história—ou +antes fragmentos, anedotas desirmanadas da sua biografia. É tam triste, que a +condenso. De resto, havia na sua narração lacunas de anos;—e eu não posso +reconstituir com lógica e seqùência a história dêste sentimental. Tudo é vago e +suspeito. Nasceu com efeito em Atenas; seu pai parece que era carregador no +Pireu. Aos 18 anos Korriscosso servia de criado a um médico, e nos intervalos +do serviço freqùentava a Universidade de Atenas; estas coisas são freqùentes +<em>là-bas</em>, como êle dizia. Formou-se em leis: isto habilitou-o, mais +tarde, em tempos difíceis, a ser um intérprete de hotel. Dêsse tempo datam as +suas primeiras elégias num semanário lírico intitulado <em>Ecos da Ática</em>. +A literatura levou-o directamente à política e às ambições parlamentares. Uma +paixão, uma crise patética, um marido brutal, ameaças de morte, forçaram-no a +expatriar-se. Viajou na Bulgária, foi em Salónica empregado numa sucursal do +<em>Banco Otomano</em>, remeteu endechas<span class="pn">{55}</span> dolorosas a um jornal da +província—a <em>Trombeta da Argólida</em>. Aqui há uma dessas lacunas, um +buraco negro na sua história. Reaparece em Atenas, com fato novo, liberal e +deputado.</p> + +<p>Êste período de glória foi breve, mas suficiente para o pôr em evidência; a +sua palavra colorida, poética, recamada de imagens engenhosas e lustrosas, +encantou Atenas: tinha o segredo de florir, como êle dizia, os terrenos mais +áridos; duma discussão de imposto ou de viação fazia saltar éclogas de +Teócrito. Em Atenas êste talento leva ao poder: Korriscosso era indicado para +gerir uma alta administração do Estado: o ministério, porêm, e com êle a +maioria de que Korriscosso era o tenor querido, caíram, sumiram-se sem lógica +constitucional, num dêstes súbitos desabamentos políticos tam comuns na Grécia, +em que os governos se aluem, como as casas em Atenas—sem motivo. Falta de +base, decrepitude de materiais e de individualidades... Tudo tende para o pó +num solo de ruinas...</p> + +<p>Nova lacuna, novo mergulho obscuro na história de Korriscosso...</p> + +<p>Volta à superfície, membro de um club rèpublicano de Atenas, pede num jornal +a emancipação da Polónia, e a Grécia governada por um concílio de génios. +Publíca então os seus <em>Suspiros da Trácia</em>. Tem outro romance<span class="pn">{56}</span> de +coração... E emfim—e isto disse-mo sem explicações—é obrigado a refugiar-se +em Inglaterra. Depois de tentar em Londres várias posições, coloca-se no +restaurant de Charing-Cross.</p> + +<p>—É um pôrto de abrigo—disse-lhe eu, apertando-lhe a mão.</p> + +<p>Êle sorriu com amargura. Era de-certo um pôrto de abrigo, e vantajoso. É bem +alimentado; as gorgetas são razoáveis; tem um vélho colxão de molas,—mas as +delicadezas da sua alma são, a todo o momento, dolorosamente feridas...</p> + +<p>Dias atribulados, dias crucificados, os daquele poeta lírico, forçado a +distribuir numa sala, a burgueses estabelecidos e glutões, costeletas e copos +de cerveja! Não é a dependência que o aflige; a sua alma de grego não é +particularmente ávida de liberdade, basta-lhe que o patrão seja cortês. E, como +êle me disse, é-lhe grato reconhecer que os fregueses de Charing-Cross nunca +lhe pedem a mostarda ou o queijo sem dizer <em>if you please</em>; e quando +saem, ao passar por êle, levam dois dedos à aba do chapéu: isto satisfaz a +dignidade de Korriscosso.</p> + +<p>Mas o que o tortura é o contacto constante com o alimento. Se êle fôsse um +guarda-livros de um banqueiro, primeiro caixeiro de um armazêm de sêdas... +Nisso há uma sombra de poesia—os milhões que se revolvem, as frotas<span class="pn">{57}</span> +mercantes, a brutal fôrça do oiro, ou então dispôr ricamente os estofos, os +cortes de sêda, fazer correr a luz nas ondulações dos <em>moirés</em>, dar ao +veludo as molezas da linha e da prega... Mas num restaurante como se pode +exercer o gôsto, a originalidade artística, o instinto da côr, do efeito, do +drama—a partir nacos de <em>roast-beef</em> ou de presunto de York?!... +Depois, como êle disse, dar a comer, fornecer alimento, é servir exclusivamente +a pança, a tripa, a baixa necessidade material: no restaurante, o ventre é +Deus: a alma fica fóra, com o chapéu que se pendura no cabide ou com o rôlo de +jornais que se deixou no bôlso do paletot.</p> + +<p>E as convivências, e a falta de conversação! Nunca se voltarem para êle +senão para lhe pedirem salame ou sardinhas de Nantes! Nunca abrir os seus +lábios, de onde pendia o parlamento de Atenas, senão para perguntar:—Mais pão? +mais bife?—Esta privação de eloqùência é-lhe dolorosa.</p> + +<p>Alêm disso o serviço impede-lhe o trabalho. Korriscosso compõe de memória; +quatro passeios pelo quarto, um repelão ao cabelo, e a ode sai-lhe harmoniosa e +doce.... Mas a interrupção glutona da voz do freguês, pedindo nutrição, é fatal +a esta maneira de trabalhar. Às vezes, encostado a uma janela, de guardanapo no +braço, Korriscosso está fazendo uma elégia; são tudo luares, roupagens alvas de +virgens pálidas,<span class="pn">{58}</span> horizontes celestes, flores de alma dolorida... É feliz; +está remontado aos céus poéticos, nas planícies azuladas onde os sonhos +acampam, galopando de estrêla em estrêla... De repente, uma grossa voz faminta +berra dum canto:</p> + +<p>—Bife e batatas!</p> + +<p>Ai! as aladas fantasias batem o vôo como pombas espavoridas! E aí vem o +infeliz Korriscosso, precipitado dos cimos ideais, de ombros vergados e as abas +da casaca balouçando, perguntar com o sorriso lívido:</p> + +<p>—¿Passado ou meio crú?</p> + +<p>Ah! é um amargo destino!</p> + +<p>—¿Mas—perguntei-lhe eu—porque não deixa êste covil, êste templo do +ventre?</p> + +<p>Ele deixou pender a sua bela cabeça de poeta. E disse-me a razão que o +prende: disse-ma, quási chorando nos meus braços, com o nó da gravata branca no +cachaço: Korriscosso ama.</p> + +<p>Ama uma Fanny, criada de todo o serviço em Charing-Cross. Ama-a desde o +primeiro dia em que entrou no hotel: amou-a no momento em que a viu lavando as +escadas de pedra, com os braços roliços nus, e os cabelos louros, os fatais +cabelos louros, dêste louro que entontece os meridionais, cabelos ricos, de um +tom de cobre, dum tom de oiro mate, torcendo-se numa trança de deusa. E depois +a carnação,<span class="pn">{59}</span> uma carnação de inglesa do Yorkshire—leite e rosas...</p> + +<p>E o que Korriscosso tem sofrido! Toda a sua dor exala-a em odes—que passa a +limpo ao domingo, dia de repouso e dia do Senhor! Leu-mas. E eu vi quanto a +paixão pode perturbar um ser nervoso: que ferocidade de linguagem, que lances +de desespero, que gritos de alma dilacerada arremesados dali, daqueles altos de +Charing-Cross, para a mudez do céu frio! É que Korriscosso tem ciumes. A +desgraçada Fanny ignora aquele poeta a seu lado, aquele delicado, aquele +sentimental, e ama um <em>policeman</em>. Ama um <em>policeman</em>, um +colosso, um alcides, uma montanha de carne erriçada duma floresta de barbas, +com o peito como o flanco de um couraçado, com pernas como fortalezas +normandas. Êste Polifemo, como diz Korriscosso, tem, ordináriamente, serviço no +Strand; e a pobre Fanny passa o seu dia a espreitá-lo de um postigo, dos altos +do hotel.</p> + +<p>Todas as suas economias as gasta em quartilhos de <em>gin</em>, de +<em>brandy</em>, de genebra, que à noite lhe leva em copinhos debaixo do +avental: mantem-no fiel pelo álcool; o monstro, plantado enormemente a uma +esquina, recebe em silêncio o copo, atira-o de um golpe às fauces tenebrosas, +arrota cavamente, passa a mão cabeluda pela barba de hércules, e segue +taciturnamente, sem um <em>obrigado</em>, sem um <em>amo-te</em>, batendo o +lagedo<span class="pn">{60}</span> com a vastidão das suas solas sonoras. A pobre Fanny admira-o +babosa... E talvez nesse momento, à outra esquina, o magro Korriscosso, fazendo +no nevoeiro um esguio relêvo de poste telegráfico, soluce com a face magra +entre as mãos transparentes.</p> + +<p>Pobre Korriscosso! Se êle ao menos a pudesse comover... Mas quê! Ela +despreza-lhe o corpo de tísico triste: e a alma não lha compreende... Não que +Fanny seja inacessível a sentimentos ardentes, expressos em linguagem +melodiosa. Mas Korriscosso só pode escrever as suas elégias na sua língua +materna... E Fanny não compreende grego... E Korriscosso é só um grande +homem—em grego...</p> + +<p>Quando desci ao meu quarto, deixei-o soluçando sôbre o catre. Tenho-o visto +depois, outras vezes, ao passar em Londres. Está mais magro, mais fatal, mais +mirrado de zelos, mais curvado quando se move pelo restaurante com a travessa +do <em>roast-beef</em>, mais exaltado no seu lirismo... Sempre que êle me serve +dou-lhe um <em>shilling</em> de gorgeta: e depois, ao retirar, aperto-lhe +sinceramente a mão.<span class="pn">{61}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION000300">NO MOINHO</a> </h1> + +<p>D. Maria da Piedade era considerada em toda a vila como «uma senhora +modêlo». O vélho Nunes, director do correio, sempre que se falava nela, dizia, +acariciando com autoridade os quatro pêlos da calva:</p> + +<p>—É uma santa! É o que ela é!</p> + +<p>A vila tinha quási orgulho na sua beleza delicada e tocante; era uma loura, +de perfil fino, a pele eburnea, e os olhos escuros de um tom de violeta, a que +as pestanas longas escureciam mais o brilho sombrio e doce. Morava ao fim da +estrada, numa casa azul de três sacadas; e era, para a gente que às tardes ia +fazer o giro até ao moinho, um encanto sempre novo vê-la por trás da vidraça, +entre as cortinas de cassa, curvada sôbre a sua costura, vestida de preto, +recolhida e séria. Poucas<span class="pn">{62}</span> vezes saía. O marido, mais vélho que ela, era +um inválido, sempre de cama, inutilizado por uma doença de espinha; havia anos +que não descia à rua; avistavam-no às vezes tambêm à janela murcho e trôpego, +agarrado à bengala, encolhido na <em>robe-de-chambre</em>, com uma face +macilenta, a barba desleixada e com um barretinho de sêda enterrado +melancólicamente até ao cachaço. Os filhos, duas rapariguitas e um rapaz, eram +tambêm doentes, crescendo pouco e com dificuldade, cheios de tumores nas +orelhas, chorões e tristonhos. A casa, interiormente, parecia lúgubre. +Andava-se nas pontas dos pés, porque o senhor, na excitação nervosa que lhe +davam as insónias, irritava-se com o menor rumor; havia sôbre as cómodas alguma +garrafada da botica, alguma malga com papas de linhaça; as mesmas flores com +que ela, no seu arranjo e no seu gôsto de frescura, ornava as mesas, depressa +murchavam naquele ar abafado de febre, nunca renovado por causa das correntes +de ar; e era uma tristeza ver sempre algum dos pequenos ou de emplastro sôbre a +orelha, ou a um canto do camapé, embrulhado em cobertores com uma amarelidão de +hospital.</p> + +<p>Maria da Piedade vivia assim, desde os vinte anos. Mesmo em solteira, em +casa dos pais, a sua existência fôra triste. A mãe era uma criatura +desagradável e azêda; o pai, que se empenhara pelas tavernas e pelas batotas, +já<span class="pn">{63}</span> vélho, sempre bêbedo, os dias que aparecia em casa passava-os à +lareira, num silêncio sombrio, cachimbando e escarrando para as cinzas. Todas +as semanas desancava a mulher. E quando João Coutinho pediu Maria em casamento, +a-pesar de doente já, ela aceitou, sem hesitação, quási com reconhecimento, +para salvar o casebre da penhora, não ouvir mais os gritos da mãe, que a faziam +tremer, rezar, em cima no seu quarto, onde a chuva entrava pelo telhado. Não +amava o marido, de-certo; e mesmo na vila tinha-se lamentado que aquele lindo +rosto de Virgem Maria, aquela figura de fada, fôsse pertencer ao Joãosinho +Coutinho, que desde rapaz fôra sempre entrevado. O Coutinho, por morte do pai, +ficára rico; e ela, acostumada por fim àquele marido rabugento, que passava o +dia arrastando-se sombriamente da sala para a álcôva, ter-se-ia resignado, na +sua natureza de enfermeira e de consoladora, se os filhos ao menos tivessem +nascido sãos e robustos. Mas aquela família que lhe vinha com o sangue viciado, +aquelas existências hesitantes, que depois pareciam apodrecer-lhe nas mãos, +a-pesar dos seus cuidados inquietos, acabrunhavam-na. Às vezes só, picando a +sua costura, corriam-lhe as lágrimas pela face: uma fadiga da vida invadia-a, +como uma névoa que lhe escurecia a alma.</p> + +<p>Mas se o marido de dentro chamava desesperado,<span class="pn">{64}</span> ou um dos pequenos +choramingava, lá limpava os olhos, lá aparecia com a sua bonita face tranqùila, +com alguma palavra consoladora, compondo a almofada a um, indo animar o outro, +feliz em ser boa. Toda a sua ambição era ver o seu pequeno mundo bem tratado e +bem acarinhado. Nunca tivera desde casada uma curiosidade, um desejo, um +capricho: nada a interessava na terra senão as horas dos remédios e o sono dos +seus doentes. Todo o esfôrço lhe era fácil quando era para os contentar: +a-pesar de fraca, passeava horas trazendo ao colo o pequerrucho, que era o mais +impertinente, com as feridas que faziam dos seus pobres beicinhos uma crosta +escura: durante as insónias do marido não dormia tambêm, sentada ao pé da cama, +conversando, lendo-lhe as Vidas dos Santos, porque o pobre entrevado ia caíndo +em devoção. De manhã estava um pouco mais pálida, mas toda correcta no seu +vestido preto, fresca, com os bandós bem lustrosos, fazendo-se bonita para ir +dar as sopas de leite aos pequerruchos. A sua única distracção era à tarde +sentar-se à janela com a sua costura, e a pequenada em roda, aninhada no chão, +brincando tristemente. A mesma paizagem que ela via da janela era tam monótona +como a sua vida: em baixo a estrada, depois uma ondulação de campos, uma terra +magra plantada aqui e alêm de oliveiras e, erguendo-se ao fundo, uma +colina<span class="pn">{65}</span> triste e nua, sem uma casa, uma árvore, um fumo de casal que +pusesse naquela solidão de terreno pobre uma nota humana e viva.</p> + +<p>Vendo-a assim tam resignada e tam sujeita, algumas senhoras da vila +afirmavam que ela era beata: todavia ninguêm a avistava na igreja, a não ser ao +domingo, com o pequerrucho mais vélho pela mão, todo pálido no seu vestido de +veludo azul. Com efeito, a sua devoção limitava-se a esta missa todas as +semanas. A sua casa ocupava-a muito para se deixar invadir pelas preocupações +do céu: naquele dever de boa mãe, cumprido com amor, encontrava uma satisfação +suficiente à sua sensibilidade; não necessitava adorar santos ou enternecer-se +com Jesus. Instintivamente mesmo pensava que toda a afeição excessiva dada ao +Pai do Céu, todo o tempo gasto em se arrastar pelo confessionário ou junto do +oratório, seria uma diminuição cruel no seu cuidado de enfermeira: a sua +maneira de rezar era velar os filhos: e aquele pobre marido pregado numa cama, +todo dependente dela, tendo-a só a ela, parecia-lhe ter mais direito ao seu +fervor que o outro, pregado numa cruz, tendo para o amar toda uma humanidade +pronta. Alêm disso, nunca tivera estas sentimentalidades de alma triste que +levam à devoção. O seu longo hábito de dirigir uma casa de doentes, de ser ela +o centro, a fôrça, o amparo daqueles inválidos,<span class="pn">{66}</span> tornára-a terna, mas +pràtica: e assim era ela que administrava agora a casa do marido, com um bom +senso que a afeição dirigira, uma solicitude de mãe próvida. Tais ocupações +bastavam para entreter o seu dia: o marido, de resto, detestava visitas, o +aspecto de caras saudáveis, as comiserações de cerimónia; e passavam-se meses +sem que em casa de Maria da Piedade se ouvisse outra voz estranha à família, a +não ser a do Dr. Abílio—que a adorava, e que dizia dela com os olhos +esgazeados:</p> + +<p>—É uma fada! é uma fada...</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Foi por isso grande a excitação na casa, quando João Coutinho recebeu uma +carta de seu primo Adrião que lhe anunciava que em duas ou três semanas ia +chegar à vila. Adrião era um homem célebre, e o marido de Maria da Piedade +tinha naquele parente um orgulho enfático. Assinára mesmo um jornal de Lisboa, +só para ver o seu nome nas locais e na crítica. Adrião era um romancista: e o +seu último livro, <em>Madalena</em>, um estudo de mulher trabalhado a grande +estilo, duma análise delicada e subtil, consagrara-o como um mestre. A sua +fama, que chegara até à vila, num vago de legenda, apresentava-o como uma +personalidade interessante, um herói de Lisboa, amado das fidalgas, impetuoso e +brilhante, destinado a uma<span class="pn">{67}</span> alta situação no Estado. Mas realmente na vila +era sobretudo notável por ser primo do João Coutinho.</p> + +<p>D. Maria da Piedade ficou aterrada com esta visita. Via já a sua casa em +confusão com a presença do hóspede extraordinário. Depois a necessidade de +fazer mais <em>toilette</em>, de alterar a hora do jantar, de conversar com um +literato, e tantos outros esforços crueis!... E a brusca invasão daquele +mundano, com as suas malas, o fumo do seu charuto, a sua alegria de são, na paz +triste do seu hospital, dava-lhe a impressão apavorada duma profanação. Foi por +isso um alívio, quási um reconhecimento, quando Adrião chegou, e muito +simplesmente se instalou na antiga estalagem do tio André, à outra extremidade +da vila. João Coutinho escandalizou-se: tinha já o quarto do hóspede preparado, +com lençóis de rendas, uma colcha de damasco, pratas sôbre a cómoda, e queria-o +todo para si, o primo, o homem célebre, o grande autor... Adrião porêm recusou: +</p> + +<p>—Eu tenho os meus hábitos, vocês teem os seus... ¿Não nos contrariemos, +hein?... O que faço é vir cá jantar. De resto, não estou mal no tio André... +Vejo da janela um moinho e uma reprêsa que são um quadrosinho delicioso... ¿E +ficamos amigos, não é verdade?</p> + +<p>Maria da Piedade olhava-o assombrada: aquele herói, aquele fascinador por +quem choravam<span class="pn">{68}</span> mulheres, aquele poeta que os jornais glorificavam, era um +sujeito extremamente simples,—muito menos complicado, menos espectaculoso que +o filho do recebedor! Nem formoso era: e com o seu chapéu desabado sôbre uma +face cheia e barbuda, a quinzena de flanela caíndo à larga num corpo robusto e +pequeno, os seus sapatos enormes, parecia-lhe a ela um dos caçadores de aldeia +que às vezes encontrava, quando de mês a mês ia visitar as fazendas do outro +lado do rio. Alêm disso não fazia frases; e a primeira vez que veio jantar, +falou apenas, com grande bonomia, dos seus negócios. Viera por êles. Da fortuna +do pai, a única terra que não estava devorada, ou abominavelmente hipotecada, +era a Curgossa, uma fazenda ao pé da vila, que andava alêm disso mal +arrendada... O que êle desejava era vendê-la. Mas isso parecia-lhe a êle tam +difícil, como fazer a <em>Ilíada</em>!... E lamentava sinceramente ver o primo +ali, inútil sôbre uma cama, sem o poder ajudar nesses passos a dar com os +proprietários da vila. Foi por isso, com grande alegria, que ouviu João +Coutinho declarar-lhe que a mulher era uma administradora de primeira ordem, e +hábil nestas questões como um antigo rábula!...</p> + +<p>—Ela vai contigo ver a fazenda, fala com o Teles, e arranja-te isso tudo... +E na questão de preço, deixa-a a ela!...<span class="pn">{69}</span></p> + +<p>—Mas que superioridade, prima!—exclamou Adrião maravilhado.—Um anjo que +entende de cifras!</p> + +<p>Pela primeira vez na sua existência Maria da Piedade corou com a palavra dum +homem. De resto prontificou-se logo a ser a procuradora do primo...</p> + +<p>No outro dia foram ver a fazenda. Como ficava perto, e era um dia de março +fresco e claro, partiram a pé. Ao princípio, acanhada por aquela companhia de +um leão, a pobre senhora caminhava junto dêle com o ar de um pássaro assustado: +a-pesar de êle ser tam simples, havia na sua figura enérgica e musculosa, no +timbre rico da sua voz, nos seus olhos pequenos e luzidios alguma coisa de +forte, de dominante, que a enleava. Tinha-se-lhe prendido à orla do seu vestido +um galho de silvado, e como êle se abaixára para o desprender delicadamente, o +contacto daquela mão branca e fina de artista na orla da sua saia incomodou-a +singularmente. Apressava o passo para chegar bem depressa à fazenda, aviar o +negócio com o Teles, e voltar imediatamente a refugiar-se, como no seu elemento +próprio, no ar abafado e triste do seu hospital. Mas a estrada estendia-se, +branca e longa, sob o sol tépido—e a conversa de Adrião foi-a lentamente +acostumado à sua presença.</p> + +<p>Êle parecia desolado daquela tristeza da<span class="pn">{70}</span> casa. Deu-lhe alguns bons +conselhos: o que os pequenos necessitavam era ar, sol, uma outra vida diversa +daquele abafamento de alcôva...</p> + +<p>Ela tambêm assim o julgava: mas quê! o pobre João, sempre que se lhe falava +de ir passar algum tempo à quinta, afligia-se terrívelmente: tinha horror aos +grandes ares e aos grandes horizontes: a natureza forte fazia-o quási desmaiar; +tornára-se um ser artificial, encafuado entre os cortinados da cama...</p> + +<p>Êle então lamentou-a. De-certo poderia haver alguma satisfação num dever tam +santamente cumprido... Mas, emfim, ela devia ter momentos em que desejasse +alguma outra cousa alêm daquelas quatro paredes, impregnadas do bafo da +doença...</p> + +<p>—¿Que hei-de eu desejar mais?—disse ela.</p> + +<p>Adrião calou-se: pareceu-lhe absurdo supôr que ela desejasse, realmente, o +Chiado ou o Teatro da Trindade... No que êle pensava era noutros apetites, nas +ambições do coração insatisfeito... Mas isto pareceu-lhe tam delicado, tam +grave de dizer àquela criatura virginal e séria—que falou da paizagem...</p> + +<p>—Já viu o moinho?—perguntou-lhe ela.</p> + +<p>—Tenho vontade de o ver, se mo quiser ir mostrar, prima.</p> + +<p>—Hoje é tarde.</p> + +<p>Combinaram logo ir visitar êsse recanto de verdura, que era o idílio da +vila.<span class="pn">{71}</span></p> + +<p>Na fazenda, a longa conversa com o Teles criou uma aproximação maior entre +Adrião e Maria da Piedade. Aquela venda que ela discutia com uma astúcia de +aldeã, punha entre êles como que um interesse comum. Ela falou-lhe já com menos +reserva quando voltaram. Havia nas maneiras dêle, dum respeito tocante, uma +atracção que a seu pesar a levava a revelar-se, a dar-lhe a sua confiança: +nunca falára tanto a ninguêm: a ninguêm jàmais deixara ver tanto da melancolia +oculta que errava constantemente na sua alma. De resto as suas queixas eram +sôbre a mesma dor—a tristeza do seu interior, as doenças, tantos cuidados +graves... E vinha-lhe por êle uma simpatia, como um indefinido desejo de o ter +sempre presente, desde que êle se tornava assim depositário das suas tristezas. +</p> + +<p>Adrião voltou para o seu quarto, na estalagem do André, impressionado, +interessado por aquela criatura tam triste e tam doce. Ela destacava sôbre o +mundo de mulheres que até ali conhecera, como um perfil suave de anjo gótico +entre fisionomias de mesa redonda. Tudo nela concordava deliciosamente: o oiro +do cabelo, a doçura da voz, a modéstia na melancolia, a linha casta, fazendo um +ser delicado e tocante, a que mesmo o seu pequenino espírito burguês, certo +fundo rústico de aldeã e uma leve vulgaridade de hábitos davam um encanto: +era<span class="pn">{72}</span> um anjo que vivia há muito tempo numa vilota grosseira e estava por +muitos lados prêso às trivialidades do sítio: mas bastaria um sôpro para o +fazer remontar ao céu natural, aos cimos puros da sentimentalidade...</p> + +<p>Achava absurdo e infame fazer a côrte à prima... Mas involuntáriamente +pensava no delicioso prazer de fazer bater aquele coração que não estava +deformado pelo espartilho, e de pôr emfim os seus lábios numa face onde não +houvesse pós de arroz... E o que o tentava sobretudo era pensar que poderia +percorrer toda a província em Portugal, sem encontrar nem aquela linha do +corpo, nem aquela virgindade tocante de alma adormecida... Era uma ocasião que +não voltava.</p> + +<p>O passeio ao moinho foi encantador. Era um recanto de natureza, digno de +Corot, sobretudo à hora do meio dia em que êles lá foram, com a frescura da +verdura, a sombra recolhida das grandes árvores, e toda a sorte de murmúrios de +água corrente, fugindo, reluzindo entre os musgos e as pedras, levando e +espalhando no ar o frio da folhagem, da relva, por onde corriam cantando. O +moinho era dum alto pitoresco, com a sua vélha edificação de pedra secular, a +sua roda enorme, quási pôdre, coberta de ervas, imóvel sôbre a gelada limpidez +da água escura. Adrião achou-o digno duma scena de romance, ou<span class="pn">{73}</span> melhor, da +morada duma fada. Maria da Piedade não dizia nada, achando extraordinária +aquela admiração pelo moinho abandonado do tio Costa. Como ela vinha um pouco +cansada, sentaram-se numa escada desconjuntada de pedra, que mergulhava na água +da reprêsa os últimos degraus: e ali ficaram um momento calados, no encanto +daquela frescura murmurosa, ouvindo as aves piarem nas ramas. Adrião via-a de +perfil, um pouco curvada, esburacando com a ponteira do guarda-sol as ervas +bravas que invadiam os degraus: era deliciosa assim, tam branca, tam loura, +duma linha tam pura sôbre o fundo azul do ar: o seu chapéu era de mau gôsto, o +seu mantelete antiquado, mas êle achava nisso mesmo uma ingenuidade picante. O +silêncio dos campos em redor isolava-os—e, insensívelmente, êle começou a +falar-lhe baixo. Era ainda a mesma compaixão pela melancolia da sua existência +naquela triste vila, pelo seu destino de enfermeira... Ela escutava-o de olhos +baixos, pasmada de se achar ali tam só com aquele homem tam robusto, toda +receosa e achando um sabor delicioso ao seu receio... Houve um momento em que +êle falou do encanto de ficar ali para sempre na vila.</p> + +<p>—Ficar aqui? Para quê?—perguntou ela sorrindo.<span class="pn">{74}</span></p> + +<p>—Para quê? para isto, para estar sempre ao pé de si...</p> + +<p>Ela cobriu-se de um rubor, o guarda-solinho escapou-lhe das mãos. Adrião +receou tê-la ofendido, e acrescentou logo rindo:</p> + +<p>—¿Pois não era delicioso?... Eu podia alugar êste moinho, fazer-me +moleiro... A prima havia de me dar a sua freguesia...</p> + +<p>Isto fê-la rir: era mais linda quando ria: tudo brilhava nela, os dentes, a +pele, a côr do cabelo. Êle continuou gracejando, com o seu plano de se fazer +moleiro, e de ir pela estrada tocando o burro, carregado de sacas de farinha. +</p> + +<p>—E eu venho ajudá-lo, primo!—disse ela, animada pelo seu próprio riso, +pela alegria daquele homem a seu lado.</p> + +<p>—Vem?—exclamou êle.—Juro-lhe que me faço moleiro! Que paraíso nós aqui +ambos no moinho, ganhando alegremente a nossa vida, ouvindo cantar êstes +melros!</p> + +<p>Ela corou outra vez do fervor da sua voz, e recuou como se êle fôsse já +arrebatá-la para o moinho. Mas Adrião agora, inflamado àquela idea, pintava-lhe +na sua palavra colorida toda uma vida romanesca, de uma felicidade idílica, +naquele esconderijo de verdura: de manhã, a pé cedo, para o trabalho; depois o +jantar na relva à beira de água; e à noite as boas palestras ali sentados, à +claridade<span class="pn">{75}</span> das estrêlas ou sob a sombra cálida dos céus negros de verão... +</p> + +<p>E de repente, sem que ela resistisse, prendeu-a nos braços, e beijou-a sôbre +os lábios, dum só beijo profundo e interminável. Ela tinha ficado contra o seu +peito, branca, como morta: e duas lágrimas corriam-lhe ao comprido da face. Era +assim tam dolorosa e fraca, que êle soltou-a; ela ergueu-se, apanhou o +guarda-solinho e ficou diante dêle, com o beicinho a tremer, murmurando:</p> + +<p>—É mal feito... é mal feito...</p> + +<p>Êle mesmo estava tam perturbado—que a deixou descer para o caminho: e daí a +um momento, seguiam ambos calados para a vila. Foi só na estalagem que êle +pensou:</p> + +<p>—Fui um tolo !</p> + +<p>Mas no fundo estava contente da sua generosidade. À noite foi a casa dela: +encontrou-a com o pequerrucho no colo, lavando-lhe em àgua de malvas as feridas +que êle tinha na perna. E então, pareceu-lhe odioso distrair aquela mulher dos +seus doentes. De resto um momento como aquele no moinho não voltaria. Seria +absurdo ficar ali, naquele canto odioso da província, desmoralizando, a frio, +uma boa mãe... A venda da fazenda estava concluída. Por isso, no dia seguinte, +apareceu de tarde, a dizer-lhe adeus: partia à noitinha na diligência: +encontrou-a na sala, à<span class="pn">{76}</span> janela costumada, com a pequenada doente aninhada +contra as suas saias... Ouviu que êle partia, sem lhe mudar a côr, sem lhe +arfar o peito. Mas Adrião achou-lhe a palma da mão tam fria como um mármore: e +quando êle saíu, Maria da Piedade ficou voltada para a janela, escondendo a +face dos pequenos, olhando abstractamente a paizagem que escurecia, com as +lágrimas, quatro a quatro, caíndo-lhe na costura...</p> + +<p>Amava-o. Desde os primeiros dias, a sua figura resoluta e forte, os seus +olhos luzidios, toda a virilidade da sua pessoa, se lhe tinham apossado da +imaginação. O que a encantava nele não era o seu talento, nem a sua celebridade +em Lisboa, nem as mulheres que o tinham amado: isso para ela aparecia-lhe vago +e pouco compreensível: o que a fascinava era aquela seriedade, aquele ar +honesto e são, aquela robustez de vida, aquela voz tam grave e tam rica: e +antevia, para alêm da sua existência ligada a um inválido, outras existências +possíveis, em que se não vê sempre diante dos olhos uma face fraca e moribunda, +em que as noites se não passam a esperar as horas dos remédios... Era como uma +rajada de ar impregnado de todas as fôrças vivas da natureza, que atravessava, +súbitamente, a sua alcôva abafada: e ela respirava-a deliciosamente... Depois, +tinha ouvido<span class="pn">{77}</span> aquelas conversas em que êle se mostrava tam bom, tam sério, +tam delicado: e à fôrça do seu corpo, que admirava, juntava-se agora um coração +terno, duma ternura varonil e forte, para a cativar... Êste amor latente +invadiu-a, apoderou-se dela uma noite que lhe apareceu esta idea, esta +visão—<em>Se êle fosse meu marido!</em> Toda ela estremeceu, apertou +desesperadamente os braços contra o peito, como confundindo-se com a sua imagem +evocada, prendendo-se a ela, refugiando-se na sua fôrça... Depois êle deu-lhe +aquele beijo no moinho.</p> + +<p>E partira!</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Então começou para Maria da Piedade uma existência de abandonada. Tudo de +repente em volta dela—a doença do marido, achaques dos filhos, tristezas do +seu dia, a sua costura—lhe pareceu lúgubre. Os seus deveres, agora que não +punha neles toda a sua alma, eram-lhe pesados como fardos injustos. A sua vida +representava-se-lhe como desgraça excepcional: não se revoltava ainda: mas +tinha dêsses abatimentos, dessas súbitas fadigas de todo o seu ser, em que caía +sôbre a cadeira, com os braços pendentes, murmurando:</p> + +<p>—¿Quando se acabará isto?<span class="pn">{78}</span></p> + +<p>Refugiava-se então naquele amor como uma compensação deliciosa. Julgando-o +todo puro, todo de alma, deixava-se penetrar dêle e da sua lenta influência. +Adrião tornara-se, na sua imaginação, como um ser de proporções +extraordinárias, tudo o que é forte, e que é belo, e que dá razão à vida. Não +quis que nada do que era dêle ou vinha dêle lhe fôsse alheio. Leu todos os seus +livros, sobretudo aquela <em>Madalena</em> que tambêm amara, e morrera dum +abandono. Estas leituras calmavam-na, davam-lhe como uma vaga satisfação ao +desejo. Chorando as dores das heroínas de romance, parecia sentir alívio às +suas.</p> + +<p>Lentamente, esta necessidade de encher a imaginação dêsses lances de amor, +de dramas infelizes, apoderou-se dela. Foi durante meses um devorar constante +de romances. Ia-se assim criando no seu espírito um mundo artificial e +idealizado. A realidade tornava-se-lhe odiosa, sobretudo sob aquele aspecto da +sua casa, onde encontrava sempre agarrado às saias um ser enfermo. Vieram as +primeiras revoltas. Tornou-se impaciente e áspera. Não suportava ser arrancada +aos episódios sentimentais do seu livro, para ir ajudar a voltar o marido e +sentir-lhe o hálito mau. Veio-lhe o nojo das garrafadas, dos emplastros, das +feridas dos pequenos a lavar. Começou a ler versos. Passava horas só, num +mutismo, à<span class="pn">{79}</span> janela, tendo sob o seu olhar de virgem loura toda a rebelião +duma apaixonada. Acreditava nos amantes que escalam os balcões, entre o canto +dos rouxinóis: e queria ser amada assim, possuída num mistério de noite +romântica...</p> + +<p>O seu amor desprendeu-se pouco a pouco da imagem de Adrião e alargou-se, +estendeu-se a um ser vago que era feito de tudo o que a encantara nos heróis de +novela; era um ente meio príncipe e meio facínora, que tinha, sobretudo, a +fôrça. Porque era isto que admirava, que queria, porque ansiava nas noites +cálidas em que não podia dormir—dois braços fortes como aço, que a apertassem +num abraço mortal, dois lábios de fogo que, num beijo, lhe chupassem a alma. +Estava uma histérica.</p> + +<p>Às vezes, ao pé do leito do marido, vendo diante de si aquele corpo de +tísico, numa imobilidade de entrevado, vinha-lhe um ódio torpe, um desejo de +lhe apressar a morte...</p> + +<p>E no meio desta excitação mórbida do temperamento irritado, eram fraquezas +súbitas, sustos de ave que pousa, um grito ao ouvir bater uma porta, uma +palidez de desmaio se havia na sala flores muito cheirosas... À noite abafava; +abria a janela; mas o cálido ar, o bafo môrno da terra aquecida do sol, +enchiam-na dum desejo intenso, duma ânsia voluptuosa, cortada de crises de +chôro...</p> + +<p>A Santa tornava-se Vénus.<span class="pn">{80}</span></p> + +<p>E o romantismo mórbido tinha penetrado tanto naquele ser, e desmoralizára-o +tam profundamente, que chegou ao momento em que bastaria que um homem lhe +tocasse, para ela lhe caír nos braços:—e foi o que sucedeu emfim, com o +primeiro que a namorou, daí a dois anos. Era o praticante da botica.</p> + +<p>Por causa dêle escandalizou toda a vila. E agora deixa a casa numa desordem, +os filhos sujos e ramelosos, em farrapos, sem comer até altas horas, o marido a +gemer abandonado na sua alcôva, toda a trapagem dos emplastros por cima das +cadeiras, tudo num desamparo torpe—para andar atrás do homem, um maganão +odioso e cebento, de cara balôfa e gordalhufa, luneta preta com grossa fita +passada atrás da orelha, e bonésinho de sêda posto à catita. Vem de noite às +entrevistas de chinelo de ourelo: cheira a suor: e pede-lhe dinheiro emprestado +para sustentar uma Joana, criatura obêsa, a quem chamam na vila a <em>bola de +unto</em>.<span class="pn">{81}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION000400">CIVILIZAÇÃO</a> </h1> + + +<h2><a name="SECTION000410">I</a> </h2> + +<p>Eu possuo preciosamente um amigo (o seu nome é Jacinto) que nasceu num +palácio, com quarenta contos de renda em pingues terras de pão, azeite e gado. +</p> + +<p>Desde o berço, onde sua mãe, senhora gorda e crédula de Trás-os-montes, +espalhava, para reter as Fadas Benéficas, funcho e âmbar, Jacinto fôra sempre +mais resistente e são que um pinheiro das dunas. Um lindo rio, murmuroso e +transparente, com um leito muito liso de areia muito branca, reflectindo apenas +pedaços lustrosos de um céu de verão ou ramagens sempre verdes e de bom aroma, +não ofereceria, àquele que o descesse numa barca cheia de almofadas e de +Champanhe gelada, mais doçura e facilidades do que a vida<span class="pn">{82}</span> oferecia ao meu +camarada Jacinto. Não teve sarampo e não teve lombrigas. Nunca padeceu, mesmo +na idade em que se lê Balzac e Musset, os tormentos da sensibilidade. Nas suas +amizades foi sempre tam feliz como o clássico Orestes. Do Amor só experimentára +o mel—êsse mel que o amor invariavelmente concede a quem o pratíca, como as +abelhas, com ligeireza e mobilidade. Ambição, sentira sómente a de compreender +bem as ideas gerais, e a «ponta do seu intelecto» (como diz o vélho cronista +medieval) não estava ainda romba nem ferrugenta... E todavia, desde os vinte e +oito anos, Jacinto já se vinha repastando de Schopenhauer, do Eclesiastes, +doutros Pessimistas menores, e três, quatro vezes por dia, bocejava, com um +bocejo cavo e lento, passando os dedos finos sôbre as faces, como se nela só +palpasse palidez e ruína. Porquê ?</p> + +<p>Era êle, de todos os homens que conheci, o mais complexamente civilizado—ou +antes aquele que se munira da mais vasta sôma de civilização material, +ornamental e intelectual. Nesse palácio (floridamente chamado o +<em>Jasmineiro</em>) que seu pai, tambêm Jacinto, construira sôbre uma honesta +casa do século XVII, assoalhada a pinho e branqueada a cal—existia, creio eu, +tudo quanto para bem do espírito ou da matéria os homens teem criado, através +da incerteza e dor, desde que abandonaram<span class="pn">{83}</span> o vale feliz de Septa-Sindu, a +Terra das Águas Fáceis, o doce país Ariano. A biblioteca, que em duas salas, +amplas e claras como praças, forrava as paredes, inteiramente, desde os tapetes +de Caranânia até ao teto de onde, alternadamente, através de cristais, o sol e +a electricidade vertiam uma luz estudiosa e calma—continha vinte e cinco mil +volumes, instalados em ébano, magnificamente revestidos de marroquim escarlate. +Só sistemas filosóficos (e com justa prudência, para poupar espaço, o +bibliotecário apenas colecionára os que irreconciliavelmente se contradizem) +havia mil oito centos e dezassete!</p> + +<p>Uma tarde que eu desejava copiar um ditame de Adam Smith, percorri, buscando +êste economista ao longo das estantes, oito metros de economia política! Assim +se achava formidavelmente abastecido o meu amigo Jacinto de todas as obras +essenciais da inteligência—e mesmo da estupidez. E o único inconveniente dêste +monumental armazêm do saber era que todo aquele que lá penetrava, +inevitavelmente lá adormecia, por causa das poltronas, que provídas de finas +pranchas móveis para sustentar o livro, o charuto, o lápis das notas, a taça de +café, ofereciam ainda uma combinação oscilante e flácida de almofadas, onde o +corpo encontrava logo, para mal do espírito, a doçura, a profundidade e a paz +estirada de um leito.<span class="pn">{84}</span></p> + +<p>Ao fundo, e como um altar-mór, era o gabinete de trabalho de Jacinto. A sua +cadeira, grave e abacial, de couro, com brazões, datava do século XIV, e em +tôrno dela pendiam numerosos tubos acústicos, que, sôbre os panejamentos de +sêda côr de musgo e côr de hera, pareciam serpentes adormecidas e suspensas num +vélho muro de quinta. Nunca recordo sem assombro a sua mesa, recoberta toda de +sagazes e subtis instrumentos para cortar papel, numerar páginas, colar +estampilhas, aguçar lápis, raspar emendas, imprimir datas, derreter lacre, +cintar documentos, carimbar contas! Uns de níquel, outros de aço, rebrilhantes +e frios, todos eram de um manejo laborioso e lento: alguns, com as molas +rígidas, as pontas vivas, trilhavam e feriam: e nas largas fôlhas de papel +Whatman em que êle escrevia, e que custavam 500 réis, eu por vezes surpreendi +gotas de sangue do meu amigo. Mas a todos êle considerava indispensáveis para +compôr as suas cartas (Jacinto não compunha obras) assim como os trinta e cinco +dicionários, e os manuais, e as enciclopédias, e os guias, e os directórios, +atulhando uma estante isolada, esguia, em forma de tôrre, que silenciosamente +girava sôbre o seu pedestal, e que eu denominára o Farol. O que, porêm, mais +completamente imprimia àquele gabinete um portentoso carácter de civilização +eram, sôbre<span class="pn">{85}</span> as suas peanhas de carvalho, os grandes aparelhos, +facilitadores do pensamento,—a máquina de escrever, os auto-copistas, o +telégrafo-Morse, o fonógrafo, o telefone, o teatrofone, outros ainda, todos com +metais luzidios, todos com longos fios. Constantemente sons curtos e secos +retiniam no ar morno daquele santuário. Tic, tic, tic! Dlin, dlin, dlin! Crac, +crac, crac! Trrre, trrre!... Era o meu amigo comunicando. Todos êsses fios +mergulhavam em fôrças universais, transmitiam fôrças universais. E elas nem +sempre, desgraçadamente, se conservavam domadas e disciplinadas! Jacinto +recolhera no fonógrafo a voz do conselheiro Pinto Pôrto, uma voz oracular e +rotunda, no momento de exclamar com respeito, com autoridade:</p> + +<p>—«<em>Maravilhosa invenção! ¿Quem não admirará os progressos dêste +século?</em>»</p> + +<p>Pois, numa doce noite de S. João, o meu supercivilizado amigo, desejando que +umas senhoras parentas de Pinto Pôrto (as amáveis Gouveias) admirassem o +fonógrafo, fez romper do bocarrão do aparelho, que parece uma trompa, a +conhecida voz rotunda e oracular.</p> + +<p>—<em>¿Quem não admirará os progressos dêste século?</em></p> + +<p>Mas, inábil ou brusco, certamente desconcertou alguma mola vital—porque de +repente o fonógrafo começa a redizer, sem descontinuação,<span class="pn">{86}</span> +interminavelmente, com uma sonoridade cada vez mais rotunda, a sentença do +conselheiro:</p> + +<p>—<em>¿Quem não admirará os progressos dêste século?</em></p> + +<p>Debalde Jacinto, pálido, com os dedos trémulos, torturava o aparelho. A +exclamação recomeçava, rolava, oracular e majestosa:</p> + +<p>—<em>¿Quem não admirará os progressos dêste século?</em></p> + +<p>Enervados, retiramos para uma sala distante, pesadamente revestida de panos +de Arraz. Em vão! A voz de Pinto Pôrto lá estava, entre os panos de Arraz, +implacável e rotunda:</p> + +<p>—<em>¿Quem não admirará os progressos dêste século?</em></p> + +<p>Furiosos, enterramos uma almofada na bôca do fonógrafo, atiramos por cima +mantas, cobertores espessos, para sufocar a voz abominável. Em vão! sob a +mordaça, sob as grossas lãs, a voz rouquejava, surda mas oracular:</p> + +<p>—<em>¿Quem não admirará os progressos dêste século?</em></p> + +<p>As amáveis Gouveias tinham abalado, apertando desesperadamente os chales +sôbre a cabeça. Mesmo à cozinha, onde nos refugiamos, a voz descia, engasgada e +gosmosa:</p> + +<p>—<em>¿Quem não admirará os progressos dêste século?</em><span class="pn">{87}</span></p> + +<p>Fugimos espavoridos para a rua.</p> + +<p>Era de madrugada. Um fresco bando de raparigas, de volta das fontes, passava +cantando com braçados de flores:</p> + + +<blockquote> + Todas as ervas são bentas <br> + Em manhã de S. João... </blockquote> + +<p>Jacinto, respirando o ar matinal, limpava as bagas lentas do suor. +Recolhemos ao <em>Jasmineiro</em>, com o sol já alto, já quente. Muito de manso +abrimos as portas, como no receio de despertar <em>alguêm</em>. Horror! Logo da +ante-câmara percebemos sons estrangulados, roufenhos: «<em>admirará...</em> +<em>progressos...</em> <em>século!...</em>» Só de tarde um electricista pôde +emmudecer aquele fonógrafo horrendo.</p> + +<p>Bem mais aprazível (para mim) do que esse gabinete temerosamente atulhado de +civilização—era a sala de jantar, pelo seu arranjo compreensível, fácil e +íntimo. À mesa só cabiam seis amigos que Jacinto escolhia com critério na +literatura, na arte e na metafísica, e que, entre as tapeçarias de Arraz, +representando colinas, pomares e portos da Ática cheias de classicismo e de +luz, renovavam ali repetidamente banquetes que, pela sua intelectualidade, +lembravam os de Platão. Cada garfada se cruzava com um pensamento ou com +palavras<span class="pn">{88}</span> dextramente arranjadas em forma de pensamento.</p> + +<p>E a cada talher correspondiam seis garfos, todos de feitios dissemelhantes e +astuciosos:—um para as ostras, outro para o peixe, outro para as carnes, outro +para os legumes, outro para a fruta, outro para o queijo. Os copos, pela +diversidade dos contornos e das côres, faziam, sôbre a toalha mais reluzente +que esmalte, como ramalhetes silvestres espalhados por cima de neve. Mas +Jacinto e os seus filósofos, lembrando o que o experiente Salomão ensina sôbre +as ruínas e amarguras do vinho, bebiam apenas em três gotas de água uma gota de +Bordeus (Chateaubriand, 1860). Assim o recomendam—Hesíodo no seu +<em>Nereu</em>, e Diocles nas suas <em>Abelhas</em>. E de águas havia sempre no +<em>Jasmineiro</em> um luxo redundante—águas geladas, águas carbonatadas, +águas esterilizadas, águas gasosas, águas de sais, águas minerais, outras +ainda, em garrafas sérias, com tratados terapêuticos impressos no rótulo... O +cozinheiro, mestre Sardão, era daqueles que Anaxágoras equiparava aos +Retóricos, aos oradores, a todos os que sabem a arte divina de «temperar e +servir a Idea»: e em Sybaris, cidade do Viver Excelente, os magistrados teriam +votado a mestre Sardão, pelas festas de Juno Lacina, a coroa de fôlhas de ouro +e a túnica Milésia que se devia aos bemfeitores cívicos.<span class="pn">{89}</span> A sua sopa de +alcachofra e ovas de carpa; os seus filetes de veado macerados em vélho Madeira +com <em>purée</em> de nozes; as suas amoras geladas em éter, outros acepipes +ainda, numerosos e profundos (e os únicos que tolerava o meu Jacinto) eram +obras de um artista, superior pela abundância das ideas novas—e juntavam +sempre a raridade do sabor à magnificência da forma. Tal prato dêsse mestre +imcomparável, parecia, pela ornamentação, pela graça florida dos lavores, pelo +arranjo dos coloridos frescos e cantantes, uma joia esmaltada do cinzel de +Cellini ou Meurice. Quantas tardes eu desejei fotografar aquelas composições de +excelente fantasia, antes que o trinchante as retalhasse! E esta superfinidade +do comer condizia deliciosamente com a do servir. Por sôbre um tapete, mais +fôfo e mole que o musgo da floresta da Brocelândia, deslizavam, como sombras +fardadas de branco, cinco criados e um pagem preto, à maneira vistosa do +século XVIII. As travessas (de prata) subiam da cozinha e da copa por dous +ascensores, um para as iguarias quentes, forrado de tubos onde a água fervia; +outro, mais lento, para as iguarias frias, forrado de zinco, amónia e sal, e +ambos escondidos por flores tam densas e viçosas que era como se até a sopa +saísse fumegando dos românticos jardins de Armida. E muito bem me lembro de um +domingo de maio em que, jantando<span class="pn">{90}</span> com Jacinto um bispo, o erudito bispo de +Chorazin, o peixe emperrou no meio do ascensor, sendo necessário que acudissem, +para o extrair, pedreiros com alavancas.</p> + + +<h2><a name="SECTION000420">II</a> </h2> + +<p>Nas tardes em que havia «banquete de Platão» (que assim denominávamos essas +festas de trutas e ideas gerais), eu, vizinho e íntimo, aparecia ao declinar do +sol, e subia familiarmente aos quartos do nosso Jacinto—onde o encontrava +sempre incerto entre as suas casacas, porque as usava alternadamente de sêda, +de pano, de flanelas Jaegher, e de <em>foulard</em> das Índias. O quarto +respirava o frescor e aroma do jardim por duas vastas janelas, providas +magnificamente (alêm das cortinas de sêda mole Luís XV) de uma vidraça exterior +de cristal inteiro, duma vidraça interior de cristais miudos, dum tôldo rolando +na cimalha, dum estore de sedinha frouxa, de gases que franziam e se enrolavam +como nuvens, e duma gelosia móvel de gradaria mourisca. Todos êstes resguardos +(sábia invenção de Holland & C.ª, de Londres) serviam a guardar a luz e o +ar—segundo os avisos de termómetros, barómetros e higrómetros, montados em +ébano, e a que um<span class="pn">{91}</span> meteorologista (Cunha Guedes) vinha, todas as semanas, +verificar a precisão.</p> + +<p>Entre estas duas varandas rebrilhava a mesa de <em>toilette</em>, uma mesa +enorme de vidro, toda de vidro, para a tornar impenetrável aos micróbios, e +coberta de todos êsses utensílios de asseio e alinho que o homem do século XIX +necessita numa capital, para não desfear o conjunto suntuário da civilização. +Quando o nosso Jacinto, arrastando as suas engenhosas chinelas de pelica e +sêda, se acercava desta ara—eu, bem aconchegado num divã, abria com indolência +uma Revista, ordináriamente a <em>Revista Electro-Pática</em>, ou a das +<em>Indagações Psíquicas</em>. E Jacinto começava... Cada um dêsses utensílios +de aço, de marfim, de prata, impunham ao meu amigo, pela influência +omnipoderosa que as cousas exercem sôbre o dono (<em>sunt tyranniæ rerum</em>) +o dever de o utilizar com aptidão e deferência. E assim as operações do +alindamento de Jacinto apresentavam a prolixidade, reverente e insuprimível, +dos ritos dum sacrifício.</p> + +<p>Começava pelo cabelo... Com uma escôva chata, redonda e dura, acamava o +cabelo, corredio e louro, no alto, aos lados da risca; com uma escôva estreita +e recurva, à maneira do alfange dum persa, ondeava o cabelo sôbre a orelha; com +uma escôva côncava, em forma de telha, empastava o cabelo, por trás, sôbre +a<span class="pn">{92}</span> nuca... Respirava e sorria. Depois, com uma escôva de longas cerdas, +fixava o bigode; com uma escôva leve e flácida acurvava as sobrancelhas; com +uma escôva feita de penugem regularizava as pestanas. E dêste modo Jacinto +ficava diante do espelho, passando pêlos sôbre o seu pêlo, durante catorze +minutos.</p> + +<p>Penteado e cansado, ia purificar as mãos. Dois criados, ao fundo, manobravam +com perícia e vigor os aparelhos do lavatório—que era apenas um resumo dos +maquinismos monumentais da sala de banho. Ali, sôbre o mármore verde e róseo do +lavatório, havia apenas duas duches (quente e fria) para a cabeça; quatro +jactos, graduados desde <em>zero até cem graus</em>; o vaporizador de perfumes; +a fonte de água esterilizada (para os dentes); o repuxo para a barba; e ainda +torneiras que rebrilhavam e botões de ébano que, de leve roçados, desencadeavam +o marulho e o estridor de torrentes nos Alpes... Nunca eu, para molhar os +dedos, me cheguei àquele lavatório sem terror—escarmentado da tarde amarga de +janeiro em que bruscamente, dessoldada a torneira, o jacto de água a <em>cem +graus</em> rebentou, silvando e fumegando, furioso, devastador... Fugimos +todos, espavoridos. Um clamor atroou o <em>Jasmineiro</em>. O vélho Grilo, +escudeiro que fôra do Jacinto pai, ficou coberto de empôlas na face, nas mãos +fieis.<span class="pn">{93}</span></p> + +<p>Quando Jacinto acabava de se enxugar laboriosamente a toalhas de felpo, de +linho, de corda entrançada (para restabelecer a circulação), de sêda frouxa +(para lustrar a pele) bocejava, com um bocejo cavo e lento.</p> + +<p>E era êste bocejo, perpétuo e vago, que nos inquietava a nós, seus amigos e +filósofos. ¿Que faltava a êste homem excelente? Êle tinha a sua inabalável +saúde de pinheiro bravo, crescido nas dunas; uma luz da inteligência, própria a +tudo alumiar, firme e clara sem tremor ou morrão; quarenta magníficos contos de +renda; todas as simpatias duma cidade chasqueadora e scéptica; uma vida varrida +de sombras, mais liberta e lisa do que um céu de verão... E todavia bocejava +constantemente, palpava na face, com os dedos finos, a palidez e as rugas. Aos +trinta anos Jacinto corcovava, como sob um fardo injusto! E pela morosidade +desconsolada de toda a sua acção parecia ligado, desde os dedos até à vontade, +pelas malhas apertadas duma rêde que se não via e que o travava. Era doloroso +testemunhar o fastio com que êle, para apontar um enderêço, tomava o seu lápis +pneumático, a sua pena eléctrica—ou, para avisar o cocheiro, apanhava o tubo +telefónico!... Neste mover lento do braço magro, nos vincos que lhe +arrepanhavam o nariz, mesmo nos seus silêncios, longos e derreados, se sentia o +brado constante<span class="pn">{94}</span> que lhe ia na alma;—<em>Que massada! Que massada!</em> +Claramente a vida era para Jacinto um cansaço—ou por laboriosa e difícil, ou +por desinteressante e ôca... Por isso o meu pobre amigo procurava +constantemente juntar à sua vida novos interêsses, novas facilidades. Dois +inventores, homens de muito zêlo e pesquiza estavam encarregados, um em +Inglaterra, outro na América, de lhe noticiar e de lhe fornecer todas as +invenções, as mais miudas, que concorressem a aperfeiçoar a confortabilidade do +<em>Jasmineiro</em>. De resto, êle proprio se correspondia com Edison. E, pelo +lado do pensamento, Jacinto não cessava tambêm de buscar interêsses e emoções +que o reconciliassem com a vida—penetrando à cata dessas emoções e dêsses +interêsses pelas veredas mais desviadas do saber, a ponto de devorar, desde +janeiro a março, setenta e sete volumes sôbre a <em>evolução das ideas morais +entre as raças negróides</em>. Ah! nunca homem dêste século batalhou mais +esforçadamente contra a <em>séca de viver</em>! Debalde! Mesmo de explorações +tam cativantes como essa, através da moral dos negróides, Jacinto regressava +mais murcho, com bocejos mais cavos!</p> + +<p>E era então que êle se refugiava intensamente na leitura de Schopenhauer e +do <em>Eclesiastes</em>. Porque? Sem dúvida porque ambos êsses pessimistas o +confirmavam nas conclusões<span class="pn">{95}</span> que êle tirava de uma experiência paciente e +rigorosa: «que tudo é vaidade ou dor, que quanto mais se sabe, mais se péna, e +que ter sido rei de Jerusalêm e obtido os gózos todos na vida só leva a maior +amargura...» ¿Mas porque rolara assim a tam escura desilusão—o saùdável, rico, +sereno e intelectual Jacinto? O vélho escudeiro Grilo pretendia que «S. Ex.ª +sofria de fartura!»</p> + + +<h2><a name="SECTION000430">III</a> </h2> + +<p>Ora justamente depois dêsse inverno, em que êle se embrenhara na moral dos +negróides e instalara a luz eléctrica entre os arvoredos do jardim, sucedeu que +Jacinto teve a necessidade moral iniludível de partir para o Norte, para o seu +vélho solar de Torges. Jacinto não conhecia Torges, e foi com desusado tédio +que êle se preparou, durante sete semanas, para essa jornada agreste. A quinta +fica nas serras—e a rude casa solarenga, onde ainda resta uma tôrre do século +XV, estava ocupada, havia trinta anos, pelos caseiros, boa gente de trabalho, +que comia o seu caldo entre a fumaraça da lareira, e estendia o trigo a secar +nas salas senhoriais.<span class="pn">{96}</span></p> + +<p>Jacinto, logo nos começos de março, escrevera cuidadosamente ao seu +procurador Sousa, que habitava a aldeia de Torges, ordenando-lhe que compuzesse +os telhados, caiasse os muros, envidraçasse as janelas. Depois mandou expedir, +por combóios rápidos, em caixotes que transpunham a custo os portões do +<em>Jasmineiro</em>, todos os confortos necessários a duas semanas de +montanha—camas de penas, poltronas, divãs, lâmpadas de Carcel, banheiras de +níquel, tubos acústicos para chamar os escudeiros, tapetes persas para amaciar +os soalhos. Um dos cocheiros partiu com um copé, uma vitória, um breque, mulas +e guizos.</p> + +<p>Depois foi o cozinheiro, com a bateria, a garrafeira, a geleira, bocais de +trufas, caixas profundas de águas mineráis. Desde o amanhecer, nos pátios +largos do palacete, se pregava, se martelava, como na construção de uma cidade. +E as bagagens, desfilando, lembravam uma página de Heródoto ao narrar a invasão +persa. Jacinto emmagrecera com os cuidados daquele Êxodo. Por fim, largamos +numa manhã de junho, com o Grilo, e trinta e sete malas.</p> + +<p>Eu acompanhava Jacinto, no meu caminho para Guiães, onde vive minha tia, a +uma légua farta de Torges: e íamos num vagom reservado, entre vastas almofadas, +com perdizes e Champanhe num cêsto. A meio da jornada<span class="pn">{97}</span> devíamos mudar de +combóio—nessa estação, que tem um nome sonoro em <em>ola</em> e um tam suave e +cândido jardim de roseiras brancas. Era domingo de imensa poeira e sol—e +encontrámos aí, enchendo a plata-forma estreita, todo um povaréu festivo que +vinha da romaria de S. Gregório da Serra.</p> + +<p>Para aquele trasbôrdo, em tarde de arraial, o horário só nos concedia três +minutos avaros. O outro combóio já esperava, rente aos alpendres, impaciente e +silvando. Uma sineta badalava com furor. E, sem mesmo atender às lindas môças +que ali saracoteavam, aos bandos, afogueadas, de lenços flamejantes, o seio +farto coberto de ouro, e a imagem do santo espetada no chapéu—corremos, +empurrámos, furámos, saltámos para o outro vagom, já reservado, marcado por um +cartão com as iniciais de Jacinto. Imediatamente o trem rolou. Pensei então no +nosso Grilo, nas trinta e sete malas! E debruçado da portinhola avistei ainda +junto ao cunhal da estação, sob os eucaliptos, um monte de bagagens, e homens +de boné agaloado que, diante delas, bracejavam com desespêro.</p> + +<p>Murmurei, recaindo nas almofadas:</p> + +<p>—Que serviço!</p> + +<p>Jacinto, ao canto, sem descerrar os olhos, suspirou:</p> + +<p>—Que massada!<span class="pn">{98}</span></p> + +<p>Toda uma hora deslizamos lentamente entre trigais e vinhedo; e ainda o sol +batia nas vidraças, quente e poeirento, quando chegamos à estação de Gondim, +onde o procurador de Jacinto, o excelente Sousa, nos devia esperar com cavalos +para treparmos a serra até ao solar de Torges. Por trás do jardim da estação, +todo florido tambêm de rosas e margaridas, Jacinto reconheceu logo as suas +carruagens ainda empacotadas em lona.</p> + +<p>Mas quando nos apeamos no pequeno cais branco e fresco—só houve em tôrno de +nós solidão e silêncio. Nem procurador, nem cavalos! O chefe da estação, a quem +eu perguntara com ansiedade «se não aparecera ali o snr. Sousa, se não conhecia +o snr. Sousa», tirou afavelmente o seu boné de galão. Era um moço gordo e +redondo, com côres de maçã camoesa, que trazia sob o braço um volume de versos. +«Conhecia perfeitamente o snr. Sousa! Três semanas antes jogara êle a manilha +com o snr. Sousa! Nessa tarde porêm, infelizmente, não avistara o snr. Sousa!» +O comboio desaparecera por detrás das fragas altas que ali pendem sôbre o rio. +Um carregador enrolava o cigarro, assobiando. Rente da grade do jardim, uma +vélha, toda de negro, dormitava agachada no chão, diante duma cêsta de ovos. ¿E +o nosso Grilo, e as nossas bagagens?... O chefe encolheu risonhamente os ombros +nédios.<span class="pn">{99}</span> Todos os nossos bens tinham encalhado, de-certo, naquela estação +de roseiras brancas que tem um nome sonoro em <em>ola</em>. E nós ali +estávamos, perdidos na serra agreste, sem procurador, sem cavalos, sem Grilo, +sem malas.</p> + +<p>¿Para que esfiar miudamente o lance lamentável? Ao pé da estação, numa +quebrada da serra, havia um casal foreiro à quinta, onde alcançamos, para nos +levarem e nos guiarem a Torges, uma égua lazarenta, um jumento branco, um rapaz +e um podengo. E aí começamos a trepar, enfastiadamente, êsses caminhos +agrestes—os mesmos, de-certo, por onde vinham e iam, de monte a rio, os +Jacintos do século XV. Mas, passada uma trémula ponte de pau que galga um +ribeiro todo quebrado por fragas (e onde abunda a truta adorável) os nossos +males esqueceram, ante a inesperada, incomparável beleza daquela terra bemdita. +O divino artista que está nos céus compuzera, certamente, êsse monte numa das +suas manhãs de mais solene e bucólica inspiração.</p> + +<p>A grandeza era tanta como a graça... Dizer os vales fôfos de verdura, os +bosques quási sacros, os pomares cheirosos e em flor, a frescura das águas +cantantes, as ermidinhas branqueando nos altos, as rochas musgosas, o ar de uma +doçura de paraíso, toda a majestade e toda a lindeza—não é para mim, homem de +pequena arte. Nem creio mesmo que fôsse para<span class="pn">{100}</span> mestre Horácio. ¿Quem pode +dizer a beleza das cousas, tam simples e inexprímivel? Jacinto adiante, na égua +tarda, murmurava:</p> + +<p>—Ah! que beleza!</p> + +<p>Eu atrás, no burro, com as pernas bambas, murmurava:</p> + +<p>—Ah! que beleza!</p> + +<p>Os espertos regatos riam, saltando de rocha em rocha. Finos ramos de +arbustos floridos roçavam as nossas faces, com familiaridade e carinho. Muito +tempo um melro nos seguiu, de choupo para castanheiro, assobiando os nossos +louvores. Serra bem acolhedora e amável... Ah! que beleza!</p> + +<p>Por entre <em>ahs</em> maravilhados chegamos a uma avenida de faias, que nos +pareceu clássica e nobre. Atirando uma nova vergastada ao burro e à égua, o +nosso rapaz, com o seu podengo ao lado, gritava:</p> + +<p>—Aqui é que estêmos!</p> + +<p>E ao fundo das faias havia, com efeito, um portão de quinta, que um escudo +de armas de vélha pedra, roída de musgo, grandemente afidalgava. Dentro já os +cães ladravam com furor. E mal Jacinto, e eu atrás dêle no burro de Sancho, +transpuzemos o limiar solarengo, correu para nós, do alto da escadaria, um +homem branco, rapado como um clérigo, sem colete, sem jaleca, que erguia para o +ar, num assombro, os braços desolados. Era o caseiro,<span class="pn">{101}</span> o Zé Brás. E logo +ali, nas pedras do pátio, entre o latir dos cães, surdiu uma tumultuosa +história, que o pobre Brás balbuciava, aturdido, e que enchia a face de Jacinto +de lividez e de cólera. O caseiro não esperava S. Ex.ª Ninguêm esperava S. Ex.ª +(Êle dizia <em>sua inselência</em>).</p> + +<p>O procurador, o snr. Sousa, estava para a raia desde maio, a tratar a mãe +que levára um couce de mula. E de-certo houvera engano, cartas perdidas... +Porque o snr. Sousa só contava com S. Ex.ª... em setembro, para a vindima. Na +casa nenhuma obra começára. E, infelizmente para S. Ex.ª, os telhados ainda +estavam sem telhas, e as janelas sem vidraças...</p> + +<p>Cruzei os braços, num justo espanto. ¿Mas os caixotes—êsses caixotes +remetidos para Torges, com tanta prudência, em abril, repletos de colchões, de +regalos, de civilização?... O caseiro, vago, sem compreender, arregalava os +olhos miudos onde já bailavam lágrimas. Os caixotes?! Nada chegára, nada +aparecera. E na sua perturbação o Zé Brás procurava entre as arcadas do pátio, +nas algibeiras das pantalonas... Os caixotes? Não, não tinha os caixotes!</p> + +<p>Foi então que o cocheiro de Jacinto (que trouxera os cavalos e as +carruagens) se acercou, gravemente. Êsse era um civilizado—e<span class="pn">{102}</span> acusou +logo o govêrno. Já quando êle servia o snr. visconde de S. Francisco se tinham +assim perdido, por desleixo do govêrno, da cidade para a serra, dous caixotes +com vinho vélho da Madeira, e roupa branca de senhora. Por isso êle, +escarmentado, sem confiança na nação, não largára as carruagens—e era tudo o +que restava a S. Ex.ª: o breque, a vitória, o copé e os guizos. Sómente, +naquela rude montanha, não havia estradas onde elas rolassem. E como só podiam +subir para a quinta em grandes carros de bois—êle lá as deixára em baixo, na +estação, quietas, empacotadas na lona...</p> + +<p>Jacinto ficára plantado diante de mim, com as mãos nos bolsos:</p> + +<p>—E agora?</p> + +<p>Nada restava senão recolher, cear o caldo do tio Zé Brás, e dormir nas +palhas que os fados nos concedessem. Subimos. A escadaria nobre conduzia a uma +varanda, toda coberta, em alpendre, acompanhando a fachada do casarão e ornada, +entre os seus grossos pilares de granito, por caixotes cheios de terra, em que +floriam cravos. Colhi um cravo. Entramos. E o meu pobre Jacinto contemplou, +emfim, as salas do seu solar! Eram enormes, com as altas paredes rebocadas a +cal que o tempo e o abandôno tinham ennegrecido, e vazias, desoladamente nuas, +oferecendo apenas como vestígio<span class="pn">{103}</span> de habitação e de vida, pelos cantos +algum monte de cestos ou algum mólho de enxadas. Nos tetos remotos de carvalho +negro alvejavam manchas—que era o céu já pálido do fim da tarde, surpreendido +através dos buracos do telhado. Não restava uma vidraça. Por vezes, sob os +nossos passos, uma tábua pôdre rangia e cedia.</p> + +<p>Paramos, emfim, na última, a mais vasta, onde havia duas arcas tulheiras +para guardar o grão; e aí depuzemos, melancólicamente, o que nos ficára de +trinta e sete malas—os paletós alvadios, uma bengala e um <em>Jornal da +Tarde</em>. Através das janelas desvidraçadas, por onde se avistavam copas de +arvoredos e as serras azuis de alêm-rio, o ar entrava, montesino e largo, +circulando plenamente como em um eirado, com aromas de pinheiro bravo. E, lá +debaixo, dos vales, subia, desgarrada e triste, uma voz de pegureira cantando. +Jacinto balbuciou:</p> + +<p>—É horroroso!</p> + +<p>Eu murmurei:</p> + +<p>—É campestre!<span class="pn">{104}</span></p> + + +<h2><a name="SECTION000440">IV</a> </h2> + +<p>O Zé Brás, no entanto, com as mãos na cabeça, desaparecera a ordenar a ceia +para <em>suas inselências</em>. O pobre Jacinto, esbarrondado pelo desastre, +sem resistência contra aquele brusco desaparecimento de toda a civilização, +caíra pesadamente sôbre o poial duma janela, e daí olhava os montes. E eu, a +quem aqueles ares serranos e o cantar do pegureiro sabiam bem, terminei por +descer à cozinha, conduzido pelo cocheiro, através de escadas e becos onde a +escuridão vinha menos do crepúsculo do que de densas teias de aranha.</p> + +<p>A cozinha era uma espessa massa de tons e formas negras, côr de fuligem, +onde refulgia ao fundo, sôbre o chão de terra, uma fogueira vermelha que lambia +grossas panelas de ferro, e se perdia em fumarada pela grade escassa que no +alto coava a luz. Aí um bando alvoroçado e palreiro de mulheres depenava +frangos, batia ovos, escarolava arroz, com santo fervor... Do meio delas o bom +caseiro, estonteado, investiu para mim jurando que «a ceia de <em>suas +inselências</em> não demorava um credo». E como eu o interrogava a respeito +de<span class="pn">{105}</span> camas, o digno Brás teve um murmúrio vago e tímido sobre +«enxergasinhas no chão».</p> + +<p>—É o que basta, snr. Zé Brás—acudi eu para o consolar.</p> + +<p>—Pois assim Deus seja servido!—suspirou o homem excelente, que +atravessava, nessa hora, o transe mais amargo da sua vida serrana.</p> + +<p>Voltando a cima, com estas consolantes novas de ceia e cama, encontrei ainda +o meu Jacinto no poial da janela, embebendo-se todo da doce paz crepuscular, +que lenta e caladamente se estabelecia sôbre vale e monte. No alto já +tremeluzia uma estrêla, a Vesper diamantina, que é tudo o que neste céu cristão +resta do esplendor corporal de Vénus! Jacinto nunca considerára bem aquela +estrêla—nem assistira a êste majestoso e doce adormecer das cousas. Êsse +ennegrecimento de montes e arvoredos, casais claros fundindo-se na sombra, um +toque dormente de sino que vinha pelas quebradas, o cochichar das águas entre +relvas baixas—eram para êle como iniciações. Eu estava defronte, no outro +poial. E senti-o suspirar como um homem que emfim descansa.</p> + +<p>Assim nos encontrou nesta contemplação o Zé Brás, com o doce aviso de que +estava na mesa a <em>ceiasinha</em>. Era adiante, noutra sala mais nua, mais +negra. E aí, o meu supercivilizado<span class="pn">{106}</span> Jacinto recuou com um pavor genuíno. +Na mesa de pinho, recoberta com uma toalha de mãos, encostada à parede sórdida, +uma vela de cebo meio derretida num castiçal de latão, alumiava dous pratos de +louça amarela, ladeados por colheres de pau e por garfos de ferro. Os copos, de +vidro, grosso e baço, conservavam o tom rôxo do vinho que neles passára em +fartos anos de fartas vindimas. O covilhete de barro com as azeitonas +deleitaria, pela sua singeleza ática, o coração de Diógenes. Na larga brôa +estava cravado um facalhão... Pobre Jacinto!</p> + +<p>Mas lá abancou resignado, e muito tempo, pensativamente, esfregou com o seu +lenço o garfo negro e a colher de pau. Depois, mudo, desconfiado, provou um +gole curto do caldo, que era de galinha e rescendia. Provou, e levantou para +mim, seu companheiro e amigo, uns olhos largos que luziam, surpreendidos. +Tornou a sorver uma colherada de caldo, mais cheia, mais lenta... E sorriu, +murmurando com espanto:</p> + +<p>—Está bom!</p> + +<p>Estava realmente bom: tinha figado e tinha moela: o seu perfume enternecia. +Eu, três vezes, com energia, ataquei aquele caldo: foi Jacinto que rapou a +sopeira. Mas já, arredando a brôa, arredando a vela, o bom Zé Brás pousára na +mesa uma travessa vidrada,<span class="pn">{107}</span> que transbordava de arroz com favas. Ora, +a-pesar da fava (que os gregos chamaram <em>cibória</em>) pertencer às épocas +superiores da civilização, e promover tanto a sapiência que havia em Sycio, na +Galácia, um templo dedicado a Minerva Ciboriana—Jacinto sempre detestára +favas. Tentou todavia uma garfada tímida. De novo os seus olhos, alargados pelo +assombro, procuravam os meus. Outra garfada, outra concentração... E eis que o +meu dificíllimo amigo exclama:</p> + +<p>—Está ótimo!</p> + +<p>¿Eram os picantes ares da serra? ¿Era a arte deliciosa daquelas mulheres que +em baixo remexiam as panelas, cantando o <em>Vira</em>, <em>meu bem</em>? Não +sei:—mas os louvores de Jacinto a cada travessa foram ganhando em amplidão e +firmeza. E diante do frango louro, assado no espêto de pau, terminou por +bradar:</p> + +<p>—Está divino!</p> + +<p>Nada porêm o entusiasmou como o vinho, o vinho caíndo de alto, da grossa +caneca verde, um vinho gostoso, penetrante, vivo, quente, que tinha em si mais +alma que muito poema ou livro santo! Mirando à luz de cebo o copo rude que êle +orlava de espuma, eu recordava o dia geórgico em que Virgílio, em casa de +Horácio, sob a ramada, cantava o fresco palhete da Rética. E Jacinto, com uma +côr<span class="pn">{108}</span> que eu nunca vira na sua palidez schopenháurica, sussurrou logo o +doce verso:</p> + + +<blockquote> + <em>Rethica quò te carmina dicat.</em> </blockquote> + +<p>¿Quem dignamente te cantará, vinho daquelas serras?!</p> + +<p>Assim jantamos deliciosamente, sob os auspícios do Zé Brás. E depois +voltamos para as alegrias únicas da casa, para as janelas desvidraçadas, a +contemplar silenciosamente um suntuoso céu de verão, tam cheio de estrêlas que +todo êle parecia uma densa poeirada de oiro vivo, suspensa, imóvel, por cima +dos montes negros. Como eu observei ao meu Jacinto, na cidade nunca se olham os +astros por causa dos candieiros—que os ofuscam: e nunca se entra por isso numa +completa comunhão com o universo. O homem nas capitais pertence à sua casa, ou +se o impelem fortes tendências de sociabilidade, ao seu bairro. Tudo o isola e +o separa da restante natureza—os prédios obstrutores de seis andares, a fumaça +das chaminés, o rolar moroso e grosso dos ónibus, a trama encarceradora da vida +urbana... Mas que diferença, num cimo de monte, como Torges! Aí todas essas +belas estrelas olham para nós de pérto, rebrilhando, à maneira de olhos +conscientes, umas fixamente, com sublime indiferença,<span class="pn">{109}</span> outras +ansiosamente, com uma luz que palpita, uma luz que chama, como se tentassem +revelar os seus segredos ou compreender os nossos... E é impossível não sentir +uma solidariedade perfeita entre êsses imensos mundos e os nossos pobres +corpos. Todos somos obra da mesma vontade. Todos vivemos da acção dessa vontade +imanente. Todos, portanto, desde os Uranos até aos Jacintos, constituimos modos +diversos de um ser único, e através das suas transformações somamos na mesma +unidade. Não há idea mais consoladora do que esta—que eu, e tu, e aquele +monte, e o sol que agora se esconde, somos moléculas do mesmo Todo, governadas +pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim. Desde logo se sómem as +responsabilidades torturantes do individualismo. ¿Que somos nós? Formas sem +fôrça, que uma Fôrça impele. E há um descanso delicioso nesta certeza, mesmo +fugitiva, de que se é o grão de pó irresponsável e passivo que vai levado no +grande vento, ou a gota perdida na torrente! Jacinto concordava, sumido na +sombra. Nem êle nem eu sabíamos os nomes dêsses astros admiráveis. Eu, por +causa da maciça e indesbastável ignorância de bacharel, com que saí do ventre +de Coímbra, minha mãe espiritual. Jacinto, porque na sua ponderosa biblioteca +tinha <em>trezentos e dezoito</em> tratados sôbre astronomia! ¿Mas<span class="pn">{110}</span> que +nos importava, de resto, que aquele astro alêm se chamasse Sírius e aquele +outro Aldebaran? ¿Que lhes importava a êles que um de nós fôsse José e o outro +Jacinto? Éramos formas transitórias do mesmo ser eterno—e em nós havia o mesmo +Deus. E se êles tambêm assim o compreendiam, estávamos ali, nós à janela num +casarão serrano, êles no seu maravilhoso infinito, perfazendo um acto +sacrossanto, um perfeito acto de Graça—que era sentir conscientemente a nossa +unidade, e realizar, durante um instante, na consciência, a nossa divinização. +</p> + +<p>Assim ennevoadamente filosofávamos—quando Zé Brás, com uma candeia na mão, +veio avisar que «estavam preparadas as camas de <em>suas inselências...</em>» +Da idealidade descemos gostosamente à realidade, ¿e que vimos então nós, os +irmãos dos astros? Em duas salas tenebrosas e côncavas, duas enxergas, postas +no chão, a um canto, com duas cobertas de chita; à cabeceira um castiçal de +latão, pousado sôbre um alqueire: e aos pés, como lavatório, um alguidar +vidrado em cima de uma cadeira de pau!</p> + +<p>Em silêncio, o meu super-civilizado amigo palpou a sua enxerga e sentiu nela +a rigidez dum granito. Depois, correndo pela face descaída os dedos murchos, +considerou que, perdidas as suas malas, não tinha nem chinelas<span class="pn">{111}</span> nem +roupão! E foi ainda o Zé Brás que providenciou, trazendo ao pobre Jacinto, para +êle desafogar os pés, uns tremendos tamancos de pau, e para êle embrulhar o +corpo, docemente educado em Sybaris, uma camisa da caseira, enorme, de estopa +mais aspera que estamenha de penitente, e com folhos crespos e duros como +lavores em madeira... Para o consolar, lembrei que Platão, quando compunha o +<em>Banquete</em>, Xenofonte, quando comandava os Dez Mil, dormiam em piores +catres. As enxergas austeras fazem as fortes almas—e é só vestido de estamenha +que se penetra no Paraíso.</p> + +<p>—¿Tem você—murmurou o meu amigo, desatento e sêco—alguma cousa que eu +leia?.... Eu não posso adormecer sem ler!</p> + +<p>Eu possuia apenas o número do <em>Jornal da Tarde</em>, que rasguei pelo +meio, e partilhei com êle fraternalmente. E quem não viu então Jacinto, senhor +de Torges, acaçapado à borda da enxerga, junto da vela que pingava sôbre o +alqueire, com os pés nus encafuados nos grossos sócos, perdido dentro da camisa +da patrôa, toda em folhos, percorrendo na metade do <em>Jornal da Tarde</em>, +com os olhos turvos, os anúncios dos paquetes—não pode saber o que é uma +vigorosa e real imagem do desalento!</p> + +<p>Assim o deixei—e daí a pouco, estendido<span class="pn">{112}</span> na minha enxerga tambêm +espartana, subia, através dum sonho jovial e erudito, ao planeta Vénus, onde +encontrava, entre os olmos e os ciprestes, num vergel, Platão e Zé Brás, em +alta camaradagem intelectual, bebendo o vinho da Rética pelos copos de Torges! +Travámos todos três bruscamente uma controvérsia sôbre o século XIX. Ao longe, +por entre uma floresta de roseiras mais altas que carvalhos, alvejavam os +mármores duma cidade e ressoavam cantos sacros. Não recordo o que Xenofonte +sustentou àcêrca da civilização e do fonógrafo. De repente tudo foi turbado por +fuscas nuvens, através das quais eu distinguia Jacinto, fugindo num burro que +êle impelia furiosamente com os calcanhares, com uma vergasta, com berros, para +os lados do <em>Jasmineiro</em>!</p> + + +<h2><a name="SECTION000450">V</a> </h2> + +<p>Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar Jacinto, que, com as mãos +sôbre o peito, dormia plácidamente no seu leito de granito—parti para Guiães. +E durante três quietas semanas, naquela vila onde se conservam os hábitos e as +ideas do tempo de El-Rei<span class="pn">{113}</span> D. Dinís, não soube do meu desconsolado amigo, +que de-certo fugira dos seus tetos esburacados e remergulhára na civilização. +Depois, por uma abrasada manhã de agosto, descendo de Guiães, de novo trilhei a +avenida de faias, e entrei o portão solarengo de Torges, entre o furioso latir +dos rafeiros. A mulher do Zé Brás apareceu alvoroçada à porta da tulha. E a sua +nova foi logo que o snr. D. Jacinto (em Torges, o meu amigo tinha dom) andava +lá em baixo com o Sousa nos campos de Freixomil.</p> + +<p>—¿Então, ainda cá está o snr. D. Jacinto?!</p> + +<p><em>Sua inselência</em> ainda estava em Torges—e <em>sua inselência</em> +ficava para a vindima!... Justamente eu reparava que as janelas do solar tinham +vidraças novas; e a um canto do pátio pousavam baldes de cal; uma escada de +pedreiro ficára arrimada contra a varanda; e num caixote aberto, ainda cheio de +palha de empacotar, dormiam dois gatos.</p> + +<p>—E o Grilo apareceu?</p> + +<p>—O snr. Grilo está no pomar, à sombra.</p> + +<p>—Bem! e as malas?</p> + +<p>—O snr. D. Jacinto já tem o seu saquinho de couro...</p> + +<p>Louvado Deus! O meu Jacinto estava, emfim, provido de civilização! Subi +contente. Na sala nobre, onde o soalho fôra composto e esfregado, encontrei uma +mesa recoberta de<span class="pn">{114}</span> oleado, prateleiras de pinho com louça branca de +Barcelos e cadeiras de palhinha, orlando as paredes muito caiadas que davam uma +frescura de capela nova. Ao lado, noutra sala, tambêm de faiscante alvura, +havia o confôrto inesperado de três cadeiras de vêrga da Madeira, com braços +largos e almofadas de chita: sôbre a mesa de pinho, o papel almasso, o +candieiro de azeite, as penas de pato espetadas num tinteiro de frade, pareciam +preparadas para um estudo calmo e ditoso de humanidades: e na parede, suspensa +de dois pregos, uma estantesinha continha quatro ou cinco livros, folheados e +usados, o <em>D. Quixote</em>, um Virgílio, uma História de Roma, as Crónicas +de Froissart. Adiante era certamente o quarto de D. Jacinto, um quarto claro e +casto de estudante, com um catre de ferro, um lavatório de ferro, a roupa +pendurada de cabides toscos. Tudo resplandecia de asseio e ordem. As janelas +cerradas defendiam do sol de agosto, que escaldava fóra os peitoris de pedra. +Do soalho, borrifado de água, subia uma fresquidão consoladora. Num vélho vaso +azul um mólho de cravos alegrava e perfumava. Não havia um rumor. Torges dormia +no esplendor da sésta. E envolvido naquele repouso de convento remoto, terminei +por me estender numa cadeira de vêrga junto à mesa, abri lânguidamente o +Virgílio, murmurando:<span class="pn">{115}</span></p> + + +<blockquote> + <em>Fortunate Jacinthe! tu inter arva nota</em> <br> + <em>Et fontes sacros frigus captabis opacum.</em> </blockquote> + +<p>Já mesmo irreverentemente adormecera sôbre o divino bucolista, quando me +despertou um brado amigo. Era o nosso Jacinto. E imediatamente o comparei a uma +planta, meio murcha e estiolada no escuro, que fôra profusamente regada e +revivera em pleno sol. Não corcovava. Sôbre a sua palidez de supercivilizado, o +ar da serra ou a reconciliação com a vida tinham espalhado um tom trigueiro e +forte que o virilizava soberbamente. Dos olhos, que na cidade eu lhe conhecera +sempre crepusculares, saltava agora um brilho de meio dia, decidido e largo, +que mergulhava francamente na beleza das cousas. Já não passava as mãos murchas +sôbre a face—batia com elas rijamente na côxa... Que sei eu?! Era uma +reincarnação. E tudo o que me contou, pisando alegremente com os sapatos +brancos o soalho, foi que se sentira, ao fim de três dias em Torges, como +desanuviado, mandára comprar um colchão macio, reùnira cinco livros, nunca +lidos, e ali estava...</p> + +<p>—Para todo o verão ?</p> + +<p>—Para todo o sempre! E agora, homem das cidades, vem almoçar umas trutas +que eu pesquei, e compreende emfim o que é o céu.<span class="pn">{116}</span></p> + +<p>As trutas eram, com efeito, celestes. E apareceu tambêm uma salada fria de +couve-flor e vagens, e um vinho branco de Azães... ¿Mas quem condignamente vos +cantará, comeres e beberes daquelas serras?</p> + +<p>De tarde, finda a calma, passeamos pelos caminhos, coleando a vasta quinta, +que vai de vales a montes. Jacinto parava a contemplar com carinho os milhos +altos. Com a mão espalmada e forte batia no tronco dos castanheiros, como nas +costas de amigos recuperados. Todo o fio de água, todo o tufo de erva, todo o +pé de vinha o ocupava como vidas filiais porque fôsse responsável. Conhecia +certos melros que cantavam em certos choupos. Exclamava enternecido:</p> + +<p>—Que encanto, a flor do trevo!</p> + +<p>À noite, depois de um cabrito assado no forno, a que mestre Horácio teria +dedicado uma Ode (talvez mesmo um Carme Heróico) conversamos sôbre o Destino e +a Vida. Eu citei, com discreta malícia, Schopenhauer e o +<em>Eclesiastes</em>... Mas Jacinto ergueu os ombros, com seguro desdêm. A sua +confiança nesses dois sombrios explicadores da vida desaparecera, e +irremediavelmente, sem poder mais voltar, como uma névoa que o sol espalha. +Tremenda tolice! afirmar que a vida se compõe, meramente, duma longa ilusão—é +erguer um aparatoso sistema sôbre um ponto especial<span class="pn">{117}</span> e estreito da vida, +deixando fóra do sistema toda a vida restante, como uma contradição permanente +e soberba. Era como se êle, Jacinto, apontando para uma ortiga, crescida +naquele pátio, declarasse, triunfalmente:—«Aqui está uma ortiga! Toda a quinta +de Torges, portanto, é uma massa de ortigas.»—Mas bastaria que o hóspede +erguesse os olhos, para ver as searas, os pomares e os vinhedos!</p> + +<p>¿De resto, dêsses dois ilustres pessimistas, um o alemão, que conhecia êle +da vida—dessa vida de que fizera, com doutoral majestade, uma teoria +definitiva e dolente? Tudo o que pode conhecer quem, como êste genial farçante, +viveu cincoenta anos numa soturna hospedaria da província, levantando apenas os +óculos dos livros para conversar, à mesa redonda, com os alferes da guarnição! +E o outro, o israelista, o homem dos <em>Cantares</em>, o muito pedantesco rei +de Jerusalêm, só descobre que a vida é uma ilusão aos setenta e cinco anos, +quando o poder lhe escapa das mãos trémulas, e o seu serralho de trezentas +concubinas se torna ridículamente supérfluo à sua carcassa frígida. Um +dogmatiza fúnebremente sôbre o que não sabe—e o outro sôbre o que não pode. +¿Mas que se dê a êsse bom Schopenhauer uma vida tam completa e cheia como a de +César, e onde estará o seu schopenhaurismo? ¿que se restitua a êsse sultão, +besuntado de literatura,<span class="pn">{118}</span> que tanto edificou e professorou em Jerusalêm, +a sua virilidade—e onde estará o <em>Eclesiastes</em>? ¿De resto, que importa +bemdizer ou maldizer da vida? Afortunada ou dolorosa, fecunda ou vã, ela tem de +ser vida. Loucos aqueles que, para a atravessar, se embrulham desde logo em +pesados véus de tristeza e desilusão, de sorte que na sua estrada tudo lhe seja +negrume, não só as léguas realmente escuras, mas mesmo aquelas em que scintila +um sol amável. Na terra tudo vive—e só o homem sente a dor e a desilusão da +vida. E tanto mais as sente, quanto mais alarga e acumula a obra dessa +inteligência que o torna homem, e que o separa da restante natureza, impensante +e inerte. É no máximo de civilização que êle experimenta o máximo de tédio. A +sapiência, portanto, está em recuar até êsse honesto mínimo de civilização, que +consiste em ter um teto de colmo, uma leira de terra e o grão para nela semear. +Em resumo, para reaver a felicidade, é necessário regressar ao Paraíso—e ficar +lá, quieto, na sua fôlha de vinha, inteiramente desguarnecido de civilização, +contemplando o anho aos saltos entre o tomilho, e sem procurar, nem com o +desejo, a árvore funesta da Sciência! <em>Dixi!</em></p> + +<p>Eu escutava, assombrado, êste Jacinto novíssimo. Era verdadeiramente uma +ressurreição no magnífico estilo de Lázaro. Ao <em>surge et ambula</em><span class="pn">{119}</span> +que lhe tinham sussurrado as águas e os bosques de Torges, êle erguia-se do +fundo da cova do Pessimismo, desembaraçava-se das suas casacas de Poole, <em>et +ambulabat</em>, e começava a ser ditoso. Quando recolhi ao meu quarto, àquelas +horas honestas que convêm ao campo e ao Otimismo, tomei entre as minhas a mão +já firme do meu amigo, e pensando que êle emfim alcançára a verdadeira rialeza, +porque possuia a verdadeira liberdade, gritei-lhe os meus parabens à maneira do +moralista de Tibur:</p> + + +<blockquote> + <em>Vive et regna, fortunate Jacinthe!</em> </blockquote> + +<p>Daí a pouco, através da porta aberta que nos separava, senti uma risada +fresca, môça, genuína e consolada. Era Jacinto que lia o <em>D. Quixote</em>. +Oh bemaventurado Jacinto! Conservava o agudo poder de criticar, e recuperára o +dom divino de rir!</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Quatro anos vão passados. Jacinto ainda habita Torges. As paredes do seu +solar continuam bem caiadas, mas nuas.</p> + +<p>De inverno enverga um gabão de briche e acende um braseiro. Para chamar o +Grilo ou a môça, bate as mãos, como fazia Catão. Com os seus deliciosos +vagares, já leu a <em>Ilíada</em>.<span class="pn">{120}</span></p> + +<p>Não faz a barba. Nos caminhos silvestres, pára e fala com as crianças. Todos +os casais da serra o bemdizem. Ouço que vai casar com uma forte, sã, e bela +rapariga de Guiães. De-certo crescerá ali uma tríbu, que será grata ao Senhor! +</p> + +<p>Como êle, recentemente, me mandou pedir livros da sua livraria (uma <em>Vida +de Buda</em>, uma <em>História da Grécia</em> e as obras de S. Francisco de +Sales) fui, depois dêstes quatro anos, ao <em>Jasmineiro</em> deserto. Cada +passo meu sôbre os fofos tapetes de Koranânia soou triste como num chão de +mortos. Todos os brocados estavam engelhados, esgaçados. Pelas paredes pendiam, +como olhos fóra de órbitas, os botões eléctricos das campainhas e das luzes:—e +havia vagos fios de arame, soltos, enroscados, onde a aranha regalada e +reinando tecera teias espessas. Na livraria, todo o vasto saber dos séculos +jazia numa imensa mudez, debaixo duma imensa poeira. Sôbre as lombadas dos +sistemas filosóficos alvejava o bolôr: vorazmente a traça devastára as +Histórias Universais: errava ali um cheiro mole de literatura apodrecida:—e eu +abalei, com o lenço no nariz, certo de que naqueles vinte mil volumes não +restava uma verdade viva! Quis lavar as mãos maculadas pelo contacto com estes +detritos de conhecimentos humanos. Mas os maravilhosos aparelhos do lavatório, +da sala<span class="pn">{121}</span> de banho, enferrujados, perros, dessoldados, não largaram uma +gota de água; e, como chovia nessa tarde de abril, tive de saír à varanda, +pedir ao céu que me lavasse.</p> + +<p>Ao descer, penetrei no gabinete de trabalho de Jacinto e tropecei num montão +negro de ferragens, rodas, lâminas, campainhas, parafusos... Entreabri a +janela, e reconheci o telefone, o teatrofone, o fonógrafo, outros aparelhos, +tombados das suas peanhas, sórdidos, desfeitos, sob a poeira dos anos. Empurrei +com o pé êste lixo do engenho humano. A máquina de escrever, escancarada, com +os buracos negros marcando as letras desarraigadas, era como uma bôca alvar e +desdentada. O telefone parecia esborrachado, enrodilhado nas suas tripas de +arame. Na trompa do fonógrafo, torta, esbeiçada, para sempre muda, fervilhavam +carochas. E ali jaziam, tam lamentáveis e grotescas, aquelas geniais invenções, +que eu saí rindo, como duma enorme facécia, daquele super-civilizado palácio. +</p> + +<p>A chuva de abril secára: os telhados remotos da cidade negrejavam sôbre um +poente de carmesim e oiro. E, através das ruas mais frescas, eu ia pensando que +êste nosso magnifíco século XIX se assemelharia, um dia, àquele +<em>Jasmineiro</em> abandonado, e que outros homens, com uma certeza mais pura +do que é a Vida e a Felicidade, dariam, como eu, com o pé no lixo<span class="pn">{122}</span> da +super-civilização, e, como eu, ririam alegremente da grande ilusão que findára, +inútil e coberta de ferrugem.</p> + +<p>Àquela hora, de-certo, Jacinto, na varanda, em Torges, sem fonógrafo e sem +telefone, reentrado na simplicidade, via, sob a paz lenta da tarde, ao +tremeluzir da primeira estrêla, a boiada recolher entre o canto dos +boieiros.<span class="pn">{123}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION000500">O TESOIRO</a> </h1> + + +<h2><a name="SECTION000510">I</a> </h2> + +<p>Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guannes e Rostabal, eram então, em todo o +Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados.</p> + +<p>Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levára vidraça e telha, +passavam êles as tardes dêsse inverno, engelhados nos seus pelotes de camelão, +batendo as solas rotas sôbre as lages da cozinha, diante da vasta lareira +negra, onde desde muito não estalava lume, nem fervia a panela de ferro. Ao +escurecer devoravam uma côdea de pão negro, esfregada com alho. Depois, sem +candeia, através do pátio, fendendo a neve, iam dormir à estrebaria, para +aproveitar o calor das três éguas lazarentas que, esfaimadas como êles, +roíam<span class="pn">{124}</span> as traves da mangedoura. E a miséria tornára êstes senhores mais +bravios que lôbos.</p> + +<p>Ora, na primavera, por uma silenciosa manhã de domingo, andando todos três +na mata de Roquelanes a espiar pègadas de caça e a apanhar tortulhos entre os +robles, emquanto as três éguas pastavam a relva nova de abril,—os irmãos de +Medranhos encontraram, por trás de uma moita de espinheiros, numa cova de +rocha, um vélho cofre de ferro. Como se o resguardasse uma tôrre segura, +conservava as suas três chaves nas suas três fechaduras. Sôbre a tampa, mal +decifrável através da ferrugem, corria um dístico em letras árabes. E dentro, +até às bordas, estava cheio de dobrões de oiro!</p> + +<p>No terror e esplendor da emoção, os três senhores ficaram mais lívidos do +que círios. Depois, mergulhando furiosamente as mãos no oiro, estalaram a rir, +num riso de tam larga rajada, que as fôlhas tenras dos olmos, em roda, +tremiam... E de novo recuaram, bruscamente se encararam, com os olhos a +flamejar, numa desconfiança tam desabrida que Guannes e Rostabal apalpavam nos +cintos os cabos das grandes facas. Então Rui, que era gordo e ruivo, e o mais +avisado, ergueu os braços, como um árbitro, e começou por decidir que o +tesoiro, ou viesse de Deus ou do demónio, pertencia aos três, e entre êles +se<span class="pn">{125}</span> repartiria, rígidamente, pesando-se o oiro em balanças. ¿Mas como +poderiam carregar para Medranhos, para os cimos da serra, aquele cofre tam +cheio? Nem convinha que saíssem da mata com o seu bem, antes de cerrar a +escuridão. Por isso êle entendia que o mano Guannes, como mais leve, devia +trotar para a vila vizinha de Retortilho, levando já oiro na bolsinha, a +comprar três alforges de coiro, três maquias de cevada, três empadões de carne, +e três botelhas de vinho. Vinho e carne eram para êles, que não comiam desde a +véspera: a cevada era para as éguas. E assim refeitos, senhores e cavalgaduras, +ensacariam o oiro nos alforges, e subiriam para Medranhos, sob a segurança da +noite sem lua.</p> + +<p>—Bem tramado!—gritou Rostabal, homem mais alto que um pinheiro, de longa +guedelha, e com uma barba que lhe caía desde os olhos raiados de sangue até à +fivela do cinturão.</p> + +<p>Mas Guannes não se arredava do cofre, enrugado, desconfiado, puxando entre +os dedos a pele negra do seu pescoço de grou. Por fim, brutalmente:</p> + +<p>—Manos! O cofre tem três chaves... Eu quero fechar a minha fechadura e +levar a minha chave!</p> + +<p>—Tambêm eu quero a minha, mil raios!—rugiu logo Rostabal.<span class="pn">{126}</span></p> + +<p>Rui sorriu. De-certo, de-certo! A cada dono do oiro cabia uma das chaves que +o guardavam. E cada um em silêncio, agachado ante o cofre, cerrou a sua +fechadura com fôrça. Imediatamente Guannes, desanuviado, saltou na égua, meteu +pela vereda de olmos, a caminho de Retortilho, atirando aos ramos a sua cantiga +costumada e dolente:</p> + + +<blockquote> + Olé! olé! <br> + Sale la crus de la iglesia, <br> + Vestida de negro luto... </blockquote> + + +<h2><a name="SECTION000520">II</a> </h2> + +<p>Na clareira, em frente à moita que encobria o tesoiro (e que os três tinham +desbastado a cutiladas) um fio de água, brotando entre rochas, caía sôbre uma +vasta lage escavada, onde fazia como um tanque, claro e quieto, antes de se +escoar para as relvas altas. E ao lado, na sombra de uma faia, jazia um vélho +pilar de granito, tombado e musgoso. Ali vieram sentar-se Rui e Rostabal, com +os seus tremendos espadões entre os joelhos. As duas éguas tosavam a boa erva +pintalgada de papoulas e botões de oiro. Pela ramaria<span class="pn">{127}</span> andava um melro a +assobiar. Um cheiro errante de violetas adoçava o ar luminoso. E Rostabal, +olhando o sol, bocejava com fome.</p> + +<p>Então Rui, que tirára o <em>sombrero</em> e lhe cofiava as vélhas plumas +rôxas, começou a considerar, na sua fala avisada e mansa, que Guannes, nessa +manhã, não quisera descer com êles à mata de Roquelanes. E assim era a sorte +ruim! Pois que se Guannes tivesse quedado em Medranhos, só êles dois teriam +descoberto o cofre, e só entre êles dois se dividiria o oiro! Grande pena! +Tanto mais que a parte de Guannes seria em breve dissipada, com rufiões, aos +dados, pelas tavernas.</p> + +<p>—Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guannes, passando aqui sòzinho, tivesse achado +êste oiro, não dividia comnosco, Rostabal!</p> + +<p>O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas negras:</p> + +<p>—Não, mil raios! Guannes é sôfrego... Quando o ano passado, se te lembras, +ganhou os cem ducados ao espadeiro de Fresno, nem me quis emprestar três para +eu comprar um gibão novo!</p> + +<p>—Vês tu?—gritou Rui, resplandecendo.</p> + +<p>Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma idea, +que os deslumbrava. E, através das suas largas passadas, as ervas altas +silvavam.</p> + +<p>—E para quê?—prosseguia Rui,—¿Para<span class="pn">{128}</span> que lhe serve todo o oiro que +nos leva? ¿Tu não o ouves, de noite, como tosse? Ao redor da palha em que +dorme, todo o chão está negro do sangue que escarra! Não dura até às outras +neves, Rostabal! Mas até lá terá dissipado os bons dobrões que deviam ser +nossos, para levantarmos a nossa casa, e para tu teres ginetes, e armas, e +trajes nobres, e o teu terço de solarengos, como compete, a quem é, como tu, o +mais vélho dos de Medranhos...</p> + +<p>—Pois que morra, e morra hoje!—bradou Rostabal.</p> + +<p>—Queres?</p> + +<p>Vivamente, Rui agarrára o braço do irmão e apontava para a vereda de olmos, +por onde Guannes partira cantando:</p> + +<p>—Logo adiante, ao fim do trilho, há um sítio bom, nos silvados. E hás-de +ser tu, Rostabal, que és o mais forte e o mais destro. Um golpe de ponta pelas +costas. E é justiça de Deus que sejas tu, que muitas vezes, nas tavernas, sem +pudor, Guannes te tratava de <em>cerdo</em> e de torpe, por não saberes a letra +nem os numeros.</p> + +<p>—Malvado!</p> + +<p>—Vem!</p> + +<p>Foram. Ambos se emboscaram por trás dum silvado, que dominava o atalho, +estreito e pedregoso como um leito de torrente. Rostabal assolapado na vala, +tinha já a espada<span class="pn">{129}</span> nua. Um vento leve arripiou na encosta as fôlhas dos +álamos—e sentiram o repique leve dos sinos de Retortilho. Rui, coçando a +barba, calculava as horas pelo sol, que já se inclinava para as serras. Um +bando de córvos passou sôbre êles, grasnando. E Rostabal, que lhes seguira o +vôo, recomeçou a bocejar, com fome, pensando nos empadões e no vinho que o +outro trazia nos alforges.</p> + +<p>Emfim! Àlerta! Era, na vereda, a cantiga dolente e rouca, atirada aos ramos: +</p> + + +<blockquote> + Olé! olé! <br> + Sale la crus de la iglesia <br> + Toda vestida de negro... </blockquote> + +<p>Rui murmurou:—«Na ilharga! Mal que passe!» O chouto da égua bateu o +cascalho, uma pluma num <em>sombrero</em> vermelhejou por sôbre a ponta das +silvas.</p> + +<p>Rostabal rompeu de entre a sarça por uma brecha, atirou o braço, a longa +espada;—e toda a lâmina se embebeu molemente na ilharga de Guannes, quando ao +rumor, bruscamente, êle se virára na sela. Com um surdo arranco, tombou de +lado, sôbre as pedras. Já Rui se arremessava aos freios da égua:—Rostabal, +caíndo sôbre Guannes, que arquejava, de novo lhe mergulhou a espada, agarrada +pela fôlha como um punhal, no peito e na garganta.<span class="pn">{130}</span></p> + +<p>—A chave!—gritou Rui.</p> + +<p>E arrancada a chave do cofre ao seio do morto, ambos largaram pela +vereda—Rostabal adiante, fugindo, com a pluma do <em>sombrero</em> quebrada e +torta, a espada ainda nua entalada sob o braço, todo encolhido, arripiado com o +sabor de sangue que lhe espirrára para a bôca; Rui, atrás, puxando +desesperadamente os freios da égua, que, de patas fincadas no chão pedregoso, +arreganhando a longa dentuça amarela, não queria deixar o seu amo assim +estirado, abandonado, ao comprido das sebes.</p> + +<p>Teve de lhe espicaçar as ancas lazarentas com a ponta da espada:—e foi +correndo sôbre ela, de lâmina alta, como se perseguisse um mouro, que +desembocou na clareira onde o sol já não doirava as fôlhas. Rostabal +arremessára para a relva o <em>sombrero</em> e a espada; e debruçado sôbre a +lage escavada em tanque, de mangas arregaçadas, lavava, ruidosamente, a face e +as barbas.</p> + +<p>A égua, quieta, recomeçou a pastar, carregada com os alforges novos que +Guannes comprára em Retortilho. Do mais largo, abarrotado, surdiam dois +gargalos de garrafas. Então, Rui tirou, lentamente, do cinto, a sua larga +navalha. Sem um rumor na relva espessa, deslizou até Rostabal, que resfolgava, +com as longas barbas pingando. E, serenamente, como se pregasse uma estaca +num<span class="pn">{131}</span> canteiro, enterrou a fôlha toda no largo dorso dobrado, certeira +sôbre o coração.</p> + +<p>Rostabal caíu sôbre o tanque, sem um gemido, com a face na água, os longos +cabelos flutuando na água. A sua vélha escarcela de coiro ficára entalada sob a +côxa. Para tirar de dentro a terceira chave do cofre, Rui solevou o corpo—e um +sangue mais grosso jorrou, escorreu pela borda do tanque, fumegando.</p> + + +<h2><a name="SECTION000530">III</a> </h2> + +<p>Agora eram dêle, só dêle, as três chaves do cofre!... E Rui, alargando os +braços, respirou deliciosamente. Mal a noite descesse, com o oiro metido nos +alforges, guiando a fila das éguas pelos trilhos da serra, subiria a Medranhos +e enterraria na adega o seu tesoiro! E quando ali na fonte, e alêm rente aos +silvados, só restassem, sob as neves de dezembro, alguns ossos sem nome, êle +seria o magnífico senhor de Medranhos, e na capela nova do solar renascido, +mandaria dizer missas ricas pelos seus dois irmãos mortos... Mortos, como? Como +devem morrer os de Medranhos—a pelejar contra o Turco!</p> + +<p>Abriu as três fechaduras, apanhou um punhado<span class="pn">{132}</span> de dobrões, que fez +retinir sôbre as pedras. Que puro oiro, de fino quilate! E era o <em>seu</em> +oiro! Depois foi examinar a capacidade dos alforges—e encontrando as duas +garrafas de vinho, e um gordo capão assado, sentiu uma imensa fome. Desde a +véspera só comera uma lasca de peixe sêco. E há quanto tempo não provava capão! +</p> + +<p>Com que delícia se sentou na relva, com as pernas abertas, e entre elas, a +ave loura, que rescendia, e o vinho côr de ámbar! Ah! Guannes fôra bom +mordomo—nem esquecera azeitonas. ¿Mas, porque trouxera êle, para três +convivas, só duas garrafas? Rasgou uma asa do capão: devorava a grandes +dentadas. A tarde descia, pensativa e doce, com nuvemsinhas côr de rosa. Para +alêm, na vereda, um bando de corvos grasnava. As éguas fartas dormitavam, com o +focinho pendido. E a fonte cantava, lavando o morto.</p> + +<p>Rui ergueu à luz a garrafa de vinho. Com aquela côr vélha e quente, não +teria custado menos de três maravedis. E pondo o gargalo à bôca, bebeu em +sorvos lentos, que lhe faziam ondular o pescoço peludo. Oh vinho bemdito, que +tam prontamente aquecia o sangue! Atirou a garrafa vazia—destapou outra. Mas, +como era avisado, não bebeu, porque a jornada para a serra, com o tesoiro, +requeria firmeza e acêrto. Estendido sôbre o<span class="pn">{133}</span> cotovelo, descansando, +pensava em Medranhos coberto de telha nova, nas altas chamas da lareira por +noites de neve, e o seu leito com brocados, onde teria sempre mulheres.</p> + +<p>De repente, tomado de uma ansiedade, teve pressa de carregar os alforges. +Já, entre os troncos, a sombra se adensava. Puxou uma das éguas para junto do +cofre, ergueu a tampa, tomou um punhado de oiro... Mas oscilou, largando os +dobrões que retilintaram no chão, e levou as duas mãos aflitas ao peito. ¿Que +é, D. Rui? Raios de Deus! era um lume, um lume vivo, que se lhe acendera +dentro, lhe subia até às guelas. Já rasgára o gibão, atirava os passos +incertos, e, a arquejar, com a língua pendente, limpava as grossas bagas de um +suor horrendo que o regelava como neve. Oh Virgem Mãe! Outra vez o lume, mais +forte, que alastrava, o roía! Gritou:</p> + +<p>—Socorro! Alguêm! Guannes! Rostabal!</p> + +<p>Os seus braços torcidos batiam o ar desesperadamente. E a chama dentro +galgava—sentia os ossos a estalarem como as traves duma casa em fogo.</p> + +<p>Cambaleou até à fonte para apagar aquela labareda, tropeçou sôbre Rostabal; +e foi com o joelho fincado no morto, arranhando a rocha, que êle, entre uivos, +procurava o fio de água, que recebia sôbre os olhos, pelos cabelos.<span class="pn">{134}</span> Mas +a água mais o queimava, como se fôsse um metal derretido. Recuou, caíu para +cima da relva que arrancava aos punhados, e que mordia, mordendo os dedos, para +lhe sugar a frescura. Ainda se ergueu, com uma baba densa a escorrer-lhe nas +barbas: e de repente, esbogalhando pavorosamente os olhos, berrou, como se +compreendesse emfim a traição, todo o horror:</p> + +<p>—É veneno!</p> + +<p>Oh! D. Rui, o avisado, era veneno! Porque Guannes, apenas chegára a +Retortilho, mesmo antes de comprar os alforges, correra cantando a uma viela, +por detrás da catedral, a comprar ao vélho droguista judeu o veneno que, +misturado ao vinho, o tornaria a êle, a êle sómente, dono de todo o tesoiro. +</p> + +<p>Anoiteceu. Dois corvos de entre o bando que grasnava, alêm nos silvados, já +tinham pousado sôbre o corpo de Guannes. A fonte, cantando, lavava o outro +morto. Meio enterrada na erva negra, toda a face de Rui se tornára negra. Uma +estrelinha tremeluzia no céu.</p> + +<p>O tesoiro ainda lá está, na mata de Roquelanes.<span class="pn">{135}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION000600">FREI GENEBRO</a> </h1> + + +<h2><a name="SECTION000610">I</a> </h2> + +<p>Nesse tempo ainda vivia na sua solidão das montanhas da Úmbria, o divino +Francisco de Assis—e já por toda a Itália se louvava a santidade de Frei +Genebro, seu amigo e seu discípulo.</p> + +<p>Frei Genebro, na verdade, completára a perfeição em todas as virtudes +evangélicas. Pela abundância e perpètuidade da Oração, êle arrancava da sua +alma as raízes mais miudas do Pecado, e tornava-a limpa e cândida como um +dêsses celestes jardins em que o sólo anda regado pelo Senhor, e onde só podem +brotar açucenas. A sua penitência, durante vinte anos de clâustro, fôra tam +dura e alta que já não temia o Tentador; e agora, só com o sacudir a manga do +hábito, rechaçava as tentações, as mais pavorosas ou as mais<span class="pn">{136}</span> deliciosas, +como se fôssem apenas moscas importunas. Benéfica e universal à maneira de um +orvalho de verão, a sua caridade não se derramava sómente sôbre as misérias do +pobre, mas sôbre as melancolias do rico. Na sua humilíssima humildade não se +considerava nem o igual dum verme. Os bravios barões, cujas negras tôrres +esmagavam a Itália, acolhiam reverentemente e curvavam a cabeça a êste +franciscano descalço e mal remendado que lhes ensinava a mansidão. Em Roma, em +S. João de Latrão, o Papa Honório beijára as feridas de cadeias que lhe tinham +ficado nos pulsos, do ano em que na Mourama, por amor dos escravos, padecera a +escravidão. E como nessas idades os anjos ainda viajavam na terra, com as asas +escondidas, arrimados a um bordão, muitas vezes, trilhando uma vélha estrada +pagã ou atravessando uma selva, êle encontrava um moço de inefável formosura, +que lhe sorria e murmurava:</p> + +<p>—Bons dias, irmão Genebro!</p> + +<p>Ora, um dia, indo êste admirável mendicante de Spoleto para Terni, e +avistando no azul e no sol da manhã, sôbre uma colina coberta de carvalhos, as +ruínas do castelo de Otofrid, pensou no seu amigo Egídio, antigo noviço como +êle no mosteiro de Santa Maria dos Anjos, que se retirára àquele ermo para se +avizinhar mais de Deus, e ali habitava uma<span class="pn">{137}</span> cabana de colmo, junto das +muralhas derrocadas, cantando e regando as alfaces do seu horto, porque a sua +virtude era amena. E como mais de três anos tinham passado desde que visitára o +bom Egídio, largou a estrada, passou em baixo, no vale, sôbre as alpondras, o +riacho que fugia por entre os aloendros em flor, e começou a subir, lentamente, +a colina frondosa. Depois da poeira e ardor do caminho de Spoleto, era doce a +larga sombra dos castanheiros e a relva que lhe refrescava os pés doridos. A +meia encosta, numa rocha onde se esguedelhavam silvados, sussurrava e luzia um +fio de água. Estendido ao lado, nas ervas húmidas, dormia, ressonando +consoladamente, um homem, que de-certo ali guardava porcos, porque vestia um +grosso surrão de coiro e trazia, pendurada da cinta, uma buzina de porqueiro. O +bom frade bebeu de leve, afugentou os moscardos que zumbiam sôbre a rude face +adormecida e continuou a trepar a colina, com o seu alforge, o seu cajado, +agradecendo ao Senhor aquela água, aquela sombra, aquela frescura, tantos bens +inesperados. Em breve avistou, com efeito, o rebanho de porcos, espalhados sob +as frondes, roncando e fossando as raízes, uns magros e agudos, de cerdas +duras, outros redondos, com o focinho curto afogado em gordura, e os bacorinhos +correndo em tôrno às têtas das mães, luzidios e côr de rosa.<span class="pn">{138}</span></p> + +<p>Frei Genebro pensou nos lôbos e lamentou o sono do pastor descuidado. No fim +da mata começava a rocha, onde os restos do castelo lombardo se erguiam, +revestidos de hera, conservando ainda alguma seteira esburacada sôbre o céu, +ou, numa esquina de tôrre, uma goteira que, esticando o pescoço de dragão, +espreitava por meio das silvas bravas.</p> + +<p>A cabana do ermitão, telhada de colmo que lascas de pedra seguravam, apenas +se percebia, entre aqueles escuros granitos, pela horta que em frente +verdejava, com os seus talhões de couve e estacas de feijoal, entre alfazema +cheirosa. Egídio não andaria afastado porque sôbre o murosinho de pedra solta +ficára pousado o seu cântaro, o seu podão e a sua enxada. E docemente, para o +não importunar, se àquela hora da sésta estivesse recolhido e orando, Frei +Genebro empurrou a porta de pranchas vélhas, que não tinha loquete para ser +mais hospitaleira.</p> + +<p>—Irmão Egídio!</p> + +<p>Do fundo da choça rude, que mais parecia cova de bicho, veio um lento +gemido:</p> + +<p>—Quem me chama? Aqui neste canto, neste canto a morrer!... A morrer, meu +irmão!</p> + +<p>Frei Genebro acudiu em grande dó; encontrou o bom ermitão estirado num monte +de fôlhas sêcas, encolhido em farrapos, e tam definhado que a sua face, outrora +farta e rosada,<span class="pn">{139}</span> era como um pedacinho de vélho pergaminho muito +enrugado, perdido entre os flocos das barbas brancas. Com infinita caridade e +doçura o abraçou.</p> + +<p>—¿E há quanto tempo, há quanto tempo neste abandôno, irmão Egídio?</p> + +<p>Louvado Deus, desde a véspera! Só na véspera, à tarde, depois de olhar uma +derradeira vez para o sol e para a sua horta, se viera estender naquele canto +para acabar... Mas havia meses que com êle entrára um cansaço, que nem podia +segurar a bilha cheia quando voltava da fonte.</p> + +<p>—¿E dizei, irmão Egídio, pois que o Senhor me trouxe, que posso eu fazer +pelo vosso corpo? Pelo corpo, digo; que pela alma bastante tendes vós feito na +virtude desta solidão!</p> + +<p>Gemendo, arrepanhando para o peito as fôlhas sêcas em que jazia, como se +fôssem dobras dum lençol, o pobre ermitão murmurou:</p> + +<p>—Meu bom Frei Genebro, não sei se é pecado, mas toda esta noite, em verdade +vos confesso, me apeteceu comer um pedaço de carne, um pedaço de porco +assado!... Mas será pecado?</p> + +<p>Frei Genebro, com a sua imensa misericórdia, logo o tranqùilizou. Pecado? +Não, certamente! Aquele que, por tortura, recusa ao seu corpo um contentamento +honesto, desagrada ao Senhor. ¿Não ordenava êle aos seus<span class="pn">{140}</span> discípulos que +comessem as boas cousas da terra? O corpo é servo; e está na vontade divina que +as suas fôrças sejam sustentadas, para que preste ao espírito, seu amo, bom e +leal serviço. Quando Frei Silvestre, já tam doentinho, sentira aquele longo +desejo de uvas moscateis, o bom Francisco de Assis logo o conduziu à vinha, e +por suas mãos lhe apanhou os melhores cachos, depois de os abençoar para serem +mais sumarentos e mais doces...</p> + +<p>—¿É um pedaço de porco assado que apeteceis?—exclamava risonhamente o bom +Frei Genebro, acariciando as mãos transparentes do ermitão.—Pois sossegai, +irmão querido, que bem sei como vos vou contentar!</p> + +<p>E imediatamente, com os olhos a reluzir de caridade e de amor, agarrou o +afiado podão que pousava sôbre o muro da horta. Arregaçando as mangas do +hábito, e mais ligeiro que um gamo, porque era aquele um serviço do Senhor, +correu pela colina até aos densos castanheiros onde encontrára o rebanho de +porcos. E aí, andando sorrateiramente de tronco para tronco, surpreendeu um +bacorinho desgarrado que fossava a bolota, desabou sobre êle, e, emquanto lhe +sufocava o focinho e os gritos, decepou, com dois golpes certeiro do podão, a +perna por onde o agarrára. Depois, com as mãos salpicadas de sangue, a perna de +porco bem alta a pingar sangue, deixando<span class="pn">{141}</span> a rês a arquejar numa pôça de +sangue, o piedoso homem galgou a colina, correu à cabana, gritou para dentro +alegremente:</p> + +<p>—Irmão Egídio, a peça de carne já o Senhor a deu! E eu, em Santa Maria dos +Anjos, era bom cozinheiro.</p> + +<p>Na horta do ermitão arrancou uma estaca do feijoal, que, com o podão +sangrento, aguçou em espêto. Entre duas pedras acendeu uma fogueira. Com zeloso +carinho assou a perna do porco. Tanta era a sua caridade que para dar a Egídio +todos os antegostos daquele banquete, raro em terra de mortificação, anunciava +com vozes festivas e de boa promessa:</p> + +<p>—Já vai aloirando o porquinho, irmão Egídio! A pele já tosta, meu santo! +</p> + +<p>Entrou emfim na choça, triunfalmente, com o assado que fumegava e rescendia, +cercado de frescas fôlhas de alface. Ternamente, ajudou a sentar o vélho, que +tremia e se babava de gula. Arredou das pobres faces maceradas os cabelos que o +suor da fraqueza empastára. E, para que o bom Egídio se não vexasse com a sua +voracidade e tam carnal apetite, ia afirmando, emquanto lhe partia as febras +gordas, que tambêm êle comeria regaladamente daquele excelente porco, se não +tivesse almoçado à farta na <em>Locanda dos Três Caminhos</em>.<span class="pn">{142}</span></p> + +<p>—Mas nem bocado agora me podia entrar, meu irmão! Com uma galinha inteira +me atochei! E depois uma fritada de ovos! E de vinho branco, um quartilho!</p> + +<p>E o santo homem mentia santamente—porque, desde madrugada, não provára mais +que um magro caldo de ervas, recebido por esmola à cancela de uma granja.</p> + +<p>Farto, consolado, Egídio deu um suspiro, recaíu no seu leito de fôlhas +sêcas. Que bem lhe fizera, que bem lhe fizera! O Senhor, na sua justiça, +pagasse a seu irmão Genebro aquele pedaço de porco! Até sentia a alma mais rija +para a temerosa jornada... E o ermitão com as mãos postas, Genebro ajoelhado, +ambos louvaram, ardentemente, o Senhor que, a toda a necessidade solitária, +manda de longe o socorro.</p> + +<p>Então, tendo coberto Egídio com um pedaço de manta e posto, a seu lado, a +bilha cheia de água fresca, e tapado, contra as aragens da tarde, a fresta da +cabana, Frei Genebro, debruçado sôbre êle, murmurou:</p> + +<p>—Meu bom irmão, vós não podeis ficar neste abandono... Eu vou levado por +obra de Jesus, que não admite tardança. Mas passarei no convento de Sambricena +e darei recado para que um noviço venha e cuide de vós com amor, no vosso +transe. Deus vos vele<span class="pn">{143}</span> entretanto, meu irmão; Deus vos sossegue e vos +ampare com a sua mão direita!</p> + +<p>Mas Egídio cerrára os olhos, nem se moveu, ou porque adormecera, ou porque o +seu espírito, tendo pago aquele derradeiro salário ao corpo, como a um bom +servidor, para sempre partira, finda a sua obra na terra. Frei Genebro abençoou +o vélho, tomou o seu bordão, desceu a colina dos grandes carvalhos. Sob a +fronde, para os lados onde andava o rebanho, a buzina do porqueiro ressoava +agora num toque de alarma e de furor. De-certo acordára, descobrira o seu porco +mutilado... Estugando o passo, Frei Genebro pensava quanto era magnânimo o +Senhor em permitir que o homem, feito à sua imagem augusta, recebesse tam fácil +consolação duma perna de cerdo assada entre duas pedras.</p> + +<p>Retomou a estrada, marchou para Terni. E prodigiosa foi, desde êsse dia, a +actividade da sua virtude. Através de toda a Itália, sem descanso, prègou o +Evangelho Eterno, adoçando a aspereza dos ricos, alargando a esperança dos +pobres. O seu imenso amor ia ainda para alêm dos que sofrem, até àqueles que +pecam, oferecendo um alívio a cada dôr, estendendo um perdão a cada culpa: e +com a mesma caridade com que tratava os leprosos, convertia os bandidos. +Durante as invernias e a neve, vezes inumeráveis dava, aos<span class="pn">{144}</span> mendigos, a +sua túnica, as suas alpercatas; os abades dos mosteiros ricos, as damas devotas +de novo o vestiam, para evitar o escândalo da sua nudez através das cidades; e +sem demora, na primeira esquina, ante qualquer esfarrapado, êle se despojava +sorrindo. Para remir servos que penavam sob um amo fero, penetrava nas igrejas, +arrancava do altar os candelabros de prata, afirmando, jovialmente, que mais +praz a Deus uma alma liberta que uma tocha acesa.</p> + +<p>Cercado de viuvas, de crianças famintas, invadia as padarias, os açougues, +até as tendas dos cambistas, e reclamava imperiosamente, em nome de Deus, a +parte dos deserdados. Sofrer, sentir a humilhação, eram, para êle, as únicas +alegrias completas: nada o deliciava mais do que chegar de noite, molhado, +esfaimado, tiritando, a uma opulenta abadia feudal, e ser repelido da portaria +como um mau vagabundo: só então, agachado nos lôdos do caminho, mastigando um +punhado de ervas cruas, êle se reconhecia verdadeiramente irmão de Jesus, que +não tivera tambêm, como teem sequer os bichos do mato, um covil para se +abrigar. Quando um dia, em Perusa, as confrarias saíram ao seu encontro, com +bandeiras festivas, ao repique dos sinos, êle correu para um monte de estêrco, +onde se rolou e se sujou, para que daqueles que<span class="pn">{145}</span> o vinham engrandecer, só +recebesse compaixão e escárnio. Nos clâustros, nos descampados, em meio das +multidões, durante as lides mais pesadas, orava constantemente, não por +obrigação, mas porque na prece encontrava um deleite adorável. Deleite maior, +porêm, era, para o franciscano, ensinar e servir. Assim, longos anos errou +entre os homens, vertendo o seu coração como a água de um rio, oferecendo os +seus braços como alavancas incansáveis; e tam depressa, numa ladeira deserta, +aliviava uma pobre vélha da sua carga de lenha, como numa cidade revoltada, +onde reluzissem armas, se adiantava, com o peito aberto, e amansava as +discórdias.</p> + +<p>Emfim, uma tarde, em véspera de Páscoa, estando a descansar nos degraus de +Santa Maria dos Anjos, avistou de repente, no ar liso e branco, uma vasta mão +luminosa que sôbre êle se abria e faiscava. Pensativo, murmurou:</p> + +<p>—Eis a mão de Deus, a sua mão direita, que se estende para me acolher ou +para me repelir.</p> + +<p>Deu logo a um pobre, que ali rezava a Avé-Maria, com a sua sacola nos +joelhos, tudo o que no mundo lhe restava, que era um volume do Evangelho, muito +usado e manchado das suas lágrimas. No domingo, na igreja, ao levantar da +Hóstia, desmaiou. Sentindo então<span class="pn">{146}</span> que ia terminar a sua jornada +terrestre, quis que o levassem para um curral, o deitassem sôbre uma camada de +cinzas.</p> + +<p>Em santa obediência ao guardião do convento, consentiu que o limpassem dos +seus trapos, lhe vestissem um hábito novo: mas, com os olhos alagados de +ternura, implorou que o enterrassem num sepulcro emprestado como fôra o de +Jesus, seu senhor.</p> + +<p>E, suspirando, só se queixava de não sofrer:</p> + +<p>—¿O senhor, que tanto sofreu, porque me não manda a mim o padecimento +bemdito?</p> + +<p>De madrugada pediu que abrissem, bem largo, o portão do curral.</p> + +<p>Contemplou o céu que clareava, escutou as andorinhas que, na frescura e +silêncio, começavam a cantar sôbre o beiral do telhado, e, sorrindo, recordou +uma manhã, assim de silêncio e frescura, em que, andando com Francisco de Assis +à beira do lago de Perusa, o mestre incomparável se detivera ante uma árvore +cheia de pássaros, e, fraternalmente, lhes recomendára que louvassem sempre o +Senhor! «Meus irmãos, meus irmãos passarinhos, cantai bem o vosso Criador, que +vos deu essa árvore para que nela habiteis, e toda esta limpa água para nela +beber, e essas penas bem quentes para vos agasalharem, a vós<span class="pn">{147}</span> e aos +vossos filhinhos!» Depois, beijando humildemente a manga do monge que o +amparava, Frei Genebro morreu.</p> + + +<h2><a name="SECTION000620">II</a> </h2> + +<p>Logo que êle cerrou os seus olhos carnais, um Grande Anjo penetrou +diáfanamente no curral e tomou, nos braços, a alma de Frei Genebro. Durante um +momento, na fina luz da madrugada, deslizou por sôbre o prado fronteiro tam +levemente que nem roçava as pontas orvalhadas da relva alta. Depois, abrindo as +asas, radiantes e níveas, transpôs, num vôo sereno, as nuvens, os astros, todo +o céu que os homens conhecem.</p> + +<p>Aninhada nos seus braços, como na doçura de um berço, a alma de Genebro +conservava a forma do corpo que sôbre a terra ficára; o hábito franciscano +ainda a cobria, com um resto de poeira e de cinza nas pregas rudes; e, com um +olhar novo, que agora tudo trespassava e tudo compreendia, ela contemplava, num +deslumbramento, aquela região em que o Anjo parára, para alêm dos universos +transitórios e de todos os rumores siderais. Era um espaço sem limite, sem +contôrno<span class="pn">{148}</span> e sem côr. Por cima começava uma claridade, subindo espalhada à +maneira duma aurora, cada vez mais branca, e mais luzente, e mais radiante, até +que resplandecia num fulgor tam sublime que nela um sol coruscante seria como +uma nódoa pardacenta. E por baixo estendia-se uma sombra cada vez mais baça, +mais fusca, mais cinzenta, até que formava como um espesso crepúsculo de +profunda, insondável tristeza. Entre essa refulgência ascendente e a escuridão +inferior, permanecera o Anjo imóvel, esperando, com as asas fechadas. E a alma +de Genebro perfeitamente sentia que estava ali, esperando tambêm, entre o +Purgatório e o Paraíso. Então, súbitamente, nas alturas, apareceram os dois +imensos pratos duma Balança—um que rebrilhava como diamante e era reservado às +suas Boas Obras, outro, negrejando mais que carvão, para receber o pêso das +suas Obras Más. Entre os braços do Anjo, a alma de Genebro estremeceu... Mas o +prato diamantino começou a descer lentamente. Oh! contentamento e glória! +Carregado com as suas Boas Obras, êle descia, calmo e majestoso, espargindo +claridade. Tam pesado vinha, que as suas grossas cordas se retesavam, rangiam. +E entre elas, formando como uma montanha de neve, alvejavam magníficamente as +suas virtudes evangélicas. Lá estavam as incontáveis esmolas<span class="pn">{149}</span> que semeára +no mundo, agora desabrochadas em alvas flores, cheias de aroma e de luz.</p> + +<p>A sua humildade era um cimo, aureolado por um clarão. Cada uma das suas +penitências scintilava mais límpidamente que cristais puríssimos. E a sua +oração perene subia e enrolava-se em tôrno das cordas, à maneira duma +deslumbrante névoa de oiro.</p> + +<p>Sereno, tendo a majestade de um astro, o prato das Boas Obras parou, +finalmente, com a sua carga preciosa. O outro, lá em cima, não se movia tambêm, +negro, da côr do carvão, inútil, esquecido, vazio. Já das profundidades, +sonoros bandos de Serafins voavam, balançando palmas verdes. O pobre +franciscano ia entrar triunfalmente no Paraíso—e aquela era a milícia divina +que o acompanharia cantando. Um frémito de alegria passou na luz do Paraíso, +que um Santo novo enriquecia. E a alma de Genebro anteprovou as delícias da +Bemaventurança.</p> + +<p>Súbitamente, porêm, no alto, o prato negro oscilou como a um pêso inesperado +que sôbre êle caísse! E começou a descer, duro, temeroso, fazendo uma sombra +dolente através da celestial claridade. ¿Que Má Acção de Genebro trazia êle, +tam miuda que nem se avistava, tam pesada que forçava o prato luminoso a subir, +remontar ligeiramente como se<span class="pn">{150}</span> a montanha de Boas Acções, que nele +transbordavam, fôssem um fumo mentiroso? Oh! mágoa! oh! desesperança! Os +Serafins recuavam, com as asas trementes. Na alma de Frei Genebro correu um +arrepio imenso de terror. O negro prato descia, firme, inexorável, com as +cordas retêsas. E na região que se cavava sob os pés do Anjo, cinzenta, de +inconsolável tristeza, uma massa de sombra, molemente e sem rumor, arfou, +cresceu, rolou, como a onda duma maré devoradora.</p> + +<p>O prato, mais triste que a noite, parára—parára em pavoroso equilíbrio com +o prato que rebrilhava. E os Serafins, Genebro, o Anjo que o trouxera, +descobriram, no fundo daquele prato que inutilizava um Santo, um porco, um +pobre porquinho com uma perna bárbaramente cortada, arquejando, a morrer, numa +pôça de sangue... O animal mutilado pesava tanto na balança da justiça como a +montanha luminosa de virtudes perfeitas!</p> + +<p>Então, das alturas, surgiu uma vasta mão, abrindo os dedos que faiscavam. +Era a mão de Deus, a sua mão direita, que aparecera a Genebro na escada de +Santa Maria dos Anjos, e que agora supremamente se estendia para o acolher ou +para o repelir. Toda a luz e toda a sombra, desde o Paraíso fulgente ao +Purgatório crepuscular, se contraíram num recolhimento de inexprimível amor e +terror. E na<span class="pn">{151}</span> estática mudez, a vasta mão, através das alturas, lançou um +gesto que repelia...</p> + +<p>Então o Anjo, baixando a face compadecida, alargou os braços e deixou caír, +na escuridão do Purgatório, a alma de Frei Genebro.<span class="pn">{152}</span> <span class="pn">{153}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION000700">ADÃO E EVA NO PARAÍSO</a> </h1> + + +<h2><a name="SECTION000710">I</a> </h2> + +<p>Adão, Pai dos Homens, foi criado no dia 28 de Outubro, às 2 horas da +tarde...</p> + +<p>Assim o afirma, com majestade, nos seus <em>Annales Veteris et Novi +Testamento</em>, o muito douto e muito ilustre Usserius, Bispo de Meath, +Arcebispo de Armagh, e Chanceler-Mór da Sé de S. Patrício.</p> + +<p>A Terra existia desde que a Luz se fizera, a 23, na manhã de todas as +manhãs. Mas já não era essa Terra primordial, parda e mole, ensopada em águas +barrentas, abafada numa névoa densa, erguendo, aqui e alêm, rígidos troncos +duma só fôlha e dum só rebento, muito solitária, muito silenciosa, com uma vida +toda escondida, apenas surdamente revelada pelo remexer de bichos obscuros, +gelatinosos,<span class="pn">{154}</span> sem côr e quási sem forma, crescendo no fundo dos lôdos. +Não! agora, durante os dias genesíacos de 26 e 27, toda ela se completára, se +abastecera e se enfeitára, para acolher condignamente o Predestinado que vinha. +No dia 28 já apareceu perfeita, <em>perfecta</em>, com as provisões e alfaias +que a Bíblia enumera, as ervas verdes de espiga madura, as árvores providas do +fruto entre a flor, todos os peixes nadando nos mares resplandecentes, todas as +aves voando pelos ares aclarados, todos os animais pastando sôbre as colinas +viçosas, e os regatos regando, e o fogo armazenado no seio da pedra, e o +cristal, e o ónix, e o oiro muito bom do país de Hevilath...</p> + +<p>Nesses tempos, meus amigos, o Sol ainda girava em tôrno da Terra. Ela era +môça e formosa e preferida de Deus. Êle ainda se não submetera à imobilidade +augusta que lhe impôs mais tarde, entre amuados suspiros da Igreja, mestre +Galileu, estendendo um dedo do fundo do seu pomar, rente aos muros do Convento +de S. Mateus de Florença. E o sol, amorosamente, corria em volta da Terra, como +o noivo dos <em>Cantares</em>, que, nos lascivos dias da ilusão, sôbre o +outeiro de mirra, sem descanso e pulando mais levemente que os gamos de Gaalad, +circundava a Bem-Amada, a cobria com o fulgor dos seus olhos, coroado de +sal-gêma, a faiscar de fecunda<span class="pn">{155}</span> impaciência. Ora desde essa alvorada do +dia 28, segundo o cálculo majestático de Usserius, o Sol, muito novo, sem +sardas, sem rugas, sem falhas na sua cabeleira flamante, envolvera a terra, +durante oito horas, numa contínua e insaciada carícia de calor e de luz. Quando +a oitava hora scintilou e fugiu, uma emoção confusa, feita de medo e feita de +glória, perpassou por toda a Criação, agitando num frémito as relvas e as +frondes, arripiando o pêlo das feras, empolando o dorso dos montes, apressando +o borbulhar das nascentes, arrancando dos pórfiros um brilho mais vivo... Então +numa floresta muito cerrada e muito tenebrosa, certo Ser, desprendendo +lentamente a garra do galho de árvore onde se empoleirára toda essa manhã de +longos séculos, escorregou pelo tronco comido de hera, pousou as duas patas no +sólo que o musgo afofava, sôbre as duas patas se firmou com esforçada energia, +e ficou erecto, e alargou os braços livres, e lançou um passo forte, e sentiu a +sua dissemelhança da Animalidade, e concebeu o deslumbrado pensamento do que +era, e verdadeiramente <em>foi</em>! Deus, que o amparára, nesse instante o +criou. E vivo, da vida superior, descido da inconsciência da árvore, Adão +caminhou para o Paraíso.</p> + +<p>Era medonho. Um pêlo crespo e luzidio cobria todo o seu grosso, maciço +corpo, rareando<span class="pn">{156}</span> apenas em tôrno dos cotovelos, dos joelhos rudes, onde o +coiro aparecia curtido e da côr de cobre fosco. Do achatado, fugidio crânio, +vincado de rugas, rompia uma guedelha rala e ruiva, tufando sôbre as orelhas +agudas. Entre as rombas queixadas, na fenda enorme dos beiços trombudos, +estirados em focinho, as prêsas reluziam, afiadas rijamente para rasgar a febra +e esmigalhar o osso. E sob as arcadas sombriamente fundas, que um felpo hirsuto +orlava como um silvado orla o arco duma caverna, os olhos redondos, dum amarelo +de ámbar, sem cessar se moviam, tremiam, esgazeados de inquietação e de +espanto... Não, não era belo, nosso Pai venerável, nessa tarde de Outono, +quando Jeová o ajudou com carinho a descer da sua Árvore! E todavia, nesses +olhos redondos, de fino ámbar, mesmo através do tremor e do espanto, rebrilhava +uma superior beleza—a Energia Inteligente que o ia trôpegamente levando, sôbre +as pernas arqueadas, para fóra da mata onde passára a sua manhã de longos +séculos a pular e a guinchar por cima dos ramos altos.</p> + +<p>Mas (se os Compêndios de Antropologia nos não iludem) os primeiros passos +humanos de Adão não foram logo atirados, com alacridade e confiança, para o +destino que o esperava entre os quatro rios do Éden. Entorpecido, envolvido +pelas influências da Floresta,<span class="pn">{157}</span> ainda despega com custo a pata de entre o +folhoso chão de fetos e begónias, e gostosamente se roça pelos pesados cachos +de flores que lhe orvalham o pêlo, e acaricia as longas barbas de lichen +branco, pendentes dos troncos de roble e de teca, onde gozára as doçuras da +irresponsabilidade. Nas ramagens que tam generosamente, através tam longas +idades, o nutriram e o embalaram, ainda colhe as bagas sumarentas, os rebentões +mais tenros. Para transpor os regatos, que por todo o bosque reluzem e +sussurram depois da sazão das chuvas, ainda se pendura duma rija liana, +entrelaçada de orquídeas, e se balança, e arqueia o pulo, com pesada +indolência. E receio bem que quando a aragem restolhasse pela espessura, +carregada com o cheiro morno e acre das fêmeas acocoradas nos cimos, o Pai dos +Homens ainda dilatasse as ventas chatas e soltasse do peito felpudo um grunhido +rouco e triste.</p> + +<p>Mas caminha... As suas pupilas amarelas, onde faisca o Querer, sondam, +esbugalhadas, através da ramaria, procuram para alêm o mundo que deseja e +receia, e a que sente já a zoada violenta, como toda feita de batalha e rancor. +E, à maneira que a penumbra das folhagens clareia, vai surgindo, dentro do seu +crânio bisonho, como uma alvorada que penetra numa toca, o sentimento +das<span class="pn">{158}</span> Formas diferentes e da Vida diferente que as anima. Essa rudimentar +compreensão só trouxe a nosso Pai venerável turbação e terror. Todas as +Tradições, as mais orgulhosas, concordam em que Adão, na sua entrada inicial +pelas planícies do Éden, tremeu e gritou como criancinha perdida em arraial +turbulento. E bem podemos pensar que, de todas as Formas, nenhuma o apavorava +mais que a dessas mesmas árvores onde vivera, agora que as reconhecia como +seres tam dissemelhantes do seu Ser e imobilizadas numa inércia tam contrária à +sua Energia. Liberto da Animalidade, em caminho para a sua Humanização, o +arvoredo que lhe fôra abrigo natural e doce só lhe pareceria agora um cativeiro +de degradante tristeza. ¿E êsses ramos tortuosos, empecendo a sua marcha, não +seriam braços fortes que se estendiam para o empolgar, o repuxar, o reter nos +cimos frondosos? ¿Êsse ramalhado sussurro que o seguia, composto do +desassossêgo irritado de cada fôlha, não era a selva toda, num alvoroço, +reclamando o seu secular morador? De tam estranho medo nasceu, talvez, a +primeira luta do Homem com a Natureza. Quando um galho alongado o roçasse, +de-certo nosso Pai atiraria contra êle as garras desesperadas para o repelir e +lhe escapar. Nesses bruscos ímpetos quantas vezes se desequilibrou, e as suas +mãos se abateram<span class="pn">{159}</span> desamparadamente sôbre o sólo de mato ou rocha, de novo +precipitado na postura bestial, retrogradando à inconsciência, entre o clamor +triunfal da Floresta! Que angustioso esfôrço então para se erguer, recuperar a +atitude humana, e correr, com os felpudos braços despegados da terra bruta, +livres para a obra imensa da sua Humanização! Esfôrço sublime, em que ruge, +morde as raíses detestadas, e, ¿quem sabe? levanta já os olhos de ámbar +lustroso para os céus, onde, confusamente, sente Alguêm que o vem amparando—e +que na realidade o levanta.</p> + +<p>Mas, de cada um dêstes tombos modificantes, nosso Pai ressurge mais humano, +mais nosso Pai. E há já consciência, pressa da Racionalidade, nos ressoantes +passos com que se arranca ao seu limbo arboral, despedaçando as enrediças, +fendendo o bravio denso, despertando os tapires adormecidos sob cogumelos +monstruosos, ou espantando algum urso môço e tresmalhado que, de patas contra +um olmo, chupa, meio borracho, as uvas dêsse farto outono.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Emfim, Adão emerge da Floresta obscura:—e os seus olhos de ámbar vivamente +se cerram sob o deslumbramento em que o envolve o Éden.<span class="pn">{160}</span></p> + +<p>Ao fundo dessa encosta, onde parara, resplandecem vastas campinas (se as +Tradições não exageram) com desordenada e sombria abundância. Lentamente, +através, um rio corre, semeado de ilhas, ensopando, em fecundos e espraiados +remansos, as verduras onde já talvez cresce a lentilha e se alastra o arrozal. +Rochas de mármore rosado rebrilham com um rubor quente. De entre bosques de +algodoeiros, brancos como crespa espuma, sobem outeiros cobertos de magnólias, +dum esplendor ainda mais branco. Alêm a neve coroa uma serra com um radiante +nimbo de santidade, e escorre, por entre os flancos despedaçados, em finas +franjas que refulgem. Outros montes dardejam mudas labaredas. Da borda de +rígidas escarpas, pendem perdidamente, sôbre profundidades, palmeirais +desgrenhados. Pelas lagôas a bruma arrasta a luminosa moleza das suas rendas. E +o mar, nos confins do mundo, faiscando, tudo encerra, como um aro de +oiro.—Neste fecundo espaço toda a Criação se espaneja, com a fôrça, a graça, a +braveza vivaz duma mocidade de cinco dias, ainda quente das mãos do seu +Criador. Profusos rebanhos de auroques, de pelagem ruiva, pastam, +majestosamente, enterrados nas ervas tam altas que nelas desaparece a ovelha e +o seu anho. Temerosos e barbudos urus, brigando contra gigantescos<span class="pn">{161}</span> +veados-elefas, entrechocam cornos e galhos com o sêco fragor de robles que o +vento racha. Um bando de girafas rodeia uma mimosa a que vai trincando, +delicadamente, nos trémulos cimos, as folhinhas mais tenras. À sombra dos +tamarindos, repousam disformes rinocerontes, sob o vôo apressado de pássaros +que lhes catam serviçalmente a vermina. Cada arremêsso de tigre causa uma +debandada furiosa de ancas, e chifres, e clinas, onde, mais certo e mais leve, +se arqueia o pulo grácil dos antílopes. Uma rija palmeira verga toda ao pêso da +jibóia que nela se enrosca. Entre duas penedias, por vezes, aparece, numa +profusão de juba, a face magnífica de um leão que, serenamente, olha o sol, a +imensidade radiante. No remoto azul, enormes condores dormem imóveis, de asas +abertas, entre o sulco níveo e róseo das garças e dos flamingos. E em frente à +encosta, num alto, entre o matagal, passa, lenta e montanhosa, uma récua de +mastodontes, com a rude clina do dorso erriçada ao vento, e a tromba a +bambolear entre os dentes mais recurvos que foices.</p> + +<p>Assim vetustíssimas Crónicas contam o vetustíssimo Éden, que era nas +campinas do Eufrates, talvez na trigueira Ceilão, ou entre os quatro claros +rios que hoje regam a Húngria, ou mesmo nestas terras bemditas onde a nossa +Lisboa aquece a sua velhice ao<span class="pn">{162}</span> soalheiro, cansada de proezas e mares. +¿Mas quem pode garantir êstes bosques e êstes bichos, pois que desde êsse dia +25 de Outubro, que inundava o Paraíso de esplendor outonal, já passaram, muito +breves e muito cheios, sôbre o grão de pó que é o nosso mundo, mais de sete +vezes setecentos mil anos? Só parece certo que, diante de Adão apavorado, um +grande pássaro passou. Um pássaro cinzento, calvo e pensativo, com as penas +esguedelhadas como as pétalas de um crisântemo, que saltitava pesadamente sôbre +uma das patas, erguendo na outra, bem agarrado, um mólho de ervas e ramos. O +nosso Pai venerável, com a fusca face franzida, no doloroso esfôrço de +compreender, pasmava para aquele pássaro, que ao lado, sob o abrigo de azáleas +em flor, terminava muito gravemente a construção duma cabana! Vistosa e sólida +cabana, com o seu chão de greda bem alisado, galhos fortes de pinheiro e faia +formando estacas e traves, um seguro teto de relva sêca, e na parede de +enrediças bem liadas o desafôgo duma janela!... Mas o Pai dos Homens, nessa +tarde, ainda não compreendeu.</p> + +<p>Depois caminhou para o largo rio, desconfiadamente, sem se afastar da ourela +do bosque abrigador. Lento, farejando o cheiro novo dos gordos herbívoros da +planície, com os<span class="pn">{163}</span> punhos rijamente cerrados contra o peito peludo, Adão +vai arfando entre o apetite daquela resplandecente Natureza e o terror dos +seres nunca avistados que a atulham e atroam com tam fera turbulência. Mas +dentro dêle borbulha, não cessa, a nascente sublime, a sublime nascente da +Energia, que o impele a desentranhar da crassa bruteza, e a ensaiar, com +esforços que são semi-penosos porque são já semi-lúcidos, os Dons que +estabelecerão a sua supremacia sôbre essa Natureza incompreendida e o +libertarão do seu terror. Assim, na surprêsa de todas aquelas inesperadas +aparições do Éden, reses, pastagens, montes nevados, imensidades radiosas, Adão +solta roucas exclamações, gritos com que desafoga, vozes gaguejadas, em que por +instinto reproduz outras vozes, e brados, e toadas, e mesmo o reboliço das +criaturas, e mesmo o estrondo das águas despenhadas... E êstes sons ficam já na +escura memória de nosso Pai ligados às sensações que lhos arrancam:—de sorte +que o guincho áspero que lhe escapara ao topar um cangurú com a sua ninhada +embolsada no ventre, de novo lhe ressoará nos lábios trombudos quando outros +cangurús, fugindo dêle, adiante, se embrenhem na sombra negra das caneleiras. A +Bíblia, com a sua exageração oriental, cândida e simplista, conta que Adão, +logo na sua entrada pelo Éden, distribuiu nomes a todos<span class="pn">{164}</span> os animais, e a +todas as plantas, muito definitivamente, muito eruditamente, como se compuzesse +o Lexicon da Criação, entre Buffon, já com os seus punhos, e Linneu, já com os +seus óculos. Não! eram apenas grunhidos, roncos mais verdadeiramente augustos, +porque todos êles se plantavam na sua consciência nascente como as tôscas +raízes dessa Palavra pela qual verdadeiramente se humanou, e foi depois, sôbre +a terra, tam sublime e tam burlesco.</p> + +<p>E bem podemos pensar, com orgulho, que ao descer a borda do rio Edénico, +nosso Pai, compenetrado do que <em>era</em>, e quanto diverso dos outros seres! +já se afirmava, se individualizava, e batia no peito sonoro, e rugia +soberbamente:—<em>Eheu! Eheu!</em> Depois, alongando os olhos reluzentes por +aquela longa água que corria vagarosamente para alêm, já tenta exteriorizar o +seu espantado sentimento dos espaços, e rosna com pensativa cubiça:—<em>Lhlâ! +Lhlâ!</em></p> + + +<h2><a name="SECTION000720">II</a> </h2> + +<p>Calmo, magníficamente fecundo, corria êle, o nobre rio do Paraíso, por entre +as ilhas, quási afundadas sob o pêso rijo do rijo arvoredo todas<span class="pn">{165}</span> +fragrantes, e atroadas pelo clamor das cacatuas. E Adão, trotando pesadamente +pela margem baixa, já sente a atracção das águas disciplinadas que andam e +vivem—essa atracção que será tam forte nos seus filhos, quando no rio +descobrirem o bom servidor que desaltera, estruma, rega, mói e acarreta. Mas +quantos terrores especiais ainda o arrepiam, o atiram com espavoridos pulos +para o abrigo dos salgueiros e dos choupos! Noutras ilhas, de areia fina e +rosada, preguiçam pedregosos crocodilos, achatados sôbre o ventre, que arfam +molemente, escancarando as fundas goelas na tépida preguiça da tarde, embebendo +todo o ar com um cheirinho de almíscar. Por entre os canaviais, coleam e +refulgem gordas cobras de água, de colo alteado, que fitam Adão com furor, +dardejando e silvando. E, para nosso Pai que nunca as avistara, certamente +seriam pavorosas as tartarugas imensas dêsse comêço do Mundo, pastando, com +arrastada mansidão, através dos prados novos. Mas uma curiosidade o atrai, +quási resvala na riba lodosa, onde a franja de água roça e marulha. Na largueza +do rio espraiado, uma longa e negra fila de auroques, serenamente, com os +cornos altos e a espessa barba a flutuar, nada para a outra margem, campina +coberta de louras messes onde talvez já amaduram as espigas sociáveis do +centeio e do milho. Nosso Pai<span class="pn">{166}</span> venerável olha a fila lenta, olha o rio +lustroso, concebe o ennevoado desejo de tambêm atravessar para aqueles longes +em que as ervas rebrilham, e arrisca a mão na corrente—na rija corrente que +lha repuxa, como para o atrair e iniciar. Êle grunhe, arranca a mão—e segue, +com ásperas patadas, esmagando, sem mesmo lhes sentir o perfume, os frescos +morangos silvestres que ensangùentam a relva... Em breve pára, considerando um +bando de aves alcandoradas numa penedia toda riscada de guanos, que espreitam, +com o bico atento, para baixo, onde as águas apertadas refervem. ¿Que espreitam +elas, as brancas garças? Lindos peixes em cardume, que rompem contra a levada, +e pulam, lampejando nas espumas claras. E bruscamente, num desabrido abanar de +asas brancas, uma garça, depois outra, fende o céu alto, levando, atravessado +no bico, um peixe que se estorce e reluz. Nosso Pai venerável coça a ilharga. A +sua crassa gula, entre aquela abundância do rio, tambêm apetece uma prêsa: e +atira a garra, colhe, no seu vôo soante, cascudos insectos que farisca e +trinca. Mas nada certamente assombrou o Primeiro Homem como um grosso tronco de +árvore meio apodrecido, que boiava, descia na corrente, levando sentados numa +ponta, com segurança e graça, dois bichos sedosos, louros, de focinho +esperto,<span class="pn">{167}</span> e fôfas caudas vaidosas. Para os seguir, os observar, +ansiosamente correu, enorme e desengonçado. E os seus olhos faiscavam, como se +já compreendesse a malícia daqueles dois bichos, embarcados num toro de árvore, +e viajando, com a macia frescura da tarde, no rio do Paraíso.</p> + +<p>No entanto, a água que êle costeava era mais baixa, turva e tarda. Já na sua +largueza não verdejam ilhas, nem nela se molha a orla das fartas pastagens. +Para alêm, sem limite, fundidas nas neblinas, fogem descampadas solidões, de +onde rola um vento lento e húmido. Nosso Pai venerável enterrava as patas em +ribas moles, através de aluviões, de lixos silvestres, em que chapinavam, para +seu intenso horror, enormes rãs coaxando furiosamente. E o rio em breve se +perdeu numa vasta lagôa, escura e desolada, resto das grandes águas sôbre que +flutuara o Espírito de Jeová. Uma tristeza humana apertou o coração de nosso +Pai. Do meio de grossas bôlhas, que se empolavam na estanhada lisura da água +triste, constantemente surdiam horrendas trombas, a escorrer de limos verdes, +que bufavam ruidosamente, logo se afundavam, como repuxadas pelos lôdos +viscosos. E quando de entre os altos e negros canaviais, manchando a +vermelhidão da tarde, se elevou, se alargou sobre êle uma nuvem +estridente<span class="pn">{168}</span> de moscardos vorazes, Adão foge, estonteado, trilha saibros +pegajosos, rasga o pêlo na aspereza dos cardos brancos que o vento estorce, +resvala por uma encosta de cascalho e seixo, e pára em areia fina. Arqueja: as +suas longas orelhas remexem, escutando, para alêm das dunas, um vasto rumor que +rola e desaba e retumba... É o mar. Nosso Pai transpõe as pálidas dunas—e +diante dêle está o Mar!</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Então foi o pavor supremo. Com um pulo, batendo convulsamente os punhos no +peito, recúa até onde três pinheiros, mortos e sem rama, lhe oferecem o refúgio +hereditário. ¿Porque avançam assim para êle, sem cessar, numa inchada ameaça, +aqueles rolos verdes, com a sua clina de espuma, e se atiram, se esmigalham, +refervem, babujam rudemente a areia? Mas toda a outra vasta água permanece +imóvel, como morta, com uma grande mancha de sangue que lateja. Todo êsse +sangue caíu, de-certo, da ferida do sol, redonda e vermelha, sangrando em cima, +num céu dilacerado por fundos golpes já rôxos. Para alêm da névoa leitosa que +cobre as lagôas, dos charcos salgados, onde a marezia ainda chega e se espraia +muito longe, um monte flameja e fumega. E sempre diante de Adão, contra +Adão,<span class="pn">{169}</span> os verdes rolos da verde vaga avançam, e ribombam, e alastram a +praia de algas, de conchas, de gelatinas que alvejam lívidamente.</p> + +<p>Mas eis que todo o mar se povôa! E, encolhido contra o pinheiro, nosso Pai +venerável dardeja os olhos inquietos e trémulos, para aqui, para alêm—para os +rochedos cobertos de sargaço onde gordíssimas focas rebolam majestosamente; +para os repuxos de água, que ao largo esguicham até às nuvens rôxas e recáem +numa chuva radiante; para uma linda armada de búzios, imensos búzios alvos e +nacarados, vogando à bolina, circundando as penedias, com manobra elegante... +Adão pasma sem saber que estas são as Amonites, e que nenhum outro homem, +depois dêle, verá a luzida e rósea armada singrando nos mares dêste mundo. +Ainda êle a admira, talvez com a impressão inicial da beleza das cousas, quando +bruscamente, num tremor de sulcos brancos, toda a maravilhosa frota sossobra! +Com o mesmo salto mole, as focas tombam, trambulham na vaga funda. E um terror +passa, um terror levantado do mar, tam intenso que um bando de albatrozes, +muito seguro sôbre uma escarpa, bate, com azoados gritos, o vôo espavorido.</p> + +<p>Nosso Pai venerável aferra a mão a um galho de pinheiro, sondando, num +arrepio, a imensidão deserta. Então, ao longe, sob o<span class="pn">{170}</span> clarão enfiado do +sol que se esconde, um dorso imenso sai, lentamente, das águas, como uma +comprida colina, toda espetada de negras, agudas lascas de rocha. E avança! +Adiante um tumulto de bôlhas redemoinha e rebenta; e de entre elas emerge, por +fim, resfolegando cavamente, uma tromba disforme, de fauces entreabertas, onde +lampejam e se somem cardumes de peixes que os seus sorvos vem tragando...</p> + +<p>É um monstro, um pavoroso monstro marinho! E bem podemos supor que nosso +Pai, esquecendo toda a sua dignidade humana (ainda recente), trepou +desesperadamente ao pinheiro até onde os galhos findavam. Mas mesmo nesse +abrigo, os seus poderosos queixos batiam, num medo convulso, ante o horrífico +ser surgido das profundidades. Com um baque raspante, esmigalhando conchas, +seixos e galhos de coral, o monstro esbarra na areia, que fundamente escava e +sôbre que retesa as duas patas, mais grossas que troncos de teca, com as unhas +todas enrodilhadas de silvas marinhas. Da caverna das suas fauces, através dos +dentes terríficos, que os limos e musgos esverdeiam, sopra um bafo espesso de +fadiga ou de furor, tam forte que faz rodopiar as algas sêcas e os búzios +ligeiros. Entre as crostas pedregosas, que lhe couraçam a fronte, negrejam dois +cornos curtos e rombos. Os seus olhos, lívidos e<span class="pn">{171}</span> vítreos, são como duas +enormes luas mortas. A imensa cauda dentada arrasta pelo mar distante, e a cada +rabeio lento levanta uma tempestade.</p> + +<p>Por estas feições, pouco amáveis, já reconhecesteis o Ictiosaurio, o mais +horrendo dos cetáceos concebidos por Jeová. Era êle!—talvez o derradeiro, que +durara nas trevas oceânicas até êste dia memorável de 28 de Outubro, para que +nosso Pai entrevisse as origens da Vida. E agora está em frente de Adão, +ligando os tempos vélhos aos tempos novos—e, com as escamas do dorso +assanhadas, muge devastadoramente. Nosso Pai venerável, enroscado ao tronco +alto, guincha de vivo horror... E eis que, do lado dos charcos ennevoados, um +silvo fende os céus, uivado e arremetido, como o de um áspero vento numa +garganta de serrania. O quê! Outro monstro?... Sim, o Plesiosaurio. É tambêm o +derradeiro Plesiosaurio que corre do fundo dos pântanos. E agora de novo se +trava, para assombro do primeiro Homem (e gôsto dos Paleontologistas) o combate +que foi a desolação dos pre-humanos dias da Terra. Lá aparece a fabulosa cabeça +do Plésio, terminada em bico de ave, bico de duas braças, mais agudo que o +dardo mais agudo, erguida sôbre um longuíssimo e esguio pescoço que ondula, +arqueia, esfusia, dardeja com pavorosa elegância! Duas barbatanas de +incomparável<span class="pn">{172}</span> rijeza veem movendo o seu disforme corpo, mole, glutinoso, +todo em rugas, manchado por uma lepra de fungos esverdinhados. E tam imenso é +assim rojando, com o pescoço empinado, que, diante da duna onde se levantam os +pinheiros que acoitam Adão, êle parece uma outra duna negra sustentando um +pinheiro solitário. Furiosamente avança.—E de repente é um horroroso tumulto +de mugidos, e sibilos, e choques ribombantes, e areias torvelinhando, e grossos +mares espadanando. Nosso Pai venerável salta dum pinheiro para outro pinheiro, +tremendo tanto que, com êle, tremem os rijos troncos. E quando se arrisca a +espreitar, ao recrescer dos bramidos, só percebe, na enrolada massa dos dois +monstros, através de uma névoa de espuma que os esguichos de sangue avermelham, +o bico do Plésio todo enterrado no ventre mole do Ictio, cuja cauda, erguida, +se estorce furiosamente na palidez dos céus espantados. De novo esconde +perdidamente a face, nosso Pai venerável! Um urro de monstruosa agonia rola na +praia. As pálidas dunas estremecem, as cavernas soturnas ressoam. Depois é uma +paz muito larga, em que o ruido do mar Oceano não é mais que um consolado +murmúrio de alívio. Adão espia, debruçado entre os galhos... O Plésio recuara +ferido para a tépida lama dos seus pântanos. E sôbre a<span class="pn">{173}</span> praia jaz o Ictio +morto, como uma colina onde a vaga da tarde mansamente se quebra.</p> + +<p>Então, nosso Pai venerável cautelosamente escorrega do seu pinheiro, e se +abeira do monstro. A areia, em redor, está medonhamente revôlta;—e por toda +ela, em lentos regos, em pôças escuras, o sangue, mal chupado, fumega. Tam +montanhoso é o Ictio, que Adão, erguendo a face assombrada, nem avista as puas +do monstro, erriçadas ao longo daquele alcantilado espinhaço, a que o bico do +Plésio arrancou escamas mais pesadas que lages. Mas, diante das mãos trementes +do Homem, estão os rasgões do ventre mole, de onde o sangue pinga, e gorduras +babam, e imensas tripas esfiadas escorrem, e pendem febras atassalhadas de +carne rosada... E as chatas ventas de nosso Pai venerável estranhamente se +alargam e farejam.</p> + +<p>Toda essa tarde êle caminhara, desde a Floresta, através do Paraíso, +chupando bagas, rilhando raízes, trincando os insectos de casca picante. Mas +agora o sol penetrou no mar—e Adão tem fome, nesse areal maninho, onde só +alvejam cardos que o vento estorce. Oh! aquela carne rija, sangrenta, ainda +viva, que exala um cheiro tam fresco e salino! As suas rombas mandíbulas +ruidosamente se escancaram num bocejo enfastiado e famélico... O Oceano arfa, +como adormecido... Então, irresistívelmente, Adão mergulha numa das feridas do +sáurio os<span class="pn">{174}</span> dedos que lambe e rechupa, moles de sangue e gorduras. O +espanto dum sabor novo imobiliza o homem frugal que vem das ervas e das frutas. +Depois, com um salto, arremete contra a montanha de abundância, e arranca uma +fêbra que trinca e traga, a grunhir, num furor, numa pressa, em que há o gôzo e +há o medo da primeira carne comida.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Tendo ceado assim postas cruas dum monstro marinho, nosso Pai venerável +sente uma grande sêde. São salgadas as pôças que na areia rebrilham. Pesado e +triste, com os beiços empastados de banha e de sangue, Adão, sob o calado +crepúsculo, atravessa as dunas, repenetra nas terras, rebuscando sôfregamente +água doce. Por toda a relva, nesses tempos de universal humidade, fugia e +chalrava um regato. Em breve, estendido numa riba lodosa, Adão bebeu +consoladamente, em fundos sorvos, sob o vôo espantado de moscas fosforescentes +que se lhe prendiam na guedelha.</p> + +<p>Era junto dum bosque de carvalhos e faias. A noite, que já se adensara, +ennegrecia um chão todo de plantas, onde a malva se encostava à hortelã, e a +salsa ao funcho ligeiro. Nessa clareira fresca, penetrou nosso Pai venerável, +estafado com a marcha e os espantos daquela tarde do Paraíso. E apenas se +estendera<span class="pn">{175}</span> na alfombra cheirosa, com a hirsuta face pousada sôbre as +palmas unidas, os joelhos colhidos contra o ventre distendido como um tambor, +mergulhou num sono como êle nunca dormira—todo povoado de sombras moventes, +que eram aves construindo uma casa, patas de insectos tecendo uma teia, dois +bichos vogando nas águas rolantes.</p> + +<p>Ora conta a Lenda que então, em tôrno do Primeiro Homem adormecido, +começaram a surdir, por entre o mato baixo, focinhos fariscantes, finas orelhas +espetadas, olhinhos reluzindo como botões de azeviche, e espinhaços inquietos +que a emoção arqueava—emquanto que, dos cimos dos carvalhos e faias, num +abafado frémito de asas, se debruçavam bicos recurvos, bicos retesos, bicos +bravios, bicos pensativos, todos alvejando na claridade delgada da lua, que +subia por trás dos montes, e banhava as frondes altas. Depois, à orla da +clareira, uma hiena apareceu, coxeando, miando com lástima. Através da campina +trotaram dois lobos, esgalgados, famélicos, com os verdes olhos acesos. Os +leões não tardaram, com as riais faces erguidas, soberanamente enrugadas, numa +profusão de jubas flamantes. Em confusa manada, que chegava bufando, os cornos +dos auroques entrechocavam com impaciência os galhos palmares das renas. Todos +os pêlos se<span class="pn">{176}</span> arrepiaram quando o tigre e a pantera negra, ondulando +calada e aveludadamente, resvalaram, com as línguas pendentes e vermelhas como +coalhos de sangue. Dos vales, das serranias, das fragas, outros acudiam, numa +pressa tam anciosa, que os horrendos cavalos primitivos se empinavam por sôbre +os cangurus, e a tromba do hipopótamo, a escorrer de limos, empurrava as ancas +lentas do dromedário. Entre as patas e os cascos apinhados coleavam em aliança +o furão, a sardonisca, a doninha, a cobra fulgente que engole a doninha, e o +alegre manguço que assassina a cobra. Um bando de gazelas tropeçava, magoando +as pernas finas, contra a crosta dos crocodilos, que subiam em fila da borda +das lagôas, de goelas preparadas e a gemer. Já toda a planície arfava, sob a +lua, no mole remexer de dorsos apertados, de onde se erguia, ora o pescoço da +girafa, ora o corpo da jibóia, como mastros naufragados, balançados entre +vagas. E por fim, abalando o sólo, enchendo o céu, com a tromba enrolada entre +os dentes recurvos, assomou o rugoso mastodonte.</p> + +<p>Era toda a Animalidade do Paraíso, que, sabendo o Primeiro Homem adormecido, +sem defesa, num ermo bosque, corria, na imensa esperança de o destruir e +eliminar da terra a Fôrça Inteligente, destinada a submeter a<span class="pn">{177}</span> Fôrça +Bruta. Mas, naquela pavorosa turba que fumegava, se atropelava à borda da +clareira, onde Adão dormia sôbre a hortelã e a malva, nenhuma fera avançava. Os +longos dentes reluziam, feramente arreganhados; todos os cornos repontavam; +cada garra saída dilacerava com ânsia a terra mole; e os bicos, de cima das +ramas, terçavam os fios da lua com bicadas famintas.... Mas nem ave descia, nem +fera avançava,—porque ao lado de Adão velava uma Figura séria e branca, de +asas brancas fechadas, os cabelos presos num aro de estrêlas, o peito guardado +numa couraça de diamante, e as duas refulgentes mãos apoiadas ao punho duma +espada que era de lume—e vivia.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>A aurora despontou, com ardente pompa, comunicando à terra alegre, à terra +braviamente alegre, à terra ainda sem andrajos, à terra ainda sem sepulturas, +uma alegria superior, mais grave, religiosa e nupcial. Adão acordou: e, batendo +as fuscas pálpebras, na surprêsa do seu acordar humano, sentiu sôbre a ilharga +um pêso que era macio e que era doce. Nesse terror que, desde as árvores, não +desamparava o seu coração, pulou e com tam ruidoso pulo, que, pela selva, os +melros, os rouxinóis, as toutinegras, todos os passarinhos<span class="pn">{178}</span> de festa e de +amor, despertaram e romperam num canto de congratulações e de esperanças.—E, +oh maravilha! diante de Adão, e como despegado dêle, estava outro Ser a êle +semelhante, mas mais esbelto, suavemente coberto dum pêlo mais sedoso, que o +contemplava com largos olhos lustrosos e líquidos. Uma côma ruiva, dum ruivo +tostado, rolava, em espessas ondas, até às suas ancas arredondadas numa +plenitude harmoniosa e fecunda. De entre os braços peludinhos, que cruzara, +surdiam, abundantes e gordos, os dois peitos da côr do medronho, com uma +penugem crespa orlando o bico, que se enristava, entumecido. E roçando, num +roçar lento, num roçar muito doce, os joelhos pelados, todo aquele sedoso e +tenro Ser se ofertava com uma submissão pasmada e lasciva. Era Eva... Eras tu, +Mãe Venerável!</p> + + +<h2><a name="SECTION000730">III</a> </h2> + +<p>Então começaram, para nossos Pais, os dias abomináveis do Paraíso.</p> + +<p>O seu constante e desesperado esfôrço foi sobreviver—no meio duma Natureza +que, sem cessar e furiosamente, tramava a sua destruição.<span class="pn">{179}</span> E Adão e Eva +passaram êsses tempos, que os poemas Semíticos celebram como Inefáveis—sempre +a tremer, sempre a ganir, sempre a fugir! A terra ainda não era uma obra +perfeita: e a Divina Energia, que a andava compondo, incessantemente a +emendava, numa tam móbil inspiração, que em sítio coberto ao alvorecer por uma +floresta, à noite se espelhava uma lagôa onde a Lua, já doente, vinha estudar a +sua palidez. Quantas vezes nossos Pais, repousando no pendor de um outeiro +inocente, entre o serpol e o rosmaninho (Adão com a face deitada sôbre a côxa +de Eva, Eva com dedos ágeis catando o pêlo de Adão) foram sacudidos pela +encosta amena como por um dorso irritado, e rolaram, embrulhados, entre o +ribombo, e a labareda, e a fumarada, e a cinza quente do vulcão que Jeová +improvisara! Quantas noites escaparam, uivando, dalguma abrigada caverna, +quando já sôbre ela corria um grande mar inchado que bramava, se desenrolava, +ficava fervendo entre as rochas, com negras focas mortas a boiar. Ou então era +o chão, o chão seguro, já social e fertilizado para as searas sociáveis, que de +repente rugia como uma fera, escancarava uma insondável goela, e tragava +rebanhos, prados, nascentes, benéficos cedros com todas as rôlas que na sua +rama arrulhavam.</p> + +<p>Depois eram as chuvas, as longas chuvas<span class="pn">{180}</span> Edénicas, desabando em jorros +clamorosos, durante alagados dias, durante torrentosas noites, tam +desabaladamente que do Paraíso, vasto charco barrento, apenas apareciam as +pontas do arvoredo afogado, e os cimos dos montes atulhados de bichos transidos +que bramiam no terror das águas soltas. E nossos Pais, refugiados nalguma +erguida fraga, gemiam lamentavelmente, com regatos a escorrer dos ombros, com +ribeiras a escorrer dos pés, como se o barro novo de que Jeová os fizera se +andasse já desfazendo.</p> + +<p>E mais terríficas eram as estiagens. Oh! o incomparável tormento das sêcas +no Paraíso! Lentos dias tristes, após lentos dias tristes, a imensa brasa do +sol candente coriscava furiosamente num céu côr de cobre, em que o ar baço e +grosso crepitava e arfava. Os montes estalavam, gretados: e as planícies +desapareciam sob uma denegrida camada de fios retorcidos, ennovelados, rijos +como arames, que eram os restos das verdes pastagens. Toda a tisnada folhagem +rolava nos ventos abrasados, com rugidora restolhada. O leito dos rios chupados +tinha a rigidez de ferro fundido. O musgo escorregava das rochas, como uma pele +sêca que se despega descobrindo largos ossos. Cada noite um bosque ardia, +fogueira estralejante, de lenha ressequida, escaldando mais a abóbada do forno +inclemente.<span class="pn">{181}</span> Todo o Éden andava coberto das revoadas de abutres e corvos, +porque, com tanto animal morto de fome e de sêde, abundava a carne pôdre. No +rio, a água que restava mal corria, empoçada pela massa fervilhante de cobras, +rãs, lontras, tartarugas, refugiadas naquele derradeiro veio, lodoso e todo +morno. E nossos Pais veneráveis, com as magras costelas a arquejar contra o +pêlo crestado, a língua pendida e mais dura que cortiça, erravam de fonte em +fonte, a sorver desesperadamente alguma gota que ainda brotasse, gota rara, que +assobiava, ao caír, sobre as lages esbraseadas...</p> + +<p>E assim Adão e Eva, fugindo do Fogo, fugindo da Água, fugindo da Terra, +fugindo do Ar, encetavam a vida no Jardim de Delícias.</p> + +<p>E no meio de tantos perigos, constantes e flagrantes, era necessário comer! +Ah! Comer—que portentosa emprêsa para nossos Pais veneráveis! Sobretudo desde +que Adão (e depois Eva, por Adão iniciada) tendo provado os deleites fatais da +carne, já não encontravam sabor, nem fartura, nem decência, nos frutos, nas +raízes, e nos bagos do tempo da sua Animalidade. Certamente, as boas carnes não +faltavam no Paraíso. Delicioso seria o salmão primitivo—mas nadava alegremente +nas águas rápidas. Saborosa seria a galinhola, ou o faisão rutilante, nutridos +com os grãos que<span class="pn">{182}</span> o Criador considerara bons—mas voavam nos céus, em +triunfal segurança. O coelho, a lebre—que fugas ligeiras no mato cheiroso!... +E nosso Pai, nesses dias cândidos, não possuia o anzol nem a seta. Por isso, +sem cessar rondava em tôrno das lagôas, nas ribas do mar, onde casualmente +encalhava, boiando, algum cetáceo morto. Mas êsses achados de abundância eram +raros—e o triste casal humano, nas suas marchas famintas pela borda das águas, +só conquistava, aqui e alêm, na rocha ou na areia revôlta, algum feio +caranguejo em cuja dura casca os seus beiços se esgaçavam. Essas solidões +marinhas andavam tambêm infestadas por bandos de feras esperando, como Adão, +que a vaga rolasse os peixes vencidos em borrasca ou batalha. E quantas vezes, +nossos Pais, já com a garra cravada numa posta de foca ou golfinho, fugiam +desconsoladamente, sentindo o passo fôfo do horrendo speleo, ou o bafo dos +ursos brancos, bamboleando pelo branco areal, sob a branca indiferença da lua! +</p> + +<p>De-certo, a sua sciência hereditária de trepar às arvores socorria nossos +Pais nesta conquista da prêsa. Que, sob as ramarias da caneleira de onde êles, +assolapadamente, espreitavam, aparecesse algum cabrito desgarrado, ou uma +tartaruga môça e bisonha se arrastasse para a erva miuda—e eis o +repasto<span class="pn">{183}</span> seguro! Num relance, o cabrito ficava atassalhado, todo o seu +sangue chupado em sorvos convulsos: e Eva, nossa Mãe forte, guinchando +sombriamente, arrancava, uma a uma, de entre a casca, as patas da tartaruga... +Mas quantas noites, depois de jejuns angustiosos, se achavam os Eleitos da +Terra forçados a afugentar a hiena, com rijos brados, através das clareiras, +para lhe roubar um osso fetidamente babujado, que era já o sobejo de um leão +farto! E dias piores sucediam, em que a fome reduzia nossos Pais a retrogradar +à desgostosa frugalidade do tempo da Árvore, às ervas, aos rebentos, às raízes +amargas—conhecendo assim, entre a abundância do Paraíso, a primeira forma da +Miséria!</p> + +<p>E, através dêstes trabalhos, não os desamparava o terror das feras! Porque, +se Adão e Eva comiam os bichos fracos e fáceis, eram tambêm uma prêsa apetecida +por todos os brutos superiores. Comer Eva, tam redonda e carnuda, foi de-certo +o sonho de muito tigre nos juncais do Paraíso. Quanto urso, mesmo ocupado a +roubar favos de mel num escavado tronco de roble, não se deteve, e se balançou, +e lambeu o focinho numa gula mais fina, ao avistar, através da ramaria, num +rebrilho errante de sol, o sombrio corpanzão de nosso Pai venerável! E nem só o +perigo vinha das hordas esfaimadas dos carnívoros, mas ainda<span class="pn">{184}</span> dos lentos +e fartos herbívoros, o auroque, o urus, o cervo elefas, que alegremente +escorneariam e espesinhariam nossos Pais, por estupidez, dissemelhança de raça +e cheiro, emprêgo da vida ociosa. E acresciam ainda os que matavam para não +serem mortos—porque Medo, Fome e Furor, foram as leis da vida no Paraíso.</p> + +<p>Certamente nossos Pais eram tambêm ferozes, de tremenda fôrça, e perfeitos +na arte salvadora de trepar aos cimos frondosos. Mas o leopardo pulava de ramo +em ramo, sem rumor, com uma destreza mais felina e segura! A jibóia furava com +a cabeça até aos galhos extremos do mais levantado cedro para colher os +macacos—e bem poderia abocar Adão, com aquela obtusa incapacidade que sempre +as jibóias tiveram de distinguir, sob a similitude das formas, a diversidade +dos méritos. ¿E que valiam as garras de Adão, mesmo aliadas às garras de Eva, +contra êsses pavorosos leões do Jardim de Delícias que a Zoologia, ainda hoje +arrepiada, chama o <em>Leo Anticus</em>? ¿Ou contra a hiena-spelea tam ousada, +que, nos primeiros dias do Génesis, os Anjos, quando desciam ao Paraíso, +caminhavam sempre com as asas arregaçadas, para que ela, saltando de entre dos +bambus, lhes não arrancasse as penas refulgentes? ¿Ou contra os cães, os +horrendos cães do Paraíso, que atacando em<span class="pn">{185}</span> cerradas e ululantes hostes, +foram, nesses começos do Homem, os piores inimigos do Homem?</p> + +<p>E entre toda esta bicharia adversa, Adão não contava um aliado. Os seus +próprios parentes, os Antropóides, invejosos e farçantes, o apedrejavam com +enormes côcos. Só um animal, e formidável, conservava pelo Homem uma majestosa +e pachorrenta simpatia. Era o Mastodonte. Mas a ennevoada Inteligência de nosso +Pai ainda, nesses dias Edénicos, não compreendia a bondade, a justiça, o +serviçal coração do paquiderme admirável. Por isso, certo da sua fraqueza e do +seu isolamento, êle viveu, durante êsses trágicos anos, num ansiado terror. Tam +ansiado e longo, que o seu arrepio, como uma longa ondulação, se perpètuou por +toda a sua descendência—e é o vélho medo de Adão que nos torna inquietos, +quando atravessamos a mata mais segura na solidão crepuscular.</p> + +<p>E depois consideremos que ainda restavam pelo Paraíso, entre bichos de +formas racionais, polidas, já preparadas para a prosa nobre de Mr. de Buffon, +alguns dos grotescos monstros que desonraram a Criação antes da madrugada +purificadora de 25 de Outubro. De-certo Jeová poupou a Adão o degradante horror +de viver no Paraíso em companhia dessa escandalosa avantesma a que os +Paleontologistas,<span class="pn">{186}</span> assombrados, deram o nome de <em>Iguanodão</em>! Na +véspera do advento do Homem, Jeová, muito caridosamente, afogou todos os +Iguanodões nos lôdos de um pântano, a um canto escondido do Paraíso, onde hoje +se estende a Flandres. Mas Adão e Eva ainda conheceram os Pterodactilos. Oh! +estes Pterodactilos!... Corpos de Jacaré, escamosos e penugentos; duas +lúgubres, negras, carnudas asas, de morcego: um bico disparatado, mais grosso +que o corpo, tristonhamente caído, erriçado de centenas de dentes, finos como +os duma serra. E não voava! Descia, de asas moles, e mudas, e nelas abafava a +prêsa como num pano viscoso e gelado, para a retalhar toda com os estalados +golpes das mandíbulas fétidas. E êste funambulesco avejão enturvava o céu do +Paraíso com a mesma abundância com que os melros ou as andorinhas cruzam os +santos ares de Portugal. Os dias de nossos Pais veneráveis foram por êles +torturados;—e nunca o seu pobre coração tremia tanto como quando, de alêm dos +montes, se vinha despenhado, com sinistro estridor de asas e bicos, a revoada +dos Pterodactilos.</p> + +<p>¿Como sobreviveram nossos Pais, neste Jardim de Delícias? De-certo muito +faiscou e trabalhou a espada do Anjo que os guardava!<span class="pn">{187}</span></p> + +<p> </p> + +<p>Pois bem, meus amigos! A todos êstes furiosos seres deve o homem a sua +carreira triunfal. Sem os Sáurios, e os Pterodactilos, e a Hiena Spelea, e o +arrepiado terror que espalhavam, e a necessidade de ter, contra o seu ataque, +sempre bestial, uma defesa sempre racional—a Terra permaneceria um temeroso +Paraíso, onde erraríamos todos, desgrenhados e nus, chupando pela borda dos +mares as banhas cruas de monstros naufragados. Ao encolhido medo de Adão se +deve a supremacia da sua descendência. Foi o bicho perseguidor que o forçou a +subir aos cimos da Humanidade. E bem sabedores das Origens se mostraram os +poetas Mesopotâmicos do Génesis, nesses versículos subtis em que um animal, e o +mais perigoso, a Serpente, leva Adão, por amor de Eva, a colher o fruto do +Saber! Se não rugisse outrora o Leão das cavernas, não trabalhava hoje o Homem +das cidades—pois que a Civilização nasceu do desesperado esfôrço defensivo +contra o Inanimado e o Inconsciente. A Sociedade é realmente a obra da féra. +Que a Hiena e o Tigre, no Paraíso, começassem por acariciar lânguidamente o +ombro peludo de Adão com pata amiga—Adão ficaria irmão do Tigre e da Hiena, +partilhando as suas tocas, as suas prêsas, os seus ócios,<span class="pn">{188}</span> os seus gostos +bravios. E a Energia Inteligente, que o descera da Árvore, em breve se apagaria +dentro da sua bruteza inerte, como se apaga a faisca, mesmo entre galhos secos, +se um frio sôpro, vindo de um buraco escuro, não a estimula a viver, para +vencer a friagem e vencer a escuridão.</p> + +<p>Mas uma tarde (como ensinaria o exacto Usserius) saíndo Adão e Eva da +espessura dum bosque, um urso enorme, o Pai dos Ursos, apareceu diante dêles, +ergueu as negras patas, escancarou a goela sangrenta... Então, assim colhido, +sem refúgio, na apertada ânsia de defender a sua fêmea, o Pai dos Homens +arremessou contra o Pai dos Ursos o cajado a que se arrimava, um forte galho de +téca, arrancado na mata, que findava em lasca aguda... E o pau atravessou o +coração da féra.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Ah! Desde essa tarde bemdita houve verdadeiramente, sôbre a terra, um Homem. +</p> + +<p>Era já um Homem, e superior, quando lançou um passo espantado, e arrancou o +pau do seio do monstro estendido, e lhe mirou a ponta gotejante de sangue—com +a testa toda franzida, no afã de compreender. Os seus olhos resplandeceram, num +deslumbrado triunfo. Adão compreendera...<span class="pn">{189}</span></p> + +<p>Nem cuidou mais da boa carne do urso! Remergulhou na floresta, e toda a +tarde, emquanto a luz se arrastou pelas frondes, arrancou ramos aos troncos, +cautelosamente, destramente, para que as pontas quebrassem bem lascadas e +agudas. Ah! que soberbo estalar de hastes, pelo fundo bosque, através da +frescura e da sombra, para a obra da primeira Redenção! Selva amável, que foste +a primeira oficina, quem soubera onde jazes, na tua secular sepultura, tornada +negro carvão!... Quando da mata largaram, fumegando de suor, para recolher à +toca distante, nossos Pais veneráveis vergavam sob o pêso glorioso de dois +grossos mólhos de armas.</p> + +<p>E então não cessam mais os feitos do Homem. Ainda os corvos e os chacais não +tinham esburgado a carcassa do Pai dos Ursos—já nosso Pai racha uma ponta do +seu cajado vitorioso; entala na fenda um dêsses seixos afiados e bicudos, em +que por vezes se feriam as suas patas, descendo à beira dos rios; e segura o +fino estilhaço na racha com os lios, muito arrochados, de uma fibra de enrediça +sêca. E eis a lança! Como essas pedras não abundam, Adão e Eva ensangùentam as +garras, tentando fender os pedregões redondos de sílex em lascas curtas, que +venham perfeitas, com ponta e com gume, para rasgar, cravar. A pedra resiste, +pouco desejosa de<span class="pn">{190}</span> ajudar o Homem que, nos dias genesíacos do grande +Outubro, ela tentara suplantar (como contam as prodigiosas Crónicas de +Backun).—Mas de novo lampeja a face de Adão, numa idea que o sulca, como +faisca emanada da Eterna Sabedoria. Apanha um pedregulho, bate a rocha, arranca +a lasca... E eis o martelo!</p> + +<p>Depois, noutra tarde bemdita, costeando uma escura e bravia colina, +descobre, com aqueles seus olhos que já rebuscam e comparam, um calhau negro, +áspero, facetado, sombriamente luzidio. Pasma do seu pêso—e logo pressente +nele um maço superior, de decisiva rijeza. Com que alvoroço o leva agarrado +contra o peito, para martelar o sílex rebelde! Ao lado de Eva, que o espera à +beira do rio, logo malha rijamente sôbre a pederneira... E oh espanto! uma +fagulha salta, refulge, morre! Ambos recúam, se entreolham, num terror quási +sagrado! É um lume, um vivo lume, que êle assim arrancou com as suas mãos da +rocha bruta—semelhante ao lume vivo que dardeja de entre as nuvens. De novo +bate, a tremer. A scentelha brilha, a scentelha passa, e Adão remira e fareja o +escuro calhau. Mas não compreende. E pensativos, nossos Pais veneráveis sobem, +com os cabelos ao vento, para a sua caverna costumada, que é no pendor dum +cêrro, junto duma fonte borbulhando entre fétos.<span class="pn">{191}</span></p> + +<p>E aí, no seu retiro, Adão, com uma curiosidade onde lateja uma esperança, +novamente entala o sílex, grosso como uma abóbora, entre os calosos pés, e +recomeça a martelar, sob o bafo de Eva, que se debruça e arfa. Sempre a faúlha +salta, rebrilha na sombra, tam refulgente como aqueles lumes que agora +palpitam, olham, de alêm, das alturas. Mas êsses lumes permanecem, através da +negrura do céu e da noite, vivos, a espreitar, na sua radiância. E aquelas +estrelinhas da pedra ainda não tem vivido e já teem morrido... ¿Será o vento +que as leva, êle que tudo leva, vozes, nuvens e fôlhas ? Nosso Pai venerável, +fugindo do vento malévolo que ronda no monte, recúa até ao fundo mais abrigado +da caverna, onde se afôfam as camadas de feno muito sêco, que são o seu leito. +E de novo fere a pedra, despedindo scentelha apoz scentelha, emquanto Eva, +agachada, abriga com as mãos aqueles refulgentes e fugitivos seres. E eis que +dos fenos um fumosinho se eleva, e se engrossa, e se enrola, e através dêle, +vermelha, uma chama ressalta... É o Fogo! Nossos Pais fogem espavoridamente da +caverna, obscurecida por uma fumaraça cheirosa, onde flamejam alegres, +rutilantes línguas, que lambem a rocha. Acocorados à porta da toca, ambos +arquejam, no pasmo e terror da sua obra, com os olhos a chorar do fumo acre. +E,<span class="pn">{192}</span> mesmo através do susto e do espanto, sentem uma doçura muito nova que +os penetra e que vem daquela luz e vem daquele calor... Mas já o fumo se +escapou da caverna, o vento roubador o levou. As chamas rastejam, incertas, +azuladas: em breve só resta um borralho que descóra, se acinzenta, se abate em +cisco: e a derradeira faúlha corre, tremeluz, passa. O fogo morreu! Então, na +alma nascente de Adão, entra a dor duma ruína. Desesperadamente puxa os grossos +beiços e geme. ¿Saberá êle jàmais recomeçar o feito maravilhoso?... E é nossa +Mãe, já consoladora, que o consola. Com as suas rudes mãos comovidas, porque +realiza sôbre a terra a sua primeira obra, junta outro montão de fenos sêcos, +pousa entre êles o sílex redondo, toma o escuro calhau, bate rijamente, num +faúlhar de estrelinhas. E de novo o fumo rola, e de novo a chama refulge. Oh +triunfo! eis a fogueira, a fogueira inicial do Paraíso, e não casualmente +rebentada, mas acendida por uma clara Vontade, que agora para todo sempre, cada +noite e cada manhã, poderá repetir com segurança a façanha suprema!</p> + +<p>À nossa Mãe Venerável pertence então, na caverna, a doce e augusta tarefa do +Lume. Ela o cria, ela o nutre, ela o defende, ela o perpetúa. E, como mãe +deslumbrada, descobre cada dia, nesse resplandecente filho dos<span class="pn">{193}</span> seus +cuidados, uma virtude ou graça nova. Agora já Adão sabe que o <em>seu</em> fogo +espanta todas as féras e que no Paraíso existe emfim um buraco seguro, que é o +<em>seu</em> buraco! Não só seguro, mas amável—porque o lume o alumia, o +aquece, o alegra, o purifica. E quando Adão, com um mólho de lanças, desce à +planície ou se embrenha na selva a caçar a prêsa, já mata com redobrada ânsia, +para recolher depressa àquela boa segurança e consolação do lume. Ah! que +docemente êle o penetra, e lhe séca no pêlo a friagem dos matos, e doura como +um sol a penedia da sua toca! E depois ainda lhe prende os olhos, e o enleva, e +o guia num scismar fecundo, em que inspiradamente lhe aparecem formas de +flexas, malhos com cabos, ossos recurvos que fisgam os peixes, lascas dentadas +que serram o pau!... À sua fêmea forte deve Adão esta hora criadora!</p> + +<p>E quanto lhe não deve a Humanidade! Recordemos, meus irmãos, que nossa Mãe, +com aquela adivinhação superior que mais tarde a tornou Profetiza e Sibila, não +hesitou, quando a Serpente lhe disse, coleando entre as Rosas:—«Come do fruto +do Saber, que os teus olhos se abrirão, e serás como os Deuses sabedores!» Adão +teria comido a serpente, bocado mais suculento. Nem acreditaria em frutos que +comunicam a Divindade e Sapiência,<span class="pn">{194}</span> êle que tanta fruta comera nas +árvores, e se conservava insciente e bestial como o urso e o auroque. Eva, +porêm, com a credulidade sublime que sempre no mundo opéra as transformações +sublimes, comeu logo a maçã, e a casca, e a pevide. E persuadindo Adão a que +partilhasse do transcendente pômo, muito dôce e enredosamente o convenceu do +proveito, da felicidade, da glória e da fôrça que dá o Saber! Esta alegoria dos +poetas do Génesis com esplêndida subtileza nos revela a imensa obra de Eva nos +anos dolorosos do Paraíso. Por ela Deus continua a Criação superior, a do Reino +espiritual, a que desenrola sôbre a terra o lar, a família, a tríbu, a cidade. +É Eva que cimenta e bate as grandes pedras angulares na construção da +Humanidade.</p> + +<p>Senão, vêde! Quando o bravio caçador recolhe à caverna, derreado sob o pêso +da caça morta, cheirando todo a selva, e a sangue, e a féra, é êle, de-certo, +que esfola a rês com a faca de pedra, e retalha as postas, e esburga os ossos +(que sôfregamente guarda sob a côxa e reserva para a sua ração, porque contêm a +moela preciosa). Mas Eva junta essa pele, cuidadosamente, às outras peles +armazenadas; esconde os ossos partidos, porque as suas lascas agudas pregam e +furam; e numa cavidade da rocha fresca guarda a carne que<span class="pn">{195}</span> sobejou. Ora +em breve uma dessas fartas postas esquece, caída junto à fogueira perpétua. O +lume alastra, lentamente lambe a carne pelo lado mais gordo, até que um cheiro, +desconhecido e saboroso, afaga e alarga as rudes narinas de nossa Mãe +venerável. ¿De onde vem êle, o gostoso aroma? Do fogo, onde a posta de veado ou +de lebre grelha e rechina. Então Eva, inspirada e grave, empurra a carne para a +braza viva; e espera, ajoelhada, até que a espeta com uma ponta de osso, e a +retira da chama ruidosa, e a trinca, em sombrio silêncio. Os seus olhos +rebrilhantes anunciam outra conquista. E, com a pressa amorosa com que oferece +a Maçã a Adão, lhe apresenta agora aquela carne tam nova, que êle cheira +desconfiado, e depois devora a rijas dentadas, roncando de gôzo! E eis que, por +êste pedaço de gamo assado, nossos Pais sobem vitoriosamente outro escalão da +Humanidade!</p> + +<p>A água ainda a bebem na nascente vizinha, entre os fétos, com a face +mergulhada no veio claro. Depois de beber, Adão, arrimado à sua grossa lança, +olha ao longe o rolar do rio lento, os montes coroados de neve ou de lume, o +sol sôbre o mar—pensando, com arrastado pensar, se nessas terras que se +estendem, se escondem para alêm, a prêsa será mais certa e as selvas menos +cerradas. Mas Eva recolhe logo à caverna, para se entregar, sem +descanso,<span class="pn">{196}</span> a uma tarefa que a encanta. Encruzada no chão, toda atenta sob +a côma crespa, nossa Mãe fura, com um ossinho agudo, buracos finos na orla duma +pele, e depois na orla doutra pele. E, tam embebida que nem sente Adão entrar e +remexer nas suas armas, une as duas peles sobrepostas, passando através dos +buracos uma delgada fibra das algas que secam diante do lume. Adão considera +com desdêm êsse trabalho miudo que não acrescenta fôrça à sua fôrça. Não +pressente ainda, o bruto Pai, que aquelas peles cosidas serão o resguardo do +seu corpo, a armação da sua tenda, o saco do seu farnel, o ôdre da sua água, e +o tambor em que bata quando fôr um Guerreiro, e a página em que escreva quando +fôr um Profeta!</p> + +<p>Outros gostos e modos de Eva o irritam tambêm: e por vezes, com uma +desumanidade que é já toda humana, nosso Pai arrebata pelos cabelos a sua +fêmea, e a derruba, e a pisa sob a pata calosa. Assim um furor o tomou uma +tarde, avistando, no regaço de Eva, sentada diante da fogueira, um cachorrinho +mole e trôpego, que ela, com carinho e paciência, ensinava a sugar numa febra +de carne fresca. À beira da fonte descobrira o cachorrinho perdido e ganindo; e +muito mansamente o recolhera, o aquecera, o alimentara, com uma sensação que +lhe era doce, e lhe abria na espessa<span class="pn">{197}</span> bôca, ainda mal sabedora de sorrir, +um sorriso de maternidade. Nosso Pai venerável, com as pupilas a reluzir, atira +a garra, quer devorar o cachorro que entrara na sua toca. Mas Eva defende o +animal pequenino, que treme e que a lambe. O primeiro sentimento de Caridade, +informe como a primeira flor que brotou dos limos, aparece na terra! E, com as +curtas e roucas vozes que eram o falar de nossos Pais, Eva tenta talvez +afiançar que será útil, na caverna do homem, a amizade dum bicho... Adão puxa o +beiço trombudo. Depois, em silêncio, mansamente, corre os dedos pelo lombo +macio do cachorrinho encolhido. E êste é, na História, um momento espantoso! +Eis que o Homem domestíca o Animal! Dêsse cachorro agasalhado no Paraíso +nascerá o cão amigo, por êle a aliança com o cavalo, depois o domínio sôbre a +ovelha. O rebanho crescerá; o pastor o levará; o cão fiel o guardará. Eva, da +beira do seu lume, prepara os povos errantes que pastoreiam os gados.</p> + +<p>Depois, naquelas longas manhãs em que Adão bravio caçava, Eva, errando de +vale a monte, apanhava conchas, ovos de aves, curiosas raízes, sementes, com o +gôsto de acumular, de abastecer a sua toca de riquezas novas, que escondia nas +fendas da rocha. Ora um punhado dessas sementes caíra, através dos<span class="pn">{198}</span> seus +dedos, sôbre terra húmida e negra, quando recolhia pela beira da fonte. Uma +ponta verde brotou; depois uma haste cresceu; depois uma espiga amadurou. Os +seus grãos são gostosos. Eva, pensativa, enterra outras sementes, na esperança +de criar em tôrno do seu lar, num bocado do seu torrão, altas ervas que +espiguem, e lhe tragam o grão adocicado e tenro... E eis a seara! E assim nossa +Mãe torna possíveis, do fundo do Paraíso, os povos estáveis que lavram a terra. +</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>No entanto, bem podemos supôr que Abel nasceu—e, uns após outros, os dias +deslizam no Paraíso, mais seguros e fáceis. Já os vulcões lentamente se vão +apagando. As rochas não se despenham já com fragor sôbre a abundância inocente +dos vales. Tam amansadas andam as águas, que na sua transparência se miram, com +demora e cuidado, as nuvens e os ramos dos olmos. Raramente um Pterodactilo +macúla, com o escândalo do seu bico e das suas asas, os céus, onde o sol +alterna com a bruma, e os estios se franjam de chuvas ligeiras. E nesta +tranqùilidade que se estabelece há como uma submissão consciente. O Mundo +pressente e aceita a supremacia do Homem. A floresta já não arde com<span class="pn">{199}</span> a +leviandade do restolho, sabendo que em breve o Homem lhe pedirá a estaca, a +trave, o rêmo, o mastro. O vento, nas gargantas da serra, brandamente se +disciplina, e ensaia os sopros regulares com que trabalhará a mó do moinho. O +mar afogou os seus monstros, e estira o dorso preparado para o cortar da +quilha. A terra torna estável a sua gleba, e molemente se humedece, para quando +chegar o arado e a semente. E todos os metais se alinham em filão, e +alegremente se dispõem para o fogo que lhes dará forma e beleza.</p> + +<p>E pela tarde Adão recolhe contente, com caça abundante. A lareira flameja: e +alumia a face de nosso Pai, que o esfôrço da Vida embelezou, onde já os beiços +se adelgaçaram, e a testa se encheu com o lento pensar, e os olhos sossegaram +num brilho mais certo. O anho, espetado num pau, assa e pinga nas brasas. No +chão pousam cascas de côco, cheias de clara água da fonte. Uma pele de urso +tornou macio o leito de fetos. Outra pele, pendurada, abriga a bôca da caverna. +A um canto, que é a oficina, estão os montões de sílex e o malho: a outro +canto, que é o arsenal, estão as lanças e as clavas. Eva torce os fios duma lã +de cabra. Ao bom calor, sôbre folhelho, dorme Abel, muito gordo, todo nú, com +um pêlo mais ralo na carninha mais branca. Partilhando do folhelho e<span class="pn">{200}</span> do +mesmo calor, vela o cão, já crescido, com o ôlho amorável, o focinho entre as +patas. E Adão (oh, a estranha tarefa!) muito absorto, tenta gravar, com uma +ponta de pedra, sôbre um osso largo, os galhos, o dorso, as pernas estiradas +dum veado a correr!... A lenha estala. Todas as estrêlas do céu estão +presentes. Deus, pensativo, contempla o crescer da Humanidade.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>E agora que acendi, na noite estrelada do Paraíso, com galhos bem sêcos da +Árvore da Sciência, êste verídico lar, consenti que vos deixe, oh Pais +veneráveis!</p> + +<p>Já não receio que a Terra instável vos esmague; ou que as feras superiores +vos devorem; ou que, apagada, à maneira duma lâmpada imperfeita, a Energia que +vos trouxe da Floresta, vós retrogradeis à vossa Árvore. Sois já +irremediavelmente humanos—e cada manhã progredireis, com tam poderoso +arremêsso, para a perfeição do Corpo e esplendor da Razão, que em breve, dentro +dumas centenas de milhares de curtos anos, Eva será a formosa Helena e Adão +será o imenso Aristóteles!</p> + +<p>Mas não sei se vos felicite, oh Pais veneráveis! Outros irmãos vossos +ficaram na espessura das árvores—e a sua vida é doce.<span class="pn">{201}</span></p> + +<p>Todas as manhãs o Orangotango acorda entre os seus lençóis de fôlhas de +pendénia, sôbre o fôfo colchão de musgos que êle, com cuidado, acamou por cima +dum catre de ramos cheirosos. Lânguidamente, sem cuidados, preguiça na moleza +dos musgos, escutando as límpidas árias dos pássaros, gozando os fios do sol +que se emmaranham por entre a renda das fôlhas, e lambendo no pêlo dos seus +braços o orvalho açucarado. Depois de bem se coçar e bem se esfregar, sobe com +pachorra à árvore dilecta, que elegeu em todo o bosque pela sua frescura, pela +elasticidade embaladora das suas ramagens. Daí, tendo respirado as brisas +carregadas de aromas, salta, com lestos pulos, através das sempre fáceis, +sempre fartas ucharias do bosque, onde almoça a banana, a manga, a goiaba, +todos os finos frutos que o tornam tam são e alheio a males como as árvores +onde os colheu. Percorre então, sociavelmente, as ruas e as vielas palreiras da +espessura; cabriola com destros amigos, em jogos amáveis de ligeireza e fôrça; +galanteia as Orangas gentis que o catam, e penduradas com êle, duma liana +florida, se balançam chalrando; trota, entre alegres ranchos, pela borda das +águas claras; ou, sentado na ponta dum ramo, escuta algum vélho e facundo +chimpanzé contando divertidas histórias de caça, de viagens, de<span class="pn">{202}</span> amores e +de troças às feras pesadas, que circulam nas relvas e não podem trepar. Cedo +recolhe à sua árvore, e, estendido na folhosa rêde, brandamente se abandona à +delícia de sonhar, num sonho acordado, semelhante às nossas Metafísicas e às +nossas Epopeias, mas que rolando todo sôbre sensações reais, é, ao contrário +dos nossos incertos sonhos, um sonho todo feito de certeza. Por fim a Floresta +lentamente se cala, a sombra escorrega entre os troncos:—e o Orango ditoso +desce ao seu catre de pendénias e musgos, e adormece na imensa paz de Deus—de +Deus que êle nunca se cansou em comentar, nem sequer em negar, e que todavia +sôbre êle derrama, com imparcial carinho, os bens inteiros da sua Misericórdia. +</p> + +<p>Assim ocupou o seu dia o Orango, nas Árvores. ¿E no entanto, como gastou, +nas Cidades, o seu dia, o Homem, primo do Orango? Sofrendo—por ter os dons +superiores que faltam ao Orango! Sofrendo—por arrastar consigo, +irresgatavelmente, êsse mal incurável que é a sua Alma! Sofrendo—porque nosso +Pai Adão, no terrível dia 28 de Outubro, depois de espreitar e farejar o +Paraíso, não ousou declarar reverentemente ao Senhor:—«Obrigado, oh meu doce +Criador; dá o governo da Terra a quem melhor escolheres, ao Elefante ou ao +Cangurú, que eu por<span class="pn">{203}</span> mim, bem mais avisado, volto já para a minha +árvore!...»</p> + +<p>Mas, emfim, desde que nosso Pai venerável não teve a previdência ou a +abnegação de declinar a grande supremacia—continuemos a reinar sôbre a Criação +e a ser sublimes... Sobretudo continuemos a usar, insaciavelmente, do dom +melhor que Deus nos concedeu entre todos os dons, o mais puro, o único +genuìnamente grande, o dom de o amar—pois que não nos concedeu tambêm o dom de +o compreender. E não esqueçamos que Êle já nos ensinou, através de vozes +levantadas em Galilea, e sob as mangueiras de Veluvana, e nos vales severos de +Yen-Chou, que a melhor maneira de o amar é que uns aos outros nos amemos, e que +amemos toda a sua obra, mesmo o verme, e a rocha dura, e a raiz venenosa, e até +êsses vastos seres que não parecem necessitar o nosso amor, êsses Sóis, êsses +Mundos, essas esparsas Nebuloses, que, inicialmente fechadas, como nós, na mão +de Deus, e feitas da nossa substância, nem de-certo nos amam—nem talvez nos +conhecem.<span class="pn">{204}</span> <span class="pn">{205}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION000800">A AIA</a> </h1> + +<p>Era uma vez um rei, môço e valente, senhor de um reino abundante em cidades +e searas, que partira a batalhar por terras distantes, deixando solitária e +triste a sua raínha e um filhinho, que ainda vivia no seu berço, dentro das +suas faixas.</p> + +<p>A lua cheia que o vira marchar, levado no seu sonho de conquista e de fama, +começava a minguar—quando um dos seus cavaleiros apareceu, com as armas rôtas, +negro do sangue sêco e do pó dos caminhos, trazendo a amarga nova de uma +batalha perdida e da morte do rei, traspassado por sete lanças entre a flor da +sua nobreza, à beira de um grande rio.</p> + +<p>A raínha chorou magníficamente o rei.<span class="pn">{206}</span> Chorou ainda desoladamente o +espôso, que era formoso e alegre. Mas, sobretudo, chorou ansiosamente o pai que +assim deixava o filhinho desamparado, no meio de tantos inimigos da sua frágil +vida e do reino que seria seu, sem um braço que o defendesse, forte pela fôrça +e forte pelo amor.</p> + +<p>Dêsses inimigos o mais temeroso era seu tio, irmão bastardo do rei, homem +depravado e bravio, consumido de cobiças grosseiras, desejando só a rialeza por +causa dos seus tesoiros, e que havia anos vivia num castelo sôbre os montes, +com uma horda de rebeldes, à maneira de um lôbo que, de atalaia no seu fojo, +espera a prêsa. Ai! a prêsa agora era aquela criancinha, rei de mama, senhor de +tantas províncias, e que dormia no seu berço com seu guiso de oiro fechado na +mão!</p> + +<p>Ao lado dêle, outro menino dormia noutro berço. Mas êste era um +escravosinho, filho da bela e robusta escrava que amamentava o príncipe. Ambos +tinham nascido na mesma noite de verão. O mesmo seio os criava. Quando a +raínha, antes de adormecer, vinha beijar o principesinho, que tinha o cabelo +louro e fino, beijava tambêm por amor dêle o escravosinho, que tinha o cabelo +negro e crespo. Os olhos de ambos reluziam como pedras preciosas. Sómente, o +berço de um era magnífico e de marfim entre<span class="pn">{207}</span> brocados—e o berço do outro +pobre e de vêrga. A leal escrava, porêm, a ambos cercava de carinho igual, +porque se um era o seu filho—o outro seria o seu rei.</p> + +<p>Nascida naquela casa rial, ela tinha a paixão, a religião dos seus senhores. +Nenhum pranto correra mais sentidamente do que o seu pelo rei morto à beira do +grande rio. Pertencia, porêm, a uma raça que acredita que a vida da terra se +continua no céu. O rei seu amo, de-certo, já estaria agora reinando num outro +reino, para alêm das nuvens, abundante tambêm em searas e cidades. O seu cavalo +de batalha, as suas armas, os seus pagens tinham subido com êle às alturas. Os +seus vassalos, que fôssem morrendo, prontamente iriam, nesse reino celeste, +retomar em tôrno dele a sua vassalagem. E ela um dia, por seu turno, remontaria +num raio de luz a habitar o palácio do seu senhor, e a fiar de novo o linho das +suas túnicas, e a acender de novo a caçoleta dos seus perfumes; seria no céu +como fôra na terra, e feliz na sua servidão.</p> + +<p>Todavia, tambêm ela tremia pelo seu príncipesinho! Quantas vezes, com êle +pendurado do peito, pensava na sua fragilidade, na sua longa infância, nos anos +lentos que correriam antes que êle fôsse ao menos do tamanho de uma espada, e +naquele tio cruel,<span class="pn">{208}</span> de face mais escura que a noite e coração mais escuro +que a face, faminto do trono, e espreitando de cima do seu rochedo entre os +alfanges da sua horda! Pobre príncipesinho da sua alma! Com uma ternura maior o +apertava então nos braços. Mas se o seu filho chalrava ao lado—era para êle +que os seus braços corriam com um ardor mais feliz. Êsse, na sua indigência, +nada tinha a recear da vida. Desgraças, assaltos da sorte má nunca o poderiam +deixar mais despido das glórias e bens do mundo do que já estava ali no seu +berço, sob o pedaço de linho branco que resguardava a sua nudez. A existência, +na verdade, era para êle mais preciosa e digna de ser conservada que a do seu +príncipe, porque nenhum dos duros cuidados com que ela ennegrece a alma dos +senhores roçaria sequer a sua alma livre e simples de escravo. E, como se o +amasse mais por aquela humildade ditosa, cobria o seu corpinho gordo de beijos +pesados e devoradores—dos beijos que ela fazia ligeiros sôbre as mãos do seu +príncipe.</p> + +<p>No entanto um grande temor enchia o palácio, onde agora reinava uma mulher +entre mulheres. O bastardo, o homem de rapina, que errava no cimo das serras, +descera à planície com a sua horda, e já através de casais e aldeias felizes ia +deixando um sulco de matança e ruínas. As portas da cidade tinham<span class="pn">{209}</span> sido +seguras com cadeias mais fortes. Nas atalaias ardiam lumes mais altos. Mas à +defesa faltava disciplina viril. Uma roca não governa como uma espada. Toda a +nobreza fiel perecera na grande batalha. E a raínha desventurosa apenas sabia +correr a cada instante ao berço do seu filhinho e chorar sôbre êle a sua +fraqueza de viuva. Só a ama leal parecia segura—como se os braços em que +estreitava o seu príncipe fôssem muralhas de uma cidadela que nenhuma audácia +pode transpôr.</p> + +<p>Ora uma noite, noite de silêncio e de escuridão, indo ela a adormecer, já +despida, no seu catre, entre os seus dois meninos, adivinhou, mais que sentiu, +um curto rumor de ferro e de briga, longe, à entrada dos vergeis riais. +Embrulhada à pressa num pano, atirando os cabelos para trás, escutou +ansiosamente. Na terra areada, entre os jasmineiros, corriam passos pesados e +rudes. Depois houve um gemido, um corpo tombando molemente, sôbre lages, como +um fardo. Descerrou violentamente a cortina. E alêm, ao fundo da galeria, +avistou homens, um clarão de lanternas, brilhos de armas... Num relance tudo +compreendeu—o palácio surpreendido, o bastardo cruel vindo roubar, matar o seu +príncipe! Então, rápidamente, sem uma vacilação, uma dúvida, arrebatou o +príncipe do seu berço de marfim, atirou-o para o pobre berço de vêrga—e +tirando o seu filho<span class="pn">{210}</span> do berço servil, entre beijos desesperados, deitou-o +no berço rial que cobriu com um brocado.</p> + +<p>Bruscamente um homem enorme, de face flamejante, com um manto negro sôbre a +cota de malha, surgiu à porta da câmara, entre outros, que erguiam lanternas. +Olhou—correu ao berço de marfim onde os brocados luziam, arrancou a criança, +como se arranca uma bôlsa de oiro, e abafando os seus gritos no manto, abalou +furiosamente.</p> + +<p>O príncipe dormia no seu novo berço. A ama ficara imóvel no silêncio e na +treva.</p> + +<p>Mas brados de alarme atroaram de repente o palácio. Pelas janelas perpassou +o longo flamejar das tochas. Os pátios ressoavam com o bater das armas. E +desgrenhada, quási nua, a raínha invadiu a câmara, entre as aias, gritando pelo +seu filho! Ao avistar o berço de marfim, com as roupas desmanchadas, vazio, +caiu sôbre as lages, num choro, despedaçada. Então calada, muito lenta, muito +pálida, a ama descobriu o pobre berço de vêrga... O príncipe lá estava quieto, +adormecido, num sonho que o fazia sorrir, lhe iluminava toda a face entre os +seus cabelos de oiro. A mãe caíu sôbre o berço, com um suspiro, como cai um +corpo morto.</p> + +<p>E nesse instante um novo clamor abalou a galeria de mármore. Era o capitão +das guardas,<span class="pn">{211}</span> a sua gente fiel. Nos seus clamores havia, porêm, mais +tristeza que triunfo. O bastardo morrera! Colhido, ao fugir, entre o palácio e +a cidadela, esmagado pela forte legião de archeiros, sucumbira, êle e vinte da +sua horda. O seu corpo lá ficara, com flechas no flanco, numa pôça de sangue. +Mas, ai! dor sem nome! O corposinho tenro do príncipe lá ficara tambêm, envolto +num manto, já frio, rôxo ainda das mãos ferozes que o tinham esganado! Assim +tumultuosamente lançavam a nova cruel os homens de armas—quando a raínha, +deslumbrada, com lágrimas entre risos, ergueu nos braços, para lho mostrar, o +príncipe que despertara.</p> + +<p>Foi um espanto, uma aclamação. ¿Quem o salvara? Quem?... Lá estava junto do +berço de marfim vazio, muda e hirta, aquela que o salvara! Serva sublimemente +leal! Fôra ela que, para conservar a vida ao seu príncipe, mandara à morte o +seu filho... Então, só então, a mãe ditosa, emergindo da sua alegria estática, +abraçou apaixonadamente a mãe dolorosa, e a beijou, e lhe chamou irmã do seu +coração... E de entre aquela multidão que se apertava na galeria veio uma nova, +ardente aclamação, com súplicas de que fôsse recompensada magníficamente a +serva admirável que salvara o rei e o reino.</p> + +<p>Mas como? ¿Que bôlsas de oiro podem pagar<span class="pn">{212}</span> um filho? Então um vélho de +casta nobre lembrou que ela fôsse levada ao tesoiro rial, e escolhesse de entre +essas riquezas, que eram como as maiores dos maiores tesoiros da Índia, todas +as que o seu desejo apetecesse...</p> + +<p>A raínha tomou a mão da serva. E sem que a sua face de mármore perdesse a +rigidez, com um andar de morta, como num sonho, ela foi assim conduzida para a +Câmara dos Tesoiros. Senhores, aias, homens de armas, seguiam, num respeito tam +comovido que apenas se ouvia o roçar das sandálias nas lages. As espessas +portas do Tesoiro rodaram lentamente. E, quando um servo destrancou as janelas, +a luz da madrugada, já clara e rósea, entrando pelos gradeamentos de ferro, +acendeu um maravilhoso e faiscante incêndio de oiro e pedrarias! Do chão de +rocha até às sombrias abóbadas, por toda a câmara, reluziam, scintilavam, +refulgiam os escudos de oiro, as armas marchetadas, os montões de diamantes, as +pilhas de moedas, os longos fios de pérolas, todas as riquezas daquele reino, +acumuladas por cem reis durante vinte séculos. Um longo <em>ah</em>, lento e +maravilhado, passou por sôbre a turba que emmudecera. Depois houve um silêncio +ansioso. E no meio da câmara, envolta na refulgência preciosa, a ama não se +movia... Apenas os<span class="pn">{213}</span> seus olhos, brilhantes e secos, se tinham erguido +para aquele céu que, alêm das grades, se tingia de rosa e de oiro. Era lá, +nesse céu fresco de madrugada, que estava agora o seu menino. Estava lá, e já o +sol se erguia, e era tarde, e o seu menino chorava de-certo, e procurava o seu +peito!... E então a ama sorriu e estendeu a mão. Todos seguiam, sem respirar, +aquele lento mover da sua mão aberta. ¿Que joia maravilhosa, que fio de +diamantes, que punhado de rubís, ia ela escolher?</p> + +<p>A ama estendia a mão—e sôbre um escabelo ao lado, entre um molho de armas, +agarrou um punhal. Era um punhal de um vélho rei, todo cravejado de esmeraldas, +e que valia uma província.</p> + +<p>Agarrara o punhal, e com êle apertado fortemente na mão, apontando para o +céu, onde subiam os primeiros raios do sol, encarou a raínha, a multidão, e +gritou:</p> + +<p>—Salvei o meu príncipe, e agora—vou dar de mamar ao meu filho!</p> + +<p>E cravou o punhal no coração.<span class="pn">{214}</span> <span class="pn">{215}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION000900">O DEFUNTO</a> </h1> + + +<h2><a name="SECTION000910">I</a> </h2> + +<p>No ano de 1474, que foi por toda a Cristandade tam abundante em mercês +divinas, reinando em Castela el-rei Henrique IV, veio habitar na cidade de +Segóvia, onde herdara moradias e uma horta, um cavaleiro moço, de muito limpa +linhagem e gentil parecer, que se chamava D. Rui de Cardenas.</p> + +<p>Essa casa, que lhe legara seu tio, arcediago e mestre em cânones, ficava ao +lado e na sombra silenciosa da igreja de Nossa Senhora do Pilar; e, em frente, +para alêm do adro, onde cantavam as três bicas de um chafariz antigo, era o +escuro e gradeado palácio de D. Alonso de Lara, fidalgo de grande riqueza e +maneiras sombrias, que já na madureza da<span class="pn">{216}</span> sua idade, todo grisalho, +desposara uma menina falada em Castela pela sua alvura, cabelos côr de sol +claro, e colo de garça rial. D. Rui tivera justamente por madrinha, ao nascer, +Nossa Senhora do Pilar, de quem sempre se conservou devoto e fiel servidor; +ainda que, sendo de sangue bravo e alegre, amava as armas, a caça, os saraus +bem galanteados, e mesmo por vezes uma noite ruidosa de taverna com dados e +picheis de vinho. Por amor, e pelas facilidades desta santa vizinhança, tomara +êle o piedoso costume, desde a sua chegada a Segóvia, de visitar todas as +manhãs, à hora de Prima, a sua divina madrinha e de lhe pedir, em três +<em>Ave-Marias</em>, a bênção e a graça.</p> + +<p>Ao escurecer, mesmo depois de alguma rija correria por campo e monte com +lebreus ou falcão, ainda voltava para, à saudação de Vésperas, murmurar +docemente uma <em>Salve-Raínha</em>.</p> + +<p>E todos os domingos comprava no adro, a uma ramalheteira mourisca, algum +ramo de junquilhos, ou cravos, ou rosas singelas, que espalhava, com ternura e +cuidado galante, em frente ao altar da Senhora.</p> + +<p>A esta venerada igreja do Pilar vinha tambêm cada domingo D. Leonor, a tam +falada e formosa mulher do senhor de Lara, acompanhada por uma aia carrancuda, +de olhos mais<span class="pn">{217}</span> abertos e duros que os de uma coruja, e por dois possantes +lacaios que a ladeavam e guardavam como tôrres. Tam ciumento era o senhor D. +Alonso que, só por lho haver severamente ordenado o seu confessor, e com medo +de ofender a Senhora, sua vizinha, permitia esta visita fugitiva, a que êle +ficava espreitando sôfregamente, de entre as rexas de uma gelosia, os passos e +a demora. Todos os lentos dias da lenta semana os passava a senhora D. Leonor +no encêrro do gradeado solar de granito negro, não tendo, para se recrear e +respirar, mesmo nas calmas do estio, mais que um fundo de jardim verde-negro, +cercado de tam altos muros, que apenas se avistava, emergindo dêles, aqui, +alêm, alguma ponta de triste cipreste. Mas essa curta visita a Nossa Senhora do +Pilar bastou para que D. Rui se namorasse dela tresloucadamente, na manhã de +maio em que a viu de joelhos ante o altar, numa réstea de sol, aureolada pelos +seus cabelos de oiro, com as compridas pestanas pendidas sôbre o livro de +Horas, o rosário caíndo de entre os dedos finos, fina toda ela e macia, e +branca, de uma brancura de lírio aberto na sombra, mais branca entre as rendas +negras e os negros setins que à volta do seu corpo cheio de graça se quebravam, +em pregas duras, sôbre as lages da capela, vélhas lages de sepulturas. Quando +depois dum momento<span class="pn">{218}</span> de enleio e de delicioso pasmo se ajoelhou, foi menos +para a Virgem do Pilar, sua divina Madrinha, do que para aquela aparição +mortal, de quem não sabia o nome nem a vida, e só que por ela daria vida e +nome, se ela se rendesse por tam incerto preço. Balbuciando, com uma prece +ingrata, as três Ave-Marias com que cada manhã saùdava Maria, apanhou o seu +sombreiro, desceu levemente a nave sonora e no portal se quedou, esperando por +ela entre os mendigos lazarentos que se catavam ao sol. Mas quando ao cabo de +um tempo, em que D. Rui sentiu no coração um desusado bater de ansiedade e +medo, a senhora D. Leonor passou e se deteve, molhando os dedos na pia de +mármore de água benta, os seus olhos sob o véu descido, não se ergueram para +êle, ou tímidos ou desatentos. Com a aia de olhos muito abertos colada aos +vestidos, entre os dois lacaios, como entre duas tôrres, atravessou +vagarosamente o adro, pedra por pedra, gozando de-certo, como encarcerada, o +desafogado ar e o livre sol que o inundavam. E foi um espanto para D. Rui +quando ela penetrou na sombria arcada, de grossos pilares, sôbre que assentava +o palácio, e desapareceu por uma esguia porta recoberta de ferragens. Era, +pois, essa a tam falada D. Leonor, a linda e nobre senhora de Lara...</p> + +<p>Então começaram sete arrastados dias, que<span class="pn">{219}</span> êle gastou sentado a um +poial da sua janela, considerando aquela negra porta recoberta de ferragens +como se fôsse a do Paraíso, e por ela devesse saír um anjo para lhe anunciar a +Bemaventurança. Até que chegou o vagaroso domingo: e passando êle no adro, à +hora de Prima, ao repicar dos sinos, com um mólho de cravos amarelos para a sua +divina Madrinha, cruzou D. Leonor, que saía de entre os pilares da escura +arcada, branca, doce e pensativa, como uma lua de entre nuvens. Os cravos quási +lhe caíram naquele gostoso alvoroço em que o peito lhe arfou mais que um mar, e +a alma toda lhe fugiu em tumulto através do olhar com que a devorava. E ela +ergueu tambêm os olhos para D. Rui, mas uns olhos repousados, uns olhos +serenos, em que não luzia curiosidade, nem mesmo consciência de se estarem +trocando com outros, tam acesos e ennegrecidos pelo desejo. O môço cavalheiro +não entrou na igreja, com piedoso receio de não prestar à sua Madrinha divina a +atenção, que de-certo lhe roubaria toda aquela que era só humana, mas dona já +do seu coração, e nele divinizada.</p> + +<p>Esperou sôfregamente à porta, entre os mendigos, secando os cravos com o +ardor das mãos trémulas, pensando quanto era demorado o rosário que ela rezava. +Ainda D. Leonor descia a nave, já êle sentia dentro da alma<span class="pn">{220}</span> o doce rugir +das sedas fortes que ela arrastava nas lages. A branca senhora passou—e o +mesmo distraido olhar, desatento e calmo, que espalhou pelos mendigos e pelo +adro, o deixou escorregar sôbre êle, ou porque não compreendesse aquele moço +que de repente se tornara tam pálido, ou porque não o diferenciava ainda das +cousas e das formas indiferentes.</p> + +<p>D. Rui abalou, com um fundo suspiro; e, no seu quarto, pôs devotamente ante +a imagem da Virgem as flores que não oferecera, na igreja, ao seu altar. Toda a +sua vida se tornou então um longo queixume por sentir tam fria e desumana +aquela mulher, única entre as mulheres, que prendera e tornara sério o seu +coração ligeiro e errante. Numa esperança, a que antevia bem o desengano, +começou a rondar os muros altos do jardim—ou embuçado numa capa, com o ombro +contra uma esquina, lentas horas se quedava contemplando as grades das +gelosias, negras e grossas como as dum cárcere. Os muros não se fendiam, das +grades não saía sequer um rasto de luz prometedora. Todo o solar era como um +jazigo onde jazia uma insensível, e por trás das frias pedras havia ainda um +frio peito. Para se desafogar compôs, com piedoso cuidado, em noites veladas +sôbre o pergaminho, trovas gementes que o não desafogavam.<span class="pn">{221}</span> Diante do +altar da Senhora do Pilar, sôbre as mesmas lages onde a vira ajoelhada, pousava +êle os joelhos, e ficava, sem palavras de oração, num scismar amargo e doce, +esperando que o seu coração serenasse e se consolasse, sob a influência de +Aquela que tudo consola e serena. Mas sempre se erguia mais desditoso e tendo +apenas a sensação de quanto eram frias e rígidas as pedras sôbre que ajoelhara. +O mundo todo só lhe parecia conter rigidez e frieza.</p> + +<p>Outras claras manhãs de domingo encontrou D. Leonor: e sempre os olhos dela +permaneciam descuidados e como esquecidos, ou quando se cruzavam com os seus +era tam singelamente, tam limpos de toda a emoção, que D. Rui os preferiria +ofendidos e faiscando de ira, ou soberbamente desviados com soberbo desdêm. +De-certo D. Leonor já o conhecia:—mas, assim, conhecia tambêm a ramalheteira +mourisca agachada diante do seu cêsto à beira da fonte; ou os pobres que se +catavam ao sol diante do portal da Senhora. Nem D. Rui já podia pensar que ela +fôsse desumana e fria. Era apenas soberanamente remota, como uma estrêla que +nas alturas gira e refulge, sem saber que, em baixo, num mundo que ela não +distingue, olhos que ela não suspeita a contemplam, a adoram e lhe entregam o +govêrno da sua ventura e sorte.<span class="pn">{222}</span></p> + +<p>Então D. Rui pensou:</p> + +<p>—Ela não quer, eu não posso: foi um sonho que findou, e Nossa Senhora a +ambos nos tenha na sua graça!</p> + +<p>E como era cavaleiro muito discreto, desde que a reconheceu assim inabalável +na sua indiferença, não a procurou, nem sequer ergueu mais os olhos para as +grades das suas janelas, e até nem penetrava na igreja de Nossa Senhora quando +casualmente, do portal, a avistava ajoelhada, com a sua cabeça tam cheia de +graça e de oiro, pendida sôbre o Livro de Horas.</p> + + +<h2><a name="SECTION000920">II</a> </h2> + +<p>A vélha aia, de olhos mais abertos e duros que os de uma coruja, não tardara +em contar ao senhor de Lara que um môço audaz, de gentil parecer, novo morador +nas vélhas casas do arcediago, constantemente se atravessava no adro, se +postava diante da igreja para atirar o coração pelos olhos à senhora D. Leonor. +Bem amargamente o sabia já o ciumento fidalgo, porque quando da sua janela +espreitava, como um falcão, a airosa senhora a caminho da igreja, observara os +giros, as esperas, os olhares dardejados daquele môço galante—e<span class="pn">{223}</span> puxara +as barbas de furor. Desde então, na verdade, a sua mais intensa ocupação era +odiar D. Rui, o impudente sobrinho do cónego, que ousava erguer o seu baixo +desejo até à alta senhora de Lara. Constantemente agora o trazia vigiado por um +serviçal—e conhecia todos os seus passos e pousos, e os amigos com quem caçava +ou folgava, e até quem lhe talhava os gibões, e até quem lhe polia a espada, e +cada hora do seu viver. E mais ansiosamente ainda vigiava D. Leonor—cada um +dos seus movimentos, os mais fugitivos modos, os silêncios e o conversar com as +aias, as distracções sôbre o bordado, o geito de scismar sob as árvores do +jardim, e o ar e a côr com que recolhia da igreja... Mas tam inalteradamente +serena no seu sossêgo de coração se mostrava a senhora D. Leonor que nem o +ciume mais imaginador de culpas poderia achar manchas naquela pura neve. +Redobradamente áspero então se voltava o rancor de D. Alonso contra o sobrinho +do cónego por ter apetecido aquela pureza, e aqueles cabelos côr de sol claro, +e aquele colo de garça rial, que eram só seus, para esplêndido gôsto da sua +vida. E quando passeava na sombria galeria do solar, sonora e toda de abóbada, +embrulhado na sua samarra orlada de peles, com o bico da barba grisalha +espetado para diante, a grenha crespa erriçada para trás e os<span class="pn">{224}</span> punhos +cerrados, era sempre remoendo o mesmo fel:</p> + +<p>—Tentou contra a virtude dela, tentou contra a minha honra... É culpado por +duas culpas e merece duas mortes!</p> + +<p>Mas ao seu furor quási se misturou um terror, quando soube que D. Rui já não +esperava no adro a senhora D. Leonor, nem rondava amorosamente os muros do +palacete, nem penetrava na igreja quando ela lá rezava, aos domingos; e que tam +inteiramente se alheava dela que uma manhã, estando rente da arcada, e sentindo +bem ranger e abrir a porta por onde a senhora ia aparecer, permanecera de +costas voltadas, sem se mover, rindo com um cavaleiro gordo que lhe lia um +pergaminho. Tam bem afectada indiferença só servia de-certo (pensou D. Alonso) +a esconder alguma bem danada tenção! ¿Que tramava êle, o destro enganador? Tudo +no desabrido fidalgo se exacerbou—ciume, rancor, vigilância, pesar da sua +idade grisalha e feia. No sossêgo de D. Leonor suspeitou manha e fingimento;—e +imediatamente lhe vedou as visitas à Senhora do Pilar.</p> + +<p>Nas manhãs costumadas corria êle à igreja para rezar o rosário, a levar as +desculpas de D. Leonor—«<em>que no puede venir</em> (murmurava curvado +diante do altar) <em>por lo que sabeis, virgem purissima!</em>» +Cuidadosamente visitou e<span class="pn">{225}</span> reforçou todos os negros ferrolhos das portas +do seu solar.</p> + +<p>De noite soltava dois mastins nas sombras do jardim murado.</p> + +<p>À cabeceira do vasto leito, junto da mesa onde ficava a lâmpada, um +relicário e o copo de vinho quente com canela e cravo para lhe retemperar as +fôrças—luzia sempre uma grande espada nua. Mas, com tantas seguranças, mal +dormia—e a cada instante se solevava em sobressalto de entre as fundas +almofadas, agarrando a senhora D. Leonor com mão bruta e sôfrega, que lhe +pisava o colo, para rugir muito baixo, numa ânsia: «Dize que me queres só a +mim!...» Depois, com a alvorada, lá se empoleirava, a espreitar, como um +falcão, as janelas de D. Rui. Nunca o avistava, agora, nem à porta da igreja às +horas de missa, nem recolhendo do campo, a cavalo, ao toque de Ave-Marias.</p> + +<p>E por o sentir assim sumido dos sítios e giros costumados—é que mais o +suspeitava dentro do coração de D. Leonor.</p> + +<p>Emfim, uma noite, depois de muito trilhar o lagedo da galeria, remoendo +surdamente desconfianças e ódios, gritou pelo intendente e ordenou que se +preparassem trouxas e cavalgaduras. Cedo, de madrugada, partiria, com a senhora +D. Leonor, para a sua herdade de Cabril, a duas léguas de Segóvia! A partida +não<span class="pn">{226}</span> foi de madrugada, como uma fuga de avarento que vai esconder longe o +seu tesoiro:—mas, realizada com aparato e demora, ficando a liteira diante da +arcada, a esperar longas horas, de cortinas abertas, emquanto um cavalariço +passeava pelo adro a mula branca do fidalgo, enxairelada à mourisca, e do lado +do jardim a récua de machos, carregados de baús, presos às argolas, sob o sol e +a mosca, aturdiam a viela com o tilintar dos guizos. Assim D. Rui soube a +jornada do senhor de Lara:—e assim a soube toda a cidade.</p> + +<p>Fôra um grande contentamento para D. Leonor, que gostava de Cabril, dos seus +viçosos pomares, dos jardins, para onde abriam, rasgadamente e sem grades, as +janelas dos seus aposentos claros: aí ao menos tinha largo ar, pleno sol, e +alegretes a regar, um viveiro de pássaros, e tam compridas ruas de loureiro ou +teixo, que eram quási a liberdade. E depois esperava que no campo se +aligeirassem aqueles cuidados que traziam, nos derradeiros tempos, tam enrugado +e taciturno seu marido e senhor. Mas não logrou esta esperança, porque ao cabo +de uma semana ainda se não desanuviara a face de D. Alonso—nem de-certo havia +frescura de arvoredos, sussurros de águas correntes, ou aromas esparsos nos +rosais em flor, que calmassem agitação tam amarga e funda. Como em Segóvia, na +galeria<span class="pn">{227}</span> sonora de grande abobada, sem descanso passeava, enterrado na +sua samarra, com o bico da barba espetado para diante, a grenha basta erriçada +para trás, um geito de arreganhar silenciosamente o beiço, como se meditasse +maldades a que gozava de antemão o sabor acre. E todo o interêsse da sua vida +se concentrara num serviçal, que constantemente galopava entre Segóvia e +Cabril, e que êle por vezes esperava no comêço da aldeia, junto ao Cruzeiro, +ficando a escutar o homem que desmontava, ofegante, e logo lhe dava novas +apressadas.</p> + +<p>Uma noite em que D. Leonor, no seu quarto, rezava o terço com as aias, à luz +duma tocha de cera, o senhor de Lara entrou muito vagarosamente, trazendo na +mão uma fôlha de pergaminho e uma pena mergulhada no seu tinteiro de osso. Com +um rude acêno despediu as aias, que o temiam como a um lôbo. E, empurrando um +escabelo para junto da mesa, volvendo para D. Leonor a face a que impusera +tranqùilidade e agrado, como se apenas viesse por cousas naturais e fáceis:</p> + +<p>—Senhora—disse—quero que me escrevais aqui uma carta que muito convêm +escrever...</p> + +<p>Tam costumada era nela a submissão, que, sem outro reparo ou curiosidade, +indo apenas<span class="pn">{228}</span> pendurar na barra do leito o rosário em que rezara, se +acomodou sôbre o escabelo, e os seus dedos finos, com muita aplicação, para que +a letra fôsse esmerada e clara, traçaram a primeira linha curta que o Senhor de +Lara ditara e era: <em>Meu cavaleiro</em>...» Mas quando êle ditou a outra, +mais longa, e dum modo amargo, D. Leonor arrojou a pena como se a pena a +escaldasse, e, recuando da mesa, gritou, numa aflição:</p> + +<p>—¿Senhor, para que convêm que eu escreva tais cousas e tam falsas?...</p> + +<p>Num brusco furor, o senhor de Lara arrancou do cinto um punhal, que lhe +agitou junto à face, rugindo surdamente:</p> + +<p>—Ou escreveis o que vos mando e que a mim me convêm, ou por Deus, que vos +varo o coração!...</p> + +<p>Mais branca que a cera da tocha que os alumiava, com a carne arrepiada ante +aquele ferro que luzia, num terror supremo e que tudo aceitava, D. Leonor +murmurou:</p> + +<p>—Pela Virgem Maria, não me façais mal!... Nem vos agasteis, senhor, que eu +vivo para vos obedecer e servir... Agora, mandai, que eu escreverei.</p> + +<p>Então, com os punhos cerrados nas bordas da mesa, onde pousara o punhal, +esmagando a frágil e desditosa mulher sob o olhar duro que fuzilava, o senhor +de Lara ditou,<span class="pn">{229}</span> atirou roucamente, aos pedaços, aos repelões, uma carta +que dizia, quando finda e traçada em letra bem incerta e trémula:—«Meu +cavaleiro: Muito mal haveis compreendido, ou muito mal pagais o amor que vos +tenho, e que não vos pude nunca, em Segóvia, mostrar claramente... Agora aqui +estou em Cabril, ardendo por vos ver; e se o vosso desejo corresponde ao meu, +bem fàcilmente o podeis realizar, pois que meu marido se acha ausente noutra +herdade, e esta de Cabril é toda fácil e aberta. Vinde esta noite, entrai pela +porta do jardim, do lado da azinhaga, passando o tanque, até ao terraço. Aí +avistareis uma escada encostada a uma janela da casa, que é a janela do meu +quarto, onde sereis bem docemente agasalhado por quem ansiosamente vos +espera...»</p> + +<p>—Agora, senhora, assinai por baixo o vosso nome, que isso sobretudo convêm! +</p> + +<p>D. Leonor traçou vagarosamente o seu nome, tam vermelha como se a despissem +diante de uma multidão.</p> + +<p>—E agora—ordenou o marido mais surdamente, através dos dentes +cerrados—endereçai a D. Rui de Cardenas!</p> + +<p>Ela ousou erguer os olhos, na surprêsa daquele nome desconhecido.</p> + +<p>—Andai!... A D. Rui de Cardenas!—gritou o homem sombrio.<span class="pn">{230}</span></p> + +<p>E ela endereçou a sua desonesta carta a D. Rui de Cardenas.</p> + +<p>D. Alonso meteu o pergaminho no cinto, junto ao punhal que embainhara, e +saíu em silêncio com a barba espetada, abafando o rumor dos passos nas lages do +corredor</p> + +<p>Ela ficara sôbre o escabelo, as mãos cansadas e caídas no regaço, num +infinito espanto, o olhar perdido na escuridão da noite silente. Menos escura +lhe parecia a morte que essa escura aventura em que se sentia envolvida e +levada! ¿Quem era êsse D. Rui de Cardenas, de quem nunca ouvira falar, que +nunca atravessara a sua vida, tam quieta, tam pouco povoada de memórias e de +homens? E êle de-certo a conhecia, a encontrara, a seguira, ao menos com os +olhos, pois que era cousa natural e bem ligada receber dela carta de tanta +paixão e promessa...</p> + +<p>¿Assim, um homem, e môço de-certo bem nascido, talvez gentil, penetrava no +seu destino bruscamente, trazido pela mão de seu marido? Tam íntimamente mesmo +se entranhara êsse homem na sua vida, sem que ela se apercebesse, que já para +êle se abria de noite a porta do seu jardim, e contra a sua janela, para êle +subir, se arrumava de noite uma escada!... E era seu marido que muito +secretamente escancarava a porta, e muito secretamente levantava a escada... +Para que?<span class="pn">{231}</span></p> + +<p>Então, num relance, D. Leonor compreendeu a verdade, a vergonhosa verdade, +que lhe arrancou um grito ansiado e mal sufocado. Era uma cilada! O senhor de +Lara atraía a Cabril êsse D. Rui com uma promessa magnífica, para dêle se +apoderar, e de-certo o matar, indefeso e solitário! E ela, o seu amor, o seu +corpo, eram as promessas que se faziam rebrilhar ante os olhos seduzidos do +môço desventuroso. Assim seu marido usava a sua beleza, o seu leito, como a +rêde de oiro em que devia caír aquela prêsa estouvada! ¿Onde haveria maior +ofensa? E tambêm quanta imprudência! Bem poderia esse D. Rui de Cardenas +desconfiar, não aceder a convite tam abertamente amoroso, e depois mostrar por +toda a Segóvia, rindo e triunfando, aquela carta em que lhe fazia oferta do seu +leito e do seu corpo a mulher de Alonso de Lara! Mas não! o desventurado +correria a Cabril—e para morrer, miserávelmente morrer no negro silêncio da +noite, sem padre, nem sacramentos, com a alma encharcada em pecado de amor! +Para morrer, de-certo—porque nunca o senhor de Lara permitiria que vivesse o +homem que recebera tal carta. Assim, aquele môço morria por amor dela, e por um +amor que, sem lhe valer nunca um gôsto, lhe valia logo a morte! De-certo por +amor dela—pois que tal ódio do senhor de Lara, ódio<span class="pn">{232}</span> que com tanta +deslealdade e vilania se cevava, só podia nascer de ciumes, que lhe escureciam +todo o dever de cavaleiro e de cristão. Sem dúvida êle surpreendera olhares, +passos, tenções dêste senhor D. Rui, mal acautelado por bem namorado.</p> + +<p>Mas como? quando? Confusamente se lembrava ela de um moço que um domingo a +cruzara no adro, a esperara ao portal da igreja, com um molho de cravos na +mão... Seria êsse? Era de nobre parecer, muito pálido, com grandes olhos negros +e quentes. Ela passara—indiferente... Os cravos que segurava na mão eram +vermelhos e amarelos... A quem os levava?... Ah! se o pudesse avisar, bem cedo, +de madrugada!</p> + +<p>¿Como, se não havia em Cabril serviçal ou aia de quem se fiasse? Mas deixar +que uma bruta espada varasse traiçoeiramente aquele coração, que vinha cheio +dela, palpitando por ela, todo na esperança dela!...</p> + +<p>Oh! a desabrida e ardente correria de D. Rui, desde Segóvia a Cabril, com a +promessa do encantador jardim aberto, da escada posta contra a janela, sob a +nudez e protecção da noite! ¿Mandaria realmente o senhor de Lara encostar uma +escada à janela? De-certo, para com mais facilidade o poderem matar, ao pobre, +e doce, e inocente môço, quando êle subisse, mal seguro sôbre um frágil +degrau,<span class="pn">{233}</span> as mãos embaraçadas, a espada a dormir na bainha... E assim, na +outra noite, em face ao seu leito, a sua janela estaria aberta, e uma escada +estaria erguida contra a sua janela à espera de um homem! Emboscado na sombra +do quarto, seu marido seguramente mataria êsse homem...</p> + +<p>¿Mas se o senhor de Lara esperasse fóra dos muros da quinta, assaltasse +brutalmente, nalguma azinhaga, aquele D. Rui de Cardenas, e ou por menos +destro, ou por menos forte, num terçar de armas, caísse êle traspassado, sem +que o outro conhecesse a quem matara? E ela, ali, no seu quarto, sem saber, e +todas as portas abertas, e a escada erguida, e aquele homem assomando à janela +na sombra macia da noite tépida, e o marido que a devia defender morto no fundo +duma azinhaga... ¿Que faria ela, Virgem Mãe? Oh! de-certo repeliria, +soberbarmente, o môço temerário. Mas o espanto dêle e a cólera do seu desejo +enganado! «Por Vós é que eu vim chamado, senhora! E ali trazia, sôbre o +coração, a carta dela, com seu nome, que a sua mão traçara. ¿Como lhe poderia +contar a emboscada e o dolo? Era tam longo de contar, naquele silêncio e +solidão da noite, emquanto os olhos dêle, húmidos e negros, a estivessem +suplicando e traspassando... Desgraçada dela se o senhor de Lara morresse, a +deixasse solitária,<span class="pn">{234}</span> sem defesa, naquela vasta casa aberta! Mas quanto +desgraçada tambêm se aquele môço, chamado por ela, e que a amava, e que por +êsse amor vinha correndo deslumbrante, encontrasse a morte no sítio da sua +esperança, que era o sítio do seu pecado, e, morto em pleno pecado, rolasse +para a eterna desesperança... Vinte e cinco anos, êle—se era o mesmo de quem +se lembrava, pálido, e tam airoso, com um gibão de veludo roxo e um ramo de +cravos na mão, à porta da igreja, em Segóvia...</p> + +<p>Duas lágrimas saltaram dos cansados olhos de D. Leonor. E dobrando os +joelhos, levantando a alma toda para o céu, onde a lua se começava a levantar, +murmurou, numa infinita mágoa e fé:</p> + +<p>—Oh! Santa Virgem do Pilar, Senhora minha, vela por nós ambos, vela por +todos nós!...</p> + + +<h2><a name="SECTION000930">III</a> </h2> + +<p>D. Rui entrava, pela hora da calma, no fresco pátio da sua casa, quando de +um banco de pedra, na sombra, se ergueu um môço do campo, que tirou de dentro +do surrão uma carta, lha entregou, murmurando:<span class="pn">{235}</span></p> + +<p>—Senhor, dai-vos pressa em ler, que tenho de voltar a Cabril, a quem me +mandou...</p> + +<p>D. Rui abriu o pergaminho; e, no deslumbramento que o tomou, bateu com êle +contra o peito, como para o enterrar no coração...</p> + +<p>O moço do campo insistia, inquieto:</p> + +<p>—Aviai, senhor, aviai! Nem precisais responder. Basta que me deis um sinal +de vos ter vindo o recado...</p> + +<p>Muito pálido, D. Rui arrancou uma das luvas bordadas a retroz, que o môço +enrolou e sumiu no surrão. E já abalava na ponta das alpercatas leves, quando, +com um acêno, D. Rui ainda o deteve:</p> + +<p>—Escuta. ¿Que caminho tomas tu para Cabril?</p> + +<p>—O mais certo e sòzinho para gente afoita, que é pelo Cêrro dos Enforcados. +</p> + +<p>—Bem.</p> + +<p>D. Rui galgou as escadas de pedra, e no seu aposento, sem mesmo tirar o +sombreiro, de novo leu junto da gelosia aquele pergaminho divino, em que D. +Leonor o chamava de noite ao seu quarto, à posse inteira do seu ser. E não o +maravilhava esta oferta—depois de uma tam constante, imperturbada indiferença. +Antes nela logo percebeu um amor muito astuto, por ser muito forte, que com +grande paciência se esconde ante os estorvos e os perigos, e mudamente prepara +a sua<span class="pn">{236}</span> hora de contentamento, melhor e mais deliciosa por tam preparada. +Sempre ela o amara, pois, desde a manhã bemdita em que os seus olhos se tinham +cruzado no portal de Nossa Senhora. E emquanto êle rondava aqueles muros do +jardim, maldizendo uma frieza que lhe parecia mais fria que a dos frios muros, +já ela lhe dera a sua alma, e cheia de constância, com amorosa sagacidade, +recalcando o menor suspiro, adormecendo desconfianças, preparava a noite +radiante em que lhe daria tambêm o seu corpo.</p> + +<p>Tanta firmeza, tam fino engenho nas coisas do amor ainda lha tornavam mais +bela e mais apetecida!</p> + +<p>Com que impaciência olhava então o sol, tam desapressado nessa tarde em +descer para os montes! Sem repouso, no seu quarto, com as gelosias cerradas +para melhor concentrar a sua felicidade, tudo aprontava amorosamente para a +triunfal jornada: as finas roupas, as finas rendas, um gibão de veludo negro e +as essências perfumadas. Duas vezes desceu à cavalariça a verificar se o seu +cavalo estava bem ferrado e bem pensado. Sôbre o soalho, vergou e revergou, +para a experimentar, a folha da espada que levaria à cinta... Mas o seu maior +cuidado era o caminho para Cabril, a-pesar de bem o conhecer, e a aldeia +apinhada em tôrno ao mosteiro franciscano, e a vélha<span class="pn">{237}</span> ponte romana com o +seu Calvário, e a azinhaga funda que levava à herdade do senhor de Lara. Ainda +nesse inverno por lá passara, indo montear com dois amigos de Astorga, e +avistara a torre dos de Lara, e pensara:—«Eis a torre da minha ingrata!» Como +se enganava! As noites agora eram de lua, e êle saíria de Segóvia caladamente, +pela porta de S. Mauros. Um galope curto o punha no Cêrro dos Enforcados... Bem +o conhecia tambêm, êsse sítio de tristeza e pavor, com os seus quatro pilares +de pedra, onde se enforcavam os criminosos, e onde os seus corpos ficavam, +balouçados da ventania, ressequidos do sol, até que as cordas apodrecessem e as +ossadas caíssem, brancas e limpas da carne pelo bico dos corvos. Por trás do +Cêrro era a lagôa das Donas. A derradeira vez que por lá andara, fôra em dia do +apóstolo S. Matias, quando o corregedor e as confrarias de caridade e paz, em +procissão, iam dar sepultura sagrada às ossadas caídas no chão negro, +esbrugadas pelas aves. Daí o caminho, depois, corria liso e direito a Cabril. +</p> + +<p>Assim D. Rui meditava a sua jornada venturosa, emquanto a tarde ia caíndo. +Mas, quando escureceu, e em tôrno às tôrres da igreja começaram a girar os +morcegos, e nas esquinas do adro se acenderam os nichos das Almas, o valente +môço sentiu um medo<span class="pn">{238}</span> estranho, o medo daquela felicidade que se acercava +e que lhe parecia sobrenatural. ¿Era, pois, certo que essa mulher de divina +formosura, famosa em Castela, e mais inacessível que um astro, seria sua, toda +sua, no silêncio e segurança duma alcova, dentro em breves instantes, quando +ainda se não tivessem apagado diante dos retábulos das Almas aqueles lumes +devotos? ¿E o que fizera êle para lograr tam grande bem? Pisara as lages de um +adro, esperara no portal de uma igreja, procurando com os olhos outros dois +olhos, que não se erguiam, indiferentes ou desatentos. Então, sem dor, +abandonara a sua esperança... E eis que de repente aqueles olhos distraídos o +procuram, e aqueles braços fechados se lhe abrem, largos e nus, e com o corpo e +com a alma aquela mulher lhe grita:—«Oh! mal avisado, que não me entendeste! +Vem! Quem te desanimou já te pertence!» ¿Houvera jàmais igual ventura? Tam +alta, tam rara era, que de-certo atrás dela, se não erra a lei humana, já devia +caminhar a desventura! Já na verdade caminhava;—pois quanta desventura em +saber que depois de tal ventura, quando de madrugada, saíndo dos divinos +braços, êle recolhesse a Segóvia, a sua Leonor, o bem sublime da sua vida, tam +inesperadamente adquirido por um instante, recaíria logo sob o poder de outro +amo!<span class="pn">{239}</span></p> + +<p>Que importava! Viessem depois dores e zelos! Aquela noite era +esplêndidamente sua, o mundo todo uma aparência vã e a única realidade êsse +quarto de Cabril, mal alumiado, onde ela o esperaria, com os cabelos soltos! +Foi com sofreguidão que desceu a escada, se arremessou sôbre o seu cavalo. +Depois, por prudência, atravessou o adro muito lentamente, com o sombreiro bem +levantado da face, como num passeio natural, a procurar fóra dos muros a +frescura da noite. Nenhum encontro o inquietou até à porta de S. Mauros. Aí, um +mendigo, agachado na escuridão dum arco, e que tocava monótonamente a sua +sanfona, pediu, em lamúria, à Virgem e a todos os santos, que levassem aquele +gentil cavaleiro na sua doce e santa guarda. D. Rui parara para lhe atirar uma +esmola, quando se lembrou que nessa tarde não fôra à igreja, à hora de +vésperas, rezar e pedir a bênção à sua divina madrinha. Com um salto, desceu +logo do cavalo, porque, justamente, rente ao vélho arco, tremeluzia uma lâmpada +alumiando um retábulo. Era uma imagem da Virgem com o peito traspassado por +sete espadas. D. Rui ajoelhou, pousou o sombreiro nas lages, e com as mãos +erguidas, muito zelosamente, rezou uma Salve-Rainha. O clarão amarelo da luz +envolvia o rosto da Senhora, que, sem sentir as dores dos sete ferros, ou como +se êles só déssem<span class="pn">{240}</span> inefáveis gozos, sorria com os lábios muito vermelhos. +Emquanto êle rezava, no convento de São Domingos, ao lado, a sineta começou a +tocar a agonia. De entre a sombra negra do arco, cessando a sanfona, o mendigo +murmurou:—«Lá está um frade a morrer!» D. Rui disse uma Ave-Maria pelo frade +que morria. A Virgem das sete espadas sorria docemente—o toque de agonia não +era, pois, de mau preságio! D. Rui cavalgou alegremente e partiu.</p> + +<p>Para alêm da porta de S. Mauros, depois de alguns casebres de oleiros, o +caminho seguia, esguio e negro, entre altas piteiras. Por trás das colinas, ao +fundo da planície escura, subia o primeiro clarão, amarelo e lânguido, da lua +cheia, ainda escondida. E D. Rui marchava a passo, receando chegar a Cabril +muito cedo, antes que as aias e os moços findassem o serão e o rosário. ¿Porque +não lhe marcara D. Leonor a hora, naquela carta tam clara e tam pensada? Então +a sua imaginação corria adiante, rompia pelo jardim de Cabril, galgava +aladamente a escada prometida—e êle largava tambêm atrás, numa carreira +sôfrega, que arrancava as pedras do caminho mal junto. Depois sofreava o cavalo +ofegante. Era cedo, era cedo! E retomava o passo penoso, sentindo o coração +contra o peito, como ave presa que bate às grades.</p> + +<p>Assim chegou ao Cruzeiro, onde a estrada<span class="pn">{241}</span> se fendia em duas, mais +juntas que as pontas de uma forquilha, ambas cortando através de pinheiral. +Descoberto diante da imagem crucificada, D. Rui teve um instante de angústia, +pois não se recordava qual delas levava ao Cêrro dos Enforcados. Já se +embrenhara na mais cerrada, quando, de entre os pinheiros calados, uma luz +surgiu, dansando no escuro. Era uma vélha em farrapos, com as longas melenas +soltas, vergada sôbre um bordão e levando uma candeia.</p> + +<p>—¿Para onde vai este caminho?—gritou Rui.</p> + +<p>A vélha balançou mais ao alto a candeia, para mirar o cavaleiro.</p> + +<p>—Para Xarama.</p> + +<p>E luz e vélha imediatamente se sumiram, fundidas na sombra, como se ali +tivessem surgindo sómente para avisar o cavaleiro do seu caminho errado... Já +êle virara arrebatadamente; e, rodeando o Calvário, galopou pela outra estrada +mais larga, até avistar sôbre a claridade do céu os pilares negros, os madeiros +negros do Cêrro dos Enforcados. Então estacou, direito nos estribos. Num cômoro +alto, sêco, sem erva ou urze, ligados por um muro baixo, todo esbrechado, lá se +erguiam, negros, enormes, sôbre a amarelidão do luar, os quatro pilares de +granito semelhantes aos quatro cunhais duma casa desfeita.<span class="pn">{242}</span> Sôbre os +pilares pousavam quatro grossas traves. Das traves pendiam quatro enforcados +negros e rígidos, no ar parado e mudo. Tudo em tôrno parecia morto como êles. +</p> + +<p>Gordas aves de rapina dormiam empoleiradas sôbre os madeiros. Para alêm, +rebrilhava lívidamente a água morta da lagôa das Donas. E, no céu, a lua ia +grande e cheia.</p> + +<p>D. Rui murmurou o Padre Nosso devido por todo o cristão àquelas almas +culpadas. Depois impeliu o cavalo, e passava—quando, no imenso silêncio e na +imensa solidão, se ergueu, ressoou uma voz, uma voz que o chamava, suplicante e +lenta:</p> + +<p>—Cavaleiro, detende-vos, vinde cá!...</p> + +<p>D. Rui colheu bruscamente as rédeas e erguido sôbre os estribos, atirou os +olhos espantados por todo o sinistro ermo. Só avistou o cêrro áspero, a água +rebrilhante e muda, os madeiros, os mortos. Pensou que fôra ilusão da noite ou +ousadia de algum demónio errante. E, serenamente, picou o cavalo, sem +sobressalto ou pressa, como numa rua de Segóvia. Mas, por trás, a voz tornou, +mais urgentemente o chamou, ansiosa, quási aflita:</p> + +<p>—Cavaleiro, esperai, não vos vades, voltai, chegai aqui!...</p> + +<p>De novo D. Rui estacou e, virado sôbre a sela, encarou afoitamente os quatro +corpos pendurados das traves. Do lado dêles soava<span class="pn">{243}</span> a voz, que, sendo +humana, só podia saír de forma humana! Um dêsses enforcados, pois, o chamara, +com tanta pressa e ânsia.</p> + +<p>¿Restaria nalguns, por maravilhosa mercê de Deus, alento e vida? ¿Ou seria +que, por maior maravilha, uma dessas carcassas meio apodrecidas o detinha para +lhe transmitir avisos de Alêm-da-Campa?... Mas, que a voz rompesse dum peito +vivo ou dum peito morto, grande covardia era abalar, espavoridamente, sem a +atender e a ouvir.</p> + +<p>Atirou logo para dentro do cêrro o cavalo, que tremia; e, parando, direito e +calmo, com a mão na ilharga, depois de fitar, um por um, os quatro corpos +suspensos, gritou:</p> + +<p>—¿Qual de vós, homens enforcados, ousou chamar por D. Rui de Cardenas?</p> + +<p>Então aquele que voltava as costas à lua cheia respondeu, do alto da corda, +muito quieta e naturalmente, como um homem que conversa da sua janela para a +rua:</p> + +<p>—Senhor, fui eu.</p> + +<p>D. Rui fez avançar para diante dêle o cavalo. Não lhe distinguia a face, +enterrada no peito, escondida pelas longas e negras melenas pendentes. Só +percebeu que tinha as mãos soltas e desamarradas, e tambêm soltos os pés nus, +já ressequidos e da côr do betume.</p> + +<p>—Que me queres?</p> + +<p>O enforcado, suspirando, murmurou:<span class="pn">{244}</span></p> + +<p>—Senhor, fazei-me a grande mercê de me cortar esta corda em que estou +pendurado.</p> + +<p>D. Rui arrancou a espada e de um golpe certo cortou a corda meio apodrecida. +Com um sinistro som de ossos entrechocados o corpo caíu no chão, onde jazeu um +momento, estirado. Mas, imediatamente, se endireitou sôbre os pés mal seguros e +ainda dormentes—e ergueu para D. Rui uma face morta, que era uma caveira com a +pele muito colada, e mais amarela que a lua que nela batia. Os olhos não tinham +movimento nem brilho. Ambos os beiços se lhe arreganhavam num sorriso +empedernido. De entre os dentes, muito brancos, surdia uma ponta de língua +muito negra.</p> + +<p>D. Rui não mostrou terror, nem asco. E embainhando serenamente a espada:</p> + +<p>—¿Tu estás morto ou vivo?—perguntou. O homem encolheu os ombros com +lentidão:</p> + +<p>—Senhor, não sei... ¿Quem sabe o que é a vida? ¿Quem sabe o que é a +morte?...</p> + +<p>—¿Mas que queres de mim ?</p> + +<p>O enforcado, com os longos dedos descarnados, alargou o nó da corda que +ainda lhe laçava o pescoço e declarou muito serena e firmemente:</p> + +<p>—Senhor, eu tenho de ir convosco a Cabril, onde vós ides.<span class="pn">{245}</span></p> + +<p>O cavaleiro estremeceu num tam forte assombro, repuxando as rédeas, que o +seu bom cavalo se empinou como assombrado tambêm.</p> + +<p>—Comigo a Cabril?!...</p> + +<p>O homem curvou o espinhaço, a que se viam os ossos todos, mais agudos que os +dentes de uma serra, através de um longo rasgão da camisa de estamenha:</p> + +<p>—Senhor—suplicou—não mo negueis. Que eu tenho a receber grande salário se +vos fizer grande serviço!</p> + +<p>Então D. Rui pensou de repente que bem podia ser aquela uma traça formidável +do Demónio. E, cravando os olhos muito brilhantes na face morta que para êle se +erguia, ansiosa, à espera do seu consentimento—fez um lento e largo Sinal da +Cruz.</p> + +<p>O enforcado vergou os joelhos com assustada reverência:</p> + +<p>—¿Senhor, para que me experimentais com êsse sinal? Só por êle alcançamos +remissão, e eu só dêle espero misericórdia.</p> + +<p>Então D. Rui pensou que, se êsse homem não era mandado pelo Demónio, bem +podia ser mandado por Deus! E logo devotamente, com um gesto submisso em que +tudo entregava ao céu, consentiu, aceitou o pavoroso companheiro:</p> + +<p>—Vem comigo, pois, a Cabril, se Deus<span class="pn">{246}</span> te manda! Mas eu nada te +pergunto e tu nada me perguntes.</p> + +<p>Desceu logo o cavalo à estrada, toda alumiada da lua. O enforcado seguia ao +seu lado, com passos tam ligeiros, que mesmo quando D. Rui galopava êle se +conservava rente ao estribo, como levado por um vento mudo.</p> + +<p>Por vezes, para respirar mais livremente, repuxava o nó da corda que lhe +enroscava o pescoço. E, quando passavam entre sebes onde errasse o aroma de +flores silvestres, o homem murmurava com infinito alívio e delícia:</p> + +<p>—Como é bom correr!</p> + +<p>D. Rui ia num assombro, num tormentoso cuidado. Bem compreendia agora que +era aquele um cadáver reanimado por Deus, para um estranho e encoberto serviço. +¿Mas para que lhe dava Deus tam medonho companheiro? ¿Para o proteger? ¿Para +impedir que D. Leonor, amada do céu pela sua piedade, caísse em culpa mortal? +¿E, para tam divina incumbência de tam alta mercê, já não tinha o Senhor anjos +no céu, que necessitasse empregar um supliciado?... Ah! como êle voltaria +alegremente a rédea para Segóvia, se não fôra a galante lealdade de cavaleiro, +o orgulho de nunca recuar, e a submissão às ordens de Deus, que sentia sôbre si +pesarem...</p> + +<p>Dum alto da estrada, de repente avistaram Cabril, as torres do convento +franciscano alvejando<span class="pn">{247}</span> ao luar, os casais adormecidos entre as hortas. +Muito silenciosamente, sem que um cão ladrasse detrás das cancelas ou de cima +dos muros, desceram a vélha ponte romana. Diante do Calvário, o enforcado caíu +de joelhos nas lages, ergueu os lívidos ossos das mãos, ficou longamente +rezando, entre longos suspiros. Depois ao entrar na azinhaga, bebeu muito +tempo, e consoladamente, de uma fonte que corria e cantava sob as frondes de um +salgueiro. Como a azinhaga era muito estreita, êle caminhava adiante do +cavaleiro, todo curvado, os braços cruzados fortemente sôbre o peito, sem um +rumor.</p> + +<p>A lua ia alta no céu. D. Rui considerava com amargura aquele disco, cheio e +lustroso, que espargia tanta claridade, e tam indiscreta, sôbre o seu segredo. +Ah! como se estragava a noite que devia ser divina! Uma enorme lua surdia de +entre os montes para tudo alumiar. Um enforcado descia da forca para o seguir e +tudo saber. Deus assim o ordenara. Mas que tristeza chegar à doce porta +docemente prometida, com tal intruso ao seu lado, sob aquele céu todo claro! +</p> + +<p>Bruscamente, o enforcado estacou, erguendo o braço, de onde a manga pendia +em farrapos. Era o fim da azinhaga que desembocava em caminho mais largo e mais +batido:—e diante dêles alvejava o comprido muro da quinta<span class="pn">{248}</span> do senhor de +Lara, tendo aí um mirante, com varandins de pedra, e todo revestido de hera. +</p> + +<p>—Senhor—murmurou o enforcado, segurando com respeito o estribo de D. +Rui—logo a poucos passos dêste mirante é a porta por onde deveis penetrar no +jardim. Convêm que aqui deixeis o cavalo, amarrado a uma árvore, se o tendes +por seguro e fiel. Que na emprêsa em que vamos, já é de mais o rumor dos nossos +pés!...</p> + +<p>Silenciosamente D. Rui apeou, prendeu o cavalo, que sabia fiel e seguro, ao +tronco dum álamo sêco.</p> + +<p>E tam submisso se tornara àquele companheiro imposto por Deus, que sem outro +reparo o foi seguindo rente do muro que o luar batia.</p> + +<p>Com vagarosa cautela, e na ponta dos pés nus, avançava agora o enforcado, +vigiando o alto do muro, sondando a negrura da sebe, parando a escutar rumores +que só para êle eram percebíveis—porque nunca D. Rui conhecera noite mais +fundamente adormecida e muda.</p> + +<p>E tal susto, em quem devia ser indiferente a perigos humanos, foi lentamente +enchendo tambêm o valoroso cavaleiro de tam viva desconfiança, que tirava o +punhal da baínha, enrodilhava a capa no braço, e marchava em<span class="pn">{249}</span> defesa, com +o olhar faiscando, como num caminho de emboscada e briga. Assim chegaram a uma +porta baixa, que o enforcado empurrou, e que se abriu sem gemer nos gonzos. +Penetraram numa rua ladeada de espessos teixos até a um tanque cheio de água, +onde boiavam fôlhas de nenúfares, e que toscos bancos de pedra circundavam, +cobertos pela rama de arbustos em flor.</p> + +<p>—Por ali—murmurou o enforcado, estendendo o braço mirrado.</p> + +<p>Era alêm do tanque, uma avenida que densas e vélhas árvores abobadavam e +escureciam. Por ela se meteram, como sombras na sombra, o enforcado adiante, D. +Rui seguindo muito subtilmente, sem roçar um ramo, mal pisando a areia. Um leve +fio de água sussurrava entre relvas. Pelos troncos subiam rosas trepadeiras, +que cheiravam docemente. O coração de D. Rui recomeçou a bater numa esperança +de amor.</p> + +<p>—Chut!—fez o enforcado.</p> + +<p>E D. Rui quási tropeçou no sinistro homem que estacava, com os braços +abertos como as traves de uma cancela. Diante dêles quatro degraus de pedra +subiam a um terraço, onde a claridade era larga e livre. Agachados, treparam os +degraus—e ao fundo dum jardim sem árvores, todo em canteiros de flores bem +recortados, orlados de buxo<span class="pn">{250}</span> curto, avistaram um lado da casa batido pela +lua cheia. Ao meio, entre as janelas de peitoril fechadas, um balcão de pedra, +com manjericões aos cantos, conservava as vidraças abertas largamente. O +quarto, dentro, apagado, era como um buraco de treva na claridade da fachada +que o luar banhava. E arrimada contra o balcão, estava uma escada com degraus +de corda.</p> + +<p>Então o enforcado empurrou D. Rui vivamente dos degraus para a escuridão da +avenida. E aí, com um modo urgente, dominando o cavaleiro, exclamou:</p> + +<p>—Senhor! Convêm agora que me deis o vosso sombreiro e a capa! Vós quedais +aqui na escuridão destas árvores. Eu vou trepar àquela escada e espreitar para +aquele quarto... E se fôr como desejais, aqui voltarei, e com Deus sêde +feliz...</p> + +<p>D. Rui recuou no horror de que tal criatura subisse a tal janela!</p> + +<p>E bateu o pé, gritou surdamente:</p> + +<p>—Não, por Deus!</p> + +<p>Mas a mão do enforcado, lívida na escuridão, bruscamente lhe arrancou o +sombreiro da cabeça, lhe puxou a capa do braço. E já se cobria, já se embuçava, +murmurando agora, numa súplica ansiosa:</p> + +<p>—Não mo negueis, senhor, que se vos fizer grande serviço, ganharei grande +mercê!<span class="pn">{251}</span></p> + +<p>E galgou os degraus:—estava no alumiado e largo terraço.</p> + +<p>D. Rui subiu, atontado, e espreitou. E—oh maravilha!—era êle, D. Rui, todo +êle, na figura e no modo, aquele homem que, por entre os canteiros e o buxo +curto, avançava, airoso e leve, com a mão na cintura, a face erguida +risonhamente para a janela, a longa pluma escarlate do chapéu balançando em +triunfo. O homem avançava no luar esplêndido. O quarto amoroso lá estava +esperando, aberto e negro. E D. Rui olhava, com olhos que faiscavam, tremendo +de pasmo e cólera. O homem chegara à escada: destraçou a capa, assentou o pé no +degrau de corda!—«Oh! lá sobe, o maldito!»—rugiu D. Rui. O enforcado subia. +Já a alta figura, que era dêle, D. Rui, estava a meio da escada, toda negra +contra a parede branca. Parou!... Não! não parara: subia, chegava,—já sôbre o +rebordo da varanda pousara o joelho cauteloso. D. Rui olhava, desesperadamente, +com os olhos, com a alma, com todo o seu ser... E eis que, de repente, do +quarto negro surge um negro vulto, uma furiosa voz brada:—«vilão, vilão!»—e +uma lâmina de adaga faisca, e cai, e outra vez se ergue, e rebrilha, e se +abate, e ainda refulge, e ainda se embebe!... Como um fardo, do alto da escada, +pesadamente, o enforcado cai sôbre a terra mole. Vidraças, portadas do<span class="pn">{252}</span> +balcão logo se fecham com fragor. E não houve mais senão o silêncio, a +serenidade macia, a lua muito alta e redonda no céu de verão.</p> + +<p>Num relance D. Rui compreendera a traição, arrancara a espada, recuando para +a escuridão da avenida—quando, oh milagre! correndo através do terraço, +aparece o enforcado, que lhe agarra a manga e lhe grita:</p> + +<p>—A cavalo, senhor, e abalar, que o encontro não era de amor, mas de morte! +</p> + +<p>Ambos descem arrebatadamente a avenida, costeiam o tanque sob o refúgio dos +arbustos em flor, metem pela rua estreita orlada de teixos, varam a porta—e um +momento param, ofegantes, na estrada, onde a lua, mais refulgente, mais cheia, +fazia como um puro dia.</p> + +<p>E então, só então, D. Rui descobriu que o enforcado conservava cravada no +peito, até aos copos, a adaga, cuja ponta lhe saía pelas costas, luzidia e +limpa!... Mas já o pavoroso homem o empurrava, o apressava:</p> + +<p>—A cavalo, senhor, e abalar, que ainda está sôbre nós a traição!</p> + +<p>Arrepiado, numa ânsia de findar aventura tam cheia de milagre e de horror, +D. Rui colheu as rédeas, cavalgou sôfregamente. E logo, em grande pressa, o +enforcado saltou tambêm para a garupa do cavalo fiel. Todo se arrepiou o bom +cavaleiro, ao sentir nas suas<span class="pn">{253}</span> costas o roçar daquele corpo morto, +dependurado de uma forca, atravessado por uma adaga. Com que desespêro galopou +então pela estrada infindável! Em carreira tam violenta o enforcado nem +oscilava, rígido sôbre a garupa, como um bronze num pedestal. E D. Rui a cada +momento sentia um frio mais regelado que lhe regelava os ombros, como se +levasse sôbre êles um saco cheio de gêlo. Ao passar no cruzeiro +murmurou:—«Senhor, valei-me!»—Para alêm do cruzeiro, de repente estremeceu +com o quimérico medo de que tam fúnebre companheiro para sempre o ficasse +acompanhando, e se tornasse seu destino galopar através do mundo, numa noite +eterna, levando um morto à garupa... E não se conteve, gritou para trás, no +vento da carreira que os vergastava:</p> + +<p>—¿Para onde quereis que vos leve?</p> + +<p>O enforcado, encostando tanto o corpo a D. Rui que o magoou com os copos da +adaga, segredou:</p> + +<p>—Senhor, convêm que me deixeis no Cêrro!</p> + +<p>Doce e infinito alívio para o bom cavaleiro—pois o Cêrro estava perto, e já +lhe avistava, na claridade desmaiada, os pilares e as traves negras... Em breve +estacou o cavalo que tremia, branqueado de espuma.</p> + +<p>Logo o enforcado, sem rumor, escorregou<span class="pn">{254}</span> da garupa, segurou, como bom +serviçal, o estribo de D. Rui. E com a caveira erguida, a língua negra mais +saída de entre os dentes brancos, murmurou em respeitosa súplica:</p> + +<p>—Senhor, fazei-me agora a grande mercê de me pendurar outra vez da minha +trave.</p> + +<p>D. Rui estremeceu de horror:</p> + +<p>—Por Deus! Que vos enforque, eu?...</p> + +<p>O homem suspirou, abrindo os braços compridos:</p> + +<p>—Senhor, por vontade de Deus é, e por vontade de Aquela que é mais cara a +Deus!</p> + +<p>Então, resignado, submisso aos mandados do Alto, D. Rui apeou—e começou a +seguir o homem, que subia para o Cêrro pensativamente, vergando o dorso, de +onde saía, espetada e luzidia, a ponta da adaga. Pararam ambos sob a trave +vazia. Em tôrno das outras traves pendiam as outras carcassas. O silêncio era +mais triste e fundo que os outros silêncios da terra. A água da lagôa +ennegrecera. A lua descia e desfalecia.</p> + +<p>D. Rui considerou a trave onde restava, curto no ar, o pedaço de corda que +êle cortara com a espada.</p> + +<p>—¿Como quereis que vos pendure?—exclamou.—Àquele pedaço de corda não +posso chegar com a mão; nem eu só basto para lá vos içar.<span class="pn">{255}</span></p> + +<p>—Senhor—respondeu o homem—aí a um canto deve haver um longo rôlo de +corda. Uma ponta dela ma atareis a este nó que trago no pescoço: a outra ponta +a arremessareis por cima da trave, e puxando depois, forte como sois, bem me +podereis reenforcar.</p> + +<p>Ambos curvados, com passos lentos, procuraram o rôlo de corda. E foi o +enforcado que o encontrou, o desenrolou... Então D. Rui descalçou as luvas. E +ensinado por êle (que tam bem o aprendera do carrasco) atou uma ponta da corda +ao laço que o homem conservava no pescoço, e arremessou fortemente a outra +ponta, que ondeou no ar, passou sôbre a trave, ficou pendurada rente ao chão. E +o rijo cavaleiro, fincando os pés, retezando os braços, puxou, içou o homem, +até êle se quedar, suspenso, negro no ar, como um enforcado natural entre os +outros enforcados.</p> + +<p>—Estais bem assim?</p> + +<p>Lenta e sumida, veio a voz do morto:</p> + +<p>—Senhor, estou como devo.</p> + +<p>Então D. Rui, para o fixar, enrolou a corda em voltas grossas ao pilar de +pedra. E tirando o sombreiro, limpando com as costas da mão o suor que o +alagava, contemplou o seu sinistro e miraculoso companheiro. Estava já rígido +como antes, com a face pendida sob as melenas caídas, os pés inteiriçados, todo +poído e carcomido como uma vélha carcassa. No peito<span class="pn">{256}</span> conservava a adaga +cravada. Por cima, dois corvos dormiam quietos.</p> + +<p>—¿E agora que mais quereis?—perguntou D. Rui, começando a calçar as luvas. +</p> + +<p>Sumidamente, do alto, o enforcado murmurou:</p> + +<p>—Senhor, muito vos rogo agora que, ao chegar a Segóvia, tudo conteis +fielmente a Nossa Senhora do Pilar, vossa madrinha, que dela espero grande +mercê para a minha alma, por êste serviço que, a seu mandado, vos fez o meu +corpo!</p> + +<p>Então, D. Rui de Cardenas tudo compreendeu—e, ajoelhando devotamente sôbre +o chão de dor e morte, rezou uma longa oração por aquele bom enforcado.</p> + +<p>Depois galopou para Segóvia. A manhã clareava quando êle transpôs a porta de +S. Mauros. No ar fino os sinos claros tocavam a matinas. E entrando na igreja +de Nossa Senhora do Pilar, ainda no desalinho da sua terrível jornada, D. Rui, +de rôjo ante o altar, narrou à sua Divina Madrinha a ruim tenção que o levara a +Cabril, o socorro que do céu recebera, e, com quentes lágrimas de +arrependimento e gratidão, lhe jurou que nunca mais poria desejo onde houvesse +pecado, nem no seu coração daria entrada a pensamento que viesse do Mundo e do +Mal.<span class="pn">{257}</span></p> + + +<h2><a name="SECTION000940">IV</a> </h2> + +<p>A essa hora, em Cabril, D. Alonso de Lara, com os olhos esbugalhados de +pasmo e terror, esquadrinhava todas as ruas e recantos e sombras do seu jardim. +</p> + +<p>Quando ao alvorecer, depois de escutar à porta da câmara onde nessa noite +encerrara D. Leonor, êle descera subtilmente ao jardim e não encontrara, +debaixo do balcão, rente à escada, como deliciosamente esperava, o corpo de D. +Rui de Cardenas, teve por certo que o homem odioso, ao tombar, ainda com um +resto débil de vida, se arrastara sangrando e arquejando, na tentativa de +alcançar o cavalo e abalar de Cabril... Mas, com aquela rija adaga que êle três +vezes lhe enterrara no peito, e que no peito lhe deixara, não se arrastaria o +vilão por muitas jardas, e nalgum canto devia jazer frio e inteiriçado. +Rebuscou então cada rua, cada sombra, cada maciço de arbustos. E—maravilhoso +caso!—não descobria o corpo, nem pègadas, nem terra que houvesse sido +remexida, nem sequer rasto de sangue sôbre a terra! E todavia, com mão certeira +e faminta de vingança, três vezes<span class="pn">{258}</span> êle lhe embebera a adaga no peito, e +no peito lha deixara!</p> + +<p>E era Rui de Cardenas o homem que êle matara—que muito bem o conhecera +logo, do fundo apagado do quarto de onde espreitava, quando êle, à claridade da +lua, veio através do terraço, confiado, ligeiro, com a mão na cintura, a face +risonhamente erguida e a pluma do sombreiro meneando em triunfo! ¿Como podia +ser cousa tam rara—um corpo mortal sobrevivendo a um ferro, que três vezes lhe +vara o coração e no coração lhe fica cravado? E a maior raridade era que nem no +chão, debaixo da varanda, onde corria ao longo do muro uma tira de goivos e +cecêns, deixara um vestígio aquele corpo forte, caíndo de tam alto pesadamente, +inertemente, como um fardo! Nem uma flor machucada—todas direitas, viçosas, +como novas, com gotas leves de orvalho! Imóvel de espanto, quási de terror, D. +Alonso de Lara ali parava, considerando o balcão, medindo a altura da escada, +olhando esgazeadamente os goivos direitos, frescos, sem uma haste ou fôlha +vergada. Depois recomeçava a correr loucamente o terraço, a avenida, a rua de +teixos, na esperança ainda duma pègada, dum galho partido, de uma nódoa de +sangue na areia fina.</p> + +<p>Nada! Todo o jardim oferecia um desusado arranjo e limpeza nova, como se +sôbre êle<span class="pn">{259}</span> nunca houvesse passado nem o vento que desfolha, nem o sol que +murcha.</p> + +<p>Então, ao entardecer, devorado pela incerteza e mistério, tomou um cavalo e, +sem escudeiro ou cavalariço, partiu para Segóvia. Curvada e escondidamente, +como um foragido, penetrou no seu palácio pela porta do pomar: e o seu primeiro +cuidado foi correr à galeria de abóbada, destrancar as portadas da janela e +espreitar ávidamente a casa de D. Rui de Cardenas. Todas as gelosias da vélha +morada do arcediago estavam escuras, abertas, respirando a fresquidão da +noite:—e à porta, sentado num banco de pedra, um môço de cavalariça afinava +preguiçosamente a bandurra.</p> + +<p>D. Alonso de Lara desceu à sua câmara, lívido, pensando que não houvera +certamente desgraça em casa onde todas as janelas se abrem para refrescar, e no +portão da rua os moços folgam. Então bateu as palmas, pediu furiosamente a +ceia. E, apenas sentado, ao tôpo da mesa, na sua alta séde de couro lavrado, +mandou chamar o intendente, a quem ofereceu logo com estranha familiaridade um +copo de vinho vélho. Emquanto o homem, de pé, bebia respeitosamente, D. Alonso, +metendo os dedos pelas barbas e forçando a sua sombria face a sorrir, +perguntava pelas novas e rumores de Segóvia. ¿Nesses dias da sua<span class="pn">{260}</span> estada +em Cabril, nenhum caso criara pela cidade espanto e murmuração?... O intendente +limpou os beiços, para afirmar que nada ocorrera em Segóvia de que andasse +murmuração, a não ser que a filha do senhor D. Gutierres, tam môça e tam rica +herdeira, tomara o véu no convento das Carmelitas Descalças. D. Alonso +insistia, fitando vorazmente o intendente. ¿E não se travara uma grande +briga?... ¿não se encontrara ferido, na estrada de Cabril, um cavaleiro môço, +muito falado?... O intendente encolhia os ombros: nada ouvira, pela cidade, de +brigas ou de cavaleiros feridos. Com um acêno desabrido D. Alonso despediu o +intendente.</p> + +<p>Apenas ceara, parcamente, logo voltou à galeria a espreitar as janelas de D. +Rui. Estavam agora cerradas; na última, da esquina, tremeluzia uma claridade. +Toda a noite D. Alonso velou, remoendo incansavelmente o mesmo espanto. ¿Como +pudera escapar aquele homem, com uma adaga atravessada no coração? Como +pudera?... Ao luzir da manhã, tomou uma capa, um largo sombreiro, desceu ao +adro, todo embuçado e encoberto, e ficou rondando por diante da casa de D. Rui. +Os sinos tocaram a matinas. Os mercadores, com os gibões mal abotoados, saíam a +erguer as portadas das lojas, a pendurar as taboletas. Já os hortelões, picando +os burros carregados de ceiras,<span class="pn">{261}</span> atiravam os pregões de hortaliça fresca, +e frades descalços, com o alforge aos ombros, pediam esmola, benziam as moças. +</p> + +<p>Beatas embiocadas, com grossos rosários negros, enfiavam gulosamente para a +igreja. Depois o pregoeiro da cidade, parando a um canto do adro, tocou uma +buzina, e numa voz tremenda começou a ler um edital.</p> + +<p>O senhor de Lara, parara junto do chafariz, pasmado, como embebido no cantar +das três bicas de água. De repente pensou que aquele edital, lido pelo +pregoeiro da cidade, se referia talvez a D. Rui, ao seu desaparecimento... +Correu à esquina do adro—mas já o homem enrolara o papel, se afastava +majestosamente, batendo nas lages com a sua vara branca. E, quando se voltava +para espiar de novo a casa, eis que os seus olhos atónitos encontram D. Rui, D. +Rui que êle matara—e que vinha caminhando para a igreja de Nossa Senhora, +ligeiro, airoso, a face risonha e erguida no fresco ar da manhã, de gibão +claro, de plumas claras, com uma das mãos pousando na cinta, a outra meneando +distraídamente um bastão com borlas de torçal de oiro!</p> + +<p>D. Alonso recolheu então a casa com passos arrastados e envelhecidos. No +alto da escadaria de pedra, achou o seu vélho capelão, que o viera saùdar, e +que, penetrando com êle na ante-câmara, depois de pedir, com reverência,<span class="pn">{262}</span> +novas da senhora D. Leonor, lhe contou logo dum prodigioso caso que causava +pela cidade grave murmuração e espanto. Na véspera, de tarde, indo o corregedor +visitar o cêrro das forcas, pois se acercava a festa dos Santos Apóstolos, +descobrira, com muito pasmo e muito escândalo, que um dos enforcados tinha uma +adaga cravada no peito! ¿Fôra gracejo de um pícaro sinistro? ¿Vingança que nem +a morte saciara?... E para maior prodígio ainda, o corpo fôra despendurado da +forca, arrastado em horta ou jardim (pois que prêsas aos vélhos farrapos se +encontraram fôlhas tenras) e depois novamente enforcado e com corda nova!... E +assim ia a turbulência dos tempos, que nem os mortos se furtavam a ultrajes! +</p> + +<p>D. Alonso escutava com as mãos a tremer, os pêlos arrepiados. E +imediatamente, numa ansiosa agitação, bradando, tropeçando contra as portas, +quis partir, e por seus olhos verificar a fúnebre profanação. Em duas mulas +ajaezadas à pressa, ambos abalaram para o Cêrro dos Enforcados, êle e o capelão +arrastado e aturdido. Numeroso povo de Segóvia se ajuntara já no Cêrro, +pasmando para o maravilhoso horror—o morto que fôra morto!... Todos se +arredaram ante o nobre senhor de Lara, que arremessando-se pelo cabeço acima, +estacara a olhar, esgazeado e lívido, para<span class="pn">{263}</span> o enforcado e para a adaga +que lhe varava o peito. Era a sua adaga:—fôra êle que matara o morto!</p> + +<p>Galopou espavoridamente para Cabril. E aí se encerrou com o seu segredo, +começando logo a amarelecer, a definhar, sempre arredado da senhora D. Leonor, +escondido pelas ruas sombrias do jardim, murmurando palavras ao vento, até que +na madrugada de S. João uma serva, que voltava da fonte com a sua bilha, o +encontrou morto, por baixo do balcão de pedra, todo estirado no chão, com os +dedos encravados no canteiro de goivos, onde parecia ter longamente esgravatado +a terra, a procurar...</p> + + +<h2><a name="SECTION000950">V</a> </h2> + +<p>Para fugir a tam lamentáveis memórias, a senhora D. Leonor, herdeira de +todos os bens da casa de Lara, recolheu ao seu palácio de Segóvia. Mas como +agora sabia que o senhor D. Rui de Cardenas escapara miraculosamente à +emboscada de Cabril, e como cada manhã, espreitando de entre as gelosias, meio +cerradas, o seguia, com olhos que se não fartavam e se humedeciam, quando êle +cruzava o adro para entrar na igreja, não quis ela, com receio das<span class="pn">{264}</span> +pressas e impaciências do seu coração, visitar a Senhora do Pilar emquanto +durasse o seu luto. Depois, uma manhã de domingo, quando, em vez de crepes +negros, se poude cobrir de sêdas roxas, desceu a escadaria do seu palácio, +pálida de uma emoção nova e divina, pisou as lages do adro, transpôs as portas +da igreja. D. Rui de Cardenas estava ajoelhado diante do altar, onde depusera o +seu ramo votivo de cravos amarelos e brancos. Ao rumor das sêdas finas, ergueu +os olhos com uma esperança muito pura e toda feita de graça celeste, como se um +anjo o chamasse. D. Leonor ajoelhou, com o peito a arfar, tam pálida e tam +feliz que a cera das tochas não era mais pálida, nem mais felizes as andorinhas +que batiam as asas livres pelas ogivas da vélha igreja.</p> + +<p>Ante êsse altar, e de joelhos nessas lages, foram eles casados pelo bispo de +Segóvia, D. Martinho, no outono do ano da Graça de 1475, sendo já reis de +Castela Isabel e Fernando, muito fortes e muito católicos, por quem Deus operou +grandes feitos sôbre a terra e sôbre o mar.<span class="pn">{265}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION0001000">JOSE MATIAS</a> </h1> + +<p>Linda tarde, meu amigo!... Estou esperando o entêrro do José Matias—do José +Matias de Albuquerque, sobrinho do Visconde de Garmilde... O meu amigo +certamente o conheceu—um rapaz airoso, louro como uma espiga, com um bigode +crespo de paladino sôbre uma bôca indecisa de contemplativo, déstro cavaleiro, +duma elegância sóbria e fina. E espírito curioso, muito afeiçoado às ideas +gerais, tam penetrante que compreendeu a minha <em>Defesa da Filosofia +Hegeliana</em>! Esta imagem do José Matias data de 1865: porque a derradeira +vez que o encontrei, numa tarde agreste de Janeiro, metido num portal da rua de +S. Bento, tiritava dentro duma quinzena côr de mel, roída nos cotovelos, e +cheirava abominavelmente a aguardente.<span class="pn">{266}</span></p> + +<p>Mas o meu amigo, numa ocasião que o José Matias parou em Coímbra, recolhendo +do Pôrto, ceou com êle, no Paço do Conde! Até o Craveiro, que preparava as +<em>Ironias e Dores de Satan</em>, para acirrar mais a briga entre a Escola +Purista e a Escola Satânica, recitou aquele seu soneto, de tam fúnebre +idealismo: <em>Na jaula do meu peito, o coração</em>... E ainda lembro o José +Matias, com uma grande gravata de setim preto tufada entre o colete de linho +branco, sem despegar os olhos das velas das serpentinas, sorrindo pálidamente +àquele coração que rugia na sua jaula... Era uma noite de Abril, de lua cheia. +Passeamos depois em bando, com guitarras, pela Ponte e pelo Choupal. O Januário +cantou ardentemente as endechas românticas do nosso tempo:</p> + + +<blockquote> + Ontem de tarde, ao sol posto, <br> + Contemplavas, silenciosa, <br> + A torrente caudalosa <br> + Que refervia a teus pés... </blockquote> + +<p>E o José Matias, encostado ao parapeito da Ponte, com a alma e os olhos +perdidos na lua!—¿Porque não acompanha o meu amigo êste môço interessante ao +Cemitério dos Prazeres? Eu tenho uma tipóia, de praça e com número, como convêm +a um Professor de filosofia... O quê! ¿Por causa das calças claras?<span class="pn">{267}</span> Oh! +meu caro amigo! De todas as materializações da simpatia, nenhuma mais +grosseiramente material do que a casimira preta. E o homem que nós vamos +enterrar era um grande espiritualista!</p> + +<p>Vem o caixão saíndo da Igreja... Apenas três carruagens para o acompanhar. +Mas realmente, meu caro amigo, o José Matias morreu há seis anos, no seu puro +brilho. Êsse, que aí levamos, meio decomposto, dentro de tábuas agaloadas de +amarelo, é um resto de bêbedo, sem história e sem nome, que o frio de Fevereiro +matou no vão dum portal.</p> + +<p>¿O sujeito de óculos de oiro, dentro do copé?... Não conheço, meu amigo. +Talvez um parente rico, dêsses que aparecem nos enterros, com o parentesco +correctamente coberto de fumo, quando o defunto já não importuna, nem +compromete. O homem obeso de carão amarelo, dentro da vitória, é o Alves +<em>Capão</em>, que tem um jornal onde desgraçadamente a Filosofia não abunda, +e que se chama a <em>Piada</em>. ¿Que relações o prendiam ao Matias?... Não +sei. Talvez se embebedassem nas mesmas tascas; talvez o José Matias últimamente +colaborasse na <em>Piada</em>; talvez debaixo daquela gordura e daquela +literatura, ambas tam sórdidas, se abrigue uma alma compassiva. Agora é a nossa +tipóia... ¿Quer que desça a vidraça? Um cigarro?... Eu trago<span class="pn">{268}</span> fósforos. +Pois êste José Matias foi um homem desconsolador para quem, como eu, na vida +ama a evolução lógica e pretende que a espiga nasça coerentemente do grão. Em +Coímbra sempre o consideramos como uma alma escandalosamente banal. Para êste +juizo concorria talvez a sua horrenda correcção. Nunca um rasgão brilhante na +batina! nunca uma poeira estouvada nos sapatos! nunca um pêlo rebelde do cabelo +ou do bigode fugindo daquele rígido alinho que nos desolava! Alêm disso, na +nossa ardente geração, êle foi o único intelectual que não rugiu com as +misérias da Polónia; que leu sem palidez ou pranto as <em>Contemplações</em>; +que permaneceu insensível ante a ferida de Garibaldi! E todavia, nesse José +Matias, nenhuma secura ou dureza ou egoismo ou desafabilidade! Pelo contrário! +Um suave camarada, sempre cordial, e mansamente risonho. Toda a sua inabalável +quietação parecia provir duma imensa superficialidade sentimental. E, nesse +tempo, não foi sem razão e propriedade que nós alcunhamos aquele môço tam +macio, tam louro e tam ligeiro, de <em>Matias-Coração-de-Esquilo</em>. Quando +se formou, como lhe morrera o pai, depois a mãe, delicada e linda senhora de +quem herdara cincoenta contos, partiu para Lisboa, alegrar a solidão dum tio +que o adorava, o general Visconde de Garmilde. O meu<span class="pn">{269}</span> amigo sem dúvida se +lembra dessa perfeita estampa de general clássico, sempre de bigodes +terríficamente encerados, as calças côr de flor de alecrim desesperadamente +esticadas pelas presilhas sôbre as botas coruscantes, e o chicote debaixo do +braço com a ponta a tremer, ávida de vergastar o Mundo! Guerreiro grotesco e +deliciosamente bom... O Garmilde morava então em Arroios, numa casa antiga de +azulejos, com um jardim, onde êle cultivava apaixonadamente canteiros soberbos +de dálias. Êsse jardim subia muito suavemente até ao muro coberto de hera que o +separava de outro jardim, o largo e belo jardim de rosas do Conselheiro Matos +Miranda, cuja casa, com um arejado terraço entre dois torreõsinhos amarelos, se +erguia no cimo do outeiro e se chamava a casa da «Parreira». O meu amigo +conhece (pelo menos de tradição, como se conhece Helena de Troia ou Inês de +Castro) a formosa Elisa Miranda, a Elisa da Parreira... Foi a sublime beleza +romântica de Lisboa, nos fins da Regeneração. Mas realmente Lisboa apenas a +entrevia pelos vidros da sua grande caleche, ou nalguma noite de iluminação do +Passeio Público entre a poeira e a turba, ou nos dois bailes da Assembleia do +Carmo de que o Matos Miranda era um director venerado. Por gôsto borralheiro de +provinciana, ou por pertencer<span class="pn">{270}</span> àquela burguesia séria que nesses tempos, +em Lisboa, ainda conservava os antigos hábitos severamente encerrados, ou por +imposição paternal do marido, já diabético e com sessenta anos—a Deusa +raramente emergia de Arroios e se mostrava aos mortais. Mas quem a viu, e com +facilidade constante, quási irremediavelmente, logo que se instalou em Lisboa, +foi o José Matias—porque, jazendo o palacete do general na falda da colina, +aos pés do jardim e da casa da Parreira, não podia a divina Elisa assomar a uma +janela, atravessar o terraço, colhêr uma rosa entre as ruas de buxo, sem ser +deliciosamente visível, tanto mais que nos dois jardins assoalhados nenhuma +árvore espalhava a cortina da sua rama densa. O meu amigo de-certo trauteou, +como todos trauteamos, aqueles versos gastos, mas imortais:</p> + + +<blockquote> + Era no outono, quando a imagem tua <br> + Á luz da lua... </blockquote> + +<p>Pois, como nessa estrofe, o pobre José Matias, ao regressar da praia da +Ericeira em outubro, no outono, avistou Elisa Miranda, uma noite no terraço, à +luz da lua! O meu amigo nunca contemplou aquele precioso tipo de encanto +Lamartiniano. Alta, esbelta, ondulosa, digna da comparação bíblica da +palmeira<span class="pn">{271}</span> ao vento. Cabelos negros, lustrosos e ricos, em bandós +ondeados. Uma carnação de camélia muito fresca. Olhos negros, líquidos, +quebrados, tristes, de longas pestanas... Ah! meu amigo, até eu, que já então +laboriosamente anotava Hegel, depois de a encontrar numa tarde de chuva +esperando a carruagem à porta do Seixas, a adorei durante três exaltados dias e +lhe rimei um soneto! Não sei se o José Matias lhe dedicou sonetos. Mas todos +nós, seus amigos, percebemos logo o forte, profundo, absoluto amor que +concebera, desde a noite de outono, à luz da lua, aquele coração, que em +Coímbra considerávamos de <em>esquilo</em>!</p> + +<p>Bem compreende que homem tam comedido e quieto não se exalou em suspiros +públicos. Já, porêm, no tempo de Aristóteles, se afirmava que amor e fumo não +se escondem; e do nosso cerrado José Matias o amor começou logo a escapar, como +o fumo leve através das fendas invisíveis duma casa fechada que arde +terrívelmente. Bem me recordo duma tarde que o visitei em Arroios, depois de +voltar do Alentejo. Era um domingo de Julho. Êle ia jantar com uma tia-avó, uma +D. Mafalda Noronha, que vivia em Bemfica, na quinta dos Cedros, onde +habitualmente jantavam tambêm aos domingos o Matos Miranda e a divina Elisa. +Creio mesmo que só nessa casa ela e o José Matias se encontravam,<span class="pn">{272}</span> +sobretudo com as facilidades que oferecem pensativas alamedas e retiros de +sombra. As janelas do quarto do José Matias abriam sôbre o seu jardim e sôbre o +jardim dos Mirandas: e, quando entrei, êle ainda se vestia, lentamente. Nunca +admirei, meu amigo, face humana aureolada por felicidade mais segura e serena! +Sorria iluminadamente quando me abraçou, com um sorriso que vinha das +profundidades da alma iluminada; sorria ainda deliciadamente emquanto eu lhe +contei todos os meus desgostos no Alentejo: sorriu depois estáticamente, +aludindo ao calor e enrolando um cigarro distraído; e sorriu sempre, enlevado, +a escolher na gaveta da cómoda, com escrúpulo religioso, uma gravata de sêda +branca. E a cada momento, irresistivelmente, por um hábito já tam inconsciente +como o pestanejar, os seus olhos risonhos, calmamente enternecidos, se voltavam +para as vidraças fechadas... De sorte que, acompanhando aquele raio ditoso, +logo descobri, no terraço da casa da Parreira, a divina Elisa, vestida de +claro, com um chapéu branco, passeando preguiçosamente, calçando pensativamente +as luvas, e espreitando tambêm as janelas do meu amigo, que um lampejo oblíquo +do sol ofuscava de manchas de oiro. O José Matias no entanto conversava, antes +murmurava, através do sorriso perene, coisas afáveis<span class="pn">{273}</span> e dispersas. Toda a +sua atenção se concentrara diante do espelho, no alfinete de coral e pérola +para prender a gravata, no colete branco que abotoava e ajustava com a devoção +com que um padre novo, na exaltação cândida da primeira missa, se reveste da +estola e do amito para se acercar do altar. Nunca eu vira um homem deitar, com +tam profundo êxtasi, água de Colónia no lenço! E depois de enfiar a +sobrecasaca, de lhe espetar uma soberba rosa, foi com inefável emoção, sem +reter um delicioso suspiro, que abriu largamente, solenemente, as vidraças! +<em>Introibo ad altarem Deæ!</em> Eu permaneci discretamente enterrado no sofá. +E, meu caro amigo, acredite! invejei aquele homem à janela, imóvel, hirto na +sua adoração sublime, com os olhos, e a alma, e todo o ser cravados no terraço, +na branca mulher calçando as luvas claras, e tam indiferente ao Mundo como se o +Mundo fôsse apenas o ladrilho que ela pisava e cobria com os pés!</p> + +<p>E êste enlêvo, meu amigo, durou dez anos, assim esplêndido, puro, distante e +imaterial! Não ria... De-certo se encontravam na quinta de D. Mafalda: de-certo +se escreviam, e transbordantemente, atirando as cartas por cima do muro que +separava os dois quintais: mas nunca, por cima das heras dêsse muro, procuraram +a rara delícia duma conversa roubada ou a delícia ainda mais perfeita dum +silêncio<span class="pn">{274}</span> escondido na sombra. E nunca trocaram um beijo... Não duvide! +Algum apêrto de mão fugidio e sôfrego, sob os arvoredos da D. Mafalda, foi o +limite exaltadamente extremo, que a vontade lhes marcou ao desejo. O meu amigo +não compreende como se mantiveram assim dois frágeis corpos, durante dez anos, +em tam terrível e mórbido renunciamento... Sim, de-certo lhes faltou, para se +perderem, uma hora de segurança ou uma portinha no muro. Depois a divina Elisa +vivia realmente num mosteiro, em que ferrolhos e grades eram formados pelos +hábitos rígidamente reclusos do Matos Miranda, diabético e tristonho. Mas, na +castidade dêste amor, entrou muita nobreza moral e finura superior de +sentimento. O amor espiritualiza o homem—e materializa a mulher. Essa +espiritualização era fácil ao José Matias, que (sem nós desconfiarmos) nascera +desvairadamente espiritualista; mas a humana Elisa encontrou tambêm um gôzo +delicado nessa ideal adoração de monge, que nem ousa roçar, com os dedos +trémulos e embrulhados no rozário, a túnica da Virgem sublimada. Êle, sim! êle +gozou nesse amor transcendentemente desmaterializado um encanto sobreumano. E +durante dez anos, como o Ruy-Blas do vélho Hugo, caminhou, vivo e deslumbrado, +dentro do seu sonho radiante, sonho em que<span class="pn">{275}</span> Elisa habitou realmente +dentro da sua alma, numa fusão tam absoluta que se tornou consubstancial com o +seu ser! ¿Acreditará o meu amigo que êle abandonou o charuto, mesmo passeando +solitariamente a cavalo pelos arredores de Lisboa, logo que descobrira na +quinta de D. Mafalda, uma tarde, que o fumo perturbava Elisa?</p> + +<p>E esta presença real da divina criatura no seu ser criou no José Matias +modos novos, estranhos, derivando da alucinação. Como o Visconde de Garmilde +jantava cedo, à hora vernácula do Portugal antigo, José Matias ceava, depois de +S. Carlos, naquele delicioso e saudoso Café Central, onde o linguado parecia +frito no céu, e o Colares no céu engarrafado. Pois nunca ceava sem serpentinas +profusamente acesas e a mesa juncada de flores. Porque? Porque Elisa tambêm ali +ceava invisível. Daí êsses silêncios banhados num sorriso religiosamente +atento... Porque? Porque a estava sempre escutando! Ainda me lembro dêle +arrancar do quarto três gravuras clássicas de Faunos ousados e Ninfas +rendidas... Elisa pairava idealmente naquele ambiente; e êle purificava as +paredes, que mandou forrar de sêdas claras. O amor arrasta ao luxo, sobretudo +amor de tam elegante idealismo: e o José Matias prodigalizou com esplendor o +luxo que ela partilhava. Decentemente não podia andar<span class="pn">{276}</span> com a imagem de +Elisa numa tipóia de praça, nem consentir que a augusta imagem roçasse pelas +cadeiras de palhinha da plateia de S. Carlos. Montou, portanto, carruagens dum +gôsto sóbrio e puro: e assinou um camarote na Ópera, onde instalou, para ela, +uma poltrona pontifical, de setim branco, bordado a êstrelas de oiro.</p> + +<p>Alêm disso como descobrira a generosidade de Elisa, logo se tornou congénere +e suntuosamente generoso: e ninguêm existiu então em Lisboa que espalhasse, com +facilidade mais risonha, notas de cem mil réis. Assim desbaratou, rápidamente, +sessenta contos com o amor daquela mulher a quem nunca déra uma flor!</p> + +<p>¿E, durante êsse tempo, o Matos Miranda? Meu amigo, o bom Matos Miranda não +desmanchava nem a perfeição, nem a quietação desta felicidade! ¿Tam absoluto +seria o espiritualismo do José Matias que apenas se interessasse pela alma de +Elisa, indiferente às submissões do seu corpo, invólucro inferior e mortal?... +Não sei. Verdade seja! aquele digno diabético, tam grave, sempre de cachené de +lã escura, com as suas suíças grisalhas, os seus ponderosos óculos de oiro, não +sugeria ideas inquietadoras de marido ardente, cujo ardor, fatalmente e +involuntariamente, se partilha e abrasa. Todavia nunca compreendi,<span class="pn">{277}</span> eu, +Filósofo, aquela consideração, quási carinhosa, do José Matias pelo homem que, +mesmo desinteressadamente, podia por direito, por costume, contemplar Elisa +desapertando as fitas da saia branca!... ¿Haveria ali reconhecimento por o +Miranda ter descoberto numa remota rua de Setúbal (onde José Matias nunca a +descortinaria) aquela divina mulher, e por a manter em confôrto, sólidamente +nutrida, finamente vestida, transportada em caleches de macias molas? ¿Ou +recebera o José Matias aquela costumada confidência—«não sou tua, nem +dêle»—que tanto consola do sacrifício porque tanto lisonjeia o egoismo?... Não +sei. Mas com certeza, êste seu magnânimo desdêm pela presença corporal do +Miranda no templo, onde habitava a sua Deusa, dava à felicidade de José Matias +uma unidade perfeita, a unidade dum cristal que por todos os lados rebrilha, +igualmente puro, sem arranhadura ou mancha. E esta felicidade, meu amigo, durou +dez anos... Que escandaloso luxo para um mortal!</p> + +<p>Mas um dia, a terra, para o José Matias, tremeu toda, num terramoto de +incomparável espanto. Em Janeiro ou Fevereiro de 1871, o Miranda, já debilitado +pela diabetes, morreu com uma pneumonia. Por estas mesmas ruas, numa +pachorrenta tipóia de praça, acompanhei o seu entêrro numeroso, rico, com +Ministros,<span class="pn">{278}</span> porque o Miranda pertencia às Instituições. E depois, +aproveitando a tipóia, visitei o José Matias em Arroios, não por curiosidade +perversa, nem para lhe levar felicitações indecentes, mas para que, naquele +lance deslumbrador, êle sentisse ao lado a fôrça moderadora da Filosofia... +Encontrei porêm com êle um amigo mais antigo e confidencial, aquele brilhante +Nicolau da Barca, que já conduzi tambêm a êste cemitério, onde agora jazem, +debaixo de lápides, todos aqueles camaradas com quem levantei castelos nas +nuvens... O Nicolau chegara da Velosa, da sua quinta de Santarêm, de madrugada, +reclamado por um telegrama do Matias. Quando entrei, um criado atarefado +arranjava duas malas enormes. O José Matias abalava nessa noite para o Pôrto. +Já envergara mesmo um fato de viagem, todo negro, com sapatos de couro amarelo: +e depois de me sacudir a mão, emquanto o Nicolau remexia um grog, continuou +vagando pelo quarto, calado, como embaçado, com um modo que não era emoção, nem +alegria púdicamente disfarçada, nem surprêsa do seu destino bruscamente +sublimado. Não! se o bom Darwin nos não ilude no seu livro da <em>Expressão das +Emoções</em>, o José Matias, nessa tarde, só sentia e só exprimia embaraço! Em +frente, na casa da Parreira, todas as janelas permaneciam<span class="pn">{279}</span> fechadas sob a +tristeza da tarde cinzenta. E todavia surpreendi o José Matias atirando para o +terraço, rápidamente, um olhar em que transparecia inquietação, ansiedade, +quasi terror! Como direi? Aquele é o olhar que se resvala para a jaula mal +segura onde se agita uma leôa! Num momento em que êle entrara na alcova, +murmurei ao Nicolau, por cima do grog:—«O Matias faz perfeitamente em ir para +o Pôrto...» Nicolau encolheu os ombros:—«Sim, pensou que era mais delicado... +Eu aprovei. Mas só durante os meses de luto pesado...» Às sete horas +acompanhamos o nosso amigo à estação de Santa Apolónia. Na volta, dentro do +copé que uma grande chuva batia, filosofamos. Eu sorria contente:—«Um ano de +luto, e depois muita felicidade e muitos filhos... É um poema acabado!»—O +Nicolau acudiu sério:—«E acabado numa deliciosa e suculenta prosa. A divina +Elisa fica com toda a sua divindade e a fortuna do Miranda, uns dez ou dôze +contos de renda... Pela primeira vez na nossa vida contemplamos, tu e eu, a +virtude recompensada!»</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Meu caro amigo! os meses cerimoniais de luto passaram, depois outros, e José +Matias não se arredou do Pôrto. Nesse Agosto o encontrei<span class="pn">{280}</span> eu instalado +fundamentalmente no Hotel Francfort, onde entretinha a melancolia dos dias +abrasados, fumando (porque voltara ao tabaco), lendo romances de Júlio Verne, e +bebendo cerveja gelada até que a tarde refrescava e êle se vestia, se +perfumava, se floria para jantar na Foz.</p> + +<p>E a-pesar de se acercar o bemdito remate do luto e da desesperada espera, +não notei no José Matias nem alvoroço elegantemente reprimido, nem revolta +contra a lentidão do tempo, vélho por vezes tam moroso e trôpego... Pelo +contrário! Ao sorriso de radiosa certeza, que nesses anos o iluminara com um +nimbo de beatitude, sucedera a seriedade carregada, toda em sombra e rugas, de +quem se debate numa dúvida irresolúvel, sempre presente, roedora e dolorosa. +¿Quer que lhe diga? Nesse verão, no Hotel Francfort, sempre me pareceu que o +José Matias, a cada instante da sua vida acordada, mesmo emborcando a fresca +cerveja, mesmo calçando as luvas ao entrar para a caleche que o levava à Foz, +angustiadamente perguntava à sua consciência:—«Que hei-de fazer? Que hei-de +fazer?»—E depois, uma manhã, ao almôço, realmente me assombrou, exclamando ao +abrir o jornal, com um assomo de sangue na face: «O quê! Já são 29 de Agosto? +Santo Deus... Já o fim de Agosto!...»<span class="pn">{281}</span></p> + +<p>Voltei a Lisboa, meu amigo. O inverno passou, muito sêco e muito azul. Eu +trabalhei nas minhas <em>Origens do Utilitarismo</em>. Um domingo, no Rocio, +quando já se vendiam cravos nas tabacarias, avistei dentro dum copé a divina +Elisa, com plumas roxas no chapéu. E nessa semana encontrei no meu <em>Diário +Ilustrado</em> a notícia curta, quási tímida, do casamento da Snr.ª D. Elisa +Miranda... ¿Com quem, meu amigo?—Com o conhecido propriétário, o Snr. +Francisco Tôrres Nogueira!...</p> + +<p>O meu amigo cerrou aí o punho, e bateu na coxa espantado. Eu tambêm cerrei +os punhos ambos, mas para os levantar ao Céu onde se julgam os feitos da Terra, +e clamar furiosamente, aos urros, contra a falsidade, a inconstância ondeante e +pérfida, toda a enganadora torpeza das mulheres, e daquela especial Elisa cheia +de infâmia entre as mulheres! Atraiçoar à pressa, atabalhoadamente, apenas +findara o luto negro, aquele nobre, puro, intelectual Matias! e o seu amor de +dez anos, submisso e sublime!...</p> + +<p>E depois de apontar os punhos para o Céu ainda os apertava na cabeça, +gritando:—«Mas porquê? porquê?»—Por amor? Durante anos ela amara +enlevadamente êste môço, e dum amor que se não desiludira nem se fartara, +porque permanecia suspenso, imaterial, insatisfeito. Por ambição? Tôrres +Nogueira era<span class="pn">{282}</span> um ocioso amável como José Matias, e possuia em vinhas +hipotecadas os mesmos cincoenta ou sessenta contos que o José Matias herdara +agora do tio Garmilde em terras excelentes e livres. Então porquê? Certamente +porque os grossos bigodes negros do Tôrres Nogueira apeteciam mais à sua carne, +do que o buço louro e pensativo do José Matias! Ah! bem ensinara S. João +Crisólogo que a mulher é um monturo de impureza, erguido à porta do Inferno! +</p> + +<p>Pois, meu amigo, quando eu assim rugia, encontro uma tarde na rua do Alecrim +o nosso Nicolau da Barca, que salta da tipóia, me empurra para um portal, +agarra excitadamente no meu pobre braço, e exclama engasgado:—«Já sabes? Foi o +José Matias que recusou! Ela escreveu, esteve no Pôrto, chorou... Êle nem +consentiu em a ver! Não quis casar, não quer casar!» Fiquei trespassado.—«E +então ela...»—«Despeitada, fortemente cercada pelo Tôrres, cansada da viuvice, +com aqueles bélos trinta anos em botão, que diabo! coitada, casou!» Eu ergui os +braços até a abóbada do pátio:—«¿Mas então êsse sublime amor do José Matias?». +O Nicolau, seu íntimo e confidente, jurou com irrecusável segurança:—«É o +mesmo sempre! Infinito, absoluto... Mas não quer casar!»—Ambos nos olhamos, e +depois ambos nos separamos, encolhendo<span class="pn">{283}</span> os ombros, com aquele assombro +resignado que convêm a espíritos prudentes perante o Incognoscível. Mas eu, +Filósofo, e portanto espírito imprudente, toda essa noite esfuraquei o acto do +José Matias com a ponta duma Psicologia que expressamente aguçara:—e já de +madrugada, estafado, concluí, como se conclui sempre em Filosofia, que me +encontrava diante duma Causa Primária, portanto impenetrável, onde se +quebraria, sem vantagem para êle, para mim, ou para o Mundo, a ponta do meu +Instrumento!</p> + +<p>Depois a divina Elisa casou e continuou habitando a Parreira com o seu +Tôrres Nogueira, no confôrto e sossêgo que já gozara com o seu Matos Miranda. +No meado do verão José Matias recolheu do Pôrto a Arroios, ao casarão do tio +Garmilde, onde reocupou os seus antigos quartos, com as varandas para o jardim, +já florido de dálias que ninguêm tratava. Veio Agosto, como sempre em Lisboa +silencioso e quente. Aos domingos José Matias jantava com D. Mafalda de +Noronha, em Bemfica, solitariamente—porque o Tôrres Nogueira não conhecia +aquela venerada senhora da Quinta dos Cedros. A divina Elisa, com vestidos +claros, passeava à tarde no jardim entre as roseiras. De sorte que a única +mudança, naquele doce canto de Arroios, parecia ser o Matos Miranda no +seu<span class="pn">{284}</span> belo jazigo dos Prazeres, todo de mármore—e o Tôrres Nogueira no +leito excelente de Elisa.</p> + +<p>Havia, porêm, uma tremenda e dolorosa mudança—a do José Matias! ¿Adivinha o +meu amigo como êsse desgraçado consumia os seus estéreis dias? Com os olhos, e +a memória, e a alma, e todo o ser cravados no terraço, nas janelas, nos jardins +da Parreira! Mas agora não era de vidraças largamente abertas, em aberto +êxtasi, com o sorriso de segura beatitude: era por trás das cortinas fechadas, +através duma escassa fenda, escondido, surripiando furtivamente os brancos +sulcos do vestido branco, com a face toda devastada pela angústia e pela +derrota. ¿E compreende porque sofria assim, êste pobre coração? Certamente +porque Elisa, desdenhada pelos seus braços fechados, correra logo, sem luta, +sem escrúpulos, para outros braços, mais acessíveis e prontos... Não, meu +amigo! E note agora a complicada subtileza desta paixão. O José Matias +permanecia devotamente crente de que Elisa, na profundidade da sua alma, nesse +sagrado fundo espiritual onde não entram as imposições das conveniências, nem +as decisões da razão pura, nem os ímpetos do orgulho, nem as emoções da +carne—o amava, a êle, únicamente a êle, e com um amor que não deperecera, não +se alterara, floria em todo<span class="pn">{285}</span> o seu viço, mesmo sem ser regado ou tratado, +como a antiga Rosa Mística! O que o torturava, meu amigo, o que lhe cavara +longas rugas em curtos meses, era que um homem, um macho, um bruto, se tivesse +apoderado daquela mulher que era sua! e que do modo mais santo e mais +socialmente puro, sob o patrocínio enternecido da Igreja e do Estado, +lambuzasse com os rijos bigodes negros, à farta, os divinos lábios que êle +nunca ousara roçar, na supersticiosa reverência e quási no terror da sua +divindade! Como lhe direi?... O sentimento dêste extraordinário Matias era o de +um monge, prostrado ante uma Imagem da Virgem, em transcendente enlêvo—quando +de repente um bestial sacrílego trepa ao altar, e ergue obscenamente a túnica +da Imagem! O meu amigo sorri... ¿E então o Matos Miranda? Ah! meu amigo! êsse +era diabético, e grave, e obeso, e já existia instalado na Parreira, com a sua +obesidade e a sua diabetes, quando êle conhecera Elisa e lhe dera para sempre +vida e coração. E o Tôrres Nogueira, êsse, rompera brutalmente através do seu +puríssimo amor, com os negros bigodes, e os carnudos braços, e o rijo arranque +dum antigo pegador de toiros, e empolgara aquela mulher—a quem revelara talvez +o que é um homem!</p> + +<p>Mas, com os demónios! essa mulher êle<span class="pn">{286}</span> a recusara, quando ela se lhe +oferecia, na frescura e na grandeza dum sentimento que nenhum desdêm ainda +ressequira ou abatera. Que quer?... É a espantosa tortuosidade espiritual dêste +Matias! Ao cabo duns meses êle <em>esquecera</em>, positivamente +<em>esquecera</em> essa recusa afrontosa, como se fôra um leve desencontro de +interêsses materiais ou sociais, passado há meses, no Norte, e a que a +distância e o tempo dissipavam a realidade e a amargura leve! E agora, aqui em +Lisboa, com as janelas de Elisa diante das suas janelas e as rosas dos dois +jardins unidos rescendendo na sombra, a dor presente, a dor real, era que êle +amara sublimemente uma mulher, e que a colocara entre as estrêlas para mais +pura adoração, e que um bruto moreno, de bigodes negros, arrancara essa mulher +de entre as estrêlas e a arremessara para a cama!</p> + +<p>¿Enredado caso, hein, meu amigo? Ah! muito filosofei sôbre êle, por dever de +filósofo! E concluí que o Matias era um doente, atacado de +hiper-espiritualismo, duma inflamação violenta e putrida do espiritualismo, que +receara apavoradamente as materialidades do casamento, as chinelas, a pele +pouco fresca ao acordar, um ventre enorme durante seis meses, os meninos +berrando no berço molhado... E agora rugia de furor e tormento, porque certo +materialão, ao lado, se<span class="pn">{287}</span> prontificara a aceitar Elisa em camisola de lã. +Um imbecil?... Não, meu amigo! um ultra-romântico, loucamente alheio às +realidades fortes da vida, que nunca suspeitou que chinelas e cueiros sujos de +meninos são coisas de superior beleza em casa em que entre o sol e haja amor. +</p> + +<p>¿E sabe o meu amigo o que exacerbou, mais furiosamente, êste tormento? É que +a pobre Elisa mostrava por êle o antigo amor! Que lhe parece? Infernal, +hein?... Pelo menos se não sentia o antigo amor intacto na sua essência, forte +como outrora e único, conservava pelo pobre Matias uma irresistível curiosidade +e repetia os gestos dêsse amor... Talvez fôsse apenas a fatalidade dos jardins +vizinhos! Não sei. Mas logo desde Setembro, quando o Tôrres Nogueira partiu +para as suas vinhas de Carcavelos a assistir à vindima, ela recomeçou da borda +do terraço, por sôbre as rosas e as dálias abertas, aquela doce remessa de +doces olhares com que durante dez anos extasiara o coração do José Matias.</p> + +<p>Não creio que se escrevessem por cima do muro do jardim, como sob o regímen +paternal do Matos Miranda... O novo senhor, o homem robusto da bigodeira negra, +impunha à divina Elisa, mesmo de longe, de entre as vinhas de Carcavelos, +retraímento e prudência. E acalmada por aquele marido, môço e<span class="pn">{288}</span> forte, +menos sentiria agora a necessidade de algum encontro discreto na sombra tépida +da noite, mesmo quando a sua elegância moral e o rígido idealismo do José +Matias consentissem em aproveitar uma escada contra o muro... De resto, Elisa +era fundamentalmente honesta; e conservava o respeito sagrado do seu corpo, por +o sentir tam belo e cuidadosamente feito por Deus—mais do que da sua alma. E +quem sabe?... Talvez a adorável mulher pertencesse à bela raça daquela marquesa +italiana, a Marquesa Júlia de Malfieri, que conservava dois amorosos ao seu +doce serviço, um poeta para as delicadezas românticas e um cocheiro para as +necessidades grosseiras.</p> + +<p>Emfim, meu amigo, não psicologuemos mais sôbre esta viva, atrás do morto que +morreu por ela! O facto foi que Elisa e o seu amigo insensivelmente recaíram na +vélha união ideal através dos jardins em flor. E em Outubro, como o Tôrres +Nogueira continuava a vindimar em Carcavelos, o José Matias, para contemplar o +terraço da Parreira, já abria de novo as vidraças, larga e estáticamente!</p> + +<p>Parece que um tam estreme espiritualista, reconquistando a idealidade do +antigo amor, devia reentrar tambêm na antiga felicidade perfeita. Êle reinava +na alma imortal de Elisa:—¿que importava que outro se ocupasse do seu corpo +mortal? Mas não! o pobre môço<span class="pn">{289}</span> sofria, angustiadamente. E, para sacudir a +pungência dêstes tormentos, findou, êle tam sereno, duma tam doce harmonia de +modos, por se tornar um agitado. Ah! meu amigo, que redemoínho e estrépito de +vida! Desesperadamente, durante um ano, remexeu, aturdiu, escandalizou Lisboa! +São dêsse tempo algumas das suas extravagâncias lendárias... ¿Conhece a da +ceia?... Uma ceia oferecida a trinta ou quarenta mulheres das mais torpes e das +mais sujas, apanhadas pelas negras vielas do Bairro-Alto e da Mouraria, que +depois mandou montar em burros, e gravemente, melancólicamente, posto na +frente, sôbre um grande cavalo branco, com um imenso chicote, conduziu aos +altos da Graça, para saudar a aparição do sol!</p> + +<p>Mas todo êste alarido não lhe dissipou a dor—e foi então que, nesse +inverno, começou a jogar e a beber! Todo o dia se encerrava em casa (certamente +por trás das vidraças, agora que Tôrres Nogueira regressara das vinhas) com +olhos e alma cravados no terraço fatal; depois à noite, quando as janelas de +Elisa se apagavam, saía numa tipóia, sempre a mesma, a tipóia do <em>Gago</em>, +corria à roleta do Bravo, depois ao club do «Cavalheiro», onde jogava +frenéticamente até a tardia hora de cear, num gabinete de restaurante, com +molhos de velas acesas, e o Colares, e o Champanhe,<span class="pn">{290}</span> e o Conhaque +correndo em jorros desesperados.</p> + +<p>E esta vida, espicaçada pelas Fúrias, durou anos, sete anos! Todas as terras +que lhe deixara o tio Garmilde se foram, largamente jogadas e bebidas: e só lhe +restava o casarão de Arroios e o dinheiro apressado porque o hipotecara. Mas, +súbitamente, desapareceu de todos os antros do vinho e de jôgo. E soubemos que +o Tôrres Nogueira estava morrendo com uma anasarca!</p> + +<p>Por êsse tempo, e por causa dum negócio do Nicolau da Barca que me +telegrafara ansiosamente da sua quinta de Santarêm (negócio embrulhado, duma +letra) procurei o José Matias em Arroios, às dez horas, numa noite quente de +Abril. O criado, emquanto me conduzia pelo corredor mal alumiado, já +desadornado das ricas arcas e talhas da Índia do vélho Garmilde, confessou que +S. Ex.ª não acabara de jantar... E ainda me lembro, com um arrepio, da +impressão desolada que me deu o desgraçado! Era no quarto que abria sôbre os +dois jardins. Diante duma janela, que as cortinas de damasco cerravam, a mesa +resplandecia, com duas serpentinas, um cêsto de rosas brancas, e algumas das +nobres pratas do Garmilde: e ao lado, todo estendido numa poltrona, com o +colete branco desabotoado, a face lívida descaída sôbre o peito, um copo vazio +na mão<span class="pn">{291}</span> inerte, o José Matias parecia adormecido ou morto.</p> + +<p>Quando lhe toquei no ombro, ergueu num sobressalto a cabeça, toda +despenteada:—«¿Que horas são?»—Apenas lhe gritei, num gesto alegre, para o +despertar, que era tarde, que eram dez, encheu precipitadamente o copo, da +garrafa mais chegada, de vinho branco, e bebeu lentamente, com a mão a tremer, +a tremer... Depois, arredando os cabelos da testa húmida:—«¿Então que há de +novo?»—Esgazeado, sem compreender, escutou, como num sonho, o recado que lhe +mandava o Nicolau. Por fim, com um suspiro, remexeu uma garrafa de Champanhe +dentro do balde em que ela gelava, encheu outro copo, murmurando:—«Um calor... +Uma sêde!...» Mas não bebeu: arrancou o corpo pesado à poltrona de vêrga, e +forçou os passos mal firmes para a janela, a que abriu violentamente as +cortinas, depois a vidraça... E ficou hirto, como colhido pelo silêncio e +escuro sossêgo da noite estrelada. Eu espreitei, meu amigo! Na casa da Parreira +duas janelas brilhavam, fortemente alumiadas, abertas à aragem. E essa +claridade viva envolvia uma figura branca, nas longas pregas de um roupão +branco, parada à beira do terraço, como esquecida numa contemplação. Era Elisa, +meu amigo! Por trás, no fundo do quarto claro, o marido certamente arquejava, +na opressão<span class="pn">{292}</span> da anasarca. Ela, imóvel, repousava, mandando um doce olhar, +talvez um sorriso, ao seu doce amigo. O miserável, fascinado, sem respirar, +sorvia o encanto daquela visão bemfazeja. E entre êles rescendiam, na moleza da +noite, todas as flores dos dois jardins... Súbitamente Elisa recolheu, à +pressa, chamada por algum gemido ou impaciência do pobre Tôrres. E as janelas +logo se fecharam, toda a luz e vida se sumiram na casa da Parreira.</p> + +<p>Então José Matias, com um soluço despedaçado, de transbordante tormento, +cambaleou, tam ansiadamente se agarrou à cortina que a rasgou, e tombou +desamparado nos braços que lhe estendi, e em que o arrastei para a cadeira, +pesadamente, como a um morto ou a um bêbado. Mas, volvido um momento, com +espanto meu, o extraordinário homem descerra os olhos, sorri num lento e inerte +sorriso, murmura quási serenamente:—«É o calor... Está um calor! ¿Você não +quer tomar chá?»</p> + +<p>Recusei e abalei—emquanto êle, indiferente à minha fuga, estendido na +poltrona, acendia trémulamente um imenso charuto.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Santo Deus! já estamos em Santa Isabel! Como êstes lagóias vão arrastando +depressa o pobre José Matias para o pó e para o verme<span class="pn">{293}</span> final! Pois, meu +amigo, depois dessa curiosa noite, o Tôrres Nogueira morreu. A divina Elisa, +durante o novo luto, recolheu à quinta duma cunhada tambêm viuva, à «Côrte +Moreira», ao pé de Beja. E o José Matias inteiramente se sumiu, se evaporou, +sem que me revoassem novas dêle, mesmo incertas—tanto mais que o íntimo por +quem as conheceria, o nosso brilhante Nicolau da Barca, partira para a ilha da +Madeira, com o seu derradeiro pedaço de pulmão, sem esperança, por dever +clássico, quási dever social, de tísico.</p> + +<p>Todo êsse ano, tambêm, andei enfronhado no meu <em>Ensaio dos Fenómenos +afectivos</em>. Depois, um dia, no comêço do verão, descendo pela rua de S. +Bento, com os olhos levantados, a procurar o n.º 214, onde se catalogava a +livraria do Morgado de Azemel, ¿quem avisto eu à varanda duma casa nova e de +esquina? A divina Elisa, metendo fôlhas de alface na gaiola de um canário! E +bela, meu amigo! mais cheia e mais harmoniosa, toda madura, e suculenta, e +desejável, a-pesar de ter festejado em Beja os seus quarenta e dois anos! Mas +aquela mulher era da grande raça de Helena que, quarenta anos tambêm depois do +cêrco de Troia, ainda deslumbrava os homens mortais e os Deuses imortais. E, +curioso acaso! logo nessa tarde, pelo Sêco, o João Sêco da Biblioteca, que +catalogava a livraria do Morgado,<span class="pn">{294}</span> conheci a nova história desta Helena +admirável.</p> + +<p>A divina Elisa tinha agora um amante... E únicamente por não poder, com a +sua costumada honestidade, possuir um legítimo e terceiro marido. O ditoso môço +que ela adorava era com efeito casado... Casado em Beja com uma espanhola que, +ao cabo dum ano dêsse casamento e de outros requebros, partira para Sevilha, +passar devotamente a Semana Santa, e lá adormecera nos braços dum riquíssimo +criador de gado. O marido, pacato apontador de Obras-Públicas, continuara em +Beja, onde tambêm vagamente ensinava um vago desenho... Ora uma das suas +discípulas era a filha da senhora da «Côrte Moreira»: e aí na quinta, emquanto +êle guiava o esfuminho da menina, Elisa o conheceu e o amou, com uma paixão tam +urgente que o arrancou precipitadamente às Obras Públicas, e o arrastou a +Lisboa, cidade mais propícia do que Beja a uma felicidade escandalosa, e que se +esconde. O João Sêco é de Beja, onde passara o Natal; conhecia perfeitamente o +apontador, as senhoras da «Côrte Moreira»; e compreendeu o romance, quando das +janelas dêsse n.º 214, onde catalogava a Livraria do Azemel, reconheceu Elisa +na varanda da esquina, e o apontador enfiando regaladamente o portão, bem +vestido, bem calçado, de luvas claras, com<span class="pn">{295}</span> aparência de ser +infinitamente mais ditoso naquelas obras particulares do que nas Públicas.</p> + +<p>E dessa mesma janela do 214 o conheci eu tambêm, o apontador! Belo môço, +sólido, branco, de barba escura, em excelentes condições de quantidade (e +talvez mesmo de qualidade) para encher um coração viuvo, e portanto «vazio», +como diz a Bíblia. Eu freqùentava êsse n.º 214, interessado no catálogo da +Livraria, porque o Morgado de Azemel possuia, pelo irónico acaso das heranças, +uma colecção incomparável dos Filósofos do século XVIII. E passadas semanas, +saíndo dêsses livros uma noite (o João Sêco trabalhava de noite) e parando +adiante, à beira dum portal aberto, para acender o charuto, enxergo à luz +tremente do fósforo, metido na sombra, o José Matias! Mas que José Matias, meu +caro amigo! Para o considerar mais detidamente, raspei outro fósforo. Pobre +José Matias! Deixara crescer a barba, uma barba rara, indecisa, suja, mole como +cotão amarelado: deixara crescer o cabelo, que lhe surdia em farripas sêcas de +sob um vélho chapéu côco: mas todo êle, no resto, parecia diminuido, minguado, +dentro duma quinzena de mescla enxovalhada, e dumas calças pretas, de grandes +bolsos, onde escondia as mãos com o gesto tradicional, tam infinitamente +triste, da miséria ociosa. Na<span class="pn">{296}</span> espantada lástima que me tomou, apenas +balbuciei:—«Ora esta! Você! ¿Então que é feito?»—E êle, com a sua mansidão +polida, mas secamente, para se desembaraçar, e numa voz que a aguardente +enrouquecera: «Por aqui, à espera de um sujeito».—Não insisti, segui. Depois, +adiante, parando, verifiquei o que num relance adivinhara—que o portal negro +ficava em frente ao prédio novo e às varandas de Elisa!</p> + +<p>Pois, meu amigo, três anos viveu o José Matias encafuado naquele portal!</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Era um dêsses pátios da Lisboa antiga, sem porteiro, sempre escancarados, +sempre sujos, cavernas laterais da rua, de onde ninguêm escorraça os escondidos +da miséria ou da dor. Ao lado havia uma taberna. Infalivelmente, ao anoitecer, +o José Matias descia a rua de S. Bento, colado aos muros, e, como uma sombra, +mergulhava na sombra do portal. A essa hora já as janelas de Elisa luziam, de +inverno embaciadas pela névoa fina, de verão ainda abertas e arejando no +repouso e na calma. E para elas, imóvel, com as mãos nas algibeiras, o José +Matias se quedava em contemplação. Cada meia-hora, subtilmente, enfiava para a +taberna. Copo de vinho, copo de aguardente;—e,<span class="pn">{297}</span> de mansinho, recolhia à +negrura do portal, ao seu êxtasi. Quando as janelas de Elisa se apagavam, ainda +através da longa noite, mesmo das negras noites de inverno—encolhido, +transido, a bater as solas rôtas no lagedo, ou sentado ao fundo, nos degraus da +escada—ficava esmagando os olhos turvos na fachada negra daquela casa, onde a +sabia dormindo com o outro!</p> + +<p>Ao princípio, para fumar um cigarro apressado, trepava até ao patamar +deserto, a esconder o lume que o denunciaria no seu esconderijo. Mas depois, +meu amigo, fumava incessantemente, colado à ombreira, puxando o cigarro com +ânsia, para que a ponta rebrilhasse, o alumiasse! ¿E percebe porquê, meu +amigo?... Porque Elisa já descobrira que, dentro daquele portal, a adorar +submissamente as suas janelas, com a alma de outrora, estava o seu pobre José +Matias!...</p> + +<p>¿E acreditará o meu amigo que então, todas as noites, ou por trás da vidraça +ou encostada à varanda (com o apontador dentro, estirado no sofá, já de +chinelas, lendo o <em>Jornal da Noite</em>) ela se demorava a fitar o portal, +muito quieta, sem outro gesto, naquele antigo e mudo olhar do terraço por sôbre +as rosas e as dálias? O José Matias percebera, deslumbrado. E agora avivava +desesperadamente o lume, como um farol, para guiar<span class="pn">{298}</span> na escuridão os +amados olhos dela, e lhe mostrar que ali estava, transido, todo seu, e fiel! +</p> + +<p>De dia nunca êle passava na rua de S. Bento. ¿Como ousaria, com o jaquetão +rôto nos cotovelos e as botas cambadas? Porque aquele môço de elegância sóbria +e fina tombara na miséria do andrajo. ¿Onde arranjava mesmo, cada dia, os três +patacos para o vinho e para a posta de bacalhau nas tabernas? Não sei... Mas +louvemos a divina Elisa, meu amigo! Muito delicadamente, por caminhos arredados +e astutos, ela, rica, procurara estabelecer uma pensão ao José Matias, mendigo. +¿Situação picante, hein? A grata senhora dando duas mesadas aos seus dois +homens—o amante do corpo e o amante da alma! Êle, porêm, adivinhou de onde +procedia a pavorosa esmola—e recusou, sem revolta, nem alarido de orgulho, até +com enternecimento, até com lágrimas nas pálpebras que a aguardente inflamara! +</p> + +<p>Mas só com noite muito cerrada ousava descer à rua de S. Bento, e enfiar +para o seu portal. ¿E adivinha o meu amigo como êle gastava o dia? A espreitar, +a seguir, a farejar o apontador de Obras-Públicas! Sim, meu amigo! uma +curiosidade insaciada, frenética, atroz, por aquele homem, que Elisa +escolhera!... Os dois anteriores, o Miranda e o Nogueira, tinham entrado na +alcova de Elisa, públicamente,<span class="pn">{299}</span> pela porta da Igreja, e para outros fins +humanos alêm do amor—para possuir um lar, talvez filhos, estabilidade e +quietação na vida. Mas êste era meramente o amante, que ela nomeara e mantinha +só para ser amada: e nessa união não aparecia outro motivo racional senão que +os dois corpos se unissem. Não se fartava, portanto, de o estudar, na figura, +na roupa, nos modos, ansioso por saber bem como era êsse homem, que, para se +completar, a sua Elisa preferira entre a turba dos homens. Por decência, o +apontador morava na outra extremidade da rua de S. Bento, diante do Mercado. E +essa parte da rua, onde o não surpreenderiam, na sua pelintrice, os olhos de +Elisa, era o paradeiro do José Matias, logo de manhã, para mirar, farejar o +homem, quando êle recolhia da casa de Elisa, ainda quente do calor da sua +alcôva. Depois não o largava, cautelosamente, como um larápio, rastejando de +longe no seu rasto. E eu suspeito que o seguia assim, menos por curiosidade +perversa, do que para verificar se, através das tentações de Lisboa, terríveis +para um apontador de Beja, o homem conservava o corpo fiel a Elisa. Em serviço +da felicidade dela—fiscalizava o amante da mulher que amava!</p> + +<p>Requinte furioso de espiritualismo e devoção, meu amigo! A alma de Elisa era +a sua e recebia perenemente a adoração perene: e agora<span class="pn">{300}</span> queria que o +corpo de Elisa não fôsse menos adorado, nem menos lealmente, por aquele a quem +ela entregara o corpo! Mas o apontador era fácilmente fiel a uma mulher tam +formosa, tam rica, de meias de sêda, de brilhantes nas orelhas, que o +deslumbrava. ¿E quem sabe, meu amigo? talvez esta fidelidade, preito carnal à +divindade de Elisa, fôsse para o José Matias a derradeira felicidade que lhe +concedeu a vida. Assim me persuado, porque no inverno passado, encontrei o +apontador, numa manhã de chuva, comprando camélias a um florista da rua do +Oiro; e defronte, a uma esquina, o José Matias, escaveirado, esfrangalhado, +cocava o homem, com carinho, quási com gratidão! E talvez nessa noite, no +portal, tiritando, batendo as solas encharcadas, com os olhos enternecidos nas +escuras vidraças, pensasse:—«Coitadinha, pobre Elisa! Ficou bem contente por +êle lhe trazer as flores!»</p> + +<p>Isto durou três anos.</p> + +<p>Emfim, meu amigo, antes de ontem, o João Sêco apareceu em minha casa, de +tarde, esbaforido:—«Lá levaram o José Matias numa maca, para o hospital, com +uma congestão nos pulmões!»</p> + +<p>Parece que o encontraram, de madrugada, estirado no ladrilho, todo encolhido +no jaquetão delgado, arquejando, com a face coberta<span class="pn">{301}</span> de morte, voltada +para as varandas de Elisa. Corri ao hospital. Morrera... Subi, com o médico de +serviço, à enfermaria. Levantei o lençol que o cobria. Na abertura da camisa +suja e rôta, prêso ao pescoço por um cordão, conservava um saquinho de sêda, +poído e sujo tambêm. De-certo continha flor, ou cabelos, ou pedaço de renda de +Elisa, do tempo do primeiro encanto e das tardes de Bemfica... Perguntei ao +médico, que o conhecia e o lastimava, se êle sofrera.—«Não! Teve um momento +comatoso, depois arregalou os olhos, exclamou <em>Oh!</em> com grande espanto, +e ficou.»</p> + +<p>¿Era o grito da alma, no assombro e horror de morrer tambêm? ¿Ou era a alma +triunfando por se reconhecer emfim imortal e livre? O meu amigo não sabe; nem o +soube o divino Platão; nem o saberá o derradeiro filósofo na derradeira tarde +do mundo.</p> + +<p>Chegamos ao cemitério. Creio que devemos pegar às borlas do caixão... Na +verdade, é bem singular êste Alves <em>Capão</em>, seguindo tam sentidamente o +nosso pobre espiritualista... Mas, Santo Deus, olhe! Alêm, à espera, à porta da +Igreja, aquele sujeito compenetrado, de casaca, com paletó alvadio... É o +apontador de Obras Públicas! E trás um grosso ramo de violetas... Elisa mandou +o seu amante carnal acompanhar à cova e cobrir<span class="pn">{302}</span> de flores o seu amante +espiritual! Mas, nunca ela pediria ao José Matias para espalhar violetas sôbre +o cadaver do apontador! É que sempre a Matéria, mesmo sem o compreender, sem +dêle tirar a sua felicidade, adorará o Espírito, e sempre a si própria, através +dos gozos que de si recebe, se tratará com brutalidade e desdêm! Grande +consôlo, meu amigo, êste apontador com o seu ramo, para um Metafísico que, como +eu, comentou Spínosa e Mallebranche, reabilitou Fichte, e provou +suficientemente a ilusão da sensação! Só por isto valeu a pena trazer à sua +cova êste inexplicado José Matias, que era talvez muito mais que um homem—ou +talvez ainda menos que um homem...—Com efeito, está frio... Mas que linda +tarde!<span class="pn">{303}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION0001100">A PERFEIÇÃO</a> </h1> + + +<h2><a name="SECTION0001110">I</a> </h2> + +<p>Sentado numa rocha, na ilha de Ogigya, com a barba enterrada entre as mãos, +de onde desaparecera a aspereza calosa e tisnada das armas e dos remos, +Ulisses, o mais subtil dos homens, considerava, numa escura e pesada tristeza, +o mar muito azul que mansa e harmoniosamente rolava sôbre a areia muito branca. +Uma túnica bordada de flores escarlates cobria, em pregas moles, o seu corpo +poderoso, que engordara. Nas correias das sandálias, que lhe calçavam os pés +amaciados e perfumados de essências, reluziam esmeraldas do Egipto. E o seu +bastão era um maravilhoso galho de coral, rematado em pinha de pérolas, como os +que usam os Deuses marinhos.<span class="pn">{304}</span></p> + +<p>A divina Ilha, com os seus rochedos de alabastro, os bosques de cedros e +tuias odoríferas, as messes eternas doirando os vales, a frescura das roseiras +revestindo os outeiros suaves, resplandecia, adormecida na moleza da sésta, +toda envolta em mar resplandecente. Nem um sôpro dos Zéfiros curiosos, que +brincam e correm por sôbre o Arquipélago, desmanchava a serenidade do luminoso +ar, mais doce que o vinho mais doce, todo repassado pelo fino aroma dos prados +de violetas. No silêncio, embebido de calor afável, eram duma harmonia mais +embaladora os murmúrios de arroios e fontes, o arrulhar das pombas voando dos +ciprestes aos plátanos, e o lento rolar e quebrar da onda mansa sôbre a areia +macia. E nesta inefável paz e beleza imortal, o subtil Ulisses, com os olhos +perdidos nas águas lustrosas, amargamente gemia, revolvendo o queixume do seu +coração...</p> + +<p>Sete anos, sete imensos anos, iam passados desde que o raio fulgente de +Júpiter fendera a sua nave de alta prôa vermelha, e êle, agarrado ao mastro +partido, trambulhara na braveza mugidora das espumas sombrias, durante nove +dias, durante nove noites, até que boiara em águas mais calmas, e tocara as +areias daquela ilha onde Calipso, a Deusa radiosa, o recolhera e o amara! ¿E +durante êsses imensos anos, como se arrastara a sua<span class="pn">{305}</span> vida, a sua grande e +forte vida, que, depois da partida para os muros fatais de Troia, abandonando +entre lágrimas inumeráveis a sua Penélope de olhos claros, o seu pequenino +Telêmaco enfaixado no colo da ama, andara sempre tam agitada por perigos, e +guerras, e astúcias, e tormentas, e rumos perdidos?... Ah! ditosos os Reis +mortos, com formosas feridas no branco peito, diante das portas de Troia! +Felizes os seus companheiros tragados pela onda amarga! Feliz êle se as lanças +troianas o trespassassem nessa tarde de grande vento e poeira, quando, junto à +<em>Faia</em>, defendia dos ultrajes, com a espada sonora, o corpo morto de +Aquiles! Mas não! vivera!—E agora, cada manhã, ao saír sem alegria do +trabalhoso leito de Calipso, as Ninfas, servas da Deusa, o banhavam numa água +muito pura, o perfumavam de lânguidas essências, o cobriam com uma túnica +sempre nova, ora bordada a sêdas finas, ora bordada de oiro pálido! No entanto, +sôbre a mesa lustrosa, erguida à porta da gruta, na sombra das ramadas, junto +ao sussurro dormente dum arroio diamantino, os açafates e as travessas lavradas +transbordavam de bolos, de frutas, de tenras carnes fumegando, de peixes +scintilando como tramas de prata. A intendenta venerável gelava os vinhos doces +nas crateras de bronze, coroadas de rosas. E êle, sentado num escabelo, +estendia<span class="pn">{306}</span> as mãos para as iguarias perfeitas, emquanto ao lado, sôbre um +trono de marfim, Calipso, espargindo através da túnica nevada a claridade e o +aroma do seu corpo imortal, sublimemente serena, com um sorriso taciturno, sem +tocar nas comidas humanas, debicava a ambrosia, bebia em goles delgados o +néctar transparente e rubro. Depois, tomando aquele bastão de Príncipe-de-Povos +com que Calipso o presenteara, repercorria sem curiosidade os sabidos caminho +da Ilha, tam lisos e tratados que nunca as suas sandálias reluzentes se +maculavam de pó, tam penetrados pela imortalidade da Deusa que jàmais neles +encontrara fôlha sêca, nem flor menos fresca pendendo na haste. Sôbre uma rocha +se sentava então, contemplando aquele mar que tambêm banhava Ítaca, lá tam +bravio, aqui tam sereno, e pensava, e gemia, até que as águas e os caminhos se +cobriam de sombra, e êle recolhia à gruta para dormir, sem desejo, com a Deusa +que o desejava!... ¿E durante êstes imensos anos, que destino envolvera a sua +Ítaca, a áspera ilha de sombrias matas? ¿Viviam êles ainda, os seres amados? +¿Sôbre a forte colina, dominando a enseada de Reithros e os pinheirais de Neus, +ainda se erguia o seu palácio, com os belos pórticos pintados de vermelho e +roxo? ¿Ao cabo de tam lentos e vazios anos, sem novas, apagada<span class="pn">{307}</span> toda a +esperança como uma lâmpada, despira a sua Penélope a túnica passageira da +viuvez e passara para os braços doutro espôso forte, que agora manejava as suas +lanças e vindimava as suas vinhas? ¿E o doce filho Telêmaco? ¿Reinaria êle em +Ítaca, sentado, com o branco scetro, sôbre o mármore alto da Agorá? ¿Ocioso e +rondando pelos pátios, baixaria os olhos sob o império duro dum padrasto? +¿Erraria por cidades alheias, mendigando um salário?... Ah! se a sua +existência, assim para sempre arrancada da mulher, do filho, tam doces ao seu +coração, andasse ao menos empregada em façanhas ilustres! Dez anos antes, +tambêm desconhecia a sorte de Ítaca, e dos seres preciosos que lá deixara em +solidão e fragilidade; mas uma emprêsa heróica o agitava; e cada manhã a sua +fama crescia, como uma árvore num promontório, que enche o céu e todos os +homens contemplam. Então era a planície de Troia—e as brancas tendas dos +gregos ao longo do mar sonoro! Sem cessar, meditava astúcias de guerra; com +soberba facúndia discursava na Assembleia dos Reis; rijamente jungia os cavalos +empinados ao timão dos carros; de lança alta corria, entre a grita e a pressa, +contra os Troianos de altos elmos, que surdiam, em roldão ressoante, das portas +Skaias!... Oh! e quando êle, Príncipe-de-Povos, encolhido sob farrapos de +mendigo,<span class="pn">{308}</span> com os braços maculados de chagas postiças, coxeando e gemendo, +penetrara nos muros da orgulhosa Troia, pelo lado da Faia, para de noite, com +incomparável ardil e bravura, roubar o Paládio tutelar da cidade! E quando, +dentro do ventre do Cavalo-de-Pau, na escuridão, no apêrto de todos aqueles +guerreiros hirtos e cobertos de ferro, calmava a impaciência dos que sufocavam, +e tapava com a mão a bôca de Antiklos bravejando furioso, ao escutar fóra na +planície os ultrajes e os escárnios troianos, e a todos murmurava: «Cala, cala! +que a noite desce e Troia é nossa...» E depois as prodigiosas viagens! O +pavoroso Polifemo, ludibriado com uma astúcia que para sempre maravilhará as +gerações! As manobras sublimes entre Scylla e Carybdes! As Sereias, vogando e +cantando em tôrno do mastro, de onde êle, amarrado, as rechaçava com o mudo +dardejar dos olhos mais agudos que dardos! A descida aos Infernos, jàmais +concedida a um mortal!... E agora homem de tam rutilantes feitos jazia numa +ilha mole, eternamente prêso, sem amor, pelo amor duma Deusa! ¿Como poderia êle +fugir, rodeado de mar indomável, sem nave, nem companheiros para mover os remos +longos? Os Deuses ditosos certamente esqueciam quem tanto por êles combatera e +sempre piedosamente lhes votara as reses devidas, mesmo através do +fragor<span class="pn">{309}</span> e fumaraça das cidadelas derrubadas, mesmo quando a sua prôa +encalhava em terra agreste!... E ao herói, que recebera dos Reis da Grécia as +armas de Aquiles, cabia por destino amargo engordar na ociosidade duma ilha +mais lânguida que uma cêsta de rosas, e estender as mãos amolecidas para as +iguarias abundantes, e, quando águas e caminhos se cobriam de sombra, dormir +sem desejo com uma Deusa que, sem cessar, o desejava.</p> + +<p>Assim gemia o magnânimo Ulisses, à beira do mar lustroso... E eis que de +repente um sulco de desusado brilho, mais rutilantemente branco que o duma +estrêla caíndo, riscou a rutilância do céu, desde as alturas até à cheirosa +mata de tuias e cedros, que assombreava um golfo sereno, a oriente da Ilha. Com +alvoroço bateu o coração do herói. Rasto tam refulgente, na refulgência do dia, +só um Deus o podia traçar através do largo Ouranos. ¿Um Deus, pois, descera à +Ilha?</p> + + +<h2><a name="SECTION0001120">II</a> </h2> + +<p>Um Deus descera, um grande Deus... Era o Mensageiro dos Deuses, o leve, +eloqùente Mercúrio. Calçado com aquelas sandálias que<span class="pn">{310}</span> teem duas asas +brancas, os cabelos côr de vinho cobertos pelo casco onde batem tambêm duas +claras asas, erguendo na mão o Caduceu, êle fendera o Éter, roçara a lisura do +mar sossegado, pisara a areia da Ilha, onde as suas pègadas ficavam rebrilhando +como palmilhas de oiro novo. A-pesar de percorrer toda a terra, com os recados +inumeráveis dos Deuses, o luminoso Mensageiro não conhecia aquela ilha de +Ogigya—e admirou, sorrindo, a beleza dos prados de violetas tam doces para o +correr e brincar de Ninfas, e o harmonioso faiscar dos regatos por entre os +altos e lânguidos lírios. Uma vinha, sôbre esteios de jaspe, carregada de +cachos maduros, conduzia, como fresco pórtico salpicado de sol, até à entrada +da gruta, toda de rochas polidas, de onde pendiam jasmineiros e madre-silvas, +envoltas no sussurrar das abelhas. E logo avistou Calipso, a Deusa ditosa, +sentada num Trono, fiando em roca de oiro, com fuso de oiro, a lã formosa de +púrpura marinha. Um aro de esmeraldas prendia os seus cabelos muito anelados e +ardentemente louros. Sob a túnica diáfana a mocidade imortal do seu corpo +rebrilhava, como a neve quando a aurora a tinge de rosas nas colinas eternas +povoadas de Deuses. E, emquanto torcia o fuso, cantava um trinado e fino canto, +como trémulo fio de cristal vibrando da Terra ao Céu. Mercúrio pensou: «Linda +ilha, e linda Ninfa!»<span class="pn">{311}</span></p> + +<p>Dum lume claro de cedro e tuia, subia, muito direito, um fumo delgado que +perfumava toda a Ilha. Em roda, sentadas em esteiras sôbre o chão de ágata, as +Ninfas, servas da Deusa, dobavam as lãs, bordavam na sêda as flores ligeiras, +teciam as puras teias em teares de prata. Todas coraram, com o seio a arfar, +sentindo a presença do Deus. E sem deter o fuso faiscante, Calipso reconhecera +logo o Mensageiro—pois que todos os Imortais sabem, uns dos outros, os nomes, +os feitos, e os rostos soberanos, mesmo quando habitam retiros remotos que o +Éter e o Mar separam.</p> + +<p>Mercúrio parara, risonho, na sua nudez divina, exalando o perfume do Olimpo. +Então a Deusa ergueu para êle, com composta serenidade, o esplendor largo dos +seus olhos verdes:</p> + +<p>—Oh Mercúrio! ¿porque desceste à minha Ilha humilde, tu, venerável e +querido, que eu nunca vi pisar a terra? Dize o que de mim esperas. Já o meu +aberto coração me ordena que te contente, se o teu desejo couber dentro do meu +poder e do Fado... Mas entra, repousa, e que eu te sirva, como doce irmã, à +mesa da hospitalidade.</p> + +<p>Tirou da cintura a roca, arredou os aneis soltos do cabelo radiante—e com +as suas nacaradas mãos colocou sôbre a mesa, que as<span class="pn">{312}</span> Ninfas acercaram do +lume aromático, o prato transbordando de Ambrosia, e as infusas de cristal onde +scintilava o Néctar.</p> + +<p>Mercúrio murmurou:—«Doce é a tua hospitalidade, ó Deusa!» Pendurou o +Caduceu do fresco ramo dum plátano, estendeu os dedos reluzentes para a +travessa de oiro, risonhamente louvou a excelência daquele Néctar da Ilha. E +contentada a alma, encostando a cabeça ao tronco liso do plátano que se cobriu +de claridade, começou, com palavras perfeitas e aladas:</p> + +<p>—Perguntaste porque descia um Deus à tua morada, oh Deusa! E certamente +nenhum Imortal percorreria sem motivo, desde o Olimpo até Ogigya, esta deserta +imensidade do mar salgado em que se não encontram cidades de homens, nem +templos cercados de bosques, nem sequer um pequenino santuário de onde suba o +aroma do incenso, ou o cheiro das carnes votivas, ou o murmúrio gostoso das +preces... Mas foi nosso Pai Júpiter, o tempestuoso, que me mandou neste recado. +Tu recolhestes, e retens pela fôrça incomensurável da tua doçura, o mais subtil +e desgraçado de todos os Príncipes que combateram durante dez anos a alta +Troia, e depois embarcaram nas naves fundas para voltar à terra da Pátria. +Muitos dêsses conseguiram reentrar nos seus ricos lares, carregados de fama, de +despojos,<span class="pn">{313}</span> e de histórias excelentes para contar. Ventos inimigos, porêm, +e um fado mais inexorável, arremessaram a esta tua ilha, enrolado nas sujas +espumas, o facundo e astuto Ulisses... Ora o destino dêste herói não é ficar na +ociosidade imortal do leito, longe daqueles que o choram, e que carecem da sua +fôrça e manhas divinas. Por isso Júpiter, regulador da Ordem, te ordena, oh +Deusa, que soltes o magnânimo Ulisses dos teus braços claros, e o restituas, +com os presentes docemente devidos, à sua Ítaca amada, e à sua Penélope, que +tece e desfaz a teia ardilosa, cercada dos Pretendentes arrogantes, devoradores +dos seus gordos bois, sorvedores dos seus frescos vinhos!</p> + +<p>A divina Calipso mordeu levemente o beiço; e sôbre a sua face luminosa +desceu a sombra das densas pestanas côr de jacinto. Depois, com um harmonioso +suspiro, em que ondulou todo o seu peito rebrilhante:</p> + +<p>—Ah Deuses grandes, Deuses ditosos! como sois ásperamente ciumentos das +Deusas, que, sem se esconderem pela espessura dos bosques ou nas pregas escuras +dos montes, amam os homens eloqùentes e fortes!... Êste, que me invejais, rolou +às areias da minha Ilha, nu, pisado, faminto, prêso a uma quilha partida, +perseguido por todas as iras, e todas as rajadas, e todos os raios dardejantes +de que dispõe o Olimpo. Eu o recolhi, o lavei, o nutri,<span class="pn">{314}</span> o amei, o +guardei, para que ficasse eternamente ao abrigo das tormentas, da dor e da +velhice. E agora Júpiter trovejador, ao cabo de oito anos em que a minha doce +vida se enroscou em tôrno desta afeição como a vide ao olmo, determina que eu +me separe do companheiro que escolhera para a minha imortalidade! Realmente +sois crueis, oh Deuses, que constantemente aumentais a raça turbulenta dos +Semideuses dormindo com as mulheres mortais! ¿E como queres que eu mande +Ulisses à sua pátria, se não possuo naves, nem remadores, nem pilôto sabedor +que o guie através das Ilhas? ¿Mas quem pode resistir a Júpiter, que ajunta as +nuvens? Seja! e que Olimpo ria, obedecido. Eu ensinarei o intrépido Ulisses a +construir uma jangada segura, com que de novo fenda o dorso verde do mar...</p> + +<p>Imediatamente, o Mensageiro Mercúrio se levantou do escabelo pregado com +pregos de oiro, retomou o seu Caduceu, e bebendo uma derradeira taça do Néctar +excelente da Ilha, louvou a obediência da Deusa:</p> + +<p>—Bem farás, oh Calipso! Assim evitas a cólera do Pai trovejante. ¿Quem lhe +resistirá? A sua Omnisciência dirige a sua Omnipotência. E êle sustenta, como +scetro, uma árvore que tem por flor a Ordem... As suas decisões, clementes ou +crueis, resultam sempre em harmonia. Por isso o seu braço se torna<span class="pn">{315}</span> +terrífico aos peitos rebeldes. Pela tua pronta submissão serás filha estimada, +e gozarás uma imortalidade repassada de sossêgo, sem intrigas e sem +surpresas...</p> + +<p>Já as asas impacientes das suas sandálias palpitavam, e o seu corpo, com +sublime graça, se balançava por sôbre as relvas e flores que alcatifavam a +entrada da gruta.</p> + +<p>—De resto—acrescentou—a tua Ilha, oh Deusa, fica no caminho das naves +ousadas que cortam as ondas. Em breve talvez outro herói robusto, tendo +ofendido os Imortais, aportará à tua doce praia, abraçado a uma quilha... +Acende um facho claro, de noite, nas rocas altas!</p> + +<p>E, rindo, o Mensageiro Divino serenamente se elevou, riscando no Éter um +sulco de elegante fulgor que as Ninfas, esquecida a tarefa, seguiam, com os +frescos lábios entreabertos e o seio levantado, no desejo daquele imortal +formoso.</p> + +<p>Então Calipso, pensativa, lançando sôbre os seus cabelos anelados um véu da +côr do açafrão, caminhou para a orla do mar, através dos prados, numa pressa +que lhe enrodilhava a túnica, à maneira duma espuma leve, em tôrno das pernas +redondas e róseas. Tam levemente pisou a areia, que o magnânimo Ulisses não a +sentiu deslizar, perdido na contemplação das águas lustrosas, com a negra +barba<span class="pn">{316}</span> entre as mãos, aliviando em gemidos o pêso do seu coração. A Deusa +sorriu, com fugitiva e soberana amargura. Depois, pousando no vasto ombro do +Herói os seus dedos tam claros como os de Eos, mãe do dia:</p> + +<p>—Não te lamentes mais, desgraçado, nem te consumas, olhando o Mar! Os +Deuses, que me são superiores pela inteligência e pela vontade, determinam que +tu partas, afrontes a inconstância dos ventos, e calques de novo a terra da +Pátria...</p> + +<p>Bruscamente, como o condor fendendo sôbre a prêsa, o divino Ulisses, com a +face assombrada, saltou da rocha musgosa:</p> + +<p>—Oh Deusa, tu dizes !...</p> + +<p>Ela continuou sossegadamente, com os formosos braços pendidos, enrodilhados +no véu côr de açafrão, emquanto a vaga rolava, mais doce e cantante, no amoroso +respeito da sua presença divina:</p> + +<p>—Bem sabes que não tenho naves de alta prôa, nem remadores de rijo peito, +nem pilôto amigo das estrêlas, que te conduzam... Mas certamente te confiarei o +machado de bronze que foi de meu pai, para tu abateres as árvores que eu te +marcar, e construires uma jangada em que embarques... Depois eu a proverei de +odres de vinho, de comidas perfeitas, e a impelirei com um sôpro amigo para o +mar indomado...<span class="pn">{317}</span></p> + +<p>O cauteloso Ulisses recuara lentamente, cravando na Deusa um duro olhar que +a desconfiança ennegrecia. E erguendo a mão, que tremia toda, com a ansiedade +do seu coração:</p> + +<p>—Oh Deusa, tu abrigas um pensamento terrível, pois que assim me convidas a +afrontar numa jangada as ondas difíceis, onde mal se mantêm fundas naves! Não, +Deusa perigosa, não! Eu combati na grande guerra onde os Deuses tambêm +combateram, e conheço a malícia infinita que contêm o coração dos Imortais! Se +resisti às sereias irresistíveis, e me safei com sublimes manobras de entre +Scylla e Charybdes, e venci Polifemo com um ardil que eternamente me tornará +ilustre entre os homens, não foi de-certo, oh Deusa, para que agora, na Ilha de +Ogigya, como passarinho de pouca penugem, no seu primeiro vôo do ninho, cáia em +armadilha ligeira arranjada com dizeres de mel! Não, Deusa, não! Só embarcarei +na tua extraordinária jangada se tu jurares, pelo juramento terrífico dos +Deuses, que não preparas, com êsses quietos olhos, a minha perda irreparável. +</p> + +<p>Assim bradava, à beira das ondas, com o peito a arfar, Ulisses, o Herói +prudente... Então a Deusa clemente riu, com um cantado e refulgente riso. E +caminhando para o Herói, correndo os dedos celestes pelos seus espessos cabelos +mais negros que o pez:<span class="pn">{318}</span></p> + +<p>—Oh maravilhoso Ulisses—disse—tu és bem na verdade o mais refalsado e +manhoso dos homens, pois que nem concebes que exista espírito sem manha e sem +falsidade! Meu pai ilustre não me gerou com um coração de ferro! A-pesar de +imortal, compreendo as desventuras mortais. Só te aconselhei o que eu, Deusa, +empreenderia, se o Fado me obrigasse a saír de Ogigya através do mar +incerto!...</p> + +<p>O divino Ulisses retirou lenta e sombriamente a cabeça da rosada carícia dos +dedos divinos:</p> + +<p>—Mas jura... Oh Deusa, jura, para que ao meu peito desça, como onda de +leite, a saborosa confiança!</p> + +<p>Ela ergueu o claro braço ao azul onde os Deuses moram:</p> + +<p>—Por Gaia, e pelo Céu superior, e pelas águas subterrâneas do Stygio, que é +a maior invocação que podem lançar os Imortais, juro, oh homem, Príncipe dos +homens, que não preparo a tua perda, nem misérias maiores...</p> + +<p>O valente Ulisses respirou largamente. E arregaçando logo as mangas da +túnica, esfregando as palmas das mãos robustas:</p> + +<p>—¿Onde está o machado de teu pai magnífico? Mostra as árvores, oh Deusa!... +O dia baixa e o trabalho é longo!<span class="pn">{319}</span></p> + +<p>—Sossega, oh homem sôfrego de males humanos! Os deuses superiores em +sapiência já determinaram o teu destino... Recolhe comigo à doce gruta, a +reforçar a tua fôrça... Quando Eos vermelha aparecer, àmanhã, eu te conduzirei +à floresta.</p> + + +<h2><a name="SECTION0001130">III</a> </h2> + +<p>Era com efeito a hora em que homens mortais e Deuses imortais se acercam das +mesas cobertas de baixelas, onde os espera a abundância, o repouso, o +esquecimento dos cuidados, e as amoráveis conversas que contentam a alma. Em +breve Ulisses se sentou no escabelo de marfim, que ainda conservava o aroma do +corpo de Mercúrio, e diante dêle as Ninfas, servas da Deusa, colocaram os +bôlos, as frutas, as tenras carnes fumegando, os peixes rebrilhantes como +tramas de prata. Pousada num Trono de oiro puro, a Deusa recebeu da Intendenta +venerável o prato de Ambrosia e a taça de Néctar. Ambos estenderam as mãos para +as comidas perfeitas da Terra e do Céu. E logo que deram a oferenda abundante à +Fome e à Sêde, a ilustre Calipso,<span class="pn">{320}</span> encostando a face aos dedos róseos, e +considerando pensativamente o Herói, soltou estas palavras aladas:</p> + +<p>—Oh Ulisses muito subtil, tu queres voltar à tua morada mortal e à terra da +Pátria... Ah! se conhecesses, como eu, quantos duros males tens de sofrer antes +de avistar as rochas de Ítaca, ficarias entre os meus braços, amimado, banhado, +bem nutrido, revestido de linhos finos, sem nunca perder a querida fôrça, nem a +agudeza do entendimento, nem o calor da facúndia, pois que eu te comunicaria a +minha imortalidade!... Mas desejas voltar à espôsa mortal, que habita na ilha +áspera onde as matas são tenebrosas. E todavia eu não lhe sou inferior, nem +pela beleza, nem pela inteligência, porque as mortais brilham ante as Imortais +como lâmpadas fumarentas diante de estrêlas puras...</p> + +<p>O facundo Ulisses acariciou a barba rude. Depois, erguendo o braço, como +costumava na Assembleia dos Reis, à sombra das altas pôpas, diante dos muros de +Troia, disse:</p> + +<p>—Oh Deusa venerável, não te escandalises! Perfeitamente sei que Penélope te +está muito inferior em formusura, sapiência e majestade. Tu serás eternamente +bela e môça, emquanto os Deuses durarem: e ela, em poucos anos, conhecerá a +melancolia das rugas, dos cabelos brancos, das dores da decrepitude, e +dos<span class="pn">{321}</span> passos que tremem apoiados a um pau que treme. O seu espírito mortal +erra através da escuridão e da dúvida; tu, sob essa fonte luminosa, possuis as +luminosas certezas. Mas, oh Deusa, justamente pelo que ela tem de incompleto, +de frágil, de grosseiro e de mortal, eu a amo, e apeteço a sua companhia +congénere! Considera como é penoso que, nesta mesa, cada dia, eu côma +vorazmente o anho das pastagens e a fruta dos vergeis, emquanto tu ao meu lado, +pela inefável superioridade da tua natureza, levas aos lábios, com lentidão +soberana, a Ambrosia divina! Em oito anos, oh Deusa, nunca a tua face rebrilhou +com uma alegria; nem dos teus verdes olhos rolou uma lágrima; nem bateste o pé, +com irada impaciência; nem, gemendo com uma dor, te estendeste no leito +macio... E assim trazes inutilizadas todas as virtudes do meu coração, pois que +a tua divindade não permite que eu te congratule, te console, te sossegue, ou +mesmo te esfregue o corpo dorido com o suco das ervas benéficas. Considera +ainda que a tua inteligência de Deusa possui todo o saber, atinge sempre a +verdade: e, durante o longo tempo que contigo dormi, nunca gozei a felicidade +de te emendar, de te contradizer, e de sentir, ante a fraqueza do teu, a fôrça +do meu entendimento! Oh Deusa, tu és aquele ser terrífico que tem sempre razão! +Considera ainda<span class="pn">{322}</span> que, como Deusa, conheces todo o passado e todo o futuro +dos homens: e eu não pude saborear a incomparável delícia de te contar à noite, +bebendo o vinho fresco, as minhas ilustres façanhas e as minhas viagens +sublimes! Oh Deusa, tu és impecável: e quando eu escorregue num tapete +estendido, ou me estale uma correia da sandália, não te posso gritar, como os +homens mortais gritam às espôsas mortais—«Foi culpa tua, mulher!»—erguendo, +em frente à lareira, um alarido cruel! Por isso sofrerei, num espírito +paciente, todos os males com que os Deuses me assaltem no sombrio mar, para +voltar a uma humana Penélope que eu mande e console, e repreenda, e acuse, e +contrarie, e ensine, e humilhe, e deslumbre, e por isso ame dum amor que +constantemente se alimenta dêstes modos ondeantes, como o lume se nutre dos +ventos contrários!</p> + +<p>Assim o facundo Ulisses desabafava, ante a taça de oiro vazia: e serenamente +a Deusa escutava, com um sorriso taciturno, e as mãos imóveis sôbre o regaço, +enrodilhadas na ponta do véu.</p> + +<p>No entanto, Febo Apolo descia para Ocidente; e já das ancas dos seus quatro +cavalos suados subia e se espalhava por sôbre o Mar um vapor rúbido e doirado. +Em breve os caminhos da Ilha se cobriam de sombra.<span class="pn">{323}</span> E sôbre os velos +preciosos do leito, ao fundo da gruta, Ulisses, sem desejo, e a Deusa, que o +desejava, gozaram o doce amor, e depois o doce sono.</p> + +<p>Cedo, apenas Eos entreabria as portas do largo Ouranos, a divina Calipso, +que revestira uma túnica mais branca que a neve do Pindo, e pregara nos cabelos +um véu transparente e azul como o Éter ligeiro, saíu da gruta, trazendo ao +magnânimo Ulisses, já sentado à porta, sob a ramada, diante duma taça de vinho +claro, o machado poderoso de seu pai ilustre, todo de bronze, com dois fios, e +um rijo cabo de oliveira cortado nas faldas do Olimpo.</p> + +<p>Limpando rápidamente a dura barba com as costas da mão, o Herói arrebatou o +machado venerável:</p> + +<p>—Oh Deusa, há quantos anos não palpo uma arma ou uma ferramenta, eu, +devastador de cidadelas e construtor de naves !</p> + +<p>A Deusa sorriu. E, iluminada a lisa face, em palavras aladas:</p> + +<p>—Oh, Ulisses, vencedor de homens, se tu ficasses nesta ilha, eu +encomendaria para ti, a Vulcano e às suas forjas do Etna, armas maravilhosas... +</p> + +<p>—¿Que valem armas sem combates, ou homens que as admirem? De resto, oh +Deusa, já muito batalhei, e a minha glória entre as<span class="pn">{324}</span> gerações está +soberbamente segura; Só aspiro ao macio repouso, vigiando os meu gados, +concebendo sábias leis para os meus povos... Sê benévola, oh Deusa, e mostra as +árvores fortes que me convêm cortar!</p> + +<p>Em silêncio ela caminhou por um atalho florido de altas e radiosas açucenas, +que conduzia à ponta da Ilha mais cerrada de matas, do lado do Oriente: e atrás +seguia o intrépido Ulisses, com o luzidio machado ao ombro. As pombas deixavam +os ramos dos cedros, ou as concavidades das rochas onde bebiam, para esvoaçarem +em tôrno da Deusa num tumulto amoroso. Um aroma mais delicado, quando ela +passava, subia das flores abertas, como de incensadores. As relvas que a orla +da sua túnica roçava reverdejavam num viço mais fresco. E Ulisses, indiferente +aos prestígios da Deusa, impaciente com a serenidade divina do seu andar +harmonioso, meditava a jangada, almejava pelo bosque.</p> + +<p>Denso e escuro o avistou emfim, povoado de carvalhos, de velhíssimas técas, +de pinheiros que ramalhavam no alto Éter. Da sua orla descia um areal a que nem +concha, nem galho quebrado de coral, nem pálida flor de cardo marinho, +desmanchava a doçura perfeita. E o Mar refulgia com um brilho safírico, na +quietação da manhã branca e còrada. Caminhando dos carvalhos às técas, a +Deusa<span class="pn">{325}</span> marcou ao atento Ulisses os troncos sêcos, robustecidos por sóis +inumeráveis, que flutuariam, com ligeireza mais segura, sôbre as águas +traidoras. Depois, acariciando o ombro do Herói, como outra árvore robusta +tambêm votada às aguas crueis, recolheu à sua gruta, onde tomou a roca de oiro, +e todo o dia fiou, e todo o dia cantou...</p> + +<p>Com alvoroçada e soberba alegria, Ulisses atirou o machado contra um vasto +carvalho que gemeu. E em breve toda a Ilha retumbava, no fragor da obra +sobreumana. As gaivotas, adormecidas no silêncio eterno daquelas ribas, bateram +o vôo em largos bandos, espantadas e gritando. As fluidas divindades dos +ribeiros indolentes, estremecendo num fulgente arrepio, fugiam para entre os +canaviais e as raízes dos amieiros. Nesse curto dia o valente Ulisses abateu +vinte árvores, robles, pinheiros, técas e choupos—e todas decotou, esquadrou, +e alinhou sôbre a areia. O seu pescoço e arcado peito fumegavam de suor, quando +recolheu pesadamente à gruta, para saciar a rude fome, e beber a cerveja +gelada. E nunca êle parecera tam belo à Deusa Imortal, que, sobre o leito de +peles preciosas, apenas os caminhos se cobriram de sombra, encontrou incansada +e pronta a fôrça daqueles braços que tinham abatido vinte troncos!<span class="pn">{326}</span></p> + +<p>Assim, durante três dias, trabalhou o Herói.</p> + +<p>E, como arrebatada nessa actividade magnífica que abalava a Ilha, a Deusa +ajudava Ulisses, conduzindo da gruta para a praia, nas suas mãos delicadas, as +cordas e os pregos de bronze. As Ninfas, por seu mandado, abandonando as +tarefas suaves, teciam uma tela forte, para a vela que empurrariam com amor os +ventos amáveis. E a Intendenta venerável já enchia os odres de vinhos robustos, +e preparava com generosidade os víveres numerosos para a travessia incerta. No +entanto a jangada crescia, com os troncos bem ligados, e um banco erguido ao +meio, donde se empinava o mastro, desbastado num pinheiro, mais redondo e lizo +que uma vara de marfim. Cada tarde a Deusa, sentada numa rocha à sombra do +bosque, contemplava o calafate admirável martelando furiosamente, e cantando, +com rija alegria, um canto de remador. E, ligeiras, na ponta dos pés luzidios, +por entre o arvoredo, as Ninfas, escapando à tarefa, acudiam a espreitar, com +desejosos olhos fulgurantes, aquela fôrça solitária, que soberbamente, no areal +solitário, ia erguendo uma nave.<span class="pn">{327}</span></p> + + +<h2><a name="SECTION0001140">IV</a> </h2> + +<p>Emfim no quarto dia, de manhã, Ulisses findou de esquadrar o leme, que +reforçou com grades de amieiro para melhor aparar o embate das ondas. Depois +ajuntou um lastro copioso, com a terra da Ilha imortal e as suas pedras +polidas. Sem descanso, numa ânsia risonha, amarrou à vêrga alta a vela cortada +pelas Ninfas. Sôbre pesados rolos, manobrando a alavanca, rolou a jangada +imensa até à espuma da vaga, num esfôrço sublime, com músculos tam retesos e +veias tam inchadas, que êle mesmo parecia feito de troncos e cordas. Uma ponta +da jangada arfou, levantada em cadência pela onda harmoniosa. E o Herói, +erguendo os braços lustrosos de suor, louvou os Deuses Imortais.</p> + +<p>Então, como a obra findára e a tarde rebrilhava, propícia à partida, a +generosa Calipso trouxe Ulisses, através das violetas e das anémonas, à fresca +gruta. Pelas suas divinas mãos o banhou numa concha de nácar, e o perfumou com +essências sobrenaturais, e o vestiu com uma túnica formosa de lã bordada, e +lançou sôbre os seus ombros um manto impenetrável às neblinas do mar, e lhe +estendeu sôbre<span class="pn">{328}</span> a mesa, para êle saciar a fome rude, as comidas mais sãs +e mais finas da Terra. O Herói aceitava os amorosos cuidados, com paciente +magnanimidade. A Deusa, de gestos serenos, sorria taciturnamente.</p> + +<p>Depois ela tomou a mão cabeluda de Ulisses, palpando com gôsto os calos que +lhe deixara o machado; e pela borda do Mar o conduziu à praia, onde a vaga +mansamente lambia os troncos da jangada forte. Ambos descansaram sôbre uma +rocha musgosa. Nunca a Ilha resplandecera com uma beleza tam serena, entre um +mar tam azul, sob um céu tam macio. Nem a água fresca do Pindo bebida em marcha +abrasada, nem o vinho doirado que produzem as colinas de Chio, eram mais doces +de sorver do que aquele ar repassado de aromas, composto pelos Deuses para o +respirar duma Deusa. A frescura imorredoira das árvores entrava no coração, +quási pedia a carícia dos dedos. Todos os rumores, o dos regatos na relva, o +das ondas no areal, o das aves nas sombras frondosas, subiam, suave e finamente +fundidos, como as harmonias sagradas de um Templo distante. O esplendor e a +graça das flores retinham os raios pasmados do sol. Tantos eram os frutos nos +vergeis, e as espigas nas messes, que a Ilha parecia ceder, afundada no Mar, +sob o pêso da sua abundância.<span class="pn">{329}</span></p> + +<p>Então a Deusa, ao lado do Herói, levemente suspirou, e murmurou num sorriso +alado:</p> + +<p>—Oh, magnânimo Ulisses, tu certamente partes! O desejo te leva de rever a +mortal Penélope, e o teu doce Telêmaco, que deixaste no colo da ama quando a +Europa correu contra a Ásia, e agora já sustenta na mão uma lança temida. +Sempre dum amor antigo, com raízes fundas, brotará mais tarde uma flor, mesmo +triste. Mas dize! ¿Se em Ítaca não te esperasse a espôsa tecendo e destecendo a +teia, e o filho ansioso que alonga os olhos incansados para o mar, deixarias +tu, oh homem prudente, esta doçura, esta paz, esta abundância e beleza imortal? +</p> + +<p>O Herói, ao lado da Deusa, estendeu o braço poderoso, como na Assembleia dos +Reis, diante dos muros de Troia, quando plantava nas almas a verdade +persuasiva:</p> + +<p>—Oh Deusa, não te escandalises! Mas ainda que não existissem, para me +levar, nem filho, nem espôsa, nem reino, eu afrontaria alegremente os mares e a +ira dos Deuses! Porque, na verdade, oh Deusa muito ilustre, o meu coração +saciado já não suporta esta paz, esta doçura e esta beleza imortal. Considera, +oh Deusa, que em oito anos nunca vi a folhagem destas árvores amarelecer e +caír. Nunca êste céu rutilante se carregou de nuvens<span class="pn">{330}</span> escuras; nem tive o +contentamento de estender, bem abrigado, as mãos ao doce lume, emquanto a +borrasca grossa batesse nos montes. Todas essas flores que brilham nas hastes +airosas são as mesmas, oh Deusa, que admirei e respirei, na primeira manhã que +me mostraste êstes prados perpétuos:—e há lírios que odeio, com um ódio +amargo, pela impassibilidade da sua alvura eterna! Estas gaivotas repetem tam +incessantemente, tam implacavelmente, o seu vôo harmonioso e branco, que eu +escondo delas a face, como outros a escondem das negras Harpias ! E quantas +vezes me refugío no fundo da gruta para não escutar o murmúrio sempre lânguido +dêstes arroios sempre transparentes! Considera, oh Deusa, que na tua Ilha nunca +encontrei um charco; um tronco apodrecido; a carcassa dum bicho morto e coberto +de moscas zumbidoras. Oh Deusa, há oito anos, oito anos terríveis, estou +privado de ver o trabalho, o esfôrço, a luta e o sofrimento... Oh Deusa, não te +escandalises ! Ando esfaimado por encontrar um corpo arquejando sob um fardo; +dois bois fumegantes puxando um arado; homens que se injuriem na passagem duma +ponte; os braços suplicantes duma mãe que chora; um coxo, sôbre a sua muleta, +mendigando à porta das vilas... Deusa, há oito anos que não ólho para uma +sepultura... Não posso<span class="pn">{331}</span> mais com esta serenidade sublime! Toda a minha +alma arde no desejo do que se deforma, e se suja, e se espedaça, e se +corrompe... Oh Deusa imortal, eu morro com saudades da morte!</p> + +<p>Imóvel, com as mãos imóveis no regaço, enrodilhadas nas pontas do véu +amarelo, a Deusa escutara, com um sorriso serenamente divino, o furioso +queixume do Herói cativo... No entanto já pela colina as Ninfas, servas da +Deusa, desciam, trazendo à cabeça, e amparando-os com o braço redondo, os +jarros de vinho, os sacos de coiro, que a Intendenta venerável mandava para +abastecer a jangada. Silenciosamente, o Herói lançou uma tábua desde a areia +até ao bordo de altos toros. E emquanto sôbre ela as Ninfas passavam, ligeiras, +com as manilhas de oiro tilintando nos pés luzidios, Ulisses atento, contando +os sacos e os odres, gozava no seu nobre coração a abundância generosa. Mas, +amarrados com cordas às cavilhas aqueles fardos excelentes, todas as Ninfas, +lentamente, se sentaram sôbre o areal em tôrno da Deusa, para contemplarem a +despedida, o embarque, as manobras do Herói sôbre o dorso das águas... Então +uma cólera lampejou nos largos olhos de Ulisses. E, diante de Calipso, cruzando +furiosamente os valentes braços:</p> + +<p>—¿Oh Deusa, pensas tu na verdade que nada<span class="pn">{332}</span> falta para que eu largue a +vela e navegue? ¿Onde estão os ricos presentes que me deves? Oito anos, oito +duros anos, fui o hóspede magnífico da tua Ilha, da tua gruta, do teu leito... +Sempre os Deuses imortais determinaram que aos hóspedes, no momento amigo da +partida, se ofertem consideráveis presentes! ¿Onde estão elas, oh Deusa, essas +riquezas abundantes que me deves por costume da Terra e lei do Céu?</p> + +<p>A Deusa sorriu, com sublime paciência. E com palavras aladas, que fugiam na +aragem:</p> + +<p>—Oh Ulisses, tu és claramente o mais interesseiro dos homens ! E tambêm o +mais desconfiado, pois que supões que uma Deusa negaria os presentes devidos +àquele que amou... Sossega, oh subtil Herói... Os ricos presentes não tardam, +largos e rebrilhantes.</p> + +<p>E, certamente, pela colina suave, outras Ninfas desciam, ligeiras, com os +véus a ondular, trazendo nos braços alfaias lustrosas, que ao sol rutilavam! O +magnânimo Ulisses estendeu as mãos, os olhos devoradores... E emquanto elas +passavam sôbre a tábua rangente, o Herói astuto contava, avaliava no seu nobre +espírito os escabelos de marfim, os rolos de telas bordadas, os cântaros de +bronze lavrado, os escudos cravejados de pedras...</p> + +<p>Tam rico e belo era o vaso de oiro que a derradeira Ninfa sustentava no +ombro, que<span class="pn">{333}</span> Ulisses deteve a Ninfa, arrebatou o vaso, o sopesou, o mirou, +e gritou, com soberbo riso estridente:</p> + +<p>—Na verdade, êste oiro é bom!</p> + +<p>Depois de arrumadas e ligadas sob o largo banco as alfaias preciosas, o +impaciente Herói, arrebatando o machado, cortou a corda que prendia a jangada +ao tronco dum roble, e saltou para o alto bordo que a espuma envolvia. Mas +então recordou que nem beijara a generosa e ilustre Calipso! Rápido, +arremessando o manto, pulou através da espuma, correu pela areia, e pousou um +beijo sereno na fronte aureolada da Deusa. Ela segurou de leve o seu ombro +robusto:</p> + +<p>—Quantos males te esperam, oh desgraçado! Antes ficasses, para toda a +imortalidade, na minha Ilha perfeita, entre os meus braços perfeitos...</p> + +<p>Ulisses recuou, com um brado magnífico:</p> + +<p>—Oh Deusa, o irreparável e supremo mal está na tua perfeição!</p> + +<p>E, através da vaga, fugiu, trepou sôfregamente à jangada, soltou a vela, +fendeu o mar, partiu para os trabalhos, para as tormentas, para as +misérias—para a delícia das coisas imperfeitas!<span class="pn">{334}</span> <span class="pn">{335}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION0001200">O SUAVE MILAGRE!</a> </h1> + +<p>Nesse tempo Jesus ainda se não afastara da Galilea e das doces, luminosas +margens do Lago de Tiberíade:—mas a nova dos seus Milagres penetrara já até +Enganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre olivais e vinhedos, no país de +Issachar.</p> + +<p>Uma tarde um homem de olhos ardentes e deslumbrados passou no fresco vale, e +anunciou que um novo Profeta, um Rabi formoso, percorria os campos e as aldeias +da Galilea, predizendo a chegada do Reino de Deus, curando todos os males +humanos. E emquanto descansava, sentado à beira da <em>Fonte dos Vergeis</em>, +contou ainda que êsse Rabi, na estrada de Magdala, sarara da lepra o servo dum +Decurião Romano só com estender sôbre êle<span class="pn">{336}</span> a sombra das suas mãos; e que +noutra manhã, atravessando numa barca para a terra dos Gerassénios, onde +começava a colheita do bâlsamo, ressuscitara a filha de Jaira, homem +considerável e douto que comentava os Livros na Sinagoga. E como em redor, +assombrados, seareiros, pastores, e as mulheres trigueiras com a bilha no +ombro, lhe perguntassem se êsse era, em verdade, o Messias da Judea, e se +diante dêle refulgia a espada de fogo, e se o ladeavam, caminhando como as +sombras de duas tôrres, as sombras de Gog e de Magog—o homem, sem mesmo beber +daquela água tam fria de que bebera Josué, apanhou o cajado, sacudiu os +cabelos, e meteu pensativamente por sob o Aqueduto, logo sumido na espessura +das amendoeiras em flor. Mas uma esperança, deliciosa como o orvalho nos meses +em que canta a cigarra, refrescou as almas simples: logo, por toda a campina +que verdeja até Ascalon, o arado pareceu mais brando de enterrar, mais leve de +mover a pedra do lagar: as crianças, colhendo ramos de anémonas, espreitavam +pelos caminhos se alêm da esquina do muro, ou de sob o sicómoro, não surgiria +uma claridade: e nos bancos de pedra, às portas da cidade, os vélhos, correndo +os dedos pelos fios das barbas, já não desenrolavam, com tam sapiente certeza, +os ditames antigos.<span class="pn">{337}</span></p> + +<p>Ora então vivia em Enganim um vélho, por nome Obed, duma família pontifical +de Samaria que sacrificara nas aras do Monte Ebal, senhor de fartos rebanhos e +de fartas vinhas—e com o coração tam cheio de orgulho como o seu celeiro de +trigo. Mas um vento árido e abrasado, êsse vento de desolação que ao mando do +Senhor sopra das torvas terras de Assur, matara as reses mais gordas das suas +manadas, e pelas encostas onde as suas vinhas se enroscavam ao olmo, e se +estiravam na latada airosa, só deixara, em tôrno dos olmos e pilares despidos, +sarmentos, cêpas mirradas, e a parra roída de crespa ferrugem. E Obed agachado +à soleira da sua porta, com a ponta do manto sôbre a face, palpava a poeira, +lamentava a velhice, ruminava queixumes contra Deus cruel.</p> + +<p>Apenas ouvira falar dêsse novo Rabi da Galilea, que alimentava as multidões, +amedrontava os demónios, emendava todas as desventuras—Obed, homem lido, que +viajara na Fenícia, logo pensou que Jesus seria um dêsses feiticeiros, tam +costumados na Palestina, como Apolónio, ou Rabi Ben-Dossa, ou Simão, o Subtil. +Êsses, mesmo nas noites tenebrosas, conversam com as estrêlas, para êles sempre +claras e fáceis nos seus segredos: com uma vara afugentam de sôbre as searas os +moscardos gerados nos lôdos do<span class="pn">{338}</span> Egipto: e agarram entre os dedos as +sombras das árvores, que conduzem, como toldos benéficos, para cima das eiras, +à hora da sésta. Jesus da Galilea, mais novo, com magias mais viçosas de-certo, +se êle largamente o pagasse, sustaria a mortandade dos seus gados, reverdeceria +os seus vinhedos. Então Obed ordenou aos seus servos que partissem, procurassem +por toda a Galilea o Rabi novo, e com promessa de dinheiros ou alfaias o +trouxessem a Enganim, no país de Assachar.</p> + +<p>Os servos apertaram os cinturões de coiro—e largaram pela estrada das +Caravanas, que, costeando o Lago, se estende até Damasco. Uma tarde, avistaram +sôbre o poente, vermelho como uma romã muito madura, as neves finas do monte +Hermon. Depois, na frescura duma manhã macia, o lago de Tiberíade resplandeceu +diante dêles, transparente, coberto de silêncio, mais azul que o céu, todo +orlado de prados floridos, de densos vergeis, de rochas de pórfiro, e de alvos +terraços por entre os pomares, sob o vôo das rôlas. Um pescador que desamarrava +preguiçosamente a sua barca duma ponta de relva, assombreada de aloendros, +escutou, sorrindo, os servos. ¿O Rabi de Nazareth? Oh! desde o mês de Ijar, o +Rabi descera, com os seus discípulos, para os lados para onde o Jordão leva as +águas.</p> + +<p>Os servos, correndo, seguiram pelas margens<span class="pn">{339}</span> do rio, até adiante do +vau, onde êle se estira num largo remanso, e descansa, e um instante dorme, +imóvel e verde, à sombra dos tamarindos. Um homem da tríbu dos Essénios, todo +vestido de linho branco, apanhava lentamente ervas salutares, pela beira da +água, com um cordeirinho branco ao colo. Os servos humildemente saudaram-no +porque o povo ama aqueles homens de coração tam limpo, e claro, e cândido como +as suas vestes cada manhã lavadas em tanques purificados. ¿E sabia êle da +passagem do novo Rabi da Galilea, que como os Essénios ensinava a doçura, e +curava as gentes e os gados? O Essénio murmurou que o Rabi atravessara o Oásis +de Engaddi, depois se adiantara para alêm...—Mas onde, «alêm ?»—Movendo um +ramo de flores roxas que colhera, o Essénio mostrou as terras de Alêm Jordão, a +planície de Moab. Os servos vadearam o rio—e debalde procuraram Jesus, +arquejando pelos rudes trilhos, até às fragas onde se ergue a cidadela sinistra +de Makaur... No Pôço de Yakob repousava uma larga caravana, que conduzia para o +Egipto mirra, especiarias e bâlsamos de Gilead: e os cameleiros, tirando a água +com os baldes de coiro, contaram aos servos de Obed que em Gadara, pela lua +nova um Rabi maravilhoso, maior que David ou Isaias, arrancara sete demónios do +peito duma<span class="pn">{340}</span> tecedeira, e que, à sua voz, um homem degolado pelo salteador +Barabas, se erguera da sua sepultura e recolhera ao seu horto. Os servos, +esperançados, subiram logo açodadamente pelo caminho dos Peregrinos até Gadara, +cidade de altas tôrres, e ainda mais longe até às Nascentes da Amalha... Mas +Jesus, nessa madrugada, seguindo por um povo que cantava e sacudia ramos de +mimosa, embarcara no Lago, num batel de pesca, e à vela navegara para Magdala. +E os servos de Obed descorçoados, de novo passaram o Jordão na Ponte das Filhas +de Jacob. Um dia, já com as sandálias rôtas dos longos caminhos, pisando já as +terras da Judea Romana, cruzaram um Fariseu sombrio, que recolhia a Efraim, +montado na sua mula. Com devota reverência detiveram o homem da Lei. +¿Encontrara êle por acaso êsse Profeta novo da Galilea que, como um Deus +passeando na terra, semeava milagres? A adunca face do Fariseu escureceu +enrugada—e a sua cólera, retumbou como um tambor orgulhoso:</p> + +<p>—Oh escravos pagãos! Oh blasfemos! ¿Onde ouvistes que existissem profetas +ou milagres fóra de Jerusalêm ? Só Jeová tem fôrça no seu Templo. De Galilea +surdem os néscios e os impostores...</p> + +<p>E como os servos recuavam ante o seu punho erguido, todo enrodilhado de +dísticos sagrados—o<span class="pn">{341}</span> furioso Doutor saltou da mula, e, com as pedras da +estrada, apedrejou os servos de Obed, uivando: <em>Racca! Racca!</em> e todos +os Anátemas rituais. Os servos fugiram para Enganim. E grande foi a +desconsolação de Obed, porque os seus gados morriam, as suas vinhas secavam,—e +todavia radiantemente, como uma alvorada por detrás de serras, crescia, +consoladora e cheia de promessas divinas, a fama de Jesus da Galilea.</p> + +<p>Por êsse tempo, um Centurião Romano, Publius Septimus, comandava o forte que +domina o vale de Cesarea, até à cidade e ao mar. Publius, homem áspero, +veterano da campanha de Tibério contra os Partas, enriquecera durante a revolta +de Samaria com prêsas e saques, possuia minas na Ática, e gozava, como favor +supremo dos Deuses, a amizade de Flaccus, Legado Imperial da Síria. Mas uma dor +roía a sua prosperidade muito poderosa, como um verme rói um fruto muito +suculento. Sua filha única, para êle mais amada que vida e bens, definhava com +um mal subtil e lento, estranho mesmo ao saber dos esculápios e mágicos que êle +mandara consultar a Sidon e a Tyro. Branca e triste como a lua num cemitério, +sem um queixume, sorrindo pálidamente a seu pai, definhava, sentada na alta +esplanada do forte, sob um velário, alongando saudosamente os negros +olhos<span class="pn">{342}</span> tristes pelo azul do mar de Tyro, por onde ela navegara de Itália, +numa opulenta galera. Ao seu lado, por vezes, um legionário, entre as ameias, +apontava vagarosamente ao alto a flecha, e varava uma grande águia, voando de +asa serena, no céu rutilante. A filha de Septimus, seguia um momento a ave, +torneando até bater morta sôbre as rochas:—depois, com um suspiro, mais triste +e mais pálida, recomeçava a olhar para o mar.</p> + +<p>Então Septimus, ouvindo contar, a mercadores de Chorazin, dêste Rabi +admirável, tam potente sôbre os Espíritos, que sarava os males tenebrosos da +alma, destacou três decúrias de soldados para que o procurassem pela Galilea, e +por todas as cidades da Decápola, até à costa e até Ascalon. Os soldados +enfiaram os escudos nos sacos de lona, espetaram nos elmos ramos de oliveira—e +as suas sandálias ferradas apressadamente se afastaram, ressoando sôbre as +lages de basalto da estrada romana, que desde Cesarea até ao Lago corta toda a +Tetraquia de Herodes. As suas armas, de noite, brilhavam no tôpo das colinas, +por entre a chama ondeante dos archotes erguidos. De dia invadiam os casais, +rebuscavam a espessura dos pomares, esfuracavam com a ponta das lanças a palha +das medas: e as mulheres, assustadas, para os<span class="pn">{343}</span> amansar, logo acudiam com +bolos de mel, figos novos, e malgas cheias de vinho, que êles bebiam dum trago, +sentados à sombra dos sicómoros. Assim correram a Baixa Galilea—e, do Rabi, só +encontraram o sulco luminoso nos corações. Enfastiados com as inúteis marchas, +desconfiando que os Judeus sonegassem o seu feiticeiro para que Romanos não +aproveitassem do superior feitiço, derramavam com tumulto a sua cólera, através +da piedosa terra submissa. À entrada das pontes detinham os peregrinos, +gritando o nome do Rabi, rasgando os véus às virgens: e, à hora em que os +cântaros se enchem nas cisternas, invadiam as ruas estreitas dos burgos, +penetravam nas Sinagogas, e batiam sacrílegamente com os punhos das espadas nas +<em>Thebahs</em>, os Santos Armários de cedro que continham os Livros Sagrados. +Nas cercanias de Hebron arrastaram os Solitários pelas barbas para fóra das +grutas, para lhes arrancar o nome do deserto ou do palmar em que se ocultava o +Rabi:—e dois mercadores Fenícios que vinham de Joppé com uma carga de +malobatro, e a quem nunca chegara o nome de Jesus, pagaram por êsse delito cem +drácmas a cada Decurião. Já a gente dos campos, mesmos os bravios pastores de +Idumea, que levam as reses brancas para o Templo, fugiam espavoridos para as +serranias, apenas<span class="pn">{344}</span> luziam, nalguma volta do caminho, as armas do bando +violento. E da beira dos eirados, as vélhas sacudiam como taleigos a ponta dos +cabelos desgrenhados, e arrojavam sôbre êles as Más-Sortes, invocando a +vingança de Elias. Assim tumultuosamente erraram até Ascalon: não encontraram +Jesus: e retrocederam ao longo da costa enterrando as sandálias nas areias +ardentes.</p> + +<p>Uma madrugada, perto de Cesarea, marchando num vale, avistaram sôbre um +outeiro um verde-negro bosque de loureiros, onde alvejava, recolhidamente, o +fino e claro pórtico dum templo. Um vélho, de compridas barbas brancas, coroado +de fôlhas de louro, vestido com uma túnica côr de açafrão, segurando uma curta +lira de três cordas, esperava gravemente, sôbre os degraus de mármore, a +aparição do sol. Debaixo, agitando um ramo de oliveira, os soldados bradaram +pelo Sacerdote. ¿Conhecia êle um novo Profeta que surgira na Galilea, e tam +déstro em milagres que ressuscitava os mortos e mudava a água em vinho? +Serenamente, alargando os braços, o sereno vélho exclamou por sôbre a rociada +verdura do vale:</p> + +<p>—Oh romanos! ¿pois acreditais que em Galilea ou Judea apareçam profetas +consumando milagres? ¿Como pode um bárbaro alterar a Ordem instituida por +Zeus?... Mágicos<span class="pn">{345}</span> e feiticeiros são vendilhões, que murmuram palavras +ôcas, para arrebatar a espórtula dos simples... Sem a permissão dos Imortais +nem um galho sêco pode tombar da árvore, nem sêca fôlha pode ser sacudida na +árvore. Não há profetas, não há milagres... Só Apolo Délfico conhece o segredo +das coisas!</p> + +<p>Então, devagar, com a cabeça derrubada, como numa tarde de derrota, os +soldados recolheram à fortaleza de Cesarea. E grande foi o desespero de +Septimus, porque sua filha morria, sem um queixume, olhando o mar de Tyro—e +todavia a fama de Jesus, curador dos lânguidos males, crescia, sempre mais +consoladora e fresca, como a aragem da tarde que sopra do Hermon e, através dos +hortos, reanima e levanta as açucenas pendidas.</p> + +<p>Ora entre Enganim e Cesarea, num casebre desgarrado, sumido na prega dum +cêrro, vivia a êsse tempo uma viuva, mais desgraçada mulher que todas as +mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do magro peito +a que ela o criara para os farrapos da enxerga apodrecida, onde jazera, sete +anos passados, mirrando e gemendo. Tambêm a ela a doença a engelhara dentro dos +trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. E, sôbre +ambos, espessamente a miséria cresceu como o bolôr sôbre cacos perdidos num +ermo. Até na<span class="pn">{346}</span> lâmpada de barro vermelho, secara há muito o azeite. Dentro +da arca pintada não restava grão ou côdea. No estio, sem pasto, a cabra +morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tam longe do povoado, nunca +esmola de pão ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das +rochas, cosidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida, +onde até às aves maléficas sobrava o sustento!</p> + +<p>Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe +amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das +pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, êsse Rabi que aparecera na +Galilea, e de um pão no mesmo cêsto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e +enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso Reino, de +abundância maior que a Côrte de Salomão. A mulher escutava com olhos famintos. +¿E êsse dôce Rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava? O mendigo +suspirou. Ah êsse dôce Rabi! quantos o desejavam, que se desesperançavam! A sua +fama andava por sôbre toda a Judea como o sol que até por qualquer vélho muro +se estende e se goza; mas para enxergar a claridade do seu rosto, só aqueles +ditosos que o seu desejo escolhia. Obed, tam rico, mandara os seus<span class="pn">{347}</span> +servos por toda a Galilea para que procurassem Jesus, o chamassem com promessas +a Enganim: Septimus, tam soberano, destacara os seus soldados até à costa do +mar, para que buscassem Jesus, o conduzissem, por seu mando, a Cesarea. +Errando, esmolando por tantas estradas, êle topara os servos de Obed, depois os +legionários de Septimus. E todos voltavam, como derrotados, com as sandálias +rôtas, sem ter descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palácio, se +escondia Jesus.</p> + +<p>A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre +a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto, mais vergada, mais abandonada. E +então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar duma asa, pediu à mãe que +lhe trouxesse êsse Rabi, que amava as criancinhas ainda as mais pobres, sarava +os males ainda os mais antigos. A mãe apertou a cabeça esguedelhada:</p> + +<p>—Oh filho! ¿e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos, à procura +do Rabi da Galilea? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por +areais e colinas, desde Chorazin até ao país de Moab. Septimus é forte, e tem +soldados, e debalde correram por Jesus, desde o Hebron até ao mar! ¿Como queres +que te deixe? Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora comnosco, dentro +destas paredes, e dentro delas nos prende. ¿E mesmo que<span class="pn">{348}</span> o encontrasse, +como convenceria eu o Rabi tam desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a +que descesse através das cidades até êste ermo, para sarar um entrevadinho tam +pobre, sôbre enxerga tam rôta?</p> + +<p>A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:</p> + +<p>—Oh mãe! Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tam pequeno, e com um +mal tam pesado, e que tanto queria sarar!</p> + +<p>E a mãe, em soluços:</p> + +<p>—¿Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galilea, e +curta a piedade dos homens. Tam rôta, tam trôpega, tam triste, até os cães me +ladrariam da porta dos casais. Ninguêm atenderia o meu recado, e me apontaria a +morada do doce Rabi. Oh filho! talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os +fortes o encontram. O céu o trouxe, o céu o levou. E com êle para sempre morreu +a esperança dos tristes.</p> + +<p>De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãosinhas que tremiam, a +criança murmurou:</p> + +<p>—Mãe, eu queria ver Jesus...</p> + +<p>E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:</p> + +<p>—Aqui estou.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;">FIM<span class="pn">{349}</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +</div> + +<h1><a name="SECTION0001300">ÍNDICE</a> </h1> + +<p> </p> + +<table align="center" summary="Índice"> + <tr><td></td><td align="right">Pag.</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION000100">Singularidades de uma rapariga loura</a></td> + <td align="right">1</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION000200">Um poeta lírico</a></td><td align="right">43</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION000300">No moínho</a></td><td align="right">61</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION000400">Civilização</a></td><td align="right">81</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION000500">O tesoiro</a></td><td align="right">123</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION000600">Frei Genebro</a></td><td align="right">135</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION000700">Adão e Eva no Paraíso</a></td><td align="right">153</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION000800">A aia</a></td><td align="right">205</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION000900">O defunto</a></td><td align="right">215</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION0001000">José Matias</a></td><td align="right">265</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION0001100">A perfeição</a></td><td align="right">303</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION0001200">O suave milagre!</a></td><td align="right">335</td></tr> +</table> + +<p> </p> + +<p> </p> +<div class="fbox"><p><b>Notas de transcrição:</b></p> + +<p>Foram encontrados e corrigidos alguns erros tipográficos evidentes, de que não considerámos necessária menção especial.</p> +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Contos, by José Maria Eça de Queirós + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS *** + +***** This file should be named 31347-h.htm or 31347-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/1/3/4/31347/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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