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+The Project Gutenberg EBook of Contos, by José Maria Eça de Queirós
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Contos
+
+Author: José Maria Eça de Queirós
+
+Release Date: February 22, 2010 [EBook #31347]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS ***
+
+
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+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net
+
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+
+
+
+CONTOS
+
+PORTO--Imprensa Moderna
+
+
+
+
+ EÇA DE QUEIROZ
+
+ CONTOS
+
+
+ TERCEIRA EDIÇÃO
+
+
+ PORTO
+
+ LIVRARIA CHARDRON, DE LELO & IRMÃO,
+ EDITORES--RUA DAS CARMELITAS, 144
+
+ 1913
+
+Todos os direitos reservados
+
+
+
+
+Obras de EÇA DE QUEIROZ
+
+*O Crime do Padre Amaro*, 1 vol. 1$200
+
+*O Primo Bazílio*, 1 volume 1$000
+
+*O Mandarim*, 1 volume 500
+
+*Os Maias*, 2 grossos volumes 2$000
+
+*A Relíquia*, 1 grosso volume 1$000
+
+*Correspondência de Fradique Mendes*, 1 volume 600
+
+*A Ilustre Casa de Ramires*, 1 volume 1$000
+
+*A Cidade e as Serras*, 1 volume 800
+
+*Contos*, 1 volume 600
+
+*Prosas Bárbaras*, 1 volume 600
+
+*Cartas de Inglaterra*, 1 volume 500
+
+*Ecos de Paris*, 1 volume 500
+
+*Cartas Familiares*, 1 vol. 500
+
+*Notas Contemporâneas*, 1 volume 1$000
+
+*Últimas páginas* (manuscritos inéditos), 1 vol. 1$000
+
+*Páginas esquecidas*, com um largo estudo de José Sampaio (Bruno) no prélo
+
+*As Minas de Salomão*, (tradução), 1 volume 600
+
+*Revista de Portugal*, 4 grossos volumes (colaboração) 12$000
+
+
+
+
+A propriedade literária e artística está garantida em todos os países
+que aderiram à convenção de Berne--(Em Portugal, pela lei de 18 de março
+de 1911. No Brasil pela lei n.º 2.577 de 17 de Jan. de 1912.)
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+A obra dispersa de Eça de Queiroz, desde os seus primeiros folhetins na
+_Revolução de Setembro_ e na _Gazeta de Portugal_ até à sua assídua
+colaboração na _Gazeta de Notícias_, do Rio de Janeiro, e na _Revista
+Moderna_, é muito vasta, muito variada e encerra algumas das mais
+maravilhosas páginas do grande e saudoso escritor.
+
+Os seus editores começam, com a publicação do presente volume, a
+_compilação da obra póstuma e dispersa_, recolhendo cuidadosamente êsse
+riquíssimo espólio, para o salvar, pelo livro, do esquecimento a que o
+condenariam a dispersão das fôlhas diárias e a sua efémera vida.
+
+Os _Contos_ compreendem todos os escritos dêste género que Eça de
+Queiroz nos deixou, a partir das _Singularidades duma rapariga loura_.
+Os seus primitivos escritos na _Revolução_ e na _Gazeta de
+Portugal_, obra mixta de fantasia e de crítica, seguir-se hão a êste em
+outro volume, já no prelo, e a que uma feliz indicação do snr. Jaime
+Batalha Reis[1] nos revelou o próprio título que o autor
+determinara dar-lhe: _Prosas Bárbaras_.
+
+Mais três volumes serão destinados a coligir as suas correspondências
+para os jornais brasileiros, conservando-se-lhes como títulos as
+rúbricas sob que ali eram publicadas: _Cartas de Inglaterra_, _Ecos de
+Paris e Cartas Familiares_; e outros dois encerrarão[2] a
+sua copiosa _vária_, onde se misturam impressões de literatura e de
+arte, artigos sôbre política geral, estudos biográficos, notas de
+viagem, ensaios, críticas, polémica, etc.
+
+Completará esta série um derradeiro volume com o precioso inédito do _S.
+Cristóvão_,[3] tal como o admirável artista o deixou: um
+esbôço magnífico, um verdadeiro improviso, traçado com largueza numa
+primeira factura pronta e fluente, onde a sua imaginação e a sua prosa
+brotam em jorros impetuosos e borbulhantes, em contrário da falsa lenda
+que fazia de Eça de Queiroz um criador moroso, e um escritor sem
+espontaneidade.
+
+A título de curiosidade, para mostrar o poder de desenvolvimento e
+ampliação das suas faculdades imaginativas e como um exemplo dos seus
+processos de trabalho, inserimos no presente volume o conto intitulado
+_Civilização_, que o autor, amplificando-o, transformou depois na
+deliciosa novela _A Cidade e as Serras_.
+
+Ao terminar estas linhas, os editores cumprem o grato dever de
+testemunhar o seu reconhecimento ao snr. Francisco Ramos Paz,
+co-proprietário da _Gazeta de Notícias_, do Rio de Janeiro, que, com o
+mais vivo interesse pela publicação dos escritos dispersos de Eça de
+Queiroz, lhes forneceu obsequiosamente toda a vasta colaboração do
+ilustre romancista no importante jornal fluminense.
+
+
+Pôrto, 1903.
+
+ *_Lelo & Irmão._*
+
+(_Da primeira edição_)
+
+
+
+ [1] ANTHERO DE QUENTAL, _In Memoriam_, pag. 444.
+
+ [2] Publicado num só volume--_Notas Contemporâneas_--1909.
+
+ [3] Incluido no volume--_Últimas páginas_--1911.
+
+
+
+
+
+SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA
+
+
+I
+
+Começou por me dizer que o seu caso era simples--e que se chamava
+Macário...
+
+Devo contar que conheci êste homem numa estalagem do Minho. Era alto e
+grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se
+lhe erriçavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda
+engelhada e amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e
+rectidão--por trás dos seus óculos redondos com aros de tartaruga. Tinha
+a barba rapada, o queixo saliente e resoluto. Trazia uma gravata de
+setim negro apertada por trás com uma fivela; um casaco comprido côr de
+pinhão, com as mangas estreitas e justas e canhões de veludilho. E pela
+longa abertura do seu colete de sêda, onde reluzia um grilhão antigo,
+saíam as pregas moles de uma camisa bordada.
+
+Era isto em setembro: já as noites vinham mais cedo, com uma friagem
+fina e sêca e uma escuridão aparatosa. Eu tinha descido da diligência,
+fatigado, esfomeado, tiritando num cobrejão de listas escarlates.
+
+Vinha de atravessar a serra e os seus aspectos pardos e desertos. Eram
+oito horas da noite. Os céus estavam pesados e sujos. E, ou fôsse um
+certo adormecimento cerebral produzido pelo rolar monótono da
+diligência, ou fôsse a debilidade nervosa da fadiga, ou a influência da
+paizagem escarpada e árida, sob o côncavo silêncio noturno, ou a
+opressão da electricidade, que enchia as alturas--o facto é que eu--que
+sou naturalmente positivo e realista--tinha vindo tiranizado pela
+imaginação e pelas quimeras. Existe, no fundo de cada um de nós, é
+certo,--tam friamente educados que sejâmos--um resto de misticismo; e
+basta às vezes uma paizagem soturna, o vélho muro de um cemitério, um
+ermo ascético, as emolientes brancuras de um luar, para que êsse fundo
+místico suba, se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensação e a
+idea, e fique assim o mais matemático ou o mais crítico--tam triste, tam
+visionário, tam idealista--como um vélho monge poeta. A mim, o que me
+lançara na quimera e no sonho, fôra o aspecto do mosteiro de Rastelo,
+que eu tinha visto, à claridade suave e outonal da tarde, na sua doce
+colina. Então, emquanto anoitecia, a diligência rolava contínuamente ao
+trote esgalgado dos seus magros cavalos brancos, e o cocheiro, com o
+capuz do gabão enterrado na cabeça, ruminava o seu cachimbo--eu pus-me,
+elegíacamente, ridículamente, a considerar a esterilidade da vida: e
+desejava ser um monge, estar num convento, tranqùilo, entre arvoredos ou
+na murmurosa concavidade dum vale, e emquanto a água da cêrca canta
+sonoramente nas bacias de pedra, ler a _Imitação_, e ouvindo os
+rouxinóis nos loireirais ter saudades do céu.--Não se pode ser mais
+estúpido. Mas eu estava assim, e atribuo a esta disposição visionária a
+falta de espírito--a sensação--que me fez a história daquele homem dos
+canhões de veludilho.
+
+A minha curiosidade começou à ceia, quando eu desfazia o peito de uma
+galinha afogada em arroz branco, com fatias escarlates de paio--e a
+criada, uma gorda e cheia de sardas, fazia espumar o vinho verde no
+copo, fazendo-o cair de alto de uma caneca vidrada. O homem estava
+defronte de mim, comendo tranqùilamente a sua geleia: perguntei-lhe, com
+a bôca cheia, o meu guardanapo de linho de Guimarães suspenso nos
+dedos--se êle era de Vila Rial.
+
+--Vivo lá. Há muitos anos--disse-me êle.
+
+--Terra de mulheres bonitas, segundo me consta--disse eu.
+
+O homem calou-se.
+
+--Hein?--tornei.
+
+O homem contraiu-se num silêncio saliente. Até aí estivera alegre, rindo
+dilatadamente; loquaz e cheio de bonomia. Mas então imobilizou o seu
+sorriso fino.
+
+Compreendi que tinha tocado a carne viva de uma lembrança. Havia
+de-certo no destino daquele vélho uma _mulher_. Aí estava o seu
+melodrama ou a sua farça, porque inconscientemente estabeleci-me na idea
+de que o _facto_, o _caso_ daquele homem, devera ser grotesco e exalar
+escárnio.
+
+De sorte que lhe disse:
+
+--A mim teem-me afirmado que as mulheres de Vila Rial são as mais
+bonitas do Norte. Para os olhos pretos Guimarães, para corpos Santo
+Aleixo, para tranças os Arcos: é lá que se vêem os cabellos claros côr
+de trigo.
+
+O homem estava calado, comendo, com os olhos baixos.
+
+--Para cinturas finas Viana, para boas peles Amarante--e para isto tudo
+Vila Rial. Eu tenho um amigo que veio casar a Vila Rial. Talvez conheça.
+O Peixoto, um alto, de barba loura, bacharel.
+
+--O Peixoto, sim,--disse-me êle, olhando gravemente para mim.
+
+--Veio casar a Vila Rial como antigamente se ia casar à
+Andaluzia--questão de arranjar a fina flor da perfeição.--À sua saude.
+
+Eu evidentemente constrangia-o, porque se ergueu, foi à janela com um
+passo pesado, e reparei então nos seus grossos sapatos de casimira com a
+sola forte e atilhos de coiro. E saiu.
+
+Quando pedi o meu castiçal, a criada trouxe-me um candieiro de latão
+lustroso e antigo e disse:
+
+--O senhor está com outro. É no n.º 3.
+
+Nas estalagens do Minho, às vezes, cada quarto é um dormitório
+impertinente.
+
+--Vá--disse eu.
+
+O n.º 3 era no fundo do corredor. Às portas dos lados os hóspedes tinham
+posto o seu calçado para engraxar: estavam umas grossas botas de montar,
+enlameadas, com esporas de correia; os sapatos brancos de um caçador;
+botas de proprietário, de altos canos vermelhos; as botas de um padre,
+altas, com a sua borla de retroz; os botins cambados de bezerro, de um
+estudante; e a uma das portas, o n.º 15, havia umas botinas de mulher,
+de duraque, pequeninas e finas, e ao lado as pequeninas botas de uma
+criança, todas coçadas e batidas, e os seus canos de pelica-mór
+caíam-lhe para os lados com os atacadores desatados. Todos dormiam.
+Defronte do n.º 3 estavam os sapatos de casimira com atilhos: e quando
+abri a porta vi o homem dos canhões de veludilho, que amarrava na cabeça
+um lenço de sêda: estava com uma jaqueta curta de ramagens, uma meia de
+lã, grossa e alta, e os pés metidos nuns chinelos de ourelo.
+
+--O senhor não repare--disse êle.
+
+--À vontade--e para estabelecer a intimidade tirei o casaco.
+
+Não direi os motivos porque êle daí a pouco, já deitado, me disse a sua
+história. Há um provérbio eslavo da Galícia que diz: o que não contas à
+tua mulher, o que não contas ao teu amigo, conta-lo a um estranho, na
+estalagem. Mas êle teve raivas inesperadas e dominantes para a sua larga
+e sentida confidência. Foi a respeito do meu amigo, do Peixoto, que fôra
+casar a Vila Rial. Vi-o chorar, àquele vélho de quási sessenta anos.
+Talvez a história seja julgada trivial: a mim, que nessa noite estava
+nervoso e sensível, pareceu-me terrível,--mas conto-a apenas como um
+acidente singular da vida amorosa....
+
+Começou pois por me dizer que o seu caso era simples--e que se chamava
+Macário.
+
+Perguntei-lhe então se era de uma família que eu conhecera que tinha o
+apelido de _Macário_. E como êle me respondeu que era primo dêsses, eu
+tive logo do seu carácter uma idea simpática, porque os Macários eram
+uma antiga família, quási uma dinastia de comerciantes, que mantinham
+com uma severidade religiosa a sua vélha tradição de honra e de
+escrúpulo. Macário disse-me que nesse tempo, em 1823 ou 33, na sua
+mocidade, seu tio Francisco tinha, em Lisboa, um armazêm de panos, e êle
+era um dos caixeiros. Depois o tio compenetrára-se de certos instintos
+inteligentes e do talento prático e aritmético de Macário, e deu-lhe a
+escrituração. Macário tornou-se o seu _guarda-livros_.
+
+Disse-me êle que sendo naturalmente linfático e mesmo tímido, a sua vida
+tinha nesse tempo uma grande concentração. Um trabalho escrupuloso e
+fiel, algumas raras merendas no campo, um apuro saliente de fato e de
+roupas brancas, era todo o interesse da sua vida. A existência nesse
+tempo era caseira e apertada. Uma grande simplicidade social aclarava os
+costumes: os espíritos eram mais ingénuos, os sentimentos menos
+complicados.
+
+Jantar alegremente numa horta, debaixo das parreiras, vendo correr a
+água das regas--chorar com os melodramas que rugiam entre os bastidores
+do Salitre, alumiados a cera, eram contentamentos que bastavam à
+burguesia cautelosa. Alêm disso os tempos eram confusos e
+revolucionários: e nada torna o homem recolhido, conchegado à lareira,
+simples e fácilmente feliz--como a guerra. É a paz que dando os
+vagares da imaginação--causa as impaciências do desejo.
+
+Macário, aos vinte e dois anos, ainda não tinha--como lhe dizia uma
+vélha tia, que fôra querida do desembargador Curvo Semedo, da
+Arcádia,--_sentido Vénus_.
+
+Mas por êsse tempo veio morar para defronte do armazêm dos Macários,
+para um terceiro andar, uma mulher de quarenta anos, vestida de luto,
+uma pele branca e baça, o busto bem feito e redondo e um aspecto
+desejável. Macário tinha a sua carteira no primeiro andar, por cima do
+armazêm, ao pé de uma varanda, e dali viu uma manhã aquela mulher com o
+cabelo preto solto e anelado, um chambre branco e braços nus, chegar-se
+a uma pequena janela de peitoril, a sacudir um vestido. Macário
+afirmou-se e sem mais intenção dizia mentalmente que aquela mulher, aos
+vinte anos, devia ter sido uma pessoa cativante e cheia de domínio:
+porque os seus cabelos violentos e ásperos, o sobr'ôlho espesso, o lábio
+forte, o perfil aquilino e firme, revelavam um temperamento activo e
+imaginações apaixonadas. No entanto, continuou serenamente alinhando as
+suas cifras. Mas à noite estava sentado fumando à janela do seu quarto,
+que abria sôbre o pátio: era em julho e a atmosfera estava eléctrica e
+amorosa: a rebeca de um vizinho gemia uma _chácara_ mourisca, que
+então sensibilizava, e era de um melodrama; o quarto estava numa
+penumbra doce e cheia de mistério--e Macário, que estava em chinelas,
+começou a lembrar-se daqueles cabelos negros e fortes e daqueles braços
+que tinham a côr dos mármores pálidos: espreguiçou-se, rolou
+mórbidamente a cabeça pelas costas da cadeira de vime, como os gatos
+sensíveis que se esfregam, e decidiu bocejando que a sua vida era
+monótona. E ao outro dia, ainda impressionado, sentou-se à sua carteira
+com a janela toda aberta, e olhando o prédio fronteiro onde viviam
+aqueles cabelos grandes--começou a aparar vagarosamente a sua pena de
+rama. Mas ninguêm se chegou à janela de peitoril, com caixilhos verdes.
+Macário estava enfastiado, pesado--e o trabalho foi lento. Pareceu-lhe
+que havia na rua um sol alegre, e que nos campos as sombras deviam ser
+mimosas e que se estaria bem vendo o palpitar das borboletas brancas nas
+madre-silvas! E, quando fechou a carteira, sentiu defronte correr-se a
+vidraça; eram de-certo os cabelos pretos. Mas apareceram uns cabelos
+louros. Oh! E Macário veio logo salientemente para a varanda aparar um
+lápis. Era uma rapariga de vinte anos, talvez--fina, fresca, loura como
+uma vinheta inglesa: a brancura da pele tinha alguma coisa da
+transparência das vélhas porcelanas, e havia no seu perfil uma linha
+pura como de uma medalha antiga, e os vélhos poetas pitorescos
+ter-lhe-iam chamado--pomba, arminho, neve e oiro.
+
+Macário disse consigo:
+
+--É filha.
+
+A outra vestia de luto, mas esta, a loira, tinha um vestido de cassa com
+pintas azuis, um lenço de cambraia traspassado sôbre o peito, as mangas
+perdidas com rendas, e tudo aquilo era asseado, môço, fresco, flexível e
+tenro.
+
+Macário nesse tempo era louro com a barba curta. O cabelo era anelado e
+a sua figura devia ter aquele ar sêco e nervoso que depois do século
+XVIII e da revolução--foi tam vulgar nas raças plebeias.
+
+A rapariga loura reparou naturalmente em Macário, e naturalmente desceu
+a vidraça, correndo por trás uma cortina de cassa bordada. Estas
+pequenas cortinas datam de Goethe e teem na vida amorosa um
+interessante destino: revelam. Levantar-lhes uma ponta e espreitar,
+franzi-la suavemente, revela um fim; corrê-la, pregar nela uma flor,
+agitá-la fazendo sentir que por trás um rosto atento se move e
+espera--são vélhas maneiras com que na realidade e na arte começa o
+romance. A cortina ergueu-se devagarinho e o rosto louro espreitou.
+
+Macário não me contou por pulsações--a história minuciosa do seu
+coração. Disse singelamente que daí a cinco dias--_estava doido_
+_por ela_. O seu trabalho tornou-se logo vagaroso e infiel e o seu belo
+cursivo inglês firme e largo ganhou curvas, ganchos, rabiscos, onde
+estava todo o romance impaciente dos seus nervos. Não a podia ver pela
+manhã: o sol mordente de julho batia e escaldava a pequena janela de
+peitoril. Só pela tarde, a cortina se franzia, se corria a vidraça, e
+ela, estendendo uma almofadinha no rebordo do peitoril, vinha
+encostar-se mimosa e fresca com o seu leque. Leque que preocupou
+Macário: era uma ventarola chinesa, redonda, de sêda branca com dragões
+escarlates bordados à pena, uma cercadura de plumagem azul, fina e
+trémula como uma penugem e o seu cabo de marfim, donde pendiam duas
+borlas de fio de oiro, tinha incrustações de nácar à linda maneira persa.
+
+Era um leque magnífico e naquele tempo inesperado nas mãos plebeias de
+uma rapariga vestida de cassa. Mas como ela era loura e a mãe tam
+meridional, Macário, com esta intuição interpretativa dos namorados,
+disse à sua curiosidade: _será filha de um inglês_. O inglês vai à
+China, à Pérsia, a Ormuz, à Austrália e vem cheio daquelas jóias dos
+luxos exóticos, e nem Macário sabia porque é que aquela ventarola de
+mandarina o preocupava assim: mas segundo êle me disse--_aquilo deu-lhe
+no gôto_.
+
+Tinha-se passado uma semana, quando um dia Macário viu, da sua carteira,
+que ela, a loura, saía com a mãe, porque se acostumara a considerar
+mãe dela aquela magnífica pessoa, magníficamente pálida e vestida de luto.
+
+Macário veio à janela e viu-a atravessar a rua e entrarem no armazêm. No
+seu armazêm! Desceu logo trémulo, sôfrego, apaixonado e com palpitações.
+Estavam elas já encostadas ao balcão e um caixeiro desdobrava-lhes
+defronte casimiras pretas. Isto comoveu Macário. Êle mesmo mo disse.
+
+--Porque emfim, meu caro, não era natural que elas viessem comprar, para
+si, casimiras pretas.
+
+E não: elas não usavam _amazonas_, não quereriam de-certo estofar
+cadeiras com casimira preta, não havia homens em casa delas; portanto
+aquela vinda ao armazêm era um meio delicado de o ver de perto, de lhe
+falar, e tinha o encanto penetrante de uma mentira sentimental. Eu disse
+a Macário que, sendo assim, êle devia estranhar aquele movimento
+amoroso, porque denotava na mãe uma cumplicidade equívoca. Êle
+confessou-me _que nem pensava em tal_. O que fez foi chegar ao balcão e
+dizer estúpidamente:
+
+--Sim senhor, vão bem servidas, estas casimiras não encolhem.
+
+E a loura ergueu para êle o seu olhar azul, e foi como se Macário se
+sentisse envolvido na doçura de um céu.
+
+Mas quando êle ia dizer-lhe uma palavra reveladora e veemente, apareceu
+ao fundo do armazêm o tio Francisco, com o seu comprido casaco côr de
+pinhão, de botões amarelos. Como era singular e desusado achar-se o snr.
+guarda-livros vendendo ao balcão e o tio Francisco com a sua crítica
+estreita e celibatária podia escandalizar-se, Macário começou a subir
+vagarosamente a escada em caracol que levava ao escritório, e ainda
+ouviu a voz delicada da loura dizer brandamente:
+
+--Agora queria ver lenços da Índia.
+
+E o caixeiro foi buscar um pequenino pacote daqueles lenços, acamados e
+apertados numa tira de papel dourado.
+
+Macário, que tinha visto naquela visita uma revelação de amor, quási uma
+_declaração_, esteve todo o dia entregue às impaciências amargas da
+paixão. Andava distraído, abstracto, pueril, não deu atenção à
+escrituração, jantou calado, sem escutar o tio Francisco que exaltava as
+almôndegas, mal reparou no seu ordenado que lhe foi pago em pintos às
+três horas, e não entendeu bem as recomendações do tio e a preocupação
+dos caixeiros sôbre o desaparecimento de um pacote de lenços da Índia.
+
+--É o costume de deixar entrar pobres no armazêm--tinha dito no seu
+laconismo majestoso o tio Francisco.--São 12$000 réis de lenços. Lance à
+minha conta.
+
+Macário, no entanto, ruminava secretamente uma carta, mas sucedeu que ao
+outro dia, estando êle à varanda, a mãe, a de cabelos pretos, veio
+encostar-se ao peitoril da janela, e neste momento, passava na rua um
+rapaz amigo de Macário, que vendo aquela senhora afirmou-se e tirou-lhe,
+com uma cortesia toda risonha, o seu chapéu de palha. Macário ficou
+radioso: logo nessa noite procurou o seu amigo, e abruptamente, sem meia
+tinta:
+
+--¿Quem é aquela mulher que tu hoje cumprimentaste defronte do armazêm?
+
+--É a Vilaça. Bela mulher.
+
+--E a filha?
+
+--A filha!
+
+--Sim, uma loura, clara, com um leque chinês.
+
+--Ah! sim. É filha.
+
+--É o que eu dizia....
+
+--Sim, e então?
+
+--É bonita.
+
+--É bonita.
+
+--É gente de bem, hein?
+
+--Sim, gente de bem.
+
+--Está bom. Tu conhece-las muito?
+
+--Conheço-as. Muito não. Encontrava-as dantes em casa de D. Cláudia.
+
+--Bem, ouve lá.
+
+E Macário, contando a história do seu coração acordado e exigente e
+falando do amor com as exaltações de então, pediu-lhe como a glória
+da sua vida, _que achasse um meio de o encaixar lá_. Não era difícil. As
+Vilaças costumavam ir aos sábados a casa de um tabelião muito rico na
+rua dos Calafates: eram assembleias simples e pacatas, onde se cantavam
+motetes ao cravo, se glosavam motes e havia jogos de prendas do tempo da
+senhora D. Maria I, e às 9 horas a criada servia a orchata. Bem. Logo no
+primeiro sábado, Macário, de casaca azul, calças de ganga com presilhas
+de trama de metal, gravata de setim roxo, curvava-se diante da espôsa do
+tabelião, a snr.ª D. Maria da Graça, pessoa sêca e aguçada, com um
+vestido bordado a matiz, um nariz adunco, uma enorme luneta de
+tartaruga, a pluma de _marabout_ nos seus cabelos grisalhos. A um canto
+da sala já lá estava, entre um _frou-frou_ de vestidos enormes, a menina
+Vilaça, a loura, vestida de branco, simples, fresca, com o seu ar de
+gravura colorida. A mãe Vilaça, a soberba mulher pálida, cochichava com
+um desembargador de figura apoplética. O tabelião era homem letrado,
+latinista e amigo das musas; escrevia num jornal de então, a _Alcofa das
+Damas_: porque era sobretudo galante, e êle mesmo se intitulava, numa
+ode pitoresca, _môço escudeiro de Vénus_. Assim, as suas reùniões eram
+ocupadas pelas belas-artes--e nessa noite um poeta do tempo devia
+vir ler um poemeto intitulado _Elmira ou a vingança do veneziano_!...
+Começavam então a aparecer as primeiras audácias românticas. As
+revoluções da Grécia principiavam a atrair os espíritos romanescos e
+saídos da mitologia para os países maravilhosos do Oriente. Por toda a
+parte se falava no pachá de Janina. E a poesia apossava-se vorazmente
+dêste mundo novo e virginal de minaretes, serralhos, sultanas côr de
+ámbar, piratas do Arquipélago, e salas rendilhadas, cheias do perfume do
+aloés onde pachás decrépitos acariciam leões.--De sorte que a
+curiosidade era grande--e quando o poeta apareceu com os cabelos
+compridos, o nariz adunco e fatal, o pescoço entalado na alta gola do
+seu fraque à Restauração e um canudo de lata na mão--o snr. Macário é
+que não experimentou sensação alguma, porque lá estava todo absorvido,
+falando com a menina Vilaça. E dizia-lhe meigamente:
+
+--¿Então, noutro dia, gostou das casimiras?
+
+--Muito--disse ela baixo.
+
+E, desde êsse momento, envolveu-os um destino nupcial.
+
+No entanto, na larga sala a noite passava-se espiritualmente. Macário
+não pôde dar todos os pormenores históricos e característicos daquela
+assembleia. Lembrava-se apenas que um corregedor de Leiria recitava o
+_Madrigal a Lídia_: lia-o de pé, com uma luneta redonda aplicada
+sôbre o papel, a perna direita lançada para diante, a mão na abertura do
+colete branco de gola alta. E em redor, formando círculo, as damas, com
+vestidos de ramagens, cobertas de plumas, as mangas estreitas terminadas
+num fofo de rendas, mitenes de retroz preto cheias da scintilação dos
+aneis, tinham sorrisos ternos, cochichos, doces murmurações, risinhos, e
+um brando palpitar de leques recamados de lantejoulas.--Muito bonito,
+diziam, muito bonito! E o corregedor, desviando a luneta, cumprimentava
+sorrindo--e via-se-lhe um dente pôdre.
+
+Depois a preciosa D. Jerónima da Piedade e Sande, sentando-se com
+maneiras comovidas ao cravo, cantou com a sua voz roufenha a antiga ária
+de Sully:
+
+ Oh Ricardo, oh meu rei,
+ O mundo te abandona
+
+o que obrigou o terrível Gaudêncio, democrata de 20 e admirador de
+Robespierre, a rosnar rancorosamente junto de Macário:
+
+--Reis!... víboras!
+
+Depois, o cónego Saavedra cantou uma modinha de Pernambuco muito usada
+no tempo do senhor D. João VI: _lindas môças_, _lindas môças_. E a noite
+ia assim correndo, literária, pachorrenta, erudita, requintada e toda
+cheia de musas.
+
+Oito dias depois, Macário era recebido em casa da Vilaça, num domingo. A
+mãe convidára-o, dizendo-lhe:
+
+--Espero que o vizinho honre aquela choupana.
+
+E até o desembargador apoplético, que estava ao lado, exclamou:
+
+--Choupana?! diga alcáçar, formosa dama!
+
+Estavam, nesta noite, o amigo do chapéu de palha, um vélho cavaleiro de
+Malta, trôpego, estúpido e surdo, um beneficiado da Sé, ilustre pela sua
+voz de tiple, e as manas Hilárias, a mais vélha das quais tendo
+assistido, como aia de uma senhora da casa da Mina, à tourada de
+Salvaterra, em que morreu o conde dos Arcos, nunca deixava de narrar os
+episódios pitorescos daquela tarde: a figura do conde dos Arcos de cara
+rapada e uma fita de setim escarlate no rabicho; o soneto que um magro
+poeta, parasita da casa de Vimioso, recitou quando o conde entrou,
+fazendo ladear o seu cavalo negro, arreado à espanhola, com um xairel
+onde as suas armas estavam lavradas em prata: o tombo que nesse momento
+um frade de S. Francisco deu da trincheira alta, e a hilaridade da
+côrte, que até a snr.ª condessa de Pavolide apertava as mãos nas
+ilhargas: depois el-rei o senhor D. José I, vestido de veludo escarlate,
+recamado de ouro, todo encostado ao rebordo do seu palanque, e fazendo
+girar entre dois dedos a sua caixa de rapé cravejada, e por trás,
+imóveis, o físico Lourenço e o frade, seu confessor: depois o rico
+aspecto da praça cheia de gente de Salvaterra, maiorais, mendigos dos
+arredores, frades, lacaios, e o grito que houve, quando D. José I
+entrou--Viva el-rei, nosso senhor! E o povo ajoelhou, e el-rei tinha-se
+sentado, comendo doces, que um criado trouxe num saco de veludo, atrás
+dêle. Depois a morte do conde dos Arcos, os desmaios, e até el-rei todo
+debruçado, batendo com a mão no parapeito, gritando na confusão, e o
+capelão da casa dos Arcos que tinha corrido a buscar a extrema-unção.
+Ela, Hilária, ficara estarrecida de pavor: sentia os urros dos bois,
+gritos agudos de mulheres, os ganidos dos flatos, e vira então um vélho,
+todo vestido de veludo preto, com a fina espada na mão, debater-se entre
+fidalgos e damas que o seguravam, e querer atirar-se à praça, bramindo
+de raiva! «É o pai do conde!» explicavam em volta. Ela então desmaiara
+nos braços de um padre da Congregação. Quando veio a si, achou-se junto
+da praça; a berlinda rial estava à porta, com os bolieiros emplumados,
+os machos cheios de guisos, e os batedores a cavalo, à frente: via-se lá
+dentro el-rei, escondido ao fundo, pálido, sorvendo febrilmente rapé,
+todo encolhido com o confessor; e defronte, com uma das mãos apoiada à
+alta bengala, forte, espadaúdo, o aspecto carregado, o marquês de
+Pombal falava devagar e intimativamente, gesticulando com a luneta. Mas
+os batedores picaram, os estalos dos bolieiros retiniram, e a berlinda
+partiu a galope, emquanto o povo gritava: Viva el-rei, nosso senhor!--e
+o sino da capela do paço tocava a finados! Era uma honra que el-rei
+concedia à casa dos Arcos.
+
+Quando D. Hilária acabou de contar, suspirando, estas desgraças
+passadas, começou-se a jogar. Era singular que Macário não se lembrava o
+que tinha jogado nessa noite radiosa. Só se recordava que tinha ficado
+ao lado da menina Vilaça (que se chamava Luísa), que reparara muito na
+sua fina pele rosada, tocada de luz, e na meiga e amorosa pequenez da
+sua mão com uma unha mais polida que o marfim de Dieppe. E lembrava-se
+tambêm de um acidente excêntrico, que determinara nele, desde êsse dia,
+uma grande hostilidade ao clero da Sé. Macário estava sentado à mesa, e
+ao pé dêle Luísa: Luísa estava toda voltada para êle com uma das mãos
+apoiando a sua fina cabeça loura e amorosa, e a outra esquecida no
+regaço. Defronte estava o beneficiado, com o seu barrete preto, os seus
+óculos na ponta aguda do nariz, o tom azulado da forte barba rapada, e
+as suas duas grandes orelhas, complicadas e cheias de cabelo, separadas
+do crânio como dois postigos abertos. Ora, como era necessário no
+fim do jôgo pagar uns tentos ao cavaleiro de Malta, que estava ao lado
+do beneficiado, Macário tirou da algibeira uma peça e quando o
+cavaleiro, todo curvado e com um ôlho pisco, fazia a sôma dos tentos nas
+costas dum az, Macário conversava com Luísa, e fazia girar sôbre o pano
+verde a sua peça de oiro, como um bilro ou um peão. Era uma peça nova
+que luzia, faiscava, rodando, e feria a vista como uma bola de névoa
+doirada. Luísa sorria vendo-a girar, girar, e parecia a Macário que todo
+o céu, a pureza, a bondade das flores e a castidade das estrêlas estavam
+naquele claro sorriso distraído, espiritual, arcangélico, com que ela
+seguia o giro fulgurante da peça de oiro nova. Mas de repente, a peça,
+correndo até à borda da mesa, caiu para o lado do regaço de Luísa, e
+desapareceu, sem se ouvir no soalho de tábuas o seu ruído metálico. O
+beneficiado abaixou-se logo cortêsmente: Macário afastou a cadeira,
+olhando para debaixo da mesa: a mãe Vilaça alumiou com um castiçal, e
+Luísa ergueu-se e sacudiu com pequenina pancada o seu vestido de cassa.
+A peça não apareceu.
+
+--É celebre--disse o amigo de chapéu de palha--eu não ouvi tinir no chão.
+
+--Nem eu, nem eu--disseram.
+
+O beneficiado, curvado, buscava tenazmente, e a Hilária mais nova
+rosnava o responso de Santo António.
+
+--Pois a casa não tem buracos--dizia a mãe Vilaça.
+
+--Sumiço assim!--resmungava o beneficiado.
+
+No entanto Macário exalava-se em exclamações desinteressadas:
+
+--Pelo amor de Deus! Ora que tem! Àmanhã aparecerá! Tenham a bondade!
+Por quem são! Então, snr.ª D. Luísa! Pelo amor de Deus! Não vale nada.
+
+Mas mentalmente estabeleceu que houvera uma subtracção--e atribuiu-a ao
+beneficiado. A peça rolara, de-certo, até junto dêle sem ruido; êle
+pusera-lhe em cima o seu vasto sapato eclesiástico e tachado; depois, no
+movimento brusco e curto que tivera, empolgára-a vilmente. E, quando
+saíram, o beneficiado, todo embrulhado no seu vasto capote de camelão,
+dizia a Macário pela escada:
+
+--¿Ora o sumiço da peça, hein? Que brincadeira!
+
+--¿Acha, snr. beneficiado?!--disse Macário parando, pasmado da impudência.
+
+--Ora essa! Se acho?! Se lhe parece! Uma peça de 7$000 réis! Só se o
+senhor as semeia... Safa! Eu dava em doido!
+
+Macário teve tédio daquela astúcia fria. Não lhe respondeu. O
+beneficiado é que acrescentou:
+
+--Àmanhã mande lá pela manhã, homem. Que diabo... Deus me perdôe!
+Que diabo! uma peça não se perde assim. Que bolada, hein!
+
+E Macário tinha vontade de lhe bater.
+
+Foi neste ponto que Macário me disse, com a sua voz singularmente sentida:
+
+--Emfim, meu amigo, para encurtarmos razões, resolvi-me casar com ela.
+
+--Mas a peça?
+
+--Não pensei mais nisso! Pensava eu lá na peça! Resolvi-me casar com ela!
+
+
+II
+
+Macário contou-me o que o determinara mais precisamente àquela resolução
+profunda e perpétua. Foi um beijo. Mas êsse caso, casto e simples, eu
+calo-o;--mesmo porque a única testemunha foi uma imagem em gravura da
+Virgem, que estava pendurada no seu caixilho de pau preto, na saleta
+escura que abria para a escada... Um beijo fugitivo, superficial,
+efémero. Mas isso bastou ao seu espírito recto e severo para o obrigar a
+tomá-la como espôsa, a dar-lhe uma fé imutável e a posse da sua vida.
+Tais foram os seus esponsais. Aquela simpática sombra das janelas
+vizinhas tornara-se para êle um destino, o fim moral da sua vida e
+toda a idea dominante do seu trabalho. E esta história toma, desde logo,
+um alto carácter de santidade e de tristeza.
+
+Macário falou-me muito do carácter e da figura do tio Francisco: a sua
+possante estatura, os seus óculos de oiro, a sua barba grisalha, em
+colar, por baixo do queixo, um tic nervoso que tinha numa asa do nariz,
+a dureza da sua voz, a sua austera e majestosa tranqùilidade, os seus
+princípios antigos, autoritários e tirânicos, e a brevidade telegráfica
+das suas palavras.
+
+Quando Macário lhe disse, uma manhã, ao almôço, abruptamente, sem
+transições emolientes: «Peço-lhe licença para casar» o tio Francisco,
+que deitava o açúcar no seu café, ficou calado, remexendo com a colher,
+devagar, majestoso e terrível: e quando acabou de sorver pelo pires, com
+grande ruído, tirou do pescoço o guardanapo, dobrou-o, aguçou com a faca
+o seu palito, meteu-o na bôca e saíu: mas à porta da sala parou, e
+voltando-se para Macário, que estava de pé, junto da mesa, disse secamente:
+
+--Não.
+
+--Perdão, tio Francisco!
+
+--Não.
+
+--Mas oiça, tio Francisco...
+
+--Não.
+
+Macário sentiu uma grande cólera:
+
+--Nesse caso, faço-o sem licença.
+
+--Despedido da casa.
+
+--Sairei. Não haja dúvida.
+
+--Hoje.
+
+--Hoje.
+
+E o tio Francisco ia a fechar a porta, mas voltando-se:
+
+--Olá!--disse êle a Macário, que estava exasperado, apoplético, raspando
+nos vidros da janela.
+
+Macário voltou-se com uma esperança.
+
+--Dê-me daí a caixa do rapé--disse o tio Francisco.
+
+Tinha-lhe esquecido a caixa! Portanto, estava perturbado.
+
+--Tio Francisco...--começou Macário.
+
+--Basta. Estamos a 12. Receberá o seu mês por inteiro. Vá.
+
+As antigas educações produziam estas situações insensatas. Era brutal e
+idiota. Macário afirmou-me que era assim.
+
+Nessa tarde Macário achava-se no quarto de uma hospedaria na Praça da
+Figueira com seis peças, o seu baú de roupa branca e a sua paixão. No
+entanto estava tranqùilo. Sentia o seu destino cheio de apuros. Tinha
+relações e amizades no comércio. Era conhecido vantajosamente: a nitidez
+do seu trabalho, a sua honra tradicional, o nome da família, o seu
+tacto comercial, o seu belo cursivo inglês, abriam-lhe, de par em par,
+respeitosamente, todas as portas dos escritórios. No outro dia foi
+procurar alegremente o negociante Faleiro, antiga relação comercial da
+sua casa.
+
+--De muito boa vontade, meu amigo--disse-me êle.--Quem mo déra cá! Mas,
+se o recebo, fico de mal com seu tio, meu vélho amigo de vinte anos. Êle
+declarou-mo categóricamente. Bem vê. Fôrça maior. Eu sinto, mas...
+
+E todos, a quem Macário se dirigiu, confiado em relações sólidas,
+receavam _ficar de mal com o seu tio, vélho amigo de vinte anos_.
+
+E todos _sentiam_, _mas_...
+
+Macário dirigiu-se então a negociantes novos, estranhos à sua casa e à
+sua família, e sobretudo aos estrangeiros: esperava encontrar gente
+livre da amizade de vinte anos do tio. Mas, para êsses, Macário era
+desconhecido, e desconhecidos por igual a sua dignidade e o seu hábil
+trabalho. Se tomavam informações, sabiam que êle fôra despedido da casa
+do tio repentinamente, por causa duma rapariga loura, vestida de cassa.
+Esta circunstância tirava as simpatias a Macário. O comércio evita o
+guarda-livros sentimental. De sorte que Macário começou a sentir-se num
+momento agudo. Procurando, pedindo, rebuscando, o tempo passava,
+sorvendo, pinto a pinto, as suas seis peças.
+
+Macário mudou para uma estalagem barata, e continuou farejando. Mas,
+como fôra sempre de temperamento recolhido, não criara amigos. De modo
+que se encontrava desamparado e solitário--e a vida aparecia-lhe como um
+descampado.
+
+As peças findaram. Macário entrou, pouco a pouco, na tradição antiga da
+miséria. Ela tem solenidades fatais e estabelecidas: começou por
+empenhar--depois vendeu. Relógio, aneis, casaco azul, cadeia, paletot de
+alamares, tudo foi levando pouco e pouco, embrulhado debaixo do chale,
+uma vélha sêca e cheia de asma.
+
+No entanto via Luísa de noite, na saleta escura que dava para o patamar:
+uma lamparina ardia em cima da mesa: era feliz ali naquela penumbra,
+todo sentado castamente, ao pé de Luísa, a um canto de um vélho canapé
+de palhinha. Não a via de dia, porque trazia já a roupa usada, as botas
+cambadas, e não queria mostrar à fresca Luísa, toda mimosa nas suas
+cambraias asseadas, a sua miséria remendada: ali, àquela luz ténue e
+esbatida, êle exalava a sua paixão crescente e escondia o seu fato
+decadente. Segundo me disse Macário--era muito singular o temperamento
+de Luísa. Tinha o carácter louro como o cabelo--se é certo que o louro é
+uma côr fraca e desbotada: falava pouco, sorria sempre com os seus
+brancos dentinhos, dizia a tudo _pois sim_: era muito simples, quási
+indiferente, cheia de transigências.
+
+Amava de-certo Macário, mas com todo o amor que podia dar a sua natureza
+débil, aguada, nula. Era como uma estriga de linho, fiava-se como se
+queria: e às vezes, naqueles encontros noturnos, tinha sono.
+
+Um dia, porêm, Macário encontrou-a excitada: estava com pressa, o chale
+traçado à tôa, olhando sempre para a porta interior.
+
+--A mamã percebeu--disse ela.
+
+E contou-lhe que a mãe desconfiava, ainda rabugenta e áspera, e que
+de-certo farejava aquele plano nupcial tramado como uma conjuração.
+
+--¿Porque não me vens pedir à mamã?
+
+--Mas, filha, se eu não posso! Não tenho arranjo nenhum. Espera. É mais
+um mês talvez. Tenho agora aí um negócio em bom caminho. Morríamos de fome.
+
+Luísa calou-se, torcendo a ponta do chale, com os olhos baixos.
+
+--¿Mas ao menos--disse ela--emquanto eu te não fizer sinal da janela,
+não subas mais, sim?
+
+Macário rompeu a chorar, os soluços saíam violentos e desesperados.
+
+--Chut!--dizia-lhe Luísa.--Não chores alto!...
+
+Macário contou-me a noite que passou, ao acaso pelas ruas, ruminando
+febrilmente a sua dor, e lutando, sob a friagem de janeiro, na sua
+quinzena curta. Não dormiu, e logo pela manhã, ao outro dia, entrou como
+uma rajada no quarto do tio Francisco e disse-lhe abruptamente, secamente:
+
+--É tudo o que tenho--e mostrava-lhe três pintos.--Roupa, estou sem ela.
+Vendi tudo. Daqui a pouco tenho fome.
+
+O Tio Francisco, que fazia a barba à janela, com o lenço da Índia
+amarrado na cabeça, voltou-se e, pondo os óculos, fitou-o.
+
+--A sua carteira lá está. Fique--e acrescentou, com um gesto
+decisivo--solteiro.
+
+--Tio Francisco, ouça-me!...
+
+--Solteiro, disse eu--continuou o tio Francisco, dando o fio à navalha
+numa tira de sola.
+
+--Não posso.
+
+--Então, rua!
+
+Macário saíu, estonteado. Chegou a casa, deitou-se, chorou e adormeceu.
+Quando saiu, à noitinha, não tinha resolução, nem idea. Estava como uma
+esponja saturada. Deixava-se ir.
+
+De repente, uma voz disse de dentro de uma loja:
+
+--Eh! pst! olá!
+
+Era o amigo do chapéu de palha: abriu grandes braços pasmados.
+
+--Que diacho! desde manhã que te procuro
+
+E contou-lhe que tinha chegado da província, tinha sabido a sua crise e
+trazia-lhe um desenlace.
+
+--Queres?
+
+--Tudo.
+
+Uma casa comercial queria um homem hábil, resoluto e duro, para ir numa
+comissão difícil e de grande ganho a Cabo-Verde.
+
+--Pronto!--disse Macário.--Pronto! Àmanhã.
+
+E foi logo escrever a Luísa, pedindo-lhe uma despedida, um último
+encontro, aquele em que os braços desolados e veementes tanto custam a
+desenlaçar-se. Foi. Encontrou-a toda embrulhada no seu chale, tiritando
+de frio. Macário chorou. Ela, com a sua passiva e loura doçura, disse-lhe:
+
+--Fazes bem. Talvez ganhes.
+
+E ao outro dia Macário partiu.
+
+Conheceu as viagens trabalhosas nos mares inimigos, o enjôo monótono num
+beliche abafado, os duros sóis das colónias, a brutalidade tirânica dos
+fazendeiros ricos, o pêso dos fardos humilhantes, as dilacerações da
+ausência, as viagens ao interior das terras negras e a melancolia das
+caravanas que costeiam por violentas noites, durante dias e dias, os
+rios tranqùilos, donde se exala a morte.
+
+Voltou.
+
+E logo nessa tarde a viu a ela, Luísa, clara, fresca, repousada,
+serena, encostada ao peitoril da janela, com a sua ventarola chinesa. E
+ao outro dia, sôfregamente, foi pedi-la à mãe. Macário tinha feito um
+ganho saliente--e a mãe Vilaça abriu-lhe uns grandes braços amigos,
+cheia de exclamações. O casamento decidiu-se para daí a um ano.
+
+--Porquê?--disse eu a Macário.
+
+E êle explicou-me que os lucros de Cabo-Verde não podiam constituir um
+capital definitivo: eram apenas um capital de habilitação. Trazia de
+Cabo-Verde elementos de poderosos negócios: trabalharia, durante um ano,
+heróicamente, e ao fim poderia, sossegadamente, criar uma família.
+
+E trabalhou: pôs naquele trabalho a fôrça criadora da sua paixão.
+Erguia-se de madrugada, comia à pressa, mal falava. À tardinha ia
+visitar Luísa. Depois voltava sôfregamente para a fadiga, como um avaro
+para o seu cofre. Estava grosso, forte, duro, fero: servia-se com o
+mesmo ímpeto das ideas e dos músculos: vivia numa tempestade de cifras.
+Às vezes Luísa, de passagem, entrava no seu armazêm: aquele pousar de
+ave fugitiva dava-lhe alegria, fé, reconforto para todo um mês
+cheiamente trabalhado.
+
+Por êsse tempo o amigo do chapéu de palha veio pedir a Macário que fôsse
+seu fiador por uma grande quantia que êle pedira para estabelecer
+uma loja de ferragens em grande. Macário, que estava no vigor do seu
+crédito, cedeu com alegria. O amigo do chapéu de palha é que lhe dera o
+negócio providencial de Cabo-Verde. Faltavam então dois meses para o
+casamento. Macário já sentia, por vezes, subirem-lhe ao rosto as febris
+vermelhidões da esperança. Já começara a tratar dos _banhos_. Mas um dia
+o amigo do chapéu de palha desapareceu com a mulher de um alferes. O seu
+estabelecimento estava em comêço. Era uma confusa aventura. Não se pôde
+nunca precisar nítidamente aquele _embróglio_ doloroso. O que era
+positivo é que Macário era fiador, Macário devia reembolsar. Quando o
+soube, empalideceu e disse simplesmente:
+
+--Liquído e pago!
+
+E quando liquidou, ficou outra vez pobre. Mas nesse mesmo dia, como o
+desastre tivera uma grande publicidade, e a sua honra estava santificada
+na opinião, a casa Peres & C.ª, que o mandara a Cabo-Verde, veio
+propor-lhe uma outra viagem e outros ganhos.
+
+--Voltar a Cabo-Verde outra vez!
+
+--Faz outra vez fortuna, homem. O senhor é o diabo!--disse o snr.
+Eleutério Peres.
+
+Quando se viu assim, só e pobre, Macário desatou a chorar. Tudo estava
+perdido, findo, extinto; era necessário recomeçar pacientemente a vida,
+voltar às longas misérias de Cabo-Verde, tornar a tremer os passados
+desesperos, suar os antigos suores! E Luísa? Macário escreveu-lhe.
+Depois, rasgou a carta. Foi a casa dela: as janelas tinham luz: subiu
+até ao primeiro andar, mas aí tomou-o uma mágoa, uma covardia de revelar
+o desastre, o pavor trémulo de uma separação, o terror de ela se
+recusar, negar-se, hesitar! ¿E quereria ela esperar mais? Não se atreveu
+a falar, explicar, pedir; desceu, pé-ante-pé. Era noite. Andou ao acaso
+pelas ruas: havia um sereno e silencioso luar. Ia sem saber: de repente
+ouviu, de uma janela alumiada, uma rabeca que tocava a _xácara
+mourisca_. Lembrou-se do tempo em que conhecera Luísa, do bom sol claro
+que havia então, e do vestido dela, de cassa com pintas azuis! Estava na
+rua onde eram os armazêns do tio. Foi caminhando. Pôs-se a olhar para a
+sua antiga casa. A janela do escritório estava fechada. Quantas vezes
+dali vira Luísa, e o brando movimento do seu leque chinês! Mas uma
+janela, no segundo andar, tinha luz; era o quarto do tio. Macário foi
+observar mais de longe: uma figura estava encostada, por dentro, à
+vidraça: era o tio Francisco. Veio-lhe uma saudade de todo o seu passado
+simples, retirado, plácido. Lembrava-lhe o seu quarto, e a vélha
+carteira com fecho de prata, e a miniatura de sua mãe, que estava por
+cima da barra do leito; a sala de jantar e o seu vélho aparador de
+pau preto, e a grande caneca de água, cuja asa era uma serpente
+irritada. Decidiu-se, e impelido por um instinto, bateu à porta. Bateu
+outra vez. Sentiu abrir a vidraça, e a voz do tio perguntar:
+
+--Quem é?
+
+--Sou eu, tio Francisco, sou eu. Venho dizer-lhe adeus.
+
+A vidraça fechou-se, e daí a pouco a porta abriu-se, com um grande ruído
+de ferrolhos. O tio Francisco tinha um candieiro de azeite na mão.
+Macário achou-o magro, mais vélho. Beijou-lhe a mão.
+
+--Suba--disse o tio.
+
+Macário ia calado, cosido com o corrimão.
+
+Quando chegou ao quarto, o tio Francisco poisou o candieiro sôbre uma
+larga mesa de pau-santo, e de pé, com as mãos nos bolsos, esperou.
+
+Macário estava calado, anediando a barba.
+
+--Que quer?--gritou-lhe o tio.
+
+--Vinha dizer-lhe adeus; volto para Cabo-Verde.
+
+--Boa viagem.
+
+E o tio Francisco, voltando-lhe as costas, foi rufar na vidraça.
+
+Macário ficou imóvel, deu dois passos no quarto, todo revoltado, e ia sair.
+
+--¿Onde vai, seu estúpido?--gritou-lhe o tio.
+
+--Vou-me.
+
+--Sente-se ali!
+
+E o tio Francisco continuou, com grandes passadas pelo quarto:
+
+--O seu amigo é um canalha! Loja de ferragens! Não está má! O senhor é
+um homem de bem. Estúpido, mas homem de bem. Sente-se ali! Sente-se! O
+seu amigo é um canalha! O senhor é um homem de bem! Foi a Cabo-Verde!
+Bem sei! Pagou tudo. Está claro! Tambêm sei! Àmanhã faz o favor de ir
+para a sua carteira, lá para baixo. Mandei pôr palhinha nova na cadeira.
+Faz favor de pôr na factura Macário & Sobrinho. E case. Case, e que lhe
+preste! Levante dinheiro. O senhor precisa de roupa branca e de mobília.
+Levante dinheiro. E meta na minha conta. A sua cama lá está feita.
+
+Macário, estonteado, radioso, com as lágrimas nos olhos, queria abraçá-lo.
+
+--Bem, bem. Adeus!
+
+Macário ia sair.
+
+--¿Oh! burro, pois quer-se ir desta sua casa?
+
+E, indo a um pequeno armário, trouxe geleia, um covilhete de doce, uma
+garrafa antiga do Pôrto e biscoitos.
+
+--Côma!
+
+E sentando-se ao pé dêle, e tornando a chamar-lhe estúpido, tinha uma
+lágrima a correr-lhe pelo engelhado da pele.
+
+De sorte que o casamento foi decidido para dali a um mês. E Luísa
+começou a tratar do seu enxoval.
+
+Macário estava então na plenitude do amor e da alegria.
+
+Via o fim da sua vida preenchido, completo, feliz. Estava quási sempre
+em casa da noiva, e um dia andando a acompanhá-la, em compras, pela
+lojas, êle mesmo lhe quisera fazer um pequeno presente. A mãe tinha
+ficado numa modista, num primeiro andar da rua do Ouro, e êles tinham
+descido, alegremente, rindo, a um ourives que havia em baixo, no mesmo
+prédio, na loja.
+
+O dia estava de inverno, claro, fino, frio, com um grande céu
+azul-ferrete, profundo, luminoso, consolador.
+
+--Que bonito dia!--disse Macário.
+
+E com a noiva pelo braço, caminhou um pouco, ao comprido do passeio.
+
+--Está!--disse ela.--Mas podem reparar; nós sós...
+
+--Deixa, está tam bom...
+
+--Não, não.
+
+E Luísa arrastou-o brandamente para a loja do ourives. Estava apenas um
+caixeiro, trigueiro, de cabelo hirsuto.
+
+Macário disse-lhe:
+
+--Queria ver aneis.
+
+--Com pedras--disse Luísa--e o mais bonito.
+
+--Sim, com pedras--disse Macário.--Ametista, granada. Emfim, o melhor.
+
+E, no entanto, Luísa ia examinando as _montres_ forradas de veludo azul,
+onde reluziam as grossas pulseiras cravejadas, os grilhões, os colares
+de camafeus, os aneis, as finas _alianças_ frágeis como o amor, e toda a
+scintilação da pesada ourivesaria.
+
+--Vê, Luísa--disse Macário.
+
+O caixeiro tinha estendido, na outra extremidade do balcão, em cima do
+vidro da _montre_, um reluzente espalhado de aneis de ouro, de pedras,
+lavrados, esmaltados; e Luísa, tomando-os e deixando-os com as pontas
+dos dedos, ia-os correndo e dizendo:
+
+--É feio... É pesado... É largo...
+
+--Vê este--disse-lhe Macário.
+
+Era um anel de pequenas pérolas.
+
+--É bonito--respondeu ela.--É lindo!
+
+--Deixa ver se serve--tornou Macário.
+
+E tomando-lhe a mão, meteu-lhe o anel devagarinho, docemente, no dedo; e
+ela ria, com os seus brancos dentinhos finos, todos esmaltados.
+
+--É muito largo--disse Macário.--Que pena!
+
+--Aperta-se, querendo. Deixe a medida. Tem-no pronto àmanhã.
+
+--Boa idea--disse Macário--sim senhor. Porque é muito bonito. Não é
+verdade? As pérolas muito iguais, muito claras. Muito bonito! E
+êstes brincos?--acrescentou, indo ao fim do balcão, a outra
+_montre_.--¿Êstes brincos com uma concha?
+
+--Dez moedas--disse o caixeiro.
+
+E, no entanto, Luísa continuava examinando os aneis, experimentando-os
+em todos os dedos, revolvendo aquela delicada _montre_, scintilante e
+preciosa.
+
+Mas, de repente, o caixeiro fez-se muito pálido, e afirmou-se em Luísa,
+passeando vagarosamente a mão pela cara.
+
+--Bem--disse Macário, aproximando-se--então àmanhã temos o anel pronto.
+A que horas?
+
+O caixeiro não respondeu e começou a olhar fixamente para Macário.
+
+--A que horas?
+
+--Ao meio dia.
+
+--Bem, adeus--disse Macário.
+
+E iam sair. Luísa trazia um vestido de lã azul, que arrastava um pouco,
+dando uma ondulação melodiosa ao seu passo, e as suas mãos pequeninas
+estavam escondidas num regalo branco.
+
+--Perdão!--disse de repente o caixeiro.
+
+Macário voltou-se.
+
+--O senhor não pagou...
+
+Macário olhou para êle gravemente.
+
+--Está claro que não. Àmanhã venho buscar o anel, pago àmanhã.
+
+--Perdão!--insistiu o caixeiro--mas o outro...
+
+--Qual outro?--exclamou Macário com uma voz surpreendida, adiantando-se
+para o balcão.
+
+--Essa senhora sabe--afirmou o caixeiro.--Essa senhora sabe...
+
+Macário tirou a carteira lentamente.
+
+--Perdão, se há uma conta antiga...
+
+O caixeiro abriu o balcão, e com um aspecto resoluto:
+
+--Nada, meu caro senhor, é de agora. É um anel com dois brilhantes que
+aquela senhora leva.
+
+--Eu!--disse Luísa, com a voz baixa, toda escarlate.
+
+--Que é? Que está a dizer?
+
+E Macário, pálido, com os dentes cerrados, contraído, fitava o caixeiro
+coléricamente.
+
+O caixeiro disse então:
+
+--Essa senhora tirou dali um anel.
+
+Macário ficou imóvel, encarando-o.
+
+--Um anel com dois brilhantes--continuou o rapaz.--Vi perfeitamente.
+
+O caixeiro estava tam excitado, que a sua voz gaguejava, prendia-se
+espessamente.
+
+--Essa senhora não sei quem é. Mas tirou o anel. Tirou-o dali...
+
+Macário, maquinalmente, agarrou-lhe no braço, e voltando-se para Luísa,
+com a palavra abafada, gotas de suor na testa, lívido:
+
+--Luísa, dize...
+
+Mas a voz cortou-se-lhe.
+
+--Eu...--balbuciou ela, trémula, assombrada, enfiada, decomposta.
+
+E deixou cair o regalo no chão.
+
+Macário veio para ela, agarrou-lhe no pulso fitando-a: e o seu aspecto
+era tam resoluto e tam imperioso, que ela meteu a mão no bôlso,
+bruscamente, apavorada, e mostrando o anel:
+
+--Não me faça mal!--suplicou, encolhendo-se toda.
+
+Macário ficou com os braços caidos, o ar abstracto, os beiços brancos;
+mas de repente, dando um puxão ao casaco, recuperando-se, disse ao
+caixeiro:
+
+--Tem razão. Era distracção... Está claro! Esta senhora tinha-se
+esquecido. É o anel. Sim, senhor, evidentemente... Tem a bondade. Toma,
+filha, toma. Deixa estar, êste senhor embrulha-o. Quanto custa?
+
+Abriu a carteira e pagou.
+
+Depois apanhou o regalo, sacudiu-o brandamente, limpou os beiços com o
+lenço, deu o braço a Luísa, e dizendo ao caixeiro: _desculpe_,
+_desculpe_, levou-a, inerte, passiva, aterrada, semi-morta.
+
+Deram alguns passos na rua, que um largo sol iluminava intensamente: as
+seges cruzavam-se, rolando ao estalido do chicote: figuras risonhas
+passavam, conversando: os pregões subiam em gritos alegres: um cavaleiro
+de calção de anta fazia ladear o seu cavalo, enfeitado de rosetas; e a
+rua estava cheia, ruidosa, viva, feliz e coberta de sol.
+
+Macário ia maquinalmente, como no fundo de um sonho. Parou a uma
+esquina. Tinha o braço de Luísa passado no seu; e via-lhe a mão
+pendente, a sua linda mão de cera, com as veias docemente azuladas, os
+dedos finos e amorosos: era a mão direita, e aquela mão era a da sua
+noiva! E, instintivamente, leu o cartaz que anunciava, para esta noite,
+_Palafoz em Saragoça_.
+
+De repente, soltando o braço de Luísa, disse-lhe baixo:
+
+--Vai-te.
+
+--Ouve!...--rogou ela, com a cabeça toda inclinada.
+
+--Vai-te.--E com a voz abafada e terrível:--Vai-te! Olha que chamo.
+Mando-te para o Aljube. Vai-te.
+
+--Mas ouve, Jesus!
+
+--Vai-te!--E fez um gesto, com o punho cerrado.
+
+--Pelo amor de Deus, não me batas aqui!--disse ela, sufocada.
+
+--Vai-te! Podem reparar. Não chores. Olha que vêem. Vai-te!
+
+E chegando-se para ela, disse baixo:
+
+--És uma ladra!
+
+E voltando-lhe as costas, afastou-se, devagar, riscando o chão com a
+bengala.
+
+A distância, voltou-se: ainda viu, através dos vultos, o seu vestido azul.
+
+Como partiu nessa tarde para a província, não soube mais daquela
+rapariga loura.
+
+
+
+
+UM POETA LÍRICO
+
+
+Aqui está, simplesmente, sem frases e sem ornatos, a história triste do
+poeta Korriscosso. De todos os poetas líricos de que tenho notícia, é
+êste, certamente, o mais infeliz. Conheci-o em Londres, no hotel de
+Charing-Cross, uma madrugada regelada de dezembro. Tinha eu chegado do
+continente, prostrado por duas horas de Canal da Mancha... Ah! que mar!
+E era só uma brisa fresca de Noroeste: mas ali, no tombadilho, sob uma
+capa de oleado de que um marujo me tinha coberto, como se cobre um corpo
+morto, fustigado da neve e da vaga, oprimido por aquela treva tumultuosa
+que o paquete ia rompendo aos roncos e aos encontrões--parecia-me um
+tufão dos mares da China...
+
+Apenas entrei no hotel, gelado e estremunhado, corri ao vasto fogão do
+perístilo, e ali fiquei, saturando-me daquela paz quente em que a sala
+estava adormecida, com os olhos beatamente postos na boa brasa
+escarlate... E foi então que vi aquela figura esguia e longa, já de
+casaca e gravata branca, que do outro lado da chaminé, de pé, com a
+taciturna tristeza duma cegonha que scisma, olhava tambêm os carvões
+ardentes, com um guardanapo no braço. Mas o porteiro tinha rolado a
+minha bagagem, e eu fui inscrever-me ao _bureau_. A _guarda-livros_,
+tesa e loura, com um perfil antiquado de medalha safada, pousou o seu
+_crochet_ ao lado da sua chávena de chá, acariciou com um gesto doce os
+dois bandós louros, assentou correctamente o meu nome, de dedinho no ar,
+fazendo rebrilhar um diamante, e eu ia subir a vasta escadaria,--quando
+a figura magra e fatal se dobrou num ângulo, e murmurou-me num inglês
+silabado:
+
+--Já está servido o almôço das sete...
+
+Mas eu não queria o almôço das sete. Fui dormir.
+
+Mais tarde, já repousado, fresco do banho, quando desci ao restaurante
+para o _lunch_, avistei logo, plantado melancólicamente ao pé da larga
+janela, o indivíduo esguio e triste. A sala estava deserta numa luz
+parda; os fogões flamejavam; e fóra, no silêncio do domingo, nas
+ruas mudas, a neve caía sem cessar dum ceu amarelento e baço. Eu via
+apenas as costas do homem; mas havia na sua linha magra e um pouco
+dobrada uma expressão tam evidente de desalento, que me interessei por
+aquela figura. O cabelo comprido, de tenor, caído sôbre a gola da
+casaca, era, manifestamente, dum meridional; e toda a sua magreza
+friorenta se encolhia ao aspecto daqueles telhados cobertos de neve, na
+sensação daquele silêncio lívido... Chamei-o. Quando êle se voltou, a
+sua fisionomia, que apenas entrevira na véspera, impressionou-me: era um
+carão longo e triste, muito moreno, de nariz judaico e uma barba curta e
+frisada, uma barba de Cristo em estampa romântica; a testa era destas
+que, em boa literatura, se chama, creio eu, _fronte_; era larga e era
+lustrosa. Tinha o olhar encovado e vago, com uma indecisão de sonho
+nadando num fluido enternecido... E que magreza! quando andava, a calça
+curta torcia-se em tôrno da canela como pregas de bandeira em tôrno dum
+mastro: a casaca tinha dobras de túnica ampla; as duas abas compridas e
+agudas eram desgraçadamente grotescas. Recebeu a ordem do meu almôço,
+sem me olhar, num tédio resignado: arrastou-se para o _comptoir_ onde o
+_maître de hotel_ lia a Bíblia, passou a mão pela testa com um gesto
+errante e dolente, e disse-lhe numa voz surda:
+
+--Nùmero 307. Duas costeletas. Chá...
+
+O _maître de hotel_ afastou a _Bíblia_, inscreveu o _menu_--e eu
+acomodei-me à mesa, e abri o volume de Tennyson que trouxera para
+almoçar comigo--porque, creio que lhes disse, era domingo, dia sem
+jornais e sem pão fresco. Fóra continuava a nevar sôbre a cidade muda. A
+uma mesa distante, um vélho côr de tijolo e todo branco de cabelo e de
+suíças, que acabara de almoçar, dormitava de mãos no ventre, bôca
+aberta, e luneta na ponta do nariz. E o único som vinha da rua, uma voz
+gemente que a neve abafava mais, uma voz pedinte que à esquina defronte
+garganteava um psalmo... Um domingo de Londres.
+
+Foi o magro que me trouxe o almôço--e apenas êle se aproximou, com o
+serviço do chá, eu senti logo que aquele volume de Tennyson nas minhas
+mãos o tinha interessado e impressionado: foi um olhar rápido,
+gulosamente fixado na página aberta, um estremecimento quási
+imperceptível,--emoção fugitiva, de-certo, porque depois de ter pousado
+o serviço, rodou sôbre os calcanhares e foi plantar-se,
+melancólicamente, à janela, de ôlho triste e posto na neve triste. Eu
+atribuí aquele movimento curioso ao esplendor da encadernação do volume,
+que eram os _Idílios de El-Rei_, em marroquim negro, com o escudo de
+armas de Lançarote do Lago--o pelicano de oiro sôbre um mar de sinopla.
+
+Nessa noite parti no expresso para a Escócia, e ainda não tinha passado
+York, adormecida na sua gravidade episcopal, já me esquecera o criado
+romanesco do restaurante de Charing-Cross. Foi só daí a um mês, ao
+voltar a Londres, que entrando no restaurante, e revendo aquela figura
+lenta e fatal atravessar com um prato de _roast-beef_ numa das mãos e na
+outra um _puding_ de batata, senti renascer o antigo interesse. E nessa
+noite mesmo, tive a singular felicidade de saber o seu nome e de
+entrever um fragmento do seu passado. Era já tarde e eu voltava do
+_Covent-Garden_, quando no perístilo do hotel encontrei, majestoso e
+próspero, o meu amigo Bracolletti.
+
+¿Não conhecem Bracolletti? A sua presença é formidável; tem a amplidão
+pançuda, o negro cerrado da barba, a lentidão, o cerimonial dum pachá
+gordo; mas esta ponderosa gravidade turca é temperada, em Bracolletti,
+pelo sorriso e pelo olhar. Que olhar! Um olhar doce, que me faz lembrar
+o dos animais da Síria: é o mesmo enternecimento. Parece errar no seu
+fluido macio a religiosidade meiga das raças que dão os Messias... Mas o
+sorriso! O sorriso de Bracolletti é a mais complexa, a mais perfeita, a
+mais rica das expressões humanas; há finura, inocência, bonomia,
+abandono, ironia doce, persuasão, naqueles dois lábios que se descerram
+e que deixam brilhar um esmalte de dentes de virgem... Ah! mas
+tambêm êste sorriso é a fortuna de Bracolletti.
+
+Moralmente, Bracolletti é um hábil. Nasceu em Esmirna de pais gregos; é
+tudo o que êle revela: de resto, quando se lhe pergunta pelo seu
+passado, o bom grego rola um momento a cabeça de ombro a ombro, esconde
+sob as palpebras cerradas com bonomia o seu ôlho maometano, desabrocha o
+sorriso duma doçura de tentar abelhas, e murmura, como afogado em
+bondade e em enternecimento:
+
+--_Eh! mon Dieu! Eh! mon Dieu!_...
+
+Nada mais. Parece, porêm, que viajou,--porque conhece o Perú, a Crimeia,
+o Cabo da Boa-Esperança, os países exóticos--tam bem como Regent-Street:
+mas é evidente para todos que a sua existência não foi tecida, como a
+dos vulgares aventureiros do Levante, de oiro e estôpa, de esplendores e
+pelintrices: é um gordo e, portanto, um prudente: o seu magnífico
+solitário nunca deixou de lhe brilhar no dedo: nenhum frio jàmais o
+surpreendeu sem uma pelissa de dois mil francos: e nunca deixa de
+ganhar, todas as semanas, no _Fraternal Club_, de que é um membro
+querido, dez libras ao whist. É um forte.
+
+Mas tem uma debilidade. É singularmente guloso de rapariguinhas de dôze
+a catorze anos: gosta delas magrinhas, muito louras, e com o hábito de
+praguejar. Coleciona-as pelos bairros pobres de Londres, com método.
+Instala-as em casa, e ali as tem, como passarinhos na gaiola,
+metendo-lhes a papinha no bico, ouvindo-as palrar todo baboso,
+animando-as a que lhe roubem os _shillings_ da algibeira, gozando o
+desenvolvimento dos vícios naquelas flores, pondo-lhes ao alcance as
+garrafas de _gin_ para que os anjinhos se embebedem;--e quando alguma,
+excitada de álcool, de cabelo ao vento e face acesa, o injuría, o
+arrepela, baba obscenidades,--o bom Bracolletti, encruzado no sofá, de
+mãos beatamente cruzadas na pança, o olhar afogado em êxtase, murmura no
+seu italiano da costa síria.
+
+--_Piccolina! Gentilleta!_
+
+Querido Bracolletti! Foi, realmente, com prazer, que o abracei, nessa
+noite, em Charing-Cross: e como nos não víamos há muito, fomos cear
+juntos ao restaurante. O criado triste lá estava no seu _comptoir_,
+curvado sôbre o _Journal des Debats_. E apenas Bracolletti apareceu, na
+sua majestade de obeso, o homem estendeu-lhe silenciosamente a mão; foi
+um _shake-hands_ solene, enternecido e sincero.
+
+Bom Deus, eram amigos! Arrebatei Bracolletti para o fundo da sala, e
+vibrando de curiosidade, interroguei-o com sofreguidão. Quis primeiro o
+nome do homem.
+
+--Chama-se Korriscosso--disse-me Bracolletti, grave.
+
+Quis depois a sua história. Mas Bracolletti, como os deuses da Ática
+que, nos seus embaraços no mundo, se recolhiam à sua nuvem, Bracolletti
+refugiou-se na sua vaga reticência.
+
+--_Eh! mon Dieu!..._ _Eh! mon Dieu!_...
+
+--Não, não, Bracolletti. Vejâmos. Quero-lhe a história... Aquela face
+fatal e baironeana deve ter uma história...
+
+Bracolletti então tomou todo o ar cândido que lhe permitem a sua pança e
+as suas barbas--e confessou-me, deixando cair as frases às gotas, que
+tinham viajado ambos na Bulgária e no Montenegro... Korriscosso foi seu
+secretário... Boa letra... Tempos difíceis... _Eh! mon Dieu!_...
+
+--De onde é êle?
+
+Bracolletti respondeu sem hesitar, baixando a voz com um gesto repassado
+de desconsideração:
+
+--É um grego de Atenas.
+
+O meu interesse sumiu-se como a água que a areia absorve. Quando se tem
+viajado no Oriente e nas escalas do Levante, adquire-se fácilmente o
+hábito, talvez injusto, de suspeitar do grego: aos primeiros que se
+vêem, sobretudo tendo uma educação universitária e clássica, o
+entusiasmo acende-se um pouco, pensa-se em Alcibíades e em Platão, nas
+glórias duma raça estética e livre, e perfilam-se na imaginação as
+linhas augustas do Pártenon. Mas, depois de os ter freqùentado, às
+mesas redondas e nos tombadilhos das _Messageries_, e principalmente
+depois de ter escutado a lenda de velhacaria que êles tem deixado desde
+Esmirna até Túnis, os outros que se vêem provocam, apenas, êstes
+movimentos: abotoar rápidamente o casaco, cruzar fortemente os braços
+sôbre a cadeia do relógio, e aguçar o intelecto para rechassar a
+_escroquerie_. A causa desta reputação funesta é que a gente grega, que
+emigra para as escalas do Levante, é uma plebe torpe, parte pirata e
+parte lacaia, bando de rapina astuto e perverso. A verdade é que apenas
+soube Korriscosso um grego, lembrei-me logo que o meu belo volume de
+Tennyson, na minha última estada em Charing-Cross, me desaparecera do
+quarto, e recordei o olhar de gula e de prêsa que cravara nele
+Korriscosso... Era um bandido!
+
+E durante a ceia não falamos mais de Korriscosso. Serviu-nos outro
+criado, rubro, honesto e são. O lúgubre Korriscosso não se afastou do
+_comptoir_ abismado no _Journal des Debats_.
+
+Nessa noite aconteceu, ao recolher-me ao meu quarto, que me perdi... O
+hotel estava atulhado, e eu tinha sido alojado naqueles altos de
+Charing-Cross, numa complicação de corredores, escadas, recantos,
+ângulos, onde é quási necessário roteiro e bússola.
+
+De castiçal na mão, penetrei num passadiço onde corria um bafo morno de
+viela mal arejada. As portas aí não tinham números, mas pequenos cartões
+colados onde estavam inscritos nomes: _John Smith_, _Charlie_,
+_Willie_... Emfim, eram evidentemente as habitações dos criados. De uma
+porta aberta saía a claridade de um bico de gás; adiantei-me, e vi logo
+Korriscosso, ainda de casaca, sentado a uma mesa alastrada de papeis, de
+testa pendida sôbre a mão, escrevendo.
+
+--¿Pode-me indicar o caminho para o número 508?--balbuciei.
+
+Êle ergueu para mim um olhar estremunhado e ennevoado; parecia ressurgir
+de muito longe, de um outro universo; batia as pálpebras, repetindo:
+
+--508? 508?...
+
+Foi então que eu avistei, sôbre a mesa, entre papeis, colarinhos sujos e
+um rosário--o meu volume de Tennyson! Êle viu o meu olhar, o bandido! e
+acusou-se todo numa vermelhidão que lhe inundou a face chupada. O meu
+primeiro movimento foi não reconhecer o livro: como era um movimento
+bom, e obedecendo logo à moral superior do mestre Talleyrand, reprimi-o;
+apontando o volume com um dedo severo, um dedo de Providência irritada,
+disse-lhe:
+
+--É o meu Tennyson...
+
+Não sei que resposta êle tartamudeou, porque eu, apiedado, retomado
+tambêm pelo interesse que me dava aquela figura picaresca de grego
+sentimental, acrescentei num tom repassado de perdão e de justificação:
+
+--¿Grande poeta, não é verdade? Que lhe pareceu? Tenho a certeza que se
+entusiasmou...
+
+Korriscosso corou mais: mas não era o despeito humilhado do salteador
+surpreendido: era, julguei eu, a vergonha de ver a sua inteligência, o
+seu gôsto poético adivinhados--e de ter no corpo a casaca coçada de
+criado de restaurante. Não respondeu. Mas as páginas do volume, que eu
+abri, responderam por êle; a brancura das margens largas desaparecia sob
+uma rêde de comentários a lápis: _Sublime!_ _Grandioso!_
+_Divino!_--palavras lançadas numa letra convulsiva, num tremor de mão,
+agitada por uma sensibilidade vibrante...
+
+No entanto, Korriscosso permanecia de pé, respeitoso, culpado, de cabeça
+baixa, com o laço da gravata branca fugindo para o cachaço. Pobre
+Korriscosso! Compadeci-me daquela atitude, revelando todo um passado sem
+sorte, tantas tristezas de dependência... Lembrei-me que nada
+impressiona o homem do Levante como um gesto de drama e de palco;
+estendi-lhe ambas as mãos num movimento à Talma, e disse-lhe:
+
+--Eu tambem sou poeta!...
+
+Esta frase extraordinária pareceria grotesca e impudente a um homem do
+Norte; o levantino viu logo nela a expansão de uma alma irmã. ¿Porque,
+não lhes disse? o que Korriscosso estava escrevendo, numa tira de papel,
+eram estrofes: era uma ode.
+
+Daí a pouco, com a porta fechada, Korriscosso contava-me a sua
+história--ou antes fragmentos, anedotas desirmanadas da sua biografia. É
+tam triste, que a condenso. De resto, havia na sua narração lacunas de
+anos;--e eu não posso reconstituir com lógica e seqùência a história
+dêste sentimental. Tudo é vago e suspeito. Nasceu com efeito em Atenas;
+seu pai parece que era carregador no Pireu. Aos 18 anos Korriscosso
+servia de criado a um médico, e nos intervalos do serviço freqùentava a
+Universidade de Atenas; estas coisas são freqùentes _là-bas_, como êle
+dizia. Formou-se em leis: isto habilitou-o, mais tarde, em tempos
+difíceis, a ser um intérprete de hotel. Dêsse tempo datam as suas
+primeiras elégias num semanário lírico intitulado _Ecos da Ática_. A
+literatura levou-o directamente à política e às ambições parlamentares.
+Uma paixão, uma crise patética, um marido brutal, ameaças de morte,
+forçaram-no a expatriar-se. Viajou na Bulgária, foi em Salónica
+empregado numa sucursal do _Banco Otomano_, remeteu endechas
+dolorosas a um jornal da província--a _Trombeta da Argólida_. Aqui há
+uma dessas lacunas, um buraco negro na sua história. Reaparece em
+Atenas, com fato novo, liberal e deputado.
+
+Êste período de glória foi breve, mas suficiente para o pôr em
+evidência; a sua palavra colorida, poética, recamada de imagens
+engenhosas e lustrosas, encantou Atenas: tinha o segredo de florir, como
+êle dizia, os terrenos mais áridos; duma discussão de imposto ou de
+viação fazia saltar éclogas de Teócrito. Em Atenas êste talento leva ao
+poder: Korriscosso era indicado para gerir uma alta administração do
+Estado: o ministério, porêm, e com êle a maioria de que Korriscosso era
+o tenor querido, caíram, sumiram-se sem lógica constitucional, num
+dêstes súbitos desabamentos políticos tam comuns na Grécia, em que os
+governos se aluem, como as casas em Atenas--sem motivo. Falta de base,
+decrepitude de materiais e de individualidades... Tudo tende para o pó
+num solo de ruinas...
+
+Nova lacuna, novo mergulho obscuro na história de Korriscosso...
+
+Volta à superfície, membro de um club rèpublicano de Atenas, pede num
+jornal a emancipação da Polónia, e a Grécia governada por um concílio de
+génios. Publíca então os seus _Suspiros da Trácia_. Tem outro
+romance de coração... E emfim--e isto disse-mo sem explicações--é
+obrigado a refugiar-se em Inglaterra. Depois de tentar em Londres várias
+posições, coloca-se no restaurant de Charing-Cross.
+
+--É um pôrto de abrigo--disse-lhe eu, apertando-lhe a mão.
+
+Êle sorriu com amargura. Era de-certo um pôrto de abrigo, e vantajoso. É
+bem alimentado; as gorgetas são razoáveis; tem um vélho colxão de
+molas,--mas as delicadezas da sua alma são, a todo o momento,
+dolorosamente feridas...
+
+Dias atribulados, dias crucificados, os daquele poeta lírico, forçado a
+distribuir numa sala, a burgueses estabelecidos e glutões, costeletas e
+copos de cerveja! Não é a dependência que o aflige; a sua alma de grego
+não é particularmente ávida de liberdade, basta-lhe que o patrão seja
+cortês. E, como êle me disse, é-lhe grato reconhecer que os fregueses de
+Charing-Cross nunca lhe pedem a mostarda ou o queijo sem dizer _if you
+please_; e quando saem, ao passar por êle, levam dois dedos à aba do
+chapéu: isto satisfaz a dignidade de Korriscosso.
+
+Mas o que o tortura é o contacto constante com o alimento. Se êle fôsse
+um guarda-livros de um banqueiro, primeiro caixeiro de um armazêm de
+sêdas... Nisso há uma sombra de poesia--os milhões que se revolvem, as
+frotas mercantes, a brutal fôrça do oiro, ou então dispôr ricamente
+os estofos, os cortes de sêda, fazer correr a luz nas ondulações dos
+_moirés_, dar ao veludo as molezas da linha e da prega... Mas num
+restaurante como se pode exercer o gôsto, a originalidade artística, o
+instinto da côr, do efeito, do drama--a partir nacos de _roast-beef_ ou
+de presunto de York?!... Depois, como êle disse, dar a comer, fornecer
+alimento, é servir exclusivamente a pança, a tripa, a baixa necessidade
+material: no restaurante, o ventre é Deus: a alma fica fóra, com o
+chapéu que se pendura no cabide ou com o rôlo de jornais que se deixou
+no bôlso do paletot.
+
+E as convivências, e a falta de conversação! Nunca se voltarem para êle
+senão para lhe pedirem salame ou sardinhas de Nantes! Nunca abrir os
+seus lábios, de onde pendia o parlamento de Atenas, senão para
+perguntar:--Mais pão? mais bife?--Esta privação de eloqùência é-lhe
+dolorosa.
+
+Alêm disso o serviço impede-lhe o trabalho. Korriscosso compõe de
+memória; quatro passeios pelo quarto, um repelão ao cabelo, e a ode
+sai-lhe harmoniosa e doce.... Mas a interrupção glutona da voz do
+freguês, pedindo nutrição, é fatal a esta maneira de trabalhar. Às
+vezes, encostado a uma janela, de guardanapo no braço, Korriscosso está
+fazendo uma elégia; são tudo luares, roupagens alvas de virgens
+pálidas, horizontes celestes, flores de alma dolorida... É feliz;
+está remontado aos céus poéticos, nas planícies azuladas onde os sonhos
+acampam, galopando de estrêla em estrêla... De repente, uma grossa voz
+faminta berra dum canto:
+
+--Bife e batatas!
+
+Ai! as aladas fantasias batem o vôo como pombas espavoridas! E aí vem o
+infeliz Korriscosso, precipitado dos cimos ideais, de ombros vergados e
+as abas da casaca balouçando, perguntar com o sorriso lívido:
+
+--¿Passado ou meio crú?
+
+Ah! é um amargo destino!
+
+--¿Mas--perguntei-lhe eu--porque não deixa êste covil, êste templo do
+ventre?
+
+Ele deixou pender a sua bela cabeça de poeta. E disse-me a razão que o
+prende: disse-ma, quási chorando nos meus braços, com o nó da gravata
+branca no cachaço: Korriscosso ama.
+
+Ama uma Fanny, criada de todo o serviço em Charing-Cross. Ama-a desde o
+primeiro dia em que entrou no hotel: amou-a no momento em que a viu
+lavando as escadas de pedra, com os braços roliços nus, e os cabelos
+louros, os fatais cabelos louros, dêste louro que entontece os
+meridionais, cabelos ricos, de um tom de cobre, dum tom de oiro mate,
+torcendo-se numa trança de deusa. E depois a carnação, uma carnação
+de inglesa do Yorkshire--leite e rosas...
+
+E o que Korriscosso tem sofrido! Toda a sua dor exala-a em odes--que
+passa a limpo ao domingo, dia de repouso e dia do Senhor! Leu-mas. E eu
+vi quanto a paixão pode perturbar um ser nervoso: que ferocidade de
+linguagem, que lances de desespero, que gritos de alma dilacerada
+arremesados dali, daqueles altos de Charing-Cross, para a mudez do céu
+frio! É que Korriscosso tem ciumes. A desgraçada Fanny ignora aquele
+poeta a seu lado, aquele delicado, aquele sentimental, e ama um
+_policeman_. Ama um _policeman_, um colosso, um alcides, uma montanha de
+carne erriçada duma floresta de barbas, com o peito como o flanco de um
+couraçado, com pernas como fortalezas normandas. Êste Polifemo, como diz
+Korriscosso, tem, ordináriamente, serviço no Strand; e a pobre Fanny
+passa o seu dia a espreitá-lo de um postigo, dos altos do hotel.
+
+Todas as suas economias as gasta em quartilhos de _gin_, de _brandy_, de
+genebra, que à noite lhe leva em copinhos debaixo do avental: mantem-no
+fiel pelo álcool; o monstro, plantado enormemente a uma esquina, recebe
+em silêncio o copo, atira-o de um golpe às fauces tenebrosas, arrota
+cavamente, passa a mão cabeluda pela barba de hércules, e segue
+taciturnamente, sem um _obrigado_, sem um _amo-te_, batendo o lagedo
+com a vastidão das suas solas sonoras. A pobre Fanny admira-o babosa...
+E talvez nesse momento, à outra esquina, o magro Korriscosso, fazendo no
+nevoeiro um esguio relêvo de poste telegráfico, soluce com a face magra
+entre as mãos transparentes.
+
+Pobre Korriscosso! Se êle ao menos a pudesse comover... Mas quê! Ela
+despreza-lhe o corpo de tísico triste: e a alma não lha compreende...
+Não que Fanny seja inacessível a sentimentos ardentes, expressos em
+linguagem melodiosa. Mas Korriscosso só pode escrever as suas elégias na
+sua língua materna... E Fanny não compreende grego... E Korriscosso é só
+um grande homem--em grego...
+
+Quando desci ao meu quarto, deixei-o soluçando sôbre o catre. Tenho-o
+visto depois, outras vezes, ao passar em Londres. Está mais magro, mais
+fatal, mais mirrado de zelos, mais curvado quando se move pelo
+restaurante com a travessa do _roast-beef_, mais exaltado no seu
+lirismo... Sempre que êle me serve dou-lhe um _shilling_ de gorgeta: e
+depois, ao retirar, aperto-lhe sinceramente a mão.
+
+
+
+
+NO MOINHO
+
+
+D. Maria da Piedade era considerada em toda a vila como «uma senhora
+modêlo». O vélho Nunes, director do correio, sempre que se falava nela,
+dizia, acariciando com autoridade os quatro pêlos da calva:
+
+--É uma santa! É o que ela é!
+
+A vila tinha quási orgulho na sua beleza delicada e tocante; era uma
+loura, de perfil fino, a pele eburnea, e os olhos escuros de um tom de
+violeta, a que as pestanas longas escureciam mais o brilho sombrio e
+doce. Morava ao fim da estrada, numa casa azul de três sacadas; e era,
+para a gente que às tardes ia fazer o giro até ao moinho, um encanto
+sempre novo vê-la por trás da vidraça, entre as cortinas de cassa,
+curvada sôbre a sua costura, vestida de preto, recolhida e séria.
+Poucas vezes saía. O marido, mais vélho que ela, era um inválido,
+sempre de cama, inutilizado por uma doença de espinha; havia anos que
+não descia à rua; avistavam-no às vezes tambêm à janela murcho e
+trôpego, agarrado à bengala, encolhido na _robe-de-chambre_, com uma
+face macilenta, a barba desleixada e com um barretinho de sêda enterrado
+melancólicamente até ao cachaço. Os filhos, duas rapariguitas e um
+rapaz, eram tambêm doentes, crescendo pouco e com dificuldade, cheios de
+tumores nas orelhas, chorões e tristonhos. A casa, interiormente,
+parecia lúgubre. Andava-se nas pontas dos pés, porque o senhor, na
+excitação nervosa que lhe davam as insónias, irritava-se com o menor
+rumor; havia sôbre as cómodas alguma garrafada da botica, alguma malga
+com papas de linhaça; as mesmas flores com que ela, no seu arranjo e no
+seu gôsto de frescura, ornava as mesas, depressa murchavam naquele ar
+abafado de febre, nunca renovado por causa das correntes de ar; e era
+uma tristeza ver sempre algum dos pequenos ou de emplastro sôbre a
+orelha, ou a um canto do camapé, embrulhado em cobertores com uma
+amarelidão de hospital.
+
+Maria da Piedade vivia assim, desde os vinte anos. Mesmo em solteira, em
+casa dos pais, a sua existência fôra triste. A mãe era uma criatura
+desagradável e azêda; o pai, que se empenhara pelas tavernas e pelas
+batotas, já vélho, sempre bêbedo, os dias que aparecia em casa
+passava-os à lareira, num silêncio sombrio, cachimbando e escarrando
+para as cinzas. Todas as semanas desancava a mulher. E quando João
+Coutinho pediu Maria em casamento, a-pesar de doente já, ela aceitou,
+sem hesitação, quási com reconhecimento, para salvar o casebre da
+penhora, não ouvir mais os gritos da mãe, que a faziam tremer, rezar, em
+cima no seu quarto, onde a chuva entrava pelo telhado. Não amava o
+marido, de-certo; e mesmo na vila tinha-se lamentado que aquele lindo
+rosto de Virgem Maria, aquela figura de fada, fôsse pertencer ao
+Joãosinho Coutinho, que desde rapaz fôra sempre entrevado. O Coutinho,
+por morte do pai, ficára rico; e ela, acostumada por fim àquele marido
+rabugento, que passava o dia arrastando-se sombriamente da sala para a
+álcôva, ter-se-ia resignado, na sua natureza de enfermeira e de
+consoladora, se os filhos ao menos tivessem nascido sãos e robustos. Mas
+aquela família que lhe vinha com o sangue viciado, aquelas existências
+hesitantes, que depois pareciam apodrecer-lhe nas mãos, a-pesar dos seus
+cuidados inquietos, acabrunhavam-na. Às vezes só, picando a sua costura,
+corriam-lhe as lágrimas pela face: uma fadiga da vida invadia-a, como
+uma névoa que lhe escurecia a alma.
+
+Mas se o marido de dentro chamava desesperado, ou um dos pequenos
+choramingava, lá limpava os olhos, lá aparecia com a sua bonita face
+tranqùila, com alguma palavra consoladora, compondo a almofada a um,
+indo animar o outro, feliz em ser boa. Toda a sua ambição era ver o seu
+pequeno mundo bem tratado e bem acarinhado. Nunca tivera desde casada
+uma curiosidade, um desejo, um capricho: nada a interessava na terra
+senão as horas dos remédios e o sono dos seus doentes. Todo o esfôrço
+lhe era fácil quando era para os contentar: a-pesar de fraca, passeava
+horas trazendo ao colo o pequerrucho, que era o mais impertinente, com
+as feridas que faziam dos seus pobres beicinhos uma crosta escura:
+durante as insónias do marido não dormia tambêm, sentada ao pé da cama,
+conversando, lendo-lhe as Vidas dos Santos, porque o pobre entrevado ia
+caíndo em devoção. De manhã estava um pouco mais pálida, mas toda
+correcta no seu vestido preto, fresca, com os bandós bem lustrosos,
+fazendo-se bonita para ir dar as sopas de leite aos pequerruchos. A sua
+única distracção era à tarde sentar-se à janela com a sua costura, e a
+pequenada em roda, aninhada no chão, brincando tristemente. A mesma
+paizagem que ela via da janela era tam monótona como a sua vida: em
+baixo a estrada, depois uma ondulação de campos, uma terra magra
+plantada aqui e alêm de oliveiras e, erguendo-se ao fundo, uma
+colina triste e nua, sem uma casa, uma árvore, um fumo de casal que
+pusesse naquela solidão de terreno pobre uma nota humana e viva.
+
+Vendo-a assim tam resignada e tam sujeita, algumas senhoras da vila
+afirmavam que ela era beata: todavia ninguêm a avistava na igreja, a não
+ser ao domingo, com o pequerrucho mais vélho pela mão, todo pálido no
+seu vestido de veludo azul. Com efeito, a sua devoção limitava-se a esta
+missa todas as semanas. A sua casa ocupava-a muito para se deixar
+invadir pelas preocupações do céu: naquele dever de boa mãe, cumprido
+com amor, encontrava uma satisfação suficiente à sua sensibilidade; não
+necessitava adorar santos ou enternecer-se com Jesus. Instintivamente
+mesmo pensava que toda a afeição excessiva dada ao Pai do Céu, todo o
+tempo gasto em se arrastar pelo confessionário ou junto do oratório,
+seria uma diminuição cruel no seu cuidado de enfermeira: a sua maneira
+de rezar era velar os filhos: e aquele pobre marido pregado numa cama,
+todo dependente dela, tendo-a só a ela, parecia-lhe ter mais direito ao
+seu fervor que o outro, pregado numa cruz, tendo para o amar toda uma
+humanidade pronta. Alêm disso, nunca tivera estas sentimentalidades de
+alma triste que levam à devoção. O seu longo hábito de dirigir uma casa
+de doentes, de ser ela o centro, a fôrça, o amparo daqueles
+inválidos, tornára-a terna, mas pràtica: e assim era ela que
+administrava agora a casa do marido, com um bom senso que a afeição
+dirigira, uma solicitude de mãe próvida. Tais ocupações bastavam para
+entreter o seu dia: o marido, de resto, detestava visitas, o aspecto de
+caras saudáveis, as comiserações de cerimónia; e passavam-se meses sem
+que em casa de Maria da Piedade se ouvisse outra voz estranha à família,
+a não ser a do Dr. Abílio--que a adorava, e que dizia dela com os olhos
+esgazeados:
+
+--É uma fada! é uma fada...
+
+
+Foi por isso grande a excitação na casa, quando João Coutinho recebeu
+uma carta de seu primo Adrião que lhe anunciava que em duas ou três
+semanas ia chegar à vila. Adrião era um homem célebre, e o marido de
+Maria da Piedade tinha naquele parente um orgulho enfático. Assinára
+mesmo um jornal de Lisboa, só para ver o seu nome nas locais e na
+crítica. Adrião era um romancista: e o seu último livro, _Madalena_, um
+estudo de mulher trabalhado a grande estilo, duma análise delicada e
+subtil, consagrara-o como um mestre. A sua fama, que chegara até à vila,
+num vago de legenda, apresentava-o como uma personalidade interessante,
+um herói de Lisboa, amado das fidalgas, impetuoso e brilhante, destinado
+a uma alta situação no Estado. Mas realmente na vila era sobretudo
+notável por ser primo do João Coutinho.
+
+D. Maria da Piedade ficou aterrada com esta visita. Via já a sua casa em
+confusão com a presença do hóspede extraordinário. Depois a necessidade
+de fazer mais _toilette_, de alterar a hora do jantar, de conversar com
+um literato, e tantos outros esforços crueis!... E a brusca invasão
+daquele mundano, com as suas malas, o fumo do seu charuto, a sua alegria
+de são, na paz triste do seu hospital, dava-lhe a impressão apavorada
+duma profanação. Foi por isso um alívio, quási um reconhecimento, quando
+Adrião chegou, e muito simplesmente se instalou na antiga estalagem do
+tio André, à outra extremidade da vila. João Coutinho escandalizou-se:
+tinha já o quarto do hóspede preparado, com lençóis de rendas, uma
+colcha de damasco, pratas sôbre a cómoda, e queria-o todo para si, o
+primo, o homem célebre, o grande autor... Adrião porêm recusou:
+
+--Eu tenho os meus hábitos, vocês teem os seus... ¿Não nos contrariemos,
+hein?... O que faço é vir cá jantar. De resto, não estou mal no tio
+André... Vejo da janela um moinho e uma reprêsa que são um quadrosinho
+delicioso... ¿E ficamos amigos, não é verdade?
+
+Maria da Piedade olhava-o assombrada: aquele herói, aquele fascinador
+por quem choravam mulheres, aquele poeta que os jornais
+glorificavam, era um sujeito extremamente simples,--muito menos
+complicado, menos espectaculoso que o filho do recebedor! Nem formoso
+era: e com o seu chapéu desabado sôbre uma face cheia e barbuda, a
+quinzena de flanela caíndo à larga num corpo robusto e pequeno, os seus
+sapatos enormes, parecia-lhe a ela um dos caçadores de aldeia que às
+vezes encontrava, quando de mês a mês ia visitar as fazendas do outro
+lado do rio. Alêm disso não fazia frases; e a primeira vez que veio
+jantar, falou apenas, com grande bonomia, dos seus negócios. Viera por
+êles. Da fortuna do pai, a única terra que não estava devorada, ou
+abominavelmente hipotecada, era a Curgossa, uma fazenda ao pé da vila,
+que andava alêm disso mal arrendada... O que êle desejava era vendê-la.
+Mas isso parecia-lhe a êle tam difícil, como fazer a _Ilíada_!... E
+lamentava sinceramente ver o primo ali, inútil sôbre uma cama, sem o
+poder ajudar nesses passos a dar com os proprietários da vila. Foi por
+isso, com grande alegria, que ouviu João Coutinho declarar-lhe que a
+mulher era uma administradora de primeira ordem, e hábil nestas questões
+como um antigo rábula!...
+
+--Ela vai contigo ver a fazenda, fala com o Teles, e arranja-te isso
+tudo... E na questão de preço, deixa-a a ela!...
+
+--Mas que superioridade, prima!--exclamou Adrião maravilhado.--Um anjo
+que entende de cifras!
+
+Pela primeira vez na sua existência Maria da Piedade corou com a palavra
+dum homem. De resto prontificou-se logo a ser a procuradora do primo...
+
+No outro dia foram ver a fazenda. Como ficava perto, e era um dia de
+março fresco e claro, partiram a pé. Ao princípio, acanhada por aquela
+companhia de um leão, a pobre senhora caminhava junto dêle com o ar de
+um pássaro assustado: a-pesar de êle ser tam simples, havia na sua
+figura enérgica e musculosa, no timbre rico da sua voz, nos seus olhos
+pequenos e luzidios alguma coisa de forte, de dominante, que a enleava.
+Tinha-se-lhe prendido à orla do seu vestido um galho de silvado, e como
+êle se abaixára para o desprender delicadamente, o contacto daquela mão
+branca e fina de artista na orla da sua saia incomodou-a singularmente.
+Apressava o passo para chegar bem depressa à fazenda, aviar o negócio
+com o Teles, e voltar imediatamente a refugiar-se, como no seu elemento
+próprio, no ar abafado e triste do seu hospital. Mas a estrada
+estendia-se, branca e longa, sob o sol tépido--e a conversa de Adrião
+foi-a lentamente acostumado à sua presença.
+
+Êle parecia desolado daquela tristeza da casa. Deu-lhe alguns bons
+conselhos: o que os pequenos necessitavam era ar, sol, uma outra vida
+diversa daquele abafamento de alcôva...
+
+Ela tambêm assim o julgava: mas quê! o pobre João, sempre que se lhe
+falava de ir passar algum tempo à quinta, afligia-se terrívelmente:
+tinha horror aos grandes ares e aos grandes horizontes: a natureza forte
+fazia-o quási desmaiar; tornára-se um ser artificial, encafuado entre os
+cortinados da cama...
+
+Êle então lamentou-a. De-certo poderia haver alguma satisfação num dever
+tam santamente cumprido... Mas, emfim, ela devia ter momentos em que
+desejasse alguma outra cousa alêm daquelas quatro paredes, impregnadas
+do bafo da doença...
+
+--¿Que hei-de eu desejar mais?--disse ela.
+
+Adrião calou-se: pareceu-lhe absurdo supôr que ela desejasse, realmente,
+o Chiado ou o Teatro da Trindade... No que êle pensava era noutros
+apetites, nas ambições do coração insatisfeito... Mas isto pareceu-lhe
+tam delicado, tam grave de dizer àquela criatura virginal e séria--que
+falou da paizagem...
+
+--Já viu o moinho?--perguntou-lhe ela.
+
+--Tenho vontade de o ver, se mo quiser ir mostrar, prima.
+
+--Hoje é tarde.
+
+Combinaram logo ir visitar êsse recanto de verdura, que era o idílio da
+vila.
+
+Na fazenda, a longa conversa com o Teles criou uma aproximação maior
+entre Adrião e Maria da Piedade. Aquela venda que ela discutia com uma
+astúcia de aldeã, punha entre êles como que um interesse comum. Ela
+falou-lhe já com menos reserva quando voltaram. Havia nas maneiras dêle,
+dum respeito tocante, uma atracção que a seu pesar a levava a
+revelar-se, a dar-lhe a sua confiança: nunca falára tanto a ninguêm: a
+ninguêm jàmais deixara ver tanto da melancolia oculta que errava
+constantemente na sua alma. De resto as suas queixas eram sôbre a mesma
+dor--a tristeza do seu interior, as doenças, tantos cuidados graves... E
+vinha-lhe por êle uma simpatia, como um indefinido desejo de o ter
+sempre presente, desde que êle se tornava assim depositário das suas
+tristezas.
+
+Adrião voltou para o seu quarto, na estalagem do André, impressionado,
+interessado por aquela criatura tam triste e tam doce. Ela destacava
+sôbre o mundo de mulheres que até ali conhecera, como um perfil suave de
+anjo gótico entre fisionomias de mesa redonda. Tudo nela concordava
+deliciosamente: o oiro do cabelo, a doçura da voz, a modéstia na
+melancolia, a linha casta, fazendo um ser delicado e tocante, a que
+mesmo o seu pequenino espírito burguês, certo fundo rústico de aldeã e
+uma leve vulgaridade de hábitos davam um encanto: era um anjo que
+vivia há muito tempo numa vilota grosseira e estava por muitos lados
+prêso às trivialidades do sítio: mas bastaria um sôpro para o fazer
+remontar ao céu natural, aos cimos puros da sentimentalidade...
+
+Achava absurdo e infame fazer a côrte à prima... Mas involuntáriamente
+pensava no delicioso prazer de fazer bater aquele coração que não estava
+deformado pelo espartilho, e de pôr emfim os seus lábios numa face onde
+não houvesse pós de arroz... E o que o tentava sobretudo era pensar que
+poderia percorrer toda a província em Portugal, sem encontrar nem aquela
+linha do corpo, nem aquela virgindade tocante de alma adormecida... Era
+uma ocasião que não voltava.
+
+O passeio ao moinho foi encantador. Era um recanto de natureza, digno de
+Corot, sobretudo à hora do meio dia em que êles lá foram, com a frescura
+da verdura, a sombra recolhida das grandes árvores, e toda a sorte de
+murmúrios de água corrente, fugindo, reluzindo entre os musgos e as
+pedras, levando e espalhando no ar o frio da folhagem, da relva, por
+onde corriam cantando. O moinho era dum alto pitoresco, com a sua vélha
+edificação de pedra secular, a sua roda enorme, quási pôdre, coberta de
+ervas, imóvel sôbre a gelada limpidez da água escura. Adrião achou-o
+digno duma scena de romance, ou melhor, da morada duma fada. Maria
+da Piedade não dizia nada, achando extraordinária aquela admiração pelo
+moinho abandonado do tio Costa. Como ela vinha um pouco cansada,
+sentaram-se numa escada desconjuntada de pedra, que mergulhava na água
+da reprêsa os últimos degraus: e ali ficaram um momento calados, no
+encanto daquela frescura murmurosa, ouvindo as aves piarem nas ramas.
+Adrião via-a de perfil, um pouco curvada, esburacando com a ponteira do
+guarda-sol as ervas bravas que invadiam os degraus: era deliciosa assim,
+tam branca, tam loura, duma linha tam pura sôbre o fundo azul do ar: o
+seu chapéu era de mau gôsto, o seu mantelete antiquado, mas êle achava
+nisso mesmo uma ingenuidade picante. O silêncio dos campos em redor
+isolava-os--e, insensívelmente, êle começou a falar-lhe baixo. Era ainda
+a mesma compaixão pela melancolia da sua existência naquela triste vila,
+pelo seu destino de enfermeira... Ela escutava-o de olhos baixos,
+pasmada de se achar ali tam só com aquele homem tam robusto, toda
+receosa e achando um sabor delicioso ao seu receio... Houve um momento
+em que êle falou do encanto de ficar ali para sempre na vila.
+
+--Ficar aqui? Para quê?--perguntou ela sorrindo.
+
+--Para quê? para isto, para estar sempre ao pé de si...
+
+Ela cobriu-se de um rubor, o guarda-solinho escapou-lhe das mãos. Adrião
+receou tê-la ofendido, e acrescentou logo rindo:
+
+--¿Pois não era delicioso?... Eu podia alugar êste moinho, fazer-me
+moleiro... A prima havia de me dar a sua freguesia...
+
+Isto fê-la rir: era mais linda quando ria: tudo brilhava nela, os
+dentes, a pele, a côr do cabelo. Êle continuou gracejando, com o seu
+plano de se fazer moleiro, e de ir pela estrada tocando o burro,
+carregado de sacas de farinha.
+
+--E eu venho ajudá-lo, primo!--disse ela, animada pelo seu próprio riso,
+pela alegria daquele homem a seu lado.
+
+--Vem?--exclamou êle.--Juro-lhe que me faço moleiro! Que paraíso nós
+aqui ambos no moinho, ganhando alegremente a nossa vida, ouvindo cantar
+êstes melros!
+
+Ela corou outra vez do fervor da sua voz, e recuou como se êle fôsse já
+arrebatá-la para o moinho. Mas Adrião agora, inflamado àquela idea,
+pintava-lhe na sua palavra colorida toda uma vida romanesca, de uma
+felicidade idílica, naquele esconderijo de verdura: de manhã, a pé cedo,
+para o trabalho; depois o jantar na relva à beira de água; e à noite as
+boas palestras ali sentados, à claridade das estrêlas ou sob a
+sombra cálida dos céus negros de verão...
+
+E de repente, sem que ela resistisse, prendeu-a nos braços, e beijou-a
+sôbre os lábios, dum só beijo profundo e interminável. Ela tinha ficado
+contra o seu peito, branca, como morta: e duas lágrimas corriam-lhe ao
+comprido da face. Era assim tam dolorosa e fraca, que êle soltou-a; ela
+ergueu-se, apanhou o guarda-solinho e ficou diante dêle, com o beicinho
+a tremer, murmurando:
+
+--É mal feito... é mal feito...
+
+Êle mesmo estava tam perturbado--que a deixou descer para o caminho: e
+daí a um momento, seguiam ambos calados para a vila. Foi só na estalagem
+que êle pensou:
+
+--Fui um tolo!
+
+Mas no fundo estava contente da sua generosidade. À noite foi a casa
+dela: encontrou-a com o pequerrucho no colo, lavando-lhe em àgua de
+malvas as feridas que êle tinha na perna. E então, pareceu-lhe odioso
+distrair aquela mulher dos seus doentes. De resto um momento como aquele
+no moinho não voltaria. Seria absurdo ficar ali, naquele canto odioso da
+província, desmoralizando, a frio, uma boa mãe... A venda da fazenda
+estava concluída. Por isso, no dia seguinte, apareceu de tarde, a
+dizer-lhe adeus: partia à noitinha na diligência: encontrou-a na sala,
+à janela costumada, com a pequenada doente aninhada contra as suas
+saias... Ouviu que êle partia, sem lhe mudar a côr, sem lhe arfar o
+peito. Mas Adrião achou-lhe a palma da mão tam fria como um mármore: e
+quando êle saíu, Maria da Piedade ficou voltada para a janela,
+escondendo a face dos pequenos, olhando abstractamente a paizagem que
+escurecia, com as lágrimas, quatro a quatro, caíndo-lhe na costura...
+
+Amava-o. Desde os primeiros dias, a sua figura resoluta e forte, os seus
+olhos luzidios, toda a virilidade da sua pessoa, se lhe tinham apossado
+da imaginação. O que a encantava nele não era o seu talento, nem a sua
+celebridade em Lisboa, nem as mulheres que o tinham amado: isso para ela
+aparecia-lhe vago e pouco compreensível: o que a fascinava era aquela
+seriedade, aquele ar honesto e são, aquela robustez de vida, aquela voz
+tam grave e tam rica: e antevia, para alêm da sua existência ligada a um
+inválido, outras existências possíveis, em que se não vê sempre diante
+dos olhos uma face fraca e moribunda, em que as noites se não passam a
+esperar as horas dos remédios... Era como uma rajada de ar impregnado de
+todas as fôrças vivas da natureza, que atravessava, súbitamente, a sua
+alcôva abafada: e ela respirava-a deliciosamente... Depois, tinha
+ouvido aquelas conversas em que êle se mostrava tam bom, tam sério,
+tam delicado: e à fôrça do seu corpo, que admirava, juntava-se agora um
+coração terno, duma ternura varonil e forte, para a cativar... Êste amor
+latente invadiu-a, apoderou-se dela uma noite que lhe apareceu esta
+idea, esta visão--_Se êle fosse meu marido!_ Toda ela estremeceu,
+apertou desesperadamente os braços contra o peito, como confundindo-se
+com a sua imagem evocada, prendendo-se a ela, refugiando-se na sua
+fôrça... Depois êle deu-lhe aquele beijo no moinho.
+
+E partira!
+
+
+Então começou para Maria da Piedade uma existência de abandonada. Tudo
+de repente em volta dela--a doença do marido, achaques dos filhos,
+tristezas do seu dia, a sua costura--lhe pareceu lúgubre. Os seus
+deveres, agora que não punha neles toda a sua alma, eram-lhe pesados
+como fardos injustos. A sua vida representava-se-lhe como desgraça
+excepcional: não se revoltava ainda: mas tinha dêsses abatimentos,
+dessas súbitas fadigas de todo o seu ser, em que caía sôbre a cadeira,
+com os braços pendentes, murmurando:
+
+--¿Quando se acabará isto?
+
+Refugiava-se então naquele amor como uma compensação deliciosa.
+Julgando-o todo puro, todo de alma, deixava-se penetrar dêle e da sua
+lenta influência. Adrião tornara-se, na sua imaginação, como um ser de
+proporções extraordinárias, tudo o que é forte, e que é belo, e que dá
+razão à vida. Não quis que nada do que era dêle ou vinha dêle lhe fôsse
+alheio. Leu todos os seus livros, sobretudo aquela _Madalena_ que tambêm
+amara, e morrera dum abandono. Estas leituras calmavam-na, davam-lhe
+como uma vaga satisfação ao desejo. Chorando as dores das heroínas de
+romance, parecia sentir alívio às suas.
+
+Lentamente, esta necessidade de encher a imaginação dêsses lances de
+amor, de dramas infelizes, apoderou-se dela. Foi durante meses um
+devorar constante de romances. Ia-se assim criando no seu espírito um
+mundo artificial e idealizado. A realidade tornava-se-lhe odiosa,
+sobretudo sob aquele aspecto da sua casa, onde encontrava sempre
+agarrado às saias um ser enfermo. Vieram as primeiras revoltas.
+Tornou-se impaciente e áspera. Não suportava ser arrancada aos episódios
+sentimentais do seu livro, para ir ajudar a voltar o marido e sentir-lhe
+o hálito mau. Veio-lhe o nojo das garrafadas, dos emplastros, das
+feridas dos pequenos a lavar. Começou a ler versos. Passava horas só,
+num mutismo, à janela, tendo sob o seu olhar de virgem loura toda a
+rebelião duma apaixonada. Acreditava nos amantes que escalam os balcões,
+entre o canto dos rouxinóis: e queria ser amada assim, possuída num
+mistério de noite romântica...
+
+O seu amor desprendeu-se pouco a pouco da imagem de Adrião e alargou-se,
+estendeu-se a um ser vago que era feito de tudo o que a encantara nos
+heróis de novela; era um ente meio príncipe e meio facínora, que tinha,
+sobretudo, a fôrça. Porque era isto que admirava, que queria, porque
+ansiava nas noites cálidas em que não podia dormir--dois braços fortes
+como aço, que a apertassem num abraço mortal, dois lábios de fogo que,
+num beijo, lhe chupassem a alma. Estava uma histérica.
+
+Às vezes, ao pé do leito do marido, vendo diante de si aquele corpo de
+tísico, numa imobilidade de entrevado, vinha-lhe um ódio torpe, um
+desejo de lhe apressar a morte...
+
+E no meio desta excitação mórbida do temperamento irritado, eram
+fraquezas súbitas, sustos de ave que pousa, um grito ao ouvir bater uma
+porta, uma palidez de desmaio se havia na sala flores muito cheirosas...
+À noite abafava; abria a janela; mas o cálido ar, o bafo môrno da terra
+aquecida do sol, enchiam-na dum desejo intenso, duma ânsia voluptuosa,
+cortada de crises de chôro...
+
+A Santa tornava-se Vénus.
+
+E o romantismo mórbido tinha penetrado tanto naquele ser, e
+desmoralizára-o tam profundamente, que chegou ao momento em que bastaria
+que um homem lhe tocasse, para ela lhe caír nos braços:--e foi o que
+sucedeu emfim, com o primeiro que a namorou, daí a dois anos. Era o
+praticante da botica.
+
+Por causa dêle escandalizou toda a vila. E agora deixa a casa numa
+desordem, os filhos sujos e ramelosos, em farrapos, sem comer até altas
+horas, o marido a gemer abandonado na sua alcôva, toda a trapagem dos
+emplastros por cima das cadeiras, tudo num desamparo torpe--para andar
+atrás do homem, um maganão odioso e cebento, de cara balôfa e
+gordalhufa, luneta preta com grossa fita passada atrás da orelha, e
+bonésinho de sêda posto à catita. Vem de noite às entrevistas de chinelo
+de ourelo: cheira a suor: e pede-lhe dinheiro emprestado para sustentar
+uma Joana, criatura obêsa, a quem chamam na vila a _bola de unto_.
+
+
+
+
+CIVILIZAÇÃO
+
+
+I
+
+Eu possuo preciosamente um amigo (o seu nome é Jacinto) que nasceu num
+palácio, com quarenta contos de renda em pingues terras de pão, azeite e
+gado.
+
+Desde o berço, onde sua mãe, senhora gorda e crédula de Trás-os-montes,
+espalhava, para reter as Fadas Benéficas, funcho e âmbar, Jacinto fôra
+sempre mais resistente e são que um pinheiro das dunas. Um lindo rio,
+murmuroso e transparente, com um leito muito liso de areia muito branca,
+reflectindo apenas pedaços lustrosos de um céu de verão ou ramagens
+sempre verdes e de bom aroma, não ofereceria, àquele que o descesse numa
+barca cheia de almofadas e de Champanhe gelada, mais doçura e
+facilidades do que a vida oferecia ao meu camarada Jacinto. Não teve
+sarampo e não teve lombrigas. Nunca padeceu, mesmo na idade em que se lê
+Balzac e Musset, os tormentos da sensibilidade. Nas suas amizades foi
+sempre tam feliz como o clássico Orestes. Do Amor só experimentára o
+mel--êsse mel que o amor invariavelmente concede a quem o pratíca, como
+as abelhas, com ligeireza e mobilidade. Ambição, sentira sómente a de
+compreender bem as ideas gerais, e a «ponta do seu intelecto» (como diz
+o vélho cronista medieval) não estava ainda romba nem ferrugenta... E
+todavia, desde os vinte e oito anos, Jacinto já se vinha repastando de
+Schopenhauer, do Eclesiastes, doutros Pessimistas menores, e três,
+quatro vezes por dia, bocejava, com um bocejo cavo e lento, passando os
+dedos finos sôbre as faces, como se nela só palpasse palidez e ruína.
+Porquê?
+
+Era êle, de todos os homens que conheci, o mais complexamente
+civilizado--ou antes aquele que se munira da mais vasta sôma de
+civilização material, ornamental e intelectual. Nesse palácio
+(floridamente chamado o _Jasmineiro_) que seu pai, tambêm Jacinto,
+construira sôbre uma honesta casa do século XVII, assoalhada a pinho e
+branqueada a cal--existia, creio eu, tudo quanto para bem do espírito ou
+da matéria os homens teem criado, através da incerteza e dor, desde que
+abandonaram o vale feliz de Septa-Sindu, a Terra das Águas Fáceis, o
+doce país Ariano. A biblioteca, que em duas salas, amplas e claras como
+praças, forrava as paredes, inteiramente, desde os tapetes de Caranânia
+até ao teto de onde, alternadamente, através de cristais, o sol e a
+electricidade vertiam uma luz estudiosa e calma--continha vinte e cinco
+mil volumes, instalados em ébano, magnificamente revestidos de marroquim
+escarlate. Só sistemas filosóficos (e com justa prudência, para poupar
+espaço, o bibliotecário apenas colecionára os que irreconciliavelmente
+se contradizem) havia mil oito centos e dezassete!
+
+Uma tarde que eu desejava copiar um ditame de Adam Smith, percorri,
+buscando êste economista ao longo das estantes, oito metros de economia
+política! Assim se achava formidavelmente abastecido o meu amigo Jacinto
+de todas as obras essenciais da inteligência--e mesmo da estupidez. E o
+único inconveniente dêste monumental armazêm do saber era que todo
+aquele que lá penetrava, inevitavelmente lá adormecia, por causa das
+poltronas, que provídas de finas pranchas móveis para sustentar o livro,
+o charuto, o lápis das notas, a taça de café, ofereciam ainda uma
+combinação oscilante e flácida de almofadas, onde o corpo encontrava
+logo, para mal do espírito, a doçura, a profundidade e a paz estirada de
+um leito.
+
+Ao fundo, e como um altar-mór, era o gabinete de trabalho de Jacinto. A
+sua cadeira, grave e abacial, de couro, com brazões, datava do século
+XIV, e em tôrno dela pendiam numerosos tubos acústicos, que, sôbre os
+panejamentos de sêda côr de musgo e côr de hera, pareciam serpentes
+adormecidas e suspensas num vélho muro de quinta. Nunca recordo sem
+assombro a sua mesa, recoberta toda de sagazes e subtis instrumentos
+para cortar papel, numerar páginas, colar estampilhas, aguçar lápis,
+raspar emendas, imprimir datas, derreter lacre, cintar documentos,
+carimbar contas! Uns de níquel, outros de aço, rebrilhantes e frios,
+todos eram de um manejo laborioso e lento: alguns, com as molas rígidas,
+as pontas vivas, trilhavam e feriam: e nas largas fôlhas de papel
+Whatman em que êle escrevia, e que custavam 500 réis, eu por vezes
+surpreendi gotas de sangue do meu amigo. Mas a todos êle considerava
+indispensáveis para compôr as suas cartas (Jacinto não compunha obras)
+assim como os trinta e cinco dicionários, e os manuais, e as
+enciclopédias, e os guias, e os directórios, atulhando uma estante
+isolada, esguia, em forma de tôrre, que silenciosamente girava sôbre o
+seu pedestal, e que eu denominára o Farol. O que, porêm, mais
+completamente imprimia àquele gabinete um portentoso carácter de
+civilização eram, sôbre as suas peanhas de carvalho, os grandes
+aparelhos, facilitadores do pensamento,--a máquina de escrever, os
+auto-copistas, o telégrafo-Morse, o fonógrafo, o telefone, o teatrofone,
+outros ainda, todos com metais luzidios, todos com longos fios.
+Constantemente sons curtos e secos retiniam no ar morno daquele
+santuário. Tic, tic, tic! Dlin, dlin, dlin! Crac, crac, crac! Trrre,
+trrre!... Era o meu amigo comunicando. Todos êsses fios mergulhavam em
+fôrças universais, transmitiam fôrças universais. E elas nem sempre,
+desgraçadamente, se conservavam domadas e disciplinadas! Jacinto
+recolhera no fonógrafo a voz do conselheiro Pinto Pôrto, uma voz
+oracular e rotunda, no momento de exclamar com respeito, com autoridade:
+
+--«_Maravilhosa invenção! ¿Quem não admirará os progressos dêste século?_»
+
+Pois, numa doce noite de S. João, o meu supercivilizado amigo, desejando
+que umas senhoras parentas de Pinto Pôrto (as amáveis Gouveias)
+admirassem o fonógrafo, fez romper do bocarrão do aparelho, que parece
+uma trompa, a conhecida voz rotunda e oracular.
+
+--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_
+
+Mas, inábil ou brusco, certamente desconcertou alguma mola vital--porque
+de repente o fonógrafo começa a redizer, sem descontinuação,
+interminavelmente, com uma sonoridade cada vez mais rotunda, a sentença
+do conselheiro:
+
+--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_
+
+Debalde Jacinto, pálido, com os dedos trémulos, torturava o aparelho. A
+exclamação recomeçava, rolava, oracular e majestosa:
+
+--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_
+
+Enervados, retiramos para uma sala distante, pesadamente revestida de
+panos de Arraz. Em vão! A voz de Pinto Pôrto lá estava, entre os panos
+de Arraz, implacável e rotunda:
+
+--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_
+
+Furiosos, enterramos uma almofada na bôca do fonógrafo, atiramos por
+cima mantas, cobertores espessos, para sufocar a voz abominável. Em vão!
+sob a mordaça, sob as grossas lãs, a voz rouquejava, surda mas oracular:
+
+--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_
+
+As amáveis Gouveias tinham abalado, apertando desesperadamente os chales
+sôbre a cabeça. Mesmo à cozinha, onde nos refugiamos, a voz descia,
+engasgada e gosmosa:
+
+--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_
+
+Fugimos espavoridos para a rua.
+
+Era de madrugada. Um fresco bando de raparigas, de volta das fontes,
+passava cantando com braçados de flores:
+
+ Todas as ervas são bentas
+ Em manhã de S. João...
+
+Jacinto, respirando o ar matinal, limpava as bagas lentas do suor.
+Recolhemos ao _Jasmineiro_, com o sol já alto, já quente. Muito de manso
+abrimos as portas, como no receio de despertar _alguêm_. Horror! Logo da
+ante-câmara percebemos sons estrangulados, roufenhos: «_admirará..._
+_progressos..._ _século!..._» Só de tarde um electricista pôde emmudecer
+aquele fonógrafo horrendo.
+
+Bem mais aprazível (para mim) do que esse gabinete temerosamente
+atulhado de civilização--era a sala de jantar, pelo seu arranjo
+compreensível, fácil e íntimo. À mesa só cabiam seis amigos que Jacinto
+escolhia com critério na literatura, na arte e na metafísica, e que,
+entre as tapeçarias de Arraz, representando colinas, pomares e portos da
+Ática cheias de classicismo e de luz, renovavam ali repetidamente
+banquetes que, pela sua intelectualidade, lembravam os de Platão. Cada
+garfada se cruzava com um pensamento ou com palavras dextramente
+arranjadas em forma de pensamento.
+
+E a cada talher correspondiam seis garfos, todos de feitios
+dissemelhantes e astuciosos:--um para as ostras, outro para o peixe,
+outro para as carnes, outro para os legumes, outro para a fruta, outro
+para o queijo. Os copos, pela diversidade dos contornos e das côres,
+faziam, sôbre a toalha mais reluzente que esmalte, como ramalhetes
+silvestres espalhados por cima de neve. Mas Jacinto e os seus filósofos,
+lembrando o que o experiente Salomão ensina sôbre as ruínas e amarguras
+do vinho, bebiam apenas em três gotas de água uma gota de Bordeus
+(Chateaubriand, 1860). Assim o recomendam--Hesíodo no seu _Nereu_, e
+Diocles nas suas _Abelhas_. E de águas havia sempre no _Jasmineiro_ um
+luxo redundante--águas geladas, águas carbonatadas, águas esterilizadas,
+águas gasosas, águas de sais, águas minerais, outras ainda, em garrafas
+sérias, com tratados terapêuticos impressos no rótulo... O cozinheiro,
+mestre Sardão, era daqueles que Anaxágoras equiparava aos Retóricos, aos
+oradores, a todos os que sabem a arte divina de «temperar e servir a
+Idea»: e em Sybaris, cidade do Viver Excelente, os magistrados teriam
+votado a mestre Sardão, pelas festas de Juno Lacina, a coroa de fôlhas
+de ouro e a túnica Milésia que se devia aos bemfeitores cívicos. A
+sua sopa de alcachofra e ovas de carpa; os seus filetes de veado
+macerados em vélho Madeira com _purée_ de nozes; as suas amoras geladas
+em éter, outros acepipes ainda, numerosos e profundos (e os únicos que
+tolerava o meu Jacinto) eram obras de um artista, superior pela
+abundância das ideas novas--e juntavam sempre a raridade do sabor à
+magnificência da forma. Tal prato dêsse mestre imcomparável, parecia,
+pela ornamentação, pela graça florida dos lavores, pelo arranjo dos
+coloridos frescos e cantantes, uma joia esmaltada do cinzel de Cellini
+ou Meurice. Quantas tardes eu desejei fotografar aquelas composições de
+excelente fantasia, antes que o trinchante as retalhasse! E esta
+superfinidade do comer condizia deliciosamente com a do servir. Por
+sôbre um tapete, mais fôfo e mole que o musgo da floresta da
+Brocelândia, deslizavam, como sombras fardadas de branco, cinco criados
+e um pagem preto, à maneira vistosa do século XVIII. As travessas (de
+prata) subiam da cozinha e da copa por dous ascensores, um para as
+iguarias quentes, forrado de tubos onde a água fervia; outro, mais
+lento, para as iguarias frias, forrado de zinco, amónia e sal, e ambos
+escondidos por flores tam densas e viçosas que era como se até a sopa
+saísse fumegando dos românticos jardins de Armida. E muito bem me lembro
+de um domingo de maio em que, jantando com Jacinto um bispo, o
+erudito bispo de Chorazin, o peixe emperrou no meio do ascensor, sendo
+necessário que acudissem, para o extrair, pedreiros com alavancas.
+
+
+II
+
+Nas tardes em que havia «banquete de Platão» (que assim denominávamos
+essas festas de trutas e ideas gerais), eu, vizinho e íntimo, aparecia
+ao declinar do sol, e subia familiarmente aos quartos do nosso
+Jacinto--onde o encontrava sempre incerto entre as suas casacas, porque
+as usava alternadamente de sêda, de pano, de flanelas Jaegher, e de
+_foulard_ das Índias. O quarto respirava o frescor e aroma do jardim por
+duas vastas janelas, providas magnificamente (alêm das cortinas de sêda
+mole Luís XV) de uma vidraça exterior de cristal inteiro, duma vidraça
+interior de cristais miudos, dum tôldo rolando na cimalha, dum estore de
+sedinha frouxa, de gases que franziam e se enrolavam como nuvens, e duma
+gelosia móvel de gradaria mourisca. Todos êstes resguardos (sábia
+invenção de Holland & C.ª, de Londres) serviam a guardar a luz e o
+ar--segundo os avisos de termómetros, barómetros e higrómetros, montados
+em ébano, e a que um meteorologista (Cunha Guedes) vinha, todas as
+semanas, verificar a precisão.
+
+Entre estas duas varandas rebrilhava a mesa de _toilette_, uma mesa
+enorme de vidro, toda de vidro, para a tornar impenetrável aos
+micróbios, e coberta de todos êsses utensílios de asseio e alinho que o
+homem do século XIX necessita numa capital, para não desfear o conjunto
+suntuário da civilização. Quando o nosso Jacinto, arrastando as suas
+engenhosas chinelas de pelica e sêda, se acercava desta ara--eu, bem
+aconchegado num divã, abria com indolência uma Revista, ordináriamente a
+_Revista Electro-Pática_, ou a das _Indagações Psíquicas_. E Jacinto
+começava... Cada um dêsses utensílios de aço, de marfim, de prata,
+impunham ao meu amigo, pela influência omnipoderosa que as cousas
+exercem sôbre o dono (_sunt tyranniæ rerum_) o dever de o utilizar com
+aptidão e deferência. E assim as operações do alindamento de Jacinto
+apresentavam a prolixidade, reverente e insuprimível, dos ritos dum
+sacrifício.
+
+Começava pelo cabelo... Com uma escôva chata, redonda e dura, acamava o
+cabelo, corredio e louro, no alto, aos lados da risca; com uma escôva
+estreita e recurva, à maneira do alfange dum persa, ondeava o cabelo
+sôbre a orelha; com uma escôva côncava, em forma de telha, empastava o
+cabelo, por trás, sôbre a nuca... Respirava e sorria. Depois, com
+uma escôva de longas cerdas, fixava o bigode; com uma escôva leve e
+flácida acurvava as sobrancelhas; com uma escôva feita de penugem
+regularizava as pestanas. E dêste modo Jacinto ficava diante do espelho,
+passando pêlos sôbre o seu pêlo, durante catorze minutos.
+
+Penteado e cansado, ia purificar as mãos. Dois criados, ao fundo,
+manobravam com perícia e vigor os aparelhos do lavatório--que era apenas
+um resumo dos maquinismos monumentais da sala de banho. Ali, sôbre o
+mármore verde e róseo do lavatório, havia apenas duas duches (quente e
+fria) para a cabeça; quatro jactos, graduados desde _zero até cem
+graus_; o vaporizador de perfumes; a fonte de água esterilizada (para os
+dentes); o repuxo para a barba; e ainda torneiras que rebrilhavam e
+botões de ébano que, de leve roçados, desencadeavam o marulho e o
+estridor de torrentes nos Alpes... Nunca eu, para molhar os dedos, me
+cheguei àquele lavatório sem terror--escarmentado da tarde amarga de
+janeiro em que bruscamente, dessoldada a torneira, o jacto de água a
+_cem graus_ rebentou, silvando e fumegando, furioso, devastador...
+Fugimos todos, espavoridos. Um clamor atroou o _Jasmineiro_. O vélho
+Grilo, escudeiro que fôra do Jacinto pai, ficou coberto de empôlas na
+face, nas mãos fieis.
+
+Quando Jacinto acabava de se enxugar laboriosamente a toalhas de felpo,
+de linho, de corda entrançada (para restabelecer a circulação), de sêda
+frouxa (para lustrar a pele) bocejava, com um bocejo cavo e lento.
+
+E era êste bocejo, perpétuo e vago, que nos inquietava a nós, seus
+amigos e filósofos. ¿Que faltava a êste homem excelente? Êle tinha a sua
+inabalável saúde de pinheiro bravo, crescido nas dunas; uma luz da
+inteligência, própria a tudo alumiar, firme e clara sem tremor ou
+morrão; quarenta magníficos contos de renda; todas as simpatias duma
+cidade chasqueadora e scéptica; uma vida varrida de sombras, mais
+liberta e lisa do que um céu de verão... E todavia bocejava
+constantemente, palpava na face, com os dedos finos, a palidez e as
+rugas. Aos trinta anos Jacinto corcovava, como sob um fardo injusto! E
+pela morosidade desconsolada de toda a sua acção parecia ligado, desde
+os dedos até à vontade, pelas malhas apertadas duma rêde que se não via
+e que o travava. Era doloroso testemunhar o fastio com que êle, para
+apontar um enderêço, tomava o seu lápis pneumático, a sua pena
+eléctrica--ou, para avisar o cocheiro, apanhava o tubo telefónico!...
+Neste mover lento do braço magro, nos vincos que lhe arrepanhavam o
+nariz, mesmo nos seus silêncios, longos e derreados, se sentia o brado
+constante que lhe ia na alma;--_Que massada! Que massada!_
+Claramente a vida era para Jacinto um cansaço--ou por laboriosa e
+difícil, ou por desinteressante e ôca... Por isso o meu pobre amigo
+procurava constantemente juntar à sua vida novos interêsses, novas
+facilidades. Dois inventores, homens de muito zêlo e pesquiza estavam
+encarregados, um em Inglaterra, outro na América, de lhe noticiar e de
+lhe fornecer todas as invenções, as mais miudas, que concorressem a
+aperfeiçoar a confortabilidade do _Jasmineiro_. De resto, êle proprio se
+correspondia com Edison. E, pelo lado do pensamento, Jacinto não cessava
+tambêm de buscar interêsses e emoções que o reconciliassem com a
+vida--penetrando à cata dessas emoções e dêsses interêsses pelas veredas
+mais desviadas do saber, a ponto de devorar, desde janeiro a março,
+setenta e sete volumes sôbre a _evolução das ideas morais entre as raças
+negróides_. Ah! nunca homem dêste século batalhou mais esforçadamente
+contra a _séca de viver_! Debalde! Mesmo de explorações tam cativantes
+como essa, através da moral dos negróides, Jacinto regressava mais
+murcho, com bocejos mais cavos!
+
+E era então que êle se refugiava intensamente na leitura de Schopenhauer
+e do _Eclesiastes_. Porque? Sem dúvida porque ambos êsses pessimistas o
+confirmavam nas conclusões que êle tirava de uma experiência
+paciente e rigorosa: «que tudo é vaidade ou dor, que quanto mais se
+sabe, mais se péna, e que ter sido rei de Jerusalêm e obtido os gózos
+todos na vida só leva a maior amargura...» ¿Mas porque rolara assim a
+tam escura desilusão--o saùdável, rico, sereno e intelectual Jacinto? O
+vélho escudeiro Grilo pretendia que «S. Ex.ª sofria de fartura!»
+
+
+III
+
+Ora justamente depois dêsse inverno, em que êle se embrenhara na moral
+dos negróides e instalara a luz eléctrica entre os arvoredos do jardim,
+sucedeu que Jacinto teve a necessidade moral iniludível de partir para o
+Norte, para o seu vélho solar de Torges. Jacinto não conhecia Torges, e
+foi com desusado tédio que êle se preparou, durante sete semanas, para
+essa jornada agreste. A quinta fica nas serras--e a rude casa solarenga,
+onde ainda resta uma tôrre do século XV, estava ocupada, havia trinta
+anos, pelos caseiros, boa gente de trabalho, que comia o seu caldo entre
+a fumaraça da lareira, e estendia o trigo a secar nas salas senhoriais.
+
+Jacinto, logo nos começos de março, escrevera cuidadosamente ao seu
+procurador Sousa, que habitava a aldeia de Torges, ordenando-lhe que
+compuzesse os telhados, caiasse os muros, envidraçasse as janelas.
+Depois mandou expedir, por combóios rápidos, em caixotes que transpunham
+a custo os portões do _Jasmineiro_, todos os confortos necessários a
+duas semanas de montanha--camas de penas, poltronas, divãs, lâmpadas de
+Carcel, banheiras de níquel, tubos acústicos para chamar os escudeiros,
+tapetes persas para amaciar os soalhos. Um dos cocheiros partiu com um
+copé, uma vitória, um breque, mulas e guizos.
+
+Depois foi o cozinheiro, com a bateria, a garrafeira, a geleira, bocais
+de trufas, caixas profundas de águas mineráis. Desde o amanhecer, nos
+pátios largos do palacete, se pregava, se martelava, como na construção
+de uma cidade. E as bagagens, desfilando, lembravam uma página de
+Heródoto ao narrar a invasão persa. Jacinto emmagrecera com os cuidados
+daquele Êxodo. Por fim, largamos numa manhã de junho, com o Grilo, e
+trinta e sete malas.
+
+Eu acompanhava Jacinto, no meu caminho para Guiães, onde vive minha tia,
+a uma légua farta de Torges: e íamos num vagom reservado, entre vastas
+almofadas, com perdizes e Champanhe num cêsto. A meio da jornada
+devíamos mudar de combóio--nessa estação, que tem um nome sonoro em
+_ola_ e um tam suave e cândido jardim de roseiras brancas. Era domingo
+de imensa poeira e sol--e encontrámos aí, enchendo a plata-forma
+estreita, todo um povaréu festivo que vinha da romaria de S. Gregório da
+Serra.
+
+Para aquele trasbôrdo, em tarde de arraial, o horário só nos concedia
+três minutos avaros. O outro combóio já esperava, rente aos alpendres,
+impaciente e silvando. Uma sineta badalava com furor. E, sem mesmo
+atender às lindas môças que ali saracoteavam, aos bandos, afogueadas, de
+lenços flamejantes, o seio farto coberto de ouro, e a imagem do santo
+espetada no chapéu--corremos, empurrámos, furámos, saltámos para o outro
+vagom, já reservado, marcado por um cartão com as iniciais de Jacinto.
+Imediatamente o trem rolou. Pensei então no nosso Grilo, nas trinta e
+sete malas! E debruçado da portinhola avistei ainda junto ao cunhal da
+estação, sob os eucaliptos, um monte de bagagens, e homens de boné
+agaloado que, diante delas, bracejavam com desespêro.
+
+Murmurei, recaindo nas almofadas:
+
+--Que serviço!
+
+Jacinto, ao canto, sem descerrar os olhos, suspirou:
+
+--Que massada!
+
+Toda uma hora deslizamos lentamente entre trigais e vinhedo; e ainda o
+sol batia nas vidraças, quente e poeirento, quando chegamos à estação de
+Gondim, onde o procurador de Jacinto, o excelente Sousa, nos devia
+esperar com cavalos para treparmos a serra até ao solar de Torges. Por
+trás do jardim da estação, todo florido tambêm de rosas e margaridas,
+Jacinto reconheceu logo as suas carruagens ainda empacotadas em lona.
+
+Mas quando nos apeamos no pequeno cais branco e fresco--só houve em
+tôrno de nós solidão e silêncio. Nem procurador, nem cavalos! O chefe da
+estação, a quem eu perguntara com ansiedade «se não aparecera ali o snr.
+Sousa, se não conhecia o snr. Sousa», tirou afavelmente o seu boné de
+galão. Era um moço gordo e redondo, com côres de maçã camoesa, que
+trazia sob o braço um volume de versos. «Conhecia perfeitamente o snr.
+Sousa! Três semanas antes jogara êle a manilha com o snr. Sousa! Nessa
+tarde porêm, infelizmente, não avistara o snr. Sousa!» O comboio
+desaparecera por detrás das fragas altas que ali pendem sôbre o rio. Um
+carregador enrolava o cigarro, assobiando. Rente da grade do jardim, uma
+vélha, toda de negro, dormitava agachada no chão, diante duma cêsta de
+ovos. ¿E o nosso Grilo, e as nossas bagagens?... O chefe encolheu
+risonhamente os ombros nédios. Todos os nossos bens tinham
+encalhado, de-certo, naquela estação de roseiras brancas que tem um nome
+sonoro em _ola_. E nós ali estávamos, perdidos na serra agreste, sem
+procurador, sem cavalos, sem Grilo, sem malas.
+
+¿Para que esfiar miudamente o lance lamentável? Ao pé da estação, numa
+quebrada da serra, havia um casal foreiro à quinta, onde alcançamos,
+para nos levarem e nos guiarem a Torges, uma égua lazarenta, um jumento
+branco, um rapaz e um podengo. E aí começamos a trepar, enfastiadamente,
+êsses caminhos agrestes--os mesmos, de-certo, por onde vinham e iam, de
+monte a rio, os Jacintos do século XV. Mas, passada uma trémula ponte de
+pau que galga um ribeiro todo quebrado por fragas (e onde abunda a truta
+adorável) os nossos males esqueceram, ante a inesperada, incomparável
+beleza daquela terra bemdita. O divino artista que está nos céus
+compuzera, certamente, êsse monte numa das suas manhãs de mais solene e
+bucólica inspiração.
+
+A grandeza era tanta como a graça... Dizer os vales fôfos de verdura, os
+bosques quási sacros, os pomares cheirosos e em flor, a frescura das
+águas cantantes, as ermidinhas branqueando nos altos, as rochas
+musgosas, o ar de uma doçura de paraíso, toda a majestade e toda a
+lindeza--não é para mim, homem de pequena arte. Nem creio mesmo que
+fôsse para mestre Horácio. ¿Quem pode dizer a beleza das cousas,
+tam simples e inexprímivel? Jacinto adiante, na égua tarda, murmurava:
+
+--Ah! que beleza!
+
+Eu atrás, no burro, com as pernas bambas, murmurava:
+
+--Ah! que beleza!
+
+Os espertos regatos riam, saltando de rocha em rocha. Finos ramos de
+arbustos floridos roçavam as nossas faces, com familiaridade e carinho.
+Muito tempo um melro nos seguiu, de choupo para castanheiro, assobiando
+os nossos louvores. Serra bem acolhedora e amável... Ah! que beleza!
+
+Por entre _ahs_ maravilhados chegamos a uma avenida de faias, que nos
+pareceu clássica e nobre. Atirando uma nova vergastada ao burro e à
+égua, o nosso rapaz, com o seu podengo ao lado, gritava:
+
+--Aqui é que estêmos!
+
+E ao fundo das faias havia, com efeito, um portão de quinta, que um
+escudo de armas de vélha pedra, roída de musgo, grandemente afidalgava.
+Dentro já os cães ladravam com furor. E mal Jacinto, e eu atrás dêle no
+burro de Sancho, transpuzemos o limiar solarengo, correu para nós, do
+alto da escadaria, um homem branco, rapado como um clérigo, sem colete,
+sem jaleca, que erguia para o ar, num assombro, os braços desolados. Era
+o caseiro, o Zé Brás. E logo ali, nas pedras do pátio, entre o
+latir dos cães, surdiu uma tumultuosa história, que o pobre Brás
+balbuciava, aturdido, e que enchia a face de Jacinto de lividez e de
+cólera. O caseiro não esperava S. Ex.ª Ninguêm esperava S. Ex.ª (Êle
+dizia _sua inselência_).
+
+O procurador, o snr. Sousa, estava para a raia desde maio, a tratar a
+mãe que levára um couce de mula. E de-certo houvera engano, cartas
+perdidas... Porque o snr. Sousa só contava com S. Ex.ª... em setembro,
+para a vindima. Na casa nenhuma obra começára. E, infelizmente para S.
+Ex.ª, os telhados ainda estavam sem telhas, e as janelas sem vidraças...
+
+Cruzei os braços, num justo espanto. ¿Mas os caixotes--êsses caixotes
+remetidos para Torges, com tanta prudência, em abril, repletos de
+colchões, de regalos, de civilização?... O caseiro, vago, sem
+compreender, arregalava os olhos miudos onde já bailavam lágrimas. Os
+caixotes?! Nada chegára, nada aparecera. E na sua perturbação o Zé Brás
+procurava entre as arcadas do pátio, nas algibeiras das pantalonas... Os
+caixotes? Não, não tinha os caixotes!
+
+Foi então que o cocheiro de Jacinto (que trouxera os cavalos e as
+carruagens) se acercou, gravemente. Êsse era um civilizado--e
+acusou logo o govêrno. Já quando êle servia o snr. visconde de S.
+Francisco se tinham assim perdido, por desleixo do govêrno, da cidade
+para a serra, dous caixotes com vinho vélho da Madeira, e roupa branca
+de senhora. Por isso êle, escarmentado, sem confiança na nação, não
+largára as carruagens--e era tudo o que restava a S. Ex.ª: o breque, a
+vitória, o copé e os guizos. Sómente, naquela rude montanha, não havia
+estradas onde elas rolassem. E como só podiam subir para a quinta em
+grandes carros de bois--êle lá as deixára em baixo, na estação, quietas,
+empacotadas na lona...
+
+Jacinto ficára plantado diante de mim, com as mãos nos bolsos:
+
+--E agora?
+
+Nada restava senão recolher, cear o caldo do tio Zé Brás, e dormir nas
+palhas que os fados nos concedessem. Subimos. A escadaria nobre conduzia
+a uma varanda, toda coberta, em alpendre, acompanhando a fachada do
+casarão e ornada, entre os seus grossos pilares de granito, por caixotes
+cheios de terra, em que floriam cravos. Colhi um cravo. Entramos. E o
+meu pobre Jacinto contemplou, emfim, as salas do seu solar! Eram
+enormes, com as altas paredes rebocadas a cal que o tempo e o abandôno
+tinham ennegrecido, e vazias, desoladamente nuas, oferecendo apenas como
+vestígio de habitação e de vida, pelos cantos algum monte de cestos
+ou algum mólho de enxadas. Nos tetos remotos de carvalho negro alvejavam
+manchas--que era o céu já pálido do fim da tarde, surpreendido através
+dos buracos do telhado. Não restava uma vidraça. Por vezes, sob os
+nossos passos, uma tábua pôdre rangia e cedia.
+
+Paramos, emfim, na última, a mais vasta, onde havia duas arcas tulheiras
+para guardar o grão; e aí depuzemos, melancólicamente, o que nos ficára
+de trinta e sete malas--os paletós alvadios, uma bengala e um _Jornal da
+Tarde_. Através das janelas desvidraçadas, por onde se avistavam copas
+de arvoredos e as serras azuis de alêm-rio, o ar entrava, montesino e
+largo, circulando plenamente como em um eirado, com aromas de pinheiro
+bravo. E, lá debaixo, dos vales, subia, desgarrada e triste, uma voz de
+pegureira cantando. Jacinto balbuciou:
+
+--É horroroso!
+
+Eu murmurei:
+
+--É campestre!
+
+
+IV
+
+O Zé Brás, no entanto, com as mãos na cabeça, desaparecera a ordenar a
+ceia para _suas inselências_. O pobre Jacinto, esbarrondado pelo
+desastre, sem resistência contra aquele brusco desaparecimento de toda a
+civilização, caíra pesadamente sôbre o poial duma janela, e daí olhava
+os montes. E eu, a quem aqueles ares serranos e o cantar do pegureiro
+sabiam bem, terminei por descer à cozinha, conduzido pelo cocheiro,
+através de escadas e becos onde a escuridão vinha menos do crepúsculo do
+que de densas teias de aranha.
+
+A cozinha era uma espessa massa de tons e formas negras, côr de fuligem,
+onde refulgia ao fundo, sôbre o chão de terra, uma fogueira vermelha que
+lambia grossas panelas de ferro, e se perdia em fumarada pela grade
+escassa que no alto coava a luz. Aí um bando alvoroçado e palreiro de
+mulheres depenava frangos, batia ovos, escarolava arroz, com santo
+fervor... Do meio delas o bom caseiro, estonteado, investiu para mim
+jurando que «a ceia de _suas inselências_ não demorava um credo». E como
+eu o interrogava a respeito de camas, o digno Brás teve um murmúrio
+vago e tímido sobre «enxergasinhas no chão».
+
+--É o que basta, snr. Zé Brás--acudi eu para o consolar.
+
+--Pois assim Deus seja servido!--suspirou o homem excelente, que
+atravessava, nessa hora, o transe mais amargo da sua vida serrana.
+
+Voltando a cima, com estas consolantes novas de ceia e cama, encontrei
+ainda o meu Jacinto no poial da janela, embebendo-se todo da doce paz
+crepuscular, que lenta e caladamente se estabelecia sôbre vale e monte.
+No alto já tremeluzia uma estrêla, a Vesper diamantina, que é tudo o que
+neste céu cristão resta do esplendor corporal de Vénus! Jacinto nunca
+considerára bem aquela estrêla--nem assistira a êste majestoso e doce
+adormecer das cousas. Êsse ennegrecimento de montes e arvoredos, casais
+claros fundindo-se na sombra, um toque dormente de sino que vinha pelas
+quebradas, o cochichar das águas entre relvas baixas--eram para êle como
+iniciações. Eu estava defronte, no outro poial. E senti-o suspirar como
+um homem que emfim descansa.
+
+Assim nos encontrou nesta contemplação o Zé Brás, com o doce aviso de
+que estava na mesa a _ceiasinha_. Era adiante, noutra sala mais nua,
+mais negra. E aí, o meu supercivilizado Jacinto recuou com um pavor
+genuíno. Na mesa de pinho, recoberta com uma toalha de mãos, encostada à
+parede sórdida, uma vela de cebo meio derretida num castiçal de latão,
+alumiava dous pratos de louça amarela, ladeados por colheres de pau e
+por garfos de ferro. Os copos, de vidro, grosso e baço, conservavam o
+tom rôxo do vinho que neles passára em fartos anos de fartas vindimas. O
+covilhete de barro com as azeitonas deleitaria, pela sua singeleza
+ática, o coração de Diógenes. Na larga brôa estava cravado um
+facalhão... Pobre Jacinto!
+
+Mas lá abancou resignado, e muito tempo, pensativamente, esfregou com o
+seu lenço o garfo negro e a colher de pau. Depois, mudo, desconfiado,
+provou um gole curto do caldo, que era de galinha e rescendia. Provou, e
+levantou para mim, seu companheiro e amigo, uns olhos largos que luziam,
+surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada de caldo, mais cheia, mais
+lenta... E sorriu, murmurando com espanto:
+
+--Está bom!
+
+Estava realmente bom: tinha figado e tinha moela: o seu perfume
+enternecia. Eu, três vezes, com energia, ataquei aquele caldo: foi
+Jacinto que rapou a sopeira. Mas já, arredando a brôa, arredando a vela,
+o bom Zé Brás pousára na mesa uma travessa vidrada, que
+transbordava de arroz com favas. Ora, a-pesar da fava (que os gregos
+chamaram _cibória_) pertencer às épocas superiores da civilização, e
+promover tanto a sapiência que havia em Sycio, na Galácia, um templo
+dedicado a Minerva Ciboriana--Jacinto sempre detestára favas. Tentou
+todavia uma garfada tímida. De novo os seus olhos, alargados pelo
+assombro, procuravam os meus. Outra garfada, outra concentração... E eis
+que o meu dificíllimo amigo exclama:
+
+--Está ótimo!
+
+¿Eram os picantes ares da serra? ¿Era a arte deliciosa daquelas mulheres
+que em baixo remexiam as panelas, cantando o _Vira_, _meu bem_? Não
+sei:--mas os louvores de Jacinto a cada travessa foram ganhando em
+amplidão e firmeza. E diante do frango louro, assado no espêto de pau,
+terminou por bradar:
+
+--Está divino!
+
+Nada porêm o entusiasmou como o vinho, o vinho caíndo de alto, da grossa
+caneca verde, um vinho gostoso, penetrante, vivo, quente, que tinha em
+si mais alma que muito poema ou livro santo! Mirando à luz de cebo o
+copo rude que êle orlava de espuma, eu recordava o dia geórgico em que
+Virgílio, em casa de Horácio, sob a ramada, cantava o fresco palhete da
+Rética. E Jacinto, com uma côr que eu nunca vira na sua palidez
+schopenháurica, sussurrou logo o doce verso:
+
+ _Rethica quò te carmina dicat._
+
+¿Quem dignamente te cantará, vinho daquelas serras?!
+
+Assim jantamos deliciosamente, sob os auspícios do Zé Brás. E depois
+voltamos para as alegrias únicas da casa, para as janelas desvidraçadas,
+a contemplar silenciosamente um suntuoso céu de verão, tam cheio de
+estrêlas que todo êle parecia uma densa poeirada de oiro vivo, suspensa,
+imóvel, por cima dos montes negros. Como eu observei ao meu Jacinto, na
+cidade nunca se olham os astros por causa dos candieiros--que os
+ofuscam: e nunca se entra por isso numa completa comunhão com o
+universo. O homem nas capitais pertence à sua casa, ou se o impelem
+fortes tendências de sociabilidade, ao seu bairro. Tudo o isola e o
+separa da restante natureza--os prédios obstrutores de seis andares, a
+fumaça das chaminés, o rolar moroso e grosso dos ónibus, a trama
+encarceradora da vida urbana... Mas que diferença, num cimo de monte,
+como Torges! Aí todas essas belas estrelas olham para nós de pérto,
+rebrilhando, à maneira de olhos conscientes, umas fixamente, com sublime
+indiferença, outras ansiosamente, com uma luz que palpita, uma luz
+que chama, como se tentassem revelar os seus segredos ou compreender os
+nossos... E é impossível não sentir uma solidariedade perfeita entre
+êsses imensos mundos e os nossos pobres corpos. Todos somos obra da
+mesma vontade. Todos vivemos da acção dessa vontade imanente. Todos,
+portanto, desde os Uranos até aos Jacintos, constituimos modos diversos
+de um ser único, e através das suas transformações somamos na mesma
+unidade. Não há idea mais consoladora do que esta--que eu, e tu, e
+aquele monte, e o sol que agora se esconde, somos moléculas do mesmo
+Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim. Desde logo se
+sómem as responsabilidades torturantes do individualismo. ¿Que somos
+nós? Formas sem fôrça, que uma Fôrça impele. E há um descanso delicioso
+nesta certeza, mesmo fugitiva, de que se é o grão de pó irresponsável e
+passivo que vai levado no grande vento, ou a gota perdida na torrente!
+Jacinto concordava, sumido na sombra. Nem êle nem eu sabíamos os nomes
+dêsses astros admiráveis. Eu, por causa da maciça e indesbastável
+ignorância de bacharel, com que saí do ventre de Coímbra, minha mãe
+espiritual. Jacinto, porque na sua ponderosa biblioteca tinha _trezentos
+e dezoito_ tratados sôbre astronomia! ¿Mas que nos importava, de
+resto, que aquele astro alêm se chamasse Sírius e aquele outro
+Aldebaran? ¿Que lhes importava a êles que um de nós fôsse José e o outro
+Jacinto? Éramos formas transitórias do mesmo ser eterno--e em nós havia
+o mesmo Deus. E se êles tambêm assim o compreendiam, estávamos ali, nós
+à janela num casarão serrano, êles no seu maravilhoso infinito,
+perfazendo um acto sacrossanto, um perfeito acto de Graça--que era
+sentir conscientemente a nossa unidade, e realizar, durante um instante,
+na consciência, a nossa divinização.
+
+Assim ennevoadamente filosofávamos--quando Zé Brás, com uma candeia na
+mão, veio avisar que «estavam preparadas as camas de _suas
+inselências..._» Da idealidade descemos gostosamente à realidade, ¿e que
+vimos então nós, os irmãos dos astros? Em duas salas tenebrosas e
+côncavas, duas enxergas, postas no chão, a um canto, com duas cobertas
+de chita; à cabeceira um castiçal de latão, pousado sôbre um alqueire: e
+aos pés, como lavatório, um alguidar vidrado em cima de uma cadeira de pau!
+
+Em silêncio, o meu super-civilizado amigo palpou a sua enxerga e sentiu
+nela a rigidez dum granito. Depois, correndo pela face descaída os dedos
+murchos, considerou que, perdidas as suas malas, não tinha nem
+chinelas nem roupão! E foi ainda o Zé Brás que providenciou,
+trazendo ao pobre Jacinto, para êle desafogar os pés, uns tremendos
+tamancos de pau, e para êle embrulhar o corpo, docemente educado em
+Sybaris, uma camisa da caseira, enorme, de estopa mais aspera que
+estamenha de penitente, e com folhos crespos e duros como lavores em
+madeira... Para o consolar, lembrei que Platão, quando compunha o
+_Banquete_, Xenofonte, quando comandava os Dez Mil, dormiam em piores
+catres. As enxergas austeras fazem as fortes almas--e é só vestido de
+estamenha que se penetra no Paraíso.
+
+--¿Tem você--murmurou o meu amigo, desatento e sêco--alguma cousa que eu
+leia?.... Eu não posso adormecer sem ler!
+
+Eu possuia apenas o número do _Jornal da Tarde_, que rasguei pelo meio,
+e partilhei com êle fraternalmente. E quem não viu então Jacinto, senhor
+de Torges, acaçapado à borda da enxerga, junto da vela que pingava sôbre
+o alqueire, com os pés nus encafuados nos grossos sócos, perdido dentro
+da camisa da patrôa, toda em folhos, percorrendo na metade do _Jornal da
+Tarde_, com os olhos turvos, os anúncios dos paquetes--não pode saber o
+que é uma vigorosa e real imagem do desalento!
+
+Assim o deixei--e daí a pouco, estendido na minha enxerga tambêm
+espartana, subia, através dum sonho jovial e erudito, ao planeta Vénus,
+onde encontrava, entre os olmos e os ciprestes, num vergel, Platão e Zé
+Brás, em alta camaradagem intelectual, bebendo o vinho da Rética pelos
+copos de Torges! Travámos todos três bruscamente uma controvérsia sôbre
+o século XIX. Ao longe, por entre uma floresta de roseiras mais altas
+que carvalhos, alvejavam os mármores duma cidade e ressoavam cantos
+sacros. Não recordo o que Xenofonte sustentou àcêrca da civilização e do
+fonógrafo. De repente tudo foi turbado por fuscas nuvens, através das
+quais eu distinguia Jacinto, fugindo num burro que êle impelia
+furiosamente com os calcanhares, com uma vergasta, com berros, para os
+lados do _Jasmineiro_!
+
+
+V
+
+Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar Jacinto, que, com as
+mãos sôbre o peito, dormia plácidamente no seu leito de granito--parti
+para Guiães. E durante três quietas semanas, naquela vila onde se
+conservam os hábitos e as ideas do tempo de El-Rei D. Dinís, não
+soube do meu desconsolado amigo, que de-certo fugira dos seus tetos
+esburacados e remergulhára na civilização. Depois, por uma abrasada
+manhã de agosto, descendo de Guiães, de novo trilhei a avenida de faias,
+e entrei o portão solarengo de Torges, entre o furioso latir dos
+rafeiros. A mulher do Zé Brás apareceu alvoroçada à porta da tulha. E a
+sua nova foi logo que o snr. D. Jacinto (em Torges, o meu amigo tinha
+dom) andava lá em baixo com o Sousa nos campos de Freixomil.
+
+--¿Então, ainda cá está o snr. D. Jacinto?!
+
+_Sua inselência_ ainda estava em Torges--e _sua inselência_ ficava para
+a vindima!... Justamente eu reparava que as janelas do solar tinham
+vidraças novas; e a um canto do pátio pousavam baldes de cal; uma escada
+de pedreiro ficára arrimada contra a varanda; e num caixote aberto,
+ainda cheio de palha de empacotar, dormiam dois gatos.
+
+--E o Grilo apareceu?
+
+--O snr. Grilo está no pomar, à sombra.
+
+--Bem! e as malas?
+
+--O snr. D. Jacinto já tem o seu saquinho de couro...
+
+Louvado Deus! O meu Jacinto estava, emfim, provido de civilização! Subi
+contente. Na sala nobre, onde o soalho fôra composto e esfregado,
+encontrei uma mesa recoberta de oleado, prateleiras de pinho com
+louça branca de Barcelos e cadeiras de palhinha, orlando as paredes
+muito caiadas que davam uma frescura de capela nova. Ao lado, noutra
+sala, tambêm de faiscante alvura, havia o confôrto inesperado de três
+cadeiras de vêrga da Madeira, com braços largos e almofadas de chita:
+sôbre a mesa de pinho, o papel almasso, o candieiro de azeite, as penas
+de pato espetadas num tinteiro de frade, pareciam preparadas para um
+estudo calmo e ditoso de humanidades: e na parede, suspensa de dois
+pregos, uma estantesinha continha quatro ou cinco livros, folheados e
+usados, o _D. Quixote_, um Virgílio, uma História de Roma, as Crónicas
+de Froissart. Adiante era certamente o quarto de D. Jacinto, um quarto
+claro e casto de estudante, com um catre de ferro, um lavatório de
+ferro, a roupa pendurada de cabides toscos. Tudo resplandecia de asseio
+e ordem. As janelas cerradas defendiam do sol de agosto, que escaldava
+fóra os peitoris de pedra. Do soalho, borrifado de água, subia uma
+fresquidão consoladora. Num vélho vaso azul um mólho de cravos alegrava
+e perfumava. Não havia um rumor. Torges dormia no esplendor da sésta. E
+envolvido naquele repouso de convento remoto, terminei por me estender
+numa cadeira de vêrga junto à mesa, abri lânguidamente o Virgílio,
+murmurando:
+
+ _Fortunate Jacinthe! tu inter arva nota_
+ _Et fontes sacros frigus captabis opacum._
+
+Já mesmo irreverentemente adormecera sôbre o divino bucolista, quando me
+despertou um brado amigo. Era o nosso Jacinto. E imediatamente o
+comparei a uma planta, meio murcha e estiolada no escuro, que fôra
+profusamente regada e revivera em pleno sol. Não corcovava. Sôbre a sua
+palidez de supercivilizado, o ar da serra ou a reconciliação com a vida
+tinham espalhado um tom trigueiro e forte que o virilizava soberbamente.
+Dos olhos, que na cidade eu lhe conhecera sempre crepusculares, saltava
+agora um brilho de meio dia, decidido e largo, que mergulhava
+francamente na beleza das cousas. Já não passava as mãos murchas sôbre a
+face--batia com elas rijamente na côxa... Que sei eu?! Era uma
+reincarnação. E tudo o que me contou, pisando alegremente com os sapatos
+brancos o soalho, foi que se sentira, ao fim de três dias em Torges,
+como desanuviado, mandára comprar um colchão macio, reùnira cinco
+livros, nunca lidos, e ali estava...
+
+--Para todo o verão?
+
+--Para todo o sempre! E agora, homem das cidades, vem almoçar umas
+trutas que eu pesquei, e compreende emfim o que é o céu.
+
+As trutas eram, com efeito, celestes. E apareceu tambêm uma salada fria
+de couve-flor e vagens, e um vinho branco de Azães... ¿Mas quem
+condignamente vos cantará, comeres e beberes daquelas serras?
+
+De tarde, finda a calma, passeamos pelos caminhos, coleando a vasta
+quinta, que vai de vales a montes. Jacinto parava a contemplar com
+carinho os milhos altos. Com a mão espalmada e forte batia no tronco dos
+castanheiros, como nas costas de amigos recuperados. Todo o fio de água,
+todo o tufo de erva, todo o pé de vinha o ocupava como vidas filiais
+porque fôsse responsável. Conhecia certos melros que cantavam em certos
+choupos. Exclamava enternecido:
+
+--Que encanto, a flor do trevo!
+
+À noite, depois de um cabrito assado no forno, a que mestre Horácio
+teria dedicado uma Ode (talvez mesmo um Carme Heróico) conversamos sôbre
+o Destino e a Vida. Eu citei, com discreta malícia, Schopenhauer e o
+_Eclesiastes_... Mas Jacinto ergueu os ombros, com seguro desdêm. A sua
+confiança nesses dois sombrios explicadores da vida desaparecera, e
+irremediavelmente, sem poder mais voltar, como uma névoa que o sol
+espalha. Tremenda tolice! afirmar que a vida se compõe, meramente, duma
+longa ilusão--é erguer um aparatoso sistema sôbre um ponto especial
+e estreito da vida, deixando fóra do sistema toda a vida restante, como
+uma contradição permanente e soberba. Era como se êle, Jacinto,
+apontando para uma ortiga, crescida naquele pátio, declarasse,
+triunfalmente:--«Aqui está uma ortiga! Toda a quinta de Torges,
+portanto, é uma massa de ortigas.»--Mas bastaria que o hóspede erguesse
+os olhos, para ver as searas, os pomares e os vinhedos!
+
+¿De resto, dêsses dois ilustres pessimistas, um o alemão, que conhecia
+êle da vida--dessa vida de que fizera, com doutoral majestade, uma
+teoria definitiva e dolente? Tudo o que pode conhecer quem, como êste
+genial farçante, viveu cincoenta anos numa soturna hospedaria da
+província, levantando apenas os óculos dos livros para conversar, à mesa
+redonda, com os alferes da guarnição! E o outro, o israelista, o homem
+dos _Cantares_, o muito pedantesco rei de Jerusalêm, só descobre que a
+vida é uma ilusão aos setenta e cinco anos, quando o poder lhe escapa
+das mãos trémulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se torna
+ridículamente supérfluo à sua carcassa frígida. Um dogmatiza
+fúnebremente sôbre o que não sabe--e o outro sôbre o que não pode. ¿Mas
+que se dê a êsse bom Schopenhauer uma vida tam completa e cheia como a
+de César, e onde estará o seu schopenhaurismo? ¿que se restitua a êsse
+sultão, besuntado de literatura, que tanto edificou e professorou
+em Jerusalêm, a sua virilidade--e onde estará o _Eclesiastes_? ¿De
+resto, que importa bemdizer ou maldizer da vida? Afortunada ou dolorosa,
+fecunda ou vã, ela tem de ser vida. Loucos aqueles que, para a
+atravessar, se embrulham desde logo em pesados véus de tristeza e
+desilusão, de sorte que na sua estrada tudo lhe seja negrume, não só as
+léguas realmente escuras, mas mesmo aquelas em que scintila um sol
+amável. Na terra tudo vive--e só o homem sente a dor e a desilusão da
+vida. E tanto mais as sente, quanto mais alarga e acumula a obra dessa
+inteligência que o torna homem, e que o separa da restante natureza,
+impensante e inerte. É no máximo de civilização que êle experimenta o
+máximo de tédio. A sapiência, portanto, está em recuar até êsse honesto
+mínimo de civilização, que consiste em ter um teto de colmo, uma leira
+de terra e o grão para nela semear. Em resumo, para reaver a felicidade,
+é necessário regressar ao Paraíso--e ficar lá, quieto, na sua fôlha de
+vinha, inteiramente desguarnecido de civilização, contemplando o anho
+aos saltos entre o tomilho, e sem procurar, nem com o desejo, a árvore
+funesta da Sciência! _Dixi!_
+
+Eu escutava, assombrado, êste Jacinto novíssimo. Era verdadeiramente uma
+ressurreição no magnífico estilo de Lázaro. Ao _surge et ambula_
+que lhe tinham sussurrado as águas e os bosques de Torges, êle erguia-se
+do fundo da cova do Pessimismo, desembaraçava-se das suas casacas de
+Poole, _et ambulabat_, e começava a ser ditoso. Quando recolhi ao meu
+quarto, àquelas horas honestas que convêm ao campo e ao Otimismo, tomei
+entre as minhas a mão já firme do meu amigo, e pensando que êle emfim
+alcançára a verdadeira rialeza, porque possuia a verdadeira liberdade,
+gritei-lhe os meus parabens à maneira do moralista de Tibur:
+
+ _Vive et regna, fortunate Jacinthe!_
+
+Daí a pouco, através da porta aberta que nos separava, senti uma risada
+fresca, môça, genuína e consolada. Era Jacinto que lia o _D. Quixote_.
+Oh bemaventurado Jacinto! Conservava o agudo poder de criticar, e
+recuperára o dom divino de rir!
+
+
+Quatro anos vão passados. Jacinto ainda habita Torges. As paredes do seu
+solar continuam bem caiadas, mas nuas.
+
+De inverno enverga um gabão de briche e acende um braseiro. Para chamar
+o Grilo ou a môça, bate as mãos, como fazia Catão. Com os seus
+deliciosos vagares, já leu a _Ilíada_.
+
+Não faz a barba. Nos caminhos silvestres, pára e fala com as crianças.
+Todos os casais da serra o bemdizem. Ouço que vai casar com uma forte,
+sã, e bela rapariga de Guiães. De-certo crescerá ali uma tríbu, que será
+grata ao Senhor!
+
+Como êle, recentemente, me mandou pedir livros da sua livraria (uma
+_Vida de Buda_, uma _História da Grécia_ e as obras de S. Francisco de
+Sales) fui, depois dêstes quatro anos, ao _Jasmineiro_ deserto. Cada
+passo meu sôbre os fofos tapetes de Koranânia soou triste como num chão
+de mortos. Todos os brocados estavam engelhados, esgaçados. Pelas
+paredes pendiam, como olhos fóra de órbitas, os botões eléctricos das
+campainhas e das luzes:--e havia vagos fios de arame, soltos,
+enroscados, onde a aranha regalada e reinando tecera teias espessas. Na
+livraria, todo o vasto saber dos séculos jazia numa imensa mudez,
+debaixo duma imensa poeira. Sôbre as lombadas dos sistemas filosóficos
+alvejava o bolôr: vorazmente a traça devastára as Histórias Universais:
+errava ali um cheiro mole de literatura apodrecida:--e eu abalei, com o
+lenço no nariz, certo de que naqueles vinte mil volumes não restava uma
+verdade viva! Quis lavar as mãos maculadas pelo contacto com estes
+detritos de conhecimentos humanos. Mas os maravilhosos aparelhos do
+lavatório, da sala de banho, enferrujados, perros, dessoldados, não
+largaram uma gota de água; e, como chovia nessa tarde de abril, tive de
+saír à varanda, pedir ao céu que me lavasse.
+
+Ao descer, penetrei no gabinete de trabalho de Jacinto e tropecei num
+montão negro de ferragens, rodas, lâminas, campainhas, parafusos...
+Entreabri a janela, e reconheci o telefone, o teatrofone, o fonógrafo,
+outros aparelhos, tombados das suas peanhas, sórdidos, desfeitos, sob a
+poeira dos anos. Empurrei com o pé êste lixo do engenho humano. A
+máquina de escrever, escancarada, com os buracos negros marcando as
+letras desarraigadas, era como uma bôca alvar e desdentada. O telefone
+parecia esborrachado, enrodilhado nas suas tripas de arame. Na trompa do
+fonógrafo, torta, esbeiçada, para sempre muda, fervilhavam carochas. E
+ali jaziam, tam lamentáveis e grotescas, aquelas geniais invenções, que
+eu saí rindo, como duma enorme facécia, daquele super-civilizado palácio.
+
+A chuva de abril secára: os telhados remotos da cidade negrejavam sôbre
+um poente de carmesim e oiro. E, através das ruas mais frescas, eu ia
+pensando que êste nosso magnifíco século XIX se assemelharia, um dia,
+àquele _Jasmineiro_ abandonado, e que outros homens, com uma certeza
+mais pura do que é a Vida e a Felicidade, dariam, como eu, com o pé no
+lixo da super-civilização, e, como eu, ririam alegremente da grande
+ilusão que findára, inútil e coberta de ferrugem.
+
+Àquela hora, de-certo, Jacinto, na varanda, em Torges, sem fonógrafo e
+sem telefone, reentrado na simplicidade, via, sob a paz lenta da tarde,
+ao tremeluzir da primeira estrêla, a boiada recolher entre o canto dos
+boieiros.
+
+
+
+
+O TESOIRO
+
+
+I
+
+Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guannes e Rostabal, eram então, em
+todo o Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados.
+
+Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levára vidraça e telha,
+passavam êles as tardes dêsse inverno, engelhados nos seus pelotes de
+camelão, batendo as solas rotas sôbre as lages da cozinha, diante da
+vasta lareira negra, onde desde muito não estalava lume, nem fervia a
+panela de ferro. Ao escurecer devoravam uma côdea de pão negro,
+esfregada com alho. Depois, sem candeia, através do pátio, fendendo a
+neve, iam dormir à estrebaria, para aproveitar o calor das três éguas
+lazarentas que, esfaimadas como êles, roíam as traves da
+mangedoura. E a miséria tornára êstes senhores mais bravios que lôbos.
+
+Ora, na primavera, por uma silenciosa manhã de domingo, andando todos
+três na mata de Roquelanes a espiar pègadas de caça e a apanhar
+tortulhos entre os robles, emquanto as três éguas pastavam a relva nova
+de abril,--os irmãos de Medranhos encontraram, por trás de uma moita de
+espinheiros, numa cova de rocha, um vélho cofre de ferro. Como se o
+resguardasse uma tôrre segura, conservava as suas três chaves nas suas
+três fechaduras. Sôbre a tampa, mal decifrável através da ferrugem,
+corria um dístico em letras árabes. E dentro, até às bordas, estava
+cheio de dobrões de oiro!
+
+No terror e esplendor da emoção, os três senhores ficaram mais lívidos
+do que círios. Depois, mergulhando furiosamente as mãos no oiro,
+estalaram a rir, num riso de tam larga rajada, que as fôlhas tenras dos
+olmos, em roda, tremiam... E de novo recuaram, bruscamente se encararam,
+com os olhos a flamejar, numa desconfiança tam desabrida que Guannes e
+Rostabal apalpavam nos cintos os cabos das grandes facas. Então Rui, que
+era gordo e ruivo, e o mais avisado, ergueu os braços, como um árbitro,
+e começou por decidir que o tesoiro, ou viesse de Deus ou do demónio,
+pertencia aos três, e entre êles se repartiria, rígidamente,
+pesando-se o oiro em balanças. ¿Mas como poderiam carregar para
+Medranhos, para os cimos da serra, aquele cofre tam cheio? Nem convinha
+que saíssem da mata com o seu bem, antes de cerrar a escuridão. Por isso
+êle entendia que o mano Guannes, como mais leve, devia trotar para a
+vila vizinha de Retortilho, levando já oiro na bolsinha, a comprar três
+alforges de coiro, três maquias de cevada, três empadões de carne, e
+três botelhas de vinho. Vinho e carne eram para êles, que não comiam
+desde a véspera: a cevada era para as éguas. E assim refeitos, senhores
+e cavalgaduras, ensacariam o oiro nos alforges, e subiriam para
+Medranhos, sob a segurança da noite sem lua.
+
+--Bem tramado!--gritou Rostabal, homem mais alto que um pinheiro, de
+longa guedelha, e com uma barba que lhe caía desde os olhos raiados de
+sangue até à fivela do cinturão.
+
+Mas Guannes não se arredava do cofre, enrugado, desconfiado, puxando
+entre os dedos a pele negra do seu pescoço de grou. Por fim, brutalmente:
+
+--Manos! O cofre tem três chaves... Eu quero fechar a minha fechadura e
+levar a minha chave!
+
+--Tambêm eu quero a minha, mil raios!--rugiu logo Rostabal.
+
+Rui sorriu. De-certo, de-certo! A cada dono do oiro cabia uma das chaves
+que o guardavam. E cada um em silêncio, agachado ante o cofre, cerrou a
+sua fechadura com fôrça. Imediatamente Guannes, desanuviado, saltou na
+égua, meteu pela vereda de olmos, a caminho de Retortilho, atirando aos
+ramos a sua cantiga costumada e dolente:
+
+ Olé! olé!
+ Sale la crus de la iglesia,
+ Vestida de negro luto...
+
+
+II
+
+Na clareira, em frente à moita que encobria o tesoiro (e que os três
+tinham desbastado a cutiladas) um fio de água, brotando entre rochas,
+caía sôbre uma vasta lage escavada, onde fazia como um tanque, claro e
+quieto, antes de se escoar para as relvas altas. E ao lado, na sombra de
+uma faia, jazia um vélho pilar de granito, tombado e musgoso. Ali vieram
+sentar-se Rui e Rostabal, com os seus tremendos espadões entre os
+joelhos. As duas éguas tosavam a boa erva pintalgada de papoulas e
+botões de oiro. Pela ramaria andava um melro a assobiar. Um cheiro
+errante de violetas adoçava o ar luminoso. E Rostabal, olhando o sol,
+bocejava com fome.
+
+Então Rui, que tirára o _sombrero_ e lhe cofiava as vélhas plumas rôxas,
+começou a considerar, na sua fala avisada e mansa, que Guannes, nessa
+manhã, não quisera descer com êles à mata de Roquelanes. E assim era a
+sorte ruim! Pois que se Guannes tivesse quedado em Medranhos, só êles
+dois teriam descoberto o cofre, e só entre êles dois se dividiria o
+oiro! Grande pena! Tanto mais que a parte de Guannes seria em breve
+dissipada, com rufiões, aos dados, pelas tavernas.
+
+--Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guannes, passando aqui sòzinho, tivesse
+achado êste oiro, não dividia comnosco, Rostabal!
+
+O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas negras:
+
+--Não, mil raios! Guannes é sôfrego... Quando o ano passado, se te
+lembras, ganhou os cem ducados ao espadeiro de Fresno, nem me quis
+emprestar três para eu comprar um gibão novo!
+
+--Vês tu?--gritou Rui, resplandecendo.
+
+Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma
+idea, que os deslumbrava. E, através das suas largas passadas, as ervas
+altas silvavam.
+
+--E para quê?--prosseguia Rui,--¿Para que lhe serve todo o oiro que
+nos leva? ¿Tu não o ouves, de noite, como tosse? Ao redor da palha em
+que dorme, todo o chão está negro do sangue que escarra! Não dura até às
+outras neves, Rostabal! Mas até lá terá dissipado os bons dobrões que
+deviam ser nossos, para levantarmos a nossa casa, e para tu teres
+ginetes, e armas, e trajes nobres, e o teu terço de solarengos, como
+compete, a quem é, como tu, o mais vélho dos de Medranhos...
+
+--Pois que morra, e morra hoje!--bradou Rostabal.
+
+--Queres?
+
+Vivamente, Rui agarrára o braço do irmão e apontava para a vereda de
+olmos, por onde Guannes partira cantando:
+
+--Logo adiante, ao fim do trilho, há um sítio bom, nos silvados. E
+hás-de ser tu, Rostabal, que és o mais forte e o mais destro. Um golpe
+de ponta pelas costas. E é justiça de Deus que sejas tu, que muitas
+vezes, nas tavernas, sem pudor, Guannes te tratava de _cerdo_ e de
+torpe, por não saberes a letra nem os numeros.
+
+--Malvado!
+
+--Vem!
+
+Foram. Ambos se emboscaram por trás dum silvado, que dominava o atalho,
+estreito e pedregoso como um leito de torrente. Rostabal assolapado na
+vala, tinha já a espada nua. Um vento leve arripiou na encosta as
+fôlhas dos álamos--e sentiram o repique leve dos sinos de Retortilho.
+Rui, coçando a barba, calculava as horas pelo sol, que já se inclinava
+para as serras. Um bando de córvos passou sôbre êles, grasnando. E
+Rostabal, que lhes seguira o vôo, recomeçou a bocejar, com fome,
+pensando nos empadões e no vinho que o outro trazia nos alforges.
+
+Emfim! Àlerta! Era, na vereda, a cantiga dolente e rouca, atirada aos
+ramos:
+
+ Olé! olé!
+ Sale la crus de la iglesia
+ Toda vestida de negro...
+
+Rui murmurou:--«Na ilharga! Mal que passe!» O chouto da égua bateu o
+cascalho, uma pluma num _sombrero_ vermelhejou por sôbre a ponta das
+silvas.
+
+Rostabal rompeu de entre a sarça por uma brecha, atirou o braço, a longa
+espada;--e toda a lâmina se embebeu molemente na ilharga de Guannes,
+quando ao rumor, bruscamente, êle se virára na sela. Com um surdo
+arranco, tombou de lado, sôbre as pedras. Já Rui se arremessava aos
+freios da égua:--Rostabal, caíndo sôbre Guannes, que arquejava, de novo
+lhe mergulhou a espada, agarrada pela fôlha como um punhal, no peito e
+na garganta.
+
+--A chave!--gritou Rui.
+
+E arrancada a chave do cofre ao seio do morto, ambos largaram pela
+vereda--Rostabal adiante, fugindo, com a pluma do _sombrero_ quebrada e
+torta, a espada ainda nua entalada sob o braço, todo encolhido,
+arripiado com o sabor de sangue que lhe espirrára para a bôca; Rui,
+atrás, puxando desesperadamente os freios da égua, que, de patas
+fincadas no chão pedregoso, arreganhando a longa dentuça amarela, não
+queria deixar o seu amo assim estirado, abandonado, ao comprido das sebes.
+
+Teve de lhe espicaçar as ancas lazarentas com a ponta da espada:--e foi
+correndo sôbre ela, de lâmina alta, como se perseguisse um mouro, que
+desembocou na clareira onde o sol já não doirava as fôlhas. Rostabal
+arremessára para a relva o _sombrero_ e a espada; e debruçado sôbre a
+lage escavada em tanque, de mangas arregaçadas, lavava, ruidosamente, a
+face e as barbas.
+
+A égua, quieta, recomeçou a pastar, carregada com os alforges novos que
+Guannes comprára em Retortilho. Do mais largo, abarrotado, surdiam dois
+gargalos de garrafas. Então, Rui tirou, lentamente, do cinto, a sua
+larga navalha. Sem um rumor na relva espessa, deslizou até Rostabal, que
+resfolgava, com as longas barbas pingando. E, serenamente, como se
+pregasse uma estaca num canteiro, enterrou a fôlha toda no largo
+dorso dobrado, certeira sôbre o coração.
+
+Rostabal caíu sôbre o tanque, sem um gemido, com a face na água, os
+longos cabelos flutuando na água. A sua vélha escarcela de coiro ficára
+entalada sob a côxa. Para tirar de dentro a terceira chave do cofre, Rui
+solevou o corpo--e um sangue mais grosso jorrou, escorreu pela borda do
+tanque, fumegando.
+
+
+III
+
+Agora eram dêle, só dêle, as três chaves do cofre!... E Rui, alargando
+os braços, respirou deliciosamente. Mal a noite descesse, com o oiro
+metido nos alforges, guiando a fila das éguas pelos trilhos da serra,
+subiria a Medranhos e enterraria na adega o seu tesoiro! E quando ali na
+fonte, e alêm rente aos silvados, só restassem, sob as neves de
+dezembro, alguns ossos sem nome, êle seria o magnífico senhor de
+Medranhos, e na capela nova do solar renascido, mandaria dizer missas
+ricas pelos seus dois irmãos mortos... Mortos, como? Como devem morrer
+os de Medranhos--a pelejar contra o Turco!
+
+Abriu as três fechaduras, apanhou um punhado de dobrões, que fez
+retinir sôbre as pedras. Que puro oiro, de fino quilate! E era o _seu_
+oiro! Depois foi examinar a capacidade dos alforges--e encontrando as
+duas garrafas de vinho, e um gordo capão assado, sentiu uma imensa fome.
+Desde a véspera só comera uma lasca de peixe sêco. E há quanto tempo não
+provava capão!
+
+Com que delícia se sentou na relva, com as pernas abertas, e entre elas,
+a ave loura, que rescendia, e o vinho côr de ámbar! Ah! Guannes fôra bom
+mordomo--nem esquecera azeitonas. ¿Mas, porque trouxera êle, para três
+convivas, só duas garrafas? Rasgou uma asa do capão: devorava a grandes
+dentadas. A tarde descia, pensativa e doce, com nuvemsinhas côr de rosa.
+Para alêm, na vereda, um bando de corvos grasnava. As éguas fartas
+dormitavam, com o focinho pendido. E a fonte cantava, lavando o morto.
+
+Rui ergueu à luz a garrafa de vinho. Com aquela côr vélha e quente, não
+teria custado menos de três maravedis. E pondo o gargalo à bôca, bebeu
+em sorvos lentos, que lhe faziam ondular o pescoço peludo. Oh vinho
+bemdito, que tam prontamente aquecia o sangue! Atirou a garrafa
+vazia--destapou outra. Mas, como era avisado, não bebeu, porque a
+jornada para a serra, com o tesoiro, requeria firmeza e acêrto.
+Estendido sôbre o cotovelo, descansando, pensava em Medranhos
+coberto de telha nova, nas altas chamas da lareira por noites de neve, e
+o seu leito com brocados, onde teria sempre mulheres.
+
+De repente, tomado de uma ansiedade, teve pressa de carregar os
+alforges. Já, entre os troncos, a sombra se adensava. Puxou uma das
+éguas para junto do cofre, ergueu a tampa, tomou um punhado de oiro...
+Mas oscilou, largando os dobrões que retilintaram no chão, e levou as
+duas mãos aflitas ao peito. ¿Que é, D. Rui? Raios de Deus! era um lume,
+um lume vivo, que se lhe acendera dentro, lhe subia até às guelas. Já
+rasgára o gibão, atirava os passos incertos, e, a arquejar, com a língua
+pendente, limpava as grossas bagas de um suor horrendo que o regelava
+como neve. Oh Virgem Mãe! Outra vez o lume, mais forte, que alastrava, o
+roía! Gritou:
+
+--Socorro! Alguêm! Guannes! Rostabal!
+
+Os seus braços torcidos batiam o ar desesperadamente. E a chama dentro
+galgava--sentia os ossos a estalarem como as traves duma casa em fogo.
+
+Cambaleou até à fonte para apagar aquela labareda, tropeçou sôbre
+Rostabal; e foi com o joelho fincado no morto, arranhando a rocha, que
+êle, entre uivos, procurava o fio de água, que recebia sôbre os olhos,
+pelos cabelos. Mas a água mais o queimava, como se fôsse um metal
+derretido. Recuou, caíu para cima da relva que arrancava aos punhados, e
+que mordia, mordendo os dedos, para lhe sugar a frescura. Ainda se
+ergueu, com uma baba densa a escorrer-lhe nas barbas: e de repente,
+esbogalhando pavorosamente os olhos, berrou, como se compreendesse emfim
+a traição, todo o horror:
+
+--É veneno!
+
+Oh! D. Rui, o avisado, era veneno! Porque Guannes, apenas chegára a
+Retortilho, mesmo antes de comprar os alforges, correra cantando a uma
+viela, por detrás da catedral, a comprar ao vélho droguista judeu o
+veneno que, misturado ao vinho, o tornaria a êle, a êle sómente, dono de
+todo o tesoiro.
+
+Anoiteceu. Dois corvos de entre o bando que grasnava, alêm nos silvados,
+já tinham pousado sôbre o corpo de Guannes. A fonte, cantando, lavava o
+outro morto. Meio enterrada na erva negra, toda a face de Rui se tornára
+negra. Uma estrelinha tremeluzia no céu.
+
+O tesoiro ainda lá está, na mata de Roquelanes.
+
+
+
+
+FREI GENEBRO
+
+
+I
+
+Nesse tempo ainda vivia na sua solidão das montanhas da Úmbria, o divino
+Francisco de Assis--e já por toda a Itália se louvava a santidade de
+Frei Genebro, seu amigo e seu discípulo.
+
+Frei Genebro, na verdade, completára a perfeição em todas as virtudes
+evangélicas. Pela abundância e perpètuidade da Oração, êle arrancava da
+sua alma as raízes mais miudas do Pecado, e tornava-a limpa e cândida
+como um dêsses celestes jardins em que o sólo anda regado pelo Senhor, e
+onde só podem brotar açucenas. A sua penitência, durante vinte anos de
+clâustro, fôra tam dura e alta que já não temia o Tentador; e agora, só
+com o sacudir a manga do hábito, rechaçava as tentações, as mais
+pavorosas ou as mais deliciosas, como se fôssem apenas moscas
+importunas. Benéfica e universal à maneira de um orvalho de verão, a sua
+caridade não se derramava sómente sôbre as misérias do pobre, mas sôbre
+as melancolias do rico. Na sua humilíssima humildade não se considerava
+nem o igual dum verme. Os bravios barões, cujas negras tôrres esmagavam
+a Itália, acolhiam reverentemente e curvavam a cabeça a êste franciscano
+descalço e mal remendado que lhes ensinava a mansidão. Em Roma, em S.
+João de Latrão, o Papa Honório beijára as feridas de cadeias que lhe
+tinham ficado nos pulsos, do ano em que na Mourama, por amor dos
+escravos, padecera a escravidão. E como nessas idades os anjos ainda
+viajavam na terra, com as asas escondidas, arrimados a um bordão, muitas
+vezes, trilhando uma vélha estrada pagã ou atravessando uma selva, êle
+encontrava um moço de inefável formosura, que lhe sorria e murmurava:
+
+--Bons dias, irmão Genebro!
+
+Ora, um dia, indo êste admirável mendicante de Spoleto para Terni, e
+avistando no azul e no sol da manhã, sôbre uma colina coberta de
+carvalhos, as ruínas do castelo de Otofrid, pensou no seu amigo Egídio,
+antigo noviço como êle no mosteiro de Santa Maria dos Anjos, que se
+retirára àquele ermo para se avizinhar mais de Deus, e ali habitava
+uma cabana de colmo, junto das muralhas derrocadas, cantando e
+regando as alfaces do seu horto, porque a sua virtude era amena. E como
+mais de três anos tinham passado desde que visitára o bom Egídio, largou
+a estrada, passou em baixo, no vale, sôbre as alpondras, o riacho que
+fugia por entre os aloendros em flor, e começou a subir, lentamente, a
+colina frondosa. Depois da poeira e ardor do caminho de Spoleto, era
+doce a larga sombra dos castanheiros e a relva que lhe refrescava os pés
+doridos. A meia encosta, numa rocha onde se esguedelhavam silvados,
+sussurrava e luzia um fio de água. Estendido ao lado, nas ervas húmidas,
+dormia, ressonando consoladamente, um homem, que de-certo ali guardava
+porcos, porque vestia um grosso surrão de coiro e trazia, pendurada da
+cinta, uma buzina de porqueiro. O bom frade bebeu de leve, afugentou os
+moscardos que zumbiam sôbre a rude face adormecida e continuou a trepar
+a colina, com o seu alforge, o seu cajado, agradecendo ao Senhor aquela
+água, aquela sombra, aquela frescura, tantos bens inesperados. Em breve
+avistou, com efeito, o rebanho de porcos, espalhados sob as frondes,
+roncando e fossando as raízes, uns magros e agudos, de cerdas duras,
+outros redondos, com o focinho curto afogado em gordura, e os bacorinhos
+correndo em tôrno às têtas das mães, luzidios e côr de rosa.
+
+Frei Genebro pensou nos lôbos e lamentou o sono do pastor descuidado. No
+fim da mata começava a rocha, onde os restos do castelo lombardo se
+erguiam, revestidos de hera, conservando ainda alguma seteira esburacada
+sôbre o céu, ou, numa esquina de tôrre, uma goteira que, esticando o
+pescoço de dragão, espreitava por meio das silvas bravas.
+
+A cabana do ermitão, telhada de colmo que lascas de pedra seguravam,
+apenas se percebia, entre aqueles escuros granitos, pela horta que em
+frente verdejava, com os seus talhões de couve e estacas de feijoal,
+entre alfazema cheirosa. Egídio não andaria afastado porque sôbre o
+murosinho de pedra solta ficára pousado o seu cântaro, o seu podão e a
+sua enxada. E docemente, para o não importunar, se àquela hora da sésta
+estivesse recolhido e orando, Frei Genebro empurrou a porta de pranchas
+vélhas, que não tinha loquete para ser mais hospitaleira.
+
+--Irmão Egídio!
+
+Do fundo da choça rude, que mais parecia cova de bicho, veio um lento
+gemido:
+
+--Quem me chama? Aqui neste canto, neste canto a morrer!... A morrer,
+meu irmão!
+
+Frei Genebro acudiu em grande dó; encontrou o bom ermitão estirado num
+monte de fôlhas sêcas, encolhido em farrapos, e tam definhado que a sua
+face, outrora farta e rosada, era como um pedacinho de vélho
+pergaminho muito enrugado, perdido entre os flocos das barbas brancas.
+Com infinita caridade e doçura o abraçou.
+
+--¿E há quanto tempo, há quanto tempo neste abandôno, irmão Egídio?
+
+Louvado Deus, desde a véspera! Só na véspera, à tarde, depois de olhar
+uma derradeira vez para o sol e para a sua horta, se viera estender
+naquele canto para acabar... Mas havia meses que com êle entrára um
+cansaço, que nem podia segurar a bilha cheia quando voltava da fonte.
+
+--¿E dizei, irmão Egídio, pois que o Senhor me trouxe, que posso eu
+fazer pelo vosso corpo? Pelo corpo, digo; que pela alma bastante tendes
+vós feito na virtude desta solidão!
+
+Gemendo, arrepanhando para o peito as fôlhas sêcas em que jazia, como se
+fôssem dobras dum lençol, o pobre ermitão murmurou:
+
+--Meu bom Frei Genebro, não sei se é pecado, mas toda esta noite, em
+verdade vos confesso, me apeteceu comer um pedaço de carne, um pedaço de
+porco assado!... Mas será pecado?
+
+Frei Genebro, com a sua imensa misericórdia, logo o tranqùilizou.
+Pecado? Não, certamente! Aquele que, por tortura, recusa ao seu corpo um
+contentamento honesto, desagrada ao Senhor. ¿Não ordenava êle aos
+seus discípulos que comessem as boas cousas da terra? O corpo é
+servo; e está na vontade divina que as suas fôrças sejam sustentadas,
+para que preste ao espírito, seu amo, bom e leal serviço. Quando Frei
+Silvestre, já tam doentinho, sentira aquele longo desejo de uvas
+moscateis, o bom Francisco de Assis logo o conduziu à vinha, e por suas
+mãos lhe apanhou os melhores cachos, depois de os abençoar para serem
+mais sumarentos e mais doces...
+
+--¿É um pedaço de porco assado que apeteceis?--exclamava risonhamente o
+bom Frei Genebro, acariciando as mãos transparentes do ermitão.--Pois
+sossegai, irmão querido, que bem sei como vos vou contentar!
+
+E imediatamente, com os olhos a reluzir de caridade e de amor, agarrou o
+afiado podão que pousava sôbre o muro da horta. Arregaçando as mangas do
+hábito, e mais ligeiro que um gamo, porque era aquele um serviço do
+Senhor, correu pela colina até aos densos castanheiros onde encontrára o
+rebanho de porcos. E aí, andando sorrateiramente de tronco para tronco,
+surpreendeu um bacorinho desgarrado que fossava a bolota, desabou sobre
+êle, e, emquanto lhe sufocava o focinho e os gritos, decepou, com dois
+golpes certeiro do podão, a perna por onde o agarrára. Depois, com as
+mãos salpicadas de sangue, a perna de porco bem alta a pingar sangue,
+deixando a rês a arquejar numa pôça de sangue, o piedoso homem
+galgou a colina, correu à cabana, gritou para dentro alegremente:
+
+--Irmão Egídio, a peça de carne já o Senhor a deu! E eu, em Santa Maria
+dos Anjos, era bom cozinheiro.
+
+Na horta do ermitão arrancou uma estaca do feijoal, que, com o podão
+sangrento, aguçou em espêto. Entre duas pedras acendeu uma fogueira. Com
+zeloso carinho assou a perna do porco. Tanta era a sua caridade que para
+dar a Egídio todos os antegostos daquele banquete, raro em terra de
+mortificação, anunciava com vozes festivas e de boa promessa:
+
+--Já vai aloirando o porquinho, irmão Egídio! A pele já tosta, meu santo!
+
+Entrou emfim na choça, triunfalmente, com o assado que fumegava e
+rescendia, cercado de frescas fôlhas de alface. Ternamente, ajudou a
+sentar o vélho, que tremia e se babava de gula. Arredou das pobres faces
+maceradas os cabelos que o suor da fraqueza empastára. E, para que o bom
+Egídio se não vexasse com a sua voracidade e tam carnal apetite, ia
+afirmando, emquanto lhe partia as febras gordas, que tambêm êle comeria
+regaladamente daquele excelente porco, se não tivesse almoçado à farta
+na _Locanda dos Três Caminhos_.
+
+--Mas nem bocado agora me podia entrar, meu irmão! Com uma galinha
+inteira me atochei! E depois uma fritada de ovos! E de vinho branco, um
+quartilho!
+
+E o santo homem mentia santamente--porque, desde madrugada, não provára
+mais que um magro caldo de ervas, recebido por esmola à cancela de uma
+granja.
+
+Farto, consolado, Egídio deu um suspiro, recaíu no seu leito de fôlhas
+sêcas. Que bem lhe fizera, que bem lhe fizera! O Senhor, na sua justiça,
+pagasse a seu irmão Genebro aquele pedaço de porco! Até sentia a alma
+mais rija para a temerosa jornada... E o ermitão com as mãos postas,
+Genebro ajoelhado, ambos louvaram, ardentemente, o Senhor que, a toda a
+necessidade solitária, manda de longe o socorro.
+
+Então, tendo coberto Egídio com um pedaço de manta e posto, a seu lado,
+a bilha cheia de água fresca, e tapado, contra as aragens da tarde, a
+fresta da cabana, Frei Genebro, debruçado sôbre êle, murmurou:
+
+--Meu bom irmão, vós não podeis ficar neste abandono... Eu vou levado
+por obra de Jesus, que não admite tardança. Mas passarei no convento de
+Sambricena e darei recado para que um noviço venha e cuide de vós com
+amor, no vosso transe. Deus vos vele entretanto, meu irmão; Deus
+vos sossegue e vos ampare com a sua mão direita!
+
+Mas Egídio cerrára os olhos, nem se moveu, ou porque adormecera, ou
+porque o seu espírito, tendo pago aquele derradeiro salário ao corpo,
+como a um bom servidor, para sempre partira, finda a sua obra na terra.
+Frei Genebro abençoou o vélho, tomou o seu bordão, desceu a colina dos
+grandes carvalhos. Sob a fronde, para os lados onde andava o rebanho, a
+buzina do porqueiro ressoava agora num toque de alarma e de furor.
+De-certo acordára, descobrira o seu porco mutilado... Estugando o passo,
+Frei Genebro pensava quanto era magnânimo o Senhor em permitir que o
+homem, feito à sua imagem augusta, recebesse tam fácil consolação duma
+perna de cerdo assada entre duas pedras.
+
+Retomou a estrada, marchou para Terni. E prodigiosa foi, desde êsse dia,
+a actividade da sua virtude. Através de toda a Itália, sem descanso,
+prègou o Evangelho Eterno, adoçando a aspereza dos ricos, alargando a
+esperança dos pobres. O seu imenso amor ia ainda para alêm dos que
+sofrem, até àqueles que pecam, oferecendo um alívio a cada dôr,
+estendendo um perdão a cada culpa: e com a mesma caridade com que
+tratava os leprosos, convertia os bandidos. Durante as invernias e a
+neve, vezes inumeráveis dava, aos mendigos, a sua túnica, as suas
+alpercatas; os abades dos mosteiros ricos, as damas devotas de novo o
+vestiam, para evitar o escândalo da sua nudez através das cidades; e sem
+demora, na primeira esquina, ante qualquer esfarrapado, êle se despojava
+sorrindo. Para remir servos que penavam sob um amo fero, penetrava nas
+igrejas, arrancava do altar os candelabros de prata, afirmando,
+jovialmente, que mais praz a Deus uma alma liberta que uma tocha acesa.
+
+Cercado de viuvas, de crianças famintas, invadia as padarias, os
+açougues, até as tendas dos cambistas, e reclamava imperiosamente, em
+nome de Deus, a parte dos deserdados. Sofrer, sentir a humilhação, eram,
+para êle, as únicas alegrias completas: nada o deliciava mais do que
+chegar de noite, molhado, esfaimado, tiritando, a uma opulenta abadia
+feudal, e ser repelido da portaria como um mau vagabundo: só então,
+agachado nos lôdos do caminho, mastigando um punhado de ervas cruas, êle
+se reconhecia verdadeiramente irmão de Jesus, que não tivera tambêm,
+como teem sequer os bichos do mato, um covil para se abrigar. Quando um
+dia, em Perusa, as confrarias saíram ao seu encontro, com bandeiras
+festivas, ao repique dos sinos, êle correu para um monte de estêrco,
+onde se rolou e se sujou, para que daqueles que o vinham
+engrandecer, só recebesse compaixão e escárnio. Nos clâustros, nos
+descampados, em meio das multidões, durante as lides mais pesadas, orava
+constantemente, não por obrigação, mas porque na prece encontrava um
+deleite adorável. Deleite maior, porêm, era, para o franciscano, ensinar
+e servir. Assim, longos anos errou entre os homens, vertendo o seu
+coração como a água de um rio, oferecendo os seus braços como alavancas
+incansáveis; e tam depressa, numa ladeira deserta, aliviava uma pobre
+vélha da sua carga de lenha, como numa cidade revoltada, onde reluzissem
+armas, se adiantava, com o peito aberto, e amansava as discórdias.
+
+Emfim, uma tarde, em véspera de Páscoa, estando a descansar nos degraus
+de Santa Maria dos Anjos, avistou de repente, no ar liso e branco, uma
+vasta mão luminosa que sôbre êle se abria e faiscava. Pensativo, murmurou:
+
+--Eis a mão de Deus, a sua mão direita, que se estende para me acolher
+ou para me repelir.
+
+Deu logo a um pobre, que ali rezava a Avé-Maria, com a sua sacola nos
+joelhos, tudo o que no mundo lhe restava, que era um volume do
+Evangelho, muito usado e manchado das suas lágrimas. No domingo, na
+igreja, ao levantar da Hóstia, desmaiou. Sentindo então que ia
+terminar a sua jornada terrestre, quis que o levassem para um curral, o
+deitassem sôbre uma camada de cinzas.
+
+Em santa obediência ao guardião do convento, consentiu que o limpassem
+dos seus trapos, lhe vestissem um hábito novo: mas, com os olhos
+alagados de ternura, implorou que o enterrassem num sepulcro emprestado
+como fôra o de Jesus, seu senhor.
+
+E, suspirando, só se queixava de não sofrer:
+
+--¿O senhor, que tanto sofreu, porque me não manda a mim o padecimento
+bemdito?
+
+De madrugada pediu que abrissem, bem largo, o portão do curral.
+
+Contemplou o céu que clareava, escutou as andorinhas que, na frescura e
+silêncio, começavam a cantar sôbre o beiral do telhado, e, sorrindo,
+recordou uma manhã, assim de silêncio e frescura, em que, andando com
+Francisco de Assis à beira do lago de Perusa, o mestre incomparável se
+detivera ante uma árvore cheia de pássaros, e, fraternalmente, lhes
+recomendára que louvassem sempre o Senhor! «Meus irmãos, meus irmãos
+passarinhos, cantai bem o vosso Criador, que vos deu essa árvore para
+que nela habiteis, e toda esta limpa água para nela beber, e essas penas
+bem quentes para vos agasalharem, a vós e aos vossos filhinhos!»
+Depois, beijando humildemente a manga do monge que o amparava, Frei
+Genebro morreu.
+
+
+II
+
+Logo que êle cerrou os seus olhos carnais, um Grande Anjo penetrou
+diáfanamente no curral e tomou, nos braços, a alma de Frei Genebro.
+Durante um momento, na fina luz da madrugada, deslizou por sôbre o prado
+fronteiro tam levemente que nem roçava as pontas orvalhadas da relva
+alta. Depois, abrindo as asas, radiantes e níveas, transpôs, num vôo
+sereno, as nuvens, os astros, todo o céu que os homens conhecem.
+
+Aninhada nos seus braços, como na doçura de um berço, a alma de Genebro
+conservava a forma do corpo que sôbre a terra ficára; o hábito
+franciscano ainda a cobria, com um resto de poeira e de cinza nas pregas
+rudes; e, com um olhar novo, que agora tudo trespassava e tudo
+compreendia, ela contemplava, num deslumbramento, aquela região em que o
+Anjo parára, para alêm dos universos transitórios e de todos os rumores
+siderais. Era um espaço sem limite, sem contôrno e sem côr. Por
+cima começava uma claridade, subindo espalhada à maneira duma aurora,
+cada vez mais branca, e mais luzente, e mais radiante, até que
+resplandecia num fulgor tam sublime que nela um sol coruscante seria
+como uma nódoa pardacenta. E por baixo estendia-se uma sombra cada vez
+mais baça, mais fusca, mais cinzenta, até que formava como um espesso
+crepúsculo de profunda, insondável tristeza. Entre essa refulgência
+ascendente e a escuridão inferior, permanecera o Anjo imóvel, esperando,
+com as asas fechadas. E a alma de Genebro perfeitamente sentia que
+estava ali, esperando tambêm, entre o Purgatório e o Paraíso. Então,
+súbitamente, nas alturas, apareceram os dois imensos pratos duma
+Balança--um que rebrilhava como diamante e era reservado às suas Boas
+Obras, outro, negrejando mais que carvão, para receber o pêso das suas
+Obras Más. Entre os braços do Anjo, a alma de Genebro estremeceu... Mas
+o prato diamantino começou a descer lentamente. Oh! contentamento e
+glória! Carregado com as suas Boas Obras, êle descia, calmo e majestoso,
+espargindo claridade. Tam pesado vinha, que as suas grossas cordas se
+retesavam, rangiam. E entre elas, formando como uma montanha de neve,
+alvejavam magníficamente as suas virtudes evangélicas. Lá estavam as
+incontáveis esmolas que semeára no mundo, agora desabrochadas em
+alvas flores, cheias de aroma e de luz.
+
+A sua humildade era um cimo, aureolado por um clarão. Cada uma das suas
+penitências scintilava mais límpidamente que cristais puríssimos. E a
+sua oração perene subia e enrolava-se em tôrno das cordas, à maneira
+duma deslumbrante névoa de oiro.
+
+Sereno, tendo a majestade de um astro, o prato das Boas Obras parou,
+finalmente, com a sua carga preciosa. O outro, lá em cima, não se movia
+tambêm, negro, da côr do carvão, inútil, esquecido, vazio. Já das
+profundidades, sonoros bandos de Serafins voavam, balançando palmas
+verdes. O pobre franciscano ia entrar triunfalmente no Paraíso--e aquela
+era a milícia divina que o acompanharia cantando. Um frémito de alegria
+passou na luz do Paraíso, que um Santo novo enriquecia. E a alma de
+Genebro anteprovou as delícias da Bemaventurança.
+
+Súbitamente, porêm, no alto, o prato negro oscilou como a um pêso
+inesperado que sôbre êle caísse! E começou a descer, duro, temeroso,
+fazendo uma sombra dolente através da celestial claridade. ¿Que Má Acção
+de Genebro trazia êle, tam miuda que nem se avistava, tam pesada que
+forçava o prato luminoso a subir, remontar ligeiramente como se a
+montanha de Boas Acções, que nele transbordavam, fôssem um fumo
+mentiroso? Oh! mágoa! oh! desesperança! Os Serafins recuavam, com as
+asas trementes. Na alma de Frei Genebro correu um arrepio imenso de
+terror. O negro prato descia, firme, inexorável, com as cordas retêsas.
+E na região que se cavava sob os pés do Anjo, cinzenta, de inconsolável
+tristeza, uma massa de sombra, molemente e sem rumor, arfou, cresceu,
+rolou, como a onda duma maré devoradora.
+
+O prato, mais triste que a noite, parára--parára em pavoroso equilíbrio
+com o prato que rebrilhava. E os Serafins, Genebro, o Anjo que o
+trouxera, descobriram, no fundo daquele prato que inutilizava um Santo,
+um porco, um pobre porquinho com uma perna bárbaramente cortada,
+arquejando, a morrer, numa pôça de sangue... O animal mutilado pesava
+tanto na balança da justiça como a montanha luminosa de virtudes perfeitas!
+
+Então, das alturas, surgiu uma vasta mão, abrindo os dedos que
+faiscavam. Era a mão de Deus, a sua mão direita, que aparecera a Genebro
+na escada de Santa Maria dos Anjos, e que agora supremamente se estendia
+para o acolher ou para o repelir. Toda a luz e toda a sombra, desde o
+Paraíso fulgente ao Purgatório crepuscular, se contraíram num
+recolhimento de inexprimível amor e terror. E na estática mudez, a
+vasta mão, através das alturas, lançou um gesto que repelia...
+
+Então o Anjo, baixando a face compadecida, alargou os braços e deixou
+caír, na escuridão do Purgatório, a alma de Frei Genebro.
+
+
+
+
+ADÃO E EVA NO PARAÍSO
+
+
+I
+
+Adão, Pai dos Homens, foi criado no dia 28 de Outubro, às 2 horas da
+tarde...
+
+Assim o afirma, com majestade, nos seus _Annales Veteris et Novi
+Testamento_, o muito douto e muito ilustre Usserius, Bispo de Meath,
+Arcebispo de Armagh, e Chanceler-Mór da Sé de S. Patrício.
+
+A Terra existia desde que a Luz se fizera, a 23, na manhã de todas as
+manhãs. Mas já não era essa Terra primordial, parda e mole, ensopada em
+águas barrentas, abafada numa névoa densa, erguendo, aqui e alêm,
+rígidos troncos duma só fôlha e dum só rebento, muito solitária, muito
+silenciosa, com uma vida toda escondida, apenas surdamente revelada pelo
+remexer de bichos obscuros, gelatinosos, sem côr e quási sem forma,
+crescendo no fundo dos lôdos. Não! agora, durante os dias genesíacos de
+26 e 27, toda ela se completára, se abastecera e se enfeitára, para
+acolher condignamente o Predestinado que vinha. No dia 28 já apareceu
+perfeita, _perfecta_, com as provisões e alfaias que a Bíblia enumera,
+as ervas verdes de espiga madura, as árvores providas do fruto entre a
+flor, todos os peixes nadando nos mares resplandecentes, todas as aves
+voando pelos ares aclarados, todos os animais pastando sôbre as colinas
+viçosas, e os regatos regando, e o fogo armazenado no seio da pedra, e o
+cristal, e o ónix, e o oiro muito bom do país de Hevilath...
+
+Nesses tempos, meus amigos, o Sol ainda girava em tôrno da Terra. Ela era
+môça e formosa e preferida de Deus. Êle ainda se não submetera à
+imobilidade augusta que lhe impôs mais tarde, entre amuados suspiros da
+Igreja, mestre Galileu, estendendo um dedo do fundo do seu pomar, rente
+aos muros do Convento de S. Mateus de Florença. E o sol, amorosamente,
+corria em volta da Terra, como o noivo dos _Cantares_, que, nos lascivos
+dias da ilusão, sôbre o outeiro de mirra, sem descanso e pulando mais
+levemente que os gamos de Gaalad, circundava a Bem-Amada, a cobria com o
+fulgor dos seus olhos, coroado de sal-gêma, a faiscar de fecunda
+impaciência. Ora desde essa alvorada do dia 28, segundo o cálculo
+majestático de Usserius, o Sol, muito novo, sem sardas, sem rugas, sem
+falhas na sua cabeleira flamante, envolvera a terra, durante oito horas,
+numa contínua e insaciada carícia de calor e de luz. Quando a oitava
+hora scintilou e fugiu, uma emoção confusa, feita de medo e feita de
+glória, perpassou por toda a Criação, agitando num frémito as relvas e
+as frondes, arripiando o pêlo das feras, empolando o dorso dos montes,
+apressando o borbulhar das nascentes, arrancando dos pórfiros um brilho
+mais vivo... Então numa floresta muito cerrada e muito tenebrosa, certo
+Ser, desprendendo lentamente a garra do galho de árvore onde se
+empoleirára toda essa manhã de longos séculos, escorregou pelo tronco
+comido de hera, pousou as duas patas no sólo que o musgo afofava, sôbre
+as duas patas se firmou com esforçada energia, e ficou erecto, e alargou
+os braços livres, e lançou um passo forte, e sentiu a sua dissemelhança
+da Animalidade, e concebeu o deslumbrado pensamento do que era, e
+verdadeiramente _foi_! Deus, que o amparára, nesse instante o criou. E
+vivo, da vida superior, descido da inconsciência da árvore, Adão
+caminhou para o Paraíso.
+
+Era medonho. Um pêlo crespo e luzidio cobria todo o seu grosso, maciço
+corpo, rareando apenas em tôrno dos cotovelos, dos joelhos rudes,
+onde o coiro aparecia curtido e da côr de cobre fosco. Do achatado,
+fugidio crânio, vincado de rugas, rompia uma guedelha rala e ruiva,
+tufando sôbre as orelhas agudas. Entre as rombas queixadas, na fenda
+enorme dos beiços trombudos, estirados em focinho, as prêsas reluziam,
+afiadas rijamente para rasgar a febra e esmigalhar o osso. E sob as
+arcadas sombriamente fundas, que um felpo hirsuto orlava como um silvado
+orla o arco duma caverna, os olhos redondos, dum amarelo de ámbar, sem
+cessar se moviam, tremiam, esgazeados de inquietação e de espanto...
+Não, não era belo, nosso Pai venerável, nessa tarde de Outono, quando
+Jeová o ajudou com carinho a descer da sua Árvore! E todavia, nesses
+olhos redondos, de fino ámbar, mesmo através do tremor e do espanto,
+rebrilhava uma superior beleza--a Energia Inteligente que o ia
+trôpegamente levando, sôbre as pernas arqueadas, para fóra da mata onde
+passára a sua manhã de longos séculos a pular e a guinchar por cima dos
+ramos altos.
+
+Mas (se os Compêndios de Antropologia nos não iludem) os primeiros passos
+humanos de Adão não foram logo atirados, com alacridade e confiança, para o
+destino que o esperava entre os quatro rios do Éden. Entorpecido, envolvido
+pelas influências da Floresta, ainda despega com custo a pata de entre o
+folhoso chão de fetos e begónias, e gostosamente se roça pelos pesados
+cachos de flores que lhe orvalham o pêlo, e acaricia as longas barbas de
+lichen branco, pendentes dos troncos de roble e de teca, onde gozára as
+doçuras da irresponsabilidade. Nas ramagens que tam generosamente, através
+tam longas idades, o nutriram e o embalaram, ainda colhe as bagas
+sumarentas, os rebentões mais tenros. Para transpor os regatos, que por
+todo o bosque reluzem e sussurram depois da sazão das chuvas, ainda se
+pendura duma rija liana, entrelaçada de orquídeas, e se balança, e arqueia
+o pulo, com pesada indolência. E receio bem que quando a aragem restolhasse
+pela espessura, carregada com o cheiro morno e acre das fêmeas acocoradas
+nos cimos, o Pai dos Homens ainda dilatasse as ventas chatas e soltasse do
+peito felpudo um grunhido rouco e triste.
+
+Mas caminha... As suas pupilas amarelas, onde faisca o Querer, sondam,
+esbugalhadas, através da ramaria, procuram para alêm o mundo que deseja
+e receia, e a que sente já a zoada violenta, como toda feita de batalha
+e rancor. E, à maneira que a penumbra das folhagens clareia, vai
+surgindo, dentro do seu crânio bisonho, como uma alvorada que penetra
+numa toca, o sentimento das Formas diferentes e da Vida diferente
+que as anima. Essa rudimentar compreensão só trouxe a nosso Pai
+venerável turbação e terror. Todas as Tradições, as mais orgulhosas,
+concordam em que Adão, na sua entrada inicial pelas planícies do Éden,
+tremeu e gritou como criancinha perdida em arraial turbulento. E bem
+podemos pensar que, de todas as Formas, nenhuma o apavorava mais que a
+dessas mesmas árvores onde vivera, agora que as reconhecia como seres
+tam dissemelhantes do seu Ser e imobilizadas numa inércia tam contrária
+à sua Energia. Liberto da Animalidade, em caminho para a sua
+Humanização, o arvoredo que lhe fôra abrigo natural e doce só lhe
+pareceria agora um cativeiro de degradante tristeza. ¿E êsses ramos
+tortuosos, empecendo a sua marcha, não seriam braços fortes que se
+estendiam para o empolgar, o repuxar, o reter nos cimos frondosos? ¿Êsse
+ramalhado sussurro que o seguia, composto do desassossêgo irritado de
+cada fôlha, não era a selva toda, num alvoroço, reclamando o seu secular
+morador? De tam estranho medo nasceu, talvez, a primeira luta do Homem
+com a Natureza. Quando um galho alongado o roçasse, de-certo nosso Pai
+atiraria contra êle as garras desesperadas para o repelir e lhe escapar.
+Nesses bruscos ímpetos quantas vezes se desequilibrou, e as suas mãos se
+abateram desamparadamente sôbre o sólo de mato ou rocha, de novo
+precipitado na postura bestial, retrogradando à inconsciência, entre o
+clamor triunfal da Floresta! Que angustioso esfôrço então para se
+erguer, recuperar a atitude humana, e correr, com os felpudos braços
+despegados da terra bruta, livres para a obra imensa da sua Humanização!
+Esfôrço sublime, em que ruge, morde as raíses detestadas, e, ¿quem sabe?
+levanta já os olhos de ámbar lustroso para os céus, onde, confusamente,
+sente Alguêm que o vem amparando--e que na realidade o levanta.
+
+Mas, de cada um dêstes tombos modificantes, nosso Pai ressurge mais
+humano, mais nosso Pai. E há já consciência, pressa da Racionalidade,
+nos ressoantes passos com que se arranca ao seu limbo arboral,
+despedaçando as enrediças, fendendo o bravio denso, despertando os
+tapires adormecidos sob cogumelos monstruosos, ou espantando algum urso
+môço e tresmalhado que, de patas contra um olmo, chupa, meio borracho,
+as uvas dêsse farto outono.
+
+
+Emfim, Adão emerge da Floresta obscura:--e os seus olhos de ámbar
+vivamente se cerram sob o deslumbramento em que o envolve o Éden.
+
+Ao fundo dessa encosta, onde parara, resplandecem vastas campinas (se as
+Tradições não exageram) com desordenada e sombria abundância.
+Lentamente, através, um rio corre, semeado de ilhas, ensopando, em
+fecundos e espraiados remansos, as verduras onde já talvez cresce a
+lentilha e se alastra o arrozal. Rochas de mármore rosado rebrilham com
+um rubor quente. De entre bosques de algodoeiros, brancos como crespa
+espuma, sobem outeiros cobertos de magnólias, dum esplendor ainda mais
+branco. Alêm a neve coroa uma serra com um radiante nimbo de santidade,
+e escorre, por entre os flancos despedaçados, em finas franjas que
+refulgem. Outros montes dardejam mudas labaredas. Da borda de rígidas
+escarpas, pendem perdidamente, sôbre profundidades, palmeirais
+desgrenhados. Pelas lagôas a bruma arrasta a luminosa moleza das suas
+rendas. E o mar, nos confins do mundo, faiscando, tudo encerra, como um
+aro de oiro.--Neste fecundo espaço toda a Criação se espaneja, com a
+fôrça, a graça, a braveza vivaz duma mocidade de cinco dias, ainda
+quente das mãos do seu Criador. Profusos rebanhos de auroques, de
+pelagem ruiva, pastam, majestosamente, enterrados nas ervas tam altas
+que nelas desaparece a ovelha e o seu anho. Temerosos e barbudos urus,
+brigando contra gigantescos veados-elefas, entrechocam cornos e
+galhos com o sêco fragor de robles que o vento racha. Um bando de
+girafas rodeia uma mimosa a que vai trincando, delicadamente, nos
+trémulos cimos, as folhinhas mais tenras. À sombra dos tamarindos,
+repousam disformes rinocerontes, sob o vôo apressado de pássaros que
+lhes catam serviçalmente a vermina. Cada arremêsso de tigre causa uma
+debandada furiosa de ancas, e chifres, e clinas, onde, mais certo e mais
+leve, se arqueia o pulo grácil dos antílopes. Uma rija palmeira verga
+toda ao pêso da jibóia que nela se enrosca. Entre duas penedias, por
+vezes, aparece, numa profusão de juba, a face magnífica de um leão que,
+serenamente, olha o sol, a imensidade radiante. No remoto azul, enormes
+condores dormem imóveis, de asas abertas, entre o sulco níveo e róseo
+das garças e dos flamingos. E em frente à encosta, num alto, entre o
+matagal, passa, lenta e montanhosa, uma récua de mastodontes, com a rude
+clina do dorso erriçada ao vento, e a tromba a bambolear entre os dentes
+mais recurvos que foices.
+
+Assim vetustíssimas Crónicas contam o vetustíssimo Éden, que era nas
+campinas do Eufrates, talvez na trigueira Ceilão, ou entre os quatro
+claros rios que hoje regam a Húngria, ou mesmo nestas terras bemditas
+onde a nossa Lisboa aquece a sua velhice ao soalheiro, cansada de
+proezas e mares. ¿Mas quem pode garantir êstes bosques e êstes bichos,
+pois que desde êsse dia 25 de Outubro, que inundava o Paraíso de
+esplendor outonal, já passaram, muito breves e muito cheios, sôbre o
+grão de pó que é o nosso mundo, mais de sete vezes setecentos mil anos?
+Só parece certo que, diante de Adão apavorado, um grande pássaro passou.
+Um pássaro cinzento, calvo e pensativo, com as penas esguedelhadas como
+as pétalas de um crisântemo, que saltitava pesadamente sôbre uma das
+patas, erguendo na outra, bem agarrado, um mólho de ervas e ramos. O
+nosso Pai venerável, com a fusca face franzida, no doloroso esfôrço de
+compreender, pasmava para aquele pássaro, que ao lado, sob o abrigo de
+azáleas em flor, terminava muito gravemente a construção duma cabana!
+Vistosa e sólida cabana, com o seu chão de greda bem alisado, galhos
+fortes de pinheiro e faia formando estacas e traves, um seguro teto de
+relva sêca, e na parede de enrediças bem liadas o desafôgo duma
+janela!... Mas o Pai dos Homens, nessa tarde, ainda não compreendeu.
+
+Depois caminhou para o largo rio, desconfiadamente, sem se afastar da
+ourela do bosque abrigador. Lento, farejando o cheiro novo dos gordos
+herbívoros da planície, com os punhos rijamente cerrados contra o
+peito peludo, Adão vai arfando entre o apetite daquela resplandecente
+Natureza e o terror dos seres nunca avistados que a atulham e atroam com
+tam fera turbulência. Mas dentro dêle borbulha, não cessa, a nascente
+sublime, a sublime nascente da Energia, que o impele a desentranhar da
+crassa bruteza, e a ensaiar, com esforços que são semi-penosos porque
+são já semi-lúcidos, os Dons que estabelecerão a sua supremacia sôbre
+essa Natureza incompreendida e o libertarão do seu terror. Assim, na
+surprêsa de todas aquelas inesperadas aparições do Éden, reses,
+pastagens, montes nevados, imensidades radiosas, Adão solta roucas
+exclamações, gritos com que desafoga, vozes gaguejadas, em que por
+instinto reproduz outras vozes, e brados, e toadas, e mesmo o reboliço
+das criaturas, e mesmo o estrondo das águas despenhadas... E êstes sons
+ficam já na escura memória de nosso Pai ligados às sensações que lhos
+arrancam:--de sorte que o guincho áspero que lhe escapara ao topar um
+cangurú com a sua ninhada embolsada no ventre, de novo lhe ressoará nos
+lábios trombudos quando outros cangurús, fugindo dêle, adiante, se
+embrenhem na sombra negra das caneleiras. A Bíblia, com a sua exageração
+oriental, cândida e simplista, conta que Adão, logo na sua entrada pelo
+Éden, distribuiu nomes a todos os animais, e a todas as plantas,
+muito definitivamente, muito eruditamente, como se compuzesse o Lexicon
+da Criação, entre Buffon, já com os seus punhos, e Linneu, já com os
+seus óculos. Não! eram apenas grunhidos, roncos mais verdadeiramente
+augustos, porque todos êles se plantavam na sua consciência nascente
+como as tôscas raízes dessa Palavra pela qual verdadeiramente se
+humanou, e foi depois, sôbre a terra, tam sublime e tam burlesco.
+
+E bem podemos pensar, com orgulho, que ao descer a borda do rio Edénico,
+nosso Pai, compenetrado do que _era_, e quanto diverso dos outros seres!
+já se afirmava, se individualizava, e batia no peito sonoro, e rugia
+soberbamente:--_Eheu! Eheu!_ Depois, alongando os olhos reluzentes por
+aquela longa água que corria vagarosamente para alêm, já tenta
+exteriorizar o seu espantado sentimento dos espaços, e rosna com
+pensativa cubiça:--_Lhlâ! Lhlâ!_
+
+
+II
+
+Calmo, magníficamente fecundo, corria êle, o nobre rio do Paraíso, por
+entre as ilhas, quási afundadas sob o pêso rijo do rijo arvoredo
+todas fragrantes, e atroadas pelo clamor das cacatuas. E Adão,
+trotando pesadamente pela margem baixa, já sente a atracção das águas
+disciplinadas que andam e vivem--essa atracção que será tam forte nos
+seus filhos, quando no rio descobrirem o bom servidor que desaltera,
+estruma, rega, mói e acarreta. Mas quantos terrores especiais ainda o
+arrepiam, o atiram com espavoridos pulos para o abrigo dos salgueiros e
+dos choupos! Noutras ilhas, de areia fina e rosada, preguiçam pedregosos
+crocodilos, achatados sôbre o ventre, que arfam molemente, escancarando
+as fundas goelas na tépida preguiça da tarde, embebendo todo o ar com um
+cheirinho de almíscar. Por entre os canaviais, coleam e refulgem gordas
+cobras de água, de colo alteado, que fitam Adão com furor, dardejando e
+silvando. E, para nosso Pai que nunca as avistara, certamente seriam
+pavorosas as tartarugas imensas dêsse comêço do Mundo, pastando, com
+arrastada mansidão, através dos prados novos. Mas uma curiosidade o
+atrai, quási resvala na riba lodosa, onde a franja de água roça e
+marulha. Na largueza do rio espraiado, uma longa e negra fila de
+auroques, serenamente, com os cornos altos e a espessa barba a flutuar,
+nada para a outra margem, campina coberta de louras messes onde talvez
+já amaduram as espigas sociáveis do centeio e do milho. Nosso Pai
+venerável olha a fila lenta, olha o rio lustroso, concebe o ennevoado
+desejo de tambêm atravessar para aqueles longes em que as ervas
+rebrilham, e arrisca a mão na corrente--na rija corrente que lha repuxa,
+como para o atrair e iniciar. Êle grunhe, arranca a mão--e segue, com
+ásperas patadas, esmagando, sem mesmo lhes sentir o perfume, os frescos
+morangos silvestres que ensangùentam a relva... Em breve pára,
+considerando um bando de aves alcandoradas numa penedia toda riscada de
+guanos, que espreitam, com o bico atento, para baixo, onde as águas
+apertadas refervem. ¿Que espreitam elas, as brancas garças? Lindos
+peixes em cardume, que rompem contra a levada, e pulam, lampejando nas
+espumas claras. E bruscamente, num desabrido abanar de asas brancas, uma
+garça, depois outra, fende o céu alto, levando, atravessado no bico, um
+peixe que se estorce e reluz. Nosso Pai venerável coça a ilharga. A sua
+crassa gula, entre aquela abundância do rio, tambêm apetece uma prêsa: e
+atira a garra, colhe, no seu vôo soante, cascudos insectos que farisca e
+trinca. Mas nada certamente assombrou o Primeiro Homem como um grosso
+tronco de árvore meio apodrecido, que boiava, descia na corrente,
+levando sentados numa ponta, com segurança e graça, dois bichos sedosos,
+louros, de focinho esperto, e fôfas caudas vaidosas. Para os
+seguir, os observar, ansiosamente correu, enorme e desengonçado. E os
+seus olhos faiscavam, como se já compreendesse a malícia daqueles dois
+bichos, embarcados num toro de árvore, e viajando, com a macia frescura
+da tarde, no rio do Paraíso.
+
+No entanto, a água que êle costeava era mais baixa, turva e tarda. Já na
+sua largueza não verdejam ilhas, nem nela se molha a orla das fartas
+pastagens. Para alêm, sem limite, fundidas nas neblinas, fogem
+descampadas solidões, de onde rola um vento lento e húmido. Nosso Pai
+venerável enterrava as patas em ribas moles, através de aluviões, de
+lixos silvestres, em que chapinavam, para seu intenso horror, enormes
+rãs coaxando furiosamente. E o rio em breve se perdeu numa vasta lagôa,
+escura e desolada, resto das grandes águas sôbre que flutuara o Espírito
+de Jeová. Uma tristeza humana apertou o coração de nosso Pai. Do meio de
+grossas bôlhas, que se empolavam na estanhada lisura da água triste,
+constantemente surdiam horrendas trombas, a escorrer de limos verdes,
+que bufavam ruidosamente, logo se afundavam, como repuxadas pelos lôdos
+viscosos. E quando de entre os altos e negros canaviais, manchando a
+vermelhidão da tarde, se elevou, se alargou sobre êle uma nuvem
+estridente de moscardos vorazes, Adão foge, estonteado, trilha
+saibros pegajosos, rasga o pêlo na aspereza dos cardos brancos que o
+vento estorce, resvala por uma encosta de cascalho e seixo, e pára em
+areia fina. Arqueja: as suas longas orelhas remexem, escutando, para
+alêm das dunas, um vasto rumor que rola e desaba e retumba... É o mar.
+Nosso Pai transpõe as pálidas dunas--e diante dêle está o Mar!
+
+
+Então foi o pavor supremo. Com um pulo, batendo convulsamente os punhos
+no peito, recúa até onde três pinheiros, mortos e sem rama, lhe oferecem
+o refúgio hereditário. ¿Porque avançam assim para êle, sem cessar, numa
+inchada ameaça, aqueles rolos verdes, com a sua clina de espuma, e se
+atiram, se esmigalham, refervem, babujam rudemente a areia? Mas toda a
+outra vasta água permanece imóvel, como morta, com uma grande mancha de
+sangue que lateja. Todo êsse sangue caíu, de-certo, da ferida do sol,
+redonda e vermelha, sangrando em cima, num céu dilacerado por fundos
+golpes já rôxos. Para alêm da névoa leitosa que cobre as lagôas, dos
+charcos salgados, onde a marezia ainda chega e se espraia muito longe,
+um monte flameja e fumega. E sempre diante de Adão, contra Adão, os
+verdes rolos da verde vaga avançam, e ribombam, e alastram a praia de
+algas, de conchas, de gelatinas que alvejam lívidamente.
+
+Mas eis que todo o mar se povôa! E, encolhido contra o pinheiro, nosso
+Pai venerável dardeja os olhos inquietos e trémulos, para aqui, para
+alêm--para os rochedos cobertos de sargaço onde gordíssimas focas
+rebolam majestosamente; para os repuxos de água, que ao largo esguicham
+até às nuvens rôxas e recáem numa chuva radiante; para uma linda armada
+de búzios, imensos búzios alvos e nacarados, vogando à bolina,
+circundando as penedias, com manobra elegante... Adão pasma sem saber
+que estas são as Amonites, e que nenhum outro homem, depois dêle, verá a
+luzida e rósea armada singrando nos mares dêste mundo. Ainda êle a
+admira, talvez com a impressão inicial da beleza das cousas, quando
+bruscamente, num tremor de sulcos brancos, toda a maravilhosa frota
+sossobra! Com o mesmo salto mole, as focas tombam, trambulham na vaga
+funda. E um terror passa, um terror levantado do mar, tam intenso que um
+bando de albatrozes, muito seguro sôbre uma escarpa, bate, com azoados
+gritos, o vôo espavorido.
+
+Nosso Pai venerável aferra a mão a um galho de pinheiro, sondando, num
+arrepio, a imensidão deserta. Então, ao longe, sob o clarão enfiado
+do sol que se esconde, um dorso imenso sai, lentamente, das águas, como
+uma comprida colina, toda espetada de negras, agudas lascas de rocha. E
+avança! Adiante um tumulto de bôlhas redemoinha e rebenta; e de entre
+elas emerge, por fim, resfolegando cavamente, uma tromba disforme, de
+fauces entreabertas, onde lampejam e se somem cardumes de peixes que os
+seus sorvos vem tragando...
+
+É um monstro, um pavoroso monstro marinho! E bem podemos supor que nosso
+Pai, esquecendo toda a sua dignidade humana (ainda recente), trepou
+desesperadamente ao pinheiro até onde os galhos findavam. Mas mesmo
+nesse abrigo, os seus poderosos queixos batiam, num medo convulso, ante
+o horrífico ser surgido das profundidades. Com um baque raspante,
+esmigalhando conchas, seixos e galhos de coral, o monstro esbarra na
+areia, que fundamente escava e sôbre que retesa as duas patas, mais
+grossas que troncos de teca, com as unhas todas enrodilhadas de silvas
+marinhas. Da caverna das suas fauces, através dos dentes terríficos, que
+os limos e musgos esverdeiam, sopra um bafo espesso de fadiga ou de
+furor, tam forte que faz rodopiar as algas sêcas e os búzios ligeiros.
+Entre as crostas pedregosas, que lhe couraçam a fronte, negrejam dois
+cornos curtos e rombos. Os seus olhos, lívidos e vítreos, são como
+duas enormes luas mortas. A imensa cauda dentada arrasta pelo mar
+distante, e a cada rabeio lento levanta uma tempestade.
+
+Por estas feições, pouco amáveis, já reconhecesteis o Ictiosaurio, o
+mais horrendo dos cetáceos concebidos por Jeová. Era êle!--talvez o
+derradeiro, que durara nas trevas oceânicas até êste dia memorável de 28
+de Outubro, para que nosso Pai entrevisse as origens da Vida. E agora
+está em frente de Adão, ligando os tempos vélhos aos tempos novos--e,
+com as escamas do dorso assanhadas, muge devastadoramente. Nosso Pai
+venerável, enroscado ao tronco alto, guincha de vivo horror... E eis
+que, do lado dos charcos ennevoados, um silvo fende os céus, uivado e
+arremetido, como o de um áspero vento numa garganta de serrania. O quê!
+Outro monstro?... Sim, o Plesiosaurio. É tambêm o derradeiro
+Plesiosaurio que corre do fundo dos pântanos. E agora de novo se trava,
+para assombro do primeiro Homem (e gôsto dos Paleontologistas) o combate
+que foi a desolação dos pre-humanos dias da Terra. Lá aparece a fabulosa
+cabeça do Plésio, terminada em bico de ave, bico de duas braças, mais
+agudo que o dardo mais agudo, erguida sôbre um longuíssimo e esguio
+pescoço que ondula, arqueia, esfusia, dardeja com pavorosa elegância!
+Duas barbatanas de incomparável rijeza veem movendo o seu disforme
+corpo, mole, glutinoso, todo em rugas, manchado por uma lepra de fungos
+esverdinhados. E tam imenso é assim rojando, com o pescoço empinado,
+que, diante da duna onde se levantam os pinheiros que acoitam Adão, êle
+parece uma outra duna negra sustentando um pinheiro solitário.
+Furiosamente avança.--E de repente é um horroroso tumulto de mugidos, e
+sibilos, e choques ribombantes, e areias torvelinhando, e grossos mares
+espadanando. Nosso Pai venerável salta dum pinheiro para outro pinheiro,
+tremendo tanto que, com êle, tremem os rijos troncos. E quando se
+arrisca a espreitar, ao recrescer dos bramidos, só percebe, na enrolada
+massa dos dois monstros, através de uma névoa de espuma que os esguichos
+de sangue avermelham, o bico do Plésio todo enterrado no ventre mole do
+Ictio, cuja cauda, erguida, se estorce furiosamente na palidez dos céus
+espantados. De novo esconde perdidamente a face, nosso Pai venerável! Um
+urro de monstruosa agonia rola na praia. As pálidas dunas estremecem, as
+cavernas soturnas ressoam. Depois é uma paz muito larga, em que o ruido
+do mar Oceano não é mais que um consolado murmúrio de alívio. Adão
+espia, debruçado entre os galhos... O Plésio recuara ferido para a
+tépida lama dos seus pântanos. E sôbre a praia jaz o Ictio morto,
+como uma colina onde a vaga da tarde mansamente se quebra.
+
+Então, nosso Pai venerável cautelosamente escorrega do seu pinheiro, e
+se abeira do monstro. A areia, em redor, está medonhamente revôlta;--e
+por toda ela, em lentos regos, em pôças escuras, o sangue, mal chupado,
+fumega. Tam montanhoso é o Ictio, que Adão, erguendo a face assombrada,
+nem avista as puas do monstro, erriçadas ao longo daquele alcantilado
+espinhaço, a que o bico do Plésio arrancou escamas mais pesadas que
+lages. Mas, diante das mãos trementes do Homem, estão os rasgões do
+ventre mole, de onde o sangue pinga, e gorduras babam, e imensas tripas
+esfiadas escorrem, e pendem febras atassalhadas de carne rosada... E as
+chatas ventas de nosso Pai venerável estranhamente se alargam e farejam.
+
+Toda essa tarde êle caminhara, desde a Floresta, através do Paraíso,
+chupando bagas, rilhando raízes, trincando os insectos de casca picante.
+Mas agora o sol penetrou no mar--e Adão tem fome, nesse areal maninho,
+onde só alvejam cardos que o vento estorce. Oh! aquela carne rija,
+sangrenta, ainda viva, que exala um cheiro tam fresco e salino! As suas
+rombas mandíbulas ruidosamente se escancaram num bocejo enfastiado e
+famélico... O Oceano arfa, como adormecido... Então, irresistívelmente,
+Adão mergulha numa das feridas do sáurio os dedos que lambe e
+rechupa, moles de sangue e gorduras. O espanto dum sabor novo imobiliza
+o homem frugal que vem das ervas e das frutas. Depois, com um salto,
+arremete contra a montanha de abundância, e arranca uma fêbra que trinca
+e traga, a grunhir, num furor, numa pressa, em que há o gôzo e há o medo
+da primeira carne comida.
+
+
+Tendo ceado assim postas cruas dum monstro marinho, nosso Pai venerável
+sente uma grande sêde. São salgadas as pôças que na areia rebrilham.
+Pesado e triste, com os beiços empastados de banha e de sangue, Adão,
+sob o calado crepúsculo, atravessa as dunas, repenetra nas terras,
+rebuscando sôfregamente água doce. Por toda a relva, nesses tempos de
+universal humidade, fugia e chalrava um regato. Em breve, estendido numa
+riba lodosa, Adão bebeu consoladamente, em fundos sorvos, sob o vôo
+espantado de moscas fosforescentes que se lhe prendiam na guedelha.
+
+Era junto dum bosque de carvalhos e faias. A noite, que já se adensara,
+ennegrecia um chão todo de plantas, onde a malva se encostava à hortelã,
+e a salsa ao funcho ligeiro. Nessa clareira fresca, penetrou nosso Pai
+venerável, estafado com a marcha e os espantos daquela tarde do Paraíso.
+E apenas se estendera na alfombra cheirosa, com a hirsuta face
+pousada sôbre as palmas unidas, os joelhos colhidos contra o ventre
+distendido como um tambor, mergulhou num sono como êle nunca
+dormira--todo povoado de sombras moventes, que eram aves construindo uma
+casa, patas de insectos tecendo uma teia, dois bichos vogando nas águas
+rolantes.
+
+Ora conta a Lenda que então, em tôrno do Primeiro Homem adormecido,
+começaram a surdir, por entre o mato baixo, focinhos fariscantes, finas
+orelhas espetadas, olhinhos reluzindo como botões de azeviche, e
+espinhaços inquietos que a emoção arqueava--emquanto que, dos cimos dos
+carvalhos e faias, num abafado frémito de asas, se debruçavam bicos
+recurvos, bicos retesos, bicos bravios, bicos pensativos, todos
+alvejando na claridade delgada da lua, que subia por trás dos montes, e
+banhava as frondes altas. Depois, à orla da clareira, uma hiena
+apareceu, coxeando, miando com lástima. Através da campina trotaram dois
+lobos, esgalgados, famélicos, com os verdes olhos acesos. Os leões não
+tardaram, com as riais faces erguidas, soberanamente enrugadas, numa
+profusão de jubas flamantes. Em confusa manada, que chegava bufando, os
+cornos dos auroques entrechocavam com impaciência os galhos palmares das
+renas. Todos os pêlos se arrepiaram quando o tigre e a pantera
+negra, ondulando calada e aveludadamente, resvalaram, com as línguas
+pendentes e vermelhas como coalhos de sangue. Dos vales, das serranias,
+das fragas, outros acudiam, numa pressa tam anciosa, que os horrendos
+cavalos primitivos se empinavam por sôbre os cangurus, e a tromba do
+hipopótamo, a escorrer de limos, empurrava as ancas lentas do
+dromedário. Entre as patas e os cascos apinhados coleavam em aliança o
+furão, a sardonisca, a doninha, a cobra fulgente que engole a doninha, e
+o alegre manguço que assassina a cobra. Um bando de gazelas tropeçava,
+magoando as pernas finas, contra a crosta dos crocodilos, que subiam em
+fila da borda das lagôas, de goelas preparadas e a gemer. Já toda a
+planície arfava, sob a lua, no mole remexer de dorsos apertados, de onde
+se erguia, ora o pescoço da girafa, ora o corpo da jibóia, como mastros
+naufragados, balançados entre vagas. E por fim, abalando o sólo,
+enchendo o céu, com a tromba enrolada entre os dentes recurvos, assomou
+o rugoso mastodonte.
+
+Era toda a Animalidade do Paraíso, que, sabendo o Primeiro Homem
+adormecido, sem defesa, num ermo bosque, corria, na imensa esperança de
+o destruir e eliminar da terra a Fôrça Inteligente, destinada a submeter
+a Fôrça Bruta. Mas, naquela pavorosa turba que fumegava, se
+atropelava à borda da clareira, onde Adão dormia sôbre a hortelã e a
+malva, nenhuma fera avançava. Os longos dentes reluziam, feramente
+arreganhados; todos os cornos repontavam; cada garra saída dilacerava
+com ânsia a terra mole; e os bicos, de cima das ramas, terçavam os fios
+da lua com bicadas famintas.... Mas nem ave descia, nem fera
+avançava,--porque ao lado de Adão velava uma Figura séria e branca, de
+asas brancas fechadas, os cabelos presos num aro de estrêlas, o peito
+guardado numa couraça de diamante, e as duas refulgentes mãos apoiadas
+ao punho duma espada que era de lume--e vivia.
+
+
+A aurora despontou, com ardente pompa, comunicando à terra alegre, à
+terra braviamente alegre, à terra ainda sem andrajos, à terra ainda sem
+sepulturas, uma alegria superior, mais grave, religiosa e nupcial. Adão
+acordou: e, batendo as fuscas pálpebras, na surprêsa do seu acordar
+humano, sentiu sôbre a ilharga um pêso que era macio e que era doce.
+Nesse terror que, desde as árvores, não desamparava o seu coração, pulou
+e com tam ruidoso pulo, que, pela selva, os melros, os rouxinóis, as
+toutinegras, todos os passarinhos de festa e de amor, despertaram e
+romperam num canto de congratulações e de esperanças.--E, oh maravilha!
+diante de Adão, e como despegado dêle, estava outro Ser a êle
+semelhante, mas mais esbelto, suavemente coberto dum pêlo mais sedoso,
+que o contemplava com largos olhos lustrosos e líquidos. Uma côma ruiva,
+dum ruivo tostado, rolava, em espessas ondas, até às suas ancas
+arredondadas numa plenitude harmoniosa e fecunda. De entre os braços
+peludinhos, que cruzara, surdiam, abundantes e gordos, os dois peitos da
+côr do medronho, com uma penugem crespa orlando o bico, que se
+enristava, entumecido. E roçando, num roçar lento, num roçar muito doce,
+os joelhos pelados, todo aquele sedoso e tenro Ser se ofertava com uma
+submissão pasmada e lasciva. Era Eva... Eras tu, Mãe Venerável!
+
+
+III
+
+Então começaram, para nossos Pais, os dias abomináveis do Paraíso.
+
+O seu constante e desesperado esfôrço foi sobreviver--no meio duma
+Natureza que, sem cessar e furiosamente, tramava a sua destruição.
+E Adão e Eva passaram êsses tempos, que os poemas Semíticos celebram
+como Inefáveis--sempre a tremer, sempre a ganir, sempre a fugir! A terra
+ainda não era uma obra perfeita: e a Divina Energia, que a andava
+compondo, incessantemente a emendava, numa tam móbil inspiração, que em
+sítio coberto ao alvorecer por uma floresta, à noite se espelhava uma
+lagôa onde a Lua, já doente, vinha estudar a sua palidez. Quantas vezes
+nossos Pais, repousando no pendor de um outeiro inocente, entre o serpol
+e o rosmaninho (Adão com a face deitada sôbre a côxa de Eva, Eva com
+dedos ágeis catando o pêlo de Adão) foram sacudidos pela encosta amena
+como por um dorso irritado, e rolaram, embrulhados, entre o ribombo, e a
+labareda, e a fumarada, e a cinza quente do vulcão que Jeová
+improvisara! Quantas noites escaparam, uivando, dalguma abrigada
+caverna, quando já sôbre ela corria um grande mar inchado que bramava,
+se desenrolava, ficava fervendo entre as rochas, com negras focas mortas
+a boiar. Ou então era o chão, o chão seguro, já social e fertilizado
+para as searas sociáveis, que de repente rugia como uma fera,
+escancarava uma insondável goela, e tragava rebanhos, prados, nascentes,
+benéficos cedros com todas as rôlas que na sua rama arrulhavam.
+
+Depois eram as chuvas, as longas chuvas Edénicas, desabando em
+jorros clamorosos, durante alagados dias, durante torrentosas noites,
+tam desabaladamente que do Paraíso, vasto charco barrento, apenas
+apareciam as pontas do arvoredo afogado, e os cimos dos montes atulhados
+de bichos transidos que bramiam no terror das águas soltas. E nossos
+Pais, refugiados nalguma erguida fraga, gemiam lamentavelmente, com
+regatos a escorrer dos ombros, com ribeiras a escorrer dos pés, como se
+o barro novo de que Jeová os fizera se andasse já desfazendo.
+
+E mais terríficas eram as estiagens. Oh! o incomparável tormento das
+sêcas no Paraíso! Lentos dias tristes, após lentos dias tristes, a
+imensa brasa do sol candente coriscava furiosamente num céu côr de
+cobre, em que o ar baço e grosso crepitava e arfava. Os montes
+estalavam, gretados: e as planícies desapareciam sob uma denegrida
+camada de fios retorcidos, ennovelados, rijos como arames, que eram os
+restos das verdes pastagens. Toda a tisnada folhagem rolava nos ventos
+abrasados, com rugidora restolhada. O leito dos rios chupados tinha a
+rigidez de ferro fundido. O musgo escorregava das rochas, como uma pele
+sêca que se despega descobrindo largos ossos. Cada noite um bosque
+ardia, fogueira estralejante, de lenha ressequida, escaldando mais a
+abóbada do forno inclemente. Todo o Éden andava coberto das
+revoadas de abutres e corvos, porque, com tanto animal morto de fome e
+de sêde, abundava a carne pôdre. No rio, a água que restava mal corria,
+empoçada pela massa fervilhante de cobras, rãs, lontras, tartarugas,
+refugiadas naquele derradeiro veio, lodoso e todo morno. E nossos Pais
+veneráveis, com as magras costelas a arquejar contra o pêlo crestado, a
+língua pendida e mais dura que cortiça, erravam de fonte em fonte, a
+sorver desesperadamente alguma gota que ainda brotasse, gota rara, que
+assobiava, ao caír, sobre as lages esbraseadas...
+
+E assim Adão e Eva, fugindo do Fogo, fugindo da Água, fugindo da Terra,
+fugindo do Ar, encetavam a vida no Jardim de Delícias.
+
+E no meio de tantos perigos, constantes e flagrantes, era necessário
+comer! Ah! Comer--que portentosa emprêsa para nossos Pais veneráveis!
+Sobretudo desde que Adão (e depois Eva, por Adão iniciada) tendo provado
+os deleites fatais da carne, já não encontravam sabor, nem fartura, nem
+decência, nos frutos, nas raízes, e nos bagos do tempo da sua
+Animalidade. Certamente, as boas carnes não faltavam no Paraíso.
+Delicioso seria o salmão primitivo--mas nadava alegremente nas águas
+rápidas. Saborosa seria a galinhola, ou o faisão rutilante, nutridos com
+os grãos que o Criador considerara bons--mas voavam nos céus, em
+triunfal segurança. O coelho, a lebre--que fugas ligeiras no mato
+cheiroso!... E nosso Pai, nesses dias cândidos, não possuia o anzol nem
+a seta. Por isso, sem cessar rondava em tôrno das lagôas, nas ribas do
+mar, onde casualmente encalhava, boiando, algum cetáceo morto. Mas êsses
+achados de abundância eram raros--e o triste casal humano, nas suas
+marchas famintas pela borda das águas, só conquistava, aqui e alêm, na
+rocha ou na areia revôlta, algum feio caranguejo em cuja dura casca os
+seus beiços se esgaçavam. Essas solidões marinhas andavam tambêm
+infestadas por bandos de feras esperando, como Adão, que a vaga rolasse
+os peixes vencidos em borrasca ou batalha. E quantas vezes, nossos Pais,
+já com a garra cravada numa posta de foca ou golfinho, fugiam
+desconsoladamente, sentindo o passo fôfo do horrendo speleo, ou o bafo
+dos ursos brancos, bamboleando pelo branco areal, sob a branca
+indiferença da lua!
+
+De-certo, a sua sciência hereditária de trepar às arvores socorria
+nossos Pais nesta conquista da prêsa. Que, sob as ramarias da caneleira
+de onde êles, assolapadamente, espreitavam, aparecesse algum cabrito
+desgarrado, ou uma tartaruga môça e bisonha se arrastasse para a erva
+miuda--e eis o repasto seguro! Num relance, o cabrito ficava
+atassalhado, todo o seu sangue chupado em sorvos convulsos: e Eva, nossa
+Mãe forte, guinchando sombriamente, arrancava, uma a uma, de entre a
+casca, as patas da tartaruga... Mas quantas noites, depois de jejuns
+angustiosos, se achavam os Eleitos da Terra forçados a afugentar a
+hiena, com rijos brados, através das clareiras, para lhe roubar um osso
+fetidamente babujado, que era já o sobejo de um leão farto! E dias
+piores sucediam, em que a fome reduzia nossos Pais a retrogradar à
+desgostosa frugalidade do tempo da Árvore, às ervas, aos rebentos, às
+raízes amargas--conhecendo assim, entre a abundância do Paraíso, a
+primeira forma da Miséria!
+
+E, através dêstes trabalhos, não os desamparava o terror das feras!
+Porque, se Adão e Eva comiam os bichos fracos e fáceis, eram tambêm uma
+prêsa apetecida por todos os brutos superiores. Comer Eva, tam redonda e
+carnuda, foi de-certo o sonho de muito tigre nos juncais do Paraíso.
+Quanto urso, mesmo ocupado a roubar favos de mel num escavado tronco de
+roble, não se deteve, e se balançou, e lambeu o focinho numa gula mais
+fina, ao avistar, através da ramaria, num rebrilho errante de sol, o
+sombrio corpanzão de nosso Pai venerável! E nem só o perigo vinha das
+hordas esfaimadas dos carnívoros, mas ainda dos lentos e fartos
+herbívoros, o auroque, o urus, o cervo elefas, que alegremente
+escorneariam e espesinhariam nossos Pais, por estupidez, dissemelhança
+de raça e cheiro, emprêgo da vida ociosa. E acresciam ainda os que
+matavam para não serem mortos--porque Medo, Fome e Furor, foram as leis
+da vida no Paraíso.
+
+Certamente nossos Pais eram tambêm ferozes, de tremenda fôrça, e
+perfeitos na arte salvadora de trepar aos cimos frondosos. Mas o
+leopardo pulava de ramo em ramo, sem rumor, com uma destreza mais felina
+e segura! A jibóia furava com a cabeça até aos galhos extremos do mais
+levantado cedro para colher os macacos--e bem poderia abocar Adão, com
+aquela obtusa incapacidade que sempre as jibóias tiveram de distinguir,
+sob a similitude das formas, a diversidade dos méritos. ¿E que valiam as
+garras de Adão, mesmo aliadas às garras de Eva, contra êsses pavorosos
+leões do Jardim de Delícias que a Zoologia, ainda hoje arrepiada, chama
+o _Leo Anticus_? ¿Ou contra a hiena-spelea tam ousada, que, nos
+primeiros dias do Génesis, os Anjos, quando desciam ao Paraíso,
+caminhavam sempre com as asas arregaçadas, para que ela, saltando de
+entre dos bambus, lhes não arrancasse as penas refulgentes? ¿Ou contra
+os cães, os horrendos cães do Paraíso, que atacando em cerradas e
+ululantes hostes, foram, nesses começos do Homem, os piores inimigos do
+Homem?
+
+E entre toda esta bicharia adversa, Adão não contava um aliado. Os seus
+próprios parentes, os Antropóides, invejosos e farçantes, o apedrejavam
+com enormes côcos. Só um animal, e formidável, conservava pelo Homem uma
+majestosa e pachorrenta simpatia. Era o Mastodonte. Mas a ennevoada
+Inteligência de nosso Pai ainda, nesses dias Edénicos, não compreendia a
+bondade, a justiça, o serviçal coração do paquiderme admirável. Por
+isso, certo da sua fraqueza e do seu isolamento, êle viveu, durante
+êsses trágicos anos, num ansiado terror. Tam ansiado e longo, que o seu
+arrepio, como uma longa ondulação, se perpètuou por toda a sua
+descendência--e é o vélho medo de Adão que nos torna inquietos, quando
+atravessamos a mata mais segura na solidão crepuscular.
+
+E depois consideremos que ainda restavam pelo Paraíso, entre bichos de
+formas racionais, polidas, já preparadas para a prosa nobre de Mr. de
+Buffon, alguns dos grotescos monstros que desonraram a Criação antes da
+madrugada purificadora de 25 de Outubro. De-certo Jeová poupou a Adão o
+degradante horror de viver no Paraíso em companhia dessa escandalosa
+avantesma a que os Paleontologistas, assombrados, deram o nome de
+_Iguanodão_! Na véspera do advento do Homem, Jeová, muito caridosamente,
+afogou todos os Iguanodões nos lôdos de um pântano, a um canto escondido
+do Paraíso, onde hoje se estende a Flandres. Mas Adão e Eva ainda
+conheceram os Pterodactilos. Oh! estes Pterodactilos!... Corpos de
+Jacaré, escamosos e penugentos; duas lúgubres, negras, carnudas asas, de
+morcego: um bico disparatado, mais grosso que o corpo, tristonhamente
+caído, erriçado de centenas de dentes, finos como os duma serra. E não
+voava! Descia, de asas moles, e mudas, e nelas abafava a prêsa como num
+pano viscoso e gelado, para a retalhar toda com os estalados golpes das
+mandíbulas fétidas. E êste funambulesco avejão enturvava o céu do
+Paraíso com a mesma abundância com que os melros ou as andorinhas cruzam
+os santos ares de Portugal. Os dias de nossos Pais veneráveis foram por
+êles torturados;--e nunca o seu pobre coração tremia tanto como quando,
+de alêm dos montes, se vinha despenhado, com sinistro estridor de asas e
+bicos, a revoada dos Pterodactilos.
+
+¿Como sobreviveram nossos Pais, neste Jardim de Delícias? De-certo muito
+faiscou e trabalhou a espada do Anjo que os guardava!
+
+
+Pois bem, meus amigos! A todos êstes furiosos seres deve o homem a sua
+carreira triunfal. Sem os Sáurios, e os Pterodactilos, e a Hiena Spelea,
+e o arrepiado terror que espalhavam, e a necessidade de ter, contra o
+seu ataque, sempre bestial, uma defesa sempre racional--a Terra
+permaneceria um temeroso Paraíso, onde erraríamos todos, desgrenhados e
+nus, chupando pela borda dos mares as banhas cruas de monstros
+naufragados. Ao encolhido medo de Adão se deve a supremacia da sua
+descendência. Foi o bicho perseguidor que o forçou a subir aos cimos da
+Humanidade. E bem sabedores das Origens se mostraram os poetas
+Mesopotâmicos do Génesis, nesses versículos subtis em que um animal, e o
+mais perigoso, a Serpente, leva Adão, por amor de Eva, a colher o fruto
+do Saber! Se não rugisse outrora o Leão das cavernas, não trabalhava
+hoje o Homem das cidades--pois que a Civilização nasceu do desesperado
+esfôrço defensivo contra o Inanimado e o Inconsciente. A Sociedade é
+realmente a obra da féra. Que a Hiena e o Tigre, no Paraíso, começassem
+por acariciar lânguidamente o ombro peludo de Adão com pata amiga--Adão
+ficaria irmão do Tigre e da Hiena, partilhando as suas tocas, as suas
+prêsas, os seus ócios, os seus gostos bravios. E a Energia
+Inteligente, que o descera da Árvore, em breve se apagaria dentro da sua
+bruteza inerte, como se apaga a faisca, mesmo entre galhos secos, se um
+frio sôpro, vindo de um buraco escuro, não a estimula a viver, para
+vencer a friagem e vencer a escuridão.
+
+Mas uma tarde (como ensinaria o exacto Usserius) saíndo Adão e Eva da
+espessura dum bosque, um urso enorme, o Pai dos Ursos, apareceu diante
+dêles, ergueu as negras patas, escancarou a goela sangrenta... Então,
+assim colhido, sem refúgio, na apertada ânsia de defender a sua fêmea, o
+Pai dos Homens arremessou contra o Pai dos Ursos o cajado a que se
+arrimava, um forte galho de téca, arrancado na mata, que findava em
+lasca aguda... E o pau atravessou o coração da féra.
+
+
+Ah! Desde essa tarde bemdita houve verdadeiramente, sôbre a terra, um
+Homem.
+
+Era já um Homem, e superior, quando lançou um passo espantado, e
+arrancou o pau do seio do monstro estendido, e lhe mirou a ponta
+gotejante de sangue--com a testa toda franzida, no afã de compreender.
+Os seus olhos resplandeceram, num deslumbrado triunfo. Adão
+compreendera...
+
+Nem cuidou mais da boa carne do urso! Remergulhou na floresta, e toda a
+tarde, emquanto a luz se arrastou pelas frondes, arrancou ramos aos
+troncos, cautelosamente, destramente, para que as pontas quebrassem bem
+lascadas e agudas. Ah! que soberbo estalar de hastes, pelo fundo bosque,
+através da frescura e da sombra, para a obra da primeira Redenção! Selva
+amável, que foste a primeira oficina, quem soubera onde jazes, na tua
+secular sepultura, tornada negro carvão!... Quando da mata largaram,
+fumegando de suor, para recolher à toca distante, nossos Pais veneráveis
+vergavam sob o pêso glorioso de dois grossos mólhos de armas.
+
+E então não cessam mais os feitos do Homem. Ainda os corvos e os chacais
+não tinham esburgado a carcassa do Pai dos Ursos--já nosso Pai racha uma
+ponta do seu cajado vitorioso; entala na fenda um dêsses seixos afiados
+e bicudos, em que por vezes se feriam as suas patas, descendo à beira
+dos rios; e segura o fino estilhaço na racha com os lios, muito
+arrochados, de uma fibra de enrediça sêca. E eis a lança! Como essas
+pedras não abundam, Adão e Eva ensangùentam as garras, tentando fender
+os pedregões redondos de sílex em lascas curtas, que venham perfeitas,
+com ponta e com gume, para rasgar, cravar. A pedra resiste, pouco
+desejosa de ajudar o Homem que, nos dias genesíacos do grande
+Outubro, ela tentara suplantar (como contam as prodigiosas Crónicas de
+Backun).--Mas de novo lampeja a face de Adão, numa idea que o sulca,
+como faisca emanada da Eterna Sabedoria. Apanha um pedregulho, bate a
+rocha, arranca a lasca... E eis o martelo!
+
+Depois, noutra tarde bemdita, costeando uma escura e bravia colina,
+descobre, com aqueles seus olhos que já rebuscam e comparam, um calhau
+negro, áspero, facetado, sombriamente luzidio. Pasma do seu pêso--e logo
+pressente nele um maço superior, de decisiva rijeza. Com que alvoroço o
+leva agarrado contra o peito, para martelar o sílex rebelde! Ao lado de
+Eva, que o espera à beira do rio, logo malha rijamente sôbre a
+pederneira... E oh espanto! uma fagulha salta, refulge, morre! Ambos
+recúam, se entreolham, num terror quási sagrado! É um lume, um vivo
+lume, que êle assim arrancou com as suas mãos da rocha bruta--semelhante
+ao lume vivo que dardeja de entre as nuvens. De novo bate, a tremer. A
+scentelha brilha, a scentelha passa, e Adão remira e fareja o escuro
+calhau. Mas não compreende. E pensativos, nossos Pais veneráveis sobem,
+com os cabelos ao vento, para a sua caverna costumada, que é no pendor
+dum cêrro, junto duma fonte borbulhando entre fétos.
+
+E aí, no seu retiro, Adão, com uma curiosidade onde lateja uma
+esperança, novamente entala o sílex, grosso como uma abóbora, entre os
+calosos pés, e recomeça a martelar, sob o bafo de Eva, que se debruça e
+arfa. Sempre a faúlha salta, rebrilha na sombra, tam refulgente como
+aqueles lumes que agora palpitam, olham, de alêm, das alturas. Mas êsses
+lumes permanecem, através da negrura do céu e da noite, vivos, a
+espreitar, na sua radiância. E aquelas estrelinhas da pedra ainda não
+tem vivido e já teem morrido... ¿Será o vento que as leva, êle que tudo
+leva, vozes, nuvens e fôlhas? Nosso Pai venerável, fugindo do vento
+malévolo que ronda no monte, recúa até ao fundo mais abrigado da
+caverna, onde se afôfam as camadas de feno muito sêco, que são o seu
+leito. E de novo fere a pedra, despedindo scentelha apoz scentelha,
+emquanto Eva, agachada, abriga com as mãos aqueles refulgentes e
+fugitivos seres. E eis que dos fenos um fumosinho se eleva, e se
+engrossa, e se enrola, e através dêle, vermelha, uma chama ressalta... É
+o Fogo! Nossos Pais fogem espavoridamente da caverna, obscurecida por
+uma fumaraça cheirosa, onde flamejam alegres, rutilantes línguas, que
+lambem a rocha. Acocorados à porta da toca, ambos arquejam, no pasmo e
+terror da sua obra, com os olhos a chorar do fumo acre. E, mesmo
+através do susto e do espanto, sentem uma doçura muito nova que os
+penetra e que vem daquela luz e vem daquele calor... Mas já o fumo se
+escapou da caverna, o vento roubador o levou. As chamas rastejam,
+incertas, azuladas: em breve só resta um borralho que descóra, se
+acinzenta, se abate em cisco: e a derradeira faúlha corre, tremeluz,
+passa. O fogo morreu! Então, na alma nascente de Adão, entra a dor duma
+ruína. Desesperadamente puxa os grossos beiços e geme. ¿Saberá êle
+jàmais recomeçar o feito maravilhoso?... E é nossa Mãe, já consoladora,
+que o consola. Com as suas rudes mãos comovidas, porque realiza sôbre a
+terra a sua primeira obra, junta outro montão de fenos sêcos, pousa
+entre êles o sílex redondo, toma o escuro calhau, bate rijamente, num
+faúlhar de estrelinhas. E de novo o fumo rola, e de novo a chama
+refulge. Oh triunfo! eis a fogueira, a fogueira inicial do Paraíso, e
+não casualmente rebentada, mas acendida por uma clara Vontade, que agora
+para todo sempre, cada noite e cada manhã, poderá repetir com segurança
+a façanha suprema!
+
+À nossa Mãe Venerável pertence então, na caverna, a doce e augusta
+tarefa do Lume. Ela o cria, ela o nutre, ela o defende, ela o perpetúa.
+E, como mãe deslumbrada, descobre cada dia, nesse resplandecente filho
+dos seus cuidados, uma virtude ou graça nova. Agora já Adão sabe
+que o _seu_ fogo espanta todas as féras e que no Paraíso existe emfim um
+buraco seguro, que é o _seu_ buraco! Não só seguro, mas amável--porque o
+lume o alumia, o aquece, o alegra, o purifica. E quando Adão, com um
+mólho de lanças, desce à planície ou se embrenha na selva a caçar a
+prêsa, já mata com redobrada ânsia, para recolher depressa àquela boa
+segurança e consolação do lume. Ah! que docemente êle o penetra, e lhe
+séca no pêlo a friagem dos matos, e doura como um sol a penedia da sua
+toca! E depois ainda lhe prende os olhos, e o enleva, e o guia num
+scismar fecundo, em que inspiradamente lhe aparecem formas de flexas,
+malhos com cabos, ossos recurvos que fisgam os peixes, lascas dentadas
+que serram o pau!... À sua fêmea forte deve Adão esta hora criadora!
+
+E quanto lhe não deve a Humanidade! Recordemos, meus irmãos, que nossa
+Mãe, com aquela adivinhação superior que mais tarde a tornou Profetiza e
+Sibila, não hesitou, quando a Serpente lhe disse, coleando entre as
+Rosas:--«Come do fruto do Saber, que os teus olhos se abrirão, e serás
+como os Deuses sabedores!» Adão teria comido a serpente, bocado mais
+suculento. Nem acreditaria em frutos que comunicam a Divindade e
+Sapiência, êle que tanta fruta comera nas árvores, e se conservava
+insciente e bestial como o urso e o auroque. Eva, porêm, com a
+credulidade sublime que sempre no mundo opéra as transformações
+sublimes, comeu logo a maçã, e a casca, e a pevide. E persuadindo Adão a
+que partilhasse do transcendente pômo, muito dôce e enredosamente o
+convenceu do proveito, da felicidade, da glória e da fôrça que dá o
+Saber! Esta alegoria dos poetas do Génesis com esplêndida subtileza nos
+revela a imensa obra de Eva nos anos dolorosos do Paraíso. Por ela Deus
+continua a Criação superior, a do Reino espiritual, a que desenrola
+sôbre a terra o lar, a família, a tríbu, a cidade. É Eva que cimenta e
+bate as grandes pedras angulares na construção da Humanidade.
+
+Senão, vêde! Quando o bravio caçador recolhe à caverna, derreado sob o
+pêso da caça morta, cheirando todo a selva, e a sangue, e a féra, é êle,
+de-certo, que esfola a rês com a faca de pedra, e retalha as postas, e
+esburga os ossos (que sôfregamente guarda sob a côxa e reserva para a
+sua ração, porque contêm a moela preciosa). Mas Eva junta essa pele,
+cuidadosamente, às outras peles armazenadas; esconde os ossos partidos,
+porque as suas lascas agudas pregam e furam; e numa cavidade da rocha
+fresca guarda a carne que sobejou. Ora em breve uma dessas fartas
+postas esquece, caída junto à fogueira perpétua. O lume alastra,
+lentamente lambe a carne pelo lado mais gordo, até que um cheiro,
+desconhecido e saboroso, afaga e alarga as rudes narinas de nossa Mãe
+venerável. ¿De onde vem êle, o gostoso aroma? Do fogo, onde a posta de
+veado ou de lebre grelha e rechina. Então Eva, inspirada e grave,
+empurra a carne para a braza viva; e espera, ajoelhada, até que a espeta
+com uma ponta de osso, e a retira da chama ruidosa, e a trinca, em
+sombrio silêncio. Os seus olhos rebrilhantes anunciam outra conquista.
+E, com a pressa amorosa com que oferece a Maçã a Adão, lhe apresenta
+agora aquela carne tam nova, que êle cheira desconfiado, e depois devora
+a rijas dentadas, roncando de gôzo! E eis que, por êste pedaço de gamo
+assado, nossos Pais sobem vitoriosamente outro escalão da Humanidade!
+
+A água ainda a bebem na nascente vizinha, entre os fétos, com a face
+mergulhada no veio claro. Depois de beber, Adão, arrimado à sua grossa
+lança, olha ao longe o rolar do rio lento, os montes coroados de neve ou
+de lume, o sol sôbre o mar--pensando, com arrastado pensar, se nessas
+terras que se estendem, se escondem para alêm, a prêsa será mais certa e
+as selvas menos cerradas. Mas Eva recolhe logo à caverna, para se
+entregar, sem descanso, a uma tarefa que a encanta. Encruzada no
+chão, toda atenta sob a côma crespa, nossa Mãe fura, com um ossinho
+agudo, buracos finos na orla duma pele, e depois na orla doutra pele. E,
+tam embebida que nem sente Adão entrar e remexer nas suas armas, une as
+duas peles sobrepostas, passando através dos buracos uma delgada fibra
+das algas que secam diante do lume. Adão considera com desdêm êsse
+trabalho miudo que não acrescenta fôrça à sua fôrça. Não pressente
+ainda, o bruto Pai, que aquelas peles cosidas serão o resguardo do seu
+corpo, a armação da sua tenda, o saco do seu farnel, o ôdre da sua água,
+e o tambor em que bata quando fôr um Guerreiro, e a página em que
+escreva quando fôr um Profeta!
+
+Outros gostos e modos de Eva o irritam tambêm: e por vezes, com uma
+desumanidade que é já toda humana, nosso Pai arrebata pelos cabelos a
+sua fêmea, e a derruba, e a pisa sob a pata calosa. Assim um furor o
+tomou uma tarde, avistando, no regaço de Eva, sentada diante da
+fogueira, um cachorrinho mole e trôpego, que ela, com carinho e
+paciência, ensinava a sugar numa febra de carne fresca. À beira da fonte
+descobrira o cachorrinho perdido e ganindo; e muito mansamente o
+recolhera, o aquecera, o alimentara, com uma sensação que lhe era doce,
+e lhe abria na espessa bôca, ainda mal sabedora de sorrir, um
+sorriso de maternidade. Nosso Pai venerável, com as pupilas a reluzir,
+atira a garra, quer devorar o cachorro que entrara na sua toca. Mas Eva
+defende o animal pequenino, que treme e que a lambe. O primeiro
+sentimento de Caridade, informe como a primeira flor que brotou dos
+limos, aparece na terra! E, com as curtas e roucas vozes que eram o
+falar de nossos Pais, Eva tenta talvez afiançar que será útil, na
+caverna do homem, a amizade dum bicho... Adão puxa o beiço trombudo.
+Depois, em silêncio, mansamente, corre os dedos pelo lombo macio do
+cachorrinho encolhido. E êste é, na História, um momento espantoso! Eis
+que o Homem domestíca o Animal! Dêsse cachorro agasalhado no Paraíso
+nascerá o cão amigo, por êle a aliança com o cavalo, depois o domínio
+sôbre a ovelha. O rebanho crescerá; o pastor o levará; o cão fiel o
+guardará. Eva, da beira do seu lume, prepara os povos errantes que
+pastoreiam os gados.
+
+Depois, naquelas longas manhãs em que Adão bravio caçava, Eva, errando
+de vale a monte, apanhava conchas, ovos de aves, curiosas raízes,
+sementes, com o gôsto de acumular, de abastecer a sua toca de riquezas
+novas, que escondia nas fendas da rocha. Ora um punhado dessas sementes
+caíra, através dos seus dedos, sôbre terra húmida e negra, quando
+recolhia pela beira da fonte. Uma ponta verde brotou; depois uma haste
+cresceu; depois uma espiga amadurou. Os seus grãos são gostosos. Eva,
+pensativa, enterra outras sementes, na esperança de criar em tôrno do
+seu lar, num bocado do seu torrão, altas ervas que espiguem, e lhe
+tragam o grão adocicado e tenro... E eis a seara! E assim nossa Mãe
+torna possíveis, do fundo do Paraíso, os povos estáveis que lavram a terra.
+
+
+No entanto, bem podemos supôr que Abel nasceu--e, uns após outros, os
+dias deslizam no Paraíso, mais seguros e fáceis. Já os vulcões
+lentamente se vão apagando. As rochas não se despenham já com fragor
+sôbre a abundância inocente dos vales. Tam amansadas andam as águas, que
+na sua transparência se miram, com demora e cuidado, as nuvens e os
+ramos dos olmos. Raramente um Pterodactilo macúla, com o escândalo do
+seu bico e das suas asas, os céus, onde o sol alterna com a bruma, e os
+estios se franjam de chuvas ligeiras. E nesta tranqùilidade que se
+estabelece há como uma submissão consciente. O Mundo pressente e aceita
+a supremacia do Homem. A floresta já não arde com a leviandade do
+restolho, sabendo que em breve o Homem lhe pedirá a estaca, a trave, o
+rêmo, o mastro. O vento, nas gargantas da serra, brandamente se
+disciplina, e ensaia os sopros regulares com que trabalhará a mó do
+moinho. O mar afogou os seus monstros, e estira o dorso preparado para o
+cortar da quilha. A terra torna estável a sua gleba, e molemente se
+humedece, para quando chegar o arado e a semente. E todos os metais se
+alinham em filão, e alegremente se dispõem para o fogo que lhes dará
+forma e beleza.
+
+E pela tarde Adão recolhe contente, com caça abundante. A lareira
+flameja: e alumia a face de nosso Pai, que o esfôrço da Vida embelezou,
+onde já os beiços se adelgaçaram, e a testa se encheu com o lento
+pensar, e os olhos sossegaram num brilho mais certo. O anho, espetado
+num pau, assa e pinga nas brasas. No chão pousam cascas de côco, cheias
+de clara água da fonte. Uma pele de urso tornou macio o leito de fetos.
+Outra pele, pendurada, abriga a bôca da caverna. A um canto, que é a
+oficina, estão os montões de sílex e o malho: a outro canto, que é o
+arsenal, estão as lanças e as clavas. Eva torce os fios duma lã de
+cabra. Ao bom calor, sôbre folhelho, dorme Abel, muito gordo, todo nú,
+com um pêlo mais ralo na carninha mais branca. Partilhando do folhelho
+e do mesmo calor, vela o cão, já crescido, com o ôlho amorável, o
+focinho entre as patas. E Adão (oh, a estranha tarefa!) muito absorto,
+tenta gravar, com uma ponta de pedra, sôbre um osso largo, os galhos, o
+dorso, as pernas estiradas dum veado a correr!... A lenha estala. Todas
+as estrêlas do céu estão presentes. Deus, pensativo, contempla o crescer
+da Humanidade.
+
+
+E agora que acendi, na noite estrelada do Paraíso, com galhos bem sêcos
+da Árvore da Sciência, êste verídico lar, consenti que vos deixe, oh
+Pais veneráveis!
+
+Já não receio que a Terra instável vos esmague; ou que as feras
+superiores vos devorem; ou que, apagada, à maneira duma lâmpada
+imperfeita, a Energia que vos trouxe da Floresta, vós retrogradeis à
+vossa Árvore. Sois já irremediavelmente humanos--e cada manhã
+progredireis, com tam poderoso arremêsso, para a perfeição do Corpo e
+esplendor da Razão, que em breve, dentro dumas centenas de milhares de
+curtos anos, Eva será a formosa Helena e Adão será o imenso Aristóteles!
+
+Mas não sei se vos felicite, oh Pais veneráveis! Outros irmãos vossos
+ficaram na espessura das árvores--e a sua vida é doce.
+
+Todas as manhãs o Orangotango acorda entre os seus lençóis de fôlhas de
+pendénia, sôbre o fôfo colchão de musgos que êle, com cuidado, acamou
+por cima dum catre de ramos cheirosos. Lânguidamente, sem cuidados,
+preguiça na moleza dos musgos, escutando as límpidas árias dos pássaros,
+gozando os fios do sol que se emmaranham por entre a renda das fôlhas, e
+lambendo no pêlo dos seus braços o orvalho açucarado. Depois de bem se
+coçar e bem se esfregar, sobe com pachorra à árvore dilecta, que elegeu
+em todo o bosque pela sua frescura, pela elasticidade embaladora das
+suas ramagens. Daí, tendo respirado as brisas carregadas de aromas,
+salta, com lestos pulos, através das sempre fáceis, sempre fartas
+ucharias do bosque, onde almoça a banana, a manga, a goiaba, todos os
+finos frutos que o tornam tam são e alheio a males como as árvores onde
+os colheu. Percorre então, sociavelmente, as ruas e as vielas palreiras
+da espessura; cabriola com destros amigos, em jogos amáveis de ligeireza
+e fôrça; galanteia as Orangas gentis que o catam, e penduradas com êle,
+duma liana florida, se balançam chalrando; trota, entre alegres ranchos,
+pela borda das águas claras; ou, sentado na ponta dum ramo, escuta algum
+vélho e facundo chimpanzé contando divertidas histórias de caça, de
+viagens, de amores e de troças às feras pesadas, que circulam nas
+relvas e não podem trepar. Cedo recolhe à sua árvore, e, estendido na
+folhosa rêde, brandamente se abandona à delícia de sonhar, num sonho
+acordado, semelhante às nossas Metafísicas e às nossas Epopeias, mas que
+rolando todo sôbre sensações reais, é, ao contrário dos nossos incertos
+sonhos, um sonho todo feito de certeza. Por fim a Floresta lentamente se
+cala, a sombra escorrega entre os troncos:--e o Orango ditoso desce ao
+seu catre de pendénias e musgos, e adormece na imensa paz de Deus--de
+Deus que êle nunca se cansou em comentar, nem sequer em negar, e que
+todavia sôbre êle derrama, com imparcial carinho, os bens inteiros da
+sua Misericórdia.
+
+Assim ocupou o seu dia o Orango, nas Árvores. ¿E no entanto, como
+gastou, nas Cidades, o seu dia, o Homem, primo do Orango? Sofrendo--por
+ter os dons superiores que faltam ao Orango! Sofrendo--por arrastar
+consigo, irresgatavelmente, êsse mal incurável que é a sua Alma!
+Sofrendo--porque nosso Pai Adão, no terrível dia 28 de Outubro, depois
+de espreitar e farejar o Paraíso, não ousou declarar reverentemente ao
+Senhor:--«Obrigado, oh meu doce Criador; dá o governo da Terra a quem
+melhor escolheres, ao Elefante ou ao Cangurú, que eu por mim, bem
+mais avisado, volto já para a minha árvore!...»
+
+Mas, emfim, desde que nosso Pai venerável não teve a previdência ou a
+abnegação de declinar a grande supremacia--continuemos a reinar sôbre a
+Criação e a ser sublimes... Sobretudo continuemos a usar,
+insaciavelmente, do dom melhor que Deus nos concedeu entre todos os
+dons, o mais puro, o único genuìnamente grande, o dom de o amar--pois
+que não nos concedeu tambêm o dom de o compreender. E não esqueçamos que
+Êle já nos ensinou, através de vozes levantadas em Galilea, e sob as
+mangueiras de Veluvana, e nos vales severos de Yen-Chou, que a melhor
+maneira de o amar é que uns aos outros nos amemos, e que amemos toda a
+sua obra, mesmo o verme, e a rocha dura, e a raiz venenosa, e até êsses
+vastos seres que não parecem necessitar o nosso amor, êsses Sóis, êsses
+Mundos, essas esparsas Nebuloses, que, inicialmente fechadas, como nós,
+na mão de Deus, e feitas da nossa substância, nem de-certo nos amam--nem
+talvez nos conhecem.
+
+
+
+
+A AIA
+
+
+Era uma vez um rei, môço e valente, senhor de um reino abundante em
+cidades e searas, que partira a batalhar por terras distantes, deixando
+solitária e triste a sua raínha e um filhinho, que ainda vivia no seu
+berço, dentro das suas faixas.
+
+A lua cheia que o vira marchar, levado no seu sonho de conquista e de
+fama, começava a minguar--quando um dos seus cavaleiros apareceu, com as
+armas rôtas, negro do sangue sêco e do pó dos caminhos, trazendo a
+amarga nova de uma batalha perdida e da morte do rei, traspassado por
+sete lanças entre a flor da sua nobreza, à beira de um grande rio.
+
+A raínha chorou magníficamente o rei. Chorou ainda desoladamente o
+espôso, que era formoso e alegre. Mas, sobretudo, chorou ansiosamente o
+pai que assim deixava o filhinho desamparado, no meio de tantos inimigos
+da sua frágil vida e do reino que seria seu, sem um braço que o
+defendesse, forte pela fôrça e forte pelo amor.
+
+Dêsses inimigos o mais temeroso era seu tio, irmão bastardo do rei,
+homem depravado e bravio, consumido de cobiças grosseiras, desejando só
+a rialeza por causa dos seus tesoiros, e que havia anos vivia num
+castelo sôbre os montes, com uma horda de rebeldes, à maneira de um lôbo
+que, de atalaia no seu fojo, espera a prêsa. Ai! a prêsa agora era
+aquela criancinha, rei de mama, senhor de tantas províncias, e que
+dormia no seu berço com seu guiso de oiro fechado na mão!
+
+Ao lado dêle, outro menino dormia noutro berço. Mas êste era um
+escravosinho, filho da bela e robusta escrava que amamentava o príncipe.
+Ambos tinham nascido na mesma noite de verão. O mesmo seio os criava.
+Quando a raínha, antes de adormecer, vinha beijar o principesinho, que
+tinha o cabelo louro e fino, beijava tambêm por amor dêle o
+escravosinho, que tinha o cabelo negro e crespo. Os olhos de ambos
+reluziam como pedras preciosas. Sómente, o berço de um era magnífico e
+de marfim entre brocados--e o berço do outro pobre e de vêrga. A
+leal escrava, porêm, a ambos cercava de carinho igual, porque se um era
+o seu filho--o outro seria o seu rei.
+
+Nascida naquela casa rial, ela tinha a paixão, a religião dos seus
+senhores. Nenhum pranto correra mais sentidamente do que o seu pelo rei
+morto à beira do grande rio. Pertencia, porêm, a uma raça que acredita
+que a vida da terra se continua no céu. O rei seu amo, de-certo, já
+estaria agora reinando num outro reino, para alêm das nuvens, abundante
+tambêm em searas e cidades. O seu cavalo de batalha, as suas armas, os
+seus pagens tinham subido com êle às alturas. Os seus vassalos, que
+fôssem morrendo, prontamente iriam, nesse reino celeste, retomar em
+tôrno dele a sua vassalagem. E ela um dia, por seu turno, remontaria num
+raio de luz a habitar o palácio do seu senhor, e a fiar de novo o linho
+das suas túnicas, e a acender de novo a caçoleta dos seus perfumes;
+seria no céu como fôra na terra, e feliz na sua servidão.
+
+Todavia, tambêm ela tremia pelo seu príncipesinho! Quantas vezes, com
+êle pendurado do peito, pensava na sua fragilidade, na sua longa
+infância, nos anos lentos que correriam antes que êle fôsse ao menos do
+tamanho de uma espada, e naquele tio cruel, de face mais escura que
+a noite e coração mais escuro que a face, faminto do trono, e
+espreitando de cima do seu rochedo entre os alfanges da sua horda! Pobre
+príncipesinho da sua alma! Com uma ternura maior o apertava então nos
+braços. Mas se o seu filho chalrava ao lado--era para êle que os seus
+braços corriam com um ardor mais feliz. Êsse, na sua indigência, nada
+tinha a recear da vida. Desgraças, assaltos da sorte má nunca o poderiam
+deixar mais despido das glórias e bens do mundo do que já estava ali no
+seu berço, sob o pedaço de linho branco que resguardava a sua nudez. A
+existência, na verdade, era para êle mais preciosa e digna de ser
+conservada que a do seu príncipe, porque nenhum dos duros cuidados com
+que ela ennegrece a alma dos senhores roçaria sequer a sua alma livre e
+simples de escravo. E, como se o amasse mais por aquela humildade
+ditosa, cobria o seu corpinho gordo de beijos pesados e devoradores--dos
+beijos que ela fazia ligeiros sôbre as mãos do seu príncipe.
+
+No entanto um grande temor enchia o palácio, onde agora reinava uma
+mulher entre mulheres. O bastardo, o homem de rapina, que errava no cimo
+das serras, descera à planície com a sua horda, e já através de casais e
+aldeias felizes ia deixando um sulco de matança e ruínas. As portas da
+cidade tinham sido seguras com cadeias mais fortes. Nas atalaias
+ardiam lumes mais altos. Mas à defesa faltava disciplina viril. Uma roca
+não governa como uma espada. Toda a nobreza fiel perecera na grande
+batalha. E a raínha desventurosa apenas sabia correr a cada instante ao
+berço do seu filhinho e chorar sôbre êle a sua fraqueza de viuva. Só a
+ama leal parecia segura--como se os braços em que estreitava o seu
+príncipe fôssem muralhas de uma cidadela que nenhuma audácia pode transpôr.
+
+Ora uma noite, noite de silêncio e de escuridão, indo ela a adormecer,
+já despida, no seu catre, entre os seus dois meninos, adivinhou, mais
+que sentiu, um curto rumor de ferro e de briga, longe, à entrada dos
+vergeis riais. Embrulhada à pressa num pano, atirando os cabelos para
+trás, escutou ansiosamente. Na terra areada, entre os jasmineiros,
+corriam passos pesados e rudes. Depois houve um gemido, um corpo
+tombando molemente, sôbre lages, como um fardo. Descerrou violentamente
+a cortina. E alêm, ao fundo da galeria, avistou homens, um clarão de
+lanternas, brilhos de armas... Num relance tudo compreendeu--o palácio
+surpreendido, o bastardo cruel vindo roubar, matar o seu príncipe!
+Então, rápidamente, sem uma vacilação, uma dúvida, arrebatou o príncipe
+do seu berço de marfim, atirou-o para o pobre berço de vêrga--e tirando
+o seu filho do berço servil, entre beijos desesperados, deitou-o no
+berço rial que cobriu com um brocado.
+
+Bruscamente um homem enorme, de face flamejante, com um manto negro
+sôbre a cota de malha, surgiu à porta da câmara, entre outros, que
+erguiam lanternas. Olhou--correu ao berço de marfim onde os brocados
+luziam, arrancou a criança, como se arranca uma bôlsa de oiro, e
+abafando os seus gritos no manto, abalou furiosamente.
+
+O príncipe dormia no seu novo berço. A ama ficara imóvel no silêncio e
+na treva.
+
+Mas brados de alarme atroaram de repente o palácio. Pelas janelas
+perpassou o longo flamejar das tochas. Os pátios ressoavam com o bater
+das armas. E desgrenhada, quási nua, a raínha invadiu a câmara, entre as
+aias, gritando pelo seu filho! Ao avistar o berço de marfim, com as
+roupas desmanchadas, vazio, caiu sôbre as lages, num choro, despedaçada.
+Então calada, muito lenta, muito pálida, a ama descobriu o pobre berço
+de vêrga... O príncipe lá estava quieto, adormecido, num sonho que o
+fazia sorrir, lhe iluminava toda a face entre os seus cabelos de oiro. A
+mãe caíu sôbre o berço, com um suspiro, como cai um corpo morto.
+
+E nesse instante um novo clamor abalou a galeria de mármore. Era o
+capitão das guardas, a sua gente fiel. Nos seus clamores havia,
+porêm, mais tristeza que triunfo. O bastardo morrera! Colhido, ao fugir,
+entre o palácio e a cidadela, esmagado pela forte legião de archeiros,
+sucumbira, êle e vinte da sua horda. O seu corpo lá ficara, com flechas
+no flanco, numa pôça de sangue. Mas, ai! dor sem nome! O corposinho
+tenro do príncipe lá ficara tambêm, envolto num manto, já frio, rôxo
+ainda das mãos ferozes que o tinham esganado! Assim tumultuosamente
+lançavam a nova cruel os homens de armas--quando a raínha, deslumbrada,
+com lágrimas entre risos, ergueu nos braços, para lho mostrar, o
+príncipe que despertara.
+
+Foi um espanto, uma aclamação. ¿Quem o salvara? Quem?... Lá estava junto
+do berço de marfim vazio, muda e hirta, aquela que o salvara! Serva
+sublimemente leal! Fôra ela que, para conservar a vida ao seu príncipe,
+mandara à morte o seu filho... Então, só então, a mãe ditosa, emergindo
+da sua alegria estática, abraçou apaixonadamente a mãe dolorosa, e a
+beijou, e lhe chamou irmã do seu coração... E de entre aquela multidão
+que se apertava na galeria veio uma nova, ardente aclamação, com
+súplicas de que fôsse recompensada magníficamente a serva admirável que
+salvara o rei e o reino.
+
+Mas como? ¿Que bôlsas de oiro podem pagar um filho? Então um vélho
+de casta nobre lembrou que ela fôsse levada ao tesoiro rial, e
+escolhesse de entre essas riquezas, que eram como as maiores dos maiores
+tesoiros da Índia, todas as que o seu desejo apetecesse...
+
+A raínha tomou a mão da serva. E sem que a sua face de mármore perdesse
+a rigidez, com um andar de morta, como num sonho, ela foi assim
+conduzida para a Câmara dos Tesoiros. Senhores, aias, homens de armas,
+seguiam, num respeito tam comovido que apenas se ouvia o roçar das
+sandálias nas lages. As espessas portas do Tesoiro rodaram lentamente.
+E, quando um servo destrancou as janelas, a luz da madrugada, já clara e
+rósea, entrando pelos gradeamentos de ferro, acendeu um maravilhoso e
+faiscante incêndio de oiro e pedrarias! Do chão de rocha até às sombrias
+abóbadas, por toda a câmara, reluziam, scintilavam, refulgiam os escudos
+de oiro, as armas marchetadas, os montões de diamantes, as pilhas de
+moedas, os longos fios de pérolas, todas as riquezas daquele reino,
+acumuladas por cem reis durante vinte séculos. Um longo _ah_, lento e
+maravilhado, passou por sôbre a turba que emmudecera. Depois houve um
+silêncio ansioso. E no meio da câmara, envolta na refulgência preciosa,
+a ama não se movia... Apenas os seus olhos, brilhantes e secos, se
+tinham erguido para aquele céu que, alêm das grades, se tingia de rosa e
+de oiro. Era lá, nesse céu fresco de madrugada, que estava agora o seu
+menino. Estava lá, e já o sol se erguia, e era tarde, e o seu menino
+chorava de-certo, e procurava o seu peito!... E então a ama sorriu e
+estendeu a mão. Todos seguiam, sem respirar, aquele lento mover da sua
+mão aberta. ¿Que joia maravilhosa, que fio de diamantes, que punhado de
+rubís, ia ela escolher?
+
+A ama estendia a mão--e sôbre um escabelo ao lado, entre um molho de
+armas, agarrou um punhal. Era um punhal de um vélho rei, todo cravejado
+de esmeraldas, e que valia uma província.
+
+Agarrara o punhal, e com êle apertado fortemente na mão, apontando para
+o céu, onde subiam os primeiros raios do sol, encarou a raínha, a
+multidão, e gritou:
+
+--Salvei o meu príncipe, e agora--vou dar de mamar ao meu filho!
+
+E cravou o punhal no coração.
+
+
+
+
+O DEFUNTO
+
+
+I
+
+No ano de 1474, que foi por toda a Cristandade tam abundante em mercês
+divinas, reinando em Castela el-rei Henrique IV, veio habitar na cidade
+de Segóvia, onde herdara moradias e uma horta, um cavaleiro moço, de
+muito limpa linhagem e gentil parecer, que se chamava D. Rui de Cardenas.
+
+Essa casa, que lhe legara seu tio, arcediago e mestre em cânones, ficava
+ao lado e na sombra silenciosa da igreja de Nossa Senhora do Pilar; e,
+em frente, para alêm do adro, onde cantavam as três bicas de um chafariz
+antigo, era o escuro e gradeado palácio de D. Alonso de Lara, fidalgo de
+grande riqueza e maneiras sombrias, que já na madureza da sua
+idade, todo grisalho, desposara uma menina falada em Castela pela sua
+alvura, cabelos côr de sol claro, e colo de garça rial. D. Rui tivera
+justamente por madrinha, ao nascer, Nossa Senhora do Pilar, de quem
+sempre se conservou devoto e fiel servidor; ainda que, sendo de sangue
+bravo e alegre, amava as armas, a caça, os saraus bem galanteados, e
+mesmo por vezes uma noite ruidosa de taverna com dados e picheis de
+vinho. Por amor, e pelas facilidades desta santa vizinhança, tomara êle
+o piedoso costume, desde a sua chegada a Segóvia, de visitar todas as
+manhãs, à hora de Prima, a sua divina madrinha e de lhe pedir, em três
+_Ave-Marias_, a bênção e a graça.
+
+Ao escurecer, mesmo depois de alguma rija correria por campo e monte com
+lebreus ou falcão, ainda voltava para, à saudação de Vésperas, murmurar
+docemente uma _Salve-Raínha_.
+
+E todos os domingos comprava no adro, a uma ramalheteira mourisca, algum
+ramo de junquilhos, ou cravos, ou rosas singelas, que espalhava, com
+ternura e cuidado galante, em frente ao altar da Senhora.
+
+A esta venerada igreja do Pilar vinha tambêm cada domingo D. Leonor, a
+tam falada e formosa mulher do senhor de Lara, acompanhada por uma aia
+carrancuda, de olhos mais abertos e duros que os de uma coruja, e
+por dois possantes lacaios que a ladeavam e guardavam como tôrres. Tam
+ciumento era o senhor D. Alonso que, só por lho haver severamente
+ordenado o seu confessor, e com medo de ofender a Senhora, sua vizinha,
+permitia esta visita fugitiva, a que êle ficava espreitando
+sôfregamente, de entre as rexas de uma gelosia, os passos e a demora.
+Todos os lentos dias da lenta semana os passava a senhora D. Leonor no
+encêrro do gradeado solar de granito negro, não tendo, para se recrear e
+respirar, mesmo nas calmas do estio, mais que um fundo de jardim
+verde-negro, cercado de tam altos muros, que apenas se avistava,
+emergindo dêles, aqui, alêm, alguma ponta de triste cipreste. Mas essa
+curta visita a Nossa Senhora do Pilar bastou para que D. Rui se
+namorasse dela tresloucadamente, na manhã de maio em que a viu de
+joelhos ante o altar, numa réstea de sol, aureolada pelos seus cabelos
+de oiro, com as compridas pestanas pendidas sôbre o livro de Horas, o
+rosário caíndo de entre os dedos finos, fina toda ela e macia, e branca,
+de uma brancura de lírio aberto na sombra, mais branca entre as rendas
+negras e os negros setins que à volta do seu corpo cheio de graça se
+quebravam, em pregas duras, sôbre as lages da capela, vélhas lages de
+sepulturas. Quando depois dum momento de enleio e de delicioso
+pasmo se ajoelhou, foi menos para a Virgem do Pilar, sua divina
+Madrinha, do que para aquela aparição mortal, de quem não sabia o nome
+nem a vida, e só que por ela daria vida e nome, se ela se rendesse por
+tam incerto preço. Balbuciando, com uma prece ingrata, as três
+Ave-Marias com que cada manhã saùdava Maria, apanhou o seu sombreiro,
+desceu levemente a nave sonora e no portal se quedou, esperando por ela
+entre os mendigos lazarentos que se catavam ao sol. Mas quando ao cabo
+de um tempo, em que D. Rui sentiu no coração um desusado bater de
+ansiedade e medo, a senhora D. Leonor passou e se deteve, molhando os
+dedos na pia de mármore de água benta, os seus olhos sob o véu descido,
+não se ergueram para êle, ou tímidos ou desatentos. Com a aia de olhos
+muito abertos colada aos vestidos, entre os dois lacaios, como entre
+duas tôrres, atravessou vagarosamente o adro, pedra por pedra, gozando
+de-certo, como encarcerada, o desafogado ar e o livre sol que o
+inundavam. E foi um espanto para D. Rui quando ela penetrou na sombria
+arcada, de grossos pilares, sôbre que assentava o palácio, e desapareceu
+por uma esguia porta recoberta de ferragens. Era, pois, essa a tam
+falada D. Leonor, a linda e nobre senhora de Lara...
+
+Então começaram sete arrastados dias, que êle gastou sentado a um
+poial da sua janela, considerando aquela negra porta recoberta de
+ferragens como se fôsse a do Paraíso, e por ela devesse saír um anjo
+para lhe anunciar a Bemaventurança. Até que chegou o vagaroso domingo: e
+passando êle no adro, à hora de Prima, ao repicar dos sinos, com um
+mólho de cravos amarelos para a sua divina Madrinha, cruzou D. Leonor,
+que saía de entre os pilares da escura arcada, branca, doce e pensativa,
+como uma lua de entre nuvens. Os cravos quási lhe caíram naquele gostoso
+alvoroço em que o peito lhe arfou mais que um mar, e a alma toda lhe
+fugiu em tumulto através do olhar com que a devorava. E ela ergueu
+tambêm os olhos para D. Rui, mas uns olhos repousados, uns olhos
+serenos, em que não luzia curiosidade, nem mesmo consciência de se
+estarem trocando com outros, tam acesos e ennegrecidos pelo desejo. O
+môço cavalheiro não entrou na igreja, com piedoso receio de não prestar
+à sua Madrinha divina a atenção, que de-certo lhe roubaria toda aquela
+que era só humana, mas dona já do seu coração, e nele divinizada.
+
+Esperou sôfregamente à porta, entre os mendigos, secando os cravos com o
+ardor das mãos trémulas, pensando quanto era demorado o rosário que ela
+rezava. Ainda D. Leonor descia a nave, já êle sentia dentro da alma
+o doce rugir das sedas fortes que ela arrastava nas lages. A branca
+senhora passou--e o mesmo distraido olhar, desatento e calmo, que
+espalhou pelos mendigos e pelo adro, o deixou escorregar sôbre êle, ou
+porque não compreendesse aquele moço que de repente se tornara tam
+pálido, ou porque não o diferenciava ainda das cousas e das formas
+indiferentes.
+
+D. Rui abalou, com um fundo suspiro; e, no seu quarto, pôs devotamente
+ante a imagem da Virgem as flores que não oferecera, na igreja, ao seu
+altar. Toda a sua vida se tornou então um longo queixume por sentir tam
+fria e desumana aquela mulher, única entre as mulheres, que prendera e
+tornara sério o seu coração ligeiro e errante. Numa esperança, a que
+antevia bem o desengano, começou a rondar os muros altos do jardim--ou
+embuçado numa capa, com o ombro contra uma esquina, lentas horas se
+quedava contemplando as grades das gelosias, negras e grossas como as
+dum cárcere. Os muros não se fendiam, das grades não saía sequer um
+rasto de luz prometedora. Todo o solar era como um jazigo onde jazia uma
+insensível, e por trás das frias pedras havia ainda um frio peito. Para
+se desafogar compôs, com piedoso cuidado, em noites veladas sôbre o
+pergaminho, trovas gementes que o não desafogavam. Diante do altar
+da Senhora do Pilar, sôbre as mesmas lages onde a vira ajoelhada,
+pousava êle os joelhos, e ficava, sem palavras de oração, num scismar
+amargo e doce, esperando que o seu coração serenasse e se consolasse,
+sob a influência de Aquela que tudo consola e serena. Mas sempre se
+erguia mais desditoso e tendo apenas a sensação de quanto eram frias e
+rígidas as pedras sôbre que ajoelhara. O mundo todo só lhe parecia
+conter rigidez e frieza.
+
+Outras claras manhãs de domingo encontrou D. Leonor: e sempre os olhos
+dela permaneciam descuidados e como esquecidos, ou quando se cruzavam
+com os seus era tam singelamente, tam limpos de toda a emoção, que D.
+Rui os preferiria ofendidos e faiscando de ira, ou soberbamente
+desviados com soberbo desdêm. De-certo D. Leonor já o conhecia:--mas,
+assim, conhecia tambêm a ramalheteira mourisca agachada diante do seu
+cêsto à beira da fonte; ou os pobres que se catavam ao sol diante do
+portal da Senhora. Nem D. Rui já podia pensar que ela fôsse desumana e
+fria. Era apenas soberanamente remota, como uma estrêla que nas alturas
+gira e refulge, sem saber que, em baixo, num mundo que ela não
+distingue, olhos que ela não suspeita a contemplam, a adoram e lhe
+entregam o govêrno da sua ventura e sorte.
+
+Então D. Rui pensou:
+
+--Ela não quer, eu não posso: foi um sonho que findou, e Nossa Senhora a
+ambos nos tenha na sua graça!
+
+E como era cavaleiro muito discreto, desde que a reconheceu assim
+inabalável na sua indiferença, não a procurou, nem sequer ergueu mais os
+olhos para as grades das suas janelas, e até nem penetrava na igreja de
+Nossa Senhora quando casualmente, do portal, a avistava ajoelhada, com a
+sua cabeça tam cheia de graça e de oiro, pendida sôbre o Livro de Horas.
+
+
+II
+
+A vélha aia, de olhos mais abertos e duros que os de uma coruja, não
+tardara em contar ao senhor de Lara que um môço audaz, de gentil
+parecer, novo morador nas vélhas casas do arcediago, constantemente se
+atravessava no adro, se postava diante da igreja para atirar o coração
+pelos olhos à senhora D. Leonor. Bem amargamente o sabia já o ciumento
+fidalgo, porque quando da sua janela espreitava, como um falcão, a
+airosa senhora a caminho da igreja, observara os giros, as esperas, os
+olhares dardejados daquele môço galante--e puxara as barbas de
+furor. Desde então, na verdade, a sua mais intensa ocupação era odiar D.
+Rui, o impudente sobrinho do cónego, que ousava erguer o seu baixo
+desejo até à alta senhora de Lara. Constantemente agora o trazia vigiado
+por um serviçal--e conhecia todos os seus passos e pousos, e os amigos
+com quem caçava ou folgava, e até quem lhe talhava os gibões, e até quem
+lhe polia a espada, e cada hora do seu viver. E mais ansiosamente ainda
+vigiava D. Leonor--cada um dos seus movimentos, os mais fugitivos modos,
+os silêncios e o conversar com as aias, as distracções sôbre o bordado,
+o geito de scismar sob as árvores do jardim, e o ar e a côr com que
+recolhia da igreja... Mas tam inalteradamente serena no seu sossêgo de
+coração se mostrava a senhora D. Leonor que nem o ciume mais imaginador
+de culpas poderia achar manchas naquela pura neve. Redobradamente áspero
+então se voltava o rancor de D. Alonso contra o sobrinho do cónego por
+ter apetecido aquela pureza, e aqueles cabelos côr de sol claro, e
+aquele colo de garça rial, que eram só seus, para esplêndido gôsto da
+sua vida. E quando passeava na sombria galeria do solar, sonora e toda
+de abóbada, embrulhado na sua samarra orlada de peles, com o bico da
+barba grisalha espetado para diante, a grenha crespa erriçada para trás
+e os punhos cerrados, era sempre remoendo o mesmo fel:
+
+--Tentou contra a virtude dela, tentou contra a minha honra... É culpado
+por duas culpas e merece duas mortes!
+
+Mas ao seu furor quási se misturou um terror, quando soube que D. Rui já
+não esperava no adro a senhora D. Leonor, nem rondava amorosamente os
+muros do palacete, nem penetrava na igreja quando ela lá rezava, aos
+domingos; e que tam inteiramente se alheava dela que uma manhã, estando
+rente da arcada, e sentindo bem ranger e abrir a porta por onde a
+senhora ia aparecer, permanecera de costas voltadas, sem se mover, rindo
+com um cavaleiro gordo que lhe lia um pergaminho. Tam bem afectada
+indiferença só servia de-certo (pensou D. Alonso) a esconder alguma bem
+danada tenção! ¿Que tramava êle, o destro enganador? Tudo no desabrido
+fidalgo se exacerbou--ciume, rancor, vigilância, pesar da sua idade
+grisalha e feia. No sossêgo de D. Leonor suspeitou manha e
+fingimento;--e imediatamente lhe vedou as visitas à Senhora do Pilar.
+
+Nas manhãs costumadas corria êle à igreja para rezar o rosário, a levar
+as desculpas de D. Leonor--«_que no puede venir_ (murmurava curvado
+diante do altar) _por lo que sabeis, virgem purissima!_» Cuidadosamente
+visitou e reforçou todos os negros ferrolhos das portas do seu solar.
+
+De noite soltava dois mastins nas sombras do jardim murado.
+
+À cabeceira do vasto leito, junto da mesa onde ficava a lâmpada, um
+relicário e o copo de vinho quente com canela e cravo para lhe
+retemperar as fôrças--luzia sempre uma grande espada nua. Mas, com
+tantas seguranças, mal dormia--e a cada instante se solevava em
+sobressalto de entre as fundas almofadas, agarrando a senhora D. Leonor
+com mão bruta e sôfrega, que lhe pisava o colo, para rugir muito baixo,
+numa ânsia: «Dize que me queres só a mim!...» Depois, com a alvorada, lá
+se empoleirava, a espreitar, como um falcão, as janelas de D. Rui. Nunca
+o avistava, agora, nem à porta da igreja às horas de missa, nem
+recolhendo do campo, a cavalo, ao toque de Ave-Marias.
+
+E por o sentir assim sumido dos sítios e giros costumados--é que mais o
+suspeitava dentro do coração de D. Leonor.
+
+Emfim, uma noite, depois de muito trilhar o lagedo da galeria, remoendo
+surdamente desconfianças e ódios, gritou pelo intendente e ordenou que
+se preparassem trouxas e cavalgaduras. Cedo, de madrugada, partiria, com
+a senhora D. Leonor, para a sua herdade de Cabril, a duas léguas de
+Segóvia! A partida não foi de madrugada, como uma fuga de avarento
+que vai esconder longe o seu tesoiro:--mas, realizada com aparato e
+demora, ficando a liteira diante da arcada, a esperar longas horas, de
+cortinas abertas, emquanto um cavalariço passeava pelo adro a mula
+branca do fidalgo, enxairelada à mourisca, e do lado do jardim a récua
+de machos, carregados de baús, presos às argolas, sob o sol e a mosca,
+aturdiam a viela com o tilintar dos guizos. Assim D. Rui soube a jornada
+do senhor de Lara:--e assim a soube toda a cidade.
+
+Fôra um grande contentamento para D. Leonor, que gostava de Cabril, dos
+seus viçosos pomares, dos jardins, para onde abriam, rasgadamente e sem
+grades, as janelas dos seus aposentos claros: aí ao menos tinha largo
+ar, pleno sol, e alegretes a regar, um viveiro de pássaros, e tam
+compridas ruas de loureiro ou teixo, que eram quási a liberdade. E
+depois esperava que no campo se aligeirassem aqueles cuidados que
+traziam, nos derradeiros tempos, tam enrugado e taciturno seu marido e
+senhor. Mas não logrou esta esperança, porque ao cabo de uma semana
+ainda se não desanuviara a face de D. Alonso--nem de-certo havia
+frescura de arvoredos, sussurros de águas correntes, ou aromas esparsos
+nos rosais em flor, que calmassem agitação tam amarga e funda. Como em
+Segóvia, na galeria sonora de grande abobada, sem descanso
+passeava, enterrado na sua samarra, com o bico da barba espetado para
+diante, a grenha basta erriçada para trás, um geito de arreganhar
+silenciosamente o beiço, como se meditasse maldades a que gozava de
+antemão o sabor acre. E todo o interêsse da sua vida se concentrara num
+serviçal, que constantemente galopava entre Segóvia e Cabril, e que êle
+por vezes esperava no comêço da aldeia, junto ao Cruzeiro, ficando a
+escutar o homem que desmontava, ofegante, e logo lhe dava novas apressadas.
+
+Uma noite em que D. Leonor, no seu quarto, rezava o terço com as aias, à
+luz duma tocha de cera, o senhor de Lara entrou muito vagarosamente,
+trazendo na mão uma fôlha de pergaminho e uma pena mergulhada no seu
+tinteiro de osso. Com um rude acêno despediu as aias, que o temiam como
+a um lôbo. E, empurrando um escabelo para junto da mesa, volvendo para
+D. Leonor a face a que impusera tranqùilidade e agrado, como se apenas
+viesse por cousas naturais e fáceis:
+
+--Senhora--disse--quero que me escrevais aqui uma carta que muito convêm
+escrever...
+
+Tam costumada era nela a submissão, que, sem outro reparo ou
+curiosidade, indo apenas pendurar na barra do leito o rosário em
+que rezara, se acomodou sôbre o escabelo, e os seus dedos finos, com
+muita aplicação, para que a letra fôsse esmerada e clara, traçaram a
+primeira linha curta que o Senhor de Lara ditara e era: _Meu
+cavaleiro_...» Mas quando êle ditou a outra, mais longa, e dum modo
+amargo, D. Leonor arrojou a pena como se a pena a escaldasse, e,
+recuando da mesa, gritou, numa aflição:
+
+--¿Senhor, para que convêm que eu escreva tais cousas e tam falsas?...
+
+Num brusco furor, o senhor de Lara arrancou do cinto um punhal, que lhe
+agitou junto à face, rugindo surdamente:
+
+--Ou escreveis o que vos mando e que a mim me convêm, ou por Deus, que
+vos varo o coração!...
+
+Mais branca que a cera da tocha que os alumiava, com a carne arrepiada
+ante aquele ferro que luzia, num terror supremo e que tudo aceitava, D.
+Leonor murmurou:
+
+--Pela Virgem Maria, não me façais mal!... Nem vos agasteis, senhor, que
+eu vivo para vos obedecer e servir... Agora, mandai, que eu escreverei.
+
+Então, com os punhos cerrados nas bordas da mesa, onde pousara o punhal,
+esmagando a frágil e desditosa mulher sob o olhar duro que fuzilava, o
+senhor de Lara ditou, atirou roucamente, aos pedaços, aos repelões,
+uma carta que dizia, quando finda e traçada em letra bem incerta e
+trémula:--«Meu cavaleiro: Muito mal haveis compreendido, ou muito mal
+pagais o amor que vos tenho, e que não vos pude nunca, em Segóvia,
+mostrar claramente... Agora aqui estou em Cabril, ardendo por vos ver; e
+se o vosso desejo corresponde ao meu, bem fàcilmente o podeis realizar,
+pois que meu marido se acha ausente noutra herdade, e esta de Cabril é
+toda fácil e aberta. Vinde esta noite, entrai pela porta do jardim, do
+lado da azinhaga, passando o tanque, até ao terraço. Aí avistareis uma
+escada encostada a uma janela da casa, que é a janela do meu quarto,
+onde sereis bem docemente agasalhado por quem ansiosamente vos espera...»
+
+--Agora, senhora, assinai por baixo o vosso nome, que isso sobretudo
+convêm!
+
+D. Leonor traçou vagarosamente o seu nome, tam vermelha como se a
+despissem diante de uma multidão.
+
+--E agora--ordenou o marido mais surdamente, através dos dentes
+cerrados--endereçai a D. Rui de Cardenas!
+
+Ela ousou erguer os olhos, na surprêsa daquele nome desconhecido.
+
+--Andai!... A D. Rui de Cardenas!--gritou o homem sombrio.
+
+E ela endereçou a sua desonesta carta a D. Rui de Cardenas.
+
+D. Alonso meteu o pergaminho no cinto, junto ao punhal que embainhara, e
+saíu em silêncio com a barba espetada, abafando o rumor dos passos nas
+lages do corredor
+
+Ela ficara sôbre o escabelo, as mãos cansadas e caídas no regaço, num
+infinito espanto, o olhar perdido na escuridão da noite silente. Menos
+escura lhe parecia a morte que essa escura aventura em que se sentia
+envolvida e levada! ¿Quem era êsse D. Rui de Cardenas, de quem nunca
+ouvira falar, que nunca atravessara a sua vida, tam quieta, tam pouco
+povoada de memórias e de homens? E êle de-certo a conhecia, a
+encontrara, a seguira, ao menos com os olhos, pois que era cousa natural
+e bem ligada receber dela carta de tanta paixão e promessa...
+
+¿Assim, um homem, e môço de-certo bem nascido, talvez gentil, penetrava
+no seu destino bruscamente, trazido pela mão de seu marido? Tam
+íntimamente mesmo se entranhara êsse homem na sua vida, sem que ela se
+apercebesse, que já para êle se abria de noite a porta do seu jardim, e
+contra a sua janela, para êle subir, se arrumava de noite uma escada!...
+E era seu marido que muito secretamente escancarava a porta, e muito
+secretamente levantava a escada... Para que?
+
+Então, num relance, D. Leonor compreendeu a verdade, a vergonhosa
+verdade, que lhe arrancou um grito ansiado e mal sufocado. Era uma
+cilada! O senhor de Lara atraía a Cabril êsse D. Rui com uma promessa
+magnífica, para dêle se apoderar, e de-certo o matar, indefeso e
+solitário! E ela, o seu amor, o seu corpo, eram as promessas que se
+faziam rebrilhar ante os olhos seduzidos do môço desventuroso. Assim seu
+marido usava a sua beleza, o seu leito, como a rêde de oiro em que devia
+caír aquela prêsa estouvada! ¿Onde haveria maior ofensa? E tambêm quanta
+imprudência! Bem poderia esse D. Rui de Cardenas desconfiar, não aceder
+a convite tam abertamente amoroso, e depois mostrar por toda a Segóvia,
+rindo e triunfando, aquela carta em que lhe fazia oferta do seu leito e
+do seu corpo a mulher de Alonso de Lara! Mas não! o desventurado
+correria a Cabril--e para morrer, miserávelmente morrer no negro
+silêncio da noite, sem padre, nem sacramentos, com a alma encharcada em
+pecado de amor! Para morrer, de-certo--porque nunca o senhor de Lara
+permitiria que vivesse o homem que recebera tal carta. Assim, aquele
+môço morria por amor dela, e por um amor que, sem lhe valer nunca um
+gôsto, lhe valia logo a morte! De-certo por amor dela--pois que tal ódio
+do senhor de Lara, ódio que com tanta deslealdade e vilania se
+cevava, só podia nascer de ciumes, que lhe escureciam todo o dever de
+cavaleiro e de cristão. Sem dúvida êle surpreendera olhares, passos,
+tenções dêste senhor D. Rui, mal acautelado por bem namorado.
+
+Mas como? quando? Confusamente se lembrava ela de um moço que um domingo
+a cruzara no adro, a esperara ao portal da igreja, com um molho de
+cravos na mão... Seria êsse? Era de nobre parecer, muito pálido, com
+grandes olhos negros e quentes. Ela passara--indiferente... Os cravos
+que segurava na mão eram vermelhos e amarelos... A quem os levava?...
+Ah! se o pudesse avisar, bem cedo, de madrugada!
+
+¿Como, se não havia em Cabril serviçal ou aia de quem se fiasse? Mas
+deixar que uma bruta espada varasse traiçoeiramente aquele coração, que
+vinha cheio dela, palpitando por ela, todo na esperança dela!...
+
+Oh! a desabrida e ardente correria de D. Rui, desde Segóvia a Cabril,
+com a promessa do encantador jardim aberto, da escada posta contra a
+janela, sob a nudez e protecção da noite! ¿Mandaria realmente o senhor
+de Lara encostar uma escada à janela? De-certo, para com mais facilidade
+o poderem matar, ao pobre, e doce, e inocente môço, quando êle subisse,
+mal seguro sôbre um frágil degrau, as mãos embaraçadas, a espada a
+dormir na bainha... E assim, na outra noite, em face ao seu leito, a sua
+janela estaria aberta, e uma escada estaria erguida contra a sua janela
+à espera de um homem! Emboscado na sombra do quarto, seu marido
+seguramente mataria êsse homem...
+
+¿Mas se o senhor de Lara esperasse fóra dos muros da quinta, assaltasse
+brutalmente, nalguma azinhaga, aquele D. Rui de Cardenas, e ou por menos
+destro, ou por menos forte, num terçar de armas, caísse êle traspassado,
+sem que o outro conhecesse a quem matara? E ela, ali, no seu quarto, sem
+saber, e todas as portas abertas, e a escada erguida, e aquele homem
+assomando à janela na sombra macia da noite tépida, e o marido que a
+devia defender morto no fundo duma azinhaga... ¿Que faria ela, Virgem
+Mãe? Oh! de-certo repeliria, soberbarmente, o môço temerário. Mas o
+espanto dêle e a cólera do seu desejo enganado! «Por Vós é que eu vim
+chamado, senhora! E ali trazia, sôbre o coração, a carta dela, com seu
+nome, que a sua mão traçara. ¿Como lhe poderia contar a emboscada e o
+dolo? Era tam longo de contar, naquele silêncio e solidão da noite,
+emquanto os olhos dêle, húmidos e negros, a estivessem suplicando e
+traspassando... Desgraçada dela se o senhor de Lara morresse, a deixasse
+solitária, sem defesa, naquela vasta casa aberta! Mas quanto
+desgraçada tambêm se aquele môço, chamado por ela, e que a amava, e que
+por êsse amor vinha correndo deslumbrante, encontrasse a morte no sítio
+da sua esperança, que era o sítio do seu pecado, e, morto em pleno
+pecado, rolasse para a eterna desesperança... Vinte e cinco anos,
+êle--se era o mesmo de quem se lembrava, pálido, e tam airoso, com um
+gibão de veludo roxo e um ramo de cravos na mão, à porta da igreja, em
+Segóvia...
+
+Duas lágrimas saltaram dos cansados olhos de D. Leonor. E dobrando os
+joelhos, levantando a alma toda para o céu, onde a lua se começava a
+levantar, murmurou, numa infinita mágoa e fé:
+
+--Oh! Santa Virgem do Pilar, Senhora minha, vela por nós ambos, vela por
+todos nós!...
+
+
+III
+
+D. Rui entrava, pela hora da calma, no fresco pátio da sua casa, quando
+de um banco de pedra, na sombra, se ergueu um môço do campo, que tirou
+de dentro do surrão uma carta, lha entregou, murmurando:
+
+--Senhor, dai-vos pressa em ler, que tenho de voltar a Cabril, a quem me
+mandou...
+
+D. Rui abriu o pergaminho; e, no deslumbramento que o tomou, bateu com
+êle contra o peito, como para o enterrar no coração...
+
+O moço do campo insistia, inquieto:
+
+--Aviai, senhor, aviai! Nem precisais responder. Basta que me deis um
+sinal de vos ter vindo o recado...
+
+Muito pálido, D. Rui arrancou uma das luvas bordadas a retroz, que o
+môço enrolou e sumiu no surrão. E já abalava na ponta das alpercatas
+leves, quando, com um acêno, D. Rui ainda o deteve:
+
+--Escuta. ¿Que caminho tomas tu para Cabril?
+
+--O mais certo e sòzinho para gente afoita, que é pelo Cêrro dos
+Enforcados.
+
+--Bem.
+
+D. Rui galgou as escadas de pedra, e no seu aposento, sem mesmo tirar o
+sombreiro, de novo leu junto da gelosia aquele pergaminho divino, em que
+D. Leonor o chamava de noite ao seu quarto, à posse inteira do seu ser.
+E não o maravilhava esta oferta--depois de uma tam constante,
+imperturbada indiferença. Antes nela logo percebeu um amor muito astuto,
+por ser muito forte, que com grande paciência se esconde ante os
+estorvos e os perigos, e mudamente prepara a sua hora de
+contentamento, melhor e mais deliciosa por tam preparada. Sempre ela o
+amara, pois, desde a manhã bemdita em que os seus olhos se tinham
+cruzado no portal de Nossa Senhora. E emquanto êle rondava aqueles muros
+do jardim, maldizendo uma frieza que lhe parecia mais fria que a dos
+frios muros, já ela lhe dera a sua alma, e cheia de constância, com
+amorosa sagacidade, recalcando o menor suspiro, adormecendo
+desconfianças, preparava a noite radiante em que lhe daria tambêm o seu
+corpo.
+
+Tanta firmeza, tam fino engenho nas coisas do amor ainda lha tornavam
+mais bela e mais apetecida!
+
+Com que impaciência olhava então o sol, tam desapressado nessa tarde em
+descer para os montes! Sem repouso, no seu quarto, com as gelosias
+cerradas para melhor concentrar a sua felicidade, tudo aprontava
+amorosamente para a triunfal jornada: as finas roupas, as finas rendas,
+um gibão de veludo negro e as essências perfumadas. Duas vezes desceu à
+cavalariça a verificar se o seu cavalo estava bem ferrado e bem pensado.
+Sôbre o soalho, vergou e revergou, para a experimentar, a folha da
+espada que levaria à cinta... Mas o seu maior cuidado era o caminho para
+Cabril, a-pesar de bem o conhecer, e a aldeia apinhada em tôrno ao
+mosteiro franciscano, e a vélha ponte romana com o seu Calvário, e
+a azinhaga funda que levava à herdade do senhor de Lara. Ainda nesse
+inverno por lá passara, indo montear com dois amigos de Astorga, e
+avistara a torre dos de Lara, e pensara:--«Eis a torre da minha
+ingrata!» Como se enganava! As noites agora eram de lua, e êle saíria de
+Segóvia caladamente, pela porta de S. Mauros. Um galope curto o punha no
+Cêrro dos Enforcados... Bem o conhecia tambêm, êsse sítio de tristeza e
+pavor, com os seus quatro pilares de pedra, onde se enforcavam os
+criminosos, e onde os seus corpos ficavam, balouçados da ventania,
+ressequidos do sol, até que as cordas apodrecessem e as ossadas caíssem,
+brancas e limpas da carne pelo bico dos corvos. Por trás do Cêrro era a
+lagôa das Donas. A derradeira vez que por lá andara, fôra em dia do
+apóstolo S. Matias, quando o corregedor e as confrarias de caridade e
+paz, em procissão, iam dar sepultura sagrada às ossadas caídas no chão
+negro, esbrugadas pelas aves. Daí o caminho, depois, corria liso e
+direito a Cabril.
+
+Assim D. Rui meditava a sua jornada venturosa, emquanto a tarde ia
+caíndo. Mas, quando escureceu, e em tôrno às tôrres da igreja começaram
+a girar os morcegos, e nas esquinas do adro se acenderam os nichos das
+Almas, o valente môço sentiu um medo estranho, o medo daquela
+felicidade que se acercava e que lhe parecia sobrenatural. ¿Era, pois,
+certo que essa mulher de divina formosura, famosa em Castela, e mais
+inacessível que um astro, seria sua, toda sua, no silêncio e segurança
+duma alcova, dentro em breves instantes, quando ainda se não tivessem
+apagado diante dos retábulos das Almas aqueles lumes devotos? ¿E o que
+fizera êle para lograr tam grande bem? Pisara as lages de um adro,
+esperara no portal de uma igreja, procurando com os olhos outros dois
+olhos, que não se erguiam, indiferentes ou desatentos. Então, sem dor,
+abandonara a sua esperança... E eis que de repente aqueles olhos
+distraídos o procuram, e aqueles braços fechados se lhe abrem, largos e
+nus, e com o corpo e com a alma aquela mulher lhe grita:--«Oh! mal
+avisado, que não me entendeste! Vem! Quem te desanimou já te pertence!»
+¿Houvera jàmais igual ventura? Tam alta, tam rara era, que de-certo
+atrás dela, se não erra a lei humana, já devia caminhar a desventura! Já
+na verdade caminhava;--pois quanta desventura em saber que depois de tal
+ventura, quando de madrugada, saíndo dos divinos braços, êle recolhesse
+a Segóvia, a sua Leonor, o bem sublime da sua vida, tam inesperadamente
+adquirido por um instante, recaíria logo sob o poder de outro amo!
+
+Que importava! Viessem depois dores e zelos! Aquela noite era
+esplêndidamente sua, o mundo todo uma aparência vã e a única realidade
+êsse quarto de Cabril, mal alumiado, onde ela o esperaria, com os
+cabelos soltos! Foi com sofreguidão que desceu a escada, se arremessou
+sôbre o seu cavalo. Depois, por prudência, atravessou o adro muito
+lentamente, com o sombreiro bem levantado da face, como num passeio
+natural, a procurar fóra dos muros a frescura da noite. Nenhum encontro
+o inquietou até à porta de S. Mauros. Aí, um mendigo, agachado na
+escuridão dum arco, e que tocava monótonamente a sua sanfona, pediu, em
+lamúria, à Virgem e a todos os santos, que levassem aquele gentil
+cavaleiro na sua doce e santa guarda. D. Rui parara para lhe atirar uma
+esmola, quando se lembrou que nessa tarde não fôra à igreja, à hora de
+vésperas, rezar e pedir a bênção à sua divina madrinha. Com um salto,
+desceu logo do cavalo, porque, justamente, rente ao vélho arco,
+tremeluzia uma lâmpada alumiando um retábulo. Era uma imagem da Virgem
+com o peito traspassado por sete espadas. D. Rui ajoelhou, pousou o
+sombreiro nas lages, e com as mãos erguidas, muito zelosamente, rezou
+uma Salve-Rainha. O clarão amarelo da luz envolvia o rosto da Senhora,
+que, sem sentir as dores dos sete ferros, ou como se êles só déssem
+inefáveis gozos, sorria com os lábios muito vermelhos. Emquanto êle
+rezava, no convento de São Domingos, ao lado, a sineta começou a tocar a
+agonia. De entre a sombra negra do arco, cessando a sanfona, o mendigo
+murmurou:--«Lá está um frade a morrer!» D. Rui disse uma Ave-Maria pelo
+frade que morria. A Virgem das sete espadas sorria docemente--o toque de
+agonia não era, pois, de mau preságio! D. Rui cavalgou alegremente e
+partiu.
+
+Para alêm da porta de S. Mauros, depois de alguns casebres de oleiros, o
+caminho seguia, esguio e negro, entre altas piteiras. Por trás das
+colinas, ao fundo da planície escura, subia o primeiro clarão, amarelo e
+lânguido, da lua cheia, ainda escondida. E D. Rui marchava a passo,
+receando chegar a Cabril muito cedo, antes que as aias e os moços
+findassem o serão e o rosário. ¿Porque não lhe marcara D. Leonor a hora,
+naquela carta tam clara e tam pensada? Então a sua imaginação corria
+adiante, rompia pelo jardim de Cabril, galgava aladamente a escada
+prometida--e êle largava tambêm atrás, numa carreira sôfrega, que
+arrancava as pedras do caminho mal junto. Depois sofreava o cavalo
+ofegante. Era cedo, era cedo! E retomava o passo penoso, sentindo o
+coração contra o peito, como ave presa que bate às grades.
+
+Assim chegou ao Cruzeiro, onde a estrada se fendia em duas, mais
+juntas que as pontas de uma forquilha, ambas cortando através de
+pinheiral. Descoberto diante da imagem crucificada, D. Rui teve um
+instante de angústia, pois não se recordava qual delas levava ao Cêrro
+dos Enforcados. Já se embrenhara na mais cerrada, quando, de entre os
+pinheiros calados, uma luz surgiu, dansando no escuro. Era uma vélha em
+farrapos, com as longas melenas soltas, vergada sôbre um bordão e
+levando uma candeia.
+
+--¿Para onde vai este caminho?--gritou Rui.
+
+A vélha balançou mais ao alto a candeia, para mirar o cavaleiro.
+
+--Para Xarama.
+
+E luz e vélha imediatamente se sumiram, fundidas na sombra, como se ali
+tivessem surgindo sómente para avisar o cavaleiro do seu caminho
+errado... Já êle virara arrebatadamente; e, rodeando o Calvário, galopou
+pela outra estrada mais larga, até avistar sôbre a claridade do céu os
+pilares negros, os madeiros negros do Cêrro dos Enforcados. Então
+estacou, direito nos estribos. Num cômoro alto, sêco, sem erva ou urze,
+ligados por um muro baixo, todo esbrechado, lá se erguiam, negros,
+enormes, sôbre a amarelidão do luar, os quatro pilares de granito
+semelhantes aos quatro cunhais duma casa desfeita. Sôbre os pilares
+pousavam quatro grossas traves. Das traves pendiam quatro enforcados
+negros e rígidos, no ar parado e mudo. Tudo em tôrno parecia morto como
+êles.
+
+Gordas aves de rapina dormiam empoleiradas sôbre os madeiros. Para alêm,
+rebrilhava lívidamente a água morta da lagôa das Donas. E, no céu, a lua
+ia grande e cheia.
+
+D. Rui murmurou o Padre Nosso devido por todo o cristão àquelas almas
+culpadas. Depois impeliu o cavalo, e passava--quando, no imenso silêncio
+e na imensa solidão, se ergueu, ressoou uma voz, uma voz que o chamava,
+suplicante e lenta:
+
+--Cavaleiro, detende-vos, vinde cá!...
+
+D. Rui colheu bruscamente as rédeas e erguido sôbre os estribos, atirou
+os olhos espantados por todo o sinistro ermo. Só avistou o cêrro áspero,
+a água rebrilhante e muda, os madeiros, os mortos. Pensou que fôra
+ilusão da noite ou ousadia de algum demónio errante. E, serenamente,
+picou o cavalo, sem sobressalto ou pressa, como numa rua de Segóvia.
+Mas, por trás, a voz tornou, mais urgentemente o chamou, ansiosa, quási
+aflita:
+
+--Cavaleiro, esperai, não vos vades, voltai, chegai aqui!...
+
+De novo D. Rui estacou e, virado sôbre a sela, encarou afoitamente os
+quatro corpos pendurados das traves. Do lado dêles soava a voz,
+que, sendo humana, só podia saír de forma humana! Um dêsses enforcados,
+pois, o chamara, com tanta pressa e ânsia.
+
+¿Restaria nalguns, por maravilhosa mercê de Deus, alento e vida? ¿Ou
+seria que, por maior maravilha, uma dessas carcassas meio apodrecidas o
+detinha para lhe transmitir avisos de Alêm-da-Campa?... Mas, que a voz
+rompesse dum peito vivo ou dum peito morto, grande covardia era abalar,
+espavoridamente, sem a atender e a ouvir.
+
+Atirou logo para dentro do cêrro o cavalo, que tremia; e, parando,
+direito e calmo, com a mão na ilharga, depois de fitar, um por um, os
+quatro corpos suspensos, gritou:
+
+--¿Qual de vós, homens enforcados, ousou chamar por D. Rui de Cardenas?
+
+Então aquele que voltava as costas à lua cheia respondeu, do alto da
+corda, muito quieta e naturalmente, como um homem que conversa da sua
+janela para a rua:
+
+--Senhor, fui eu.
+
+D. Rui fez avançar para diante dêle o cavalo. Não lhe distinguia a face,
+enterrada no peito, escondida pelas longas e negras melenas pendentes.
+Só percebeu que tinha as mãos soltas e desamarradas, e tambêm soltos os
+pés nus, já ressequidos e da côr do betume.
+
+--Que me queres?
+
+O enforcado, suspirando, murmurou:
+
+--Senhor, fazei-me a grande mercê de me cortar esta corda em que estou
+pendurado.
+
+D. Rui arrancou a espada e de um golpe certo cortou a corda meio
+apodrecida. Com um sinistro som de ossos entrechocados o corpo caíu no
+chão, onde jazeu um momento, estirado. Mas, imediatamente, se endireitou
+sôbre os pés mal seguros e ainda dormentes--e ergueu para D. Rui uma
+face morta, que era uma caveira com a pele muito colada, e mais amarela
+que a lua que nela batia. Os olhos não tinham movimento nem brilho.
+Ambos os beiços se lhe arreganhavam num sorriso empedernido. De entre os
+dentes, muito brancos, surdia uma ponta de língua muito negra.
+
+D. Rui não mostrou terror, nem asco. E embainhando serenamente a espada:
+
+--¿Tu estás morto ou vivo?--perguntou. O homem encolheu os ombros com
+lentidão:
+
+--Senhor, não sei... ¿Quem sabe o que é a vida? ¿Quem sabe o que é a
+morte?...
+
+--¿Mas que queres de mim?
+
+O enforcado, com os longos dedos descarnados, alargou o nó da corda que
+ainda lhe laçava o pescoço e declarou muito serena e firmemente:
+
+--Senhor, eu tenho de ir convosco a Cabril, onde vós ides.
+
+O cavaleiro estremeceu num tam forte assombro, repuxando as rédeas, que
+o seu bom cavalo se empinou como assombrado tambêm.
+
+--Comigo a Cabril?!...
+
+O homem curvou o espinhaço, a que se viam os ossos todos, mais agudos
+que os dentes de uma serra, através de um longo rasgão da camisa de
+estamenha:
+
+--Senhor--suplicou--não mo negueis. Que eu tenho a receber grande
+salário se vos fizer grande serviço!
+
+Então D. Rui pensou de repente que bem podia ser aquela uma traça
+formidável do Demónio. E, cravando os olhos muito brilhantes na face morta
+que para êle se erguia, ansiosa, à espera do seu consentimento--fez um
+lento e largo Sinal da Cruz.
+
+O enforcado vergou os joelhos com assustada reverência:
+
+--¿Senhor, para que me experimentais com êsse sinal? Só por êle
+alcançamos remissão, e eu só dêle espero misericórdia.
+
+Então D. Rui pensou que, se êsse homem não era mandado pelo Demónio, bem
+podia ser mandado por Deus! E logo devotamente, com um gesto submisso em
+que tudo entregava ao céu, consentiu, aceitou o pavoroso companheiro:
+
+--Vem comigo, pois, a Cabril, se Deus te manda! Mas eu nada te
+pergunto e tu nada me perguntes.
+
+Desceu logo o cavalo à estrada, toda alumiada da lua. O enforcado seguia
+ao seu lado, com passos tam ligeiros, que mesmo quando D. Rui galopava
+êle se conservava rente ao estribo, como levado por um vento mudo.
+
+Por vezes, para respirar mais livremente, repuxava o nó da corda que lhe
+enroscava o pescoço. E, quando passavam entre sebes onde errasse o aroma
+de flores silvestres, o homem murmurava com infinito alívio e delícia:
+
+--Como é bom correr!
+
+D. Rui ia num assombro, num tormentoso cuidado. Bem compreendia agora
+que era aquele um cadáver reanimado por Deus, para um estranho e
+encoberto serviço. ¿Mas para que lhe dava Deus tam medonho companheiro?
+¿Para o proteger? ¿Para impedir que D. Leonor, amada do céu pela sua
+piedade, caísse em culpa mortal? ¿E, para tam divina incumbência de tam
+alta mercê, já não tinha o Senhor anjos no céu, que necessitasse
+empregar um supliciado?... Ah! como êle voltaria alegremente a rédea
+para Segóvia, se não fôra a galante lealdade de cavaleiro, o orgulho de
+nunca recuar, e a submissão às ordens de Deus, que sentia sôbre si
+pesarem...
+
+Dum alto da estrada, de repente avistaram Cabril, as torres do convento
+franciscano alvejando ao luar, os casais adormecidos entre as
+hortas. Muito silenciosamente, sem que um cão ladrasse detrás das
+cancelas ou de cima dos muros, desceram a vélha ponte romana. Diante do
+Calvário, o enforcado caíu de joelhos nas lages, ergueu os lívidos ossos
+das mãos, ficou longamente rezando, entre longos suspiros. Depois ao
+entrar na azinhaga, bebeu muito tempo, e consoladamente, de uma fonte
+que corria e cantava sob as frondes de um salgueiro. Como a azinhaga era
+muito estreita, êle caminhava adiante do cavaleiro, todo curvado, os
+braços cruzados fortemente sôbre o peito, sem um rumor.
+
+A lua ia alta no céu. D. Rui considerava com amargura aquele disco,
+cheio e lustroso, que espargia tanta claridade, e tam indiscreta, sôbre
+o seu segredo. Ah! como se estragava a noite que devia ser divina! Uma
+enorme lua surdia de entre os montes para tudo alumiar. Um enforcado
+descia da forca para o seguir e tudo saber. Deus assim o ordenara. Mas
+que tristeza chegar à doce porta docemente prometida, com tal intruso ao
+seu lado, sob aquele céu todo claro!
+
+Bruscamente, o enforcado estacou, erguendo o braço, de onde a manga
+pendia em farrapos. Era o fim da azinhaga que desembocava em caminho
+mais largo e mais batido:--e diante dêles alvejava o comprido muro da
+quinta do senhor de Lara, tendo aí um mirante, com varandins de
+pedra, e todo revestido de hera.
+
+--Senhor--murmurou o enforcado, segurando com respeito o estribo de D.
+Rui--logo a poucos passos dêste mirante é a porta por onde deveis
+penetrar no jardim. Convêm que aqui deixeis o cavalo, amarrado a uma
+árvore, se o tendes por seguro e fiel. Que na emprêsa em que vamos, já é
+de mais o rumor dos nossos pés!...
+
+Silenciosamente D. Rui apeou, prendeu o cavalo, que sabia fiel e seguro,
+ao tronco dum álamo sêco.
+
+E tam submisso se tornara àquele companheiro imposto por Deus, que sem
+outro reparo o foi seguindo rente do muro que o luar batia.
+
+Com vagarosa cautela, e na ponta dos pés nus, avançava agora o
+enforcado, vigiando o alto do muro, sondando a negrura da sebe, parando
+a escutar rumores que só para êle eram percebíveis--porque nunca D. Rui
+conhecera noite mais fundamente adormecida e muda.
+
+E tal susto, em quem devia ser indiferente a perigos humanos, foi
+lentamente enchendo tambêm o valoroso cavaleiro de tam viva
+desconfiança, que tirava o punhal da baínha, enrodilhava a capa no
+braço, e marchava em defesa, com o olhar faiscando, como num
+caminho de emboscada e briga. Assim chegaram a uma porta baixa, que o
+enforcado empurrou, e que se abriu sem gemer nos gonzos. Penetraram numa
+rua ladeada de espessos teixos até a um tanque cheio de água, onde
+boiavam fôlhas de nenúfares, e que toscos bancos de pedra circundavam,
+cobertos pela rama de arbustos em flor.
+
+--Por ali--murmurou o enforcado, estendendo o braço mirrado.
+
+Era alêm do tanque, uma avenida que densas e vélhas árvores abobadavam e
+escureciam. Por ela se meteram, como sombras na sombra, o enforcado
+adiante, D. Rui seguindo muito subtilmente, sem roçar um ramo, mal
+pisando a areia. Um leve fio de água sussurrava entre relvas. Pelos
+troncos subiam rosas trepadeiras, que cheiravam docemente. O coração de
+D. Rui recomeçou a bater numa esperança de amor.
+
+--Chut!--fez o enforcado.
+
+E D. Rui quási tropeçou no sinistro homem que estacava, com os braços
+abertos como as traves de uma cancela. Diante dêles quatro degraus de
+pedra subiam a um terraço, onde a claridade era larga e livre.
+Agachados, treparam os degraus--e ao fundo dum jardim sem árvores, todo
+em canteiros de flores bem recortados, orlados de buxo curto,
+avistaram um lado da casa batido pela lua cheia. Ao meio, entre as
+janelas de peitoril fechadas, um balcão de pedra, com manjericões aos
+cantos, conservava as vidraças abertas largamente. O quarto, dentro,
+apagado, era como um buraco de treva na claridade da fachada que o luar
+banhava. E arrimada contra o balcão, estava uma escada com degraus de
+corda.
+
+Então o enforcado empurrou D. Rui vivamente dos degraus para a escuridão
+da avenida. E aí, com um modo urgente, dominando o cavaleiro, exclamou:
+
+--Senhor! Convêm agora que me deis o vosso sombreiro e a capa! Vós
+quedais aqui na escuridão destas árvores. Eu vou trepar àquela escada e
+espreitar para aquele quarto... E se fôr como desejais, aqui voltarei, e
+com Deus sêde feliz...
+
+D. Rui recuou no horror de que tal criatura subisse a tal janela!
+
+E bateu o pé, gritou surdamente:
+
+--Não, por Deus!
+
+Mas a mão do enforcado, lívida na escuridão, bruscamente lhe arrancou o
+sombreiro da cabeça, lhe puxou a capa do braço. E já se cobria, já se
+embuçava, murmurando agora, numa súplica ansiosa:
+
+--Não mo negueis, senhor, que se vos fizer grande serviço, ganharei
+grande mercê!
+
+E galgou os degraus:--estava no alumiado e largo terraço.
+
+D. Rui subiu, atontado, e espreitou. E--oh maravilha!--era êle, D. Rui,
+todo êle, na figura e no modo, aquele homem que, por entre os canteiros
+e o buxo curto, avançava, airoso e leve, com a mão na cintura, a face
+erguida risonhamente para a janela, a longa pluma escarlate do chapéu
+balançando em triunfo. O homem avançava no luar esplêndido. O quarto
+amoroso lá estava esperando, aberto e negro. E D. Rui olhava, com olhos
+que faiscavam, tremendo de pasmo e cólera. O homem chegara à escada:
+destraçou a capa, assentou o pé no degrau de corda!--«Oh! lá sobe, o
+maldito!»--rugiu D. Rui. O enforcado subia. Já a alta figura, que era
+dêle, D. Rui, estava a meio da escada, toda negra contra a parede
+branca. Parou!... Não! não parara: subia, chegava,--já sôbre o rebordo
+da varanda pousara o joelho cauteloso. D. Rui olhava, desesperadamente,
+com os olhos, com a alma, com todo o seu ser... E eis que, de repente,
+do quarto negro surge um negro vulto, uma furiosa voz brada:--«vilão,
+vilão!»--e uma lâmina de adaga faisca, e cai, e outra vez se ergue, e
+rebrilha, e se abate, e ainda refulge, e ainda se embebe!... Como um
+fardo, do alto da escada, pesadamente, o enforcado cai sôbre a terra
+mole. Vidraças, portadas do balcão logo se fecham com fragor. E não
+houve mais senão o silêncio, a serenidade macia, a lua muito alta e
+redonda no céu de verão.
+
+Num relance D. Rui compreendera a traição, arrancara a espada, recuando
+para a escuridão da avenida--quando, oh milagre! correndo através do
+terraço, aparece o enforcado, que lhe agarra a manga e lhe grita:
+
+--A cavalo, senhor, e abalar, que o encontro não era de amor, mas de morte!
+
+Ambos descem arrebatadamente a avenida, costeiam o tanque sob o refúgio
+dos arbustos em flor, metem pela rua estreita orlada de teixos, varam a
+porta--e um momento param, ofegantes, na estrada, onde a lua, mais
+refulgente, mais cheia, fazia como um puro dia.
+
+E então, só então, D. Rui descobriu que o enforcado conservava cravada
+no peito, até aos copos, a adaga, cuja ponta lhe saía pelas costas,
+luzidia e limpa!... Mas já o pavoroso homem o empurrava, o apressava:
+
+--A cavalo, senhor, e abalar, que ainda está sôbre nós a traição!
+
+Arrepiado, numa ânsia de findar aventura tam cheia de milagre e de
+horror, D. Rui colheu as rédeas, cavalgou sôfregamente. E logo, em
+grande pressa, o enforcado saltou tambêm para a garupa do cavalo fiel.
+Todo se arrepiou o bom cavaleiro, ao sentir nas suas costas o roçar
+daquele corpo morto, dependurado de uma forca, atravessado por uma
+adaga. Com que desespêro galopou então pela estrada infindável! Em
+carreira tam violenta o enforcado nem oscilava, rígido sôbre a garupa,
+como um bronze num pedestal. E D. Rui a cada momento sentia um frio mais
+regelado que lhe regelava os ombros, como se levasse sôbre êles um saco
+cheio de gêlo. Ao passar no cruzeiro murmurou:--«Senhor,
+valei-me!»--Para alêm do cruzeiro, de repente estremeceu com o quimérico
+medo de que tam fúnebre companheiro para sempre o ficasse acompanhando,
+e se tornasse seu destino galopar através do mundo, numa noite eterna,
+levando um morto à garupa... E não se conteve, gritou para trás, no
+vento da carreira que os vergastava:
+
+--¿Para onde quereis que vos leve?
+
+O enforcado, encostando tanto o corpo a D. Rui que o magoou com os copos
+da adaga, segredou:
+
+--Senhor, convêm que me deixeis no Cêrro!
+
+Doce e infinito alívio para o bom cavaleiro--pois o Cêrro estava perto,
+e já lhe avistava, na claridade desmaiada, os pilares e as traves
+negras... Em breve estacou o cavalo que tremia, branqueado de espuma.
+
+Logo o enforcado, sem rumor, escorregou da garupa, segurou, como
+bom serviçal, o estribo de D. Rui. E com a caveira erguida, a língua
+negra mais saída de entre os dentes brancos, murmurou em respeitosa
+súplica:
+
+--Senhor, fazei-me agora a grande mercê de me pendurar outra vez da
+minha trave.
+
+D. Rui estremeceu de horror:
+
+--Por Deus! Que vos enforque, eu?...
+
+O homem suspirou, abrindo os braços compridos:
+
+--Senhor, por vontade de Deus é, e por vontade de Aquela que é mais cara
+a Deus!
+
+Então, resignado, submisso aos mandados do Alto, D. Rui apeou--e começou
+a seguir o homem, que subia para o Cêrro pensativamente, vergando o
+dorso, de onde saía, espetada e luzidia, a ponta da adaga. Pararam ambos
+sob a trave vazia. Em tôrno das outras traves pendiam as outras
+carcassas. O silêncio era mais triste e fundo que os outros silêncios da
+terra. A água da lagôa ennegrecera. A lua descia e desfalecia.
+
+D. Rui considerou a trave onde restava, curto no ar, o pedaço de corda
+que êle cortara com a espada.
+
+--¿Como quereis que vos pendure?--exclamou.--Àquele pedaço de corda não
+posso chegar com a mão; nem eu só basto para lá vos içar.
+
+--Senhor--respondeu o homem--aí a um canto deve haver um longo rôlo de
+corda. Uma ponta dela ma atareis a este nó que trago no pescoço: a outra
+ponta a arremessareis por cima da trave, e puxando depois, forte como
+sois, bem me podereis reenforcar.
+
+Ambos curvados, com passos lentos, procuraram o rôlo de corda. E foi o
+enforcado que o encontrou, o desenrolou... Então D. Rui descalçou as
+luvas. E ensinado por êle (que tam bem o aprendera do carrasco) atou uma
+ponta da corda ao laço que o homem conservava no pescoço, e arremessou
+fortemente a outra ponta, que ondeou no ar, passou sôbre a trave, ficou
+pendurada rente ao chão. E o rijo cavaleiro, fincando os pés, retezando
+os braços, puxou, içou o homem, até êle se quedar, suspenso, negro no
+ar, como um enforcado natural entre os outros enforcados.
+
+--Estais bem assim?
+
+Lenta e sumida, veio a voz do morto:
+
+--Senhor, estou como devo.
+
+Então D. Rui, para o fixar, enrolou a corda em voltas grossas ao pilar
+de pedra. E tirando o sombreiro, limpando com as costas da mão o suor
+que o alagava, contemplou o seu sinistro e miraculoso companheiro.
+Estava já rígido como antes, com a face pendida sob as melenas caídas,
+os pés inteiriçados, todo poído e carcomido como uma vélha carcassa. No
+peito conservava a adaga cravada. Por cima, dois corvos dormiam
+quietos.
+
+--¿E agora que mais quereis?--perguntou D. Rui, começando a calçar as
+luvas.
+
+Sumidamente, do alto, o enforcado murmurou:
+
+--Senhor, muito vos rogo agora que, ao chegar a Segóvia, tudo conteis
+fielmente a Nossa Senhora do Pilar, vossa madrinha, que dela espero
+grande mercê para a minha alma, por êste serviço que, a seu mandado, vos
+fez o meu corpo!
+
+Então, D. Rui de Cardenas tudo compreendeu--e, ajoelhando devotamente
+sôbre o chão de dor e morte, rezou uma longa oração por aquele bom
+enforcado.
+
+Depois galopou para Segóvia. A manhã clareava quando êle transpôs a
+porta de S. Mauros. No ar fino os sinos claros tocavam a matinas. E
+entrando na igreja de Nossa Senhora do Pilar, ainda no desalinho da sua
+terrível jornada, D. Rui, de rôjo ante o altar, narrou à sua Divina
+Madrinha a ruim tenção que o levara a Cabril, o socorro que do céu
+recebera, e, com quentes lágrimas de arrependimento e gratidão, lhe
+jurou que nunca mais poria desejo onde houvesse pecado, nem no seu
+coração daria entrada a pensamento que viesse do Mundo e do Mal.
+
+
+IV
+
+A essa hora, em Cabril, D. Alonso de Lara, com os olhos esbugalhados de
+pasmo e terror, esquadrinhava todas as ruas e recantos e sombras do seu
+jardim.
+
+Quando ao alvorecer, depois de escutar à porta da câmara onde nessa
+noite encerrara D. Leonor, êle descera subtilmente ao jardim e não
+encontrara, debaixo do balcão, rente à escada, como deliciosamente
+esperava, o corpo de D. Rui de Cardenas, teve por certo que o homem
+odioso, ao tombar, ainda com um resto débil de vida, se arrastara
+sangrando e arquejando, na tentativa de alcançar o cavalo e abalar de
+Cabril... Mas, com aquela rija adaga que êle três vezes lhe enterrara no
+peito, e que no peito lhe deixara, não se arrastaria o vilão por muitas
+jardas, e nalgum canto devia jazer frio e inteiriçado. Rebuscou então
+cada rua, cada sombra, cada maciço de arbustos. E--maravilhoso
+caso!--não descobria o corpo, nem pègadas, nem terra que houvesse sido
+remexida, nem sequer rasto de sangue sôbre a terra! E todavia, com mão
+certeira e faminta de vingança, três vezes êle lhe embebera a adaga
+no peito, e no peito lha deixara!
+
+E era Rui de Cardenas o homem que êle matara--que muito bem o conhecera
+logo, do fundo apagado do quarto de onde espreitava, quando êle, à
+claridade da lua, veio através do terraço, confiado, ligeiro, com a mão
+na cintura, a face risonhamente erguida e a pluma do sombreiro meneando
+em triunfo! ¿Como podia ser cousa tam rara--um corpo mortal sobrevivendo
+a um ferro, que três vezes lhe vara o coração e no coração lhe fica
+cravado? E a maior raridade era que nem no chão, debaixo da varanda,
+onde corria ao longo do muro uma tira de goivos e cecêns, deixara um
+vestígio aquele corpo forte, caíndo de tam alto pesadamente,
+inertemente, como um fardo! Nem uma flor machucada--todas direitas,
+viçosas, como novas, com gotas leves de orvalho! Imóvel de espanto,
+quási de terror, D. Alonso de Lara ali parava, considerando o balcão,
+medindo a altura da escada, olhando esgazeadamente os goivos direitos,
+frescos, sem uma haste ou fôlha vergada. Depois recomeçava a correr
+loucamente o terraço, a avenida, a rua de teixos, na esperança ainda
+duma pègada, dum galho partido, de uma nódoa de sangue na areia fina.
+
+Nada! Todo o jardim oferecia um desusado arranjo e limpeza nova, como se
+sôbre êle nunca houvesse passado nem o vento que desfolha, nem o
+sol que murcha.
+
+Então, ao entardecer, devorado pela incerteza e mistério, tomou um
+cavalo e, sem escudeiro ou cavalariço, partiu para Segóvia. Curvada e
+escondidamente, como um foragido, penetrou no seu palácio pela porta do
+pomar: e o seu primeiro cuidado foi correr à galeria de abóbada,
+destrancar as portadas da janela e espreitar ávidamente a casa de D. Rui
+de Cardenas. Todas as gelosias da vélha morada do arcediago estavam
+escuras, abertas, respirando a fresquidão da noite:--e à porta, sentado
+num banco de pedra, um môço de cavalariça afinava preguiçosamente a
+bandurra.
+
+D. Alonso de Lara desceu à sua câmara, lívido, pensando que não houvera
+certamente desgraça em casa onde todas as janelas se abrem para
+refrescar, e no portão da rua os moços folgam. Então bateu as palmas,
+pediu furiosamente a ceia. E, apenas sentado, ao tôpo da mesa, na sua
+alta séde de couro lavrado, mandou chamar o intendente, a quem ofereceu
+logo com estranha familiaridade um copo de vinho vélho. Emquanto o
+homem, de pé, bebia respeitosamente, D. Alonso, metendo os dedos pelas
+barbas e forçando a sua sombria face a sorrir, perguntava pelas novas e
+rumores de Segóvia. ¿Nesses dias da sua estada em Cabril, nenhum
+caso criara pela cidade espanto e murmuração?... O intendente limpou os
+beiços, para afirmar que nada ocorrera em Segóvia de que andasse
+murmuração, a não ser que a filha do senhor D. Gutierres, tam môça e tam
+rica herdeira, tomara o véu no convento das Carmelitas Descalças. D.
+Alonso insistia, fitando vorazmente o intendente. ¿E não se travara uma
+grande briga?... ¿não se encontrara ferido, na estrada de Cabril, um
+cavaleiro môço, muito falado?... O intendente encolhia os ombros: nada
+ouvira, pela cidade, de brigas ou de cavaleiros feridos. Com um acêno
+desabrido D. Alonso despediu o intendente.
+
+Apenas ceara, parcamente, logo voltou à galeria a espreitar as janelas
+de D. Rui. Estavam agora cerradas; na última, da esquina, tremeluzia uma
+claridade. Toda a noite D. Alonso velou, remoendo incansavelmente o
+mesmo espanto. ¿Como pudera escapar aquele homem, com uma adaga
+atravessada no coração? Como pudera?... Ao luzir da manhã, tomou uma
+capa, um largo sombreiro, desceu ao adro, todo embuçado e encoberto, e
+ficou rondando por diante da casa de D. Rui. Os sinos tocaram a matinas.
+Os mercadores, com os gibões mal abotoados, saíam a erguer as portadas
+das lojas, a pendurar as taboletas. Já os hortelões, picando os burros
+carregados de ceiras, atiravam os pregões de hortaliça fresca, e
+frades descalços, com o alforge aos ombros, pediam esmola, benziam as
+moças.
+
+Beatas embiocadas, com grossos rosários negros, enfiavam gulosamente
+para a igreja. Depois o pregoeiro da cidade, parando a um canto do adro,
+tocou uma buzina, e numa voz tremenda começou a ler um edital.
+
+O senhor de Lara, parara junto do chafariz, pasmado, como embebido no
+cantar das três bicas de água. De repente pensou que aquele edital, lido
+pelo pregoeiro da cidade, se referia talvez a D. Rui, ao seu
+desaparecimento... Correu à esquina do adro--mas já o homem enrolara o
+papel, se afastava majestosamente, batendo nas lages com a sua vara
+branca. E, quando se voltava para espiar de novo a casa, eis que os seus
+olhos atónitos encontram D. Rui, D. Rui que êle matara--e que vinha
+caminhando para a igreja de Nossa Senhora, ligeiro, airoso, a face
+risonha e erguida no fresco ar da manhã, de gibão claro, de plumas
+claras, com uma das mãos pousando na cinta, a outra meneando
+distraídamente um bastão com borlas de torçal de oiro!
+
+D. Alonso recolheu então a casa com passos arrastados e envelhecidos. No
+alto da escadaria de pedra, achou o seu vélho capelão, que o viera
+saùdar, e que, penetrando com êle na ante-câmara, depois de pedir, com
+reverência, novas da senhora D. Leonor, lhe contou logo dum
+prodigioso caso que causava pela cidade grave murmuração e espanto. Na
+véspera, de tarde, indo o corregedor visitar o cêrro das forcas, pois se
+acercava a festa dos Santos Apóstolos, descobrira, com muito pasmo e
+muito escândalo, que um dos enforcados tinha uma adaga cravada no peito!
+¿Fôra gracejo de um pícaro sinistro? ¿Vingança que nem a morte
+saciara?... E para maior prodígio ainda, o corpo fôra despendurado da
+forca, arrastado em horta ou jardim (pois que prêsas aos vélhos farrapos
+se encontraram fôlhas tenras) e depois novamente enforcado e com corda
+nova!... E assim ia a turbulência dos tempos, que nem os mortos se
+furtavam a ultrajes!
+
+D. Alonso escutava com as mãos a tremer, os pêlos arrepiados. E
+imediatamente, numa ansiosa agitação, bradando, tropeçando contra as
+portas, quis partir, e por seus olhos verificar a fúnebre profanação. Em
+duas mulas ajaezadas à pressa, ambos abalaram para o Cêrro dos
+Enforcados, êle e o capelão arrastado e aturdido. Numeroso povo de
+Segóvia se ajuntara já no Cêrro, pasmando para o maravilhoso horror--o
+morto que fôra morto!... Todos se arredaram ante o nobre senhor de Lara,
+que arremessando-se pelo cabeço acima, estacara a olhar, esgazeado e
+lívido, para o enforcado e para a adaga que lhe varava o peito. Era
+a sua adaga:--fôra êle que matara o morto!
+
+Galopou espavoridamente para Cabril. E aí se encerrou com o seu segredo,
+começando logo a amarelecer, a definhar, sempre arredado da senhora D.
+Leonor, escondido pelas ruas sombrias do jardim, murmurando palavras ao
+vento, até que na madrugada de S. João uma serva, que voltava da fonte
+com a sua bilha, o encontrou morto, por baixo do balcão de pedra, todo
+estirado no chão, com os dedos encravados no canteiro de goivos, onde
+parecia ter longamente esgravatado a terra, a procurar...
+
+
+V
+
+Para fugir a tam lamentáveis memórias, a senhora D. Leonor, herdeira de
+todos os bens da casa de Lara, recolheu ao seu palácio de Segóvia. Mas
+como agora sabia que o senhor D. Rui de Cardenas escapara
+miraculosamente à emboscada de Cabril, e como cada manhã, espreitando de
+entre as gelosias, meio cerradas, o seguia, com olhos que se não
+fartavam e se humedeciam, quando êle cruzava o adro para entrar na
+igreja, não quis ela, com receio das pressas e impaciências do seu
+coração, visitar a Senhora do Pilar emquanto durasse o seu luto. Depois,
+uma manhã de domingo, quando, em vez de crepes negros, se poude cobrir
+de sêdas roxas, desceu a escadaria do seu palácio, pálida de uma emoção
+nova e divina, pisou as lages do adro, transpôs as portas da igreja. D.
+Rui de Cardenas estava ajoelhado diante do altar, onde depusera o seu
+ramo votivo de cravos amarelos e brancos. Ao rumor das sêdas finas,
+ergueu os olhos com uma esperança muito pura e toda feita de graça
+celeste, como se um anjo o chamasse. D. Leonor ajoelhou, com o peito a
+arfar, tam pálida e tam feliz que a cera das tochas não era mais pálida,
+nem mais felizes as andorinhas que batiam as asas livres pelas ogivas da
+vélha igreja.
+
+Ante êsse altar, e de joelhos nessas lages, foram eles casados pelo
+bispo de Segóvia, D. Martinho, no outono do ano da Graça de 1475, sendo
+já reis de Castela Isabel e Fernando, muito fortes e muito católicos,
+por quem Deus operou grandes feitos sôbre a terra e sôbre o mar.
+
+
+
+
+JOSE MATIAS
+
+
+Linda tarde, meu amigo!... Estou esperando o entêrro do José Matias--do
+José Matias de Albuquerque, sobrinho do Visconde de Garmilde... O meu
+amigo certamente o conheceu--um rapaz airoso, louro como uma espiga, com
+um bigode crespo de paladino sôbre uma bôca indecisa de contemplativo,
+déstro cavaleiro, duma elegância sóbria e fina. E espírito curioso,
+muito afeiçoado às ideas gerais, tam penetrante que compreendeu a minha
+_Defesa da Filosofia Hegeliana_! Esta imagem do José Matias data de
+1865: porque a derradeira vez que o encontrei, numa tarde agreste de
+Janeiro, metido num portal da rua de S. Bento, tiritava dentro duma
+quinzena côr de mel, roída nos cotovelos, e cheirava abominavelmente a
+aguardente.
+
+Mas o meu amigo, numa ocasião que o José Matias parou em Coímbra,
+recolhendo do Pôrto, ceou com êle, no Paço do Conde! Até o Craveiro, que
+preparava as _Ironias e Dores de Satan_, para acirrar mais a briga entre
+a Escola Purista e a Escola Satânica, recitou aquele seu soneto, de tam
+fúnebre idealismo: _Na jaula do meu peito, o coração_... E ainda lembro
+o José Matias, com uma grande gravata de setim preto tufada entre o
+colete de linho branco, sem despegar os olhos das velas das serpentinas,
+sorrindo pálidamente àquele coração que rugia na sua jaula... Era uma
+noite de Abril, de lua cheia. Passeamos depois em bando, com guitarras,
+pela Ponte e pelo Choupal. O Januário cantou ardentemente as endechas
+românticas do nosso tempo:
+
+ Ontem de tarde, ao sol posto,
+ Contemplavas, silenciosa,
+ A torrente caudalosa
+ Que refervia a teus pés...
+
+E o José Matias, encostado ao parapeito da Ponte, com a alma e os olhos
+perdidos na lua!--¿Porque não acompanha o meu amigo êste môço
+interessante ao Cemitério dos Prazeres? Eu tenho uma tipóia, de praça e
+com número, como convêm a um Professor de filosofia... O quê! ¿Por causa
+das calças claras? Oh! meu caro amigo! De todas as materializações
+da simpatia, nenhuma mais grosseiramente material do que a casimira
+preta. E o homem que nós vamos enterrar era um grande espiritualista!
+
+Vem o caixão saíndo da Igreja... Apenas três carruagens para o
+acompanhar. Mas realmente, meu caro amigo, o José Matias morreu há seis
+anos, no seu puro brilho. Êsse, que aí levamos, meio decomposto, dentro
+de tábuas agaloadas de amarelo, é um resto de bêbedo, sem história e sem
+nome, que o frio de Fevereiro matou no vão dum portal.
+
+¿O sujeito de óculos de oiro, dentro do copé?... Não conheço, meu amigo.
+Talvez um parente rico, dêsses que aparecem nos enterros, com o
+parentesco correctamente coberto de fumo, quando o defunto já não
+importuna, nem compromete. O homem obeso de carão amarelo, dentro da
+vitória, é o Alves _Capão_, que tem um jornal onde desgraçadamente a
+Filosofia não abunda, e que se chama a _Piada_. ¿Que relações o prendiam
+ao Matias?... Não sei. Talvez se embebedassem nas mesmas tascas; talvez
+o José Matias últimamente colaborasse na _Piada_; talvez debaixo daquela
+gordura e daquela literatura, ambas tam sórdidas, se abrigue uma alma
+compassiva. Agora é a nossa tipóia... ¿Quer que desça a vidraça? Um
+cigarro?... Eu trago fósforos. Pois êste José Matias foi um homem
+desconsolador para quem, como eu, na vida ama a evolução lógica e
+pretende que a espiga nasça coerentemente do grão. Em Coímbra sempre o
+consideramos como uma alma escandalosamente banal. Para êste juizo
+concorria talvez a sua horrenda correcção. Nunca um rasgão brilhante na
+batina! nunca uma poeira estouvada nos sapatos! nunca um pêlo rebelde do
+cabelo ou do bigode fugindo daquele rígido alinho que nos desolava! Alêm
+disso, na nossa ardente geração, êle foi o único intelectual que não
+rugiu com as misérias da Polónia; que leu sem palidez ou pranto as
+_Contemplações_; que permaneceu insensível ante a ferida de Garibaldi! E
+todavia, nesse José Matias, nenhuma secura ou dureza ou egoismo ou
+desafabilidade! Pelo contrário! Um suave camarada, sempre cordial, e
+mansamente risonho. Toda a sua inabalável quietação parecia provir duma
+imensa superficialidade sentimental. E, nesse tempo, não foi sem razão e
+propriedade que nós alcunhamos aquele môço tam macio, tam louro e tam
+ligeiro, de _Matias-Coração-de-Esquilo_. Quando se formou, como lhe
+morrera o pai, depois a mãe, delicada e linda senhora de quem herdara
+cincoenta contos, partiu para Lisboa, alegrar a solidão dum tio que o
+adorava, o general Visconde de Garmilde. O meu amigo sem dúvida se
+lembra dessa perfeita estampa de general clássico, sempre de bigodes
+terríficamente encerados, as calças côr de flor de alecrim
+desesperadamente esticadas pelas presilhas sôbre as botas coruscantes, e
+o chicote debaixo do braço com a ponta a tremer, ávida de vergastar o
+Mundo! Guerreiro grotesco e deliciosamente bom... O Garmilde morava
+então em Arroios, numa casa antiga de azulejos, com um jardim, onde êle
+cultivava apaixonadamente canteiros soberbos de dálias. Êsse jardim
+subia muito suavemente até ao muro coberto de hera que o separava de
+outro jardim, o largo e belo jardim de rosas do Conselheiro Matos
+Miranda, cuja casa, com um arejado terraço entre dois torreõsinhos
+amarelos, se erguia no cimo do outeiro e se chamava a casa da
+«Parreira». O meu amigo conhece (pelo menos de tradição, como se conhece
+Helena de Troia ou Inês de Castro) a formosa Elisa Miranda, a Elisa da
+Parreira... Foi a sublime beleza romântica de Lisboa, nos fins da
+Regeneração. Mas realmente Lisboa apenas a entrevia pelos vidros da sua
+grande caleche, ou nalguma noite de iluminação do Passeio Público entre
+a poeira e a turba, ou nos dois bailes da Assembleia do Carmo de que o
+Matos Miranda era um director venerado. Por gôsto borralheiro de
+provinciana, ou por pertencer àquela burguesia séria que nesses
+tempos, em Lisboa, ainda conservava os antigos hábitos severamente
+encerrados, ou por imposição paternal do marido, já diabético e com
+sessenta anos--a Deusa raramente emergia de Arroios e se mostrava aos
+mortais. Mas quem a viu, e com facilidade constante, quási
+irremediavelmente, logo que se instalou em Lisboa, foi o José
+Matias--porque, jazendo o palacete do general na falda da colina, aos
+pés do jardim e da casa da Parreira, não podia a divina Elisa assomar a
+uma janela, atravessar o terraço, colhêr uma rosa entre as ruas de buxo,
+sem ser deliciosamente visível, tanto mais que nos dois jardins
+assoalhados nenhuma árvore espalhava a cortina da sua rama densa. O meu
+amigo de-certo trauteou, como todos trauteamos, aqueles versos gastos,
+mas imortais:
+
+ Era no outono, quando a imagem tua
+ Á luz da lua...
+
+Pois, como nessa estrofe, o pobre José Matias, ao regressar da praia da
+Ericeira em outubro, no outono, avistou Elisa Miranda, uma noite no
+terraço, à luz da lua! O meu amigo nunca contemplou aquele precioso tipo
+de encanto Lamartiniano. Alta, esbelta, ondulosa, digna da comparação
+bíblica da palmeira ao vento. Cabelos negros, lustrosos e ricos, em
+bandós ondeados. Uma carnação de camélia muito fresca. Olhos negros,
+líquidos, quebrados, tristes, de longas pestanas... Ah! meu amigo, até
+eu, que já então laboriosamente anotava Hegel, depois de a encontrar
+numa tarde de chuva esperando a carruagem à porta do Seixas, a adorei
+durante três exaltados dias e lhe rimei um soneto! Não sei se o José
+Matias lhe dedicou sonetos. Mas todos nós, seus amigos, percebemos logo
+o forte, profundo, absoluto amor que concebera, desde a noite de outono,
+à luz da lua, aquele coração, que em Coímbra considerávamos de _esquilo_!
+
+Bem compreende que homem tam comedido e quieto não se exalou em suspiros
+públicos. Já, porêm, no tempo de Aristóteles, se afirmava que amor e
+fumo não se escondem; e do nosso cerrado José Matias o amor começou logo
+a escapar, como o fumo leve através das fendas invisíveis duma casa
+fechada que arde terrívelmente. Bem me recordo duma tarde que o visitei
+em Arroios, depois de voltar do Alentejo. Era um domingo de Julho. Êle
+ia jantar com uma tia-avó, uma D. Mafalda Noronha, que vivia em Bemfica,
+na quinta dos Cedros, onde habitualmente jantavam tambêm aos domingos o
+Matos Miranda e a divina Elisa. Creio mesmo que só nessa casa ela e o
+José Matias se encontravam, sobretudo com as facilidades que
+oferecem pensativas alamedas e retiros de sombra. As janelas do quarto
+do José Matias abriam sôbre o seu jardim e sôbre o jardim dos Mirandas:
+e, quando entrei, êle ainda se vestia, lentamente. Nunca admirei, meu
+amigo, face humana aureolada por felicidade mais segura e serena! Sorria
+iluminadamente quando me abraçou, com um sorriso que vinha das
+profundidades da alma iluminada; sorria ainda deliciadamente emquanto eu
+lhe contei todos os meus desgostos no Alentejo: sorriu depois
+estáticamente, aludindo ao calor e enrolando um cigarro distraído; e
+sorriu sempre, enlevado, a escolher na gaveta da cómoda, com escrúpulo
+religioso, uma gravata de sêda branca. E a cada momento,
+irresistivelmente, por um hábito já tam inconsciente como o pestanejar,
+os seus olhos risonhos, calmamente enternecidos, se voltavam para as
+vidraças fechadas... De sorte que, acompanhando aquele raio ditoso, logo
+descobri, no terraço da casa da Parreira, a divina Elisa, vestida de
+claro, com um chapéu branco, passeando preguiçosamente, calçando
+pensativamente as luvas, e espreitando tambêm as janelas do meu amigo,
+que um lampejo oblíquo do sol ofuscava de manchas de oiro. O José Matias
+no entanto conversava, antes murmurava, através do sorriso perene,
+coisas afáveis e dispersas. Toda a sua atenção se concentrara
+diante do espelho, no alfinete de coral e pérola para prender a gravata,
+no colete branco que abotoava e ajustava com a devoção com que um padre
+novo, na exaltação cândida da primeira missa, se reveste da estola e do
+amito para se acercar do altar. Nunca eu vira um homem deitar, com tam
+profundo êxtasi, água de Colónia no lenço! E depois de enfiar a
+sobrecasaca, de lhe espetar uma soberba rosa, foi com inefável emoção,
+sem reter um delicioso suspiro, que abriu largamente, solenemente, as
+vidraças! _Introibo ad altarem Deæ!_ Eu permaneci discretamente
+enterrado no sofá. E, meu caro amigo, acredite! invejei aquele homem à
+janela, imóvel, hirto na sua adoração sublime, com os olhos, e a alma, e
+todo o ser cravados no terraço, na branca mulher calçando as luvas
+claras, e tam indiferente ao Mundo como se o Mundo fôsse apenas o
+ladrilho que ela pisava e cobria com os pés!
+
+E êste enlêvo, meu amigo, durou dez anos, assim esplêndido, puro,
+distante e imaterial! Não ria... De-certo se encontravam na quinta de D.
+Mafalda: de-certo se escreviam, e transbordantemente, atirando as cartas
+por cima do muro que separava os dois quintais: mas nunca, por cima das
+heras dêsse muro, procuraram a rara delícia duma conversa roubada ou a
+delícia ainda mais perfeita dum silêncio escondido na sombra. E
+nunca trocaram um beijo... Não duvide! Algum apêrto de mão fugidio e
+sôfrego, sob os arvoredos da D. Mafalda, foi o limite exaltadamente
+extremo, que a vontade lhes marcou ao desejo. O meu amigo não compreende
+como se mantiveram assim dois frágeis corpos, durante dez anos, em tam
+terrível e mórbido renunciamento... Sim, de-certo lhes faltou, para se
+perderem, uma hora de segurança ou uma portinha no muro. Depois a divina
+Elisa vivia realmente num mosteiro, em que ferrolhos e grades eram
+formados pelos hábitos rígidamente reclusos do Matos Miranda, diabético
+e tristonho. Mas, na castidade dêste amor, entrou muita nobreza moral e
+finura superior de sentimento. O amor espiritualiza o homem--e
+materializa a mulher. Essa espiritualização era fácil ao José Matias,
+que (sem nós desconfiarmos) nascera desvairadamente espiritualista; mas
+a humana Elisa encontrou tambêm um gôzo delicado nessa ideal adoração de
+monge, que nem ousa roçar, com os dedos trémulos e embrulhados no
+rozário, a túnica da Virgem sublimada. Êle, sim! êle gozou nesse amor
+transcendentemente desmaterializado um encanto sobreumano. E durante dez
+anos, como o Ruy-Blas do vélho Hugo, caminhou, vivo e deslumbrado,
+dentro do seu sonho radiante, sonho em que Elisa habitou realmente
+dentro da sua alma, numa fusão tam absoluta que se tornou consubstancial
+com o seu ser! ¿Acreditará o meu amigo que êle abandonou o charuto,
+mesmo passeando solitariamente a cavalo pelos arredores de Lisboa, logo
+que descobrira na quinta de D. Mafalda, uma tarde, que o fumo perturbava
+Elisa?
+
+E esta presença real da divina criatura no seu ser criou no José Matias
+modos novos, estranhos, derivando da alucinação. Como o Visconde de
+Garmilde jantava cedo, à hora vernácula do Portugal antigo, José Matias
+ceava, depois de S. Carlos, naquele delicioso e saudoso Café Central,
+onde o linguado parecia frito no céu, e o Colares no céu engarrafado.
+Pois nunca ceava sem serpentinas profusamente acesas e a mesa juncada de
+flores. Porque? Porque Elisa tambêm ali ceava invisível. Daí êsses
+silêncios banhados num sorriso religiosamente atento... Porque? Porque a
+estava sempre escutando! Ainda me lembro dêle arrancar do quarto três
+gravuras clássicas de Faunos ousados e Ninfas rendidas... Elisa pairava
+idealmente naquele ambiente; e êle purificava as paredes, que mandou
+forrar de sêdas claras. O amor arrasta ao luxo, sobretudo amor de tam
+elegante idealismo: e o José Matias prodigalizou com esplendor o luxo
+que ela partilhava. Decentemente não podia andar com a imagem de
+Elisa numa tipóia de praça, nem consentir que a augusta imagem roçasse
+pelas cadeiras de palhinha da plateia de S. Carlos. Montou, portanto,
+carruagens dum gôsto sóbrio e puro: e assinou um camarote na Ópera, onde
+instalou, para ela, uma poltrona pontifical, de setim branco, bordado a
+êstrelas de oiro.
+
+Alêm disso como descobrira a generosidade de Elisa, logo se tornou
+congénere e suntuosamente generoso: e ninguêm existiu então em Lisboa
+que espalhasse, com facilidade mais risonha, notas de cem mil réis.
+Assim desbaratou, rápidamente, sessenta contos com o amor daquela mulher
+a quem nunca déra uma flor!
+
+¿E, durante êsse tempo, o Matos Miranda? Meu amigo, o bom Matos Miranda
+não desmanchava nem a perfeição, nem a quietação desta felicidade! ¿Tam
+absoluto seria o espiritualismo do José Matias que apenas se
+interessasse pela alma de Elisa, indiferente às submissões do seu corpo,
+invólucro inferior e mortal?... Não sei. Verdade seja! aquele digno
+diabético, tam grave, sempre de cachené de lã escura, com as suas suíças
+grisalhas, os seus ponderosos óculos de oiro, não sugeria ideas
+inquietadoras de marido ardente, cujo ardor, fatalmente e
+involuntariamente, se partilha e abrasa. Todavia nunca compreendi,
+eu, Filósofo, aquela consideração, quási carinhosa, do José Matias pelo
+homem que, mesmo desinteressadamente, podia por direito, por costume,
+contemplar Elisa desapertando as fitas da saia branca!... ¿Haveria ali
+reconhecimento por o Miranda ter descoberto numa remota rua de Setúbal
+(onde José Matias nunca a descortinaria) aquela divina mulher, e por a
+manter em confôrto, sólidamente nutrida, finamente vestida, transportada
+em caleches de macias molas? ¿Ou recebera o José Matias aquela costumada
+confidência--«não sou tua, nem dêle»--que tanto consola do sacrifício
+porque tanto lisonjeia o egoismo?... Não sei. Mas com certeza, êste seu
+magnânimo desdêm pela presença corporal do Miranda no templo, onde
+habitava a sua Deusa, dava à felicidade de José Matias uma unidade
+perfeita, a unidade dum cristal que por todos os lados rebrilha,
+igualmente puro, sem arranhadura ou mancha. E esta felicidade, meu
+amigo, durou dez anos... Que escandaloso luxo para um mortal!
+
+Mas um dia, a terra, para o José Matias, tremeu toda, num terramoto de
+incomparável espanto. Em Janeiro ou Fevereiro de 1871, o Miranda, já
+debilitado pela diabetes, morreu com uma pneumonia. Por estas mesmas
+ruas, numa pachorrenta tipóia de praça, acompanhei o seu entêrro
+numeroso, rico, com Ministros, porque o Miranda pertencia às
+Instituições. E depois, aproveitando a tipóia, visitei o José Matias em
+Arroios, não por curiosidade perversa, nem para lhe levar felicitações
+indecentes, mas para que, naquele lance deslumbrador, êle sentisse ao
+lado a fôrça moderadora da Filosofia... Encontrei porêm com êle um amigo
+mais antigo e confidencial, aquele brilhante Nicolau da Barca, que já
+conduzi tambêm a êste cemitério, onde agora jazem, debaixo de lápides,
+todos aqueles camaradas com quem levantei castelos nas nuvens... O
+Nicolau chegara da Velosa, da sua quinta de Santarêm, de madrugada,
+reclamado por um telegrama do Matias. Quando entrei, um criado atarefado
+arranjava duas malas enormes. O José Matias abalava nessa noite para o
+Pôrto. Já envergara mesmo um fato de viagem, todo negro, com sapatos de
+couro amarelo: e depois de me sacudir a mão, emquanto o Nicolau remexia
+um grog, continuou vagando pelo quarto, calado, como embaçado, com um
+modo que não era emoção, nem alegria púdicamente disfarçada, nem
+surprêsa do seu destino bruscamente sublimado. Não! se o bom Darwin nos
+não ilude no seu livro da _Expressão das Emoções_, o José Matias, nessa
+tarde, só sentia e só exprimia embaraço! Em frente, na casa da Parreira,
+todas as janelas permaneciam fechadas sob a tristeza da tarde
+cinzenta. E todavia surpreendi o José Matias atirando para o terraço,
+rápidamente, um olhar em que transparecia inquietação, ansiedade, quasi
+terror! Como direi? Aquele é o olhar que se resvala para a jaula mal
+segura onde se agita uma leôa! Num momento em que êle entrara na alcova,
+murmurei ao Nicolau, por cima do grog:--«O Matias faz perfeitamente em
+ir para o Pôrto...» Nicolau encolheu os ombros:--«Sim, pensou que era
+mais delicado... Eu aprovei. Mas só durante os meses de luto pesado...»
+Às sete horas acompanhamos o nosso amigo à estação de Santa Apolónia. Na
+volta, dentro do copé que uma grande chuva batia, filosofamos. Eu sorria
+contente:--«Um ano de luto, e depois muita felicidade e muitos filhos...
+É um poema acabado!»--O Nicolau acudiu sério:--«E acabado numa deliciosa
+e suculenta prosa. A divina Elisa fica com toda a sua divindade e a
+fortuna do Miranda, uns dez ou dôze contos de renda... Pela primeira vez
+na nossa vida contemplamos, tu e eu, a virtude recompensada!»
+
+
+Meu caro amigo! os meses cerimoniais de luto passaram, depois outros, e
+José Matias não se arredou do Pôrto. Nesse Agosto o encontrei eu
+instalado fundamentalmente no Hotel Francfort, onde entretinha a
+melancolia dos dias abrasados, fumando (porque voltara ao tabaco), lendo
+romances de Júlio Verne, e bebendo cerveja gelada até que a tarde
+refrescava e êle se vestia, se perfumava, se floria para jantar na Foz.
+
+E a-pesar de se acercar o bemdito remate do luto e da desesperada
+espera, não notei no José Matias nem alvoroço elegantemente reprimido,
+nem revolta contra a lentidão do tempo, vélho por vezes tam moroso e
+trôpego... Pelo contrário! Ao sorriso de radiosa certeza, que nesses
+anos o iluminara com um nimbo de beatitude, sucedera a seriedade
+carregada, toda em sombra e rugas, de quem se debate numa dúvida
+irresolúvel, sempre presente, roedora e dolorosa. ¿Quer que lhe diga?
+Nesse verão, no Hotel Francfort, sempre me pareceu que o José Matias, a
+cada instante da sua vida acordada, mesmo emborcando a fresca cerveja,
+mesmo calçando as luvas ao entrar para a caleche que o levava à Foz,
+angustiadamente perguntava à sua consciência:--«Que hei-de fazer? Que
+hei-de fazer?»--E depois, uma manhã, ao almôço, realmente me assombrou,
+exclamando ao abrir o jornal, com um assomo de sangue na face: «O quê!
+Já são 29 de Agosto? Santo Deus... Já o fim de Agosto!...»
+
+Voltei a Lisboa, meu amigo. O inverno passou, muito sêco e muito azul.
+Eu trabalhei nas minhas _Origens do Utilitarismo_. Um domingo, no Rocio,
+quando já se vendiam cravos nas tabacarias, avistei dentro dum copé a
+divina Elisa, com plumas roxas no chapéu. E nessa semana encontrei no
+meu _Diário Ilustrado_ a notícia curta, quási tímida, do casamento da
+Snr.ª D. Elisa Miranda... ¿Com quem, meu amigo?--Com o conhecido
+propriétário, o Snr. Francisco Tôrres Nogueira!...
+
+O meu amigo cerrou aí o punho, e bateu na coxa espantado. Eu tambêm
+cerrei os punhos ambos, mas para os levantar ao Céu onde se julgam os
+feitos da Terra, e clamar furiosamente, aos urros, contra a falsidade, a
+inconstância ondeante e pérfida, toda a enganadora torpeza das mulheres,
+e daquela especial Elisa cheia de infâmia entre as mulheres! Atraiçoar à
+pressa, atabalhoadamente, apenas findara o luto negro, aquele nobre,
+puro, intelectual Matias! e o seu amor de dez anos, submisso e sublime!...
+
+E depois de apontar os punhos para o Céu ainda os apertava na cabeça,
+gritando:--«Mas porquê? porquê?»--Por amor? Durante anos ela amara
+enlevadamente êste môço, e dum amor que se não desiludira nem se
+fartara, porque permanecia suspenso, imaterial, insatisfeito. Por
+ambição? Tôrres Nogueira era um ocioso amável como José Matias, e
+possuia em vinhas hipotecadas os mesmos cincoenta ou sessenta contos que
+o José Matias herdara agora do tio Garmilde em terras excelentes e
+livres. Então porquê? Certamente porque os grossos bigodes negros do
+Tôrres Nogueira apeteciam mais à sua carne, do que o buço louro e
+pensativo do José Matias! Ah! bem ensinara S. João Crisólogo que a
+mulher é um monturo de impureza, erguido à porta do Inferno!
+
+Pois, meu amigo, quando eu assim rugia, encontro uma tarde na rua do
+Alecrim o nosso Nicolau da Barca, que salta da tipóia, me empurra para
+um portal, agarra excitadamente no meu pobre braço, e exclama
+engasgado:--«Já sabes? Foi o José Matias que recusou! Ela escreveu,
+esteve no Pôrto, chorou... Êle nem consentiu em a ver! Não quis casar,
+não quer casar!» Fiquei trespassado.--«E então ela...»--«Despeitada,
+fortemente cercada pelo Tôrres, cansada da viuvice, com aqueles bélos
+trinta anos em botão, que diabo! coitada, casou!» Eu ergui os braços até
+a abóbada do pátio:--«¿Mas então êsse sublime amor do José Matias?». O
+Nicolau, seu íntimo e confidente, jurou com irrecusável segurança:--«É o
+mesmo sempre! Infinito, absoluto... Mas não quer casar!»--Ambos nos
+olhamos, e depois ambos nos separamos, encolhendo os ombros, com
+aquele assombro resignado que convêm a espíritos prudentes perante o
+Incognoscível. Mas eu, Filósofo, e portanto espírito imprudente, toda
+essa noite esfuraquei o acto do José Matias com a ponta duma Psicologia
+que expressamente aguçara:--e já de madrugada, estafado, concluí, como
+se conclui sempre em Filosofia, que me encontrava diante duma Causa
+Primária, portanto impenetrável, onde se quebraria, sem vantagem para
+êle, para mim, ou para o Mundo, a ponta do meu Instrumento!
+
+Depois a divina Elisa casou e continuou habitando a Parreira com o seu
+Tôrres Nogueira, no confôrto e sossêgo que já gozara com o seu Matos
+Miranda. No meado do verão José Matias recolheu do Pôrto a Arroios, ao
+casarão do tio Garmilde, onde reocupou os seus antigos quartos, com as
+varandas para o jardim, já florido de dálias que ninguêm tratava. Veio
+Agosto, como sempre em Lisboa silencioso e quente. Aos domingos José Matias
+jantava com D. Mafalda de Noronha, em Bemfica, solitariamente--porque o
+Tôrres Nogueira não conhecia aquela venerada senhora da Quinta dos Cedros.
+A divina Elisa, com vestidos claros, passeava à tarde no jardim entre as
+roseiras. De sorte que a única mudança, naquele doce canto de Arroios,
+parecia ser o Matos Miranda no seu belo jazigo dos Prazeres, todo de
+mármore--e o Tôrres Nogueira no leito excelente de Elisa.
+
+Havia, porêm, uma tremenda e dolorosa mudança--a do José Matias!
+¿Adivinha o meu amigo como êsse desgraçado consumia os seus estéreis
+dias? Com os olhos, e a memória, e a alma, e todo o ser cravados no
+terraço, nas janelas, nos jardins da Parreira! Mas agora não era de
+vidraças largamente abertas, em aberto êxtasi, com o sorriso de segura
+beatitude: era por trás das cortinas fechadas, através duma escassa
+fenda, escondido, surripiando furtivamente os brancos sulcos do vestido
+branco, com a face toda devastada pela angústia e pela derrota. ¿E
+compreende porque sofria assim, êste pobre coração? Certamente porque
+Elisa, desdenhada pelos seus braços fechados, correra logo, sem luta,
+sem escrúpulos, para outros braços, mais acessíveis e prontos... Não,
+meu amigo! E note agora a complicada subtileza desta paixão. O José
+Matias permanecia devotamente crente de que Elisa, na profundidade da
+sua alma, nesse sagrado fundo espiritual onde não entram as imposições
+das conveniências, nem as decisões da razão pura, nem os ímpetos do
+orgulho, nem as emoções da carne--o amava, a êle, únicamente a êle, e
+com um amor que não deperecera, não se alterara, floria em todo o
+seu viço, mesmo sem ser regado ou tratado, como a antiga Rosa Mística! O
+que o torturava, meu amigo, o que lhe cavara longas rugas em curtos
+meses, era que um homem, um macho, um bruto, se tivesse apoderado
+daquela mulher que era sua! e que do modo mais santo e mais socialmente
+puro, sob o patrocínio enternecido da Igreja e do Estado, lambuzasse com
+os rijos bigodes negros, à farta, os divinos lábios que êle nunca ousara
+roçar, na supersticiosa reverência e quási no terror da sua divindade!
+Como lhe direi?... O sentimento dêste extraordinário Matias era o de um
+monge, prostrado ante uma Imagem da Virgem, em transcendente
+enlêvo--quando de repente um bestial sacrílego trepa ao altar, e ergue
+obscenamente a túnica da Imagem! O meu amigo sorri... ¿E então o Matos
+Miranda? Ah! meu amigo! êsse era diabético, e grave, e obeso, e já
+existia instalado na Parreira, com a sua obesidade e a sua diabetes,
+quando êle conhecera Elisa e lhe dera para sempre vida e coração. E o
+Tôrres Nogueira, êsse, rompera brutalmente através do seu puríssimo
+amor, com os negros bigodes, e os carnudos braços, e o rijo arranque dum
+antigo pegador de toiros, e empolgara aquela mulher--a quem revelara
+talvez o que é um homem!
+
+Mas, com os demónios! essa mulher êle a recusara, quando ela se lhe
+oferecia, na frescura e na grandeza dum sentimento que nenhum desdêm
+ainda ressequira ou abatera. Que quer?... É a espantosa tortuosidade
+espiritual dêste Matias! Ao cabo duns meses êle _esquecera_,
+positivamente _esquecera_ essa recusa afrontosa, como se fôra um leve
+desencontro de interêsses materiais ou sociais, passado há meses, no
+Norte, e a que a distância e o tempo dissipavam a realidade e a amargura
+leve! E agora, aqui em Lisboa, com as janelas de Elisa diante das suas
+janelas e as rosas dos dois jardins unidos rescendendo na sombra, a dor
+presente, a dor real, era que êle amara sublimemente uma mulher, e que a
+colocara entre as estrêlas para mais pura adoração, e que um bruto
+moreno, de bigodes negros, arrancara essa mulher de entre as estrêlas e
+a arremessara para a cama!
+
+¿Enredado caso, hein, meu amigo? Ah! muito filosofei sôbre êle, por
+dever de filósofo! E concluí que o Matias era um doente, atacado de
+hiper-espiritualismo, duma inflamação violenta e putrida do
+espiritualismo, que receara apavoradamente as materialidades do
+casamento, as chinelas, a pele pouco fresca ao acordar, um ventre enorme
+durante seis meses, os meninos berrando no berço molhado... E agora
+rugia de furor e tormento, porque certo materialão, ao lado, se
+prontificara a aceitar Elisa em camisola de lã. Um imbecil?... Não, meu
+amigo! um ultra-romântico, loucamente alheio às realidades fortes da
+vida, que nunca suspeitou que chinelas e cueiros sujos de meninos são
+coisas de superior beleza em casa em que entre o sol e haja amor.
+
+¿E sabe o meu amigo o que exacerbou, mais furiosamente, êste tormento? É
+que a pobre Elisa mostrava por êle o antigo amor! Que lhe parece?
+Infernal, hein?... Pelo menos se não sentia o antigo amor intacto na sua
+essência, forte como outrora e único, conservava pelo pobre Matias uma
+irresistível curiosidade e repetia os gestos dêsse amor... Talvez fôsse
+apenas a fatalidade dos jardins vizinhos! Não sei. Mas logo desde
+Setembro, quando o Tôrres Nogueira partiu para as suas vinhas de
+Carcavelos a assistir à vindima, ela recomeçou da borda do terraço, por
+sôbre as rosas e as dálias abertas, aquela doce remessa de doces olhares
+com que durante dez anos extasiara o coração do José Matias.
+
+Não creio que se escrevessem por cima do muro do jardim, como sob o
+regímen paternal do Matos Miranda... O novo senhor, o homem robusto da
+bigodeira negra, impunha à divina Elisa, mesmo de longe, de entre as
+vinhas de Carcavelos, retraímento e prudência. E acalmada por aquele
+marido, môço e forte, menos sentiria agora a necessidade de algum
+encontro discreto na sombra tépida da noite, mesmo quando a sua
+elegância moral e o rígido idealismo do José Matias consentissem em
+aproveitar uma escada contra o muro... De resto, Elisa era
+fundamentalmente honesta; e conservava o respeito sagrado do seu corpo,
+por o sentir tam belo e cuidadosamente feito por Deus--mais do que da
+sua alma. E quem sabe?... Talvez a adorável mulher pertencesse à bela
+raça daquela marquesa italiana, a Marquesa Júlia de Malfieri, que
+conservava dois amorosos ao seu doce serviço, um poeta para as
+delicadezas românticas e um cocheiro para as necessidades grosseiras.
+
+Emfim, meu amigo, não psicologuemos mais sôbre esta viva, atrás do morto
+que morreu por ela! O facto foi que Elisa e o seu amigo insensivelmente
+recaíram na vélha união ideal através dos jardins em flor. E em Outubro,
+como o Tôrres Nogueira continuava a vindimar em Carcavelos, o José
+Matias, para contemplar o terraço da Parreira, já abria de novo as
+vidraças, larga e estáticamente!
+
+Parece que um tam estreme espiritualista, reconquistando a idealidade do
+antigo amor, devia reentrar tambêm na antiga felicidade perfeita. Êle
+reinava na alma imortal de Elisa:--¿que importava que outro se ocupasse
+do seu corpo mortal? Mas não! o pobre môço sofria, angustiadamente.
+E, para sacudir a pungência dêstes tormentos, findou, êle tam sereno,
+duma tam doce harmonia de modos, por se tornar um agitado. Ah! meu
+amigo, que redemoínho e estrépito de vida! Desesperadamente, durante um
+ano, remexeu, aturdiu, escandalizou Lisboa! São dêsse tempo algumas das
+suas extravagâncias lendárias... ¿Conhece a da ceia?... Uma ceia
+oferecida a trinta ou quarenta mulheres das mais torpes e das mais
+sujas, apanhadas pelas negras vielas do Bairro-Alto e da Mouraria, que
+depois mandou montar em burros, e gravemente, melancólicamente, posto na
+frente, sôbre um grande cavalo branco, com um imenso chicote, conduziu
+aos altos da Graça, para saudar a aparição do sol!
+
+Mas todo êste alarido não lhe dissipou a dor--e foi então que, nesse
+inverno, começou a jogar e a beber! Todo o dia se encerrava em casa
+(certamente por trás das vidraças, agora que Tôrres Nogueira regressara
+das vinhas) com olhos e alma cravados no terraço fatal; depois à noite,
+quando as janelas de Elisa se apagavam, saía numa tipóia, sempre a
+mesma, a tipóia do _Gago_, corria à roleta do Bravo, depois ao club do
+«Cavalheiro», onde jogava frenéticamente até a tardia hora de cear, num
+gabinete de restaurante, com molhos de velas acesas, e o Colares, e o
+Champanhe, e o Conhaque correndo em jorros desesperados.
+
+E esta vida, espicaçada pelas Fúrias, durou anos, sete anos! Todas as
+terras que lhe deixara o tio Garmilde se foram, largamente jogadas e
+bebidas: e só lhe restava o casarão de Arroios e o dinheiro apressado
+porque o hipotecara. Mas, súbitamente, desapareceu de todos os antros do
+vinho e de jôgo. E soubemos que o Tôrres Nogueira estava morrendo com
+uma anasarca!
+
+Por êsse tempo, e por causa dum negócio do Nicolau da Barca que me
+telegrafara ansiosamente da sua quinta de Santarêm (negócio embrulhado,
+duma letra) procurei o José Matias em Arroios, às dez horas, numa noite
+quente de Abril. O criado, emquanto me conduzia pelo corredor mal
+alumiado, já desadornado das ricas arcas e talhas da Índia do vélho
+Garmilde, confessou que S. Ex.ª não acabara de jantar... E ainda me
+lembro, com um arrepio, da impressão desolada que me deu o desgraçado!
+Era no quarto que abria sôbre os dois jardins. Diante duma janela, que
+as cortinas de damasco cerravam, a mesa resplandecia, com duas
+serpentinas, um cêsto de rosas brancas, e algumas das nobres pratas do
+Garmilde: e ao lado, todo estendido numa poltrona, com o colete branco
+desabotoado, a face lívida descaída sôbre o peito, um copo vazio na
+mão inerte, o José Matias parecia adormecido ou morto.
+
+Quando lhe toquei no ombro, ergueu num sobressalto a cabeça, toda
+despenteada:--«¿Que horas são?»--Apenas lhe gritei, num gesto alegre,
+para o despertar, que era tarde, que eram dez, encheu precipitadamente o
+copo, da garrafa mais chegada, de vinho branco, e bebeu lentamente, com
+a mão a tremer, a tremer... Depois, arredando os cabelos da testa
+húmida:--«¿Então que há de novo?»--Esgazeado, sem compreender, escutou,
+como num sonho, o recado que lhe mandava o Nicolau. Por fim, com um
+suspiro, remexeu uma garrafa de Champanhe dentro do balde em que ela
+gelava, encheu outro copo, murmurando:--«Um calor... Uma sêde!...» Mas
+não bebeu: arrancou o corpo pesado à poltrona de vêrga, e forçou os
+passos mal firmes para a janela, a que abriu violentamente as cortinas,
+depois a vidraça... E ficou hirto, como colhido pelo silêncio e escuro
+sossêgo da noite estrelada. Eu espreitei, meu amigo! Na casa da Parreira
+duas janelas brilhavam, fortemente alumiadas, abertas à aragem. E essa
+claridade viva envolvia uma figura branca, nas longas pregas de um
+roupão branco, parada à beira do terraço, como esquecida numa
+contemplação. Era Elisa, meu amigo! Por trás, no fundo do quarto claro,
+o marido certamente arquejava, na opressão da anasarca. Ela,
+imóvel, repousava, mandando um doce olhar, talvez um sorriso, ao seu
+doce amigo. O miserável, fascinado, sem respirar, sorvia o encanto
+daquela visão bemfazeja. E entre êles rescendiam, na moleza da noite,
+todas as flores dos dois jardins... Súbitamente Elisa recolheu, à
+pressa, chamada por algum gemido ou impaciência do pobre Tôrres. E as
+janelas logo se fecharam, toda a luz e vida se sumiram na casa da Parreira.
+
+Então José Matias, com um soluço despedaçado, de transbordante tormento,
+cambaleou, tam ansiadamente se agarrou à cortina que a rasgou, e tombou
+desamparado nos braços que lhe estendi, e em que o arrastei para a
+cadeira, pesadamente, como a um morto ou a um bêbado. Mas, volvido um
+momento, com espanto meu, o extraordinário homem descerra os olhos,
+sorri num lento e inerte sorriso, murmura quási serenamente:--«É o
+calor... Está um calor! ¿Você não quer tomar chá?»
+
+Recusei e abalei--emquanto êle, indiferente à minha fuga, estendido na
+poltrona, acendia trémulamente um imenso charuto.
+
+
+Santo Deus! já estamos em Santa Isabel! Como êstes lagóias vão
+arrastando depressa o pobre José Matias para o pó e para o verme
+final! Pois, meu amigo, depois dessa curiosa noite, o Tôrres Nogueira
+morreu. A divina Elisa, durante o novo luto, recolheu à quinta duma
+cunhada tambêm viuva, à «Côrte Moreira», ao pé de Beja. E o José Matias
+inteiramente se sumiu, se evaporou, sem que me revoassem novas dêle,
+mesmo incertas--tanto mais que o íntimo por quem as conheceria, o nosso
+brilhante Nicolau da Barca, partira para a ilha da Madeira, com o seu
+derradeiro pedaço de pulmão, sem esperança, por dever clássico, quási
+dever social, de tísico.
+
+Todo êsse ano, tambêm, andei enfronhado no meu _Ensaio dos Fenómenos
+afectivos_. Depois, um dia, no comêço do verão, descendo pela rua de S.
+Bento, com os olhos levantados, a procurar o n.º 214, onde se catalogava
+a livraria do Morgado de Azemel, ¿quem avisto eu à varanda duma casa
+nova e de esquina? A divina Elisa, metendo fôlhas de alface na gaiola de
+um canário! E bela, meu amigo! mais cheia e mais harmoniosa, toda
+madura, e suculenta, e desejável, a-pesar de ter festejado em Beja os
+seus quarenta e dois anos! Mas aquela mulher era da grande raça de
+Helena que, quarenta anos tambêm depois do cêrco de Troia, ainda
+deslumbrava os homens mortais e os Deuses imortais. E, curioso acaso!
+logo nessa tarde, pelo Sêco, o João Sêco da Biblioteca, que catalogava a
+livraria do Morgado, conheci a nova história desta Helena admirável.
+
+A divina Elisa tinha agora um amante... E únicamente por não poder, com
+a sua costumada honestidade, possuir um legítimo e terceiro marido. O
+ditoso môço que ela adorava era com efeito casado... Casado em Beja com
+uma espanhola que, ao cabo dum ano dêsse casamento e de outros
+requebros, partira para Sevilha, passar devotamente a Semana Santa, e lá
+adormecera nos braços dum riquíssimo criador de gado. O marido, pacato
+apontador de Obras-Públicas, continuara em Beja, onde tambêm vagamente
+ensinava um vago desenho... Ora uma das suas discípulas era a filha da
+senhora da «Côrte Moreira»: e aí na quinta, emquanto êle guiava o
+esfuminho da menina, Elisa o conheceu e o amou, com uma paixão tam
+urgente que o arrancou precipitadamente às Obras Públicas, e o arrastou
+a Lisboa, cidade mais propícia do que Beja a uma felicidade escandalosa,
+e que se esconde. O João Sêco é de Beja, onde passara o Natal; conhecia
+perfeitamente o apontador, as senhoras da «Côrte Moreira»; e compreendeu
+o romance, quando das janelas dêsse n.º 214, onde catalogava a Livraria
+do Azemel, reconheceu Elisa na varanda da esquina, e o apontador
+enfiando regaladamente o portão, bem vestido, bem calçado, de luvas
+claras, com aparência de ser infinitamente mais ditoso naquelas
+obras particulares do que nas Públicas.
+
+E dessa mesma janela do 214 o conheci eu tambêm, o apontador! Belo môço,
+sólido, branco, de barba escura, em excelentes condições de quantidade
+(e talvez mesmo de qualidade) para encher um coração viuvo, e portanto
+«vazio», como diz a Bíblia. Eu freqùentava êsse n.º 214, interessado no
+catálogo da Livraria, porque o Morgado de Azemel possuia, pelo irónico
+acaso das heranças, uma colecção incomparável dos Filósofos do século
+XVIII. E passadas semanas, saíndo dêsses livros uma noite (o João Sêco
+trabalhava de noite) e parando adiante, à beira dum portal aberto, para
+acender o charuto, enxergo à luz tremente do fósforo, metido na sombra,
+o José Matias! Mas que José Matias, meu caro amigo! Para o considerar
+mais detidamente, raspei outro fósforo. Pobre José Matias! Deixara
+crescer a barba, uma barba rara, indecisa, suja, mole como cotão
+amarelado: deixara crescer o cabelo, que lhe surdia em farripas sêcas de
+sob um vélho chapéu côco: mas todo êle, no resto, parecia diminuido,
+minguado, dentro duma quinzena de mescla enxovalhada, e dumas calças
+pretas, de grandes bolsos, onde escondia as mãos com o gesto
+tradicional, tam infinitamente triste, da miséria ociosa. Na
+espantada lástima que me tomou, apenas balbuciei:--«Ora esta! Você!
+¿Então que é feito?»--E êle, com a sua mansidão polida, mas secamente,
+para se desembaraçar, e numa voz que a aguardente enrouquecera: «Por
+aqui, à espera de um sujeito».--Não insisti, segui. Depois, adiante,
+parando, verifiquei o que num relance adivinhara--que o portal negro
+ficava em frente ao prédio novo e às varandas de Elisa!
+
+Pois, meu amigo, três anos viveu o José Matias encafuado naquele portal!
+
+
+Era um dêsses pátios da Lisboa antiga, sem porteiro, sempre
+escancarados, sempre sujos, cavernas laterais da rua, de onde ninguêm
+escorraça os escondidos da miséria ou da dor. Ao lado havia uma taberna.
+Infalivelmente, ao anoitecer, o José Matias descia a rua de S. Bento,
+colado aos muros, e, como uma sombra, mergulhava na sombra do portal. A
+essa hora já as janelas de Elisa luziam, de inverno embaciadas pela
+névoa fina, de verão ainda abertas e arejando no repouso e na calma. E
+para elas, imóvel, com as mãos nas algibeiras, o José Matias se quedava
+em contemplação. Cada meia-hora, subtilmente, enfiava para a taberna.
+Copo de vinho, copo de aguardente;--e, de mansinho, recolhia à
+negrura do portal, ao seu êxtasi. Quando as janelas de Elisa se
+apagavam, ainda através da longa noite, mesmo das negras noites de
+inverno--encolhido, transido, a bater as solas rôtas no lagedo, ou
+sentado ao fundo, nos degraus da escada--ficava esmagando os olhos
+turvos na fachada negra daquela casa, onde a sabia dormindo com o outro!
+
+Ao princípio, para fumar um cigarro apressado, trepava até ao patamar
+deserto, a esconder o lume que o denunciaria no seu esconderijo. Mas
+depois, meu amigo, fumava incessantemente, colado à ombreira, puxando o
+cigarro com ânsia, para que a ponta rebrilhasse, o alumiasse! ¿E percebe
+porquê, meu amigo?... Porque Elisa já descobrira que, dentro daquele
+portal, a adorar submissamente as suas janelas, com a alma de outrora,
+estava o seu pobre José Matias!...
+
+¿E acreditará o meu amigo que então, todas as noites, ou por trás da
+vidraça ou encostada à varanda (com o apontador dentro, estirado no
+sofá, já de chinelas, lendo o _Jornal da Noite_) ela se demorava a fitar
+o portal, muito quieta, sem outro gesto, naquele antigo e mudo olhar do
+terraço por sôbre as rosas e as dálias? O José Matias percebera,
+deslumbrado. E agora avivava desesperadamente o lume, como um farol,
+para guiar na escuridão os amados olhos dela, e lhe mostrar que ali
+estava, transido, todo seu, e fiel!
+
+De dia nunca êle passava na rua de S. Bento. ¿Como ousaria, com o
+jaquetão rôto nos cotovelos e as botas cambadas? Porque aquele môço de
+elegância sóbria e fina tombara na miséria do andrajo. ¿Onde arranjava
+mesmo, cada dia, os três patacos para o vinho e para a posta de bacalhau
+nas tabernas? Não sei... Mas louvemos a divina Elisa, meu amigo! Muito
+delicadamente, por caminhos arredados e astutos, ela, rica, procurara
+estabelecer uma pensão ao José Matias, mendigo. ¿Situação picante, hein?
+A grata senhora dando duas mesadas aos seus dois homens--o amante do
+corpo e o amante da alma! Êle, porêm, adivinhou de onde procedia a
+pavorosa esmola--e recusou, sem revolta, nem alarido de orgulho, até com
+enternecimento, até com lágrimas nas pálpebras que a aguardente inflamara!
+
+Mas só com noite muito cerrada ousava descer à rua de S. Bento, e enfiar
+para o seu portal. ¿E adivinha o meu amigo como êle gastava o dia? A
+espreitar, a seguir, a farejar o apontador de Obras-Públicas! Sim, meu
+amigo! uma curiosidade insaciada, frenética, atroz, por aquele homem,
+que Elisa escolhera!... Os dois anteriores, o Miranda e o Nogueira,
+tinham entrado na alcova de Elisa, públicamente, pela porta da
+Igreja, e para outros fins humanos alêm do amor--para possuir um lar,
+talvez filhos, estabilidade e quietação na vida. Mas êste era meramente
+o amante, que ela nomeara e mantinha só para ser amada: e nessa união
+não aparecia outro motivo racional senão que os dois corpos se unissem.
+Não se fartava, portanto, de o estudar, na figura, na roupa, nos modos,
+ansioso por saber bem como era êsse homem, que, para se completar, a sua
+Elisa preferira entre a turba dos homens. Por decência, o apontador
+morava na outra extremidade da rua de S. Bento, diante do Mercado. E
+essa parte da rua, onde o não surpreenderiam, na sua pelintrice, os
+olhos de Elisa, era o paradeiro do José Matias, logo de manhã, para
+mirar, farejar o homem, quando êle recolhia da casa de Elisa, ainda
+quente do calor da sua alcôva. Depois não o largava, cautelosamente,
+como um larápio, rastejando de longe no seu rasto. E eu suspeito que o
+seguia assim, menos por curiosidade perversa, do que para verificar se,
+através das tentações de Lisboa, terríveis para um apontador de Beja, o
+homem conservava o corpo fiel a Elisa. Em serviço da felicidade
+dela--fiscalizava o amante da mulher que amava!
+
+Requinte furioso de espiritualismo e devoção, meu amigo! A alma de Elisa
+era a sua e recebia perenemente a adoração perene: e agora queria
+que o corpo de Elisa não fôsse menos adorado, nem menos lealmente, por
+aquele a quem ela entregara o corpo! Mas o apontador era fácilmente fiel
+a uma mulher tam formosa, tam rica, de meias de sêda, de brilhantes nas
+orelhas, que o deslumbrava. ¿E quem sabe, meu amigo? talvez esta
+fidelidade, preito carnal à divindade de Elisa, fôsse para o José Matias
+a derradeira felicidade que lhe concedeu a vida. Assim me persuado,
+porque no inverno passado, encontrei o apontador, numa manhã de chuva,
+comprando camélias a um florista da rua do Oiro; e defronte, a uma
+esquina, o José Matias, escaveirado, esfrangalhado, cocava o homem, com
+carinho, quási com gratidão! E talvez nessa noite, no portal, tiritando,
+batendo as solas encharcadas, com os olhos enternecidos nas escuras
+vidraças, pensasse:--«Coitadinha, pobre Elisa! Ficou bem contente por
+êle lhe trazer as flores!»
+
+Isto durou três anos.
+
+Emfim, meu amigo, antes de ontem, o João Sêco apareceu em minha casa, de
+tarde, esbaforido:--«Lá levaram o José Matias numa maca, para o
+hospital, com uma congestão nos pulmões!»
+
+Parece que o encontraram, de madrugada, estirado no ladrilho, todo
+encolhido no jaquetão delgado, arquejando, com a face coberta de
+morte, voltada para as varandas de Elisa. Corri ao hospital. Morrera...
+Subi, com o médico de serviço, à enfermaria. Levantei o lençol que o
+cobria. Na abertura da camisa suja e rôta, prêso ao pescoço por um
+cordão, conservava um saquinho de sêda, poído e sujo tambêm. De-certo
+continha flor, ou cabelos, ou pedaço de renda de Elisa, do tempo do
+primeiro encanto e das tardes de Bemfica... Perguntei ao médico, que o
+conhecia e o lastimava, se êle sofrera.--«Não! Teve um momento comatoso,
+depois arregalou os olhos, exclamou _Oh!_ com grande espanto, e ficou.»
+
+¿Era o grito da alma, no assombro e horror de morrer tambêm? ¿Ou era a
+alma triunfando por se reconhecer emfim imortal e livre? O meu amigo não
+sabe; nem o soube o divino Platão; nem o saberá o derradeiro filósofo na
+derradeira tarde do mundo.
+
+Chegamos ao cemitério. Creio que devemos pegar às borlas do caixão... Na
+verdade, é bem singular êste Alves _Capão_, seguindo tam sentidamente o
+nosso pobre espiritualista... Mas, Santo Deus, olhe! Alêm, à espera, à
+porta da Igreja, aquele sujeito compenetrado, de casaca, com paletó
+alvadio... É o apontador de Obras Públicas! E trás um grosso ramo de
+violetas... Elisa mandou o seu amante carnal acompanhar à cova e
+cobrir de flores o seu amante espiritual! Mas, nunca ela pediria ao
+José Matias para espalhar violetas sôbre o cadaver do apontador! É que
+sempre a Matéria, mesmo sem o compreender, sem dêle tirar a sua
+felicidade, adorará o Espírito, e sempre a si própria, através dos gozos
+que de si recebe, se tratará com brutalidade e desdêm! Grande consôlo,
+meu amigo, êste apontador com o seu ramo, para um Metafísico que, como
+eu, comentou Spínosa e Mallebranche, reabilitou Fichte, e provou
+suficientemente a ilusão da sensação! Só por isto valeu a pena trazer à
+sua cova êste inexplicado José Matias, que era talvez muito mais que um
+homem--ou talvez ainda menos que um homem...--Com efeito, está frio...
+Mas que linda tarde!
+
+
+
+
+A PERFEIÇÃO
+
+
+I
+
+Sentado numa rocha, na ilha de Ogigya, com a barba enterrada entre as
+mãos, de onde desaparecera a aspereza calosa e tisnada das armas e dos
+remos, Ulisses, o mais subtil dos homens, considerava, numa escura e
+pesada tristeza, o mar muito azul que mansa e harmoniosamente rolava
+sôbre a areia muito branca. Uma túnica bordada de flores escarlates
+cobria, em pregas moles, o seu corpo poderoso, que engordara. Nas
+correias das sandálias, que lhe calçavam os pés amaciados e perfumados
+de essências, reluziam esmeraldas do Egipto. E o seu bastão era um
+maravilhoso galho de coral, rematado em pinha de pérolas, como os que
+usam os Deuses marinhos.
+
+A divina Ilha, com os seus rochedos de alabastro, os bosques de cedros e
+tuias odoríferas, as messes eternas doirando os vales, a frescura das
+roseiras revestindo os outeiros suaves, resplandecia, adormecida na
+moleza da sésta, toda envolta em mar resplandecente. Nem um sôpro dos
+Zéfiros curiosos, que brincam e correm por sôbre o Arquipélago,
+desmanchava a serenidade do luminoso ar, mais doce que o vinho mais
+doce, todo repassado pelo fino aroma dos prados de violetas. No
+silêncio, embebido de calor afável, eram duma harmonia mais embaladora
+os murmúrios de arroios e fontes, o arrulhar das pombas voando dos
+ciprestes aos plátanos, e o lento rolar e quebrar da onda mansa sôbre a
+areia macia. E nesta inefável paz e beleza imortal, o subtil Ulisses,
+com os olhos perdidos nas águas lustrosas, amargamente gemia, revolvendo
+o queixume do seu coração...
+
+Sete anos, sete imensos anos, iam passados desde que o raio fulgente de
+Júpiter fendera a sua nave de alta prôa vermelha, e êle, agarrado ao
+mastro partido, trambulhara na braveza mugidora das espumas sombrias,
+durante nove dias, durante nove noites, até que boiara em águas mais
+calmas, e tocara as areias daquela ilha onde Calipso, a Deusa radiosa, o
+recolhera e o amara! ¿E durante êsses imensos anos, como se arrastara a
+sua vida, a sua grande e forte vida, que, depois da partida para os
+muros fatais de Troia, abandonando entre lágrimas inumeráveis a sua
+Penélope de olhos claros, o seu pequenino Telêmaco enfaixado no colo da
+ama, andara sempre tam agitada por perigos, e guerras, e astúcias, e
+tormentas, e rumos perdidos?... Ah! ditosos os Reis mortos, com formosas
+feridas no branco peito, diante das portas de Troia! Felizes os seus
+companheiros tragados pela onda amarga! Feliz êle se as lanças troianas
+o trespassassem nessa tarde de grande vento e poeira, quando, junto à
+_Faia_, defendia dos ultrajes, com a espada sonora, o corpo morto de
+Aquiles! Mas não! vivera!--E agora, cada manhã, ao saír sem alegria do
+trabalhoso leito de Calipso, as Ninfas, servas da Deusa, o banhavam numa
+água muito pura, o perfumavam de lânguidas essências, o cobriam com uma
+túnica sempre nova, ora bordada a sêdas finas, ora bordada de oiro
+pálido! No entanto, sôbre a mesa lustrosa, erguida à porta da gruta, na
+sombra das ramadas, junto ao sussurro dormente dum arroio diamantino, os
+açafates e as travessas lavradas transbordavam de bolos, de frutas, de
+tenras carnes fumegando, de peixes scintilando como tramas de prata. A
+intendenta venerável gelava os vinhos doces nas crateras de bronze,
+coroadas de rosas. E êle, sentado num escabelo, estendia as mãos
+para as iguarias perfeitas, emquanto ao lado, sôbre um trono de marfim,
+Calipso, espargindo através da túnica nevada a claridade e o aroma do
+seu corpo imortal, sublimemente serena, com um sorriso taciturno, sem
+tocar nas comidas humanas, debicava a ambrosia, bebia em goles delgados
+o néctar transparente e rubro. Depois, tomando aquele bastão de
+Príncipe-de-Povos com que Calipso o presenteara, repercorria sem
+curiosidade os sabidos caminho da Ilha, tam lisos e tratados que nunca
+as suas sandálias reluzentes se maculavam de pó, tam penetrados pela
+imortalidade da Deusa que jàmais neles encontrara fôlha sêca, nem flor
+menos fresca pendendo na haste. Sôbre uma rocha se sentava então,
+contemplando aquele mar que tambêm banhava Ítaca, lá tam bravio, aqui
+tam sereno, e pensava, e gemia, até que as águas e os caminhos se
+cobriam de sombra, e êle recolhia à gruta para dormir, sem desejo, com a
+Deusa que o desejava!... ¿E durante êstes imensos anos, que destino
+envolvera a sua Ítaca, a áspera ilha de sombrias matas? ¿Viviam êles
+ainda, os seres amados? ¿Sôbre a forte colina, dominando a enseada de
+Reithros e os pinheirais de Neus, ainda se erguia o seu palácio, com os
+belos pórticos pintados de vermelho e roxo? ¿Ao cabo de tam lentos e
+vazios anos, sem novas, apagada toda a esperança como uma lâmpada,
+despira a sua Penélope a túnica passageira da viuvez e passara para os
+braços doutro espôso forte, que agora manejava as suas lanças e
+vindimava as suas vinhas? ¿E o doce filho Telêmaco? ¿Reinaria êle em
+Ítaca, sentado, com o branco scetro, sôbre o mármore alto da Agorá?
+¿Ocioso e rondando pelos pátios, baixaria os olhos sob o império duro
+dum padrasto? ¿Erraria por cidades alheias, mendigando um salário?...
+Ah! se a sua existência, assim para sempre arrancada da mulher, do
+filho, tam doces ao seu coração, andasse ao menos empregada em façanhas
+ilustres! Dez anos antes, tambêm desconhecia a sorte de Ítaca, e dos
+seres preciosos que lá deixara em solidão e fragilidade; mas uma emprêsa
+heróica o agitava; e cada manhã a sua fama crescia, como uma árvore num
+promontório, que enche o céu e todos os homens contemplam. Então era a
+planície de Troia--e as brancas tendas dos gregos ao longo do mar
+sonoro! Sem cessar, meditava astúcias de guerra; com soberba facúndia
+discursava na Assembleia dos Reis; rijamente jungia os cavalos empinados
+ao timão dos carros; de lança alta corria, entre a grita e a pressa,
+contra os Troianos de altos elmos, que surdiam, em roldão ressoante, das
+portas Skaias!... Oh! e quando êle, Príncipe-de-Povos, encolhido sob
+farrapos de mendigo, com os braços maculados de chagas postiças,
+coxeando e gemendo, penetrara nos muros da orgulhosa Troia, pelo lado da
+Faia, para de noite, com incomparável ardil e bravura, roubar o Paládio
+tutelar da cidade! E quando, dentro do ventre do Cavalo-de-Pau, na
+escuridão, no apêrto de todos aqueles guerreiros hirtos e cobertos de
+ferro, calmava a impaciência dos que sufocavam, e tapava com a mão a
+bôca de Antiklos bravejando furioso, ao escutar fóra na planície os
+ultrajes e os escárnios troianos, e a todos murmurava: «Cala, cala! que
+a noite desce e Troia é nossa...» E depois as prodigiosas viagens! O
+pavoroso Polifemo, ludibriado com uma astúcia que para sempre
+maravilhará as gerações! As manobras sublimes entre Scylla e Carybdes!
+As Sereias, vogando e cantando em tôrno do mastro, de onde êle,
+amarrado, as rechaçava com o mudo dardejar dos olhos mais agudos que
+dardos! A descida aos Infernos, jàmais concedida a um mortal!... E agora
+homem de tam rutilantes feitos jazia numa ilha mole, eternamente prêso,
+sem amor, pelo amor duma Deusa! ¿Como poderia êle fugir, rodeado de mar
+indomável, sem nave, nem companheiros para mover os remos longos? Os
+Deuses ditosos certamente esqueciam quem tanto por êles combatera e
+sempre piedosamente lhes votara as reses devidas, mesmo através do
+fragor e fumaraça das cidadelas derrubadas, mesmo quando a sua prôa
+encalhava em terra agreste!... E ao herói, que recebera dos Reis da
+Grécia as armas de Aquiles, cabia por destino amargo engordar na
+ociosidade duma ilha mais lânguida que uma cêsta de rosas, e estender as
+mãos amolecidas para as iguarias abundantes, e, quando águas e caminhos
+se cobriam de sombra, dormir sem desejo com uma Deusa que, sem cessar, o
+desejava.
+
+Assim gemia o magnânimo Ulisses, à beira do mar lustroso... E eis que de
+repente um sulco de desusado brilho, mais rutilantemente branco que o
+duma estrêla caíndo, riscou a rutilância do céu, desde as alturas até à
+cheirosa mata de tuias e cedros, que assombreava um golfo sereno, a
+oriente da Ilha. Com alvoroço bateu o coração do herói. Rasto tam
+refulgente, na refulgência do dia, só um Deus o podia traçar através do
+largo Ouranos. ¿Um Deus, pois, descera à Ilha?
+
+
+II
+
+Um Deus descera, um grande Deus... Era o Mensageiro dos Deuses, o leve,
+eloqùente Mercúrio. Calçado com aquelas sandálias que teem duas
+asas brancas, os cabelos côr de vinho cobertos pelo casco onde batem
+tambêm duas claras asas, erguendo na mão o Caduceu, êle fendera o Éter,
+roçara a lisura do mar sossegado, pisara a areia da Ilha, onde as suas
+pègadas ficavam rebrilhando como palmilhas de oiro novo. A-pesar de
+percorrer toda a terra, com os recados inumeráveis dos Deuses, o
+luminoso Mensageiro não conhecia aquela ilha de Ogigya--e admirou,
+sorrindo, a beleza dos prados de violetas tam doces para o correr e
+brincar de Ninfas, e o harmonioso faiscar dos regatos por entre os altos
+e lânguidos lírios. Uma vinha, sôbre esteios de jaspe, carregada de
+cachos maduros, conduzia, como fresco pórtico salpicado de sol, até à
+entrada da gruta, toda de rochas polidas, de onde pendiam jasmineiros e
+madre-silvas, envoltas no sussurrar das abelhas. E logo avistou Calipso,
+a Deusa ditosa, sentada num Trono, fiando em roca de oiro, com fuso de
+oiro, a lã formosa de púrpura marinha. Um aro de esmeraldas prendia os
+seus cabelos muito anelados e ardentemente louros. Sob a túnica diáfana
+a mocidade imortal do seu corpo rebrilhava, como a neve quando a aurora
+a tinge de rosas nas colinas eternas povoadas de Deuses. E, emquanto
+torcia o fuso, cantava um trinado e fino canto, como trémulo fio de
+cristal vibrando da Terra ao Céu. Mercúrio pensou: «Linda ilha, e linda
+Ninfa!»
+
+Dum lume claro de cedro e tuia, subia, muito direito, um fumo delgado
+que perfumava toda a Ilha. Em roda, sentadas em esteiras sôbre o chão de
+ágata, as Ninfas, servas da Deusa, dobavam as lãs, bordavam na sêda as
+flores ligeiras, teciam as puras teias em teares de prata. Todas
+coraram, com o seio a arfar, sentindo a presença do Deus. E sem deter o
+fuso faiscante, Calipso reconhecera logo o Mensageiro--pois que todos os
+Imortais sabem, uns dos outros, os nomes, os feitos, e os rostos
+soberanos, mesmo quando habitam retiros remotos que o Éter e o Mar separam.
+
+Mercúrio parara, risonho, na sua nudez divina, exalando o perfume do
+Olimpo. Então a Deusa ergueu para êle, com composta serenidade, o
+esplendor largo dos seus olhos verdes:
+
+--Oh Mercúrio! ¿porque desceste à minha Ilha humilde, tu, venerável e
+querido, que eu nunca vi pisar a terra? Dize o que de mim esperas. Já o
+meu aberto coração me ordena que te contente, se o teu desejo couber
+dentro do meu poder e do Fado... Mas entra, repousa, e que eu te sirva,
+como doce irmã, à mesa da hospitalidade.
+
+Tirou da cintura a roca, arredou os aneis soltos do cabelo radiante--e
+com as suas nacaradas mãos colocou sôbre a mesa, que as Ninfas
+acercaram do lume aromático, o prato transbordando de Ambrosia, e as
+infusas de cristal onde scintilava o Néctar.
+
+Mercúrio murmurou:--«Doce é a tua hospitalidade, ó Deusa!» Pendurou o
+Caduceu do fresco ramo dum plátano, estendeu os dedos reluzentes para a
+travessa de oiro, risonhamente louvou a excelência daquele Néctar da
+Ilha. E contentada a alma, encostando a cabeça ao tronco liso do plátano
+que se cobriu de claridade, começou, com palavras perfeitas e aladas:
+
+--Perguntaste porque descia um Deus à tua morada, oh Deusa! E certamente
+nenhum Imortal percorreria sem motivo, desde o Olimpo até Ogigya, esta
+deserta imensidade do mar salgado em que se não encontram cidades de
+homens, nem templos cercados de bosques, nem sequer um pequenino
+santuário de onde suba o aroma do incenso, ou o cheiro das carnes
+votivas, ou o murmúrio gostoso das preces... Mas foi nosso Pai Júpiter,
+o tempestuoso, que me mandou neste recado. Tu recolhestes, e retens pela
+fôrça incomensurável da tua doçura, o mais subtil e desgraçado de todos
+os Príncipes que combateram durante dez anos a alta Troia, e depois
+embarcaram nas naves fundas para voltar à terra da Pátria. Muitos dêsses
+conseguiram reentrar nos seus ricos lares, carregados de fama, de
+despojos, e de histórias excelentes para contar. Ventos inimigos,
+porêm, e um fado mais inexorável, arremessaram a esta tua ilha, enrolado
+nas sujas espumas, o facundo e astuto Ulisses... Ora o destino dêste
+herói não é ficar na ociosidade imortal do leito, longe daqueles que o
+choram, e que carecem da sua fôrça e manhas divinas. Por isso Júpiter,
+regulador da Ordem, te ordena, oh Deusa, que soltes o magnânimo Ulisses
+dos teus braços claros, e o restituas, com os presentes docemente
+devidos, à sua Ítaca amada, e à sua Penélope, que tece e desfaz a teia
+ardilosa, cercada dos Pretendentes arrogantes, devoradores dos seus
+gordos bois, sorvedores dos seus frescos vinhos!
+
+A divina Calipso mordeu levemente o beiço; e sôbre a sua face luminosa
+desceu a sombra das densas pestanas côr de jacinto. Depois, com um
+harmonioso suspiro, em que ondulou todo o seu peito rebrilhante:
+
+--Ah Deuses grandes, Deuses ditosos! como sois ásperamente ciumentos das
+Deusas, que, sem se esconderem pela espessura dos bosques ou nas pregas
+escuras dos montes, amam os homens eloqùentes e fortes!... Êste, que me
+invejais, rolou às areias da minha Ilha, nu, pisado, faminto, prêso a
+uma quilha partida, perseguido por todas as iras, e todas as rajadas, e
+todos os raios dardejantes de que dispõe o Olimpo. Eu o recolhi, o
+lavei, o nutri, o amei, o guardei, para que ficasse eternamente ao
+abrigo das tormentas, da dor e da velhice. E agora Júpiter trovejador,
+ao cabo de oito anos em que a minha doce vida se enroscou em tôrno desta
+afeição como a vide ao olmo, determina que eu me separe do companheiro
+que escolhera para a minha imortalidade! Realmente sois crueis, oh
+Deuses, que constantemente aumentais a raça turbulenta dos Semideuses
+dormindo com as mulheres mortais! ¿E como queres que eu mande Ulisses à
+sua pátria, se não possuo naves, nem remadores, nem pilôto sabedor que o
+guie através das Ilhas? ¿Mas quem pode resistir a Júpiter, que ajunta as
+nuvens? Seja! e que Olimpo ria, obedecido. Eu ensinarei o intrépido
+Ulisses a construir uma jangada segura, com que de novo fenda o dorso
+verde do mar...
+
+Imediatamente, o Mensageiro Mercúrio se levantou do escabelo pregado com
+pregos de oiro, retomou o seu Caduceu, e bebendo uma derradeira taça do
+Néctar excelente da Ilha, louvou a obediência da Deusa:
+
+--Bem farás, oh Calipso! Assim evitas a cólera do Pai trovejante. ¿Quem
+lhe resistirá? A sua Omnisciência dirige a sua Omnipotência. E êle
+sustenta, como scetro, uma árvore que tem por flor a Ordem... As suas
+decisões, clementes ou crueis, resultam sempre em harmonia. Por isso o
+seu braço se torna terrífico aos peitos rebeldes. Pela tua pronta
+submissão serás filha estimada, e gozarás uma imortalidade repassada de
+sossêgo, sem intrigas e sem surpresas...
+
+Já as asas impacientes das suas sandálias palpitavam, e o seu corpo, com
+sublime graça, se balançava por sôbre as relvas e flores que alcatifavam
+a entrada da gruta.
+
+--De resto--acrescentou--a tua Ilha, oh Deusa, fica no caminho das naves
+ousadas que cortam as ondas. Em breve talvez outro herói robusto, tendo
+ofendido os Imortais, aportará à tua doce praia, abraçado a uma
+quilha... Acende um facho claro, de noite, nas rocas altas!
+
+E, rindo, o Mensageiro Divino serenamente se elevou, riscando no Éter um
+sulco de elegante fulgor que as Ninfas, esquecida a tarefa, seguiam, com
+os frescos lábios entreabertos e o seio levantado, no desejo daquele
+imortal formoso.
+
+Então Calipso, pensativa, lançando sôbre os seus cabelos anelados um véu
+da côr do açafrão, caminhou para a orla do mar, através dos prados, numa
+pressa que lhe enrodilhava a túnica, à maneira duma espuma leve, em
+tôrno das pernas redondas e róseas. Tam levemente pisou a areia, que o
+magnânimo Ulisses não a sentiu deslizar, perdido na contemplação das
+águas lustrosas, com a negra barba entre as mãos, aliviando em
+gemidos o pêso do seu coração. A Deusa sorriu, com fugitiva e soberana
+amargura. Depois, pousando no vasto ombro do Herói os seus dedos tam
+claros como os de Eos, mãe do dia:
+
+--Não te lamentes mais, desgraçado, nem te consumas, olhando o Mar! Os
+Deuses, que me são superiores pela inteligência e pela vontade,
+determinam que tu partas, afrontes a inconstância dos ventos, e calques
+de novo a terra da Pátria...
+
+Bruscamente, como o condor fendendo sôbre a prêsa, o divino Ulisses, com
+a face assombrada, saltou da rocha musgosa:
+
+--Oh Deusa, tu dizes!...
+
+Ela continuou sossegadamente, com os formosos braços pendidos,
+enrodilhados no véu côr de açafrão, emquanto a vaga rolava, mais doce e
+cantante, no amoroso respeito da sua presença divina:
+
+--Bem sabes que não tenho naves de alta prôa, nem remadores de rijo
+peito, nem pilôto amigo das estrêlas, que te conduzam... Mas certamente
+te confiarei o machado de bronze que foi de meu pai, para tu abateres as
+árvores que eu te marcar, e construires uma jangada em que embarques...
+Depois eu a proverei de odres de vinho, de comidas perfeitas, e a
+impelirei com um sôpro amigo para o mar indomado...
+
+O cauteloso Ulisses recuara lentamente, cravando na Deusa um duro olhar
+que a desconfiança ennegrecia. E erguendo a mão, que tremia toda, com a
+ansiedade do seu coração:
+
+--Oh Deusa, tu abrigas um pensamento terrível, pois que assim me
+convidas a afrontar numa jangada as ondas difíceis, onde mal se mantêm
+fundas naves! Não, Deusa perigosa, não! Eu combati na grande guerra onde
+os Deuses tambêm combateram, e conheço a malícia infinita que contêm o
+coração dos Imortais! Se resisti às sereias irresistíveis, e me safei
+com sublimes manobras de entre Scylla e Charybdes, e venci Polifemo com
+um ardil que eternamente me tornará ilustre entre os homens, não foi
+de-certo, oh Deusa, para que agora, na Ilha de Ogigya, como passarinho
+de pouca penugem, no seu primeiro vôo do ninho, cáia em armadilha
+ligeira arranjada com dizeres de mel! Não, Deusa, não! Só embarcarei na
+tua extraordinária jangada se tu jurares, pelo juramento terrífico dos
+Deuses, que não preparas, com êsses quietos olhos, a minha perda
+irreparável.
+
+Assim bradava, à beira das ondas, com o peito a arfar, Ulisses, o Herói
+prudente... Então a Deusa clemente riu, com um cantado e refulgente
+riso. E caminhando para o Herói, correndo os dedos celestes pelos seus
+espessos cabelos mais negros que o pez:
+
+--Oh maravilhoso Ulisses--disse--tu és bem na verdade o mais refalsado e
+manhoso dos homens, pois que nem concebes que exista espírito sem manha
+e sem falsidade! Meu pai ilustre não me gerou com um coração de ferro!
+A-pesar de imortal, compreendo as desventuras mortais. Só te aconselhei
+o que eu, Deusa, empreenderia, se o Fado me obrigasse a saír de Ogigya
+através do mar incerto!...
+
+O divino Ulisses retirou lenta e sombriamente a cabeça da rosada carícia
+dos dedos divinos:
+
+--Mas jura... Oh Deusa, jura, para que ao meu peito desça, como onda de
+leite, a saborosa confiança!
+
+Ela ergueu o claro braço ao azul onde os Deuses moram:
+
+--Por Gaia, e pelo Céu superior, e pelas águas subterrâneas do Stygio,
+que é a maior invocação que podem lançar os Imortais, juro, oh homem,
+Príncipe dos homens, que não preparo a tua perda, nem misérias maiores...
+
+O valente Ulisses respirou largamente. E arregaçando logo as mangas da
+túnica, esfregando as palmas das mãos robustas:
+
+--¿Onde está o machado de teu pai magnífico? Mostra as árvores, oh
+Deusa!... O dia baixa e o trabalho é longo!
+
+--Sossega, oh homem sôfrego de males humanos! Os deuses superiores em
+sapiência já determinaram o teu destino... Recolhe comigo à doce gruta,
+a reforçar a tua fôrça... Quando Eos vermelha aparecer, àmanhã, eu te
+conduzirei à floresta.
+
+
+III
+
+Era com efeito a hora em que homens mortais e Deuses imortais se acercam
+das mesas cobertas de baixelas, onde os espera a abundância, o repouso,
+o esquecimento dos cuidados, e as amoráveis conversas que contentam a
+alma. Em breve Ulisses se sentou no escabelo de marfim, que ainda
+conservava o aroma do corpo de Mercúrio, e diante dêle as Ninfas, servas
+da Deusa, colocaram os bôlos, as frutas, as tenras carnes fumegando, os
+peixes rebrilhantes como tramas de prata. Pousada num Trono de oiro
+puro, a Deusa recebeu da Intendenta venerável o prato de Ambrosia e a
+taça de Néctar. Ambos estenderam as mãos para as comidas perfeitas da
+Terra e do Céu. E logo que deram a oferenda abundante à Fome e à Sêde, a
+ilustre Calipso, encostando a face aos dedos róseos, e considerando
+pensativamente o Herói, soltou estas palavras aladas:
+
+--Oh Ulisses muito subtil, tu queres voltar à tua morada mortal e à
+terra da Pátria... Ah! se conhecesses, como eu, quantos duros males tens
+de sofrer antes de avistar as rochas de Ítaca, ficarias entre os meus
+braços, amimado, banhado, bem nutrido, revestido de linhos finos, sem
+nunca perder a querida fôrça, nem a agudeza do entendimento, nem o calor
+da facúndia, pois que eu te comunicaria a minha imortalidade!... Mas
+desejas voltar à espôsa mortal, que habita na ilha áspera onde as matas
+são tenebrosas. E todavia eu não lhe sou inferior, nem pela beleza, nem
+pela inteligência, porque as mortais brilham ante as Imortais como
+lâmpadas fumarentas diante de estrêlas puras...
+
+O facundo Ulisses acariciou a barba rude. Depois, erguendo o braço, como
+costumava na Assembleia dos Reis, à sombra das altas pôpas, diante dos
+muros de Troia, disse:
+
+--Oh Deusa venerável, não te escandalises! Perfeitamente sei que
+Penélope te está muito inferior em formusura, sapiência e majestade. Tu
+serás eternamente bela e môça, emquanto os Deuses durarem: e ela, em
+poucos anos, conhecerá a melancolia das rugas, dos cabelos brancos, das
+dores da decrepitude, e dos passos que tremem apoiados a um pau que
+treme. O seu espírito mortal erra através da escuridão e da dúvida; tu,
+sob essa fonte luminosa, possuis as luminosas certezas. Mas, oh Deusa,
+justamente pelo que ela tem de incompleto, de frágil, de grosseiro e de
+mortal, eu a amo, e apeteço a sua companhia congénere! Considera como é
+penoso que, nesta mesa, cada dia, eu côma vorazmente o anho das
+pastagens e a fruta dos vergeis, emquanto tu ao meu lado, pela inefável
+superioridade da tua natureza, levas aos lábios, com lentidão soberana,
+a Ambrosia divina! Em oito anos, oh Deusa, nunca a tua face rebrilhou
+com uma alegria; nem dos teus verdes olhos rolou uma lágrima; nem
+bateste o pé, com irada impaciência; nem, gemendo com uma dor, te
+estendeste no leito macio... E assim trazes inutilizadas todas as
+virtudes do meu coração, pois que a tua divindade não permite que eu te
+congratule, te console, te sossegue, ou mesmo te esfregue o corpo dorido
+com o suco das ervas benéficas. Considera ainda que a tua inteligência
+de Deusa possui todo o saber, atinge sempre a verdade: e, durante o
+longo tempo que contigo dormi, nunca gozei a felicidade de te emendar,
+de te contradizer, e de sentir, ante a fraqueza do teu, a fôrça do meu
+entendimento! Oh Deusa, tu és aquele ser terrífico que tem sempre razão!
+Considera ainda que, como Deusa, conheces todo o passado e todo o
+futuro dos homens: e eu não pude saborear a incomparável delícia de te
+contar à noite, bebendo o vinho fresco, as minhas ilustres façanhas e as
+minhas viagens sublimes! Oh Deusa, tu és impecável: e quando eu
+escorregue num tapete estendido, ou me estale uma correia da sandália,
+não te posso gritar, como os homens mortais gritam às espôsas
+mortais--«Foi culpa tua, mulher!»--erguendo, em frente à lareira, um
+alarido cruel! Por isso sofrerei, num espírito paciente, todos os males
+com que os Deuses me assaltem no sombrio mar, para voltar a uma humana
+Penélope que eu mande e console, e repreenda, e acuse, e contrarie, e
+ensine, e humilhe, e deslumbre, e por isso ame dum amor que
+constantemente se alimenta dêstes modos ondeantes, como o lume se nutre
+dos ventos contrários!
+
+Assim o facundo Ulisses desabafava, ante a taça de oiro vazia: e
+serenamente a Deusa escutava, com um sorriso taciturno, e as mãos
+imóveis sôbre o regaço, enrodilhadas na ponta do véu.
+
+No entanto, Febo Apolo descia para Ocidente; e já das ancas dos seus
+quatro cavalos suados subia e se espalhava por sôbre o Mar um vapor
+rúbido e doirado. Em breve os caminhos da Ilha se cobriam de
+sombra. E sôbre os velos preciosos do leito, ao fundo da gruta,
+Ulisses, sem desejo, e a Deusa, que o desejava, gozaram o doce amor, e
+depois o doce sono.
+
+Cedo, apenas Eos entreabria as portas do largo Ouranos, a divina
+Calipso, que revestira uma túnica mais branca que a neve do Pindo, e
+pregara nos cabelos um véu transparente e azul como o Éter ligeiro, saíu
+da gruta, trazendo ao magnânimo Ulisses, já sentado à porta, sob a
+ramada, diante duma taça de vinho claro, o machado poderoso de seu pai
+ilustre, todo de bronze, com dois fios, e um rijo cabo de oliveira
+cortado nas faldas do Olimpo.
+
+Limpando rápidamente a dura barba com as costas da mão, o Herói
+arrebatou o machado venerável:
+
+--Oh Deusa, há quantos anos não palpo uma arma ou uma ferramenta, eu,
+devastador de cidadelas e construtor de naves!
+
+A Deusa sorriu. E, iluminada a lisa face, em palavras aladas:
+
+--Oh, Ulisses, vencedor de homens, se tu ficasses nesta ilha, eu
+encomendaria para ti, a Vulcano e às suas forjas do Etna, armas
+maravilhosas...
+
+--¿Que valem armas sem combates, ou homens que as admirem? De resto, oh
+Deusa, já muito batalhei, e a minha glória entre as gerações está
+soberbamente segura; Só aspiro ao macio repouso, vigiando os meu gados,
+concebendo sábias leis para os meus povos... Sê benévola, oh Deusa, e
+mostra as árvores fortes que me convêm cortar!
+
+Em silêncio ela caminhou por um atalho florido de altas e radiosas
+açucenas, que conduzia à ponta da Ilha mais cerrada de matas, do lado do
+Oriente: e atrás seguia o intrépido Ulisses, com o luzidio machado ao
+ombro. As pombas deixavam os ramos dos cedros, ou as concavidades das
+rochas onde bebiam, para esvoaçarem em tôrno da Deusa num tumulto
+amoroso. Um aroma mais delicado, quando ela passava, subia das flores
+abertas, como de incensadores. As relvas que a orla da sua túnica roçava
+reverdejavam num viço mais fresco. E Ulisses, indiferente aos prestígios
+da Deusa, impaciente com a serenidade divina do seu andar harmonioso,
+meditava a jangada, almejava pelo bosque.
+
+Denso e escuro o avistou emfim, povoado de carvalhos, de velhíssimas
+técas, de pinheiros que ramalhavam no alto Éter. Da sua orla descia um
+areal a que nem concha, nem galho quebrado de coral, nem pálida flor de
+cardo marinho, desmanchava a doçura perfeita. E o Mar refulgia com um
+brilho safírico, na quietação da manhã branca e còrada. Caminhando dos
+carvalhos às técas, a Deusa marcou ao atento Ulisses os troncos
+sêcos, robustecidos por sóis inumeráveis, que flutuariam, com ligeireza
+mais segura, sôbre as águas traidoras. Depois, acariciando o ombro do
+Herói, como outra árvore robusta tambêm votada às aguas crueis, recolheu
+à sua gruta, onde tomou a roca de oiro, e todo o dia fiou, e todo o dia
+cantou...
+
+Com alvoroçada e soberba alegria, Ulisses atirou o machado contra um
+vasto carvalho que gemeu. E em breve toda a Ilha retumbava, no fragor da
+obra sobreumana. As gaivotas, adormecidas no silêncio eterno daquelas
+ribas, bateram o vôo em largos bandos, espantadas e gritando. As fluidas
+divindades dos ribeiros indolentes, estremecendo num fulgente arrepio,
+fugiam para entre os canaviais e as raízes dos amieiros. Nesse curto dia
+o valente Ulisses abateu vinte árvores, robles, pinheiros, técas e
+choupos--e todas decotou, esquadrou, e alinhou sôbre a areia. O seu
+pescoço e arcado peito fumegavam de suor, quando recolheu pesadamente à
+gruta, para saciar a rude fome, e beber a cerveja gelada. E nunca êle
+parecera tam belo à Deusa Imortal, que, sobre o leito de peles
+preciosas, apenas os caminhos se cobriram de sombra, encontrou incansada
+e pronta a fôrça daqueles braços que tinham abatido vinte troncos!
+
+Assim, durante três dias, trabalhou o Herói.
+
+E, como arrebatada nessa actividade magnífica que abalava a Ilha, a
+Deusa ajudava Ulisses, conduzindo da gruta para a praia, nas suas mãos
+delicadas, as cordas e os pregos de bronze. As Ninfas, por seu mandado,
+abandonando as tarefas suaves, teciam uma tela forte, para a vela que
+empurrariam com amor os ventos amáveis. E a Intendenta venerável já
+enchia os odres de vinhos robustos, e preparava com generosidade os
+víveres numerosos para a travessia incerta. No entanto a jangada
+crescia, com os troncos bem ligados, e um banco erguido ao meio, donde
+se empinava o mastro, desbastado num pinheiro, mais redondo e lizo que
+uma vara de marfim. Cada tarde a Deusa, sentada numa rocha à sombra do
+bosque, contemplava o calafate admirável martelando furiosamente, e
+cantando, com rija alegria, um canto de remador. E, ligeiras, na ponta
+dos pés luzidios, por entre o arvoredo, as Ninfas, escapando à tarefa,
+acudiam a espreitar, com desejosos olhos fulgurantes, aquela fôrça
+solitária, que soberbamente, no areal solitário, ia erguendo uma nave.
+
+
+IV
+
+Emfim no quarto dia, de manhã, Ulisses findou de esquadrar o leme, que
+reforçou com grades de amieiro para melhor aparar o embate das ondas.
+Depois ajuntou um lastro copioso, com a terra da Ilha imortal e as suas
+pedras polidas. Sem descanso, numa ânsia risonha, amarrou à vêrga alta a
+vela cortada pelas Ninfas. Sôbre pesados rolos, manobrando a alavanca,
+rolou a jangada imensa até à espuma da vaga, num esfôrço sublime, com
+músculos tam retesos e veias tam inchadas, que êle mesmo parecia feito
+de troncos e cordas. Uma ponta da jangada arfou, levantada em cadência
+pela onda harmoniosa. E o Herói, erguendo os braços lustrosos de suor,
+louvou os Deuses Imortais.
+
+Então, como a obra findára e a tarde rebrilhava, propícia à partida, a
+generosa Calipso trouxe Ulisses, através das violetas e das anémonas, à
+fresca gruta. Pelas suas divinas mãos o banhou numa concha de nácar, e o
+perfumou com essências sobrenaturais, e o vestiu com uma túnica formosa
+de lã bordada, e lançou sôbre os seus ombros um manto impenetrável às
+neblinas do mar, e lhe estendeu sôbre a mesa, para êle saciar a
+fome rude, as comidas mais sãs e mais finas da Terra. O Herói aceitava
+os amorosos cuidados, com paciente magnanimidade. A Deusa, de gestos
+serenos, sorria taciturnamente.
+
+Depois ela tomou a mão cabeluda de Ulisses, palpando com gôsto os calos
+que lhe deixara o machado; e pela borda do Mar o conduziu à praia, onde
+a vaga mansamente lambia os troncos da jangada forte. Ambos descansaram
+sôbre uma rocha musgosa. Nunca a Ilha resplandecera com uma beleza tam
+serena, entre um mar tam azul, sob um céu tam macio. Nem a água fresca
+do Pindo bebida em marcha abrasada, nem o vinho doirado que produzem as
+colinas de Chio, eram mais doces de sorver do que aquele ar repassado de
+aromas, composto pelos Deuses para o respirar duma Deusa. A frescura
+imorredoira das árvores entrava no coração, quási pedia a carícia dos
+dedos. Todos os rumores, o dos regatos na relva, o das ondas no areal, o
+das aves nas sombras frondosas, subiam, suave e finamente fundidos, como
+as harmonias sagradas de um Templo distante. O esplendor e a graça das
+flores retinham os raios pasmados do sol. Tantos eram os frutos nos
+vergeis, e as espigas nas messes, que a Ilha parecia ceder, afundada no
+Mar, sob o pêso da sua abundância.
+
+Então a Deusa, ao lado do Herói, levemente suspirou, e murmurou num
+sorriso alado:
+
+--Oh, magnânimo Ulisses, tu certamente partes! O desejo te leva de rever
+a mortal Penélope, e o teu doce Telêmaco, que deixaste no colo da ama
+quando a Europa correu contra a Ásia, e agora já sustenta na mão uma
+lança temida. Sempre dum amor antigo, com raízes fundas, brotará mais
+tarde uma flor, mesmo triste. Mas dize! ¿Se em Ítaca não te esperasse a
+espôsa tecendo e destecendo a teia, e o filho ansioso que alonga os
+olhos incansados para o mar, deixarias tu, oh homem prudente, esta
+doçura, esta paz, esta abundância e beleza imortal?
+
+O Herói, ao lado da Deusa, estendeu o braço poderoso, como na Assembleia
+dos Reis, diante dos muros de Troia, quando plantava nas almas a verdade
+persuasiva:
+
+--Oh Deusa, não te escandalises! Mas ainda que não existissem, para me
+levar, nem filho, nem espôsa, nem reino, eu afrontaria alegremente os
+mares e a ira dos Deuses! Porque, na verdade, oh Deusa muito ilustre, o
+meu coração saciado já não suporta esta paz, esta doçura e esta beleza
+imortal. Considera, oh Deusa, que em oito anos nunca vi a folhagem
+destas árvores amarelecer e caír. Nunca êste céu rutilante se carregou
+de nuvens escuras; nem tive o contentamento de estender, bem
+abrigado, as mãos ao doce lume, emquanto a borrasca grossa batesse nos
+montes. Todas essas flores que brilham nas hastes airosas são as mesmas,
+oh Deusa, que admirei e respirei, na primeira manhã que me mostraste
+êstes prados perpétuos:--e há lírios que odeio, com um ódio amargo, pela
+impassibilidade da sua alvura eterna! Estas gaivotas repetem tam
+incessantemente, tam implacavelmente, o seu vôo harmonioso e branco, que
+eu escondo delas a face, como outros a escondem das negras Harpias! E
+quantas vezes me refugío no fundo da gruta para não escutar o murmúrio
+sempre lânguido dêstes arroios sempre transparentes! Considera, oh
+Deusa, que na tua Ilha nunca encontrei um charco; um tronco apodrecido;
+a carcassa dum bicho morto e coberto de moscas zumbidoras. Oh Deusa, há
+oito anos, oito anos terríveis, estou privado de ver o trabalho, o
+esfôrço, a luta e o sofrimento... Oh Deusa, não te escandalises! Ando
+esfaimado por encontrar um corpo arquejando sob um fardo; dois bois
+fumegantes puxando um arado; homens que se injuriem na passagem duma
+ponte; os braços suplicantes duma mãe que chora; um coxo, sôbre a sua
+muleta, mendigando à porta das vilas... Deusa, há oito anos que não ólho
+para uma sepultura... Não posso mais com esta serenidade sublime!
+Toda a minha alma arde no desejo do que se deforma, e se suja, e se
+espedaça, e se corrompe... Oh Deusa imortal, eu morro com saudades da
+morte!
+
+Imóvel, com as mãos imóveis no regaço, enrodilhadas nas pontas do véu
+amarelo, a Deusa escutara, com um sorriso serenamente divino, o furioso
+queixume do Herói cativo... No entanto já pela colina as Ninfas, servas
+da Deusa, desciam, trazendo à cabeça, e amparando-os com o braço
+redondo, os jarros de vinho, os sacos de coiro, que a Intendenta
+venerável mandava para abastecer a jangada. Silenciosamente, o Herói
+lançou uma tábua desde a areia até ao bordo de altos toros. E emquanto
+sôbre ela as Ninfas passavam, ligeiras, com as manilhas de oiro
+tilintando nos pés luzidios, Ulisses atento, contando os sacos e os
+odres, gozava no seu nobre coração a abundância generosa. Mas, amarrados
+com cordas às cavilhas aqueles fardos excelentes, todas as Ninfas,
+lentamente, se sentaram sôbre o areal em tôrno da Deusa, para
+contemplarem a despedida, o embarque, as manobras do Herói sôbre o dorso
+das águas... Então uma cólera lampejou nos largos olhos de Ulisses. E,
+diante de Calipso, cruzando furiosamente os valentes braços:
+
+--¿Oh Deusa, pensas tu na verdade que nada falta para que eu largue
+a vela e navegue? ¿Onde estão os ricos presentes que me deves? Oito
+anos, oito duros anos, fui o hóspede magnífico da tua Ilha, da tua
+gruta, do teu leito... Sempre os Deuses imortais determinaram que aos
+hóspedes, no momento amigo da partida, se ofertem consideráveis
+presentes! ¿Onde estão elas, oh Deusa, essas riquezas abundantes que me
+deves por costume da Terra e lei do Céu?
+
+A Deusa sorriu, com sublime paciência. E com palavras aladas, que fugiam
+na aragem:
+
+--Oh Ulisses, tu és claramente o mais interesseiro dos homens! E tambêm
+o mais desconfiado, pois que supões que uma Deusa negaria os presentes
+devidos àquele que amou... Sossega, oh subtil Herói... Os ricos
+presentes não tardam, largos e rebrilhantes.
+
+E, certamente, pela colina suave, outras Ninfas desciam, ligeiras, com
+os véus a ondular, trazendo nos braços alfaias lustrosas, que ao sol
+rutilavam! O magnânimo Ulisses estendeu as mãos, os olhos devoradores...
+E emquanto elas passavam sôbre a tábua rangente, o Herói astuto contava,
+avaliava no seu nobre espírito os escabelos de marfim, os rolos de telas
+bordadas, os cântaros de bronze lavrado, os escudos cravejados de pedras...
+
+Tam rico e belo era o vaso de oiro que a derradeira Ninfa sustentava no
+ombro, que Ulisses deteve a Ninfa, arrebatou o vaso, o sopesou, o
+mirou, e gritou, com soberbo riso estridente:
+
+--Na verdade, êste oiro é bom!
+
+Depois de arrumadas e ligadas sob o largo banco as alfaias preciosas, o
+impaciente Herói, arrebatando o machado, cortou a corda que prendia a
+jangada ao tronco dum roble, e saltou para o alto bordo que a espuma
+envolvia. Mas então recordou que nem beijara a generosa e ilustre
+Calipso! Rápido, arremessando o manto, pulou através da espuma, correu
+pela areia, e pousou um beijo sereno na fronte aureolada da Deusa. Ela
+segurou de leve o seu ombro robusto:
+
+--Quantos males te esperam, oh desgraçado! Antes ficasses, para toda a
+imortalidade, na minha Ilha perfeita, entre os meus braços perfeitos...
+
+Ulisses recuou, com um brado magnífico:
+
+--Oh Deusa, o irreparável e supremo mal está na tua perfeição!
+
+E, através da vaga, fugiu, trepou sôfregamente à jangada, soltou a vela,
+fendeu o mar, partiu para os trabalhos, para as tormentas, para as
+misérias--para a delícia das coisas imperfeitas!
+
+
+
+
+O SUAVE MILAGRE!
+
+
+Nesse tempo Jesus ainda se não afastara da Galilea e das doces,
+luminosas margens do Lago de Tiberíade:--mas a nova dos seus Milagres
+penetrara já até Enganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre olivais
+e vinhedos, no país de Issachar.
+
+Uma tarde um homem de olhos ardentes e deslumbrados passou no fresco
+vale, e anunciou que um novo Profeta, um Rabi formoso, percorria os
+campos e as aldeias da Galilea, predizendo a chegada do Reino de Deus,
+curando todos os males humanos. E emquanto descansava, sentado à beira
+da _Fonte dos Vergeis_, contou ainda que êsse Rabi, na estrada de
+Magdala, sarara da lepra o servo dum Decurião Romano só com estender
+sôbre êle a sombra das suas mãos; e que noutra manhã, atravessando
+numa barca para a terra dos Gerassénios, onde começava a colheita do
+bâlsamo, ressuscitara a filha de Jaira, homem considerável e douto que
+comentava os Livros na Sinagoga. E como em redor, assombrados,
+seareiros, pastores, e as mulheres trigueiras com a bilha no ombro, lhe
+perguntassem se êsse era, em verdade, o Messias da Judea, e se diante
+dêle refulgia a espada de fogo, e se o ladeavam, caminhando como as
+sombras de duas tôrres, as sombras de Gog e de Magog--o homem, sem mesmo
+beber daquela água tam fria de que bebera Josué, apanhou o cajado,
+sacudiu os cabelos, e meteu pensativamente por sob o Aqueduto, logo
+sumido na espessura das amendoeiras em flor. Mas uma esperança,
+deliciosa como o orvalho nos meses em que canta a cigarra, refrescou as
+almas simples: logo, por toda a campina que verdeja até Ascalon, o arado
+pareceu mais brando de enterrar, mais leve de mover a pedra do lagar: as
+crianças, colhendo ramos de anémonas, espreitavam pelos caminhos se alêm
+da esquina do muro, ou de sob o sicómoro, não surgiria uma claridade: e
+nos bancos de pedra, às portas da cidade, os vélhos, correndo os dedos
+pelos fios das barbas, já não desenrolavam, com tam sapiente certeza, os
+ditames antigos.
+
+Ora então vivia em Enganim um vélho, por nome Obed, duma família
+pontifical de Samaria que sacrificara nas aras do Monte Ebal, senhor de
+fartos rebanhos e de fartas vinhas--e com o coração tam cheio de orgulho
+como o seu celeiro de trigo. Mas um vento árido e abrasado, êsse vento
+de desolação que ao mando do Senhor sopra das torvas terras de Assur,
+matara as reses mais gordas das suas manadas, e pelas encostas onde as
+suas vinhas se enroscavam ao olmo, e se estiravam na latada airosa, só
+deixara, em tôrno dos olmos e pilares despidos, sarmentos, cêpas
+mirradas, e a parra roída de crespa ferrugem. E Obed agachado à soleira
+da sua porta, com a ponta do manto sôbre a face, palpava a poeira,
+lamentava a velhice, ruminava queixumes contra Deus cruel.
+
+Apenas ouvira falar dêsse novo Rabi da Galilea, que alimentava as
+multidões, amedrontava os demónios, emendava todas as desventuras--Obed,
+homem lido, que viajara na Fenícia, logo pensou que Jesus seria um
+dêsses feiticeiros, tam costumados na Palestina, como Apolónio, ou Rabi
+Ben-Dossa, ou Simão, o Subtil. Êsses, mesmo nas noites tenebrosas,
+conversam com as estrêlas, para êles sempre claras e fáceis nos seus
+segredos: com uma vara afugentam de sôbre as searas os moscardos gerados
+nos lôdos do Egipto: e agarram entre os dedos as sombras das
+árvores, que conduzem, como toldos benéficos, para cima das eiras, à
+hora da sésta. Jesus da Galilea, mais novo, com magias mais viçosas
+de-certo, se êle largamente o pagasse, sustaria a mortandade dos seus
+gados, reverdeceria os seus vinhedos. Então Obed ordenou aos seus servos
+que partissem, procurassem por toda a Galilea o Rabi novo, e com
+promessa de dinheiros ou alfaias o trouxessem a Enganim, no país de
+Assachar.
+
+Os servos apertaram os cinturões de coiro--e largaram pela estrada das
+Caravanas, que, costeando o Lago, se estende até Damasco. Uma tarde,
+avistaram sôbre o poente, vermelho como uma romã muito madura, as neves
+finas do monte Hermon. Depois, na frescura duma manhã macia, o lago de
+Tiberíade resplandeceu diante dêles, transparente, coberto de silêncio,
+mais azul que o céu, todo orlado de prados floridos, de densos vergeis,
+de rochas de pórfiro, e de alvos terraços por entre os pomares, sob o
+vôo das rôlas. Um pescador que desamarrava preguiçosamente a sua barca
+duma ponta de relva, assombreada de aloendros, escutou, sorrindo, os
+servos. ¿O Rabi de Nazareth? Oh! desde o mês de Ijar, o Rabi descera,
+com os seus discípulos, para os lados para onde o Jordão leva as águas.
+
+Os servos, correndo, seguiram pelas margens do rio, até adiante do
+vau, onde êle se estira num largo remanso, e descansa, e um instante
+dorme, imóvel e verde, à sombra dos tamarindos. Um homem da tríbu dos
+Essénios, todo vestido de linho branco, apanhava lentamente ervas
+salutares, pela beira da água, com um cordeirinho branco ao colo. Os
+servos humildemente saudaram-no porque o povo ama aqueles homens de
+coração tam limpo, e claro, e cândido como as suas vestes cada manhã
+lavadas em tanques purificados. ¿E sabia êle da passagem do novo Rabi da
+Galilea, que como os Essénios ensinava a doçura, e curava as gentes e os
+gados? O Essénio murmurou que o Rabi atravessara o Oásis de Engaddi,
+depois se adiantara para alêm...--Mas onde, «alêm?»--Movendo um ramo de
+flores roxas que colhera, o Essénio mostrou as terras de Alêm Jordão, a
+planície de Moab. Os servos vadearam o rio--e debalde procuraram Jesus,
+arquejando pelos rudes trilhos, até às fragas onde se ergue a cidadela
+sinistra de Makaur... No Pôço de Yakob repousava uma larga caravana, que
+conduzia para o Egipto mirra, especiarias e bâlsamos de Gilead: e os
+cameleiros, tirando a água com os baldes de coiro, contaram aos servos
+de Obed que em Gadara, pela lua nova um Rabi maravilhoso, maior que
+David ou Isaias, arrancara sete demónios do peito duma tecedeira, e
+que, à sua voz, um homem degolado pelo salteador Barabas, se erguera da
+sua sepultura e recolhera ao seu horto. Os servos, esperançados, subiram
+logo açodadamente pelo caminho dos Peregrinos até Gadara, cidade de
+altas tôrres, e ainda mais longe até às Nascentes da Amalha... Mas
+Jesus, nessa madrugada, seguindo por um povo que cantava e sacudia ramos
+de mimosa, embarcara no Lago, num batel de pesca, e à vela navegara para
+Magdala. E os servos de Obed descorçoados, de novo passaram o Jordão na
+Ponte das Filhas de Jacob. Um dia, já com as sandálias rôtas dos longos
+caminhos, pisando já as terras da Judea Romana, cruzaram um Fariseu
+sombrio, que recolhia a Efraim, montado na sua mula. Com devota
+reverência detiveram o homem da Lei. ¿Encontrara êle por acaso êsse
+Profeta novo da Galilea que, como um Deus passeando na terra, semeava
+milagres? A adunca face do Fariseu escureceu enrugada--e a sua cólera,
+retumbou como um tambor orgulhoso:
+
+--Oh escravos pagãos! Oh blasfemos! ¿Onde ouvistes que existissem
+profetas ou milagres fóra de Jerusalêm? Só Jeová tem fôrça no seu
+Templo. De Galilea surdem os néscios e os impostores...
+
+E como os servos recuavam ante o seu punho erguido, todo enrodilhado de
+dísticos sagrados--o furioso Doutor saltou da mula, e, com as
+pedras da estrada, apedrejou os servos de Obed, uivando: _Racca! Racca!_
+e todos os Anátemas rituais. Os servos fugiram para Enganim. E grande
+foi a desconsolação de Obed, porque os seus gados morriam, as suas
+vinhas secavam,--e todavia radiantemente, como uma alvorada por detrás
+de serras, crescia, consoladora e cheia de promessas divinas, a fama de
+Jesus da Galilea.
+
+Por êsse tempo, um Centurião Romano, Publius Septimus, comandava o forte
+que domina o vale de Cesarea, até à cidade e ao mar. Publius, homem
+áspero, veterano da campanha de Tibério contra os Partas, enriquecera
+durante a revolta de Samaria com prêsas e saques, possuia minas na
+Ática, e gozava, como favor supremo dos Deuses, a amizade de Flaccus,
+Legado Imperial da Síria. Mas uma dor roía a sua prosperidade muito
+poderosa, como um verme rói um fruto muito suculento. Sua filha única,
+para êle mais amada que vida e bens, definhava com um mal subtil e
+lento, estranho mesmo ao saber dos esculápios e mágicos que êle mandara
+consultar a Sidon e a Tyro. Branca e triste como a lua num cemitério,
+sem um queixume, sorrindo pálidamente a seu pai, definhava, sentada na
+alta esplanada do forte, sob um velário, alongando saudosamente os
+negros olhos tristes pelo azul do mar de Tyro, por onde ela
+navegara de Itália, numa opulenta galera. Ao seu lado, por vezes, um
+legionário, entre as ameias, apontava vagarosamente ao alto a flecha, e
+varava uma grande águia, voando de asa serena, no céu rutilante. A filha
+de Septimus, seguia um momento a ave, torneando até bater morta sôbre as
+rochas:--depois, com um suspiro, mais triste e mais pálida, recomeçava a
+olhar para o mar.
+
+Então Septimus, ouvindo contar, a mercadores de Chorazin, dêste Rabi
+admirável, tam potente sôbre os Espíritos, que sarava os males
+tenebrosos da alma, destacou três decúrias de soldados para que o
+procurassem pela Galilea, e por todas as cidades da Decápola, até à
+costa e até Ascalon. Os soldados enfiaram os escudos nos sacos de lona,
+espetaram nos elmos ramos de oliveira--e as suas sandálias ferradas
+apressadamente se afastaram, ressoando sôbre as lages de basalto da
+estrada romana, que desde Cesarea até ao Lago corta toda a Tetraquia de
+Herodes. As suas armas, de noite, brilhavam no tôpo das colinas, por
+entre a chama ondeante dos archotes erguidos. De dia invadiam os casais,
+rebuscavam a espessura dos pomares, esfuracavam com a ponta das lanças a
+palha das medas: e as mulheres, assustadas, para os amansar, logo
+acudiam com bolos de mel, figos novos, e malgas cheias de vinho, que
+êles bebiam dum trago, sentados à sombra dos sicómoros. Assim correram a
+Baixa Galilea--e, do Rabi, só encontraram o sulco luminoso nos corações.
+Enfastiados com as inúteis marchas, desconfiando que os Judeus
+sonegassem o seu feiticeiro para que Romanos não aproveitassem do
+superior feitiço, derramavam com tumulto a sua cólera, através da
+piedosa terra submissa. À entrada das pontes detinham os peregrinos,
+gritando o nome do Rabi, rasgando os véus às virgens: e, à hora em que
+os cântaros se enchem nas cisternas, invadiam as ruas estreitas dos
+burgos, penetravam nas Sinagogas, e batiam sacrílegamente com os punhos
+das espadas nas _Thebahs_, os Santos Armários de cedro que continham os
+Livros Sagrados. Nas cercanias de Hebron arrastaram os Solitários pelas
+barbas para fóra das grutas, para lhes arrancar o nome do deserto ou do
+palmar em que se ocultava o Rabi:--e dois mercadores Fenícios que vinham
+de Joppé com uma carga de malobatro, e a quem nunca chegara o nome de
+Jesus, pagaram por êsse delito cem drácmas a cada Decurião. Já a gente
+dos campos, mesmos os bravios pastores de Idumea, que levam as reses
+brancas para o Templo, fugiam espavoridos para as serranias, apenas
+luziam, nalguma volta do caminho, as armas do bando violento. E da beira
+dos eirados, as vélhas sacudiam como taleigos a ponta dos cabelos
+desgrenhados, e arrojavam sôbre êles as Más-Sortes, invocando a vingança
+de Elias. Assim tumultuosamente erraram até Ascalon: não encontraram
+Jesus: e retrocederam ao longo da costa enterrando as sandálias nas
+areias ardentes.
+
+Uma madrugada, perto de Cesarea, marchando num vale, avistaram sôbre um
+outeiro um verde-negro bosque de loureiros, onde alvejava,
+recolhidamente, o fino e claro pórtico dum templo. Um vélho, de
+compridas barbas brancas, coroado de fôlhas de louro, vestido com uma
+túnica côr de açafrão, segurando uma curta lira de três cordas, esperava
+gravemente, sôbre os degraus de mármore, a aparição do sol. Debaixo,
+agitando um ramo de oliveira, os soldados bradaram pelo Sacerdote.
+¿Conhecia êle um novo Profeta que surgira na Galilea, e tam déstro em
+milagres que ressuscitava os mortos e mudava a água em vinho?
+Serenamente, alargando os braços, o sereno vélho exclamou por sôbre a
+rociada verdura do vale:
+
+--Oh romanos! ¿pois acreditais que em Galilea ou Judea apareçam profetas
+consumando milagres? ¿Como pode um bárbaro alterar a Ordem instituida
+por Zeus?... Mágicos e feiticeiros são vendilhões, que murmuram
+palavras ôcas, para arrebatar a espórtula dos simples... Sem a permissão
+dos Imortais nem um galho sêco pode tombar da árvore, nem sêca fôlha
+pode ser sacudida na árvore. Não há profetas, não há milagres... Só
+Apolo Délfico conhece o segredo das coisas!
+
+Então, devagar, com a cabeça derrubada, como numa tarde de derrota, os
+soldados recolheram à fortaleza de Cesarea. E grande foi o desespero de
+Septimus, porque sua filha morria, sem um queixume, olhando o mar de
+Tyro--e todavia a fama de Jesus, curador dos lânguidos males, crescia,
+sempre mais consoladora e fresca, como a aragem da tarde que sopra do
+Hermon e, através dos hortos, reanima e levanta as açucenas pendidas.
+
+Ora entre Enganim e Cesarea, num casebre desgarrado, sumido na prega dum
+cêrro, vivia a êsse tempo uma viuva, mais desgraçada mulher que todas as
+mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do
+magro peito a que ela o criara para os farrapos da enxerga apodrecida,
+onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Tambêm a ela a
+doença a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e
+torcida que uma cepa arrancada. E, sôbre ambos, espessamente a miséria
+cresceu como o bolôr sôbre cacos perdidos num ermo. Até na lâmpada
+de barro vermelho, secara há muito o azeite. Dentro da arca pintada não
+restava grão ou côdea. No estio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no
+quinteiro, secara a figueira. Tam longe do povoado, nunca esmola de pão
+ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das rochas,
+cosidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida,
+onde até às aves maléficas sobrava o sustento!
+
+Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe
+amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas
+das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, êsse Rabi que
+aparecera na Galilea, e de um pão no mesmo cêsto fazia sete, e amava
+todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres
+um grande e luminoso Reino, de abundância maior que a Côrte de Salomão.
+A mulher escutava com olhos famintos. ¿E êsse dôce Rabi, esperança dos
+tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah êsse dôce Rabi!
+quantos o desejavam, que se desesperançavam! A sua fama andava por sôbre
+toda a Judea como o sol que até por qualquer vélho muro se estende e se
+goza; mas para enxergar a claridade do seu rosto, só aqueles ditosos que
+o seu desejo escolhia. Obed, tam rico, mandara os seus servos por
+toda a Galilea para que procurassem Jesus, o chamassem com promessas a
+Enganim: Septimus, tam soberano, destacara os seus soldados até à costa
+do mar, para que buscassem Jesus, o conduzissem, por seu mando, a
+Cesarea. Errando, esmolando por tantas estradas, êle topara os servos de
+Obed, depois os legionários de Septimus. E todos voltavam, como
+derrotados, com as sandálias rôtas, sem ter descoberto em que mata ou
+cidade, em que toca ou palácio, se escondia Jesus.
+
+A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho,
+entre a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto, mais vergada, mais
+abandonada. E então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar duma
+asa, pediu à mãe que lhe trouxesse êsse Rabi, que amava as criancinhas
+ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. A mãe
+apertou a cabeça esguedelhada:
+
+--Oh filho! ¿e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos, à
+procura do Rabi da Galilea? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram
+Jesus, por areais e colinas, desde Chorazin até ao país de Moab.
+Septimus é forte, e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde o
+Hebron até ao mar! ¿Como queres que te deixe? Jesus anda por muito longe
+e a nossa dor mora comnosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos
+prende. ¿E mesmo que o encontrasse, como convenceria eu o Rabi tam
+desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse através das
+cidades até êste ermo, para sarar um entrevadinho tam pobre, sôbre
+enxerga tam rôta?
+
+A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:
+
+--Oh mãe! Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tam pequeno, e com
+um mal tam pesado, e que tanto queria sarar!
+
+E a mãe, em soluços:
+
+--¿Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da
+Galilea, e curta a piedade dos homens. Tam rôta, tam trôpega, tam
+triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguêm atenderia
+o meu recado, e me apontaria a morada do doce Rabi. Oh filho! talvez
+Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O céu o
+trouxe, o céu o levou. E com êle para sempre morreu a esperança dos
+tristes.
+
+De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãosinhas que
+tremiam, a criança murmurou:
+
+--Mãe, eu queria ver Jesus...
+
+E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:
+
+--Aqui estou.
+
+
+FIM
+
+
+
+
+ÍNDICE
+
+ Pag.
+
+ Singularidades de uma rapariga loura 1
+
+ Um poeta lírico 43
+
+ No moínho 61
+
+ Civilização 81
+
+ O tesoiro 123
+
+ Frei Genebro 135
+
+ Adão e Eva no Paraíso 153
+
+ A aia 205
+
+ O defunto 215
+
+ José Matias 265
+
+ A perfeição 303
+
+ O suave milagre! 335
+
+
+
+
+Notas de transcrição:
+
+Foram encontrados e corrigidos alguns erros tipográficos evidentes,
+de que não considerámos necessária menção especial.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Contos, by José Maria Eça de Queirós
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS ***
+
+***** This file should be named 31347-8.txt or 31347-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/1/3/4/31347/
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
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+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
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+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
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+https://gutenberg.org/license).
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+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
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+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
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+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
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+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
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+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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