diff options
Diffstat (limited to '31347-h/31347-h.htm')
| -rw-r--r-- | 31347-h/31347-h.htm | 7802 |
1 files changed, 7802 insertions, 0 deletions
diff --git a/31347-h/31347-h.htm b/31347-h/31347-h.htm new file mode 100644 index 0000000..f62ddfd --- /dev/null +++ b/31347-h/31347-h.htm @@ -0,0 +1,7802 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Contos, por Eça de Queiroz</title> + <meta name="Author" content="Eça de Queiroz"> + <meta name="Publisher" content="Livraria Chardron de Lello e Irmão"> + <meta name="Date" content="1913"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1,h2,h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: +75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Contos, by José Maria Eça de Queirós + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Contos + +Author: José Maria Eça de Queirós + +Release Date: February 22, 2010 [EBook #31347] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net + + + + + + +</pre> + +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> + +<p style="font-size: 2em;">CONTOS</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="text-align: right; text-decoration: underline;">PORTO—Imprensa Moderna</p> +</div> + +<p><span class="pn">{II}</span><br> + +<span class="pn">{III}</span><br> + +<span class="pn">{IV}</span></p> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p><img src="images/eca_de_queiroz.png" border="0" alt="Eça de Queiroz"></p> +<p><em>Eça de Queiroz</em></p> +</div> + +<p><span class="pn">{V}</span></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center; border: solid 1px #000;"> +<p style="font-size: 1.4em;">EÇA DE QUEIROZ</p> + +<p style="font-size: 3em;">CONTOS</p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p>TERCEIRA EDIÇÃO</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.2em;">PORTO</p> + +<p>L<small>IVRARIA </small>C<small>HARDRON, DE </small>L<small>ELO +</small>& I<small>RMÃO,<br> </small>E<small>DITORES—</small>R<small>UA DAS +</small>C<small>ARMELITAS, 144</small><br> + +1913</p> + +<p><small>Todos os direitos reservados</small></p> + +</div> + +<p><span class="pn">{VI}</span></p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="font-size: 80%;"> +<p style="text-align: center; font-size: 1.2em;">Obras de EÇA DE QUEIROZ</p> + +<p> </p> + +<blockquote> + <strong>O Crime do Padre Amaro</strong>, 1 vol. 1$200 + + <p><strong>O Primo Bazílio</strong>, 1 volume 1$000</p> + + <p><strong>O Mandarim</strong>, 1 volume 500</p> + + <p><strong>Os Maias</strong>, 2 grossos volumes 2$000</p> + + <p><strong>A Relíquia</strong>, 1 grosso volume 1$000</p> + + <p><strong>Correspondência de Fradique Mendes</strong>, 1 volume 600</p> + + <p><strong>A Ilustre Casa de Ramires</strong>, 1 volume 1$000</p> + + <p><strong>A Cidade e as Serras</strong>, 1 volume 800</p> + + <p><strong>Contos</strong>, 1 volume 600</p> + + <p><strong>Prosas Bárbaras</strong>, 1 volume 600</p> + + <p><strong>Cartas de Inglaterra</strong>, 1 volume 500</p> + + <p><strong>Ecos de Paris</strong>, 1 volume 500</p> + + <p><strong>Cartas Familiares</strong>, 1 vol. 500</p> + + <p><strong>Notas Contemporâneas</strong>, 1 volume 1$000</p> + + <p><strong>Últimas páginas</strong> (manuscritos inéditos), 1 vol. 1$000</p> + + <p><strong>Páginas esquecidas</strong>, com um largo estudo de José Sampaio + (Bruno) no prélo</p> + + <p><strong>As Minas de Salomão</strong>, (tradução), 1 volume 600</p> + + <p><strong>Revista de Portugal</strong>, 4 grossos volumes (colaboração) + 12$000</p> +</blockquote> + +</div> + +<p style="text-align: center;">—</p> + +<p>A propriedade literária e artística está garantida em todos os países que +aderiram à convenção de Berne—(Em Portugal, pela lei de 18 de março de 1911. +No Brasil pela lei n.º 2.577 de 17 de Jan. de 1912.) <span class="pn">{VII}</span></p> + +<div id="corpo"> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>A obra dispersa de Eça de Queiroz, desde os seus primeiros folhetins na +<em>Revolução de Setembro</em> e na <em>Gazeta de Portugal</em> até à sua +assídua colaboração na <em>Gazeta de Notícias</em>, do Rio de Janeiro, e na +<em>Revista Moderna</em>, é muito vasta, muito variada e encerra algumas das +mais maravilhosas páginas do grande e saudoso escritor.</p> + +<p>Os seus editores começam, com a publicação do presente volume, a +<em>compilação da obra póstuma e dispersa</em>, recolhendo cuidadosamente êsse +riquíssimo espólio, para o salvar, pelo livro, do esquecimento a que o +condenariam a dispersão das fôlhas diárias e a sua efémera vida.</p> + +<p>Os <em>Contos</em> compreendem todos os escritos dêste género que Eça de +Queiroz nos deixou, a partir das <em>Singularidades duma rapariga loura</em>. +Os seus primitivos escritos na <em>Revolução</em> e na<span class="pn">{VIII}</span> <em>Gazeta de +Portugal</em>, obra mixta de fantasia e de crítica, seguir-se hão a êste em +outro volume, já no prelo, e a que uma feliz indicação do snr. Jaime Batalha +Reis<a name="tex2html2" href="#foot738"><sup>[1]</sup></a> nos revelou o +próprio título que o autor determinara dar-lhe: <em>Prosas Bárbaras</em>.</p> + +<p>Mais três volumes serão destinados a coligir as suas correspondências para +os jornais brasileiros, conservando-se-lhes como títulos as rúbricas sob que +ali eram publicadas: <em>Cartas de Inglaterra</em>, <em>Ecos de Paris e Cartas +Familiares</em>; e outros dois encerrarão<a name="tex2html3" +href="#foot739"><sup>[2]</sup></a> a sua copiosa <em>vária</em>, onde se +misturam impressões de literatura e de arte, artigos sôbre política geral, +estudos biográficos,<span class="pn">{IX}</span> notas de viagem, ensaios, críticas, polémica, etc. +</p> + +<p>Completará esta série um derradeiro volume com o precioso inédito do <em>S. +Cristóvão</em>,<a name="tex2html4" href="#foot740"><sup>[3]</sup></a> tal como +o admirável artista o deixou: um esbôço magnífico, um verdadeiro improviso, +traçado com largueza numa primeira factura pronta e fluente, onde a sua +imaginação e a sua prosa brotam em jorros impetuosos e borbulhantes, em +contrário da falsa lenda que fazia de Eça de Queiroz um criador moroso, e um +escritor sem espontaneidade.</p> + +<p>A título de curiosidade, para mostrar o poder de desenvolvimento e ampliação +das suas faculdades imaginativas e como um exemplo dos seus<span class="pn">{X}</span> processos de +trabalho, inserimos no presente volume o conto intitulado <em>Civilização</em>, +que o autor, amplificando-o, transformou depois na deliciosa novela <em>A +Cidade e as Serras</em>.</p> + +<p>Ao terminar estas linhas, os editores cumprem o grato dever de testemunhar o +seu reconhecimento ao snr. Francisco Ramos Paz, co-proprietário da <em>Gazeta +de Notícias</em>, do Rio de Janeiro, que, com o mais vivo interesse pela +publicação dos escritos dispersos de Eça de Queiroz, lhes forneceu +obsequiosamente toda a vasta colaboração do ilustre romancista no importante +jornal fluminense.</p> + +<p> </p> + +<p>Pôrto, 1903.</p> + +<p style="text-align: right;"><strong><em>Lelo & Irmão.</em></strong></p> + +<p>(<em>Da primeira edição</em>)</p> + +<p> </p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot738" href="#tex2html2"><sup>[1]</sup></a> A<small>NTHERO DE +</small>Q<small>UENTAL</small>, <em>In Memoriam</em>, pag. 444.</p> + +<p><a name="foot739" href="#tex2html3"><sup>[2]</sup></a> Publicado num só +volume—<em>Notas Contemporâneas</em>—1909.</p> + +<p><a name="foot740" href="#tex2html4"><sup>[3]</sup></a> Incluido no +volume—<em>Últimas páginas</em>—1911.</p> +</div> + + +<p><span class="pn">{1}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION000100">SINGULARIDADES <br> +DE <br> +UMA RAPARIGA LOURA</a> </h1> + + +<h2><a name="SECTION000110">I</a> </h2> + +<p>Começou por me dizer que o seu caso era simples—e que se chamava Macário... +</p> + +<p>Devo contar que conheci êste homem numa estalagem do Minho. Era alto e +grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se lhe +erriçavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda engelhada e +amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e rectidão—por trás +dos seus óculos redondos com aros de tartaruga. Tinha a barba rapada, o queixo +saliente e resoluto. Trazia uma gravata de setim negro apertada por trás com +uma fivela; um casaco comprido côr de pinhão, com as mangas estreitas e justas +e canhões de veludilho. E pela longa<span class="pn">{2}</span> abertura do seu colete de sêda, onde +reluzia um grilhão antigo, saíam as pregas moles de uma camisa bordada.</p> + +<p>Era isto em setembro: já as noites vinham mais cedo, com uma friagem fina e +sêca e uma escuridão aparatosa. Eu tinha descido da diligência, fatigado, +esfomeado, tiritando num cobrejão de listas escarlates.</p> + +<p>Vinha de atravessar a serra e os seus aspectos pardos e desertos. Eram oito +horas da noite. Os céus estavam pesados e sujos. E, ou fôsse um certo +adormecimento cerebral produzido pelo rolar monótono da diligência, ou fôsse a +debilidade nervosa da fadiga, ou a influência da paizagem escarpada e árida, +sob o côncavo silêncio noturno, ou a opressão da electricidade, que enchia as +alturas—o facto é que eu—que sou naturalmente positivo e realista—tinha +vindo tiranizado pela imaginação e pelas quimeras. Existe, no fundo de cada um +de nós, é certo,—tam friamente educados que sejâmos—um resto de misticismo; e +basta às vezes uma paizagem soturna, o vélho muro de um cemitério, um ermo +ascético, as emolientes brancuras de um luar, para que êsse fundo místico suba, +se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensação e a idea, e fique assim o +mais matemático ou o mais crítico—tam triste, tam visionário, tam +idealista—como um vélho monge poeta. A mim, o que me lançara na quimera<span class="pn">{3}</span> e +no sonho, fôra o aspecto do mosteiro de Rastelo, que eu tinha visto, à +claridade suave e outonal da tarde, na sua doce colina. Então, emquanto +anoitecia, a diligência rolava contínuamente ao trote esgalgado dos seus magros +cavalos brancos, e o cocheiro, com o capuz do gabão enterrado na cabeça, +ruminava o seu cachimbo—eu pus-me, elegíacamente, ridículamente, a considerar +a esterilidade da vida: e desejava ser um monge, estar num convento, tranqùilo, +entre arvoredos ou na murmurosa concavidade dum vale, e emquanto a água da +cêrca canta sonoramente nas bacias de pedra, ler a <em>Imitação</em>, e ouvindo +os rouxinóis nos loireirais ter saudades do céu.—Não se pode ser mais +estúpido. Mas eu estava assim, e atribuo a esta disposição visionária a falta +de espírito—a sensação—que me fez a história daquele homem dos canhões de +veludilho.</p> + +<p>A minha curiosidade começou à ceia, quando eu desfazia o peito de uma +galinha afogada em arroz branco, com fatias escarlates de paio—e a criada, uma +gorda e cheia de sardas, fazia espumar o vinho verde no copo, fazendo-o cair de +alto de uma caneca vidrada. O homem estava defronte de mim, comendo +tranqùilamente a sua geleia: perguntei-lhe, com a bôca cheia, o meu guardanapo +de linho de Guimarães suspenso nos dedos—se êle era de Vila Rial.<span class="pn">{4}</span></p> + +<p>—Vivo lá. Há muitos anos—disse-me êle.</p> + +<p>—Terra de mulheres bonitas, segundo me consta—disse eu.</p> + +<p>O homem calou-se.</p> + +<p>—Hein?—tornei.</p> + +<p>O homem contraiu-se num silêncio saliente. Até aí estivera alegre, rindo +dilatadamente; loquaz e cheio de bonomia. Mas então imobilizou o seu sorriso +fino.</p> + +<p>Compreendi que tinha tocado a carne viva de uma lembrança. Havia de-certo no +destino daquele vélho uma <em>mulher</em>. Aí estava o seu melodrama ou a sua +farça, porque inconscientemente estabeleci-me na idea de que o <em>facto</em>, +o <em>caso</em> daquele homem, devera ser grotesco e exalar escárnio.</p> + +<p>De sorte que lhe disse:</p> + +<p>—A mim teem-me afirmado que as mulheres de Vila Rial são as mais bonitas do +Norte. Para os olhos pretos Guimarães, para corpos Santo Aleixo, para tranças +os Arcos: é lá que se vêem os cabellos claros côr de trigo.</p> + +<p>O homem estava calado, comendo, com os olhos baixos.</p> + +<p>—Para cinturas finas Viana, para boas peles Amarante—e para isto tudo Vila +Rial. Eu tenho um amigo que veio casar a Vila Rial. Talvez conheça. O Peixoto, +um alto, de barba loura, bacharel.<span class="pn">{5}</span></p> + +<p>—O Peixoto, sim,—disse-me êle, olhando gravemente para mim.</p> + +<p>—Veio casar a Vila Rial como antigamente se ia casar à Andaluzia—questão +de arranjar a fina flor da perfeição.—À sua saude.</p> + +<p>Eu evidentemente constrangia-o, porque se ergueu, foi à janela com um passo +pesado, e reparei então nos seus grossos sapatos de casimira com a sola forte e +atilhos de coiro. E saiu.</p> + +<p>Quando pedi o meu castiçal, a criada trouxe-me um candieiro de latão +lustroso e antigo e disse:</p> + +<p>—O senhor está com outro. É no n.º 3.</p> + +<p>Nas estalagens do Minho, às vezes, cada quarto é um dormitório impertinente. +</p> + +<p>—Vá—disse eu.</p> + +<p>O n.º 3 era no fundo do corredor. Às portas dos lados os hóspedes tinham +posto o seu calçado para engraxar: estavam umas grossas botas de montar, +enlameadas, com esporas de correia; os sapatos brancos de um caçador; botas de +proprietário, de altos canos vermelhos; as botas de um padre, altas, com a sua +borla de retroz; os botins cambados de bezerro, de um estudante; e a uma das +portas, o n.º 15, havia umas botinas de mulher, de duraque, pequeninas e finas, +e ao lado as pequeninas botas de uma criança, todas coçadas e batidas, e os +seus canos de pelica-mór caíam-lhe para os lados com os atacadores desatados. +Todos dormiam.<span class="pn">{6}</span> Defronte do n.º 3 estavam os sapatos de casimira com +atilhos: e quando abri a porta vi o homem dos canhões de veludilho, que +amarrava na cabeça um lenço de sêda: estava com uma jaqueta curta de ramagens, +uma meia de lã, grossa e alta, e os pés metidos nuns chinelos de ourelo.</p> + +<p>—O senhor não repare—disse êle.</p> + +<p>—À vontade—e para estabelecer a intimidade tirei o casaco.</p> + +<p>Não direi os motivos porque êle daí a pouco, já deitado, me disse a sua +história. Há um provérbio eslavo da Galícia que diz: o que não contas à tua +mulher, o que não contas ao teu amigo, conta-lo a um estranho, na estalagem. +Mas êle teve raivas inesperadas e dominantes para a sua larga e sentida +confidência. Foi a respeito do meu amigo, do Peixoto, que fôra casar a Vila +Rial. Vi-o chorar, àquele vélho de quási sessenta anos. Talvez a história seja +julgada trivial: a mim, que nessa noite estava nervoso e sensível, pareceu-me +terrível,—mas conto-a apenas como um acidente singular da vida amorosa....</p> + +<p>Começou pois por me dizer que o seu caso era simples—e que se chamava +Macário.</p> + +<p>Perguntei-lhe então se era de uma família que eu conhecera que tinha o +apelido de <em>Macário</em>. E como êle me respondeu que era primo dêsses, eu +tive logo do seu carácter uma idea<span class="pn">{7}</span> simpática, porque os Macários eram uma +antiga família, quási uma dinastia de comerciantes, que mantinham com uma +severidade religiosa a sua vélha tradição de honra e de escrúpulo. Macário +disse-me que nesse tempo, em 1823 ou 33, na sua mocidade, seu tio Francisco +tinha, em Lisboa, um armazêm de panos, e êle era um dos caixeiros. Depois o tio +compenetrára-se de certos instintos inteligentes e do talento prático e +aritmético de Macário, e deu-lhe a escrituração. Macário tornou-se o seu +<em>guarda-livros</em>.</p> + +<p>Disse-me êle que sendo naturalmente linfático e mesmo tímido, a sua vida +tinha nesse tempo uma grande concentração. Um trabalho escrupuloso e fiel, +algumas raras merendas no campo, um apuro saliente de fato e de roupas brancas, +era todo o interesse da sua vida. A existência nesse tempo era caseira e +apertada. Uma grande simplicidade social aclarava os costumes: os espíritos +eram mais ingénuos, os sentimentos menos complicados.</p> + +<p>Jantar alegremente numa horta, debaixo das parreiras, vendo correr a água +das regas—chorar com os melodramas que rugiam entre os bastidores do Salitre, +alumiados a cera, eram contentamentos que bastavam à burguesia cautelosa. Alêm +disso os tempos eram confusos e revolucionários: e nada torna o homem +recolhido, conchegado à lareira, simples e fácilmente<span class="pn">{8}</span> feliz—como a +guerra. É a paz que dando os vagares da imaginação—causa as impaciências do +desejo.</p> + +<p>Macário, aos vinte e dois anos, ainda não tinha—como lhe dizia uma vélha +tia, que fôra querida do desembargador Curvo Semedo, da Arcádia,—<em>sentido +Vénus</em>.</p> + +<p>Mas por êsse tempo veio morar para defronte do armazêm dos Macários, para um +terceiro andar, uma mulher de quarenta anos, vestida de luto, uma pele branca e +baça, o busto bem feito e redondo e um aspecto desejável. Macário tinha a sua +carteira no primeiro andar, por cima do armazêm, ao pé de uma varanda, e dali +viu uma manhã aquela mulher com o cabelo preto solto e anelado, um chambre +branco e braços nus, chegar-se a uma pequena janela de peitoril, a sacudir um +vestido. Macário afirmou-se e sem mais intenção dizia mentalmente que aquela +mulher, aos vinte anos, devia ter sido uma pessoa cativante e cheia de domínio: +porque os seus cabelos violentos e ásperos, o sobr'ôlho espesso, o lábio forte, +o perfil aquilino e firme, revelavam um temperamento activo e imaginações +apaixonadas. No entanto, continuou serenamente alinhando as suas cifras. Mas à +noite estava sentado fumando à janela do seu quarto, que abria sôbre o pátio: +era em julho e a atmosfera estava eléctrica e amorosa: a rebeca de um +vizinho<span class="pn">{9}</span> gemia uma <em>chácara</em> mourisca, que então sensibilizava, e +era de um melodrama; o quarto estava numa penumbra doce e cheia de mistério—e +Macário, que estava em chinelas, começou a lembrar-se daqueles cabelos negros e +fortes e daqueles braços que tinham a côr dos mármores pálidos: espreguiçou-se, +rolou mórbidamente a cabeça pelas costas da cadeira de vime, como os gatos +sensíveis que se esfregam, e decidiu bocejando que a sua vida era monótona. E +ao outro dia, ainda impressionado, sentou-se à sua carteira com a janela toda +aberta, e olhando o prédio fronteiro onde viviam aqueles cabelos +grandes—começou a aparar vagarosamente a sua pena de rama. Mas ninguêm se +chegou à janela de peitoril, com caixilhos verdes. Macário estava enfastiado, +pesado—e o trabalho foi lento. Pareceu-lhe que havia na rua um sol alegre, e +que nos campos as sombras deviam ser mimosas e que se estaria bem vendo o +palpitar das borboletas brancas nas madre-silvas! E, quando fechou a carteira, +sentiu defronte correr-se a vidraça; eram de-certo os cabelos pretos. Mas +apareceram uns cabelos louros. Oh! E Macário veio logo salientemente para a +varanda aparar um lápis. Era uma rapariga de vinte anos, talvez—fina, fresca, +loura como uma vinheta inglesa: a brancura da pele tinha alguma coisa da +transparência das vélhas porcelanas, e havia no seu perfil uma<span class="pn">{10}</span> linha pura +como de uma medalha antiga, e os vélhos poetas pitorescos ter-lhe-iam +chamado—pomba, arminho, neve e oiro.</p> + +<p>Macário disse consigo:</p> + +<p>—É filha.</p> + +<p>A outra vestia de luto, mas esta, a loira, tinha um vestido de cassa com +pintas azuis, um lenço de cambraia traspassado sôbre o peito, as mangas +perdidas com rendas, e tudo aquilo era asseado, môço, fresco, flexível e tenro. +</p> + +<p>Macário nesse tempo era louro com a barba curta. O cabelo era anelado e a +sua figura devia ter aquele ar sêco e nervoso que depois do século XVIII e da +revolução—foi tam vulgar nas raças plebeias.</p> + +<p>A rapariga loura reparou naturalmente em Macário, e naturalmente desceu a +vidraça, correndo por trás uma cortina de cassa bordada. Estas pequenas +cortinas datam de G[oe]the e teem na vida amorosa um interessante destino: +revelam. Levantar-lhes uma ponta e espreitar, franzi-la suavemente, revela um +fim; corrê-la, pregar nela uma flor, agitá-la fazendo sentir que por trás um +rosto atento se move e espera—são vélhas maneiras com que na realidade e na +arte começa o romance. A cortina ergueu-se devagarinho e o rosto louro +espreitou.</p> + +<p>Macário não me contou por pulsações—a história minuciosa do seu coração. +Disse singelamente que daí a cinco dias—<em>estava doido</em><span class="pn">{11}</span> <em>por +ela</em>. O seu trabalho tornou-se logo vagaroso e infiel e o seu belo cursivo +inglês firme e largo ganhou curvas, ganchos, rabiscos, onde estava todo o +romance impaciente dos seus nervos. Não a podia ver pela manhã: o sol mordente +de julho batia e escaldava a pequena janela de peitoril. Só pela tarde, a +cortina se franzia, se corria a vidraça, e ela, estendendo uma almofadinha no +rebordo do peitoril, vinha encostar-se mimosa e fresca com o seu leque. Leque +que preocupou Macário: era uma ventarola chinesa, redonda, de sêda branca com +dragões escarlates bordados à pena, uma cercadura de plumagem azul, fina e +trémula como uma penugem e o seu cabo de marfim, donde pendiam duas borlas de +fio de oiro, tinha incrustações de nácar à linda maneira persa.</p> + +<p>Era um leque magnífico e naquele tempo inesperado nas mãos plebeias de uma +rapariga vestida de cassa. Mas como ela era loura e a mãe tam meridional, +Macário, com esta intuição interpretativa dos namorados, disse à sua +curiosidade: <em>será filha de um inglês</em>. O inglês vai à China, à Pérsia, +a Ormuz, à Austrália e vem cheio daquelas jóias dos luxos exóticos, e nem +Macário sabia porque é que aquela ventarola de mandarina o preocupava assim: +mas segundo êle me disse—<em>aquilo deu-lhe no gôto</em>.</p> + +<p>Tinha-se passado uma semana, quando um dia Macário viu, da sua carteira, que +ela, a<span class="pn">{12}</span> loura, saía com a mãe, porque se acostumara a considerar mãe dela +aquela magnífica pessoa, magníficamente pálida e vestida de luto.</p> + +<p>Macário veio à janela e viu-a atravessar a rua e entrarem no armazêm. No seu +armazêm! Desceu logo trémulo, sôfrego, apaixonado e com palpitações. Estavam +elas já encostadas ao balcão e um caixeiro desdobrava-lhes defronte casimiras +pretas. Isto comoveu Macário. Êle mesmo mo disse.</p> + +<p>—Porque emfim, meu caro, não era natural que elas viessem comprar, para si, +casimiras pretas.</p> + +<p>E não: elas não usavam <em>amazonas</em>, não quereriam de-certo estofar +cadeiras com casimira preta, não havia homens em casa delas; portanto aquela +vinda ao armazêm era um meio delicado de o ver de perto, de lhe falar, e tinha +o encanto penetrante de uma mentira sentimental. Eu disse a Macário que, sendo +assim, êle devia estranhar aquele movimento amoroso, porque denotava na mãe uma +cumplicidade equívoca. Êle confessou-me <em>que nem pensava em tal</em>. O que +fez foi chegar ao balcão e dizer estúpidamente:</p> + +<p>—Sim senhor, vão bem servidas, estas casimiras não encolhem.</p> + +<p>E a loura ergueu para êle o seu olhar azul, e foi como se Macário se +sentisse envolvido na doçura de um céu.<span class="pn">{13}</span></p> + +<p>Mas quando êle ia dizer-lhe uma palavra reveladora e veemente, apareceu ao +fundo do armazêm o tio Francisco, com o seu comprido casaco côr de pinhão, de +botões amarelos. Como era singular e desusado achar-se o snr. guarda-livros +vendendo ao balcão e o tio Francisco com a sua crítica estreita e celibatária +podia escandalizar-se, Macário começou a subir vagarosamente a escada em +caracol que levava ao escritório, e ainda ouviu a voz delicada da loura dizer +brandamente:</p> + +<p>—Agora queria ver lenços da Índia.</p> + +<p>E o caixeiro foi buscar um pequenino pacote daqueles lenços, acamados e +apertados numa tira de papel dourado.</p> + +<p>Macário, que tinha visto naquela visita uma revelação de amor, quási uma +<em>declaração</em>, esteve todo o dia entregue às impaciências amargas da +paixão. Andava distraído, abstracto, pueril, não deu atenção à escrituração, +jantou calado, sem escutar o tio Francisco que exaltava as almôndegas, mal +reparou no seu ordenado que lhe foi pago em pintos às três horas, e não +entendeu bem as recomendações do tio e a preocupação dos caixeiros sôbre o +desaparecimento de um pacote de lenços da Índia.</p> + +<p>—É o costume de deixar entrar pobres no armazêm—tinha dito no seu +laconismo majestoso o tio Francisco.—São 12$000 réis de lenços. Lance à minha +conta.<span class="pn">{14}</span></p> + +<p>Macário, no entanto, ruminava secretamente uma carta, mas sucedeu que ao +outro dia, estando êle à varanda, a mãe, a de cabelos pretos, veio encostar-se +ao peitoril da janela, e neste momento, passava na rua um rapaz amigo de +Macário, que vendo aquela senhora afirmou-se e tirou-lhe, com uma cortesia toda +risonha, o seu chapéu de palha. Macário ficou radioso: logo nessa noite +procurou o seu amigo, e abruptamente, sem meia tinta:</p> + +<p>—¿Quem é aquela mulher que tu hoje cumprimentaste defronte do armazêm?</p> + +<p>—É a Vilaça. Bela mulher.</p> + +<p>—E a filha?</p> + +<p>—A filha!</p> + +<p>—Sim, uma loura, clara, com um leque chinês.</p> + +<p>—Ah! sim. É filha.</p> + +<p>—É o que eu dizia....</p> + +<p>—Sim, e então?</p> + +<p>—É bonita.</p> + +<p>—É bonita.</p> + +<p>—É gente de bem, hein?</p> + +<p>—Sim, gente de bem.</p> + +<p>—Está bom. Tu conhece-las muito?</p> + +<p>—Conheço-as. Muito não. Encontrava-as dantes em casa de D. Cláudia.</p> + +<p>—Bem, ouve lá.</p> + +<p>E Macário, contando a história do seu coração acordado e exigente e falando +do amor<span class="pn">{15}</span> com as exaltações de então, pediu-lhe como a glória da sua vida, +<em>que achasse um meio de o encaixar lá</em>. Não era difícil. As Vilaças +costumavam ir aos sábados a casa de um tabelião muito rico na rua dos +Calafates: eram assembleias simples e pacatas, onde se cantavam motetes ao +cravo, se glosavam motes e havia jogos de prendas do tempo da senhora D. Maria +I, e às 9 horas a criada servia a orchata. Bem. Logo no primeiro sábado, +Macário, de casaca azul, calças de ganga com presilhas de trama de metal, +gravata de setim roxo, curvava-se diante da espôsa do tabelião, a snr.ª D. +Maria da Graça, pessoa sêca e aguçada, com um vestido bordado a matiz, um nariz +adunco, uma enorme luneta de tartaruga, a pluma de <em>marabout</em> nos seus +cabelos grisalhos. A um canto da sala já lá estava, entre um <em>frou-frou</em> +de vestidos enormes, a menina Vilaça, a loura, vestida de branco, simples, +fresca, com o seu ar de gravura colorida. A mãe Vilaça, a soberba mulher +pálida, cochichava com um desembargador de figura apoplética. O tabelião era +homem letrado, latinista e amigo das musas; escrevia num jornal de então, a +<em>Alcofa das Damas</em>: porque era sobretudo galante, e êle mesmo se +intitulava, numa ode pitoresca, <em>môço escudeiro de Vénus</em>. Assim, as +suas reùniões eram ocupadas pelas belas-artes—e nessa noite um poeta do +tempo<span class="pn">{16}</span> devia vir ler um poemeto intitulado <em>Elmira ou a vingança do +veneziano</em>!... Começavam então a aparecer as primeiras audácias românticas. +As revoluções da Grécia principiavam a atrair os espíritos romanescos e saídos +da mitologia para os países maravilhosos do Oriente. Por toda a parte se falava +no pachá de Janina. E a poesia apossava-se vorazmente dêste mundo novo e +virginal de minaretes, serralhos, sultanas côr de ámbar, piratas do +Arquipélago, e salas rendilhadas, cheias do perfume do aloés onde pachás +decrépitos acariciam leões.—De sorte que a curiosidade era grande—e quando o +poeta apareceu com os cabelos compridos, o nariz adunco e fatal, o pescoço +entalado na alta gola do seu fraque à Restauração e um canudo de lata na mão—o +snr. Macário é que não experimentou sensação alguma, porque lá estava todo +absorvido, falando com a menina Vilaça. E dizia-lhe meigamente:</p> + +<p>—¿Então, noutro dia, gostou das casimiras?</p> + +<p>—Muito—disse ela baixo.</p> + +<p>E, desde êsse momento, envolveu-os um destino nupcial.</p> + +<p>No entanto, na larga sala a noite passava-se espiritualmente. Macário não +pôde dar todos os pormenores históricos e característicos daquela assembleia. +Lembrava-se apenas que um corregedor de Leiria recitava o <em>Madrigal a +Lídia</em>: lia-o de pé, com uma luneta redonda aplicada<span class="pn">{17}</span> sôbre o papel, a +perna direita lançada para diante, a mão na abertura do colete branco de gola +alta. E em redor, formando círculo, as damas, com vestidos de ramagens, +cobertas de plumas, as mangas estreitas terminadas num fofo de rendas, mitenes +de retroz preto cheias da scintilação dos aneis, tinham sorrisos ternos, +cochichos, doces murmurações, risinhos, e um brando palpitar de leques +recamados de lantejoulas.—Muito bonito, diziam, muito bonito! E o corregedor, +desviando a luneta, cumprimentava sorrindo—e via-se-lhe um dente pôdre.</p> + +<p>Depois a preciosa D. Jerónima da Piedade e Sande, sentando-se com maneiras +comovidas ao cravo, cantou com a sua voz roufenha a antiga ária de Sully:</p> + + +<blockquote> + Oh Ricardo, oh meu rei,<br> + O mundo te abandona</blockquote> + +<p>o que obrigou o terrível Gaudêncio, democrata de 20 e admirador de +Robespierre, a rosnar rancorosamente junto de Macário:</p> + +<p>—Reis!... víboras!</p> + +<p>Depois, o cónego Saavedra cantou uma modinha de Pernambuco muito usada no +tempo do senhor D. João <small>VI</small>: <em>lindas môças</em>, <em>lindas +môças</em>. E a noite ia assim correndo, literária, pachorrenta, erudita, +requintada e toda cheia de musas.<span class="pn">{18}</span></p> + +<p>Oito dias depois, Macário era recebido em casa da Vilaça, num domingo. A mãe +convidára-o, dizendo-lhe:</p> + +<p>—Espero que o vizinho honre aquela choupana.</p> + +<p>E até o desembargador apoplético, que estava ao lado, exclamou:</p> + +<p>—Choupana?! diga alcáçar, formosa dama!</p> + +<p>Estavam, nesta noite, o amigo do chapéu de palha, um vélho cavaleiro de +Malta, trôpego, estúpido e surdo, um beneficiado da Sé, ilustre pela sua voz de +tiple, e as manas Hilárias, a mais vélha das quais tendo assistido, como aia de +uma senhora da casa da Mina, à tourada de Salvaterra, em que morreu o conde dos +Arcos, nunca deixava de narrar os episódios pitorescos daquela tarde: a figura +do conde dos Arcos de cara rapada e uma fita de setim escarlate no rabicho; o +soneto que um magro poeta, parasita da casa de Vimioso, recitou quando o conde +entrou, fazendo ladear o seu cavalo negro, arreado à espanhola, com um xairel +onde as suas armas estavam lavradas em prata: o tombo que nesse momento um +frade de S. Francisco deu da trincheira alta, e a hilaridade da côrte, que até +a snr.ª condessa de Pavolide apertava as mãos nas ilhargas: depois el-rei o +senhor D. José I, vestido de veludo escarlate, recamado de ouro, todo encostado +ao rebordo do seu palanque, e fazendo girar entre<span class="pn">{19}</span> dois dedos a sua caixa +de rapé cravejada, e por trás, imóveis, o físico Lourenço e o frade, seu +confessor: depois o rico aspecto da praça cheia de gente de Salvaterra, +maiorais, mendigos dos arredores, frades, lacaios, e o grito que houve, quando +D. José I entrou—Viva el-rei, nosso senhor! E o povo ajoelhou, e el-rei +tinha-se sentado, comendo doces, que um criado trouxe num saco de veludo, atrás +dêle. Depois a morte do conde dos Arcos, os desmaios, e até el-rei todo +debruçado, batendo com a mão no parapeito, gritando na confusão, e o capelão da +casa dos Arcos que tinha corrido a buscar a extrema-unção. Ela, Hilária, ficara +estarrecida de pavor: sentia os urros dos bois, gritos agudos de mulheres, os +ganidos dos flatos, e vira então um vélho, todo vestido de veludo preto, com a +fina espada na mão, debater-se entre fidalgos e damas que o seguravam, e querer +atirar-se à praça, bramindo de raiva! «É o pai do conde!» explicavam em volta. +Ela então desmaiara nos braços de um padre da Congregação. Quando veio a si, +achou-se junto da praça; a berlinda rial estava à porta, com os bolieiros +emplumados, os machos cheios de guisos, e os batedores a cavalo, à frente: +via-se lá dentro el-rei, escondido ao fundo, pálido, sorvendo febrilmente rapé, +todo encolhido com o confessor; e defronte, com uma das mãos apoiada à alta +bengala, forte, espadaúdo, o aspecto<span class="pn">{20}</span> carregado, o marquês de Pombal +falava devagar e intimativamente, gesticulando com a luneta. Mas os batedores +picaram, os estalos dos bolieiros retiniram, e a berlinda partiu a galope, +emquanto o povo gritava: Viva el-rei, nosso senhor!—e o sino da capela do paço +tocava a finados! Era uma honra que el-rei concedia à casa dos Arcos.</p> + +<p>Quando D. Hilária acabou de contar, suspirando, estas desgraças passadas, +começou-se a jogar. Era singular que Macário não se lembrava o que tinha jogado +nessa noite radiosa. Só se recordava que tinha ficado ao lado da menina Vilaça +(que se chamava Luísa), que reparara muito na sua fina pele rosada, tocada de +luz, e na meiga e amorosa pequenez da sua mão com uma unha mais polida que o +marfim de Dieppe. E lembrava-se tambêm de um acidente excêntrico, que +determinara nele, desde êsse dia, uma grande hostilidade ao clero da Sé. +Macário estava sentado à mesa, e ao pé dêle Luísa: Luísa estava toda voltada +para êle com uma das mãos apoiando a sua fina cabeça loura e amorosa, e a outra +esquecida no regaço. Defronte estava o beneficiado, com o seu barrete preto, os +seus óculos na ponta aguda do nariz, o tom azulado da forte barba rapada, e as +suas duas grandes orelhas, complicadas e cheias de cabelo, separadas do crânio +como dois postigos abertos. Ora, como era necessário<span class="pn">{21}</span> no fim do jôgo pagar +uns tentos ao cavaleiro de Malta, que estava ao lado do beneficiado, Macário +tirou da algibeira uma peça e quando o cavaleiro, todo curvado e com um ôlho +pisco, fazia a sôma dos tentos nas costas dum az, Macário conversava com Luísa, +e fazia girar sôbre o pano verde a sua peça de oiro, como um bilro ou um peão. +Era uma peça nova que luzia, faiscava, rodando, e feria a vista como uma bola +de névoa doirada. Luísa sorria vendo-a girar, girar, e parecia a Macário que +todo o céu, a pureza, a bondade das flores e a castidade das estrêlas estavam +naquele claro sorriso distraído, espiritual, arcangélico, com que ela seguia o +giro fulgurante da peça de oiro nova. Mas de repente, a peça, correndo até à +borda da mesa, caiu para o lado do regaço de Luísa, e desapareceu, sem se ouvir +no soalho de tábuas o seu ruído metálico. O beneficiado abaixou-se logo +cortêsmente: Macário afastou a cadeira, olhando para debaixo da mesa: a mãe +Vilaça alumiou com um castiçal, e Luísa ergueu-se e sacudiu com pequenina +pancada o seu vestido de cassa. A peça não apareceu.</p> + +<p>—É celebre—disse o amigo de chapéu de palha—eu não ouvi tinir no chão. +</p> + +<p>—Nem eu, nem eu—disseram.</p> + +<p>O beneficiado, curvado, buscava tenazmente, e a Hilária mais nova rosnava o +responso de Santo António.<span class="pn">{22}</span></p> + +<p>—Pois a casa não tem buracos—dizia a mãe Vilaça.</p> + +<p>—Sumiço assim!—resmungava o beneficiado.</p> + +<p>No entanto Macário exalava-se em exclamações desinteressadas:</p> + +<p>—Pelo amor de Deus! Ora que tem! Àmanhã aparecerá! Tenham a bondade! Por +quem são! Então, snr.ª D. Luísa! Pelo amor de Deus! Não vale nada.</p> + +<p>Mas mentalmente estabeleceu que houvera uma subtracção—e atribuiu-a ao +beneficiado. A peça rolara, de-certo, até junto dêle sem ruido; êle pusera-lhe +em cima o seu vasto sapato eclesiástico e tachado; depois, no movimento brusco +e curto que tivera, empolgára-a vilmente. E, quando saíram, o beneficiado, todo +embrulhado no seu vasto capote de camelão, dizia a Macário pela escada:</p> + +<p>—¿Ora o sumiço da peça, hein? Que brincadeira!</p> + +<p>—¿Acha, snr. beneficiado?!—disse Macário parando, pasmado da impudência. +</p> + +<p>—Ora essa! Se acho?! Se lhe parece! Uma peça de 7$000 réis! Só se o senhor +as semeia... Safa! Eu dava em doido!</p> + +<p>Macário teve tédio daquela astúcia fria. Não lhe respondeu. O beneficiado é +que acrescentou:</p> + +<p>—Àmanhã mande lá pela manhã, homem.<span class="pn">{23}</span> Que diabo... Deus me perdôe! Que +diabo! uma peça não se perde assim. Que bolada, hein!</p> + +<p>E Macário tinha vontade de lhe bater.</p> + +<p>Foi neste ponto que Macário me disse, com a sua voz singularmente sentida: +</p> + +<p>—Emfim, meu amigo, para encurtarmos razões, resolvi-me casar com ela.</p> + +<p>—Mas a peça?</p> + +<p>—Não pensei mais nisso! Pensava eu lá na peça! Resolvi-me casar com ela! +</p> + +<h2><a name="SECTION000120">II</a> </h2> + +<p>Macário contou-me o que o determinara mais precisamente àquela resolução +profunda e perpétua. Foi um beijo. Mas êsse caso, casto e simples, eu +calo-o;—mesmo porque a única testemunha foi uma imagem em gravura da Virgem, +que estava pendurada no seu caixilho de pau preto, na saleta escura que abria +para a escada... Um beijo fugitivo, superficial, efémero. Mas isso bastou ao +seu espírito recto e severo para o obrigar a tomá-la como espôsa, a dar-lhe uma +fé imutável e a posse da sua vida. Tais foram os seus esponsais. Aquela +simpática sombra das janelas vizinhas tornara-se<span class="pn">{24}</span> para êle um destino, o +fim moral da sua vida e toda a idea dominante do seu trabalho. E esta história +toma, desde logo, um alto carácter de santidade e de tristeza.</p> + +<p>Macário falou-me muito do carácter e da figura do tio Francisco: a sua +possante estatura, os seus óculos de oiro, a sua barba grisalha, em colar, por +baixo do queixo, um tic nervoso que tinha numa asa do nariz, a dureza da sua +voz, a sua austera e majestosa tranqùilidade, os seus princípios antigos, +autoritários e tirânicos, e a brevidade telegráfica das suas palavras.</p> + +<p>Quando Macário lhe disse, uma manhã, ao almôço, abruptamente, sem transições +emolientes: «Peço-lhe licença para casar» o tio Francisco, que deitava o açúcar +no seu café, ficou calado, remexendo com a colher, devagar, majestoso e +terrível: e quando acabou de sorver pelo pires, com grande ruído, tirou do +pescoço o guardanapo, dobrou-o, aguçou com a faca o seu palito, meteu-o na bôca +e saíu: mas à porta da sala parou, e voltando-se para Macário, que estava de +pé, junto da mesa, disse secamente:</p> + +<p>—Não.</p> + +<p>—Perdão, tio Francisco!</p> + +<p>—Não.</p> + +<p>—Mas oiça, tio Francisco...</p> + +<p>—Não.<span class="pn">{25}</span></p> + +<p>Macário sentiu uma grande cólera:</p> + +<p>—Nesse caso, faço-o sem licença.</p> + +<p>—Despedido da casa.</p> + +<p>—Sairei. Não haja dúvida.</p> + +<p>—Hoje.</p> + +<p>—Hoje.</p> + +<p>E o tio Francisco ia a fechar a porta, mas voltando-se:</p> + +<p>—Olá!—disse êle a Macário, que estava exasperado, apoplético, raspando nos +vidros da janela.</p> + +<p>Macário voltou-se com uma esperança.</p> + +<p>—Dê-me daí a caixa do rapé—disse o tio Francisco.</p> + +<p>Tinha-lhe esquecido a caixa! Portanto, estava perturbado.</p> + +<p>—Tio Francisco...—começou Macário.</p> + +<p>—Basta. Estamos a 12. Receberá o seu mês por inteiro. Vá.</p> + +<p>As antigas educações produziam estas situações insensatas. Era brutal e +idiota. Macário afirmou-me que era assim.</p> + +<p>Nessa tarde Macário achava-se no quarto de uma hospedaria na Praça da +Figueira com seis peças, o seu baú de roupa branca e a sua paixão. No entanto +estava tranqùilo. Sentia o seu destino cheio de apuros. Tinha relações e +amizades no comércio. Era conhecido vantajosamente: a nitidez do seu trabalho, +a sua honra tradicional, o nome da família, o<span class="pn">{26}</span> seu tacto comercial, o seu +belo cursivo inglês, abriam-lhe, de par em par, respeitosamente, todas as +portas dos escritórios. No outro dia foi procurar alegremente o negociante +Faleiro, antiga relação comercial da sua casa.</p> + +<p>—De muito boa vontade, meu amigo—disse-me êle.—Quem mo déra cá! Mas, se o +recebo, fico de mal com seu tio, meu vélho amigo de vinte anos. Êle declarou-mo +categóricamente. Bem vê. Fôrça maior. Eu sinto, mas...</p> + +<p>E todos, a quem Macário se dirigiu, confiado em relações sólidas, receavam +<em>ficar de mal com o seu tio, vélho amigo de vinte anos</em>.</p> + +<p>E todos <em>sentiam</em>, <em>mas...</em></p> + +<p>Macário dirigiu-se então a negociantes novos, estranhos à sua casa e à sua +família, e sobretudo aos estrangeiros: esperava encontrar gente livre da +amizade de vinte anos do tio. Mas, para êsses, Macário era desconhecido, e +desconhecidos por igual a sua dignidade e o seu hábil trabalho. Se tomavam +informações, sabiam que êle fôra despedido da casa do tio repentinamente, por +causa duma rapariga loura, vestida de cassa. Esta circunstância tirava as +simpatias a Macário. O comércio evita o guarda-livros sentimental. De sorte que +Macário começou a sentir-se num momento agudo. Procurando, pedindo, rebuscando, +o tempo passava, sorvendo, pinto a pinto, as suas seis peças.<span class="pn">{27}</span></p> + +<p>Macário mudou para uma estalagem barata, e continuou farejando. Mas, como +fôra sempre de temperamento recolhido, não criara amigos. De modo que se +encontrava desamparado e solitário—e a vida aparecia-lhe como um descampado. +</p> + +<p>As peças findaram. Macário entrou, pouco a pouco, na tradição antiga da +miséria. Ela tem solenidades fatais e estabelecidas: começou por +empenhar—depois vendeu. Relógio, aneis, casaco azul, cadeia, paletot de +alamares, tudo foi levando pouco e pouco, embrulhado debaixo do chale, uma +vélha sêca e cheia de asma.</p> + +<p>No entanto via Luísa de noite, na saleta escura que dava para o patamar: uma +lamparina ardia em cima da mesa: era feliz ali naquela penumbra, todo sentado +castamente, ao pé de Luísa, a um canto de um vélho canapé de palhinha. Não a +via de dia, porque trazia já a roupa usada, as botas cambadas, e não queria +mostrar à fresca Luísa, toda mimosa nas suas cambraias asseadas, a sua miséria +remendada: ali, àquela luz ténue e esbatida, êle exalava a sua paixão crescente +e escondia o seu fato decadente. Segundo me disse Macário—era muito singular o +temperamento de Luísa. Tinha o carácter louro como o cabelo—se é certo que o +louro é uma côr fraca e desbotada: falava pouco, sorria sempre com os seus +brancos dentinhos,<span class="pn">{28}</span> dizia a tudo <em>pois sim</em>: era muito simples, +quási indiferente, cheia de transigências.</p> + +<p>Amava de-certo Macário, mas com todo o amor que podia dar a sua natureza +débil, aguada, nula. Era como uma estriga de linho, fiava-se como se queria: e +às vezes, naqueles encontros noturnos, tinha sono.</p> + +<p>Um dia, porêm, Macário encontrou-a excitada: estava com pressa, o chale +traçado à tôa, olhando sempre para a porta interior.</p> + +<p>—A mamã percebeu—disse ela.</p> + +<p>E contou-lhe que a mãe desconfiava, ainda rabugenta e áspera, e que de-certo +farejava aquele plano nupcial tramado como uma conjuração.</p> + +<p>—¿Porque não me vens pedir à mamã?</p> + +<p>—Mas, filha, se eu não posso! Não tenho arranjo nenhum. Espera. É mais um +mês talvez. Tenho agora aí um negócio em bom caminho. Morríamos de fome.</p> + +<p>Luísa calou-se, torcendo a ponta do chale, com os olhos baixos.</p> + +<p>—¿Mas ao menos—disse ela—emquanto eu te não fizer sinal da janela, não +subas mais, sim?</p> + +<p>Macário rompeu a chorar, os soluços saíam violentos e desesperados.</p> + +<p>—Chut!—dizia-lhe Luísa.—Não chores alto!...</p> + +<p>Macário contou-me a noite que passou, ao<span class="pn">{29}</span> acaso pelas ruas, ruminando +febrilmente a sua dor, e lutando, sob a friagem de janeiro, na sua quinzena +curta. Não dormiu, e logo pela manhã, ao outro dia, entrou como uma rajada no +quarto do tio Francisco e disse-lhe abruptamente, secamente:</p> + +<p>—É tudo o que tenho—e mostrava-lhe três pintos.—Roupa, estou sem ela. +Vendi tudo. Daqui a pouco tenho fome.</p> + +<p>O Tio Francisco, que fazia a barba à janela, com o lenço da Índia amarrado +na cabeça, voltou-se e, pondo os óculos, fitou-o.</p> + +<p>—A sua carteira lá está. Fique—e acrescentou, com um gesto +decisivo—solteiro.</p> + +<p>—Tio Francisco, ouça-me!...</p> + +<p>—Solteiro, disse eu—continuou o tio Francisco, dando o fio à navalha numa +tira de sola.</p> + +<p>—Não posso.</p> + +<p>—Então, rua!</p> + +<p>Macário saíu, estonteado. Chegou a casa, deitou-se, chorou e adormeceu. +Quando saiu, à noitinha, não tinha resolução, nem idea. Estava como uma esponja +saturada. Deixava-se ir.</p> + +<p>De repente, uma voz disse de dentro de uma loja:</p> + +<p>—Eh! pst! olá!</p> + +<p>Era o amigo do chapéu de palha: abriu grandes braços pasmados.</p> + +<p>—Que diacho! desde manhã que te procuro<span class="pn">{30}</span></p> + +<p>E contou-lhe que tinha chegado da província, tinha sabido a sua crise e +trazia-lhe um desenlace.</p> + +<p>—Queres?</p> + +<p>—Tudo.</p> + +<p>Uma casa comercial queria um homem hábil, resoluto e duro, para ir numa +comissão difícil e de grande ganho a Cabo-Verde.</p> + +<p>—Pronto!—disse Macário.—Pronto! Àmanhã.</p> + +<p>E foi logo escrever a Luísa, pedindo-lhe uma despedida, um último encontro, +aquele em que os braços desolados e veementes tanto custam a desenlaçar-se. +Foi. Encontrou-a toda embrulhada no seu chale, tiritando de frio. Macário +chorou. Ela, com a sua passiva e loura doçura, disse-lhe:</p> + +<p>—Fazes bem. Talvez ganhes.</p> + +<p>E ao outro dia Macário partiu.</p> + +<p>Conheceu as viagens trabalhosas nos mares inimigos, o enjôo monótono num +beliche abafado, os duros sóis das colónias, a brutalidade tirânica dos +fazendeiros ricos, o pêso dos fardos humilhantes, as dilacerações da ausência, +as viagens ao interior das terras negras e a melancolia das caravanas que +costeiam por violentas noites, durante dias e dias, os rios tranqùilos, donde +se exala a morte.</p> + +<p>Voltou.</p> + +<p>E logo nessa tarde a viu a ela, Luísa, clara,<span class="pn">{31}</span> fresca, repousada, +serena, encostada ao peitoril da janela, com a sua ventarola chinesa. E ao +outro dia, sôfregamente, foi pedi-la à mãe. Macário tinha feito um ganho +saliente—e a mãe Vilaça abriu-lhe uns grandes braços amigos, cheia de +exclamações. O casamento decidiu-se para daí a um ano.</p> + +<p>—Porquê?—disse eu a Macário.</p> + +<p>E êle explicou-me que os lucros de Cabo-Verde não podiam constituir um +capital definitivo: eram apenas um capital de habilitação. Trazia de Cabo-Verde +elementos de poderosos negócios: trabalharia, durante um ano, heróicamente, e +ao fim poderia, sossegadamente, criar uma família.</p> + +<p>E trabalhou: pôs naquele trabalho a fôrça criadora da sua paixão. Erguia-se +de madrugada, comia à pressa, mal falava. À tardinha ia visitar Luísa. Depois +voltava sôfregamente para a fadiga, como um avaro para o seu cofre. Estava +grosso, forte, duro, fero: servia-se com o mesmo ímpeto das ideas e dos +músculos: vivia numa tempestade de cifras. Às vezes Luísa, de passagem, entrava +no seu armazêm: aquele pousar de ave fugitiva dava-lhe alegria, fé, reconforto +para todo um mês cheiamente trabalhado.</p> + +<p>Por êsse tempo o amigo do chapéu de palha veio pedir a Macário que fôsse seu +fiador por uma grande quantia que êle pedira para<span class="pn">{32}</span> estabelecer uma loja de +ferragens em grande. Macário, que estava no vigor do seu crédito, cedeu com +alegria. O amigo do chapéu de palha é que lhe dera o negócio providencial de +Cabo-Verde. Faltavam então dois meses para o casamento. Macário já sentia, por +vezes, subirem-lhe ao rosto as febris vermelhidões da esperança. Já começara a +tratar dos <em>banhos</em>. Mas um dia o amigo do chapéu de palha desapareceu +com a mulher de um alferes. O seu estabelecimento estava em comêço. Era uma +confusa aventura. Não se pôde nunca precisar nítidamente aquele +<em>embróglio</em> doloroso. O que era positivo é que Macário era fiador, +Macário devia reembolsar. Quando o soube, empalideceu e disse simplesmente:</p> + +<p>—Liquído e pago!</p> + +<p>E quando liquidou, ficou outra vez pobre. Mas nesse mesmo dia, como o +desastre tivera uma grande publicidade, e a sua honra estava santificada na +opinião, a casa Peres & C.ª, que o mandara a Cabo-Verde, veio propor-lhe +uma outra viagem e outros ganhos.</p> + +<p>—Voltar a Cabo-Verde outra vez!</p> + +<p>—Faz outra vez fortuna, homem. O senhor é o diabo!—disse o snr. Eleutério +Peres.</p> + +<p>Quando se viu assim, só e pobre, Macário desatou a chorar. Tudo estava +perdido, findo, extinto; era necessário recomeçar pacientemente a vida, voltar +às longas misérias de<span class="pn">{33}</span> Cabo-Verde, tornar a tremer os passados desesperos, +suar os antigos suores! E Luísa? Macário escreveu-lhe. Depois, rasgou a carta. +Foi a casa dela: as janelas tinham luz: subiu até ao primeiro andar, mas aí +tomou-o uma mágoa, uma covardia de revelar o desastre, o pavor trémulo de uma +separação, o terror de ela se recusar, negar-se, hesitar! ¿E quereria ela +esperar mais? Não se atreveu a falar, explicar, pedir; desceu, pé-ante-pé. Era +noite. Andou ao acaso pelas ruas: havia um sereno e silencioso luar. Ia sem +saber: de repente ouviu, de uma janela alumiada, uma rabeca que tocava a +<em>xácara mourisca</em>. Lembrou-se do tempo em que conhecera Luísa, do bom +sol claro que havia então, e do vestido dela, de cassa com pintas azuis! Estava +na rua onde eram os armazêns do tio. Foi caminhando. Pôs-se a olhar para a sua +antiga casa. A janela do escritório estava fechada. Quantas vezes dali vira +Luísa, e o brando movimento do seu leque chinês! Mas uma janela, no segundo +andar, tinha luz; era o quarto do tio. Macário foi observar mais de longe: uma +figura estava encostada, por dentro, à vidraça: era o tio Francisco. Veio-lhe +uma saudade de todo o seu passado simples, retirado, plácido. Lembrava-lhe o +seu quarto, e a vélha carteira com fecho de prata, e a miniatura de sua mãe, +que estava por cima da barra do leito; a sala de<span class="pn">{34}</span> jantar e o seu vélho +aparador de pau preto, e a grande caneca de água, cuja asa era uma serpente +irritada. Decidiu-se, e impelido por um instinto, bateu à porta. Bateu outra +vez. Sentiu abrir a vidraça, e a voz do tio perguntar:</p> + +<p>—Quem é?</p> + +<p>—Sou eu, tio Francisco, sou eu. Venho dizer-lhe adeus.</p> + +<p>A vidraça fechou-se, e daí a pouco a porta abriu-se, com um grande ruído de +ferrolhos. O tio Francisco tinha um candieiro de azeite na mão. Macário achou-o +magro, mais vélho. Beijou-lhe a mão.</p> + +<p>—Suba—disse o tio.</p> + +<p>Macário ia calado, cosido com o corrimão.</p> + +<p>Quando chegou ao quarto, o tio Francisco poisou o candieiro sôbre uma larga +mesa de pau-santo, e de pé, com as mãos nos bolsos, esperou.</p> + +<p>Macário estava calado, anediando a barba.</p> + +<p>—Que quer?—gritou-lhe o tio.</p> + +<p>—Vinha dizer-lhe adeus; volto para Cabo-Verde.</p> + +<p>—Boa viagem.</p> + +<p>E o tio Francisco, voltando-lhe as costas, foi rufar na vidraça.</p> + +<p>Macário ficou imóvel, deu dois passos no quarto, todo revoltado, e ia sair. +</p> + +<p>—¿Onde vai, seu estúpido?—gritou-lhe o tio.</p> + +<p>—Vou-me.<span class="pn">{35}</span></p> + +<p>—Sente-se ali!</p> + +<p>E o tio Francisco continuou, com grandes passadas pelo quarto:</p> + +<p>—O seu amigo é um canalha! Loja de ferragens! Não está má! O senhor é um +homem de bem. Estúpido, mas homem de bem. Sente-se ali! Sente-se! O seu amigo é +um canalha! O senhor é um homem de bem! Foi a Cabo-Verde! Bem sei! Pagou tudo. +Está claro! Tambêm sei! Àmanhã faz o favor de ir para a sua carteira, lá para +baixo. Mandei pôr palhinha nova na cadeira. Faz favor de pôr na factura Macário +& Sobrinho. E case. Case, e que lhe preste! Levante dinheiro. O senhor +precisa de roupa branca e de mobília. Levante dinheiro. E meta na minha conta. +A sua cama lá está feita.</p> + +<p>Macário, estonteado, radioso, com as lágrimas nos olhos, queria abraçá-lo. +</p> + +<p>—Bem, bem. Adeus!</p> + +<p>Macário ia sair.</p> + +<p>—¿Oh! burro, pois quer-se ir desta sua casa?</p> + +<p>E, indo a um pequeno armário, trouxe geleia, um covilhete de doce, uma +garrafa antiga do Pôrto e biscoitos.</p> + +<p>—Côma!</p> + +<p>E sentando-se ao pé dêle, e tornando a chamar-lhe estúpido, tinha uma +lágrima a correr-lhe pelo engelhado da pele.</p> + +<p>De sorte que o casamento foi decidido para<span class="pn">{36}</span> dali a um mês. E Luísa +começou a tratar do seu enxoval.</p> + +<p>Macário estava então na plenitude do amor e da alegria.</p> + +<p>Via o fim da sua vida preenchido, completo, feliz. Estava quási sempre em +casa da noiva, e um dia andando a acompanhá-la, em compras, pela lojas, êle +mesmo lhe quisera fazer um pequeno presente. A mãe tinha ficado numa modista, +num primeiro andar da rua do Ouro, e êles tinham descido, alegremente, rindo, a +um ourives que havia em baixo, no mesmo prédio, na loja.</p> + +<p>O dia estava de inverno, claro, fino, frio, com um grande céu azul-ferrete, +profundo, luminoso, consolador.</p> + +<p>—Que bonito dia!—disse Macário.</p> + +<p>E com a noiva pelo braço, caminhou um pouco, ao comprido do passeio.</p> + +<p>—Está!—disse ela.—Mas podem reparar; nós sós...</p> + +<p>—Deixa, está tam bom...</p> + +<p>—Não, não.</p> + +<p>E Luísa arrastou-o brandamente para a loja do ourives. Estava apenas um +caixeiro, trigueiro, de cabelo hirsuto.</p> + +<p>Macário disse-lhe:</p> + +<p>—Queria ver aneis.</p> + +<p>—Com pedras—disse Luísa—e o mais bonito.<span class="pn">{37}</span></p> + +<p>—Sim, com pedras—disse Macário.—Ametista, granada. Emfim, o melhor.</p> + +<p>E, no entanto, Luísa ia examinando as <em>montres</em> forradas de veludo +azul, onde reluziam as grossas pulseiras cravejadas, os grilhões, os colares de +camafeus, os aneis, as finas <em>alianças</em> frágeis como o amor, e toda a +scintilação da pesada ourivesaria.</p> + +<p>—Vê, Luísa—disse Macário.</p> + +<p>O caixeiro tinha estendido, na outra extremidade do balcão, em cima do vidro +da <em>montre</em>, um reluzente espalhado de aneis de ouro, de pedras, +lavrados, esmaltados; e Luísa, tomando-os e deixando-os com as pontas dos +dedos, ia-os correndo e dizendo:</p> + +<p>—É feio... É pesado... É largo...</p> + +<p>—Vê este—disse-lhe Macário.</p> + +<p>Era um anel de pequenas pérolas.</p> + +<p>—É bonito—respondeu ela.—É lindo!</p> + +<p>—Deixa ver se serve—tornou Macário.</p> + +<p>E tomando-lhe a mão, meteu-lhe o anel devagarinho, docemente, no dedo; e ela +ria, com os seus brancos dentinhos finos, todos esmaltados.</p> + +<p>—É muito largo—disse Macário.—Que pena!</p> + +<p>—Aperta-se, querendo. Deixe a medida. Tem-no pronto àmanhã.</p> + +<p>—Boa idea—disse Macário—sim senhor. Porque é muito bonito. Não é verdade? +As<span class="pn">{38}</span> pérolas muito iguais, muito claras. Muito bonito! E êstes +brincos?—acrescentou, indo ao fim do balcão, a outra <em>montre</em>.—¿Êstes +brincos com uma concha?</p> + +<p>—Dez moedas—disse o caixeiro.</p> + +<p>E, no entanto, Luísa continuava examinando os aneis, experimentando-os em +todos os dedos, revolvendo aquela delicada <em>montre</em>, scintilante e +preciosa.</p> + +<p>Mas, de repente, o caixeiro fez-se muito pálido, e afirmou-se em Luísa, +passeando vagarosamente a mão pela cara.</p> + +<p>—Bem—disse Macário, aproximando-se—então àmanhã temos o anel pronto. A +que horas?</p> + +<p>O caixeiro não respondeu e começou a olhar fixamente para Macário.</p> + +<p>—A que horas?</p> + +<p>—Ao meio dia.</p> + +<p>—Bem, adeus—disse Macário.</p> + +<p>E iam sair. Luísa trazia um vestido de lã azul, que arrastava um pouco, +dando uma ondulação melodiosa ao seu passo, e as suas mãos pequeninas estavam +escondidas num regalo branco.</p> + +<p>—Perdão!—disse de repente o caixeiro.</p> + +<p>Macário voltou-se.</p> + +<p>—O senhor não pagou...</p> + +<p>Macário olhou para êle gravemente.</p> + +<p>—Está claro que não. Àmanhã venho buscar o anel, pago àmanhã.<span class="pn">{39}</span></p> + +<p>—Perdão!—insistiu o caixeiro—mas o outro...</p> + +<p>—Qual outro?—exclamou Macário com uma voz surpreendida, adiantando-se para +o balcão.</p> + +<p>—Essa senhora sabe—afirmou o caixeiro.—Essa senhora sabe...</p> + +<p>Macário tirou a carteira lentamente.</p> + +<p>—Perdão, se há uma conta antiga...</p> + +<p>O caixeiro abriu o balcão, e com um aspecto resoluto:</p> + +<p>—Nada, meu caro senhor, é de agora. É um anel com dois brilhantes que +aquela senhora leva.</p> + +<p>—Eu!—disse Luísa, com a voz baixa, toda escarlate.</p> + +<p>—Que é? Que está a dizer?</p> + +<p>E Macário, pálido, com os dentes cerrados, contraído, fitava o caixeiro +coléricamente.</p> + +<p>O caixeiro disse então:</p> + +<p>—Essa senhora tirou dali um anel.</p> + +<p>Macário ficou imóvel, encarando-o.</p> + +<p>—Um anel com dois brilhantes—continuou o rapaz.—Vi perfeitamente.</p> + +<p>O caixeiro estava tam excitado, que a sua voz gaguejava, prendia-se +espessamente.</p> + +<p>—Essa senhora não sei quem é. Mas tirou o anel. Tirou-o dali...</p> + +<p>Macário, maquinalmente, agarrou-lhe no braço, e voltando-se para Luísa, com +a palavra<span class="pn">{40}</span> abafada, gotas de suor na testa, lívido:</p> + +<p>—Luísa, dize...</p> + +<p>Mas a voz cortou-se-lhe.</p> + +<p>—Eu...—balbuciou ela, trémula, assombrada, enfiada, decomposta.</p> + +<p>E deixou cair o regalo no chão.</p> + +<p>Macário veio para ela, agarrou-lhe no pulso fitando-a: e o seu aspecto era +tam resoluto e tam imperioso, que ela meteu a mão no bôlso, bruscamente, +apavorada, e mostrando o anel:</p> + +<p>—Não me faça mal!—suplicou, encolhendo-se toda.</p> + +<p>Macário ficou com os braços caidos, o ar abstracto, os beiços brancos; mas +de repente, dando um puxão ao casaco, recuperando-se, disse ao caixeiro:</p> + +<p>—Tem razão. Era distracção... Está claro! Esta senhora tinha-se esquecido. +É o anel. Sim, senhor, evidentemente... Tem a bondade. Toma, filha, toma. Deixa +estar, êste senhor embrulha-o. Quanto custa?</p> + +<p>Abriu a carteira e pagou.</p> + +<p>Depois apanhou o regalo, sacudiu-o brandamente, limpou os beiços com o +lenço, deu o braço a Luísa, e dizendo ao caixeiro: <em>desculpe</em>, +<em>desculpe</em>, levou-a, inerte, passiva, aterrada, semi-morta.</p> + +<p>Deram alguns passos na rua, que um largo sol iluminava intensamente: as +seges cruzavam-se, rolando ao estalido do chicote: figuras risonhas<span class="pn">{41}</span> +passavam, conversando: os pregões subiam em gritos alegres: um cavaleiro de +calção de anta fazia ladear o seu cavalo, enfeitado de rosetas; e a rua estava +cheia, ruidosa, viva, feliz e coberta de sol.</p> + +<p>Macário ia maquinalmente, como no fundo de um sonho. Parou a uma esquina. +Tinha o braço de Luísa passado no seu; e via-lhe a mão pendente, a sua linda +mão de cera, com as veias docemente azuladas, os dedos finos e amorosos: era a +mão direita, e aquela mão era a da sua noiva! E, instintivamente, leu o cartaz +que anunciava, para esta noite, <em>Palafoz em Saragoça</em>.</p> + +<p>De repente, soltando o braço de Luísa, disse-lhe baixo:</p> + +<p>—Vai-te.</p> + +<p>—Ouve!...—rogou ela, com a cabeça toda inclinada.</p> + +<p>—Vai-te.—E com a voz abafada e terrível:—Vai-te! Olha que chamo. Mando-te +para o Aljube. Vai-te.</p> + +<p>—Mas ouve, Jesus!</p> + +<p>—Vai-te!—E fez um gesto, com o punho cerrado.</p> + +<p>—Pelo amor de Deus, não me batas aqui!—disse ela, sufocada.</p> + +<p>—Vai-te! Podem reparar. Não chores. Olha que vêem. Vai-te!</p> + +<p>E chegando-se para ela, disse baixo:</p> + +<p>—És uma ladra!<span class="pn">{42}</span></p> + +<p>E voltando-lhe as costas, afastou-se, devagar, riscando o chão com a +bengala.</p> + +<p>A distância, voltou-se: ainda viu, através dos vultos, o seu vestido azul. +</p> + +<p>Como partiu nessa tarde para a província, não soube mais daquela rapariga +loura.<span class="pn">{43}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION000200">UM POETA LÍRICO</a> </h1> + +<p>Aqui está, simplesmente, sem frases e sem ornatos, a história triste do +poeta Korriscosso. De todos os poetas líricos de que tenho notícia, é êste, +certamente, o mais infeliz. Conheci-o em Londres, no hotel de Charing-Cross, +uma madrugada regelada de dezembro. Tinha eu chegado do continente, prostrado +por duas horas de Canal da Mancha... Ah! que mar! E era só uma brisa fresca de +Noroeste: mas ali, no tombadilho, sob uma capa de oleado de que um marujo me +tinha coberto, como se cobre um corpo morto, fustigado da neve e da vaga, +oprimido por aquela treva tumultuosa que o paquete ia rompendo aos roncos e aos +encontrões—parecia-me um tufão dos mares da China...<span class="pn">{44}</span></p> + +<p>Apenas entrei no hotel, gelado e estremunhado, corri ao vasto fogão do +perístilo, e ali fiquei, saturando-me daquela paz quente em que a sala estava +adormecida, com os olhos beatamente postos na boa brasa escarlate... E foi +então que vi aquela figura esguia e longa, já de casaca e gravata branca, que +do outro lado da chaminé, de pé, com a taciturna tristeza duma cegonha que +scisma, olhava tambêm os carvões ardentes, com um guardanapo no braço. Mas o +porteiro tinha rolado a minha bagagem, e eu fui inscrever-me ao +<em>bureau</em>. A <em>guarda-livros</em>, tesa e loura, com um perfil +antiquado de medalha safada, pousou o seu <em>crochet</em> ao lado da sua +chávena de chá, acariciou com um gesto doce os dois bandós louros, assentou +correctamente o meu nome, de dedinho no ar, fazendo rebrilhar um diamante, e eu +ia subir a vasta escadaria,—quando a figura magra e fatal se dobrou num +ângulo, e murmurou-me num inglês silabado:</p> + +<p>—Já está servido o almôço das sete...</p> + +<p>Mas eu não queria o almôço das sete. Fui dormir.</p> + +<p>Mais tarde, já repousado, fresco do banho, quando desci ao restaurante para +o <em>lunch</em>, avistei logo, plantado melancólicamente ao pé da larga +janela, o indivíduo esguio e triste. A sala estava deserta numa luz parda; os +fogões flamejavam; e fóra, no silêncio do domingo,<span class="pn">{45}</span> nas ruas mudas, a neve +caía sem cessar dum ceu amarelento e baço. Eu via apenas as costas do homem; +mas havia na sua linha magra e um pouco dobrada uma expressão tam evidente de +desalento, que me interessei por aquela figura. O cabelo comprido, de tenor, +caído sôbre a gola da casaca, era, manifestamente, dum meridional; e toda a sua +magreza friorenta se encolhia ao aspecto daqueles telhados cobertos de neve, na +sensação daquele silêncio lívido... Chamei-o. Quando êle se voltou, a sua +fisionomia, que apenas entrevira na véspera, impressionou-me: era um carão +longo e triste, muito moreno, de nariz judaico e uma barba curta e frisada, uma +barba de Cristo em estampa romântica; a testa era destas que, em boa +literatura, se chama, creio eu, <em>fronte</em>; era larga e era lustrosa. +Tinha o olhar encovado e vago, com uma indecisão de sonho nadando num fluido +enternecido... E que magreza! quando andava, a calça curta torcia-se em tôrno +da canela como pregas de bandeira em tôrno dum mastro: a casaca tinha dobras de +túnica ampla; as duas abas compridas e agudas eram desgraçadamente grotescas. +Recebeu a ordem do meu almôço, sem me olhar, num tédio resignado: arrastou-se +para o <em>comptoir</em> onde o <em>maître de hotel</em> lia a Bíblia, passou a +mão pela testa com um gesto errante e dolente, e disse-lhe numa voz +surda:<span class="pn">{46}</span></p> + +<p>—Nùmero 307. Duas costeletas. Chá...</p> + +<p>O <em>maître de hotel</em> afastou a <em>Bíblia</em>, inscreveu o +<em>menu</em>—e eu acomodei-me à mesa, e abri o volume de Tennyson que +trouxera para almoçar comigo—porque, creio que lhes disse, era domingo, dia +sem jornais e sem pão fresco. Fóra continuava a nevar sôbre a cidade muda. A +uma mesa distante, um vélho côr de tijolo e todo branco de cabelo e de suíças, +que acabara de almoçar, dormitava de mãos no ventre, bôca aberta, e luneta na +ponta do nariz. E o único som vinha da rua, uma voz gemente que a neve abafava +mais, uma voz pedinte que à esquina defronte garganteava um psalmo... Um +domingo de Londres.</p> + +<p>Foi o magro que me trouxe o almôço—e apenas êle se aproximou, com o serviço +do chá, eu senti logo que aquele volume de Tennyson nas minhas mãos o tinha +interessado e impressionado: foi um olhar rápido, gulosamente fixado na página +aberta, um estremecimento quási imperceptível,—emoção fugitiva, de-certo, +porque depois de ter pousado o serviço, rodou sôbre os calcanhares e foi +plantar-se, melancólicamente, à janela, de ôlho triste e posto na neve triste. +Eu atribuí aquele movimento curioso ao esplendor da encadernação do volume, que +eram os <em>Idílios de El-Rei</em>, em marroquim negro, com o escudo de armas +de Lançarote do Lago—o pelicano de oiro sôbre um mar de sinopla.<span class="pn">{47}</span></p> + +<p>Nessa noite parti no expresso para a Escócia, e ainda não tinha passado +York, adormecida na sua gravidade episcopal, já me esquecera o criado romanesco +do restaurante de Charing-Cross. Foi só daí a um mês, ao voltar a Londres, que +entrando no restaurante, e revendo aquela figura lenta e fatal atravessar com +um prato de <em>roast-beef</em> numa das mãos e na outra um <em>puding</em> de +batata, senti renascer o antigo interesse. E nessa noite mesmo, tive a singular +felicidade de saber o seu nome e de entrever um fragmento do seu passado. Era +já tarde e eu voltava do <em>Covent-Garden</em>, quando no perístilo do hotel +encontrei, majestoso e próspero, o meu amigo Bracolletti.</p> + +<p>¿Não conhecem Bracolletti? A sua presença é formidável; tem a amplidão +pançuda, o negro cerrado da barba, a lentidão, o cerimonial dum pachá gordo; +mas esta ponderosa gravidade turca é temperada, em Bracolletti, pelo sorriso e +pelo olhar. Que olhar! Um olhar doce, que me faz lembrar o dos animais da +Síria: é o mesmo enternecimento. Parece errar no seu fluido macio a +religiosidade meiga das raças que dão os Messias... Mas o sorriso! O sorriso de +Bracolletti é a mais complexa, a mais perfeita, a mais rica das expressões +humanas; há finura, inocência, bonomia, abandono, ironia doce, persuasão, +naqueles dois lábios que se descerram e que deixam brilhar um esmalte de +dentes<span class="pn">{48}</span> de virgem... Ah! mas tambêm êste sorriso é a fortuna de +Bracolletti.</p> + +<p>Moralmente, Bracolletti é um hábil. Nasceu em Esmirna de pais gregos; é tudo +o que êle revela: de resto, quando se lhe pergunta pelo seu passado, o bom +grego rola um momento a cabeça de ombro a ombro, esconde sob as palpebras +cerradas com bonomia o seu ôlho maometano, desabrocha o sorriso duma doçura de +tentar abelhas, e murmura, como afogado em bondade e em enternecimento:</p> + +<p>—<em>Eh! mon Dieu! Eh! mon Dieu!</em>...</p> + +<p>Nada mais. Parece, porêm, que viajou,—porque conhece o Perú, a Crimeia, o +Cabo da Boa-Esperança, os países exóticos—tam bem como Regent-Street: mas é +evidente para todos que a sua existência não foi tecida, como a dos vulgares +aventureiros do Levante, de oiro e estôpa, de esplendores e pelintrices: é um +gordo e, portanto, um prudente: o seu magnífico solitário nunca deixou de lhe +brilhar no dedo: nenhum frio jàmais o surpreendeu sem uma pelissa de dois mil +francos: e nunca deixa de ganhar, todas as semanas, no <em>Fraternal Club</em>, +de que é um membro querido, dez libras ao whist. É um forte.</p> + +<p>Mas tem uma debilidade. É singularmente guloso de rapariguinhas de dôze a +catorze anos: gosta delas magrinhas, muito louras, e com o hábito de praguejar. +Coleciona-as<span class="pn">{49}</span> pelos bairros pobres de Londres, com método. Instala-as em +casa, e ali as tem, como passarinhos na gaiola, metendo-lhes a papinha no bico, +ouvindo-as palrar todo baboso, animando-as a que lhe roubem os +<em>shillings</em> da algibeira, gozando o desenvolvimento dos vícios naquelas +flores, pondo-lhes ao alcance as garrafas de <em>gin</em> para que os anjinhos +se embebedem;—e quando alguma, excitada de álcool, de cabelo ao vento e face +acesa, o injuría, o arrepela, baba obscenidades,—o bom Bracolletti, encruzado +no sofá, de mãos beatamente cruzadas na pança, o olhar afogado em êxtase, +murmura no seu italiano da costa síria.</p> + +<p>—<em>Piccolina! Gentilleta!</em></p> + +<p>Querido Bracolletti! Foi, realmente, com prazer, que o abracei, nessa noite, +em Charing-Cross: e como nos não víamos há muito, fomos cear juntos ao +restaurante. O criado triste lá estava no seu <em>comptoir</em>, curvado sôbre +o <em>Journal des Debats</em>. E apenas Bracolletti apareceu, na sua majestade +de obeso, o homem estendeu-lhe silenciosamente a mão; foi um +<em>shake-hands</em> solene, enternecido e sincero.</p> + +<p>Bom Deus, eram amigos! Arrebatei Bracolletti para o fundo da sala, e +vibrando de curiosidade, interroguei-o com sofreguidão. Quis primeiro o nome do +homem.</p> + +<p>—Chama-se Korriscosso—disse-me Bracolletti, grave.<span class="pn">{50}</span></p> + +<p>Quis depois a sua história. Mas Bracolletti, como os deuses da Ática que, +nos seus embaraços no mundo, se recolhiam à sua nuvem, Bracolletti refugiou-se +na sua vaga reticência.</p> + +<p>—<em>Eh! mon Dieu!...</em> <em>Eh! mon Dieu!</em>...</p> + +<p>—Não, não, Bracolletti. Vejâmos. Quero-lhe a história... Aquela face fatal +e baironeana deve ter uma história...</p> + +<p>Bracolletti então tomou todo o ar cândido que lhe permitem a sua pança e as +suas barbas—e confessou-me, deixando cair as frases às gotas, que tinham +viajado ambos na Bulgária e no Montenegro... Korriscosso foi seu secretário... +Boa letra... Tempos difíceis... <em>Eh! mon Dieu!</em>...</p> + +<p>—De onde é êle?</p> + +<p>Bracolletti respondeu sem hesitar, baixando a voz com um gesto repassado de +desconsideração:</p> + +<p>—É um grego de Atenas.</p> + +<p>O meu interesse sumiu-se como a água que a areia absorve. Quando se tem +viajado no Oriente e nas escalas do Levante, adquire-se fácilmente o hábito, +talvez injusto, de suspeitar do grego: aos primeiros que se vêem, sobretudo +tendo uma educação universitária e clássica, o entusiasmo acende-se um pouco, +pensa-se em Alcibíades e em Platão, nas glórias duma raça estética e livre, e +perfilam-se na imaginação as linhas augustas do Pártenon.<span class="pn">{51}</span> Mas, depois de +os ter freqùentado, às mesas redondas e nos tombadilhos das +<em>Messageries</em>, e principalmente depois de ter escutado a lenda de +velhacaria que êles tem deixado desde Esmirna até Túnis, os outros que se vêem +provocam, apenas, êstes movimentos: abotoar rápidamente o casaco, cruzar +fortemente os braços sôbre a cadeia do relógio, e aguçar o intelecto para +rechassar a <em>escroquerie</em>. A causa desta reputação funesta é que a gente +grega, que emigra para as escalas do Levante, é uma plebe torpe, parte pirata e +parte lacaia, bando de rapina astuto e perverso. A verdade é que apenas soube +Korriscosso um grego, lembrei-me logo que o meu belo volume de Tennyson, na +minha última estada em Charing-Cross, me desaparecera do quarto, e recordei o +olhar de gula e de prêsa que cravara nele Korriscosso... Era um bandido!</p> + +<p>E durante a ceia não falamos mais de Korriscosso. Serviu-nos outro criado, +rubro, honesto e são. O lúgubre Korriscosso não se afastou do <em>comptoir</em> +abismado no <em>Journal des Debats</em>.</p> + +<p>Nessa noite aconteceu, ao recolher-me ao meu quarto, que me perdi... O hotel +estava atulhado, e eu tinha sido alojado naqueles altos de Charing-Cross, numa +complicação de corredores, escadas, recantos, ângulos, onde é quási necessário +roteiro e bússola.<span class="pn">{52}</span></p> + +<p>De castiçal na mão, penetrei num passadiço onde corria um bafo morno de +viela mal arejada. As portas aí não tinham números, mas pequenos cartões +colados onde estavam inscritos nomes: <em>John Smith</em>, <em>Charlie</em>, +<em>Willie</em>... Emfim, eram evidentemente as habitações dos criados. De uma +porta aberta saía a claridade de um bico de gás; adiantei-me, e vi logo +Korriscosso, ainda de casaca, sentado a uma mesa alastrada de papeis, de testa +pendida sôbre a mão, escrevendo.</p> + +<p>—¿Pode-me indicar o caminho para o número 508?—balbuciei.</p> + +<p>Êle ergueu para mim um olhar estremunhado e ennevoado; parecia ressurgir de +muito longe, de um outro universo; batia as pálpebras, repetindo:</p> + +<p>—508? 508?...</p> + +<p>Foi então que eu avistei, sôbre a mesa, entre papeis, colarinhos sujos e um +rosário—o meu volume de Tennyson! Êle viu o meu olhar, o bandido! e acusou-se +todo numa vermelhidão que lhe inundou a face chupada. O meu primeiro movimento +foi não reconhecer o livro: como era um movimento bom, e obedecendo logo à +moral superior do mestre Talleyrand, reprimi-o; apontando o volume com um dedo +severo, um dedo de Providência irritada, disse-lhe:</p> + +<p>—É o meu Tennyson...<span class="pn">{53}</span></p> + +<p>Não sei que resposta êle tartamudeou, porque eu, apiedado, retomado tambêm +pelo interesse que me dava aquela figura picaresca de grego sentimental, +acrescentei num tom repassado de perdão e de justificação:</p> + +<p>—¿Grande poeta, não é verdade? Que lhe pareceu? Tenho a certeza que se +entusiasmou...</p> + +<p>Korriscosso corou mais: mas não era o despeito humilhado do salteador +surpreendido: era, julguei eu, a vergonha de ver a sua inteligência, o seu +gôsto poético adivinhados—e de ter no corpo a casaca coçada de criado de +restaurante. Não respondeu. Mas as páginas do volume, que eu abri, responderam +por êle; a brancura das margens largas desaparecia sob uma rêde de comentários +a lápis: <em>Sublime!</em> <em>Grandioso!</em> <em>Divino!</em>—palavras +lançadas numa letra convulsiva, num tremor de mão, agitada por uma +sensibilidade vibrante...</p> + +<p>No entanto, Korriscosso permanecia de pé, respeitoso, culpado, de cabeça +baixa, com o laço da gravata branca fugindo para o cachaço. Pobre Korriscosso! +Compadeci-me daquela atitude, revelando todo um passado sem sorte, tantas +tristezas de dependência... Lembrei-me que nada impressiona o homem do Levante +como um gesto de drama e de palco; estendi-lhe ambas as mãos num movimento à +Talma, e disse-lhe:<span class="pn">{54}</span></p> + +<p>—Eu tambem sou poeta!...</p> + +<p>Esta frase extraordinária pareceria grotesca e impudente a um homem do +Norte; o levantino viu logo nela a expansão de uma alma irmã. ¿Porque, não lhes +disse? o que Korriscosso estava escrevendo, numa tira de papel, eram estrofes: +era uma ode.</p> + +<p>Daí a pouco, com a porta fechada, Korriscosso contava-me a sua história—ou +antes fragmentos, anedotas desirmanadas da sua biografia. É tam triste, que a +condenso. De resto, havia na sua narração lacunas de anos;—e eu não posso +reconstituir com lógica e seqùência a história dêste sentimental. Tudo é vago e +suspeito. Nasceu com efeito em Atenas; seu pai parece que era carregador no +Pireu. Aos 18 anos Korriscosso servia de criado a um médico, e nos intervalos +do serviço freqùentava a Universidade de Atenas; estas coisas são freqùentes +<em>là-bas</em>, como êle dizia. Formou-se em leis: isto habilitou-o, mais +tarde, em tempos difíceis, a ser um intérprete de hotel. Dêsse tempo datam as +suas primeiras elégias num semanário lírico intitulado <em>Ecos da Ática</em>. +A literatura levou-o directamente à política e às ambições parlamentares. Uma +paixão, uma crise patética, um marido brutal, ameaças de morte, forçaram-no a +expatriar-se. Viajou na Bulgária, foi em Salónica empregado numa sucursal do +<em>Banco Otomano</em>, remeteu endechas<span class="pn">{55}</span> dolorosas a um jornal da +província—a <em>Trombeta da Argólida</em>. Aqui há uma dessas lacunas, um +buraco negro na sua história. Reaparece em Atenas, com fato novo, liberal e +deputado.</p> + +<p>Êste período de glória foi breve, mas suficiente para o pôr em evidência; a +sua palavra colorida, poética, recamada de imagens engenhosas e lustrosas, +encantou Atenas: tinha o segredo de florir, como êle dizia, os terrenos mais +áridos; duma discussão de imposto ou de viação fazia saltar éclogas de +Teócrito. Em Atenas êste talento leva ao poder: Korriscosso era indicado para +gerir uma alta administração do Estado: o ministério, porêm, e com êle a +maioria de que Korriscosso era o tenor querido, caíram, sumiram-se sem lógica +constitucional, num dêstes súbitos desabamentos políticos tam comuns na Grécia, +em que os governos se aluem, como as casas em Atenas—sem motivo. Falta de +base, decrepitude de materiais e de individualidades... Tudo tende para o pó +num solo de ruinas...</p> + +<p>Nova lacuna, novo mergulho obscuro na história de Korriscosso...</p> + +<p>Volta à superfície, membro de um club rèpublicano de Atenas, pede num jornal +a emancipação da Polónia, e a Grécia governada por um concílio de génios. +Publíca então os seus <em>Suspiros da Trácia</em>. Tem outro romance<span class="pn">{56}</span> de +coração... E emfim—e isto disse-mo sem explicações—é obrigado a refugiar-se +em Inglaterra. Depois de tentar em Londres várias posições, coloca-se no +restaurant de Charing-Cross.</p> + +<p>—É um pôrto de abrigo—disse-lhe eu, apertando-lhe a mão.</p> + +<p>Êle sorriu com amargura. Era de-certo um pôrto de abrigo, e vantajoso. É bem +alimentado; as gorgetas são razoáveis; tem um vélho colxão de molas,—mas as +delicadezas da sua alma são, a todo o momento, dolorosamente feridas...</p> + +<p>Dias atribulados, dias crucificados, os daquele poeta lírico, forçado a +distribuir numa sala, a burgueses estabelecidos e glutões, costeletas e copos +de cerveja! Não é a dependência que o aflige; a sua alma de grego não é +particularmente ávida de liberdade, basta-lhe que o patrão seja cortês. E, como +êle me disse, é-lhe grato reconhecer que os fregueses de Charing-Cross nunca +lhe pedem a mostarda ou o queijo sem dizer <em>if you please</em>; e quando +saem, ao passar por êle, levam dois dedos à aba do chapéu: isto satisfaz a +dignidade de Korriscosso.</p> + +<p>Mas o que o tortura é o contacto constante com o alimento. Se êle fôsse um +guarda-livros de um banqueiro, primeiro caixeiro de um armazêm de sêdas... +Nisso há uma sombra de poesia—os milhões que se revolvem, as frotas<span class="pn">{57}</span> +mercantes, a brutal fôrça do oiro, ou então dispôr ricamente os estofos, os +cortes de sêda, fazer correr a luz nas ondulações dos <em>moirés</em>, dar ao +veludo as molezas da linha e da prega... Mas num restaurante como se pode +exercer o gôsto, a originalidade artística, o instinto da côr, do efeito, do +drama—a partir nacos de <em>roast-beef</em> ou de presunto de York?!... +Depois, como êle disse, dar a comer, fornecer alimento, é servir exclusivamente +a pança, a tripa, a baixa necessidade material: no restaurante, o ventre é +Deus: a alma fica fóra, com o chapéu que se pendura no cabide ou com o rôlo de +jornais que se deixou no bôlso do paletot.</p> + +<p>E as convivências, e a falta de conversação! Nunca se voltarem para êle +senão para lhe pedirem salame ou sardinhas de Nantes! Nunca abrir os seus +lábios, de onde pendia o parlamento de Atenas, senão para perguntar:—Mais pão? +mais bife?—Esta privação de eloqùência é-lhe dolorosa.</p> + +<p>Alêm disso o serviço impede-lhe o trabalho. Korriscosso compõe de memória; +quatro passeios pelo quarto, um repelão ao cabelo, e a ode sai-lhe harmoniosa e +doce.... Mas a interrupção glutona da voz do freguês, pedindo nutrição, é fatal +a esta maneira de trabalhar. Às vezes, encostado a uma janela, de guardanapo no +braço, Korriscosso está fazendo uma elégia; são tudo luares, roupagens alvas de +virgens pálidas,<span class="pn">{58}</span> horizontes celestes, flores de alma dolorida... É feliz; +está remontado aos céus poéticos, nas planícies azuladas onde os sonhos +acampam, galopando de estrêla em estrêla... De repente, uma grossa voz faminta +berra dum canto:</p> + +<p>—Bife e batatas!</p> + +<p>Ai! as aladas fantasias batem o vôo como pombas espavoridas! E aí vem o +infeliz Korriscosso, precipitado dos cimos ideais, de ombros vergados e as abas +da casaca balouçando, perguntar com o sorriso lívido:</p> + +<p>—¿Passado ou meio crú?</p> + +<p>Ah! é um amargo destino!</p> + +<p>—¿Mas—perguntei-lhe eu—porque não deixa êste covil, êste templo do +ventre?</p> + +<p>Ele deixou pender a sua bela cabeça de poeta. E disse-me a razão que o +prende: disse-ma, quási chorando nos meus braços, com o nó da gravata branca no +cachaço: Korriscosso ama.</p> + +<p>Ama uma Fanny, criada de todo o serviço em Charing-Cross. Ama-a desde o +primeiro dia em que entrou no hotel: amou-a no momento em que a viu lavando as +escadas de pedra, com os braços roliços nus, e os cabelos louros, os fatais +cabelos louros, dêste louro que entontece os meridionais, cabelos ricos, de um +tom de cobre, dum tom de oiro mate, torcendo-se numa trança de deusa. E depois +a carnação,<span class="pn">{59}</span> uma carnação de inglesa do Yorkshire—leite e rosas...</p> + +<p>E o que Korriscosso tem sofrido! Toda a sua dor exala-a em odes—que passa a +limpo ao domingo, dia de repouso e dia do Senhor! Leu-mas. E eu vi quanto a +paixão pode perturbar um ser nervoso: que ferocidade de linguagem, que lances +de desespero, que gritos de alma dilacerada arremesados dali, daqueles altos de +Charing-Cross, para a mudez do céu frio! É que Korriscosso tem ciumes. A +desgraçada Fanny ignora aquele poeta a seu lado, aquele delicado, aquele +sentimental, e ama um <em>policeman</em>. Ama um <em>policeman</em>, um +colosso, um alcides, uma montanha de carne erriçada duma floresta de barbas, +com o peito como o flanco de um couraçado, com pernas como fortalezas +normandas. Êste Polifemo, como diz Korriscosso, tem, ordináriamente, serviço no +Strand; e a pobre Fanny passa o seu dia a espreitá-lo de um postigo, dos altos +do hotel.</p> + +<p>Todas as suas economias as gasta em quartilhos de <em>gin</em>, de +<em>brandy</em>, de genebra, que à noite lhe leva em copinhos debaixo do +avental: mantem-no fiel pelo álcool; o monstro, plantado enormemente a uma +esquina, recebe em silêncio o copo, atira-o de um golpe às fauces tenebrosas, +arrota cavamente, passa a mão cabeluda pela barba de hércules, e segue +taciturnamente, sem um <em>obrigado</em>, sem um <em>amo-te</em>, batendo o +lagedo<span class="pn">{60}</span> com a vastidão das suas solas sonoras. A pobre Fanny admira-o +babosa... E talvez nesse momento, à outra esquina, o magro Korriscosso, fazendo +no nevoeiro um esguio relêvo de poste telegráfico, soluce com a face magra +entre as mãos transparentes.</p> + +<p>Pobre Korriscosso! Se êle ao menos a pudesse comover... Mas quê! Ela +despreza-lhe o corpo de tísico triste: e a alma não lha compreende... Não que +Fanny seja inacessível a sentimentos ardentes, expressos em linguagem +melodiosa. Mas Korriscosso só pode escrever as suas elégias na sua língua +materna... E Fanny não compreende grego... E Korriscosso é só um grande +homem—em grego...</p> + +<p>Quando desci ao meu quarto, deixei-o soluçando sôbre o catre. Tenho-o visto +depois, outras vezes, ao passar em Londres. Está mais magro, mais fatal, mais +mirrado de zelos, mais curvado quando se move pelo restaurante com a travessa +do <em>roast-beef</em>, mais exaltado no seu lirismo... Sempre que êle me serve +dou-lhe um <em>shilling</em> de gorgeta: e depois, ao retirar, aperto-lhe +sinceramente a mão.<span class="pn">{61}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION000300">NO MOINHO</a> </h1> + +<p>D. Maria da Piedade era considerada em toda a vila como «uma senhora +modêlo». O vélho Nunes, director do correio, sempre que se falava nela, dizia, +acariciando com autoridade os quatro pêlos da calva:</p> + +<p>—É uma santa! É o que ela é!</p> + +<p>A vila tinha quási orgulho na sua beleza delicada e tocante; era uma loura, +de perfil fino, a pele eburnea, e os olhos escuros de um tom de violeta, a que +as pestanas longas escureciam mais o brilho sombrio e doce. Morava ao fim da +estrada, numa casa azul de três sacadas; e era, para a gente que às tardes ia +fazer o giro até ao moinho, um encanto sempre novo vê-la por trás da vidraça, +entre as cortinas de cassa, curvada sôbre a sua costura, vestida de preto, +recolhida e séria. Poucas<span class="pn">{62}</span> vezes saía. O marido, mais vélho que ela, era +um inválido, sempre de cama, inutilizado por uma doença de espinha; havia anos +que não descia à rua; avistavam-no às vezes tambêm à janela murcho e trôpego, +agarrado à bengala, encolhido na <em>robe-de-chambre</em>, com uma face +macilenta, a barba desleixada e com um barretinho de sêda enterrado +melancólicamente até ao cachaço. Os filhos, duas rapariguitas e um rapaz, eram +tambêm doentes, crescendo pouco e com dificuldade, cheios de tumores nas +orelhas, chorões e tristonhos. A casa, interiormente, parecia lúgubre. +Andava-se nas pontas dos pés, porque o senhor, na excitação nervosa que lhe +davam as insónias, irritava-se com o menor rumor; havia sôbre as cómodas alguma +garrafada da botica, alguma malga com papas de linhaça; as mesmas flores com +que ela, no seu arranjo e no seu gôsto de frescura, ornava as mesas, depressa +murchavam naquele ar abafado de febre, nunca renovado por causa das correntes +de ar; e era uma tristeza ver sempre algum dos pequenos ou de emplastro sôbre a +orelha, ou a um canto do camapé, embrulhado em cobertores com uma amarelidão de +hospital.</p> + +<p>Maria da Piedade vivia assim, desde os vinte anos. Mesmo em solteira, em +casa dos pais, a sua existência fôra triste. A mãe era uma criatura +desagradável e azêda; o pai, que se empenhara pelas tavernas e pelas batotas, +já<span class="pn">{63}</span> vélho, sempre bêbedo, os dias que aparecia em casa passava-os à +lareira, num silêncio sombrio, cachimbando e escarrando para as cinzas. Todas +as semanas desancava a mulher. E quando João Coutinho pediu Maria em casamento, +a-pesar de doente já, ela aceitou, sem hesitação, quási com reconhecimento, +para salvar o casebre da penhora, não ouvir mais os gritos da mãe, que a faziam +tremer, rezar, em cima no seu quarto, onde a chuva entrava pelo telhado. Não +amava o marido, de-certo; e mesmo na vila tinha-se lamentado que aquele lindo +rosto de Virgem Maria, aquela figura de fada, fôsse pertencer ao Joãosinho +Coutinho, que desde rapaz fôra sempre entrevado. O Coutinho, por morte do pai, +ficára rico; e ela, acostumada por fim àquele marido rabugento, que passava o +dia arrastando-se sombriamente da sala para a álcôva, ter-se-ia resignado, na +sua natureza de enfermeira e de consoladora, se os filhos ao menos tivessem +nascido sãos e robustos. Mas aquela família que lhe vinha com o sangue viciado, +aquelas existências hesitantes, que depois pareciam apodrecer-lhe nas mãos, +a-pesar dos seus cuidados inquietos, acabrunhavam-na. Às vezes só, picando a +sua costura, corriam-lhe as lágrimas pela face: uma fadiga da vida invadia-a, +como uma névoa que lhe escurecia a alma.</p> + +<p>Mas se o marido de dentro chamava desesperado,<span class="pn">{64}</span> ou um dos pequenos +choramingava, lá limpava os olhos, lá aparecia com a sua bonita face tranqùila, +com alguma palavra consoladora, compondo a almofada a um, indo animar o outro, +feliz em ser boa. Toda a sua ambição era ver o seu pequeno mundo bem tratado e +bem acarinhado. Nunca tivera desde casada uma curiosidade, um desejo, um +capricho: nada a interessava na terra senão as horas dos remédios e o sono dos +seus doentes. Todo o esfôrço lhe era fácil quando era para os contentar: +a-pesar de fraca, passeava horas trazendo ao colo o pequerrucho, que era o mais +impertinente, com as feridas que faziam dos seus pobres beicinhos uma crosta +escura: durante as insónias do marido não dormia tambêm, sentada ao pé da cama, +conversando, lendo-lhe as Vidas dos Santos, porque o pobre entrevado ia caíndo +em devoção. De manhã estava um pouco mais pálida, mas toda correcta no seu +vestido preto, fresca, com os bandós bem lustrosos, fazendo-se bonita para ir +dar as sopas de leite aos pequerruchos. A sua única distracção era à tarde +sentar-se à janela com a sua costura, e a pequenada em roda, aninhada no chão, +brincando tristemente. A mesma paizagem que ela via da janela era tam monótona +como a sua vida: em baixo a estrada, depois uma ondulação de campos, uma terra +magra plantada aqui e alêm de oliveiras e, erguendo-se ao fundo, uma +colina<span class="pn">{65}</span> triste e nua, sem uma casa, uma árvore, um fumo de casal que +pusesse naquela solidão de terreno pobre uma nota humana e viva.</p> + +<p>Vendo-a assim tam resignada e tam sujeita, algumas senhoras da vila +afirmavam que ela era beata: todavia ninguêm a avistava na igreja, a não ser ao +domingo, com o pequerrucho mais vélho pela mão, todo pálido no seu vestido de +veludo azul. Com efeito, a sua devoção limitava-se a esta missa todas as +semanas. A sua casa ocupava-a muito para se deixar invadir pelas preocupações +do céu: naquele dever de boa mãe, cumprido com amor, encontrava uma satisfação +suficiente à sua sensibilidade; não necessitava adorar santos ou enternecer-se +com Jesus. Instintivamente mesmo pensava que toda a afeição excessiva dada ao +Pai do Céu, todo o tempo gasto em se arrastar pelo confessionário ou junto do +oratório, seria uma diminuição cruel no seu cuidado de enfermeira: a sua +maneira de rezar era velar os filhos: e aquele pobre marido pregado numa cama, +todo dependente dela, tendo-a só a ela, parecia-lhe ter mais direito ao seu +fervor que o outro, pregado numa cruz, tendo para o amar toda uma humanidade +pronta. Alêm disso, nunca tivera estas sentimentalidades de alma triste que +levam à devoção. O seu longo hábito de dirigir uma casa de doentes, de ser ela +o centro, a fôrça, o amparo daqueles inválidos,<span class="pn">{66}</span> tornára-a terna, mas +pràtica: e assim era ela que administrava agora a casa do marido, com um bom +senso que a afeição dirigira, uma solicitude de mãe próvida. Tais ocupações +bastavam para entreter o seu dia: o marido, de resto, detestava visitas, o +aspecto de caras saudáveis, as comiserações de cerimónia; e passavam-se meses +sem que em casa de Maria da Piedade se ouvisse outra voz estranha à família, a +não ser a do Dr. Abílio—que a adorava, e que dizia dela com os olhos +esgazeados:</p> + +<p>—É uma fada! é uma fada...</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Foi por isso grande a excitação na casa, quando João Coutinho recebeu uma +carta de seu primo Adrião que lhe anunciava que em duas ou três semanas ia +chegar à vila. Adrião era um homem célebre, e o marido de Maria da Piedade +tinha naquele parente um orgulho enfático. Assinára mesmo um jornal de Lisboa, +só para ver o seu nome nas locais e na crítica. Adrião era um romancista: e o +seu último livro, <em>Madalena</em>, um estudo de mulher trabalhado a grande +estilo, duma análise delicada e subtil, consagrara-o como um mestre. A sua +fama, que chegara até à vila, num vago de legenda, apresentava-o como uma +personalidade interessante, um herói de Lisboa, amado das fidalgas, impetuoso e +brilhante, destinado a uma<span class="pn">{67}</span> alta situação no Estado. Mas realmente na vila +era sobretudo notável por ser primo do João Coutinho.</p> + +<p>D. Maria da Piedade ficou aterrada com esta visita. Via já a sua casa em +confusão com a presença do hóspede extraordinário. Depois a necessidade de +fazer mais <em>toilette</em>, de alterar a hora do jantar, de conversar com um +literato, e tantos outros esforços crueis!... E a brusca invasão daquele +mundano, com as suas malas, o fumo do seu charuto, a sua alegria de são, na paz +triste do seu hospital, dava-lhe a impressão apavorada duma profanação. Foi por +isso um alívio, quási um reconhecimento, quando Adrião chegou, e muito +simplesmente se instalou na antiga estalagem do tio André, à outra extremidade +da vila. João Coutinho escandalizou-se: tinha já o quarto do hóspede preparado, +com lençóis de rendas, uma colcha de damasco, pratas sôbre a cómoda, e queria-o +todo para si, o primo, o homem célebre, o grande autor... Adrião porêm recusou: +</p> + +<p>—Eu tenho os meus hábitos, vocês teem os seus... ¿Não nos contrariemos, +hein?... O que faço é vir cá jantar. De resto, não estou mal no tio André... +Vejo da janela um moinho e uma reprêsa que são um quadrosinho delicioso... ¿E +ficamos amigos, não é verdade?</p> + +<p>Maria da Piedade olhava-o assombrada: aquele herói, aquele fascinador por +quem choravam<span class="pn">{68}</span> mulheres, aquele poeta que os jornais glorificavam, era um +sujeito extremamente simples,—muito menos complicado, menos espectaculoso que +o filho do recebedor! Nem formoso era: e com o seu chapéu desabado sôbre uma +face cheia e barbuda, a quinzena de flanela caíndo à larga num corpo robusto e +pequeno, os seus sapatos enormes, parecia-lhe a ela um dos caçadores de aldeia +que às vezes encontrava, quando de mês a mês ia visitar as fazendas do outro +lado do rio. Alêm disso não fazia frases; e a primeira vez que veio jantar, +falou apenas, com grande bonomia, dos seus negócios. Viera por êles. Da fortuna +do pai, a única terra que não estava devorada, ou abominavelmente hipotecada, +era a Curgossa, uma fazenda ao pé da vila, que andava alêm disso mal +arrendada... O que êle desejava era vendê-la. Mas isso parecia-lhe a êle tam +difícil, como fazer a <em>Ilíada</em>!... E lamentava sinceramente ver o primo +ali, inútil sôbre uma cama, sem o poder ajudar nesses passos a dar com os +proprietários da vila. Foi por isso, com grande alegria, que ouviu João +Coutinho declarar-lhe que a mulher era uma administradora de primeira ordem, e +hábil nestas questões como um antigo rábula!...</p> + +<p>—Ela vai contigo ver a fazenda, fala com o Teles, e arranja-te isso tudo... +E na questão de preço, deixa-a a ela!...<span class="pn">{69}</span></p> + +<p>—Mas que superioridade, prima!—exclamou Adrião maravilhado.—Um anjo que +entende de cifras!</p> + +<p>Pela primeira vez na sua existência Maria da Piedade corou com a palavra dum +homem. De resto prontificou-se logo a ser a procuradora do primo...</p> + +<p>No outro dia foram ver a fazenda. Como ficava perto, e era um dia de março +fresco e claro, partiram a pé. Ao princípio, acanhada por aquela companhia de +um leão, a pobre senhora caminhava junto dêle com o ar de um pássaro assustado: +a-pesar de êle ser tam simples, havia na sua figura enérgica e musculosa, no +timbre rico da sua voz, nos seus olhos pequenos e luzidios alguma coisa de +forte, de dominante, que a enleava. Tinha-se-lhe prendido à orla do seu vestido +um galho de silvado, e como êle se abaixára para o desprender delicadamente, o +contacto daquela mão branca e fina de artista na orla da sua saia incomodou-a +singularmente. Apressava o passo para chegar bem depressa à fazenda, aviar o +negócio com o Teles, e voltar imediatamente a refugiar-se, como no seu elemento +próprio, no ar abafado e triste do seu hospital. Mas a estrada estendia-se, +branca e longa, sob o sol tépido—e a conversa de Adrião foi-a lentamente +acostumado à sua presença.</p> + +<p>Êle parecia desolado daquela tristeza da<span class="pn">{70}</span> casa. Deu-lhe alguns bons +conselhos: o que os pequenos necessitavam era ar, sol, uma outra vida diversa +daquele abafamento de alcôva...</p> + +<p>Ela tambêm assim o julgava: mas quê! o pobre João, sempre que se lhe falava +de ir passar algum tempo à quinta, afligia-se terrívelmente: tinha horror aos +grandes ares e aos grandes horizontes: a natureza forte fazia-o quási desmaiar; +tornára-se um ser artificial, encafuado entre os cortinados da cama...</p> + +<p>Êle então lamentou-a. De-certo poderia haver alguma satisfação num dever tam +santamente cumprido... Mas, emfim, ela devia ter momentos em que desejasse +alguma outra cousa alêm daquelas quatro paredes, impregnadas do bafo da +doença...</p> + +<p>—¿Que hei-de eu desejar mais?—disse ela.</p> + +<p>Adrião calou-se: pareceu-lhe absurdo supôr que ela desejasse, realmente, o +Chiado ou o Teatro da Trindade... No que êle pensava era noutros apetites, nas +ambições do coração insatisfeito... Mas isto pareceu-lhe tam delicado, tam +grave de dizer àquela criatura virginal e séria—que falou da paizagem...</p> + +<p>—Já viu o moinho?—perguntou-lhe ela.</p> + +<p>—Tenho vontade de o ver, se mo quiser ir mostrar, prima.</p> + +<p>—Hoje é tarde.</p> + +<p>Combinaram logo ir visitar êsse recanto de verdura, que era o idílio da +vila.<span class="pn">{71}</span></p> + +<p>Na fazenda, a longa conversa com o Teles criou uma aproximação maior entre +Adrião e Maria da Piedade. Aquela venda que ela discutia com uma astúcia de +aldeã, punha entre êles como que um interesse comum. Ela falou-lhe já com menos +reserva quando voltaram. Havia nas maneiras dêle, dum respeito tocante, uma +atracção que a seu pesar a levava a revelar-se, a dar-lhe a sua confiança: +nunca falára tanto a ninguêm: a ninguêm jàmais deixara ver tanto da melancolia +oculta que errava constantemente na sua alma. De resto as suas queixas eram +sôbre a mesma dor—a tristeza do seu interior, as doenças, tantos cuidados +graves... E vinha-lhe por êle uma simpatia, como um indefinido desejo de o ter +sempre presente, desde que êle se tornava assim depositário das suas tristezas. +</p> + +<p>Adrião voltou para o seu quarto, na estalagem do André, impressionado, +interessado por aquela criatura tam triste e tam doce. Ela destacava sôbre o +mundo de mulheres que até ali conhecera, como um perfil suave de anjo gótico +entre fisionomias de mesa redonda. Tudo nela concordava deliciosamente: o oiro +do cabelo, a doçura da voz, a modéstia na melancolia, a linha casta, fazendo um +ser delicado e tocante, a que mesmo o seu pequenino espírito burguês, certo +fundo rústico de aldeã e uma leve vulgaridade de hábitos davam um encanto: +era<span class="pn">{72}</span> um anjo que vivia há muito tempo numa vilota grosseira e estava por +muitos lados prêso às trivialidades do sítio: mas bastaria um sôpro para o +fazer remontar ao céu natural, aos cimos puros da sentimentalidade...</p> + +<p>Achava absurdo e infame fazer a côrte à prima... Mas involuntáriamente +pensava no delicioso prazer de fazer bater aquele coração que não estava +deformado pelo espartilho, e de pôr emfim os seus lábios numa face onde não +houvesse pós de arroz... E o que o tentava sobretudo era pensar que poderia +percorrer toda a província em Portugal, sem encontrar nem aquela linha do +corpo, nem aquela virgindade tocante de alma adormecida... Era uma ocasião que +não voltava.</p> + +<p>O passeio ao moinho foi encantador. Era um recanto de natureza, digno de +Corot, sobretudo à hora do meio dia em que êles lá foram, com a frescura da +verdura, a sombra recolhida das grandes árvores, e toda a sorte de murmúrios de +água corrente, fugindo, reluzindo entre os musgos e as pedras, levando e +espalhando no ar o frio da folhagem, da relva, por onde corriam cantando. O +moinho era dum alto pitoresco, com a sua vélha edificação de pedra secular, a +sua roda enorme, quási pôdre, coberta de ervas, imóvel sôbre a gelada limpidez +da água escura. Adrião achou-o digno duma scena de romance, ou<span class="pn">{73}</span> melhor, da +morada duma fada. Maria da Piedade não dizia nada, achando extraordinária +aquela admiração pelo moinho abandonado do tio Costa. Como ela vinha um pouco +cansada, sentaram-se numa escada desconjuntada de pedra, que mergulhava na água +da reprêsa os últimos degraus: e ali ficaram um momento calados, no encanto +daquela frescura murmurosa, ouvindo as aves piarem nas ramas. Adrião via-a de +perfil, um pouco curvada, esburacando com a ponteira do guarda-sol as ervas +bravas que invadiam os degraus: era deliciosa assim, tam branca, tam loura, +duma linha tam pura sôbre o fundo azul do ar: o seu chapéu era de mau gôsto, o +seu mantelete antiquado, mas êle achava nisso mesmo uma ingenuidade picante. O +silêncio dos campos em redor isolava-os—e, insensívelmente, êle começou a +falar-lhe baixo. Era ainda a mesma compaixão pela melancolia da sua existência +naquela triste vila, pelo seu destino de enfermeira... Ela escutava-o de olhos +baixos, pasmada de se achar ali tam só com aquele homem tam robusto, toda +receosa e achando um sabor delicioso ao seu receio... Houve um momento em que +êle falou do encanto de ficar ali para sempre na vila.</p> + +<p>—Ficar aqui? Para quê?—perguntou ela sorrindo.<span class="pn">{74}</span></p> + +<p>—Para quê? para isto, para estar sempre ao pé de si...</p> + +<p>Ela cobriu-se de um rubor, o guarda-solinho escapou-lhe das mãos. Adrião +receou tê-la ofendido, e acrescentou logo rindo:</p> + +<p>—¿Pois não era delicioso?... Eu podia alugar êste moinho, fazer-me +moleiro... A prima havia de me dar a sua freguesia...</p> + +<p>Isto fê-la rir: era mais linda quando ria: tudo brilhava nela, os dentes, a +pele, a côr do cabelo. Êle continuou gracejando, com o seu plano de se fazer +moleiro, e de ir pela estrada tocando o burro, carregado de sacas de farinha. +</p> + +<p>—E eu venho ajudá-lo, primo!—disse ela, animada pelo seu próprio riso, +pela alegria daquele homem a seu lado.</p> + +<p>—Vem?—exclamou êle.—Juro-lhe que me faço moleiro! Que paraíso nós aqui +ambos no moinho, ganhando alegremente a nossa vida, ouvindo cantar êstes +melros!</p> + +<p>Ela corou outra vez do fervor da sua voz, e recuou como se êle fôsse já +arrebatá-la para o moinho. Mas Adrião agora, inflamado àquela idea, pintava-lhe +na sua palavra colorida toda uma vida romanesca, de uma felicidade idílica, +naquele esconderijo de verdura: de manhã, a pé cedo, para o trabalho; depois o +jantar na relva à beira de água; e à noite as boas palestras ali sentados, à +claridade<span class="pn">{75}</span> das estrêlas ou sob a sombra cálida dos céus negros de verão... +</p> + +<p>E de repente, sem que ela resistisse, prendeu-a nos braços, e beijou-a sôbre +os lábios, dum só beijo profundo e interminável. Ela tinha ficado contra o seu +peito, branca, como morta: e duas lágrimas corriam-lhe ao comprido da face. Era +assim tam dolorosa e fraca, que êle soltou-a; ela ergueu-se, apanhou o +guarda-solinho e ficou diante dêle, com o beicinho a tremer, murmurando:</p> + +<p>—É mal feito... é mal feito...</p> + +<p>Êle mesmo estava tam perturbado—que a deixou descer para o caminho: e daí a +um momento, seguiam ambos calados para a vila. Foi só na estalagem que êle +pensou:</p> + +<p>—Fui um tolo !</p> + +<p>Mas no fundo estava contente da sua generosidade. À noite foi a casa dela: +encontrou-a com o pequerrucho no colo, lavando-lhe em àgua de malvas as feridas +que êle tinha na perna. E então, pareceu-lhe odioso distrair aquela mulher dos +seus doentes. De resto um momento como aquele no moinho não voltaria. Seria +absurdo ficar ali, naquele canto odioso da província, desmoralizando, a frio, +uma boa mãe... A venda da fazenda estava concluída. Por isso, no dia seguinte, +apareceu de tarde, a dizer-lhe adeus: partia à noitinha na diligência: +encontrou-a na sala, à<span class="pn">{76}</span> janela costumada, com a pequenada doente aninhada +contra as suas saias... Ouviu que êle partia, sem lhe mudar a côr, sem lhe +arfar o peito. Mas Adrião achou-lhe a palma da mão tam fria como um mármore: e +quando êle saíu, Maria da Piedade ficou voltada para a janela, escondendo a +face dos pequenos, olhando abstractamente a paizagem que escurecia, com as +lágrimas, quatro a quatro, caíndo-lhe na costura...</p> + +<p>Amava-o. Desde os primeiros dias, a sua figura resoluta e forte, os seus +olhos luzidios, toda a virilidade da sua pessoa, se lhe tinham apossado da +imaginação. O que a encantava nele não era o seu talento, nem a sua celebridade +em Lisboa, nem as mulheres que o tinham amado: isso para ela aparecia-lhe vago +e pouco compreensível: o que a fascinava era aquela seriedade, aquele ar +honesto e são, aquela robustez de vida, aquela voz tam grave e tam rica: e +antevia, para alêm da sua existência ligada a um inválido, outras existências +possíveis, em que se não vê sempre diante dos olhos uma face fraca e moribunda, +em que as noites se não passam a esperar as horas dos remédios... Era como uma +rajada de ar impregnado de todas as fôrças vivas da natureza, que atravessava, +súbitamente, a sua alcôva abafada: e ela respirava-a deliciosamente... Depois, +tinha ouvido<span class="pn">{77}</span> aquelas conversas em que êle se mostrava tam bom, tam sério, +tam delicado: e à fôrça do seu corpo, que admirava, juntava-se agora um coração +terno, duma ternura varonil e forte, para a cativar... Êste amor latente +invadiu-a, apoderou-se dela uma noite que lhe apareceu esta idea, esta +visão—<em>Se êle fosse meu marido!</em> Toda ela estremeceu, apertou +desesperadamente os braços contra o peito, como confundindo-se com a sua imagem +evocada, prendendo-se a ela, refugiando-se na sua fôrça... Depois êle deu-lhe +aquele beijo no moinho.</p> + +<p>E partira!</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Então começou para Maria da Piedade uma existência de abandonada. Tudo de +repente em volta dela—a doença do marido, achaques dos filhos, tristezas do +seu dia, a sua costura—lhe pareceu lúgubre. Os seus deveres, agora que não +punha neles toda a sua alma, eram-lhe pesados como fardos injustos. A sua vida +representava-se-lhe como desgraça excepcional: não se revoltava ainda: mas +tinha dêsses abatimentos, dessas súbitas fadigas de todo o seu ser, em que caía +sôbre a cadeira, com os braços pendentes, murmurando:</p> + +<p>—¿Quando se acabará isto?<span class="pn">{78}</span></p> + +<p>Refugiava-se então naquele amor como uma compensação deliciosa. Julgando-o +todo puro, todo de alma, deixava-se penetrar dêle e da sua lenta influência. +Adrião tornara-se, na sua imaginação, como um ser de proporções +extraordinárias, tudo o que é forte, e que é belo, e que dá razão à vida. Não +quis que nada do que era dêle ou vinha dêle lhe fôsse alheio. Leu todos os seus +livros, sobretudo aquela <em>Madalena</em> que tambêm amara, e morrera dum +abandono. Estas leituras calmavam-na, davam-lhe como uma vaga satisfação ao +desejo. Chorando as dores das heroínas de romance, parecia sentir alívio às +suas.</p> + +<p>Lentamente, esta necessidade de encher a imaginação dêsses lances de amor, +de dramas infelizes, apoderou-se dela. Foi durante meses um devorar constante +de romances. Ia-se assim criando no seu espírito um mundo artificial e +idealizado. A realidade tornava-se-lhe odiosa, sobretudo sob aquele aspecto da +sua casa, onde encontrava sempre agarrado às saias um ser enfermo. Vieram as +primeiras revoltas. Tornou-se impaciente e áspera. Não suportava ser arrancada +aos episódios sentimentais do seu livro, para ir ajudar a voltar o marido e +sentir-lhe o hálito mau. Veio-lhe o nojo das garrafadas, dos emplastros, das +feridas dos pequenos a lavar. Começou a ler versos. Passava horas só, num +mutismo, à<span class="pn">{79}</span> janela, tendo sob o seu olhar de virgem loura toda a rebelião +duma apaixonada. Acreditava nos amantes que escalam os balcões, entre o canto +dos rouxinóis: e queria ser amada assim, possuída num mistério de noite +romântica...</p> + +<p>O seu amor desprendeu-se pouco a pouco da imagem de Adrião e alargou-se, +estendeu-se a um ser vago que era feito de tudo o que a encantara nos heróis de +novela; era um ente meio príncipe e meio facínora, que tinha, sobretudo, a +fôrça. Porque era isto que admirava, que queria, porque ansiava nas noites +cálidas em que não podia dormir—dois braços fortes como aço, que a apertassem +num abraço mortal, dois lábios de fogo que, num beijo, lhe chupassem a alma. +Estava uma histérica.</p> + +<p>Às vezes, ao pé do leito do marido, vendo diante de si aquele corpo de +tísico, numa imobilidade de entrevado, vinha-lhe um ódio torpe, um desejo de +lhe apressar a morte...</p> + +<p>E no meio desta excitação mórbida do temperamento irritado, eram fraquezas +súbitas, sustos de ave que pousa, um grito ao ouvir bater uma porta, uma +palidez de desmaio se havia na sala flores muito cheirosas... À noite abafava; +abria a janela; mas o cálido ar, o bafo môrno da terra aquecida do sol, +enchiam-na dum desejo intenso, duma ânsia voluptuosa, cortada de crises de +chôro...</p> + +<p>A Santa tornava-se Vénus.<span class="pn">{80}</span></p> + +<p>E o romantismo mórbido tinha penetrado tanto naquele ser, e desmoralizára-o +tam profundamente, que chegou ao momento em que bastaria que um homem lhe +tocasse, para ela lhe caír nos braços:—e foi o que sucedeu emfim, com o +primeiro que a namorou, daí a dois anos. Era o praticante da botica.</p> + +<p>Por causa dêle escandalizou toda a vila. E agora deixa a casa numa desordem, +os filhos sujos e ramelosos, em farrapos, sem comer até altas horas, o marido a +gemer abandonado na sua alcôva, toda a trapagem dos emplastros por cima das +cadeiras, tudo num desamparo torpe—para andar atrás do homem, um maganão +odioso e cebento, de cara balôfa e gordalhufa, luneta preta com grossa fita +passada atrás da orelha, e bonésinho de sêda posto à catita. Vem de noite às +entrevistas de chinelo de ourelo: cheira a suor: e pede-lhe dinheiro emprestado +para sustentar uma Joana, criatura obêsa, a quem chamam na vila a <em>bola de +unto</em>.<span class="pn">{81}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION000400">CIVILIZAÇÃO</a> </h1> + + +<h2><a name="SECTION000410">I</a> </h2> + +<p>Eu possuo preciosamente um amigo (o seu nome é Jacinto) que nasceu num +palácio, com quarenta contos de renda em pingues terras de pão, azeite e gado. +</p> + +<p>Desde o berço, onde sua mãe, senhora gorda e crédula de Trás-os-montes, +espalhava, para reter as Fadas Benéficas, funcho e âmbar, Jacinto fôra sempre +mais resistente e são que um pinheiro das dunas. Um lindo rio, murmuroso e +transparente, com um leito muito liso de areia muito branca, reflectindo apenas +pedaços lustrosos de um céu de verão ou ramagens sempre verdes e de bom aroma, +não ofereceria, àquele que o descesse numa barca cheia de almofadas e de +Champanhe gelada, mais doçura e facilidades do que a vida<span class="pn">{82}</span> oferecia ao meu +camarada Jacinto. Não teve sarampo e não teve lombrigas. Nunca padeceu, mesmo +na idade em que se lê Balzac e Musset, os tormentos da sensibilidade. Nas suas +amizades foi sempre tam feliz como o clássico Orestes. Do Amor só experimentára +o mel—êsse mel que o amor invariavelmente concede a quem o pratíca, como as +abelhas, com ligeireza e mobilidade. Ambição, sentira sómente a de compreender +bem as ideas gerais, e a «ponta do seu intelecto» (como diz o vélho cronista +medieval) não estava ainda romba nem ferrugenta... E todavia, desde os vinte e +oito anos, Jacinto já se vinha repastando de Schopenhauer, do Eclesiastes, +doutros Pessimistas menores, e três, quatro vezes por dia, bocejava, com um +bocejo cavo e lento, passando os dedos finos sôbre as faces, como se nela só +palpasse palidez e ruína. Porquê ?</p> + +<p>Era êle, de todos os homens que conheci, o mais complexamente civilizado—ou +antes aquele que se munira da mais vasta sôma de civilização material, +ornamental e intelectual. Nesse palácio (floridamente chamado o +<em>Jasmineiro</em>) que seu pai, tambêm Jacinto, construira sôbre uma honesta +casa do século XVII, assoalhada a pinho e branqueada a cal—existia, creio eu, +tudo quanto para bem do espírito ou da matéria os homens teem criado, através +da incerteza e dor, desde que abandonaram<span class="pn">{83}</span> o vale feliz de Septa-Sindu, a +Terra das Águas Fáceis, o doce país Ariano. A biblioteca, que em duas salas, +amplas e claras como praças, forrava as paredes, inteiramente, desde os tapetes +de Caranânia até ao teto de onde, alternadamente, através de cristais, o sol e +a electricidade vertiam uma luz estudiosa e calma—continha vinte e cinco mil +volumes, instalados em ébano, magnificamente revestidos de marroquim escarlate. +Só sistemas filosóficos (e com justa prudência, para poupar espaço, o +bibliotecário apenas colecionára os que irreconciliavelmente se contradizem) +havia mil oito centos e dezassete!</p> + +<p>Uma tarde que eu desejava copiar um ditame de Adam Smith, percorri, buscando +êste economista ao longo das estantes, oito metros de economia política! Assim +se achava formidavelmente abastecido o meu amigo Jacinto de todas as obras +essenciais da inteligência—e mesmo da estupidez. E o único inconveniente dêste +monumental armazêm do saber era que todo aquele que lá penetrava, +inevitavelmente lá adormecia, por causa das poltronas, que provídas de finas +pranchas móveis para sustentar o livro, o charuto, o lápis das notas, a taça de +café, ofereciam ainda uma combinação oscilante e flácida de almofadas, onde o +corpo encontrava logo, para mal do espírito, a doçura, a profundidade e a paz +estirada de um leito.<span class="pn">{84}</span></p> + +<p>Ao fundo, e como um altar-mór, era o gabinete de trabalho de Jacinto. A sua +cadeira, grave e abacial, de couro, com brazões, datava do século XIV, e em +tôrno dela pendiam numerosos tubos acústicos, que, sôbre os panejamentos de +sêda côr de musgo e côr de hera, pareciam serpentes adormecidas e suspensas num +vélho muro de quinta. Nunca recordo sem assombro a sua mesa, recoberta toda de +sagazes e subtis instrumentos para cortar papel, numerar páginas, colar +estampilhas, aguçar lápis, raspar emendas, imprimir datas, derreter lacre, +cintar documentos, carimbar contas! Uns de níquel, outros de aço, rebrilhantes +e frios, todos eram de um manejo laborioso e lento: alguns, com as molas +rígidas, as pontas vivas, trilhavam e feriam: e nas largas fôlhas de papel +Whatman em que êle escrevia, e que custavam 500 réis, eu por vezes surpreendi +gotas de sangue do meu amigo. Mas a todos êle considerava indispensáveis para +compôr as suas cartas (Jacinto não compunha obras) assim como os trinta e cinco +dicionários, e os manuais, e as enciclopédias, e os guias, e os directórios, +atulhando uma estante isolada, esguia, em forma de tôrre, que silenciosamente +girava sôbre o seu pedestal, e que eu denominára o Farol. O que, porêm, mais +completamente imprimia àquele gabinete um portentoso carácter de civilização +eram, sôbre<span class="pn">{85}</span> as suas peanhas de carvalho, os grandes aparelhos, +facilitadores do pensamento,—a máquina de escrever, os auto-copistas, o +telégrafo-Morse, o fonógrafo, o telefone, o teatrofone, outros ainda, todos com +metais luzidios, todos com longos fios. Constantemente sons curtos e secos +retiniam no ar morno daquele santuário. Tic, tic, tic! Dlin, dlin, dlin! Crac, +crac, crac! Trrre, trrre!... Era o meu amigo comunicando. Todos êsses fios +mergulhavam em fôrças universais, transmitiam fôrças universais. E elas nem +sempre, desgraçadamente, se conservavam domadas e disciplinadas! Jacinto +recolhera no fonógrafo a voz do conselheiro Pinto Pôrto, uma voz oracular e +rotunda, no momento de exclamar com respeito, com autoridade:</p> + +<p>—«<em>Maravilhosa invenção! ¿Quem não admirará os progressos dêste +século?</em>»</p> + +<p>Pois, numa doce noite de S. João, o meu supercivilizado amigo, desejando que +umas senhoras parentas de Pinto Pôrto (as amáveis Gouveias) admirassem o +fonógrafo, fez romper do bocarrão do aparelho, que parece uma trompa, a +conhecida voz rotunda e oracular.</p> + +<p>—<em>¿Quem não admirará os progressos dêste século?</em></p> + +<p>Mas, inábil ou brusco, certamente desconcertou alguma mola vital—porque de +repente o fonógrafo começa a redizer, sem descontinuação,<span class="pn">{86}</span> +interminavelmente, com uma sonoridade cada vez mais rotunda, a sentença do +conselheiro:</p> + +<p>—<em>¿Quem não admirará os progressos dêste século?</em></p> + +<p>Debalde Jacinto, pálido, com os dedos trémulos, torturava o aparelho. A +exclamação recomeçava, rolava, oracular e majestosa:</p> + +<p>—<em>¿Quem não admirará os progressos dêste século?</em></p> + +<p>Enervados, retiramos para uma sala distante, pesadamente revestida de panos +de Arraz. Em vão! A voz de Pinto Pôrto lá estava, entre os panos de Arraz, +implacável e rotunda:</p> + +<p>—<em>¿Quem não admirará os progressos dêste século?</em></p> + +<p>Furiosos, enterramos uma almofada na bôca do fonógrafo, atiramos por cima +mantas, cobertores espessos, para sufocar a voz abominável. Em vão! sob a +mordaça, sob as grossas lãs, a voz rouquejava, surda mas oracular:</p> + +<p>—<em>¿Quem não admirará os progressos dêste século?</em></p> + +<p>As amáveis Gouveias tinham abalado, apertando desesperadamente os chales +sôbre a cabeça. Mesmo à cozinha, onde nos refugiamos, a voz descia, engasgada e +gosmosa:</p> + +<p>—<em>¿Quem não admirará os progressos dêste século?</em><span class="pn">{87}</span></p> + +<p>Fugimos espavoridos para a rua.</p> + +<p>Era de madrugada. Um fresco bando de raparigas, de volta das fontes, passava +cantando com braçados de flores:</p> + + +<blockquote> + Todas as ervas são bentas <br> + Em manhã de S. João... </blockquote> + +<p>Jacinto, respirando o ar matinal, limpava as bagas lentas do suor. +Recolhemos ao <em>Jasmineiro</em>, com o sol já alto, já quente. Muito de manso +abrimos as portas, como no receio de despertar <em>alguêm</em>. Horror! Logo da +ante-câmara percebemos sons estrangulados, roufenhos: «<em>admirará...</em> +<em>progressos...</em> <em>século!...</em>» Só de tarde um electricista pôde +emmudecer aquele fonógrafo horrendo.</p> + +<p>Bem mais aprazível (para mim) do que esse gabinete temerosamente atulhado de +civilização—era a sala de jantar, pelo seu arranjo compreensível, fácil e +íntimo. À mesa só cabiam seis amigos que Jacinto escolhia com critério na +literatura, na arte e na metafísica, e que, entre as tapeçarias de Arraz, +representando colinas, pomares e portos da Ática cheias de classicismo e de +luz, renovavam ali repetidamente banquetes que, pela sua intelectualidade, +lembravam os de Platão. Cada garfada se cruzava com um pensamento ou com +palavras<span class="pn">{88}</span> dextramente arranjadas em forma de pensamento.</p> + +<p>E a cada talher correspondiam seis garfos, todos de feitios dissemelhantes e +astuciosos:—um para as ostras, outro para o peixe, outro para as carnes, outro +para os legumes, outro para a fruta, outro para o queijo. Os copos, pela +diversidade dos contornos e das côres, faziam, sôbre a toalha mais reluzente +que esmalte, como ramalhetes silvestres espalhados por cima de neve. Mas +Jacinto e os seus filósofos, lembrando o que o experiente Salomão ensina sôbre +as ruínas e amarguras do vinho, bebiam apenas em três gotas de água uma gota de +Bordeus (Chateaubriand, 1860). Assim o recomendam—Hesíodo no seu +<em>Nereu</em>, e Diocles nas suas <em>Abelhas</em>. E de águas havia sempre no +<em>Jasmineiro</em> um luxo redundante—águas geladas, águas carbonatadas, +águas esterilizadas, águas gasosas, águas de sais, águas minerais, outras +ainda, em garrafas sérias, com tratados terapêuticos impressos no rótulo... O +cozinheiro, mestre Sardão, era daqueles que Anaxágoras equiparava aos +Retóricos, aos oradores, a todos os que sabem a arte divina de «temperar e +servir a Idea»: e em Sybaris, cidade do Viver Excelente, os magistrados teriam +votado a mestre Sardão, pelas festas de Juno Lacina, a coroa de fôlhas de ouro +e a túnica Milésia que se devia aos bemfeitores cívicos.<span class="pn">{89}</span> A sua sopa de +alcachofra e ovas de carpa; os seus filetes de veado macerados em vélho Madeira +com <em>purée</em> de nozes; as suas amoras geladas em éter, outros acepipes +ainda, numerosos e profundos (e os únicos que tolerava o meu Jacinto) eram +obras de um artista, superior pela abundância das ideas novas—e juntavam +sempre a raridade do sabor à magnificência da forma. Tal prato dêsse mestre +imcomparável, parecia, pela ornamentação, pela graça florida dos lavores, pelo +arranjo dos coloridos frescos e cantantes, uma joia esmaltada do cinzel de +Cellini ou Meurice. Quantas tardes eu desejei fotografar aquelas composições de +excelente fantasia, antes que o trinchante as retalhasse! E esta superfinidade +do comer condizia deliciosamente com a do servir. Por sôbre um tapete, mais +fôfo e mole que o musgo da floresta da Brocelândia, deslizavam, como sombras +fardadas de branco, cinco criados e um pagem preto, à maneira vistosa do +século XVIII. As travessas (de prata) subiam da cozinha e da copa por dous +ascensores, um para as iguarias quentes, forrado de tubos onde a água fervia; +outro, mais lento, para as iguarias frias, forrado de zinco, amónia e sal, e +ambos escondidos por flores tam densas e viçosas que era como se até a sopa +saísse fumegando dos românticos jardins de Armida. E muito bem me lembro de um +domingo de maio em que, jantando<span class="pn">{90}</span> com Jacinto um bispo, o erudito bispo de +Chorazin, o peixe emperrou no meio do ascensor, sendo necessário que acudissem, +para o extrair, pedreiros com alavancas.</p> + + +<h2><a name="SECTION000420">II</a> </h2> + +<p>Nas tardes em que havia «banquete de Platão» (que assim denominávamos essas +festas de trutas e ideas gerais), eu, vizinho e íntimo, aparecia ao declinar do +sol, e subia familiarmente aos quartos do nosso Jacinto—onde o encontrava +sempre incerto entre as suas casacas, porque as usava alternadamente de sêda, +de pano, de flanelas Jaegher, e de <em>foulard</em> das Índias. O quarto +respirava o frescor e aroma do jardim por duas vastas janelas, providas +magnificamente (alêm das cortinas de sêda mole Luís XV) de uma vidraça exterior +de cristal inteiro, duma vidraça interior de cristais miudos, dum tôldo rolando +na cimalha, dum estore de sedinha frouxa, de gases que franziam e se enrolavam +como nuvens, e duma gelosia móvel de gradaria mourisca. Todos êstes resguardos +(sábia invenção de Holland & C.ª, de Londres) serviam a guardar a luz e o +ar—segundo os avisos de termómetros, barómetros e higrómetros, montados em +ébano, e a que um<span class="pn">{91}</span> meteorologista (Cunha Guedes) vinha, todas as semanas, +verificar a precisão.</p> + +<p>Entre estas duas varandas rebrilhava a mesa de <em>toilette</em>, uma mesa +enorme de vidro, toda de vidro, para a tornar impenetrável aos micróbios, e +coberta de todos êsses utensílios de asseio e alinho que o homem do século XIX +necessita numa capital, para não desfear o conjunto suntuário da civilização. +Quando o nosso Jacinto, arrastando as suas engenhosas chinelas de pelica e +sêda, se acercava desta ara—eu, bem aconchegado num divã, abria com indolência +uma Revista, ordináriamente a <em>Revista Electro-Pática</em>, ou a das +<em>Indagações Psíquicas</em>. E Jacinto começava... Cada um dêsses utensílios +de aço, de marfim, de prata, impunham ao meu amigo, pela influência +omnipoderosa que as cousas exercem sôbre o dono (<em>sunt tyranniæ rerum</em>) +o dever de o utilizar com aptidão e deferência. E assim as operações do +alindamento de Jacinto apresentavam a prolixidade, reverente e insuprimível, +dos ritos dum sacrifício.</p> + +<p>Começava pelo cabelo... Com uma escôva chata, redonda e dura, acamava o +cabelo, corredio e louro, no alto, aos lados da risca; com uma escôva estreita +e recurva, à maneira do alfange dum persa, ondeava o cabelo sôbre a orelha; com +uma escôva côncava, em forma de telha, empastava o cabelo, por trás, sôbre +a<span class="pn">{92}</span> nuca... Respirava e sorria. Depois, com uma escôva de longas cerdas, +fixava o bigode; com uma escôva leve e flácida acurvava as sobrancelhas; com +uma escôva feita de penugem regularizava as pestanas. E dêste modo Jacinto +ficava diante do espelho, passando pêlos sôbre o seu pêlo, durante catorze +minutos.</p> + +<p>Penteado e cansado, ia purificar as mãos. Dois criados, ao fundo, manobravam +com perícia e vigor os aparelhos do lavatório—que era apenas um resumo dos +maquinismos monumentais da sala de banho. Ali, sôbre o mármore verde e róseo do +lavatório, havia apenas duas duches (quente e fria) para a cabeça; quatro +jactos, graduados desde <em>zero até cem graus</em>; o vaporizador de perfumes; +a fonte de água esterilizada (para os dentes); o repuxo para a barba; e ainda +torneiras que rebrilhavam e botões de ébano que, de leve roçados, desencadeavam +o marulho e o estridor de torrentes nos Alpes... Nunca eu, para molhar os +dedos, me cheguei àquele lavatório sem terror—escarmentado da tarde amarga de +janeiro em que bruscamente, dessoldada a torneira, o jacto de água a <em>cem +graus</em> rebentou, silvando e fumegando, furioso, devastador... Fugimos +todos, espavoridos. Um clamor atroou o <em>Jasmineiro</em>. O vélho Grilo, +escudeiro que fôra do Jacinto pai, ficou coberto de empôlas na face, nas mãos +fieis.<span class="pn">{93}</span></p> + +<p>Quando Jacinto acabava de se enxugar laboriosamente a toalhas de felpo, de +linho, de corda entrançada (para restabelecer a circulação), de sêda frouxa +(para lustrar a pele) bocejava, com um bocejo cavo e lento.</p> + +<p>E era êste bocejo, perpétuo e vago, que nos inquietava a nós, seus amigos e +filósofos. ¿Que faltava a êste homem excelente? Êle tinha a sua inabalável +saúde de pinheiro bravo, crescido nas dunas; uma luz da inteligência, própria a +tudo alumiar, firme e clara sem tremor ou morrão; quarenta magníficos contos de +renda; todas as simpatias duma cidade chasqueadora e scéptica; uma vida varrida +de sombras, mais liberta e lisa do que um céu de verão... E todavia bocejava +constantemente, palpava na face, com os dedos finos, a palidez e as rugas. Aos +trinta anos Jacinto corcovava, como sob um fardo injusto! E pela morosidade +desconsolada de toda a sua acção parecia ligado, desde os dedos até à vontade, +pelas malhas apertadas duma rêde que se não via e que o travava. Era doloroso +testemunhar o fastio com que êle, para apontar um enderêço, tomava o seu lápis +pneumático, a sua pena eléctrica—ou, para avisar o cocheiro, apanhava o tubo +telefónico!... Neste mover lento do braço magro, nos vincos que lhe +arrepanhavam o nariz, mesmo nos seus silêncios, longos e derreados, se sentia o +brado constante<span class="pn">{94}</span> que lhe ia na alma;—<em>Que massada! Que massada!</em> +Claramente a vida era para Jacinto um cansaço—ou por laboriosa e difícil, ou +por desinteressante e ôca... Por isso o meu pobre amigo procurava +constantemente juntar à sua vida novos interêsses, novas facilidades. Dois +inventores, homens de muito zêlo e pesquiza estavam encarregados, um em +Inglaterra, outro na América, de lhe noticiar e de lhe fornecer todas as +invenções, as mais miudas, que concorressem a aperfeiçoar a confortabilidade do +<em>Jasmineiro</em>. De resto, êle proprio se correspondia com Edison. E, pelo +lado do pensamento, Jacinto não cessava tambêm de buscar interêsses e emoções +que o reconciliassem com a vida—penetrando à cata dessas emoções e dêsses +interêsses pelas veredas mais desviadas do saber, a ponto de devorar, desde +janeiro a março, setenta e sete volumes sôbre a <em>evolução das ideas morais +entre as raças negróides</em>. Ah! nunca homem dêste século batalhou mais +esforçadamente contra a <em>séca de viver</em>! Debalde! Mesmo de explorações +tam cativantes como essa, através da moral dos negróides, Jacinto regressava +mais murcho, com bocejos mais cavos!</p> + +<p>E era então que êle se refugiava intensamente na leitura de Schopenhauer e +do <em>Eclesiastes</em>. Porque? Sem dúvida porque ambos êsses pessimistas o +confirmavam nas conclusões<span class="pn">{95}</span> que êle tirava de uma experiência paciente e +rigorosa: «que tudo é vaidade ou dor, que quanto mais se sabe, mais se péna, e +que ter sido rei de Jerusalêm e obtido os gózos todos na vida só leva a maior +amargura...» ¿Mas porque rolara assim a tam escura desilusão—o saùdável, rico, +sereno e intelectual Jacinto? O vélho escudeiro Grilo pretendia que «S. Ex.ª +sofria de fartura!»</p> + + +<h2><a name="SECTION000430">III</a> </h2> + +<p>Ora justamente depois dêsse inverno, em que êle se embrenhara na moral dos +negróides e instalara a luz eléctrica entre os arvoredos do jardim, sucedeu que +Jacinto teve a necessidade moral iniludível de partir para o Norte, para o seu +vélho solar de Torges. Jacinto não conhecia Torges, e foi com desusado tédio +que êle se preparou, durante sete semanas, para essa jornada agreste. A quinta +fica nas serras—e a rude casa solarenga, onde ainda resta uma tôrre do século +XV, estava ocupada, havia trinta anos, pelos caseiros, boa gente de trabalho, +que comia o seu caldo entre a fumaraça da lareira, e estendia o trigo a secar +nas salas senhoriais.<span class="pn">{96}</span></p> + +<p>Jacinto, logo nos começos de março, escrevera cuidadosamente ao seu +procurador Sousa, que habitava a aldeia de Torges, ordenando-lhe que compuzesse +os telhados, caiasse os muros, envidraçasse as janelas. Depois mandou expedir, +por combóios rápidos, em caixotes que transpunham a custo os portões do +<em>Jasmineiro</em>, todos os confortos necessários a duas semanas de +montanha—camas de penas, poltronas, divãs, lâmpadas de Carcel, banheiras de +níquel, tubos acústicos para chamar os escudeiros, tapetes persas para amaciar +os soalhos. Um dos cocheiros partiu com um copé, uma vitória, um breque, mulas +e guizos.</p> + +<p>Depois foi o cozinheiro, com a bateria, a garrafeira, a geleira, bocais de +trufas, caixas profundas de águas mineráis. Desde o amanhecer, nos pátios +largos do palacete, se pregava, se martelava, como na construção de uma cidade. +E as bagagens, desfilando, lembravam uma página de Heródoto ao narrar a invasão +persa. Jacinto emmagrecera com os cuidados daquele Êxodo. Por fim, largamos +numa manhã de junho, com o Grilo, e trinta e sete malas.</p> + +<p>Eu acompanhava Jacinto, no meu caminho para Guiães, onde vive minha tia, a +uma légua farta de Torges: e íamos num vagom reservado, entre vastas almofadas, +com perdizes e Champanhe num cêsto. A meio da jornada<span class="pn">{97}</span> devíamos mudar de +combóio—nessa estação, que tem um nome sonoro em <em>ola</em> e um tam suave e +cândido jardim de roseiras brancas. Era domingo de imensa poeira e sol—e +encontrámos aí, enchendo a plata-forma estreita, todo um povaréu festivo que +vinha da romaria de S. Gregório da Serra.</p> + +<p>Para aquele trasbôrdo, em tarde de arraial, o horário só nos concedia três +minutos avaros. O outro combóio já esperava, rente aos alpendres, impaciente e +silvando. Uma sineta badalava com furor. E, sem mesmo atender às lindas môças +que ali saracoteavam, aos bandos, afogueadas, de lenços flamejantes, o seio +farto coberto de ouro, e a imagem do santo espetada no chapéu—corremos, +empurrámos, furámos, saltámos para o outro vagom, já reservado, marcado por um +cartão com as iniciais de Jacinto. Imediatamente o trem rolou. Pensei então no +nosso Grilo, nas trinta e sete malas! E debruçado da portinhola avistei ainda +junto ao cunhal da estação, sob os eucaliptos, um monte de bagagens, e homens +de boné agaloado que, diante delas, bracejavam com desespêro.</p> + +<p>Murmurei, recaindo nas almofadas:</p> + +<p>—Que serviço!</p> + +<p>Jacinto, ao canto, sem descerrar os olhos, suspirou:</p> + +<p>—Que massada!<span class="pn">{98}</span></p> + +<p>Toda uma hora deslizamos lentamente entre trigais e vinhedo; e ainda o sol +batia nas vidraças, quente e poeirento, quando chegamos à estação de Gondim, +onde o procurador de Jacinto, o excelente Sousa, nos devia esperar com cavalos +para treparmos a serra até ao solar de Torges. Por trás do jardim da estação, +todo florido tambêm de rosas e margaridas, Jacinto reconheceu logo as suas +carruagens ainda empacotadas em lona.</p> + +<p>Mas quando nos apeamos no pequeno cais branco e fresco—só houve em tôrno de +nós solidão e silêncio. Nem procurador, nem cavalos! O chefe da estação, a quem +eu perguntara com ansiedade «se não aparecera ali o snr. Sousa, se não conhecia +o snr. Sousa», tirou afavelmente o seu boné de galão. Era um moço gordo e +redondo, com côres de maçã camoesa, que trazia sob o braço um volume de versos. +«Conhecia perfeitamente o snr. Sousa! Três semanas antes jogara êle a manilha +com o snr. Sousa! Nessa tarde porêm, infelizmente, não avistara o snr. Sousa!» +O comboio desaparecera por detrás das fragas altas que ali pendem sôbre o rio. +Um carregador enrolava o cigarro, assobiando. Rente da grade do jardim, uma +vélha, toda de negro, dormitava agachada no chão, diante duma cêsta de ovos. ¿E +o nosso Grilo, e as nossas bagagens?... O chefe encolheu risonhamente os ombros +nédios.<span class="pn">{99}</span> Todos os nossos bens tinham encalhado, de-certo, naquela estação +de roseiras brancas que tem um nome sonoro em <em>ola</em>. E nós ali +estávamos, perdidos na serra agreste, sem procurador, sem cavalos, sem Grilo, +sem malas.</p> + +<p>¿Para que esfiar miudamente o lance lamentável? Ao pé da estação, numa +quebrada da serra, havia um casal foreiro à quinta, onde alcançamos, para nos +levarem e nos guiarem a Torges, uma égua lazarenta, um jumento branco, um rapaz +e um podengo. E aí começamos a trepar, enfastiadamente, êsses caminhos +agrestes—os mesmos, de-certo, por onde vinham e iam, de monte a rio, os +Jacintos do século XV. Mas, passada uma trémula ponte de pau que galga um +ribeiro todo quebrado por fragas (e onde abunda a truta adorável) os nossos +males esqueceram, ante a inesperada, incomparável beleza daquela terra bemdita. +O divino artista que está nos céus compuzera, certamente, êsse monte numa das +suas manhãs de mais solene e bucólica inspiração.</p> + +<p>A grandeza era tanta como a graça... Dizer os vales fôfos de verdura, os +bosques quási sacros, os pomares cheirosos e em flor, a frescura das águas +cantantes, as ermidinhas branqueando nos altos, as rochas musgosas, o ar de uma +doçura de paraíso, toda a majestade e toda a lindeza—não é para mim, homem de +pequena arte. Nem creio mesmo que fôsse para<span class="pn">{100}</span> mestre Horácio. ¿Quem pode +dizer a beleza das cousas, tam simples e inexprímivel? Jacinto adiante, na égua +tarda, murmurava:</p> + +<p>—Ah! que beleza!</p> + +<p>Eu atrás, no burro, com as pernas bambas, murmurava:</p> + +<p>—Ah! que beleza!</p> + +<p>Os espertos regatos riam, saltando de rocha em rocha. Finos ramos de +arbustos floridos roçavam as nossas faces, com familiaridade e carinho. Muito +tempo um melro nos seguiu, de choupo para castanheiro, assobiando os nossos +louvores. Serra bem acolhedora e amável... Ah! que beleza!</p> + +<p>Por entre <em>ahs</em> maravilhados chegamos a uma avenida de faias, que nos +pareceu clássica e nobre. Atirando uma nova vergastada ao burro e à égua, o +nosso rapaz, com o seu podengo ao lado, gritava:</p> + +<p>—Aqui é que estêmos!</p> + +<p>E ao fundo das faias havia, com efeito, um portão de quinta, que um escudo +de armas de vélha pedra, roída de musgo, grandemente afidalgava. Dentro já os +cães ladravam com furor. E mal Jacinto, e eu atrás dêle no burro de Sancho, +transpuzemos o limiar solarengo, correu para nós, do alto da escadaria, um +homem branco, rapado como um clérigo, sem colete, sem jaleca, que erguia para o +ar, num assombro, os braços desolados. Era o caseiro,<span class="pn">{101}</span> o Zé Brás. E logo +ali, nas pedras do pátio, entre o latir dos cães, surdiu uma tumultuosa +história, que o pobre Brás balbuciava, aturdido, e que enchia a face de Jacinto +de lividez e de cólera. O caseiro não esperava S. Ex.ª Ninguêm esperava S. Ex.ª +(Êle dizia <em>sua inselência</em>).</p> + +<p>O procurador, o snr. Sousa, estava para a raia desde maio, a tratar a mãe +que levára um couce de mula. E de-certo houvera engano, cartas perdidas... +Porque o snr. Sousa só contava com S. Ex.ª... em setembro, para a vindima. Na +casa nenhuma obra começára. E, infelizmente para S. Ex.ª, os telhados ainda +estavam sem telhas, e as janelas sem vidraças...</p> + +<p>Cruzei os braços, num justo espanto. ¿Mas os caixotes—êsses caixotes +remetidos para Torges, com tanta prudência, em abril, repletos de colchões, de +regalos, de civilização?... O caseiro, vago, sem compreender, arregalava os +olhos miudos onde já bailavam lágrimas. Os caixotes?! Nada chegára, nada +aparecera. E na sua perturbação o Zé Brás procurava entre as arcadas do pátio, +nas algibeiras das pantalonas... Os caixotes? Não, não tinha os caixotes!</p> + +<p>Foi então que o cocheiro de Jacinto (que trouxera os cavalos e as +carruagens) se acercou, gravemente. Êsse era um civilizado—e<span class="pn">{102}</span> acusou +logo o govêrno. Já quando êle servia o snr. visconde de S. Francisco se tinham +assim perdido, por desleixo do govêrno, da cidade para a serra, dous caixotes +com vinho vélho da Madeira, e roupa branca de senhora. Por isso êle, +escarmentado, sem confiança na nação, não largára as carruagens—e era tudo o +que restava a S. Ex.ª: o breque, a vitória, o copé e os guizos. Sómente, +naquela rude montanha, não havia estradas onde elas rolassem. E como só podiam +subir para a quinta em grandes carros de bois—êle lá as deixára em baixo, na +estação, quietas, empacotadas na lona...</p> + +<p>Jacinto ficára plantado diante de mim, com as mãos nos bolsos:</p> + +<p>—E agora?</p> + +<p>Nada restava senão recolher, cear o caldo do tio Zé Brás, e dormir nas +palhas que os fados nos concedessem. Subimos. A escadaria nobre conduzia a uma +varanda, toda coberta, em alpendre, acompanhando a fachada do casarão e ornada, +entre os seus grossos pilares de granito, por caixotes cheios de terra, em que +floriam cravos. Colhi um cravo. Entramos. E o meu pobre Jacinto contemplou, +emfim, as salas do seu solar! Eram enormes, com as altas paredes rebocadas a +cal que o tempo e o abandôno tinham ennegrecido, e vazias, desoladamente nuas, +oferecendo apenas como vestígio<span class="pn">{103}</span> de habitação e de vida, pelos cantos +algum monte de cestos ou algum mólho de enxadas. Nos tetos remotos de carvalho +negro alvejavam manchas—que era o céu já pálido do fim da tarde, surpreendido +através dos buracos do telhado. Não restava uma vidraça. Por vezes, sob os +nossos passos, uma tábua pôdre rangia e cedia.</p> + +<p>Paramos, emfim, na última, a mais vasta, onde havia duas arcas tulheiras +para guardar o grão; e aí depuzemos, melancólicamente, o que nos ficára de +trinta e sete malas—os paletós alvadios, uma bengala e um <em>Jornal da +Tarde</em>. Através das janelas desvidraçadas, por onde se avistavam copas de +arvoredos e as serras azuis de alêm-rio, o ar entrava, montesino e largo, +circulando plenamente como em um eirado, com aromas de pinheiro bravo. E, lá +debaixo, dos vales, subia, desgarrada e triste, uma voz de pegureira cantando. +Jacinto balbuciou:</p> + +<p>—É horroroso!</p> + +<p>Eu murmurei:</p> + +<p>—É campestre!<span class="pn">{104}</span></p> + + +<h2><a name="SECTION000440">IV</a> </h2> + +<p>O Zé Brás, no entanto, com as mãos na cabeça, desaparecera a ordenar a ceia +para <em>suas inselências</em>. O pobre Jacinto, esbarrondado pelo desastre, +sem resistência contra aquele brusco desaparecimento de toda a civilização, +caíra pesadamente sôbre o poial duma janela, e daí olhava os montes. E eu, a +quem aqueles ares serranos e o cantar do pegureiro sabiam bem, terminei por +descer à cozinha, conduzido pelo cocheiro, através de escadas e becos onde a +escuridão vinha menos do crepúsculo do que de densas teias de aranha.</p> + +<p>A cozinha era uma espessa massa de tons e formas negras, côr de fuligem, +onde refulgia ao fundo, sôbre o chão de terra, uma fogueira vermelha que lambia +grossas panelas de ferro, e se perdia em fumarada pela grade escassa que no +alto coava a luz. Aí um bando alvoroçado e palreiro de mulheres depenava +frangos, batia ovos, escarolava arroz, com santo fervor... Do meio delas o bom +caseiro, estonteado, investiu para mim jurando que «a ceia de <em>suas +inselências</em> não demorava um credo». E como eu o interrogava a respeito +de<span class="pn">{105}</span> camas, o digno Brás teve um murmúrio vago e tímido sobre +«enxergasinhas no chão».</p> + +<p>—É o que basta, snr. Zé Brás—acudi eu para o consolar.</p> + +<p>—Pois assim Deus seja servido!—suspirou o homem excelente, que +atravessava, nessa hora, o transe mais amargo da sua vida serrana.</p> + +<p>Voltando a cima, com estas consolantes novas de ceia e cama, encontrei ainda +o meu Jacinto no poial da janela, embebendo-se todo da doce paz crepuscular, +que lenta e caladamente se estabelecia sôbre vale e monte. No alto já +tremeluzia uma estrêla, a Vesper diamantina, que é tudo o que neste céu cristão +resta do esplendor corporal de Vénus! Jacinto nunca considerára bem aquela +estrêla—nem assistira a êste majestoso e doce adormecer das cousas. Êsse +ennegrecimento de montes e arvoredos, casais claros fundindo-se na sombra, um +toque dormente de sino que vinha pelas quebradas, o cochichar das águas entre +relvas baixas—eram para êle como iniciações. Eu estava defronte, no outro +poial. E senti-o suspirar como um homem que emfim descansa.</p> + +<p>Assim nos encontrou nesta contemplação o Zé Brás, com o doce aviso de que +estava na mesa a <em>ceiasinha</em>. Era adiante, noutra sala mais nua, mais +negra. E aí, o meu supercivilizado<span class="pn">{106}</span> Jacinto recuou com um pavor genuíno. +Na mesa de pinho, recoberta com uma toalha de mãos, encostada à parede sórdida, +uma vela de cebo meio derretida num castiçal de latão, alumiava dous pratos de +louça amarela, ladeados por colheres de pau e por garfos de ferro. Os copos, de +vidro, grosso e baço, conservavam o tom rôxo do vinho que neles passára em +fartos anos de fartas vindimas. O covilhete de barro com as azeitonas +deleitaria, pela sua singeleza ática, o coração de Diógenes. Na larga brôa +estava cravado um facalhão... Pobre Jacinto!</p> + +<p>Mas lá abancou resignado, e muito tempo, pensativamente, esfregou com o seu +lenço o garfo negro e a colher de pau. Depois, mudo, desconfiado, provou um +gole curto do caldo, que era de galinha e rescendia. Provou, e levantou para +mim, seu companheiro e amigo, uns olhos largos que luziam, surpreendidos. +Tornou a sorver uma colherada de caldo, mais cheia, mais lenta... E sorriu, +murmurando com espanto:</p> + +<p>—Está bom!</p> + +<p>Estava realmente bom: tinha figado e tinha moela: o seu perfume enternecia. +Eu, três vezes, com energia, ataquei aquele caldo: foi Jacinto que rapou a +sopeira. Mas já, arredando a brôa, arredando a vela, o bom Zé Brás pousára na +mesa uma travessa vidrada,<span class="pn">{107}</span> que transbordava de arroz com favas. Ora, +a-pesar da fava (que os gregos chamaram <em>cibória</em>) pertencer às épocas +superiores da civilização, e promover tanto a sapiência que havia em Sycio, na +Galácia, um templo dedicado a Minerva Ciboriana—Jacinto sempre detestára +favas. Tentou todavia uma garfada tímida. De novo os seus olhos, alargados pelo +assombro, procuravam os meus. Outra garfada, outra concentração... E eis que o +meu dificíllimo amigo exclama:</p> + +<p>—Está ótimo!</p> + +<p>¿Eram os picantes ares da serra? ¿Era a arte deliciosa daquelas mulheres que +em baixo remexiam as panelas, cantando o <em>Vira</em>, <em>meu bem</em>? Não +sei:—mas os louvores de Jacinto a cada travessa foram ganhando em amplidão e +firmeza. E diante do frango louro, assado no espêto de pau, terminou por +bradar:</p> + +<p>—Está divino!</p> + +<p>Nada porêm o entusiasmou como o vinho, o vinho caíndo de alto, da grossa +caneca verde, um vinho gostoso, penetrante, vivo, quente, que tinha em si mais +alma que muito poema ou livro santo! Mirando à luz de cebo o copo rude que êle +orlava de espuma, eu recordava o dia geórgico em que Virgílio, em casa de +Horácio, sob a ramada, cantava o fresco palhete da Rética. E Jacinto, com uma +côr<span class="pn">{108}</span> que eu nunca vira na sua palidez schopenháurica, sussurrou logo o +doce verso:</p> + + +<blockquote> + <em>Rethica quò te carmina dicat.</em> </blockquote> + +<p>¿Quem dignamente te cantará, vinho daquelas serras?!</p> + +<p>Assim jantamos deliciosamente, sob os auspícios do Zé Brás. E depois +voltamos para as alegrias únicas da casa, para as janelas desvidraçadas, a +contemplar silenciosamente um suntuoso céu de verão, tam cheio de estrêlas que +todo êle parecia uma densa poeirada de oiro vivo, suspensa, imóvel, por cima +dos montes negros. Como eu observei ao meu Jacinto, na cidade nunca se olham os +astros por causa dos candieiros—que os ofuscam: e nunca se entra por isso numa +completa comunhão com o universo. O homem nas capitais pertence à sua casa, ou +se o impelem fortes tendências de sociabilidade, ao seu bairro. Tudo o isola e +o separa da restante natureza—os prédios obstrutores de seis andares, a fumaça +das chaminés, o rolar moroso e grosso dos ónibus, a trama encarceradora da vida +urbana... Mas que diferença, num cimo de monte, como Torges! Aí todas essas +belas estrelas olham para nós de pérto, rebrilhando, à maneira de olhos +conscientes, umas fixamente, com sublime indiferença,<span class="pn">{109}</span> outras +ansiosamente, com uma luz que palpita, uma luz que chama, como se tentassem +revelar os seus segredos ou compreender os nossos... E é impossível não sentir +uma solidariedade perfeita entre êsses imensos mundos e os nossos pobres +corpos. Todos somos obra da mesma vontade. Todos vivemos da acção dessa vontade +imanente. Todos, portanto, desde os Uranos até aos Jacintos, constituimos modos +diversos de um ser único, e através das suas transformações somamos na mesma +unidade. Não há idea mais consoladora do que esta—que eu, e tu, e aquele +monte, e o sol que agora se esconde, somos moléculas do mesmo Todo, governadas +pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim. Desde logo se sómem as +responsabilidades torturantes do individualismo. ¿Que somos nós? Formas sem +fôrça, que uma Fôrça impele. E há um descanso delicioso nesta certeza, mesmo +fugitiva, de que se é o grão de pó irresponsável e passivo que vai levado no +grande vento, ou a gota perdida na torrente! Jacinto concordava, sumido na +sombra. Nem êle nem eu sabíamos os nomes dêsses astros admiráveis. Eu, por +causa da maciça e indesbastável ignorância de bacharel, com que saí do ventre +de Coímbra, minha mãe espiritual. Jacinto, porque na sua ponderosa biblioteca +tinha <em>trezentos e dezoito</em> tratados sôbre astronomia! ¿Mas<span class="pn">{110}</span> que +nos importava, de resto, que aquele astro alêm se chamasse Sírius e aquele +outro Aldebaran? ¿Que lhes importava a êles que um de nós fôsse José e o outro +Jacinto? Éramos formas transitórias do mesmo ser eterno—e em nós havia o mesmo +Deus. E se êles tambêm assim o compreendiam, estávamos ali, nós à janela num +casarão serrano, êles no seu maravilhoso infinito, perfazendo um acto +sacrossanto, um perfeito acto de Graça—que era sentir conscientemente a nossa +unidade, e realizar, durante um instante, na consciência, a nossa divinização. +</p> + +<p>Assim ennevoadamente filosofávamos—quando Zé Brás, com uma candeia na mão, +veio avisar que «estavam preparadas as camas de <em>suas inselências...</em>» +Da idealidade descemos gostosamente à realidade, ¿e que vimos então nós, os +irmãos dos astros? Em duas salas tenebrosas e côncavas, duas enxergas, postas +no chão, a um canto, com duas cobertas de chita; à cabeceira um castiçal de +latão, pousado sôbre um alqueire: e aos pés, como lavatório, um alguidar +vidrado em cima de uma cadeira de pau!</p> + +<p>Em silêncio, o meu super-civilizado amigo palpou a sua enxerga e sentiu nela +a rigidez dum granito. Depois, correndo pela face descaída os dedos murchos, +considerou que, perdidas as suas malas, não tinha nem chinelas<span class="pn">{111}</span> nem +roupão! E foi ainda o Zé Brás que providenciou, trazendo ao pobre Jacinto, para +êle desafogar os pés, uns tremendos tamancos de pau, e para êle embrulhar o +corpo, docemente educado em Sybaris, uma camisa da caseira, enorme, de estopa +mais aspera que estamenha de penitente, e com folhos crespos e duros como +lavores em madeira... Para o consolar, lembrei que Platão, quando compunha o +<em>Banquete</em>, Xenofonte, quando comandava os Dez Mil, dormiam em piores +catres. As enxergas austeras fazem as fortes almas—e é só vestido de estamenha +que se penetra no Paraíso.</p> + +<p>—¿Tem você—murmurou o meu amigo, desatento e sêco—alguma cousa que eu +leia?.... Eu não posso adormecer sem ler!</p> + +<p>Eu possuia apenas o número do <em>Jornal da Tarde</em>, que rasguei pelo +meio, e partilhei com êle fraternalmente. E quem não viu então Jacinto, senhor +de Torges, acaçapado à borda da enxerga, junto da vela que pingava sôbre o +alqueire, com os pés nus encafuados nos grossos sócos, perdido dentro da camisa +da patrôa, toda em folhos, percorrendo na metade do <em>Jornal da Tarde</em>, +com os olhos turvos, os anúncios dos paquetes—não pode saber o que é uma +vigorosa e real imagem do desalento!</p> + +<p>Assim o deixei—e daí a pouco, estendido<span class="pn">{112}</span> na minha enxerga tambêm +espartana, subia, através dum sonho jovial e erudito, ao planeta Vénus, onde +encontrava, entre os olmos e os ciprestes, num vergel, Platão e Zé Brás, em +alta camaradagem intelectual, bebendo o vinho da Rética pelos copos de Torges! +Travámos todos três bruscamente uma controvérsia sôbre o século XIX. Ao longe, +por entre uma floresta de roseiras mais altas que carvalhos, alvejavam os +mármores duma cidade e ressoavam cantos sacros. Não recordo o que Xenofonte +sustentou àcêrca da civilização e do fonógrafo. De repente tudo foi turbado por +fuscas nuvens, através das quais eu distinguia Jacinto, fugindo num burro que +êle impelia furiosamente com os calcanhares, com uma vergasta, com berros, para +os lados do <em>Jasmineiro</em>!</p> + + +<h2><a name="SECTION000450">V</a> </h2> + +<p>Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar Jacinto, que, com as mãos +sôbre o peito, dormia plácidamente no seu leito de granito—parti para Guiães. +E durante três quietas semanas, naquela vila onde se conservam os hábitos e as +ideas do tempo de El-Rei<span class="pn">{113}</span> D. Dinís, não soube do meu desconsolado amigo, +que de-certo fugira dos seus tetos esburacados e remergulhára na civilização. +Depois, por uma abrasada manhã de agosto, descendo de Guiães, de novo trilhei a +avenida de faias, e entrei o portão solarengo de Torges, entre o furioso latir +dos rafeiros. A mulher do Zé Brás apareceu alvoroçada à porta da tulha. E a sua +nova foi logo que o snr. D. Jacinto (em Torges, o meu amigo tinha dom) andava +lá em baixo com o Sousa nos campos de Freixomil.</p> + +<p>—¿Então, ainda cá está o snr. D. Jacinto?!</p> + +<p><em>Sua inselência</em> ainda estava em Torges—e <em>sua inselência</em> +ficava para a vindima!... Justamente eu reparava que as janelas do solar tinham +vidraças novas; e a um canto do pátio pousavam baldes de cal; uma escada de +pedreiro ficára arrimada contra a varanda; e num caixote aberto, ainda cheio de +palha de empacotar, dormiam dois gatos.</p> + +<p>—E o Grilo apareceu?</p> + +<p>—O snr. Grilo está no pomar, à sombra.</p> + +<p>—Bem! e as malas?</p> + +<p>—O snr. D. Jacinto já tem o seu saquinho de couro...</p> + +<p>Louvado Deus! O meu Jacinto estava, emfim, provido de civilização! Subi +contente. Na sala nobre, onde o soalho fôra composto e esfregado, encontrei uma +mesa recoberta de<span class="pn">{114}</span> oleado, prateleiras de pinho com louça branca de +Barcelos e cadeiras de palhinha, orlando as paredes muito caiadas que davam uma +frescura de capela nova. Ao lado, noutra sala, tambêm de faiscante alvura, +havia o confôrto inesperado de três cadeiras de vêrga da Madeira, com braços +largos e almofadas de chita: sôbre a mesa de pinho, o papel almasso, o +candieiro de azeite, as penas de pato espetadas num tinteiro de frade, pareciam +preparadas para um estudo calmo e ditoso de humanidades: e na parede, suspensa +de dois pregos, uma estantesinha continha quatro ou cinco livros, folheados e +usados, o <em>D. Quixote</em>, um Virgílio, uma História de Roma, as Crónicas +de Froissart. Adiante era certamente o quarto de D. Jacinto, um quarto claro e +casto de estudante, com um catre de ferro, um lavatório de ferro, a roupa +pendurada de cabides toscos. Tudo resplandecia de asseio e ordem. As janelas +cerradas defendiam do sol de agosto, que escaldava fóra os peitoris de pedra. +Do soalho, borrifado de água, subia uma fresquidão consoladora. Num vélho vaso +azul um mólho de cravos alegrava e perfumava. Não havia um rumor. Torges dormia +no esplendor da sésta. E envolvido naquele repouso de convento remoto, terminei +por me estender numa cadeira de vêrga junto à mesa, abri lânguidamente o +Virgílio, murmurando:<span class="pn">{115}</span></p> + + +<blockquote> + <em>Fortunate Jacinthe! tu inter arva nota</em> <br> + <em>Et fontes sacros frigus captabis opacum.</em> </blockquote> + +<p>Já mesmo irreverentemente adormecera sôbre o divino bucolista, quando me +despertou um brado amigo. Era o nosso Jacinto. E imediatamente o comparei a uma +planta, meio murcha e estiolada no escuro, que fôra profusamente regada e +revivera em pleno sol. Não corcovava. Sôbre a sua palidez de supercivilizado, o +ar da serra ou a reconciliação com a vida tinham espalhado um tom trigueiro e +forte que o virilizava soberbamente. Dos olhos, que na cidade eu lhe conhecera +sempre crepusculares, saltava agora um brilho de meio dia, decidido e largo, +que mergulhava francamente na beleza das cousas. Já não passava as mãos murchas +sôbre a face—batia com elas rijamente na côxa... Que sei eu?! Era uma +reincarnação. E tudo o que me contou, pisando alegremente com os sapatos +brancos o soalho, foi que se sentira, ao fim de três dias em Torges, como +desanuviado, mandára comprar um colchão macio, reùnira cinco livros, nunca +lidos, e ali estava...</p> + +<p>—Para todo o verão ?</p> + +<p>—Para todo o sempre! E agora, homem das cidades, vem almoçar umas trutas +que eu pesquei, e compreende emfim o que é o céu.<span class="pn">{116}</span></p> + +<p>As trutas eram, com efeito, celestes. E apareceu tambêm uma salada fria de +couve-flor e vagens, e um vinho branco de Azães... ¿Mas quem condignamente vos +cantará, comeres e beberes daquelas serras?</p> + +<p>De tarde, finda a calma, passeamos pelos caminhos, coleando a vasta quinta, +que vai de vales a montes. Jacinto parava a contemplar com carinho os milhos +altos. Com a mão espalmada e forte batia no tronco dos castanheiros, como nas +costas de amigos recuperados. Todo o fio de água, todo o tufo de erva, todo o +pé de vinha o ocupava como vidas filiais porque fôsse responsável. Conhecia +certos melros que cantavam em certos choupos. Exclamava enternecido:</p> + +<p>—Que encanto, a flor do trevo!</p> + +<p>À noite, depois de um cabrito assado no forno, a que mestre Horácio teria +dedicado uma Ode (talvez mesmo um Carme Heróico) conversamos sôbre o Destino e +a Vida. Eu citei, com discreta malícia, Schopenhauer e o +<em>Eclesiastes</em>... Mas Jacinto ergueu os ombros, com seguro desdêm. A sua +confiança nesses dois sombrios explicadores da vida desaparecera, e +irremediavelmente, sem poder mais voltar, como uma névoa que o sol espalha. +Tremenda tolice! afirmar que a vida se compõe, meramente, duma longa ilusão—é +erguer um aparatoso sistema sôbre um ponto especial<span class="pn">{117}</span> e estreito da vida, +deixando fóra do sistema toda a vida restante, como uma contradição permanente +e soberba. Era como se êle, Jacinto, apontando para uma ortiga, crescida +naquele pátio, declarasse, triunfalmente:—«Aqui está uma ortiga! Toda a quinta +de Torges, portanto, é uma massa de ortigas.»—Mas bastaria que o hóspede +erguesse os olhos, para ver as searas, os pomares e os vinhedos!</p> + +<p>¿De resto, dêsses dois ilustres pessimistas, um o alemão, que conhecia êle +da vida—dessa vida de que fizera, com doutoral majestade, uma teoria +definitiva e dolente? Tudo o que pode conhecer quem, como êste genial farçante, +viveu cincoenta anos numa soturna hospedaria da província, levantando apenas os +óculos dos livros para conversar, à mesa redonda, com os alferes da guarnição! +E o outro, o israelista, o homem dos <em>Cantares</em>, o muito pedantesco rei +de Jerusalêm, só descobre que a vida é uma ilusão aos setenta e cinco anos, +quando o poder lhe escapa das mãos trémulas, e o seu serralho de trezentas +concubinas se torna ridículamente supérfluo à sua carcassa frígida. Um +dogmatiza fúnebremente sôbre o que não sabe—e o outro sôbre o que não pode. +¿Mas que se dê a êsse bom Schopenhauer uma vida tam completa e cheia como a de +César, e onde estará o seu schopenhaurismo? ¿que se restitua a êsse sultão, +besuntado de literatura,<span class="pn">{118}</span> que tanto edificou e professorou em Jerusalêm, +a sua virilidade—e onde estará o <em>Eclesiastes</em>? ¿De resto, que importa +bemdizer ou maldizer da vida? Afortunada ou dolorosa, fecunda ou vã, ela tem de +ser vida. Loucos aqueles que, para a atravessar, se embrulham desde logo em +pesados véus de tristeza e desilusão, de sorte que na sua estrada tudo lhe seja +negrume, não só as léguas realmente escuras, mas mesmo aquelas em que scintila +um sol amável. Na terra tudo vive—e só o homem sente a dor e a desilusão da +vida. E tanto mais as sente, quanto mais alarga e acumula a obra dessa +inteligência que o torna homem, e que o separa da restante natureza, impensante +e inerte. É no máximo de civilização que êle experimenta o máximo de tédio. A +sapiência, portanto, está em recuar até êsse honesto mínimo de civilização, que +consiste em ter um teto de colmo, uma leira de terra e o grão para nela semear. +Em resumo, para reaver a felicidade, é necessário regressar ao Paraíso—e ficar +lá, quieto, na sua fôlha de vinha, inteiramente desguarnecido de civilização, +contemplando o anho aos saltos entre o tomilho, e sem procurar, nem com o +desejo, a árvore funesta da Sciência! <em>Dixi!</em></p> + +<p>Eu escutava, assombrado, êste Jacinto novíssimo. Era verdadeiramente uma +ressurreição no magnífico estilo de Lázaro. Ao <em>surge et ambula</em><span class="pn">{119}</span> +que lhe tinham sussurrado as águas e os bosques de Torges, êle erguia-se do +fundo da cova do Pessimismo, desembaraçava-se das suas casacas de Poole, <em>et +ambulabat</em>, e começava a ser ditoso. Quando recolhi ao meu quarto, àquelas +horas honestas que convêm ao campo e ao Otimismo, tomei entre as minhas a mão +já firme do meu amigo, e pensando que êle emfim alcançára a verdadeira rialeza, +porque possuia a verdadeira liberdade, gritei-lhe os meus parabens à maneira do +moralista de Tibur:</p> + + +<blockquote> + <em>Vive et regna, fortunate Jacinthe!</em> </blockquote> + +<p>Daí a pouco, através da porta aberta que nos separava, senti uma risada +fresca, môça, genuína e consolada. Era Jacinto que lia o <em>D. Quixote</em>. +Oh bemaventurado Jacinto! Conservava o agudo poder de criticar, e recuperára o +dom divino de rir!</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Quatro anos vão passados. Jacinto ainda habita Torges. As paredes do seu +solar continuam bem caiadas, mas nuas.</p> + +<p>De inverno enverga um gabão de briche e acende um braseiro. Para chamar o +Grilo ou a môça, bate as mãos, como fazia Catão. Com os seus deliciosos +vagares, já leu a <em>Ilíada</em>.<span class="pn">{120}</span></p> + +<p>Não faz a barba. Nos caminhos silvestres, pára e fala com as crianças. Todos +os casais da serra o bemdizem. Ouço que vai casar com uma forte, sã, e bela +rapariga de Guiães. De-certo crescerá ali uma tríbu, que será grata ao Senhor! +</p> + +<p>Como êle, recentemente, me mandou pedir livros da sua livraria (uma <em>Vida +de Buda</em>, uma <em>História da Grécia</em> e as obras de S. Francisco de +Sales) fui, depois dêstes quatro anos, ao <em>Jasmineiro</em> deserto. Cada +passo meu sôbre os fofos tapetes de Koranânia soou triste como num chão de +mortos. Todos os brocados estavam engelhados, esgaçados. Pelas paredes pendiam, +como olhos fóra de órbitas, os botões eléctricos das campainhas e das luzes:—e +havia vagos fios de arame, soltos, enroscados, onde a aranha regalada e +reinando tecera teias espessas. Na livraria, todo o vasto saber dos séculos +jazia numa imensa mudez, debaixo duma imensa poeira. Sôbre as lombadas dos +sistemas filosóficos alvejava o bolôr: vorazmente a traça devastára as +Histórias Universais: errava ali um cheiro mole de literatura apodrecida:—e eu +abalei, com o lenço no nariz, certo de que naqueles vinte mil volumes não +restava uma verdade viva! Quis lavar as mãos maculadas pelo contacto com estes +detritos de conhecimentos humanos. Mas os maravilhosos aparelhos do lavatório, +da sala<span class="pn">{121}</span> de banho, enferrujados, perros, dessoldados, não largaram uma +gota de água; e, como chovia nessa tarde de abril, tive de saír à varanda, +pedir ao céu que me lavasse.</p> + +<p>Ao descer, penetrei no gabinete de trabalho de Jacinto e tropecei num montão +negro de ferragens, rodas, lâminas, campainhas, parafusos... Entreabri a +janela, e reconheci o telefone, o teatrofone, o fonógrafo, outros aparelhos, +tombados das suas peanhas, sórdidos, desfeitos, sob a poeira dos anos. Empurrei +com o pé êste lixo do engenho humano. A máquina de escrever, escancarada, com +os buracos negros marcando as letras desarraigadas, era como uma bôca alvar e +desdentada. O telefone parecia esborrachado, enrodilhado nas suas tripas de +arame. Na trompa do fonógrafo, torta, esbeiçada, para sempre muda, fervilhavam +carochas. E ali jaziam, tam lamentáveis e grotescas, aquelas geniais invenções, +que eu saí rindo, como duma enorme facécia, daquele super-civilizado palácio. +</p> + +<p>A chuva de abril secára: os telhados remotos da cidade negrejavam sôbre um +poente de carmesim e oiro. E, através das ruas mais frescas, eu ia pensando que +êste nosso magnifíco século XIX se assemelharia, um dia, àquele +<em>Jasmineiro</em> abandonado, e que outros homens, com uma certeza mais pura +do que é a Vida e a Felicidade, dariam, como eu, com o pé no lixo<span class="pn">{122}</span> da +super-civilização, e, como eu, ririam alegremente da grande ilusão que findára, +inútil e coberta de ferrugem.</p> + +<p>Àquela hora, de-certo, Jacinto, na varanda, em Torges, sem fonógrafo e sem +telefone, reentrado na simplicidade, via, sob a paz lenta da tarde, ao +tremeluzir da primeira estrêla, a boiada recolher entre o canto dos +boieiros.<span class="pn">{123}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION000500">O TESOIRO</a> </h1> + + +<h2><a name="SECTION000510">I</a> </h2> + +<p>Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guannes e Rostabal, eram então, em todo o +Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados.</p> + +<p>Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levára vidraça e telha, +passavam êles as tardes dêsse inverno, engelhados nos seus pelotes de camelão, +batendo as solas rotas sôbre as lages da cozinha, diante da vasta lareira +negra, onde desde muito não estalava lume, nem fervia a panela de ferro. Ao +escurecer devoravam uma côdea de pão negro, esfregada com alho. Depois, sem +candeia, através do pátio, fendendo a neve, iam dormir à estrebaria, para +aproveitar o calor das três éguas lazarentas que, esfaimadas como êles, +roíam<span class="pn">{124}</span> as traves da mangedoura. E a miséria tornára êstes senhores mais +bravios que lôbos.</p> + +<p>Ora, na primavera, por uma silenciosa manhã de domingo, andando todos três +na mata de Roquelanes a espiar pègadas de caça e a apanhar tortulhos entre os +robles, emquanto as três éguas pastavam a relva nova de abril,—os irmãos de +Medranhos encontraram, por trás de uma moita de espinheiros, numa cova de +rocha, um vélho cofre de ferro. Como se o resguardasse uma tôrre segura, +conservava as suas três chaves nas suas três fechaduras. Sôbre a tampa, mal +decifrável através da ferrugem, corria um dístico em letras árabes. E dentro, +até às bordas, estava cheio de dobrões de oiro!</p> + +<p>No terror e esplendor da emoção, os três senhores ficaram mais lívidos do +que círios. Depois, mergulhando furiosamente as mãos no oiro, estalaram a rir, +num riso de tam larga rajada, que as fôlhas tenras dos olmos, em roda, +tremiam... E de novo recuaram, bruscamente se encararam, com os olhos a +flamejar, numa desconfiança tam desabrida que Guannes e Rostabal apalpavam nos +cintos os cabos das grandes facas. Então Rui, que era gordo e ruivo, e o mais +avisado, ergueu os braços, como um árbitro, e começou por decidir que o +tesoiro, ou viesse de Deus ou do demónio, pertencia aos três, e entre êles +se<span class="pn">{125}</span> repartiria, rígidamente, pesando-se o oiro em balanças. ¿Mas como +poderiam carregar para Medranhos, para os cimos da serra, aquele cofre tam +cheio? Nem convinha que saíssem da mata com o seu bem, antes de cerrar a +escuridão. Por isso êle entendia que o mano Guannes, como mais leve, devia +trotar para a vila vizinha de Retortilho, levando já oiro na bolsinha, a +comprar três alforges de coiro, três maquias de cevada, três empadões de carne, +e três botelhas de vinho. Vinho e carne eram para êles, que não comiam desde a +véspera: a cevada era para as éguas. E assim refeitos, senhores e cavalgaduras, +ensacariam o oiro nos alforges, e subiriam para Medranhos, sob a segurança da +noite sem lua.</p> + +<p>—Bem tramado!—gritou Rostabal, homem mais alto que um pinheiro, de longa +guedelha, e com uma barba que lhe caía desde os olhos raiados de sangue até à +fivela do cinturão.</p> + +<p>Mas Guannes não se arredava do cofre, enrugado, desconfiado, puxando entre +os dedos a pele negra do seu pescoço de grou. Por fim, brutalmente:</p> + +<p>—Manos! O cofre tem três chaves... Eu quero fechar a minha fechadura e +levar a minha chave!</p> + +<p>—Tambêm eu quero a minha, mil raios!—rugiu logo Rostabal.<span class="pn">{126}</span></p> + +<p>Rui sorriu. De-certo, de-certo! A cada dono do oiro cabia uma das chaves que +o guardavam. E cada um em silêncio, agachado ante o cofre, cerrou a sua +fechadura com fôrça. Imediatamente Guannes, desanuviado, saltou na égua, meteu +pela vereda de olmos, a caminho de Retortilho, atirando aos ramos a sua cantiga +costumada e dolente:</p> + + +<blockquote> + Olé! olé! <br> + Sale la crus de la iglesia, <br> + Vestida de negro luto... </blockquote> + + +<h2><a name="SECTION000520">II</a> </h2> + +<p>Na clareira, em frente à moita que encobria o tesoiro (e que os três tinham +desbastado a cutiladas) um fio de água, brotando entre rochas, caía sôbre uma +vasta lage escavada, onde fazia como um tanque, claro e quieto, antes de se +escoar para as relvas altas. E ao lado, na sombra de uma faia, jazia um vélho +pilar de granito, tombado e musgoso. Ali vieram sentar-se Rui e Rostabal, com +os seus tremendos espadões entre os joelhos. As duas éguas tosavam a boa erva +pintalgada de papoulas e botões de oiro. Pela ramaria<span class="pn">{127}</span> andava um melro a +assobiar. Um cheiro errante de violetas adoçava o ar luminoso. E Rostabal, +olhando o sol, bocejava com fome.</p> + +<p>Então Rui, que tirára o <em>sombrero</em> e lhe cofiava as vélhas plumas +rôxas, começou a considerar, na sua fala avisada e mansa, que Guannes, nessa +manhã, não quisera descer com êles à mata de Roquelanes. E assim era a sorte +ruim! Pois que se Guannes tivesse quedado em Medranhos, só êles dois teriam +descoberto o cofre, e só entre êles dois se dividiria o oiro! Grande pena! +Tanto mais que a parte de Guannes seria em breve dissipada, com rufiões, aos +dados, pelas tavernas.</p> + +<p>—Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guannes, passando aqui sòzinho, tivesse achado +êste oiro, não dividia comnosco, Rostabal!</p> + +<p>O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas negras:</p> + +<p>—Não, mil raios! Guannes é sôfrego... Quando o ano passado, se te lembras, +ganhou os cem ducados ao espadeiro de Fresno, nem me quis emprestar três para +eu comprar um gibão novo!</p> + +<p>—Vês tu?—gritou Rui, resplandecendo.</p> + +<p>Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma idea, +que os deslumbrava. E, através das suas largas passadas, as ervas altas +silvavam.</p> + +<p>—E para quê?—prosseguia Rui,—¿Para<span class="pn">{128}</span> que lhe serve todo o oiro que +nos leva? ¿Tu não o ouves, de noite, como tosse? Ao redor da palha em que +dorme, todo o chão está negro do sangue que escarra! Não dura até às outras +neves, Rostabal! Mas até lá terá dissipado os bons dobrões que deviam ser +nossos, para levantarmos a nossa casa, e para tu teres ginetes, e armas, e +trajes nobres, e o teu terço de solarengos, como compete, a quem é, como tu, o +mais vélho dos de Medranhos...</p> + +<p>—Pois que morra, e morra hoje!—bradou Rostabal.</p> + +<p>—Queres?</p> + +<p>Vivamente, Rui agarrára o braço do irmão e apontava para a vereda de olmos, +por onde Guannes partira cantando:</p> + +<p>—Logo adiante, ao fim do trilho, há um sítio bom, nos silvados. E hás-de +ser tu, Rostabal, que és o mais forte e o mais destro. Um golpe de ponta pelas +costas. E é justiça de Deus que sejas tu, que muitas vezes, nas tavernas, sem +pudor, Guannes te tratava de <em>cerdo</em> e de torpe, por não saberes a letra +nem os numeros.</p> + +<p>—Malvado!</p> + +<p>—Vem!</p> + +<p>Foram. Ambos se emboscaram por trás dum silvado, que dominava o atalho, +estreito e pedregoso como um leito de torrente. Rostabal assolapado na vala, +tinha já a espada<span class="pn">{129}</span> nua. Um vento leve arripiou na encosta as fôlhas dos +álamos—e sentiram o repique leve dos sinos de Retortilho. Rui, coçando a +barba, calculava as horas pelo sol, que já se inclinava para as serras. Um +bando de córvos passou sôbre êles, grasnando. E Rostabal, que lhes seguira o +vôo, recomeçou a bocejar, com fome, pensando nos empadões e no vinho que o +outro trazia nos alforges.</p> + +<p>Emfim! Àlerta! Era, na vereda, a cantiga dolente e rouca, atirada aos ramos: +</p> + + +<blockquote> + Olé! olé! <br> + Sale la crus de la iglesia <br> + Toda vestida de negro... </blockquote> + +<p>Rui murmurou:—«Na ilharga! Mal que passe!» O chouto da égua bateu o +cascalho, uma pluma num <em>sombrero</em> vermelhejou por sôbre a ponta das +silvas.</p> + +<p>Rostabal rompeu de entre a sarça por uma brecha, atirou o braço, a longa +espada;—e toda a lâmina se embebeu molemente na ilharga de Guannes, quando ao +rumor, bruscamente, êle se virára na sela. Com um surdo arranco, tombou de +lado, sôbre as pedras. Já Rui se arremessava aos freios da égua:—Rostabal, +caíndo sôbre Guannes, que arquejava, de novo lhe mergulhou a espada, agarrada +pela fôlha como um punhal, no peito e na garganta.<span class="pn">{130}</span></p> + +<p>—A chave!—gritou Rui.</p> + +<p>E arrancada a chave do cofre ao seio do morto, ambos largaram pela +vereda—Rostabal adiante, fugindo, com a pluma do <em>sombrero</em> quebrada e +torta, a espada ainda nua entalada sob o braço, todo encolhido, arripiado com o +sabor de sangue que lhe espirrára para a bôca; Rui, atrás, puxando +desesperadamente os freios da égua, que, de patas fincadas no chão pedregoso, +arreganhando a longa dentuça amarela, não queria deixar o seu amo assim +estirado, abandonado, ao comprido das sebes.</p> + +<p>Teve de lhe espicaçar as ancas lazarentas com a ponta da espada:—e foi +correndo sôbre ela, de lâmina alta, como se perseguisse um mouro, que +desembocou na clareira onde o sol já não doirava as fôlhas. Rostabal +arremessára para a relva o <em>sombrero</em> e a espada; e debruçado sôbre a +lage escavada em tanque, de mangas arregaçadas, lavava, ruidosamente, a face e +as barbas.</p> + +<p>A égua, quieta, recomeçou a pastar, carregada com os alforges novos que +Guannes comprára em Retortilho. Do mais largo, abarrotado, surdiam dois +gargalos de garrafas. Então, Rui tirou, lentamente, do cinto, a sua larga +navalha. Sem um rumor na relva espessa, deslizou até Rostabal, que resfolgava, +com as longas barbas pingando. E, serenamente, como se pregasse uma estaca +num<span class="pn">{131}</span> canteiro, enterrou a fôlha toda no largo dorso dobrado, certeira +sôbre o coração.</p> + +<p>Rostabal caíu sôbre o tanque, sem um gemido, com a face na água, os longos +cabelos flutuando na água. A sua vélha escarcela de coiro ficára entalada sob a +côxa. Para tirar de dentro a terceira chave do cofre, Rui solevou o corpo—e um +sangue mais grosso jorrou, escorreu pela borda do tanque, fumegando.</p> + + +<h2><a name="SECTION000530">III</a> </h2> + +<p>Agora eram dêle, só dêle, as três chaves do cofre!... E Rui, alargando os +braços, respirou deliciosamente. Mal a noite descesse, com o oiro metido nos +alforges, guiando a fila das éguas pelos trilhos da serra, subiria a Medranhos +e enterraria na adega o seu tesoiro! E quando ali na fonte, e alêm rente aos +silvados, só restassem, sob as neves de dezembro, alguns ossos sem nome, êle +seria o magnífico senhor de Medranhos, e na capela nova do solar renascido, +mandaria dizer missas ricas pelos seus dois irmãos mortos... Mortos, como? Como +devem morrer os de Medranhos—a pelejar contra o Turco!</p> + +<p>Abriu as três fechaduras, apanhou um punhado<span class="pn">{132}</span> de dobrões, que fez +retinir sôbre as pedras. Que puro oiro, de fino quilate! E era o <em>seu</em> +oiro! Depois foi examinar a capacidade dos alforges—e encontrando as duas +garrafas de vinho, e um gordo capão assado, sentiu uma imensa fome. Desde a +véspera só comera uma lasca de peixe sêco. E há quanto tempo não provava capão! +</p> + +<p>Com que delícia se sentou na relva, com as pernas abertas, e entre elas, a +ave loura, que rescendia, e o vinho côr de ámbar! Ah! Guannes fôra bom +mordomo—nem esquecera azeitonas. ¿Mas, porque trouxera êle, para três +convivas, só duas garrafas? Rasgou uma asa do capão: devorava a grandes +dentadas. A tarde descia, pensativa e doce, com nuvemsinhas côr de rosa. Para +alêm, na vereda, um bando de corvos grasnava. As éguas fartas dormitavam, com o +focinho pendido. E a fonte cantava, lavando o morto.</p> + +<p>Rui ergueu à luz a garrafa de vinho. Com aquela côr vélha e quente, não +teria custado menos de três maravedis. E pondo o gargalo à bôca, bebeu em +sorvos lentos, que lhe faziam ondular o pescoço peludo. Oh vinho bemdito, que +tam prontamente aquecia o sangue! Atirou a garrafa vazia—destapou outra. Mas, +como era avisado, não bebeu, porque a jornada para a serra, com o tesoiro, +requeria firmeza e acêrto. Estendido sôbre o<span class="pn">{133}</span> cotovelo, descansando, +pensava em Medranhos coberto de telha nova, nas altas chamas da lareira por +noites de neve, e o seu leito com brocados, onde teria sempre mulheres.</p> + +<p>De repente, tomado de uma ansiedade, teve pressa de carregar os alforges. +Já, entre os troncos, a sombra se adensava. Puxou uma das éguas para junto do +cofre, ergueu a tampa, tomou um punhado de oiro... Mas oscilou, largando os +dobrões que retilintaram no chão, e levou as duas mãos aflitas ao peito. ¿Que +é, D. Rui? Raios de Deus! era um lume, um lume vivo, que se lhe acendera +dentro, lhe subia até às guelas. Já rasgára o gibão, atirava os passos +incertos, e, a arquejar, com a língua pendente, limpava as grossas bagas de um +suor horrendo que o regelava como neve. Oh Virgem Mãe! Outra vez o lume, mais +forte, que alastrava, o roía! Gritou:</p> + +<p>—Socorro! Alguêm! Guannes! Rostabal!</p> + +<p>Os seus braços torcidos batiam o ar desesperadamente. E a chama dentro +galgava—sentia os ossos a estalarem como as traves duma casa em fogo.</p> + +<p>Cambaleou até à fonte para apagar aquela labareda, tropeçou sôbre Rostabal; +e foi com o joelho fincado no morto, arranhando a rocha, que êle, entre uivos, +procurava o fio de água, que recebia sôbre os olhos, pelos cabelos.<span class="pn">{134}</span> Mas +a água mais o queimava, como se fôsse um metal derretido. Recuou, caíu para +cima da relva que arrancava aos punhados, e que mordia, mordendo os dedos, para +lhe sugar a frescura. Ainda se ergueu, com uma baba densa a escorrer-lhe nas +barbas: e de repente, esbogalhando pavorosamente os olhos, berrou, como se +compreendesse emfim a traição, todo o horror:</p> + +<p>—É veneno!</p> + +<p>Oh! D. Rui, o avisado, era veneno! Porque Guannes, apenas chegára a +Retortilho, mesmo antes de comprar os alforges, correra cantando a uma viela, +por detrás da catedral, a comprar ao vélho droguista judeu o veneno que, +misturado ao vinho, o tornaria a êle, a êle sómente, dono de todo o tesoiro. +</p> + +<p>Anoiteceu. Dois corvos de entre o bando que grasnava, alêm nos silvados, já +tinham pousado sôbre o corpo de Guannes. A fonte, cantando, lavava o outro +morto. Meio enterrada na erva negra, toda a face de Rui se tornára negra. Uma +estrelinha tremeluzia no céu.</p> + +<p>O tesoiro ainda lá está, na mata de Roquelanes.<span class="pn">{135}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION000600">FREI GENEBRO</a> </h1> + + +<h2><a name="SECTION000610">I</a> </h2> + +<p>Nesse tempo ainda vivia na sua solidão das montanhas da Úmbria, o divino +Francisco de Assis—e já por toda a Itália se louvava a santidade de Frei +Genebro, seu amigo e seu discípulo.</p> + +<p>Frei Genebro, na verdade, completára a perfeição em todas as virtudes +evangélicas. Pela abundância e perpètuidade da Oração, êle arrancava da sua +alma as raízes mais miudas do Pecado, e tornava-a limpa e cândida como um +dêsses celestes jardins em que o sólo anda regado pelo Senhor, e onde só podem +brotar açucenas. A sua penitência, durante vinte anos de clâustro, fôra tam +dura e alta que já não temia o Tentador; e agora, só com o sacudir a manga do +hábito, rechaçava as tentações, as mais pavorosas ou as mais<span class="pn">{136}</span> deliciosas, +como se fôssem apenas moscas importunas. Benéfica e universal à maneira de um +orvalho de verão, a sua caridade não se derramava sómente sôbre as misérias do +pobre, mas sôbre as melancolias do rico. Na sua humilíssima humildade não se +considerava nem o igual dum verme. Os bravios barões, cujas negras tôrres +esmagavam a Itália, acolhiam reverentemente e curvavam a cabeça a êste +franciscano descalço e mal remendado que lhes ensinava a mansidão. Em Roma, em +S. João de Latrão, o Papa Honório beijára as feridas de cadeias que lhe tinham +ficado nos pulsos, do ano em que na Mourama, por amor dos escravos, padecera a +escravidão. E como nessas idades os anjos ainda viajavam na terra, com as asas +escondidas, arrimados a um bordão, muitas vezes, trilhando uma vélha estrada +pagã ou atravessando uma selva, êle encontrava um moço de inefável formosura, +que lhe sorria e murmurava:</p> + +<p>—Bons dias, irmão Genebro!</p> + +<p>Ora, um dia, indo êste admirável mendicante de Spoleto para Terni, e +avistando no azul e no sol da manhã, sôbre uma colina coberta de carvalhos, as +ruínas do castelo de Otofrid, pensou no seu amigo Egídio, antigo noviço como +êle no mosteiro de Santa Maria dos Anjos, que se retirára àquele ermo para se +avizinhar mais de Deus, e ali habitava uma<span class="pn">{137}</span> cabana de colmo, junto das +muralhas derrocadas, cantando e regando as alfaces do seu horto, porque a sua +virtude era amena. E como mais de três anos tinham passado desde que visitára o +bom Egídio, largou a estrada, passou em baixo, no vale, sôbre as alpondras, o +riacho que fugia por entre os aloendros em flor, e começou a subir, lentamente, +a colina frondosa. Depois da poeira e ardor do caminho de Spoleto, era doce a +larga sombra dos castanheiros e a relva que lhe refrescava os pés doridos. A +meia encosta, numa rocha onde se esguedelhavam silvados, sussurrava e luzia um +fio de água. Estendido ao lado, nas ervas húmidas, dormia, ressonando +consoladamente, um homem, que de-certo ali guardava porcos, porque vestia um +grosso surrão de coiro e trazia, pendurada da cinta, uma buzina de porqueiro. O +bom frade bebeu de leve, afugentou os moscardos que zumbiam sôbre a rude face +adormecida e continuou a trepar a colina, com o seu alforge, o seu cajado, +agradecendo ao Senhor aquela água, aquela sombra, aquela frescura, tantos bens +inesperados. Em breve avistou, com efeito, o rebanho de porcos, espalhados sob +as frondes, roncando e fossando as raízes, uns magros e agudos, de cerdas +duras, outros redondos, com o focinho curto afogado em gordura, e os bacorinhos +correndo em tôrno às têtas das mães, luzidios e côr de rosa.<span class="pn">{138}</span></p> + +<p>Frei Genebro pensou nos lôbos e lamentou o sono do pastor descuidado. No fim +da mata começava a rocha, onde os restos do castelo lombardo se erguiam, +revestidos de hera, conservando ainda alguma seteira esburacada sôbre o céu, +ou, numa esquina de tôrre, uma goteira que, esticando o pescoço de dragão, +espreitava por meio das silvas bravas.</p> + +<p>A cabana do ermitão, telhada de colmo que lascas de pedra seguravam, apenas +se percebia, entre aqueles escuros granitos, pela horta que em frente +verdejava, com os seus talhões de couve e estacas de feijoal, entre alfazema +cheirosa. Egídio não andaria afastado porque sôbre o murosinho de pedra solta +ficára pousado o seu cântaro, o seu podão e a sua enxada. E docemente, para o +não importunar, se àquela hora da sésta estivesse recolhido e orando, Frei +Genebro empurrou a porta de pranchas vélhas, que não tinha loquete para ser +mais hospitaleira.</p> + +<p>—Irmão Egídio!</p> + +<p>Do fundo da choça rude, que mais parecia cova de bicho, veio um lento +gemido:</p> + +<p>—Quem me chama? Aqui neste canto, neste canto a morrer!... A morrer, meu +irmão!</p> + +<p>Frei Genebro acudiu em grande dó; encontrou o bom ermitão estirado num monte +de fôlhas sêcas, encolhido em farrapos, e tam definhado que a sua face, outrora +farta e rosada,<span class="pn">{139}</span> era como um pedacinho de vélho pergaminho muito +enrugado, perdido entre os flocos das barbas brancas. Com infinita caridade e +doçura o abraçou.</p> + +<p>—¿E há quanto tempo, há quanto tempo neste abandôno, irmão Egídio?</p> + +<p>Louvado Deus, desde a véspera! Só na véspera, à tarde, depois de olhar uma +derradeira vez para o sol e para a sua horta, se viera estender naquele canto +para acabar... Mas havia meses que com êle entrára um cansaço, que nem podia +segurar a bilha cheia quando voltava da fonte.</p> + +<p>—¿E dizei, irmão Egídio, pois que o Senhor me trouxe, que posso eu fazer +pelo vosso corpo? Pelo corpo, digo; que pela alma bastante tendes vós feito na +virtude desta solidão!</p> + +<p>Gemendo, arrepanhando para o peito as fôlhas sêcas em que jazia, como se +fôssem dobras dum lençol, o pobre ermitão murmurou:</p> + +<p>—Meu bom Frei Genebro, não sei se é pecado, mas toda esta noite, em verdade +vos confesso, me apeteceu comer um pedaço de carne, um pedaço de porco +assado!... Mas será pecado?</p> + +<p>Frei Genebro, com a sua imensa misericórdia, logo o tranqùilizou. Pecado? +Não, certamente! Aquele que, por tortura, recusa ao seu corpo um contentamento +honesto, desagrada ao Senhor. ¿Não ordenava êle aos seus<span class="pn">{140}</span> discípulos que +comessem as boas cousas da terra? O corpo é servo; e está na vontade divina que +as suas fôrças sejam sustentadas, para que preste ao espírito, seu amo, bom e +leal serviço. Quando Frei Silvestre, já tam doentinho, sentira aquele longo +desejo de uvas moscateis, o bom Francisco de Assis logo o conduziu à vinha, e +por suas mãos lhe apanhou os melhores cachos, depois de os abençoar para serem +mais sumarentos e mais doces...</p> + +<p>—¿É um pedaço de porco assado que apeteceis?—exclamava risonhamente o bom +Frei Genebro, acariciando as mãos transparentes do ermitão.—Pois sossegai, +irmão querido, que bem sei como vos vou contentar!</p> + +<p>E imediatamente, com os olhos a reluzir de caridade e de amor, agarrou o +afiado podão que pousava sôbre o muro da horta. Arregaçando as mangas do +hábito, e mais ligeiro que um gamo, porque era aquele um serviço do Senhor, +correu pela colina até aos densos castanheiros onde encontrára o rebanho de +porcos. E aí, andando sorrateiramente de tronco para tronco, surpreendeu um +bacorinho desgarrado que fossava a bolota, desabou sobre êle, e, emquanto lhe +sufocava o focinho e os gritos, decepou, com dois golpes certeiro do podão, a +perna por onde o agarrára. Depois, com as mãos salpicadas de sangue, a perna de +porco bem alta a pingar sangue, deixando<span class="pn">{141}</span> a rês a arquejar numa pôça de +sangue, o piedoso homem galgou a colina, correu à cabana, gritou para dentro +alegremente:</p> + +<p>—Irmão Egídio, a peça de carne já o Senhor a deu! E eu, em Santa Maria dos +Anjos, era bom cozinheiro.</p> + +<p>Na horta do ermitão arrancou uma estaca do feijoal, que, com o podão +sangrento, aguçou em espêto. Entre duas pedras acendeu uma fogueira. Com zeloso +carinho assou a perna do porco. Tanta era a sua caridade que para dar a Egídio +todos os antegostos daquele banquete, raro em terra de mortificação, anunciava +com vozes festivas e de boa promessa:</p> + +<p>—Já vai aloirando o porquinho, irmão Egídio! A pele já tosta, meu santo! +</p> + +<p>Entrou emfim na choça, triunfalmente, com o assado que fumegava e rescendia, +cercado de frescas fôlhas de alface. Ternamente, ajudou a sentar o vélho, que +tremia e se babava de gula. Arredou das pobres faces maceradas os cabelos que o +suor da fraqueza empastára. E, para que o bom Egídio se não vexasse com a sua +voracidade e tam carnal apetite, ia afirmando, emquanto lhe partia as febras +gordas, que tambêm êle comeria regaladamente daquele excelente porco, se não +tivesse almoçado à farta na <em>Locanda dos Três Caminhos</em>.<span class="pn">{142}</span></p> + +<p>—Mas nem bocado agora me podia entrar, meu irmão! Com uma galinha inteira +me atochei! E depois uma fritada de ovos! E de vinho branco, um quartilho!</p> + +<p>E o santo homem mentia santamente—porque, desde madrugada, não provára mais +que um magro caldo de ervas, recebido por esmola à cancela de uma granja.</p> + +<p>Farto, consolado, Egídio deu um suspiro, recaíu no seu leito de fôlhas +sêcas. Que bem lhe fizera, que bem lhe fizera! O Senhor, na sua justiça, +pagasse a seu irmão Genebro aquele pedaço de porco! Até sentia a alma mais rija +para a temerosa jornada... E o ermitão com as mãos postas, Genebro ajoelhado, +ambos louvaram, ardentemente, o Senhor que, a toda a necessidade solitária, +manda de longe o socorro.</p> + +<p>Então, tendo coberto Egídio com um pedaço de manta e posto, a seu lado, a +bilha cheia de água fresca, e tapado, contra as aragens da tarde, a fresta da +cabana, Frei Genebro, debruçado sôbre êle, murmurou:</p> + +<p>—Meu bom irmão, vós não podeis ficar neste abandono... Eu vou levado por +obra de Jesus, que não admite tardança. Mas passarei no convento de Sambricena +e darei recado para que um noviço venha e cuide de vós com amor, no vosso +transe. Deus vos vele<span class="pn">{143}</span> entretanto, meu irmão; Deus vos sossegue e vos +ampare com a sua mão direita!</p> + +<p>Mas Egídio cerrára os olhos, nem se moveu, ou porque adormecera, ou porque o +seu espírito, tendo pago aquele derradeiro salário ao corpo, como a um bom +servidor, para sempre partira, finda a sua obra na terra. Frei Genebro abençoou +o vélho, tomou o seu bordão, desceu a colina dos grandes carvalhos. Sob a +fronde, para os lados onde andava o rebanho, a buzina do porqueiro ressoava +agora num toque de alarma e de furor. De-certo acordára, descobrira o seu porco +mutilado... Estugando o passo, Frei Genebro pensava quanto era magnânimo o +Senhor em permitir que o homem, feito à sua imagem augusta, recebesse tam fácil +consolação duma perna de cerdo assada entre duas pedras.</p> + +<p>Retomou a estrada, marchou para Terni. E prodigiosa foi, desde êsse dia, a +actividade da sua virtude. Através de toda a Itália, sem descanso, prègou o +Evangelho Eterno, adoçando a aspereza dos ricos, alargando a esperança dos +pobres. O seu imenso amor ia ainda para alêm dos que sofrem, até àqueles que +pecam, oferecendo um alívio a cada dôr, estendendo um perdão a cada culpa: e +com a mesma caridade com que tratava os leprosos, convertia os bandidos. +Durante as invernias e a neve, vezes inumeráveis dava, aos<span class="pn">{144}</span> mendigos, a +sua túnica, as suas alpercatas; os abades dos mosteiros ricos, as damas devotas +de novo o vestiam, para evitar o escândalo da sua nudez através das cidades; e +sem demora, na primeira esquina, ante qualquer esfarrapado, êle se despojava +sorrindo. Para remir servos que penavam sob um amo fero, penetrava nas igrejas, +arrancava do altar os candelabros de prata, afirmando, jovialmente, que mais +praz a Deus uma alma liberta que uma tocha acesa.</p> + +<p>Cercado de viuvas, de crianças famintas, invadia as padarias, os açougues, +até as tendas dos cambistas, e reclamava imperiosamente, em nome de Deus, a +parte dos deserdados. Sofrer, sentir a humilhação, eram, para êle, as únicas +alegrias completas: nada o deliciava mais do que chegar de noite, molhado, +esfaimado, tiritando, a uma opulenta abadia feudal, e ser repelido da portaria +como um mau vagabundo: só então, agachado nos lôdos do caminho, mastigando um +punhado de ervas cruas, êle se reconhecia verdadeiramente irmão de Jesus, que +não tivera tambêm, como teem sequer os bichos do mato, um covil para se +abrigar. Quando um dia, em Perusa, as confrarias saíram ao seu encontro, com +bandeiras festivas, ao repique dos sinos, êle correu para um monte de estêrco, +onde se rolou e se sujou, para que daqueles que<span class="pn">{145}</span> o vinham engrandecer, só +recebesse compaixão e escárnio. Nos clâustros, nos descampados, em meio das +multidões, durante as lides mais pesadas, orava constantemente, não por +obrigação, mas porque na prece encontrava um deleite adorável. Deleite maior, +porêm, era, para o franciscano, ensinar e servir. Assim, longos anos errou +entre os homens, vertendo o seu coração como a água de um rio, oferecendo os +seus braços como alavancas incansáveis; e tam depressa, numa ladeira deserta, +aliviava uma pobre vélha da sua carga de lenha, como numa cidade revoltada, +onde reluzissem armas, se adiantava, com o peito aberto, e amansava as +discórdias.</p> + +<p>Emfim, uma tarde, em véspera de Páscoa, estando a descansar nos degraus de +Santa Maria dos Anjos, avistou de repente, no ar liso e branco, uma vasta mão +luminosa que sôbre êle se abria e faiscava. Pensativo, murmurou:</p> + +<p>—Eis a mão de Deus, a sua mão direita, que se estende para me acolher ou +para me repelir.</p> + +<p>Deu logo a um pobre, que ali rezava a Avé-Maria, com a sua sacola nos +joelhos, tudo o que no mundo lhe restava, que era um volume do Evangelho, muito +usado e manchado das suas lágrimas. No domingo, na igreja, ao levantar da +Hóstia, desmaiou. Sentindo então<span class="pn">{146}</span> que ia terminar a sua jornada +terrestre, quis que o levassem para um curral, o deitassem sôbre uma camada de +cinzas.</p> + +<p>Em santa obediência ao guardião do convento, consentiu que o limpassem dos +seus trapos, lhe vestissem um hábito novo: mas, com os olhos alagados de +ternura, implorou que o enterrassem num sepulcro emprestado como fôra o de +Jesus, seu senhor.</p> + +<p>E, suspirando, só se queixava de não sofrer:</p> + +<p>—¿O senhor, que tanto sofreu, porque me não manda a mim o padecimento +bemdito?</p> + +<p>De madrugada pediu que abrissem, bem largo, o portão do curral.</p> + +<p>Contemplou o céu que clareava, escutou as andorinhas que, na frescura e +silêncio, começavam a cantar sôbre o beiral do telhado, e, sorrindo, recordou +uma manhã, assim de silêncio e frescura, em que, andando com Francisco de Assis +à beira do lago de Perusa, o mestre incomparável se detivera ante uma árvore +cheia de pássaros, e, fraternalmente, lhes recomendára que louvassem sempre o +Senhor! «Meus irmãos, meus irmãos passarinhos, cantai bem o vosso Criador, que +vos deu essa árvore para que nela habiteis, e toda esta limpa água para nela +beber, e essas penas bem quentes para vos agasalharem, a vós<span class="pn">{147}</span> e aos +vossos filhinhos!» Depois, beijando humildemente a manga do monge que o +amparava, Frei Genebro morreu.</p> + + +<h2><a name="SECTION000620">II</a> </h2> + +<p>Logo que êle cerrou os seus olhos carnais, um Grande Anjo penetrou +diáfanamente no curral e tomou, nos braços, a alma de Frei Genebro. Durante um +momento, na fina luz da madrugada, deslizou por sôbre o prado fronteiro tam +levemente que nem roçava as pontas orvalhadas da relva alta. Depois, abrindo as +asas, radiantes e níveas, transpôs, num vôo sereno, as nuvens, os astros, todo +o céu que os homens conhecem.</p> + +<p>Aninhada nos seus braços, como na doçura de um berço, a alma de Genebro +conservava a forma do corpo que sôbre a terra ficára; o hábito franciscano +ainda a cobria, com um resto de poeira e de cinza nas pregas rudes; e, com um +olhar novo, que agora tudo trespassava e tudo compreendia, ela contemplava, num +deslumbramento, aquela região em que o Anjo parára, para alêm dos universos +transitórios e de todos os rumores siderais. Era um espaço sem limite, sem +contôrno<span class="pn">{148}</span> e sem côr. Por cima começava uma claridade, subindo espalhada à +maneira duma aurora, cada vez mais branca, e mais luzente, e mais radiante, até +que resplandecia num fulgor tam sublime que nela um sol coruscante seria como +uma nódoa pardacenta. E por baixo estendia-se uma sombra cada vez mais baça, +mais fusca, mais cinzenta, até que formava como um espesso crepúsculo de +profunda, insondável tristeza. Entre essa refulgência ascendente e a escuridão +inferior, permanecera o Anjo imóvel, esperando, com as asas fechadas. E a alma +de Genebro perfeitamente sentia que estava ali, esperando tambêm, entre o +Purgatório e o Paraíso. Então, súbitamente, nas alturas, apareceram os dois +imensos pratos duma Balança—um que rebrilhava como diamante e era reservado às +suas Boas Obras, outro, negrejando mais que carvão, para receber o pêso das +suas Obras Más. Entre os braços do Anjo, a alma de Genebro estremeceu... Mas o +prato diamantino começou a descer lentamente. Oh! contentamento e glória! +Carregado com as suas Boas Obras, êle descia, calmo e majestoso, espargindo +claridade. Tam pesado vinha, que as suas grossas cordas se retesavam, rangiam. +E entre elas, formando como uma montanha de neve, alvejavam magníficamente as +suas virtudes evangélicas. Lá estavam as incontáveis esmolas<span class="pn">{149}</span> que semeára +no mundo, agora desabrochadas em alvas flores, cheias de aroma e de luz.</p> + +<p>A sua humildade era um cimo, aureolado por um clarão. Cada uma das suas +penitências scintilava mais límpidamente que cristais puríssimos. E a sua +oração perene subia e enrolava-se em tôrno das cordas, à maneira duma +deslumbrante névoa de oiro.</p> + +<p>Sereno, tendo a majestade de um astro, o prato das Boas Obras parou, +finalmente, com a sua carga preciosa. O outro, lá em cima, não se movia tambêm, +negro, da côr do carvão, inútil, esquecido, vazio. Já das profundidades, +sonoros bandos de Serafins voavam, balançando palmas verdes. O pobre +franciscano ia entrar triunfalmente no Paraíso—e aquela era a milícia divina +que o acompanharia cantando. Um frémito de alegria passou na luz do Paraíso, +que um Santo novo enriquecia. E a alma de Genebro anteprovou as delícias da +Bemaventurança.</p> + +<p>Súbitamente, porêm, no alto, o prato negro oscilou como a um pêso inesperado +que sôbre êle caísse! E começou a descer, duro, temeroso, fazendo uma sombra +dolente através da celestial claridade. ¿Que Má Acção de Genebro trazia êle, +tam miuda que nem se avistava, tam pesada que forçava o prato luminoso a subir, +remontar ligeiramente como se<span class="pn">{150}</span> a montanha de Boas Acções, que nele +transbordavam, fôssem um fumo mentiroso? Oh! mágoa! oh! desesperança! Os +Serafins recuavam, com as asas trementes. Na alma de Frei Genebro correu um +arrepio imenso de terror. O negro prato descia, firme, inexorável, com as +cordas retêsas. E na região que se cavava sob os pés do Anjo, cinzenta, de +inconsolável tristeza, uma massa de sombra, molemente e sem rumor, arfou, +cresceu, rolou, como a onda duma maré devoradora.</p> + +<p>O prato, mais triste que a noite, parára—parára em pavoroso equilíbrio com +o prato que rebrilhava. E os Serafins, Genebro, o Anjo que o trouxera, +descobriram, no fundo daquele prato que inutilizava um Santo, um porco, um +pobre porquinho com uma perna bárbaramente cortada, arquejando, a morrer, numa +pôça de sangue... O animal mutilado pesava tanto na balança da justiça como a +montanha luminosa de virtudes perfeitas!</p> + +<p>Então, das alturas, surgiu uma vasta mão, abrindo os dedos que faiscavam. +Era a mão de Deus, a sua mão direita, que aparecera a Genebro na escada de +Santa Maria dos Anjos, e que agora supremamente se estendia para o acolher ou +para o repelir. Toda a luz e toda a sombra, desde o Paraíso fulgente ao +Purgatório crepuscular, se contraíram num recolhimento de inexprimível amor e +terror. E na<span class="pn">{151}</span> estática mudez, a vasta mão, através das alturas, lançou um +gesto que repelia...</p> + +<p>Então o Anjo, baixando a face compadecida, alargou os braços e deixou caír, +na escuridão do Purgatório, a alma de Frei Genebro.<span class="pn">{152}</span> <span class="pn">{153}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION000700">ADÃO E EVA NO PARAÍSO</a> </h1> + + +<h2><a name="SECTION000710">I</a> </h2> + +<p>Adão, Pai dos Homens, foi criado no dia 28 de Outubro, às 2 horas da +tarde...</p> + +<p>Assim o afirma, com majestade, nos seus <em>Annales Veteris et Novi +Testamento</em>, o muito douto e muito ilustre Usserius, Bispo de Meath, +Arcebispo de Armagh, e Chanceler-Mór da Sé de S. Patrício.</p> + +<p>A Terra existia desde que a Luz se fizera, a 23, na manhã de todas as +manhãs. Mas já não era essa Terra primordial, parda e mole, ensopada em águas +barrentas, abafada numa névoa densa, erguendo, aqui e alêm, rígidos troncos +duma só fôlha e dum só rebento, muito solitária, muito silenciosa, com uma vida +toda escondida, apenas surdamente revelada pelo remexer de bichos obscuros, +gelatinosos,<span class="pn">{154}</span> sem côr e quási sem forma, crescendo no fundo dos lôdos. +Não! agora, durante os dias genesíacos de 26 e 27, toda ela se completára, se +abastecera e se enfeitára, para acolher condignamente o Predestinado que vinha. +No dia 28 já apareceu perfeita, <em>perfecta</em>, com as provisões e alfaias +que a Bíblia enumera, as ervas verdes de espiga madura, as árvores providas do +fruto entre a flor, todos os peixes nadando nos mares resplandecentes, todas as +aves voando pelos ares aclarados, todos os animais pastando sôbre as colinas +viçosas, e os regatos regando, e o fogo armazenado no seio da pedra, e o +cristal, e o ónix, e o oiro muito bom do país de Hevilath...</p> + +<p>Nesses tempos, meus amigos, o Sol ainda girava em tôrno da Terra. Ela era +môça e formosa e preferida de Deus. Êle ainda se não submetera à imobilidade +augusta que lhe impôs mais tarde, entre amuados suspiros da Igreja, mestre +Galileu, estendendo um dedo do fundo do seu pomar, rente aos muros do Convento +de S. Mateus de Florença. E o sol, amorosamente, corria em volta da Terra, como +o noivo dos <em>Cantares</em>, que, nos lascivos dias da ilusão, sôbre o +outeiro de mirra, sem descanso e pulando mais levemente que os gamos de Gaalad, +circundava a Bem-Amada, a cobria com o fulgor dos seus olhos, coroado de +sal-gêma, a faiscar de fecunda<span class="pn">{155}</span> impaciência. Ora desde essa alvorada do +dia 28, segundo o cálculo majestático de Usserius, o Sol, muito novo, sem +sardas, sem rugas, sem falhas na sua cabeleira flamante, envolvera a terra, +durante oito horas, numa contínua e insaciada carícia de calor e de luz. Quando +a oitava hora scintilou e fugiu, uma emoção confusa, feita de medo e feita de +glória, perpassou por toda a Criação, agitando num frémito as relvas e as +frondes, arripiando o pêlo das feras, empolando o dorso dos montes, apressando +o borbulhar das nascentes, arrancando dos pórfiros um brilho mais vivo... Então +numa floresta muito cerrada e muito tenebrosa, certo Ser, desprendendo +lentamente a garra do galho de árvore onde se empoleirára toda essa manhã de +longos séculos, escorregou pelo tronco comido de hera, pousou as duas patas no +sólo que o musgo afofava, sôbre as duas patas se firmou com esforçada energia, +e ficou erecto, e alargou os braços livres, e lançou um passo forte, e sentiu a +sua dissemelhança da Animalidade, e concebeu o deslumbrado pensamento do que +era, e verdadeiramente <em>foi</em>! Deus, que o amparára, nesse instante o +criou. E vivo, da vida superior, descido da inconsciência da árvore, Adão +caminhou para o Paraíso.</p> + +<p>Era medonho. Um pêlo crespo e luzidio cobria todo o seu grosso, maciço +corpo, rareando<span class="pn">{156}</span> apenas em tôrno dos cotovelos, dos joelhos rudes, onde o +coiro aparecia curtido e da côr de cobre fosco. Do achatado, fugidio crânio, +vincado de rugas, rompia uma guedelha rala e ruiva, tufando sôbre as orelhas +agudas. Entre as rombas queixadas, na fenda enorme dos beiços trombudos, +estirados em focinho, as prêsas reluziam, afiadas rijamente para rasgar a febra +e esmigalhar o osso. E sob as arcadas sombriamente fundas, que um felpo hirsuto +orlava como um silvado orla o arco duma caverna, os olhos redondos, dum amarelo +de ámbar, sem cessar se moviam, tremiam, esgazeados de inquietação e de +espanto... Não, não era belo, nosso Pai venerável, nessa tarde de Outono, +quando Jeová o ajudou com carinho a descer da sua Árvore! E todavia, nesses +olhos redondos, de fino ámbar, mesmo através do tremor e do espanto, rebrilhava +uma superior beleza—a Energia Inteligente que o ia trôpegamente levando, sôbre +as pernas arqueadas, para fóra da mata onde passára a sua manhã de longos +séculos a pular e a guinchar por cima dos ramos altos.</p> + +<p>Mas (se os Compêndios de Antropologia nos não iludem) os primeiros passos +humanos de Adão não foram logo atirados, com alacridade e confiança, para o +destino que o esperava entre os quatro rios do Éden. Entorpecido, envolvido +pelas influências da Floresta,<span class="pn">{157}</span> ainda despega com custo a pata de entre o +folhoso chão de fetos e begónias, e gostosamente se roça pelos pesados cachos +de flores que lhe orvalham o pêlo, e acaricia as longas barbas de lichen +branco, pendentes dos troncos de roble e de teca, onde gozára as doçuras da +irresponsabilidade. Nas ramagens que tam generosamente, através tam longas +idades, o nutriram e o embalaram, ainda colhe as bagas sumarentas, os rebentões +mais tenros. Para transpor os regatos, que por todo o bosque reluzem e +sussurram depois da sazão das chuvas, ainda se pendura duma rija liana, +entrelaçada de orquídeas, e se balança, e arqueia o pulo, com pesada +indolência. E receio bem que quando a aragem restolhasse pela espessura, +carregada com o cheiro morno e acre das fêmeas acocoradas nos cimos, o Pai dos +Homens ainda dilatasse as ventas chatas e soltasse do peito felpudo um grunhido +rouco e triste.</p> + +<p>Mas caminha... As suas pupilas amarelas, onde faisca o Querer, sondam, +esbugalhadas, através da ramaria, procuram para alêm o mundo que deseja e +receia, e a que sente já a zoada violenta, como toda feita de batalha e rancor. +E, à maneira que a penumbra das folhagens clareia, vai surgindo, dentro do seu +crânio bisonho, como uma alvorada que penetra numa toca, o sentimento +das<span class="pn">{158}</span> Formas diferentes e da Vida diferente que as anima. Essa rudimentar +compreensão só trouxe a nosso Pai venerável turbação e terror. Todas as +Tradições, as mais orgulhosas, concordam em que Adão, na sua entrada inicial +pelas planícies do Éden, tremeu e gritou como criancinha perdida em arraial +turbulento. E bem podemos pensar que, de todas as Formas, nenhuma o apavorava +mais que a dessas mesmas árvores onde vivera, agora que as reconhecia como +seres tam dissemelhantes do seu Ser e imobilizadas numa inércia tam contrária à +sua Energia. Liberto da Animalidade, em caminho para a sua Humanização, o +arvoredo que lhe fôra abrigo natural e doce só lhe pareceria agora um cativeiro +de degradante tristeza. ¿E êsses ramos tortuosos, empecendo a sua marcha, não +seriam braços fortes que se estendiam para o empolgar, o repuxar, o reter nos +cimos frondosos? ¿Êsse ramalhado sussurro que o seguia, composto do +desassossêgo irritado de cada fôlha, não era a selva toda, num alvoroço, +reclamando o seu secular morador? De tam estranho medo nasceu, talvez, a +primeira luta do Homem com a Natureza. Quando um galho alongado o roçasse, +de-certo nosso Pai atiraria contra êle as garras desesperadas para o repelir e +lhe escapar. Nesses bruscos ímpetos quantas vezes se desequilibrou, e as suas +mãos se abateram<span class="pn">{159}</span> desamparadamente sôbre o sólo de mato ou rocha, de novo +precipitado na postura bestial, retrogradando à inconsciência, entre o clamor +triunfal da Floresta! Que angustioso esfôrço então para se erguer, recuperar a +atitude humana, e correr, com os felpudos braços despegados da terra bruta, +livres para a obra imensa da sua Humanização! Esfôrço sublime, em que ruge, +morde as raíses detestadas, e, ¿quem sabe? levanta já os olhos de ámbar +lustroso para os céus, onde, confusamente, sente Alguêm que o vem amparando—e +que na realidade o levanta.</p> + +<p>Mas, de cada um dêstes tombos modificantes, nosso Pai ressurge mais humano, +mais nosso Pai. E há já consciência, pressa da Racionalidade, nos ressoantes +passos com que se arranca ao seu limbo arboral, despedaçando as enrediças, +fendendo o bravio denso, despertando os tapires adormecidos sob cogumelos +monstruosos, ou espantando algum urso môço e tresmalhado que, de patas contra +um olmo, chupa, meio borracho, as uvas dêsse farto outono.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Emfim, Adão emerge da Floresta obscura:—e os seus olhos de ámbar vivamente +se cerram sob o deslumbramento em que o envolve o Éden.<span class="pn">{160}</span></p> + +<p>Ao fundo dessa encosta, onde parara, resplandecem vastas campinas (se as +Tradições não exageram) com desordenada e sombria abundância. Lentamente, +através, um rio corre, semeado de ilhas, ensopando, em fecundos e espraiados +remansos, as verduras onde já talvez cresce a lentilha e se alastra o arrozal. +Rochas de mármore rosado rebrilham com um rubor quente. De entre bosques de +algodoeiros, brancos como crespa espuma, sobem outeiros cobertos de magnólias, +dum esplendor ainda mais branco. Alêm a neve coroa uma serra com um radiante +nimbo de santidade, e escorre, por entre os flancos despedaçados, em finas +franjas que refulgem. Outros montes dardejam mudas labaredas. Da borda de +rígidas escarpas, pendem perdidamente, sôbre profundidades, palmeirais +desgrenhados. Pelas lagôas a bruma arrasta a luminosa moleza das suas rendas. E +o mar, nos confins do mundo, faiscando, tudo encerra, como um aro de +oiro.—Neste fecundo espaço toda a Criação se espaneja, com a fôrça, a graça, a +braveza vivaz duma mocidade de cinco dias, ainda quente das mãos do seu +Criador. Profusos rebanhos de auroques, de pelagem ruiva, pastam, +majestosamente, enterrados nas ervas tam altas que nelas desaparece a ovelha e +o seu anho. Temerosos e barbudos urus, brigando contra gigantescos<span class="pn">{161}</span> +veados-elefas, entrechocam cornos e galhos com o sêco fragor de robles que o +vento racha. Um bando de girafas rodeia uma mimosa a que vai trincando, +delicadamente, nos trémulos cimos, as folhinhas mais tenras. À sombra dos +tamarindos, repousam disformes rinocerontes, sob o vôo apressado de pássaros +que lhes catam serviçalmente a vermina. Cada arremêsso de tigre causa uma +debandada furiosa de ancas, e chifres, e clinas, onde, mais certo e mais leve, +se arqueia o pulo grácil dos antílopes. Uma rija palmeira verga toda ao pêso da +jibóia que nela se enrosca. Entre duas penedias, por vezes, aparece, numa +profusão de juba, a face magnífica de um leão que, serenamente, olha o sol, a +imensidade radiante. No remoto azul, enormes condores dormem imóveis, de asas +abertas, entre o sulco níveo e róseo das garças e dos flamingos. E em frente à +encosta, num alto, entre o matagal, passa, lenta e montanhosa, uma récua de +mastodontes, com a rude clina do dorso erriçada ao vento, e a tromba a +bambolear entre os dentes mais recurvos que foices.</p> + +<p>Assim vetustíssimas Crónicas contam o vetustíssimo Éden, que era nas +campinas do Eufrates, talvez na trigueira Ceilão, ou entre os quatro claros +rios que hoje regam a Húngria, ou mesmo nestas terras bemditas onde a nossa +Lisboa aquece a sua velhice ao<span class="pn">{162}</span> soalheiro, cansada de proezas e mares. +¿Mas quem pode garantir êstes bosques e êstes bichos, pois que desde êsse dia +25 de Outubro, que inundava o Paraíso de esplendor outonal, já passaram, muito +breves e muito cheios, sôbre o grão de pó que é o nosso mundo, mais de sete +vezes setecentos mil anos? Só parece certo que, diante de Adão apavorado, um +grande pássaro passou. Um pássaro cinzento, calvo e pensativo, com as penas +esguedelhadas como as pétalas de um crisântemo, que saltitava pesadamente sôbre +uma das patas, erguendo na outra, bem agarrado, um mólho de ervas e ramos. O +nosso Pai venerável, com a fusca face franzida, no doloroso esfôrço de +compreender, pasmava para aquele pássaro, que ao lado, sob o abrigo de azáleas +em flor, terminava muito gravemente a construção duma cabana! Vistosa e sólida +cabana, com o seu chão de greda bem alisado, galhos fortes de pinheiro e faia +formando estacas e traves, um seguro teto de relva sêca, e na parede de +enrediças bem liadas o desafôgo duma janela!... Mas o Pai dos Homens, nessa +tarde, ainda não compreendeu.</p> + +<p>Depois caminhou para o largo rio, desconfiadamente, sem se afastar da ourela +do bosque abrigador. Lento, farejando o cheiro novo dos gordos herbívoros da +planície, com os<span class="pn">{163}</span> punhos rijamente cerrados contra o peito peludo, Adão +vai arfando entre o apetite daquela resplandecente Natureza e o terror dos +seres nunca avistados que a atulham e atroam com tam fera turbulência. Mas +dentro dêle borbulha, não cessa, a nascente sublime, a sublime nascente da +Energia, que o impele a desentranhar da crassa bruteza, e a ensaiar, com +esforços que são semi-penosos porque são já semi-lúcidos, os Dons que +estabelecerão a sua supremacia sôbre essa Natureza incompreendida e o +libertarão do seu terror. Assim, na surprêsa de todas aquelas inesperadas +aparições do Éden, reses, pastagens, montes nevados, imensidades radiosas, Adão +solta roucas exclamações, gritos com que desafoga, vozes gaguejadas, em que por +instinto reproduz outras vozes, e brados, e toadas, e mesmo o reboliço das +criaturas, e mesmo o estrondo das águas despenhadas... E êstes sons ficam já na +escura memória de nosso Pai ligados às sensações que lhos arrancam:—de sorte +que o guincho áspero que lhe escapara ao topar um cangurú com a sua ninhada +embolsada no ventre, de novo lhe ressoará nos lábios trombudos quando outros +cangurús, fugindo dêle, adiante, se embrenhem na sombra negra das caneleiras. A +Bíblia, com a sua exageração oriental, cândida e simplista, conta que Adão, +logo na sua entrada pelo Éden, distribuiu nomes a todos<span class="pn">{164}</span> os animais, e a +todas as plantas, muito definitivamente, muito eruditamente, como se compuzesse +o Lexicon da Criação, entre Buffon, já com os seus punhos, e Linneu, já com os +seus óculos. Não! eram apenas grunhidos, roncos mais verdadeiramente augustos, +porque todos êles se plantavam na sua consciência nascente como as tôscas +raízes dessa Palavra pela qual verdadeiramente se humanou, e foi depois, sôbre +a terra, tam sublime e tam burlesco.</p> + +<p>E bem podemos pensar, com orgulho, que ao descer a borda do rio Edénico, +nosso Pai, compenetrado do que <em>era</em>, e quanto diverso dos outros seres! +já se afirmava, se individualizava, e batia no peito sonoro, e rugia +soberbamente:—<em>Eheu! Eheu!</em> Depois, alongando os olhos reluzentes por +aquela longa água que corria vagarosamente para alêm, já tenta exteriorizar o +seu espantado sentimento dos espaços, e rosna com pensativa cubiça:—<em>Lhlâ! +Lhlâ!</em></p> + + +<h2><a name="SECTION000720">II</a> </h2> + +<p>Calmo, magníficamente fecundo, corria êle, o nobre rio do Paraíso, por entre +as ilhas, quási afundadas sob o pêso rijo do rijo arvoredo todas<span class="pn">{165}</span> +fragrantes, e atroadas pelo clamor das cacatuas. E Adão, trotando pesadamente +pela margem baixa, já sente a atracção das águas disciplinadas que andam e +vivem—essa atracção que será tam forte nos seus filhos, quando no rio +descobrirem o bom servidor que desaltera, estruma, rega, mói e acarreta. Mas +quantos terrores especiais ainda o arrepiam, o atiram com espavoridos pulos +para o abrigo dos salgueiros e dos choupos! Noutras ilhas, de areia fina e +rosada, preguiçam pedregosos crocodilos, achatados sôbre o ventre, que arfam +molemente, escancarando as fundas goelas na tépida preguiça da tarde, embebendo +todo o ar com um cheirinho de almíscar. Por entre os canaviais, coleam e +refulgem gordas cobras de água, de colo alteado, que fitam Adão com furor, +dardejando e silvando. E, para nosso Pai que nunca as avistara, certamente +seriam pavorosas as tartarugas imensas dêsse comêço do Mundo, pastando, com +arrastada mansidão, através dos prados novos. Mas uma curiosidade o atrai, +quási resvala na riba lodosa, onde a franja de água roça e marulha. Na largueza +do rio espraiado, uma longa e negra fila de auroques, serenamente, com os +cornos altos e a espessa barba a flutuar, nada para a outra margem, campina +coberta de louras messes onde talvez já amaduram as espigas sociáveis do +centeio e do milho. Nosso Pai<span class="pn">{166}</span> venerável olha a fila lenta, olha o rio +lustroso, concebe o ennevoado desejo de tambêm atravessar para aqueles longes +em que as ervas rebrilham, e arrisca a mão na corrente—na rija corrente que +lha repuxa, como para o atrair e iniciar. Êle grunhe, arranca a mão—e segue, +com ásperas patadas, esmagando, sem mesmo lhes sentir o perfume, os frescos +morangos silvestres que ensangùentam a relva... Em breve pára, considerando um +bando de aves alcandoradas numa penedia toda riscada de guanos, que espreitam, +com o bico atento, para baixo, onde as águas apertadas refervem. ¿Que espreitam +elas, as brancas garças? Lindos peixes em cardume, que rompem contra a levada, +e pulam, lampejando nas espumas claras. E bruscamente, num desabrido abanar de +asas brancas, uma garça, depois outra, fende o céu alto, levando, atravessado +no bico, um peixe que se estorce e reluz. Nosso Pai venerável coça a ilharga. A +sua crassa gula, entre aquela abundância do rio, tambêm apetece uma prêsa: e +atira a garra, colhe, no seu vôo soante, cascudos insectos que farisca e +trinca. Mas nada certamente assombrou o Primeiro Homem como um grosso tronco de +árvore meio apodrecido, que boiava, descia na corrente, levando sentados numa +ponta, com segurança e graça, dois bichos sedosos, louros, de focinho +esperto,<span class="pn">{167}</span> e fôfas caudas vaidosas. Para os seguir, os observar, +ansiosamente correu, enorme e desengonçado. E os seus olhos faiscavam, como se +já compreendesse a malícia daqueles dois bichos, embarcados num toro de árvore, +e viajando, com a macia frescura da tarde, no rio do Paraíso.</p> + +<p>No entanto, a água que êle costeava era mais baixa, turva e tarda. Já na sua +largueza não verdejam ilhas, nem nela se molha a orla das fartas pastagens. +Para alêm, sem limite, fundidas nas neblinas, fogem descampadas solidões, de +onde rola um vento lento e húmido. Nosso Pai venerável enterrava as patas em +ribas moles, através de aluviões, de lixos silvestres, em que chapinavam, para +seu intenso horror, enormes rãs coaxando furiosamente. E o rio em breve se +perdeu numa vasta lagôa, escura e desolada, resto das grandes águas sôbre que +flutuara o Espírito de Jeová. Uma tristeza humana apertou o coração de nosso +Pai. Do meio de grossas bôlhas, que se empolavam na estanhada lisura da água +triste, constantemente surdiam horrendas trombas, a escorrer de limos verdes, +que bufavam ruidosamente, logo se afundavam, como repuxadas pelos lôdos +viscosos. E quando de entre os altos e negros canaviais, manchando a +vermelhidão da tarde, se elevou, se alargou sobre êle uma nuvem +estridente<span class="pn">{168}</span> de moscardos vorazes, Adão foge, estonteado, trilha saibros +pegajosos, rasga o pêlo na aspereza dos cardos brancos que o vento estorce, +resvala por uma encosta de cascalho e seixo, e pára em areia fina. Arqueja: as +suas longas orelhas remexem, escutando, para alêm das dunas, um vasto rumor que +rola e desaba e retumba... É o mar. Nosso Pai transpõe as pálidas dunas—e +diante dêle está o Mar!</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Então foi o pavor supremo. Com um pulo, batendo convulsamente os punhos no +peito, recúa até onde três pinheiros, mortos e sem rama, lhe oferecem o refúgio +hereditário. ¿Porque avançam assim para êle, sem cessar, numa inchada ameaça, +aqueles rolos verdes, com a sua clina de espuma, e se atiram, se esmigalham, +refervem, babujam rudemente a areia? Mas toda a outra vasta água permanece +imóvel, como morta, com uma grande mancha de sangue que lateja. Todo êsse +sangue caíu, de-certo, da ferida do sol, redonda e vermelha, sangrando em cima, +num céu dilacerado por fundos golpes já rôxos. Para alêm da névoa leitosa que +cobre as lagôas, dos charcos salgados, onde a marezia ainda chega e se espraia +muito longe, um monte flameja e fumega. E sempre diante de Adão, contra +Adão,<span class="pn">{169}</span> os verdes rolos da verde vaga avançam, e ribombam, e alastram a +praia de algas, de conchas, de gelatinas que alvejam lívidamente.</p> + +<p>Mas eis que todo o mar se povôa! E, encolhido contra o pinheiro, nosso Pai +venerável dardeja os olhos inquietos e trémulos, para aqui, para alêm—para os +rochedos cobertos de sargaço onde gordíssimas focas rebolam majestosamente; +para os repuxos de água, que ao largo esguicham até às nuvens rôxas e recáem +numa chuva radiante; para uma linda armada de búzios, imensos búzios alvos e +nacarados, vogando à bolina, circundando as penedias, com manobra elegante... +Adão pasma sem saber que estas são as Amonites, e que nenhum outro homem, +depois dêle, verá a luzida e rósea armada singrando nos mares dêste mundo. +Ainda êle a admira, talvez com a impressão inicial da beleza das cousas, quando +bruscamente, num tremor de sulcos brancos, toda a maravilhosa frota sossobra! +Com o mesmo salto mole, as focas tombam, trambulham na vaga funda. E um terror +passa, um terror levantado do mar, tam intenso que um bando de albatrozes, +muito seguro sôbre uma escarpa, bate, com azoados gritos, o vôo espavorido.</p> + +<p>Nosso Pai venerável aferra a mão a um galho de pinheiro, sondando, num +arrepio, a imensidão deserta. Então, ao longe, sob o<span class="pn">{170}</span> clarão enfiado do +sol que se esconde, um dorso imenso sai, lentamente, das águas, como uma +comprida colina, toda espetada de negras, agudas lascas de rocha. E avança! +Adiante um tumulto de bôlhas redemoinha e rebenta; e de entre elas emerge, por +fim, resfolegando cavamente, uma tromba disforme, de fauces entreabertas, onde +lampejam e se somem cardumes de peixes que os seus sorvos vem tragando...</p> + +<p>É um monstro, um pavoroso monstro marinho! E bem podemos supor que nosso +Pai, esquecendo toda a sua dignidade humana (ainda recente), trepou +desesperadamente ao pinheiro até onde os galhos findavam. Mas mesmo nesse +abrigo, os seus poderosos queixos batiam, num medo convulso, ante o horrífico +ser surgido das profundidades. Com um baque raspante, esmigalhando conchas, +seixos e galhos de coral, o monstro esbarra na areia, que fundamente escava e +sôbre que retesa as duas patas, mais grossas que troncos de teca, com as unhas +todas enrodilhadas de silvas marinhas. Da caverna das suas fauces, através dos +dentes terríficos, que os limos e musgos esverdeiam, sopra um bafo espesso de +fadiga ou de furor, tam forte que faz rodopiar as algas sêcas e os búzios +ligeiros. Entre as crostas pedregosas, que lhe couraçam a fronte, negrejam dois +cornos curtos e rombos. Os seus olhos, lívidos e<span class="pn">{171}</span> vítreos, são como duas +enormes luas mortas. A imensa cauda dentada arrasta pelo mar distante, e a cada +rabeio lento levanta uma tempestade.</p> + +<p>Por estas feições, pouco amáveis, já reconhecesteis o Ictiosaurio, o mais +horrendo dos cetáceos concebidos por Jeová. Era êle!—talvez o derradeiro, que +durara nas trevas oceânicas até êste dia memorável de 28 de Outubro, para que +nosso Pai entrevisse as origens da Vida. E agora está em frente de Adão, +ligando os tempos vélhos aos tempos novos—e, com as escamas do dorso +assanhadas, muge devastadoramente. Nosso Pai venerável, enroscado ao tronco +alto, guincha de vivo horror... E eis que, do lado dos charcos ennevoados, um +silvo fende os céus, uivado e arremetido, como o de um áspero vento numa +garganta de serrania. O quê! Outro monstro?... Sim, o Plesiosaurio. É tambêm o +derradeiro Plesiosaurio que corre do fundo dos pântanos. E agora de novo se +trava, para assombro do primeiro Homem (e gôsto dos Paleontologistas) o combate +que foi a desolação dos pre-humanos dias da Terra. Lá aparece a fabulosa cabeça +do Plésio, terminada em bico de ave, bico de duas braças, mais agudo que o +dardo mais agudo, erguida sôbre um longuíssimo e esguio pescoço que ondula, +arqueia, esfusia, dardeja com pavorosa elegância! Duas barbatanas de +incomparável<span class="pn">{172}</span> rijeza veem movendo o seu disforme corpo, mole, glutinoso, +todo em rugas, manchado por uma lepra de fungos esverdinhados. E tam imenso é +assim rojando, com o pescoço empinado, que, diante da duna onde se levantam os +pinheiros que acoitam Adão, êle parece uma outra duna negra sustentando um +pinheiro solitário. Furiosamente avança.—E de repente é um horroroso tumulto +de mugidos, e sibilos, e choques ribombantes, e areias torvelinhando, e grossos +mares espadanando. Nosso Pai venerável salta dum pinheiro para outro pinheiro, +tremendo tanto que, com êle, tremem os rijos troncos. E quando se arrisca a +espreitar, ao recrescer dos bramidos, só percebe, na enrolada massa dos dois +monstros, através de uma névoa de espuma que os esguichos de sangue avermelham, +o bico do Plésio todo enterrado no ventre mole do Ictio, cuja cauda, erguida, +se estorce furiosamente na palidez dos céus espantados. De novo esconde +perdidamente a face, nosso Pai venerável! Um urro de monstruosa agonia rola na +praia. As pálidas dunas estremecem, as cavernas soturnas ressoam. Depois é uma +paz muito larga, em que o ruido do mar Oceano não é mais que um consolado +murmúrio de alívio. Adão espia, debruçado entre os galhos... O Plésio recuara +ferido para a tépida lama dos seus pântanos. E sôbre a<span class="pn">{173}</span> praia jaz o Ictio +morto, como uma colina onde a vaga da tarde mansamente se quebra.</p> + +<p>Então, nosso Pai venerável cautelosamente escorrega do seu pinheiro, e se +abeira do monstro. A areia, em redor, está medonhamente revôlta;—e por toda +ela, em lentos regos, em pôças escuras, o sangue, mal chupado, fumega. Tam +montanhoso é o Ictio, que Adão, erguendo a face assombrada, nem avista as puas +do monstro, erriçadas ao longo daquele alcantilado espinhaço, a que o bico do +Plésio arrancou escamas mais pesadas que lages. Mas, diante das mãos trementes +do Homem, estão os rasgões do ventre mole, de onde o sangue pinga, e gorduras +babam, e imensas tripas esfiadas escorrem, e pendem febras atassalhadas de +carne rosada... E as chatas ventas de nosso Pai venerável estranhamente se +alargam e farejam.</p> + +<p>Toda essa tarde êle caminhara, desde a Floresta, através do Paraíso, +chupando bagas, rilhando raízes, trincando os insectos de casca picante. Mas +agora o sol penetrou no mar—e Adão tem fome, nesse areal maninho, onde só +alvejam cardos que o vento estorce. Oh! aquela carne rija, sangrenta, ainda +viva, que exala um cheiro tam fresco e salino! As suas rombas mandíbulas +ruidosamente se escancaram num bocejo enfastiado e famélico... O Oceano arfa, +como adormecido... Então, irresistívelmente, Adão mergulha numa das feridas do +sáurio os<span class="pn">{174}</span> dedos que lambe e rechupa, moles de sangue e gorduras. O +espanto dum sabor novo imobiliza o homem frugal que vem das ervas e das frutas. +Depois, com um salto, arremete contra a montanha de abundância, e arranca uma +fêbra que trinca e traga, a grunhir, num furor, numa pressa, em que há o gôzo e +há o medo da primeira carne comida.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Tendo ceado assim postas cruas dum monstro marinho, nosso Pai venerável +sente uma grande sêde. São salgadas as pôças que na areia rebrilham. Pesado e +triste, com os beiços empastados de banha e de sangue, Adão, sob o calado +crepúsculo, atravessa as dunas, repenetra nas terras, rebuscando sôfregamente +água doce. Por toda a relva, nesses tempos de universal humidade, fugia e +chalrava um regato. Em breve, estendido numa riba lodosa, Adão bebeu +consoladamente, em fundos sorvos, sob o vôo espantado de moscas fosforescentes +que se lhe prendiam na guedelha.</p> + +<p>Era junto dum bosque de carvalhos e faias. A noite, que já se adensara, +ennegrecia um chão todo de plantas, onde a malva se encostava à hortelã, e a +salsa ao funcho ligeiro. Nessa clareira fresca, penetrou nosso Pai venerável, +estafado com a marcha e os espantos daquela tarde do Paraíso. E apenas se +estendera<span class="pn">{175}</span> na alfombra cheirosa, com a hirsuta face pousada sôbre as +palmas unidas, os joelhos colhidos contra o ventre distendido como um tambor, +mergulhou num sono como êle nunca dormira—todo povoado de sombras moventes, +que eram aves construindo uma casa, patas de insectos tecendo uma teia, dois +bichos vogando nas águas rolantes.</p> + +<p>Ora conta a Lenda que então, em tôrno do Primeiro Homem adormecido, +começaram a surdir, por entre o mato baixo, focinhos fariscantes, finas orelhas +espetadas, olhinhos reluzindo como botões de azeviche, e espinhaços inquietos +que a emoção arqueava—emquanto que, dos cimos dos carvalhos e faias, num +abafado frémito de asas, se debruçavam bicos recurvos, bicos retesos, bicos +bravios, bicos pensativos, todos alvejando na claridade delgada da lua, que +subia por trás dos montes, e banhava as frondes altas. Depois, à orla da +clareira, uma hiena apareceu, coxeando, miando com lástima. Através da campina +trotaram dois lobos, esgalgados, famélicos, com os verdes olhos acesos. Os +leões não tardaram, com as riais faces erguidas, soberanamente enrugadas, numa +profusão de jubas flamantes. Em confusa manada, que chegava bufando, os cornos +dos auroques entrechocavam com impaciência os galhos palmares das renas. Todos +os pêlos se<span class="pn">{176}</span> arrepiaram quando o tigre e a pantera negra, ondulando +calada e aveludadamente, resvalaram, com as línguas pendentes e vermelhas como +coalhos de sangue. Dos vales, das serranias, das fragas, outros acudiam, numa +pressa tam anciosa, que os horrendos cavalos primitivos se empinavam por sôbre +os cangurus, e a tromba do hipopótamo, a escorrer de limos, empurrava as ancas +lentas do dromedário. Entre as patas e os cascos apinhados coleavam em aliança +o furão, a sardonisca, a doninha, a cobra fulgente que engole a doninha, e o +alegre manguço que assassina a cobra. Um bando de gazelas tropeçava, magoando +as pernas finas, contra a crosta dos crocodilos, que subiam em fila da borda +das lagôas, de goelas preparadas e a gemer. Já toda a planície arfava, sob a +lua, no mole remexer de dorsos apertados, de onde se erguia, ora o pescoço da +girafa, ora o corpo da jibóia, como mastros naufragados, balançados entre +vagas. E por fim, abalando o sólo, enchendo o céu, com a tromba enrolada entre +os dentes recurvos, assomou o rugoso mastodonte.</p> + +<p>Era toda a Animalidade do Paraíso, que, sabendo o Primeiro Homem adormecido, +sem defesa, num ermo bosque, corria, na imensa esperança de o destruir e +eliminar da terra a Fôrça Inteligente, destinada a submeter a<span class="pn">{177}</span> Fôrça +Bruta. Mas, naquela pavorosa turba que fumegava, se atropelava à borda da +clareira, onde Adão dormia sôbre a hortelã e a malva, nenhuma fera avançava. Os +longos dentes reluziam, feramente arreganhados; todos os cornos repontavam; +cada garra saída dilacerava com ânsia a terra mole; e os bicos, de cima das +ramas, terçavam os fios da lua com bicadas famintas.... Mas nem ave descia, nem +fera avançava,—porque ao lado de Adão velava uma Figura séria e branca, de +asas brancas fechadas, os cabelos presos num aro de estrêlas, o peito guardado +numa couraça de diamante, e as duas refulgentes mãos apoiadas ao punho duma +espada que era de lume—e vivia.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>A aurora despontou, com ardente pompa, comunicando à terra alegre, à terra +braviamente alegre, à terra ainda sem andrajos, à terra ainda sem sepulturas, +uma alegria superior, mais grave, religiosa e nupcial. Adão acordou: e, batendo +as fuscas pálpebras, na surprêsa do seu acordar humano, sentiu sôbre a ilharga +um pêso que era macio e que era doce. Nesse terror que, desde as árvores, não +desamparava o seu coração, pulou e com tam ruidoso pulo, que, pela selva, os +melros, os rouxinóis, as toutinegras, todos os passarinhos<span class="pn">{178}</span> de festa e de +amor, despertaram e romperam num canto de congratulações e de esperanças.—E, +oh maravilha! diante de Adão, e como despegado dêle, estava outro Ser a êle +semelhante, mas mais esbelto, suavemente coberto dum pêlo mais sedoso, que o +contemplava com largos olhos lustrosos e líquidos. Uma côma ruiva, dum ruivo +tostado, rolava, em espessas ondas, até às suas ancas arredondadas numa +plenitude harmoniosa e fecunda. De entre os braços peludinhos, que cruzara, +surdiam, abundantes e gordos, os dois peitos da côr do medronho, com uma +penugem crespa orlando o bico, que se enristava, entumecido. E roçando, num +roçar lento, num roçar muito doce, os joelhos pelados, todo aquele sedoso e +tenro Ser se ofertava com uma submissão pasmada e lasciva. Era Eva... Eras tu, +Mãe Venerável!</p> + + +<h2><a name="SECTION000730">III</a> </h2> + +<p>Então começaram, para nossos Pais, os dias abomináveis do Paraíso.</p> + +<p>O seu constante e desesperado esfôrço foi sobreviver—no meio duma Natureza +que, sem cessar e furiosamente, tramava a sua destruição.<span class="pn">{179}</span> E Adão e Eva +passaram êsses tempos, que os poemas Semíticos celebram como Inefáveis—sempre +a tremer, sempre a ganir, sempre a fugir! A terra ainda não era uma obra +perfeita: e a Divina Energia, que a andava compondo, incessantemente a +emendava, numa tam móbil inspiração, que em sítio coberto ao alvorecer por uma +floresta, à noite se espelhava uma lagôa onde a Lua, já doente, vinha estudar a +sua palidez. Quantas vezes nossos Pais, repousando no pendor de um outeiro +inocente, entre o serpol e o rosmaninho (Adão com a face deitada sôbre a côxa +de Eva, Eva com dedos ágeis catando o pêlo de Adão) foram sacudidos pela +encosta amena como por um dorso irritado, e rolaram, embrulhados, entre o +ribombo, e a labareda, e a fumarada, e a cinza quente do vulcão que Jeová +improvisara! Quantas noites escaparam, uivando, dalguma abrigada caverna, +quando já sôbre ela corria um grande mar inchado que bramava, se desenrolava, +ficava fervendo entre as rochas, com negras focas mortas a boiar. Ou então era +o chão, o chão seguro, já social e fertilizado para as searas sociáveis, que de +repente rugia como uma fera, escancarava uma insondável goela, e tragava +rebanhos, prados, nascentes, benéficos cedros com todas as rôlas que na sua +rama arrulhavam.</p> + +<p>Depois eram as chuvas, as longas chuvas<span class="pn">{180}</span> Edénicas, desabando em jorros +clamorosos, durante alagados dias, durante torrentosas noites, tam +desabaladamente que do Paraíso, vasto charco barrento, apenas apareciam as +pontas do arvoredo afogado, e os cimos dos montes atulhados de bichos transidos +que bramiam no terror das águas soltas. E nossos Pais, refugiados nalguma +erguida fraga, gemiam lamentavelmente, com regatos a escorrer dos ombros, com +ribeiras a escorrer dos pés, como se o barro novo de que Jeová os fizera se +andasse já desfazendo.</p> + +<p>E mais terríficas eram as estiagens. Oh! o incomparável tormento das sêcas +no Paraíso! Lentos dias tristes, após lentos dias tristes, a imensa brasa do +sol candente coriscava furiosamente num céu côr de cobre, em que o ar baço e +grosso crepitava e arfava. Os montes estalavam, gretados: e as planícies +desapareciam sob uma denegrida camada de fios retorcidos, ennovelados, rijos +como arames, que eram os restos das verdes pastagens. Toda a tisnada folhagem +rolava nos ventos abrasados, com rugidora restolhada. O leito dos rios chupados +tinha a rigidez de ferro fundido. O musgo escorregava das rochas, como uma pele +sêca que se despega descobrindo largos ossos. Cada noite um bosque ardia, +fogueira estralejante, de lenha ressequida, escaldando mais a abóbada do forno +inclemente.<span class="pn">{181}</span> Todo o Éden andava coberto das revoadas de abutres e corvos, +porque, com tanto animal morto de fome e de sêde, abundava a carne pôdre. No +rio, a água que restava mal corria, empoçada pela massa fervilhante de cobras, +rãs, lontras, tartarugas, refugiadas naquele derradeiro veio, lodoso e todo +morno. E nossos Pais veneráveis, com as magras costelas a arquejar contra o +pêlo crestado, a língua pendida e mais dura que cortiça, erravam de fonte em +fonte, a sorver desesperadamente alguma gota que ainda brotasse, gota rara, que +assobiava, ao caír, sobre as lages esbraseadas...</p> + +<p>E assim Adão e Eva, fugindo do Fogo, fugindo da Água, fugindo da Terra, +fugindo do Ar, encetavam a vida no Jardim de Delícias.</p> + +<p>E no meio de tantos perigos, constantes e flagrantes, era necessário comer! +Ah! Comer—que portentosa emprêsa para nossos Pais veneráveis! Sobretudo desde +que Adão (e depois Eva, por Adão iniciada) tendo provado os deleites fatais da +carne, já não encontravam sabor, nem fartura, nem decência, nos frutos, nas +raízes, e nos bagos do tempo da sua Animalidade. Certamente, as boas carnes não +faltavam no Paraíso. Delicioso seria o salmão primitivo—mas nadava alegremente +nas águas rápidas. Saborosa seria a galinhola, ou o faisão rutilante, nutridos +com os grãos que<span class="pn">{182}</span> o Criador considerara bons—mas voavam nos céus, em +triunfal segurança. O coelho, a lebre—que fugas ligeiras no mato cheiroso!... +E nosso Pai, nesses dias cândidos, não possuia o anzol nem a seta. Por isso, +sem cessar rondava em tôrno das lagôas, nas ribas do mar, onde casualmente +encalhava, boiando, algum cetáceo morto. Mas êsses achados de abundância eram +raros—e o triste casal humano, nas suas marchas famintas pela borda das águas, +só conquistava, aqui e alêm, na rocha ou na areia revôlta, algum feio +caranguejo em cuja dura casca os seus beiços se esgaçavam. Essas solidões +marinhas andavam tambêm infestadas por bandos de feras esperando, como Adão, +que a vaga rolasse os peixes vencidos em borrasca ou batalha. E quantas vezes, +nossos Pais, já com a garra cravada numa posta de foca ou golfinho, fugiam +desconsoladamente, sentindo o passo fôfo do horrendo speleo, ou o bafo dos +ursos brancos, bamboleando pelo branco areal, sob a branca indiferença da lua! +</p> + +<p>De-certo, a sua sciência hereditária de trepar às arvores socorria nossos +Pais nesta conquista da prêsa. Que, sob as ramarias da caneleira de onde êles, +assolapadamente, espreitavam, aparecesse algum cabrito desgarrado, ou uma +tartaruga môça e bisonha se arrastasse para a erva miuda—e eis o +repasto<span class="pn">{183}</span> seguro! Num relance, o cabrito ficava atassalhado, todo o seu +sangue chupado em sorvos convulsos: e Eva, nossa Mãe forte, guinchando +sombriamente, arrancava, uma a uma, de entre a casca, as patas da tartaruga... +Mas quantas noites, depois de jejuns angustiosos, se achavam os Eleitos da +Terra forçados a afugentar a hiena, com rijos brados, através das clareiras, +para lhe roubar um osso fetidamente babujado, que era já o sobejo de um leão +farto! E dias piores sucediam, em que a fome reduzia nossos Pais a retrogradar +à desgostosa frugalidade do tempo da Árvore, às ervas, aos rebentos, às raízes +amargas—conhecendo assim, entre a abundância do Paraíso, a primeira forma da +Miséria!</p> + +<p>E, através dêstes trabalhos, não os desamparava o terror das feras! Porque, +se Adão e Eva comiam os bichos fracos e fáceis, eram tambêm uma prêsa apetecida +por todos os brutos superiores. Comer Eva, tam redonda e carnuda, foi de-certo +o sonho de muito tigre nos juncais do Paraíso. Quanto urso, mesmo ocupado a +roubar favos de mel num escavado tronco de roble, não se deteve, e se balançou, +e lambeu o focinho numa gula mais fina, ao avistar, através da ramaria, num +rebrilho errante de sol, o sombrio corpanzão de nosso Pai venerável! E nem só o +perigo vinha das hordas esfaimadas dos carnívoros, mas ainda<span class="pn">{184}</span> dos lentos +e fartos herbívoros, o auroque, o urus, o cervo elefas, que alegremente +escorneariam e espesinhariam nossos Pais, por estupidez, dissemelhança de raça +e cheiro, emprêgo da vida ociosa. E acresciam ainda os que matavam para não +serem mortos—porque Medo, Fome e Furor, foram as leis da vida no Paraíso.</p> + +<p>Certamente nossos Pais eram tambêm ferozes, de tremenda fôrça, e perfeitos +na arte salvadora de trepar aos cimos frondosos. Mas o leopardo pulava de ramo +em ramo, sem rumor, com uma destreza mais felina e segura! A jibóia furava com +a cabeça até aos galhos extremos do mais levantado cedro para colher os +macacos—e bem poderia abocar Adão, com aquela obtusa incapacidade que sempre +as jibóias tiveram de distinguir, sob a similitude das formas, a diversidade +dos méritos. ¿E que valiam as garras de Adão, mesmo aliadas às garras de Eva, +contra êsses pavorosos leões do Jardim de Delícias que a Zoologia, ainda hoje +arrepiada, chama o <em>Leo Anticus</em>? ¿Ou contra a hiena-spelea tam ousada, +que, nos primeiros dias do Génesis, os Anjos, quando desciam ao Paraíso, +caminhavam sempre com as asas arregaçadas, para que ela, saltando de entre dos +bambus, lhes não arrancasse as penas refulgentes? ¿Ou contra os cães, os +horrendos cães do Paraíso, que atacando em<span class="pn">{185}</span> cerradas e ululantes hostes, +foram, nesses começos do Homem, os piores inimigos do Homem?</p> + +<p>E entre toda esta bicharia adversa, Adão não contava um aliado. Os seus +próprios parentes, os Antropóides, invejosos e farçantes, o apedrejavam com +enormes côcos. Só um animal, e formidável, conservava pelo Homem uma majestosa +e pachorrenta simpatia. Era o Mastodonte. Mas a ennevoada Inteligência de nosso +Pai ainda, nesses dias Edénicos, não compreendia a bondade, a justiça, o +serviçal coração do paquiderme admirável. Por isso, certo da sua fraqueza e do +seu isolamento, êle viveu, durante êsses trágicos anos, num ansiado terror. Tam +ansiado e longo, que o seu arrepio, como uma longa ondulação, se perpètuou por +toda a sua descendência—e é o vélho medo de Adão que nos torna inquietos, +quando atravessamos a mata mais segura na solidão crepuscular.</p> + +<p>E depois consideremos que ainda restavam pelo Paraíso, entre bichos de +formas racionais, polidas, já preparadas para a prosa nobre de Mr. de Buffon, +alguns dos grotescos monstros que desonraram a Criação antes da madrugada +purificadora de 25 de Outubro. De-certo Jeová poupou a Adão o degradante horror +de viver no Paraíso em companhia dessa escandalosa avantesma a que os +Paleontologistas,<span class="pn">{186}</span> assombrados, deram o nome de <em>Iguanodão</em>! Na +véspera do advento do Homem, Jeová, muito caridosamente, afogou todos os +Iguanodões nos lôdos de um pântano, a um canto escondido do Paraíso, onde hoje +se estende a Flandres. Mas Adão e Eva ainda conheceram os Pterodactilos. Oh! +estes Pterodactilos!... Corpos de Jacaré, escamosos e penugentos; duas +lúgubres, negras, carnudas asas, de morcego: um bico disparatado, mais grosso +que o corpo, tristonhamente caído, erriçado de centenas de dentes, finos como +os duma serra. E não voava! Descia, de asas moles, e mudas, e nelas abafava a +prêsa como num pano viscoso e gelado, para a retalhar toda com os estalados +golpes das mandíbulas fétidas. E êste funambulesco avejão enturvava o céu do +Paraíso com a mesma abundância com que os melros ou as andorinhas cruzam os +santos ares de Portugal. Os dias de nossos Pais veneráveis foram por êles +torturados;—e nunca o seu pobre coração tremia tanto como quando, de alêm dos +montes, se vinha despenhado, com sinistro estridor de asas e bicos, a revoada +dos Pterodactilos.</p> + +<p>¿Como sobreviveram nossos Pais, neste Jardim de Delícias? De-certo muito +faiscou e trabalhou a espada do Anjo que os guardava!<span class="pn">{187}</span></p> + +<p> </p> + +<p>Pois bem, meus amigos! A todos êstes furiosos seres deve o homem a sua +carreira triunfal. Sem os Sáurios, e os Pterodactilos, e a Hiena Spelea, e o +arrepiado terror que espalhavam, e a necessidade de ter, contra o seu ataque, +sempre bestial, uma defesa sempre racional—a Terra permaneceria um temeroso +Paraíso, onde erraríamos todos, desgrenhados e nus, chupando pela borda dos +mares as banhas cruas de monstros naufragados. Ao encolhido medo de Adão se +deve a supremacia da sua descendência. Foi o bicho perseguidor que o forçou a +subir aos cimos da Humanidade. E bem sabedores das Origens se mostraram os +poetas Mesopotâmicos do Génesis, nesses versículos subtis em que um animal, e o +mais perigoso, a Serpente, leva Adão, por amor de Eva, a colher o fruto do +Saber! Se não rugisse outrora o Leão das cavernas, não trabalhava hoje o Homem +das cidades—pois que a Civilização nasceu do desesperado esfôrço defensivo +contra o Inanimado e o Inconsciente. A Sociedade é realmente a obra da féra. +Que a Hiena e o Tigre, no Paraíso, começassem por acariciar lânguidamente o +ombro peludo de Adão com pata amiga—Adão ficaria irmão do Tigre e da Hiena, +partilhando as suas tocas, as suas prêsas, os seus ócios,<span class="pn">{188}</span> os seus gostos +bravios. E a Energia Inteligente, que o descera da Árvore, em breve se apagaria +dentro da sua bruteza inerte, como se apaga a faisca, mesmo entre galhos secos, +se um frio sôpro, vindo de um buraco escuro, não a estimula a viver, para +vencer a friagem e vencer a escuridão.</p> + +<p>Mas uma tarde (como ensinaria o exacto Usserius) saíndo Adão e Eva da +espessura dum bosque, um urso enorme, o Pai dos Ursos, apareceu diante dêles, +ergueu as negras patas, escancarou a goela sangrenta... Então, assim colhido, +sem refúgio, na apertada ânsia de defender a sua fêmea, o Pai dos Homens +arremessou contra o Pai dos Ursos o cajado a que se arrimava, um forte galho de +téca, arrancado na mata, que findava em lasca aguda... E o pau atravessou o +coração da féra.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Ah! Desde essa tarde bemdita houve verdadeiramente, sôbre a terra, um Homem. +</p> + +<p>Era já um Homem, e superior, quando lançou um passo espantado, e arrancou o +pau do seio do monstro estendido, e lhe mirou a ponta gotejante de sangue—com +a testa toda franzida, no afã de compreender. Os seus olhos resplandeceram, num +deslumbrado triunfo. Adão compreendera...<span class="pn">{189}</span></p> + +<p>Nem cuidou mais da boa carne do urso! Remergulhou na floresta, e toda a +tarde, emquanto a luz se arrastou pelas frondes, arrancou ramos aos troncos, +cautelosamente, destramente, para que as pontas quebrassem bem lascadas e +agudas. Ah! que soberbo estalar de hastes, pelo fundo bosque, através da +frescura e da sombra, para a obra da primeira Redenção! Selva amável, que foste +a primeira oficina, quem soubera onde jazes, na tua secular sepultura, tornada +negro carvão!... Quando da mata largaram, fumegando de suor, para recolher à +toca distante, nossos Pais veneráveis vergavam sob o pêso glorioso de dois +grossos mólhos de armas.</p> + +<p>E então não cessam mais os feitos do Homem. Ainda os corvos e os chacais não +tinham esburgado a carcassa do Pai dos Ursos—já nosso Pai racha uma ponta do +seu cajado vitorioso; entala na fenda um dêsses seixos afiados e bicudos, em +que por vezes se feriam as suas patas, descendo à beira dos rios; e segura o +fino estilhaço na racha com os lios, muito arrochados, de uma fibra de enrediça +sêca. E eis a lança! Como essas pedras não abundam, Adão e Eva ensangùentam as +garras, tentando fender os pedregões redondos de sílex em lascas curtas, que +venham perfeitas, com ponta e com gume, para rasgar, cravar. A pedra resiste, +pouco desejosa de<span class="pn">{190}</span> ajudar o Homem que, nos dias genesíacos do grande +Outubro, ela tentara suplantar (como contam as prodigiosas Crónicas de +Backun).—Mas de novo lampeja a face de Adão, numa idea que o sulca, como +faisca emanada da Eterna Sabedoria. Apanha um pedregulho, bate a rocha, arranca +a lasca... E eis o martelo!</p> + +<p>Depois, noutra tarde bemdita, costeando uma escura e bravia colina, +descobre, com aqueles seus olhos que já rebuscam e comparam, um calhau negro, +áspero, facetado, sombriamente luzidio. Pasma do seu pêso—e logo pressente +nele um maço superior, de decisiva rijeza. Com que alvoroço o leva agarrado +contra o peito, para martelar o sílex rebelde! Ao lado de Eva, que o espera à +beira do rio, logo malha rijamente sôbre a pederneira... E oh espanto! uma +fagulha salta, refulge, morre! Ambos recúam, se entreolham, num terror quási +sagrado! É um lume, um vivo lume, que êle assim arrancou com as suas mãos da +rocha bruta—semelhante ao lume vivo que dardeja de entre as nuvens. De novo +bate, a tremer. A scentelha brilha, a scentelha passa, e Adão remira e fareja o +escuro calhau. Mas não compreende. E pensativos, nossos Pais veneráveis sobem, +com os cabelos ao vento, para a sua caverna costumada, que é no pendor dum +cêrro, junto duma fonte borbulhando entre fétos.<span class="pn">{191}</span></p> + +<p>E aí, no seu retiro, Adão, com uma curiosidade onde lateja uma esperança, +novamente entala o sílex, grosso como uma abóbora, entre os calosos pés, e +recomeça a martelar, sob o bafo de Eva, que se debruça e arfa. Sempre a faúlha +salta, rebrilha na sombra, tam refulgente como aqueles lumes que agora +palpitam, olham, de alêm, das alturas. Mas êsses lumes permanecem, através da +negrura do céu e da noite, vivos, a espreitar, na sua radiância. E aquelas +estrelinhas da pedra ainda não tem vivido e já teem morrido... ¿Será o vento +que as leva, êle que tudo leva, vozes, nuvens e fôlhas ? Nosso Pai venerável, +fugindo do vento malévolo que ronda no monte, recúa até ao fundo mais abrigado +da caverna, onde se afôfam as camadas de feno muito sêco, que são o seu leito. +E de novo fere a pedra, despedindo scentelha apoz scentelha, emquanto Eva, +agachada, abriga com as mãos aqueles refulgentes e fugitivos seres. E eis que +dos fenos um fumosinho se eleva, e se engrossa, e se enrola, e através dêle, +vermelha, uma chama ressalta... É o Fogo! Nossos Pais fogem espavoridamente da +caverna, obscurecida por uma fumaraça cheirosa, onde flamejam alegres, +rutilantes línguas, que lambem a rocha. Acocorados à porta da toca, ambos +arquejam, no pasmo e terror da sua obra, com os olhos a chorar do fumo acre. +E,<span class="pn">{192}</span> mesmo através do susto e do espanto, sentem uma doçura muito nova que +os penetra e que vem daquela luz e vem daquele calor... Mas já o fumo se +escapou da caverna, o vento roubador o levou. As chamas rastejam, incertas, +azuladas: em breve só resta um borralho que descóra, se acinzenta, se abate em +cisco: e a derradeira faúlha corre, tremeluz, passa. O fogo morreu! Então, na +alma nascente de Adão, entra a dor duma ruína. Desesperadamente puxa os grossos +beiços e geme. ¿Saberá êle jàmais recomeçar o feito maravilhoso?... E é nossa +Mãe, já consoladora, que o consola. Com as suas rudes mãos comovidas, porque +realiza sôbre a terra a sua primeira obra, junta outro montão de fenos sêcos, +pousa entre êles o sílex redondo, toma o escuro calhau, bate rijamente, num +faúlhar de estrelinhas. E de novo o fumo rola, e de novo a chama refulge. Oh +triunfo! eis a fogueira, a fogueira inicial do Paraíso, e não casualmente +rebentada, mas acendida por uma clara Vontade, que agora para todo sempre, cada +noite e cada manhã, poderá repetir com segurança a façanha suprema!</p> + +<p>À nossa Mãe Venerável pertence então, na caverna, a doce e augusta tarefa do +Lume. Ela o cria, ela o nutre, ela o defende, ela o perpetúa. E, como mãe +deslumbrada, descobre cada dia, nesse resplandecente filho dos<span class="pn">{193}</span> seus +cuidados, uma virtude ou graça nova. Agora já Adão sabe que o <em>seu</em> fogo +espanta todas as féras e que no Paraíso existe emfim um buraco seguro, que é o +<em>seu</em> buraco! Não só seguro, mas amável—porque o lume o alumia, o +aquece, o alegra, o purifica. E quando Adão, com um mólho de lanças, desce à +planície ou se embrenha na selva a caçar a prêsa, já mata com redobrada ânsia, +para recolher depressa àquela boa segurança e consolação do lume. Ah! que +docemente êle o penetra, e lhe séca no pêlo a friagem dos matos, e doura como +um sol a penedia da sua toca! E depois ainda lhe prende os olhos, e o enleva, e +o guia num scismar fecundo, em que inspiradamente lhe aparecem formas de +flexas, malhos com cabos, ossos recurvos que fisgam os peixes, lascas dentadas +que serram o pau!... À sua fêmea forte deve Adão esta hora criadora!</p> + +<p>E quanto lhe não deve a Humanidade! Recordemos, meus irmãos, que nossa Mãe, +com aquela adivinhação superior que mais tarde a tornou Profetiza e Sibila, não +hesitou, quando a Serpente lhe disse, coleando entre as Rosas:—«Come do fruto +do Saber, que os teus olhos se abrirão, e serás como os Deuses sabedores!» Adão +teria comido a serpente, bocado mais suculento. Nem acreditaria em frutos que +comunicam a Divindade e Sapiência,<span class="pn">{194}</span> êle que tanta fruta comera nas +árvores, e se conservava insciente e bestial como o urso e o auroque. Eva, +porêm, com a credulidade sublime que sempre no mundo opéra as transformações +sublimes, comeu logo a maçã, e a casca, e a pevide. E persuadindo Adão a que +partilhasse do transcendente pômo, muito dôce e enredosamente o convenceu do +proveito, da felicidade, da glória e da fôrça que dá o Saber! Esta alegoria dos +poetas do Génesis com esplêndida subtileza nos revela a imensa obra de Eva nos +anos dolorosos do Paraíso. Por ela Deus continua a Criação superior, a do Reino +espiritual, a que desenrola sôbre a terra o lar, a família, a tríbu, a cidade. +É Eva que cimenta e bate as grandes pedras angulares na construção da +Humanidade.</p> + +<p>Senão, vêde! Quando o bravio caçador recolhe à caverna, derreado sob o pêso +da caça morta, cheirando todo a selva, e a sangue, e a féra, é êle, de-certo, +que esfola a rês com a faca de pedra, e retalha as postas, e esburga os ossos +(que sôfregamente guarda sob a côxa e reserva para a sua ração, porque contêm a +moela preciosa). Mas Eva junta essa pele, cuidadosamente, às outras peles +armazenadas; esconde os ossos partidos, porque as suas lascas agudas pregam e +furam; e numa cavidade da rocha fresca guarda a carne que<span class="pn">{195}</span> sobejou. Ora +em breve uma dessas fartas postas esquece, caída junto à fogueira perpétua. O +lume alastra, lentamente lambe a carne pelo lado mais gordo, até que um cheiro, +desconhecido e saboroso, afaga e alarga as rudes narinas de nossa Mãe +venerável. ¿De onde vem êle, o gostoso aroma? Do fogo, onde a posta de veado ou +de lebre grelha e rechina. Então Eva, inspirada e grave, empurra a carne para a +braza viva; e espera, ajoelhada, até que a espeta com uma ponta de osso, e a +retira da chama ruidosa, e a trinca, em sombrio silêncio. Os seus olhos +rebrilhantes anunciam outra conquista. E, com a pressa amorosa com que oferece +a Maçã a Adão, lhe apresenta agora aquela carne tam nova, que êle cheira +desconfiado, e depois devora a rijas dentadas, roncando de gôzo! E eis que, por +êste pedaço de gamo assado, nossos Pais sobem vitoriosamente outro escalão da +Humanidade!</p> + +<p>A água ainda a bebem na nascente vizinha, entre os fétos, com a face +mergulhada no veio claro. Depois de beber, Adão, arrimado à sua grossa lança, +olha ao longe o rolar do rio lento, os montes coroados de neve ou de lume, o +sol sôbre o mar—pensando, com arrastado pensar, se nessas terras que se +estendem, se escondem para alêm, a prêsa será mais certa e as selvas menos +cerradas. Mas Eva recolhe logo à caverna, para se entregar, sem +descanso,<span class="pn">{196}</span> a uma tarefa que a encanta. Encruzada no chão, toda atenta sob +a côma crespa, nossa Mãe fura, com um ossinho agudo, buracos finos na orla duma +pele, e depois na orla doutra pele. E, tam embebida que nem sente Adão entrar e +remexer nas suas armas, une as duas peles sobrepostas, passando através dos +buracos uma delgada fibra das algas que secam diante do lume. Adão considera +com desdêm êsse trabalho miudo que não acrescenta fôrça à sua fôrça. Não +pressente ainda, o bruto Pai, que aquelas peles cosidas serão o resguardo do +seu corpo, a armação da sua tenda, o saco do seu farnel, o ôdre da sua água, e +o tambor em que bata quando fôr um Guerreiro, e a página em que escreva quando +fôr um Profeta!</p> + +<p>Outros gostos e modos de Eva o irritam tambêm: e por vezes, com uma +desumanidade que é já toda humana, nosso Pai arrebata pelos cabelos a sua +fêmea, e a derruba, e a pisa sob a pata calosa. Assim um furor o tomou uma +tarde, avistando, no regaço de Eva, sentada diante da fogueira, um cachorrinho +mole e trôpego, que ela, com carinho e paciência, ensinava a sugar numa febra +de carne fresca. À beira da fonte descobrira o cachorrinho perdido e ganindo; e +muito mansamente o recolhera, o aquecera, o alimentara, com uma sensação que +lhe era doce, e lhe abria na espessa<span class="pn">{197}</span> bôca, ainda mal sabedora de sorrir, +um sorriso de maternidade. Nosso Pai venerável, com as pupilas a reluzir, atira +a garra, quer devorar o cachorro que entrara na sua toca. Mas Eva defende o +animal pequenino, que treme e que a lambe. O primeiro sentimento de Caridade, +informe como a primeira flor que brotou dos limos, aparece na terra! E, com as +curtas e roucas vozes que eram o falar de nossos Pais, Eva tenta talvez +afiançar que será útil, na caverna do homem, a amizade dum bicho... Adão puxa o +beiço trombudo. Depois, em silêncio, mansamente, corre os dedos pelo lombo +macio do cachorrinho encolhido. E êste é, na História, um momento espantoso! +Eis que o Homem domestíca o Animal! Dêsse cachorro agasalhado no Paraíso +nascerá o cão amigo, por êle a aliança com o cavalo, depois o domínio sôbre a +ovelha. O rebanho crescerá; o pastor o levará; o cão fiel o guardará. Eva, da +beira do seu lume, prepara os povos errantes que pastoreiam os gados.</p> + +<p>Depois, naquelas longas manhãs em que Adão bravio caçava, Eva, errando de +vale a monte, apanhava conchas, ovos de aves, curiosas raízes, sementes, com o +gôsto de acumular, de abastecer a sua toca de riquezas novas, que escondia nas +fendas da rocha. Ora um punhado dessas sementes caíra, através dos<span class="pn">{198}</span> seus +dedos, sôbre terra húmida e negra, quando recolhia pela beira da fonte. Uma +ponta verde brotou; depois uma haste cresceu; depois uma espiga amadurou. Os +seus grãos são gostosos. Eva, pensativa, enterra outras sementes, na esperança +de criar em tôrno do seu lar, num bocado do seu torrão, altas ervas que +espiguem, e lhe tragam o grão adocicado e tenro... E eis a seara! E assim nossa +Mãe torna possíveis, do fundo do Paraíso, os povos estáveis que lavram a terra. +</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>No entanto, bem podemos supôr que Abel nasceu—e, uns após outros, os dias +deslizam no Paraíso, mais seguros e fáceis. Já os vulcões lentamente se vão +apagando. As rochas não se despenham já com fragor sôbre a abundância inocente +dos vales. Tam amansadas andam as águas, que na sua transparência se miram, com +demora e cuidado, as nuvens e os ramos dos olmos. Raramente um Pterodactilo +macúla, com o escândalo do seu bico e das suas asas, os céus, onde o sol +alterna com a bruma, e os estios se franjam de chuvas ligeiras. E nesta +tranqùilidade que se estabelece há como uma submissão consciente. O Mundo +pressente e aceita a supremacia do Homem. A floresta já não arde com<span class="pn">{199}</span> a +leviandade do restolho, sabendo que em breve o Homem lhe pedirá a estaca, a +trave, o rêmo, o mastro. O vento, nas gargantas da serra, brandamente se +disciplina, e ensaia os sopros regulares com que trabalhará a mó do moinho. O +mar afogou os seus monstros, e estira o dorso preparado para o cortar da +quilha. A terra torna estável a sua gleba, e molemente se humedece, para quando +chegar o arado e a semente. E todos os metais se alinham em filão, e +alegremente se dispõem para o fogo que lhes dará forma e beleza.</p> + +<p>E pela tarde Adão recolhe contente, com caça abundante. A lareira flameja: e +alumia a face de nosso Pai, que o esfôrço da Vida embelezou, onde já os beiços +se adelgaçaram, e a testa se encheu com o lento pensar, e os olhos sossegaram +num brilho mais certo. O anho, espetado num pau, assa e pinga nas brasas. No +chão pousam cascas de côco, cheias de clara água da fonte. Uma pele de urso +tornou macio o leito de fetos. Outra pele, pendurada, abriga a bôca da caverna. +A um canto, que é a oficina, estão os montões de sílex e o malho: a outro +canto, que é o arsenal, estão as lanças e as clavas. Eva torce os fios duma lã +de cabra. Ao bom calor, sôbre folhelho, dorme Abel, muito gordo, todo nú, com +um pêlo mais ralo na carninha mais branca. Partilhando do folhelho e<span class="pn">{200}</span> do +mesmo calor, vela o cão, já crescido, com o ôlho amorável, o focinho entre as +patas. E Adão (oh, a estranha tarefa!) muito absorto, tenta gravar, com uma +ponta de pedra, sôbre um osso largo, os galhos, o dorso, as pernas estiradas +dum veado a correr!... A lenha estala. Todas as estrêlas do céu estão +presentes. Deus, pensativo, contempla o crescer da Humanidade.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>E agora que acendi, na noite estrelada do Paraíso, com galhos bem sêcos da +Árvore da Sciência, êste verídico lar, consenti que vos deixe, oh Pais +veneráveis!</p> + +<p>Já não receio que a Terra instável vos esmague; ou que as feras superiores +vos devorem; ou que, apagada, à maneira duma lâmpada imperfeita, a Energia que +vos trouxe da Floresta, vós retrogradeis à vossa Árvore. Sois já +irremediavelmente humanos—e cada manhã progredireis, com tam poderoso +arremêsso, para a perfeição do Corpo e esplendor da Razão, que em breve, dentro +dumas centenas de milhares de curtos anos, Eva será a formosa Helena e Adão +será o imenso Aristóteles!</p> + +<p>Mas não sei se vos felicite, oh Pais veneráveis! Outros irmãos vossos +ficaram na espessura das árvores—e a sua vida é doce.<span class="pn">{201}</span></p> + +<p>Todas as manhãs o Orangotango acorda entre os seus lençóis de fôlhas de +pendénia, sôbre o fôfo colchão de musgos que êle, com cuidado, acamou por cima +dum catre de ramos cheirosos. Lânguidamente, sem cuidados, preguiça na moleza +dos musgos, escutando as límpidas árias dos pássaros, gozando os fios do sol +que se emmaranham por entre a renda das fôlhas, e lambendo no pêlo dos seus +braços o orvalho açucarado. Depois de bem se coçar e bem se esfregar, sobe com +pachorra à árvore dilecta, que elegeu em todo o bosque pela sua frescura, pela +elasticidade embaladora das suas ramagens. Daí, tendo respirado as brisas +carregadas de aromas, salta, com lestos pulos, através das sempre fáceis, +sempre fartas ucharias do bosque, onde almoça a banana, a manga, a goiaba, +todos os finos frutos que o tornam tam são e alheio a males como as árvores +onde os colheu. Percorre então, sociavelmente, as ruas e as vielas palreiras da +espessura; cabriola com destros amigos, em jogos amáveis de ligeireza e fôrça; +galanteia as Orangas gentis que o catam, e penduradas com êle, duma liana +florida, se balançam chalrando; trota, entre alegres ranchos, pela borda das +águas claras; ou, sentado na ponta dum ramo, escuta algum vélho e facundo +chimpanzé contando divertidas histórias de caça, de viagens, de<span class="pn">{202}</span> amores e +de troças às feras pesadas, que circulam nas relvas e não podem trepar. Cedo +recolhe à sua árvore, e, estendido na folhosa rêde, brandamente se abandona à +delícia de sonhar, num sonho acordado, semelhante às nossas Metafísicas e às +nossas Epopeias, mas que rolando todo sôbre sensações reais, é, ao contrário +dos nossos incertos sonhos, um sonho todo feito de certeza. Por fim a Floresta +lentamente se cala, a sombra escorrega entre os troncos:—e o Orango ditoso +desce ao seu catre de pendénias e musgos, e adormece na imensa paz de Deus—de +Deus que êle nunca se cansou em comentar, nem sequer em negar, e que todavia +sôbre êle derrama, com imparcial carinho, os bens inteiros da sua Misericórdia. +</p> + +<p>Assim ocupou o seu dia o Orango, nas Árvores. ¿E no entanto, como gastou, +nas Cidades, o seu dia, o Homem, primo do Orango? Sofrendo—por ter os dons +superiores que faltam ao Orango! Sofrendo—por arrastar consigo, +irresgatavelmente, êsse mal incurável que é a sua Alma! Sofrendo—porque nosso +Pai Adão, no terrível dia 28 de Outubro, depois de espreitar e farejar o +Paraíso, não ousou declarar reverentemente ao Senhor:—«Obrigado, oh meu doce +Criador; dá o governo da Terra a quem melhor escolheres, ao Elefante ou ao +Cangurú, que eu por<span class="pn">{203}</span> mim, bem mais avisado, volto já para a minha +árvore!...»</p> + +<p>Mas, emfim, desde que nosso Pai venerável não teve a previdência ou a +abnegação de declinar a grande supremacia—continuemos a reinar sôbre a Criação +e a ser sublimes... Sobretudo continuemos a usar, insaciavelmente, do dom +melhor que Deus nos concedeu entre todos os dons, o mais puro, o único +genuìnamente grande, o dom de o amar—pois que não nos concedeu tambêm o dom de +o compreender. E não esqueçamos que Êle já nos ensinou, através de vozes +levantadas em Galilea, e sob as mangueiras de Veluvana, e nos vales severos de +Yen-Chou, que a melhor maneira de o amar é que uns aos outros nos amemos, e que +amemos toda a sua obra, mesmo o verme, e a rocha dura, e a raiz venenosa, e até +êsses vastos seres que não parecem necessitar o nosso amor, êsses Sóis, êsses +Mundos, essas esparsas Nebuloses, que, inicialmente fechadas, como nós, na mão +de Deus, e feitas da nossa substância, nem de-certo nos amam—nem talvez nos +conhecem.<span class="pn">{204}</span> <span class="pn">{205}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION000800">A AIA</a> </h1> + +<p>Era uma vez um rei, môço e valente, senhor de um reino abundante em cidades +e searas, que partira a batalhar por terras distantes, deixando solitária e +triste a sua raínha e um filhinho, que ainda vivia no seu berço, dentro das +suas faixas.</p> + +<p>A lua cheia que o vira marchar, levado no seu sonho de conquista e de fama, +começava a minguar—quando um dos seus cavaleiros apareceu, com as armas rôtas, +negro do sangue sêco e do pó dos caminhos, trazendo a amarga nova de uma +batalha perdida e da morte do rei, traspassado por sete lanças entre a flor da +sua nobreza, à beira de um grande rio.</p> + +<p>A raínha chorou magníficamente o rei.<span class="pn">{206}</span> Chorou ainda desoladamente o +espôso, que era formoso e alegre. Mas, sobretudo, chorou ansiosamente o pai que +assim deixava o filhinho desamparado, no meio de tantos inimigos da sua frágil +vida e do reino que seria seu, sem um braço que o defendesse, forte pela fôrça +e forte pelo amor.</p> + +<p>Dêsses inimigos o mais temeroso era seu tio, irmão bastardo do rei, homem +depravado e bravio, consumido de cobiças grosseiras, desejando só a rialeza por +causa dos seus tesoiros, e que havia anos vivia num castelo sôbre os montes, +com uma horda de rebeldes, à maneira de um lôbo que, de atalaia no seu fojo, +espera a prêsa. Ai! a prêsa agora era aquela criancinha, rei de mama, senhor de +tantas províncias, e que dormia no seu berço com seu guiso de oiro fechado na +mão!</p> + +<p>Ao lado dêle, outro menino dormia noutro berço. Mas êste era um +escravosinho, filho da bela e robusta escrava que amamentava o príncipe. Ambos +tinham nascido na mesma noite de verão. O mesmo seio os criava. Quando a +raínha, antes de adormecer, vinha beijar o principesinho, que tinha o cabelo +louro e fino, beijava tambêm por amor dêle o escravosinho, que tinha o cabelo +negro e crespo. Os olhos de ambos reluziam como pedras preciosas. Sómente, o +berço de um era magnífico e de marfim entre<span class="pn">{207}</span> brocados—e o berço do outro +pobre e de vêrga. A leal escrava, porêm, a ambos cercava de carinho igual, +porque se um era o seu filho—o outro seria o seu rei.</p> + +<p>Nascida naquela casa rial, ela tinha a paixão, a religião dos seus senhores. +Nenhum pranto correra mais sentidamente do que o seu pelo rei morto à beira do +grande rio. Pertencia, porêm, a uma raça que acredita que a vida da terra se +continua no céu. O rei seu amo, de-certo, já estaria agora reinando num outro +reino, para alêm das nuvens, abundante tambêm em searas e cidades. O seu cavalo +de batalha, as suas armas, os seus pagens tinham subido com êle às alturas. Os +seus vassalos, que fôssem morrendo, prontamente iriam, nesse reino celeste, +retomar em tôrno dele a sua vassalagem. E ela um dia, por seu turno, remontaria +num raio de luz a habitar o palácio do seu senhor, e a fiar de novo o linho das +suas túnicas, e a acender de novo a caçoleta dos seus perfumes; seria no céu +como fôra na terra, e feliz na sua servidão.</p> + +<p>Todavia, tambêm ela tremia pelo seu príncipesinho! Quantas vezes, com êle +pendurado do peito, pensava na sua fragilidade, na sua longa infância, nos anos +lentos que correriam antes que êle fôsse ao menos do tamanho de uma espada, e +naquele tio cruel,<span class="pn">{208}</span> de face mais escura que a noite e coração mais escuro +que a face, faminto do trono, e espreitando de cima do seu rochedo entre os +alfanges da sua horda! Pobre príncipesinho da sua alma! Com uma ternura maior o +apertava então nos braços. Mas se o seu filho chalrava ao lado—era para êle +que os seus braços corriam com um ardor mais feliz. Êsse, na sua indigência, +nada tinha a recear da vida. Desgraças, assaltos da sorte má nunca o poderiam +deixar mais despido das glórias e bens do mundo do que já estava ali no seu +berço, sob o pedaço de linho branco que resguardava a sua nudez. A existência, +na verdade, era para êle mais preciosa e digna de ser conservada que a do seu +príncipe, porque nenhum dos duros cuidados com que ela ennegrece a alma dos +senhores roçaria sequer a sua alma livre e simples de escravo. E, como se o +amasse mais por aquela humildade ditosa, cobria o seu corpinho gordo de beijos +pesados e devoradores—dos beijos que ela fazia ligeiros sôbre as mãos do seu +príncipe.</p> + +<p>No entanto um grande temor enchia o palácio, onde agora reinava uma mulher +entre mulheres. O bastardo, o homem de rapina, que errava no cimo das serras, +descera à planície com a sua horda, e já através de casais e aldeias felizes ia +deixando um sulco de matança e ruínas. As portas da cidade tinham<span class="pn">{209}</span> sido +seguras com cadeias mais fortes. Nas atalaias ardiam lumes mais altos. Mas à +defesa faltava disciplina viril. Uma roca não governa como uma espada. Toda a +nobreza fiel perecera na grande batalha. E a raínha desventurosa apenas sabia +correr a cada instante ao berço do seu filhinho e chorar sôbre êle a sua +fraqueza de viuva. Só a ama leal parecia segura—como se os braços em que +estreitava o seu príncipe fôssem muralhas de uma cidadela que nenhuma audácia +pode transpôr.</p> + +<p>Ora uma noite, noite de silêncio e de escuridão, indo ela a adormecer, já +despida, no seu catre, entre os seus dois meninos, adivinhou, mais que sentiu, +um curto rumor de ferro e de briga, longe, à entrada dos vergeis riais. +Embrulhada à pressa num pano, atirando os cabelos para trás, escutou +ansiosamente. Na terra areada, entre os jasmineiros, corriam passos pesados e +rudes. Depois houve um gemido, um corpo tombando molemente, sôbre lages, como +um fardo. Descerrou violentamente a cortina. E alêm, ao fundo da galeria, +avistou homens, um clarão de lanternas, brilhos de armas... Num relance tudo +compreendeu—o palácio surpreendido, o bastardo cruel vindo roubar, matar o seu +príncipe! Então, rápidamente, sem uma vacilação, uma dúvida, arrebatou o +príncipe do seu berço de marfim, atirou-o para o pobre berço de vêrga—e +tirando o seu filho<span class="pn">{210}</span> do berço servil, entre beijos desesperados, deitou-o +no berço rial que cobriu com um brocado.</p> + +<p>Bruscamente um homem enorme, de face flamejante, com um manto negro sôbre a +cota de malha, surgiu à porta da câmara, entre outros, que erguiam lanternas. +Olhou—correu ao berço de marfim onde os brocados luziam, arrancou a criança, +como se arranca uma bôlsa de oiro, e abafando os seus gritos no manto, abalou +furiosamente.</p> + +<p>O príncipe dormia no seu novo berço. A ama ficara imóvel no silêncio e na +treva.</p> + +<p>Mas brados de alarme atroaram de repente o palácio. Pelas janelas perpassou +o longo flamejar das tochas. Os pátios ressoavam com o bater das armas. E +desgrenhada, quási nua, a raínha invadiu a câmara, entre as aias, gritando pelo +seu filho! Ao avistar o berço de marfim, com as roupas desmanchadas, vazio, +caiu sôbre as lages, num choro, despedaçada. Então calada, muito lenta, muito +pálida, a ama descobriu o pobre berço de vêrga... O príncipe lá estava quieto, +adormecido, num sonho que o fazia sorrir, lhe iluminava toda a face entre os +seus cabelos de oiro. A mãe caíu sôbre o berço, com um suspiro, como cai um +corpo morto.</p> + +<p>E nesse instante um novo clamor abalou a galeria de mármore. Era o capitão +das guardas,<span class="pn">{211}</span> a sua gente fiel. Nos seus clamores havia, porêm, mais +tristeza que triunfo. O bastardo morrera! Colhido, ao fugir, entre o palácio e +a cidadela, esmagado pela forte legião de archeiros, sucumbira, êle e vinte da +sua horda. O seu corpo lá ficara, com flechas no flanco, numa pôça de sangue. +Mas, ai! dor sem nome! O corposinho tenro do príncipe lá ficara tambêm, envolto +num manto, já frio, rôxo ainda das mãos ferozes que o tinham esganado! Assim +tumultuosamente lançavam a nova cruel os homens de armas—quando a raínha, +deslumbrada, com lágrimas entre risos, ergueu nos braços, para lho mostrar, o +príncipe que despertara.</p> + +<p>Foi um espanto, uma aclamação. ¿Quem o salvara? Quem?... Lá estava junto do +berço de marfim vazio, muda e hirta, aquela que o salvara! Serva sublimemente +leal! Fôra ela que, para conservar a vida ao seu príncipe, mandara à morte o +seu filho... Então, só então, a mãe ditosa, emergindo da sua alegria estática, +abraçou apaixonadamente a mãe dolorosa, e a beijou, e lhe chamou irmã do seu +coração... E de entre aquela multidão que se apertava na galeria veio uma nova, +ardente aclamação, com súplicas de que fôsse recompensada magníficamente a +serva admirável que salvara o rei e o reino.</p> + +<p>Mas como? ¿Que bôlsas de oiro podem pagar<span class="pn">{212}</span> um filho? Então um vélho de +casta nobre lembrou que ela fôsse levada ao tesoiro rial, e escolhesse de entre +essas riquezas, que eram como as maiores dos maiores tesoiros da Índia, todas +as que o seu desejo apetecesse...</p> + +<p>A raínha tomou a mão da serva. E sem que a sua face de mármore perdesse a +rigidez, com um andar de morta, como num sonho, ela foi assim conduzida para a +Câmara dos Tesoiros. Senhores, aias, homens de armas, seguiam, num respeito tam +comovido que apenas se ouvia o roçar das sandálias nas lages. As espessas +portas do Tesoiro rodaram lentamente. E, quando um servo destrancou as janelas, +a luz da madrugada, já clara e rósea, entrando pelos gradeamentos de ferro, +acendeu um maravilhoso e faiscante incêndio de oiro e pedrarias! Do chão de +rocha até às sombrias abóbadas, por toda a câmara, reluziam, scintilavam, +refulgiam os escudos de oiro, as armas marchetadas, os montões de diamantes, as +pilhas de moedas, os longos fios de pérolas, todas as riquezas daquele reino, +acumuladas por cem reis durante vinte séculos. Um longo <em>ah</em>, lento e +maravilhado, passou por sôbre a turba que emmudecera. Depois houve um silêncio +ansioso. E no meio da câmara, envolta na refulgência preciosa, a ama não se +movia... Apenas os<span class="pn">{213}</span> seus olhos, brilhantes e secos, se tinham erguido +para aquele céu que, alêm das grades, se tingia de rosa e de oiro. Era lá, +nesse céu fresco de madrugada, que estava agora o seu menino. Estava lá, e já o +sol se erguia, e era tarde, e o seu menino chorava de-certo, e procurava o seu +peito!... E então a ama sorriu e estendeu a mão. Todos seguiam, sem respirar, +aquele lento mover da sua mão aberta. ¿Que joia maravilhosa, que fio de +diamantes, que punhado de rubís, ia ela escolher?</p> + +<p>A ama estendia a mão—e sôbre um escabelo ao lado, entre um molho de armas, +agarrou um punhal. Era um punhal de um vélho rei, todo cravejado de esmeraldas, +e que valia uma província.</p> + +<p>Agarrara o punhal, e com êle apertado fortemente na mão, apontando para o +céu, onde subiam os primeiros raios do sol, encarou a raínha, a multidão, e +gritou:</p> + +<p>—Salvei o meu príncipe, e agora—vou dar de mamar ao meu filho!</p> + +<p>E cravou o punhal no coração.<span class="pn">{214}</span> <span class="pn">{215}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION000900">O DEFUNTO</a> </h1> + + +<h2><a name="SECTION000910">I</a> </h2> + +<p>No ano de 1474, que foi por toda a Cristandade tam abundante em mercês +divinas, reinando em Castela el-rei Henrique IV, veio habitar na cidade de +Segóvia, onde herdara moradias e uma horta, um cavaleiro moço, de muito limpa +linhagem e gentil parecer, que se chamava D. Rui de Cardenas.</p> + +<p>Essa casa, que lhe legara seu tio, arcediago e mestre em cânones, ficava ao +lado e na sombra silenciosa da igreja de Nossa Senhora do Pilar; e, em frente, +para alêm do adro, onde cantavam as três bicas de um chafariz antigo, era o +escuro e gradeado palácio de D. Alonso de Lara, fidalgo de grande riqueza e +maneiras sombrias, que já na madureza da<span class="pn">{216}</span> sua idade, todo grisalho, +desposara uma menina falada em Castela pela sua alvura, cabelos côr de sol +claro, e colo de garça rial. D. Rui tivera justamente por madrinha, ao nascer, +Nossa Senhora do Pilar, de quem sempre se conservou devoto e fiel servidor; +ainda que, sendo de sangue bravo e alegre, amava as armas, a caça, os saraus +bem galanteados, e mesmo por vezes uma noite ruidosa de taverna com dados e +picheis de vinho. Por amor, e pelas facilidades desta santa vizinhança, tomara +êle o piedoso costume, desde a sua chegada a Segóvia, de visitar todas as +manhãs, à hora de Prima, a sua divina madrinha e de lhe pedir, em três +<em>Ave-Marias</em>, a bênção e a graça.</p> + +<p>Ao escurecer, mesmo depois de alguma rija correria por campo e monte com +lebreus ou falcão, ainda voltava para, à saudação de Vésperas, murmurar +docemente uma <em>Salve-Raínha</em>.</p> + +<p>E todos os domingos comprava no adro, a uma ramalheteira mourisca, algum +ramo de junquilhos, ou cravos, ou rosas singelas, que espalhava, com ternura e +cuidado galante, em frente ao altar da Senhora.</p> + +<p>A esta venerada igreja do Pilar vinha tambêm cada domingo D. Leonor, a tam +falada e formosa mulher do senhor de Lara, acompanhada por uma aia carrancuda, +de olhos mais<span class="pn">{217}</span> abertos e duros que os de uma coruja, e por dois possantes +lacaios que a ladeavam e guardavam como tôrres. Tam ciumento era o senhor D. +Alonso que, só por lho haver severamente ordenado o seu confessor, e com medo +de ofender a Senhora, sua vizinha, permitia esta visita fugitiva, a que êle +ficava espreitando sôfregamente, de entre as rexas de uma gelosia, os passos e +a demora. Todos os lentos dias da lenta semana os passava a senhora D. Leonor +no encêrro do gradeado solar de granito negro, não tendo, para se recrear e +respirar, mesmo nas calmas do estio, mais que um fundo de jardim verde-negro, +cercado de tam altos muros, que apenas se avistava, emergindo dêles, aqui, +alêm, alguma ponta de triste cipreste. Mas essa curta visita a Nossa Senhora do +Pilar bastou para que D. Rui se namorasse dela tresloucadamente, na manhã de +maio em que a viu de joelhos ante o altar, numa réstea de sol, aureolada pelos +seus cabelos de oiro, com as compridas pestanas pendidas sôbre o livro de +Horas, o rosário caíndo de entre os dedos finos, fina toda ela e macia, e +branca, de uma brancura de lírio aberto na sombra, mais branca entre as rendas +negras e os negros setins que à volta do seu corpo cheio de graça se quebravam, +em pregas duras, sôbre as lages da capela, vélhas lages de sepulturas. Quando +depois dum momento<span class="pn">{218}</span> de enleio e de delicioso pasmo se ajoelhou, foi menos +para a Virgem do Pilar, sua divina Madrinha, do que para aquela aparição +mortal, de quem não sabia o nome nem a vida, e só que por ela daria vida e +nome, se ela se rendesse por tam incerto preço. Balbuciando, com uma prece +ingrata, as três Ave-Marias com que cada manhã saùdava Maria, apanhou o seu +sombreiro, desceu levemente a nave sonora e no portal se quedou, esperando por +ela entre os mendigos lazarentos que se catavam ao sol. Mas quando ao cabo de +um tempo, em que D. Rui sentiu no coração um desusado bater de ansiedade e +medo, a senhora D. Leonor passou e se deteve, molhando os dedos na pia de +mármore de água benta, os seus olhos sob o véu descido, não se ergueram para +êle, ou tímidos ou desatentos. Com a aia de olhos muito abertos colada aos +vestidos, entre os dois lacaios, como entre duas tôrres, atravessou +vagarosamente o adro, pedra por pedra, gozando de-certo, como encarcerada, o +desafogado ar e o livre sol que o inundavam. E foi um espanto para D. Rui +quando ela penetrou na sombria arcada, de grossos pilares, sôbre que assentava +o palácio, e desapareceu por uma esguia porta recoberta de ferragens. Era, +pois, essa a tam falada D. Leonor, a linda e nobre senhora de Lara...</p> + +<p>Então começaram sete arrastados dias, que<span class="pn">{219}</span> êle gastou sentado a um +poial da sua janela, considerando aquela negra porta recoberta de ferragens +como se fôsse a do Paraíso, e por ela devesse saír um anjo para lhe anunciar a +Bemaventurança. Até que chegou o vagaroso domingo: e passando êle no adro, à +hora de Prima, ao repicar dos sinos, com um mólho de cravos amarelos para a sua +divina Madrinha, cruzou D. Leonor, que saía de entre os pilares da escura +arcada, branca, doce e pensativa, como uma lua de entre nuvens. Os cravos quási +lhe caíram naquele gostoso alvoroço em que o peito lhe arfou mais que um mar, e +a alma toda lhe fugiu em tumulto através do olhar com que a devorava. E ela +ergueu tambêm os olhos para D. Rui, mas uns olhos repousados, uns olhos +serenos, em que não luzia curiosidade, nem mesmo consciência de se estarem +trocando com outros, tam acesos e ennegrecidos pelo desejo. O môço cavalheiro +não entrou na igreja, com piedoso receio de não prestar à sua Madrinha divina a +atenção, que de-certo lhe roubaria toda aquela que era só humana, mas dona já +do seu coração, e nele divinizada.</p> + +<p>Esperou sôfregamente à porta, entre os mendigos, secando os cravos com o +ardor das mãos trémulas, pensando quanto era demorado o rosário que ela rezava. +Ainda D. Leonor descia a nave, já êle sentia dentro da alma<span class="pn">{220}</span> o doce rugir +das sedas fortes que ela arrastava nas lages. A branca senhora passou—e o +mesmo distraido olhar, desatento e calmo, que espalhou pelos mendigos e pelo +adro, o deixou escorregar sôbre êle, ou porque não compreendesse aquele moço +que de repente se tornara tam pálido, ou porque não o diferenciava ainda das +cousas e das formas indiferentes.</p> + +<p>D. Rui abalou, com um fundo suspiro; e, no seu quarto, pôs devotamente ante +a imagem da Virgem as flores que não oferecera, na igreja, ao seu altar. Toda a +sua vida se tornou então um longo queixume por sentir tam fria e desumana +aquela mulher, única entre as mulheres, que prendera e tornara sério o seu +coração ligeiro e errante. Numa esperança, a que antevia bem o desengano, +começou a rondar os muros altos do jardim—ou embuçado numa capa, com o ombro +contra uma esquina, lentas horas se quedava contemplando as grades das +gelosias, negras e grossas como as dum cárcere. Os muros não se fendiam, das +grades não saía sequer um rasto de luz prometedora. Todo o solar era como um +jazigo onde jazia uma insensível, e por trás das frias pedras havia ainda um +frio peito. Para se desafogar compôs, com piedoso cuidado, em noites veladas +sôbre o pergaminho, trovas gementes que o não desafogavam.<span class="pn">{221}</span> Diante do +altar da Senhora do Pilar, sôbre as mesmas lages onde a vira ajoelhada, pousava +êle os joelhos, e ficava, sem palavras de oração, num scismar amargo e doce, +esperando que o seu coração serenasse e se consolasse, sob a influência de +Aquela que tudo consola e serena. Mas sempre se erguia mais desditoso e tendo +apenas a sensação de quanto eram frias e rígidas as pedras sôbre que ajoelhara. +O mundo todo só lhe parecia conter rigidez e frieza.</p> + +<p>Outras claras manhãs de domingo encontrou D. Leonor: e sempre os olhos dela +permaneciam descuidados e como esquecidos, ou quando se cruzavam com os seus +era tam singelamente, tam limpos de toda a emoção, que D. Rui os preferiria +ofendidos e faiscando de ira, ou soberbamente desviados com soberbo desdêm. +De-certo D. Leonor já o conhecia:—mas, assim, conhecia tambêm a ramalheteira +mourisca agachada diante do seu cêsto à beira da fonte; ou os pobres que se +catavam ao sol diante do portal da Senhora. Nem D. Rui já podia pensar que ela +fôsse desumana e fria. Era apenas soberanamente remota, como uma estrêla que +nas alturas gira e refulge, sem saber que, em baixo, num mundo que ela não +distingue, olhos que ela não suspeita a contemplam, a adoram e lhe entregam o +govêrno da sua ventura e sorte.<span class="pn">{222}</span></p> + +<p>Então D. Rui pensou:</p> + +<p>—Ela não quer, eu não posso: foi um sonho que findou, e Nossa Senhora a +ambos nos tenha na sua graça!</p> + +<p>E como era cavaleiro muito discreto, desde que a reconheceu assim inabalável +na sua indiferença, não a procurou, nem sequer ergueu mais os olhos para as +grades das suas janelas, e até nem penetrava na igreja de Nossa Senhora quando +casualmente, do portal, a avistava ajoelhada, com a sua cabeça tam cheia de +graça e de oiro, pendida sôbre o Livro de Horas.</p> + + +<h2><a name="SECTION000920">II</a> </h2> + +<p>A vélha aia, de olhos mais abertos e duros que os de uma coruja, não tardara +em contar ao senhor de Lara que um môço audaz, de gentil parecer, novo morador +nas vélhas casas do arcediago, constantemente se atravessava no adro, se +postava diante da igreja para atirar o coração pelos olhos à senhora D. Leonor. +Bem amargamente o sabia já o ciumento fidalgo, porque quando da sua janela +espreitava, como um falcão, a airosa senhora a caminho da igreja, observara os +giros, as esperas, os olhares dardejados daquele môço galante—e<span class="pn">{223}</span> puxara +as barbas de furor. Desde então, na verdade, a sua mais intensa ocupação era +odiar D. Rui, o impudente sobrinho do cónego, que ousava erguer o seu baixo +desejo até à alta senhora de Lara. Constantemente agora o trazia vigiado por um +serviçal—e conhecia todos os seus passos e pousos, e os amigos com quem caçava +ou folgava, e até quem lhe talhava os gibões, e até quem lhe polia a espada, e +cada hora do seu viver. E mais ansiosamente ainda vigiava D. Leonor—cada um +dos seus movimentos, os mais fugitivos modos, os silêncios e o conversar com as +aias, as distracções sôbre o bordado, o geito de scismar sob as árvores do +jardim, e o ar e a côr com que recolhia da igreja... Mas tam inalteradamente +serena no seu sossêgo de coração se mostrava a senhora D. Leonor que nem o +ciume mais imaginador de culpas poderia achar manchas naquela pura neve. +Redobradamente áspero então se voltava o rancor de D. Alonso contra o sobrinho +do cónego por ter apetecido aquela pureza, e aqueles cabelos côr de sol claro, +e aquele colo de garça rial, que eram só seus, para esplêndido gôsto da sua +vida. E quando passeava na sombria galeria do solar, sonora e toda de abóbada, +embrulhado na sua samarra orlada de peles, com o bico da barba grisalha +espetado para diante, a grenha crespa erriçada para trás e os<span class="pn">{224}</span> punhos +cerrados, era sempre remoendo o mesmo fel:</p> + +<p>—Tentou contra a virtude dela, tentou contra a minha honra... É culpado por +duas culpas e merece duas mortes!</p> + +<p>Mas ao seu furor quási se misturou um terror, quando soube que D. Rui já não +esperava no adro a senhora D. Leonor, nem rondava amorosamente os muros do +palacete, nem penetrava na igreja quando ela lá rezava, aos domingos; e que tam +inteiramente se alheava dela que uma manhã, estando rente da arcada, e sentindo +bem ranger e abrir a porta por onde a senhora ia aparecer, permanecera de +costas voltadas, sem se mover, rindo com um cavaleiro gordo que lhe lia um +pergaminho. Tam bem afectada indiferença só servia de-certo (pensou D. Alonso) +a esconder alguma bem danada tenção! ¿Que tramava êle, o destro enganador? Tudo +no desabrido fidalgo se exacerbou—ciume, rancor, vigilância, pesar da sua +idade grisalha e feia. No sossêgo de D. Leonor suspeitou manha e fingimento;—e +imediatamente lhe vedou as visitas à Senhora do Pilar.</p> + +<p>Nas manhãs costumadas corria êle à igreja para rezar o rosário, a levar as +desculpas de D. Leonor—«<em>que no puede venir</em> (murmurava curvado +diante do altar) <em>por lo que sabeis, virgem purissima!</em>» +Cuidadosamente visitou e<span class="pn">{225}</span> reforçou todos os negros ferrolhos das portas +do seu solar.</p> + +<p>De noite soltava dois mastins nas sombras do jardim murado.</p> + +<p>À cabeceira do vasto leito, junto da mesa onde ficava a lâmpada, um +relicário e o copo de vinho quente com canela e cravo para lhe retemperar as +fôrças—luzia sempre uma grande espada nua. Mas, com tantas seguranças, mal +dormia—e a cada instante se solevava em sobressalto de entre as fundas +almofadas, agarrando a senhora D. Leonor com mão bruta e sôfrega, que lhe +pisava o colo, para rugir muito baixo, numa ânsia: «Dize que me queres só a +mim!...» Depois, com a alvorada, lá se empoleirava, a espreitar, como um +falcão, as janelas de D. Rui. Nunca o avistava, agora, nem à porta da igreja às +horas de missa, nem recolhendo do campo, a cavalo, ao toque de Ave-Marias.</p> + +<p>E por o sentir assim sumido dos sítios e giros costumados—é que mais o +suspeitava dentro do coração de D. Leonor.</p> + +<p>Emfim, uma noite, depois de muito trilhar o lagedo da galeria, remoendo +surdamente desconfianças e ódios, gritou pelo intendente e ordenou que se +preparassem trouxas e cavalgaduras. Cedo, de madrugada, partiria, com a senhora +D. Leonor, para a sua herdade de Cabril, a duas léguas de Segóvia! A partida +não<span class="pn">{226}</span> foi de madrugada, como uma fuga de avarento que vai esconder longe o +seu tesoiro:—mas, realizada com aparato e demora, ficando a liteira diante da +arcada, a esperar longas horas, de cortinas abertas, emquanto um cavalariço +passeava pelo adro a mula branca do fidalgo, enxairelada à mourisca, e do lado +do jardim a récua de machos, carregados de baús, presos às argolas, sob o sol e +a mosca, aturdiam a viela com o tilintar dos guizos. Assim D. Rui soube a +jornada do senhor de Lara:—e assim a soube toda a cidade.</p> + +<p>Fôra um grande contentamento para D. Leonor, que gostava de Cabril, dos seus +viçosos pomares, dos jardins, para onde abriam, rasgadamente e sem grades, as +janelas dos seus aposentos claros: aí ao menos tinha largo ar, pleno sol, e +alegretes a regar, um viveiro de pássaros, e tam compridas ruas de loureiro ou +teixo, que eram quási a liberdade. E depois esperava que no campo se +aligeirassem aqueles cuidados que traziam, nos derradeiros tempos, tam enrugado +e taciturno seu marido e senhor. Mas não logrou esta esperança, porque ao cabo +de uma semana ainda se não desanuviara a face de D. Alonso—nem de-certo havia +frescura de arvoredos, sussurros de águas correntes, ou aromas esparsos nos +rosais em flor, que calmassem agitação tam amarga e funda. Como em Segóvia, na +galeria<span class="pn">{227}</span> sonora de grande abobada, sem descanso passeava, enterrado na +sua samarra, com o bico da barba espetado para diante, a grenha basta erriçada +para trás, um geito de arreganhar silenciosamente o beiço, como se meditasse +maldades a que gozava de antemão o sabor acre. E todo o interêsse da sua vida +se concentrara num serviçal, que constantemente galopava entre Segóvia e +Cabril, e que êle por vezes esperava no comêço da aldeia, junto ao Cruzeiro, +ficando a escutar o homem que desmontava, ofegante, e logo lhe dava novas +apressadas.</p> + +<p>Uma noite em que D. Leonor, no seu quarto, rezava o terço com as aias, à luz +duma tocha de cera, o senhor de Lara entrou muito vagarosamente, trazendo na +mão uma fôlha de pergaminho e uma pena mergulhada no seu tinteiro de osso. Com +um rude acêno despediu as aias, que o temiam como a um lôbo. E, empurrando um +escabelo para junto da mesa, volvendo para D. Leonor a face a que impusera +tranqùilidade e agrado, como se apenas viesse por cousas naturais e fáceis:</p> + +<p>—Senhora—disse—quero que me escrevais aqui uma carta que muito convêm +escrever...</p> + +<p>Tam costumada era nela a submissão, que, sem outro reparo ou curiosidade, +indo apenas<span class="pn">{228}</span> pendurar na barra do leito o rosário em que rezara, se +acomodou sôbre o escabelo, e os seus dedos finos, com muita aplicação, para que +a letra fôsse esmerada e clara, traçaram a primeira linha curta que o Senhor de +Lara ditara e era: <em>Meu cavaleiro</em>...» Mas quando êle ditou a outra, +mais longa, e dum modo amargo, D. Leonor arrojou a pena como se a pena a +escaldasse, e, recuando da mesa, gritou, numa aflição:</p> + +<p>—¿Senhor, para que convêm que eu escreva tais cousas e tam falsas?...</p> + +<p>Num brusco furor, o senhor de Lara arrancou do cinto um punhal, que lhe +agitou junto à face, rugindo surdamente:</p> + +<p>—Ou escreveis o que vos mando e que a mim me convêm, ou por Deus, que vos +varo o coração!...</p> + +<p>Mais branca que a cera da tocha que os alumiava, com a carne arrepiada ante +aquele ferro que luzia, num terror supremo e que tudo aceitava, D. Leonor +murmurou:</p> + +<p>—Pela Virgem Maria, não me façais mal!... Nem vos agasteis, senhor, que eu +vivo para vos obedecer e servir... Agora, mandai, que eu escreverei.</p> + +<p>Então, com os punhos cerrados nas bordas da mesa, onde pousara o punhal, +esmagando a frágil e desditosa mulher sob o olhar duro que fuzilava, o senhor +de Lara ditou,<span class="pn">{229}</span> atirou roucamente, aos pedaços, aos repelões, uma carta +que dizia, quando finda e traçada em letra bem incerta e trémula:—«Meu +cavaleiro: Muito mal haveis compreendido, ou muito mal pagais o amor que vos +tenho, e que não vos pude nunca, em Segóvia, mostrar claramente... Agora aqui +estou em Cabril, ardendo por vos ver; e se o vosso desejo corresponde ao meu, +bem fàcilmente o podeis realizar, pois que meu marido se acha ausente noutra +herdade, e esta de Cabril é toda fácil e aberta. Vinde esta noite, entrai pela +porta do jardim, do lado da azinhaga, passando o tanque, até ao terraço. Aí +avistareis uma escada encostada a uma janela da casa, que é a janela do meu +quarto, onde sereis bem docemente agasalhado por quem ansiosamente vos +espera...»</p> + +<p>—Agora, senhora, assinai por baixo o vosso nome, que isso sobretudo convêm! +</p> + +<p>D. Leonor traçou vagarosamente o seu nome, tam vermelha como se a despissem +diante de uma multidão.</p> + +<p>—E agora—ordenou o marido mais surdamente, através dos dentes +cerrados—endereçai a D. Rui de Cardenas!</p> + +<p>Ela ousou erguer os olhos, na surprêsa daquele nome desconhecido.</p> + +<p>—Andai!... A D. Rui de Cardenas!—gritou o homem sombrio.<span class="pn">{230}</span></p> + +<p>E ela endereçou a sua desonesta carta a D. Rui de Cardenas.</p> + +<p>D. Alonso meteu o pergaminho no cinto, junto ao punhal que embainhara, e +saíu em silêncio com a barba espetada, abafando o rumor dos passos nas lages do +corredor</p> + +<p>Ela ficara sôbre o escabelo, as mãos cansadas e caídas no regaço, num +infinito espanto, o olhar perdido na escuridão da noite silente. Menos escura +lhe parecia a morte que essa escura aventura em que se sentia envolvida e +levada! ¿Quem era êsse D. Rui de Cardenas, de quem nunca ouvira falar, que +nunca atravessara a sua vida, tam quieta, tam pouco povoada de memórias e de +homens? E êle de-certo a conhecia, a encontrara, a seguira, ao menos com os +olhos, pois que era cousa natural e bem ligada receber dela carta de tanta +paixão e promessa...</p> + +<p>¿Assim, um homem, e môço de-certo bem nascido, talvez gentil, penetrava no +seu destino bruscamente, trazido pela mão de seu marido? Tam íntimamente mesmo +se entranhara êsse homem na sua vida, sem que ela se apercebesse, que já para +êle se abria de noite a porta do seu jardim, e contra a sua janela, para êle +subir, se arrumava de noite uma escada!... E era seu marido que muito +secretamente escancarava a porta, e muito secretamente levantava a escada... +Para que?<span class="pn">{231}</span></p> + +<p>Então, num relance, D. Leonor compreendeu a verdade, a vergonhosa verdade, +que lhe arrancou um grito ansiado e mal sufocado. Era uma cilada! O senhor de +Lara atraía a Cabril êsse D. Rui com uma promessa magnífica, para dêle se +apoderar, e de-certo o matar, indefeso e solitário! E ela, o seu amor, o seu +corpo, eram as promessas que se faziam rebrilhar ante os olhos seduzidos do +môço desventuroso. Assim seu marido usava a sua beleza, o seu leito, como a +rêde de oiro em que devia caír aquela prêsa estouvada! ¿Onde haveria maior +ofensa? E tambêm quanta imprudência! Bem poderia esse D. Rui de Cardenas +desconfiar, não aceder a convite tam abertamente amoroso, e depois mostrar por +toda a Segóvia, rindo e triunfando, aquela carta em que lhe fazia oferta do seu +leito e do seu corpo a mulher de Alonso de Lara! Mas não! o desventurado +correria a Cabril—e para morrer, miserávelmente morrer no negro silêncio da +noite, sem padre, nem sacramentos, com a alma encharcada em pecado de amor! +Para morrer, de-certo—porque nunca o senhor de Lara permitiria que vivesse o +homem que recebera tal carta. Assim, aquele môço morria por amor dela, e por um +amor que, sem lhe valer nunca um gôsto, lhe valia logo a morte! De-certo por +amor dela—pois que tal ódio do senhor de Lara, ódio<span class="pn">{232}</span> que com tanta +deslealdade e vilania se cevava, só podia nascer de ciumes, que lhe escureciam +todo o dever de cavaleiro e de cristão. Sem dúvida êle surpreendera olhares, +passos, tenções dêste senhor D. Rui, mal acautelado por bem namorado.</p> + +<p>Mas como? quando? Confusamente se lembrava ela de um moço que um domingo a +cruzara no adro, a esperara ao portal da igreja, com um molho de cravos na +mão... Seria êsse? Era de nobre parecer, muito pálido, com grandes olhos negros +e quentes. Ela passara—indiferente... Os cravos que segurava na mão eram +vermelhos e amarelos... A quem os levava?... Ah! se o pudesse avisar, bem cedo, +de madrugada!</p> + +<p>¿Como, se não havia em Cabril serviçal ou aia de quem se fiasse? Mas deixar +que uma bruta espada varasse traiçoeiramente aquele coração, que vinha cheio +dela, palpitando por ela, todo na esperança dela!...</p> + +<p>Oh! a desabrida e ardente correria de D. Rui, desde Segóvia a Cabril, com a +promessa do encantador jardim aberto, da escada posta contra a janela, sob a +nudez e protecção da noite! ¿Mandaria realmente o senhor de Lara encostar uma +escada à janela? De-certo, para com mais facilidade o poderem matar, ao pobre, +e doce, e inocente môço, quando êle subisse, mal seguro sôbre um frágil +degrau,<span class="pn">{233}</span> as mãos embaraçadas, a espada a dormir na bainha... E assim, na +outra noite, em face ao seu leito, a sua janela estaria aberta, e uma escada +estaria erguida contra a sua janela à espera de um homem! Emboscado na sombra +do quarto, seu marido seguramente mataria êsse homem...</p> + +<p>¿Mas se o senhor de Lara esperasse fóra dos muros da quinta, assaltasse +brutalmente, nalguma azinhaga, aquele D. Rui de Cardenas, e ou por menos +destro, ou por menos forte, num terçar de armas, caísse êle traspassado, sem +que o outro conhecesse a quem matara? E ela, ali, no seu quarto, sem saber, e +todas as portas abertas, e a escada erguida, e aquele homem assomando à janela +na sombra macia da noite tépida, e o marido que a devia defender morto no fundo +duma azinhaga... ¿Que faria ela, Virgem Mãe? Oh! de-certo repeliria, +soberbarmente, o môço temerário. Mas o espanto dêle e a cólera do seu desejo +enganado! «Por Vós é que eu vim chamado, senhora! E ali trazia, sôbre o +coração, a carta dela, com seu nome, que a sua mão traçara. ¿Como lhe poderia +contar a emboscada e o dolo? Era tam longo de contar, naquele silêncio e +solidão da noite, emquanto os olhos dêle, húmidos e negros, a estivessem +suplicando e traspassando... Desgraçada dela se o senhor de Lara morresse, a +deixasse solitária,<span class="pn">{234}</span> sem defesa, naquela vasta casa aberta! Mas quanto +desgraçada tambêm se aquele môço, chamado por ela, e que a amava, e que por +êsse amor vinha correndo deslumbrante, encontrasse a morte no sítio da sua +esperança, que era o sítio do seu pecado, e, morto em pleno pecado, rolasse +para a eterna desesperança... Vinte e cinco anos, êle—se era o mesmo de quem +se lembrava, pálido, e tam airoso, com um gibão de veludo roxo e um ramo de +cravos na mão, à porta da igreja, em Segóvia...</p> + +<p>Duas lágrimas saltaram dos cansados olhos de D. Leonor. E dobrando os +joelhos, levantando a alma toda para o céu, onde a lua se começava a levantar, +murmurou, numa infinita mágoa e fé:</p> + +<p>—Oh! Santa Virgem do Pilar, Senhora minha, vela por nós ambos, vela por +todos nós!...</p> + + +<h2><a name="SECTION000930">III</a> </h2> + +<p>D. Rui entrava, pela hora da calma, no fresco pátio da sua casa, quando de +um banco de pedra, na sombra, se ergueu um môço do campo, que tirou de dentro +do surrão uma carta, lha entregou, murmurando:<span class="pn">{235}</span></p> + +<p>—Senhor, dai-vos pressa em ler, que tenho de voltar a Cabril, a quem me +mandou...</p> + +<p>D. Rui abriu o pergaminho; e, no deslumbramento que o tomou, bateu com êle +contra o peito, como para o enterrar no coração...</p> + +<p>O moço do campo insistia, inquieto:</p> + +<p>—Aviai, senhor, aviai! Nem precisais responder. Basta que me deis um sinal +de vos ter vindo o recado...</p> + +<p>Muito pálido, D. Rui arrancou uma das luvas bordadas a retroz, que o môço +enrolou e sumiu no surrão. E já abalava na ponta das alpercatas leves, quando, +com um acêno, D. Rui ainda o deteve:</p> + +<p>—Escuta. ¿Que caminho tomas tu para Cabril?</p> + +<p>—O mais certo e sòzinho para gente afoita, que é pelo Cêrro dos Enforcados. +</p> + +<p>—Bem.</p> + +<p>D. Rui galgou as escadas de pedra, e no seu aposento, sem mesmo tirar o +sombreiro, de novo leu junto da gelosia aquele pergaminho divino, em que D. +Leonor o chamava de noite ao seu quarto, à posse inteira do seu ser. E não o +maravilhava esta oferta—depois de uma tam constante, imperturbada indiferença. +Antes nela logo percebeu um amor muito astuto, por ser muito forte, que com +grande paciência se esconde ante os estorvos e os perigos, e mudamente prepara +a sua<span class="pn">{236}</span> hora de contentamento, melhor e mais deliciosa por tam preparada. +Sempre ela o amara, pois, desde a manhã bemdita em que os seus olhos se tinham +cruzado no portal de Nossa Senhora. E emquanto êle rondava aqueles muros do +jardim, maldizendo uma frieza que lhe parecia mais fria que a dos frios muros, +já ela lhe dera a sua alma, e cheia de constância, com amorosa sagacidade, +recalcando o menor suspiro, adormecendo desconfianças, preparava a noite +radiante em que lhe daria tambêm o seu corpo.</p> + +<p>Tanta firmeza, tam fino engenho nas coisas do amor ainda lha tornavam mais +bela e mais apetecida!</p> + +<p>Com que impaciência olhava então o sol, tam desapressado nessa tarde em +descer para os montes! Sem repouso, no seu quarto, com as gelosias cerradas +para melhor concentrar a sua felicidade, tudo aprontava amorosamente para a +triunfal jornada: as finas roupas, as finas rendas, um gibão de veludo negro e +as essências perfumadas. Duas vezes desceu à cavalariça a verificar se o seu +cavalo estava bem ferrado e bem pensado. Sôbre o soalho, vergou e revergou, +para a experimentar, a folha da espada que levaria à cinta... Mas o seu maior +cuidado era o caminho para Cabril, a-pesar de bem o conhecer, e a aldeia +apinhada em tôrno ao mosteiro franciscano, e a vélha<span class="pn">{237}</span> ponte romana com o +seu Calvário, e a azinhaga funda que levava à herdade do senhor de Lara. Ainda +nesse inverno por lá passara, indo montear com dois amigos de Astorga, e +avistara a torre dos de Lara, e pensara:—«Eis a torre da minha ingrata!» Como +se enganava! As noites agora eram de lua, e êle saíria de Segóvia caladamente, +pela porta de S. Mauros. Um galope curto o punha no Cêrro dos Enforcados... Bem +o conhecia tambêm, êsse sítio de tristeza e pavor, com os seus quatro pilares +de pedra, onde se enforcavam os criminosos, e onde os seus corpos ficavam, +balouçados da ventania, ressequidos do sol, até que as cordas apodrecessem e as +ossadas caíssem, brancas e limpas da carne pelo bico dos corvos. Por trás do +Cêrro era a lagôa das Donas. A derradeira vez que por lá andara, fôra em dia do +apóstolo S. Matias, quando o corregedor e as confrarias de caridade e paz, em +procissão, iam dar sepultura sagrada às ossadas caídas no chão negro, +esbrugadas pelas aves. Daí o caminho, depois, corria liso e direito a Cabril. +</p> + +<p>Assim D. Rui meditava a sua jornada venturosa, emquanto a tarde ia caíndo. +Mas, quando escureceu, e em tôrno às tôrres da igreja começaram a girar os +morcegos, e nas esquinas do adro se acenderam os nichos das Almas, o valente +môço sentiu um medo<span class="pn">{238}</span> estranho, o medo daquela felicidade que se acercava +e que lhe parecia sobrenatural. ¿Era, pois, certo que essa mulher de divina +formosura, famosa em Castela, e mais inacessível que um astro, seria sua, toda +sua, no silêncio e segurança duma alcova, dentro em breves instantes, quando +ainda se não tivessem apagado diante dos retábulos das Almas aqueles lumes +devotos? ¿E o que fizera êle para lograr tam grande bem? Pisara as lages de um +adro, esperara no portal de uma igreja, procurando com os olhos outros dois +olhos, que não se erguiam, indiferentes ou desatentos. Então, sem dor, +abandonara a sua esperança... E eis que de repente aqueles olhos distraídos o +procuram, e aqueles braços fechados se lhe abrem, largos e nus, e com o corpo e +com a alma aquela mulher lhe grita:—«Oh! mal avisado, que não me entendeste! +Vem! Quem te desanimou já te pertence!» ¿Houvera jàmais igual ventura? Tam +alta, tam rara era, que de-certo atrás dela, se não erra a lei humana, já devia +caminhar a desventura! Já na verdade caminhava;—pois quanta desventura em +saber que depois de tal ventura, quando de madrugada, saíndo dos divinos +braços, êle recolhesse a Segóvia, a sua Leonor, o bem sublime da sua vida, tam +inesperadamente adquirido por um instante, recaíria logo sob o poder de outro +amo!<span class="pn">{239}</span></p> + +<p>Que importava! Viessem depois dores e zelos! Aquela noite era +esplêndidamente sua, o mundo todo uma aparência vã e a única realidade êsse +quarto de Cabril, mal alumiado, onde ela o esperaria, com os cabelos soltos! +Foi com sofreguidão que desceu a escada, se arremessou sôbre o seu cavalo. +Depois, por prudência, atravessou o adro muito lentamente, com o sombreiro bem +levantado da face, como num passeio natural, a procurar fóra dos muros a +frescura da noite. Nenhum encontro o inquietou até à porta de S. Mauros. Aí, um +mendigo, agachado na escuridão dum arco, e que tocava monótonamente a sua +sanfona, pediu, em lamúria, à Virgem e a todos os santos, que levassem aquele +gentil cavaleiro na sua doce e santa guarda. D. Rui parara para lhe atirar uma +esmola, quando se lembrou que nessa tarde não fôra à igreja, à hora de +vésperas, rezar e pedir a bênção à sua divina madrinha. Com um salto, desceu +logo do cavalo, porque, justamente, rente ao vélho arco, tremeluzia uma lâmpada +alumiando um retábulo. Era uma imagem da Virgem com o peito traspassado por +sete espadas. D. Rui ajoelhou, pousou o sombreiro nas lages, e com as mãos +erguidas, muito zelosamente, rezou uma Salve-Rainha. O clarão amarelo da luz +envolvia o rosto da Senhora, que, sem sentir as dores dos sete ferros, ou como +se êles só déssem<span class="pn">{240}</span> inefáveis gozos, sorria com os lábios muito vermelhos. +Emquanto êle rezava, no convento de São Domingos, ao lado, a sineta começou a +tocar a agonia. De entre a sombra negra do arco, cessando a sanfona, o mendigo +murmurou:—«Lá está um frade a morrer!» D. Rui disse uma Ave-Maria pelo frade +que morria. A Virgem das sete espadas sorria docemente—o toque de agonia não +era, pois, de mau preságio! D. Rui cavalgou alegremente e partiu.</p> + +<p>Para alêm da porta de S. Mauros, depois de alguns casebres de oleiros, o +caminho seguia, esguio e negro, entre altas piteiras. Por trás das colinas, ao +fundo da planície escura, subia o primeiro clarão, amarelo e lânguido, da lua +cheia, ainda escondida. E D. Rui marchava a passo, receando chegar a Cabril +muito cedo, antes que as aias e os moços findassem o serão e o rosário. ¿Porque +não lhe marcara D. Leonor a hora, naquela carta tam clara e tam pensada? Então +a sua imaginação corria adiante, rompia pelo jardim de Cabril, galgava +aladamente a escada prometida—e êle largava tambêm atrás, numa carreira +sôfrega, que arrancava as pedras do caminho mal junto. Depois sofreava o cavalo +ofegante. Era cedo, era cedo! E retomava o passo penoso, sentindo o coração +contra o peito, como ave presa que bate às grades.</p> + +<p>Assim chegou ao Cruzeiro, onde a estrada<span class="pn">{241}</span> se fendia em duas, mais +juntas que as pontas de uma forquilha, ambas cortando através de pinheiral. +Descoberto diante da imagem crucificada, D. Rui teve um instante de angústia, +pois não se recordava qual delas levava ao Cêrro dos Enforcados. Já se +embrenhara na mais cerrada, quando, de entre os pinheiros calados, uma luz +surgiu, dansando no escuro. Era uma vélha em farrapos, com as longas melenas +soltas, vergada sôbre um bordão e levando uma candeia.</p> + +<p>—¿Para onde vai este caminho?—gritou Rui.</p> + +<p>A vélha balançou mais ao alto a candeia, para mirar o cavaleiro.</p> + +<p>—Para Xarama.</p> + +<p>E luz e vélha imediatamente se sumiram, fundidas na sombra, como se ali +tivessem surgindo sómente para avisar o cavaleiro do seu caminho errado... Já +êle virara arrebatadamente; e, rodeando o Calvário, galopou pela outra estrada +mais larga, até avistar sôbre a claridade do céu os pilares negros, os madeiros +negros do Cêrro dos Enforcados. Então estacou, direito nos estribos. Num cômoro +alto, sêco, sem erva ou urze, ligados por um muro baixo, todo esbrechado, lá se +erguiam, negros, enormes, sôbre a amarelidão do luar, os quatro pilares de +granito semelhantes aos quatro cunhais duma casa desfeita.<span class="pn">{242}</span> Sôbre os +pilares pousavam quatro grossas traves. Das traves pendiam quatro enforcados +negros e rígidos, no ar parado e mudo. Tudo em tôrno parecia morto como êles. +</p> + +<p>Gordas aves de rapina dormiam empoleiradas sôbre os madeiros. Para alêm, +rebrilhava lívidamente a água morta da lagôa das Donas. E, no céu, a lua ia +grande e cheia.</p> + +<p>D. Rui murmurou o Padre Nosso devido por todo o cristão àquelas almas +culpadas. Depois impeliu o cavalo, e passava—quando, no imenso silêncio e na +imensa solidão, se ergueu, ressoou uma voz, uma voz que o chamava, suplicante e +lenta:</p> + +<p>—Cavaleiro, detende-vos, vinde cá!...</p> + +<p>D. Rui colheu bruscamente as rédeas e erguido sôbre os estribos, atirou os +olhos espantados por todo o sinistro ermo. Só avistou o cêrro áspero, a água +rebrilhante e muda, os madeiros, os mortos. Pensou que fôra ilusão da noite ou +ousadia de algum demónio errante. E, serenamente, picou o cavalo, sem +sobressalto ou pressa, como numa rua de Segóvia. Mas, por trás, a voz tornou, +mais urgentemente o chamou, ansiosa, quási aflita:</p> + +<p>—Cavaleiro, esperai, não vos vades, voltai, chegai aqui!...</p> + +<p>De novo D. Rui estacou e, virado sôbre a sela, encarou afoitamente os quatro +corpos pendurados das traves. Do lado dêles soava<span class="pn">{243}</span> a voz, que, sendo +humana, só podia saír de forma humana! Um dêsses enforcados, pois, o chamara, +com tanta pressa e ânsia.</p> + +<p>¿Restaria nalguns, por maravilhosa mercê de Deus, alento e vida? ¿Ou seria +que, por maior maravilha, uma dessas carcassas meio apodrecidas o detinha para +lhe transmitir avisos de Alêm-da-Campa?... Mas, que a voz rompesse dum peito +vivo ou dum peito morto, grande covardia era abalar, espavoridamente, sem a +atender e a ouvir.</p> + +<p>Atirou logo para dentro do cêrro o cavalo, que tremia; e, parando, direito e +calmo, com a mão na ilharga, depois de fitar, um por um, os quatro corpos +suspensos, gritou:</p> + +<p>—¿Qual de vós, homens enforcados, ousou chamar por D. Rui de Cardenas?</p> + +<p>Então aquele que voltava as costas à lua cheia respondeu, do alto da corda, +muito quieta e naturalmente, como um homem que conversa da sua janela para a +rua:</p> + +<p>—Senhor, fui eu.</p> + +<p>D. Rui fez avançar para diante dêle o cavalo. Não lhe distinguia a face, +enterrada no peito, escondida pelas longas e negras melenas pendentes. Só +percebeu que tinha as mãos soltas e desamarradas, e tambêm soltos os pés nus, +já ressequidos e da côr do betume.</p> + +<p>—Que me queres?</p> + +<p>O enforcado, suspirando, murmurou:<span class="pn">{244}</span></p> + +<p>—Senhor, fazei-me a grande mercê de me cortar esta corda em que estou +pendurado.</p> + +<p>D. Rui arrancou a espada e de um golpe certo cortou a corda meio apodrecida. +Com um sinistro som de ossos entrechocados o corpo caíu no chão, onde jazeu um +momento, estirado. Mas, imediatamente, se endireitou sôbre os pés mal seguros e +ainda dormentes—e ergueu para D. Rui uma face morta, que era uma caveira com a +pele muito colada, e mais amarela que a lua que nela batia. Os olhos não tinham +movimento nem brilho. Ambos os beiços se lhe arreganhavam num sorriso +empedernido. De entre os dentes, muito brancos, surdia uma ponta de língua +muito negra.</p> + +<p>D. Rui não mostrou terror, nem asco. E embainhando serenamente a espada:</p> + +<p>—¿Tu estás morto ou vivo?—perguntou. O homem encolheu os ombros com +lentidão:</p> + +<p>—Senhor, não sei... ¿Quem sabe o que é a vida? ¿Quem sabe o que é a +morte?...</p> + +<p>—¿Mas que queres de mim ?</p> + +<p>O enforcado, com os longos dedos descarnados, alargou o nó da corda que +ainda lhe laçava o pescoço e declarou muito serena e firmemente:</p> + +<p>—Senhor, eu tenho de ir convosco a Cabril, onde vós ides.<span class="pn">{245}</span></p> + +<p>O cavaleiro estremeceu num tam forte assombro, repuxando as rédeas, que o +seu bom cavalo se empinou como assombrado tambêm.</p> + +<p>—Comigo a Cabril?!...</p> + +<p>O homem curvou o espinhaço, a que se viam os ossos todos, mais agudos que os +dentes de uma serra, através de um longo rasgão da camisa de estamenha:</p> + +<p>—Senhor—suplicou—não mo negueis. Que eu tenho a receber grande salário se +vos fizer grande serviço!</p> + +<p>Então D. Rui pensou de repente que bem podia ser aquela uma traça formidável +do Demónio. E, cravando os olhos muito brilhantes na face morta que para êle se +erguia, ansiosa, à espera do seu consentimento—fez um lento e largo Sinal da +Cruz.</p> + +<p>O enforcado vergou os joelhos com assustada reverência:</p> + +<p>—¿Senhor, para que me experimentais com êsse sinal? Só por êle alcançamos +remissão, e eu só dêle espero misericórdia.</p> + +<p>Então D. Rui pensou que, se êsse homem não era mandado pelo Demónio, bem +podia ser mandado por Deus! E logo devotamente, com um gesto submisso em que +tudo entregava ao céu, consentiu, aceitou o pavoroso companheiro:</p> + +<p>—Vem comigo, pois, a Cabril, se Deus<span class="pn">{246}</span> te manda! Mas eu nada te +pergunto e tu nada me perguntes.</p> + +<p>Desceu logo o cavalo à estrada, toda alumiada da lua. O enforcado seguia ao +seu lado, com passos tam ligeiros, que mesmo quando D. Rui galopava êle se +conservava rente ao estribo, como levado por um vento mudo.</p> + +<p>Por vezes, para respirar mais livremente, repuxava o nó da corda que lhe +enroscava o pescoço. E, quando passavam entre sebes onde errasse o aroma de +flores silvestres, o homem murmurava com infinito alívio e delícia:</p> + +<p>—Como é bom correr!</p> + +<p>D. Rui ia num assombro, num tormentoso cuidado. Bem compreendia agora que +era aquele um cadáver reanimado por Deus, para um estranho e encoberto serviço. +¿Mas para que lhe dava Deus tam medonho companheiro? ¿Para o proteger? ¿Para +impedir que D. Leonor, amada do céu pela sua piedade, caísse em culpa mortal? +¿E, para tam divina incumbência de tam alta mercê, já não tinha o Senhor anjos +no céu, que necessitasse empregar um supliciado?... Ah! como êle voltaria +alegremente a rédea para Segóvia, se não fôra a galante lealdade de cavaleiro, +o orgulho de nunca recuar, e a submissão às ordens de Deus, que sentia sôbre si +pesarem...</p> + +<p>Dum alto da estrada, de repente avistaram Cabril, as torres do convento +franciscano alvejando<span class="pn">{247}</span> ao luar, os casais adormecidos entre as hortas. +Muito silenciosamente, sem que um cão ladrasse detrás das cancelas ou de cima +dos muros, desceram a vélha ponte romana. Diante do Calvário, o enforcado caíu +de joelhos nas lages, ergueu os lívidos ossos das mãos, ficou longamente +rezando, entre longos suspiros. Depois ao entrar na azinhaga, bebeu muito +tempo, e consoladamente, de uma fonte que corria e cantava sob as frondes de um +salgueiro. Como a azinhaga era muito estreita, êle caminhava adiante do +cavaleiro, todo curvado, os braços cruzados fortemente sôbre o peito, sem um +rumor.</p> + +<p>A lua ia alta no céu. D. Rui considerava com amargura aquele disco, cheio e +lustroso, que espargia tanta claridade, e tam indiscreta, sôbre o seu segredo. +Ah! como se estragava a noite que devia ser divina! Uma enorme lua surdia de +entre os montes para tudo alumiar. Um enforcado descia da forca para o seguir e +tudo saber. Deus assim o ordenara. Mas que tristeza chegar à doce porta +docemente prometida, com tal intruso ao seu lado, sob aquele céu todo claro! +</p> + +<p>Bruscamente, o enforcado estacou, erguendo o braço, de onde a manga pendia +em farrapos. Era o fim da azinhaga que desembocava em caminho mais largo e mais +batido:—e diante dêles alvejava o comprido muro da quinta<span class="pn">{248}</span> do senhor de +Lara, tendo aí um mirante, com varandins de pedra, e todo revestido de hera. +</p> + +<p>—Senhor—murmurou o enforcado, segurando com respeito o estribo de D. +Rui—logo a poucos passos dêste mirante é a porta por onde deveis penetrar no +jardim. Convêm que aqui deixeis o cavalo, amarrado a uma árvore, se o tendes +por seguro e fiel. Que na emprêsa em que vamos, já é de mais o rumor dos nossos +pés!...</p> + +<p>Silenciosamente D. Rui apeou, prendeu o cavalo, que sabia fiel e seguro, ao +tronco dum álamo sêco.</p> + +<p>E tam submisso se tornara àquele companheiro imposto por Deus, que sem outro +reparo o foi seguindo rente do muro que o luar batia.</p> + +<p>Com vagarosa cautela, e na ponta dos pés nus, avançava agora o enforcado, +vigiando o alto do muro, sondando a negrura da sebe, parando a escutar rumores +que só para êle eram percebíveis—porque nunca D. Rui conhecera noite mais +fundamente adormecida e muda.</p> + +<p>E tal susto, em quem devia ser indiferente a perigos humanos, foi lentamente +enchendo tambêm o valoroso cavaleiro de tam viva desconfiança, que tirava o +punhal da baínha, enrodilhava a capa no braço, e marchava em<span class="pn">{249}</span> defesa, com +o olhar faiscando, como num caminho de emboscada e briga. Assim chegaram a uma +porta baixa, que o enforcado empurrou, e que se abriu sem gemer nos gonzos. +Penetraram numa rua ladeada de espessos teixos até a um tanque cheio de água, +onde boiavam fôlhas de nenúfares, e que toscos bancos de pedra circundavam, +cobertos pela rama de arbustos em flor.</p> + +<p>—Por ali—murmurou o enforcado, estendendo o braço mirrado.</p> + +<p>Era alêm do tanque, uma avenida que densas e vélhas árvores abobadavam e +escureciam. Por ela se meteram, como sombras na sombra, o enforcado adiante, D. +Rui seguindo muito subtilmente, sem roçar um ramo, mal pisando a areia. Um leve +fio de água sussurrava entre relvas. Pelos troncos subiam rosas trepadeiras, +que cheiravam docemente. O coração de D. Rui recomeçou a bater numa esperança +de amor.</p> + +<p>—Chut!—fez o enforcado.</p> + +<p>E D. Rui quási tropeçou no sinistro homem que estacava, com os braços +abertos como as traves de uma cancela. Diante dêles quatro degraus de pedra +subiam a um terraço, onde a claridade era larga e livre. Agachados, treparam os +degraus—e ao fundo dum jardim sem árvores, todo em canteiros de flores bem +recortados, orlados de buxo<span class="pn">{250}</span> curto, avistaram um lado da casa batido pela +lua cheia. Ao meio, entre as janelas de peitoril fechadas, um balcão de pedra, +com manjericões aos cantos, conservava as vidraças abertas largamente. O +quarto, dentro, apagado, era como um buraco de treva na claridade da fachada +que o luar banhava. E arrimada contra o balcão, estava uma escada com degraus +de corda.</p> + +<p>Então o enforcado empurrou D. Rui vivamente dos degraus para a escuridão da +avenida. E aí, com um modo urgente, dominando o cavaleiro, exclamou:</p> + +<p>—Senhor! Convêm agora que me deis o vosso sombreiro e a capa! Vós quedais +aqui na escuridão destas árvores. Eu vou trepar àquela escada e espreitar para +aquele quarto... E se fôr como desejais, aqui voltarei, e com Deus sêde +feliz...</p> + +<p>D. Rui recuou no horror de que tal criatura subisse a tal janela!</p> + +<p>E bateu o pé, gritou surdamente:</p> + +<p>—Não, por Deus!</p> + +<p>Mas a mão do enforcado, lívida na escuridão, bruscamente lhe arrancou o +sombreiro da cabeça, lhe puxou a capa do braço. E já se cobria, já se embuçava, +murmurando agora, numa súplica ansiosa:</p> + +<p>—Não mo negueis, senhor, que se vos fizer grande serviço, ganharei grande +mercê!<span class="pn">{251}</span></p> + +<p>E galgou os degraus:—estava no alumiado e largo terraço.</p> + +<p>D. Rui subiu, atontado, e espreitou. E—oh maravilha!—era êle, D. Rui, todo +êle, na figura e no modo, aquele homem que, por entre os canteiros e o buxo +curto, avançava, airoso e leve, com a mão na cintura, a face erguida +risonhamente para a janela, a longa pluma escarlate do chapéu balançando em +triunfo. O homem avançava no luar esplêndido. O quarto amoroso lá estava +esperando, aberto e negro. E D. Rui olhava, com olhos que faiscavam, tremendo +de pasmo e cólera. O homem chegara à escada: destraçou a capa, assentou o pé no +degrau de corda!—«Oh! lá sobe, o maldito!»—rugiu D. Rui. O enforcado subia. +Já a alta figura, que era dêle, D. Rui, estava a meio da escada, toda negra +contra a parede branca. Parou!... Não! não parara: subia, chegava,—já sôbre o +rebordo da varanda pousara o joelho cauteloso. D. Rui olhava, desesperadamente, +com os olhos, com a alma, com todo o seu ser... E eis que, de repente, do +quarto negro surge um negro vulto, uma furiosa voz brada:—«vilão, vilão!»—e +uma lâmina de adaga faisca, e cai, e outra vez se ergue, e rebrilha, e se +abate, e ainda refulge, e ainda se embebe!... Como um fardo, do alto da escada, +pesadamente, o enforcado cai sôbre a terra mole. Vidraças, portadas do<span class="pn">{252}</span> +balcão logo se fecham com fragor. E não houve mais senão o silêncio, a +serenidade macia, a lua muito alta e redonda no céu de verão.</p> + +<p>Num relance D. Rui compreendera a traição, arrancara a espada, recuando para +a escuridão da avenida—quando, oh milagre! correndo através do terraço, +aparece o enforcado, que lhe agarra a manga e lhe grita:</p> + +<p>—A cavalo, senhor, e abalar, que o encontro não era de amor, mas de morte! +</p> + +<p>Ambos descem arrebatadamente a avenida, costeiam o tanque sob o refúgio dos +arbustos em flor, metem pela rua estreita orlada de teixos, varam a porta—e um +momento param, ofegantes, na estrada, onde a lua, mais refulgente, mais cheia, +fazia como um puro dia.</p> + +<p>E então, só então, D. Rui descobriu que o enforcado conservava cravada no +peito, até aos copos, a adaga, cuja ponta lhe saía pelas costas, luzidia e +limpa!... Mas já o pavoroso homem o empurrava, o apressava:</p> + +<p>—A cavalo, senhor, e abalar, que ainda está sôbre nós a traição!</p> + +<p>Arrepiado, numa ânsia de findar aventura tam cheia de milagre e de horror, +D. Rui colheu as rédeas, cavalgou sôfregamente. E logo, em grande pressa, o +enforcado saltou tambêm para a garupa do cavalo fiel. Todo se arrepiou o bom +cavaleiro, ao sentir nas suas<span class="pn">{253}</span> costas o roçar daquele corpo morto, +dependurado de uma forca, atravessado por uma adaga. Com que desespêro galopou +então pela estrada infindável! Em carreira tam violenta o enforcado nem +oscilava, rígido sôbre a garupa, como um bronze num pedestal. E D. Rui a cada +momento sentia um frio mais regelado que lhe regelava os ombros, como se +levasse sôbre êles um saco cheio de gêlo. Ao passar no cruzeiro +murmurou:—«Senhor, valei-me!»—Para alêm do cruzeiro, de repente estremeceu +com o quimérico medo de que tam fúnebre companheiro para sempre o ficasse +acompanhando, e se tornasse seu destino galopar através do mundo, numa noite +eterna, levando um morto à garupa... E não se conteve, gritou para trás, no +vento da carreira que os vergastava:</p> + +<p>—¿Para onde quereis que vos leve?</p> + +<p>O enforcado, encostando tanto o corpo a D. Rui que o magoou com os copos da +adaga, segredou:</p> + +<p>—Senhor, convêm que me deixeis no Cêrro!</p> + +<p>Doce e infinito alívio para o bom cavaleiro—pois o Cêrro estava perto, e já +lhe avistava, na claridade desmaiada, os pilares e as traves negras... Em breve +estacou o cavalo que tremia, branqueado de espuma.</p> + +<p>Logo o enforcado, sem rumor, escorregou<span class="pn">{254}</span> da garupa, segurou, como bom +serviçal, o estribo de D. Rui. E com a caveira erguida, a língua negra mais +saída de entre os dentes brancos, murmurou em respeitosa súplica:</p> + +<p>—Senhor, fazei-me agora a grande mercê de me pendurar outra vez da minha +trave.</p> + +<p>D. Rui estremeceu de horror:</p> + +<p>—Por Deus! Que vos enforque, eu?...</p> + +<p>O homem suspirou, abrindo os braços compridos:</p> + +<p>—Senhor, por vontade de Deus é, e por vontade de Aquela que é mais cara a +Deus!</p> + +<p>Então, resignado, submisso aos mandados do Alto, D. Rui apeou—e começou a +seguir o homem, que subia para o Cêrro pensativamente, vergando o dorso, de +onde saía, espetada e luzidia, a ponta da adaga. Pararam ambos sob a trave +vazia. Em tôrno das outras traves pendiam as outras carcassas. O silêncio era +mais triste e fundo que os outros silêncios da terra. A água da lagôa +ennegrecera. A lua descia e desfalecia.</p> + +<p>D. Rui considerou a trave onde restava, curto no ar, o pedaço de corda que +êle cortara com a espada.</p> + +<p>—¿Como quereis que vos pendure?—exclamou.—Àquele pedaço de corda não +posso chegar com a mão; nem eu só basto para lá vos içar.<span class="pn">{255}</span></p> + +<p>—Senhor—respondeu o homem—aí a um canto deve haver um longo rôlo de +corda. Uma ponta dela ma atareis a este nó que trago no pescoço: a outra ponta +a arremessareis por cima da trave, e puxando depois, forte como sois, bem me +podereis reenforcar.</p> + +<p>Ambos curvados, com passos lentos, procuraram o rôlo de corda. E foi o +enforcado que o encontrou, o desenrolou... Então D. Rui descalçou as luvas. E +ensinado por êle (que tam bem o aprendera do carrasco) atou uma ponta da corda +ao laço que o homem conservava no pescoço, e arremessou fortemente a outra +ponta, que ondeou no ar, passou sôbre a trave, ficou pendurada rente ao chão. E +o rijo cavaleiro, fincando os pés, retezando os braços, puxou, içou o homem, +até êle se quedar, suspenso, negro no ar, como um enforcado natural entre os +outros enforcados.</p> + +<p>—Estais bem assim?</p> + +<p>Lenta e sumida, veio a voz do morto:</p> + +<p>—Senhor, estou como devo.</p> + +<p>Então D. Rui, para o fixar, enrolou a corda em voltas grossas ao pilar de +pedra. E tirando o sombreiro, limpando com as costas da mão o suor que o +alagava, contemplou o seu sinistro e miraculoso companheiro. Estava já rígido +como antes, com a face pendida sob as melenas caídas, os pés inteiriçados, todo +poído e carcomido como uma vélha carcassa. No peito<span class="pn">{256}</span> conservava a adaga +cravada. Por cima, dois corvos dormiam quietos.</p> + +<p>—¿E agora que mais quereis?—perguntou D. Rui, começando a calçar as luvas. +</p> + +<p>Sumidamente, do alto, o enforcado murmurou:</p> + +<p>—Senhor, muito vos rogo agora que, ao chegar a Segóvia, tudo conteis +fielmente a Nossa Senhora do Pilar, vossa madrinha, que dela espero grande +mercê para a minha alma, por êste serviço que, a seu mandado, vos fez o meu +corpo!</p> + +<p>Então, D. Rui de Cardenas tudo compreendeu—e, ajoelhando devotamente sôbre +o chão de dor e morte, rezou uma longa oração por aquele bom enforcado.</p> + +<p>Depois galopou para Segóvia. A manhã clareava quando êle transpôs a porta de +S. Mauros. No ar fino os sinos claros tocavam a matinas. E entrando na igreja +de Nossa Senhora do Pilar, ainda no desalinho da sua terrível jornada, D. Rui, +de rôjo ante o altar, narrou à sua Divina Madrinha a ruim tenção que o levara a +Cabril, o socorro que do céu recebera, e, com quentes lágrimas de +arrependimento e gratidão, lhe jurou que nunca mais poria desejo onde houvesse +pecado, nem no seu coração daria entrada a pensamento que viesse do Mundo e do +Mal.<span class="pn">{257}</span></p> + + +<h2><a name="SECTION000940">IV</a> </h2> + +<p>A essa hora, em Cabril, D. Alonso de Lara, com os olhos esbugalhados de +pasmo e terror, esquadrinhava todas as ruas e recantos e sombras do seu jardim. +</p> + +<p>Quando ao alvorecer, depois de escutar à porta da câmara onde nessa noite +encerrara D. Leonor, êle descera subtilmente ao jardim e não encontrara, +debaixo do balcão, rente à escada, como deliciosamente esperava, o corpo de D. +Rui de Cardenas, teve por certo que o homem odioso, ao tombar, ainda com um +resto débil de vida, se arrastara sangrando e arquejando, na tentativa de +alcançar o cavalo e abalar de Cabril... Mas, com aquela rija adaga que êle três +vezes lhe enterrara no peito, e que no peito lhe deixara, não se arrastaria o +vilão por muitas jardas, e nalgum canto devia jazer frio e inteiriçado. +Rebuscou então cada rua, cada sombra, cada maciço de arbustos. E—maravilhoso +caso!—não descobria o corpo, nem pègadas, nem terra que houvesse sido +remexida, nem sequer rasto de sangue sôbre a terra! E todavia, com mão certeira +e faminta de vingança, três vezes<span class="pn">{258}</span> êle lhe embebera a adaga no peito, e +no peito lha deixara!</p> + +<p>E era Rui de Cardenas o homem que êle matara—que muito bem o conhecera +logo, do fundo apagado do quarto de onde espreitava, quando êle, à claridade da +lua, veio através do terraço, confiado, ligeiro, com a mão na cintura, a face +risonhamente erguida e a pluma do sombreiro meneando em triunfo! ¿Como podia +ser cousa tam rara—um corpo mortal sobrevivendo a um ferro, que três vezes lhe +vara o coração e no coração lhe fica cravado? E a maior raridade era que nem no +chão, debaixo da varanda, onde corria ao longo do muro uma tira de goivos e +cecêns, deixara um vestígio aquele corpo forte, caíndo de tam alto pesadamente, +inertemente, como um fardo! Nem uma flor machucada—todas direitas, viçosas, +como novas, com gotas leves de orvalho! Imóvel de espanto, quási de terror, D. +Alonso de Lara ali parava, considerando o balcão, medindo a altura da escada, +olhando esgazeadamente os goivos direitos, frescos, sem uma haste ou fôlha +vergada. Depois recomeçava a correr loucamente o terraço, a avenida, a rua de +teixos, na esperança ainda duma pègada, dum galho partido, de uma nódoa de +sangue na areia fina.</p> + +<p>Nada! Todo o jardim oferecia um desusado arranjo e limpeza nova, como se +sôbre êle<span class="pn">{259}</span> nunca houvesse passado nem o vento que desfolha, nem o sol que +murcha.</p> + +<p>Então, ao entardecer, devorado pela incerteza e mistério, tomou um cavalo e, +sem escudeiro ou cavalariço, partiu para Segóvia. Curvada e escondidamente, +como um foragido, penetrou no seu palácio pela porta do pomar: e o seu primeiro +cuidado foi correr à galeria de abóbada, destrancar as portadas da janela e +espreitar ávidamente a casa de D. Rui de Cardenas. Todas as gelosias da vélha +morada do arcediago estavam escuras, abertas, respirando a fresquidão da +noite:—e à porta, sentado num banco de pedra, um môço de cavalariça afinava +preguiçosamente a bandurra.</p> + +<p>D. Alonso de Lara desceu à sua câmara, lívido, pensando que não houvera +certamente desgraça em casa onde todas as janelas se abrem para refrescar, e no +portão da rua os moços folgam. Então bateu as palmas, pediu furiosamente a +ceia. E, apenas sentado, ao tôpo da mesa, na sua alta séde de couro lavrado, +mandou chamar o intendente, a quem ofereceu logo com estranha familiaridade um +copo de vinho vélho. Emquanto o homem, de pé, bebia respeitosamente, D. Alonso, +metendo os dedos pelas barbas e forçando a sua sombria face a sorrir, +perguntava pelas novas e rumores de Segóvia. ¿Nesses dias da sua<span class="pn">{260}</span> estada +em Cabril, nenhum caso criara pela cidade espanto e murmuração?... O intendente +limpou os beiços, para afirmar que nada ocorrera em Segóvia de que andasse +murmuração, a não ser que a filha do senhor D. Gutierres, tam môça e tam rica +herdeira, tomara o véu no convento das Carmelitas Descalças. D. Alonso +insistia, fitando vorazmente o intendente. ¿E não se travara uma grande +briga?... ¿não se encontrara ferido, na estrada de Cabril, um cavaleiro môço, +muito falado?... O intendente encolhia os ombros: nada ouvira, pela cidade, de +brigas ou de cavaleiros feridos. Com um acêno desabrido D. Alonso despediu o +intendente.</p> + +<p>Apenas ceara, parcamente, logo voltou à galeria a espreitar as janelas de D. +Rui. Estavam agora cerradas; na última, da esquina, tremeluzia uma claridade. +Toda a noite D. Alonso velou, remoendo incansavelmente o mesmo espanto. ¿Como +pudera escapar aquele homem, com uma adaga atravessada no coração? Como +pudera?... Ao luzir da manhã, tomou uma capa, um largo sombreiro, desceu ao +adro, todo embuçado e encoberto, e ficou rondando por diante da casa de D. Rui. +Os sinos tocaram a matinas. Os mercadores, com os gibões mal abotoados, saíam a +erguer as portadas das lojas, a pendurar as taboletas. Já os hortelões, picando +os burros carregados de ceiras,<span class="pn">{261}</span> atiravam os pregões de hortaliça fresca, +e frades descalços, com o alforge aos ombros, pediam esmola, benziam as moças. +</p> + +<p>Beatas embiocadas, com grossos rosários negros, enfiavam gulosamente para a +igreja. Depois o pregoeiro da cidade, parando a um canto do adro, tocou uma +buzina, e numa voz tremenda começou a ler um edital.</p> + +<p>O senhor de Lara, parara junto do chafariz, pasmado, como embebido no cantar +das três bicas de água. De repente pensou que aquele edital, lido pelo +pregoeiro da cidade, se referia talvez a D. Rui, ao seu desaparecimento... +Correu à esquina do adro—mas já o homem enrolara o papel, se afastava +majestosamente, batendo nas lages com a sua vara branca. E, quando se voltava +para espiar de novo a casa, eis que os seus olhos atónitos encontram D. Rui, D. +Rui que êle matara—e que vinha caminhando para a igreja de Nossa Senhora, +ligeiro, airoso, a face risonha e erguida no fresco ar da manhã, de gibão +claro, de plumas claras, com uma das mãos pousando na cinta, a outra meneando +distraídamente um bastão com borlas de torçal de oiro!</p> + +<p>D. Alonso recolheu então a casa com passos arrastados e envelhecidos. No +alto da escadaria de pedra, achou o seu vélho capelão, que o viera saùdar, e +que, penetrando com êle na ante-câmara, depois de pedir, com reverência,<span class="pn">{262}</span> +novas da senhora D. Leonor, lhe contou logo dum prodigioso caso que causava +pela cidade grave murmuração e espanto. Na véspera, de tarde, indo o corregedor +visitar o cêrro das forcas, pois se acercava a festa dos Santos Apóstolos, +descobrira, com muito pasmo e muito escândalo, que um dos enforcados tinha uma +adaga cravada no peito! ¿Fôra gracejo de um pícaro sinistro? ¿Vingança que nem +a morte saciara?... E para maior prodígio ainda, o corpo fôra despendurado da +forca, arrastado em horta ou jardim (pois que prêsas aos vélhos farrapos se +encontraram fôlhas tenras) e depois novamente enforcado e com corda nova!... E +assim ia a turbulência dos tempos, que nem os mortos se furtavam a ultrajes! +</p> + +<p>D. Alonso escutava com as mãos a tremer, os pêlos arrepiados. E +imediatamente, numa ansiosa agitação, bradando, tropeçando contra as portas, +quis partir, e por seus olhos verificar a fúnebre profanação. Em duas mulas +ajaezadas à pressa, ambos abalaram para o Cêrro dos Enforcados, êle e o capelão +arrastado e aturdido. Numeroso povo de Segóvia se ajuntara já no Cêrro, +pasmando para o maravilhoso horror—o morto que fôra morto!... Todos se +arredaram ante o nobre senhor de Lara, que arremessando-se pelo cabeço acima, +estacara a olhar, esgazeado e lívido, para<span class="pn">{263}</span> o enforcado e para a adaga +que lhe varava o peito. Era a sua adaga:—fôra êle que matara o morto!</p> + +<p>Galopou espavoridamente para Cabril. E aí se encerrou com o seu segredo, +começando logo a amarelecer, a definhar, sempre arredado da senhora D. Leonor, +escondido pelas ruas sombrias do jardim, murmurando palavras ao vento, até que +na madrugada de S. João uma serva, que voltava da fonte com a sua bilha, o +encontrou morto, por baixo do balcão de pedra, todo estirado no chão, com os +dedos encravados no canteiro de goivos, onde parecia ter longamente esgravatado +a terra, a procurar...</p> + + +<h2><a name="SECTION000950">V</a> </h2> + +<p>Para fugir a tam lamentáveis memórias, a senhora D. Leonor, herdeira de +todos os bens da casa de Lara, recolheu ao seu palácio de Segóvia. Mas como +agora sabia que o senhor D. Rui de Cardenas escapara miraculosamente à +emboscada de Cabril, e como cada manhã, espreitando de entre as gelosias, meio +cerradas, o seguia, com olhos que se não fartavam e se humedeciam, quando êle +cruzava o adro para entrar na igreja, não quis ela, com receio das<span class="pn">{264}</span> +pressas e impaciências do seu coração, visitar a Senhora do Pilar emquanto +durasse o seu luto. Depois, uma manhã de domingo, quando, em vez de crepes +negros, se poude cobrir de sêdas roxas, desceu a escadaria do seu palácio, +pálida de uma emoção nova e divina, pisou as lages do adro, transpôs as portas +da igreja. D. Rui de Cardenas estava ajoelhado diante do altar, onde depusera o +seu ramo votivo de cravos amarelos e brancos. Ao rumor das sêdas finas, ergueu +os olhos com uma esperança muito pura e toda feita de graça celeste, como se um +anjo o chamasse. D. Leonor ajoelhou, com o peito a arfar, tam pálida e tam +feliz que a cera das tochas não era mais pálida, nem mais felizes as andorinhas +que batiam as asas livres pelas ogivas da vélha igreja.</p> + +<p>Ante êsse altar, e de joelhos nessas lages, foram eles casados pelo bispo de +Segóvia, D. Martinho, no outono do ano da Graça de 1475, sendo já reis de +Castela Isabel e Fernando, muito fortes e muito católicos, por quem Deus operou +grandes feitos sôbre a terra e sôbre o mar.<span class="pn">{265}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION0001000">JOSE MATIAS</a> </h1> + +<p>Linda tarde, meu amigo!... Estou esperando o entêrro do José Matias—do José +Matias de Albuquerque, sobrinho do Visconde de Garmilde... O meu amigo +certamente o conheceu—um rapaz airoso, louro como uma espiga, com um bigode +crespo de paladino sôbre uma bôca indecisa de contemplativo, déstro cavaleiro, +duma elegância sóbria e fina. E espírito curioso, muito afeiçoado às ideas +gerais, tam penetrante que compreendeu a minha <em>Defesa da Filosofia +Hegeliana</em>! Esta imagem do José Matias data de 1865: porque a derradeira +vez que o encontrei, numa tarde agreste de Janeiro, metido num portal da rua de +S. Bento, tiritava dentro duma quinzena côr de mel, roída nos cotovelos, e +cheirava abominavelmente a aguardente.<span class="pn">{266}</span></p> + +<p>Mas o meu amigo, numa ocasião que o José Matias parou em Coímbra, recolhendo +do Pôrto, ceou com êle, no Paço do Conde! Até o Craveiro, que preparava as +<em>Ironias e Dores de Satan</em>, para acirrar mais a briga entre a Escola +Purista e a Escola Satânica, recitou aquele seu soneto, de tam fúnebre +idealismo: <em>Na jaula do meu peito, o coração</em>... E ainda lembro o José +Matias, com uma grande gravata de setim preto tufada entre o colete de linho +branco, sem despegar os olhos das velas das serpentinas, sorrindo pálidamente +àquele coração que rugia na sua jaula... Era uma noite de Abril, de lua cheia. +Passeamos depois em bando, com guitarras, pela Ponte e pelo Choupal. O Januário +cantou ardentemente as endechas românticas do nosso tempo:</p> + + +<blockquote> + Ontem de tarde, ao sol posto, <br> + Contemplavas, silenciosa, <br> + A torrente caudalosa <br> + Que refervia a teus pés... </blockquote> + +<p>E o José Matias, encostado ao parapeito da Ponte, com a alma e os olhos +perdidos na lua!—¿Porque não acompanha o meu amigo êste môço interessante ao +Cemitério dos Prazeres? Eu tenho uma tipóia, de praça e com número, como convêm +a um Professor de filosofia... O quê! ¿Por causa das calças claras?<span class="pn">{267}</span> Oh! +meu caro amigo! De todas as materializações da simpatia, nenhuma mais +grosseiramente material do que a casimira preta. E o homem que nós vamos +enterrar era um grande espiritualista!</p> + +<p>Vem o caixão saíndo da Igreja... Apenas três carruagens para o acompanhar. +Mas realmente, meu caro amigo, o José Matias morreu há seis anos, no seu puro +brilho. Êsse, que aí levamos, meio decomposto, dentro de tábuas agaloadas de +amarelo, é um resto de bêbedo, sem história e sem nome, que o frio de Fevereiro +matou no vão dum portal.</p> + +<p>¿O sujeito de óculos de oiro, dentro do copé?... Não conheço, meu amigo. +Talvez um parente rico, dêsses que aparecem nos enterros, com o parentesco +correctamente coberto de fumo, quando o defunto já não importuna, nem +compromete. O homem obeso de carão amarelo, dentro da vitória, é o Alves +<em>Capão</em>, que tem um jornal onde desgraçadamente a Filosofia não abunda, +e que se chama a <em>Piada</em>. ¿Que relações o prendiam ao Matias?... Não +sei. Talvez se embebedassem nas mesmas tascas; talvez o José Matias últimamente +colaborasse na <em>Piada</em>; talvez debaixo daquela gordura e daquela +literatura, ambas tam sórdidas, se abrigue uma alma compassiva. Agora é a nossa +tipóia... ¿Quer que desça a vidraça? Um cigarro?... Eu trago<span class="pn">{268}</span> fósforos. +Pois êste José Matias foi um homem desconsolador para quem, como eu, na vida +ama a evolução lógica e pretende que a espiga nasça coerentemente do grão. Em +Coímbra sempre o consideramos como uma alma escandalosamente banal. Para êste +juizo concorria talvez a sua horrenda correcção. Nunca um rasgão brilhante na +batina! nunca uma poeira estouvada nos sapatos! nunca um pêlo rebelde do cabelo +ou do bigode fugindo daquele rígido alinho que nos desolava! Alêm disso, na +nossa ardente geração, êle foi o único intelectual que não rugiu com as +misérias da Polónia; que leu sem palidez ou pranto as <em>Contemplações</em>; +que permaneceu insensível ante a ferida de Garibaldi! E todavia, nesse José +Matias, nenhuma secura ou dureza ou egoismo ou desafabilidade! Pelo contrário! +Um suave camarada, sempre cordial, e mansamente risonho. Toda a sua inabalável +quietação parecia provir duma imensa superficialidade sentimental. E, nesse +tempo, não foi sem razão e propriedade que nós alcunhamos aquele môço tam +macio, tam louro e tam ligeiro, de <em>Matias-Coração-de-Esquilo</em>. Quando +se formou, como lhe morrera o pai, depois a mãe, delicada e linda senhora de +quem herdara cincoenta contos, partiu para Lisboa, alegrar a solidão dum tio +que o adorava, o general Visconde de Garmilde. O meu<span class="pn">{269}</span> amigo sem dúvida se +lembra dessa perfeita estampa de general clássico, sempre de bigodes +terríficamente encerados, as calças côr de flor de alecrim desesperadamente +esticadas pelas presilhas sôbre as botas coruscantes, e o chicote debaixo do +braço com a ponta a tremer, ávida de vergastar o Mundo! Guerreiro grotesco e +deliciosamente bom... O Garmilde morava então em Arroios, numa casa antiga de +azulejos, com um jardim, onde êle cultivava apaixonadamente canteiros soberbos +de dálias. Êsse jardim subia muito suavemente até ao muro coberto de hera que o +separava de outro jardim, o largo e belo jardim de rosas do Conselheiro Matos +Miranda, cuja casa, com um arejado terraço entre dois torreõsinhos amarelos, se +erguia no cimo do outeiro e se chamava a casa da «Parreira». O meu amigo +conhece (pelo menos de tradição, como se conhece Helena de Troia ou Inês de +Castro) a formosa Elisa Miranda, a Elisa da Parreira... Foi a sublime beleza +romântica de Lisboa, nos fins da Regeneração. Mas realmente Lisboa apenas a +entrevia pelos vidros da sua grande caleche, ou nalguma noite de iluminação do +Passeio Público entre a poeira e a turba, ou nos dois bailes da Assembleia do +Carmo de que o Matos Miranda era um director venerado. Por gôsto borralheiro de +provinciana, ou por pertencer<span class="pn">{270}</span> àquela burguesia séria que nesses tempos, +em Lisboa, ainda conservava os antigos hábitos severamente encerrados, ou por +imposição paternal do marido, já diabético e com sessenta anos—a Deusa +raramente emergia de Arroios e se mostrava aos mortais. Mas quem a viu, e com +facilidade constante, quási irremediavelmente, logo que se instalou em Lisboa, +foi o José Matias—porque, jazendo o palacete do general na falda da colina, +aos pés do jardim e da casa da Parreira, não podia a divina Elisa assomar a uma +janela, atravessar o terraço, colhêr uma rosa entre as ruas de buxo, sem ser +deliciosamente visível, tanto mais que nos dois jardins assoalhados nenhuma +árvore espalhava a cortina da sua rama densa. O meu amigo de-certo trauteou, +como todos trauteamos, aqueles versos gastos, mas imortais:</p> + + +<blockquote> + Era no outono, quando a imagem tua <br> + Á luz da lua... </blockquote> + +<p>Pois, como nessa estrofe, o pobre José Matias, ao regressar da praia da +Ericeira em outubro, no outono, avistou Elisa Miranda, uma noite no terraço, à +luz da lua! O meu amigo nunca contemplou aquele precioso tipo de encanto +Lamartiniano. Alta, esbelta, ondulosa, digna da comparação bíblica da +palmeira<span class="pn">{271}</span> ao vento. Cabelos negros, lustrosos e ricos, em bandós +ondeados. Uma carnação de camélia muito fresca. Olhos negros, líquidos, +quebrados, tristes, de longas pestanas... Ah! meu amigo, até eu, que já então +laboriosamente anotava Hegel, depois de a encontrar numa tarde de chuva +esperando a carruagem à porta do Seixas, a adorei durante três exaltados dias e +lhe rimei um soneto! Não sei se o José Matias lhe dedicou sonetos. Mas todos +nós, seus amigos, percebemos logo o forte, profundo, absoluto amor que +concebera, desde a noite de outono, à luz da lua, aquele coração, que em +Coímbra considerávamos de <em>esquilo</em>!</p> + +<p>Bem compreende que homem tam comedido e quieto não se exalou em suspiros +públicos. Já, porêm, no tempo de Aristóteles, se afirmava que amor e fumo não +se escondem; e do nosso cerrado José Matias o amor começou logo a escapar, como +o fumo leve através das fendas invisíveis duma casa fechada que arde +terrívelmente. Bem me recordo duma tarde que o visitei em Arroios, depois de +voltar do Alentejo. Era um domingo de Julho. Êle ia jantar com uma tia-avó, uma +D. Mafalda Noronha, que vivia em Bemfica, na quinta dos Cedros, onde +habitualmente jantavam tambêm aos domingos o Matos Miranda e a divina Elisa. +Creio mesmo que só nessa casa ela e o José Matias se encontravam,<span class="pn">{272}</span> +sobretudo com as facilidades que oferecem pensativas alamedas e retiros de +sombra. As janelas do quarto do José Matias abriam sôbre o seu jardim e sôbre o +jardim dos Mirandas: e, quando entrei, êle ainda se vestia, lentamente. Nunca +admirei, meu amigo, face humana aureolada por felicidade mais segura e serena! +Sorria iluminadamente quando me abraçou, com um sorriso que vinha das +profundidades da alma iluminada; sorria ainda deliciadamente emquanto eu lhe +contei todos os meus desgostos no Alentejo: sorriu depois estáticamente, +aludindo ao calor e enrolando um cigarro distraído; e sorriu sempre, enlevado, +a escolher na gaveta da cómoda, com escrúpulo religioso, uma gravata de sêda +branca. E a cada momento, irresistivelmente, por um hábito já tam inconsciente +como o pestanejar, os seus olhos risonhos, calmamente enternecidos, se voltavam +para as vidraças fechadas... De sorte que, acompanhando aquele raio ditoso, +logo descobri, no terraço da casa da Parreira, a divina Elisa, vestida de +claro, com um chapéu branco, passeando preguiçosamente, calçando pensativamente +as luvas, e espreitando tambêm as janelas do meu amigo, que um lampejo oblíquo +do sol ofuscava de manchas de oiro. O José Matias no entanto conversava, antes +murmurava, através do sorriso perene, coisas afáveis<span class="pn">{273}</span> e dispersas. Toda a +sua atenção se concentrara diante do espelho, no alfinete de coral e pérola +para prender a gravata, no colete branco que abotoava e ajustava com a devoção +com que um padre novo, na exaltação cândida da primeira missa, se reveste da +estola e do amito para se acercar do altar. Nunca eu vira um homem deitar, com +tam profundo êxtasi, água de Colónia no lenço! E depois de enfiar a +sobrecasaca, de lhe espetar uma soberba rosa, foi com inefável emoção, sem +reter um delicioso suspiro, que abriu largamente, solenemente, as vidraças! +<em>Introibo ad altarem Deæ!</em> Eu permaneci discretamente enterrado no sofá. +E, meu caro amigo, acredite! invejei aquele homem à janela, imóvel, hirto na +sua adoração sublime, com os olhos, e a alma, e todo o ser cravados no terraço, +na branca mulher calçando as luvas claras, e tam indiferente ao Mundo como se o +Mundo fôsse apenas o ladrilho que ela pisava e cobria com os pés!</p> + +<p>E êste enlêvo, meu amigo, durou dez anos, assim esplêndido, puro, distante e +imaterial! Não ria... De-certo se encontravam na quinta de D. Mafalda: de-certo +se escreviam, e transbordantemente, atirando as cartas por cima do muro que +separava os dois quintais: mas nunca, por cima das heras dêsse muro, procuraram +a rara delícia duma conversa roubada ou a delícia ainda mais perfeita dum +silêncio<span class="pn">{274}</span> escondido na sombra. E nunca trocaram um beijo... Não duvide! +Algum apêrto de mão fugidio e sôfrego, sob os arvoredos da D. Mafalda, foi o +limite exaltadamente extremo, que a vontade lhes marcou ao desejo. O meu amigo +não compreende como se mantiveram assim dois frágeis corpos, durante dez anos, +em tam terrível e mórbido renunciamento... Sim, de-certo lhes faltou, para se +perderem, uma hora de segurança ou uma portinha no muro. Depois a divina Elisa +vivia realmente num mosteiro, em que ferrolhos e grades eram formados pelos +hábitos rígidamente reclusos do Matos Miranda, diabético e tristonho. Mas, na +castidade dêste amor, entrou muita nobreza moral e finura superior de +sentimento. O amor espiritualiza o homem—e materializa a mulher. Essa +espiritualização era fácil ao José Matias, que (sem nós desconfiarmos) nascera +desvairadamente espiritualista; mas a humana Elisa encontrou tambêm um gôzo +delicado nessa ideal adoração de monge, que nem ousa roçar, com os dedos +trémulos e embrulhados no rozário, a túnica da Virgem sublimada. Êle, sim! êle +gozou nesse amor transcendentemente desmaterializado um encanto sobreumano. E +durante dez anos, como o Ruy-Blas do vélho Hugo, caminhou, vivo e deslumbrado, +dentro do seu sonho radiante, sonho em que<span class="pn">{275}</span> Elisa habitou realmente +dentro da sua alma, numa fusão tam absoluta que se tornou consubstancial com o +seu ser! ¿Acreditará o meu amigo que êle abandonou o charuto, mesmo passeando +solitariamente a cavalo pelos arredores de Lisboa, logo que descobrira na +quinta de D. Mafalda, uma tarde, que o fumo perturbava Elisa?</p> + +<p>E esta presença real da divina criatura no seu ser criou no José Matias +modos novos, estranhos, derivando da alucinação. Como o Visconde de Garmilde +jantava cedo, à hora vernácula do Portugal antigo, José Matias ceava, depois de +S. Carlos, naquele delicioso e saudoso Café Central, onde o linguado parecia +frito no céu, e o Colares no céu engarrafado. Pois nunca ceava sem serpentinas +profusamente acesas e a mesa juncada de flores. Porque? Porque Elisa tambêm ali +ceava invisível. Daí êsses silêncios banhados num sorriso religiosamente +atento... Porque? Porque a estava sempre escutando! Ainda me lembro dêle +arrancar do quarto três gravuras clássicas de Faunos ousados e Ninfas +rendidas... Elisa pairava idealmente naquele ambiente; e êle purificava as +paredes, que mandou forrar de sêdas claras. O amor arrasta ao luxo, sobretudo +amor de tam elegante idealismo: e o José Matias prodigalizou com esplendor o +luxo que ela partilhava. Decentemente não podia andar<span class="pn">{276}</span> com a imagem de +Elisa numa tipóia de praça, nem consentir que a augusta imagem roçasse pelas +cadeiras de palhinha da plateia de S. Carlos. Montou, portanto, carruagens dum +gôsto sóbrio e puro: e assinou um camarote na Ópera, onde instalou, para ela, +uma poltrona pontifical, de setim branco, bordado a êstrelas de oiro.</p> + +<p>Alêm disso como descobrira a generosidade de Elisa, logo se tornou congénere +e suntuosamente generoso: e ninguêm existiu então em Lisboa que espalhasse, com +facilidade mais risonha, notas de cem mil réis. Assim desbaratou, rápidamente, +sessenta contos com o amor daquela mulher a quem nunca déra uma flor!</p> + +<p>¿E, durante êsse tempo, o Matos Miranda? Meu amigo, o bom Matos Miranda não +desmanchava nem a perfeição, nem a quietação desta felicidade! ¿Tam absoluto +seria o espiritualismo do José Matias que apenas se interessasse pela alma de +Elisa, indiferente às submissões do seu corpo, invólucro inferior e mortal?... +Não sei. Verdade seja! aquele digno diabético, tam grave, sempre de cachené de +lã escura, com as suas suíças grisalhas, os seus ponderosos óculos de oiro, não +sugeria ideas inquietadoras de marido ardente, cujo ardor, fatalmente e +involuntariamente, se partilha e abrasa. Todavia nunca compreendi,<span class="pn">{277}</span> eu, +Filósofo, aquela consideração, quási carinhosa, do José Matias pelo homem que, +mesmo desinteressadamente, podia por direito, por costume, contemplar Elisa +desapertando as fitas da saia branca!... ¿Haveria ali reconhecimento por o +Miranda ter descoberto numa remota rua de Setúbal (onde José Matias nunca a +descortinaria) aquela divina mulher, e por a manter em confôrto, sólidamente +nutrida, finamente vestida, transportada em caleches de macias molas? ¿Ou +recebera o José Matias aquela costumada confidência—«não sou tua, nem +dêle»—que tanto consola do sacrifício porque tanto lisonjeia o egoismo?... Não +sei. Mas com certeza, êste seu magnânimo desdêm pela presença corporal do +Miranda no templo, onde habitava a sua Deusa, dava à felicidade de José Matias +uma unidade perfeita, a unidade dum cristal que por todos os lados rebrilha, +igualmente puro, sem arranhadura ou mancha. E esta felicidade, meu amigo, durou +dez anos... Que escandaloso luxo para um mortal!</p> + +<p>Mas um dia, a terra, para o José Matias, tremeu toda, num terramoto de +incomparável espanto. Em Janeiro ou Fevereiro de 1871, o Miranda, já debilitado +pela diabetes, morreu com uma pneumonia. Por estas mesmas ruas, numa +pachorrenta tipóia de praça, acompanhei o seu entêrro numeroso, rico, com +Ministros,<span class="pn">{278}</span> porque o Miranda pertencia às Instituições. E depois, +aproveitando a tipóia, visitei o José Matias em Arroios, não por curiosidade +perversa, nem para lhe levar felicitações indecentes, mas para que, naquele +lance deslumbrador, êle sentisse ao lado a fôrça moderadora da Filosofia... +Encontrei porêm com êle um amigo mais antigo e confidencial, aquele brilhante +Nicolau da Barca, que já conduzi tambêm a êste cemitério, onde agora jazem, +debaixo de lápides, todos aqueles camaradas com quem levantei castelos nas +nuvens... O Nicolau chegara da Velosa, da sua quinta de Santarêm, de madrugada, +reclamado por um telegrama do Matias. Quando entrei, um criado atarefado +arranjava duas malas enormes. O José Matias abalava nessa noite para o Pôrto. +Já envergara mesmo um fato de viagem, todo negro, com sapatos de couro amarelo: +e depois de me sacudir a mão, emquanto o Nicolau remexia um grog, continuou +vagando pelo quarto, calado, como embaçado, com um modo que não era emoção, nem +alegria púdicamente disfarçada, nem surprêsa do seu destino bruscamente +sublimado. Não! se o bom Darwin nos não ilude no seu livro da <em>Expressão das +Emoções</em>, o José Matias, nessa tarde, só sentia e só exprimia embaraço! Em +frente, na casa da Parreira, todas as janelas permaneciam<span class="pn">{279}</span> fechadas sob a +tristeza da tarde cinzenta. E todavia surpreendi o José Matias atirando para o +terraço, rápidamente, um olhar em que transparecia inquietação, ansiedade, +quasi terror! Como direi? Aquele é o olhar que se resvala para a jaula mal +segura onde se agita uma leôa! Num momento em que êle entrara na alcova, +murmurei ao Nicolau, por cima do grog:—«O Matias faz perfeitamente em ir para +o Pôrto...» Nicolau encolheu os ombros:—«Sim, pensou que era mais delicado... +Eu aprovei. Mas só durante os meses de luto pesado...» Às sete horas +acompanhamos o nosso amigo à estação de Santa Apolónia. Na volta, dentro do +copé que uma grande chuva batia, filosofamos. Eu sorria contente:—«Um ano de +luto, e depois muita felicidade e muitos filhos... É um poema acabado!»—O +Nicolau acudiu sério:—«E acabado numa deliciosa e suculenta prosa. A divina +Elisa fica com toda a sua divindade e a fortuna do Miranda, uns dez ou dôze +contos de renda... Pela primeira vez na nossa vida contemplamos, tu e eu, a +virtude recompensada!»</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Meu caro amigo! os meses cerimoniais de luto passaram, depois outros, e José +Matias não se arredou do Pôrto. Nesse Agosto o encontrei<span class="pn">{280}</span> eu instalado +fundamentalmente no Hotel Francfort, onde entretinha a melancolia dos dias +abrasados, fumando (porque voltara ao tabaco), lendo romances de Júlio Verne, e +bebendo cerveja gelada até que a tarde refrescava e êle se vestia, se +perfumava, se floria para jantar na Foz.</p> + +<p>E a-pesar de se acercar o bemdito remate do luto e da desesperada espera, +não notei no José Matias nem alvoroço elegantemente reprimido, nem revolta +contra a lentidão do tempo, vélho por vezes tam moroso e trôpego... Pelo +contrário! Ao sorriso de radiosa certeza, que nesses anos o iluminara com um +nimbo de beatitude, sucedera a seriedade carregada, toda em sombra e rugas, de +quem se debate numa dúvida irresolúvel, sempre presente, roedora e dolorosa. +¿Quer que lhe diga? Nesse verão, no Hotel Francfort, sempre me pareceu que o +José Matias, a cada instante da sua vida acordada, mesmo emborcando a fresca +cerveja, mesmo calçando as luvas ao entrar para a caleche que o levava à Foz, +angustiadamente perguntava à sua consciência:—«Que hei-de fazer? Que hei-de +fazer?»—E depois, uma manhã, ao almôço, realmente me assombrou, exclamando ao +abrir o jornal, com um assomo de sangue na face: «O quê! Já são 29 de Agosto? +Santo Deus... Já o fim de Agosto!...»<span class="pn">{281}</span></p> + +<p>Voltei a Lisboa, meu amigo. O inverno passou, muito sêco e muito azul. Eu +trabalhei nas minhas <em>Origens do Utilitarismo</em>. Um domingo, no Rocio, +quando já se vendiam cravos nas tabacarias, avistei dentro dum copé a divina +Elisa, com plumas roxas no chapéu. E nessa semana encontrei no meu <em>Diário +Ilustrado</em> a notícia curta, quási tímida, do casamento da Snr.ª D. Elisa +Miranda... ¿Com quem, meu amigo?—Com o conhecido propriétário, o Snr. +Francisco Tôrres Nogueira!...</p> + +<p>O meu amigo cerrou aí o punho, e bateu na coxa espantado. Eu tambêm cerrei +os punhos ambos, mas para os levantar ao Céu onde se julgam os feitos da Terra, +e clamar furiosamente, aos urros, contra a falsidade, a inconstância ondeante e +pérfida, toda a enganadora torpeza das mulheres, e daquela especial Elisa cheia +de infâmia entre as mulheres! Atraiçoar à pressa, atabalhoadamente, apenas +findara o luto negro, aquele nobre, puro, intelectual Matias! e o seu amor de +dez anos, submisso e sublime!...</p> + +<p>E depois de apontar os punhos para o Céu ainda os apertava na cabeça, +gritando:—«Mas porquê? porquê?»—Por amor? Durante anos ela amara +enlevadamente êste môço, e dum amor que se não desiludira nem se fartara, +porque permanecia suspenso, imaterial, insatisfeito. Por ambição? Tôrres +Nogueira era<span class="pn">{282}</span> um ocioso amável como José Matias, e possuia em vinhas +hipotecadas os mesmos cincoenta ou sessenta contos que o José Matias herdara +agora do tio Garmilde em terras excelentes e livres. Então porquê? Certamente +porque os grossos bigodes negros do Tôrres Nogueira apeteciam mais à sua carne, +do que o buço louro e pensativo do José Matias! Ah! bem ensinara S. João +Crisólogo que a mulher é um monturo de impureza, erguido à porta do Inferno! +</p> + +<p>Pois, meu amigo, quando eu assim rugia, encontro uma tarde na rua do Alecrim +o nosso Nicolau da Barca, que salta da tipóia, me empurra para um portal, +agarra excitadamente no meu pobre braço, e exclama engasgado:—«Já sabes? Foi o +José Matias que recusou! Ela escreveu, esteve no Pôrto, chorou... Êle nem +consentiu em a ver! Não quis casar, não quer casar!» Fiquei trespassado.—«E +então ela...»—«Despeitada, fortemente cercada pelo Tôrres, cansada da viuvice, +com aqueles bélos trinta anos em botão, que diabo! coitada, casou!» Eu ergui os +braços até a abóbada do pátio:—«¿Mas então êsse sublime amor do José Matias?». +O Nicolau, seu íntimo e confidente, jurou com irrecusável segurança:—«É o +mesmo sempre! Infinito, absoluto... Mas não quer casar!»—Ambos nos olhamos, e +depois ambos nos separamos, encolhendo<span class="pn">{283}</span> os ombros, com aquele assombro +resignado que convêm a espíritos prudentes perante o Incognoscível. Mas eu, +Filósofo, e portanto espírito imprudente, toda essa noite esfuraquei o acto do +José Matias com a ponta duma Psicologia que expressamente aguçara:—e já de +madrugada, estafado, concluí, como se conclui sempre em Filosofia, que me +encontrava diante duma Causa Primária, portanto impenetrável, onde se +quebraria, sem vantagem para êle, para mim, ou para o Mundo, a ponta do meu +Instrumento!</p> + +<p>Depois a divina Elisa casou e continuou habitando a Parreira com o seu +Tôrres Nogueira, no confôrto e sossêgo que já gozara com o seu Matos Miranda. +No meado do verão José Matias recolheu do Pôrto a Arroios, ao casarão do tio +Garmilde, onde reocupou os seus antigos quartos, com as varandas para o jardim, +já florido de dálias que ninguêm tratava. Veio Agosto, como sempre em Lisboa +silencioso e quente. Aos domingos José Matias jantava com D. Mafalda de +Noronha, em Bemfica, solitariamente—porque o Tôrres Nogueira não conhecia +aquela venerada senhora da Quinta dos Cedros. A divina Elisa, com vestidos +claros, passeava à tarde no jardim entre as roseiras. De sorte que a única +mudança, naquele doce canto de Arroios, parecia ser o Matos Miranda no +seu<span class="pn">{284}</span> belo jazigo dos Prazeres, todo de mármore—e o Tôrres Nogueira no +leito excelente de Elisa.</p> + +<p>Havia, porêm, uma tremenda e dolorosa mudança—a do José Matias! ¿Adivinha o +meu amigo como êsse desgraçado consumia os seus estéreis dias? Com os olhos, e +a memória, e a alma, e todo o ser cravados no terraço, nas janelas, nos jardins +da Parreira! Mas agora não era de vidraças largamente abertas, em aberto +êxtasi, com o sorriso de segura beatitude: era por trás das cortinas fechadas, +através duma escassa fenda, escondido, surripiando furtivamente os brancos +sulcos do vestido branco, com a face toda devastada pela angústia e pela +derrota. ¿E compreende porque sofria assim, êste pobre coração? Certamente +porque Elisa, desdenhada pelos seus braços fechados, correra logo, sem luta, +sem escrúpulos, para outros braços, mais acessíveis e prontos... Não, meu +amigo! E note agora a complicada subtileza desta paixão. O José Matias +permanecia devotamente crente de que Elisa, na profundidade da sua alma, nesse +sagrado fundo espiritual onde não entram as imposições das conveniências, nem +as decisões da razão pura, nem os ímpetos do orgulho, nem as emoções da +carne—o amava, a êle, únicamente a êle, e com um amor que não deperecera, não +se alterara, floria em todo<span class="pn">{285}</span> o seu viço, mesmo sem ser regado ou tratado, +como a antiga Rosa Mística! O que o torturava, meu amigo, o que lhe cavara +longas rugas em curtos meses, era que um homem, um macho, um bruto, se tivesse +apoderado daquela mulher que era sua! e que do modo mais santo e mais +socialmente puro, sob o patrocínio enternecido da Igreja e do Estado, +lambuzasse com os rijos bigodes negros, à farta, os divinos lábios que êle +nunca ousara roçar, na supersticiosa reverência e quási no terror da sua +divindade! Como lhe direi?... O sentimento dêste extraordinário Matias era o de +um monge, prostrado ante uma Imagem da Virgem, em transcendente enlêvo—quando +de repente um bestial sacrílego trepa ao altar, e ergue obscenamente a túnica +da Imagem! O meu amigo sorri... ¿E então o Matos Miranda? Ah! meu amigo! êsse +era diabético, e grave, e obeso, e já existia instalado na Parreira, com a sua +obesidade e a sua diabetes, quando êle conhecera Elisa e lhe dera para sempre +vida e coração. E o Tôrres Nogueira, êsse, rompera brutalmente através do seu +puríssimo amor, com os negros bigodes, e os carnudos braços, e o rijo arranque +dum antigo pegador de toiros, e empolgara aquela mulher—a quem revelara talvez +o que é um homem!</p> + +<p>Mas, com os demónios! essa mulher êle<span class="pn">{286}</span> a recusara, quando ela se lhe +oferecia, na frescura e na grandeza dum sentimento que nenhum desdêm ainda +ressequira ou abatera. Que quer?... É a espantosa tortuosidade espiritual dêste +Matias! Ao cabo duns meses êle <em>esquecera</em>, positivamente +<em>esquecera</em> essa recusa afrontosa, como se fôra um leve desencontro de +interêsses materiais ou sociais, passado há meses, no Norte, e a que a +distância e o tempo dissipavam a realidade e a amargura leve! E agora, aqui em +Lisboa, com as janelas de Elisa diante das suas janelas e as rosas dos dois +jardins unidos rescendendo na sombra, a dor presente, a dor real, era que êle +amara sublimemente uma mulher, e que a colocara entre as estrêlas para mais +pura adoração, e que um bruto moreno, de bigodes negros, arrancara essa mulher +de entre as estrêlas e a arremessara para a cama!</p> + +<p>¿Enredado caso, hein, meu amigo? Ah! muito filosofei sôbre êle, por dever de +filósofo! E concluí que o Matias era um doente, atacado de +hiper-espiritualismo, duma inflamação violenta e putrida do espiritualismo, que +receara apavoradamente as materialidades do casamento, as chinelas, a pele +pouco fresca ao acordar, um ventre enorme durante seis meses, os meninos +berrando no berço molhado... E agora rugia de furor e tormento, porque certo +materialão, ao lado, se<span class="pn">{287}</span> prontificara a aceitar Elisa em camisola de lã. +Um imbecil?... Não, meu amigo! um ultra-romântico, loucamente alheio às +realidades fortes da vida, que nunca suspeitou que chinelas e cueiros sujos de +meninos são coisas de superior beleza em casa em que entre o sol e haja amor. +</p> + +<p>¿E sabe o meu amigo o que exacerbou, mais furiosamente, êste tormento? É que +a pobre Elisa mostrava por êle o antigo amor! Que lhe parece? Infernal, +hein?... Pelo menos se não sentia o antigo amor intacto na sua essência, forte +como outrora e único, conservava pelo pobre Matias uma irresistível curiosidade +e repetia os gestos dêsse amor... Talvez fôsse apenas a fatalidade dos jardins +vizinhos! Não sei. Mas logo desde Setembro, quando o Tôrres Nogueira partiu +para as suas vinhas de Carcavelos a assistir à vindima, ela recomeçou da borda +do terraço, por sôbre as rosas e as dálias abertas, aquela doce remessa de +doces olhares com que durante dez anos extasiara o coração do José Matias.</p> + +<p>Não creio que se escrevessem por cima do muro do jardim, como sob o regímen +paternal do Matos Miranda... O novo senhor, o homem robusto da bigodeira negra, +impunha à divina Elisa, mesmo de longe, de entre as vinhas de Carcavelos, +retraímento e prudência. E acalmada por aquele marido, môço e<span class="pn">{288}</span> forte, +menos sentiria agora a necessidade de algum encontro discreto na sombra tépida +da noite, mesmo quando a sua elegância moral e o rígido idealismo do José +Matias consentissem em aproveitar uma escada contra o muro... De resto, Elisa +era fundamentalmente honesta; e conservava o respeito sagrado do seu corpo, por +o sentir tam belo e cuidadosamente feito por Deus—mais do que da sua alma. E +quem sabe?... Talvez a adorável mulher pertencesse à bela raça daquela marquesa +italiana, a Marquesa Júlia de Malfieri, que conservava dois amorosos ao seu +doce serviço, um poeta para as delicadezas românticas e um cocheiro para as +necessidades grosseiras.</p> + +<p>Emfim, meu amigo, não psicologuemos mais sôbre esta viva, atrás do morto que +morreu por ela! O facto foi que Elisa e o seu amigo insensivelmente recaíram na +vélha união ideal através dos jardins em flor. E em Outubro, como o Tôrres +Nogueira continuava a vindimar em Carcavelos, o José Matias, para contemplar o +terraço da Parreira, já abria de novo as vidraças, larga e estáticamente!</p> + +<p>Parece que um tam estreme espiritualista, reconquistando a idealidade do +antigo amor, devia reentrar tambêm na antiga felicidade perfeita. Êle reinava +na alma imortal de Elisa:—¿que importava que outro se ocupasse do seu corpo +mortal? Mas não! o pobre môço<span class="pn">{289}</span> sofria, angustiadamente. E, para sacudir a +pungência dêstes tormentos, findou, êle tam sereno, duma tam doce harmonia de +modos, por se tornar um agitado. Ah! meu amigo, que redemoínho e estrépito de +vida! Desesperadamente, durante um ano, remexeu, aturdiu, escandalizou Lisboa! +São dêsse tempo algumas das suas extravagâncias lendárias... ¿Conhece a da +ceia?... Uma ceia oferecida a trinta ou quarenta mulheres das mais torpes e das +mais sujas, apanhadas pelas negras vielas do Bairro-Alto e da Mouraria, que +depois mandou montar em burros, e gravemente, melancólicamente, posto na +frente, sôbre um grande cavalo branco, com um imenso chicote, conduziu aos +altos da Graça, para saudar a aparição do sol!</p> + +<p>Mas todo êste alarido não lhe dissipou a dor—e foi então que, nesse +inverno, começou a jogar e a beber! Todo o dia se encerrava em casa (certamente +por trás das vidraças, agora que Tôrres Nogueira regressara das vinhas) com +olhos e alma cravados no terraço fatal; depois à noite, quando as janelas de +Elisa se apagavam, saía numa tipóia, sempre a mesma, a tipóia do <em>Gago</em>, +corria à roleta do Bravo, depois ao club do «Cavalheiro», onde jogava +frenéticamente até a tardia hora de cear, num gabinete de restaurante, com +molhos de velas acesas, e o Colares, e o Champanhe,<span class="pn">{290}</span> e o Conhaque +correndo em jorros desesperados.</p> + +<p>E esta vida, espicaçada pelas Fúrias, durou anos, sete anos! Todas as terras +que lhe deixara o tio Garmilde se foram, largamente jogadas e bebidas: e só lhe +restava o casarão de Arroios e o dinheiro apressado porque o hipotecara. Mas, +súbitamente, desapareceu de todos os antros do vinho e de jôgo. E soubemos que +o Tôrres Nogueira estava morrendo com uma anasarca!</p> + +<p>Por êsse tempo, e por causa dum negócio do Nicolau da Barca que me +telegrafara ansiosamente da sua quinta de Santarêm (negócio embrulhado, duma +letra) procurei o José Matias em Arroios, às dez horas, numa noite quente de +Abril. O criado, emquanto me conduzia pelo corredor mal alumiado, já +desadornado das ricas arcas e talhas da Índia do vélho Garmilde, confessou que +S. Ex.ª não acabara de jantar... E ainda me lembro, com um arrepio, da +impressão desolada que me deu o desgraçado! Era no quarto que abria sôbre os +dois jardins. Diante duma janela, que as cortinas de damasco cerravam, a mesa +resplandecia, com duas serpentinas, um cêsto de rosas brancas, e algumas das +nobres pratas do Garmilde: e ao lado, todo estendido numa poltrona, com o +colete branco desabotoado, a face lívida descaída sôbre o peito, um copo vazio +na mão<span class="pn">{291}</span> inerte, o José Matias parecia adormecido ou morto.</p> + +<p>Quando lhe toquei no ombro, ergueu num sobressalto a cabeça, toda +despenteada:—«¿Que horas são?»—Apenas lhe gritei, num gesto alegre, para o +despertar, que era tarde, que eram dez, encheu precipitadamente o copo, da +garrafa mais chegada, de vinho branco, e bebeu lentamente, com a mão a tremer, +a tremer... Depois, arredando os cabelos da testa húmida:—«¿Então que há de +novo?»—Esgazeado, sem compreender, escutou, como num sonho, o recado que lhe +mandava o Nicolau. Por fim, com um suspiro, remexeu uma garrafa de Champanhe +dentro do balde em que ela gelava, encheu outro copo, murmurando:—«Um calor... +Uma sêde!...» Mas não bebeu: arrancou o corpo pesado à poltrona de vêrga, e +forçou os passos mal firmes para a janela, a que abriu violentamente as +cortinas, depois a vidraça... E ficou hirto, como colhido pelo silêncio e +escuro sossêgo da noite estrelada. Eu espreitei, meu amigo! Na casa da Parreira +duas janelas brilhavam, fortemente alumiadas, abertas à aragem. E essa +claridade viva envolvia uma figura branca, nas longas pregas de um roupão +branco, parada à beira do terraço, como esquecida numa contemplação. Era Elisa, +meu amigo! Por trás, no fundo do quarto claro, o marido certamente arquejava, +na opressão<span class="pn">{292}</span> da anasarca. Ela, imóvel, repousava, mandando um doce olhar, +talvez um sorriso, ao seu doce amigo. O miserável, fascinado, sem respirar, +sorvia o encanto daquela visão bemfazeja. E entre êles rescendiam, na moleza da +noite, todas as flores dos dois jardins... Súbitamente Elisa recolheu, à +pressa, chamada por algum gemido ou impaciência do pobre Tôrres. E as janelas +logo se fecharam, toda a luz e vida se sumiram na casa da Parreira.</p> + +<p>Então José Matias, com um soluço despedaçado, de transbordante tormento, +cambaleou, tam ansiadamente se agarrou à cortina que a rasgou, e tombou +desamparado nos braços que lhe estendi, e em que o arrastei para a cadeira, +pesadamente, como a um morto ou a um bêbado. Mas, volvido um momento, com +espanto meu, o extraordinário homem descerra os olhos, sorri num lento e inerte +sorriso, murmura quási serenamente:—«É o calor... Está um calor! ¿Você não +quer tomar chá?»</p> + +<p>Recusei e abalei—emquanto êle, indiferente à minha fuga, estendido na +poltrona, acendia trémulamente um imenso charuto.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Santo Deus! já estamos em Santa Isabel! Como êstes lagóias vão arrastando +depressa o pobre José Matias para o pó e para o verme<span class="pn">{293}</span> final! Pois, meu +amigo, depois dessa curiosa noite, o Tôrres Nogueira morreu. A divina Elisa, +durante o novo luto, recolheu à quinta duma cunhada tambêm viuva, à «Côrte +Moreira», ao pé de Beja. E o José Matias inteiramente se sumiu, se evaporou, +sem que me revoassem novas dêle, mesmo incertas—tanto mais que o íntimo por +quem as conheceria, o nosso brilhante Nicolau da Barca, partira para a ilha da +Madeira, com o seu derradeiro pedaço de pulmão, sem esperança, por dever +clássico, quási dever social, de tísico.</p> + +<p>Todo êsse ano, tambêm, andei enfronhado no meu <em>Ensaio dos Fenómenos +afectivos</em>. Depois, um dia, no comêço do verão, descendo pela rua de S. +Bento, com os olhos levantados, a procurar o n.º 214, onde se catalogava a +livraria do Morgado de Azemel, ¿quem avisto eu à varanda duma casa nova e de +esquina? A divina Elisa, metendo fôlhas de alface na gaiola de um canário! E +bela, meu amigo! mais cheia e mais harmoniosa, toda madura, e suculenta, e +desejável, a-pesar de ter festejado em Beja os seus quarenta e dois anos! Mas +aquela mulher era da grande raça de Helena que, quarenta anos tambêm depois do +cêrco de Troia, ainda deslumbrava os homens mortais e os Deuses imortais. E, +curioso acaso! logo nessa tarde, pelo Sêco, o João Sêco da Biblioteca, que +catalogava a livraria do Morgado,<span class="pn">{294}</span> conheci a nova história desta Helena +admirável.</p> + +<p>A divina Elisa tinha agora um amante... E únicamente por não poder, com a +sua costumada honestidade, possuir um legítimo e terceiro marido. O ditoso môço +que ela adorava era com efeito casado... Casado em Beja com uma espanhola que, +ao cabo dum ano dêsse casamento e de outros requebros, partira para Sevilha, +passar devotamente a Semana Santa, e lá adormecera nos braços dum riquíssimo +criador de gado. O marido, pacato apontador de Obras-Públicas, continuara em +Beja, onde tambêm vagamente ensinava um vago desenho... Ora uma das suas +discípulas era a filha da senhora da «Côrte Moreira»: e aí na quinta, emquanto +êle guiava o esfuminho da menina, Elisa o conheceu e o amou, com uma paixão tam +urgente que o arrancou precipitadamente às Obras Públicas, e o arrastou a +Lisboa, cidade mais propícia do que Beja a uma felicidade escandalosa, e que se +esconde. O João Sêco é de Beja, onde passara o Natal; conhecia perfeitamente o +apontador, as senhoras da «Côrte Moreira»; e compreendeu o romance, quando das +janelas dêsse n.º 214, onde catalogava a Livraria do Azemel, reconheceu Elisa +na varanda da esquina, e o apontador enfiando regaladamente o portão, bem +vestido, bem calçado, de luvas claras, com<span class="pn">{295}</span> aparência de ser +infinitamente mais ditoso naquelas obras particulares do que nas Públicas.</p> + +<p>E dessa mesma janela do 214 o conheci eu tambêm, o apontador! Belo môço, +sólido, branco, de barba escura, em excelentes condições de quantidade (e +talvez mesmo de qualidade) para encher um coração viuvo, e portanto «vazio», +como diz a Bíblia. Eu freqùentava êsse n.º 214, interessado no catálogo da +Livraria, porque o Morgado de Azemel possuia, pelo irónico acaso das heranças, +uma colecção incomparável dos Filósofos do século XVIII. E passadas semanas, +saíndo dêsses livros uma noite (o João Sêco trabalhava de noite) e parando +adiante, à beira dum portal aberto, para acender o charuto, enxergo à luz +tremente do fósforo, metido na sombra, o José Matias! Mas que José Matias, meu +caro amigo! Para o considerar mais detidamente, raspei outro fósforo. Pobre +José Matias! Deixara crescer a barba, uma barba rara, indecisa, suja, mole como +cotão amarelado: deixara crescer o cabelo, que lhe surdia em farripas sêcas de +sob um vélho chapéu côco: mas todo êle, no resto, parecia diminuido, minguado, +dentro duma quinzena de mescla enxovalhada, e dumas calças pretas, de grandes +bolsos, onde escondia as mãos com o gesto tradicional, tam infinitamente +triste, da miséria ociosa. Na<span class="pn">{296}</span> espantada lástima que me tomou, apenas +balbuciei:—«Ora esta! Você! ¿Então que é feito?»—E êle, com a sua mansidão +polida, mas secamente, para se desembaraçar, e numa voz que a aguardente +enrouquecera: «Por aqui, à espera de um sujeito».—Não insisti, segui. Depois, +adiante, parando, verifiquei o que num relance adivinhara—que o portal negro +ficava em frente ao prédio novo e às varandas de Elisa!</p> + +<p>Pois, meu amigo, três anos viveu o José Matias encafuado naquele portal!</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Era um dêsses pátios da Lisboa antiga, sem porteiro, sempre escancarados, +sempre sujos, cavernas laterais da rua, de onde ninguêm escorraça os escondidos +da miséria ou da dor. Ao lado havia uma taberna. Infalivelmente, ao anoitecer, +o José Matias descia a rua de S. Bento, colado aos muros, e, como uma sombra, +mergulhava na sombra do portal. A essa hora já as janelas de Elisa luziam, de +inverno embaciadas pela névoa fina, de verão ainda abertas e arejando no +repouso e na calma. E para elas, imóvel, com as mãos nas algibeiras, o José +Matias se quedava em contemplação. Cada meia-hora, subtilmente, enfiava para a +taberna. Copo de vinho, copo de aguardente;—e,<span class="pn">{297}</span> de mansinho, recolhia à +negrura do portal, ao seu êxtasi. Quando as janelas de Elisa se apagavam, ainda +através da longa noite, mesmo das negras noites de inverno—encolhido, +transido, a bater as solas rôtas no lagedo, ou sentado ao fundo, nos degraus da +escada—ficava esmagando os olhos turvos na fachada negra daquela casa, onde a +sabia dormindo com o outro!</p> + +<p>Ao princípio, para fumar um cigarro apressado, trepava até ao patamar +deserto, a esconder o lume que o denunciaria no seu esconderijo. Mas depois, +meu amigo, fumava incessantemente, colado à ombreira, puxando o cigarro com +ânsia, para que a ponta rebrilhasse, o alumiasse! ¿E percebe porquê, meu +amigo?... Porque Elisa já descobrira que, dentro daquele portal, a adorar +submissamente as suas janelas, com a alma de outrora, estava o seu pobre José +Matias!...</p> + +<p>¿E acreditará o meu amigo que então, todas as noites, ou por trás da vidraça +ou encostada à varanda (com o apontador dentro, estirado no sofá, já de +chinelas, lendo o <em>Jornal da Noite</em>) ela se demorava a fitar o portal, +muito quieta, sem outro gesto, naquele antigo e mudo olhar do terraço por sôbre +as rosas e as dálias? O José Matias percebera, deslumbrado. E agora avivava +desesperadamente o lume, como um farol, para guiar<span class="pn">{298}</span> na escuridão os +amados olhos dela, e lhe mostrar que ali estava, transido, todo seu, e fiel! +</p> + +<p>De dia nunca êle passava na rua de S. Bento. ¿Como ousaria, com o jaquetão +rôto nos cotovelos e as botas cambadas? Porque aquele môço de elegância sóbria +e fina tombara na miséria do andrajo. ¿Onde arranjava mesmo, cada dia, os três +patacos para o vinho e para a posta de bacalhau nas tabernas? Não sei... Mas +louvemos a divina Elisa, meu amigo! Muito delicadamente, por caminhos arredados +e astutos, ela, rica, procurara estabelecer uma pensão ao José Matias, mendigo. +¿Situação picante, hein? A grata senhora dando duas mesadas aos seus dois +homens—o amante do corpo e o amante da alma! Êle, porêm, adivinhou de onde +procedia a pavorosa esmola—e recusou, sem revolta, nem alarido de orgulho, até +com enternecimento, até com lágrimas nas pálpebras que a aguardente inflamara! +</p> + +<p>Mas só com noite muito cerrada ousava descer à rua de S. Bento, e enfiar +para o seu portal. ¿E adivinha o meu amigo como êle gastava o dia? A espreitar, +a seguir, a farejar o apontador de Obras-Públicas! Sim, meu amigo! uma +curiosidade insaciada, frenética, atroz, por aquele homem, que Elisa +escolhera!... Os dois anteriores, o Miranda e o Nogueira, tinham entrado na +alcova de Elisa, públicamente,<span class="pn">{299}</span> pela porta da Igreja, e para outros fins +humanos alêm do amor—para possuir um lar, talvez filhos, estabilidade e +quietação na vida. Mas êste era meramente o amante, que ela nomeara e mantinha +só para ser amada: e nessa união não aparecia outro motivo racional senão que +os dois corpos se unissem. Não se fartava, portanto, de o estudar, na figura, +na roupa, nos modos, ansioso por saber bem como era êsse homem, que, para se +completar, a sua Elisa preferira entre a turba dos homens. Por decência, o +apontador morava na outra extremidade da rua de S. Bento, diante do Mercado. E +essa parte da rua, onde o não surpreenderiam, na sua pelintrice, os olhos de +Elisa, era o paradeiro do José Matias, logo de manhã, para mirar, farejar o +homem, quando êle recolhia da casa de Elisa, ainda quente do calor da sua +alcôva. Depois não o largava, cautelosamente, como um larápio, rastejando de +longe no seu rasto. E eu suspeito que o seguia assim, menos por curiosidade +perversa, do que para verificar se, através das tentações de Lisboa, terríveis +para um apontador de Beja, o homem conservava o corpo fiel a Elisa. Em serviço +da felicidade dela—fiscalizava o amante da mulher que amava!</p> + +<p>Requinte furioso de espiritualismo e devoção, meu amigo! A alma de Elisa era +a sua e recebia perenemente a adoração perene: e agora<span class="pn">{300}</span> queria que o +corpo de Elisa não fôsse menos adorado, nem menos lealmente, por aquele a quem +ela entregara o corpo! Mas o apontador era fácilmente fiel a uma mulher tam +formosa, tam rica, de meias de sêda, de brilhantes nas orelhas, que o +deslumbrava. ¿E quem sabe, meu amigo? talvez esta fidelidade, preito carnal à +divindade de Elisa, fôsse para o José Matias a derradeira felicidade que lhe +concedeu a vida. Assim me persuado, porque no inverno passado, encontrei o +apontador, numa manhã de chuva, comprando camélias a um florista da rua do +Oiro; e defronte, a uma esquina, o José Matias, escaveirado, esfrangalhado, +cocava o homem, com carinho, quási com gratidão! E talvez nessa noite, no +portal, tiritando, batendo as solas encharcadas, com os olhos enternecidos nas +escuras vidraças, pensasse:—«Coitadinha, pobre Elisa! Ficou bem contente por +êle lhe trazer as flores!»</p> + +<p>Isto durou três anos.</p> + +<p>Emfim, meu amigo, antes de ontem, o João Sêco apareceu em minha casa, de +tarde, esbaforido:—«Lá levaram o José Matias numa maca, para o hospital, com +uma congestão nos pulmões!»</p> + +<p>Parece que o encontraram, de madrugada, estirado no ladrilho, todo encolhido +no jaquetão delgado, arquejando, com a face coberta<span class="pn">{301}</span> de morte, voltada +para as varandas de Elisa. Corri ao hospital. Morrera... Subi, com o médico de +serviço, à enfermaria. Levantei o lençol que o cobria. Na abertura da camisa +suja e rôta, prêso ao pescoço por um cordão, conservava um saquinho de sêda, +poído e sujo tambêm. De-certo continha flor, ou cabelos, ou pedaço de renda de +Elisa, do tempo do primeiro encanto e das tardes de Bemfica... Perguntei ao +médico, que o conhecia e o lastimava, se êle sofrera.—«Não! Teve um momento +comatoso, depois arregalou os olhos, exclamou <em>Oh!</em> com grande espanto, +e ficou.»</p> + +<p>¿Era o grito da alma, no assombro e horror de morrer tambêm? ¿Ou era a alma +triunfando por se reconhecer emfim imortal e livre? O meu amigo não sabe; nem o +soube o divino Platão; nem o saberá o derradeiro filósofo na derradeira tarde +do mundo.</p> + +<p>Chegamos ao cemitério. Creio que devemos pegar às borlas do caixão... Na +verdade, é bem singular êste Alves <em>Capão</em>, seguindo tam sentidamente o +nosso pobre espiritualista... Mas, Santo Deus, olhe! Alêm, à espera, à porta da +Igreja, aquele sujeito compenetrado, de casaca, com paletó alvadio... É o +apontador de Obras Públicas! E trás um grosso ramo de violetas... Elisa mandou +o seu amante carnal acompanhar à cova e cobrir<span class="pn">{302}</span> de flores o seu amante +espiritual! Mas, nunca ela pediria ao José Matias para espalhar violetas sôbre +o cadaver do apontador! É que sempre a Matéria, mesmo sem o compreender, sem +dêle tirar a sua felicidade, adorará o Espírito, e sempre a si própria, através +dos gozos que de si recebe, se tratará com brutalidade e desdêm! Grande +consôlo, meu amigo, êste apontador com o seu ramo, para um Metafísico que, como +eu, comentou Spínosa e Mallebranche, reabilitou Fichte, e provou +suficientemente a ilusão da sensação! Só por isto valeu a pena trazer à sua +cova êste inexplicado José Matias, que era talvez muito mais que um homem—ou +talvez ainda menos que um homem...—Com efeito, está frio... Mas que linda +tarde!<span class="pn">{303}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION0001100">A PERFEIÇÃO</a> </h1> + + +<h2><a name="SECTION0001110">I</a> </h2> + +<p>Sentado numa rocha, na ilha de Ogigya, com a barba enterrada entre as mãos, +de onde desaparecera a aspereza calosa e tisnada das armas e dos remos, +Ulisses, o mais subtil dos homens, considerava, numa escura e pesada tristeza, +o mar muito azul que mansa e harmoniosamente rolava sôbre a areia muito branca. +Uma túnica bordada de flores escarlates cobria, em pregas moles, o seu corpo +poderoso, que engordara. Nas correias das sandálias, que lhe calçavam os pés +amaciados e perfumados de essências, reluziam esmeraldas do Egipto. E o seu +bastão era um maravilhoso galho de coral, rematado em pinha de pérolas, como os +que usam os Deuses marinhos.<span class="pn">{304}</span></p> + +<p>A divina Ilha, com os seus rochedos de alabastro, os bosques de cedros e +tuias odoríferas, as messes eternas doirando os vales, a frescura das roseiras +revestindo os outeiros suaves, resplandecia, adormecida na moleza da sésta, +toda envolta em mar resplandecente. Nem um sôpro dos Zéfiros curiosos, que +brincam e correm por sôbre o Arquipélago, desmanchava a serenidade do luminoso +ar, mais doce que o vinho mais doce, todo repassado pelo fino aroma dos prados +de violetas. No silêncio, embebido de calor afável, eram duma harmonia mais +embaladora os murmúrios de arroios e fontes, o arrulhar das pombas voando dos +ciprestes aos plátanos, e o lento rolar e quebrar da onda mansa sôbre a areia +macia. E nesta inefável paz e beleza imortal, o subtil Ulisses, com os olhos +perdidos nas águas lustrosas, amargamente gemia, revolvendo o queixume do seu +coração...</p> + +<p>Sete anos, sete imensos anos, iam passados desde que o raio fulgente de +Júpiter fendera a sua nave de alta prôa vermelha, e êle, agarrado ao mastro +partido, trambulhara na braveza mugidora das espumas sombrias, durante nove +dias, durante nove noites, até que boiara em águas mais calmas, e tocara as +areias daquela ilha onde Calipso, a Deusa radiosa, o recolhera e o amara! ¿E +durante êsses imensos anos, como se arrastara a sua<span class="pn">{305}</span> vida, a sua grande e +forte vida, que, depois da partida para os muros fatais de Troia, abandonando +entre lágrimas inumeráveis a sua Penélope de olhos claros, o seu pequenino +Telêmaco enfaixado no colo da ama, andara sempre tam agitada por perigos, e +guerras, e astúcias, e tormentas, e rumos perdidos?... Ah! ditosos os Reis +mortos, com formosas feridas no branco peito, diante das portas de Troia! +Felizes os seus companheiros tragados pela onda amarga! Feliz êle se as lanças +troianas o trespassassem nessa tarde de grande vento e poeira, quando, junto à +<em>Faia</em>, defendia dos ultrajes, com a espada sonora, o corpo morto de +Aquiles! Mas não! vivera!—E agora, cada manhã, ao saír sem alegria do +trabalhoso leito de Calipso, as Ninfas, servas da Deusa, o banhavam numa água +muito pura, o perfumavam de lânguidas essências, o cobriam com uma túnica +sempre nova, ora bordada a sêdas finas, ora bordada de oiro pálido! No entanto, +sôbre a mesa lustrosa, erguida à porta da gruta, na sombra das ramadas, junto +ao sussurro dormente dum arroio diamantino, os açafates e as travessas lavradas +transbordavam de bolos, de frutas, de tenras carnes fumegando, de peixes +scintilando como tramas de prata. A intendenta venerável gelava os vinhos doces +nas crateras de bronze, coroadas de rosas. E êle, sentado num escabelo, +estendia<span class="pn">{306}</span> as mãos para as iguarias perfeitas, emquanto ao lado, sôbre um +trono de marfim, Calipso, espargindo através da túnica nevada a claridade e o +aroma do seu corpo imortal, sublimemente serena, com um sorriso taciturno, sem +tocar nas comidas humanas, debicava a ambrosia, bebia em goles delgados o +néctar transparente e rubro. Depois, tomando aquele bastão de Príncipe-de-Povos +com que Calipso o presenteara, repercorria sem curiosidade os sabidos caminho +da Ilha, tam lisos e tratados que nunca as suas sandálias reluzentes se +maculavam de pó, tam penetrados pela imortalidade da Deusa que jàmais neles +encontrara fôlha sêca, nem flor menos fresca pendendo na haste. Sôbre uma rocha +se sentava então, contemplando aquele mar que tambêm banhava Ítaca, lá tam +bravio, aqui tam sereno, e pensava, e gemia, até que as águas e os caminhos se +cobriam de sombra, e êle recolhia à gruta para dormir, sem desejo, com a Deusa +que o desejava!... ¿E durante êstes imensos anos, que destino envolvera a sua +Ítaca, a áspera ilha de sombrias matas? ¿Viviam êles ainda, os seres amados? +¿Sôbre a forte colina, dominando a enseada de Reithros e os pinheirais de Neus, +ainda se erguia o seu palácio, com os belos pórticos pintados de vermelho e +roxo? ¿Ao cabo de tam lentos e vazios anos, sem novas, apagada<span class="pn">{307}</span> toda a +esperança como uma lâmpada, despira a sua Penélope a túnica passageira da +viuvez e passara para os braços doutro espôso forte, que agora manejava as suas +lanças e vindimava as suas vinhas? ¿E o doce filho Telêmaco? ¿Reinaria êle em +Ítaca, sentado, com o branco scetro, sôbre o mármore alto da Agorá? ¿Ocioso e +rondando pelos pátios, baixaria os olhos sob o império duro dum padrasto? +¿Erraria por cidades alheias, mendigando um salário?... Ah! se a sua +existência, assim para sempre arrancada da mulher, do filho, tam doces ao seu +coração, andasse ao menos empregada em façanhas ilustres! Dez anos antes, +tambêm desconhecia a sorte de Ítaca, e dos seres preciosos que lá deixara em +solidão e fragilidade; mas uma emprêsa heróica o agitava; e cada manhã a sua +fama crescia, como uma árvore num promontório, que enche o céu e todos os +homens contemplam. Então era a planície de Troia—e as brancas tendas dos +gregos ao longo do mar sonoro! Sem cessar, meditava astúcias de guerra; com +soberba facúndia discursava na Assembleia dos Reis; rijamente jungia os cavalos +empinados ao timão dos carros; de lança alta corria, entre a grita e a pressa, +contra os Troianos de altos elmos, que surdiam, em roldão ressoante, das portas +Skaias!... Oh! e quando êle, Príncipe-de-Povos, encolhido sob farrapos de +mendigo,<span class="pn">{308}</span> com os braços maculados de chagas postiças, coxeando e gemendo, +penetrara nos muros da orgulhosa Troia, pelo lado da Faia, para de noite, com +incomparável ardil e bravura, roubar o Paládio tutelar da cidade! E quando, +dentro do ventre do Cavalo-de-Pau, na escuridão, no apêrto de todos aqueles +guerreiros hirtos e cobertos de ferro, calmava a impaciência dos que sufocavam, +e tapava com a mão a bôca de Antiklos bravejando furioso, ao escutar fóra na +planície os ultrajes e os escárnios troianos, e a todos murmurava: «Cala, cala! +que a noite desce e Troia é nossa...» E depois as prodigiosas viagens! O +pavoroso Polifemo, ludibriado com uma astúcia que para sempre maravilhará as +gerações! As manobras sublimes entre Scylla e Carybdes! As Sereias, vogando e +cantando em tôrno do mastro, de onde êle, amarrado, as rechaçava com o mudo +dardejar dos olhos mais agudos que dardos! A descida aos Infernos, jàmais +concedida a um mortal!... E agora homem de tam rutilantes feitos jazia numa +ilha mole, eternamente prêso, sem amor, pelo amor duma Deusa! ¿Como poderia êle +fugir, rodeado de mar indomável, sem nave, nem companheiros para mover os remos +longos? Os Deuses ditosos certamente esqueciam quem tanto por êles combatera e +sempre piedosamente lhes votara as reses devidas, mesmo através do +fragor<span class="pn">{309}</span> e fumaraça das cidadelas derrubadas, mesmo quando a sua prôa +encalhava em terra agreste!... E ao herói, que recebera dos Reis da Grécia as +armas de Aquiles, cabia por destino amargo engordar na ociosidade duma ilha +mais lânguida que uma cêsta de rosas, e estender as mãos amolecidas para as +iguarias abundantes, e, quando águas e caminhos se cobriam de sombra, dormir +sem desejo com uma Deusa que, sem cessar, o desejava.</p> + +<p>Assim gemia o magnânimo Ulisses, à beira do mar lustroso... E eis que de +repente um sulco de desusado brilho, mais rutilantemente branco que o duma +estrêla caíndo, riscou a rutilância do céu, desde as alturas até à cheirosa +mata de tuias e cedros, que assombreava um golfo sereno, a oriente da Ilha. Com +alvoroço bateu o coração do herói. Rasto tam refulgente, na refulgência do dia, +só um Deus o podia traçar através do largo Ouranos. ¿Um Deus, pois, descera à +Ilha?</p> + + +<h2><a name="SECTION0001120">II</a> </h2> + +<p>Um Deus descera, um grande Deus... Era o Mensageiro dos Deuses, o leve, +eloqùente Mercúrio. Calçado com aquelas sandálias que<span class="pn">{310}</span> teem duas asas +brancas, os cabelos côr de vinho cobertos pelo casco onde batem tambêm duas +claras asas, erguendo na mão o Caduceu, êle fendera o Éter, roçara a lisura do +mar sossegado, pisara a areia da Ilha, onde as suas pègadas ficavam rebrilhando +como palmilhas de oiro novo. A-pesar de percorrer toda a terra, com os recados +inumeráveis dos Deuses, o luminoso Mensageiro não conhecia aquela ilha de +Ogigya—e admirou, sorrindo, a beleza dos prados de violetas tam doces para o +correr e brincar de Ninfas, e o harmonioso faiscar dos regatos por entre os +altos e lânguidos lírios. Uma vinha, sôbre esteios de jaspe, carregada de +cachos maduros, conduzia, como fresco pórtico salpicado de sol, até à entrada +da gruta, toda de rochas polidas, de onde pendiam jasmineiros e madre-silvas, +envoltas no sussurrar das abelhas. E logo avistou Calipso, a Deusa ditosa, +sentada num Trono, fiando em roca de oiro, com fuso de oiro, a lã formosa de +púrpura marinha. Um aro de esmeraldas prendia os seus cabelos muito anelados e +ardentemente louros. Sob a túnica diáfana a mocidade imortal do seu corpo +rebrilhava, como a neve quando a aurora a tinge de rosas nas colinas eternas +povoadas de Deuses. E, emquanto torcia o fuso, cantava um trinado e fino canto, +como trémulo fio de cristal vibrando da Terra ao Céu. Mercúrio pensou: «Linda +ilha, e linda Ninfa!»<span class="pn">{311}</span></p> + +<p>Dum lume claro de cedro e tuia, subia, muito direito, um fumo delgado que +perfumava toda a Ilha. Em roda, sentadas em esteiras sôbre o chão de ágata, as +Ninfas, servas da Deusa, dobavam as lãs, bordavam na sêda as flores ligeiras, +teciam as puras teias em teares de prata. Todas coraram, com o seio a arfar, +sentindo a presença do Deus. E sem deter o fuso faiscante, Calipso reconhecera +logo o Mensageiro—pois que todos os Imortais sabem, uns dos outros, os nomes, +os feitos, e os rostos soberanos, mesmo quando habitam retiros remotos que o +Éter e o Mar separam.</p> + +<p>Mercúrio parara, risonho, na sua nudez divina, exalando o perfume do Olimpo. +Então a Deusa ergueu para êle, com composta serenidade, o esplendor largo dos +seus olhos verdes:</p> + +<p>—Oh Mercúrio! ¿porque desceste à minha Ilha humilde, tu, venerável e +querido, que eu nunca vi pisar a terra? Dize o que de mim esperas. Já o meu +aberto coração me ordena que te contente, se o teu desejo couber dentro do meu +poder e do Fado... Mas entra, repousa, e que eu te sirva, como doce irmã, à +mesa da hospitalidade.</p> + +<p>Tirou da cintura a roca, arredou os aneis soltos do cabelo radiante—e com +as suas nacaradas mãos colocou sôbre a mesa, que as<span class="pn">{312}</span> Ninfas acercaram do +lume aromático, o prato transbordando de Ambrosia, e as infusas de cristal onde +scintilava o Néctar.</p> + +<p>Mercúrio murmurou:—«Doce é a tua hospitalidade, ó Deusa!» Pendurou o +Caduceu do fresco ramo dum plátano, estendeu os dedos reluzentes para a +travessa de oiro, risonhamente louvou a excelência daquele Néctar da Ilha. E +contentada a alma, encostando a cabeça ao tronco liso do plátano que se cobriu +de claridade, começou, com palavras perfeitas e aladas:</p> + +<p>—Perguntaste porque descia um Deus à tua morada, oh Deusa! E certamente +nenhum Imortal percorreria sem motivo, desde o Olimpo até Ogigya, esta deserta +imensidade do mar salgado em que se não encontram cidades de homens, nem +templos cercados de bosques, nem sequer um pequenino santuário de onde suba o +aroma do incenso, ou o cheiro das carnes votivas, ou o murmúrio gostoso das +preces... Mas foi nosso Pai Júpiter, o tempestuoso, que me mandou neste recado. +Tu recolhestes, e retens pela fôrça incomensurável da tua doçura, o mais subtil +e desgraçado de todos os Príncipes que combateram durante dez anos a alta +Troia, e depois embarcaram nas naves fundas para voltar à terra da Pátria. +Muitos dêsses conseguiram reentrar nos seus ricos lares, carregados de fama, de +despojos,<span class="pn">{313}</span> e de histórias excelentes para contar. Ventos inimigos, porêm, +e um fado mais inexorável, arremessaram a esta tua ilha, enrolado nas sujas +espumas, o facundo e astuto Ulisses... Ora o destino dêste herói não é ficar na +ociosidade imortal do leito, longe daqueles que o choram, e que carecem da sua +fôrça e manhas divinas. Por isso Júpiter, regulador da Ordem, te ordena, oh +Deusa, que soltes o magnânimo Ulisses dos teus braços claros, e o restituas, +com os presentes docemente devidos, à sua Ítaca amada, e à sua Penélope, que +tece e desfaz a teia ardilosa, cercada dos Pretendentes arrogantes, devoradores +dos seus gordos bois, sorvedores dos seus frescos vinhos!</p> + +<p>A divina Calipso mordeu levemente o beiço; e sôbre a sua face luminosa +desceu a sombra das densas pestanas côr de jacinto. Depois, com um harmonioso +suspiro, em que ondulou todo o seu peito rebrilhante:</p> + +<p>—Ah Deuses grandes, Deuses ditosos! como sois ásperamente ciumentos das +Deusas, que, sem se esconderem pela espessura dos bosques ou nas pregas escuras +dos montes, amam os homens eloqùentes e fortes!... Êste, que me invejais, rolou +às areias da minha Ilha, nu, pisado, faminto, prêso a uma quilha partida, +perseguido por todas as iras, e todas as rajadas, e todos os raios dardejantes +de que dispõe o Olimpo. Eu o recolhi, o lavei, o nutri,<span class="pn">{314}</span> o amei, o +guardei, para que ficasse eternamente ao abrigo das tormentas, da dor e da +velhice. E agora Júpiter trovejador, ao cabo de oito anos em que a minha doce +vida se enroscou em tôrno desta afeição como a vide ao olmo, determina que eu +me separe do companheiro que escolhera para a minha imortalidade! Realmente +sois crueis, oh Deuses, que constantemente aumentais a raça turbulenta dos +Semideuses dormindo com as mulheres mortais! ¿E como queres que eu mande +Ulisses à sua pátria, se não possuo naves, nem remadores, nem pilôto sabedor +que o guie através das Ilhas? ¿Mas quem pode resistir a Júpiter, que ajunta as +nuvens? Seja! e que Olimpo ria, obedecido. Eu ensinarei o intrépido Ulisses a +construir uma jangada segura, com que de novo fenda o dorso verde do mar...</p> + +<p>Imediatamente, o Mensageiro Mercúrio se levantou do escabelo pregado com +pregos de oiro, retomou o seu Caduceu, e bebendo uma derradeira taça do Néctar +excelente da Ilha, louvou a obediência da Deusa:</p> + +<p>—Bem farás, oh Calipso! Assim evitas a cólera do Pai trovejante. ¿Quem lhe +resistirá? A sua Omnisciência dirige a sua Omnipotência. E êle sustenta, como +scetro, uma árvore que tem por flor a Ordem... As suas decisões, clementes ou +crueis, resultam sempre em harmonia. Por isso o seu braço se torna<span class="pn">{315}</span> +terrífico aos peitos rebeldes. Pela tua pronta submissão serás filha estimada, +e gozarás uma imortalidade repassada de sossêgo, sem intrigas e sem +surpresas...</p> + +<p>Já as asas impacientes das suas sandálias palpitavam, e o seu corpo, com +sublime graça, se balançava por sôbre as relvas e flores que alcatifavam a +entrada da gruta.</p> + +<p>—De resto—acrescentou—a tua Ilha, oh Deusa, fica no caminho das naves +ousadas que cortam as ondas. Em breve talvez outro herói robusto, tendo +ofendido os Imortais, aportará à tua doce praia, abraçado a uma quilha... +Acende um facho claro, de noite, nas rocas altas!</p> + +<p>E, rindo, o Mensageiro Divino serenamente se elevou, riscando no Éter um +sulco de elegante fulgor que as Ninfas, esquecida a tarefa, seguiam, com os +frescos lábios entreabertos e o seio levantado, no desejo daquele imortal +formoso.</p> + +<p>Então Calipso, pensativa, lançando sôbre os seus cabelos anelados um véu da +côr do açafrão, caminhou para a orla do mar, através dos prados, numa pressa +que lhe enrodilhava a túnica, à maneira duma espuma leve, em tôrno das pernas +redondas e róseas. Tam levemente pisou a areia, que o magnânimo Ulisses não a +sentiu deslizar, perdido na contemplação das águas lustrosas, com a negra +barba<span class="pn">{316}</span> entre as mãos, aliviando em gemidos o pêso do seu coração. A Deusa +sorriu, com fugitiva e soberana amargura. Depois, pousando no vasto ombro do +Herói os seus dedos tam claros como os de Eos, mãe do dia:</p> + +<p>—Não te lamentes mais, desgraçado, nem te consumas, olhando o Mar! Os +Deuses, que me são superiores pela inteligência e pela vontade, determinam que +tu partas, afrontes a inconstância dos ventos, e calques de novo a terra da +Pátria...</p> + +<p>Bruscamente, como o condor fendendo sôbre a prêsa, o divino Ulisses, com a +face assombrada, saltou da rocha musgosa:</p> + +<p>—Oh Deusa, tu dizes !...</p> + +<p>Ela continuou sossegadamente, com os formosos braços pendidos, enrodilhados +no véu côr de açafrão, emquanto a vaga rolava, mais doce e cantante, no amoroso +respeito da sua presença divina:</p> + +<p>—Bem sabes que não tenho naves de alta prôa, nem remadores de rijo peito, +nem pilôto amigo das estrêlas, que te conduzam... Mas certamente te confiarei o +machado de bronze que foi de meu pai, para tu abateres as árvores que eu te +marcar, e construires uma jangada em que embarques... Depois eu a proverei de +odres de vinho, de comidas perfeitas, e a impelirei com um sôpro amigo para o +mar indomado...<span class="pn">{317}</span></p> + +<p>O cauteloso Ulisses recuara lentamente, cravando na Deusa um duro olhar que +a desconfiança ennegrecia. E erguendo a mão, que tremia toda, com a ansiedade +do seu coração:</p> + +<p>—Oh Deusa, tu abrigas um pensamento terrível, pois que assim me convidas a +afrontar numa jangada as ondas difíceis, onde mal se mantêm fundas naves! Não, +Deusa perigosa, não! Eu combati na grande guerra onde os Deuses tambêm +combateram, e conheço a malícia infinita que contêm o coração dos Imortais! Se +resisti às sereias irresistíveis, e me safei com sublimes manobras de entre +Scylla e Charybdes, e venci Polifemo com um ardil que eternamente me tornará +ilustre entre os homens, não foi de-certo, oh Deusa, para que agora, na Ilha de +Ogigya, como passarinho de pouca penugem, no seu primeiro vôo do ninho, cáia em +armadilha ligeira arranjada com dizeres de mel! Não, Deusa, não! Só embarcarei +na tua extraordinária jangada se tu jurares, pelo juramento terrífico dos +Deuses, que não preparas, com êsses quietos olhos, a minha perda irreparável. +</p> + +<p>Assim bradava, à beira das ondas, com o peito a arfar, Ulisses, o Herói +prudente... Então a Deusa clemente riu, com um cantado e refulgente riso. E +caminhando para o Herói, correndo os dedos celestes pelos seus espessos cabelos +mais negros que o pez:<span class="pn">{318}</span></p> + +<p>—Oh maravilhoso Ulisses—disse—tu és bem na verdade o mais refalsado e +manhoso dos homens, pois que nem concebes que exista espírito sem manha e sem +falsidade! Meu pai ilustre não me gerou com um coração de ferro! A-pesar de +imortal, compreendo as desventuras mortais. Só te aconselhei o que eu, Deusa, +empreenderia, se o Fado me obrigasse a saír de Ogigya através do mar +incerto!...</p> + +<p>O divino Ulisses retirou lenta e sombriamente a cabeça da rosada carícia dos +dedos divinos:</p> + +<p>—Mas jura... Oh Deusa, jura, para que ao meu peito desça, como onda de +leite, a saborosa confiança!</p> + +<p>Ela ergueu o claro braço ao azul onde os Deuses moram:</p> + +<p>—Por Gaia, e pelo Céu superior, e pelas águas subterrâneas do Stygio, que é +a maior invocação que podem lançar os Imortais, juro, oh homem, Príncipe dos +homens, que não preparo a tua perda, nem misérias maiores...</p> + +<p>O valente Ulisses respirou largamente. E arregaçando logo as mangas da +túnica, esfregando as palmas das mãos robustas:</p> + +<p>—¿Onde está o machado de teu pai magnífico? Mostra as árvores, oh Deusa!... +O dia baixa e o trabalho é longo!<span class="pn">{319}</span></p> + +<p>—Sossega, oh homem sôfrego de males humanos! Os deuses superiores em +sapiência já determinaram o teu destino... Recolhe comigo à doce gruta, a +reforçar a tua fôrça... Quando Eos vermelha aparecer, àmanhã, eu te conduzirei +à floresta.</p> + + +<h2><a name="SECTION0001130">III</a> </h2> + +<p>Era com efeito a hora em que homens mortais e Deuses imortais se acercam das +mesas cobertas de baixelas, onde os espera a abundância, o repouso, o +esquecimento dos cuidados, e as amoráveis conversas que contentam a alma. Em +breve Ulisses se sentou no escabelo de marfim, que ainda conservava o aroma do +corpo de Mercúrio, e diante dêle as Ninfas, servas da Deusa, colocaram os +bôlos, as frutas, as tenras carnes fumegando, os peixes rebrilhantes como +tramas de prata. Pousada num Trono de oiro puro, a Deusa recebeu da Intendenta +venerável o prato de Ambrosia e a taça de Néctar. Ambos estenderam as mãos para +as comidas perfeitas da Terra e do Céu. E logo que deram a oferenda abundante à +Fome e à Sêde, a ilustre Calipso,<span class="pn">{320}</span> encostando a face aos dedos róseos, e +considerando pensativamente o Herói, soltou estas palavras aladas:</p> + +<p>—Oh Ulisses muito subtil, tu queres voltar à tua morada mortal e à terra da +Pátria... Ah! se conhecesses, como eu, quantos duros males tens de sofrer antes +de avistar as rochas de Ítaca, ficarias entre os meus braços, amimado, banhado, +bem nutrido, revestido de linhos finos, sem nunca perder a querida fôrça, nem a +agudeza do entendimento, nem o calor da facúndia, pois que eu te comunicaria a +minha imortalidade!... Mas desejas voltar à espôsa mortal, que habita na ilha +áspera onde as matas são tenebrosas. E todavia eu não lhe sou inferior, nem +pela beleza, nem pela inteligência, porque as mortais brilham ante as Imortais +como lâmpadas fumarentas diante de estrêlas puras...</p> + +<p>O facundo Ulisses acariciou a barba rude. Depois, erguendo o braço, como +costumava na Assembleia dos Reis, à sombra das altas pôpas, diante dos muros de +Troia, disse:</p> + +<p>—Oh Deusa venerável, não te escandalises! Perfeitamente sei que Penélope te +está muito inferior em formusura, sapiência e majestade. Tu serás eternamente +bela e môça, emquanto os Deuses durarem: e ela, em poucos anos, conhecerá a +melancolia das rugas, dos cabelos brancos, das dores da decrepitude, e +dos<span class="pn">{321}</span> passos que tremem apoiados a um pau que treme. O seu espírito mortal +erra através da escuridão e da dúvida; tu, sob essa fonte luminosa, possuis as +luminosas certezas. Mas, oh Deusa, justamente pelo que ela tem de incompleto, +de frágil, de grosseiro e de mortal, eu a amo, e apeteço a sua companhia +congénere! Considera como é penoso que, nesta mesa, cada dia, eu côma +vorazmente o anho das pastagens e a fruta dos vergeis, emquanto tu ao meu lado, +pela inefável superioridade da tua natureza, levas aos lábios, com lentidão +soberana, a Ambrosia divina! Em oito anos, oh Deusa, nunca a tua face rebrilhou +com uma alegria; nem dos teus verdes olhos rolou uma lágrima; nem bateste o pé, +com irada impaciência; nem, gemendo com uma dor, te estendeste no leito +macio... E assim trazes inutilizadas todas as virtudes do meu coração, pois que +a tua divindade não permite que eu te congratule, te console, te sossegue, ou +mesmo te esfregue o corpo dorido com o suco das ervas benéficas. Considera +ainda que a tua inteligência de Deusa possui todo o saber, atinge sempre a +verdade: e, durante o longo tempo que contigo dormi, nunca gozei a felicidade +de te emendar, de te contradizer, e de sentir, ante a fraqueza do teu, a fôrça +do meu entendimento! Oh Deusa, tu és aquele ser terrífico que tem sempre razão! +Considera ainda<span class="pn">{322}</span> que, como Deusa, conheces todo o passado e todo o futuro +dos homens: e eu não pude saborear a incomparável delícia de te contar à noite, +bebendo o vinho fresco, as minhas ilustres façanhas e as minhas viagens +sublimes! Oh Deusa, tu és impecável: e quando eu escorregue num tapete +estendido, ou me estale uma correia da sandália, não te posso gritar, como os +homens mortais gritam às espôsas mortais—«Foi culpa tua, mulher!»—erguendo, +em frente à lareira, um alarido cruel! Por isso sofrerei, num espírito +paciente, todos os males com que os Deuses me assaltem no sombrio mar, para +voltar a uma humana Penélope que eu mande e console, e repreenda, e acuse, e +contrarie, e ensine, e humilhe, e deslumbre, e por isso ame dum amor que +constantemente se alimenta dêstes modos ondeantes, como o lume se nutre dos +ventos contrários!</p> + +<p>Assim o facundo Ulisses desabafava, ante a taça de oiro vazia: e serenamente +a Deusa escutava, com um sorriso taciturno, e as mãos imóveis sôbre o regaço, +enrodilhadas na ponta do véu.</p> + +<p>No entanto, Febo Apolo descia para Ocidente; e já das ancas dos seus quatro +cavalos suados subia e se espalhava por sôbre o Mar um vapor rúbido e doirado. +Em breve os caminhos da Ilha se cobriam de sombra.<span class="pn">{323}</span> E sôbre os velos +preciosos do leito, ao fundo da gruta, Ulisses, sem desejo, e a Deusa, que o +desejava, gozaram o doce amor, e depois o doce sono.</p> + +<p>Cedo, apenas Eos entreabria as portas do largo Ouranos, a divina Calipso, +que revestira uma túnica mais branca que a neve do Pindo, e pregara nos cabelos +um véu transparente e azul como o Éter ligeiro, saíu da gruta, trazendo ao +magnânimo Ulisses, já sentado à porta, sob a ramada, diante duma taça de vinho +claro, o machado poderoso de seu pai ilustre, todo de bronze, com dois fios, e +um rijo cabo de oliveira cortado nas faldas do Olimpo.</p> + +<p>Limpando rápidamente a dura barba com as costas da mão, o Herói arrebatou o +machado venerável:</p> + +<p>—Oh Deusa, há quantos anos não palpo uma arma ou uma ferramenta, eu, +devastador de cidadelas e construtor de naves !</p> + +<p>A Deusa sorriu. E, iluminada a lisa face, em palavras aladas:</p> + +<p>—Oh, Ulisses, vencedor de homens, se tu ficasses nesta ilha, eu +encomendaria para ti, a Vulcano e às suas forjas do Etna, armas maravilhosas... +</p> + +<p>—¿Que valem armas sem combates, ou homens que as admirem? De resto, oh +Deusa, já muito batalhei, e a minha glória entre as<span class="pn">{324}</span> gerações está +soberbamente segura; Só aspiro ao macio repouso, vigiando os meu gados, +concebendo sábias leis para os meus povos... Sê benévola, oh Deusa, e mostra as +árvores fortes que me convêm cortar!</p> + +<p>Em silêncio ela caminhou por um atalho florido de altas e radiosas açucenas, +que conduzia à ponta da Ilha mais cerrada de matas, do lado do Oriente: e atrás +seguia o intrépido Ulisses, com o luzidio machado ao ombro. As pombas deixavam +os ramos dos cedros, ou as concavidades das rochas onde bebiam, para esvoaçarem +em tôrno da Deusa num tumulto amoroso. Um aroma mais delicado, quando ela +passava, subia das flores abertas, como de incensadores. As relvas que a orla +da sua túnica roçava reverdejavam num viço mais fresco. E Ulisses, indiferente +aos prestígios da Deusa, impaciente com a serenidade divina do seu andar +harmonioso, meditava a jangada, almejava pelo bosque.</p> + +<p>Denso e escuro o avistou emfim, povoado de carvalhos, de velhíssimas técas, +de pinheiros que ramalhavam no alto Éter. Da sua orla descia um areal a que nem +concha, nem galho quebrado de coral, nem pálida flor de cardo marinho, +desmanchava a doçura perfeita. E o Mar refulgia com um brilho safírico, na +quietação da manhã branca e còrada. Caminhando dos carvalhos às técas, a +Deusa<span class="pn">{325}</span> marcou ao atento Ulisses os troncos sêcos, robustecidos por sóis +inumeráveis, que flutuariam, com ligeireza mais segura, sôbre as águas +traidoras. Depois, acariciando o ombro do Herói, como outra árvore robusta +tambêm votada às aguas crueis, recolheu à sua gruta, onde tomou a roca de oiro, +e todo o dia fiou, e todo o dia cantou...</p> + +<p>Com alvoroçada e soberba alegria, Ulisses atirou o machado contra um vasto +carvalho que gemeu. E em breve toda a Ilha retumbava, no fragor da obra +sobreumana. As gaivotas, adormecidas no silêncio eterno daquelas ribas, bateram +o vôo em largos bandos, espantadas e gritando. As fluidas divindades dos +ribeiros indolentes, estremecendo num fulgente arrepio, fugiam para entre os +canaviais e as raízes dos amieiros. Nesse curto dia o valente Ulisses abateu +vinte árvores, robles, pinheiros, técas e choupos—e todas decotou, esquadrou, +e alinhou sôbre a areia. O seu pescoço e arcado peito fumegavam de suor, quando +recolheu pesadamente à gruta, para saciar a rude fome, e beber a cerveja +gelada. E nunca êle parecera tam belo à Deusa Imortal, que, sobre o leito de +peles preciosas, apenas os caminhos se cobriram de sombra, encontrou incansada +e pronta a fôrça daqueles braços que tinham abatido vinte troncos!<span class="pn">{326}</span></p> + +<p>Assim, durante três dias, trabalhou o Herói.</p> + +<p>E, como arrebatada nessa actividade magnífica que abalava a Ilha, a Deusa +ajudava Ulisses, conduzindo da gruta para a praia, nas suas mãos delicadas, as +cordas e os pregos de bronze. As Ninfas, por seu mandado, abandonando as +tarefas suaves, teciam uma tela forte, para a vela que empurrariam com amor os +ventos amáveis. E a Intendenta venerável já enchia os odres de vinhos robustos, +e preparava com generosidade os víveres numerosos para a travessia incerta. No +entanto a jangada crescia, com os troncos bem ligados, e um banco erguido ao +meio, donde se empinava o mastro, desbastado num pinheiro, mais redondo e lizo +que uma vara de marfim. Cada tarde a Deusa, sentada numa rocha à sombra do +bosque, contemplava o calafate admirável martelando furiosamente, e cantando, +com rija alegria, um canto de remador. E, ligeiras, na ponta dos pés luzidios, +por entre o arvoredo, as Ninfas, escapando à tarefa, acudiam a espreitar, com +desejosos olhos fulgurantes, aquela fôrça solitária, que soberbamente, no areal +solitário, ia erguendo uma nave.<span class="pn">{327}</span></p> + + +<h2><a name="SECTION0001140">IV</a> </h2> + +<p>Emfim no quarto dia, de manhã, Ulisses findou de esquadrar o leme, que +reforçou com grades de amieiro para melhor aparar o embate das ondas. Depois +ajuntou um lastro copioso, com a terra da Ilha imortal e as suas pedras +polidas. Sem descanso, numa ânsia risonha, amarrou à vêrga alta a vela cortada +pelas Ninfas. Sôbre pesados rolos, manobrando a alavanca, rolou a jangada +imensa até à espuma da vaga, num esfôrço sublime, com músculos tam retesos e +veias tam inchadas, que êle mesmo parecia feito de troncos e cordas. Uma ponta +da jangada arfou, levantada em cadência pela onda harmoniosa. E o Herói, +erguendo os braços lustrosos de suor, louvou os Deuses Imortais.</p> + +<p>Então, como a obra findára e a tarde rebrilhava, propícia à partida, a +generosa Calipso trouxe Ulisses, através das violetas e das anémonas, à fresca +gruta. Pelas suas divinas mãos o banhou numa concha de nácar, e o perfumou com +essências sobrenaturais, e o vestiu com uma túnica formosa de lã bordada, e +lançou sôbre os seus ombros um manto impenetrável às neblinas do mar, e lhe +estendeu sôbre<span class="pn">{328}</span> a mesa, para êle saciar a fome rude, as comidas mais sãs +e mais finas da Terra. O Herói aceitava os amorosos cuidados, com paciente +magnanimidade. A Deusa, de gestos serenos, sorria taciturnamente.</p> + +<p>Depois ela tomou a mão cabeluda de Ulisses, palpando com gôsto os calos que +lhe deixara o machado; e pela borda do Mar o conduziu à praia, onde a vaga +mansamente lambia os troncos da jangada forte. Ambos descansaram sôbre uma +rocha musgosa. Nunca a Ilha resplandecera com uma beleza tam serena, entre um +mar tam azul, sob um céu tam macio. Nem a água fresca do Pindo bebida em marcha +abrasada, nem o vinho doirado que produzem as colinas de Chio, eram mais doces +de sorver do que aquele ar repassado de aromas, composto pelos Deuses para o +respirar duma Deusa. A frescura imorredoira das árvores entrava no coração, +quási pedia a carícia dos dedos. Todos os rumores, o dos regatos na relva, o +das ondas no areal, o das aves nas sombras frondosas, subiam, suave e finamente +fundidos, como as harmonias sagradas de um Templo distante. O esplendor e a +graça das flores retinham os raios pasmados do sol. Tantos eram os frutos nos +vergeis, e as espigas nas messes, que a Ilha parecia ceder, afundada no Mar, +sob o pêso da sua abundância.<span class="pn">{329}</span></p> + +<p>Então a Deusa, ao lado do Herói, levemente suspirou, e murmurou num sorriso +alado:</p> + +<p>—Oh, magnânimo Ulisses, tu certamente partes! O desejo te leva de rever a +mortal Penélope, e o teu doce Telêmaco, que deixaste no colo da ama quando a +Europa correu contra a Ásia, e agora já sustenta na mão uma lança temida. +Sempre dum amor antigo, com raízes fundas, brotará mais tarde uma flor, mesmo +triste. Mas dize! ¿Se em Ítaca não te esperasse a espôsa tecendo e destecendo a +teia, e o filho ansioso que alonga os olhos incansados para o mar, deixarias +tu, oh homem prudente, esta doçura, esta paz, esta abundância e beleza imortal? +</p> + +<p>O Herói, ao lado da Deusa, estendeu o braço poderoso, como na Assembleia dos +Reis, diante dos muros de Troia, quando plantava nas almas a verdade +persuasiva:</p> + +<p>—Oh Deusa, não te escandalises! Mas ainda que não existissem, para me +levar, nem filho, nem espôsa, nem reino, eu afrontaria alegremente os mares e a +ira dos Deuses! Porque, na verdade, oh Deusa muito ilustre, o meu coração +saciado já não suporta esta paz, esta doçura e esta beleza imortal. Considera, +oh Deusa, que em oito anos nunca vi a folhagem destas árvores amarelecer e +caír. Nunca êste céu rutilante se carregou de nuvens<span class="pn">{330}</span> escuras; nem tive o +contentamento de estender, bem abrigado, as mãos ao doce lume, emquanto a +borrasca grossa batesse nos montes. Todas essas flores que brilham nas hastes +airosas são as mesmas, oh Deusa, que admirei e respirei, na primeira manhã que +me mostraste êstes prados perpétuos:—e há lírios que odeio, com um ódio +amargo, pela impassibilidade da sua alvura eterna! Estas gaivotas repetem tam +incessantemente, tam implacavelmente, o seu vôo harmonioso e branco, que eu +escondo delas a face, como outros a escondem das negras Harpias ! E quantas +vezes me refugío no fundo da gruta para não escutar o murmúrio sempre lânguido +dêstes arroios sempre transparentes! Considera, oh Deusa, que na tua Ilha nunca +encontrei um charco; um tronco apodrecido; a carcassa dum bicho morto e coberto +de moscas zumbidoras. Oh Deusa, há oito anos, oito anos terríveis, estou +privado de ver o trabalho, o esfôrço, a luta e o sofrimento... Oh Deusa, não te +escandalises ! Ando esfaimado por encontrar um corpo arquejando sob um fardo; +dois bois fumegantes puxando um arado; homens que se injuriem na passagem duma +ponte; os braços suplicantes duma mãe que chora; um coxo, sôbre a sua muleta, +mendigando à porta das vilas... Deusa, há oito anos que não ólho para uma +sepultura... Não posso<span class="pn">{331}</span> mais com esta serenidade sublime! Toda a minha +alma arde no desejo do que se deforma, e se suja, e se espedaça, e se +corrompe... Oh Deusa imortal, eu morro com saudades da morte!</p> + +<p>Imóvel, com as mãos imóveis no regaço, enrodilhadas nas pontas do véu +amarelo, a Deusa escutara, com um sorriso serenamente divino, o furioso +queixume do Herói cativo... No entanto já pela colina as Ninfas, servas da +Deusa, desciam, trazendo à cabeça, e amparando-os com o braço redondo, os +jarros de vinho, os sacos de coiro, que a Intendenta venerável mandava para +abastecer a jangada. Silenciosamente, o Herói lançou uma tábua desde a areia +até ao bordo de altos toros. E emquanto sôbre ela as Ninfas passavam, ligeiras, +com as manilhas de oiro tilintando nos pés luzidios, Ulisses atento, contando +os sacos e os odres, gozava no seu nobre coração a abundância generosa. Mas, +amarrados com cordas às cavilhas aqueles fardos excelentes, todas as Ninfas, +lentamente, se sentaram sôbre o areal em tôrno da Deusa, para contemplarem a +despedida, o embarque, as manobras do Herói sôbre o dorso das águas... Então +uma cólera lampejou nos largos olhos de Ulisses. E, diante de Calipso, cruzando +furiosamente os valentes braços:</p> + +<p>—¿Oh Deusa, pensas tu na verdade que nada<span class="pn">{332}</span> falta para que eu largue a +vela e navegue? ¿Onde estão os ricos presentes que me deves? Oito anos, oito +duros anos, fui o hóspede magnífico da tua Ilha, da tua gruta, do teu leito... +Sempre os Deuses imortais determinaram que aos hóspedes, no momento amigo da +partida, se ofertem consideráveis presentes! ¿Onde estão elas, oh Deusa, essas +riquezas abundantes que me deves por costume da Terra e lei do Céu?</p> + +<p>A Deusa sorriu, com sublime paciência. E com palavras aladas, que fugiam na +aragem:</p> + +<p>—Oh Ulisses, tu és claramente o mais interesseiro dos homens ! E tambêm o +mais desconfiado, pois que supões que uma Deusa negaria os presentes devidos +àquele que amou... Sossega, oh subtil Herói... Os ricos presentes não tardam, +largos e rebrilhantes.</p> + +<p>E, certamente, pela colina suave, outras Ninfas desciam, ligeiras, com os +véus a ondular, trazendo nos braços alfaias lustrosas, que ao sol rutilavam! O +magnânimo Ulisses estendeu as mãos, os olhos devoradores... E emquanto elas +passavam sôbre a tábua rangente, o Herói astuto contava, avaliava no seu nobre +espírito os escabelos de marfim, os rolos de telas bordadas, os cântaros de +bronze lavrado, os escudos cravejados de pedras...</p> + +<p>Tam rico e belo era o vaso de oiro que a derradeira Ninfa sustentava no +ombro, que<span class="pn">{333}</span> Ulisses deteve a Ninfa, arrebatou o vaso, o sopesou, o mirou, +e gritou, com soberbo riso estridente:</p> + +<p>—Na verdade, êste oiro é bom!</p> + +<p>Depois de arrumadas e ligadas sob o largo banco as alfaias preciosas, o +impaciente Herói, arrebatando o machado, cortou a corda que prendia a jangada +ao tronco dum roble, e saltou para o alto bordo que a espuma envolvia. Mas +então recordou que nem beijara a generosa e ilustre Calipso! Rápido, +arremessando o manto, pulou através da espuma, correu pela areia, e pousou um +beijo sereno na fronte aureolada da Deusa. Ela segurou de leve o seu ombro +robusto:</p> + +<p>—Quantos males te esperam, oh desgraçado! Antes ficasses, para toda a +imortalidade, na minha Ilha perfeita, entre os meus braços perfeitos...</p> + +<p>Ulisses recuou, com um brado magnífico:</p> + +<p>—Oh Deusa, o irreparável e supremo mal está na tua perfeição!</p> + +<p>E, através da vaga, fugiu, trepou sôfregamente à jangada, soltou a vela, +fendeu o mar, partiu para os trabalhos, para as tormentas, para as +misérias—para a delícia das coisas imperfeitas!<span class="pn">{334}</span> <span class="pn">{335}</span></p> + + +<h1><a name="SECTION0001200">O SUAVE MILAGRE!</a> </h1> + +<p>Nesse tempo Jesus ainda se não afastara da Galilea e das doces, luminosas +margens do Lago de Tiberíade:—mas a nova dos seus Milagres penetrara já até +Enganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre olivais e vinhedos, no país de +Issachar.</p> + +<p>Uma tarde um homem de olhos ardentes e deslumbrados passou no fresco vale, e +anunciou que um novo Profeta, um Rabi formoso, percorria os campos e as aldeias +da Galilea, predizendo a chegada do Reino de Deus, curando todos os males +humanos. E emquanto descansava, sentado à beira da <em>Fonte dos Vergeis</em>, +contou ainda que êsse Rabi, na estrada de Magdala, sarara da lepra o servo dum +Decurião Romano só com estender sôbre êle<span class="pn">{336}</span> a sombra das suas mãos; e que +noutra manhã, atravessando numa barca para a terra dos Gerassénios, onde +começava a colheita do bâlsamo, ressuscitara a filha de Jaira, homem +considerável e douto que comentava os Livros na Sinagoga. E como em redor, +assombrados, seareiros, pastores, e as mulheres trigueiras com a bilha no +ombro, lhe perguntassem se êsse era, em verdade, o Messias da Judea, e se +diante dêle refulgia a espada de fogo, e se o ladeavam, caminhando como as +sombras de duas tôrres, as sombras de Gog e de Magog—o homem, sem mesmo beber +daquela água tam fria de que bebera Josué, apanhou o cajado, sacudiu os +cabelos, e meteu pensativamente por sob o Aqueduto, logo sumido na espessura +das amendoeiras em flor. Mas uma esperança, deliciosa como o orvalho nos meses +em que canta a cigarra, refrescou as almas simples: logo, por toda a campina +que verdeja até Ascalon, o arado pareceu mais brando de enterrar, mais leve de +mover a pedra do lagar: as crianças, colhendo ramos de anémonas, espreitavam +pelos caminhos se alêm da esquina do muro, ou de sob o sicómoro, não surgiria +uma claridade: e nos bancos de pedra, às portas da cidade, os vélhos, correndo +os dedos pelos fios das barbas, já não desenrolavam, com tam sapiente certeza, +os ditames antigos.<span class="pn">{337}</span></p> + +<p>Ora então vivia em Enganim um vélho, por nome Obed, duma família pontifical +de Samaria que sacrificara nas aras do Monte Ebal, senhor de fartos rebanhos e +de fartas vinhas—e com o coração tam cheio de orgulho como o seu celeiro de +trigo. Mas um vento árido e abrasado, êsse vento de desolação que ao mando do +Senhor sopra das torvas terras de Assur, matara as reses mais gordas das suas +manadas, e pelas encostas onde as suas vinhas se enroscavam ao olmo, e se +estiravam na latada airosa, só deixara, em tôrno dos olmos e pilares despidos, +sarmentos, cêpas mirradas, e a parra roída de crespa ferrugem. E Obed agachado +à soleira da sua porta, com a ponta do manto sôbre a face, palpava a poeira, +lamentava a velhice, ruminava queixumes contra Deus cruel.</p> + +<p>Apenas ouvira falar dêsse novo Rabi da Galilea, que alimentava as multidões, +amedrontava os demónios, emendava todas as desventuras—Obed, homem lido, que +viajara na Fenícia, logo pensou que Jesus seria um dêsses feiticeiros, tam +costumados na Palestina, como Apolónio, ou Rabi Ben-Dossa, ou Simão, o Subtil. +Êsses, mesmo nas noites tenebrosas, conversam com as estrêlas, para êles sempre +claras e fáceis nos seus segredos: com uma vara afugentam de sôbre as searas os +moscardos gerados nos lôdos do<span class="pn">{338}</span> Egipto: e agarram entre os dedos as +sombras das árvores, que conduzem, como toldos benéficos, para cima das eiras, +à hora da sésta. Jesus da Galilea, mais novo, com magias mais viçosas de-certo, +se êle largamente o pagasse, sustaria a mortandade dos seus gados, reverdeceria +os seus vinhedos. Então Obed ordenou aos seus servos que partissem, procurassem +por toda a Galilea o Rabi novo, e com promessa de dinheiros ou alfaias o +trouxessem a Enganim, no país de Assachar.</p> + +<p>Os servos apertaram os cinturões de coiro—e largaram pela estrada das +Caravanas, que, costeando o Lago, se estende até Damasco. Uma tarde, avistaram +sôbre o poente, vermelho como uma romã muito madura, as neves finas do monte +Hermon. Depois, na frescura duma manhã macia, o lago de Tiberíade resplandeceu +diante dêles, transparente, coberto de silêncio, mais azul que o céu, todo +orlado de prados floridos, de densos vergeis, de rochas de pórfiro, e de alvos +terraços por entre os pomares, sob o vôo das rôlas. Um pescador que desamarrava +preguiçosamente a sua barca duma ponta de relva, assombreada de aloendros, +escutou, sorrindo, os servos. ¿O Rabi de Nazareth? Oh! desde o mês de Ijar, o +Rabi descera, com os seus discípulos, para os lados para onde o Jordão leva as +águas.</p> + +<p>Os servos, correndo, seguiram pelas margens<span class="pn">{339}</span> do rio, até adiante do +vau, onde êle se estira num largo remanso, e descansa, e um instante dorme, +imóvel e verde, à sombra dos tamarindos. Um homem da tríbu dos Essénios, todo +vestido de linho branco, apanhava lentamente ervas salutares, pela beira da +água, com um cordeirinho branco ao colo. Os servos humildemente saudaram-no +porque o povo ama aqueles homens de coração tam limpo, e claro, e cândido como +as suas vestes cada manhã lavadas em tanques purificados. ¿E sabia êle da +passagem do novo Rabi da Galilea, que como os Essénios ensinava a doçura, e +curava as gentes e os gados? O Essénio murmurou que o Rabi atravessara o Oásis +de Engaddi, depois se adiantara para alêm...—Mas onde, «alêm ?»—Movendo um +ramo de flores roxas que colhera, o Essénio mostrou as terras de Alêm Jordão, a +planície de Moab. Os servos vadearam o rio—e debalde procuraram Jesus, +arquejando pelos rudes trilhos, até às fragas onde se ergue a cidadela sinistra +de Makaur... No Pôço de Yakob repousava uma larga caravana, que conduzia para o +Egipto mirra, especiarias e bâlsamos de Gilead: e os cameleiros, tirando a água +com os baldes de coiro, contaram aos servos de Obed que em Gadara, pela lua +nova um Rabi maravilhoso, maior que David ou Isaias, arrancara sete demónios do +peito duma<span class="pn">{340}</span> tecedeira, e que, à sua voz, um homem degolado pelo salteador +Barabas, se erguera da sua sepultura e recolhera ao seu horto. Os servos, +esperançados, subiram logo açodadamente pelo caminho dos Peregrinos até Gadara, +cidade de altas tôrres, e ainda mais longe até às Nascentes da Amalha... Mas +Jesus, nessa madrugada, seguindo por um povo que cantava e sacudia ramos de +mimosa, embarcara no Lago, num batel de pesca, e à vela navegara para Magdala. +E os servos de Obed descorçoados, de novo passaram o Jordão na Ponte das Filhas +de Jacob. Um dia, já com as sandálias rôtas dos longos caminhos, pisando já as +terras da Judea Romana, cruzaram um Fariseu sombrio, que recolhia a Efraim, +montado na sua mula. Com devota reverência detiveram o homem da Lei. +¿Encontrara êle por acaso êsse Profeta novo da Galilea que, como um Deus +passeando na terra, semeava milagres? A adunca face do Fariseu escureceu +enrugada—e a sua cólera, retumbou como um tambor orgulhoso:</p> + +<p>—Oh escravos pagãos! Oh blasfemos! ¿Onde ouvistes que existissem profetas +ou milagres fóra de Jerusalêm ? Só Jeová tem fôrça no seu Templo. De Galilea +surdem os néscios e os impostores...</p> + +<p>E como os servos recuavam ante o seu punho erguido, todo enrodilhado de +dísticos sagrados—o<span class="pn">{341}</span> furioso Doutor saltou da mula, e, com as pedras da +estrada, apedrejou os servos de Obed, uivando: <em>Racca! Racca!</em> e todos +os Anátemas rituais. Os servos fugiram para Enganim. E grande foi a +desconsolação de Obed, porque os seus gados morriam, as suas vinhas secavam,—e +todavia radiantemente, como uma alvorada por detrás de serras, crescia, +consoladora e cheia de promessas divinas, a fama de Jesus da Galilea.</p> + +<p>Por êsse tempo, um Centurião Romano, Publius Septimus, comandava o forte que +domina o vale de Cesarea, até à cidade e ao mar. Publius, homem áspero, +veterano da campanha de Tibério contra os Partas, enriquecera durante a revolta +de Samaria com prêsas e saques, possuia minas na Ática, e gozava, como favor +supremo dos Deuses, a amizade de Flaccus, Legado Imperial da Síria. Mas uma dor +roía a sua prosperidade muito poderosa, como um verme rói um fruto muito +suculento. Sua filha única, para êle mais amada que vida e bens, definhava com +um mal subtil e lento, estranho mesmo ao saber dos esculápios e mágicos que êle +mandara consultar a Sidon e a Tyro. Branca e triste como a lua num cemitério, +sem um queixume, sorrindo pálidamente a seu pai, definhava, sentada na alta +esplanada do forte, sob um velário, alongando saudosamente os negros +olhos<span class="pn">{342}</span> tristes pelo azul do mar de Tyro, por onde ela navegara de Itália, +numa opulenta galera. Ao seu lado, por vezes, um legionário, entre as ameias, +apontava vagarosamente ao alto a flecha, e varava uma grande águia, voando de +asa serena, no céu rutilante. A filha de Septimus, seguia um momento a ave, +torneando até bater morta sôbre as rochas:—depois, com um suspiro, mais triste +e mais pálida, recomeçava a olhar para o mar.</p> + +<p>Então Septimus, ouvindo contar, a mercadores de Chorazin, dêste Rabi +admirável, tam potente sôbre os Espíritos, que sarava os males tenebrosos da +alma, destacou três decúrias de soldados para que o procurassem pela Galilea, e +por todas as cidades da Decápola, até à costa e até Ascalon. Os soldados +enfiaram os escudos nos sacos de lona, espetaram nos elmos ramos de oliveira—e +as suas sandálias ferradas apressadamente se afastaram, ressoando sôbre as +lages de basalto da estrada romana, que desde Cesarea até ao Lago corta toda a +Tetraquia de Herodes. As suas armas, de noite, brilhavam no tôpo das colinas, +por entre a chama ondeante dos archotes erguidos. De dia invadiam os casais, +rebuscavam a espessura dos pomares, esfuracavam com a ponta das lanças a palha +das medas: e as mulheres, assustadas, para os<span class="pn">{343}</span> amansar, logo acudiam com +bolos de mel, figos novos, e malgas cheias de vinho, que êles bebiam dum trago, +sentados à sombra dos sicómoros. Assim correram a Baixa Galilea—e, do Rabi, só +encontraram o sulco luminoso nos corações. Enfastiados com as inúteis marchas, +desconfiando que os Judeus sonegassem o seu feiticeiro para que Romanos não +aproveitassem do superior feitiço, derramavam com tumulto a sua cólera, através +da piedosa terra submissa. À entrada das pontes detinham os peregrinos, +gritando o nome do Rabi, rasgando os véus às virgens: e, à hora em que os +cântaros se enchem nas cisternas, invadiam as ruas estreitas dos burgos, +penetravam nas Sinagogas, e batiam sacrílegamente com os punhos das espadas nas +<em>Thebahs</em>, os Santos Armários de cedro que continham os Livros Sagrados. +Nas cercanias de Hebron arrastaram os Solitários pelas barbas para fóra das +grutas, para lhes arrancar o nome do deserto ou do palmar em que se ocultava o +Rabi:—e dois mercadores Fenícios que vinham de Joppé com uma carga de +malobatro, e a quem nunca chegara o nome de Jesus, pagaram por êsse delito cem +drácmas a cada Decurião. Já a gente dos campos, mesmos os bravios pastores de +Idumea, que levam as reses brancas para o Templo, fugiam espavoridos para as +serranias, apenas<span class="pn">{344}</span> luziam, nalguma volta do caminho, as armas do bando +violento. E da beira dos eirados, as vélhas sacudiam como taleigos a ponta dos +cabelos desgrenhados, e arrojavam sôbre êles as Más-Sortes, invocando a +vingança de Elias. Assim tumultuosamente erraram até Ascalon: não encontraram +Jesus: e retrocederam ao longo da costa enterrando as sandálias nas areias +ardentes.</p> + +<p>Uma madrugada, perto de Cesarea, marchando num vale, avistaram sôbre um +outeiro um verde-negro bosque de loureiros, onde alvejava, recolhidamente, o +fino e claro pórtico dum templo. Um vélho, de compridas barbas brancas, coroado +de fôlhas de louro, vestido com uma túnica côr de açafrão, segurando uma curta +lira de três cordas, esperava gravemente, sôbre os degraus de mármore, a +aparição do sol. Debaixo, agitando um ramo de oliveira, os soldados bradaram +pelo Sacerdote. ¿Conhecia êle um novo Profeta que surgira na Galilea, e tam +déstro em milagres que ressuscitava os mortos e mudava a água em vinho? +Serenamente, alargando os braços, o sereno vélho exclamou por sôbre a rociada +verdura do vale:</p> + +<p>—Oh romanos! ¿pois acreditais que em Galilea ou Judea apareçam profetas +consumando milagres? ¿Como pode um bárbaro alterar a Ordem instituida por +Zeus?... Mágicos<span class="pn">{345}</span> e feiticeiros são vendilhões, que murmuram palavras +ôcas, para arrebatar a espórtula dos simples... Sem a permissão dos Imortais +nem um galho sêco pode tombar da árvore, nem sêca fôlha pode ser sacudida na +árvore. Não há profetas, não há milagres... Só Apolo Délfico conhece o segredo +das coisas!</p> + +<p>Então, devagar, com a cabeça derrubada, como numa tarde de derrota, os +soldados recolheram à fortaleza de Cesarea. E grande foi o desespero de +Septimus, porque sua filha morria, sem um queixume, olhando o mar de Tyro—e +todavia a fama de Jesus, curador dos lânguidos males, crescia, sempre mais +consoladora e fresca, como a aragem da tarde que sopra do Hermon e, através dos +hortos, reanima e levanta as açucenas pendidas.</p> + +<p>Ora entre Enganim e Cesarea, num casebre desgarrado, sumido na prega dum +cêrro, vivia a êsse tempo uma viuva, mais desgraçada mulher que todas as +mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do magro peito +a que ela o criara para os farrapos da enxerga apodrecida, onde jazera, sete +anos passados, mirrando e gemendo. Tambêm a ela a doença a engelhara dentro dos +trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. E, sôbre +ambos, espessamente a miséria cresceu como o bolôr sôbre cacos perdidos num +ermo. Até na<span class="pn">{346}</span> lâmpada de barro vermelho, secara há muito o azeite. Dentro +da arca pintada não restava grão ou côdea. No estio, sem pasto, a cabra +morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tam longe do povoado, nunca +esmola de pão ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das +rochas, cosidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida, +onde até às aves maléficas sobrava o sustento!</p> + +<p>Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe +amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das +pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, êsse Rabi que aparecera na +Galilea, e de um pão no mesmo cêsto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e +enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso Reino, de +abundância maior que a Côrte de Salomão. A mulher escutava com olhos famintos. +¿E êsse dôce Rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava? O mendigo +suspirou. Ah êsse dôce Rabi! quantos o desejavam, que se desesperançavam! A sua +fama andava por sôbre toda a Judea como o sol que até por qualquer vélho muro +se estende e se goza; mas para enxergar a claridade do seu rosto, só aqueles +ditosos que o seu desejo escolhia. Obed, tam rico, mandara os seus<span class="pn">{347}</span> +servos por toda a Galilea para que procurassem Jesus, o chamassem com promessas +a Enganim: Septimus, tam soberano, destacara os seus soldados até à costa do +mar, para que buscassem Jesus, o conduzissem, por seu mando, a Cesarea. +Errando, esmolando por tantas estradas, êle topara os servos de Obed, depois os +legionários de Septimus. E todos voltavam, como derrotados, com as sandálias +rôtas, sem ter descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palácio, se +escondia Jesus.</p> + +<p>A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre +a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto, mais vergada, mais abandonada. E +então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar duma asa, pediu à mãe que +lhe trouxesse êsse Rabi, que amava as criancinhas ainda as mais pobres, sarava +os males ainda os mais antigos. A mãe apertou a cabeça esguedelhada:</p> + +<p>—Oh filho! ¿e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos, à procura +do Rabi da Galilea? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por +areais e colinas, desde Chorazin até ao país de Moab. Septimus é forte, e tem +soldados, e debalde correram por Jesus, desde o Hebron até ao mar! ¿Como queres +que te deixe? Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora comnosco, dentro +destas paredes, e dentro delas nos prende. ¿E mesmo que<span class="pn">{348}</span> o encontrasse, +como convenceria eu o Rabi tam desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a +que descesse através das cidades até êste ermo, para sarar um entrevadinho tam +pobre, sôbre enxerga tam rôta?</p> + +<p>A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:</p> + +<p>—Oh mãe! Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tam pequeno, e com um +mal tam pesado, e que tanto queria sarar!</p> + +<p>E a mãe, em soluços:</p> + +<p>—¿Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galilea, e +curta a piedade dos homens. Tam rôta, tam trôpega, tam triste, até os cães me +ladrariam da porta dos casais. Ninguêm atenderia o meu recado, e me apontaria a +morada do doce Rabi. Oh filho! talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os +fortes o encontram. O céu o trouxe, o céu o levou. E com êle para sempre morreu +a esperança dos tristes.</p> + +<p>De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãosinhas que tremiam, a +criança murmurou:</p> + +<p>—Mãe, eu queria ver Jesus...</p> + +<p>E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:</p> + +<p>—Aqui estou.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;">FIM<span class="pn">{349}</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +</div> + +<h1><a name="SECTION0001300">ÍNDICE</a> </h1> + +<p> </p> + +<table align="center" summary="Índice"> + <tr><td></td><td align="right">Pag.</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION000100">Singularidades de uma rapariga loura</a></td> + <td align="right">1</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION000200">Um poeta lírico</a></td><td align="right">43</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION000300">No moínho</a></td><td align="right">61</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION000400">Civilização</a></td><td align="right">81</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION000500">O tesoiro</a></td><td align="right">123</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION000600">Frei Genebro</a></td><td align="right">135</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION000700">Adão e Eva no Paraíso</a></td><td align="right">153</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION000800">A aia</a></td><td align="right">205</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION000900">O defunto</a></td><td align="right">215</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION0001000">José Matias</a></td><td align="right">265</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION0001100">A perfeição</a></td><td align="right">303</td></tr> + + <tr><td><a href="#SECTION0001200">O suave milagre!</a></td><td align="right">335</td></tr> +</table> + +<p> </p> + +<p> </p> +<div class="fbox"><p><b>Notas de transcrição:</b></p> + +<p>Foram encontrados e corrigidos alguns erros tipográficos evidentes, de que não considerámos necessária menção especial.</p> +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Contos, by José Maria Eça de Queirós + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS *** + +***** This file should be named 31347-h.htm or 31347-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/1/3/4/31347/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> |
