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+ <title>Contos, por Eça de Queiroz</title>
+ <meta name="Author" content="Eça de Queiroz">
+ <meta name="Publisher" content="Livraria Chardron de Lello e Irmão">
+ <meta name="Date" content="1913">
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of Contos, by José Maria Eça de Queirós
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Contos
+
+Author: José Maria Eça de Queirós
+
+Release Date: February 22, 2010 [EBook #31347]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net
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+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+
+<p style="font-size: 2em;">CONTOS</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right; text-decoration: underline;">PORTO&mdash;Imprensa Moderna</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn">{II}</span><br>
+
+<span class="pn">{III}</span><br>
+
+<span class="pn">{IV}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p><img src="images/eca_de_queiroz.png" border="0" alt="Eça de Queiroz"></p>
+<p><em>Eça de Queiroz</em></p>
+</div>
+
+<p><span class="pn">{V}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center; border: solid 1px #000;">
+<p style="font-size: 1.4em;">EÇA DE QUEIROZ</p>
+
+<p style="font-size: 3em;">CONTOS</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>TERCEIRA EDIÇÃO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">PORTO</p>
+
+<p>L<small>IVRARIA </small>C<small>HARDRON, DE </small>L<small>ELO
+</small>&amp; I<small>RMÃO,<br> </small>E<small>DITORES&mdash;</small>R<small>UA DAS
+</small>C<small>ARMELITAS, 144</small><br>
+
+1913</p>
+
+<p><small>Todos os direitos reservados</small></p>
+
+</div>
+
+<p><span class="pn">{VI}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="font-size: 80%;">
+<p style="text-align: center; font-size: 1.2em;">Obras de EÇA DE QUEIROZ</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>O Crime do Padre Amaro</strong>, 1 vol. 1$200
+
+ <p><strong>O Primo Bazílio</strong>, 1 volume 1$000</p>
+
+ <p><strong>O Mandarim</strong>, 1 volume 500</p>
+
+ <p><strong>Os Maias</strong>, 2 grossos volumes 2$000</p>
+
+ <p><strong>A Relíquia</strong>, 1 grosso volume 1$000</p>
+
+ <p><strong>Correspondência de Fradique Mendes</strong>, 1 volume 600</p>
+
+ <p><strong>A Ilustre Casa de Ramires</strong>, 1 volume 1$000</p>
+
+ <p><strong>A Cidade e as Serras</strong>, 1 volume 800</p>
+
+ <p><strong>Contos</strong>, 1 volume 600</p>
+
+ <p><strong>Prosas Bárbaras</strong>, 1 volume 600</p>
+
+ <p><strong>Cartas de Inglaterra</strong>, 1 volume 500</p>
+
+ <p><strong>Ecos de Paris</strong>, 1 volume 500</p>
+
+ <p><strong>Cartas Familiares</strong>, 1 vol. 500</p>
+
+ <p><strong>Notas Contemporâneas</strong>, 1 volume 1$000</p>
+
+ <p><strong>Últimas páginas</strong> (manuscritos inéditos), 1 vol. 1$000</p>
+
+ <p><strong>Páginas esquecidas</strong>, com um largo estudo de José Sampaio
+ (Bruno) no prélo</p>
+
+ <p><strong>As Minas de Salomão</strong>, (tradução), 1 volume 600</p>
+
+ <p><strong>Revista de Portugal</strong>, 4 grossos volumes (colaboração)
+ 12$000</p>
+</blockquote>
+
+</div>
+
+<p style="text-align: center;">&mdash;</p>
+
+<p>A propriedade literária e artística está garantida em todos os países que
+aderiram à convenção de Berne&mdash;(Em Portugal, pela lei de 18 de março de 1911.
+No Brasil pela lei n.º 2.577 de 17 de Jan. de 1912.) <span class="pn">{VII}</span></p>
+
+<div id="corpo">
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>A obra dispersa de Eça de Queiroz, desde os seus primeiros folhetins na
+<em>Revolução de Setembro</em> e na <em>Gazeta de Portugal</em> até à sua
+assídua colaboração na <em>Gazeta de Notícias</em>, do Rio de Janeiro, e na
+<em>Revista Moderna</em>, é muito vasta, muito variada e encerra algumas das
+mais maravilhosas páginas do grande e saudoso escritor.</p>
+
+<p>Os seus editores começam, com a publicação do presente volume, a
+<em>compilação da obra póstuma e dispersa</em>, recolhendo cuidadosamente êsse
+riquíssimo espólio, para o salvar, pelo livro, do esquecimento a que o
+condenariam a dispersão das fôlhas diárias e a sua efémera vida.</p>
+
+<p>Os <em>Contos</em> compreendem todos os escritos dêste género que Eça de
+Queiroz nos deixou, a partir das <em>Singularidades duma rapariga loura</em>.
+Os seus primitivos escritos na <em>Revolução</em> e na<span class="pn">{VIII}</span> <em>Gazeta de
+Portugal</em>, obra mixta de fantasia e de crítica, seguir-se hão a êste em
+outro volume, já no prelo, e a que uma feliz indicação do snr. Jaime Batalha
+Reis<a name="tex2html2" href="#foot738"><sup>[1]</sup></a> nos revelou o
+próprio título que o autor determinara dar-lhe: <em>Prosas Bárbaras</em>.</p>
+
+<p>Mais três volumes serão destinados a coligir as suas correspondências para
+os jornais brasileiros, conservando-se-lhes como títulos as rúbricas sob que
+ali eram publicadas: <em>Cartas de Inglaterra</em>, <em>Ecos de Paris e Cartas
+Familiares</em>; e outros dois encerrarão<a name="tex2html3"
+href="#foot739"><sup>[2]</sup></a> a sua copiosa <em>vária</em>, onde se
+misturam impressões de literatura e de arte, artigos sôbre política geral,
+estudos biográficos,<span class="pn">{IX}</span> notas de viagem, ensaios, críticas, polémica, etc.
+</p>
+
+<p>Completará esta série um derradeiro volume com o precioso inédito do <em>S.
+Cristóvão</em>,<a name="tex2html4" href="#foot740"><sup>[3]</sup></a> tal como
+o admirável artista o deixou: um esbôço magnífico, um verdadeiro improviso,
+traçado com largueza numa primeira factura pronta e fluente, onde a sua
+imaginação e a sua prosa brotam em jorros impetuosos e borbulhantes, em
+contrário da falsa lenda que fazia de Eça de Queiroz um criador moroso, e um
+escritor sem espontaneidade.</p>
+
+<p>A título de curiosidade, para mostrar o poder de desenvolvimento e ampliação
+das suas faculdades imaginativas e como um exemplo dos seus<span class="pn">{X}</span> processos de
+trabalho, inserimos no presente volume o conto intitulado <em>Civilização</em>,
+que o autor, amplificando-o, transformou depois na deliciosa novela <em>A
+Cidade e as Serras</em>.</p>
+
+<p>Ao terminar estas linhas, os editores cumprem o grato dever de testemunhar o
+seu reconhecimento ao snr. Francisco Ramos Paz, co-proprietário da <em>Gazeta
+de Notícias</em>, do Rio de Janeiro, que, com o mais vivo interesse pela
+publicação dos escritos dispersos de Eça de Queiroz, lhes forneceu
+obsequiosamente toda a vasta colaboração do ilustre romancista no importante
+jornal fluminense.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Pôrto, 1903.</p>
+
+<p style="text-align: right;"><strong><em>Lelo &amp; Irmão.</em></strong></p>
+
+<p>(<em>Da primeira edição</em>)</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot738" href="#tex2html2"><sup>[1]</sup></a> A<small>NTHERO DE
+</small>Q<small>UENTAL</small>, <em>In Memoriam</em>, pag. 444.</p>
+
+<p><a name="foot739" href="#tex2html3"><sup>[2]</sup></a> Publicado num só
+volume&mdash;<em>Notas Contemporâneas</em>&mdash;1909.</p>
+
+<p><a name="foot740" href="#tex2html4"><sup>[3]</sup></a> Incluido no
+volume&mdash;<em>Últimas páginas</em>&mdash;1911.</p>
+</div>
+
+
+<p><span class="pn">{1}</span></p>
+
+
+<h1><a name="SECTION000100">SINGULARIDADES <br>
+DE <br>
+UMA RAPARIGA LOURA</a> </h1>
+
+
+<h2><a name="SECTION000110">I</a> </h2>
+
+<p>Começou por me dizer que o seu caso era simples&mdash;e que se chamava Macário...
+</p>
+
+<p>Devo contar que conheci êste homem numa estalagem do Minho. Era alto e
+grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se lhe
+erriçavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda engelhada e
+amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e rectidão&mdash;por trás
+dos seus óculos redondos com aros de tartaruga. Tinha a barba rapada, o queixo
+saliente e resoluto. Trazia uma gravata de setim negro apertada por trás com
+uma fivela; um casaco comprido côr de pinhão, com as mangas estreitas e justas
+e canhões de veludilho. E pela longa<span class="pn">{2}</span> abertura do seu colete de sêda, onde
+reluzia um grilhão antigo, saíam as pregas moles de uma camisa bordada.</p>
+
+<p>Era isto em setembro: já as noites vinham mais cedo, com uma friagem fina e
+sêca e uma escuridão aparatosa. Eu tinha descido da diligência, fatigado,
+esfomeado, tiritando num cobrejão de listas escarlates.</p>
+
+<p>Vinha de atravessar a serra e os seus aspectos pardos e desertos. Eram oito
+horas da noite. Os céus estavam pesados e sujos. E, ou fôsse um certo
+adormecimento cerebral produzido pelo rolar monótono da diligência, ou fôsse a
+debilidade nervosa da fadiga, ou a influência da paizagem escarpada e árida,
+sob o côncavo silêncio noturno, ou a opressão da electricidade, que enchia as
+alturas&mdash;o facto é que eu&mdash;que sou naturalmente positivo e realista&mdash;tinha
+vindo tiranizado pela imaginação e pelas quimeras. Existe, no fundo de cada um
+de nós, é certo,&mdash;tam friamente educados que sejâmos&mdash;um resto de misticismo; e
+basta às vezes uma paizagem soturna, o vélho muro de um cemitério, um ermo
+ascético, as emolientes brancuras de um luar, para que êsse fundo místico suba,
+se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensação e a idea, e fique assim o
+mais matemático ou o mais crítico&mdash;tam triste, tam visionário, tam
+idealista&mdash;como um vélho monge poeta. A mim, o que me lançara na quimera<span class="pn">{3}</span> e
+no sonho, fôra o aspecto do mosteiro de Rastelo, que eu tinha visto, à
+claridade suave e outonal da tarde, na sua doce colina. Então, emquanto
+anoitecia, a diligência rolava contínuamente ao trote esgalgado dos seus magros
+cavalos brancos, e o cocheiro, com o capuz do gabão enterrado na cabeça,
+ruminava o seu cachimbo&mdash;eu pus-me, elegíacamente, ridículamente, a considerar
+a esterilidade da vida: e desejava ser um monge, estar num convento, tranqùilo,
+entre arvoredos ou na murmurosa concavidade dum vale, e emquanto a água da
+cêrca canta sonoramente nas bacias de pedra, ler a <em>Imitação</em>, e ouvindo
+os rouxinóis nos loireirais ter saudades do céu.&mdash;Não se pode ser mais
+estúpido. Mas eu estava assim, e atribuo a esta disposição visionária a falta
+de espírito&mdash;a sensação&mdash;que me fez a história daquele homem dos canhões de
+veludilho.</p>
+
+<p>A minha curiosidade começou à ceia, quando eu desfazia o peito de uma
+galinha afogada em arroz branco, com fatias escarlates de paio&mdash;e a criada, uma
+gorda e cheia de sardas, fazia espumar o vinho verde no copo, fazendo-o cair de
+alto de uma caneca vidrada. O homem estava defronte de mim, comendo
+tranqùilamente a sua geleia: perguntei-lhe, com a bôca cheia, o meu guardanapo
+de linho de Guimarães suspenso nos dedos&mdash;se êle era de Vila Rial.<span class="pn">{4}</span></p>
+
+<p>&mdash;Vivo lá. Há muitos anos&mdash;disse-me êle.</p>
+
+<p>&mdash;Terra de mulheres bonitas, segundo me consta&mdash;disse eu.</p>
+
+<p>O homem calou-se.</p>
+
+<p>&mdash;Hein?&mdash;tornei.</p>
+
+<p>O homem contraiu-se num silêncio saliente. Até aí estivera alegre, rindo
+dilatadamente; loquaz e cheio de bonomia. Mas então imobilizou o seu sorriso
+fino.</p>
+
+<p>Compreendi que tinha tocado a carne viva de uma lembrança. Havia de-certo no
+destino daquele vélho uma <em>mulher</em>. Aí estava o seu melodrama ou a sua
+farça, porque inconscientemente estabeleci-me na idea de que o <em>facto</em>,
+o <em>caso</em> daquele homem, devera ser grotesco e exalar escárnio.</p>
+
+<p>De sorte que lhe disse:</p>
+
+<p>&mdash;A mim teem-me afirmado que as mulheres de Vila Rial são as mais bonitas do
+Norte. Para os olhos pretos Guimarães, para corpos Santo Aleixo, para tranças
+os Arcos: é lá que se vêem os cabellos claros côr de trigo.</p>
+
+<p>O homem estava calado, comendo, com os olhos baixos.</p>
+
+<p>&mdash;Para cinturas finas Viana, para boas peles Amarante&mdash;e para isto tudo Vila
+Rial. Eu tenho um amigo que veio casar a Vila Rial. Talvez conheça. O Peixoto,
+um alto, de barba loura, bacharel.<span class="pn">{5}</span></p>
+
+<p>&mdash;O Peixoto, sim,&mdash;disse-me êle, olhando gravemente para mim.</p>
+
+<p>&mdash;Veio casar a Vila Rial como antigamente se ia casar à Andaluzia&mdash;questão
+de arranjar a fina flor da perfeição.&mdash;À sua saude.</p>
+
+<p>Eu evidentemente constrangia-o, porque se ergueu, foi à janela com um passo
+pesado, e reparei então nos seus grossos sapatos de casimira com a sola forte e
+atilhos de coiro. E saiu.</p>
+
+<p>Quando pedi o meu castiçal, a criada trouxe-me um candieiro de latão
+lustroso e antigo e disse:</p>
+
+<p>&mdash;O senhor está com outro. É no n.º 3.</p>
+
+<p>Nas estalagens do Minho, às vezes, cada quarto é um dormitório impertinente.
+</p>
+
+<p>&mdash;Vá&mdash;disse eu.</p>
+
+<p>O n.º 3 era no fundo do corredor. Às portas dos lados os hóspedes tinham
+posto o seu calçado para engraxar: estavam umas grossas botas de montar,
+enlameadas, com esporas de correia; os sapatos brancos de um caçador; botas de
+proprietário, de altos canos vermelhos; as botas de um padre, altas, com a sua
+borla de retroz; os botins cambados de bezerro, de um estudante; e a uma das
+portas, o n.º 15, havia umas botinas de mulher, de duraque, pequeninas e finas,
+e ao lado as pequeninas botas de uma criança, todas coçadas e batidas, e os
+seus canos de pelica-mór caíam-lhe para os lados com os atacadores desatados.
+Todos dormiam.<span class="pn">{6}</span> Defronte do n.º 3 estavam os sapatos de casimira com
+atilhos: e quando abri a porta vi o homem dos canhões de veludilho, que
+amarrava na cabeça um lenço de sêda: estava com uma jaqueta curta de ramagens,
+uma meia de lã, grossa e alta, e os pés metidos nuns chinelos de ourelo.</p>
+
+<p>&mdash;O senhor não repare&mdash;disse êle.</p>
+
+<p>&mdash;À vontade&mdash;e para estabelecer a intimidade tirei o casaco.</p>
+
+<p>Não direi os motivos porque êle daí a pouco, já deitado, me disse a sua
+história. Há um provérbio eslavo da Galícia que diz: o que não contas à tua
+mulher, o que não contas ao teu amigo, conta-lo a um estranho, na estalagem.
+Mas êle teve raivas inesperadas e dominantes para a sua larga e sentida
+confidência. Foi a respeito do meu amigo, do Peixoto, que fôra casar a Vila
+Rial. Vi-o chorar, àquele vélho de quási sessenta anos. Talvez a história seja
+julgada trivial: a mim, que nessa noite estava nervoso e sensível, pareceu-me
+terrível,&mdash;mas conto-a apenas como um acidente singular da vida amorosa....</p>
+
+<p>Começou pois por me dizer que o seu caso era simples&mdash;e que se chamava
+Macário.</p>
+
+<p>Perguntei-lhe então se era de uma família que eu conhecera que tinha o
+apelido de <em>Macário</em>. E como êle me respondeu que era primo dêsses, eu
+tive logo do seu carácter uma idea<span class="pn">{7}</span> simpática, porque os Macários eram uma
+antiga família, quási uma dinastia de comerciantes, que mantinham com uma
+severidade religiosa a sua vélha tradição de honra e de escrúpulo. Macário
+disse-me que nesse tempo, em 1823 ou 33, na sua mocidade, seu tio Francisco
+tinha, em Lisboa, um armazêm de panos, e êle era um dos caixeiros. Depois o tio
+compenetrára-se de certos instintos inteligentes e do talento prático e
+aritmético de Macário, e deu-lhe a escrituração. Macário tornou-se o seu
+<em>guarda-livros</em>.</p>
+
+<p>Disse-me êle que sendo naturalmente linfático e mesmo tímido, a sua vida
+tinha nesse tempo uma grande concentração. Um trabalho escrupuloso e fiel,
+algumas raras merendas no campo, um apuro saliente de fato e de roupas brancas,
+era todo o interesse da sua vida. A existência nesse tempo era caseira e
+apertada. Uma grande simplicidade social aclarava os costumes: os espíritos
+eram mais ingénuos, os sentimentos menos complicados.</p>
+
+<p>Jantar alegremente numa horta, debaixo das parreiras, vendo correr a água
+das regas&mdash;chorar com os melodramas que rugiam entre os bastidores do Salitre,
+alumiados a cera, eram contentamentos que bastavam à burguesia cautelosa. Alêm
+disso os tempos eram confusos e revolucionários: e nada torna o homem
+recolhido, conchegado à lareira, simples e fácilmente<span class="pn">{8}</span> feliz&mdash;como a
+guerra. É a paz que dando os vagares da imaginação&mdash;causa as impaciências do
+desejo.</p>
+
+<p>Macário, aos vinte e dois anos, ainda não tinha&mdash;como lhe dizia uma vélha
+tia, que fôra querida do desembargador Curvo Semedo, da Arcádia,&mdash;<em>sentido
+Vénus</em>.</p>
+
+<p>Mas por êsse tempo veio morar para defronte do armazêm dos Macários, para um
+terceiro andar, uma mulher de quarenta anos, vestida de luto, uma pele branca e
+baça, o busto bem feito e redondo e um aspecto desejável. Macário tinha a sua
+carteira no primeiro andar, por cima do armazêm, ao pé de uma varanda, e dali
+viu uma manhã aquela mulher com o cabelo preto solto e anelado, um chambre
+branco e braços nus, chegar-se a uma pequena janela de peitoril, a sacudir um
+vestido. Macário afirmou-se e sem mais intenção dizia mentalmente que aquela
+mulher, aos vinte anos, devia ter sido uma pessoa cativante e cheia de domínio:
+porque os seus cabelos violentos e ásperos, o sobr'ôlho espesso, o lábio forte,
+o perfil aquilino e firme, revelavam um temperamento activo e imaginações
+apaixonadas. No entanto, continuou serenamente alinhando as suas cifras. Mas à
+noite estava sentado fumando à janela do seu quarto, que abria sôbre o pátio:
+era em julho e a atmosfera estava eléctrica e amorosa: a rebeca de um
+vizinho<span class="pn">{9}</span> gemia uma <em>chácara</em> mourisca, que então sensibilizava, e
+era de um melodrama; o quarto estava numa penumbra doce e cheia de mistério&mdash;e
+Macário, que estava em chinelas, começou a lembrar-se daqueles cabelos negros e
+fortes e daqueles braços que tinham a côr dos mármores pálidos: espreguiçou-se,
+rolou mórbidamente a cabeça pelas costas da cadeira de vime, como os gatos
+sensíveis que se esfregam, e decidiu bocejando que a sua vida era monótona. E
+ao outro dia, ainda impressionado, sentou-se à sua carteira com a janela toda
+aberta, e olhando o prédio fronteiro onde viviam aqueles cabelos
+grandes&mdash;começou a aparar vagarosamente a sua pena de rama. Mas ninguêm se
+chegou à janela de peitoril, com caixilhos verdes. Macário estava enfastiado,
+pesado&mdash;e o trabalho foi lento. Pareceu-lhe que havia na rua um sol alegre, e
+que nos campos as sombras deviam ser mimosas e que se estaria bem vendo o
+palpitar das borboletas brancas nas madre-silvas! E, quando fechou a carteira,
+sentiu defronte correr-se a vidraça; eram de-certo os cabelos pretos. Mas
+apareceram uns cabelos louros. Oh! E Macário veio logo salientemente para a
+varanda aparar um lápis. Era uma rapariga de vinte anos, talvez&mdash;fina, fresca,
+loura como uma vinheta inglesa: a brancura da pele tinha alguma coisa da
+transparência das vélhas porcelanas, e havia no seu perfil uma<span class="pn">{10}</span> linha pura
+como de uma medalha antiga, e os vélhos poetas pitorescos ter-lhe-iam
+chamado&mdash;pomba, arminho, neve e oiro.</p>
+
+<p>Macário disse consigo:</p>
+
+<p>&mdash;É filha.</p>
+
+<p>A outra vestia de luto, mas esta, a loira, tinha um vestido de cassa com
+pintas azuis, um lenço de cambraia traspassado sôbre o peito, as mangas
+perdidas com rendas, e tudo aquilo era asseado, môço, fresco, flexível e tenro.
+</p>
+
+<p>Macário nesse tempo era louro com a barba curta. O cabelo era anelado e a
+sua figura devia ter aquele ar sêco e nervoso que depois do século XVIII e da
+revolução&mdash;foi tam vulgar nas raças plebeias.</p>
+
+<p>A rapariga loura reparou naturalmente em Macário, e naturalmente desceu a
+vidraça, correndo por trás uma cortina de cassa bordada. Estas pequenas
+cortinas datam de G[oe]the e teem na vida amorosa um interessante destino:
+revelam. Levantar-lhes uma ponta e espreitar, franzi-la suavemente, revela um
+fim; corrê-la, pregar nela uma flor, agitá-la fazendo sentir que por trás um
+rosto atento se move e espera&mdash;são vélhas maneiras com que na realidade e na
+arte começa o romance. A cortina ergueu-se devagarinho e o rosto louro
+espreitou.</p>
+
+<p>Macário não me contou por pulsações&mdash;a história minuciosa do seu coração.
+Disse singelamente que daí a cinco dias&mdash;<em>estava doido</em><span class="pn">{11}</span> <em>por
+ela</em>. O seu trabalho tornou-se logo vagaroso e infiel e o seu belo cursivo
+inglês firme e largo ganhou curvas, ganchos, rabiscos, onde estava todo o
+romance impaciente dos seus nervos. Não a podia ver pela manhã: o sol mordente
+de julho batia e escaldava a pequena janela de peitoril. Só pela tarde, a
+cortina se franzia, se corria a vidraça, e ela, estendendo uma almofadinha no
+rebordo do peitoril, vinha encostar-se mimosa e fresca com o seu leque. Leque
+que preocupou Macário: era uma ventarola chinesa, redonda, de sêda branca com
+dragões escarlates bordados à pena, uma cercadura de plumagem azul, fina e
+trémula como uma penugem e o seu cabo de marfim, donde pendiam duas borlas de
+fio de oiro, tinha incrustações de nácar à linda maneira persa.</p>
+
+<p>Era um leque magnífico e naquele tempo inesperado nas mãos plebeias de uma
+rapariga vestida de cassa. Mas como ela era loura e a mãe tam meridional,
+Macário, com esta intuição interpretativa dos namorados, disse à sua
+curiosidade: <em>será filha de um inglês</em>. O inglês vai à China, à Pérsia,
+a Ormuz, à Austrália e vem cheio daquelas jóias dos luxos exóticos, e nem
+Macário sabia porque é que aquela ventarola de mandarina o preocupava assim:
+mas segundo êle me disse&mdash;<em>aquilo deu-lhe no gôto</em>.</p>
+
+<p>Tinha-se passado uma semana, quando um dia Macário viu, da sua carteira, que
+ela, a<span class="pn">{12}</span> loura, saía com a mãe, porque se acostumara a considerar mãe dela
+aquela magnífica pessoa, magníficamente pálida e vestida de luto.</p>
+
+<p>Macário veio à janela e viu-a atravessar a rua e entrarem no armazêm. No seu
+armazêm! Desceu logo trémulo, sôfrego, apaixonado e com palpitações. Estavam
+elas já encostadas ao balcão e um caixeiro desdobrava-lhes defronte casimiras
+pretas. Isto comoveu Macário. Êle mesmo mo disse.</p>
+
+<p>&mdash;Porque emfim, meu caro, não era natural que elas viessem comprar, para si,
+casimiras pretas.</p>
+
+<p>E não: elas não usavam <em>amazonas</em>, não quereriam de-certo estofar
+cadeiras com casimira preta, não havia homens em casa delas; portanto aquela
+vinda ao armazêm era um meio delicado de o ver de perto, de lhe falar, e tinha
+o encanto penetrante de uma mentira sentimental. Eu disse a Macário que, sendo
+assim, êle devia estranhar aquele movimento amoroso, porque denotava na mãe uma
+cumplicidade equívoca. Êle confessou-me <em>que nem pensava em tal</em>. O que
+fez foi chegar ao balcão e dizer estúpidamente:</p>
+
+<p>&mdash;Sim senhor, vão bem servidas, estas casimiras não encolhem.</p>
+
+<p>E a loura ergueu para êle o seu olhar azul, e foi como se Macário se
+sentisse envolvido na doçura de um céu.<span class="pn">{13}</span></p>
+
+<p>Mas quando êle ia dizer-lhe uma palavra reveladora e veemente, apareceu ao
+fundo do armazêm o tio Francisco, com o seu comprido casaco côr de pinhão, de
+botões amarelos. Como era singular e desusado achar-se o snr. guarda-livros
+vendendo ao balcão e o tio Francisco com a sua crítica estreita e celibatária
+podia escandalizar-se, Macário começou a subir vagarosamente a escada em
+caracol que levava ao escritório, e ainda ouviu a voz delicada da loura dizer
+brandamente:</p>
+
+<p>&mdash;Agora queria ver lenços da Índia.</p>
+
+<p>E o caixeiro foi buscar um pequenino pacote daqueles lenços, acamados e
+apertados numa tira de papel dourado.</p>
+
+<p>Macário, que tinha visto naquela visita uma revelação de amor, quási uma
+<em>declaração</em>, esteve todo o dia entregue às impaciências amargas da
+paixão. Andava distraído, abstracto, pueril, não deu atenção à escrituração,
+jantou calado, sem escutar o tio Francisco que exaltava as almôndegas, mal
+reparou no seu ordenado que lhe foi pago em pintos às três horas, e não
+entendeu bem as recomendações do tio e a preocupação dos caixeiros sôbre o
+desaparecimento de um pacote de lenços da Índia.</p>
+
+<p>&mdash;É o costume de deixar entrar pobres no armazêm&mdash;tinha dito no seu
+laconismo majestoso o tio Francisco.&mdash;São 12$000 réis de lenços. Lance à minha
+conta.<span class="pn">{14}</span></p>
+
+<p>Macário, no entanto, ruminava secretamente uma carta, mas sucedeu que ao
+outro dia, estando êle à varanda, a mãe, a de cabelos pretos, veio encostar-se
+ao peitoril da janela, e neste momento, passava na rua um rapaz amigo de
+Macário, que vendo aquela senhora afirmou-se e tirou-lhe, com uma cortesia toda
+risonha, o seu chapéu de palha. Macário ficou radioso: logo nessa noite
+procurou o seu amigo, e abruptamente, sem meia tinta:</p>
+
+<p>&mdash;¿Quem é aquela mulher que tu hoje cumprimentaste defronte do armazêm?</p>
+
+<p>&mdash;É a Vilaça. Bela mulher.</p>
+
+<p>&mdash;E a filha?</p>
+
+<p>&mdash;A filha!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, uma loura, clara, com um leque chinês.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! sim. É filha.</p>
+
+<p>&mdash;É o que eu dizia....</p>
+
+<p>&mdash;Sim, e então?</p>
+
+<p>&mdash;É bonita.</p>
+
+<p>&mdash;É bonita.</p>
+
+<p>&mdash;É gente de bem, hein?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, gente de bem.</p>
+
+<p>&mdash;Está bom. Tu conhece-las muito?</p>
+
+<p>&mdash;Conheço-as. Muito não. Encontrava-as dantes em casa de D. Cláudia.</p>
+
+<p>&mdash;Bem, ouve lá.</p>
+
+<p>E Macário, contando a história do seu coração acordado e exigente e falando
+do amor<span class="pn">{15}</span> com as exaltações de então, pediu-lhe como a glória da sua vida,
+<em>que achasse um meio de o encaixar lá</em>. Não era difícil. As Vilaças
+costumavam ir aos sábados a casa de um tabelião muito rico na rua dos
+Calafates: eram assembleias simples e pacatas, onde se cantavam motetes ao
+cravo, se glosavam motes e havia jogos de prendas do tempo da senhora D. Maria
+I, e às 9 horas a criada servia a orchata. Bem. Logo no primeiro sábado,
+Macário, de casaca azul, calças de ganga com presilhas de trama de metal,
+gravata de setim roxo, curvava-se diante da espôsa do tabelião, a snr.ª D.
+Maria da Graça, pessoa sêca e aguçada, com um vestido bordado a matiz, um nariz
+adunco, uma enorme luneta de tartaruga, a pluma de <em>marabout</em> nos seus
+cabelos grisalhos. A um canto da sala já lá estava, entre um <em>frou-frou</em>
+de vestidos enormes, a menina Vilaça, a loura, vestida de branco, simples,
+fresca, com o seu ar de gravura colorida. A mãe Vilaça, a soberba mulher
+pálida, cochichava com um desembargador de figura apoplética. O tabelião era
+homem letrado, latinista e amigo das musas; escrevia num jornal de então, a
+<em>Alcofa das Damas</em>: porque era sobretudo galante, e êle mesmo se
+intitulava, numa ode pitoresca, <em>môço escudeiro de Vénus</em>. Assim, as
+suas reùniões eram ocupadas pelas belas-artes&mdash;e nessa noite um poeta do
+tempo<span class="pn">{16}</span> devia vir ler um poemeto intitulado <em>Elmira ou a vingança do
+veneziano</em>!... Começavam então a aparecer as primeiras audácias românticas.
+As revoluções da Grécia principiavam a atrair os espíritos romanescos e saídos
+da mitologia para os países maravilhosos do Oriente. Por toda a parte se falava
+no pachá de Janina. E a poesia apossava-se vorazmente dêste mundo novo e
+virginal de minaretes, serralhos, sultanas côr de ámbar, piratas do
+Arquipélago, e salas rendilhadas, cheias do perfume do aloés onde pachás
+decrépitos acariciam leões.&mdash;De sorte que a curiosidade era grande&mdash;e quando o
+poeta apareceu com os cabelos compridos, o nariz adunco e fatal, o pescoço
+entalado na alta gola do seu fraque à Restauração e um canudo de lata na mão&mdash;o
+snr. Macário é que não experimentou sensação alguma, porque lá estava todo
+absorvido, falando com a menina Vilaça. E dizia-lhe meigamente:</p>
+
+<p>&mdash;¿Então, noutro dia, gostou das casimiras?</p>
+
+<p>&mdash;Muito&mdash;disse ela baixo.</p>
+
+<p>E, desde êsse momento, envolveu-os um destino nupcial.</p>
+
+<p>No entanto, na larga sala a noite passava-se espiritualmente. Macário não
+pôde dar todos os pormenores históricos e característicos daquela assembleia.
+Lembrava-se apenas que um corregedor de Leiria recitava o <em>Madrigal a
+Lídia</em>: lia-o de pé, com uma luneta redonda aplicada<span class="pn">{17}</span> sôbre o papel, a
+perna direita lançada para diante, a mão na abertura do colete branco de gola
+alta. E em redor, formando círculo, as damas, com vestidos de ramagens,
+cobertas de plumas, as mangas estreitas terminadas num fofo de rendas, mitenes
+de retroz preto cheias da scintilação dos aneis, tinham sorrisos ternos,
+cochichos, doces murmurações, risinhos, e um brando palpitar de leques
+recamados de lantejoulas.&mdash;Muito bonito, diziam, muito bonito! E o corregedor,
+desviando a luneta, cumprimentava sorrindo&mdash;e via-se-lhe um dente pôdre.</p>
+
+<p>Depois a preciosa D. Jerónima da Piedade e Sande, sentando-se com maneiras
+comovidas ao cravo, cantou com a sua voz roufenha a antiga ária de Sully:</p>
+
+
+<blockquote>
+ Oh Ricardo, oh meu rei,<br>
+ O mundo te abandona</blockquote>
+
+<p>o que obrigou o terrível Gaudêncio, democrata de 20 e admirador de
+Robespierre, a rosnar rancorosamente junto de Macário:</p>
+
+<p>&mdash;Reis!... víboras!</p>
+
+<p>Depois, o cónego Saavedra cantou uma modinha de Pernambuco muito usada no
+tempo do senhor D. João <small>VI</small>: <em>lindas môças</em>, <em>lindas
+môças</em>. E a noite ia assim correndo, literária, pachorrenta, erudita,
+requintada e toda cheia de musas.<span class="pn">{18}</span></p>
+
+<p>Oito dias depois, Macário era recebido em casa da Vilaça, num domingo. A mãe
+convidára-o, dizendo-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Espero que o vizinho honre aquela choupana.</p>
+
+<p>E até o desembargador apoplético, que estava ao lado, exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Choupana?! diga alcáçar, formosa dama!</p>
+
+<p>Estavam, nesta noite, o amigo do chapéu de palha, um vélho cavaleiro de
+Malta, trôpego, estúpido e surdo, um beneficiado da Sé, ilustre pela sua voz de
+tiple, e as manas Hilárias, a mais vélha das quais tendo assistido, como aia de
+uma senhora da casa da Mina, à tourada de Salvaterra, em que morreu o conde dos
+Arcos, nunca deixava de narrar os episódios pitorescos daquela tarde: a figura
+do conde dos Arcos de cara rapada e uma fita de setim escarlate no rabicho; o
+soneto que um magro poeta, parasita da casa de Vimioso, recitou quando o conde
+entrou, fazendo ladear o seu cavalo negro, arreado à espanhola, com um xairel
+onde as suas armas estavam lavradas em prata: o tombo que nesse momento um
+frade de S. Francisco deu da trincheira alta, e a hilaridade da côrte, que até
+a snr.ª condessa de Pavolide apertava as mãos nas ilhargas: depois el-rei o
+senhor D. José I, vestido de veludo escarlate, recamado de ouro, todo encostado
+ao rebordo do seu palanque, e fazendo girar entre<span class="pn">{19}</span> dois dedos a sua caixa
+de rapé cravejada, e por trás, imóveis, o físico Lourenço e o frade, seu
+confessor: depois o rico aspecto da praça cheia de gente de Salvaterra,
+maiorais, mendigos dos arredores, frades, lacaios, e o grito que houve, quando
+D. José I entrou&mdash;Viva el-rei, nosso senhor! E o povo ajoelhou, e el-rei
+tinha-se sentado, comendo doces, que um criado trouxe num saco de veludo, atrás
+dêle. Depois a morte do conde dos Arcos, os desmaios, e até el-rei todo
+debruçado, batendo com a mão no parapeito, gritando na confusão, e o capelão da
+casa dos Arcos que tinha corrido a buscar a extrema-unção. Ela, Hilária, ficara
+estarrecida de pavor: sentia os urros dos bois, gritos agudos de mulheres, os
+ganidos dos flatos, e vira então um vélho, todo vestido de veludo preto, com a
+fina espada na mão, debater-se entre fidalgos e damas que o seguravam, e querer
+atirar-se à praça, bramindo de raiva! «É o pai do conde!» explicavam em volta.
+Ela então desmaiara nos braços de um padre da Congregação. Quando veio a si,
+achou-se junto da praça; a berlinda rial estava à porta, com os bolieiros
+emplumados, os machos cheios de guisos, e os batedores a cavalo, à frente:
+via-se lá dentro el-rei, escondido ao fundo, pálido, sorvendo febrilmente rapé,
+todo encolhido com o confessor; e defronte, com uma das mãos apoiada à alta
+bengala, forte, espadaúdo, o aspecto<span class="pn">{20}</span> carregado, o marquês de Pombal
+falava devagar e intimativamente, gesticulando com a luneta. Mas os batedores
+picaram, os estalos dos bolieiros retiniram, e a berlinda partiu a galope,
+emquanto o povo gritava: Viva el-rei, nosso senhor!&mdash;e o sino da capela do paço
+tocava a finados! Era uma honra que el-rei concedia à casa dos Arcos.</p>
+
+<p>Quando D. Hilária acabou de contar, suspirando, estas desgraças passadas,
+começou-se a jogar. Era singular que Macário não se lembrava o que tinha jogado
+nessa noite radiosa. Só se recordava que tinha ficado ao lado da menina Vilaça
+(que se chamava Luísa), que reparara muito na sua fina pele rosada, tocada de
+luz, e na meiga e amorosa pequenez da sua mão com uma unha mais polida que o
+marfim de Dieppe. E lembrava-se tambêm de um acidente excêntrico, que
+determinara nele, desde êsse dia, uma grande hostilidade ao clero da Sé.
+Macário estava sentado à mesa, e ao pé dêle Luísa: Luísa estava toda voltada
+para êle com uma das mãos apoiando a sua fina cabeça loura e amorosa, e a outra
+esquecida no regaço. Defronte estava o beneficiado, com o seu barrete preto, os
+seus óculos na ponta aguda do nariz, o tom azulado da forte barba rapada, e as
+suas duas grandes orelhas, complicadas e cheias de cabelo, separadas do crânio
+como dois postigos abertos. Ora, como era necessário<span class="pn">{21}</span> no fim do jôgo pagar
+uns tentos ao cavaleiro de Malta, que estava ao lado do beneficiado, Macário
+tirou da algibeira uma peça e quando o cavaleiro, todo curvado e com um ôlho
+pisco, fazia a sôma dos tentos nas costas dum az, Macário conversava com Luísa,
+e fazia girar sôbre o pano verde a sua peça de oiro, como um bilro ou um peão.
+Era uma peça nova que luzia, faiscava, rodando, e feria a vista como uma bola
+de névoa doirada. Luísa sorria vendo-a girar, girar, e parecia a Macário que
+todo o céu, a pureza, a bondade das flores e a castidade das estrêlas estavam
+naquele claro sorriso distraído, espiritual, arcangélico, com que ela seguia o
+giro fulgurante da peça de oiro nova. Mas de repente, a peça, correndo até à
+borda da mesa, caiu para o lado do regaço de Luísa, e desapareceu, sem se ouvir
+no soalho de tábuas o seu ruído metálico. O beneficiado abaixou-se logo
+cortêsmente: Macário afastou a cadeira, olhando para debaixo da mesa: a mãe
+Vilaça alumiou com um castiçal, e Luísa ergueu-se e sacudiu com pequenina
+pancada o seu vestido de cassa. A peça não apareceu.</p>
+
+<p>&mdash;É celebre&mdash;disse o amigo de chapéu de palha&mdash;eu não ouvi tinir no chão.
+</p>
+
+<p>&mdash;Nem eu, nem eu&mdash;disseram.</p>
+
+<p>O beneficiado, curvado, buscava tenazmente, e a Hilária mais nova rosnava o
+responso de Santo António.<span class="pn">{22}</span></p>
+
+<p>&mdash;Pois a casa não tem buracos&mdash;dizia a mãe Vilaça.</p>
+
+<p>&mdash;Sumiço assim!&mdash;resmungava o beneficiado.</p>
+
+<p>No entanto Macário exalava-se em exclamações desinteressadas:</p>
+
+<p>&mdash;Pelo amor de Deus! Ora que tem! Àmanhã aparecerá! Tenham a bondade! Por
+quem são! Então, snr.ª D. Luísa! Pelo amor de Deus! Não vale nada.</p>
+
+<p>Mas mentalmente estabeleceu que houvera uma subtracção&mdash;e atribuiu-a ao
+beneficiado. A peça rolara, de-certo, até junto dêle sem ruido; êle pusera-lhe
+em cima o seu vasto sapato eclesiástico e tachado; depois, no movimento brusco
+e curto que tivera, empolgára-a vilmente. E, quando saíram, o beneficiado, todo
+embrulhado no seu vasto capote de camelão, dizia a Macário pela escada:</p>
+
+<p>&mdash;¿Ora o sumiço da peça, hein? Que brincadeira!</p>
+
+<p>&mdash;¿Acha, snr. beneficiado?!&mdash;disse Macário parando, pasmado da impudência.
+</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! Se acho?! Se lhe parece! Uma peça de 7$000 réis! Só se o senhor
+as semeia... Safa! Eu dava em doido!</p>
+
+<p>Macário teve tédio daquela astúcia fria. Não lhe respondeu. O beneficiado é
+que acrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;Àmanhã mande lá pela manhã, homem.<span class="pn">{23}</span> Que diabo... Deus me perdôe! Que
+diabo! uma peça não se perde assim. Que bolada, hein!</p>
+
+<p>E Macário tinha vontade de lhe bater.</p>
+
+<p>Foi neste ponto que Macário me disse, com a sua voz singularmente sentida:
+</p>
+
+<p>&mdash;Emfim, meu amigo, para encurtarmos razões, resolvi-me casar com ela.</p>
+
+<p>&mdash;Mas a peça?</p>
+
+<p>&mdash;Não pensei mais nisso! Pensava eu lá na peça! Resolvi-me casar com ela!
+</p>
+
+<h2><a name="SECTION000120">II</a> </h2>
+
+<p>Macário contou-me o que o determinara mais precisamente àquela resolução
+profunda e perpétua. Foi um beijo. Mas êsse caso, casto e simples, eu
+calo-o;&mdash;mesmo porque a única testemunha foi uma imagem em gravura da Virgem,
+que estava pendurada no seu caixilho de pau preto, na saleta escura que abria
+para a escada... Um beijo fugitivo, superficial, efémero. Mas isso bastou ao
+seu espírito recto e severo para o obrigar a tomá-la como espôsa, a dar-lhe uma
+fé imutável e a posse da sua vida. Tais foram os seus esponsais. Aquela
+simpática sombra das janelas vizinhas tornara-se<span class="pn">{24}</span> para êle um destino, o
+fim moral da sua vida e toda a idea dominante do seu trabalho. E esta história
+toma, desde logo, um alto carácter de santidade e de tristeza.</p>
+
+<p>Macário falou-me muito do carácter e da figura do tio Francisco: a sua
+possante estatura, os seus óculos de oiro, a sua barba grisalha, em colar, por
+baixo do queixo, um tic nervoso que tinha numa asa do nariz, a dureza da sua
+voz, a sua austera e majestosa tranqùilidade, os seus princípios antigos,
+autoritários e tirânicos, e a brevidade telegráfica das suas palavras.</p>
+
+<p>Quando Macário lhe disse, uma manhã, ao almôço, abruptamente, sem transições
+emolientes: «Peço-lhe licença para casar» o tio Francisco, que deitava o açúcar
+no seu café, ficou calado, remexendo com a colher, devagar, majestoso e
+terrível: e quando acabou de sorver pelo pires, com grande ruído, tirou do
+pescoço o guardanapo, dobrou-o, aguçou com a faca o seu palito, meteu-o na bôca
+e saíu: mas à porta da sala parou, e voltando-se para Macário, que estava de
+pé, junto da mesa, disse secamente:</p>
+
+<p>&mdash;Não.</p>
+
+<p>&mdash;Perdão, tio Francisco!</p>
+
+<p>&mdash;Não.</p>
+
+<p>&mdash;Mas oiça, tio Francisco...</p>
+
+<p>&mdash;Não.<span class="pn">{25}</span></p>
+
+<p>Macário sentiu uma grande cólera:</p>
+
+<p>&mdash;Nesse caso, faço-o sem licença.</p>
+
+<p>&mdash;Despedido da casa.</p>
+
+<p>&mdash;Sairei. Não haja dúvida.</p>
+
+<p>&mdash;Hoje.</p>
+
+<p>&mdash;Hoje.</p>
+
+<p>E o tio Francisco ia a fechar a porta, mas voltando-se:</p>
+
+<p>&mdash;Olá!&mdash;disse êle a Macário, que estava exasperado, apoplético, raspando nos
+vidros da janela.</p>
+
+<p>Macário voltou-se com uma esperança.</p>
+
+<p>&mdash;Dê-me daí a caixa do rapé&mdash;disse o tio Francisco.</p>
+
+<p>Tinha-lhe esquecido a caixa! Portanto, estava perturbado.</p>
+
+<p>&mdash;Tio Francisco...&mdash;começou Macário.</p>
+
+<p>&mdash;Basta. Estamos a 12. Receberá o seu mês por inteiro. Vá.</p>
+
+<p>As antigas educações produziam estas situações insensatas. Era brutal e
+idiota. Macário afirmou-me que era assim.</p>
+
+<p>Nessa tarde Macário achava-se no quarto de uma hospedaria na Praça da
+Figueira com seis peças, o seu baú de roupa branca e a sua paixão. No entanto
+estava tranqùilo. Sentia o seu destino cheio de apuros. Tinha relações e
+amizades no comércio. Era conhecido vantajosamente: a nitidez do seu trabalho,
+a sua honra tradicional, o nome da família, o<span class="pn">{26}</span> seu tacto comercial, o seu
+belo cursivo inglês, abriam-lhe, de par em par, respeitosamente, todas as
+portas dos escritórios. No outro dia foi procurar alegremente o negociante
+Faleiro, antiga relação comercial da sua casa.</p>
+
+<p>&mdash;De muito boa vontade, meu amigo&mdash;disse-me êle.&mdash;Quem mo déra cá! Mas, se o
+recebo, fico de mal com seu tio, meu vélho amigo de vinte anos. Êle declarou-mo
+categóricamente. Bem vê. Fôrça maior. Eu sinto, mas...</p>
+
+<p>E todos, a quem Macário se dirigiu, confiado em relações sólidas, receavam
+<em>ficar de mal com o seu tio, vélho amigo de vinte anos</em>.</p>
+
+<p>E todos <em>sentiam</em>, <em>mas...</em></p>
+
+<p>Macário dirigiu-se então a negociantes novos, estranhos à sua casa e à sua
+família, e sobretudo aos estrangeiros: esperava encontrar gente livre da
+amizade de vinte anos do tio. Mas, para êsses, Macário era desconhecido, e
+desconhecidos por igual a sua dignidade e o seu hábil trabalho. Se tomavam
+informações, sabiam que êle fôra despedido da casa do tio repentinamente, por
+causa duma rapariga loura, vestida de cassa. Esta circunstância tirava as
+simpatias a Macário. O comércio evita o guarda-livros sentimental. De sorte que
+Macário começou a sentir-se num momento agudo. Procurando, pedindo, rebuscando,
+o tempo passava, sorvendo, pinto a pinto, as suas seis peças.<span class="pn">{27}</span></p>
+
+<p>Macário mudou para uma estalagem barata, e continuou farejando. Mas, como
+fôra sempre de temperamento recolhido, não criara amigos. De modo que se
+encontrava desamparado e solitário&mdash;e a vida aparecia-lhe como um descampado.
+</p>
+
+<p>As peças findaram. Macário entrou, pouco a pouco, na tradição antiga da
+miséria. Ela tem solenidades fatais e estabelecidas: começou por
+empenhar&mdash;depois vendeu. Relógio, aneis, casaco azul, cadeia, paletot de
+alamares, tudo foi levando pouco e pouco, embrulhado debaixo do chale, uma
+vélha sêca e cheia de asma.</p>
+
+<p>No entanto via Luísa de noite, na saleta escura que dava para o patamar: uma
+lamparina ardia em cima da mesa: era feliz ali naquela penumbra, todo sentado
+castamente, ao pé de Luísa, a um canto de um vélho canapé de palhinha. Não a
+via de dia, porque trazia já a roupa usada, as botas cambadas, e não queria
+mostrar à fresca Luísa, toda mimosa nas suas cambraias asseadas, a sua miséria
+remendada: ali, àquela luz ténue e esbatida, êle exalava a sua paixão crescente
+e escondia o seu fato decadente. Segundo me disse Macário&mdash;era muito singular o
+temperamento de Luísa. Tinha o carácter louro como o cabelo&mdash;se é certo que o
+louro é uma côr fraca e desbotada: falava pouco, sorria sempre com os seus
+brancos dentinhos,<span class="pn">{28}</span> dizia a tudo <em>pois sim</em>: era muito simples,
+quási indiferente, cheia de transigências.</p>
+
+<p>Amava de-certo Macário, mas com todo o amor que podia dar a sua natureza
+débil, aguada, nula. Era como uma estriga de linho, fiava-se como se queria: e
+às vezes, naqueles encontros noturnos, tinha sono.</p>
+
+<p>Um dia, porêm, Macário encontrou-a excitada: estava com pressa, o chale
+traçado à tôa, olhando sempre para a porta interior.</p>
+
+<p>&mdash;A mamã percebeu&mdash;disse ela.</p>
+
+<p>E contou-lhe que a mãe desconfiava, ainda rabugenta e áspera, e que de-certo
+farejava aquele plano nupcial tramado como uma conjuração.</p>
+
+<p>&mdash;¿Porque não me vens pedir à mamã?</p>
+
+<p>&mdash;Mas, filha, se eu não posso! Não tenho arranjo nenhum. Espera. É mais um
+mês talvez. Tenho agora aí um negócio em bom caminho. Morríamos de fome.</p>
+
+<p>Luísa calou-se, torcendo a ponta do chale, com os olhos baixos.</p>
+
+<p>&mdash;¿Mas ao menos&mdash;disse ela&mdash;emquanto eu te não fizer sinal da janela, não
+subas mais, sim?</p>
+
+<p>Macário rompeu a chorar, os soluços saíam violentos e desesperados.</p>
+
+<p>&mdash;Chut!&mdash;dizia-lhe Luísa.&mdash;Não chores alto!...</p>
+
+<p>Macário contou-me a noite que passou, ao<span class="pn">{29}</span> acaso pelas ruas, ruminando
+febrilmente a sua dor, e lutando, sob a friagem de janeiro, na sua quinzena
+curta. Não dormiu, e logo pela manhã, ao outro dia, entrou como uma rajada no
+quarto do tio Francisco e disse-lhe abruptamente, secamente:</p>
+
+<p>&mdash;É tudo o que tenho&mdash;e mostrava-lhe três pintos.&mdash;Roupa, estou sem ela.
+Vendi tudo. Daqui a pouco tenho fome.</p>
+
+<p>O Tio Francisco, que fazia a barba à janela, com o lenço da Índia amarrado
+na cabeça, voltou-se e, pondo os óculos, fitou-o.</p>
+
+<p>&mdash;A sua carteira lá está. Fique&mdash;e acrescentou, com um gesto
+decisivo&mdash;solteiro.</p>
+
+<p>&mdash;Tio Francisco, ouça-me!...</p>
+
+<p>&mdash;Solteiro, disse eu&mdash;continuou o tio Francisco, dando o fio à navalha numa
+tira de sola.</p>
+
+<p>&mdash;Não posso.</p>
+
+<p>&mdash;Então, rua!</p>
+
+<p>Macário saíu, estonteado. Chegou a casa, deitou-se, chorou e adormeceu.
+Quando saiu, à noitinha, não tinha resolução, nem idea. Estava como uma esponja
+saturada. Deixava-se ir.</p>
+
+<p>De repente, uma voz disse de dentro de uma loja:</p>
+
+<p>&mdash;Eh! pst! olá!</p>
+
+<p>Era o amigo do chapéu de palha: abriu grandes braços pasmados.</p>
+
+<p>&mdash;Que diacho! desde manhã que te procuro<span class="pn">{30}</span></p>
+
+<p>E contou-lhe que tinha chegado da província, tinha sabido a sua crise e
+trazia-lhe um desenlace.</p>
+
+<p>&mdash;Queres?</p>
+
+<p>&mdash;Tudo.</p>
+
+<p>Uma casa comercial queria um homem hábil, resoluto e duro, para ir numa
+comissão difícil e de grande ganho a Cabo-Verde.</p>
+
+<p>&mdash;Pronto!&mdash;disse Macário.&mdash;Pronto! Àmanhã.</p>
+
+<p>E foi logo escrever a Luísa, pedindo-lhe uma despedida, um último encontro,
+aquele em que os braços desolados e veementes tanto custam a desenlaçar-se.
+Foi. Encontrou-a toda embrulhada no seu chale, tiritando de frio. Macário
+chorou. Ela, com a sua passiva e loura doçura, disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Fazes bem. Talvez ganhes.</p>
+
+<p>E ao outro dia Macário partiu.</p>
+
+<p>Conheceu as viagens trabalhosas nos mares inimigos, o enjôo monótono num
+beliche abafado, os duros sóis das colónias, a brutalidade tirânica dos
+fazendeiros ricos, o pêso dos fardos humilhantes, as dilacerações da ausência,
+as viagens ao interior das terras negras e a melancolia das caravanas que
+costeiam por violentas noites, durante dias e dias, os rios tranqùilos, donde
+se exala a morte.</p>
+
+<p>Voltou.</p>
+
+<p>E logo nessa tarde a viu a ela, Luísa, clara,<span class="pn">{31}</span> fresca, repousada,
+serena, encostada ao peitoril da janela, com a sua ventarola chinesa. E ao
+outro dia, sôfregamente, foi pedi-la à mãe. Macário tinha feito um ganho
+saliente&mdash;e a mãe Vilaça abriu-lhe uns grandes braços amigos, cheia de
+exclamações. O casamento decidiu-se para daí a um ano.</p>
+
+<p>&mdash;Porquê?&mdash;disse eu a Macário.</p>
+
+<p>E êle explicou-me que os lucros de Cabo-Verde não podiam constituir um
+capital definitivo: eram apenas um capital de habilitação. Trazia de Cabo-Verde
+elementos de poderosos negócios: trabalharia, durante um ano, heróicamente, e
+ao fim poderia, sossegadamente, criar uma família.</p>
+
+<p>E trabalhou: pôs naquele trabalho a fôrça criadora da sua paixão. Erguia-se
+de madrugada, comia à pressa, mal falava. À tardinha ia visitar Luísa. Depois
+voltava sôfregamente para a fadiga, como um avaro para o seu cofre. Estava
+grosso, forte, duro, fero: servia-se com o mesmo ímpeto das ideas e dos
+músculos: vivia numa tempestade de cifras. Às vezes Luísa, de passagem, entrava
+no seu armazêm: aquele pousar de ave fugitiva dava-lhe alegria, fé, reconforto
+para todo um mês cheiamente trabalhado.</p>
+
+<p>Por êsse tempo o amigo do chapéu de palha veio pedir a Macário que fôsse seu
+fiador por uma grande quantia que êle pedira para<span class="pn">{32}</span> estabelecer uma loja de
+ferragens em grande. Macário, que estava no vigor do seu crédito, cedeu com
+alegria. O amigo do chapéu de palha é que lhe dera o negócio providencial de
+Cabo-Verde. Faltavam então dois meses para o casamento. Macário já sentia, por
+vezes, subirem-lhe ao rosto as febris vermelhidões da esperança. Já começara a
+tratar dos <em>banhos</em>. Mas um dia o amigo do chapéu de palha desapareceu
+com a mulher de um alferes. O seu estabelecimento estava em comêço. Era uma
+confusa aventura. Não se pôde nunca precisar nítidamente aquele
+<em>embróglio</em> doloroso. O que era positivo é que Macário era fiador,
+Macário devia reembolsar. Quando o soube, empalideceu e disse simplesmente:</p>
+
+<p>&mdash;Liquído e pago!</p>
+
+<p>E quando liquidou, ficou outra vez pobre. Mas nesse mesmo dia, como o
+desastre tivera uma grande publicidade, e a sua honra estava santificada na
+opinião, a casa Peres &amp; C.ª, que o mandara a Cabo-Verde, veio propor-lhe
+uma outra viagem e outros ganhos.</p>
+
+<p>&mdash;Voltar a Cabo-Verde outra vez!</p>
+
+<p>&mdash;Faz outra vez fortuna, homem. O senhor é o diabo!&mdash;disse o snr. Eleutério
+Peres.</p>
+
+<p>Quando se viu assim, só e pobre, Macário desatou a chorar. Tudo estava
+perdido, findo, extinto; era necessário recomeçar pacientemente a vida, voltar
+às longas misérias de<span class="pn">{33}</span> Cabo-Verde, tornar a tremer os passados desesperos,
+suar os antigos suores! E Luísa? Macário escreveu-lhe. Depois, rasgou a carta.
+Foi a casa dela: as janelas tinham luz: subiu até ao primeiro andar, mas aí
+tomou-o uma mágoa, uma covardia de revelar o desastre, o pavor trémulo de uma
+separação, o terror de ela se recusar, negar-se, hesitar! ¿E quereria ela
+esperar mais? Não se atreveu a falar, explicar, pedir; desceu, pé-ante-pé. Era
+noite. Andou ao acaso pelas ruas: havia um sereno e silencioso luar. Ia sem
+saber: de repente ouviu, de uma janela alumiada, uma rabeca que tocava a
+<em>xácara mourisca</em>. Lembrou-se do tempo em que conhecera Luísa, do bom
+sol claro que havia então, e do vestido dela, de cassa com pintas azuis! Estava
+na rua onde eram os armazêns do tio. Foi caminhando. Pôs-se a olhar para a sua
+antiga casa. A janela do escritório estava fechada. Quantas vezes dali vira
+Luísa, e o brando movimento do seu leque chinês! Mas uma janela, no segundo
+andar, tinha luz; era o quarto do tio. Macário foi observar mais de longe: uma
+figura estava encostada, por dentro, à vidraça: era o tio Francisco. Veio-lhe
+uma saudade de todo o seu passado simples, retirado, plácido. Lembrava-lhe o
+seu quarto, e a vélha carteira com fecho de prata, e a miniatura de sua mãe,
+que estava por cima da barra do leito; a sala de<span class="pn">{34}</span> jantar e o seu vélho
+aparador de pau preto, e a grande caneca de água, cuja asa era uma serpente
+irritada. Decidiu-se, e impelido por um instinto, bateu à porta. Bateu outra
+vez. Sentiu abrir a vidraça, e a voz do tio perguntar:</p>
+
+<p>&mdash;Quem é?</p>
+
+<p>&mdash;Sou eu, tio Francisco, sou eu. Venho dizer-lhe adeus.</p>
+
+<p>A vidraça fechou-se, e daí a pouco a porta abriu-se, com um grande ruído de
+ferrolhos. O tio Francisco tinha um candieiro de azeite na mão. Macário achou-o
+magro, mais vélho. Beijou-lhe a mão.</p>
+
+<p>&mdash;Suba&mdash;disse o tio.</p>
+
+<p>Macário ia calado, cosido com o corrimão.</p>
+
+<p>Quando chegou ao quarto, o tio Francisco poisou o candieiro sôbre uma larga
+mesa de pau-santo, e de pé, com as mãos nos bolsos, esperou.</p>
+
+<p>Macário estava calado, anediando a barba.</p>
+
+<p>&mdash;Que quer?&mdash;gritou-lhe o tio.</p>
+
+<p>&mdash;Vinha dizer-lhe adeus; volto para Cabo-Verde.</p>
+
+<p>&mdash;Boa viagem.</p>
+
+<p>E o tio Francisco, voltando-lhe as costas, foi rufar na vidraça.</p>
+
+<p>Macário ficou imóvel, deu dois passos no quarto, todo revoltado, e ia sair.
+</p>
+
+<p>&mdash;¿Onde vai, seu estúpido?&mdash;gritou-lhe o tio.</p>
+
+<p>&mdash;Vou-me.<span class="pn">{35}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sente-se ali!</p>
+
+<p>E o tio Francisco continuou, com grandes passadas pelo quarto:</p>
+
+<p>&mdash;O seu amigo é um canalha! Loja de ferragens! Não está má! O senhor é um
+homem de bem. Estúpido, mas homem de bem. Sente-se ali! Sente-se! O seu amigo é
+um canalha! O senhor é um homem de bem! Foi a Cabo-Verde! Bem sei! Pagou tudo.
+Está claro! Tambêm sei! Àmanhã faz o favor de ir para a sua carteira, lá para
+baixo. Mandei pôr palhinha nova na cadeira. Faz favor de pôr na factura Macário
+&amp; Sobrinho. E case. Case, e que lhe preste! Levante dinheiro. O senhor
+precisa de roupa branca e de mobília. Levante dinheiro. E meta na minha conta.
+A sua cama lá está feita.</p>
+
+<p>Macário, estonteado, radioso, com as lágrimas nos olhos, queria abraçá-lo.
+</p>
+
+<p>&mdash;Bem, bem. Adeus!</p>
+
+<p>Macário ia sair.</p>
+
+<p>&mdash;¿Oh! burro, pois quer-se ir desta sua casa?</p>
+
+<p>E, indo a um pequeno armário, trouxe geleia, um covilhete de doce, uma
+garrafa antiga do Pôrto e biscoitos.</p>
+
+<p>&mdash;Côma!</p>
+
+<p>E sentando-se ao pé dêle, e tornando a chamar-lhe estúpido, tinha uma
+lágrima a correr-lhe pelo engelhado da pele.</p>
+
+<p>De sorte que o casamento foi decidido para<span class="pn">{36}</span> dali a um mês. E Luísa
+começou a tratar do seu enxoval.</p>
+
+<p>Macário estava então na plenitude do amor e da alegria.</p>
+
+<p>Via o fim da sua vida preenchido, completo, feliz. Estava quási sempre em
+casa da noiva, e um dia andando a acompanhá-la, em compras, pela lojas, êle
+mesmo lhe quisera fazer um pequeno presente. A mãe tinha ficado numa modista,
+num primeiro andar da rua do Ouro, e êles tinham descido, alegremente, rindo, a
+um ourives que havia em baixo, no mesmo prédio, na loja.</p>
+
+<p>O dia estava de inverno, claro, fino, frio, com um grande céu azul-ferrete,
+profundo, luminoso, consolador.</p>
+
+<p>&mdash;Que bonito dia!&mdash;disse Macário.</p>
+
+<p>E com a noiva pelo braço, caminhou um pouco, ao comprido do passeio.</p>
+
+<p>&mdash;Está!&mdash;disse ela.&mdash;Mas podem reparar; nós sós...</p>
+
+<p>&mdash;Deixa, está tam bom...</p>
+
+<p>&mdash;Não, não.</p>
+
+<p>E Luísa arrastou-o brandamente para a loja do ourives. Estava apenas um
+caixeiro, trigueiro, de cabelo hirsuto.</p>
+
+<p>Macário disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Queria ver aneis.</p>
+
+<p>&mdash;Com pedras&mdash;disse Luísa&mdash;e o mais bonito.<span class="pn">{37}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sim, com pedras&mdash;disse Macário.&mdash;Ametista, granada. Emfim, o melhor.</p>
+
+<p>E, no entanto, Luísa ia examinando as <em>montres</em> forradas de veludo
+azul, onde reluziam as grossas pulseiras cravejadas, os grilhões, os colares de
+camafeus, os aneis, as finas <em>alianças</em> frágeis como o amor, e toda a
+scintilação da pesada ourivesaria.</p>
+
+<p>&mdash;Vê, Luísa&mdash;disse Macário.</p>
+
+<p>O caixeiro tinha estendido, na outra extremidade do balcão, em cima do vidro
+da <em>montre</em>, um reluzente espalhado de aneis de ouro, de pedras,
+lavrados, esmaltados; e Luísa, tomando-os e deixando-os com as pontas dos
+dedos, ia-os correndo e dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;É feio... É pesado... É largo...</p>
+
+<p>&mdash;Vê este&mdash;disse-lhe Macário.</p>
+
+<p>Era um anel de pequenas pérolas.</p>
+
+<p>&mdash;É bonito&mdash;respondeu ela.&mdash;É lindo!</p>
+
+<p>&mdash;Deixa ver se serve&mdash;tornou Macário.</p>
+
+<p>E tomando-lhe a mão, meteu-lhe o anel devagarinho, docemente, no dedo; e ela
+ria, com os seus brancos dentinhos finos, todos esmaltados.</p>
+
+<p>&mdash;É muito largo&mdash;disse Macário.&mdash;Que pena!</p>
+
+<p>&mdash;Aperta-se, querendo. Deixe a medida. Tem-no pronto àmanhã.</p>
+
+<p>&mdash;Boa idea&mdash;disse Macário&mdash;sim senhor. Porque é muito bonito. Não é verdade?
+As<span class="pn">{38}</span> pérolas muito iguais, muito claras. Muito bonito! E êstes
+brincos?&mdash;acrescentou, indo ao fim do balcão, a outra <em>montre</em>.&mdash;¿Êstes
+brincos com uma concha?</p>
+
+<p>&mdash;Dez moedas&mdash;disse o caixeiro.</p>
+
+<p>E, no entanto, Luísa continuava examinando os aneis, experimentando-os em
+todos os dedos, revolvendo aquela delicada <em>montre</em>, scintilante e
+preciosa.</p>
+
+<p>Mas, de repente, o caixeiro fez-se muito pálido, e afirmou-se em Luísa,
+passeando vagarosamente a mão pela cara.</p>
+
+<p>&mdash;Bem&mdash;disse Macário, aproximando-se&mdash;então àmanhã temos o anel pronto. A
+que horas?</p>
+
+<p>O caixeiro não respondeu e começou a olhar fixamente para Macário.</p>
+
+<p>&mdash;A que horas?</p>
+
+<p>&mdash;Ao meio dia.</p>
+
+<p>&mdash;Bem, adeus&mdash;disse Macário.</p>
+
+<p>E iam sair. Luísa trazia um vestido de lã azul, que arrastava um pouco,
+dando uma ondulação melodiosa ao seu passo, e as suas mãos pequeninas estavam
+escondidas num regalo branco.</p>
+
+<p>&mdash;Perdão!&mdash;disse de repente o caixeiro.</p>
+
+<p>Macário voltou-se.</p>
+
+<p>&mdash;O senhor não pagou...</p>
+
+<p>Macário olhou para êle gravemente.</p>
+
+<p>&mdash;Está claro que não. Àmanhã venho buscar o anel, pago àmanhã.<span class="pn">{39}</span></p>
+
+<p>&mdash;Perdão!&mdash;insistiu o caixeiro&mdash;mas o outro...</p>
+
+<p>&mdash;Qual outro?&mdash;exclamou Macário com uma voz surpreendida, adiantando-se para
+o balcão.</p>
+
+<p>&mdash;Essa senhora sabe&mdash;afirmou o caixeiro.&mdash;Essa senhora sabe...</p>
+
+<p>Macário tirou a carteira lentamente.</p>
+
+<p>&mdash;Perdão, se há uma conta antiga...</p>
+
+<p>O caixeiro abriu o balcão, e com um aspecto resoluto:</p>
+
+<p>&mdash;Nada, meu caro senhor, é de agora. É um anel com dois brilhantes que
+aquela senhora leva.</p>
+
+<p>&mdash;Eu!&mdash;disse Luísa, com a voz baixa, toda escarlate.</p>
+
+<p>&mdash;Que é? Que está a dizer?</p>
+
+<p>E Macário, pálido, com os dentes cerrados, contraído, fitava o caixeiro
+coléricamente.</p>
+
+<p>O caixeiro disse então:</p>
+
+<p>&mdash;Essa senhora tirou dali um anel.</p>
+
+<p>Macário ficou imóvel, encarando-o.</p>
+
+<p>&mdash;Um anel com dois brilhantes&mdash;continuou o rapaz.&mdash;Vi perfeitamente.</p>
+
+<p>O caixeiro estava tam excitado, que a sua voz gaguejava, prendia-se
+espessamente.</p>
+
+<p>&mdash;Essa senhora não sei quem é. Mas tirou o anel. Tirou-o dali...</p>
+
+<p>Macário, maquinalmente, agarrou-lhe no braço, e voltando-se para Luísa, com
+a palavra<span class="pn">{40}</span> abafada, gotas de suor na testa, lívido:</p>
+
+<p>&mdash;Luísa, dize...</p>
+
+<p>Mas a voz cortou-se-lhe.</p>
+
+<p>&mdash;Eu...&mdash;balbuciou ela, trémula, assombrada, enfiada, decomposta.</p>
+
+<p>E deixou cair o regalo no chão.</p>
+
+<p>Macário veio para ela, agarrou-lhe no pulso fitando-a: e o seu aspecto era
+tam resoluto e tam imperioso, que ela meteu a mão no bôlso, bruscamente,
+apavorada, e mostrando o anel:</p>
+
+<p>&mdash;Não me faça mal!&mdash;suplicou, encolhendo-se toda.</p>
+
+<p>Macário ficou com os braços caidos, o ar abstracto, os beiços brancos; mas
+de repente, dando um puxão ao casaco, recuperando-se, disse ao caixeiro:</p>
+
+<p>&mdash;Tem razão. Era distracção... Está claro! Esta senhora tinha-se esquecido.
+É o anel. Sim, senhor, evidentemente... Tem a bondade. Toma, filha, toma. Deixa
+estar, êste senhor embrulha-o. Quanto custa?</p>
+
+<p>Abriu a carteira e pagou.</p>
+
+<p>Depois apanhou o regalo, sacudiu-o brandamente, limpou os beiços com o
+lenço, deu o braço a Luísa, e dizendo ao caixeiro: <em>desculpe</em>,
+<em>desculpe</em>, levou-a, inerte, passiva, aterrada, semi-morta.</p>
+
+<p>Deram alguns passos na rua, que um largo sol iluminava intensamente: as
+seges cruzavam-se, rolando ao estalido do chicote: figuras risonhas<span class="pn">{41}</span>
+passavam, conversando: os pregões subiam em gritos alegres: um cavaleiro de
+calção de anta fazia ladear o seu cavalo, enfeitado de rosetas; e a rua estava
+cheia, ruidosa, viva, feliz e coberta de sol.</p>
+
+<p>Macário ia maquinalmente, como no fundo de um sonho. Parou a uma esquina.
+Tinha o braço de Luísa passado no seu; e via-lhe a mão pendente, a sua linda
+mão de cera, com as veias docemente azuladas, os dedos finos e amorosos: era a
+mão direita, e aquela mão era a da sua noiva! E, instintivamente, leu o cartaz
+que anunciava, para esta noite, <em>Palafoz em Saragoça</em>.</p>
+
+<p>De repente, soltando o braço de Luísa, disse-lhe baixo:</p>
+
+<p>&mdash;Vai-te.</p>
+
+<p>&mdash;Ouve!...&mdash;rogou ela, com a cabeça toda inclinada.</p>
+
+<p>&mdash;Vai-te.&mdash;E com a voz abafada e terrível:&mdash;Vai-te! Olha que chamo. Mando-te
+para o Aljube. Vai-te.</p>
+
+<p>&mdash;Mas ouve, Jesus!</p>
+
+<p>&mdash;Vai-te!&mdash;E fez um gesto, com o punho cerrado.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo amor de Deus, não me batas aqui!&mdash;disse ela, sufocada.</p>
+
+<p>&mdash;Vai-te! Podem reparar. Não chores. Olha que vêem. Vai-te!</p>
+
+<p>E chegando-se para ela, disse baixo:</p>
+
+<p>&mdash;És uma ladra!<span class="pn">{42}</span></p>
+
+<p>E voltando-lhe as costas, afastou-se, devagar, riscando o chão com a
+bengala.</p>
+
+<p>A distância, voltou-se: ainda viu, através dos vultos, o seu vestido azul.
+</p>
+
+<p>Como partiu nessa tarde para a província, não soube mais daquela rapariga
+loura.<span class="pn">{43}</span></p>
+
+
+<h1><a name="SECTION000200">UM POETA LÍRICO</a> </h1>
+
+<p>Aqui está, simplesmente, sem frases e sem ornatos, a história triste do
+poeta Korriscosso. De todos os poetas líricos de que tenho notícia, é êste,
+certamente, o mais infeliz. Conheci-o em Londres, no hotel de Charing-Cross,
+uma madrugada regelada de dezembro. Tinha eu chegado do continente, prostrado
+por duas horas de Canal da Mancha... Ah! que mar! E era só uma brisa fresca de
+Noroeste: mas ali, no tombadilho, sob uma capa de oleado de que um marujo me
+tinha coberto, como se cobre um corpo morto, fustigado da neve e da vaga,
+oprimido por aquela treva tumultuosa que o paquete ia rompendo aos roncos e aos
+encontrões&mdash;parecia-me um tufão dos mares da China...<span class="pn">{44}</span></p>
+
+<p>Apenas entrei no hotel, gelado e estremunhado, corri ao vasto fogão do
+perístilo, e ali fiquei, saturando-me daquela paz quente em que a sala estava
+adormecida, com os olhos beatamente postos na boa brasa escarlate... E foi
+então que vi aquela figura esguia e longa, já de casaca e gravata branca, que
+do outro lado da chaminé, de pé, com a taciturna tristeza duma cegonha que
+scisma, olhava tambêm os carvões ardentes, com um guardanapo no braço. Mas o
+porteiro tinha rolado a minha bagagem, e eu fui inscrever-me ao
+<em>bureau</em>. A <em>guarda-livros</em>, tesa e loura, com um perfil
+antiquado de medalha safada, pousou o seu <em>crochet</em> ao lado da sua
+chávena de chá, acariciou com um gesto doce os dois bandós louros, assentou
+correctamente o meu nome, de dedinho no ar, fazendo rebrilhar um diamante, e eu
+ia subir a vasta escadaria,&mdash;quando a figura magra e fatal se dobrou num
+ângulo, e murmurou-me num inglês silabado:</p>
+
+<p>&mdash;Já está servido o almôço das sete...</p>
+
+<p>Mas eu não queria o almôço das sete. Fui dormir.</p>
+
+<p>Mais tarde, já repousado, fresco do banho, quando desci ao restaurante para
+o <em>lunch</em>, avistei logo, plantado melancólicamente ao pé da larga
+janela, o indivíduo esguio e triste. A sala estava deserta numa luz parda; os
+fogões flamejavam; e fóra, no silêncio do domingo,<span class="pn">{45}</span> nas ruas mudas, a neve
+caía sem cessar dum ceu amarelento e baço. Eu via apenas as costas do homem;
+mas havia na sua linha magra e um pouco dobrada uma expressão tam evidente de
+desalento, que me interessei por aquela figura. O cabelo comprido, de tenor,
+caído sôbre a gola da casaca, era, manifestamente, dum meridional; e toda a sua
+magreza friorenta se encolhia ao aspecto daqueles telhados cobertos de neve, na
+sensação daquele silêncio lívido... Chamei-o. Quando êle se voltou, a sua
+fisionomia, que apenas entrevira na véspera, impressionou-me: era um carão
+longo e triste, muito moreno, de nariz judaico e uma barba curta e frisada, uma
+barba de Cristo em estampa romântica; a testa era destas que, em boa
+literatura, se chama, creio eu, <em>fronte</em>; era larga e era lustrosa.
+Tinha o olhar encovado e vago, com uma indecisão de sonho nadando num fluido
+enternecido... E que magreza! quando andava, a calça curta torcia-se em tôrno
+da canela como pregas de bandeira em tôrno dum mastro: a casaca tinha dobras de
+túnica ampla; as duas abas compridas e agudas eram desgraçadamente grotescas.
+Recebeu a ordem do meu almôço, sem me olhar, num tédio resignado: arrastou-se
+para o <em>comptoir</em> onde o <em>maître de hotel</em> lia a Bíblia, passou a
+mão pela testa com um gesto errante e dolente, e disse-lhe numa voz
+surda:<span class="pn">{46}</span></p>
+
+<p>&mdash;Nùmero 307. Duas costeletas. Chá...</p>
+
+<p>O <em>maître de hotel</em> afastou a <em>Bíblia</em>, inscreveu o
+<em>menu</em>&mdash;e eu acomodei-me à mesa, e abri o volume de Tennyson que
+trouxera para almoçar comigo&mdash;porque, creio que lhes disse, era domingo, dia
+sem jornais e sem pão fresco. Fóra continuava a nevar sôbre a cidade muda. A
+uma mesa distante, um vélho côr de tijolo e todo branco de cabelo e de suíças,
+que acabara de almoçar, dormitava de mãos no ventre, bôca aberta, e luneta na
+ponta do nariz. E o único som vinha da rua, uma voz gemente que a neve abafava
+mais, uma voz pedinte que à esquina defronte garganteava um psalmo... Um
+domingo de Londres.</p>
+
+<p>Foi o magro que me trouxe o almôço&mdash;e apenas êle se aproximou, com o serviço
+do chá, eu senti logo que aquele volume de Tennyson nas minhas mãos o tinha
+interessado e impressionado: foi um olhar rápido, gulosamente fixado na página
+aberta, um estremecimento quási imperceptível,&mdash;emoção fugitiva, de-certo,
+porque depois de ter pousado o serviço, rodou sôbre os calcanhares e foi
+plantar-se, melancólicamente, à janela, de ôlho triste e posto na neve triste.
+Eu atribuí aquele movimento curioso ao esplendor da encadernação do volume, que
+eram os <em>Idílios de El-Rei</em>, em marroquim negro, com o escudo de armas
+de Lançarote do Lago&mdash;o pelicano de oiro sôbre um mar de sinopla.<span class="pn">{47}</span></p>
+
+<p>Nessa noite parti no expresso para a Escócia, e ainda não tinha passado
+York, adormecida na sua gravidade episcopal, já me esquecera o criado romanesco
+do restaurante de Charing-Cross. Foi só daí a um mês, ao voltar a Londres, que
+entrando no restaurante, e revendo aquela figura lenta e fatal atravessar com
+um prato de <em>roast-beef</em> numa das mãos e na outra um <em>puding</em> de
+batata, senti renascer o antigo interesse. E nessa noite mesmo, tive a singular
+felicidade de saber o seu nome e de entrever um fragmento do seu passado. Era
+já tarde e eu voltava do <em>Covent-Garden</em>, quando no perístilo do hotel
+encontrei, majestoso e próspero, o meu amigo Bracolletti.</p>
+
+<p>¿Não conhecem Bracolletti? A sua presença é formidável; tem a amplidão
+pançuda, o negro cerrado da barba, a lentidão, o cerimonial dum pachá gordo;
+mas esta ponderosa gravidade turca é temperada, em Bracolletti, pelo sorriso e
+pelo olhar. Que olhar! Um olhar doce, que me faz lembrar o dos animais da
+Síria: é o mesmo enternecimento. Parece errar no seu fluido macio a
+religiosidade meiga das raças que dão os Messias... Mas o sorriso! O sorriso de
+Bracolletti é a mais complexa, a mais perfeita, a mais rica das expressões
+humanas; há finura, inocência, bonomia, abandono, ironia doce, persuasão,
+naqueles dois lábios que se descerram e que deixam brilhar um esmalte de
+dentes<span class="pn">{48}</span> de virgem... Ah! mas tambêm êste sorriso é a fortuna de
+Bracolletti.</p>
+
+<p>Moralmente, Bracolletti é um hábil. Nasceu em Esmirna de pais gregos; é tudo
+o que êle revela: de resto, quando se lhe pergunta pelo seu passado, o bom
+grego rola um momento a cabeça de ombro a ombro, esconde sob as palpebras
+cerradas com bonomia o seu ôlho maometano, desabrocha o sorriso duma doçura de
+tentar abelhas, e murmura, como afogado em bondade e em enternecimento:</p>
+
+<p>&mdash;<em>Eh! mon Dieu! Eh! mon Dieu!</em>...</p>
+
+<p>Nada mais. Parece, porêm, que viajou,&mdash;porque conhece o Perú, a Crimeia, o
+Cabo da Boa-Esperança, os países exóticos&mdash;tam bem como Regent-Street: mas é
+evidente para todos que a sua existência não foi tecida, como a dos vulgares
+aventureiros do Levante, de oiro e estôpa, de esplendores e pelintrices: é um
+gordo e, portanto, um prudente: o seu magnífico solitário nunca deixou de lhe
+brilhar no dedo: nenhum frio jàmais o surpreendeu sem uma pelissa de dois mil
+francos: e nunca deixa de ganhar, todas as semanas, no <em>Fraternal Club</em>,
+de que é um membro querido, dez libras ao whist. É um forte.</p>
+
+<p>Mas tem uma debilidade. É singularmente guloso de rapariguinhas de dôze a
+catorze anos: gosta delas magrinhas, muito louras, e com o hábito de praguejar.
+Coleciona-as<span class="pn">{49}</span> pelos bairros pobres de Londres, com método. Instala-as em
+casa, e ali as tem, como passarinhos na gaiola, metendo-lhes a papinha no bico,
+ouvindo-as palrar todo baboso, animando-as a que lhe roubem os
+<em>shillings</em> da algibeira, gozando o desenvolvimento dos vícios naquelas
+flores, pondo-lhes ao alcance as garrafas de <em>gin</em> para que os anjinhos
+se embebedem;&mdash;e quando alguma, excitada de álcool, de cabelo ao vento e face
+acesa, o injuría, o arrepela, baba obscenidades,&mdash;o bom Bracolletti, encruzado
+no sofá, de mãos beatamente cruzadas na pança, o olhar afogado em êxtase,
+murmura no seu italiano da costa síria.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Piccolina! Gentilleta!</em></p>
+
+<p>Querido Bracolletti! Foi, realmente, com prazer, que o abracei, nessa noite,
+em Charing-Cross: e como nos não víamos há muito, fomos cear juntos ao
+restaurante. O criado triste lá estava no seu <em>comptoir</em>, curvado sôbre
+o <em>Journal des Debats</em>. E apenas Bracolletti apareceu, na sua majestade
+de obeso, o homem estendeu-lhe silenciosamente a mão; foi um
+<em>shake-hands</em> solene, enternecido e sincero.</p>
+
+<p>Bom Deus, eram amigos! Arrebatei Bracolletti para o fundo da sala, e
+vibrando de curiosidade, interroguei-o com sofreguidão. Quis primeiro o nome do
+homem.</p>
+
+<p>&mdash;Chama-se Korriscosso&mdash;disse-me Bracolletti, grave.<span class="pn">{50}</span></p>
+
+<p>Quis depois a sua história. Mas Bracolletti, como os deuses da Ática que,
+nos seus embaraços no mundo, se recolhiam à sua nuvem, Bracolletti refugiou-se
+na sua vaga reticência.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Eh! mon Dieu!...</em> <em>Eh! mon Dieu!</em>...</p>
+
+<p>&mdash;Não, não, Bracolletti. Vejâmos. Quero-lhe a história... Aquela face fatal
+e baironeana deve ter uma história...</p>
+
+<p>Bracolletti então tomou todo o ar cândido que lhe permitem a sua pança e as
+suas barbas&mdash;e confessou-me, deixando cair as frases às gotas, que tinham
+viajado ambos na Bulgária e no Montenegro... Korriscosso foi seu secretário...
+Boa letra... Tempos difíceis... <em>Eh! mon Dieu!</em>...</p>
+
+<p>&mdash;De onde é êle?</p>
+
+<p>Bracolletti respondeu sem hesitar, baixando a voz com um gesto repassado de
+desconsideração:</p>
+
+<p>&mdash;É um grego de Atenas.</p>
+
+<p>O meu interesse sumiu-se como a água que a areia absorve. Quando se tem
+viajado no Oriente e nas escalas do Levante, adquire-se fácilmente o hábito,
+talvez injusto, de suspeitar do grego: aos primeiros que se vêem, sobretudo
+tendo uma educação universitária e clássica, o entusiasmo acende-se um pouco,
+pensa-se em Alcibíades e em Platão, nas glórias duma raça estética e livre, e
+perfilam-se na imaginação as linhas augustas do Pártenon.<span class="pn">{51}</span> Mas, depois de
+os ter freqùentado, às mesas redondas e nos tombadilhos das
+<em>Messageries</em>, e principalmente depois de ter escutado a lenda de
+velhacaria que êles tem deixado desde Esmirna até Túnis, os outros que se vêem
+provocam, apenas, êstes movimentos: abotoar rápidamente o casaco, cruzar
+fortemente os braços sôbre a cadeia do relógio, e aguçar o intelecto para
+rechassar a <em>escroquerie</em>. A causa desta reputação funesta é que a gente
+grega, que emigra para as escalas do Levante, é uma plebe torpe, parte pirata e
+parte lacaia, bando de rapina astuto e perverso. A verdade é que apenas soube
+Korriscosso um grego, lembrei-me logo que o meu belo volume de Tennyson, na
+minha última estada em Charing-Cross, me desaparecera do quarto, e recordei o
+olhar de gula e de prêsa que cravara nele Korriscosso... Era um bandido!</p>
+
+<p>E durante a ceia não falamos mais de Korriscosso. Serviu-nos outro criado,
+rubro, honesto e são. O lúgubre Korriscosso não se afastou do <em>comptoir</em>
+abismado no <em>Journal des Debats</em>.</p>
+
+<p>Nessa noite aconteceu, ao recolher-me ao meu quarto, que me perdi... O hotel
+estava atulhado, e eu tinha sido alojado naqueles altos de Charing-Cross, numa
+complicação de corredores, escadas, recantos, ângulos, onde é quási necessário
+roteiro e bússola.<span class="pn">{52}</span></p>
+
+<p>De castiçal na mão, penetrei num passadiço onde corria um bafo morno de
+viela mal arejada. As portas aí não tinham números, mas pequenos cartões
+colados onde estavam inscritos nomes: <em>John Smith</em>, <em>Charlie</em>,
+<em>Willie</em>... Emfim, eram evidentemente as habitações dos criados. De uma
+porta aberta saía a claridade de um bico de gás; adiantei-me, e vi logo
+Korriscosso, ainda de casaca, sentado a uma mesa alastrada de papeis, de testa
+pendida sôbre a mão, escrevendo.</p>
+
+<p>&mdash;¿Pode-me indicar o caminho para o número 508?&mdash;balbuciei.</p>
+
+<p>Êle ergueu para mim um olhar estremunhado e ennevoado; parecia ressurgir de
+muito longe, de um outro universo; batia as pálpebras, repetindo:</p>
+
+<p>&mdash;508? 508?...</p>
+
+<p>Foi então que eu avistei, sôbre a mesa, entre papeis, colarinhos sujos e um
+rosário&mdash;o meu volume de Tennyson! Êle viu o meu olhar, o bandido! e acusou-se
+todo numa vermelhidão que lhe inundou a face chupada. O meu primeiro movimento
+foi não reconhecer o livro: como era um movimento bom, e obedecendo logo à
+moral superior do mestre Talleyrand, reprimi-o; apontando o volume com um dedo
+severo, um dedo de Providência irritada, disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;É o meu Tennyson...<span class="pn">{53}</span></p>
+
+<p>Não sei que resposta êle tartamudeou, porque eu, apiedado, retomado tambêm
+pelo interesse que me dava aquela figura picaresca de grego sentimental,
+acrescentei num tom repassado de perdão e de justificação:</p>
+
+<p>&mdash;¿Grande poeta, não é verdade? Que lhe pareceu? Tenho a certeza que se
+entusiasmou...</p>
+
+<p>Korriscosso corou mais: mas não era o despeito humilhado do salteador
+surpreendido: era, julguei eu, a vergonha de ver a sua inteligência, o seu
+gôsto poético adivinhados&mdash;e de ter no corpo a casaca coçada de criado de
+restaurante. Não respondeu. Mas as páginas do volume, que eu abri, responderam
+por êle; a brancura das margens largas desaparecia sob uma rêde de comentários
+a lápis: <em>Sublime!</em> <em>Grandioso!</em> <em>Divino!</em>&mdash;palavras
+lançadas numa letra convulsiva, num tremor de mão, agitada por uma
+sensibilidade vibrante...</p>
+
+<p>No entanto, Korriscosso permanecia de pé, respeitoso, culpado, de cabeça
+baixa, com o laço da gravata branca fugindo para o cachaço. Pobre Korriscosso!
+Compadeci-me daquela atitude, revelando todo um passado sem sorte, tantas
+tristezas de dependência... Lembrei-me que nada impressiona o homem do Levante
+como um gesto de drama e de palco; estendi-lhe ambas as mãos num movimento à
+Talma, e disse-lhe:<span class="pn">{54}</span></p>
+
+<p>&mdash;Eu tambem sou poeta!...</p>
+
+<p>Esta frase extraordinária pareceria grotesca e impudente a um homem do
+Norte; o levantino viu logo nela a expansão de uma alma irmã. ¿Porque, não lhes
+disse? o que Korriscosso estava escrevendo, numa tira de papel, eram estrofes:
+era uma ode.</p>
+
+<p>Daí a pouco, com a porta fechada, Korriscosso contava-me a sua história&mdash;ou
+antes fragmentos, anedotas desirmanadas da sua biografia. É tam triste, que a
+condenso. De resto, havia na sua narração lacunas de anos;&mdash;e eu não posso
+reconstituir com lógica e seqùência a história dêste sentimental. Tudo é vago e
+suspeito. Nasceu com efeito em Atenas; seu pai parece que era carregador no
+Pireu. Aos 18 anos Korriscosso servia de criado a um médico, e nos intervalos
+do serviço freqùentava a Universidade de Atenas; estas coisas são freqùentes
+<em>là-bas</em>, como êle dizia. Formou-se em leis: isto habilitou-o, mais
+tarde, em tempos difíceis, a ser um intérprete de hotel. Dêsse tempo datam as
+suas primeiras elégias num semanário lírico intitulado <em>Ecos da Ática</em>.
+A literatura levou-o directamente à política e às ambições parlamentares. Uma
+paixão, uma crise patética, um marido brutal, ameaças de morte, forçaram-no a
+expatriar-se. Viajou na Bulgária, foi em Salónica empregado numa sucursal do
+<em>Banco Otomano</em>, remeteu endechas<span class="pn">{55}</span> dolorosas a um jornal da
+província&mdash;a <em>Trombeta da Argólida</em>. Aqui há uma dessas lacunas, um
+buraco negro na sua história. Reaparece em Atenas, com fato novo, liberal e
+deputado.</p>
+
+<p>Êste período de glória foi breve, mas suficiente para o pôr em evidência; a
+sua palavra colorida, poética, recamada de imagens engenhosas e lustrosas,
+encantou Atenas: tinha o segredo de florir, como êle dizia, os terrenos mais
+áridos; duma discussão de imposto ou de viação fazia saltar éclogas de
+Teócrito. Em Atenas êste talento leva ao poder: Korriscosso era indicado para
+gerir uma alta administração do Estado: o ministério, porêm, e com êle a
+maioria de que Korriscosso era o tenor querido, caíram, sumiram-se sem lógica
+constitucional, num dêstes súbitos desabamentos políticos tam comuns na Grécia,
+em que os governos se aluem, como as casas em Atenas&mdash;sem motivo. Falta de
+base, decrepitude de materiais e de individualidades... Tudo tende para o pó
+num solo de ruinas...</p>
+
+<p>Nova lacuna, novo mergulho obscuro na história de Korriscosso...</p>
+
+<p>Volta à superfície, membro de um club rèpublicano de Atenas, pede num jornal
+a emancipação da Polónia, e a Grécia governada por um concílio de génios.
+Publíca então os seus <em>Suspiros da Trácia</em>. Tem outro romance<span class="pn">{56}</span> de
+coração... E emfim&mdash;e isto disse-mo sem explicações&mdash;é obrigado a refugiar-se
+em Inglaterra. Depois de tentar em Londres várias posições, coloca-se no
+restaurant de Charing-Cross.</p>
+
+<p>&mdash;É um pôrto de abrigo&mdash;disse-lhe eu, apertando-lhe a mão.</p>
+
+<p>Êle sorriu com amargura. Era de-certo um pôrto de abrigo, e vantajoso. É bem
+alimentado; as gorgetas são razoáveis; tem um vélho colxão de molas,&mdash;mas as
+delicadezas da sua alma são, a todo o momento, dolorosamente feridas...</p>
+
+<p>Dias atribulados, dias crucificados, os daquele poeta lírico, forçado a
+distribuir numa sala, a burgueses estabelecidos e glutões, costeletas e copos
+de cerveja! Não é a dependência que o aflige; a sua alma de grego não é
+particularmente ávida de liberdade, basta-lhe que o patrão seja cortês. E, como
+êle me disse, é-lhe grato reconhecer que os fregueses de Charing-Cross nunca
+lhe pedem a mostarda ou o queijo sem dizer <em>if you please</em>; e quando
+saem, ao passar por êle, levam dois dedos à aba do chapéu: isto satisfaz a
+dignidade de Korriscosso.</p>
+
+<p>Mas o que o tortura é o contacto constante com o alimento. Se êle fôsse um
+guarda-livros de um banqueiro, primeiro caixeiro de um armazêm de sêdas...
+Nisso há uma sombra de poesia&mdash;os milhões que se revolvem, as frotas<span class="pn">{57}</span>
+mercantes, a brutal fôrça do oiro, ou então dispôr ricamente os estofos, os
+cortes de sêda, fazer correr a luz nas ondulações dos <em>moirés</em>, dar ao
+veludo as molezas da linha e da prega... Mas num restaurante como se pode
+exercer o gôsto, a originalidade artística, o instinto da côr, do efeito, do
+drama&mdash;a partir nacos de <em>roast-beef</em> ou de presunto de York?!...
+Depois, como êle disse, dar a comer, fornecer alimento, é servir exclusivamente
+a pança, a tripa, a baixa necessidade material: no restaurante, o ventre é
+Deus: a alma fica fóra, com o chapéu que se pendura no cabide ou com o rôlo de
+jornais que se deixou no bôlso do paletot.</p>
+
+<p>E as convivências, e a falta de conversação! Nunca se voltarem para êle
+senão para lhe pedirem salame ou sardinhas de Nantes! Nunca abrir os seus
+lábios, de onde pendia o parlamento de Atenas, senão para perguntar:&mdash;Mais pão?
+mais bife?&mdash;Esta privação de eloqùência é-lhe dolorosa.</p>
+
+<p>Alêm disso o serviço impede-lhe o trabalho. Korriscosso compõe de memória;
+quatro passeios pelo quarto, um repelão ao cabelo, e a ode sai-lhe harmoniosa e
+doce.... Mas a interrupção glutona da voz do freguês, pedindo nutrição, é fatal
+a esta maneira de trabalhar. Às vezes, encostado a uma janela, de guardanapo no
+braço, Korriscosso está fazendo uma elégia; são tudo luares, roupagens alvas de
+virgens pálidas,<span class="pn">{58}</span> horizontes celestes, flores de alma dolorida... É feliz;
+está remontado aos céus poéticos, nas planícies azuladas onde os sonhos
+acampam, galopando de estrêla em estrêla... De repente, uma grossa voz faminta
+berra dum canto:</p>
+
+<p>&mdash;Bife e batatas!</p>
+
+<p>Ai! as aladas fantasias batem o vôo como pombas espavoridas! E aí vem o
+infeliz Korriscosso, precipitado dos cimos ideais, de ombros vergados e as abas
+da casaca balouçando, perguntar com o sorriso lívido:</p>
+
+<p>&mdash;¿Passado ou meio crú?</p>
+
+<p>Ah! é um amargo destino!</p>
+
+<p>&mdash;¿Mas&mdash;perguntei-lhe eu&mdash;porque não deixa êste covil, êste templo do
+ventre?</p>
+
+<p>Ele deixou pender a sua bela cabeça de poeta. E disse-me a razão que o
+prende: disse-ma, quási chorando nos meus braços, com o nó da gravata branca no
+cachaço: Korriscosso ama.</p>
+
+<p>Ama uma Fanny, criada de todo o serviço em Charing-Cross. Ama-a desde o
+primeiro dia em que entrou no hotel: amou-a no momento em que a viu lavando as
+escadas de pedra, com os braços roliços nus, e os cabelos louros, os fatais
+cabelos louros, dêste louro que entontece os meridionais, cabelos ricos, de um
+tom de cobre, dum tom de oiro mate, torcendo-se numa trança de deusa. E depois
+a carnação,<span class="pn">{59}</span> uma carnação de inglesa do Yorkshire&mdash;leite e rosas...</p>
+
+<p>E o que Korriscosso tem sofrido! Toda a sua dor exala-a em odes&mdash;que passa a
+limpo ao domingo, dia de repouso e dia do Senhor! Leu-mas. E eu vi quanto a
+paixão pode perturbar um ser nervoso: que ferocidade de linguagem, que lances
+de desespero, que gritos de alma dilacerada arremesados dali, daqueles altos de
+Charing-Cross, para a mudez do céu frio! É que Korriscosso tem ciumes. A
+desgraçada Fanny ignora aquele poeta a seu lado, aquele delicado, aquele
+sentimental, e ama um <em>policeman</em>. Ama um <em>policeman</em>, um
+colosso, um alcides, uma montanha de carne erriçada duma floresta de barbas,
+com o peito como o flanco de um couraçado, com pernas como fortalezas
+normandas. Êste Polifemo, como diz Korriscosso, tem, ordináriamente, serviço no
+Strand; e a pobre Fanny passa o seu dia a espreitá-lo de um postigo, dos altos
+do hotel.</p>
+
+<p>Todas as suas economias as gasta em quartilhos de <em>gin</em>, de
+<em>brandy</em>, de genebra, que à noite lhe leva em copinhos debaixo do
+avental: mantem-no fiel pelo álcool; o monstro, plantado enormemente a uma
+esquina, recebe em silêncio o copo, atira-o de um golpe às fauces tenebrosas,
+arrota cavamente, passa a mão cabeluda pela barba de hércules, e segue
+taciturnamente, sem um <em>obrigado</em>, sem um <em>amo-te</em>, batendo o
+lagedo<span class="pn">{60}</span> com a vastidão das suas solas sonoras. A pobre Fanny admira-o
+babosa... E talvez nesse momento, à outra esquina, o magro Korriscosso, fazendo
+no nevoeiro um esguio relêvo de poste telegráfico, soluce com a face magra
+entre as mãos transparentes.</p>
+
+<p>Pobre Korriscosso! Se êle ao menos a pudesse comover... Mas quê! Ela
+despreza-lhe o corpo de tísico triste: e a alma não lha compreende... Não que
+Fanny seja inacessível a sentimentos ardentes, expressos em linguagem
+melodiosa. Mas Korriscosso só pode escrever as suas elégias na sua língua
+materna... E Fanny não compreende grego... E Korriscosso é só um grande
+homem&mdash;em grego...</p>
+
+<p>Quando desci ao meu quarto, deixei-o soluçando sôbre o catre. Tenho-o visto
+depois, outras vezes, ao passar em Londres. Está mais magro, mais fatal, mais
+mirrado de zelos, mais curvado quando se move pelo restaurante com a travessa
+do <em>roast-beef</em>, mais exaltado no seu lirismo... Sempre que êle me serve
+dou-lhe um <em>shilling</em> de gorgeta: e depois, ao retirar, aperto-lhe
+sinceramente a mão.<span class="pn">{61}</span></p>
+
+
+<h1><a name="SECTION000300">NO MOINHO</a> </h1>
+
+<p>D. Maria da Piedade era considerada em toda a vila como «uma senhora
+modêlo». O vélho Nunes, director do correio, sempre que se falava nela, dizia,
+acariciando com autoridade os quatro pêlos da calva:</p>
+
+<p>&mdash;É uma santa! É o que ela é!</p>
+
+<p>A vila tinha quási orgulho na sua beleza delicada e tocante; era uma loura,
+de perfil fino, a pele eburnea, e os olhos escuros de um tom de violeta, a que
+as pestanas longas escureciam mais o brilho sombrio e doce. Morava ao fim da
+estrada, numa casa azul de três sacadas; e era, para a gente que às tardes ia
+fazer o giro até ao moinho, um encanto sempre novo vê-la por trás da vidraça,
+entre as cortinas de cassa, curvada sôbre a sua costura, vestida de preto,
+recolhida e séria. Poucas<span class="pn">{62}</span> vezes saía. O marido, mais vélho que ela, era
+um inválido, sempre de cama, inutilizado por uma doença de espinha; havia anos
+que não descia à rua; avistavam-no às vezes tambêm à janela murcho e trôpego,
+agarrado à bengala, encolhido na <em>robe-de-chambre</em>, com uma face
+macilenta, a barba desleixada e com um barretinho de sêda enterrado
+melancólicamente até ao cachaço. Os filhos, duas rapariguitas e um rapaz, eram
+tambêm doentes, crescendo pouco e com dificuldade, cheios de tumores nas
+orelhas, chorões e tristonhos. A casa, interiormente, parecia lúgubre.
+Andava-se nas pontas dos pés, porque o senhor, na excitação nervosa que lhe
+davam as insónias, irritava-se com o menor rumor; havia sôbre as cómodas alguma
+garrafada da botica, alguma malga com papas de linhaça; as mesmas flores com
+que ela, no seu arranjo e no seu gôsto de frescura, ornava as mesas, depressa
+murchavam naquele ar abafado de febre, nunca renovado por causa das correntes
+de ar; e era uma tristeza ver sempre algum dos pequenos ou de emplastro sôbre a
+orelha, ou a um canto do camapé, embrulhado em cobertores com uma amarelidão de
+hospital.</p>
+
+<p>Maria da Piedade vivia assim, desde os vinte anos. Mesmo em solteira, em
+casa dos pais, a sua existência fôra triste. A mãe era uma criatura
+desagradável e azêda; o pai, que se empenhara pelas tavernas e pelas batotas,
+já<span class="pn">{63}</span> vélho, sempre bêbedo, os dias que aparecia em casa passava-os à
+lareira, num silêncio sombrio, cachimbando e escarrando para as cinzas. Todas
+as semanas desancava a mulher. E quando João Coutinho pediu Maria em casamento,
+a-pesar de doente já, ela aceitou, sem hesitação, quási com reconhecimento,
+para salvar o casebre da penhora, não ouvir mais os gritos da mãe, que a faziam
+tremer, rezar, em cima no seu quarto, onde a chuva entrava pelo telhado. Não
+amava o marido, de-certo; e mesmo na vila tinha-se lamentado que aquele lindo
+rosto de Virgem Maria, aquela figura de fada, fôsse pertencer ao Joãosinho
+Coutinho, que desde rapaz fôra sempre entrevado. O Coutinho, por morte do pai,
+ficára rico; e ela, acostumada por fim àquele marido rabugento, que passava o
+dia arrastando-se sombriamente da sala para a álcôva, ter-se-ia resignado, na
+sua natureza de enfermeira e de consoladora, se os filhos ao menos tivessem
+nascido sãos e robustos. Mas aquela família que lhe vinha com o sangue viciado,
+aquelas existências hesitantes, que depois pareciam apodrecer-lhe nas mãos,
+a-pesar dos seus cuidados inquietos, acabrunhavam-na. Às vezes só, picando a
+sua costura, corriam-lhe as lágrimas pela face: uma fadiga da vida invadia-a,
+como uma névoa que lhe escurecia a alma.</p>
+
+<p>Mas se o marido de dentro chamava desesperado,<span class="pn">{64}</span> ou um dos pequenos
+choramingava, lá limpava os olhos, lá aparecia com a sua bonita face tranqùila,
+com alguma palavra consoladora, compondo a almofada a um, indo animar o outro,
+feliz em ser boa. Toda a sua ambição era ver o seu pequeno mundo bem tratado e
+bem acarinhado. Nunca tivera desde casada uma curiosidade, um desejo, um
+capricho: nada a interessava na terra senão as horas dos remédios e o sono dos
+seus doentes. Todo o esfôrço lhe era fácil quando era para os contentar:
+a-pesar de fraca, passeava horas trazendo ao colo o pequerrucho, que era o mais
+impertinente, com as feridas que faziam dos seus pobres beicinhos uma crosta
+escura: durante as insónias do marido não dormia tambêm, sentada ao pé da cama,
+conversando, lendo-lhe as Vidas dos Santos, porque o pobre entrevado ia caíndo
+em devoção. De manhã estava um pouco mais pálida, mas toda correcta no seu
+vestido preto, fresca, com os bandós bem lustrosos, fazendo-se bonita para ir
+dar as sopas de leite aos pequerruchos. A sua única distracção era à tarde
+sentar-se à janela com a sua costura, e a pequenada em roda, aninhada no chão,
+brincando tristemente. A mesma paizagem que ela via da janela era tam monótona
+como a sua vida: em baixo a estrada, depois uma ondulação de campos, uma terra
+magra plantada aqui e alêm de oliveiras e, erguendo-se ao fundo, uma
+colina<span class="pn">{65}</span> triste e nua, sem uma casa, uma árvore, um fumo de casal que
+pusesse naquela solidão de terreno pobre uma nota humana e viva.</p>
+
+<p>Vendo-a assim tam resignada e tam sujeita, algumas senhoras da vila
+afirmavam que ela era beata: todavia ninguêm a avistava na igreja, a não ser ao
+domingo, com o pequerrucho mais vélho pela mão, todo pálido no seu vestido de
+veludo azul. Com efeito, a sua devoção limitava-se a esta missa todas as
+semanas. A sua casa ocupava-a muito para se deixar invadir pelas preocupações
+do céu: naquele dever de boa mãe, cumprido com amor, encontrava uma satisfação
+suficiente à sua sensibilidade; não necessitava adorar santos ou enternecer-se
+com Jesus. Instintivamente mesmo pensava que toda a afeição excessiva dada ao
+Pai do Céu, todo o tempo gasto em se arrastar pelo confessionário ou junto do
+oratório, seria uma diminuição cruel no seu cuidado de enfermeira: a sua
+maneira de rezar era velar os filhos: e aquele pobre marido pregado numa cama,
+todo dependente dela, tendo-a só a ela, parecia-lhe ter mais direito ao seu
+fervor que o outro, pregado numa cruz, tendo para o amar toda uma humanidade
+pronta. Alêm disso, nunca tivera estas sentimentalidades de alma triste que
+levam à devoção. O seu longo hábito de dirigir uma casa de doentes, de ser ela
+o centro, a fôrça, o amparo daqueles inválidos,<span class="pn">{66}</span> tornára-a terna, mas
+pràtica: e assim era ela que administrava agora a casa do marido, com um bom
+senso que a afeição dirigira, uma solicitude de mãe próvida. Tais ocupações
+bastavam para entreter o seu dia: o marido, de resto, detestava visitas, o
+aspecto de caras saudáveis, as comiserações de cerimónia; e passavam-se meses
+sem que em casa de Maria da Piedade se ouvisse outra voz estranha à família, a
+não ser a do Dr. Abílio&mdash;que a adorava, e que dizia dela com os olhos
+esgazeados:</p>
+
+<p>&mdash;É uma fada! é uma fada...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Foi por isso grande a excitação na casa, quando João Coutinho recebeu uma
+carta de seu primo Adrião que lhe anunciava que em duas ou três semanas ia
+chegar à vila. Adrião era um homem célebre, e o marido de Maria da Piedade
+tinha naquele parente um orgulho enfático. Assinára mesmo um jornal de Lisboa,
+só para ver o seu nome nas locais e na crítica. Adrião era um romancista: e o
+seu último livro, <em>Madalena</em>, um estudo de mulher trabalhado a grande
+estilo, duma análise delicada e subtil, consagrara-o como um mestre. A sua
+fama, que chegara até à vila, num vago de legenda, apresentava-o como uma
+personalidade interessante, um herói de Lisboa, amado das fidalgas, impetuoso e
+brilhante, destinado a uma<span class="pn">{67}</span> alta situação no Estado. Mas realmente na vila
+era sobretudo notável por ser primo do João Coutinho.</p>
+
+<p>D. Maria da Piedade ficou aterrada com esta visita. Via já a sua casa em
+confusão com a presença do hóspede extraordinário. Depois a necessidade de
+fazer mais <em>toilette</em>, de alterar a hora do jantar, de conversar com um
+literato, e tantos outros esforços crueis!... E a brusca invasão daquele
+mundano, com as suas malas, o fumo do seu charuto, a sua alegria de são, na paz
+triste do seu hospital, dava-lhe a impressão apavorada duma profanação. Foi por
+isso um alívio, quási um reconhecimento, quando Adrião chegou, e muito
+simplesmente se instalou na antiga estalagem do tio André, à outra extremidade
+da vila. João Coutinho escandalizou-se: tinha já o quarto do hóspede preparado,
+com lençóis de rendas, uma colcha de damasco, pratas sôbre a cómoda, e queria-o
+todo para si, o primo, o homem célebre, o grande autor... Adrião porêm recusou:
+</p>
+
+<p>&mdash;Eu tenho os meus hábitos, vocês teem os seus... ¿Não nos contrariemos,
+hein?... O que faço é vir cá jantar. De resto, não estou mal no tio André...
+Vejo da janela um moinho e uma reprêsa que são um quadrosinho delicioso... ¿E
+ficamos amigos, não é verdade?</p>
+
+<p>Maria da Piedade olhava-o assombrada: aquele herói, aquele fascinador por
+quem choravam<span class="pn">{68}</span> mulheres, aquele poeta que os jornais glorificavam, era um
+sujeito extremamente simples,&mdash;muito menos complicado, menos espectaculoso que
+o filho do recebedor! Nem formoso era: e com o seu chapéu desabado sôbre uma
+face cheia e barbuda, a quinzena de flanela caíndo à larga num corpo robusto e
+pequeno, os seus sapatos enormes, parecia-lhe a ela um dos caçadores de aldeia
+que às vezes encontrava, quando de mês a mês ia visitar as fazendas do outro
+lado do rio. Alêm disso não fazia frases; e a primeira vez que veio jantar,
+falou apenas, com grande bonomia, dos seus negócios. Viera por êles. Da fortuna
+do pai, a única terra que não estava devorada, ou abominavelmente hipotecada,
+era a Curgossa, uma fazenda ao pé da vila, que andava alêm disso mal
+arrendada... O que êle desejava era vendê-la. Mas isso parecia-lhe a êle tam
+difícil, como fazer a <em>Ilíada</em>!... E lamentava sinceramente ver o primo
+ali, inútil sôbre uma cama, sem o poder ajudar nesses passos a dar com os
+proprietários da vila. Foi por isso, com grande alegria, que ouviu João
+Coutinho declarar-lhe que a mulher era uma administradora de primeira ordem, e
+hábil nestas questões como um antigo rábula!...</p>
+
+<p>&mdash;Ela vai contigo ver a fazenda, fala com o Teles, e arranja-te isso tudo...
+E na questão de preço, deixa-a a ela!...<span class="pn">{69}</span></p>
+
+<p>&mdash;Mas que superioridade, prima!&mdash;exclamou Adrião maravilhado.&mdash;Um anjo que
+entende de cifras!</p>
+
+<p>Pela primeira vez na sua existência Maria da Piedade corou com a palavra dum
+homem. De resto prontificou-se logo a ser a procuradora do primo...</p>
+
+<p>No outro dia foram ver a fazenda. Como ficava perto, e era um dia de março
+fresco e claro, partiram a pé. Ao princípio, acanhada por aquela companhia de
+um leão, a pobre senhora caminhava junto dêle com o ar de um pássaro assustado:
+a-pesar de êle ser tam simples, havia na sua figura enérgica e musculosa, no
+timbre rico da sua voz, nos seus olhos pequenos e luzidios alguma coisa de
+forte, de dominante, que a enleava. Tinha-se-lhe prendido à orla do seu vestido
+um galho de silvado, e como êle se abaixára para o desprender delicadamente, o
+contacto daquela mão branca e fina de artista na orla da sua saia incomodou-a
+singularmente. Apressava o passo para chegar bem depressa à fazenda, aviar o
+negócio com o Teles, e voltar imediatamente a refugiar-se, como no seu elemento
+próprio, no ar abafado e triste do seu hospital. Mas a estrada estendia-se,
+branca e longa, sob o sol tépido&mdash;e a conversa de Adrião foi-a lentamente
+acostumado à sua presença.</p>
+
+<p>Êle parecia desolado daquela tristeza da<span class="pn">{70}</span> casa. Deu-lhe alguns bons
+conselhos: o que os pequenos necessitavam era ar, sol, uma outra vida diversa
+daquele abafamento de alcôva...</p>
+
+<p>Ela tambêm assim o julgava: mas quê! o pobre João, sempre que se lhe falava
+de ir passar algum tempo à quinta, afligia-se terrívelmente: tinha horror aos
+grandes ares e aos grandes horizontes: a natureza forte fazia-o quási desmaiar;
+tornára-se um ser artificial, encafuado entre os cortinados da cama...</p>
+
+<p>Êle então lamentou-a. De-certo poderia haver alguma satisfação num dever tam
+santamente cumprido... Mas, emfim, ela devia ter momentos em que desejasse
+alguma outra cousa alêm daquelas quatro paredes, impregnadas do bafo da
+doença...</p>
+
+<p>&mdash;¿Que hei-de eu desejar mais?&mdash;disse ela.</p>
+
+<p>Adrião calou-se: pareceu-lhe absurdo supôr que ela desejasse, realmente, o
+Chiado ou o Teatro da Trindade... No que êle pensava era noutros apetites, nas
+ambições do coração insatisfeito... Mas isto pareceu-lhe tam delicado, tam
+grave de dizer àquela criatura virginal e séria&mdash;que falou da paizagem...</p>
+
+<p>&mdash;Já viu o moinho?&mdash;perguntou-lhe ela.</p>
+
+<p>&mdash;Tenho vontade de o ver, se mo quiser ir mostrar, prima.</p>
+
+<p>&mdash;Hoje é tarde.</p>
+
+<p>Combinaram logo ir visitar êsse recanto de verdura, que era o idílio da
+vila.<span class="pn">{71}</span></p>
+
+<p>Na fazenda, a longa conversa com o Teles criou uma aproximação maior entre
+Adrião e Maria da Piedade. Aquela venda que ela discutia com uma astúcia de
+aldeã, punha entre êles como que um interesse comum. Ela falou-lhe já com menos
+reserva quando voltaram. Havia nas maneiras dêle, dum respeito tocante, uma
+atracção que a seu pesar a levava a revelar-se, a dar-lhe a sua confiança:
+nunca falára tanto a ninguêm: a ninguêm jàmais deixara ver tanto da melancolia
+oculta que errava constantemente na sua alma. De resto as suas queixas eram
+sôbre a mesma dor&mdash;a tristeza do seu interior, as doenças, tantos cuidados
+graves... E vinha-lhe por êle uma simpatia, como um indefinido desejo de o ter
+sempre presente, desde que êle se tornava assim depositário das suas tristezas.
+</p>
+
+<p>Adrião voltou para o seu quarto, na estalagem do André, impressionado,
+interessado por aquela criatura tam triste e tam doce. Ela destacava sôbre o
+mundo de mulheres que até ali conhecera, como um perfil suave de anjo gótico
+entre fisionomias de mesa redonda. Tudo nela concordava deliciosamente: o oiro
+do cabelo, a doçura da voz, a modéstia na melancolia, a linha casta, fazendo um
+ser delicado e tocante, a que mesmo o seu pequenino espírito burguês, certo
+fundo rústico de aldeã e uma leve vulgaridade de hábitos davam um encanto:
+era<span class="pn">{72}</span> um anjo que vivia há muito tempo numa vilota grosseira e estava por
+muitos lados prêso às trivialidades do sítio: mas bastaria um sôpro para o
+fazer remontar ao céu natural, aos cimos puros da sentimentalidade...</p>
+
+<p>Achava absurdo e infame fazer a côrte à prima... Mas involuntáriamente
+pensava no delicioso prazer de fazer bater aquele coração que não estava
+deformado pelo espartilho, e de pôr emfim os seus lábios numa face onde não
+houvesse pós de arroz... E o que o tentava sobretudo era pensar que poderia
+percorrer toda a província em Portugal, sem encontrar nem aquela linha do
+corpo, nem aquela virgindade tocante de alma adormecida... Era uma ocasião que
+não voltava.</p>
+
+<p>O passeio ao moinho foi encantador. Era um recanto de natureza, digno de
+Corot, sobretudo à hora do meio dia em que êles lá foram, com a frescura da
+verdura, a sombra recolhida das grandes árvores, e toda a sorte de murmúrios de
+água corrente, fugindo, reluzindo entre os musgos e as pedras, levando e
+espalhando no ar o frio da folhagem, da relva, por onde corriam cantando. O
+moinho era dum alto pitoresco, com a sua vélha edificação de pedra secular, a
+sua roda enorme, quási pôdre, coberta de ervas, imóvel sôbre a gelada limpidez
+da água escura. Adrião achou-o digno duma scena de romance, ou<span class="pn">{73}</span> melhor, da
+morada duma fada. Maria da Piedade não dizia nada, achando extraordinária
+aquela admiração pelo moinho abandonado do tio Costa. Como ela vinha um pouco
+cansada, sentaram-se numa escada desconjuntada de pedra, que mergulhava na água
+da reprêsa os últimos degraus: e ali ficaram um momento calados, no encanto
+daquela frescura murmurosa, ouvindo as aves piarem nas ramas. Adrião via-a de
+perfil, um pouco curvada, esburacando com a ponteira do guarda-sol as ervas
+bravas que invadiam os degraus: era deliciosa assim, tam branca, tam loura,
+duma linha tam pura sôbre o fundo azul do ar: o seu chapéu era de mau gôsto, o
+seu mantelete antiquado, mas êle achava nisso mesmo uma ingenuidade picante. O
+silêncio dos campos em redor isolava-os&mdash;e, insensívelmente, êle começou a
+falar-lhe baixo. Era ainda a mesma compaixão pela melancolia da sua existência
+naquela triste vila, pelo seu destino de enfermeira... Ela escutava-o de olhos
+baixos, pasmada de se achar ali tam só com aquele homem tam robusto, toda
+receosa e achando um sabor delicioso ao seu receio... Houve um momento em que
+êle falou do encanto de ficar ali para sempre na vila.</p>
+
+<p>&mdash;Ficar aqui? Para quê?&mdash;perguntou ela sorrindo.<span class="pn">{74}</span></p>
+
+<p>&mdash;Para quê? para isto, para estar sempre ao pé de si...</p>
+
+<p>Ela cobriu-se de um rubor, o guarda-solinho escapou-lhe das mãos. Adrião
+receou tê-la ofendido, e acrescentou logo rindo:</p>
+
+<p>&mdash;¿Pois não era delicioso?... Eu podia alugar êste moinho, fazer-me
+moleiro... A prima havia de me dar a sua freguesia...</p>
+
+<p>Isto fê-la rir: era mais linda quando ria: tudo brilhava nela, os dentes, a
+pele, a côr do cabelo. Êle continuou gracejando, com o seu plano de se fazer
+moleiro, e de ir pela estrada tocando o burro, carregado de sacas de farinha.
+</p>
+
+<p>&mdash;E eu venho ajudá-lo, primo!&mdash;disse ela, animada pelo seu próprio riso,
+pela alegria daquele homem a seu lado.</p>
+
+<p>&mdash;Vem?&mdash;exclamou êle.&mdash;Juro-lhe que me faço moleiro! Que paraíso nós aqui
+ambos no moinho, ganhando alegremente a nossa vida, ouvindo cantar êstes
+melros!</p>
+
+<p>Ela corou outra vez do fervor da sua voz, e recuou como se êle fôsse já
+arrebatá-la para o moinho. Mas Adrião agora, inflamado àquela idea, pintava-lhe
+na sua palavra colorida toda uma vida romanesca, de uma felicidade idílica,
+naquele esconderijo de verdura: de manhã, a pé cedo, para o trabalho; depois o
+jantar na relva à beira de água; e à noite as boas palestras ali sentados, à
+claridade<span class="pn">{75}</span> das estrêlas ou sob a sombra cálida dos céus negros de verão...
+</p>
+
+<p>E de repente, sem que ela resistisse, prendeu-a nos braços, e beijou-a sôbre
+os lábios, dum só beijo profundo e interminável. Ela tinha ficado contra o seu
+peito, branca, como morta: e duas lágrimas corriam-lhe ao comprido da face. Era
+assim tam dolorosa e fraca, que êle soltou-a; ela ergueu-se, apanhou o
+guarda-solinho e ficou diante dêle, com o beicinho a tremer, murmurando:</p>
+
+<p>&mdash;É mal feito... é mal feito...</p>
+
+<p>Êle mesmo estava tam perturbado&mdash;que a deixou descer para o caminho: e daí a
+um momento, seguiam ambos calados para a vila. Foi só na estalagem que êle
+pensou:</p>
+
+<p>&mdash;Fui um tolo !</p>
+
+<p>Mas no fundo estava contente da sua generosidade. À noite foi a casa dela:
+encontrou-a com o pequerrucho no colo, lavando-lhe em àgua de malvas as feridas
+que êle tinha na perna. E então, pareceu-lhe odioso distrair aquela mulher dos
+seus doentes. De resto um momento como aquele no moinho não voltaria. Seria
+absurdo ficar ali, naquele canto odioso da província, desmoralizando, a frio,
+uma boa mãe... A venda da fazenda estava concluída. Por isso, no dia seguinte,
+apareceu de tarde, a dizer-lhe adeus: partia à noitinha na diligência:
+encontrou-a na sala, à<span class="pn">{76}</span> janela costumada, com a pequenada doente aninhada
+contra as suas saias... Ouviu que êle partia, sem lhe mudar a côr, sem lhe
+arfar o peito. Mas Adrião achou-lhe a palma da mão tam fria como um mármore: e
+quando êle saíu, Maria da Piedade ficou voltada para a janela, escondendo a
+face dos pequenos, olhando abstractamente a paizagem que escurecia, com as
+lágrimas, quatro a quatro, caíndo-lhe na costura...</p>
+
+<p>Amava-o. Desde os primeiros dias, a sua figura resoluta e forte, os seus
+olhos luzidios, toda a virilidade da sua pessoa, se lhe tinham apossado da
+imaginação. O que a encantava nele não era o seu talento, nem a sua celebridade
+em Lisboa, nem as mulheres que o tinham amado: isso para ela aparecia-lhe vago
+e pouco compreensível: o que a fascinava era aquela seriedade, aquele ar
+honesto e são, aquela robustez de vida, aquela voz tam grave e tam rica: e
+antevia, para alêm da sua existência ligada a um inválido, outras existências
+possíveis, em que se não vê sempre diante dos olhos uma face fraca e moribunda,
+em que as noites se não passam a esperar as horas dos remédios... Era como uma
+rajada de ar impregnado de todas as fôrças vivas da natureza, que atravessava,
+súbitamente, a sua alcôva abafada: e ela respirava-a deliciosamente... Depois,
+tinha ouvido<span class="pn">{77}</span> aquelas conversas em que êle se mostrava tam bom, tam sério,
+tam delicado: e à fôrça do seu corpo, que admirava, juntava-se agora um coração
+terno, duma ternura varonil e forte, para a cativar... Êste amor latente
+invadiu-a, apoderou-se dela uma noite que lhe apareceu esta idea, esta
+visão&mdash;<em>Se êle fosse meu marido!</em> Toda ela estremeceu, apertou
+desesperadamente os braços contra o peito, como confundindo-se com a sua imagem
+evocada, prendendo-se a ela, refugiando-se na sua fôrça... Depois êle deu-lhe
+aquele beijo no moinho.</p>
+
+<p>E partira!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Então começou para Maria da Piedade uma existência de abandonada. Tudo de
+repente em volta dela&mdash;a doença do marido, achaques dos filhos, tristezas do
+seu dia, a sua costura&mdash;lhe pareceu lúgubre. Os seus deveres, agora que não
+punha neles toda a sua alma, eram-lhe pesados como fardos injustos. A sua vida
+representava-se-lhe como desgraça excepcional: não se revoltava ainda: mas
+tinha dêsses abatimentos, dessas súbitas fadigas de todo o seu ser, em que caía
+sôbre a cadeira, com os braços pendentes, murmurando:</p>
+
+<p>&mdash;¿Quando se acabará isto?<span class="pn">{78}</span></p>
+
+<p>Refugiava-se então naquele amor como uma compensação deliciosa. Julgando-o
+todo puro, todo de alma, deixava-se penetrar dêle e da sua lenta influência.
+Adrião tornara-se, na sua imaginação, como um ser de proporções
+extraordinárias, tudo o que é forte, e que é belo, e que dá razão à vida. Não
+quis que nada do que era dêle ou vinha dêle lhe fôsse alheio. Leu todos os seus
+livros, sobretudo aquela <em>Madalena</em> que tambêm amara, e morrera dum
+abandono. Estas leituras calmavam-na, davam-lhe como uma vaga satisfação ao
+desejo. Chorando as dores das heroínas de romance, parecia sentir alívio às
+suas.</p>
+
+<p>Lentamente, esta necessidade de encher a imaginação dêsses lances de amor,
+de dramas infelizes, apoderou-se dela. Foi durante meses um devorar constante
+de romances. Ia-se assim criando no seu espírito um mundo artificial e
+idealizado. A realidade tornava-se-lhe odiosa, sobretudo sob aquele aspecto da
+sua casa, onde encontrava sempre agarrado às saias um ser enfermo. Vieram as
+primeiras revoltas. Tornou-se impaciente e áspera. Não suportava ser arrancada
+aos episódios sentimentais do seu livro, para ir ajudar a voltar o marido e
+sentir-lhe o hálito mau. Veio-lhe o nojo das garrafadas, dos emplastros, das
+feridas dos pequenos a lavar. Começou a ler versos. Passava horas só, num
+mutismo, à<span class="pn">{79}</span> janela, tendo sob o seu olhar de virgem loura toda a rebelião
+duma apaixonada. Acreditava nos amantes que escalam os balcões, entre o canto
+dos rouxinóis: e queria ser amada assim, possuída num mistério de noite
+romântica...</p>
+
+<p>O seu amor desprendeu-se pouco a pouco da imagem de Adrião e alargou-se,
+estendeu-se a um ser vago que era feito de tudo o que a encantara nos heróis de
+novela; era um ente meio príncipe e meio facínora, que tinha, sobretudo, a
+fôrça. Porque era isto que admirava, que queria, porque ansiava nas noites
+cálidas em que não podia dormir&mdash;dois braços fortes como aço, que a apertassem
+num abraço mortal, dois lábios de fogo que, num beijo, lhe chupassem a alma.
+Estava uma histérica.</p>
+
+<p>Às vezes, ao pé do leito do marido, vendo diante de si aquele corpo de
+tísico, numa imobilidade de entrevado, vinha-lhe um ódio torpe, um desejo de
+lhe apressar a morte...</p>
+
+<p>E no meio desta excitação mórbida do temperamento irritado, eram fraquezas
+súbitas, sustos de ave que pousa, um grito ao ouvir bater uma porta, uma
+palidez de desmaio se havia na sala flores muito cheirosas... À noite abafava;
+abria a janela; mas o cálido ar, o bafo môrno da terra aquecida do sol,
+enchiam-na dum desejo intenso, duma ânsia voluptuosa, cortada de crises de
+chôro...</p>
+
+<p>A Santa tornava-se Vénus.<span class="pn">{80}</span></p>
+
+<p>E o romantismo mórbido tinha penetrado tanto naquele ser, e desmoralizára-o
+tam profundamente, que chegou ao momento em que bastaria que um homem lhe
+tocasse, para ela lhe caír nos braços:&mdash;e foi o que sucedeu emfim, com o
+primeiro que a namorou, daí a dois anos. Era o praticante da botica.</p>
+
+<p>Por causa dêle escandalizou toda a vila. E agora deixa a casa numa desordem,
+os filhos sujos e ramelosos, em farrapos, sem comer até altas horas, o marido a
+gemer abandonado na sua alcôva, toda a trapagem dos emplastros por cima das
+cadeiras, tudo num desamparo torpe&mdash;para andar atrás do homem, um maganão
+odioso e cebento, de cara balôfa e gordalhufa, luneta preta com grossa fita
+passada atrás da orelha, e bonésinho de sêda posto à catita. Vem de noite às
+entrevistas de chinelo de ourelo: cheira a suor: e pede-lhe dinheiro emprestado
+para sustentar uma Joana, criatura obêsa, a quem chamam na vila a <em>bola de
+unto</em>.<span class="pn">{81}</span></p>
+
+
+<h1><a name="SECTION000400">CIVILIZAÇÃO</a> </h1>
+
+
+<h2><a name="SECTION000410">I</a> </h2>
+
+<p>Eu possuo preciosamente um amigo (o seu nome é Jacinto) que nasceu num
+palácio, com quarenta contos de renda em pingues terras de pão, azeite e gado.
+</p>
+
+<p>Desde o berço, onde sua mãe, senhora gorda e crédula de Trás-os-montes,
+espalhava, para reter as Fadas Benéficas, funcho e âmbar, Jacinto fôra sempre
+mais resistente e são que um pinheiro das dunas. Um lindo rio, murmuroso e
+transparente, com um leito muito liso de areia muito branca, reflectindo apenas
+pedaços lustrosos de um céu de verão ou ramagens sempre verdes e de bom aroma,
+não ofereceria, àquele que o descesse numa barca cheia de almofadas e de
+Champanhe gelada, mais doçura e facilidades do que a vida<span class="pn">{82}</span> oferecia ao meu
+camarada Jacinto. Não teve sarampo e não teve lombrigas. Nunca padeceu, mesmo
+na idade em que se lê Balzac e Musset, os tormentos da sensibilidade. Nas suas
+amizades foi sempre tam feliz como o clássico Orestes. Do Amor só experimentára
+o mel&mdash;êsse mel que o amor invariavelmente concede a quem o pratíca, como as
+abelhas, com ligeireza e mobilidade. Ambição, sentira sómente a de compreender
+bem as ideas gerais, e a «ponta do seu intelecto» (como diz o vélho cronista
+medieval) não estava ainda romba nem ferrugenta... E todavia, desde os vinte e
+oito anos, Jacinto já se vinha repastando de Schopenhauer, do Eclesiastes,
+doutros Pessimistas menores, e três, quatro vezes por dia, bocejava, com um
+bocejo cavo e lento, passando os dedos finos sôbre as faces, como se nela só
+palpasse palidez e ruína. Porquê ?</p>
+
+<p>Era êle, de todos os homens que conheci, o mais complexamente civilizado&mdash;ou
+antes aquele que se munira da mais vasta sôma de civilização material,
+ornamental e intelectual. Nesse palácio (floridamente chamado o
+<em>Jasmineiro</em>) que seu pai, tambêm Jacinto, construira sôbre uma honesta
+casa do século XVII, assoalhada a pinho e branqueada a cal&mdash;existia, creio eu,
+tudo quanto para bem do espírito ou da matéria os homens teem criado, através
+da incerteza e dor, desde que abandonaram<span class="pn">{83}</span> o vale feliz de Septa-Sindu, a
+Terra das Águas Fáceis, o doce país Ariano. A biblioteca, que em duas salas,
+amplas e claras como praças, forrava as paredes, inteiramente, desde os tapetes
+de Caranânia até ao teto de onde, alternadamente, através de cristais, o sol e
+a electricidade vertiam uma luz estudiosa e calma&mdash;continha vinte e cinco mil
+volumes, instalados em ébano, magnificamente revestidos de marroquim escarlate.
+Só sistemas filosóficos (e com justa prudência, para poupar espaço, o
+bibliotecário apenas colecionára os que irreconciliavelmente se contradizem)
+havia mil oito centos e dezassete!</p>
+
+<p>Uma tarde que eu desejava copiar um ditame de Adam Smith, percorri, buscando
+êste economista ao longo das estantes, oito metros de economia política! Assim
+se achava formidavelmente abastecido o meu amigo Jacinto de todas as obras
+essenciais da inteligência&mdash;e mesmo da estupidez. E o único inconveniente dêste
+monumental armazêm do saber era que todo aquele que lá penetrava,
+inevitavelmente lá adormecia, por causa das poltronas, que provídas de finas
+pranchas móveis para sustentar o livro, o charuto, o lápis das notas, a taça de
+café, ofereciam ainda uma combinação oscilante e flácida de almofadas, onde o
+corpo encontrava logo, para mal do espírito, a doçura, a profundidade e a paz
+estirada de um leito.<span class="pn">{84}</span></p>
+
+<p>Ao fundo, e como um altar-mór, era o gabinete de trabalho de Jacinto. A sua
+cadeira, grave e abacial, de couro, com brazões, datava do século XIV, e em
+tôrno dela pendiam numerosos tubos acústicos, que, sôbre os panejamentos de
+sêda côr de musgo e côr de hera, pareciam serpentes adormecidas e suspensas num
+vélho muro de quinta. Nunca recordo sem assombro a sua mesa, recoberta toda de
+sagazes e subtis instrumentos para cortar papel, numerar páginas, colar
+estampilhas, aguçar lápis, raspar emendas, imprimir datas, derreter lacre,
+cintar documentos, carimbar contas! Uns de níquel, outros de aço, rebrilhantes
+e frios, todos eram de um manejo laborioso e lento: alguns, com as molas
+rígidas, as pontas vivas, trilhavam e feriam: e nas largas fôlhas de papel
+Whatman em que êle escrevia, e que custavam 500 réis, eu por vezes surpreendi
+gotas de sangue do meu amigo. Mas a todos êle considerava indispensáveis para
+compôr as suas cartas (Jacinto não compunha obras) assim como os trinta e cinco
+dicionários, e os manuais, e as enciclopédias, e os guias, e os directórios,
+atulhando uma estante isolada, esguia, em forma de tôrre, que silenciosamente
+girava sôbre o seu pedestal, e que eu denominára o Farol. O que, porêm, mais
+completamente imprimia àquele gabinete um portentoso carácter de civilização
+eram, sôbre<span class="pn">{85}</span> as suas peanhas de carvalho, os grandes aparelhos,
+facilitadores do pensamento,&mdash;a máquina de escrever, os auto-copistas, o
+telégrafo-Morse, o fonógrafo, o telefone, o teatrofone, outros ainda, todos com
+metais luzidios, todos com longos fios. Constantemente sons curtos e secos
+retiniam no ar morno daquele santuário. Tic, tic, tic! Dlin, dlin, dlin! Crac,
+crac, crac! Trrre, trrre!... Era o meu amigo comunicando. Todos êsses fios
+mergulhavam em fôrças universais, transmitiam fôrças universais. E elas nem
+sempre, desgraçadamente, se conservavam domadas e disciplinadas! Jacinto
+recolhera no fonógrafo a voz do conselheiro Pinto Pôrto, uma voz oracular e
+rotunda, no momento de exclamar com respeito, com autoridade:</p>
+
+<p>&mdash;«<em>Maravilhosa invenção! ¿Quem não admirará os progressos dêste
+século?</em>»</p>
+
+<p>Pois, numa doce noite de S. João, o meu supercivilizado amigo, desejando que
+umas senhoras parentas de Pinto Pôrto (as amáveis Gouveias) admirassem o
+fonógrafo, fez romper do bocarrão do aparelho, que parece uma trompa, a
+conhecida voz rotunda e oracular.</p>
+
+<p>&mdash;<em>¿Quem não admirará os progressos dêste século?</em></p>
+
+<p>Mas, inábil ou brusco, certamente desconcertou alguma mola vital&mdash;porque de
+repente o fonógrafo começa a redizer, sem descontinuação,<span class="pn">{86}</span>
+interminavelmente, com uma sonoridade cada vez mais rotunda, a sentença do
+conselheiro:</p>
+
+<p>&mdash;<em>¿Quem não admirará os progressos dêste século?</em></p>
+
+<p>Debalde Jacinto, pálido, com os dedos trémulos, torturava o aparelho. A
+exclamação recomeçava, rolava, oracular e majestosa:</p>
+
+<p>&mdash;<em>¿Quem não admirará os progressos dêste século?</em></p>
+
+<p>Enervados, retiramos para uma sala distante, pesadamente revestida de panos
+de Arraz. Em vão! A voz de Pinto Pôrto lá estava, entre os panos de Arraz,
+implacável e rotunda:</p>
+
+<p>&mdash;<em>¿Quem não admirará os progressos dêste século?</em></p>
+
+<p>Furiosos, enterramos uma almofada na bôca do fonógrafo, atiramos por cima
+mantas, cobertores espessos, para sufocar a voz abominável. Em vão! sob a
+mordaça, sob as grossas lãs, a voz rouquejava, surda mas oracular:</p>
+
+<p>&mdash;<em>¿Quem não admirará os progressos dêste século?</em></p>
+
+<p>As amáveis Gouveias tinham abalado, apertando desesperadamente os chales
+sôbre a cabeça. Mesmo à cozinha, onde nos refugiamos, a voz descia, engasgada e
+gosmosa:</p>
+
+<p>&mdash;<em>¿Quem não admirará os progressos dêste século?</em><span class="pn">{87}</span></p>
+
+<p>Fugimos espavoridos para a rua.</p>
+
+<p>Era de madrugada. Um fresco bando de raparigas, de volta das fontes, passava
+cantando com braçados de flores:</p>
+
+
+<blockquote>
+ Todas as ervas são bentas <br>
+ Em manhã de S. João... </blockquote>
+
+<p>Jacinto, respirando o ar matinal, limpava as bagas lentas do suor.
+Recolhemos ao <em>Jasmineiro</em>, com o sol já alto, já quente. Muito de manso
+abrimos as portas, como no receio de despertar <em>alguêm</em>. Horror! Logo da
+ante-câmara percebemos sons estrangulados, roufenhos: «<em>admirará...</em>
+<em>progressos...</em> <em>século!...</em>» Só de tarde um electricista pôde
+emmudecer aquele fonógrafo horrendo.</p>
+
+<p>Bem mais aprazível (para mim) do que esse gabinete temerosamente atulhado de
+civilização&mdash;era a sala de jantar, pelo seu arranjo compreensível, fácil e
+íntimo. À mesa só cabiam seis amigos que Jacinto escolhia com critério na
+literatura, na arte e na metafísica, e que, entre as tapeçarias de Arraz,
+representando colinas, pomares e portos da Ática cheias de classicismo e de
+luz, renovavam ali repetidamente banquetes que, pela sua intelectualidade,
+lembravam os de Platão. Cada garfada se cruzava com um pensamento ou com
+palavras<span class="pn">{88}</span> dextramente arranjadas em forma de pensamento.</p>
+
+<p>E a cada talher correspondiam seis garfos, todos de feitios dissemelhantes e
+astuciosos:&mdash;um para as ostras, outro para o peixe, outro para as carnes, outro
+para os legumes, outro para a fruta, outro para o queijo. Os copos, pela
+diversidade dos contornos e das côres, faziam, sôbre a toalha mais reluzente
+que esmalte, como ramalhetes silvestres espalhados por cima de neve. Mas
+Jacinto e os seus filósofos, lembrando o que o experiente Salomão ensina sôbre
+as ruínas e amarguras do vinho, bebiam apenas em três gotas de água uma gota de
+Bordeus (Chateaubriand, 1860). Assim o recomendam&mdash;Hesíodo no seu
+<em>Nereu</em>, e Diocles nas suas <em>Abelhas</em>. E de águas havia sempre no
+<em>Jasmineiro</em> um luxo redundante&mdash;águas geladas, águas carbonatadas,
+águas esterilizadas, águas gasosas, águas de sais, águas minerais, outras
+ainda, em garrafas sérias, com tratados terapêuticos impressos no rótulo... O
+cozinheiro, mestre Sardão, era daqueles que Anaxágoras equiparava aos
+Retóricos, aos oradores, a todos os que sabem a arte divina de «temperar e
+servir a Idea»: e em Sybaris, cidade do Viver Excelente, os magistrados teriam
+votado a mestre Sardão, pelas festas de Juno Lacina, a coroa de fôlhas de ouro
+e a túnica Milésia que se devia aos bemfeitores cívicos.<span class="pn">{89}</span> A sua sopa de
+alcachofra e ovas de carpa; os seus filetes de veado macerados em vélho Madeira
+com <em>purée</em> de nozes; as suas amoras geladas em éter, outros acepipes
+ainda, numerosos e profundos (e os únicos que tolerava o meu Jacinto) eram
+obras de um artista, superior pela abundância das ideas novas&mdash;e juntavam
+sempre a raridade do sabor à magnificência da forma. Tal prato dêsse mestre
+imcomparável, parecia, pela ornamentação, pela graça florida dos lavores, pelo
+arranjo dos coloridos frescos e cantantes, uma joia esmaltada do cinzel de
+Cellini ou Meurice. Quantas tardes eu desejei fotografar aquelas composições de
+excelente fantasia, antes que o trinchante as retalhasse! E esta superfinidade
+do comer condizia deliciosamente com a do servir. Por sôbre um tapete, mais
+fôfo e mole que o musgo da floresta da Brocelândia, deslizavam, como sombras
+fardadas de branco, cinco criados e um pagem preto, à maneira vistosa do
+século XVIII. As travessas (de prata) subiam da cozinha e da copa por dous
+ascensores, um para as iguarias quentes, forrado de tubos onde a água fervia;
+outro, mais lento, para as iguarias frias, forrado de zinco, amónia e sal, e
+ambos escondidos por flores tam densas e viçosas que era como se até a sopa
+saísse fumegando dos românticos jardins de Armida. E muito bem me lembro de um
+domingo de maio em que, jantando<span class="pn">{90}</span> com Jacinto um bispo, o erudito bispo de
+Chorazin, o peixe emperrou no meio do ascensor, sendo necessário que acudissem,
+para o extrair, pedreiros com alavancas.</p>
+
+
+<h2><a name="SECTION000420">II</a> </h2>
+
+<p>Nas tardes em que havia «banquete de Platão» (que assim denominávamos essas
+festas de trutas e ideas gerais), eu, vizinho e íntimo, aparecia ao declinar do
+sol, e subia familiarmente aos quartos do nosso Jacinto&mdash;onde o encontrava
+sempre incerto entre as suas casacas, porque as usava alternadamente de sêda,
+de pano, de flanelas Jaegher, e de <em>foulard</em> das Índias. O quarto
+respirava o frescor e aroma do jardim por duas vastas janelas, providas
+magnificamente (alêm das cortinas de sêda mole Luís XV) de uma vidraça exterior
+de cristal inteiro, duma vidraça interior de cristais miudos, dum tôldo rolando
+na cimalha, dum estore de sedinha frouxa, de gases que franziam e se enrolavam
+como nuvens, e duma gelosia móvel de gradaria mourisca. Todos êstes resguardos
+(sábia invenção de Holland &amp; C.ª, de Londres) serviam a guardar a luz e o
+ar&mdash;segundo os avisos de termómetros, barómetros e higrómetros, montados em
+ébano, e a que um<span class="pn">{91}</span> meteorologista (Cunha Guedes) vinha, todas as semanas,
+verificar a precisão.</p>
+
+<p>Entre estas duas varandas rebrilhava a mesa de <em>toilette</em>, uma mesa
+enorme de vidro, toda de vidro, para a tornar impenetrável aos micróbios, e
+coberta de todos êsses utensílios de asseio e alinho que o homem do século XIX
+necessita numa capital, para não desfear o conjunto suntuário da civilização.
+Quando o nosso Jacinto, arrastando as suas engenhosas chinelas de pelica e
+sêda, se acercava desta ara&mdash;eu, bem aconchegado num divã, abria com indolência
+uma Revista, ordináriamente a <em>Revista Electro-Pática</em>, ou a das
+<em>Indagações Psíquicas</em>. E Jacinto começava... Cada um dêsses utensílios
+de aço, de marfim, de prata, impunham ao meu amigo, pela influência
+omnipoderosa que as cousas exercem sôbre o dono (<em>sunt tyranniæ rerum</em>)
+o dever de o utilizar com aptidão e deferência. E assim as operações do
+alindamento de Jacinto apresentavam a prolixidade, reverente e insuprimível,
+dos ritos dum sacrifício.</p>
+
+<p>Começava pelo cabelo... Com uma escôva chata, redonda e dura, acamava o
+cabelo, corredio e louro, no alto, aos lados da risca; com uma escôva estreita
+e recurva, à maneira do alfange dum persa, ondeava o cabelo sôbre a orelha; com
+uma escôva côncava, em forma de telha, empastava o cabelo, por trás, sôbre
+a<span class="pn">{92}</span> nuca... Respirava e sorria. Depois, com uma escôva de longas cerdas,
+fixava o bigode; com uma escôva leve e flácida acurvava as sobrancelhas; com
+uma escôva feita de penugem regularizava as pestanas. E dêste modo Jacinto
+ficava diante do espelho, passando pêlos sôbre o seu pêlo, durante catorze
+minutos.</p>
+
+<p>Penteado e cansado, ia purificar as mãos. Dois criados, ao fundo, manobravam
+com perícia e vigor os aparelhos do lavatório&mdash;que era apenas um resumo dos
+maquinismos monumentais da sala de banho. Ali, sôbre o mármore verde e róseo do
+lavatório, havia apenas duas duches (quente e fria) para a cabeça; quatro
+jactos, graduados desde <em>zero até cem graus</em>; o vaporizador de perfumes;
+a fonte de água esterilizada (para os dentes); o repuxo para a barba; e ainda
+torneiras que rebrilhavam e botões de ébano que, de leve roçados, desencadeavam
+o marulho e o estridor de torrentes nos Alpes... Nunca eu, para molhar os
+dedos, me cheguei àquele lavatório sem terror&mdash;escarmentado da tarde amarga de
+janeiro em que bruscamente, dessoldada a torneira, o jacto de água a <em>cem
+graus</em> rebentou, silvando e fumegando, furioso, devastador... Fugimos
+todos, espavoridos. Um clamor atroou o <em>Jasmineiro</em>. O vélho Grilo,
+escudeiro que fôra do Jacinto pai, ficou coberto de empôlas na face, nas mãos
+fieis.<span class="pn">{93}</span></p>
+
+<p>Quando Jacinto acabava de se enxugar laboriosamente a toalhas de felpo, de
+linho, de corda entrançada (para restabelecer a circulação), de sêda frouxa
+(para lustrar a pele) bocejava, com um bocejo cavo e lento.</p>
+
+<p>E era êste bocejo, perpétuo e vago, que nos inquietava a nós, seus amigos e
+filósofos. ¿Que faltava a êste homem excelente? Êle tinha a sua inabalável
+saúde de pinheiro bravo, crescido nas dunas; uma luz da inteligência, própria a
+tudo alumiar, firme e clara sem tremor ou morrão; quarenta magníficos contos de
+renda; todas as simpatias duma cidade chasqueadora e scéptica; uma vida varrida
+de sombras, mais liberta e lisa do que um céu de verão... E todavia bocejava
+constantemente, palpava na face, com os dedos finos, a palidez e as rugas. Aos
+trinta anos Jacinto corcovava, como sob um fardo injusto! E pela morosidade
+desconsolada de toda a sua acção parecia ligado, desde os dedos até à vontade,
+pelas malhas apertadas duma rêde que se não via e que o travava. Era doloroso
+testemunhar o fastio com que êle, para apontar um enderêço, tomava o seu lápis
+pneumático, a sua pena eléctrica&mdash;ou, para avisar o cocheiro, apanhava o tubo
+telefónico!... Neste mover lento do braço magro, nos vincos que lhe
+arrepanhavam o nariz, mesmo nos seus silêncios, longos e derreados, se sentia o
+brado constante<span class="pn">{94}</span> que lhe ia na alma;&mdash;<em>Que massada! Que massada!</em>
+Claramente a vida era para Jacinto um cansaço&mdash;ou por laboriosa e difícil, ou
+por desinteressante e ôca... Por isso o meu pobre amigo procurava
+constantemente juntar à sua vida novos interêsses, novas facilidades. Dois
+inventores, homens de muito zêlo e pesquiza estavam encarregados, um em
+Inglaterra, outro na América, de lhe noticiar e de lhe fornecer todas as
+invenções, as mais miudas, que concorressem a aperfeiçoar a confortabilidade do
+<em>Jasmineiro</em>. De resto, êle proprio se correspondia com Edison. E, pelo
+lado do pensamento, Jacinto não cessava tambêm de buscar interêsses e emoções
+que o reconciliassem com a vida&mdash;penetrando à cata dessas emoções e dêsses
+interêsses pelas veredas mais desviadas do saber, a ponto de devorar, desde
+janeiro a março, setenta e sete volumes sôbre a <em>evolução das ideas morais
+entre as raças negróides</em>. Ah! nunca homem dêste século batalhou mais
+esforçadamente contra a <em>séca de viver</em>! Debalde! Mesmo de explorações
+tam cativantes como essa, através da moral dos negróides, Jacinto regressava
+mais murcho, com bocejos mais cavos!</p>
+
+<p>E era então que êle se refugiava intensamente na leitura de Schopenhauer e
+do <em>Eclesiastes</em>. Porque? Sem dúvida porque ambos êsses pessimistas o
+confirmavam nas conclusões<span class="pn">{95}</span> que êle tirava de uma experiência paciente e
+rigorosa: «que tudo é vaidade ou dor, que quanto mais se sabe, mais se péna, e
+que ter sido rei de Jerusalêm e obtido os gózos todos na vida só leva a maior
+amargura...» ¿Mas porque rolara assim a tam escura desilusão&mdash;o saùdável, rico,
+sereno e intelectual Jacinto? O vélho escudeiro Grilo pretendia que «S. Ex.ª
+sofria de fartura!»</p>
+
+
+<h2><a name="SECTION000430">III</a> </h2>
+
+<p>Ora justamente depois dêsse inverno, em que êle se embrenhara na moral dos
+negróides e instalara a luz eléctrica entre os arvoredos do jardim, sucedeu que
+Jacinto teve a necessidade moral iniludível de partir para o Norte, para o seu
+vélho solar de Torges. Jacinto não conhecia Torges, e foi com desusado tédio
+que êle se preparou, durante sete semanas, para essa jornada agreste. A quinta
+fica nas serras&mdash;e a rude casa solarenga, onde ainda resta uma tôrre do século
+XV, estava ocupada, havia trinta anos, pelos caseiros, boa gente de trabalho,
+que comia o seu caldo entre a fumaraça da lareira, e estendia o trigo a secar
+nas salas senhoriais.<span class="pn">{96}</span></p>
+
+<p>Jacinto, logo nos começos de março, escrevera cuidadosamente ao seu
+procurador Sousa, que habitava a aldeia de Torges, ordenando-lhe que compuzesse
+os telhados, caiasse os muros, envidraçasse as janelas. Depois mandou expedir,
+por combóios rápidos, em caixotes que transpunham a custo os portões do
+<em>Jasmineiro</em>, todos os confortos necessários a duas semanas de
+montanha&mdash;camas de penas, poltronas, divãs, lâmpadas de Carcel, banheiras de
+níquel, tubos acústicos para chamar os escudeiros, tapetes persas para amaciar
+os soalhos. Um dos cocheiros partiu com um copé, uma vitória, um breque, mulas
+e guizos.</p>
+
+<p>Depois foi o cozinheiro, com a bateria, a garrafeira, a geleira, bocais de
+trufas, caixas profundas de águas mineráis. Desde o amanhecer, nos pátios
+largos do palacete, se pregava, se martelava, como na construção de uma cidade.
+E as bagagens, desfilando, lembravam uma página de Heródoto ao narrar a invasão
+persa. Jacinto emmagrecera com os cuidados daquele Êxodo. Por fim, largamos
+numa manhã de junho, com o Grilo, e trinta e sete malas.</p>
+
+<p>Eu acompanhava Jacinto, no meu caminho para Guiães, onde vive minha tia, a
+uma légua farta de Torges: e íamos num vagom reservado, entre vastas almofadas,
+com perdizes e Champanhe num cêsto. A meio da jornada<span class="pn">{97}</span> devíamos mudar de
+combóio&mdash;nessa estação, que tem um nome sonoro em <em>ola</em> e um tam suave e
+cândido jardim de roseiras brancas. Era domingo de imensa poeira e sol&mdash;e
+encontrámos aí, enchendo a plata-forma estreita, todo um povaréu festivo que
+vinha da romaria de S. Gregório da Serra.</p>
+
+<p>Para aquele trasbôrdo, em tarde de arraial, o horário só nos concedia três
+minutos avaros. O outro combóio já esperava, rente aos alpendres, impaciente e
+silvando. Uma sineta badalava com furor. E, sem mesmo atender às lindas môças
+que ali saracoteavam, aos bandos, afogueadas, de lenços flamejantes, o seio
+farto coberto de ouro, e a imagem do santo espetada no chapéu&mdash;corremos,
+empurrámos, furámos, saltámos para o outro vagom, já reservado, marcado por um
+cartão com as iniciais de Jacinto. Imediatamente o trem rolou. Pensei então no
+nosso Grilo, nas trinta e sete malas! E debruçado da portinhola avistei ainda
+junto ao cunhal da estação, sob os eucaliptos, um monte de bagagens, e homens
+de boné agaloado que, diante delas, bracejavam com desespêro.</p>
+
+<p>Murmurei, recaindo nas almofadas:</p>
+
+<p>&mdash;Que serviço!</p>
+
+<p>Jacinto, ao canto, sem descerrar os olhos, suspirou:</p>
+
+<p>&mdash;Que massada!<span class="pn">{98}</span></p>
+
+<p>Toda uma hora deslizamos lentamente entre trigais e vinhedo; e ainda o sol
+batia nas vidraças, quente e poeirento, quando chegamos à estação de Gondim,
+onde o procurador de Jacinto, o excelente Sousa, nos devia esperar com cavalos
+para treparmos a serra até ao solar de Torges. Por trás do jardim da estação,
+todo florido tambêm de rosas e margaridas, Jacinto reconheceu logo as suas
+carruagens ainda empacotadas em lona.</p>
+
+<p>Mas quando nos apeamos no pequeno cais branco e fresco&mdash;só houve em tôrno de
+nós solidão e silêncio. Nem procurador, nem cavalos! O chefe da estação, a quem
+eu perguntara com ansiedade «se não aparecera ali o snr. Sousa, se não conhecia
+o snr. Sousa», tirou afavelmente o seu boné de galão. Era um moço gordo e
+redondo, com côres de maçã camoesa, que trazia sob o braço um volume de versos.
+«Conhecia perfeitamente o snr. Sousa! Três semanas antes jogara êle a manilha
+com o snr. Sousa! Nessa tarde porêm, infelizmente, não avistara o snr. Sousa!»
+O comboio desaparecera por detrás das fragas altas que ali pendem sôbre o rio.
+Um carregador enrolava o cigarro, assobiando. Rente da grade do jardim, uma
+vélha, toda de negro, dormitava agachada no chão, diante duma cêsta de ovos. ¿E
+o nosso Grilo, e as nossas bagagens?... O chefe encolheu risonhamente os ombros
+nédios.<span class="pn">{99}</span> Todos os nossos bens tinham encalhado, de-certo, naquela estação
+de roseiras brancas que tem um nome sonoro em <em>ola</em>. E nós ali
+estávamos, perdidos na serra agreste, sem procurador, sem cavalos, sem Grilo,
+sem malas.</p>
+
+<p>¿Para que esfiar miudamente o lance lamentável? Ao pé da estação, numa
+quebrada da serra, havia um casal foreiro à quinta, onde alcançamos, para nos
+levarem e nos guiarem a Torges, uma égua lazarenta, um jumento branco, um rapaz
+e um podengo. E aí começamos a trepar, enfastiadamente, êsses caminhos
+agrestes&mdash;os mesmos, de-certo, por onde vinham e iam, de monte a rio, os
+Jacintos do século XV. Mas, passada uma trémula ponte de pau que galga um
+ribeiro todo quebrado por fragas (e onde abunda a truta adorável) os nossos
+males esqueceram, ante a inesperada, incomparável beleza daquela terra bemdita.
+O divino artista que está nos céus compuzera, certamente, êsse monte numa das
+suas manhãs de mais solene e bucólica inspiração.</p>
+
+<p>A grandeza era tanta como a graça... Dizer os vales fôfos de verdura, os
+bosques quási sacros, os pomares cheirosos e em flor, a frescura das águas
+cantantes, as ermidinhas branqueando nos altos, as rochas musgosas, o ar de uma
+doçura de paraíso, toda a majestade e toda a lindeza&mdash;não é para mim, homem de
+pequena arte. Nem creio mesmo que fôsse para<span class="pn">{100}</span> mestre Horácio. ¿Quem pode
+dizer a beleza das cousas, tam simples e inexprímivel? Jacinto adiante, na égua
+tarda, murmurava:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! que beleza!</p>
+
+<p>Eu atrás, no burro, com as pernas bambas, murmurava:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! que beleza!</p>
+
+<p>Os espertos regatos riam, saltando de rocha em rocha. Finos ramos de
+arbustos floridos roçavam as nossas faces, com familiaridade e carinho. Muito
+tempo um melro nos seguiu, de choupo para castanheiro, assobiando os nossos
+louvores. Serra bem acolhedora e amável... Ah! que beleza!</p>
+
+<p>Por entre <em>ahs</em> maravilhados chegamos a uma avenida de faias, que nos
+pareceu clássica e nobre. Atirando uma nova vergastada ao burro e à égua, o
+nosso rapaz, com o seu podengo ao lado, gritava:</p>
+
+<p>&mdash;Aqui é que estêmos!</p>
+
+<p>E ao fundo das faias havia, com efeito, um portão de quinta, que um escudo
+de armas de vélha pedra, roída de musgo, grandemente afidalgava. Dentro já os
+cães ladravam com furor. E mal Jacinto, e eu atrás dêle no burro de Sancho,
+transpuzemos o limiar solarengo, correu para nós, do alto da escadaria, um
+homem branco, rapado como um clérigo, sem colete, sem jaleca, que erguia para o
+ar, num assombro, os braços desolados. Era o caseiro,<span class="pn">{101}</span> o Zé Brás. E logo
+ali, nas pedras do pátio, entre o latir dos cães, surdiu uma tumultuosa
+história, que o pobre Brás balbuciava, aturdido, e que enchia a face de Jacinto
+de lividez e de cólera. O caseiro não esperava S. Ex.ª Ninguêm esperava S. Ex.ª
+(Êle dizia <em>sua inselência</em>).</p>
+
+<p>O procurador, o snr. Sousa, estava para a raia desde maio, a tratar a mãe
+que levára um couce de mula. E de-certo houvera engano, cartas perdidas...
+Porque o snr. Sousa só contava com S. Ex.ª... em setembro, para a vindima. Na
+casa nenhuma obra começára. E, infelizmente para S. Ex.ª, os telhados ainda
+estavam sem telhas, e as janelas sem vidraças...</p>
+
+<p>Cruzei os braços, num justo espanto. ¿Mas os caixotes&mdash;êsses caixotes
+remetidos para Torges, com tanta prudência, em abril, repletos de colchões, de
+regalos, de civilização?... O caseiro, vago, sem compreender, arregalava os
+olhos miudos onde já bailavam lágrimas. Os caixotes?! Nada chegára, nada
+aparecera. E na sua perturbação o Zé Brás procurava entre as arcadas do pátio,
+nas algibeiras das pantalonas... Os caixotes? Não, não tinha os caixotes!</p>
+
+<p>Foi então que o cocheiro de Jacinto (que trouxera os cavalos e as
+carruagens) se acercou, gravemente. Êsse era um civilizado&mdash;e<span class="pn">{102}</span> acusou
+logo o govêrno. Já quando êle servia o snr. visconde de S. Francisco se tinham
+assim perdido, por desleixo do govêrno, da cidade para a serra, dous caixotes
+com vinho vélho da Madeira, e roupa branca de senhora. Por isso êle,
+escarmentado, sem confiança na nação, não largára as carruagens&mdash;e era tudo o
+que restava a S. Ex.ª: o breque, a vitória, o copé e os guizos. Sómente,
+naquela rude montanha, não havia estradas onde elas rolassem. E como só podiam
+subir para a quinta em grandes carros de bois&mdash;êle lá as deixára em baixo, na
+estação, quietas, empacotadas na lona...</p>
+
+<p>Jacinto ficára plantado diante de mim, com as mãos nos bolsos:</p>
+
+<p>&mdash;E agora?</p>
+
+<p>Nada restava senão recolher, cear o caldo do tio Zé Brás, e dormir nas
+palhas que os fados nos concedessem. Subimos. A escadaria nobre conduzia a uma
+varanda, toda coberta, em alpendre, acompanhando a fachada do casarão e ornada,
+entre os seus grossos pilares de granito, por caixotes cheios de terra, em que
+floriam cravos. Colhi um cravo. Entramos. E o meu pobre Jacinto contemplou,
+emfim, as salas do seu solar! Eram enormes, com as altas paredes rebocadas a
+cal que o tempo e o abandôno tinham ennegrecido, e vazias, desoladamente nuas,
+oferecendo apenas como vestígio<span class="pn">{103}</span> de habitação e de vida, pelos cantos
+algum monte de cestos ou algum mólho de enxadas. Nos tetos remotos de carvalho
+negro alvejavam manchas&mdash;que era o céu já pálido do fim da tarde, surpreendido
+através dos buracos do telhado. Não restava uma vidraça. Por vezes, sob os
+nossos passos, uma tábua pôdre rangia e cedia.</p>
+
+<p>Paramos, emfim, na última, a mais vasta, onde havia duas arcas tulheiras
+para guardar o grão; e aí depuzemos, melancólicamente, o que nos ficára de
+trinta e sete malas&mdash;os paletós alvadios, uma bengala e um <em>Jornal da
+Tarde</em>. Através das janelas desvidraçadas, por onde se avistavam copas de
+arvoredos e as serras azuis de alêm-rio, o ar entrava, montesino e largo,
+circulando plenamente como em um eirado, com aromas de pinheiro bravo. E, lá
+debaixo, dos vales, subia, desgarrada e triste, uma voz de pegureira cantando.
+Jacinto balbuciou:</p>
+
+<p>&mdash;É horroroso!</p>
+
+<p>Eu murmurei:</p>
+
+<p>&mdash;É campestre!<span class="pn">{104}</span></p>
+
+
+<h2><a name="SECTION000440">IV</a> </h2>
+
+<p>O Zé Brás, no entanto, com as mãos na cabeça, desaparecera a ordenar a ceia
+para <em>suas inselências</em>. O pobre Jacinto, esbarrondado pelo desastre,
+sem resistência contra aquele brusco desaparecimento de toda a civilização,
+caíra pesadamente sôbre o poial duma janela, e daí olhava os montes. E eu, a
+quem aqueles ares serranos e o cantar do pegureiro sabiam bem, terminei por
+descer à cozinha, conduzido pelo cocheiro, através de escadas e becos onde a
+escuridão vinha menos do crepúsculo do que de densas teias de aranha.</p>
+
+<p>A cozinha era uma espessa massa de tons e formas negras, côr de fuligem,
+onde refulgia ao fundo, sôbre o chão de terra, uma fogueira vermelha que lambia
+grossas panelas de ferro, e se perdia em fumarada pela grade escassa que no
+alto coava a luz. Aí um bando alvoroçado e palreiro de mulheres depenava
+frangos, batia ovos, escarolava arroz, com santo fervor... Do meio delas o bom
+caseiro, estonteado, investiu para mim jurando que «a ceia de <em>suas
+inselências</em> não demorava um credo». E como eu o interrogava a respeito
+de<span class="pn">{105}</span> camas, o digno Brás teve um murmúrio vago e tímido sobre
+«enxergasinhas no chão».</p>
+
+<p>&mdash;É o que basta, snr. Zé Brás&mdash;acudi eu para o consolar.</p>
+
+<p>&mdash;Pois assim Deus seja servido!&mdash;suspirou o homem excelente, que
+atravessava, nessa hora, o transe mais amargo da sua vida serrana.</p>
+
+<p>Voltando a cima, com estas consolantes novas de ceia e cama, encontrei ainda
+o meu Jacinto no poial da janela, embebendo-se todo da doce paz crepuscular,
+que lenta e caladamente se estabelecia sôbre vale e monte. No alto já
+tremeluzia uma estrêla, a Vesper diamantina, que é tudo o que neste céu cristão
+resta do esplendor corporal de Vénus! Jacinto nunca considerára bem aquela
+estrêla&mdash;nem assistira a êste majestoso e doce adormecer das cousas. Êsse
+ennegrecimento de montes e arvoredos, casais claros fundindo-se na sombra, um
+toque dormente de sino que vinha pelas quebradas, o cochichar das águas entre
+relvas baixas&mdash;eram para êle como iniciações. Eu estava defronte, no outro
+poial. E senti-o suspirar como um homem que emfim descansa.</p>
+
+<p>Assim nos encontrou nesta contemplação o Zé Brás, com o doce aviso de que
+estava na mesa a <em>ceiasinha</em>. Era adiante, noutra sala mais nua, mais
+negra. E aí, o meu supercivilizado<span class="pn">{106}</span> Jacinto recuou com um pavor genuíno.
+Na mesa de pinho, recoberta com uma toalha de mãos, encostada à parede sórdida,
+uma vela de cebo meio derretida num castiçal de latão, alumiava dous pratos de
+louça amarela, ladeados por colheres de pau e por garfos de ferro. Os copos, de
+vidro, grosso e baço, conservavam o tom rôxo do vinho que neles passára em
+fartos anos de fartas vindimas. O covilhete de barro com as azeitonas
+deleitaria, pela sua singeleza ática, o coração de Diógenes. Na larga brôa
+estava cravado um facalhão... Pobre Jacinto!</p>
+
+<p>Mas lá abancou resignado, e muito tempo, pensativamente, esfregou com o seu
+lenço o garfo negro e a colher de pau. Depois, mudo, desconfiado, provou um
+gole curto do caldo, que era de galinha e rescendia. Provou, e levantou para
+mim, seu companheiro e amigo, uns olhos largos que luziam, surpreendidos.
+Tornou a sorver uma colherada de caldo, mais cheia, mais lenta... E sorriu,
+murmurando com espanto:</p>
+
+<p>&mdash;Está bom!</p>
+
+<p>Estava realmente bom: tinha figado e tinha moela: o seu perfume enternecia.
+Eu, três vezes, com energia, ataquei aquele caldo: foi Jacinto que rapou a
+sopeira. Mas já, arredando a brôa, arredando a vela, o bom Zé Brás pousára na
+mesa uma travessa vidrada,<span class="pn">{107}</span> que transbordava de arroz com favas. Ora,
+a-pesar da fava (que os gregos chamaram <em>cibória</em>) pertencer às épocas
+superiores da civilização, e promover tanto a sapiência que havia em Sycio, na
+Galácia, um templo dedicado a Minerva Ciboriana&mdash;Jacinto sempre detestára
+favas. Tentou todavia uma garfada tímida. De novo os seus olhos, alargados pelo
+assombro, procuravam os meus. Outra garfada, outra concentração... E eis que o
+meu dificíllimo amigo exclama:</p>
+
+<p>&mdash;Está ótimo!</p>
+
+<p>¿Eram os picantes ares da serra? ¿Era a arte deliciosa daquelas mulheres que
+em baixo remexiam as panelas, cantando o <em>Vira</em>, <em>meu bem</em>? Não
+sei:&mdash;mas os louvores de Jacinto a cada travessa foram ganhando em amplidão e
+firmeza. E diante do frango louro, assado no espêto de pau, terminou por
+bradar:</p>
+
+<p>&mdash;Está divino!</p>
+
+<p>Nada porêm o entusiasmou como o vinho, o vinho caíndo de alto, da grossa
+caneca verde, um vinho gostoso, penetrante, vivo, quente, que tinha em si mais
+alma que muito poema ou livro santo! Mirando à luz de cebo o copo rude que êle
+orlava de espuma, eu recordava o dia geórgico em que Virgílio, em casa de
+Horácio, sob a ramada, cantava o fresco palhete da Rética. E Jacinto, com uma
+côr<span class="pn">{108}</span> que eu nunca vira na sua palidez schopenháurica, sussurrou logo o
+doce verso:</p>
+
+
+<blockquote>
+ <em>Rethica quò te carmina dicat.</em> </blockquote>
+
+<p>¿Quem dignamente te cantará, vinho daquelas serras?!</p>
+
+<p>Assim jantamos deliciosamente, sob os auspícios do Zé Brás. E depois
+voltamos para as alegrias únicas da casa, para as janelas desvidraçadas, a
+contemplar silenciosamente um suntuoso céu de verão, tam cheio de estrêlas que
+todo êle parecia uma densa poeirada de oiro vivo, suspensa, imóvel, por cima
+dos montes negros. Como eu observei ao meu Jacinto, na cidade nunca se olham os
+astros por causa dos candieiros&mdash;que os ofuscam: e nunca se entra por isso numa
+completa comunhão com o universo. O homem nas capitais pertence à sua casa, ou
+se o impelem fortes tendências de sociabilidade, ao seu bairro. Tudo o isola e
+o separa da restante natureza&mdash;os prédios obstrutores de seis andares, a fumaça
+das chaminés, o rolar moroso e grosso dos ónibus, a trama encarceradora da vida
+urbana... Mas que diferença, num cimo de monte, como Torges! Aí todas essas
+belas estrelas olham para nós de pérto, rebrilhando, à maneira de olhos
+conscientes, umas fixamente, com sublime indiferença,<span class="pn">{109}</span> outras
+ansiosamente, com uma luz que palpita, uma luz que chama, como se tentassem
+revelar os seus segredos ou compreender os nossos... E é impossível não sentir
+uma solidariedade perfeita entre êsses imensos mundos e os nossos pobres
+corpos. Todos somos obra da mesma vontade. Todos vivemos da acção dessa vontade
+imanente. Todos, portanto, desde os Uranos até aos Jacintos, constituimos modos
+diversos de um ser único, e através das suas transformações somamos na mesma
+unidade. Não há idea mais consoladora do que esta&mdash;que eu, e tu, e aquele
+monte, e o sol que agora se esconde, somos moléculas do mesmo Todo, governadas
+pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim. Desde logo se sómem as
+responsabilidades torturantes do individualismo. ¿Que somos nós? Formas sem
+fôrça, que uma Fôrça impele. E há um descanso delicioso nesta certeza, mesmo
+fugitiva, de que se é o grão de pó irresponsável e passivo que vai levado no
+grande vento, ou a gota perdida na torrente! Jacinto concordava, sumido na
+sombra. Nem êle nem eu sabíamos os nomes dêsses astros admiráveis. Eu, por
+causa da maciça e indesbastável ignorância de bacharel, com que saí do ventre
+de Coímbra, minha mãe espiritual. Jacinto, porque na sua ponderosa biblioteca
+tinha <em>trezentos e dezoito</em> tratados sôbre astronomia! ¿Mas<span class="pn">{110}</span> que
+nos importava, de resto, que aquele astro alêm se chamasse Sírius e aquele
+outro Aldebaran? ¿Que lhes importava a êles que um de nós fôsse José e o outro
+Jacinto? Éramos formas transitórias do mesmo ser eterno&mdash;e em nós havia o mesmo
+Deus. E se êles tambêm assim o compreendiam, estávamos ali, nós à janela num
+casarão serrano, êles no seu maravilhoso infinito, perfazendo um acto
+sacrossanto, um perfeito acto de Graça&mdash;que era sentir conscientemente a nossa
+unidade, e realizar, durante um instante, na consciência, a nossa divinização.
+</p>
+
+<p>Assim ennevoadamente filosofávamos&mdash;quando Zé Brás, com uma candeia na mão,
+veio avisar que «estavam preparadas as camas de <em>suas inselências...</em>»
+Da idealidade descemos gostosamente à realidade, ¿e que vimos então nós, os
+irmãos dos astros? Em duas salas tenebrosas e côncavas, duas enxergas, postas
+no chão, a um canto, com duas cobertas de chita; à cabeceira um castiçal de
+latão, pousado sôbre um alqueire: e aos pés, como lavatório, um alguidar
+vidrado em cima de uma cadeira de pau!</p>
+
+<p>Em silêncio, o meu super-civilizado amigo palpou a sua enxerga e sentiu nela
+a rigidez dum granito. Depois, correndo pela face descaída os dedos murchos,
+considerou que, perdidas as suas malas, não tinha nem chinelas<span class="pn">{111}</span> nem
+roupão! E foi ainda o Zé Brás que providenciou, trazendo ao pobre Jacinto, para
+êle desafogar os pés, uns tremendos tamancos de pau, e para êle embrulhar o
+corpo, docemente educado em Sybaris, uma camisa da caseira, enorme, de estopa
+mais aspera que estamenha de penitente, e com folhos crespos e duros como
+lavores em madeira... Para o consolar, lembrei que Platão, quando compunha o
+<em>Banquete</em>, Xenofonte, quando comandava os Dez Mil, dormiam em piores
+catres. As enxergas austeras fazem as fortes almas&mdash;e é só vestido de estamenha
+que se penetra no Paraíso.</p>
+
+<p>&mdash;¿Tem você&mdash;murmurou o meu amigo, desatento e sêco&mdash;alguma cousa que eu
+leia?.... Eu não posso adormecer sem ler!</p>
+
+<p>Eu possuia apenas o número do <em>Jornal da Tarde</em>, que rasguei pelo
+meio, e partilhei com êle fraternalmente. E quem não viu então Jacinto, senhor
+de Torges, acaçapado à borda da enxerga, junto da vela que pingava sôbre o
+alqueire, com os pés nus encafuados nos grossos sócos, perdido dentro da camisa
+da patrôa, toda em folhos, percorrendo na metade do <em>Jornal da Tarde</em>,
+com os olhos turvos, os anúncios dos paquetes&mdash;não pode saber o que é uma
+vigorosa e real imagem do desalento!</p>
+
+<p>Assim o deixei&mdash;e daí a pouco, estendido<span class="pn">{112}</span> na minha enxerga tambêm
+espartana, subia, através dum sonho jovial e erudito, ao planeta Vénus, onde
+encontrava, entre os olmos e os ciprestes, num vergel, Platão e Zé Brás, em
+alta camaradagem intelectual, bebendo o vinho da Rética pelos copos de Torges!
+Travámos todos três bruscamente uma controvérsia sôbre o século XIX. Ao longe,
+por entre uma floresta de roseiras mais altas que carvalhos, alvejavam os
+mármores duma cidade e ressoavam cantos sacros. Não recordo o que Xenofonte
+sustentou àcêrca da civilização e do fonógrafo. De repente tudo foi turbado por
+fuscas nuvens, através das quais eu distinguia Jacinto, fugindo num burro que
+êle impelia furiosamente com os calcanhares, com uma vergasta, com berros, para
+os lados do <em>Jasmineiro</em>!</p>
+
+
+<h2><a name="SECTION000450">V</a> </h2>
+
+<p>Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar Jacinto, que, com as mãos
+sôbre o peito, dormia plácidamente no seu leito de granito&mdash;parti para Guiães.
+E durante três quietas semanas, naquela vila onde se conservam os hábitos e as
+ideas do tempo de El-Rei<span class="pn">{113}</span> D. Dinís, não soube do meu desconsolado amigo,
+que de-certo fugira dos seus tetos esburacados e remergulhára na civilização.
+Depois, por uma abrasada manhã de agosto, descendo de Guiães, de novo trilhei a
+avenida de faias, e entrei o portão solarengo de Torges, entre o furioso latir
+dos rafeiros. A mulher do Zé Brás apareceu alvoroçada à porta da tulha. E a sua
+nova foi logo que o snr. D. Jacinto (em Torges, o meu amigo tinha dom) andava
+lá em baixo com o Sousa nos campos de Freixomil.</p>
+
+<p>&mdash;¿Então, ainda cá está o snr. D. Jacinto?!</p>
+
+<p><em>Sua inselência</em> ainda estava em Torges&mdash;e <em>sua inselência</em>
+ficava para a vindima!... Justamente eu reparava que as janelas do solar tinham
+vidraças novas; e a um canto do pátio pousavam baldes de cal; uma escada de
+pedreiro ficára arrimada contra a varanda; e num caixote aberto, ainda cheio de
+palha de empacotar, dormiam dois gatos.</p>
+
+<p>&mdash;E o Grilo apareceu?</p>
+
+<p>&mdash;O snr. Grilo está no pomar, à sombra.</p>
+
+<p>&mdash;Bem! e as malas?</p>
+
+<p>&mdash;O snr. D. Jacinto já tem o seu saquinho de couro...</p>
+
+<p>Louvado Deus! O meu Jacinto estava, emfim, provido de civilização! Subi
+contente. Na sala nobre, onde o soalho fôra composto e esfregado, encontrei uma
+mesa recoberta de<span class="pn">{114}</span> oleado, prateleiras de pinho com louça branca de
+Barcelos e cadeiras de palhinha, orlando as paredes muito caiadas que davam uma
+frescura de capela nova. Ao lado, noutra sala, tambêm de faiscante alvura,
+havia o confôrto inesperado de três cadeiras de vêrga da Madeira, com braços
+largos e almofadas de chita: sôbre a mesa de pinho, o papel almasso, o
+candieiro de azeite, as penas de pato espetadas num tinteiro de frade, pareciam
+preparadas para um estudo calmo e ditoso de humanidades: e na parede, suspensa
+de dois pregos, uma estantesinha continha quatro ou cinco livros, folheados e
+usados, o <em>D. Quixote</em>, um Virgílio, uma História de Roma, as Crónicas
+de Froissart. Adiante era certamente o quarto de D. Jacinto, um quarto claro e
+casto de estudante, com um catre de ferro, um lavatório de ferro, a roupa
+pendurada de cabides toscos. Tudo resplandecia de asseio e ordem. As janelas
+cerradas defendiam do sol de agosto, que escaldava fóra os peitoris de pedra.
+Do soalho, borrifado de água, subia uma fresquidão consoladora. Num vélho vaso
+azul um mólho de cravos alegrava e perfumava. Não havia um rumor. Torges dormia
+no esplendor da sésta. E envolvido naquele repouso de convento remoto, terminei
+por me estender numa cadeira de vêrga junto à mesa, abri lânguidamente o
+Virgílio, murmurando:<span class="pn">{115}</span></p>
+
+
+<blockquote>
+ <em>Fortunate Jacinthe! tu inter arva nota</em> <br>
+ <em>Et fontes sacros frigus captabis opacum.</em> </blockquote>
+
+<p>Já mesmo irreverentemente adormecera sôbre o divino bucolista, quando me
+despertou um brado amigo. Era o nosso Jacinto. E imediatamente o comparei a uma
+planta, meio murcha e estiolada no escuro, que fôra profusamente regada e
+revivera em pleno sol. Não corcovava. Sôbre a sua palidez de supercivilizado, o
+ar da serra ou a reconciliação com a vida tinham espalhado um tom trigueiro e
+forte que o virilizava soberbamente. Dos olhos, que na cidade eu lhe conhecera
+sempre crepusculares, saltava agora um brilho de meio dia, decidido e largo,
+que mergulhava francamente na beleza das cousas. Já não passava as mãos murchas
+sôbre a face&mdash;batia com elas rijamente na côxa... Que sei eu?! Era uma
+reincarnação. E tudo o que me contou, pisando alegremente com os sapatos
+brancos o soalho, foi que se sentira, ao fim de três dias em Torges, como
+desanuviado, mandára comprar um colchão macio, reùnira cinco livros, nunca
+lidos, e ali estava...</p>
+
+<p>&mdash;Para todo o verão ?</p>
+
+<p>&mdash;Para todo o sempre! E agora, homem das cidades, vem almoçar umas trutas
+que eu pesquei, e compreende emfim o que é o céu.<span class="pn">{116}</span></p>
+
+<p>As trutas eram, com efeito, celestes. E apareceu tambêm uma salada fria de
+couve-flor e vagens, e um vinho branco de Azães... ¿Mas quem condignamente vos
+cantará, comeres e beberes daquelas serras?</p>
+
+<p>De tarde, finda a calma, passeamos pelos caminhos, coleando a vasta quinta,
+que vai de vales a montes. Jacinto parava a contemplar com carinho os milhos
+altos. Com a mão espalmada e forte batia no tronco dos castanheiros, como nas
+costas de amigos recuperados. Todo o fio de água, todo o tufo de erva, todo o
+pé de vinha o ocupava como vidas filiais porque fôsse responsável. Conhecia
+certos melros que cantavam em certos choupos. Exclamava enternecido:</p>
+
+<p>&mdash;Que encanto, a flor do trevo!</p>
+
+<p>À noite, depois de um cabrito assado no forno, a que mestre Horácio teria
+dedicado uma Ode (talvez mesmo um Carme Heróico) conversamos sôbre o Destino e
+a Vida. Eu citei, com discreta malícia, Schopenhauer e o
+<em>Eclesiastes</em>... Mas Jacinto ergueu os ombros, com seguro desdêm. A sua
+confiança nesses dois sombrios explicadores da vida desaparecera, e
+irremediavelmente, sem poder mais voltar, como uma névoa que o sol espalha.
+Tremenda tolice! afirmar que a vida se compõe, meramente, duma longa ilusão&mdash;é
+erguer um aparatoso sistema sôbre um ponto especial<span class="pn">{117}</span> e estreito da vida,
+deixando fóra do sistema toda a vida restante, como uma contradição permanente
+e soberba. Era como se êle, Jacinto, apontando para uma ortiga, crescida
+naquele pátio, declarasse, triunfalmente:&mdash;«Aqui está uma ortiga! Toda a quinta
+de Torges, portanto, é uma massa de ortigas.»&mdash;Mas bastaria que o hóspede
+erguesse os olhos, para ver as searas, os pomares e os vinhedos!</p>
+
+<p>¿De resto, dêsses dois ilustres pessimistas, um o alemão, que conhecia êle
+da vida&mdash;dessa vida de que fizera, com doutoral majestade, uma teoria
+definitiva e dolente? Tudo o que pode conhecer quem, como êste genial farçante,
+viveu cincoenta anos numa soturna hospedaria da província, levantando apenas os
+óculos dos livros para conversar, à mesa redonda, com os alferes da guarnição!
+E o outro, o israelista, o homem dos <em>Cantares</em>, o muito pedantesco rei
+de Jerusalêm, só descobre que a vida é uma ilusão aos setenta e cinco anos,
+quando o poder lhe escapa das mãos trémulas, e o seu serralho de trezentas
+concubinas se torna ridículamente supérfluo à sua carcassa frígida. Um
+dogmatiza fúnebremente sôbre o que não sabe&mdash;e o outro sôbre o que não pode.
+¿Mas que se dê a êsse bom Schopenhauer uma vida tam completa e cheia como a de
+César, e onde estará o seu schopenhaurismo? ¿que se restitua a êsse sultão,
+besuntado de literatura,<span class="pn">{118}</span> que tanto edificou e professorou em Jerusalêm,
+a sua virilidade&mdash;e onde estará o <em>Eclesiastes</em>? ¿De resto, que importa
+bemdizer ou maldizer da vida? Afortunada ou dolorosa, fecunda ou vã, ela tem de
+ser vida. Loucos aqueles que, para a atravessar, se embrulham desde logo em
+pesados véus de tristeza e desilusão, de sorte que na sua estrada tudo lhe seja
+negrume, não só as léguas realmente escuras, mas mesmo aquelas em que scintila
+um sol amável. Na terra tudo vive&mdash;e só o homem sente a dor e a desilusão da
+vida. E tanto mais as sente, quanto mais alarga e acumula a obra dessa
+inteligência que o torna homem, e que o separa da restante natureza, impensante
+e inerte. É no máximo de civilização que êle experimenta o máximo de tédio. A
+sapiência, portanto, está em recuar até êsse honesto mínimo de civilização, que
+consiste em ter um teto de colmo, uma leira de terra e o grão para nela semear.
+Em resumo, para reaver a felicidade, é necessário regressar ao Paraíso&mdash;e ficar
+lá, quieto, na sua fôlha de vinha, inteiramente desguarnecido de civilização,
+contemplando o anho aos saltos entre o tomilho, e sem procurar, nem com o
+desejo, a árvore funesta da Sciência! <em>Dixi!</em></p>
+
+<p>Eu escutava, assombrado, êste Jacinto novíssimo. Era verdadeiramente uma
+ressurreição no magnífico estilo de Lázaro. Ao <em>surge et ambula</em><span class="pn">{119}</span>
+que lhe tinham sussurrado as águas e os bosques de Torges, êle erguia-se do
+fundo da cova do Pessimismo, desembaraçava-se das suas casacas de Poole, <em>et
+ambulabat</em>, e começava a ser ditoso. Quando recolhi ao meu quarto, àquelas
+horas honestas que convêm ao campo e ao Otimismo, tomei entre as minhas a mão
+já firme do meu amigo, e pensando que êle emfim alcançára a verdadeira rialeza,
+porque possuia a verdadeira liberdade, gritei-lhe os meus parabens à maneira do
+moralista de Tibur:</p>
+
+
+<blockquote>
+ <em>Vive et regna, fortunate Jacinthe!</em> </blockquote>
+
+<p>Daí a pouco, através da porta aberta que nos separava, senti uma risada
+fresca, môça, genuína e consolada. Era Jacinto que lia o <em>D. Quixote</em>.
+Oh bemaventurado Jacinto! Conservava o agudo poder de criticar, e recuperára o
+dom divino de rir!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Quatro anos vão passados. Jacinto ainda habita Torges. As paredes do seu
+solar continuam bem caiadas, mas nuas.</p>
+
+<p>De inverno enverga um gabão de briche e acende um braseiro. Para chamar o
+Grilo ou a môça, bate as mãos, como fazia Catão. Com os seus deliciosos
+vagares, já leu a <em>Ilíada</em>.<span class="pn">{120}</span></p>
+
+<p>Não faz a barba. Nos caminhos silvestres, pára e fala com as crianças. Todos
+os casais da serra o bemdizem. Ouço que vai casar com uma forte, sã, e bela
+rapariga de Guiães. De-certo crescerá ali uma tríbu, que será grata ao Senhor!
+</p>
+
+<p>Como êle, recentemente, me mandou pedir livros da sua livraria (uma <em>Vida
+de Buda</em>, uma <em>História da Grécia</em> e as obras de S. Francisco de
+Sales) fui, depois dêstes quatro anos, ao <em>Jasmineiro</em> deserto. Cada
+passo meu sôbre os fofos tapetes de Koranânia soou triste como num chão de
+mortos. Todos os brocados estavam engelhados, esgaçados. Pelas paredes pendiam,
+como olhos fóra de órbitas, os botões eléctricos das campainhas e das luzes:&mdash;e
+havia vagos fios de arame, soltos, enroscados, onde a aranha regalada e
+reinando tecera teias espessas. Na livraria, todo o vasto saber dos séculos
+jazia numa imensa mudez, debaixo duma imensa poeira. Sôbre as lombadas dos
+sistemas filosóficos alvejava o bolôr: vorazmente a traça devastára as
+Histórias Universais: errava ali um cheiro mole de literatura apodrecida:&mdash;e eu
+abalei, com o lenço no nariz, certo de que naqueles vinte mil volumes não
+restava uma verdade viva! Quis lavar as mãos maculadas pelo contacto com estes
+detritos de conhecimentos humanos. Mas os maravilhosos aparelhos do lavatório,
+da sala<span class="pn">{121}</span> de banho, enferrujados, perros, dessoldados, não largaram uma
+gota de água; e, como chovia nessa tarde de abril, tive de saír à varanda,
+pedir ao céu que me lavasse.</p>
+
+<p>Ao descer, penetrei no gabinete de trabalho de Jacinto e tropecei num montão
+negro de ferragens, rodas, lâminas, campainhas, parafusos... Entreabri a
+janela, e reconheci o telefone, o teatrofone, o fonógrafo, outros aparelhos,
+tombados das suas peanhas, sórdidos, desfeitos, sob a poeira dos anos. Empurrei
+com o pé êste lixo do engenho humano. A máquina de escrever, escancarada, com
+os buracos negros marcando as letras desarraigadas, era como uma bôca alvar e
+desdentada. O telefone parecia esborrachado, enrodilhado nas suas tripas de
+arame. Na trompa do fonógrafo, torta, esbeiçada, para sempre muda, fervilhavam
+carochas. E ali jaziam, tam lamentáveis e grotescas, aquelas geniais invenções,
+que eu saí rindo, como duma enorme facécia, daquele super-civilizado palácio.
+</p>
+
+<p>A chuva de abril secára: os telhados remotos da cidade negrejavam sôbre um
+poente de carmesim e oiro. E, através das ruas mais frescas, eu ia pensando que
+êste nosso magnifíco século XIX se assemelharia, um dia, àquele
+<em>Jasmineiro</em> abandonado, e que outros homens, com uma certeza mais pura
+do que é a Vida e a Felicidade, dariam, como eu, com o pé no lixo<span class="pn">{122}</span> da
+super-civilização, e, como eu, ririam alegremente da grande ilusão que findára,
+inútil e coberta de ferrugem.</p>
+
+<p>Àquela hora, de-certo, Jacinto, na varanda, em Torges, sem fonógrafo e sem
+telefone, reentrado na simplicidade, via, sob a paz lenta da tarde, ao
+tremeluzir da primeira estrêla, a boiada recolher entre o canto dos
+boieiros.<span class="pn">{123}</span></p>
+
+
+<h1><a name="SECTION000500">O TESOIRO</a> </h1>
+
+
+<h2><a name="SECTION000510">I</a> </h2>
+
+<p>Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guannes e Rostabal, eram então, em todo o
+Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados.</p>
+
+<p>Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levára vidraça e telha,
+passavam êles as tardes dêsse inverno, engelhados nos seus pelotes de camelão,
+batendo as solas rotas sôbre as lages da cozinha, diante da vasta lareira
+negra, onde desde muito não estalava lume, nem fervia a panela de ferro. Ao
+escurecer devoravam uma côdea de pão negro, esfregada com alho. Depois, sem
+candeia, através do pátio, fendendo a neve, iam dormir à estrebaria, para
+aproveitar o calor das três éguas lazarentas que, esfaimadas como êles,
+roíam<span class="pn">{124}</span> as traves da mangedoura. E a miséria tornára êstes senhores mais
+bravios que lôbos.</p>
+
+<p>Ora, na primavera, por uma silenciosa manhã de domingo, andando todos três
+na mata de Roquelanes a espiar pègadas de caça e a apanhar tortulhos entre os
+robles, emquanto as três éguas pastavam a relva nova de abril,&mdash;os irmãos de
+Medranhos encontraram, por trás de uma moita de espinheiros, numa cova de
+rocha, um vélho cofre de ferro. Como se o resguardasse uma tôrre segura,
+conservava as suas três chaves nas suas três fechaduras. Sôbre a tampa, mal
+decifrável através da ferrugem, corria um dístico em letras árabes. E dentro,
+até às bordas, estava cheio de dobrões de oiro!</p>
+
+<p>No terror e esplendor da emoção, os três senhores ficaram mais lívidos do
+que círios. Depois, mergulhando furiosamente as mãos no oiro, estalaram a rir,
+num riso de tam larga rajada, que as fôlhas tenras dos olmos, em roda,
+tremiam... E de novo recuaram, bruscamente se encararam, com os olhos a
+flamejar, numa desconfiança tam desabrida que Guannes e Rostabal apalpavam nos
+cintos os cabos das grandes facas. Então Rui, que era gordo e ruivo, e o mais
+avisado, ergueu os braços, como um árbitro, e começou por decidir que o
+tesoiro, ou viesse de Deus ou do demónio, pertencia aos três, e entre êles
+se<span class="pn">{125}</span> repartiria, rígidamente, pesando-se o oiro em balanças. ¿Mas como
+poderiam carregar para Medranhos, para os cimos da serra, aquele cofre tam
+cheio? Nem convinha que saíssem da mata com o seu bem, antes de cerrar a
+escuridão. Por isso êle entendia que o mano Guannes, como mais leve, devia
+trotar para a vila vizinha de Retortilho, levando já oiro na bolsinha, a
+comprar três alforges de coiro, três maquias de cevada, três empadões de carne,
+e três botelhas de vinho. Vinho e carne eram para êles, que não comiam desde a
+véspera: a cevada era para as éguas. E assim refeitos, senhores e cavalgaduras,
+ensacariam o oiro nos alforges, e subiriam para Medranhos, sob a segurança da
+noite sem lua.</p>
+
+<p>&mdash;Bem tramado!&mdash;gritou Rostabal, homem mais alto que um pinheiro, de longa
+guedelha, e com uma barba que lhe caía desde os olhos raiados de sangue até à
+fivela do cinturão.</p>
+
+<p>Mas Guannes não se arredava do cofre, enrugado, desconfiado, puxando entre
+os dedos a pele negra do seu pescoço de grou. Por fim, brutalmente:</p>
+
+<p>&mdash;Manos! O cofre tem três chaves... Eu quero fechar a minha fechadura e
+levar a minha chave!</p>
+
+<p>&mdash;Tambêm eu quero a minha, mil raios!&mdash;rugiu logo Rostabal.<span class="pn">{126}</span></p>
+
+<p>Rui sorriu. De-certo, de-certo! A cada dono do oiro cabia uma das chaves que
+o guardavam. E cada um em silêncio, agachado ante o cofre, cerrou a sua
+fechadura com fôrça. Imediatamente Guannes, desanuviado, saltou na égua, meteu
+pela vereda de olmos, a caminho de Retortilho, atirando aos ramos a sua cantiga
+costumada e dolente:</p>
+
+
+<blockquote>
+           Olé! olé! <br>
+ Sale la crus de la iglesia, <br>
+ Vestida de negro luto... </blockquote>
+
+
+<h2><a name="SECTION000520">II</a> </h2>
+
+<p>Na clareira, em frente à moita que encobria o tesoiro (e que os três tinham
+desbastado a cutiladas) um fio de água, brotando entre rochas, caía sôbre uma
+vasta lage escavada, onde fazia como um tanque, claro e quieto, antes de se
+escoar para as relvas altas. E ao lado, na sombra de uma faia, jazia um vélho
+pilar de granito, tombado e musgoso. Ali vieram sentar-se Rui e Rostabal, com
+os seus tremendos espadões entre os joelhos. As duas éguas tosavam a boa erva
+pintalgada de papoulas e botões de oiro. Pela ramaria<span class="pn">{127}</span> andava um melro a
+assobiar. Um cheiro errante de violetas adoçava o ar luminoso. E Rostabal,
+olhando o sol, bocejava com fome.</p>
+
+<p>Então Rui, que tirára o <em>sombrero</em> e lhe cofiava as vélhas plumas
+rôxas, começou a considerar, na sua fala avisada e mansa, que Guannes, nessa
+manhã, não quisera descer com êles à mata de Roquelanes. E assim era a sorte
+ruim! Pois que se Guannes tivesse quedado em Medranhos, só êles dois teriam
+descoberto o cofre, e só entre êles dois se dividiria o oiro! Grande pena!
+Tanto mais que a parte de Guannes seria em breve dissipada, com rufiões, aos
+dados, pelas tavernas.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guannes, passando aqui sòzinho, tivesse achado
+êste oiro, não dividia comnosco, Rostabal!</p>
+
+<p>O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas negras:</p>
+
+<p>&mdash;Não, mil raios! Guannes é sôfrego... Quando o ano passado, se te lembras,
+ganhou os cem ducados ao espadeiro de Fresno, nem me quis emprestar três para
+eu comprar um gibão novo!</p>
+
+<p>&mdash;Vês tu?&mdash;gritou Rui, resplandecendo.</p>
+
+<p>Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma idea,
+que os deslumbrava. E, através das suas largas passadas, as ervas altas
+silvavam.</p>
+
+<p>&mdash;E para quê?&mdash;prosseguia Rui,&mdash;¿Para<span class="pn">{128}</span> que lhe serve todo o oiro que
+nos leva? ¿Tu não o ouves, de noite, como tosse? Ao redor da palha em que
+dorme, todo o chão está negro do sangue que escarra! Não dura até às outras
+neves, Rostabal! Mas até lá terá dissipado os bons dobrões que deviam ser
+nossos, para levantarmos a nossa casa, e para tu teres ginetes, e armas, e
+trajes nobres, e o teu terço de solarengos, como compete, a quem é, como tu, o
+mais vélho dos de Medranhos...</p>
+
+<p>&mdash;Pois que morra, e morra hoje!&mdash;bradou Rostabal.</p>
+
+<p>&mdash;Queres?</p>
+
+<p>Vivamente, Rui agarrára o braço do irmão e apontava para a vereda de olmos,
+por onde Guannes partira cantando:</p>
+
+<p>&mdash;Logo adiante, ao fim do trilho, há um sítio bom, nos silvados. E hás-de
+ser tu, Rostabal, que és o mais forte e o mais destro. Um golpe de ponta pelas
+costas. E é justiça de Deus que sejas tu, que muitas vezes, nas tavernas, sem
+pudor, Guannes te tratava de <em>cerdo</em> e de torpe, por não saberes a letra
+nem os numeros.</p>
+
+<p>&mdash;Malvado!</p>
+
+<p>&mdash;Vem!</p>
+
+<p>Foram. Ambos se emboscaram por trás dum silvado, que dominava o atalho,
+estreito e pedregoso como um leito de torrente. Rostabal assolapado na vala,
+tinha já a espada<span class="pn">{129}</span> nua. Um vento leve arripiou na encosta as fôlhas dos
+álamos&mdash;e sentiram o repique leve dos sinos de Retortilho. Rui, coçando a
+barba, calculava as horas pelo sol, que já se inclinava para as serras. Um
+bando de córvos passou sôbre êles, grasnando. E Rostabal, que lhes seguira o
+vôo, recomeçou a bocejar, com fome, pensando nos empadões e no vinho que o
+outro trazia nos alforges.</p>
+
+<p>Emfim! Àlerta! Era, na vereda, a cantiga dolente e rouca, atirada aos ramos:
+</p>
+
+
+<blockquote>
+           Olé! olé! <br>
+ Sale la crus de la iglesia <br>
+ Toda vestida de negro... </blockquote>
+
+<p>Rui murmurou:&mdash;«Na ilharga! Mal que passe!» O chouto da égua bateu o
+cascalho, uma pluma num <em>sombrero</em> vermelhejou por sôbre a ponta das
+silvas.</p>
+
+<p>Rostabal rompeu de entre a sarça por uma brecha, atirou o braço, a longa
+espada;&mdash;e toda a lâmina se embebeu molemente na ilharga de Guannes, quando ao
+rumor, bruscamente, êle se virára na sela. Com um surdo arranco, tombou de
+lado, sôbre as pedras. Já Rui se arremessava aos freios da égua:&mdash;Rostabal,
+caíndo sôbre Guannes, que arquejava, de novo lhe mergulhou a espada, agarrada
+pela fôlha como um punhal, no peito e na garganta.<span class="pn">{130}</span></p>
+
+<p>&mdash;A chave!&mdash;gritou Rui.</p>
+
+<p>E arrancada a chave do cofre ao seio do morto, ambos largaram pela
+vereda&mdash;Rostabal adiante, fugindo, com a pluma do <em>sombrero</em> quebrada e
+torta, a espada ainda nua entalada sob o braço, todo encolhido, arripiado com o
+sabor de sangue que lhe espirrára para a bôca; Rui, atrás, puxando
+desesperadamente os freios da égua, que, de patas fincadas no chão pedregoso,
+arreganhando a longa dentuça amarela, não queria deixar o seu amo assim
+estirado, abandonado, ao comprido das sebes.</p>
+
+<p>Teve de lhe espicaçar as ancas lazarentas com a ponta da espada:&mdash;e foi
+correndo sôbre ela, de lâmina alta, como se perseguisse um mouro, que
+desembocou na clareira onde o sol já não doirava as fôlhas. Rostabal
+arremessára para a relva o <em>sombrero</em> e a espada; e debruçado sôbre a
+lage escavada em tanque, de mangas arregaçadas, lavava, ruidosamente, a face e
+as barbas.</p>
+
+<p>A égua, quieta, recomeçou a pastar, carregada com os alforges novos que
+Guannes comprára em Retortilho. Do mais largo, abarrotado, surdiam dois
+gargalos de garrafas. Então, Rui tirou, lentamente, do cinto, a sua larga
+navalha. Sem um rumor na relva espessa, deslizou até Rostabal, que resfolgava,
+com as longas barbas pingando. E, serenamente, como se pregasse uma estaca
+num<span class="pn">{131}</span> canteiro, enterrou a fôlha toda no largo dorso dobrado, certeira
+sôbre o coração.</p>
+
+<p>Rostabal caíu sôbre o tanque, sem um gemido, com a face na água, os longos
+cabelos flutuando na água. A sua vélha escarcela de coiro ficára entalada sob a
+côxa. Para tirar de dentro a terceira chave do cofre, Rui solevou o corpo&mdash;e um
+sangue mais grosso jorrou, escorreu pela borda do tanque, fumegando.</p>
+
+
+<h2><a name="SECTION000530">III</a> </h2>
+
+<p>Agora eram dêle, só dêle, as três chaves do cofre!... E Rui, alargando os
+braços, respirou deliciosamente. Mal a noite descesse, com o oiro metido nos
+alforges, guiando a fila das éguas pelos trilhos da serra, subiria a Medranhos
+e enterraria na adega o seu tesoiro! E quando ali na fonte, e alêm rente aos
+silvados, só restassem, sob as neves de dezembro, alguns ossos sem nome, êle
+seria o magnífico senhor de Medranhos, e na capela nova do solar renascido,
+mandaria dizer missas ricas pelos seus dois irmãos mortos... Mortos, como? Como
+devem morrer os de Medranhos&mdash;a pelejar contra o Turco!</p>
+
+<p>Abriu as três fechaduras, apanhou um punhado<span class="pn">{132}</span> de dobrões, que fez
+retinir sôbre as pedras. Que puro oiro, de fino quilate! E era o <em>seu</em>
+oiro! Depois foi examinar a capacidade dos alforges&mdash;e encontrando as duas
+garrafas de vinho, e um gordo capão assado, sentiu uma imensa fome. Desde a
+véspera só comera uma lasca de peixe sêco. E há quanto tempo não provava capão!
+</p>
+
+<p>Com que delícia se sentou na relva, com as pernas abertas, e entre elas, a
+ave loura, que rescendia, e o vinho côr de ámbar! Ah! Guannes fôra bom
+mordomo&mdash;nem esquecera azeitonas. ¿Mas, porque trouxera êle, para três
+convivas, só duas garrafas? Rasgou uma asa do capão: devorava a grandes
+dentadas. A tarde descia, pensativa e doce, com nuvemsinhas côr de rosa. Para
+alêm, na vereda, um bando de corvos grasnava. As éguas fartas dormitavam, com o
+focinho pendido. E a fonte cantava, lavando o morto.</p>
+
+<p>Rui ergueu à luz a garrafa de vinho. Com aquela côr vélha e quente, não
+teria custado menos de três maravedis. E pondo o gargalo à bôca, bebeu em
+sorvos lentos, que lhe faziam ondular o pescoço peludo. Oh vinho bemdito, que
+tam prontamente aquecia o sangue! Atirou a garrafa vazia&mdash;destapou outra. Mas,
+como era avisado, não bebeu, porque a jornada para a serra, com o tesoiro,
+requeria firmeza e acêrto. Estendido sôbre o<span class="pn">{133}</span> cotovelo, descansando,
+pensava em Medranhos coberto de telha nova, nas altas chamas da lareira por
+noites de neve, e o seu leito com brocados, onde teria sempre mulheres.</p>
+
+<p>De repente, tomado de uma ansiedade, teve pressa de carregar os alforges.
+Já, entre os troncos, a sombra se adensava. Puxou uma das éguas para junto do
+cofre, ergueu a tampa, tomou um punhado de oiro... Mas oscilou, largando os
+dobrões que retilintaram no chão, e levou as duas mãos aflitas ao peito. ¿Que
+é, D. Rui? Raios de Deus! era um lume, um lume vivo, que se lhe acendera
+dentro, lhe subia até às guelas. Já rasgára o gibão, atirava os passos
+incertos, e, a arquejar, com a língua pendente, limpava as grossas bagas de um
+suor horrendo que o regelava como neve. Oh Virgem Mãe! Outra vez o lume, mais
+forte, que alastrava, o roía! Gritou:</p>
+
+<p>&mdash;Socorro! Alguêm! Guannes! Rostabal!</p>
+
+<p>Os seus braços torcidos batiam o ar desesperadamente. E a chama dentro
+galgava&mdash;sentia os ossos a estalarem como as traves duma casa em fogo.</p>
+
+<p>Cambaleou até à fonte para apagar aquela labareda, tropeçou sôbre Rostabal;
+e foi com o joelho fincado no morto, arranhando a rocha, que êle, entre uivos,
+procurava o fio de água, que recebia sôbre os olhos, pelos cabelos.<span class="pn">{134}</span> Mas
+a água mais o queimava, como se fôsse um metal derretido. Recuou, caíu para
+cima da relva que arrancava aos punhados, e que mordia, mordendo os dedos, para
+lhe sugar a frescura. Ainda se ergueu, com uma baba densa a escorrer-lhe nas
+barbas: e de repente, esbogalhando pavorosamente os olhos, berrou, como se
+compreendesse emfim a traição, todo o horror:</p>
+
+<p>&mdash;É veneno!</p>
+
+<p>Oh! D. Rui, o avisado, era veneno! Porque Guannes, apenas chegára a
+Retortilho, mesmo antes de comprar os alforges, correra cantando a uma viela,
+por detrás da catedral, a comprar ao vélho droguista judeu o veneno que,
+misturado ao vinho, o tornaria a êle, a êle sómente, dono de todo o tesoiro.
+</p>
+
+<p>Anoiteceu. Dois corvos de entre o bando que grasnava, alêm nos silvados, já
+tinham pousado sôbre o corpo de Guannes. A fonte, cantando, lavava o outro
+morto. Meio enterrada na erva negra, toda a face de Rui se tornára negra. Uma
+estrelinha tremeluzia no céu.</p>
+
+<p>O tesoiro ainda lá está, na mata de Roquelanes.<span class="pn">{135}</span></p>
+
+
+<h1><a name="SECTION000600">FREI GENEBRO</a> </h1>
+
+
+<h2><a name="SECTION000610">I</a> </h2>
+
+<p>Nesse tempo ainda vivia na sua solidão das montanhas da Úmbria, o divino
+Francisco de Assis&mdash;e já por toda a Itália se louvava a santidade de Frei
+Genebro, seu amigo e seu discípulo.</p>
+
+<p>Frei Genebro, na verdade, completára a perfeição em todas as virtudes
+evangélicas. Pela abundância e perpètuidade da Oração, êle arrancava da sua
+alma as raízes mais miudas do Pecado, e tornava-a limpa e cândida como um
+dêsses celestes jardins em que o sólo anda regado pelo Senhor, e onde só podem
+brotar açucenas. A sua penitência, durante vinte anos de clâustro, fôra tam
+dura e alta que já não temia o Tentador; e agora, só com o sacudir a manga do
+hábito, rechaçava as tentações, as mais pavorosas ou as mais<span class="pn">{136}</span> deliciosas,
+como se fôssem apenas moscas importunas. Benéfica e universal à maneira de um
+orvalho de verão, a sua caridade não se derramava sómente sôbre as misérias do
+pobre, mas sôbre as melancolias do rico. Na sua humilíssima humildade não se
+considerava nem o igual dum verme. Os bravios barões, cujas negras tôrres
+esmagavam a Itália, acolhiam reverentemente e curvavam a cabeça a êste
+franciscano descalço e mal remendado que lhes ensinava a mansidão. Em Roma, em
+S. João de Latrão, o Papa Honório beijára as feridas de cadeias que lhe tinham
+ficado nos pulsos, do ano em que na Mourama, por amor dos escravos, padecera a
+escravidão. E como nessas idades os anjos ainda viajavam na terra, com as asas
+escondidas, arrimados a um bordão, muitas vezes, trilhando uma vélha estrada
+pagã ou atravessando uma selva, êle encontrava um moço de inefável formosura,
+que lhe sorria e murmurava:</p>
+
+<p>&mdash;Bons dias, irmão Genebro!</p>
+
+<p>Ora, um dia, indo êste admirável mendicante de Spoleto para Terni, e
+avistando no azul e no sol da manhã, sôbre uma colina coberta de carvalhos, as
+ruínas do castelo de Otofrid, pensou no seu amigo Egídio, antigo noviço como
+êle no mosteiro de Santa Maria dos Anjos, que se retirára àquele ermo para se
+avizinhar mais de Deus, e ali habitava uma<span class="pn">{137}</span> cabana de colmo, junto das
+muralhas derrocadas, cantando e regando as alfaces do seu horto, porque a sua
+virtude era amena. E como mais de três anos tinham passado desde que visitára o
+bom Egídio, largou a estrada, passou em baixo, no vale, sôbre as alpondras, o
+riacho que fugia por entre os aloendros em flor, e começou a subir, lentamente,
+a colina frondosa. Depois da poeira e ardor do caminho de Spoleto, era doce a
+larga sombra dos castanheiros e a relva que lhe refrescava os pés doridos. A
+meia encosta, numa rocha onde se esguedelhavam silvados, sussurrava e luzia um
+fio de água. Estendido ao lado, nas ervas húmidas, dormia, ressonando
+consoladamente, um homem, que de-certo ali guardava porcos, porque vestia um
+grosso surrão de coiro e trazia, pendurada da cinta, uma buzina de porqueiro. O
+bom frade bebeu de leve, afugentou os moscardos que zumbiam sôbre a rude face
+adormecida e continuou a trepar a colina, com o seu alforge, o seu cajado,
+agradecendo ao Senhor aquela água, aquela sombra, aquela frescura, tantos bens
+inesperados. Em breve avistou, com efeito, o rebanho de porcos, espalhados sob
+as frondes, roncando e fossando as raízes, uns magros e agudos, de cerdas
+duras, outros redondos, com o focinho curto afogado em gordura, e os bacorinhos
+correndo em tôrno às têtas das mães, luzidios e côr de rosa.<span class="pn">{138}</span></p>
+
+<p>Frei Genebro pensou nos lôbos e lamentou o sono do pastor descuidado. No fim
+da mata começava a rocha, onde os restos do castelo lombardo se erguiam,
+revestidos de hera, conservando ainda alguma seteira esburacada sôbre o céu,
+ou, numa esquina de tôrre, uma goteira que, esticando o pescoço de dragão,
+espreitava por meio das silvas bravas.</p>
+
+<p>A cabana do ermitão, telhada de colmo que lascas de pedra seguravam, apenas
+se percebia, entre aqueles escuros granitos, pela horta que em frente
+verdejava, com os seus talhões de couve e estacas de feijoal, entre alfazema
+cheirosa. Egídio não andaria afastado porque sôbre o murosinho de pedra solta
+ficára pousado o seu cântaro, o seu podão e a sua enxada. E docemente, para o
+não importunar, se àquela hora da sésta estivesse recolhido e orando, Frei
+Genebro empurrou a porta de pranchas vélhas, que não tinha loquete para ser
+mais hospitaleira.</p>
+
+<p>&mdash;Irmão Egídio!</p>
+
+<p>Do fundo da choça rude, que mais parecia cova de bicho, veio um lento
+gemido:</p>
+
+<p>&mdash;Quem me chama? Aqui neste canto, neste canto a morrer!... A morrer, meu
+irmão!</p>
+
+<p>Frei Genebro acudiu em grande dó; encontrou o bom ermitão estirado num monte
+de fôlhas sêcas, encolhido em farrapos, e tam definhado que a sua face, outrora
+farta e rosada,<span class="pn">{139}</span> era como um pedacinho de vélho pergaminho muito
+enrugado, perdido entre os flocos das barbas brancas. Com infinita caridade e
+doçura o abraçou.</p>
+
+<p>&mdash;¿E há quanto tempo, há quanto tempo neste abandôno, irmão Egídio?</p>
+
+<p>Louvado Deus, desde a véspera! Só na véspera, à tarde, depois de olhar uma
+derradeira vez para o sol e para a sua horta, se viera estender naquele canto
+para acabar... Mas havia meses que com êle entrára um cansaço, que nem podia
+segurar a bilha cheia quando voltava da fonte.</p>
+
+<p>&mdash;¿E dizei, irmão Egídio, pois que o Senhor me trouxe, que posso eu fazer
+pelo vosso corpo? Pelo corpo, digo; que pela alma bastante tendes vós feito na
+virtude desta solidão!</p>
+
+<p>Gemendo, arrepanhando para o peito as fôlhas sêcas em que jazia, como se
+fôssem dobras dum lençol, o pobre ermitão murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Meu bom Frei Genebro, não sei se é pecado, mas toda esta noite, em verdade
+vos confesso, me apeteceu comer um pedaço de carne, um pedaço de porco
+assado!... Mas será pecado?</p>
+
+<p>Frei Genebro, com a sua imensa misericórdia, logo o tranqùilizou. Pecado?
+Não, certamente! Aquele que, por tortura, recusa ao seu corpo um contentamento
+honesto, desagrada ao Senhor. ¿Não ordenava êle aos seus<span class="pn">{140}</span> discípulos que
+comessem as boas cousas da terra? O corpo é servo; e está na vontade divina que
+as suas fôrças sejam sustentadas, para que preste ao espírito, seu amo, bom e
+leal serviço. Quando Frei Silvestre, já tam doentinho, sentira aquele longo
+desejo de uvas moscateis, o bom Francisco de Assis logo o conduziu à vinha, e
+por suas mãos lhe apanhou os melhores cachos, depois de os abençoar para serem
+mais sumarentos e mais doces...</p>
+
+<p>&mdash;¿É um pedaço de porco assado que apeteceis?&mdash;exclamava risonhamente o bom
+Frei Genebro, acariciando as mãos transparentes do ermitão.&mdash;Pois sossegai,
+irmão querido, que bem sei como vos vou contentar!</p>
+
+<p>E imediatamente, com os olhos a reluzir de caridade e de amor, agarrou o
+afiado podão que pousava sôbre o muro da horta. Arregaçando as mangas do
+hábito, e mais ligeiro que um gamo, porque era aquele um serviço do Senhor,
+correu pela colina até aos densos castanheiros onde encontrára o rebanho de
+porcos. E aí, andando sorrateiramente de tronco para tronco, surpreendeu um
+bacorinho desgarrado que fossava a bolota, desabou sobre êle, e, emquanto lhe
+sufocava o focinho e os gritos, decepou, com dois golpes certeiro do podão, a
+perna por onde o agarrára. Depois, com as mãos salpicadas de sangue, a perna de
+porco bem alta a pingar sangue, deixando<span class="pn">{141}</span> a rês a arquejar numa pôça de
+sangue, o piedoso homem galgou a colina, correu à cabana, gritou para dentro
+alegremente:</p>
+
+<p>&mdash;Irmão Egídio, a peça de carne já o Senhor a deu! E eu, em Santa Maria dos
+Anjos, era bom cozinheiro.</p>
+
+<p>Na horta do ermitão arrancou uma estaca do feijoal, que, com o podão
+sangrento, aguçou em espêto. Entre duas pedras acendeu uma fogueira. Com zeloso
+carinho assou a perna do porco. Tanta era a sua caridade que para dar a Egídio
+todos os antegostos daquele banquete, raro em terra de mortificação, anunciava
+com vozes festivas e de boa promessa:</p>
+
+<p>&mdash;Já vai aloirando o porquinho, irmão Egídio! A pele já tosta, meu santo!
+</p>
+
+<p>Entrou emfim na choça, triunfalmente, com o assado que fumegava e rescendia,
+cercado de frescas fôlhas de alface. Ternamente, ajudou a sentar o vélho, que
+tremia e se babava de gula. Arredou das pobres faces maceradas os cabelos que o
+suor da fraqueza empastára. E, para que o bom Egídio se não vexasse com a sua
+voracidade e tam carnal apetite, ia afirmando, emquanto lhe partia as febras
+gordas, que tambêm êle comeria regaladamente daquele excelente porco, se não
+tivesse almoçado à farta na <em>Locanda dos Três Caminhos</em>.<span class="pn">{142}</span></p>
+
+<p>&mdash;Mas nem bocado agora me podia entrar, meu irmão! Com uma galinha inteira
+me atochei! E depois uma fritada de ovos! E de vinho branco, um quartilho!</p>
+
+<p>E o santo homem mentia santamente&mdash;porque, desde madrugada, não provára mais
+que um magro caldo de ervas, recebido por esmola à cancela de uma granja.</p>
+
+<p>Farto, consolado, Egídio deu um suspiro, recaíu no seu leito de fôlhas
+sêcas. Que bem lhe fizera, que bem lhe fizera! O Senhor, na sua justiça,
+pagasse a seu irmão Genebro aquele pedaço de porco! Até sentia a alma mais rija
+para a temerosa jornada... E o ermitão com as mãos postas, Genebro ajoelhado,
+ambos louvaram, ardentemente, o Senhor que, a toda a necessidade solitária,
+manda de longe o socorro.</p>
+
+<p>Então, tendo coberto Egídio com um pedaço de manta e posto, a seu lado, a
+bilha cheia de água fresca, e tapado, contra as aragens da tarde, a fresta da
+cabana, Frei Genebro, debruçado sôbre êle, murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Meu bom irmão, vós não podeis ficar neste abandono... Eu vou levado por
+obra de Jesus, que não admite tardança. Mas passarei no convento de Sambricena
+e darei recado para que um noviço venha e cuide de vós com amor, no vosso
+transe. Deus vos vele<span class="pn">{143}</span> entretanto, meu irmão; Deus vos sossegue e vos
+ampare com a sua mão direita!</p>
+
+<p>Mas Egídio cerrára os olhos, nem se moveu, ou porque adormecera, ou porque o
+seu espírito, tendo pago aquele derradeiro salário ao corpo, como a um bom
+servidor, para sempre partira, finda a sua obra na terra. Frei Genebro abençoou
+o vélho, tomou o seu bordão, desceu a colina dos grandes carvalhos. Sob a
+fronde, para os lados onde andava o rebanho, a buzina do porqueiro ressoava
+agora num toque de alarma e de furor. De-certo acordára, descobrira o seu porco
+mutilado... Estugando o passo, Frei Genebro pensava quanto era magnânimo o
+Senhor em permitir que o homem, feito à sua imagem augusta, recebesse tam fácil
+consolação duma perna de cerdo assada entre duas pedras.</p>
+
+<p>Retomou a estrada, marchou para Terni. E prodigiosa foi, desde êsse dia, a
+actividade da sua virtude. Através de toda a Itália, sem descanso, prègou o
+Evangelho Eterno, adoçando a aspereza dos ricos, alargando a esperança dos
+pobres. O seu imenso amor ia ainda para alêm dos que sofrem, até àqueles que
+pecam, oferecendo um alívio a cada dôr, estendendo um perdão a cada culpa: e
+com a mesma caridade com que tratava os leprosos, convertia os bandidos.
+Durante as invernias e a neve, vezes inumeráveis dava, aos<span class="pn">{144}</span> mendigos, a
+sua túnica, as suas alpercatas; os abades dos mosteiros ricos, as damas devotas
+de novo o vestiam, para evitar o escândalo da sua nudez através das cidades; e
+sem demora, na primeira esquina, ante qualquer esfarrapado, êle se despojava
+sorrindo. Para remir servos que penavam sob um amo fero, penetrava nas igrejas,
+arrancava do altar os candelabros de prata, afirmando, jovialmente, que mais
+praz a Deus uma alma liberta que uma tocha acesa.</p>
+
+<p>Cercado de viuvas, de crianças famintas, invadia as padarias, os açougues,
+até as tendas dos cambistas, e reclamava imperiosamente, em nome de Deus, a
+parte dos deserdados. Sofrer, sentir a humilhação, eram, para êle, as únicas
+alegrias completas: nada o deliciava mais do que chegar de noite, molhado,
+esfaimado, tiritando, a uma opulenta abadia feudal, e ser repelido da portaria
+como um mau vagabundo: só então, agachado nos lôdos do caminho, mastigando um
+punhado de ervas cruas, êle se reconhecia verdadeiramente irmão de Jesus, que
+não tivera tambêm, como teem sequer os bichos do mato, um covil para se
+abrigar. Quando um dia, em Perusa, as confrarias saíram ao seu encontro, com
+bandeiras festivas, ao repique dos sinos, êle correu para um monte de estêrco,
+onde se rolou e se sujou, para que daqueles que<span class="pn">{145}</span> o vinham engrandecer, só
+recebesse compaixão e escárnio. Nos clâustros, nos descampados, em meio das
+multidões, durante as lides mais pesadas, orava constantemente, não por
+obrigação, mas porque na prece encontrava um deleite adorável. Deleite maior,
+porêm, era, para o franciscano, ensinar e servir. Assim, longos anos errou
+entre os homens, vertendo o seu coração como a água de um rio, oferecendo os
+seus braços como alavancas incansáveis; e tam depressa, numa ladeira deserta,
+aliviava uma pobre vélha da sua carga de lenha, como numa cidade revoltada,
+onde reluzissem armas, se adiantava, com o peito aberto, e amansava as
+discórdias.</p>
+
+<p>Emfim, uma tarde, em véspera de Páscoa, estando a descansar nos degraus de
+Santa Maria dos Anjos, avistou de repente, no ar liso e branco, uma vasta mão
+luminosa que sôbre êle se abria e faiscava. Pensativo, murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Eis a mão de Deus, a sua mão direita, que se estende para me acolher ou
+para me repelir.</p>
+
+<p>Deu logo a um pobre, que ali rezava a Avé-Maria, com a sua sacola nos
+joelhos, tudo o que no mundo lhe restava, que era um volume do Evangelho, muito
+usado e manchado das suas lágrimas. No domingo, na igreja, ao levantar da
+Hóstia, desmaiou. Sentindo então<span class="pn">{146}</span> que ia terminar a sua jornada
+terrestre, quis que o levassem para um curral, o deitassem sôbre uma camada de
+cinzas.</p>
+
+<p>Em santa obediência ao guardião do convento, consentiu que o limpassem dos
+seus trapos, lhe vestissem um hábito novo: mas, com os olhos alagados de
+ternura, implorou que o enterrassem num sepulcro emprestado como fôra o de
+Jesus, seu senhor.</p>
+
+<p>E, suspirando, só se queixava de não sofrer:</p>
+
+<p>&mdash;¿O senhor, que tanto sofreu, porque me não manda a mim o padecimento
+bemdito?</p>
+
+<p>De madrugada pediu que abrissem, bem largo, o portão do curral.</p>
+
+<p>Contemplou o céu que clareava, escutou as andorinhas que, na frescura e
+silêncio, começavam a cantar sôbre o beiral do telhado, e, sorrindo, recordou
+uma manhã, assim de silêncio e frescura, em que, andando com Francisco de Assis
+à beira do lago de Perusa, o mestre incomparável se detivera ante uma árvore
+cheia de pássaros, e, fraternalmente, lhes recomendára que louvassem sempre o
+Senhor! «Meus irmãos, meus irmãos passarinhos, cantai bem o vosso Criador, que
+vos deu essa árvore para que nela habiteis, e toda esta limpa água para nela
+beber, e essas penas bem quentes para vos agasalharem, a vós<span class="pn">{147}</span> e aos
+vossos filhinhos!» Depois, beijando humildemente a manga do monge que o
+amparava, Frei Genebro morreu.</p>
+
+
+<h2><a name="SECTION000620">II</a> </h2>
+
+<p>Logo que êle cerrou os seus olhos carnais, um Grande Anjo penetrou
+diáfanamente no curral e tomou, nos braços, a alma de Frei Genebro. Durante um
+momento, na fina luz da madrugada, deslizou por sôbre o prado fronteiro tam
+levemente que nem roçava as pontas orvalhadas da relva alta. Depois, abrindo as
+asas, radiantes e níveas, transpôs, num vôo sereno, as nuvens, os astros, todo
+o céu que os homens conhecem.</p>
+
+<p>Aninhada nos seus braços, como na doçura de um berço, a alma de Genebro
+conservava a forma do corpo que sôbre a terra ficára; o hábito franciscano
+ainda a cobria, com um resto de poeira e de cinza nas pregas rudes; e, com um
+olhar novo, que agora tudo trespassava e tudo compreendia, ela contemplava, num
+deslumbramento, aquela região em que o Anjo parára, para alêm dos universos
+transitórios e de todos os rumores siderais. Era um espaço sem limite, sem
+contôrno<span class="pn">{148}</span> e sem côr. Por cima começava uma claridade, subindo espalhada à
+maneira duma aurora, cada vez mais branca, e mais luzente, e mais radiante, até
+que resplandecia num fulgor tam sublime que nela um sol coruscante seria como
+uma nódoa pardacenta. E por baixo estendia-se uma sombra cada vez mais baça,
+mais fusca, mais cinzenta, até que formava como um espesso crepúsculo de
+profunda, insondável tristeza. Entre essa refulgência ascendente e a escuridão
+inferior, permanecera o Anjo imóvel, esperando, com as asas fechadas. E a alma
+de Genebro perfeitamente sentia que estava ali, esperando tambêm, entre o
+Purgatório e o Paraíso. Então, súbitamente, nas alturas, apareceram os dois
+imensos pratos duma Balança&mdash;um que rebrilhava como diamante e era reservado às
+suas Boas Obras, outro, negrejando mais que carvão, para receber o pêso das
+suas Obras Más. Entre os braços do Anjo, a alma de Genebro estremeceu... Mas o
+prato diamantino começou a descer lentamente. Oh! contentamento e glória!
+Carregado com as suas Boas Obras, êle descia, calmo e majestoso, espargindo
+claridade. Tam pesado vinha, que as suas grossas cordas se retesavam, rangiam.
+E entre elas, formando como uma montanha de neve, alvejavam magníficamente as
+suas virtudes evangélicas. Lá estavam as incontáveis esmolas<span class="pn">{149}</span> que semeára
+no mundo, agora desabrochadas em alvas flores, cheias de aroma e de luz.</p>
+
+<p>A sua humildade era um cimo, aureolado por um clarão. Cada uma das suas
+penitências scintilava mais límpidamente que cristais puríssimos. E a sua
+oração perene subia e enrolava-se em tôrno das cordas, à maneira duma
+deslumbrante névoa de oiro.</p>
+
+<p>Sereno, tendo a majestade de um astro, o prato das Boas Obras parou,
+finalmente, com a sua carga preciosa. O outro, lá em cima, não se movia tambêm,
+negro, da côr do carvão, inútil, esquecido, vazio. Já das profundidades,
+sonoros bandos de Serafins voavam, balançando palmas verdes. O pobre
+franciscano ia entrar triunfalmente no Paraíso&mdash;e aquela era a milícia divina
+que o acompanharia cantando. Um frémito de alegria passou na luz do Paraíso,
+que um Santo novo enriquecia. E a alma de Genebro anteprovou as delícias da
+Bemaventurança.</p>
+
+<p>Súbitamente, porêm, no alto, o prato negro oscilou como a um pêso inesperado
+que sôbre êle caísse! E começou a descer, duro, temeroso, fazendo uma sombra
+dolente através da celestial claridade. ¿Que Má Acção de Genebro trazia êle,
+tam miuda que nem se avistava, tam pesada que forçava o prato luminoso a subir,
+remontar ligeiramente como se<span class="pn">{150}</span> a montanha de Boas Acções, que nele
+transbordavam, fôssem um fumo mentiroso? Oh! mágoa! oh! desesperança! Os
+Serafins recuavam, com as asas trementes. Na alma de Frei Genebro correu um
+arrepio imenso de terror. O negro prato descia, firme, inexorável, com as
+cordas retêsas. E na região que se cavava sob os pés do Anjo, cinzenta, de
+inconsolável tristeza, uma massa de sombra, molemente e sem rumor, arfou,
+cresceu, rolou, como a onda duma maré devoradora.</p>
+
+<p>O prato, mais triste que a noite, parára&mdash;parára em pavoroso equilíbrio com
+o prato que rebrilhava. E os Serafins, Genebro, o Anjo que o trouxera,
+descobriram, no fundo daquele prato que inutilizava um Santo, um porco, um
+pobre porquinho com uma perna bárbaramente cortada, arquejando, a morrer, numa
+pôça de sangue... O animal mutilado pesava tanto na balança da justiça como a
+montanha luminosa de virtudes perfeitas!</p>
+
+<p>Então, das alturas, surgiu uma vasta mão, abrindo os dedos que faiscavam.
+Era a mão de Deus, a sua mão direita, que aparecera a Genebro na escada de
+Santa Maria dos Anjos, e que agora supremamente se estendia para o acolher ou
+para o repelir. Toda a luz e toda a sombra, desde o Paraíso fulgente ao
+Purgatório crepuscular, se contraíram num recolhimento de inexprimível amor e
+terror. E na<span class="pn">{151}</span> estática mudez, a vasta mão, através das alturas, lançou um
+gesto que repelia...</p>
+
+<p>Então o Anjo, baixando a face compadecida, alargou os braços e deixou caír,
+na escuridão do Purgatório, a alma de Frei Genebro.<span class="pn">{152}</span> <span class="pn">{153}</span></p>
+
+
+<h1><a name="SECTION000700">ADÃO E EVA NO PARAÍSO</a> </h1>
+
+
+<h2><a name="SECTION000710">I</a> </h2>
+
+<p>Adão, Pai dos Homens, foi criado no dia 28 de Outubro, às 2 horas da
+tarde...</p>
+
+<p>Assim o afirma, com majestade, nos seus <em>Annales Veteris et Novi
+Testamento</em>, o muito douto e muito ilustre Usserius, Bispo de Meath,
+Arcebispo de Armagh, e Chanceler-Mór da Sé de S. Patrício.</p>
+
+<p>A Terra existia desde que a Luz se fizera, a 23, na manhã de todas as
+manhãs. Mas já não era essa Terra primordial, parda e mole, ensopada em águas
+barrentas, abafada numa névoa densa, erguendo, aqui e alêm, rígidos troncos
+duma só fôlha e dum só rebento, muito solitária, muito silenciosa, com uma vida
+toda escondida, apenas surdamente revelada pelo remexer de bichos obscuros,
+gelatinosos,<span class="pn">{154}</span> sem côr e quási sem forma, crescendo no fundo dos lôdos.
+Não! agora, durante os dias genesíacos de 26 e 27, toda ela se completára, se
+abastecera e se enfeitára, para acolher condignamente o Predestinado que vinha.
+No dia 28 já apareceu perfeita, <em>perfecta</em>, com as provisões e alfaias
+que a Bíblia enumera, as ervas verdes de espiga madura, as árvores providas do
+fruto entre a flor, todos os peixes nadando nos mares resplandecentes, todas as
+aves voando pelos ares aclarados, todos os animais pastando sôbre as colinas
+viçosas, e os regatos regando, e o fogo armazenado no seio da pedra, e o
+cristal, e o ónix, e o oiro muito bom do país de Hevilath...</p>
+
+<p>Nesses tempos, meus amigos, o Sol ainda girava em tôrno da Terra. Ela era
+môça e formosa e preferida de Deus. Êle ainda se não submetera à imobilidade
+augusta que lhe impôs mais tarde, entre amuados suspiros da Igreja, mestre
+Galileu, estendendo um dedo do fundo do seu pomar, rente aos muros do Convento
+de S. Mateus de Florença. E o sol, amorosamente, corria em volta da Terra, como
+o noivo dos <em>Cantares</em>, que, nos lascivos dias da ilusão, sôbre o
+outeiro de mirra, sem descanso e pulando mais levemente que os gamos de Gaalad,
+circundava a Bem-Amada, a cobria com o fulgor dos seus olhos, coroado de
+sal-gêma, a faiscar de fecunda<span class="pn">{155}</span> impaciência. Ora desde essa alvorada do
+dia 28, segundo o cálculo majestático de Usserius, o Sol, muito novo, sem
+sardas, sem rugas, sem falhas na sua cabeleira flamante, envolvera a terra,
+durante oito horas, numa contínua e insaciada carícia de calor e de luz. Quando
+a oitava hora scintilou e fugiu, uma emoção confusa, feita de medo e feita de
+glória, perpassou por toda a Criação, agitando num frémito as relvas e as
+frondes, arripiando o pêlo das feras, empolando o dorso dos montes, apressando
+o borbulhar das nascentes, arrancando dos pórfiros um brilho mais vivo... Então
+numa floresta muito cerrada e muito tenebrosa, certo Ser, desprendendo
+lentamente a garra do galho de árvore onde se empoleirára toda essa manhã de
+longos séculos, escorregou pelo tronco comido de hera, pousou as duas patas no
+sólo que o musgo afofava, sôbre as duas patas se firmou com esforçada energia,
+e ficou erecto, e alargou os braços livres, e lançou um passo forte, e sentiu a
+sua dissemelhança da Animalidade, e concebeu o deslumbrado pensamento do que
+era, e verdadeiramente <em>foi</em>! Deus, que o amparára, nesse instante o
+criou. E vivo, da vida superior, descido da inconsciência da árvore, Adão
+caminhou para o Paraíso.</p>
+
+<p>Era medonho. Um pêlo crespo e luzidio cobria todo o seu grosso, maciço
+corpo, rareando<span class="pn">{156}</span> apenas em tôrno dos cotovelos, dos joelhos rudes, onde o
+coiro aparecia curtido e da côr de cobre fosco. Do achatado, fugidio crânio,
+vincado de rugas, rompia uma guedelha rala e ruiva, tufando sôbre as orelhas
+agudas. Entre as rombas queixadas, na fenda enorme dos beiços trombudos,
+estirados em focinho, as prêsas reluziam, afiadas rijamente para rasgar a febra
+e esmigalhar o osso. E sob as arcadas sombriamente fundas, que um felpo hirsuto
+orlava como um silvado orla o arco duma caverna, os olhos redondos, dum amarelo
+de ámbar, sem cessar se moviam, tremiam, esgazeados de inquietação e de
+espanto... Não, não era belo, nosso Pai venerável, nessa tarde de Outono,
+quando Jeová o ajudou com carinho a descer da sua Árvore! E todavia, nesses
+olhos redondos, de fino ámbar, mesmo através do tremor e do espanto, rebrilhava
+uma superior beleza&mdash;a Energia Inteligente que o ia trôpegamente levando, sôbre
+as pernas arqueadas, para fóra da mata onde passára a sua manhã de longos
+séculos a pular e a guinchar por cima dos ramos altos.</p>
+
+<p>Mas (se os Compêndios de Antropologia nos não iludem) os primeiros passos
+humanos de Adão não foram logo atirados, com alacridade e confiança, para o
+destino que o esperava entre os quatro rios do Éden. Entorpecido, envolvido
+pelas influências da Floresta,<span class="pn">{157}</span> ainda despega com custo a pata de entre o
+folhoso chão de fetos e begónias, e gostosamente se roça pelos pesados cachos
+de flores que lhe orvalham o pêlo, e acaricia as longas barbas de lichen
+branco, pendentes dos troncos de roble e de teca, onde gozára as doçuras da
+irresponsabilidade. Nas ramagens que tam generosamente, através tam longas
+idades, o nutriram e o embalaram, ainda colhe as bagas sumarentas, os rebentões
+mais tenros. Para transpor os regatos, que por todo o bosque reluzem e
+sussurram depois da sazão das chuvas, ainda se pendura duma rija liana,
+entrelaçada de orquídeas, e se balança, e arqueia o pulo, com pesada
+indolência. E receio bem que quando a aragem restolhasse pela espessura,
+carregada com o cheiro morno e acre das fêmeas acocoradas nos cimos, o Pai dos
+Homens ainda dilatasse as ventas chatas e soltasse do peito felpudo um grunhido
+rouco e triste.</p>
+
+<p>Mas caminha... As suas pupilas amarelas, onde faisca o Querer, sondam,
+esbugalhadas, através da ramaria, procuram para alêm o mundo que deseja e
+receia, e a que sente já a zoada violenta, como toda feita de batalha e rancor.
+E, à maneira que a penumbra das folhagens clareia, vai surgindo, dentro do seu
+crânio bisonho, como uma alvorada que penetra numa toca, o sentimento
+das<span class="pn">{158}</span> Formas diferentes e da Vida diferente que as anima. Essa rudimentar
+compreensão só trouxe a nosso Pai venerável turbação e terror. Todas as
+Tradições, as mais orgulhosas, concordam em que Adão, na sua entrada inicial
+pelas planícies do Éden, tremeu e gritou como criancinha perdida em arraial
+turbulento. E bem podemos pensar que, de todas as Formas, nenhuma o apavorava
+mais que a dessas mesmas árvores onde vivera, agora que as reconhecia como
+seres tam dissemelhantes do seu Ser e imobilizadas numa inércia tam contrária à
+sua Energia. Liberto da Animalidade, em caminho para a sua Humanização, o
+arvoredo que lhe fôra abrigo natural e doce só lhe pareceria agora um cativeiro
+de degradante tristeza. ¿E êsses ramos tortuosos, empecendo a sua marcha, não
+seriam braços fortes que se estendiam para o empolgar, o repuxar, o reter nos
+cimos frondosos? ¿Êsse ramalhado sussurro que o seguia, composto do
+desassossêgo irritado de cada fôlha, não era a selva toda, num alvoroço,
+reclamando o seu secular morador? De tam estranho medo nasceu, talvez, a
+primeira luta do Homem com a Natureza. Quando um galho alongado o roçasse,
+de-certo nosso Pai atiraria contra êle as garras desesperadas para o repelir e
+lhe escapar. Nesses bruscos ímpetos quantas vezes se desequilibrou, e as suas
+mãos se abateram<span class="pn">{159}</span> desamparadamente sôbre o sólo de mato ou rocha, de novo
+precipitado na postura bestial, retrogradando à inconsciência, entre o clamor
+triunfal da Floresta! Que angustioso esfôrço então para se erguer, recuperar a
+atitude humana, e correr, com os felpudos braços despegados da terra bruta,
+livres para a obra imensa da sua Humanização! Esfôrço sublime, em que ruge,
+morde as raíses detestadas, e, ¿quem sabe? levanta já os olhos de ámbar
+lustroso para os céus, onde, confusamente, sente Alguêm que o vem amparando&mdash;e
+que na realidade o levanta.</p>
+
+<p>Mas, de cada um dêstes tombos modificantes, nosso Pai ressurge mais humano,
+mais nosso Pai. E há já consciência, pressa da Racionalidade, nos ressoantes
+passos com que se arranca ao seu limbo arboral, despedaçando as enrediças,
+fendendo o bravio denso, despertando os tapires adormecidos sob cogumelos
+monstruosos, ou espantando algum urso môço e tresmalhado que, de patas contra
+um olmo, chupa, meio borracho, as uvas dêsse farto outono.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Emfim, Adão emerge da Floresta obscura:&mdash;e os seus olhos de ámbar vivamente
+se cerram sob o deslumbramento em que o envolve o Éden.<span class="pn">{160}</span></p>
+
+<p>Ao fundo dessa encosta, onde parara, resplandecem vastas campinas (se as
+Tradições não exageram) com desordenada e sombria abundância. Lentamente,
+através, um rio corre, semeado de ilhas, ensopando, em fecundos e espraiados
+remansos, as verduras onde já talvez cresce a lentilha e se alastra o arrozal.
+Rochas de mármore rosado rebrilham com um rubor quente. De entre bosques de
+algodoeiros, brancos como crespa espuma, sobem outeiros cobertos de magnólias,
+dum esplendor ainda mais branco. Alêm a neve coroa uma serra com um radiante
+nimbo de santidade, e escorre, por entre os flancos despedaçados, em finas
+franjas que refulgem. Outros montes dardejam mudas labaredas. Da borda de
+rígidas escarpas, pendem perdidamente, sôbre profundidades, palmeirais
+desgrenhados. Pelas lagôas a bruma arrasta a luminosa moleza das suas rendas. E
+o mar, nos confins do mundo, faiscando, tudo encerra, como um aro de
+oiro.&mdash;Neste fecundo espaço toda a Criação se espaneja, com a fôrça, a graça, a
+braveza vivaz duma mocidade de cinco dias, ainda quente das mãos do seu
+Criador. Profusos rebanhos de auroques, de pelagem ruiva, pastam,
+majestosamente, enterrados nas ervas tam altas que nelas desaparece a ovelha e
+o seu anho. Temerosos e barbudos urus, brigando contra gigantescos<span class="pn">{161}</span>
+veados-elefas, entrechocam cornos e galhos com o sêco fragor de robles que o
+vento racha. Um bando de girafas rodeia uma mimosa a que vai trincando,
+delicadamente, nos trémulos cimos, as folhinhas mais tenras. À sombra dos
+tamarindos, repousam disformes rinocerontes, sob o vôo apressado de pássaros
+que lhes catam serviçalmente a vermina. Cada arremêsso de tigre causa uma
+debandada furiosa de ancas, e chifres, e clinas, onde, mais certo e mais leve,
+se arqueia o pulo grácil dos antílopes. Uma rija palmeira verga toda ao pêso da
+jibóia que nela se enrosca. Entre duas penedias, por vezes, aparece, numa
+profusão de juba, a face magnífica de um leão que, serenamente, olha o sol, a
+imensidade radiante. No remoto azul, enormes condores dormem imóveis, de asas
+abertas, entre o sulco níveo e róseo das garças e dos flamingos. E em frente à
+encosta, num alto, entre o matagal, passa, lenta e montanhosa, uma récua de
+mastodontes, com a rude clina do dorso erriçada ao vento, e a tromba a
+bambolear entre os dentes mais recurvos que foices.</p>
+
+<p>Assim vetustíssimas Crónicas contam o vetustíssimo Éden, que era nas
+campinas do Eufrates, talvez na trigueira Ceilão, ou entre os quatro claros
+rios que hoje regam a Húngria, ou mesmo nestas terras bemditas onde a nossa
+Lisboa aquece a sua velhice ao<span class="pn">{162}</span> soalheiro, cansada de proezas e mares.
+¿Mas quem pode garantir êstes bosques e êstes bichos, pois que desde êsse dia
+25 de Outubro, que inundava o Paraíso de esplendor outonal, já passaram, muito
+breves e muito cheios, sôbre o grão de pó que é o nosso mundo, mais de sete
+vezes setecentos mil anos? Só parece certo que, diante de Adão apavorado, um
+grande pássaro passou. Um pássaro cinzento, calvo e pensativo, com as penas
+esguedelhadas como as pétalas de um crisântemo, que saltitava pesadamente sôbre
+uma das patas, erguendo na outra, bem agarrado, um mólho de ervas e ramos. O
+nosso Pai venerável, com a fusca face franzida, no doloroso esfôrço de
+compreender, pasmava para aquele pássaro, que ao lado, sob o abrigo de azáleas
+em flor, terminava muito gravemente a construção duma cabana! Vistosa e sólida
+cabana, com o seu chão de greda bem alisado, galhos fortes de pinheiro e faia
+formando estacas e traves, um seguro teto de relva sêca, e na parede de
+enrediças bem liadas o desafôgo duma janela!... Mas o Pai dos Homens, nessa
+tarde, ainda não compreendeu.</p>
+
+<p>Depois caminhou para o largo rio, desconfiadamente, sem se afastar da ourela
+do bosque abrigador. Lento, farejando o cheiro novo dos gordos herbívoros da
+planície, com os<span class="pn">{163}</span> punhos rijamente cerrados contra o peito peludo, Adão
+vai arfando entre o apetite daquela resplandecente Natureza e o terror dos
+seres nunca avistados que a atulham e atroam com tam fera turbulência. Mas
+dentro dêle borbulha, não cessa, a nascente sublime, a sublime nascente da
+Energia, que o impele a desentranhar da crassa bruteza, e a ensaiar, com
+esforços que são semi-penosos porque são já semi-lúcidos, os Dons que
+estabelecerão a sua supremacia sôbre essa Natureza incompreendida e o
+libertarão do seu terror. Assim, na surprêsa de todas aquelas inesperadas
+aparições do Éden, reses, pastagens, montes nevados, imensidades radiosas, Adão
+solta roucas exclamações, gritos com que desafoga, vozes gaguejadas, em que por
+instinto reproduz outras vozes, e brados, e toadas, e mesmo o reboliço das
+criaturas, e mesmo o estrondo das águas despenhadas... E êstes sons ficam já na
+escura memória de nosso Pai ligados às sensações que lhos arrancam:&mdash;de sorte
+que o guincho áspero que lhe escapara ao topar um cangurú com a sua ninhada
+embolsada no ventre, de novo lhe ressoará nos lábios trombudos quando outros
+cangurús, fugindo dêle, adiante, se embrenhem na sombra negra das caneleiras. A
+Bíblia, com a sua exageração oriental, cândida e simplista, conta que Adão,
+logo na sua entrada pelo Éden, distribuiu nomes a todos<span class="pn">{164}</span> os animais, e a
+todas as plantas, muito definitivamente, muito eruditamente, como se compuzesse
+o Lexicon da Criação, entre Buffon, já com os seus punhos, e Linneu, já com os
+seus óculos. Não! eram apenas grunhidos, roncos mais verdadeiramente augustos,
+porque todos êles se plantavam na sua consciência nascente como as tôscas
+raízes dessa Palavra pela qual verdadeiramente se humanou, e foi depois, sôbre
+a terra, tam sublime e tam burlesco.</p>
+
+<p>E bem podemos pensar, com orgulho, que ao descer a borda do rio Edénico,
+nosso Pai, compenetrado do que <em>era</em>, e quanto diverso dos outros seres!
+já se afirmava, se individualizava, e batia no peito sonoro, e rugia
+soberbamente:&mdash;<em>Eheu! Eheu!</em> Depois, alongando os olhos reluzentes por
+aquela longa água que corria vagarosamente para alêm, já tenta exteriorizar o
+seu espantado sentimento dos espaços, e rosna com pensativa cubiça:&mdash;<em>Lhlâ!
+Lhlâ!</em></p>
+
+
+<h2><a name="SECTION000720">II</a> </h2>
+
+<p>Calmo, magníficamente fecundo, corria êle, o nobre rio do Paraíso, por entre
+as ilhas, quási afundadas sob o pêso rijo do rijo arvoredo todas<span class="pn">{165}</span>
+fragrantes, e atroadas pelo clamor das cacatuas. E Adão, trotando pesadamente
+pela margem baixa, já sente a atracção das águas disciplinadas que andam e
+vivem&mdash;essa atracção que será tam forte nos seus filhos, quando no rio
+descobrirem o bom servidor que desaltera, estruma, rega, mói e acarreta. Mas
+quantos terrores especiais ainda o arrepiam, o atiram com espavoridos pulos
+para o abrigo dos salgueiros e dos choupos! Noutras ilhas, de areia fina e
+rosada, preguiçam pedregosos crocodilos, achatados sôbre o ventre, que arfam
+molemente, escancarando as fundas goelas na tépida preguiça da tarde, embebendo
+todo o ar com um cheirinho de almíscar. Por entre os canaviais, coleam e
+refulgem gordas cobras de água, de colo alteado, que fitam Adão com furor,
+dardejando e silvando. E, para nosso Pai que nunca as avistara, certamente
+seriam pavorosas as tartarugas imensas dêsse comêço do Mundo, pastando, com
+arrastada mansidão, através dos prados novos. Mas uma curiosidade o atrai,
+quási resvala na riba lodosa, onde a franja de água roça e marulha. Na largueza
+do rio espraiado, uma longa e negra fila de auroques, serenamente, com os
+cornos altos e a espessa barba a flutuar, nada para a outra margem, campina
+coberta de louras messes onde talvez já amaduram as espigas sociáveis do
+centeio e do milho. Nosso Pai<span class="pn">{166}</span> venerável olha a fila lenta, olha o rio
+lustroso, concebe o ennevoado desejo de tambêm atravessar para aqueles longes
+em que as ervas rebrilham, e arrisca a mão na corrente&mdash;na rija corrente que
+lha repuxa, como para o atrair e iniciar. Êle grunhe, arranca a mão&mdash;e segue,
+com ásperas patadas, esmagando, sem mesmo lhes sentir o perfume, os frescos
+morangos silvestres que ensangùentam a relva... Em breve pára, considerando um
+bando de aves alcandoradas numa penedia toda riscada de guanos, que espreitam,
+com o bico atento, para baixo, onde as águas apertadas refervem. ¿Que espreitam
+elas, as brancas garças? Lindos peixes em cardume, que rompem contra a levada,
+e pulam, lampejando nas espumas claras. E bruscamente, num desabrido abanar de
+asas brancas, uma garça, depois outra, fende o céu alto, levando, atravessado
+no bico, um peixe que se estorce e reluz. Nosso Pai venerável coça a ilharga. A
+sua crassa gula, entre aquela abundância do rio, tambêm apetece uma prêsa: e
+atira a garra, colhe, no seu vôo soante, cascudos insectos que farisca e
+trinca. Mas nada certamente assombrou o Primeiro Homem como um grosso tronco de
+árvore meio apodrecido, que boiava, descia na corrente, levando sentados numa
+ponta, com segurança e graça, dois bichos sedosos, louros, de focinho
+esperto,<span class="pn">{167}</span> e fôfas caudas vaidosas. Para os seguir, os observar,
+ansiosamente correu, enorme e desengonçado. E os seus olhos faiscavam, como se
+já compreendesse a malícia daqueles dois bichos, embarcados num toro de árvore,
+e viajando, com a macia frescura da tarde, no rio do Paraíso.</p>
+
+<p>No entanto, a água que êle costeava era mais baixa, turva e tarda. Já na sua
+largueza não verdejam ilhas, nem nela se molha a orla das fartas pastagens.
+Para alêm, sem limite, fundidas nas neblinas, fogem descampadas solidões, de
+onde rola um vento lento e húmido. Nosso Pai venerável enterrava as patas em
+ribas moles, através de aluviões, de lixos silvestres, em que chapinavam, para
+seu intenso horror, enormes rãs coaxando furiosamente. E o rio em breve se
+perdeu numa vasta lagôa, escura e desolada, resto das grandes águas sôbre que
+flutuara o Espírito de Jeová. Uma tristeza humana apertou o coração de nosso
+Pai. Do meio de grossas bôlhas, que se empolavam na estanhada lisura da água
+triste, constantemente surdiam horrendas trombas, a escorrer de limos verdes,
+que bufavam ruidosamente, logo se afundavam, como repuxadas pelos lôdos
+viscosos. E quando de entre os altos e negros canaviais, manchando a
+vermelhidão da tarde, se elevou, se alargou sobre êle uma nuvem
+estridente<span class="pn">{168}</span> de moscardos vorazes, Adão foge, estonteado, trilha saibros
+pegajosos, rasga o pêlo na aspereza dos cardos brancos que o vento estorce,
+resvala por uma encosta de cascalho e seixo, e pára em areia fina. Arqueja: as
+suas longas orelhas remexem, escutando, para alêm das dunas, um vasto rumor que
+rola e desaba e retumba... É o mar. Nosso Pai transpõe as pálidas dunas&mdash;e
+diante dêle está o Mar!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Então foi o pavor supremo. Com um pulo, batendo convulsamente os punhos no
+peito, recúa até onde três pinheiros, mortos e sem rama, lhe oferecem o refúgio
+hereditário. ¿Porque avançam assim para êle, sem cessar, numa inchada ameaça,
+aqueles rolos verdes, com a sua clina de espuma, e se atiram, se esmigalham,
+refervem, babujam rudemente a areia? Mas toda a outra vasta água permanece
+imóvel, como morta, com uma grande mancha de sangue que lateja. Todo êsse
+sangue caíu, de-certo, da ferida do sol, redonda e vermelha, sangrando em cima,
+num céu dilacerado por fundos golpes já rôxos. Para alêm da névoa leitosa que
+cobre as lagôas, dos charcos salgados, onde a marezia ainda chega e se espraia
+muito longe, um monte flameja e fumega. E sempre diante de Adão, contra
+Adão,<span class="pn">{169}</span> os verdes rolos da verde vaga avançam, e ribombam, e alastram a
+praia de algas, de conchas, de gelatinas que alvejam lívidamente.</p>
+
+<p>Mas eis que todo o mar se povôa! E, encolhido contra o pinheiro, nosso Pai
+venerável dardeja os olhos inquietos e trémulos, para aqui, para alêm&mdash;para os
+rochedos cobertos de sargaço onde gordíssimas focas rebolam majestosamente;
+para os repuxos de água, que ao largo esguicham até às nuvens rôxas e recáem
+numa chuva radiante; para uma linda armada de búzios, imensos búzios alvos e
+nacarados, vogando à bolina, circundando as penedias, com manobra elegante...
+Adão pasma sem saber que estas são as Amonites, e que nenhum outro homem,
+depois dêle, verá a luzida e rósea armada singrando nos mares dêste mundo.
+Ainda êle a admira, talvez com a impressão inicial da beleza das cousas, quando
+bruscamente, num tremor de sulcos brancos, toda a maravilhosa frota sossobra!
+Com o mesmo salto mole, as focas tombam, trambulham na vaga funda. E um terror
+passa, um terror levantado do mar, tam intenso que um bando de albatrozes,
+muito seguro sôbre uma escarpa, bate, com azoados gritos, o vôo espavorido.</p>
+
+<p>Nosso Pai venerável aferra a mão a um galho de pinheiro, sondando, num
+arrepio, a imensidão deserta. Então, ao longe, sob o<span class="pn">{170}</span> clarão enfiado do
+sol que se esconde, um dorso imenso sai, lentamente, das águas, como uma
+comprida colina, toda espetada de negras, agudas lascas de rocha. E avança!
+Adiante um tumulto de bôlhas redemoinha e rebenta; e de entre elas emerge, por
+fim, resfolegando cavamente, uma tromba disforme, de fauces entreabertas, onde
+lampejam e se somem cardumes de peixes que os seus sorvos vem tragando...</p>
+
+<p>É um monstro, um pavoroso monstro marinho! E bem podemos supor que nosso
+Pai, esquecendo toda a sua dignidade humana (ainda recente), trepou
+desesperadamente ao pinheiro até onde os galhos findavam. Mas mesmo nesse
+abrigo, os seus poderosos queixos batiam, num medo convulso, ante o horrífico
+ser surgido das profundidades. Com um baque raspante, esmigalhando conchas,
+seixos e galhos de coral, o monstro esbarra na areia, que fundamente escava e
+sôbre que retesa as duas patas, mais grossas que troncos de teca, com as unhas
+todas enrodilhadas de silvas marinhas. Da caverna das suas fauces, através dos
+dentes terríficos, que os limos e musgos esverdeiam, sopra um bafo espesso de
+fadiga ou de furor, tam forte que faz rodopiar as algas sêcas e os búzios
+ligeiros. Entre as crostas pedregosas, que lhe couraçam a fronte, negrejam dois
+cornos curtos e rombos. Os seus olhos, lívidos e<span class="pn">{171}</span> vítreos, são como duas
+enormes luas mortas. A imensa cauda dentada arrasta pelo mar distante, e a cada
+rabeio lento levanta uma tempestade.</p>
+
+<p>Por estas feições, pouco amáveis, já reconhecesteis o Ictiosaurio, o mais
+horrendo dos cetáceos concebidos por Jeová. Era êle!&mdash;talvez o derradeiro, que
+durara nas trevas oceânicas até êste dia memorável de 28 de Outubro, para que
+nosso Pai entrevisse as origens da Vida. E agora está em frente de Adão,
+ligando os tempos vélhos aos tempos novos&mdash;e, com as escamas do dorso
+assanhadas, muge devastadoramente. Nosso Pai venerável, enroscado ao tronco
+alto, guincha de vivo horror... E eis que, do lado dos charcos ennevoados, um
+silvo fende os céus, uivado e arremetido, como o de um áspero vento numa
+garganta de serrania. O quê! Outro monstro?... Sim, o Plesiosaurio. É tambêm o
+derradeiro Plesiosaurio que corre do fundo dos pântanos. E agora de novo se
+trava, para assombro do primeiro Homem (e gôsto dos Paleontologistas) o combate
+que foi a desolação dos pre-humanos dias da Terra. Lá aparece a fabulosa cabeça
+do Plésio, terminada em bico de ave, bico de duas braças, mais agudo que o
+dardo mais agudo, erguida sôbre um longuíssimo e esguio pescoço que ondula,
+arqueia, esfusia, dardeja com pavorosa elegância! Duas barbatanas de
+incomparável<span class="pn">{172}</span> rijeza veem movendo o seu disforme corpo, mole, glutinoso,
+todo em rugas, manchado por uma lepra de fungos esverdinhados. E tam imenso é
+assim rojando, com o pescoço empinado, que, diante da duna onde se levantam os
+pinheiros que acoitam Adão, êle parece uma outra duna negra sustentando um
+pinheiro solitário. Furiosamente avança.&mdash;E de repente é um horroroso tumulto
+de mugidos, e sibilos, e choques ribombantes, e areias torvelinhando, e grossos
+mares espadanando. Nosso Pai venerável salta dum pinheiro para outro pinheiro,
+tremendo tanto que, com êle, tremem os rijos troncos. E quando se arrisca a
+espreitar, ao recrescer dos bramidos, só percebe, na enrolada massa dos dois
+monstros, através de uma névoa de espuma que os esguichos de sangue avermelham,
+o bico do Plésio todo enterrado no ventre mole do Ictio, cuja cauda, erguida,
+se estorce furiosamente na palidez dos céus espantados. De novo esconde
+perdidamente a face, nosso Pai venerável! Um urro de monstruosa agonia rola na
+praia. As pálidas dunas estremecem, as cavernas soturnas ressoam. Depois é uma
+paz muito larga, em que o ruido do mar Oceano não é mais que um consolado
+murmúrio de alívio. Adão espia, debruçado entre os galhos... O Plésio recuara
+ferido para a tépida lama dos seus pântanos. E sôbre a<span class="pn">{173}</span> praia jaz o Ictio
+morto, como uma colina onde a vaga da tarde mansamente se quebra.</p>
+
+<p>Então, nosso Pai venerável cautelosamente escorrega do seu pinheiro, e se
+abeira do monstro. A areia, em redor, está medonhamente revôlta;&mdash;e por toda
+ela, em lentos regos, em pôças escuras, o sangue, mal chupado, fumega. Tam
+montanhoso é o Ictio, que Adão, erguendo a face assombrada, nem avista as puas
+do monstro, erriçadas ao longo daquele alcantilado espinhaço, a que o bico do
+Plésio arrancou escamas mais pesadas que lages. Mas, diante das mãos trementes
+do Homem, estão os rasgões do ventre mole, de onde o sangue pinga, e gorduras
+babam, e imensas tripas esfiadas escorrem, e pendem febras atassalhadas de
+carne rosada... E as chatas ventas de nosso Pai venerável estranhamente se
+alargam e farejam.</p>
+
+<p>Toda essa tarde êle caminhara, desde a Floresta, através do Paraíso,
+chupando bagas, rilhando raízes, trincando os insectos de casca picante. Mas
+agora o sol penetrou no mar&mdash;e Adão tem fome, nesse areal maninho, onde só
+alvejam cardos que o vento estorce. Oh! aquela carne rija, sangrenta, ainda
+viva, que exala um cheiro tam fresco e salino! As suas rombas mandíbulas
+ruidosamente se escancaram num bocejo enfastiado e famélico... O Oceano arfa,
+como adormecido... Então, irresistívelmente, Adão mergulha numa das feridas do
+sáurio os<span class="pn">{174}</span> dedos que lambe e rechupa, moles de sangue e gorduras. O
+espanto dum sabor novo imobiliza o homem frugal que vem das ervas e das frutas.
+Depois, com um salto, arremete contra a montanha de abundância, e arranca uma
+fêbra que trinca e traga, a grunhir, num furor, numa pressa, em que há o gôzo e
+há o medo da primeira carne comida.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Tendo ceado assim postas cruas dum monstro marinho, nosso Pai venerável
+sente uma grande sêde. São salgadas as pôças que na areia rebrilham. Pesado e
+triste, com os beiços empastados de banha e de sangue, Adão, sob o calado
+crepúsculo, atravessa as dunas, repenetra nas terras, rebuscando sôfregamente
+água doce. Por toda a relva, nesses tempos de universal humidade, fugia e
+chalrava um regato. Em breve, estendido numa riba lodosa, Adão bebeu
+consoladamente, em fundos sorvos, sob o vôo espantado de moscas fosforescentes
+que se lhe prendiam na guedelha.</p>
+
+<p>Era junto dum bosque de carvalhos e faias. A noite, que já se adensara,
+ennegrecia um chão todo de plantas, onde a malva se encostava à hortelã, e a
+salsa ao funcho ligeiro. Nessa clareira fresca, penetrou nosso Pai venerável,
+estafado com a marcha e os espantos daquela tarde do Paraíso. E apenas se
+estendera<span class="pn">{175}</span> na alfombra cheirosa, com a hirsuta face pousada sôbre as
+palmas unidas, os joelhos colhidos contra o ventre distendido como um tambor,
+mergulhou num sono como êle nunca dormira&mdash;todo povoado de sombras moventes,
+que eram aves construindo uma casa, patas de insectos tecendo uma teia, dois
+bichos vogando nas águas rolantes.</p>
+
+<p>Ora conta a Lenda que então, em tôrno do Primeiro Homem adormecido,
+começaram a surdir, por entre o mato baixo, focinhos fariscantes, finas orelhas
+espetadas, olhinhos reluzindo como botões de azeviche, e espinhaços inquietos
+que a emoção arqueava&mdash;emquanto que, dos cimos dos carvalhos e faias, num
+abafado frémito de asas, se debruçavam bicos recurvos, bicos retesos, bicos
+bravios, bicos pensativos, todos alvejando na claridade delgada da lua, que
+subia por trás dos montes, e banhava as frondes altas. Depois, à orla da
+clareira, uma hiena apareceu, coxeando, miando com lástima. Através da campina
+trotaram dois lobos, esgalgados, famélicos, com os verdes olhos acesos. Os
+leões não tardaram, com as riais faces erguidas, soberanamente enrugadas, numa
+profusão de jubas flamantes. Em confusa manada, que chegava bufando, os cornos
+dos auroques entrechocavam com impaciência os galhos palmares das renas. Todos
+os pêlos se<span class="pn">{176}</span> arrepiaram quando o tigre e a pantera negra, ondulando
+calada e aveludadamente, resvalaram, com as línguas pendentes e vermelhas como
+coalhos de sangue. Dos vales, das serranias, das fragas, outros acudiam, numa
+pressa tam anciosa, que os horrendos cavalos primitivos se empinavam por sôbre
+os cangurus, e a tromba do hipopótamo, a escorrer de limos, empurrava as ancas
+lentas do dromedário. Entre as patas e os cascos apinhados coleavam em aliança
+o furão, a sardonisca, a doninha, a cobra fulgente que engole a doninha, e o
+alegre manguço que assassina a cobra. Um bando de gazelas tropeçava, magoando
+as pernas finas, contra a crosta dos crocodilos, que subiam em fila da borda
+das lagôas, de goelas preparadas e a gemer. Já toda a planície arfava, sob a
+lua, no mole remexer de dorsos apertados, de onde se erguia, ora o pescoço da
+girafa, ora o corpo da jibóia, como mastros naufragados, balançados entre
+vagas. E por fim, abalando o sólo, enchendo o céu, com a tromba enrolada entre
+os dentes recurvos, assomou o rugoso mastodonte.</p>
+
+<p>Era toda a Animalidade do Paraíso, que, sabendo o Primeiro Homem adormecido,
+sem defesa, num ermo bosque, corria, na imensa esperança de o destruir e
+eliminar da terra a Fôrça Inteligente, destinada a submeter a<span class="pn">{177}</span> Fôrça
+Bruta. Mas, naquela pavorosa turba que fumegava, se atropelava à borda da
+clareira, onde Adão dormia sôbre a hortelã e a malva, nenhuma fera avançava. Os
+longos dentes reluziam, feramente arreganhados; todos os cornos repontavam;
+cada garra saída dilacerava com ânsia a terra mole; e os bicos, de cima das
+ramas, terçavam os fios da lua com bicadas famintas.... Mas nem ave descia, nem
+fera avançava,&mdash;porque ao lado de Adão velava uma Figura séria e branca, de
+asas brancas fechadas, os cabelos presos num aro de estrêlas, o peito guardado
+numa couraça de diamante, e as duas refulgentes mãos apoiadas ao punho duma
+espada que era de lume&mdash;e vivia.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>A aurora despontou, com ardente pompa, comunicando à terra alegre, à terra
+braviamente alegre, à terra ainda sem andrajos, à terra ainda sem sepulturas,
+uma alegria superior, mais grave, religiosa e nupcial. Adão acordou: e, batendo
+as fuscas pálpebras, na surprêsa do seu acordar humano, sentiu sôbre a ilharga
+um pêso que era macio e que era doce. Nesse terror que, desde as árvores, não
+desamparava o seu coração, pulou e com tam ruidoso pulo, que, pela selva, os
+melros, os rouxinóis, as toutinegras, todos os passarinhos<span class="pn">{178}</span> de festa e de
+amor, despertaram e romperam num canto de congratulações e de esperanças.&mdash;E,
+oh maravilha! diante de Adão, e como despegado dêle, estava outro Ser a êle
+semelhante, mas mais esbelto, suavemente coberto dum pêlo mais sedoso, que o
+contemplava com largos olhos lustrosos e líquidos. Uma côma ruiva, dum ruivo
+tostado, rolava, em espessas ondas, até às suas ancas arredondadas numa
+plenitude harmoniosa e fecunda. De entre os braços peludinhos, que cruzara,
+surdiam, abundantes e gordos, os dois peitos da côr do medronho, com uma
+penugem crespa orlando o bico, que se enristava, entumecido. E roçando, num
+roçar lento, num roçar muito doce, os joelhos pelados, todo aquele sedoso e
+tenro Ser se ofertava com uma submissão pasmada e lasciva. Era Eva... Eras tu,
+Mãe Venerável!</p>
+
+
+<h2><a name="SECTION000730">III</a> </h2>
+
+<p>Então começaram, para nossos Pais, os dias abomináveis do Paraíso.</p>
+
+<p>O seu constante e desesperado esfôrço foi sobreviver&mdash;no meio duma Natureza
+que, sem cessar e furiosamente, tramava a sua destruição.<span class="pn">{179}</span> E Adão e Eva
+passaram êsses tempos, que os poemas Semíticos celebram como Inefáveis&mdash;sempre
+a tremer, sempre a ganir, sempre a fugir! A terra ainda não era uma obra
+perfeita: e a Divina Energia, que a andava compondo, incessantemente a
+emendava, numa tam móbil inspiração, que em sítio coberto ao alvorecer por uma
+floresta, à noite se espelhava uma lagôa onde a Lua, já doente, vinha estudar a
+sua palidez. Quantas vezes nossos Pais, repousando no pendor de um outeiro
+inocente, entre o serpol e o rosmaninho (Adão com a face deitada sôbre a côxa
+de Eva, Eva com dedos ágeis catando o pêlo de Adão) foram sacudidos pela
+encosta amena como por um dorso irritado, e rolaram, embrulhados, entre o
+ribombo, e a labareda, e a fumarada, e a cinza quente do vulcão que Jeová
+improvisara! Quantas noites escaparam, uivando, dalguma abrigada caverna,
+quando já sôbre ela corria um grande mar inchado que bramava, se desenrolava,
+ficava fervendo entre as rochas, com negras focas mortas a boiar. Ou então era
+o chão, o chão seguro, já social e fertilizado para as searas sociáveis, que de
+repente rugia como uma fera, escancarava uma insondável goela, e tragava
+rebanhos, prados, nascentes, benéficos cedros com todas as rôlas que na sua
+rama arrulhavam.</p>
+
+<p>Depois eram as chuvas, as longas chuvas<span class="pn">{180}</span> Edénicas, desabando em jorros
+clamorosos, durante alagados dias, durante torrentosas noites, tam
+desabaladamente que do Paraíso, vasto charco barrento, apenas apareciam as
+pontas do arvoredo afogado, e os cimos dos montes atulhados de bichos transidos
+que bramiam no terror das águas soltas. E nossos Pais, refugiados nalguma
+erguida fraga, gemiam lamentavelmente, com regatos a escorrer dos ombros, com
+ribeiras a escorrer dos pés, como se o barro novo de que Jeová os fizera se
+andasse já desfazendo.</p>
+
+<p>E mais terríficas eram as estiagens. Oh! o incomparável tormento das sêcas
+no Paraíso! Lentos dias tristes, após lentos dias tristes, a imensa brasa do
+sol candente coriscava furiosamente num céu côr de cobre, em que o ar baço e
+grosso crepitava e arfava. Os montes estalavam, gretados: e as planícies
+desapareciam sob uma denegrida camada de fios retorcidos, ennovelados, rijos
+como arames, que eram os restos das verdes pastagens. Toda a tisnada folhagem
+rolava nos ventos abrasados, com rugidora restolhada. O leito dos rios chupados
+tinha a rigidez de ferro fundido. O musgo escorregava das rochas, como uma pele
+sêca que se despega descobrindo largos ossos. Cada noite um bosque ardia,
+fogueira estralejante, de lenha ressequida, escaldando mais a abóbada do forno
+inclemente.<span class="pn">{181}</span> Todo o Éden andava coberto das revoadas de abutres e corvos,
+porque, com tanto animal morto de fome e de sêde, abundava a carne pôdre. No
+rio, a água que restava mal corria, empoçada pela massa fervilhante de cobras,
+rãs, lontras, tartarugas, refugiadas naquele derradeiro veio, lodoso e todo
+morno. E nossos Pais veneráveis, com as magras costelas a arquejar contra o
+pêlo crestado, a língua pendida e mais dura que cortiça, erravam de fonte em
+fonte, a sorver desesperadamente alguma gota que ainda brotasse, gota rara, que
+assobiava, ao caír, sobre as lages esbraseadas...</p>
+
+<p>E assim Adão e Eva, fugindo do Fogo, fugindo da Água, fugindo da Terra,
+fugindo do Ar, encetavam a vida no Jardim de Delícias.</p>
+
+<p>E no meio de tantos perigos, constantes e flagrantes, era necessário comer!
+Ah! Comer&mdash;que portentosa emprêsa para nossos Pais veneráveis! Sobretudo desde
+que Adão (e depois Eva, por Adão iniciada) tendo provado os deleites fatais da
+carne, já não encontravam sabor, nem fartura, nem decência, nos frutos, nas
+raízes, e nos bagos do tempo da sua Animalidade. Certamente, as boas carnes não
+faltavam no Paraíso. Delicioso seria o salmão primitivo&mdash;mas nadava alegremente
+nas águas rápidas. Saborosa seria a galinhola, ou o faisão rutilante, nutridos
+com os grãos que<span class="pn">{182}</span> o Criador considerara bons&mdash;mas voavam nos céus, em
+triunfal segurança. O coelho, a lebre&mdash;que fugas ligeiras no mato cheiroso!...
+E nosso Pai, nesses dias cândidos, não possuia o anzol nem a seta. Por isso,
+sem cessar rondava em tôrno das lagôas, nas ribas do mar, onde casualmente
+encalhava, boiando, algum cetáceo morto. Mas êsses achados de abundância eram
+raros&mdash;e o triste casal humano, nas suas marchas famintas pela borda das águas,
+só conquistava, aqui e alêm, na rocha ou na areia revôlta, algum feio
+caranguejo em cuja dura casca os seus beiços se esgaçavam. Essas solidões
+marinhas andavam tambêm infestadas por bandos de feras esperando, como Adão,
+que a vaga rolasse os peixes vencidos em borrasca ou batalha. E quantas vezes,
+nossos Pais, já com a garra cravada numa posta de foca ou golfinho, fugiam
+desconsoladamente, sentindo o passo fôfo do horrendo speleo, ou o bafo dos
+ursos brancos, bamboleando pelo branco areal, sob a branca indiferença da lua!
+</p>
+
+<p>De-certo, a sua sciência hereditária de trepar às arvores socorria nossos
+Pais nesta conquista da prêsa. Que, sob as ramarias da caneleira de onde êles,
+assolapadamente, espreitavam, aparecesse algum cabrito desgarrado, ou uma
+tartaruga môça e bisonha se arrastasse para a erva miuda&mdash;e eis o
+repasto<span class="pn">{183}</span> seguro! Num relance, o cabrito ficava atassalhado, todo o seu
+sangue chupado em sorvos convulsos: e Eva, nossa Mãe forte, guinchando
+sombriamente, arrancava, uma a uma, de entre a casca, as patas da tartaruga...
+Mas quantas noites, depois de jejuns angustiosos, se achavam os Eleitos da
+Terra forçados a afugentar a hiena, com rijos brados, através das clareiras,
+para lhe roubar um osso fetidamente babujado, que era já o sobejo de um leão
+farto! E dias piores sucediam, em que a fome reduzia nossos Pais a retrogradar
+à desgostosa frugalidade do tempo da Árvore, às ervas, aos rebentos, às raízes
+amargas&mdash;conhecendo assim, entre a abundância do Paraíso, a primeira forma da
+Miséria!</p>
+
+<p>E, através dêstes trabalhos, não os desamparava o terror das feras! Porque,
+se Adão e Eva comiam os bichos fracos e fáceis, eram tambêm uma prêsa apetecida
+por todos os brutos superiores. Comer Eva, tam redonda e carnuda, foi de-certo
+o sonho de muito tigre nos juncais do Paraíso. Quanto urso, mesmo ocupado a
+roubar favos de mel num escavado tronco de roble, não se deteve, e se balançou,
+e lambeu o focinho numa gula mais fina, ao avistar, através da ramaria, num
+rebrilho errante de sol, o sombrio corpanzão de nosso Pai venerável! E nem só o
+perigo vinha das hordas esfaimadas dos carnívoros, mas ainda<span class="pn">{184}</span> dos lentos
+e fartos herbívoros, o auroque, o urus, o cervo elefas, que alegremente
+escorneariam e espesinhariam nossos Pais, por estupidez, dissemelhança de raça
+e cheiro, emprêgo da vida ociosa. E acresciam ainda os que matavam para não
+serem mortos&mdash;porque Medo, Fome e Furor, foram as leis da vida no Paraíso.</p>
+
+<p>Certamente nossos Pais eram tambêm ferozes, de tremenda fôrça, e perfeitos
+na arte salvadora de trepar aos cimos frondosos. Mas o leopardo pulava de ramo
+em ramo, sem rumor, com uma destreza mais felina e segura! A jibóia furava com
+a cabeça até aos galhos extremos do mais levantado cedro para colher os
+macacos&mdash;e bem poderia abocar Adão, com aquela obtusa incapacidade que sempre
+as jibóias tiveram de distinguir, sob a similitude das formas, a diversidade
+dos méritos. ¿E que valiam as garras de Adão, mesmo aliadas às garras de Eva,
+contra êsses pavorosos leões do Jardim de Delícias que a Zoologia, ainda hoje
+arrepiada, chama o <em>Leo Anticus</em>? ¿Ou contra a hiena-spelea tam ousada,
+que, nos primeiros dias do Génesis, os Anjos, quando desciam ao Paraíso,
+caminhavam sempre com as asas arregaçadas, para que ela, saltando de entre dos
+bambus, lhes não arrancasse as penas refulgentes? ¿Ou contra os cães, os
+horrendos cães do Paraíso, que atacando em<span class="pn">{185}</span> cerradas e ululantes hostes,
+foram, nesses começos do Homem, os piores inimigos do Homem?</p>
+
+<p>E entre toda esta bicharia adversa, Adão não contava um aliado. Os seus
+próprios parentes, os Antropóides, invejosos e farçantes, o apedrejavam com
+enormes côcos. Só um animal, e formidável, conservava pelo Homem uma majestosa
+e pachorrenta simpatia. Era o Mastodonte. Mas a ennevoada Inteligência de nosso
+Pai ainda, nesses dias Edénicos, não compreendia a bondade, a justiça, o
+serviçal coração do paquiderme admirável. Por isso, certo da sua fraqueza e do
+seu isolamento, êle viveu, durante êsses trágicos anos, num ansiado terror. Tam
+ansiado e longo, que o seu arrepio, como uma longa ondulação, se perpètuou por
+toda a sua descendência&mdash;e é o vélho medo de Adão que nos torna inquietos,
+quando atravessamos a mata mais segura na solidão crepuscular.</p>
+
+<p>E depois consideremos que ainda restavam pelo Paraíso, entre bichos de
+formas racionais, polidas, já preparadas para a prosa nobre de Mr. de Buffon,
+alguns dos grotescos monstros que desonraram a Criação antes da madrugada
+purificadora de 25 de Outubro. De-certo Jeová poupou a Adão o degradante horror
+de viver no Paraíso em companhia dessa escandalosa avantesma a que os
+Paleontologistas,<span class="pn">{186}</span> assombrados, deram o nome de <em>Iguanodão</em>! Na
+véspera do advento do Homem, Jeová, muito caridosamente, afogou todos os
+Iguanodões nos lôdos de um pântano, a um canto escondido do Paraíso, onde hoje
+se estende a Flandres. Mas Adão e Eva ainda conheceram os Pterodactilos. Oh!
+estes Pterodactilos!... Corpos de Jacaré, escamosos e penugentos; duas
+lúgubres, negras, carnudas asas, de morcego: um bico disparatado, mais grosso
+que o corpo, tristonhamente caído, erriçado de centenas de dentes, finos como
+os duma serra. E não voava! Descia, de asas moles, e mudas, e nelas abafava a
+prêsa como num pano viscoso e gelado, para a retalhar toda com os estalados
+golpes das mandíbulas fétidas. E êste funambulesco avejão enturvava o céu do
+Paraíso com a mesma abundância com que os melros ou as andorinhas cruzam os
+santos ares de Portugal. Os dias de nossos Pais veneráveis foram por êles
+torturados;&mdash;e nunca o seu pobre coração tremia tanto como quando, de alêm dos
+montes, se vinha despenhado, com sinistro estridor de asas e bicos, a revoada
+dos Pterodactilos.</p>
+
+<p>¿Como sobreviveram nossos Pais, neste Jardim de Delícias? De-certo muito
+faiscou e trabalhou a espada do Anjo que os guardava!<span class="pn">{187}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Pois bem, meus amigos! A todos êstes furiosos seres deve o homem a sua
+carreira triunfal. Sem os Sáurios, e os Pterodactilos, e a Hiena Spelea, e o
+arrepiado terror que espalhavam, e a necessidade de ter, contra o seu ataque,
+sempre bestial, uma defesa sempre racional&mdash;a Terra permaneceria um temeroso
+Paraíso, onde erraríamos todos, desgrenhados e nus, chupando pela borda dos
+mares as banhas cruas de monstros naufragados. Ao encolhido medo de Adão se
+deve a supremacia da sua descendência. Foi o bicho perseguidor que o forçou a
+subir aos cimos da Humanidade. E bem sabedores das Origens se mostraram os
+poetas Mesopotâmicos do Génesis, nesses versículos subtis em que um animal, e o
+mais perigoso, a Serpente, leva Adão, por amor de Eva, a colher o fruto do
+Saber! Se não rugisse outrora o Leão das cavernas, não trabalhava hoje o Homem
+das cidades&mdash;pois que a Civilização nasceu do desesperado esfôrço defensivo
+contra o Inanimado e o Inconsciente. A Sociedade é realmente a obra da féra.
+Que a Hiena e o Tigre, no Paraíso, começassem por acariciar lânguidamente o
+ombro peludo de Adão com pata amiga&mdash;Adão ficaria irmão do Tigre e da Hiena,
+partilhando as suas tocas, as suas prêsas, os seus ócios,<span class="pn">{188}</span> os seus gostos
+bravios. E a Energia Inteligente, que o descera da Árvore, em breve se apagaria
+dentro da sua bruteza inerte, como se apaga a faisca, mesmo entre galhos secos,
+se um frio sôpro, vindo de um buraco escuro, não a estimula a viver, para
+vencer a friagem e vencer a escuridão.</p>
+
+<p>Mas uma tarde (como ensinaria o exacto Usserius) saíndo Adão e Eva da
+espessura dum bosque, um urso enorme, o Pai dos Ursos, apareceu diante dêles,
+ergueu as negras patas, escancarou a goela sangrenta... Então, assim colhido,
+sem refúgio, na apertada ânsia de defender a sua fêmea, o Pai dos Homens
+arremessou contra o Pai dos Ursos o cajado a que se arrimava, um forte galho de
+téca, arrancado na mata, que findava em lasca aguda... E o pau atravessou o
+coração da féra.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Ah! Desde essa tarde bemdita houve verdadeiramente, sôbre a terra, um Homem.
+</p>
+
+<p>Era já um Homem, e superior, quando lançou um passo espantado, e arrancou o
+pau do seio do monstro estendido, e lhe mirou a ponta gotejante de sangue&mdash;com
+a testa toda franzida, no afã de compreender. Os seus olhos resplandeceram, num
+deslumbrado triunfo. Adão compreendera...<span class="pn">{189}</span></p>
+
+<p>Nem cuidou mais da boa carne do urso! Remergulhou na floresta, e toda a
+tarde, emquanto a luz se arrastou pelas frondes, arrancou ramos aos troncos,
+cautelosamente, destramente, para que as pontas quebrassem bem lascadas e
+agudas. Ah! que soberbo estalar de hastes, pelo fundo bosque, através da
+frescura e da sombra, para a obra da primeira Redenção! Selva amável, que foste
+a primeira oficina, quem soubera onde jazes, na tua secular sepultura, tornada
+negro carvão!... Quando da mata largaram, fumegando de suor, para recolher à
+toca distante, nossos Pais veneráveis vergavam sob o pêso glorioso de dois
+grossos mólhos de armas.</p>
+
+<p>E então não cessam mais os feitos do Homem. Ainda os corvos e os chacais não
+tinham esburgado a carcassa do Pai dos Ursos&mdash;já nosso Pai racha uma ponta do
+seu cajado vitorioso; entala na fenda um dêsses seixos afiados e bicudos, em
+que por vezes se feriam as suas patas, descendo à beira dos rios; e segura o
+fino estilhaço na racha com os lios, muito arrochados, de uma fibra de enrediça
+sêca. E eis a lança! Como essas pedras não abundam, Adão e Eva ensangùentam as
+garras, tentando fender os pedregões redondos de sílex em lascas curtas, que
+venham perfeitas, com ponta e com gume, para rasgar, cravar. A pedra resiste,
+pouco desejosa de<span class="pn">{190}</span> ajudar o Homem que, nos dias genesíacos do grande
+Outubro, ela tentara suplantar (como contam as prodigiosas Crónicas de
+Backun).&mdash;Mas de novo lampeja a face de Adão, numa idea que o sulca, como
+faisca emanada da Eterna Sabedoria. Apanha um pedregulho, bate a rocha, arranca
+a lasca... E eis o martelo!</p>
+
+<p>Depois, noutra tarde bemdita, costeando uma escura e bravia colina,
+descobre, com aqueles seus olhos que já rebuscam e comparam, um calhau negro,
+áspero, facetado, sombriamente luzidio. Pasma do seu pêso&mdash;e logo pressente
+nele um maço superior, de decisiva rijeza. Com que alvoroço o leva agarrado
+contra o peito, para martelar o sílex rebelde! Ao lado de Eva, que o espera à
+beira do rio, logo malha rijamente sôbre a pederneira... E oh espanto! uma
+fagulha salta, refulge, morre! Ambos recúam, se entreolham, num terror quási
+sagrado! É um lume, um vivo lume, que êle assim arrancou com as suas mãos da
+rocha bruta&mdash;semelhante ao lume vivo que dardeja de entre as nuvens. De novo
+bate, a tremer. A scentelha brilha, a scentelha passa, e Adão remira e fareja o
+escuro calhau. Mas não compreende. E pensativos, nossos Pais veneráveis sobem,
+com os cabelos ao vento, para a sua caverna costumada, que é no pendor dum
+cêrro, junto duma fonte borbulhando entre fétos.<span class="pn">{191}</span></p>
+
+<p>E aí, no seu retiro, Adão, com uma curiosidade onde lateja uma esperança,
+novamente entala o sílex, grosso como uma abóbora, entre os calosos pés, e
+recomeça a martelar, sob o bafo de Eva, que se debruça e arfa. Sempre a faúlha
+salta, rebrilha na sombra, tam refulgente como aqueles lumes que agora
+palpitam, olham, de alêm, das alturas. Mas êsses lumes permanecem, através da
+negrura do céu e da noite, vivos, a espreitar, na sua radiância. E aquelas
+estrelinhas da pedra ainda não tem vivido e já teem morrido... ¿Será o vento
+que as leva, êle que tudo leva, vozes, nuvens e fôlhas ? Nosso Pai venerável,
+fugindo do vento malévolo que ronda no monte, recúa até ao fundo mais abrigado
+da caverna, onde se afôfam as camadas de feno muito sêco, que são o seu leito.
+E de novo fere a pedra, despedindo scentelha apoz scentelha, emquanto Eva,
+agachada, abriga com as mãos aqueles refulgentes e fugitivos seres. E eis que
+dos fenos um fumosinho se eleva, e se engrossa, e se enrola, e através dêle,
+vermelha, uma chama ressalta... É o Fogo! Nossos Pais fogem espavoridamente da
+caverna, obscurecida por uma fumaraça cheirosa, onde flamejam alegres,
+rutilantes línguas, que lambem a rocha. Acocorados à porta da toca, ambos
+arquejam, no pasmo e terror da sua obra, com os olhos a chorar do fumo acre.
+E,<span class="pn">{192}</span> mesmo através do susto e do espanto, sentem uma doçura muito nova que
+os penetra e que vem daquela luz e vem daquele calor... Mas já o fumo se
+escapou da caverna, o vento roubador o levou. As chamas rastejam, incertas,
+azuladas: em breve só resta um borralho que descóra, se acinzenta, se abate em
+cisco: e a derradeira faúlha corre, tremeluz, passa. O fogo morreu! Então, na
+alma nascente de Adão, entra a dor duma ruína. Desesperadamente puxa os grossos
+beiços e geme. ¿Saberá êle jàmais recomeçar o feito maravilhoso?... E é nossa
+Mãe, já consoladora, que o consola. Com as suas rudes mãos comovidas, porque
+realiza sôbre a terra a sua primeira obra, junta outro montão de fenos sêcos,
+pousa entre êles o sílex redondo, toma o escuro calhau, bate rijamente, num
+faúlhar de estrelinhas. E de novo o fumo rola, e de novo a chama refulge. Oh
+triunfo! eis a fogueira, a fogueira inicial do Paraíso, e não casualmente
+rebentada, mas acendida por uma clara Vontade, que agora para todo sempre, cada
+noite e cada manhã, poderá repetir com segurança a façanha suprema!</p>
+
+<p>À nossa Mãe Venerável pertence então, na caverna, a doce e augusta tarefa do
+Lume. Ela o cria, ela o nutre, ela o defende, ela o perpetúa. E, como mãe
+deslumbrada, descobre cada dia, nesse resplandecente filho dos<span class="pn">{193}</span> seus
+cuidados, uma virtude ou graça nova. Agora já Adão sabe que o <em>seu</em> fogo
+espanta todas as féras e que no Paraíso existe emfim um buraco seguro, que é o
+<em>seu</em> buraco! Não só seguro, mas amável&mdash;porque o lume o alumia, o
+aquece, o alegra, o purifica. E quando Adão, com um mólho de lanças, desce à
+planície ou se embrenha na selva a caçar a prêsa, já mata com redobrada ânsia,
+para recolher depressa àquela boa segurança e consolação do lume. Ah! que
+docemente êle o penetra, e lhe séca no pêlo a friagem dos matos, e doura como
+um sol a penedia da sua toca! E depois ainda lhe prende os olhos, e o enleva, e
+o guia num scismar fecundo, em que inspiradamente lhe aparecem formas de
+flexas, malhos com cabos, ossos recurvos que fisgam os peixes, lascas dentadas
+que serram o pau!... À sua fêmea forte deve Adão esta hora criadora!</p>
+
+<p>E quanto lhe não deve a Humanidade! Recordemos, meus irmãos, que nossa Mãe,
+com aquela adivinhação superior que mais tarde a tornou Profetiza e Sibila, não
+hesitou, quando a Serpente lhe disse, coleando entre as Rosas:&mdash;«Come do fruto
+do Saber, que os teus olhos se abrirão, e serás como os Deuses sabedores!» Adão
+teria comido a serpente, bocado mais suculento. Nem acreditaria em frutos que
+comunicam a Divindade e Sapiência,<span class="pn">{194}</span> êle que tanta fruta comera nas
+árvores, e se conservava insciente e bestial como o urso e o auroque. Eva,
+porêm, com a credulidade sublime que sempre no mundo opéra as transformações
+sublimes, comeu logo a maçã, e a casca, e a pevide. E persuadindo Adão a que
+partilhasse do transcendente pômo, muito dôce e enredosamente o convenceu do
+proveito, da felicidade, da glória e da fôrça que dá o Saber! Esta alegoria dos
+poetas do Génesis com esplêndida subtileza nos revela a imensa obra de Eva nos
+anos dolorosos do Paraíso. Por ela Deus continua a Criação superior, a do Reino
+espiritual, a que desenrola sôbre a terra o lar, a família, a tríbu, a cidade.
+É Eva que cimenta e bate as grandes pedras angulares na construção da
+Humanidade.</p>
+
+<p>Senão, vêde! Quando o bravio caçador recolhe à caverna, derreado sob o pêso
+da caça morta, cheirando todo a selva, e a sangue, e a féra, é êle, de-certo,
+que esfola a rês com a faca de pedra, e retalha as postas, e esburga os ossos
+(que sôfregamente guarda sob a côxa e reserva para a sua ração, porque contêm a
+moela preciosa). Mas Eva junta essa pele, cuidadosamente, às outras peles
+armazenadas; esconde os ossos partidos, porque as suas lascas agudas pregam e
+furam; e numa cavidade da rocha fresca guarda a carne que<span class="pn">{195}</span> sobejou. Ora
+em breve uma dessas fartas postas esquece, caída junto à fogueira perpétua. O
+lume alastra, lentamente lambe a carne pelo lado mais gordo, até que um cheiro,
+desconhecido e saboroso, afaga e alarga as rudes narinas de nossa Mãe
+venerável. ¿De onde vem êle, o gostoso aroma? Do fogo, onde a posta de veado ou
+de lebre grelha e rechina. Então Eva, inspirada e grave, empurra a carne para a
+braza viva; e espera, ajoelhada, até que a espeta com uma ponta de osso, e a
+retira da chama ruidosa, e a trinca, em sombrio silêncio. Os seus olhos
+rebrilhantes anunciam outra conquista. E, com a pressa amorosa com que oferece
+a Maçã a Adão, lhe apresenta agora aquela carne tam nova, que êle cheira
+desconfiado, e depois devora a rijas dentadas, roncando de gôzo! E eis que, por
+êste pedaço de gamo assado, nossos Pais sobem vitoriosamente outro escalão da
+Humanidade!</p>
+
+<p>A água ainda a bebem na nascente vizinha, entre os fétos, com a face
+mergulhada no veio claro. Depois de beber, Adão, arrimado à sua grossa lança,
+olha ao longe o rolar do rio lento, os montes coroados de neve ou de lume, o
+sol sôbre o mar&mdash;pensando, com arrastado pensar, se nessas terras que se
+estendem, se escondem para alêm, a prêsa será mais certa e as selvas menos
+cerradas. Mas Eva recolhe logo à caverna, para se entregar, sem
+descanso,<span class="pn">{196}</span> a uma tarefa que a encanta. Encruzada no chão, toda atenta sob
+a côma crespa, nossa Mãe fura, com um ossinho agudo, buracos finos na orla duma
+pele, e depois na orla doutra pele. E, tam embebida que nem sente Adão entrar e
+remexer nas suas armas, une as duas peles sobrepostas, passando através dos
+buracos uma delgada fibra das algas que secam diante do lume. Adão considera
+com desdêm êsse trabalho miudo que não acrescenta fôrça à sua fôrça. Não
+pressente ainda, o bruto Pai, que aquelas peles cosidas serão o resguardo do
+seu corpo, a armação da sua tenda, o saco do seu farnel, o ôdre da sua água, e
+o tambor em que bata quando fôr um Guerreiro, e a página em que escreva quando
+fôr um Profeta!</p>
+
+<p>Outros gostos e modos de Eva o irritam tambêm: e por vezes, com uma
+desumanidade que é já toda humana, nosso Pai arrebata pelos cabelos a sua
+fêmea, e a derruba, e a pisa sob a pata calosa. Assim um furor o tomou uma
+tarde, avistando, no regaço de Eva, sentada diante da fogueira, um cachorrinho
+mole e trôpego, que ela, com carinho e paciência, ensinava a sugar numa febra
+de carne fresca. À beira da fonte descobrira o cachorrinho perdido e ganindo; e
+muito mansamente o recolhera, o aquecera, o alimentara, com uma sensação que
+lhe era doce, e lhe abria na espessa<span class="pn">{197}</span> bôca, ainda mal sabedora de sorrir,
+um sorriso de maternidade. Nosso Pai venerável, com as pupilas a reluzir, atira
+a garra, quer devorar o cachorro que entrara na sua toca. Mas Eva defende o
+animal pequenino, que treme e que a lambe. O primeiro sentimento de Caridade,
+informe como a primeira flor que brotou dos limos, aparece na terra! E, com as
+curtas e roucas vozes que eram o falar de nossos Pais, Eva tenta talvez
+afiançar que será útil, na caverna do homem, a amizade dum bicho... Adão puxa o
+beiço trombudo. Depois, em silêncio, mansamente, corre os dedos pelo lombo
+macio do cachorrinho encolhido. E êste é, na História, um momento espantoso!
+Eis que o Homem domestíca o Animal! Dêsse cachorro agasalhado no Paraíso
+nascerá o cão amigo, por êle a aliança com o cavalo, depois o domínio sôbre a
+ovelha. O rebanho crescerá; o pastor o levará; o cão fiel o guardará. Eva, da
+beira do seu lume, prepara os povos errantes que pastoreiam os gados.</p>
+
+<p>Depois, naquelas longas manhãs em que Adão bravio caçava, Eva, errando de
+vale a monte, apanhava conchas, ovos de aves, curiosas raízes, sementes, com o
+gôsto de acumular, de abastecer a sua toca de riquezas novas, que escondia nas
+fendas da rocha. Ora um punhado dessas sementes caíra, através dos<span class="pn">{198}</span> seus
+dedos, sôbre terra húmida e negra, quando recolhia pela beira da fonte. Uma
+ponta verde brotou; depois uma haste cresceu; depois uma espiga amadurou. Os
+seus grãos são gostosos. Eva, pensativa, enterra outras sementes, na esperança
+de criar em tôrno do seu lar, num bocado do seu torrão, altas ervas que
+espiguem, e lhe tragam o grão adocicado e tenro... E eis a seara! E assim nossa
+Mãe torna possíveis, do fundo do Paraíso, os povos estáveis que lavram a terra.
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>No entanto, bem podemos supôr que Abel nasceu&mdash;e, uns após outros, os dias
+deslizam no Paraíso, mais seguros e fáceis. Já os vulcões lentamente se vão
+apagando. As rochas não se despenham já com fragor sôbre a abundância inocente
+dos vales. Tam amansadas andam as águas, que na sua transparência se miram, com
+demora e cuidado, as nuvens e os ramos dos olmos. Raramente um Pterodactilo
+macúla, com o escândalo do seu bico e das suas asas, os céus, onde o sol
+alterna com a bruma, e os estios se franjam de chuvas ligeiras. E nesta
+tranqùilidade que se estabelece há como uma submissão consciente. O Mundo
+pressente e aceita a supremacia do Homem. A floresta já não arde com<span class="pn">{199}</span> a
+leviandade do restolho, sabendo que em breve o Homem lhe pedirá a estaca, a
+trave, o rêmo, o mastro. O vento, nas gargantas da serra, brandamente se
+disciplina, e ensaia os sopros regulares com que trabalhará a mó do moinho. O
+mar afogou os seus monstros, e estira o dorso preparado para o cortar da
+quilha. A terra torna estável a sua gleba, e molemente se humedece, para quando
+chegar o arado e a semente. E todos os metais se alinham em filão, e
+alegremente se dispõem para o fogo que lhes dará forma e beleza.</p>
+
+<p>E pela tarde Adão recolhe contente, com caça abundante. A lareira flameja: e
+alumia a face de nosso Pai, que o esfôrço da Vida embelezou, onde já os beiços
+se adelgaçaram, e a testa se encheu com o lento pensar, e os olhos sossegaram
+num brilho mais certo. O anho, espetado num pau, assa e pinga nas brasas. No
+chão pousam cascas de côco, cheias de clara água da fonte. Uma pele de urso
+tornou macio o leito de fetos. Outra pele, pendurada, abriga a bôca da caverna.
+A um canto, que é a oficina, estão os montões de sílex e o malho: a outro
+canto, que é o arsenal, estão as lanças e as clavas. Eva torce os fios duma lã
+de cabra. Ao bom calor, sôbre folhelho, dorme Abel, muito gordo, todo nú, com
+um pêlo mais ralo na carninha mais branca. Partilhando do folhelho e<span class="pn">{200}</span> do
+mesmo calor, vela o cão, já crescido, com o ôlho amorável, o focinho entre as
+patas. E Adão (oh, a estranha tarefa!) muito absorto, tenta gravar, com uma
+ponta de pedra, sôbre um osso largo, os galhos, o dorso, as pernas estiradas
+dum veado a correr!... A lenha estala. Todas as estrêlas do céu estão
+presentes. Deus, pensativo, contempla o crescer da Humanidade.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>E agora que acendi, na noite estrelada do Paraíso, com galhos bem sêcos da
+Árvore da Sciência, êste verídico lar, consenti que vos deixe, oh Pais
+veneráveis!</p>
+
+<p>Já não receio que a Terra instável vos esmague; ou que as feras superiores
+vos devorem; ou que, apagada, à maneira duma lâmpada imperfeita, a Energia que
+vos trouxe da Floresta, vós retrogradeis à vossa Árvore. Sois já
+irremediavelmente humanos&mdash;e cada manhã progredireis, com tam poderoso
+arremêsso, para a perfeição do Corpo e esplendor da Razão, que em breve, dentro
+dumas centenas de milhares de curtos anos, Eva será a formosa Helena e Adão
+será o imenso Aristóteles!</p>
+
+<p>Mas não sei se vos felicite, oh Pais veneráveis! Outros irmãos vossos
+ficaram na espessura das árvores&mdash;e a sua vida é doce.<span class="pn">{201}</span></p>
+
+<p>Todas as manhãs o Orangotango acorda entre os seus lençóis de fôlhas de
+pendénia, sôbre o fôfo colchão de musgos que êle, com cuidado, acamou por cima
+dum catre de ramos cheirosos. Lânguidamente, sem cuidados, preguiça na moleza
+dos musgos, escutando as límpidas árias dos pássaros, gozando os fios do sol
+que se emmaranham por entre a renda das fôlhas, e lambendo no pêlo dos seus
+braços o orvalho açucarado. Depois de bem se coçar e bem se esfregar, sobe com
+pachorra à árvore dilecta, que elegeu em todo o bosque pela sua frescura, pela
+elasticidade embaladora das suas ramagens. Daí, tendo respirado as brisas
+carregadas de aromas, salta, com lestos pulos, através das sempre fáceis,
+sempre fartas ucharias do bosque, onde almoça a banana, a manga, a goiaba,
+todos os finos frutos que o tornam tam são e alheio a males como as árvores
+onde os colheu. Percorre então, sociavelmente, as ruas e as vielas palreiras da
+espessura; cabriola com destros amigos, em jogos amáveis de ligeireza e fôrça;
+galanteia as Orangas gentis que o catam, e penduradas com êle, duma liana
+florida, se balançam chalrando; trota, entre alegres ranchos, pela borda das
+águas claras; ou, sentado na ponta dum ramo, escuta algum vélho e facundo
+chimpanzé contando divertidas histórias de caça, de viagens, de<span class="pn">{202}</span> amores e
+de troças às feras pesadas, que circulam nas relvas e não podem trepar. Cedo
+recolhe à sua árvore, e, estendido na folhosa rêde, brandamente se abandona à
+delícia de sonhar, num sonho acordado, semelhante às nossas Metafísicas e às
+nossas Epopeias, mas que rolando todo sôbre sensações reais, é, ao contrário
+dos nossos incertos sonhos, um sonho todo feito de certeza. Por fim a Floresta
+lentamente se cala, a sombra escorrega entre os troncos:&mdash;e o Orango ditoso
+desce ao seu catre de pendénias e musgos, e adormece na imensa paz de Deus&mdash;de
+Deus que êle nunca se cansou em comentar, nem sequer em negar, e que todavia
+sôbre êle derrama, com imparcial carinho, os bens inteiros da sua Misericórdia.
+</p>
+
+<p>Assim ocupou o seu dia o Orango, nas Árvores. ¿E no entanto, como gastou,
+nas Cidades, o seu dia, o Homem, primo do Orango? Sofrendo&mdash;por ter os dons
+superiores que faltam ao Orango! Sofrendo&mdash;por arrastar consigo,
+irresgatavelmente, êsse mal incurável que é a sua Alma! Sofrendo&mdash;porque nosso
+Pai Adão, no terrível dia 28 de Outubro, depois de espreitar e farejar o
+Paraíso, não ousou declarar reverentemente ao Senhor:&mdash;«Obrigado, oh meu doce
+Criador; dá o governo da Terra a quem melhor escolheres, ao Elefante ou ao
+Cangurú, que eu por<span class="pn">{203}</span> mim, bem mais avisado, volto já para a minha
+árvore!...»</p>
+
+<p>Mas, emfim, desde que nosso Pai venerável não teve a previdência ou a
+abnegação de declinar a grande supremacia&mdash;continuemos a reinar sôbre a Criação
+e a ser sublimes... Sobretudo continuemos a usar, insaciavelmente, do dom
+melhor que Deus nos concedeu entre todos os dons, o mais puro, o único
+genuìnamente grande, o dom de o amar&mdash;pois que não nos concedeu tambêm o dom de
+o compreender. E não esqueçamos que Êle já nos ensinou, através de vozes
+levantadas em Galilea, e sob as mangueiras de Veluvana, e nos vales severos de
+Yen-Chou, que a melhor maneira de o amar é que uns aos outros nos amemos, e que
+amemos toda a sua obra, mesmo o verme, e a rocha dura, e a raiz venenosa, e até
+êsses vastos seres que não parecem necessitar o nosso amor, êsses Sóis, êsses
+Mundos, essas esparsas Nebuloses, que, inicialmente fechadas, como nós, na mão
+de Deus, e feitas da nossa substância, nem de-certo nos amam&mdash;nem talvez nos
+conhecem.<span class="pn">{204}</span> <span class="pn">{205}</span></p>
+
+
+<h1><a name="SECTION000800">A AIA</a> </h1>
+
+<p>Era uma vez um rei, môço e valente, senhor de um reino abundante em cidades
+e searas, que partira a batalhar por terras distantes, deixando solitária e
+triste a sua raínha e um filhinho, que ainda vivia no seu berço, dentro das
+suas faixas.</p>
+
+<p>A lua cheia que o vira marchar, levado no seu sonho de conquista e de fama,
+começava a minguar&mdash;quando um dos seus cavaleiros apareceu, com as armas rôtas,
+negro do sangue sêco e do pó dos caminhos, trazendo a amarga nova de uma
+batalha perdida e da morte do rei, traspassado por sete lanças entre a flor da
+sua nobreza, à beira de um grande rio.</p>
+
+<p>A raínha chorou magníficamente o rei.<span class="pn">{206}</span> Chorou ainda desoladamente o
+espôso, que era formoso e alegre. Mas, sobretudo, chorou ansiosamente o pai que
+assim deixava o filhinho desamparado, no meio de tantos inimigos da sua frágil
+vida e do reino que seria seu, sem um braço que o defendesse, forte pela fôrça
+e forte pelo amor.</p>
+
+<p>Dêsses inimigos o mais temeroso era seu tio, irmão bastardo do rei, homem
+depravado e bravio, consumido de cobiças grosseiras, desejando só a rialeza por
+causa dos seus tesoiros, e que havia anos vivia num castelo sôbre os montes,
+com uma horda de rebeldes, à maneira de um lôbo que, de atalaia no seu fojo,
+espera a prêsa. Ai! a prêsa agora era aquela criancinha, rei de mama, senhor de
+tantas províncias, e que dormia no seu berço com seu guiso de oiro fechado na
+mão!</p>
+
+<p>Ao lado dêle, outro menino dormia noutro berço. Mas êste era um
+escravosinho, filho da bela e robusta escrava que amamentava o príncipe. Ambos
+tinham nascido na mesma noite de verão. O mesmo seio os criava. Quando a
+raínha, antes de adormecer, vinha beijar o principesinho, que tinha o cabelo
+louro e fino, beijava tambêm por amor dêle o escravosinho, que tinha o cabelo
+negro e crespo. Os olhos de ambos reluziam como pedras preciosas. Sómente, o
+berço de um era magnífico e de marfim entre<span class="pn">{207}</span> brocados&mdash;e o berço do outro
+pobre e de vêrga. A leal escrava, porêm, a ambos cercava de carinho igual,
+porque se um era o seu filho&mdash;o outro seria o seu rei.</p>
+
+<p>Nascida naquela casa rial, ela tinha a paixão, a religião dos seus senhores.
+Nenhum pranto correra mais sentidamente do que o seu pelo rei morto à beira do
+grande rio. Pertencia, porêm, a uma raça que acredita que a vida da terra se
+continua no céu. O rei seu amo, de-certo, já estaria agora reinando num outro
+reino, para alêm das nuvens, abundante tambêm em searas e cidades. O seu cavalo
+de batalha, as suas armas, os seus pagens tinham subido com êle às alturas. Os
+seus vassalos, que fôssem morrendo, prontamente iriam, nesse reino celeste,
+retomar em tôrno dele a sua vassalagem. E ela um dia, por seu turno, remontaria
+num raio de luz a habitar o palácio do seu senhor, e a fiar de novo o linho das
+suas túnicas, e a acender de novo a caçoleta dos seus perfumes; seria no céu
+como fôra na terra, e feliz na sua servidão.</p>
+
+<p>Todavia, tambêm ela tremia pelo seu príncipesinho! Quantas vezes, com êle
+pendurado do peito, pensava na sua fragilidade, na sua longa infância, nos anos
+lentos que correriam antes que êle fôsse ao menos do tamanho de uma espada, e
+naquele tio cruel,<span class="pn">{208}</span> de face mais escura que a noite e coração mais escuro
+que a face, faminto do trono, e espreitando de cima do seu rochedo entre os
+alfanges da sua horda! Pobre príncipesinho da sua alma! Com uma ternura maior o
+apertava então nos braços. Mas se o seu filho chalrava ao lado&mdash;era para êle
+que os seus braços corriam com um ardor mais feliz. Êsse, na sua indigência,
+nada tinha a recear da vida. Desgraças, assaltos da sorte má nunca o poderiam
+deixar mais despido das glórias e bens do mundo do que já estava ali no seu
+berço, sob o pedaço de linho branco que resguardava a sua nudez. A existência,
+na verdade, era para êle mais preciosa e digna de ser conservada que a do seu
+príncipe, porque nenhum dos duros cuidados com que ela ennegrece a alma dos
+senhores roçaria sequer a sua alma livre e simples de escravo. E, como se o
+amasse mais por aquela humildade ditosa, cobria o seu corpinho gordo de beijos
+pesados e devoradores&mdash;dos beijos que ela fazia ligeiros sôbre as mãos do seu
+príncipe.</p>
+
+<p>No entanto um grande temor enchia o palácio, onde agora reinava uma mulher
+entre mulheres. O bastardo, o homem de rapina, que errava no cimo das serras,
+descera à planície com a sua horda, e já através de casais e aldeias felizes ia
+deixando um sulco de matança e ruínas. As portas da cidade tinham<span class="pn">{209}</span> sido
+seguras com cadeias mais fortes. Nas atalaias ardiam lumes mais altos. Mas à
+defesa faltava disciplina viril. Uma roca não governa como uma espada. Toda a
+nobreza fiel perecera na grande batalha. E a raínha desventurosa apenas sabia
+correr a cada instante ao berço do seu filhinho e chorar sôbre êle a sua
+fraqueza de viuva. Só a ama leal parecia segura&mdash;como se os braços em que
+estreitava o seu príncipe fôssem muralhas de uma cidadela que nenhuma audácia
+pode transpôr.</p>
+
+<p>Ora uma noite, noite de silêncio e de escuridão, indo ela a adormecer, já
+despida, no seu catre, entre os seus dois meninos, adivinhou, mais que sentiu,
+um curto rumor de ferro e de briga, longe, à entrada dos vergeis riais.
+Embrulhada à pressa num pano, atirando os cabelos para trás, escutou
+ansiosamente. Na terra areada, entre os jasmineiros, corriam passos pesados e
+rudes. Depois houve um gemido, um corpo tombando molemente, sôbre lages, como
+um fardo. Descerrou violentamente a cortina. E alêm, ao fundo da galeria,
+avistou homens, um clarão de lanternas, brilhos de armas... Num relance tudo
+compreendeu&mdash;o palácio surpreendido, o bastardo cruel vindo roubar, matar o seu
+príncipe! Então, rápidamente, sem uma vacilação, uma dúvida, arrebatou o
+príncipe do seu berço de marfim, atirou-o para o pobre berço de vêrga&mdash;e
+tirando o seu filho<span class="pn">{210}</span> do berço servil, entre beijos desesperados, deitou-o
+no berço rial que cobriu com um brocado.</p>
+
+<p>Bruscamente um homem enorme, de face flamejante, com um manto negro sôbre a
+cota de malha, surgiu à porta da câmara, entre outros, que erguiam lanternas.
+Olhou&mdash;correu ao berço de marfim onde os brocados luziam, arrancou a criança,
+como se arranca uma bôlsa de oiro, e abafando os seus gritos no manto, abalou
+furiosamente.</p>
+
+<p>O príncipe dormia no seu novo berço. A ama ficara imóvel no silêncio e na
+treva.</p>
+
+<p>Mas brados de alarme atroaram de repente o palácio. Pelas janelas perpassou
+o longo flamejar das tochas. Os pátios ressoavam com o bater das armas. E
+desgrenhada, quási nua, a raínha invadiu a câmara, entre as aias, gritando pelo
+seu filho! Ao avistar o berço de marfim, com as roupas desmanchadas, vazio,
+caiu sôbre as lages, num choro, despedaçada. Então calada, muito lenta, muito
+pálida, a ama descobriu o pobre berço de vêrga... O príncipe lá estava quieto,
+adormecido, num sonho que o fazia sorrir, lhe iluminava toda a face entre os
+seus cabelos de oiro. A mãe caíu sôbre o berço, com um suspiro, como cai um
+corpo morto.</p>
+
+<p>E nesse instante um novo clamor abalou a galeria de mármore. Era o capitão
+das guardas,<span class="pn">{211}</span> a sua gente fiel. Nos seus clamores havia, porêm, mais
+tristeza que triunfo. O bastardo morrera! Colhido, ao fugir, entre o palácio e
+a cidadela, esmagado pela forte legião de archeiros, sucumbira, êle e vinte da
+sua horda. O seu corpo lá ficara, com flechas no flanco, numa pôça de sangue.
+Mas, ai! dor sem nome! O corposinho tenro do príncipe lá ficara tambêm, envolto
+num manto, já frio, rôxo ainda das mãos ferozes que o tinham esganado! Assim
+tumultuosamente lançavam a nova cruel os homens de armas&mdash;quando a raínha,
+deslumbrada, com lágrimas entre risos, ergueu nos braços, para lho mostrar, o
+príncipe que despertara.</p>
+
+<p>Foi um espanto, uma aclamação. ¿Quem o salvara? Quem?... Lá estava junto do
+berço de marfim vazio, muda e hirta, aquela que o salvara! Serva sublimemente
+leal! Fôra ela que, para conservar a vida ao seu príncipe, mandara à morte o
+seu filho... Então, só então, a mãe ditosa, emergindo da sua alegria estática,
+abraçou apaixonadamente a mãe dolorosa, e a beijou, e lhe chamou irmã do seu
+coração... E de entre aquela multidão que se apertava na galeria veio uma nova,
+ardente aclamação, com súplicas de que fôsse recompensada magníficamente a
+serva admirável que salvara o rei e o reino.</p>
+
+<p>Mas como? ¿Que bôlsas de oiro podem pagar<span class="pn">{212}</span> um filho? Então um vélho de
+casta nobre lembrou que ela fôsse levada ao tesoiro rial, e escolhesse de entre
+essas riquezas, que eram como as maiores dos maiores tesoiros da Índia, todas
+as que o seu desejo apetecesse...</p>
+
+<p>A raínha tomou a mão da serva. E sem que a sua face de mármore perdesse a
+rigidez, com um andar de morta, como num sonho, ela foi assim conduzida para a
+Câmara dos Tesoiros. Senhores, aias, homens de armas, seguiam, num respeito tam
+comovido que apenas se ouvia o roçar das sandálias nas lages. As espessas
+portas do Tesoiro rodaram lentamente. E, quando um servo destrancou as janelas,
+a luz da madrugada, já clara e rósea, entrando pelos gradeamentos de ferro,
+acendeu um maravilhoso e faiscante incêndio de oiro e pedrarias! Do chão de
+rocha até às sombrias abóbadas, por toda a câmara, reluziam, scintilavam,
+refulgiam os escudos de oiro, as armas marchetadas, os montões de diamantes, as
+pilhas de moedas, os longos fios de pérolas, todas as riquezas daquele reino,
+acumuladas por cem reis durante vinte séculos. Um longo <em>ah</em>, lento e
+maravilhado, passou por sôbre a turba que emmudecera. Depois houve um silêncio
+ansioso. E no meio da câmara, envolta na refulgência preciosa, a ama não se
+movia... Apenas os<span class="pn">{213}</span> seus olhos, brilhantes e secos, se tinham erguido
+para aquele céu que, alêm das grades, se tingia de rosa e de oiro. Era lá,
+nesse céu fresco de madrugada, que estava agora o seu menino. Estava lá, e já o
+sol se erguia, e era tarde, e o seu menino chorava de-certo, e procurava o seu
+peito!... E então a ama sorriu e estendeu a mão. Todos seguiam, sem respirar,
+aquele lento mover da sua mão aberta. ¿Que joia maravilhosa, que fio de
+diamantes, que punhado de rubís, ia ela escolher?</p>
+
+<p>A ama estendia a mão&mdash;e sôbre um escabelo ao lado, entre um molho de armas,
+agarrou um punhal. Era um punhal de um vélho rei, todo cravejado de esmeraldas,
+e que valia uma província.</p>
+
+<p>Agarrara o punhal, e com êle apertado fortemente na mão, apontando para o
+céu, onde subiam os primeiros raios do sol, encarou a raínha, a multidão, e
+gritou:</p>
+
+<p>&mdash;Salvei o meu príncipe, e agora&mdash;vou dar de mamar ao meu filho!</p>
+
+<p>E cravou o punhal no coração.<span class="pn">{214}</span> <span class="pn">{215}</span></p>
+
+
+<h1><a name="SECTION000900">O DEFUNTO</a> </h1>
+
+
+<h2><a name="SECTION000910">I</a> </h2>
+
+<p>No ano de 1474, que foi por toda a Cristandade tam abundante em mercês
+divinas, reinando em Castela el-rei Henrique IV, veio habitar na cidade de
+Segóvia, onde herdara moradias e uma horta, um cavaleiro moço, de muito limpa
+linhagem e gentil parecer, que se chamava D. Rui de Cardenas.</p>
+
+<p>Essa casa, que lhe legara seu tio, arcediago e mestre em cânones, ficava ao
+lado e na sombra silenciosa da igreja de Nossa Senhora do Pilar; e, em frente,
+para alêm do adro, onde cantavam as três bicas de um chafariz antigo, era o
+escuro e gradeado palácio de D. Alonso de Lara, fidalgo de grande riqueza e
+maneiras sombrias, que já na madureza da<span class="pn">{216}</span> sua idade, todo grisalho,
+desposara uma menina falada em Castela pela sua alvura, cabelos côr de sol
+claro, e colo de garça rial. D. Rui tivera justamente por madrinha, ao nascer,
+Nossa Senhora do Pilar, de quem sempre se conservou devoto e fiel servidor;
+ainda que, sendo de sangue bravo e alegre, amava as armas, a caça, os saraus
+bem galanteados, e mesmo por vezes uma noite ruidosa de taverna com dados e
+picheis de vinho. Por amor, e pelas facilidades desta santa vizinhança, tomara
+êle o piedoso costume, desde a sua chegada a Segóvia, de visitar todas as
+manhãs, à hora de Prima, a sua divina madrinha e de lhe pedir, em três
+<em>Ave-Marias</em>, a bênção e a graça.</p>
+
+<p>Ao escurecer, mesmo depois de alguma rija correria por campo e monte com
+lebreus ou falcão, ainda voltava para, à saudação de Vésperas, murmurar
+docemente uma <em>Salve-Raínha</em>.</p>
+
+<p>E todos os domingos comprava no adro, a uma ramalheteira mourisca, algum
+ramo de junquilhos, ou cravos, ou rosas singelas, que espalhava, com ternura e
+cuidado galante, em frente ao altar da Senhora.</p>
+
+<p>A esta venerada igreja do Pilar vinha tambêm cada domingo D. Leonor, a tam
+falada e formosa mulher do senhor de Lara, acompanhada por uma aia carrancuda,
+de olhos mais<span class="pn">{217}</span> abertos e duros que os de uma coruja, e por dois possantes
+lacaios que a ladeavam e guardavam como tôrres. Tam ciumento era o senhor D.
+Alonso que, só por lho haver severamente ordenado o seu confessor, e com medo
+de ofender a Senhora, sua vizinha, permitia esta visita fugitiva, a que êle
+ficava espreitando sôfregamente, de entre as rexas de uma gelosia, os passos e
+a demora. Todos os lentos dias da lenta semana os passava a senhora D. Leonor
+no encêrro do gradeado solar de granito negro, não tendo, para se recrear e
+respirar, mesmo nas calmas do estio, mais que um fundo de jardim verde-negro,
+cercado de tam altos muros, que apenas se avistava, emergindo dêles, aqui,
+alêm, alguma ponta de triste cipreste. Mas essa curta visita a Nossa Senhora do
+Pilar bastou para que D. Rui se namorasse dela tresloucadamente, na manhã de
+maio em que a viu de joelhos ante o altar, numa réstea de sol, aureolada pelos
+seus cabelos de oiro, com as compridas pestanas pendidas sôbre o livro de
+Horas, o rosário caíndo de entre os dedos finos, fina toda ela e macia, e
+branca, de uma brancura de lírio aberto na sombra, mais branca entre as rendas
+negras e os negros setins que à volta do seu corpo cheio de graça se quebravam,
+em pregas duras, sôbre as lages da capela, vélhas lages de sepulturas. Quando
+depois dum momento<span class="pn">{218}</span> de enleio e de delicioso pasmo se ajoelhou, foi menos
+para a Virgem do Pilar, sua divina Madrinha, do que para aquela aparição
+mortal, de quem não sabia o nome nem a vida, e só que por ela daria vida e
+nome, se ela se rendesse por tam incerto preço. Balbuciando, com uma prece
+ingrata, as três Ave-Marias com que cada manhã saùdava Maria, apanhou o seu
+sombreiro, desceu levemente a nave sonora e no portal se quedou, esperando por
+ela entre os mendigos lazarentos que se catavam ao sol. Mas quando ao cabo de
+um tempo, em que D. Rui sentiu no coração um desusado bater de ansiedade e
+medo, a senhora D. Leonor passou e se deteve, molhando os dedos na pia de
+mármore de água benta, os seus olhos sob o véu descido, não se ergueram para
+êle, ou tímidos ou desatentos. Com a aia de olhos muito abertos colada aos
+vestidos, entre os dois lacaios, como entre duas tôrres, atravessou
+vagarosamente o adro, pedra por pedra, gozando de-certo, como encarcerada, o
+desafogado ar e o livre sol que o inundavam. E foi um espanto para D. Rui
+quando ela penetrou na sombria arcada, de grossos pilares, sôbre que assentava
+o palácio, e desapareceu por uma esguia porta recoberta de ferragens. Era,
+pois, essa a tam falada D. Leonor, a linda e nobre senhora de Lara...</p>
+
+<p>Então começaram sete arrastados dias, que<span class="pn">{219}</span> êle gastou sentado a um
+poial da sua janela, considerando aquela negra porta recoberta de ferragens
+como se fôsse a do Paraíso, e por ela devesse saír um anjo para lhe anunciar a
+Bemaventurança. Até que chegou o vagaroso domingo: e passando êle no adro, à
+hora de Prima, ao repicar dos sinos, com um mólho de cravos amarelos para a sua
+divina Madrinha, cruzou D. Leonor, que saía de entre os pilares da escura
+arcada, branca, doce e pensativa, como uma lua de entre nuvens. Os cravos quási
+lhe caíram naquele gostoso alvoroço em que o peito lhe arfou mais que um mar, e
+a alma toda lhe fugiu em tumulto através do olhar com que a devorava. E ela
+ergueu tambêm os olhos para D. Rui, mas uns olhos repousados, uns olhos
+serenos, em que não luzia curiosidade, nem mesmo consciência de se estarem
+trocando com outros, tam acesos e ennegrecidos pelo desejo. O môço cavalheiro
+não entrou na igreja, com piedoso receio de não prestar à sua Madrinha divina a
+atenção, que de-certo lhe roubaria toda aquela que era só humana, mas dona já
+do seu coração, e nele divinizada.</p>
+
+<p>Esperou sôfregamente à porta, entre os mendigos, secando os cravos com o
+ardor das mãos trémulas, pensando quanto era demorado o rosário que ela rezava.
+Ainda D. Leonor descia a nave, já êle sentia dentro da alma<span class="pn">{220}</span> o doce rugir
+das sedas fortes que ela arrastava nas lages. A branca senhora passou&mdash;e o
+mesmo distraido olhar, desatento e calmo, que espalhou pelos mendigos e pelo
+adro, o deixou escorregar sôbre êle, ou porque não compreendesse aquele moço
+que de repente se tornara tam pálido, ou porque não o diferenciava ainda das
+cousas e das formas indiferentes.</p>
+
+<p>D. Rui abalou, com um fundo suspiro; e, no seu quarto, pôs devotamente ante
+a imagem da Virgem as flores que não oferecera, na igreja, ao seu altar. Toda a
+sua vida se tornou então um longo queixume por sentir tam fria e desumana
+aquela mulher, única entre as mulheres, que prendera e tornara sério o seu
+coração ligeiro e errante. Numa esperança, a que antevia bem o desengano,
+começou a rondar os muros altos do jardim&mdash;ou embuçado numa capa, com o ombro
+contra uma esquina, lentas horas se quedava contemplando as grades das
+gelosias, negras e grossas como as dum cárcere. Os muros não se fendiam, das
+grades não saía sequer um rasto de luz prometedora. Todo o solar era como um
+jazigo onde jazia uma insensível, e por trás das frias pedras havia ainda um
+frio peito. Para se desafogar compôs, com piedoso cuidado, em noites veladas
+sôbre o pergaminho, trovas gementes que o não desafogavam.<span class="pn">{221}</span> Diante do
+altar da Senhora do Pilar, sôbre as mesmas lages onde a vira ajoelhada, pousava
+êle os joelhos, e ficava, sem palavras de oração, num scismar amargo e doce,
+esperando que o seu coração serenasse e se consolasse, sob a influência de
+Aquela que tudo consola e serena. Mas sempre se erguia mais desditoso e tendo
+apenas a sensação de quanto eram frias e rígidas as pedras sôbre que ajoelhara.
+O mundo todo só lhe parecia conter rigidez e frieza.</p>
+
+<p>Outras claras manhãs de domingo encontrou D. Leonor: e sempre os olhos dela
+permaneciam descuidados e como esquecidos, ou quando se cruzavam com os seus
+era tam singelamente, tam limpos de toda a emoção, que D. Rui os preferiria
+ofendidos e faiscando de ira, ou soberbamente desviados com soberbo desdêm.
+De-certo D. Leonor já o conhecia:&mdash;mas, assim, conhecia tambêm a ramalheteira
+mourisca agachada diante do seu cêsto à beira da fonte; ou os pobres que se
+catavam ao sol diante do portal da Senhora. Nem D. Rui já podia pensar que ela
+fôsse desumana e fria. Era apenas soberanamente remota, como uma estrêla que
+nas alturas gira e refulge, sem saber que, em baixo, num mundo que ela não
+distingue, olhos que ela não suspeita a contemplam, a adoram e lhe entregam o
+govêrno da sua ventura e sorte.<span class="pn">{222}</span></p>
+
+<p>Então D. Rui pensou:</p>
+
+<p>&mdash;Ela não quer, eu não posso: foi um sonho que findou, e Nossa Senhora a
+ambos nos tenha na sua graça!</p>
+
+<p>E como era cavaleiro muito discreto, desde que a reconheceu assim inabalável
+na sua indiferença, não a procurou, nem sequer ergueu mais os olhos para as
+grades das suas janelas, e até nem penetrava na igreja de Nossa Senhora quando
+casualmente, do portal, a avistava ajoelhada, com a sua cabeça tam cheia de
+graça e de oiro, pendida sôbre o Livro de Horas.</p>
+
+
+<h2><a name="SECTION000920">II</a> </h2>
+
+<p>A vélha aia, de olhos mais abertos e duros que os de uma coruja, não tardara
+em contar ao senhor de Lara que um môço audaz, de gentil parecer, novo morador
+nas vélhas casas do arcediago, constantemente se atravessava no adro, se
+postava diante da igreja para atirar o coração pelos olhos à senhora D. Leonor.
+Bem amargamente o sabia já o ciumento fidalgo, porque quando da sua janela
+espreitava, como um falcão, a airosa senhora a caminho da igreja, observara os
+giros, as esperas, os olhares dardejados daquele môço galante&mdash;e<span class="pn">{223}</span> puxara
+as barbas de furor. Desde então, na verdade, a sua mais intensa ocupação era
+odiar D. Rui, o impudente sobrinho do cónego, que ousava erguer o seu baixo
+desejo até à alta senhora de Lara. Constantemente agora o trazia vigiado por um
+serviçal&mdash;e conhecia todos os seus passos e pousos, e os amigos com quem caçava
+ou folgava, e até quem lhe talhava os gibões, e até quem lhe polia a espada, e
+cada hora do seu viver. E mais ansiosamente ainda vigiava D. Leonor&mdash;cada um
+dos seus movimentos, os mais fugitivos modos, os silêncios e o conversar com as
+aias, as distracções sôbre o bordado, o geito de scismar sob as árvores do
+jardim, e o ar e a côr com que recolhia da igreja... Mas tam inalteradamente
+serena no seu sossêgo de coração se mostrava a senhora D. Leonor que nem o
+ciume mais imaginador de culpas poderia achar manchas naquela pura neve.
+Redobradamente áspero então se voltava o rancor de D. Alonso contra o sobrinho
+do cónego por ter apetecido aquela pureza, e aqueles cabelos côr de sol claro,
+e aquele colo de garça rial, que eram só seus, para esplêndido gôsto da sua
+vida. E quando passeava na sombria galeria do solar, sonora e toda de abóbada,
+embrulhado na sua samarra orlada de peles, com o bico da barba grisalha
+espetado para diante, a grenha crespa erriçada para trás e os<span class="pn">{224}</span> punhos
+cerrados, era sempre remoendo o mesmo fel:</p>
+
+<p>&mdash;Tentou contra a virtude dela, tentou contra a minha honra... É culpado por
+duas culpas e merece duas mortes!</p>
+
+<p>Mas ao seu furor quási se misturou um terror, quando soube que D. Rui já não
+esperava no adro a senhora D. Leonor, nem rondava amorosamente os muros do
+palacete, nem penetrava na igreja quando ela lá rezava, aos domingos; e que tam
+inteiramente se alheava dela que uma manhã, estando rente da arcada, e sentindo
+bem ranger e abrir a porta por onde a senhora ia aparecer, permanecera de
+costas voltadas, sem se mover, rindo com um cavaleiro gordo que lhe lia um
+pergaminho. Tam bem afectada indiferença só servia de-certo (pensou D. Alonso)
+a esconder alguma bem danada tenção! ¿Que tramava êle, o destro enganador? Tudo
+no desabrido fidalgo se exacerbou&mdash;ciume, rancor, vigilância, pesar da sua
+idade grisalha e feia. No sossêgo de D. Leonor suspeitou manha e fingimento;&mdash;e
+imediatamente lhe vedou as visitas à Senhora do Pilar.</p>
+
+<p>Nas manhãs costumadas corria êle à igreja para rezar o rosário, a levar as
+desculpas de D. Leonor&mdash;«<em>que no puede venir</em> (murmurava curvado
+diante do altar) <em>por lo que sabeis, virgem purissima!</em>»
+Cuidadosamente visitou e<span class="pn">{225}</span> reforçou todos os negros ferrolhos das portas
+do seu solar.</p>
+
+<p>De noite soltava dois mastins nas sombras do jardim murado.</p>
+
+<p>À cabeceira do vasto leito, junto da mesa onde ficava a lâmpada, um
+relicário e o copo de vinho quente com canela e cravo para lhe retemperar as
+fôrças&mdash;luzia sempre uma grande espada nua. Mas, com tantas seguranças, mal
+dormia&mdash;e a cada instante se solevava em sobressalto de entre as fundas
+almofadas, agarrando a senhora D. Leonor com mão bruta e sôfrega, que lhe
+pisava o colo, para rugir muito baixo, numa ânsia: «Dize que me queres só a
+mim!...» Depois, com a alvorada, lá se empoleirava, a espreitar, como um
+falcão, as janelas de D. Rui. Nunca o avistava, agora, nem à porta da igreja às
+horas de missa, nem recolhendo do campo, a cavalo, ao toque de Ave-Marias.</p>
+
+<p>E por o sentir assim sumido dos sítios e giros costumados&mdash;é que mais o
+suspeitava dentro do coração de D. Leonor.</p>
+
+<p>Emfim, uma noite, depois de muito trilhar o lagedo da galeria, remoendo
+surdamente desconfianças e ódios, gritou pelo intendente e ordenou que se
+preparassem trouxas e cavalgaduras. Cedo, de madrugada, partiria, com a senhora
+D. Leonor, para a sua herdade de Cabril, a duas léguas de Segóvia! A partida
+não<span class="pn">{226}</span> foi de madrugada, como uma fuga de avarento que vai esconder longe o
+seu tesoiro:&mdash;mas, realizada com aparato e demora, ficando a liteira diante da
+arcada, a esperar longas horas, de cortinas abertas, emquanto um cavalariço
+passeava pelo adro a mula branca do fidalgo, enxairelada à mourisca, e do lado
+do jardim a récua de machos, carregados de baús, presos às argolas, sob o sol e
+a mosca, aturdiam a viela com o tilintar dos guizos. Assim D. Rui soube a
+jornada do senhor de Lara:&mdash;e assim a soube toda a cidade.</p>
+
+<p>Fôra um grande contentamento para D. Leonor, que gostava de Cabril, dos seus
+viçosos pomares, dos jardins, para onde abriam, rasgadamente e sem grades, as
+janelas dos seus aposentos claros: aí ao menos tinha largo ar, pleno sol, e
+alegretes a regar, um viveiro de pássaros, e tam compridas ruas de loureiro ou
+teixo, que eram quási a liberdade. E depois esperava que no campo se
+aligeirassem aqueles cuidados que traziam, nos derradeiros tempos, tam enrugado
+e taciturno seu marido e senhor. Mas não logrou esta esperança, porque ao cabo
+de uma semana ainda se não desanuviara a face de D. Alonso&mdash;nem de-certo havia
+frescura de arvoredos, sussurros de águas correntes, ou aromas esparsos nos
+rosais em flor, que calmassem agitação tam amarga e funda. Como em Segóvia, na
+galeria<span class="pn">{227}</span> sonora de grande abobada, sem descanso passeava, enterrado na
+sua samarra, com o bico da barba espetado para diante, a grenha basta erriçada
+para trás, um geito de arreganhar silenciosamente o beiço, como se meditasse
+maldades a que gozava de antemão o sabor acre. E todo o interêsse da sua vida
+se concentrara num serviçal, que constantemente galopava entre Segóvia e
+Cabril, e que êle por vezes esperava no comêço da aldeia, junto ao Cruzeiro,
+ficando a escutar o homem que desmontava, ofegante, e logo lhe dava novas
+apressadas.</p>
+
+<p>Uma noite em que D. Leonor, no seu quarto, rezava o terço com as aias, à luz
+duma tocha de cera, o senhor de Lara entrou muito vagarosamente, trazendo na
+mão uma fôlha de pergaminho e uma pena mergulhada no seu tinteiro de osso. Com
+um rude acêno despediu as aias, que o temiam como a um lôbo. E, empurrando um
+escabelo para junto da mesa, volvendo para D. Leonor a face a que impusera
+tranqùilidade e agrado, como se apenas viesse por cousas naturais e fáceis:</p>
+
+<p>&mdash;Senhora&mdash;disse&mdash;quero que me escrevais aqui uma carta que muito convêm
+escrever...</p>
+
+<p>Tam costumada era nela a submissão, que, sem outro reparo ou curiosidade,
+indo apenas<span class="pn">{228}</span> pendurar na barra do leito o rosário em que rezara, se
+acomodou sôbre o escabelo, e os seus dedos finos, com muita aplicação, para que
+a letra fôsse esmerada e clara, traçaram a primeira linha curta que o Senhor de
+Lara ditara e era: <em>Meu cavaleiro</em>...» Mas quando êle ditou a outra,
+mais longa, e dum modo amargo, D. Leonor arrojou a pena como se a pena a
+escaldasse, e, recuando da mesa, gritou, numa aflição:</p>
+
+<p>&mdash;¿Senhor, para que convêm que eu escreva tais cousas e tam falsas?...</p>
+
+<p>Num brusco furor, o senhor de Lara arrancou do cinto um punhal, que lhe
+agitou junto à face, rugindo surdamente:</p>
+
+<p>&mdash;Ou escreveis o que vos mando e que a mim me convêm, ou por Deus, que vos
+varo o coração!...</p>
+
+<p>Mais branca que a cera da tocha que os alumiava, com a carne arrepiada ante
+aquele ferro que luzia, num terror supremo e que tudo aceitava, D. Leonor
+murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Pela Virgem Maria, não me façais mal!... Nem vos agasteis, senhor, que eu
+vivo para vos obedecer e servir... Agora, mandai, que eu escreverei.</p>
+
+<p>Então, com os punhos cerrados nas bordas da mesa, onde pousara o punhal,
+esmagando a frágil e desditosa mulher sob o olhar duro que fuzilava, o senhor
+de Lara ditou,<span class="pn">{229}</span> atirou roucamente, aos pedaços, aos repelões, uma carta
+que dizia, quando finda e traçada em letra bem incerta e trémula:&mdash;«Meu
+cavaleiro: Muito mal haveis compreendido, ou muito mal pagais o amor que vos
+tenho, e que não vos pude nunca, em Segóvia, mostrar claramente... Agora aqui
+estou em Cabril, ardendo por vos ver; e se o vosso desejo corresponde ao meu,
+bem fàcilmente o podeis realizar, pois que meu marido se acha ausente noutra
+herdade, e esta de Cabril é toda fácil e aberta. Vinde esta noite, entrai pela
+porta do jardim, do lado da azinhaga, passando o tanque, até ao terraço. Aí
+avistareis uma escada encostada a uma janela da casa, que é a janela do meu
+quarto, onde sereis bem docemente agasalhado por quem ansiosamente vos
+espera...»</p>
+
+<p>&mdash;Agora, senhora, assinai por baixo o vosso nome, que isso sobretudo convêm!
+</p>
+
+<p>D. Leonor traçou vagarosamente o seu nome, tam vermelha como se a despissem
+diante de uma multidão.</p>
+
+<p>&mdash;E agora&mdash;ordenou o marido mais surdamente, através dos dentes
+cerrados&mdash;endereçai a D. Rui de Cardenas!</p>
+
+<p>Ela ousou erguer os olhos, na surprêsa daquele nome desconhecido.</p>
+
+<p>&mdash;Andai!... A D. Rui de Cardenas!&mdash;gritou o homem sombrio.<span class="pn">{230}</span></p>
+
+<p>E ela endereçou a sua desonesta carta a D. Rui de Cardenas.</p>
+
+<p>D. Alonso meteu o pergaminho no cinto, junto ao punhal que embainhara, e
+saíu em silêncio com a barba espetada, abafando o rumor dos passos nas lages do
+corredor</p>
+
+<p>Ela ficara sôbre o escabelo, as mãos cansadas e caídas no regaço, num
+infinito espanto, o olhar perdido na escuridão da noite silente. Menos escura
+lhe parecia a morte que essa escura aventura em que se sentia envolvida e
+levada! ¿Quem era êsse D. Rui de Cardenas, de quem nunca ouvira falar, que
+nunca atravessara a sua vida, tam quieta, tam pouco povoada de memórias e de
+homens? E êle de-certo a conhecia, a encontrara, a seguira, ao menos com os
+olhos, pois que era cousa natural e bem ligada receber dela carta de tanta
+paixão e promessa...</p>
+
+<p>¿Assim, um homem, e môço de-certo bem nascido, talvez gentil, penetrava no
+seu destino bruscamente, trazido pela mão de seu marido? Tam íntimamente mesmo
+se entranhara êsse homem na sua vida, sem que ela se apercebesse, que já para
+êle se abria de noite a porta do seu jardim, e contra a sua janela, para êle
+subir, se arrumava de noite uma escada!... E era seu marido que muito
+secretamente escancarava a porta, e muito secretamente levantava a escada...
+Para que?<span class="pn">{231}</span></p>
+
+<p>Então, num relance, D. Leonor compreendeu a verdade, a vergonhosa verdade,
+que lhe arrancou um grito ansiado e mal sufocado. Era uma cilada! O senhor de
+Lara atraía a Cabril êsse D. Rui com uma promessa magnífica, para dêle se
+apoderar, e de-certo o matar, indefeso e solitário! E ela, o seu amor, o seu
+corpo, eram as promessas que se faziam rebrilhar ante os olhos seduzidos do
+môço desventuroso. Assim seu marido usava a sua beleza, o seu leito, como a
+rêde de oiro em que devia caír aquela prêsa estouvada! ¿Onde haveria maior
+ofensa? E tambêm quanta imprudência! Bem poderia esse D. Rui de Cardenas
+desconfiar, não aceder a convite tam abertamente amoroso, e depois mostrar por
+toda a Segóvia, rindo e triunfando, aquela carta em que lhe fazia oferta do seu
+leito e do seu corpo a mulher de Alonso de Lara! Mas não! o desventurado
+correria a Cabril&mdash;e para morrer, miserávelmente morrer no negro silêncio da
+noite, sem padre, nem sacramentos, com a alma encharcada em pecado de amor!
+Para morrer, de-certo&mdash;porque nunca o senhor de Lara permitiria que vivesse o
+homem que recebera tal carta. Assim, aquele môço morria por amor dela, e por um
+amor que, sem lhe valer nunca um gôsto, lhe valia logo a morte! De-certo por
+amor dela&mdash;pois que tal ódio do senhor de Lara, ódio<span class="pn">{232}</span> que com tanta
+deslealdade e vilania se cevava, só podia nascer de ciumes, que lhe escureciam
+todo o dever de cavaleiro e de cristão. Sem dúvida êle surpreendera olhares,
+passos, tenções dêste senhor D. Rui, mal acautelado por bem namorado.</p>
+
+<p>Mas como? quando? Confusamente se lembrava ela de um moço que um domingo a
+cruzara no adro, a esperara ao portal da igreja, com um molho de cravos na
+mão... Seria êsse? Era de nobre parecer, muito pálido, com grandes olhos negros
+e quentes. Ela passara&mdash;indiferente... Os cravos que segurava na mão eram
+vermelhos e amarelos... A quem os levava?... Ah! se o pudesse avisar, bem cedo,
+de madrugada!</p>
+
+<p>¿Como, se não havia em Cabril serviçal ou aia de quem se fiasse? Mas deixar
+que uma bruta espada varasse traiçoeiramente aquele coração, que vinha cheio
+dela, palpitando por ela, todo na esperança dela!...</p>
+
+<p>Oh! a desabrida e ardente correria de D. Rui, desde Segóvia a Cabril, com a
+promessa do encantador jardim aberto, da escada posta contra a janela, sob a
+nudez e protecção da noite! ¿Mandaria realmente o senhor de Lara encostar uma
+escada à janela? De-certo, para com mais facilidade o poderem matar, ao pobre,
+e doce, e inocente môço, quando êle subisse, mal seguro sôbre um frágil
+degrau,<span class="pn">{233}</span> as mãos embaraçadas, a espada a dormir na bainha... E assim, na
+outra noite, em face ao seu leito, a sua janela estaria aberta, e uma escada
+estaria erguida contra a sua janela à espera de um homem! Emboscado na sombra
+do quarto, seu marido seguramente mataria êsse homem...</p>
+
+<p>¿Mas se o senhor de Lara esperasse fóra dos muros da quinta, assaltasse
+brutalmente, nalguma azinhaga, aquele D. Rui de Cardenas, e ou por menos
+destro, ou por menos forte, num terçar de armas, caísse êle traspassado, sem
+que o outro conhecesse a quem matara? E ela, ali, no seu quarto, sem saber, e
+todas as portas abertas, e a escada erguida, e aquele homem assomando à janela
+na sombra macia da noite tépida, e o marido que a devia defender morto no fundo
+duma azinhaga... ¿Que faria ela, Virgem Mãe? Oh! de-certo repeliria,
+soberbarmente, o môço temerário. Mas o espanto dêle e a cólera do seu desejo
+enganado! «Por Vós é que eu vim chamado, senhora! E ali trazia, sôbre o
+coração, a carta dela, com seu nome, que a sua mão traçara. ¿Como lhe poderia
+contar a emboscada e o dolo? Era tam longo de contar, naquele silêncio e
+solidão da noite, emquanto os olhos dêle, húmidos e negros, a estivessem
+suplicando e traspassando... Desgraçada dela se o senhor de Lara morresse, a
+deixasse solitária,<span class="pn">{234}</span> sem defesa, naquela vasta casa aberta! Mas quanto
+desgraçada tambêm se aquele môço, chamado por ela, e que a amava, e que por
+êsse amor vinha correndo deslumbrante, encontrasse a morte no sítio da sua
+esperança, que era o sítio do seu pecado, e, morto em pleno pecado, rolasse
+para a eterna desesperança... Vinte e cinco anos, êle&mdash;se era o mesmo de quem
+se lembrava, pálido, e tam airoso, com um gibão de veludo roxo e um ramo de
+cravos na mão, à porta da igreja, em Segóvia...</p>
+
+<p>Duas lágrimas saltaram dos cansados olhos de D. Leonor. E dobrando os
+joelhos, levantando a alma toda para o céu, onde a lua se começava a levantar,
+murmurou, numa infinita mágoa e fé:</p>
+
+<p>&mdash;Oh! Santa Virgem do Pilar, Senhora minha, vela por nós ambos, vela por
+todos nós!...</p>
+
+
+<h2><a name="SECTION000930">III</a> </h2>
+
+<p>D. Rui entrava, pela hora da calma, no fresco pátio da sua casa, quando de
+um banco de pedra, na sombra, se ergueu um môço do campo, que tirou de dentro
+do surrão uma carta, lha entregou, murmurando:<span class="pn">{235}</span></p>
+
+<p>&mdash;Senhor, dai-vos pressa em ler, que tenho de voltar a Cabril, a quem me
+mandou...</p>
+
+<p>D. Rui abriu o pergaminho; e, no deslumbramento que o tomou, bateu com êle
+contra o peito, como para o enterrar no coração...</p>
+
+<p>O moço do campo insistia, inquieto:</p>
+
+<p>&mdash;Aviai, senhor, aviai! Nem precisais responder. Basta que me deis um sinal
+de vos ter vindo o recado...</p>
+
+<p>Muito pálido, D. Rui arrancou uma das luvas bordadas a retroz, que o môço
+enrolou e sumiu no surrão. E já abalava na ponta das alpercatas leves, quando,
+com um acêno, D. Rui ainda o deteve:</p>
+
+<p>&mdash;Escuta. ¿Que caminho tomas tu para Cabril?</p>
+
+<p>&mdash;O mais certo e sòzinho para gente afoita, que é pelo Cêrro dos Enforcados.
+</p>
+
+<p>&mdash;Bem.</p>
+
+<p>D. Rui galgou as escadas de pedra, e no seu aposento, sem mesmo tirar o
+sombreiro, de novo leu junto da gelosia aquele pergaminho divino, em que D.
+Leonor o chamava de noite ao seu quarto, à posse inteira do seu ser. E não o
+maravilhava esta oferta&mdash;depois de uma tam constante, imperturbada indiferença.
+Antes nela logo percebeu um amor muito astuto, por ser muito forte, que com
+grande paciência se esconde ante os estorvos e os perigos, e mudamente prepara
+a sua<span class="pn">{236}</span> hora de contentamento, melhor e mais deliciosa por tam preparada.
+Sempre ela o amara, pois, desde a manhã bemdita em que os seus olhos se tinham
+cruzado no portal de Nossa Senhora. E emquanto êle rondava aqueles muros do
+jardim, maldizendo uma frieza que lhe parecia mais fria que a dos frios muros,
+já ela lhe dera a sua alma, e cheia de constância, com amorosa sagacidade,
+recalcando o menor suspiro, adormecendo desconfianças, preparava a noite
+radiante em que lhe daria tambêm o seu corpo.</p>
+
+<p>Tanta firmeza, tam fino engenho nas coisas do amor ainda lha tornavam mais
+bela e mais apetecida!</p>
+
+<p>Com que impaciência olhava então o sol, tam desapressado nessa tarde em
+descer para os montes! Sem repouso, no seu quarto, com as gelosias cerradas
+para melhor concentrar a sua felicidade, tudo aprontava amorosamente para a
+triunfal jornada: as finas roupas, as finas rendas, um gibão de veludo negro e
+as essências perfumadas. Duas vezes desceu à cavalariça a verificar se o seu
+cavalo estava bem ferrado e bem pensado. Sôbre o soalho, vergou e revergou,
+para a experimentar, a folha da espada que levaria à cinta... Mas o seu maior
+cuidado era o caminho para Cabril, a-pesar de bem o conhecer, e a aldeia
+apinhada em tôrno ao mosteiro franciscano, e a vélha<span class="pn">{237}</span> ponte romana com o
+seu Calvário, e a azinhaga funda que levava à herdade do senhor de Lara. Ainda
+nesse inverno por lá passara, indo montear com dois amigos de Astorga, e
+avistara a torre dos de Lara, e pensara:&mdash;«Eis a torre da minha ingrata!» Como
+se enganava! As noites agora eram de lua, e êle saíria de Segóvia caladamente,
+pela porta de S. Mauros. Um galope curto o punha no Cêrro dos Enforcados... Bem
+o conhecia tambêm, êsse sítio de tristeza e pavor, com os seus quatro pilares
+de pedra, onde se enforcavam os criminosos, e onde os seus corpos ficavam,
+balouçados da ventania, ressequidos do sol, até que as cordas apodrecessem e as
+ossadas caíssem, brancas e limpas da carne pelo bico dos corvos. Por trás do
+Cêrro era a lagôa das Donas. A derradeira vez que por lá andara, fôra em dia do
+apóstolo S. Matias, quando o corregedor e as confrarias de caridade e paz, em
+procissão, iam dar sepultura sagrada às ossadas caídas no chão negro,
+esbrugadas pelas aves. Daí o caminho, depois, corria liso e direito a Cabril.
+</p>
+
+<p>Assim D. Rui meditava a sua jornada venturosa, emquanto a tarde ia caíndo.
+Mas, quando escureceu, e em tôrno às tôrres da igreja começaram a girar os
+morcegos, e nas esquinas do adro se acenderam os nichos das Almas, o valente
+môço sentiu um medo<span class="pn">{238}</span> estranho, o medo daquela felicidade que se acercava
+e que lhe parecia sobrenatural. ¿Era, pois, certo que essa mulher de divina
+formosura, famosa em Castela, e mais inacessível que um astro, seria sua, toda
+sua, no silêncio e segurança duma alcova, dentro em breves instantes, quando
+ainda se não tivessem apagado diante dos retábulos das Almas aqueles lumes
+devotos? ¿E o que fizera êle para lograr tam grande bem? Pisara as lages de um
+adro, esperara no portal de uma igreja, procurando com os olhos outros dois
+olhos, que não se erguiam, indiferentes ou desatentos. Então, sem dor,
+abandonara a sua esperança... E eis que de repente aqueles olhos distraídos o
+procuram, e aqueles braços fechados se lhe abrem, largos e nus, e com o corpo e
+com a alma aquela mulher lhe grita:&mdash;«Oh! mal avisado, que não me entendeste!
+Vem! Quem te desanimou já te pertence!» ¿Houvera jàmais igual ventura? Tam
+alta, tam rara era, que de-certo atrás dela, se não erra a lei humana, já devia
+caminhar a desventura! Já na verdade caminhava;&mdash;pois quanta desventura em
+saber que depois de tal ventura, quando de madrugada, saíndo dos divinos
+braços, êle recolhesse a Segóvia, a sua Leonor, o bem sublime da sua vida, tam
+inesperadamente adquirido por um instante, recaíria logo sob o poder de outro
+amo!<span class="pn">{239}</span></p>
+
+<p>Que importava! Viessem depois dores e zelos! Aquela noite era
+esplêndidamente sua, o mundo todo uma aparência vã e a única realidade êsse
+quarto de Cabril, mal alumiado, onde ela o esperaria, com os cabelos soltos!
+Foi com sofreguidão que desceu a escada, se arremessou sôbre o seu cavalo.
+Depois, por prudência, atravessou o adro muito lentamente, com o sombreiro bem
+levantado da face, como num passeio natural, a procurar fóra dos muros a
+frescura da noite. Nenhum encontro o inquietou até à porta de S. Mauros. Aí, um
+mendigo, agachado na escuridão dum arco, e que tocava monótonamente a sua
+sanfona, pediu, em lamúria, à Virgem e a todos os santos, que levassem aquele
+gentil cavaleiro na sua doce e santa guarda. D. Rui parara para lhe atirar uma
+esmola, quando se lembrou que nessa tarde não fôra à igreja, à hora de
+vésperas, rezar e pedir a bênção à sua divina madrinha. Com um salto, desceu
+logo do cavalo, porque, justamente, rente ao vélho arco, tremeluzia uma lâmpada
+alumiando um retábulo. Era uma imagem da Virgem com o peito traspassado por
+sete espadas. D. Rui ajoelhou, pousou o sombreiro nas lages, e com as mãos
+erguidas, muito zelosamente, rezou uma Salve-Rainha. O clarão amarelo da luz
+envolvia o rosto da Senhora, que, sem sentir as dores dos sete ferros, ou como
+se êles só déssem<span class="pn">{240}</span> inefáveis gozos, sorria com os lábios muito vermelhos.
+Emquanto êle rezava, no convento de São Domingos, ao lado, a sineta começou a
+tocar a agonia. De entre a sombra negra do arco, cessando a sanfona, o mendigo
+murmurou:&mdash;«Lá está um frade a morrer!» D. Rui disse uma Ave-Maria pelo frade
+que morria. A Virgem das sete espadas sorria docemente&mdash;o toque de agonia não
+era, pois, de mau preságio! D. Rui cavalgou alegremente e partiu.</p>
+
+<p>Para alêm da porta de S. Mauros, depois de alguns casebres de oleiros, o
+caminho seguia, esguio e negro, entre altas piteiras. Por trás das colinas, ao
+fundo da planície escura, subia o primeiro clarão, amarelo e lânguido, da lua
+cheia, ainda escondida. E D. Rui marchava a passo, receando chegar a Cabril
+muito cedo, antes que as aias e os moços findassem o serão e o rosário. ¿Porque
+não lhe marcara D. Leonor a hora, naquela carta tam clara e tam pensada? Então
+a sua imaginação corria adiante, rompia pelo jardim de Cabril, galgava
+aladamente a escada prometida&mdash;e êle largava tambêm atrás, numa carreira
+sôfrega, que arrancava as pedras do caminho mal junto. Depois sofreava o cavalo
+ofegante. Era cedo, era cedo! E retomava o passo penoso, sentindo o coração
+contra o peito, como ave presa que bate às grades.</p>
+
+<p>Assim chegou ao Cruzeiro, onde a estrada<span class="pn">{241}</span> se fendia em duas, mais
+juntas que as pontas de uma forquilha, ambas cortando através de pinheiral.
+Descoberto diante da imagem crucificada, D. Rui teve um instante de angústia,
+pois não se recordava qual delas levava ao Cêrro dos Enforcados. Já se
+embrenhara na mais cerrada, quando, de entre os pinheiros calados, uma luz
+surgiu, dansando no escuro. Era uma vélha em farrapos, com as longas melenas
+soltas, vergada sôbre um bordão e levando uma candeia.</p>
+
+<p>&mdash;¿Para onde vai este caminho?&mdash;gritou Rui.</p>
+
+<p>A vélha balançou mais ao alto a candeia, para mirar o cavaleiro.</p>
+
+<p>&mdash;Para Xarama.</p>
+
+<p>E luz e vélha imediatamente se sumiram, fundidas na sombra, como se ali
+tivessem surgindo sómente para avisar o cavaleiro do seu caminho errado... Já
+êle virara arrebatadamente; e, rodeando o Calvário, galopou pela outra estrada
+mais larga, até avistar sôbre a claridade do céu os pilares negros, os madeiros
+negros do Cêrro dos Enforcados. Então estacou, direito nos estribos. Num cômoro
+alto, sêco, sem erva ou urze, ligados por um muro baixo, todo esbrechado, lá se
+erguiam, negros, enormes, sôbre a amarelidão do luar, os quatro pilares de
+granito semelhantes aos quatro cunhais duma casa desfeita.<span class="pn">{242}</span> Sôbre os
+pilares pousavam quatro grossas traves. Das traves pendiam quatro enforcados
+negros e rígidos, no ar parado e mudo. Tudo em tôrno parecia morto como êles.
+</p>
+
+<p>Gordas aves de rapina dormiam empoleiradas sôbre os madeiros. Para alêm,
+rebrilhava lívidamente a água morta da lagôa das Donas. E, no céu, a lua ia
+grande e cheia.</p>
+
+<p>D. Rui murmurou o Padre Nosso devido por todo o cristão àquelas almas
+culpadas. Depois impeliu o cavalo, e passava&mdash;quando, no imenso silêncio e na
+imensa solidão, se ergueu, ressoou uma voz, uma voz que o chamava, suplicante e
+lenta:</p>
+
+<p>&mdash;Cavaleiro, detende-vos, vinde cá!...</p>
+
+<p>D. Rui colheu bruscamente as rédeas e erguido sôbre os estribos, atirou os
+olhos espantados por todo o sinistro ermo. Só avistou o cêrro áspero, a água
+rebrilhante e muda, os madeiros, os mortos. Pensou que fôra ilusão da noite ou
+ousadia de algum demónio errante. E, serenamente, picou o cavalo, sem
+sobressalto ou pressa, como numa rua de Segóvia. Mas, por trás, a voz tornou,
+mais urgentemente o chamou, ansiosa, quási aflita:</p>
+
+<p>&mdash;Cavaleiro, esperai, não vos vades, voltai, chegai aqui!...</p>
+
+<p>De novo D. Rui estacou e, virado sôbre a sela, encarou afoitamente os quatro
+corpos pendurados das traves. Do lado dêles soava<span class="pn">{243}</span> a voz, que, sendo
+humana, só podia saír de forma humana! Um dêsses enforcados, pois, o chamara,
+com tanta pressa e ânsia.</p>
+
+<p>¿Restaria nalguns, por maravilhosa mercê de Deus, alento e vida? ¿Ou seria
+que, por maior maravilha, uma dessas carcassas meio apodrecidas o detinha para
+lhe transmitir avisos de Alêm-da-Campa?... Mas, que a voz rompesse dum peito
+vivo ou dum peito morto, grande covardia era abalar, espavoridamente, sem a
+atender e a ouvir.</p>
+
+<p>Atirou logo para dentro do cêrro o cavalo, que tremia; e, parando, direito e
+calmo, com a mão na ilharga, depois de fitar, um por um, os quatro corpos
+suspensos, gritou:</p>
+
+<p>&mdash;¿Qual de vós, homens enforcados, ousou chamar por D. Rui de Cardenas?</p>
+
+<p>Então aquele que voltava as costas à lua cheia respondeu, do alto da corda,
+muito quieta e naturalmente, como um homem que conversa da sua janela para a
+rua:</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, fui eu.</p>
+
+<p>D. Rui fez avançar para diante dêle o cavalo. Não lhe distinguia a face,
+enterrada no peito, escondida pelas longas e negras melenas pendentes. Só
+percebeu que tinha as mãos soltas e desamarradas, e tambêm soltos os pés nus,
+já ressequidos e da côr do betume.</p>
+
+<p>&mdash;Que me queres?</p>
+
+<p>O enforcado, suspirando, murmurou:<span class="pn">{244}</span></p>
+
+<p>&mdash;Senhor, fazei-me a grande mercê de me cortar esta corda em que estou
+pendurado.</p>
+
+<p>D. Rui arrancou a espada e de um golpe certo cortou a corda meio apodrecida.
+Com um sinistro som de ossos entrechocados o corpo caíu no chão, onde jazeu um
+momento, estirado. Mas, imediatamente, se endireitou sôbre os pés mal seguros e
+ainda dormentes&mdash;e ergueu para D. Rui uma face morta, que era uma caveira com a
+pele muito colada, e mais amarela que a lua que nela batia. Os olhos não tinham
+movimento nem brilho. Ambos os beiços se lhe arreganhavam num sorriso
+empedernido. De entre os dentes, muito brancos, surdia uma ponta de língua
+muito negra.</p>
+
+<p>D. Rui não mostrou terror, nem asco. E embainhando serenamente a espada:</p>
+
+<p>&mdash;¿Tu estás morto ou vivo?&mdash;perguntou. O homem encolheu os ombros com
+lentidão:</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, não sei... ¿Quem sabe o que é a vida? ¿Quem sabe o que é a
+morte?...</p>
+
+<p>&mdash;¿Mas que queres de mim ?</p>
+
+<p>O enforcado, com os longos dedos descarnados, alargou o nó da corda que
+ainda lhe laçava o pescoço e declarou muito serena e firmemente:</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, eu tenho de ir convosco a Cabril, onde vós ides.<span class="pn">{245}</span></p>
+
+<p>O cavaleiro estremeceu num tam forte assombro, repuxando as rédeas, que o
+seu bom cavalo se empinou como assombrado tambêm.</p>
+
+<p>&mdash;Comigo a Cabril?!...</p>
+
+<p>O homem curvou o espinhaço, a que se viam os ossos todos, mais agudos que os
+dentes de uma serra, através de um longo rasgão da camisa de estamenha:</p>
+
+<p>&mdash;Senhor&mdash;suplicou&mdash;não mo negueis. Que eu tenho a receber grande salário se
+vos fizer grande serviço!</p>
+
+<p>Então D. Rui pensou de repente que bem podia ser aquela uma traça formidável
+do Demónio. E, cravando os olhos muito brilhantes na face morta que para êle se
+erguia, ansiosa, à espera do seu consentimento&mdash;fez um lento e largo Sinal da
+Cruz.</p>
+
+<p>O enforcado vergou os joelhos com assustada reverência:</p>
+
+<p>&mdash;¿Senhor, para que me experimentais com êsse sinal? Só por êle alcançamos
+remissão, e eu só dêle espero misericórdia.</p>
+
+<p>Então D. Rui pensou que, se êsse homem não era mandado pelo Demónio, bem
+podia ser mandado por Deus! E logo devotamente, com um gesto submisso em que
+tudo entregava ao céu, consentiu, aceitou o pavoroso companheiro:</p>
+
+<p>&mdash;Vem comigo, pois, a Cabril, se Deus<span class="pn">{246}</span> te manda! Mas eu nada te
+pergunto e tu nada me perguntes.</p>
+
+<p>Desceu logo o cavalo à estrada, toda alumiada da lua. O enforcado seguia ao
+seu lado, com passos tam ligeiros, que mesmo quando D. Rui galopava êle se
+conservava rente ao estribo, como levado por um vento mudo.</p>
+
+<p>Por vezes, para respirar mais livremente, repuxava o nó da corda que lhe
+enroscava o pescoço. E, quando passavam entre sebes onde errasse o aroma de
+flores silvestres, o homem murmurava com infinito alívio e delícia:</p>
+
+<p>&mdash;Como é bom correr!</p>
+
+<p>D. Rui ia num assombro, num tormentoso cuidado. Bem compreendia agora que
+era aquele um cadáver reanimado por Deus, para um estranho e encoberto serviço.
+¿Mas para que lhe dava Deus tam medonho companheiro? ¿Para o proteger? ¿Para
+impedir que D. Leonor, amada do céu pela sua piedade, caísse em culpa mortal?
+¿E, para tam divina incumbência de tam alta mercê, já não tinha o Senhor anjos
+no céu, que necessitasse empregar um supliciado?... Ah! como êle voltaria
+alegremente a rédea para Segóvia, se não fôra a galante lealdade de cavaleiro,
+o orgulho de nunca recuar, e a submissão às ordens de Deus, que sentia sôbre si
+pesarem...</p>
+
+<p>Dum alto da estrada, de repente avistaram Cabril, as torres do convento
+franciscano alvejando<span class="pn">{247}</span> ao luar, os casais adormecidos entre as hortas.
+Muito silenciosamente, sem que um cão ladrasse detrás das cancelas ou de cima
+dos muros, desceram a vélha ponte romana. Diante do Calvário, o enforcado caíu
+de joelhos nas lages, ergueu os lívidos ossos das mãos, ficou longamente
+rezando, entre longos suspiros. Depois ao entrar na azinhaga, bebeu muito
+tempo, e consoladamente, de uma fonte que corria e cantava sob as frondes de um
+salgueiro. Como a azinhaga era muito estreita, êle caminhava adiante do
+cavaleiro, todo curvado, os braços cruzados fortemente sôbre o peito, sem um
+rumor.</p>
+
+<p>A lua ia alta no céu. D. Rui considerava com amargura aquele disco, cheio e
+lustroso, que espargia tanta claridade, e tam indiscreta, sôbre o seu segredo.
+Ah! como se estragava a noite que devia ser divina! Uma enorme lua surdia de
+entre os montes para tudo alumiar. Um enforcado descia da forca para o seguir e
+tudo saber. Deus assim o ordenara. Mas que tristeza chegar à doce porta
+docemente prometida, com tal intruso ao seu lado, sob aquele céu todo claro!
+</p>
+
+<p>Bruscamente, o enforcado estacou, erguendo o braço, de onde a manga pendia
+em farrapos. Era o fim da azinhaga que desembocava em caminho mais largo e mais
+batido:&mdash;e diante dêles alvejava o comprido muro da quinta<span class="pn">{248}</span> do senhor de
+Lara, tendo aí um mirante, com varandins de pedra, e todo revestido de hera.
+</p>
+
+<p>&mdash;Senhor&mdash;murmurou o enforcado, segurando com respeito o estribo de D.
+Rui&mdash;logo a poucos passos dêste mirante é a porta por onde deveis penetrar no
+jardim. Convêm que aqui deixeis o cavalo, amarrado a uma árvore, se o tendes
+por seguro e fiel. Que na emprêsa em que vamos, já é de mais o rumor dos nossos
+pés!...</p>
+
+<p>Silenciosamente D. Rui apeou, prendeu o cavalo, que sabia fiel e seguro, ao
+tronco dum álamo sêco.</p>
+
+<p>E tam submisso se tornara àquele companheiro imposto por Deus, que sem outro
+reparo o foi seguindo rente do muro que o luar batia.</p>
+
+<p>Com vagarosa cautela, e na ponta dos pés nus, avançava agora o enforcado,
+vigiando o alto do muro, sondando a negrura da sebe, parando a escutar rumores
+que só para êle eram percebíveis&mdash;porque nunca D. Rui conhecera noite mais
+fundamente adormecida e muda.</p>
+
+<p>E tal susto, em quem devia ser indiferente a perigos humanos, foi lentamente
+enchendo tambêm o valoroso cavaleiro de tam viva desconfiança, que tirava o
+punhal da baínha, enrodilhava a capa no braço, e marchava em<span class="pn">{249}</span> defesa, com
+o olhar faiscando, como num caminho de emboscada e briga. Assim chegaram a uma
+porta baixa, que o enforcado empurrou, e que se abriu sem gemer nos gonzos.
+Penetraram numa rua ladeada de espessos teixos até a um tanque cheio de água,
+onde boiavam fôlhas de nenúfares, e que toscos bancos de pedra circundavam,
+cobertos pela rama de arbustos em flor.</p>
+
+<p>&mdash;Por ali&mdash;murmurou o enforcado, estendendo o braço mirrado.</p>
+
+<p>Era alêm do tanque, uma avenida que densas e vélhas árvores abobadavam e
+escureciam. Por ela se meteram, como sombras na sombra, o enforcado adiante, D.
+Rui seguindo muito subtilmente, sem roçar um ramo, mal pisando a areia. Um leve
+fio de água sussurrava entre relvas. Pelos troncos subiam rosas trepadeiras,
+que cheiravam docemente. O coração de D. Rui recomeçou a bater numa esperança
+de amor.</p>
+
+<p>&mdash;Chut!&mdash;fez o enforcado.</p>
+
+<p>E D. Rui quási tropeçou no sinistro homem que estacava, com os braços
+abertos como as traves de uma cancela. Diante dêles quatro degraus de pedra
+subiam a um terraço, onde a claridade era larga e livre. Agachados, treparam os
+degraus&mdash;e ao fundo dum jardim sem árvores, todo em canteiros de flores bem
+recortados, orlados de buxo<span class="pn">{250}</span> curto, avistaram um lado da casa batido pela
+lua cheia. Ao meio, entre as janelas de peitoril fechadas, um balcão de pedra,
+com manjericões aos cantos, conservava as vidraças abertas largamente. O
+quarto, dentro, apagado, era como um buraco de treva na claridade da fachada
+que o luar banhava. E arrimada contra o balcão, estava uma escada com degraus
+de corda.</p>
+
+<p>Então o enforcado empurrou D. Rui vivamente dos degraus para a escuridão da
+avenida. E aí, com um modo urgente, dominando o cavaleiro, exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Senhor! Convêm agora que me deis o vosso sombreiro e a capa! Vós quedais
+aqui na escuridão destas árvores. Eu vou trepar àquela escada e espreitar para
+aquele quarto... E se fôr como desejais, aqui voltarei, e com Deus sêde
+feliz...</p>
+
+<p>D. Rui recuou no horror de que tal criatura subisse a tal janela!</p>
+
+<p>E bateu o pé, gritou surdamente:</p>
+
+<p>&mdash;Não, por Deus!</p>
+
+<p>Mas a mão do enforcado, lívida na escuridão, bruscamente lhe arrancou o
+sombreiro da cabeça, lhe puxou a capa do braço. E já se cobria, já se embuçava,
+murmurando agora, numa súplica ansiosa:</p>
+
+<p>&mdash;Não mo negueis, senhor, que se vos fizer grande serviço, ganharei grande
+mercê!<span class="pn">{251}</span></p>
+
+<p>E galgou os degraus:&mdash;estava no alumiado e largo terraço.</p>
+
+<p>D. Rui subiu, atontado, e espreitou. E&mdash;oh maravilha!&mdash;era êle, D. Rui, todo
+êle, na figura e no modo, aquele homem que, por entre os canteiros e o buxo
+curto, avançava, airoso e leve, com a mão na cintura, a face erguida
+risonhamente para a janela, a longa pluma escarlate do chapéu balançando em
+triunfo. O homem avançava no luar esplêndido. O quarto amoroso lá estava
+esperando, aberto e negro. E D. Rui olhava, com olhos que faiscavam, tremendo
+de pasmo e cólera. O homem chegara à escada: destraçou a capa, assentou o pé no
+degrau de corda!&mdash;«Oh! lá sobe, o maldito!»&mdash;rugiu D. Rui. O enforcado subia.
+Já a alta figura, que era dêle, D. Rui, estava a meio da escada, toda negra
+contra a parede branca. Parou!... Não! não parara: subia, chegava,&mdash;já sôbre o
+rebordo da varanda pousara o joelho cauteloso. D. Rui olhava, desesperadamente,
+com os olhos, com a alma, com todo o seu ser... E eis que, de repente, do
+quarto negro surge um negro vulto, uma furiosa voz brada:&mdash;«vilão, vilão!»&mdash;e
+uma lâmina de adaga faisca, e cai, e outra vez se ergue, e rebrilha, e se
+abate, e ainda refulge, e ainda se embebe!... Como um fardo, do alto da escada,
+pesadamente, o enforcado cai sôbre a terra mole. Vidraças, portadas do<span class="pn">{252}</span>
+balcão logo se fecham com fragor. E não houve mais senão o silêncio, a
+serenidade macia, a lua muito alta e redonda no céu de verão.</p>
+
+<p>Num relance D. Rui compreendera a traição, arrancara a espada, recuando para
+a escuridão da avenida&mdash;quando, oh milagre! correndo através do terraço,
+aparece o enforcado, que lhe agarra a manga e lhe grita:</p>
+
+<p>&mdash;A cavalo, senhor, e abalar, que o encontro não era de amor, mas de morte!
+</p>
+
+<p>Ambos descem arrebatadamente a avenida, costeiam o tanque sob o refúgio dos
+arbustos em flor, metem pela rua estreita orlada de teixos, varam a porta&mdash;e um
+momento param, ofegantes, na estrada, onde a lua, mais refulgente, mais cheia,
+fazia como um puro dia.</p>
+
+<p>E então, só então, D. Rui descobriu que o enforcado conservava cravada no
+peito, até aos copos, a adaga, cuja ponta lhe saía pelas costas, luzidia e
+limpa!... Mas já o pavoroso homem o empurrava, o apressava:</p>
+
+<p>&mdash;A cavalo, senhor, e abalar, que ainda está sôbre nós a traição!</p>
+
+<p>Arrepiado, numa ânsia de findar aventura tam cheia de milagre e de horror,
+D. Rui colheu as rédeas, cavalgou sôfregamente. E logo, em grande pressa, o
+enforcado saltou tambêm para a garupa do cavalo fiel. Todo se arrepiou o bom
+cavaleiro, ao sentir nas suas<span class="pn">{253}</span> costas o roçar daquele corpo morto,
+dependurado de uma forca, atravessado por uma adaga. Com que desespêro galopou
+então pela estrada infindável! Em carreira tam violenta o enforcado nem
+oscilava, rígido sôbre a garupa, como um bronze num pedestal. E D. Rui a cada
+momento sentia um frio mais regelado que lhe regelava os ombros, como se
+levasse sôbre êles um saco cheio de gêlo. Ao passar no cruzeiro
+murmurou:&mdash;«Senhor, valei-me!»&mdash;Para alêm do cruzeiro, de repente estremeceu
+com o quimérico medo de que tam fúnebre companheiro para sempre o ficasse
+acompanhando, e se tornasse seu destino galopar através do mundo, numa noite
+eterna, levando um morto à garupa... E não se conteve, gritou para trás, no
+vento da carreira que os vergastava:</p>
+
+<p>&mdash;¿Para onde quereis que vos leve?</p>
+
+<p>O enforcado, encostando tanto o corpo a D. Rui que o magoou com os copos da
+adaga, segredou:</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, convêm que me deixeis no Cêrro!</p>
+
+<p>Doce e infinito alívio para o bom cavaleiro&mdash;pois o Cêrro estava perto, e já
+lhe avistava, na claridade desmaiada, os pilares e as traves negras... Em breve
+estacou o cavalo que tremia, branqueado de espuma.</p>
+
+<p>Logo o enforcado, sem rumor, escorregou<span class="pn">{254}</span> da garupa, segurou, como bom
+serviçal, o estribo de D. Rui. E com a caveira erguida, a língua negra mais
+saída de entre os dentes brancos, murmurou em respeitosa súplica:</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, fazei-me agora a grande mercê de me pendurar outra vez da minha
+trave.</p>
+
+<p>D. Rui estremeceu de horror:</p>
+
+<p>&mdash;Por Deus! Que vos enforque, eu?...</p>
+
+<p>O homem suspirou, abrindo os braços compridos:</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, por vontade de Deus é, e por vontade de Aquela que é mais cara a
+Deus!</p>
+
+<p>Então, resignado, submisso aos mandados do Alto, D. Rui apeou&mdash;e começou a
+seguir o homem, que subia para o Cêrro pensativamente, vergando o dorso, de
+onde saía, espetada e luzidia, a ponta da adaga. Pararam ambos sob a trave
+vazia. Em tôrno das outras traves pendiam as outras carcassas. O silêncio era
+mais triste e fundo que os outros silêncios da terra. A água da lagôa
+ennegrecera. A lua descia e desfalecia.</p>
+
+<p>D. Rui considerou a trave onde restava, curto no ar, o pedaço de corda que
+êle cortara com a espada.</p>
+
+<p>&mdash;¿Como quereis que vos pendure?&mdash;exclamou.&mdash;Àquele pedaço de corda não
+posso chegar com a mão; nem eu só basto para lá vos içar.<span class="pn">{255}</span></p>
+
+<p>&mdash;Senhor&mdash;respondeu o homem&mdash;aí a um canto deve haver um longo rôlo de
+corda. Uma ponta dela ma atareis a este nó que trago no pescoço: a outra ponta
+a arremessareis por cima da trave, e puxando depois, forte como sois, bem me
+podereis reenforcar.</p>
+
+<p>Ambos curvados, com passos lentos, procuraram o rôlo de corda. E foi o
+enforcado que o encontrou, o desenrolou... Então D. Rui descalçou as luvas. E
+ensinado por êle (que tam bem o aprendera do carrasco) atou uma ponta da corda
+ao laço que o homem conservava no pescoço, e arremessou fortemente a outra
+ponta, que ondeou no ar, passou sôbre a trave, ficou pendurada rente ao chão. E
+o rijo cavaleiro, fincando os pés, retezando os braços, puxou, içou o homem,
+até êle se quedar, suspenso, negro no ar, como um enforcado natural entre os
+outros enforcados.</p>
+
+<p>&mdash;Estais bem assim?</p>
+
+<p>Lenta e sumida, veio a voz do morto:</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, estou como devo.</p>
+
+<p>Então D. Rui, para o fixar, enrolou a corda em voltas grossas ao pilar de
+pedra. E tirando o sombreiro, limpando com as costas da mão o suor que o
+alagava, contemplou o seu sinistro e miraculoso companheiro. Estava já rígido
+como antes, com a face pendida sob as melenas caídas, os pés inteiriçados, todo
+poído e carcomido como uma vélha carcassa. No peito<span class="pn">{256}</span> conservava a adaga
+cravada. Por cima, dois corvos dormiam quietos.</p>
+
+<p>&mdash;¿E agora que mais quereis?&mdash;perguntou D. Rui, começando a calçar as luvas.
+</p>
+
+<p>Sumidamente, do alto, o enforcado murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, muito vos rogo agora que, ao chegar a Segóvia, tudo conteis
+fielmente a Nossa Senhora do Pilar, vossa madrinha, que dela espero grande
+mercê para a minha alma, por êste serviço que, a seu mandado, vos fez o meu
+corpo!</p>
+
+<p>Então, D. Rui de Cardenas tudo compreendeu&mdash;e, ajoelhando devotamente sôbre
+o chão de dor e morte, rezou uma longa oração por aquele bom enforcado.</p>
+
+<p>Depois galopou para Segóvia. A manhã clareava quando êle transpôs a porta de
+S. Mauros. No ar fino os sinos claros tocavam a matinas. E entrando na igreja
+de Nossa Senhora do Pilar, ainda no desalinho da sua terrível jornada, D. Rui,
+de rôjo ante o altar, narrou à sua Divina Madrinha a ruim tenção que o levara a
+Cabril, o socorro que do céu recebera, e, com quentes lágrimas de
+arrependimento e gratidão, lhe jurou que nunca mais poria desejo onde houvesse
+pecado, nem no seu coração daria entrada a pensamento que viesse do Mundo e do
+Mal.<span class="pn">{257}</span></p>
+
+
+<h2><a name="SECTION000940">IV</a> </h2>
+
+<p>A essa hora, em Cabril, D. Alonso de Lara, com os olhos esbugalhados de
+pasmo e terror, esquadrinhava todas as ruas e recantos e sombras do seu jardim.
+</p>
+
+<p>Quando ao alvorecer, depois de escutar à porta da câmara onde nessa noite
+encerrara D. Leonor, êle descera subtilmente ao jardim e não encontrara,
+debaixo do balcão, rente à escada, como deliciosamente esperava, o corpo de D.
+Rui de Cardenas, teve por certo que o homem odioso, ao tombar, ainda com um
+resto débil de vida, se arrastara sangrando e arquejando, na tentativa de
+alcançar o cavalo e abalar de Cabril... Mas, com aquela rija adaga que êle três
+vezes lhe enterrara no peito, e que no peito lhe deixara, não se arrastaria o
+vilão por muitas jardas, e nalgum canto devia jazer frio e inteiriçado.
+Rebuscou então cada rua, cada sombra, cada maciço de arbustos. E&mdash;maravilhoso
+caso!&mdash;não descobria o corpo, nem pègadas, nem terra que houvesse sido
+remexida, nem sequer rasto de sangue sôbre a terra! E todavia, com mão certeira
+e faminta de vingança, três vezes<span class="pn">{258}</span> êle lhe embebera a adaga no peito, e
+no peito lha deixara!</p>
+
+<p>E era Rui de Cardenas o homem que êle matara&mdash;que muito bem o conhecera
+logo, do fundo apagado do quarto de onde espreitava, quando êle, à claridade da
+lua, veio através do terraço, confiado, ligeiro, com a mão na cintura, a face
+risonhamente erguida e a pluma do sombreiro meneando em triunfo! ¿Como podia
+ser cousa tam rara&mdash;um corpo mortal sobrevivendo a um ferro, que três vezes lhe
+vara o coração e no coração lhe fica cravado? E a maior raridade era que nem no
+chão, debaixo da varanda, onde corria ao longo do muro uma tira de goivos e
+cecêns, deixara um vestígio aquele corpo forte, caíndo de tam alto pesadamente,
+inertemente, como um fardo! Nem uma flor machucada&mdash;todas direitas, viçosas,
+como novas, com gotas leves de orvalho! Imóvel de espanto, quási de terror, D.
+Alonso de Lara ali parava, considerando o balcão, medindo a altura da escada,
+olhando esgazeadamente os goivos direitos, frescos, sem uma haste ou fôlha
+vergada. Depois recomeçava a correr loucamente o terraço, a avenida, a rua de
+teixos, na esperança ainda duma pègada, dum galho partido, de uma nódoa de
+sangue na areia fina.</p>
+
+<p>Nada! Todo o jardim oferecia um desusado arranjo e limpeza nova, como se
+sôbre êle<span class="pn">{259}</span> nunca houvesse passado nem o vento que desfolha, nem o sol que
+murcha.</p>
+
+<p>Então, ao entardecer, devorado pela incerteza e mistério, tomou um cavalo e,
+sem escudeiro ou cavalariço, partiu para Segóvia. Curvada e escondidamente,
+como um foragido, penetrou no seu palácio pela porta do pomar: e o seu primeiro
+cuidado foi correr à galeria de abóbada, destrancar as portadas da janela e
+espreitar ávidamente a casa de D. Rui de Cardenas. Todas as gelosias da vélha
+morada do arcediago estavam escuras, abertas, respirando a fresquidão da
+noite:&mdash;e à porta, sentado num banco de pedra, um môço de cavalariça afinava
+preguiçosamente a bandurra.</p>
+
+<p>D. Alonso de Lara desceu à sua câmara, lívido, pensando que não houvera
+certamente desgraça em casa onde todas as janelas se abrem para refrescar, e no
+portão da rua os moços folgam. Então bateu as palmas, pediu furiosamente a
+ceia. E, apenas sentado, ao tôpo da mesa, na sua alta séde de couro lavrado,
+mandou chamar o intendente, a quem ofereceu logo com estranha familiaridade um
+copo de vinho vélho. Emquanto o homem, de pé, bebia respeitosamente, D. Alonso,
+metendo os dedos pelas barbas e forçando a sua sombria face a sorrir,
+perguntava pelas novas e rumores de Segóvia. ¿Nesses dias da sua<span class="pn">{260}</span> estada
+em Cabril, nenhum caso criara pela cidade espanto e murmuração?... O intendente
+limpou os beiços, para afirmar que nada ocorrera em Segóvia de que andasse
+murmuração, a não ser que a filha do senhor D. Gutierres, tam môça e tam rica
+herdeira, tomara o véu no convento das Carmelitas Descalças. D. Alonso
+insistia, fitando vorazmente o intendente. ¿E não se travara uma grande
+briga?... ¿não se encontrara ferido, na estrada de Cabril, um cavaleiro môço,
+muito falado?... O intendente encolhia os ombros: nada ouvira, pela cidade, de
+brigas ou de cavaleiros feridos. Com um acêno desabrido D. Alonso despediu o
+intendente.</p>
+
+<p>Apenas ceara, parcamente, logo voltou à galeria a espreitar as janelas de D.
+Rui. Estavam agora cerradas; na última, da esquina, tremeluzia uma claridade.
+Toda a noite D. Alonso velou, remoendo incansavelmente o mesmo espanto. ¿Como
+pudera escapar aquele homem, com uma adaga atravessada no coração? Como
+pudera?... Ao luzir da manhã, tomou uma capa, um largo sombreiro, desceu ao
+adro, todo embuçado e encoberto, e ficou rondando por diante da casa de D. Rui.
+Os sinos tocaram a matinas. Os mercadores, com os gibões mal abotoados, saíam a
+erguer as portadas das lojas, a pendurar as taboletas. Já os hortelões, picando
+os burros carregados de ceiras,<span class="pn">{261}</span> atiravam os pregões de hortaliça fresca,
+e frades descalços, com o alforge aos ombros, pediam esmola, benziam as moças.
+</p>
+
+<p>Beatas embiocadas, com grossos rosários negros, enfiavam gulosamente para a
+igreja. Depois o pregoeiro da cidade, parando a um canto do adro, tocou uma
+buzina, e numa voz tremenda começou a ler um edital.</p>
+
+<p>O senhor de Lara, parara junto do chafariz, pasmado, como embebido no cantar
+das três bicas de água. De repente pensou que aquele edital, lido pelo
+pregoeiro da cidade, se referia talvez a D. Rui, ao seu desaparecimento...
+Correu à esquina do adro&mdash;mas já o homem enrolara o papel, se afastava
+majestosamente, batendo nas lages com a sua vara branca. E, quando se voltava
+para espiar de novo a casa, eis que os seus olhos atónitos encontram D. Rui, D.
+Rui que êle matara&mdash;e que vinha caminhando para a igreja de Nossa Senhora,
+ligeiro, airoso, a face risonha e erguida no fresco ar da manhã, de gibão
+claro, de plumas claras, com uma das mãos pousando na cinta, a outra meneando
+distraídamente um bastão com borlas de torçal de oiro!</p>
+
+<p>D. Alonso recolheu então a casa com passos arrastados e envelhecidos. No
+alto da escadaria de pedra, achou o seu vélho capelão, que o viera saùdar, e
+que, penetrando com êle na ante-câmara, depois de pedir, com reverência,<span class="pn">{262}</span>
+novas da senhora D. Leonor, lhe contou logo dum prodigioso caso que causava
+pela cidade grave murmuração e espanto. Na véspera, de tarde, indo o corregedor
+visitar o cêrro das forcas, pois se acercava a festa dos Santos Apóstolos,
+descobrira, com muito pasmo e muito escândalo, que um dos enforcados tinha uma
+adaga cravada no peito! ¿Fôra gracejo de um pícaro sinistro? ¿Vingança que nem
+a morte saciara?... E para maior prodígio ainda, o corpo fôra despendurado da
+forca, arrastado em horta ou jardim (pois que prêsas aos vélhos farrapos se
+encontraram fôlhas tenras) e depois novamente enforcado e com corda nova!... E
+assim ia a turbulência dos tempos, que nem os mortos se furtavam a ultrajes!
+</p>
+
+<p>D. Alonso escutava com as mãos a tremer, os pêlos arrepiados. E
+imediatamente, numa ansiosa agitação, bradando, tropeçando contra as portas,
+quis partir, e por seus olhos verificar a fúnebre profanação. Em duas mulas
+ajaezadas à pressa, ambos abalaram para o Cêrro dos Enforcados, êle e o capelão
+arrastado e aturdido. Numeroso povo de Segóvia se ajuntara já no Cêrro,
+pasmando para o maravilhoso horror&mdash;o morto que fôra morto!... Todos se
+arredaram ante o nobre senhor de Lara, que arremessando-se pelo cabeço acima,
+estacara a olhar, esgazeado e lívido, para<span class="pn">{263}</span> o enforcado e para a adaga
+que lhe varava o peito. Era a sua adaga:&mdash;fôra êle que matara o morto!</p>
+
+<p>Galopou espavoridamente para Cabril. E aí se encerrou com o seu segredo,
+começando logo a amarelecer, a definhar, sempre arredado da senhora D. Leonor,
+escondido pelas ruas sombrias do jardim, murmurando palavras ao vento, até que
+na madrugada de S. João uma serva, que voltava da fonte com a sua bilha, o
+encontrou morto, por baixo do balcão de pedra, todo estirado no chão, com os
+dedos encravados no canteiro de goivos, onde parecia ter longamente esgravatado
+a terra, a procurar...</p>
+
+
+<h2><a name="SECTION000950">V</a> </h2>
+
+<p>Para fugir a tam lamentáveis memórias, a senhora D. Leonor, herdeira de
+todos os bens da casa de Lara, recolheu ao seu palácio de Segóvia. Mas como
+agora sabia que o senhor D. Rui de Cardenas escapara miraculosamente à
+emboscada de Cabril, e como cada manhã, espreitando de entre as gelosias, meio
+cerradas, o seguia, com olhos que se não fartavam e se humedeciam, quando êle
+cruzava o adro para entrar na igreja, não quis ela, com receio das<span class="pn">{264}</span>
+pressas e impaciências do seu coração, visitar a Senhora do Pilar emquanto
+durasse o seu luto. Depois, uma manhã de domingo, quando, em vez de crepes
+negros, se poude cobrir de sêdas roxas, desceu a escadaria do seu palácio,
+pálida de uma emoção nova e divina, pisou as lages do adro, transpôs as portas
+da igreja. D. Rui de Cardenas estava ajoelhado diante do altar, onde depusera o
+seu ramo votivo de cravos amarelos e brancos. Ao rumor das sêdas finas, ergueu
+os olhos com uma esperança muito pura e toda feita de graça celeste, como se um
+anjo o chamasse. D. Leonor ajoelhou, com o peito a arfar, tam pálida e tam
+feliz que a cera das tochas não era mais pálida, nem mais felizes as andorinhas
+que batiam as asas livres pelas ogivas da vélha igreja.</p>
+
+<p>Ante êsse altar, e de joelhos nessas lages, foram eles casados pelo bispo de
+Segóvia, D. Martinho, no outono do ano da Graça de 1475, sendo já reis de
+Castela Isabel e Fernando, muito fortes e muito católicos, por quem Deus operou
+grandes feitos sôbre a terra e sôbre o mar.<span class="pn">{265}</span></p>
+
+
+<h1><a name="SECTION0001000">JOSE MATIAS</a> </h1>
+
+<p>Linda tarde, meu amigo!... Estou esperando o entêrro do José Matias&mdash;do José
+Matias de Albuquerque, sobrinho do Visconde de Garmilde... O meu amigo
+certamente o conheceu&mdash;um rapaz airoso, louro como uma espiga, com um bigode
+crespo de paladino sôbre uma bôca indecisa de contemplativo, déstro cavaleiro,
+duma elegância sóbria e fina. E espírito curioso, muito afeiçoado às ideas
+gerais, tam penetrante que compreendeu a minha <em>Defesa da Filosofia
+Hegeliana</em>! Esta imagem do José Matias data de 1865: porque a derradeira
+vez que o encontrei, numa tarde agreste de Janeiro, metido num portal da rua de
+S. Bento, tiritava dentro duma quinzena côr de mel, roída nos cotovelos, e
+cheirava abominavelmente a aguardente.<span class="pn">{266}</span></p>
+
+<p>Mas o meu amigo, numa ocasião que o José Matias parou em Coímbra, recolhendo
+do Pôrto, ceou com êle, no Paço do Conde! Até o Craveiro, que preparava as
+<em>Ironias e Dores de Satan</em>, para acirrar mais a briga entre a Escola
+Purista e a Escola Satânica, recitou aquele seu soneto, de tam fúnebre
+idealismo: <em>Na jaula do meu peito, o coração</em>... E ainda lembro o José
+Matias, com uma grande gravata de setim preto tufada entre o colete de linho
+branco, sem despegar os olhos das velas das serpentinas, sorrindo pálidamente
+àquele coração que rugia na sua jaula... Era uma noite de Abril, de lua cheia.
+Passeamos depois em bando, com guitarras, pela Ponte e pelo Choupal. O Januário
+cantou ardentemente as endechas românticas do nosso tempo:</p>
+
+
+<blockquote>
+ Ontem de tarde, ao sol posto, <br>
+ Contemplavas, silenciosa, <br>
+ A torrente caudalosa <br>
+ Que refervia a teus pés... </blockquote>
+
+<p>E o José Matias, encostado ao parapeito da Ponte, com a alma e os olhos
+perdidos na lua!&mdash;¿Porque não acompanha o meu amigo êste môço interessante ao
+Cemitério dos Prazeres? Eu tenho uma tipóia, de praça e com número, como convêm
+a um Professor de filosofia... O quê! ¿Por causa das calças claras?<span class="pn">{267}</span> Oh!
+meu caro amigo! De todas as materializações da simpatia, nenhuma mais
+grosseiramente material do que a casimira preta. E o homem que nós vamos
+enterrar era um grande espiritualista!</p>
+
+<p>Vem o caixão saíndo da Igreja... Apenas três carruagens para o acompanhar.
+Mas realmente, meu caro amigo, o José Matias morreu há seis anos, no seu puro
+brilho. Êsse, que aí levamos, meio decomposto, dentro de tábuas agaloadas de
+amarelo, é um resto de bêbedo, sem história e sem nome, que o frio de Fevereiro
+matou no vão dum portal.</p>
+
+<p>¿O sujeito de óculos de oiro, dentro do copé?... Não conheço, meu amigo.
+Talvez um parente rico, dêsses que aparecem nos enterros, com o parentesco
+correctamente coberto de fumo, quando o defunto já não importuna, nem
+compromete. O homem obeso de carão amarelo, dentro da vitória, é o Alves
+<em>Capão</em>, que tem um jornal onde desgraçadamente a Filosofia não abunda,
+e que se chama a <em>Piada</em>. ¿Que relações o prendiam ao Matias?... Não
+sei. Talvez se embebedassem nas mesmas tascas; talvez o José Matias últimamente
+colaborasse na <em>Piada</em>; talvez debaixo daquela gordura e daquela
+literatura, ambas tam sórdidas, se abrigue uma alma compassiva. Agora é a nossa
+tipóia... ¿Quer que desça a vidraça? Um cigarro?... Eu trago<span class="pn">{268}</span> fósforos.
+Pois êste José Matias foi um homem desconsolador para quem, como eu, na vida
+ama a evolução lógica e pretende que a espiga nasça coerentemente do grão. Em
+Coímbra sempre o consideramos como uma alma escandalosamente banal. Para êste
+juizo concorria talvez a sua horrenda correcção. Nunca um rasgão brilhante na
+batina! nunca uma poeira estouvada nos sapatos! nunca um pêlo rebelde do cabelo
+ou do bigode fugindo daquele rígido alinho que nos desolava! Alêm disso, na
+nossa ardente geração, êle foi o único intelectual que não rugiu com as
+misérias da Polónia; que leu sem palidez ou pranto as <em>Contemplações</em>;
+que permaneceu insensível ante a ferida de Garibaldi! E todavia, nesse José
+Matias, nenhuma secura ou dureza ou egoismo ou desafabilidade! Pelo contrário!
+Um suave camarada, sempre cordial, e mansamente risonho. Toda a sua inabalável
+quietação parecia provir duma imensa superficialidade sentimental. E, nesse
+tempo, não foi sem razão e propriedade que nós alcunhamos aquele môço tam
+macio, tam louro e tam ligeiro, de <em>Matias-Coração-de-Esquilo</em>. Quando
+se formou, como lhe morrera o pai, depois a mãe, delicada e linda senhora de
+quem herdara cincoenta contos, partiu para Lisboa, alegrar a solidão dum tio
+que o adorava, o general Visconde de Garmilde. O meu<span class="pn">{269}</span> amigo sem dúvida se
+lembra dessa perfeita estampa de general clássico, sempre de bigodes
+terríficamente encerados, as calças côr de flor de alecrim desesperadamente
+esticadas pelas presilhas sôbre as botas coruscantes, e o chicote debaixo do
+braço com a ponta a tremer, ávida de vergastar o Mundo! Guerreiro grotesco e
+deliciosamente bom... O Garmilde morava então em Arroios, numa casa antiga de
+azulejos, com um jardim, onde êle cultivava apaixonadamente canteiros soberbos
+de dálias. Êsse jardim subia muito suavemente até ao muro coberto de hera que o
+separava de outro jardim, o largo e belo jardim de rosas do Conselheiro Matos
+Miranda, cuja casa, com um arejado terraço entre dois torreõsinhos amarelos, se
+erguia no cimo do outeiro e se chamava a casa da «Parreira». O meu amigo
+conhece (pelo menos de tradição, como se conhece Helena de Troia ou Inês de
+Castro) a formosa Elisa Miranda, a Elisa da Parreira... Foi a sublime beleza
+romântica de Lisboa, nos fins da Regeneração. Mas realmente Lisboa apenas a
+entrevia pelos vidros da sua grande caleche, ou nalguma noite de iluminação do
+Passeio Público entre a poeira e a turba, ou nos dois bailes da Assembleia do
+Carmo de que o Matos Miranda era um director venerado. Por gôsto borralheiro de
+provinciana, ou por pertencer<span class="pn">{270}</span> àquela burguesia séria que nesses tempos,
+em Lisboa, ainda conservava os antigos hábitos severamente encerrados, ou por
+imposição paternal do marido, já diabético e com sessenta anos&mdash;a Deusa
+raramente emergia de Arroios e se mostrava aos mortais. Mas quem a viu, e com
+facilidade constante, quási irremediavelmente, logo que se instalou em Lisboa,
+foi o José Matias&mdash;porque, jazendo o palacete do general na falda da colina,
+aos pés do jardim e da casa da Parreira, não podia a divina Elisa assomar a uma
+janela, atravessar o terraço, colhêr uma rosa entre as ruas de buxo, sem ser
+deliciosamente visível, tanto mais que nos dois jardins assoalhados nenhuma
+árvore espalhava a cortina da sua rama densa. O meu amigo de-certo trauteou,
+como todos trauteamos, aqueles versos gastos, mas imortais:</p>
+
+
+<blockquote>
+ Era no outono, quando a imagem tua <br>
+ Á luz da lua... </blockquote>
+
+<p>Pois, como nessa estrofe, o pobre José Matias, ao regressar da praia da
+Ericeira em outubro, no outono, avistou Elisa Miranda, uma noite no terraço, à
+luz da lua! O meu amigo nunca contemplou aquele precioso tipo de encanto
+Lamartiniano. Alta, esbelta, ondulosa, digna da comparação bíblica da
+palmeira<span class="pn">{271}</span> ao vento. Cabelos negros, lustrosos e ricos, em bandós
+ondeados. Uma carnação de camélia muito fresca. Olhos negros, líquidos,
+quebrados, tristes, de longas pestanas... Ah! meu amigo, até eu, que já então
+laboriosamente anotava Hegel, depois de a encontrar numa tarde de chuva
+esperando a carruagem à porta do Seixas, a adorei durante três exaltados dias e
+lhe rimei um soneto! Não sei se o José Matias lhe dedicou sonetos. Mas todos
+nós, seus amigos, percebemos logo o forte, profundo, absoluto amor que
+concebera, desde a noite de outono, à luz da lua, aquele coração, que em
+Coímbra considerávamos de <em>esquilo</em>!</p>
+
+<p>Bem compreende que homem tam comedido e quieto não se exalou em suspiros
+públicos. Já, porêm, no tempo de Aristóteles, se afirmava que amor e fumo não
+se escondem; e do nosso cerrado José Matias o amor começou logo a escapar, como
+o fumo leve através das fendas invisíveis duma casa fechada que arde
+terrívelmente. Bem me recordo duma tarde que o visitei em Arroios, depois de
+voltar do Alentejo. Era um domingo de Julho. Êle ia jantar com uma tia-avó, uma
+D. Mafalda Noronha, que vivia em Bemfica, na quinta dos Cedros, onde
+habitualmente jantavam tambêm aos domingos o Matos Miranda e a divina Elisa.
+Creio mesmo que só nessa casa ela e o José Matias se encontravam,<span class="pn">{272}</span>
+sobretudo com as facilidades que oferecem pensativas alamedas e retiros de
+sombra. As janelas do quarto do José Matias abriam sôbre o seu jardim e sôbre o
+jardim dos Mirandas: e, quando entrei, êle ainda se vestia, lentamente. Nunca
+admirei, meu amigo, face humana aureolada por felicidade mais segura e serena!
+Sorria iluminadamente quando me abraçou, com um sorriso que vinha das
+profundidades da alma iluminada; sorria ainda deliciadamente emquanto eu lhe
+contei todos os meus desgostos no Alentejo: sorriu depois estáticamente,
+aludindo ao calor e enrolando um cigarro distraído; e sorriu sempre, enlevado,
+a escolher na gaveta da cómoda, com escrúpulo religioso, uma gravata de sêda
+branca. E a cada momento, irresistivelmente, por um hábito já tam inconsciente
+como o pestanejar, os seus olhos risonhos, calmamente enternecidos, se voltavam
+para as vidraças fechadas... De sorte que, acompanhando aquele raio ditoso,
+logo descobri, no terraço da casa da Parreira, a divina Elisa, vestida de
+claro, com um chapéu branco, passeando preguiçosamente, calçando pensativamente
+as luvas, e espreitando tambêm as janelas do meu amigo, que um lampejo oblíquo
+do sol ofuscava de manchas de oiro. O José Matias no entanto conversava, antes
+murmurava, através do sorriso perene, coisas afáveis<span class="pn">{273}</span> e dispersas. Toda a
+sua atenção se concentrara diante do espelho, no alfinete de coral e pérola
+para prender a gravata, no colete branco que abotoava e ajustava com a devoção
+com que um padre novo, na exaltação cândida da primeira missa, se reveste da
+estola e do amito para se acercar do altar. Nunca eu vira um homem deitar, com
+tam profundo êxtasi, água de Colónia no lenço! E depois de enfiar a
+sobrecasaca, de lhe espetar uma soberba rosa, foi com inefável emoção, sem
+reter um delicioso suspiro, que abriu largamente, solenemente, as vidraças!
+<em>Introibo ad altarem Deæ!</em> Eu permaneci discretamente enterrado no sofá.
+E, meu caro amigo, acredite! invejei aquele homem à janela, imóvel, hirto na
+sua adoração sublime, com os olhos, e a alma, e todo o ser cravados no terraço,
+na branca mulher calçando as luvas claras, e tam indiferente ao Mundo como se o
+Mundo fôsse apenas o ladrilho que ela pisava e cobria com os pés!</p>
+
+<p>E êste enlêvo, meu amigo, durou dez anos, assim esplêndido, puro, distante e
+imaterial! Não ria... De-certo se encontravam na quinta de D. Mafalda: de-certo
+se escreviam, e transbordantemente, atirando as cartas por cima do muro que
+separava os dois quintais: mas nunca, por cima das heras dêsse muro, procuraram
+a rara delícia duma conversa roubada ou a delícia ainda mais perfeita dum
+silêncio<span class="pn">{274}</span> escondido na sombra. E nunca trocaram um beijo... Não duvide!
+Algum apêrto de mão fugidio e sôfrego, sob os arvoredos da D. Mafalda, foi o
+limite exaltadamente extremo, que a vontade lhes marcou ao desejo. O meu amigo
+não compreende como se mantiveram assim dois frágeis corpos, durante dez anos,
+em tam terrível e mórbido renunciamento... Sim, de-certo lhes faltou, para se
+perderem, uma hora de segurança ou uma portinha no muro. Depois a divina Elisa
+vivia realmente num mosteiro, em que ferrolhos e grades eram formados pelos
+hábitos rígidamente reclusos do Matos Miranda, diabético e tristonho. Mas, na
+castidade dêste amor, entrou muita nobreza moral e finura superior de
+sentimento. O amor espiritualiza o homem&mdash;e materializa a mulher. Essa
+espiritualização era fácil ao José Matias, que (sem nós desconfiarmos) nascera
+desvairadamente espiritualista; mas a humana Elisa encontrou tambêm um gôzo
+delicado nessa ideal adoração de monge, que nem ousa roçar, com os dedos
+trémulos e embrulhados no rozário, a túnica da Virgem sublimada. Êle, sim! êle
+gozou nesse amor transcendentemente desmaterializado um encanto sobreumano. E
+durante dez anos, como o Ruy-Blas do vélho Hugo, caminhou, vivo e deslumbrado,
+dentro do seu sonho radiante, sonho em que<span class="pn">{275}</span> Elisa habitou realmente
+dentro da sua alma, numa fusão tam absoluta que se tornou consubstancial com o
+seu ser! ¿Acreditará o meu amigo que êle abandonou o charuto, mesmo passeando
+solitariamente a cavalo pelos arredores de Lisboa, logo que descobrira na
+quinta de D. Mafalda, uma tarde, que o fumo perturbava Elisa?</p>
+
+<p>E esta presença real da divina criatura no seu ser criou no José Matias
+modos novos, estranhos, derivando da alucinação. Como o Visconde de Garmilde
+jantava cedo, à hora vernácula do Portugal antigo, José Matias ceava, depois de
+S. Carlos, naquele delicioso e saudoso Café Central, onde o linguado parecia
+frito no céu, e o Colares no céu engarrafado. Pois nunca ceava sem serpentinas
+profusamente acesas e a mesa juncada de flores. Porque? Porque Elisa tambêm ali
+ceava invisível. Daí êsses silêncios banhados num sorriso religiosamente
+atento... Porque? Porque a estava sempre escutando! Ainda me lembro dêle
+arrancar do quarto três gravuras clássicas de Faunos ousados e Ninfas
+rendidas... Elisa pairava idealmente naquele ambiente; e êle purificava as
+paredes, que mandou forrar de sêdas claras. O amor arrasta ao luxo, sobretudo
+amor de tam elegante idealismo: e o José Matias prodigalizou com esplendor o
+luxo que ela partilhava. Decentemente não podia andar<span class="pn">{276}</span> com a imagem de
+Elisa numa tipóia de praça, nem consentir que a augusta imagem roçasse pelas
+cadeiras de palhinha da plateia de S. Carlos. Montou, portanto, carruagens dum
+gôsto sóbrio e puro: e assinou um camarote na Ópera, onde instalou, para ela,
+uma poltrona pontifical, de setim branco, bordado a êstrelas de oiro.</p>
+
+<p>Alêm disso como descobrira a generosidade de Elisa, logo se tornou congénere
+e suntuosamente generoso: e ninguêm existiu então em Lisboa que espalhasse, com
+facilidade mais risonha, notas de cem mil réis. Assim desbaratou, rápidamente,
+sessenta contos com o amor daquela mulher a quem nunca déra uma flor!</p>
+
+<p>¿E, durante êsse tempo, o Matos Miranda? Meu amigo, o bom Matos Miranda não
+desmanchava nem a perfeição, nem a quietação desta felicidade! ¿Tam absoluto
+seria o espiritualismo do José Matias que apenas se interessasse pela alma de
+Elisa, indiferente às submissões do seu corpo, invólucro inferior e mortal?...
+Não sei. Verdade seja! aquele digno diabético, tam grave, sempre de cachené de
+lã escura, com as suas suíças grisalhas, os seus ponderosos óculos de oiro, não
+sugeria ideas inquietadoras de marido ardente, cujo ardor, fatalmente e
+involuntariamente, se partilha e abrasa. Todavia nunca compreendi,<span class="pn">{277}</span> eu,
+Filósofo, aquela consideração, quási carinhosa, do José Matias pelo homem que,
+mesmo desinteressadamente, podia por direito, por costume, contemplar Elisa
+desapertando as fitas da saia branca!... ¿Haveria ali reconhecimento por o
+Miranda ter descoberto numa remota rua de Setúbal (onde José Matias nunca a
+descortinaria) aquela divina mulher, e por a manter em confôrto, sólidamente
+nutrida, finamente vestida, transportada em caleches de macias molas? ¿Ou
+recebera o José Matias aquela costumada confidência&mdash;«não sou tua, nem
+dêle»&mdash;que tanto consola do sacrifício porque tanto lisonjeia o egoismo?... Não
+sei. Mas com certeza, êste seu magnânimo desdêm pela presença corporal do
+Miranda no templo, onde habitava a sua Deusa, dava à felicidade de José Matias
+uma unidade perfeita, a unidade dum cristal que por todos os lados rebrilha,
+igualmente puro, sem arranhadura ou mancha. E esta felicidade, meu amigo, durou
+dez anos... Que escandaloso luxo para um mortal!</p>
+
+<p>Mas um dia, a terra, para o José Matias, tremeu toda, num terramoto de
+incomparável espanto. Em Janeiro ou Fevereiro de 1871, o Miranda, já debilitado
+pela diabetes, morreu com uma pneumonia. Por estas mesmas ruas, numa
+pachorrenta tipóia de praça, acompanhei o seu entêrro numeroso, rico, com
+Ministros,<span class="pn">{278}</span> porque o Miranda pertencia às Instituições. E depois,
+aproveitando a tipóia, visitei o José Matias em Arroios, não por curiosidade
+perversa, nem para lhe levar felicitações indecentes, mas para que, naquele
+lance deslumbrador, êle sentisse ao lado a fôrça moderadora da Filosofia...
+Encontrei porêm com êle um amigo mais antigo e confidencial, aquele brilhante
+Nicolau da Barca, que já conduzi tambêm a êste cemitério, onde agora jazem,
+debaixo de lápides, todos aqueles camaradas com quem levantei castelos nas
+nuvens... O Nicolau chegara da Velosa, da sua quinta de Santarêm, de madrugada,
+reclamado por um telegrama do Matias. Quando entrei, um criado atarefado
+arranjava duas malas enormes. O José Matias abalava nessa noite para o Pôrto.
+Já envergara mesmo um fato de viagem, todo negro, com sapatos de couro amarelo:
+e depois de me sacudir a mão, emquanto o Nicolau remexia um grog, continuou
+vagando pelo quarto, calado, como embaçado, com um modo que não era emoção, nem
+alegria púdicamente disfarçada, nem surprêsa do seu destino bruscamente
+sublimado. Não! se o bom Darwin nos não ilude no seu livro da <em>Expressão das
+Emoções</em>, o José Matias, nessa tarde, só sentia e só exprimia embaraço! Em
+frente, na casa da Parreira, todas as janelas permaneciam<span class="pn">{279}</span> fechadas sob a
+tristeza da tarde cinzenta. E todavia surpreendi o José Matias atirando para o
+terraço, rápidamente, um olhar em que transparecia inquietação, ansiedade,
+quasi terror! Como direi? Aquele é o olhar que se resvala para a jaula mal
+segura onde se agita uma leôa! Num momento em que êle entrara na alcova,
+murmurei ao Nicolau, por cima do grog:&mdash;«O Matias faz perfeitamente em ir para
+o Pôrto...» Nicolau encolheu os ombros:&mdash;«Sim, pensou que era mais delicado...
+Eu aprovei. Mas só durante os meses de luto pesado...» Às sete horas
+acompanhamos o nosso amigo à estação de Santa Apolónia. Na volta, dentro do
+copé que uma grande chuva batia, filosofamos. Eu sorria contente:&mdash;«Um ano de
+luto, e depois muita felicidade e muitos filhos... É um poema acabado!»&mdash;O
+Nicolau acudiu sério:&mdash;«E acabado numa deliciosa e suculenta prosa. A divina
+Elisa fica com toda a sua divindade e a fortuna do Miranda, uns dez ou dôze
+contos de renda... Pela primeira vez na nossa vida contemplamos, tu e eu, a
+virtude recompensada!»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Meu caro amigo! os meses cerimoniais de luto passaram, depois outros, e José
+Matias não se arredou do Pôrto. Nesse Agosto o encontrei<span class="pn">{280}</span> eu instalado
+fundamentalmente no Hotel Francfort, onde entretinha a melancolia dos dias
+abrasados, fumando (porque voltara ao tabaco), lendo romances de Júlio Verne, e
+bebendo cerveja gelada até que a tarde refrescava e êle se vestia, se
+perfumava, se floria para jantar na Foz.</p>
+
+<p>E a-pesar de se acercar o bemdito remate do luto e da desesperada espera,
+não notei no José Matias nem alvoroço elegantemente reprimido, nem revolta
+contra a lentidão do tempo, vélho por vezes tam moroso e trôpego... Pelo
+contrário! Ao sorriso de radiosa certeza, que nesses anos o iluminara com um
+nimbo de beatitude, sucedera a seriedade carregada, toda em sombra e rugas, de
+quem se debate numa dúvida irresolúvel, sempre presente, roedora e dolorosa.
+¿Quer que lhe diga? Nesse verão, no Hotel Francfort, sempre me pareceu que o
+José Matias, a cada instante da sua vida acordada, mesmo emborcando a fresca
+cerveja, mesmo calçando as luvas ao entrar para a caleche que o levava à Foz,
+angustiadamente perguntava à sua consciência:&mdash;«Que hei-de fazer? Que hei-de
+fazer?»&mdash;E depois, uma manhã, ao almôço, realmente me assombrou, exclamando ao
+abrir o jornal, com um assomo de sangue na face: «O quê! Já são 29 de Agosto?
+Santo Deus... Já o fim de Agosto!...»<span class="pn">{281}</span></p>
+
+<p>Voltei a Lisboa, meu amigo. O inverno passou, muito sêco e muito azul. Eu
+trabalhei nas minhas <em>Origens do Utilitarismo</em>. Um domingo, no Rocio,
+quando já se vendiam cravos nas tabacarias, avistei dentro dum copé a divina
+Elisa, com plumas roxas no chapéu. E nessa semana encontrei no meu <em>Diário
+Ilustrado</em> a notícia curta, quási tímida, do casamento da Snr.ª D. Elisa
+Miranda... ¿Com quem, meu amigo?&mdash;Com o conhecido propriétário, o Snr.
+Francisco Tôrres Nogueira!...</p>
+
+<p>O meu amigo cerrou aí o punho, e bateu na coxa espantado. Eu tambêm cerrei
+os punhos ambos, mas para os levantar ao Céu onde se julgam os feitos da Terra,
+e clamar furiosamente, aos urros, contra a falsidade, a inconstância ondeante e
+pérfida, toda a enganadora torpeza das mulheres, e daquela especial Elisa cheia
+de infâmia entre as mulheres! Atraiçoar à pressa, atabalhoadamente, apenas
+findara o luto negro, aquele nobre, puro, intelectual Matias! e o seu amor de
+dez anos, submisso e sublime!...</p>
+
+<p>E depois de apontar os punhos para o Céu ainda os apertava na cabeça,
+gritando:&mdash;«Mas porquê? porquê?»&mdash;Por amor? Durante anos ela amara
+enlevadamente êste môço, e dum amor que se não desiludira nem se fartara,
+porque permanecia suspenso, imaterial, insatisfeito. Por ambição? Tôrres
+Nogueira era<span class="pn">{282}</span> um ocioso amável como José Matias, e possuia em vinhas
+hipotecadas os mesmos cincoenta ou sessenta contos que o José Matias herdara
+agora do tio Garmilde em terras excelentes e livres. Então porquê? Certamente
+porque os grossos bigodes negros do Tôrres Nogueira apeteciam mais à sua carne,
+do que o buço louro e pensativo do José Matias! Ah! bem ensinara S. João
+Crisólogo que a mulher é um monturo de impureza, erguido à porta do Inferno!
+</p>
+
+<p>Pois, meu amigo, quando eu assim rugia, encontro uma tarde na rua do Alecrim
+o nosso Nicolau da Barca, que salta da tipóia, me empurra para um portal,
+agarra excitadamente no meu pobre braço, e exclama engasgado:&mdash;«Já sabes? Foi o
+José Matias que recusou! Ela escreveu, esteve no Pôrto, chorou... Êle nem
+consentiu em a ver! Não quis casar, não quer casar!» Fiquei trespassado.&mdash;«E
+então ela...»&mdash;«Despeitada, fortemente cercada pelo Tôrres, cansada da viuvice,
+com aqueles bélos trinta anos em botão, que diabo! coitada, casou!» Eu ergui os
+braços até a abóbada do pátio:&mdash;«¿Mas então êsse sublime amor do José Matias?».
+O Nicolau, seu íntimo e confidente, jurou com irrecusável segurança:&mdash;«É o
+mesmo sempre! Infinito, absoluto... Mas não quer casar!»&mdash;Ambos nos olhamos, e
+depois ambos nos separamos, encolhendo<span class="pn">{283}</span> os ombros, com aquele assombro
+resignado que convêm a espíritos prudentes perante o Incognoscível. Mas eu,
+Filósofo, e portanto espírito imprudente, toda essa noite esfuraquei o acto do
+José Matias com a ponta duma Psicologia que expressamente aguçara:&mdash;e já de
+madrugada, estafado, concluí, como se conclui sempre em Filosofia, que me
+encontrava diante duma Causa Primária, portanto impenetrável, onde se
+quebraria, sem vantagem para êle, para mim, ou para o Mundo, a ponta do meu
+Instrumento!</p>
+
+<p>Depois a divina Elisa casou e continuou habitando a Parreira com o seu
+Tôrres Nogueira, no confôrto e sossêgo que já gozara com o seu Matos Miranda.
+No meado do verão José Matias recolheu do Pôrto a Arroios, ao casarão do tio
+Garmilde, onde reocupou os seus antigos quartos, com as varandas para o jardim,
+já florido de dálias que ninguêm tratava. Veio Agosto, como sempre em Lisboa
+silencioso e quente. Aos domingos José Matias jantava com D. Mafalda de
+Noronha, em Bemfica, solitariamente&mdash;porque o Tôrres Nogueira não conhecia
+aquela venerada senhora da Quinta dos Cedros. A divina Elisa, com vestidos
+claros, passeava à tarde no jardim entre as roseiras. De sorte que a única
+mudança, naquele doce canto de Arroios, parecia ser o Matos Miranda no
+seu<span class="pn">{284}</span> belo jazigo dos Prazeres, todo de mármore&mdash;e o Tôrres Nogueira no
+leito excelente de Elisa.</p>
+
+<p>Havia, porêm, uma tremenda e dolorosa mudança&mdash;a do José Matias! ¿Adivinha o
+meu amigo como êsse desgraçado consumia os seus estéreis dias? Com os olhos, e
+a memória, e a alma, e todo o ser cravados no terraço, nas janelas, nos jardins
+da Parreira! Mas agora não era de vidraças largamente abertas, em aberto
+êxtasi, com o sorriso de segura beatitude: era por trás das cortinas fechadas,
+através duma escassa fenda, escondido, surripiando furtivamente os brancos
+sulcos do vestido branco, com a face toda devastada pela angústia e pela
+derrota. ¿E compreende porque sofria assim, êste pobre coração? Certamente
+porque Elisa, desdenhada pelos seus braços fechados, correra logo, sem luta,
+sem escrúpulos, para outros braços, mais acessíveis e prontos... Não, meu
+amigo! E note agora a complicada subtileza desta paixão. O José Matias
+permanecia devotamente crente de que Elisa, na profundidade da sua alma, nesse
+sagrado fundo espiritual onde não entram as imposições das conveniências, nem
+as decisões da razão pura, nem os ímpetos do orgulho, nem as emoções da
+carne&mdash;o amava, a êle, únicamente a êle, e com um amor que não deperecera, não
+se alterara, floria em todo<span class="pn">{285}</span> o seu viço, mesmo sem ser regado ou tratado,
+como a antiga Rosa Mística! O que o torturava, meu amigo, o que lhe cavara
+longas rugas em curtos meses, era que um homem, um macho, um bruto, se tivesse
+apoderado daquela mulher que era sua! e que do modo mais santo e mais
+socialmente puro, sob o patrocínio enternecido da Igreja e do Estado,
+lambuzasse com os rijos bigodes negros, à farta, os divinos lábios que êle
+nunca ousara roçar, na supersticiosa reverência e quási no terror da sua
+divindade! Como lhe direi?... O sentimento dêste extraordinário Matias era o de
+um monge, prostrado ante uma Imagem da Virgem, em transcendente enlêvo&mdash;quando
+de repente um bestial sacrílego trepa ao altar, e ergue obscenamente a túnica
+da Imagem! O meu amigo sorri... ¿E então o Matos Miranda? Ah! meu amigo! êsse
+era diabético, e grave, e obeso, e já existia instalado na Parreira, com a sua
+obesidade e a sua diabetes, quando êle conhecera Elisa e lhe dera para sempre
+vida e coração. E o Tôrres Nogueira, êsse, rompera brutalmente através do seu
+puríssimo amor, com os negros bigodes, e os carnudos braços, e o rijo arranque
+dum antigo pegador de toiros, e empolgara aquela mulher&mdash;a quem revelara talvez
+o que é um homem!</p>
+
+<p>Mas, com os demónios! essa mulher êle<span class="pn">{286}</span> a recusara, quando ela se lhe
+oferecia, na frescura e na grandeza dum sentimento que nenhum desdêm ainda
+ressequira ou abatera. Que quer?... É a espantosa tortuosidade espiritual dêste
+Matias! Ao cabo duns meses êle <em>esquecera</em>, positivamente
+<em>esquecera</em> essa recusa afrontosa, como se fôra um leve desencontro de
+interêsses materiais ou sociais, passado há meses, no Norte, e a que a
+distância e o tempo dissipavam a realidade e a amargura leve! E agora, aqui em
+Lisboa, com as janelas de Elisa diante das suas janelas e as rosas dos dois
+jardins unidos rescendendo na sombra, a dor presente, a dor real, era que êle
+amara sublimemente uma mulher, e que a colocara entre as estrêlas para mais
+pura adoração, e que um bruto moreno, de bigodes negros, arrancara essa mulher
+de entre as estrêlas e a arremessara para a cama!</p>
+
+<p>¿Enredado caso, hein, meu amigo? Ah! muito filosofei sôbre êle, por dever de
+filósofo! E concluí que o Matias era um doente, atacado de
+hiper-espiritualismo, duma inflamação violenta e putrida do espiritualismo, que
+receara apavoradamente as materialidades do casamento, as chinelas, a pele
+pouco fresca ao acordar, um ventre enorme durante seis meses, os meninos
+berrando no berço molhado... E agora rugia de furor e tormento, porque certo
+materialão, ao lado, se<span class="pn">{287}</span> prontificara a aceitar Elisa em camisola de lã.
+Um imbecil?... Não, meu amigo! um ultra-romântico, loucamente alheio às
+realidades fortes da vida, que nunca suspeitou que chinelas e cueiros sujos de
+meninos são coisas de superior beleza em casa em que entre o sol e haja amor.
+</p>
+
+<p>¿E sabe o meu amigo o que exacerbou, mais furiosamente, êste tormento? É que
+a pobre Elisa mostrava por êle o antigo amor! Que lhe parece? Infernal,
+hein?... Pelo menos se não sentia o antigo amor intacto na sua essência, forte
+como outrora e único, conservava pelo pobre Matias uma irresistível curiosidade
+e repetia os gestos dêsse amor... Talvez fôsse apenas a fatalidade dos jardins
+vizinhos! Não sei. Mas logo desde Setembro, quando o Tôrres Nogueira partiu
+para as suas vinhas de Carcavelos a assistir à vindima, ela recomeçou da borda
+do terraço, por sôbre as rosas e as dálias abertas, aquela doce remessa de
+doces olhares com que durante dez anos extasiara o coração do José Matias.</p>
+
+<p>Não creio que se escrevessem por cima do muro do jardim, como sob o regímen
+paternal do Matos Miranda... O novo senhor, o homem robusto da bigodeira negra,
+impunha à divina Elisa, mesmo de longe, de entre as vinhas de Carcavelos,
+retraímento e prudência. E acalmada por aquele marido, môço e<span class="pn">{288}</span> forte,
+menos sentiria agora a necessidade de algum encontro discreto na sombra tépida
+da noite, mesmo quando a sua elegância moral e o rígido idealismo do José
+Matias consentissem em aproveitar uma escada contra o muro... De resto, Elisa
+era fundamentalmente honesta; e conservava o respeito sagrado do seu corpo, por
+o sentir tam belo e cuidadosamente feito por Deus&mdash;mais do que da sua alma. E
+quem sabe?... Talvez a adorável mulher pertencesse à bela raça daquela marquesa
+italiana, a Marquesa Júlia de Malfieri, que conservava dois amorosos ao seu
+doce serviço, um poeta para as delicadezas românticas e um cocheiro para as
+necessidades grosseiras.</p>
+
+<p>Emfim, meu amigo, não psicologuemos mais sôbre esta viva, atrás do morto que
+morreu por ela! O facto foi que Elisa e o seu amigo insensivelmente recaíram na
+vélha união ideal através dos jardins em flor. E em Outubro, como o Tôrres
+Nogueira continuava a vindimar em Carcavelos, o José Matias, para contemplar o
+terraço da Parreira, já abria de novo as vidraças, larga e estáticamente!</p>
+
+<p>Parece que um tam estreme espiritualista, reconquistando a idealidade do
+antigo amor, devia reentrar tambêm na antiga felicidade perfeita. Êle reinava
+na alma imortal de Elisa:&mdash;¿que importava que outro se ocupasse do seu corpo
+mortal? Mas não! o pobre môço<span class="pn">{289}</span> sofria, angustiadamente. E, para sacudir a
+pungência dêstes tormentos, findou, êle tam sereno, duma tam doce harmonia de
+modos, por se tornar um agitado. Ah! meu amigo, que redemoínho e estrépito de
+vida! Desesperadamente, durante um ano, remexeu, aturdiu, escandalizou Lisboa!
+São dêsse tempo algumas das suas extravagâncias lendárias... ¿Conhece a da
+ceia?... Uma ceia oferecida a trinta ou quarenta mulheres das mais torpes e das
+mais sujas, apanhadas pelas negras vielas do Bairro-Alto e da Mouraria, que
+depois mandou montar em burros, e gravemente, melancólicamente, posto na
+frente, sôbre um grande cavalo branco, com um imenso chicote, conduziu aos
+altos da Graça, para saudar a aparição do sol!</p>
+
+<p>Mas todo êste alarido não lhe dissipou a dor&mdash;e foi então que, nesse
+inverno, começou a jogar e a beber! Todo o dia se encerrava em casa (certamente
+por trás das vidraças, agora que Tôrres Nogueira regressara das vinhas) com
+olhos e alma cravados no terraço fatal; depois à noite, quando as janelas de
+Elisa se apagavam, saía numa tipóia, sempre a mesma, a tipóia do <em>Gago</em>,
+corria à roleta do Bravo, depois ao club do «Cavalheiro», onde jogava
+frenéticamente até a tardia hora de cear, num gabinete de restaurante, com
+molhos de velas acesas, e o Colares, e o Champanhe,<span class="pn">{290}</span> e o Conhaque
+correndo em jorros desesperados.</p>
+
+<p>E esta vida, espicaçada pelas Fúrias, durou anos, sete anos! Todas as terras
+que lhe deixara o tio Garmilde se foram, largamente jogadas e bebidas: e só lhe
+restava o casarão de Arroios e o dinheiro apressado porque o hipotecara. Mas,
+súbitamente, desapareceu de todos os antros do vinho e de jôgo. E soubemos que
+o Tôrres Nogueira estava morrendo com uma anasarca!</p>
+
+<p>Por êsse tempo, e por causa dum negócio do Nicolau da Barca que me
+telegrafara ansiosamente da sua quinta de Santarêm (negócio embrulhado, duma
+letra) procurei o José Matias em Arroios, às dez horas, numa noite quente de
+Abril. O criado, emquanto me conduzia pelo corredor mal alumiado, já
+desadornado das ricas arcas e talhas da Índia do vélho Garmilde, confessou que
+S. Ex.ª não acabara de jantar... E ainda me lembro, com um arrepio, da
+impressão desolada que me deu o desgraçado! Era no quarto que abria sôbre os
+dois jardins. Diante duma janela, que as cortinas de damasco cerravam, a mesa
+resplandecia, com duas serpentinas, um cêsto de rosas brancas, e algumas das
+nobres pratas do Garmilde: e ao lado, todo estendido numa poltrona, com o
+colete branco desabotoado, a face lívida descaída sôbre o peito, um copo vazio
+na mão<span class="pn">{291}</span> inerte, o José Matias parecia adormecido ou morto.</p>
+
+<p>Quando lhe toquei no ombro, ergueu num sobressalto a cabeça, toda
+despenteada:&mdash;«¿Que horas são?»&mdash;Apenas lhe gritei, num gesto alegre, para o
+despertar, que era tarde, que eram dez, encheu precipitadamente o copo, da
+garrafa mais chegada, de vinho branco, e bebeu lentamente, com a mão a tremer,
+a tremer... Depois, arredando os cabelos da testa húmida:&mdash;«¿Então que há de
+novo?»&mdash;Esgazeado, sem compreender, escutou, como num sonho, o recado que lhe
+mandava o Nicolau. Por fim, com um suspiro, remexeu uma garrafa de Champanhe
+dentro do balde em que ela gelava, encheu outro copo, murmurando:&mdash;«Um calor...
+Uma sêde!...» Mas não bebeu: arrancou o corpo pesado à poltrona de vêrga, e
+forçou os passos mal firmes para a janela, a que abriu violentamente as
+cortinas, depois a vidraça... E ficou hirto, como colhido pelo silêncio e
+escuro sossêgo da noite estrelada. Eu espreitei, meu amigo! Na casa da Parreira
+duas janelas brilhavam, fortemente alumiadas, abertas à aragem. E essa
+claridade viva envolvia uma figura branca, nas longas pregas de um roupão
+branco, parada à beira do terraço, como esquecida numa contemplação. Era Elisa,
+meu amigo! Por trás, no fundo do quarto claro, o marido certamente arquejava,
+na opressão<span class="pn">{292}</span> da anasarca. Ela, imóvel, repousava, mandando um doce olhar,
+talvez um sorriso, ao seu doce amigo. O miserável, fascinado, sem respirar,
+sorvia o encanto daquela visão bemfazeja. E entre êles rescendiam, na moleza da
+noite, todas as flores dos dois jardins... Súbitamente Elisa recolheu, à
+pressa, chamada por algum gemido ou impaciência do pobre Tôrres. E as janelas
+logo se fecharam, toda a luz e vida se sumiram na casa da Parreira.</p>
+
+<p>Então José Matias, com um soluço despedaçado, de transbordante tormento,
+cambaleou, tam ansiadamente se agarrou à cortina que a rasgou, e tombou
+desamparado nos braços que lhe estendi, e em que o arrastei para a cadeira,
+pesadamente, como a um morto ou a um bêbado. Mas, volvido um momento, com
+espanto meu, o extraordinário homem descerra os olhos, sorri num lento e inerte
+sorriso, murmura quási serenamente:&mdash;«É o calor... Está um calor! ¿Você não
+quer tomar chá?»</p>
+
+<p>Recusei e abalei&mdash;emquanto êle, indiferente à minha fuga, estendido na
+poltrona, acendia trémulamente um imenso charuto.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Santo Deus! já estamos em Santa Isabel! Como êstes lagóias vão arrastando
+depressa o pobre José Matias para o pó e para o verme<span class="pn">{293}</span> final! Pois, meu
+amigo, depois dessa curiosa noite, o Tôrres Nogueira morreu. A divina Elisa,
+durante o novo luto, recolheu à quinta duma cunhada tambêm viuva, à «Côrte
+Moreira», ao pé de Beja. E o José Matias inteiramente se sumiu, se evaporou,
+sem que me revoassem novas dêle, mesmo incertas&mdash;tanto mais que o íntimo por
+quem as conheceria, o nosso brilhante Nicolau da Barca, partira para a ilha da
+Madeira, com o seu derradeiro pedaço de pulmão, sem esperança, por dever
+clássico, quási dever social, de tísico.</p>
+
+<p>Todo êsse ano, tambêm, andei enfronhado no meu <em>Ensaio dos Fenómenos
+afectivos</em>. Depois, um dia, no comêço do verão, descendo pela rua de S.
+Bento, com os olhos levantados, a procurar o n.º 214, onde se catalogava a
+livraria do Morgado de Azemel, ¿quem avisto eu à varanda duma casa nova e de
+esquina? A divina Elisa, metendo fôlhas de alface na gaiola de um canário! E
+bela, meu amigo! mais cheia e mais harmoniosa, toda madura, e suculenta, e
+desejável, a-pesar de ter festejado em Beja os seus quarenta e dois anos! Mas
+aquela mulher era da grande raça de Helena que, quarenta anos tambêm depois do
+cêrco de Troia, ainda deslumbrava os homens mortais e os Deuses imortais. E,
+curioso acaso! logo nessa tarde, pelo Sêco, o João Sêco da Biblioteca, que
+catalogava a livraria do Morgado,<span class="pn">{294}</span> conheci a nova história desta Helena
+admirável.</p>
+
+<p>A divina Elisa tinha agora um amante... E únicamente por não poder, com a
+sua costumada honestidade, possuir um legítimo e terceiro marido. O ditoso môço
+que ela adorava era com efeito casado... Casado em Beja com uma espanhola que,
+ao cabo dum ano dêsse casamento e de outros requebros, partira para Sevilha,
+passar devotamente a Semana Santa, e lá adormecera nos braços dum riquíssimo
+criador de gado. O marido, pacato apontador de Obras-Públicas, continuara em
+Beja, onde tambêm vagamente ensinava um vago desenho... Ora uma das suas
+discípulas era a filha da senhora da «Côrte Moreira»: e aí na quinta, emquanto
+êle guiava o esfuminho da menina, Elisa o conheceu e o amou, com uma paixão tam
+urgente que o arrancou precipitadamente às Obras Públicas, e o arrastou a
+Lisboa, cidade mais propícia do que Beja a uma felicidade escandalosa, e que se
+esconde. O João Sêco é de Beja, onde passara o Natal; conhecia perfeitamente o
+apontador, as senhoras da «Côrte Moreira»; e compreendeu o romance, quando das
+janelas dêsse n.º 214, onde catalogava a Livraria do Azemel, reconheceu Elisa
+na varanda da esquina, e o apontador enfiando regaladamente o portão, bem
+vestido, bem calçado, de luvas claras, com<span class="pn">{295}</span> aparência de ser
+infinitamente mais ditoso naquelas obras particulares do que nas Públicas.</p>
+
+<p>E dessa mesma janela do 214 o conheci eu tambêm, o apontador! Belo môço,
+sólido, branco, de barba escura, em excelentes condições de quantidade (e
+talvez mesmo de qualidade) para encher um coração viuvo, e portanto «vazio»,
+como diz a Bíblia. Eu freqùentava êsse n.º 214, interessado no catálogo da
+Livraria, porque o Morgado de Azemel possuia, pelo irónico acaso das heranças,
+uma colecção incomparável dos Filósofos do século XVIII. E passadas semanas,
+saíndo dêsses livros uma noite (o João Sêco trabalhava de noite) e parando
+adiante, à beira dum portal aberto, para acender o charuto, enxergo à luz
+tremente do fósforo, metido na sombra, o José Matias! Mas que José Matias, meu
+caro amigo! Para o considerar mais detidamente, raspei outro fósforo. Pobre
+José Matias! Deixara crescer a barba, uma barba rara, indecisa, suja, mole como
+cotão amarelado: deixara crescer o cabelo, que lhe surdia em farripas sêcas de
+sob um vélho chapéu côco: mas todo êle, no resto, parecia diminuido, minguado,
+dentro duma quinzena de mescla enxovalhada, e dumas calças pretas, de grandes
+bolsos, onde escondia as mãos com o gesto tradicional, tam infinitamente
+triste, da miséria ociosa. Na<span class="pn">{296}</span> espantada lástima que me tomou, apenas
+balbuciei:&mdash;«Ora esta! Você! ¿Então que é feito?»&mdash;E êle, com a sua mansidão
+polida, mas secamente, para se desembaraçar, e numa voz que a aguardente
+enrouquecera: «Por aqui, à espera de um sujeito».&mdash;Não insisti, segui. Depois,
+adiante, parando, verifiquei o que num relance adivinhara&mdash;que o portal negro
+ficava em frente ao prédio novo e às varandas de Elisa!</p>
+
+<p>Pois, meu amigo, três anos viveu o José Matias encafuado naquele portal!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Era um dêsses pátios da Lisboa antiga, sem porteiro, sempre escancarados,
+sempre sujos, cavernas laterais da rua, de onde ninguêm escorraça os escondidos
+da miséria ou da dor. Ao lado havia uma taberna. Infalivelmente, ao anoitecer,
+o José Matias descia a rua de S. Bento, colado aos muros, e, como uma sombra,
+mergulhava na sombra do portal. A essa hora já as janelas de Elisa luziam, de
+inverno embaciadas pela névoa fina, de verão ainda abertas e arejando no
+repouso e na calma. E para elas, imóvel, com as mãos nas algibeiras, o José
+Matias se quedava em contemplação. Cada meia-hora, subtilmente, enfiava para a
+taberna. Copo de vinho, copo de aguardente;&mdash;e,<span class="pn">{297}</span> de mansinho, recolhia à
+negrura do portal, ao seu êxtasi. Quando as janelas de Elisa se apagavam, ainda
+através da longa noite, mesmo das negras noites de inverno&mdash;encolhido,
+transido, a bater as solas rôtas no lagedo, ou sentado ao fundo, nos degraus da
+escada&mdash;ficava esmagando os olhos turvos na fachada negra daquela casa, onde a
+sabia dormindo com o outro!</p>
+
+<p>Ao princípio, para fumar um cigarro apressado, trepava até ao patamar
+deserto, a esconder o lume que o denunciaria no seu esconderijo. Mas depois,
+meu amigo, fumava incessantemente, colado à ombreira, puxando o cigarro com
+ânsia, para que a ponta rebrilhasse, o alumiasse! ¿E percebe porquê, meu
+amigo?... Porque Elisa já descobrira que, dentro daquele portal, a adorar
+submissamente as suas janelas, com a alma de outrora, estava o seu pobre José
+Matias!...</p>
+
+<p>¿E acreditará o meu amigo que então, todas as noites, ou por trás da vidraça
+ou encostada à varanda (com o apontador dentro, estirado no sofá, já de
+chinelas, lendo o <em>Jornal da Noite</em>) ela se demorava a fitar o portal,
+muito quieta, sem outro gesto, naquele antigo e mudo olhar do terraço por sôbre
+as rosas e as dálias? O José Matias percebera, deslumbrado. E agora avivava
+desesperadamente o lume, como um farol, para guiar<span class="pn">{298}</span> na escuridão os
+amados olhos dela, e lhe mostrar que ali estava, transido, todo seu, e fiel!
+</p>
+
+<p>De dia nunca êle passava na rua de S. Bento. ¿Como ousaria, com o jaquetão
+rôto nos cotovelos e as botas cambadas? Porque aquele môço de elegância sóbria
+e fina tombara na miséria do andrajo. ¿Onde arranjava mesmo, cada dia, os três
+patacos para o vinho e para a posta de bacalhau nas tabernas? Não sei... Mas
+louvemos a divina Elisa, meu amigo! Muito delicadamente, por caminhos arredados
+e astutos, ela, rica, procurara estabelecer uma pensão ao José Matias, mendigo.
+¿Situação picante, hein? A grata senhora dando duas mesadas aos seus dois
+homens&mdash;o amante do corpo e o amante da alma! Êle, porêm, adivinhou de onde
+procedia a pavorosa esmola&mdash;e recusou, sem revolta, nem alarido de orgulho, até
+com enternecimento, até com lágrimas nas pálpebras que a aguardente inflamara!
+</p>
+
+<p>Mas só com noite muito cerrada ousava descer à rua de S. Bento, e enfiar
+para o seu portal. ¿E adivinha o meu amigo como êle gastava o dia? A espreitar,
+a seguir, a farejar o apontador de Obras-Públicas! Sim, meu amigo! uma
+curiosidade insaciada, frenética, atroz, por aquele homem, que Elisa
+escolhera!... Os dois anteriores, o Miranda e o Nogueira, tinham entrado na
+alcova de Elisa, públicamente,<span class="pn">{299}</span> pela porta da Igreja, e para outros fins
+humanos alêm do amor&mdash;para possuir um lar, talvez filhos, estabilidade e
+quietação na vida. Mas êste era meramente o amante, que ela nomeara e mantinha
+só para ser amada: e nessa união não aparecia outro motivo racional senão que
+os dois corpos se unissem. Não se fartava, portanto, de o estudar, na figura,
+na roupa, nos modos, ansioso por saber bem como era êsse homem, que, para se
+completar, a sua Elisa preferira entre a turba dos homens. Por decência, o
+apontador morava na outra extremidade da rua de S. Bento, diante do Mercado. E
+essa parte da rua, onde o não surpreenderiam, na sua pelintrice, os olhos de
+Elisa, era o paradeiro do José Matias, logo de manhã, para mirar, farejar o
+homem, quando êle recolhia da casa de Elisa, ainda quente do calor da sua
+alcôva. Depois não o largava, cautelosamente, como um larápio, rastejando de
+longe no seu rasto. E eu suspeito que o seguia assim, menos por curiosidade
+perversa, do que para verificar se, através das tentações de Lisboa, terríveis
+para um apontador de Beja, o homem conservava o corpo fiel a Elisa. Em serviço
+da felicidade dela&mdash;fiscalizava o amante da mulher que amava!</p>
+
+<p>Requinte furioso de espiritualismo e devoção, meu amigo! A alma de Elisa era
+a sua e recebia perenemente a adoração perene: e agora<span class="pn">{300}</span> queria que o
+corpo de Elisa não fôsse menos adorado, nem menos lealmente, por aquele a quem
+ela entregara o corpo! Mas o apontador era fácilmente fiel a uma mulher tam
+formosa, tam rica, de meias de sêda, de brilhantes nas orelhas, que o
+deslumbrava. ¿E quem sabe, meu amigo? talvez esta fidelidade, preito carnal à
+divindade de Elisa, fôsse para o José Matias a derradeira felicidade que lhe
+concedeu a vida. Assim me persuado, porque no inverno passado, encontrei o
+apontador, numa manhã de chuva, comprando camélias a um florista da rua do
+Oiro; e defronte, a uma esquina, o José Matias, escaveirado, esfrangalhado,
+cocava o homem, com carinho, quási com gratidão! E talvez nessa noite, no
+portal, tiritando, batendo as solas encharcadas, com os olhos enternecidos nas
+escuras vidraças, pensasse:&mdash;«Coitadinha, pobre Elisa! Ficou bem contente por
+êle lhe trazer as flores!»</p>
+
+<p>Isto durou três anos.</p>
+
+<p>Emfim, meu amigo, antes de ontem, o João Sêco apareceu em minha casa, de
+tarde, esbaforido:&mdash;«Lá levaram o José Matias numa maca, para o hospital, com
+uma congestão nos pulmões!»</p>
+
+<p>Parece que o encontraram, de madrugada, estirado no ladrilho, todo encolhido
+no jaquetão delgado, arquejando, com a face coberta<span class="pn">{301}</span> de morte, voltada
+para as varandas de Elisa. Corri ao hospital. Morrera... Subi, com o médico de
+serviço, à enfermaria. Levantei o lençol que o cobria. Na abertura da camisa
+suja e rôta, prêso ao pescoço por um cordão, conservava um saquinho de sêda,
+poído e sujo tambêm. De-certo continha flor, ou cabelos, ou pedaço de renda de
+Elisa, do tempo do primeiro encanto e das tardes de Bemfica... Perguntei ao
+médico, que o conhecia e o lastimava, se êle sofrera.&mdash;«Não! Teve um momento
+comatoso, depois arregalou os olhos, exclamou <em>Oh!</em> com grande espanto,
+e ficou.»</p>
+
+<p>¿Era o grito da alma, no assombro e horror de morrer tambêm? ¿Ou era a alma
+triunfando por se reconhecer emfim imortal e livre? O meu amigo não sabe; nem o
+soube o divino Platão; nem o saberá o derradeiro filósofo na derradeira tarde
+do mundo.</p>
+
+<p>Chegamos ao cemitério. Creio que devemos pegar às borlas do caixão... Na
+verdade, é bem singular êste Alves <em>Capão</em>, seguindo tam sentidamente o
+nosso pobre espiritualista... Mas, Santo Deus, olhe! Alêm, à espera, à porta da
+Igreja, aquele sujeito compenetrado, de casaca, com paletó alvadio... É o
+apontador de Obras Públicas! E trás um grosso ramo de violetas... Elisa mandou
+o seu amante carnal acompanhar à cova e cobrir<span class="pn">{302}</span> de flores o seu amante
+espiritual! Mas, nunca ela pediria ao José Matias para espalhar violetas sôbre
+o cadaver do apontador! É que sempre a Matéria, mesmo sem o compreender, sem
+dêle tirar a sua felicidade, adorará o Espírito, e sempre a si própria, através
+dos gozos que de si recebe, se tratará com brutalidade e desdêm! Grande
+consôlo, meu amigo, êste apontador com o seu ramo, para um Metafísico que, como
+eu, comentou Spínosa e Mallebranche, reabilitou Fichte, e provou
+suficientemente a ilusão da sensação! Só por isto valeu a pena trazer à sua
+cova êste inexplicado José Matias, que era talvez muito mais que um homem&mdash;ou
+talvez ainda menos que um homem...&mdash;Com efeito, está frio... Mas que linda
+tarde!<span class="pn">{303}</span></p>
+
+
+<h1><a name="SECTION0001100">A PERFEIÇÃO</a> </h1>
+
+
+<h2><a name="SECTION0001110">I</a> </h2>
+
+<p>Sentado numa rocha, na ilha de Ogigya, com a barba enterrada entre as mãos,
+de onde desaparecera a aspereza calosa e tisnada das armas e dos remos,
+Ulisses, o mais subtil dos homens, considerava, numa escura e pesada tristeza,
+o mar muito azul que mansa e harmoniosamente rolava sôbre a areia muito branca.
+Uma túnica bordada de flores escarlates cobria, em pregas moles, o seu corpo
+poderoso, que engordara. Nas correias das sandálias, que lhe calçavam os pés
+amaciados e perfumados de essências, reluziam esmeraldas do Egipto. E o seu
+bastão era um maravilhoso galho de coral, rematado em pinha de pérolas, como os
+que usam os Deuses marinhos.<span class="pn">{304}</span></p>
+
+<p>A divina Ilha, com os seus rochedos de alabastro, os bosques de cedros e
+tuias odoríferas, as messes eternas doirando os vales, a frescura das roseiras
+revestindo os outeiros suaves, resplandecia, adormecida na moleza da sésta,
+toda envolta em mar resplandecente. Nem um sôpro dos Zéfiros curiosos, que
+brincam e correm por sôbre o Arquipélago, desmanchava a serenidade do luminoso
+ar, mais doce que o vinho mais doce, todo repassado pelo fino aroma dos prados
+de violetas. No silêncio, embebido de calor afável, eram duma harmonia mais
+embaladora os murmúrios de arroios e fontes, o arrulhar das pombas voando dos
+ciprestes aos plátanos, e o lento rolar e quebrar da onda mansa sôbre a areia
+macia. E nesta inefável paz e beleza imortal, o subtil Ulisses, com os olhos
+perdidos nas águas lustrosas, amargamente gemia, revolvendo o queixume do seu
+coração...</p>
+
+<p>Sete anos, sete imensos anos, iam passados desde que o raio fulgente de
+Júpiter fendera a sua nave de alta prôa vermelha, e êle, agarrado ao mastro
+partido, trambulhara na braveza mugidora das espumas sombrias, durante nove
+dias, durante nove noites, até que boiara em águas mais calmas, e tocara as
+areias daquela ilha onde Calipso, a Deusa radiosa, o recolhera e o amara! ¿E
+durante êsses imensos anos, como se arrastara a sua<span class="pn">{305}</span> vida, a sua grande e
+forte vida, que, depois da partida para os muros fatais de Troia, abandonando
+entre lágrimas inumeráveis a sua Penélope de olhos claros, o seu pequenino
+Telêmaco enfaixado no colo da ama, andara sempre tam agitada por perigos, e
+guerras, e astúcias, e tormentas, e rumos perdidos?... Ah! ditosos os Reis
+mortos, com formosas feridas no branco peito, diante das portas de Troia!
+Felizes os seus companheiros tragados pela onda amarga! Feliz êle se as lanças
+troianas o trespassassem nessa tarde de grande vento e poeira, quando, junto à
+<em>Faia</em>, defendia dos ultrajes, com a espada sonora, o corpo morto de
+Aquiles! Mas não! vivera!&mdash;E agora, cada manhã, ao saír sem alegria do
+trabalhoso leito de Calipso, as Ninfas, servas da Deusa, o banhavam numa água
+muito pura, o perfumavam de lânguidas essências, o cobriam com uma túnica
+sempre nova, ora bordada a sêdas finas, ora bordada de oiro pálido! No entanto,
+sôbre a mesa lustrosa, erguida à porta da gruta, na sombra das ramadas, junto
+ao sussurro dormente dum arroio diamantino, os açafates e as travessas lavradas
+transbordavam de bolos, de frutas, de tenras carnes fumegando, de peixes
+scintilando como tramas de prata. A intendenta venerável gelava os vinhos doces
+nas crateras de bronze, coroadas de rosas. E êle, sentado num escabelo,
+estendia<span class="pn">{306}</span> as mãos para as iguarias perfeitas, emquanto ao lado, sôbre um
+trono de marfim, Calipso, espargindo através da túnica nevada a claridade e o
+aroma do seu corpo imortal, sublimemente serena, com um sorriso taciturno, sem
+tocar nas comidas humanas, debicava a ambrosia, bebia em goles delgados o
+néctar transparente e rubro. Depois, tomando aquele bastão de Príncipe-de-Povos
+com que Calipso o presenteara, repercorria sem curiosidade os sabidos caminho
+da Ilha, tam lisos e tratados que nunca as suas sandálias reluzentes se
+maculavam de pó, tam penetrados pela imortalidade da Deusa que jàmais neles
+encontrara fôlha sêca, nem flor menos fresca pendendo na haste. Sôbre uma rocha
+se sentava então, contemplando aquele mar que tambêm banhava Ítaca, lá tam
+bravio, aqui tam sereno, e pensava, e gemia, até que as águas e os caminhos se
+cobriam de sombra, e êle recolhia à gruta para dormir, sem desejo, com a Deusa
+que o desejava!... ¿E durante êstes imensos anos, que destino envolvera a sua
+Ítaca, a áspera ilha de sombrias matas? ¿Viviam êles ainda, os seres amados?
+¿Sôbre a forte colina, dominando a enseada de Reithros e os pinheirais de Neus,
+ainda se erguia o seu palácio, com os belos pórticos pintados de vermelho e
+roxo? ¿Ao cabo de tam lentos e vazios anos, sem novas, apagada<span class="pn">{307}</span> toda a
+esperança como uma lâmpada, despira a sua Penélope a túnica passageira da
+viuvez e passara para os braços doutro espôso forte, que agora manejava as suas
+lanças e vindimava as suas vinhas? ¿E o doce filho Telêmaco? ¿Reinaria êle em
+Ítaca, sentado, com o branco scetro, sôbre o mármore alto da Agorá? ¿Ocioso e
+rondando pelos pátios, baixaria os olhos sob o império duro dum padrasto?
+¿Erraria por cidades alheias, mendigando um salário?... Ah! se a sua
+existência, assim para sempre arrancada da mulher, do filho, tam doces ao seu
+coração, andasse ao menos empregada em façanhas ilustres! Dez anos antes,
+tambêm desconhecia a sorte de Ítaca, e dos seres preciosos que lá deixara em
+solidão e fragilidade; mas uma emprêsa heróica o agitava; e cada manhã a sua
+fama crescia, como uma árvore num promontório, que enche o céu e todos os
+homens contemplam. Então era a planície de Troia&mdash;e as brancas tendas dos
+gregos ao longo do mar sonoro! Sem cessar, meditava astúcias de guerra; com
+soberba facúndia discursava na Assembleia dos Reis; rijamente jungia os cavalos
+empinados ao timão dos carros; de lança alta corria, entre a grita e a pressa,
+contra os Troianos de altos elmos, que surdiam, em roldão ressoante, das portas
+Skaias!... Oh! e quando êle, Príncipe-de-Povos, encolhido sob farrapos de
+mendigo,<span class="pn">{308}</span> com os braços maculados de chagas postiças, coxeando e gemendo,
+penetrara nos muros da orgulhosa Troia, pelo lado da Faia, para de noite, com
+incomparável ardil e bravura, roubar o Paládio tutelar da cidade! E quando,
+dentro do ventre do Cavalo-de-Pau, na escuridão, no apêrto de todos aqueles
+guerreiros hirtos e cobertos de ferro, calmava a impaciência dos que sufocavam,
+e tapava com a mão a bôca de Antiklos bravejando furioso, ao escutar fóra na
+planície os ultrajes e os escárnios troianos, e a todos murmurava: «Cala, cala!
+que a noite desce e Troia é nossa...» E depois as prodigiosas viagens! O
+pavoroso Polifemo, ludibriado com uma astúcia que para sempre maravilhará as
+gerações! As manobras sublimes entre Scylla e Carybdes! As Sereias, vogando e
+cantando em tôrno do mastro, de onde êle, amarrado, as rechaçava com o mudo
+dardejar dos olhos mais agudos que dardos! A descida aos Infernos, jàmais
+concedida a um mortal!... E agora homem de tam rutilantes feitos jazia numa
+ilha mole, eternamente prêso, sem amor, pelo amor duma Deusa! ¿Como poderia êle
+fugir, rodeado de mar indomável, sem nave, nem companheiros para mover os remos
+longos? Os Deuses ditosos certamente esqueciam quem tanto por êles combatera e
+sempre piedosamente lhes votara as reses devidas, mesmo através do
+fragor<span class="pn">{309}</span> e fumaraça das cidadelas derrubadas, mesmo quando a sua prôa
+encalhava em terra agreste!... E ao herói, que recebera dos Reis da Grécia as
+armas de Aquiles, cabia por destino amargo engordar na ociosidade duma ilha
+mais lânguida que uma cêsta de rosas, e estender as mãos amolecidas para as
+iguarias abundantes, e, quando águas e caminhos se cobriam de sombra, dormir
+sem desejo com uma Deusa que, sem cessar, o desejava.</p>
+
+<p>Assim gemia o magnânimo Ulisses, à beira do mar lustroso... E eis que de
+repente um sulco de desusado brilho, mais rutilantemente branco que o duma
+estrêla caíndo, riscou a rutilância do céu, desde as alturas até à cheirosa
+mata de tuias e cedros, que assombreava um golfo sereno, a oriente da Ilha. Com
+alvoroço bateu o coração do herói. Rasto tam refulgente, na refulgência do dia,
+só um Deus o podia traçar através do largo Ouranos. ¿Um Deus, pois, descera à
+Ilha?</p>
+
+
+<h2><a name="SECTION0001120">II</a> </h2>
+
+<p>Um Deus descera, um grande Deus... Era o Mensageiro dos Deuses, o leve,
+eloqùente Mercúrio. Calçado com aquelas sandálias que<span class="pn">{310}</span> teem duas asas
+brancas, os cabelos côr de vinho cobertos pelo casco onde batem tambêm duas
+claras asas, erguendo na mão o Caduceu, êle fendera o Éter, roçara a lisura do
+mar sossegado, pisara a areia da Ilha, onde as suas pègadas ficavam rebrilhando
+como palmilhas de oiro novo. A-pesar de percorrer toda a terra, com os recados
+inumeráveis dos Deuses, o luminoso Mensageiro não conhecia aquela ilha de
+Ogigya&mdash;e admirou, sorrindo, a beleza dos prados de violetas tam doces para o
+correr e brincar de Ninfas, e o harmonioso faiscar dos regatos por entre os
+altos e lânguidos lírios. Uma vinha, sôbre esteios de jaspe, carregada de
+cachos maduros, conduzia, como fresco pórtico salpicado de sol, até à entrada
+da gruta, toda de rochas polidas, de onde pendiam jasmineiros e madre-silvas,
+envoltas no sussurrar das abelhas. E logo avistou Calipso, a Deusa ditosa,
+sentada num Trono, fiando em roca de oiro, com fuso de oiro, a lã formosa de
+púrpura marinha. Um aro de esmeraldas prendia os seus cabelos muito anelados e
+ardentemente louros. Sob a túnica diáfana a mocidade imortal do seu corpo
+rebrilhava, como a neve quando a aurora a tinge de rosas nas colinas eternas
+povoadas de Deuses. E, emquanto torcia o fuso, cantava um trinado e fino canto,
+como trémulo fio de cristal vibrando da Terra ao Céu. Mercúrio pensou: «Linda
+ilha, e linda Ninfa!»<span class="pn">{311}</span></p>
+
+<p>Dum lume claro de cedro e tuia, subia, muito direito, um fumo delgado que
+perfumava toda a Ilha. Em roda, sentadas em esteiras sôbre o chão de ágata, as
+Ninfas, servas da Deusa, dobavam as lãs, bordavam na sêda as flores ligeiras,
+teciam as puras teias em teares de prata. Todas coraram, com o seio a arfar,
+sentindo a presença do Deus. E sem deter o fuso faiscante, Calipso reconhecera
+logo o Mensageiro&mdash;pois que todos os Imortais sabem, uns dos outros, os nomes,
+os feitos, e os rostos soberanos, mesmo quando habitam retiros remotos que o
+Éter e o Mar separam.</p>
+
+<p>Mercúrio parara, risonho, na sua nudez divina, exalando o perfume do Olimpo.
+Então a Deusa ergueu para êle, com composta serenidade, o esplendor largo dos
+seus olhos verdes:</p>
+
+<p>&mdash;Oh Mercúrio! ¿porque desceste à minha Ilha humilde, tu, venerável e
+querido, que eu nunca vi pisar a terra? Dize o que de mim esperas. Já o meu
+aberto coração me ordena que te contente, se o teu desejo couber dentro do meu
+poder e do Fado... Mas entra, repousa, e que eu te sirva, como doce irmã, à
+mesa da hospitalidade.</p>
+
+<p>Tirou da cintura a roca, arredou os aneis soltos do cabelo radiante&mdash;e com
+as suas nacaradas mãos colocou sôbre a mesa, que as<span class="pn">{312}</span> Ninfas acercaram do
+lume aromático, o prato transbordando de Ambrosia, e as infusas de cristal onde
+scintilava o Néctar.</p>
+
+<p>Mercúrio murmurou:&mdash;«Doce é a tua hospitalidade, ó Deusa!» Pendurou o
+Caduceu do fresco ramo dum plátano, estendeu os dedos reluzentes para a
+travessa de oiro, risonhamente louvou a excelência daquele Néctar da Ilha. E
+contentada a alma, encostando a cabeça ao tronco liso do plátano que se cobriu
+de claridade, começou, com palavras perfeitas e aladas:</p>
+
+<p>&mdash;Perguntaste porque descia um Deus à tua morada, oh Deusa! E certamente
+nenhum Imortal percorreria sem motivo, desde o Olimpo até Ogigya, esta deserta
+imensidade do mar salgado em que se não encontram cidades de homens, nem
+templos cercados de bosques, nem sequer um pequenino santuário de onde suba o
+aroma do incenso, ou o cheiro das carnes votivas, ou o murmúrio gostoso das
+preces... Mas foi nosso Pai Júpiter, o tempestuoso, que me mandou neste recado.
+Tu recolhestes, e retens pela fôrça incomensurável da tua doçura, o mais subtil
+e desgraçado de todos os Príncipes que combateram durante dez anos a alta
+Troia, e depois embarcaram nas naves fundas para voltar à terra da Pátria.
+Muitos dêsses conseguiram reentrar nos seus ricos lares, carregados de fama, de
+despojos,<span class="pn">{313}</span> e de histórias excelentes para contar. Ventos inimigos, porêm,
+e um fado mais inexorável, arremessaram a esta tua ilha, enrolado nas sujas
+espumas, o facundo e astuto Ulisses... Ora o destino dêste herói não é ficar na
+ociosidade imortal do leito, longe daqueles que o choram, e que carecem da sua
+fôrça e manhas divinas. Por isso Júpiter, regulador da Ordem, te ordena, oh
+Deusa, que soltes o magnânimo Ulisses dos teus braços claros, e o restituas,
+com os presentes docemente devidos, à sua Ítaca amada, e à sua Penélope, que
+tece e desfaz a teia ardilosa, cercada dos Pretendentes arrogantes, devoradores
+dos seus gordos bois, sorvedores dos seus frescos vinhos!</p>
+
+<p>A divina Calipso mordeu levemente o beiço; e sôbre a sua face luminosa
+desceu a sombra das densas pestanas côr de jacinto. Depois, com um harmonioso
+suspiro, em que ondulou todo o seu peito rebrilhante:</p>
+
+<p>&mdash;Ah Deuses grandes, Deuses ditosos! como sois ásperamente ciumentos das
+Deusas, que, sem se esconderem pela espessura dos bosques ou nas pregas escuras
+dos montes, amam os homens eloqùentes e fortes!... Êste, que me invejais, rolou
+às areias da minha Ilha, nu, pisado, faminto, prêso a uma quilha partida,
+perseguido por todas as iras, e todas as rajadas, e todos os raios dardejantes
+de que dispõe o Olimpo. Eu o recolhi, o lavei, o nutri,<span class="pn">{314}</span> o amei, o
+guardei, para que ficasse eternamente ao abrigo das tormentas, da dor e da
+velhice. E agora Júpiter trovejador, ao cabo de oito anos em que a minha doce
+vida se enroscou em tôrno desta afeição como a vide ao olmo, determina que eu
+me separe do companheiro que escolhera para a minha imortalidade! Realmente
+sois crueis, oh Deuses, que constantemente aumentais a raça turbulenta dos
+Semideuses dormindo com as mulheres mortais! ¿E como queres que eu mande
+Ulisses à sua pátria, se não possuo naves, nem remadores, nem pilôto sabedor
+que o guie através das Ilhas? ¿Mas quem pode resistir a Júpiter, que ajunta as
+nuvens? Seja! e que Olimpo ria, obedecido. Eu ensinarei o intrépido Ulisses a
+construir uma jangada segura, com que de novo fenda o dorso verde do mar...</p>
+
+<p>Imediatamente, o Mensageiro Mercúrio se levantou do escabelo pregado com
+pregos de oiro, retomou o seu Caduceu, e bebendo uma derradeira taça do Néctar
+excelente da Ilha, louvou a obediência da Deusa:</p>
+
+<p>&mdash;Bem farás, oh Calipso! Assim evitas a cólera do Pai trovejante. ¿Quem lhe
+resistirá? A sua Omnisciência dirige a sua Omnipotência. E êle sustenta, como
+scetro, uma árvore que tem por flor a Ordem... As suas decisões, clementes ou
+crueis, resultam sempre em harmonia. Por isso o seu braço se torna<span class="pn">{315}</span>
+terrífico aos peitos rebeldes. Pela tua pronta submissão serás filha estimada,
+e gozarás uma imortalidade repassada de sossêgo, sem intrigas e sem
+surpresas...</p>
+
+<p>Já as asas impacientes das suas sandálias palpitavam, e o seu corpo, com
+sublime graça, se balançava por sôbre as relvas e flores que alcatifavam a
+entrada da gruta.</p>
+
+<p>&mdash;De resto&mdash;acrescentou&mdash;a tua Ilha, oh Deusa, fica no caminho das naves
+ousadas que cortam as ondas. Em breve talvez outro herói robusto, tendo
+ofendido os Imortais, aportará à tua doce praia, abraçado a uma quilha...
+Acende um facho claro, de noite, nas rocas altas!</p>
+
+<p>E, rindo, o Mensageiro Divino serenamente se elevou, riscando no Éter um
+sulco de elegante fulgor que as Ninfas, esquecida a tarefa, seguiam, com os
+frescos lábios entreabertos e o seio levantado, no desejo daquele imortal
+formoso.</p>
+
+<p>Então Calipso, pensativa, lançando sôbre os seus cabelos anelados um véu da
+côr do açafrão, caminhou para a orla do mar, através dos prados, numa pressa
+que lhe enrodilhava a túnica, à maneira duma espuma leve, em tôrno das pernas
+redondas e róseas. Tam levemente pisou a areia, que o magnânimo Ulisses não a
+sentiu deslizar, perdido na contemplação das águas lustrosas, com a negra
+barba<span class="pn">{316}</span> entre as mãos, aliviando em gemidos o pêso do seu coração. A Deusa
+sorriu, com fugitiva e soberana amargura. Depois, pousando no vasto ombro do
+Herói os seus dedos tam claros como os de Eos, mãe do dia:</p>
+
+<p>&mdash;Não te lamentes mais, desgraçado, nem te consumas, olhando o Mar! Os
+Deuses, que me são superiores pela inteligência e pela vontade, determinam que
+tu partas, afrontes a inconstância dos ventos, e calques de novo a terra da
+Pátria...</p>
+
+<p>Bruscamente, como o condor fendendo sôbre a prêsa, o divino Ulisses, com a
+face assombrada, saltou da rocha musgosa:</p>
+
+<p>&mdash;Oh Deusa, tu dizes !...</p>
+
+<p>Ela continuou sossegadamente, com os formosos braços pendidos, enrodilhados
+no véu côr de açafrão, emquanto a vaga rolava, mais doce e cantante, no amoroso
+respeito da sua presença divina:</p>
+
+<p>&mdash;Bem sabes que não tenho naves de alta prôa, nem remadores de rijo peito,
+nem pilôto amigo das estrêlas, que te conduzam... Mas certamente te confiarei o
+machado de bronze que foi de meu pai, para tu abateres as árvores que eu te
+marcar, e construires uma jangada em que embarques... Depois eu a proverei de
+odres de vinho, de comidas perfeitas, e a impelirei com um sôpro amigo para o
+mar indomado...<span class="pn">{317}</span></p>
+
+<p>O cauteloso Ulisses recuara lentamente, cravando na Deusa um duro olhar que
+a desconfiança ennegrecia. E erguendo a mão, que tremia toda, com a ansiedade
+do seu coração:</p>
+
+<p>&mdash;Oh Deusa, tu abrigas um pensamento terrível, pois que assim me convidas a
+afrontar numa jangada as ondas difíceis, onde mal se mantêm fundas naves! Não,
+Deusa perigosa, não! Eu combati na grande guerra onde os Deuses tambêm
+combateram, e conheço a malícia infinita que contêm o coração dos Imortais! Se
+resisti às sereias irresistíveis, e me safei com sublimes manobras de entre
+Scylla e Charybdes, e venci Polifemo com um ardil que eternamente me tornará
+ilustre entre os homens, não foi de-certo, oh Deusa, para que agora, na Ilha de
+Ogigya, como passarinho de pouca penugem, no seu primeiro vôo do ninho, cáia em
+armadilha ligeira arranjada com dizeres de mel! Não, Deusa, não! Só embarcarei
+na tua extraordinária jangada se tu jurares, pelo juramento terrífico dos
+Deuses, que não preparas, com êsses quietos olhos, a minha perda irreparável.
+</p>
+
+<p>Assim bradava, à beira das ondas, com o peito a arfar, Ulisses, o Herói
+prudente... Então a Deusa clemente riu, com um cantado e refulgente riso. E
+caminhando para o Herói, correndo os dedos celestes pelos seus espessos cabelos
+mais negros que o pez:<span class="pn">{318}</span></p>
+
+<p>&mdash;Oh maravilhoso Ulisses&mdash;disse&mdash;tu és bem na verdade o mais refalsado e
+manhoso dos homens, pois que nem concebes que exista espírito sem manha e sem
+falsidade! Meu pai ilustre não me gerou com um coração de ferro! A-pesar de
+imortal, compreendo as desventuras mortais. Só te aconselhei o que eu, Deusa,
+empreenderia, se o Fado me obrigasse a saír de Ogigya através do mar
+incerto!...</p>
+
+<p>O divino Ulisses retirou lenta e sombriamente a cabeça da rosada carícia dos
+dedos divinos:</p>
+
+<p>&mdash;Mas jura... Oh Deusa, jura, para que ao meu peito desça, como onda de
+leite, a saborosa confiança!</p>
+
+<p>Ela ergueu o claro braço ao azul onde os Deuses moram:</p>
+
+<p>&mdash;Por Gaia, e pelo Céu superior, e pelas águas subterrâneas do Stygio, que é
+a maior invocação que podem lançar os Imortais, juro, oh homem, Príncipe dos
+homens, que não preparo a tua perda, nem misérias maiores...</p>
+
+<p>O valente Ulisses respirou largamente. E arregaçando logo as mangas da
+túnica, esfregando as palmas das mãos robustas:</p>
+
+<p>&mdash;¿Onde está o machado de teu pai magnífico? Mostra as árvores, oh Deusa!...
+O dia baixa e o trabalho é longo!<span class="pn">{319}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sossega, oh homem sôfrego de males humanos! Os deuses superiores em
+sapiência já determinaram o teu destino... Recolhe comigo à doce gruta, a
+reforçar a tua fôrça... Quando Eos vermelha aparecer, àmanhã, eu te conduzirei
+à floresta.</p>
+
+
+<h2><a name="SECTION0001130">III</a> </h2>
+
+<p>Era com efeito a hora em que homens mortais e Deuses imortais se acercam das
+mesas cobertas de baixelas, onde os espera a abundância, o repouso, o
+esquecimento dos cuidados, e as amoráveis conversas que contentam a alma. Em
+breve Ulisses se sentou no escabelo de marfim, que ainda conservava o aroma do
+corpo de Mercúrio, e diante dêle as Ninfas, servas da Deusa, colocaram os
+bôlos, as frutas, as tenras carnes fumegando, os peixes rebrilhantes como
+tramas de prata. Pousada num Trono de oiro puro, a Deusa recebeu da Intendenta
+venerável o prato de Ambrosia e a taça de Néctar. Ambos estenderam as mãos para
+as comidas perfeitas da Terra e do Céu. E logo que deram a oferenda abundante à
+Fome e à Sêde, a ilustre Calipso,<span class="pn">{320}</span> encostando a face aos dedos róseos, e
+considerando pensativamente o Herói, soltou estas palavras aladas:</p>
+
+<p>&mdash;Oh Ulisses muito subtil, tu queres voltar à tua morada mortal e à terra da
+Pátria... Ah! se conhecesses, como eu, quantos duros males tens de sofrer antes
+de avistar as rochas de Ítaca, ficarias entre os meus braços, amimado, banhado,
+bem nutrido, revestido de linhos finos, sem nunca perder a querida fôrça, nem a
+agudeza do entendimento, nem o calor da facúndia, pois que eu te comunicaria a
+minha imortalidade!... Mas desejas voltar à espôsa mortal, que habita na ilha
+áspera onde as matas são tenebrosas. E todavia eu não lhe sou inferior, nem
+pela beleza, nem pela inteligência, porque as mortais brilham ante as Imortais
+como lâmpadas fumarentas diante de estrêlas puras...</p>
+
+<p>O facundo Ulisses acariciou a barba rude. Depois, erguendo o braço, como
+costumava na Assembleia dos Reis, à sombra das altas pôpas, diante dos muros de
+Troia, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Oh Deusa venerável, não te escandalises! Perfeitamente sei que Penélope te
+está muito inferior em formusura, sapiência e majestade. Tu serás eternamente
+bela e môça, emquanto os Deuses durarem: e ela, em poucos anos, conhecerá a
+melancolia das rugas, dos cabelos brancos, das dores da decrepitude, e
+dos<span class="pn">{321}</span> passos que tremem apoiados a um pau que treme. O seu espírito mortal
+erra através da escuridão e da dúvida; tu, sob essa fonte luminosa, possuis as
+luminosas certezas. Mas, oh Deusa, justamente pelo que ela tem de incompleto,
+de frágil, de grosseiro e de mortal, eu a amo, e apeteço a sua companhia
+congénere! Considera como é penoso que, nesta mesa, cada dia, eu côma
+vorazmente o anho das pastagens e a fruta dos vergeis, emquanto tu ao meu lado,
+pela inefável superioridade da tua natureza, levas aos lábios, com lentidão
+soberana, a Ambrosia divina! Em oito anos, oh Deusa, nunca a tua face rebrilhou
+com uma alegria; nem dos teus verdes olhos rolou uma lágrima; nem bateste o pé,
+com irada impaciência; nem, gemendo com uma dor, te estendeste no leito
+macio... E assim trazes inutilizadas todas as virtudes do meu coração, pois que
+a tua divindade não permite que eu te congratule, te console, te sossegue, ou
+mesmo te esfregue o corpo dorido com o suco das ervas benéficas. Considera
+ainda que a tua inteligência de Deusa possui todo o saber, atinge sempre a
+verdade: e, durante o longo tempo que contigo dormi, nunca gozei a felicidade
+de te emendar, de te contradizer, e de sentir, ante a fraqueza do teu, a fôrça
+do meu entendimento! Oh Deusa, tu és aquele ser terrífico que tem sempre razão!
+Considera ainda<span class="pn">{322}</span> que, como Deusa, conheces todo o passado e todo o futuro
+dos homens: e eu não pude saborear a incomparável delícia de te contar à noite,
+bebendo o vinho fresco, as minhas ilustres façanhas e as minhas viagens
+sublimes! Oh Deusa, tu és impecável: e quando eu escorregue num tapete
+estendido, ou me estale uma correia da sandália, não te posso gritar, como os
+homens mortais gritam às espôsas mortais&mdash;«Foi culpa tua, mulher!»&mdash;erguendo,
+em frente à lareira, um alarido cruel! Por isso sofrerei, num espírito
+paciente, todos os males com que os Deuses me assaltem no sombrio mar, para
+voltar a uma humana Penélope que eu mande e console, e repreenda, e acuse, e
+contrarie, e ensine, e humilhe, e deslumbre, e por isso ame dum amor que
+constantemente se alimenta dêstes modos ondeantes, como o lume se nutre dos
+ventos contrários!</p>
+
+<p>Assim o facundo Ulisses desabafava, ante a taça de oiro vazia: e serenamente
+a Deusa escutava, com um sorriso taciturno, e as mãos imóveis sôbre o regaço,
+enrodilhadas na ponta do véu.</p>
+
+<p>No entanto, Febo Apolo descia para Ocidente; e já das ancas dos seus quatro
+cavalos suados subia e se espalhava por sôbre o Mar um vapor rúbido e doirado.
+Em breve os caminhos da Ilha se cobriam de sombra.<span class="pn">{323}</span> E sôbre os velos
+preciosos do leito, ao fundo da gruta, Ulisses, sem desejo, e a Deusa, que o
+desejava, gozaram o doce amor, e depois o doce sono.</p>
+
+<p>Cedo, apenas Eos entreabria as portas do largo Ouranos, a divina Calipso,
+que revestira uma túnica mais branca que a neve do Pindo, e pregara nos cabelos
+um véu transparente e azul como o Éter ligeiro, saíu da gruta, trazendo ao
+magnânimo Ulisses, já sentado à porta, sob a ramada, diante duma taça de vinho
+claro, o machado poderoso de seu pai ilustre, todo de bronze, com dois fios, e
+um rijo cabo de oliveira cortado nas faldas do Olimpo.</p>
+
+<p>Limpando rápidamente a dura barba com as costas da mão, o Herói arrebatou o
+machado venerável:</p>
+
+<p>&mdash;Oh Deusa, há quantos anos não palpo uma arma ou uma ferramenta, eu,
+devastador de cidadelas e construtor de naves !</p>
+
+<p>A Deusa sorriu. E, iluminada a lisa face, em palavras aladas:</p>
+
+<p>&mdash;Oh, Ulisses, vencedor de homens, se tu ficasses nesta ilha, eu
+encomendaria para ti, a Vulcano e às suas forjas do Etna, armas maravilhosas...
+</p>
+
+<p>&mdash;¿Que valem armas sem combates, ou homens que as admirem? De resto, oh
+Deusa, já muito batalhei, e a minha glória entre as<span class="pn">{324}</span> gerações está
+soberbamente segura; Só aspiro ao macio repouso, vigiando os meu gados,
+concebendo sábias leis para os meus povos... Sê benévola, oh Deusa, e mostra as
+árvores fortes que me convêm cortar!</p>
+
+<p>Em silêncio ela caminhou por um atalho florido de altas e radiosas açucenas,
+que conduzia à ponta da Ilha mais cerrada de matas, do lado do Oriente: e atrás
+seguia o intrépido Ulisses, com o luzidio machado ao ombro. As pombas deixavam
+os ramos dos cedros, ou as concavidades das rochas onde bebiam, para esvoaçarem
+em tôrno da Deusa num tumulto amoroso. Um aroma mais delicado, quando ela
+passava, subia das flores abertas, como de incensadores. As relvas que a orla
+da sua túnica roçava reverdejavam num viço mais fresco. E Ulisses, indiferente
+aos prestígios da Deusa, impaciente com a serenidade divina do seu andar
+harmonioso, meditava a jangada, almejava pelo bosque.</p>
+
+<p>Denso e escuro o avistou emfim, povoado de carvalhos, de velhíssimas técas,
+de pinheiros que ramalhavam no alto Éter. Da sua orla descia um areal a que nem
+concha, nem galho quebrado de coral, nem pálida flor de cardo marinho,
+desmanchava a doçura perfeita. E o Mar refulgia com um brilho safírico, na
+quietação da manhã branca e còrada. Caminhando dos carvalhos às técas, a
+Deusa<span class="pn">{325}</span> marcou ao atento Ulisses os troncos sêcos, robustecidos por sóis
+inumeráveis, que flutuariam, com ligeireza mais segura, sôbre as águas
+traidoras. Depois, acariciando o ombro do Herói, como outra árvore robusta
+tambêm votada às aguas crueis, recolheu à sua gruta, onde tomou a roca de oiro,
+e todo o dia fiou, e todo o dia cantou...</p>
+
+<p>Com alvoroçada e soberba alegria, Ulisses atirou o machado contra um vasto
+carvalho que gemeu. E em breve toda a Ilha retumbava, no fragor da obra
+sobreumana. As gaivotas, adormecidas no silêncio eterno daquelas ribas, bateram
+o vôo em largos bandos, espantadas e gritando. As fluidas divindades dos
+ribeiros indolentes, estremecendo num fulgente arrepio, fugiam para entre os
+canaviais e as raízes dos amieiros. Nesse curto dia o valente Ulisses abateu
+vinte árvores, robles, pinheiros, técas e choupos&mdash;e todas decotou, esquadrou,
+e alinhou sôbre a areia. O seu pescoço e arcado peito fumegavam de suor, quando
+recolheu pesadamente à gruta, para saciar a rude fome, e beber a cerveja
+gelada. E nunca êle parecera tam belo à Deusa Imortal, que, sobre o leito de
+peles preciosas, apenas os caminhos se cobriram de sombra, encontrou incansada
+e pronta a fôrça daqueles braços que tinham abatido vinte troncos!<span class="pn">{326}</span></p>
+
+<p>Assim, durante três dias, trabalhou o Herói.</p>
+
+<p>E, como arrebatada nessa actividade magnífica que abalava a Ilha, a Deusa
+ajudava Ulisses, conduzindo da gruta para a praia, nas suas mãos delicadas, as
+cordas e os pregos de bronze. As Ninfas, por seu mandado, abandonando as
+tarefas suaves, teciam uma tela forte, para a vela que empurrariam com amor os
+ventos amáveis. E a Intendenta venerável já enchia os odres de vinhos robustos,
+e preparava com generosidade os víveres numerosos para a travessia incerta. No
+entanto a jangada crescia, com os troncos bem ligados, e um banco erguido ao
+meio, donde se empinava o mastro, desbastado num pinheiro, mais redondo e lizo
+que uma vara de marfim. Cada tarde a Deusa, sentada numa rocha à sombra do
+bosque, contemplava o calafate admirável martelando furiosamente, e cantando,
+com rija alegria, um canto de remador. E, ligeiras, na ponta dos pés luzidios,
+por entre o arvoredo, as Ninfas, escapando à tarefa, acudiam a espreitar, com
+desejosos olhos fulgurantes, aquela fôrça solitária, que soberbamente, no areal
+solitário, ia erguendo uma nave.<span class="pn">{327}</span></p>
+
+
+<h2><a name="SECTION0001140">IV</a> </h2>
+
+<p>Emfim no quarto dia, de manhã, Ulisses findou de esquadrar o leme, que
+reforçou com grades de amieiro para melhor aparar o embate das ondas. Depois
+ajuntou um lastro copioso, com a terra da Ilha imortal e as suas pedras
+polidas. Sem descanso, numa ânsia risonha, amarrou à vêrga alta a vela cortada
+pelas Ninfas. Sôbre pesados rolos, manobrando a alavanca, rolou a jangada
+imensa até à espuma da vaga, num esfôrço sublime, com músculos tam retesos e
+veias tam inchadas, que êle mesmo parecia feito de troncos e cordas. Uma ponta
+da jangada arfou, levantada em cadência pela onda harmoniosa. E o Herói,
+erguendo os braços lustrosos de suor, louvou os Deuses Imortais.</p>
+
+<p>Então, como a obra findára e a tarde rebrilhava, propícia à partida, a
+generosa Calipso trouxe Ulisses, através das violetas e das anémonas, à fresca
+gruta. Pelas suas divinas mãos o banhou numa concha de nácar, e o perfumou com
+essências sobrenaturais, e o vestiu com uma túnica formosa de lã bordada, e
+lançou sôbre os seus ombros um manto impenetrável às neblinas do mar, e lhe
+estendeu sôbre<span class="pn">{328}</span> a mesa, para êle saciar a fome rude, as comidas mais sãs
+e mais finas da Terra. O Herói aceitava os amorosos cuidados, com paciente
+magnanimidade. A Deusa, de gestos serenos, sorria taciturnamente.</p>
+
+<p>Depois ela tomou a mão cabeluda de Ulisses, palpando com gôsto os calos que
+lhe deixara o machado; e pela borda do Mar o conduziu à praia, onde a vaga
+mansamente lambia os troncos da jangada forte. Ambos descansaram sôbre uma
+rocha musgosa. Nunca a Ilha resplandecera com uma beleza tam serena, entre um
+mar tam azul, sob um céu tam macio. Nem a água fresca do Pindo bebida em marcha
+abrasada, nem o vinho doirado que produzem as colinas de Chio, eram mais doces
+de sorver do que aquele ar repassado de aromas, composto pelos Deuses para o
+respirar duma Deusa. A frescura imorredoira das árvores entrava no coração,
+quási pedia a carícia dos dedos. Todos os rumores, o dos regatos na relva, o
+das ondas no areal, o das aves nas sombras frondosas, subiam, suave e finamente
+fundidos, como as harmonias sagradas de um Templo distante. O esplendor e a
+graça das flores retinham os raios pasmados do sol. Tantos eram os frutos nos
+vergeis, e as espigas nas messes, que a Ilha parecia ceder, afundada no Mar,
+sob o pêso da sua abundância.<span class="pn">{329}</span></p>
+
+<p>Então a Deusa, ao lado do Herói, levemente suspirou, e murmurou num sorriso
+alado:</p>
+
+<p>&mdash;Oh, magnânimo Ulisses, tu certamente partes! O desejo te leva de rever a
+mortal Penélope, e o teu doce Telêmaco, que deixaste no colo da ama quando a
+Europa correu contra a Ásia, e agora já sustenta na mão uma lança temida.
+Sempre dum amor antigo, com raízes fundas, brotará mais tarde uma flor, mesmo
+triste. Mas dize! ¿Se em Ítaca não te esperasse a espôsa tecendo e destecendo a
+teia, e o filho ansioso que alonga os olhos incansados para o mar, deixarias
+tu, oh homem prudente, esta doçura, esta paz, esta abundância e beleza imortal?
+</p>
+
+<p>O Herói, ao lado da Deusa, estendeu o braço poderoso, como na Assembleia dos
+Reis, diante dos muros de Troia, quando plantava nas almas a verdade
+persuasiva:</p>
+
+<p>&mdash;Oh Deusa, não te escandalises! Mas ainda que não existissem, para me
+levar, nem filho, nem espôsa, nem reino, eu afrontaria alegremente os mares e a
+ira dos Deuses! Porque, na verdade, oh Deusa muito ilustre, o meu coração
+saciado já não suporta esta paz, esta doçura e esta beleza imortal. Considera,
+oh Deusa, que em oito anos nunca vi a folhagem destas árvores amarelecer e
+caír. Nunca êste céu rutilante se carregou de nuvens<span class="pn">{330}</span> escuras; nem tive o
+contentamento de estender, bem abrigado, as mãos ao doce lume, emquanto a
+borrasca grossa batesse nos montes. Todas essas flores que brilham nas hastes
+airosas são as mesmas, oh Deusa, que admirei e respirei, na primeira manhã que
+me mostraste êstes prados perpétuos:&mdash;e há lírios que odeio, com um ódio
+amargo, pela impassibilidade da sua alvura eterna! Estas gaivotas repetem tam
+incessantemente, tam implacavelmente, o seu vôo harmonioso e branco, que eu
+escondo delas a face, como outros a escondem das negras Harpias ! E quantas
+vezes me refugío no fundo da gruta para não escutar o murmúrio sempre lânguido
+dêstes arroios sempre transparentes! Considera, oh Deusa, que na tua Ilha nunca
+encontrei um charco; um tronco apodrecido; a carcassa dum bicho morto e coberto
+de moscas zumbidoras. Oh Deusa, há oito anos, oito anos terríveis, estou
+privado de ver o trabalho, o esfôrço, a luta e o sofrimento... Oh Deusa, não te
+escandalises ! Ando esfaimado por encontrar um corpo arquejando sob um fardo;
+dois bois fumegantes puxando um arado; homens que se injuriem na passagem duma
+ponte; os braços suplicantes duma mãe que chora; um coxo, sôbre a sua muleta,
+mendigando à porta das vilas... Deusa, há oito anos que não ólho para uma
+sepultura... Não posso<span class="pn">{331}</span> mais com esta serenidade sublime! Toda a minha
+alma arde no desejo do que se deforma, e se suja, e se espedaça, e se
+corrompe... Oh Deusa imortal, eu morro com saudades da morte!</p>
+
+<p>Imóvel, com as mãos imóveis no regaço, enrodilhadas nas pontas do véu
+amarelo, a Deusa escutara, com um sorriso serenamente divino, o furioso
+queixume do Herói cativo... No entanto já pela colina as Ninfas, servas da
+Deusa, desciam, trazendo à cabeça, e amparando-os com o braço redondo, os
+jarros de vinho, os sacos de coiro, que a Intendenta venerável mandava para
+abastecer a jangada. Silenciosamente, o Herói lançou uma tábua desde a areia
+até ao bordo de altos toros. E emquanto sôbre ela as Ninfas passavam, ligeiras,
+com as manilhas de oiro tilintando nos pés luzidios, Ulisses atento, contando
+os sacos e os odres, gozava no seu nobre coração a abundância generosa. Mas,
+amarrados com cordas às cavilhas aqueles fardos excelentes, todas as Ninfas,
+lentamente, se sentaram sôbre o areal em tôrno da Deusa, para contemplarem a
+despedida, o embarque, as manobras do Herói sôbre o dorso das águas... Então
+uma cólera lampejou nos largos olhos de Ulisses. E, diante de Calipso, cruzando
+furiosamente os valentes braços:</p>
+
+<p>&mdash;¿Oh Deusa, pensas tu na verdade que nada<span class="pn">{332}</span> falta para que eu largue a
+vela e navegue? ¿Onde estão os ricos presentes que me deves? Oito anos, oito
+duros anos, fui o hóspede magnífico da tua Ilha, da tua gruta, do teu leito...
+Sempre os Deuses imortais determinaram que aos hóspedes, no momento amigo da
+partida, se ofertem consideráveis presentes! ¿Onde estão elas, oh Deusa, essas
+riquezas abundantes que me deves por costume da Terra e lei do Céu?</p>
+
+<p>A Deusa sorriu, com sublime paciência. E com palavras aladas, que fugiam na
+aragem:</p>
+
+<p>&mdash;Oh Ulisses, tu és claramente o mais interesseiro dos homens ! E tambêm o
+mais desconfiado, pois que supões que uma Deusa negaria os presentes devidos
+àquele que amou... Sossega, oh subtil Herói... Os ricos presentes não tardam,
+largos e rebrilhantes.</p>
+
+<p>E, certamente, pela colina suave, outras Ninfas desciam, ligeiras, com os
+véus a ondular, trazendo nos braços alfaias lustrosas, que ao sol rutilavam! O
+magnânimo Ulisses estendeu as mãos, os olhos devoradores... E emquanto elas
+passavam sôbre a tábua rangente, o Herói astuto contava, avaliava no seu nobre
+espírito os escabelos de marfim, os rolos de telas bordadas, os cântaros de
+bronze lavrado, os escudos cravejados de pedras...</p>
+
+<p>Tam rico e belo era o vaso de oiro que a derradeira Ninfa sustentava no
+ombro, que<span class="pn">{333}</span> Ulisses deteve a Ninfa, arrebatou o vaso, o sopesou, o mirou,
+e gritou, com soberbo riso estridente:</p>
+
+<p>&mdash;Na verdade, êste oiro é bom!</p>
+
+<p>Depois de arrumadas e ligadas sob o largo banco as alfaias preciosas, o
+impaciente Herói, arrebatando o machado, cortou a corda que prendia a jangada
+ao tronco dum roble, e saltou para o alto bordo que a espuma envolvia. Mas
+então recordou que nem beijara a generosa e ilustre Calipso! Rápido,
+arremessando o manto, pulou através da espuma, correu pela areia, e pousou um
+beijo sereno na fronte aureolada da Deusa. Ela segurou de leve o seu ombro
+robusto:</p>
+
+<p>&mdash;Quantos males te esperam, oh desgraçado! Antes ficasses, para toda a
+imortalidade, na minha Ilha perfeita, entre os meus braços perfeitos...</p>
+
+<p>Ulisses recuou, com um brado magnífico:</p>
+
+<p>&mdash;Oh Deusa, o irreparável e supremo mal está na tua perfeição!</p>
+
+<p>E, através da vaga, fugiu, trepou sôfregamente à jangada, soltou a vela,
+fendeu o mar, partiu para os trabalhos, para as tormentas, para as
+misérias&mdash;para a delícia das coisas imperfeitas!<span class="pn">{334}</span> <span class="pn">{335}</span></p>
+
+
+<h1><a name="SECTION0001200">O SUAVE MILAGRE!</a> </h1>
+
+<p>Nesse tempo Jesus ainda se não afastara da Galilea e das doces, luminosas
+margens do Lago de Tiberíade:&mdash;mas a nova dos seus Milagres penetrara já até
+Enganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre olivais e vinhedos, no país de
+Issachar.</p>
+
+<p>Uma tarde um homem de olhos ardentes e deslumbrados passou no fresco vale, e
+anunciou que um novo Profeta, um Rabi formoso, percorria os campos e as aldeias
+da Galilea, predizendo a chegada do Reino de Deus, curando todos os males
+humanos. E emquanto descansava, sentado à beira da <em>Fonte dos Vergeis</em>,
+contou ainda que êsse Rabi, na estrada de Magdala, sarara da lepra o servo dum
+Decurião Romano só com estender sôbre êle<span class="pn">{336}</span> a sombra das suas mãos; e que
+noutra manhã, atravessando numa barca para a terra dos Gerassénios, onde
+começava a colheita do bâlsamo, ressuscitara a filha de Jaira, homem
+considerável e douto que comentava os Livros na Sinagoga. E como em redor,
+assombrados, seareiros, pastores, e as mulheres trigueiras com a bilha no
+ombro, lhe perguntassem se êsse era, em verdade, o Messias da Judea, e se
+diante dêle refulgia a espada de fogo, e se o ladeavam, caminhando como as
+sombras de duas tôrres, as sombras de Gog e de Magog&mdash;o homem, sem mesmo beber
+daquela água tam fria de que bebera Josué, apanhou o cajado, sacudiu os
+cabelos, e meteu pensativamente por sob o Aqueduto, logo sumido na espessura
+das amendoeiras em flor. Mas uma esperança, deliciosa como o orvalho nos meses
+em que canta a cigarra, refrescou as almas simples: logo, por toda a campina
+que verdeja até Ascalon, o arado pareceu mais brando de enterrar, mais leve de
+mover a pedra do lagar: as crianças, colhendo ramos de anémonas, espreitavam
+pelos caminhos se alêm da esquina do muro, ou de sob o sicómoro, não surgiria
+uma claridade: e nos bancos de pedra, às portas da cidade, os vélhos, correndo
+os dedos pelos fios das barbas, já não desenrolavam, com tam sapiente certeza,
+os ditames antigos.<span class="pn">{337}</span></p>
+
+<p>Ora então vivia em Enganim um vélho, por nome Obed, duma família pontifical
+de Samaria que sacrificara nas aras do Monte Ebal, senhor de fartos rebanhos e
+de fartas vinhas&mdash;e com o coração tam cheio de orgulho como o seu celeiro de
+trigo. Mas um vento árido e abrasado, êsse vento de desolação que ao mando do
+Senhor sopra das torvas terras de Assur, matara as reses mais gordas das suas
+manadas, e pelas encostas onde as suas vinhas se enroscavam ao olmo, e se
+estiravam na latada airosa, só deixara, em tôrno dos olmos e pilares despidos,
+sarmentos, cêpas mirradas, e a parra roída de crespa ferrugem. E Obed agachado
+à soleira da sua porta, com a ponta do manto sôbre a face, palpava a poeira,
+lamentava a velhice, ruminava queixumes contra Deus cruel.</p>
+
+<p>Apenas ouvira falar dêsse novo Rabi da Galilea, que alimentava as multidões,
+amedrontava os demónios, emendava todas as desventuras&mdash;Obed, homem lido, que
+viajara na Fenícia, logo pensou que Jesus seria um dêsses feiticeiros, tam
+costumados na Palestina, como Apolónio, ou Rabi Ben-Dossa, ou Simão, o Subtil.
+Êsses, mesmo nas noites tenebrosas, conversam com as estrêlas, para êles sempre
+claras e fáceis nos seus segredos: com uma vara afugentam de sôbre as searas os
+moscardos gerados nos lôdos do<span class="pn">{338}</span> Egipto: e agarram entre os dedos as
+sombras das árvores, que conduzem, como toldos benéficos, para cima das eiras,
+à hora da sésta. Jesus da Galilea, mais novo, com magias mais viçosas de-certo,
+se êle largamente o pagasse, sustaria a mortandade dos seus gados, reverdeceria
+os seus vinhedos. Então Obed ordenou aos seus servos que partissem, procurassem
+por toda a Galilea o Rabi novo, e com promessa de dinheiros ou alfaias o
+trouxessem a Enganim, no país de Assachar.</p>
+
+<p>Os servos apertaram os cinturões de coiro&mdash;e largaram pela estrada das
+Caravanas, que, costeando o Lago, se estende até Damasco. Uma tarde, avistaram
+sôbre o poente, vermelho como uma romã muito madura, as neves finas do monte
+Hermon. Depois, na frescura duma manhã macia, o lago de Tiberíade resplandeceu
+diante dêles, transparente, coberto de silêncio, mais azul que o céu, todo
+orlado de prados floridos, de densos vergeis, de rochas de pórfiro, e de alvos
+terraços por entre os pomares, sob o vôo das rôlas. Um pescador que desamarrava
+preguiçosamente a sua barca duma ponta de relva, assombreada de aloendros,
+escutou, sorrindo, os servos. ¿O Rabi de Nazareth? Oh! desde o mês de Ijar, o
+Rabi descera, com os seus discípulos, para os lados para onde o Jordão leva as
+águas.</p>
+
+<p>Os servos, correndo, seguiram pelas margens<span class="pn">{339}</span> do rio, até adiante do
+vau, onde êle se estira num largo remanso, e descansa, e um instante dorme,
+imóvel e verde, à sombra dos tamarindos. Um homem da tríbu dos Essénios, todo
+vestido de linho branco, apanhava lentamente ervas salutares, pela beira da
+água, com um cordeirinho branco ao colo. Os servos humildemente saudaram-no
+porque o povo ama aqueles homens de coração tam limpo, e claro, e cândido como
+as suas vestes cada manhã lavadas em tanques purificados. ¿E sabia êle da
+passagem do novo Rabi da Galilea, que como os Essénios ensinava a doçura, e
+curava as gentes e os gados? O Essénio murmurou que o Rabi atravessara o Oásis
+de Engaddi, depois se adiantara para alêm...&mdash;Mas onde, «alêm ?»&mdash;Movendo um
+ramo de flores roxas que colhera, o Essénio mostrou as terras de Alêm Jordão, a
+planície de Moab. Os servos vadearam o rio&mdash;e debalde procuraram Jesus,
+arquejando pelos rudes trilhos, até às fragas onde se ergue a cidadela sinistra
+de Makaur... No Pôço de Yakob repousava uma larga caravana, que conduzia para o
+Egipto mirra, especiarias e bâlsamos de Gilead: e os cameleiros, tirando a água
+com os baldes de coiro, contaram aos servos de Obed que em Gadara, pela lua
+nova um Rabi maravilhoso, maior que David ou Isaias, arrancara sete demónios do
+peito duma<span class="pn">{340}</span> tecedeira, e que, à sua voz, um homem degolado pelo salteador
+Barabas, se erguera da sua sepultura e recolhera ao seu horto. Os servos,
+esperançados, subiram logo açodadamente pelo caminho dos Peregrinos até Gadara,
+cidade de altas tôrres, e ainda mais longe até às Nascentes da Amalha... Mas
+Jesus, nessa madrugada, seguindo por um povo que cantava e sacudia ramos de
+mimosa, embarcara no Lago, num batel de pesca, e à vela navegara para Magdala.
+E os servos de Obed descorçoados, de novo passaram o Jordão na Ponte das Filhas
+de Jacob. Um dia, já com as sandálias rôtas dos longos caminhos, pisando já as
+terras da Judea Romana, cruzaram um Fariseu sombrio, que recolhia a Efraim,
+montado na sua mula. Com devota reverência detiveram o homem da Lei.
+¿Encontrara êle por acaso êsse Profeta novo da Galilea que, como um Deus
+passeando na terra, semeava milagres? A adunca face do Fariseu escureceu
+enrugada&mdash;e a sua cólera, retumbou como um tambor orgulhoso:</p>
+
+<p>&mdash;Oh escravos pagãos! Oh blasfemos! ¿Onde ouvistes que existissem profetas
+ou milagres fóra de Jerusalêm ? Só Jeová tem fôrça no seu Templo. De Galilea
+surdem os néscios e os impostores...</p>
+
+<p>E como os servos recuavam ante o seu punho erguido, todo enrodilhado de
+dísticos sagrados&mdash;o<span class="pn">{341}</span> furioso Doutor saltou da mula, e, com as pedras da
+estrada, apedrejou os servos de Obed, uivando: <em>Racca! Racca!</em> e todos
+os Anátemas rituais. Os servos fugiram para Enganim. E grande foi a
+desconsolação de Obed, porque os seus gados morriam, as suas vinhas secavam,&mdash;e
+todavia radiantemente, como uma alvorada por detrás de serras, crescia,
+consoladora e cheia de promessas divinas, a fama de Jesus da Galilea.</p>
+
+<p>Por êsse tempo, um Centurião Romano, Publius Septimus, comandava o forte que
+domina o vale de Cesarea, até à cidade e ao mar. Publius, homem áspero,
+veterano da campanha de Tibério contra os Partas, enriquecera durante a revolta
+de Samaria com prêsas e saques, possuia minas na Ática, e gozava, como favor
+supremo dos Deuses, a amizade de Flaccus, Legado Imperial da Síria. Mas uma dor
+roía a sua prosperidade muito poderosa, como um verme rói um fruto muito
+suculento. Sua filha única, para êle mais amada que vida e bens, definhava com
+um mal subtil e lento, estranho mesmo ao saber dos esculápios e mágicos que êle
+mandara consultar a Sidon e a Tyro. Branca e triste como a lua num cemitério,
+sem um queixume, sorrindo pálidamente a seu pai, definhava, sentada na alta
+esplanada do forte, sob um velário, alongando saudosamente os negros
+olhos<span class="pn">{342}</span> tristes pelo azul do mar de Tyro, por onde ela navegara de Itália,
+numa opulenta galera. Ao seu lado, por vezes, um legionário, entre as ameias,
+apontava vagarosamente ao alto a flecha, e varava uma grande águia, voando de
+asa serena, no céu rutilante. A filha de Septimus, seguia um momento a ave,
+torneando até bater morta sôbre as rochas:&mdash;depois, com um suspiro, mais triste
+e mais pálida, recomeçava a olhar para o mar.</p>
+
+<p>Então Septimus, ouvindo contar, a mercadores de Chorazin, dêste Rabi
+admirável, tam potente sôbre os Espíritos, que sarava os males tenebrosos da
+alma, destacou três decúrias de soldados para que o procurassem pela Galilea, e
+por todas as cidades da Decápola, até à costa e até Ascalon. Os soldados
+enfiaram os escudos nos sacos de lona, espetaram nos elmos ramos de oliveira&mdash;e
+as suas sandálias ferradas apressadamente se afastaram, ressoando sôbre as
+lages de basalto da estrada romana, que desde Cesarea até ao Lago corta toda a
+Tetraquia de Herodes. As suas armas, de noite, brilhavam no tôpo das colinas,
+por entre a chama ondeante dos archotes erguidos. De dia invadiam os casais,
+rebuscavam a espessura dos pomares, esfuracavam com a ponta das lanças a palha
+das medas: e as mulheres, assustadas, para os<span class="pn">{343}</span> amansar, logo acudiam com
+bolos de mel, figos novos, e malgas cheias de vinho, que êles bebiam dum trago,
+sentados à sombra dos sicómoros. Assim correram a Baixa Galilea&mdash;e, do Rabi, só
+encontraram o sulco luminoso nos corações. Enfastiados com as inúteis marchas,
+desconfiando que os Judeus sonegassem o seu feiticeiro para que Romanos não
+aproveitassem do superior feitiço, derramavam com tumulto a sua cólera, através
+da piedosa terra submissa. À entrada das pontes detinham os peregrinos,
+gritando o nome do Rabi, rasgando os véus às virgens: e, à hora em que os
+cântaros se enchem nas cisternas, invadiam as ruas estreitas dos burgos,
+penetravam nas Sinagogas, e batiam sacrílegamente com os punhos das espadas nas
+<em>Thebahs</em>, os Santos Armários de cedro que continham os Livros Sagrados.
+Nas cercanias de Hebron arrastaram os Solitários pelas barbas para fóra das
+grutas, para lhes arrancar o nome do deserto ou do palmar em que se ocultava o
+Rabi:&mdash;e dois mercadores Fenícios que vinham de Joppé com uma carga de
+malobatro, e a quem nunca chegara o nome de Jesus, pagaram por êsse delito cem
+drácmas a cada Decurião. Já a gente dos campos, mesmos os bravios pastores de
+Idumea, que levam as reses brancas para o Templo, fugiam espavoridos para as
+serranias, apenas<span class="pn">{344}</span> luziam, nalguma volta do caminho, as armas do bando
+violento. E da beira dos eirados, as vélhas sacudiam como taleigos a ponta dos
+cabelos desgrenhados, e arrojavam sôbre êles as Más-Sortes, invocando a
+vingança de Elias. Assim tumultuosamente erraram até Ascalon: não encontraram
+Jesus: e retrocederam ao longo da costa enterrando as sandálias nas areias
+ardentes.</p>
+
+<p>Uma madrugada, perto de Cesarea, marchando num vale, avistaram sôbre um
+outeiro um verde-negro bosque de loureiros, onde alvejava, recolhidamente, o
+fino e claro pórtico dum templo. Um vélho, de compridas barbas brancas, coroado
+de fôlhas de louro, vestido com uma túnica côr de açafrão, segurando uma curta
+lira de três cordas, esperava gravemente, sôbre os degraus de mármore, a
+aparição do sol. Debaixo, agitando um ramo de oliveira, os soldados bradaram
+pelo Sacerdote. ¿Conhecia êle um novo Profeta que surgira na Galilea, e tam
+déstro em milagres que ressuscitava os mortos e mudava a água em vinho?
+Serenamente, alargando os braços, o sereno vélho exclamou por sôbre a rociada
+verdura do vale:</p>
+
+<p>&mdash;Oh romanos! ¿pois acreditais que em Galilea ou Judea apareçam profetas
+consumando milagres? ¿Como pode um bárbaro alterar a Ordem instituida por
+Zeus?... Mágicos<span class="pn">{345}</span> e feiticeiros são vendilhões, que murmuram palavras
+ôcas, para arrebatar a espórtula dos simples... Sem a permissão dos Imortais
+nem um galho sêco pode tombar da árvore, nem sêca fôlha pode ser sacudida na
+árvore. Não há profetas, não há milagres... Só Apolo Délfico conhece o segredo
+das coisas!</p>
+
+<p>Então, devagar, com a cabeça derrubada, como numa tarde de derrota, os
+soldados recolheram à fortaleza de Cesarea. E grande foi o desespero de
+Septimus, porque sua filha morria, sem um queixume, olhando o mar de Tyro&mdash;e
+todavia a fama de Jesus, curador dos lânguidos males, crescia, sempre mais
+consoladora e fresca, como a aragem da tarde que sopra do Hermon e, através dos
+hortos, reanima e levanta as açucenas pendidas.</p>
+
+<p>Ora entre Enganim e Cesarea, num casebre desgarrado, sumido na prega dum
+cêrro, vivia a êsse tempo uma viuva, mais desgraçada mulher que todas as
+mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do magro peito
+a que ela o criara para os farrapos da enxerga apodrecida, onde jazera, sete
+anos passados, mirrando e gemendo. Tambêm a ela a doença a engelhara dentro dos
+trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. E, sôbre
+ambos, espessamente a miséria cresceu como o bolôr sôbre cacos perdidos num
+ermo. Até na<span class="pn">{346}</span> lâmpada de barro vermelho, secara há muito o azeite. Dentro
+da arca pintada não restava grão ou côdea. No estio, sem pasto, a cabra
+morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tam longe do povoado, nunca
+esmola de pão ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das
+rochas, cosidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida,
+onde até às aves maléficas sobrava o sustento!</p>
+
+<p>Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe
+amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das
+pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, êsse Rabi que aparecera na
+Galilea, e de um pão no mesmo cêsto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e
+enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso Reino, de
+abundância maior que a Côrte de Salomão. A mulher escutava com olhos famintos.
+¿E êsse dôce Rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava? O mendigo
+suspirou. Ah êsse dôce Rabi! quantos o desejavam, que se desesperançavam! A sua
+fama andava por sôbre toda a Judea como o sol que até por qualquer vélho muro
+se estende e se goza; mas para enxergar a claridade do seu rosto, só aqueles
+ditosos que o seu desejo escolhia. Obed, tam rico, mandara os seus<span class="pn">{347}</span>
+servos por toda a Galilea para que procurassem Jesus, o chamassem com promessas
+a Enganim: Septimus, tam soberano, destacara os seus soldados até à costa do
+mar, para que buscassem Jesus, o conduzissem, por seu mando, a Cesarea.
+Errando, esmolando por tantas estradas, êle topara os servos de Obed, depois os
+legionários de Septimus. E todos voltavam, como derrotados, com as sandálias
+rôtas, sem ter descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palácio, se
+escondia Jesus.</p>
+
+<p>A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre
+a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto, mais vergada, mais abandonada. E
+então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar duma asa, pediu à mãe que
+lhe trouxesse êsse Rabi, que amava as criancinhas ainda as mais pobres, sarava
+os males ainda os mais antigos. A mãe apertou a cabeça esguedelhada:</p>
+
+<p>&mdash;Oh filho! ¿e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos, à procura
+do Rabi da Galilea? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por
+areais e colinas, desde Chorazin até ao país de Moab. Septimus é forte, e tem
+soldados, e debalde correram por Jesus, desde o Hebron até ao mar! ¿Como queres
+que te deixe? Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora comnosco, dentro
+destas paredes, e dentro delas nos prende. ¿E mesmo que<span class="pn">{348}</span> o encontrasse,
+como convenceria eu o Rabi tam desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a
+que descesse através das cidades até êste ermo, para sarar um entrevadinho tam
+pobre, sôbre enxerga tam rôta?</p>
+
+<p>A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Oh mãe! Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tam pequeno, e com um
+mal tam pesado, e que tanto queria sarar!</p>
+
+<p>E a mãe, em soluços:</p>
+
+<p>&mdash;¿Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galilea, e
+curta a piedade dos homens. Tam rôta, tam trôpega, tam triste, até os cães me
+ladrariam da porta dos casais. Ninguêm atenderia o meu recado, e me apontaria a
+morada do doce Rabi. Oh filho! talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os
+fortes o encontram. O céu o trouxe, o céu o levou. E com êle para sempre morreu
+a esperança dos tristes.</p>
+
+<p>De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãosinhas que tremiam, a
+criança murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Mãe, eu queria ver Jesus...</p>
+
+<p>E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:</p>
+
+<p>&mdash;Aqui estou.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM<span class="pn">{349}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+</div>
+
+<h1><a name="SECTION0001300">ÍNDICE</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<table align="center" summary="Índice">
+ <tr><td></td><td align="right">Pag.</td></tr>
+
+ <tr><td><a href="#SECTION000100">Singularidades de uma rapariga loura</a></td>
+ <td align="right">1</td></tr>
+
+ <tr><td><a href="#SECTION000200">Um poeta lírico</a></td><td align="right">43</td></tr>
+
+ <tr><td><a href="#SECTION000300">No moínho</a></td><td align="right">61</td></tr>
+
+ <tr><td><a href="#SECTION000400">Civilização</a></td><td align="right">81</td></tr>
+
+ <tr><td><a href="#SECTION000500">O tesoiro</a></td><td align="right">123</td></tr>
+
+ <tr><td><a href="#SECTION000600">Frei Genebro</a></td><td align="right">135</td></tr>
+
+ <tr><td><a href="#SECTION000700">Adão e Eva no Paraíso</a></td><td align="right">153</td></tr>
+
+ <tr><td><a href="#SECTION000800">A aia</a></td><td align="right">205</td></tr>
+
+ <tr><td><a href="#SECTION000900">O defunto</a></td><td align="right">215</td></tr>
+
+ <tr><td><a href="#SECTION0001000">José Matias</a></td><td align="right">265</td></tr>
+
+ <tr><td><a href="#SECTION0001100">A perfeição</a></td><td align="right">303</td></tr>
+
+ <tr><td><a href="#SECTION0001200">O suave milagre!</a></td><td align="right">335</td></tr>
+</table>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<div class="fbox"><p><b>Notas de transcrição:</b></p>
+
+<p>Foram encontrados e corrigidos alguns erros tipográficos evidentes, de que não considerámos necessária menção especial.</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Contos, by José Maria Eça de Queirós
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS ***
+
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+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
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